Translate to English Translate to Spanish Translate to French Translate to German Translate to Italian Translate to Russian Translate to Chinese Translate to Japanese

  

 

Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


DEMÔNIO SOMBRIO / Christine Feehan
DEMÔNIO SOMBRIO / Christine Feehan

 

 

                                                                                                                                   

  

 

 

 

 

         Nathalya Shonsky é descendente dos Caçadores de Dragões das Montanhas dos Carpatos e foi advertida desde a infância a temer os Caçados Carpatos. Agora Vikirnoff, um grande caçador salvou sua vida e se sente obrigada a cuidar de seus ferimentos, mesmo sabendo que ele faz parte da raça que matou a seu irmão. Vikirnoff a muito perdera a esperança de encontrar sua companheira, estava a tal ponto debilitado que nem mais certeza possuía de que não era a fera com quem lutava. Mas, encontrou sua luz junto a Nathalya, uma mulher diferente de tudo que havia esperado e imaginado. Uma caçadora, batalhando sempre, nunca admitindo ficar e ser protegida. Em meio a crescente descoberta dos sentimentos de ambos, precisam enfrentar a vampiros poderosíssimos, muita magia e um plano para matar o príncipe de sua gente.

 

 

 

 

       Natalya Shonski ergueu por suas pernas a calça de couro negro até ajustá-la a seus quadris, deixando-a perfeita em seu corpo. O couro a ajudava acautelar qualquer lesão durante a luta e tinha ciência certa que essa noite teria problemas. Logo que colocou a blusa de pele suave, seu olhar vagou meticulosamente ao redor do quarto que tinha alugado. O Hotel era pequeno mas acolhedor, com tapeçarias em suas paredes e coloridas colchas nas camas. Suas armas repousavam cuidadosamente em cima da preciosa colcha de algodão.

Começou deslizando as mais variadas armas em compartimentos especiais em suas calça de pele. Surikens. Algumas facas. Um cinturão com mais compartimentos para armas e duas cartucheiras para suas pistolas que ajustou apropiadamente debaixo de seus braços. Recorreu a uma de suas novas blusas campestres, na realidade camisetas brilhantemente coloridas que as mulheres da comarca usavam para se proteger do frio e que escondia com efetividade o arsenal, e a colocou.

A saia larga não só ocultava as calça, mas também a ajudava a misturar-se entre a população local. Escolheu uma bem colorida, melhor que a severa cor negra que freqüentemente usam as mulheres mais velhas, e colocou um lenço sobre sua juba aleonada, para passar desapercebida.

Satisfeita de estar se parecendo com as pessoas do lugar, deslizou os dois luchacos dentro de sua mochila e abriu as portas do balcão. Havia escolhido deliberadamente esse aposento no segundo andar. Seus muitos inimigos achariam difícil se aproximar sem passarem despercebidos enquanto que ela poderia escapar com facilidade para o andar inferior ou subir ao telhado.

Natalya apoiou suas mãos no corrimão do balcão inclinando-se para fora, para inspecionar a paisagem. O povoado ficava na parte mas baixa de um dos altos picos que formavam os Montes Cárpatos. Numerosas e pequenas granjas se espalhavam através das verdes e onduladas colinas. Montes de feno salpicavam os prados do caminho para os bosques acima na montanha. Acima do denso bosque estavam os picos rochosos, ainda brilhantes pela neve. Sentiu como se voltasse atrás no tempo, com os lares tão simples e a rústica forma de vida, sentia-se como se estivesse voltado para casa. E isso era verdadeiramente algo curioso já que ela não possuia um lar.

Natalya suspirou e fechou brevemente os olhos. Mais que tudo no mundo, invejava essas pessoas e suas famílias. Suas risadas, crianças e amor brilhavam em seus olhos e em suas faces. Tinha saudades pertencer a algum lugar. Ser necessitada por alguém, entesourada por uma só pessoa. Somente poder ser ela mesma, compartilhar uma conversa real...

Seus dedos encontraram profundas ranhuras no corrimão e começou a esfregar a madeira laqueada, pontas dos dedos nos sulcos, numa carícia. Sobressaltada, examinou as marcas na dura madeira. Parecia como se um grande pássaro tivesse colocado suas garras profundamente no corrimão, embora as marcas fossem antigas e os donos do hotel haviam conservado-o perfeitamente envernizado, o corrimão de madeira esculpida.

Inalou o ar noturno olhando o topo da montanha. Em algum lugar dali estava seu objetivo. Não fazia idéia do que a conduziria ao ponto exato, mas confiava em seus instintos. Precisava subir ao topo e encontrar o que era que não a deixava se soltar. A densa bruma ocultou o topo, envolvendo o pico numa nuvem impenetrável. Se a nuvem era feita por condensação natural ou por algo inexplicável, não havia diferença. Não tinha outra escolha que escalar a montanha, pois a compulsão que a conduzia era muito forte para ignorá-la.

Natalya olhou pela ultima vez a formada névoa branca e se voltou para o quarto. Não havia razão para postergar. Tinha passado a última semana misturando-se com as pessoas da cidadezinha, fazendo novas amizades com algumas mulheres, para fazer uma idéia da região. Notou que precisava do contato humano, que sua vida era muito solitária. Desfrutou do tempo passado com as mulheres do lugar e havia tirado bastante informação delas, mas estava sempre triste já que suas novas amizades nunca iriam além da superficialidade. Gostaria pelo uma vez de poder se dar o luxo de ser honesta com alguém que gostasse, que alguém como Slavica Ostojic, a proprietária da pensão soubesse quem era, alguém com uma vida solitária que desejava pertencer a algum lugar.

O corredor e as escadas eram estreitos e conduziam ao salão do andar de baixo, onde ficavam o restaurante de um lado e do outro, o bar. Muitos aldeãos se encontravam ali após um dia de duro trabalho, para tomar uma cerveja. Saudou duas ou três pessoas que reconheceu, seu olhar explodindo as peças, dispondo-se das saídas, janelas e sobre tudo, das caras novas. Alguns homens sentados no bar a olharam. Catalogou seus traços faciais, seus sorrisos amigáveis e seus olhares escrutinadores, guardando-os para o caso de que os voltasse a encontrar.

Um par de olhos moveram rapidamente sobre sua face, deixando-a sem respiração. A leitura foi intensa, mas rápida. Ele a estava lendo da mesma maneira que ela a ele. Ele se deu conta do par de luchacos que ela levava na mochilla e do ornamentado armamento. Natalya se virou com rapidez enviando um sorriso ao proprietário da hospedaria, agradecida por poder fazer uma saída elegante. Se ali havia uma sentinela vigiando, não queria que soubesse seus planos.

—Slavica,— ela segurou as mãos da proprietária nas suas. –Muito obrigado por esta comida maravilhosa.— Falou em inglês porque Slavica estava trabalhando em aperfeiçoar o idioma e sempre praticava. Deliberadamente conduziu à mulher longe do bar para um ponto mais seguro no salão onde ouvidos entrometidos não pudessem escutar sua conversa. – Estou indo para a montanha e estarei ausente por uns dias em minha exploração. Não se preocupe comigo - Voltarei Então que der.

Slavica assentiu – Está anoitecendo, Natalya. Aqui nas montanhas e bosques pode ser…— Ela pensou procurando a palavra correta. — Perigoso. Será melhor que explore durante o dia quando o sol brilha e há pessoas por perto. — Ela olhou para cima encontrando os olhos de seu marido através do aposento e sorriu.

Natalya instantaneamente sentiu uma pontada de inveja. Gostava de olhar à proprietária junto a seu marido, Mirko e sua filha, Angelina. Seu mútuo amor era sempre tão óbvio nos superficiais olhares que mudavam e nos pequenos toques enquanto trabalhavam.

— Saí a cada tarde e você nunca objetou nada— Natalya lhe recordou. –E quase todas essas vezes o ocaso estava próximo.

Slavica lhe sorriu levemente. – Sinto a diferença esta noite. Sei que pensará que sou supersticiosa, mas algo não está bem esta tarde e é melhor que fique aqui conosco.— Ela segurou o braço de Natalya. –Há muito o que fazer aqui. Mirko jogará xadrez com você. É bastante bom. Ou lhe ensinará mais a respeito das ervas locais e como as usamos para nos curar.— Slavica era uma enfermeira experimentada, renomada por suas aptidões em todo o distrito e por seu conhecimento sobre as ervas curativas locais e como usá-las. O assunto fascinava Natalya que desfrutava passando o tempo em companhia de Slavica enquanto a mulher repartia seu conhecimento.

Natalya negou com a cabeça, com um sentimento de culpa persistente. Slavica era o tipo de mulher que fazia com que sofresse por ser parte de uma família e comunidade. —Obrigado, Slavica, mas estou protegida.— Ela tirou a cruz que trazia pendurada por uma corrente de prata, escondida debaixo de sua blusa. –Agradeço sua preocupação, mas estarei bem.

Slavica começou a protestar, mas parou apertando seus lábios firmemente e assentiu.

—Sei o que estou fazendo, - assegurou-lhe Natalya. –Sairei pela cozinha se não se importar. Tenho comida e bebida suficiente para vários dias e estarei de volta em meados da semana que vem, ou antes.

Slavica caminhou junto a ela através do restaurante. Natalya arriscou outro olhar ao homem que estava estado no bar falando com Mirko. Ele parecia absorto na conversa, mas ela não acreditava. Havia mostrado interesse nela e não era um interesse de homem para uma mulher. Não sabia o que era, mas não lhe daria a oportunidade de lhe mostrar Fez uma ligeira reverência para ele, com a cabeça. —Quem é? Não o tinha visto antes.—

—Viaja muitas vezes a negócios.— A expressão de Slavica não deixava nada ao azar. –É um homem muito silencioso e não se sabe quais são seus negócios.—

—É casado?—

A proprietária a olhou, alarmada. –Este não é homem para voce, Natalya. É bem vindo aqui como todos os viajantes são, mas o não é para você.

Natalya não quis arriscar outro olhar na direção do homem. Estava passando com suas observações e não queria levantar sua atenção. Caminhou atravez do restaurante para a pequena cozinha. Ali estava a inevitável cesta de batatas e queijo de ovelha. –Não se preocupe, não estou procurando um homem.

-Vi a nostalgia em sua face e em seus olhos quando olha as crianças. Quando vê casais - Disse Slavica, gentilmente. - Deseja uma família própria.

Natalya encolheu os ombros, evitando o olhar da outra mulher, não querendo ver a compaixão que sabia que estaria ali. Havia tornado tão óbvia? Quando havia lhe tornado tão difícil ocultar seus sentimentos sob sua cuidadosa e cultivada personalidade?

- Eu gosto de viajar. Eu não gostaria de estar presa a ninguem. - Era uma flagrante mentira e pela primeira vez em sua vida, soube que se delatou.

-É natural desejar uma família e um homem próprio. Eu esperei até encontrar o correto, -aconselhou Slavica- Mesmo quando meus pais e vizinhos pensavam que era muito velha e nunca o encontraria, eu acreditava que era melhor esperar que cometer um engano e me prender a alguém com quem não queria passar minha vida. Esperei por Mirko e foi o certo. Tenho uma linda filha e este lugar e isso é suficiente. Somos felizes juntos. Entende, Natalya? Não se entregue a qualquer homem só porque acha que o tempo passa.

Natalya assentiu solenemente.

- Entendo e estou completamente de acordo. Não me sinto desesperada por encontrar um homem, longe disso. Verei-a logo. – Ela empurrou a porta da cozinha, ondeou uma alegre saudação para a carrancuda mulher e se apressou para a noite.

Após o calor e a calma da estalagem, o ar era frio, mas estava preparada para isso. Caminhou energicamente ao longo da estreita estrada que conduzia para o caminho da montanha. Uma carroça vazia passou e ela gritou pedindo uma carona. O granjeiro pensou e depois se deteve por ela. Natalya levantou a saia e correu para subir antes que pudesse mudar de opinião. A maior parte dos aldeãos utilizavam carroças com cavalos em vez de carros. Eram veículos simples, um carro puxado por um ou dois cavalos. Eram usadas para tudo, de transporte à carga de grandes fardos de feno.

- Obrigado, senhor. - Disse enquanto jogava sua mochila e subia a bordo. Colocou na parte de trás, não desejando deixar o granjeiro mais incômodo do que já parecia estar, levando uma mulher desconhecida.

Para sua surpresa ele falou. A maior parte dos homens casados eram bastante reservados com as mulheres jovens e solteiras.

-O que está fazendo fora de casa tão tarde? O sol se pôs. – Ele olhava nervosamente ao redor.

- Você está certo. – Concordou ela, evitando a pergunta. - Você está fora também.

- Não é bom. - Disse ele. - Não esta noite. - Manteve a voz muito baixa. A preocupação em seu tom era inequívoca.- Seria melhor que permitisse que minha esposa e eu lhe déssemos refúgio para a noite. Ou poderia levá-la para a estalagem. –Ele estava levantado o olhar à lua e as nuvens que se formavam sobre ela, bloqueando parcialmente a luz e ficou claro que não queria voltar atrás. Sacudiu as rédeas para apressar o cavalo.

Natalya levantou o olhar para o céu e as nuvens que não estavam ali minutos antes. Pesada, a névoa que escurecia o topo das montanhas, se estendia como dedos ossudos, estendendo-se para a lua e descendo para o céu. O relâmpago perfilhava a névoa em arcos dourados. O trovão retumbava na distância, centrado principalmente sobre a montanha.

Ela deslizou a mão dentro de seu colete de couro e tocou a culatra de sua arma.

- O tempo muda com rapidez esta noite e não é natural.

-Então aconteçe nas montanhas, - Disse o granjeiro, cacarejando o cavalo com urgência-. É melhor procurar refúgio até que as coisas se tranqüilizem.

Natalya não replicou. Tinha que chegar ao topo da montanha. Os espiões haviam feito seus inimigos saberem que estava perto? Estavam esperando-a? Voltou sua atenção à paisagem que passava tão rapidamente. Havia movimento entre as sombras? Se havia, tinha que dirigir os problemas para longe do granjeiro. Tinha que viajar rápido além do perímetro do povoado e internar-se bem nas ondeantes colinas onde as granjas dedilhavam a paisagem.

Permaneceu alerta, procurando sinais de um ataque iminente, seu sentido estendido na noite, procurando informação. Inalou, tomando o ar noturno em seus pulmões, trabalhando em desentranhar as histórias que o vento lhe trazia. O vento carregava o cheiro do mal. Sussurros de movimento no bosque. A fragrância dos lobos, inquietos sob a lua. Seu queixo se elevou. Que Então fosse. Não estava procurando problemas. Ela era, na realidade, normalmente a primeira a se afastar, mas estava cansada de ser perseguida, de olhar sobre seu ombro a cada minuto de cada dia. Se quisessem briga, estaria preparada, porque desta vez não iria dar as costas.

O granjeiro colocou a carroça num estreito caminho. O cavalo diminuiu o passo para fazer o agudo giro e Natalya saltou, saudando o granjeiro enquanto ele se apressava a afastar. Ele a chamou, mas ela seguiu adiante, caminhando energicamente colina acima, para a linha de árvores.

No momento em que se sentiu segura de que estava fora de vista, tirou a saia e blusa coloridas, dobrando-as junto com o cachecol e colocando-as em sua mochila.

Os luchacos foram parar na parte de trás de seu cinturão, para uma fácil recuperação. Sua conduta mudou por completo quando pegou o familiar armamento. Andou a passos rápidos com tremenda confiança, entrando e saindo por trás fardos de feno até que saiu longe das granjas. Um atalho conduzia montanha acima, num caminho de cabras, não de humanos, mas o tomou porque era a aproximação mais direta.

Atravessou um campo de flores alpinas. Havia flores em todas as partes enquanto se empurrava através da folhagem alta, para a costa de árvores. A lua estava quase completamente oculta pelas nuvens escuras. Flores e folhagens deram passo a arbustos e mata. Grandes rochas dedilhavam a costa. Umas poucas flores mais dispostas conseguiam encontrar seu caminho nas fendas. As árvores eram pequenas e sujas, mas quando abriu passo através de mais duas curvas do caminho, a vegetação mudou completamente, crescendo mais alta e espessa.

Natalya havia estudado as Montanhas dos Cárpatos. Sabia que a cordilheira era um dos maiores lares de carnívoros da Europa, que rica em ursos pardos, lobos e linces. As montanhas se estendiam através de sete países na Europa Central e os bosques pesadamente povoados eram uns dos últimos refúgios que restavam na Europa, de estranhos e quase extintos pássaros e grandes predadores. Ainda sendo lar de milhões de pessoas, as Montanhas dos Cárpatos alardeavam ter enormes partes de terra que continuavam sendo completamente selvagens e perigosos.

Parou para examinar o bosque antigo que a rodeava. A região recebia duas das cascatas circundantes e o assombroso bosque e as colinas verdes que evidenciavam a quantidade de água que alimentava o sistema de rios abaixo. As vívidas cores verdes a atraíam para a frescura do bosque quase como faria uma compulsão. Por que conhecia este lugar? Como tinha sonhado com ele? Como sabia que quando tomasse o caminho da esquerda, que não era mais que um caminho de veados, este a conduziria profundamente ao interior do bosque onde encontraria o débil rastro que a levaria ao topo das montanhas, ao interior da formada névoa, onde pouca gente se aventurava?

Moveu com rapidez pelo atalho, utilizando a pouca luz, com um passo que a levava a atravessar os arbustos rapidamente. Tinha que chegar ao topo da montanha e encontrar a entrada das cavernas, antes que saísse o sol.

O bosque se fez mais denso, as plantas mais exóticas e exuberantes quando se apressou através das árvores aparentemente impenetráveis. Os ramos ondeantes se entrelaçavam no alto, bloqueando a maior parte da luz da lua. Natalya não tinha problemas em ver por onde ia. Em adição a sua excelente visão noturna, sempre tinha tido um sentido de radar que evitava que tropeçasse em obstáculos.

Movia-se através do bosque velozmente, mas com precaução instintiva, completamente alerta, consciente do menore dos toques, do silêncio dos insetos e das mais débeis fragrâncias que indicariam que não estava sozinha.

Sua boca ficou súbitamente seca e seu coração acelerou. Os cabelos de sua nuca se arrepiaram com inquietação. Estava sendo espreitada.

Atrás dela, deslizavam sombras ao redor das árvores num esforço de rodeá-la. Natalya continuou andando ao mesmo passo firme. Enquanto andava transferiu suas armas aos familiares sulcos da parte alta do mesmo, preparando-se para a luta.

O primeiro lobo correu para ela saindo da cobertura dos arbustos, quando ela cruzava um pequeno arroio. Natalya não diminuiu o passo, mas interceptou a carga com um balanço bem praticado. O rangido foi audível, o lobo chiou e saltou para trás enquanto ela passava. Ela se voltou, tirando a espada limpamente do cinturão e jogando de um lado a bainha, para enfrentar o lobo.

-Se quer brigar comigo, irmão, adiante. Tenho lugares aos quais ir e você está atrasando minha viagem. – Ela falou as palavras em voz alta enquanto andava para o animal, caminhando deliberadamente a favor do vento, para que este levasse sua essência à manada.

O lobo cheirou o ar e retrocedeu, súbitamente precavido. Os membros da manada se amontoaram ao redor, confusos. Natalya grunhiu de sua garganta, a advertência de um animal selvagem e perigoso. Seus olhos vividamente verdes começaram a mudar-se para um intenso azul, tornando-se quase opacos quando despiu os dentes para a manada. Nervuras de negra meia-noite e brilhante laranja... Quase vermelho, mudou seu cabelo. Os lobos se dispersaram, afastando-se a passo firme dela. Somente a fêmea Alpha voltou o olhar para trás, grunhindo e mostrando seu desagrado ante a fragrância estranha. Natalya vaiou uma advertência e a fêmea fugiu atrás da alcatéia.

- É o que pensava. - Gritou Natalya atrás deles, deslizando a espada de volta à bainha. Esperou para se assegurar de que os lobos haviam ido embora, antes de continuar subindo a ladeira da montanha, movendo-se firmemente para sua meta.

Rodeou uma árvore capida e coberta de musgo e samambaias e deslizou até fazer uma parada abrupta quando um homem saiu de ,trás de uma árvore diretamente diante dela. Era alto, de cabelo escuro, muito bonito, de ombros largos e sorriso triste. Natalya examinou a região com cada sentido, em alerta máxima. Ele não estava sozinho, estava segura disso.

Deixou cair sua mochila no chão e sorriu ao homem.

- Esperava-o há uma boa hora.

Ele se inclinou, a moda antiga.

-Sinto chegar tarde então, senhora. Vim para preparar sua chegada. – Ele abriu os braços amplamente para abranger a região ao redor deles.

-Não era necessário que se vestisse com sua roupa de domingo – Disse, Natalya.- Embora a alternativa seja bastante horrorosa.

Um laivo de raiva ondeou através da face do homem, mas ele manteve o sorriso. Seus dentes não eram tão brancos e pareciam pontiagudos e afiados.

-Por favor baixe o cinturão.

-Acha que vou deixar isso tão fácil? Não estou muito contente com você, Freddie.

Desta vez a raiva permaneceu. Manchas marrons apareceram nos dentes do homem.

-Não sou Freddie. Quem é Freddie? Meu nome é Henrik.

- Não sai muito, não é? Não vê os filmes de madrugada? Freddie é uma estrela. Um assassino. Um serial muito feio, muito parecido a você. Na verdade, não me importa seu nome. O que me importa é que persiste em me seguir e estou condenadamente cansada disso. Então dê seu melhor golpe Freddie e acabemos logo com isto.

O respiração de Henrik saiu num longo vaio de raiva.

- Eu te ensinarei respeito.

Sem se incomodar em replicar, Natalya lançou seu ataque, liberando sua espada enquanto corria para ele. A espada formou um arco através do ar para o pescoço do homem.

Henrik se dissolveu em vapor, flutuando para longe dela e um grito de raiva ressoou através do bosque. Ele apareceu a vários metros de distância. Seu espesso cabelo negro havia desaparecido para ser substituído por longas mechas brancas.

- Deveria ter saber que é um neném. Achei que os vampiros deviam ser tipos duros, mas você é todo um bebê. Queria briga... - Natalya continuou aguilhoando-o Tenho coisas a fazer esta noite. Não tenho tempo de brincar contigo.

- Você foi muito longe. Não me importam as ordens. Vou matar você. - Grunhiu o vampiro.

Natalya sorriu-lhe aombeteiramente, fazendo uma pequena saudação.

-Alegra-me ver que pode pensar por sua conta. Acreditava que seu amo o havia treinado bem, para que pensasse por si mesmo.

O ramo sobre ela rangeu e rompeu, lançando-se para sua cabeça como um míssil. Natalya saltou para frente, tomando a ofensiva, conduzindo a espada diretamente ao peito de Henrik. O ramo golpeou o chão exatamente onde ela havia estado de pé.

O vampiro interceptou a espada com um balanço de seu braço. Era enormemente forte e o contato enviou violentas vibrações pelo braço de Natalya fazendo com que por um momento tudo nublasse e a espada deslizasse fora de sua mão. Continuou se movendo, virando quase no meio do ar, já procurando suas armas. Tirou-as, disparando rapidamente enquanto corria para ele, as balas o golpearam repetidamente, empurrando-o para trás, para longe dela.

Henrik se sacudia a cada bala, cambaleando, mas mantendo-se erguido. Quando esteve a um braço de distância, ela embainhou uma arma e tirou uma faca, mantendo-a baixo, perto de seu corpo enquanto se dirigia para ele.

Ele tentou mudar de forma, procurando-a com braços contorneantes e mãos como garras. Ela conduziu a faca para o interior do peito dele , profundamente em seu coração e saltou longe para evitar que o sangue tocasse sua pele. Aprendera por experiência que o sangue do vampiro ardia como ácido. Também aprendera que os vampiros podiam se elevar uma e outra vez.

Voltou-se e correu em busca de sua espada. O vendo soprou sobre ela, um estranho redemoinho de folhas e ramos. Asas golpearam com força sobre sua cabeça e garras se materializaram do céu, caindo em alarmante velocidade diretamente para seus olhos. Natalya se atirou no chão numa cambalhota, erguendo-se sobre um joelho, com as armas nas mãos, seguindo o enorme pássaro. Este já havia se disolvido em névoa. As gotas brilharam tenuemente e começaram a tomar a forma de um humano.

Esperou. Era impossível matar um vampiro sem forma. Henrik já estava se retorcendo, tirando da faca enterrada em seu coração. Chamava fracamente o recém-chegado. Ela deu um suspiro.

-Morra já! Jesus, o menos que poderia fazer é acabar com sua miséria e terminar de uma vez.

- Boa noite, Natalya. -A voz era hipnótica, quase memorizante.

- Bem, mas se for meu bom amigo Arturo. - Natalya enfrentou o vampiro com um falso sorriso. - Que bom vê-lo novamente. Passou muito tempo. – Ela gesticulou com a arma para o vampiro que se retorcia.- Seu companheirinho está fazendo muito ruído. Importaria-se de terminar com ele para que possamos conversar sem música de fundo? Se existe uma coisa que não posso suportar é um vampiro chorão.- Deliberadamente, ela continuou aguilhoando Henrik, sabendo que quanto mais furioso ficasse o vampiro, mais enganos cometeria em batalha.

-Não mudou muito.

- Aprendi maneiras. – Ela sorriu de volta ao recém-chegado. - Estou perdendo minha tolerância com os de seu tipo.

Arturo olhou o vampiro que sagrava arranhando, arranhando o chão.

- Dá para notar. É bastante ruidoso, não é? – Ele se aproximou e arrancou a faca do coração de seu companheiro e a jogou para um lado, golpeando o vampiro com o pé, desdenhosamente.- Levante, Henrik.

Henrik conseguiu cambalear até ficar em pé. Gritou e vaiou, saliva e sangue corriam por sua boca.

- Vou matar você. – Ele grunhiu, fulminando Natalya com o olhar.

- Cale-se, disse Natalya. - Está se tornando repetitivo.

- Não escapará desta vez. - Disse Arturo. - Não pode superar Henrik, a mim e aos lobos. Ouve-os? Estão a caminho para nos assistir.

- Tira toda a graça de lutar, porque nunca briga limpo. - Queixou-se Natalya. - Não tem honra.

Arturo lhe sorriu com seus perfeitos dentes brancos.

-O que é a honra depois de tudo, Natalya? Não vale nada.

 

Vikirnoff Von Shrieder soube no momento em que entrou nas espessas árvores que algo malvado esperava ali. A advertência estava no silêncio do bosque, na forma em que a terra estremecia e as árvores se encolhiam de medo. Nenhuma só criatura vivente se movia. Pouco importava. Ele era um caçador e esperava que o perigo o encontrasse. Aceitava sua forma de vida há séculos.

Deu um passo e parou bruscamente quando a erva esmiuçou sob seus pés. Olhou para baixo, esperando ver os caules se enrugarem. O bosque estava se encolhendo ao contato direto com ele? Sentia a escuridão sombreando-se a cada passo, a cada respiração que tomava? A natureza bem podia chamá-lo de monstro... Vampiro, um homem dos Cárpatos que deliberadamente havia escolhido entregar sua alma pela momentânea rajada de poder e emoção de uma morte enquanto se alimentava.

Era uma escolha, certo? Tomara uma decisão e já não era consciente se era boa ou má? Existia semelhante coisa? A idéia deveria lhe haver angustiado, mas não o fez. Não sentia nada, absolutamente, sequer quando contemplava a idéia de já não ser completamente um homem dos Cárpatos, de que o predador nele tivesse consumido tudo exceto alguma pequena faísca que restava de sua alma.

Caiu de joelhos, com suas mãos introduzindo-se através da cobertura de folhas e ramos que cobriam o chão do bosque e afundando-se profundamente na rica e escura terra abaixo. Elevou a face para o céu noturno.

-Susu - Sussurrou em voz alta. - Estou em casa. - Seu idioma nativo vinha a sua língua naturalmente, seu sotaque se espessou mais que o normal ,como se de algum modo só em estar nas Montanhas dos Cárpatos pudesse lhe fazer retroceder no tempo.

Após tantos séculos de exílio ao serviço de sua gente, finalmente voltava para seu lugar de nascimento. Ajoelhou-se em completo silêncio, esperando alguma coisa. Algo. Alguma piscada de emoção ou de recordação. Esperava que a terra lhe proporcionasse paz, serenidade, proporcionasse-lhe alguma coisa, mas comente havia esse mesmo vazio ermo com o qual despertava a cada sublevação.

Nada. Não sentia absolutamente nada. Inclinou a cabeça e ficou olhando ao redor. O que desejava ou mesmo precisava, não sabia, mas não houve inundação de emoção. Nem júbilo e nem desilusão. Sequer desespero. O bosque parecia frio e cinza com retorcidas e malévolas sombras esperando por ele. O interminável círculo de sua vida permanecia. Matar ou ser morto.

A fome estava sempre presente agora, um suave sussurro sedutor em sua mente. A chamada do poder, da salvação e da falsa idéia que sabia que era, ganhara força a cada sublevação. Tinha lutado batalhas, muitas delas para contá-las, destruído a velhos amigos, homens aos quais respeitava e admirava, observando a queda de sua gente e tudo para que?

- Me diga a razão. - Sussurrou para a noite-. Deixe-me entender o completo desperdício de minha vida.

Alimentara-se esta noite? Tentou recordar a ocasião de seu despertar, mas parecia muito problemático. Certamente não havia tomado uma vida enquanto se alimentava. Era como ocorria então? Não havia escolha real, mas uma lenta indiferença pervertendo a mente até que uma morte acontecia à outra? Até que a alimentação se misturava com uma morte e sua indiferença se convertia na arma de sua própria destruição?

Olhou para o sul onde sabia que o príncipe de sua gente residia. O vento começou a pegar velocidade e força, soprando através do bosque em direção sul.

-A honra é um traço diabólico que pode não durar uma eternidade. - Vikirnoff murmurou as palavras com um pequeno suspiro enquanto se elevava e jogava para trás o longo cabelo, prendendo-o na nuca com uma tira de couro. Ainda tinha sua honra? Depois de séculos de lutas para manter sua palavra, a fera escondida ao fim o consumira?

As folhas nas árvores mais próximas a ele começaram a tremer e os ramos se balançaram com alarme. Ele era um homem dos Cárpatos, nascido de uma raça ancestral agora a ponto de se extinguir. Restavam poucas mulheres e eram muito importantes para os homens e a preservação da vida. Duas metades do mesmo todo, a escuridão controlava os homens enquanto a luz morava nas mulheres. Sem mulheres para ancorá-los, os homens estavam caindo nos ávidos queixos de seus próprios demônios.

Vikirnoff coexistia com humanos, vivia entre eles, tentando manter honra e disciplina num mundo onde já não via cor ou sentia sequer a mais leve das emoções. Depois de dois mil anos, seus sentimentos se descoraram e através dos longos séculos intermináveis, o escuro predador nele havia crescido em força e poder. Só lembranças descoloridas de risos e amor o sustentavam e depois seu vínculo com Nicolae, seu irmão. Que também havia desaparecido, com Nicolae a um oceano de distância.

Vikirnoff tinha vivido muito e se tornara perigoso. Suas habilidades de luta eram superiores, forjadas e afinadas em numerosos encontros com aqueles de sua raça que tinham escolhido entregar suas almas pela momentânea ilusão de poder ou provavelmente, mais tragicamente, por um breve momento de sentimento. Sentia como se ele sozinho, estivesse destruindo sua própria raça. Tantas mortes. Tantos amigos perdidos.

- Para que? - Perguntou em voz alta. - Möéri? - Sussurrou outra vez em seu próprio idioma.

Deliberadamente utilizou sua própria língua ancestral para recordar seu dever, sua promessa a seu príncipe. Ofereceu-se voluntariamente para ser enviado ao mundo longe dali. Foi escolha sua. Sempre sua escolha. Mas ele já não era livre. Estava tão perto de ser quando caçava, que quase não podia separar as duas coisas.

O chão se ondeou gentilmente sob seus pés e o céu noturno retumbou com uma advertência ameaçadora. Em alguma parte adiante dele estava sua presa... Uma mulher de olhos azuis a qual havia açoitado através de um oceano. Entre a mulher e Vikirnoff havia um vampiro... Ou provavelmente, mais de um.

Vikirnoff tirou a fotografia de seu lugar perto do coração. Via somente sombras de cinza, mas soubera que ela tinha olhos tão azuis como o mar e Nicolae havia lhe dito que seu cabelo era negro como ameia-noite. Azul como os quase esquecidos lagos gelados de sua terra natal. Variados tons de azul do céu no alto. Havia acreditado... Esperado... que talvez saber instintivamente esse pequeno detalhe, significasse que estava perseguindo sua companheira. A outra metade de sua alma, luz de sua escuridão, a única mulher que poderia restaurar as cores perdidas e acima de tudo, sua capacidade de sentir alguma coisa. Essa esperança, também empalidecera com o tempo, deixando-o sozinho no mundo, um lugar ermo e feio.

O ar carregava eletricidade, rangendo e estalando junto com o trovão vindouro. As formações de nuvens se amontoavam no céu, grandes torres se retorciam para cima. Inconsciente acariciou com o polegar, a fotografia da mulher, como fizera tantas vezes antes. Tinha sonhos, é claro, da perfeita companheira dos Cárpatos. Uma mulher com este rosto, com estes olhos, uma mulher que faria o que ele ordenasse, cuidando de sua felicidade enquanto ele assegurava a dela. A vida seria pacífica, serena e cheia de alegria e acima de tudo, de emoção. Guardou a fotografia, sobre seu coração, onde ela estaria protegida. Poderia mesmo suspirar com arrependimento. Ele não podia sentir arrependimento ou desespero. Só o interminável vazio.

-Tem que parar! - As palavras se formaram em sua mente, num vínculo telepático de inesperada força. - Suas emoções são tão incrivelmente fortes que não posso imaginar como não reconhece que existem. Está-me devastando, me arrancando o coração. Não posso confrontar isto agora. Controle suas emoções ou maldito seja, se afaste de mim!

A voz feminina se formou em sua mente, deslizou-se nela e em seu corpo, invadindo seu coração e apressando-se através de seu sangue com a raivosa força de uma tempestade de fogo. Durante quase dois mil anos tinha existido em sombras de cinza sem sentir nada. Vivera num mundo interminável e rigorosamente ermo sem desejo, raiva ou afeto. Num momento todo mudou e sua mente era um caos instantâneo.

As cores o cegaram, juntas a uma velocidade que seus olhos e mente não puderam aceitar. Seu estômago se retorceu, enquanto lutava para permanecer alerta, enquanto a terra sob seus pés se inchava e rodava. Uma comporta se abriu e onde antes não havia nada, agora estava tudo, numa selvagem confusão de cada emoção com sua tremenda força e poder, alimentando o caos.

As árvores mais próximas a ele se partiram em duas e o som foi horrendo quando os troncos caíram ao chão, sacudindo a terra. Uma brecha se abriu no chão perto dele, seguida por uma segunda greta dentada e depois outra. As pedras moveram e ondearam e outra fila de árvores partiu e esmagou.

O demônio nele elevou a cabeça e rugiu pedindo alívio, arranhando-o com grandes garras, lutando por se liberar, abandonar a honra e ir atrás da única coisa que pertencia somente a ele. Sua salvadora. Ou talvez ela fosse sua condenação. Seus incisivos se alongaram e seu sangue se esquentou tanto que ele temeu que pudesse arder em chamas.

- Oh! Meu Deus! É um deles. - O terror fazia com que a voz dela tremesse.

Como havia compartilhado sua solidão, dor e pena com ela, compartilhava sua escuridão e a terrível intensidade de suas emoções. Ela sentia sua enervada necessidade de violência. A rajada que a morte proporcionava. A fome primitiva, crua e sexual que controlava seu corpo e se misturava com a possessiva luxúria por reclamá-la. Ela compartilhava todo isso com ele, não só o selvagem júbilo, mas cada feroz necessidade e desejo que vertia em seu corpo. Cada questão de sua vida, a gradual necessidade de caçar e matar. A loucura de sua fera elevando-se e lutando para se ver livre, para se soltar com o único propósito de consegui-la.

O medo o golpeou em grandes ondas, quase se somando ao terror, rapidamente convertendo-se em resolução. As emoções eram tão fortes que seu estômago se revolveu. Levou um momento para compreender que os sentimentos dela se vertiam nele com igual força que os próprios. Ela lutaria e ele não tinha mais escolha que lutar e ganhar. O medo desvaneceu. O terror desvaneceu. Derrotaria a qualquer um que fosse a ela porque era a única forma que restava de sobreviver.

Vikirnoff se fechou a ela, cortando bruscamente a tempestade de emoções que rompia através dele. Procurou um caminho mental, um rastro que o conduziria de volta à mulher. Ela lhe pertencia. A nenhum outro. A nenhum outro Cárpato. Nem aos vampiros que lhe seguiam o rastro. Era dele. Seria sua ou muitos... Humanos e Cárpatos... Morreriam.

Respirando forte para restaurar seu controle, Vikirnoff elevou a cabeça lentamente e olhou ao redor. O bosque parecia ter se expandido e crescido com brilhantismo, mesmo na escuridão da noite, como se tivesse tomado um forte alucinógeno. Sobre sua cabeça as nuvens eram negras de fúria, recortadas com brancos relâmpagos. Retorcidos fios de névoa serpenteavam através das árvores e se amontoavam com o passar do chão.

Vikirnoff permaneceu imóvel, permitindo que sua experiência como caçador o guiasse, em vez de seguir os comandos de sua caótica mente. Esperou, sorteando as frenéticas sensações, esperando a calma antes de entrar em ação.

Enquanto isso saboreava o som da voz dela. O atalho que conduzia de volta a ela era sutil, quase sutil demais para segui-lo. Era assombroso. Ela era e não era Cárpato. Era humana, embora não humana. Havia sentido o sussurro de poder em sua voz, o sutil "empurrão" quando havia tentado forçar sua obediência. Ela tentara forçar sua obediência. Respirou fundo outra vez, inalando o ar profundamente a seus pulmões, para encontrar sua fragrância.

 

Natalya gesticulou e as patéticas lágrimas nublaram sua visão. Seu coração palpitava de terror, mas apertou os dentes sobriamente. Poderia matar Henrik e poderia superar Arturo. Podia até se livrar dos lobos, mas acabava de tocar um ser tão poderoso que nunca queria se ver misturada a ele. Ao primeiro toque, tinha pensado que era um caçador, um dos quais tinha matado a seu irmão irmão gêmeo e a perseguia. Mas suas emoções eram tão tristes e desesperadas, que quase havia arrancado seu coração.

Nunca havia experimentado uma conexão tão forte antes. Não tinha intenção de que ele a ouvisse protestar. Não fazia idéia de como estava no mesmo caminho mental para compartilhar tão intensas emoções, mas não queria ficar para averiguar como havia acontecido. Nunca tinha sido bombardeada com semelhante explosão de emoções antes. Os sentimentos dele eram de luxúria e posse, júbilo e alívio. Tudo presos pela necessidade de matar. Tinha que escapar antes que, o que fosse ou quem fosse, o que havia tocado acidental e psiquicamente, a rastreasse.

- Olhe quem chora agora. - Disse Henrik, com desprezo. - Sabia que era tudo conversa.

-Tem razão, Freddie. Eu gosto de conversar. – Concordou Natalya enquanto dirigia três facas lançadas em rápida sucessão para ele. Cada uma afundandou até o cabo, uma no coração, uma na garganta e a outra na boca-. Mas, como já disse, odeio escutar choramingações.

Henrik caiu ao chão de novo, uivando e se retorcendo, arranhando grandes buracos no chão, seu sangue murchando a vegetação num amplo círculo a seu redor.

Arturo suspirou.

-Isso não foi agradável, Natalya. Vai ser muito mais difícil de controlá-lo. Não a quero morta e ele insistirá.

Natalya olhou o escurecido interior do bosque. Até agora estava bastante fácil. Nenhum vampiro tinha tentado matá-la. Seus últimos encontros com o não-morto tinham sido estranhos, por que nenhum deles parecia disposto a matá-la. Isso lhe dava uma clara vantagem em batalha, mas era um mau presságio para seu futuro. Descobrira a alguns anos antes, que estavam perseguindo-a para um propósito que não podia imaginar e eles eram muito persistentes em sua perseguição.

- Não acredito que precise dele realmente, Arturo. – Ela disse. - É um companheiro bastante patético, não é?

-Mas um sacrifício útil. - Assinalou Arturo.

Natalya estava tendo problemas com sua visão. As cores corriam juntas, vívidas e brilhantes apesar das nuvens escuras que viravam ao redor da lua. As folhas de brilhante prata, afligindo seus olhos provocariam que quando lançasse seu ataque a Arturo, perdesse ligeiramente sua percepção de profundidade. Não podia permitir-se esperar. Era óbvio que Arturo estava utilizando Henrik como tática, esperando reforços e ela sabia que o caçador estava a caminho.

Por necessidade foi pela morte, saltando pelo ar, só despindo a faca oculta em sua mão no último segundo, quando o laçou diretamente ao peito de Arturo. Saltou de um lado para poder abrir um fino e longo corte em seu ombro e braço. Quando passou junto a este, Arturo estirou o outro braço e bateu as garras contra seu lado, arranhando profundamente.

 

A dor floresceu profunda e até o osso. Vikirnoff se abaixou, surpreso de ver sangue emanando de uma ferida aberta. Pressionou a mão sobre o lado, seus olhos brilhando e as presas explodindo em sua boca. Grunhiu, já mudando de forma, tomando a de uma coruja. Quando seus músculos explodiram, os tendões rangeram e então a dor desvaneceu. Voltou a olhar para baixo e não havia mais sangue. Nada. Suas roupas, sua pele e quando completou a mudança, suas plumas iridescentes, estavam imaculados.

Havia pensado que o perigo que ela sentia estava dentro dele, que ela havia resolvido lutar com ele. Algo mais perverso e ardiloso os tinha conduzido a uma armadilha e ela pagara um terrível preço. Se não era seu sangue e sua dor, então só havia outro de qual podia ser. O vampiro que tinha detectado antes não estava entre eles, já a encontrara. Em alguma parte adiante dele, sua companheira estava lutando por sua vida.

Profundamente no interior da forma da coruja, Vikirnoff jogou para trás a cabeça e rugiu com raiva. Correu através das árvores, com asas poderosas batendo com força, esquivando os ramos numa corrida suicida através das densas árvores. Manobrava mais por instinto, que por visão, permanecendo sob a grossa canopia. Sentiu a perturbação incrementar e reduziu a uma velocidade mais aceitável, movendo-se com naturalidade como uma coruja entre os ramos das árvores e ganhando mais altura para divisar a presa.

Sob ele, viu movimento. Formas escuras deslizando-se silenciosamente através das árvores, deslizando-se de uma sombra, a seguinte. A selvagem fragrância dos lobos misturados ao doce aroma do sangue. Diretamente abaixo havia uma região de matagais rodeada por um arvoredo. Caiu mais baixo enquanto deslizava entre os ramos, tornando seu corpo menor, sem se preocupar de que o uso de poder pudesse delatar sua presença. Podia ver um vampiro retorcendo-se no chão, grunhindo, amaldiçoando e jurando vingança enquanto tentava tirar várias facas de seu corpo.

Vikirnoff sabia que sua companheira estava nesse arvoredo. Cada instinto protetor se elevou, cada possessivo traço Cárpato existente nele, seus instintos impressos lhe diziam que ela estava ali. Só que não podia vê-la.

Um movimento atraiu seu olhar. Vikirnoff pousou o corpo de coruja silenciosamente num ramo retorcido, alto sobre o chão, baixando as asas e procurando movimento abaixo dele. Uma forma sombria se separou de um tronco nodoso e reptou ao longo da rica vegetação, ignorando as folhas que murchavam e a erva enegrecida, como se deslizasse para limpar um espaço no centro das árvores.

- Você está ferida. Deixe-me te ajudar. - A sombra elevou a cabeça, tomando uma forma mais substancial enquanto cheirava o ar. - A fragrância do sangue é tão intoxicante.

Nem os agudos olhos da coruja puderam divisar a mulher, até que ela se moveu. Pareceu emergir das árvores, seu corpo era difícil de localizar mesmo com os fachos de luz da lua. As nuvens viravam no alto mudando a luz continuamente, lançando raias sobre ela. Vikirnoff conteve o respiração quando ela passou da completa imobilidade a um fluido movimento, afastando-se vários passos das árvores, para seu sombrio oponente. Esta então, era sua companheira. Natalya Shonski, a mulher pela qual cruzara um oceano.

Ela parecia brilhar, velas de cores douradas refletiam em seu cabelo negro, laranja e até platinado. Seus olhos... Seus tão importantes olhos já não eram azuis, mas opalescentes, uma mistura de vibrantes cores, tão turbulentas e selvagens quando o poder cru que emanava dela. A energia rangia ao redor dela e a névoa vaporosa se elevou do chão do bosque batendo com renovado vigor, como se ante sua presença, nova vida estivesse alimentando a neblina cinzenta.

Ela era linda! Vikirnoff a olhou fixamente, incapaz de afastar a vista, mesmo através das vívidas cores que feriam seus olhos. Nunca tinha visto tanto poder tornando para a vida. Ela parecia frágil na imobilidade, mas quando se movia, os músculos deslizavam sugestivamente sob sua pele dourada. Era como ela movia, fluidica como água sobre a pedra, sua pequena forma endireitando-se para fazer frente a seu inimigo. Ela era exótica e formosa. Completamente régia. Apesar das veias vermelhas estendendo-se por seu lado, seu olhar permanecia fixo no vampiro, inquebrável e concentrada, fixo como a de um predador selvagem.

Contemple... Ali estava ela. Companheira de Vikirnoff. Seu terror e esplendor o surpreendiam. Seus pulmões queimaram e ele sentiu a garganta crua. Seu corpo se encheu de calor e cada músculo se enrijeceu de desejo. Não podia separar luxúria de raiva ou a alegria da necessidade de matar os que ameaçavam-na. Sentia-se quase afligido pela combinação e intensidade de suas estranhas emoções.

Vikirnoff sabia que já não podia confrontar mais as caóticas emoções. Era simples. Ele era um caçador e tinha uma batalha diante dele. Era inútil no estado em que estava. Mais que inútil... Era perigoso não só para si mesmo mas para sua companheira. Chamou seus anos de serviço, anos de experiências em batalhas e se centrou, procurando encontrar o olho no centro da tempestade, encontrar o homem que havia sido uma vez... Um homem parco em palavras, mas não de ação quando era necessário. Um homem controlado pela lógica, o dever e a honra. Esperou até que a tempestade emocional se assentasse e entrou uma vez mais em equilíbrio e controle, antes de permitir que seu olhar repousasse em sua companheira.

O olhar fixo e rigorosamente concentrado de Natalya se desviou, um rápido e intranqüilo movimento pelos arredores, numa passada. Inalou e seu olhar tocou brevemente Vikirnoff na forma da coruja, antes de lhe passar para observar as sombras que se amontoavam movendo-se furtivamente pelas das árvores num anel frouxo ao redor dela.

Arturo inclinou a cabeça para ela.

- Está sangrando. Não desejo te fazer mal, mas preciso que faça uma pequena tarefa para mim e depois te permitirei partir. – Ele abriu os braços para os lados num gesto que abrangia todo o bosque. - Não pode esperar escapar. Está rodeada por aqueles aos quais comando e eles lhe causarão grande dano se tentar partir. Venha. Seja razoável e vêm comigo – Abriu os braços para atraí-la a eles. Sua voz era hipnotizadora, formosa, quase cantarina. Parecia um homem jovem e bonito, quase tão sedutor como Natalya.

Vikirnoff reconheceu a forte compulsão oculta na voz do vampiro e estudou sua face. Ele era uma ilusão, é obvio, como a maioria das máscaras que o vampiro escolhia vestir, mas era uma que Vikirnoff reconheceu. Arturo fora um caçador da mesma coisa em que se convertera. Vikirnoff só podia esperar que Arturo tivesse se convertido recentemente e não possuísse séculos de maldade esgrimida atrás dele.

- Quantas vezes fizemos isto, Arturo?.- Tinha deliberado desafio na voz de Natalya.- Estaquei-o várias vezes já. Realmente quer dançar comigo outra vez?

O vampiro grunhiu, seu sorriso fácil desapareceu.

-Você é incapaz de estacar a um de minha força. Você é a única principiante aqui.

- Diga isso a você mesmo. - Disse ela. - Mas acredito que isso que corre por seu braço é sangue. – Ela permaneceu completamente imóvel e uma vez mais a luz da lua a banhou. Natalya pareceu fundir-se com o fundo, as raias lhe permitiam uma estranha camuflagem. Só seus olhos flamejavam, de um profundo vermelho rubi, quase brilhando na escuridão.

O ramo da árvore sob as garras de Vikirnoff tremeu quando o poder inchou o ar. Manteve-se a raia quando cada instinto dizia que fosse para ela, que se colocasse entre ela e a coisa malvada. Séculos de batalhar com o não-morto o mantiveram firme. A armadilha era muito recente, fresca e muito ordenada para seu gosto. Utilizou os instintos de caça da coruja para encontrar o que estava oculto.

- Sempre foi muito confiada, Natalya. - Disse Arturo. Sua voz se elevou a um fino e feio grito, sua ilusão começava a empalidecer a medida que crescia seu aborrecimento com ela. - Não escapará desta vez. - Sua mão foi ao peito e esfregou a região onde seu enegrecido e murcho coração jazia. - Infelizmente não controlava minhas habilidades da última vez que nos encontramos, mas aprendi muito ao longo dos anos depois. - Seu sorriso sem humor se estendeu uma vez mais, acentuando a carne tensa sobre o osso e revelando   os afiados e pontiagudos dentes que enchiam sua boca.

O vampiro que engatinhava pelo solo utilizava as duas mãos e tirava a faca de seu peito, gritando enquanto o fazia. Sua voz era alta e feia, cheia de raiva e dor. Virou a cabeça para olhar Natalya com olhos cheios de ódio, o punho de uma faca ainda estava pega a sua boca e garganta.

- Nada o calará? - Espetou ela, erguendo os olhos, num gestode enfado. A rajada de vento pareceu vir de todas direções, chocando-se com tremenda força entre Arturo e Natalya e trazendo um pútrido mau cheiro de carne em decomposição. Ramos e folhas se elevaram através da névoa como um tornado negro, tecendo-se juntos para formar uma apertada rede sobre e ao redor de Natalya. Por um momento foi impossível ver o espaço vazio entre o vampiro e a mulher ferida. Chiaram e uivaram vozes de dentro do agitado ciclone.

Vikirnoff não tinha escolha. Os lobos se aproximavam cada vez mais, rodeando a escura cabeça gasta pelos ventos. Podia ver o chão com a passagem do perímetro da agitada massa se elevar, como se algo malvado espreitasse a mulher debaixo da terra. O relâmpago se arqueou no alto e o som do trovão retumbou ruidosamente, sacudindo a terra. Caiu com rapidez, com as garras estendidas, lançando-se de grande altura para o campo, da agitada terra e folhas. No momento em que tocou a barreira, sentiu a presença de algum outro.

A impressão da maldade o banhou. Era como nada que houvesse sentido antes. Vampiro? Sim, mas muito mais. Os vampiros eram malvados, traiçoeiros e ardilosos. O que fosse que esperava para se mostrar, havia construído esta armadilha para sua companheira, esperando sob a terra e o sentia bem mais perverso que qualquer vampiro que tivesse encontrado em todos seus séculos de caça.

Seu coração cambaleou. - Corra. Não que fique lutando. Não pode senti-lo? Fuja enquanto possa, antes que revele a si mesma. - Deu a ordem telepáticamente, "empurrando" tão forte como atreveu, com outra criatura de desconhecido poder, tão perto.

Vikirnoff se moveu no último momento possível, aterrissando diretamente diante da mulher, defendendo-a com seu corpo contra o vampiro no ataque. Foi golpeado simultaneamente pela frente e por trás. Natalya arranhou suas costas, rasgando sua carde da nuca à cintura, enquanto o vampiro Arturo explodia em ação, rasgando seu peito com unhas afiadas como garras, chiando de raiva enquanto tentava chegar ao coração de Vikirnoff.

Vikirnoff aceitaria a morte nas mãos de sua companheira, mas nunca na de um vampiro. Golpeou seu punho através da cavidade torácica, ignorando a dor que o atravessou, quando as unhas do vampiro cravaram profundamente através de sua carne e osso e o ácido do sangue gotejava sobre seu braço e mão.

- Demônios! Poderia ter me feito saber que fosse se unir à batalha. - O ataque terminou bruscamente de trás e ele sentiu a fúria dela, misturada a culpa.

Por um momento só houve o som de pesada respiração, do grito ultrajado do vampiro e da terrível dor correndo por seu próprio corpo. O vampiro se dissolveu, flutuando longe dele em gotas de névoa, um vapor cinza misturado com vermelho brilhante. Vikirnoff cambaleou, quase caindo de joelhos antes de empurrar a dor para algum canto de sua mente onde podia ignorá-la.

O segundo vampiro, Henrik, tirou outra faca do corpo com um grito horrível e uma salpicadura de sangue.

- Morta. – Ela ladrou, a palavra tão distorcida que foi quase impossível de entender. - Está morta.

- Cuidado! - Gritou Natalya.

Enquanto Vikirnoff ouvia a advertência, já estava virando para enfrentar o ataque do primeiro lobo enquanto este saltava para ele, tentando lhe derrubar. O peso completo do lobo o golpeou no peito e as garras cravaram em seu ferimento deixado pelo vampiro. O impacto foi tão poderoso que o conduziu para trás, mas ele conseguiu ainda permanecer erguido. Capturando o animal e evitando que os dentes se enterrassem em sua garganta, Vikirnoff lançou o lobo para longe dele. Sua força era enorme e a criatura golpeou o tronco de uma árvore com tanta força que sacudiu os ramos. Vikirnoff se voltou para encarar os outros três lobos que avançavam para ele.

- Saia daqui. Eu me ocuparei disto enquanto você faz sua escapada. - Era necessário avisar sua companheira. Afastá-la da batalha quando Henrik se arrastava pelo tronco de uma árvore.

- Está brincando comigo!

Vikirnoff sentiu a clara impressão do desgosto feminino. Agora não seria capaz de fazê-la sair, pois ela disparou várias surriadas para Henrik, fechando a distância entre eles de um só salto e conduzindo uma faca pela terceira vez para seu peito.

-Morra, maldito! – Ela saltou para trás para evitar suas garras, enquanto Henrik uma vez mais caía no chão. Chutou-o, além disso. - Estou chateada Freddie e você está me fazendo ficar nervosa. Não sou agradável quando perco os nervos.

O olhar de Vikirnoff moveu pela face dela. – Não se dirigirá a seu companheiro com semelhante falta de respeito. Faça o que digo em seguida e abandone este lugar. A batalha só começou e você deve permanecer a salvo. Ele não morrerá se não incinerar seu coração.

Natalya lhe lançou um olhar venenoso. - Guarde suas ordens para quem quer ser o ratinho do caçador. E estas coisas deveriam vir com uma manual de instruções sobre como matá-las.

- Não quero envergonhá-la forçando sua obediência. - Era toda a advertência que ia lhe dar. Os lobos o acossavam, um em suas pernas, outro saltou em seu peito e o terceiro atacou seu braço.

- Perdeu seu diminuto cérebro? Suas mulheres realmente obedecem quando diz pule? - Ela se voltou, costa a costa com ele, enfrentando o anel de lobos. - E não acredite nem por um momento que pode forçar minha obediência. Não quer começar uma briga comigo.

Vikirnoff amaldiçoou enquanto chutava o lobo que lhe despedaçava a perna. - O vampiro vai tentar tanta perda de sangue como é possível, para me debilitar. Se tentar te proteger, como devo fazer, dividirei minha força.

- Bem, tente não deixar que aconteça. Já tenho bastante com o que me preocupar sem ter que proteger a um aficionado. Estou um pouco ocupada aqui se não se importar. E gostaria de silêncio.

Vikirnoff fechou de repente uma barreira ao redor dela, enjaulando-a, longe dos lobos enquanto ele pegava o animal dirigido a seu peito e torcia a cabeça com as mãos. O pescoço cedeu com um rangido doentio. Ele atirou o corpo a um lado, mas mais lobos saíram do bosque, jogando-se sobre ele, babando e com as presas totalmente abertas enquanto firmavam as patas traseiras na terra e saltavam para sua garganta.

Esperou até que os lobos estiveram quase sobre ele e calculando seu salto, saltou sobre eles diretamente para Arturo que claramente os comandava. O ar vibrou com a onda de poder, quando rompeu a frágil barreira que o vampiro havia erguido apressadamente para lhe atrasar. Quando Vikirnoff aterrissou, a terra se abriu a seus pés, um grande abismo o separava do vampiro. Ela balançou precariamente na beirada, baixando o olhar para as rochas afiadas sob ele e depois para cima para ver o vampiro estirar lentamente os lábios numa paródia de sorriso.

A terra ondeou, atirando Vikirnoff para as rochas. Simultaneamente, ele sentiu o empurrão de um vento uivador a suas costas. Não pôde refrear-se e começou apressadamente a mudar de forma enquanto caía. Meio homem e médio transparente, Vikirnoff golpeou uma parede forte e invisível e ricocheteou para trás. Virando a cabeça rapidamente, viu que Natalya havia aberto a jaula protetora em que ele a tinha colocado. Ela colocara a barricada ao redor dele, detendo efetivamente sua queda.

- Se aquiete enquanto eu me ocupo disto. Ele nem é um vampiro muito poderoso. Matei-o duas vezes. - Sua voz supurava sarcasmo.

Vikirnoff não pôde detectar medo, somente completa e absoluta resolução. Natalya parecia brilhar quando saltou entre os lobos, sua pele de uma radiante cor leonado, seu cabelo flamejando com vida, seus olhos uma vez mais mudaram de um vívido verde a um brilhante azul até ficarem opalescentes. Ela deu a volta no centro dos lobos, mas eles retrocederam afastando-se dela, encolhendo-se e tremendo, deslizando de volta às profundezas do bosque.

- Debaixo de você. O vampiro é um peão. Não pode sentir de onde chega o autêntico poder? Saia daí! No chão. Se te destruir, destrói nós dois.

Vikirnoff rasgou a barricada que ela havia erguido em volta dele, um lucro fácil e simples já que tinha utilizado a que ele havia tecido primeiro. Havia outra armadilha ali, uma que ainda não havia sido desdobrada, mas ela não parecia sentir o perigo. Ele o sentia por todas as partes, tamborilando no ar a seu redor. Apressou-se para ela quando o ataque chegou de abaixo. A terra sob ela se abriu numa fissura e duas mãos como garras lhe prenderam os tornozelos e as longas e afiadas unhas introduziram profundamente em sua pele ancorando-a a criatura, enquanto esta tirava-a, clandestina.

Vikirnoff uniu sua mente com a dela, sujeitando-a a ele, enviando a imagem de névoa e mantendo a imagem em primeiro plano em seu cérebro. - Funda-se comigo. Funda-de completamente comigo. - Havia desespero em sua ordem.

Natalya lutou para liberar seus tornozelos da criatura, chutando com todas suas forças, mas as unhas estavam profundamente enterradas em sua carne. Podia senti-las afundando-se até seus ossos.

Vikirnoff mergulhou na abertura atrás dela, movendo-se para baixo a grande velocidade, sentindo seu terror e sua dor, quando as garras se cravavam em seus tornozelos, enquanto seu corpo tentava levar a cabo a mudança sem a ajuda dele. Temia-o. Temia a presa que uma fusão completa com ele daria sobre ela.

- Se quer que vivamos, deve se fundir comigo. – Desta vez ele evitou qualquer "empurrão" em sua voz, utilizando somente a verdade.

Vikirnoff sentiu a breve vacilação dela, seu medo e resistência a ele e o que podia desejar dela. O terror à criatura que a arrastava para o fundo da terra, superou seu medo ao caçador o bastante para que estendesse para ele, com os braços estendidos, as mãos abertas e ainda lutando por manter as barreiras mentais contra ele. Ele a segurou pelas mãos e enviou diretrizes, mantendo cruelmente a imagem de névoa na mente dela. Ela gritou quando a criatura cravou as garras mais ainda em seus tornozelos, na tentativa de retê-la.

Natalya se fez à idéia e cessou de resistir a Vikirnoff, abraçando a mudança, permitindo a fusão completa com ele, para salvar-se do monstro invisível que massacrava seus tornozelos. Brilhou até a transparência, dissolvendo-se em gotas, fluindo para cima como um cometa multicolorido. A terra se sacudiu, e profundamente no interior da terra algo rugiu de raiva e ódio.

Houve um trovão ameaçador. Vikirnoff virou à esquerda, conduzindo-a diretamente para Arturo que esperava com seu exército de lobos. Barro e rocha erupcionaram do buraco na terra, cuspindo veneno atrás do caçador e sua companheira. Vikirnoff e Natalya passaram como um raio pelo não-morto e suas marionetes, voando alto para a pesada canopia onde poderiam se camuflar entre as folhas das árvores.

Sob deles, os lobos uivaram de terror e os vampiros chiaram quando a lava ardente saiu a jorros e explodiu do buraco aberto na terra. As árvores defendiam Vikirnoff e sua companheira de sua explosão de chamas. Instantaneamente tudo ao redor deles ficou branco e a temperatura das gotas aumentou.

- Fique fora do chão. – Deliberadamente, Vikirnoff deu um duro empurrão mental para enfatizar que falava a sério.

Natalya flutuou longe da ardente árvore, fora do ardente jorro de barro e bolas de fogo. Ele recebeu a impressão de um grunhido, mas pouco mais.

Vikirnoff mudou no meio do ar, caindo para Arturo, com as garras estendidas, dirigidas para a cavidade torácica. O vampiro estava distraído, correndo por sua vida longe do que a malévola criatura clandestina estava desdobrando.

- Que demônios está fazendo? Não temos que ficar e lutar. Está completamente louco? - O tom de Natalya era incrédulo, como se não pudesse conceber que alguém brigasse deliberadamente com o vampiro, se tinha outra opção. - E esse idiota do Henrik está outra vez em pé. Preciso de um lança-chamas em meu arsenal. Tem idéia do quanto custa?

- Não posso deixar vampiros soltos para fazer presa sobre pessoas inocentes nesta região. Ele está zangado e é perigoso neste estado. Ele se vingará contra alguém mais fraco. Atenda seus ferimentos e deixe Henrik e os outros para mim, Natalya. - Ela não agia como a mulher que havia sonhado. Não se sentia consolado por ela ou em paz, em vez disso queria tirá-lo do sério. Sua fria conduta tinha sido mudada rapidamente, não pelo vampiro, mas por sua própria companheira.

Afiadas, as garras de Vikirnoff rasgaram o ar vazio. No último segundo, Arturo pressentiu o ataque e se dissolveu, deixando somente sangue e vapor em sua esteira. Vikirnoff mudou novamente, tomando a forma de um homem, aterrissando ligeiramente sobre o solo, procurando traços da ameaça mais escura sob ele. Esperava que o risco atraísse o maligno e seria advertido pela reação da própria terra.

- Como sabe meu nome? - O medo e a suspeita crepitavam na voz de Natalya. Uma vez que Vikirnoff tomou a imagem de sua mente, ela voltou para sua forma natural e se encontrou sentada numa árvore. Semicerrou o olhar, observando Vikirnoff, tentando ver além de seu rosto, passar além do sangue que havia derramado por seu bem-estar, para ver quem ele realmente era, e o que queria dela.

- Cuidado! Preste atenção no que está fazendo.

A faca roçou seu braço e trouxe sua atenção a Henrik que a enfrentava com propósitos mortíferos.

- Freddie, menino! Não pode fazer um favor a uma garota e se deitar simplesmente e morrer? – Disse Natalya, sentada sobre o galho e baixando o olhar para vampiro ensangüentado. - Deixe de me distrair.

- Sei seu nome porque você é minha companheira. - Sua formosa e consoladora companheira que acreditava que estaria pendente a cada uma de suas palavras e se esforçaria para lhe agradar. Enviou um olhar carrancudo de reprimenda para ela. Não era resseiosa e nem obediente. Nada do que estava tão seguro que seria.

- O que?Voce é um monstro imbecil? Se acha que vamos estar presos um no outro, perdeu sua diminuta... Magnífica, mas diminuta... Cabeça.

- Presos? - Repetiu Vikirnoff em resposta, surpreso e muito seguro de não ter ouvido corretamente. Sabia pouco sobre mulheres, mas ela não era o que previra. Não estava absolutamente seguro de aprová-la e certamente não podia imaginar uma vida pacífica com ela a sua volta. Voltou-se quando uma sombra se separou das árvores e Arturo saiu a passos rápidos para enfrentá-lo.

- Não quero sua aprovação. Não posso acreditar que seja tão cabeçadura que fique e lute com essas coisas. - Natalya se esquivou da salva de facas que Henrik atirava nela.

-Isso não é muito amável, Freddie. Utilizar minhas próprias armas contra mim –Ela provocou ruidosamente.

Uma folha se afundou no galho sobre o estava sentada, mas ela escalou rapidamente árvore acima, utilizando a canopia próxima como escudo.

Henrik mudou de forma apesar de seus ferimentos, lançando-se para ela enquanto voava através das árvores com a forma de uma coruja.

Estalaram chamas ao redor da coruja, lhe cortando o passo em todas as direções, fazendo com que o vampiro se visse obrigado a abandonar seus esforços para chegar a Natalya. Rastreou a fonte de poder de volta a Vikirnoff e se deixou cair no chão, enfrentando ao caçador com um grunhido.

- Tenho que tirar meu chapéu a você, Freddie. É persistente. Eu gosto disso num homem, mas não é o melhor traço num vampiro. - Natalya desceu da árvore para os galhos mais baixos, cuidando em manter-se fora do chão, mas decidida a manter a fúria e atenção de Henrik centrada nela. Vikirnoff tinha perdido muito sangue graças ao ataque inicial e ela era parcialmente responsável por isso.

- Não preciso que me ajude. - Ela fez o protesto tão forte como atreveu. Vikirnoff parecia pouco disposto a permiti-la participar da batalha, embora não podia obrigar a si mesma a partir, mesmo quando sabia que era uma completa loucura ficar com tantos inimigos perto. - Espero que não tenha se esquecido do Rei Troll só porque ele está surpreendentemente silencioso. Ainda está aqui, espreitando, preparado para fazer algo asqueroso no momento que lhe dê oportunidade.

- Deixe que eu me preocupe do que há sob nós.

- Oh! Esqueci-me! Devo ser a pobre mulherzinha incapaz de tomar suas próprias decisões agora que o grande homem forte está aqui. - Natalya soprou zombeteira. - Deveríamos ter ido embora enquanto tínhamos oportunidade.

Vikirnoff compreendeu que ela estava furiosa consigo mesma. Queria partir. Cada instinto, cada sentido de sobrevivência lhe dizia que partisse, mas o puxão de seu companheiro, especialmente ferido como estava, evitava que o fizesse. Não entendia por que ele tinha tanto poder sobre ela e o fato de não poder deixá-lo, o fazia sentir furiosa e estranha.

As bolas de fogo cessaram abruptamente e o bosque ficou tranqüilo. Vikirnoff escaneou a terra, mas o que estava escondido dentro da terra se retirou para se agrupar e se negava a morder a isca, mesmo quando Vikirnoff deliberadamente se moveu com um passo mais pesado.

Arturo parecia uma paródia macabra do homem atraente que tinha encarado a Natalya antes. A pele dele se estirava sobre seus ossos. Mechas de cabelo cinza e branco saiam de seu crânio. Quando sorriu para eles, seus dentes pontiagudos estavam marrons pelas manchas.

-Vikirnoff. Não está com bom aspecto. Sequer pode impor sua vontade a sua própria mulher. Que triste ver o que uma vez foi um caçador orgulhoso, cair tão baixo para ter que suplicar.

- Que triste ver o que uma vez foi um grande caçador se encurvar tanto para seguir nas sombras de um maligno em vez de seguir seu próprio caminho. - Vingou-se Vikirnoff. Observou o vampiro, mas escaneou a terra continuamente, esperando que o monstro invisível se revelasse.

-Vocês dois podem deixar de falar de mim como se eu não estivesse aqui. -Exclamou Natalya, doente com toda a confusão. - Tenho assunto em outro lugar e vocês estão retendo. – Ela baixou o olhar para Henrick que abria passo para a base da árvore onde ela estava sentada.

As unhas do vampiro se cravaram nas raízes da árvore. Ele estava tão fraco que não podia reunir suficiente poder para usá-las contra ela, mas não deixava de cravá-las nas raízes da árvore num esforço para que caísse. A árvore estremecia cada vez que o vampiro ao tocava, retorcendo-se longe da horrenda criatura. O sangue do não-morto jorrava no tronco e queimava o coração da árvore.

Natalya podia ouvir a árvore gritando de dor. A seiva supurava por um buraco e gotejava firmemente como sangue sobre o chão. Ela pressionou as mãos sobre os ouvidos e tentou não sentir a forma em que seus tornozelos ardiam e pulsavam. Mais que tudo, tentou não notar ao vampiro lambendo as manchas de sangue deixados pelos ferimentos de seus tornozelos ao passar pelo tronco da árvore. Deixava-a doente. Por que havia ficado? Desprezava os caçadores quase tanto como aos vampiros.

Vikirnoff a olhou fixamente, consciente de sua aflição e se moveu num gesto tão rápido que foi impossível vê-lo, enquanto se apressava a passar por Arturo e plantou o punho profundamente no peito de Henrik. O coração estava rasgado e murcho e ele o atirou a certa distância para se dar tempos de dirigir o relâmpago para o enegrecido órgão antes que pudesse voltar para seu amo.

O relâmpago se arqueou do coração ao corpo do vampiro, mesmo antes que Henrik pudesse cair no chão, incinerando-o completamente e reduzindo o não-morto a cinzas.

-Isso não era necessário, Vikirnoff. Sempre foi dos que agiam antes de falar as coisas.

-Não há necessidade de falar, Arturo. – Respondeu, Vikirnoff.

- Acho que não posso sentir a escuridão em você? – Continou, Arturo. - Ela a sente. Quase te rasgou as costas antes e fará de novo. Então lhe dê oportunidade, quando já não precisar. - A voz se voltou engatusadora, ardilosa. - O príncipe está desprotegido. Agora é o momento de atacar. Una-se a nós, Vikirnoff. Podemos derrotar os caçadores e sair das sombras para tomar o lugar que nos pertence por direito no mundo. Não governaremos um simples país ou só a nossa gente, mas tudo. Tudo, Vikirnoff, pense nisso.

- O príncipe não está desprotegido, Arturo. Não acredite nunca está sem o completo amparo de sua gente. - Vikirnoff deslizou mais perto sem que parecesse mover, inclinando-se para o vampiro, mal roçando a terra com as solas de seus sapatos, mas enviando pesadas pegadas a poucos metros de onde realmente estava, esperando atrair à criatura oculta.- Converteste-se em uma marionete. A quem serve, Arturo? - Todo o momento podia sentir a acumulação de poder enquanto Arturo, uma vez mais, convocava à alcatéia de lobos a sua vontade.

A saliva caiu da boca do vampiro enquanto grunhia e vaiava seu desagrado ante as brincadeiras.

- Eu não sirvo a ninguém, não como você. – Ele lançou seu ataque, chiando enquanto corria para Vikirnoff. Os lobos surgiram das árvores. Várias pedras afiadas e dentadas saíram do solo, a apontadas para o caçador.

Vikirnoff tomou o ar, encontrando a investida do vampiro com surpreendente velocidade, fechando de repente o punho através da parede do peito, procurando o coração. Um lobo correu para ele, mordendo sua pantorrilha e pendurando-se desagradavelmente, no esforço de proteger seu professor. Vários outros saltaram para ele, grunhindo e uivando ao aproximar do caçador.

Vikirnoff encontrou o coração, enquanto o vampiro o arranhava repetidamente seu rosto e garganta com garras afiadas.

- Utilize o fogo para se liberar dos lobos! - Natalya soava frenética. - Sei que sua raça pode fazer isso. Se a presse!

- São inocentes. Estão sob as ordens do não-morto. Destruiria a alcatéia inteira. Vá enquanto possa. O outro se elevará de debaixo da terra. Sinto seu triunfo.

Ela gritou de frustração e pura exasperação, o som só na mente dele. Choveu fogo do céu. Brasas ardentes como brilhantes flecha laranjas, caindo para encontrar objetivos vivos. - É o homem mais teimoso e idiota com o qual tive a infelicidade de me tropeçar. Acabe já com ele!

Vikirnoff teve a impressão de que ela rilhava os dentes. Estava furiosa quando afugentou os lobos, com a única exceção do macho preso à perna dele. Ignorando a dor execrável, ele colocou os dedos ao redor do coração murcho do vampiro e o arrancou do corpo. O grito de Arturo se fez mais agudo e vingativo. O lobo começou a olhar freneticamente à perna de Vikirnoff e para o vampiro correndo atrás do enegrecido coração quando Vikirnoff o atirou no chão, chamando o relâmpago para incinerá-lo.

A terra se abriu e o coração caiu através da fissura aberta. Um braço peludo se estendeu, dedos ossudos pegaram Arturo para lhe arrastar para dentro. Antes que Vikirnoff pudesse segui-lo, a cavidade se fechou de repente. O relâmpago golpeou o chão no lugar exato onde o coração havia estado, mas era tarde.

Vikirnoff se segurou no galho de uma árvore enquanto caia no chão do bosque. Ficou pendurado durante um momento, lutando para respirar quando seu corpo se sentia moído, pesado pelo lobo que ainda prendia sua perna. Pos causa da perna escorregadia pelo sangue, o animal finalmente caiu no chão e começou a saltar tentando alcançá-lo novamente.

A mão e o braço de Vikirnoff ardiam pelo ácido do sangue do vampiro e seus dedos estavam escorregadios. Podia ver o sangue sair de seu corpo e parecia uma tremenda quantidade. Uma debilidade inesperada o tomou e ele se sentiu cair diretamente para a boca aberta do lobo que estava sob ele.

Uma rajada de chamas enviou o animal para trás, longe dele. Ele aterrissou com força e levantou o rosto para uma mulher muito exasperada. Natalya saltou da árvore e aterrissou junto dele, agachando-se para examinar rapidamente seus ferimentos.

- Parece um desastre.

- Como enviou um fogo Então?

- Segui as instruções de sua mente. - Disse Natalya-. Há uma tremenda quantidade de informação em seu cérebro. Desejaria ter aprendido como incinerar o coração. Teria ajudado. Consegue ficar em pé? Estava horrivelmente ferido. - Ela disse a si mesma que o deixasse, mas seu corpo tinha sido devastado defendendo-a.

- É obvio - Havia perdido muito sangue e o amanhecer se aproximava com rapidez. - Precisa sair daqui.

-Não se incomode em me dar ordens. – Disse, Natalya. - Sempre tive problemas com pessoas de autoridade. Levarei-o a algum lugar seguro e depois não quero voltar a vê-lo nunca mais.

- Isso será um pouco difícil. -Vikirnoff fez um esforço por levantar-se. Estava bem mais fraco do que tinha imaginado. Se tomasse o sangue de sua companheira, teria a força necessária para levá-los para a segurança.

Natalya saltou longe dele, com a mão na espada.

- Nem pense em tomar meu sangue. Se for necessário, me sentarei aqui e esperarei até que te torne tão pesado que não possa se mover antes de te tocar. Não sou o tipo doador de sangue. – Ela imobilizou-o com o olhar.- Nem agora, nem nunca. Se um dia for necessário, será voluntariamente. Nem sonhe tomar a força.

Vikirnoff forçou seu corpo a uma posição sentada, com as costas contra o tronco da árvore.

- Você tem rancor contra minha gente. – Ele soava distante, longínquo, mesmo a seus próprios ouvidos. As vívidas cores a seu redor, empalideciam e voltavam, nublando até que todo se misturou. Sabia que era necessário apagar seu coração e pulmões para evitar ulteriores perdas de sangue, mas sua companheira não estava a salvo.

- Vá, Natalya. Vá agora. – Ele disse em voz alta ou talvez em sua mente, mas já deslizava na inconsciência.

 

-Demônios! - Natalya sussurrou ferozmente enquanto recolhia o caçador cansado em seus braços e olhou a seu redor, sentindo-se desesperada. - Não me faça isto.

Através dos anos, Natalya tinha tentado reunir informação sobre os Cárpatos, porque sabia que levava seu sangue, mas principalmente porque acreditava que o conhecimento lhe dava vantagem. Era completamente consciente de sua necessidade de terra rica para se curar. Ela a utilizava em seus ferimentos em várias ocasiões.

- Sequer posso lhe fechar seus ferimentos com terra. Os vampiros arruinaram os arredores. – Ela sacudiu Vikirnoff levemente. - Os lobos poderiam voltar atraídos pelo aroma do sangue ou pior... A criatura com garras. Vamos, acorde.

O homem pesava uma tonelada. Bem, não uma tonelada, mas bem poderia. Não ia ficar e esperar que o Rei Troll e seus colegas vampiros fizessem outra tentativa de pegá-la. Haviam fugido com os corações nas mãos e o rabo entre as pernas, mas sabiam o apuro em que ela estava. Voltariam.

-Bem, grandalhão. Carregarei você. Tinha que bancar o herói, não é? Não podia partir quando lhe pedi, certo?

Natalya tentou carregá-lo ao estilo bombeiro, mas não aconteçeu nada. Ela era forte, mais que a maioria dos humanos, mas ele era um peso morto e escorregadio pelo sangue. Prendeu sua mochila a ele, não querendo perder suas coisas e fez uma segunda tentativa de carregá-lo sobre o ombro.

- Mulher. O que está fazendo? - Apesar de seu aparente estado inconsciente, ele soou completamente exasperado.

Natalya quase saiu fora de sua pele.

-O que é o que te parece? Alguém tem que salvar seu traseiro e já que não há ninguém mais que ondeie a mão oferecendo-se para voluntário, terá que e conformar comigo. - Não havia forma de lhe carregar montanha abaixo. Nenhuma. O medo em seu interior crescia a cada minuto que passava. – Acho que está inconsciente, não esperando saber como pode me ofender.

- Deixe-me.

-Se não for dizer nada útil, cale-se simplesmente. Preciso pensar. Se não tivesse insistido em ficar e lutar teríamos ido há muito.- Natalya esperava lhe inculcar algum sentido comum. Nunca tinha visto ninguém tão espancado e ferido lutar para sobreviver. Outro, já devia estar morto. E a idéia de sua morte a aterrava. Quando mais aterrada estava, mais desejava agredi-lo por sua estupidez. Não era preciso lutar. Poderiam ter fugido. Ele tinha que ser galante e salvar o mundo.

-Tenho a habilidade de mudar de forma. – Ela admitiu. Natalya tinha que enganar todos que conhecia, mas nunca enganava a si mesma. Era um luxo ser capaz de admitir quem e o que era, mostrar o que era capaz de fazer pela primeira vez em anos. Observou a face dele em busca de sua reação. - Só uma. Poderei carregar você nas minhas costas, mas terá que permanecer acordado o suficiente para se pegar. Acha que pode?

Vikirnoff não abriu os olhos. - O que precisar.

Sua voz era longínqua. Ela engoliu com força. Precisava fechar seus ferimentos logo que fosse possível e isso significava movê-lo imediatamente.

- Vai doer.

Natalya se despiu, dobrou sua roupa e a colocou na mochila presa a ele. Vagara sozinha durante anos, incapaz de permanecer num lugar muito tempo, por medo de se delatar. Havia estado sozinha sem amigos ou família e passara muito desde que tinha experimentado a exaltação de mudar diante de outro ser. A liberdade de ser ela mesma era um poderoso atrativo que não podia resistir.

Não era completamente humana, nem completamente maga. E não era completamente Cárpato, mas uma combinação das três coisas. Seu pai mago a tinha dotado com a natureza do tigre, com a esperança de aliviar as necessidades de sua outra metade de uma familia e lhe dar algum equilíbrio quando os anos intermináveis passassem. Até certo ponto, achava que era, mas a idéia de ser capaz de compartilhar uma parte real de seu autêntico eu com Vikirnoff, que ele a conhecesse pelo que era tornava maravilhoso.

Respirou fundo, perdendo-se na forma familiar e sentindo a tigresa. Os músculos se ondearam sob sua lustrosa pele raiada e se estirou, mostrando a camuflagem de faixas negras e laranja que lhe davam vantagem. Afiadas garras arranharam a terra e elevou o focinho para cheirar o ar antes de arquear as costas e baixar seu corpo a terra. Não fazia idéia de estar contendo a respiração, esperando a reação dele, até que ele falou e seus olhos flamejaram com um vívido azul para ele.

Os olhos se abriram e ele estendeu a mão para acariciar a espessa e sedosa pelagem. – Você é linda. Seus olhos são da cor exata dos lagos gelados.

Natalya tentou não ficar feliz. Não queria sentir uma resposta a ele, só cumprir com seu dever como de ser humano, mas não pôde evitar a rajada de calor que causaram suas palavras. - Pode deslizar sobre minhas costas e colocar os braços ao redor de meu pescoço?

O tigre era uma criatura solitária e nesta forma, Natalya não sentia desejos de uma família e uma comunidade. Por um breve momento podia ter uma pausa de suas necessidades naturais como mulher, mas descobriu, mesmo profundamente na forma da tigresa, que era agudamente consciente de Vikirnoff como homem.

Ele se tendeu ao longo de seu corpo, deslizando os braços ao redor de seu pescoço. O cinturão de armas, preso a sua mochila batia no corpo dela e fazia mal. Ele sentiu e o ajustou imediatamente, um gemido lhe escapou quando o fez. - Não pode mudar de forma igual aos Cárpatos. Por isso só tem uma forma?

Sabia que ele estava muito fraco e não devia estar tentando conversar, mas os pensamentos entravam em sua cabeça muito rápido e freneticamente, que tinha que compartilhá-los com alguém. - Isso eu me perguntei quando você sustentou a imagem de névoa em minha mente e eu fui capaz de mudar. Foi de uma só vez, aterrador e maravilhoso.

O tigre rugiu para um lobo solitário que deslizava através das árvores. O lobo retrocedeu afastando-se do predador muito maior, apesar do atraente do sangue fresco.

- Agrada-me que me dê sua confiança. Não abusarei dela.

Começou a negar de ter dado sua confiança, mas se refreou de corrigi-lo. Queria salvar a própria vida e ele tinha sido o menos dos maus quando a criatura subterrânea a tinha obstinado com garras afiadas. Mesmo na forma do tigre, seus tornozelos ainda ardiam. Um aviso constante do terror daquele momento.

O tigre se apressou através do bosque, carregando o homem a suas costas até que ficaram a várias milhas do campo de batalha e perto das ondeantes colinas mais ricas. Ela foi mais cuidadosa, levando sua carga através de terreno mais aberto cautelosamente enquanto se aproximava das granjas. Muitos dos granjeiros estavam começando seu dia. Duas vezes um cão ladrou para eles, parou bruscamente e retrocedeu. Ambas às vezes Natalya sentiu a onda de poder e soube que Vikirnoff silenciara os animais.

Havia tomado a decisão de salvar a vida de Vikirnoff e isso significava que tinha que doar sangue a ele, quisesse ou não. Era prática sobre ela, uma vez afeita à idéia. Era em parte Cárpato e tinha que ter sangue para sobreviver. Não tomava sangue com freqüência, mas quando era necessário, não lhe dava náuseas. Natalya deixou Vikirnoff quase inconsciente junto a um fardo de feno e se aproximou de um granjeiro, acalmando-o com um feitiço e tomando seu sangue.

Ao contrário que dos Cárpatos completos, não podia eliminar as lembranças do granjeiro. Tentou que sua lembrança perdesse intensidade e fez com que parecesse um sonho, mas sem dúvida, estenderiam-se rumores de vampiros pela campina. A única coisa que importava entretanto, era levar Vikirnoff a seu quarto e longe do sol, longe das pessoas, tão rapidamente como fosse possível.

Perto da estalagem, estendeu-o sob vários arbustos, mudou de forma e se vestiu apressadamente.

-Não faça nem um som. A noite passada, havia um homem suspeito no bar. Não sei por que estava lá, mas fez soar meus alarmes e nunca os ignoro. Não quero me arriscar que sejamos visto quando entrarmos. Deixe-me dar uma olhada, para ver se todo mundo está ainda na cama.

A mão dele saiu em busca da dela.

- Não tem que fazer isto.

O coração dela deu um curioso salto que achou irritante.

- Simplesmente não se mova. - Natalya afastou a mão e limpou a dela na calça de couro, tentando apagar o estranho formigamento elétrico que sempre parecia causar o tocar dele.

-Há mais luz. - A voz de Natalya se tornou rouca. Ela limpou a garganta. Os dedos dele sobre sua mão nua a fazia sentir o toque, muito íntimo- Temos que entrar antes que saia o sol. Demoramos muito chegar aqui. Os granjeiros já estão trabalhando, lembra-se? Temos que nos ocultar. Descanse enquanto eu dou uma olhada ao redor.

Sabia que soava brusca, mas suas emoções eram pouco familiares e intensas ao redor de Vikirnoff. Certamente não queria sentir compaixão por seus terríveis ferimentos ou admiração por sua estóica negativa em se queixar. Precisava manter uma distância emocional todo o tempo. Só estar lhe salvando a fazia sentir-se como uma absoluta traidora de seu irmão.

Mas tinha que lhe salvar e agora era responsabilidade dela. Natalya não tomava suas responsabilidades àtoa. Farejou o ar cautelosamente, procurando sinais de alguém mais, mas encontrou somente a fragrância de Slavica na cozinha, Então empurrou a porta com sigilo e estudou o grande aposento.

Slavica estava de pé ante a pia cortando batatas com faca em mão.

-Você! Natalya! Assustou-me-. Seus olhos se abriram assustados, com preocupação, quando tomou ciência da aparência de Natalya.- O que aconteçeu? Está ferida?

Natalya compreendeu que estava suja de sangue. A maior parte pertencia a Vikirnoff.

- Estou bem. Tenho alguém comigo que preciso subir a meu quarto, mas não quero que ninguém nos veja. Ajuda-me? Ele está ferido.

- É grave? - Slavica era prática.

Natalya lhe sorriu.

- Você é genial. Obrigado. Está em má forma. Perdeu muito sangue mas não posso levá-lo a um hospital.

-Há uma escada oculta, - confiou Slavica. - Esta estalagem foi construída sobre a escavação de um velho monastério e parte desse edifício foi conservado e incorporado à estalagem. Só nossa família utiliza a escada e nossas habitações.

-Se não se importa em vigiar, vou buscá-lo. - Disse Natalya. O alívio que a alagou foi tremendo.

Natalya se apressou a sair pela porta da cozinha e correu pelo caminho que conduzia aos densos arbustos onde tinha haviadeixado o caçador. Parou abruptamente quando o viu caído, com os olhos fechados na face pálida, quase cinza e pequenas gotas de sangue salpicando sua fronte. Seu coração acelerou e seu estômago se revolveu.

-Vikirnoff? Acha que pode caminhar os últimos metros, até meu quarto? - Não podia converter em tigre novamente, mas ele parecia tão cansado e pálido, que a assustou.

Ele abriu os olhos e tentou ficar em pé com sua ajuda. Cambaleou ligeiramente, mas deslizou seu braço ao redor do corpo dela.

-Só uns minutos mais e pode se deitar. - Animou-lhe Natalya.

- Este lugar é perigoso. – Ele disse a Natalya enquanto entravam através da cozinha. Ofereceu um sorriso fraco a Slavica quando ela soltou um gemido alarmado-. Não pretendia sobressaltá-la.

- Honra-me senhor, com sua presença. Minha casa é sua casa. - Slavica fez uma reverência, sua mão subindo protectoramente a sua garganta. - Por aqui, rápido. Os trabalhadores estarão aqui a qualquer momento para preparar a comida. Devem se apressar.

Vikirnoff cheirou o ar, sustentando a mão no alto pedindo silêncio, enquanto olhava para a porta da cozinha. Vozes amortecidas vagavam para eles. Ondeou a mão e as vozes empalideceram, os trabalhadores se afastaram do aposento.

Natalya sentiu o estremecimento de dor ondeando através do corpo dele, quando usou energia para afastar os ajudantes de cozinha. Segurou firme sua cintura e o urgiu para a parte traseira do aposento, onde Slavica abriu um painel no canto. As escadas os conduziram a uma porta até a residência privada e escada acima, até o segundo piso.

-Só mais uns minutos. – Sussurrou, Natalya. Desejava que ele se queixasse pelo menos uma vez. Seus tornozelos e seu lado pulsavam e ardiam e seus ferimentos não eram nem de perto tão severos como os dele, mas Vikirnoff continuava em silêncio, sequer gemeu quando seu corpo maltratado foi sacudido escada acima pelos estreitos degraus. Não apoiou seu corpo nela, cuidadoso com seu lado, mas de vez em quando sua mão se pousava sobre de Natalya. Cada vez que o fazia, ela sentia calor e a dor se aliviava, mas notava que ele enfraquecia e ficava muito mais pálido.

- Não se preocupe. – Ele falou. – Falo sério. Tive centenas de ferimentos como este. Sei quando são más e este não é. Os vampiros tomaram cuidado que não me infringir nenhum ferimento grave. Posso me ocupar dele logo. Empurrou a porta de seu aposento e parou, inalando profundamente. - Alguém esteve aqui.

Slavica sacudiu a cabeça.

- As moças limpam pela manhã. Natalya partiu de noite. Teriam que ter terminado.

- Não há ninguém aqui agora. - Disse Vikirnoff. - Mas um homem esteve neste aposento recentemente. Cheirava a tabaco e colônia.

- O homem do bar de ontem à noite. - Disse Natalya. - Qual é seu nome, Slavica? – Ela ajudou Vikirnoff a chegar à cama.

- Barstow, Brent Brastow. Vem a nossa cidade várias vezes no ano. Diz que é por negócios, mas... -A mulher se interrompeu sacudindo a cabeça.

Vikirnoff a olhou com acuidade.

- Mas a deixa nervosa.

- Muito nervosa. – Concordou, Slavica.- E faz perguntas sobre minha filha Angelina. Eu não gosto de suas perguntas.

- Pergunta sobre... - Animou Vikirnoff.

Natalya sentia sua dor como se fosse a própria, enquanto ele ainda estava em pé campaleando e conversando com Slavica. Sentiu a urgência de bater nele, até lhe deixar inconsciente, lhe atirar sobre a cama e terminar com tudo.

-Quer saber sobre as pessoas desta região. - Respondeu Slavica.

No momento em que Vikirnoff deitou entre as suaves mantas, afastou o rosto, mas não antes que Natalya captasse outra onda bem mais afiada de dor, que ele não pôde ocultar de tudo. Não pôde evitar acariciar as mechas do cabelo negro, afastando-os de sua testa.

-Slavica é enfermeira, uma curadora. Pode te ajudar.

-Deve atender primeiro seus ferimentos. - Decretou ele.

Natalya lhe afastou a mão.

-De novo! - Estava zangada consigo mesma, pela estúpida sensação que produzia no fundo de seu estômago, estar lhe tocando. Podia ser mais patética? - Não me dê ordem. - Fez uma careta ante a dureza de seu próprio tom e se separou dele para fechar as pesadas cortinas das janelas e portas do balcão, para bloquear o sol da manhã.

Slavica se sentou na beira da cama.

- Precisará de outras coisas, Natalya. Na cozinha há um balde de madeira, na despensa. Pegue-o e encha da terra mais rica que possa encontrar no jardim. – Ela se inclinou para frente e afastou os fios de cabelo da fronte de Vikirnoff, que tanto incomodavam a Natalya. - Perdeu muito sangue. Devo enviar alguam a procurar seu príncipe. Ele gostará de saber que requer sua ajuda.

Vikirnoff lhe segurou a mão.

- Sabe o que sou. - Podia ler na mente dela, que sabia. Poucos humanos sabiam de suas existências, não só pelo amparo dos Cárpatos, mas também pelo dos humanos. Se Slavica tinha conhecimento de sua espécie, estava sob o amparo de seu príncipe-. Quem é você?

-Slavica Ostojic. O nome de minha mãe era Kukic. E você, quem é?

Antes de responder, Virkinoff fez uma larga e cuidadosa inspeção da mente dela e se surpreendeu ao descobrir que ela tinha amizade com o príncipe de sua gente. Tinha ouvido rumores de que Mikhail Dubrinksy tinha amigos no mundo dos humanos, mas era uma estranha ocorrência confiar aos humanos os segredos de sua espécie.

-Vikirnoff Von Shrieder. – Ele deu seu nome relutantemente, incapaz de sobrepor de tudo a sua reticência natural. Crescia em poucas palavras, seguir seus próprios conselhos e entrar em ação quando fosse necessário. Esta situação lhe era pouco familiar e ele estava medindo o terreno.

- Esta estalagem pertenceu a minha família durante cem anos. Mikhail Dubrinsky ajudou minha mãe a mantê-la quando as coisas em nosso país se complicaram. Sempre foi amigo de nossa família e entesouramos essa amizade.

Vikirnoff tinha problemas para se concentrar na explicação da mulher. A fome quase o afligia. O batimento do coração das mulheres reverberava através do aposento e ressoava através de sua cabeça. A fragrância do sangue quase o superava e cada instinto que possuía exigia que se alimentasse para salvar sua vida e a de sua companheira.

Slavica se inclinou aproximando-se e o olhar de Vikirnoff se fixou imediatamente em sua pulsação. O chamava e seduzia, esse pequeno ritmo latente.

Encheu-lhe a boca de água e seus incisivos se alongaram. Inclinou-se para o pescoço da mulher, durante um longo momento, necessitando. Simplesmente precisando. Bruscamente tornou para trás. Não tiraria sangue de alguém que estava sob o amparo de seu príncipe. Sossegou a terrível fome, tentou se concentrar em sua companheira.

Natalya se entretinha com as cortinas, mas todo o momento suas confusas emoções o golpeavam. O aposento se movia e virava enquanto escutava o fluxo vazante do sangue movendo-se através de suas veias. Cada instinto lhe pedia protegê-la, reclamá-la. Seu corpo e alma rugiam por ela, embora ela tentasse se fechar a ele. Sua fragrância lhe produzia uma febre. 

-Devo enviar um aviso ao príncipe. – Repetiu, Slavica. – Ele se incomodaria comigo se não o fizesse.

Vikirnoff fechou seus olhos ardentes de cansaço, compreendendo que seus ferimentos poderia impedir de manter Mikhail Dubrinsky a salvo por algum tempo.

- O príncipe está em perigo. Envie-lhe essa mensagem. Isso é muito mais importante que se preocupar com meus ferimentos. Curarei-me. Já estive pior e estarei novamente, sem dúvida.

Ouvindo a nota cansada que Vikirnoff não podia ocultar, Natalya o olhou fixamente. Estivera evitando olhar para ele, mas agora viu as linhas de dor esculpidas profundamente em seu rosto e o sangue de seu peito quando Slavica lhe cortou a camisa. Seu coração pareceu falhar um batimento e depois se acelerar como um louco, quando viu os terríveis ferimentos. Sabia que em suas costas havia marcas de arranhões, longos e profundos sulcos onde suas garras o haviam rasgado do ombro à cintura. Envergonhou-se de si mesma. Estava muito lenta em deter o ataque quando ele caíra do céu entre ela e o vampiro, embora não pudesse encontrar culpa ou ressentimento na mente de Vikirnoff.

Seu corpo era duro e musculoso e rabiava de dor. Tudo nela gritava que o tocasse, que aliviasse essa dor. Estava fascinada pela forma em que as mãos de Slavica moviam sobre a pele nua de Vikirnoff. Consolando e examinando. Tocando-o. A respiração de Natalya ficou presa em sua garganta. As mãos a hipnotizavam e enfureciam-na. Algo escuro e feio se removeu em seu interior.

As cortinas deslizaram de entre suas mãos fazendo com que a parca luz da manhã derramasse sobre ela. Vikirnoff, sentindo o súbito perigo, virou a cabeça, com os olhos totalmente abertos para ver Natalya se confundir com a parede, as nervuras de luz camuflavam seu corpo tornando difícil vê-la sem se esforçar. A pesar da dor que o movimento causava, virou-se de lado, estreitando o olhar para se concentrar completamente nela.

Todo o comportamento de Natalya havia mudado. Já não parecia completamente humana, tornara-se uma perigosa e poderosa predadora. Mesmo seus olhos verde-mar haviam mudado de cor, dando passo a uma aparência perlada, fixos e enfocados em Slavica como se ela se tratasse de uma presa. Havia uma imobilidade nela que falava de uma tigresa à caça, músculos tensos e em posição, o olhar intenso e fixo na enfermeira.

- Senhora Ostojic. Slavica... - Disse Vikirnoff, com voz tranqüila, mas com tom exigente-. Mova-se lentamente até o outro lado da cama. Agora.

Slavica olhou fixamente para Natalya enquanto se levantava. Um baixo grunhido emanava do canto onde Natalya desvaneceu até uma imagem imprecisa. Slavica mudou seu peso cuidadosamente, ficando em pé e colocou a massa da cama entre ela e a mulher.

- Ainaak enyémm. - O que te incomodou tanto?- Vikirnoff sabia pouco de mulheres e mesmo ainda de sua companheira. Era bastante fácil entender que as emoções eram intensas e nenhum deles entendia exatamente o que estava aconteçendo. Ele estava lutando a batalha contra a escuridão e o intelecto tinha pouco a ver com os instintos primários. Com Natalya tão perto e ainda não ancorada a ele, era muito mais perigoso do que nunca havia sido. As caóticas emoções que lhe bombardeavam eram a receita para o desastre. Ocorria o mesmo a ela? Ambos estavam tão perto dos instintos animais porque nenhum entendia o que estava aconteçendo?

- Por que permite que ela te toque, então? - A acusação devia ter sido ridícula, mas ele sentia como ela se continha firmemente sob controle. Para Natalya, a acusação era muito real. Via as mãos de uma mulher consolando o corpo de seu companheiro. As emoções corriam muito forte, muito intensas, possivelmente alimentadas por sua própria terrível fome, por sua própria fera elevando-se.

Vikirnoff tocou a mente dela. Uma neblina vermelha se estendia e a aferrava. Instintos tão velhos como o tempo, ardentes de paixão, animais. Havia algo enterrado dentro dela que ainda tinha que encontrar, algo que ela protegia, mas estava elevando até a superfície e era tão perigoso e poderoso como um predador à espreita.

Lutou para manter a intensidade das emoções de ambos. Era seu dever proteger sua companheira, cuidar de seu bem-estar. Tinha que encontrar uma forma de aliviar a situação até que ela pudesse se controlar.

- Slavica, talvez você poderia conseguir a terra e as ervas necessárias. Sabe o que precisamos. Natalya me vigiará. -Vikirnoff não afastava seu olhar ou sua mente, de sua companheira. Não se atrevia. O esforço era exaustivo, mas a alternativa impensável. Natalya deveria ser não só a que o curasse, mas também como sua companheira, lhe ancorar. Mas, estava disparando todos seus instintos animais fazendo com que não só tivesse que lutar por si mesmo, mas prover âncora para a Natalya.

-Está seguro de que estará a salvo? - Slavica sussurrou as palavras.

Um grunhido de desagrado chegou da direção de Natalya.

- Obrigado, sim. - Um suave grunhido foi sua resposta e ele manteve sua face londe de Slavica, seu olhar sujeitando Natalya.

Vikirnoff precisava desesperadamente. Os batimentos de seu coração eram tão ruidosos que eram quase um rugido em sua cabeça. Precisava de sangue e uma forma de controlar o perigo que emanava de sua companheira. Animou à enfermeira a sair antes que o desastre se abatesse. Tentar sujeitar Natalya era difícil quando sua vida estava desvanecendo pela perda de sangue.

Slavica se moveu lentamente, pois era o bastante inteligente para sentir o perigo e o bastante valente para rodear a cama e fazer sua saída, fechando a porta atrás dela.

-Venha aqui. - Ordenou Vikirnoff, seu tom caiu e sua voz era suave e hipnótica.

Natalya sacudiu a cabeça como se tentasse limpar neblina de sua mente. A diferença dos outros, Vikirnoff havia chamado-a a ele, sua companheira era bem consciente de estar sob compulsão. Extranhamente não lutou com ele como poderia ter feito, em vez disso deu um passo relutante para frente, compelida por seus negros, negros olhos e a fome crua que não podia definir. A mesma fome que havia nela, arranhando com uma dor e um poder real, ameaçando consumir os dois.

Era bem consciente do apetite misturado ao desejo, da luxúria e de uma apaixonada necessidade que beirava a obsessão. Fascinada pela intensidade de seus olhos, emergiu das sombras, num lento passo de uma vez.

Parecia etérea e seus músculos moviam sugestivamente sob a pele, brilhando extranhamente a débil luz. Não de tudo real. Definitivamente não humana. Vikirnoff tentou por um momento sondar profundamente em sua mente, desentranhar os segredos que jaziam ocultos sob seus estranhos padrões cerebrais. A fome pulsava para ele sem mercê. Dela? Sua própria? Não podia separá-las. Não podia dizer quais eram as emoções, tão intensas, girando fora de controle. Estava ela com ciúmes? Ou era sua própria fera elevando-se com feroz necessidade?

As mulheres eram da luz. Sentiam elas as afiadas garras arranhando suas vísceras? Ou a vertigem de matar? Sem piscar, observou a forma em que ela emergia da fraca luz, aproximando-se dele. Seus olhos extranhamente coloridos concentrados nele e olhando-o como se fosse a presa, não o inverso. A tigresa estava caçando e a tensão se estirou até o ponto do grito. O perigo arranhava o ar entre eles.

Natalya não podia evitar se mover para frente. Sentia-se como num sonho, um que não podia controlar, de pé e a um lado, observando a ação com um coração palpitante e gritando a si mesma que despertasse. Honestamente não sabia se tinha intenção de matá-lo. Temia-o. Sentia a escuridão nele elevando-se e o sentido de autoconservação era forte nela, mas era incapaz de deter cada passo que dava para frente.

Os dedos de Vikirnoff lhe sujeitaram sua mão como grilhões. Enormemente forte, mas incrivelmente gentil. Seu tato fez com que seu coração palpitasse e seus joelhos inexplicavelmente se tornaram de borracha. Deixou-se cair na beirada da cama. As mãos dele deslizaram por seus braços, os dedos se enterraram em seu cabelo, mantendo-a cativa. Não podia afastar o olhar dele mesmo quando ele forçou sua cabeça para a dele.

Natalya sentiu seu estômago se contrair. Cada terminação nervosa saltou para a vida. Sentia mas não podia se mover. Ele estava ferido, com um buraco no peito, sangrando pelas profundas marcas dos arranhões que havia feito em suas costas e incontáveis ferimentos mais. Estava fraco e aparentemente vulnerável, mas ela ia a ele como um sacrifício voluntário.

Seus lábios tocaram os dela. Frios, firmes e suaves. Seu coração pulou no peito. Ele deixou um rastro de beijos do canto de seus lábios a seu pescoço, diminutas pontas de alfinete em chamas dançando sobre sua pele. Em sua mente, gritava a si mesma que fugisse, mas nenhum som emergiu e se inclinou para ele, afastando o cabelo do pescoço.

Desejava seu toque. Precisava sentir suas mãos sobre ela. Pertencia-lhe. Nenhuma outra mulher tinha direito de lhe tocar, de passar os dedos sobre sua pele nua ou mesmo de estar tão perto para compartilhar seu ar.

O fogo rabiou nas veias de Vikirnoff e saltou para sua sua mente. Um trovão rugiu em seus ouvidos e a necessidade de aliviar sua terrível fome era imensa. Uma fome que se misturava à necessidade sexual, com possessiva luxúria, quase um frenesi. Inalou a fragrância dela, tomou profundamente em seus pulmões. Escutou o fluxo vazante da vida correndo através de suas veias. Ela estava chamando-o. Uma chamada embrujadora e eterna de mulher a homem, um afrodisíaco que elogiava cada um de seus sentidos. Sua língua saboreou a pulsação. Sentiu a reação dela, a rápida aspiração de sua respiração. Os seios roçavam contra ele, uma suave incitação que se somava ao estranho rugido de sua cabeça.

Natalya sentiu a língua dançando sobre sua pulsação e seu ventre se distendeu em espera. Ouve uma dor ardente que deu passo instantaneamente ao prazer erótico. Seu sangue fluiu nele como néctar. Ela mudou-a de posição em seus braços, sustentando-a perto dele, uma mão deslizando-se por seu corpo para embalar o seio, o polegar brincando com o mamilo até endurecê-lo.

Seu corpo se arrepiou, chorando de desejo, quente pela excitação, enroscando-se tenso até que quase lhe suplicou alívio. As roupas feriam sua pele muito sensível. Queria estar sob ele, seu corpo entrando no dela duro e rápido, enchendo seu vazio. Achegou-se a ele, tentando se aproximar mais, arqueando-se deliberadamente, excitando-se mais ainda.

Vikirnoff deixou que o poder e a luxúria o banhassem, empapando seu corpo ferido, lhe suprindo de calor, excitação e força. Seu corpo lhe exigia um cumprimento que seria impossível em seu presente estado. Seu demônio se elevou rápida e ferozmente, pedindo a gritos sua companheira e exigindo que a reclamasse, que os atasse unindo-os para toda a eternidade. Ela sabia que era nada igual que do que conhecia e precisava e nunca teria suficiente.

Desafiando a rugiente fera, Vikirnoff forçou-se a retroceder e passou a língua deliberadamente sobre as incisões da garganta dela. Uma parte dele desejou ter acariciado os seios, mas não teria sido capaz de evitar possuir seu corpo. Já não confiava em si mesmo. Em seu estado de excitação, morreria por possuí-la. Tomá-la agora haveria danos a sua vida, e estava muito perto, para pensar com claridade. Melhor seria tomar precauções que sucumbir a seus instintos.

Moveu-a até que ela ficou atravessada sobre ele, seus olhos verdes olhando-o, refletindo a mesma luxúria que havia tomado o controle de seu corpo. Inclinou a cabeça para seu lado, sujeitando-a imóvel enquanto examinava seus ferimentos. Levou alguns minutos para separar-se de seu corpo e entrar no dela com seu espírito, para curar seus ferimentos de dentro para fora. Prestou particular atenção nos ferimentos agudos de seus tornozelos. O aroma não se parecia com nada que conhecia ou já tivesse encontrado e queria ser capaz de reconhecê-lo em qualquer parte. As feridas eram profundas, até o osso, mas ela não havia dito uma palavra e tinha insistido com Slavica que atendesse a ele... Até que sua natureza ciumenta a tomara. Ela sentia o empurro de um companheiro tão forte como ele e não o desejava. Não o entendia, mas era feroz e forte e suas almas estavam quase unidas e ele ainda não os tinha ligado.

Vikirnoff a trouxe ainda mais perto, lhe sujeitando a cabeça na palma da mão enquanto cortava seu peito. Urgiu-a a se aproximar dele, até que por própria vontade, a boca dela se moveu, a língua provando-o delicadamente. Ele gemeu sob o sensual assalto. Natalya se moveu contra ele, sua língua dançava sobre a pele, curando a longa e fina linha, como ele tinha fechado as incisões.

Vikirnoff amaldiçoou brandamente em seu próprio idioma, preparado para tentar novamente, quando os dentes dela se cravaram profundamente. A dor atravessou seu corpo como um relâmpago, dando passo a prazer. Sua cabeça pendeu para trás e seus olhos se fecharam. Ele se entregou à magia do momento, o autêntico intercâmbio de sangue entre companheiros. Sempre seria capaz de encontrá-la, tocar sua mente a vontade, convocá-la, chamá-la, compartilhar seu corpo, sua mente e sua alma. Havia êxtase no fato de compartilhar e uma promessa de paixão.

Ela lambeu para curar as pequenas incisões e beijou seu peito e a garganta até encontrar seus lábios. Estava quente de desejo, sua boca era exigente, a língua enroscando-se a dele, procurando mais.

As mãos de Vikirnoff se arrastaram sob a regata de couro, acariciando seus seios, seus próprios demônios lhe aferrando. Natalya era um poderoso anestésico, associado a um afrodisíaco. A dor desapareceu quando o sangue quente se apressou em suas vísceras, quando sua necessidade da tê-la venceu seu último pensamento coerente. Estava louco para tê-la quando estava tão perto da morte e se ela não encontrasse a vontade para detê-lo, ele poderia perecer, mas não podia retroceder. Seu corpo estava duro de desejo, suas veias fumegavam, sua consciência hospedando-se em membro, com dolorosa necessidade. Sua fera rugiu, desatou e saltou a reclamá-la.

Natalya gemeu brandamente, entregando-se à súbita exigência da boca dele. Ardente, faminta e úmida. Seus dentes mordiscaram seu lábio e as mãos dele apressaram-se para seus seios. Vikirnoff era persuasivo, rude. Insistente. Natalya deslizou a ponta dos dedos sobre seu peito e o sentiu se sobressaltar, quando tocou o ferimento aberto. – Seu ferimento! - Que demônios estava acontecendo com ela? Virtualmente estava violando um caçador gravemente ferido!

Natalya se separou dele com um suave grito de alarme. Os braços dele se separados de seu corpo deixando-a abandonada. Doía tanto que acreditou que poderia gritar. Desejo e desejo. Retrocedeu afastando-se dele, com a mão pressionada contra o pescoço. Sua pulsação estava em consonância com a frenética pulsação de seu ventre, o selvagem som ressoou com o eco de seu nome quando ele sussurrou. Podia saboreá-lo em sua boca. Seu aroma sobre a pele. Pior ainda, seu corpo estava vivo pelo desejo e fome, em cada pedaço, tão afiados e terríveis como os dele. Piscou rapidamente, tentando aquietar seu amotinado coração. O estado de sonho estava se dissipando, a confusão desvanecia. Ele era um caçador. A culpa e a vergonha estalaram sobre ela, golpeando-a como um pesado punho.

Desejava-o. Não, era pior. Necessitava. A idéia era insana... E completamente inaceitável. Ele tinha que ter feito algo a ela. Nenhum vampiro nunca conseguira fazê-la cair numa armadilha ou tomar o controle de sua mente, mas ele sim. Não havia sentido sua invasão, mas sabia que lhe teria permitido tocar seu corpo. Beijá-la. E ele tinha tomado seu sangue e... Oh! Deus! Ela havia tomado o dele. Estava preparada para ser doadoar. Mas não... Então. Então, nunca.

Natalya tirou uma faca da bainha, presa a sua pantorrilha e avançou para ele com passos decididos.

Vikirnoff a observava tranqüilamente enquanto se aproximava da cama.

- Você me fez... Você me forçou a te aceitar. - Seus olhos flamejavam fúria para ele, uma vez mais passando do verde a um estranho redemoinho de cores perlados. - Desprezo a sua raça, mas estava disposta a fazer mal a Slavica, uma mulher que considero minha amiga. Você me me alguma coisa. Por quê? Poderia te haver deixado para os vampiros.

- Não poderia ter deixado para os vampiros. - Disse Vikirnoff. Mesmo com seu aborrecimento para com ele, incapaz de aceitar sua relação, mesmo embora ele não a entendia absolutamente, sabia que ela era um milagre. Um dom. Estava chocantemente feliz estendido ali, esperando que ela entrasse na razão. Tentou reprimir o entupido sorriso que tentava aflorar em seus lábios. Sabia o que era felicidade. Finalmente, depois de tantos séculos. Sentia a emoção e era um deleite. Havia estado tão perto de se converter em vampiro e ela chegara e o salvara.

Não queria salvá-lo. A idéia o tinha desconcertado. Acreditava-se que as mulheres queriam estar com seus companheiros, ocupar-se de cada uma de suas necessidades. Ele possuia somente pálidas lembranças de seus pais, mas estava quase seguro de como funcionava. A menos que já não se lembrasse mais como havia sido entre sua mãe e seu pai.

Os pequenos dentes brancos de Natalya se uniram num estalo de gênio. Esse risinho zombeteiro querendo aflorar na boca dele a fazia desejar esbofeteá-lo.

- Seu lugar é com os vampiros. Acha que não posso sentir a escuridão em você? Cheirá-la? Uma mancha que não há forma de eliminar. Você merece morrer.

- Possivelmente sim, mas não em suas mãos. Admitirei que a escuridão está forte em mim e não posso superá-la, mas você pode. E fará. É seu dever como minha companheira. Não te absolverei de seus deveres só porque não saiba o que se espera de você. É uma situação que a nós dois é pouco familiar, mas aprenderemos. Posso não ser o companheiro que esperava, mas você não é o que eu esperava tampouco. Aprenderemos juntos.

Por que as coisas que ele lhe dizia a faziam mal? Ninguém, além de seu amado irmão, tinha sido capaz de nunca dizer coisas que lhe fizessem mal. Manteve suas emoções afastadas, embora as palavras de Vikirnoff eram quase tão afiadas e dolorosas como a faca que tinha que empunhava. Só porque ela não era o que ele esperava isso não era um rechaço, certo? E por que se importava?

-Vá para o inferno! - Exclamou. Sua fúria se dissipou bruscamente e lágrimas queimaram... Lágrimas em seus olhos! Queria que voltasse a fúria. Precisada de fúria para se proteger. Por que não contra-atacava? Por que ele não dizia ou fazia algo que lhe devolvesse sua raiva?

Natalya segurou o cabo da faca até quase se converter em pó entre suas mãos. Forçou ar entrar em seus pulmões.

- Esperarei que esteja dormido e seu corpo pesado, então abrirei as cortinas e deixarei que o Sol asse seu imprestável traseiro. - Manteve a voz baixa, suas palavras eram arrudas, mas por dentro estava chorando.Queria te matar. Merecia morrer. - Cada caçador tinha que morrer junto com os vampiros que mantinham a raia. Nenhum deles tinha coração ou emoções Mas, quando ela a olhava, via essa débil luz de felicidade brilhando para ela. Para ela. Ninguém a tinha cuidado até então. E o desejo flamejava em seus olhos. Quantas vezes ele se colocara diante dela para evitar que o vampiro a ferisse? Tentara enviá-la para longe da batalha. Por mais de desejasse estar molesta por esse estúpido gesto, sentia-se protegida.

Natalya sacudiu a cabeça, negando-se a deixar que seu cérebro o defendesse. Ele devia ter utilizado algum tipo de controle mental com ela. Não havia outra explicação para seu comportamento. Nunca o tocaria voluntariamente ou permitido que ele a tocasse. Seus seios ainda doíam e os sentia inchados e doloridos sem seu toque. Detestava a si mesma. Detestava ser tão fraca e mulher ao redor de Vikirnoff Von Shrieder.

E sentira ciúme. Ciumenta. A visão de outra mulher tocando-o era mais do que podia suportar. Sua natureza animal a tinha superado. O que havia possuído seus pais para lhe dar a natureza de um tigre? E por que não fora advertida do perigo mortal, tão real como era, que um caçador podia ser para uma mulher?

Pressionou os dedos sobre as têmporas latentes. Estava andando em areias movediças, afundando-se mais e mais quanto mais lutava contra ele. Vikirnoff não disse nada. Todo o momento simplesmente ficou observando-a, apoiado em num cotovelo. Seu olhar nunca a abandonou. E estava começando a odiar seus olhos. Esse olhar negro e feroz, tão intenso e faminto por ela. Seus olhos a atraíam como nada havia feito... Ou faria. Não importava o quanto dissesse a si mesmo que era errado, que era uma traição, ainda se sentia atraída por ele. Hipnotizada por ele. Luxuriosa por ele. E não era natural. Não podia ser.

Sua incapacidade para romper a garra dele sobre ela alimentava seu gênio.

-Certamente não tenho o dever para você, que tem a desfaçatez de sugerir.

- Não pode negar que é minha companheira. Nossas almas chamam a uma à outra. - Sua voz se suavizou a uma cadência hipnotizadora. - Dê tempo a si mesma, Natalya. Acostumará-se à idéia. Tudo funcionará como se supõe que deve ser.

Ela empurrou a faca de volta à bainha, sua mão tremia. Ele estava seduzindo-a com seus olhos e sua voz. Como podia ser tão suscetível? Precisava de armadura. Como podia era tão confusa, sensível e nervosa? Nunca havia sido e não parecia ter nenhum controle sobre suas emoções.

- Eu gostaria de te asfixiar com um travesseiro. - Mentiu, esperando conseguir uma resposta com a qual poder trabalhar. - Não posso acreditar em você. Ninguém poderia nunca suportar ser sua companheira. - Podia rabiar tudo o que quisesse mas ele sabia que estava encurralando-a. Fechou os olhos e permitiu que a verdade surgisse. - Nunca serei sua companheira. Você matou meu irmão. Meu irmão irmão gêmeo. A única pessoa neste mundo que significava alguma coisa para mim. Acredita que por um momento que o salvaria ou muito menos teria algo a ver contigo?

Vikirnoff ficou em silêncio, tocando suas lembranças ligeiramente, vendo o homem o que ela amava, sentindo seu amor por ele. Sacudiu a cabeça.

- Eu não matei a este homem. Não me lembro de seu rosto e tenho lembrança de cada homem que destruí.

Ela se virou afastando-se dele. Para seu horror, as lágrimas contra as quais estivera lutando embaçaram sua visão. A humilhação era insuportável. Seu coração se retorcia de dor ante a idéia da morte de seu irmão.

- Não você pessoalmente, mas um caçador. Um de sua espécie.

- Por que um caçador tomaria a vida de seu irmão?

Não havia inflexão em sua voz e ele não a estava chamando de mentirosa, nem estava admitindo que semelhante coisa tivesse acontecido. Simplesmente olhava com seus intensos olhos negros, sua face esculpida de dor e isso lhe arrancava as vísceras.

Natalya afastou parte da calça de couro de seu abdômen, para revelar a marca de nascimento que tinha condenado seu irmão à morte.

- Eu tenho a mesma marca. Não pode ser meu companheiro se levar esta marca. É uma sentença de morte. Todos os caçadores nos matarão imediatamente quando virem a marca do mago em nossa pele. - Havia desafio em sua voz, espera em seus olhos. Pretendia surpreendê-lo e se preparou para seu ataque.

Vikirnoff olhou fixamente o intrincado dragão, no lado esquerdo dela. Deixou escapar a respiração lentamente.

- Essa não é a marca do mago, Natalya. É a marca de nascimento de uma das mais antigas e mais respeitadas famílias dos Cárpatos. É a marca do Caçador de Dragões. Nenhum caçador mataria um homem ou mulher marcado com o Caçador de Dragões. Não é possível.

O queixo dela se elevou.

- Está me chamando de mentirosa?

Vikirnoff não lhe respondeu verbalmente. Invadiu sua mente. Não a advertiu e não teve tempo de lhe parar, passou empurrando suas barreiras compartilhando sua vida, o amor de seu irmão, sua risada, seu carinho, a forma em que os dois se viram forçados a viver, ocultando-se e fugindo de lugar em lugar, sempre adiante de seu inimigo.

Natalya tentou lutar para tirá-lo, para lhe bloquear, mas havia uma qualidade arruda em Vikirnoff. Ele empurrou mais, unindo-os até que achou o que estava procurando. Ela odiava a invasão de sua mente. Para ela, era quase pior que estivesse invadido seu corpo. Elevou as mãos e graciosamente riscou símbolos no ar entre eles, numa tentativa de erigir um escudo para proteger suas recordações, seus pensamentos, a essência de quem e o que era dele.

Os símbolos arderam brilhantemente no ar durante um breve momento, laranja, amarelo e ouro, depois empalideceram lentamente, deixando-a vulnerável.

Sua resistência à fusão surpreendeu Vikirnoff, mas ele a ignorou, tentando encontrar as lembranças que tinha formado a desconfiança de Natalya para os Cárpatos.

A culpa de Natalya por causa da morte de seu irmão gêmeo era selvagem e sem fim. Totalmente incomensurável. Era ainda tão afiada e dolorosa como o dia que compreendera que seu irmão, Razvan, estava morrendo. Vikirnoff captou o eco do nome de seu irmão no grito de dor. Seu irmão tinha se conectado com ela por um caminho mental privado e dolorido, lutando para respirar, estendendo uma última vez com uma advertência para ela, de evitar aos caçadores Cárpatos. Fugir enquanto pudesse e permanecer oculta do escrutínio dessa poderosa raça. Eram mentirosos e traiçoeiros. E a matariam no momento em que vissem essa marca. O dragão era a marca da morte.

Razvan estava em meio a agonia, mas agüentara o suficiente para enviar a advertência a sua amada irmã. Bruscamente, antes que ela pudesse lhe dizer que o queria, afastou-se dela. Nunca havia encontrado seu corpo... Ou a seu assassino. Não lhe tinha mostrado a batalha ou a face de seu executor.

-Teve que ser um vampiro. - Disse Vikirnoff, totalmente sacudido quando saiu de sua mente. Suas emoções eram cruas e tão intensas, que ele as sentia também. Respirou fundo várias vezes, para manter o controle. - Não há outra explicação. Sabem que são traiçoeiros. Cada um deles.

-Não foi um vampiro. - Vaiou ela. - Razvan conhecia a diferença. Sua gente empreendeu uma guerra contra a minha gente simplesmente porque um Cárpato não pôde suportar perder sua mulher para outro homem. Minha avó abandonou seu companheiro e isso começou uma guerra. Se os homens dos Cárpatos podem ir à guerra por algo como isso, são perfeitamente capazes de assassinar meu irmão.

- Sua avó, Rhiannon dos Caçadores de Dragões, foi raptada e seu companheiro assassinado. Ela foi assassinada. Essa é a verdade, Natalya e em algum lugar profundamente em seu interior, você é consciente disso ou me teria matado quando me interpus entre o vampiro e você.

- Cale-se! – Ela pressionou as mãos sobre os ouvidos, mas não pôde deter a forma em que sua mente se sintonizava com a dele. A forma em que seu coração procurava o ritmo do dele. Ou a forma em que seu corpo ardia pelo dele. E não podia suportar que lhe recordassem que quase o tinha matado. Tinha permitido a tigresa liberar suas garras e rasgar sua pele do pescoço à cintura.

Ele fechou os olhos com cansaço.

-Lamento a morte de seu irmão. Na realidade, todos perdemos seres querido, na batalha contra o mal.

O golpe na porta salvou Natalya de ter que responder. Slavica abriu a porta cautelosamente.

- Posso entrar?

- Sim. - Disse Natalya. – Você é bem-vinda a se ocupar dele. -Tinha que sair e colocar seus selvagens pensamentos e emoções sob controle. Nunca havia sentido semelhante montanha russa emocional e não desejava voltar a sentir nunca mais. Exausta, tentou ocultar as lágrimas, pegou roupa limpa e fugiu. - Vou tomar uma ducha.

 

- Natalya parecia muito irritada. - Disse Slavica enquanto acendia várias velas para encher o aposento com um aroma consolador. - Sempre é tão difícil para suas mulheres aceitarem que outra mulher os ajude? Mesmo quando sou uma enfermeira e você está gravemente ferido?

Vikirnoff lhe lançou um sorriso débil e sem humor.

-Só conheci a outras duas mulheres de minha espécie nos últimos anos e me parece que ambas são difíceis. Tenho poucas lembranças daquelas que vieram antes.

- Natalya é uma garota doce. - Disse Slavica. - Meu marido, Mirko, está enviando um recado ao príncipe, Mikhail Dubrinsky, de que está ferido. Disse-lhe que um de nossos convidados tinha irrompido no aposento de Natalya enquanto ela não estava. Isso me preocupa realmente. - Franziu o cenho enquanto estudava o profundo buraco de seu peito. - Isto me preocupa também. O músculo e a pele estão rasgados justo sob seu coração. Sua artéria está exposta e parecer já estar formando uma infecção.

- Os vampiros são criaturas asquerosas. Gostam de deixar sua marca.

Natalya se apoiava contra a porta do banheiro e ouvia a conversa, envergonhada por seus ciúmes. Não era uma garota doce. Era uma mulher adulta bem mais velha que Slavica e deveria ser e estar completamente controlada todo o tempo. Sua atitude frívola tinha sido cuidadosamente cultivada para manter as pessoas à distância, mas como norma, estava completamente controlada. Desde que conheceu Vikirnoff parecia que estavam jogando ping-pong com suas emoções. Não gostava muito da sensação... Nem gostava de si mesma neste momento.

É obvio que o buraco no peito de Vikirnoff era preocupante. Um vampiro tinha tentado lhe arrancar o coração. O que queria dizer Slavica com isso? Que era um ferimento mortal? Slavica sequer tinha chegado às marcas das garras do tigre em suas costas. E se Vikirnoff morresse, depois de tudo? Natalya estava tão ocupada metendo-se com ele, que quase havia se esquecido o que ele sofrera em sua defesa. Estava completamente desgostasa consigo mesma.

Natalya esmurrou a parte de atrás de sua cabeça contra a parede com frustração. “O que acontece comigo”?

- Não te passa nada. Deram-te uma versão de uma história e você acredita nela. Acha que sou seu inimigo embora seja minha outra metade e sua alma me reconhece como tal. Não me surpreende que esteja confusa.

A voz tranqüila de Vikirnoff entrou em sua mente. A voz da razão. Pureza e verdade. Tão controlada... Como se lhe desse permissão para estar irritada. E isso a incomodava demais. - Não invente desculpas para mim. Sou perfeitamente capaz de reconciliar com minha própria mente. Tudo em você me incomoda até o inferno.

- Tudo? - Seu tom era humilde, mas a inflexão sugestiva.

Natalya apertou os olhos firmemente quando a calidez fluiu em seu corpo. Se sua voz podia deixá-la fraca de desejo por ele, aterrava-a o que poderia acontecer se ele a tocasse? Estava vulnerável. Esse era o problema. Desejava um lar e uma família. Alguém que compartilhasse sua vida e ele havia aparecido, tão bonito com esses olhos, essa boca e esse corpo e a tinha derrubado. Isso era tudo. Um pequeno tropeção.

Slavica falou novamente.

- Precisarei de sua saliva. A minha não tem propriedades curativas.

O estômago de Natalya se contraiu e seus músculos se esticaram em protesto.

-Demônios! - Murmurou enquanto abriu de repente a porta do banheiro e se apressou a sair, segurou o balde de madeira cheio de rica e escura terra, sem se atrever a olhar para Vikirnoff.

- Eu a farei. - Anunciou, a exasperação coloria seu tom. - Se sabe o que lhe convém, manterá sua boquinha fechada. E não se atreva a sorrir, porque honestamente, não tenho nem idéia do que farei se for tão estúpido e insensível.

- Nunca me acusaram que ser insensível. - Vikirnoff não estava seguro de que fosse absolutamente verdade. A companheira de seu irmão, Destiny, definitivamente tinha feitos uns quantos comentários apontando sua falta de conhecimentos sobre as mulheres.

-É obvio, Natalya. - Animou Slavica. - Agradeço a ajuda. Curar um Cárpato é muito diferente de curar um humano.

-Já fez isso antes? - Perguntou Natalya, curiosa. Não parecia muito provável que a raça dos Cárpatos compartilhasse informação tão vital como a forma de curar com os humanos.

Natalya olhou para Vikirnoff, incapaz de se conter e seu coração se estremeceu ansiosamente. Seria sempre tão pálido? Havia círculos escuros sob seus olhos encovados. As linhas brancas ao redor de sua boca eram o único sinal externo real de dor, mas ela o sentia. E sabia que ele estava, de algum modo, defendendo-a. Isso a irritava também.

Ela era tão poderosa e tão capaz como ele. Só porque ele sabia que teria de incinerar os corações dos vampiros para matar ao não-morto, não o fazia mais poderoso ou perigoso, só mais sábio. Arriscou outro olhar para ele enquanto trabalhava com a terra, tentando não notar a forma em que Slavica o tocava. Era impessoal, podia ler a mente de Slavica, sabia que não havia pensamentos inapropriados, somente a necessidade de ajudar a curar os ferimentos de Vikirnoff. Havia também uma preocupação muito real de não ser capaz de salvá-lo. Ainda assim, observar as mãos de outra mulher sobre seu corpo era perturbador.

- Me diga o que mais necessita. - Disse Natalya antes de colocar a se conter. Um lento vaio de exasperação escapou de seus lábios, mas se manteve sobriamente concentrada em sua tarefa. Sabia que a terra era muito importante, que seria colocada sobre os ferimentos de Vikirnoff.

- Ele vai precisar de sangue, muito sangue. E necessita de terra e de alguém que entre em seu corpo e o cure de dentro para fora.

Natalya pressionou suas costas contra a parede. Maldito homem. - Estou malditamente segura de não querer me arrastar por sua mente e corpo.

- Não lhe pediria isso.

Ela apertou os dentes. É obvio que não pediria. Se tivesse pedido, teria dito que fosse para o inferno, mas não, tinha que se mostrar estóico e heróico com ela. Não lhe pedira que o levasse para à estalagem, mas a cuidara com esses intensos olhos negros e não lhe tinha deixado escolha.

Estava inconsciente.

- Se soubesse o que te convém, estaria inconsciente agora. - Jogou fumaça para ele, fulminando-o com o olhar, mas ele manteve os olhos fechados. E isso atraiu sua atenção a seus longos e negros cílios.

- Curei a mim mesma de dentro para fora, Slavica. Requer grande quantidade de concentração e se acontecer de ter que ajudá-lo, quero que não diga ou faça nenhuma estupidez que me deixe louca a ponto de desejar lhe acrescentar alguns ferimentos a mais, então pode funcionar.

A boca de Vikirnoff se curvou num débil sorriso.

-Soa tão amorosa.

Slavica sorriu.

- Ela parece falar sério, Senhor Von Shrieder.

-Vikirnoff. - Corrigiu ele. - Não acredito que este seja o momento para cerimônias. Se estiver sob o amparo de nosso príncipe, então está sob meu amparo e é uma amiga.

Natalya vaiou, zombeteira.

- Agora não poderia proteger nem a uma mosca, Senhor Encanto, então acabe com o esse flerte e me deixe trabalhar.

Vikirnoff parecia confuso.

- Por que deveria proteger uma mosca?

Slavica cobriu a boca com a mão e tossiu delicadamente.

-Está evitando deliberadamente o assunto. - Disse Natalya e se afundou no colchão, sua coxa roçou o corpo dele.

-Não entendo como ou por que está comparando Slavica com uma mosca. - Disse Vikirnoff com o cenho franzido. - Eu não vejo a semelhança.

O risinho de Slavica deslizou além de sua mão. Apressadamente se serenou e lançou um olhar de desculpa a Natalya.

-Se recoste, Vikirnoff e fique quieto. Natalya, deve te ensinar o canto que utilizam todos os curadores Cárpatos quando trabalham.

- Eu não sei. - Admitiu Natalya, sentindo-se culpada e envergonhada, por que não sabia. Não tinha razão para saber o estúpido canto. - Não sou completamente Cárpato e nunca vivi com sua gente. Sei muito pouco sobre eles.

Os dedos de Vikirnoff lhe pegaram o queixo e a elevaram. O olhar dele procurou o dela e a manteve ali, quando queria partir. Para a severidade de seus ferimentos, ele tinha uma força surpreendente. - Eu não gosto que se sinta envergonhada. Por que teria que saber algo que ninguém te ensinou? São poucos os que sabem que o coração do vampiro deve ser incinerado ou se elevará uma e outra vez. E menos ainda sabem como separar mente e corpo para curar. E o número dos que sabem as palavras sagradas de cura, é menos ainda.

Sua voz consolava mais que suas palavras, roçando nela como seda, envolvendo-os numa intimidade que trouxe lágrimas inesperadas a seus olhos. Sufocou um nó que ardia em sua garganta e escapou do olhar dele. Ele estava tocando-a de forma que ela não podia compreender e sua reação a assustava. Estava terrivelmente envergonhada por seu feroz comportamento com Vikirnoff quando ele jazia na cama com o peito, a coxa e as costas rasgadas e a todo o momento tentando consolá-la.

- Eu estou tendo problemas para manter estas caóticas emoções a raia, por que deveria ser mais fácil para você?

Sua confissão quase lhe provocou outra rajada de lágrimas. Natalya se inclinou sobre seu peito, pressionando a mistura de terra e saliva no buraco próximo ao coração. Sob seus dedos, sentiu o músculo se esticar. Lançou um olhar nervoso à face dele, viu diminutas gotas de suor em sua testa. Seu estômago protestou com uma rápida contração. Sua respiração vaiou entre os dentes.

- Bem, Natalya. - Animou Slavica. – Vikirnoff, nos ensine palavras para que possamos ajudar quando Natalya tente te curar.

- Se apresse. Escapou-lhe, sem respiração, tomada pela ansiedade. Natalya mordeu o lábio inferior, mas não deteve a preocupação em sua mente. Odiava lhe causar dor, mesmo quando sabia que estava lhe ajudando com o cataplasma de terra. - Diga-me as palavras e eu as repetirei a Slavica. E me conte que significam.

- Kuñäsz, nélkül, sivdobbanás, nélkül fesztelen löyly. Significa, "Jaz como se estivesse dormindo, sem pulsar seu coração ou sua respiração" Vikirnoff tossiu e apareceu uma gota de sangue em seus lábios. – Ele afastou o rosto dela, para continuar. - Ot élidamet andam szabadon élidadért significa "ofereço minha vida por sua vida". - Seu olhar flutuou sobre ela brevemente. - Pode ser que não queira que continue.

- Só me dê as palavras.

- Ou jelä sielam jörem ot ainamet és soe ot élidadet. - Vikirnoff tossiu de novo e arrastou sua camisa rota à boca. Natalya pôde ver que ficava instantaneamente manchada de sangue. - "Meu espírito de luz abandona meu corpo e entra no seu". Ou jelä sielam pukta kinn minden szelemeket belsö.

Vikirnoff se deteve quando ela pegou sua camisa e gentilmente lhe limpou a boca. Seus olhos entraram nos dele.

-O que significa isso?

"Meu espírito de luz afasta todos os espíritos escuros de seu interior" - Sua mão foi em busca da cintura dela, para mantê-la imóvel. - Obrigado, Natalya.

- De nada. Diga o resto antes que perca a consciencia.

- Paj´nak ou susu hanyet és ou nyelv nyálamet sivadaba, significa, "Pressiono a terra de minha gente e o espírito de meu idioma em seu coração".

- Basicamente o canto cobre exatamente o procedimento de cura -disse Natalya.

Vikirnoff assentiu. - VII ou verum soe ou verid andam is "Ao fim, dou meu sangue por seu sangue". Isto se repete enquanto o curador está dentro do corpo. É uma cerimônia que passou irmão em irmão através do tempo e tem muito poder.

Natalya repetiu as palavras lentamente várias vezes para Slavica. A enfermeira assentiu e começou o canto, captando os sotaques e murmurando as palavras com voz suave e melódica.

Natalya tomou um profundo e clarificador fôlego e o deixou escapar lentamente. Com freqüência curava pequenos ferimentos em seu próprio corpo com a técnica de separar o espírito do corpo, mas nunca em outra pessoa. Era perigoso e difícil permitir que o corpo se afastasse e converter na energia curativa necessária. E entrar no corpo de Vikirnoff... E se cometesse um engano? E se fizesse algo errado e piorasse as coisas?

- As coisas não podem piorar, ainaak enyém. Não posso agüentar muito mais. Se não entrar em meu corpo e o curar, lhe agradarei morrendo e te salvando da necessidade de achar uma forma de me matar.

Natalya sabia se ele estava tentando ser gracioso ou se falava sério, mas as palavras reafirmaram sua resolução. Lançou-lhe um olhar rápido. - Boa saída também. Você me deixa louca.

- Eu sei.

Havia muita satisfação em sua resposta ronronante. Mas havia também um eco soterrado de dor. Estava se tornando mais difícil proteger-se da dilacerada agonia que o fazia suar sangue. Natalya se fechou à confusão, a culpa e a dúvida. Precisava abandonar sua própria pele, deixar de um lado seu ego e suas dúvidas, as debilidades de seu eu e se converter em pura energia, a essência da vida, num espírito de luz que pudesse viajar. Sem carne e ossos.

Também ela começou o canto, as rítmicas palavras a ajudavam a se concentrar e se enfocar em sua tarefa. Sentiu a separação e por um momento, entrou em pânico como sempre acontecia. Obrigou-se a empurrar através da conscientiza e deixá-lo passar. Sabia que Vikirnoff estava com ela, que era uma sombra em sua mente. Não estava segura de que ele estava ali como apoio, como ajuda se fosse necessário ou porque temia que ela pudesse tentar lhe matar.

Encontrou-se retrocedendo a seu próprio corpo. Uma cor fraca atacou suas bochechas. Não podia olhar para Slavica e admitir sua falha. - O que fiz de errado?

- Nada. Voltou-se consciente de minha presença e permitiu que isso a distraísse. Aconteçe com todo os curadores quando tentam entrar em outro corpo. Tente novamente, Natalya. Parece ter talento.

- Só tenho feito isto comigo mesma.

- Mas sem treinamento. Ninguém te mostrou como fazer, mas conseguiu por sua conta. Deve ser uma poderosa curadora ao igual a todos os Caçadores de Dragões. Estou contigo para assegurar sua segurança. Se me quisesse morto, não estaria tentando isto.

O supremo cansaço de sua voz lhe deu força e determinação. Deixou escapar a respiração lentamente e liberou sua mente e o espírito de seu corpo. Estreitou sua consciencia a Vikirnoff, a seu corpo quebrado e ensanguentado, os terríveis ferimentos infringidas por um vampiro, a mais malvada das criaturas.

Era necessário manter-se fora do cérebro dele, ignorar suas lembranças e seus pensamentos. Descobriu que era toda uma luta se separar dele. De algum modo estavam já entrelaçados e alguma parte instintiva, emocional e alienada dela temia sua morteRespirou novamente, tranqüilizadora e uma vez mais se concentrou no canto. Este estava ali para ela, concentrando sua energia, atraindo-a ao aquebrantado corpo de Vikirnoff fazendo com que flutuasse através dele, luz branca curadora e pura.

O dano era tremendo. Pior do que tinha esperado e além de seus lucros como curadora até a presente data. Surpreendeu-a com a capacidade dele para continuar, estando completamente destroçado por dentro. As profundas marcas de garras de suas costas eram arranhões em comparação com o dano produzido por Arturo.

Natalya começou o meticuloso trabalho de curar de dentro para fora. Depois de um tempo foi consciente de que cada vez que duvidava, era Vikirnoff quem a dirigia, ajudando-a a fechar o músculo e os tecidos destroçados, reparando os órgãos danificados e eliminando cuidadosamente a infecção e, em vários pontos, o veneno.

O volume do canto se incrementou quando outros Cárpatos se uniram na distância, homem e mulher, suas vozes se elevavam juntos em ajuda a cura de um dos seus, a pesar do sol subindo alto no céu. Se o trabalho não tivesse exigido toda sua atenção, as vozes unidas a haveriam deixado nervosa. Nunca havia estado tão próxima às pessoas dos Cárpatos e eles estavam tocando sua mente, igual ela estava tocando as deles.

Não fazia idéia de quanto tempo passou antes de terminar com as reparações do peito de Vikirnoff, mas quando se empurrou de volta a si mesma, seu corpo cambaleava de cansaço. Slavica sustentava um copo de água para ela. Natalya tomou agradecida e o bebeu de um gole.

- Como sabe como fazer isto? - Perguntou ela a Vikirnoff. - Não acredito que um médico pudesse fazer o que você acaba de fazer.

Se fosse possível, Vikirnoff estava ainda mais pálido, sua pele era de uma alarmante cor cinza. Natalya pegou o braço de Slavica.

-Olhe! Deixei-o pior.

-Não acredito. – Consolou-a, Slavica. – Ele precisa de sangue. Devemos encontrar uma forma de lhe proporcionar sangue. – Ela respirou fundo. – Dei meu sangue uma vez a um Cárpato, embora não recordo o que se sentia. Posso lhe dar o meu.

O protesto que se elevou em Natalya, afiado e feio. Obrigou-se a se afastar da beira do perigo. Negava-se rotundamente a se comportar como uma tola pela segunda vez. E não ia contar a Slavica que um intercâmbio de sangue com Vikirnoff era a coisa mais erótica que tinha experimentado.

-Eu lhe darei sangue. – Disse. - A idéia de lhe tocar, de lhe saborear tão intimamente era aterradora. Quanto mais desejava fugir dele, mais íntimos pareciam se tornar.

-Ela está muito fraca. - Objetou Vikirnoff.

Sua voz era tão débil, que Natalya se inclinou sobre ele para ouvir as palavras sussurradas. A respiração era quente contra seu ouvido. Podia ver a débil revoada de sua pulsação.

-Vá dormir e conserve suas energias. – Ela ordenou. – Falo sério, caçador. Não vás morrer e danificar o melhor trabalho que fiz na minha vida.

- Está começando a gostar da forma em que me fala e isso é aterrador. - Havia o mais fraco dos sorrisos em sua voz.

Era tão suscetível a ele.

-Somente hiberne ou entre em animação suspensa ou o que seja que sua gente faz quando estão clandestinos. – Ela olhou a Slavica com muito desespero, mas não pôde se conter. - Pode fazer alguma coisa? Tem drogas ou algo que o nocauteie para que não tenhamos que ouvi-lo mais? É tão mandão tentando levar sempre a voz cantante que não vai morrer. – Ela odiava estar traindo sua preocupação por ele.

- Infelizmente tem razão sobre o sangue. – Disse, Slavica. - Tem que trabalhar mais nele e precisa de suas forças. As horas passam e logo estará muito cansada para fazer isto. Não forma de o levarmos a terra curadora, com todo mundo nos olhando.

- Eu não me canso com o Sol como acontece com os Cárpatos. – Disse,Natalya. - Sou só parte Cárpato. - Nunca tinha pensado realmente nesse lado dele e os dons que tinha herdado de sua avó.

Baixou o olhar para Vikirnoff. Definitivamente ele precisava de mais sangue. Duvidava que sua natureza pudesse suportar que ele tomasse o que necessitava de Slavica. Como podia explicar à enfermeira o que não entendia nem ela mesma?

Slavica pareceu adivinhar o problema.

- Por que não faço o que posso para cuidar dos ferimentos que restam e você lhe dá o sangue? Se acreditar que precisa de pontos, pode voltar a entrar somente para essa parte. Nenhuma dos outros ferimentos ameaça sua vida. Provavelmente possa fazer uma inspeção rápida deles para nos assegurar de que nenhuma bactéria se introduziu em seu sistema. Dessa forma conservará forças e pode lhe prover.

Natalya ajudou a Slavica a rodar Vikirnoff de lado, expondo suas costas. As marcas eram largos sulcos escavados em sua carne, de vários centímetros de profundidade em alguns lugares. Slavica olhou Natalya.

- Sinto muito, terá que fazer isto. Eu teria que lhe dar pontos, os cortes são muito profundos. Limparei-os para te dar oportunidade de descansar.

- Conte-me como soube dos Cárpatos. Vê-os com freqüência? - Natalya não queria pensar muito em como tinham chegado essas marcas nas costas dele.

- Não há necessidade de sentir culpa.

- Por favor! Durma.

Slavica sorriu.

-Mikhail e Raven Dubrinsky são visitantes habituais do povoado. Têm muitos amigos aqui e ajudam muito. Duvido que nenhum dos outros saibam que não são simplesmente outros casais de humanos que vivem nesta região. Não faz muito, outros dois Cárpatos me deram a conhecer. Traziam com eles crianças humanas. Angelina e eu com freqüência cuidávamos das crianças durante o dia.

Slavica trabalhava enquanto conversava, lavando os ferimentos e vertendo sobre elas algo que obviamente fazia arder às costas de Vikirnoff. Ele começou a suar sangue. O estômago de Natalya se revolveu em protesto.

- Já estou bem. Verei se posso curar esses ferimentos, Slavica. - Quantos ferimentos ela tinha feito. Natalya fechou os olhos brevemente desejando poder retroceder esse momento no tempo. Imediatamente uma calidez fluiu nela. O toque de Vikirnoff. Reconhecia-o agora, tão ligeiro que quase não estava ali, embora forte e incrivelmente terno.

Não era justo que ele pudesse fazer isto. Tinha muito confiança em si mesmo. Com ele tanto em sua mente, não podia evitar captar seu caráter. – Você é do tipo forte e silencioso, embora não pareça ser muito silencioso a meu redor. Já eu gostaria. - Deliberadamente zombou dele, desejando que a dor se retirasse de seu corpo embora fosse só por um segundo.

Sentiu seu sorriso, mas ele não falou, nem sequer à forma íntima dos companheiros. Deixou escapar a respiração, sem ser consciente até esse momento de que a estava contendo. Vikirnoff estava fraco e o estado de pesadez que invadia à raça dos Cárpatos estava começando a fazer dele sua presa. Mesmo com as pesadas cortinas baixadas, a luz feria seus olhos. Ela sentia o ardor como se foose próprio.

-Cubra seus olhos, Slavica, enquanto eu termino com isto. - Disse Natalya entredentes. A idéia de que ele estivesse sentindo tanto dor, dor que ela tinha causado, era totalmente desconcertante.

- Você não causou minha dor.

Aí estava essa ternura que fazia acelerar seuo coração. Como podia ser sua voz tão brandamente aveludada e gentil? Como ela podia acariciar seu corpo como calor sedoso deixando-a tão débil e vulnerável? E o que a estava chamando?

Slavica acrescentou pesadas toalhas de mesa sobre as cortinas para que nenhuma luz tivesse possibilidade de atravessar a janela ou a porta.

- Obrigado. - Disse Natalya. O aposento obscurecido tornava mais fácil abandonar seu corpo e recuperar sua forma espiritual, viajando através de Vikirnoff para alcançar os largos sulcos que a tigresa havia escavado em suas costas. Fechou os ferimentos, eliminando a bactéria, comprovando e tornando a comprovar que tinha unido cada pedaço da carne aberta, músculos e veias. Como ele havia conseguido caminhar até o interior da estalagem e subir as escadas em semelhantes condições era algo do que ela não tinha idéia. Não queria admirá-lo, mas o fazia.

-Acredito que já está tudo certo. - Anunciou Natalya, apoiando-se pesadamente contra Slavica. Estava exausta. Vikirnoff jazia imóvel. Entre seus ferimentos e a hora do dia, seu corpo já estava pesado. Natalya sentiu o mais antinatural desejo de se estender junto a ele, com seu corpo aconchegado protectoramente ao dele e dormir.

- Não acontecerá nada se eu te deixar? - Perguntou Slavica-. Mirko está tocando a estalagem só e eu gostaria de muito comprovar o paradeiro de Brent Barstow.

-Terei que proteger a porta, então não tente entrar a menos que eu te chame. - Advertiu Natalya. - Chamarei se precisarmos de algo. Muito obrigado por sua ajuda, Slavica. E lamento por ter ficado estado um pouco estranha.

Slavica tocou seu braço.

-Não há necessidade disto. Mirko e eu faremos o que pudermos para manter um olho sobre Barstow.

Natalya sacudiu a cabeça.

-Já está fazendo muito por nós. Não quero que nenhum dos dois se coloque em perigo. Dormiremos até a noite e podemos nos ocupar disso logo depois.

Natalya seguiu Slavica até a porta para comprovar o corredor. A intranqüilidade crescia nela, mas podia ser o medo de ficar sozinha com um caçador. Não qualquer caçador... Vikirnoff. Começou a tecer o intrincado padrão de salvaguarda para a porta e as janelas. Qualquer que coisa que as perturbasse levaria umas boas surpresas desagradáveis.

- Excelente trabalho. Eu não o teria feito melhor.

Sua concessão a agradou, embora o fato de que não estivesse dormindo a deixava incômoda. - Estive estudando desde que era menina. Minha família provém de uma linhagem ancestral e os feitiços passaram que mão em mão durante séculos. – Ela franziu o cenho quando compreendeu que estava utilizando uma forma de comunicação muito mais íntima. Mente a mente, em vez de falar em voz alta.

- Lamento que esta forma de conversa a incomode. Não tenho forças para uma conversa verbal.

- Sei que não. Não tenho objeções. Se pudesse ficar fora de minha cabeça, não estaria ouvindo coisas que não deveria. As pessoas necessitam de privacidade. Especialmente eu. – Ela tamborilou os dedos contra o colchão. – Você precisa de mais sangue. E eu preciso te lavar. Francamente, você parece um desastre. – Ela examinou-lhe, com as mãos nos quadris. - Não sei como conseguiu chegar aqui, mesmo viajando nas costas de um tigre.

- O tigre foi uma maravilhosa experiência. Meu irmão disse, em mais de uma ocasião, que sou teimoso.

-Isso é uma surpresa. - Natalya lhe lançou um sorrisinho enquanto pegava toalhas, esponja e água quente no banheiro, alegre por completo-. Não posso imaginar alguém te chamando de teimoso.

- É muito valente quando estou aparentemente indefeso.

A sobrancelha de Natalya se elevou.

-Aparentemente? – Ela foi gentil quando limpou seu rosto, com o pano molhado.

- Não tem que fazer isto.

Ela fez uma careta enquanto lhe secava o rosto.

-Sei que tenho. Não vou dormir no chão e você parece um desastre. - Isso era exatamente o que planejava a fazer. Dormir no chão diante da porta com várias armas na mão.

Desejava deitar e dormir na cama vários dias, mas não ia ser hoje.

Ele ficou calado novamente e ela terminou de lhe higienizar, passando o pano sobre seus músculos, eliminando todo rastro de sangue de seu peito e do estômago. Natalya atirou os farrapos que restavam da camisa a um canto. Pensou, tentada a ir mais à frente, mas estava esgotada e ainda devia lhe dar sangre. DEpois, não queria ser nada tentadora.

A suave risada dele roçou o interior de sua mente. - Não é provável que possa fazer nada a respeito das idéias que tem em sua mente.

- Não seja tão acreditado. Não me impressiona facilmente. - Mortificada porque ele estava lendo seus pensamentos outra vez, Natalya se apressou a entrar no banheiro. Muitos dos quartos compartilhavam o mesmo banheiro, mas Natalya tinha pedido especificamente o único com banheiro próprio Havia se sentido um pouco culpada sabendo que estaria fora vários dias às vezes, mas agora agradecia por ter reservado o aposento.

A água quente foi milagrosa quando tomou uma ducha, esperando reavivar-se após a longa vigília. Estava machucada por toda parte. Sequer havia notado até esse momento. Cada músculo lhe doía, sua cabeça palpitava e seus olhos ardiam o suficiente para se recordar que o sol estava se elevando. Podia ouvir o zumbido das conversas ao longo da estalagem, a risada fora na rua, o barulho dos cascos dos cavalos enquanto as carroças iam e vinham, ocasionalmente intercalado por um carro. Ela era uma pessoa solitária, mas desfrutava dos sons da humanidade e normalmente evitava amizades nas cidades e povoados pelos quais passava. Era a única forma de se ver encaixar no mundo quando este era um lugar sem significado para alguém como ela.

Era em parte Cárpato. Era capaz de alguns lucros, mas não de todos. Tinha inconvenientes, embora não da severidade dos deles. Não pertencia a seu mundo, não pertencia a uma espécie que assassinara a seu irmão e empreendido uma guerra por uma mulher, embora a mulher fosse sua avó.

O sangue de mago era forte nela. Pertencia a uma antiga linhagem dotada com a habilidade de esgrimir a magia, utilizar a harmonia da terra, sujeitar energias e espíritos a seu redor. Era hábil nisso, capaz de tecer poderosos feitiços, combinando o texto ancestral e suas próprias invenções com assombrosos resultados, mas não havia lugar para tais coisas no mundo moderno.

O pensamento disparou num brilho de cor ou possivelmente de um pesadelo. “Não quero fazer isto. É muito perigoso. Razvan, diga o que aconteçerá se chamar esse espírito. Não o farei. Razvan, está me fazendo mal. Faça com que pare!” - Uma figura sombria das sombras e se ergueu sobre ela enquanto seu irmão se apressava em sua ajuda. Com a boca aberta, Natalya retrocedeu...

- O que é isto? - Havia alarme na voz de Vikirnoff.

Natalya fechou os olhos, as lágrimas deslizaram por seu rosto enquanto captava a visão de seu irmão no chão, seu rosto se inchando e o sangue saindo do canto de sua boca. Como sempre, a porta de seu cérebro se fechou de repente, detendo efetivamente a projeção da inquietante lembrança.

- Natalya? Devo ir a você? O que a incomodou?

Ela se apoiou contra o Box do banheiro. Havia tanta preocupação na voz dele. Ela não se preocupou ou sentiu afeto durante muito, muito tempo. - Não seja tolo. Só estou cansada. - Ele podia ver tudo em sua mente? Os lugares que estavam tão escurecidos que estavam além de sua própria capacidade de ver?

Seu pai, Soren, havia sido meio Cárpato e meio mago. Casou-se com uma humana, sua amada mãe, Samantha. Natalya fechou os olhos com força e tentou não pensar em sua mãe e a massa que os vampiros haviam feito dela. Seu pai se tornou um louco e tinha deixado seus filhos, Razvan e Natalya sozinhos enquanto ele ia em busca dos assassinos de sua mulher. Nunca havia voltado e Razvan se converteu em sua única família.

Queimaram-lhe os olhos ante a idéia de seu irmão. Tão amável com ela, tão cuidadoso ao se assegurar de que ela utilizava cada salvaguarda, morto pela mão de um caçador. Colocou a mão sobre a porta do Box, como se pudesse sentir Vikirnoff através da divisão. O caçador estava vivo porque ela tinha elegido lhe salvar.

Suspirando, saiu da ducha e secou seu corpo, sobressaltando-se um pouco quando tocou os machucados. Natalya se escostou na parede, cobrindo o rosto. O que lhe diria Razvan se estivesse vivo? Estaria aborrecido e envergonhado dela? Ou a entenderia? Ela pressionou as mãos sobre os ouvidos como se estivessem amortecendo as recriminações sussurradas.

Não entendia por que se sentia tão atraída pelo caçador, por que tinha considerado mesmo a possibilidade de ser sua companheira. No passado, tinha sido testemunha de como uma mulher se sentia atraída por um caçador apesar de suas intenções de não fazê-lo, mas Natalya não era completamente Cárpato ou completamente humana. Era também feiticeira, com o sangue do mago escuro fluindo por suas veias. Poucos tinham seu poder. Não acreditava que pudesse ser presa com êxito. Como podia esperar que Razvan acreditasse se ela não acreditava? E como podia esperar sua compreensão? Temia que ele pudesse sair de sua tumba para condená-la.

Abrindo a porta do banheiro, cruzou o aposento até o caçador gravemente ferido e se perguntou por que estivera tão decidida a vê-lo vivo. Natalya pegou uma calça que se amarrava a sua cintura com um cordão e uma camisa de manga longa e se deteve oara observar a Vikirnoff. Parecia estar morto. Não podia detectar a mais leve respiração movendo-se através de seus pulmões, mas não queria se aproximar ainda. Ainda restava a tarefa de lhe dar sangre.

- Não tem que fazer nada tão aborrecido para você, kislány. Não é necessário. Sobreviverei.

Natalya soprou. Ele estava acordado todo o tempo, uma sombra em sua mente? Por que não podia notar quando ele estava fundido com ela?

- Do que me chamou? O que significa Kish-lah-knee?

- A ênfase é uma primeira sílaba. Kish-lah-knee. Significa "menina".

Natalya sugou a respiração, a fúria se elevou instantaneamente.

- Do que mais me chamaste? - Ela não era uma menina, nem um bebê e maldita fosse se tinha medo dele. Bem, possivelmente isso não era de todo verdade, mas se negava a se deixar intimidar quando o caçador estava tão gravemente ferido. Arregaçou a manga da camisa, num gesto decidido e se obrigou a atravessar o aposento.

- Chamei-te de minha "pequena menina" e "sempre minha".

O cansaço na voz dele mexeu com seu coração, apesar de sua fúria. Ele estava utilizando muita energia quando precisava desesperadamente conservá-la.

-Não sou uma "menininha" ou uma "menina". – Declarou. - Sou uma mulher adulta e espero que me trate com respeito.

- Como você a mim?

Ela mordeu a mão e a pressionou na boca dele. A dor a atravessou, mas manteve o queixo elevado e aceitou. Não ia se sentir culpada. Ele era um caçador. Pelo amor de Deus! Um de seus maiores inimigos e lhe tinha salvado a vida, isso devia ter sido suficiente.

- Não é uma "pequena menina". Mas é ainaak enyém, "sempre minha". Obrigado por se ocupar de mim quando não está segura de ser o correto.

- Não me agradeça. Não quero seu agradecimento. Só se apresse em se levantar e ficar bem para que possa te pegar. Possivelmente seu príncipe venha e o leve para casa com ele e o tire de minhas saias.

E esta noite não se atreveria a convocar seu sonho de Razvan como fazia cada vez que dormia. Adorava ir deitar e evocar suas lembranças da infância com seu irmão gêmeo, para poder acontecer um momento com ele. Sempre se encontravam em seus sonhos e trocavam o que tinham aprendido. Isso era tudo o que lhe restava, mas não desta vez. Não se atrevia a enfrentá-lo. Não com o caçador dormindo em sua cama e seu sangue lhe fluindo nas veias. Nem sequer estando Razvan morto.

- Meu lugar não é com o príncipe. É contigo.

Natalya suspirou e esperou até que ele fechou cortesmente sua mão com a língua. O toque foi um áspero mas suave e enviou calor para todo seu corpo, diretamente por seu braço.

- Eu não acredito que sejamos adequados um para o outro. Nem sequer eu gosto, Vikirnoff. Minha avó não teria sido uma autêntica companheira de seu Cárpato se apaixonou por meu avô. Disse-me que as palavras vinculantes só funcionavam para um casal autêntico. Não acredito que nós sejamos autênticos companheiros. Não somos compatíveis.

Vikirnoff abriu os olhos. Havia se esquecido do quanto eram negros. O quanto era intenso era seu olhar. Mesmo na escuridão podia ver que ele tinha visão noturna, como ela.

- Rhiannon estava com seu autêntico companheiro. Xavier assassinou seu companheiro e a reteve.

- Ela estava apaixonada pelo Xavier. Ouvi muitas histórias sobre sua vida juntos. Seu tempo foi curto, mas viveram cada momento juntos, felizes.

A língua dele umedeceu os lábios secos. O coração da Natalaya bateu forte. Não podia suportar lhe ver sofrer.

- Houve uma guerra, Natalya. Pessoas estavam sendo assassinadas. Acha que ela teria sido feliz? Teria você, sido feliz? Xavier desejava a imortalidade. Tinha longevidade, mas só os Cárpatos podem viver continuamente. Ele era um mago poderoso mas não podia achar uma forma de viver para sempre como queria. - Sua voz desapareceu.

-Não fale mais. Não temos que fazer isto agora. - Não queria pensar em Xavier ou seus problemáticos pesadelos sobre ele. Não queria pensar muito em seu pai ou sua mãe. Sobretudo, não queria pensar em Razvan. - Por favor, durma e tenha a cortesia de permanecer fora de minha mente.

Ele fechou os olhos. - Essa é um pedido irracional. Se não compartilhar sua mente, como posso me ocupar de seu bem-estar, segurança e felicidade? É meu dever como seu companheiro prover essas coisas.

Natalya se sentou com as costas contra a parede, os joelhos recolhidos, as armas a seu lado, facas e espada ao alcance de sua mão. Apoiou a cabeça nos joelhos e fechou os olhos.

-Não é irracional, absolutamente. Se me fizer feliz ter privacidade, então é lógico pedir que honre meu pedido.

Houve um longo silencio. Tão longo que ela não acreditou que fosse haver resposta. - Está confusa sobre o que há entre nós e é emocional. Pode ser difícil a princípio ajustar-se ao que parece ser uma intuição em sua vida.

Natalya se permitiu relaxar. Precisava dormir desesperadamente e não podia entender por que Vikirnoff não tinha sucumbido completamente ao estado que tomava às pessoas dos Cárpatos quando o sol estava alto. Ela preferia dormir depois do meio-dia, quando o sol lhe queimava os olhos, mas podia deixar de lado o desconforto e sair enquanto sua pele estivesse protegida. Provavelmente deveria sair e encontrar sangue para si mesma, mas francamente, estava muito cansada.

- Eu sou uma intrusão em sua vida também. – Assinalou, ela.- Não temos que ceder a isso. - O que quer que seja.

Vikirnoff ficou em silêncio mais um pouco. Ela não entendia e na realidade não podia culpá-la. Tinha que admirá-la, ir contra suas crenças para lhe ajudar. A culpa a rodeava, carcomia-a junto com seu absoluto desconcerto. O toque entre companheiros era extremamente forte e ela o sentia tão profundamente como ele. - Não é uma escolha, ainaak enyém. Sem ti a escuridão me tomaria. Não posso permitir que isso aconteça e você tampouco. Sabe o perverso que é o vampiro. Lutei com criaturas semelhantes a maior parte de minha vida. Não me converterei no não-morto. Nem sequer por minha desencaminhada companheira.

Maldito! Ele tinha um jeito de voltar suas palavras contra ela. Natalya mordeu os dedos para evitar discutir com ele. Ele acreditava no que estava dizendo. Pior ainda, ela acreditava também. Permitiu a sua respiração sair lentamente, esperando até se sentiu tranqüila.

-Converteria-se num vampiro? Por quê?

- Um homem dos Cárpatos não pode existir para sempre sem sua companheira. São duas metades do mesmo tudo. Você é a luz de minha escuridão e sem você tenho duas escolhas. Procurar o amanhecer ou sucumbir a sua escuridão. Esperei muito para a primeira escolha.

Detestava a honestidade em sua voz. Detestava tudo desta situação.

- Então os homens dos Cárpatos se convertem em vampiros. É de onde vêm os vampiros.

- Não lhe ensinaram isso?

- Quem me ia ensinar? - Suspirou Natalya-. Não me surpreende que seus caçadores sejam um grupo tão sanguinário. Por isso sinto a escuridão em você. Parece muito a um vampiro.

- Sim e não.

-Isso é uma grande noticia. É minha, não ser. Tenho um rótulo de néon estampado na testa? "Se for um malvado monstro chupasangue, disposto a assassinar e causar estragos, por favor pergunte".

Natalya sentiu a fraca diversão dele e tentou não sorrir quando estava tão exasperada com a situação.

-Durma Vikirnoff, eu tenho minha própria escuridão. Não posso ser sua luz. Houve um engano. Só que não averigüei ainda, o que fazer a respeito.

 

-Natalya! Ande logo. Chegou tarde outra vez. O avô vai se zangar contigo.

- Eu não gosto de ir vê-lo. Tem olhos horripilantes.

Razvan estufou o peito, seu cabelo leonado lhe caía sobre os olhos.

-Eu a protegerei. Se ele se meter contigo, direi-lhe que iremos embora.

Natalya conteve a respiração e parou. Seu cabelo sedoso voou em todas as direções. Sacudiu a cabeça solenemente.

-Não, Razvan, ele fica muito furioso quando você intercede por mim. Não quero que te castigue. Sei que se meteu contigo a última vez que se zangou com ele por me fazer chorar. Estava muito calado e não me contou o que ele te fez.

-Não me importa o que ele me faça. Não lhe deixarei fazer mal a você. Nem agora, nem nunca.

- Por que não volta, Pai? Eu não gosto de estar tão sozinha. Mamãe está morta e você partiu e nos deixou. Agora só temos o avô. Eu não gosto dele. Se que não gostaria que vivêssemos com o avô. Tampouco gostava dele.

-Ssh - Razvan olhou ao redor, seus olhos muito velhos súbitamente precavidos enquanto colocava o braço ao redor dos ombros de sua irmã. - Não diga isso. Ele poderia te ouvir. Sempre sabe do que falamos e com quem nos encontremos em nossos sonhos. Temos que ser cuidadosos, Natalya. Não confie em ninguém. Não confie no avô e nunca fique a sós com ele. Poderia aconteçer algo ruim.

Natalya se voltou quando algo retumbou contra a porta. Quando voltou para olhar seu irmão, Razvan tinha desaparecido. Alarmada baixou correndo os degraus familiares que conduziam à oficina de seu avô e bateu na porta. Estava fechada e ninguém a deixou entrar. Deslizou-se para baixo, pela porta, com lágrimas correndo por sua face. Razvan seria castigado porque ela não tinha obedecido. Ele sofreria a fúria que estava destinada a ela.

A pesar do som de seus soluços ouviu a voz de seu irmão gêmeo. Soava-lhe longínquo - “Natalya? Onde está? Não posso vê-la? Acontece alguma coisa comigo. Estou morto? Você me matou? Não, não. Um caçador me matou... Onde está, Natalya? Me diga onde está!”.

O grito choroso de Razvan lhe retorceu o coração. - "Estou aqui, Razvan. Na estalagem".

Natalya despertou com um sobressalto, corriam lágrimas por sua face. Suas pernas estavam dormentes de ficar tanto tempo na mesma posição e seu coração estava palpitando. A adrenalina corria em seu corpo.

Ela e Razvan tinha tido dez anos quando seu pai havia desaparecido. Odiava quando realidade ou pesadelos se introduzia em suas preciosas lembranças de Razvan. Não tinha lembranças de seu avô. Só que os eventos do dia haviam lhe trazido para seus sonhos. A culpa era excessivamente pesada em sua mente e em seu coração. Razvan estava morto, assassinado por um caçador desumano e sua culpa tinha entrado em seus adorados sonhos e os retorcera, deixando um gosto ruim em sua boca e fazendo com que os sinos de alarme repicassem como loucas.

O que a despertara? Olhou fixamente para Vikirnoff. Ele permanecia imóvel, nenhuma respiração se movia através de seus pulmões. Nenhum pulsar discernível. Ainda era suspicaz. Tinha o visto antes mas ele estivera lendo seus pensamentos.

A inquietação se estendeu por sua mente. Seu estômago se retorceu e o cabelo de sua nuca se arrepiou. Algo estava errado. Algo estava terrivelmente errado. Segurou rapidamente suas armas e se colocou em pé, para a porta. Nada. Passou as mãos sobre a porta. As salvaguardas estavam intactas, algumas das mais fortes que ela havia feito. Mas, a sensação não desapareceu. Algo não estava bem. Olhou nervosamente para a cama.

Vikirnoff jazia como morto e então de repente, sem advertência, seus olhos se abriram de repente e sua respiração saiu vaiada num grunhido mortal. Natalya quase saltou fora da própria pele. O olhar dele se moveu imediatamente para seu rosto.

- Que perigo me despertou de minha sonolência?

- Então você o sente também? – Ela virou num círculo no centro do aposento, tentando se converter numa antena para captar a ameaça.

- Saia daqui. Agora, Natalya.

Ela cruzou foi até a janela e passou as mãos sobre as cortinas. Não sabia o que estava procurando, mas não encontrou nada. A sensação de medo era forte. - Menos mal que tenho um grande ego ou me esmagaria com o fato de sempre desejar que eu vá embora. - Lançou a Vikirnoff um rápido olhar avaliador. Ele devia estar fraco e não seria capaz de lutar fisicamente. Não podia se mover de forma alguma, neste momento do dia. Ela mesma estava cansada e atordoada, mas tinha suas armas e o que os ameaçava ia conseguir mais do que esperava.

Enfrentou à porta de novo. Sentia um terrível medo cada vez que se virava nessa direção. Seu olhar percorreu o aposento. O perigo era evidente, mas não podia encontrar a fonte.

- Natalya, vá. Deve ir. Pode sair pela janela. Proteja seus olhos e abandona este lugar.

- Não fale por mim. Fale por você. - Estava segura de que tinha razão e nem sequer sabia que era isso.

Retrocedeu para a cama e se colocou entre Vikirnoff e a porta. Suas mãos desenharam em intrincado padrão, enquanto murmurava um antigo feitiço revelador. O que espreitava ao caçador estava disfarçado e tinha que saber como deslizar através das salvaguardas tecidas em torno da porta. Não queria pensar nas possibilidades do que significaria.

Vikirnoff observava Natalya através dos olhos entrecerrados.

Mesmo na escuridão do aposento, seus olhos ardiam, mas não podia afastar o olhar dela. Natalya parecia brilhar. O poder irradiava dela, surgia no ar em torno dela. A eletricidade estalava e corria. O cabelo de Natalya flutuava a seu redor, elevando-se para o teto. Suas mãos para frente, sua voz nunca cessava.

Algo brilhou tenuemente no aposento. Transparente. Uma sombra, inclinada e que se arrastava pelo chão. Natalya apenas podia vê-la enquanto avançava centímetro a centímetro para a cama. Insustancial, a sombra era feita de fumaça negra e cinza e sempre em movimento. Ferozes chamam ardiam em seus estranhos olhos vermelhos. Por um momento seu coração parou de pulsar, depois se acelerou, pulsando tão forte que ela temeu que saltasse fora de seu peito.

- Vikirnoff. É um guerreiro das sombras. - Havia temor reverencial em sua voz e cru horror. - Melhor enfrentar três vampiros e uma legião de humanos.

- Deve partir agora.

Queria partir. O medo que sentia se converteu em terror. - Não pode derrotar um guerreiro das sombras em sua condição. Mesmo se não estivesse tão gravemente ferido, é completamente de dia. Só o sol já o coloca em terrível desvantagem. Não posso te deixar indefeso.

- Ouça-me, Natalya. Esta coisa é legendária. Só ouvi falar deles e suas habilidades. Nunca enfrentei um. Mas mesmo sendo um assombroso caçador em plena forma, se diz que ninguém pode esperar ganhar uma batalha com um guerreiro das sombras. Acreditávamos que a muito haviam desaparecido deste mundo.

Natalya observou como a nuvem de vapor se formava e se erguia completamente. A maior parte do tempo, a criatura parecia não ser nada mais que fumaça, mas havia momentos nos quais se captava uma armadura. As chamas nos olhos afundados arderam malignamente quando a criatura olhou em volta do aposento. Todo o tempo a fumaça estava em constante movimento, de negro e cinza que pareciam não mais que um vago filme transparente.

A autoconservação era forte nela e Natalya olhou ofegante para as cortinas que cobriam a janela. - Pr que não está atacando?

Vikirnoff podia estar passivo, conservando suas forças para ter uma oportunidade de salvar Natalya. Não tinha sentido esbanjar tempo discutindo com ela. Ela era forte de vontade e duvidava que o vínculo entre companheiros a permitisse sair por própria vontade. Esse vínculo, unido a sua personalidade, tornaria impossível. Tinha que esperar uma oportunidade para utilizar tudo o que lhe restava, para salvá-la. - As lendas dizem que o movimento os atrai. Não está te prestando nenhuma atenção, mas me busca.

A sombra estava movendo-se lentamente pelo aposento. Uma vez, a fumaça cinza passou sobre a Natalya e a coisa parou, mas seguiu adiante.

- Só os sábios antigos utilizavam guerreiros das sombras.

- Havia só um sábio antigo capaz de comandar o guerreiro das sombras, Natalya.

Seu coração se acelerou no peito. Xavier. Era consciente do rumor legendário que ela sabia. Ea um fato. Xavier, seu avô, o mago escuro que criara a arma. Infelizmente ela não sabia como podiam ser destruídos. Elevou o queixo. Possivelmente ela era de algum modo responsável por este ataque.

Respirando fundo, ela procurou sua espada e com um suave movimento, colocou-se diante do quase indefeso Cárpato.

- O que está fazendo? - A respiração abandonou seu corpo numa rajada de medo. Seu peito se elevou e desceu e essa ação, combinada aos movimentos de Natalya, fez com que o guerreiro das sombras virasse para ele, os olhos chamejantes brilhavam com ardor. Para matar.

- Não fale. Não me pode distrair. – Ela já estava suando e não era bom sinal.

Natalya estudou a sombra insustancial atentamente. O guerreiro elevou sua espada na saudação tradicional. Ela elevou a sua em resposta.

Vikirnoff a observava, com o coração na garganta. Parecia perfeitamente equilibrada e seu corpo ligeiro e gracioso. Em vez de em um padrão linear, movia-se com um deslizado jogo de pés, rechaçando a espada do guerreiro quando esta se arqueava para Vikirnoff. Metal chocava contra metal e saltavam faíscas. Natalya continuou dançando, deslizando-se para a sombra enquanto se colocava uma vez mais diretamente no caminho entre Vikirnoff e o guerreiro. Sua espada atravessava o ar vazio.

O guerreiro se virou diretamente para Natalya. Cresceu em estatura e substância, tomando uma forma muito mais sólida e poderosa. Ergueu-se sobre ela, o vermelho piscava em seus olhos, rastreando cada um de seus movimentos.

A sombra deslizou com assombrosa velocidade, a espada assobiando para Vikirnoff. Natalya rechaçou o golpe e respondeu, um borrão de movimento, seus cabelos rangendo, a cor passando do negro e seus olhos ardendo de um brilhante azul, enquanto virava ao redor do guerreiro, a espada atravessou completamente a sombra pelo menos três vezes.

- Isto não está funcionando. É pior que o bom do velho Freddie. Acredito, Natalya, que é boa neste tipo de coisas. Pense o que fazer. – Ele admoestou-se a si mesmo.

- Está medindo força com o inimigo. Sente-o?

- Tem que ter um modo de derrotá-los. Nego-me a acreditar que sejam invencíveis. - Não acreditaria. Tinha que haver um modo. Na verdade, não sentia crescer o poder do guerreiro, estava muito ocupada mantendo Vikirnoff vivo. O guerreiro das sombras não estava tentando matá-la. Simplesmente a via como um entrave em seu caminho. Continuamente, ela interceptava os golpes assassinos do guerreiro, evitando que destruísse Vikirnoff. O caçador tinha razão, entretanto. Quando as espadas se encontravam, seu braço e seu corpo ficavam quase completamente intumescidos pela força que ele gerava.

- Não pode matar o que já está morto.

- O que dizem as lendas, Vikirnoff? – Ela se colocou diante da cama novamente, esquivando-se da espada relampejante. Desta vez quando as laminas se encontraram, ela caiu sob o puro vigor do golpe.

- Detenha-se de todo movimento.

- Se eu parar, este pai de todos os Freddie's o matará. Isso é inaceitável. E antes que se excite muito por isso e acha que não o quero morto, é sozinho que odeio perder.

- A muitas horas antes do pôr-do-sol. Não posso te ajudar lutando fisicamente.

Natalya aparou outro golpe e deu várias estocadas no guerreiro de armadura prateada. Sua folha atravessou a fumaça. - Lutando fisicamente. - As palavras se repetiam uma e outra vez em sua mente. Era impossível lutar com um guerreiro das sombras e ganhar.

- Do que parecem? Vikirnoff, fale logo. Do que parecem ser feitos?

- Não têm substância. São como os Cárpatos quando se convertem em névoa. Pequenas moléculas, vapor, ar. Mesmo água. Pó. Algo que esteja ao redor para formar as partículas que utiliza. Mas está morto, Natalya. Já está morto. Não pode lhe matar.

- Tem que ser mais que isso. Tem vida, essência. Um espírito. - Natalya aparou outro golpe e atravessou fútilmente a fumaça negra e cinza.

- O espírito de um guerreiro perdido, tirado da tumba sem permissão e obrigada a obedecer sem descanso. Isso é um guerreiro das sombras, não é? - Perguntou ela.

Vikirnoff fez um esforço supremo para redirigir a atenção do guerreiro das sombras de volta a ele e longe de Natalya.

- Se ele me matar, permaneça absolutamente imóvel. Ele te ignorará e irá embora.

Natalya desviou a lâmina do guerreiro das sombras da garganta de Vikirnoff e atravessou o corpo transparente uma vez mais, saindo para longe da cama, para que o guerreiro a seguisse através do aposento, longe do caçador. - Deixe de ser tão nobre. Faz com que me bata os dentes. Esta coisa está me deixando realmente furiosa. Confie em mim, isso não é boa coisa. Já estão mortos. Pense, Natalya. Recorra a suas habilidades. Continuou instruindo-se, mantendo-se muito concentrada no guerreiro.

- Estou te dizendo que ele se alimenta de energia. quanto mais se move, mais emoção lhe dá, a força da coisa aumenta. Está crescendo em estatura, mas não muda de forma.

- Tenho um plano. Feche os olhos e mantenha-os fechados. Terá que confiar em mim.

Vikirnoff fundiu imediatamente sua mente com a dela enquanto ela virava num gracioso círculo, um borrão de movimentos enquanto mantinha a atenção do guerreiro completamente centrada nela. Mesmo nas horrendas circunstâncias, Vikirnoff a encontrava uma formosa e mortífera combinação. Graça e poder, perfeitamente equilibrados, movia-se com empanada velocidade, virando em círculos pelo aposento, a espada voando enquanto ganhava a porta coberta do balcão. Seu olhar se moveu para ele, mesmo enquanto aparava outro golpe do guerreiro. Vikirnoff viu seu corpo inteiro vibrar com a força do golpe.

- Seus olhos!

Foi a única advertência que lhe deu Natalya. Se Vikirnoff não a escutava, nem sequer em meio a uma situação perigosa, essa coisa era dela. Apertou os dentes e segurou a cortina, arrancando bruscamente o pesado tecido. A luz brilhante entrou e se espalhou pelo aposento através dos vidros das janelas francesas.

Instantaneamente a agonia a pegou, cortando-a bruscamente. Rechaçou outro golpe, seus pés dançando num padrão velho como o tempo, virando e deslizando-se enquanto olhava para Vikirnoff. Podia sentir a luz comer sua carne, queimar seus olhos, mas tinha que ser um milhão de vezes pior para ele. Amaldiçoando, abandonou seu plano e lutou para voltar junto a ele. Interiormente se condenou por tola. O guerreiro das sombras ganhava força a cada movimento enquanto ela ficava mais e mais fraca. O caçador ia morrer de jeito. Estava pesada, muito para lutar pela vida dele.

Sua espada assobiou através do espaço vazio quando deveria ter decapitado o guerreiro. Sua resposta lhe falhou por pouca a cintura e lhe sacudiu o braço quando o rechaçou. Segurou a colcha com uma mão e a atirou sobre o corpo de Vikirnoff lhe cobrindo completamente.

O guerreiro das sombras foi atrás do movimento da colcha, atraído pelo aroma do caçador. A espada mortífera se enterrou na colcha e explodiu uma fonte de sangue. A respiração de Natalya saiu expelida com fúria de seus dentes apertados. Ela equilibrou-se para o guerreiro, tentando lhe empurrar para trás com o ombro, mas caiu através de seu corpo, cambaleando para manter o equilíbrio e virando para lhe enfrentar.

- Detenha seu coração e seus pulmões! - Foi uma ordem, acompanhada por um forte empurrão de compulsão para Vikirnoff. Seu medo poe ele se convertera em terror. Golpeando sua espada uma e outra vez contra a do guerreiro, evitando que ele renovasse seu ataque sobre o caçador.

Seu coração bateu forte. Ambos estavam mortos. Ela os tinha matado com sua confiança. No que estava pensando? Conhecia os efeitos da luz do sol na raça dos Cárpatos. Estavam formando bolhas em sua pele. Sabia que Vikirnoff estaria frito mesmo com a pequena exposição que havia sofrido. E todo o tempo sua força estava se esgotando. Não podia lutar com o guerreiro das sombras para sempre.

- Precisa da porta aberta. - Com cada grama de poder da força que restava, Vikirnoff utilizou poder telequinético para desfazer as salvaguardas e abrir os ferrolhos abrindo de par em par as portas do balcão. - Seu plano é bom. A sorte do guerreiro para você.

Ela reconheceu as palavras de algum ritual formal entre caçadores. De algum modo às palavras acalmaram sua mente e lhe permitiram pensar com claridade outra vez. Começou um gracioso ataque em espiral, constantemente em movimento, atraindo o guerreiro das sombras pelo aposento, longe de Vikirnoff e para as portas abertas. Sua voz começou um suave murmúrio enquanto recorria a seu legado, os poderes da terra, do vento e dos espíritos. Precisava de sorte, muito mais que sorte. Precisava de um milagre.

- Ouça-me agora, escuro e grande guerreiro arrancado de seu lugar de descanso, enquanto chamo à terra, o vento, o fogo, a água e o espírito.

O guerreiro baixou sua espada e ficou imóvel pela primeira vez desde que se revelou a ela.

- Convoco cada um deles e os vinculo a mim e entre eles, invoco o direito da lei das sombras. O sangue do mago escuro corre em mim. Coloque atenção no que digo. Eu comando o vento. – Ela elevou os braços no ar e atraiu o vento que entrou uivando no aposento. Venha a mim e leve meu guerreiro para casa.

O guerreiro das sombras permaneceu quieto, a espada disposta, seus olhos brilhantes fixos em Vikirnoff. Bom, ao menos tinha sua atenção. Ela sabia feitiços, milhares deles. Só tinha que dar com a combinação correta.

Enfrentou o guerreiro e pareceu crescer em estatura. Seu cabelo rangeu com eletricidade enquanto elevava o braço para a figura sombria. A maior parte das coisas estavam presas por sangue. Podia fazer isto se pensasse atentamente. - Pela lei das sombras, através de sangue ancestral, reclamo meu direito pelo sangue do mago.

O guerreiro sacudiu a cabeça como se ela o tivesse golpeado. Seus olhos ferozes se afastaram da cama e se enfocaram completamente nela. O ritmo do coração de Natalya aumentou dramaticamente. Ela desejava sua atenção, mas ele era intimidante. Sua mão se apertou ao redor da espada enquanto repassava antigos feitiços em busca das palavras que pudessem liberá-lo.

- O que foi predito se cumpra agora, voltado pelo poder do ar e o fogo que arde.

O vento se incrementou, espalhando a fumaça cinza que formava a forma do guerreiro. As chamas de seus olhos saltaram e arderam, fazendo com que realmente saltassem faíscas. A visão era aterradora.

- Está funcionando. - Vikirnoff, mantendo a união, via que o cérebro dela funcionava a grande velocidade, escolhendo e descartando feitiços, dando voltas em sua mente às palavras, arrumando e unindo-as. Estava assombrado e respeitava sua assombrosa habilidade com tantos ensinos antigos.

Natalya engoliu com força e se apressou a seguir. - Preciso enviar o guerreiro de volta ao mundo inferior e selá-lo ali para sempre.

- Sinto seu poder. Está vivo no aposento e lhe rodeia.

Natalya tomou respirou fundo. Podia fazer! Tinha nascido para isto!

- Sombra e pó serão reclamados, a terra sela a tumba de onde veio. - Estava ganhando confiança. Este era seu campo como nenhum outro. - Pó ao pó, cinzas as cinzas, retorne guerreiro, toma seu último suspiro. - Sua voz estava torcida de exigência. - Ar, terra, fogo e água, ouçam minha voz e obedeçam minhas ordens. Três vezes ao redor se timbra para te ligar, maldade cravada na terra. Agora invoco o poder de três vezes três, esta é minha vontade e será cumprida.

O guerreiro das sombras a olhou fixamente por um longo momento com seus olhos ferozes. Inclinou-se ligeiramente e lhe fez uma pequena saudação com a espada. O vento soprou através do aposento, alcançando o guerreiro, arrastando fumaça e pó para fora, no ar.

O guerreiro foi levado para longe, seu espírito livre enfim, sua forma insustancial soprada num milhão de moléculas e espalhadas pelo céu.

- Pode encontrar paz eterna em outro reino enquanto o vento toma o que já não é teu levando-o aos quatro cantos do mundo para que seu descanso nunca possa voltar a ser perturbado.

Natalya deixou cair à espada e se encostou contra a parede. Doíam-lhe os braços, Seus olhos choravam e sua pele lhe ardia sob o resplendor do sol. Encontrou-se soluçando, o peito apertado e dolorido, a garganta rouca. Sentia o corpo pesado, ardendo, estirado além dos limites físicos. Pior que isso era a emoção que em seu interior. Todo se misturava, formando um negro redemoinho e nublando sua razão.

- Natalya.

Fechou os olhos à crua intimidade que ele dava a seu nome. - Ainaak enyém, por que chora quando destruíste o que ninguém mais derrotou? É uma mulher surpreendente. Uma autêntica caçadora e não posso te dar maior louvor.

Seu tom continha admiração, respeito, mas mais que tudo uma escura e ronronante sensualidade que lhe convertia as vísceras em massa. Não podia olhar para ele sem sentir uma estúpida de joelhos de manteiga. Odiava estar tão confusa e ser tão emocional e chorar diante dele como a pequena menina que ele a tinha chamado.

- Tem que ralentizar seu coração e seus pulmões. - Ela limpou as lágrimas do rosto e se obrigou a ficar em pé.

-Não vou te dar mais sangue e está perdendo por toda parte.

- Não posso ralentizar o meu coração quando está chorando como se o seu estivesse rompendo.

-Nego-me absolutamente a brincar de Julieta e Romeo. É somente a sobrecarga de adrenalina, é tudo. Ela foi até a porta do balcão e a fechou com chave, tentando recuperar sua bravata habitual e livrar-se da tempestade emocional.

- É impossível mentir para mim, embora possivelmente seja boa mentindo a você mesma e não conhecer realmente sua própria mente.

Natalya fechou as cortinas sobre a porta, bloqueando uma vez mais a luz. O alívio foi tremendo.Ficou em pé brevemente, com os olhos fechados, reunindo suas forças. Nunca estivera tão cansada. Queria deitar e dormir para sempre.

- Qual é a gravidade de seu ferimento, desta vez?

- Ele cortou-me a coxa. Agradeço que seu objetivo não estava alguns centímetros mais acima.

- O que significa que voce está sangrando por toda parte outra vez, não é? –Ela apressou-se a seu lado e afastou a colcha, envergonhada por ter demorado tanto tempo para se recuperar de sua luta com o guerreiro das sombras.

Vikirnoff estava coberto de bolhas, sua pele estava com mau aspecto. O sangue emanava da ferida da coxa. Natalya não se deu tempo a pensar. E estava de modo automático, pressionando suas mãos sobre o ferimento, olhando ao redor em busca do balde de madeira com o que restava da terra que Slavica tinha deixado para substituir os cataplasmas.

-Parece um desastre. – Ela disse.

- E você.

Ela baixou a cabeça, preparando a terra, evitando seu olhar muito intenso. Sabia que parecia a noiva do Frankenstein. E ele não tinha que ser tão amável. Iria chorar novamente se ele continuasse. Não era fácil estar zangada e sequer sabia por que estava chorando, mas não parecia poder parar.

- Por que tem semelhantes pensamentos? É uma mulher belíssima e deve saber disso. Olhe-se através de meus olhos.

Tentou esmagar a súbita emoção que sua observação havia causado. Estava muito confusa, irritada. Seu mundo um caos. Todo o lado feminino nela respondia a seu maior inimigo.

- Está zangada comigo porque acha que não confio em voce o suficiente para deter meu coração e pulmões. Não é, Natalya. Confiei em meu próprio julgamento onde por mais de mil anos.

-Sim. Eu adoro seu julgamento. – Natalya ergueu os olhos, e colocou as mãos nos quadris. - Seu grande plano era morrer para que a "pequena menina", quem por certo, voltou a salvar seu traseiro, virasse com o rabo entre as pernas e fugisse! Não posso imaginar como conseguiu para sobreviver por sua conta todo esse tempo. É um milagre.

- Você não me deixará morrer. Não poderia te deixar sem meu amparo, embora fosse pouco o que tivesse para dar. É impossível para mim. Suas habilidades estão claras, mas nunca tinha ouvido dizer que um guerreiro das sombras fosse derrotado. Não podia tranqüilamente dormir e te abandonar ante semelhante perigo.

Ela engoliu o repentino nó em sua garganta. Ele soava sincero e muito preocupado. Pensava nela quando estava devastado pelo sol e havia sofrido outro ferimento. Não lhe respondeu. Trabalhou na perna dele em silêncio, detendo o fluxo de sangue antes de separar seu espírito de seu corpo e lhe curar de dentro para fora. Concentrou-se completamente no trabalho, dando agradecendo à oportunidade de não pensar no que estava aconteçendo entre ela e o caçador.

Quando voltou para seu corpo, cambaleava de cansaço.

- Isto é o melhor que posso fazer. Durma agora, Vikirnoff. Temos poucas horas até o pôr-do-sol.

Antes que Natalya pudesse se mover, lhe sussurrou algo suave, quase indistinguível, ao ouvido. Cansada, sem esperar um ataque, Natalya sentiu o aperto em sua mente e Vikirnoff sujeitou-a em seu feitiço. Sabia que estava sucumbindo ao sono, seu corpo se deitava junto ao dele, mas não havia nada que pudesse fazer a respeito. A última coisa que compreendeu era que a boca dele movia sobre as bolhas de seu rosto e pescoço, curando as queimaduras.

-Natalya, não notou que eu cortei o cabelo hoje.

Natalya riu.

-Notei, sim. É tão vaidoso que não vou dizer nada que inflencie ainda mais seu ego. Está muito ocupado observando como as mulheres olham. É muito divertido

-Já que você não me dá ânimos, tenho que achar por minha conta. Temo por qualquer homem que se apaixone por ti.

Natalya lançou seu cabelo leonado para o lado e fez uma careta a seu irmão.

-Não me importa se um milhão de homens se apaixonem por mim, eu não tenho intenção de me apaixonar por eles. Noto como fica uma mulher que cai sob seu feitiço. Isso não é para mim.

Razvan a abraçou.

-Não se preocupe, você sempre será minha irmã favorita.

-Claro! Sou sua única irmã.

Razvan riu e correu afastando-se dela. Um jovem potro correndo a toda pressa sobre a leve colina.

- Vamos correr até casa! Vamos Natalya, não seja tão mole. Tem que correr mais rápido que isso.

Natalya ouvia a voz do Razvan chamando-a na distância. Correu e correu, mas não pôde lhe alcançar. Soava como se ele estivesse rindo. Encantava-lhe o som de sua risada, mas estava lhe incomodando não poder alcançá-lo. Razvan poucas vezes podia correr mais que Natalya. Ela havia sido dotada com incríveis habilidades atléticas. E quando se tratava de lançar feitiços, com freqüência o adiantava nos estudos. Sabia que tinha uma veia competitiva e agora, incomodava-a não poder lhe alcançar.

-Pare! -Natalya olhou em todas direções. - Não posso ver você.

-Estou morto. Não pode me seguir a este lugar. O caçador me assassinou e você não me vingou ainda.

Seu coração palpitou alarmado.

-Não sei que caçador te matou.

-Isso não importa. Eles são o inimigo e nos querem mortos. Você é minha irmã da alma, não posso te salvar deles, deve se salvar você mesma.

Natalya se obrigou a despertar. Teve que se empurrar através de camadas de neblina e requereu cada grama de disciplina e controle que possuia. Cada músculo de seu corpo estava machucado, mas sua pele estava limpa, as bolhas e as vermelhas e furiosas queimaduras haviam desaparecido como se nunca estiveram ali. Seu pescoço pulsava, sobre a pulsação. O cobriu com a palma da mão e sentiu a o calor formigando através de seu corpo.

Doía-lhe o pescoço. Saiu fora da cama já correndo, procurando o banheiro para olhar a marca de seu pescoço.

-Merda, merda! - Vestiu-se apressadamente e colocou suas coisas numa bolsa. - Ele tomou meu sangue de novo, demônio engendrado pelo diabo. Sei que o fez.

A fome a golpeou. Aguda e terrível. Mordaz. Arrastou-se através de seu corpo, afligindo sua mente. Os sussurros se misturaram, suaves e sensuais, enrolando-a com tentação. Doía-lhe a boca, os dentes estavam desejando se alongar e a saliva se acumulava. Virou e a cabeça e seu estômago se contraiu. Os olhos negros de Vikirnoff a observavam e havia fome em seu escuro olhar.

Sem vacilar, Natalya tirou de um atirou as algemas de sua bolsa e lhe atou as mãos. Ele não fez nenhuma tentativa de detê-la, só a observou com o desconcertante e concentrado olhar.

-Sinto muito. Olhe-me tudo o que queira, mas é perigoso. Mesmo estando mal, assusta-me como o inferno. Vou sair e só quero me assegurar de que tenho uma boa vantagem antes que me siga.

Vikirnoff tentou se mover e descobriu que o feitiço que ela havia acrescentado o deixava indefeso. Seus traços se endureceram perceptivelmente e seus olhos cresceram a um negro feroz, mas não falou. – Acha que te permitirei me deixar?

- Não estou disposta a te dar oportunidade. Não vou tê-lo tomando meu sangue cada vez que queira. Sinto que esteja zangado, mas não sou bom material para companheira. Mesmo se acredita que deviamos estar juntos e não estou convencida de que seja, não funcionaria. Eu te incomodo. Você me irrita endemoniadamente. Estaríamos visitando um conselheiro todo o tempo. – Ele tocou-lhe a cabeça, num gesto destinado a aumentar sua irritação, mas o toque se converteu numa carícia ao cabelo negro. Seus dedos se atrasaram, acariciando os sedosos fios. No momento em que compreendeu o que estava fazendo, afastou a mão como se ele a tivesse queimado.

Vikirnoff não disse nada, mas parecia mais perigoso que nunca. Assombrava-a a quantidade de poder que ele parecia exsudar, mesmo ferido e preso.

Natalya não sabia por que não podia deixar de tentar se defender, mas fez outra tentativa.

-Olhe, poderia ter te deixado no bosque. E poderia ter deixado que o guerreiro das sombras acabasse contigo. – Assinalou. - Prendo-te para o amparo de nós dois. Não confio em você.

-Você é a única que me atacou. - Ele ele.

Natalya piscou rapidamente. A voz dele era baixa e compelidora. Seu estômago deu um salto peculiar.

-Isso não foi intencional e sabe disso. Você caiu do céu entre o vampiro e eu. Estava atacando a ele, não a você. Em qualquer caso, redimi-me por isso te ajudando. Se seu tivesse deixado lá, os lobos teriam voltado junto com os vampiros e estaria morto ou capturado.

Ele baixou o olhar para as algemas.

-Parece que sou prisioneiro. - Sua voz era sensual, uma implicação deliberada.

Natalya sentiu que a cor se estendia por seu pescoço e rosto. Seu gênio subiu um grau.

- Será capaz de se liberar quando o feitiço vinculante se esgotar. Eu estou indo agora e isso me dará uma boa vantagem. Deveria estar bem.

- Não permitirei isto. Peça-me qualquer outra coisa e será tua, mas não isto, Natalya. Estou lhe advertindo. Não te permitirei abandonar suas responsabilidades.

Natalya levantou a cabeça de repente, seus olhos flamejaram para ele.

- Quem teria acreditado que o caçador em um mal perdedor? Falar é fácil, pequeno menino!

Ele ainda não havia piscado e seu olhar predador lhe mantinha o coração palpitante. Sabia que ele podia ouvi-la e isso só aumentaria sua resolução de livrar-se dele. Se era possível, os olhos dele se aprofundaram a um negro que a fez estremecer com súbita ansiedade. Ele tinha formado uma barreira em sua mente, provavelmente para evitar que ela sentisse sua dor, mas também defendia outras emoções, como a fúria. Ou a raiva. Seus olhos eram turbulentos e tão negros como uma noite tormentosa.

-Avio-te päläfertiilam. Éntölam kuulua, avio päläfertiilam. – Ele sussurrou as palavras em seu idioma ancestral, seus olhos não abandonavam o rosto dela. - Ted kuuluak, kacad, kojed. Élidamet andam. Pesämet andam. Uskolfertiilamet andam. Sívamet andam. Sielamet andam.

-Pare! – Ela pressionou a mão com força contra o coração. O que ele estava falando estava afetando-a. Ela conhecia os feitiços. Conhecia quase todos eles, mas não reconheceu as palavras. Sabia húngaro, mas não conhecia o idioma. Era mais antigo mesmo que o húngaro. Isso não parecia importar. Sentia cada palavra em seu coração e alma.

A expressão de Vikirnoff não mudou e não afastou seu olhar do dela, mantendo-a cativa de seus olhos e sua voz, apesar das algemas nas mãos.

-Ainamet andam. Sívamet kuuluak kaik että ao Ted. Ainaak olenszal sívambin.

Quando falou, cada palavra que pronunciou nesse suave e hipnotizador sussurro pareceu penetrar profundamente em seu corpo e mente, envolvendo-se ao redor de seu coração e indo ainda mais profundamente, encontrando algo dentro dela que corria a encontrar-se com ele.

-Pare. – Ela suplicou novamente.

- Élidet ainaak pede minam. Avio-te päläfertiilam. Ainaak'sívamet jutta oleny. Ainaak terád vigyázak.

Um feitiço. Tinha que ser um feitiço. Ela pressionou as mãos sobre os ouvidos, mas nada deteve o insidioso sussurro. Pior ainda, estava começando a pensar que estava captando algo nas palavras, embora estivesse segura de que alguma vez tinha falado o idioma. – O que fez? - Pressionou contra a parede, tentando fazer-se menor como se pudesse escapar de sua magia.

Estava tão segura de que o manteria prisioneiro por meio de ataduras físicas e terrenas, mas suas palavras lhe tinham feito algo irrevogável. Sentia que tudo nela procurava algo nele. Necessitando-lhe. Desejando-lhe. De algum modo essas palavras ancestrais haviam unido sua alma e a dele para toda a eternidade, como se realmente fossem duas metades iguais e suas palavras de algum modo houvessem unido-os.

-O que fez? - Exigiu novamente quando ele a observou com seus olhos muito negros. - Algo sobre me dar seu corpo, sua alma e seu coração. Disse isso, não é? Responda-me, Von Shrieder. O que fez? O que disse?

-Reclamei o que era meu por direito.

-Traduza.

Vikirnoff estudou rosto pálido. Seus olhos eram enormes e seus lábios tremiam.

-Não tenha tanto medo. É um ritual tão velho como o tempo e ninguém nunca saiu ferido por ele.

Natalya apertou os dentes e optou por uma flagrante mentira.

- Não tenho medo. Estou furiosa. O que fez é algum tipo de feitiço vinculante, não é?

- Quer dizer como o que usou contra mim? - Seu tom era fundido.

Ela sentiu a cor tomar seu rosto.

-Talvez tenha... Fi muito longe. – Concordou, Natalya. - Tirarei o meu se você eliminar o teu.

-Isso não pode ser.

Ele soava como se sentisse remorsos. Não havia inflexão absolutamente. Sua respiração vaiou.

-Eu gostaria muito que traduzisse o que disse, a uma linguagem que eu possa entender. Todos os feitiços são reversíveis se você souber o que está fazendo. E eu sei o que faço.

Vikirnoff estudou sua face. Ela estava mentindo. Podia cheirar seu medo. Ela podia não saber, mas sentia que ele havia dito algo que era irrevogável, que sua vida tinha mudado para sempre.

-Não posso traduzi-lo exatamente mas o que vou te dizer, se aproxima. As palavras se dizem em nosso primeiro idioma e depois se traduzem em voz alta para a mulher num idioma que ela possa entender, embora seja vinculante, sem fazê-lo. Em resumo é isto. Reclamo-te como minha companheira.

Natalya ofegou. Sua voz era sensual, hipnotizadora, tão poderosa como quando pronunciara as palavras num idioma que ela não entendeu.

Vikirnoff continuou.

-Pertenço a você. Ofereço-te minha vida. Dou-te meu amparo, minha lealdade, meu coração, minha alma e meu corpo. Do mesmo modo tomo em mim os teus. Sua vida, felicidade e seu bem-estar serão apreciados e colocados sobre meus, sempre. Está unida a mim e sempre a meus cuidados. Essa é a tradução mais próxima. Aos homens de minha espécie, imprimem as palavras do ritual antes de nascer. Proporciona-lhes a habilidade de vincular suas companheiras justo pelas mesmas razões que mostraste esta noite. - Elevou as mãos atadas ao nível dos olhos dela. - Deveria mostrar mais respeito por seu companheiro.

-Concordo. - Ela cruzou a aposento. - De acordo, rendo-me. Você ganha este assalto. Agora o tire. Desfaça-o.

 

Vikirnoff não podia arrancar seu olhar da furiosa confusão do rosto de Natalya. A cada passo que dava, toda sua aparência experimentava uma mudança. Sua pele começava a brilhar e seu cabelo leonado tomou uma estranha forma, a raias, quase como se houvesse raias que ele não poderia captar de tudo. Seu cabelo se movia com energia e luz, mesmo na escuridão. Seus olhos eram também peculiares, a cor cambiante. Em um momento verde mar e vibrantes, ao seguinte, enfocados em sua face, seu corpo todo músculo fluido, seu passo mais que silenciosos.

- Eu não o faria Natalya, mesmo tivesse o poder. - Podia sentir um poder muito real aumentando e rangendo no aposento. Ela estava furiosa e talvez, concedeu, tinha razão para estar. Não ia permiti-la sair sem mais, mas havia esquecido que ela tinha a natureza de um tigre. Era selvagem e impossível de domar. Deveria ter mantido esse conhecimento perto e atuar mais cuidadosamente. Era perigosa, podia notar e mesmo sentir. Esperou alguma reação, afastando suas próprias emoções num esforço de acalmar-se pelos dois.

Ela espreitou-lhe através do aposento. A tensão se elevou entre eles até que ficou quase elétrica.

-Não acredito que esteja em posição de me dizer que não. Poderia te cortar a garganta agora mesmo e não haveria muito que pudesse fazer. Já matei vampiros. Para mim, você não é muito diferente.

-Se esse for seu desejo.

- Maldito bastardo. – Ela afastou-se dele, mais furiosa do que nunca estivera em sua vida. Profundamente em seu interior, a tigresa lutava para se liberar, exigindo a liberdade de rasgar e eliminar o inimigo de Natalya para sempre. - Retira-o.

Ele suspirou brandamente.

-Não posso.

-Deveria ter deixado você no bosque para sangrar até morrer ou se fritar no sol.

- Não podia. Não queria me levar contigo, mas não podia me deixar. Essa é a verdade. – Ele disse com um tom fundido, embora ela sentisse a chicotada de uma reprimenda.

-Não te devo nada. Não pedi sua interferência e nunca teria saído ferida em primeiro lugar se não tivesse choramingando tão alto para que o mundo inteiro pudesse te ouvir. - Seu coração palpitava tão forte que temia senti-lo explodir em seu peito. Lutara com vampiros, mas este homem, mesmo preso e quieto na cama, aterrava-a de forma que não podia esperar compreender. Seus pulmões ardiam procurando ar e sua garganta se sentia crua.

Maldita compreensão. Não tinha medo dele, tinha medo por ele. Estava apavorada pelo poder e a fúria que se elevavam juntas de suas profundezas numa mistura furiosa. O tigre solto poderia fazer coisas que talvez ela nunca pudesse desfazer. Não seria encarcerada por este homem. Por nada. Se... Se alguma vez quisesse um companheiro, seria alguém a quem ela escolhesse. Forçou o ar através de seus pulmões. Forçou seu coração a voltar a um ritmo normal. O sangue do mago corria profundo e forte. Poderia desfazer o que ele havia tecido. Em todos seus anos de estudo, ninguém tinha obtido as coisas que ela tinha obtido. Ainda assim, não se rebaixaria a matar um homem indefeso.

- O que fez foi errado, Vikirnoff. Sejam quais as razões que tiveste, não são boas o bastantes para tentar tirar minha liberdade. – Olhando-o, notando os olhos escuros encher-se de dor, compreendeu que o tremendo fato que havia entre eles tinha permitido que suas emoções se tornassem tão intensas que honestamente não podia dizer se eram suas ou dele. Quase como se alimentassem um ao outro da fúria à paixão, numa longa e caótica montanha russa. Ele parecia tranqüilo, mas quando tocava sua mente, sentia-o forte como ela. E sua confusão era tão profunda como a dela.

Elevou o queixo.

- Não vou continuar discutindo contigo. Essa não é a questão. - Não era. Tinha fé em si mesmo. Ele não sabia o quanto era forte, mas ela sim. Estava segura, com tempo poderia fazer com um contrafeitiço, uma vez soubesse as palavras exatas. Vikirnoff tinha lhe dado uma tradução simples, mas ela averiguaria o que ele havia dito.

-Natalya, - começou Vikirnoff. Não sabia se estava tentando uma desculpa ou sequer se queria dizer que lamentava. Tinha incomodado-a, mas era natural para ele evitar que lhe deixasse. - Não sou humano, nem mago. Minha espécie tem instintos que devem ser satisfeitos.

-Você tem escolha, Vikirnoff. Não se entregue às garras dos instintos. É uma pessoa inteligente. Eu estava fazendo algo que acreditava ser errado e me deteve. Isso é impor sua vontade queira ou não.

Ele franziu o cenho.

- Me algemar e me colocar sob um feitiço vinculante não foi impor sua vontade? Eu não a teria prendido a mim sem seu consentimento se você não tivesse decidido me abandonar.

Fez-se um súbito silêncio entre eles quando ambos sentiram a terra tremer. Os olhos de Natalya encontraram os de Vikirnoff, com entendimento.

-O sol se pôs.

-Sim. E a terra está protestando enquanto os vampiros se elevam. Sinto a presença de mais de um deles. - Fazendo uma careta, Vikirnoff se sentou alegremente.

Como se nunca houvesse um feitiço vinculante.

- Como se não tivesse passado dez minutos ondeando a mão no ar. - Observou as algemas cair para ficarem imprestáveis no chão. Sacudiu a cabeça. Do que servia acumular fúria? Devia saber que ele não poderia ser tratado tão facilmente. Era mais que isso. Era um caçador ancestral e muito mais poderoso do que ela tinha acreditado. Deixaria que a subestimasse. Não voltaria a cometer o mesmo engano com ele.- Por que o feitiço vinculante não funciona em você? - Melhor averiguar. O conhecimento era poder e podia ver que com Vikirnoff, necessitaria de cada fibra que pudesse conseguir.

As sobrancelhas dele se arquearam.

- Estava em sua mente. Então já o teceu, desentranhei-o. – Ele admitiu. Suas mãos foram para seu peito e pressionaram com força. O sangue abandonou seu rosto, deixando-o pálido e suando diminutas gotas de sangue.

Ela colocou as mãos nos quadris.

-Talvez deva se recostar. Tem a mínima idéia do quanto verdadeiramente irritável que pode chegar a ser quando atua tão heroicamente?

-Estou começando a compreender. Os vampiros se elevaram e pelo menos a gente está a caminho. Não podemos permitir que venham à estalagem. Sabe que os atrairei até aqui, ao igual a você. Estou bem mais forte que ontem à noite.

-Ontem à noite estava quase morto Então isso não quer dizer muito. – Ela soltou um pequeno suspiro quando lhe viu baixar as pernas sobre a beirada da cama. Estava ficando em pé e lhe observar sofrer em silencio lhe rompia o coração, apesar de seu anterior aborrecimento com ele.

-Por favor me diga que não é esse asno pegando ou pior, Henrik. Ele está morto e desapareceu desta vez, não é? - Tentou injetar humor na situação, esperando distrai-lo.

-Henrik não pode se elevar novamente. Seu coração foi incinerado.

-Henrik era um autêntico Freddie. Provavelmente sentirei falta dele.

-Parece obcecado com este Freddie. - O olhar de Vikirnoff prendeu o dela.

Natalya lhe lançou um rápido sorriso.

- Parece ser ciumento. Freddie Kruger é um homem adorável, rei dos filmes da madrugada.

Algo no tom dela o advertiu que estava zombamdo dele. Era uma situação pouco familiar para ele, mas uma a qual pensava que se acostumaria.

-Não é real? - Ela estava tentando deixar acabar a discussão e ele agradecia. Seu corpo inteiro estava gritando de dor e sabia que era muito provável que se encaminhasse à batalha.

-Não. É um personagem de uma série de filmes de terror. Não posso acreditar que não o tenha visto. Que mais terá que fazer a noite quando o resto do mundo dorme? - Natalya se voltou afastando-se do olhar intenso de Vikirnoff. Ele podia derreter uma mulher a cinqüenta passos e compartilhar um dormitório com ele era muito íntimo, especialmente se não estava de camisa. O homem tinha um peito impressionante. Mesmo com um buraco nele.

Natalya estava mais que surpreendida de ter notado seu peito. E seus olhos. E sua boca. Lançou-lhe um pequeno sorriso. Seu sorriso o fazia parecer mais jovem. Desejou desesperadamente vê-lo novamente. O inesperado desejo foi tão forte que ela recorreu sua cultivada atitude frívola e a fez lembrar que não ia aceitar sua reclamação sobre ela.

- Sua boca seria perfeita se a mantivera fechada. E só para que saiba, no momento em que os vampiros forem para longe de nós, eliminará este feitiço ou o eu o farei e você poderia não gostar de como o faço. – Ela tirou roupa limpa da gaveta. - Presumo que não temos muito tempo.

-Não quero que Arturo averigúe que é amiga de Slavica e sua família. Os vampiros adoram matar as famílias e amigos de seus inimigos. - Não queria começar outra discussão com ela sobre as palavras rituais. Ela havia estado furiosa e seu aborrecimento justificado flamejava com uma perigosa fúria. Ele queria uma oportunidade de pensar as coisas antes de voltar a abordar o assunto.

Ela colocou a cabeça pela porta do baneiro, enquanto se vestia.

- Sonha como se dissesse por experiência.

- Tive muitas experiências com o não-morto, Natalya e nenhuma delas foram boas. Este lugar está infestado de vampiros.

-Isso é porque eu estou aqui. Agora sempre me seguem, o que é estranho, considerando que me deixaram estritamente em paz durante anos.

-O que explicaria por que não sabia que tinha que incinerar o coração.

-Isso foi bastante irritante.

-Posso imaginar.Tem alguma idéia do por que estão atrás de você?

Natalya vestiu a camisa pela cabeça e saiu do banheiro, para encontrá-lo imaculadamente vestido. Instantaneamente ela se sentiu desalinhada em comparação a ele que estava limpo e ordenado e não havia rastro de sangue ou sequer uma ruga em sua camisa camisa. Estava curvado, inclinado para um lado, mas sua roupa estava perfeita. Ela calçou as meias e os sapatos e pendurou no ombro o suporte para as armas e acessórios adicionais.

-Arturo disse que me queria para levar fazer uma pequena tarefa. - Mais que tudo, ela queria que Vikirnoff voltasse a se deitar ou entrasse num lugar de descanso em alguma parte, para curar. Sabia que era inútil discutir com ele, então não se incomodou em tentar.

Vikirnoff a observou deslizar várias armas nos compartimentos de sua roupa. Não podia evitar admirar a eficiência de seus movimentos e a familiaridade com as mesmas. Natalya sabia o que estava fazendo e obviamente era hábil no uso de cada arma que carregava. Era especialmente hábil com a espada.

-Tem idéia de que tarefa é essa em particular?

Ela sacudiu a cabeça, negativamente.

-Mas recentemente, desenvolvi de repente uma compulsão de ir às montanhas e encontrar uma caverna em particular. - Disse- definitivamente como pôde, com o coração palpitando de terror como se sentia com freqüência.

O olhar dele se fixou nela. Escuro, intenso e especulador.

- Compulsão é uma palavra muito forte.

- É uma compulsão muito forte. - Não havia dito a ninguém além de Razvan, e isso só em seus sonhos. No momento em que compreendera que estava sob compulsão, ficara aterrada por quem ou o que conseguira deslizar sob sua guarda e tomar o controle dela. Estudou a face de Vikirnoff. Ele estava dentro e fora de sua mente... E isso era desconcertante. Ela era poderosa e não possuia barreiras. O que tinha acontecido para embotar seu sentido psíquico, para que Vikirnoff pudesse atravessar seus escudos e entrar em sua mente? Era uma questão que tinha intenção de responder quando os vampiros não estivessem perseguindo-a.

Ele sacudiu a cabeça.

- Eu não fiz isso. Permita-me buscar rastros ocultos. Sempre há um caminho de volta, para o remetente.

Ela ofegou e deu um passo atrás.

-Não. Procurei e não encontrei nada. Não quero voce andando por minha cabeça.

Sua expressão endureceu.

-Perguntei por cortesia.

Ela apertou os dentes.

-Faz de propósito?

-O que?

Ela pegou a mochila e acrescentou duas garrafas de água.

- Me irritar até o inferno?

-Possivelmente seja um dom.

Natalya colocou a mochila no ombro e ficou em pé, tentando não sorrir. Seu tom havia sido zombeteiro, mas cheio de sensualidade que definitivamente tinha possibilidades de fundir-se a ela, mas tentava brincar com ela e ainda assim fazia palpitar sua pulsação.

-Dirijo-me às montanhas. Eles me seguirão e permanecerão longe de Slavica e sua família. - Olhou para ele. – Você vem?

- É obvio.

- Está forte o bastante para me tirar daqui? - Seu queixo estava elevado, mas havia preocupação em seus olhos. Mais que preocupação. Espera e esperança.

Até que enfim. Era algo que podia lhe dar. Vikirnoff endureceu-se para a tortura, seu sorriso de resposta chegou lentamente.

- Você quer voar.

- Se seu plano é me seguir por aí, bem posso me divertir e fazer uso de você. -Natalya encolheu de ombros, tentando parecer indiferente, quando estava ansiosa para voar através do céu que mal podia se conter. Ela tinha fenomenais habilidades atléticas e era capaz de mudar para a forma de uma tigresa, um dom que tinha lhe proporcionado seu nascimento, mas tinha sonhado voando através do céu noturno, a maior parte de sua vida.

Vikirnoff estudou sua face. Era um desejo secreto que estava compartilhando com ele, um que guardava para si mesma e se sentia tola por desejá-lo. Ficou em pé e lhe ofereceu a mão.

- Bem, vamos então.

Natalya pensou antes de pegar sua mão. Os dedos dele se fecharam ao redor dos seus, sólidos, fortes e incrivelmente quentes. Seu polegar lhe acariciou o dorso da mão. Foi agudamente consciente dele enquanto abriam a porta do balcão.

- Não é possível que possa ter se curado. – Ela disse quando se aproximaram dos passamanes. - Pode fazer isto? Podemos encontrar outro caminho até a montanha se precisar. O tigre pode te levar.

Ele pressionou a mão sobre o ferimento perto de seu coração enquanto deixava escapar seu espírito, para inspecionar os danos em seu corpo. Natalya fizera um bom trabalho reparando os ferimentos. Seu corpo estava tentando se curar de dentro para fora. Os ferimentos ainda eram novos e dolorosos, mas tecidos e músculos cicatrizavam rapidamente. Alguns dias na terra ou utilizando sangue ancestral estaria como novo. Voltou para seu corpo e assentiu.

- Estou bem melhor, graças a você, Slavica e a riqueza da terra. Como estão seus tornozelos?

Ela considerou desviar o assunto, mas não queria se arriscar à humilhação de ser surpreendida numa mentira. Em qualquer caso, poderia ser importante.

- É estranho, mas ainda posso sentir à criatura me segurando. Algumas vezes sinto como se tirasse minhas pernas.

- Temia isso. Curei os ferimentos e procurei veneno e bactérias que talvez pudesse ter injetado, mas era mais que o não-morto. Acredito que te marcou.

Ela estava em silêncio, olhando para a noite. Adorava as noites nas montanhas. O ar estava sempre crispado e limpo e quando o tempo era espaçoso e as estrelas cintilavam interminavelmente.

- Quer dizer que pode me rastrear? Ou me atrair até ele?

- Ele pode pensar isso, mas eu não. Preparou uma armadilha para você e deve ter ficado estudando por algum tempo antes de prepará-la. Acredito que pensa que pode te atrair a ele com sua marca, mas eu acredito que está equivocado. Acredito que você é muito forte de vontade e lutaria até seu último fôlego.

Embora Vikirnoff soasse preocupado, Natalya não pôde evitar sentir prazer pela avaliação de sua personalidade.

Vikirnoff olhou fixamente o céu. Nuvens negras viravam e ferviam para o norte.

- Devemos fazer com que Arturo saiba que tem um sério rival por seus afetos.-Ele saltou sobre o corrimão e se abaixou. - Quer que eu a segure ou quer me montar?

Sua escolha de palavras fez com que seu estômago se contraísse.

- Montar... – Ela gostava de controlar. Não era um bebê para ser levada nos braços enquanto viajava pelo céu estrelado. Teria os olhos totalmente abertos e um sorriso na face. Tinha vivido o suficiente e acreditava em abraçar cada nova aventura, cada nova oportunidade de ganhar conhecimento. E a ameaça de vampiros perseguindo-a não ia diminuir nem um ápice da alegria da nova experiência.

Subiu em suas costas e lhe rodeou o pescoço com os braços, estendendo seu corpo junto ao dele, como ele havia feito quando montou o tigre. Os músculos ondearam e se contraíram. Uma calma gotejou em seu corpo. Seu coração pressionava contra as costas dele e doía com a necessidade de estar mais perto. Colocou de lado a nascente ciencia física, dele. Nada arruinaria este momento.

Vikirnoff deixou escapar a respiração lentamente. Era uma tortura. Uma pura e deliciosa tortura. A penas podia evitar que a fera nele se elevasse quando o sangue dela o chamava, quando cada célula de seu corpo exigia o dela, quando sua companheira estava sobre ele, o corpo impresso em sua pele, em sua carne e seus ossos.

A fragrância do sangue dela, o som da vida movendo-se através de suas veias o chamava, lhe tentando quando estava tão necessitado. A fome rabiava através de seu corpo e mente, mas forçou o controle, recorreu a mil anos de disciplina e esvaziou sua mente de imagens eróticas dela, enchendo-a da forma de um pássaro gigante.

Em Natalia lhe escapou um som quando os ossos rangeram e estalaram, estirando-se para acomodar as asas e o corpo de uma coruja o bastante grande para atravessar o céu levando uma mulher. Plumas iridescentes cobriram seu corpo e suas mãos se curvaram em garras afiadas obstinadas ao corrimão do balcão. A agonia enchia cada célula de seu corpo e fluía em sua mente fazendo com que tivesse que utilizar a disciplina que tinha aprendido através dos séculos para manter a forma da coruja. Seu corpo tremia pelo esforço e por um momento seus pulmões arderam procurando ar quando a dor o atacou.

-Isto é fabuloso!

A alegria desinibida em sua voz fazia com que valesse a pena a terrível agonia de seu corpo. Valia a pena os ferimentos de seus músculos e órgãos. Ele não sabia nada de mulheres e menos ainda de companheiras. Era consciente de que estava cometendo cada engano que pudesse cometer, embora não entendia por que. Tinha vivido muito e sua experiência excedia em muito a dela, sua natureza lhe exigia protegê-la, mas ela parecia sentir-se ofendida quando tentava repartir sua sabedoria ou protegê-la. Mas isto... Esta coisa tão simples que podia lhe dar, a enchia de gozo. Sua alegria afastava a dor como nada mais poderia fazer.

A risada dela borbulhou, espalhou-se quando saltou no ar e ganhou altura, movendo suas tremendas asas e sobrevoando a estalagem em círculos. Encobriu-os, evitando que as pessoas do povoado os visse, embora estivesse seguro de que a ouviriam rir quando pássaro e cavaleiro ganharam os céus.

Voou sobre as ondeantes colinas dedilhadas com meia dúzia de granjas. Os agudos olhos da coruja divisaram um grupo de homens dirigindo-se de volta à granja, olhando intranquilamente para o norte. - Precisamos de sangue.

Natalya se sujeitou enquanto o pássaro se equilibrava e tomava terra, atrás de um fardo de feno. Ela deslizou e observou Vikirnoff mudar, encantada pela facilidade com a que fazia. Só por um momento captou um flash de dor em seus olhos e depois ele se afastava a passos rápidos para os granjeiros. Ela manteve um olho nos céus. As nuvens mais escuras viravam e buliam mas seguiam longe, para o norte. Podia sentir o empurrão contínuo dos picos das montanhas chamando-a, atraindo-a a eles. Não podia voltar atrás, sem importar o perigo. Era como ser um desses adolescentes muito estúpidos dos filmes de madrugada, indo ao lugar onde Freddie esperava com suas garras de aço.

- Está pensando em Freddie novamente. Quantas vezes viu esses filmes? - A voz de Vikirnoff continha um gentil toque zombeteiro.

Natalya levantou a vista para ele com um rápido sorriso.

-Isso é que é rapidez. Ouviu o conceito enquanto saboreava sua comida?

Ele se inclinou para ela até que ficaram a uma respiração de distância.

-Só quando a comida é você.

Natalya gesticulou para as montanhas.

-Tenho que chegar lá, Vikirnoff. - Não ia olhar para os olhos dele ou estaria perdida.

- Possivelmente já esteja perdida, só que não sabe ainda.

-Siga sonhando, boneco. – Ela estalou os dedos. - E minha cavalgada?

Foi mais fácil a segunda vez, especialmente com sua fome aplacada. Uma vez no ar, Vikirnoff voou sobre os prados num padrão de vôo baixo, para permitir que Natalya visse a paisagem. Ela era hábil e valente, movia-se com ele, seu corpo tão sintonizado com o dele, que começava a mudar de peso no momento exato em que ele precisava que o fizesse.

Recolheu as coordenadas da caverna, da mente de Natalya. Estava tão preocupada em absorver as sensações do vôo, não notou a intrusão, nem havia nenhuma barreira elevada contra ele. E isso o incomodou. Por que era tão vulnerável a ele, quando obviamente era tão forte? Não tinha sentido e isso lhe fez soar o alarme.

Vikirnoff se aproveitou da situação para explorar sua mente em busca da fonte de sua compulsão, averiguar por que ela não tinha barreiras e tentar averiguar o significado das marcas que a escura criatura tinha deixado em seu corpo. A compulsão de ir às Montanhas dos Cárpatos e encontrar uma caverna em particular era muito forte, urgente e havia sido plantada anos antes. Um evento recente havia detonado a compulsão tornando-a ativa, para atrair a Natalya, por alguma razão oculta. Tentou averiguar que evento era o detonador, mas se Natalya sabia, não podia encontrar evidência disso em suas lembranças.

Encontrou vários lugares onde se notava que sua memória havua sido limpa, como se ela tivesse sofrido um terrível trauma e seu cérebro ficasse prejudicado. Encontrou retalhos de lembranças que não o conduziam a lugar nenhum, terminando repentinamente num escuro vazio. Não se atreveu a ficar muito e estava cansando tentando manter muitas coisas de uma só vez Então saiu relutantemente para se concentrar em desfrutar do vôo com sua companheira.

Vikirnoff virou e desceu rapidamente para dar a Natalya uma emoção adicional, detendo-se no último momento antes de golpear a superfície da água ou roçando a canopia de árvores. Ela riu em voz alta. Realmente, ele podia sentir as ondas de felicidade fluindo dela.

Natalya se inclinou, se aproximando do ouvido do pássaro, mas falou telepáticamente. - Isto é maravilhoso! Muito obrigado, Vikirnoff. Esta é uma das coisas mais geniais que faço em minha vida.

E ele agradecia ser quem lhe proporcionava a experiência. Deliberadamente, voou sobre os lagos e as árvores, proporcionando uma vista de pássaro, da beleza da paisagem. O gelo e a neve cintilavam e as montanhas brilhavam. As ovelhas dedilhavam as colinas e granjas, Igrejas e castelos se estendiam sob eles.

- É assombroso, não?

Ver tudo através dos olhos dela trouxe lembranças esquecidas de sua infância, seu primeiro vôo exatamente sobre a mesma região pela que estava levando Natalya. É obvio, parecia muito diferente então, muito mais selvagem e desabitada. Bamboleou um pouco, mas estivera na batalha toda à noite. - Tenho que te agradecer as lembranças. Não pensava nisso em mais séculos dos que posso recordar.

- Pode evocar sonhos quando vai dormir?

- Não, apagamos todos. Você pode?

- Oh! Sim. Tudo o que adoro de minha infância e meus momentos com Razvan. Todas as coisas que fizemos juntos, as coisas que aprendemos. Tive uma infância relativamente feliz. Minha mãe morreu quando estava com dez anos e um ano depois meu pai nos abandonou e tivemos que viver com...

Ela se interrompeu e a seriedade substituiu seu sorriso. Natalya ficou em silêncio. Vikirnoff esperou, mas Natalya não continuou a conversa. Tocou sua mente, mas era como se a porta se fechasse de repente... Ou um dos retalhos danificados havia terminado abruptamente. Podia sentir o desconcerto dela.

- Sinto sua aflição. A lembrança da perca de seus pais é tão dolorosa ainda, que não pode falar disso? - Vikirnoff baixou para passar roçando uma colina de flores silvestres antes de dar uma volta e voar para os picos mais altos.

Natalya mordeu o lábio inferior. Não queria admitir a verdade. Esquecia as coisas. Coisas preocupantes. O que podia lhe dizer que tivesse sentido?

Vikirnoff começou a examinar a cordilheira montanhosa, procurando a entrada da caverna da mente de Natalya. - É difícil mentir um para o outro. Bem... Pode não tentar. Se preferir não me dizer à verdade, o silêncio é melhor que uma mentira.

Natalya apreciou a sinceridade de sua voz. Não sabia o que estava errado nela e não tinha forma de explicar. Recorreu às brincadeiras num esforço de retomar a frágil camaradagem entre eles. – Oh!, genial. Então se tomo alguns amantes, você saberá. Isso é o que está me dizendo?

- Se decidir tomar outros amantes ainaak enyém, Se assegure bem de que sejam homens aos quais considere inimigos e deseja destruir. – A voz soava muito tranqüila, mas ela sentiu o toque de seus dentes quando se apertaram.

- Terei que trabalhar seriamente em entender o conceito de companheiros e como foi capaz de nos unir. Sou realmente boa em desfazer feitiço. As palavras rituais têm que ser um tipo de feitiço vinculante. Deve haver uma forma de desfazer o que fez. Confio bastante em que serei capaz de averiguar como.

Vikirnoff fez uma careta em seu interior. Era evidente que Natalya tinha intenção de se livrar dele tão rapidamente como fosse possível, de qualquer forma que pudesse. Considerava-o um inimigo de sua família. Acima de tudo, não gostava dele e isso doía.

Deu voltas a essa informação uma e outra vez em sua mente. Não podia recordar nada que lhe doesse emocionalmente. Nem um só incidente. Devia ter havido momentos em sua infância, em sua juventude como principiante, mas neste momento, esta compreensão doía mais profundamente que nada que pudesse recordar.

- O que é?

Ela estava sintonizada com ele quisesse ou não. Não estava tocando sua mente, mas sentia sua repentina fisgada no coração.

- Eu tampouco posso te mentir e não gostaria de discutir isto. - Preferia fazer o que fosse necessário para a sobrevivência dos dois. Para a sobrevivência de Natalya. Não precisava converter num romântico patético que esperava que sua companheira estivesse apaixonada por ele. Não importava se estava ou não. Estavam unidos, duas metades do mesmo tudo. Isso era tudo o que importava.

Natalya mordeu o lábio inferior, tentando averiguar o que estava errado. No curto tempo em que lhe conhecia, chegara a compreender que Vikirnoff raramente mostrava emoções. Nem em seu tom, nem em sua expressão, sequer no que dizia. Só seus olhos estavam vivos e era puro poder, fome e desejo, uma intensidade que a afligia. Agradecia não poder vê-los agora. Não queria ver dor ou pena, neles. O estômago lhe fez um nó ante a idéia.

- Nenhum de nós dois é muito bom falando as coisas, não é? - Perguntou ela. Suas mãos alisaram as plumas da nuca dele.

- Acredito que não. Nunca tive muita necessidade de discutir sentimentos quando tinha algum. Confio em meu próprio julgamento na batalha, em cada decisão e em cada caminho. Com quem ia discutir as coisas e o que discutiria? - Como desculpa sabia que era muito pobre. Honestamente não sabia do que falava as pessoas ou como o faziam.

- Passou muito tempo sozinho, não é?

Fez-se um pequeno silêncio. Natalya temeu que ele não respondesse. Descobriu que estava contendo a respiração à espera.

- Séculos. Estive afastado de minha terra natal e minha gente. Fui enviado fora daqui há muito, para lutar com o vampiro. Quando a escuridão chegou muito perto, encontrei meu irmão e permaneci com ele para me assegurar que não sucumbia antes que eu tomasse a decisão de terminar com minha vida. A espera foi longa e a escuridão se estendeu até que já não estava seguro do que era.

Era a simples verdade. Ela a sentia em sua voz. Uma vida de honra e serviço expressa em três frases. Não falava do absoluto isolamento, da falta de emoção e cor, mas ela a sentia tão certamente como se estivesse com ele e se encontrou chorando por ele.

- Não pense em algo que te causará dor, ainaak enyém. Olhe sob nós. Olhe o mundo lá embaixo e desfrute deste momento.

Natalya elevou o queixo, permitindo que o vento levasse suas lágrimas. - Será melhor que não esteja me chamando "pequena muchachita".

A risada foi baixa e sensual. Sentiu-a em seu interior. Um calor que se estendeu por seu corpo e se acumulou numa dor latente.

- Assegurarei-me de não voltar a cometer nunca esse engano.

Ela olhou para a paisagem selvagem que ele estava sobrevoando em círculos. Havia profundos desfiladeiros cortados na montanha e podia ver várias entradas para as cavernas. As colinas eram de um verde vívido mesmo na crescente escuridão. Flores silvestres floresciam por toda parte e nos vales, rodeando os lados da rocha e decorando corajosamente as mesetas. Quando Vikirnoff desceu mais, ela pôde ver como nas depressões mais profundas a água enchia os ocos formando pequenos lagos. Os leitos de musgo eram de um vívido verde, realçado por vários profundos charcos. Os leitos de musgos abriam passo ao redor de grupos de abedules e pinheiros.

- Isto é tão formoso.

- Sim, mas me sinto intranqüilo. Não sente a sutil advertência no ar a nosso redor, entre a neblina perto do pico da montanha?

Vikirnoff deu outra volta, voando diretamente até a neblina branca que revoava o topo da montanha. Natalya se distendeu quando sentiu a sutileza da magia tecendo uma rede de medo através dela. - Devemos estar perto da entrada.

Vikirnoff aterrissou sobre o afloramento mais próximo, prendendo-se com força com as garras e estendendo uma asa ,cortesmente.

Ela desceu pela asa estendida, aterrissando sobre seus pés. A terra pareceu sacudir-se enquanto ela se ajustava sobre ela.

- Definitivamente este é o lugar. A sensação do desejo de continuar é muito mais forte aqui.

Vikirnoff mudou de forma a alguma distância dela, sabendo que o retorcer de ossos e músculos seria uma agonia. Mudou rápidente, não querendo dar-se tempo para pensar, vestindo-se ao mesmo tempo. Manchas de sangue marcavam sua camisa branca e quando passou a mão pela testa, ela se umedeceu de sangue. Amaldiçoando brandamente, respirou profundamente para superar a dor e levou a cabo outra rápida sessão de cura, para reparar o dano que a mudança tinha causado. Uma vez que se sentiu seguro de que não havia rastro de sangue em seu corpo ou roupa, saiu de trás da rocha, cuidando em não perturbar nada de pudesse ser uma armadilha.

Natalya observou-o ir para ela. Ele cambaleou e sua mão foi ao peito num gesto involuntário, mas se recuperou imediatamente, caminhando como se estivesse em forma e forte. Carregava um fio de perigo sem sequer ser consciente dele. Não saberia que estava tão severamente ferido, olhando-o agora. Nunca daria para saber.

Suspirou. Tinha muitas questões a deixar claras com ele. Acima de tudo, o ridículo feitiço que os unira, mas podia deixar todo de lado, para depois e trabalhar com ele, se podia confiar nele. Todos seus instintos lhe diziam que podia, mas sua mente se batia em confusão, a culpa sempre presente e o som da voz de seu irmão admoestando-a continuamente.

-O que aconteceu, Natalya?

Sua voz fez lhe acelerar o coração. Esse era o problema. Ele tinha esses olhos e essa voz e lhe respondia completamente.

- Você olhou em minha mente tentando averiguar quem me pôs sob compulsão, não é Vikirnoff?

-Sim. - Não ia tentar enganá-la. Não via necessidade disso, nem necessidade de desculpa. Se ia mante-la a salvo, precisava saber quem a tinha colocado sob tão forte compulsão e por que. - Não tive muito tempo para encontrar respostas, mas não terminei ainda.

Natalya respirou fundo. O que estava a ponto de fazer poderia ser o pior que tivesse feito em sua vida.

- Tenho lembranças de Xavier? Meu avô? Além das histórias que me contou meu pai, quero dizer.

Vikirnoff se apoiou contra uma rocha e estudou sua face. Seu olhar era firme, agudo e não perdia nada, absolutamente.

- Essa é uma estranha pergunta, Natalya. Por que perguntaria semelhante coisa? Como poderia ter lembranças dele, se estiver morto?

-Não sei. Tenho sonhos perturbadores dele. Ele se arrasta até meus sonhos e quando tento lembrar de minha infância com Razvan quando estou acordada, não posso. É nebuloso e distante e se perderam partes. Faz algum tempo que temo que minhas lembranças dele estejam enterradas. – Ela obrigou-se a olhar para ele, quando temia que pudesse pensar que estava louca.

Vikirnoff estava em silêncio. Ela estava nervosa com ele, tentando lhe confiar algo que era importante para ela, mas mais que isso, ele reconhecia o que significava para sua gente. Xavier era um inimigo mortal dos Cárpatos. Havia assassinado, raptado e empreendido uma guerra por um propósito, um final. Procurando a imortalidade. Se Xavier estava vivo estaria planejando outro golpe contra os Cárpatos. Não parecia possível, mas Vikirnoff sempre tinha se incomodado. Não se encontrou nenhum corpo para sustentar as afirmações da morte de Xavier. Vikirnoff tinha que escolher suas palavras cuidadosamente e não aliená-la. Sabia que não tinha as habilidades necessárias para falar com suavidade com sua companheira. Só tinha a verdade.

-Teme que Xavier esteja vivo? Que foi ele quem te colocou sob compulsão? E que possivelmente manuseasse suas lembranças também?

Natalya suspirou.

- Não sei. Não posso lembrar nada dele, além das histórias que meu pai me contou, mas tenho sonhos e não são bons. Pior ainda, meu pai desapareceu quando eu tinha dez anos. Razvan e eu não podíamos viver sozinhos, mas não posso evocar aqueles dias ou quem cuidou de nós. Sonho com eles e Xavier se arrasta ao interior de cada sonho.

-Suspeita que está vivo?

Natalya pressionou a mão sobre o estômago revolto. Suspeitava que Xavier vivia, mas era uma loucura. Suspeitava há muito tempo. E a preocupava que não fosse o homem maravilhoso que sua família havia retratado para ela. Seus sonhos eram com freqüência, perturbadores e Razvan e ela haviam sofrido enormemente em suas mãos. Tinha flashs de cor durante as horas de despertar, que não faziam sentido, lembranças de uma figura sombria que a aterrava. Temia que esse homem fosse Xavier.

-Não sei. – Admitiu, relutantemente. - Sei que era um mago escuro e capaz de controlar as lembranças, mas se estivesse vivo e não queria que eu me lembrasse e esteve alterando minhas lembranças, por que não se eliminou completamente de minha mente? E qual seria o propósito?

Os olhos escuros de Vikirnoff lhe percorreram a face, bebendo dela, devorando-a. Ela era linda, com sua forte vontade e suas maneiras guerreiras. Quando soava tão confusa e desamparada, enchia seu coração de ternura.

-Talvez não possa. Você tem uma tremenda força em seu interior, Natalya. Ele pode ter controlado sua memória até certo ponto, mas talvez não conseguiu eliminá-la.

Ela parecia tão abatida e vulnerável, que ele se adiantou e lhe emoldurou o rosto com as mãos.

- Acredito que é uma surpresa para qualquer pessoa que te conheça. Tem mais força de vontade, mais poder enroscado em seu interior, do que sequer é consciente. Vejo-o em você. E o sinto quando estou perto. Não importa que seu avô foi o poderoso mago, duvido que pudesse te manipular completamente se tentou semelhante coisa, porque é muito forte de caráter.

As lágrimas brilhavam nos olhos dela.

-Isso é a coisa mais agradável que alguém já me disse.

-É simplesmente a verdade. - Vikirnoff inclinou-se para diante, sua respiração quente contra a face dela. - Rompe-me o coração quando chora, Natalya.

O coração de Natalya quase deixou de pulsar quando sentiu os lábios dele, lisos, firmes e suaves, enxugando suas lágrimas. Não era tocada a anos e ele estava seduzindo-a com sua ternura.

- Não é minha intenção.

- Eu sei. Isso é o que te deixa....

Vikirnoff beijou-lhe o canto dos lábios. Ela sabia que devia detê-lo, mas não queria. Esperou, os pulmões ardendo em busca de ar, seu coração pulsando muito rápido. A boca dele pousou sobre a sua com infinita gentileza. A calidez se estendeu e ela tornou-se chamas, queimando a de dentro para fora. Os braços a aproximaram, atraindo-a ao calor de seu corpo, contra os músculos de seu peito. Seu coração pulsava loucamente. Sua fragrância a envolveu e ela abriu a boca para ele. Sua língua acariciou a dele com repentino e caprichoso abandono.

O beijo de Vikirnoff passou de gentil a profundo no momento em que ela respondeu, no momento em que ela se entregou a ele, aprofundando-o a uma feroz dança de posse, de fome e pura paixão. As mãos lhe acariciaram o cabelo e a trouxeram ainda mais perto, até que suas bocas se fundiram em calor e fogo.

Devoraram-se um ao outro. Natalya procurava sua pele através da roupa. Não foi difícil, até que o sentiu se sobressaltar e elevou a cabeça e olhou-a seus olhos negros.

- É um homem formoso.

- Os homens não são formosos. – Ele riscou-lhe os lábios com a ponta de um dedo.

Ela o mordeu, atraiu seu dedo à boca e serpenteou a língua ao redor dele.

-Possivelmente não para você, mas certamente é para mim. - Podia ver o quanto ele estava pálido. Fome pura ardia em seus olhos... Nos dois. Fome física e sexual. Seu útero se contraiu apertadamente. - Precisa se alimentar novamente. O vôo e mudar de forma requereram muita energia.

Sua voz era incitante. O corpo inteiro de Vikirnoff se distendeu em reação, cada terminação nervosa voltou para a vida.

- Preciso estar dentro de você. - Seus lábios escorregaram por seu pescoço, por sua garganta, baixando ainda mais, afastando o decote de sua camiseta para poder passar a língua sobre seus seios. Então seus dentes puderam brincar com a pele sensível. – Você não tem idéia do quanto te desejo. - Suas mãos afastaram a camisa, subindo por seu estômago e o excitante umbigo. - O que é isto? – Ele inclinou-a para trás, para que descansasse o corpo contra uma rocha, enquanto inspecionava o pequeno anel que ela levava no umbigo. Mordiscou, brincando com ele com a língua, Pequenas estocadas aveludadas muito parecidas com as de um gato, contra sua pele nua.

- Acredito que você gosta. – Ele estava deixando-a louca de desejo. Seu corpo estava quente, dolorido e pesado pela necessidade de alívio. As pontas dos dedos dele esfregavam sua pele, empurrando sua camisa para mais para cima. Pensou que poderia perder a cabeça. Só o simples toque dos dedos dele sobre sua pele sensibilizada, a enchia de desejo.

- Isto é a única roupa que deveria vestir. – Ele beijou a cintilante argola de ouro e saboreou seu caminho para cima, pela pele nua, até os seios.

Natalya estremeceu em reação, suas mãos se apertaram sobre ele, lhe puxando mais perto, urgindo-o a continuar. Nunca tinha desejado nada, mais do que desejava sentir essas mãos e lábios movendo-se sobre sua pele nua. Os dentes arranharam eróticamente e seu corpo inteiro se apertou, o calor aumentou até que quase gritou pedindo alívio. A boca dele se fechou sobre seu seio, quente e úmida, tão incrivelmente sedutora, que ela sentiu que seu corpo se dissolvia em líquido.

-Vikirnoff. - Murmurou seu nome, acariciando seu cabelo. – Vou parar com isto se continuar subindo. - Não queria detê-lo. Queria que ele arrancasse sua roupa e se envolvesse a sua volta.

- Poderíamos estar em perigo mortal aqui. - O aviso foi pontuado por pequenas caricias de sua língua.

Ela sorriu em voz alta.

-Não pode dizer perigo mortal. Em todos esses filmes da madrugada, os estúpidos adolescentes sabem que estão em perigo e se demoram para se beijar e se tocar, então... – Ela gemeu quando a língua lambeu o mamilo e enviou ondas de desejo através de seu sangue. - E então chega Fredie.

A boca dele sugou um de seus mamilos e suas pernas quase cederam. - Não há vampirospor perto, então não acredito que seu Freddie nos incomode agora. Mas se está preocupada, podemos abandonar este lugar.

Gemeu ante a nota esperançada na voz dele, essa profunda nota rouca e dolorida que a rasgava. Natalya lhe alisou o longo cabelo.

-Não posso partir. – Disse, com a garganta descarnada, seu coração quebrado. Era a verdade. Não podia romper a compulsão e abandonar a caverna sem entrar nela. - Sinto muito.

Vikirnoff lhe mordiscou o seio mais uma vez e beijou sua pele subindo um pouquinho, até que encontrou sua pulsação. - Nunca lamente o que não pode mudar. Tenho-a em meus braços e isso é suficiente.

Natalya fechou os olhos quando a língua dançou sobre sua pulsação. Seu corpo pulsava e ardia por ele, mas ante o toque de sua língua todo nela se imobilizou. Esperando, tensa de desejo. Seus dentes cravaram profundamente e ela gritou, pendurando-se dele quando a ardente dor cintilou através dela e deu passo a um forte prazer erótico. Suas mãos desceram até seus seios, os polegares deslizavam gentilmente sobre os mamilos, enquanto ele se alimentava em sua palpitante pulsação.

Estava quase morto de fome por ela. Pela essência de vida. Tudo se misturou a sua necessidade de sangue. Necessidade ardente e sexual. Lutou por permanecer centrado quando desejava perder-se na luxúria e na fome. Ouviu o grunhido de advertência em sua garganta quando a fera se elevou, lutando pela supremacia, lutando por insistir no direito a sua companheira. Sentia o corpo duro e dolorido, mas gloriosamente vivo. Sentia suas emoções e seus intensos desejos tão fortes que o sacudiam. Passou a língua pelas incisões no alto do seio e pressionou os lábios pela suave carne.

Estavam unidos. Sua mente já morava dentro da dela. Sua alma era compartilhada e comum, uma união completa. Não queria esperar para a fusão de seus corpos. Esperar, ia contra todos os seus instintos, mas sentia que ela não estava emocionalmente presa a ele. Se perdesse a si mesmo em seu corpo, ela poderia lhe chamar de volta? Tentaria, pelo menos?

- O que está acontecendo? - Natalya se ergueu, sem se incomodar em fechar a camisa sobre seus seios expostos. Sentia-se sonhadora, licenciosa, faminta por tocar sua pele, por saboreá-lo. Os séculos tomaram o controle e ela utilizou suas mãos para levantar a camisa dele, centímetro a centímetro, despindo seu peito a ela. Passou as pontas dos dedos sobre seu peito, traçando os músculos, inclinando-se para frente para saborear sua pele. Ele esegurou à parte de atrás da cabeça dela e a pressionou mais perto e seus quadris moviam-se contra o corpo dela num ritmo lento e sedutor.

- Na verdade, eu não gosto de tomar sangue. Tomo somente quando é necessário. - Confiou, seus lábios lhe roçando o peito. Sua língua deslizou sobre a pulsação acelerada. Uma vez. Duas. Ouviu- gemer. – Mas, não posso resistir a seu sabor.

Seu legado Cárpato exigiu que sobrevivesse tomando sangue ocasionalmente, mas a maior parte do tempo era capaz de resistir o atraente chamado. Agora não importava. Nada importava exceto a sensação e o sabor dele. O atraente calor de seu corpo e o tato de suas mãos. Gemeu brandamente e cedeu ao terrível vício que parecia tê-la tomado. Desejava-o. Desejava a sensação e a fragrância dele. Seu tato e seu beijo. Seu corpo. Realmente desejava seu corpo.

Seus dentes cravaram fundo e o sentiu estremecer com a crescente fome. Desejava-o e o teria. Pressionou seus seios contra o peito dele, movendo-se de forma intranqüila e incitante, aumentando deliberadamente a penosa dor do corpo dele, numa rajada. Sabia que nada era igual ao que experimentara e nunca seria suficiente. Desejava-o todo.

Passou a língua sobre as pequenas incisões e retrocedeu, estendendo os braços para tirar a camisa.

Atrás de Vikirnoff a terra ondeou como se algo corresse sob o solo, para eles. No momento seus tornozelos queimaram e doeram, como se a criatura que a prendera sob a superfície a tivesse prendendo outra vez.

       -Algo clandestino se move. - Natalya saltou para trás e se abaixou para esfregar seus repentinamente ardentes tornozelos. – Acha que é a criatura, a que me segurou? –Ela estremeceu-se e retrocedeu outro passo. – O solo se moveu Vikirnoff, sentiu? Vigie. Poderia estar atrás de você. Merecemos isto por agir como um par de adolescentes saídos de um filme da madrugada.

Vikirnoff segurou seus braços e a colocou sobre um afloramento de rocha que tinha uma greta de meio centímetro de profundidade.

- Estou bem e você está obcecada por seus filmes, Natalya. Não acredito que assisti-los seja uma boa influência para você.

-Bem, deveria saber que tinha que terminar falando isto quando estamos rodeados de perigo mortal. Por favor tome cuidado. O Rei Troll pode explodir através da terra a qualquer minuto e te levar a alguma guarida horrível. Eu teria que te resgatar de novo...

Ele sacudiu a cabeça e seu leve e intrigante sorriso captou a atenção dela e apagou todo pensamento coerente antes que pudesse terminar.

-Está deixando correr sua imaginação. Diga-me o que quer que faça.

- Quero sair daqui, mas não posso. Tenho que entrar na caverna e me liberar desta compulsão. – Ela estava se apegando à camisa dele. - Sei que está pensando em me tirar daqui, mas simplesmente teria que voltar e procurar, sem você. Por favor não faça isso, Vikirnoff.

Ele estudou o desespero de seus olhos.

- Sei que tem que fazer isto, Natalya. Estou contigo em tudo. Se Freddie ou o Rei Troll tentam te incomodar, manterei-os separados de suas costas até que isto acabe.

Natalya deixou escapar a respiração lentamente, inclinando-se para frente e roçando um beijo sobre os lábios dele.

-Suba nesta rocha comigo antes que essa coisa te coma vivo.

As sobrancelhas dele se elevaram.

- Um de nós tem que estar em terra para encontrar a entrada. Sei que está aqui, em alguma parte ao redor desta rocha. Teremos que ser cautelosos com as armadilhas. A caverna não quer que entremos.

- Boa sorte então.

Ele sorriu brandamente.

- Pensei que poderia dizer isso.

- Sim. Bem... Sou do tipo prático.

Vikirnoff estudou o nicho e o afloramento, passeando ao redor da parte dianteira e dos lados da rocha, várias vezes. Natalya tinha razão, não só havia algo se movendo sob eles, mas também estava imitando cada um de seus passos. A terra inchava ligeiramente como se algo grande procurasse um movimento, serpenteando a centímetros sob a superfície. Quando ele parava de andar, a criatura corria para a rocha onde Natalya estava e permanecia imóvel, tornando a se afundar na terra. A névoa se espessou ao redor deles, rodando em pequenas explosões de ar, mas revoando para cobrir o pequeno pico, em vez de continuar caminho acima pela montanha como deveria fazer. Vozes uivavam e gemiam e algo escuro e sombrio movia-se entre a neblina.

- Concordo, isso é mais do que horripilante. – Natalya, disse . - E não vou colocar um pé em terra se houver uma possibilidade de que essa criatura de braços peludos e de unhas afiadas esteja em algum lugar perto daqui. – Ela olhou a seu redor, esquadrinhando o chão e as rochas.- Tem que haver uma entrada aqui. Por que estaria tão bem guardada se não estivéssemos no lugar certo?

- A entrada está aqui. - Concordou Vikirnoff, mantendo um olho na terra em movimento. Pequenas plantas rebolavam como vermes quando a coisa clandestina perturbava-as a sua passagem. Vê aquelas pedras dali? As pequenas? Parecem-lhe corretas?

Natalya quase caiu da rocha quando se inclinou sobre a lateral. Vikirnoff a estabilizou com uma mão na cintura.

- Estão colocadas em padrão mas... - Sua voz desvaneceu.

-Não estão de tudo, certas. – Ele terminou por ela.

- Olhe essa coisa. - Assinalou para a terra ondulante. - Acredito que as pedras têm que ficar numa ordem diferente. Mais como isto... - Baixou os braços, ainda fazendo equilíbrios sobre a rocha e acotovelando outra fora da linha para mudá-la por outras três, mais acima. Franziu o cenho com frustração, sacudiu a cabeça e saltou da para abaixar-se junto às pedras menores. - Isto é Vikirnoff, o caminho para a entrada. Só tenho que recolocar as rochas na ordem correta.

Vikirnoff se abaixou junto a ela, onde seu corpo podia defendê-la, se fosse necessário. Manteve um olho precavido sobre a espessa névoa e examinando continuamente a terra.

- Achei! - Natalya deixou à última pedra em seu luga,r com evidente satisfação.

A terra junto a sua mão erupcionou como um pequeno gêiser. Uma criatura pestilenta com forma de enguia e dentes afiados quase perfurou seus dedos, emitindo um guincho. Vikirnoff segurou à serpente pelo pescoço, arrastando o corpo que resistia, para longe de Natalya. Os dentes dela batiam repetidamente, o corpo se retorcia freneticamente para chegar a Natalya.

- Cuidado! - Advertiu Vikirnoff quando a terra ao redor de Natalya se abriu em meia dúzia de lugares e cabeças de serpente saíram dos buracos diretamente para ela, em todas direções. – Pule! - Ela lançou a serpente longe dele e elevou as mãos para o céu. O relâmpago se arqueou através da névoa, iluminando-a com ferozes tons de vermelho.

Natalya sequer se importou que seu tom tivesse compulsão e exigência. Saltou para a rocha e olhou fixamente às criaturas.

- Detesto as serpentes. Realmente, realmente detesto-as.

O relâmpago fumegou e rangeu e um grande látego desceu, incinerando a terra num pequeno círculo. Logo se elevou um mau cheiro e as pestilentas criaturas se converteram em cinzas. Os pontiagudos dentes enegrecidos se contorceram, como se estivessem vivos e depois se desintegraram.

Natalya pressionou a mão sobre a boca e sufocou um grito de alarme.

- Isso foi brutal e totalmente repulsivo. Nunca permita que essas coisas se aproximem novamente de mim.

Vikirnoff a estudou por um momento antes de compreender que ela falava sério. Segurou-a em seus braços e a desceu da rocha.

- Você está tremendo. - Sujeitando-a perto do calor de seu corpo, ele abraçou-a num esforço de lhe dar consolo. - Não tem medo dessas criaturas, tem?

- Odeio serpentes. - Natalya se apoiou nele, tentando subir os joelhos. - Sempre tive um medo horrível delas.

-Mata vampiros e destrói guerreiros das sombras. Nem se sobressaltou quando enfrentou nenhum dos dois adversários. – Ele segurou-lhe o queixo e inclinou sua cabeça para a dela. – Vai me intrigar sempre.

Ele tentou lhe empurrar.

- E te levar a bebida. Não deixe de se esqueçer que te incomodo. - Não podia se permitir ser distraída. E Vikirnoff a distraía muito. - E estamos em perigo mortal. Nego-me a ser uma adolescente muito estúpida, enquanto as serpentes voltam.

Ele não se moveu nem um centímetro, sua pele estava tocando a dela, o calor de seu corpo a esquentava.

- Havia me esquecido. -Seu sorriso era lento e sexy e elevou sua respiração a algum lugar que não eram seus pulmões. - Completamente.

Natalya levantou o olhar para ele, séria.

- Estamos em meio a um cerco aqui. Estas coisas vieram por mim desta vez, não a por você.

- Notei que sim. Por que seria? O que acha? – Ela deixou cair às mãos relutantemente e examinou a greta da rocha que se ampliara significativamente-. Teremos que fazer uma pequena manobra para nos deslizar por ela.

Natalya recuperou sua mochila e comprovou suas armas, evitando olhar para os restos enegrecidos das serpentes.

- Sou eu que estou sob compulsão. Possivelmente alguém me atraiu aqui para me matar.

- É muito problemático, Natalya. Por que te conduzir às montanhas, a esta caverna em particular? - Vikirnoff colocou a cabeça na greta. - Isto é muito estreito, mas se amplia logo depois. – ele afinou seu corpo e se arrastou dentro da greta.

Natalya olhou o céu quando, o vento se elevou num grito de raiva, de protesto. As nuvens ferviam furiosamente e dentro de suas profundezas pôde ver escuras figuras em movimento. Fumegantes e cinzas. Transparente. Fechou os olhos brevemente e enviou uma prece silenciosa para que as nuvens não fossem guerreiros das sombras com os quais tivesse que voltar a lutar. Tivera muita sorte enviando o guerreiro de volta ao reino da morte, mas isso não significava que conseguisse novamente. Sabia que o reino dos feitiços mágicos podia ser alterado facilmente.

-Dê-me sua mochila. - Vikirnoff estendeu o braço para trás, para ela.

- Eu a levarei. Prefiro ter tudo o que preciso, perto de mim. - Natalya o seguiu ao interior da caverna. Esta era tão estreita que as laterais lhe arranhavam as costas enquanto deslizava através da abertura e abria passo até uma área ligeiramente maior. Embora o túnel fosse mais amplo, teve que se encurvar e depois engatinhar, quando seguiu Vikirnoff.

Depois dela as rochas saíram fora do padrão e esparramaram ao redor da entrada da caverna. A greta dentada se fechou de repente com um chiar de rochas, deixando-os presos dentro da montanha. Natalya deu de presente a Vikirnoff uma letanía de maldições.

-Pode ver?

-Tenho uma visão excelente na escuridão. – Replicou, ela. O teto caía mais baixo até que ela não teve outra escolha que avançar sobre o ventre. - Será melhor que essas serpentes tenham ficado fora. – Ela agradecia que Vorkinoff estivesse ali com ela. Suas terminações nervosas ainda formigavam com a consciencia dos afiados dentes aproximando-se de sua mão.

-Estaremos bem – Assegurou, ele.

- Eu não disse nada. – Objetou, ela.

- Seu coração está palpitando. Ouça o ritmo do meu e ajuste o batimento de seu coração.

Natalya fez o que ele pediu, permitindo que seu coração se estabilizasse num ritmo mais natural.

- Não me contou o que encontrou em minhas lembranças. Eu não gosto de não estar ao comando e não posso me sobrepor à compulsão de vir a esta caverna. Acredite-me, tentei. Sou uma crente firme em evitar problemas se for possível e este lugar é definitivamente problemático, mas não posso evitar vir aqui. Isso realmente me perturba.

- Tenho que concordar, eu não gosto tampouco, mas sinto a necessidade muito forte em voce. É por isso que não o proíbo fazer isto.

Ela rilhou os dentes.

- Se eu fosse você, escolheria minhas palavras, cuidadosamente. Estou atrás de você com uma faca na mão. Se planeja ficar todo o tempo a meu redor, elimine palavras como "proibir" e "permitir" de seu vocabulário.

-Essas palavras lhe ofendem?

-Sabe muito bem que sim e provavelmente as usa de propósito para me tirar do sério.

-Funciona muito bem.

- Bem, pare. Estamos nos arrastando através desta montanha com serpentes mutantes de grandes dentes saindo da terra para nós, então que tal uma trégua.

-Posso sentir ar fresco. - Informou ele. - Tem que estar chegando de uma câmara subterrânea.

-É bastante frio para congelar serpentes?

-Não permitirei que uma serpente a ataque novamente. Se alguma tentasse, eu a proibiria. - Havia risada em sua voz.

Ela sentiu um toque em seu coração. Ainda não o ouvira rir.

-Ah! De repente você é um comediante e não muito bom. - Poderia escutar sua voz para sempre quando ele falava. Natalya limpou a garganta. – Vai me dizer o que encontrou em minhas lembranças? Ou foi muito horrível?

Vikirnoff ouviu a pequena nota de medo.

- As lembranças de seu avô são muito confusos, Natalya. Não posso dizer que são sonhos ou realmente lembranças, mais do que você. Há pouca dúvida de que alguém manipulou suas lembranças, mas não posso dizer quem ou como. Qualquer rastro de Xavier está embotado, velado ou termina abruptamente num vazio escuro. Encontrei pouco de sua infância com seu irmão. Na verdade todos seus anos de juventude são fragmentos de memórias. Não sei o que significa isso, mas averiguaremos. – Ele projetou confiança em sua voz, sabia que ela estava perturbada por sua falta de lembranças, há algum tempo. - O que aconteçe quando tenta se lembrar das coisas?

-Sinto-me irritada, nervosa, e isso não é próprio de mim. Imediatamente mé dá uma dor de cabeça e me dói o estômago. - Ela sabia que era uma reação plantada, sabia todo o tempo, mas era bom poder confirmar com alguém. Mais que isso, havia consolo em ser capaz de discutir seus medos com alguém mais.

Vikirnoff parou e voltou o olhar para ela.

-Obviamente suspeita que seu avô está vivo e acha que ele tem algo a ver com sua perda de memória. – Ele escolheu suas palavras cuidadosamente. - Se ele te enganou e manuseou suas lembranças, por que persiste em acreditar que os Carpatos são tão malvados como o vampiro?

- Me disseram toda a vida que os Carpatos matariam as pessoas que carregavam o símbolo do dragão.

-Quem lhe disse isso? - Insistiu Vikirnoff. - Diz que toda sua vida, mas suas lembranças estão fragmentadas. É possível que a advertência seja algo que foi plantado também? – Ele manteve a voz tão neutra como foi possível.

- Estou segura de que meu pai foi o que me disse isso primeiro.

- Mas não sabe, Natalya. O símbolo de seu corpo é de uma muito antiga e reverenciado linhagem Cárpato. Nenhum Cárpato faria mal a um Caçador de Dragões. - Vikirnoff abaixou a cabeça e tornou seu corpo menor e mais compacto. - Este túnel tem ângulos afiados que tornam difícil manobrar. – Ele advertiu. – Cuide de sua cabeça.

Natalya afastou a cabeça do caminho de uma rocha pendente.

-Seriamente? Então por que um caçador matou meu irmão?

-Deve ser um vampiro fingindo ser um caçador. Nenhum Cárpato faria mal a alguém que levasse a marca do Caçador de Dragões. – Ele reiterou, esperando que se falasse seguidamente, ela começaria a considerar a idéia de que a advertência pudesse ter sido plantada.

Assobiou brandamente quando o passadiço se abriu a uma câmara maior.

- Isto se abre a uma galeria maior. Poderá se colocar à direita. – Ele se virou para ajudá-la. A destilação de água desde todas a paredes era constante. Quase com o ritmo de um batimento de coração, como se as cavernas estivessem vivas. Vikirnoff se sentia inquieto, sentia o peso de olhos sobre eles, embora escaneando, não pudesse encontrar nenhum perigo para eles. Algo guardava as cavernas, mas não podia descobrir à sentinela, com sua crescente e poderosa sonda.

-Minhas lembranças... – Ela disse novamente, enquanto estudava as formações com forma de dedo que rodeavam o grande abismo que se abria em meio à câmara. - Essa parede é uma baixada. - Elevou seu olhar ao rosto dele com um pouco de medo. – Vamos descer por aí?

- Você é quem lidera a expedição. – Assinalou, ele. - Que direção indica sua intuição?

Ela deu um suspiro.

- Embaixo. Temos que descer. Aí. – ela assinalou buraco negro sob eles. Estava frio e ela estremeceu-. Preciso saber Vikirnoff. O que mais encontrou? - Se Vikirnoff havia recuperado informação valiosa que de algum modo machucasse sua família, podia apagar-lhe a memória.

- Acha que pode apagar minha memória?

O desgosto em sua voz foi um severo castigo. Natalya não tivera intenção de que ele captasse esse pensamento e realmente lhe incomodava não poder sentir quando se fundia com ela.

-Não quis que soasse assim.

- E como ia soar, como uma falta de respeito? Quer minha ajuda. Está disposta a me usar, mas tem toda a intenção de manusear minhas lembranças.

-Compartilhei minhas dúvidas contigo. Não as compartilhei com ninguém mais. - Natalya suspirou. - Para ser totalmente honesta Vikirnoff, já não sei o que pensar. Sinto-me como se alguém estivesse correndo em círculo e fazendo uma confusão com minha cabeça e agora você também. Por que não posso te bloquear se sou tão poderosa e forte? Por que sou tão vulnerável à invasão?

Havia um medo real em sua voz e ela não podia culpá-la. Era poderosa e teria que estar totalmente protegida, mas algo havia deixado sua mente aberta a um ataque. A pesar do fato de estar zangado com ela, seu coração estava com ela.

- Os vampiros alguma vez foram capazes de te atrair até eles?

Ela sacudiu a cabeça.

-Não. – Ela franziu o cenho-. Espere. Notei que recentemente passei um mau bocado com suas vozes, ouvindo suas vozes reais e vendo além da ilusão que vestem.

- Mais ou menos quando começou a compulsão para encontrar as cavernas?

Ela pareceu confusa.

- Não sei. Está começando a dor a cabeça outra vez e estou congelada. - Ela esfregou os braços num esforço de conseguir calor. - Você não parece ter frio.

-Sinto muito. Deveria ter prestado atenção a sua comodidade. – E antes que ela pudesse protestar, ele a aproximou de seus braços, com equipamento e tudo e respirou sobre ela. Imediatamente uma sensação de calor deixou sua marca através de seu corpo, rodeando-a como um grande casulo que acabou com seu tremor e seus dentes deixaram bater.

- Estou melhor, obrigado. – Ela disse e lhe rodeou-lhe o pescoço enquanto ele abandonava o chão da caverna para o escuro abismo, embaixo.

Vikirnoff era agudamente consciente do suave corpo pressionado firmemente contra o seu e do sofrimento dela por sua conversa. Ela estava muito preocupada com sua falta de lembranças e estivera contendo seus medos durante anos, incapaz de discuti-los com alguem. Beijou o alto de sua cabeça, num gesto que pretendia tranqüilizá-la.

Vikirnoff pousou no chão da câmara. Haviam descido perto de trinta e cinco metros. O som da água gotejando era mais alto. Um batimento do coração que se sentia mais ameaçador que correto. Seu olhar deslizou alerta pela câmara gelada, provando cada lugar possível para se ocultar. Manteve o calor ao redor de Natalya, para ajudá-la a regular a temperatura de seu corpo.

-Eu não gosto da sensação deste lugar.

-A mim tampouco, mas é lindo, não é? – Disse, Natalya. Tirou uma barra incandescente de sua mochila e a sustentou no alto. - Juraria que há nervuras de ouro aí. – Ela virou-se num círculo sustentando a barra para ajudar a iluminar a galeria. - Nunca tinha visto tão lindas formações de gelo. Todas essas aberturas conduzem a salas e mais galerias. Isto é assombroso. Como um grande palácio de cristal.

Vikirnoff ficou imóvel. Ouvira essas palavras há anos, para descrever a grande caverna do mago escuro. “Um grande palácio de cristal com ardentes chamas no centro de um aposento, um palácio de pontas de cristal e ouro.” Ele olhou fixamente para a formação de gelo que se elevava no centro do aposento. Dependendo do ângulo, a formação parecia um brilhante diamante ou exatamente uma brilhante chama vermelho-alaranjada. Quando Natalya passou a luz sobre ela, esparramaram-se pontas que pareceram brilhar no centro dela.

- Natalya... -Havia advertência em sua voz. Esperou até que ela o olhou. - Acredito que esta é a caverna do mago escuro. Ele utilizava-a para estudos e experimentos. Acredito que este é seu lugar de poder. Haveria guardas. Guardas poderosos e mortíferos. – Ele ouviu o som da água novamente e a pulsação implacável tomava um novo significado.

Ela mordeu o lábio com força. Não era difícil acreditar que ele tivesse razão e isso significava que as cavernas estariam consteladas de grande quantidade de minas.

- Mesmo morto, Xavier nunca deixaria sua caverna desprotegida. Conteria muitos de seus segredos. E é como se diz, tropeçamos com a guarida do leão.

- Então seria. – ele se moveu para cobri-la, mantendo seu corpo entre o dela e as paredes. - Se estiver vivo e que manuseou suas lembranças, por que te atrairia aqui? Qual seria seu propósito?

-Essa é a grande pergunta, certo? Os vampiros me querem, você me quer. Talvez, meu avô morto ou não, me queira. Está claro que sou uma mulher popular. –Natalya encolheu os ombros e lançou um débil sorriso, utilizando o humor para manter sua coragem.

O coração de Vikirnoff reagiu, derretendo-se e mudando no peito. Fez uma careta. Era incômodo ser tão suscetível a ela. Não podia recordar um momento em sua vida no qual os sentimentos ou as emoções alteravam seu julgamento. Agora, todos seus instintos lhe gritavam que estavam em perigo e precisavam correr para a superfície. Podia ler o medo nas profundezas de seus olhos, mas ela endureceu e não iria partir até que obtivesse algumas respostas.

Vikirnoff forçou-se a esmagar sua natural inclinação protetora e tentou encontrar uma forma de ajudá-la, uma que os tirasse da armadilha logo que fosse possível. E estava seguro de que a caverna era uma armadilha gigante.

- O que poderia te fazer, além de seus óbvios encantos e habilidades, que poderia te tornar tão valiosa para os vampiros? Ou para seu avô?

-Não faço idéia. Sou boa com feitiços e posso encontrar coisas. Honestamente não sei, Vik. – Ela enviou-lhe um rápido olhar sob seus longos cílios.

-Vik? - Ele se sobressaltou visivelmente e sua sobrancelha se elevou. - Não vai me chamar de Vik. Estou considerando usar uma das palavras que você apagou de meu vocabulário.

Os olhos de Natalya cintilaram para ele e depois virou seu corpo na direção em que podia sentir o puxão mais forte.

-Temos que ir por ali. – Ela assinalou um passadiço que era pouco mais que um túnel.

Ele gemeu.

- Por que sabia que iria escolher esse?

Ela estendeu o braço em busca de sua mão com óbvia relutância, mas precisando do contato.

- Sinto a sutil vibração de poder. Sente-a? - Sua voz tremia.

-Sim. - Respondeu ele, tensamente. – Vamos, esntão. – Ele apertou-lhe os dedos, para tranqüilizá-la. - Tome cuidado, Natalya. Eu a seguirei. - Não queria lhe dizer que estava seguro de que havia vampiros espreitando-os. O não-morto estava ainda a certa distância, mas temia que ela de algum modo levasse impresso algo que os atraísse. – Já esteve aqui antes?

-Não, nunca. – Natalya franziu o cenho, procurando em suas lembranças. - É tão frustante lembrar somente pedaços e partes. Estudei milhares de feitiços. Tenho lido textos antigos e posso recordar todos, mas não posso recordar onde estudei. Em meus sonhos, Razvan me protegia do professor. Ele era castigado quando eu me negava a trabalhar. Em meus sonhos lembro-me do aspecto de meu avô, mas não poderia lhe descrever agora. Como sei o que é real e o que não?

Frustrada, Natalya virou para o túnel para evitar que ele visse sua expressão. O que sabia de sua infância? E se tudo fosse uma mentira? Lembranças eliminadas e outras plantadas. A idéia a adoeceu.

- Genial.- Não podia evitar sentir-se humilhada e envergonhada de que Vikirnoff tivesse visto o interior de sua mente e o trauma de um ponto em branco. - Sou um robô.

- Com um formoso traseiro. - Assinalou ele, quando ela se deixou cair sobre as mãos e joelhos, desaparecendo na sala de gelo.

Ela meneou o traseiro sugestivamente e sorriu para trás, agradecendo que ele lhe desse algo sobre o que rir.

O coração de Vikirnoff quase deixou de pulsar e o ar abandonou seus pulmões numa ardente rajada. Ela podia ter iluminado a caverna inteira com seu sorriso de alta voltagem. O trovão rugiu em seus ouvidos. Profundamente em seu interior, seu demônio lutou procurando alívio e inesperadamente o desejo atravessou seu corpo. Não a intensa luxúria que havia experimentado antes, mas algo brilhante e profundo que veio de seu coração.

- Não tinha que vir comigo. – Natalya falou, forçando a sair às palavras enquanto olhava para trás. Ficou imóvel, sua expressão esculpida em pedra. Como ele podia querer se ver misturado no estava aconteçendo? O que a aterrada na caverna. Algo que não podia se lembrar de sua infância, a advertia de que estava em perigo e o crescente volume da água que gotejava quase a estava deixando-a louca. Todos os seus instintos lhe diziam que fugisse, mas seu corpo e seu cérebro se negavam a obedecer à ordem.

Tinha desejado um companheiro, alguém com quem compartilhar sua vida, mas pela primeira vez precisava estar com alguém. E não era só alguém. Com Vikirnoff. Não só por suas habilidades de luta, mas pelo puro consolo de sua presença. E isso era quase tão aterrador como a situação em que estava.

Vikirnoff exsudava poder e confiança. Não podia imaginar ninguém lhe derrotando, não quando estava em plena forma. “Mas não está em plena forma”. A idéia chegou do nada. Compreendeu que em nenhuma vez se preocupara pela condição física dele desde que estavam na caverna. E ele não estava completamente curado. Tinha visto a agonia em sua face em mais de uma ocasião antes, mas ele se comportava como se tudo estivesse bem. Ele influenciando-a sutilmente ou ela era realmente tão egoísta? Gemeu brandamente.

- Estou contigo porque quero estar. E não estou sob compulsão, Natalya. Estou o bastante em forma para te proteger se houver necessidade.

Ela se separou antes que ele pudesse ver sua reação a essas palavras... A sua voz. Simplesmente havia algo neste homem que a chamava. Arrastou-se através do retorcido tubo gelado que começou a se ampliar e abrir para outra série de galerias. As formações e colunas de gelo eram impressionantes. Seguindo seus instintos, ela escolheu uma câmara e descobriu nervuras de sangue seco, ao longo da parede de gelo. Seu próprio sangue congelou e ela ficou de pé ofegando ante os espessos e congelados coágulos que desciam da parede.

- Isto não tem bom aspecto, não é?

Vikirnoff lhe pôs uma mão sobre o ombro. Ela não estava acostumada que a tocassem e tremeu em resposta, mas não se afastou.

- Posso ver onde lhe atravessaram com estacas de gelo, para lhe sujeitar à parede. – Natalya tocou o sangue congelado. - Um Cárpato foi torturado nesta câmara. - Examinou o aposento inteiro. - Não foi a semana passada. Alguém o resgatou, humano acredito e ao pelo menos um vampiro morreu aqui. – Ela suspirou. - Por que se arriscaria um vampiro a vir à caverna do mago escuro?

-Segredos? Poder?

-Possivelmente. Mas vale a pena o risco? Tem que ter armadilhas espalhadas por toda parte. Os vampiros estavam procurando alguma coisa. Não há outra explicação.- Olhou ao redor cautelosamente. - Posso sentir algo nos observando?

Ela quis negar, mas os cabelos de sua nuca se arrepiavam com alarme.

-Sim. Os vampiros acreditam que posso ajudá-los a encontrar o que estão procurando, não é? – Disse, Natalya. - Por isso Arturo me disse que tinha uma pequena tarefa para mim. Quer que eu encontre algo, provavelmente algo que o mago escuro deixou para trás.

- Qualquer objeto de poder que Xavier tivesse, seria mortal para o mundo inteiro, não só para nossa espécie, se o vampiro o esgrimir.

-Pode dizer por onde saíram os outros? Os que mataram o vampiro? -Assinalou à sólida parede de gelo. - Porque quero ir lá.

Vikirnoff examinou a parede.

- Um Cárpato fechou um tobogã de gelo atrás deles. Ainda sinto o poder remanescente.

- Pode abri-lo?

Ele estudou a azulada parede de gelo.

- Sim. - Sabia que soava sombrio. Sentia o peso do gelo sobre eles, a pressão de seus inimigos aproximando-se e sobre tudo, a segurança de que iriam a algum lugar muito pior do que o que estavam. Pensou, pois a necessidade de colocar sua companheira a salvo, o prensava. Realmente pousou os dedos ao redor da mão dela em protesto.

Natalya sacudiu a cabeça.

-Seriamente. Não tenho escolha, Vikirnoff.

Amaldiçoando, ele encontrou a abertura original, o tobogã que conduzia às cavernas inferiores e ordenou ao gelo que se inclinasse a sua vontade. Mesmo dentro da caverna do mago escuro, ele esgrimiu poder sobre as coisas da terra. O gelo se moveu, partiu-se, formando novamente o tubo que conduzia às câmaras inferiores.

- Obrigado. - Disse Natalya. Não tinha palavras para expressar o quanto estava agradecida por que ele não brigasse com ela sobre o assunto. Ela tinha os mesmos alarmes chiando em sua mente e tinha a sensação de que ele se via forçado a lutar com instintos tão velhos como o tempo. Sua natureza protetora simplesmente não lhe permitia vê-la em perigo, sem defendê-la. E sem ele, não tinha nem idéia de como teria aberto passo através de gelo, até as câmaras inferiores.

-Entraremos juntos. – Decretou Vikirnoff.

Dedicou-lhe um negro olhar, só para lhe advertir que acabasse com as ordens, mas não se importou o mínimo que ele a envolvesse em seus braços quentes e seguros e escalou até o interior frio do tobogã de gelo. Vikirnoff empurrou e eles deslizaram mais profundamente no mundo frio de gelo azul cristalino, virando em espiral rapidamente pelo longo tubo. Seus braços a protegiam das lascas de gelo e das mais grossas e dentadas protuberâncias que se penduravam sobre suas cabeças. Era impresionantemente belo, embora mais que aterrador, saber que as formações não eram naturais.

Natalya se sentia um pouco enjoada quando alcançaram o fundo e se sujeitou a Vikirnoff até que soube que suas pernas a suportariam. Em uma estreita sala de gelo, os dois foram capazes de ficar em pé sem medo de bater a cabeça no teto.

- Você está bem? - Vikirnoff manteve seus braços em volta dela até que as pernas dela deixaram de tremer.

Ela sacudiu a cabeça.

- Sinto-me estranha, temerosa. Normalmente não tenho medo todo o tempo. Meu coração palpita tão forte que me fere os ouvidos. E sinto o estômago ruim. Pior ainda... – Ela levantou o olhar para ele enquanto pressionava a mão contra o corpo, à esquerda, justo abaixo do estômago - o dragão queima. Um vampiro está perto.

- Diante ou atrás de nós? – Ela já estava escaneando, como fizera desde que entraram nas cavernas de gelo e ficou pasmo ao ver que não podia localizar o vampiro. E isso significava que não era Arturo. Arturo não podia ocultar sua presença ao caçador. Rogou não ter que enfrentar um professor vampiro, estando ferido.

- Não posso dizer. - Ela começou a andar, apressando-se através do túnel.

A sala terminava bruscamente, solo terminava num grande abismo. Vikirnoff a segurou antes que ela fosse mais à frente do precipício. Sustentou-a contra ele.

- Essa passou perto.

Natalya olhou fixamente à ponte que brilhava tão provocadoramente. A estrutura era feita de gelo e pedra, era muito estreita e havia vários buracos nela. A ponte parecia ser a única forma de atravessar. Franziu o cenho, gesticulando para os buracos.

- Não vou colocar o pé nessa coisa. - Sorriu para ele. - Sabia que você acabaria sendo útil.

-Espera que eu a carregue? – Ele elevou uma sobrancelha.

-Sem dúvida. Vamos oara o outro lado.

Vikirnoff se estendeu para ela, aproximando-a. Natalya desejou senti-lo, como algo impessoal, mas seu toque era elétrico, calor percorrendo seu couro, fazendo-a agudamente consciente dele e consciente da definição de cada músculo de seu corpo quando se apoiou em sua força. Parecia natural estar em seus braços e seu corpo era familiar. Perfeito. Ela se encaixava exatamente a ele. Fechou os olhos e saboreou a sensação de tê-lo perto, enquanto se moviam através do ar, para o outro lado da caverna.

Vikirnoff foi cuidadoso, sujeitando-a mesmo quando aterrissou sobre piso gelado, olhando cautelosamente ao redor antes de permitir que os pés dela tocassem terra.

- Sinto o nível de perigo elevando-se. Se apresse, Natalya. Averigue o que deve e saiamos deste lugar.

Natalya não precisava que ele a animasse. Queria sair da caverna rapidamente, talvez mais do que ele podia saber. Apressou-se através da câmara, passou um pequeno nicho e voltou para trás bruscamente. Natalya sustentava uma lanterna, na forma de uma barra fluorescente e brilhante, fazendo brilhar a parede de gelo. A respiração estava presa em sua garganta.

-Vikirnoff... – Ela conseguiu sussurrar, - olhe.

Os escamas cobriam o corpo de uma enorme criatura. Um longo pescoço serpentino suportava uma cabeça com forma de cunha. A cauda estendida terminava num triângulo e ele estava com as asas baixadas ao longo do corpo. Garras afiadas, feitas para rasgar, pareciam que estava afundando no gelo como se ele tentasse se liberar, arranhando-o. Um formoso olho, de um cintilante e vívido esmeralda germinava para eles impotentemente, através da grossa parede de gelo.

- Um dragão, Vikirnoff. Como um dragão ficaria preso numa parede? - Quis chorar pela criatura. Colocou uma mão no gelo, com os dedos completamente estendidos, sobre a garra, para mantê-la perto. - Quem faria isto a um dragão? Não podia afastar o olhar do brilhante olho.

- Não é só um, mas dois. - A voz dele era sombria. Aproximando-se para olhar com atenção. - Há um segundo, ao lado do primeiro. Posso ver a silhueta da pata e da garra.

Natalya se pressionou contra a parede, até que seu nariz se tornou azul. Inconscientemente, suas unhas cravaram no gelo, tentando chegar às míticas criaturas.

-Isto não está bem, Vikirnoff. – Ela queria chorar. Seu peito ardia e o sentia apertado. - Podemos tirá-los daí?

As mãos dele eram gentis, quando a afastou da parede de gelo.

- É isto o que procurava? Mais de uns vampiros estão nos buscando, agora. Sinto a presença de Arturo e vários outros. Infelizmente, me preocupa mais o que não posso sentir. Sinto a presença do mal, mas não posso dizer onde está. Não podemos correr o risco de mover uma parede de gelo tão grossa, sem que a montanha inteira venha a baixo e mesmo se pudéssemos, não temos o tempo necessário.

- Desejaria ter vindo pelos dragões. Simplesmente não está certo. Não tinha idéia de que os dragões fossem reais.

São e não são reais. – Ele afastou-a da tumba de gelo. - É muito sensível. Sua dor é tão forte como inesperada. - E sua compaixão só fazia com que a quisesse mais. Puxou a mão dela até que Natalya o seguiu. - Por onde?

Natalya tomou a liderança novamente. A sala se abria a uma galeria. Altas colunas intrincadamente esculpidas, de arquitetura gótica se elevavam para o teto alto de catedral. Cristais e pilares de gelo formavam duas filas de colunas aposento abaixo, cada um sujeitando vários globos redondos, de várias cores.

Natalya parou bruscamente.

- Este é o lugar. Achei que viria aqui, a esta aposento. Não toque em nada, Vikirnoff. Há armadilhas por toda parte. Posso senti-las. - Passeou certa distância pelo amplo aposento e depois voltou para ele. Criaturas míticas se elevavam do chão em esculturas em tamanho real, feitas de cristal claro. Pirâmides vermelho sangue, feitas de pedras, brilhavam das passagens abobadadas cinzeladas nas paredes. Se olhasse muito a uma das esferas, esta voltava para a vida, girando e mudando de cor, tentando atrair uma vítima incauta, para sua intensa beleza.

No chão, sob o gelo haviam estranhos quadrados e pirâmides e padrões de estrelas de pedra. No centro de cada forma havia hieróglifos, imagens profundamente esculpidas na rocha. - Esta é a saída. - Disse Natalya. - Tem que haver uma saída e as formas tem que ser pisadas num certo padrão, para abrir a pedra sobre as escadas.

- De verdade, já esteve aqui antes?

Apareceram pequenas linhas ao redor da boca dela e ao longo de sua testa, quando tentou alcançar suas lembranças.

- Posso ter sonhado com este lugar. Meu pai me falou da caverna e das escadas de gelo que conduziam para fora. Advertiu-me que não tocasse nada até que me sentisse segura... – Ela interrompeu-se, seu olhar súbitamente encontrou o de Vikirnoff. - Foi meu pai. Ele colocou a compulsão para que eu viesse aqui. Deve ter sido ele.

- Por que a colocaria em semelhante perigo? - Vikirnoff a observou passear intranquilamente através do enorme aposento, examinando os objetos expostos. Um alto cabide de armas, num nicho pouco profundo, captou sua atenção, mas depois de um momento seguiu adiante, como se estivesse dirigida a encontrar um objeto em particular.

- Não sei, deve ser importante. - Distraída, Natalya moveu-se lentamente acima e abaixo pelo aposento, tentando sintonizar-se na direção correta. Não sabia o que estava procurando e sua marca de nascimento em forma de dragão estava queimando com alarme. Pressionou a mão sobre ela, tentando sossegar a advertência.- Acredito que os vampiros estão bem perto.

Vikirnoff escaneava continuamente através da rede de cavernas, procurando algo que lhe dissesse onde estava o vampiro. Estavam perto. Tinha instinto para o não-morto e seu sistema de alarme estava soando estrondosamente em alerta. O som da água era mais ruidoso. Normalmente podia baixar o volume, mas a destilação contínua era um tamborilar, ressoando através da rede de cavernas. Chamando alguma coisa. Despertando alguma coisa. quanto mais profundo entravam nas cavernas, mais ruidosa e mais insistente era a destilação da água.

O som da água aumentou até que se tornou um barulho um irritante e constante aviso de que estavam presos sob centenas de metros de gelo. Vikirnoff olhou para o pequeno charco que se formava na base de uma das colunas. O charco deveria ser de um líquido claro, mas era descolorido, de um ligeiro marrom oxidado. Como barro ou sangue seco. Gotas de água corriam pela coluna e caíam na poça. A cada gota, a superfície se sacudia. As ondas pareciam viajar para fora, para abranger a câmara fazendo com que a caverna se sacudisse ligeiramente a cada gota.

Algo brilhava nas profundezas do charco. Algo escuro parecia espreitar sob a lôbrega superfície. Estudando com atenção a oleosa massa, Natalya pensou que algo lhe devolvia o olhar, com olhos vermelhos e brilhantes. Uma sombra escura reptaba através das lôbregas águas. Ela saltou para trás.

-Isso não pode ser coisa boa.

-Saiamos daqui. – Advertiu, Vikirnoff. - Quem é ou o que seja que a água está chamando, não queremos participar.

Natalya se aproximou mais da coleção de esferas. Um brilhante globo de cristal, de uns trinta centímetros de diâmetro, descansava em uma torre de obsidiana negra. Natalya estendeu as mãos, Suas palmas não tocavam o cristal, mas davam forma à curva do globo. Imediatamente sentiu a tremenda atração quando ele voltou para a vida, ante sua proximidade.

- Pode sentir isso? O calor? - Tentou afastar-se para trás, mas não podia afastar o olhar. Formava névoa dentro do globo, atraindo-a... Ordenando-lhe que o tomasse.

- Natalya, não!

Mas a advertência de Vikirnoff chegou tarde. Justo quando ele saltava para frente, para afastá-la da bola de cristal, ela a segurara com as duas mãos.

 

Natalya gritou, o som agônico atravessou a larga caverna de gelo. Seus dedos estavam soldados à bola de cristal, ardiam tanto, que ela pensou que sua pele queimaria até o osso.

Vikirnoff saltou para empurrá-la para trás, mas a voz dela protestou em sua mente. - Não! Não pode me tocar. Está me consumindo. Não pode tomar a você também ou eu não teria forma de voltar.

Amaldiçoando, ele deixou cair às mãos dos lados do corpo. Precisou de muita disciplina, evitar pegá-la nos braços. Respirando profundamente, ignorando o som constante da água ressoando e ecoando através da câmara, concentrou-se em sujeitar a essência de Natalya a ele.

- Não posso fazer isto. Queima, Vikirnoff. Não posso pensar por causa da dor.

Ele sentia a agonia atravessar o corpo dela, seus ossos e sua carne retorcendo-se, como se a bola a arrancasse do mundo que habitava, à turbulência do globo de cristal. Apertando os dentes, Vikirnoff tomou o embate da dor dela. Imediatamente sua pele suou sangue e gotejou pela testa até os olhos.- Você é uma Cárpato e maga. Pode dar ordens a terra e o ar e é inusitadamente forte. Pegue aquilo pelo que veio e partamos.

Natalya respirou fundo, quando a dor aliviou. Foi a confiança na voz dele, o respeito que ele a oferecia, que a permitiu ir além de seu corpo físico e alcançar seu treinamento como maga. Seu corpo não era nada, somente uma casca, não mais que isso. Seu espírito era mais forte que os vertiginosos ventos que rasgavam sua carne. Elevou-se sobre a dor, sobre o terror e encontrou sua força.

As cores se formavam a seu redor, azuis meia-noite, estrelas cintilantes e veias de luz como cometas atravessando o céu. Galáxias e sistemas de estrelas passavam disparados a seu lado, a uma alarmante velocidade, trancando-se brevemente e afastando-se num arco com uma chuva de faíscas que caía como chuva. Natalya encontrou-se olhando com assombro e com respeito, consciente de que o futuro jazia nessa direção. Encontrou um fio de cor, um que era dele, seguiu-o e soube que era o que estava procurando. A tentação era forte. Isto era assombrosamente formoso, impressionante e a idéia de saber que havia adiante era difícil de resistir.

Céu azul de meia-noite iluminado por um relâmpago repetidamente, cintilando como um sinal de néon, atraia sua atenção. Compreendeu que estava sendo empurrada nessa direção, seu espírito viajava ao longo de uma desses ziguezagueantes fios. tornou-se para trás. Logo, a atração lutou com ela, tentando-a sobre seu futuro. Negou-se firmemente a olhar, temendo instintivamente que uma vez no reino do futuro, não poderia encontrar seu caminho de volta. E que suas possibilidades não estavam naquela direção.

Cordas de variadas cores viravam a seu redor, levadas pelo poder dos ventos. Uma em particular captou sua atenção, por causa da cor incomum, dos mesmos matizes nebulosos que brilhavam em seus olhos quando a tigresa nela se elevava para a superfície. Observou-os, mesmo enquanto lutava contra a força do vento. Seu pai, com freqüência havia comparado seus olhos com pérolas marinhas.

Natalya estendeu o braço em busca dos fios que assemelhava a cor de seus olhos de tigre. Um vórtice turbulento a pegou, sugando-a. Pegando a corda perlada firmemente, Natalya agüentou a fusão que mantinha com Vikirnoff. Ele era sua âncora e aonde queira que seu espírito viajasse, viajava com ela seu corpo físico, bem seguro.

Cenas de batalhas passaram apressadamente a seu lado. Escuras e feias visões de sangue e morte. Chorou, afligida pelas mortes inúteis quando os homens lutavam por religião, poder ou terra. Natalya lutou por evitar se deslizar mais à frente no vazio do passado. Pequenas e negras sombras se seguravam à beira de seu espírito numa tentativa de consumi-la. As vozes de magos, cujas almas haviam ficado presas no interminável círculo do passado, gemiam uma advertência para ela, com pesar.

Poderia ter se perdido na terrível dor de reviver tantas mortes, vendo os enganos cometidos uma e outra vez através da história, mas Vikirnoff estava sempre ali, com ela, murmurando ânimos, sujeitando-a firmemente, mesmo sem forma física.

Soren. Quase o havia deixado passar com toda a história formando-se a seu redor, mas ele estava ali. Seu pai, alto e bonito com seu cabelo negro e vívidos olhos verdes. Seu coração deu um salto e se estendeu para ele. Não podia lhe tocar. Natalya compreendeu que estava buscando-o através de um reflexo. Ele se virou e a ela sentiu seu coração quase parar. Ele estava devastado e aquebrantado pela dor. Queimando por um lado e encapsulado em gelo pelo outro. Havia sido torturado, embora mantido vivo e seu sangue drenado do corpo por um longo tubo.

- Pai! – Gritou, tentando freneticamente lhe alcançar, mas ele sacudiu a cabeça e a olhou diretamente. Seus olhos estavam nublados e ela pôde ver uma faca refletida neles. Era obviamente antiga, cerimonial, o cabo tachonado de pontas, a lâmina ligeiramente curvada. Ele virou, apontando-se para ela e depois se virou novamente, até que ela pôde vê-lo de cada ângulo. - Quer que encontre a faca. - Por um momento a visão se sustentou e depois a faca vacilou e desapareceu. O olhar dele caiu para suas mãos. Ela notou que estava segurando um enorme livro. Um antigo livro de feitiços. Estava fechado e sua capa era esculpida com escuras manchas acobreadas. - O livro é importante.

Uma figura sombria, o homem que reconheceu dos pesadelos de sua infância se erguia sobre Soren. Natalya se afastou para trás, instintivamente. O movimento devia ter sido captado pela extremidade do olho do torturador de seu pai, porque viu que a forma escura se virava para ela e ouviu um lento assobio de raiva. Sentiu a respiração fria da morte sobre ela e seu espírito tremeu.

Imagens de seu pai sendo torturado a afligiram. Detalhes vívidos de sua mãe sendo devorada por vampiros, as seguiram. De seu pai encontrando sua mãe, sua dor tão profunda que quase ficou louco. Cada detalhe explícito, com horripilante detalhe e cada um pior que o anterior, até que ela se sentiu paralisada de dor e horror. Sentia as sombras mais escuras, puxando e atraindo-a para elas, mas não podia se mover, não podia respirar. Uma risada cruel ressoou. Algo arranhou sua mente, inclinando-se para ela.

- Natalya! Venha para mim, agora! - Vikirnoff emitiu a ordem com cada grama do poder que possuía. O corpo dela havia começado a desvanecer. Começou pelos braços, como se algo estivesse lhe tirando pedaços de carne, substituindo sua pele por uma fina casca opaca. Estava começando a se tornar translúcida, uma imagem fantasma em vez de um corpo de carne e osso.

Com o medo quase lhe consumindo, Vikirnoff mergulhou sua mente na dela. - Ainaak enyém, não te deixarei partir. Eles não podem te tomar. Ainaak'sívamet jutta, sempre conectada a meu coração. Vêem mim agora, Natalya. Seu companheiro o ordena.

A culpa e o medo guerreavam contra a autoconservação, mas o poder de sua companheira era incrível, mesmo ali no reino do passado e do presente. Em meio de uma tempestade, com a fúria do vento sobre dela, Natalya se virou para Vikirnoff. A tranqüilizadora calidez de sua presença a envolveu, com suas lembranças, seu caráter e a forma em que pensava e agia. Sua integridade e força de decisão. Ela concentrou-se em sua determinação. Pela primeira vez se alegrou de que estivessem conectados, de que sua força de vontade se somasse à própria.

- Não posso me obrigar a abandonar meu pai.

Não podia encontrar seu caminho de volta. Estava muito exausta, muito cansada de estar sozinha. Seu pai, sua mãe e Razvan estavam todos neste lugar. Podia ficar com eles, estar com eles. Tantos anos andara, movendo-se de país em país, sem ninguém com quem conversar, ninguém com quem compartilhar. O que a esperava mais, que uma interminável solidão se voltasse?

- É outra armadilha, Natalya, um tentativa de nublar seu pensamento. Seu lugar é comigo. Seu pai não gostaria que ficasse presa aqui com ele. Não pode lhe salvar. O que se fez não pode ser desfeito. Venha comigo, ainaak enyém. Funda-se comigo. - Vikirnoff utilizou toda a arte que possuía, atraindo-a. Compulsão, sedução e ordem... Tudo envolvido em suas suaves palavras, arrastando a de volta pelos fios do tempo, pela pura força de caráter e vontade que adquirira através de tantos séculos.

Ela ouviu um rugido de fúria quando se separou de seu pai e seu torturante, das dilaceradoras sombras, das menores e escuras sombras, subindo mais e mais algo. As sombras a perseguiram, procurando com mãos e garras numa tentativa de detê-la e quando se aproximou de seu próprio tempo, deslumbrantes círculos brancos viraram e lhe fizeram gestos, tentando atrai-la, para que olhasse seu futuro.

Natalya se apegou mais forte em Vikirnoff, arrastando-se mais profundamente no interior da mente dele, onde sabia que estaria a salvo. Vikirnoff nunca a abandonaria. Fechou sua mente às lembranças muito vívidas da tortura e a morte de seu pai e abraçou a vida em seu próprio tempo. Não precisava ficar no passado. Ela escolhia o aqui e agora.

Natalya se encontrou de volta a seu próprio corpo, tão fraca que teria derrubado no chão da caverna de gelo, se Vikirnoff não a tivesse segurado. Penduraram-se um no outro, Natalya estremecendo violentamente e Vikirnoff tremendo com o conhecimento de que quase a tinha perdido.

Corriam lágrimas pela face dela.

- Meu pai. – Ela apenas conseguia sussurrar as palavras. Sua garganta estava descarnada pela dor.- Foi torturado.

-Sei, ainaak enyém - Sua voz eram tenra enquanto lhe acariciava o cabelo, procurando uma forma de consolá-la. – Lamento tanto. – Ele não só vira a tortura de seu pai, mas havia experimentado-a. Teria dado tudo para evitar que tivesse de acontecer. – Ele emoldurou-lhe a face com as mãos e lhe beijou as lágrimas.

Natalya levantou o olhar para ele, para as manchas de sangue de sua testa e os rastros vermelhos de lágrimas em sua face. Ele havia compartilhado a mesma experiência e também compartilhava com ela a selvagem dor e a afronta. Limpou-lhe a testa com dedos gentis, tocando os rastros das lágrimas e apoiando-se nele.

- Obrigado por estar comigo.

- Sempre estarei, Natalya. - Enquanto estava consolando-a, estava sempre consciente de que o tamborilar da água havia crescido freneticamente, tão ruidoso que a câmara de gelo se sacudia. Olhou para o lamacento charco que estava crescendo com cada gota, não profundo, mas estendendo-se como uma mancha gigante. - Temos que abandonar este lugar agora, Natalya. - Atacar o charco sem saber o que estamos enfrentando numa caverna cheia de magia, pode ser suicida.

Ela respirou e seus dedos tocaramos braços dele em busca de apoio.

-Tenho que encontrar a faca. Você viu. Estava em minha mente. Temos que conseguir a faca. – Ela olhou ao redor da câmara gelada. - O nicho que tinha um enorme cabide de arma. É o lugar mais provável.

-Tem que se apressar. Os vampiros estão quase sobre nós. Vamos ter que lutar para sair daqui. – Ele advertiu.

Vikirnoff esmagou com força seus naturais instintos protetores de pegá-la rapidamente e afastá-la do perigo. Estava começando a compreender, que ter uma companheira era difícil. Viver com ela não se tratava do que ele desejava ou mesmo precisava. Ter uma companheira tratava de apoiar Natalya mesmo quando tudo nele desejava outra coisa. A personalidade dela requeria certa quantidade de liberdade e nem sempre importava o que ele acreditava ser melhor.

Sabia que ela tinha que completar sua tarefa. E agora, quando estava claro que seu pai havia sido torturado e assassinado, era mais importante que nunca. Guardou-se as costas, movendo-se com ela através do piso de gelo, seus olhos esquadrinhando a grande câmara.

- Meu coração está começando a pulsar no mesmo ritmo que a destilação da água. - Confiou Natalya, num sussurro. - E isso é simplesmente ruim. - Manteve o olhar fixo no pequeno nicho que continha o cabide de armas. Sabia que os vampiros estavam perto, pois o dragão em seu corpo parecia estar queimando um buraco em sua pele.

- Meu coração faz o mesmo, Natalya. – Disse, Vikirnoff. - E quando te tirei das sombras, o borbulho nesse atoleiro tomou um significado completamente novo.

Natalya olhou fixamente o lamacento e espesso charco.

- Parece uma beberagem de bruxas. - Seu olhar seguia tornando para as armas, atraído por algo de fora de si mesma. A respiração ficou presa em seus pulmões e ela parou bruscamente. - Vejo a faca.

-Pode pegá-la?

-Sim, mas duvido simplesmente possa segurar a coisa.

Vikirnoff voltou sua atenção à parede oeste, perto do chão onde o gelo estava fundindo a alarmante velocidade. Verteram insetos na câmara, num êxodo maciço de grilos, escaravelhos e cada inseto asqueroso imaginável.

- Teremos companhia a qualquer momento, Natalya. Faça o que tenha que fazer e saiamos deste lugar. – Ele colocou-se entre sua companheira e o gelo que se derretia rapidamente.

- Mantenha-se longe de mim durante alguns minutos. - Replicou ela. - Tenho que resolver isto. - Desentranhar as salvaguardas que rodeavam a faca de cerimônial requeria concentração, algo difícil quando a firme destilação da água estava retumbando através de seu cérebro e produzindo um som metálico em cada nervo. Mesmo seu sangue parecia saltar quando cada gota caía no crescente charco. Os insetos teriam sido uma distração terrível, mas se lançavam atravessando a câmara, para se afastarem de algo muito pior que os seguia.

Natalya moveu as mãos num complicado padrão, murmurando um feitiço revelador que seu pai havia lhe ensinado em sua infância. Sabendo que seu pai a tinha atraído à caverna tornava mais fácil resolver os quebra-cabeças. Ele teria utilizado proteções específicas para ela. E o feitiço revelador era uma das coisas que evocava de suas primeiras lembranças dele. A barreira invisível resplandeceu à vista. Ela estudou-a desde todos os ângulos.

Vikirnoff vaiou uma suave advertência a Natalya, quando grade e água explodiram através da parede oeste, espalhando-se pelo solo, levando uma rebolante massa de criaturas serpentinas. Atrás delas, Arturo e um segundo vampiro entrou na câmara. Como sentindo a presença de seus malignos companheiros, o lamacento charco do chão erupcionou numa fervente massa de nocivas e espessas bolhas.

Vikirnoff ficou em movimento, chamando o foro, formando um látego de chamas para golpear as serpentes que corriam para Natalya. O látego de fogo estalou no ar, num deslumbrante e alaranjado mensageiro de morte, açoitando as criaturas num desdobramento de habilidade. O odor da carne queimada se acrescentou ao da pútrida beberagem do charco.

- Não anda com delicadezas, não é? - Perguntou Natalya.

- Vêm mais.

Natalya obrigou sua atenção a voltar para a barreira. Vikirnoff tinha tratado com as serpentes de forma bastante espetacular e eficiente. Após compartilhar uma união mental tão profunda com ele, tinha absoluta fé em que ele conteria os vampiros até que ela encontrasse o que viera procurar. Para Vikirnoff não havia rendição. Lutaria por ela até seu último fôlego. Por mais forte que fosse a compulsão para que ela completasse sua tarefa, os instintos protetores dele eram mais fortes. Se fosse necessário, ele a tiraria dali.

Natalya respirou fundo e deixou o ar escapar lentamente, se concentrando completamente na caixa que o feitiço havia revelado. A caixa parecia sólida. Um retângulo transparente que envolvia a faca. Cautelosamente, colocou a mão perto. Calor e poder entraram em sua pele e ela apressadamente afastou a mão.

Vikirnoff estalou o chamejante látego para o vampiro que Arturo havia mandado para ele. O látego se curvou ao redor do pescoço do vampiro menor enquanto Vikirnoff puxava com força, o látego o arrastou mais perto.

O vampiro gritou, o agudo som rompeu várias estalactites fazendo com que caíssem como lanças do teto, diretamente para Vikirnoff. Ele se dissolveu atirando um escudo apressado ao redor de Natalya, enquanto passava rapidamente pelo vampiro menor e ia diretamente a Arturo, mudando de volta a sua forma natural, imediatamente.

- Pegue à mulher, Cezar! - Ordenou Arturo, cambaleando para trás, ante o súbito ataque.

Natalya sentiu a capa protetora a seu redor por três lados e elevou uma pequena prece de agradecimento, por Vikirnoff, que mesmo em sua pressa, não a tivesse separado da faca. Uniu as mãos firmemente, elevando-as com cerimônia, murmurando um curto, mas poderoso feitiço de amparo e apontou seus dedos diretamente para a exata metade da caixa. Com as mãos unidas firmemente, empurrou para frente resolutamente, diretamente para o centro da barricada, separando as mãos enquanto, para afastar a obstrução e permitir seu acesso à faca de cerimônial. Sentiu o incrível calor fechar-se a seu redor, mas o feitiço protetor agüentou e se estendeu para o cabo tachonado.

Vikirnoff afundou o punho diretamente no peito pegando, fechando-o com força, seus dedos atravessando o escudo de osso para o murcho coração. O vampiro uivou, inclinou a cabeça e afundou os dentes no pescoço de Vikirnoff, atravessando pele, artéria e nervos. Vikirnoff segurou o enegrecido coração, arrancando-o do peito do vampiro, justo quando Natalya segurava a faca, de cerimônial.

No momento em que os dedos de Natalya pousaram ao redor do cabo, ela sentiu as paredes do tempo se deformar e se curvar. Soube imediatamente que tinha cometido um terrível engano. Nunca deveria ter tocado o objeto sem uma barreira entre ele e sua pele. - Vikirnoff. Una-se comigo agora! Ajude-me. Funda-se comigo. - Gritou pedindo sua ajuda telepaticamente, enquanto era sugada profundamente no violento passado da faca.

Vikirnoff fundiu sua mente na dela. Seu espírito atravessou os curvados túneis com ela, sua mente dividida de uma vez em passado e presente. Tendo a presença de ânimo para manter o aperto sobre o coração do vampiro, arrancou o punho do peito do maligno e o lançou ao chão. Para seu assombro, o órgão saltou, não para Arturo, mas para o borbulhante charco lamacento.

O grito pegando foi de raiva e de dor. Saltou atravessando o aposento, para seu coração, chamando-o de volta, suas ordens foram desatendidas. Quanpegando caiu no chão saiu arrastando-se com unhas e dentes pelo gelo, em busca de seu coração, Vikirnoff golpeou o látego chamejante diretamente para o caminho que conduzia ao charco. O coração correu diretamente para as dançantes chamas justo quando a mão pegando se fechava sobre ele.

- Pode me matar Xavier, mas nunca destruirá minha gente. Meu sangue pode correr pelas veias de meus filhos, mas não o proverá da imortalidade que buscas.

Vikirnoff se voltou surpreso por ouvir a voz de Rhiannon, dos Caçadores de Dragões. Era tão clara e tão real, que esperava vê-la em pé atrás dele. Levou-lhe um momento compreender que estava compartilhando o passado com Natalya.

Arturo aproveitou a vantagem, tirando sua mão queimada das chamas e restaurando alegremente seu coração ao peito. Emanava sangue do frontal do vampiro e do pescoço de Vikirnoff. Arturo estendeu o braço e cheirou o sangue ancestral do caçador em sua mão e a lambeu.

- Deveria ter se unido a nós. Seu príncipe está ferido, seu caçador na terra, quase morto e agora você e sua mulher morrerão.

Vikirnoff já estava em movimento, esquivando-se do ataque, quando os dois vampiros se lançaram sobre ele. A perda de sangue o debilitava e era desorientador estar em dois lugares ao mesmo tempo. Precisava de ajuda e outros Cárpatos nas imediações deveriam ter sentido a presença do mal. Perguntou-se por que Mikhail Dubrinksy, o príncipe dos Cárpatos não tinha vindo em sua ajuda na batalha anterior com os vampiros. Vikirnoff só podia pensar que Mikhail devia estar ferido e na terra não havia sentido a batalha no bosque.

Cezar golpeou contra a barreira protetora que defendia Natalya. Arranhou o escudo com afiadas garras, depois escalou o lado da caverna de gelo, seu corpo mudando de forma, numa escura criatura peluda com garras e cauda. Lançou-se para o Vikirnoff enquanto o corpo de Arturo se contorsionaba, sua cara alargando-se até formar o focinho de um lobo.

- Natalya. Tire a faca agora.

A voz de Vikirnoff era firme, mas ela captou a subjacente sensação de urgência. Natalya queria tirar. Tentou abrir os dedos, mas foi impossível. As seqüelas violentas atribuídas aos objetos, sempre a prendiam um tempo. Quando mais violência suportasse o objeto, mais difícil era escapar. A faca de cerimonia havia sido utilizada com freqüência. - Xavier estava tentando ganhar a imortalidade consumindo o sangue de Rhiannon.

Era impossível afastar o olhar da cena. Sua avó era formosa apesar dos hematomas que escureciam sua pele pálida. Estava paralisada e presa, não só por poderosos feitiços, mas sim por algum tipo de veneno que Xavier havia utilizado para mantê-la prisioneira. Saíam tubos do corpo de Rhiannon, tirando sangue dela, igual como tinha sido drenado o pai de Natalya. A mesma figura sombria se aproximou da cama, com a faca obstinada na mão.

- Já não preciso de você, querida. Serviste a seu propósito e me deste um filho e duas fêmeas para tomar seu lugar. Seu sangue corre por suas veias. Utilizarei o sangue das fêmeas e permitirei que meu filho me de netos, para então poder continuar vivendo. – Ele riu, o som era malvado, mesmo viajando através do tempo. - Nunca os conhecerá e eles nunca a conhecerão. Vá agora, se una a seu precioso companheiro.

Rhiannon sorriu.

- Meus filhos me conhecem, mesmo sendo bebês. Eles conhecem-me.

Xavier elevou a faca e o afundou profundamente no coração de Rhiannon.

Natalya gritou, suas mãos subiram para cobrir seu coração, quando Xavier afundou profundamente a lâmina no peito de Rhiannon. Ela observou sua avó morrer com horror. Xavier recolheu o sangue do coração e o colocou num pequeno recipiente, levando-o a uma mesa onde um grande livro estava aberto.

Xavier fechou o livro. Havia satisfação em sua face quando voltou a olhar à mulher morta.

- Tenho o que precisava de você, Rhiannon. No final, será o instrumento de destruição de sua raça. Quando terminar, não haverá nem Cárpatos e nem jaguares. Só o mago escuro controlará o que sempre deveria ter sido meu. – Ele fechou o livro e passou a mão sobre a coberta.

Natalya conteve a respiração quando o observou colocar o recipiente de sangue junto a outros dois. Escolheu um e o levantou no alto.

-Selado com o sangue do mago escuro. – Ele derramou o segundo. - Selado com o sangue do jaguar. - Elevou o terceiro. - Selado com o sangue do Cárpato. Selado com o sangue dos três, aberto com o sangue dos três.

Um estremecimento desceu pela espinha de Natalya. O que ele estava fazendo? O que significava? Tentou mover-se para uma posição melhor para ouvir o feitiço que ele estava utilizando, mas sua atenção vacilou quando sentiu Vikirnoff vacilar.

- Natalya. Preciso de você, agora!

A urgência na voz do caçador rompeu o encantamento que tentava saber, do passado. Algo estava errado e devia chegar a ele. No passado, quando havia acessado as cenas violentas por meio de objetos, sempre tinha revivido todo o assunto, sem se liberar até que acabasse, mas Vikirnoff não teria pedido sua ajuda, a menos que estivesse numa situação difícil. Natalya se concentrou na faca. Seus dedos ao redor dela, na sensação em sua palma. Isso era real. Aqui e agora. Estava em pé numa câmara gelada, com a faca de cerimonia na mão. Tudo o que tinha que fazer era abrir os dedos e relaxá-los, permitindo que a faca caísse no chão.

No momento voltou para o presente, às paredes tomaram forma a seu redor e o frio amargo alagou seu corpo. Sabia que as situações passadas, com freqüência se mostravam em segundos, mesmo quando ela se sentia apagada e exausta como se tivesse revivido horas inteiras, mas era pela intensidade da violência, em vez do tempo passado.

Teve pouco tempo para orientar-se no presente. Horrorizada pelo sangue no pescoço de Vikirnoff e a visão dos dois vampiros lhe cercando, lançou vários surikens para o Arturo, correndo para ele enquanto o fazia. Os pequenos mísseis cravaram profundamente no peito do vampiro enquanto ele tentava mudar à forma de um lobo.

- Está perdendo muito sangue, Vikirnoff. - A visão dele quase sacudiu sua confiança. Se não parasse a hemorragia, suas possibilidades de escapar estavam abaixo de zero. Deu um salto mortal sobre Arturo, chutando-lhe no grosso focinho, para ele manter sua atenção centrada nela. Quando aterrissou atrás dele, alcançou sua mochila e tirou uma camisa. Ele se virou para enfrentá-la, grunhindo e mostrando a boca cheia de dentes.

- Terá que cauterizar a ferida, Natalya. Não posso deter meu coração e meus pulmões neste momento e há poucas possibilidades de que vá esperar que me cure por si mesmo. - Vikirnoff segurou à criatura peluda no meio do ar quando Cezar aterrissou quase sobre sua cabeça, as garras arranhando, dentes e cauda esfaqueando. Vikirnoff cambaleou sob o peso, enquanto o vampiro lutava, utilizando a agilidade da forma animal.

-Arturo, é claro que sentiu falta de mim. - Natalya já estava em movimento, virando fora de seu alcance, sua faca lhe cortando o peito, enquanto passava junto a ele para recolher a faca de cerimonia, utilizando a camisa e colocando-a dentro da mochila. - Não sei se posso fazer isso, Vikirnoff. - A idéia era desagradável, adoecia-a.

Vikirnoff afastou Cezar, virando e esfaqueando-o com suas próprias garras, lutando por passar a afiadas garras numa tentativa de penetrar no peito do vampiro. Cezas caiu para trás para evitar o ataque de Vikirnoff, só para correr para ele uma segunda vez e desta, clonando-se em três criaturas, todas dentes e garras.

O sangue salpicava do pescoço de Vikirnoff e ele estava bem mais fraco. - É uma mulher forte, Natalya. Fará o que tem que ser feito. – Ele recorreu ao látego de fogo para manter as criaturas a raia. - Vigie ao Arturo. Está tramando alguma coisa.

Natalya colocou a lâmina de sua faca nas chamas laranjas e vermelhas do látego de fogo, até que a chama brilhou com calor, todo o tempo vigianpegando. Ele espreitava-os do outro lado da câmara de gelo ainda meio lobo e médio humano. - A faca está quente, Vikirnoff. - Seu estômago se revolveu. Ele contava com ela. Acreditava que ela era forte, mas a idéia de pressionar a lâmina quente de uma faca contra a terrível ferida do pescoço dele era bárbara.

- Agora, Natalya. Estou muito fraco para continuar com isto e o outro está perto. Não posso sentir sua presença, mas Arturo e Cezar estão súbitamente excitados. Pode sentir a diferença neles?- O ar vibrava com uma excitação elétrica. - Seja o que for o que estão esperando, não pode ser bom para nós.

- Arturo, sua pelagem está um pouco mofada. – Ela se aproximou um pouco mais de Vikirnoff, com a lâmina de sua faca, vermelha pelo fogo.

O focinho pegando se abriu de par em par, expondo os enormes caninos.

-Vovozinha! Que dentes tão grandes a senhora tem! - Disse Natalya, endurecendo-se para cauterizar a ferida do pescoço de Vikirnoff. Ela respirou fundo. - Sinto muito. - Natalya pressionou a lâmina no pescoço de Vikirnoff, antes de perder os nervos. Ficou firmemente na mente dele, mesmo quando ele tentou jogá-la, agüentando firmemente, desejando ajudá-lo com a dor. Ele estremeceu em sua agonia, seu corpo rompeu a suar. O aroma de carne queimada era doentio. Natalya lutou para conter o vômito. – Sinto tanto, Vikirnoff. – Ela sentiu a ardência das lágrimas em seus olhos.

- Faça o que é necessário. Pegue Arturo, mas fique fora de seu alcançe. É forte.

-Arturo! Nenê! Dançe comigo – Ela torceu seu dedo para ele.

Arturo mudou completamente para a forma humana.

- Não acha que pode me enganar enquanto o caçador se recupera de seus ferimentos. Cezar, você que acha? Talvez devamos dar cinco minutos de trégua para lhe deixar descansar?

Natalya forçou uma risada despreocupada.

- Sinto muito, rapaz. Cinco minutos é muito para esbanjar em sua companhia. - Tirou as armas debaixo de seus braços e disparou repetidamente, rapidamente enquanto se lançava longe, afastando-se de Vikirnoff, para o padrão de pedras do chão da caverna gelada. O som de armas de fogo reverberou através da caverna. Apontou sobre a cabeça dos vampiros e acertou a várias estalactites que se romperam e estrelaram contra o chão. Deteve-se diretamente sobre o padrão.

Era difícil estudar o padrão e manter um olho no vampiro ao mesmo tempo e desejou uma rota alternativa de fuga, planejada. Arturo estava furioso, sua face se contorcionava enquanto voava para ela, deixando cair blocos de gelo ao redor dela num esforço de lhe cortar o caminho até Vikirnoff.

Ela saltou sobre a parte superior da parede de gelo quando um terceiro vampiro emergiu do buraco que os dois primeiros haviam feito. Era alto e magro, com seu cabelo longo e seus olhos debruados. Um estranho silêncio saudou sua chegada. Ninguém se movia. Ela sentiu a súbita imobilidade de Vikirnoff e virou seu olhar para ele ,procurando instintivamente guia.

Os traços de Vikirnoff permaneciam completamente inexpressivos, mas seu coração se acelerou quando reconheceu um dos irmãos Malinov. - Natalya, este é quase indestrutível. É um professor e será muito difícil destruí-lo. Eu ajudei a matar seu irmão não faz muito e foi uma batalha dura , uma que quase não ganhamos e éramos dois caçadores experimentados. Devemos ir agora.

Precisavam de um milagre. Três vampiros, um deles um professor. E não era qualquer professor, mas um Malinov. - Estamos com problemas, Natalya. Fique preparada para tudo.

-Vikirnoff, faz muito tempo que não te via. - Saudou o vampiro alto.

- Maxim, certamente faz muito. - Não atraia sua atenção. É imperativo que escapemos, Natalya.

Normalmente Natalya poderia tê-lo desafiado, só porque às ordens lhe desagradavam, mas algo no recém-chegado era aterrador. Podia ver como Arturo tremia. As três criaturas se acovardaram tornando-se menores. Sentiu o súbito desejo de fazer o mesmo quando o vampiro moveu o frio olhar em sua direção.

- Encontrei-me com a Kirja recentemente nos Estados Unidos. -Vikirnoff atraiu deliberadamente a atenção do vampiro de volta a ele.

A expressão do Maxim endureceu.

- Estava lá quando meu irmão foi assassinado?

- Eu não o chamaria assassinato, Maxim. Acredito que Kirja estava tentando matar um caçador e sua companheira. - Encontre a saída, Natalya.

Natalya arrancou seu olhar hipnotizado do vampiro e começou a trabalhar sobre o padrão que sabia tinha que estar nas pedras do chão. O mago escuro teria uma rota de fuga conhecida somente por ele, uma facilmente acessível. Ele não podia voar como podiam fazer os Cárpatos, então tinha que ter uma forma de escapar da caverna.

-Viu a seu precioso príncipe?

Vikirnoff se forçou para não reagir, quando suas vísceras se revolveram em protesto e seu coração quis se acelerar.

-Não tive a honra ainda.

- Temo-me que foi gravemente ferido, como Falcon, o caçador que o guardava. Que pena, mas a morte de Mikhail beneficiará a muitos.

O coração de Vikirnoff afundou no peito, mas sua expressão permaneceu inalterada. Um ferimento do príncipe era a única explicação razoável para a falta de ajuda em suas duas batalhas. Ainda assim, Vikirnoff tinha que manter a esperança só para não se afundar.

- Ele não morrerá, Maxim. Sua gente não permitirá sua morte.

- Oh! Eu digo que sim, Vikirnoff. Ele está rodeado, sob assédio, ferido e desprotegido. Superamo-lhe em número e não pode escapar de nós. Quando cair, sua linhagem e a sua gente se dispersarão, pegaremo um a um. - Maxim tamborilava seus longos dedos contra o braço. O ritmo igualava à água caindo firmemente no charco, sempre crescente.

Vikirnoff arriscou um olhar para a água borbulhante. Tinha crescido e estava começando a se espalhar pelo chão, o líquido pardo se estendeu como dedos sobre o gelo, correndo ao longo de luvas invisíveis, seguindo vários caminhos que conduziam todos para Natalya. O coração de Vikirnoff saltou quando compreendeu que a tinha sob seu alcance. Não podia se permitir esperar mais. Natalya tinha que encontrar uma saída da caverna. Se voltasse e tentasse escapar utilizando a rota por onde entraram, os vampiros os matariam antes que tivessem chegado a entrada da caverna. Já havia estado em situações desesperadas ao longo dos séculos, mas nunca como esta... E nunca com uma companheira a quem proteger.

- Acredito que posso abrir a rota de fuga, Vikirnoff. Diga uma palavra e o tentarei.

Havia pouca vantagem em agüentar. Malinov tinha intenção de matá-lo e Vikirnoff não queria esperar até que os três vampiros estivessem em posição de fazer.. Arturo já estava se aproximando centímetro a centímetro. Os dois clones e Cezar grunhiam e mostravam os dentes. Malinov simplesmente sorria, com seus olhos frios e alertas.

Vikirnoff se virou entrando em movimento. - Agora, Natalya, abre-a e fique pronta. Não posso permitir que notem o que faz. – Ele estalou o látego de fogo contra os lombos das três criaturas que grunhiam para ele. Alguém uivou e ele o fustigou sem piedade, conduzindo-a para trás, enviando chamas que dançaram sobre a escura pelagem. Cezar mudou de forma imediatamente, dissolvendo-se em vapor esverdeado e correndo para o pequeno nicho onde o cabide de armas chamava provocantemente.

-Não! -Natalya gritou a advertência, a voz de Vikirnoff lhe ecoou.

Era muito tarde. Cezar segurou uma pesada espada e se virou para enfrentar Vikirnoff. O vento atravessou a câmara, elevando-se a um uivo de fúria. As altas colunas de gelo tremeram e dentro das esferas, nuvens e névoa se formaram furiosamente. Algo se moveu no canto.

O solo rangeu e uma larga nervura dentada, de vários centímetros de profundidade atravessou a longitude do aposento. O gelo rangeu no alto e junto às paredes que os rodeavam, com rangidos e gemidos quando as gretas apareciam. Sobre suas cabeças, uma fumaça cinza se formou no vento. Mais fumaça se acumulou perto das colunas até que a câmara se encheu. A fumaça se separou em pilares individuais, movendo-se continuamente, ferozes olhos vermelhos reluziam perigosamente. Captaram armaduras e grandes espadas ameaçadoras.

-O que tem fez? - Maxim Malinov exigiu de Cezar, olhando ao redor da enorme câmara, para as altas e inaminadas figura que estavam tomando forma por toda a câmara.

-Tocou o que não lhe pertencia. - Disse Vikirnoff.

- Estúpido. – Espetou, Maxim. – Você convocou os guerreiros das sombras.

-Ela tocou as coisas. - Defendeu-se Cezar. – Está com algo em sua mochila. Eu não os atraí a nós.

- Eu tenho o sangue do mago escuro correndo por minhas veias. Posso tocar objetos que outros não podem.

- E pode controlá-los. – Assinalou, Vikirnoff.

- Possivelmente.

Maxim gesticulou para Natalya.

-Mate o caçador e faça prisioneira à mulher agora, antes que seja muito tarde. E me traga o que ela tem na mochila.

Cezar correu para Vikirnoff, com a espada em riste, para lhe matar. Arturo permaneceu congelado em seu lugar. Imediatamente os guerreiros das sombras ficaram em alerta, seus olhos adestrados sobre Cezar, convergindo nele de todas as direções, para lhe rodear.

- O movimento atrai sua atenção. Não se mova se pode evitar, Natalya. Pode enviar os guerreiros de volta a seus lugares de descanso como fez com o da estalagem?

- Honestamente não sei. São muitos. Com sorte terá utilizado o mesmo feitiço para atraí-los e vinculá-los.

- O que mais pode dar errado? - Vikirnoff permaneceu duro no lugar, calculando a distância até Natalya e se atreveria a se arriscar a tomar forma de névoa, para alcançá-la.

- Agüente. - A voz masculina chegou de algum lugar, surpreendentemente pelo vínculo mental comum utilizado pela maioria dos Cárpatos. - Estou chegando em sua ajuda.

Era Mikhail Dubrinsky, o Príncipe dos Cárpatos. O coração de Vikirnoff saltou para a garganta. Mesmo ferido, o príncipe tinha vindo por eles. Sabia que Maxim havia captado a mensagem. Os vampiros, apesar dos guerreiros das sombras, estavam excitados.

- Ele vem! Mate-o. Chame os outros. Está sozinho e sem ajuda. Rodeiem-lhe e matem. - Exigiu Maxim.

- É uma armadilha, Mikhail. Vá embora. Não tenho necessidade de você. Vá agora.

- Não deixarei um caçador ferido e preso. - Havia aço em sua voz. Aço e implacável resolução.

- É obvio que não. – Zombou Maxim, alegremente. - Ele é invencível.

 

Como nunca havia intercambiado sangue, Vikirnoff não tinha forma de fazer chegar uma mensagem privada ao príncipe. Quando falava telepaticamente, tinha que utilizar o vínculo comum que mesmo os vampiros podiam ouvir. Importava pouco. Queria ajuda. Precisava de ajuda. Mas... - Não pode pôr sua vida em perigo, Mikhail. É muito importante para nossa gente e eu não posso te proteger adequadamente. Significa muito que venha a nossa ajuda, mas não pode tomar essa decisão. – Ele olhou fixamente para Natalya e havia pesar em seus olhos. Mudou para seu vínculo privado, mais íntimo para que só ela pudesse lhe ouvir. - Devo fechar a única entrada.

- Faça-a. - Ela injetou completa confiança em sua voz quando não a sentia. Ainda estava tocando a mente de Vikirnoff e podia sentir o quanto ele estava aquebrantado, entre sua necessidade de proteger seu príncipe e a de mantê-la a salvo. - Não necessitamos de outra carga aqui embaixo. Podemos fazer isto juntos.

Ele enviou-lhe calidez, num incrível fluxo, como se a estivesse tocando intimamente. - Maxim Manilov é o professor vampiro. - Enquanto ele falava com Mikhail, Vikirnoff avançava pouco a pouco para Natalya e para a rota de fuga do mago escuro. - É parte de uma conspiração maior. Ele chamou outros vampiros para sua caça. Não entre neste lugar.

O guerreiro das sombras mais próximo chegou a ter Cezar ao alcance, balançando sua espada num ataque clássico. A espada do Cezar aparou o golpe, as faíscas choveram sobre o solo gelado quando as folhas se encontraram. Ele golpeou o guerreiro, mas a sombra já tinha desaparecido, tornando-se a um lado para tentar um segundo golpe que pretendia ser mortal.

Vários guerreiros das sombras rodearam vampiro, com as espadas dispostas. Cezar gritou para Arturo pedindo ajuda. Natalya esperava seu momento para pegar o controle dos guerreiros. Era um plano arriscado. Havia vários deles e era possível que o mago escuro tivesse utilizado mais de um feitiço vinculante. Com freqüência, se o que o fizesse cometia um engano, especialmente se tratando de espíritos mortos, as repercussões eram mortais.

- Você está ferido. Eu te ajudarei. - O príncipe falou com sombria determinação.

Vikirnoff sentia Mikhail dentro da caverna, movendo-se para o grande abismo preparando-se para a descida para as câmaras inferiores. Se ele sentia a presença do príncipe, Maxim também. Olhou para o professor vampiro, seguro de que ele estava tramando algo.

Maxim permanecia imóvel, observando desapaixonadamente como Cezar lutava por sua vida. Um pequeno sorriso revoava sobre seus finos lábios. Foi esse pequeno sorriso que despertou a mente de Vikirnfoff. A Maxim importava pouco se Cezar morresse, mas daria para ver Mikhail Dubrinsky morto. Vikirnoff não estava disposto a arriscar fosse qual o plano que passava pela mente do não-morto.

- Perdoe-me, Natalya. - Vikirnoff pronunciou o nome de Natalya num suave sussurro em sua própria mente e coração. Estava arriscando a vida dela, igual à sua própria. Mikhail Dubrinsky era muito importante para sua gente, para permitir o risco. - Meu príncipe, não posso permitir que sacrifique a si mesmo. Seu dever é para com toda nossa gente, não só para um casal. - Com todo o poder que Vikirnoff possuía, com todo seu conhecimento e força ancestral enviou sua ordem a terra, construindo uma torre de gelo que se elevou como uma montanha, grossa e impenetrável, calçando-se solidamente no buraco e bloqueando toda possibilidade de descida à câmara principal da superfície.

- A sorte do guerreiro para você e sua companheira. - O príncipe murmurou, brandamente.

A caverna se sacudiu com a força do poder de Vikirnoff. Ao redor deles o gelo rangeu e gemeu por toda parte. Mais estalactites caíram ao chão e romperam. Fez-se um pequeno silêncio. Mesmo os guerreiros das sombras pararam de se mover.

Maxim vaiou sua fúria, seus dentes se apertaram, seus lábios retrocederam em um grunhido.

- Isso foi uma estupidez. Você conseguiu prender todos nós neste lugar. E por que, Vikirnoff? O príncipe já está morto. Só que não sabe ainda. Asseguramo-nos disso. Não pode deter o que está aconteçendo aqui. Começou há muito e continuará adiante com sua interferência ou sem ela. - Seu frio e morto olhar caiu sobre Natalya. – Ele mudou-se por seu príncipe, querida. Conseguiu uma pobre ganga quando escolheu este aí.

Vikirnoff se sobressaltou. Natalya não o escolhera, ela havia forçado o vínculo.

Uma suave risada roçou sua mente. - Se tivesse que escolher entre esse vampiro réptil de sangue-frio e você, acredite-me nenê, você ganharia de goleada.

- Isso não é certo..

- Eu sei.- Desde sua precária posição sobre os blocos de gelo, Natalya lhe soprou um beijo. Apesar de tudo, seu coração esquentou ainda mais. O pequeno gesto de Natalya enviou os guerreiro a outro frenesi de demonstração de esgrima. Com cada frenético movimento de Cezar, os guerreiros cresciam em forma e estatura. Pressionavam com força o vampiro menor, fazendo profundos cortes em sua pele, enquanto este tentava lutar seu caminho para Maxim.

- Se puder ordenar a quantos guerreiros, depois do Senhor Réptil genial, teremos uma oportunidade de escapar através do passadiço oculto.

Vikirnoff deu uma olhada nas manchas escuras que se estenderam pelo chão da caverna. O espesso líquido de cor parda havia tomado a aparência de uma mão ossuda, com longos dedos de pesados nódulos, estendidos para Natalya. No final de cada dedo parecia ter uma afiada garra e quando o líquido se estendia, a garra parecia crescer mais ainda. - Como sente os tornozelos?

Natalya pareceu se sobressaltar. - Como sabe? Ardem e eu os sinto fracos,, como se não pudesse confiar neles para me sustentar.

- Olhe o chão.

Natalya baixou o olhar e sua mão foi para a garganta. - O Rei Troll me encontrou novamente. Genial. Simplesmente Genial.

Arturo e Maxim, como Vikirnoff e Natalya, permaneciam completamente imóveis para evitar que os guerreiros das sombras se voltassem contra eles. Natalya se sentia como se fosse uma cena ruim de um filme, todos eles observando como Cezar era talhado em pedacinhos. Era uma cena aterradora, o vampiro desesperado e os guerreiros das sombras implacáveis.

- Saiamos daqui, Natalya, antes que seu Rei Troll te alcance. - Vikirnoff estava mais preocupado por essa mão que percorria o chão de gelo centímetro a centímetro, que por Maxim. E Maxim ainda não tinha começado a mostrar seu poder.

Natalya esperou até que Cezar cessou todo movimento e já não era possível dizer o que era. Os guerreiros estavam atravessando-o com suas grandes espadas. Afastou o olhar da massa e levantou centímetro a centímetro os braços no ar, cuidando de manter seus movimentos lentos e calculados, para não atrair a atenção dos guerreiros.

- Ouçam-me agora, escuros e grandes guerreiros arrancados de seus lugares de descanso. Chamo à terra, o vento e o fogo, a água e o espírito. - Natalya ouviu ou talvez só sentiu a surpresa do professor vampiro. Fez-lhe uma pequena saudação antes de continuar. - Chamo-os a todos a mim, vinculo-os a mim e com cada um invoco o direito da lei das sombras. O sangue do mago escuro corre profundo em mim e a controlo.

O vento soprou através da câmara gelada, clarificando a cada guerreiro, individualmente. Eles se endireitaram lentamente, um por um e se viraram para ela, com as costas elevadas para o teto, uma vez mais imóveis esperando suas ordens.

- Ordene.

- Se fosse assim tão fácil. - Natalya espremeu o cérebro, procurando as palavras corretas para rebater as ordens longamente enterradas dos guerreiros, numa forma de voltá-los contra os vampiros, quando o não-morto sabia que não devia se mover e atrair a atenção dos guerreiros das sombras.

Sobre o chão da caverna, o corpo enfraquecido de Cezar começou a se mexer. Sua cabeça se sacudiu e depois rodou. O estômago de Natalya se revolveu e ela não pôde arrancar seu olhar horrorizado da visão.

- Concentre-te.

- Concentre-te você. Isso foi simplesmente grosseiro.

O látego de fogo de Vikirnoff estalou uma e outra vez, arrancando partes do vampiro menor, fazendo chover fogo, incinerando tudo o que restava. Procurava o coração com as chamas, desejando pelo menos se assegurar que Cezar não se elevaria novamente contra eles.

Natalya respirou fundo novamente. Tinha a atenção não só dos guerreiros das sombras, mas também do professor vampiro. Tinha que vincular os guerreiros a ela, rápidamente.

- Ouçam-me guerreiros do passado ancestral, guerreiros da lei ancestral. Aqueles cujo sangue se derramou, os que morreram com honra. - Enquanto cantava, estudava os quadrados com símbolos incrustados do gelo do chão, por sorte estavam ocultos dos outros. Se pudesse averiguar o padrão, estava segura de que poderia abrir a porta oculta.

- Estão prestando atenção. Segue!

Seu olhar mudou para Vikirnoff.- Isto não é exatamente fácil! - Tinha que revisar milhares de feitiços que tinha aprendido, para encontrar as palavras corretas, tudo enquanto tentava averiguar como fugir.

- Ouçam-me guerreiros da antigüidade, aqueles cujas almas estão perdidas, esta noite lhes chamo, esta noite lhes convoco em minha ajuda. Ouçam-me, guerreiros, uma nova causa se elevou, seu corpo desapareceu, agora o espírito é...

Maxim golpeou sem advertência, empurrando sua mente e sua vontade contra a mente de Natalya, até atravessar qualquer escudo. Ela sentiu o empurrão feio e oleoso, uma asquerosa abominação tocando-a, penetrando dentro de sua mente e se estendendo rapidamente, como um câncer. Cada perverso pensamento e ação, os incontáveis assassinatos, as depravações, tudo o que Maxim tinha sido e era, alagando sua mente.

- Vikirnoff. – Ela gritou seu nome com desespero. A enfermidade que alagava sua mente a fez cair de joelhos. Engasgou-se, aferrando o pesado e revolto estômago. Estava suja. Sempre estaria suja. Nada poderia limpar a escura mancha venenosa do mal.

- Estou aqui. Calma. – E ele estava rodeando-a de calor, quando estava extremamente fria. Enchendo sua mente com uma luz radiante, o sol estalando através de sua mente. Como tinha pensado alguma vez que havia escuridão nele? Ela tinha visto a escuridão, maldade do pior tipo e não se parecia em nada a Vikirnoff. Ele entrou em sua mente com confiança, cada pensamento, passado e presente, aberto a ela. Enquanto se movia com um propósito, construía uma luz refletiva, um espelho voltado para o vampiro, obrigando a se ver como era. As sombras retrocediam ante ele, fazendo com que Maxim não tivesse outra escolha que fugir, mesmo contra vontade. Centímetro a centímetro, Vikirnoff conduziu o professor vampiro fora de sua mente. Depois dele, Vikirnoff construía altos e grossos escudos, tecendo-os das mais fortes proteções que tinha aprendido ao longo dos anos.

Natalya não deixou as coisas assim. Não podia. Podia proteger-se a si mesmo. Ela sabia coisas que outros não e ninguém ia passear por sua mente.

-Escudos de fumaça, terra e fogo, vêem mim e ouça meu desejo. Tomem forma, atrás e adiante e me proteja do ataque. - Não tinha nem idéia do por que seus escudos não tinham suportado, mas não ia deixar que a colhessem com a guarda baixa outra vez, estando ao redor do vampiro.

Maxim vaiou seu desagrado. O som foi alto no silêncio da câmara gelada. Movendo as mãos, bateu as palmas para frente, para Natalya. A câmara se sacudiu com a força de seu golpe, conduzindo o ar frio para ela, um punho para seu plexo solar. O ar abandonou seus pulmões numa rajada, dobrando-a e fazendo com que dançassem estrelas ante seus olhos, mas ele não pôde penetrar em sua mente.

O calor gotejou através do terrível frio, esquentando-a. Um suave vento revoou sobre sua face, entrando em seus pulmões. Vikirnoff respirou por ela. Sentia-o rodeando-a, mantendo-a em alto e lhe dando as forças para endireitar seu corpo e encarar Maxim, com olhar frio e duro.

- Por seu espírito lhes convoco. A cada um de vocês, reclamo. Chamo-os, guerreiros perdidos, venham em minha ajuda.

A cara de Maxim se retorceu de fúria. Amaldiçoou Natalya uma segunda vez, fazendo chover afiadas estalactites sobre sua cabeça. Vikirnoff respondeu com uma guarda-chuva de gelo.

- Ele não te quer morta. Está nos entretendo. – Ele estudou ansiosamente a mão que se estendia para a parede de gelo em que Natalya estava. Os dedos pardos estavam já se arrastando pelo lado da parede, procurando-a. – Ele está esperando o que seja que se oculta no charc,o para lhe pegar. Vou até você.

- Espere! Não se move até que eu dê ordens aos guerreiros. Eles o atacarão. - Natalya não podia respirar forte, mesmo com a firme respiração de Vikirnoff, seus pulmões ardiam e ela sentia como se a espremessem, deixando-a sem ar. Tinha que desvelar o padrão.

- Ouçam-me, lutem de meu lado. Protejam-me de todo mal. Venham a meu lado e me protejam de todo mal.

Os guerreiros das sombras se moveram, altos e etéreos, encapotados em nuvens formadas de fumaça cinza, fantasmas realmente, insubstanciais num momento e vestindo armaduras no seguinte. Formaram um círculo solto ao redor de Natalya lhe dando uma pausa do ódio fumegante de Maxim. Ela manteve os olhos nos padrões. – Consegui, Vikirnoff. Posso abrir o chão.

-Mantenham o círculo, não cedam terreno, lutem com o que está imóvel, mas não pode ser preso. - Natalya não pôde evitar o sorriso triunfal que lançou ao professor vampiro. - Seja vapor ou nebulosa neblina, segurem dispostos mesmo que girem e se retorça.

Maxim rugiu de raiva e elevou as mãos para Natalya. O gelo sob a parede em que ela estava, obedeceu a suas ordens gritadas enquanto se movia, deslizando-se através do círculo de guerreiros das sombras, deixando-os de lado, como plumas ao vento. Lanças de pedaços de gelo foram lançadas para Vikirnoff, afiadas pontas veteadas de chamas apontavam diretamente para seu coração. Maxim saltou para Natalya tão rápido, que não foi mais que um borrão.

Os guerreiros das sombras estavam tornando a formar seu círculo protetor em volta de Natalya e a centímetros de seu objetivo, Maxim viu que não tinha possibilidade de tomar posse dela. No meio do ar virou, escolhendo matar Vikirnoff.

Vikirnoff recolheu uma lança de gelo do ar e a utilizou para rechaçar a surriada que vinha para ele. - No chão, Natalya! - Antes de poder dar alguma advertência mais, para lhe lembrar do charco de água que avançava, Maxim havia aterrissado atrás dele e estendia o braço para sua garganta, com garras afiadas. Uma espada se abateu entre eles e o professor vampiro chiou de raiva, seus dedos caíram anoo chão de gelo da caverna. Mesmo enquanto Maxim se voltava para encontrar o ataque, os dedos já voltava a crescer. Ele segurou a cabeça do guerreiro das sombras e a retorceu, lançando ao guerreiro longe dele e virando-se para Vikirnoff.

Os guerreiros das sombras o rodearam. Maxim ondeou a mão e ele e Arturo se replicaram uma e outra vez e centenas de clones viravam como loucos entre os guerreiros.

Os dedos pardos alcançaram Natalya, arrastando-a por sua bota em silêncio, para lhe envolver o tornozelo. Vikirnoff correu, utilizando uma assombrosa velocidade, saltando sobre o chão de gelo lotado por guerreiros das sombrass e vampiros, todos brigando. Durante um momento uma luz brilhante e cintilou na caverna, quando o relâmpago se arqueou, golpeando a parede sobre a cabeça de Vikirnoff, evidência de que Maxim não seria derrotado facilmente. Vikirnoff não pensou nem olhou para trás, para seu inimigo. Segurou Natalya em seus braços e aterrissou no primeiro quadrado do padrão. A parede de gelo ocultou-os momentaneamente dos guerreiros das sombras e dos vampiros.

-Queima - Disse Natalya, tentando alcançar seu tornozelo.

Vikirnoff manteve a mão dela separada da mancha que se estendia.

-Deixe. - Disse ,apressadamente. – Abra o chão, rápido.

- Queima-me a pele. - Natalya conteve outro protesto e se concentrou no padrão que já havia desentranhado. Abriu caminho, saltando de um quadrado ao seguinte, tentando desesperadamente ignorar a ascensão do sangrento rastro de uma mão que se envolvia ao redor de seu tornozelo e ardia através das roupas, até a pele.- Não posso deixar minha mochila. – Ela pegou-a com as duas mãos, para evitar se abaixar e olhar seu tornozelo. Era difícil pensar quando sentia que algo estivesse marcando sua carne.

As paredes de gelo explodiram ao redor deles, deixando cair uma chuva de grandes blocos de gelo junto com afiadas lanças geladas. Vikirnoff cobriu a cabeça de Natalya com seus braços enquanto caminhavam sobre os quadrados, seguindo o padrão da mente dela. Defendeu o corpo dela com o próprio, enquanto se vingava, o látego de fogo se desdobrou enviando chamas que dançaram sobre os vampiros, conduzindo-os para trás. Este passava entre os guerreiros das sombras que ignoravam o furioso látego, ainda lutando com os clones de não-morto.

O solo sob Natalya tremeu e um grande quadrado deslizou para revelar as escadas que conduziam ainda mais para o fundo da caverna. Ela entrou em dúvida. - Estaríamos baixando, não subindo. E se o Rei Troll estiver aí abaixo?

- Não temos escolha. Esta é a única saída que se tem, da câmara. Devemos tomá-la. - Ele estendeu o braço para limpar as lágrimas da face dela, com o polegar.

Natalya não tinha notado que estivera chorando. O ardor em sua perna era ruim, mas ainda mais era a idéia dessa coisa desconhecida que estava atacando-a. Igual quando Maxim conseguira deslizar para dentro de sua cabeça. Era humilhante pensar que o professor vampiro tinha conseguido entrar em sua mente e Vikirnoff, não ela, havia tirado-o. Agora tinha uma espécie de parasita pegando-se a seu corpo, perfurando sua carne.

Virando-se, deu a seus guerreiros, uma última ordem.

-Atendam minhas ordens embora eu saia. Continuem lutando. Mantenham-se firmes, mantenham-se fortes. – Ela fez aos guerreiros das sombras uma pequena saudação, desejando poder lhes dar paz e enviá-los de volta a seus lugares de descanso.

-Temos que ir agora. – Urgiu, Vikirnoff.

Ela deu as costas à caótica cena e tomou as estreitas escadas cinzeladas no gelo, que conduzia sob a câmara do mago escuro.

Vikirnoff a seguiu, baixando cada vez mais profundo, fechando o painel oculto atrás deles e tecendo salvaguardas contra os vampiros, se por acaso encontrassem uma forma de escapar dos guerreiros das sombras. Uma vez que o painel se fechara uma estranha luz brilhou ao longo da retorcida escada. Esta estava escavada com cuidado, degraus muito estreitos que pareciam continuar para sempre.

Correram escada abaixo durante vários minutos. Havia um estranho silêncio, como se eles fossem as duas únicas pessoas do mundo.

- Não acredito que possam nos seguir utilizando essa rota, não é? - Perguntou Natalya, parando bruscamente.

- Não. A menos que Maxim tenha horas para desentranhar as salvaguardas que utilizei.

- Então tire esta coisa da minha perna. - Disse Natalya. - Não posso suportar saber que está sobre mim.

Vikirnoff quase sorriu ante a exigência de sua voz. Ela confiava totalmente em que ele poderia liberá-la e ela faria.

- Sente-se e descanse. Deixe- me dar uma olhada.

-Pode demorar, só está queimando um buraco através de minha perna. Hei! Você somente dê uma olhada. - Natalya franziu o cenho.

Os olhos escuros dele percorreram seu rosto e a fizeram estremecer. Natalya mordeu o lábio.

-Sinto muito, quando me assusto tendo a ser um pouco sarcástica.

-Não se desculpe comigo. Sou muito consciente de sua necessidade de aliviar a situação. – Disse Vikirnoff e se abaixou junto a ela e tomou a perna dela nas mãos, afastando o tecido da pele, para que seus dedos acariciassem íntimamanete sua pantorrilha. - Estou tentando desenvolver um senso de humor, já que se preocupa tanto.

Inclinou a cabeça para estudar os grotescos dedos que rodeavam o tornozelo de Natalya. O cabelo escuro dele se espalhou sobre os ombros largos, selvagem, despenteado e muito atraente para o gosto de Natalya. Sua respiração estava quente sobre a pele. Natalya fez tudo o que pôde para não estender a mão e lhe tocar o cabelo. Seu pescoço parecia um desastre, a queimadura parecia horrenda e dolorosa, embora ele parecia não notá-la ou senti-la, como se a única coisa que lhe importava, fosse ajudá-la.

- Está vivo, não é? - Fez a pergunta para distrair a si mesmo. Não haveria mais beijo em meio a perigo mortal. Negava-se absolutamente ser muito estúpida para viver. Seu olhar caiu sobre os lábios dele. Ele possuía uma boca pecaminosa e esse era o problema, não ela. Era todo culpa de Vikirnoff.

-Sim. - A voz dele era sombria-. Isto deixa o mesmo aroma que chama Rei Troll. Acredito que é obra dele.

Ela engoliu com força.

-Xavier? -Não o chamaria de avô. Não queria pensar em que era aparentado com ela. Não podia pensar nele sem vê-lo assassinar sua avó.

Vikirnoff franziu o cenho.

-Não acredito que seja o mago escuro. Isto é obra de vampiro, embora não de tudo. Não posso dizer ainda com o que estamos lidando. Terei que entrar para tirar os parasitas.

-Parasitas? Está me dizendo que tenho asquerosos parasitas em minha perna? Tire-me isso agora. Agora mesmo. Rápido Vik ou vou perder a maldita cabeça. -Natalya estremeceu, de repente sentia a pele como se tivesse insetos arrastando-se por toda ela.

-Não estou seguro do que quer dizer, mas não pode ser nada bom. – Ele achou melhor não mencionar o Vik. Ela já estava angustiada, seu lábio inferior tremia e isso fazia seu coração se contrair.

-Não, não é bom e meu traseiro vai ficar duro se continuar sentada neste bloco de gelo. – Oh! Senhor. - Estava-se queixando, choramingando e sentada como uma afeminada ,enquanto ele estava coberto de sangue e sua garganta estava quase rasgada. A tigresa tinha desertado deixando-a vulnerável e trêmula. Natalya cobriu o rosto com as mãos, muito humilhada para enfrentá-lo. - Por favor, por favor, só me tira isso

Vikirnoff murmurou-lhe algo suave em seu idioma ancestral. Soou terno e gentil e a fez desejar chorar. Sentou-se bem quieta observando como ele se separava de seu corpo, seu espírito movendo-se através do corpo dela com calor e um toque muito íntimo. Ele fazia facilmente, absolutamente, Não como ela com suas torpes tentativas.. Não houve luta para se enfocar ou se concentrar, somente um breve fechar de olhos e ela sentiu que o corpo dele era uma casca vazia.

Sentiu sua presença no momento em que esteve nela, tocando sua mente com tranqüilidade e muito mais. Assegurou-se de que nenhuma sombra do professor vampiro estivesse oculta e esperando para aparecer nos cantos da mente dela. Acrescentou mais proteção, para manter fortes os escudos, movendo-se através dela até a perna. Sentiu sua tranqüila confiança e se apoiou pesadamente nela.

Muitas coisas tinham ido para o lado errado e Natalya já não estava segura de poder dirigir sozinha a tarefa que lhe tinha atribuído. Só as revelações sobre seus avós eram suficientes para sacudir o centro de sua existência. Tentou ficar imóvel, aparentar tanta confiança como Vikirnoff, quando em realidade estava muito angustiada.

Vikirnoff estudou os diminutos microorganismos que se aferravam em cachos, à ferida aguda original. Rebolavam como pequenos vermes e ao redor da ferida e a região parecia inflamada. Tinha visto coisas semelhantes antes. A companheira de seu irmão Destiny, havia sido infectada por tais microorganismos. O rastro da mesma mão, estava marcado profundamente na pele de Natalya e formavam bolhas em pequenos cachos, ao redor de seus dedos.

Os parasitas tentaram se ocultar ou fugir da luz branca de seu espírito curador, mas ele foi implacável, liberando o corpo dela de cada um, demorando mais tempo, do que comodamente tinham, para assegurar que seu sangue e cada uma de suas células estivessem livres dos microorganismos. Só quando ficou seguro de que tinha erradicado a cada um dos intrusos, voltou sua atenção à ferida original. Que tipo de marca havia queimado sua carne e osso? Acreditava ter curado as lesões antes, mas os ferimentos agudos estavam reabertos em seu tornozelo.

Ele não era um professor curador, mas deveria ter sido capaz de reparar seu corpo. Ela devia ter tido extraordinários escudos que mantivessem fora o vampiro e até certo ponto, a ele, mas sua mente era vulnerável. Não tinha sentido. Estava deixando acontecer algo importante e isso poderia custar à vida dos dois. Novamente, reparou seu tornozelo, prestando particular atenção à pele ao redor do ferimento, inspecionando cuidadosamente para se assegurar de ter fechado e curado as feridas apropiadamente, depois de eliminar toda infecção.

A marca parecia ser uma entrada para mais microorganismos, mas ele não podia figurar-se, como. Era muito complexo e seus alarmes chiavam. Maxim ou um de seus irmãos poderia ter o cérebro necessário para tramar algo como isto, mas duvidava que tivessem a paciência. Isto requeria experimentos e tempo, interminável tempo. Alguém tinha trabalhado num laboratório e misturado a velha magia com ciência moderna.

Curar a marca da pele dela demorou mais tempo e energia que exterminar os parasitas. As bolhas e queimaduras desapareceram facilmente, mas a marca era teimosa, negando-se ceder terreno ante a luz branca. Ao final, Vikirnoff conseguiu apagar uma pequena parte somente.

Voltou para seu próprio corpo cambaleando de cansaço, com preocupação na face. Natalya estudou sua expressão e baixou o olhar para sua perna.

-Ainda está aí, não é? O que é exatamente?

-A ferida aguda original é o anfitrião, acredito. A marca permite a entrada a diminutos parasitas, pequenos microorganismos. São difíceis de detectar e há algo estranho neles. Alguém os desenvolveu, cultivando-os num laboratório e mudando-os, utilizando algum tipo de produto químico.

Natalya se distendeu.

- Produto químico? Havia um produto químico na parasita? É um produto químico potencialmente explosivo? – Ela esfregou as têmporas e sacudiu a cabeça.

-O que está acontecendo, Natalya?

A gentileza de sua voz a esquentou. Ele parecia tão cansado, com linhas esculpidas em sua face e na pele pálida. Esfregou-lhe o queixo com as pontas dos dedos.

- Uma de minhas lembranças desconectadas. Pensei nisso. Num experimento uma vez, mas não posso recordar o que eu estava fazendo.

-E te deu dor de cabeça.

Ela sorriu-lhe.

- Uma a mais entre tantas. Obrigado. Sei que não foi fácil tentar me liberar dessas coisas.

-Eliminaremos novamente os que restam, logo que possamos, Natalya. E encontraremos uma forma de voltar a recuperar sua memória, se for possível. Esta prática de marcar com parasitas é algo bastante recente, que os vampiros parecem estar utilizando para identificar algum outro. – Sua mão acariciou o cabelo dela, os dedos esfregaram os sedosos fios. Por um breve momento descansou sua testa contra a dela. – Vamos fazer isto fora daqui. Não é?

Natalya ficou perto dele, pele com pele, com sua mão na face dele. Estavam exaustos e feridos, física e emocionalmente.

-Me alegro de que esteja comigo, Vikirnoff.

O sorriso dele foi lento em chegar, mas alcançou seus olhos.

- Foi uma graciosa aventura, certo?

- Oh!. Você é gracioso. Agora se acha um comediante. À merda, a aventura. Vamos sair deste lugar. - Natalya ficou em pé e olhou ao redor. As escadas pareciam intermináveis, emitindo uma estranha incandescência translúcida que só fazia o efeito mais horripilante. - Acha que vamos colocar em algo pior?

- Pior que os vampiros ou os guerreiros das sombras?

Ela sacudiu a cabeça.

-Pior que o que está me rastreando sob a terra.

Seus olhares se encontraram. Vikirnoff tinha tanta compaixão em seus olhos, Natalya afastou o olhar, temendo voltar achorar. A idéia de parasitas aferrando-se a seu corpo ou mesmo simplesmente a marca da mão em sua pele, adoecia-a.

- Nos livraremos disso, ainaak enyém.

A forma em que ele pronunciou o termo afetuoso, amoleceu o coração de Natalya.

- O que significa isso, exatamente? – Ela tentou injetar suspeita em sua voz, como se ele ainda a estivesse chamando de pequena menina ou um pouco igual, mas reconheceu a palavra ainaak como "por sempre". Mais que isso, era a forma em que ele dizia, seus olhos.

- Para sempre minha. - Seus dedos se fecharam ao redor dos dela. - O que você é.

Ela soltou um muxôxo pouco elegante que esperava soasse como riso0 Sentia-se um pouco tola descendo as escadas sujeitando sua mão, mas era reconfortante.

-Como foi ele capaz de entrar em minha cabeça, Vikirnoff?

-Maxim?

- Ele foi capaz de arrastar-se dentro de mim. – Ela estremeceu e ele sentiu a repulsão ondeando através de sua mente também.

- Não estou seguro. - Replicou cuidadosamente.

- Mas tem uma idéia.

- Os escudos são salvaguardas, bloqueios. Nós os tecemos automaticamente e esperamos que ninguém entre em nossas mentes e os derrubem. - Um som amortecido o distraiu, dividindo sua atenção. Era baixo, sigiloso, como se alguém ou algo estivesse perto. Mesmo com sua extraordinária visão noturna não podia ver além dos bancos de gelo inchando-se ao redor deles e no alto. A escada que antes serpenteava para baixo, agora se elevava e virava para o sul.

Natalya mordeu o lábio inferior, franzindo o cenho, concentrando-se no que ele não estava dizendo.

- Por que minhas salvaguardas foram destruídas?

- Não sei. Como fez o guerreiro das sombras para entrar no aposento da estalagem? - Enviou seus sentidos procurar em volta deles, qualquer indício de perigo. Definitivamente, algo estava se movendo na escuridão a sua esquerda. A parede de gelo era grossa entre eles, mas o desconhecido lhes mantinha o passo. - Não estamos sozinhos. Siga caminhando, mas não diga nada de importância.

Natalya lhe soltou a mão e retrocedeu dois degraus para dar a ambos espaço, se por acaso tinham que lutar. A sensação de sua faca foi familiar e mesmo reconfortante quando colocou a lâmina para cima por sua mão, para camuflá-la.

-Faz frio aqui embaixo. E você sequer está tremendo. – Ela permitiu que a tigresa se elevasse para a superfície, o bastante para utilizar os sentidos superiores do felino. No momento cheirou algo peculiar.

- Cheira algo selvagem. Não um vampiro, nem humano e nem Cárpato. Não reconheço o aroma... Embora o sinto. - Ela emitiu um pequeno grito de frustração em sua mente. - Detesto que minhas lembranças estejam tão fragmentadas.

-Posso regular minha temperatura corporal. - Respondeu Vikirnoff em voz alta. - Você pode também. - Cheira como a criatura que te segurou o tornozelo e tentou te arrastar?

Logo, Vikirnoff ouviu o coração dela acelerar abruptamente, mas continuou brincando.

- Se eu pudesse regular minha temperatura corporal, Vik. – Ela sorriu abertamente quando ele lançou um olhar de advertência sobre o ombro. – Estaria fazendo.

- Mantenha um olho nas paredes. - Ele deu a voz de alarme enquanto registrava a ampla extensão de gelo.

- As paredes não! - Ela olhou freneticamente para os degraus sob seus pés. - Agora está sob nós. Vikirnoff, temos que sair dos degraus.

- Não, está passeando junto a nós.

- Estou te dizendo que está sob nós.

Vikirnoff simplesmente se virou e a abraçou, elevando-se no ar para tirar os pés dela da escada. Estava seguro ter razão. A criatura estava não sob eles, mas espreitando junto a eles, obviamente consciente de alguma brecha na parede da qual eles não tinham conhecimento. Moveu rapidamente, utilizando velocidade sobrenatural, correndo através da retorcida e estreita escada, permanecendo tão longe da parede esquerda como era possível. Mesmo utilizando sua velocidade sobrenatural, a criatura seguia o passo e de repente estava na frente deles.

- Está-se colocando em posição para atacar.

- Meus tornozelos queimam. Por que lado? – Ela pegou sua faca.

- Esquerdo.

Natalya se aproximou mais do ombro esquerdo de Vikirnoff, sabendo que seu joelho estava forçando o ferimento do peito dele e seu cotovelo devia estar encostando-se a seu pescoço. Ele não se sobressaltou, mas ela sentiu sua dor. Não em sua mente, a não ser em seu corpo. - Sinto muito.

Vikirnoff ouviu o suave sussurro em sua mente, sentiu os lábios dela lhe roçando a têmpora. Suas vísceras se contraíram num curioso ondeio que não lhe era familiar. Ela já estava pronta para o combate. Uma parte dele a admirava, como era extraordinária e outra parte estava indignada, por estar lhe permitindo permanecer em posição de sofrer algum mal.

Ela grunhiu uma advertência e ele não definiu se estava dirigida a ele ou à criatura que os espreitava, mas a faca cintilou quando a abertura se abriu a sua esquerda e a estreita caverna estalou com um selvagem uivo de dor e raiva.

O sangue salpicou a face de Vikirnoff e o braço de Natalya. Ardia como ácido. Natalya amaldiçoou em seu ouvido. - Não lhe posso expulsá-lo. Você o vê?

Ele olhou atrás deles, desacelerando o passo momentaneamente. Natalya ofegou e segurou em seu cabelo. - Não te atreva! Falo sério. Vamos sair deste inferno do desta vez. Não vou atacar essa coisa quando você está ferido e os guerreiros das sombras podem estar sobre nós a qualquer momento. Marque-se um tanto, Speed Racer e nos tire daqui.

Sabia que estava muito gravemente ferido para lutar com o tipo de velocidade e força que a criatura mostrava, mas queria poder dar uma olhada. - Não estamos no Dodge e não sou Speed Racer. Seu Rei Troll é um vampiro?

Natalya tinha uma excelente visão noturna e igual, um excelente sentido olfativo. Mesmo os diminutos cabelos de seu corpo agiam como um radar, bem parecidos com os bigodes de um gato, mas não conseguia identificar à criatura através do aroma e da visão. Havia tentado olhá-la, mas só obteve a impressão de algo alto e muito musculoso. – Parece muito a um Godzilla impreciso. E cheira familiar embora não de tudo. Não posso explicar. É frustante. - E estava enjoando, enquanto lançavam-se a tomar os estreitos giros, com muita dificuldade evitando se chocar com as paredes. – Ele deixou que nos seguir e está cavando no gelo. Acredito que marquei um ponto realmente bom contra ele, há muito sangue.

Vikirnoff não tinha idéia do que ou quem era Godzilla, mas não importava. Ela não podia definir a criatura como vampiro e esta estaria atrás dela, até que ele destruísse a ameaça. Não estava absolutamente seguro de que a criatura tivesse saído ferida. Era bem possível que estivesse tentando provocar a queda de toneladas de gelo sobre eles. Tinham que sair da caverna imediatamente.

A estadia que encapsulava as escadas se ampliou e Vikirnoff incrementou sua velocidade, movendo-se tão rápido que quase se perdeu no pequeno túnel que parecia conduzir para cima.

- Espere! - Natalya lhe disse. - Essa é... A entrada oculta. Sei que é essa. Pressinto-a.

- Está segura? – Ela já estava voltando, sentindo a certeza dela. Ela tinha sangue de mago e isso devia estar dirigindo-a.

Vikirnoff permitiu que os pés de Natalya tocassem solo gelado. No momento ela olhou para baixo, seus olhos examinavam o chão a seu redor.

- Eu não sinto sua presença e você?

Vikirnoff não acreditava que ela houvesse sentido sua presença antes. O que estaria sob eles, chegando de debaixo das escadas, não tinha sido mais que uma ilusão... E uma que ela não deveria ter falhado em detectar.

Natalya sacudiu a cabeça.

-A entrada está aí, Vikirnoff, só temos que encontrá-la.

- O que aconteceu com o Vik?

Ela levantou o olhar ante seu tom risonho, com um pequeno sorriso aberto em seus lábios.

-Não queria que acreditasse que essa coisa estava me cativando ou algo assim.

- Duvido que houvesse razão para temer. – Ele estava em pé, diretamente atrás dela, seu corpo defendendo o dela, suas mãos envolvendo-a, prendendo-a entre elas, quando assinalou fracas marcas no gelo.

-Que é isso?

-Símbolos ancestrais.

- Pode entendê-los? – Já se passara muito tempo desde que tinha visto tais sinais e não podia confiar em sua memória a menos que fosse necessário.

- É obvio. - Moveu as mãos com confiança, tocando vários símbolos para colocar o padrão-. Encantam-lhe os padrões.

Vikirnoff deixou cair às mãos sobre os ombros dela.

-Quem adora os padrões?

Natalya inclinou a cabeça para trás para olhar para ele.

-O que?

- Você disse “lhe encantam os padrões”. Quem adora os padrões, Natalya?

Ela esfregou as têmporas latentes.

- Não sei. Detesto não ser capaz de lembrar das coisas. Odeio-o, Vikirnoff.

Os dedos dele massagearam-lhe a nuca, aliviando sua tensão.

-Não se preocupe por isso agora, pensa somente em abrir a entrada para nós.

 

Natalya se apressou a atravessar a progressão de símbolos para abrir a saída. Queria sair da caverna mais que tudo. Mantendo-se de costas para Vikirnoff, olhou-o sobre o ombro, para voltar rapidamente para o que estava fazendo.

- Nunca deveria ter considerado a idéia de apagar sua memória. Que pudesse fazer isso ou não é irrelevante. É ofensivo. Não é certo. A idéia de ter alguém manuseando meu cérebro, apagando deliberadamente minha infância e quem sabe o que mais, é tão perturbadora que não posso nem lhe contar isso. Ter somente flashs de coisas que não posso recordar é enloquecedor.

A porta s abriu uma fresta e a luz se espalhou no interior, cegando-os. Natalya cobriu os olhos com as mãos.

- Já é de amanhã?

- Não, mas o amanhecer está perto e estivemos sob a terra durante horas. Dê um momento a seus olhos para se ajustarem. - Seu braço lhe rodeou os ombros e por um momento, ela descansou contra seu corpo.

- Como conseguiremos tirar estas coisas completamente de minha perna? –Ela passou os dedos sobre o braço dele, respirando o ar fresco.

- Em um dia ou dois estarei em plena forma. Se ainda assim não puder eliminá-los, levarei você a um curador forte. Enquanto isso, deve ser bem cuidadosa.

Os dedos dele continuavam trabalhando em sua nuca, numa pequena massagem para aliviar a tensão. Era assombroso, um presente que não podia se lembrar de ter desfrutado antes. Era algo tão pequeno, mas vivera sozinha durante muito tempo, sem alguém que a consolasse, que falasse com ela, que risse ou discutisse.

Reconheceu o desejo, com cansaço. Ela e Vikirnoff haviam compartilhado muito rápido e Natalya não confiava nisso... Nele.. Ou em si mesma. Estava emocionalmente maltratada e judiada por reviver o passado e presenciar os assassinatos de seu pai, sua mãe e sua avó. Estava muito vulnerável e não ia se delatar nessas condições. Precisava se distanciar de Vikirnoff para recuperar sua perspectiva e força.

Natalya forçou sua espinha a se endireitar e saiu ao ar aberto do preamanhecer. Estavam sobre a montanha, em algum lugar perto do pico e certamente perto da entrada que haviam utilizado. A brisa lhe frisou o cabelo e tocou sua face quando ela puxou ar fresco a seus pulmões. A neblina estava sobre eles, mas na elevação mais baixa, o ar estava livre de qualquer advertência sobrenatural. Olhou para Vikirnoff para sobre seu ombro e sua respiração ficou presa na garganta. Ao ar livre podia ver o mal feito pelos vampiros, os cortes e marcas das garras, as nervuras das queimaduras do ácido e a terrível parte que faltava em seu pescoço, que havia sido cauterizado e estava negro pelo sangue e carne queimada. A ferida do peito manchava de vermelho sua camisa e sua pele estava incrivelmente pálida.

-Está com um aspecto horrível.

-Voltemos para a estalagem antes que saia o sol. - Respondeu ele.

-Pode nos levar de volta? O tigre poderia carregar você, mas estamos muito longe de casa.

O amanhecer romperia em minutos. Ambos estavam realmente exaustos e precisavam de proteção logo que fosse possível.

-Posso nos levar a estalagem. Vem.

Natalya havia colocado distância entre eles, passeando intranquilamente, com sua mente dando voltas, tentando lembrar-se da figura sombria que era tão elusiva. O que gostava dos padrões e quem devia ter brincado com seu cérebro fazendo com que ela não pudesse recordar a maior parte de sua infância. Xavier.

Um pensamento chegou inesperado. O mago escuro se disfarçara de caçador e havia assassinado seu irmão? De novo seu olhar voltou para Vikirnoff. Passeou por sua mente... Notando a escuridão escondida, o interminável vazio de anos de servir a sua gente e vira também sua alegria ao encontrá-la. Seu assombro por quem e o que era ela. Para ser nada do que ele tinha pensado. Isso doía. Doía seriamente. E não gostava de ter lhe permitido entrar em sua mente e sua alma, o bastante para que lhe fizesse mal.

Vikirnoff pegou o corpo dela, que não opôs resistência, em seus braços e tomou o ar. Queria afastá-los da montanha, longe da criatura desconhecida que estava utilizando a marca do tornozelo dela, para rastreá-los. - O que está acontecendo? De repente está calada e isso é impróprio de você.

Estava muito perto dele, muito perto de seu corpo. Ele os estava defendendo de olhos curiosos, sem agravar mais seus ferimentos, tomando uma forma diferente. O calor emanava do corpo dele até o seu. Seu peito estava duro e suas coxas a pegavam firmemente. Foi consciente de que seu próprio corpo se suavizava e se encaixava ao dele. O desejo disparou inesperado através dela, perfurando e totalmente desconjurado. Estava sendo atraída, apesar de tudo a seu mundo e ela estava terrivelmente confusa.

Ele sussurrou algo em seu idioma. Palavras sussurradas e sexy, respirando contra sua garganta. E ela era vulnerável a sua voz, a seu sotaque e a sensação dos lábios movendo-se contra sua pele.

- O que houve? Diga-me.

Natalya se moveu um pouco para lhe envolver o pescoço com os braços, para unir os dedos entre seus cabelos, enquanto lhe dizia a verdade.

- Olhei em sua mente, Vikirnoff. Todo este assunto de companheiros que continua pregando é todo um monte de lixo. - Parte dela, alguma parte traidora, solitária e feminina desejava desesperadamente que fosse verdade. - Você quer June Clever ou Donna Redd. Isso é o que quer. Uma mulherzinha disposta e que te receba com a comida pronta e dizendo "Sim, querido"... Em vez disso, tem que te conformar comigo... – Ela jogou a cabeça para trás para olhar seus olhos. Sabia que estava demonstrando a ele que se sentia ferida. Agora, isso não tinha importância. Precisava pertencer a algum lugar. Embora fosse só por um momento. Ele desejava uma companheira, mas não desejava a ela. Manteve firme o olhar. - Tem que se conformar com a Xena, a princesa caçadora, a quem não quer, que não pode conceber e não entende.

Ela sentiu a confusão dele. A perplexidade. Seus olhos mudaram de cor, aprofundaram-se e escureceram-se com tão intensa confusão, que lhe roubou a respiração.

- Não conheço essas mulheres, Natalya. Sinto teus ciúmes como dor e isso é inaceitável para mim, já que te causam dor. Não as desejo e nem as desejarei nunca. Prefiro não comer comida, então não espero e nem desejo que ninguém cozinhe para mim. E não tenho nenhuma outra companheira, só você. Nunca conheci essa Xena, de quem fala.

Parte dela quis rir e a outra chorar. - Eu sou Xena a princesa caçadora, bôbo. Não sabe nada, não é? – Natalya descansou a testa contra a dele. - Esta coisa de companheiros não foi sua escolha mais do que foi a minha. Você não me deseja e eu quero ser desejada por quem sou.

Havia tanta tristeza em sua voz e em sua mente, que ressoava através do coração de Vikirnoff. - Como pode pensar que não a desejo? Você é um milagre para mim.

Natalya afastou a cabeça. Estivera na mente dele e conhecia seus pensamentos. Ele queria uma mulher total que fosse dependente de cada uma de suas palavras, não alguém com uma boca solta e semelhantes atitudes. Por um momento pensou em tentar mudar, viver para ser quem ele queria, mas nunca poderia moldar sua personalidade ou arrancar a tigresa de seu interior. Ela era apaixonada, feroz e muito impulsiva. Não esperava que alguém a liderasse. Tomava seu próprio caminho e não podia imaginar-se diferente.

Estudou o solo sob eles, inexplicavelmente triste, os vívidos tons de verdes, a maré de cores dos prados de flores e os fardos de feno dedilhando as suaves colinas, tudo rabiscado juntos, até que piscou para afastar as lágrimas que dançavam em seus olhos. Havia pessoas lá embaixo, com vidas bem mais curtas que a sua, mas felizes. Pessoas com famílias, filhos e alguém com quem conversar. Ela tinha Vikirnoff. Sabia que ele não ia deixá-la. Acreditava estar preso a ela por toda a eternidade, mas não queria a Natalya Shonski, com o sangue do mago escuro correndo por suas veias e a tigresa escondida profundamente dentro de sua alma. Não queria à mulher que lutava com vampiros e via filmes realmente bobos, de madrugada na televisão.

Vikirnoff pressionou seu corpo firmemente contra o dela para que pudesse sentir o que estava lhe fazendo. Que ela pudesse sentir a firme e penosa dor que nunca parecia desaparecer, sequer no meio do perigo. Como podia pensar que não a desejava? Não havia nenhuma outra mulher para ele, não podia haver nenhuma outra mulher. - Tenho muito que aprender sobre mulheres Natalya, é certo, mas não há dúvida de que a desejo. - Suas mãos moveram sobre o corpo dela, numa sutil diferença, mas ela o sentiu todo, até a ponta dos pés.

Natalya quis esbofeteá-lo. Simplesmente veio em sua mente, numa apertada bola ardente de seu temperamento, que correu através de sua corrente sangüínea e se espalhou num grunhido de advertência, que vibrou através dos dois.

Fez-se um pequeno silêncio. O corpo dele ondeou, seus músculos se flexionaram e seus joelhos entraram entre as pernas dela, forçando-a a entrar em contato com a dura e grossa evidência de seu desejo. - Acaba de me fazer uma advertência?

Havia um toque de riso em sua voz. Ela não podia captá-lo, mas o sentia, como se a idéia fosse divertida. Seu tom era tão baixo que estremeceu. Havia mudado de suave a negro, escuro e memorizante e... Oh!... Tão... Crédulo. Sabia que se sentia atraída para ele, que seu corpo desejava o dele. Estava em sua mente e podia vislumbrar suas fantasias. Por mais que tentasse manter os pensamentos sensuais fora de sua cabeça, estes persistiam, amontoando-se quando menos esperava e a tigresa nela reagia, elevando-se com ardor, necessidade e fome. – Sim. Fiz. - Havia um desafio em sua voz. O que podia fazer ele depois de tudo? Natalya estava a salvo e sabia disso.

- Porque acha que está a salvo.

Ela elevou o queixo. - Sei que estou. – Ela deixou que seu olhar movesse insolentemente sobre o corpo dele. – Você não está exatamente em forma para ganhar guerras. – Estava lhe desafiando? Provocando-o deliberadamente? Desejava sentir seus lábios esmagando os dela, suas mãos sobre seu corpo. Desejava pertencer a ele nem que fossse somente uma vez, perder a si mesma em outra pessoa, quando todo seu mundo caía.

- Nunca deveria subestimar seu companheiro.

Os pés de Natalya tocaram o balcão, fora de seu aposento na estalagem, mas ele não a soltou. Seus braços a aproximaram e seu joelho estava ainda entre as coxas dela. Natalya se encontrou enjaulada entre o corpo dele e a parede. Seus olhos brilhavam perigosamente e ela reconheceu o predador. Sentiu a rajada de calor estendendo-se rapidamente por seu corpo, a aceleração de sua pulsação em resposta à repentina agressão. Ele havia sido tão gentil com ela, quase tinha se esquecido do quanto perigoso ele podia ser. Possuíam os mesmos instintos animais, a mesma natureza possessiva e a mesma tendência a ser dominante.

Seu coração palpitou e seu corpo pulou, com fome repentina. Ele poderia eliminar qualquer demônio que ela tivesse e substitui-lo por prazer. Não havia nenhuma entrega em Vikirnoff e por lhe desafiar, havia provocado cada um de seus instintos predadores. Desejou estar sem discernimento, esquecer de tudo, só sentir.

Vikirnoff emoldurou seu rosto com as mãos, as pontas de seus polegares deslizaram sobre sua pele suave. Ele estudou sua face elevada, as lágrimas tão próximas e o cansaço. Escapou-lhe pequeno suspiro e seus traços se suavizaram.

- Você experimentou um trauma presenciando eventos do passado. Para todos os efeitos, vivenciou esses eventos. Há dor e raiva em você e suas emoções estão todas misturadas, de forma que não pode separar uma da outra. Aceitarei seu desafio outro dia, quando não estiver tão confusa e saiba que qualquer decisão tomada é real e não porque esteja vulnerável. Privei-a de sua escolha quando nos uni, não a farei duas vezes.

Natalya levantou o olhar para ele, surpreendida por estar tão próxima às lágrimas. Nunca havia se sentido tão descarnada em sua vida. Ele abraçou-a contra ele, com as mãos em sua nuca e desta vez sem toque de agressão. Havia consolo em sua força ,enquanto lhe acariciava o cabelo.

-Sinto por seus pais, Natalya. É algo terrível que a família nos traia. Há vezes penso ns caçadores que precisam perder as emoções para poder caçar seus amigos e família que se convertem no não-morto.

ViKirnoff não tinha tido necessidade de compartilhar as mortes de seus pais com ela, mas havia escolhido fazer. Tinha permanecido em sua mente apesar de tudo, revivendo os escuros momentos com ela, compartilhando a afronta emocional e a dor, junto com ela. Lutara a seu lado, curara-a, brincado com ela e compartilhado sua mente quando ela precisava de uma âncora. Agora, gravemente ferido, com seus olhos e pele ardendo à luz da manhã, ainda lhe oferecia consolo.

Pressionou os lábios contra o peito dele e endireitou o corpo.

-Temos que entrar onde possa se deitar. – Ela sentiu a dúvida dele e um escuro medo começou a tomá-la. Levantou o olhar. – O que houve?

- Meus ferimentos são muito graves, Natalya. Você ainda tem que acessar às cenas do passado e completar sua tarefa, seja qual for essa tarefa. O príncipe e Falcon estão ,feridos. Preciso estar em plena forma com um professor vampiro na região. Não tenho outro caminho, que ir à terra esta sublevação, para me curar. - Sua voz era sombria.

Fez-se um pequeno silêncio. Seus dedos se fecharam no cabelo dele. Não podia respirar, não podia encontrar suficiente ar para seus pulmões. A idéia de estar separada dele era aterradora. Suas emoções se formavam violentas, caóticas e totalmente sem sentido, tão inesperadas que não pôde ocultar-lhe

- Por que não pode ficar aqui? Eu posso te vigiar enquanto dorme. Sabe que vigiarei. - Esta era realmente Natalya Shonski? Suplicando a um homem que ficasse com ela? E não qualquer homem, mas estava suplicando a um caçador que tinha unido-a a ele, recitando um feitiço ancestral. Não suportava pensar nisso.

Uma parte dela quis retirar a súplica, dizer algo sarcástico e fazê-lo rir a, mas o medo estava muito perto e era muito entristecedor. Ele ia deixá-la. Ela ficaria sozinha novamente.

-Só a Mãe Terra pode curar meus ferimentos, Natalya. – Ele disse, com arrependimento em sua voz.

- Bem, não esqueçamos que a boa velha Mãe Terra também proporciona ao Rei Troll uma agradável e pequena auto-estrada subterrânea. E se ele decide escavar até seu lugar de descanso e eu não estou lá para te salvar o traseiro? - Suas unhas se cravaram no braço dele. Era patética, tentando segurá-lo a ela.

- Não quero te deixar, ainaak enyém. Mas você não pode vir comigo ainda e dormir nosso sono rejuvenescedor.

- Como posso ser sempre tua se o Rei Troll te arrastar até sua guarida enquanto você dorme? - Não suplicaria que ele ficasse. De forma nenhuma... - Irei contigo e simplesmente me sentarei sobre seu lugar de descanso.

Vikirnoff sacudiu a cabeça.

- Não pode e sabe disso. Não quero te deixar para enfrentar a separação dos companheiros, mas não tenho outra escolha. - A mão dele deslizou pela nuca dela, seu polegar esfregando seu queixo numa pequena carícia, enquanto inclinava a cabeça.

-Sou capaz de cuidar de mim mesma. - Recordou-lhe Natalya, quadrando os ombros. Sua boca estava perto da dela. Uma tentação. Sabia que ele a desejava. Que seu corpo estava inchado e dolorido. Estava em cada pulsar de seu coração. Na dureza de seus músculos e da plenitude em suas virilhas. Acima de tudo, em seus olhos. Duros diamantes negros, brilhando com tanta intensidade enquanto baixava o olhar à face dela. As imagens eróticas que tinha vislumbrado em sua mente lhe tiraram a respiração. Ela não era um amante tímido, mas tudo o que a tigresa havia desejado... Necessitado... Sonhado e fantasiado. Não seria difícil fazê-lo mudar de idéia, lhe manter com ela. A idéia estava ali, inesperada, mas forte em sua mente. Não queria que ele a deixasse.

Vikirnoff baixou a cabeça para beijá-la. Uma pequena degustação para suportar a separação, um simples toque de seus lábios contra os dela, mas sua vontade se derreteu quando um fogo inesperado rabiou em suas mãos e sua pesada ereção pressionou dolorosamente contra o tecido dos jeans de Natalya. Ouviu um estranho rugido em sua mente e cada ferida que seu corpo havia sofrido para o ponto de dor ,se uniram num só lugar, em seu membro. Precisava dela. Estava faminto. Não podia pensar em outra coisa, só em sentir prazer e dor misturados até que nada pudesse separá-los. Ela lhe pertencia, apesar de suas negativas. Ninguém mais, só ela.

Sua boca esmagou a dela, arruda e exigente, seus dentes morderam o lábio inferior, sua língua deslizava sobre os lábios dela, para entrar com sua própria reclamação. Ela compreendia que ele não queria a separação, mais do que ela. Estava mais que disposto a sucumbir à sedução. Ferido ou dolorido não importava, daria tudo por reclamar seu corpo, para ser parte dela. A fome parecia insaciável. A sua e a dele, Natalya não podia sequer dizer a diferença, só que seus dedos dançavam entre os cabelos dele e sua cabeça caía para trás, para lhe proporcionar um melhor ângulo enquanto sua boca se alimentava da dele.

Vikirnoff apertou-a ainda mais e o braço dela encostou em seu pescoço. Ele se distendeu e seu corpo se estremeceu, rompendo imediatamente a suar gotas de sangue. Natalya se separou dele, encolhendo-se contra a parede, pressionando o dorso da mão contra os lábios inchados.

-Isto é uma loucura Vikirnoff. Está me deixando louca. Vá, agora mesmo. O Sol está se elevando, seus olhos ardem. O que logo verei é que sua pele estalará em chamas.

Um sorriso relutante mudou os lábios de Vikirnoff. Já o sentia como se chamas dançassem sobre sua pele, mas ela tinha razão. Estava fraco e precisava de sangue e da terra curadora. Era somente o fato de que ser um antigo, experimentado em ferimentos graves, que lhe tinha permitido permanecer em pé. Sua força não podia durar para sempre e ele precisaria dela em batalhas vindouras.

-Vá, Vikirnoff.

- Me ocuparei primeiro de sua segurança. Tire as salvaguardas e entre em seu quarto.

Natalya não podia pensar com claridade. seu sangue era ardente e seu corpo estava apertado e incômodo, suplicando alívio. Respirou fundo e forçou a sua mente fragmentada a trabalhar outra vez. Se concentrar nas salvaguardas e não no fato de que ele iria embora, tudo voltaria a ficar bem.

O aposento estava como o deixaram. Pendurou sua mochila num canto e se sentou na pequena cadeira diante do televisor. Pagara extra pelo televisor e este estava coberto pelo mesmo tecido colorido das paredes e da cama, tanto que apenas se podia ver sua tela.

-Ficarei bem. Pode notar que não há e nem houve ninguém aqui.

- Não será fácil. Estar separado de um companheiro é extremamente difícil. Eu, é obvio, não experimentei, mas me disseram que a dor é horrível, porque nossas mentes precisam se tocar. Eu estarei dormido e não terá acesso a mim.

- Não adule a si mesmo, Vik – Ela cruzou os braços sobre seu estômago revolto e forçou um sorriso. – Vivi sem você durante um século ou dois, acredito que posso me arrumar sem isso

- A dúvida se apresentará pouco a pouco, Natalya. Acreditará que estou morto. Emocionalmente já atravessou uma tempestade. Será difícil não ceder a selvagem dor.

A sobrancelha dela se elevou.

-Dor? Não só dor mas também selvagem dor? Acredito que me sairei muitobem. O sol está se elevando e você está esbanjando o tempo. Vá agora antes que... -Sua voz desvaneceu. Queria que ele se fosse.

- Não tente acessar o passado, tocando a faca de cerimônial, Natalya. - Advertiu Vikirnoff.

- Tenho uma mente perfeitamente válida e fui capaz de usá-la todo este tempo, sozinha. - Respondeu ela. - Está demorando.

- Me dê sua palavra.

Ela estava começando a se se sentir desesperada.

- Dou-te minha palavra, mas me diga a primeira frase novamente.

A sobrancelha dele se elevou.

-A primeira frase?

- Do feitiço vinculante. Quero que fale novamente em seu idioma. - Seu queixo se ergueu. - Não é o único lingüista aqui. Posso falar vários idiomas e sou muito boa averiguando coisas.

- Então ainda está decidida a desfazer o que fiz.

-Sim. - Já não sabia até que ponto era verdade, mas amaldito fosse! Ele estava deixando-a e ela já estava agundo de forma alheia a seu caráter, como um bebê chorão lamentando-se por ele. Havia tentando lhe seduzir para que ficasse e havia lhe suplicado. Não tinha vergonha e isso simplesmente não era dela.

Os olhos dele se converteram em duros diamantes.

-Avio-te päläfertiilam.

- Essa não é tão difícil. Quando se revisa os idiomas, as palavras com freqüência se repetem. Não haveria nenhum "somos". Literalmente seria "casada esposa-mía" -Olhou-o triunfante. - Literalmente você me casou, uniste-o a mim, uniste-nos à maneira de sua gente.

-Assim é.

-Estou pronta para a seguinte frase, a menos que temas que possa desfazê-lo. – Ela desafiou.

De repente, ele se inclinou, com uma mão em cada lado da cabeça dela, apanhando-a efetivamente.

- Isso não me importaria. É minha companheira, ainaak enyém. Para sempre minha e isso é tudo o que importa. Eu não entrego o que é meu. Se tentar encontrar a forma de desfazer as palavras rituais, ocupe sua mente e se permite passar as horas das próximas sublevações sem mim, por favor sinta-se livre para trabalhar, para tranqüilidade de seu coração. – Vikirnoff a beijou com força, profundamente, numa feroz reclamação, que pretendia sacudi-la, marcá-la como dele, e o fez.

Natalya não pôde evitar responder, abrindo sua boca a ele, alimentando-se dele, devorando-o com a mesma ávida fome. Vikirnoff rompeu o beijo e elevou a cabeça, com seu olhar mantendo o dela cativo.

- Você é minha, seu corpo não minte, Natalya.

-Oh! Vá embora. Ela o empurrou. – Pertenço a mim mesma. Não me importa o que diga... - Sua voz desvaneceu enquanto seu olhar se elevava até o dele. - Próximas sublevações? O que significa isso? Não virá esta noite? - O medo foi à primeira emoção seguida muito de perto pela fúria. Empurrou-o, outra vez. - Você me fez isto. Tem-me feito depender de você, mas me nego. Nego-me absolutamente, a esbanjar nem um momento de meu tempo penando enquanto você sai por aí. Não deveria ter nos unido se fosse fazer isto. Maldito seja, vá embora daqui Vikirnoff e não se preocupe. Eu não vou olhar para trás. Absolutamente. – Estava aguilhoando-o outra vez? Desafiando-lhe? Não podia pensar com claridade, com sua mente em semelhante caos.

- Posso levá-la comigo, Natalya. Intercambiamos sangue em duas ocasiões. Seria um prazer para mim fazê-lo novamente. - Havia sedução em sua voz. Uma ameaça e uma advertência.

Ela estudou sua face. Ele estava no limiar de seu controle. Havia muito sentimento, muitas emoções entrando estavam alimentando um ao outro. Natalya retrocedeu da beira do precipício, pelo que quase se lançara.

-Sinto muito, Vikirnoff. Estou muito sacudida. Obrigado por tudo o que tem feito por mim. Não estou agindo como se o fizesse, mas realmente aprecio.

Ele pressionou os lábios em seu rosto.

-Éntölam kuulua, avio päläfertiilam. - Ssussurrou-. Boa sorte, Kislány. – Ele arescentou deliberadamente, com um sorrisinho.

Natalya fingiu-se ofendida.

- Sei que não acaba de me chamar de menininha.

Havia um nó em sua garganta, mas forçou seu olhar a encontrar o dele. Podia observá-lo sair e nunca olhar para trás, se precisasse. Não era uma garotinha, mas uma mulher adulta com mente, coração e vontade próprias. – Vá em frente, zombe de mim. Não sorrirá tanto quando eu encontrar o feitiço que nos desunirá.

- Tece suas mais fortes proteções, Natalya. Não importa o que acontecer, eu voltarei. Quero que se lembre isso. Voltarei para você.

Ele ergueu-se e ela captou uma ligeira careta. Havia sangue fresco filtrando-se por sua camisa. Envergonhada por estar lhe retendo, Natalya ondeou a mão, se despedindo.

-Vá. Vou dormir dois dias. Isso deverá te dar tempo suficiente para se curar, Superman .- Soava impossível, mas os pequenos cortes de seu próprio corpo podiam curar quase instantaneamente e Vikirnoff era completamente Cárpato.

Vikirnoff abriu a porta do balcão. O sol da manhã se elevava com rapidez. A luz se espalhou sobre ele e no interior do aposento.

-Não esqueça das salvaguardas, Natalya.

- Não o farei.

Ele deu um passo sob o ardente sol, pensou e voltou atrás. Odiava deixá-la. Doía. Uma dor que o retorcia e que persistia a pesar do fato de que sabia que encontraria uma forma de mantê-la a salvo. Ela não era a única que enfrentava a separação. Havia vivido sozinho muitos séculos e a idéia de estar separado dela, incapaz de protegê-la ou de abraçá-la quando estava nervosa, incomodava-o mais do que queria admitir. Ela havia se infiltrado sob sua pele e estava enrolada em volta de seu coração a pesar do fato de ser ousada, sarcástica e saber pouco sobre respeito.

Não atuava como a mulher que havia visualizado para si mesmo. Quando pensava em mulheres, eram todas gentis, pacíficas e doces. Voltou-se para ela. Parecia pequena e vulnerável e não se parecia em nada com pequena tigresa do campo de batalha. Seus joelhos estavam encolhidos e ela descansava o queixo sobre eles, com os braços envolvendo firmemente as pernas. Parecia absolutamente sozinha. Seu coração gaguejou. Amaldiçoando voltou para ela, fechando as portas firmemente.

- Vai precisar de tecidos pesados.

- O que está fazendo? – ela manteve o olhar fixo em sua face. Poderia olhar seu rosto para sempre. Havia linhas que não deveriam estar ali, mas era um rosto forte, belamente masculino, esculpido com traços claros e firmes. Seu coração estava dando pequenos sobressaltos amalucados, ante as palavras dele.

-Ficar. Eu fico.

Natalya respirou fundo e deixou e cruzou a distância entre eles, pegando sua mão.

-Não, não ficará. É suficiente que queira ficar por mim.

-Não por você, Natalya. – Ele disse. – Fico por mim.

- Onde estará? Diga-me onde. Mostre-me onde e eu não me preocuparei.

A mão dele atraiu-a a ele, para um longo e ardente beijo. Sua boca queimou a dele, igualmente faminta, seu corpo se derreteu contra o dele, encaixando em sua forma, fazendo com que deslizasse as mãos pelas costas até seu traseiro e a elevasse, pressionando seu pulsante sexo contra sua ereção. Natalya sentia-se desesperada, não desejando deixá-lo partir. Ambos estavam muito sensíveis pelas emoções que haviam revivido através do passado, pela novidade de sentir emoção. Vikirnoff não queria somente integrar seu corpo profundamente no dela, queria abraçá-la para sempre.

Permanecerem unidos, inalá-la, compartilhar sua pele e seu corpo era um feroz e intenso desejo que o sacudiu.

Ela adorava sua boca, seu sabor e seu aroma. Adorava tudo nele, especialmente a forma em que ele a beijava, como se pudesse devorá-la e ainda seria suficiente. Poderia ficar beijando-o para sempre, mas o sol estava se elevando e ele estava sentindo-o. Em pouco tempo seria muito tarde, não teria mais escolha que ficar. Possivelmente era o que ele estava esperando, mas Natalya não estava disposta a lhe permitir sacrificar sua força e energia. Separou-se dele.

-Vá. Mostre-me onde planeja descansar e vá. É melhor para os dois e você sabe disso. Dobrarei minhas salvaguardas e esperarei por você. -Sabia que era necessário tranqüilizá-lo e olhou em seus olhos, abrindo sua mente de forma que ele pudesse ver que falava sério.

Ele mostrou uma caverna com rica terra mineral, que se lembrava de sua infância. Havia sido um de seus lugares favoritos, embora bastante remoto. Compartilhar as coordenadas era bastante fácil com suas mentes fundidas. Segurou-lhe a cara entre as mãos, inclinando a cabeça até a dela.

-Não deixe que te aconteça nada.

- Você somente se ocupe de você mesmo e lembre-se do Rei Troll. É um monstro. Ficarei realmente realmente uma fera se ele conseguir lhe fazer algo mais que um arranhão. -Acariciou-lhe o rosto. Sua mão estava tremendo e ela a colocou para trás. - Por favor vá, Vikirnoff. Por mim, saia correndo agora. - Porque se ele não o fizesse, iria chorar e então ele ficaria e ela se sentiria culpada e furiosa consigo mesma. - Por favor, por mim.

Vikirnoff virou bruscamente e se lançou ao ar, mudando à forma de um pássaro, sem se preocupar de que abrissem seus ferimentos e caíssem gotas de sangue do céu. - Mikhail. Preciso de você. – Ele enviou a chamada, imperativa e exigente.

- Estou aqui.

- Vou para a terra, preciso me curar.

- Sinto seus ferimentos. Enviarei ajuda a sua companheira. O irmão e a irmã da companheira de Traian estão aqui. Enviarei-os e eles se assegurarão de que ela sobreviva à separação. Faça-a saber e que os espere.

Vikirnoff enviou a informação a Natalya. Imediatamente recebeu a impressão de um grunhido. - Não preciso de babá.

- Não obstante. Vikirnoff rompeu a conexão entre eles, não estava disposto a discutir. Não tinha propósito, quando tinha intenção de lhe enviar ajuda, independentemente da postura dela. Não queria que ficasse sozinha. Natalya tinha a equivocada idéia de que as palavras rituais eram um feitiço vinculante. Ambos, Cárpatos e magos eram instruídos no poder dos elementos, acostumavam a utilizar o que os outros estimavam magia, mas as palavras rituais eram muito mais elementares. Impressas num homem dos Cárpatos antes de nascer, as palavras rituais asseguravam a continuação de sua espécie.

Encontrou-se sorrindo, profundamente no interior da forma do pássaro. Se trabalhar desfazendo a união entre eles a ajudasse a atravessar suas horas de separação, então ele deixaria de lado seus sentimentos feridos e se alegraria de que houvesse algo que a ajudasse.

- Mikhail, há muitos vampiros nesta região. Acredito que procuram te destruir. Deve ser cuidadoso.

- Estivemos sob assédio há algum tempo. - Respondeu Mikhail. - Traian foi atacado por um professor vampiro. Não o reconheceu, mas era sem dúvida um antigo e bem versado em todos os poderes. Traian não teve outra escolha que nos deixar. O vampiro bebeu seu sangue e estão conectados. Traian temia poder ser utilizado para ser espião de sua própria gente. Ele viajou com sua companheira. Foi conhecer resto da família dela.

- Quem fica para te proteger?- Vikirnoff afogou o alarme que disparou através de seu corpo. Maxim tinha parecido mais que convencido de sua habilidade para destruir o príncipe dos Cárpatos. Havia dito que Mikhail estava desprotegido. Onde estava todo mundo? Sua gente era pouca e espalhada por uma ampla região, mas certamente seu príncipe estava bem guardado.

- Falcon vive aqui perto e Manolito voltou da América do sul. Você está aqui também. Em qualquer caso, sou capaz de proteger a mim mesmo.

Vikirnoff ficou em silêncio, refletindo, enquanto voava para a velha caverna. Acredito que há um complô bem orquestrado contra você. Como é que todos os caçadores viajaram?

- Meu irmão e Gregori foram para os Estados Unidos. Byron está na Itália e acredito que Tienn e Eric estão viajando com suas companheiras. Gregori e Jacques estão a caminho de volta, mas viajam lentamente, já que Shea está grávida. Gabriel não está muito longe. Estará aqui se houver necessidade, virão a toda pressa.

Vikirnoff não gostava disto. Havia necessidade, sim. Grande necessidade. - Perdoe-me, mas possivelmente está sendo muito complacente. Eu estava nos Estados Unidos com Rafael quando encontramos o irmão de Maxim. Houve necessidade de nós dois para matá-lo e Rafael quase morreu na tentativa. Eles cresceram em poder, Mikhail, e estão desenvolvendo estranhas armas contra nós. Os vampiros estão rondando juntos e pretendem te assassinar. Maxim me disse que esse era seu objetivo. Se tiverem efetivos suficientes aqui, poderíamos estar em problemas. Disse que Falcon estava ferido. Você está ferido e eu também. Não sabemos a extensão completa do exército que posicionaram contra nós. Está acostumado a lutar com vampiros principiantes e aqueles com habilidades menores. Nunca enfrentou um antigo de grande poder. Com alguns de nossos mais experimentados caçadores como Traian ou Falcon feridos, possivelmente precisemos reconsiderar o que está acontecendo.

Vikirnoff nunca havia sido muito falador. Preferia a ação e não era sua intenção enfrentar seu príncipe antes de lhe conhecer realmente, mas nas duas vezes tinham tido desacordos sobre o curso de ação a seguir. Seu príncipe era necessário para manter a espécie. Era possível que sua filha, Savannah, levasse o gen necessário para a sobrevivência da espécie inteira, mas Vikirnoff não estava disposto a brincar com a vida do príncipe, para averiguar.

Pesadas trepadeiras e uma pilha de rochas cobriam a entrada da caverna que procurava. A região parecia não ter sido perturbada durante várias centenas de anos. A abertura era muito fina e oculta atrás de gretas na rocha. Vikirnoff e seu irmão, Nicolae, haviam descoberto a entrada, quando crianças. Magma, profundo sob a superfície, esquentava o estreito túnel e as cavernas de águas termais. As câmaras eram ricas em minerais e os irmãos com freqüência levavam a terra para casa, para ajudar os curadores.

- Obrigado pela informação, Vikirnoff. Levarei-o em consideração. Não se preocupe por sua companheira. Meus amigos a protegerão.

Vikirnoff não soprou seu riso. Teria sido grosseiro com a realeza, mas na realidade, ninguém ia proteger sua companheira. Se tivesse que proteger alguém, seria Natalya quem o faria, sem importar o quanto perturbada pudesse estar pela separação. Com esse pensamento, veio o orgulho e o respeito. Natalya podia não ser a mulher que tinha sonhado ou com a qual havia fantasiado, mas era extraordinária e de confiança. Completa e absolutamente de confiança.

Profundamente no interior de uma câmara abriu a terra curadora. Seu corpo estava cansado e ele precisava desesperadamente de se alimentar, mas havia esperado muito e o sol estava alto. Flutuando para baixo, na calidez da rica terra, permitiu que as propriedades consoladoras derramassem sobre ele. – Você está bem? - Estendeu-se para ela porque tinha que tocá-la. Saber que estava viva e bem.

- Sim. E você? Parece-me exausto. Por que não foi ainda para a terra?

- Estava tendo uma discussão com o príncipe.

Fez-se um pequeno silêncio. Estava lhe dando ordens, não é?

- Por que pensa isso?

- Simplesmente, por que o conheço. A diplomacia e o tato não são exatamente seu ponto forte.

A terra começou a se espalhar a seu redor e ele riu brandamente. O som ressoou através da mente dela.

 

- Eu adoro sua forma de rir, Razvan, mas isso não vai fazer com que consiga o feitiço. Acho que estamos estudando.

- Estava estudando. - Razvan lhe sorriu, seu cabelo caindo sobre seus olhos, como fazia sempre.

Natalya sabia que ele acreditava que as garotas pensavam que ele parecia interessante dessa forma. A ela, que ele precisava de um bom corte de cabelo, mas se cuidava de não dizer a ele.

-Não são somente os feitiços. Sabe que acredito que são arcaicos. De que servem? Ninguém acredita na magia e eu não tenho a afinidade para com ela, que tem você. Por outro lado, você sempre me diz isso ao final, Então deixa de me envenenar.

Natalya colocou as mãos nos quadris. É claro que ia dizer “sempre fazia”, mas não ia entregar tão facilmente.

-O que vais fazer por mim em troca?

- Acredito que me diz isso porque me adora. - Assinalou seu irmão gêmeo.

-A adoração voou pela janela faz tempo, quando compreendi que eu faço todo o estudo. As salvaguardas são importantes, Razvan. O que acontecerá quando eu não estou perto e voce precisa estar a salvo?

-Sempre posso me estender para você, Natalya. – ele abraçou-a. - Não tem nenhum sentido que os dois estudemos a mesma coisa. Compartilhamos informações.

-Mas não está aprendendo os feitiços. - Argumentou Natalya, seu sorriso decaindo em seu rosto. - Isso me preocupa, Razvan. O que acontecerá se precisar de salvaguardas e não pode me alcançar? Você me protege todo o tempo, a única coisa real que eu te dou em troca é conhecimento e você não leva a sério.

- Acredite-me, Natalya. Levo muito a sério. - Corrigiu Razvan e revolveu-lhe o cabelo, afetuosamente. - Você é muito mais certa que eu e possivelmente me aproveito disso não estudando tão duro como devesse, mas nunca ache que não sou consciente do quanto me ajuda. Estou orgulhoso de você.

- Ele te fez mal desta vez ou as salvaguardas agüentaram contra ele? - Natalya baixou a voz e olhou ao redor. Uma sombra caiu entre eles. O braço do Razvan deslizou dos ombros dela e uma vez mais ficou a boa distância. Pareceu empalidecer e Natalya estendeu uma mão para ele, mas não podia lhe tocar e deixou cair o braço.

-Ele estava muito zangado. Acredito que você é mais forte que ele. Se continuar trabalhando e aprendendo coisas como faz, ele não pode nos tocar. Possivelmente seu poder esteja diminuindo, não sei, mas me preocupa que você possa estar em perigo. Ele não gosta de não poder te controlar. Se não puder me fazer mal, não pode conseguir a você.

Por um momento, o cabelo de Natalya e sua pele formaram listras e seus olhos brilharam de um tormentoso opaco.

- Ele foi capaz de atravessar as salvaguardas e fazer mal a você, não foi? Para me castigar por ir a ele quando insistiu.

- Mostre-me a nova. Mostre-me o que está usando agora.

Razvan estava desvanecendo e Natalya não podia detê-lo. A dor entrou no meio. Não por seu irmão mas por Vikirnoff. Precisava tocar a mente dele, somente para saber que estava vivo, que estava a salvo. Desejava-o e sua mente procurava... Procurava... Mas ele não estava ali... Só um escuro vazio sem fundo com o que parecia tropeçar.

-Natalya! As salvaguardas. -Havia desespero na voz de Razvan.

-Disse que as pegou... – ela estava distraída. Precisava de Vikirnoff. Onde estava? por que não respondia a sua chamada? Podia estar morto?

-Não! Eu estou morto. Os caçadores me mataram e você não fez nada para me salvar. Ppor que não me salvou, Natalya? Eu precisava d as salvaguardas...

Natalya despertou com um sobressalto. Sua cabeça doía e ela olhou ao redor tentando se lembrar onde estava e o que estava fazendo. Passado e presente sempre pareciam juntar-se como uma vingança em seus sonhos. Era desorientador. Sentou-se no chão, com os joelhos recolhidos, balançando-se para frente e para trás, com lágrimas correndo por sua face. A televisão estava ligada, mas não sabia o que estava vendo. Não se lembrava de convocar um sonho de sua infância, mas devia ter feito antes de sucumbir ao cansaço. Amaldiçoando e irritada por sua falta de controle, obrigou-se a examinar a aposento. Deveria ter permanecido alerta e não se entregar ao sonho quando estava rodeada de inimigos.

Esfregando o tornozelo, Natalya olhou ao redor para as pesadas cortinas que bloqueavam a luz. Seus olhos e sua pele ainda ardiam, Então certamente o sol não se colocara ainda. Tentou se concentrar na televisão, mas não parecia pensar com claridade. Realmente adorava os velhos filmes com efeitos especiais e tinha encontrado um canal que estava passando, mas não parecia poder evitar que sua mente se desviasse para Vikirnoff. E isso simplesmente a enfurecia.

Levantou-se com um pequeno suspiro, desligando a televisão e chutando a cama. Não tinha havido serviço de limpeza no aposento e ainda parecia estava a confusão de quando Vikirnoff estivera ali. O travesseiro mantinha seu aroma e ela enterrou o nariz contra sua suavidade, inalando profundamente antes de abraçar-se a ele.

-Maldito seja, Vikirnoff Von Shrieder. - Sentiu-se melhor condenando-o em voz alta.

Normalmente sonhar sobre sua infância com o Razvan a consolava, mas a dor estava a centímetros dela, ameaçando, estrangulando-a. Não dor por seu irmão gêmeo, longamente desaparecido para ela, mas dor por um homem que mal conhecia. Mas o conhecia. Havia entrado em sua mente e sabia que tipo de homem era. Sua alma havia tocado a dele. - Onde estava quando precisava desesperadamente dele?

- Que me crucifiquem se seu estúpido feitiço vinculante é melhor que eu. - Ele estava vivo. Sabia que estava vivo. Não importava que tivesse tentado tocar sua mente uma centena de vezes nas últimas horas e encontrado um escuro vazio, não se entregaria a semelhante fantasia. Ele simplesmente estava dormindo o sono rejuvenescedor de sua raça. Sabia o que isso era, na realidade, Ela estudara as propriedades curadoras de vários solos em um de seus muitos frenéticos períodos de acumular informação para encher as longas e vazias horas de sua vida.

- Possivelmente terei que ir a sua caverna e me sentar lá e esperar que desperte, enquanto trabalho num feitiço que nos desvincule. Porque eu não gosto desta sensação - O vazio era um buraco que estava comendo-a viva-. Éntölam kuulua, avio päläfertiilam. Posso averiguar isto. Não é tão difícil. – Ela pressionou as mãos contra o revolto estômago.

Um suave tamborilar na porta a sobressaltou. Natalya se voltou, procurando suas armas. Sempre estavam à mão. Tão longe havia chegado, que se permitia baixar a guarda? Os vampiros podiam não ser capazes de atacar durante as horas diurnas, mas eram professores marionetistas, os ghouls se criavam para fazer sua vontade. E sempre Brent Barstow estava escondendo-se por aí. Não se deixava enganar o mínimo por sua atitude casual. Isso não era bom e o colocava na liga dos vampiros pelo que a ela concernia.

- Quem é? - Ficou de pé à direita da porta, arma em punho, com o dedo no gatilho. As salvaguardas deveriam agüentar, mas acreditava estar preparada. A tigresa se elevou perto da superfície, permitindo-a utilizar o incrível sentido do olfato. Um homem e uma mulher, nenhum suor que indicasse medo ou perigo, mas não se permitiu baixar o guarda.

-Jubal e Gabrielle Sanders, senhora. Seu companheiro nos envia para vigiá-la.

Natalya deixou escapar a respiração, num longo e lento vaio de irritação, enquanto escorregava contra a parede. – Você é um idiota Vik, enviando-os aqui. Sabe malditamente bem que estarei tentando cuidar deles em vez de dar voltas por aí. - Ele não podia ouvi-la, mas lhe dava satisfação falar.

- Disse-lhe que não precisava de babá, muito obrigado. - Adula-se a si mesmo, pensando que eu poderia sentir sua falta.

- Senhora. Não podemos ficar de pé aqui fora, conversando através da porta. -Fez-se um pequeno silêncio. – Bem, concordo. Poderíamos, mas vamos atrair um pouco de atenção cedo ou tarde.

-Poderiam partir. - Disse Natalya, esperançada.

-Temos ordens do príncipe, senhora. Não podemos partir.

-Se me chamar de senhora uma vez mais, vou disparar em você através da porta. - Disse Natalya e suspirou. - Só um minuto. – ela levou vários minutos para tirar as salvaguardas da porta. Ficando de lado com a arma firmemente na mão, apontou cuidadosamente à entrada. – Entrem.

O homem entrou primeiro. Era alto e musculoso, com ombros amplos e escuro cabelo ondulado. Sorriu abertamente para ela e elevou as mãos no ar, saindo para o lado para que a mulher entrasse. Natalya tomou nota de que ele se colocara de forma que seu corpo estivesse entre a arma e sua irmã.

- Esta é minha irmã, Gabrielle. Sou Jubal Sanders. Basicamente somos os humanos parentes por afinidade, de Traian.

Gabrielle fechou a porta e deslizou o fecho em seu lugar.

- Slavica, a dona da pousada e seu marido podem responder por nós. Slavica e sua filha nos ajudam às vezes com os filhos de Falcon e Sara. As crianças são humanas e não podem ir para a terra Então precisam de quem os cuidam durante as horas do dia.

-Não é necessário que Slavica responda por voces, posso ler suas mentes. - Era uma mentira. Irmão e irmã possuíam fortes barreiras, escudos que Natalya estava segura de que o príncipe e Falcon tinham ajudado a construir.

O sorriso de Jubal se ampliou ante ela, como se soubesse que estava mentindo.

- Vai disparar em nós? Porque estou começando a me sentir como se fosse um desses gangster de filme?

- Ainda estou decidindo. – Disse, Natalya. - Hoje ainda não matei ninguém e não quero que se converta num hábito. Tenho que manter a prática.

- Bem, pelo menos se apresente antes de disparar em mim. - Disse Jubal, examinando o aposento e suas sobrancelhas se elevaram.

Natalya seguiu seu olhar para todos as marcas de queimaduras e enegrecidas partes da parede.

- Natalya Shonski. – Ela deslizou o gatilho da arma para seu lugar e ondeou a mão para as cadeiras. - Obrigado por vir, mas estou bem. Não me faço aos pedaços tão facilmente. – Estava se tornando uma mentirosa de primeira linha. Suas vísceras estavam descarnadas de dor e havia um buraco ardente através de sua garganta. Tentou sorrir.- Vik tende a se preocupar com as coisas mais estúpidas.

Gabrielle olhou ao redor do aposento, tentando ignorar as marcas de queimaduras por toda parte e se concentrar nas cores brilhantemente coloridas que enfeitavam o aposento.

- Quando vim aqui pela primeira vez, ficamos nesta estalagem. Nosso aposento tinha tapetes belamente tecidos, todos nas cores da terra. Esta é muito vermelha.

- Verdade? Queria a televisão e o banheiro Então me conformei com o brilho. - Explicou Natalya. - Sinto-me realmente incômoda que saiam para ficar comigo.

Jubal encolheu de ombros.

-Você é bem mais fácil que as crianças. Sara tem um milhão deles. Deixam-me loucos. Comcordo que a questão tem que ser formulada. Sinto se não o considerar cortês, mas o que esteve fazendo aqui?

Ela tentou parecer inocente.

- Não tenho nem idéia de sobre o que está falando.

- Parece que é a pior fumante do mundo, que deixa bitucas queimando enquanto adormece. Ou, é uma piromaniaca e atirará em nós depois de descobrir seu segredo. O que é?

Natalya fez uma careta.

- Estava trabalhando num projeto, não estava fumando. – Ela encolheu os ombros quando ele continou olhando-a. - Estava experimentando. Não tenho lança-chamas, então estava fazendo um. Precisava ver o quanto podia ficar perto para utilizá-lo efetivamente.

Jubal e Gabrielle trocaram um longo olhar. Gabrielle limpou a garganta.

- Está praticando neste aposento com um lança-chamas?

Natalya olhou para todas as marcas enegrecidas.

-Bem... Sim. Fui cuidadosa. Queimei papel e roupa velha. Mantive água à mão Então o fogo não foi tão grande como esperava, poderia apagá-lo imediatamente.

-Está queimando objetos no aposento? - Repetiu Jubal.

Natalya franziu o rosto.

-Não seja tão escrupuloso. Estava experimentando. Não é como se estivesse tentando queimar o edifício. Acha que posso sair e comprar um lança-chamas? Não são fáceis de encontrar.

Jubal limpou a garganta.

- Por que a obsessão com o lança-chamas?

-Vik me informou que tinha que incinerar o coração do vampiro para matá-lo. Matei Freddie, um vampiro, umas vinte vezes, mas ele não morria. Simplesmente continuava voltando. Era categoricamente irritante e horripilante e quando me queixei, Vik me disse que precisava de um lança-chamas. Bem... Ele disse que tinha que incinerar o coração e não posso simplesmente fazer baixar um relâmpago ou lançar bolas de fogo, então aqui estamos.

Jubal passou a mão pelo cabelo, claramente agitado.

- Vou limpar isto. Você esteve inventando sua própria versão de um lança-chamas?

-Que demônios esperava que fizesse? Não é como se pudesse ir até o mercado local e conseguir um a preço barato. Um spray de laca para o cabelo e um acendedor funciona, embora tenha que estar mais perto do que eu gostaria. A boa notícia é que é fácil de levar.

-Tem alguma idéia do quanto é perigoso isso? - Exigiu Jubal.

-Foi realmente divertido.

Gabrielle rompeu a rir, da expressão da face de seu irmão.

- Natalya. Você e minha irmã Joie se darão bem.

-Não a anime, Gabrielle. - Repreendeu Jubal. - Que tem dizer... Bem... O que Vik diz sobre isto?

As sobrancelhas de Natalya dispararam para cima.

-Vik não tem nada a dizer porque não é assunto dele como eu escolho matar vampiros. – Falou Natalya, despreocupadamente. - Veja como funciona. Ele tem seus métodos para tratar com o não-morto e eu tenho os meus.

-Não acha que é um pouco estranho que esteja em seu quarto de hotel queimando coisas? - Perguntou Jubal.

-Queimar coisas é conseqüência das provas. Estava provando distâncias. E, por certo, não pode manter pressionado o gatilho porque a chama retrocede e pode explorar.

- Surpreende-me que não saísse voando por uma janela.

Natalya lhe lançou um olhar frio.

- Sou muito boa no que faço. Só faço voar as coisas que quero. – Ela estava se distraindo novamente, incapaz de se concentrar na conversa. Deu as costas a seus visitantes, desejando erguer o cabelo. As garras estavam perigosamente perto e ela flexionou os dedos várias vezes, para aliviar a dor.

A necessidade de se estender e tocar a mente de Vikirnoff a sacudiu, por sua intensidade. Podia sentir seu coração palpitar e o suor começou a brotar de seu corpo. Ele não estava morto. Estava dormindo, somente dormindo. E quando despertasse, ia matá-lo. Desejava lhe estrangular lentamente por fazê-la passar por este inferno.

- Faz voar as coisas com freqüência?

- Jubal! - Objetou Gabriel.

- Sou curioso. Ela é igual a Joie. Juro! Sempre estou rodeado de mulheres que acreditam que podem com o King Kong.

Um sorriso relutante apareceu no rosto de Natalya.

- Eu adoro esse filme.

-O que está vendo? – Ele assinalou para a televisão.

-Não me lembro. - E não lembrava. Adorava os maravilhosos shows antigos e os filmes da serie B com seus antiquados efeitos especiais. Não importava o idioma em que estivessem, sempre proporcionavam entretenimento, mas agora não podia se lembrar de uma só coisa que tivesse visto em todo o dia.- Mas não era King Kong.

Não podia ter uma pequena conversa com desconhecidos. Aprendera como aparentar ser amistosa e nunca dar nada de si mesmo, mas de algum modo sua vida havia mudado. Em qualquer caso, quando estava tão perturbada, o que nunca havia acontecido antes de Vikirnoff, a tigresa rugia procurando a supremacia para protegê-la e isso significava que Jubal e Gabrielle Sanders poderiam não estar completamente a salvo.

Natalya se sentia vazia sem Vikirnoff. Retorceu os dedos e deslizou para baixo, com as costas contra a parede, até se sentar no chão em meio a suas armas. Não temia os dois irmãos num lugar tão estreito. A tigresa acabaria com eles se as armas mostrassem ser inúteis, mas se sentia vulnerável. Nunca estivera tão vulnerável, descarnada e exposta. Maldito Vikirnoff e todos os homens dos Cárpatos!

- Natalya. - Havia compaixão nos olhos cinzas de Gabrielle. - Raven Dubrinsky me disse que uma, há muitos anos, Mikhail teve que ir para terra sem ela. Ele estava ferido e ela ainda não havia se convertido. Disse que foi um dos períodos mais difíceis de sua vida e queria que te dissesse que se pudesse estar contigo agora, teria vindo.

- Qual éa gravidade dos ferimentos do príncipe? - Perguntou Natalya, desesperada para encontrar assunto que mantivesse sua necessidade de Vikirnoff a raia. Se precisar de um homem era uma conseqüência de ser companheira de um Cárpato, estava mais decidida que nunca, a encontrar uma forma de romper o ritual vinculante. Não só era um aporrinho, mas era humilhante pensar que não podia ficar semVikirnoff alguns dias. Havia dado a volta ao mundo várias vezes e sozinha. A maior parte de sua vida tinha sido solitária. Não precisava de um homem.

-Seus ferimentos são bastante graves. Não o vi, mas Raven estava muito preocupada. Ele caiu numa armadilha. - Disse Jubal. - Ele e Falcon foram atraídos por vários vampiros, a dois lugares distintos. Acredito que os vampiros estavam tentando cansá-los, mantê-los feridos e enfraquecê-los com a perda de sangue em vez de matá-los.

-Vikirnoff acredita que os vampiros estão se reunindo para matar o príncipe. Maxim, o professor vampiro, disse a Vikirnoff que matariam Mikhail e a raça inteira estaria condenada. - Natalya tamborilou com os dedos sobre o chão.- Isso é certo?

-Não estamos aqui há tanto tempo. - Respondeu Gabrielle, mas Gary me disse que o príncipe é o enlace principal entre todos os Cárpatos.

-Gary? - Animou Natalya.

- Gary Jansen é um desses tipos estranhos que podem fazer tudo, saber tudo e falar de forma que você não possa entendê-lo. - Disse Jubal, sorrindo abertamente para sua irmã.

- Não é não. - Gabrielle lançou uma bola de papel em seu irmão. - É o homem mais amável e maravilhoso dos arredores. E mesmo Shea acredita que Gary é o que tem a maior probabilidade de averiguar por que as mulheres dos Cárpatos abortam com tanta freqüência. – Ela sorriu para Natalya. - É brilhante.

-Um estranho e brilhante homem. - Assinalou Jubal.

Gabrielle enrugou o nariz para seu irmão.

Imediatamente Natalya se sentiu sozinha. Ela estava acostumada brincar com o Razvan. O apego entre os irmãos Sander lhe recordava o quanto havia perdido.

- Eu tive um irmão uma vez. – Ela apoiou a cabeça contra a parede. – Éramos gêmeos. Ele era bonito, Gabrielle, como seu irmão. E um coquete terrível. As mulheres o perseguiam todo o tempo... e ele gostava.

- Jubal gosta das mulheres, só que não de suas irmãs. - Disse Gabrielle.

- Eu gosto de minhas irmãs, especialmente quando não falam. E tenho que admitir. As duas são loucas. - Jubal sorriu para ela. - Como você. Deixava seu irmão louco também?

Natalya pensou nisso.

- Provavelmente, sim. Só tenho lembranças, retalhos e pedaços de minha infância com ele e tivemos que nos separar quando crescemos. Depois disso, encontrávamos a noite, em sonhos e trocávamos informações.

Gabrielle franziu o cenho.

- Por que tiveram que se separar? Nós vivemos vidas diferentes mas nos vemos todo o tempo.

Natalya lutou para procurar suas lembranças. Estava tendo mais e mais retalhos dela e unindo partes de informação.

-Não era seguro. Fomos por caminhos opostos. Ele não sabia que podíamos nos comunicar em sonhos.

-Seu irmão? Estou confuso. - Disse Jubal.

Natalya sacudiu a cabeça.

-Meu irmão, não. Um homem. Acredito que pode ter sido meu avô. Em qualquer caso, Razvan e eu nos separamos por necessidade. Ele era diferente. Queria filhos. Era um grande sonho para ele, mais que ter uma esposa. Esteve com uma mulher na Califórnia e depois averigüei que nasceu uma menina. É claro que agora é adulta. Também tinha uma mulher no Texas e uma na França. - Antes que nenhum deles pudesse comentar nada, ela levantou o olhar. - Não ao mesmo tempo, ele era um vagabundo e nunca ficava no lugar com uma pessoa. Não tenho idéia se teve mais filhos. Nunca me disse isso, mas desejava muito um filho e não me surpreenderia. Mataram-lhe antes que visse sua filha da Califórnia. Ela nem sequer sabia quem era ele.

-Sinto muito, Natalya. Deve ter sido terrível para você, perdê-lo. Pergunto-me por que queria filhos se não podia ficar num lugar. Teria sido duro para as crianças, que seu pai os deixasse todo o tempo. - Disse Gabrielle.

-Seus pais ainda vivem? - Perguntou Natalya.

-Oh! Sim. - Jubal respondeu com um sorriso. - Estão bem vivos e imagino que estão assando Joie e Traian por não esperar para se casarem com a presença deles. Mamãe estará realmente irritada, verdade, Gabrielle?

-Essa é uma forma agradável de dizer isso, Jubal. Traian vai ter uma pequena surpresa. Desejaria estar em casa para ver, Queria ser uma mosca na parede.

A Natalya gostava da forma em que eles zombavam e brincavam um com o outro. Era claro que eram muito unidos e isso a fazia desejar novamente uma família. Embora se sentisse unida a Razvan, havia sido incapaz de passar muito tempo com ele. Seus abraços eram em sonhos, em vez de em carne e osso. Eles passaram suas longas vidas com medo da escura sombra que os espreitava. Razvan tinha tomado deliberadamente o embate para liberar Natalya, mas ela havia ficado sozinha.

-Parece triste. - Disse Gabrielle.

- Foi mais para meu irmão. - Disse Natalya esfregando o queixo com os joelhos. - E a essa cabeça dura do Vik. - Estava acostumada a estar sem Razvan, mas Vikirnoff abrira caminho até seu coração e parecia grudado a ele.

Gabrielle intercambiou outro olhar divertido com seu irmão. Havia passado tempo com homens dos Cárpatos e a idéia de um deles sendo etiquetado como cabeça dura ou sequer que se utilizasse um apelido como "Vik" era gracioso.

- Joie fala assim quando quer estrangular Traian.

-Se ele se parecer com Vikirnoff, provavelmente merece que seja estrangulado. E Vik é muito sério o tempo todo. E gosta de dar ordens. Não pode dizer as coisas com voz agradável, tem que me dar a grande ordem. Ele é realmente um retrocesso às idades escuras. Sabe do que estou falando, não? Do grande homem das cavernas golpeando o peito.

-Não gosta que você lute com vampiros, certo? - Adivinhou Jubal.

Natalya ergueu os olhos para o alto, num gesto de exasperação.

- Isso é deixá-lo suave, mas pelo menos eu sei quando correr e lutar outro dia. Ele quer cuidar do mundo, sozinho.

Um lento sorriso se estendeu pelo rosto de Jubal.

-Isso que é bom. Que pena que Gary não esteja aqui para presenciar isto. Ele adora observar a interação entre os homens dos Cárpatos e suas mulheres.

-Onde ele está? - Perguntou Natalya. Queria chorar. Arranhar as paredes e o chão. Não ia romper em pedaços diante de desconhecidos.

- Gary está nos Estados Unidos no momento, mas voltará logo. - Disse Gabrielle.

Natalya estava começando a se sentir desesperada. Tinha que trabalhar em se concentrar na conversa.

-Ele luta com vampiros também?

- A sua maneira, mas não fisicamente. - Disse Jubal. - A sociedade... – Ele franziu o cenho. – Você ouviu falar disso, não é? Humanos dedicados a destruir a todos os vampiros, mas não parecem ser capazes de discernir a diferença entre um vampiro e um Cárpato. De qualquer forma a sociedade odeia Gary. Ele está em sua lista negra.

-Você luta com vampiros? - Perguntou Natalya curiosamente.

Jubal estendeu as mãos ante ele.

-Não sou dos melhores lutando com vampiros, mas posso aprender. Não sabia que existiam, até recentemente.

-Voce usa um lança-chamas? - Perguntou Natalya. – Você tem um? Se pudesse colocar as mãos num limpa carburadores, funcionaria melhor que o spray de laca.

-Está obcecada com os lança-chamas.

- Já matou um um vampiro centenas de vezes, antes que ele morresse? –Natalya flexionou os dedos doloridos, novamente. Seus músculos estavam começando a se contrair dolorosamente.

Jubal notou que os olhos de Natalya mudavam de cor, passando de um formoso verde mar a um opaco extranhamente nublado. Seu cabelo leonado se escureceu a um profundo negro com estranhas raias que começavam a aparecer através do mesmo. Golpeou ligeiramente Gabrielle com o pé. Ela assentiu. Já tinha visto sinais de agitação e sentia o crescente perigo no aposenta.

-Já que a maior parte dos paroquianos utilizam carroças, acredito que as possibilidades de que encontre um bom sortido de limpa carburadores são virtualmente zero, por aqui. - Disse Jubal.

- Essa é uma situação desagradável. - Disse Natalya com um pequeno suspiro. - Mas chamei Slavica antes e lhe perguntei se podia me conseguir várias latas de laca em aerossol, deveria ter um bom sortimento.

- Vikirnoff viu sua invenção? - Perguntou Jubal.

Natalya lhe enviou um olhar que prometia represálias.

- Pode rir tudo o que queira, mas se estiver numa batalha com o não-morto e se ele levanta trinta vezes depois de que você os abata, uma lata de laca e um acendedor vão te parecer realmente bons.

Ele gemeu.

-Infelizmente, pode ser verdade. Não quero ter nada a ver com essas criaturas. De fato, nem sequer quero saber deles.

Natalya sorriu, esgotada.

- Nem eu.

-Natalya. - Disse Gabrielle. – Você está esfregando o tornozelo. Está ferida? Poderia dar jogar uma olhada. Fiz faculdade de medicina Então poderia ajudar se estiver ferida.

Natalya baixou o olhar para seus tornozelos. Nem sequer tinha notado que estava esfregando-o. Colocou sua perna para mais perto dela.

-Infelizmente não pudemos curá-lo de tudo. Não sei o quanto perigoso poderia ser que o tocasse.

- Eu já lidei com vírus candentes, Natalya. - Tranqüilizou-a, Gabrielle. - Por que se preocupa que seja perigoso para mim? – Ela sentou-se no chão, junto a Natalya, empurrando alegremente para o lado, uma arma e uma faca muita afiada. - Deixe-me ver.

-Esta é realmente uma ferida de entrada. Era agud a princípio, até o osso e depois aconteçeu isto. Vikirnoff disse que os parasitas eram capazes de entrar em meu sistema através disto. - Natalya subiu a perna da calça de algodão e mostrou a Gabrielle e Juval o que restava do rastro da mão que marcara sua perna. - Ele entrou e eliminou o que pôde. Disse-me que eram microorganismos e que acreditava que era capaz de se livrar deles, mas não pôde eliminar tudo. Dói muito.

Gabrielle estudou o rastro cuidadosamente.

-Parece...

-Pele. – Completou, Natalya-. Pele clonada. Parece ser de aproximadamente uma polegada de grossura e se apegou à pele do anfitrião, neste caso meu tornozelo e pantorrilha, como um enxerto de pele.

-Um enxerto completo normalmente requer cinco dias. - Assinalou Gabrielle.

-Isso é o que o faz tão extraordinário. Meus globulos sangüíneos crescem muito depressa, da malha fina do rastro da mão, unindo as duas partes. – Ela olhou para Gabrielle. - Por isso Vikirnoff não pôde eliminá-lo, porque se converteu em minha pele, respirando e transpirando, fazendo todas as funções da pele. É parte de mim.

- Por que seu corpo não o rechaça? - Gabrielle estava se aproximando, inclinando a cabeça para examinar a região.

-Já suspeita.

- Sua medula óssea ficou tocada quando o tornozelo saiu ferido. Utilizaram suas próprias células mãe. É como aconteceu, não é? - Perguntou ,Gabrielle. - Todo rechaço potencial do sistema imunológico é eliminado porque qualquer material clonado do anfitrião será exatamente igual ao anfitrião.

Jubal manteve a mão no alto.

-Espere um minuto. O que está dizendo? Alguém a atacou e recolheu suas células mãe para clonar sua pele? Achei que só se podiam utilizar células mães embrionárias para esse tipo de coisas.

-Não. - Gabrielle sacudiu a cabeça, mas estava observando atentamente Natalya. - As últimas investigações nos dizem que as células mães adultas funcionam também e é claro, uma das fontes mais bem-sucedidas de células mãe é a medula óssea.

- Isto é simplesmente grotesco. Por que alguém queria te fazer isso? Só para te marcar? Não posso aceitar, quando a tecnologia tem que ser muito sofisticada -Comentou Jubal.

- É minha tecnologia. - A voz de Natalya era muito baixa.

-O que? - Exigiu Jubal.

-Foi minha idéia, meu experimento. Entrego-me a desafios todo o tempo, coisas a obter através da mistura de ciência e outras habilidades que tenho. Encontrei uma forma de injetar microorganismos num anfitrião sem que detecte os parasitas e sem rechaço. – Ela baixou o olhar a suas mãos. - Eu fiz isto. Os vampiros podem marcar as pessoas e rastreá-los através dos parasitas.

- Como são injetados os microorganismos em seu corpo? - Perguntou Jubal.

-Através da mão, embora eu não fiz nada tão dramático como deixar a marca de da mão em nada. Funciona pelo mesmo princípio que a picada de um mosquito.- Natalya descansou a cabeça contra a parede e limpou as pequenas gotas de suor que dedilhavam sua fronte. Soubera no momento em que Vikirnoff lhe explicou que estava acontecendo com sua cunhada. Seu próprio descobrimento fora utilizado contra ela.- Os parasita se injetam no anfitrião. A coisa é assim. Não estava experimentando introduzir parasitas indetectáveis num corpo. Estava usando esses parasitas como armas. Fui capaz de unir agentes químicos altamente perigosos aos parasitas. Fui capaz de fundir várias coisas diferentes aos parasitas e colocá-los num anfitrião, sem ser detectado.

Jubal olhou para Gabrielle.

-Isso é possível?

Gabrielle assentiu.

-Sim. É claro que é. A investigação com células mãe, o enxerto e mesmo unir agentes químicos a microorganismos é muito avançado. Sim, pode acontecer.

-Como obteram os vampiros, minha investigação? - Natalya fez a pergunta em voz alta. Não sabia por que havia confessado a Vikirnoff, quando havia dito a dois perfeitos desconhecidos, mas de algum modo tinha sido bem mais fácil.

Fez-se um pequeno silêncio. Gabrielle suspirou brandamente.

-Onde realizou sua investigação, Natalya e por que não ouvi falar de você? Este é um campo no qual estou muito interessada e me mantenho atenta.

Natalya pensou. Seu corpo estava balançando para frente e para trás, sem conhecimento novamente e quando foi consciente e envolveu os braços ao redor dos joelhos firmemente num esforço de recuperar o controle.

-Não me lembro de muitas coisas de meu passado. Há retalhos, mas adoro o conhecimento e quando me expõem desafios, não posso resistir. - Especialmente se isso significava que Razvan não sairia ferido. Como podia explicar sua vida?

Não tinha sentido para ela e com os retalhos que tinha, não podia figurar tudo.

-Quem sabia de sua investigação?

-Não sei.

Fez-se outro silêncio. Natalya lia a suspeita em seus olhos e não pôde culpá-los.

- Obviamente alguém que me atraiu até os vampiros. O que significa que conheço alguém que está aliado a eles. - Seu avô. Tinha que ser Xavier. Não podia lhe recordar ordenando os experimentos, mas por seus sonhos sabia que Razvan a protegia e ela tentava protegê-lo. Mesmo depois de acessar ao globo de cristal, não podia recordar o aspecto de Xavier. E isso era realmente aterrador.

Esfregou as mãos pelos braços tentando esquentar-se.

- Vocês sentem frio? Faz frio aqui? – Ela estava tremendo. O tigre estava se elevando num esforço de protegê-la, para evitar que estivesse tão agitada e estava procurando um objetivo.

Natalya enterrou os dedos no chão do dormitório, as unhas arranharam a madeira antes de poder se deter. Queria chorar outra vez, arranhar algo até que a selvagem dor nela desaparecesse para sempre. Era terrível e a atacava quando menos esperava. Mesmo a tigresa estava chorando, profundamente em seu interior, numa crua solidão que parecia comê-la de dentro para fora. A madeira se desprendeu do chão em longas tiras. Baixou o olhar para as finas lascas.

-Talvez devam ir embora. Não estou segura de que continuarão a salvo. Parece que estou passando por um momento muito difícil. – Ela engoliu o nó de sua garganta, que ameaçava estrangula-la. - Este assunto de companheiros é muito incômodo.

Jubal assentiu.

- Já ouvi isso. Ele, na verdade está dormindo, se curando na terra. Não está morto. Sabe disso.

- Intelectualmente sei que não está morto. E agora... mas minha mente precisa tocar a dele, por tranqüilidade. Ele disse algumas palavras, como um feitiço vinculante e pude sentir a diferença imediatamente. Mesmo se não se crê nesse tipo de coisa como eu, o vínculo funciona. Estou trabalhando numa forma de revertê-lo.

A sobrancelha do Gabrielle se elevou.

-Acha que há uma forma de revertê-lo? Eu acreditava que os companheiros desejavam estar juntos. Não quer estar com Vikirnoff?

Natalya abriu a boca para negar, enfaticamente. É claro que não queria estar com ele e certamente ele não queria estar com ela. Era algo químico. Luxúria, talvez. Adorava beijá-lo. Mas passar sua vida com ele? Por toda a eternidade? Desejava isso? Com um homem que desejava June Cleaver?

Estava tão distraída com seus medos por Vikirnoff, que quase perdeu os passos fora da porta. Natalya levantou a mão pedindo silêncio e se aproximou com sua arma. Jubal pegou a faca.

O golpe na porta foi de tentativa.

- Natalya. Sou eu, Slavica. Trouxe seu chocolate noturno.

Nada de sprays de laca. Chocolate. Natalya nunca pedia chocolate à noite! Assinalou para Gabrielle que fosse para o banheiro e a Jubal que permanecesse à esquerda da porta. Ela se colocou à direita, com a arma pronta e todo rastro de agitação havia desaparecido.

 

-Por favor entre, Slavica. – Chamou, Natalya. - Pode abrir a porta?

-Sim, tenho minha chave. - O que era incomum. Slavica nunca entrava nos quartos dos hóspedes, sem ser convidada. Ela chamaria e esperaria que o hóspede abrisse a porta.

Natalya inalou. Brent Barstow. Sempre soubera que ele era algo mais que um hóspede. Era muito observador e tinha visitado seu aposento uma vez, o que significava que era um pervertido muito horripilante ou que não tramava nada de bom.

A chave girou na fechadura e Slavica abriu a porta. Pesadas toalhas de mesa cobriam janelas e portas, sobre as cortinas e a noite estava caindo. Natalya sabia que ele levaria um momento ou dois para que seus olhos se ajustassem da brilhante luz do vestíbulo, para a escuridão de seu quarto. Slavica entrou levando uma bandeja com um barro fumegante nela. Seus olhos estavam avermelhados e havia um ligeiro machucado em sua face. A fúria estalou através de Natalya e esmagou a tigresa, antes que ela pudesse se elevar e fazer vingança.

Diretamente atrás de Slavica, Brent Barstow a seguia, igualando passo a passo, o cano de sua arma pressionada firmemente contra a nuca dela. Natalya fechou a porta e pressionou sua pistola no pescoço de Barstow.

-Assim estão as coisas, amigo. Tive um dia realmente ruim. Não quer saber como foi meu dia. E acredito que estou desejando me desafogar. Isso está errado, sabe? Acredito te importa mais sua vida, que a minha e de um completo desconhecido. Você acredita?

-Não vai apertar esse gatilho. - Disse Brent.

- Na realidade, estou desejando apertar o gatilho. Você ameaçou a dona da estalagem. Não que fosse me colocar num monte de problemas. Dê uma olhada pelo quarto, carinho. Pareço uma mulher calma? – Ela apertou o cano da arma, mais forte contra seu pescoço. - Não estou calma. Eu gosto de fazer voar coisas.

-Tenho a família dela escada abaixo e se me aconteçer alguma coisa, estão todos mortos.

- Maisa razão ainda para te chutar o traseiro e ir me ocupar do problema.

Brent baixou a arma e Jubal pegou Slavica até a segurança atrás dele.

-Bateram na cabeça de Mirko várias vezes. Não me deixaram me ocupar dele. E têm a Angelina... -Slavica deixou a bandeja e pressionou os dedos trêmulos contra a boca. - Há três deles lá embaixo.

Natalya golpeou a cabeça de Brent, fazendo-o cambalear.

-Isso é para você deixar de ser tão descarado. Raptou uma menina? Juro que se houver algum vampiro vagabundo rondado por aqui, vou te oferecer a eles, como jantar.

-Não o mate, Natalya. - Disse Jubal-. Temos que saber que ele está fazendo aqui.

Gabrielle apareceu.

- Lembro que quando ficamos aqui antes, Jubal. Ele ficava dando voltas pelo bar. Tinha um olhar peculiar, quando nos via entrar e me fixei nele por isso.

-Então vocês estão aliados aos vampiros. - Disse Brent, seus traços retorcidos com ódio fanático.

-Sinto muito colega, mas está equivocado. Eu mato vampiros, não estou com eles. São uns pequenos demônios malvados e endemoniadamente difíceis de matar. Tem que ter a técnica correta...

-Não comece com o assunto do lança-chamas, Natalya. – Advertiu, Jubal. - Está obcecada com o assunto.

-Isso é impossível, etiquetamo-lhe como vampiro há muito tempo.

- Que surpresa. Nem sequer pode conseguir a informação correta. Não é muito brilhante, certo? -perguntou Natalya.

- Para trás, Natalya. - Advertiu Jubal. Ela estava tremendo outra vez e notou que seus dedos se fechavam formando garras. – Respire fundo um momento. Não posso permitir que dispare nele até que consigamos mais informação. -Fez uma careta quando ela segurou Brent pela gola da camisa e o empurrou até uma cadeira. - Escolheu o quarto errado. Ela tem um maldito arsenal aqui e sabe como utilizá-lo. Por que atacaram à família de Slavica?

Natalya escutava Jubal interrogar o homem, só com uma pequena parte de sua atenção. Concentrou-se em tocar a mente de Brent Barstow, sentindo-o na forma da tigresa. Ele era um fanático. - Vikirnoff, Acorde! – Ela utilizou cada grama de sua telepatia para alcançá-lo. Podia esta situação ficar pior? - Tenho vampiros, Reis Troll e agora algum estúpido raptando meninas e ameaçando os hospedeiros. Permiti que ficasse em sua confortável caminha, com seu precioso sono, mas você enviou esta gente para fazer-se de babá e agora estão todos em perigo. Levante o traseiro daí e vêem me ajudar a sair desta.

Ela conteve a respiração esperando algo dele que indicasse que estava vivo e bem. Precisava de sua resposta, mesmo que ele bocejasse e voltava a dormir.

Natalya o sentiu primeiro. Ele não disse nada, mas sua consciencia estava na mente dela. E então seu calor começou a se estender através do corpo frio dela. Sentiu-o avaliar suas lembranças e pensamentos, para saber tudo o que tinha acontecido. Ele estirou-se, num grande predador desencapando suas garras e flexionando seus músculos. A impressão foi forte em sua mente. O alívio a alagou. Não só alívio, mas tremendo alívio e a seus pés, fúria.

Enquanto ela estivera sofrendo, ele estava roncando sem um só pensamento para ela.

- Gosto do amoroso recebimento, ainaak enyém e é bom saber que não encontrou uma forma de nos separar. O que esteve fazendo?

- Salvando o mundo enquanto você dormia, o que acha?

- Estou conseguindo uma indiscutível impressão de fogo. Roupa queimando-se, seu aposento cheio de fumaça fazendo com que tivesse que abrir as janelas e a porta do balcão um momento. - Havia uma reprimenda definida em sua voz e a sensação de presas expostas.

- Tente se enfocar no que importa aqui. Este idiota acredita que sou um vampiro e ele e três homens raptaram à família de Slavica.

- A metade do tempo fala por adivinhações. Estarei aí logo. Não queime a estalagem enquanto espera por mim.

- Quem disse de esperar? Não vou deixar a menina desprotegida. Em seu estado atual Slavica está fora de si e me sinto responsável. E você deveriase sentir também. Se eu não tivesse ficado tão perturbada teria ouvido os sussurros de conspiração e poderia ter evitado.

- Ah. - Houve um momento de silêncio. – Estou notando.

- Vê o que? – Ela suspeitava de seu tom amável.

- Xena, a princesa guerreira. Você é Xena a princesa caçadora. Deve ser de um desses filmes e se identifica com ela.

- Ora, cale! Jesus! Não quero entrar na discussão da Xena agora. Ainda sou muito consciente de que deseja Susie Homemaker como companheira. E acredite Vik, não vale a pena o sofrimento. Susie pode ficar com você.

Ele se estava elevando. Sentiu-o explodir através da terra, até o céu. O poder surgiu através dele até ela, como se houvesse tanta força nele que não pudesse contê-la. Não sabia como era possível que ele tivesse se curado e estivesse em plena forma, embora a energia rangia no ar como uma carga elétrica. Apesar de tudo o que estava acontecendo, a alegria se elevou nela, junto com a pura e consciente força física dele.

- Sinto-o um pouco pálido, como se não estivesse de todo, recuperado. Manterei-o forte enquanto se alimenta. - Não podia permitir qiue ele acreditasse que ela estava extasiada por que estivesse vivendo para ela.

- De onde tira as coisas que diz? E eu acreditava que me alimentaria de você. - Ela recebeu a imediata impressão de dentes brancos e fortes apertando-se e um fluxo de imagens muito eróticas.

- Pervertido. - Não ia admitir que a excitação continuasse atravessando-a e nem o calor em sua corrente sangüínea.

Voltou sua atenção para Brent Barstow. O homem cheirava a medo e violência, uma combinação perigosa. Continuava sacudindo a cabeça e insistindo que Slavica e sua família estavam com os vampiros, facilitando-lhes vítimas para encher suas filas.

Doente por seu ódio natural e sua mente fechada, ela se abaixou, com o rosto a centímetros do dele, permitindo que a tigresa se elevasse, deixando que ele pudesse ver o anseio de matar em seus olhos.

-Está contando com que as pessoas sejam civilizadas, quando você não é, mas desta vez, tio, cometeu um grave engano. Quando ameaçam meus amigos, não sou civilizada.

- Natalya. - Advertiu Jubal. – Ela é um imbecil fanático. Entreguemos-lhe às autoridades.

-Se mata vampiros como diz. - Disse Barstow. - Então estamos no mesmo lado. Não há necessidade disto.

As sobrancelhas de Natalya se ergueram.

-Não há necessidade? Quando se têm o marido e a filha de Slavica, uma jovem inocente que não é possível que tenha nada a ver com vampiros, presa em sua própria casa? Não estou de seu lado e nunca estarei.

- Em qualquer guerra há sacrifícios. E estamos em guerra. - Declarou Barstow.

Slavica tinha estado em silêncio, mas um simples som lhe escapou da garganta e foi diretamente ao coração de Natalya. Desejou rasgar ao homem em tiras. Podia sentir suas mãos fechando-se em garras e uma selvageria elevando-se nela.

Gabrielle deslizou entre eles e colocou a uma mão amável sobre o braço de Natalya.

- Este homem não é o problema agora. São seus amigos. O mais importante é averiguar como trazer de volta à família de Slavica, a salvo.

- Estão aliados com os vampiros. - Reiterou Barstow, fulminando Slavica com o olhar. - Toda sua família está aliada aos vampiros.

-Aliada? Aliada você diz. - Repetiu Natalya. - Tem alguma idéia do quanto estúpido você é? Os vampiros não se aliam. Rasgam-lhe a garganta e drenam cada gota de sangue de seu corpo. Eles não se aliam. De onde sai pessoa como você? - Deu-lhe as costas, incapaz de suportar olhar para ele.

Podia sentir Vikirnoff. Ele estava perto, alimentando-se com maneiras receosas, mesmo amáveis, enquanto se assegurava de não tomar mais sangue do que necessário, deixando o granjeiro enjoado. Gostava desse traço nele, essa cortesia do Velho Mundo e o cuidado que parecia ter com osoutros. Com ela. Desejava vê-lo. Dizia a si mesma que era somente porque ele podia ler as mentes e extrair informações, assim como se voltar invisível.

- Ele tem uma faca! – Gritou, Jubal.

Slavica gritou. Gabrielle ofegou. Foi esse som, tão revelador no mundo de Natalya, esse pequeno ofego sem respiração, de extrema surpresa, que a fez voltar-se. Grabrielle a olhava para ela, com os olhos totalmente abertos, o sangue drenado de seu rosto. Estendeu o braço para a Natalya e sua mão tremia. Natalya a segurou, sentiu-a cair tentou pousá-la no chão.

- Vikirnoff! - Gritou por ele. Isto não podia estar aconteçendo. Gabrielle com seu brilhante sorriso e inteligentes olhos. Ela havia se colocado protetoramente diante de Barstow para evitar que a tigresa o matasse. Não tinha sentido. Nenhum. Chorou por dentro, mesmo enquanto a raiva crescia até se converter num monstro rugiente pedindo para se liberar.

Jubal já estava no chão, lutando pela faca. Recebeu uma facada no peito antes de cortar a mão de Brent e golpeá-la repetidamente contra o chão, obrigando-o a soltar a faca.

Slavica saltou à ação, ajudando Natalya a baixar Gabrielle no chão, virando-a para ver a extensão da ferida.

- Ele apunhalou-a várias vezes - Havia uma reserva em sua voz. - Olhe a lâmina. Está trincada.

Natalya a olhou nos olhos. Havia dor e resignação. Três vezes no rim e quando Gabrielle se virou, tinha-a apunhalado repetidamente no peito.

- Vikirnoff! Preciso de você!

-Estou aqui. – Ele já estava atravessando a porta, passos rápidos. Alto e poderoso, vestindo o manto de autoridade e absoluta confiança que normalmente a fazia rilhar os dentes, mas agora a encheu de alívio.

Sentou-se no chão, segurando Gabrielle nos braços, enquanto ela e Slavica tentavam conter o fluxo de sangue.

Vikirnoff se abaixou e torceu a cabeça de Barstow. O rangido foi repugnante, mas finalmente ele ficou imóvel

Jubal saiu engatinhando debaixo do homem.

-Salve-a. Sei que pode salvá-la. Ela é psíquica. Pode torná-la como você, se tiver que fazê-lo. - Corriam lágrimas por sua face-. Por que não o prendi? Nem sequer a registrei uma vez que tomei a arma.

- Pode salvá-la? Por favor. Por favor, Vikirnoff. Diga-me que pode salvá-la. Eu fiu descuidada. Isto é minha culpa. Ela é tão doce e inocente. Não merece isto. Por favor, salve-a. - Natalya não podia olhar para ele, não podia olhar os outros. Gabrielle estava no chão com sangue correndo de seu corpo porque Natalya havia sido muito confiada.

Outra voz irrompeu em sua mente. - Deve salvá-la se for possível.

Vikirnoff reconheceu a voz do príncipe. - Farei o que posso.

Ele inclinou-se sobre o Gabrielle e a olhou nos olhos. Seu espírito estava desvanecendo. Não havia nenhuma forma, sequer com suas habilidades curadoras de que pudessem salvá-la como humana.

- Ouça-me, parente dos de minha raça. Se deseja que tente a conversão, o farei. É sua decisão. Pode viver como um de nós?

-Gabby, por favor -A voz de Jubal se rompeu.

Gabrielle assentiu e fechou os olhos, a respiração abandonando seu corpo num longo e esfarrapado suspiro. O sangue borbulhou através de seus lábios.

Natalya ouviu Vikirnoff amaldiçoar para si mesmo. Tocou-lhe o braço. - Por favor faça. Sei que parece impossível, mas ela é especial.

- Estarei preso a esta mulher para sempre, Natalya.

Ela encontrou seu olhar. Sabia que ele pedia sua permissão. E estava advertindo-a de coisas que ela não podia saber. Não compreendia completamente o que ele estava tentando dizer, não podia arrancar a explicação da mente dele, mas não importava. Não podia importar. - Por favor faça.

- Por você, embora não porque seja responsável. Você não é, mas porque você me pede isso. Os outros estão vindo. Mantenha-os afastados de nós. – Deveria rodear seu espírito... Sua alma e prendê-lo a ele, para que não se afastasse deles. Vikirnoff tomou respirou ar purificador e se enviou fora de seu corpo para entrar no do Gabrielle, deixando-a vulnerável ao ataque. A cura do Gabrielle não seria rápida nem fácil.

Natalya engoliu o medo e a culpa e colocou suas armas, acrescentou facas a seu cinturão e clipes extras. Passou sobre o corpo de Brent.

-Slavica, se ocupe dos ferimentos do peito do Jubal, enquanto eu nos cubro. - Não tinha nem idéia do por que, mas a fé absoluta de Vikirnoff em sua habilidade para lhe guardar as costas, a deixava brilhando por dentro.

Jubal estendeu a mão.

-Me dê uma arma. Posso atirar também.

-Acredito que Mikhail está a caminho, Slavica. - Tranqüilizou-a Natalya enquanto ofereceu sua pistola de a Jubal. - Uma vez que se livre desses idiotas, terá seu marido e sua filha de volta. - Olhou fixamente para Vikirnoff. Ele estava tentando reparar os ferimentos o suficiente para se dar tempo para o primeiro intercâmbio de sangue. Sabia que seria importante introduzir seu sangue ancestral no corpo de Gabrielle para acelerar a cura.

Demorou um segundo para que se impregnasse do fato, de que desde que Vikirnoff se elevara, estivera tocando sua mente, vivendo nela como uma ligeira sombra, temerosa de lhe deixar escapar. Agora podia sentir sua sensação de urgência, sua preocupação de não poder fazer o que lhe tinha pedido, quando o tempo era tão escasso e a tarefa tão grande. Pôde ouvir os suaves sussurros dos outros Cárpatos, a voz de uma mulher, Joie. - “Por favor. Por favor.” - A voz de um homem, Traian. - “Ofereço livremente o que precisar, quando mecessitar, mas mantenha-a viva para nós”.

Havia muita pressão. Por que não o deixavam em paz? Desejou lhe envolver em seus braços e mantê-lo a salvo das demandas de tantos outros, mas havia sido ela que o colocara nesta posição. Fora ela quem pedira. Deslizou a mão pela cabeça dele, num ligeiro toque, antes de se encaminhar para a porta.

Vikirnoff selou os ferimentos num esforço de conter o fluxo de sangue. O coração estava em má forma. O sangue estava sendo bombeado através dos profundos cortes no ventrículo esquerdo. A artéria que conduzia à câmara estava seccionada e o sangue enchia peito e pulmões. O rim e o coração estavam quase destruídos pelo movimendo retorcido que seu atacante havia utilizado e pelas dentadas bordas trincados da lâmina da faca. Tentar trabalhar rápida e eficientemente em tantos locais era quase impossível. Não podia permitir que a dúvida entrasse em sua mente, mas o problema era vasto, tão complexo e ela estava achando difícil saber em que direção se voltar primeiro.

Mikhail Dubrinsky, o príncipe dos Cárpatos entrou a passos rápidos. Imediatamente, uma segunda luz branca de energia entrou no corpo de Gabrielle. Vikirnoff reconheceu o imenso poder, instantaneamente. - Tenho o coração, você se ocupe dos pulmões. - Vikirnoff dirigiu, agradecendo a rápida presença do outro.

- Falcon está aqui. Unirá-se a nós quando ajudar sua companheira a dispor do inimigo. Raven e Sara estão a caminho.

- Diga-lhes que se apressem. Preciso de alguém trabalhando com o rim.

Vikirnoff se estendeu imediatamente para incluir Natalya no círculo de informação. Não precisava dela tentando cortar a cabeça de Falcon com sua espada. – Ele chegará por trás deles e não o verão. Nem tampouco você, mas estará aí para te ajudar.

- Se não puder vê-lo, não é provável que vá lhe fatiar a cabeça. Não se preocupe por mim, sei o que estou fazendo. Ocupe-se de Gabrielle.

Vikirnoff trabalhou meticulosamente reparando o dano do coração. Ela era uma mulher humana, não Cárpato. Não via como seu corpo podia atravessar o rigoroso processo de conversão quando seu coração estava tão gravemente prejudicado. Não estava viva. Mikhail estava respirando por ela enquanto tirava o sangue de seus pulmões. Vikirnoff continha seu decaído espírito, falando brandamente, consoladoramente com ele, sussurrando que ficasse com eles. De longe a voz de uma mulher se uniu à sua, suplicando a sua irmã que ficasse com eles. Não havia sentido nada durante tanto tempo e agora, quando precisava ser forte e as emoções o estrangulavam. Poderia ter sido Natalya.

- Tenha Natalya cuidado.

Natalya permitiu que seu olhar descansasse brevemente em Vikirnoff. Havia linhas de cansaço em sua face. O que estivesse tendo lugar na luta pela vida de Gabrielle era difícil e Vikirnoff se identificava, preocupado por algo que poderia haver acontecido a ela. Deliberadamente roçou sua mente com a dele, tranqüilizando e depois voltou sua atenção a lhe proteger.

O bracelete da porta se retorceu com infinita lentidão. Natalya resistiu à urgência de atirar através da porta, temendo que os intrusos pudessem ter um refém como escudo. Inalou, num esforço de captar os aromas de quem estivesse fora no vestíbulo. Com o sangue, o medo e a adrenalina era mais difícil distinguir aromas individuais, mas estava longe de ser impossível. Havia quatro homens e uma mulher. Um homem muito assustado e uma mulher. Tinham que ser os três cúmplices, o marido e a filha de Slavica.

Assinalando a Jubal que ficasse à esquerda da porta, ela tomou o lado direito e ondeou a mão para Slavica indicando que ficasse na relativa segurança do banheiro. Os idiotas estavam entrando e tinha que suspeitar que haviam tomado Brent prisioneiro ou o matado.

- Eles já vêm. - Enviou a advertência a Vikirnoff. Ele sequer se sobressaltou ou respondeu, seguro de que ela os manteria afastados.

A porta se abriu de um estalo. Explodiram disparos no aposento, reverberando ruidosamente, com o som ensurdecedor no pequeno espaço. As únicas pessoas expostas ao perigo eram Mikhail e Vikirnoff, mas ante a advertência dela, Vikirnoff obviamente tinha erguido uma barreira a seu redor, para proteger ao príncipe e ao Gabrielle.

Os atacantes permaneceram no vestíbulo, defendidos pelos reféns. Mirko sujeitava a mão de sua filha enquanto permaneciam em pé, lado a lado, forçados a obstruir a soleira da porta e assegurar a segurança de seus captores.

Natalya não queria se arriscar e assinalou para Jubal. Ele reagiu instantaneamente, jogando à filha de Slavica, Angelina, no chão enquanto Natalya pegava Mirko. Mesmo enquanto se arrastava para baixo, abraçou sua mudança, as roupas se rasgaram em farrapos e caíram do corpo coberto de pelagem. A tigresa se elevou, rugindo com raiva, passando de estar encurvada a saltar por cima do marido de Slavica, para a garganta de um dos homens enquanto as carras arranhavam e rasgavam os outros dois corpos. A tigresa rasgou e mutilou com implacável fúria até que não houve mais som que o satisfatório estertor da morte nas gargantas.

Natalya deu um último golpe com sua garra para o homem que tinha mais perto, que tinha sustentado Angelina e virou-se e voltou para o aposento, ignorando a forma em que Jubal elevava a sobrancelha e a família Ostojic se encolhia um pouco de medo, quando foi para o banheiro. Nem Mikhail nem Vikirnoff elevaram o olhar de seu trabalho quando passou por eles, roçando-os.

Natalya se vestiu apressadamente. Tinha que voltar a sair e limpar o desastre antes que aparecessem os hóspedes. Deviam ter ouvido os disparos, gritos e o rugido de um animal selvagem e raivoso. Só lhe levou um segundo recolher suas armas do meio de sua roupa rasgada enquanto saía do aposento.

Um homem alto com um espesso cabelo negro estava de pé no vestíbulo examinando o dano.

-Há muito pouco que eu possa fazer. – Disse, Falcon. - Parecia ter tudo sob controle, então simplesmente dirigi os hóspedes para outro lugar e os mantive.

Natalya respondeu com um pequeno encolhimento dos ombros.

-Já estava farta deles. Sou Natalya.

- E eu, Falcon. Noto que você é da linhagem do Caçador de Dragões. Tem os olhos de Rhiannon. Ela era muito respeitada e querida. É uma honra conhecê-la.

Duas mulheres se materializaram à esquerda de Falcon. Uma delas possuía cabelos escuros e olhos incrivelmente azuis e sorriu para Natalya.

-Obrigado por sua ajuda. Sou Raven Dubrinsky. – Ela assinalou à outra mulher que tinha uma espessa cabeleira castanha e enormes olhos azul-violeta. - Esta é Sara, a companheira de Falcon. Oxalá nós tivéssemos se conhecido em melhores circunstâncias. Gabrielle é muito querida para nós e não queremos perdê-la.

-Vikirnoff não vai deixá-la morrer. - Porque ela havia pedido que não deixasse.

-Precisará de três intercâmbios de sangue para convertê-la. – Disse, Raven. - Temo que teremos de espaçar os intercâmbios para lhe dar a força necessária para a conversão e não estou segura de que tenhamos todo esse tempo. É muito arriscado.

- Temos necessidade de voce dentro dela, Raven. – Falcon se manifestou. - Gabrielle está mal. Vikirnoff a segura por um fio. Terá que ver em que pode ajudar. Sarah, querem que você trabalhe no dano infringido ao rim.

-E esta confusão? - Sara olhou ao redor, para o vestíbulo salpicado de sangue. - Não podemos deixá-lo simplesmente assim. Mirko e Slavica perderão todo seu negócio.

- Eu me ocuparei disto. - Tranqüilizou-a Falcon. - Talvez Natalya, você e Jubal estariam dispostos a escoltar a família Ostojic a sua residência e lhes assegurar de que estão a salvo. Eu apagarei a lembrança da mente da filha deles e distanciarei o trauma para Mirko e Slavica. Mikhail gostará de falar com eles quando terminar sua tarefa.

-Sim. Não há problema. - Disse Natalya, assinalando a família de Slavica, que passasse sobre a carnificina do chão. Jubal abriu o caminho escada abaixo, enquanto ela protegia a retaguarda. - Todo mundo está bem? - Perguntou.

Angelina conteve um soluço e assentiu, com olhos enormes.

-Só estou assustada. Não me fizeram mal.

Slavica mantinha o braço firmemente envolto ao redor de sua única filha.

-Bateram em Mirko, mas ele não lhes disse nada. - A raiva se arrastou até sua voz. – Eles colocaram uma arma na cabeça da Angelina.

-Falcon se assegurará de que ela não fique com nenhum trauma permanente. - Disse Jubal. – Voce sabe que eles podem fazê-lo. Lamento muito que isto tenha acontecido, Slavica.

-Não é culpa de nossos amigos e nem tua. Essa gente está louca e vieram a nossa estalagem para espiar.

Natalya se estendeu para roçar o braço de Angelina, angustiada por seu pranto silencioso. Apalpou a garota e deixou cair à mão bruscamente.

- É muito valente. Temos que descer a escada e atravessar o salão grande para chegar a sua residência. Pode agir como se nada aconteceu? Sinto muito, não tenho a habilidade de fazer que as pessoas olhem para outro lado.

Angelín assentiu com a cabeça.

- Posso, sim.

Jubal olhou sobre seu homem, para o silencioso pai da garota.

-Mirko, você está bem?

-Estou muito zangado.

-Eu também estou zangado. – Concordou, Jubal.

-Sinto por Gabrielle. Espero que podem lhe salvar a vida.

- Eu sinto o que fizeram a Angelina. - Replicou Jubal. – Odeio que todos tenhamos que nos preocupar com cada minuto de cada dia, porque algum psicopata irá tentar nos matar porque Mikhail e Raven são nossos amigos e Joie e Traian são minha família.

-Aceitamos o risco quando Mikhail nos ofereceu a escolha de conhecê-los e saber o que são. - Disse Mirko. - Ainda não posso acreditar que ameaçaram minha filha. - Seus dedos se apertaram firmemente. – Eles ameaçaram a minha família.

-E, agora estão mortos. - Disse Natalya alegremente, gesticulando para as poucas pessoas que desciam escada abaixo e baixou a voz, mantendo um sorriso firmemente em seu lugar. - Slavica, obrigado pela advertência de antes. Se não tivesse mencionado o chocolate noturno, eu poderia ter aberto a porta sem estar preparada.

- Eu estava levando a laca para você e justo quando abria a porta para entrar no vestíbulo me empurraram de volta para dentro. Felizmente não notaram que o pacote era para você e pude lhe dizer que ia à cozinha buscar seu chocolate.

-Conseguiu-me a laca? Oh! Slavica, obrigado! Espero que pegou todos que pode encontrar.

-Comprei todos os da loja, como me instruiu.

-Não pode esperar para brincar com essa coisa, não é? - Riu Jubal.

Ela sorriu-lhe, amplamente.

-Bem, pode estar certo. Quero ver se realmente funciona. Não é que vá procurar problemas.

-Isso é exatamente o que vais fazer. - Objetou Jubal.

-Para que está planejando utilizar a laca, Natalya? - Perguntou Mirko.

-Ela está desenvolvendo um lança-chamas para utilizar com os vampiros. - Disse Jubal. - Pode acreditar?

Natalya se moveu de repente passando Slavica e Angelina, para tocar o braço de Jubal, o sorriso desparecendo de sua face.

-Tenho que me assegurar de que não há nenhuma surpresa desagradável nos esperando. Por que não os leva para a cozinha e deixa que Slavica atenda o rosto de Mirko?

-Não quero que entre aí sozinha. Vikirnoff me matará. Literalmente.

Ela gemeu.

- ele não vai fazer semelhante coisa, Jubal. Leve-os para a cozinha agora.

As sobrancelhas de Jubal se elevaram com súbita compreensão.

-Porque acha que há alguém aí.

- Slavica, leve Angelina para a cozinha. - Ordenou Mirko, com voz dura. - Nós vamos com a Natalya.

Natalya apertou os dentes, irritada com os egos viris dos homens. Podia notar que iriam se meter no meio. Preferia lutar sozinha. Por outro lado, havia algo nessa residência... Algo, não. Alguém. Sua marca de nascimento, do dragão, queimava em seu corpo e sabia que o nosferatu esperava-os dentro da pousada.

-Por favor me explique o que acredita que há em minha casa. - Disse Mirko.

Natalya trocou um olhar com Jubal e encolheu os ombros.

-Acredito que o não-morto. O vampiro está esperando que você e sua família voltem.

Ele a olhou fixamente, por um longo momento.

-E está planejando entrar sozinha, sem ajuda para lutar com essa coisa?

- Já lutei com eles antes. – Ele confirmou suas armas e o único spray de laca que restava na mochila. - Estou preparada.

- E para isto que quer utilizar o lança-chamas? Para matar vampiros?

Jubal gemeu e sacudiu a cabeça.

-Tem a mínima idéia do quanto amalucado soa isto? Viu algum vampiro? Não vai matar um deles com isto...

-Descida abatê-los e depois incinerar seus corações com o spray -explicou ela.

Jubal sacudiu a cabeça.

- Nenhum vampiro se atreveria a vir à estalagem com tantos caçadores aqui. Isto é uma loucura.

Natalya se calou. Não estava para discução, quando estava totalmente segura. Havia algo estranho na residência. E estava começando a pensar que os vampiros não estavam sozinhos na casa dos Ostojic, mas talvez em outras partes da estalagem também.

Tocou a mente de Vikirnoff. A batalha pela vida de Gabrielle se recrudescia, mas não estava bem. Vikirnoff estava forçando literalmente o coração dela a pulsar, enquanto Mikhail respirava por ela. Pôde ouvir o ancestral canto curador, as vozes aumentando-se quando os cárpatos se uniam na distância. Pôde ouvir uma mulher chorando, provavelmente Joie, a irmã de Gabrielle, enquanto tentava unir-se aos outros.

Por um momento Natalya esteve com Vikirnoff, assistindo sua entristecedora tarefa, o terrível mal infringido a Gabrielle, seu corpo aquebrantado e drenado de sangue. Vikirnoff não vacilava e não se rendia. Podia sentir sua determinação, a interminável força e poder que ele vertia no desfalecido corpo do Gabrielle.

Vikirnoff era um homem de aço e compaixão. Havia algo nele que a atraía apesar de toda sua determinação a lhe manter a raia, a continuar zangada com ele por uni-los, por fazê-la tão consciente dele como homem e de si mesmo como mulher.

A tarefa que lhe pedira era enorme e requeria toda sua vontade, manter Gabrielle viva, mas ele estava fazendo, por ela. E ela ia entrar naquele lugar cheio de vampiros, por ele. Não acreditava precisamente em estar em perigo a menos que fosse por uma grande causa. Manter os vampiros longe de Vikirnoff era uma excelente causa. Soprou um beijo para as escadas.

-Natalya! - Exigiu Jubal. - Acabemos com isto. Estou começando a ficar nervoso pensando em entrar aí. Vamos.

-Esse daí é um vampiro, Jubal. – Natalya falou. - Está seguro de querer fazer isto.

- Você vai entrar.

-Eu digo que se assegure. – Ela não esperou seu comentário. Empurrou a porta com precaução. As luzes estavam apagadas. Um abajur estava caído no chão, com a lâmpada quebrada. Havia sprays de laca espalhados pelo chão e na janela um vaso com flores estava de lado e a água formava uma pequena poça. Natalya tirou sua espada da bainha e entrou no aposento, deslizando-se em silêncio, com seus sentidos em alerta, para "sentir". Assinalou aos dois humanos que ficassem atrás e entrou mais para dentro da residência.

Sabia que havia algo ali. Não podia encontrar os pontos delatores que podiam indicar a presença do vampiro, mas sabia que estava ali.

- Vikirnoff. - Era algo terrível lhe incomodar quando estava trabalhando tão duro para salvar uma vida, mas estava começando a sentir uma armadilha se fechando. Um medo real estava em sua alma. Por que Brent Barstow tinha atacado Gabrielle? Não fazia nenhum sentido. Nenhum fanático pensaria que ela era uma ameaça para ele. Havia só uma única razão. Barstow tinha que estar sob compulsão. - Há vampiros aqui e dever ser pelo príncipe.

Sentiu a sacudida de consciencia que ele enviou de volta a seu próprio corpo. - Natalya, saia já daí. - Ele não questionava seu julgamento embora escaneou o edifício e as áreas circundantes e não encontrou nada que indicasse a presença do não-morto. - Poderiam ser por você.

- É pelo príncipe. Atraíram-no até a estalagem, com todo os caçadores feridos. Pensaram que este era o momento perfeito para atacar. Tire o príncipe daqui.

- Não partirá.

Natalya se manteve na entrada do aposento, movendo-se em círculos, chamando a tigresa à superfície, o bastante para utilizar seus sentidos superiores de vista e olfato. O aposento parecia estar vazio, mas a tigresa seguia alerta, acalmando-se dentro de Natalya. Seus músculos se fecharam em posição de espreita.- Estão aqui, Vikirnoff.

- Estou indo para aí.

- Não! Nunca perdoaria a si mesmo ou a mim, se algo aconteçeer a Mikhail e tem que evitar a morte de Gabrielle. Posso fazer isto. Confie em mim como eu confiarei em que você manterá todos aí vivos.

Vikirnoff amaldiçoou em três idiomas. Ela podia sentir sua frenética necessidade de ir até ela, de cuidar de seu amparo. Na realidade, ela estava aterrada. A adrenalina já estava bombeando por todo seu corpo, com seus sentidos em alerta máxima, mas podia lidar com o medo.

- Vikirnoff, sei o que estou pedindo.

- Seriamente? - Ele cuspiu as palavras. - Se acontecer algo... Um arranhão, Natalya e estarei mais que zangado com você. Não quer me ver zangado.

Ela vaiou, mas algo profundo em seu interior, em algum lugar que mantinha em total segredo, estava feliz. A fazia sentir como se ela contasse. Sua preocupação era por ela, não pelo príncipe nem por Gabrielle, mas confiava nela o suficiente para ficar e fazer o que tinha de ser feito. E esse respeito e confiança significavam tudo para ela.

- Estarei contigo todo o tempo.

Reconheceu que ele não queria que ela pensasse que não estava protegendo-a. - Sei. Você gosta de deixar as coisas difíceis. Faça sua parte Vik, eu farei a minha.

Zombar dele ajudou a aliviar seu medo. Parou perto de um sofá, com os ouvidos atentos. Esperando a informação que sabia que estava ali. E então ouviu. Ar movendo-se dentro e fora de pulmões. Não de um somente, mas de vários. Olhou a seu redor e viu múltiplos pares de olhos lhe devolvendo o olhar. Estava rodeada, tanto como podia, que ficou contra a parede. Os olhos vermelhos brilhavam na escuridão. Levou um momento para distinguir os corpos musculosos e as poderosas mandíbulas de lobos. Desta vez os vampiros estavam utilizando a forma animal em vez de utilizar os animais. Ela enfrentava a uma horda de não-mortos.  

 

- Temos problemas. Natalya está segura de que há vampiros dentro do edifício. Acredita que querem matar o príncipe e ela não comete enganos. - Vikirnoff não olhava para Mikhail, mas a Falcon. Era dever de ambos ocupar-se do amparo de Mikhail. Quisesse esse amparo ou não, o príncipe ia tê-lo. Sem esperar uma réplica, Vikirnoff inclinou a cabeça para a garganta de Gabriele.

-Sinto muito irmã, mas não tenho o luxo de esperar para ver se podemos levar fazer esta tarefa sem a conversão. - Murmurou a desculpa e cravou os dentes em sua garganta, tomando sangue para um intercâmbio. Ela precisava de grandes quantidades e seu sangue ancestral aceleraria o processo de cura.

Só tinham minutos antes que tivessem que mover Mikhail e Gabrielle para um lugar seguro. Ela não sobreviveria sem seu sangue. Não estava seguro de ela ter possibilidades de sobreviver à viagem, com a transfusão de sangue ancestral. Não se atreviam a ficar e colocar em perigo a vida dos humanos que se alojavam na estalagem e esse era o argumento mais poderoso que podiam utilizar se Mikhail insistisse em lutar com o não-morto.

Vikirnoff intercambiou um longo olhar com Falcon, enquanto obrigava Gabrielle a consumir seu sangue.

- Não detecto o vampiro perto de nós.

Vikirnoff podia ver que Falcon estava preocupado, seu olhar se movia intranquilamente para o balcão e para o vestíbulo. - Estão aqui.

Mikahil lançou um olhar cauteloso a seu redor.

- É sangue o bastante para um primeiro intercâmbio. Devemos fazer isto lentamente. Se estiver seguro de que há vampiros aqui, não temos outra escolha que movê-la daqui. Não podemos arriscar gente inocente aqui na estalagem. - Um indício de sorriso apareceu brevemente em seus lábios, antes de olhar para eles. - Sou o príncipe, não um menino. Não vou colocar as pessoas em perigo, para satisfazer meu ego. Devemos transportar Gabrielle agora. Podemos levá-la a minha casa onde podemos protegê-la melhor.

- Ela não está forte o bastante. – Objetou, Raven. - Não poderemos mantê-la viva. Na verdade, todos estão fiscalizando as funções de seu corpo. Como podem continuar fazendo, enquanto a transportamos e resistir aos vampiros ao mesmo tempo? – Ela acariciou o cabelo de Gabrielle, com lágrimas nos olhos. - Isto matará Gary. E a Jubal e Joie.

- Meu amor. - Mikhail se estendeu para sua companheira, para consolá-la.

- Sara, preciso que se ocupe do coração de Gabrielle. Natalya está sozinha lá embaixo e sinto o perigo para ela. Devo acudí-la em seguida. -Vikirnoff assinalou seu lugar-. Se pudermos dar aos vampiros a ilusão de que Mikhail está lá embaixo, ganharemos tempo para que todos escapem. Eu tomarei a forma de Mikhail e ele pode tomar a minha.

Mikhail levantou o olhar, agudamente.

-Não permito que outros fiquem em perigo em meu lugar. Sei o que pensa fazer e digo que não.

- Não tem o luxo de me dizer que não posso. – Replicou, Vikirnoff-. Nossa gente não pode confrontar sua perda. E eu não posso proporcionar amparo adequado. Os vampiros nos rodeiam. Estamos tentando salvar a vida desta mulher e manter aos humanos desta estalagem a salvo. Tem sentido intercambiar nossas formas e voce sabe disso. Não há nada mais a discutir.

Os olhos do Mikhail flamejaram com fúria, mas Raven colocou uma mão sobre seu braço.

- Ele tem razão, meu amor. Não temos tempo de discutir. Vá Vikirnoff. Sara e eu manteremos vivo o Gabrielle enquanto você caça.

-Precisará de sangue. - Disse Falcon, cortando sua mão com os dentes. – Tome o meu, ofereço-o livremente.

Vikirnoff tomou o rico sangue ancestral sem protestar, seu olhar se encontrou com o do caçador. Falcon sabia o que ele planejava, porque o caçador teria feito o mesmo. Fechou a ferida respeitosamente e ficou em pé, já mudando de forma e assumindo a forma de seu príncipe. Saiu a passos rápidos do vestíbulo, em vez de mudar para o vapor, desejando que todos os olhos o vissem como Mikhail. – Estou indo para voce. Natalya. Estou com a forma do príncipe, então não me atravesse o coração com sua espada.

- Por que todo mundo acredita que vou matá-lo? Jesus!

Vikirnoff podia ouvir a ligeireza deliberada, mascarando sua crescente preocupação e medo. O orgulho o varreu. Respeito. Ela possuia um espírito tão indomável que não podia evitar admirá-la. – Talvez porque você se parece com a Xena, a princesa caçadora.

- Não me saia com essa. E fique aí. Tenho tudo sob controle. - Natalya lutou para conter a repentina onda de medo. - Se os vampiros pensavam que Mikhail estava em suas garras, lutariam de forma frenética, fazendo tudo o que podiam para matá-lo. Vikirnoff nunca parecia pensar em si mesmo em meio à batalha. Tocou sua mente e encontrou, sobretudo, preocupação por ela. Pelo príncipe, por Gabrielle. Por Raven e Sara. Pelos humanos e finalmente pelos outros caçadores, mas mais que tudo, por ela. Não pôde encontrar preocupação por si mesmo. Pois ela não tinha intenção de sacrificá-lo, nem sequer se ele o fizesse. Alguém tinha que cuidar dele.

Natalya estava segura de que só um ou dois dos vampiros mascarados de lobos eram reais, os outros tinham que ser clones. Ela não podia notar a diferença, mas a tigresa podia. Saltou em meio de sua neblina, mudando enquanto o fazia. O felino predador atacou vampiro mais próximo, profundamente oculto no corpo do lobo. O corpo flexível e muito mais pesado do gato lhe permitiu utilizar seu peso para derrubar o lobo e a tigresa procurou a garganta exposta. Afundou os dentes profundamente e agüentou, sacudindo com tremenda força, arranhando os outros lobos quando saltaram sobre ela.

A tigresa se negou a deixá-lo e nem seria derrotada. Natalya estava decidida a que pelo menos este vampiro não se elevasse para lutar com Vikirnoff se ela pudesse evitar. Ignorou os lobos que se lançavam sobre ela e foi a seu peito, expondo o coração.

- Para trás, Natalya. - A voz de Mirko chegou de alguma parte. - Já tenho a este.

Ela virou a cabeça e viu que o hospedeiro havia se arrastado por trás dos lobos e sustentava um spray e um acendedor na mão. Jubal estava ombro com ombro com ele. Instantaneamente ela cheirou o segundo vampiro e sacudindo-se dos lobos, saltou para o não-morto, batendo o ombro da tigresa com força contra o corpo do lobo, para atirá-lo ao chão. Imediatamente quis sua morte, seus dentes sujeitando a garganta.

Colunas gemeas de fogo fizeram os lobos se esparramar em todas as direções. A pelagem incendedou e o aroma de carne queimada encheu o ar. Enquanto a tigresa sujeitavam com força a garganta do vampiro, Natalya divisou um terceiro vampiro mudando, abandonando o corpo do lobo para saltar para os humanos. Horrorizada, rugiu uma advertência, rezando para ser entendida.

- Pilhe-se, respiração de morcego! -Jubal atirou tranqüilamente um spray de laca para ele, fazendo com que o não-morto o pegasse automaticamente.

Mirko enviou uma coluna de chamas concentradas diretamente para o frasco e Jubal acrescentou um segundo jorro intenso também. Quando o vampiro se apressava para eles, o spray explodiu como uma pequena bomba.

Um lobo saltou sobre as costas de Natalya, e poderosas mandíbulas se fecharam sobre a nuca da tigresa e rasgaram. A tigresa se voltou. Os flexíveis músculos e sua espinha dorsal lhe permitiram dobrar as costas e alcançar seu atacante.

- O coração, Mirko! - Gritou Jubal, assinalando o exposto coração do vampiro enquanto este tentava se enterrar na segurança do peito queimado. - Não destruímos o coração.

Mirko segurou outro spray e dirigiu as chamas para o coração. Imediatamente vários dos lobos os rodearam. Ele manteve o terreno segurando a chama incineradora firme, até que o coração se converteu em cinzas. Um dos lobos lançou a seu peito, as patas traseiras rasgaram sua camisa e ele abriu as mandíbulas e enterrando os dentes diretamente em sua garganta, quando o jato de spray acabava. Mirko deixou cair o frasco imprestável e segurou o lobo com o as mãos sujeitando-o enquanto perdiam o equilíbrio e caíam no chão.

Jubal atirou seu frasco vazio e se equilibrou sobre outro, chutando um dos lobos.

-Natalya!

Ela se elevou com três lobos lhe mordendo os lados e as costas. Sacudiu-se e se lançou sobre o lobo que atacava Mirko. Era bem pior do que pensou a princípio. Era incapaz de detectar todos os vampiros ocultos, sequer através da tigresa. Eles converteram-se numa força unida, decidida a matar o príncipe.

A porta da residência se abriu de repente e um homem alto e de ombros largos encheu a soleira. Todo mundo ficou congelado em seu lugar. Natalya podia ouvir os corações palpitantes, o correr de sangre através das veias. Grunhiu com irritação quando mais dois vampiros mudaram para suas formas naturais. Os restantes lobos elevaram as cabeças e uivaram, rompendo o súbito silêncio.

- Mikhail Dubrinsky. Bem-vindo. - Um dos vampiros inclinou a cabeça. - Maxim ficará muito feliz de que tenhamos completado nossa tarefa.

Natalya, sangrando por meia dúzia de ferimentos, virou a cabeça. Seus olhos opacos brilhando quando encontraram o olhar de Mikhail.

- Atrás de ti! - Advertiu Jubal.

O bater de asas, o trovejar de pés, o toque de patas soaram excessivamente fortes sobre o assoalho de madeira, quando os vampiros e seus clones atacaram. Mikhail se dissolveu em vapor e fluiu sobre as cabeças das criaturas, deslizou através da porta principal sob a greta e se verteu na noite para o bosque, com morcegos, pássaros e lobos apressando-se atrás dele.

Natalya se virou para o lobo mais próxima, sua mente correndo. Teria reconhecido Vikirnoff em qualquer forma. Os lobos clones ainda estavam ali e ela "sentia" a presença do mal na estalagem, provavelmente espreitando escada canto, mas os vampiros haviam saído atrás de Vikirnoff e estava segura de que haveria mais deles. Grunhindo, se voltou para enfrentar os lobos, desejando dispor deles rapidamente para poder seguir Vikirnoff.

-Cubra a Natalya, Mirko! Eu vou proteger minha irmã. - Jubal recolheu dois frascos mais de laca e saiu pela porta.

Umas poucas pessoas que se aproximavam para ver o que estava aconteçendo, correram quando Jubal saiu precipitadamente do mesmo aposento da que várias horrendas criaturas acabavam de emergir. Não havia ninguém no vestíbulo, mas as paredes pareciam se expandir e se contrair, como se o edifício estivesse respirando pesadamente. A porta do aposento de Natalya estava entreaberta e Jubal parou, desejando ter o acendedor na mão, por seu tinha que defender a si mesmo e a Gabrielle.

- Estou chegando. - Advertiu antes de mostrar a cabeça pela porta.

Seu coração gaguejou quando olhou sua irmã. Estava branca, quase cinza. A vida tinha abandonado sua face e Raven e Sara pareciam pálidas, com suas expressões enfocadas enquanto se concentravam em manter viva Gabrielle viva. Mikhail, com seu disfarce de Vikirnoff e Falcon se moviam cuidadosamente pelo aposento, examinando as paredes e o assoalho.

- Levaremos Gabrielle daqui, Jubal. - Explicou Falcon com voz tranqüila. - Mikhail os afasta para nos dar tempo de colocar Gabrielle a salvo. - Já que provavelmente os vampiros estivessem perto, Falcon desejava preservar tanto como fosse possível, a mascarada ideia de que Mikhail estava na estalagem.

-Ela está morta?

-Não mentirei para você. Estamos mantendo-a viva, mas não sabemos se o que estamos fazendo funcionará. Ela está mortalmente ferida. Vikirnoff evita que seu espírito passe para o outro lado. Nós podemos fazer com que seu corpo funcione, mas não podemos conter sua essência. Ele foi o primeiro a chegar aqui e o espírito dela está selado ao dele até que ela morra... Ou complete a conversão.

- Devemos ir agora. - Mikhail imitou a voz de Vikirnoff, perfeitamente. Havia urgência em seu tom. - Sinto a presença do vampiro, mas não posso localizar sua posição exata.

A tigresa entrou no aposento, ignorando os outros enquanto pegava sua mochila entre os dentes e seguia até o banheiro. Natalya emergiu alguns minutos depois, ainda colocando armas nos bolsos de suas calça.

-Sinto ter demorado tanto, mas havia muitos deles. Agora tenho que ir. - Sua marca de nascimento estava ardendo muito. - Há outro vampiro perto.

-Jubal, traga o carro. - Instruiu Vikirnoff/Mikhail enquanto levantava Gabrielle em seus braços. – A´presse-se, não temos muito tempo.

Raven e Sara se aproximaram dele, protegendo à mulher enquanto o príncipe se aproximava do balcão.

Sem advertência, de todo o teto choveu afiadas lanças. Raven lançou as mãos para o ar, criando um escudo enquanto corriam em busca do balcão. Jubal pegou o frasco de laca e deu a Natalya e saiu correndo escada abaixo, utilizando a entrada dianteira para chegar ao carro.

Natalya e Falcon se separaram, cada um movendo-se em cantos opostos do aposento. Natalya elevou sua espada. O teto se abriu e algo escuro e sombrio caiu no interior do aposento. Ela reconheceu o vampiro, imediatamente. Sabendo que Falcon teria melhor oportunidade de lhe matar rapidamente, saiu do canto, atraindo sua atenção.

-Chegou tarde, Arturo. - Saudou-o. E parece um pouco pior, está vestido. Você e seu professor tiveram muitos problemas com os guerreiros das sombras? Porque honestamente, parece que o cortaram em rodelas e depois em pedaços.

Ele grunhiu, flexionando as mãos até virarem garras.

-Você. Os caçadores desertam e a deixam a seu destino.

- Os caçadores não acreditam que você valha seu tempo. Eu disse a eles que eu podia dirigi-lo sem problema. Já te matei uma vez. Jesus! Deixe-me pensar. – Ela inclinou a cabeça para lhe estudar a face, agora marcada com horrendas cicatrizes. – Acho que pelo menos quatro vezes, possivelmente mais. As batalhas contigo parecem se confundir.

Falcon deslizou em silencio para ficar diretamente atrás do vampiro.

- Realmente vou deixar por menos, Arturo. Mas, todas as coisas boas devem chegar a seu final. - Natalya deu um passo para ele, com a espada no alto.

Falcon golpeou de trás, dirigindo seu braço através de pele, músculos e osso, pegando o coração e arrancando-o do corpo. O relâmpago se arqueou pelo céu e entrou através do buraco aberto no teto, alcançando o coração, quando Falcon o deixou cair, incinerando-o imediatamente.

- Bom trabalho. - Disse Natalya. – Você não é de rodeios. Espero que possa reparar o lugar para Slavica e Mirko. – Ela acrescentou. - Vou atrás de Vikirnoff.

-Ele é um caçador experimentado. Não gostará que sua companheira se coloque em perigo. - Falcon dirigiu o relâmpago para o corpo de Arturo. – Ela espera que você e eu, guardamos o príncipe. - Era a única desculpa que podia lhe dar.

- Sou bem consciente do que me espera. - Natalya correu para o banheiro novamente. Mudou de roupa tantas vezes em um dia, que estava começando a se incomodar. – Vá. Faça o que tem que fazer, que eu farei o mesmo.

- Boa caça.

- O mesmo te digo. - Vikirnoff havia atraído uma horda de vampiros e podia fazê-los dar voltas em círculos, para ganhar tempo para o príncipe e Gabrielle, mas cedo ou tarde teria que lutar com eles. Que a amaldiçoassem, se ele lutasse sozinho.

Natalya se despiu outra vez. Demorou alguns segundos para colocar armas, munição e roupas em sua mochila antes de pendurá-la no pescoço e mudar de volta a sua forma animal. Sempre podia fazer correr o rumor de que haviam escapado animais de algum circo ou deixaria que os Cárpatos se preocupassem em cobrir a história. O teto estava reparado e Falcon havia saído, quando voltou a entrar no quarto. Não havia corpo e nenhuma só marca no chão, nem sequer de sua prática com os sprays de laca.

A tigresa saltou do balcão para o alpendre que rodeava o edifício e depois para o chão. Correu pelo povoado, mantendo-se entre as sombras o melhor que podia, evitando os humanos sempre que era possível. Ouviu alguns murmúrios quando algumas pessoas viram a tigresa movendo-se rapidamente através de arbustos e árvores. Com todos os acontecimentos da estalagem, logo haveria muitas histórias aterradoras que cresceriam cada vez que fossem contadas, até se converter em grandes lendas e sua tigresa seria parte delas.

Permanecia conectada com Vikirnoff, passando além de sua personalização do príncipe. Ele estava pensando no que os vampiros podiam escolher, pensando em sua gente e o quanto era importante permanecer em transito, para protegê-los. Considerou as impressões de Vikirnoff, de que Mikhail poderia estar pensando estupidamente...

- Estupidamente? Esses são pensamentos principescos? O que acha que está fazendo?

- Seguindo-o. Vigiando suas costas. Está-os conduzindo para o interior do bosque, não é? - Onde poderia lidar com eles a sós. Natalya não ia permitir que isso aconteçesse, quisesse ele ajuda ou não.

- Sim. Quero-os longe da estalagem, mas num lugar de minha escolha para lutar. - Longe de onde sua companheira para que ela não ficasse em perigo.

- Arturo está morto. Falcon acabou com ele e está protegendo o príncipe. Acho que isso era o que esperava dele.

- É obvio.

Natalya suspirou ante a perfeita calma de sua voz. Ele havia entrado em batalha e deixado de lado seus sentimentos, confiando em seus instintos guerreiros, de séculos de antigüidade. - Disseram que só você podia manter viva Gabrielle. O que queriam dizer?

- Sou o guardião de seu espírito. Continuarão tentando curar seu corpo e Falcon lhe dará sangue da próxima vez. Tentarão curá-la novamente e Mikhail lhe dará seu sangue. Atravessará a conversão nesse momento. Se for o bastante forte, se minha vontade e a sua forem fortes o bastante, veremos como viverá.

Natalya incrementou sua velocidade, cortando caminho através de um prado e saltando sobre uma colina. Tomou qualquer atalho que pôde encontrar enquanto corria, para encontrar o campo de batalha escolhido por ele. - Pode fazer isso e lutar também?

- É obvio.

- É obvio. - Repetiu ela, sarcásticamente. - Por que me incomodaria em perguntar? É invencível. A quantos nos enfrentamos?

- Nós?

- Sim, nós. E não discuta comigo. Já está com problemas suficientes comigo.

Natalya recebeu a breve impressão de seus dentes. – Eles estão em cinco. Mas não Maxim.

Ante o nome, o coração de Natalya se contraiu de medo. - Isso é um alívio mas eu gostaria de saber por que. Se ele teve que montar uma armadilha, por que não está aqui com seus serventes menores? Você pode ter sido conduzido a uma emboscada.

- Sinta o norte. Uma batalha está acontecendo lá. O céu noturno está vivo com o relâmpago e a terra está gemendo. Acredito que Maxin estava a caminho e topou com um caçador de grande habilidade. Olhe para o céu.

Havia algo em sua voz. Espera e precaução. Não podia captar tudo, mas se deteve enquanto subia uma colina e olhou para o norte. Na distância, um relâmpago se arqueou num longo látego denteado, mas com a forma de um brilhante dragão respirando fogo. A respiração ficou presa em sua garganta e ela sentiu a marca de nascimento pulsar em seu corpo, mesmo sob a pele peluda da tigresa.

- Essa é a marca do Caçador de Dragões. Nenhum outro Cárpato utiliza essa imagem na batalha. Por isso sei, só restam você e Dominic. É obvio que o mundo é grande e possivelmente restam mais de vocês vivos.

Apesar da situação, correndo pelas colinas para guardar as costas de Vikirnoff, Natalya não pôde evitar que um estremecimento a atravessasse ante a visão do dragão no ar. Demorou um momento para compreender que a voz de Vikirnoff chegava de uma distância maior agora, de que a princípio. Ele estava distraindo-a com a verdade, com algo que ele sabia que a afastaria de seu rastro, embora fosse por alguns minutos Então teria uma melhor oportunidade de conduzir os vampiros para longe dela.

A tigresa saiu correndo a um passo sustentado, subindo o terreno elevado e a segurança das árvores. - Por que os chamam Caçadores de Dragões? - Não ia revelar o fato de que estava a par de seu pequeno plano. Ele estava conduzindo os vampiros a uma localização específica. Tinha uma vaga idéia de onde era por ter lido sua mente, mas ele estava fazendo o que podia para encobrir seus pensamentos. Incrementou sua velocidade, movendo-se tão rapidamente como era possível, sem drenar sua força.

- Para os Caçadores de Dragões, os mesmos representavam o poder celestial e terrestre, sabedoria e força. E procuravam o poder e a sabedoria dos dragões. Não era tanto a elusiva criatura que procuravam, mas o código que o dragão representava. Nós acreditamos que em tempos ancestrais, um dragão outorgou dons ao primeiro Caçador de Dragões ou talvez há um dragão em sua linhagem. Quem sabe qual é a verdade?

A terra se sacudiu sob as patas do tigre que grunhiu, aferrando a terra com as garras enquanto olhava cautelosamente ao redor. No alto o céu se escureceu, as nuvens rabiscaram as estrelas uma por uma, estendendo-se sobre a lua numa mancha vermelha pardusca. O vento começou a levantar a seu seu redor, pouco a princípio, soprando através das árvores fazendo com que as folhas ondulassem com uma estranha vida. Ele se abaixou mais baixo e moveu com mais precaução, misturando-se aos densos arbustos e folhagens.

Cheirou o ar e enviou os sentidos da tigresa junto com os seus próprios da noite, procurando informação. Poucas milhas mais adiante, outra batalha havia começado. Vikirnoff tinha tomado posições e justo como se temia, negava-se a lhe mostrar aos vampiros que tinha enganado, continuando com a ilusão de ser o príncipe e não fazendo nenhuma tentativa de fugir deles.

- É um idiota. – Murmurou mais para si mesma, que para ele, mas maldito fosse, de todos os modos. Simplesmente não tinha nenhum sentido comum quando ia lutar. Ela acreditava no velho ditado: "Fuja hoje para lutar outro dia". Cobriu os últimos quilômetros com relativa facilidade e sob a cobertura de espessos arbustos mudou para sua forma natural. Vestiu-se apressadamente e preparou suas armas antes de sentar um momento para recuperar sua força e respiração.

O relâmpago estalava continuamente e havia um mau cheiro nocivo que indicava que Vikirnoff tinha acertado pelo menos um vampiro. Natalya se arrastou firmemente através da espessa folhagem para conseguir uma melhor visão do que estava aconteçendo. Empurrou para um lado as folhas e sua respiração ficou suspensa

Vikirnoff deslizava com graça e poder, seu corpo era tão gracioso, como o de um hábil bailarino, seus traços duros e livres de toda emoção, esculpidos com linhas masculinas e fixados com atenção concentração. Podia ver claramente sob a ilusão, sua determinação e sua concentração. Ele movia-se com imprecisa velocidade dentro do círculo de vampiros, golpeando com rapidez, retirando-se antes que pudessem lhe tocar, para golpear a outro.

Natalya olhou fixamente, completamente hipnotizada por ele, por sua beleza masculina enquanto lutava uma batalha contra tantos. Nunca havia visto semelhante demonstração de poder ou habilidade. Fluía como água ao redor dele, sempre se movendo num padrão circular, seus pés mal roçando o chão. Admiração e respeito fluíram, se estendendo através dela.

Natalya se abaixou, incapaz de afastar os olhos dele, fascinada por ele e orgulhosa dele. Os músculos ondeavam sob sua camisa e ele parecia ao mesmo tempo, um homem elegante e um guerreiro. Seu cabelo longo balançava a cada movimento, parecendo seda fluída. Ela apenas podia ver Mikhail sobreposto sobre a Vikirnoff e era forte era para ela. A tigresa se moveu em seu interior, reconhecendo seu companheiro. O dragão, sua marca de nascimento ardia pela próxima proximidade dos vampiros, mas pulsava com um tipo de calor distinto, enquanto o observava lutar.

Jamais esqueceria esse momento, essa visão dele resplandecendo poder e energia, movendo-se com fluídica graça e absoluta resolução implacável.

-É meu companheiro. - Sussurrou em voz alta, sobressaltada pelo fato de que seu corpo o conhecia antes que sua mente o tivesse reconhecido.

Observou com assombro, como literalmente ele arrancava o coração do peito de um vampiro, quando dois vampiros colidiram no meio do ar onde ele havia estado uma fração de segundo antes. Sentia-se como se estivesse observando uma batalha coreografada, cada movimento arrumado com antecipação e ensaiado.

Vikirnoff entretinha os vampiros utilizando sua grande velocidade, não querendo que notassem que ele não era o príncipe. Eram vampiros principiantes, peões que Maxim utilizava como pasto, para infringir tanto mal como fosse possível, para debilitar as linhas de defesa. Vikirnoff estava seguro de que Maxim tinha enviado os principiantes à estalagem para lutar, com a esperança de ferir os caçadores que protegiam Mikhail. Maxim estaria planejando estar trás dela, para a morte, mas não havia calculado ou considerado a possibilidade de atrair outro caçador experimentado, à refrega.

Quando Vikirnoff se dissolveu em vapor para evitar ser ferido por dois dos não-mortos mais experimentados, olhou fixamente para o norte. Pelo aspecto do céu nessa direção, o Caçador de Dragões havia colocado Maxim em fuga. O professor vampiro nunca seria o bastante tolo para lutar com um caçador tão experimentado, sem uma clara vantagem. Pelo menos a armadilha se desarmara, antes que houvesse muitas perdas.

Em forma de vapor, Vikirnoff fluiu até atrás de um vampiro de cabelo escuro, mudando de volta a sua forma no último segundo, pegando a cabeça dele entre as mãos e retorcendo com força para romper seu pescoço. Não era um golpe mortal, mas cada ferimento servia para debilitar o inimigo. Imediatamente estava em movimento novamente, subindo pelo lado de uma árvore para voltar a saltar sobre o mesmo vampiro, chutando-o para lhe derrubar. Havia conseguido destruir a dois dos cinco vampiros e por ora, só conseguira arranhões menores para demonstrar.

Os vampiros retrocederam, arrastando seu camarada ferido com eles. Quando Vikirnoff se aproximou deles, lançaram uma barreira es. Vikirnoff tomou terra e estudou suas faces.

-Não reconheço nenhum de vocês. Quem são?

- Não reconhece um amigo da infância, Mikhail? - Grunhiu o do pescoço quebrado. A saliva lhe corria pela face e ele retorceu o pescoço, colocando a cabeça mais cuidadosamente sobre seus ombros. - Sou Borak. Deve se lembrar de Valentine e Gene. Brincamos contigo nestes mesmos bosques, embora nem pode recordar quem sou.

Vikirnoff se inclinou, um simples gesto cortês pela cintura.

- Me perdoe, Borak, deve ser por que os anos o mudaram. Lembro-me de seu rosto jovem e sem marca, não a visão do mal na qual escolheste se converter. -Manteve elevada a mão e por um momento, um cristal claro como a água se formou nela, devolvendo o reflexo das faces dos três vampiros.

Eles chiaram e vaiaram enquanto lançavam as longas capas sobre suas faces, para ocultar suas repulsivas imagens.

Vikirnoff deixou cair às mãos.

-Vêem por que não me recordo dos velhos amigos de infância?

-Você não tem amigos. – Cuspiu, Valentine. - Mesmo Gregori te abandonou. Todos eles. Deixaram-no deliberadamente sozinhos, sabendo que haveria um ataque. Sua própria gente decidiu seu destino. Querem-no, morto.

O bater de asas encheu o ar. O céu se escureceu no alto quando uma migração de grandes morcegos vampiros alagou a região. Começaram a pousar nas árvores, rodeando o campo de batalha, centenas deles, mais ou menos, baixando as asas e segurando-se com diminutas garras. Havia tantos sobre algumas dos ramos, que se curvaram com o peso.

-Vêem e me mate, Valentine. Quero te agradar.

Valentine grunhiu, expondo seus dentes afiados. Olhou para Mikhail.

-Zomba de mim, mas pouco importa quando sabe que não tem escapatória.

Vikirnoff estendeu os braços.

-É bem-vindo para tentar, Valentine. Está fazendo tempo com a esperança de que seu professor te diga o que fazer.

Natalya podia ver uma diferença crescendo nos vampiros. Onde antes estavam acobertando-se, atrás do escudo que tinham erguido, agora estavam mais altos, os olhos começavam a brilhar, cobrando mais firmeza. Estava segura de que seu professor tinha começado a verter poder neles, igual a uma estratégia de batalha. Olhou para o norte. O relâmpago em forma de dragão tinha desaparecido e uma vez mais os céus nessa direção estavam em calma.

Sobre sua própria cabeça, nuvens escuras viravam e se retorciam e uma ligeira chuva tinha começado a cair. Não podia dizer se era natural ou não ou quem podia estar controlando o tempo. Os vampiros se dispersaram, com seus corpos brilhando com uma luz fantasmal. Borak parecia grotesco com a cabeça torcida. Sua cabeça caía continuamente e ele murmurava ameaças e cuspia maldições enquanto a reajustava sobre os ombros.

Os morcegos se agitaram e começaram a estender as asas. Alguns tomaram o ar enquanto outros desciam na terra. A forma em que as criaturas espreitavam Vikirnoff a distância, utilizando suas asas para pivotar, retrocedendo como caranguejos, a fez estremecer. Os morcegos formaram dois círculos ao redor de Vikirnoff e os vampiros, o círculo interior movendo-se no sentido de ponteiros de relógio, o exterior em sentido contrário. Seu coração começou a pulsar mais rápido e lhe requereu respirar fundo diversas vezes, não desejando delatar sua presença. Tinha que confiar nele. Confiava nele, mas requeria um tremendo autocontrole evitar lhe gritar uma advertência. Natalya levou a mão até a boca e mordeu com força.

Borak brilhou tenuemente, quase transparente. Os outros dois vampiros seguiram seu exemplo. Suas formas se recortaram, contorsionaram, tomando a forma de uma mulher. A forma de uma mulher pequena com longos cabelos escuros. Vikirnoff se encontrou enfrentando três Raven. Sabia que isto estava planejado para Mikhail, contavam com que ele duvidasse antes de golpeá-la. Os vampiros já estavam clonando rapidamente suas formas, fazendo que vários colones de Raven lhe enfrentassem com aspecto vulnerável e inocente.

Não era difícil distinguir qual das formas era Borak já que sua cabeça não se mantinha em seu lugar, mas os outros eram réplicas perfeitas de Raven. Algumas estavam chorando, outras suplicando e todas elas estendiam os braços para ele, quando começaram a se aproximar. A própria forma de Vikirnoff brilhou, dissolvendo-se, voando entre o exército de Ravens e contorsionndo-se até formar a mesma imagem fazendo com que fosse impossível dizer quem era vampiro, quem clone e quem o caçador.

Vikirnoff se moveu com os outros clones, abrindo-se passo lentamente para Borak. Estava seguro de que havia localizado o vampiro em meio a tantos. As cabeças dos clones se inclinavam ligeiramente, mas uma continuava caindo de um lado para outro, quando o vampiro se concentrava no caçador e não em sua imagem.

Vikirnoff se aproximou de distância de ataque e imediatamente os morcegos do ar começaram a saltar rapidamente para ele e os do solo fizeram pequenos ruídos. A chuva aumentou e o vento se elevou, soprando através das folhas das árvores, fazendo com que uma vez mais estremecessem e retorcessem, dançando no alto.

Vikirnoff virou graciosamente entre os clones, procurando Borak, enquanto mudava para a forma do príncipe, fechando o punho de repente. A face de Raven mudou para uma máscara maliciosa, sua boca se abriu amplamente, mostrando os dentes. Borak mudou instantaneamente, tentando dissolver-se ao redor dos dedos que afundavam em seu corpo com a velocidade e intensidade de uma lança. Vikirnoff arrancou o coração, ainda deslizando-se em seu fluidico círculo, levando o murcho e enegrecido órgão com ele. Enquanto se movia caíram vários clones.

Natalya não podia afastar os olhos dele. Queria mover-se, queria ao menos se livrar dos morcegos que se moviam tão perigosamente para ele, fechando seus círculos tornando o campo de batalha menor, mas se sentia em transe, incapaz de afastar os olhos de Vikirnoff. Via-o tão claramente sob a imagem do príncipe, movendo-se com sua dança de guerreiro, suas mãos fortes, sua face esculpida com linhas de determinação e de resolução. Seu coração se acelerou para igualar o batimento do coração dele e seus pés sentiam o mesmo ritmo gracioso.

Borak chiou, sua voz era horrenda enquanto corria atrás de Vikirnoff e seus clones de Raven caíam na terra e se desintegravam como se nunca houvessem existido. Um escuro sangue ácido murchou a vegetação quando Borak caiu no chão. O relâmpago arqueou no céu, iluminando a horripilante cena antes que o raio incinerasse o coração que o caçador lançou ao chão. O látego denteado golpeou o corpo, queimando-o até cinzas, antes que as chamas engolissem o sangue do chão e ao círculo mais próximo de morcegos.

O segundo círculo tomou o ar para escapar do intenso calor. Natalya piscou rapidamente enquanto observava a batalha se desdobrar, sentindo-se como se sua mente estivesse presa num estranho transe. Sua mente se negou a compreender o que acontecia, a princípio, mas então voltou a si e compreendeu que os movimentos de Vikirnoff eram hipnóticos. Ele era capaz de enfeitiçar o inimigo com seus fluidicos movimentos e embotar a mente de seu oponente, o bastante para ralentiza-los.

Valentine e Gene mudaram de forma uma segunda vez, trabalhando em uníssono e voando para Vikirnoff, dirigindo os morcegos a lhe atacar também. Vikirnoff desprezou a ilusão do príncipe e se encontrou com eles no meio do ar, uma força de poder e habilidade que não se parecia com nada que os dois haviam conhecido antes. Explodiu atravessando os morcegos, golpeando vários deles e lançando-os ao céu, em sua perseguição aos dois vampiros.

Gene se quebrou e voltou, atravessando as árvores numa fuga por sua vida. Valentine escolheu ficar e lutar, deixando-se cair no chão e enfrentando o caçador. Natalya tentou manter Gene à vista, não confiando que ele partisse quando havia seguido tão claramente as instruções de outro, provavelmente de Maxim. Gene tinha sido engolido pelo espesso arvoredo, mas Natalya tirou a espada de todos os modos, segurando-a pronta, se por acaso o vampiro tentasse emboscar Vikirnoff.

-Você não é o príncipe. – Espetou, Valentine e repetiu, gritando. - Ele não é o príncipe!

Se estivesse pedindo permissão para partir, já era tarde. Vikirnoff se voltou e pegando ao vampiro pela nuca, o lançou ao chão. Imediatamente estava sobre ele, conduzindo seu punho no interior do peito, para extrair o coração.

Natalya sentiu arder o dragão e olhou freneticamente ao redor, examinando as árvores, os arbustos e tudo perto de Vikirnoff. Uma pequena rocha mudou a centímetros da perna dele e sua respiração se prendeu em sua garganta. Saiu precipitadamente de seu esconderijo, quando Gene se elevou atrás de Vikirnoff com triunfo na cara, enquanto elevava a faca em sua mão.

Natalya atravessou a distância com um salto mortal, esgrimindo sua espada enquanto passava voando, atravessando as pernas do vampiro. Ele gritou horrivelmente e caiu para trás. Vikirnoff já estava se virando, golpeando enquanto o fazia, com sua velocidade tão rápida, que tinha o coração de Gene nas mãos, antes que ele caísse no chão. O relâmpago brilhou e as chamas percorreram os enegrecidos corações e os dois corpos. Vikirnoff elevou a cabeça e a olhou.

 

- Em que demônios está pensando, me seguindo assim, Natalya? Poderiam ter te matado. Ele soube no momento em que completou a frase, o quão ridículas soaram. Natalya poderia ter se ocupado facilmente dos vampiros e isso só o incomodava ainda mais. Nem estava seguro de por que estava tão incomodado. Talvez fosse o aroma de sangue do ombro dela e o machucado de sua face, das batalhas anteriores. Amaldiçoou e passou a mão pelo rosto.

Natalya lhe sorriu abertamente.

-Só me agradeça e poderemos ficar bem.

Ele olhou as mãos, sustentando-as elevadas, para que ela as visse.

- Olhe isto. Picam-me, realmente minhas picam por te sacudir até inculcar algum sentido comum em você. - Sua mão se deslizou sobre a cabeça dela, descendo para o cabelo de sua nuca. Aproximou-a, inclinou sua cabeça e beijou-a. Foi breve, eclético e absolutamente insatisfatório para nenhum dos dois. - Aterra-me. Vpce faz-me sentir coisas que não quero sentir. É tão corajosa que me aterroriza. – Ele tomou seus lábios novamente, duro e possessivo. Quase brutal.

Ela saboreou seu terror. Saboreou sua necessidade. Havia muita fome nele. Muita resolução. Vikirnoff podia ser gentil, mas não se sentia gentil no momento. Havia assustado-o e não era boa coisa.

-Saiamos daqui, Vikirnoff. Este lugar me dá calafrios. Podemos ir a algum lugar, para conversarmos?

-Não me sinto muito falador.

Ela respirou e olhou diretamente nos olhos dele.

-Eu tampouco.

O corpo dele se distendeu ante suas palavras, mas mais que isso, seu coração acelerou no peito. Vikirnoff estendeu-se para ela sem preâmbulos, aproximando-a de seu corpo e imedatamente tomando o ar. Deliberadamente, Natalya envolveu uma perna ao redor das coxas dele, permitindo que o úmido calor de seu corpo brincasse com ele, enquanto voavam pelo céu noturno.

- Tem medo?

-Não. – Ela acariciou-lhe do lóbulo da orelha, com os dentes. – Sim... Não sei. Talvez um pouco.

- Sabe o que está fazendo? – Ela baixou a mão por suas costas, com os dedos estendido, a palma queimando-a através da roupa. A voz dele era áspera pelo desejo. Tanto desejo. Seu útero se contraiu e seus mamilos endureceram.

- Está me perguntado se estou me comprometendo contigo. - Seu corpo estava dolorido e sentia-se vazia. Levantou a face para ele e com o braço lhe rodeando o pescoço, o beijou, sua língua lambendo os lábios dele e suas mãos deslizando para baixo, pelo corpo dele, até roçar o grosso vulto que ele pressionava tão firmemente contra ela.

- Assegure-se do que quer. Porque uma vez que o faça. Não a permitirei partir, Natalya. Mesmo que de algum modo consiga desfazer um ancestral ritual vinculante tão velho como o tempo, não permitirei você partir, uma vez seja minha.- Sua fera estava rugindo por sua companheira. Salve-me. Me escolha. Permaneça para sempre conectada a meu coração. Ela era dele. Dele.

Natalya gostou que ele não fechasse sua mente a ela. Queria sentir a possessividade de seus pensamentos. Desejava ser varrida de forma que essa pequena parte tão assustada dela não fosse capaz de pensar muito e pudesse só tomar o que desejava. Fazer o que desejava. Ter alguém para si mesma. Alguém com quem conversar, compartilhar risadas, ficar zangada e até por quem temer. Desejava tudo. Vikirnoff estava lhe oferecendo todas essas coisas.

-Não sou um homem fácil de levar...

Ela beijou-lhe outra vez, detendo-o em meio à frase. Sabia ser ele ardente. Carnal. E sabia estar doce e perto do amor.

- Eu tampouco sou uma mulher fácil. - Interrompeu-se para lhe beijar pela terceira vez e seus dedos deslizaram sob a camisa dele para sentir seu peito. Tomou cuidado de evitar os ferimentos ainda recentes, não de todo curados, de sua batalha anterior. - Acredito que vou ficar viciada em te beijar.

Rodeou-lhe o pescoço com os braços enquanto ele os fazia descer com velocidade, por uma pequena abertura na montanha, Fechando os olhos ocultou a face contra seu ombro. A entrada era estreita e longa. Caíram diretamente para o interior de uma ampla câmara com tetos altos, como os de uma catedral. Ele a colocou sobre seus pés, segurando-a firmemente, até que ela ficou segura de que não cairia depois de seu vôo.

Natalya atirou sua mochila a um canto e examinou a grande câmara, enquanto Vikirnoff ondeava as mãos para acender as velas. Instantaneamente o ar de encheu do aroma de lavanda.

-Nossa! Isto é maravilhoso. Nossa própria banheira. – Ela assinalou para o pequeno lago natural rodeado de pedras plainas.

-Estava acostumado a vir aqui quando era um principiante. Passava bastante de tempo aqui estudando. Cobri a entrada antes de partir, mas nunca esperei que estivesse completamente intacta.

Ela tocou brandamente seu ombro.

- Então diz que tem que se ocupar de minha felicidade. Não ouvi isso quando nos casou tão rudemente e sem meu consentimento?

Ele gemeu, suavemente.

-Posso ver que este vai ser um daqueles dias difíceis.

Ela jogou a cabeça para trás fazendo com que seu cabelo leonado caísse em ondas, fazendo coisas a seu coração que ele não quis examinar atentamente.

-Acredito que vais ter vários desses dias.

-De dias difíceis? Acredito que tem razão.

-Responda a minha pergunta. Tem que me fazer feliz, não é?

-Não posso fazer outra coisa. – Concordou ele.

Um lento e malicioso sorriso curvou os lábios de Natalya e fez que seus olhos faiscassem.

-Preciso de muitas coisas para ser feliz. E me manter feliz. Sou esse tipo de garota.

-Que tipo de garota? -A suspeita se arrastou até a voz dele.

-Ávara. De muita manutenção.

-Não duvido nem por um minuto. - O olhar dele vagou sobre sua face e algo nele se distendeu. Imobilizou-o. - Vêm aqui.

Natalya retrocedeu. Pretendia manter seu terreno, mas os olhos dele haviam passado de um cinza fumegante a intensamente negros, com intenso calor. Com desejo. Um estremecimento de excitação tomou todo seu corpo. Ela passou a língua pelos lábios e não se sentiu segura de que deliberadamente provocador.

- Você me ouviu, Natalya. - Sua voz era baixa, mais que suave. Um sussurro de veludo lhe acariciando o corpo, acariciando cada terminação nervosa sua. – Venha aqui comigo.

A excitação atravessou-a. Ele parecia sombrio e sério, sua face esculpida com profundas linhas da batalha, seu cabelo fluindo como seda e seu corpo mais que duro por seu desejo por ela. Mas estava em seus olhos, a profunda fome. A forma em que ele a olhava como se estivesse faminto por seu corpo, fazia com que lhe acelerasse a pulsação. A forma em que parecia que nada pudesse ou fosse evitar ele tomar posse dela.

E ela precisava desse olhar. Desejava um homem que a desejasse tanto que nada pudesse se interpor em seu caminho. Não se importava se isso a tornava estranha. Essa era ela, essa era a tigresa. Desejava essa implacável resolução. Desejava essa boca possessiva exigindo a sua, suas mãos arrudas e seu corpo duro e dolorosamente cheio.

Aproximou-se mais, mas inda fora de seu alcance. Tentadoramente fora de alcance. Desejava prolongar o momento. Aumentar seu desejo. Desejava ver seus olhos brilhar com a mesma fome brutal que a arranhava.

Vikirnoff sentia a luxúria elevar-se agudamente, misturada com algo bem mais potente. Segurou-a pelo braço, diminuindo os escassos centímetros que os separavam fazendo com que seu corpo caísse contra o dele. Seu calor quase o derreteu. A pele dela era suave e seus seios apertavam-se contra seu peito fazendo com que tomasse ciência dos duros mamilos contra ele, a cada respiração dela. Fechou os dedos em seus cabelos e ergueu o rosto dela, a fim de que seus lábios se fundissem aos dela.

Natalya estava segura de que a eletricidade rangia no ar a seu redor. Um calor líquido se verteu através de seu corpo, através de suas veias e músculos, quase a prendendo no fogo. Sentia a rudeza das mãos dele em seu cabelo e boca dele esmagando a sua, bebendo de seu selvagem abandono e ela precisava de mais. Exigia mais. Segurou-se a sua camisa, rasgando-a, desesperada por chegar a sua pele. Tudo enquanto devorava sua boca, marcando beijo por beijo, com dentes e língua, marcando suas próprias exigências, empurrando as dele deliberadamente para o alto.

Ele tirou a roupa à maneira de sua gente, com apenas um pensamento, parte do que queria que desaparecesse. Pegando o peitilho da camisa dela, rasgou-a, despindo os seios a seu faminto olhar, o primitivo da ação aumentou seu prazer. Ela era formosa, fora do tecido. Curvas arredondadas e firmes, pronta para comer-lhe Inclinou a cabeça e tomou o mamilo em sua boca.

Os quadris dela encostaram-se com força contra ele, seu estômago se contraiu e ela deixou escapar um gemido. Ele a sustentou, sugando seu seio, com seu corpo ardente e suas necessidades lhe afligindo. A cada carícia de sua língua e seus dentes, sentia o corpo dela tremer e seus músculos se contraírem. Sabia que ela já estava úmida, pronta para recebê-lo. Sua mente estava deliberadamente aberta para ele. Compartilhava seu desejo, alimentando as necessidades dele com seu próprio abandono. O que ele desejasse, ela estava ali disposta para ele e esperava o mesmo.

As mãos dele deslizaram por seu estômago até o pequeno anel que tanto o intrigara. Tocou-o, deslizando-se para abaixo para encontrar sua calça.

- Tire-a. - Ordenou, inclinando-se para frente para voltar a sugar seus mamilos.

- Vikirnoff, tire minha roupa. Estão me fazendo mal.

Ele despiu-a, deliberadamente rude, excitando-a ainda mais enquanto a levava para trás, até que a encostou contra a parede da caverna e tomou posse de sua boca outra vez, enquanto empurrava firmemente o corpo nu contra o dela.

Ela gritou, incapaz de evitar o pequeno som, sem se preocupar que ele soubesse que desejava soluçar de tanto prazer percorrendo seu corpo. Balançou os quadris contra ele, desejando mais, procurando mais. A mão dele continuava acariciando seu seio em recompensa, o polegar brincava com o mamilo, roçando e acariciando provocando que ondas atravessassem seu corpo e lhe contraísse o útero.

-Mais. - Sussurrou ela, ávida de tudo, de cada experiência.

Os dentes dele mordiscaram seu queixo, brincando em sua garganta e desceram mordiscando até seu seio. Elevou-a facilmente com sua força enorme, segurando-a contra a parede enquanto lhe acariciava o umbigo e pressionava pequenos beijos sobre seu estômago.

A respiração dela era entrecortada e ela tentou envolver as pernas ao redor dele, tão ardente e úmida que precisava urgentemente de alívio, mas ele elevou-a até uma saliência da parede, fazendo com que seu traseiro descansasse ali. As mãos eram duras quando lhe afastaram os joelhos, separando suas pernas. O ar frio acariciou seu sexo, mas nada podia refrescá-la, nada podia deter sua dor.

Ouvia seu próprio coração pulsar forte. Ouvia o som de sua respiração ofegante. Então a respiração dele esteve sobre a dela. Sua marca particular. Uma reclamação que nunca desapareceria. Sentiu-a profundamente em seu interior e seu corpo inteiro se distendeu ao ponto da dor. Estava quase soluçando por ele, quando sua mão comprovou seu sexo, pressionando-o até sentir seu calor. Ela se mexeu retorcendo-se de desejo. Sua pulsação palpitava em seus ouvidos e em seu útero. Os dedos dele deslizaram através de seu calor, pressionando-a mais.

Facilmente chegou, rompendo-a em fragmentos, com seu corpo tão disposto que não teria como ocultar sua reação se quisesse. Seus olhos encontraram os dele. Adorava seu rosto e seus traços intensamente masculinos. O rosto de um guerreiro. A face de um amante. Roçou a pontas dos dedos sobre suas linhas, acariciando seus lábios enquanto olhava seus olhos, que revelavam a pura intensidade de seu desejo por ela, a sensação em sua mente de estar sobre o fino fio de uma navalha, quanto a seu controle.

-Desejo-a, Natalya. - Sua voz era rouca. Seus dedos profundamente dentro dela, fazendo com que não pudesse deter a forma em que seus quadris estavam sobre eles, cada músculo contraindo-se com um prazer que lhe detinha o coração.

- Eu sei, Vikirnoff. Eu te desejo também. -Apenas conseguiu sussurrar as palavras, ofegando, quando os dedos dele saíram e entraram novamente desta vez, profundamente.

Ele sacudiu a cabeça.

- Quero que entenda que não desejo nenhuma outra mulher. Só a você.

Natalya gemeu alto, quando os dedos se retiraram outra vez e ele segurou-lhe os quadris, suas coxas se posicionando entre as dela.

-Olhe para mim, ainaak sívamet jutt. Quero que saiba com quem está.

Ela encontrou seu olhar firmemente.

-Sei exatamente com quem estou.

Sua ereção era dolorosamente dura, quase uma agonia que já não podia suportar. Precisava estar todo dentro dela, onde pertencia. Onde estariam conectados para sempre. Pressionou seu membro contra sua entrada escorregadia, quente de desejo por ele.

Natalya gemeu e o som foi muito para ele, vibrando através de seu corpo, pareciam dedos em sua pele muito tensa, roçando e acariciando o tamanho de sua ereção. Manteve o olhar dela cativo, enquanto pressionava em seu interior numa lenta e longa investida que empurrava as bem lubrificadas dobras femininas que ela dominava apertadamente. Sua respiração escapou numa longa rajada de ar, enquanto esperava que o corpo dela o recebesse, o aceitasse. Esperou para poder penetrá-la um pouco mais fundo. E penetrou-a outra vez. E mais outra vez, desejando estar tão profundamente dentro dela, que ela nunca mais se livraria dele.

Natalya estremeceu de prazer. Os dedos dele apertavam seus quadris, segurando-a em seu colo. E ele começou a mover, retirando-se dela num movimento tão provocantemente lento, que lhe roubou a capacidade de pensar. Só podia sentir e cravar as unhas no braço dele, enquanto ele se afundava nela, empurrando duro e profundo, atravessando suas dobras aveludadas enquanto ela gritava seu nome. E ela não parou, mas seguiu entrando poderosamente em seu interior, grosso e duro através das finas dobras, inclinando-a para conseguir um melhor ângulo e endemoniadamente mantendo-a no limiar da liberação, até que soluçou pedindo alívio. A perda de controle a sacudiu. Sempre tivera muito controle e era aterrador precisar tanto e sentir-se indefesa sob o palpitante golpear do desejo sexual.

-Vikirnoff...

Somente seu nome. Seu nome. A súplica sem respiração o deixou fora de controle. Cada músculo de seu corpo se apertou até o ponto da dor. Cada terminação nervosa de seu corpo estava viva e pedindo alívio. A sensação cresceu como um vulcão, numa forte rajada que o sacudiu. Nunca havia sentido nada com tanta intensidade, com tal sensação de necessidade, posse e fome, como nesse momento. Luxúria e amor pareciam entretecidos, inseparáveis. Seus dedos cravaram na pele dela e as presas explodiram em sua boca. Lutou para conter a urgência de tomar seu sangue enquanto se aproximava do limite de seu controle.

Os suaves ofegos e gemidos sem respiração de Natalya o fizeram ultrapassar o limite. O corpo dela era ardente, seu sexo era tão estreito e pequeno, como um punho, espremendo e aferrando até que o atrito e calor explodiram através dele como ouro fundido.

Seu alívio foi assombroso e a levou com ele, fazendo com que seus músculos se convulsionassem em volta de seu membro, em poderosas contrações que os deixaram ofegando procurando ar, com os pulmões ardendo e os corpos em chamas, enquanto o mundo em torno deles se fragmentava. Mesmo suas pernas, sustentadas por músculos poderosos, se converteram numa massa fazendo com que se apoiasse nela, segurando suas coxas em busca de apoio.

Ela parecia uma oferenda, estendida para trás de forma que seus seios empinaram incitantemente, suas pernas totalmente abertas para lhe permitir permanecer entre suas coxas. Seu cabelo estava despenteado e seus olhos semicerrados. Os longos cílios tremulando contra sua face.

-Não posso me mover.

-Eu, tampouco – Na verdade, não desejava se mover. Queria permanecer dentro dela para sempre. Ela era um refúgio, um refúgio secreto que oferecia visões do paraíso. Acariciou suas coxas com as pontas dos dedos, precisando tocá-la, precisando da intimidade de ser capaz de tocá-la tão livremente.

- Não tomou meu sangue. – Natalya não sabia se estava incomodada ou aliviada. Para ser totalmente honesta, o desejo estava em suas veias e em sua mente, tão forte que sentia crescer seus incisivos e o sabor dele em sua boca.

O olhar de Vikirnoff baixou até ela. Ela estava ardente e faminta. A intensidade roubava a respiração.

-Não discuti semelhante coisa contigo, Natalya. - Seu sotaque era bem mais fechado que o normal e fez com que seu coração palpitasse.

-Por que?

-Não tomarei a decisão por você. -Tinha tomado a decisão para honrar seus desejos. Desejava a aceitação dela tanto como ela desejava a dele.

Natalya era consciente do corpo dele ainda tão profundamente dentro do dela. De suas mãos lhe acariciando as coxas, movendo-se para cima por seu estômago até lhe roçar os seios. Podia ter se sentido vulnerável, estendida como estava, mas se sentia absolutamente sexy e desejada. Necessitada mesmo. Estava no calor do olhar dele e na carícia de seus dedos. Na forma em que seu corpo seguia duro e grosso em seu interior e pulsava com fogo, mesmo depois da catastrófica explosão entre eles.

Natalya estendeu a mão para acariciar os sedosos cabelos negros.

-Tenho que encontrar o livro. Se fizer um intercâmbio de sangue contigo, afetaria à forma em que posso chamar os elementos? Minha magia é parte de mim. É como respirar. Se a magia for perdida para mim, não saberei quem sou.

Ele fechou os olhos. Era completamente Cárpato, nascido caçador, um cambiante de forma, capaz de comandar todas as coisas da natureza. Ele não teria que mudar seu mundo ou quem era. Conservaria ela todas suas habilidades? Não podia lhe dar uma resposta. Vikirnoff gemeu e se inclinou para ela.

Natalya respondeu ansiosamente, fundindo sua boca com a dele, deleitada por que a ação o conduziu mais profundamente para dentro dela e provocou tremores por todo seu corpo, com força para começar outros novos. Quando ele elevou a cabeça, manteve as mãos sobre seus ombros forçando-o a olhá-la aos olhos. Os quadris dele se moviam num ritmo gentil, quase preguiçoso, provocando espasmos de prazer por seu corpo. Desejava ser parte dele e de sua vida. Mas desejava que ele a desejasse por si mesma. Por quem era, não porque algumas palavras ancestrais os uniram ou porque o universo havia decretado que se pertenciam um ao outro.

-Parece triste, ainaak sívamet jutta. No que está pensando?

-Não está compartilhando minha mente?

-Não neste preciso momento. Desfruto observando as expressões de seu rosto. Agora, enquanto estamos conectados e compartilhando a alegria de nossos corpos, você parece triste. Devo me esforçar para encontrar melhores formas de te agradar.

Um débil sorriso curvou a boca dela.

-Acredito que é bem consciente de que me agrada. Deixe de procurar elogios.

Ele se moveu para ajustar seu ângulo ligeiramente enquanto investia profundamente com uma dura estocada, aumentando o prazer dela, provocando seus deliciosos e pequenos gemidos e a tristeza para que desaparecesse de seus olhos, para ser substituída por emoções e sensações completamente diferentes.

-Vikirnoff, o que significa ainakk sívamet jutta? - Outro gemido escapou quando ele investiu novamente. - A tradução exata.

- Significa "para sempre conectada a meu coração ". Ou unida. Por sempre unida a meu coração. As palavras são intercambiáveis.

O olhar dela vagou sobre sua face.

-Eu? Estou conectada a seu coração?

-Como poderia pensar outra coisa?

Natalya não tinha uma resposta para isso. Havia confiança em sua inteligência, sua coragem e suas habilidades na maior parte das áreas, mas não como mulher. Ou como companheira. Nunca tinha pensado nesses termos e as idéias que ele tinha na mente sobre o que deveria ser uma companheira estavam além do que era ela... Ou do que poderia nunca ser. Desejava ser sua ainaak sívamet jutta, mas duvidava que ele estivesse vendo-a de forma realista. Fechou os olhos e se entregou ao êxtase de seu ato de amor. Não estava disposta a pensar muito no futuro.

perdeu-se a si mesmo no corpo dele, na absoluta magia que criavam juntos. Desejava a sensação das mãos dele sobre seu corpo, a sensação de sua pele e músculos, o poder dele enquanto tomava. Havia um fio nele, como se pudesse ser rude fazendo o amor, empurrando-a além de qualquer limite que nunca tinha pensado ter, tudo enquanto aumentava seu prazer, deixando-a desejando mais. Sempre mais.

O tempo lhe escapava. Só existia Vikirnoff, suas mãos seus lábios e seu corpo. Cada vez que pensava que se acabara e que descansariam, ele começana tudo novamente, exigindo desejando-a. Faminto por ela. Não havia um centímetro dela que ele não tivesse tocado, saboreado e utilizado, mas a todo o momento ele continuava a lhe arrancar gemidos de prazer. Gemidos e súplicas por mais.

Depois, ele levou-a nos braços até as águas termais e a colocou em seu colo onde pudesse banhá-la. Fragilizada pela fadiga e deliciosamente machucada, ela escondeu a face em seu pescoço.

-Obrigado por não tomar meu sangue. Sinto a necessidade em você, mas é tão cuidadoso. - A pulsação dele palpitava sob seus lábios, o forte fluxo de vida que chamava e tentava.

-Disse que não faria.

-Ainda assim eu teria deixado. – Ela confessou. - Não estava pensando com claridade.

- Disse a você que não tomaria. – Reiterou, ele. - Se for importante para você, sempre lembro, mesmo quando não estou pensando com claridade.

Ela virou a cabeça para apoiá-la contra seu ombro, para poder lhe olhar seu rosto. Havia forte beleza em seus traços, igual a outros com os quais estava começando a se familiarizar. Vikirnoff vestia poder e superioridade tão facilmente, como outros homens vestiam roupas, mas era natural nele, tão intrínseco em sua personalidade, que teria que aceitar nele sem pensar muito, porque temperava outras coisas como integridade e justiça.

-Estou começando a gostar de você.

O sorriso dele foi breve, mas flamejou em seus olhos e o coração dela, cansado como estava, respondeu com um rápido batimento. Passou a pontas dos dedos sobre seus lábios.

-É um começo. – Ele afastou do rosto dela, o cabelo molhado. - Você pode ser dura para o ego de um homem se lhe permitisse isso.

Ela riu. Não pôde evitar. Queria passar toda à noite fazendo amor de cada jeito que pudesse se fartar, um com o corpo do outro.

-Duvido que pudesse moldar seu ego, Vikirnoff. A água está tão boa.

-Não quero que fique machucada. Tento me assegurar de que fique bem antes de dormir.

Havia uma nota em sua voz. Era rouca e sexy, uma promessa de algo pecaminosamente maravilhoso que estendia um calor por suas veias.

-Estou totalmente a favor disso. Vamos ficar nos aqui? - Não queria se separar dele. Não poderia suportar outro dia sem ele.

-Acredito que é melhor. O vampiro não pode enviar inimigos humanos contra você e eu posso nos proteger melhor aqui.

-Como vai Gabrielle? Ainda está viva?

-Sim. Eu mantenho seu espírito com o meu. Enviaram-na para dormir. Falcon lhe dará seu sangue na próxima sublevação. Se seu corpo puder esperar, Mikhail fará o terceiro intercâmbio na seguinte. A espera lhe dará tempo para várias sessões de cura com os outros e uma oportunidade a seu corpo de se ajustar ao sangue ancestral.

-Como ela ficará conectada a você, Vikirnoff? - Afogou a pequena pontada de ciúmes que estava envergonhada de sentir. Fazia tanto tempo que não tinha ninguém para si mesma, que queria ser a única para ele.

Os dentes dele mordiscaram seu ombro.

-Não de forma sexual, nem como uma companheira, Natalya. Terá um vínculo privado a meus pensamentos, como eu aos dela. Nossos espíritos manterão uma conexão, já que terá estará aos meus cuidados mais de vinte e quatro horas. Gabrielle despertará como uma de nós. Não terá companheiro para quem se voltar em busca de apoio em seu novo mundo. Sua irmã e seu cunhado estão voltando rapidamente como é possível, em sua ajuda, mas ela está meio apaixonada por Gary, um humano. Os homens não vão querer que ela econtinue uma relação com ele, com tão poucas mulheres dos cárpatos e esperarão que possa ser a companheira de um deles. Ela despertará com muitos problemas e precisará de ajuda.

-E você tem que estar pronto para ela.

- Você me pediu que salvasse sua vida - Recordou ele, amavelmente, mesmo enquanto seus dentes mordiam a pulsação frenética da garganta dela. – Eu poderia te devorar Natalya e nunca seria o bastante.

Ela sorriu novamente, porque podia sentir a verdade em sua voz e a paixão de seu corpo contra o dela. Isso a tranqüilizava, quando se sentia tão vulnerável.

-Acredito em você. Estou exausta. Não é possível agora, não de novo. Preciso dormir uma semana ou duas. E você também.

Vikirnoff a elevou com casual facilidade e a levou para o lado mais afastado da caverna onde havia preparado uma grande cama sobre a terra. Havia velas por toda parte e as chamas titilavam e dançavam, lançando sombras sobre as paredes que iluminavam cristais e dando-lhes cor. A colcha parecia ser de um azul meia noite, de um suave veludo, Várias almofadas estavam sobre ela. Deitou-a em meio delas. Suas mãos foram eram sobre o corpo dela, colocando sua cabeça num travesseiro macio.

-Estamos molhados.

-Não estamos. - E não estavam.

Natalya se permitiu fechar os olhos e as mãos dele começaram uma massagem em sua nuca. Ele murmurou-lhe algumas palavras em seu próprio idioma, urgindo-a a dormir enquanto ele atendia seu corpo. Vikirnoff massageou-lhe os músculos do pescoço e dos ombros, os braços e as costas e segiu até as nádegas, as coxas e panturrilhas, antes de virá-la.

Natalya estava à deriva em meio a uma neblina de prazer que lhe intumescia a mente. Sentia a língua dele sobre sua pulsação. Mordiscando entre seus seios. Doíam-lhe os mamilos pela doce tortura que ele havia infringido durante horas, mas ele agora estava vez era tão consolador que era estimulante, quando sua língua acariciava demoradamente. Ele sugou gentilmente, antes de atender a parte inferior de seus seios e esbanjar grande quantidade de tempo no pequeno anel de ouro de seu umbigo.

-Você gosta disto, não é? - Ela não abriu os olhos. Gostava da sensação de estar à deriva enquanto ele a explodia de modo tão lento e lânguido. Havia algo a dizer sobre a lenta e sensual atenção prestada em oposição à violência da ânsia anterior de ambos.

-Muito. - Vikirnoff respondeu, brincando com o anel e beijou-a até o leonado triúngulo. - Adoro seu corpo, Natalya. Suave, firme e curvilíneo. Formoso. -Deliberadamente ele pressionou um dedo no úmido calor dela. - Mais que tudo, eu adoro como você me responde. Tive muitos anos para imaginar como seria. Estudei como agradar uma mulher para estar preparado. Queria conhecer cada forma de lhe agradar e como podia ela fazer o mesmo por mim. Mas a imaginação, quando a gente não tem sentimentos, não pode nos preparar para isto.

Natalya abriu os olhos, o suficiente para observar como ele afundava a cabeça entre suas coxas. Ela havia sentido cada emoção, mas não estava preparada para a língua dele que roçava e a acariciava, encontrando cada ponto machucado e curando-a. Não estava preparada para o fogo que a percorria e a afiada necessidade que se estendia e aumentava até que a fez aferrar a manta sob ela e elevar os quadris para encontrar a boca dele.

-Achei que estava tentando me fazer dormir. – Ela se estendeu em busca dele, para se ancorar quando seu corpo estava tão pronto para voar longe com ele.

-Mudei de opinião. Não se mova, Natalya. Fique deitada, não se mova.

-Isso é impossível.

Imediatamente seus braços foram presos sobre sua cabeça. Não pode notar como ele conseguira, mas estava estendida sobre a colcha. Ele elevou-lhe os quadris e colocou travesseiros sob ela, para deixá-la mais cômoda, antes de voltar para sua tarefa. Seus lábios, dentes e língua estavam em toda parte e suas mãos eram possessivas, exigentes quando se moviam sobre ela, até que a viu soluçando pedindo alívio. Levou-a ao limiar uma vez mais, mas não o bastante alto.

Natalya podia sentir o calor de sua ereção quase ardente contra sua coxa. Ele pensava que a deixava indefesa, a beira da loucura, mas ela tinha outras idéias. Deliberadamente fundiu sua mente a dele, compartilhando seu terrível desejo por ele, a escura e aguda necessidade de alívio. Construiu uma imagem dele em sua mente, ajoelhado sobre ela, sugando, acariciando e conduzindo-a ao mesmo ponto febril. Movia a coxa sutilmente, como um grande felino, esfregando-se para criar um um delicioso atrito contra a pele mais sensível dele.

Ouviu seu gemido e logo sentiu a resposta, quando seu membro cresceu ainda mais, duro e grosso e se ergueu com espera e desejo. Ele podia pensar que podia dominá-la e a dominação seria total, mas era tão feroz e apaixonada como qualquer tigresa e era tão capaz de lhe fazer perder a cabeça, dominado pelo prazer, como ele estava fazendo com ela.

Vikirnoff beijou todo o corpo dela, esfregando a face contra a pele suave, incapaz de ter suficiente dela. Adorava a sensação que provocava no corpo dela, na pele macia como o cetim, a seda, fogo e chamas. A luz das velas brincava adoravelmente sobre seu corpo, numa tentação. Seguiu a imagem erótica na mente dela, elevando-se sobre ela, com um joelho de cada lado de seu corpo, então podia senti-la contra ele.

Natalya se fartou com ele, acariciando e passando a lingua em pequenos toques. Circulou-o como se fosse um sorvete. As chamas o engoliram, levando-o a uma nova fome. Ela parecia indefesa, estendida estendida sob ele, com os braços ainda sobre a cabeça e os olhos brilhando como jóias, mas não havia nada indefeso em Natalya.

Vikirnoff se estendeu para baixo para segurar a cabeça dela entre as mãos, sujeitando-a contra ele. Os lábios dela deslizavam provocantemente sobre o membro dele, o calor úmido de sua boca cortava sua respiração, deixando seu coração palpitando com força. Sua boca era um milagre, apertada, escorregadia e tão quente que parecia um inferno. Perdeu-se na mistura de luxúria, poder e puro desejo carnal. Sabia que ela estava alimentando a intensidade, lhe roubando deliberadamente o controle. Observou a forma em que se deslizava dentro e fora de sua boca, o riso zombeteiro em seus olhos, sentiu a forma em que ela o desejava, sentindo o mesmo prazer que lhe tinha dado.

O destino os unira, mas ela era muito mais que isso. Esta mulher, impossível de domar, havia se enroscado em seu coração. Não podia imaginar nenhuma outra brigando com ele, ou fazendo-lhe rir, tornando-o louco de desejo, como estava fazendo nesse mesmo momento. Gemendo, afastou-se dela para cobri-la, esperando um segundo, enquanto se empurrava lentamente contra sua entrada. Sentiu a resistência inicial do corpo dela, como se não pudesse se abrir para ele, mas logo estava todo dentro dela, rodeado por ela. Profundamente, como desejava.

Sussurrou-lhe em seu idioma, incapaz de encontrar outra forma de expressar a profunda conexão e seu compromisso com ela. Fez amor, lento a princípio, observando a forma em que o prazer aumentava, sentindo seu corpo envolver-se a seu redor até que só pôde tomá-la totalmente, para manter a conexão para sempre. Ela estava com lágrimas nos olhos quando o êxtase sacudiu seus corpos e os deixou ofegando em busca de ar, lutando para tranqüilizar seus corações. Cambaleavam de cansaço.

Vikirnoff rodou para liberá-la de seu peso, beijando o pescoço macio enquanto a atraía contra ele.

-Quase está amanhecendo. Devemos dormir.

Natalya lutou para encontrar uma forma de falar, sem o ar necessário para tanto. Seus pulmões ardiam e seu corpo ainda estremecia de prazer.

-Não vais dormir clandestino? Não deveria fazê-lo? Eu dormirei aqui mesmo, em cima de você e o protegerei de todos os gremlins. - Insistiu ela. - A única coisa da qual tem que se preocupar é com o Rei Troll.

-Coloquei salvaguardas intrincadas. Mesmo seu infame Rei Troll terá que fazer uma pausa para desentranhá-las e eu despertaria. Estaremos a salvo aqui.

Natalya apoiou a cabeça sobre o ombro dele.

-Seriamente não me importa se precisa ir para a terra, Vikirnoff. Posso confrontá-lo.

Vikirnoff envolveu os braços a seu redor.

-Prefiro dormir aqui mesmo a seu lado. – Ele disse. - Eu gosto de te abraçar. Se despertar e eu te parecer morto...

- Eu sei. – Interrompeu, ela. – Na realidade estará dormindo. Deixa de se adular, estou perfeitamente bem sem você.

-Você mete em problemas sem mim.

-Cada manhã, quando finalmente estou cansada o suficientemente para ir para a cama depois de ver a televisão toda a noite sozinha, evoco um sonho de minha infância com meu irmão, Razvan. Faço isso durante anos. Era a única forma de me sentir como se não estivesse tão sozinha, como se ainda pertencesse a alguém e tivesse uma família. Esta é a primeira vez em muitos anos que não sentirei que tenha que o chamar a mim.

- Você pertence a alguém. – Ele disse e pressionou os lábios contra sua nuca. – Pertence a mim, graças a essas palavras vinculantes que tanto te desgostam.

Ela franziu o cenho, aconchegando-se mais a ele.

-Não acredita que desisti de desfazer o feitiço. Sou tenaz.

-Não é exatamente um feitiço. - Seus olhos estavam pesados e seus braços começavam a sentir os sintomas que costumava acontecer com sua raça. - Mas averiguou o que são as duas primeiras linhas?

-É claro. – Ela sentia-se orgulhosa, não podia evitar. Sempre tinha tido um dom para decifrar e aprender idiomas e tinha de vantagem de falar vários deles, antes que entrassem nos padrões do século vinte. Estava familiarizada com muitas palavras que consideravam desnecessárias em linguagens anteriores. - As primeiras duas frases se traduzem quase assim: "casada minha esposa" Não há palavra específica para a palavra "é". A segunda linha é algo assim: " Voce me pertence, casada minha esposa". Não estou segura da gramática exata, mas isso está mais perto, que a forma mais moderna.

Um lento sorriso iluminou os olhos dele.

-Seriamente? -Arqueou as sobrancelhas para ela.

-Sim, seriamente. – Ela disse, claramente. - Sei que acha divertido, mas eu me nego a estar atada a algo, deseje ou não. Não é bom para você pensar que está preso a mim. Não sou uma pessoa passiva e não gostaria que pensasse que o sou.

A risada dele foi suave, sua respiração lhe acariciou a nuca.

-Passiva? Você? Não posso imaginar a ninguém, ninguém menos que eu, cometendo esse engano.

Ela sorriu amplamente, fechando os olhos.

-Razvan dizia que tinha que me prender a língua e que se Shakespeare me tivesse conhecido, Kate não tinha sido famosa, seria Natalya.

Vikirnoff estava preparado para não concordar em voz alta. Não quando o corpo dela se moldava tão confortavelmente ao dele. - Que mais dizia Razvan?

-Dizia que eu precisava aprender a costurar, a ser mais receosa e tranqüilizadora e censurar o que digo. -Havia riso e afeto em sua voz.

-Não posso imaginar.

-Eu lhe disse que censurava a maior parte do que dizia. Que se ele pudesse ler minha mente... – Ela interrompeu-se, suas pálpebras se elevaram para poder encontrar a diversão no olhar dele. - Que sorte você tem. Pôde conhecer meu eu real, sem censura.

-Boa noite, Natalya. – Ele beijou-a novamente e sucumbiu ao sono de sua raça, sentindo-se afortunado por conhecer a mulher real.

 

-Razvan! Onde você está? Sou tão feliz. Vêem comigo esta noite. Onde você está? Por que não me responde? - Natalya se apressou a percorrer o caminho de pedra que conduzia ao grande jardim. Sempre se encontravam no jardim se ficassem separados durante o dia, mas não podia encontrar seu irmão em nenhuma parte.

-Por que está tão feliz? - A voz chegava de longe e Natalya divisou seu irmão gêmeo sentado perto da fonte. Parecia sombrio, com as pernas recolhidas, os cotovelos sobre os joelhos e o queixo apoiado na mão.- Onde esteve Natalya? Notou pelo menos que me abandonou? Não conhecia as salvaguardas e tive que ver o avô.

Isso a fez se sobressaltar. Nunca se referia a ele como avô. Achava que Xavier estava morto. Se falavam dele , ele os castigaria e seu castigo era terrível. Xavier. Seu Avô. Eram obrigados a viver com ele depois de que seu pai havia desaparecido. Natalya franziu o cenho. Por que não podia lembrar de Xavier quando estava acordada? Conhecia exatamente seu aspecto quando conjurava seus sonhos de infância, mas não quando estava no presente e acordada. Como acontecia isso?

-Não o chame assim. Temos que lhe chamar de Tio. Ele poderia te ouvir.

-Por que não me ensinou as salvaguardas, Natalya? Como pôde me deixar exposto assim? - Razvan ficou em pé lentamente, elevando-a camisa. - Olhe o que ele me fez.

Natalya parou, instantaneamente.

-Oh! Não! Razvan, por que ele briga contigo quando eu cometo um engano? Eu odeio isso. Odeio que tenhamos tanto medo de estar juntos, que precisamos nos encontrar assim. Ele tomou seu sangue?

-Ele sempre toma meu sangue. Se não for o meu, então tomaria o seu. Sabe disso. Não me importa que me castigue. Ele não vai conseguir seu sangue.

-Por que ficamos? Por que lhe permitimos nos dar ordens e nos manter como crianças pequenas? Tenho poder. Ele não pode me controlar. Quer que nós acreditamos que pode, mas não. Você tem o mesmo poder, Razvan. Resististe a ele há anos. Juntos podemos nos liberar dele.

-Temos diferentes forças, Natalya. Você é boa comandando os elementos. Tem uma mente rápida e pode averiguar coisas.

-As idéias lhe aconteçem em primeiro lugar, Razvan. Sem você, teriamos morrido há anos. -As palavras prenderam Natalya. Ela baixou o olhar para suas mãos. Não eram as mãos de uma menina, mas as de uma mulher adulta.

A surpresa a percorreu. Levantou o olhar para Razvan.

-O que nos aconteçeu?

A forma do adolescente brilhou tenuemente, tornando-se translúcida e a imagem de um homem se sobrepôs a do menino.

- Você me traiu. Escolheu o caçador, meu inimigo.

Natalya sacudiu a cabeça, estendendo-se para seu irmão.

-Escolhi a felicidade, Razvan. Isso era algo que nosso avô não entendia, que nunca podia entender. Do que serve a longevidade? Vi às pessoas morrerem, mas viveram felizes enquanto eu continuava sozinha, vivendo sozinha sem ninguém com quem compartilhar nada. Nem dor e nem alegria. - Seus braços caíram de volta a seus lados, vazios.

-Temos poder além da imaginação.

-Não, não temos. Eu vi poder além da imaginação, mas isso não me importa. Essas pessoas que nascem, vivem suas vidas juntos como uma família e morrem rodeados pela família, sabem como viver. Que nós fazemos? O que ele faz? Se oculta do mundo com seus malévolos planos, bebendo sangue para continuar vivo... Para que? Por que viver tanto sem felicidade? Eu escolho ser feliz, compartilhar minha vida. Não me desculparei nem me sentirei culpada por isso.

-Olhe para nós, Natalya. Ele tomou nosso mundo e o mudou. Já não sou um moço e me estou desvanecendo. Realmente escolheria a ele acima de seu irmão? Seu irmão gêmeo?

-Não lhe abandonarei. Por que acha que estou escolhendo um sobre o outro? Você está em meus sonhos, Razvan. Nunca o esquecerei, nunca. - Seu coração palpitava, estudava a imagem que desvanecia, de seu irmão gêmeo, a dureza da face do homem.

- Não precisa de mim. Você tem a ele.

Natalya se negava a soar como se estivesse suplicando. Ou pedindo permissão.

-Ele está vivo e eu estou viva. Não posso sustentar minha vida com sonhos de um irmão longamente desaparecido para mim. Meu amor por ele é diferente.

A face de Razvan se retorceu de fúria.

- Eu a proíbo! Ele é um caçador, odiado por nossa família. Escolha outro.

-Isto é um sonho, só um estúpido sonho. Escolho Vikirnoff. Escolho a felicidade. - Disse Natalya, decidida a despertar. Não permitiria que seus sonhos se convertessem nos retorcidos pesadelos que às vezes os invadiam. Razvan quereria que ela fosse feliz. Não estaria tão furioso com ela por escolher se misturar numa relação com alguém que a fazia feliz. O que fosse, que ocasionalmente se arrastava até seus sonhos e os corrompia, não iria agüentá-lo mais.

-Espere! - Chamou Razvan, freneticamente. - As salvaguardas. Não me mostrou as salvaguardas. Não posso tecê-las, eu mesmo.

Natalya se voltou para ele, franzindo o cenho enquanto lhe murmurava o feitiço.

Sorriu-lhe, seu amado Razvan, já repetindo as palavras para se assegurar de não esquecê-las. A dor relampejou inesperadamente através de sua mente. Uma terrível pressão que aumentou sem piedade e então bruscamente desapareceu, deixando-a sacudida.

Ele sacudiu a cabeça.

-Não está bem. Isso não está bem. Não está me dizendo a verdade.

Natalya olhou fixamente seu irmão, com repentina surpresa e crescente horror.

-Meu Deus, Razvan! É você. Era você o tempo todo.

Soltou um longo e apavorante grito. Sentia que literalmente haviam arrancado seu coração do peito.

Tomou consciencia, com o som de seu grito ainda lhe ressoando nos ouvidos. As lágrimas desciam de seus olhos e sua respiração chegava em grandes soluços angustiados.

-Isto não pode estar acontecendo. Isto não pode estar acontecendo. - Pressionou o dorso da mão contra a boca trêmula. Seu estômago se revolveu e ela se arrastou para longe de Vikirnoff sobre mãos e joelhos e vomitou no canto da caverna.

Ele despertou instantaneamente, movendo-se com sua velocidade sobrenatural, ajoelhando-se junto a ela, com uma mão em suas costas, seu corpo pressionado contra o dela.

-O que acontece? Diga-me o que causou esta aflição? - Só havia passado uma hora e a letargia não o havia tomado em suas garras.

-Um sonho. – Ele enrolou-se nele, tremendo de frio, desejando envolver-se em seus braços. - Só que não foi meu sonho. Não era meu sonho há tempo, só que eu não sabia. Não o entendia.

Vikirnoff envolveu os braços ao redor dela firmemente, trazendo-a para a proteção de seu corpo. Balançou-a gentilmente, sentindo sua dor. Uma terrível dor que não podia ser consolada.

-Diga-me, ainaak enyém. - Sua voz era imensamente amável.

Natalya agradecia por ele não tentar entrar em sua mente. Sentia-se descarnada, traída e envergonhada. Era o legado de seu sangue de mago? Era possível que toda sua família estivesse tão corrompida? Um pequeno soluço saiu de sua garganta, antes de poder contê-lo. Aconchegou-se mais a Vikirnoff, enquanto ele a balançava, acariciando seu cabelo e sujeitando-a contra ele.

-Ele está vivo.

-Xavier? Já sabíamos.

Ela sacudiu a cabeça, apertando os dedos ao redor da mão dele, precisando sujeitar-se a sua sólida força, enquanto o mundo se rompia em pedaços.

-Xavier não. Razvan. Ele está vivo. Ele é o Rei Troll. – Ela se abaixou para esfregar o tornozelo. - E isso significa que está aliado a Xavier e Maxim. Está aliado aos vampiros.

Vikirnoff lhe roçou a cabeça com um beijo e esfregou a face contra ela, num esforço de consolá-la.

-Como sabe isto?

-Lembra-se de quando estávamos na caverna e Maxim me atacou, quando foi capaz de entrar em minha mente tão facilmente? Minhas salvaguardas haviam desaparecido. Você as substituiu, não eu. Você teceu um fio diferente através de minha mente, uma que eu nunca havia utilizado. - Como ele pode estar vivo?

A dor irradiava dela em ondas mas tudo o que Vikirnoff podia fazer era abraçá-la, sentindo-se completamente inútil enfrentado à angústia dela. Todos seus séculos de educação, todo seu vasto poder não poderiam tê-lo preparado para este momento, no que mais precisava. Só podia abraçá-la e sentir seu terrível dor.

-Meus sonhos foram sempre de minha infância com ele. Foi o único tempo que passamos juntos. Separamo-nos para ficar a salvo de Xavier, mas nos encontrávamos em nossos sonhos e compartilhávamos informações. Fizemos isso durante anos. Depois de que ele morreu, eu convocava os sonhos e os repetia para me consolar. Mas em algum momento os sonhos começaram a mudar. Nem me lembro quando. Falávamos de coisas pertinentes de agora, deste tempo. Eu simplesmente assumi que era porque estava sozinha e queria compartilhar meus pensamentos sobre coisas e que os sonhos mudavam a minha conveniência.

-É lógico, Natalya. As coisas que aconteçem durante o dia ficam presas em nossas mentes, com freqüência arrastando-se a nossos sonhos. Pelo menos isso é o que tenho lido.

Ela sacudiu a cabeça, seus olhos escuros de dor.

-Não foi assim. Ele me fazia pergunta sobre experimentos, igual aos velhos tempos, mas estes eram novos.

- Os desafios. Disse que lhe desafiavam a fazer coisas. Acredito que Xavier a desafiava.

-Era Razvan. Razvan esteve me utilizando, não sei por quanto tempo. Por isso não posso me lembrar das coisas. Não por Xavier. Ele não tinha meu sangue. - Um soluço escapou de sua garganta e som atravessou Vikirnoff como uma faca. - Quando era menina, Razvan me protegia de Xavier. Ele aceitava os castigos e ia aos laboratórios. Vinha com idéias, mas eu inventava como fazê-las e dava a informação a Razvan. Era como evitávamos que ele recebesse os castigos de Xavier. Xavier pensava que Razvan era o que possuia as habilidades naturais. Nós o enganamos durante anos fazendo com que pensasse. – Ela limpou as lágrimas que desciam por sua face. A dor era tão profunda, que ela se sentia como se seu irmão tivesse lhe arrancado o coração. Pressionou as mãos no peito, tentando deter a agonia.

-E você acha que de algum modo nos últimos anos, Xavier conseguiu recrutar Razvan para sua causa? -Vikirnoff manteve a voz estritamente neutra. Natalya estava tão devastada e ele era incapaz de enfrentar seu sofrimento. Apertou os dentes com força, a raiva crescia apesar de seu esforço em se acalmar. Seus braços a envolveram mais. Desejou tomar toda a dor dela, protegê-la de qualquer outra coisa, mas Natalya não era mulher para ser envolvida num casulo. Ela enfrentaria isto a seu modo. Em seus próprios termos.

-Tem que ter feito. Não sei como e nem sei por que. Viver tanto tempo sem felicidade... Por que desejaria algum deles?

Os braços dele se apertaram, abrigando-a ainda mais.

-Não tenho idéia. Mas está segura, Natalya? É possível que tenha discutindo seus pensamentos diurnos em sonhos?

-Você proporcionou as salvaguardas e ele não pôde me alcançar. Não pôde me rastrear. Por isso o Rei Troll não apareceu quando estávamos lutando com os vampiros. Foi tão estranho que ele não estivesse lá. – Ela passou os dedos pelo cabelo, com pura agitação. - Isso o chateou. Havia estado ali, cada uma das outras vezes. Não teve a vantagem de poder ler minha mente. Não pôde me encontrar.

-Porque eu utilizei uma salvaguarda completamente diferente, uma que não lhe era familiar.

- Naquela primeira manhã, depois que o Rei Troll me marcou e eu te levei para meus aposentos, ele soube. Você já havia atravessado meus escudos, que por certo são incrivelmente fortes, mas Razvan os havia eliminado. Então foi como o guerreiro das sombras foi capaz de entrar. Eu coloquei as salvaguardas no aposento, não você. E por isso não o senti no chão. Nem quando estava me atacando na caverna. – Novamente ela esfregou o tornozelo. Só fui consciente do ataque real depois de que o veneno já estava em minha perna.

-E quando corremos escada abaixo na caverna, eu o senti correndo paralelo a nós, mas ele a confundiu, te fazendo acreditar que estava sob nós.

Natalya assentiu, tentando sacudir o frio repentino que se instalou em seus ossos.

-Ele está vivo, Vikirnoff. E está orquestrando algo muito ruim aqui.

-E ele e os vampiros querem o livro que seu pai roubou. Xavier e Razvan precisam do livro para completar seus planos.

-Mas meu pai o ocultou deles. E Razvan sabe que eu posso tocar objetos e ver coisas. Então estiveram esperando até o momento perfeito para adquirir o livro e proceder. – Ela pressionou as pontas dos dedos contra as doloridas têmporas. - Eu lhes proporcionei a forma de fazer isto. – Ela manuseou-se o tornozelo. - Razvan me desafiou e eu fiz com que aconteçesse. Ele usou meu próprio trabalho contra mim. não é irônico?

-Sinto muito, ainaak enyém. Sei o quanto lhe quer. - Vikirnoff abraçou-a firmemente, respirando por ela, sentindo a dor esfaqueando seu coração e rezou para não ser ele, quem mataria seu irmão.

-Sei que tem razão, Vikirnoff. Agora virá a nós, com tudo o que tem. Sabe que eu sei. Não tinha intenção de me delatar, mas me surpreendi tanto. – Ela estendeu as mãos adiante. – Sinto muito. Se tivesse pensado em seguir jogando com ele. Podia ter conseguido mais informações.

Vikirnoff tomou a mão de Natalya e beijou-a.

-Não se desculpe. Nem agora e nem nunca. Sua reação é completamente justificada.

-Mas ele tentará nos matar.

-Já esteve tentando me matar. – Ele sorriu contra a nuca dela. - Você pensava me matar. Pareço produzir esse efeito nas pessoas.

Ela tentou sorrir, gostando que ele estivesse fazendo semelhante esforço por ela, mas não podia passar, do quanto obtusa havia sido.

-Deveria tê-lo dirigido melhor.

-A traição nunca é fácil de dirigir e não há modo correto de aceitá-la. Agora não importa. Vamos estar bem.

Natalya ficou em silencio um longo momento. Ele podia ouvir seu coração começando a se acelerar. Voltou a face para ele, com uma mão estendida para trás, para lhe segurar o pescoço e olhou em seus olhos.

-Intercambie sangue comigo.

Seu próprio coração começou a pulsar abruptamente, igualando o ritmo do dela.

-Acreditávamos que não íamos arriscar, não a que não pudesse acessar às lembranças da faca.

-Se não for capaz de encontrar o livro, eles tampouco. Nenhum lado o terá e isso provavelmente seja bom. Algo que Xavier fizer e selar com o sangue de três espécies mágicas, sem dúvida será poderoso, mortal e muito perigoso para que ninguém tente esgrimi-la.

Vikirnoff respirou fundo. Ali estava. Compromisso total. Não haveria volta, uma vez fosse convertido. Agora ela estava presa a ele, mas esse último passo, essa importante diferença a selaria a ele e a sua raça para sempre. Queria que ela escolhesse esse caminho por si mesma. Não para escapar de quem era.

-Natalya... - O que podia dizer? Não podia lhe negar nada, especialmente agora que a dor era seu mundo e estava tão destroçada.- Se não soubermos onde está o livro, como pode ser protegido? E se encontrarem uma mulher psíquica e com seu talento, para ajudá-los a encontrar o livro? Temos que destrui-lo.

-Como podemos destruir o livro? Se pudesse ser destruído tão facilmente, meu pai o teria feito.

-Está certo. Não sei a resposta para isso Natalya, mas acredito que todos os Cárpatos dormirão melhor sabendo que nosso príncipe custodia o livro, em vez de sabermos que esta em alguma parte e que os vampiros possam encontrá-lo.

-E se o livro corromper a quem o tocar? O poder corrompe.

-Isso é algo no qual não temos que pensar ainda, Natalya. A verdade é que quer intercambiar sangue comigo, não porque esteja se comprometendo comigo, com nossa relação, mas porque acha que há algo ruim em ti.

A gentileza de sua voz a fez desejar chorar e afastou o rosto dele, para que Vikirnoff não visse as lágrimas brilhando em seus olhos.

-Não é o que penso.

- É, ainaak enyém. Você acha que seu sangue está poluído e deseja escapar dele. Nem todos os magos eram malvados. A maioria eram amáveis, inteligentes e muito generosos. Nossas gentes eram amigas. Mesmo Xavier, um tempo, foi muito respeitado e uma tremenda ajuda para todos o que procuravam seus conselhos. Diz você que o poder pode corromper. Eu não sei como aconteçeu, mas não foi o sangue que corre por suas veias.

Ela se separou de seus braços e abriu passo para a pequena cascata, pegando a água em sua mão para enxaguar a boca. Ainda estava fria. Não parecia conseguir encontrar calma, a pesar do calor natural da caverna.

Vikirnoff podia sentir sua angústia e amaldiçoou sua própria incapacidade para lhe aliviar a dor. Não havia forma de aliviar a traição, nem forma de beijá-la e fazê-la sentir melhor. Sua mente estava descarnada pela necessidade de ajudá-la, mas não podia desfazer a terrível tragédia.

-Possivelmente não foi o sangue, Vikirnoff. Mas estou presa a eles. Invadiram minha mente! Eles invadiram minha mente. Apagaram lembranças e plantaram histórias. Aproveitaram de meu amor por meu irmão e corromperam minhas boas lembranças dele. – Ela passou a mão pelo tornozelo novamente. E puseram parasitas em meu corpo. Não quero que me conheçam. Não quero que nunca mais se arrastem outra vez em minha mente.

Ele ficou em pé e a seguiu através da câmara.

-A conversão mudará sua vida inteira.

Ela entrou no calor do charco. A água esquentou sua pele gelada. Mesmo suas vísceras estavam frias. Esperava que o calor das águas termais a fizesse deixar de tremer.

-Minha vida inteira mudou. –Ela estendeu a mão para ele. – E para melhor. - Um débil sorriso se elevou em seu rosto, inesperadamente. - Decidi que posso te treinar.

As sobrancelhas dele se elevaram e ele entrou na piscina junto a ela.

-Treinar?

Ela assentiu.

-Não pode pensar que vai sair com as suas, me manipulando, certo? Então, uma vez aceite o fato de que sempre tenho razão, vamos nos dar muito bem.

Ele sacudiu a cabeça.

- Você está impossivelmente otimista quanto a suas possibilidades. – Ele abraçou-a, a fim de que estivesse agasalhada sob seu ombro.

-Possibilidades do que? – Natalya sentia a cabeça muito pesada e a apoiou contra o peito dele.

-De ter razão. Sou uma dessas pessoas aborrecidas que sabem tudo. Acha que sou mandão, mas na verdade, simplesmente estou dirigindo-a, quando começa a ser desencaminhada.

-E espera que eu te agradeça, suponho, sua brilhante direção.

-Tenho em mente muitas formas de que me mostre sua avaliação.

-Sei... – Ela esfregou o tornozelo sob a água. – Será que isso vai desaparecer completamente? Agora é parte de minha pele.

-Não sei. Na verdade, não sou curador, embora possa levar a cabo habilidades básicas de cura. Quando Gregori voltar podemos pedir que ele dê uma olhada. Se ele não puder eliminar a marca, podemos procurar Francesca. Ela está em Paris e dizem que é assombrosa.

-É possível que a conversão a elimine?

A mão dele deslizou sob a água, para lhe rodear o tornozelo.

-Eu gostaria de saber. Duvido, Natalya. É muito diferente de qualquer outra coisa que tenha conhecido. Não sei o que te fará a conversão. Não acredito que elimine suas habilidades como maga. Rhiannon possuía mais talento que a maioria dos feiticeiros. Deve ter recebido isso dela, junto com o sangue de mago que te faz tão poderosa. Não me surpreende que Xavier desejasse seu sangue.

Os olhos de Natalya encontraram os dele.

-Razvan não teria permitido.

Os fortes dedos de Vikirnoff moveram sobre o tornozelo, numa massagem consoladora.

Natalya começou a relaxar novamente e o duro nó em seu estômago se soltou. Quando havia se convertido Vikirnoff em alguém, com quem pudesse se sentir em paz? Deslizou a mão sobre o estômago dele, sem intenção sexual, mas precisando sentir seu corpo sob os dedos.

- Acredita que eu poderia ter agüentado contra Xavier? E se é ele quem me visita em vez de Razvan? E se Xavier tivesse tomado meu sangue? - Não o chamaria avô. - Acha que Razvan poderia ter sido salvo?

-Não há forma de saber.

Ela parecia perturbada, tão diferente de sua confiada e brincalhona personalidade, que seu coração lhe doeu. Natalya possuía uma vontade de ferro. Seu irmão era gêmeo. Pensavam iguais e protegiam um ao outro. Vivenciaram tempos duros quando adolescentes e encontraram uma forma de sobreviver sem guia adulto.

Vikirnoff olhou em seu coração e a encontrou sacudida até a alma.

Razvan havia escolhido honoravelmente dar seu sangue a Xavier. Enganara com êxito a seu avô lhe fazendo acreditar que era ele que possuia habilidades superiores em magia, quando era Natalya. Levara a cabo um engano elaborado e Razvan com freqüência havia sido castigado quando Natalya não completava os experimentos e passava a informação a seu irmão. Ela se mantêra a salvo enquanto seu irmão aceitava todo o risco e agora, depois de todos os sacrifícios dele, ela não suportava pensar que não estava com ele, para lhe salvar como ele a tinha salvado. Não estava com ele, para ele e se converteu no mal. Sua culpa consumia sua alma. Uma terrível carga que ele sentia penetrar em sua própria alma.

Ela olhou para cima, seu olhar prendendo o dele.

-Há forma de conseguir que ele volte atrás? Podemos desfazer o mal?

-Natalya... - Havia uma nota de advertência em sua voz. – Ele tem sangue Cárpato correndo em suas veias. Há muitas possibilidades de que agora será em parte, vampiro. E seu irmão está aliado a eles. Maxim e seus irmãos são arrogantes e acreditam que deveriam controlar o mundo. Acredito que Xavier e Razvan sentem que eles deveriam ser os amos e se uniram aos vampiros com a esperança de ganhar o controle de tudo. Os vampiros estão usando seu experimento para reconhecer outros, os que participam desta conspiração. Encontrei os parasitas pela primeira vez na companheira de meu irmão. Ela havia sido tirada de menina e convertida por um vampiro. Foi capaz de lhe derrotar, mas seu sangue chamava outros. É como identificam os membros da conspiração, aqueles com parasitas no sangue. Tem que ser isso. – Ele suavizou seu tom. - Sabe que Razvan está perdido para você.

-Como sei? Os curadores fazem coisas incríveis. Possivelmente poderia ser salvo. Ele não é completamente Cárpato. Se ele se converteu, não é completamente vampiro. – Ela passou a mão pelo rosto, como seu pudesse apagar o conhecimento da extensão da traição de seu irmão gêmeo.- Era um bom homem. Durante séculos, foi honorável e sofreu muito.

Vikirnoff suspirou.

-Queria saber por que queria filhos. Vi essa pergunta em sua mente muitas vezes.

Ela engoliu o repentino nó de sua garganta e se negou a encontrar seu olhar, sacudindo a cabeça ligeiramente.

-Estava procurando sangue igual a Xavier e queria o sangue de seus filhos para manter sua vida. É como permaneceu vivo todos esses anos. Nem todos os filhos possuia o que precisava. Queriam vários e de diferentes mães. - E Razvan agora queria o sangue de Natalya, como Xavier todos aqueles anos. Razvan não a tiraria de Vikirnoff. Não podia permitir que se destruíssem os frágeis fios que uniam seus corações, quando suas almas estavam fundidas tão firmemente.

-Isso não sabe -Mas tinha sentido. Era exatamente o que Xavier teria feito. Havia o presenciado quando segurou da faca de cerimônial.

-Não, não sei. E não sei se pode haver alguma esperança para ele. O que sei é que há vampiros conspirando para matar o príncipe e te raptar. Estão procurando um livro pelo qual seu pai deu a vida para proteger. Estava tão desesperado para proteger o livro que seu colocou sob compulsão para que o encontrasse, se alguém começasse a rondar pela caverna.

-Alguém entrou na caverna de gelo antes que nós e disparou a compulsão. – Ela já havia pensado.

-Se seu pai estava disposto a dar sua vida para manter o livro longe de Xavier, eu estou disposto a apostar que não querem que caia em suas mãos.

-Ainda acredito que há uma oportunidade.

-Natalya, não posso te dizer a quantos amigos... Mesmo membros da família tive que caçar e matar. Quando enfrentamos um ser querido que se converteu em vampiro, mesmo os caçadores duvidam. E quando enfrenta um caçador tão hábil como seu irmão, a dúvida é uma sentença de morte. Não pode se permitir à lástima. Não pode se permitir pensar que pode ser salvo. Não pode ser.

-Como sabe? Alguém tentou alguma vez curar um vampiro? Alguma vez se tentou?

Ele sSabia que era desespero, mas não podia evitar empurrá-la. Tinha que haver uma forma de salvar seu irmão. Se seu sacrifício por ela havia o conduzido a sua queda, então era sua responsabilidade. Ele estava presente quando precisara dele e agora tinha que encontrar uma forma de estar presente para ele.

Os vampiros eram completamente malvados. Ela tinha visto sua depravação, sua alegria em matar os outros. Não podia suportar que Razvan tivesse escolhido semelhante coisa. Que tivesse abraçado deliberadamente tudo aquilo contra o qual tinham lutado sua vida inteira. Vikirnoff podia vê-la se esforçar para lutar contra o peso da culpa, o medo e mesmo a repugnância. Não queria ter medo de seu irmão. Não queria lhe odiar ou desprezar. Não queria sentir repulsão por aquilo no qual ele se convertera.

Relutantemente, Vikirnoff soltou Natalya quando ela se afastou dele. Seu coração doía enquanto a observava nadar intranquilamente pelo pequeno charco. Não podia mentir ou suavizar a verdade. Respeitava-a muito para isso. Quando procurassem o livro, seriam perseguidos. E tinham que procurar o livro. Ele sabia e em algum lugar, profundamente em seu interior, também Natalya. O livro apareceria cedo ou tarde, possivelmente mesmo em outro século quando as lembranças já se rabiscavam. Era muito perigoso deixar passar a oportunidade.

Vikirnoff passou a mão pelo rosto. Seu estômago se revolvia ante a idéia do que estava por vir. Natalya era uma mulher excepcional, mas uma que nunca havia esperado, uma que pensava nunca desejar. Por que visualizara uma mulher dócil e maleável como sua companheira? Natalya era uma mulher para caminhar a seu lado. Não podia imaginar sua vida sem sua afiada língua ou seu peculiar senso de humor.

Suas sobrancelhas se uniram enquanto a observava nadar. As gotas de umidade da testa dela não eram da água termal e isso era doloroso. - A televisão de seu aposento da estalagem realmente funciona? - Utilizou seu vínculo íntimo de comunicação deliberadamente, desejando que ela o sentisse dentro dela.

Ela parou bruscamente, jogando o cabelo para trás enviando água em todas as direções. Piscando rapidamente para limpar os olhos, assentiu.

-Por que?

-A metade do que diz não tem sentido para mim. Se formos nos comunicar adequadamente, tenho que ver seus filmes da madrugada.

Ela jogou água diretamente no rosto dele.

-Não soe como se estivesse indo a um funeral. Os filmes da madrugada são divertidos. Diversão. Entende pelo menos o conceito de se divertir?

A nota de desespero que rompia o coração, de tensão, em sua voz, mostrava-se novamente em seu rosto. Sorria-lhe animadamente, mas seus olhos estavam escurecidos de dor. Vikirnoff se ergueu sobre ela, seu olhar prendendo o dela. Todas as brincadeiras do mundo não a aliviariam. Todo o amor do mundo não faria desaparecer sua dor. Tudo o que o podia fazer era abraçá-la, tão perto de seu coração como fosse possível. E lhe dizer a autêntica verdade. Veria-a pelo que era. Era um risco que pensava em tomar. Sua relação era muito frágil e ele sempre parecia tomar a decisão equivocada.

Era consciente de seu sangue movendo através de seu corpo. Levando sua vergonha.

-Não sei se Razvan escolheu conscientemente abraçar o mal, Natalya.

-Não entendo o que quer dizer. Tem que ser vampiro. Pelo menos estar aliado a eles. Como não teria escolhido abraçar o mal?

Ele ouvia o coração trovejando nos ouvidos, tentando afogar o som de sua voz. Confessando, colocando em voz alta o que não queria reconhecer. O que não queria admitir a si mesmo. Esfregou o rosto contra o dela, seus dedos se enrolaram nos cabelos úmidos dela.

Natalya conteve a respiração, sentindo o quanto Vikirnoff era vulnerável nesse momento, sentindo o custo para seu orgulho.

-Conte-me.

-Antes de te conhecer. Muito antes de te conhecer, eu caçava vampiro em qualquer parte aonde ia. Era bom nisso Natalya, porque a vida já não me importava. Nem a minha e nem a de nenhum outro. Compreendi que estava me convertendo na mesma coisa que caçava. Então procurei meu irmão, esperando que sua proximidade aliviasse a crescente escuridão.

Natalya se pressionou mais a ele, lhe rodeando o pescoço com os braços, desejando lhe dar forças como ele fizera com ela.

-Siga, Vikirnoff. - Sentia sua relutância e sabia que ele estava dando algo de si mesmo, algo que lhe custava muito.

Vikirnoff comntinuou com uma torturada respiração.

-Isso ajudou durante alguns anos e então esvaziou. Era um peso que pressionava mais que tudo. Contive-me de matar, permitindo que Nicolae destruísse o vampiro depois de que os encontrávamos. Eu passava a maior parte do tempo em outra forma.

-Tudo era bom para seguir adiante. – Ela captou a existência vazia e erma em sua mente, mas era quase impossível de entender sem se fundir com ele e ele se mantinha afastado dela.

Vikirnoff fechou os olhos.

-Não está entendendo o que estou dizendo, Natalya. Sou um antigo Cárpato. Ensinou-me bem o que acontecia a nossos homens, se devessem continuar vivendo, caçando e destruindo. Há um ponto que não há retorno. Um lugar na mente onde deve fazer uma escolha.

Natalya franziu o cenho e se afastou, para observar seu rosto.

-Que escolha?

-Cada momento de nossa existência, somos agudamente conscientes da crescente escuridão. Sabemos que se não encontrarmos nossa companheira há um momento em que devemos tomar uma decisão para proteger nossa gente e à população mundial. Uma vez que o tempo nos vem, não podemos deixá-lo passar. Se não tomarmos a escolha de encontrar o amanhecer com honra, colocamos nossas almas em perigo, nos arriscando a nos converter em vampiro.

Natalya estendeu a mão para lhe emoldurar a face.

-Mas quem pode fazer tal escolha?

-É nosso legado, Natalya. Nos dão as palavras rituais para preservar nossa espécie, nossas vidas. É nossa única autêntica salvaguarda. Sem a luz em nossa escuridão indevidamente sucumbimos ao mal, se não procurarmos o amanhecer. - Seu olhar se afastou do dela. - Eu havia passado muito longe o ponto de não retorno. Soube exatamente o dia de minha escolha. Lembro-me vividamente, mas não fiz o que era necessário para assegurar a sobrevivência do resto de minha raça. Escolhi viver. Aferrar-me à vida quando devia ter escolhido o amanhecer.

Ela sacudiu a cabeça, seus dedos acariciavam os fortes traços do rosto dele.

-Isso não é certo. Disse que somos companheiros. Esso não significa que devia sobreviver?

Ele sacudiu a cabeça.

-Estava muito perto. Você sentiu no bosque muito antes de me ver. Não podia dizer se era caçador ou vampiro. Eu tampouco podia. – Ele negava-se a afastar da crua verdade. - Não sei se um segundo momento de decisão chega após o primeiro. Não posso te dizer se Razvan soube sequer que havia um momento para escolher. Havia passado muito desde que realmente havia sentido emoção, experimentado alguma coisa ou minha mente começasse a vagar a lugares aos quais nunca deveria ter ido, mas era incapaz de detê-lo.

Natalya respirou fundo e seus dedos se emaranharam nos cabelos dele. Havia muitas emoções nele, fervendo em seu interior, lavrando profundos ferimentos de humilhação. Custava-lhe seu orgulho como caçador Cárpato, como homem de sua espécie, contar a ela seu mais escuro segredo, admitir a vergonha de sua escolha sabendo o que indevidamente aconteçeria e a vergonha pior de não ser capaz de deter seu avanço inexorável para o mal último.

-Razvan não tinha meu treinamento. Não tinha o conhecimento de saber o que lhe aconteçeria através dos séculos. Isso o tornava fraco? É uma traição a tudo o que amamos ou é a escolha que toma, perdidos num labirinto criado por nossas mentes onde tudo se confunde e já não há linhas claras de definição, só uma horrível existência sem sentido?

Ela se sentia deslumbrada, humilde mesmo, olhando seus escuros olhos. Havia dor neles. A dor de séculos de vazio. Havia medo de que ela pudesse lhe rechaçar.

-Como pôde pensar que eu poderia te rechaçar? Por que o faria? Não por despir sua alma e se confessar a mim porque eu queria saber que Razvan não me traiu deliberadamente. – Ela beijou repetidamente seu queixo, antes de procurar seus lábios onde sua lingua brincou provocantemente.

-Razvan poderia não ter pretendido te trair. Pode ter acontecido, simplesmente. Mas, Natalya, a minha foi uma autêntica traição. Como seu companheiro, deveria ter colocado seu amparo acima de tudo e deveria ter escolhido o amanhecer quando chegou o momento da escolha.

Ela beijou-lhe a boca ou tra vez, pressionando suaves beijos até que ele a abriu para ela que se afogou em seu sabor. Em sua honestidade. No sacrifício de seu orgulho por ela. Quis chorar pelos dois.

-Não houve traição, Vikirnoff. - Disse brandamente. - Só vida. Somente vida. E isso pode ser duro, cruel e assuatador. Mas também pode ser hilariante, formoso e cheio de paixão por todas as coisas, se quiser. Queremos. Nós dois queremos. Não estamos dispostos a deixar passar. Eu me aferraria à vida como fez você. Como fez Razvan. Não sei se pode ser salvo ou não, mas pelo menos sinto que não escolheu me trair. Obrigado por isso.

Vikirnoff a apertou contra ele, sua respiração explodiu para fora de seus pulmões com alívio. Afastou o cabelo leonado dos olhos, lhe emoldurando a face, para poder beber dela, devorá-la. Intoxicante alivio misturado com definida alegria. A beleza de Natalya corria profunda sob a pele. Beijou-a, num lento beijo cheio de felicidade que fez com que o coração dela se abrisse a ele.

Natalya fundiu-se a ele, uma perna deslizando-se ao redor de sua coxa para se pressionar mais a ele, esfregando seu corpo úmido e escorregadio contra o dele, num convite.

Vikirnoff a elevou facilmente, urgindo-a a envolver as pernas ao redor de sua cintura, deixando-a aberta a ele, permitindo-se colocá-la sobre seu membro já pronto e a espera. As acolhedoras dobras estavam ardentes e esquisitamente firmes, lhe abraçando receptivamente, enquanto se guardava profundamente nela. Ela era um milagre para ele, na forma em que seu corpo o aceitava, acariciando, apertando e sugando o seu. Sua pele era quente, suave, e se esfregava contra a dele a cada movimento.

O rosto dela era formoso entre as sombras das luzes das velas, que brincava sobre suas suaves curvas. Natalya se inclinou para trás, com as mãos fechadas no pescoço dele e começou uma lenta cavalgada de êxtase e o prazer em sua face aumentava sua beleza. Ele a deixou tomar a liderança, levando-lhe perto do clímax várias vezes, para poder parar e brincar com sua pulsação, com a língua e os dentes. Esperando e construindo. Sentiu o poderoso orgasmo se aproximar numa força que finalmente tomou o controle dos dois. Apressou-se sobre ele e sobre ela, tomando-os enquanto trovejava através de seus corpos e almas.

Ele ouviu seu próprio grito rouco e o suave lamento dela, sentiu a convulsão dos músculos internos dela lhe envolvendo e as lágrimas vermelhas descerem por sua própria face.

 

Natalya se sentou para trás sobre os tornozelos, fixando os olhos na faca de cerimônial com o cabo cravejado de jóias. Ela estava sobre um pequeno pedaço de tecido entre eles. A lâmina era ligeiramente curvada e o cabo ornamentado. Em vez de parecer mortal, a faca parecia um objeto de arte de valor incalculável.

-A faca parece tão inofensiva, não é? – Perguntou, Natalya-. E ainda assim parece ser enganosa. Foi utilizada incontáveis vezes para assassinar. - Sua mão passeou sobre a lâmina e ela tremeu. Natalya se tornou para trás.

O sol se colocara e ela e Vikirnoff ainda estavam nas águas termais, após fazerem amor. Havia sido difícil para ela evitar tomar seu sangue. Desejava-o mais que tudo, como se ele fosse uma droga a qual esttvesse viciada e agora, com o conhecimento de que Razvan continuava vivo, a idéia de se converter em Cárpato era de uma vez conforto e promessa. Estavam vestidos com as roupas que Vikirnoff havia confeccionado para eles. Agora, só restava uma última tarefa em seu caminho, tocando esta faca. Acessar às violentas lembranças que se armazenavam na arma de cerimônial.

-Alimentei-me e estou aqui como sua âncora para te segurar a este mundo e há este tempo. – Ele roçou uma carícia sobre o cabelo dela. - As salvaguardas estão atuantes e meu dever com Gabrielle foi levado a cabo. Falcon lhe deu seu segundo intercâmbio de sangue e todos responderam à chamada para curá-la. Este é nosso momento, Natalya. Averigue que lembranças guarda essa faca e esperemos obter uma pista de onde está escondido o livro. Uma vez que o recuperarmos podemos levá-lo a lugar seguro onde possa ser destruído ou guardado adequadamente.

-Ler a faca não vai ser fácil, Vikirnoff. Reviveremos as lembranças daqueles que morreram sob sua lâmina.

A mão dele deslizou por seu braço até o ombro, os dedos a massageavam gentilmente.

-Sei que isto é difícil para você. Se pudesse, faria por ti.

Ela se sentou, com as velas titilando a seu redor e a faca diante dela. O som da água no charco a consolava e a presença de Vikirnoff a fazia se sentir protegida. Havia "lido" objetos centenas de vezes, mas resistia a reviver a morte de seu avô ou pior ainda, o assassinato de seu pai, mesmo com Vikirnoff ali para ajudá-la.

-Você acha que posso fazer isto.

-Sei que pode.

- Antes de começar, quero que saiba que já não estou de saco cheio contigo.

As sobrancelhas dele se ergueram.

- Está zangada comigo?

Natalya franziu o cenho.

-Sim, Estava zangada contigo. Jesus! Nem sequer notou?

-Fizemos amor uma dúzia de vezes, mais ou menos. Você me mordeu umas quantas vezes e há arranhões em minhas costas, mas gostei de que me marcasse.

-Isso é porque você é um pervertido. E não estou falando disso. Estou falando de sua ridícula, total e arbitrária decisão de nos unir.

-Natalya?

-O quê?

-Parece zangada.

-É claro que estou zangada. Você nem sequer notou que eu estava zangada, em primeiro lugar. Compreende que é isso é irritante? Todo este tempo pensando que você estava sofrendo porque eu estava de saco cheio contigo e você sequer tinha notado!

-Sinto muito. Deveria ter sido mais observador

-Não soa como se sentisse. – Ela passou os dedos pela faca e manteve a palma sobre a lâmina, provando a força das vibrações de violência. - Para ser totalmente honesta Vikirnoff, eu não quero fazer isto.

-Eu sei e a entendo. Ninguém quer reviver a tortura e assassinado de seu pai ou avó.

Vikirnoff estava ajoelhado junto a ela, sabendo que Natalya estava reunindo coragem, conversando para encobrir sua vacilação.

-Farei a viagem contigo. Quando as lembranças se tornarem muito para suportá-las, farei o que puder por aliviar a dor.

-E se ficar preso comigo e não podemos sair até que cada morte tenha sido mostrada? Vamos supor que sua força será o que me permitiria sair do passado.

Os braços dele a envolveram, suas mãos deslizaram pelos braços dela e envolveram as dela.

-Sente a violência do passado da faca sem tocá-la.

Natalya se inclinou contra seu peito, permitindo que sua cabeça descansasse sobre seu ombro.

-Sim, mas não leio as lembranças.

-Quero segurar a faca em minha mão, com as suas ao redor da minha. Assim, seus dedos podem roçar a faca, mas limitando seu contato psíquico com ela. Possivelmente isso minimize o risco para você.

Natalya respirou fundo e o deixou escapar, tentando tranqüilizar sua caótica mente. Preferia lutar com dez vampiros que ler o que a faca oferecia, mas todos os desejos do mundo não iriam mudar o que tinha que fazer.

-Tentemos então Vikirnoff, mas se sentir que não pode nos tirar, deixe cair à faca.

- Estarei atento.

A respiração dele era quente e reconfortante na parte de atrás de sua cabeça, quando se inclinou novamente para frente, permitindo-a sentir sua presença, sem distraí-la. Natalya pousou a mão sobre a dele e assentiu para lhe permitir saber que estava preparada.

Vikirnoff lhe ofereceu a faca. Ela sentiu o próprio batimento de seu coração, forte e firme, começar a se acelerar. Seus músculos começaram a prender-se dolorosamente.

- Estou contigo.

Sentia-o, forte e sólido atrás dela, seus braços ao redor dela, ele estava para ela. Com ela... E isso significava tudo. Arrancou coragem de sua presença e seus dedos roçaram o cabo da faca. Instantaneamente sentiu a curvatura do tempo, que a arrastava ao passado e profundamente no interior das violentas lembranças que a faca continha.

O medo concentrado de tantas vítimas a alagou, rodeando-a e invadindo sua mente e sua alma. Imediatamente se concentrou em sentir a mão de Vikirnoff, a forma e o tamanho da mesma, o calor de sua pele. O crescente terror se aliviou o bastante para deixá-lo passar, procurando o que precisava. Parecia haver muitas almas gemendo com pesar e chorando pedindo justiça. Sabia que o que a faca tinha que lhe mostrar, teria ocorrido muito antes da morte de seu pai. Ele devia ter ocultado o livro e derramado sangue sobre a faca.

- Meu pai não teria sacrificado alguém para deixar a informação. O fato deve ser muito mais fraco que os de maior violência. Isso explicaria como me passou a primeira vez.

- Vá devagar. Está se movendo muito rápido e não pode captar detalhes do que aconteçeu.

- Sinto o nível de violência e sei que não é o que quero, e não quero saber nada mais que Xavier faça ou a quem matou... - Sua voz desvaneceu e ela parou bruscamente para encontrar a si mesma no meio da caverna de cristal. Olhou ao redor cuidadosamente.

- O que é isto?

- Razvan. Sinto-o. Sua presença é forte neste período de tempo.

Vikirnoff inalou agudamente, desejando apertar os braços protetoramente ao redor de Natalya e ordená-la sair dali. - Quando foi isto?

- Não posso dizer. Recentemente, acredito. Não senti a presença de meu pai ainda.

Os instintos de Vikirnoff gritavam. - Isto é desnecessário. Não precisa presenciar nenhuma violência que Razvan cometeu. Continue se movendo, Natalya.

Ela queria ver seu irmão. Queria presenciar com seus próprios olhos, sua traição. Parecia ser a única forma de fazê-la acreditar que ele passara para o lado dos vampiros e de Xavier era ver a extensão de sua traição. Teimosamente ela observou seu irmão entrando na câmara de gelo. Ele estava com a faca na mão e seus olhos brilhavam com feroz emoção.

- Não pode. Vikirnoff inseriu um humilde empurrão em sua voz, não desejando tomar o controle dela, mas o sabor de sua boca ficou mais amargo com a advertência. Razvan se parecia muito a Xavier em sua juventude, um louco inclinado a acumular poder sobre outros. Xavier crescera em poder e estatura muito rapidamente com seu talento natural e se convenceu de que estava destinado a controlar o mundo. A corrupção do que uma vez foi um grande feiticeiro se completou quando descobriu a rajada de poder que lhe dava tomar uma vida. Furioso porque a raça dos Cárpatos parecia ser imortal, algo que ele não era, desprezo-se por eles e cresceu um ódio fanático que alimentava seu próprio ego e determinação, de se livrar deles uma vez que tivesse conseguido os segredos de seu sangue. Razvan estava com a mesma expressão arrogante e cheia de desprezo.

A caverna de gelo era a mesma, mas não exatamente. Umas poucas esferas iluminavam a caverna e as formações de gelo eram menos abundantes. Na parede mais afastada, os dragões estavam congelados no tempo, encapsulados atrás das capas de gelo.

- Não estavam ali antes. - Natalya lia sua mente. - Agora estão na parede que conduz à câmara principal, lembra-se? Algo terrível aconteçerá aí.

Vikirnoff sentiu o coração de Natalya palpitando através de seu corpo, em suas veias, ameaçando explodir, quando Razvan se virou e fez gestos a alguém para que se aproximasse dele. Uma jovenzinha emergiu das sombras. Na verdade, uma menina, forçada a se adiantar sob compulsão. A moça tinha brilhantes olhos verdes e abundantes cachos acobreados. Sacudiu a cabeça quando Razvan lhe segurou o braço, para aproximá-la a ele.

- Não! - Natalya tentou soltar os dedos da faca, mas algo muito mais forte que sua vontade a manteve ali, hipnotizada. - Ele quer seu sangue. Está tomando seu sangue. – Ela sobressaltou-se quando a faca de cerimônial esfaqueou a pequena mão e Razvan pressionou a veia aberta contra sua boca. - Está procurando a imortalidade igual Xavier fez. Essa pobre menina.

Vikirnoff se sentia doente, desejando fechar os olhos contra a abominação que Razvan havia cometido. A menina se parecia muito como Natalya deveria ter sido quando menina, mas Razvan não sentia nada por ela. Para ele sua utilidade era como banco de sangue. Desejava continuar sendo jovem. Tinha filhos com o único propósito de encontrar aqueles com o gen necessário que levava a linhagem que precisava.

- Como seria ela agora se conseguiu se manter viva? - Natalya murmurou em sua própria mente, precisando desesperadamente da conexão com Vikirnoff.

- Este período de tempo não faz muito. Possivelmente vinte no máximo. Não pode ter mais de vinte e cinco ou trinta agora.

- Ele tem uma filha chamada Colby. Conhecia-a a alguns meses. Ela não tinha nenhuma lembrança como esta. - Natalya suspirou, numa trêmula respiração. - Ela não deve ter tido o sangue correto para que ele desejasse utilizá-laa deste modo.

- Eu a conheci também. Teve muita sorte. - Disse Vikirnoff.

- Mas não vê? Ele ainda está engravidando mulheres. Se ele se converteu em vampiro, como pode fazer isso? Colby era mais jovem do que seria esta menina agora. Como pode ser? Ouviste alguma vez que um vampiro tivesse um filho? Mas olhe-a. Seus olhos mudaram que cor, seu cabelo também. Ela é de nossa linhagem.

Nunca tinha ouvido dizer de um vampiro que não matasse suas vítimas, mulheres ou crianças. Certamente nunca ouvira falar de nenhum ser capaz de ter um filho. - E o sangue? O sangue de Razvan não pode estar infectado com os microorganismos ou seus filhos estariam infectados. Colby possuia parasitas em seu sangue?

- Colby não tinha tido semelhantes parasitas em seu sangue. - Vikirnoff franziu o cenho quando observou o descuido de Razvan para com a menina. Não parecia ser consciente dela como ser humano, como uma pessoa com direitos próprios. Não tomara seu sangue com cuidado e respeito, mas a tratava como ganho humano. Vikirnoff adoeceu em ver como a menina lutava para se liberar. Havia determinação em sua face. Lembrava-lhe Natalya, com essa mesma vontade de ferro. - Estou disposto a apostar que ainda vive. Mesmo em sua pouca idade, está pensando em como escapar. Note como ela fica quieta e seu olhar está se movendo pela câmara? Acredito que tem seu talento natural com feitiços.

Natalya se distendeu. - Esse é Xavier. - Sussurrou a revelação telepáticamente, mesmo embora estivesse na mente dele e ninguém pudesse ouvi-la.

Um homem maior saiu de uma câmara, sua túnica sussurrava quando se movia. Seus traços eram indistinguíveis, rabiscando-se quando arrastou os pés através do chão de gelo, mas Vikirnoff teve a impressão da grande idade e do cabelo e da barba, brancos como a neve. Uma mão enrugada se estendeu para a menina. Ela se afastou para longe do homem maior e Razvan a pegou, afastando-a do alcance do mago escuro.

-Não a tocará. – Grunhiu, Razvan. – Você tem seu próprio fornecimento.

-Já não posso utilizá-los e você sabe. Tornaram-se muito poderosos para controlá-los. Preciso do livro. Devemos encontrar o livro.- Xavier tropeçou aproximando-se da menina, seus dedos como garras se estenderam para ela. - Uma vez que tenha o livro, não serão capazes de me desafiar.

Razvan manteve a menina fora do alcance do homem, com um sorriso perverso no rosto.

-Esta é minha e você não a tocará.

-Não presuma poder me dar ordens. Envelheci, mas ainda tenho minhas habilidades e você não. - Xavier se ergueu em toda sua altura e imediatamente Razvan pareceu se encolher diante dele, mas ainda mantinha a menina atrás dele.

- Olhe-a, o que está fazendo? - Vikirnoff golpeou ligeiramente Natalya com o queixo.

Natalya arrancou seu olhar horrorizado de seu irmão para olhar a jovem. Ela inclinou a cabeça e lambeu a ferida de sua mão. Imediatamente as gotas de sangue cessaram. - Tem um agente curador na saliva. Tem um forte gen Cárpato.

- Por isso os dois desejam seu sangue. Estão utilizando-a para se manterem jovens e Razvan não quer compartilhá-la.

As lembranças tomaram Natalya. Razvan balançando-se para frente e para trás, lutando para conter as lágrimas, com sua mão cortada. Como havia esquecido? Foi ela quem o curou, utilizando sua própria saliva. Havia levado bastante tempo para Xavier compreender que o sangue do Razvan não lhe daria outra coisa que alimento. O mago escuro tinha começado a envelhecer e isso provocara selvagens reprimendas.

Natalya sentiu lágrimas em sua face e por um instante foi consciente de seu próprio corpo, longe do tempo onde seu espírito observava se desdobrar os sujos acontecimentos. Razvan sabia o que era estar preso a uma vida tão horrível, mas mantinha a moça prisioneira para se alimentar dela.

Revolta, Natalya voltou sua atenção outra vez à menina. Razvan e Xavier começaram a discutir. Razvan já não prestava atenção e soltou a menina quando ela deixou de lutar. Ela se aproximou pouco a pouco da parede onde os dragões estavam encapsulados no gelo. - Vikirnoff? Eles estão vivos? Os dragões estão falando com ela? Pode ser?

A cabeça da menina estava inclinada para os dragões como se os ouvisse. Vikirnoff conteve a respiração. A parede ao redor dos dragões começou a inchar e o gelo se fragmentava em grandes partes.

-Detennha-os! -Xavier saltou para trás afastando-se do gelo que estilhaçava, enquanto gritava uma advertência.

Um brilhante dragão vermelho explodiu através do gelo e suas grandes garras se estenderam para Razvan enquanto um segundo dragão de cor azul inclinava sua asa para a jovenzinha. A menina não pensou e saltou agilmente sobre a asa e subiu em suas costas enquanto o dragão tomava o ar, elevando-se para a superfície enquanto o primeiro dragão mantinha Xavier e Razvan a raia. Era fácil ver que os dois dragões estavam fracos e pálidos, muito doentes. Seus movimentos, depois do ataque inicial, careciam de poder.

Razvan elevou a faca e a deslizou rapidamente entre as garras, afundando a lâmina profundamente no peito do dragão vermelho. Este gritou de dor, como o que carregava à menina. Corajosamente, o dragão voador azul depositou à pequena muito acima sobre a câmara onde ela tinha possibilidades de escapar, antes de voltar para unir-se a seu camarada ferido.

Xavier se adiantou e elevou uma mão, sua voz exigente. O dragão vermelho deixou de lutar e se estendeu imóvel, ofegando ruidosamente, o precioso sangue derramando-se sobre o gelo. O dragão azul pousou a seu lado, esfregando-se no dragão ferido, com seu longo pescoço e língua, num esforço de salvá-lo.

- Devemos ir. - Havia urgência na voz de Vikirnoff. - Temos pouco tempo. - Parte dele estava ainda esquadrinhando em tempo real e ele sentiu o rasgo no céu noturno, mesmo dentro da profunda caverna. Quando o mal passou diretamente sobre seu refúgio.

Os acontecimentos desdobrados ante Natalya tinham acontecido há anos. Os corpos dos dragões estavam agora encapsulados no grande vestíbulo atrás de vários centimetros do grosso gelo. Natalya já sabia o preço que eles pagaram por salvar à pequena. Quanto à menina, só podia esperar que tivesse conseguido escapar com êxito e estivesse se escondido em algum lugar no mundo, a salvo de Razvan e Xavier. Infelizmente, não havia forma de mudar a história. Só podia a observar se desdobrar ante ela e esperar que os dragões tivessem proporcionado à menina tempo para escapar. Natalya não tinha outra escolha que retroceder, para encontrar o momento em que seu pai ocultara o livro.

Permitiu que a visão terminasse e começou a procurar ativamente um sinal de seu pai. Havia tanto sangue e tantas mortes, que começava a sentir nauseia.

A pequena disputa que Vikirnoff havia presenciado entre Razvan e Xavier lhe levava a acreditar que os dois homens, embora aliados um ao outro, estavam enfrascados numa luta de poder. Razvan não podia esperar desafiar Xavier nas habilidades mágicas... A menos que tivesse Natalya. De repente ficou muito claro para Vikirnoff. Natalya possuia o talento natural e era altamente inteligente. Em vez de desenvolver seus próprios talentos, Razvan acreditara em Natalya em sua infância e princípio da maturidade. Xavier se decepcionara, pensando que ele era o irmão gêmeo com as habilidades natur