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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


DECEPCIONADO COM DEUS / Philip Yancey
DECEPCIONADO COM DEUS / Philip Yancey

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

DECEPCIONADO COM DEUS

 

APÓS TER COMEÇADO A TRABALHAR neste projeto, re­cebi alguns telefonemas de pessoas de minha igreja, que ha­viam ouvido a respeito dele.

— É verdade que você está escrevendo um livro sobre pes­soas decepcionadas com Deus? — indagavam elas pelo telefo­ne. — Nesse caso eu gostaria de dizer algo. Nunca antes con­tei isso para alguém, mas a minha vida como cristão tem incluí­do épocas de grande desilusão!

Entrevistei algumas daquelas pessoas que me telefonaram, e as histórias que elas contaram ajudaram a estabelecer o ru­mo deste livro.

Descobri que para muitas pessoas existe um grande abis­mo entre o que esperam de sua fé cristã e o que de fato aconte­ce. A partir de um verdadeiro mundo de livros, sermões e tes­temunhos, todos prometendo vitória e sucesso, elas aprendem a esperar que Deus atue impressionantemente em suas vidas. Se não enxergam tais intervenções, sentem-se desapontadas, traídas e freqüentemente culpadas. Como disse uma mulher: "Eu ficava pensando na frase Relacionamento pessoal com Je­sus Cristo'. Mas, para minha surpresa, descobri que isso é diferente de qualquer outro relacionamento pessoal. Nunca vi a Deus, nunca o ouvi, nunca o senti, nunca experimentei os ele­mentos mais básicos de um relacionamento. Ou existe alguma coisa de errado com o que me ensinaram, ou existe alguma coisa de errado comigo."

As entrevistas me convenceram de que essa desilusão de­pende em grande parte daquilo que, em primeiro lugar, espera­mos de Deus. Por essa razão, a primeira parte deste livro ex­plora a Bíblia para ver aquilo que realmente podemos esperar de Deus. Hesitei em começar por aí, pois sei que algumas pes­soas, de modo especial as que estão decepcionadas, quase não procuram mais a Bíblia. Mas como começar senão deixando Deus falar por si mesmo? Procurei me livrar de preconceitos e ler a Bíblia como uma história com um "enredo". O que descobri me surpreendeu grandemente. Era uma história bem diferente daquela que haviam me ensinado quase a vida toda.

Certa vez, quando expliquei este projeto a um amigo, ele franziu as sobrancelhas e balançou a cabeça. — Acho que nun­ca tentei "psicanalisar" a Deus — disse. Espero que não seja isso o que estou tentando! Mas quero mesmo entender Deus melhor, aprender por que ele algumas vezes age de maneira misteriosa — ou nem parece agir.

Na verdade tive o propósito de escrever dois livros diferen­tes; foi o que fiz. Mas terminei pondo os dois sob a mesma capa. O segundo livro se dirige para questões mais práticas e existenciais, e aplica as idéias que desenvolvi a situações reais — situações do tipo que cultiva o desapontamento com Deus. Por fim, cheguei à conclusão de que os dois enfoques deveriam fazer parte do mesmo livro; isoladamente qualquer um dos dois enfoques estaria incompleto.

Algumas palavras de advertência, entretanto. Este não é um livro de apologética, por isso não me darei ao trabalho de apontar para as provas em favor da existência de Deus na natu­reza, nas profecias, em Jesus. Outros autores têm feito isso com sucesso, e, além do mais, estou lidando com dúvidas que são mais emocionais do que intelectuais. A decepção normal­mente ocorre quando alguém querido não se porta como espe­ramos.

Também, não irei discutir a questão "Será que Deus rea­liza milagres?" Para mim é evidente que ele possui poderes e que os tem empregado. Deus pode intervir. Então por que não o faz com mais freqüência? Por que não evidenciar-se aos céticos sinceros, que gostariam de crer caso apenas vissem um si­nal? Por que permitir que a injustiça e o sofrimento proliferem na terra? Por que as intervenções divinas são raras e não fre­qüentes?

Uma última advertência: de modo algum estou apresentan­do um ponto de vista equilibrado acerca da fé cristã. Afinal, estou escrevendo para pessoas que, numa hora ou outra, têm ouvido o silêncio de Deus. Estudar pessoas como Jó e Abraão como sendo exemplos de fé é um pouco parecido com estudar a história da civilização examinando somente as guerras. Por outro lado, há muitos livros cristãos que não fazem qualquer menção às guerras e prometem somente vitórias. Este é um li­vro sobre a fé, mas examino a fé através dos olhos daqueles que duvidam.

Finalmente, devo explicar o método que escolhi para li­dar com as referências bíblicas. Resisti à idéia de colocá-las em notas de rodapé ou em parênteses dentro do texto: isso cria uma dificuldade de leitura, algo não muito diferente de ouvir alguém gago. Em vez disso, estou indicando as fontes de citações diretas no final de cada capítulo. Os detetives de verdade devem ser capazes de identificar a passagem bíblica correta.

 

 

                   Um Erro Fatal

DESDE QUE meu livro Where Is God When It Hurts (“On­de Está Deus na Hora da Dor") foi publicado, venho re­cebendo cartas de pessoas decepcionadas com Deus.

Uma jovem mãe escreveu que sua alegria se tornou em amargura e profunda tristeza quando deu à luz uma menina com spina bifida, um defeito de nascimento que deixa expos­ta a medula vertebral. Página após página de caligrafia minús­cula e trabalhada, ela relatava como as contas médicas exauri­ram as economias da família e como seu casamento ruiu quan­do seu marido passou a ficar ressentido com todo o tempo que ela devotava à filhinha enferma. À medida que sua vida se desintegrava, ela começou a duvidar do que antes havia crido acerca de um Deus amoroso. Tinha eu algum conselho?

Um homossexual me contou sua história gradualmente, numa sucessão de cartas. Por mais de uma década ele havia buscado uma "cura" para suas tendências sexuais, experimen­tando cultos carismáticos de cura, grupos cristãos de apoio e tratamento químico. Ele até mesmo se submeteu a uma for­ma de terapia aversiva, em que psicólogos aplicavam choques elétricos em seus órgãos genitais, caso ele reagisse a fotografias eróticas de homens. Nada funcionou. Finalmente ele se entregou a uma vida de promiscuidade com outros homens. Ocasionalmente ainda me escreve. Insiste em que deseja seguir a Deus, mas sente-se sem condições devido à sua maldição pessoal.

Uma jovem escreveu, um tanto quanto constrangida, so­bre sua contínua depressão. Segundo disse, ela não tem moti­vo para ficar deprimida. Tem boa saúde, ganha bem e possui uma sólida base familiar. Mas na maioria dos dias, quando acorda, ela não consegue imaginar uma única razão para con­tinuar vivendo. Já não se importa com a vida ou com Deus. Quando ora, não sabe se alguém está de fato ouvindo.

Essas e outras cartas que tenho recebido ao longo dos anos conduzem, todas elas, à mesma pergunta básica, expres­sa de diferentes maneiras. É uma pergunta algo assim: "Seu livro trata da dor física. Mas que dizer da dor como a minha? Onde Deus está quando sinto a dor emocional? O que a Bíblia diz a respeito?" Respondo às cartas da melhor maneira que posso, pesaroso e consciente de que as palavras no papel são insatisfatórias. Será que uma palavra, qualquer palavra, pode chegar a curar uma ferida? E devo confessar que, após ler es­ses relatos angustiados, faço exatamente as mesmas perguntas. Onde Deus está diante de nossa dor emocional? Por que com tanta freqüência ele nos desaponta?

 

A desilusão com Deus nem sempre surge de uma forma tão marcante. Para mim, ele também aparece inesperada­mente nos detalhes corriqueiros da vida diária. Recordo-me de uma noite de inverno; uma noite de um frio gélido e incle­mente em Chicago. O vento assobiava, e um misto de neve e chuva caía forte, cobrindo as ruas com uma camada de gelo escuro e brilhante. Naquela noite o motor de meu carro parou num bairro pouco seguro. Enquanto eu levantava o capo e me debruçava por cima do motor, com aquela chuva e neve açoitando minhas costas como minúsculos pedriscos, orei repe­tidas vezes: Por favor, ajude-me a fazer funcionar o motor do carro.

Por mais agitado que eu estivesse, mexendo com fios, mangueiras e cabos, nada disso dava partida no motor. De maneira que passei uma hora numa velha lanchonete, aguardando um guincho. Sentado numa cadeira de plástico e com as roupas encharcadas formando uma poça d'água cada vez maior ao meu redor, fiquei imaginando o que Deus pensava do meu infortúnio. Eu ia perder um encontro que fora marcado pa­ra aquela noite e provavelmente ia desperdiçar muitas horas nos dias seguintes tentando fazer com que alguma oficina, estabele­cida para se aproveitar de motoristas desamparados, fizesse um serviço honesto e direito. Será que Deus se importava com a minha frustração ou com as minhas energias desperdiçadas ou com o dinheiro perdido?

À semelhança da mulher constrangida diante de sua de­pressão, sinto vergonha até mesmo de mencionar uma oração assim que não foi respondida. Parece algo sem importância e egoísta, talvez até mesmo tolo, orar para que o carro dê parti­da. Mas descobri que pequenos desapontamentos tendem a se acumular com o passar do tempo. Começo a imaginar se Deus de fato se importa com os detalhes da minha vida, ou se ele se importa comigo. Sou tentado a orar com menos freqüência, tendo chegado antecipadamente à conclusão de que não vai adiantar. Ou vai? Minhas emoções e minha fé oscilam. Quan­do essas dúvidas se instalam, estou ainda menos preparado pa­ra épocas de grandes crises. Uma vizinha está morrendo de cân­cer; oro diligentemente por ela. Mas, mesmo enquanto oro, fico pensando: Pode-se confiar em Deus? Se tantas orações pequenas ficam sem resposta, que dizer das grandes?

As lutas diárias da vida parecem bem distantes das frases otimistas e triunfalistas sobre o amor e o interesse pessoal de Deus que ouço às vezes em igrejas evangélicas. Até mesmo a Bíblia parece confundir: contém tantas tragédias quantos triunfos. O que podemos esperar de Deus afinal?

Certa manhã, num quarto de hotel, liguei a televisão, e o rosto gorducho e quadrado de um conhecido evangelista en­cheu a tela. "Estou com raiva de Deus", disse com um olhar furioso. Parecia uma confissão surpreendente da parte de um homem que havia feito carreira em cima da idéia de "fé do ta­manho da semente de mostarda". Durante anos tinha prega­do que Deus intervém diretamente em favor de seus seguidores. Mas, disse ele, Deus o tinha decepcionado, e ele passou a ex­plicar. Deus lhe dera ordens para que edificasse um grande ministério e, no entanto, o projeto se revelou um desastre fi­nanceiro. Agora ele era obrigado a vender propriedades a preço baixo e a reduzir programas. Ele tinha feito sua parte do acordo, mas Deus não tinha.

Algumas semanas depois vi novamente o evangelista na televisão. Dessa vez ele estava transpirando fé e confiança. In­clinou-se em direção à câmera, o rosto enrugado se abrindo num amplo sorriso, e apontou o dedo para um milhão de espectadores.

— Algo bom vai acontecer com você nesta semana! — disse, esticando ao máximo a palavra "bom". Era como um bom vendedor, profundamente convincente. Alguns dias de­pois, contudo, ouvi pelo noticiário que seu filho havia se suici­dado. Não pude deixar de imaginar o que o evangelista disse para Deus naquela semana fatídica.

Aconteceu com pessoas como o tele-evangelista, e com pessoas como as que escreveram cartas, e acontece com cris­tãos comuns. Primeiro surge o desapontamento, então uma se­mente de dúvida, depois uma reação confusa de ira ou de sen­sação de ser traído. Começamos a questionar se Deus é digno de confiança, se de fato podemos confiar a ele as nossas vidas.

 

Venho refletindo sobre essa questão da decepção com Deus há bastante tempo, mas hesitei em escrever a respeito por duas razões. Primeiro, eu sabia que teria de me defrontar com questões que não têm respostas fáceis — questões que, na verdade, podem não ter resposta alguma. E, em segundo lugar, eu não desejava escrever um livro que, por tratar da questão do fracasso, desencorajasse a fé de quem quer que fosse.

Sei que alguns cristãos rejeitariam sem mais nem menos a expressão "decepção com Deus". Tal idéia é inteiramente errada, dizem. Jesus prometeu que a fé do tamanho de uma semente de mostarda é capaz de transportar montanhas, que qualquer coisa pode acontecer se dois ou três se reunirem pa­ra orar. A vida cristã é uma vida de vitória e triunfo. Deus quer que sejamos felizes e prósperos e que tenhamos saúde; qualquer outra condição revela uma falta de fé.

Foi durante uma visita a pessoas que crêem exatamente assim que finalmente tomei a decisão de escrever este livro. In­cumbido por uma revista, eu estava investigando a questão da cura divina, e a pesquisa me levou a uma grande igreja de triste fama na região rural de Indiana, um Estado norte-americano. Eu havia tomado conhecimento da igreja através de uma série de artigos publicados no jornal Chicago Tribune e de uma reportagem especial no noticiário "Nightline" da rede ABC de televisão.

Os membros dessa igreja criam que a fé pura podia curar qualquer doença e que buscar ajuda em qualquer outro lugar ou pessoa — por exemplo, de médicos — demonstrava uma falta de fé em Deus. Os artigos do Chicago Tribune menciona­ram pais que, atônitos, observavam seus filhos travarem bata­lhas perdidas contra a meningite, ou a pneumonia, ou um ví­rus comum de gripe — enfermidades que facilmente podiam ter sido tratadas. Em um mapa dos Estados Unidos que mos­trava onde as pessoas ligadas a essa igreja atualmente vivem, um artista do jornal desenhou pequenas lápides de túmulo para assinalar os locais onde pessoas haviam morrido depois de recusarem tratamento médico, em obediência ao ensino da igreja. Havia cinqüenta e duas lápides ao todo.

De acordo com as reportagens, mulheres grávidas que se­guiam o ensino da igreja morriam ao darem à luz numa pro­porção oito vezes maior do que a média nacional, e a taxa de mortalidade infantil era três vezes maior. Apesar disso, a igre­ja estava crescendo e tinha-se estabelecido em dezenove Esta­dos e em outros cinco países.

Visitei a igreja-mãe, no Estado de Indiana, num quente dia de agosto. Ondas de calor se espalhavam por cima do as­falto das estradas, e nos campos de milho os talos estavam murchando e ficando queimados do sol. O prédio da igreja ja­zia sem placa indicativa no meio de um daqueles milharais, iso­lado, tal como um gigantesco celeiro comunitário. As pessoas estavam apreensivas devido a toda publicidade, especialmen­te desde que ex-membros haviam recentemente entrado com processos na Justiça. E no estacionamento tive de convencer dois guardas a me deixarem passar.

Acho que eu estava esperando um sinal de fanatismo du­rante o culto: um sermão hipnótico, que levasse pessoas ao desmaio, pregado por alguém do tipo Jim Jones. Não vi na­da disso. Durante noventa minutos, setecentos de nós estáva­mos sentados num grande semicírculo, cantávamos hinos e es­tudávamos a Bíblia.

Eu estava entre pessoas simples. As mulheres não usavam calças, mas vestidos ou saias, e utilizavam bem pouca maquiagem. Os homens, de camisa e gravata, sentavam-se junto de suas famílias e ajudavam a manter as crianças comportadas.

Ali as crianças eram bem mais onipresentes do que na maioria das igrejas; estavam em todo lugar. Ficar quieto duran­te noventa minutos é algo que está além dos limites que uma criança pequena consegue suportar, e observei os pais tentan­do contornar a situação. Livros para colorir havia aos montes. As mães faziam jogos com os dedos dos filhos. Algumas tra­ziam montes de brinquedos em bolsas enormes.

Se eu tivesse vindo à procura de sensacionalismo para o meu artigo, teria ido embora de mãos vazias. Eu tinha visto uma pequena amostra da velha cultura americana. A família tradicional estava passando bem, pelo menos nesse local. Ali os pais amavam seus filhos tanto quanto o fazem quaisquer outros pais na terra.

E, apesar disso (o mapa com as pequenas lápides saltava à mente), alguns daqueles mesmos pais tinham estado senta­dos à beira do leito de seus filhinhos morrendo, e não fizeram nada. Um pai contou ao jornal Chicago Tribune da sua vigília de oração enquanto observava seu filho de quinze meses de idade lutar contra uma febre durante duas semanas. A doen­ça primeiro provocou surdez, depois cegueira. O pastor da igre­ja conclamou a ainda mais fé e persuadiu o pai a não chamar um médico. No dia seguinte o menino estava morto. A autóp­sia revelou que ele morrera de uma forma de meningite facil­mente tratável.

No geral, os membros da igreja em Indiana não culpam Deus pelo que aconteceu, ou pelo menos não o admitem. Em vez disso, culpam-se a si mesmos de uma fé fraca. Enquanto isso as lápides se multiplicam.

Saí daquele culto dominical com uma profunda convicção de que aquilo que pensamos a respeito de Deus e cremos a res­peito de Deus é importante — importantíssimo. Aquelas pesso­as não são bichos-papões nem assassinos de crianças, e assim mesmo algumas dezenas de seus filhos morreram simplesmen­te devido a um erro (creio eu) de teologia.

Por causa daquelas pessoas sinceras em Indiana, junto com as pessoas questionadoras que me têm escrito, decidi en­frentar temas que estou profundamente tentado a evitar. (Na realidade, o ensino da igreja em Indiana não é tão diferente daquele que ouço em muitas igrejas evangélicas e em programas religiosos no rádio e na televisão; ela simplesmente apli­ca as extravagantes promessas de fé de uma forma mais coeren­te.) Dessa forma, este é um livro de teologia; com toda certe­za não um livro técnico, mas um livro acerca da natureza de Deus e de por que ele age de formas que causam perplexida­de e de por que às vezes ele não age.

Não ousamos restringir a teologia às cantinas dos seminá­rios, onde professores e alunos jogam uma espécie de tênis mental. A teologia afeta todos nós. Algumas pessoas perdem a fé devido a uma profunda sensação de decepção com Deus. Esperam que Deus aja de uma certa maneira, e as coisas acon­tecem de forma diferente. Outras, como as de Indiana, podem não perder sua fé, mas também experimentam uma forma de desapontamento. Acreditam que Deus intervirá, oram por um milagre, e suas orações voltam sem resposta. Pelo menos cin­qüenta e duas vezes aconteceu daquele modo na igreja de Indiana.

 

                   A Dor da Traição

CERTA TARDE meu telefone tocou, e a pessoa do outro lado da linha se identificou como um aluno de teologia da escola de pós-graduação da Wheaton College, uma concei­tuada universidade cristã.

— Meu nome é Richard — disse. — Não nos conhece­mos pessoalmente, mas sinto uma afinidade com você por cau­sa de alguns de seus escritos, especialmente o livro sobre a dor. Poderia me dar um minuto?

Richard passou a me contar a respeito de sua vida. Na época em que era universitário havia-se tornado cristão quan­do um obreiro da Aliança Bíblica Universitária fez amizade com ele e o conduziu à fé. No entanto, Richard não falava co­mo um novo crente. Embora me pedisse que recomendasse li­vros evangélicos que pudesse apreciar, já havia lido todos os que eu mencionei. Tivemos uma conversa agradável, divagante, e só no final do telefonema soube qual era o seu verdadeiro propósito em fazer contato comigo.

— Não quero amolar você com isto — disse com nervosis­mo. — Sei que você provavelmente é uma pessoa ocupada, mas há um favor que eu gostaria de pedir. É o seguinte: acabo de escrever uma tese sobre o Livro de Jó, e meu professor me disse que eu devia escrever um livro em cima disso. Existe alguma possibilidade de que você possa dar uma olhada e ver o que pensa a respeito?

Respondi que sim, e o manuscrito chegou dentro de pou­cos dias. Na verdade, eu não esperava muito. Normalmente trabalhos de cursos de pós-graduação não são uma leitura irre­sistível, e eu tinha minhas dúvidas de que um recém-convertido pudesse chegar a novas idéias sobre o maçante Livro de Jó. Mas eu estava errado. O manuscrito revelou ser muito pro­missor, e, durante os poucos meses que se seguiram, Richard e eu tratamos por telefone e por carta sobre como a monogra­fia podia ser reestruturada em forma de livro.

Um ano depois, com um manuscrito pronto e tendo em mãos um contrato assinado, Richard telefonou para perguntar se eu escreveria um prefácio. Eu ainda não tinha me encontra­do pessoalmente com Richard, mas eu gostava de seu dinamis­mo, e ele havia escrito um livro que facilmente eu podia endossar.

Passaram-se seis meses, durante os quais o livro foi obje­to de edição e revisão finais. Então, pouco antes da data de publicação, Richard telefonou mais uma vez. Sua voz soava diferente, tensa e desconfortável. Para minha surpresa ele não quis falar sobre seu livro.

— Philip, preciso ver você — disse. — Há algo que me sinto obrigado a lhe dizer, e isso deve ser feito pessoalmente. Será que eu posso dar uma esticada até aí alguma tarde desta semana?

 

Raios quentes e intensos de luz solar fluíam para dentro de meu apartamento no terceiro andar. A porta de folhas du­plas, aberta, não possuía tela, e moscas zumbiam, entrando e saindo da sala. Richard, de shorts branco, tênis e camiseta, sentou-se numa poltrona à minha frente. O suor reluzia em sua testa. Ele tinha dirigido durante uma hora no trânsito con­gestionado de Chicago para chegar a esse encontro.

Richard era esguio e estava em boa forma física — "um ectomorfo puro" —, como diria um instrutor de aeróbica. Um rosto ossudo e um corte curto de cabelo davam-lhe uma apa­rência séria e impetuosa de um monge. Se a "linguagem" do corpo comunica, a sua era volúvel: seus punhos fechavam e abriam, suas pernas bronzeadas cruzavam-se e descruzavam-se, e os músculos do rosto freqüentemente estreitavam-se devi­do à tensão.

Ele foi direto ao assunto.

— Você tem o direito de estar furioso comigo — come­çou. — Você não tem culpa alguma se sentir-se enganado.

Eu não tinha qualquer idéia do que ele queria dizer.

— Mas por quê?

— Bem, é o seguinte: o livro que você me ajudou a escre­ver, bem, ele está saindo do prelo no próximo mês, inclusi­ve o seu prefácio. Mas a verdade é que não creio mais naqui­lo que escrevi naquele livro, e sinto que lhe devo uma explicação.

Fez uma pausa momentânea, e observei os sinais de ten­são em seu queixo.

— Odeio Deus — soltou repentinamente. — Não, não é isso o que quis dizer. Nem mesmo acredito em Deus.

Eu não disse nada. De fato, eu falei bem pouco durante as três horas seguintes enquanto Richard me contava a sua his­tória, começando pela separação de seus pais.

— Fiz tudo o que podia para evitar o divórcio — disse. — Eu tinha acabado de me tornar um cristão na universidade, e fui tolo bastante para crer que Deus se importava. Eu ora­va sem parar de dia e de noite para que eles se reconciliassem. Cheguei até mesmo a deixar a escola por um tempo e fui pa­ra casa para tentar salvar a minha família. Pensei que estava fazendo a vontade de Deus, mas acho que tornei as coisas pio­res. Foi minha primeira experiência amarga de oração sem res­posta.

— Então me transferi para a Wheaton College a fim de aprender mais sobre a fé. Eu imaginava que devia estar fazen­do alguma coisa errada. Lá em Wheaton eu me encontrei com pessoas que usavam expressões do tipo "falei com Deus" e "o Senhor me disse". Algumas vezes eu também falava daquela maneira, mas nunca sem uma repentina sensação de culpa. Se­rá que o Senhor de fato me disse alguma coisa? Nunca ouvi uma voz nem tive qualquer prova acerca de Deus, a qual eu pudesse ver ou tocar. Ainda assim, eu ansiava por aquele ti­po de intimidade.

— Todas as vezes em que eu me defrontei com uma deci­são importante, eu lia a Bíblia e orava pedindo orientação, exa­tamente como se espera que se faça. Sempre que eu me sentia bem quanto à decisão, eu agia de conformidade com ela. Mas juro que todas as vezes eu acabei me dando mal. No momen­to em que eu achava que eu tinha realmente entendido a vonta­de de Deus, então as coisas davam para trás.

O barulho da rua entrava na sala, e eu podia ouvir os vi­zinhos subindo e descendo as escadas, mas Richard parecia não reparar nas distrações. Ele continuava falando, de vez em quando eu assentia com a cabeça, embora ainda não com­preendesse a razão para sua explosão violenta contra Deus. Muitas famílias se desintegram: muitas orações ficam sem res­posta. Qual era a verdadeira origem de sua fúria?

Em seguida me falou de uma oportunidade de emprego que não deu certo. O empregador deu para trás e contratou alguém com menos qualificações, deixando Richard com dívi­das na escola e sem qualquer fonte de renda. Mais ou menos na mesma época, a noiva de Richard o largou. Sem qualquer aviso ela cortou o relacionamento, recusando-se a dar qual­quer explicação para sua repentina mudança afetiva. Sharon, a noiva, havia tido um papel fundamental no crescimento espi­ritual de Richard, e, quando ela o deixou, ele sentiu parte de sua fé também escapar de suas mãos. Eles freqüentemente ha­viam orado juntos acerca do futuro deles; agora essas orações pareciam piadas de mau gosto.

Dolorosas feridas de rejeição, sofridas quando seus pais se separaram, pareciam reabrir. Deus estava dando o fora ne­le assim como Sharon tinha feito? Ele visitou um pastor em busca de conselho. Disse que sentia-se como uma pessoa se afo­gando. Queria confiar em Deus, mas, sempre que estendia a mão para cima, apanhava um punhado de ar vazio. Por que devia continuar crendo num Deus que aparentemente não se interessava em seu bem-estar?

O pastor não era muito compreensivo, e Richard ficou com a nítida impressão de que os seus lamentos pessoais eram minúsculos em comparação com os dos outros, que pediam conselhos sobre casamentos arruinados, câncer, alcoolismo e filhos rebeldes. "Quando as coisas se endireitarem com sua namorada, você também se endireitará com Deus", disse o pastor com um sorriso paternalista.

Para Richard, os problemas não eram minúsculos. Não conseguia compreender por que um Pai celestial amoroso dei­xaria que ele sofresse tal decepção. Nenhum pai terreno trataria seu filho dessa maneira. Ele continuou indo à igreja, mas dentro dele começou a se formar um nódulo de ceticismo, um tumor de dúvida. A teologia que havia aprendido na esco­la e sobre a qual escrevera em seu livro já não servia para ele.

— Era estranho — Richard me contou —, mas quanto mais eu descarregava a minha raiva em cima de Deus, parecia que eu ganhava mais energia. Percebi que durante os últimos anos eu havia encolhido dentro de mim. Agora, quando eu co­meçava a duvidar, e até mesmo a odiar a escola e outros cris­tãos ao redor, eu senti como se eu estivesse voltando a viver.

Certa noite algo estalou. Até o presente Richard não tem certeza sobre o que provocou esse estalo. Ele assistiu ao culto de domingo à noite numa igreja onde ouviu os testemunhos costumeiros e as manifestações de louvor e gratidão, mas um relato em particular o irritou. Naquela semana, alguns dias an­tes, um avião que levava nove missionários havia caído na re­gião desértica do Estado do Alasca, matando todos os passa­geiros. O pastor contou os detalhes em voz grave e então cha­mou à frente um membro da igreja que havia acabado de so­breviver a um desastre de avião que não tinha qualquer rela­ção com aquele outro. Quando o membro da igreja acabou de contar como havia escapado por pouco, a congregação rea­giu dizendo: "Glória a Deus!"

"Senhor, nós te agradecemos por trazeres nosso irmão a salvo e porque fizeste com que teus anjos da guarda tomassem conta dele", o pastor orou. "E esteja com as famílias daque­les que morreram no Alasca." Aquela oração desencadeou em Richard uma repulsa, algo parecido com a náusea. Não dá para conciliar ambos os caminhos, ele pensou. Se Deus é louvado por causa do sobrevivente, deve também ser culpado por causa das mortes. Todavia, as igrejas nunca ouvem teste­munhos dados pelos que sofrem as perdas. O que os cônjuges dos missionários mortos diriam? pensou Richard amargamen­te. Será que eles falariam de um "Pai amoroso"?

Richard voltou para seu apartamento bastante agitado. Tudo estava culminando numa pergunta: "Será mesmo que Deus existe?" Ele não tinha visto provas convincentes.

 

Richard interrompeu a história a essa altura. O sol havia-se escondido atrás de um grande edifício a oeste, e o crepúsculo foi suavemente mesclando as sombras e os raios de luz na sala. Richard fechou os olhos e mordeu o lábio inferior. Com os polegares pressionava bastante os olhos. Parecia que ele es­tava formando uma imagem mental, como se para conseguir a imagem exata.

— O que houve depois? — indaguei, após alguns minu­tos de silêncio. — Foi nessa noite que você perdeu a fé? — Ele assentiu com a cabeça e recomeçou a falar, mas num tom mais suave.

— Moro numa alameda arborizada e tranqüila, num bair­ro afastado do centro. Eu fiquei acordado até tarde naquela noite, bem depois que meus vizinhos tinham ido deitar. Pare­cia que eu estava sozinho no mundo, e eu sabia que algo de importante estava para acontecer. Eu estava machucado. Fo­ram tantas as vezes que Deus havia me desapontado. Eu odia­va Deus, e assim mesmo eu também sentia medo. Eu era alu­no de teologia, certo? Talvez Deus estivesse ali, e eu estivesse completamente enganado. Como é que eu poderia saber? Ree­xaminei toda minha experiência cristã, desde o seu início.

— Eu me lembro do primeiro lampejo de fé que tive lá na universidade. Naquela época eu era bem novo, e vulnerável. Talvez eu tivesse apenas aprendido umas poucas frases otimis­tas e tivesse persuadido a mim mesmo a crer numa "vida abun­dante". Talvez eu tivesse apenas aprendido a imitar os outros. Comecei a imaginar se eu não estava vivendo às custas das ex­periências de outras pessoas. Será que eu tinha me iludido acer­ca de Deus?

— Apesar disso eu hesitava em descartar tudo em que eu cria. Senti que tinha de dar uma última chance para Deus.

— Naquela noite orei da maneira mais honesta e sincera que eu sabia. Orei de joelhos e estendido sobre o soalho de carva­lho. "Deus! O Senhor se importa?" orei. "Não quero te ensi­nar como dirigir o teu mundo, mas, por favor, dá-me algum si­nal de que o Senhor realmente existe! É tudo o que eu peço."

— Fazia quatro anos que eu vinha lutando para ter "um relacionamento pessoal com Deus", como a frase diz, e apesar disso Deus me tratou pior do que qualquer de meus amigos. Agora tudo se afunilava para uma pergunta derradeira: Co­mo você pode ter um relacionamento pessoal se você nem mes­mo tem certeza de que a outra pessoa existe? Com Deus, ja­mais pude ter certeza.

— Orei durante pelo menos quatro horas. Em alguns mo­mentos eu me sentia um tolo; em outros momentos, profunda­mente sincero. Eu tinha a sensação de estar no escuro, prestes a despencar, mas sem qualquer idéia de onde ia pôr os pés. Is­so era problema de Deus.

— Finalmente, às quatro da manhã, caí em mim. Nada havia acontecido. Deus não havia respondido. Por que conti­nuar me torturando? Por que simplesmente não esquecer Deus e continuar vivendo, tal como a maioria das pessoas do mundo?

— No mesmo instante senti uma sensação de alívio e li­berdade, como se eu tivesse acabado de ser aprovado numa prova final ou de receber a carta de motorista pela primeira vez. A luta terminara. A minha vida era minha, e de ninguém mais.

— Agora parece uma tolice, mas foi isto que fiz em segui­da. Apanhei minha Bíblia e alguns outros livros evangélicos, desci pela escada e saí pela porta dos fundos. Cuidadosamen­te fechei a porta atrás de mim, para não acordar ninguém. No quintal havia uma churrasqueira, e eu empilhei os livros ali, joguei fluido para isqueiro sobre os livros e acendi um fós­foro. Era uma noite sem luar, e as chamas balançavam altas e com fulgor. Versículos bíblicos e pedaços de livros de teolo­gia se retorciam, escureciam e finalmente se desmanchavam em partículas de cinza e ascendiam ao céu. Minha fé também ia-se dispersando.

— Fiz mais uma viagem escada acima, e desci carregado com mais livros. Devo ter feito essa viagem umas oito vezes nas duas horas que se seguiram. Comentários, livros usados no seminário, o rascunho de meu livro sobre Jó — tudo isso foi embora com a fumaça. Provavelmente teria queimado to­dos os meus livros caso não tivesse sido interrompido por um bombeiro irritado que vestia uma capa de chuva amarela. "O que é que você pensa que está fazendo?" disse ele. Alguém havia telefonado dando o alarme. Fiquei procurando uma des­culpa qualquer e, por fim, disse-lhe que estava apenas quei­mando lixo.

— Depois de o bombeiro lançar alguns produtos quími­cos em minha fogueira e espalhar cinzas sobre ela, ele me dei­xou ir embora. Subi as escadas e me afundei na cama, cheiran­do a fumaça. Já estava quase amanhecendo, e finalmente sen­ti paz. Um grande peso fora tirado de cima de mim. Eu tinha sido honesto comigo mesmo. Qualquer fingimento tinha-se ido, e eu não mais sentia a pressão para crer naquilo de que jamais poderia ter certeza. Eu me senti convertido, mas convertido de Deus.

 

Fico feliz porque a minha profissão não é a de conselhei­ro. Quando estou sentado em frente a alguém que derrama seu coração, tal como o Richard, nunca sei o que dizer. Não dis­se quase nada naquela tarde, e talvez tenha sido melhor assim. Não teria sido de muita ajuda para mim encontrar defeitos nos "testes" que Richard idealizou para Deus.

Ele parecia muito preocupado quanto ao livro sobre Jó, que devia sair do prelo em poucas semanas. A editora sabia acerca de sua mudança de pensamento, disse ele, mas a primei­ra edição já estava sendo impressa. Eu lhe garanti que eu con­tinuava endossando o livro. Era o conteúdo do livro que eu endossava, mais do que sua posição pessoal.

— Além do mais, também já mudei de idéia sobre algu­mas coisas que escrevi nos últimos dez anos — disse a ele.

Richard estava exausto depois de falar por tanto tempo, mas parecia mais descontraído quando se levantou para ir embora.

— Talvez todos os meus problemas tenham começado com o estudo que fiz de Jó — disse. — Eu antes gostava mui­to de Jó — ele não tinha medo de ser honesto com Deus. Ele encarou Deus. Acho que a diferença entre nós é o que aconte­ceu no final. Com Jó, depois de todo seu sofrimento, Deus agiu à altura. Comigo ele não agiu à altura.

Richard apertou minha mão e desapareceu escada abaixo.

A noite havia caído, e uma célula fotoelétrica já acende­ra as luzes da escada. Enquanto eu ouvia Richard descer os degraus, senti uma profunda tristeza. Ele era jovem e bronze­ado e com saúde. Alguns diriam que ele não tinha motivos de verdade para se desesperar. Mas, enquanto eu o ouvia, observando-o cerrar os punhos e vendo os sinais de tensão em seu semblante, finalmente percebi qual a origem de sua ira.

Richard estava sentindo uma dor profunda: a dor de sen­tir-se traído. A dor de um amante que acorda e de repente des­cobre que tudo acabou. Ele havia confiado sua vida a Deus, e Deus o havia decepcionado.

 

                     As Perguntas Que Ninguém Faz em Voz Alta

ALGUMAS VEZES as perguntas mais importantes, aque­las que são nebulosas e intangíveis durante a maior par­te de nossas vidas, podem se cristalizar num único instante. A visita de Richard propiciou um instante assim para mim. Na realidade suas queixas — lar destroçado, romance acaba­do, emprego perdido — não eram coisas incomuns. E, assim mesmo, naquela noite, junto à churrasqueira, ele havia, num final dramático e teatral, resolvido as dúvidas e perguntas que afligem quase todos nós. Por que Deus não conserta as coisas — pelo menos algumas delas? Será que ele não podia agir de forma um pouco menos misteriosa?

Richard, tomado de ira e dor, não expressou suas dúvi­das de maneira ordenada; experimentou-as mais como senti­mentos de traição do que como questões de fé. Todavia à me­dida que eu matutava sobre nossa conversa, tornava-se eviden­te que Richard tinha três grandes interrogações a respeito de Deus. Quanto mais eu ponderava acerca disso, mais eu perce­bia que essas perguntas estão instaladas em algum lugar dentro de todos nós. Porém, poucas pessoas fazem-nas em voz alta, pois na melhor das hipóteses parecem mal-educadas; na pior das hipóteses, heréticas.

 

  1. Deus é injusto? Richard havia tentado seguir a Deus, mas ainda assim sua vida se destroçou. Como seus desaponta­mentos se reconciliavam com as promessas bíblicas de recom­pensas e felicidade? E que dizer das pessoas que negam aberta­mente a Deus, mas assim mesmo prosperam? É uma velha quei­xa, tão velha quanto Jó e os Salmos, mas continua sendo uma pedra de tropeço para a fé.
  2. Deus está calado? Três vezes em que se defrontou com escolhas cruciais em sua vida educacional, profissional e afeti­va, Richard implorou a Deus que lhe desse orientação clara. Em cada uma dessas vezes imaginou que tinha percebido a von­tade de Deus, para no final descobrir que aquela escolha tinha conduzido ao fracasso. "Que tipo de Pai é ele?" Richard inda­gou. "Ele tem satisfação em me ver dando com a cara no chão? Disseram-me que Deus me ama e tem um plano maravi­lhoso para minha vida. Ótimo. Então por que ele não me con­ta que plano é esse?"
  3. Deus está escondido? Acima de todas, essa pergunta obcecava Richard. Para ele parecia que um mínimo irredutí­vel, uma questão fundamental da teologia, era que Deus devia de algum modo provar sua própria existência:

 

"Como posso manter um relacionamento com uma Pessoa que nem mesmo sei se existe?" No entanto, para Richard parecia que Deus ha­via-se escondido de propósito, até daqueles que o procuravam. E, naquela madrugada dramática, quando a vigília de Richard não obteve resposta, ele simplesmente não quis mais saber de Deus.

Refleti freqüentemente sobre essas três perguntas duran­te um trabalho jornalístico que me fora dado para realizar na América do Sul. No Peru, um piloto missionário me transpor­tou até um pequeno vilarejo indígena da tribo shipibo. Ele pou­sou o avião anfíbio, taxiou até a margem do rio, e me condu­ziu ao longo de uma trilha na selva até a "rua" principal do vilarejo: um caminho lamacento cercado por uma dúzia de cabanas de palafitas, cobertas com folhas de palmeiras. Levou-me até ali para mostrar-me uma pujante igreja, estabelecida havia quarenta anos. Mas também me mostrou um marco de granito logo ao lado do caminho principal e me contou a histó­ria de um jovem missionário que havia morado no local.

Quando seu único filho, de seis meses de idade, faleceu devido a um ataque repentino de vômito e diarréia, o jovem missionário deu a impressão de que ia ter um colapso.

Esculpiu um marco em pedra do próprio lugar — o marco que está­vamos vendo — sepultou o corpo da criancinha e plantou uma árvore ao lado do túmulo. Diariamente, na hora mais quente, quando todas as outras pessoas procuravam estar à sombra, o missionário caminhava até o rio e trazia de volta um jarro d'água para regar a árvore. Então permanecia de pé ao lado do túmulo, como se, com sua sombra, fosse protegê-lo do es­caldante sol equatorial. Às vezes chorava, às vezes orava, e às vezes simplesmente ficava ali em pé com um olhar vago. Sua esposa, os membros da igreja indígena e outros missioná­rios, todos tentaram confortá-lo, mas sem resultado.

Por fim, o próprio missionário ficou doente. A mente de­lirava, ele tinha diarréia sem parar. Foi levado de avião para Lima, onde os médicos fizeram minuciosos exames em busca de quaisquer indícios de ameba ou de outros parasitas tropi­cais, mas nada encontraram. Nenhum dos remédios que tenta­ram deu resultado. Diagnosticaram seu problema como "diar­réia histérica" e mandaram-no, junto com a esposa, de volta para os Estados Unidos.

Enquanto eu estava ali ao lado do envelhecido marco de granito, que as índias agora usavam como um lugar para des­cansar seus cântaros d'água, tentei me colocar no lugar daquele jovem missionário. Fiquei imaginando o que ele teria orado enquanto ficava ali em pé sob o sol do meio-dia, e aquelas mesmas três perguntas vinham o tempo todo à mente. Meu guia havia dito que o homem se atormentava com a questão da justiça. Seu filhinho nada fizera de errado. O jovem missio­nário trouxera a família para servir a Deus na selva — era es­sa a recompensa deles? Ele também havia orado, pedindo al­gum sinal da presença de Deus, ou pelo menos uma palavra de conforto. Mas não sentiu nada disso. Como se ele estives­se inseguro quanto à própria compaixão de Deus, o missioná­rio desenvolveu em seu próprio corpo uma forma de sofrimen­to por compaixão.

Os ateus de verdade, creio eu, não se sentem decepciona­dos com Deus. Nada esperam e nada recebem. Mas aqueles que entregam suas vidas a Deus, não importa quem seja, instin­tivamente esperam algo em troca. Essas expectativas estão er­radas?

Não vi o meu amigo Richard por um bom tempo. Eu ora­va regularmente por ele, mas todas as minhas tentativas de fa­zer contato com ele foram inúteis. Seu telefone tinha sido des­ligado, e soube que havia-se mudado para outro lugar. Sua editora finalmente me enviou um exemplar de seu livro sobre Jó, e o livro descansava em minha estante como uma potente advertência contra escrever apressadamente demais sobre ques­tões de fé.

Então num certo dia, cerca de três anos depois, dei de ca­ra com o Richard no centro de Chicago. Parecia bem, tendo ganhado um pouco de peso e tendo deixado o cabelo crescer alguns centímetros a mais, ele tinha perdido a aparência séria e obcecada. Pareceu contente em me ver, e combinamos almo­çar juntos.

— Na última vez em que me encontrei com você, acho que eu estava na pior — disse ele com um sorriso, poucos dias depois, ao vir ao meu encontro num restaurante de comida mexicana. — A vida está cuidando muito melhor de mim agora.

Possuía um emprego promissor e, fazia tempo, tinha dei­xado para trás o fracasso amoroso.

Logo a nossa conversa se encaminhou para Deus, e rapi­damente ficou claro que Richard não tinha-se recuperado com­pletamente. Uma espessa crosta de cinismo cobria agora as fe­ridas, mas estava com tanta raiva de Deus quanto antes.

A garçonete encheu a xícara com um café recém-passado, Richard envolveu a xícara com suas mãos e ficou com os olhos fitos no liquido escuro e fumegante.

— Hoje tenho uma idéia melhor sobre aquele período maluco — disse. — Acho que descobri o que houve de erra­do. Posso lhe dizer a hora e o minuto exatos em que comecei a duvidar de Deus, e isso não aconteceu em Wheaton ou em meu quarto naquela noite em que fiquei acordado até tarde orando. Ele então contou um incidente que havia ocorrido bem no início de sua vida cristã.

— Uma coisa me aborrecia desde o início: o conceito de fé. Isso parecia um buraco negro capaz de engolir qualquer pergunta honesta. Eu perguntava para o assessor da A.B.U. sobre o problema do sofrimento, e ele despejava alguma coi­sa sobre fé. "Creia em Deus, quer queira quer não", ele dizia. "Os sentimentos virão em seguida." Eu fiz que cria, mas agora posso ver que os sentimentos nunca vieram. Eu estava ape­nas patinando na lama.

— Já naquela época eu estava buscando uma prova con­creta de Deus como uma alternativa para a simples fé. E um dia eu a encontrei — justamente na televisão. Enquanto eu ia mudando de canal ao acaso, apareceu na tela uma grande reu­nião de cura que estava sendo dirigida pela evangelista Kathryn Kuhlman. Assisti por alguns minutos enquanto ela trazia vá­rias pessoas para o palco e as entrevistava. Cada uma conta­va uma história maravilhosa de cura sobrenatural. Câncer, pro­blemas cardíacos, paralisia — era como se houvesse uma enci­clopédia médica ali no palco.

— Enquanto eu assistia ao programa de Kathryn Kuhl­man, minhas dúvidas gradualmente se desfizeram. Finalmente eu havia encontrado algo real e tangível. Kuhlman pediu a um músico que cantasse sua música favorita, "Tocou-me". Era isso que eu precisava, pensei comigo mesmo: um toque, um toque pessoal de Deus. Ela ofereceu aquela promessa, e eu me atirei a isso.

— Três semanas depois, quando Kathryn Kuhlman veio a um Estado vizinho, matei as aulas e viajei durante meio dia para assistir a uma de suas reuniões de cura. O ambiente esta­va carregado — uma suave música de órgão ao fundo, o mur­múrio de pessoas orando em voz alta, algumas em línguas es­tranhas, e a curtos intervalos uma alegre interrupção quando alguém ficava em pé e exclamava: "Estou curado!"

— Uma pessoa em especial causou impacto, um homem de Milwaukee, Estado de Wisconsin, que fora levado de ma­ca para a reunião. Quando ele andou — isso mesmo, andou — no palco, todos nós aplaudimos entusiasticamente. Ele nos contou que era médico. E eu fiquei ainda mais impressionado. Estava com um câncer incurável no pulmão, ele disse, e haviam-lhe dado seis meses de vida. Mas agora, naquela noite, ele acre­ditava que Deus o havia curado. Estava andando pela primei­ra vez em meses. Ele se sentia ótimo. Glória a Deus!

— Anotei o nome do homem e eu estava praticamente flu­tuando nas nuvens quando saí da reunião. Eu nunca tinha vis­to tanta certeza de fé. Minha busca terminara. Eu tinha tido uma prova de um Deus vivo através daquelas pessoas no pal­co. Se ele era capaz de operar milagres tangíveis nelas, então com toda certeza ele tinha algo de maravilhoso reservado pa­ra mim.

— Eu quis entrar em contato com o homem de fé que eu vira na reunião; tanto queria que exatamente uma semana depois liguei para o Auxílio à Lista de Milwaukee e consegui descobrir o número do telefone do médico. Quando disquei, uma mulher atendeu. "Eu gostaria de falar com o Dr. S_____", disse.

— Houve um longo silêncio. "Quem quer falar?", final­mente ela disse. Imaginei que ela estava simplesmente filtran­do os telefonemas de pacientes ou algo parecido. Eu disse o meu nome e disse a ela que admirava o Dr. S_____, e que tinha querido conversar com ele desde a reunião de Kathryn Kuhlman. Também disse que tinha ficado bastante emocionado com a história dele.

— Uma vez mais houve um longo silêncio. Então ela fa­lou num tom monótono, pronunciando lentamente cada pala­vra. "Meu... marido... morreu." Só aquela única sentença, nada mais, e ela desligou o telefone.

— Não consigo descrever para você como aquilo me des­montou. Eu estava arrasado. Entrei meio atordoado no cômo­do ao lado, onde minha irmã estava sentada. "Richard, o que aconteceu?" ela indagou. "Está tudo bem com você?"

— Não, não estava tudo bem. Mas não dava para falar a respeito. Eu estava chorando. Minha mãe e minha irmã ten­taram arrancar de mim alguma explicação. Mas o que é que eu podia dizer para elas? Para mim, a certeza em que eu havia arriscado a minha vida tinha morrido com aquele telefonema. A chama da eternidade havia brilhado com fulgor durante uma única, resplendente e maravilhosa semana. Agora tudo eram trevas.

Richard tinha os olhos presos no fundo da xícara de ca­fé. A música de marimba, sendo tocada ao fundo, tinha um som metálico e soava desagradavelmente alto.

— Não estou entendendo — comentei. — Isso aconteceu muito antes de você ir para Wheaton e se formar em teologia e escrever um livro...

— É verdade, mas tudo começou naquela época — ele me interrompeu. — Tudo que veio em seguida — Wheaton, o livro sobre Jó, os grupos de estudo bíblico — foi uma tenta­tiva desesperada de refutar aquilo que eu devia ter aprendido com aquele telefonema. Não existe ninguém lá em cima, Philip. E, se por algum acaso Deus existe, então ele está brincando conosco. Por que ele não pára de ficar brincando e se mostra?

 

Richard logo mudou o assunto da conversa, e passamos o resto do almoço pondo em dia os últimos três anos. Conti­nuou insistindo que era feliz. Talvez tenha insistido com exces­siva veemência, mas de fato parecia mais satisfeito.

Já no fim do almoço, quando saboreávamos a sobreme­sa, um sorvete, ele trouxe à tona o encontro anterior, três anos antes.

— Você deve ter pensado que eu estava meio maluco, in­vadindo sua casa e despejando a história de toda minha vida, sendo que nunca antes tínhamos nos encontrado.

— Em absoluto — respondi. — Por alguma estranha ra­zão, nunca fui capaz de afastar aquela conversa de minha men­te. Na realidade, suas queixas contra Deus ajudaram-me a com­preender melhor as minhas próprias.

Então contei a Richard acerca dessas três perguntas. De­pois de tê-las explicado, perguntei-lhe se elas resumiam as quei­xas que ele tinha contra Deus.

— Bem, a minha dúvida era mais uma espécie de senti­mento — eu me sentia abandonado, como se Deus tivesse me enganado só para ver o meu tombo. Mas você está certo quan­to ao que penso sobre isso; essas perguntas estavam por trás dos meus sentimentos. Certamente Deus estava sendo injusto. E ele sempre parecia escondido, e calado. É... é isso mesmo. É exatamente isso!

— Por que Deus não responde a essas perguntas?

Richard erguera a voz e estava brandindo os braços, qua­se como um evangelista. Felizmente o restaurante já tinha-se esvaziado.

— Se Deus somente respondesse a essas perguntas — se ele somente respondesse a uma delas. Se, digamos, ele apenas falasse em voz alta uma única vez para que todos pudessem ouvir, então eu creria. Provavelmente o mundo inteiro creria. Por que ele não faz isso?

 

                   O Que Aconteceria Se...

"SE SOMENTE", Richard havia dito. Se somente Deus solucionasse esses três problemas, então a fé floresce­ria como flores na primavera. Não é verdade?

Aconteceu que, no mesmo ano em que eu me encontrei com Richard no restaurante mexicano, eu estava estudando os livros de Êxodo e Números. E, muito embora as perguntas de Richard ainda estivessem martelando em minha mente, le­vou algum tempo para que eu reparasse num paralelo curioso. Então certo dia de repente algo saltou da página: Êxodo des­crevia o próprio mundo que Richard almejava! Mostrava Deus entrando quase que diariamente na história humana. Mostrava-o agindo com absoluta justiça e falando de tal for­ma que todos podiam ouvir. E mais do que isso: ele até mes­mo se fez visível!

O contraste entre os dias dos israelitas e os nossos, o sé­culo vinte, me pôs a pensar sobre como Deus dirige o mundo, e eu retornei e tornei a fazer as três perguntas. Se Deus de fa­to tem o poder para agir justamente, falar audivelmenie e apa­recer visivelmente, por que então ele parece tão relutante em intervir em nossos dias? Talvez o registro dos israelitas no de­serto contenha alguma pista.

Pergunta: Deus é injusto? Por que ele não age com coe­rência, punindo as pessoas más e recompensando as boas? Por que coisas terríveis acontecem a pessoas boas e más, sem que se possa discernir um padrão de comportamento?

Imagine um mundo planejado de tal forma que experi­mentemos um pequeno beliscão a cada pecado e uma agradá­vel sensação de prazer a cada ação correta. Imagine um mun­do em que cada doutrina errônea atraia sobre si um relâmpa­go, ao passo que cada repetição do Credo Apostólico estimu­le os pontos de prazer dos nossos cérebros.

O Antigo Testamento registra uma experiência quase tão ostensiva de "modificação do comportamento": a aliança de Deus com os israelitas. No deserto do Sinai Deus resolveu re­compensar e punir seu povo com uma justiça estrita, baseada em leis. Ele assinou a promessa de justiça com sua própria mão, subordinando-a a uma condição: os israelitas tinham de seguir as leis que ele outorgara. Ele então fez com que Moisés esboçasse para o povo os termos dessa promessa:

 

Resultados da Obediência

Resultados da Desobediência

Cidades e áreas rurais prósperas

Violência, crime e pobreza em todos os cantos

Nenhum problema de esterilidade entre homens, mulheres ou rebanhos

Infertilidade entre as pessoas e os rebanhos

Sucesso garantido nas colheitas

Perda de colheitas, gafanhotos e vermes

Condições favoráveis de tempo

Calor abrasador, seca, pragas e mangra

Vitórias militares asseguradas

Dominação por outras nações

Imunidade total a doenças

Febre e inflamação; loucura, cegueira, mente confusa

 

Se fossem obedientes, disse Moisés, Deus os exaltaria "so­bre todas as nações da terra"; sempre estariam "em cima, e não debaixo". Com efeito, aos israelitas prometeu-se proteção de praticamente todo tipo de miséria e infelicidade humana. Por outro lado, caso desobedecessem, tornar-se-iam "pasmo, provérbio e motejo entre todos os povos a que o Senhor te levará.... Porquanto não serviste ao Senhor teu Deus com ale­gria e bondade de coração, não obstante a abundância de tu­do. Assim com fome, com sede, com nudez e com falta de tu­do, servirás aos teus inimigos, que o Senhor enviará contra ti."

Continuei lendo, vasculhando os livros de Josué e Juizes para ver os resultados dessa aliança baseada num sistema "jus­to" de retribuição e punição. Num prazo de cinqüenta anos os israelitas tinham-se desintegrado, passando a um estado de anarquia total. Grande parte do restante do Antigo Testamen­to relata a história deprimente das maldições (não as bênçãos) preditas se tornarem verdade. Apesar de todos os abundantes benefícios da aliança, Israel deixou de obedecer a Deus e assim cumprir as condições estipuladas.

Anos mais tarde, quando os autores do Novo Testamen­to olharam para aquela história passada, eles não apresentaram a aliança como um exemplo em que Deus se relacionava com absoluta coerência e justiça com o seu povo. Ao invés disso, disseram, a antiga aliança servia como uma lição objetiva: de­monstrava que os seres humanos eram incapazes de cumprir um contrato com Deus. A eles parecia claro que fazia-se neces­sária uma nova aliança (um "novo testamento") com Deus, uma aliança baseada no perdão e na graça. E é exatamente por essa razão que o "Novo Testamento" existe.

Pergunta: Deus está calado? Se ele está tão interessado em que façamos sua vontade, por que ele não a revela de uma maneira mais clara?

Inúmeras pessoas afirmam ouvirem a palavra de Deus ho­je em dia. Algumas estão malucas, como é o caso do louco que, "por ordem de Deus", atacou com martelo a estátua Pietà, de Michelangelo, ou do assassino político que afirma que Deus lhe disse para atirar no presidente. Outros parecem since­ros mas desorientados, como os seis estranhos que contaram à escritora Joni Eareckson que Deus os havia orientado a se casarem com ela. Ainda outros parecem genuinamente levar adiante a tradição dos profetas e apóstolos, entregando a pala­vra de Deus a seu povo. Por isso podemos estar presos num estado de ambigüidade, incertos se aquilo que ouvimos é real­mente uma palavra da parte de Deus.

Por que Deus não simplifica a questão simplesmente, dizendo-nos o que fazer? Descobri que ele o fez uma vez, entre os israelitas acampados no deserto do Sinai. Devemos desmon­tar nossas barracas e viajar hoje, ou devemos deixá-las arma­das? Para obter a resposta, um israelita inquiridor necessita­va apenas dar uma olhada para a nuvem acima do tabernáculo. Se a nuvem partisse, Deus queria que seu povo partisse.

Se a nuvem permanecesse, isso significava que deviam perma­necer. (Sem problema algum era possível conferir a vontade de Deus a qualquer hora do dia ou da noite; à noite a nuvem era incandescente como uma torre de fogo.)

Deus estabeleceu outras maneiras, como o lançar sortes e o Urim e o Tumim, para comunicar diretamente sua vonta­de, mas a maioria dos assuntos já estava previamente decidi­da. Ele havia dito sua vontade para os israelitas num conjun­to de regras, codificadas em 613 leis que cobriam toda a ga­ma de comportamentos, desde o assassinato até cozinhar um cabrito no leite de sua mãe. Naqueles dias pouquíssimas pesso­as se queixavam de orientação ambígua.

Mas será que uma clara palavra da parte de Deus aumen­tou a probabilidade de obediência? Aparentemente não. "Não subais nem pelejeis [contra os amorreus]", disse Deus, "pois não estou no meio de vós, para que não sejais derrotados dian­te dos vossos inimigos." E os israelitas imediatamente subiram e lutaram contra os amorreus e foram derrotados por seus ini­migos. Marchavam quando instruídos a manter a posição, fu­giam atemorizados quando instruídos a marchar, lutavam quan­do instruídos a fazer paz, faziam paz quando instruídos a lu­tar. O passatempo nacional deles passou a ser inventar manei­ras de quebrar os 613 mandamentos. Orientação nítida se tor­nou para aquela geração uma afronta, da mesma maneira co­mo orientação obscura se tornou para a nossa.

Também observei um padrão marcante nos relatos do Antigo Testamento: a própria clareza da vontade de Deus ti­nha um efeito desanimador na fé dos israelitas. Por que bus­car a Deus quando ele já se havia revelado de forma tão cla­ra? Por que dar um passo de fé quando Deus já havia garanti­do os resultados? Por que lutar com o dilema de escolhas con­flitantes quando Deus já havia solucionado o dilema? Em su­ma, por que os israelitas deviam agir como adultos quando podiam agir como crianças? Pois então, comportavam-se mes­mo como crianças, murmurando contra seus líderes, descum­prindo as regras estritas quanto ao maná, choramingando a cada vez que faltava água ou comida.

À medida que estudava a história dos israelitas, pensei duas vezes sobre o "ideal" da orientação clara de Deus. Tal­vez atenda a algum propósito — pode, por exemplo, fazer um bando de escravos recém-libertados atravessar um deserto hostil — mas não parece estimular o desenvolvimento espiri­tual. Na realidade, para os israelitas isso quase eliminou por completo a necessidade de fé; a orientação clara e definida es­vaziou a liberdade, tornando cada escolha uma questão de obe­diência e não de fé. E nos quarenta anos de peregrinação pe­lo deserto os israelitas foram tão mal no teste da obediência que Deus se viu obrigado a começar de novo com uma nova geração.

Pergunta: Deus está escondido? Por que ele simplesmen­te não se revela visivelmente em algum momento, e cala os céticos de uma vez por todas?

O que o meu amigo Richard queria, solitário em seu quar­to às duas da madrugada — o que o astronauta soviético que­ria, quando, pela escotilha, procurou por Deus no espaço es­curo fora de sua nave espacial — é (para aqueles que ainda anseiam) o ansioso desejo de nossa era. Queremos provas, de­monstrações, uma aparição pessoal, de modo que o Deus de que ouvimos falar se torne no Deus que podemos ver.

Aquilo que ansiamos aconteceu uma vez. Durante algum tempo Deus em pessoa realmente se revelou, e um homem con­versou com ele face a face assim como conversaria com um amigo. Eles se encontraram, Deus e Moisés, numa barraca ar­mada logo ali fora do acampamento israelita. O encontro não foi secreto. Sempre que Moisés se dirigia para a barraca para conversar com Deus, todos os israelitas se ajuntavam para ver. Uma coluna de nuvem, a presença visível de Deus, impe­dia a entrada na barraca. Ninguém, à exceção de Moisés, sa­bia o que se passava lá dentro; ninguém queria saber. Os isra­elitas haviam aprendido a manter distância da divindade. "Fa­la-nos tu, e te ouviremos", disseram a Moisés, "porém não fale Deus conosco, para que não morramos." Após cada en­contro Moisés surgia refulgindo; as pessoas tinham de escon­der o rosto até que ele se cobrisse com um véu.

Naqueles dias havia pouquíssimos ateus, se é que havia algum. Nenhum israelita escreveu peças teatrais sobre esperar um Deus que jamais chegava. Eles podiam enxergar as provas visíveis da realidade de Deus fora da barraca do encontro ou nas espessas nuvens de tempestade que pairavam ao redor do monte Sinai. Um cético somente necessitava fazer uma cami­nhada até a trêmula montanha, e ver por si mesmo.

No entanto, o que aconteceu durante aqueles dias é quase um desafio à credulidade. Quando Moisés escalou a monta­nha sagrada, tempestuosa devido aos sinais da presença de Deus, aquelas mesmas pessoas que haviam sobrevivido às dez pragas do Egito, que haviam atravessado o mar Vermelho a seco, que haviam bebido água de uma rocha, que naquele mo­mento estavam digerindo em seus estômagos o milagre do ma­ná — aquelas mesmas pessoas ficaram aborrecidas ou impacien­tes, rebeldes ou ciumentas e aparentemente esqueceram tudo acerca de seu Deus. No momento em que Moisés desceu da montanha, estavam dançando como pagãos em volta de um bezerro de ouro.

Deus não brincou de esconde-esconde com os israelitas; eles dispunham de inúmeras provas objetivas a respeito da exis­tência de Deus. Mas, surpreendentemente — e eu mal podia acreditar nesse resultado, mesmo quando o lia — a orientação objetiva de Deus parecia produzir exatamente o oposto do efei­to previsto. Os israelitas reagiram não com adoração e amor, mas com medo e rebelião aberta. A presença visível de Deus nada fez em termos de aperfeiçoar uma fé duradoura.

 

Eu havia resumido as queixas de Richard quanto a Deus em três perguntas. Mas Êxodo e Números ensinaram-me que soluções rápidas para essas três perguntas podem não resolver os problemas básicos de desapontamento com Deus. Os israeli­tas, embora expostos à luz brilhante da presença e orientação de Deus, eram um povo tão inconstante como jamais houve igual. Em dez ocasiões se levantaram contra Deus. Até mes­mo na própria fronteira da Terra Prometida, com toda sua ri­queza se mostrando diante deles, ainda estavam com saudades dos "velhos bons tempos" da escravidão no Egito.

Enquanto lia o Antigo Testamento, às vezes ficava imagi­nando como Richard teria se saído na pele de um israelita do passado. Ele havia dito: "Se tão-somente Deus me desse um sinal, então eu creria." Mas não funcionou assim nas depri­mentes planícies do Sinai. Deus forneceu sinais em abundância aos israelitas, e a fé deles simplesmente se tornou preguiçosa — não mais tinham de crer.

Esses resultados desanimadores podem dar oportunidade a uma percepção mais profunda de por que Deus não intervém de modo mais direto hoje em dia. Alguns cristãos anseiam por um mundo bem abastecido de milagres e sinais espetaculares da presença de Deus. Ouço sermões pungentes sobre a divisão das águas do mar Vermelho, as dez pragas e sobre o maná diá­rio no deserto, como se os pregadores ansiassem que Deus sol­tasse seu poder daquele modo nos dias de hoje. Mas a viagem dos israelitas, em que estes tinham um roteiro já pré-estabelecido, deve nos levar a fazer uma pausa. Será que uma erupção de milagres sustentaria a fé? Provavelmente não; pelo menos não sustentaria o tipo de fé em que Deus parece estar interessa­do. Os israelitas são uma grande demonstração de que os si­nais só conseguem nos tornar viciados em sinais, não em Deus.

É verdade que os israelitas eram um povo primitivo que saía da escravidão. Mas os relatos bíblicos estabelecem uma relação perturbadoramente familiar entre nós e eles.

Concluí meu estudo dos israelitas ao mesmo tempo sur­preso e confuso: surpreso por descobrir que a vida das pesso­as muda muito pouco, mesmo quando são removidas as três principais razões para o desapontamento com Deus — injusti­ça, silêncio e ocultamento; confuso pelas perguntas suscitadas diante das ações de Deus no planeta Terra. Ele mudou? Bateu em retirada? Foi embora?

Quando Richard estava sentado na minha sala de estar, contando para mim a sua história, naquele primeiro encontro, levantou repentinamente os olhos e exclamou com voz enérgi­ca: "Deus não sabe o inferno que ele está fazendo com este mundo!" O que Deus está fazendo? Qual é o objetivo da expe­rimentação humana? O que ele deseja de nós, afinal? E o que podemos esperar dele?

 

             Sem de alguma forma me destruir nesse processo,

             como Deus poderia se revelar de uma maneira que

             não deixasse margem para dúvidas? Se não houvesse

             lugar para dúvidas, não haveria lugar para mim.

             Frederick Buechner

 

* Referências bíblicas: Deuteronômio 9, 7, 28; Roma­nos 3; Gálatas 3; Êxodo 28, 40; Deuteronômio 1-2; Êxodo 19-20, 32-33; Deuteronômio 1.

 

                     A Fonte

O QUE É que Deus está fazendo neste mundo? Por duas semanas me enfiei num chalé no Estado do Colorado pa­ra ponderar acerca das três perguntas de Richard, à luz do que havia visto no Antigo Testamento. Trouxe comigo uma mala cheia de livros para estudar, mas, durante todo o tempo ali, abri somente uma Bíblia.

Comecei por Gênesis no final da primeira tarde, um dia de forte nevada. Era um ambiente perfeito para ler o relato da criação. As nuvens se abriram e pude assistir a um espeta­cular pôr-do-sol, com o crepúsculo se refletindo no cume das montanhas e flocos de neve caindo desses picos como se fossem algodão-doce cor-de-rosa. À noite, o tempo se fechou de no­vo, e a neve caiu com violência.

Lentamente, li a Bíblia direto, de capa a capa. Quando cheguei a Deuteronômio, a neve cobria o degrau inferior da escada; quando alcancei os Profetas, ela alcançara a caixa de correspondência; e, por fim, quando atingi o Apocalipse, tive de chamar um limpa-neve para desobstruir a saída da garagem. Mais de um metro e oitenta centímetros de neve branquíssima caiu durante as duas semanas que passei num sótão lendo a Bíblia e olhando pela janela para as sempre-vivas vestidas de branco.

Causou-me grande impacto o fato de que as impressões comuns que temos de Deus podem ser bem diferentes do Deus que a Bíblia de fato retrata. Como ele realmente é? Na igreja e numa faculdade cristã aprendi a pensar em Deus como um espírito imutável e invisível, que possuía qualidades tais como onipotência, onisciência e impassibilidade (incapacidade de emoções). Essas doutrinas, que teriam o objetivo de nos aju­dar a compreender o ponto de vista de Deus, podem ser encon­tradas na Bíblia, mas estão bem escondidas.

Lendo a Bíblia simplesmente, encontrei não uma névoa esfumaçada mas uma Pessoa de verdade. Uma Pessoa tão sin­gular e única e cheia de vida como qualquer outra pessoa que conheço. Deus tem emoções profundas; ele sente prazer, frus­tração e ira. Nos Profetas, ele chora e geme de dor. Em Isaías, ele se compara a uma mulher dando à luz: "Darei gritos como a que está de parto, e ao mesmo tempo ofegarei e esta­rei esbaforido." Vez após vez Deus fica chocado com o com­portamento de seres humanos. Quando os israelitas praticam o sacrifício de crianças, ele parece atordoado por ações que — é um Deus onisciente que está falando aqui — ''nunca lhes ordenei, nem falei, nem me passou pela mente". Ele explica a necessidade de punir ao indagar com lamento: "De que ou­tra maneira procederia eu?" Às vezes, após tomar uma deci­são, ele "muda de idéia". Sei que a palavra "antropomorfismo" tem a finalidade de explicar todas essas características próprias do ser humano. Mas, com certeza, as imagens que Deus "toma emprestado" da experiência humana apontam pa­ra uma realidade ainda mais forte.

Enquanto eu lia a Bíblia de ponta a ponta em meu refú­gio de inverno, eu me maravilhava com o quanto Deus permi­te que seres humanos o afetem. Eu estava despreparado para a alegria e angústia — a paixão — do Deus do Universo. Ao estudar "sobre Deus, ao domesticá-lo e reduzi-lo a palavras e idéias que se podem classificar em ordem alfabética, eu tinha perdido a força do relacionamento intenso que Deus busca aci­ma de tudo mais. Aqueles que se relacionaram melhor com Deus — Abraão, Moisés, Davi, Isaías, Jeremias — trataram-no com intimidade chocante. Conversaram com Deus como se ele estivesse sentado numa cadeira ao lado deles, assim como alguém conversaria com um conselheiro, um chefe, um pai ou um amante. Trataram-no como a uma pessoa.

Aquela viagem ao Colorado pôs minhas três perguntas sobre a desilusão com Deus sob uma nova luz. Elas não são quebra-cabeças à espera de uma solução, tal como você encon­traria no campo da matemática ou da programação de compu­tadores, ou mesmo da filosofia. Em vez disso, são problemas de relacionamento entre nós, seres humanos, e um Deus que deseja desesperadamente amar e ser amado por nós.

Vi pouquíssimas pessoas durante meu retiro de duas sema­nas. A maior parte do tempo fiquei aninhado no chalé, atrás do muro de neve, lendo. Talvez tenha sido esse estar só, esse isolamento, que me ajudou a ver que eu sempre tomava ape­nas um ponto de vista: o ponto de vista humano. Possuo pra­teleiras cheias de livros que apresentam o dilema do ser huma­no. Uns são engraçados, alguns angustiados, outros sarcásti­cos, e outros densamente filosóficos, mas todos expressam o mesmo ponto de vista básico: "É assim que é o ser humano." De modo análogo, pessoas decepcionadas com Deus concen­tram a atenção no ponto de vista humano. Quando fazemos nossas perguntas — Por que Deus é injusto? Por que está cala­do? Escondido? — na realidade estamos indagando: Por que Deus é injusto comigo? Por que parece calado comigo? E es­condido de mim?

Tentei pôr de lado minhas indagações existenciais, mi­nhas decepções pessoais, e, em lugar disso, considerar o pon­to de vista de Deus. Por que, em primeiro lugar, Ele parece querer ter contato com seres humanos? O que está procuran­do em nós, e o que impede ou dificulta essa procura? Retor­nei para a Bíblia, tentando ouvir as palavras de Deus como se fosse pela primeira vez. Lá ele fala por si mesmo, e perce­bi que freqüentemente eu não tinha prestado atenção. Eu ti­nha estado preocupado demais com meus sentimentos para po­der ouvir atentamente os sentimentos dele.

 

Saí do Colorado com uma imagem mental de Deus bem diferente. Após duas semanas estudando a Bíblia, tive uma forte sensação de que Deus não faz tanta questão de ser anali­sado. Ele deseja, principalmente, ser amado. Quase todas as páginas de sua Palavra sussurram essa mensagem. E voltei para casa sabendo que de alguma forma devia investigar esse rela­cionamento entre um Deus de amor ardente, que anseia o amor de seu povo, e as próprias pessoas, pois parecia que foi o rompimento daquele relacionamento que conduzia a todos os sentimentos de desapontamento com Deus. Assim sendo, decidi procurar a resposta para uma pergunta que jamais ha­via considerado: "Como é que é ser Deus?"

 

* Referências bíblicas: Isaías 42; Jeremias 19, 9.

 

                                             Estabelecendo Contato: O Pai

 

                   Negócio Arriscado

PARA COMPREENDER como é que é ser Deus, só há um lugar para começar: o instante da criação. Com fre­qüência, Gênesis 1 é lido como um prelúdio, pois nossas men­tes se apressam para a ruptura decisiva do capítulo 3 ou para a discussão contemporânea a respeito dos processos utilizados na criação. Mas Gênesis 1 nada diz acerca dos processos ou da tragédia que seguiu. Traça o esboço mais simples de nosso mundo — Sol e estrelas, oceanos e plantas, peixes e animais, homem e mulher — junto com o próprio comentário de Deus sobre cada nova obra.

"E viu Deus que isso era bom" — cinco vezes a nota res­soa cadenciadamente como num tambor. E, terminada a cria­ção, "viu Deus tudo quanto fizera, e eis que era muito bom". Outros trechos da Bíblia recordam o ocorrido com mais entu­siasmo. "As estrelas da alva juntas alegremente cantavam, e rejubilavam todos os filhos de Deus", relatou orgulhosamen­te Deus a Jó. Provérbios vai mais além: "Eu estava com ele e era seu arquiteto, dia após dia era as suas delícias, folgando peran­te ele em todo o tempo; regozijando-me no seu mundo habitável, e achando as minhas delícias com os filhos dos homens."

A Criação foi sentida por Deus — desde aquele momen­to inicial. Todo artista tem carregado uma imagem daquela sensação criativa, uma vibração solidária que reverbera em sua obra: um artesão que examina seu trabalho acabado e con­clui: "Muito bom"; um ator que não consegue evitar um lar­go sorriso quando o público se põe em pé e aplaude; até mes­mo uma criança que molda um castelo de areia.

O antropólogo e ensaísta Loren Eiseley conta como expe­rimentou o prazer da criação original. Já em idade avançada, caminhando por uma praia deserta, encontrou abrigo sob a proa de um barco em destroços, debaixo de uma neblina úmi­da, e imediatamente dormiu. Quando abriu os olhos, estava olhando para as orelhinhas delicadas e a face inquiridora de uma raposinha, tão novinha que não tinha aprendido a ter medo. Ali, à sombra do barco, o renomado naturalista e o fi­lhote de raposa se miraram um ao outro. E então a pequeni­na raposa, com um sorriso amplo e brincalhão, escolheu, nu­ma pilha, um osso de galinha e o sacudiu nos dentes. Impulsi­vamente Eiseley se inclinou e apanhou a outra ponta do osso, e teve início a brincadeira.

Diz Loren Eiseley: "Tem-se dito repetidas vezes que, por mais que se queira, é impossível chegar a estar na dianteira do universo. O homem está destinado a ver somente o lado mais distante, a perceber a natureza somente quando em retira­da. Contudo, ali estava algo no meio dos ossos, a raposa ino­cente e de olhos grandes me convidando para brincar. De algu­ma forma fantástica o universo estava fazendo-se girar para mostrar a sua face, e a face era tão pequena que o próprio universo estava rindo. Não era hora de preocupar-se com dig­nidade humana."

"Por um breve momento eu mantive o universo afasta­do mediante o simples expediente de sentar de cócoras à entra­da da toca de uma raposa e de ficar sacudindo de um lado pa­ra outro um osso de galinha." Foi o "ato mais significativo e solene que jamais realizarei", concluiu mais tarde, pois havia apanhado um lampejo do universo quando ele tem início pa­ra todas as coisas. "Na verdade, esse era o universo de crian­ça, um universo minúsculo e risonho."

Apesar do terrível vazio de nosso universo, apesar da dor que o domina, algo persiste, como o aroma de um antigo per­fume, desde aquele momento de princípios, em Gênesis 1. Eu também tenho tido essa experiência. Na primeira vez, eu tinha dobrado uma curva e vi o vale de Yosemite se descortinar dian­te de mim, com suas quedas d'água como um véu de noiva se derramando sobre o granito recoberto de neve. Numa peque­na península de Ontário, no Canadá, vi cinco milhões de bor­boletas reais migratórias pararem para descansar, com suas asas como de papel adornando cada árvore com uma cor alaranjada, reluzente, translúcida. No zoológico das crianças, no Lincoln Park, em Chicago, cada animal que nasce — gorila, girafa ou hipopótamo — começa a vida de modo travesso e com exuberância.

Eiseley está certo; no coração do universo há um sorriso, uma pulsação de prazer transmitida desde o instante da cria­ção. Todo novo pai que, pela primeira vez, carrega um nenezinho, meu nenezinho, trazendo-o bem junto à sua pele, sabe o que é isso. E foi esse o sentimento que Deus teve quando exa­minou o que havia feito e declarou que era bom. No início, bem no início, não houve qualquer desapontamento. Somente alegria.

Adão e Eva

Gênesis 1, todavia, não nos conta toda a história da cria­ção. Para entender o que segue, você tem de criar algo para você mesmo.

Cada criador, desde uma criança com um lápis de cor até Michelângelo, aprende que a criação envolve uma espécie de autolimitação. Sim, você produz algo que não existia antes, mas somente às custas de eliminar outras opções ao longo do caminho. Desenhe a tromba encurvada na frente do elefante; agora ela não pode ser colocada atrás ou no lado. Apanhe um lápis comum e comece a desenhar; agora você está-se limi­tando a preto e branco, não a cores.

Nenhum artista, por maior que seja, escapa dessa limita­ção. Michelângelo sabia que técnica nenhuma daria ao teto da Capela Sistina a realidade tridimensional que havia alcança­do com suas esculturas. Quando decidiu usar tinta e pincel, li­mitou-se a si mesmo.

Quando Deus criou, inventou os meios e as substâncias à medida que prosseguia, fazendo existir aquilo que só tivera existência em sua imaginação. E junto com cada livre escolha que realizou, veio uma limitação. (Os estudiosos hassiditas pos­suem uma palavra maravilhosa para a autolimitação de Deus: zimsum.) Deus escolheu um mundo de tempo e espaço, um "meio" com restrições peculiares: primeiro acontece A, então acontece B, e então C. Deus, que enxerga o futuro, o passa­do e o presente, tudo de uma vez, escolheu o tempo seqüen­cial assim como um artista escolhe uma tela e uma paleta, e sua escolha impôs limites, com os quais desde então temos vivido.

"Disse também Deus: Povoem-se as águas de enxames de seres viventes." Por trás dessa sentença jaziam mil decisões: peixes com guelras em vez de pulmões, escamas em vez de pêlo, nadadeiras em vez de patas, sangue em vez de seiva. Em cada etapa Deus, o Criador, fez escolhas, eliminando alternativas.

Gênesis fala do conjunto final de escolhas feitas por Deus, então faz uma pausa, dá marcha-à-ré, e reconta a histó­ria com mais detalhes. No sexto dia da criação o homem e a mulher vieram à existência, duas criaturas diferentes de todas as demais. Deus as projetou à sua própria imagem: Ele queria reconhecer algo de si nelas. Eram como um espelho, refletin­do a própria semelhança de Deus.

Porém Adão e Eva possuíam também um outro aspecto distintivo: ao contrário de todas as outras criaturas de Deus, possuíam uma capacidade moral de se rebelar contra seu cria­dor. As esculturas podiam cuspir no escultor; as personagens da peça podiam reescrever o texto à medida que representas­sem. Eram, numa palavra, livres.

"O homem é o risco de Deus", disse um teólogo. Um ou­tro, Sören Kierkegaard, expressou-o da seguinte maneira: "Deus tem, por assim dizer, se aprisionado a si mesmo em sua resolução." Quase tudo que os teólogos dizem acerca da liber­dade humana soa um tanto quanto certo e um tanto quanto errado. Como um Deus soberano pode correr riscos ou se apri­sionar a si mesmo? No entanto, a criação do homem e da mu­lher, por Deus, se aproximou desse tipo surpreendente de auto­limitação.

Considere esta descrição fantasiosa da criação, feita por William Irwin Thompson:

 

Imagine Deus no céu, cercado pelos coros de anjos que o adoram, cantando hosanas interminavelmente...

"Se eu criar um mundo perfeito, sei qual será o resulta­do. Em sua absoluta perfeição, funcionará como uma máquina perfeita, jamais se desviando de minha vontade absoluta." Uma vez que a imaginação de Deus é perfeita, para ele não há qualquer necessidade de criar tal univer­so: para ele é suficiente imaginá-lo para poder vê-lo em todos os seus detalhes. Tal universo não seria muito inte­ressante quer para o homem quer para Deus, por isso po­demos presumir que a Divindade prosseguiu em suas me­ditações. "Mas que aconteceria se eu criasse um universo que é livre, livre até mesmo de mim? O que aconteceria se eu escondesse minha Divindade de maneira que as cria­turas fossem livres para cuidarem de suas próprias vidas, sem ficarem amedrontadas por minha Presença onipoten­te? As criaturas irão me amar? Posso ser amado por cria­turas que não programei para me adorarem eternamente? Será que da liberdade pode surgir o amor? Meus anjos me amam incessantemente, mas eles podem me ver a to­do tempo. Que acontecerá se eu criar seres à minha pró­pria imagem como um Criador, seres que sejam livres? Mas, se eu introduzir liberdade nesse universo, corro o ris­co de também introduzir o Mal, pois se forem livres, en­tão serão livres para se desviar de minha vontade. Bem... Mas o que acontecerá se eu continuar a interagir com es­se universo dinâmico, o que acontecerá se eu e as criatu­ras juntos nos tornarmos os criadores de uma grande pe­ça cósmica? O que acontecerá se, de cada ocasião de ma­nifestação do mal, eu reagir com um bem inimaginável, um bem que supera totalmente o mal ao se manifestar ines­peradamente a partir das próprias tentativas do mal de negar o Bem? Essas novas criaturas de liberdade irão en­tão me amar, unir-se-ão a mim para criar o Bem a partir do Mal, algo novo a partir da liberdade? O que acontece­rá se eu me unir a elas no mundo de limitação e forma, o mundo de sofrimento e mal? Ah... num universo verda­deiramente livre, nem eu mesmo sei como isso acabará. Será que eu mesmo tenho coragem de assumir esse risco em nome do amor?"

 

Por que Adão e Eva iam querer se rebelar? Viviam num jardim-paraíso, e, caso tivessem alguma queixa, podiam con­versar abertamente a respeito com Deus, da mesma forma co­mo fariam com um amigo. Mas havia aquela única árvore proi­bida, aquela com o nome tentador, a "árvore do conhecimento do bem e do mal". Aparentemente Deus estava esconden­do algo deles. Que segredo existia por detrás daquele nome? E como chegariam a saber se não experimentassem? Adão e Eva fizeram a sua própria escolha "criativa": comeram a fru­ta, e a terra nunca mais foi a mesma.

Gênesis 3 mostra exatamente o que Deus sentiu quando Adão e Eva desobedeceram: tristeza devido ao relacionamen­to rompido; ira em face da negação deles; e uma grande apre­ensão. "O homem se tornou como um de nós, conhecedor do bem e do mal; assim, para que não estenda a mão, e tome tam­bém da árvore da vida, e coma, e viva eternamente..."

A criação, que em alguns aspectos tem a aparência de li­berdade absoluta, envolve limitação. E tal como Adão e Eva logo aprenderam, a rebelião, que também tem a aparência de liberdade, também envolve limitação. Através de sua escolha distanciaram-se de Deus. Anteriormente haviam andado e con­versado com Deus. Agora, quando ouviram-no aproximar-se, esconderam-se entre os arbustos. Uma separação desajeitada se introduzira e minara a intimidade. E cada tremor de desa­pontamento e decepção em nosso relacionamento com Deus é um abalo conseqüente do ato primeiro de rebelião dos dois.

 

               Talvez não percebamos o problema de, descrevamo-lo

               assim, permitir que seres dotados de livre-arbítrio finito

               coexistam com a Onipotência. Parece implicar a cada

               momento quase numa espécie de "abdicação divina".

  1. S. Lewis

 

* Referências bíblicas: Jó 38; Provérbios 8; Gênesis 1-3.

 

                     O Genitor

APÓS VOLTAR do Colorado, li Gênesis repetidas vezes, vasculhando o livro dos princípios em busca de alguma pista daquilo que Deus tinha em mente para este mundo. Mes­mo após aquela primeira e marcante rebelião contra ele, Deus não rejeitou a sua criação. Gênesis conta histórias surpreenden­tes acerca de seus contínuos encontros pessoais com a humanidade. Se eu tivesse de resumir o "enredo" de Gênesis a uma única sentença, seria algo mais ou menos assim: Deus apren­de a ser um pai.* O rompimento no Éden havia mudado o mundo para sempre, destruindo a intimidade que Adão e Eva haviam sentido com Deus. Numa espécie de pré-aquecimento para a história, Deus e seres humanos tinham de se acostumarem um ao outro. Os humanos determinaram o ritmo ao quebrarem todas as regras, e Deus reagiu com punições individuais. Co­mo é que era ser Deus? Bem, como é que é ser o pai de alguém com dois anos de idade?

Ninguém podia acusar Deus de ser muito cauteloso em in­tervir no princípio. Ele parecia um genitor sempre ao lado, quase mesmo cercando com os braços. Quando Adão pecou, Deus pessoalmente se encontrou com ele, explicando que to­da a criação teria de se adaptar à escolha que ele, Adão, havia feito. Apenas uma única geração depois, um novo tipo de ter­ror — o assassinato — apareceu na terra. "Que fizeste?" Deus cobrou de Caim. "A voz do sangue de teu irmão clama da terra a mim." Uma vez mais Deus foi ao encontro do trans­gressor e estabeleceu uma punição sob medida.

A condição da terra e, aliás, de toda a raça humana con­tinuou a deteriorar até chegar a um ponto de crise, a qual a Bíblia resume naquela que é talvez a sentença mais pungente jamais escrita: "Então se arrependeu o Senhor de ter feito o homem na terra, e isso lhe pesou no coração." Por trás dessa única sentença se encontra todo o desconsolo e pesar que Deus sentiu como genitor.

Que genitor humano não tem experimentado pelo menos uma pontada de tal remorso? Um filho adolescente se arran­ca de casa num ímpeto de rebelião. "Odeio você!" grita ele, à cata de palavras que provocarão a maior dor. Ele parece de­cidido a empurrar a faca na barriga de seus pais. Essa rejeição é o que Deus experimentou não apenas de um único filho, mas de toda a raça humana. Como conseqüência, o que Deus havia criado, Deus destruiu. Toda a alegria de Gênesis 1 se desfez sob as agitadas águas do dilúvio.

Houve, porém, então, Noé, aquele homem de fé que "an­dava com Deus". Depois do remorso expresso em Gênesis de 3 até 7, você quase consegue ouvir Deus suspirar de alívio quan­do Noé, na primeira coisa que faz de volta em terra firme, ado­ra o Deus que o salvou. Finalmente alguém sobre quem edificar. (Anos depois, numa mensagem a Ezequiel, Deus mencio­naria Noé como um de seus três seguidores mais justos.) Com o planeta inteiro recém-desencardido e com a vida novamente brotando, Deus concordou com uma aliança ou contraio que o prendia não somente a Noé, mas a cada criatura viva. Na aliança, havia uma promessa: Deus jamais tornaria a destruir toda a criação.

Você poderia encarar a aliança com Noé como o míni­mo irredutível num relacionamento: uma parte concorda em não destruir a outra. E, todavia, mesmo naquela promessa Deus se limitou a si mesmo. Ele, o inimigo mortal de todo o mal no universo, prometeu suportar a maldade neste planeta por algum tempo — ou melhor, solucioná-la através de al­gum meio que não fosse a aniquilação. À semelhança do geni­tor de um adolescente fugitivo, ele se obrigou ao papel de "Pai à Espera" (tal como a história do Filho Pródigo, contada por Jesus, expressa tão eloqüentemente). Entretanto, antes que se passasse muito tempo, uma outra rebelião em massa, num lo­cal chamado Babel, testou a resolução de Deus. Mas ele mante­ve a palavra: hoje em dia seis mil diferentes idiomas dão teste­munho da alternativa criativa que Deus tomou em vez da ani­quilação.

Na história primitiva, então, Deus agiu de modo tão cla­ro que ninguém podia se queixar de ele estar escondido ou ca­lado. Assim mesmo, aquelas primeiras intervenções revelaram um importante aspecto: cada uma era uma punição, uma res­posta à rebelião humana. Se era intenção de Deus ter um rela­cionamento maduro com seres humanos livres, certamente so­freu uma série de duros contratempos. Como ele poderia rela­cionar-se com sua criação como adulta, se eles continuavam se comportando como crianças?

 

             O Plano

Gênesis 12 assinala uma mudança importante. Pela pri­meira vez desde os dias de Adão, Deus interveio não para pu­nir, mas para pôr em ação um novo plano para a história humana.

Não havia qualquer mistério quanto ao que tinha em men­te. Disse sem rodeios a Abraão: "De ti farei uma grande na­ção, e te abençoarei, e te engrandecerei o nome.... Em ti serão benditas todas as famílias da terra." Em alguma forma o pla­no aparece em Gênesis 13, 15, 16 e 17, bem como em dezenas de outras passagens do Antigo Testamento. Em vez de tentar restabelecer a condição original da terra de uma só vez, Deus começaria estabelecendo uma colônia pioneira, uma nova ra­ça separada de todas as demais. Deslumbrado pelas promessas de Deus, Abraão deixou seu lar e migrou centenas de quilôme­tros até chegar à terra de Canaã.

Entretanto, apesar da honra tributada a ele como o pai dessa nova raça, Abraão se destaca como o primeiro exemplo na Bíblia de alguém profundamente frustrado com Deus. Mila­gres, ele os teve. Abraão hospedou anjos em sua casa e teve visões místicas de fogareiros fumegantes. Mas existia um pro­blema perturbador: depois da promessa, depois do fulgor da revelação, veio o silêncio — longos anos de um silêncio que causava perplexidade.

"Vai para a terra que te mostrarei", Deus disse. Mas Abraão encontrou Canaã seca como um deserto, seus morado­res morrendo de fome. Para continuar vivo, fugiu para o Egito.

"Olha para os céus e conta as estrelas, se é que o podes... Será assim a tua posteridade", Deus disse. Nenhuma promes­sa poderia ter deixado Abraão mais feliz. Aos setenta e cinco anos de idade, ainda vislumbrava uma tenda tomada pelos sons de crianças brincando. Aos oitenta e cinco, pôs em ação um plano de emergência com uma serva. Aos noventa e nove, a promessa parecia totalmente ridícula, e, quando Deus apare­ceu para confirmá-la, Abraão riu na sua cara. Pai aos noven­ta e nove? Sara em roupas de gravidez aos noventa? Ambos deram gargalhadas só de pensarem.

Um riso de zombaria e também de dor. Deus havia atiçado num casal estéril o maravilhoso sonho de fertilidade, e en­tão se afastou e observou enquanto eles avançavam na fragili­dade da velhice. Que tipo de brincadeira era essa? O que é que ele queria?

Deus queria fé, diz a Bíblia, e essa é a lição que Abraão finalmente aprendeu. Ele aprendeu a crer quando não sobra­va qualquer motivo para crer. E, embora não tivesse vivido para ver os hebreus encherem a terra assim como as estrelas enchem os céus, Abraão viveu para ver Sara dar à luz uma criança — apenas uma — um menino, que para sempre preser­vou a memória da fé absurda, pois o seu nome, Isaque, signi­fica "riso".

 

E esse padrão continuou: Isaque casou-se com uma mu­lher estéril, como também o filho deste, Jacó. As respeitáveis matriarcas da aliança — Sara, Rebeca e Raquel — todas passaram os anos da juventude delgadas e desesperadas. Elas tam­bém experimentaram o fulgor da revelação, seguida por perío­dos sombrios e solitários de espera, os quais nada além da fé poderia preencher.

Um apostador diria que Deus fez a sorte ir contra si mes­mo. Um cínico diria que Deus zombou das criaturas que se es­perava que ele amasse. A Bíblia simplesmente emprega a fra­se cifrada "pela fé" para descrever o que experimentaram. De algum modo, aquela "fé" era o que Deus valorizava, e lo­go ficou claro que a fé era o melhor meio de os humanos ex­pressarem amor para com Deus.

 

             José

Se você ler Gênesis de uma sentada, não deixará de obser­var uma mudança na maneira como Deus se relacionava com seu povo. De início, ele ficava bem próximo, caminhando no jardim junto com eles, punindo seus pecados individuais, falan­do diretamente com eles, intervindo constantemente. Mesmo nos dias de Abraão, ele enviou mensageiros extraterrestres a domicílio. Na época de Jacó, entretanto, as mensagens eram bem mais ambíguas: um misterioso sonho com uma escada, uma luta disputada tarde da noite. E já perto do final de Gêne­sis um homem chamado José recebeu orientação de formas bem inesperadas.

Gênesis diminui a velocidade quando chega a José, e mos­tra Deus operando na maioria das vezes por trás dos bastido­res. Deus falou a José não através de anjos, como fizera na época de Abraão, mas através de meios tais como os sonhos de um tirano faraó egípcio.

Se alguém teve um motivo válido para ficar decepciona­do com Deus, esse alguém foi José. Suas corajosas investidas, querendo fazer o bem, nada lhe proporcionaram senão proble­mas. Interpretou um sonho para seus irmãos, e estes jogaram-no numa cisterna. Resistiu a um convite sexual e foi parar nu­ma prisão egípcia. Interpretou um outro sonho para salvar a vida de um companheiro de cela, e o companheiro de cela ime­diatamente o esqueceu. Fico imaginando se, enquanto José apodrecia num calabouço egípcio, não ocorreram à sua mente perguntas como a de Richard — Deus é injusto? Está calado? Escondido?

Mas, por um instante, volte-se para a perspectiva de Deus, o genitor. Foi de propósito que ele "se retraiu" para permitir que a fé de José chegasse a um novo nível de maturi­dade? E poderia ser por isso que Gênesis dedica mais espaço a José do que a qualquer outra pessoa? Em meio a todas as suas tribulações, José aprendeu a confiar: não em que Deus impediria as dificuldades, mas em que ele compensaria até mesmo as dificuldades. Reprimindo as lágrimas, José tentou explicar sua fé a seus irmãos assassinos: "Vós, na verdade, intentastes o mal contra mim; porém Deus o tornou em bem...."

 

A idéia central de grande parte do Antigo Testamento pode ser chamada de a idéia da solidão de Deus.

  1. K. Chesterton

 

* Referências bíblicas: Gênesis 1-11; Hebreus 5; Eze-quiel 14; Gênesis 12-21, 25, 30; Hebreus 11; Gênesis 37, 39-41, 45.

 

                   A Plena Força da Luz do Sol

GÊNESIS CONCLUI com uma única família, suficiente­mente pequena para que a Bíblia apresente o nome de to­dos os seus filhos. Toda a família estabeleceu-se confortavelmente no refúgio do Egito. O livro seguinte, Êxodo, abre com uma multidão de israelitas labutando como escravos sob um faraó hostil. Em parte alguma da Bíblia você encontrará um relato do que aconteceu durante os quatrocentos anos entre um livro e outro.

Tenho ouvido muitos sermões sobre a vida de José, e muitos mais sobre Moisés e o milagre do Êxodo. Mas jamais ouvi um sermão sobre o intervalo de quatrocentos anos entre Gênesis e Êxodo. (Será que alguns de nossos sentimentos de frustração e desapontamento têm raízes num hábito de passar por cima dos períodos de silêncio, preferindo os relatos bíbli­cos de vitória?) Temos a tendência de nos apressar até os rela­tos estimulantes da libertação da escravidão. Mas pense bem: durante quatro séculos os céus estiveram calados. Com toda certeza os escravos hebreus no Egito sentiram uma profunda decepção com Deus.

Você é um hebreu, um descendente de Abraão. Vo­cê cresceu ouvindo a respeito das maravilhosas promessas que Deus fez àquele grande homem. "Algum dia sua ra­ça se tornará uma nação poderosa e viverá em paz em sua própria terra" — Deus em pessoa fez esse juramento, pri­meiro a Abraão, e então a Isaque e Jacó. Quando crian­ça você memorizou obedientemente essas promessas. Mas agora elas parecem contos de fada. Uma nação indepen­dente? Você e seus vizinhos servem ao mais poderoso império sobre a face da terra; diariamente você sofre os in­sultos e sente os chicotes dos feitores egípcios. Seu pró­prio irmão recém-nascido foi morto pelos soldados do faraó.

Quanto à maravilhosa terra prometida, ela jaz em algum lugar ao oriente, dividida e sob o domínio de uma dúzia de reis diferentes.

 

Quatrocentos anos de silêncio. Até Moisés. E então tudo o que um questionador como meu amigo Richard poderia ter desejado aconteceu. Primeiro, Deus apareceu a Moisés num arbusto em chamas, e se apresentou, dizendo o próprio nome. Disse audivelmente: "Meu povo já sofreu o suficiente. Agora você verá o que farei." Em seguida, ele os libertou com a mais impressionante manifestação de poder divino a que o mundo já assistiu. Dez vezes interveio de uma forma tão gran­diosa que nem uma só pessoa no Egito podia duvidar da exis­tência do Deus dos hebreus. Bilhões de sapos, mosquitos, moscas, pedras de gelo em forma de granizo, e gafanhotos fornece­ram prova empírica a favor do Senhor de toda a criação.

Durante os quarenta anos seguintes, os anos da peregrina­ção no deserto, Deus conduziu seu povo, "como um, pai con­duz seu filho". Ele alimentou os israelitas, vestiu-os, planejou seu itinerário de cada dia, e lutou por eles.

 

Deus é injusto? Está calado? Escondido? Tais questões devem ter perturbado os hebreus até que, nos dias de Moisés, Deus se manifestou. Puniu o mal e recompensou o bem. Falou audivelmente. E se fez visível, primeiro a Moisés num arbus­to em chamas e então aos israelitas numa coluna de nuvem e fogo.

A reação, porém, dos israelitas diante de tal intervenção direta proporciona uma importante perspectiva sobre os limites inerentes a todo poder. O poder pode fazer qualquer coisa, menos a mais importante: não consegue controlar o amor. As dez pragas do Êxodo mostram o poder de Deus a ponto de forçar um faraó a ficar de joelhos. Mas as dez principais rebe­liões registradas em Números mostram a impotência do poder em ocasionar aquilo que Deus mais desejava, o amor e a fide­lidade de seu povo. Nenhuma manifestação pirotécnica de oni­potência conseguiria fazê-los confiar em Deus e segui-lo.

Não necessitamos que os antigos israelitas nos ensinem esse fato. Podemos vê-lo hoje em dia em sociedades em que o poder se manifesta de forma selvagem. Num campo de con­centração, os guardas possuem um poder quase ilimitado, é o depoimento de um número muito grande de testemunhas. Ao aplicarem a força, conseguem fazer com que você renuncie a Deus, amaldiçoe sua família, trabalhe sem remuneração, co­ma excremento humano, mate e então enterre o seu amigo mais chegado ou até mesmo sua própria mãe. Tudo isso está ao alcance desses guardas. Só uma coisa não está: não conse­guem forçá-lo a amá-los.

O fato de que o amor não age de acordo com as regras do poder pode ajudar a explicar por que às vezes parece que Deus reluta em utilizar seu poder. Ele nos criou para amá-lo, mas suas mais impressionantes demonstrações de milagre — do tipo que talvez secretamente ansiemos — nada fazem para fomentar aquele amor. E, quando seu próprio amor é despre­zado, até mesmo o Senhor do Universo sente-se de alguma maneira desamparado, tal como um pai que perde aquilo que ele mais estima.

A Bíblia registra uma espécie de diário do pungente rela­cionamento de Deus com os israelitas:

Quanto ao teu nascimento, no dia em que nasceste não te foi cortado o umbigo, nem foste lavada com água para te limpar, nem esfregada com sal, nem envolta em faixas. Não se apiedou de ti olho algum, para te fazer al­guma destas cousas, compadecido de ti; antes foste lança­da em pleno campo, no dia em que nasceste, porque tive­ram nojo de ti.

Passando eu por junto de ti, vi-te a revolver-te no teu sangue, e te disse: Ainda que estás no teu sangue, vi­ve; sim, ainda que estás no teu sangue, vive. Eu te fiz multiplicar como o renovo do campo, cresceste e te engrandeceste e chegaste a grande formosura; formaram-se os teus seios e te cresceram cabelos; no entanto estavas nua e descoberta. Passando eu por junto de ti, vi-te, e eis que o teu tempo era tempo de amores; estendi sobre ti as abas do meu manto, e cobri a tua nudez; dei-te juramento, e entrei em aliança contigo, diz o Senhor Deus; e passaste a ser minha.

Então te lavei com água, e te enxuguei do teu san­gue e te ungi com óleo. Também te vesti de roupas borda­das, e te calcei com peles de animais marinhos, e te cingi de linho fino e te cobri de seda. Também te adornei com enfeites, e te pus braceletes nas mãos e colar à roda do teu pescoço. Coloquei-te um pendente no nariz, arrecadas nas orelhas, e linda coroa na cabeça.

 

O texto passa a relatar Deus observando sua querida filha Israel desprezar o amor que ele havia derramado sobre ela. Sua amada filha tornou-se adulta, vindo a ser uma rainha de grande beleza... e então uma prostituta. Ela fez amor com ído­los, e matou seus próprios filhos e filhas como sacrifícios a es­ses ídolos. Deus sentiu a angústia de um pai abandonado e, ao mesmo tempo, a ira de um amante rejeitado.

Deus, que vê tudo, conhecia o destino final dos israelitas mesmo antes de terem cruzado o rio para entrar na Terra Pro­metida: "Conheço os desígnios que hoje estão formulando, antes que o introduza na terra." Quando seu povo ajuntou-se ao lado do rio Jordão, empolgado com a perspectiva de mudança, Deus deu-lhes um vislumbre de como é que é ser Deus. Ele não partilhava do espírito de expectativa existente no acampamento, e visitou Moisés na Tenda do Encontro pa­ra explicar por quê.

Mais do que qualquer outra coisa, Deus ansiava que a aliança desse certo: "Quem dera que eles tivessem tal coração que me temessem, e guardassem em todo o tempo todos os meus mandamentos, para que bem lhes fosse a eles e a seus filhos para sempre!" Mas as muitas rebeliões no deserto não ficariam impunes. Deus predisse a terrível desobediência que viria e então previu sua própria reação: "Esconderei, pois, cer­tamente, o meu rosto naquele dia." Falou com resignação, co­mo o pai de um viciado em drogas, sem condições de impedir a autodestruição de seu próprio filho; como o marido de uma alcoólatra, a qual, aos prantos, promete "tomar jeito" no dia seguinte, uma promessa que ela já quebrou vezes demais para se mencionar.

Deus deu então a Moisés uma tarefa bem estranha. "Es­crevei para vós outros este cântico", disse, "e ensinai-o aos filhos de Israel; ponde-o na sua boca, para que este cântico me seja por testemunha contra os filhos de Israel." O cântico colocou em forma de música o ponto de vista de Deus: o la­mento de um pai entristecido a ponto de abandonar o filho. Assim, por ocasião do nascimento de sua nação, eufóricos por cruzarem o rio Jordão, os israelitas estrearam uma espécie de hino nacional — o mais estranho que já se cantou. Quase não possuía palavra alguma de esperança, apenas de condenação.

Primeiro cantaram acerca dos tempos propícios, quando Deus os encontrou num deserto uivante e os teve como a meni­na dos seus olhos. Cantaram acerca da terrível traição que vi­ria, quando esqueceriam o Deus que os havia dado à luz. Can­taram acerca das maldições que os afligiriam, a fome devoradora, a praga mortal, e flechas encharcadas de sangue. Com essa música doce-amarga ressoando em seus ouvidos, os israe­litas tomaram a Terra Prometida.

 

À semelhança de um cão sabujo numa pista, fiquei zigue-zagueando de volta às peregrinações dos israelitas no deserto, farejando em busca de indícios. O tabernáculo luminoso com a presença de Deus, a miraculosa comida matinal, a grande multidão de israelitas infelizes se arrastando pelas areias do deserto... Em algum ponto entre a radiante promessa e a de­primente futilidade daqueles quarenta anos jaz o mistério do desapontamento com Deus. O que houve de errado?

Tal como meu amigo Richard, eu freqüentemente tenho ansiado que Deus aja de forma direta, íntima. Se tão-somen­te ele se mostrasse! Mas nas tristes histórias do fracasso dos israelitas comecei a enxergar certas "desvantagens" de Deus agir tão diretamente. Um problema que encontraram de ime­diato foi a falta de liberdade pessoal. Para os israelitas viverem próximos de um Deus santo, nada — nem a vida sexual, nem a menstruação, nem a composição do tecido das roupas, nem os hábitos alimentares — poderia ficar fora do alcance de suas leis. Ser um "povo escolhido" tinha um preço. Assim como Deus achou quase impossível viver entre um povo pecaminoso, os israelitas acharam quase impossível viver com um Deus santo no meio deles.

Coisas menores pareciam aborrecer mais os israelitas — examine suas constantes queixas quanto à comida. Com umas poucas exceções, comeram a mesma coisa todos os dias duran­te quarenta anos: maná (que literalmente significa "O que é isso?"), que a cada manhã surgia sobre o chão como se fosse orvalho. Uma dieta monótona pode parecer um preço barato para a libertação da escravidão, mas ouça a murmuração: "Lembramo-nos dos peixes que no Egito comíamos de graça; dos pepinos, dos melões, dos alhos silvestres, das cebolas e dos alhos. Agora, porém, seca-se a nossa alma, e nenhuma cousa vemos senão este maná."

A par dessas questões materiais, surgiu um problema bem mais sério. Paradoxalmente, quanto mais Deus se aproxima­va de seu povo, mais distantes sentiam-se em relação a ele. Moisés estabeleceu um conjunto complexo de rituais, necessá­rios para se aproximar de Deus sem qualquer tolerância de er­ro. Os israelitas viam as provas da presença de Deus no Lugar Santíssimo, mas ninguém ousava entrar. Se você deseja saber qual o tipo de "relacionamento pessoal com Deus" que tinham os israelitas, ouça as palavras dos próprios adoradores: "É co­mo se já estivéssemos todos mortos." E em outra oportunida­de: "Não ficaremos mais aqui vendo este grande fogo e ouvin­do a voz do Senhor nosso Deus porque, se não, morreremos" (A Bíblia Viva).

 

Certa vez, num experimento, o grande cientista Isaac Newton ficou com os olhos fitos na imagem do Sol refletida num espelho. O brilho provocou queimadura na retina, e Newton sofreu cegueira temporária. Mesmo ficando três dias num am­biente com janelas fechadas, ainda assim o ponto brilhante não apagava de sua vista. "Empreguei todos os meios para afastar meu pensamento do sol", escreveu, "mas, se eu pen­sasse nele, imediatamente eu o via embora estivesse no escuro." Se tivesse fitado o Sol uns poucos minutos mais, Newton poderia ter perdido total e permanentemente a vista. As célu­las nervosas que comandam a visão não conseguem suportar a plena força da luz do Sol.

Há uma parábola no experimento de Isaac Newton, e ela ajuda a ilustrar o que os israelitas aprenderam com as peregri­nações pelo deserto. Haviam tentado viver com o Senhor do Universo visivelmente presente em seu meio; mas, no final, dentre todos os milhares que fugiram do Egito, somente dois sobreviveram à Presença de Deus. Se você mal consegue supor­tar a luz de vela, como conseguirá olhar para o Sol?

"Quem dentre nós habitará com o fogo devorador?" in­dagou o profeta Isaías. Será possível que, em vez de estarmos frustrados, deveremos estar gratos por Deus estar escondido?

 

* Referências bíblicas: Êxodo 1-12; Deuteronômio 1; Ezequiel 16; Deuteronômio 31, 5, 31-32; Números 11, 17; Deuteronômio 18; Isaías 33.

 

                   Um Instante de Resplendor

COM NOVE ANOS DE IDADE, Leo Tolstoy, con­vencido de que Deus o ajudaria a voar, mergulhou de ca­beça, de uma janela do terceiro andar, e teve então sua primei­ra grande crise de desapontamento com Deus. Felizmente, Tols­toy sobreviveu ao vôo desastrado e, anos mais tarde, pôde rir de seu infantil teste de fé.

Que criança não teve fantasia quanto a poderes sobrenatu­rais? Senhor, ajuda-me a atravessar este lago a pé. Ajuda-me a dar uma surra naquele brigão. Faze com que eu saiba tudo sem ter de estudar. E, se Deus chegasse a considerar aceitável atender algumas dessas orações, se à semelhança do gênio na garrafa ele atendesse qualquer pedido que fizéssemos, será que nós então não tentaríamos agradá-lo num gesto de gratidão? Em minhas horas sombrias de desapontamento, instintivamen­te penso desta forma: Se Deus me livrar desta situação... se as coisas se acalmarem... se eu ficar bom, então seguirei a Deus.

Richard acreditava que, como um filhotinho de cachorro, qualquer um seguiria um Deus que agisse justamente, falasse claramente e se revelasse visivelmente. As peregrinações que os israelitas fizeram no deserto comprovam que Richard estava errado. Mas, alguns poderão questionar, a fé dos israelitas oscilou numa terra inóspita, um lugar relembrado por Moisés como um "grande e terrível deserto de serpentes abrasadoras, de escorpiões, e de secura, em que não havia água". Quem não perderia o ânimo naquelas circunstâncias? Será que hou­ve tempos mais felizes, quando Deus pareceu mais próximo e atendeu os desejos de seu povo?

O tom do Antigo Testamento se eleva quando surge o no­me de Davi. "Então o Senhor despertou como de um sono, como um valente que grita excitado pelo vinho", diz o Salmo 78 acerca daqueles dias. Deus havia finalmente encontrado um homem segundo o seu próprio coração, o tipo de pessoa ao redor da qual podia construir uma nação. O robusto rei Davi quebrou todas as leis escritas, com exceção de uma: amou a Deus de todo o seu coração, de todo o seu entendimen­to e de toda a sua alma. Com Davi posto como rei sobre Isra­el, os sonhos da aliança voltaram com ímpeto redobrado.

E, quando o filho de Davi, Salomão, assumiu o trono, Deus empenhou todos os seus esforços. Aquilo com que as crianças apenas sonham, Salomão obteve. Deus ofereceu-lhe atender qualquer desejo — vida longa, riquezas, qualquer coi­sa mesmo — e, quando Salomão escolheu sabedoria, Deus acrescentou recompensas adicionais de riqueza, honra e paz. Governaria durante um período áureo, um resplendente mo­mento de tranqüilidade na longa e tormentosa história dos hebreus.

 

                 Salomão

Ascendeu ao trono de Israel ainda adolescente e logo se tornou a pessoa mais rica de seu tempo. A Bíblia diz que em Jerusalém a prata era tão comum quanto pedras. Uma frota de navios comerciais saía em busca de coisas exóticas para as coleções particulares do rei — macacos e babuínos da África, e marfim e ouro às toneladas. Salomão também possuía talen­to artístico: escreveu 1.005 canções e 3.000 provérbios.

Governantes viajavam centenas de quilômetros para testa­rem, eles mesmos, a sabedoria de Salomão e para verem a gran­de cidade que ele construíra. Um desses governantes, a rainha de Sabá, disse a Salomão:

Foi verdade a palavra que a teu respeito ouvi na mi­nha terra, e a respeito da tua sabedoria. Eu, contudo, não cria naquelas palavras, até que vim, e vi com os meus pró­prios olhos. Eis que não me contaram a metade: sobrepu­jas em sabedoria e prosperidade a fama que ouvi. Felizes os teus homens, felizes estes teus servos, que estão sempre diante de ti, e que ouvem a tua sabedoria! Bendito seja o Senhor teu Deus, que se agradou de ti para te colocar no trono de Israel.

 

Palavras marcantes de uma rainha que, como presente de despedida, deu a Salomão quatro toneladas e meia de ou­ro puro.

E o que Deus sentiu durante esses dias de felicidade? Alí­vio, satisfação, prazer — a Bíblia deixa tudo isso implícito. Os crônicos murmuradores de Israel tinham morrido todos, e Salomão empenhou-se bastante em fazer com que Deus se sen­tisse amado. Empregou generosamente a riqueza de seu reino num local para Deus habitar: um templo magnífico, construí­do por 200.000 homens, que se colocava como uma das mara­vilhas do mundo. À distância, reluzia como uma montanha coberta de neve.

A história do Antigo Testamento atingiu um ponto culmi­nante no dia em que Salomão dedicou aquele templo a Deus. Pense na cena de um filme em que se vê o mais ofuscante en­contro com um ser extraterrestre. Algo parecido aconteceu em Jerusalém, só que essa não foi uma ilusão provocada por equipes de efeitos especiais. Milhares de pessoas assistiam a uma imensa cerimônia pública. Quando a glória do Senhor desceu para encher o templo, até os sacerdotes foram forçados a recuar diante da força tremenda.

Deus estava fazendo do templo de Salomão o centro de sua atividade na terra, e a multidão decidiu espontaneamente ficar por mais duas semanas para celebrar. Ajoelhando-se nu­ma plataforma de bronze, Salomão orou em voz alta: "Na ver­dade edifiquei uma casa para tua morada, lugar para a tua eter­na habitação." Então ele se viu tomado de estupefação. "Mas, de fato habitaria Deus na terra? Eis que os céus, e até o céu dos céus, não te podem conter, quanto menos esta casa que eu edifiquei."

Mais tarde Deus respondeu: "Ouvi a tua oração, e a tua súplica que fizeste perante mim; santifiquei a casa... os meus olhos e o meu coração estarão ali todos os dias." Deus o cum­prira! Suas promessas a Abraão e a Moisés finalmente haviam se tornado verdade. Os israelitas agora possuíam terra, uma nação com fronteiras seguras, e um símbolo refulgente da pre­sença de Deus entre eles. Deus havia cumprido a sua parte na aliança. Nenhuma pessoa presente no famoso dia da dedicação do templo poderia duvidar da realidade de Deus; todos viram o fogo e a nuvem de sua presença. E tudo isso veio a ocorrer não num deserto inóspito, cheio de serpentes e escorpiões, mas numa terra rica de ouro e prata.

 

Com tudo que se podia imaginar trabalhando a seu favor, à primeira vista parecia que Salomão seguiria a Deus com gra­tidão. Sua oração de dedicação do templo, em 1 Reis 8, é uma das orações mais majestosas já feitas. Porém, no final de seu reinado Salomão já havia desperdiçado quase todas as vanta­gens. O homem de verve poética que havia celebrado o amor romântico quebrou todos os recordes de promiscuidade: no to­tal, setecentas esposas e trezentas concubinas! O sábio que com­pusera um número tão grande de provérbios de bom senso fez pouco caso deles com uma extravagância jamais igualada. E, para agradar suas esposas nascidas no estrangeiro, o devo­to que construíra o templo de Deus deu um passo final e terrí­vel: introduziu a adoração de ídolos na cidade santa de Deus.

Em apenas uma geração, Salomão transformou Israel, um reino inexperiente que dependia de Deus para sua própria sobrevivência, numa potência política auto-suficiente. Mas nes­sa jornada perdeu de vista a visão original à qual Deus o ha­via chamado. Ironicamente, por volta da época da morte de Salomão, Israel assemelhava-se ao Egito, de onde Deus os ti­nha resgatado: um Estado imperial mantido em pé por uma burocracia agigantada e pelo trabalho escravo, com uma reli­gião oficial que estava sob o comando do governante. O suces­so do reino deste mundo havia provocado um desinteresse no reino de Deus. Esvaiu-se a rápida e resplendente visão de uma nação de aliança, e Deus retirou sua aprovação. Após a mor­te de Salomão, Israel cindiu-se em dois e gradualmente se enca­minhou para a ruína.

Uma famosa frase, criada por Oscar Wilde, talvez apre­sente o melhor epitáfio para Salomão: "Neste mundo existem somente duas tragédias. Uma é não conseguir o que se deseja, e a outra é conseguir." Salomão conseguiu tudo o que desejou, especialmente no que diz respeito a símbolos de poder e posi­ção social. Gradualmente foi dependendo menos de Deus e mais das coisas que o cercavam: o maior harém do mundo, uma casa duas vezes maior que o templo, um exército bem abastecido de carruagens, uma economia forte. O progresso pode ter eliminado quaisquer crises de desapontamento com Deus, mas também parece que eliminou totalmente o desejo que Salomão tinha de Deus. Quanto mais apreciava as boas dádivas do mundo, menos ele pensava no Doador.

 

No deserto Deus habitava numa "coluna de nuvem e de fogo", tão próxima que algumas vezes seu poder irrompia com uma força destrutiva. Nos dias de Salomão Deus pareceu res­tringir esse poder, dando ao rei autoridade para representá-lo diante do povo. Quanto aos israelitas, que no deserto haviam se retraído com medo de Deus, simplesmente aceitaram Deus sem maiores considerações assim que sua presença centralizou-se no templo. Tornou-se apenas mais um item da paisagem da cidade dos reis.

Reagindo a essa mudança, Deus silenciosamente mudou seu próprio método de operação. Facilmente consegue-se detec­tar a mudança perscrutando o Antigo Testamento, o qual ofe­rece longos relatos dos três primeiros reis de Israel — Saul, Davi e Salomão; mas depois de Salomão, os relatos das vidas dos reis rapidamente caminham para algo embaçado, esquecível. De sua parte, Deus se voltou a seus profetas.

 

* Referências bíblicas: Deuteronômio 8; 2 Samuel 7; 1 Reis 8-10.

 

                     Fogo do Céu e a Palavra

Foi uma coincidência terrível que muitos interpreta­ram como retribuição divina. Duas semanas atrás, o cônego David Jenkins, de 59 anos de idade, que publicamen­te havia afirmado que nem o nascimento virginal nem a ressurreição precisam ser aceitos literalmente, foi formal­mente consagrado na Catedral de York como Bispo de Durham em meio a gritos de protesto. Menos de três dias depois, nas primeiras horas do dia, um relâmpago riscou o céu, caindo sobre a cobertura de madeira do transepto sul da igreja, construída no século treze. Por volta de duas e meia da manhã as chamas saltavam dessa importan­tíssima obra de arte medieval que é a maior catedral góti­ca do norte da Europa....

Após o incêndio na Catedral de York, os detratores de Jenkins não perderam tempo e disseram que suas afir­mações tinham sido confirmadas. John Mowll, de 51 anos de idade, um pároco anglicano que havia sido expul­so da catedral por protestar durante a cerimônia de consa­gração do novo bispo, sugeriu que a causa do fogo pode ter sido a "intervenção divina". Outros refugiaram-se na Bíblia, citando o profeta Elias, o qual trouxe um fogo do céu que destruiu um altar que tinha construído na pre­sença dos profetas de Baal.

— Time, 23 de julho de 1984

 

Obviamente, o problema com o raio que atingiu a Cate­dral de York é que, visto dessa forma, é uma exceção. Fogo do céu atinge uma igreja famosa — mas o que dizer de todas as igrejas unitarianas que abertamente negam doutrinas cristãs, para não mencionar as mesquitas muçulmanas e os templos hindus? Por que David Jenkins devia provocar a ira divina se o incorrigível blasfemo Bertrand Russell viveu sem punição al­guma, chegando até a uma velhice excêntrica? Se Deus unifor­memente reagisse a doutrinas erradas lançando raios, nosso planeta piscaria todas as noites como uma árvore de Natal.

E, no entanto, o fogo de fato caiu uma vez do céu, qua­se trinta séculos atrás, e desde então pastores têm recordado aquela cena no Monte Carmelo. A história tem um estilo tolkieniano, mítico: à semelhança do personagem Frodo em sua missão até Mordor, Elias atravessou Israel, viajando até uma montanha deserta e acidentada para fazer guerra, num estilo de luta solitária, contra 850 profetas falsos.

Elias, o mais rude e duro dentre todos os profetas, encan­tou a multidão como um mestre de mágicas. Encharcou o lo­cal com doze volumosas jarras de água — o bem mais precio­so em Israel depois de uma seca de três anos. E, bem quando parecia que Elias estava fazendo-se de palhaço, aconteceu. Uma bola de fogo caiu como um meteoro, vinda de um céu limpo. O calor foi tão intenso que derreteu as pedras e o solo, e as chamas lamberam a água dos regos como se fosse combus­tível. A multidão caiu ao chão com temor e terror. "O Senhor é Deus! O Senhor é Deus!" clamaram.

Num impressionante e derradeiro confronto público, Deus arrasou as forças do mal. Não é de surpreender que a cena sobressaia nos anais da fé. Não é de surpreender que as pessoas contemporâneas de Jesus tenham se enganado, achan­do que ele fosse Elias reencarnado. Mesmo nos dias atuais, quando um raio atinge uma catedral, alguns pensam saudosa­mente no Monte Carmelo.

 

                 Os Profetas

Quando estive, porém, lendo a Bíblia de ponta a ponta, durante duas semanas, no chalé no Colorado, vi a vida de Elias num contexto totalmente diferente. Ele e Eliseu, sua alma gê­mea na realização de milagres, não são de modo algum simila­res aos outros profetas do Antigo Testamento. Ao contrário, despontam como exceções de destaque: poucos sucessores che­garam a ter um leve vestígio da habilidade de ambos em ope­rar milagres. Se ansiamos o poder que tiveram, ansiamos a coisa errada. Os sinais e maravilhas dos dias de Elias foram um instante isolado na história, sem qualquer efeito real de longo alcance sobre os israelitas. Não irrompeu qualquer reavivamento avassalador. Seguindo-se aos acontecimentos do Mon­te Carmelo, após o mais breve impulso de fervor religioso, a nação novamente acomodou-se em seu longo e resoluto afasta­mento de Deus. O rei Acabe, ele mesmo um espectador no Monte Carmelo, deixou o legado de ter sido o rei mais ímpio de Israel.

Aparentemente a bola de fogo no Monte Carmelo igual­mente não teve qualquer impacto duradouro em Elias. Temero­so por sua vida, o profeta viajou uma distância de quarenta dias entre ele e a rainha Jezabel, a vingativa esposa de Acabe. E, quando em seguida Deus se encontrou com Elias, não apa­receu num fogo, ou num vento grande e poderoso, ou num ter­remoto. Em vez disso, veio num cochicho, numa voz branda e suave, quase como o silêncio — uma antevisão de uma sur­preendente mudança que estava por vir.

Deve ter sido difícil seguir o profeta Elias. Pouco depois da decisiva confrontação no Monte Carmelo, um outro profe­ta, Micaías, se pôs diante do mesmo rei, Acabe, em semelhan­ças bastante parecidas. No estilo de Elias, tratou com desdém quatrocentos falsos profetas e proferiu uma mensagem incisi­va de Deus. Mas, em vez de fogo caindo do céu, Micaías rece­beu uma bofetada no rosto e uma temporada na cadeia.

Deus pareceu refrear seu poder sobrenatural depois de Elias e Eliseu, substituindo o espetáculo pela palavra. Os pro­fetas não tiveram demonstrações impressionantes de onipotên­cia para apresentarem ao público; tiveram apenas o poder das palavras. Isaías, Oséias, Habacuque, Jeremias, Ezequiel — to­dos despejaram sua energia moral nos escritos que levam seus nomes. E, à medida que Deus parecia se distanciar cada vez mais, esses mesmos profetas começaram a fazer indagações: in­dagações eloqüentes, indagações que os obcecaram, indaga­ções envolvidas em dor. Expressaram audivelmente os clamo­res de um povo que sentiu-se abandonado por Deus.

Eu sempre tinha lido erroneamente os profetas (quando de fato chegava a me dar ao trabalho de lê-los). Eu os tinha visto como velhinhos chatos, dedo em riste, que, tal como Elias, clamavam para que sobreviesse o julgamento sobre os pagãos. Para minha surpresa descobri que os escritos dos antigos profe­tas soam, na realidade, como a mais "moderna" dentre todas as partes da Bíblia. Tratam dos mesmíssimos temas que pairam como uma nuvem sobre nosso século: o silêncio de Deus, a aparente soberania do mal, o sofrimento constante do mundo. As indagações dos profetas são, na realidade, as indagações deste livro: a injustiça, o silêncio, o escondimento de Deus.

Mais passionalmente do que qualquer outra pessoa na his­tória, os profetas de Israel deram vazão aos sentimentos de decepção com Deus. Por que nações pagas prosperam? indaga­ram. Por que há um número tão grande de calamidades provo­cadas pela natureza? Por que há tanta pobreza e depravação no mundo? Por que tão poucos milagres? Onde estás, Deus? Por que não nos falas como costumavas fazer? Revela-te; rom­pe teu silêncio. Pelo amor de Deus, literalmente, AJA! "Por que nos rejeitarias totalmente? Por que te enfurecerias sobre­maneira contra nós outros?"

Isaías, um aristocrata e conselheiro de reis, falava com elegância, num estilo pessoal tão diferente do de Elias quanto o de Winston Churchill em relação ao de Gandhi. "Verdadeira­mente tu és Deus misterioso", disse Isaías. "Oh! se fendesses os céus, e descesses! se os montes tremessem na tua presença!"

Jeremias em voz alta e solene declarou o fracasso da "te­ologia do sucesso". Em sua época os profetas estavam sendo lançados em calabouços e poços, e até mesmo serrados ao meio. Jeremias comparou Deus a um homem frágil, "surpreen­dido", um "valente que não pode salvar". Voltaire, o filóso­fo francês expressa a sua crítica: Como um Deus todo-poderoso e todo-amoroso pode permitir um mundo tão anarquizado?

Habacuque desafiou Deus a explicar por que, em suas próprias palavras, "a justiça nunca se manifesta".

 

                 Até quando, Senhor, clamarei eu,

                 e tu não me escutarás?

                 Gritar-te-ei: Violência!

                 e não salvarás?

                 Por que me mostras a iniqüidade,

                 e me fazes ver a opressão?

 

Como todos os israelitas, os profetas tinham sido criados ouvindo histórias de vitórias. Quando crianças, aprenderam como Deus libertara seu povo da escravidão, descera para ha­bitar entre eles e conduzira-os à Terra Prometida. Mas agora, em visões do futuro, viam, detalhadamente como em câmara lenta, todas aquelas vitórias se desfazendo. Numa inversão to­tal da cena inesquecível dos dias de Salomão, o profeta Ezequiel observou a glória de Deus surgir, pairar por um instan­te sobre o templo e então desaparecer.

O que Ezequiel viu somente numa visão, Jeremias viu nu­ma dura realidade. Soldados babilônios entraram no templo — pagãos no Lugar Santíssimo! — saquearam-no e o queima­ram até virar cinzas. (Os historiadores registram que, à medi­da que os soldados entravam no templo, cortavam o ar vazio com suas lanças, em busca do invisível Deus judeu.) Jeremias perambulou pelas ruas desertas de Jerusalém em estado de cho­que, como um sobrevivente de Hiroshima vagueando pelos es­combros. O rei de Israel estava agora algemado e cegado; os príncipes da nação, mortos. No cerco final, mulheres de boa formação que moravam em Jerusalém tinham cozido e comi­do seus próprios filhos.

Como é que era ser um profeta naquela época? Jeremias nos conta:

 

                   Estou quebrantado pela ferida da filha do meu povo;

                   estou de luto; o espanto se apoderou de mim....

                   Oxalá a minha cabeça se tornasse em águas,

                   e os meus olhos em fonte de lágrimas!

                   Então choraria de dia e de noite

                   os mortos da filha do meu povo....

                   O meu coração está quebrantado dentro em mim;

                  todos os meus ossos estremecem;

                   sou como homem embriagado,

                   e como homem vencido do vinho.

 

Entretanto, o aspecto mais surpreendente dos profetas não é sua aparência "moderna" ou seu pungente clamor de decepção. A razão por que esses dezessete livros merecem um exame cuidadoso é que incluem as próprias respostas de Deus às estimulantes indagações dos profetas.

 

* Referências bíblicas: 1 Reis 17-19, 22; Lamentações 5; Isaías 45, 64; Jeremias 14; Habacuque 1; Jeremias 8-9, 23.

 

                     Amante Ferido

DEUS NÃO deixou sem resposta as queixas dos profetas. Pôs-se a falar, defendendo a maneira como dirigia o mundo. Desabafou. Explodiu. E eis o que disse:

Não estou calado; venho falando através de meus profetas.

Temos a tendência de classificar as revelações de Deus de acordo com a impressão que causam; as espetaculares apa­rições "ao vivo" colocamos lá no topo, milagres sobrenaturais logo abaixo, e as palavras dos profetas lá embaixo. A bola de fogo no Monte Carmelo, por exemplo, parece mais convincen­te do que um dos lamentosos sermões de Jeremias. Mas Deus não reconheceu tal classificação. Numa inversão irônica, ele apontou para os próprios profetas — aquelas mesmas pessoas que questionavam seu silêncio — como uma prova de seu inte­resse. Como uma nação pode se queixar do silêncio de Deus quando tem pessoas como Ezequiel, Jeremias, Daniel e Isaías?

Deus não considerava "simples palavras" como uma pro­va inferior. Milagres, afinal, nunca tiveram um impacto mui­to duradouro na fé dos israelitas; mas os profetas gravariam um registro permanente, a ser transmitido de geração em gera­ção, acerca das iniciativas de Deus para com seu povo.

Algumas vezes Deus apontava para os milagres do passado como provas de seu amor, mas com mais freqüência dizia, exaspera­do, algo assim: "Desde o dia em que vossos pais saíram da ter­ra do Egito, até hoje, enviei-vos todos os meus servos, os pro­fetas, todos os dias, começando de madrugada, eu os enviei. Mas não me destes ouvidos nem me atendestes." Sua conclu­são: na verdade o povo não desejava uma palavra do Senhor. Conforme eles próprios advertiram Isaías: "Dizei-nos cousas aprazíveis, profetizai-nos ilusões... não nos faleis mais do San­to de Israel."

Retirei de fato a minha presença.

Quando os profetas se queixaram acerca do escondimento de Deus, este não discutiu. Concordou com eles, e então ex­plicou por que estava mantendo distância.

A Jeremias Deus expressou seu desprazer com o que via em Israel: ganhos desonestos, derramamento de sangue inocen­te, opressão, extorsão. Deus disse que cobria os olhos, recusan­do-se até mesmo a ver as mãos humanas estendidas em atitu­de de oração, pois essas mãos estavam cobertas de sangue.

A Isaías Deus garantiu que seu braço não era curto de­mais para salvar Israel, nem seu ouvido insensível demais pa­ra ouvir seus clamores, mas que havia dado as costas por cau­sa da injustiça, das mentiras e da violência. Furioso com a ava­reza que tinham, Deus escondeu o seu rosto deles.

A Ezequiel Deus explicou que, uma vez que as rebeliões de Israel haviam ultrapassado um certo ponto, ele simplesmen­te os entregou a seus pecados. Ele retirou-se, deixando que as pessoas escolhessem seu próprio caminho e arcassem com as conseqüências.

A Zacarias disse: "Visto que eu clamei e eles não me ou­viram, eles também clamaram e eu não os ouvi."

Minha lentidão em agir é um sinal de misericórdia, não de fraqueza.

Quando Deus não punia rapidamente, o povo de Israel concluía que ele devia ter perdido seu poder: "Não é ele... Ne­nhum mal nos sobrevirá; não veremos espada nem fome." Es­tavam errados. O fato de Deus se conter marcou um interva­lo de misericórdia, um "período de experiência" que ele esta­va concedendo a Israel. Com relutância, tal qual um pai sem qualquer outra opção, Deus então voltou-se para o castigo.

Israel foi punido através de invasões estrangeiras. Mas os profetas também falaram do "dia do Senhor" no final dos tempos. Entre seus refulgentes relatos de um novo céu e uma nova terra estão algumas das mais aterrorizantes visões apoca­lípticas já relatadas. Antes que possamos ouvir a última pala­vra, disse Dietrich Bonhoeffer, temos de ouvir a penúltima pa­lavra. E quanto mais estudo os relatos proféticos acerca dos últimos dias, mais satisfeito fico com a aparente "timidez" de Deus em intervir nos negócios humanos.

Em meus próprios períodos de decepção ou frustração com Deus, tenho clamado a ele para que manifeste mais poder. Tenho orado contra a tirania e corrupção e injustiça políticas. Tenho orado pedindo milagres, pedindo provas da existência dele. Mas, quando leio as descrições que os profetas fazem acer­ca do dia quando Deus finalmente se revelar completamente, uma oração suplanta todas as outras: "Deus, eu espero não estar por perto quando isso acontecer." Deus abertamente ad­mite que está refreando seu poder, mas ele se contém em nos­so benefício. Para todos os zombadores que clamam por uma ação direta dos céus, os profetas têm uma palavra fatídica de conselho: Espere para ver!

Embora meus juízos pareçam severos, estou sofrendo com vocês.

Deus expôs aos profetas seus sentimentos mais profundos. Por exemplo, esta é a maneira como se sentiu acerca da destrui­ção de Moabe, um dos inimigos de Israel:

 

               Por isso uivarei por Moabe,

               sim, gritarei por todo o Moabe....

               Por isso o meu coração geme

               como flautas por causa de Moabe.

 

Quanto a seu povo escolhido de Israel, qualquer que te­nha sido a vergonha e humilhação que suportaram, Deus tam­bém suportou. Os israelitas observaram horrorizados quando os babilônios, empunhando machados, puseram em pedaços as vigas de cedro do templo — mas era a própria casa de Deus que estavam invadindo, e ele sentiu aquela invasão co­mo uma profanação pessoal. À medida que o templo foi arra­sado, o seu próprio lar foi arrasado. À medida que os judeus foram levados cativos, ele foi levado cativo. E, quando os con­quistadores repartiram os despojos de Israel, fizeram piadas não dos israelitas, mas de seu Deus fraco e frágil. "Em chegan­do às nações para onde foram, profanaram o meu santo nome, pois deles se dizia: São estes o povo do Senhor, porém ti­veram de sair da terra dele."

Uma única frase de Isaías resume o ponto de vista de Deus: "Em toda a angústia deles foi ele angustiado." Deus pode ter escondido o rosto, mas aquele rosto estava marcado, marejado de lágrimas.

Apesar de tudo, estou pronto para perdoar em qualquer hora que seja.

Com freqüência, no meio de uma severa reprimenda Deus parava — literalmente no meio de uma frase — e implo­rava a Israel que se arrependesse. Acabe, o mais ímpio rei de Israel, obteve uma outra chance após o Monte Carmelo, e en­tão uma outra, e mais outra. "Não tenho prazer na morte do perverso", disse Deus mais tarde a Ezequiel. "Convertei-vos, convertei-vos dos vossos maus caminhos; pois, por que haveis de morrer, ó casa de Israel?" Ele contou a Jeremias que, se pudesse encontrar uma única pessoa honesta em Jerusalém, pouparia a cidade inteira.

Nada expressa melhor o anseio divino em perdoar do que o livro de Jonas. Contém somente uma única sentença proféti­ca: "Ainda quarenta dias, e Nínive será subvertida." Mas, pa­ra desgosto de Jonas, aquele simples anúncio de condenação deu origem a um reavivamento espiritual na cidade pagã de Nínive. E Jonas, carrancudo, debaixo de uma trepadeira resse­quida, disse que o tempo todo havia suspeitado do coração mole de Deus. "Sabia que és Deus clemente, e misericordioso, tardio em irar-se e grande em benignidade, e que te arrependes do mal." De modo que a aventura louca de um profeta empa­cado, uma tempestade oceânica e uma escala imprevista nu­ma baleia ocorreram porque Jonas não pôde confiar em Deus — isto é, não pôde acreditar que ele fosse cruel e inflexível pa­ra com Nínive. Conforme Robert Frost resumiu o livro, "De­pois de Jonas, você jamais poderá deixar de crer na misericór­dia constante de Deus."

         Sentimento

Embora Deus respondesse diretamente às perguntas dos profetas, suas explicações não satisfizeram Israel. Conhecer a causa de uma catástrofe não reduz a sensação de dor e traição.

E, na verdade, a "defesa" racional de Deus parece ter sido demasiadamente ligeira e resumida. Os profetas não estão tão interessados em questões intelectuais quanto no sentimento de Deus. Como é que é ser Deus? Para compreender, repare nas imagens humanas enfatizadas freqüentemente pelos profetas: Deus como pai e como amante.

Fique no encalço de algumas pessoas que se tornaram pais pela primeira vez. Parece que sua conversa limita-se a um único assunto: O seu filho. Exultantemente orgulham-se de que seu nenê enrugado e avermelhado é a criança mais bo­nita que já nasceu. Gastam uma fortuna numa filmadora pa­ra registrarem as primeiras palavras balbuciadas e os primeiros passos desajeitados — habilidades banais dominadas pelos mais de cinco bilhões de habitantes de nosso planeta. Tal com­portamento estranho demonstra o orgulho e a alegria que um novo pai tem em um relacionamento humano diferente de qual­quer outro.

Ao escolher Israel, Deus estava buscando um relaciona­mento assim. Desejava aquilo que qualquer pai deseja: Uma casa feliz, com filhos que correspondem ao amor de seus pais. A voz de Deus canta com orgulho enquanto ele se recorda dos primeiros dias: "Não é Efraim meu precioso filho? filho das minhas delícias?" Mas o prazer se desvanece quando Deus abruptamente passa da perspectiva de um pai para a de um amante, um amante ferido. O que eu fiz de errado? ele cobra num tom de tristeza, espanto e raiva.

 

                 Depois de eu os ter fartado, adulteraram,

                 e em casa de meretrizes se ajuntaram em bandos.

                 Como garanhões bem fartos,

                 correm de um lado para outro,

                 cada um rinchando à mulher do seu companheiro.

                 Deixaria eu de castigar estas cousas?

 

Ao ler os profetas, não consigo deixar de imaginar um conselheiro tendo Deus como cliente. O conselheiro apanha uma das perguntas usuais, "conte-me como é que você real­mente se sente", e então Deus passa a falar.

"Pois bem! Vou lhe contar como é que me sinto! Sinto-me como um pai rejeitado. Encontro uma nenezinha largada numa vala, à beira da morte. Levo-a para casa e faço dela minha filha. Cuido de sua higiene, pago sua educação, alimen­to-a. Eu a mimo, visto-a, ponho-lhe jóias. Então, num certo dia, ela foge. Ouço notícias da vida aviltada que ela leva. Quan­do mencionam meu nome, ela me amaldiçoa."

"Vou lhe contar como é que me sinto! Sinto-me como um amante abandonado. Quando encontrei minha amante, ela estava fraca e explorada, maltratada, mas eu a trouxe para casa e fiz com que a sua beleza resplandecesse. Ela é o meu bem precioso; é para mim a mais bela mulher do mundo, e eu a cubro de presentes e de amor. Ela, porém, me esquece. Deseja ardentemente meus melhores amigos, meus inimigos — qualquer um. Ela fica à beira de uma estrada e debaixo de cada árvore frondosa e, pior do que uma prostituta, ela paga para que as pessoas façam sexo com ela. Sinto-me como um marido enganado, abandonado, traído."

Deus não esconde a dor que sente. Apela a uma lingua­gem chocante, chamando Israel de "dromedária nova de ligei­ros pés, que andas ziguezagueando pelo caminho; jumenta sel­vagem, acostumada ao deserto e que, no ardor do cio, sorve o vento. Quem a impediria de satisfazer ao seu desejo?"

Como se apenas palavras fossem por demais impotentes para expressar sua emoção, Deus pediu a um profeta corajo­so, Oséias, para personificar, com a sua vida, a desgraça que caíra sobre Deus. Por ordem de Deus, Oséias casou-se com Gômer, uma mulher de péssima reputação. A partir de então, o pobre coitado viveu uma novela. Gômer teve dois filhos com Oséias, mas vez após outra ela saiu perambulando, apaixonou-se por outro homem e abandonou o lar. E, por incrível que pareça, em cada vez Deus instruiu Oséias a receber Gômer de volta e a perdoá-la.

Deus fez uso da infeliz história de Oséias para ilustrar as suas próprias emoções em frangalhos. Aquele primeiro impul­so de amor quando encontrou Israel, disse Deus, foi como en­contrar uvas no deserto. Mas, à medida que repetidas vezes Is­rael abalou a confiança de Deus, este teve de suportar o terrí­vel constrangimento de um amante ferido. Suas palavras têm quase um tom de autocomiseração: "Para Efraim serei como a traça, e para a casa de Judá como a podridão."

A imagem marcante de um amante abandonado explica por que, nas suas mensagens aos profetas, parecia que Deus "mudava de idéia" a cada instante. Ele está-se preparando para aniquilar Israel — espere... agora ele está chorando, esten­dendo braços abertos — não... ele está de novo pronuncian­do severamente o juízo. Aquelas atitudes instáveis parecem desesperançadamente irracionais, exceto para alguém que co­nhece a dor de ser abandonado por sua amante.

Uma amiga minha suportou dois anos essa dor. Em no­vembro ela estava pronta para matar seu marido infiel. Em fe­vereiro ela o perdoou e voltou para casa. Em abril ela deu en­trada nos papéis de divórcio. Em agosto ela suspendeu o pro­cesso de divórcio e pediu ao marido para voltar. Foram neces­sários dois anos para que ela encarasse a triste verdade de que seu amor havia sido rejeitado para sempre.

E esse é exatamente o ciclo de ira, tristeza, perdão, ciú­me, amor e dor que Deus descreve que ele próprio atravessa. Os profetas mostram Deus lutando por uma linguagem, qual­quer linguagem, que penetre em seu povo. Assim como minha amiga batia o telefone para o marido, que a abandonara, Deus dizia aos profetas que ele não mais iria ouvir às orações de Israel. E, assim como minha amiga abrandava, Deus abran­dava e implorava a seu povo para tentar de novo. Algumas vezes seu amor e ira entravam em choque. Mas por fim, exau­ridas todas as alternativas, Deus chegou à conclusão de que devia desistir: "De que outra maneira procederia eu com a fi­lha do meu povo?"

 

Meu amigo Richard me descreveu a profunda sensação de ter sido traído quando Deus "mancou" com ele. Sentiu exa­tamente o que havia experimentado quando sua noiva rompeu abruptamente com ele. Mas os profetas, e especialmente Oséias, comunicam uma mensagem acima de todas as outras: Deus é a pessoa traída. Foi Israel, não Deus, que tinha se prostituído. Os profetas de Israel expressaram uma profunda decepção com Deus, acusando-o de agir à distância, sem envolvimento, cala­do. Mas, quando Deus falou, ele derramou emoções acumula­das durante séculos. E ele, não Israel, foi a parte verdadeira­mente decepcionada.

"De que outra maneira procederia eu?" Ou, em outras palavras, "Que mais posso fazer?" A pungente pergunta de Deus a Jeremias ressalta o dilema de um Deus onipotente que deu espaço à liberdade. As andorinhas nos céus conhecem as estações, a maré chega na hora certa, a neve sempre cobre as montanhas elevadas, mas os seres humanos não se parecem a qualquer outra coisa na natureza. Deus não pode controlá-los. Por outro lado, ele é incapaz de simplesmente deixá-los de lado. Ele é incapaz de apagar a humanidade de seu pensamento.

 

* Referências bíblicas: Jeremias 7; Isaías 30; Jeremias 5; Isaías 57; Ezequiel 20; Zacarias 7; Jeremias 5, 48; Ezequiel 36; Isaías 63; Ezequiel 33; Jonas 3-4; Jere­mias 31, 5, 2; Oséias 9, 5; Jeremias 9.

 

                                          Bom Demais Para Ser Verdade

 

                 A tristeza se desfaz

                 Como a neve em maio,

                 Como se algo tão gelado assim não existisse.

                       George Herbert, "The Flower" ("A Flor")

 

CERTA OCASIÃO George MacDonald, o grande prega­dor e escritor escocês, estava conversando com seu filho. Falavam sobre o céu e a versão dos profetas acerca do final de todas as coisas. "Parece bom demais para ser verdade", disse o filho em certo instante. Um sorriso brilhou no rosto barbudo de MacDonald. "Não", replicou, "é tão bom que deve ser verdade!"

Alguma emoção humana é tão forte quanto a esperança? Os contos de fadas transmitem através dos séculos uma obsti­nada esperança num final feliz, uma crença de que no final a bruxa malvada morrerá e de alguma maneira as crianças cora­josas e inocentes encontrarão um jeito de escapar. Na televisão os desenhos animados apresentam uma mensagem semelhante para crianças que estão sentadas como que hipnotizadas, no­vas demais para fazerem troça de finais impossivelmente alegres. Na vida real, uma mãe surpreendida numa zona de guer­ra carrega seu filhinho recém-nascido, aperta-o fundo contra o peito, afaga sua cabeça e cochicha, sem qualquer lógica: "Vai dar tudo certo", mesmo quando as explosões estridentes ficam cada vez mais próximas.

De onde vem essa esperança? Buscando palavras para ex­plicar a eterna atração que exercem os contos de fadas, J. R. R. Tolkien disse:

 

[Contos de fadas] não negam a existência de... triste­za e fracasso: a possibilidade destas é necessária para o jú­bilo da libertação; negam (apesar de muita evidência que aponta o contrário) que haverá uma grande derrota final no universo... proporcionando assim um breve vislumbre de Alegria — Alegria além dos muros do mundo, Alegria tão pungente quanto a tristeza.

 

Nenhum resumo dos profetas seria completo sem uma mensagem final: sua insistência, em voz alta, de que o mun­do não acabará numa "derrota final universal", mas em Júbi­lo. Falaram em épocas agourentas a ouvintes tomados de te­mor, e freqüentemente suas terríveis predições de secas e pra­gas de gafanhotos e exércitos inimigos alimentavam esse temor. Mas sempre, em cada um de seus dezessete livros, os profetas do Antigo Testamento finalmente chegavam a uma palavra de esperança. O amante ferido irá se recuperar da dor, prome­te Isaías: "Por breve momento te deixei, mas com grandes misericórdias torno a acolher-te."

As vozes dos profetas soam como pássaros canoros quan­do por fim voltam-se para descrever o existente além dos mu­ros do mundo. Naquele último dia, Deus enrolará a terra tal qual um tapete e o tecerá de novo. Lobos e cordeiros se ali­mentarão juntos no mesmo campo, e um leão pastará em paz ao lado de um boi.

Um dia, diz Malaquias, saltaremos como bezerros soltos do estábulo. Nessa ocasião não haverá qualquer medo, nem qualquer dor. Nenhum recém-nascido morrerá; nenhuma lágri­ma escorrerá. Entre as nações a paz fluirá como um rio, e de suas armas exércitos fundirão ferramentas para a lavoura. Nin­guém queixará do ocultamento de Deus naquele dia. Sua gló­ria encherá a terra, e o sol, em contraste, parecerá escuro.

Para os profetas, a história humana não é um fim em si mesma, mas um período de transição, um parêntese entre o Éden e o novo céu e a nova terra que ainda serão formados por Deus. Mesmo quando todas as coisas parecem fora de con­trole, Deus está firmemente no controle, e algum dia reivindi­cará a sua autoridade.*

 

                 O Entretempo

Mas que dizer do momento presente? Devemos aguardar até depois da morte para obtermos todas as respostas significa­tivas para o problema da decepção com Deus? Após a morte de todos os profetas, o povo judeu começou a levantar tais perguntas, pois mais uma vez o céu estava calado: "Já não ve­mos os nossos símbolos; já não há profeta; nem, entre nós, quem saiba até quando. Até quando, ó Deus, o adversário nos afrontará? Acaso blasfemará o inimigo incessantemente o teu nome?"

Arrancados de sua terra natal e vendidos uma vez mais como escravos, os judeus se apegaram às promessas dos profe­tas de que haveria um libertador e um futuro pacífico. A me­dida que o tempo passou, décadas, até mesmo séculos, impé­rios — Babilônia, Pérsia, Egito, Grécia, Síria, Roma — se le­vantaram e caíram, com seus exércitos perseguindo um ao ou­tro através das planícies da Palestina. Cada novo exército sub­jugou os judeus com facilidade, como se estivesse limpando os pés num capacho. Algumas vezes a raça judaica toda este­ve na iminência de extinção.

Nenhum Moisés apareceu para conduzir os judeus para fora da escravidão. Nenhum Elias invocou bolas de fogo vin­das do céu. Nenhum fulgor luminoso irradiou do templo de Je­rusalém. Até que o rei Herodes surgiu com sua paixão por edi­fícios majestosos, o templo permanecia inconcluso, um mon­te de entulho trazendo mais recordações de vergonha do que de glória.

No final do Antigo Testamento, Deus estava em oculto. Ele havia ameaçado esconder seu rosto, e, quando finalmente o fez, uma sombra tenebrosa caiu sobre o planeta. Nossa de­cepção com Deus vinte e cinco séculos depois oferece um relan­ce do que os judeus sentiram quando Deus deu as costas. Tal­vez encontremos algum consolo em relembrar as "desvanta­gens" das intervenções diretas de Deus. Talvez cheguemos a compreender que sua Presença é radiosa demais para nós: ela deixa cicatrizes; cria distância; e, pior ainda, parece que nem mesmo estimula a fé. Talvez também encontremos consolo em vislumbrar uma vida eterna livre de lágrimas e dor, numa nova dimensão em algum lugar, depois de sermos transforma­dos em seres que conseguem suportar a Presença de Deus. Mas que dizer do entretempo? De agora? Dos tempos difíceis? À semelhança dos judeus, sentimos o ocultamento de Deus co­mo uma frustração, um desapontamento, uma dor de coração, uma dúvida jamais inteiramente solucionada.

Quatro séculos separam as últimas palavras de Malaquias, no Antigo Testamento, das primeiras palavras de Mateus, no Novo Testamento. São chamados de "quatrocentos anos de silêncio", e essa frase assinala uma era cercada de decepção com Deus. Deus se importava? Será que ele estava mesmo vi­vo? Parecia que estava surdo às orações dos judeus. Ainda as­sim, apesar de tudo, aguardavam um Messias — não tinham qualquer outra esperança.

"Que mais posso fazer?" Deus indagou. Mas havia algo mais. Aquilo que não podia ser conquistado à força, ele con­quistaria através do sofrimento.

 

* Referências bíblicas: Isaías 54; Malaquias 4; Salmo 74.

 

                             Aproximando-se: O Filho

 

                   A Descensão

IMAGINE QUE HOUVESSE UM REI que amasse uma moça humilde", principia uma história de Kierkegaard.

Não havia rei como ele. Todos os estadistas tremiam diante de seu poder. Ninguém ousava pronunciar uma pa­lavra contra ele, pois ele possuía a força para esmagar to­dos os oponentes. E, ainda assim, esse poderoso rei derre­teu-se de amores por uma moça humilde.

Como podia declarar seu amor por ela? Por ironia, sua própria realeza deixava-o de mãos amarradas. Caso trouxesse-a ao palácio e coroasse-lhe a cabeça com jóias e vestisse-lhe o corpo com vestes reais, certamente ela não resistiria — ninguém ousava resistir-lhe. Mas ela o amaria?

É claro que diria que o amava, mas amá-lo-ia de ver­dade? Ou iria viver com ele temerosa, secretamente se las­timando pela vida que havia deixado para trás? Seria feliz ao seu lado? Como ele poderia saber?

Caso ele fosse na carruagem real até a cabana dela na floresta, com uma escolta armada balançando imponen­tes estandartes, isso também a atordoaria. Ele não deseja­va uma súdita servil. Desejava uma amante, uma igual. Desejava que ela esquecesse que ele era rei e ela uma moça humilde e que deixasse que o amor partilhado vences­se o abismo existente entre eles.

 

"Pois é somente no amor que o desigual pode ser feito igual", concluiu Kierkegaard. O rei, convencido de que não poderia fazer a moça melhorar sua condição social sem repri­mir sua liberdade, decidiu rebaixar-se. Vestiu-se de pedinte e aproximou-se da cabana incógnito, com uma capa surrada, frou­xa, esvoaçando ao seu redor. Não era um mero disfarce, mas uma nova identidade que assumiu. Renunciou ao trono para ganhar a mão dela.

O que Kierkegaard expressou em forma de parábola, o apóstolo Paulo expressou nestas palavras acerca de Jesus, o Cristo:

 

               Cristo Jesus,... subsistindo em forma de Deus,

               não julgou como usurpação o ser igual a Deus;

               antes a si mesmo se esvaziou,

               assumindo a forma de servo,

               tornando-se em semelhança de homens;

               e, reconhecido em figura humana, a si mesmo se humilhou,

               tornando-se obediente até à morte, e morte de cruz.

 

Em seu trato com seres humanos, Deus havia freqüente­mente se humilhado. Leio o Antigo Testamento como um úni­co e longo registro de suas "condescendências" ("descer, re­baixar-se, para estar com"). Deus condescendeu para falar de diversas formas a Abraão e a Moisés e à nação de Israel e aos profetas. Mas nenhuma condescendência pôde se igualar ao que veio em seguida, depois dos quatrocentos anos de silêncio. Deus, tal como o rei na parábola de Kierkegaard, assumiu uma nova forma: tornou-se um homem. Foi a descensão mais chocante que se pode imaginar.

Não Temais

Ouvimos as palavras a cada época de Natal em representa­ções nas igrejas, quando crianças vestem roupões de banho e encenam a história do nascimento de Jesus. "Não temais!" balbucia o anjo de seis anos de idade, com sua roupa de len­çóis se arrastando pelo chão, as asas de gaze e arame batendo levemente devido ao tremor do corpo. Ele olha de soslaio pa­ra o texto escondido nas dobras da manga. "Não temais: eis aqui vos trago boa nova de grande alegria." Já apareceu a Za­carias (seu irmão mais velho, com uma barba de algodão pre­sa ao queixo) e a Maria (uma loirinha sardenta). Ele usou a mesma saudação para os dois: "Não temas!..."

Essas foram também as primeiras palavras de Deus a Abraão, e a Hagar, e a Isaque. "Não temas!" disse o anjo ao saudar Gideão e o profeta Daniel. Para seres sobrenaturais, essa expressão serve quase como um equivalente para "Oi! co­mo vai?" Não é de surpreender. Quando o ser sobrenatural fala­va, o ser humano geralmente estava com o rosto em terra num estado cataléptico. Quando Deus fazia contato com o planeta Terra, algumas vezes o encontro sobrenatural soava como um trovão, algumas vezes agitava o ar como um redemoinho, e algumas vezes iluminava o cenário como um clarão de fósfo­ro. Quase sempre causava temor.

Contudo, os anúncios do anjo a Zacarias e Maria e José prometeram algo novo. Deus estava prestes a fazer uma apari­ção numa forma que não assustaria. Em Jesus, nascido num curral ou caverna e colocado num cocho, Deus por fim encon­trou uma maneira de se aproximar, a qual a humanidade não necessitava temer. O que podia ser menos assustador do que um nenê recém-nascido, com os bracinhos se movendo espasmodicamente e olhos que ainda não fixam bem o olhar? O rei havia-se desfeito de seus mantos reais.

Pense na condescendência: a Encarnação, que fatiou a história em duas partes (um fato que, mesmo com má vonta­de, nossos calendários admitem), teve mais testemunhas ani­mais do que humanas. Pense também no risco. Na Encarnação, Deus transpôs o enorme precipício de temor que o havia distan­ciado de sua criação humana. Mas remover aquela barreira tornou Jesus vulnerável, terrivelmente vulnerável.

 

A criança nascida durante a noite em meio a ani­mais. O doce respirar e o estrume fumegante do gado. E nunca mais as coisas voltarão a ser as mesmas.

Aqueles que crêem em Deus de uma certa forma ja­mais conseguem estar de novo seguros a seu respeito. Uma vez que o viram num estábulo, jamais conseguem ter certeza sobre onde aparecerá ou o que fará a qualquer custo ou a que nível absurdo de auto-humilhação se rebai­xará em sua incansável busca pelo homem....

Para aqueles que crêem em Deus, significa esse nas­cimento que o próprio Deus nunca está a salvo de nós; talvez esse seja o lado sombrio do Natal, o terror do silên­cio. Ele chega de uma tal maneira que sempre podemos rejeitá-lo, seja quebrando o crânio do nenê tal como o fa­zemos com uma casca de ovo, seja pendurando-o com pre­gos quando ficasse grande demais para esmigalharmos sua cabeça.

 

Como Deus sentiu o dia de Natal? Imagine por um instan­te você voltar a ser nenê: deixar de lado a linguagem e coorde­nação motora, e a habilidade de ingerir alimento sólido e de controlar sua bexiga. Deus como um feto! Ou, no dizer de C. S. Lewis, imagine você se tornando uma lesma — aquela analo­gia provavelmente é melhor. Naquele dia em Belém, o criador de tudo que existe assumiu a forma de um recém-nascido frá­gil, dependente.

"Kenosis" é a palavra técnica que teólogos utilizam pa­ra descrever Cristo "se esvaziando" das vantagens de ser Deus. Ironicamente, embora o esvaziamento envolvesse muita humi­lhação, também envolveu uma espécie de liberdade. Tenho fa­lado das "desvantagens" da infinitude. Um corpo físico dei­xou Cristo livre para agir numa escala humana, sem aquelas "desvantagens". Pôde dizer o que queria sem golpear as árvo­res com sua voz. Pôde expressar ira chamando o rei Herodes de raposa ou armando-se com um chicote no templo, ao invés de balançar a Terra com sua tempestuosa presença. E pôde falar a toda e qualquer pessoa — uma prostituta, um cego, uma vi­úva, um leproso — sem ter de primeiramente anunciar "Não temais!"

 

Já era muito que, como Deus, o homem fosse feito outrora, Muito mais, porém, que, como o homem Deus se fizesse agora.

             John Donne, ("Soneto Sagrado nº 15")

 

* Referências bíblicas: Filipenses 2.

 

                   Grandes Expectativas

TODOS OS ANOS, na época do Natal, o ar vibra com poé­ticas promessas do Messias. Desde coristas amadores nos colégios até profissionais de renome, os músicos extenuam-se em ensaios como se estivessem numa peregrinação, segurando partituras gastas de tanto uso.

E o que é que celebramos tanto?

 

Todo vale será aterrado, e nivelados todos os mon­tes e outeiros; o que é tortuoso será retificado, e os luga­res escabrosos, aplanados.

O povo que andava em trevas viu grande luz, e aos que viviam na região da sombra da morte resplandeceu-lhes a luz.

Porque um menino nos nasceu, um filho se nos deu; o governo está sobre os seus ombros; e o seu nome será: Maravilhoso, Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternida­de, Príncipe da Paz.

 

Aquelas exatas palavras estiveram nos lábios de judeus fiéis durante os anos do silêncio de Deus à medida que a decep­ção e mesmo o desespero tomavam conta de todo o Israel. A história avançou inexoravelmente, sendo até mais cruel, esmagando todas as esperanças menos uma: a radiante visão que os profetas tiveram de um Rei dos Reis. Quando o Messias vier, então finalmente a justiça correrá como um rio — os judeus se apegaram com todas as forças àquela promessa, qual marinheiros náufragos que se apegam a um bote salva-vidas. Quatrocentos anos após o último profeta bíblico, estra­nhos rumores começaram a circular: primeiro acerca de um profeta no deserto, de nome João, e então acerca de Jesus, o filho de um carpinteiro de Nazaré. À medida que começaram a vazar informações sobre os poderes miraculosos de Jesus, a especulação se espalhou. Será que ele seria Aquele? Alguns até mesmo insistiam que o Messias tinha realmente chegado. Com os próprios olhos haviam visto Jesus curar os cegos e fazer os coxos andarem. "Deus visitou o seu povo", declararam quan­do ressuscitou um jovem. Outros permaneciam céticos. Jesus cumpriu as promessas messiânicas, porém — um importante porém — não da maneira como todos esperavam.

 

Quando vasculhei a Bíblia à procura de sinais de decep­ção e desilusão com Deus, esperava encontrar uma mudança decisiva ao chegar aos evangelhos. Os profetas — conforme uma rápida olhada na partitura de Handel facilmente revela — haviam predito um Messias que parecia que ia eliminar tais sentimentos. Mas, ao contrário, a decepção não desapareceu da terra nos dias de Jesus, e ainda hoje não desapareceu, pas­sados dois mil anos. O que houve de errado? Ou, faça a per­gunta de uma outra forma: em que a vida de Jesus contribuiu para responder às três perguntas que permeiam este livro?

Deus está calado? "Segue-me." "Portanto, vós orareis assim." "Eis que subimos para Jerusalém." Em certos aspec­tos, Jesus tornou a vontade de Deus mais clara do que em qual­quer outro período anterior. Inacreditavelmente ele se abriu para o método científico de investigação, que é exatamente o que recebeu da parte de fariseus, saduceus e outros céticos. Qualquer um podia se dirigir diretamente ao Filho de Deus e fazer uma pergunta ou discutir com ele. Conforme contam os evangelhos, Deus quebrou seu silêncio de modo audível e con­vincente enquanto Jesus viveu na terra: o Verbo feito carne.

Deus está oculto? Com Jesus, Deus de fato tomou for­ma no mundo, adquirindo um nome, um rosto e um endereço. Era um Deus que você podia tocar e cheirar e ouvir e ver. "Quem me vê a mim, vê o Pai", disse Jesus com toda franqueza. E, assim mesmo, a visibilidade de Jesus, o próprio fato de ser uma pessoa comum, apresentou um novo problema pa­ra judeus criados em meio a histórias sobre o Monte Sinai e o Monte Carmelo. Onde estavam a fumaça, o fogo, o lampe­jo de luz? Jesus não correspondia à imagem que faziam de co­mo Deus devia parecer. Era um homem — mas será possível? — e ainda por cima um homem oriundo do inexpressivo vilare­jo de Nazaré; era filho de Maria, esposa de um carpinteiro co­mum. Os vizinhos de Jesus, que o haviam visto brincar nas ruas com seus próprios filhos, jamais poderiam aceitá-lo co­mo o Messias. E o apóstolo Marcos observa que até a própria família de Jesus chegou à conclusão: "Está fora de si." Até a mãe e irmãos! Maria, que, ao ver o anjo Gabriel, espontane­amente deu vazão ao hino da anunciação; seus irmãos, que haviam passado com ele mais tempo do que qualquer outro — também estes não conseguiam conciliar a estranha combina­ção do maravilhoso e do ordinário. A pele de Jesus atrapalhava.

Deus é injusto? Talvez esta pergunta persistente tenha pro­duzido a maior parte das dúvidas sobre Jesus. Os judeus acre­ditavam que o Messias consertaria tudo o que havia de erra­do no mundo. Não haviam os profetas prometido que o Se­nhor devoraria definitivamente a morte e enxugaria as lágri­mas de todos os rostos? De fato, Jesus curou algumas pesso­as; mas muitas mais permaneceram sem cura. Ressuscitou Lá­zaro, mas muitas outras morreram durante o seu tempo na ter­ra. Não enxugou as lágrimas de todos os rostos.

O problema da injustiça perturba muitas pessoas que, de outra forma, são atraídas pela vida de Jesus. O grande teólo­go Agostinho, por exemplo, ficou intrigado com a arbitrarieda­de das curas mencionadas nos evangelhos. Se Jesus tinha o po­der, por que não curou a todos? Em especial uma história do evangelho de João chamou a atenção de Agostinho.

Os inválidos de Jerusalém — os cegos, os coxos, os para-líticos — costumavam se reunir em torno de um determinado tanque da cidade. Algumas vezes a água do tanque parecia se agitar, e as pessoas enfermas corriam, coxeavam ou rastejavam para entrar na água enquanto ela estava se mexendo. Era o santuário de Lurdes daquela época. Certo dia Jesus encetou uma conversa com um homem enfermo que jazia ali. Estava aleijado havia trinta e oito anos, contou a Jesus, mas nunca tinha conseguido chegar ao tanque. Sempre que a água se me­xia alguém chegava antes. Sem pestanejar, Jesus ordenou ao inválido que se levantasse e andasse. "Imediatamente o homem se viu curado e, tomando o leito, pôs-se a andar." Depois de trinta e oito anos de ficar estendido no chão, ele andou! Era o homem mais feliz de Jerusalém.

Mas o narrador da história, João, acrescenta um detalhe significativo: Jesus furtivamente desapareceu em meio à multi­dão. Ignorou o restante da grande multidão de pessoas inváli­das, permitindo que todos, à exceção de um, continuassem sem cura. Por quê? Agostinho se admirava: "Havia tantos es­tendidos ali ao chão, e ainda assim apenas um foi curado, em­bora com uma palavra pudesse ter sarado todos eles."

O primo de Jesus foi uma outra vítima da injustiça. João Batista, um crente de verdade, havia despertado as esperanças da nação quanto a Jesus. Nos primeiros dias de seu ministério, quando as pessoas costumavam perguntar se João mesmo não era o Messias, ele as corrigia, dizendo que o Messias "vem após mim, do qual não sou digno de desatar-lhe as correias das sandálias." Aquele prometido — Jesus de Nazaré — veio até João pedindo batismo, e este observou surpreendido enquan­to o Espírito de Deus descia do céu em forma de pomba. Como que tendo o objetivo de desfazer todas as dúvidas quanto a Jesus, ouviu-se uma voz vinda do céu, forte como um trovão.

Dois anos mais tarde, entretanto, João Batista teve suas próprias dúvidas, sua própria crise de decepção. Havia servi­do fielmente a Deus, e, no entanto, acabara na prisão de Herodes. Enquanto ali mofava, esperando a morte, enviou às escon­didas uma mensagem para Jesus: "És tu aquele que estava pa­ra vir, ou havemos de esperar outro?" Aquela única pergunta — vinda de João! — capta a estranha ambivalência, a esperan­ça e a incerteza, que existiam em torno de Jesus.

O Reino Interior

Caso Jesus tivesse simplesmente evitado uma palavra emocionalmente carregada, reino, tudo poderia ter sido diferente. Assim que ele a mencionava, nasciam imagens nas mentes da­queles que ouviam: estandartes reluzentes, exércitos resplendentes, o ouro e o mármore dos dias de Salomão, uma nação con­duzida de volta à sua grandeza. Mas então acontecia algo pa­ra frustrar aquelas expectativas, e todos os sentimentos de de­cepção novamente voltavam. Como se verificou posteriormen­te, a palavra reino significava uma coisa para a multidão e uma outra bem diferente para Jesus.

As massas desejavam mais do que alguns milagres aqui e ali; desejavam um reino visível de poder e glória. Mas, em vez disso, Jesus falava a respeito do "reino dos céus", um reino invisível. Sim, ele solucionou alguns problemas no mundo ao seu redor, mas ele empregou suas energias principalmente pa­ra lutar contra forças invisíveis. Certa vez um paralítico tão desesperado em ser curado convenceu quatro amigos a fazerem um buraco num telhado e descerem-no pelo buraco de modo que conseguisse chegar até Jesus. E a reação de Jesus foi: "Qual é mais fácil: dizer ao paralítico: Estão perdoados os teus pecados, ou dizer: Levanta-te, toma o teu leito, e anda?" Ele deixou claro o que era mais fácil. Nenhuma deformidade física podia suportar seu toque curativo. A luta de verdade era contra poderes espirituais, invisíveis.

A fé, o perdão dos pecados, o poder do maligno — estas eram as preocupações que levavam Jesus a diariamente orar ao Pai. Essa ênfase confundia as multidões, que basicamente procuravam soluções para seus problemas no mundo físico: pobreza, enfermidades, opressão política. No fim, Jesus fracas­sou em alcançar as expectativas que tinham quanto a um rei. (Será que alguma coisa mudou desde então? Conheço inúme­ros ministérios que enfatizam a cura e a prosperidade físicas, mas poucos que concentram sua atenção em persistentes pro­blemas humanos tais como orgulho, hipocrisia e legalismo — os problemas que tanto preocuparam Jesus.)

Quaisquer idéias que os seguidores de Jesus tivessem quan­to a um novo e poderoso Salomão reconquistando Israel se evaporaram ao observarem o que aconteceu em Jerusalém. Alguns dias após uma "procissão triunfante" (uma palhaça­da em comparação com os imponentes desfiles dos romanos), Jesus foi preso e levado a julgamento. Ele contou ao governa­dor romano que era de fato um rei, mas acrescentou: "O meu reino não é deste mundo. Se o meu reino fosse deste mundo, os meus ministros se empenhariam por mim, para que não fos­se eu entregue aos judeus; mas agora o meu reino não é daqui."

Jesus um rei? Um rei de brincadeira, com seu manto purpúreo salpicado de sangue, por causa dos açoites, e com uma coroa de espinhos comprimida em sua cabeça. Os discípulos fugiram, sua lealdade foi sufocada pelo medo do perigo ime­diato. Se Jesus não se protegia, por que iria protegê-los? O mundo visível do poder romano encontrou-se com o mundo invisível do reino dos céus, e por alguns momentos pareceu que iria arrasá-lo.

 

A verdade para sempre no patíbulo. O erro para sempre no trono — No entanto aquele patíbulo determina o futu­ro, e por detrás do escuro desconhecido, está Deus dentro da sombra, vigilante sobre os seus.

                   James Russell Lowell, ("A Crise Presente")

 

* Referências bíblicas: Isaías 40, 9; Lucas 7; João 14; Marcos 3; João 5; João 1; Mateus 11; Marcos 2; João 18.

 

                    Timidez Divina

 

O meu projeto é a primeira experiência científica em to­da história a resolver de uma vez por todas a questão da existência de Deus. Do jeito como as coisas estão, podem existir sinais de sua existência, mas eles apontam para os dois lados e, assim sendo, são ambíguos e não provam coisa alguma. Por exemplo, as maravilhas do universo não convencem aqueles que estão mais familiarizados com tais maravilhas, os próprios cientistas. Quer isso testifique da ignorância dos cientistas, quer do sucesso de Deus em esconder-se, é algo sem tanta importância.

                        Walker Percy, ("A Segunda Vinda")

 

SE CHEGOU a haver uma ocasião propícia para conduzir a experiência proposta no romance de Walker Percy, ela ocorreu enquanto Jesus andou pela terra. Além de provar a existência de Deus, Jesus poderia ter solucionado de uma vez para sempre o problema da decepção com Deus. Ele teve uma magnífica oportunidade de calar os críticos para sempre.

Se, por exemplo, meu amigo Richard tivesse vivido nos dias de Jesus, poderia ter exigido diretamente dele provas a respeito do assunto. "Você diz que é o Filho de Deus? Tudo bem, então prove!" O que teria acontecido? Não precisamos especular, pois com freqüência Jesus foi desafiado de modo parecido. Quando os "experts" em religião imploraram a ele para que fizesse um sinal miraculoso, Jesus ficou irado com eles, chamando-os de "geração má e adúltera". Quando um rei muito curioso pediu para ver um milagre, Jesus recusou-se a cooperar, embora isso pudesse ter salvo a sua vida.

Por que Deus se refreia? Talvez possa-se encontrar uma pista na Tentação, o primeiro "acontecimento" do ministério de Jesus, uma espécie de exame final prestado logo antes de iniciar sua vida pública. Em certos aspectos me faz lembrar da crise de Richard naquela madrugada.

É difícil imaginar um confronto mais impressionante: Je­sus contra o maior dos céticos, Satanás em pessoa, com a areia alva do deserto servindo de cenário. Satanás desejava alguma prova: "Se és Filho de Deus..." Ele desafiou Jesus a fazer pão com uma pedra, pediu para ver uma amostra dos poderes de autoproteção que Jesus possuía, e ofereceu-lhe a autoridade sobre todos os reinos do mundo.

Creio que o desafio de Satanás foi uma tentação de verda­de para Jesus, não uma disputa ensaiada, pré-decidida. Um pão teria tentado qualquer um que tivesse jejuado durante qua­renta dias. Uma garantia de segurança física certamente exer­cia atração sobre alguém que iria enfrentar a tortura e a exe­cução. E o esplendor de todos os reinos da Terra — os profetas não haviam predito tudo isso para o Messias? Todas as três "tentações" estavam ao alcance de Jesus; todas as três eram, na verdade, prerrogativas suas. Na verdade, Satanás estava oferecendo a Jesus um atalho para alcançar seus objetivos mes­siânicos.

O romancista russo Fyodor Dostoyevsky fez da cena da Tentação um ponto central em sua obra-prima Os Irmãos Karamázov. Ivan Karamázov chama a Tentação de o mais estu­pendo milagre da terra: o milagre do restringir-se. Se ele tivesse cedido à Tentação, teria conquistado suas credenciais — não apenas junto a Satanás, mas junto a todo Israel, confirmando-se à humanidade além de qualquer dúvida. Segundo o ponto de vista de Dostoyevsky, Satanás ofereceu três meios fáceis de despertar a fé — milagre, mistério e autoridade — e Cristo recusou todos os três. Nas palavras de Ivan Karamázov, "Você não usaria milagres para escravizar o homem; você de­sejou que a fé do homem nascesse espontaneamente, não co­mo fruto de milagres."

Enquanto eu lia o relato conciso de Mateus sobre a Tenta­ção e então a reconstrução longa e elaborada de Dostoyévsky, uma pergunta surgiu de maneira abrupta, perturbadora. Qual é a diferença entre a tentação no deserto e aquela que teve lu­gar no pequeno apartamento de Richard? Ele também implo­rou por algum tipo de manifestação sobrenatural: uma luz, uma voz, alguma coisa que comprovasse o poder de Deus além de qualquer dúvida. Ou, para tornar a questão mais pessoal, como é que a Tentação é diferente de épocas quando eu implo­ro, quase exijo, que Deus intervenha e me salve de algum apuro?

Existem diferenças, é claro, e a minha autodefesa rapida­mente as descreve. Supõe-se que Richard era sincero; eu esta­va necessitado; nós dois estávamos pedindo ajuda a Deus, não estávamos insultando-o nem exigindo adoração. E, assim mes­mo, não consigo desfazer-me facilmente da semelhança mar­cante entre o "Atira-te abaixo" de Satanás e o "Revela-te!" de Richard. Em cada caso o desafio é o mesmo: uma exigência de que Deus tire a capa e se revele. Em cada caso, Deus não quis mostrar-se.

Há um outro exemplo da auto-restrição divina. Aconte­ceu em Jerusalém, num local bem próximo de onde Satanás fez o seu terceiro desafio. Do alto de uma colina Jesus olhou e clamou: "Jerusalém, Jerusalém! que matas os profetas e ape­drejas os que te foram enviados! quantas vezes quis eu reunir os teus filhos, como a galinha ajunta os seus pintinhos debai­xo das asas, e vós não o quisestes!" Aquele lamento de triste­za por Jerusalém é de uma qualidade quase que de timidez. Jesus, que podia destruir Jerusalém com uma palavra, que po­dia mandar descer legiões de anjos dos céus para forçar uma sujeição, em vez disso observa a cidade e chora.

Deus se segura; se esconde; chora. Por quê? Porque dese­ja o que o poder jamais consegue conquistar. Ele é um rei que não deseja a sujeição, mas o amor. Ao invés de esmagar Jeru­salém, Roma e todas as outras potências mundiais, ele optou pelo caminho lento e difícil da Encarnação, amor e morte.

George MacDonald resumiu a abordagem de Cristo: "Em vez de esmigalhar o poder do mal com a força divina; em vez de impor a justiça e destruir os ímpios; em vez de pacificar a Terra mediante o governo de um príncipe perfeito; em vez de reunir as crianças de Jerusalém sob suas asas, quer elas quises­sem ou não, e de salvá-las dos horrores que angustiavam sua alma profética — Ele deixou que o mal agisse à vontade enquan­to existisse; Ele se satisfez com as formas lentas e desencorajadoras de ajudar apenas no essencial; tornando bons os ho­mens; expulsando, e não simplesmente controlando, Satanás.... Amar a justiça é fazê-la crescer, não é vingá-la."

Os Milagres

Obviamente não contei a história toda sobre Jesus. Sim, a humanidade de Jesus representava uma espécie de disfarce, pelo menos em comparação com a glória de Deus no Antigo Testamento. Sim, ele demonstrou a autolimitação, recusando-se a impressionar espectadores com uma impetuosa manifesta­ção de poder. Mas que dizer dos milagres que ele chegou a realizar, dos quais três dúzias estão relatados nos evangelhos? Ninguém que o viu fornecer almoço para cinco mil, ou orde­nar a Lázaro que saísse do túmulo, ou amainar uma tempesta­de de verão poderia falar com facilidade de uma qualidade co­mo "timidez divina".

Porém, Jesus, que, caso quisesse fazê-lo, presumivelmen­te teve poder para operar uma maravilha em qualquer dia de sua vida, demonstrou uma curiosa ambivalência diante dos mi­lagres. Com seus discípulos, ele os empregou como uma pro­va de quem era ("Crede-me que estou no Pai, e o Pai em mim; crede ao menos por causa das mesmas obras"). Mas, mesmo quando as realizava, parecia não atribuir muita importância a elas. Quando ressuscitou a filha de um judeu da alta socieda­de, deu ordens expressas para manter silêncio sobre o ocorri­do. Marcos registra sete ocasiões distintas quando Jesus disse a alguém que havia curado: "Não o digas a ninguém!"

Jesus sabia muito bem sobre o efeito superficial dos mila­gres nos dias de Moisés e nos de Elias: eles atraíam multidões, é verdade, mas raramente estimulavam uma fidelidade de lon­ga duração. Ele estava trazendo uma dura mensagem de obediência e sacrifício, não um espetáculo à parte para pessoas ávi­das de sensacionalismo. Como era de esperar, os verdadeiros céticos de sua época (bastante parecidos com as pessoas de ho­je em dia) deram uma explicação racionalista para seus poderes. Se a voz de Deus falava do céu, rejeitavam-na como sen­do um trovão. Outros creditaram suas capacidades a Satanás ou a alguma outra fonte. E os inimigos mais ferrenhos de Je­sus se recusaram a crer nele, mesmo quando diante de provas concretas. Certa ocasião, instalaram formalmente um tribunal para estudar uma suposta cura. Ignorando testemunhos de pri­meira mão — "Uma cousa sei: Eu era cego, e agora vejo" — despejaram insultos sobre o homem curado e atiraram-no tribu­nal afora. E, quando Lázaro se apresentou vivo depois de qua­tro dias num túmulo, quiseram providenciar logo uma segun­da morte para ele.

Com uma uniformidade impressionante, os relatos bíbli­cos mostram que milagres — milagres notáveis, de parar o trân­sito — simplesmente não fomentam uma fé profunda. Como prova disso, não precisamos procurar além dos três amigos mais chegados de Jesus, que foram os únicos a participar de um acontecimento conhecido como a Transfiguração, ocasião em que o rosto de Jesus brilhou como o Sol e suas roupas se tornaram ofuscantes, "sobremodo brancas, como nenhum lavandeiro na terra as poderia alvejar". Para surpresa dos discí­pulos, dois gigantes da história judaica, mortos havia muito tempo — Moisés e Elias — apareceram numa nuvem com eles. Deus falou audivelmente. Foi demais para os discípulos; es­tes caíram ao chão aterrorizados.

Que efeito, porém, um acontecimento estupendo como esse teve em Pedro, Tiago e João? Silenciou definitivamente suas perguntas e os encheu com uma fé sólida? Umas poucas semanas depois, quando Jesus mais necessitou deles, todos o abandonaram. De algum modo o significado de quem Jesus era nunca foi na verdade completamente assimilado, se não depois de ele ter partido e então retornado.

 

Tenho lido livros sobre sinais e milagres, livros que têm a pretensão de calar os céticos, como se os milagres de Jesus pro­vassem que ele é a resposta para os problemas do mundo.

Mas devo confessar que a maioria desses argumentos me dão a impressão de serem irrelevantes para pessoas decepcionadas com Deus. Estão mais interessadas nos milagres que Jesus não realizou. Por que um Deus que possui o poder de endireitar o que está errado escolhe algumas vezes não fazê-lo? Ou, por que Jesus realizava somente alguns milagres? Por que curar so­mente um homem paralítico em Betesda?

Pode-se encontrar uma pista para tal pergunta numa des­crição fantasiosa da vida de Jesus, a qual, por boas razões, nunca conseguiu entrar na Bíblia. O espúrio Evangelho da In­fância de Jesus Cristo propõe-se a revelar histórias desconheci­das sobre a infância de Jesus. Mostra Jesus do jeito que al­guém possa querer que ele fosse. Segundo esse antigo livro, onde as gotas de suor de Jesus caíam cresciam árvores balsa­míferas; o local onde ficavam suas fraldas não pegava fogo. A pedidos Jesus realizava "brincadeiras" para impressionar os amigos — algo que o verdadeiro Jesus sempre se recusou a fazer. O Jesus apócrifo possuía o fascínio de um gênio-de-gar­rafa domesticado ou de um mágico de circo. Sempre que seu pai, José, cometia algum erro num importante serviço de carpintaria, Jesus intervinha e, num passe de mágica, consertava a falha.

Esse Jesus mítico também não receava utilizar seu poder para vingança. Quando uma vizinha feriu um dos amiguinhos de Jesus, ela misteriosamente caiu num poço e morreu com o crânio esmagado. Quando Jesus se aproximava de uma cida­de, seus ídolos se desintegravam em montes de areia. Em con­traste, o Jesus de verdade repreendeu os discípulos por sugeri­rem que clamasse por fogo do céu contra uma cidade pecami­nosa. E, quando soldados vieram prendê-lo, empregou seu po­der sobrenatural uma única vez — para curar a orelha decepada de um dos que o prendiam.

Essas são as ações de um cabeça quente como Sansão, não as reações cuidadosas do Jesus histórico dos evangelhos, que empregou seus poderes com compaixão para satisfazer as necessidades humanas, não em brincadeiras para aparecer. To­das as vezes em que alguém lhe pedia diretamente, ele curava. Quando seus discípulos estavam ficando cada vez mais assusta­dos numa tempestade no meio do lago, ele acalmou o vento. Quando a multidão que o ouvia ficou com fome, ele os alimen­tou, e, quando os convidados de um casamento ficaram com sede, ele fez vinho. Em resumo, os milagres nos evangelhos autênticos dizem respeito ao amor, não ao poder.

Embora os milagres de Jesus fossem por demais limita­dos para solucionar cada decepção humana, serviam como si­nais proféticos de sua missão, ilustrando o que algum dia Deus faria em favor de toda a criação. Para as pessoas que os experimentaram — como é o caso do paralítico que foi abai­xado tal qual um candelabro que vai ser limpo — as curas for­neceram prova convincente de que o próprio Deus estava visi­tando o planeta Terra. Para todos os demais, despertaram an­seios que não desaparecerão até que uma restauração final aca­be com toda dor e morte.

Os milagres fizeram exatamente o que Jesus havia predi­to. Para aqueles que escolheram crer nele, deram ainda mais motivos para crer. Mas para aqueles decididos a negá-lo, os milagres fizeram pouquíssima diferença. Algumas coisas sim­plesmente têm de ser cridas para serem vistas.

 

* Referências bíblicas: Mateus 12, 16; Lucas 4; Ma­teus 23 e Lucas 13; João 14, 9; Marcos 9.

 

                   O Milagre Adiado

QUANDO CARLOS MAGNO, rei dos francos, ouviu pe­la primeira vez a história da prisão e execução de Jesus, explodiu de raiva. Segurando firmemente a espada e chocalhando-a na bainha, exclamou: "Ah! se eu estivesse ali. Eu teria morto todos eles com as minhas legiões!" Sorrimos diante da sincera lealdade de guerreiro de Carlos Magno, ou de Simão Pedro, que realmente desembainhou uma espada em defesa de Jesus. Por trás dessa grande indignação repousa, porém, uma questão misteriosa, profundamente misteriosa. Carlos Magno, afinal, não esteve presente no Getsêmani; mesmo es­tando, não poderia ter ajudado. Mas Deus Pai esteve ali; este, porém, não ergueu um dedo em favor de seu Filho condenado.

Por que Deus não agiu? Quem quer que reflita sobre a desilusão com Deus deve fazer uma pausa no Getsêmani, e no palácio de Pilatos e no Calvário — os cenários da prisão, do julgamento e da execução de Jesus. Pois naqueles três lo­cais o próprio Jesus experimentou uma condição bem pareci­da com a de desilusão com Deus.

O ordálio teve início enquanto Jesus orava num bosque tranqüilo e fresco, formado por oliveiras, com três de seus discípulos aguardando sonolentamente do lado de fora. Dentro do jardim tudo parecia em paz; mas fora as forças do próprio inferno estavam à solta. Um discípulo havia-se tornado trai­dor, Satanás estava à espreita, e um grande bando com espa­das e porretes estava a caminho do Getsêmani.

"A minha alma está profundamente triste até à morte", Jesus disse a seus três discípulos. Embora reivindicasse ter o direito e o poder de enviar um exército de anjos, Jesus não se defendeu. Ele viera para viver num mundo de carne e osso, e morreria de acordo com as regras desse mundo. Numa deter­minada altura ele caiu com o rosto em terra e orou para que houvesse alguma maneira, qualquer maneira, de escapar daque­la situação. O seu suor caía ao chão em grandes gotas, como de sangue.

E Deus ficou calado.

 

No palácio de Pilatos, essa autolimitação continuou. No sentido mais literal, Deus — em Jesus — tinha as mãos amar­radas. "Profetiza-nos", alguns gritaram, provocando-o com um desafio para que realizasse um milagre, "quem é que te bateu!" O Filho de Deus, de olhos vendados, não resistiu en­quanto punhos cerrados golpeavam seu rosto, e enquanto cus­pidas escorriam pela sua barba.

A cena seguinte, no Calvário, tem sido descrita para nós tantas vezes em dramatizações, sermões e pinturas sobre a Pai­xão que, estupefatos, mal conseguimos imaginá-la por nós mes­mos. Comece lembrando-se do mais doloroso tempo de decep­ção que você experimentou. Você apostou tudo naquilo que parecia estar ao alcance de Deus — talvez a recuperação de um câncer, ou o nascimento de uma criança saudável, ou a aju­da de Deus em salvar um casamento. Mas nada deu certo. O câncer matou, apesar de suas orações; o nenê nasceu com le­são cerebral; o seu cônjuge pediu o divórcio. Pense no Calvá­rio como sendo um tempo assim. Ou como um tempo como aquela noite que Richard passou em seu apartamento, ajoelha­do no chão, implorando a Deus. Pense nele como um tempo de Nenhum Milagre.

Todos então ansiavam por um milagre: Pilatos e Herodes, que tinham ouvido rumores espetaculares; as mulheres que ha­viam seguido Jesus desde a Galiléia; os discípulos que se esconderam à sombra. Um ladrão que morria implorou por um mi­lagre; o outro zombou, e os espectadores formaram um coro de gritaria: "Desça da cruz, e creremos nele.... Deus... venha livrá-lo agora, se de fato lhe quer bem."

Mas não houve livramento algum, milagre algum. Hou­ve somente silêncio. Charles Williams torna a olhar para a ce­na e diz: "O insulto atirado em Cristo, no momento de sua im­potência mais espetacular, foi: "Salvou os outros, a si mesmo não pode salvar-se.' Foi uma definição tão exata quanto qual­quer definição existente nas obras de escolásticos medievais."

"Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?" final­mente Jesus clamou. Era uma citação dos Salmos, o derradei­ro grito de decepção. O Pai tinha dado as costas, ou pelo me­nos assim parecia, deixando que a história seguisse seu curso, deixando que tudo o que existia de errado no mundo triunfas­se sobre tudo o que havia de correto. A própria natureza en­trou em convulsão: o chão tremeu como num terremoto, túmu­los racharam e se abriram. O sistema solar se arrepiou: o Sol se escondeu, e o céu se enegreceu.

Manhã de Domingo

Dois dias depois veio a Ressurreição, com um sonido co­mo de um terremoto e um clarão como de um relâmpago. Se­rá que isso não devia ter justificado a ação de Deus e solucio­nado o problema da decepção de uma vez por todas?

Que oportunidade desperdiçada! Se tão-somente o Jesus ressurreto tivesse reaparecido no pátio de Pilatos para desferir um golpe fulminante em seus inimigos! Mas suas mais ou me­nos doze aparições depois da ressurreição revelam um claro padrão: Cristo se apresentou somente a pessoas que já criam nele. Até onde saibamos, nem um único incrédulo viu Jesus depois de sua morte.

Considere dois homens que poderiam ter visto o Cristo ressuscitado caso tivessem esperado o suficiente. Esses rudes guardas romanos estavam do lado de fora do túmulo quando o Milagre dos Milagres ocorreu. Tremeram e ficaram como que mortos. Então, revelando um reflexo incuravelmente hu­mano, correram até as autoridades; e posteriormente naquela tarde esses dois, as únicas testemunhas do acontecimento real da ressurreição, concordaram em esconder o acontecimento. Pilhas de prata recém-cunhadas pareciam bem mais significati­vas do que a ressurreição do Filho de Deus. E, assim, as duas testemunhas oculares daquele grande dia, os homens esqueci­dos da Páscoa, morreram aparentemente como incrédulos.

 

Hoje em dia os principais acontecimentos da vida de Je­sus estão assinalados nos calendários de metade do mundo — Natal, sexta-feira santa e domingo da ressurreição. Dos três, entretanto, só o do meio, a Crucificação, teve lugar às claras para o mundo todo ver. No instante em que Deus parecia to­talmente desamparado, as câmeras da história estavam rodan­do, filmando tudo. Multidões imensas observaram cada doloro­so detalhe. E, quando quatro homens escreveram um relato minucioso sobre a vida de Jesus, dedicaram um terço de seus evangelhos para aquele tempo de aparente fracasso.

O espetáculo da Cruz, o acontecimento mais público da vida de Jesus, revela a enorme diferença entre um deus que prova sua existência pelo poder e Aquele que prova sua existên­cia pelo amor. Outros deuses, os deuses romanos, por exemplo, impunham a adoração: durante a própria vida de Jesus, al­guns judeus foram mortos por não se inclinarem perante Cé­sar. Mas Jesus Cristo jamais forçou alguém a crer nele. Prefe­ria agir atraindo as pessoas, fazendo com que deixassem a si mesmas e viessem a ele.

Paradoxalmente, no entanto, aquela cena de fraqueza ins­pirou uma nova esperança. "Se Deus é por nós, quem será contra nós?" concluiu o apóstolo Paulo, descansando sua fé no amor ilimitado de um Deus "que não poupou a seu pró­prio Filho, antes, por todos nós o entregou". O amor é mais persuasivo quando envolve sacrifício, e os evangelhos deixam claro que Jesus veio para morrer. Em suas próprias palavras, "Ninguém tem maior amor do que este: de dar alguém a pró­pria vida em favor dos seus amigos." De alguma forma, a pos­sibilidade de felicidade eterna exigiu este momento de silêncio e profunda decepção.

 

* Referências bíblicas: Mateus 26-27; Romanos 8; João 15.

 

                       Avanço

 

"Senhora", disse eu, "se o nosso Deus fosse um deus pagão ou o deus dos intelectuais — e para mim dá tudo na mesma — ele poderia voar para o seu céu mais distante e nosso pesar faria com que ele viesse de novo à terra. Mas a senhora sabe que nosso Deus veio para estar entre nós. Desfira um soco nele, cuspa em seu rosto, açoite-o e finalmente crucifique-o: de que adianta? Minha filha, tudo isso já foi feito com ele."

                           George Bernanos, ("Diário de um Padre Rural")

 

DEIXE-ME SER FRANCO: Que diferença Jesus faz para nossos sentimentos de decepção com Deus? Como nos ajuda o saber que ele também experimentou frustração e de­cepção?

Os teólogos, acompanhando o apóstolo Paulo, geralmen­te explicam a contribuição de Cristo em linguagem jurídica: justificação, reconciliação, propiciação. Mas essas palavras ca­racterizam somente uma pequena parte do que aconteceu. Pa­ra compreender que diferença Jesus faz para o problema da decepção, temos de ir além dessas palavras e examinar a histó­ria subjacente de Deus sair ardentemente em busca de seres humanos.

Reexamine as duas principais imagens nos Profetas: um pai ansioso lamentando pelo filho que fugiu, e um amante aban­donado ardendo de raiva. As histórias de Jesus propiciam um final feliz para ambas. O pai à espera tem aguardado por mui­to tempo; ele recebe de volta, com braços abertos, o filho fugi­tivo. O amante ferido, recuperado de sua ira, escancara a por­ta da frente.

A Cortina Rasgada

Que diferença Jesus fez? Tanto para Deus como para nós, ele tornou possível uma intimidade que nunca antes havia existido. No Antigo Testamento, os israelitas que tocaram a arca sagrada da aliança caíram mortos; mas pessoas que toca­ram em Jesus, o Filho de Deus em carne e osso, saíram cura­das. A judeus que não pronunciavam nem mesmo soletravam as letras do nome de Deus, Jesus ensinou uma nova maneira de dirigir-se a Deus: Abba, ou "papai". Em Jesus Deus se apro­ximou do homem.

As Confissões de Agostinho descrevem como essa proxi­midade o afetou. Na filosofia grega ele havia aprendido acer­ca de um Deus perfeito, atemporal, incorruptível. Ele jamais conseguiu aquilatar como uma pessoa cheia de cobiça, obceca­da por sexo, indisciplinada, tal como era o seu caso, podia se relacionar com um Deus assim. Tentou várias heresias da épo­ca e achou todas elas insatisfatórias, até que finalmente encon­trou o Jesus dos evangelhos, uma ponte entre seres humanos comuns e um Deus perfeito.

O livro de Hebreus examina em detalhes esse surpreenden­te novo avanço na questão da intimidade. Primeiramente o au­tor trata detalhadamente do que era necessário apenas para chegar até Deus na época do Antigo Testamento. Só uma vez por ano, no Dia da Expiação — o Yom Kippur — uma única pessoa, o sumo sacerdote, podia entrar no Lugar Santíssimo. A cerimônia envolvia banhos rituais, vestes especiais e cinco sacrifícios de animais; e ainda assim o sacerdote entrava no Lugar Santíssimo temeroso. Ele usava sinos em seu manto e uma corda em volta do tornozelo, de modo que, caso morres­se, e os sinos parassem de tocar, outros sacerdotes poderiam puxar seu corpo para fora.

Hebreus apresenta um contraste marcante: agora pode­mos nos aproximar do "trono da graça'' sem receio, com intrepidez, "confiadamente". Avançar com intrepidez até o Lu­gar Santíssimo — nenhuma imagem podia ser mais chocante para os leitores judeus. Contudo, no momento da morte de Jesus, uma grossa cortina dentro do templo literalmente se ras­gou em duas, de alto a baixo, deixando aberto o Lugar Santís­simo. Portanto, conclui Hebreus, devemos nos aproximar de Deus.

Jesus contribui com isto para o problema da decepção com Deus: por causa dele, podemos ir diretamente a Deus. Não necessitamos mediador humano, pois o próprio Deus se tornou mediador.

Um Rosto

Ninguém no Antigo Testamento podia dizer que conhecia o rosto de Deus. Na verdade, ninguém podia sobreviver a um olhar direto. Os poucos que tiveram um vislumbre da glória de Deus retornaram brilhando, e todos os que os viam escon­diam-se de medo. Mas Jesus ofereceu uma longa e demorada olhada no rosto de Deus. "Quem me vê a mim, vê o Pai", disse Jesus. Tudo o que Jesus é, Deus é. Como Michael Ramsey se expressou, "Em Deus absolutamente nada é diferente de Cristo."

As pessoas crescem tendo toda espécie de idéias de como Deus é. Vêem Deus como um inimigo, ou um policial, ou até como um pai que maltrata. Ou talvez não façam concepção alguma de Deus; apenas ouvem seu silêncio. Devido a Jesus, entretanto, já não precisamos tentar imaginar como Deus se sente ou como ele é. Quando em dúvida, podemos olhar para Jesus para corrigir nossa visão obscurecida.

Se eu tento imaginar como Deus encara pessoas deforma­das ou deficientes, posso observar Jesus entre aleijados, cegos e leprosos. Se eu tento imaginar em relação aos pobres e se Deus predestinou-os a viverem na miséria, posso ler as palavras de Jesus no Sermão do Monte. E, se eu tentar imaginar em relação à reação "espiritual" apropriada diante da dor e do sofrimento, posso observar como Jesus reagiu aos que ele próprio experimentou: com temor e tremor, com gritos e lágrimas.

Ainda Não

Não pude deixar de observar uma abrupta mudança de atitude na Bíblia, na altura do livro de Atos. Se você pesqui­sar o restante do Novo Testamento, nada encontrará da indig­nação de Jó nem do desespero de Eclesiastes, nem da angústia de Lamentações. Os escritores do Novo Testamento estavam claramente convencidos de que Jesus havia transformado o universo para sempre. Em fragmentos de frases, espalhados pela página, o apóstolo Paulo não poupou superlativos: "Ne­le tudo subsiste... por meio dele reconciliasse consigo mesmo todas as cousas, quer sobre a terra, quer nos céus... fazendo-o sentar... acima de todo principado, e potestade, e poder, e do­mínio, e de todo nome que se possa referir não só no presen­te século, mas também no vindouro."

Entretanto, enquanto Paulo escrevia essas exatas palavras, o império romano estava-se alastrando com sua incansável su­cessão de guerras e tiranos; as pessoas de todos os lugares ain­da estavam mentindo, roubando e matando umas às outras; as enfermidades continuavam a se espalhar; e os próprios cris­tãos estavam sendo lacerados com açoites e atirados à prisão. Tais motivos corriqueiros para a dúvida e a decepção não pare­ciam perturbar Paulo ou os escritores do Novo Testamento. Os apóstolos estavam confiantes de que Jesus voltaria tal qual prometera, com poder e glória. Era só uma questão de tempo. Tinham duvidado dele uma vez, mas depois da Ressurreição não duvidariam de novo.

O enfoque seguro e resoluto dos escritores do Novo Testa­mento cria, contudo, um problema: o problema de, por que, cerca de vinte séculos depois do apóstolo Paulo, estou dedican­do um livro inteiro ao assunto da decepção com Deus. E as pessoas que me contaram suas histórias contundentes — por que lhes falta a intrépida certeza das epístolas do Novo Testa­mento? Por que toda a nossa decepção não se desfez até agora?

Enquanto reflito sobre essas coisas, continuo retornando à questão solitária da injustiça. Deus é injusto? De um modo notável, Jesus deu uma resposta direta aos problemas do ocultamento e silêncio de Deus. Mas o problema da injustiça só parecia piorar. A própria vida de Jesus terminou na maior in­justiça da história: o melhor homem que já viveu sofreu a pior de todas as punições. Mais uma vítima de um planeta cruel. As condições dificilmente melhoraram depois de sua morte, quando os discípulos de Jesus receberam as "recompen­sas" de prisão, tortura e até mesmo martírio. O problema da injustiça não desapareceu.

Surpreendentemente, o autor de Hebreus parecia antever aquela exata situação, quase como um reconhecimento indire­to de que as pessoas de fato ainda se sentiriam frustradas com Deus. O capítulo 2 principia com uma citação grandiosa dos Salmos, citação que fala de Deus pôr tudo sob os pés de Jesus. Então segue esta afirmação singular, repleta de significado: "A-gora, porém, ainda não vemos todas as cousas a ele sujeitas."

Como escritor, sei o que é escrever aquilo que acredito ser verdade e então ficar me perguntando, logo depois de ter escrito, Realmente quero dizer isso? O escritor de Hebreus, depois de registrar a rajada de teologia magnífica dos Salmos, igualmente parece fazer uma pausa e reconsiderar o assunto. Sim, é verdade que Jesus está no controle — mas certamente não parece: "Agora, porém, ainda não vemos todas as cousas a ele sujeitas." Essa única sentença abrange toda a injustiça: toda guerra e violência, todo ódio e cobiça, toda vitória do mal sobre o bem, toda enfermidade e morte, todas as lágrimas e lamentos, toda decepção e desespero deste mundo caótico.

O parágrafo prossegue: "vemos, todavia, aquele que, por um pouco, tendo sido feito menor que os anjos, Jesus, por causa do sofrimento da morte, foi coroado de glória e de hon­ra, para que, pela graça de Deus, provasse a morte por todo homem." Propositadamente, o livro de Hebreus não evoca uma imagem triunfante de Jesus no Monte da Transfiguração ou em seu corpo ressurreto; mostra Jesus na cruz. Então o au­tor emprega algumas das palavras mais misteriosas do Novo Testamento. Fala de Cristo sendo aperfeiçoado e aprendendo a obediência através das coisas que sofreu. Os comentaristas freqüentemente pulam essas expressões, pois não são fáceis de conciliar com as idéias tradicionais de um Deus imutável e impassível. Mas não devo ignorá-las, pois Hebreus as apresen­ta para descrever a contribuição direta de Jesus para o proble­ma permanente da desilusão com Deus.

Pelo que vemos em Hebreus, parece claro que a Encarnação tinha significado para Deus também; não só para nós. Foi a maneira derradeira de ele se identificar conosco. Ele, um es­pírito, jamais se limitara ao mundo da matéria, jamais experi­mentara a frágil vulnerabilidade da carne humana, jamais sen­tira as advertências gritantes das células da dor. Jesus mudou tudo isso. Ele passou por toda a experiência humana, desde o sangue e a dor do nascimento até o sangue e a dor da morte.

Pelo que vemos no Antigo Testamento, podemos ter uma percepção aprofundada de como é que é ser Deus. Mas o No­vo Testamento registra o que aconteceu quando Deus decidiu aprender como é que é ser humano. Tudo o que sentimos, Deus sentiu. Instintivamente desejamos um Deus que não ape­nas saiba acerca da dor, mas que partilhe dela; desejamos um Deus que é afetado pela nossa própria dor. Conforme rabiscou numa nota o jovem teólogo Dietrich Bonhoeffer, enquanto es­tava num campo de prisioneiros dos nazistas, "Só o Deus So­fredor pode ajudar." Por causa de Jesus, temos um Deus as­sim. Hebreus relata que Deus pode agora ter simpatia de nos­sas fraquezas. A própria palavra expressa como isso se deu: "simpatia" vem de duas palavras gregas, sym pathos, que sig­nificam "sofrer com".

Será que seria exagerado dizer que, devido a Jesus, Deus compreende nossos sentimentos de desilusão com ele? De que outra forma podemos interpretar as lágrimas de Jesus, ou gri­to que deu na cruz? Quase que se pode despejar as três pergun­tas deste livro naquele terrível clamor: "Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?" O Filho de Deus "aprendeu a obe­diência" pelo sofrimento, diz Hebreus. Uma pessoa só pode aprender a obedecer quando tentada a desobedecer, só pode aprender a ter coragem quando tentada a fugir.

Por que Jesus não sacou uma espada no Getsêmani, nem convocou suas legiões de anjos? Por que recusou o desafio fei­to por Satanás para que impressionasse o mundo? Por esta ra­zão: caso o tivesse feito, teria fracassado em sua mais impor­tante missão — tornar-se um de nós, viver e morrer como um de nós. Era a única maneira de Deus agir "de acordo com as regras" que havia estabelecido na criação do mundo. Em seu plano de restaurar aquela criação, não esmigalharia a liberda­de humana nem buscaria uma saída fácil para si mesmo.

Através de toda a Bíblia, especialmente nos livros dos pro­fetas, vemos Deus enfrentar um conflito dentro de si mesmo. De um lado ele amava ardentemente as pessoas que havia fei­to; por outro lado tinha um terrível impulso para destruir o Mal que as escravizava. Por fim, na cruz, Deus resolveu aque­le conflito interior, pois lá o seu Filho absorveu aquele poder destrutivo e o transformou em amor.

 

O único meio definitivo de conquistar o mal é deixá-lo que seja asfixiado dentro de um ser humano vivo, com vontade própria. Quando é absorvido ali, tal qual sangue numa esponja ou uma lança atirada num coração, perde seu poder e não vai além.

                 Gale D. Webbe, ("A Noite e Nada")

 

* Referências bíblicas: Hebreus 4, 10; João 14; Colossenses 1; Efésios 1; Hebreus 2-5.

 

                                         Transferindo-se: O Espírito

 

                   Delegação

O SEU ESTÔMAGO está revirando com aquela tensão de primeiro dia no emprego. Será que vou conseguir? E se eu não fizer direito? O chefe vai gostar de mim? Você dá uma olhadela ao redor e repara nos outros. Têm os olhos semicerrados devido ao sol brilhante, apóiam o peso do corpo ora nu­ma perna ora noutra, com nervosismo desenham figuras na areia com o bico de suas sandálias. Setenta de vocês receberam a convocação de se apresentarem para uma tarefa especial.

Jesus está fazendo um discurso. Parece preocupado, e suas palavras transmitem inquietação: "Eu vos envio como cordeiros para o meio de lobos. Não leveis bolsa, nem alforje, nem sandálias; e a ninguém saudeis pelo caminho." Na hora em que chega ao final de sua fala, aumenta o tom de voz, cha­mando a atenção: "Quem vos der ouvidos, ouve-me a mim; e, quem vos rejeitar, a mim me rejeita; quem, porém, me rejeitar, rejeita aquele que me enviou." O que se espera que isso signi­fique? O grupo começa a se dispersar, e, engolindo as incerte­zas, você sai com o companheiro que lhe foi designado para realizar a tarefa dada.

Na próxima vez em que você vê Jesus, uns poucos dias depois, parece como se ele tivesse trocado de rosto. Toda seve­ridade e inquietação se foram. Ele dá largos sorrisos enquan­to vocês contam suas histórias, e insiste em que vocês dêem detalhes. Ele quer ouvir tudo sobre as curas, exorcismos e vi­das transformadas. Realmente deu certo essa perigosa missão na região montanhosa, e Jesus está comemorando. É uma fes­ta de vitória. Ouça-o por um bom tempo e você crerá que po­de fazer qualquer coisa: pisar sobre serpentes, escorpiões, qual­quer coisa.

Bem no meio do relatório que você está apresentando, ele ergue a mão para interromper. Você nunca o viu tão anima­do. "Eu via a Satanás caindo do céu como um relâmpago", ele anuncia, e, embora você não tenha qualquer idéia do que ele quer dizer, você se vê envolvido num repentino surto de en­tusiasmo. Um grande avanço pelas linhas inimigas deve ter aca­bado de acontecer. Então ele se inclina para mais perto e diz numa voz mansa: "Muitos profetas e reis quiseram ver o que vedes, e não viram, e ouvir o que ouvis, e não o ouviram."

Exame Final

Uma outra cena, uns seis meses depois. Dessa vez você está jantando com o restante dos Doze numa pequena sala em Jerusalém. Um sentimento abafado, enclausurado, toma conta do local, e você está um pouco tonto depois da refeição e do vinho. Tudo está acontecendo rápido demais. No início dessa semana Jesus havia permitido uma rara manifestação de aclamação pública e entrou na cidade numa procissão triun­fal. Parecia que todos os sonhos que você sustenta finalmente se tornariam verdade. Mas o ambiente dessa noite é agourento.

Primeiro houve o incidente do lavar os pés, quando Jesus constrangeu Pedro. E mesmo agora, enquanto conversa, a ati­tude de Jesus oscila. Num momento ele parece nostálgico e consolador, e no momento seguinte repentinamente repreende você por estupidez e falta de fé. Continua se referindo a uma traição. Uma parte disso você não entende bem. Mas numa coisa ele continua insistindo apesar de todos os protestos: es­tá indo embora. Algum outro virá para tomar o seu lugar, al­guém que ele chama de Conselheiro.

Durante meses você vem aguardando que Jesus assuma o comando do seu reino. Mas agora ele diz que está transferin­do tudo — para vocês, os Doze! Ele olha ao redor da sala e diz com determinação: "Assim como meu Pai me confiou um reino, eu vo-lo confio."

A Partida

Muito bem, vocês fracassaram — todos vocês, até mes­mo Pedro, que tinha-se gabado de sua lealdade apenas umas poucas horas antes da sua grande negação. Apesar do que Je­sus tinha dito na sala naquela noite, quando chegou a hora vo­cês simplesmente não conseguiram conciliar as palavras dele com o que aconteceu em seguida. "Eu venci o mundo", havia dito. Mas menos de vinte e quatro horas depois vocês o viram pendurado nu em uma cruz, seu corpo frágil bruxuleando à luz do archote. Este, o Salvador da nação de vocês, o Rei dos Reis? Era demais pedir a alguém para que cresse.

Isso foi na sexta-feira.

No domingo, boatos desencontrados, malucos, atingiram a coesa comunidade de pranteadores. E então mais tarde na semana você o viu. Era verdade! Você o tocou com suas pró­prias mãos. Era Jesus! Ele havia feito o que ninguém anterior­mente havia feito: havia caminhado voluntariamente para a morte, e depois voltado. Nunca, nunca mais você tornaria a duvidar dele.

Durante quarenta dias Jesus apareceu e desapareceu apa­rentemente a seu bel-prazer. Quando aparecia, você ouvia avi­damente suas explicações do que tinha acontecido. Quando partiu, você e os demais conspiraram o novo reino. Jerusalém estaria finalmente livre do domínio romano!

Fazia tempo que amigos vinham zombando de sua obsti­nação com esse pregador simples. Agora você mostraria para eles. Ninguém mais ia zombar; ninguém ia fazer com Israel o que bem entendesse. Pedro, Tiago e João naturalmente ascen­deriam às posições de maior importância, mas um reino neces­sitaria de muitos líderes — e, afinal, você tinha seguido Jesus durante três anos. O Messias, o verdadeiro Messias, tinha con­siderado você como um de seus discípulos mais chegados.

Durante aqueles quarenta dias, nada do impacto se desfez. Cada reaparecimento de Jesus era um novo milagre. Finalmente alguém fez a pergunta para ele, a inquietadora pergunta que todos vocês vinham discutindo: "Senhor, será este o tempo em que restaures o reino a Israel?" Com a respiração suspen­sa vocês aguardaram algum sinal — talvez uma convocação às armas, um plano de batalha. Os romanos não iriam embo­ra assim sem lutar.

Ninguém estava preparado para a reação de Jesus. De iní­cio pareceu que ele não tinha ouvido muito bem a pergunta. Ele a ignorou e começou a falar não sobre Israel, mas sobre países vizinhos e outros lugares longínquos. Ele disse que vo­cês, no final, deviam ir a esses lugares na condição de suas tes­temunhas. Mas, por ora, vocês deviam simplesmente retornar a Jerusalém e esperar pelo Espírito Santo.

Então uma coisa muito surpreendente aconteceu. Vocês estavam ali, ouvindo-o, quando de repente seu corpo começou a se erguer do chão. Ele ficou por um instante suspenso no ar; então uma nuvem o ocultou da vista. E nunca mais vocês voltaram a ver Jesus.

Três Cenas

Essas cenas — o Envio dos Setenta, a Última Ceia e a Ascensão — revelam todas elas algo acerca da razão por que Jesus veio à terra. É verdade que veio estabelecer a justiça di­vina e nos mostrar como Deus é. Mas também veio fundar uma Igreja, uma nova habitação para o Espírito de Deus.

E é por essa razão que, quando os setenta retornaram pa­ra dar-lhe relatórios, Jesus quase explodiu de alegria. "Quem vos der ouvidos, ouve-me a mim", ele havia lhes dito, e de fa­to o plano estava funcionando. Sua própria missão — mais do que isso, sua própria vida — estava sendo vivida através de setenta seres humanos comuns.

Na ocasião da última ceia com os discípulos, Jesus trans­mitiu um sentido ainda maior de urgência. Esses eram os seus amigos mais chegados, e era hora de transferir para eles toda a missão — esses amigos bem intencionados, tão ágeis agora em suas declarações de lealdade, tão ágeis mais tarde em suas negações. "Assim como o Pai me enviou, eu também vos en­vio", disse, sabendo que não compreendiam. Esse pequeno grupo levaria a mensagem dele a Jerusalém, e a toda Judéia e Samaria, e então aos lugares que ele mesmo jamais visitara — até chegar aos confins da Terra.

Na Ascensão, o corpo de Jesus deixou a terra perante os olhos dos atônitos discípulos. Mas em breve, muito em breve, por ocasião de Pentecostes, o Espírito de Deus que habitava em Cristo faria residência em outros corpos: Em seus corpos.

 

* Referências bíblicas: Lucas 10, 22; João 13-17; Atos 1; João 20.

 

                    Mudanças

Uma série documentária de filmes sobre religião. Ótimo. Mais uma tarefa tediosa. "Explora imagens de Deus através dos séculos", ou alguma abstração dessas, dizem. Pois é. Quem vai produzir esses roteiros? Para co­meçar, o personagem central é invisível.

Bem, até que alguém imagine um jeito de conseguir uma entrevista com o próprio Deus, terão de contentar-se com vinhetas sobre Deus.

Século 14 a.C. Tomada em helicóptero dos cumes do Sinai. Área não habitada, de modo que não há ante­nas de televisão para prejudicar, etc. Tomada em zoom de pequeno ajuntamento de figurantes beduínos que fazem papel de antigos hebreus. Ao fundo uma voz descreve co­mo se alimentam, como se vestem. A câmara focaliza um garoto judeu de mais ou menos doze anos de idade. Interrompe-o em seu folguedo e chama-o para um pouco mais perto.

— Fale-me sobre o seu Deus. Como é que ele é? — indaga o narrador.

Os olhos do menino se arregalam. — Você quer di­zer... quer dizer... — Não consegue pronunciar a palavra.

— Isso mesmo, Iavé, o Deus que você adora.

— Como é que ele é? Ele? Vê aquela montanha ali? [Corte. Imagem de um vulcão. Bastante vapor, fu­maça. Tomada em close do magma.]

— É onde ele mora. Não chegue perto dali, senão você morre! Ele é... é... bem, acima de tudo ele é assusta­dor. Apavorante mesmo."

Século primeiro A. D. Panorâmica do horizonte lon­go e plano da Palestina. Os mesmos beduínos, agora an­dando em grupo no deserto, mas sem rumo. Oásis ao fun­do. Passa a plano médio para um grupo de figurantes, fe­cha em seguida em uma mulher na borda do grupo, senta­da, encostada num arbusto do deserto. Lança-lhe a pergunta.

— Deus? Ainda estou tentando eu mesma ter uma imagem de como ele é. Achei que sabia, mas, quando co­mecei a seguir esse mestre por todo canto, fiquei confusa. Ele diz que é o Messias. Meus amigos riem. Mas eu esta­va lá quando ele alimentou cinco mil pessoas — quem mais podia fazer aquilo? eu comi um pedaço do peixe. E com os meus próprios olhos eu o vi curar um cego. De algum modo Deus é como aquele homem chamado Jesus, que está logo ali.

Século vinte A.D. Equipe de filmagem vai a uma pitoresca igreja numa pequena cidade. Vista panorâmica do rosto das pessoas nos bancos.

Voz do narrador ao fundo: — E como é que é Deus hoje em dia?

 

O Novo Testamento pede que creiamos que a resposta en­contra-se naquela igreja comum, naquelas pessoas comuns nos bancos. Deus em Cristo até que dá para entender, mas em nós? A única maneira para sentir o choque disso é ler a Bíblia de capa a capa, de Gênesis a Apocalipse, como eu fiz naqueles dias de neve no Colorado.

O poderoso e temível Senhor do Universo, cheio de ardor e fogo e santidade, domina as primeiras novecentas páginas. Seguem-se quatro evangelhos, com aproximadamente cem pá­ginas, relatando a vida de Jesus na terra. Mas depois de Atos a Bíblia apresenta uma série de cartas pessoais. Gregos, roma­nos, judeus, escravos, senhores de escravos, mulheres, homens, crianças — as cartas são dirigidas a todos esses diversos gru­pos, e, ainda assim, cada carta pressupõe que seus leitores pertençam a uma nova e abrangente identidade. Todos estão "em Cristo".

"A Igreja nada mais é do que um segmento da humanida­de no qual Cristo verdadeiramente tomou forma", disse o teó­logo Dietrich Bonhoeffer. O apóstolo Paulo expressou o mes­mo pensamento com sua expressão "o corpo de Cristo". Con­forme ele o via, uma nova espécie de humanidade estava emer­gindo na terra, nova espécie na qual o próprio Deus — o Espí­rito Santo — estava vivendo. Constituíam na terra os braços e pernas e olhos de Deus. Além disso, Paulo procedia como se esse tivesse sido o objetivo de Deus desde o princípio.

"Não sabeis que sois santuário de Deus, e que o Espíri­to de Deus habita em vós?" escreveu Paulo aos indisciplina­dos de Corinto. Para os judeus, é claro, o templo era um edi­fício de verdade, o local central na Terra onde habitava a pre­sença de Deus. Será que Paulo estava afirmando que Deus ha­via-se mudado?

Na Bíblia aparecem três templos, e, reunidos, ilustram uma seqüência: Deus se revelou primeiramente como Pai, en­tão como Filho, e finalmente como Espírito Santo.* O primei­ro templo foi uma estrutura magnífica construída por Salomão e reconstruída por Herodes. O segundo foi o "templo" do cor­po de Jesus ("Destruí este santuário", disse, "e em três dias o reconstruirei"). E agora tomou forma um terceiro templo, construído a partir de seres humanos.

Delegação

Parece que ele mesmo não faz coisa alguma que pos­sa delegar a suas criaturas. Ordena-nos afazer lenta e de­sajeitadamente o que poderia fazer com perfeição e num piscar de olhos.

 

Parece que toda a criação é um ato de delegação. Suponho que isso ocorre porque ele, por natureza, doa.

  1. S. Lewis

 

A progressão seqüencial — Pai, Filho, Espírito Santo — representa um avanço profundo em intimidade. No Sinai as pessoas se retraíam de Deus, e imploravam a Moisés que che­gasse até Deus em nome delas. Mas nos dias de Jesus as pesso­as podiam manter uma conversa com o Filho de Deus; podiam tocá-lo, e até machucá-lo. E depois de Pentecostes os mesmos discípulos imperfeitos que tinham fugido do julgamento de Je­sus tornaram-se portadores do Deus Vivo. Num ato de delega­ção quase inconcebível, Jesus transferiu o reino de Deus a pes­soas como seus discípulos — e para nós.

Mas, chega de romantismo. De alguma forma deve-se con­ciliar essas idéias nebulosas sobre o Espírito com a dura reali­dade da igreja de fato. Olhe ao redor e veja aqueles que se cha­mam cristãos. Olhe os rostos das pessoas nos bancos de qual­quer igreja. É isso o que Deus queria?

A delegação sempre implica riscos, como qualquer patrão logo descobre. Quando você entrega um trabalho a alguém, você não se preocupa mais com isso. E quando Deus "nos con­fiou a palavra da reconciliação" (expressão de Paulo), assumiu um risco temível: o risco de que daríamos uma péssima impres­são dele. Escravidão, as cruzadas, massacres de judeus, colo­nialismo, guerras, o racismo — todos esses movimentos têm afirmado possuir a sanção de Cristo para suas causas. O mun­do que Deus deseja amar, o mundo que Deus está chamando, talvez nunca o veja. Nossos próprios rostos podem estar atra­palhando a sua visão.

Deus, porém, assumiu aquele risco, e, porque o fez, o mundo o conhecerá basicamente através de cristãos. A doutri­na do Espírito Santo é a doutrina da Igreja: Deus vivendo em nós. Tal plano é a "loucura de Deus", como diz Paulo numa passagem, e o escritor Frederick Buechner se maravilha dian­te da "loucura": "escolher para seu santo trabalho no mun­do... mentes aleijadas e desajustados e intransigentes e santi­nhos e pedantes e excêntricos e egomaníacos e acanhados e li­bertinos disfarçados." "Porque a loucura de Deus", prosse­gue Paulo, "é mais sábia do que os homens."

Nós que vivemos entre as pessoas imperfeitas e comuns da igreja, nós que somos as mentes aleijadas e os desajustados e os excêntricos da igreja, podemos querer amenizar as extrava­gantes afirmações da Bíblia acerca do corpo de Cristo. Sabe­mos como somos imperfeitos para sermos o seu corpo. Mas a Bíblia é inequívoca. Considere apenas dois exemplos.

  1. Representamos a santidade de Deus na terra.

A santidade, acima de tudo o mais, é a razão para a gran­de distância entre Deus e os seres humanos. É o que fez do Lugar Santíssimo um terreno proibido. Mas o Novo Testamen­to insiste em que ocorreu uma mudança sísmica. Um Deus per­feito vive agora dentro de seres humanos bem imperfeitos. E, por respeitar nossa liberdade, o Espírito na verdade "sujeita-se" a nosso comportamento. O Novo Testamento fala de um Espírito a quem podemos mentir, ou que podemos entristecer, ou abafar. E, quando escolhemos errado, num sentido bem li­teral sujeitamos Deus àquela escolha errada.

Nenhuma passagem ilustra essa estranha verdade com mais vigor do que 1 Coríntios 6, onde Paulo está passando uma reprimenda em membros baderneiros da igreja em Corin-to por saírem com prostitutas. Uma a uma, ele derruba todas as suas racionalizações. Então, por fim, ele faz a mais serena de todas as advertências: "Não sabeis que o homem que se une à prostituta forma um só corpo com ela?" Parece que Paulo está dando a entender essa idéia no sentido mais literal, e não se intimida em expressar, em seguida, a surpreendente conclusão: "Eu, porventura, tomaria os membros de Cristo e os faria membros de meretriz? Absolutamente, não."

Não é preciso ser um erudito na Bíblia para enxergar o contraste. No Antigo Testamento, os adúlteros eram apedreja­dos até a morte por desobedecerem a lei de Deus. Mas na era do Espírito, Deus delega sua reputação, até mesmo sua essên­cia, para nós. Nós encarnamos Deus no mundo; o que aconte­ce conosco acontece com ele.

  1. Seres humanos fazem a obra de Deus na terra.

Ou, para sermos bem exatos, Deus faz sua obra através de nós — a tensão entra em cena assim que você tenta expressar a idéia. "Sem Deus, não conseguimos. Sem nós, Deus não fará", disse Agostinho. Num raciocínio parecido, Paulo escre­veu: "Desenvolvei a vossa salvação com temor e tremor" nu­ma frase, e "porque Deus é quem efetua em vós tanto o que­rer como o realizar" na seguinte. O que quer que signifiquem, essas charadas certamente contradizem a atitude do "Deixe is­so com Deus".

Deus forneceu alimento para os israelitas que perambulavam pelo deserto do Sinai, e até mesmo verificou que seus cal­çados não se gastassem. Jesus, de igual modo, alimentou pesso­as famintas e ministrou diretamente às suas necessidades. Mui­tos cristãos que lêem aquelas histórias vibrantes olham para trás com um sentimento de nostalgia, ou mesmo de desaponta­mento. "Por que Deus não age agora daquela maneira?" ficam perguntando a si mesmos. "Por que não atende minhas neces­sidades de um modo miraculoso?"

Mas as cartas do Novo Testamento parecem apresentar um padrão diferente em ação. Encerrado numa gélida masmorra, Paulo voltou-se para Timóteo, seu amigo de longa data, pedindo-lhe que atendesse suas necessidades físicas. "Traze a capa... bem como os livros, especialmente os pergaminhos", escreveu. "Toma contigo a Marcos e traze-o, pois me é útil para o ministério." Numa outra oportunidade Paulo recebeu o "consolo de Deus" na forma de uma visita de Tito. E, quan­do numa ocasião houve fome em Jerusalém, o próprio Paulo coordenou as providências: fez uma coleta de dinheiro entre todas as igrejas que havia fundado. Deus estava atendendo as necessidades da jovem igreja tanto quanto havia atendido as necessidades de seu povo em jornada pelo Sinai, mas estava-o fazendo indiretamente, através de membros de seu corpo. Pau­lo não fazia distinção do tipo "a igreja fez isso, mas Deus fez aquilo". Uma divisão como essa perderia a ênfase que ele ha­via dado com tanta freqüência. A igreja é o corpo de Cristo; portanto, se a igreja o fez, Deus o fez.

A origem da forte ênfase de Paulo pode estar em seu pri­meiro e marcante encontro pessoal com Deus. Na ocasião ele era um perseguidor cruel dos cristãos, um notório caçador de recompensas. Mas na estrada de Damasco viu uma luz suficien­temente forte para cegá-lo por três dias, e ouviu uma voz vin­da do céu: — "Saulo, Saulo, por que me persegues?"

— Persegui-lo? Perseguir a quem? Só estou atrás daque­les hereges, os cristãos.

— "Quem és tu, Senhor?" — Paulo finalmente indagou, derrubado ao chão.

— "Eu sou Jesus, a quem tu persegues" — veio a resposta.

Aquela frase resume muito bem a mudança operada pe­lo Espírito Santo. Jesus fora executado meses antes. Saulo esta­va era atrás dos cristãos, não de Jesus. Mas Jesus, vivo de no­vo, informou Saulo que aquelas pessoas eram de fato seu pró­prio corpo. O que as machucava, também machucava-o. Foi uma lição que o apóstolo Paulo jamais esqueceria.

 

Não ouso deixar este pensamento sem aplicar seu senti­do de uma forma bem pessoal. A doutrina do Espírito Santo tem grande significado para as questões que permeiam este li­vro. Meu amigo Richard indagou: "Onde Deus está? Mostre-me. Quero vê-lo." Com certeza pelo menos parte da resposta a essa pergunta é: Se você quer ver Deus, então olhe para as pessoas que pertencem a ele — elas são seus "corpos". São o corpo de Cristo.

"Seus discípulos têm de parecer mais salvos para que eu creia em seu Salvador", disse o filósofo Nietzsche diante de tal desafio. Mas, se Richard pudesse encontrar um santo, alguém talvez como a Madre Teresa, que encarnasse as qualidades do amor e da graça, talvez então ele cresse. Ali — você a vê? É assim que é Deus. Ela está fazendo a obra de Deus.

Richard não conhece Madre Teresa, mas a mim me conhe­ce. E esse é o aspecto mais humilhante da doutrina do Espí­rito Santo. Richard provavelmente jamais ouvirá uma voz vin­da de um redemoinho, voz que abafe todas as perguntas. Nes­ta vida provavelmente jamais terá um vislumbre pessoal de Deus. Verá somente a mim.

 

* Referências bíblicas: 1 Coríntios 3; João 2; 2 Coríntios 5; 1 Coríntios 1; Filipenses 2; 2 Timóteo 4; 2 Coríntios 7; Romanos 15; Atos 9.

 

                     O Clímax

CASO PUDÉSSEMOS, por um instante, pôr de lado idéias pré-concebidas sobre a Bíblia e simplesmente ler aquele livro imenso como uma história que vai-se desenrolando, o en­redo talvez surgisse como algo mais ou menos assim:

 

No princípio Deus, um Espírito, criou o vasto mun­do da matéria. Dentre todas as notáveis obras de Deus, somente os seres humanos possuíam uma semelhança com ele que podia se chamar de "imagem de Deus". Foi ao mesmo tempo uma grande dádiva e um grande peso essa imagem de Deus. O homem e a mulher eram seres espiri­tuais, e podiam, então, relacionar-se contínua e diretamen­te com Deus. Mas, dentre todas as espécies, somente eles tinham a liberdade de se rebelar contra ele.

Rebelaram-se de fato, e alguma coisa morreu dentro de Adão e Eva naquele dia fatídico. Seus corpos continua­ram a viver por muitos anos, mas seus espíritos perderam a comunhão livre e aberta com Deus.

A Bíblia fala dos esforços de Deus em restaurar aque­le espírito caído. Ele agiu com certas famílias: primeiro com a família de Adão, depois com a de Noé, e finalmen­te com a família de Abraão, o centro da atenção da maior parte do Antigo Testamento. Algumas vezes a Bíblia retra­ta Deus como um pai criando um filho, algumas vezes co­mo um amante numa busca ardente, mas sempre o apre­senta num esforço por "romper as linhas inimigas" e che­gar até os seres humanos com o intuito de restaurar o que se perdera.

Com umas poucas exceções de destaque, o Antigo Testamento relata fracassos. Mas o Novo Testamento tem início com uma ação radical da parte de Deus: uma "inva­são", o nascimento de Jesus. Jesus representou um início totalmente novo. "O segundo Adão" — assim é chama­do, o líder de uma nova espécie. Foi ele que finalmente aniquilou as barreiras e tornou possível uma trégua entre Deus e a humanidade.

Depois que Jesus foi embora, no Pentecostes o Espí­rito do próprio Deus desceu e encheu os seres humanos. Assim, finalmente restaurou-se seu espírito caído. Mais do que passear num jardim com os seres humanos, ago­ra Deus vivia dentro deles.

 

Não é preciso ir muito longe na leitura do Novo Testa­mento para sentir a agitação. O apóstolo Paulo expressou-a assim: "A ardente expectativa da criação aguarda a revelação dos filhos de Deus." Ele retrata todo o universo fazendo uma pausa para observar os acontecimentos no planeta Terra: "pa­ra que, pela igreja, a multiforme sabedoria de Deus se torne conhecida agora dos principados e potestades nos lugares celes­tiais. " Pedro acrescenta, com excitação, que até os "anjos anelam perscrutar" essas coisas.

Enquanto isso, o pequeno bando de cristãos se espalhou em direção a Samaria, Grécia, Etiópia, Roma e Espanha. De acordo com o Novo Testamento, estiveram engajados na gran­de inversão da história, ajudando a reivindicar toda a criação para Deus. Seres humanos, cheios do Espírito de Deus, são os agentes designados para alcançarem aquele objetivo.

Por Que Melhor?

Desde o início deste livro eu decidi ser honesto; estou escrevendo, no final das contas, para vítimas de promessas ex­cessivamente otimistas e expectativas frustradas. Dessa feita, tenho a esta altura de afirmar com toda franqueza que é difícil para pessoas decepcionadas partilharem do entusiasmo dos escritores do Novo Testamento. Meu amigo Richard, por exem­plo, afirma que perdeu a fé porque Deus age de modo dema­siadamente sutil. Ele anseia por algo mais convincente, algo talvez no estilo de uma sarça ardente ou da divisão das águas do mar Vermelho. Será que a "multiforme sabedoria de Deus" está atualmente tornando-se conhecida através da igre­ja? Esteve você ultimamente em alguma igreja? A nuvem shekinah da glória de Deus teria sido algo impressionante, assim também como o próprio Jesus. Mas, e a igreja? Hoje em dia ela reflete toda a glória de Deus?

Como podemos conciliar as palavras exaltadas do Novo Testamento com a realidade cotidiana ao nosso redor? Algu­mas pessoas teriam uma resposta rápida: "Ah! mas Paulo esta­va falando da igreja do Novo Testamento; nós nos distancia­mos bastante desse ideal." Não posso concordar. As Epístolas foram escritas para um grupo surpreendente de convertidos: adoradores de anjos, ladrões, idolatras, fofoqueiros e prostitu­tas — essas eram as pessoas em quem Deus fizera residência. Leia a descrição de Paulo acerca da suposta "igreja ideal" nu­ma cidade como Corinto: um bando desordeiro e rebelde. E, ainda assim, a descrição mais comovente feita por Paulo acer­ca da igreja como corpo de Cristo aparece numa carta aos coríntios.

Não há meios de se colocar a questão de uma forma poli­da, por isso simplesmente farei a pergunta: O que exatamente o plano de Deus para a história alcançou? Se alguém pudesse submeter o plano de Deus a algo como uma "análise custo-benefício" utilizada em empresas, quais seriam as "vantagens" e as "desvantagens" de tal plano — para Deus e para nós?

Os defeitos óbvios da igreja poderiam parecer a maior desvantagem para Deus. Assim como ele confiou o seu nome à nação de Israel e o viu atirado à lama, agora confia seu Es­pírito a seres humanos imperfeitos. Não é preciso procurar muito longe as provas de que a igreja não atinge o padrão do ideal divino: a igreja em Corinto, racismo na África do Sul, banho de sangue na Irlanda do Norte, escândalos entre os pró­prios cristãos, etc. E o mundo julga Deus por aqueles que le­vam o seu nome. Uma grande parte da decepção com Deus tem raízes na desilusão com outros cristãos.

A romancista cristã Dorothy Sayers disse que Deus submeteu-se a três grandes humilhações em seus esforços por res­gatar a raça humana. A primeira foi a Encarnação, quando vestiu as limitações de um corpo físico. A segunda foi a Cruz, quando sofreu a ignomínia da execução pública. A terceira hu­milhação, Sayers sugere, é a Igreja. Num impressionante ato de autonegação, Deus confiou sua reputação a pessoas comuns.

No entanto, de alguma forma que nos é invisível, essas pessoas comuns, cheias do Espírito Santo, estão ajudando a restaurar o universo a seu devido lugar sob o domínio de Deus. Ao nos arrependermos, os anjos se regozijam. Mediante nos­sas orações, montanhas são transportadas. Pode-se ver essa vantagem para Deus numa passagem já mencionada: Lucas 10. "Eu via a Satanás caindo do céu como um relâmpago", Jesus exclamou com exuberância quando os setenta retornaram com relatórios positivos. Ele era como um pai orgulhoso que acabava de ver seus filhos realizarem algo bem melhor do que ele tinha imaginado que conseguiriam.

Não devemos insistir demais a ponto de pensarmos que Deus "precisa" de nossa cooperação. Antes, ele nos escolheu como a forma preferida de reivindicar o controle sobre sua cria­ção aqui na terra. Ele utiliza instrumentos humanos assim co­mo meu cérebro utiliza os instrumentos dos dedos e mãos e punhos para escrever esta sentença. Essa é a metáfora que Pau­lo usou com mais freqüência para descrever o papel de Cristo no mundo de hoje: o Cabeça do corpo, dirigindo seus mem­bros para realizarem sua vontade.

Para entender as vantagens para Deus, pense de novo nas imagens descritas pelos profetas: Deus como Pai e como Aman­te. Esses dois relacionamentos humanos possuem elementos daquilo que Deus sempre tem procurado nos seres humanos. Uma palavra, dependência, tem a chave — a chave para aqui­lo que eles têm em comum e a chave daquilo em que diferem.

Para um nenê, a dependência é tudo; alguma outra pes­soa tem de atender suas próprias necessidades ou a criança irá morrer. Os pais passam a noite toda acordados, limpam o vô­mito, ensinam a usar o vaso sanitário, e realizam outras ativi­dades rotineiras, tudo devido ao amor, pois percebem a depen­dência da criança. Mas tal padrão de procedimento não pode continuar indefinidamente. Uma águia sacode o ninho para obrigar seus filhotes a voarem; uma mãe cobre o seio para des­mamar o filho.

Nenhum pai sadio deseja que um filho seja permanente­mente dependente. E de igual forma um pai não fica levando a filha num carrinho de nenê, de um lado para outro, a vida inteira, mas ensina-a a andar, sabendo que um dia ela poderá ir embora. Os bons pais encaminham seus filhos da dependên­cia rumo à liberdade.

Os amantes, entretanto, revertem este modelo. Um aman­te possui liberdade, e no entanto escolhe abrir mão dela. "Sujeitando-vos uns aos outros", diz a Bíblia, e qualquer casal pode lhe dizer que essa é uma descrição apropriada do proces­so de viver dia a dia em harmonia. Num casamento saudável, um dos cônjuges se submete voluntariamente aos desejos do outro, por amor. Num casamento problemático, a submissão se torna parte de uma luta pelo poder, um cabo-de-guerra en­tre egos em competição. A diferença entre esses dois relaciona­mentos mostra, creio eu, o que Deus vem procurando em sua longa história com a raça humana. Ele não deseja o amor de­pendente, desamparado, de uma criança que não tem escolha alguma, mas o amor amadurecido, espontaneamente dado, de um amante.

Deus nunca obteve esse amor amadurecido por parte da nação de Israel. O registro bíblico mostra Deus estimulando a jovem nação em direção à maturidade: no dia em que Israel marchou entrando na Terra Prometida, cessou o maná. Deus havia providenciado uma nova terra; agora era responsabilida­de dos israelitas cultivarem seu próprio alimento. Numa reação tipicamente infantil, Israel imediatamente começou a adorar deuses da fertilidade. Deus desejava uma amante; em vez dis­so, obteve uma criança raquítica.

Que dizer do agora, na era do Espírito? Será que Deus, agora tem uma amante em vez de uma criança? Surpreendente­mente, parece que o Novo Testamento responde que sim. Aqui está uma amostra de frases do Novo Testamento que ex­pressam como Deus nos vê:

 

"à igreja, a qual é o seu corpo, a plenitude daquele que a tudo enche em todas as cousas;"

"inculpáveis no meio de uma geração pervertida e corrup­ta, na qual resplandeceis como luzeiros no mundo;"

"vós, que antes estáveis longe, fostes aproximados;"

"já não sois estrangeiros e peregrinos, mas... da família de Deus... edificados para habitação de Deus no Espírito."

 

Na verdade, a Bíblia apresenta a união de pessoas co­muns com o Espírito de Deus como sendo a realização supre­ma da criação. O objetivo de Deus foi, o tempo todo, nos equi­par para realizarmos sua vontade no mundo. Esse processo len­to e difícil resultará um dia na restauração total da Terra.

Nossa Vantagem

Pensamentos assim grandiosos, entretanto — agentes de Deus, realização suprema da criação — representam o ponto de vista de Deus, um ponto de vista que não está disponível para nós. Quais são as vantagens e desvantagens do plano de Deus para nós que vivemos na terra, onde a história não é as­sim tão simples? Ainda moramos num mundo amaldiçoado com a dor, a tragédia e a desilusão. E o que tenho apresenta­do como um grande avanço em termos de proximidade — da fumaça no Sinai, passando pela pessoa de Jesus e chegando até a habitação pelo Espírito Santo — pode parecer ironica­mente que Deus está-se afastando de um envolvimento direto.

Algumas pessoas têm grande saudade dos "velhos bons tempos" do Antigo Testamento, quando Deus usou uma estra­tégia mais óbvia e visível. O Antigo Testamento fala de um contrato de verdade assinado por Deus, em que garante segu­rança e prosperidade físicas, sob certas condições; o Novo Tes­tamento não oferece um contrato assim. A mudança da presen­ça visível de Deus no deserto para a presença invisível do Espí­rito Santo envolve igualmente um certo tipo de perda. Perde­mos a prova clara e certa de que Deus existe. Hoje em dia, Deus não paira sobre nós numa nuvem que podemos fitar, em busca de uma confiança renovada. Para alguns, como Richard, essa parece de fato uma grande perda.

Na realidade, a dependência que Deus tem da igreja qua­se garante que a decepção com Deus será permanente e epidê­mica. Nos velhos tempos, se os hebreus desejassem conhecer a vontade de Deus acerca de uma manobra militar, ou que ti­po de madeira utilizar no santuário, os sumos sacerdotes ti­nham meios de descobrir a resposta. Mas só o fato de existirem 1.275 denominações nos Estados Unidos atesta a dificulda­de de a igreja estar atualmente de acordo quanto à vontade de Deus sobre qualquer coisa. A voz confusa da igreja moder­na é parte do preço, a desvantagem de viver na atualidade em vez de com os hebreus no deserto ou entre os discípulos que seguiam Jesus.

Qual, então, é a vantagem? O Novo Testamento se for­ça bastante para claramente expor a respeito, especialmente em Hebreus, Romanos e Gaiatas. Quase consigo enxergar o apóstolo Paulo, um sujeito facilmente excitável, respondendo à pergunta: "Qual é a vantagem?"

 

— O quê? Vocês estão loucos?! A vantagem? Voltem e leiam Levítico, Números e Deuteronômio de uma senta­da, e então poderemos conversar. Vocês chamam aquilo de "velhos bons tempos"? Quem deseja viver daquele jei­to? Você quer passar o dia inteiro, a vida inteira, se preo­cupando com o seu destino eterno? Você quer ficar se de­batendo o dia inteiro para poder ter certeza de que guar­da todas aquelas regras? Você quer passar por longos ri­tuais e sacrifícios de animais e um sumo sacerdote como que vestido de fantasia só para se aproximar de Deus? De jeito nenhum! A diferença entre a Lei e o Espírito é a diferença entre a morte e a vida, entre a escravidão e a liberdade, entre a infância perpétua e o amadurecimento. Por que alguém iria querer voltar para aquela situação?

 

Para usar as próprias palavras de Paulo, o Antigo Testa­mento foi "o ministério da morte, gravado com letras em pe­dras". Foi um simples "aio para nos conduzir a Cristo". Quem quer ficar o resto da vida num jardim de infância? Co­mo disse Paulo, "não somos como Moisés, que punha véu so­bre a face, para que os filhos de Israel não atentassem na ter­minação do que se desvanecia.... Ora, o Senhor é o Espírito; e onde está o Espírito do Senhor aí há liberdade."

O plano de Deus envolve riscos de ambos os lados. Para nós, significa pôr em risco nossa independência ao nos consa­grarmos a um Deus que é invisível e exige de nós maturidade e crescimento. Para Deus, significa correr o risco de que nós, à semelhança dos israelitas, jamais cresçamos; significa correr o risco de que jamais o amemos. Evidentemente ele considerou esse um jogo em que valia a pena apostar.

Uma Trindade de Vozes

Pense no plano de Deus como sendo uma série de Vozes. A primeira Voz, tremendamente alta, teve algumas vantagens. Quando a Voz falava da fumegante montanha no Sinai, ou quando o fogo lambeu o altar no Monte Carmelo, ninguém podia negá-lo. Porém, surpreendentemente, mesmo aqueles que ouviram a Voz e temeram-na — por exemplo, os israeli­tas no Sinai e no Carmelo — logo aprenderam a ignorá-la. Até o barulho da Voz criava confusão. Poucos deles foram à procura daquela Voz; um número ainda menor perseverou quan­do a Voz se calou.

A Voz modulou com Jesus, o Verbo feito carne. Por umas poucas décadas a Voz de Deus assumiu o timbre e volu­me e sotaque caipira de um judeu interiorano da Palestina. Era uma voz humana comum, e, embora ela falasse com auto­ridade, não levou as pessoas a fugirem e a esconderem o ros­to. A voz de Jesus era suficientemente suave para alguém po­der discutir com ele, suficientemente suave para poder matá-lo.

Depois da partida de Jesus, a Voz assumiu novas formas. No dia de Pentecostes, línguas — línguas — de fogo caíram sobre os fiéis, e a igreja, o corpo de Deus, começou a tomar forma. A última Voz é tão próxima quanto um sopro, tão sua­ve quanto um cochicho. É a mais vulnerável de todas as Vozes, e a mais fácil de se ignorar. A Bíblia diz que se pode "apagar" ou "entristecer" o Espírito. (Tente apagar a sarça ardente que falou a Moisés ou as rochas derretidas no Sinai!) Entretanto, o Espírito também é a Voz mais íntima e pessoal. Em nossos momentos de fraqueza, quando não sabemos o que devemos orar, o Espírito que vive dentro de nós intercede em nosso fa­vor com gemidos que palavras são incapazes de expressar.

O Espírito não irá retirar toda frustração que sentimos para com Deus. Os próprios títulos dados ao Espírito — Intercessor, Ajudador, Conselheiro, Consolador — presumem que existirão problemas. Mas o Espírito também é um "penhor", uma garantia do que ainda vem, disse Paulo, utilizando uma metáfora terrena emprestada do mundo financeiro. Ele nos lembra que tais desapontamentos são temporários, um prelúdio para uma vida eterna com Deus. Deus julgou necessário restau­rar o elo espiritual antes de recriar céus e terra.

Em dois lugares o Novo Testamento compara o ser cheio do Espírito Santo com o estado de embriaguez comum. Am­bas as situações alteram a maneira como você encara as tribulações da vida, mas há uma profunda diferença entre elas. Muitas pessoas voltam-se para a bebida, por exemplo, para afogar a tristeza do desemprego, enfermidade e tragédia pesso­al. É inevitável, contudo, que o bêbado tenha de acordar do mundo de fantasia que é a embriaguez e voltar para a realida­de inalterada. Mas o Espírito segreda-nos acerca de uma no­va realidade, uma fantasia que é realmente verdade, uma ver­dade na qual despertaremos por toda eternidade.

 

* Referências bíblicas: Romanos 8; Efésios 3; 1 Pedro 1;1 Coríntios 12; Efésios 5,1; Filipenses 2; Efésios 2; 2 Coríntios 3; Gálatas 3; 2 Coríntios 3,5.

 

                                              ENXERGANDO NO ESCURO

                 Disse eu a minh'alma: aquieta-te e deixa

                 as trevas virem sobre ti,

                 O que será a escuridão de Deus...

                 Disse eu a minh'alma:

                 aquieta-te e espera sem esperança

                 Pois a esperança seria esperança pela coisa errada;

                 espera sem amor

                 Pois o amor seria amor pela coisa errada; ainda há fé

                 Mas a fé e o amor e a esperança estão todos eles no aguardar.

  1. S. Eliot, "East Coker"

 

                     Uma Interrupção

CERTA NOITE, ALTAS HORAS, eu me sentei em meu escritório no porão e comecei a esboçar a parte seguinte deste livro, o que eu pretendia que fosse uma retrospectiva e uma conclusão. Ao longo dos anos eu havia enchido várias pastas de arquivo com uma miscelânea de anotações sobre o tema do desapontamento com Deus, e principiei a classificar esses pedaços de papel, revendo-os à luz do que eu tinha apren­dido na Bíblia.

Enquanto eu trabalhava, tornei a pensar naquele primei­ro encontro com Richard na minha sala de estar, quando pe­la primeira vez emergiram suas três vastas perguntas. Essas perguntas quanto à justiça e silêncio e ocultamento de Deus tinham-se tornado minhas próprias e deram partida à minha busca através da Bíblia. Quando comecei aquela busca, eu que­ria um Deus mais ativo, um Deus que ocasionalmente arrega­çasse as mangas e interviesse em minha vida com visível poder. No mínimo, pensei, eu desejava um Deus que não permaneces­se tão oculto e calado. Certamente isso não era pedir demais.

A Bíblia, contudo, continha algumas surpresas. Eu tinha ouvido pregadores cristãos apresentarem exemplos do poder de Deus — na época do Êxodo, ou nos dias de Elias — como exemplos do que podia acontecer se tão-somente aprendêsse­mos a "juntar" mais fé. No entanto, pelo que a Bíblia relata, aquelas épocas de milagres freqüentes geralmente não produ­ziam uma crença de longa duração. Muito pelo contrário — a maioria deles se destaca como exemplos de falta de fé. Quan­to mais eu estudava a Bíblia, menos eu ansiava pelos "velhos bons tempos" do maná diário e de bolas de fogo vindas do céu.

Mas, ainda mais importante, na Bíblia tive um vislumbre do ponto de vista de Deus. O "alvo" de Deus, se é que se po­de falar nesses termos, não é subjugar todos os céticos; ele po­deria fazê-lo num instante caso quisesse. Em vez disso, bus­ca a reconciliação: amar e ser amado. E a Bíblia mostra um claro avanço nos esforços de Deus em chegar até os seres hu­manos sem vir a constrangê-los: desde Deus Pai, que pairava paternalmente sobre os hebreus; passando pelo Deus Filho, que ensinou a vontade de Deus "de baixo para cima", em vez de mediante fiat, de cima para baixo; e finalmente até o Espí­rito Santo, que nos enche com a presença literal de Deus. Nós que vivemos agora não estamos em desvantagem, mas somos maravilhosamente privilegiados, pois Deus escolheu depender basicamente de nós para executar sua vontade na terra.

Repassei esses pensamentos com um entusiasmo crescen­te à medida que, naquela noite, eu trabalhava em meu esboço. Então, vasculhando uma outra pilha de papéis, encontrei uma carta de Meg Woodson.

 

Conheço Meg há mais de uma década. É uma cristã dedi­cada, esposa de pastor, e excelente escritora. No entanto, não consigo pensar em Meg sem sentir uma ponta de tristeza.

O casal Woodson teve dois filhos — Peggie e Joey — am­bos nasceram com fibrose cística. Peggie e Joey permaneciam esqueléticos, não importando quanto comessem. Tossiam cons­tantemente e faziam um grande esforço para respirar — duas vezes ao dia Meg tinha de bater repetidas vezes no peito das crianças para soltar o muco. Todos os anos passavam algumas semanas no hospital. Os dois cresceram sabendo que provavel­mente morreriam antes de chegar à idade adulta.*

Joey, um garoto vivaz, esperto e feliz, morreu aos doze anos. Peggie desafiou todas as probabilidades e viveu muito mais. Eu me uni a Meg em desesperadas orações por Peggie. Ambos sabíamos que não havia registros de curas miraculosas de fibrose cística, mas de qualquer forma orávamos por uma cura. Peggie sobreviveu a algumas crises de saúde enquanto estava no segundo grau e saiu de casa para estudar numa fa­culdade em outra cidade. Parecia que estava ficando cada vez mais forte, e cresceram nossas esperanças de que, por fim, ela encontraria a cura.

Não houve, porém, milagre algum: Peggie morreu com a idade de vinte e três anos. E naquela noite, em meu escritó­rio no porão, eu me deparei com a carta que Meg me escreve­ra depois da morte de Peggie.

 

Encontro-me com o desejo de lhe contar algo de co­mo Peggie morreu. Não sei qual a razão desse desejo a não ser que a necessidade de conversar a respeito é mui­to forte e que, uma vez que eu me recuso a fazer com que meus amigos daqui me ouçam mais de uma vez, já não tenho mais ninguém com quem conversar.

No fim de semana, antes de ela ir pela última vez para o hospital, Peggie chegou a casa muito eufórica por causa de uma citação de William Barclay que o pastor de­la havia mencionado. A citação tinha sido tão significati­va que ela havia copiado para mim num papel: "A perse­verança não é apenas a capacidade de suportar uma coi­sa difícil, mas de torná-la em glória." Ela contou que o seu pastor devia ter tido uma semana difícil porque, de­pois de ler a frase, deu um murro no púlpito e então deu as costas para a congregação e chorou.

Certo dia, depois de Peggie já estar no hospital por algum tempo e as coisas não estarem indo bem, ela olhou em redor para toda aquela parafernália de morte a que estava ligada e disse: "Ei, mãe, lembra-se daquela cita­ção?" E ela olhou de novo em redor para todos aqueles tubos, tirou a ponta da língua do canto da boca, assentiu com a cabeça e ergueu os olhos vibrando com a experiên­cia a que estava se consagrando.

Sua consagração durou tanto quanto durou sua cons­ciência de qualquer coisa do mundo real. Numa ocasião, o diretor de sua faculdade veio vê-la e perguntou se havia qualquer coisa específica em favor da qual ele podia orar.

Ela estava fraca demais para falar, mas balançou a cabe­ça para mim para que eu explicasse a citação de Barclay e pedisse-lhe que orasse para que seu momento difícil fos­se transformado em glória.

Poucos dias antes de sua morte eu estava sentada ao lado de seu leito quando ela começou repentinamente a gritar. Jamais me esquecerei daqueles gritos lancinan­tes, agudos, primais. Vindas de todas as direções, as en­fermeiras correram para o quarto e cercaram-na com seu amor. "Está tudo bem, Peggie", disse uma delas. "A Jeannie está aqui."

As enfermeiras acariciavam o corpo de Peggie. Fi­nalmente, com suas palavras e seus toques, acalmaram-na (embora, à medida que o tempo foi passando e os gri­tos continuando, elas não conseguissem). Raramente vi uma compaixão assim. Wendy, a amiga enfermeira mui­to especial de Peggie, me conta que no andar não há uma enfermeira que não tenha pelo menos um paciente a quem doaria um de seus pulmões para salvá-lo, caso pudesse.

Por isso, nesse contexto de seres humanos se desinte­grando — as enfermeiras não conseguem ficar naquele andar por muito tempo — porque elas não conseguiam fazer mais para ajudar, é que Deus, que podia ter ajuda­do, olhou para baixo para uma jovem dedicada a ele, bas­tante desejosa de morrer por ele para dar-lhe glória, e de­cidiu cruzar os braços e deixar que sua morte aumentas­se as terríveis estatísticas de morte por fibrose cística.

Olha, Philip, não adianta falar sobre o bem produzi­do pelo sofrimento. Nem adianta falar que Deus quase sempre permite que o processo físico da doença siga o seu caminho. Porque, se ele de fato intervém, então em cada situação de sofrimento humano ele toma uma decisão de intervir ou não, e no caso de Peggie ele escolheu deixar que a fibrose cística a aniquilasse. Há momentos em que minhas únicas reações são tristeza e uma raiva tão violen­ta como nenhuma outra que eu já conheci. Nem expres­sar essa emoção faz com que ela diminua.

Peggie nunca se queixou de Deus. Não era um autodomínio piedoso: Não acredito que alguma vez ela te­nha pensado em se queixar. E todos nós que a acompa­nhamos até a sua morte também não nos queixamos na ocasião. Sentíamos consolados. O amor de Deus era tão real que não era possível duvidar desse amor nem lutar contra ele.

Se eu venho lhe falando tudo isto, num esforço de chegar a algum tipo de solução para o problema do sofri­mento de Peggie e de mim, talvez mais uma vez eu tenha sido levada à única coisa que me ajuda a experimentar o amor de Deus: Seu acariciar, seu "Estou aqui, Meg". Mas, fico de novo cogitando, como ele pôde estar numa situação como essa e cruzar os braços?

Ao refletir sobre isso, nunca antes expressei tudo is­so a alguém, por medo de perturbar a fé de quem quer que seja. Não pense que você tem de dizer alguma coisa para fazer-me sentir melhor. Mas obrigada por ouvir. A maioria das pessoas não tem a menor idéia de quanto is­so ajuda.

 

Depois de ler a carta de Meg, não consegui mais traba­lhar aquela noite.

O Nosso Ponto de Vista

Velhas perguntas uma vez mais vieram à superfície, mi­nhas próprias indagações sobre injustiças sociais, orações não atendidas, corpos incurados e incontáveis outros exemplos de injustiça. E as perguntas de Richard vieram ressurgindo com nova força emocional, um tremor da força que a própria Meg deve ter sentido enquanto, no hospital, estava sentada desam­parada ao lado do leito da filha.

Eu havia procurado na Bíblia conhecimento a respeito do propósito de Deus neste mundo. Eu havia procurado pistas de como é que é ser Deus — sabendo, é claro, que nunca pode­remos chegar perto de compreender um ponto de vista tão su­blime. A carta de Meg, porém, empurrou-me em outra direção» e mudou todo o meu enfoque na parte final deste livro. Suas perguntas são perguntas do coração, não da cabeça. Como mãe, ela observou dois filhos escaparem-lhe das mãos, sofren­do mortes lentas, horríveis. No entanto, como cristão ela crê no Deus Pai amoroso. Como ela pode harmonizar estas duas realidades?

É ótimo considerar o ponto de vista de Deus — mas que dizer do nosso ponto de vista? Eu vinha explorando como é que é ser Deus; a carta de Meg me atirou de volta à questão como é que é ser humano, como uma mãe que acabou de se­pultar seus dois únicos filhos sente.

Naquela noite percebi que este livro não estava pronto. Conceitos teológicos não têm muito sentido, a menos que con­sigam falar a alguém como Meg Woodson, que tateia em bus­ca do amor de Deus num mundo cercado de tristeza. Recordei-me de um pastor confuso, personagem de um romance de John Updike, que disse: "Algo está errado. Não tenho fé. Ou, melhor dizendo, tenho fé, mas parece que ela não tem aplicação." Como é que a fé se aplica? O que temos o direito de esperar de Deus?

 

Perguntou ainda o Senhor a Satanás: Observaste a meu servo Jó? porque ninguém há na terra se­melhante a ele, homem íntegro e reto, temente a Deus, e que se desvia do mal.

                         Jó 1:8

 

                     O Único Problema

 

Só há uma igreja aqui, de modo que a freqüento. Nos do­mingos de manhã saio de casa e vagueio colina abaixo até a velha igreja, toda de madeira, no pinheiral. Num domin­go especial pode haver vinte de nós ali; com freqüência sou a única pessoa com menos de sessenta anos de vida, e me sinto como se fizesse parte de uma expedição arqueo­lógica da União Soviética. Os membros são de variadas denominações; o pastor é congregacional, e veste uma ca­misa branca. O homem conhece a Deus. Certa vez, no meio da longa oração pastoral de intercessão pelo mun­do inteiro — em favor do dom da sabedoria para seus lí­deres, de esperança e misericórdia para os entristecidos e os que sofrem, de socorro para os oprimidos, e da graça de Deus para todos — no meio disso ele parou e explodiu: "Senhor, nós te fazemos esses mesmos pedidos todas as semanas!** Depois de uma pausa assustada, prosseguiu len­do a oração. Por causa disso, gosto muito dele.

                 Annie Dillard, Holy the Firm

 

ATÉ O MOMENTO tenho evitado um livro da Bíblia, um livro que confronta as próprias questões levantadas pelo pastor congregacional, e por Richard e Meg, e por quase toda pessoa que pensa a respeito de Deus. Então não é de surpre­ender que eu me vi retornando ao Livro de Jó.

Possivelmente o livro mais antigo da Bíblia, Jó dá a im­pressão de ser o mais moderno. Suas colocações radicais — um homem diante de um abismo num universo que não faz sentido — são uma antecipação da condição da humanidade contemporânea. Pessoas que rejeitam quase tudo o mais na Bíblia continuam retornando a Jó em busca de inspiração. O tema que se repete — Como um Deus bom pode permitir o so­frimento? — é "o único problema que vale a pena discutir", disse um romancista canadense de nossos dias. O problema do sofrimento é uma obsessão contemporânea, a criptonita te­ológica de nossa época, e o antigo Jó expressou-o melhor do que ninguém.

Richard queixou-se da perda de uma noiva, de um empre­go e de uma vida familiar estável. Meg gritou de dor com a perda de um filho e uma filha. No entanto, com base em qual­quer padrão, Jó perdeu bem mais: 7.000 ovelhas, 3.000 camelos, 5.000 bois e 500 jumentos, e inúmeros servos. Então todos os filhos de Jó — sete filhos e três filhas — morreram por causa de um fortíssimo golpe de vento. Finalmente a saúde de Jó, seu último consolo, foi embora, à medida que chagas irrompe­ram desde a sola do pé até a cabeça. Do dia para a noite, o maior homem de todo o Oriente reduziu-se ao mais miserável.

Jó é o principal caso de decepção com Deus estudado pe­la Bíblia, e como tal parece antecipar qualquer desapontamen­to que eu, ou Richard, ou Meg ou qualquer de nós, possamos sentir. Um rabino norte-americano escreveu um livro popular chamado When Bad Things Happen to Good People ("Quan­do Coisas Ruins Acontecem a Pessoas Boas"). O Livro de Jó saiu à frente: retrata as piores coisas acontecendo à melhor pessoa da Terra.

Uma Leitura Errônea

Se, quando comecei meu estudo, você tivesse me pergunta­do de que trata o Livro de Jó, eu teria sido bem rápido na res­posta. Jó? Todo mundo sabe de que é que Jó trata. É a mais completa análise da Bíblia sobre o problema do sofrimento. Trata da tristeza terrível e da dor desconcertante. Sem dúvida, a maior parte do livro está centrada no tema do sofrimento. Os capítulos 3 a 37 não contêm ação alguma a se narrar, ape­nas quatro homens problemáticos — Jó, seus três amigos e o enigmático Eliú — discutindo o problema da dor, tentando ex­plicar as excessivas pedradas e flechadas que o destino atirou no pobre Jó, o qual está sentado, abandonado, sobre as cin­zas do que outrora fora sua mansão.

Agora creio que li erroneamente o livro — ou, mais preci­samente, não levei em conta o livro inteiro. Apesar do fato de que, com exceção de umas poucas páginas, todas as demais tratam do problema da dor, estou chegando à conclusão de que Jó, na verdade, não é uma análise do problema da dor. O sofrimento contribui como um dos ingredientes da história, mas não como seu tema centrai. O livro diz respeito a pergun­tas ainda mais importantes, a perguntas cósmicas. Visto co­mo um todo, Jó trata basicamente da fé em sua forma mais absoluta.

Sou levado a essa conclusão principalmente por causa da '"trama" introdutória dos capítulos 1 e 2, que revela que o dra­ma pessoal de Jó na terra teve origem num drama cósmico no céu. No passado eu considerara Jó como uma expressão profunda da desilusão humana — algo parecido com a carta de Meg Woodson, só que mais comprido e mais detalhado, e com a sanção bíblica direta. Contudo, à medida que estudei o livro em mais profundidade, descobri que na realidade ele não apresenta o ponto de vista humano. Deus é o personagem central da Bíblia, e em lugar algum essa mensagem fica mais clara do que no Livro de Jó. Percebi que eu sempre havia li­do o livro da perspectiva do capítulo 3 em diante — em outras palavras, da perspectiva de Jó.

Ajuda um pouco pensar no Livro de Jó como uma peça de suspense, uma história de investigação policial. Antes de a peça mesma começar, nós da platéia assistimos um "trailer" do que está por vir, como se tivéssemos chegado mais cedo a uma entrevista à imprensa em que o diretor explica sua obra (capítulos 1 e 2). Ele conta o enredo e descreve as principais personagens, então nos adianta quem fez o que na peça, e por quê. Na verdade, ele revela todos os mistérios da peça com ex­ceção de um: como o personagem principal reagirá? Jó irá con­fiar em Deus ou negá-lo?

Mais tarde, quando se erguem as cortinas, vemos somente os atores no palco. Limitados à peça, eles não têm qualquer conhecimento do que o diretor nos contou na "pré-estréia". Sabemos as respostas aos enigmas do mistério, mas o ator prin­cipal, o detetive Jó, não sabe. Ele passa o tempo todo no pal­co tentando descobrir aquilo que já sabemos. Ele se coça com cacos de louça e pergunta: "Por que comigo? O que eu fiz de errado? O que Deus está tentando me dizer?"

Para a platéia, as perguntas de Jó devem ser um mero exercício intelectual, pois no prólogo, os primeiros dois capítu­los, ficamos sabendo das respostas. O que Jó fez de errado? Nada. Ele representa o que há de melhor na humanidade. Não foi o próprio Deus que chamou Jó de "homem íntegro e reto, temente a Deus, e que se desvia do mal"? Por que, então, ele está sofrendo? Não por castigo. Longe disso — ele foi escolhi­do como o ator principal numa grande disputa dos céus.

A Aposta

Fazendo um retrospecto, às vezes fico imaginando como pude fazer uma leitura tão incorreta do Livro de Jó. Parte da razão, creio, repousa na eloqüência dos capítulos 3 a 37, que expressam o dilema humano com tanto vigor que podemos nos ver presos em seu campo de força, esquecendo que as per­guntas levantadas já foram respondidas nos capítulos 1 e 2. Mas há ainda uma outra razão: ninguém sabe muito bem co­mo interpretar os dois primeiros capítulos. Até mesmo os estu­diosos da Bíblia tendem a se sentir meio embaraçados diante do prólogo. Mostra Deus e Satanás envolvidos em algo que faz lembrar uma Aposta. O trauma de Jó tem origem numa espécie de desafio feito entre os dois poderes [cósmicos]

O problema começa com a afirmação de Satanás de que Jó é uma pessoa mimada, que só é leal a Deus porque Deus o cercou "com sebe". Satanás zomba de que Deus, ele mes­mo indigno de amor, só atrai pessoas como Jó porque são su­bornadas para segui-lo. Se as circunstâncias algum dia ficassem pretas, acusa Satanás, tais pessoas rapidamente abandonariam a Deus. Quando Deus aceita o desafio para testar a teoria de Satanás, concordando que a reação de Jó irá comprová-la ou contestá-la, as calamidades começam a cair como uma chuvarada em cima do pobre Jó.

Certamente não nego que é meio estranha essa disputa celestial. Por outro lado, não posso ignorar o relato da Apos­ta em Jó, pois nos oferece um raro vislumbre de um ponto de vista cósmico, o qual em geral nos é negado. Quando as pessoas experimentam a dor, irrompem perguntas — as mes­míssimas perguntas que atormentaram Jó. Por que comigo? O que está acontecendo? Deus se importa? Existe um Deus? Nessa ocasião específica, no relato brutal do sofrimento atroz de Jó, nós, os espectadores — não Jó — temos oportunidade de dar uma olhada por detrás da cortina. O que Richard e Meg ansiaram, o prólogo de Jó proporciona: um vislumbre de como o mundo é dirigido. Mais do que em qualquer outra parte da Bíblia, o Livro de Jó mostra-nos o ponto de vista de Deus, inclusive a atividade sobrenatural, que geralmente está oculta de nós.

Jó pôs a Deus no banco dos réus, acusando-o de atos in­justos contra um homem inocente. Irado, satírico, traído, Jó vagueia o mais próximo possível da blasfêmia. Suas palavras têm um toque surpreendentemente familiar, porque são tão atuais. Ele expressa as nossas mais profundas queixas contra Deus. Mas os capítulos 1 e 2 provam que, não importa o que Jó pensa, Deus não está sendo julgado nesse livro. É Jó que está em julgamento. O tema do livro não é o sofrimento: On­de Deus está na hora da dor? O prólogo tratou dessa questão. O tema é a fé: Onde Jó está na hora da dor? Como ele está reagindo? Para compreender o Livro de Jó, eu tenho de come­çar por aí.

 

Crer no sobrenatural não é simplesmente crer que, depois de viver aqui uma vida bem-sucedida, material e razoavel­mente virtuosa, a pessoa continuará a existir no melhor substituto possível para este mundo, ou que, depois de viver aqui uma vida de privações e necessidades, a pessoa receberá compensação de todas as coisas que não experi­mentou: é crer que o sobrenatural é, aqui e agora, a maior das realidades.

  1. S. Eliot

 

* Referências bíblicas: Jó 1-2.

 

Que é o homem, para que tanto o estimes,

e ponhas nele o teu cuidado, e cada manhã o visites,

e cada momento o ponhas à prova? Até quando não apartarás de mim a tua vista? Até quando não me darás tempo de engolir a minha

saliva?

               Jó 7:17-19

 

                     Um Papel no Cosmos

 

Alguns dizem que, para os deuses, somos como moscas que meninos matam à toa num dia de verão. Outros dizem que nem mesmo uma pena de pardal cai ao chão sem que seja da vontade do Pai Celeste.

           Thornton Wilder, ("A Ponte Sobre San Luis Rey")

 

PARA O MEU AMIGO Richard, que escreveu um livro sobre Jó, aquele velho parecia um herói quase que irreal e que teve a ousadia de disputar uma queda de braço com o Deus Todo-Poderoso. Certa vez, depois de ouvi-lo expor acer­ca da grande bravura de Jó, eu trouxe à tona o relato da Apos­ta, e então notei a ira surgir no semblante de Richard até ele quase explodir. "Tudo o que posso dizer", gritou por fim, "é que Jó suportou um inferno só para fazer Deus se sentir bem!"

Eu também, no início, achei difícil evitar tais sentimentos. Não há meios de contornar a dificuldade, pois a disputa celes­tial se manifestou na vida de Jó na forma de saqueadores, tem­pestades de fogo, tempestades de vento e furúnculos. Deus ga­nhou a Aposta; mas como justificar o terrível preço que Jó pagou?

Entretanto, à medida que estudei melhor o livro, vi que eu estava abrigando a imagem errada do que havia aconteci­do. Sim, houve uma queda de braço, mas não entre Jó e Deus. Antes, Satanás e Deus foram os principais lutadores, embora — algo profundamente significativo — Deus tivesse designa­do o homem Jó como seu substituto. O primeiro e o último capítulos deixam claro que Jó, sem saber, estava participando de uma decisiva luta cósmica diante de espectadores do mun­do invisível.

Perturbando o Universo

A estranha cena da Aposta me fez recordar de uns pou­cos outros lugares onde a Bíblia permite um breve vislumbre por detrás das cortinas. Considere, por exemplo, Apocalipse 12, que descreve uma disputa ainda mais bizarra: uma mulher grávida, usando o sol como vestido e doze estrelas como co­roa, opõe-se a um dragão vermelho tão imenso que é capaz de bater em um terço das estrelas com um único movimento de sua cauda. O dragão está à espreita, buscando devorar, na ho­ra do parto, o filho da mulher. E há mais: uma fuga para o deserto, uma serpente que tenta afogar a mulher, e uma violen­ta guerra no céu.

Os comentaristas bíblicos sugerem inúmeras interpreta­ções detalhadas de Apocalipse 12, mas quase todos concordam que as imagens bizarras apontam para a grande ruptura no universo provocada pelo nascimento de Jesus, em Belém. Num certo sentido, Apocalipse 12 apresenta um outro lado do Na­tal, acrescentando um novo jogo de imagens holográficas às cenas familiares da manjedoura, dos pastores e da matança dos inocentes. Qual é a "verdadeira" história do Natal: a ver­são pastoril de Lucas ou o relato em Apocalipse do cosmos em guerra? São a mesma história, é claro; apenas os pontos de vista diferem. Lucas apresenta o ponto de vista a partir da Terra, e Apocalipse apresenta detalhes a partir do mundo invisível.

O padrão — dois mundos, visível e invisível, com aconte­cimentos num mundo afetando o outro — vem à tona por to­da a Bíblia: uma tarefa missionária de curta duração faz com que Satanás caia do céu tal como um relâmpago (Lucas 10); o arrependimento de um pecador provoca uma celebração en­tre os anjos (Lucas 15); o nascimento de um nenê faz todo o universo estremecer (Apocalipse 12). Essas cenas todas ilustram uma mensagem central da Bíblia: ações aparentemente comuns no mundo visível têm um efeito extraordinário no mundo invisível.

Hoje em dia a crença num mundo invisível constitui uma linha divisória crucial para a fé. Muitas pessoas acordam, se levantam, se alimentam, pegam a condução, trabalham, dão telefonemas, dão atenção aos filhos e vão dormir sem pensa­rem na existência de um mundo invisível. Mas, conforme a Bíblia, a história humana é muito mais do que o surgimento e desaparecimento de pessoas e nações; é um local de encena­ção para a batalha do universo. Grande parte da ação perma­nece oculta à nossa vista, com exceção dos vislumbres ocasio­nais que se nos oferecem em lugares como Apocalipse e Jó.

Um indivíduo comum no mundo visível, Jó foi convoca­do a suportar um julgamento de conseqüências cósmicas. Ele não teve qualquer lampejo de luz para orientá-lo, nem qual­quer indicação de que o mundo invisível se importava com ele, nem de que sequer existisse. Tal qual uma cobaia de laborató­rio, foi escolhido a dedo para solucionar uma das mais ur­gentes questões da humanidade e para impulsionar um peque­no trecho da história do universo.

Será absurdo crer que um único ser humano, um ponto minúsculo num planeta minúsculo, possa fazer uma diferença na história do universo? Certamente assim pareceu para os amigos de Jó. Ouça Eliú, o último dos consoladores de Jó:

 

Se pecas, que mal lhe causas tu?

Se as tuas transgressões se multiplicam, que lhe fazes? Se és justo, que lhe dás, ou que recebe ele da tua mão?

A tua impiedade só pode fazer o mal ao homem como tu mesmo; e a tua justiça dar proveito ao filho do homem.

 

Eliú, todavia, estava redondamente enganado. Os capítu­los iniciais e finais de Jó provam que Deus foi grandemente afetado e que questões cósmicas estavam em jogo. (Mais tarde, numa mensagem ao profeta Ezequiel, Deus apontaria com orgulho para Jó — junto com Daniel e Noé — como sen­do um de seus três favoritos.)

Jó fornece um exemplo, uma ilustração desenhada em tra­ços nítidos, de como a vida na Terra afeta o universo. Quan­do iniciei meu estudo, tive a tendência de evitar a cena "embaraçosa" do capítulo 1, mas depois disso vim a crer que, seja drama ou história, a Aposta pode oferecer de fato uma mensa­gem de grande esperança. No final, esclareceu decisivamente que a fé de um único ser humano é realmente de grande im­portância, e isso é talvez a lição mais poderosa e duradoura dada pelo Livro de Jó. Todos nós vivemos às escuras, desco­nhecendo o que se passa no mundo invisível. Nós também po­demos questionar a sabedoria de Deus e, às vezes, até mesmo pensar que ele é o Inimigo. Mas Jó declara que nossa reação nos momentos de teste é algo que realmente importa. A histó­ria da humanidade — e, de fato, minha própria história indivi­dual de fé — está incluída dentro do grande drama da história do universo.

Deus nos concedeu "a dignidade de causação", disse Pas­cal. Podemos duvidar, junto com Eliú, de que uma única pes­soa possa fazer qualquer diferença. Mas a Bíblia está repleta de indicações de que algo como a Aposta também é encenada na vida de outros crentes. Nós somos a principal exibição de Deus, suas peças de mostruário para serem vistas pelos poderes do mundo invisível. O apóstolo Paulo, tomando empres­tada uma imagem da procissão de gladiadores quando entra­vam no Coliseu, descreveu-se a si mesmo como estando numa mostra ao público: "nos tornamos espetáculo ao mundo, tan­to a anjos, como a homens." E na mesma carta ele comentou, numa surpreendente digressão: "Não sabeis que havemos de julgar os próprios anjos?"

Nós, os humanos, podemos habitar numa mera partícula de uma galáxia, que por sua vez é uma mera partícula no uni­verso, mas o Novo Testamento insiste que aquilo que aconte­ce aqui entre nós ajudará, na verdade, a determinar o futuro desse universo. Paulo expressou este conceito com vigor: "A ardente expectativa da criação aguarda a revelação dos filhos de Deus." A criação natural, gemendo devido à labuta e dete­rioração, só pode ficar livre mediante a transformação de se­res humanos.

A Grande Virada

Toda a história humana tem lugar em algum ponto entre a primeira parte de Gênesis e a última parte de Apocalipse, que retratam a mesma cena, com as mesmas pinceladas: Pa­raíso, um rio, a luminosa glória de Deus e a Arvore da Vida. Assim, a história começa e termina no mesmo lugar, e tudo nesse ínterim diz respeito à luta para recuperar o que foi perdido.

Após a queda, no Paraíso, a história entrou numa nova fase. A criação Deus havia feito por si mesmo, começando com nada e culminando com o universo em todo o seu esplendor. A nova obra é a recriação, e para isso Deus emprega os próprios seres humanos que originalmente danificaram sua obra. A cria­ção avançou através das etapas: primeiro estrelas, então o céu e o mar, e depois plantas e animais, e finalmente o homem e a mulher. A recriação inverte a seqüência, começando com o homem e a mulher e culminando com a restauração de todo o restante.

Em muitos aspectos, o ato de recriação é mais difícil do que o da criação, pois depende de seres humanos imperfeitos. Certamente Deus teve de pagar um preço maior: a morte de seu Filho. Ainda assim, Deus insiste em curar o mundo indo de baixo para cima em vez de cima para baixo. Como um teó­logo disse: "Quando se alcançou tudo o que se podia fazer mediante o uso de sua própria liberdade, mediante a liberda­de do homem ele alcançou ainda mais."

Enquanto estudava Jó, chamou-me a atenção que a Apos­ta foi, em sua essência, uma clara recolocação da pergunta ori­ginal de Deus na criação: Os humanos escolherão em favor de mim ou contra mim? Do ponto de vista de Deus essa é a questão central da história, começando com Adão e prosseguindo até Jó e cada homem e mulher que já viveu. A Aposta no Livro de Jó pôs em questão toda a experiência humana.

Satanás negou que os seres humanos sejam verdadeira­mente livres. É claro que temos liberdade para descer — Adão e todos os seus descendentes provaram isso. Mas liberdade pa­ra ascender, para crer em Deus por nenhuma outra razão se­não... bem... por absolutamente nenhuma razão? Será que uma pessoa consegue crer, mesmo quando Deus lhe pareça um inimigo? Ou será que a fé é apenas mais um produto do ambiente, da cultura e das circunstâncias? Os capítulos iniciais de Jó apresentam Satanás como o primeiro grande behaviorista: Jó foi condicionado a amar a Deus, Satanás sugeriu. Reti­re as recompensas e veja sua fé sucumbir. A Aposta testou a teoria de Satanás.

Foi assim que vim a enxergar as tribulações de Jó como um teste crucial da liberdade humana, uma questão igualmen­te importante na atualidade. Será que nossas vidas realmente importam? Em nosso século é preciso ter fé para crer que um ser humano é algo mais do que uma combinação de programa­ção de DNA, instintos oriundos da associação genética, condi­cionamento cultural e as forças impessoais da história. No en­tanto, mesmo neste século behaviorista, queremos crer de mo­do diferente. Queremos crer que as mil e uma escolhas fáceis e difíceis que fazemos diariamente têm, de alguma forma, um valor. E o Livro de Jó insiste que elas têm; a fé de alguém po­de fazer a diferença. Essa foi a verdadeira questão por trás da Aposta de Deus com Satanás: há acima de tudo um papel para os seres humanos desempenharem.

Jó calou o Acusador ao declarar sua fé apesar de tudo o que acontecera. Despojado de tudo, exceto sua liberdade, ele ainda assim exercitou aquela liberdade para crer num Deus que não podia ver. E, em fazendo-o, estabeleceu um padrão para quem quer que venha a se defrontar com a dúvida ou o sofrimento.

Com muita freqüência, a decepção com Deus remonta a circunstâncias parecidas com as de Jó. Um acidente trágico, uma doença terminal, ou uma perda de emprego podem esti­mular as mesmas perguntas que Jó fez. Por que comigo? O que Deus tem contra mim? Por que ele parece tão distante? Como leitores da história de Jó, podemos ver por detrás da cortina uma disputa sendo travada no mundo invisível. Mas em nossas próprias tribulações não teremos tal perspectiva. Quando a tragédia desabar, também ficaremos amarrados a um ponto de vista limitado, e o drama que Jó atravessou se repetirá em nossas vidas individuais. Mais uma vez Deus per­mitirá que sua reputação dependa da reação de seres humanos imprevisíveis.

Para Jó, o campo de batalha da fé implicou a perda de bens, perda de familiares, perda de saúde. Poderemos nos de­frontar com uma luta diferente: um fracasso profissional, um casamento problemático, desvios sexuais, uma aparência físi­ca que não atrai as pessoas. Em tais ocasiões as circunstâncias exteriores — a enfermidade, a conta bancária, a falta de sor­te — parecerão a verdadeira luta. Poderemos implorar a Deus que mude essas circunstâncias. Se eu apenas fosse uma pessoa bonita ou simpática, então tudo ia dar certo. Se eu apenas ti­vesse mais dinheiro — ou pelo menos um emprego — então eu poderia crer facilmente em Deus.

Porém, a batalha mais importante, conforme se vê em Jó, ocorre dentro de nós. Confiaremos em Deus? Jó ensina que no momento em que a fé é mais difícil e menos provável, então ela é mais necessária. A luta de Jó apresenta um vislum­bre do que, em outras passagens, a Bíblia descreve detalhada­mente: a notável verdade de que nossas escolhas importam não apenas para nós e para nosso próprio destino, mas, surpreen­dentemente, para o próprio Deus e para o universo que ele go­verna.

Em resumo, Deus concedeu a homens e mulheres comuns o privilégio de participarem da Grande Virada que irá restau­rar o cosmos a seu estado original. Todos os motivos de desa­pontamento com Deus que mencionei neste livro, bem como todos os cânceres, todas as mortes, todos os relacionamentos desfeitos, todos os gemidos acumulados, feitos por um plane­ta dominado pela competição selvagem — todas essas imper­feições serão extraídas. Podemos eventualmente questionar a seqüência do plano divino de restauração e podemos, tal co­mo os discípulos de Jesus, nos impacientar com o calendário de Deus. (Os judeus, afinal, sentiram uma amarga decepção quando Jesus rejeitou o sonho que tinham de um reino físico em favor de um reino invisível, espiritual.) Mas todas as pro­messas dos profetas algum dia se cumprirão, e nós, você e eu, somos aqueles escolhidos para ajudar a tornar isso realidade.

Jó expressou a dor e a injustiça deste mundo de modo mais contundente do que qualquer outro. Ele expressou vee­mentemente a desilusão com Deus. Devemos prestar atenção às queixas de Jó e à tempestuosa resposta de Deus. Mas o Li­vro de Jó principia não com as queixas — o ponto de vista hu­mano — mas com o ponto de vista de Deus. No prólogo, a cena da Aposta estabelece uma verdade misteriosamente radian­te: Jó — e você e eu — podemos nos unir à luta para reverter tudo o que há de errado com o universo. Nós podemos fazer diferença.

O Livro de Jó não oferece respostas satisfatórias para a pergunta do "Por quê?'' Em vez disso, ele a substitui por uma outra pergunta: "Para quê?" Permanecendo fiel a Deus em meio às suas tribulações, Jó, aquele velho extravagante e sarcástico, ajudou a acabar com a própria dor e injustiça deste mundo, contra as quais ele havia protestado tão vigorosamen­te. E Meg Woodson, que mesmo em meio às trevas não larga do amor de Deus... ela também está ajudando a reverter esses erros.

Por que, porém, a demora? Por que Deus permite que o mal e a dor existam e floresçam tão flagrantemente neste pla­neta? Por que permite que façamos lenta e desajeitadamente o que ele poderia fazer num piscar de olhos?

Ele se controla por amor a nós. Estamos envolvidos na recriação; estamos, na verdade, no centro de seu plano. A Aposta, o tema por detrás de toda história humana, é para o nosso desenvolvimento, não o de Deus. Nossa própria existên­cia anuncia aos poderes do universo que a restauração está em execução. Cada ato de fé realizado por qualquer um do povo de Deus é como o soar de um sino, e uma fé como a de Jó ecoa por todo o universo.

 

Nossa vida atual é como uma luta de verdade — como se no universo houvesse algo realmente indômito, para cuja redenção nós, com todos os nossos idealismos e fidelidades, somos necessários.

                 William James, ("A Vontade de Crer")

 

Eu preferiria caminhar, como já o faço, diariamente apa­vorado com a eternidade do que sentir que isto não passa­va de um jogo para crianças, no qual todos os participan­tes ganhariam no fim prêmios igualmente sem valor.

  1. S. Eliot

 

* Referências bíblicas: Jó 35; 1 Coríntios 4,6; Romanos 8

 

Aguardava eu o bem, e eis que me veio o mal;

esperava a luz, veio-me a escuridão. O meu íntimo se agita sem cessar.

               Jó 30:26-27

 

                     Deus É Injusto?

THE ROAD LESS TRAVELED ("A Estrada Menos Per­corrida"), livro de M. Scott Peck, principia com uma brus­ca sentença de quatro palavras: "A vida é difícil." O Livro de Jó, caso fosse reduzido a uma só sentença, diria algo seme­lhante. O grito "A vida é injusta!" ressoa em quase todas as páginas.

Para nós, hoje em dia, não é mais fácil aceitar a injusti­ça do que foi para Jó milhares de anos atrás. Considere um impropério bem comum: "Ai, meu Deus!" As pessoas não di­zem isso apenas quando enfrentam uma grande tragédia, mas também quando o motor do carro não quer pegar, quando o seu time de futebol perde, quando chove no seu passeio. Essa expressão revela um juízo instintivo de que a vida tem de ser justa e de que de alguma forma Deus deve "fazer um trabalho melhor" na direção do seu mundo.

O mundo tal como é em contraste com o mundo tal co­mo devia ser — a tensão constante entre aquelas duas situa­ções irrompe às claras no Livro de Jó. Durante três rounds de­morados e violentos, Jó e seus amigos se engalfinham numa luta de boxe verbal. Quanto às regras básicas, todos concordam: Deus deve recompensar aqueles que fazem o bem e pu­nir aqueles que fazem o mal.

Por que, então, Jó, um homem supostamente bom, está sofrendo tanto com o que parece ser punição? Os amigos de Jó, confiantes na justiça de Deus, defendem o mundo tal co­mo é. "Use o seu bom senso", dizem a Jó. "Deus não afligi­ria você sem motivo. Você deve ter cometido algum pecado se­creto." Mas Jó, que sabe sem sombra de dúvida que nada fez para merecer tal punição, não consegue concordar. Alega ino­cência.

Pouco a pouco, entretanto, o sofrimento vai minando as crenças mais preciosas de Jó. Como Deus pode estar a seu la­do?, Jó fica imaginando. Afinal de contas, ele está de cócoras num monte de cinzas, o que sobrou de sua antiga vida antes que Deus o "traísse". É um homem alquebrado, desesperado. "Olhai para mim, e pasmai; e ponde a mão sobre a boca", ele grita.

Uma crise de fé fermenta dentro dele. Deus é injusto? Uma idéia dessas põe em xeque tudo em que Jó crê, mas de que outra forma pode explicar o que aconteceu? Procura em redor outros exemplos de injustiça e vê que algumas vezes as pessoas más chegam a prosperar — não são punidas, como ele gostaria de acreditar. E os inocentes sofrem. Ao passo que muitos outros levam vidas alegres e de abundância sem jamais pensarem em Deus. "Só de pensar nisso me perturbo, e um calafrio se apodera de toda a minha carne." Para Jó os fatos simplesmente não se encaixam.

A razão de o Livro de Jó parecer tão atual é que, também para nós, os fatos não se encaixam. A estridente mensagem de Jó acerca da injustiça da vida parece particularmente apro­priada para nosso século atormentado pela dor. Simplesmen­te insira ilustrações contemporâneas na argumentação de Jó: crianças "inocentes" mas famintas no Terceiro Mundo; pasto­res aprisionados na África do Sul; líderes cristãos que morrem no vigor da vida; os chefes da máfia e os empresários deprava­dos que atuam na área das diversões e têm lucros obscenos por tratarem com menosprezo as leis de Deus; os milhões de habitantes da Europa Ocidental que levam vidas tranqüilas e felizes e jamais pensam em Deus. Nenhuma das indagações de Jó a respeito da injustiça deste mundo se dissipou. Elas só têm-se tornado mais gritantes e estridentes. Ainda temos esperança de que um Deus de amor e poder siga certas regras na Terra. Por que não o faz?

Lidando com a Injustiça

Em algum momento, todo ser humano se defronta com os mistérios que levaram Jó a tremer aterrorizado. Deus é in­justo? Cada geração tem procurado modos de responder a es­sa pergunta.

Uma opção pareceu óbvia à esposa de Jó: "Amaldiçoa a Deus, e morre", ela aconselhou. Por que apegar-se a uma cren­ça sentimental num Deus amoroso quando tanta coisa na vi­da milita contra essa idéia? E neste século parecido com o de Jó, mais pessoas do que em qualquer outra época têm concor­dado com ela. Alguns escritores judeus, tais como Jerzy Kosinski e Elie Wiesel, começaram com uma forte fé em Deus, mas viram-na evaporar-se nas câmaras de gás do Holocausto. Ca­ra a cara com a injustiça mais flagrante da história, concluíram que Deus deve não existir. (Assim mesmo o instinto humano se impõe. Kosinski e Wiesel não conseguem evitar um tom in­dignado, como se eles também se sentissem traídos. Eles igno­ram a questão subjacente: de onde vem nosso senso primitivo de justiça. Por que deveríamos esperar que o mundo seja justo?)

Outros, igualmente atentos para a injustiça do mundo, não conseguem chegar ao ponto de negar a existência de Deus. Ao invés disso, propõem uma outra possibilidade: talvez Deus concorde que a vida é injusta, mas ele nada pode fazer a res­peito. O rabino Harold Kushner assumiu posição no seu best-seller When Bad Things Happen to Good People ("Quando Coisas Ruins Acontecem a Pessoas Boas"). Depois de ver seu filho morrer de progéria, Kushner chegou à conclusão de que "até mesmo Deus enfrenta dificuldades para manter o caos sob controle'', e que Deus é "um Deus de justiça e não de poder".

Conforme o rabino Kushner, Deus está tão frustrado, até mesmo indignado, com a situação quanto qualquer outra pes­soa, mas falta-lhe o poder para mudar a situação. Milhões de leitores encontraram consolo na descrição feita por Kushner de um Deus que parecia compassivo, embora fraco. Fico ima­ginando, entretanto, como aquelas pessoas interpretam os últi­mos cinco capítulos de Jó, que contêm a "autodefesa" de Deus. Nenhuma outra parte da Bíblia apresenta tão marcante-mente o poder de Deus. Se Deus é menos-do-que-poderoso, por que escolheu a pior situação possível, quando seu poder mais foi questionado, para insistir com sua onipotência? (O escritor judeu e prêmio Nobel Elie Wiesel disse acerca do Deus descrito por Kushner: "Se é isso o que Deus é, por que ele não renuncia e deixa alguém mais competente ocupar o seu lugar?")

Um terceiro grupo de pessoas se furta ao problema da in­justiça ao olhar para o futuro, quando uma justiça severa im­por-se-á no universo. A injustiça é uma condição temporária, dizem. A doutrina hindu do carma, que analisa essa crença com uma precisão matemática, calcula que uma alma pode le­var 6.800.000 encarnações para alcançar a justiça perfeita. No final de todas essas encarnações uma pessoa terá experi­mentado a quantia exata de dor e prazer que merece.

Uma quarta abordagem é pura e simplesmente negar o problema e insistir que o mundo é justo. Fazendo eco aos ami­gos de Jó, essas pessoas insistem que o mundo anda de acor­do com leis constantes e fixas: as boas pessoas prosperarão e as más fracassarão. Encontrei esse ponto de vista na igreja que prega cura pela fé, em Indiana, e a ouço praticamente to­das as vezes em que assisto programas religiosos na televisão, onde algum evangelista promete saúde perfeita e prosperidade financeira a quem quer que, tendo uma fé de verdade, peça tais coisas.

É óbvio que tais promessas extravagantes exercem gran­de atração, mas deixam de dar explicação para todos os fatos. Os nenês que contraem AIDS ainda no útero, por exemplo, ou a lista de santos perseguidos, encontrada no Foxe's Book of Martyrs ("Livro Foxe dos Mártires") — como isso se encai­xa numa doutrina de justiça na vida? * O que eu teria prefe­rido dizer a Meg Woodson é: "O mundo é justo, e, por isso, se você orar o suficiente, sua filha não irá morrer". Mas não pude dizer aquilo, assim como também não posso dizer agora: "Deus levou Peggie embora por causa de alguma coisa que vo­cê fez de errado." Ambos os pontos de vista encontram-se re­presentados no Livro de Jó; ambos são no final rejeitados por Deus.

É preciso dar um salto olímpico de fé para argumentar que a vida seja completamente justa. Com mais freqüência, os cristãos reagem à injustiça da vida não por negá-la totalmen­te, mas por minimizá-la. Eles, como os amigos de Jó, buscam alguma razão oculta por detrás do sofrimento:

"Deus está tentando ensinar alguma coisa para você. Vo­cê deve sentir-se privilegiado, não amargurado, pois você tem uma oportunidade de depender dele pela fé."

"Medite sobre as bênçãos que você ainda desfruta — pelo menos você está vivo. Será que você é cristão só quando tudo vai bem?"

"Você está submetendo-se a um treinamento, está tendo uma oportunidade de exercitar novos músculos da fé. Não se preocupe — Deus não vai testar você além daquilo que você consegue suportar."

"Não se queixe tanto! Você vai perder esta oportunida­de de demonstrar sua fidelidade para os não-crentes."

"Sempre existe alguém em pior situação do que você. Agradeça apesar das suas circunstâncias."

Os amigos de Jó ofereceram uma versão de cada uma des­sas "palavras de sabedoria", e cada uma contém um elemen­to de verdade. Mas o Livro de Jó mostra claramente que tais "conselhos úteis" em nada ajudam a responder às perguntas da pessoa que sofre. Foi o remédio errado, ministrado na ho­ra errada.

E, finalmente, existe mais uma maneira de explicar a in­justiça do mundo. Depois de ouvir a todas as alternativas, Jó foi levado à conclusão que sugeri como sendo a sentença que resume o livro inteiro: A vida é injusta! Para Jó a idéia aflo­rou mais como um sentimento do que como uma filosofia de vida, e é assim que atinge todos os que sofrem. "Por que co­migo?" indagamos. "O que é que eu fiz?"

Um Jó Contemporâneo

Enquanto trabalhava neste livro, tomei o cuidado de me encontrar freqüentemente com pessoas que se sentiram traídas por Deus. Enquanto eu escrevia, desejava ter constantemente diante de mim rostos de verdade, de pessoas decepcionadas e em dúvida. Quando chegou a hora de escrever sobre o Livro de Jó, decidi entrevistar uma das pessoas cuja vida mais faz lembrar a de Jó, um homem a quem chamarei de Douglas.

Para mim Douglas parece "justo" no mesmo sentido de Jó: naturalmente não é perfeito, mas é um modelo de fide­lidade. Depois de anos de estudo teórico e prático em psicoterapia, abriu mão de uma lucrativa carreira para poder iniciar um ministério urbano. Os problemas de Douglas tiveram início alguns anos atrás quando sua esposa descobriu um tumor no seio. Médicos operaram-na e removeram aquele seio, mas dois anos depois o câncer tinha-se espalhado para os pulmões. Dou­glas assumiu muitas tarefas domésticas e maternais à medida que sua esposa lutava contra os efeitos debilitantes da quimio­terapia. Algumas vezes ela não conseguia segurar comida algu­ma no estômago. Perdeu o cabelo. E sempre se sentia cansa­da e vulnerável ao medo e à depressão.

Certa noite, no meio dessa crise, quando Douglas estava descendo uma rua da cidade, ao volante do carro e tendo jun­to a esposa e a filha de doze anos de idade, um motorista bê­bado, em sentido contrário, veio ziguezagueando pela rua e bateu frontalmente neles. A esposa de Douglas ficou bastante chocada, mas não se feriu. A filha teve um braço quebrado e cortes profundos no rosto por causa do vidro do pára-brisa. O próprio Douglas experimentou o pior, recebeu uma fortíssima pancada na cabeça.

Depois do acidente, Douglas nunca sabia quando podia ter um ataque de dor de cabeça. Ele não conseguia trabalhar um dia todo, e às vezes ficava desorientado e esquecido. Pior ainda, o acidente afetou permanentemente sua visão. Um dos olhos se movia sem controle, recusando-se a focalizar. Passou a ter visão duplicada e mal podia descer um lance de escadas sem ajuda. Douglas aprendeu a conviver com todas as suas li­mitações à exceção de uma: ele não conseguia ler mais do que uma ou duas páginas de cada vez. A vida inteira ele tinha amado os livros. Agora estava preso aos livros gravados, pro­duzidos para cegos.

Quando telefonei para o Douglas para solicitar uma entre­vista, ele sugeriu que nos encontrássemos para um café da ma­nhã; e, quando o dia marcado chegou, eu me preparei para uma manhã difícil. Até então eu tinha entrevistado uma dúzia de pessoas e tinha ouvido todo o tipo de desilusão com Deus. Se alguém tinha o direito de estar irado com Deus seria Dou­glas. Exatamente naquela semana sua esposa havia recebido um relatório desanimador do hospital: uma outra mancha sur­gira em seu pulmão.

Enquanto serviam-nos a comida, nós nos familiarizamos um com o outro, contando detalhes de nossas vidas. Douglas comia com grande concentração e cuidado. Óculos espessos corrigiam parte dos seus problemas de visão, mas era necessá­rio muito esforço em focalizar apenas para poder levar o garfo à boca. Eu me forcei a olhar diretamente para ele enquan­to conversávamos, tentando ignorar a distração do seu olho rebelde. Finalmente, quando terminamos a refeição e fizemos sinal à garçonete para pedir mais café, descrevi meu livro so­bre decepção com Deus.

— O que você teria a dizer sobre a sua própria frustração ou desilusão? — perguntei. — O que você aprendeu que pos­sa ajudar outra pessoa que esteja atravessando um período difícil?

Douglas esteve em silêncio pelo que pareceu um longo tem­po. Cofiou sua barba grisalha e seu olhar se perdeu na distân­cia. Por um instante fiquei imaginando se ele estava tendo um "branco" mental. Finalmente disse:

— Para dizer a verdade, Philip, não senti qualquer desilu­são com Deus.

Fiquei surpreso. Douglas, de forma marcantemente hones­ta, sempre havia rejeitado fórmulas fáceis, como os teste­munhos do tipo "Conte a bênção" que aparecem em progra­mas religiosos na televisão. Esperei que explicasse.

— A razão é a seguinte. Aprendi, primeiramente com a enfermidade da minha esposa e então especialmente com o aci­dente, a não confundir Deus com a vida. Não sou nenhum he­rói. Fico tão perturbado com o que me aconteceu como qual­quer outra pessoa ficaria. Eu me sinto livre para amaldiçoar a injustiça da vida e para dar vazão a toda minha tristeza e ira.

Mas creio que Deus sente a mesma coisa quanto àquele aciden­te — entristecido e irado. Não o culpo pelo que aconteceu. Douglas prosseguiu:

— Aprendi a ver além da realidade física deste mundo. Vejo claramente a realidade espiritual. Nossa tendência é pen­sarmos: "A vida deve ser justa porque Deus é justo." Mas Deus não é a vida. E, se eu confundo Deus com a realidade física da vida — ao esperar, por exemplo, constante boa saú­de — então me coloco na posição de ter uma decepção enor­me. A existência de Deus, até mesmo seu amor por mim, não depende de minha boa saúde. Com toda franqueza, tive mais tempo e oportunidade para desenvolver meu relacionamento com Deus durante esse tempo de limitações físicas do que antes.

Havia uma profunda ironia naquela cena. Por meses eu estivera absorto com os fracassos na fé, tendo saído em bus­ca de histórias de pessoas desapontadas com Deus. Eu havia escolhido Douglas como o meu Jó contemporâneo, e havia es­perado dele uma amargurada explosão de protesto. A última coisa que eu esperava era um curso superior de aperfeiçoamen­to na fé.

— Se desenvolvermos um relacionamento com Deus in­dependente das circunstâncias de nossa vida — disse Douglas —, então poderemos ser capazes de ficar firmes quando a rea­lidade física se desmoronar. Podemos aprender a confiar em Deus apesar de toda a injustiça da vida. Não é essa a lição prin­cipal de Jó?

Embora a separação rigorosa que Douglas fazia entre a "realidade física" e a "realidade espiritual" me incomodasse, achei intrigante essa sua idéia. Durante os momentos que se seguiram trabalhamos juntos percorrendo a Bíblia, testando suas idéias. No deserto do Sinai as garantias divinas de suces­so físico — saúde, prosperidade e vitórias militares — nada fi­zeram para ajudar o desempenho espiritual dos israelitas. E a maioria dos heróis do Antigo Testamento (Abraão, José, Da­vi, Elias, Jeremias, Daniel) passaram por tribulações muito parecidas com as de Jó. Para cada um deles, eventualmente a realidade física com certeza parecia apresentar Deus como o inimigo. Mas cada um conseguiu apegar-se a uma confiança nele apesar das dificuldades. Com isso sua fé deixou de ser uma "fé contratual" — seguirei a Deus se ele me tratar bem — para ser um relacionamento que podia transcender qual­quer dificuldade.

De repente Douglas deu uma olhada no relógio e perce­beu que já estava atrasado para um outro encontro. Apressada­mente vestiu o casaco e se pôs em pé para sair, e então se in­clinou e disse um último pensamento:

— Desafio você a ir para sua casa e ler de novo a história de Jesus. A vida foi "justa" com ele? Para mim, a cruz aca­bou definitivamente com a crença enraizada de que a vida se­rá justa.

Quando cheguei a casa, segui o conselho de Douglas e mais uma vez percorri os Evangelhos, imaginando como Jesus teria respondido à pergunta: "A vida é injusta?" Em lugar al­gum o encontrei negando a injustiça. Quando Jesus encontra­va uma pessoa enferma, jamais fazia uma palestra do tipo "acei­te a vida como ela é"; ele curava quem quer que o procuras­se. E suas palavras incisivas quanto aos ricos e poderosos de sua época mostram claramente o que pensava das desigualda­des sociais. O Filho de Deus reagiu à injustiça da vida de mo­do bem parecido como qualquer outra pessoa. Quando encon­trava uma pessoa sofrendo, ficava profundamente tocado. Quando seu amigo Lázaro morreu, ele chorou. Quando o pró­prio Jesus se defrontou com o sofrimento, retraiu-se, três ve­zes perguntando se havia alguma outra saída.

Deus respondeu à pergunta sobre a injustiça não com pa­lavras, mas com uma visita, uma Encarnação. E Jesus ofere­ce uma prova de carne e osso de como Deus se sente quanto à injustiça, pois ele vestiu a "matéria" da vida, a realidade fí­sica no que tem de mais injusto. (Ocorreu-me, enquanto lia os Evangelhos, que, se todos nós da Igreja gastássemos nossas vidas tal como ele fez — ministrando aos doentes, alimentan­do os famintos, resistindo aos poderes do mal, consolando aque­les enlutados e levando as Boas Notícias de amor e perdão — então talvez a pergunta "Deus é injusto?" não fosse feita ho­je em dia com tanta urgência.)

A Grande Injustiça

Deus é injusto? A resposta depende de quão intimamen­te associamos Deus e a vida. Com certeza a vida na Terra é injusta. Douglas estava certo ao dizer que a cruz confirmou essa questão para sempre.

O escritor Henri Nouwen conta a história de uma família que ele conheceu no Paraguai. O pai, um médico, protestou veementemente contra o regime militar de lá e contra as viola­ções dos direitos humanos. A polícia local se vingou dele pren­dendo seu filho adolescente e torturando-o até a morte. Enrai­vecido, o povo do vilarejo quis transformar o sepultamento do menino numa imensa marcha de protesto, mas o médico escolheu um outro meio de protesto. No sepultamento, o pai deixou à mostra o corpo do filho tal como o havia encontra­do na prisão — nu, marcado com sinais de choques elétricos e queimaduras de cigarros e espancamentos. Todos os morado­res, em fila, passaram junto ao corpo, que jazia não num cai­xão mas no colchão da prisão, encharcado de sangue. Foi o mais forte protesto imaginável, pois pôs a injustiça numa vitri­na grotesca.

Não foi isso o que Deus fez no Calvário? "É Deus quem deve sofrer, não você e eu", dizem aqueles ressentidos contra Deus por causa da injustiça da vida. O xingamento que- alguns ousam dizer expressa bem: Maldito Deus! E naquele dia Deus foi maldito. A cruz que sustinha o corpo de Jesus, nu e cheio de marcas, expôs toda a violência e injustiça deste mundo. Foi necessário aquele ato mais injusto da história — a execução de Jesus, o Cristo — para vencer o mal do mundo. A cruz re­velou que tipo de mundo nós temos e que tipo de Deus nós temos.

Ninguém está isento da tragédia ou da desilusão — o pró­prio Deus não esteve isento. Jesus não ofereceu qualquer imuni­dade, nem qualquer caminho para escapar da injustiça, mas, em vez disso, um caminho para atravessá-la até chegar do ou­tro lado. Assim como a Sexta-Feira da Paixão pôs por terra a crença inata de que esta vida é justa, em seguida veio o Domin­go de Páscoa com sua surpreendente pista para o enigma do universo. Em meio às trevas resplandeceu uma fulgurante luz.

O desejo congênito de justiça não desaparece facilmente, e assim deve ser. Quem de nós às vezes não anseia que haja mais justiça aqui e agora neste mundo? Tenho de admitir que, no íntimo, anseio por um mundo à prova de tristeza e sofri­mento, um mundo onde meus artigos de revista sempre encon­trarão aceitação e meu corpo não envelheça nem se enfraque­ça, um mundo onde minha cunhada não dê à luz uma criança com lesão cerebral, e onde Peggie Woodson viva até chegar a uma provecta velhice. Mas, se eu aposto minha fé numa Ter­ra assim à prova de defeitos, minha fé me decepcionará. Até mesmo o maior dos milagres não soluciona os problemas des­ta Terra: todas as pessoas que encontram alguma cura física irão morrer algum dia.

Necessitamos de algo mais do que milagres. Necessitamos de um novo céu e uma nova terra, e, até que tenhamos isso, a injustiça não desaparecerá.

Um amigo meu, lutando para crer num Deus amoroso em meio a muita dor e tristeza, soltou esta frase: "A única desculpa de Deus é o Domingo de Páscoa!" O linguajar é não-teológico e pesado, mas naquela afirmação existe uma verda­de marcante. A cruz de Cristo pode ter vencido o mal, mas não venceu a injustiça. Para isso é necessário o Domingo de Páscoa. Algum dia Deus irá restaurar toda a realidade física a seu devido lugar, sob o seu domínio. Nesse ínterim, fará bem nos lembrarmos de que levamos nossas vidas no Sábado de Aleluia.

 

As mais difíceis indagações da vida nunca são "removi­das" (nunca ficamos sabendo por que Deus faz isto ou aquilo, por que um avião cai ou acontece um desastre nu­ma mina). Mas somos "redimidos" do poder destrutivo dessas perguntas. O pânico não mais pode nos surpreen­der quando não entendemos o sentido daquilo que Deus permite que nos aconteça. O seu amor não mais nos con­fundirá; aprenderemos a crer naquele amor mesmo quan­do não compreendemos os meios que aquele amor escolhe para se expressar.

                       Helmut Thielicke, ("Como Crer de Novo")

 

* Referências bíblicas: Jó 21, 2.

 

           Na verdade falei do que não entendia;

           coisas maravi­lhosas demais para mim,

           coisas que eu não co­nhecia.

                         Jó 42:3

 

                   Por Que Deus Não Explica

PERTO DO FIM do Livro de Jó, Eliú, jovem e afoito, profe­re uma mensagem contundente em que ridiculariza o dese­jo de Jó de receber uma visita de Deus. "Você acha que Deus se importa com uma criatura insignificante como você? Você imagina que o Deus Todo-Poderoso, o Criador do Universo, condescenderá em visitar a Terra e encontrar-se pessoalmente com você? Será que ele lhe deve algum tipo de satisfação? Pen­se um pouco, Jó!"

À medida que Eliú vai arrastando a voz, uma minúscula nuvem aparece no horizonte, logo acima do seu ombro. E, à medida que a nuvem chega mais perto, formando uma tempes­tade, troveja uma Voz como nenhuma outra. O excelente dis­curso de Eliú encerra-se rapidamente, e Jó começa a tremer. Chegou Deus, em pessoa. Veio responder pessoalmente às acusações de injustiça formuladas por Jó.

Se Jó serve como o principal caso na Bíblia de decepção com Deus, então, certamente, essa impressionante fala prove­niente do redemoinho deve fornecer uma compreensão apro­fundada, importante, acerca de todos os outros períodos de confusão e dúvida. O que, então, Deus diz em sua própria defesa?

Posso pensar em algumas coisas úteis que Deus podia ter dito: "Jó, lamento mesmo, lamento profundamente o que acon­teceu. Você suportou muitas tribulações injustas por minha causa, e estou orgulhoso de você. Você não imagina o que is­so significa para mim e até mesmo para o universo." Uns pou­cos elogios, uma dose de compaixão ou, no mínimo, uma rápi­da explicação do que ocorreu "nos bastidores" no mundo in­visível — qualquer destas coisas teria dado algum consolo a Jó.

Deus não diz nada parecido. Sua "resposta", na realida­de, consiste mais de perguntas do que de respostas. Deixando de lado trinta e cinco capítulos de debates sobre o problema da dor, ele se lança a um magnífico passeio verbal pelo mun­do da natureza. Parece que ele guia Jó através de uma galeria particular de suas obras prediletas, demorando-se com orgulho junto a dioramas de cabras monteses, jumentos selvagens, aves­truzes e águias, falando como se estivesse atônito pelas suas próprias criações. A beleza da poesia e o final de Jó rivalizam com o que há de melhor na literatura mundial. Entretanto, mesmo enquanto me maravilho diante da ofuscante descrição que Deus faz do mundo natural, uma sensação de perplexida­de se infiltra. Essas palavras são relevantes? E, dentre todos os instantes, por que Deus escolheu justo esse para ministrar a Jó um curso de aperfeiçoamento sobre a vida selvagem?

No livro Wishful Thinking ("Pensando Desejosamente"), Frederick Buechner resume bem a fala de Deus. "Deus não explica; explode. Pergunta a Jó quem ele pensa que é. Ele diz que tentar explicar o tipo de coisas que Jó quer saber, seria como tentar explicar Einstein a um insignificante marisco... Deus não revela seu magnífico projeto. Ele revela a si pró­prio." A mensagem por detrás da estupenda poesia resume-se a isto: Até que você saiba um pouco mais sobre dirigir o uni­verso físico, Jó, não me diga como dirigir o universo moral.

"Deus, por que estás me tratando de modo tão injusto?" Jó choramingou o livro inteiro. "Põe-te no meu lugar."

"NÃO!!!" Deus troveja em resposta. "Ponha-se você em meu lugar! Até que você possa dar lições sobre como fazer o sol se levantar a cada dia, ou onde espalhar os relâmpagos, ou como projetar um hipopótamo, não julgue como eu dirijo o mundo. Apenas cale-se e ouça."

O impacto da fala de Deus em Jó é quase tão surpreen­dente quanto a própria fala. Embora Deus nunca responda a uma sequer pergunta acerca da miséria de Jó, a rajada da tem­pestade desmonta Jó. Ele se arrepende no pó e na cinza, e to­dos os vestígios de decepção com Deus se desfazem.

O Que Não Temos Condições de Saber

O restante de nós, todavia, que talvez nunca ouça uma voz falar vinda de um redemoinho, deve tentar imaginar o que Deus de fato disse a Jó. E, francamente, para mim a resposta evasiva de Deus cria tantos problemas quantos os que ela solu­ciona. Não posso simplesmente fazer de conta que as pergun­tas sobre os por quês não existem. Elas surgem todas as vezes que converso com alguém como Meg Woodson, todas as vezes que minha própria vida começa a se desintegrar.

A recusa divina em responder às perguntas de Jó não se ajusta às mentes modernas. Não gostamos — eu não gosto — que nos digam que algo está além da nossa compreensão. Pos­suo um livro intitulado The Encyclopedia of Ignorance ("A Enciclopédia da Ignorância''), que descreve muitas áreas da ciência que ainda não conseguimos explicar; mas os cientistas de todo o mundo estão dando o máximo de si para explorarem essas áreas e preencherem os vazios do conhecimento. Será que Deus cercou uma área do conhecimento, A Enciclopédia da Ignorância Teológica, que nenhum ser humano jamais che­gará a compreender?

Por mais que eu resista, sou levado a tal conclusão pelo Livro de Jó. Por que a vida é tão injusta? Quando Deus provo­ca o sofrimento e quando simplesmente o permite — e qual é a diferença? Por que parece que algumas vezes Deus está cala-, do e algumas vezes está íntimo e chegado? Quando Deus teve a oportunidade perfeita para resolver definitivamente essas questões, fez carranca e meneou a cabeça. Por que ter o traba­lho de explicar? Possivelmente nem Jó nem qualquer outro ser humano conseguiriam entender.

Não tenho condições de oferecer respostas para as pergun­tas específicas feitas por Jó, porque Deus também não ofere­ceu nenhuma. Posso apenas indagar por que Deus não dá res­posta alguma, por que tem de existir uma Enciclopédia da Ig­norância Teológica. Por estar penetrando numa área sobre a qual a Bíblia fica calada, o que segue é pura especulação. Eu a incluo para pessoas que nunca estão satisfeitas com uma não-resposta, para aqueles que não conseguem parar de fazer per­guntas que até mesmo Deus se recusou a responder.

  1. Talvez Deus nos mantenha na ignorância porque o es­clarecimento poderá não nos ajudar.

As mesmas perguntas urgentes atormentam quase toda pessoa que sofre: Por quê? Por que comigo? O que Deus está tentando me ensinar? No Livro de Jó Deus se afasta daquelas perguntas sobre a causa e, em vez disso, concentra a atenção em nossa resposta de fé. Mas pense no que poderia acontecer se Deus respondesse sem rodeios às nossas perguntas. Presumi­mos que suportaríamos melhor o sofrimento se tão-somente soubéssemos o motivo por trás dele. Mas suportaríamos mesmo?

Encontro semelhanças notáveis em dois livros bíblicos: Jó e Lamentações. Jó fitou incrédulo as ruínas de sua casa e bens; o autor de Lamentações fitou incrédulo as ruínas de sua cidade, Jerusalém. Ambos os livros expressam ira e amargura e profundo desapontamento com Deus. De fato, muitas passa­gens de Lamentações soam como paráfrases do muito mais an­tigo Livro de Jó. Porém, o profeta que escreveu Lamentações (provavelmente Jeremias) não estava às escuras. Ele sabia exa­tamente por que Jerusalém fora destruída: os hebreus haviam quebrado sua aliança com Deus. Todavia, conhecer a causa em nada ajudou a aliviar o sofrimento ou os sentimentos de desespero e abandono. 'Tornou-se o Senhor como inimigo", pronunciou ao estilo de Jó. "Por que nos rejeitadas totalmen­te? Por que te enfurecerias sobremaneira contra nós outros?" indagou acerca de Deus, embora soubesse muitíssimo bem as respostas — outras porções do livro apresentam as respostas, oferecendo detalhes e pormenores.

Que possível explicação poderia consolar um Jó ou uma Meg Woodson? O conhecimento é passivo, intelectual; o sofri­mento é ativo, pessoal. Nenhuma resposta intelectual solucio­nará o sofrimento. Talvez seja por isso que Deus enviou seu próprio Filho como uma das respostas à dor humana, para ex­perimentá-la e absorvê-la dentro de si. A Encarnação não "so­lucionou" o sofrimento humano, mas pelo menos foi uma res­posta ativa e pessoal. No sentido mais verdadeiro, palavra algu­ma é capaz de falar mais audivelmente do que o Verbo.

Se você olha para o Livro de Jó em busca de resposta pa­ra as perguntas sobre os "por quês?", você ficará frustrado.

Deus recusou responder, Jó retirou as perguntas, e os três ami­gos se arrependeram de todas as suas pressuposições errôneas. De modo semelhante, Jesus evitou o tema da causa direta do sofrimento. Quando seus discípulos tiraram certas conclusões acerca de um homem cego de nascimento (João 9) e acerca de duas catástrofes ocorridas na região (Lucas 13), Jesus os repreendeu. A partir dos dados bíblicos, tenho de concluir que quaisquer respostas à altura das perguntas sobre os "por quês?" estão, pura e simplesmente, além do nosso alcance.

Sempre que assumirmos alguma das prerrogativas de Deus, trilharemos por terreno perigoso. Até mesmo uma tenta­tiva bem intencionada de confortar uma criança, "Deus levou o seu papai porque gostava muito dele", invade uma área que a Bíblia parece declarar proibida. Embora as catástrofes — uma queda de avião, uma epidemia, um franco atirador matan­do ao acaso, o envenenamento intencional de medicamentos, uma fome na África — clamem por uma interpretação oficial, o Livro de Jó oferece um lembrete importante: O próprio Deus não achou necessário oferecer explicações.

  1. Talvez Deus nos mantenha ignorantes porque somos incapazes de compreender a resposta.

Talvez a majestosa não-resposta de Deus a Jó não tenha sido um estratagema, não tenha sido uma forma engenhosa de se livrar de perguntas; talvez tenha sido o reconhecimento divino de um fato normal da vida. Uma criatura minúscula num planeta minúsculo numa galáxia remota simplesmente não poderia compreender plenamente o grandioso esquema do universo. De igual forma você pode tentar descrever cores a uma pessoa que nasceu cega, ou uma sinfonia de Mozart a uma pessoa que nasceu surda, ou expor a teoria da relativida­de a uma pessoa que nem mesmo sabe a respeito de átomos.

Para aquilatar o problema, imagine-se tentando comuni­car-se com uma criatura numa lâmina de microscópio. O "uni­verso", para uma criatura dessas, consiste somente de duas dimensões, a superfície plana da lâmina de vidro; seus senti­dos são incapazes de perceber qualquer coisa além das bordas. Como você poderia explicar um conceito de espaço ou altura ou profundidade a uma criatura assim? Olhando "de cima", você pode compreender o mundo bidimensional da criatura bem como o mundo tridimensional que a cerca. A criatura, no entanto, olhando "de baixo", só pode compreender um mundo de duas dimensões. De modo análogo, o mundo invisí­vel existe fora do alcance de nossa percepção — exceto por ocasião de raras intervenções em nosso "plano", o que deno­minamos milagres. Jó, ou você e eu, não conseguimos compre­ender o quadro todo com as faculdades mentais que temos no momento.

O cineasta Woody Allen jocosamente explorou esse pon­to de vista de "dois mundos" em seu filme A Rosa Púrpura do Cairo. Inicialmente vemos o herói através dos olhos de Mia Farrow enquanto ela o vê desempenhar um papel num filme. Então, de alguma forma, o herói literalmente sai da tela de ci­nema e vai parar na sala de exibições em Nova Jersey, nos Esta­dos Unidos; de repente ele está no mundo "real" junto com a atônita personagem interpretada por Mia Farrow.

O mundo exterior reserva muitas surpresas para o ator do filme. Quando alguém o atinge com um soco, obediente­mente cai ao chão, conforme foi ensinado a fazer na tela, mas, surpreso, esfrega o queixo — não era para aqueles golpes ma­chucarem! Quando ele e Mia Farrow se beijam, ele faz uma pausa, esperando o desaparecimento da imagem, como nos fil­mes antigos. E, quando alguém tenta explicar o conceito de Deus — "Ele é quem está no controle de tudo. É com ele que todo mundo se preocupa" — o ator assente com a cabeça: "Ah! você quer dizer o Sr. Mayer, o dono do estúdio de cine­ma." Suas percepções estão limitadas ao mundo do cinema.

Por fim o ator retorna à tela de cinema bidimensional e tenta explicar o mundo real ao restante do elenco. Fitam-no como se seu lugar fosse num hospício. Está falando coisas sem sentido. Não há qualquer "outro" mundo lá fora; só o mun­do do filme é real para eles.

Se um mundo (o mundo de duas dimensões, ou o mundo do filme) existe dentro de outro, só fará sentido a partir de um ponto de vista do mundo "superior". E, para levar adian­te a analogia, esticando-a até o Livro de Jó, a maioria das in­dagações de Jó diziam respeito à atividade no mundo "supe­rior", um mundo além de sua compreensão.

Deus vive num nível "superior", numa outra dimensão. O universo não o contém; ele criou o universo. Num sentido que não conseguimos compreender, ele não está limitado pelo tempo e pelo espaço. Ele pode penetrar no mundo material — na realidade, se não o fizesse, nossos sentidos jamais o perceberiam — mas para ele isso é um "penetrar", tal como um escritor que se introduz como uma personagem de sua própria peça, tal como uma pessoa do mundo real, a qual faz uma rá­pida aparição num filme.

Uma Questão de Tempo

Brilho era o nome de um jovem senhor,

Sua velocidade em relação à da luz era muito superior.

Dessa forma um dia partiu, enfim,

De um modo relativo, sim. E retornou na noite anterior.

 

A percepção do tempo destaca a enorme diferença entre a perspectiva de Deus (o ponto de vista de cima) e a nossa, e creio que essa diferença encontra-se no cerne de muitas de nos­sas dúvidas acerca da decepção com Deus. Por essa razão, me­rece o que poderá parecer uma digressão.

Santo Agostinho dedicou o Livro 11 das Confissões a uma discussão sobre o tempo. "O que, então, é o tempo?" principia ele. "Se ninguém me perguntar, eu sei; se quero ex­plicá-lo a alguém que me pergunta, eu não sei." Quando inda­gado sobre o que Deus estava fazendo antes da criação, Agos­tinho respondia que, uma vez que Deus inventou o tempo jun­tamente com o mundo, tal pergunta não faz sentido, e simples­mente denuncia a perspectiva daquele que indaga, perspecti­va esta limitada ao tempo. "Antes" do tempo existe somente a eternidade, e para Deus a eternidade é um presente que nun­ca termina. Para Deus um dia é como mil anos, e mil anos são como um dia.

O que Agostinho pensaria sobre tudo o que aconteceu desde que Einstein relacionou o tempo e o espaço? Agora en­tendemos o tempo como algo relativo, não como absoluto. Dizem que a percepção do tempo depende da posição relativa do observador. Tome um exemplo recente: Na noite de 23 de fevereiro de 1987 um astrônomo no Chile observou a olho nu a explosão de uma longínqua supernova, uma explosão tão po­derosa que liberou num só segundo tanta energia quanto o nosso Sol irá dispensar em dez bilhões de anos. Mas será que aquela ocorrência realmente se deu em 23 de fevereiro de 1987?

Só da perspectiva do nosso planeta. Na verdade a supernova explodiu 170.000 anos antes de nosso 1987, mas a luz gerada pelo acontecimento, viajando quase 9,5 trilhões de quilômetros por ano, levou 170.000 anos para chegar à nossa galáxia.

E é aqui que o ponto de vista "superior" da eternidade desafia nossa compreensão usual acerca do tempo. Se quiser, imagine um Ser muito grande, maior do que todo o universo — tão grande que o Ser existe simultaneamente na terra e no espaço ocupado pela Supernova 1987A. Em 1987 qual era a data para aquele Ser? Depende da perspectiva. Da perspecti­va da Terra, o Ser teria "observado" a história de 1987, o que inclui a descoberta da Supernova 1987A. Mas da perspectiva da Supernova 1987A, o Ser teria experimentado o que a Terra só iria saber 170.000 anos depois! Assim, o Ser observou si­multaneamente tanto o passado (desde a Terra ele viu a explo­são da supernova, ocorrida 170.000 anos antes), quanto o pre­sente (os acontecimentos de 1987 na Terra), quanto o futuro (o que estava acontecendo "agora" na Supernova 1987A, e que os terráqueos só saberão cerca de 170.000 anos depois).

Um Ser como esse, tão grande quanto o universo, pode­ria, de algum posto de observação, ver o que está acontecen­do em qualquer ponto do universo e em qualquer instante de­terminado. Por exemplo, se deseja saber o que está acontecen­do neste exato momento no Sol, pode "observar" da perspectiva do Sol. Se deseja saber o que aconteceu no Sol oito minu­tos atrás, pode "observar" a partir da Terra — e é isso o que vemos, depois de a luz ter percorrido 149 milhões de quilôme­tros desde o Sol até a Terra.

A analogia é inexata, pois aprisiona no espaço um Ser co­mo esse, embora liberte-o do tempo. Mas pode ilustrar como a nossa concepção de tempo (primeiro acontece A, depois acon­tece B) expressa a perspectiva bem limitada de nosso planeta. Deus, fora tanto do tempo quanto do espaço, pode ver o que acontece na Terra de uma forma que podemos somente supor, e jamais plenamente compreender.

Tais noções não são meras brincadeiras fantasiosas. Nas escolas de segundo grau, estudantes de física estudam acerca de hipotéticos astronautas do futuro, que viajarão pelo espa­ço numa velocidade mais rápida do que a da luz e, dessa for­ma, voltarão até mais jovens do que quando partiram. Teorias que pareciam fantasticamente especulativas há apenas uma década estão sendo comprovadas por pesquisadores da atualida­de, os quais refletem raios-laser na lua e enviam relógios atô­micos para o espaço. A ciência está realizando a fantasia: "É uma memória fraca que, de fato, só trabalha de trás para a frente!" disse a Rainha Branca a Alice no País das Maravilhas.

Deus e o Tempo

Mais uma analogia: como escritor eu vivo em dois diferen­tes "fusos horários". Primeiro existe o fuso horário do mun­do real, que abrange meu ritual diário de acordar, vestir-me, tomar o café e então me dirigir até meu escritório para com­pletar capítulos, páginas e palavras. Nesse ínterim, o próprio livro está criando um outro mundo, artificial, com seu próprio fuso horário particular.

Se eu estivesse escrevendo um romance, eu poderia escre­ver estas duas sentenças: "O telefone tocou. Imediatamente ela se levantou do sofá e correu para atender." Dentro do li­vro, a seqüência cronológica é algo assim: o telefone toca, re­ação imediata. Mas fora do livro, no mundo do autor, minu­tos, horas, até mesmo dias podem separar essas duas senten­ças. Talvez eu termine um dia de trabalho com a sentença "O telefone tocou", e então saia de férias por duas semanas. Não importa quando eu volto a trabalhar no livro; estou preso pe­las leis de seu fuso horário. Eu jamais poderia escrever: "O telefone tocou. Duas semanas depois ela se levantou e foi aten­der." Misturar os dois fusos horários criaria um absurdo.

Depois que eu termino o livro, de uma forma que me é peculiar por ser o seu autor, por onde quer que eu vá carrego o livro inteiro dentro de minha mente. "De cima", posso ver todo o enredo de uma só vez: início, meio e fim. Ninguém mais consegue fazê-lo — a não ser que também experimente-o dentro do tempo, labutando em todo ele, uma sentença após outra.

Continuo me armando com analogias, pois as analogias são o único meio que temos para imaginar a história huma­na tal qual Deus a vê. Nós vemos a história como uma seqüên­cia de quadros parados, um após o outro, como num carretel de filme de cinema; mas Deus vê o filme todo de uma só vez, num piscar de olhos. Ele a vê simultaneamente do ponto de vista de uma estrela longínqua e do ponto de vista da minha sala de estar, onde estou sentado, orando. Ele a vê na sua tota­lidade, como um livro inteiro, em vez de sentença por senten­ça e página por página.

Podemos imaginar tal perspectiva obscuramente, como se num nevoeiro. Mas simplesmente reconhecer nossa incurá­vel condição de estarmos presos ao tempo pode nos ajudar a compreender por que Deus não respondeu ao "por quê?" de Jó. Talvez Deus nos mantenha na ignorância porque possivel­mente nem Jó, nem Einstein, nem você nem eu conseguiremos compreender o ponto de vista "de cima". Ao invés disso, Deus respondeu desenrolando uns poucos fatos fundamentais do universo que Jó mal conseguiu compreender, e advertiu: "Deixe o resto comigo."

Não conseguimos compreender quais "regras" se aplicam a um Deus que vive fora do tempo, tal qual o percebemos, e assim mesmo algumas vezes penetra no tempo. Considere to­da a confusão que cerca a palavra "presciência". Deus sabia com antecedência que Jó permaneceria fiel a ele e assim ganha­ria a Aposta? Se sabia, como é que foi uma aposta de verda­de? Ou que dizer das calamidades naturais da Terra? Se Deus sabe com antecedência sobre elas, não é ele que deve levar a culpa? No nosso mundo, se uma pessoa sabe com antecedên­cia que uma bomba irá explodir num automóvel estacionado e deixa de alertar as autoridades, tal pessoa é legalmente res­ponsável. Portanto, será que Deus é "responsável" por tudo o que acontece, até mesmo tragédias, pois ele sabe a respeito com antecedência?

Mas — e esta pode ser a principal mensagem subjacente à vigorosa fala de Deus a Jó — não podemos aplicar nossas regras simplistas a Deus. A própria palavra presciência — pré-ciência — denuncia o problema, pois expressa o ponto de vis­ta de alguém preso dentro do tempo. Deus não enxerga o tem­po numa seqüência A-B. Na realidade, estritamente falando, ele não nos "prevê" realizando coisas. Ele simplesmente nos vê fazendo-as, num eterno presente. E, quando tentamos ima­ginar o papel de Deus num determinado acontecimento, obriga­toriamente vemos as coisas "de baixo", e julgamos seu com­portamento pelos frágeis padrões de uma moralidade contin­gente ao tempo. Um dia poderemos ver problemas tais como "Deus provocou a queda daquele avião?" sob uma ótica bem diferente.

As prolongadas discussões da igreja quanto à presciência e à predestinação ilustram nossas tentativas desajeitadas de compreender o que, para nós, só faz sentido à medida que en­tra no tempo. Numa outra dimensão indubitavelmente encara­remos essas questões de modo bem diferente. Em algumas de suas mais misteriosas passagens a Bíblia dá pistas quanto ao ponto de vista "de cima". Diz que Cristo foi "conhecido... antes da fundação do mundo", o que significa antes de Adão e antes da Queda e, portanto, antes que houvesse qualquer ne­cessidade de redenção. Diz que a graça, a vida eterna, "nos foi dada em Cristo Jesus antes dos tempos eternos". Como se poderia dizer que alguma coisa aconteceu "antes dos tem­pos eternos"? Tal linguajar sugere o ponto de vista de um Deus que vive fora do tempo. Antes de criar o tempo, fez pro­visões para redimir um planeta caído que ainda nem existia! Mas, quando "entrou" no tempo (tal como eu, um escritor, posso me fazer personagem de meu próprio livro), Deus teve de viver e morrer, de acordo com as regras de nosso próprio mundo, preso dentro do tempo.*

O Eterno Presente

Há um sentido em que nós, os humanos, também temos uma percepção do tempo como se este fosse um presente que nunca termina. É verdade, experimentamos o tempo em seqüên­cia — a manhã acontece, então a tarde, depois a noite — mas realizamos todo o nosso pensamento no presente. Se penso no café que tomei no início da manhã, penso no presente sobre o que aconteceu no passado. Se eu planejo jantar esta noi­te, penso no presente sobre o que acontecerá no futuro. Por existir somente no presente, só posso perceber o passado e o futuro desde a perspectiva do presente.

Essa idéia dá uma ligeira indicação de como é o eterno presente, a partir do qual Deus "vê" o mundo. E pode expli­car o constante padrão da Bíblia para com pessoas que duvi­dam de Deus. Para tais pessoas, presas no presente, decepcio­nadas com Deus, a Bíblia oferece dois tratamentos: lembrar do passado e considerar o futuro. Nos Salmos, nos Profetas, nos Evangelhos e Epístolas, a Bíblia constantemente nos insta a olhar para trás e lembrar das grandes coisas que Deus fez. Ele é o Deus de Abraão, Isaque e Jacó, aquele que libertou os hebreus da escravidão no Egito. Ele é o Deus que, por amor, enviou seu Filho para morrer, e quem então o ressusci­tou da morte.

Semelhantemente, a Bíblia aponta para o futuro. Para pessoas desiludidas de todos os lugares — os judeus mantidos cativos na Babilônia, os cristãos perseguidos por Roma, ou pelo Irã ou África do Sul ou Albânia — os profetas enxergam um futuro estado de paz e justiça e felicidade; e eles nos cha­mam a viver à luz do futuro que imaginam. Será que consegui­mos viver agora "como se" Deus está de fato sendo amoroso, gracioso, misericordioso e todo-poderoso, muito embora os antolhos do tempo estejam obscurecendo nossa visão? Os pro­fetas proclamam que a história não será determinada pelo pas­sado ou presente, mas pelo futuro.

Fiz uma longa digressão pelos mistérios do tempo porque creio que não há qualquer outra resposta para a questão da in­justiça. Não importa o quanto racionalizemos, algumas vezes Deus parecerá injusto desde a perspectiva de uma pessoa pre­sa ao tempo. Só no final dos tempos, depois de termos alcan­çado o ponto de vista de Deus, depois de todo mal ser puni­do ou perdoado, toda enfermidade ser curada, e todo o univer­so ser restaurado — só então reinará a justiça. Então compre­enderemos que papel o mal, e a Queda, e a lei natural desem­penham num acontecimento "injusto" como a morte de uma criança. Até lá não saberemos, e só podemos confiar num Deus que de fato sabe.

Permanecemos na ignorância de muitos detalhes, não por­que Deus se agrade em nos manter na escuridão, mas porque não temos a capacidade de absorver tanta luz. Com um único olhar Deus sabe para onde o mundo caminha e como a histó­ria irá terminar. Mas nós, criaturas presas ao tempo, só pos­suímos a maneira mais primitiva de compreender: podemos deixar o tempo passar. Só quando a história tiver completado o seu caminho compreenderemos como "todas as cousas co­operam para o bem". A fé significa crer com antecedência no que só fará sentido ao contrário.

Tenho um amigo que se enerva com tal definição de fé: "Você nunca culpa Deus pelas coisas ruins, mas ao mesmo tem­po lhe dá crédito pelas coisas boas!" Numa forma um tanto quanto curiosa, meu amigo está certo. Isso, creio, é também o que às vezes a fé exige: confiar em Deus quando não há qual­quer prova visível dele — tal qual Jó o fez. Confiar em sua bondade suprema, uma bondade que existe fora do tempo, uma bondade que o tempo ainda não alcançou.

 

O Eterno pode encontrar-se conosco naquilo que, de con­formidade com nossas medições atuais, é um dia ou (mais provavelmente) um minuto ou um segundo; mas temos to­cado o que não é de forma alguma mensurável com medi­das de tempo, sejam longas ou curtas. Assim, nossa espe­rança é, no final, emergir, se não totalmente do tempo (o que talvez não se adapte à nossa humanidade), pelo menos da tirania, da pobreza unilinear, do tempo; domi­ná-lo e não ser dominado por ele; e assim curar aquela ferida sempre dolorida, a qual a mera sucessão e mutabilidade nos infligem, quase igualmente quando estamos feli­zes e quando estamos infelizes. Pois nos damos tão mal com o tempo que até mesmo ficamos atônitos diante de­le. "Como ele cresceu!" exclamamos. "Como o tempo voa!", como se vez após vez a forma universal de nossa experiência fosse uma novidade. É tão estranho quanto se um peixe repetidamente se surpreendesse com a umida­de da água. E isso seria realmente estranho; a não ser que o peixe estivesse destinado a um dia se tornar num ani­mal terrestre.

  1. S. Lewis, ("Reflexões sobre os Salmos")

 

* Referências bíblicas: Jó 36-38; Lamentações 2,5; 1 Pedro 1; 2 Timóteo 1; Isaías 7:14; romanos 8.

 

             Por que se concede luz ao homem,

             cujo caminho é oculto,

             e a quem Deus cercou de todos os lados?

             Porque em vez do meu pão me vêm gemidos,

             e os seus lamentos se derramam como água.

                           Jó 3:23-24

 

                     Deus Está Calado?

CERTA VEZ UM AMIGO MEU foi nadar ao crepúsculo num grande lago. Enquanto estava nadando tranqüila­mente a uns noventa metros da margem, uma inesperada nebli­na noturna inundou o lago. De repente não enxergava nada: nenhum horizonte, nenhuma baliza, nenhum objeto, nenhu­ma luz à margem. Como o nevoeiro dispersava toda a luz, nem mesmo conseguia identificar o lado onde o sol se punha.

Durante trinta minutos debateu-se na água, tomado de pânico. Começava a nadar numa direção, ficava inseguro, e virava noventa graus à direita. Ou à esquerda — não fazia qual­quer diferença o lado para o qual ele virava. Podia sentir o co­ração batendo descontroladamente. Parava e flutuava, tentan­do conservar as energias, e se esforçava em respirar mais deva­gar. Então, às cegas começava de novo. Finalmente ouviu uma voz fraca chamando da margem. Posicionou o corpo na dire­ção dos sons e os seguiu até chegar em segurança.

Algo parecido com aquela sensação de total perdição de­ve ter-se instalado em Jó enquanto estava sentado nas cinzas e procurava entender o que havia acontecido. Ele também ti­nha perdido todas as balizas, todos os pontos de referência.

Para onde devia se voltar? Deus, aquele que podia orientá-lo em meio à neblina, permanecia calado.

O objetivo básico da Aposta era manter Jó na escuridão. Se Deus tivesse dito uma inspirativa palavra de estímulo — "Fa­ça isso para mim, Jó, como um Cavaleiro da Fé, como um mártir'' — então Jó teria tido uma nobre razão para sofrer e o teria feito alegremente. Mas Satanás havia questionado se a fé de Jó poderia sobreviver sem qualquer ajuda ou explicação exterior. No momento em que Deus aceitou essas condições, a neblina invadiu onde Jó estava.

No final, Deus, é claro, ''ganhou'' a Aposta. Embora Jó tivesse disparado uma saraivada de queixas amargas, e em­bora tivesse se desesperado da vida e ansiado pela morte, ain­da assim desafiadoramente recusou-se a abandonar a Deus. "Ainda que ele me mate, nele esperarei." (ARC.) Jó creu quando não havia qualquer razão para crer. Creio no meio da neblina.

Você poderá ler a história de Jó, enfronhar-se para enten­der a Aposta, então dar um profundo suspiro de alívio: "Arre! Deus resolveu aquele problema. Depois de demonstrar seu argumento de modo tão decisivo, certamente ele retornará a seu estilo preferido de comunicar-se claramente com seus se­guidores." Você poderá pensar assim — isto é, a menos que leia o restante da Bíblia. Hesito em dizer isto porque é uma dura verdade, uma verdade que não quero admitir, mas Jó se situa apenas como o exemplo mais extremo do que parece ser uma lei universal da fé. O tipo de fé que Deus valoriza pare­ce se desenvolver melhor quando todas as coisas ficam confu­sas, quando Deus permanece calado, quando a neblina invade.

Sobreviventes da Neblina

Um lampejo de luz, vindo de um farol na costa, e então um longo e terrível período de silêncio e escuridão — esse é o padrão que encontro não apenas no Livro de Jó, mas por to­da a Bíblia. Recorde-se do trêmulo e idoso Abraão quando se aproximava de um século de existência, tenuemente se apegan­do à visão resplandecente de que seria o pai de uma grande nação. Durante vinte e cinco anos aquela visão pareceu uma miragem no deserto até que um filho, apenas um, nasceu. E, quando Deus falou de novo, chamou Abraão para um teste de fé em todos os aspectos tão severo quanto o de Jó. "To­ma teu filho, teu único filho, Isaque, a quem amas", disse Deus com palavras que atingiram profundamente o coração de Abraão, "e... oferece-o ali em holocausto."

Então houve o caso de José, que em seus sonhos ouviu da parte de Deus, mas foi parar no fundo de um poço e, mais tarde, numa masmorra egípcia por tentar seguir aquela orienta­ção. E Moisés, escolhido a dedo como libertador do povo he­breu, que se enfiou num deserto durante quarenta anos, caça­do pela guarda pessoal de um faraó. E o fugitivo Davi, ungi­do rei por ordem de Deus, e que passou uma década seguinte esquivando-se de lanças e dormindo em cavernas.

O padrão desnorteante de orientação divina, como se fos­se um código Morse — uma mensagem clara seguida por um vazio longo, silencioso — é abertamente exposto em 2 Crôni­cas. Lemos ali acerca de um raro bom rei, Ezequias, que agra­dou tanto a Deus que foi-lhe concedida uma prorrogação de quinze anos em sua vida. O que aconteceu em seguida? "Deus o desamparou, para prová-lo e fazê-lo conhecer tudo o que lhe estava no coração."

A maioria dessas personagens do Antigo Testamento apa­rece na galeria de honra de Hebreus 11, um capítulo que al­guns têm rotulado de "Galeria dos Heróis da Fé". Prefiro cha­mar esse capítulo de "Sobreviventes da Neblina", pois muitos dos heróis alistados têm uma experiência em comum: um tem­po terrível de teste, tal como o de Jó, um tempo quando des­ce a neblina e tudo fica opaco. Torturas, zombadas, espanca­mentos, aprisionamentos, apedrejamentos, serrar ao meio — Hebreus registra com detalhes cruéis as tribulações que podem atingir pessoas fiéis, cheias de fé.

Os santos tornam-se santos por, de alguma forma, apega­rem-se à indômita convicção de que as coisas não são como parecem, e que o mundo invisível é tão sólido e confiável quan­to o mundo visível ao seu redor. "Homens dos quais o mun­do não era digno", conclui Hebreus 11 acerca do surpreenden­te grupo de pessoas que reuniu, acrescentando este intrigante comentário: "Deus não se envergonha deles, de ser chamado o seu Deus." Para mim aquela frase dá um giro de 180 graus no comentário de Dorothy Sayer quanto às três grandes humi­lhações de Deus — a Igreja, em especial, tem causado vergonha para Deus, mas também tem lhe trazido momentos de or­gulho, e os desolados santos de Hebreus 11 mostram como.

Até os favoritos de Deus, especialmente os favoritos de Deus, não estão imunes a períodos de perplexidade, quando Deus parece calado. Como disse Paul Tournier, "Onde já não há qualquer oportunidade de dúvida, também já não há qual­quer oportunidade de fé." A fé requer incerteza, confusão. A Bíblia inclui muitas provas do interesse de Deus — algumas bastante espetaculares — mas nenhuma garantia. Uma garan­tia, no final das contas, eliminaria toda a fé.

Dois Tipos de Fé

Para meu amigo Richard, a palavra "fé" representava um obstáculo central para ele crer: "É só ter fé", diziam ou­tros cristãos quando ele tinha dúvidas. O que eles queriam di­zer? Para ele parecia que "fé" era um método de evitar per­guntas, não de responder-lhes.

Parte da dificuldade, penso eu, se origina da maneira elás­tica como empregamos a palavra. Primeiro, empregamo-la pa­ra descrever sorvos enormes, ingênuos, quando uma pessoa en­gole o impossível. Davi exercitou esse tipo de fé extravagante quando caminhou resolutamente para encontrar-se com Golias, como também o fez o centurião romano a quem Jesus elogiou (Jesus ficou surpreso diante da inamovível confiança do ho­mem). Nos nossos dias "missionários de fé" escrevem relatos emocionantes do que pode ser o resultado de confiança. Essa é a "fé como um grão de mostarda" que pode alimentar um orfanato ou mover uma montanha, e a Bíblia contém muitos incentivos a isso.

Mas Jó, junto com os santos de Hebreus 11, aponta pa­ra uma fé com uma qualidade diferente, o tipo que venho assi­nalando aqui e ali neste livro sobre decepção com Deus. A con­fiança ingênua poderá não sobreviver quando o milagre não ocorrer, quando a oração urgente não obtém resposta, quan­do uma densa neblina obscurece qualquer sinal do interesse divino. Tais períodos requerem um outro tipo de fé, e empre­garei a antiquada palavra "fidelidade" para essa fé-que-se-mantém-a-qualquer-preço.

Entrevistei uma jovem enfermeira cuja frustração com Deus tinha diretamente raízes na confusão que fazia entre os dois tipos de fé. Criada num lar cristão, raras vezes teve dúvi­das de Deus, mesmo durante os anos na faculdade. Na pare­de de seu quarto estava pendurada uma pintura de Jesus com uma criança nos braços, ilustrando um belo poema, "Foot-prints" ("Pegadas"). Aquele quadro retratava a fé na sua for­ma mais infantil: simplesmente creia em Deus e você nem mes­mo sentirá o peso. Ao olhar para trás nas horas difíceis, você verá na areia as pegadas de uma única pessoa, pois Jesus carre­gou você em meio às circunstâncias adversas.

Com 24 anos de idade, essa enfermeira foi designada para trabalhar numa ala de cancerosos. Um a um, ela me con­tou os casos de pessoas de quem ela havia cuidado naquele lo­cal. Alguns dos seus pacientes haviam orado com fé infantil, clamando a Deus por cura e consolo, por alívio da dor. No entanto, tiveram mortes cruéis, terríveis. E a cada noite essa enfermeira voltava para casa, arrasada pelas cenas de sofrimen­to insolúvel, e via o quadro com as pegadas, quadro com suas promessas auspiciosas, fascinantes.

Para entender nitidamente este dilema, simplesmente leia dois salmos vizinhos. Comece pelo Salmo 23: "O Senhor é o meu pastor: nada me faltará... Guia-me... Não temerei mal nenhum... Bondade e misericórdia certamente me seguirão to­dos os dias da minha vida." Então volte uma página e leia o Salmo 22. "Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste? ... clamo de dia e não me respondes... Posso contar todos os meus ossos; eles me estão olhando e encarando em mim."

O Salmo 23 é um exemplo da fé infantil; o Salmo 22 é um exemplo da fidelidade, um tipo de fé mais profunda, mais misteriosa. A vida com Deus pode incluir ambos. Podemos ex­perimentar períodos de intimidade incomum, quando cada ora­ção é respondida de uma maneira óbvia e Deus parece íntimo e cuidadoso. E também podemos experimentar "períodos de neblina", quando Deus permanece calado, quando nada fun­ciona de acordo com o convencionado e todas as promessas da Bíblia parecem ostensivamente falsas. A fidelidade signifi­ca aprender a crer que, fora do perímetro de névoa cinzenta, Deus ainda reina e não nos abandonou, não importam as apa­rências.

Paradoxalmente, as ocasiões de maior perplexidade, pare­cidas com as de Jó, ajudam a "fertilizar" a fé e a nutrir uma comunhão ainda mais profunda com Deus. A fé mais profun­da, que tenho chamado de fidelidade, brota num ponto de con­tradição, como uma folha de grama brota entre pedras. Os se­res humanos crescem por estafar, trabalhar, exercitar; e, num certo sentido, a natureza humana precisa mais de problemas do que de soluções. Por que nem todas as orações são respon­didas mágica e instantaneamente? Por que cada novo converti­do tem de percorrer a mesma e entediante senda da disciplina espiritual? Porque a oração perseverante, e o jejum, e o estu­do, e a meditação têm o propósito básico de ajudar a nós, não a Deus.

O filósofo dinamarquês Sören Kierkegaard disse que os cristãos faziam-no lembrar de estudantes que desejam olhar as respostas dos seus problemas de matemática, respostas estas que estão no fim do livro, em vez de resolver os problemas. Confesso que sou assim, e duvido que seja o único. Ansiamos por atalhos. Mas os atalhos geralmente nos afastam do cresci­mento, não nos aproximam dele. Aplique esse princípio direta­mente em Jó: qual foi o resultado final do teste pelo qual pas­sou? Como disse o rabino Abraham Heschel, "Uma fé como a de Jó não pode ser sacudida porquanto é o resultado de ter sido sacudida."

Num artigo sobre a oração, C. S. Lewis sugeriu que Deus trata os novos cristãos com um tipo especial de ternura, bem parecida com a que um pai dispensa a um recém-nascido. Ele cita um cristão experiente: "Tenho visto muitas respostas im­pressionantes a orações, e mais de uma vez vi uma resposta que achei um milagre. Mas geralmente elas vêm no início, an­tes da conversão, ou logo após. À medida que a vida cristã transcorre, elas tendem a ser mais raras. As respostas negati­vas às orações, de igual forma, não são apenas mais freqüen­tes; tornam-se mais inconfundíveis, mais enfáticas."

À primeira vista, uma idéia dessas parece estar virada às avessas. Não devia a fé se tornar mais fácil, e não mais difícil, à medida que o cristão progride? Mas, como assinala Lewis, o Novo Testamento oferece dois grandes exemplos de orações não respondidas: Jesus implorou três vezes a Deus; "Passa de mim este cálice", e Paulo suplicou a Deus que curasse seu "espinho na carne".

Lewis indaga: "Quer dizer então que Deus abandona jus­to aqueles que o servem melhor? Bem, aquele que o serviu melhor do que todos disse, perto de sua excruciante morte: 'Por que me desamparaste?' Quando Deus se torna homem, aquele Homem, dentre todos os demais, é o que, em Sua maior necessidade, menos recebe consolo de Deus. Aqui há um misté­rio que, mesmo que eu tivesse condições, talvez não tivesse a coragem de explorar. Nesse ínterim, é melhor que pessoas co­mo você e eu, superando todas as esperanças e probabilidades, tendo nossas orações às vezes atendidas, não tiremos conclu­sões apressadas quanto às vantagens que nós mesmos temos. Se fôssemos mais fortes, talvez fôssemos tratados com menos ternura. Se fôssemos mais corajosos, talvez fôssemos enviados, com bem menos ajuda, para defender posições bem mais críti­cas na grande batalha."

A Pergunta Inevitável

As palavras de C. S. Lewis soam marcantemente. No en­tanto, simplesmente não posso reduzir a uma fórmula o pa­drão de fidelidade — fé enrijecida através das provações. Es­te livro começou com a história de Richard, que estava segu­ro e bem firme até que sua fé foi testada e ele sentiu-se traído. Por que Deus tinha de submeter Richard ou quem quer que ele ame a um teste desses? Richard não mais conseguiu con­fiar num Deus assim. E tenho conversado com muitos outros cuja fé exuberante, infantil, afundou na hora da provação.

Assim, uma pergunta inevitável está latente logo abaixo da superfície do Livro de Jó. Se, devido a um "teste" de amor, um marido submetesse a esposa ao trauma que Jó teve de suportar, nós o chamaríamos de mente doentia e o interna­ríamos. Se uma mãe se escondesse dos filhos, recusando-se a orientá-los desde a margem, na hora da neblina, nós a julgaría­mos uma mãe incapaz. Como, então, podemos compreender tal comportamento, tal Aposta, por parte do próprio Deus?

Não ofereço uma solução engenhosa, apenas as seguintes observações.

  1. Temos pouquíssima compreensão do que nossa fé sig­nifica para Deus. Por alguma razão misteriosa, o terrível ordá­lio de Jó "valeu a pena" para Deus porque foi ao âmago de toda a experiência humana. Mais do que a fé de Jó, estava em jogo o motivo por trás de toda a criação. Desde o momen­to em que Deus assumiu o "risco" de abrir espaço para seres humanos livres, a fé — a fé verdadeira, não comprada, livre­mente oferecida — tem tido para Deus um valor intrínseco que mal podemos imaginar. Não há forma melhor de expres­sar amor a Deus do que exercer fé, ou fidelidade.

É errado dizer que Deus "necessite" do amor de sua cria­ção, mas lembre-se de como o próprio Deus expressou seu "an­seio" por aquele amor: como um pai faminto de alguma res­posta, qualquer resposta, da parte de seus filhos rebeldes; co­mo um amante abandonado que, sem qualquer lógica, dá mais uma chance à sua infiel amada. São essas as imagens que Deus evocou repetidas vezes durante todo o período dos profe­tas. Os mais profundos anseios que, na qualidade de pais, de amantes, sentimos na terra são meros vislumbres do ávido de­sejo que Deus sente por nós. É um desejo que custou-lhe a Encarnação e a Crucificação.

Todas as metáforas humanas são incapazes de tratarem adequadamente desses temas, mas isso ocorre por serem incom­pletas, não por exagerarem. Como disse Jesus, no final da his­tória (quando a neblina se levantar definitivamente) só impor­tará uma questão: "Quando vier o Filho do homem, achará porventura fé na terra?" E o apóstolo Paulo, após esboçar a história do mundo desde a criação até Jesus, concluiu, dizen­do que Deus assim havia procedido para os homens "buscarem a Deus se, porventura, tateando o possam achar, bem que não está longe de cada um de nós". Enviar seu Filho foi o "pre­ço" que Deus teve de pagar; uma resposta de alguém como Jó — ou você ou eu — representa a "recompensa".

Admito que é difícil para qualquer um de nós, com nos­sa visão limitada, perceber a "recompensa" ganha com as tri­bulações de Jó. C. S. Lewis tem talvez tocado num ponto cen­tral em seu comentário sobre Deus nos enviar a "posições bem mais críticas na grande batalha". Conforme a Bíblia, os seres humanos atuam como os principais soldados de infantaria no combate entre as forças invisíveis do bem e do mal; e a fé é a nossa arma mais poderosa. Talvez Deus nos envie a posições perigosas tendo a mesma mistura de amor, angústia e remor­so que qualquer pai sente quando envia um filho para a guerra.

A tribulação de Jó "valeu" para Deus? Só Deus pode res­ponder. Até agora tenho concluído que a soberania divina significa pelo menos isto: só Deus pode decidir o que é de valor para ele. "Bem-aventurados os que não viram, e creram", dis­se Jesus numa repreensão branda ao desconfiado Tomé. Jó viu o lado escuro da vida, ouviu o mais profundo silêncio de Deus, e ainda creu.

  1. Deus não se eximiu das mesmas exigências de fé. As tribulações de Jó não podem ficar isoladas do seu eco mais forte na vida de Jesus. Ele também foi tentado. Ele também perdeu tudo o que tinha de valor, inclusive os amigos e a saú­de. Conforme diz Hebreus, ele, "tendo oferecido, com forte clamor e lágrimas, orações e súplicas a quem o podia livrar da morte...", no fim perdeu a vida.

Jamais conseguiremos desvendar completamente o misté­rio do que houve na cruz, mas isso nos oferece o consolo de que Deus não deseja submeter suas criaturas a qualquer teste que ele mesmo não tenha suportado. Ao longo dos anos tenho conversado com muitas pessoas sofredoras, e, por mais que eu enfatize, não consigo expressar o quão importante esse fa­to parece para eles. De pessoas famosas como Joni Eareckson Tada, de desconhecidos em hospitais públicos, de internos em prisões infernais do Terceiro Mundo, tenho ouvido algo assim: "Por causa de Deus, pelo menos Deus sabe como é que me sinto."

Penso de novo no comentário de Richard: "Tudo o que posso dizer é que Jó suportou um inferno só para fazer Deus se sentir bem!" Ele estava pensando em Jó, sentado nas cin­zas, coçando as feridas. Mas, enquanto ele dizia essas pala­vras, eu estava pensando em Jesus, pendurado numa cruz, in­capaz de alcançar suas feridas. Tive de concordar. De fato, foi um preço infernal. Num certo sentido, Deus amarrou as próprias mãos na Aposta sobre Jó; no sentido mais literal, dei­xou que suas mãos fossem amarradas na noite da crucificação. (Jesus, falando de sua morte: "Agora está angustiada a minha alma, e que direi eu? Pai, salva-me desta hora? mas precisa­mente com este propósito vim para esta hora. Pai, glorifica o teu nome.")

No estudo que fiz da Bíblia, chamou-me a atenção uma mudança radical nas atitudes de seus autores quanto ao sofri­mento, uma mudança que tem origem diretamente na cruz. Quando os escritores do Novo Testamento falam de tempos difíceis, nada expressam da indignação que caracterizou Jó, os profetas e muitos dos salmistas. Não oferecem qualquer explicação concreta para o sofrimento, mas ficam apontando pa­ra dois acontecimentos — a morte e a ressurreição de Jesus — como se eles formassem uma espécie de resposta pictográfica.

A fé dos apóstolos, como admitiram livremente, repousa­va totalmente no que acontecera no Domingo de Páscoa, quan­do Deus transformou a maior tragédia de toda a história, a execução de seu Filho, num dia que hoje comemoramos co­mo a Sexta-Feira Santa. Aqueles discípulos, que fitaram a cruz desde as sombras, logo aprenderam o que tinham deixa­do de aprender nos três anos com seu líder: Quando Deus pa­rece ausente, pode estar mais perto do que nunca. Quando Deus parece morto, pode estar tornando a viver.

O padrão de três dias — tragédia, trevas, triunfo — tor­nou-se para os escritores do Novo Testamento um gabarito que se pode aplicar a todos os nossos momentos de teste. Po­demos olhar para trás, para Jesus, a prova do amor de Deus, muito embora talvez jamais obtenhamos uma resposta para o nosso "Por quê?" A Sexta-Feira Santa demonstra que Deus não nos abandonou em nossa dor; ele também está "aflito... oprimido''. Naquele dia o próprio Jesus experimentou o silên­cio de Deus — foi o Salmo 22, não o 23, que ele citou na cruz.

E o Domingo de Páscoa mostra que, no final, o sofrimen­to não vai triunfar. Assim sendo, "tende por motivo de toda a alegria o passardes por várias provações", escreve Tiago; e "nisso exultais, embora, no presente, por breve tempo, se ne­cessário, sejais contristados por várias provações", escreve Pe­dro; e "agora me regozijo nos meus sofrimentos por vós", es­creve Paulo. Os apóstolos passam então a explicar qual o bem que pode resultar de tal "sofrimento redimido": maturidade, sabedoria, fé autêntica, perseverança, caráter e muitas recom­pensas vindouras.

Por que regozijar-se? Não por causa da sensação maso­quista da própria tribulação, mas porque aquilo que Deus fez em grande escala no Domingo de Páscoa ele pode fazer em pequena escala em favor de cada um de nós. As aflições de que se ocupam Tiago, Pedro e Paulo provavelmente teriam desencadeado uma grande crise de fé no Antigo Testamento. Mas os escritores do Novo Testamento vieram a crer que, no dizer de Paulo, "todas as cousas cooperam para o bem".

Aquele texto bem conhecido é freqüentemente distorci­do. Algumas pessoas interpretam seu significado como sendo:

"Só coisas boas acontecerão àqueles que amam a Deus." Pau­lo quis dizer exatamente o oposto, e já no parágrafo seguinte ele define o tipo de coisas que podemos esperar: tribulação, angústia, perseguição, fome, nudez, perigo, espada. Paulo su­portou tudo isso. No entanto ele insiste que "em todas estas cousas, porém, somos mais que vencedores"; por maior que seja a dificuldade, ela não pode nos separar do amor de Deus. É uma questão de tempo, afirma Paulo. Apenas aguarde: o milagre de Deus transformar uma sexta-feira sombria, silen­ciosa, em Domingo de Páscoa será algum dia ampliado numa escala cósmica.

 

Embora, como disfarce, nuvens de ira teu rosto tem, Assim mesmo, através daquela máscara, vejo aqueles olhos, Os quais, embora algumas vezes se apartem, Jamais tratarão alguma pessoa com desdém.

                   John Donne, ("Um Hino a Cristo")

 

Tudo que existe de difícil indica algo mais do que nossa teoria de vida consegue abarcar.

                   George MacDonald

 

* Referências bíblicas: Jó 13; Gênesis 22; 2 Crônicas 32; Mateus 8, 17; Marcos 14; 2 Coríntios 12; Mar­cos 15; Lucas 18; Atos 17; João 20; Hebreus 5; João 12; Isaías 53; Tiago 1; 1 Pedro 1; Colossenses 1; Filipenses 3; Romanos 8.

 

           Eis que se me adianto, ali não está;

           se torno para trás, não o percebo.

           Se opera à esquerda, não o vejo;

           esconde-se à direita, e não o diviso.

                  Jó 23: 8-9

 

                     Por Que Deus Não Intervém

SEI O QUE meu amigo Richard pensaria acerca das idéias des­tes capítulos finais. Na realidade, sei exatamente o que ele pensa porque discuti durante horas com ele a respeito. Richard, você talvez se recorde, havia escrito um livro sobre Jó, de mo­do que não precisei repassar a história de Jó com ele. Em vez disso, eu me concentrei no final do livro, especulando em voz alta por que Deus tinha se recusado a responder a Jó. Repeti cuidadosamente meus pensamentos sobre a atemporalidade, e a incapacidade de Jó em compreender a perspectiva de Deus, e o valor intrínseco da fé em Deus.

Richard ouviu atentamente, e, quando terminei de percor­rer as minhas idéias, balançou a cabeça em sinal de aprovação. — Gostei, Philip. É bem possível que você esteja certo. Não discordo do que você diz. Mas há uma grande diferen­ça entre a história de Jó e a minha. No final das contas, Jó chegou a receber uma palavra da parte de Deus. Supõe-se que ele ouviu uma voz de verdade, vinda do redemoinho. Mas no meu caso, Deus ficou quieto. E acho que essa é a razão por que Jó escolheu crer, e eu escolhi não crer.

À medida que avançamos na conversa, ficou claro que Richard simplesmente não podia aceitar a noção de dois mun­dos. Vivendo num mundo visível de árvores, edifícios, carros e pessoas, ele não conseguia crer num outro mundo, invisível, coexistindo com o primeiro.

— Quero provas — disse. — Como posso ter certeza até mesmo de que Deus existe se ele não entrar em meu mundo?

A conversa transportou-me de volta a uma época quan­do eu também era cético. Por ironia, Richard perdeu a fé nu­ma faculdade evangélica, cercado por crentes que professavam um conhecimento íntimo de Deus; e foi num ambiente pareci­do — também numa faculdade evangélica — que achei mais difícil ter fé.

A Opinião de um Cético

Topei com a mesma pedra de tropeço com que Richard topara: atividades consideradas como "espirituais" pelos cren­tes da faculdade pareciam-me profundamente corriqueiras. Se o mundo invisível estava realmente fazendo contato com o mundo visível, onde estavam as chamuscadas, os sinais segu­ros de uma Presença sobrenatural?

Considere, por exemplo, a questão da oração: os crentes pareciam distorcer acontecimentos para fazer com que tudo parecesse uma resposta de oração. Se um tio enviasse um di­nheiro extra para ajudar a pagar as contas na escola, abriam um largo sorriso e convocavam uma reunião de oração para agradecer a Deus. Aceitavam essas "respostas de oração" co­mo prova definitiva de que Deus estava lá fora ouvindo seus pedidos. Mas eu sempre conseguia encontrar uma outra expli­cação. Talvez, naquele mês, o tio tivesse enviado a todos os sobrinhos um dinheiro extra, e as orações eram uma simples coincidência. Afinal, eu também tinha um tio que ocasional­mente me enviava alguma coisa, embora eu nunca tivesse ora­do pedindo algo assim. E que dizer dos muitos pedidos desses estudantes que ficavam sem resposta? Para mim parecia que a oração não envolvia nada mais do que falar para as paredes e uma profecia ocasional que se cumpria sozinha.

Como experiência, comecei a imitar o comportamento "es­piritual" na faculdade. Eu orava fervorosamente nas reuniões de oração, dava testemunhos falsos quanto à minha conversão e enchia o meu vocabulário com jargão religioso. E funciona­va. Eu, o cético, logo fui aceito como um santo de verdade, só por seguir a fórmula prescrita. Minhas dúvidas se confirma­ram: será que a experiência cristã podia ser autêntica se, em sua maior parte, podia ser reproduzida convincentemente por um cético?

Encetei essa experiência como resultado de minhas leitu­ras em psicologia da religião. Livros como As Variedades da Experiência Religiosa, de William James, persuadiram-me de que a religião não passava de uma complexa reação psicológi­ca às tensões da vida. William James examinou as afirmações de homens religiosos como Jonathan Edwards, que insistia que o cristão sincero é uma nova criatura surgida a partir de um novo tecido. Mas, concluiu William James, "Como catego­ria, os homens convertidos são indistinguíveis dos homens na­turais; com seus frutos alguns homens naturais até mesmo su­peram alguns homens convertidos; e ninguém que desconheça a teologia doutrinária é capaz de, por meio de uma simples ins­peção nos 'acidentes' dos dois grupos de pessoas, imaginar que haja diferença na substância deles da mesma forma como há diferença entre a substância divina e a humana." Eu tam­bém não conseguia enxergar qualquer brilho incomum, qual­quer característica distintiva nos crentes ao meu redor.

Por razões que explicarei mais tarde, não permaneci céti­co. Mas, com toda honestidade, tenho de admitir que mesmo agora, depois de duas décadas de uma fé rica e recompensadora, sou vulnerável ao tipo de dúvida experimentada por Richard. A experiência espiritual não suporta facilmente a introspecção; acenda um refletor de luz sobre ela, e ela se evapora. Se inves­tigo meus momentos de comunhão com Deus, geralmente pos­so descobrir uma outra explicação, mais natural, para aquilo que aconteceu. Não há qualquer diferença gritante entre os mundos natural e sobrenatural, qualquer abismo demarcado com arame farpado a separar os dois mundos.

Não deixo de ser uma pessoa "natural" quando oro: fi­co com sono, perco a concentração e, enquanto converso com Deus, experimento as mesmas frustrações e dificuldades de co­municação que tenho enquanto converso com outras pessoas. Quando escrevo sobre assuntos "espirituais", não acontece de eu me ver repentinamente erguido em direção ao céu; ain­da tenho de apontar os lápis, riscar palavras, consultar o dicionário e jogar fora intermináveis começos de rascunho. Exem­plos de "conhecer a vontade de Deus" em minha vida jamais foram tão diretos e objetivos como os exemplos que vejo na vida de um Moisés ou um Gideão. Nunca ouvi a Voz estrondo­sa vinda do redemoinho. Caso quisesse, eu poderia fazer o que Richard faz agora: racionalizar o comportamento espiri­tual como alguma combinação de teorias psicológicas.

Por que, então, creio num mundo invisível? Nessa luta recebi grande ajuda com os escritos de C. S. Lewis. O tema de dois mundos é algo que permeia a maior parte de sua obra — nos primeiros escritos, em cartas aos amigos e em toda a sua obra de ficção, até que o tema, por fim, amadurece nu­ma teoria plenamente desenvolvida, num ensaio intitulado Transposition ("Transposição", que faz parte da coleção The Weight of Glory "O Peso da Glória"). Lewis definiu o proble­ma como sendo o da "continuidade óbvia entre coisas que se reconhece que sejam naturais e coisas que, afirma-se, são espi­rituais; o ressurgimento, naquilo que se acredita ser nossa vi­da espiritual, de todos os mesmos antigO3 elementos que cons­tituem nossa vida natural". A maior parte do que segue neste capítulo será uma recolocação de suas idéias.

Olhando ao Longo do Feixe de Luz

Lewis iniciou seu ensaio fazendo referência ao curioso fe­nômeno de glossolália, ou falar em línguas. Como é curioso, comentou, que um acontecimento inegavelmente "espiritual", a descida do Espírito Santo no Pentecostes, se expressasse no estranho fenômeno humano de falar em um outro idioma. Pa­ra os espectadores de Pentecostes, isso fazia lembrar a embria­guez; para muitos observadores "científicos" de nossos dias a glossolália faz lembrar histeria ou um desequilíbrio nervoso. Como é que ações assim naturais, como é o caso do movimen­to das cordas vocais, podem expressar a habitação sobrenatu­ral por parte do Espírito Santo de Deus?

Lewis sugeriu a analogia de um feixe de luz num escuro depósito de ferramentas. Quando, pela primeira vez, entrou num depósito, viu um raio de luz e olhou para o luminoso fei­xe de brilho, repleto de partículas de poeira flutuando. Mas, quando se aproximou do feixe e olhou ao longo dele, ganhou uma perspectiva bem diferente. Repentinamente viu não o fei­xe, mas, emolduradas pela janela do depósito, folhas verdes balouçando nos galhos de uma árvore lá fora e, além da árvo­re, a 149 milhões de quilômetros de distância, o Sol. Olhar pa­ra o feixe de luz e olhar ao longo do feixe de luz são coisas bem diferentes.

Nosso século é insuperável em técnicas de olhar para o feixe; "reducionismo" é a palavra mais comumentemente em­pregada para descrever esse processo. Podemos "reduzir" o comportamento humano a neurotransmissores e enzimas, redu­zir borboletas a moléculas de DNA, e reduzir pores-do-sol a ondas com partículas de luz e energia. Em suas formas mais extremas, o reducionismo encara a religião como projeção psi­cológica, história mundial como luta evolucionista e o próprio pensamento como apenas a abertura e fechamento de bilhões de "bytes" de computador, no cérebro.

Este mundo moderno, tão traquejado em olhar de todos os ângulos para o feixe de luz, é um mundo hostil à "fé". Atra­vés da maior parte da história, todas as sociedades normalmen­te aceitaram a existência de um mundo invisível e sobrenatural. De que outra forma poderiam explicar maravilhas tais como um nascer do Sol, um eclipse, uma tempestade? Mas agora po­demos explicá-los, e mais do que isso. Podemos reduzir a maio­ria dos fenômenos naturais, e até mesmo a maioria dos fenô­menos espirituais, aos elementos que os compõem. Como Lewis observou acerca da glossolália, até mesmo os atos mais "so­brenaturais" expressam-se nesta terra em formas "naturais".

A teoria da transposição oferece as seguintes observações para pessoas que vivem num mundo como este.

  1. Primeiro, temos de simplesmente reconhecer a força poderosa do reducionismo. Essa força oferece tanto uma bên­ção quanto uma maldição. Abençoa-me com a capacidade de analisar os terremotos e temporais e furacões e, dessa forma, de nos defendermos deles. Por termos olhado para o feixe, aprendemos a voar — até mesmo ir à Lua e voltar — e a dar um passeio pelo mundo enquanto temos os olhos fitos numa telinha nas salas de nossos lares, e a trazer os sons de orques­tras até nossos ouvidos no mesmo instante em que fazemos co­oper em estradas rurais. Ao olhar para o feixe do comporta­mento humano, podemos reconhecer componentes químicos e, dessa forma, mediante remédios, tirar pessoas de estados pro­fundos de depressão e esquizofrenia.

Mas o reducionismo também tem trazido uma maldição. Por olhar para o feixe, em vez de ao longo dele, arriscamo-nos a ter a pressuposição de que a vida consiste de nada além das partes que analisamos. Jamais tornaremos a observar o nascer do Sol ou da Lua com a mesma sensação de reverência e quase adoração que nossos "primitivos" ancestrais — ou mesmo os poetas do século dezesseis — sentiram. E, se reduzir­mos o comportamento humano a apenas hormônios e quími­ca, perderemos todo o mistério humano e livre-arbítrio e ro­mantismo. Os ideais de amor romântico que têm inspirado ar­tistas e amantes através dos séculos repentinamente se reduzem a uma questão de secreções hormonais.

O reducionismo pode exercer em nós uma influência inde­vida a menos que o interpretemos tal como é: uma maneira de olhar. Não é um conceito de Verdade ou Falsidade; é um ponto de vista que nos informa acerca das partes de uma coi­sa, mas não do todo.

Pode-se ver as atividades espirituais, por exemplo, a par­tir de um ponto de vista inferior ou superior. Um não suplan­ta o outro; cada um apenas enxerga diferentemente o mesmo comportamento (da mesma forma como olhar para um feixe de luz é diferente de olhar ao longo dele). Da perspectiva "in­ferior", a oração é uma pessoa falando consigo mesma (e a glossolália não passa de uma fala sem sentido). A perspectiva "superior" presume uma realidade espiritual em ação, com a oração humana servindo de ponto de contato entre os mundos visível e invisível.

Posso assistir a uma cruzada evangelística de Billy Graham como um espectador curioso e ter o cuidado de escolher uma pessoa no vasto auditório, especulando a respeito de to­dos os fatores sociológicos e psicológicos que podem induzir essa mulher em questão a estar receptiva à mensagem de Billy Graham. Seu casamento está se destroçando; ela está procuran­do estabilidade; ela se recorda da força de vontade de uma avó muito piedosa; a música a faz recordar de experiências na igre­ja, quando era criança. Mas esses fatores "naturais" não ex­cluem o sobrenatural; ao contrário, podem ser o meio que Deus escolhe para trazer a pessoa para junto de si. Talvez a continuidade entre o natural e o sobrenatural seja uma continuidade de propósito por parte do mesmo Criador. Esse, pe­lo menos, é o ponto de vista "superior" da fé. Um ponto de vista não exclui o outro; são duas maneiras de olhar para o mesmo acontecimento.

  1. Curiosamente, o ponto de vista inferior pode até pare­cer mais importante do que o superior. C. S. Lewis chama a atenção para isso com uma ilustração de sua infância. Lewis conta como ouviu, pela primeira vez, os acordes de música ins­trumental. Foi através de um gramofone primitivo que produ­zia um som único e indistinto. Ele podia ouvir a melodia, mas não muito mais do que isso. Mais tarde, quando foi pela pri­meira vez assistir a concertos ao vivo, ficou profundamente decepcionado. Uma multidão de sons vinha de muitos instru­mentos que tocavam diferentes notas. Ele ansiava pela músi­ca "genuína," que para seu ouvido não treinado era o som rís­pido do gramofone. Para Lewis, naquele momento, o substitu­to parecia superior à realidade.

De modo semelhante, uma pessoa criada com uma dieta constante de televisão poderá achar que uma experiência real de alpinismo, cheia de pernilongos, falta de fôlego e repenti­nas mudanças de clima, seja inferior à experiência vicária pro­porcionada por um bom documentário.

Ainda mais relevante é o fato de que o ponto de vista in­ferior pode parecer mais importante em questões morais. O ideal do amor romântico inspirou nossos maiores sonetos e ro­mances e óperas. Mas reducionistas como Hugh Hefner, o fun­dador da revista Playboy, atualmente argumentam com gran­de desenvoltura que o sexo é superior quando liberado dos li­mites do amor e do relacionamento. (Com certeza a revista Playboy apela muito mais às emoções viscerais do que as obras da poetisa inglesa Elizabeth Barrett Browning.) E os secularistas, descartando a religião, considerando-a uma muleta, saú­dam o desafio "mais ousado" de sobreviver neste mundo sem apelar a um Ser superior.

  1. A realidade do mundo superior é transmitida pelas fa­culdades do mundo inferior. A palavra "transposição" perten­ce ao vocabulário da música. Uma música pode ser transpos­ta de uma escala musical para outra. Ou pode-se transpor uma peça sinfônica, composta para 110 instrumentos de orquestra, numa versão para piano. Naturalmente algo se perderá na trans­posição: dez dedos tangendo as teclas do piano não conseguirão reproduzir todas as nuanças auditivas de uma orquestra. Assim mesmo, aquele que transpõe, apesar de limitado pelo conjunto de sons feitos por aquelas teclas, de alguma forma deve reproduzir, através delas, a essência da sinfonia.
  2. S. Lewis citou um registro feito pelo escritor Samuel Pepys em seu diário, registro acerca de um extasiante concer­to musical. Pepys disse que o som dos instrumentos de sopro era tão agradável que o arrebatou "e, aliás, em outras pala­vras, se apossou de minh'alma de modo que me deixou de fa­to doente, da mesma forma como anteriormente eu me havia sentido quando me apaixonei pela minha esposa". Tente anali­sar a fisiologia de qualquer reação emocional, sugeriu Lewis. O que acontece em nossos corpos quando experimentamos a beleza, ou o orgulho, ou o amor? Para Pepys esse foi um sen­timento arrebatador e, ao mesmo tempo, não diferente da náu­sea. Ele sentiu um golpe no estômago, um tremor, uma contra­ção muscular — exatamente as mesmas reações corporais que poderia sentir num momento de enfermidade!

Encaradas do ponto de vista inferior, nossas reações físi­cas à alegria e ao medo são quase idênticas. Em ambos os ca­sos as glândulas supra-renais segregam o mesmo hormônio, e neurônios no aparelho digestivo disparam as mesmas substân­cias químicas; mas o cérebro interpreta uma mensagem como alegria e a outra como medo. Em seus níveis inferiores, o cor­po humano tem um vocabulário limitado, da mesma forma co­mo aquele que adapta uma peça musical tem um número limi­tado de teclas de piano para expressar os sons de uma orques­tra completa.

E é aí onde o reducionismo revela sua maior fraqueza: se você olhar somente "para o feixe", reduzindo as emoções humanas a seus componentes mais básicos (neurônios e hormô­nios), poderá deduzir logicamente que alegria e medo são a mesma coisa, quando na verdade são quase que opostos. O corpo humano não possui células nervosas especialmente desig­nadas para transmitir uma sensação de prazer — a natureza nunca é tão esbanjadora. Todas as nossas experiências de pra­zer vêm de células nervosas "emprestadas", as quais também levam sensações de dor e tato e calor e frio.

Um Modo de Vida

O cérebro humano oferece um modelo quase perfeito de transposição. Embora o cérebro represente o ponto de vista "su­perior" dentro do corpo, não existe órgão mais solitário ou desamparado. Está situado numa caixa de ossos espessos, to­talmente dependente das faculdades inferiores para obter infor­mações sobre o mundo. O cérebro nunca vê coisa alguma, nem sente o gosto de coisa alguma, nem sente o tato de coisa algu­ma. Todas as mensagens chegam até ele na mesma forma codi­ficada, nossas muitas experiências sensoriais reduzidas a uma seqüência elétrica de pontos e traços (-.—..-...—). O cérebro depende completamente dessas mensagens, como num código morse, vindas das extremidades, as quais ele então reúne para darem sentido.

Enquanto escrevo, estou ouvindo a magnífica Nona Sinfo­nia de Beethoven. Que é aquela sinfonia senão uma série de códigos transpostos através do tempo e da tecnologia? Come­çou como uma idéia musical que Beethoven "ouviu" em sua mente (um feito mental extraordinário, pois o compositor, na época já totalmente surdo, só dispunha da memória para guiá-lo e não pôde testar sua idéia em instrumentos musicais). Bee­thoven então transpôs a sinfonia para o papel, utilizando uma série de códigos conhecidos como notação musical.

Mais de um século depois, uma orquestra leu aqueles có­digos, interpretou-os, e reuniu-os num som maravilhoso, pare­cido com o que Beethoven deve ter "ouvido" em sua mente. Técnicos de gravação registraram aquele som da orquestra co­mo uma série de impulsos magnéticos ao longo de uma fita, e um estúdio transpôs aquele código numa forma mais mecâni­ca, representada pelos minúsculos sulcos ondulantes de meu disco.

Meu toca-discos está agora "lendo" aqueles sulcos ondu­lados e amplificando as ondulações através de alto-falantes. Vibrações moleculares provocadas por aqueles alto-falantes chegam até meus ouvidos, pondo em ação uma outra série de atos mecânicos: ossos minúsculos batem em meus tímpanos, transferindo as vibrações através de um líquido viscoso até o órgão de Corti, onde 25.000 células receptoras de som estão à espera. Uma vez estimuladas, as células correspondentes dispa­ram sua mensagem elétrica. Finalmente, esses impulsos, sim­ples pontos e traços em código, alcançam meu cérebro, onde o córtex as associa num som que reconheço como sendo a No­na Sinfonia de Beethoven. Experimento satisfação, até mes­mo prazer, enquanto faço uma pausa e ouço aquela grande obra musical — o prazer sendo mais uma vez transmitido a mim mediante as faculdades "inferiores" de meu corpo.

A transposição é um modo de vida. Todo o conhecimen­to chega até nós através de um processo de traduzir, no senti­do descendente, num código, e então, num sentido ascenden­te, recuperando o sentido. Acabei de escrever três parágrafos sobre a Nona Sinfonia de Beethoven. Foram pensamentos que se originaram na minha mente, os quais então transpus em pa­lavras e digitei num computador. O computador registrou as palavras em código, num disquete magnético. No fim, meu computador irá transpor aquele código magnético em um códi­go binário, e um aparelho chamado modem transporá o códi­go binário em sons digitais e os enviará, via telefone, até uma editora. Se eu ficar ouvindo enquanto o meu modem transmi­te os três parágrafos sobre Beethoven, nada ouvirei senão uma massa de ruídos desconexos. Assim mesmo acredito que este barulho de alguma forma contém meus pensamentos e palavras.

O computador da editora, ao receber os sons digitais, os traduzirá de novo em códigos magnéticos armazenados num disquete. A editora retraduzirá esses códigos em palavras visí­veis numa tela de monitor e então transporá as palavras em sinais padronizados de tinta no papel — os próprios sinais de tinta que você está lendo agora mesmo. Para o seu olho treina­do, essas gotas de tinta numa página constituem letras e pala­vras que são transmitidas às células de seu olho e transpostas em impulsos elétricos que seu cérebro está decodificando.

Toda comunicação, todo conhecimento, toda experiência sensorial — toda a vida deste planeta — depende do processo de transposição: o significado viaja "em sentido descendente" até códigos que podem ser mais tarde decifrados. Instintiva­mente, confiamos nesse processo, crendo que os códigos infe­riores realmente transportam algo do significado original. Creio que as palavras que escolho, e até as transmissões estáticas de meu modem, transmitirão meus pensamentos originais sobre a Nona Sinfonia de Beethoven. Olho para uma fotografia, uma imagem das Montanhas Rochosas transposta numa folha pequena, plana, reluzente, e mentalmente me recordo de uma visita àquele local. Arranho o anúncio numa revista para cheirar uma amostra de perfume, e a imagem de minha esposa, que usa aquele perfume, repentinamente me vem à mente. O inferior transporta algo do superior.

Transposição do Espírito

Será, então, que deveríamos ficar surpresos em encontrar o mesmo princípio universal atuando no âmbito do espírito?

Pense de novo nas perguntas de Richard, expostas no iní­cio deste livro e reapresentadas no começo deste capítulo. Por que Deus não intervém e se torna óbvio? Por que não fala em voz alta para que possamos ouvi-lo? Ansiamos pelo mira­culoso, pelo sobrenatural em sua forma mais pura e inalterada.

Escolhi a palavra "inalterada" deliberadamente porque revela um sentimento que é central nesta questão. Nós, os mo­dernos, lutamos por separar o natural do sobrenatural. O mun­do natural que podemos tocar e cheirar e ver e ouvir parece auto-evidente; o mundo sobrenatural, entretanto, é outra ques­tão. Não há nada seguro a respeito, não tem carne nem ossos, e isso nos perturba. Queremos provas. Queremos que o sobre­natural entre no mundo natural de uma forma que retenha o fulgor, que deixe chamuscos, que matraqueie os tímpanos.

O Deus revelado na Bíblia não parece partilhar de nosso desejo. Enquanto separamos o natural do sobrenatural, o visí­vel do invisível, Deus procura conciliar os dois. Seu objetivo, alguém poderá dizer, é resgatar o mundo "inferior", restaurar o domínio natural da criação decaída ao seu estado original, onde espírito e matéria convivem em harmonia.

Quando nos tornamos cristãos e assim estabelecemos con­tato com o mundo invisível, não somos transportados misterio­samente para cima; não vestimos repentinamente corpos espa­ciais que nos tiram do mundo natural (desde os gnósticos e maniqueístas a igreja tem consistentemente julgado tais noções como sendo heréticas). Em vez disso, nossos corpos físicos re­ligam-se à realidade espiritual, e começamos a ouvir o código mediante o qual o mundo invisível se transpõe neste. Nossa ta­refa é exatamente o contrário do reducionismo. Buscamos meios de tornar a cativar ou "santificar" o mundo: ver na na­tureza um instrumento de louvor, ver no pão e no vinho um sacramento de graça, ver no amor humano uma sombra do Amor ideal.

Reconhece-se que temos um vocabulário limitado para es­te domínio superior. Falamos com Deus como se falássemos com uma outra pessoa; será que alguma coisa poderia ser mais ordinária, mais "natural"? Orar, proclamar o evangelho, meditar, jejuar, oferecer um copo de água fria, visitar os pre­sos, celebrar os sacramentos — esses atos cotidianos, dizem-nos, carregam o significado "superior". De alguma forma ex­pressam o mundo invisível.

Encarados desde a perspectiva inferior, reducionista, to­dos os atos espirituais possuem "explicações" naturais. A ora­ção é murmurar em vão; um pecador que se arrepende é emo­cionalismo planejado; o Dia de Pentecostes um surto de embria­guez. Um cético poderá dizer que as faculdades naturais são paupérrimas, se é que são de fato tudo o que temos para ex­pressar o sublime mundo superior.

A fé, porém, olhando ao longo do feixe, enxerga tais atos naturais como transportadores santificados do sobrenatu­ral. A partir dessa perspectiva, o mundo natural não está em­pobrecido, mas agraciado com o miraculoso. E o milagre de um mundo natural recuperado alcançou um clímax no Gran­dioso Milagre, quando a Presença real de Deus fez residência num corpo "natural" exatamente como o nosso: o Verbo trans­posto em carne.

Em um corpo, Cristo conciliou os dois mundos, unindo finalmente espírito e matéria, unificando a criação de uma for­ma que não se via desde o Éden. O teólogo Jürgen Moltmann assim o expressa, numa sentença que merece muita reflexão: "A corporificação é o propósito de todas as obras de Deus." E é assim que o apóstolo Paulo o expressa: "Ele é a cabeça do corpo, da igreja... porque aprouve a Deus que nele residis­se toda a plenitude, e que, havendo feito a paz pelo sangue da sua cruz, por meio dele reconciliasse consigo mesmo todas as cousas, quer sobre a terra, quer nos céus."

Quando aquele Verbo-feito-carne ascendeu, deixou para trás sua Presença na forma de seu corpo, a igreja. Nossa bon­dade torna-se literalmente a bondade de Deus ("Sempre que o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizes­tes"). Nosso sofrimento torna-se, no dizer de Paulo, "a comu­nhão dos seus sofrimentos". Nossas ações tornam-se suas ações ("Quem vos recebe, a mim me recebe"). O que acontece a nós, acontece a ele ("Saulo, Saulo, por que me persegues?"). Os dois mundos, visível e invisível, fundem-se em Cristo; e nós, como Paulo sempre insistia, estamos mui literalmente "em Cristo". A incorporação é o propósito de toda obra de Deus, o objetivo de toda a criação.

Olhando a partir de baixo, nossa tendência é pensarmos em milagres como uma invasão, uma erupção no mundo natu­ral com uma força espetacular, e nós ansiamos por tais sinais. Mas a partir de cima, do ponto de vista de Deus, o milagre re­al é o da transposição; que corpos humanos possam tornar-se vasos cheios do Espírito, que atos humanos corriqueiros de ca­ridade e bondade possam tornar-se nada menos do que a en­carnação de Deus na terra.

Para finalizar a analogia, não preciso procurar além das palavras de Paulo, pois a imagem que ele apresenta para des­crever o papel de Cristo no mundo de hoje é a mesma que em­preguei para ilustrar a transposição. Jesus Cristo, disse Paulo, agora atua como a cabeça do corpo. Sabemos como uma cabe­ça humana realiza sua vontade: traduzindo, num sentido des­cendente, ordens que as mãos e os olhos e a boca possam en­tender. Um corpo saudável é aquele que segue a vontade da cabeça. Dessa mesma maneira, o Cristo ressurreto realiza sua vontade através de nós, os membros de seu corpo.

Deus está calado? Respondo a essa pergunta com uma outra: A igreja está calada? Nós somos seus porta-vozes, as cordas vocais que ele designou neste planeta. Um plano de uma transposição assim chocante garante que a mensagem de Deus algumas vezes pareça confusa ou incoerente; garante que Deus algumas vezes pareça calado. Mas a incorporação era o seu objetivo, e, à luz disso, o Dia de Pentecostes torna-se uma metáfora perfeita: a voz de Deus na terra, falando através de seres humanos em formas que até eles não conseguiam compre­ender.

A Esperança

Tenho uma amiga inteligente, talentosa e muito graciosa que mora em Seattle, nos Estados Unidos. Seu nome é Carolyn Martin. Mas Carolyn sofre de paralisia cerebral, e o drama específico de sua situação é que os sinais visíveis da enfermida­de — movimentos desengonçados com os braços, baba, fala com dificuldade, uma cabeça bamboleante — levam as pesso­as que se encontram com ela a ficar imaginando se ela é retar­dada. Na realidade, sua mente é uma das partes que funcionam perfeitamente; o que lhe falta é o controle muscular.

Carolyn viveu quinze anos numa casa para retardados mentais, porque o Estado não tinha nenhum outro local onde pô-la. Seus amigos mais chegados eram pessoas como Larry, que arrancava de si todas as roupas e comia as plantas orna­mentais da instituição, e Arelene, que só sabia falar três senten­ças e chamava todo mundo de "mamãe". Carolyn decidiu es­capar daquela casa e encontrar um lugar significativo para si no mundo lá fora.

Finalmente ela conseguiu mudar-se e ter o seu próprio lar. Ali, as tarefas mais triviais representavam um desafio avassalador. Levou três meses para ela aprender a preparar um bu­le de chá e servi-lo nas xícaras sem se escaldar. Mas Carolyn alcançou esse e muitos outros feitos. Matriculou-se numa esco­la de segundo grau, formou-se, então foi estudar na faculda­de de sua cidade.

Todo mundo no campus da faculdade conhecia Carolyn como "a deficiente física". Viam-na sentada numa cadeira de rodas, encurvada, com grande esforço datilografando as anota­ções num aparelho denominado Canon Communicator. Pou­cos sentiam-se à vontade em conversar com ela; não conseguiam acompanhar os sons desordenados que fazia. Mas Carolyn perseverou, gastando sete anos para fazer um curso de ciências humanas que normalmente levaria dois anos para completar. Em seguida, ela matriculou-se numa faculdade luterana com o objetivo de estudar a Bíblia. Depois de estar dois anos ali, solicitaram-lhe que falasse aos colegas na capela.

Carolyn trabalhou muitas horas em cima do que ia falar. Datilografou a mensagem em sua forma definitiva — na sua velocidade média de quarenta e cinco minutos por página — e pediu à sua amiga Josee que a lesse em seu lugar. Josee ti­nha uma voz forte e clara.

No dia do culto na capela, Carolyn estava sentada em sua cadeira de rodas, do lado esquerdo da plataforma. De quan­do em quando seus braços convulsionavam-se sem qualquer controle, sua cabeça pendia para um dos lados de modo que quase encostava no ombro, e algumas vezes um filete de sali­va escorria até a blusa. Ao seu lado estava Josee, que lia o tex­to belo e maduro que Carolyn havia escrito, centrado nesta passagem bíblica: "Temos, porém, este tesouro em vasos de barro, para que a excelência do poder seja de Deus e não de nós.''

Pela primeira vez, alguns estudantes viram Carolyn co­mo um ser humano completo, como eles mesmos. Antes dis­so, a mente de Carolyn, uma mente muito boa, tinha sempre sido restringida por um corpo "desobediente", e dificuldades de fala haviam mascarado sua inteligência. Mas, ao ouvir sua mensagem lida em voz alta enquanto olhavam para ela no pal­co, os estudantes puderam enxergar além do corpo numa ca­deira de rodas e imaginar uma pessoa completa.

Com sua fala entrecortada Carolyn me contou sobre aque­le dia, e eu só consegui entender mais ou menos metade das palavras. Mas a cena que descreveu tornou-se para mim uma espécie de parábola da transposição: uma mente perfeita pre­sa dentro de um corpo espástico, sem controle, e cordas vo­cais que falhavam a cada duas sílabas. A imagem neotestamen­tária de Cristo como sendo a cabeça do corpo assumiu um no­vo significado para mim; adquiri uma noção tanto da humilha­ção que Cristo experimenta em seu papel como cabeça, como também da exaltação que concede a nós, os membros de seu corpo.

Nós, a igreja, somos um exemplo da transposição levada ao extremo. Lamentavelmente não oferecemos prova inquestio­nável do amor e da glória de Deus. Algumas vezes, à semelhan­ça do corpo de Carolyn, obscurecemos a mensagem em vez de a transmitirmos. Mas a igreja é a razão por detrás de toda a experiência humana, a razão primeira para existirem seres humanos: para de alguma forma deixar que outras criaturas que não são Deus levem a imagem de Deus. Ele julgou que is­to valia a pena, o risco e a humilhação.

 

Aquele que desceu é também o mesmo que subiu acima de todos os céus, para encher todas as cousas. E ele mesmo concedeu uns para apóstolos, outros para pro­fetas, outros para evangelistas, e outros para pastores e mestres, com vistas ao aperfeiçoamento dos santos para o desempenho do seu serviço, para a edificação do corpo de Cristo, até que todos cheguemos à unidade da fé e do pleno conhecimento do Filho de Deus, à perfeita varonilidade, à medida da estatura da plenitude de Cristo, para que não mais sejamos como meninos... Mas... cresçamos em tudo naquele que é o cabeça, Cristo, de quem todo o corpo, bem ajustado e consolidado, pelo auxílio de toda junta, segundo a justa cooperação de cada parte, efetua o seu próprio aumento para a edificação de si mesmo em amor.

 

* Referências bíblicas: Colossenses 1; Mateus 25; Fili­penses 3; Mateus 10; Atos 9; 2 Coríntios 4, 5; Efé­sios 2, 4.

 

             Por que escondes o teu rosto,

             e me tens por teu inimigo?

             Queres aterrorizar uma folha arrebatada pelo vento?

             e perseguirás a palha seca?

                               Jó 13:24-25

 

                   Deus Está Escondido?

PARA SENTIR todo o impacto emocional da terrível con­dição de Jó, peneirei as palavras do próprio Jó das de­mais falas no livro. Eu esperava encontrá-lo se queixando de sua pobre saúde e lamentando a perda dos filhos e dos bens; mas, para minha surpresa, Jó disse relativamente pouco a res­peito dessas questões. Ao invés disso, concentrou a atenção apenas no tema da ausência de Deus. O que mais o machuca­va era a sensação de clamar desesperadamente e não receber qualquer resposta. Eu tinha ouvido esse mesmo sentimento sen­do descrito por muitas pessoas que experimentaram o sofrimen­to. Talvez esse sentimento tenha sido melhor descrito por C. S. Lewis, que escreveu estas palavras em meio a profunda tris­teza após a morte da esposa, de câncer:

 

Nesse entretempo, onde Deus está? Este é um dos sintomas mais inquietantes. Quando você está contente, tão contente que não tem qualquer sensação de precisar dele... você será recebido de braços abertos — ou pelo menos assim parece. Mas vá até ele quando você precisa desesperadamente de ajuda, quando qualquer outra aju­da é em vão, e o que é que você recebe? Uma batida de porta na cara, e o som, vindo de dentro, de passar uma tranqueta na porta, e depois mais uma outra. Depois dis­so, silêncio. Não adianta aguardar. Quanto mais você es­pera, mais enfático se tornará o silêncio.

 

Acima de qualquer outra coisa, Jó exigia uma oportunida­de de apresentar seu caso diante de Deus. Livrou-se da com­paixão de seus amigos tal qual um cachorro se livra de pulgas. Ele desejava a coisa de verdade, um encontro pessoal com o Deus Todo-Poderoso. Apesar do que havia acontecido, Jó não conseguia se induzir a crer num Deus de crueldade e injustiça. Talvez, se eles se encontrassem, pelo menos ele poderia ouvir o lado divino a respeito. Mas Deus não se achava em lugar al­gum. Jó ouviu apenas a ladainha lamuriosa de seus amigos e então um vento terrível, vazio. A porta bateu na sua cara.

Um Fato de Fé

 

"Ah! Senhor querido, eu realmente quero te ver, re­almente quero estar contigo..."

                 — música de George Harrison

 

"Sei que Deus está vivo: conversei com ele esta manhã"

                 — adesivo de pára-choque

 

"Deus o ama e tem um plano maravilhoso para sua vida."

                 — folheto evangelístico

 

"E ele anda comigo e conversa comigo e me diz que sou dele."

                 — hino evangélico

 

O anseio humano pela presença real de Deus pode brotar quase em qualquer lugar. Mas não ousamos fazer afirmações genéricas sobre a promessa da presença íntima de Deus a me­nos que levemos em conta aqueles períodos quando as pessoas se defrontam com a aparente ausência de Deus. Em algum momento quase todas as pessoas têm de encarar o fato do ocultamento de Deus.

A nuvem do não-saber pode descer sem prévio aviso, algu­mas vezes no exato momento em que mais urgentemente dese­jamos sentir a presença de Deus. Um pastor sul-africano, o reverendo Allan Boesak, foi atirado à prisão por falar contra o governo. Passou três semanas na solitária, quase o tempo to­do de joelhos, orando para que Deus o libertasse. "Não me importo em lhes dizer", contou mais tarde à sua igreja, "que esse foi o momento mais difícil da minha vida. Enquanto eu estava ali ajoelhado, as palavras já não vinham mais e não ha­via mais lágrimas para derramar." Sua experiência foi uma ex­periência comum dos negros da África do Sul: oram, pranteiam, esperam e ainda assim não provocam qualquer resposta da par­te de Deus.

Alguns argumentariam que Deus não se esconde. Um ade­sivo de pára-choque diz: "Se você se sente distante de Deus, imagine quem foi que se afastou?" Mas a culpa implícita na frase pode ser uma culpa falsa: o Livro de Jó conta em deta­lhes de uma época em que, aparentemente, foi Deus quem se afastou. Muito embora Jó nada tivesse feito de errado e desesperadamente suplicasse ajuda, Deus ainda assim optou por fi­car escondido. (Se você ainda duvida que um encontro com o ocultamento de Deus é uma parte normal da peregrinação da fé, apenas vá a uma biblioteca teológica e dê uma espiada nas obras de místicos cristãos, homens e mulheres que passaram a vida em comunhão pessoal com Deus. Procure um místico, apenas um, que não descreva um período de um duro teste, "a noite sombria da alma".)

Para aqueles que sofrem, e para aqueles que ficam ao seu lado, Jó proporciona uma lição importante. As perguntas quan­to aos "por quês?", as queixas de Meg Woodson e de Allan Boesak, e de Jó, são perguntas válidas, não sintomas de uma fé fraca — são, na realidade, tão válidas que Deus tomou pro­vidências para que a Bíblia incluísse todas elas. Não se espera encontrar os argumentos dos adversários de Deus — digamos, As Cartas da Terra de Mark Twain, ou Por que Não Sou Cris­tão de Bertrand Russell — incluídos na Bíblia, mas quase to­dos esses argumentos aparecem, se não em Jó, pelo menos nos Salmos ou nos Profetas. Parece que a Bíblia se antecipa às nossas decepções, como se Deus antecipadamente nos entregas­se as armas para usarmos contra ele, como se o próprio Deus compreendesse a dificuldade de suster a fé.

E, devido a Jesus, talvez ele realmente compreenda. No Getsêmani e no Calvário, de uma forma inexprimível, o pró­prio Deus se viu obrigado a confrontar o ocultamento de Deus.

"Deus lutando com Deus" é a maneira como Martinho Lutero resumiu a luta cósmica ocorrida nas duas traves de madei­ra. Naquela escura noite, Deus aprendeu por si mesmo todo o alcance do que significa ser uma pessoa humana. "Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?" — é isso o que Jesus sentiu. Os amigos de Jó insistiram que Deus não estava escondi­do. Chamaram a atenção para todos os meios — sonhos, vi­sões, bênçãos passadas, os esplendores da natureza — pelos quais Deus, no passado, dera provas de si mesmo a Jó. "Não se esqueça nas trevas do que aprendeu na luz", repreenderam-no. E aqueles que vivemos depois de Jó temos ainda mais luz: o registro das profecias cumpridas e da vida de Jesus. Mas al­gumas vezes todas as descobertas ou "provas" não bastam. A simples lembrança, não importa quão agradável seja, não atenuará a dor ou a solidão. Talvez, por algum tempo, todos os versículos da Bíblia e todas as frases inspirativas de igual modo fracassem.

Três Reações

Conheço bem demais a minha própria reação instintiva diante do ocultamento de Deus: dou o troco ignorando-o. Igual a uma criança que acha que pode se esconder dos adul­tos ao tapar os olhos com sua mãozinha gorducha, tento afas­tar Deus da minha vida. Se ele não se revelar para mim, por que devo reconhecê-lo?

O Livro de Jó apresenta duas outras reações a tal desa­pontamento com Deus. A primeira se viu nos amigos de Jó, que se escandalizaram com os ataques de Jó contra os princí­pios mais básicos daquilo que criam. O profundo desaponta­mento de Jó com Deus não se encaixava na teologia deles. Viam uma clara linha divisória entre um homem que afirma­va ser justo e um Deus que sabiam que era justo.Que audácia! pensavam. Jó exige uma audiência com Deus! Acabe com es­ses sentimentos, disseram-lhe. Sabemos que, na realidade, Deus não é injusto. Por isso, pare de pensar assim! Tome ver­gonha e pare de dizer tudo isto!

A segunda reação, a de Jó, foi uma mistura desordena­da, um contraponto irritante à lógica incansável de seus ami­gos. "Por que, pois, me tiraste da madre?" questionou com Deus. "Ah! se eu morresse, antes que olhos nenhuns me vis­sem!" disparou Jó num protesto que ele sabia que era fútil, qual um pássaro que se atira repetidamente contra uma vidra­ça. Ele tinha pouquíssimos argumentos razoáveis, e até admi­tiu que a lógica de seus amigos parecia correta. Ele se debateu, se contradisse, voltou atrás, e algumas vezes teve crises de de­sespero. Esse homem, reconhecido por sua retidão, lançou im­precações contra Deus: "Cessa, pois, e deixa-me, para que por um pouco eu tome alento; antes que eu vá para o lugar de que não voltarei, para a terra das trevas e da sombra da morte.''

E qual das duas reações o livro apóia? Ambas as partes necessitavam de alguma correção, mas depois de todos se ex­pressarem, Deus ordenou aos amigos de Jó que se arrastassem arrependidos até ele e pedissem que orasse em favor deles.

Uma audaciosa mensagem do livro de Jó é que você po­de dizer qualquer coisa para Deus. Atire nele a sua tristeza, a sua ira, a sua dúvida, a sua amargura, a sua traição, a sua de­cepção — ele pode absorver tudo isso. Com mais freqüência do que se espera, a Bíblia mostra seus gigantes espirituais em luta com Deus. Preferiam ir embora mancando, como Jacó, do que aceitar o ocultamento de Deus como a resposta final. Neste aspecto, a Bíblia prefigura um princípio da psicologia moderna: na realidade você não pode negar seus sentimentos nem fazê-los desaparecer, por isso você pode muito bem expres­sá-los. Deus pode lidar com cada reação humana, com exceção de uma. Ele é incapaz de tolerar a reação em que instintiva­mente me apóio: uma tentativa de mantê-lo longe, de ignorá-lo ou de tratá-lo como se não existisse. Essa reação nem uma única vez ocorreu a Jó.

A Perspectiva Global

A liberdade de expressar os sentimentos não é, todavia, a única lição proporcionada por Jó. Com a visão dos bastido­res do que acontece no mundo invisível, aprendemos que um encontro com o ocultamento de Deus pode desorientar profun­damente. Pode nos tentar a encarar Deus como o inimigo e a interpretar seu ocultamento como uma falta de interesse.

Essa foi a conclusão de Jó: "Na sua ira me despedaçou, e tem animosidade contra mim." Aqueles que estamos na platéia sabemos que Jó estava enganado. De um lado, o prólogo de Jó faz a distinção sutil, mas importante, de que pessoalmen­te Deus não provocou os problemas de Jó. Ele os permitiu, é verdade, mas o relato da Aposta apresenta Satanás, e não Deus, como o instigador do sofrimento de Jó. De qualquer forma, certamente Deus não era inimigo de Jó. Longe de ser abandonado por Deus, Jó estava sendo objeto de uma exami­nação direta, quase microscópica, por parte de Deus. No exa­to instante em que Jó estava implorando para apresentar seu caso diante de um tribunal, ele estava realmente participando de um julgamento de significado cósmico — não como o pro­motor apontando o dedo para Deus, mas como a principal tes­temunha de um teste de fé.

De modo algum podemos inferir que nossas próprias tribulações sejam, tais como a de Jó, especialmente preparadas por Deus para resolver alguma questão decisiva do universo. Mas, com segurança, podemos presumir que o limitado alcan­ce de nossa visão irá, de um modo semelhante, distorcer a re­alidade. A dor estreita a visão. Sendo a mais pessoal das sensa­ções, ela nos força a pensar quase que exclusivamente em nós mesmos.

Com Jó, podemos aprender que do "outro lado" está acontecendo muito mais do que talvez suspeitemos. No mun­do natural, os seres humanos só recebem cerca de 30% do es­pectro da luz. (As abelhas e pombos-correios conseguem, por exemplo, detectar ondas de luz ultravioleta que nos são invisí­veis.) No domínio sobrenatural a nossa visão é ainda mais li­mitada. Só ocasionalmente temos vislumbres daquele mundo invisível. Jó sentiu o peso da ausência de Deus; uma olhada nos bastidores revela que, num sentido, nunca Deus tinha esta­do tão presente.

Um incidente na vida de uma outra famosa personagem bíblica ensina a mesma coisa de uma maneira bem diferente. O profeta Daniel teve um encontro tranqüilo — tranqüilo em comparação com o de Jó — com o ocultamento de Deus. Da­niel se debatia com o problema diário de oração sem resposta: por que Deus estava ignorando seus repetidos pedidos? Duran­te vinte e um dias Daniel se dedicou à oração. Pranteou. Não quis saber de comidas finíssimas. Jurou abster-se de carne e vinho, e não utilizou ungüentos no corpo. Em todo esse tem­po clamou a Deus, mas não recebeu resposta alguma.

Então certo dia Daniel recebeu muito mais do que espera­va. Um ser sobrenatural, com olhos como tochas acesas e um rosto como relâmpago, repentinamente surgiu a seu lado, à margem de um rio. Os companheiros de Daniel fugiram todos apavorados. Quanto a Daniel, "Não restou força em mim; o meu rosto mudou de cor e se desfigurou." Quando tentou con­versar com o ser ofuscante, mal conseguiu respirar.

O visitante passou a explicar a razão para a longa demo­ra. Parecia que fora despachado para responder já à primeira oração de Daniel, mas tinha enfrentado forte resistência por parte do "príncipe do reino da Pérsia". Finalmente, depois de um impasse de três semanas, chegaram reforços, e Miguel, um dos principais anjos, ajudou-o a romper as linhas adversárias.

Não tentarei interpretar essa surpreendente cena do uni­verso em guerra, exceto para assinalar um paralelo com Jó. À semelhança de Jó, Daniel desempenhou um papel decisivo na guerra entre as forças cósmicas do bem e do mal, embora grande parte da ação tenha ocorrida fora do alcance de sua visão. Para ele, a oração pode ter parecido fútil, e Deus, indi­ferente; mas uma olhadela nos bastidores revela exatamente o oposto. A perspectiva limitada de Daniel, tal como a de Jó, distorcia a realidade.

Como entenderemos um ser angelical que necessita de re­forços, para não mencionar uma Aposta cósmica? Apenas is­to: o grande quadro, a perspectiva global, com todo o univer­so servindo de fundo, inclui muita atividade que jamais enxer­gamos. Quando obstinadamente nos apegamos a Deus numa época de dificuldades, ou quando simplesmente oramos, pode­rão estar envolvidas muito mais coisas do que imaginamos. Requer-se fé para crer nisso, e fé para acreditar que jamais so­mos abandonados, não importa quão distante Deus pareça estar.

No final, quando ouviu a Voz vinda do redemoinho, Jó finalmente alcançou aquela fé. Deus mencionou de raspão fe­nômenos — o sistema solar, constelações, tempestades, ani­mais selvagens — que Jó era incapaz de começar a explicar. Se você não consegue compreender o mundo visível em que você vive, como tem a ousadia de esperar compreender um mundo que nem pode ver? Finalmente cônscio da perspectiva maior, Jó arrependeu-se no pó e nas cinzas.

 

* Referências bíblicas: Marcos 15; Jó 10, 16; Daniel 10.

 

             Porque eu sei que o meu Redentor vive,

             e por fim se levantará sobre a terra.

             Depois, revestido este meu corpo da minha pele,

             em minha carne verei a Deus.

             Vê-lo-ei por mim mesmo,

             os meus olhos o verão, e não outros;

             de saudades me desfalece o coração dentro em mim.

                             Jó 19:25-25

 

                         Por Que Jó Morreu Feliz

APÓS RELATAR a tragédia e a dor, o bater no peito e a discussão violenta, uma aposta cósmica perdida e ganha — após tudo isso, a história de Jó termina quase que confortavelmente, com Jó se distraindo com seus tetranetos em perfei­ta tranqüilidade. O livro dá um relato minucioso dos bens res­taurados a Jó: 14.000 ovelhas, 6.000 camelos, 1.000 jumentos e dez novos filhos.

Esse final feliz frustra alguns leitores, como é o caso de Elie Wiesel (escritor que ganhou o Prêmio Nobel e testemunha do holocausto). Para ele, Jó foi um herói, um importante lí­der da dissidência contra as injustiças de Deus. No entanto, diz Wiesel, Jó cedeu. Ele não devia ter deixado Deus escapar da sinuca. Volume algum de uma nova prosperidade podia compensar o sofrimento que Jó havia experimentado. Que di­zer dos dez filhos que morreram? Nenhum pai podia crer, por um instante sequer, que o burburinho de uma nova família re­moveria a tristeza daquela que Jó tinha perdido.

Mas deixemos Jó falar por si mesmo. Isto é o que disse depois da majestosa fala de Deus, pronunciada desde o rede­moinho:

 

             Na verdade falei do que não entendia;

             cousas maravilhosas demais para mim...

             Eu te conhecia só de ouvir,

             mas agora os meus olhos te vêem.

             Por isso me abomino,

             e me arrependo no pó e na cinza.

 

Evidentemente o que tenho chamado de "não resposta" de Deus satisfez completamente a Jó.

Por outro lado, alguns leitores apontam para o final feliz como a resposta final para a desilusão com Deus. Veja, dizem eles, Deus livra seu povo da adversidade. Restaurou a saúde e as riquezas de Jó, e fará o mesmo conosco caso aprendamos a confiar nele como o fez Jó. Esses leitores, no entanto, pas­sam por cima de um detalhe importante: Jó falou essas pala­vras de contrição antes da recuperação de suas perdas. Ainda estava sentado num monte de cinzas, nu, coberto de feridas, e foi nessas circunstâncias que aprendeu a louvar a Deus. Só uma coisa havia mudado: Deus havia dado a Jó um vislumbre da perspectiva maior.

Na minha opinião, penso que Deus podia ter dito qual­quer coisa — podia, na verdade, ter lido um trecho de lista telefônica — e ter produzido o mesmo efeito poderoso em Jó. Aquilo que ele disse não chegou a ser tão importante quanto o simples fato de que ele apareceu. Deus respondeu de manei­ra espetacular à maior das perguntas de Jó: Há alguém lá fo­ra? Assim que Jó teve uma visão do mundo invisível, todas as suas urgentes perguntas se desvaneceram.

Aliás, do ponto de vista de Deus, o consolo de Jó foi — por mais cruel que pareça — insignificante em comparação com as questões cósmicas em jogo. A verdadeira batalha ter­minou quando Jó recusou-se a largar Deus, fazendo assim com que Satanás perdesse a Aposta. Depois dessa vitória apertada, Deus se apressou em derramar boas dádivas sobre Jó. Dor? Posso consertar isso facilmente. Mais filhos? Camelos e bois? Não há problema. É claro que quero que você esteja feliz e ri­co e cheio de vida! Mas, Jó, você tem de entender que algo bem mais importante do que a felicidade esteve em jogo aqui.

Acerca de Dois Mundos

Meu amigo Richard, que ainda olha para Jó como a por­ção mais honesta da Bíblia, tem ainda uma outra reação dian­te do final. Considera-o quase irrelevante. "Jó recebeu uma visita pessoal de Deus, e fico contente por Jó. É isso o que ve­nho pedindo todos esses anos. Mas, uma vez que Deus não apareceu para mim, como é que Jó me ajuda?"

Creio que Richard apontou para uma importante linha divisória da fé. Num certo sentido, nossos dias na terra se pa­recem com os de Jó antes de Deus vir até ele num redemoinho. Nós também vivemos em meio a indícios e rumores, alguns dos quais argumentam contra um Deus poderoso e amoroso. Nós também temos de exercitar a fé, sem qualquer certeza.

Richard estava prostrado no assoalho de seu apartamen­to, implorando a Deus que "se revelasse", apostando toda sua fé na disposição de Deus em entrar no mundo visível tal qual havia feito para Jó. E Richard saiu perdendo. Com toda fran­queza, duvido que Deus sinta qualquer obrigação de dar pro­vas de si mesmo dessa maneira. Ele o fez muitas vezes no Anti­go Testamento, e o fez conclusivamente na pessoa de Jesus. Que mais encarnações queremos dele?

Digo isto com muito cuidado, mas fico imaginando se um desejo veemente, insistente de milagres — digamos, de uma cura física — algumas vezes não denuncia uma falta de fé, em vez de uma abundância dela. Tais orações podem, co­mo as de Richard, estabelecer condições para Deus. Quando ansiando por uma solução miraculosa para um problema, faze­mos com que nossa lealdade a Deus dependa de ele se revelar mais uma vez no mundo visível?

Se insistirmos em receber provas visíveis da parte de Deus, podemos muito bem estar preparando o caminho para um per­manente estado de desilusão. A verdadeira fé não busca tanto manipular Deus para que faça nossa vontade quanto busca nos posicionar para que façamos sua vontade. Enquanto pro­curava em toda a Bíblia exemplos de grande fé, fiquei surpreso com o número inexpressivo de santos que experimentaram al­go parecido com o impressionante encontro de Jó com Deus. Os demais reagiram ao ocultamento de Deus, não exigindo que ele se mostrasse, mas avançando crendo nele embora per­manecesse escondido. Hebreus 11 assinala que os gigantes da fé "morreram... sem ter obtido as promessas, vendo-as, porém, de longe, e saudando-as".

Nós, seres humanos, instintivamente consideramos o mun­do visível como o mundo "real" e o mundo invisível como o mundo "irreal", mas a Bíblia requer quase que o oposto. Me­diante a fé, o mundo invisível cada vez mais toma a forma do mundo real e estabelece o rumo de como vivermos no mun­do visível. Vivam para Deus, que é invisível, e não para as ou­tras pessoas, disse Jesus ao falar sobre o mundo invisível, ou "o reino dos céus".

Certa vez o apóstolo Paulo tratou diretamente da questão da frustração e decepção com Deus. Disse aos coríntios que, apesar das dificuldades inacreditáveis, ele não se desanimava: "Mesmo que o nosso homem exterior se corrompa, contudo o nosso homem interior se renova de dia em dia. Porque a nossa leve e momentânea tribulação produz para nós eterno peso de glória, acima de toda comparação, não atentando nós nas cousas que se vêem, mas nas que se não vêem; por que as que se vêem são temporais, e as que se não vêem são eternas."

Uma Amostra do Futuro

Paulo suportou tribulações e morreu martirizado, ainda antevendo sua recompensa. Jó suportou tribulações, mas rece­beu ótima recompensa. O que é que podemos exatamente espe­rar de Deus? Talvez a melhor maneira de ver o final de Jó é considerá-lo não como um padrão do que acontecerá conosco nesta vida, mas, em vez disso, como um sinal do que está pa­ra vir. Coloca-se como um símbolo agradável, satisfatório, uma solução para a decepção de uma pessoa, solução que nos oferece uma amostra do futuro.

Num aspecto Elie Wiesel está certo: os prazeres da velhi­ce de Jó não compensaram as perdas que ele experimentou an­teriormente. Até mesmo Jó, feliz e cheio de dias, morreu, dei­xando como herança para os que o sobreviveram o ciclo de tristeza e dor. O pior de todos os erros seria concluir que Deus de alguma forma se satisfaz em fazer uns poucos ajustes, sem grande importância, neste mundo trágico, injusto.

Algumas pessoas arriscam toda sua fé num milagre, como se um milagre eliminasse todo desapontamento com Deus. Mas mesmo se eu tivesse enchido este livro com descrição de casos de curas físicas, em vez das histórias de Richard e Meg Woodson e Douglas e Jó, isso não resolveria o problema da decepção com Deus. Alguma coisa ainda está bastante errada com este planeta. Por exemplo, todos nós morremos; a taxa de mortalidade é a mesma quer para ateus quer para santos.

Os milagres servem como sinais que apontam para o futu­ro. São aperitivos que despertam um anelo por algo mais, por algo permanente. E a felicidade de Jó em sua velhice foi uma simples amostra daquilo que ele desfrutaria depois da morte. As boas novas no final de Jó e as boas novas do Domingo de Páscoa no final dos evangelhos são trailers das boas novas des­critas no final de Apocalipse. Não nos atrevemos a perder de vista o mundo que Deus deseja.

A mensagem de Jó 42 é, então, um sinal de que no final Deus acertará os erros que caracterizam nossos dias. Algumas tristezas — a morte dos filhos de Jó, por exemplo, ou a mor­te dos filhos de Meg Woodson — nunca se recuperam nesta vida. Nenhuma palavra de consolo é capaz de mitigar a dor no coração de Meg Woodson, pois aquela dor tem uma for­ma exata, a forma de sua filha Peggie e de seu filho Joey. Mas no fim dos tempos aquela dor também se desvanecerá. Meg terá sua filha de volta, e seu filho refeito. E, se eu não cresse nisso, não cresse que Peggie e Joey Woodson estão ago­ra mesmo respirando grandes sorvos de ar, e pulando, e explo­rando novos mundos, então eu não creria em coisa alguma e teria abandonado há muito tempo a fé cristã. "Se a nossa es­perança em Cristo se limita apenas a esta vida, somos os mais infelizes de todos os homens.'4

A Bíblia aposta a reputação de Deus em sua habilidade de vencer o mal e restaurar os céus e a terra à sua perfeição original. Se não levássemos em conta aquele estado futuro, Deus poderia ser julgado como alguém menos-do-que-poderoso, ou menos-do-que-amoroso.* Até o presente as visões proféti­cas de paz e justiça não se tornaram verdade. Espadas ainda não estão sendo fundidas em arados. A morte, com terríveis novas mutações da AIDS e de canceres provocados por distúr­bios do meio-ambiente, ainda está devorando pessoas em vez de ser devorada. O mal, e não o bem, parece estar vencendo. Mas a Bíblia nos conclama a ver além da insensível realidade da história, a ter a visão de toda a eternidade, quando o domí­nio de Deus encherá a Terra com a luz e a verdade.

Em qualquer discussão acerca da decepção com Deus, o céu é a palavra final, a mais importante de todas as palavras. Só o céu finalmente solucionará o problema do ocultamento de Deus. Pela primeira vez na história, os seres humanos serão capazes de erguer os olhos para Deus e vê-lo face a face. No meio de sua agonia, de alguma forma Jó encontrou a fé para crer que, "revestido este meu corpo da minha pele, em minha car­ne verei a Deus". Sua profecia se tornará realidade não ape­nas para Jó, mas para todos nós.

Com Saudades

Muitas pessoas têm problemas até mesmo em imaginar um tal estado futuro. Como disse o escritor Charles Williams, "Nossa experiência na terra torna difícil para nós entender uma coisa boa que não nos arme alguma espécie de cilada." Em vez de tentar projetar a nós mesmos num futuro que ja­mais poderemos compreender plenamente, talvez fosse melhor olhar para os sonhos não realizados — as decepções — do pre­sente.

Para um refugiado ou favelado, o céu representa um so­nho de um novo país, uma nova morada, um lugar de seguran­ça, uma família novamente reunida, um lar farto, com abun­dância de coisas simples como comida e água fresca para be­ber. (Muitos dos profetas falaram a refugiados, o que talvez explique por que fizeram uso dessas imagens terrenas.)

Todos partilhamos desses anelos. Este mundo pode estar cheio de poluição, guerra, crimes e cobiça, mas dentro de nós — de todos nós — perduram vestígios que nos fazem lembrar como o mundo podia ser, como nós podíamos ser. É possível sentir tais anelos no movimento pela preservação do meio-am­biente, cujos líderes anseiam por um mundo mantido em seu estado original; e no movimento pela paz, que sonha com um inundo sem guerras; e nos grupos de terapia, que buscam resta­belecer laços de amor e amizade que se romperam. Toda a be­leza e prazer que encontramos na terra representam "somente a fragrância de uma flor que não encontramos, o eco de uma música que não ouvimos, as notícias de um país que ainda não visitamos".

Os profetas proclamam que tais sensações não são ilusões nem simples sonhos. São ecos adiantados daquilo que de fato se tornará realidade. Temos pouquíssimos detalhes sobre o mundo futuro, somente uma promessa de que Deus se mostra­rá confiável. Quando acordarmos no novo céu e na nova ter­ra, finalmente possuiremos o que quer que temos desejado. De alguma forma, do meio de todas as notícias ruins, surgem surpreendentes Boas Notícias — uma coisa boa que não ocul­ta cilada alguma. O céu e a terra voltarão a funcionar do jei­to como Deus planejou. Depois de tudo há um final feliz.

O escritor de ficção J. R. R. Tolkien cunhou uma nova palavra para essa boa notícia, em sua trilogia The Lord of the Rings ("O Senhor dos Anéis"): será uma "eucatástrofe", dis­se Tolkien.

 

— Será que todas as coisas tristes vão deixar de ser verdade? — perguntou Samwise.

— Uma grande Sombra se foi — disse Gandalf, e então ele riu, e o som foi como de música, ou como de água numa terra ressequida; e, enquanto ouvia, veio-lhe o pensamento de que ele não tinha ouvido risos, o som puro da alegria, por dias e dias, dias sem conta. Caiu em seus ouvidos como o eco de todos os prazeres que já ha­via conhecido. Mas ele mesmo irrompeu em lágrimas. En­tão, assim como uma chuva suave faz passar um vento primaveril e o sol resplandece ainda mais brilhante, suas lágrimas cessaram, e seu riso jorrou, e, rindo, pulou da cama.

— Como é que me sinto? — gritou. — Bem, não sei como dizê-lo. Eu sinto, eu sinto — brandia os braços no ar — eu sinto como a primavera depois do inverno, e como o sol batendo nas folhas; e como clarins e harpas e todos os sons que já ouvi!

 

Para pessoas que se sentem presas à dor, ou a um lar des­troçado, ou à pobreza extrema, ou ao medo — para todas es­sas pessoas, para todos nós, o céu promete um período, mui­to mais longo e mais substancioso do que o período que passamos na terra, período de saúde e inteireza e prazer e paz. Se não crermos nisso, então, como Paulo claramente afirmou, há pouquíssima razão para crer em qualquer outra coisa. Sem aquela esperança, não há qualquer esperança.

A Bíblia jamais faz pouco caso da decepção humana (lem­bre-se da proporção em Jó — um capítulo de restauração se­gue-se a quarenta e um capítulos de angústia); acrescenta, po­rém, uma palavra chave: temporário. O que sentimos agora, nem sempre sentiremos. Nosso desapontamento é ele próprio um sinal, uma dor, uma fome de algo melhor. E a fé é, afinal, um tipo de saudade — de um lar que jamais visitamos, mas que nunca deixamos de anelar.

 

E o fim de toda nossa exploração Será chegar ao lugar donde partimos, E pela primeira vez conhecer o local.

  1. S. Eliot

 

Vi novo céu e nova terra, pois o primeiro céu e a pri­meira terra passaram, e o mar já não existe. Vi também a cidade santa, a nova Jerusalém, que descia do céu, da parte de Deus, ataviada como noiva adornada para o seu esposo. Então ouvi grande voz vinda do trono, dizendo: Eis o tabernáculo de Deus com os homens. Deus habita­rá com eles. Eles serão povos de Deus e Deus mesmo esta­rá com eles. E lhes enxugará dos olhos toda lágrima, e a morte já não existirá, já não haverá luto, nem pranto, nem dor, porque as primeiras cousas passaram.

 

* Referências bíblicas: Jó 42; Hebreus 10; 2 Coríntios 4; 1 Coríntios 15; Jó 19; Apocalipse 21.

 

                     Duas Apostas, Duas Parábolas

 

Existe então algum paraíso terrestre onde, em meio ao farfalhar das folhas de oliveira, as pessoas podem estar com aqueles de quem gostam e ter aquilo de que gostam e fi­car à vontade à sombra, serenos, ou será que as vidas de todos os homens são... vidas destroçadas, tumultuadas, sofridas e sem romantismo, períodos marcados por gritos, por imbecilidades, por mortes, por agonias?

                         Ford Madox Ford, ("O Bom Soldado")

 

O ESCRITOR ITALIANO Umberto Eco conta de uma oca­sião quando, aos treze anos de idade, acompanhou o pai a uma partida de futebol. Na realidade Umberto não aprecia­va esportes, e, enquanto estava sentado no estádio observan­do o jogo, sua mente começou a divagar. "Enquanto observa­va com indiferença os movimentos sem sentido ali embaixo no campo, senti como o sol alto, do meio-dia, parecia envol­ver os homens e as coisas numa luz congelante, e como, dian­te de meus olhos, uma encenação cósmica, sem sentido, estava em andamento... pela primeira vez duvidei da existência de Deus e cheguei à conclusão de que o mundo era uma ficção irracional."

Instalado num ponto elevado do estádio, o adolescente Eco tinha imaginado um ponto de vista de cima, como o de Deus. Mas daquele ponto de observação as lutas frenéticas da raça humana pareciam tão desprovidas de sentido quanto as lutas frenéticas de homens crescidos correndo atrás de uma bo­la de couro através do gramado. Ocorreu a Eco que não devia existir ninguém "lá em cima" observando o que tem lugar nes­te planeta. E, se no final das contas alguém estivesse lá, devia se importar tão pouco com a vida na Terra quanto Umberto Eco se importava com futebol.

A imagem de Eco sobre o estádio levanta a pergunta mais fundamental sobre a fé, a pergunta da qual tudo o mais depende: Alguém está observando! Estamos dando murros no ar, num caos sem sentido, cercado pela "benigna indiferen­ça do universo", ou estamos de fato representando para Al­guém que se importa? Pessoalmente Jó obteve resposta atra­vés de uma revelação inconfundível, mas que dizer de nós ou­tros? Não há pergunta mais importante, e cinco anos depois da conversa que deu origem a este livro eu me encontrei dis­cutindo demoradamente essa pergunta com meu amigo cético Richard.

Quando me encontrei com Richard pela primeira vez, ele parecia um amante abandonado que se encontrava nos primei­ros dias da separação e divórcio — de Deus. A ira ardia em seus olhos. Mas, quando eu o vi cinco anos depois, era visí­vel que a passagem do tempo o havia amadurecido e acalma­do. Seu ardor ainda irrompia enquanto conversávamos, mas mesclado com melancolia, ou nostalgia. Ele não conseguia ti­rar Deus totalmente de sua cabeça, e a ausência de Deus se fa­zia sentir, persistentemente, como a dor de um membro fantas­ma, um membro amputado. Raras vezes eu levantava questões sobre a fé, mas Richard, ainda ferido, traído, continuava vol­tando a elas.

Certa vez ele se voltou para mim com um olhar perplexo.

— Não entendo, Philip — disse. — Nós dois lemos mui­tos dos mesmos livros, e partilhamos muito dos mesmos valo­res. Parece que você compreende minha dúvida e desilusão. E, assim mesmo, de alguma forma você acha possível crer, e eu não. Qual é a diferença? Onde você conseguiu a sua fé?

Minha mente voou através das possíveis respostas. Eu po­deria ter sugerido todas as provas em favor da existência de Deus: desígnio na criação, a vida de Jesus, provas da Ressur­reição, exemplos de santos cristãos. Mas Richard conhecia es­sas respostas tão bem quanto eu, e ainda assim não cria. Além do mais, não foi disso que extraí a minha fé. Eu passei a ter fé quando estava num dormitório de uma faculdade evangéli­ca, numa certa noite de um mês de fevereiro, e assim passei a contar a Richard sobre aquela noite.

Uma Noite de Fé

Já mencionei que, no início, a faculdade evangélica foi um terreno fértil para a dúvida e o ceticismo. Sobrevivi apren­dendo a imitar um comportamento "'espiritual" — na realida­de, os estudantes tinham de fazer isso apenas para conseguirem boas notas. Havia, por exemplo, a repugnante questão do "ser­viço cristão". A faculdade exigia que cada aluno participasse de uma atividade regular de serviço, do tipo evangelização nas ruas, ministério nas cadeias, ou visita a hospitais. Eu me ins­crevi em "trabalho entre universitários".

Todos os sábados à noite eu visitava um centro estudan­til na Universidade da Carolina do Sul e assistia à televisão. É claro que supunham que eu estivesse testemunhando, e na semana seguinte eu diligentemente dava relatório sobre todas as pessoas que eu havia abordado para apresentar uma fé pes­soal. Minhas histórias inventadas devem ter soado autênticas, pois ninguém jamais as questionou.

Eu também tinha a obrigação de freqüentar uma reunião semanal de oração, junto com quatro outros alunos envolvi­dos no trabalho com universitários. Aquelas reuniões obede­ciam a um padrão constante: Joe orava, e em seguida Craig, e Chris, e o outro Joe, e então todos os quatro educadamente faziam uma pausa por aproximadamente dez segundos. Eu nunca orava; e depois do breve silêncio, abríamos os olhos e voltávamos para nossos quartos.

Mas certa noite de fevereiro, para surpresa de todos, in­clusive de mim, eu orei. Não tenho qualquer idéia da razão disso. Eu não tinha planejado fazê-lo. Mas depois de Joe e Craig e Chris e Joe terem terminado, eu me vi orando em voz alta. "Deus", eu disse, e eu podia sentir o aumento do nível de tensão na sala.

Pelo que me lembro, eu disse qualquer coisa assim: "Deus, aqui estamos, e esperam que estejamos preocupados com esses dez mil alunos da Universidade da Carolina do Sul que estão indo para o inferno. Bem, você sabe que na realidade eu não me importo se todos eles forem de fato para o inferno, se é que o inferno existe. Além do mais, nem mesmo me importo se eu for para o inferno."

É preciso estudar numa faculdade evangélica para perce­ber como essas palavras devem ter soado para os outros no quarto. Daria na mesma se eu estivesse invocando bruxaria ou oferecendo sacrifícios de crianças. Mas ninguém se moveu nem tentou me interromper, e eu prossegui orando.

Por alguma razão, comecei a falar sobre a parábola do Bom Samaritano. Esperavam que nós, estudantes de faculda­des evangélicas, sentíssemos o mesmo interesse pelos estudan­tes universitários como o samaritano sentiu pelo judeu ensan­güentado que jazia no fosso. Mas eu não sentia qualquer inte­resse por eles, eu disse. Não sentia nada por eles.

E então aconteceu. No meio da minha oração, bem quan­do eu estava descrevendo quão pouco me importava com os alvos que haviam sido designados para demonstrarmos com­paixão, vi aquela história numa nova luz. Eu vinha visualizan­do a cena enquanto eu falava: um samaritano de aparência an­tiquada, vestido com mantos e um turbante, debruçado sobre um vulto sujo, salpicado de sangue, num fosso. Mas repenti­namente, na tela interna de meu cérebro, aquelas duas pesso­as mudaram. O bondoso samaritano assumiu o rosto de Jesus. O judeu, pobre vítima de um assalto na estrada, também assu­miu um outro rosto — um rosto que de imediato reconheci co­mo sendo o meu próprio.

Num piscar de olhos vi Jesus se agachando com um trapo úmido para limpar minhas feridas e estancar o fluxo de san­gue. E, enquanto ele se encurvava, eu — a vítima ferida, a ví­tima do assalto — me vi abrindo os olhos e fazendo um bico com os lábios. Então, como em câmara lenta, eu me vi cuspin­do nele, em cheio no rosto. Vi tudo isso — eu, que não acredi­tava em visões, nem em parábolas da Bíblia, nem mesmo em Jesus. Isso chocou-me. Abruptamente parei de orar, levantei-me e saí do quarto.

Toda aquela noite fiquei pensando sobre o que ocorrera. Não foi exatamente uma visão — foi mais um devaneio com um sentido. Ainda assim, não conseguia deixar de pensar nis­so. O que significava? Era autêntico? Eu não tinha certeza, mas a minha arrogância tinha sido esmigalhada. Naquela fa­culdade eu sempre tinha encontrado segurança em meu agnosticismo. Agora nunca mais seria assim. Eu tinha tido um no­vo vislumbre de mim mesmo. Talvez, em todo o meu ceticis­mo autoconfiante e zombeteiro, eu fosse o mais necessitado de todos.

Naquela noite escrevi um curto bilhete para minha noiva, dizendo cautelosamente: "Quero aguardar mais alguns dias antes de conversar a respeito, mas talvez eu tenha acabado de ter a primeira experiência religiosa genuína de minha vida."

As Apostas

Contei essa história a Richard, que ouviu com interesse autêntico. Tudo na minha vida mudou daquele momento em diante, eu disse. Antes, se alguém tivesse insinuado que eu pas­saria a minha vida escrevendo acerca da fé cristã, eu teria acha­do doida essa pessoa. Mas desde aquela noite de fevereiro te­nho estado numa peregrinação lenta e constante para resgatar aquilo que outrora eu havia rejeitado como uma bobagem reli­giosa. Recebi olhos de fé que abriram minha mente para crer no mundo invisível.

Richard foi atencioso, mas não se convenceu. Educada­mente assinalou que, afinal, havia explicações alternativas pa­ra o que tinha acontecido. Por alguns anos eu tinha resistido a uma educação fundamentalista, e, sem dúvida alguma, aque­la repressão havia criado uma profunda "dissonância cogniti­va" dentro de mim. Uma vez que fazia tanto tempo que eu não orava, será que eu deveria me surpreender com o fato de que minha primeira oração, não importa quão hesitante tenha sido, liberasse um turbilhão de emoções que encontrasse vazão em formas como a "revelação" da parábola do Bom Samaritano?

Tive de sorrir enquanto Richard falava, porque eu me iden­tifiquei em suas palavras. Eu havia empregado o mesmo linguajar para encontrar explicações para os testemunhos pesso­ais de vintenas de colegas de faculdade. Mas desde aquela noi­te de fevereiro passei a ver as coisas diferentemente. Richard e eu estávamos descrevendo o mesmo fenômeno de duas ma­neiras diferentes: ele estava olhando "para" o feixe, enquan­to eu estava olhando ao longo dele. Ele possuía certos indícios a seu favor. Eu tinha certos indícios a meu favor — principal­mente a profunda e inesperada mudança em minha maneira de encarar a vida. Mas as conversões só fazem sentido de den­tro para fora, para pessoas igualmente convertidas. Estávamos de volta ao ponto em que havíamos principiado nossa conver­sa cinco anos antes: havíamos chegado ao mistério da fé, uma palavra que Richard detestava.

Eu me vi desejando ter condições de fazer com que, pa­ra ele, a fé fosse clara como cristal, mas me senti impotente para fazê-lo. Senti em Richard o mesmo desassossego e aliena­ção com que eu convivera, e Deus havia trazido uma cura gra­dual para mim. Mas eu não podia transplantar a fé em Ri­chard; ele tinha de exercitá-la por si mesmo.

Foi durante essa conversa que percebi que, na verdade, havia duas apostas em andamento. Neste livro focalizei a apos­ta, vendo-a a partir do ponto de vista de Deus, a Aposta tal como está revelada no Livro de Jó, em que Deus "arrisca" o futuro da experiência humana. Duvido que alguém compreen­da totalmente essa aposta, mas Jesus ensinou que o final da história humana se resumirá a uma só questão: "quando vier o Filho do homem, achará porventura fé na terra?"

A segunda aposta reflete o ponto de vista humano e é aquela em que Jó se envolveu: Devia escolher a favor de Deus ou contra ele? Jó avaliou as provas, a maioria das quais não apontava para um Deus confiável. Mas, chutando e gritando durante todo o trajeto, decidiu pôr sua fé em Deus.

Cada um de nós deve escolher se vai viver como se Deus existe, ou como se ele não existe. Quando Umberto Eco esta­va sentado naquele ponto elevado do estádio, sob um sol de meio-dia, e olhou para os jogadores de futebol embaixo, fez uma opção diante da mais importante pergunta de sua vida — da vida de qualquer um. Alguém está observando? E a res­posta a essa pergunta depende redondamente da fé — por ela o justo viverá.

Duas Parábolas

Encerro este livro com duas histórias, ambas verdadeiras, que para mim se colocam como parábolas das alternativas: o caminho da fé e o caminho da não-fé.

A primeira vem de um sermão de Frederick Buechner:

 

É uma história típica do século vinte, e quase chega a ser por demais terrível para se contar: é sobre um garo­to de uns doze ou treze anos que, num acesso de loucura e depressão, apanhou uma arma de fogo em algum lugar e disparou em seu pai, que não morreu imediatamente, mas pouco tempo depois. Quando as autoridades interro­garam o menino sobre por que tinha feito aquilo, respon­deu que era porque não podia suportar o pai, porque o pai exigia demais dele, porque estava sempre em cima de­le, porque odiava o pai. E então, depois que foi interna­do num recolhimento de menores, um guarda em certa ocasião estava caminhando pelo corredor, tarde da noite, quando ouviu sons vindos da cela do garoto, e parou pa­ra ouvir. As palavras que ouviu o garoto pronunciar aos prantos, no escuro, foram: "Quero o meu pai, quero o meu pai."

 

Buechner sugere que essa história é "uma espécie de pará­bola sobre a vida de todos nós." A sociedade moderna é co­mo aquele garoto no recolhimento de menores. Eliminamos nosso Pai. Poucos pensadores ou escritores ou cineastas ou produtores de televisão continuam levando Deus a sério. Ele é um anacronismo, algo que nós superamos. O mundo moder­no aceitou o desafio e apostou contra Deus. Há perguntas de­mais sem resposta. Há decepções demais.*

Assim mesmo, ainda se pode ouvir soluços, abafados gri­tos de perda, tais como aqueles expressos na literatura e no cinema e quase em toda a arte contemporânea. Difícil coisa é viver sem ter certeza de coisa alguma. A alternativa para a decepção com Deus parece ser a decepção sem Deus. ("O cen­tro de mim", disse Bertrand Russell, "é sempre e eternamen­te uma dor terrível — uma curiosa dor indômita — uma bus­ca por algo que está além do que o mundo contém.") Mesmo agora vejo essa sensação de perda nos olhos de meu amigo Richard. Ele diz que não acredita em Deus, mas continua tra­zendo o assunto à tona, protestando em voz alta demais. De onde vem essa dolorida sensação de traição se não há ninguém para perpetrar a traição?

 

A parábola de Frederick Buechner diz respeito à perda de um pai; a segunda diz respeito à descoberta de um pai. Tam­bém é uma história de verdade, minha própria história.

Certo feriado fui visitar minha mãe, que vive a mil e cem quilômetros de distância. Ali nos relembramos de acontecimen­tos ocorridos há muito tempo, como mãe e filho tendem a fa­zer. Inevitavelmente a grande caixa de fotografias antigas saiu do alto do armário do closet, derramando uma pilha desorde­nada de estreitos retângulos que assinalam meu desenvolvimen­to através da infância e adolescência: vestido de caubói e de índio, fantasiado de coelhinho na dramatização na primeira série, poses com meus animais de estimação da infância, inter­mináveis recitais de piano, as formaturas do primeiro grau e do segundo grau e finalmente da faculdade.

Entre aquelas fotos encontrei a de uma criança de colo, com meu nome escrito no verso. O retrato em si mesmo não tinha nada de incomum. Eu parecia como qualquer outro nenê: rosto gorducho, meio careca, com um olhar desfocado, ir­requieto. Mas a fotografia estava amassada e mutilada, como se algum daqueles animais de estimação a tivesse apanhado. Perguntei a minha mãe por que ela havia guardado uma foto tão maltratada se tinha tantas outras fotos inteiras.

Há algo que você precisa saber sobre a minha família: quando eu tinha dez meses de idade meu pai contraiu poliomielite bulbar. Ele morreu três meses depois, logo após meu primeiro aniversário. Meu pai ficou totalmente paralisado com a idade de vinte e quatro anos, seus músculos enfraqueceram tanto que ele teve de viver dentro de um grande cilindro de aço que respirava por ele. Recebeu pouquíssimas visitas — ha­via tanta histeria quanto à pólio em 1950 quanto existe hoje em dia em relação à AIDS. A única visita que ele recebia fiel­mente, minha mãe, costumava sentar num certo lugar de mo­do que ele podia ver a imagem dela num espelho aparafusado num dos lados do pulmão de aço.

Minha mãe explicou que havia guardado a foto como uma recordação, porque durante a enfermidade de meu pai a fotografia tinha estado afixada em seu pulmão de aço. Ele ha­via pedido fotografias dela e dos dois filhos, e minha mãe te­ve de forçar as fotografias a se encaixarem entre alguns botões metálicos. Por isso, o estado amarrotado da minha foto de nenê.

Raras vezes vi meu pai depois que entrou no hospital, pois não se permitiam crianças nas enfermarias de pólio. Além disso, eu era tão novo que, mesmo que eu tivesse tido permis­são para entrar, eu não teria guardado aquelas lembranças.

Quando minha mãe me contou a história da foto amassa­da, eu tive uma estranha e forte reação. Parecia esquisito ima­ginar alguém que, num certo sentido, eu nunca encontrei, se importasse comigo. Durante os últimos meses de sua vida, meu pai passou suas horas acordado fitando aquelas três ima­gens de sua família, a minha família. Não havia mais nada em seu campo de visão. O que ele fazia o dia todo? Orava por nós? Certamente orava. Ele nos amava? Claro. Mas como uma pessoa paralisada pode exprimir seu amor, especialmente quando seus próprios filhos estão banidos do quarto?

Freqüentemente tenho pensado naquela foto amassada, pois é um dos poucos elos que me liga ao estranho que foi meu pai, um estranho que morreu uma década mais jovem do que a minha idade atual. Alguém de quem não tenho lem­brança, de quem não tenho conhecimento sensorial, passava o dia todo, todos os dias, pensando em mim, se dedicando a mim, amando-me o máximo que podia. Talvez, de alguma for­ma misteriosa, ele esteja fazendo-o numa outra dimensão. Tal­vez eu terei tempo, muito tempo, para renovar um relaciona­mento que cruelmente se encerrou mal havia se iniciado.

Menciono esta história porque as emoções que senti quan­do minha mãe mostrou-me a foto amassada foram exatamen­te as mesmas emoções que senti naquela noite de fevereiro num dormitório de faculdade quando pela primeira vez cri num Deus de amor. Alguém está lá, eu percebi. Alguém está observando a vida enquanto ela se desenrola neste planeta. Mais ain­da, esse Alguém me ama. Foi um sentimento surpreendente, repleto de uma esperança indômita, um sentimento tão novo e avassalador que pareceu que valia a pena arriscar a minha vida.

 

* Uma expressão como "Deus aprende" pode parecer estranha porque normal­mente pensamos no aprender como um processo mental, numa seqüência que vai de um estado de não saber para um estado de saber. Claro é que Deus não está limita­do pelo tempo ou pela ignorância. Ele "aprende" no sentido de passar por novas ex­periências, tais como a criação de seres humanos livres. Empregando a palavra num sentido semelhante, a carta aos Hebreus diz que Jesus "aprendeu a obediência pelas coisas que sofreu".

* Algumas pessoas não encontram qualquer consolo na visão dos profetas quan­to a um mundo futuro. "Dia de São Nunca", dizem. "A igreja tem batido nessa te­cla durante séculos para justificar a escravidão, a opressão e todas as formas de injus­tiça. Quanto ao pobre, empurram-lhe goela abaixo a esperança do céu a fim de evitar que fique exigindo demais na terra." A crítica procede porque a igreja de fato até ho­je abusa da visão dos profetas. Mas você nunca encontrará aquela promessa vazia nos próprios profetas. Amós, Oséias, Isaías e Jeremias têm palavras severas acerca da necessidade de cuidar das viúvas e órfãos e estrangeiros, e de acabar com a corrup­ção em tribunais e sistemas religiosos. A igreja na terra não deve simplesmente mar­car passo, aguardando que Deus intervenha e ponha em ordem tudo que há de erra­do. Ao contrário, eles, o povo de Deus, devem modelar o novo céu e a nova terra, e, fazendo-o, devem despertar anseios por aquilo que algum dia Deus fará acontecer. Na qualidade de agentes de Deus, atuam para eliminar os motivos de desapontamen­to que, de outra forma, as pessoas poderiam atribuir a Deus.

* Entendo que a Trindade não é de modo algum uma doutrina simples, e apari­ções do Filho e do Espírito podem ser identificadas em todo o Antigo Testamento. Mas provavelmente não falaríamos de uma Trindade totalmente à parte da Encarnação e de Pentecostes. Cada evento revelou sobre Deus algo que anteriormente não fo­ra conhecido, e cada um provocou uma revolução na maneira de as pessoas pensarem sobre Deus.

* Meg escreveu livros fortes e tocantes sobre seus dois filhos: Following Joey Home ("A Nova Casa de Joey"); Vil Get to Heaven Be/ore You Do! ("Chegarei ao Céu Antes de Você!") e The Time of Her Life ("O Tempo de Vida Dela").

* Um dos livros "apócrifos" em circulação entre os cristãos primitivos conta a história de uma mulher chamada Tecla, uma convertida do apóstolo Paulo. Supunha-se que sua fé a defendesse de todos os ataques: animais selvagens recusaram-se a co­mê-la, e homens repentinamente pararam no ato de violentá-la. Quando seus torturadores tentaram queimá-la na estaca, uma nuvem de chuva e saraiva apareceu em cima e extinguiu as chamas. O livro teve ampla circulação, mas basta ler outros livros da história da igreja, como o Foxe's Book of Martyrs, para descobrir por que, no final, rejeitou-se a história de Tecla como sendo apócrifa.

* Essa diferença de percepção também pode ajudar a esclarecer um dos aspectos mais intrigantes dos profetas. Com freqüência eles não se davam ao trabalho de dizer se os acontecimentos preditos — invasões, terremotos, um Líder que viria, uma terra recriada — aconteceriam no dia seguinte, ou mil anos depois, ou três mil anos depois. De fato, predições próximas e remotas freqüentemente aparecem no mesmo parágra­fo, tornando-se mutuamente indistintas. A famosa profecia de Isaías, "Eis que a vir­gem conceberá, e dará à luz um filho, e lhe chamará Emanuel", se encaixa nessa cate­goria. Os dois versículos seguintes deixam claro que o sinal se cumpriu nos dias do próprio Isaías (muitos estudiosos presumem que a criança foi um filho do próprio Isa­ías), e, no entanto, Mateus aplica o cumprimento final da profecia à Virgem Maria. Os estudiosos da Bíblia têm até expressões específicas para designar essa característi­ca comum aos profetas. Para um Deus que inclui todo o tempo, a seqüência é a ques­tão menos importante. Deveríamos, então, ficar surpresos com o fato de que incur­sões no tempo, feitas por um Ser atemporal, tivessem repercussões nos dias de Isaías, nos de Maria e até nos nossos?

* Certa feita o místico espanhol Unamuno, em conversa com um camponês, suge­riu que talvez houvesse um Deus, mas não o céu. O camponês pensou por um minu­to e então replicou: "Então para que serve esse Deus?"

* "Você já ouviu acerca do homem que acendeu uma lamparina numa manhã ensolarada e foi para o mercado gritando sem cessar: 'Procuro Deus. Procuro Deus'...?" "Por isso mofavam e riam às altas uns aos outros. O homem pulou para o meio deles e fuzilou-os com o olhar. 'Onde Deus está?' gritou. 'Vou lhes dizer. Nós o matamos, vocês e eu.' Todos somos seus assassinos, mas como é que pudemos fa­zer isso? Como poderíamos engolir o mar? Quem nos deu a esponja para remover o horizonte? Que faremos quando a terra se livrar do seu sol?'" — Friedrich Nietzsche, The Gay Science ("A Gaia Ciência").

 

                                                                                Philip Yancey  

 

                      

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