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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


Desaparecido / Danielle Stel
Desaparecido / Danielle Stel

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

Desaparecido

 

          

 

            Charles Delauney coxeava ligeiramente enquanto subia devagar as  escadas da Catedral de Saint Patrick e um vento desagradável estendia  os seus dedos gélidos até bem fundo pela sua gola abaixo. Estava-se a  duas semanas do Natal e ele não se lembrava do frio que habitualmente  fazia em Nova Iorque em Dezembro. Há anos que não vinha à Nova  Iorque... há anos que não via o pai. O pai tinha agora oitenta e sete  anos, a mãe fora-se há muito.

            Morrera quando ele tinha treze anos e a  única lembrança que tinha dela era que fora muito bonita e muito  meiga. O pai estava senil e doente, preso à cama e sem forças. Os  advogados haviam insistido com Charles para que regressasse a casa,  pelo menos durante alguns meses, a fim de pôr os negócios da família em ordem. Não tinha irmãos e carregava sozinho a responsabilidade dos negócios dos Delauney: propriedades espalhadas por todo o estado, uma  herdade enorme próximo de Newburgh, estado de Nova Iorque, carvão, petróleo, aço e bens imobiliários muito importantes na baixa de Manhattan. Uma fortuna acumulada não por Charles, nem sequer pelo seu pai, mas pelos dois avós. E nem por um momento Charles demonstrou  qualquer interesse por ela.

            O seu rosto era jovem, mas vincado pelo tempo, e mostrava o desgaste  provocado pela dor e pela luta. Acabara de passar quase dois anos na Espanha, lutando por uma causa que não era a sua, mas pela qual se interessava profundamente. Era uma das poucas coisas que lhe interessavam... algo que o fazia realmente vibrar.

            Alistara-se na brigada de Lincoln para combater os fascistas quase dois anos antes, em Fevereiro de 1937, e estivera na Espanha combatendo desde então. 

            Em Agosto fora mais uma vez ferido, próximo de Gandesa, durante a  batalha de Ebro, num confronto feroz. Não era a primeira vez que  ficava ferido. Em 1918, no último ano da Grande Guerra, fugira, alistara-se no Exército e fora ferido na perna em Saint-Mihiel. Na altura o pai ficara furioso. Mas agora já nada podia fazer. Não fazia idéia do que se passava no mundo nem com o filho nem com a guerra na Espanha. Já nem sequer reconhecia Charles e, talvez, concluíra este, enquanto o observava dormir na sua enorme cama, fosse melhor assim.

            Teriam discutido e ter-se-iam confrontado. O pai teria odiado aquilo em que o seu filho se havia tornado, as suas idéias sobre liberdade e  autodeterminação, o seu ódio aos fascistas. O pai nunca aprovara o fato de ele fazer a sua vida no estrangeiro. Tendo nascido tardiamente na sua vida, não fazia sentido para o Delauney mais velho que Charles quisesse viver na Europa a armar zaragatas.         Este voltara para a Europa aos dezoito anos, em 1921, tendo lá vivido durante dezessete anos, trabalhando esporadicamente para amigos ou vendendo um ou outro conto na sua juventude, mas nos últimos anos vivera essencialmente do seu fundo de garantia, bastante polpudo. O montante do seu rendimento sempre o irritara. "Nenhum homem normal precisa de tanto dinheiro para viver", confessara uma vez a um amigo íntimo, e durante anos doara a maior parte do rendimento a instituições de caridade, apesar de a pequena quantia que amealhava pela venda de algum dos seus contos lhe proporcionar muito prazer.

            Estudara em Oxford, mais tarde na Sorbonne e, por fim, fizera uma pequena estada em Florença. Naqueles tempos a sua conduta fora mais que desenfreada. Bebia tanto Bordeaux quanto conseguia consumir, um absinto aqui e ali, e andava na pândega com uma fascinante fila de mulheres atrás.

            Após três anos de muito pouco controle na Europa, aos  vinte e um anos, acreditava ser um homem do mundo. Conhecera pessoas que os outros apenas conheciam das revistas, fez coisas que poucos homens sonhavam fazer e conhecera mulheres pelas quais os outros apenas ansiavam. E depois... houvera Marielle... mas isso era outra história.

            Uma história que ele tentava afastar do pensamento: as recordações dela continuavam demasiado dolorosas, às vezes, Marielle ainda devaneava pelos seus sonhos, principalmente quando estava em perigo, ou com medo, dormindo numa trincheira algures, com balas sibilantes a rasarem-lhe a cabeça... e, depois, a recordação dela a arrastar-se... o seu rosto... aqueles inesquecíveis olhos... os lábios... e o sofrimento imperscrutável que a consumia como uma ferida, da última vez que a vira. Não a via desde então, e já haviam passado quase sete anos. Sete anos sem a ver, sem lhe tocar... sem a abraçar... sem sequer saber onde ela estava, tentando convencer-se de que já não o afetava. Uma vez, quando estava ferido e pensava estar morrendo, permitira-se revolver as suas recordações, e os médicos deram com ele inconsciente numa poça de sangue, mas quando acordou podia jurar que a vira de pé, mesmo atrás deles.

            Ela tinha apenas dezoito anos quando se conheceram. em Paris.

            O seu rosto era tão bonito e alegre que parecia pintado de fresco. Ele  tinha vinte e três e vira-a numa altura em que estava sentado num  café com um amigo. Seguira-a com o olhar e ficara logo apanhado por ela. E quando ela o olhou de relance, o seu rosto enchera-se de malícia. Na altura, ela fugira, regressara ao hotel, mas ele voltara a vê-la, num jantar oferecido pelo embaixador. Haviam sido apresentados formalmente e tudo decorrera de modo bastante discreto, não fora o fato do olhar trocista de Marielle não deixar de o confundir. Mas os pais dela não tinham ficado tão bem impressionados com ele.

            O pai era um homem circunspeto, muito mais velho que a mulher, e conhecia a reputação de Charles. Era da geração de seu pai e Charles até tinha a impressão que já se conheciam. A mãe era meio francesa e Charles sempre a achara uma mulher extraordinariamente correta e muito triste.

            Traziam Marielle sob um ridículo controle cerrado e insistiam para que ela andasse sempre atrás deles. Não faziam idéia de como a filha era namoradeira e de como podia ser engraçada ao mesmo tempo. Mas também tinha o seu lado sério e Charles descobrira que conseguia passar horas falando com ela.

            Quando o vira na embaixada, ela ficara extremamente divertida e lembrava-se dele do café, apesar de só o admitir muito mais tarde, quando ele a provocou.

            Ele estava fascinado por ela e ela por ele. Para a jovem, Charles era um rapaz muito intrigante, diferente de todos os que conhecera até então. Parecia querer saber tudo sobre ele, donde vinha, porque estava ali, como é que o seu francês era tão bom. E, desde o início, ficou impressionada pelas suas ambições e capacidades como escritor.

            Pintava um pouco, explicara-lhe ela, a princípio com certa timidez. E, mais tarde, quando já se conheciam melhor, mostrara-lhe alguns desenhos espantosamente bons. Mas nessa primeira noite não foi a literatura nem a arte que os atraiu um para o outro, foi algo nas suas almas que os aproximou definitivamente. Os pais dela também se aperceberam disso e a mãe, quando reparou que estavam conversando há algum tempo, tentou afastar Marielle, apresentando-lhe outros convidados jovens. Mas Charles seguira-a para todo o lado; era um fantasma que já não agüentava viver sem ela.

            Na tarde seguinte, encontraram-se no Deux Magots e depois foram dar um passeio ao longo do Sena, como duas crianças irrequietas. Ela contou-lhe tudo sobre si, a sua vida, os seus sonhos, o seu desejo de um dia vir sendo artista, e mais tarde casar-se com alguém que amasse e terem nove ou dez filhos. Este último sonho não o divertiu tanto quanto o fascínio que sentia por ela. Havia algo de efêmero naquela moça, algo de delicado e de maravilhoso, e porém, sob essa capa, ela emanava intensidade, alegria, vivacidade. Era como uma renda disposta com delicadeza sobre mármore branco, requintadamente esculpido. Até a sua pele era translúcida como as estátuas que ele vira em Florença, onde estivera da primeira vez que chegara dos Estados Unidos, e os seus olhos brilhavam como safiras azul-escuras, quando o ouvia falar do que sentia em relação aos seus próprios sonhos como escritor. Ele esperava um dia vir a publicar uma coleção de contos. Ela parecia perceber tudo e interessar-se bastante por todas as coisas que eram de extrema importância para ele.

            Os pais dela tinham-na levado para Deauville e ele seguira-a até lá, e depois até Roma... Pompeios... Capri... Londres e, por fim, o regresso a Paris. Para onde quer que ela fosse ele tinha amigos, aparecendo convenientemente, sempre que possível dando grandes passeios com ela ou acompanhando-a a bailes e passando noites deveras aborrecidas com os pais dela. Mas, naquele momento, ela era como uma droga para ele, e onde quer que estivesse, para onde quer que fosse, sabia que tinha de tê-la. O absinto nunca lhe despertara tanto fascínio quanto aquela moça. E quando Agosto chegou... em Roma... fitando-o, os olhos dela também transpareciam a mesma paixão desenfreada.

            Os pais dela andavam nervosos com a presença dele, mas afinal de  contas até conheciam a família; ele tinha boas maneiras, era  inteligente, e o fato de ser o único herdeiro de uma vasta fortuna era difícil de ignorar. A fortuna nada dizia a Marielle, os seus pais viviam bem e foi algo em que nunca pensou. Só pensava em Charles, na força das suas mãos, dos ombros, dos braços, no olhar selvagem dos seus olhos depois de se beijarem, na beleza gravada nas suas feições como uma moeda da Grécia Antiga, na delicadeza das mãos dele quando tocavam o seu corpo.

 

            Charles já havia informado que não tinha qualquer intenção de alguma vez voltar para os Estados Unidos, não se dava bem com o pai desde que fugira para a guerra, aos quinze anos, e, após esse episódio, o regresso à Nova Iorque fora um pesadelo. Sentia como se aquele lugar fosse pequeno demais para ele, demasiado aborrecido, excessivamente restritivo. Esperavam demais dele, e tudo coisas que ele não tinha qualquer intenção de fazer. Deveres sociais, responsabilidades familiares, aprendizagem de investimentos e holdings e trusts, e as coisas que o pai comprava e vendia e que um dia ele iria herdar. A vida não era só isso, explicara Charles a Marielle, enquanto percorria com os seus dedos longos e suaves o sedoso cabelo cor de canela que descia até abaixo dos ombros. Ela era alta, mas parecia menor perto dele, e, a seu lado, sentia-se delicada e frágil, porém, maravilhosamente protegida.

            Ele já vivia em Paris há cinco anos quando se conheceram e era visível que adorava viver lá. A sua vida era ali, era lá que tinha os amigos, a escrita, a alma, a inspiração. Mas estava previsto ela partir em Setembro, no Paris. Para a vida calma que tinham em vista para ela, para os homens que iria conhecer, as amigas e a pequena mas elegante casa de arenito na Rua Sessenta e Dois Leste. Não havia comparação possível com a casa dos Delauney, apenas dez quarteirões para norte, mas a casa deles era, sem dúvida alguma, respeitável... respeitável... e muito aborrecida; nem com as águas-furtadas na Rue du Bac que Charles alugara a uma nobre falida, proprietária da parte de baixo convertida em hôtel particulier. Uma vez Charles levara lá Marielle e quase tinham feito amor. Mas à última hora ele recobrara a sensatez, deixando o quarto apressadamente, para se acalmar. E quando voltou, com ar sério, sentou-se a seu lado na cama, enquanto ela tentava ajeitar o vestido e recompor-se.

            Desculpa... - O cabelo preto e os ardentes olhos verdes faziam-no parecer ainda mais dramático, sem nunca perder aquele ar angustiado que a comovia sempre. Ela nunca conhecera ninguém minimamente parecido com ele nem nunca fizera as coisas que de um momento para o outro desejava fazer com ele. Sabia que estava perdendo a cabeça, mas não conseguia controlar-se.

            - Marielle... - Ele falava com muita doçura e o cabelo macio castanho-arruivado dela escondia-lhe metade da cara. - Não posso continuar assim... está me levando à loucura. - Mas ela sentia o mesmo em relação a ele e estava adorando. Nunca nenhum deles sentira algo parecido.

            Ela sorriu-lhe com um ar maduro e compreensivo quando ele se inclinou  e a beijou. Sentia-se quase embriagado perto dela. Só sabia que não  queria perdê-la. Nem naquele momento nem nunca. Não queria ter de regressar a Nova Iorque atrás dela, naquela altura ou mais tarde, pedir a mão ou negociar com o pai. Não queria esperar nem mais um minuto. Queria-a naquele momento. Naquele quarto, naquela casa. Em Paris. Queria-a junto dele para sempre.

            - Marielle? - Olhou para ela com um ar muito sóbrio e os olhos dela escureceram.

            - Sim? - Ela falava com muita brandura. Era tão jovem, porém, estava tão apaixonada por ele, e ele conhecia-a suficientemente bem para sentir o seu fogo.

            - Quer casar comigo?

            Ela sobressaltou-se e depois se riu.

            - Está falando a sério?

            - Estou... só Deus sabe quanto... queres? - Estava apavorado. E se ela recusasse? A sua vida inteira parecia depender da resposta dela no minuto seguinte. E se ela não casasse com ele? E se afinal ela quisesse voltar para casa com os pais? E se ele não fosse mais do que uma brincadeira para ela? Mas, pelo olhar dela, ele percebeu que as suas preocupações não faziam sentido.

            - Quando? - Ela dava risadinhas, de tão excitada que estava.

            - Agora. - E falava a sério.

            - Está brincando!

            - Não estou. - Levantou-se e começou a andar de um lado para o outro,  dentro do quarto, como um leão jovem e atraente, passando com a mão pelo cabelo, enquanto fazia planos e a observava. - Estou falando muito sério, Marielle. - Calou-se e olhou para ela, tenso e elétrico da cabeça aos pés, - Ainda não respondeu à minha pergunta. - Correu para junto dela e prendeu-a nos seus braços com força, até ela se rir e dizer que ele estava sendo tolo.

            - Você é louco.

            - Pois sou. E você também. Quer? - Abraçou-a com mais força e ela fingiu que ia começar a gritar. Ele prendeu-a ainda com mais força, ela ria, descontrolada, e depois ele começou a beijá-la, provocando-a entre beijos até lhe forçar uma resposta dos lábios.

            - Sim... sim... sim... quero. - Estava sem fôlego e ambos sorriam. - Quando é que vai pedir a minha mão ao meu pai? - Recostou-se com uma expressão de felicidade e o rosto de Charles ensombrou-se.

            - Ele nunca concordará. E, se concordar, vai insistir para que regressemos aos Estados Unidos e comecemos uma vida séria para poder nos ter sob controle. - Enquanto falava, parecia novamente um leão enjaulado e começou outra vez a andar para trás e para frente. – Te aviso que não vou fazer isso.

            - Não vai pedir a minha mão ao meu pai ou não vai voltar para Nova Iorque? - De repente, ficou com um ar preocupado, ao mesmo tempo em que distendia as longas e graciosas pernas e ele tentava desesperadamente não prestar atenção.

            - Voltar para Nova Iorque, com certeza que não... e... - Parou e tornou a olhar para ela, com o cabelo preto revolto e os olhos penetrando nos dela. - E se fugirmos?

            - Cá? - Ela parecia estupefata e ele assentiu com a cabeça. Estava falando a sério e ela já o conhecia suficientemente bem para saber que sim. - Meu Deus, eles me matam!

            - Eu não permitirei. - Sentou-se ao lado dela, enquanto ambos ponderavam o assunto. - Vai partir dentro de duas semanas; se fugirmos, é bom que o façamos já. - Ela assentiu em silêncio, pensativa, pesando mentalmente as conseqüências, mas já sabia que não havia escolha, nem dúvidas, nem outra decisão possível. Teria ido até ao fim do mundo com ele. E, quando ele tornou a beijá-la, teve certeza.

            - Acha que eles alguma vez nos perdoarão? - Também estava preocupada com eles. Tal como Charles, era filha única, e o pai era bastante mais velho. E depositavam tantas esperanças nela, principalmente a mãe. No Inverno anterior, Marielle fora apresentada à sociedade nova-iorquina e agora havia feito o Grand Tour (Viagem pelas cidades européias mais importantes que completava a educação das jovens na época.). Esperavam que ela encontrasse um marido adequado a curto prazo. E em alguns pontos Charles era perfeito, pelo menos no que respeitava à família; porém, não se podia negar que o seu atual modo de vida era um pouco excêntrico. Mas com o tempo ele assentaria, como diria o pai dela.             No entanto, naquela noite, quando Marielle tentou abordar o assunto com o pai, este sugeriu que ela esperasse até Charles assentar.

            - Espere para ver se gosta dele, quando ele voltar para Nova Iorque,  minha querida. E entretanto, tem lá um monte de jovens atraentes à tua espera. Não há necessidade de perder logo a cabeça por este. - Um jovem Vanderbilt andara algum tempo atrás dela, naquela Primavera, e havia um jovem Astor atraente, no qual a mãe andava de olho. Mas naquele momento Marielle não estava interessada neles, nem nunca estivera. E não fazia tenção de esperar que Charles voltasse para Nova Iorque. Tinha certeza absoluta de que ele nunca o faria, tendo em conta o que sentia em relação à Nova Iorque ou mesmo pelos Estados Unidos, e mais exatamente pelo seu pai. Era feliz onde estava, prosperar nos últimos cinco anos. Paris adequava-se a ele na perfeição.

            Fugiram três dias antes da suposta partida dos pais dela, deixando-lhes um bilhete no Hotel Crillon. Ela sentia-se bastante culpada pelo sofrimento que lhes iria causar, mas, por outro lado, conhecia-os suficientemente bem para saber que ficariam satisfeitos por ela casar com um Delauney. Em relação a este último ponto não estava totalmente certa, tendo em conta a reputação que perseguia

            Charles, certamente os acalmaria ligeiramente. No bilhete insistira para que eles partissem sem ela e informava que ela e Charles iriam visitá-los em Nova Iorque, no Natal, mas eles não aceitaram as coisas de ânimo leve e esperaram pacientemente e muito zangados pelo regresso dos jovens amantes, com grandes esperanças de conseguirem anular o casamento e abafarem o caso, antes que se tornasse num verdadeiro escândalo. Claro que o embaixador ficara sabendo, pois os pais tinham ido procurar a sua ajuda e ele fizera algumas investigações discretas. Mas tudo o que descobriu foi que tinham se casado em Nice e havia razões para crer que, pouco depois, haviam atravessado a fronteira italiana de carro.

            Tiveram uma lua-de-mel espetacular pela Úmbria, Toscana, Roma, Veneza, Florença, lago Como, haviam-se aventurado até à Suíça e, dois meses mais tarde, próximo do fim de Outubro, puseram-se a caminho, sem pressa, de regresso a Paris. Os pais dela ainda estavam instalados no Crillon e, quando os recém-casados chegaram, havia um bilhete à espera deles na casa de Charles.

            Marielle não queria acreditar que eles ainda estivessem em Paris e ficou espantada quando descobriu que tinham mesmo ficado à sua espera. E dois meses não haviam sido suficientes para lhes amolecer o coração em relação à fuga da filha única. Quando Marielle e Charles apareceram no hotel de mãos dadas, com um ar feliz e calmo, exigiram que Charles se retirasse imediatamente e anunciaram que estavam preparando os papéis para a anulação do casamento, na manhã seguinte.

            - Se eu fosse vocês não faria isso - aconselhou Marielle muito serena, provocando um sorriso em Charles pela posição firme que tomava a favor dele. Para uma moça tímida e sossegada, tinha uma maneira singular de tomar decisões extremas e definitivas. E ficou contente por ela as tomar logo naquele momento. Contente, e pouco depois muito confuso.

            - Não me diga o que devo fazer! - gritou-lhe o pai, ao mesmo tempo em que a mãe choramingava em tom declamatório, acusando-a de ingrata, advertindo-a que a sua vida com Charles iria ser perigosa, que apenas queriam a felicidade dela e que, agora, fora tudo por água abaixo.

            Parecia que estavam ouvindo um coro grego e Marielle permanecia no centro da tempestade, observando-os com um ar muito calmo. Aos dezoito anos tornara-se de repente numa mulher, que Charles sabia iria adorar a vida toda.

 

            - Não posso requerer a anulação, papá - repetiu Marielle com serenidade. - Vou ter um filho.

            Desta vez Charles arregalou os olhos, mas depois começou a rir sozinho. Muito provavelmente não era verdade, mas consistia na maneira perfeita de os fazer desistir da idéia da anulação. No entanto, mal ela proferiu aquelas palavras foi como se o mundo viesse abaixo, a mãe começou a chorar ainda mais alto e o pai sentou-se e começou a respirar com dificuldade, insistindo em que sentia dores no peito. A mãe, dizia que Marielle estava matando-o e quando o velho senhor foi conduzido para fora da sala ajudado pela mulher, Charles sugeriu que voltassem para a Rue du Bac e discutissem o assunto com os sogros mais tarde. Ele e Marielle saíram pouco depois e, após percorrerem alguns quarteirões sob o ar quente, Charles, bastante divertido, puxou-a para junto dele e beijou-a.

            - Foi brilhante. Eu devia ter pensado nisso.

            - Não fui brilhante. - Ela também tinha um ar divertido. - É a pura verdade. - Parecia muito contente consigo mesma, a mocinha de há pouco que agora iria ser mãe. Ele olhou-a atônito.

            - Está falando sério?          

            Ela assentiu com a cabeça e levantou o olhar para ele.

            - Quando foi isso? - Parecia mais baralhado do que preocupado.

            - Não tenho certeza... Roma? Talvez Veneza... Não tinha certeza até à semana passada.

            - Meu diabinho... - Mas quando a abraçou parecia contente: - E para quando está previsto o herdeiro dos Delauney?

            - Junho, acho. Qualquer coisa assim. - Nunca tinha pensado seriamente em ser pai. Devia ter ficado receoso, tendo em conta o seu modo de vida despreocupado, mas a verdade é que estava contentíssimo. Chamou um táxi e foram para casa, em direção a Rue du Bac, beijando-se no assento de trás, como dois adolescentes, em vez de futuros pais.

            No dia seguinte, os pais dela continuavam furiosos, mas após duas semanas de discussão acabaram por ceder. A mãe de Marielle levara-a a um médico americano nos Campos Elíseos e não havia dúvida quanto à gravidez. A idéia da anulação estava fora de questão. E a filha estava visivelmente feliz. Gostassem ou não, sabiam que tinham de viver com a realidade de Charles Delauney. Finalmente, a pouco tempo da partida, este lhes prometeu arranjar um apartamento melhor, uma criada, uma ama para a criança e um carro. Iria tornar-se num "homem respeitável", fez-lhe prometer o pai dela. Respeitável ou não, era óbvio que os dois estavam delirantes de felicidade.

            Os pais de Marielle partiram pouco depois no France e, após toda aquela excitação, barulho, tensão e exaustão que fora lidar com eles, ela e Charles concordaram em não ir a Nova Iorque nem no Natal, nem talvez nunca. Eram felizes nas suas águas-furtadas da margem esquerda: a vida conjugal, os amigos e até a escrita de Charles nunca estiveram melhor. Em Paris, em 1926, por uns extraordinários breves momentos, a vida fora perfeita.

 

            Quando Charles empurrou as pesadíssimas portas da catedral para entrar, até os seus ossos enregelaram e a perna latejou mais que o habitual. O Inverno na Europa fora igualmente rigoroso. Há tanto tempo que não vinha a Nova Iorque, há tanto tempo que não ia a uma igreja, e enquanto ia entrando, olhava para cima para a enorme abóbada no teto. Por um lado, estava arrependido de ter vindo. Era deprimente ver o pai tão doente alheio ao ambiente e às pessoas que o rodeavam. Por um instante, parecera ter reconhecido Charles, mas esse momento passou, os olhos voltaram a ficar inexpressivos, fechando-se em seguida, e ele adormeceu profundamente sobre as almofadas. Sempre que o observava, Charles sentia-se só. Era como se o Delauney mais velho já tivesse morrido. Era praticamente a mesma coisa. E agora Charles não tinha mais ninguém. Haviam morrido todos... até os amigos ao lado de quem combatera na Espanha. Eram tantos que nem dava para rezar por todos.

            Observou um padre com as suas vestes pretas seguindo o seu caminho e dirigiu-se devagar para a parte de trás da igreja, onde havia um pequeno altar. Duas freiras rezavam e a mais nova sorriu-lhe quando ele se ajoelhou, rígido, ao lado delas. O cabelo preto tinha madeixas grisalhas, mas os olhos mantinham a mesma vivacidade dos seus quinze anos e ainda emanava energia, força e poder. Até a jovem freira sentira isso. Mas também havia sofrimento nos seus olhos, quando baixou a cabeça, e pensou em todas elas, nas pessoas que haviam sido tão importantes para ele, nas que ele amara, com quem combatera.

            Porém, não tinha vindo àquele lugar para rezar por elas. Viera ali porque era o aniversário do pior dia da sua vida... há nove anos atrás... duas semanas antes do Natal. Um dia que nunca esqueceria... o dia em que quase a matara. Ficara doido, louco de fúria e de dor... uma dor tão horrível que se sentira incapaz de a suportar. Quisera despedaçar os membros dela um a um para deter essa dor, fazer com que o tempo andasse para trás, apagar o que tinha acontecido... e, porém, amara-a tanto... amara-os aos dois... Naquele momento não conseguia suportar pensar naquilo e baixou a cabeça, incapaz de rezar por ele ou por ela, por si próprio ou por quem quer que fosse, incapaz de pensar... A dor ainda era muito forte, pouco distinta; a única diferença era que, ao contrário daqueles tempos, raramente se permitia pensar nisso. Mas quando tocava na parcela do seu coração onde eles continuavam vivos, a dor que sentia ainda lhe cortava a respiração e era quase impossível de suportar. Olhava fixamente em frente, mas nada via, uma lágrima deslizava-lhe devagar pela face e a jovem freira seguia-o com o olhar. Ficou assim ajoelhado durante muito tempo, nada vendo, pensando neles e no que tinha sido uma vida que já não existia, num lugar que ele raramente se permitia recordar. Mas naquele dia quisera vir ali só para se sentir um pouco mais perto deles. E o fato de a data calhar mesmo antes do Natal ainda piorava as coisas.

 

            Na Espanha teria descoberto uma igreja algures, uma pequena capela, uma choupana, e teria tido os mesmos pensamentos, sentido a mesma dor lancinante, mas encontraria conforto na vida simples que lá levava.

            Ali não havia nada, exceto pessoas estranhas numa ampla catedral de pedra cinzenta fria, que em nada diferia da pedra cinzenta fria da mansão que naquele momento partilhava com o pai moribundo. E à medida que ia se levantando lentamente, teve certeza que não ficaria muito tempo nos Estados Unidos. Queria voltar para a Espanha o mais rápido possível. Precisavam dele lá. Em Nova Iorque ninguém precisava dele, exceto os advogados e os banqueiros, e esses não lhe interessavam.

            Nunca lhe tinham interessado. Quando muito, interessava-se ainda menos do que no passado. Nunca se tornara no "homem respeitável" com que o sogro sonhara. Sorriu ante aquele pensamento, lembrando-se dos sogros, que também já haviam morrido. Todos tinham morrido. Aos trinta e cinco anos, Charles Delauney sentia-se como se já tivesse vivido dez vidas.

            Deteve-se bastante tempo de pé a olhar para a imagem de Nossa Senhora e do Menino... pensando neles... e depois, lentamente, percorreu o caminho de volta, sentindo-se ainda pior. Queria voltar a sentir-se próximo de André, queria senti-lo perto de si, o calor delicioso da sua pele, a maciez da sua face, a minúscula mão que agarrava sempre a sua com tanta força.

            Charles, cego pelas lágrimas, retrocedia devagar em direção à porta principal da catedral. A perna parecia doer-lhe mais, o vento uivava através da igreja, e foi então que lhe aconteceu algo que não lhe acontecia há muito tempo.            Antes era freqüente. às vezes imaginava que a via até no campo de batalha. Naquele momento divisava-a à distância, envolta num Casaco de peles, passando por ele, como um fantasma, em direção a algo que ele não podia ver, incapaz de vê-lo. Ficou bastante tempo a observá-la, a sofrer novamente por ela, como há muito não fazia, uma recordação tornada realidade, da qual não conseguia desviar os olhos. E foi então que percebeu de que não era nenhum fantasma, era uma mulher exatamente igual a ela. Alta, magra, com ar sério e muito bonita.

            Trazia um vestido preto sóbrio, coberto por um casaco de Marta que quase varria o chão e parecia emoldurar a sua face de maciez. O chapéu deixava entrever apenas um olho, mas mesmo assim era como se ele a sentisse, a maneira como se movimentava, como olhava, como descalçava lentamente uma luva preta, prostrando-se depois de joelhos face a outro pequeno altar. - Tão graciosa como sempre fora, alta e esguia, fisicamente muito mais magra. Cobriu o rosto com as mãos delicadas e durante muito tempo pareceu estar rezando. Ele sabia porquê. Ambos tinham recorrido à catedral pela mesma razão. Era Marielle, percebeu-se, incrédulo, sem desviar os olhos dela.

            Pareceu-lhe uma eternidade até ela se virar e olhar para ele, mas, quando o fez, era evidente que não o via. Acendeu quatro velas, meteu algum dinheiro na caixa das esmolas, após o que se pôs de pé e ficou novamente olhando para o altar, também com lágrimas nas faces. Em seguida, ainda de cabeça baixa, aconchegou-se no casaco de peles.

            Começou a andar devagar por entre os bancos, como se lhe doesse o corpo todo e a alma também. Estavam a centímetros de distância, quando ele estendeu a mão com suavidade e a deteve. Ela pareceu ter-se assustado e levantou os olhos para ele, perplexa, como se a tivessem acordado de um sonho longínquo. Mas quando o olhou bem de frente, sobressaltou-se e arregalou os olhos. A mão voou-lhe até à boca e os olhos encheram-se das mesmas lágrimas que derramara em frente ao altar.

            Oh, meu Deus... - Não podia ser. Mas era. Não o via há quase sete anos. Era inacreditável.

 

            Ele acariciou-lhe a mão sem emitir um único som e, quando o fez,  instintivamente ela fundiu-se com ele sem hesitar, sem uma palavra, e ele abraçou-a. Parecia natural que ambos tivessem ido ali, que devessem estar juntos naquele dia, e assim caíram nos braços um do outro, na igreja, como duas pessoas prestes a afogar-se. Passou-se muito tempo antes dela se afastar e levantar os olhos para ele.

            Parecia mais velho, mais desgastado pelas lutas, mais fatigado em muitos aspectos. Havia pequenas cicatrizes no seu rosto, uma cicatriz profunda no braço que ela não podia ver, a perna, claro, o cabelo tinha mechas grisalhas e, contudo, quando olhou para ele, ela sentiu-se como se tivesse voltado aos dezoito anos e o coração começou a bater como acontecia quando era jovem em Paris. Há anos que sabia que havia uma parte dela que nunca se libertaria de Charles Delauney. Sabia-o há muito tempo e tinha-se habituado a viver com isso. Era algo que tinha de aceitar, como a dor, como a perna que ele era obrigado a arrastar às vezes, ou que lhe era tão penosa quando o tempo estava frio ou úmido. Era uma dor como as outras, que ela aprendera a carregar.

            - Não sei o que dizer - confessou, sorrindo-lhe com ar triste e limpando as suas próprias lágrimas -, após todo este tempo, perguntar "como está?" parece-me tão estúpido. - E era, mas que mais poderia dizer? Ouvira rumores sobre ele, de tempos em tempos, mas há muitos anos que não sabia nada. Há algum tempo que sabia que o pai dele estava doente. Os seus pais também haviam morrido, com uma distância de meses entre eles, antes de ela voltar da Europa. Mas Charles sabia disso.

            - Está incrível. - Não conseguia tirar os olhos dela. Aos trinta anos ainda estava mais bonita do que fora aos dezoito, quando estavam casados. Era como se a promessa dela se tivesse realizado e, todavia, os olhos ainda denotavam tanta tristeza. Ele sofria só de os ver.

            - Está bem? - A pergunta tinha mil interpretações, mas ela, como sempre, compreendia-o. Eventualmente tinham-se tornado como uma dança, uma canção, um movimento. Ele teria meio pensamento e ela o terminaria sem proferir uma palavra. Conheciam-se tão bem! Era como se fossem metades idênticas de uma mesma pessoa. Mas tinham deixado de o ser, naquele momento eram duas metades distintas... ou seriam um todo? Refletia nisso, enquanto a observava. A roupa que ela usava era cara e o casaco de Marta incrível. O chapéu tinha sido confeccionado para ela por Lily Daché, e a maneira como o usava surtia um efeito espetacular. Estava visivelmente mais sofisticada do que quando era jovem. Assim, na altura talvez o tivesse assustado, pensou ele sorrindo para dentro, ou talvez simplesmente não o tivesse atraído com a mesma facilidade. Mas naquele momento não o assustava, arrebatava-lhe o coração como fizera durante anos. Porque teria sido tão estupidamente teimosa da última vez que a vira?

            - Está tão séria, Marielle. - Os seus olhos pareciam perfurar os dela, desejando obter respostas a milhares de perguntas. Ela esboçou um sorriso e virou-se, antes que ele pudesse voltar a olhar para ela.           

            - É um dia difícil... para ambos... - Se não fosse assim, não estariam ali. A ela ainda lhe parecia extraordinário que estivessem ali os dois, depois de todos aqueles anos, na Catedral de Saint Patrick.

            - Voltou definitivamente para casa? - Estava curiosa sobre ele. Parecia maior e mais forte que antes, mais poderoso, como se tolerasse ainda menos disparates. E por mais inacreditável que fosse, parecia ter os nervos ainda mais à flor da pele. Ele abanou a cabeça, desejando que se pudessem sentar num banco da igreja e ficar conversando o dia inteiro.

            - Acho que não agüentaria viver aqui. Regressei há três semanas e já estou em pulgas para voltar para Espanha.

            - Espanha? - Ela elevou uma sobrancelha. A vida dele parecia tão integralmente entrelaçada com Paris e com as recordações de ambos que era difícil imaginá-lo em qualquer outro lugar.

            - A guerra. Estou lá há dois anos.

            Então ela assentiu. Fazia muito sentido.

            - Uma vez passou-me pela cabeça que pudesse lá estar. - Era o tipo de luta dele. - Não sei porquê, mas desconfiava que iria para lá. - Ela tivera razão e não houvera motivos para ele não ir. Não tinha nada a perder. Não tinha nada a ganhar. Nada havia que o prendesse.

            - E você? - Olhava para ela de um modo penetrante. Era estranho estarem fazendo perguntas um ao outro naquele lugar, mas cada um queria saber o que o outro tinha andado a fazer. Demorou bastante até que ela falasse e depois lhe respondeu com muita brandura.

            - Sou casada.

            Ele assentiu com a cabeça, tentando não deixar transparecer a dor que  o fato lhe infligira, apesar de, na verdade, ela ter acabado de lhe cravar um punhal numa ferida há muito inflamada.

            - Alguém que eu conheça? - Não era provável, pois vivera no estrangeiro durante os últimos dezessete anos, mas, pela aparência, ela devia estar no mínimo casada com um pastor.

            - Não sei. - Mas sabia que o marido fora amigo do pai dele. O marido era vinte e cinco anos mais velho que ela. - Malcolm Patterson. - Não havia alegria nos olhos dela ao pronunciar o nome do marido, nenhum orgulho, e, de repente, a sua expressão ficou completamente oculta sob o chapéu. Ele sentiu algo que não gostou e ela parecia tudo menos feliz. Então era isso que ela andara fazendo nos últimos sete anos. Ele não tinha ar de quem estava impressionado. Parecia incomodado. Muito até.

            - Conheço de nome - disse Charles com frieza e esperou até que pudesse voltar a ver os olhos dela. - E é feliz? - Valera a pena ter-se recusado a voltar para ele? Para Charles era evidente que não.

            Ela não sabia o que lhe dizer. Havia certos aspectos do seu casamento que prezava muito. Malcolm prometera tomar conta dela numa altura da sua vida em que precisava desesperadamente, e fizera-o. Nunca a abandonara. Era sempre amável. Mas ao princípio ela não se apercebera de quão frio, distante e ocupado ele viria a ser. E, contudo, em alguns aspectos, era o marido perfeito. Educado, inteligente, cavalheiro, charmoso. Mas não era Charles... não era a chama e a paixão da sua juventude... não era o rosto com o qual sonhava quando pairava entre a vida e a morte... ou o nome que chamava... e ambos sabiam que nunca seria.

            - Estou em paz. É muito importante para mim. - Com Charles não  houvera paz... apenas alegria e excitação, e amor, e paixão... e depois desespero. O sofrimento tinha sido tão grande quanto a felicidade.

            - Eu te vi... na Espanha... quando fui alvejado... - contou ele, quase como se estivesse sonhando. "E eu te vi todas as noites durante anos...", era o que ela lhe queria dizer, mas sabia que não podia. Em vez disso, apenas sorriu.

            - Todos nós temos fantasmas, Charles. - Alguns eram simplesmente mais dolorosos que outros.

            - Então é só isso? Somos fantasmas? Nada mais?

            - Talvez. - Ela precisara passar dois anos numa clínica para ter consciência de que estava tudo acabado, para conseguir viver com a dor, para conseguir continuar a viver, após tudo o que acontecera. Não podia pôr tudo em perigo naquele momento, nem sequer por ele, e principalmente não por ele. Não podia dar-se ao luxo de recuar, independentemente de quanto pensava ainda amá-lo. Fez-lhe uma carícia na mão e depois na face, e ele inclinou-se para a beijar, mas ela virou a cabeça. Charles deu-lhe um beijo na face, junto aos lábios, e ela fechou os olhos por muito tempo, ao mesmo tempo que ele a abraçava.

            - Amo-te... te amarei sempre... - Enquanto falava, os olhos dele ardiam com aquela paixão que ela conhecia tão bem. Não era a paixão nascida do desejo, mas sim do acreditar, do desejar, do querer tanto uma pessoa que quase leva à morte. Quando Charles queria, era assim, e ela sabia que um dia isso acabaria com ele. Ela mal conseguira sobreviver ao seu fogo e, naquele momento, sabia que não poderia arriscar. Ele tinha as suas cicatrizes e ela as dela, não menos profundas pelo fato de não terem sido ganhas em combate.

            - Eu também te amo - sussurrou ela, sabendo que não devia lhe dirigir aquelas palavras. Mas era um sussurro do passado, uma saudação a tudo o que acontecera e que morrera junto com André.

            - Vai me visitar antes de eu partir novamente para a Espanha? - Era típico dele pressioná-la, fazê-la sentir-se responsável por ele, quando ia entrar em combate. Ela sorriu-lhe, mas daquela vez abanou a cabeça.

            - Não posso, Charles. Sou casada.

            - Ele sabe de mim?           

            Devagar, como se estivesse em agonia, ela respondeu abanando a cabeça.

            - Não, não sabe. Pensa que houve um Verão, durante o Grand Tour, em que perdi a cabeça e o domínio sobre mim mesma, tendo em conta a descrição que o meu pai fez aos amigos. Foi a novidade que ele espalhou anos atrás, algo sobre "um romancezinho". E é tudo o que o Malcolm sabe. Nunca me deixou mencionar o assunto. Não faz idéia de que estivemos casados. - Era tão típico do pai dela. Nunca contara às pessoas a relação de Marielle com Charles, e o fato de terem ficado a viver na Europa facilitara-lhe as coisas. Só se importava com as aparências e com a sua reputação. Mentira para protegê-la e dissera a toda a gente que ela ficara na Europa para prosseguir os estudos. Tinha de manter as aparências a todo o custo e quisera salvar Marielle do "terrível erro" que cometera quando casara com Charles Delauney. E nos dias que corriam, o marido de Marielle ainda acreditava nessa versão, porque ela o deixara acreditar.

            Charles não queria crer que ela nunca tivesse contado a verdade ao marido. Eles contavam tudo um ao outro. Haviam partilhado todos os segredos. Mas aos dezoito anos, o que poderia haver a esconder? Aos trinta era diferente.

            - Ele não sabe de nada, Charles. Porquê contar-lhe? - Porquê contar-lhe que passara vinte e seis meses numa clínica, querendo morrer... que tentara cortar os pulsos... tomar comprimidos... afogar-se na banheira... porquê contar-lhe aquelas coisas? Charles sabia, pagara as contas... e ela se recuperara.

            - Vai contar-lhe que me viu hoje? - Tinha curiosidade em saber coisas sobre ela e sobre eles. Que tipo de casamento poderiam ter se ela não lhe contava nada? Amaria o marido, ou ele a ela? Ela dissera-lhe "te amo" com tanta facilidade, após todos aqueles anos, e Charles acreditara. E naquele momento abanava a cabeça em resposta à sua pergunta.

            - Como é que eu lhe posso dizer que te vi se ele nem sequer sabe que você existe na minha vida? - O olhar dela deixava transparecer muita calma e o rosto era adorável. Parecia estar em paz e isso já era importante.

            - Ama-o? - Não acreditava, mas queria ouvir da boca dela.

            - Claro. Sou mulher dele. - Mas a verdade era que ela o respeitava, o  admirava, estava em dívida para com ele. Nunca o amara como amara Charles, nem nunca o conseguiria. Além do mais, não queria. Um amor daqueles causava demasiada dor e ela já não sentia coragem para isso.

            Olhou para o relógio e depois para Charles:

            - Tenho de ir.

            - Porquê? O que poderá acontecer se, em vez de ir para casa, vier comigo para a minha? - Tinha ar de quem falava a sério.

            - Não mudou nada. Ainda é o mesmo homem que me convenceu a fugir em Paris. - Sorriu, ao lembrar-se, e ele também.

            - Naquela altura era mais fácil de convencer.

            - Na altura tudo era mais fácil, éramos jovens.

            - Você ainda é. - Mas no fundo do seu coração, ela sabia que não. Aconchegou-se mais no seu casaco, calçou a outra luva e começou a andar lentamente em direção à porta principal da catedral.

            - Quero te ver mais uma vez antes de partir.

            Ela suspirou e parou para olhar para ele.

            - Charles, como isso é possível?

            - Se não vier, vou tocar à campainha da sua casa.

            - Não me espantaria nada. - Ela riu, apesar da dor que os juntara naquele dia.

            - Vai ter uma carga de trabalho para lhe explicar. - Só pensar nisso quase que a fez ter uma das suas enxaquecas. - Sabe onde estou. Na casa do meu pai. Telefone. Ou telefono eu.

            Após sete anos, ali estava ele a ameaçá-la, com aquele ar tão atraente.

            - E se eu não telefonar?

            - Te encontrarei.

            - Não quero ser encontrada. – Parecia falar sério, mas ele também, quando lhe respondeu:

            - Não tenho certeza se acredito nisso. E depois de todos estes anos não podemos simplesmente... não posso simplesmente deixar passar... não posso... desculpe. - Parecia tão desamparado e, de um modo estranho, quase abatido.

            - Eu sei. - Enfiou uma mão no braço dele e saíram pela porta, no momento em que o motorista de Malcolm se precipitava por outra porta lateral. Passara uma hora interessante a observá-los. Era uma faceta de Marielle que nunca vira antes, mas que de algum modo não o surpreendia. Malcolm também tinha a sua vida particular e ela era uma jovem e bonita mulher. Bonita mas assustada, sabia. Sentia-se intimidada por todo mundo, principalmente pelo marido. E pôs-se a pensar quem iria pagar no seu devido tempo pela informação sobre o que acabara de ver... a própria Sra. Patterson? Ou o marido?

            Charles e Marielle desciam as escadas devagar, de braço dado, e ele manteve-a próximo de si até ao fim.

            - Não vou te pressionar, se não quiser, mas gostaria de te ver antes de partir. – Parecia falar sério.

            - Porquê? - Olhou-o nos olhos e ele deu-lhe a única resposta que poderia ter dado.

            - Ainda te amo.

            Os olhos dela encheram-se de lágrimas, quando desviou o olhar dele. Não queria continuar a amá-lo, ou sendo amada por ele, não queria tornar a lembrar-se, a sentir aquela dor e aquela angústia. Voltou a levantar os olhos para ele.

            - Não posso te telefonar.

            - Você pode fazer tudo o que quiser. E faça o que fizer, sempre ... é assim tão difícil para ti como... - Olhou para trás, para a catedral, pensando no dia que os levara àquele lugar, e depois baixou os olhos úmidos para ela, enquanto os dela, em resposta, também se inundaram de lágrimas, ao mesmo tempo que assentia com a cabeça.

            - Sim, para mim também é muito difícil. Não desaparece. - E nunca desapareceria. Tinha consciência disso. Teria de viver com aquilo, como uma dor ininterrupta. Voltou a levantar o olhar para ele. - Tenho tanta pena... - Há anos que  queria lhe dizer aquelas palavras; contudo, quando o fez, nada mudou.

            Ele abanou a cabeça, puxou-a com força contra o peito e depois a largou. Deitando-lhe um último olhar, afastou-se, subindo a Quinta Avenida, sem se despedir dela. Mas a verdade era que não conseguia. Ela ficou seguindo-o com o olhar durante muito tempo e depois se esgueirou para dentro do carro de Malcolm. Enquanto o motorista a conduzia para casa, pensava em Charles... uma vida há muito perdida que nunca mais seria encontrada... e em André.

 

            Patrick, o motorista, conduziu Marielle para casa, subindo a Quinta Avenida, para norte, mas ela não reparou em Charles. Por fim viraram para leste, na Rua Sessenta e Quatro, onde se situava a casa na qual vivia há seis anos com Malcolm, entre a Madison e a Quinta, mesmo na esquina que dava para o parque. Era uma residência bonita, mas nunca lhe pertencera. Pertencia a Malcolm. Desde o início que não se sentia à vontade naquela casa. Era enorme, com imensa criadagem, que pertencera um dia aos pais de Malcolm. Este mantivera-a quase como um monumento em memória dos pais, com coleções inestimáveis espalhadas por toda a casa, acrescentadas apenas pelos objetos raros que colecionava durante as suas viagens ou que comprava através de conservadores de museus. Naquela casa, por vezes, Marielle sentia-se como um objeto precioso, algo para ser exibido, nunca para lidar.

            Uma boneca para ser admirada numa prateleira, nunca para manejar. Os empregados dele, em geral, tratavam-na com formalidade, sem no entanto deixarem de tornar bem claro que não estavam ao serviço dela, mas sim ao do marido. Muitos deles trabalhavam naquela casa a bastante tempo e, passados seis anos, ela continuava a sentir que praticamente não os conhecia. Malcolm insistira para que mantivesse a devida distância, Foi o que ela fez, e eles também.       Não havia calor na comunicação entre eles. E desde o início Malcolm nunca a deixara fazer qualquer alteração. A casa ainda era dele, tudo era feito à sua maneira e, se as ordens dela diferissem das dele, eram delicadamente ignoradas e passava-se uma borracha sobre o assunto. Era ele quem contratava o pessoal, a maior parte constituída por irlandeses, ingleses ou alemães. Malcolm tinha uma enorme admiração por tudo o que era alemão. Freqüentara a Universidade de Heidelberga na sua juventude e falava a língua na perfeição.

            Por vezes Marielle perguntava a si mesma se o pessoal não teria ressentimentos contra ela, se bem que discretamente, pelo fato de ter trabalhado para Malcolm. Não tinha conseguido arranjar emprego quando voltara da Europa em 1932. A depressão estava no auge, havia licenciados desempregados, e ela não tinha qualquer formação profissional. Nunca trabalhara para ninguém antes e os pais não lhe haviam deixado nada. O pai perdera tudo no crack da Bolsa, em 1929, o que basicamente fora a causa da sua morte. Estava demasiado velho para sobreviver à pressão, para começar do início. No fim, o coração cedera, mas, antes disso, a sua determinação. E, seis meses mais tarde, quando morrera a mulher, não sobrara nada, exceto umas centenas de dólares. Nessa altura, Marielle ainda se encontrava na Europa e Charles tomara providências para vender a casa a fim de pagar as dívidas. Ela encontrava-se demasiado enfraquecida para tratar daqueles assuntos e, no fim, quando regressou a Nova Iorque, não tinha nada, nem sequer uma casa para onde ir. Ficou instalada num hotel em East Side e começou a procurar emprego logo nessa semana. Tinha dois mil dólares emprestados por Charles. Fora tudo o que deixara que ele lhe desse. Estava completamente só. E, em vários aspectos, Malcolm salvara-a. Ainda lhe estava agradecida por isso, e sempre estaria.

            Aparecera no escritório dele num mês de Fevereiro invernoso e o rosto que lhe sorriu do outro lado da secretária foi como um raio de sol. Fora ter com ele, porque sabia que era um dos amigos de seu pai e esperava que, de algum modo, ele pudesse saber de um emprego ou de alguém que precisasse de uma acompanhante que falasse francês. Era tudo o que sabia fazer, para além dos seus graciosos desenhos, mas há anos que não desenhava. Não tinha qualquer formação a nível de secretariado, mas depois de uma conversa de uma hora, ele contratou-a e até lhe pagou a conta do hotel até ela encontrar casa própria. Ela tentara pagar-lhe posteriormente, mas ele nem quis ouvir falar disso.

            Sabia da situação extrema em que ela se encontrava e ficou contente em poder ajudar.

            Marielle aprendeu com rapidez e era uma boa assistente da secretária  principal, uma inglesa que manifestamente não aprovava a presença dela, mas que nunca deixou de ser delicada. E ninguém ficou surpreendido quando Malcolm lhe começou a dirigir convites, primeiro para almoços calmos e, mais tarde, para jantares românticos. Por fim começou a levá-la a eventos sociais importantes, sugerindo sempre discretamente que ela comprasse um vestido novo para a ocasião numa loja onde era conhecido. Ao princípio incomodava-a fazer isso. Não queria aproveitar-se dele nem colocar-se a si própria numa posição difícil. Contudo, ele era sempre tão terno com ela, tão espirituoso, tão divertido, tão compreensivo. Nunca a pressionara com perguntas sobre a sua vida, nem indagara a razão da sua permanência por seis anos na Europa, ou a causa do seu regresso. As conversas cingiam-se estritamente ao presente. Ela admirava-se de se sentir sempre tão segura próxima dele. Era tão educado e delicado, uma companhia tão fácil. Dissipara-se toda a sua resistência anterior e ficara especialmente bem impressionada pelo fato de ele nunca lhe ter feito propostas impróprias. Parecia que apenas gostava da companhia dela, de ser visto com uma mulher bonita e jovem, vestida com roupas caras, pagas por ele. Na altura ela era de uma timidez aflitiva e, por vezes, ainda se sentia um pouco insegura. Mas parecia que ele nunca reparava. Quando estava com ele, sentia-se sempre mais confiante e, para sua grande admiração, mais forte do que se sentia há muito tempo. já não era a mesma pessoa, mas pelo menos era uma pessoa nova, na pele da qual conseguia viver.                    

            Perto de Malcolm, ninguém lhe perguntava nada. As pessoas queriam  saber quem ela era, claro, mas, para além do nome, nunca perguntavam de onde viera e o porquê daquela expressão tão séria. Ficavam impressionados com ela, pela pessoa que a acompanhava, pelo seu aspecto e, às vezes, ela até achava aquilo tudo divertido. Sentia-se segura perto dele, protegida de tudo, e foi precisamente o que ele lhe ofereceu quando a pediu em casamento no dia de Ação de Graças. Ofereceu-se para protegê-la e tomar conta dela pelo resto da sua

vida, que não seria tão longa quanto a dela, pois era muito mais velho. Não fingiu que a amava, e porém, de algum modo, sentia que ele a amava, pois era sempre tão atencioso e terno, tão amável e correto. Na verdade, era só isso que ela queria dele. Não teria sido capaz de correr mais riscos, ou agüentar a dor, se algo corresse mal ou se acontecesse alguma coisa. As lembranças de Charles ainda eram extremamente dolorosas e não conseguia falar sobre o que se passara, mesmo com Malcolm. Tentara ser honesta com ele, dizer-lhe que havia coisas no seu passado que tinham sido muito dolorosas, mas ele não quis ouvir.

            - Cada um de nós tem um passado, minha querida. - E sorrira-lhe com ternura, durante o jantar no Plaza. - Mas aos vinte e quatro anos, suspeito que o seu ainda seja bastante saudável. - Era tão tolerante com ela, tão receptivo. Podia ir ter com ele com o seu passado nas mãos, a sua dor e as suas feridas, que encontraria consolo e proteção. Era isso que queria dele, não a casa, as jóias ou o dinheiro. Ele fora casado duas vezes antes e ela sabia, por aqueles que falavam demais, que a generosidade dele era lendária. Mas tudo o que queria dele era um porto para se proteger da intempérie, um lugar para se esconder pelo resto da sua vida, e foi isso que ele prometeu. Não foi difícil para ele pressentir que ela estava assustada, apesar de nem sequer suspeitar do desgaste que sofria. E tudo o que queria era que ela estivesse disposta a gerar os seus filhos. As suas mulheres anteriores não o tinham conseguido e, com quarenta e nove anos, queria muito um herdeiro para o império Patterson. O seu dinheiro viera do aço, o que fora bem menos elegante várias gerações antes, mas na altura em que Malcolm nasceu o nome da família já era altamente respeitado. E durante a sua vida, Malcolm ainda o elevara mais.

            De início, ficara estupefata com a proposta dele e, por uns instantes, ainda lhe passou pela cabeça que ele a estivesse gozando. Era certo que tinham saído juntos muitas vezes e que a generosidade dele para com ela fora excessiva, mas, até ao momento, nem sequer a beijara.

            - Eu... eu não sei o que dizer... está falando sério? - Ele  sorriu-lhe calmamente e pegou-lhe na mão, divertido com o ar espantado dela. Ainda lhe parecia uma criança. Levou-lhe a mão ternamente aos lábios e beijou-lhe os dedos.

            - Claro que estou falando sério, Marielle. - Os seus olhos encontraram-se com os dela e esse olhar parecia mais paternal que outra coisa- Mas essa era uma das características dele que ela muito apreciava, mais ainda, de que ela tanto precisava. Regressara aos Estados Unidos há menos de um ano e não tinha ninguém no mundo, exceto Malcolm. - Quero que seja minha mulher. Tomarei muito bem conta de si, minha querida. Prometo-lhe. E se tivermos a sorte de ter filhos, lhe ficarei grato pelo resto da vida. - Era uma proposta estranha, pensava ela ao ouvi-lo, soava mais a um negócio do que a uma proposta de casamento. Ele desejava que ela lhe desse filhos e ela queria e precisava da sua proteção. Ele não lhe dissera que a amava nem a olhara com adoração; ela não estava perdidamente apaixonada por ele. Era o oposto da relação que tivera com Charles, mas era isso mesmo que ela queria. Naquele momento, apenas a idéia de ter filhos a assustara.

            Não tinha certeza de querer voltar a correr esse risco, mas não se atrevera a exteriorizar os seus receios.

            - E se não conseguirmos ter filhos? - Os olhos dela procuraram os dele com uma expressão preocupada, enquanto ele perguntava a si mesmo se alguma coisa lhe estaria a escapar. Pensava que sabia tudo sobre ela.

            - Então seremos amigos. - Falou com uma expressão calma, o que a tranqüilizou, mas continuava a não perceber porque é que a queria a ela, com tantas outras mulheres que teriam morrido por ele. E no fundo, mal a conhecia.

            - Mas porquê eu? Há.... tantas outras... mais apropriadas... - Corou ao pronunciar aquelas palavras. Não tinha dinheiro e perdera o seu estatuto social. É certo que os pais tinham sido pessoas respeitáveis, mas não do nível dele, e haviam-na deixado sem um tostão. Mas tudo isso fazia parte da sua atração. Era uma moça sem ligações, sem família, sem obrigações. "Pertencia-lhe", de uma certa maneira, ou pertencer-lhe-ia, se casasse com ele, e isso agradava-lhe. Malcolm Patterson era um homem obcecado pelos seus haveres, as suas casas, os seus carros, os seus quadros, a sua coleção Fabergé, as suas "coisas". Marielle era mais uma coisa que ele iria adquirir... uma aquisição muito importante, se lhe conseguisse dar filhos. Além de que era uma mulher muito sossegada e pouco exigente, e ele gostava disso. Faria uma esposa digna e atraente e, talvez um dia, com sorte, uma excelente mãe.

            - Talvez eu devesse dizer que a amo - disse ele com muita ternura, mas ambos sabiam que não era verdade. - Mas não tenho certeza que seja importante para qualquer um de nós. - Conhecia-a bem, melhor do que ela se tinha percebido. - Talvez isso não seja minimamente importante. Talvez seja melhor assim e aprenderemos a amar-nos com o tempo, não acha? - Ela assentiu com a cabeça, ainda receosa pelas palavras dele. E depois ele olhou para ela, na expectativa, como se ela soubesse o que se esperava dela, e ele estivesse à espera que o dissesse. - Tem uma resposta para me dar?   

            Ela hesitou, mas apenas por uns momentos.

            - Eu... - Olhou para ele com um ar preocupado... - Tem certeza?... - Ela tinha mais medo por ele do que por ela própria. E se o desapontasse? E se... e se voltasse a ir abaixo? O ano que passara não fora fácil. O filho de Lindbergh fora raptado duas semanas após o seu regresso e o horror que aquela história lhe provocara deixara-a em estado de choque e depois, em Maio, quando se soubera que a criança morrera, sentira uma dor no coração que nunca iria esquecer.  Ficara de cama dias a fio, queixando-se de gripe. Na verdade, sentia-se incapaz de funcionar. Por fim, dominada por uma onda de terror, telefonara ao seu médico na Suíça e ele conseguira acalmá-la.

            E se voltasse a acontecer a mesma coisa? E se Malcolm viesse a saber... - Não sei se será justo para você. - Marielle baixou o olhar e as lágrimas se aglomeraram nas pestanas. Ele teve um impulso de a tomar nos braços e fazer amor com ela. Era a primeira vez que despertava nele qualquer tipo de paixão e, por um momento, questionou-se a si próprio se não viria realmente a amá-la.

            - Querida... por favor... case comigo... Farei tudo por você... - Era a única linguagem que ele conhecia, mas ela levantou os olhos para ele com um sorriso triste e abanou a cabeça.

            - Não é preciso casar comigo. Tudo o que tem de fazer é ser bom para mim como sempre foi. Bom demais. Eu não mereço.

            - Isso é um disparate. Você merece mais do que eu lhe posso dar. Merece um marido jovem e atraente que esteja louco de paixão por você e que a leve para dançar todas as noites. Não um velho, para, quando tiver quarenta anos, ter de empurrar numa cadeira de rodas. - Ela riu do quadro que ele esboçou; era difícil imaginar Malcolm de outro modo que não vigoroso e jovial. Era um homem forte e robusto que, apesar de prematuramente grisalho, parecia dez anos mais novo.

            O cabelo branco apenas o fazia parecer mais imponente.

            - Pronto, e agora que lhe disse o que a espera no futuro, aceita a minha proposta? - Os olhos deles encontraram-se e, quase imperceptivelmente, ela assentiu com a cabeça. Sentiu a respiração presa quando olhou para ele e este a abraçou e a apertou contra si. Sentiu os olhos inundarem-se de lágrimas. Queria ser tão boa para ele como ele era para ela; queria prometer-lhe tudo e jurou a si própria que nunca o desapontaria.

            A cerimônia do casamento foi breve e discreta. O matrimonio foi celebrado no dia de Ano Novo, por um juiz amigo de Malcolm em sua casa, na presença de menos de meia dúzia de amigos dele. Marielle não tinha ninguém para convidar, com exceção das colegas que conhecera enquanto estivera trabalhando no escritório. Mas essas, de qualquer modo, sentiam-se melindradas. Não haviam ficado muito felizes com a sua história de Cinderela. Marielle levara-lhes o que sempre haviam querido, mas por razões diferentes. Elas queriam o dinheiro dele e tudo o que Marielle queria era a sua proteção.

            Marielle usou um vestido de cetim bege que Malcolm lhe comprara no Mainbocher com um chapéu a condizer de Sally Victor. E nunca estivera tão encantadora como naquele dia, com o cabelo ruivo escuro preso num elegante coque e os olhos azul-escuros cheios de emoção. Chorara quando o juiz os declarara marido e mulher e não se afastou dele o dia todo, como se tivesse medo que, se não estivessem juntos, um espírito maligno se intrometesse entre eles.

            Passaram a lua-de-mel nas Caraíbas, numa ilha particular próximo de Antígua. Nessa ilha, que pertencia a um amigo, havia uma casa fabulosa, um iate e um exército de empregados ingleses discretos e extremamente bem treinados. Fora perfeita em todos os sentidos e ela deu-se conta de que a sua afeição por Malcolm crescia a olhos vistos.

            Os seus modos atenciosos e dóceis comoviam-na com mais freqüência do que ela era capaz de lhe confessar. E ele aproximou-se fisicamente dela com inteligência, delicadeza e enorme cuidado. Estava ansioso por ter um filho, mas não tanto que alguma vez tivesse sido bruto ou apressado com ela, passando a maior parte da lua-de-mel aprendendo o que dava mais prazer a Marielle. Era um homem experiente e ela gostava do tempo que passava na cama com ele; contudo, não era possível dissimular o fato de haver algo que falhava entre eles. Mas gostavam da companhia um do outro e, quando regressaram a Nova Iorque, três semanas mais tarde, eram bons amigos. Marielle entrou na casa dele com uma segurança e uma firmeza no andar que já não tinha há anos. No entanto, mal chegaram a casa, deu-se conta da realidade da futura vida em comum. Viviam na casa dele, conviviam com os amigos dele, dia e noite estava rodeada pelos empregados dele e Marielle tinha de fazer tudo o que ele queria. A maior parte dos empregados considerava-a uma caçadora de fortunas e tratava-a como uma intrusa.

            Como sabiam que anteriormente ela trabalhara para ele, a inveja atiçava-lhes a intensidade do ódio. Ignoravam as ordens dela, ridicularizavam em segredo os seus desejos, faziam desaparecer os seus pertences ou estes eram destruídos "acidentalmente" e quando por fim tentou mencionar o fato a Malcolm, este minimizou as queixas dela com um ar divertido, o que ainda a perturbou mais.             Aconselhou-a a dar tempo "ao seu pessoal" para se habituar a ela e que estes, com o tempo, acabariam por gostar tanto dela como ele.

            De volta a Nova Iorque, Malcolm voltou à sua vida ocupada no escritório. Isolava-se a maior parte do tempo, vivia a sua própria vida e Marielle tornou-se muito solitária. Continuava a gostar de ser visto na companhia dela e era sempre delicado, mas tornou bem claro que não iria partilhar tudo na vida com ela, nem sequer o quarto.

            Explicou-lhe que, à noite, ficava acordado até muito tarde lendo documentos ou fazendo chamadas interurbanas, e era importante ter a sua privacidade quando o fazia, além de não querer perturbá-la. Ela sugeriu que fizessem mudanças e que ele montasse um escritório ao lado do quarto deles, onde poderia trabalhar de noite, mas ele era inflexível no que respeitava a mudar alguma coisa. E acabou por nunca o fazer. Não houve uma única alteração na vida de Malcolm depois do seu casamento com Marielle, com exceção do fato de saírem juntos com mais freqüência. Mas mais do que uma vez, e apesar da amabilidade dele, Marielle sentiu-se como se fosse mais uma das suas funcionárias.

            Começou a receber uma mesada que era discretamente transferida para uma conta no primeiro dia de cada mês, e Malcolm encorajava-a a fazer compras em todo o lado e a comprar tudo o que quisesse. Mas os empregados continuavam sendo os dele, o interior da casa não mudara absolutamente nada, as pessoas com quem costumavam conviver eram amigas dele e Marielle já não o acompanhava nas viagens de negócios.

            Verdade seja dita, viajava mais com ele quando era sua subsecretária. Marielle teria ficado zangada com a nova secretária que passara a viajar com ele, não fora o fato de gostar dela. Brigitte era uma jovem e bonita berlinense. O seu comportamento e reputação eram impecáveis e tratava Marielle com enorme deferência. Tinha um cabelo louro baço e unhas pintadas de vermelho vivo. Não havia nada a dizer da sua conduta e era extremamente eficiente. Mais ainda, era sempre delicada com Marielle, chegando ao ponto de se revelar amistosa. As secretárias mais antigas tinham inveja dela, da mesma maneira que haviam tido em relação a Marielle, e esta até sentiu pena dela mais do que uma vez, quando reparou nas sobrancelhas franzidas das colegas de Brigitte. Era muito atenciosa e prestativa, sempre que Marielle telefonava para o escritório. E foi especialmente simpática com Marielle quando esta ficou grávida, mandando presentes pequenos mas úteis para o bebê. Até tricotou uma coberta e várias camisolinhas, gesto que também comoveu Malcolm profundamente. Este não parecia dar pela existência dela. Andava ocupado com outras coisas, negócios importantes, a mulher, e mais cedo ou mais tarde, o tão desejado filho.

            Marielle esperara engravidar facilmente. Já tinha acontecido antes e ficou admirada quando tal não aconteceu após os primeiros meses do casamento. Passados seis meses, Malcolm insistiu para que ela consultasse um especialista em Boston. Ele próprio a acompanhara, deixando-a no hospital durante toda a tarde enquanto era observada por uma equipe de especialistas. No fim, não encontraram qualquer problema e encorajaram-nos a continuar tentando. Acharam que era apenas uma questão de tempo e fizeram algumas sugestões embaraçosas para Marielle, mas que Malcolm estava mais do que disposto a experimentar. Seis meses depois, as sugestões dos médicos continuavam a não dar resultado e andavam ambos profundamente preocupados. Foi então que Marielle passou uma tarde calma com o seu médico pessoal.

            Este não tinha uma explicação para lhe dar e disse-lhe, com muita delicadeza, que havia algumas mulheres que simplesmente não eram feitas para terem filhos. já assistira a casos de jovens saudáveis, sem qualquer problema, que pura e simplesmente nunca concebiam. A culpa não era de ninguém, mas "Por vezes", explicara ele calmamente, "Deus não quer que isso aconteça". Todos os meses Marielle quase entrava em histeria, quando via que não tinha engravidado, e essa pressão tornou a provocar-lhe as crises de enxaquecas.

            - Já aconteceu antes - informou ela com brandura, quase com medo de olhar para ele. Era um fato que não revelara a Malcolm, muito menos naquele momento, pois não tinha ainda sido capaz de ter um filho dele.

            - Já esteve grávida antes? - O médico fez um ar intrigado.

            Desconfiara disso uma vez, quando a examinara, mas não ficara certo e, portanto, não lhe perguntara. E ela nunca referira nada. Haviam-lhe perguntado várias vezes em Boston e ela sempre negara. Mas confiava naquele homem para guardar os segredos dela. Fora ela quem o escolhera como médico e era uma das poucas pessoas que a rodeavam que não deviam qualquer tipo de obediência a Malcolm.

            - Sim - confirmou ela.

            - Fez um aborto? - Isso seria realmente preocupante. A experiência dizia-lhe que as mulheres que faziam aquele tipo de abortos ilegais em becos escuros e ruas escondidas raramente conseguiam ter mais filhos. Recorriam a carniceiros e já era uma sorte ficarem vivas, quanto mais conseguirem gerar outros filhos.

            - Não, - não fiz.

            - Compreendo... - De repente ficou com um ar mais compreensivo. - Perdeu o bebê.

            - Não - começou falando e depois estremeceu, como se falar disso lhe tivesse causado uma dor física. - Quer dizer, sim... eu tive-o... e morreu... mais tarde...

            - Lamento profundamente. - Então ela contou-lhe a história, chorando ininterruptamente, mas duas horas mais tarde, quando saiu do consultório, sentia-se aliviada. De algum modo, foi como se lhe tivessem tirado um peso das costas. O médico animou-a, dizendo-lhe que tinha certeza de que ela engravidaria de novo mais cedo ou mais tarde. Não havia qualquer razão para que tal não acontecesse.

            E tinha razão. Dois meses depois, para seu espanto e alegria, descobriu que estava grávida. Tinha começado a desistir da idéia, e até começara a perguntar a si própria se não deveria oferecer o divórcio a Malcolm, se este quisesse, uma vez que não fora capaz de conceber um filho dele. Mas de repente fizera-se luz e Malcolm ficou fora de si de gratidão e emoção. Cobriu-a de jóias e de presentes, vinha para casa ao almoço para ver como ela estava, tratava-a como a jóia mais preciosa da sua coleção e parecia passar o tempo fazendo planos para o bebê. Era evidente que desejava que ela lhe desse um filho varão, mas também ficava satisfeito se fosse uma menina.

            - Teremos de ter mais filhos, se for uma menina - dizia ele, com alegria, e Marielle ria. Por essa altura já não conseguia ver os pés e não dormia decentemente há semanas. A perspectiva de ter mais filhos era um pouco assustadora. Por outro lado, florescera durante a gravidez e a dor dos últimos anos parecia mais esbatida com a emoção de ter uma vida dentro de si. Ficava sentada durante horas sentindo os movimentos do bebê, à espera do momento em que o teria nos braços.

            Preencheria um vazio que a atormentava há anos e ela sabia que apenas outro filho o poderia preencher. Tinha de repetir para si própria vezes sem conta que, daquela vez, não seria André mas outra criança... André nunca mais voltaria e, contudo, sabia que, fosse quem fosse esta criança, seria bem-vinda com todo o seu coração e com o de Malcolm também.

            Malcolm dera ordens a todos na casa para que tomassem conta dela, lhe satisfizessem todos os caprichos, lhe dessem de comer de hora a hora e se certificassem de que ela não cairia ou tropeçaria, nem deixassem que ela se cansasse, mas o pessoal estava bastante menos entusiasmado com a gravidez de Marielle do que ele. Pareciam aproveitar a oportunidade para serem ainda mais desagradáveis com ela, em especial a governanta, que estava lá há vinte anos, ultrapassara as duas mulheres anteriores e continuava a considerar Marielle como uma intrusa temporária. Ainda se sentia mais ameaçada, ante a perspectiva do bebê, portanto, em vez de ficarem contentes, os empregados mais mal-intencionados estavam mas era irritados.

            A governanta, as criadas, o motorista, Patrick, um irlandês de quem Marielle não gostara desde o primeiro dia, e até a cozinheira e as suas subalternas ficavam aborrecidas por terem de satisfazer os poucos caprichos de Marielle ou até por fazerem um chá especial quando ela tinha uma das suas enxaquecas. Pareciam tomar as dores de cabeça de Marielle como um sinal de fraqueza e, muitas vezes, eram indelicados em relação à sua indisposição. Até a ama que Malcolm arranjou parecia considerar Marielle como um ser inferior. Era uma inglesa contratada por Malcolm numa das suas viagens ao estrangeiro; tinha uma cara de pedra e um coração a condizer. Era difícil imaginá-la a dar qualquer tipo de calor ou ternura a um recém-nascido. E quando ela chegou, um mês antes do nascimento do bebê, Marielle ficou petrificada ao vê-la.

            - Parece uma guarda prisional, Malcolm. Como é que podemos deixar que uma pessoa assim tome conta do nosso filho? - No fundo, o que Marielle queria saber era porque é que precisavam dela? Ela tomara conta de André sozinha, mas as lembranças eram demasiado dolorosas de suportar e não havia hipótese de discutir o assunto com Malcolm naquele momento. - Eu posso tomar conta do bebê sozinha. - Mas ele apenas riu dela, dizendo-lhe que estava sendo pouco sensata. Queria que ela permitisse que todos a mimassem.

            - Vai ficar exausta, quando o bebê nascer. Vai ter de descansar. Miss Griffin será perfeita. Tem referências excelentes e formação em enfermagem. É exatamente o que você precisa e não percebe. Vai ver que tratar de bebês não é tão fácil como pensa. - Ela sabia por experiência própria que era mais fácil do que ele pensava, mas não lhe podia dizer. Aos dezoito anos, ela própria tomara conta do seu filho, sem a assistência de pessoas como Miss Griffin.

            Mal chegou, Miss Griffin fez questão de anunciar que as enxaquecas de Marielle eram nocivas para a criança e um provável sinal de fraqueza muito perigoso por parte da mãe. Era como se quisesse levar Marielle a prescindir das enxaquecas por vergonha, mas estas eram demasiado fortes e apenas um quarto escuro e o descanso conseguiam extingui-las. Apareciam por tudo e mais alguma coisa: qualquer tensão, qualquer preocupação, uma discussão com Malcolm, um comentário cruel de uma empregada, uma constipação, um vírus, uma noite mais prolongada, comida demasiado condimentada, até mesmo um copo de vinho. Eram uma tortura para Marielle, que passava a vida pedindo desculpas, como se as enxaquecas fossem realmente uma doença séria decorrente da sua personalidade, tal como sugerira Miss Griffin.

            Apenas Haverford, o mordomo inglês, era amável com ela de vez em quando. Nunca demonstrara qualquer interesse excessivo, mas era infalivelmente educado e sempre agradável. Ao contrário de Miss Griffin, que fazia questão em se aliar a Malcolm, que fora quem a contratara em primeiro lugar. E, como todos naquela casa, depressa começou a tratar Marielle como uma intrusa. Tratava-a como o veículo desagradável mas necessário que tinham de suportar para obterem o bebê, acabando por fazer com que Marielle se sentisse assustada.   Naquele momento da sua vida, Marielle sentia necessidade de estar perto de pessoas que a amassem e sonhava com os dias felizes que passara com Charles, antes do nascimento do filho deles. às vezes deitava-se na cama e punha-se a chorar e Malcolm, mais do que uma vez, ficou chocado quando a surpreendia.

            - Está apenas vulnerável, agora. Tente não levar as coisas tanto a peito - tentava ele dizer-lhe. Mas depois de falar com Miss Griffin, acabava por concordar que Marielle estava sendo um pouco disparatada. Parecia passar a vida chorando. Até ficou perturbada quando foi ao escritório, e viu Brigitte. Sentia-se tão gorda e feia em comparação com ela que, durante três dias, se recusou a ir a qualquer lugar com Malcolm. Mas ele era sempre paciente com ela e tentava ser compreensivo. No entanto, era evidente, até para ele, que no fim da gravidez Marielle se encontrava num estado de grande exaustão. Era como se estivesse aterrorizada, mal conseguindo agüentar a pressão, mas ele tudo fez para a ajudar.           Miss Griffin explicou-lhe que algumas mulheres tinham tanto medo do parto que ficavam perturbadas ante a expectativa da dor. Tudo isto parecia corroborar a sua teoria de que Marielle era uma fraca e, pior ainda, covarde.

            Marielle queria ter o filho em casa, e desde o início que insistia para que assim fosse, mas Malcolm era igualmente persistente em querer que o bebê nascesse no Doctor's Hospital, com todo o equipamento moderno à mão, no caso de haver qualquer problema.

            Marielle achava que seria mais calmo ter o bebê em casa e estava preocupada com a hipótese de rapto, como acabou por confessar a Malcolm. Bruno Richard Hauptmann fora preso em Setembro pelo rapto do bebê Lindbergh e a sua obsessão pelo caso Lindbergh voltara, mas Malcolm achou que ela apenas estava excessivamente nervosa devido à gravidez de seis meses e meio. Foram tempos difíceis para ela, a um nível que ninguém podia entender. Apenas o seu médico percebeu o que ela estava passando e, sempre que a via, tentava assegurar-lhe que, daquela vez, tudo seria diferente.

            Estavam em casa, na noite em que chegou o bebê, ela lendo no quarto dela e Malcolm trabalhando em alguns documentos no seu quarto. Vieram as primeiras contrações. Ela esperou algum tempo e depois foi lhe dizer. Malcolm correu para perto dela no momento em que a viu.

            Patrick conduziu-os ao hospital, Malcolm ficou com ela, enquanto o médico permitiu, e depois levaram-na de maca para dar à luz. Ela estava tonta do medicamento que lhe tinham ministrado e dizia-lhe qualquer coisa sobre como fora diferente em Paris. O médico sorriu para Malcolm e os dois homens trocaram um olhar de compreensão, pois ela estava num mundo de sonhos.

            - Será fácil para ela - disse o médico com suavidade, enquanto as enfermeiras a afastavam dali. - Voltarei dentro de pouco tempo. - Sorriu e Malcolm instalou-se numa cadeira na enorme suíte privada que haviam reservado para Marielle. Na altura já era meia-noite e Theodore Whitman Patterson nasceu às quatro e vinte e três dessa madrugada.

            Marielle viu-o primeiro através de uma espécie de névoa e o médico mostrou-o enrolado num cobertor. Tinha uma cara redonda cor-de-rosa e cabelo alourado; olhava-a com ar surpreendido, como se estivesse à espera de outra pessoa, e depois desatou num choro profundo e todos os que se encontravam na sala de partos sorriram, enquanto as lágrimas escorriam pelas faces de Marielle. Estava convencida de que ele tinha desaparecido... lembrava-se tão bem dele... as mesmas bochechas rechonchudas, aqueles olhos surpresos... mas o cabelo era preto, como o de Charles... cabelo preto e brilhante como um corvo... não era ele e no entanto era tão parecido. Marielle encostou o nariz ao dele, sentindo uma dor primitiva na alma, ao mesmo tempo que era invadida por um acesso de alegria, de ternura e de realização pessoal. Levaram-no para o limpar e apresentar ao pai. Enquanto Marielle dormitou os médicos efetuaram uma pequena cirurgia.

            Já era de manhã quando a trouxeram de volta ao quarto, Malcolm dormitava tranqüilo à espera do seu regresso e havia champanhe a arrefecer num balde de prata ao lado da cama dela. Malcolm despertou mal ela entrou no quarto e Marielle estava mais acordada do que da última vez que o vira. Acordada, dorida e feliz, como não se sentia há anos... e orgulhosa... finalmente realizara os sonhos de Malcolm e cumprira a sua parte do acordo que haviam feito.

            - Já o viu? - perguntou ela, quando Malcolm se inclinou e lhe beijou a face. O marido observava-a e ela reparou que os olhos dele denotavam satisfação e cansaço.

            - Vi. - Naquele momento também havia lágrimas nos olhos de Malcolm. Era tudo o que ele sempre quisera na vida. - É tão bonito; é muito parecido contigo.

            - Não é nada. - Ela abanou a cabeça, ansiando dizer as palavras proibidas... é a cara do André. - É tão querido - onde está ele? -

            Olhou para a enfermeira, subitamente aterrorizada... e se tivesse desaparecido?... se lhe tivesse acontecido alguma coisa... se alguém o tivesse levado...

            - Voltará daqui a pouco. Está dormindo no berçário.

            - Quero-o aqui, no meu quarto. - Marielle olhou para Malcolm com um ar nervoso e ele agarrou-lhe a mão.

            - Ele ficará bem.

            - Eu sei... mas quero vê-lo... - Nunca mais tiraria os olhos dele, nunca o deixaria morrer, nunca permitiria que voltasse a acontecer o mesmo... nunca... Começou a ficar frenética, volvendo os olhos pelo quarto à procura dele e, por uns momentos, receou que fosse começar a ter uma dor de cabeça. Mas esse instante passou e Malcolm serviu-lhe uma taça de champanhe que ela apenas tinha tenções de provar. Depois de tudo o que passara e da medicação a que fora sujeita, nem o Cristal que Malcolm preparara lhe parecia muito atraente.

            A seguir trouxeram-lhe o bebê, ela manteve-o junto a si enquanto ele dormia e, quando acordou, desabotoou a camisa de dormir e deu-lhe de mamar. Voltou tudo tão facilmente, como se desde então nada tivesse acontecido, como se entretanto não tivesse havido sofrimento, ou perda, ou tragédia... nada... a eternidade da maternidade era dela e ela estava perdida de amores nas mãos daquele minúsculo bebê.

            Malcolm, fascinado, observou-a dar de mamar e em seguida pegou nele, olhando para o filho num silêncio adorador. Ao fim da manhã, foi para casa e dormiu descansado no seu quarto, sabendo que a sua vida estava preenchida, completa, quase perfeita. E, não obstante algumas dúvidas que tivera nos últimos dois anos, sentia-se contente por ter casado com Marielle. A criança fizera com que tudo tivesse valido a pena.

 

            A pesada porta de carvalho abriu-se sombriamente, quando Marielle entrou em casa sem fazer barulho. Ainda tinha um ar grave por ter visto Charles após tantos anos. Fora um choque, por um lado, mas ficara comovida.

            - Boa tarde, madame. - O mordomo pegou no casaco e havia uma das criadas a seu lado, caso fosse preciso ajudá-la. Marielle soltou um suspiro quando os viu. Fora uma tarde difícil, um dia difícil. Ainda conseguia sentir nos ossos o frio que fazia na igreja, quando descalçou as luvas e as pousou junto da sua mala de mão de camurça preta.

            - Boa tarde, Haverford. - Dirigiu-se ao velho mordomo. - O senhor Patterson está em casa?

            - Penso que não.

            Ela assentiu com a cabeça e subiu as escadas, sem conseguir decidir se iria para o seu quarto ou se subiria até ao terceiro andar. Muitas vezes decidia não ir visitá-lo quando lhe apetecia. De início, para sua grande surpresa, tivera reações confusas em relação ao filho de Malcolm. Sentia uma paixão e um amor pela criança que nunca esperara sentir... mais ainda do que da primeira vez... mais do que fora capaz aos dezoito anos... mais do que imaginara poder amar outro ser humano. Contudo, aparentemente afastava-se dele e, muitas vezes, o amor que sentia era um segredo bem guardado. Era demasiado perigoso permitir-se a amá-lo demais. Sabia que, desta vez, morreria se algo acontecesse. Por isso, forçou-se a si própria a afastar-se dele e até a parecer um pouco indiferente. Mas havia momentos em que não conseguia fingir aquela atitude, momentos em que tinha de estar com ele, em que subia ao terceiro andar descalça, devagar e em silêncio, e ficava apenas a observá-lo enquanto dormia. Era mais bonito, mais caloroso, mais rechonchudo, mais doce, mais amoroso, mais perfeito que qualquer outra criança que tivesse visto... era a recompensa por toda a sua dor, o presente de Deus por tudo o que perdera. Era o centro da sua vida.

            Era evidente que Malcolm também o adorava, principalmente a sua esperteza e fácil comunicabilidade. Ao contrário dela, este não sentia qualquer tensão, medo ou ansiedade em relação à segurança de Teddy. Para ele, era apenas uma criança de trato fácil, feliz, que trazia alegria a todos quantos a conheciam.       

            Fora isso que tornara Malcolm ganancioso durante algum tempo, e no primeiro ano após o nascimento de Teddy, esperara que Marielle conseguisse voltar a engravidar. Mas mais uma vez os seus esforços foram em vão e, como já havia Teddy, Malcolm não andava tão ansioso. Desistiu antes de conseguir ser bem sucedido e ele e Marielle confinavam-se discretamente cada um ao seu quarto. Ela não parecia importar-se e ambos andavam satisfeitos com a vida que levavam. Com trinta anos, Marielle tinha um filho que adorava, um marido que a tratava bem, mais do que a maior parte das mulheres naqueles tempos; e Malcolm tinha o herdeiro por que tanto ansiara. Era suficiente para os dois.

            Parecia que Marielle também andava mais calma em alguns aspectos, com exceção do que se relacionava com a segurança de Teddy. Nesse campo, era como uma leoa nas suas defesas. O caso do rapto Lindbergh estava morto e enterrado há dois anos, mas ela continuava a agir como se em cada esquina houvesse um potencial raptor Malcolm estava-lhe grato, cuidava muito bem do seu filho, era uma ótima mãe, uma boa esposa e dera-lhe o bebê dos seus sonhos, perfeito, louro, bonito e inteligente; tudo o que sempre quisera.

            Enquanto subia as escadas devagar, Marielle debatia-se entre ir ou  não ao quarto de Teddy, pois não estava com nenhuma disposição de aturar a ama e não queria perturbar Teddy e Miss Griffin. Mas, de repente, ouviu-o. Era uma gargalhada sonora ao longe, ao fundo do átrio do andar de cima, o que a fez sorrir. Já o tinha visto essa manhã e, por vezes, tentava racionar as visitas. Tinha de o fazer, ou então a paixão a consumiria. Era um jogo que fazia constantemente consigo própria, nunca se permitindo estar com ele o suficiente, nunca estando com ele tantas vezes quantas desejaria, pois sabia que se o fizesse e se algo acontecesse, ficaria louca. Mas, na verdade, a criança já estava de tal modo entrelaçada nas fibras da sua alma que não conseguiria rebentar com os laços que as uniam. Porém, se racionasse o tempo que passava com Teddy, ficaria convencida de que tinha mantido alguma distância e liberdade. Infelizmente, o resultado era que ele passava o resto do tempo sob os constantes cuidados da severa Miss Griffin. Malcolm insistira para que ela ficasse e, quatro anos passados, Marielle continuava a não gostar dela. E esta continuava a tratar Marielle como um ser de algum modo deficiente. As suas enxaquecas, os seus nervos, a sua fobia dos raptos, a sua mal oculta e evidentemente pouco saudável paixão pelo filho, que alternava com períodos de autodomínio; Miss Griffin sentia que tudo isso era sintomático de uma pessoa indigna, um ponto de Vista que não tinha vergonha de partilhar com qualquer um que lhe desse ouvidos, sempre que fazia uma visita à cozinha.

            Era Malcolm quem a ama adorava, era Malcolm que ela respeitava e com quem sonhava em segredo. Era apenas quatro anos mais velho do que ela e, se o destino tivesse sido mais complacente, era Miss Griffin quem estaria, no lugar de Marielle, e não aquela debilóide patética e nervosa, como às vezes lhe chamava. A patroa continuava falando do caso Lindbergh, de como tinha sido traumático e do lugar onde se encontrava quando ouvira as notícias. É claro que o assunto fora desagradável, mas acontecera há seis anos, e afinal, os Lindbergh até já haviam tido dois filhos desde então.

            Marielle permaneceu bastante tempo no átrio ouvindo a criança, sorrindo para si própria, e então, como que impelida por forças invisíveis, subiu as escadas de mármore devagar até ao terceiro andar, ao mesmo tempo que os elegantes sapatos de camurça retumbavam ao longo do comprido corredor que percorria em direção a Teddy. A porta do quarto da criança estava fechada e quando lá chegou ouviu os risinhos dele. Sabia que devia bater à porta, Miss Griffin iria ficar chocada, mas preferia o elemento surpresa e abriu a maçaneta de bronze devagar. Quando a porta se abriu, uma criança de caracóis dourados e enormes olhos azuis virou-se e o seu rosto explodiu numa série de sorrisos quando a viu.

            - Mamã! - Atravessou o quarto voando, indo cair nos seus braços. O rosto de Marielle derreteu-se num sorriso e tomou-o nos seus braços. Levantou-o do chão e comprimiu-o contra si, enquanto ele roçava com o nariz no seu pescoço e inspirava fundo o seu perfume. - Cheira tão bem. - Reparava sempre em coisas daquele gênero, o cheiro e o aspecto dela, e ela adorava quando ele achava que ela estava realmente bonita. As outras mulheres que o rodeavam eram tão simples, exceto Brigitte, a secretária do papá, que às vezes vinha visitá-lo e lhe trazia livros de histórias alemãs e doces alemães. Dizia que na Alemanha era tudo melhor, mas Miss Griffin desmentia, contrapondo que na Inglaterra é que era mesmo tudo melhor.

            - Como está hoje, meu belo príncipe? - Beijou-lhe a face e pousou-o novamente, observada pela ama, que a seguia com uma expressão de desaprovação.

            - Estamos bem, obrigada, senhora Patterson. Estávamos começando a tomar chá, quando a senhora interrompeu. - Marielle nunca achara bem que ele tomasse chá, mas para Miss Griffin era um ritual sagrado e Malcolm há muito que aprovara a cerimônia do chá da tarde. Como sempre, as ordens de Marielle haviam ficado em segundo plano; esta achava que leite e biscoitos seria muito mais saudável e, na verdade, Teddy até preferia.

            - Boa tarde, Nanny. - Marielle sorriu-lhe, insegura, pois nunca tinha bem certeza de como seria recebida, e o fato de estar ao pé dela fazia-a sentir-se esquisita. Mas fora impossível explicar isso a Malcolm ao longo de todos aqueles anos e por vezes parecia que Miss Griffin iria ficar com eles para sempre. E, aos quatro anos, ainda era cedo para dizer que Teddy não precisava dela.

            A empregada do quarto das crianças serviu o chá aos três. Era uma irlandesa antipática, de quem Marielle nunca gostara, mas fora contratada pela governanta e Miss Griffin adorava-a. Chamava-se Edith e era namorada do motorista. Usava o cabelo pintado de ruivo e uns modos ordinários, mas tratava da roupa de Teddy e de Miss Griffin na perfeição. E tinha o guarda-roupa de Marielle debaixo de olho.

            - E o que é que fizeste hoje? - perguntou-lhe Marielle em tom conspirador durante o lanche. Ele olhou para ela com um ar muito sério e respondeu:

            - Estive brincando com o Alexander Wilson. Ele tem um comboio -  informou, com ênfase, e prosseguiu, explicando a Marielle como trabalhava o comboio, que havia pequenas pontes montadas e aldeias e estações, e como gostaria de ter recebido um pelo seu aniversário. Fizera anos duas semanas antes. Dezembro era um mês estranho para Marielle; um misto de alegria e de tristeza.

            - Talvez Papai Natal te traga um comboio. - De fato, ela sabia que Malcolm já lhe comprara um e que há semanas que havia homens trabalhando na garagem, para montar uma sala especial para o comboio, com montanhas, montes, lagos e o tipo de aldeias que ele acabara de descrever e que vira na casa dos Wilson.

            - Espero que sim. - Ficou com um ar pensativo e logo a seguir olhou  para ela sorrindo, aproximando-se quase imperceptivelmente. Adorava estar junto da mãe, cheirar-lhe o perfume, sentir a macieza do cabelo e deixar-se beijar como ela fizera quando chegara. A mãe era a pessoa mais emocionante que ele conhecia e gostava dela mais do que tudo... até mais do que dos comboios.

            - Viu alguma coisa interessante hoje? - perguntava-lhe sempre, como se lhe interessasse mesmo, da mesma maneira que perguntava a Malcolm e a Brigitte como tinham corrido as coisas no escritório, o que fazia Malcolm sorrir. E dizia sempre que Brigitte estava muito bonita, quase tão bonita como a sua mamã, o que agradava à jovem berlinense, Esta considerava-o uma criança adorável e Marielle autorizara-a a levá-lo ao jardim zoológico várias vezes e, uma vez, levara-o ao Empire State Building, que ele considerava a coisa mais excitante que alguma vez vira. Quando chegara em casa nesse dia, fora tão enfático que até dissera a Brigitte que gostava muito dela.

            - Hoje fui à igreja - respondeu Marielle com muita calma, sabendo que Miss Griffin não tirava os olhos dela. Teddy pareceu surpreso, pois normalmente ele também ia, mas naquele dia não.

            - Hoje é domingo?

            - Não - ela sorriu, perguntando-se se alguma vez lhe contaria. Talvez quando ele fosse homem, pois desconfiava que um dia Teddy seria o tipo de pessoa com quem poderia falar. - Mas fui na mesma.

            - Foi bom? - Ela assentiu com a cabeça. Fora "bom"... e triste... e ela vira Charles após aqueles anos todos. Não tivera coragem de lhe  contar a existência de Teddy. Parecia injusto. Ele a combater na guerra na Espanha, arriscando a vida, talvez na esperança de morrer, como ela durante tanto tempo. Mas agora tinha aquela criança maravilhosa, aquele raio de esperança e de luz que lhe preenchia os dias e a vida. Naquele dia especial do ano, não fora capaz de contar a Charles que tivera outro filho. Só lhe contara sobre Malcolm. E sabia que não lhe telefonaria. Não podia... não era justo... ele pertencia a outra época da sua vida.

            - Fui à Catedral de Saint Patrick. Sabe, aquela igreja muito grande. Fomos lá o ano passado, na Páscoa.

            Ele assentiu com a cabeça, com um ar conhecedor.

            - Sim, lembro-me. Podemos ir outra vez? - Gostaria de observar as pessoas a patinar no gelo em frente do Centro Rockefeller.

            Marielle ficou com ele bastante tempo falando, a abraçá-lo e a ler-lhe uma história, até que Miss Griffin informou que era a hora do banho de Teddy e este virou-se para a mãe com um olhar implorante.

            - Não pode ficar? Por favor... - Ela queria, mais do que tudo, mas sabia que quebrar a rotina de Miss Griffin era uma transgressão de conduta que a ama não lhe perdoaria com facilidade.

            - Eu posso dar-lhe banho - propôs ela hesitante, sabendo perfeitamente qual seria a reação. Miss Griffin detestava interferências.

            - Não há necessidade disso, obrigada, senhora Patterson. - Levantou-se decidida. - Dê um beijo de boas-noites à sua mãe, por favor, Theodore, e despeça-se até amanhã de manhã. - Era uma insinuação. E Marielle compreendeu.

            - Mas eu não quero esperar até amanhã de manhã. Quero estar com ela agora... "E eu também quero ficar contigo agora", era o que ela lhe queria dizer... "Quero te dar banho, te fazer o jantar, te pôr na minha cama e te abraçar até adormecer, beijar os teus olhinhos, as tuas bochechas e o teu nariz, enquanto dorme." Mas eles não a deixariam fazê-lo. Tinha de subir ao quarto do filho, lanchar com ele e dizer-lhe boa-noite horas antes de irem dormir.

            - Amanhã vamos ao parque, querido. Talvez até ao lago dos barcos.

            - Amanhã à tarde há uma festa de anos em casa dos Oldenfleld, senhora Patterson. - Marielle estava claramente interferindo com os compromissos sociais mais importantes deles.

            - Então levo-o de manhã. - Olhou para Miss Griffin com um ar provocador, não que valesse de alguma coisa, pois a velha mulher ganhava sempre; tinha o apoio de Malcolm e sabia-o. Ali, Marielle sentia-se sempre muito impotente, sem controle algum, como se não existisse nem nunca tivesse existido.

            - Vamos amanhã de manhã. - Olhou para Teddy para o tranqüilizar, mas mesmo assim as lágrimas corriam-lhe pelas bochechinhas rechonchudas. Para ambos, ainda faltava muito para o dia de amanhã, e ele o sabia.

            - Não pode ficar? - Em resposta, ela abanou a cabeça com tristeza e abraçou-o por uns momentos. Em seguida levantou-se, tentando parecer alegre, enquanto o levavam para a casa de banho chorando. Quando saiu, fechou a porta atrás de si com suavidade. Sentia-se sempre tão cruel por o deixar; Teddy estava sendo educado por estranhos, nem sequer amigos, e Marielle não se atrevia a desafiá-los sozinha. Fora trazida para aquela casa para dar à luz aquela criança e, uma vez cumprido o seu dever, já não tinha qualquer tipo de função ali. Era difícil viver assim; era duro sentir-se inútil e indesejada. Porém, estava grata pela vida que levava com Malcolm e tinha o filho... mas era tudo o que tinha e, por essa razão, a criança era-lhe infinita e desesperadamente preciosa.

            Então, sem conseguir afastar o pensamento dele, dirigiu-se ao seu  quarto de vestir, pôs um longo roupão de cetim cor-de-rosa e olhou-se  ao espelho. De certo modo, os anos tinham passado por ela com  delicadeza. O corpo estava igual, apesar dos dois filhos, mas o rosto  parecia mais velho, mais marcado, mais definido e profundo. Eram os olhos que a denunciavam; diziam que ela já vivera várias vidas. E enquanto permanecia ali sentada, deu consigo a pensar de novo em Charles, que se encontrava apenas a alguns quarteirões de distância, e, num momento de loucura, deu-lhe vontade de lhe telefonar; mas sabia que não podia.             Não havia mais nada a dizer, para além de recriminações, desculpas e remorsos. Não havia respostas para as perguntas e ambos sabiam que nunca haveria.

            Malcolm chegou em casa pouco depois e disse-lhe que tinha um jantar de negócios naquela noite. Não estava programado e pediu-lhe desculpa, ao mesmo tempo que lhe dava um beijo na cabeça e desaparecia apressado no interior dos seus aposentos. Ela pediu que lhe levassem um tabuleiro ao quarto nessa noite e tentou ler a mesma página do livro vezes sem conta, percebendo-se então que não conseguia concentrar-se, por mais que se esforçasse. Tinha a cabeça em outro lugar.

            Durante a noite toda, as memórias de Charles não pararam de lhe vir à cabeça... Charles em Paris, quando era tão corajoso, tão selvagem, tão jovem... em Veneza... em Roma, durante a lua-de-mel... Charles rindo... a provocá-la... nadando no lago ... correndo pelo campo ... e depois, a última vez... na Suíça ... e agora, naquele dia ...

            Encostou a cabeça e foi então que desatou a chorar, incapaz de continuar a suportar as recordações. Por fim, já muito tarde, a casa mergulhada em silêncio, subiu ao andar de cima em bicos de pés e prostrou-se a olhar para a criança adormecida. Ajoelhou-se no chão junto à cama de Teddy e beijou-lhe a testa aveludada, após o que regressou ao seu quarto em bicos de pés, onde dormiu sozinha. Sofria com vontade de telefonar para Charles, mas tinha uma dívida demasiado grande para com Malcolm. Este fizera muito por ela. Não podia telefonar a Charles, de maneira nenhuma... independentemente do que ainda sentia por ele ou do que ele lhe tinha dito... sabia que os seus dias com Charles Delauney haviam terminado para sempre.

 

            Na manhã seguinte Marielle fez uma das suas raras aparições na sala de jantar ao pequeno-almoço. Normalmente, tomava o pequeno-almoço num tabuleiro no quarto, mas naquela manhã acordara cedo. Encontrou  Malcolm no andar de baixo, acabando o seu café com ovos e lendo o  jornal da manhã. Na Itália, Mussolini acabara de exigir que a França lhe entregasse a Córsega e a Tunísia.

            - Bom dia, minha querida. - Era sempre cortês, sempre simpático, parecia sempre feliz por a ver, como se ela fosse um hóspede encantador, que ele não esperasse encontrar tão cedo. - Dormiu bem?

            - Não muito - confessou ela com sinceridade, o que era raro. Normalmente era mais fácil dizer apenas o que esperavam que se dissesse... bem... obrigada... muito bem... maravilhosamente... mas a sua noite passara-se povoada de pesadelos.

            - Mais uma das tuas dores de cabeça? - Baixou o jornal para a ver,  mas ela parecia-lhe bem. Na verdade, há muito tempo que não tinha tão bom aspecto.

            - Não, foi apenas uma noite comprida. Devo ter bebido café a mais depois de jantar.

            - Devia beber vinho ou champanhe. - Sorriu. - Isso te punha logo a dormir.

            Ela respondeu com um sorriso.

            - Vai ficar em casa hoje à noite?

            - Acho que sim. Passaremos uma noite sossegada, à lareira. - Era sempre um frenesi antes do Natal; na semana anterior tinham saído cinco noites consecutivas; ao menos aquela semana seria sossegada. - O que vai fazer hoje?

            - Pensei em levar o Teddy ao parque de manhã. - Ele sentia que a vida  dela era tão vazia. Raramente saía, nunca ia almoçar com amigas. Ele  apresentara-a a todos os amigos, porém, após todos aqueles anos, ela continuava a isolar-se. Era uma mulher jovem e muito sossegada. E, quando por vezes ele a pressionava nesse sentido, ela replicava sempre que não tinha tempo, mas a verdade é que não tinha coragem. E só ela sabia os terríveis pecados que acreditava estar ocultando.

            - Também quero levá-lo para ver a Branca de Neve. Acha que ele é novo demais? - Perguntou-lhe Marielle. Tinha acabado de estrear mais cedo esse ano e transformara-se num enorme êxito.

            Malcolm abanou a cabeça e pousou o jornal.

            - Não. Acho que vai adorar. Isso fez-me lembrar que quero ir ver como é que as coisas estão a correr na sala do comboio. Estão trabalhando lá em baixo que nem gnomos.Só faltavam doze dias para o Natal.

            - Vai ficar pronto a tempo? - Sabia que sim, com Malcolm à frente do  projeto. Ele não tolerava atrasos nos prazos.

            - Espero que sim. Agora me lembro, durante a semana vou a Washington.  Quer vir comigo?

            - Visitar outra vez os seus amigos? - Ele tinha amigos importantes no Ministério da Guerra e adorava ir a Washington visitá-los. Ele assentiu.

            - Vou discutir com eles um negócio importante que estou em vias de fechar. E depois tenho um encontro com o embaixador alemão sobre um projeto em Berlim.

            - Pelo que diz, parece que vai ficar muito ocupado.

            - Vou, mas pode vir comigo. - Mas ela sabia perfeitamente que ele não iria ter tempo para ela e que, apesar do convite, apenas seria um fardo para ele. E ela tinha muito que fazer antes do Natal.

            - Preferia ficar aqui e organizar as coisas. Fica aborrecido se eu não for?

            - Claro que não, minha querida. Você é que decide. Estarei de volta num ápice.

            - Talvez depois do Ano Novo - sugeriu ela, perguntando-se a si própria se não estaria desapontando-o ou se ele ficaria zangado por ela não ir. Tinha sempre medo de estar fazendo as coisas erradas, de magoar alguém, de desapontá-lo, de não estar onde devia ou não fazer o que devia. Mas afinal o que estaria certo? Ir com Malcolm para Washington ou ficar em casa, com Teddy? Esse tipo de decisões haviam-se tornado difíceis para ela, ao longo dos últimos nove anos, pois se fazemos a escolha errada, isso pode custar-nos tudo o que temos. Aprendera a lição e pagara bem por ela.

            - Não vê  inconveniente? - Perguntou timidamente.

            - Está ótimo. - Malcolm foi rápido a tranqüilizá-la. Deu-lhe um beijo de despedida e, pouco depois, ela subiu para se vestir. No meio da manhã, tal como prometera, saiu com Teddy. Miss Griffin tentara acompanhá-la, mas daquela vez Marielle foi inflexível e dissera-lhe que ela e Teddy queriam estar a sós naquela manhã. Ele ficara contentíssimo com as palavras da mãe e Miss Griffin ficara tão furiosa que, quando Marielle e Teddy começaram a se afastar em direção às escadas, ouviram-na bater violentamente com a porta do quarto da criança. Teddy apenas ria e Marielle sorria, enquanto lhe vestia o casaco. Brigitte parou para conversar com eles, quando ia a subir a caminho do escritório de Malcolm.

            - Vai a algum lugar emocionante esta manhã, Theodore? - Falou com uma pronúncia alemã muito leve e os seus olhos trocaram um sorriso caloroso com Marielle. Esta sempre fora de opinião que as duas podiam ter sido amigas se as circunstâncias tivessem sido diferentes. Mas Malcolm nunca teria tolerado que Marielle fizesse amizades com os seus empregados.

            - Vamos ao parque - respondeu Teddy com orgulho, deitando um olhar amoroso a Marielle. Então, ao reparar no vestido azul que trazia a secretária do seu pai, fez uma pequena vênia, provocando um sorriso nos lábios de Brigitte. - Gosto do teu vestido, Briggy. Está muito bonita.

            A jovem alemã riu e corou ligeiramente.

            - Acha que poderia voltar a dizer-me isso daqui a vinte anos, meu rapaz? - Teddy ficou um pouco desconcertado com a sugestão e as duas mulheres sorriram. - Não faz mal, muito obrigada. Também acho que está muito bonito. Tem um casaco novo? - Era o casaco inglês azul-escuro com o boné combinando que Miss Griffin mandara vir para ele e que ele odiava.

            - Não. - Abanou a cabeça peremptoriamente. - É o meu casaco velho. - E depois olhou para a mãe. Esta tinha o casaco de peles vestido; estavam ambos prontos.

            - Tudo pronto? - Ela sorriu-lhe, ele assentiu e colocou-se nas pontas dos  pés para lhe dar um beijo reparando no seu tímido perfume almiscarado.

            - Divirta-se, Theodore. - Brigitte acenou quando ele se afastou, de mão dada com a mãe, e ele voltou-se para trás uma vez para lhe acenar um adeus final.

           

            Estava um tempo gelado lá fora, como estivera no dia anterior, e Marielle decidiu que Patrick os conduziria pela Quinta Avenida acima, para ficarem mais perto do lago dos barcos. Teddy cavaqueava continuamente e, no caminho entre a Quinta Avenida e o Central Park, Marielle falou-lhe de Paris, de quando lá vivera. Malcolm adorava contar-lhe as suas viagens a Berlim e ela sabia que Miss Griffin estava sempre falando-lhe de Inglaterra.

            - Um dia faremos uma viagem pela Europa num barco grande como o Normandie - e depois contou-lhe como era, enquanto ele a escutava com os olhos muito abertos.

            - O papá também vai? - A idéia de fazer uma viagem de barco excitava-o de verdade.

            - Claro. Vamos todos. - Adorava fazer viagens com ele. Detestava  deixá-lo para trás, uma das razões por que não gostava de viajar com Malcolm e ficava aliviada por ser raro ele convidá-la. Teddy tinha um ar pensativo, enquanto passeavam de mão dada e o vento gelado lhes fustigava o rosto. Tinha o nariz vermelho e os olhos úmidos, mas estavam ambos bem agasalhados com os seus casacos, chapéus, cachecóis e luvas.

            - Se calhar o papá está muito ocupado - disse ele com pesar, e Marielle tentou tranqüilizá-lo.

            - Não. Tenho certeza que ele vai conosco, se fizermos uma viagem destas. - Tentou adotar um ar alegre. Mas Teddy tinha razão: Malcolm estava sempre ocupado, principalmente nos últimos tempos.

            - Podemos encontrar-nos com ele em Berlim, se ele estiver muito ocupado para ir conosco - propôs Teddy com ar decidido. Era tão inteligente. Apercebia-se de tudo. Até que Malcolm tinha muitos negócios com os alemães. Era por isso que Brigitte lhe era tão útil e muito provavelmente a razão da sua permanência no escritório de Malcolm há seis anos. Era de uma eficiência incrível, bem como de uma simpatia extrema, e os negócios de Malcolm na Alemanha pareciam ter triplicado ao longo dos anos, desde que se haviam casado.

            - Podíamos ir a Londres também - acrescentou Teddy, por simpatia em relação a Miss Griffin. - E ver o Big Ben, a Torre de Londres... o Palácio de Buckingham... e o rei! - Parecia ter ficado muito impressionado com tudo o que Miss Griffin lhe contara. Marielle sorriu, enquanto prosseguiam o caminho, e por fim chegaram ao lago dos barcos. Mas naquele dia o lago estava coberto por uma fina camada de gelo e ela sentiu um arrepio na espinha. Puxou a criança para junto de si, como se algo de mal os esperasse ali, afastando-a apressadamente do lago.

            - Hoje não há ninguém aqui. Vamos ver o carrossel. - Mas, ao proferir aquelas palavras, a sua palidez sobressaía ao sabor do vento frio.

            - Eu queria ver os barcos. - Tinha um ar tão desapontado.

            - Não há nenhum. - Estava assustada, mas ele era pequeno demais para perceber. - Anda... vamos.

            - Podemos passear sobre o gelo? - perguntou ele, fascinado com a camada pouco espessa que se estendia pela maior parte do lago dos barcos, mas ela afastou-o ainda com mais dureza.

            - Nunca, nunca faça isso, Teddy, está ouvindo? - Ele assentiu com a cabeça, admirado com a veemência da reação da mãe. E foi então que ela olhou por cima do gelo e pareceu vê-lo. Daquela vez parecia-lhe impossível, como se a sua cabeça estivesse de novo a pregar peças. Talvez estivesse finalmente ficando louca. Talvez o ter ido ali naquele dia, ao lago, com o seu tênue véu de gelo, tivesse sido demais para ela. Fechou os olhos por um momento, como que para aclarar a visão, e depois abriu-os muito depressa.

            - Vamos para casa. - A voz dela soou rouca e aterrorizada, e os olhos oscilavam entre Teddy e o homem que pensava estar vendo do outro lado do lago, como se ainda não tivesse certeza de ser real.

            - Agora? - Teddy parecia que ia desatar a chorar. - Acabamos de chegar. Eu não quero ir para casa. Não podemos ir ao carrossel?

            - Desculpe... vamos dar uma volta de carro... ao jardim zoológico... lanchar... ver os patinadores... - qualquer coisa para sair daquele lugar. Ali parada, todo o seu corpo começou a tremer. Mas ao mesmo tempo que tentava afastar a criança, o homem que vira corria a toda a velocidade, contornando o lago, em direção a eles. E, quando a alcançou, o seu cabelo preto estava desalinhado, os olhos pareciam os de um selvagem e ela, desanimada, viu que não tinha se enganado.

            Quando Teddy reparou na expressão da mãe ficou de repente assustado. Ela sempre instilara nele um vago terror em relação a pessoas estranhas e este homem parecia-lhe particularmente assustador. Era alto, estava desgrenhado e sem fôlego; parecia querer precipitar-se sobre eles. Então, sem avisar, agarrou nos ombros de Marielle com as mãos, olhou-a nos olhos e depois baixou o olhar para Teddy. Mas, do mal o menor, Marielle teve certeza de que não estava louca. Não tinha sido uma visão. Era mesmo Charles; e depois lembrou-se que o lago dos barcos era muito perto da mansão dos Delauney. Ele passara a noite bebendo, uma noite comprida, em claro, e viera tomar ar para ficar mais sóbrio, antes da reunião que tinha marcado com os advogados do pai.

            - O que é que está fazendo aqui? - Olhou para ela e depois para o rapaz. - E quem é ele? - O rosto da criança tinha uma certa semelhança com André, apesar de ser tão diferente. Havia algo de quase angélico na cara daquele menino, uma cara que dava vontade de beijar e uns olhos que nos faziam rir quando olhávamos para ele.

            - É o Teddy - disse ela calmamente, ainda com a voz tremula.

            - Teddy quê? - Fixou os olhos acusadores nela e Marielle desconfiou logo que ele não estivesse inteiramente sóbrio.

            - Teddy Patterson. - Levantou o queixo e olhou Charles nos olhos. Ele não lhe podia fazer aquilo, não podia fazê-la sentir-se culpada mais uma vez, não podia desgraçar a sua vida... ou podia? - O meu filho. - Teddy segurava a mão dela com força, pensando para si próprio quem seria aquele homem. Achou que ele tinha um ar bastante assustador.

            - Não me disse isso ontem. Só me falou de Malcolm. - O seu olhar era tão intensamente reprovador que era quase doloroso mantê-lo fixo; não obstante, ela não o desviou. Era mais corajosa do que Malcolm pensava. Mas Charles sempre o soubera.

            - Não me parecia o momento e o lugar adequados para tal.

            - Porque não? - Estava a acusá-la de novo. - Porque não me disse? - Ela conhecia muito bem a fúria dele. Era a mesma fúria que, nove anos antes, quase a matara.

            - Pareceu-me injusto contar sobre ele ontem.

            - E agora? - Havia raiva nos olhos dele e a sua cara estava próxima da dela. Teddy observava a cena, aterrorizado. Estava prestes a desatar a gritar, se pudesse, nem que fosse apenas para a proteger. - Não acha que é injusto? - Tornou ele a perguntar, desta vez mais alto, parecendo muito embriagado naquele momento. Mas ela estava calma e mantinha o controle total. Tinha Teddy com ela e não iria deixar que Charles lhes fizesse mal. Independentemente do que acontecera no passado, ele já não a assustava. Ela não podia permitir.

            - Acho que não é o momento para discutirmos isso. - Puxou Teddy mais para junto de si e fez-lhe uma leve festa na cara para que ele não tivesse medo. Mas aquela atitude pareceu apenas fazer com que Charles ficasse mais furioso. Continuava um homem atraente e ela ainda sentia os joelhos tremendo quando olhava para ele, mas naquele momento estava muito descontrolado.

            - Porque é que você tem um filho? - Gritava ele, ao mesmo tempo que ela tentava não vacilar para não assustar Teddy. - E eu, o que é que tenho?

            - Não sei... as tuas batalhas na Espanha... aquilo em que acredita, os teus amigos... a tua escrita... e se não tem mais nada, talvez a escolha tenha sido tua. - Estava desesperada, pois não queria discutir aquele assunto na frente de Teddy, mas receava sair dali e enfurecer Charles ainda mais. Segurava a mão da criança com força, tentando dar-lhe coragem com a pressão que fazia.

            - Foi uma escolha tua, há sete anos, quando me deixou - acusou Charles. – Foi você que fez essa escolha por mim. Podíamos ter tido mais filhos.

            - Agora temos de ir. - Começou a chorar mal proferiu aquelas palavras e Teddy ficou olhando para eles embasbacado, perguntando-se o que tudo aquilo queria dizer, enquanto ela se dirigia novamente a Charles, desta vez mais branda. - Que tipo de vida poderíamos ter tido? Você me odiava, e tinha razão, naquele momento; eu também me odiava... talvez continue a odiar-me sempre... mas Charles, eu não teria agüentado. Não teria conseguido te olhar nos olhos, sabendo o que sentia por mim. - Dissera-lhe tudo aquilo a sete anos, antes de partir da Europa.

            - Eu te disse que te queria de volta - repetiu ele com teimosia.

            - Já era tarde demais. - Respirou fundo e limpou os olhos, esquecendo-se de Teddy por um instante. - Acho que teria me culpado para sempre, tal como eu me culpava. Ainda o amava, mas não conseguia ficar com ele depois do que acontecera.

            Então Charles baixou o olhar para Teddy, como se ainda não conseguisse acreditar na existência dele. Era uma criança bonita, em alguns pormenores até mais bonita que André. E depois tornou a olhar para Marielle, desesperado para a magoar.

            - Você não o merece - levantou o tom de voz e, num momento de loucura, teve vontade de a esbofetear. Porque casara novamente? Porque tivera aquela criança? Oh, Deus, porque o deixara? Mas ambos sabiam porquê e talvez nunca pudesse ter sido diferente. - Você não o merece - repetiu ele com aquela crueldade que ela jamais esqueceria. Era o outro lado do grande amor deles; o lado que a mortificara antes de o ter deixado.

            - Talvez não.

            - Não devia ter-me abandonado.

            - Não tinha escolha. Se tivesse ficado, me destruiria. E ele também sabia que era verdade. Tinham ambos enlouquecido um pouco. Ela, com as tentativas de suicídio; ele, quando a atacara violentamente na noite em que tudo acontecera. E ambos tinham saído mortalmente feridos daquela situação.

            - Talvez fôssemos mais felizes se tivéssemos morrido todos... - Também havia lágrimas nos olhos dele e Teddy encostou-se mais à mãe.

            - O que estás dizendo é horrível.

            - Para você, talvez... agora que tem uma vida... um marido... um filho. E porque é que havia de ter? Porque é que havia de ter, raios, quando eu continuo a acordar todos os dias a pensar nele... e em você... desejando ter morrido com ele. Pensa nele alguma vez? Lembra-se... ou esqueceu tudo? - Como reação às palavras dele, os olhos dela encheram-se de fúria. Uma fúria engrandecida pelos anos de dor e de angústia, sobre os quais Charles nada sabia.

            - Como se atreve? Não há um dia que não me venha à memória, que não pense nele... que não veja o rosto dele quando fecho os olhos... ou o seu... - Tal como os vira na noite passada, deitada na cama, sem conseguir dormir, recordando, lutando consigo própria para não lhe telefonar. Mas não há nada que o traga de volta, mesmo que agora destruamos as nossas vidas, ou nos destruamos um ao outro. Ele se foi... está em paz... talvez esteja na hora de nós também ficarmos em paz.

            - Eu nunca ficarei em paz sem você. - Dirigia-lhe a sua fúria, voltando a parecer jovem, e, daquela vez, ela sorriu-lhe e abanou a cabeça. Em alguns aspectos, apesar de estar mais velho, parecia ainda mais infantil. Não tinha amadurecido, não crescera, não curara as feridas; apenas continuara no mundo a fazer as mesmas loucuras que fizera enquanto rapaz, brincando aos expatriados, combatendo as guerras de outras pessoas e, de algum modo, fugindo de ser adulto.

            - Isso é uma estupidez. Você nem sequer sabe quem eu sou hoje em dia. Talvez nem sequer soubesse quem eu era. Talvez tudo tivesse morrido naturalmente, se as coisas tivessem sido diferentes.

            - Baixou o olhar para Teddy, sorriu-lhe e puxou-o, para junto de si. - Teddy, este é um velho amigo. Chama-se Charles e às vezes age como se fosse louco, mas é um homem bom. Quer dizer-lhe olá? - Teddy abanou a cabeça com firmeza e escondeu-se nas dobras do casaco de pele dela. Marielle e Charles haviam falado sem reservas, mas os seus quatro anos impediram-no de compreender muitas das coisas que ouvira. Percebera o tom de voz, da raiva, da paixão, mas a história era complicada demais para ele conseguir abarcá-la.

            - Lamento tê-lo assustado. - Pareceu ter remorsos, por uns momentos, mas continuava desenfreado. Não se barbeava desde o dia anterior e tinha um aspecto selvagem e desnorteado.

            - Acho que é de lamentar. E para quê? Acha que isto é razão para esse rancor todo? - Ele fitou-a com dureza, primeiro a ela e depois ao garoto e, quando voltou a olhar para ela, os seus olhos não tinham ficado menos rancorosos. Em vez disso, assustou-a ainda mais e a embriaguez parecia mais intensa. Pela primeira vez em muito tempo, ela estava realmente aterrorizada. Lembrou-se dos tempos maus, em que Charles se tornara um estranho.

            - Ele devia ser meu. De direito... devia ser. - Não despregava os olhos de Teddy, escondido no casaco dela, e Marielle fitava-o com firmeza.

            - Mas não é seu, Charles.

            - Que direito você tinha de continuar... de fazer isto... de. ter um filho sem mim? - Quanto mais falava, mais parecia que a sua fúria aumentava.

            - Você concordou com o divórcio, eu tinha todo o direito. - Marielle recusava-se sendo ameaçada.

            - Você disse que se eu não cedesse, você morreria.

            - Quase morri. - E ambos sabiam que era verdade.

            - Eu preferiria que tivesse morrido a ter este filho sem mim. - Os olhos dele eram como punhais que se cravavam no coração dela à medida que falava, e ela encolheu-se, afastando-se dele, assustada e desgostosa, pensando como é que alguma vez pudera amá-lo, lembrando-se de quão irracional ele conseguia ser e da razão por que o deixara.

            - Charles, pare! - Então, ele inclinou-se para ela e agarrou-lhe o braço. Teddy soltou um pequeno grito e saltou por trás dela. - Está assustando a criança. Não é justo. Pare!

            - Estou me lixando. Ele é meu... por direito, ele devia ser meu.

            - Pare! - Cuspiu-lhe a palavra na cara, já sem medo dele ou de outra pessoa qualquer, ao mesmo tempo que, com um puxão, se desvencilhou das garras dele. Não ia ficar parada a ver a sua vida despedaçar-se. - Ele não é seu e eu também não... e o André também não era nosso. Ninguém pertence a ninguém neste mundo. Todos pertencemos a Deus e estamos aqui por empréstimo... e quando o empréstimo vence, acabou-se... e é horrível... e dói como o diabo... e às vezes acontece cedo demais ... mas ele não nos pertencia... eu não te pertencia, nem você a mim... e o Teddy não me pertence...

            - Você o ama, não é?

            - Claro que sim.

            - E ele te ama?

            - Sim.

            - Porque você pode ter isso e eu não?

            - Talvez eu tenha sorte. Ou talvez o Malcolm tenha tido pena de mim... ou talvez porque a vida é mesmo assim, ou por eu estar disposta a pagar um preço que você não está.

            - E que preço é esse? Que preço você pagou para se casar com ele? - Casara com um homem que não amava e que não a amava e ela sabia disso. Não era tão fácil como podia parecer. Mas também era algo que nem por um minuto passaria pela cabeça de Charles. - De que é que abdicou quando te casou com ele? Esperança... amor... carinho... o tipo de amor e paixão que um dia os dois haviam partilhado... o tipo de amor que ela sabia existir.

            - Todo mundo abdica de alguma coisa quando se casa. - Nunca teria dito a verdade a Charles por lealdade a Malcolm. - Talvez eu tenha abdicado do passado.

            - E estou profundamente impressionado com o sacrifício que você fez - replicou ele, com desdém, lançando-lhe um olhar de indignação, sob o efeito da bebida.

            - E eu estou profundamente impressionada com o teu comportamento. Está tão grosseiro como sempre. - Perturbara Teddy e ela própria e não haviam resolvido nada. Já não havia nada a resolver. Estava acabado. - Não há razão para fazer isto a mim ou a você próprio. O que acha que vai conseguir? - Mas ele tinha os olhos fixos em Teddy, e a maneira como o olhava enervava-a. Ele era assim quando bebia. No passado fora a mesma coisa, bebia demais e ficava embriagado a noite toda e a manhã seguinte, acabando por ficar descontrolado. Uma vez destruíra um quarto de hotel inteiro, um bar, um restaurante, quase matara dois homens... e a ela, mas apenas uma vez. Apenas uma vez... mas ela sabia do que ele era capaz. Era difícil esquecer.

            - Me desculpe. - Olhou para ela com um ar infeliz, mas não soava verdadeiro. Em seguida olhou para baixo, para Teddy, que espreitava atrás da mãe. - Peço-te que me desculpe também, jovem. Fui extremamente indelicado contigo e com a tua mãe. É um mau hábito que tenho, mas conheço-a a muito tempo, quase desde que éramos crianças. - Na altura eram quase crianças. Dezoito e vinte e três anos... Meu Deus, eram bebês. E então fitou-o com um ar mais sério. - Um dia gostaria de conhecê-lo. - Teddy não parecia corresponder a esse sentimento, mas anuiu educadamente. - Eu também tive um filho rapazinho... chamava-se André... - Os olhos de Charles encheram-se de lágrimas quando tornou a olhar para Marielle. - Desculpe ... talvez tenha a ver com o dia de ontem, que foi tão difícil... e te ver... raios... - Desviou o olhar e fungou para tentar aclarar as idéias. - Porque é que é sempre aqui? Porque é que dói tanto? Também se passa o mesmo contigo? - Olhou para ela interrogativamente, mas já estava calmo de novo, e ela assentiu.

            Dissera-lhe a mesma coisa na igreja no dia anterior, mas ele não se lembrava. E começara a beber mal a deixara.

            - Agora temos de voltar para casa - repetiu ela. - Está ficando tarde. - Teddy tinha de almoçar e ir à festa de anos com Miss Griffin. Afinal acabara por não ser uma manhã muito agradável. Verdade seja dita, fora horrível. E ela tinha pena. O tempo que passava com Teddy era tão precioso. - Sinto termos nos encontrado assim. - Fora mais fácil no dia anterior, antes dele saber da existência do filho dela. Naquele momento ele estava zangado e ressentido. Passara a noite inteira a afogando-se no álcool e com pena de si próprio. Agora ardia em sentimentos de cólera provocada pelos fumos incendiários do ciúme e da fúria.

            - Parto na semana que vem. Decidi ontem. Vai me visitar?

            Ela abanou a cabeça, numa negativa, segurando a mão de Teddy com firmeza.

            - Porque não?

            - Você sabe porquê. De qualquer maneira, está zangado comigo, e, se nos virmos, apenas vamos piorar as coisas. Porquê nos torturarmos com o que não podemos ter no presente?

            - Quem disse que não podemos ter? Você não é feliz, está escrito na sua cara. Está nervosa, tensa, enroscada como um parafuso apertado, as suas entranhas atadas num nó. Podemos ter tudo o que bem quisermos, se tivermos coragem de assumir. - As palavras dele soavam de algum modo ameaçadoras.

            - Isso é uma bela atitude, Charles.

            - Eu posso fazer o que me der vontade.

            - Sorte a sua.

            - Eu te quero.

            - Não diga isso. - Olhava para ele com os olhos em chama. - Suponhamos que sim, e depois? "Assumimos", como você diz, e você parte para a Espanha. Como é que eu fico? - Estava tentando argumentar com lógica, mas não era fácil, no estado em que ele se encontrava.

            - Talvez te deixe mais feliz do que é hoje em dia. Ou talvez queira vir comigo. - A simplicidade da idéia quase a fez rir. Após seis anos, era suposto ela sair da vida de Malcolm e do filho e voltar para a Europa com Charles, como se nada tivesse acontecido. Estava completamente doido. - Podia mesmo levar o rapaz.

            - A tua hospitalidade é irresistível. E o Malcolm? Como é que ele fica depois disso tudo?

            - Uns ganham... outros perdem... ele perde...

            - O que está sugerindo é pura maldade, Charles, e você sabe que sim. E também me conhece suficientemente bem para saber que eu nunca faria isso.

            - Talvez - disse ele, agarrando-lhe o pulso com as suas poderosas mãos -, talvez... se fosse forçada...

            - Charles, não estamos na Espanha, e você não está lutando pela minha liberdade. Isto é ridículo - mas o que Marielle estava fazendo era tentar encobrir o fato de o olhar dele a ter assustado.

            - E se eu te roubasse algo que quer, ou ama, muito, também seria ridículo?... e depois talvez fosse... induzida, digamos... a ir ter comigo?

            - O que é que quer dizer com isso exatamente? - Só de pensar no que ele estava sugerindo aterrorizava-a.

            - Acho que está entendendo muito bem.

            - Você não faria uma coisa dessas. - Estava sugerindo que raptaria Teddy para a fazer ir com ele, mas ele estava louco, e nunca o faria. Ou faria? Os olhos dele diziam que sim. Mas a história dizia que não conseguiria. Ou conseguiria?

            - Tudo depende do meu estado de desespero, não é?... não é?... - Largou-lhe o pulso de rompante e deu uma gargalhada. Olhou para ele apavorada. Seria um alívio quando soubesse que tinha partido de novo.

            Naquele momento ficou arrependida de se ter encontrado com ele na igreja no dia anterior. Talvez ele também ainda chorasse a morte de André, mas isso deformara-lhe o caráter e transformara-o numa pessoa que ela já não conhecia e não queria conhecer.

            - Se alguma fizer uma coisa dessas, quero que saiba que nunca ficaria impune, e em vez de fazer com que eu te seguisse. .. eu te mataria... e o meu marido também.

            - Estou cheio de medo. - Deu nova gargalhada provocada pela embriaguez.

            - Você me dá pena. Vivemos algo bonito que eu acalentei no meu coração durante doze anos... junto com a memória de uma pessoa doce e pura... e você usa essa memória desta maneira vil para envenenar a si próprio e a todos os que te rodeiam. Não foi para isso que ele nasceu e você não era assim.

            - Talvez tenha mudado. - Sorriu-lhe com um ar maldoso, mas a tragédia de ambos era que ele não tinha mudado. Ainda a amava, ainda ansiava pelo filho dele, pelo regresso dela e por que pudessem reaver um passado longínquo e inesquecível.

            - Adeus. - Olhou para ele demoradamente, com tristeza. Em seguida virou-se para Teddy e sorriu-lhe com brandura, à medida que ia se afastando. - Agora vamos para casa. - Não tinha mais nada a dizer a Charles, que não desviou os olhos deles enquanto se afastavam, mas daquela vez não lhe pediu para telefonar. Estava furioso com ela, mais furioso do que alguma vez estivera. Ela sentiu-se mais fria que nunca durante o caminho de volta para o carro, e Teddy não pronunciou uma palavra até lá chegarem.

            - Não gosto dele - comentou com serenidade, quando o motorista fechou as portas do Pierce-Arrow. Patrick seguira-os pelo parque, seguindo as ordens de Malcolm, para assegurar a segurança deles, e voltara a ver Charles, mas não ouvira a conversa. Reconhecera-o da igreja e cada vez estava mais intrigado com o que Marielle andaria tramando. Era estranho ter levado o menino com ela; talvez quisesse que este o conhecesse.

            - Ele não é má pessoa - explicou Marielle com tristeza, no caminho para casa. - É muito infeliz. Antes éramos bons amigos.Teddy assentiu com a cabeça, tentando entender. E depois voltou a olhar para ela e fez-lhe uma pergunta que ela não esperava.

            - Quem é o André? - Marielle ficou com um nó na garganta e demorou algum tempo a responder.

            - O André era um menino. Morreu... há muito tempo... e Charles tem sido muito infeliz desde então. É por isso que ele parece tão transtornado. - Teddy assentiu então, como se tudo estivesse claro agora. E depois levantou os olhos para a mãe:

            - Você também conheceu o André? - Ela lutava contra as lágrimas que ameaçavam sair, ao mesmo tempo que assentia com a cabeça e lhe apertava a mão com força. Queria contar-lhe tudo um dia, mas não daquela maneira, ocultando a verdade por meio do subterfúgio que tivera de utilizar naquele momento. Mas ele era muito pequeno, era cedo demais. E ainda tinha de tentar responder às perguntas dele.

            - Sim, eu também o conheci - respondeu ela com pesar, limpando uma lágrima da face.

            - Era simpático? - Isso era sempre muito importante para Teddy e Marielle sentiu um soluço preso na garganta a querer sair, mas conteve-o.

            - Era muito querido... e muito novo quando morreu. - As lágrimas rolavam-lhe lentamente pelas faces abaixo, sem saber o que lhe dizer ao certo. Na verdade, não havia mais nada a dizer. Abraçou-o apenas, mais grata que nunca pelo fato de o ter. Também estava assustada com o que Charles dissera e perguntava-se a si própria se ele estaria falando sério. Seria capaz de levar o menino para a obrigar a ir com ele? Era inimaginável. Sabia que eram ameaças vãs. Ele nunca faria nada que ferisse Teddy. - Pena termos encontrado o Charles hoje. Queria ter passado um dia agradável contigo no lago dos barcos.

            - Não faz mal. - Levantou os olhos para ela e sorriu-lhe. - Eu gosto de estar com você de qualquer maneira. - Ele dizia sempre aquilo que lhe fazia derreter o coração e fazia amá-lo.

            - E que tal irmos ver a Branca de Neve amanhã? - Era domingo e Malcolm gostava de tratar da papelada em casa, o que a deixava à vontade para fazer o que quisesse. E o melhor era que Miss Griffin estava de folga e não havia interferências de qualquer espécie. Teddy ficaria com Marielle o dia inteiro, tinha a ajuda de Betty, se precisasse, e Edith tomaria conta dele à noite.

            - Uau! Podemos? Podemos mesmo ir ver a Branca de Neve?

            - Claro que sim. Eu trato de tudo. - Teddy saltou do carro quando chegaram a casa e subiu as escadas da frente correndo, ao mesmo tempo que Haverford lhes abria a porta e quase sorria ao ver o menino Theodore entrando intempestivamente em casa.

            E a seguir ia chocando com o pai. Nesse momento, passou pela cabeça de Marielle que Teddy fosse contar a Malcolm o seu encontro com Charles, mas estava demasiado apressado para ir almoçar e preparar-se para a festa, e excitado demais ante a perspectiva da Branca de Neve, para sequer se lembrar do estranho homem que tinham encontrado no Central Park. Já estava a meio caminho do terceiro andar, quando Marielle conseguiu despir o casaco.

            - Onde é que andaram os dois? - perguntou Malcolm casualmente. Já tinha ido ao escritório e voltado. Gostaria de passar o sábado e naquele momento estava a preparar-se para ir até ao clube almoçar com um velho amigo da Califórnia que estava de visita. Eram tudo rituais que ele tinha gosto em cumprir, que eram importantes para ele.

            - Fomos ao lago dos barcos, mas estava gelado.

            - Deve ter estado um frio de rachar - comentou ele, olhando para ela, e ela confirmou.

            - Vai sair? - perguntou Marielle, pensando aonde poderia ele ir.

            - Sim - disse, dando-lhe um beijo formal na face - mas não se esqueça do jantar em casa dos Whytes esta noite. - Os Whites ofereciam um baile de Natal e ela estava planejando levar um vestido fabuloso que Malcolm lhe comprara na Madame Grès, em Paris. Era todo feito de minúsculas pregas de cetim branco brilhante e ela ia usá-lo com colar e brincos de diamantes, sapatos de seda e um casaco de arminho até aos pés que ele lhe oferecera pelo aniversário. Era uma toilette muito elegante.

            - Também temos alguma coisa programada para amanhã à noite? - De repente não se conseguia lembrar. Mas, fê-lo lembrar-se do recado que lhe deixara sobre a secretária de manhã.

            - Vou partir para Washington um dia mais cedo. Quero estar lá em baixo amanhã à tarde e jantar tranqüilamente com o secretário de Estado do Comércio amanhã à noite, para me preparar para o dia agitado que vou ter com o embaixador na segunda-feira. - De fato, aquela viagem era tão importante que até levava as duas secretárias com ele. - Está bem para você? - Ambos sabiam que não importava, mas ficava sempre bem ele perguntar e ela fazer o jogo dele, fingindo que lhe "dava autorização".

            - Está ótimo. Tenho um encontro marcado com o seu filho para ver a Branca de Neve amanhã à tarde e passaremos uma tarde sossegada os dois. - Sorriu para o marido. Os seus modos corteses eram um alívio tão grande, depois de ver Charles agindo como um louco.

            - Tem certeza que não quer ir?

            - Ficaremos bem por aqui. - Voltou a sorrir e ele beijou-a na testa.

            Fez sinal a Patrick que estava pronto, e o motorista saiu pelas traseiras para esperar por ele junto ao carro, enquanto Haverford lhe entregava o chapéu.

            - Até logo, minha querida. Passe uma boa tarde. Descanse bem para hoje à noite, para não ter uma das tuas dores de cabeça às vezes, Marielle achava que todos a tratavam como uma deficiente.

            Claro que o encontro com Charles poderia ter sido a centelha ideal para lhe provocar uma das suas dores de cabeça, mas acabou por passar bem toda a tarde. Esteve com Teddy, antes e depois da festa, e subiu ao andar de cima para lhe dar outro beijo, antes de sair para o jantar. Miss Griffin resmungava sempre que ela fazia isso, achava que já o tinha visto o suficiente para um dia, mas por vezes era divertido deixá-lo vê-la toda arranjada para sair à noite, e ele adorava. Emitia "ohs" e "ahs" por tudo o que ela trazia vestido.

            O vestido Madame Crês ficava-lhe lindamente. Moldava-lhe o corpo na perfeição e Malcolm, quando a viu, disse-lhe que parecia uma deusa. Também chamou as atenções dos convidados do jantar dos Whytes; e uma boa parte dos homens confidenciou a Malcolm que era um homem de sorte por ter uma mulher com metade da idade dele e tão incrivelmente adorável.

            Naquela noite, quando saíram da festa, ela permaneceu calada o caminho todo, e ele voltou a dizer-lhe como estava linda. Ela sorriu, para lhe agradecer, mas continuava a pensar em Charles e nas ameaças que ele fizera no parque em relação a Teddy. Decidiu que Charles devia estar apenas furioso; tinha certeza de que ele nunca iria fazer mal a uma criança, fosse a dela ou a de qualquer outra pessoa. Estava, apenas frustrado ante a sua recusa em o visitar e não sabia o que fazer, recorrendo então às ameaças. Mas ela estava contente por ter decidido não o visitar. Teria apenas ateado velhas achas e ficariam ambos infelizes. Se as coisas se tivessem passado de maneira diferente entre eles, ela teria contado tudo a Malcolm, mas, dadas as circunstâncias, sabia que não podia.

            Ele não fazia idéia do quão importante Charles fora para ela, nem sequer da existência dele, para não falar do fato de terem sido casados e de terem tido um filho, que morrera, ou das razões que Charles teria para se mostrar ressentido pela existência de Teddy.

            - Você parece preocupada. - Ele também percebera, mas dava-lhe um ar sonhador que a fazia ainda mais bonita e, pela primeira vez em muito tempo, sentiu que a desejava, o que o surpreendeu.

            - Estava apenas pensando.

            - Em quê?

            - Nada de especial.

            - Bom, para mim você está muito especial. - Ela voltou a sorrir, sem perder o ar ausente, e Malcolm, por razões íntimas, decidiu não avançar.

            Uma das empregadas ficara acordada para ajudar a despir e Marielle guardou as jóias e foi-se deitar. Uma vez na cama, pôs-se a pensar em Charles e nas coisas que ele dissera no parque... mas naquela noite, durante o sono, não sonhou com André... mas com Teddy.

 

            Marielle levou Teddy para ver a Branca de Neve na tarde seguinte. Estava passando no Radio City Music Hall. E depois foram ao Schrafft's beber um chocolate quente. Foi uma tarde perfeita para ambos. Teddy confessou que adorava quando Miss Griffin estava de folga, o que fez com que Marielle desejasse mais do que nunca que a ama fosse embora. Não se esqueceria de voltar a abordar o assunto com Malcolm.

            Ele ainda achava que Miss Griffin fazia bem ao menino, ensinava-o a ter maneiras, e, segundo Malcolm, no que respeitava a amas, nada como as britânicas. Mas esta estava longe do pensamento de Marielle e de Teddy quando voltaram para casa. Naquela noite, ela deu-lhe banho na sua enorme banheira de mármore e ele adorou, Usaram toneladas de sais de banho e Teddy espalhou-os pela casa de banho toda. Edith, a irlandesa ruiva, ficou furiosa quando viu. Era suposto ficar a tomar conta de Teddy naquela noite, mas há muito que tinha outros planos combinados com Patrick iam a um baile de Natal no lrish Dance Hall, no Brotix, e já tinha conseguido que Betty, a jovem ajudante de cozinha, concordasse em subir e tomar conta de Teddy enquanto ela saía. E quando voltasse, meteria uma nota de cinco dólares na mão de Betty, se deitaria na cama do quarto livre dos aposentos da criança e ninguém ficaria perdendo. Portanto, Edith não gostou muito da confusão em que eles deixaram na casa de banho e de ter de limpar tudo antes de ir a qualquer lugar, a não ser que conseguisse que uma das outras limpasse por ela, o que era pouco provável.

            Nessa noite, Marielle jantou com Teddy na sala de estar dos aposentos da criança e leu-lhe uma história antes de ele ir dormir. Mais tarde cantou-lhe cânticos de Natal e afagou-lhe o cabelo e ele adormeceu deitado ao lado da mãe, no seu pijama vermelho. Entre aquelas noites agradáveis, rápidas e ativas, e as noites de janelas abertas, frias e enregeladas, que ele passava com Miss Griffin, havia uma grande diferença. E, no fim, Marielle esgueirou-se cautelosamente da cama dele para não o acordar.

            Enquanto se dirigia para o andar de baixo, para os seus próprios aposentos, Marielle perguntava a si própria se não o estaria estragando com mimos, como dizia Miss Griffin, e, se estivesse, se isso representaria um problema. Ultimamente passava cada vez mais tempo com ele e tinha dificuldade em manter uma certa distância. Os seus receios antigos em relação a ficar demasiado próxima dele pareciam ter sido lançados ao vento e ela florescia ao pé dele. E se o amava demais, que mal faria isso? Que diferença faria? Tinha tanta sorte em tê-lo. E recusava-se a acreditar que pudesse acontecer alguma coisa. Malcolm tinha razão, ela preocupava-se demais e era tempo de acabar com aquilo.

            Foi para a cama com um exemplar de Rebecca e Malcolm telefonou-lhe de Washington quando voltou do jantar já passava das dez e ele contou-lhe que tivera um serão muito agradável. jantara com Harry Hopkins, que iria substituir Daniel Roper como secretário de Estado do Comércio nas próximas duas semanas, apesar de ainda ser segredo.

            Louis Howe, o braço direito de FDR, também estivera presente. E haviam falado exaustivamente sobre as impressões de FDR em relação à Europa. Começava a sentir que a guerra era inevitável, mas ainda esperava que, com alguma sorte, pudesse ser evitada. O embaixador alemão confiara a Malcolm que as coisas estavam correndo muito bem em Berlim. Não havia dúvida que o Exército alemão estava aumentando as suas atividades, mas assegurou-lhe que os seus investimentos estavam a salvo lá. Quando Malcolm lhe perguntou pelo assunto Kristallnacht, o embaixador admitiu que fora embaraçoso, mas, por outro lado, o que Hitler estava fazendo pela indústria alemã poderia mudar o mundo inteiro para melhor. Malcolm sentia-se profundamente excitado por estar envolvido e contou a Marielle que fora interessante ficar a par de alguns dos mais recentes acontecimentos e discuti-los com Howe e Roper e os homens que eles haviam trazido consigo. Comentou também que antevia um futuro extraordinário para a Alemanha e todos os seus aliados e Marielle ficou comovida por ele ter telefonado para partilhar a sua emoção com ela.

            Planejava voltar à Alemanha nos próximos tempos e, como sempre, Marielle iria ficar em casa com Teddy.

            - E como foi o filme? - Adorava saber coisas do menino junto com a Alemanha, o garoto era a sua maior paixão.

            - O Teddy adorou.

            - Eu sabia que ele ia adorar. Ouvi dizer que é muito interessante. Talvez possamos levá-lo de novo. - Apesar de andar fora cada vez mais, continuava a gostar de fazer programas com eles. Ela era tão querida com o menino e era evidente que, não obstante as outras ansiedades, era uma boa mãe. Foi então que Malcolm bocejou e Marielle sorriu. Tinha sido um dia muito longo para ele e não tão relaxante como o dela, passado no cinema e a dar banhos de espuma em Teddy.

            Quando estavam prestes a terminar a conversa, ela ouviu um ruído estranho no átrio, como se fosse alguém a bater em coisas, e depois passos nas escadas. Ficou com o ouvido à escuta por uns segundos, mas fez-se novamente silêncio, pelo que depois decidiu que não era nada.

            - Devia tentar dormir um pouco - aconselhou ela a Malcolm. - Amanhã deverá ter um longo dia pela frente. Volta amanhã à noite? - Esquecera-se de perguntar quando ele partira, andavam ambos muito ocupados...

            - Mais provavelmente na terça-feira. Sou capaz de querer jantar com o embaixador alemão amanhã à noite, se ele estiver livre. Amanhã à tarde temos reuniões e logo veremos. De qualquer modo, acho que é mais prático voltar na terça-feira. Te telefono amanhã à noite.

            - Então até amanhã. E Malcolm.... boa sorte para as tuas reuniões...

            - De repente voltou a sentir-se grata a ele. Dera-lhe tanto e pedia tão pouco.

            - Tome conta de você, Marielle. Passaremos um serão agradável juntos, quando eu voltar para casa. - E dali a pouco tempo seria Natal. Desde que Teddy nascera, era uma época mágica, muito importante para ambos.

            Para Malcolm, pai pela primeira vez, era como se fosse uma vida completamente nova, e mal podia esperar pela hora em que daria o comboio de presente a Teddy e lhe mostraria a sala especialmente preparada para o brinquedo.

            Marielle desligou o telefone depois da chamada de Washington e ficou deitada no escuro durante muito tempo, pensando nele e nas suas muitas virtudes. Porém, duas horas mais tarde ainda estava acordada, não conseguia dormir pensando em Charles e no que ele dissera no lago dos barcos. E rezava para que isso não significasse mais uma das suas dores de cabeça. Os últimos dias tinham sido complicados, depois de encontrar Charles duas vezes, e, quase sempre, ter insônias significava que no dia seguinte uma enxaqueca se abateria sobre ela,

            Decidiu levantar-se e, com um sorriso no canto da boca, começou a subir as escadas até ao terceiro andar, em silêncio e descalça. Ia dar-lhe mais um beijo enquanto ele dormia, acariciar-lhe o cabelo e ficar a observá-lo por uns minutos, antes de voltar para a sua própria cama. Reparou que alguém deixara cair uma toalha nas escadas e achou que uma das criadas tinha sido descuidada. Provavelmente, algumas horas antes, aquele barulho que ouvira seria alguém carregando a roupa suja pelas escadas de mármore abaixo, que talvez tivesse batido contra a mobília, deixando cair alguma roupa.

            Apanhou a toalha do chão e percorreu o corredor do terceiro andar até à porta dos aposentos da criança. Havia três quartos para além da sala de estar e do átrio: um de Miss Griffin, um devoluto, que teria sido para o segundo filho que nunca chegaram a ter, e o maior era o de Teddy. Mas enquanto atravessava a sala de estar pé ante pé, ouviu uns movimentos e presumiu que fosse apenas Edith no quarto livre. Sabia que àquela hora Miss Griffin já deveria estar dormindo, mas como oficialmente aos domingos à noite ainda estava de folga, Edith tomava conta do menino nessa noite. Contudo, quando se aproximou da porta do quarto de Teddy, tropeçou num obstáculo inesperado, indo estatelar-se ao comprido no chão, e teve de se controlar para não dar um grito e acordar Teddy. O objeto no qual tropeçara parecia grande e mole. Ao deslocar-se lentamente na sua direção, de camisa de dormir e descalça, sentiu algo a roçando-lhe a perna e soltou um uivo de medo, tentando dar um salto para se afastar, antes que voltasse a tocar-lhe. Mas a sala estava tão escura que ela não conseguia ver nada. E, de repente, mesmo ao seu lado, ouviu um medonho som animalesco e então é que ficou mesmo assustada.

            Tateando às cegas ao longo da parede, encontrou uma mesa que sabia estar naquele lugar e ligou a luz, imaginando o que faria se desse de cara com um assaltante. Não ia desatar a fugir do quarto e deixar o seu filho desprotegido. Mas o que viu quando ligou a luz não era nada do que esperava. Betty, a segunda ajudante de cozinha, estava no chão, enrolada numa bola, as mãos e os pés atados com uma corda, e tinham-lhe enfiado uma toalha na boca presa com mais corda. Quando Marielle a viu, tinha a cara vermelha e as faces cobertas de lágrimas, embora não conseguisse emitir qualquer som que não fosse um gemido quase inaudível.

            - Oh, meu Deus... meu Deus... o que é que aconteceu?... - Com o choque de deparar com a moça atada e amordaçada no meio do chão, esqueceu-se de manter a voz baixa ou de se preocupar com o fato de acordar Teddy. Teria havido um roubo? Uma luta? Um intruso? O que teria acontecido? E o que é que a moça estava fazendo ali? Ela trabalhava na cozinha. Marielle tirou-lhe a mordaça da boca e debateu-se para conseguir alargar as cordas, ao mesmo tempo que lhe fazia perguntas ininterruptamente. Mas os nós estavam muito apertados e as cordas eram fortes e, por momentos, pensou se não seria melhor cortá-las, enquanto a histérica moça gritava frases incoerentes.

            Por fim, Marielle conseguiu libertá-la. - O que é que aconteceu? - perguntou, abanando-a, desesperada para saber mais informações. - Onde está a Edith? - E onde se encontrava Miss Griffin? Mas a moça ainda estava histérica demais para explicar alguma coisa, só conseguia soluçar e esbracejar. Foi então que Marielle, sentindo o terror apoderar-se do seu coração, saltou por cima dela em direção ao quarto de Teddy e escancarou a porta. O seu pior pesadelo tornara-se realidade. Ele desaparecera e a cama estava vazia. Não havia sinal dele, nenhum bilhete sobre a almofada, nenhuma ameaça, nenhum pedido de resgate. Tinha simplesmente desaparecido, e a cama ainda estava quente quando lhe tocou. Todo o seu corpo começou a tremer, ao perceber o que acontecera.Voltou a correr para junto de Betty, que ainda soluçava ao mesmo tempo que esfregava as mãos e os pés ofegante, quando Marielle começou a abaná-la.

            - O que aconteceu? Tem de me dizer!

            - Eu não sei... estava escuro.. . eu estava dormindo no sofá quando eles me agarraram. Só sei que ouvi vozes de homens.

            "Mas onde estava Teddy", pensava Marielle freneticamente... "Em nome de Deus, onde estava Teddy?"

            - O que é que você estava fazendo aqui? - Marielle gritava com ela e a moça chorava com tanta intensidade que mal conseguia falar, mas sabia que estava na hora de contar a verdade.

            - A Edith saiu... foi a um baile de Natal... pediu-me para ficar com ele... até ela voltar... não sei o que aconteceu. Acho que eram muitos. Puseram uma almofada sobre a minha cara e eu senti o cheiro de uma coisa horrível e depois acho que desmaiei. Quando acordei, estava amarrada e eles tinham ido embora. É tudo o que sei, até a senhora me encontrar.

            - Onde está Miss Griffin? - Teria Miss Griffin levado a criança? Seria capaz de uma coisa dessas? Marielle correu para o quarto da ama, meio tresloucada. O seu bebê desaparecera... alguém o levara... e ela não sabia quem, ou onde ele estava... mas no seu subconsciente uma voz começou a sussurrar-lhe... teria ele falado a sério no parque? Teria ele levado Teddy? Seria ele capaz de fazer uma coisa dessas? Por vingança? Sentiu-se agoniada e escancarou a porta de Miss Griffin, encontrando-a amarrada e amordaçada com uma almofada sobre a cabeça e um forte cheiro a clorofórmio inundava o quarto. Quando Marielle lhe tirou a almofada de cima, achou que a velha senhora parecia morta, mas como ela se mexeu, Marielle deixou-a por uns instantes. Foi correndo até o telefone dos aposentos da criança e marcou o número da telefonista, rezando para que o encontrassem depressa. Com uma voz que não parecia a sua, identificou-se à

telefonista e disse-lhe que precisava contatar com a Polícia imediatamente.

            - E qual é o problema? - perguntou a mulher.

            Hesitou apenas um segundo, temendo a imprensa, e depois, sem se importar, conseguiu pronunciar as palavras. Perdera um filho e sabia que não sobreviveria à perda de outro.

            - Por favor... por favor, mande a Polícia imediatamente... - Mal conseguia falar, mas depois recuperou a compostura e disse a frase dos pesadelos de qualquer mãe. - Fala a senhora Malcolm Patterson. O meu filho foi raptado. - Houve um curto silêncio do outro lado da linha, após o qual a telefonista tornou a despertar para a vida, anotando a morada. Marielle pousou o auscultador com as mãos tremendo, olhando fixamente para Betty, que estava sentada no chão, aterrorizada com o que iria acontecer, certa de que o desaparecimento do menino era, de algum modo, culpa sua. E durante bastante tempo, Marielle apenas ficou ali parada... pensando nele, no seu rosto minúsculo, nos caracóis macios que ela afagara enquanto cantava para ele adormecer, apenas há algumas horas atrás. E agora ele desaparecera, à meia-noite.

            Então ouviu um gemido proveniente do quarto de Miss Griffin e correu em seu auxílio. Retirou-lhe a mordaça da boca e depois chamou Betty para a ajudar a desamarrá-la. A velha senhora estava tonta e começou a vomitar devido ao clorofórmio que lhe haviam ministrado, mas quando finalmente conseguiu falar nada pôde acrescentar ao que Betty já contara sobre os assaltantes. Haviam entrado no quarto enquanto ela dormia e achava que ouvira vozes de dois homens, ou talvez mais, mas eles pouco falaram, e depois o clorofórmio fez efeito.

            Enquanto a ouvia, Marielle sentia-se entorpecida. Era como se estivesse a ouvir uma história que acontecera a outra pessoa. Era difícil interiorizar o sucedido. Então ouviu a campainha da porta da frente e correu pelas escadas, ainda descalça e em camisa de dormir. Desceu as escadas de mármore como um fantasma no meio de um sonho. Haverford, de roupão vestido, parecia atrapalhado. Ainda dormia quando a Polícia chegou, e estava em vias de lhes assegurar que ali não havia nenhum problema e que devia haver algum engano, pois a presença deles não era necessária.

            - Uma partida talvez, algum engano... - Tinha um ar sério, como se eles tivessem dado algum passo em falso. Mas quando ela saltou das escadas em direção a eles, o cabelo solto, a cara pálida, tornou-se claro que não havia nenhum engano e os três polícias e o mordomo ficaram no átrio embasbacados olhando para ela.

            - Não há engano. - Quando chegou ao pé deles, fitou-os e de um momento para outro começou a tremer, enquanto Haverford foi à procura de um casaco para ela se cobrir. - O meu filho foi raptado. - Seguiram-na pelas escadas com rapidez até aos aposentos da criança, no que foram imitados por Haverford. Este parou no quarto de Marielle, para pegar os chinelos e o roupão dela, e ficou em estado de choque quando chegou ao quarto da criança e ouviu a história das duas mulheres. Não havia engano. A criança desaparecera. Um dos polícias tomava notas, enquanto os outros dois conferenciavam e um deles pegou o telefone. Rapto já não era apenas um crime punido pelas leis estaduais, desde o rapto do bebê Lindbergh. Era um crime de pena federal e o FBI iria querer ocupar-se da investigação. O homem que parecia comandar falou primeiro com Marielle e frisou a toda a gente que, se possível, não deviam tocar em nada dentro do quarto, pois podiam desfazer quaisquer impressões digitais que os raptores pudessem ter deixado ali. Todos assentiram, Betty continuava chorando, a ama ainda parecia desesperada, de tão mal disposta, e Haverford foi chamar o médico.

            - Havia algum pedido de resgate? Alguma mensagem deixada dentro do quarto? - perguntou o agente mais velho, um policial irlandês na casa dos cinqüenta anos. Tinha cinco filhos e só a perspectiva de poder perder algum deles o aterrorizava. Podia imaginar o que ela sentia e, quando olhou para Marielle, ficou intrigado. Tinha um ar tão calmo, tão frio, tão controlado, que parecia gelada, porém, as mãos tremiam imenso e todo o seu corpo tiritava, apesar de vestida com o roupão quente que Haverford lhe trouxera. Ainda estava descalça, com o cabelo solto e um olhar assustadiço, de quem não percebe muito bem o que acabara de acontecer. Ele já vira aquele olhar muitas vezes, em incêndios, uma vez após um tremor de terra, na guerra... em casos de homicídio - era o tipo de estado de choque que se instalava, paralisando a mente e a alma, mas, mais cedo ou mais tarde, fizesse ela o que fizesse, voltaria à realidade. Tinham levado o filho dela.

            Marielle explicou que não havia nenhum bilhete, nenhuma mensagem, nenhum sinal, a não ser a cama vazia e as duas mulheres amarradas e amordaçadas pelos atacantes. O sargento assentia e tomava notas, enquanto os outros chamavam reforços. Meia hora mais tarde, já a casa estava toda iluminada e duas dúzias de polícias faziam uma busca no interior e no exterior da casa, procurando pistas de qualquer espécie. Mas até àquele momento não haviam encontrado, nada.

            Os empregados estavam todos acordados e alinhados, enquanto o sargento O'Connor os interrogava um a um, mas ninguém vira nada ou sabia de alguma coisa. E, de súbito, Marielle deu-se conta de que tanto Patríck como Edith não estavam ali, Nunca confiara neles e desconfiava mesmo que a odiavam, fosse qual fosse a razão. Naquele momento, perguntava-se a si própria se o ódio deles não os teria levado a raptar Teddy. Era difícil de acreditar, mas tudo era possível e valia a pena investigar. Avisou a Polícia da ausência deles e fez-lhes a descrição do casal e de Teddy, que foi transmitida nos rádios da Polícia.

            - Quanto mais depressa o encontrarmos melhor - explicou o sargento O'connor. Não lhe disse que isso dava menos tempo aos raptores para fazerem mal à criança, para a fazerem desaparecer para longe, ou pior, para a matarem. Mesmo assim, ela lembrava-se bem demais que a criança de Lindbergh fora morta provavelmente na noite em que a haviam levado.

            O sargento avisou-a de que o fato de comunicarem o desaparecimento pelo rádio da Polícia significava que a imprensa iria aparecer rapidamente, mas se transmitir esse aviso implicasse a hipótese de encontrarem a criança mais depressa, ela tinha consciência que era um risco que valia bem a pena correr. Também sabia que tinha de telefonar a Malcolm, antes que ele ouvisse a notícia pelo rádio ou a lesse no jornal ao pequeno-almoço, mas a casa já estava inundada de polícias e o FBI chegou antes que ela tivesse tempo de lhe telefonar.

            Era como um pesadelo ou um filme muito mau, polícias subindo e descendo as escadas correndo, abrindo janelas de par em par, correndo reposteiros, arrastando mobília, dilacerando o jardim, introduzindo holofotes nos arbustos, detendo peões e interrogando os empregados.

            - Senhora Patterson - O sargento O'connor estava de pé a seu lado, rodeado por meia dúzia de homens de terno escuro. Parecia que todos usavam chapéu, exceto um, aparentemente o chefe. Tinha os seus quarenta ou quarenta e dois anos, era alto, esguio, do tipo sisudo, cabelo castanho e olhos azuis penetrantes que pareciam atravessá-la.

            Fitava-a com um olhar duro como aço e tinha ar de quem conseguia sempre o que queria. - Senhora Patterson. - O sargento O'connor dirigia-se a ela o mais delicadamente possível, tendo em conta a confissão que reinava à volta deles. - Apresento-lhe o agente especial John Taylor. É do Serviço Federal de Informações e foi destacado para o seu caso.

            "O caso dela... que caso?... o que acontecera? Onde estava? Onde estava o Malcolm e onde estava o filho deles?..."

            - Como está? - Apertou-lhe a mão desajeitadamente, enquanto ele a observava com frieza, tal como os outros. Ouviu os poucos pormenores que ela lhe forneceu sem revelar nada de si própria, Também estivera a trabalhar no caso Lindbergh, mas, então, já era tarde demais. Estava tudo tão mal alinhavado na altura em que levaram o caso ao FBI que no fim acabou por não fazer diferença nenhuma. A sua especialidade eram os raptos e, pelo menos agora, podiam pegar no caso desde início. Mas até àquele momento havia muito pouco por onde pegar. O motorista e a criada tinham desaparecido e havia um alerta sobre ambos por todo o lado, mas era tudo. Não havia pedidos de resgate nem pistas nem impressões digitais nem a descrição dos homens, nada além do modus operandi, do clorofórmio e do fato de a criança desaparecido. Ouvira tudo com atenção, mas o que o intrigava era a mulher. Havia algo de absolutamente aterrorizado nos olhos dela, como se fosse descontrolar-se a qualquer momento, e as mãos tremiam visivelmente, mas, além disso, parecia calma e senhora de si e, quando falava, era dolorosamente delicada e cautelosa. No entanto, por um momento, teve receio que ela explodisse e perdesse o controle. Percebeu que ela mal se agüentava em pé. E que estava genuinamente aterrorizada. Porém, passava por tudo aquilo de pé, em camisa de dormir e roupão, mais parecendo uma imperatriz num baile, calada, distante e inacreditavelmente bela.

            - Há algum lugar mais sossegado onde possamos falar? - perguntou ele, olhando em volta para os polícias que iam desfazendo a casa dela, enquanto os empregados os observavam.

            - Sim. - Levou-o até ao escritório de Malcolm. Era uma sala elegante, cheia de livros raros, sofás e poltronas de cabedal, além da gigantesca secretária onde Malcolm trabalhava, a mesma secretária onde ele estivera sentado ainda essa manhã. Ao ver o escritório, Taylor deu-se conta de que ainda não vira o marido. Perguntou-lhe por ele e ela convidou-o a sentar-se, sentando-se também tremendo num dos sofás.            

            - Está fora. Em Washington. Falei com ele cerca de duas horas antes de descobrir... antes de subir... - Não conseguia dizer com todas as letras que Teddy tinha sido raptado.

            - Já lhe telefonou? - Ela abanou a cabeça, parecendo profundamente preocupada. Como lhe iria dizer?

            - Ainda não tive tempo para lhe telefonar - disse com serenidade, sentindo de súbito que a culpa era toda dela.

            Ele assentiu com a cabeça, observando-a, bastante intrigado com aquela mulher. Vinha de um mundo completamente diferente e nunca conhecera ninguém como ela. Tão distinta, tão educada, e ao mesmo tempo tão calorosa e afável.

            Taylor nascera em Queens e vinha de uma família muito pobre. Combatera nos fuzileiros na Grande Guerra e, mal saíra, alistara-se logo no FBI. já estava com eles há vinte anos e acabara de fazer quarenta e dois. Tinha mulher e dois filhos, e amava-os profundamente; mas ali sentado, a olhar para ela, tentando concentrar-se no caso, tinha de admitir que nunca vira uma mulher como aquela. Até em trajes de noite o seu ar era aristocrático e pleno de dignidade. Tinha uma expressão tão inocente, os olhos tão cheios de dor que ele só teve vontade de abraçá-la.

            - Desculpe, senhora Patterson. - Tinha de tentar voltar a concentrar-se no caso. - Conte-me tudo outra vez, exatamente como aconteceu. - Fechou os olhos e pôs-se a escutá-la, depois abria-os de vez em quando e observava a cara dela, como se quisesse ter certeza de que não havia ali qualquer discrepância, algo errado, alguma mentira do tipo para o qual tinha um faro especial.

            Mas, naquele caso, o que viu foi algo de diferente, em vez de uma mentira, pressentiu um terror intangível. Esperou até que ela acabasse de falar e depois perguntou-lhe: - Há mais alguma coisa que queira dizer-me? Qualquer coisa que possa ter visto hoje à noite ou nos últimos dias... qualquer coisa que a tenha assustado ou que agora possa fazer sentido para você, à luz do que aconteceu? - Mas ela tornou a abanar a cabeça, pois não estava disposta a partilhar os seus terrores privados com um estranho. - Há alguma informação que queira partilhar comigo, tem alguma coisa a dizer-me antes que os outros tomem conhecimento disto... até o seu marido? – Em outras ocasiões ele perguntara a mulheres por namorados, amantes, amigos, mas neste caso sentia que essa não seria a direção a tomar. Ela não parecia esse tipo de mulher... achava ele; parecia o tipo de mulher por quem se tem vontade de morrer.

            - Há alguém na sua vida, ou quem sabe, no seu passado, que possa querer fazer-lhe uma coisa deste gênero... alguém que se lembre? Daquela vez houve um silêncio prolongado e depois ela abanou a cabeça e nos seus olhos era visível a dor.

            - Espero que não.

            - Senhora Patterson... pense bem... a vida do seu filho pode depender das informações que me der. - E, ao pensar nele, a idéia revolvia-lhe no pensamento. Seria possível que ainda estivesse disposta a protegê-lo num momento daqueles?... poderia ser ele?... e ela estaria em condições de correr o risco de não contar ao agente Taylor? Antes que pudesse dizer alguma coisa, o sargento O'connor bateu à porta e entrou para anunciar que a empregada e o motorista estavam em casa e que a criança não se achava com eles. - Onde é que eles estão? - O homem do FBI pareceu irritado. Sentira que ela travava uma luta dentro de si e que estava prestes a contar-lhe algo importante.

            - Estão na sala de estar, e... - John Lançou-lhe um olhar conspirador e olhou para Marielle como quem pede desculpas. - Estão bêbados que nem um gambá, os dois, e ela traz um vestido de noite e pêras. - Tornou a olhar para Marielle. - Apostaria o meu último dólar em como o vestido é seu e a senhora não sabe que ela o tem vestido. - Mas tudo aquilo parecia pouco importante naquele momento. A questão era onde estava o seu filho e quem o raptara.

            - Leve-os para a cozinha e faça-os beber café forte até eles vomitarem e depois chame-me. - O polícia anuiu e desapareceu. Então, John dirigiu a sua atenção para a mãe da criança. Mas o agente voltou atrás para se dirigir a Marielle.

            - Senhora Patterson, telefonamos ao seu marido. - Ela não sabia se lhe devia agradecer ou não. Sentiu-se culpada por não ter sido ela a telefonar, mas ao mesmo tempo foi um alívio. Queria poupar-lhe o choque de saber a notícia através de uma pessoa estranha. Não havia maneira de atenuar aquela notícia e ela só conseguia pensar no amor que Malcolm nutria por Teddy.

            - E o que é que ele disse? - Parecia aterrorizada e o inspetor observava a sua reação.

            - Ficou muito perturbado. - Deitou um olhar a John e não lhe contou que o marido tinha desatado a chorar abertamente ao telefone, mas não pedira para falar com a mulher. O'connor achou estranho, mas entre pessoas daquele nível por vezes as coisas eram diferentes já vira aquela cena antes, tudo, desde raptos a assassínios. - Disse que chegaria amanhã de manhã.

            - Obrigada. - Ela assentiu quando ele saiu do escritório e tornou a olhar para o agente do FBI, que, enquanto a observava, tivera a certeza de que ela não lhe contara tudo. Perguntava-se a si próprio se devia ou não ser franco com ela, se ela iria mentir ou desmaiar ou tentar sair da sala, furiosa, mas não fez nada disso, apenas ficou a ouvi-lo e a olhar para ele. Era um homem vigoroso, forte e muito atraente dentro do gênero duro, mas ela não prestava atenção ao aspecto dele, apenas ao que ele dizia.

            - Senhora Patterson, às vezes há coisas que não queremos dizer a pessoas que não conhecemos, coisas que não queremos admitir sobre nós próprios ou sobre pessoas que amamos... mas num caso deste tipo pode ser fatal. Não preciso lhe dizer o que se encontra em jogo. A senhora sabe... nós todos sabemos. Faça o favor de pensar e ver se há alguma coisa mais que me queira contar? - Mas, antes que ela pudesse dizer alguma coisa, ele saiu, prometendo voltar depois de ter falado com Patrick e Edith. E Marielle Ficou ali sentada, no gabinete privado de Malcolm, pensando se lhe devia contar tudo ou não, mas sabendo que tinha de confiar nele.

            Quando Taylor entrou na cozinha, tanto Patrick como Edith ainda estavam bastante embriagados, mas mantiveram coerência suficiente para saberem onde tinham estado, o que tinham feito e com quem. O'connor ia apontando tudo à medida que Taylor ia falando com eles e Patrick, quando soube que tinham emitido um mandato de captura contra ele, fez uma grande fita, dizendo que estava ofendido e que isso poderia estragar a sua reputação, na qual nem O'connor nem Taylor tinham o mínimo interesse. Ambos desconfiavam de que ele podia ser um mau elemento, dadas as condições para tal, e Edith também.

            - Porque é que saiu com ele hoje à noite? - perguntou Taylor, ao mesmo tempo que ela cruzava as pernas e tentava parecer sexy no vestido que roubara. Era o vestido que Marielle vestira na noite anterior para ir a casa dos Whyte e que pedira a Edith para pôr na lavanderia. Edith tencionava fazer isso, mas vestira-o primeiro, tal como fizera anteriormente com muitos outros vestidos dela. Apenas ainda não tivera coragem de levar o casaco de arminho "emprestado".

            - Não devia estar ao serviço?

            - Sim, e depois? - respondeu Patrick. - Que diferença fazia quem ficava com o puto? E se ela tivesse estado lá, teria acabado intoxicada e atada num feixe como uma galinha. Para quê? Pelo salário miserável que eles nos pagam? - Ainda estava bêbado demais para perceber de que o que dizia poderia ser desfavorável para os dois, mas Edith começava a ficar sóbria rapidamente e parecia muito nervosa.

            - Eu não sabia... eu devia ter... acho que... eu pensei apenas, como era quase Natal...

            - Onde foi buscar o vestido?

            - É meu. - Tentou mentir. - Foi a minha irmã que fez. - Taylor assentiu compreensivamente e depois foi se sentar à frente dela, como se a conhecesse melhor do que conhecia na realidade e não tivesse qualquer intenção de acreditar na história dela.

            - Se eu pedir à senhora Patterson para vir aqui, ela irá concordar com isso ou o vestido é dela? - Como resposta, a moça baixou a cabeça e começou a chorar, ao mesmo tempo que Patrick se tornava cada vez mais agressivo.

            - Oh, por amor de Deus, minha cabra chorona, para com isso... e depois?... levou o vestido dela emprestado. Você os devolve sempre. Merda, até parece que a gente trabalha para a Virgem Maria. E ouça - continuou, espetando um dedo ameaçadoramente na direção de John Taylor -, não acredite na treta de que ela é uma santinha. Vi-a duas vezes esta semana com o namorado. Uma vez até levou o garoto, por isso não se ponha aí a insinuar que foi a gente. Fale com ela e pergunte-lhe pelo homem que ela estava beijando na igreja na sexta-feira e ontem no parque, com o Teddy. - A expressão de O'connor não registrou qualquer alteração ao anotar aquela informação e John Taylor olhava fixamente para ele com um interesse silencioso. Sabia que, se mantivesse calado haveria mais, e tinha razão, pois em menos de um minuto disse: - O cara parece maluco, se quer a minha opinião, falando com ela aos berros, como um louco, gritando, parecia que estava ameaçando-a e depois tentou beijá-la. O pobre Teddy parecia assustado e meio desorientado, pois parecia, se quer a minha opinião, o estupor é mas é maluco.

            - O que o leva a dizer que é o namorado dela? - A voz soava calma, mas os olhos tinham uma expressão gelada. - já o tinha visto com ela anteriormente?

            Patrick pensou nessa hipótese e depois abanou a cabeça:

            - Não... só naquela tarde, na igreja, e ontem, no Central Park. Mas ela podia tê-lo visto outras vezes e ele parecia mesmo que a conhecia. Ela nem sempre me deixa conduzi-la.

            - A senhora costuma dirigir?

            - De vez em quando - confirmou, pensando bem - dá uns passeios. Mas não sai muito. Acho que sente muita pena dela própria. Tem montes de dores de cabeça. - Era um retrato interessante que ele pintava de Marielle. De algum modo, John Taylor ficara com a impressão de que ela era mais forte - alguma vez a viu com outros homens? - Patrick pareceu sentir pena de ter de admitir que não, exceto aquele. E, logo em seguida, Taylor pregou-lhe uma rasteira com uma pergunta que Patrick não queria responder. - Alguma vez viu o senhor Patterson com outras mulheres?

            Houve uma pausa longa e, sugestiva, em que Patrick olhou para Edith, que ainda soluçava. Edith tinha certeza de que iria perder o emprego por causa do vestido. Estava bem mais preocupada com isso do que com o desaparecimento do rapazinho, quando devia ter lá estado para tomar conta dele. John Taylor tornou a repetir a pergunta, para o caso de Patrick precisar ser lembrado.

            - Alguma vez viu o seu patrão com outra mulher?

            - Não, que me lembre... E depois prosseguiu - ... exceto as secretárias, claro. - Mas tudo isso eram informações que John Taylor sabia poder aprofundar mais tarde. A questão do namorado, porém, intrigava-o. Marielle parecia calma demais para tal, demasiado inteligente, honesta e decente. Mas nunca se sabia, e agora era evidente que tinha de lhe perguntar. Detestava aquele tipo de situações: forçar respostas, causar dor. Mas a situação que o levara até ali era em si dolorosa e se ele pudesse ajudar a trazer o menino de volta, então valia a pena.

            Levantou-se e olhou para o motorista por quem começara a sentir aversão logo de início. Eram um par de manhosos. Mas o seu instinto dizia-lhe que era pouco provável que eles estivessem envolvidos no rapto. Não se admirava nada que tivessem sido subornados, deixando a porta aberta por cem dólares, mas talvez nem isso. O mais provável era que apenas tivessem saído, aproveitando-se dos patrões através de um vestido furtado, de um carro emprestado, e descuidado das suas obrigações em relação à criança, mas duvidava que houvesse mais alguma coisa por trás disso. Sorte a deles, ou então John não se teria importado nada de os apanhar na mentira.

            Voltou para a biblioteca depois de dizer a O'connor que os deixasse ir. Tornaria a interrogá-los de manhã. Ambos afirmavam não terem visto nada de anormal nessa noite ou nos dias anteriores. A única coisa anormal que Patríck insistia em ter visto era o encontro de Marielle com o "namorado".

            - O que acha disto? - perguntou O'connor, baixando a voz, antes de Taylor sair da cozinha.

            - Provavelmente é tudo mentira, mas vou perguntar-lhe. Ela não parece ser desse tipo. - O'connor abanou a cabeça. Talvez o namorado tivesse levado o garoto. Era uma hipótese a considerar, se ela estivesse envolvida com outra pessoa que não o marido. E nunca se sabia. Eram sempre os mais calmos que os surpreendiam.

            - Não, ela não parece ser desse tipo - concordou Taylor, quase com tristeza. Mas se fosse verdade, ainda estava mais ansioso para falar com ela antes do regresso do marido. Quando entrou na biblioteca viu-a sentada no mesmo lugar, como se não se tivesse mexido, apesar de tremer mais do que nunca. A casa estava aquecida, mas era visível que ela se encontrava em estado de choque, e, apesar de tudo, John sentiu pena dela.

            - Quer beber alguma coisa ou tomar um chá?

            - Não, obrigada - respondeu Marielle tristemente. - Eles sabiam de alguma coisa? - perguntou ela, com esperança, mas ele abanou a cabeça. - Acha que é possível que eles o tenham levado e deixado em algum lugar e depois voltassem?     - Estive pensando nessa hipótese, enquanto John fora falar com eles, e estava ansiosa por saber alguma coisa.

            - É possível, mas pouco provável. Falarei com eles outra vez amanhã de manhã. Mas acho que eles devem ter saído apenas para dançar e beber um pouco. - Tal como ela ele ficara desapontado. Teria sido tudo mais simples se os empregados tivessem o menino.

            - Nenhum deles gosta muito de mim. - Poucos gostavam em casa de Malcolm, mas ela teve vergonha de confessar. Para eles, Malcolm, era o único patrão. Mesmo que ela fosse afável para com eles, continuavam frios, antipáticos e carrancudos, e magoavam-na mais do que podiam imaginar.

            Ser casada com Malcolm nem sempre era a vida fácil que aparentava ser. Houvera muitas noites longas em que se sentira infeliz e só. Já haviam passado alguns anos e, mesmo assim, ela fora-lhe fiel, honrara-o, fora decente e uma boa mãe para Teddy. Mas ninguém lhe dava crédito por isso. Por vezes achava que nem o próprio Malcolm. Taylor, pensativo, observava-lhe o rosto. Porque é que acha que eles não gostam de você? - Não que discordasse dela, pois vira o ódio nos olhos de Patrick e a expressão de Edith quando falara dos seus vestidos.

            - Acho que têm inveja. A maior parte dos empregados já estava aqui antes de nos casarmos. Para eles, eu era uma intrusa. Tinham as suas rotinas sob as ordens do meu marido e, de repente, apareci eu, e eles não tinham vontade nenhuma de mudar os seus hábitos por minha causa.

            Todos tem algo a esconder numa casa como esta, algo que costuma fazer, algo que gostaria de fazer, algo que não devia ter feito mas fez, e não quer ser descoberto. Para eles, sou uma dor de cabeça e eles não gostam. - Houve qualquer coisa nas palavras de Marielle que lhe fez lembrar as dores de cabeça dela. Passou-lhe uma idéia estranha pela cabeça e ele não conseguiu deixar de se perguntar, à luz de tudo o resto que o motorista dissera, se ela e Malcolm seriam felizes no casamento.

            - Talvez tenha razão. - O investigador do FBI era prudente. - E sobre o que lhe perguntei antes de sair?

            - Não me lembro de mais nada. - Ela continuava a lutar contra a sua consciência, os seus temores, a sua relutância em acreditar que Charles levasse Teddy, independentemente do que dissera. Não podia estar falando sério.

            - Tem certeza? - Dois polícias fardados passaram por ali e Taylor fez-lhes um sinal, pedindo-lhes uma xícara de chá para ela e café para si, se eles encontrassem a cozinha. Já eram três da manhã e só o fato de a ver tremendo fazia-o sentir frio e cansaço.

            - Eles já têm alguma notícia? - Tinha de lutar contra as lágrimas que ameaçavam brotar, ao fazer a pergunta, e ele abanou a cabeça. Marielle ainda não conseguia acreditar que, se subisse ao terceiro andar, não encontraria Teddy. Ele tinha de lá estar... mas no fundo do seu coração, sabia que não.

            - Senhora Patterson - voltou ele com calma, depois de os dois polícias terem trazido o chá e voltado a sair, deixando a porta da biblioteca entreaberta. Taylor pôs-se de pé e foi fechá-la a passos largos. - Quero contar-lhe uma coisa que o seu motorista disse. Quero discutir isto consigo a sós, pois se a imprensa tomar conhecimento, vai dar uma história dos diabos. - Antes de ele dizer alguma coisa, ela já sabia qual era a história, e talvez o fato de lhe contar tudo acabasse por a aliviar.

            - O senhor Refily diz que a senhora tem um "namorado". - Não houve qualquer alteração na sua expressão, quando disse a palavra, e Marielle sorriu. Era tão absurdo que ela tivesse de sorrir, mas sabia como Patrick podia ser cruel e estava mesmo a imaginar a história que ele contara.

            - É um termo interessante. E é exato? - Ela sentia a pressão dele. Queria saber tudo sobre ela, pela vida da criança. E se tivesse de ser impiedoso, seria, por mais que a achasse linda. Marielle suspirou e olhou para ele.

            - Não, não é. - Até tinha graça pensar em Charles como seu "namorado". - É o meu ex-marido e não o via há sete anos, até há dois dias atrás. Encontramo-nos na Catedral de Saint Patrick.

            - E o encontro foi combinado?

            Ela abanou a cabeça solenemente e, pelo modo como o fitou, Taylor acreditou. Os olhos dela transpareciam uma dor muito profunda e ele pressentia que aquele sofrimento recente escondia uma dor que vinha de trás.

            - O fato de nos encontrarmos foi pura coincidência. Ele vive na Espanha... combatendo contra Franco.

            - Oh, meu Deus, um desses. - Taylor sorveu um longo gole de café. A noite já ia longa, mas ele tinha de ficar cada vez mais alerta. Queria ser ele falando com ela e a ouvir a sua história, antes que o marido voltasse para casa. - Ele é "comuna"?

            Ela tornou a sorrir. Era outra palavra engraçada para definir Charles, apesar de não haver nada de engraçado naquela situação. Com Teddy desaparecido, nada voltaria sendo engraçado... ou feliz... ou agradável... nem valia a pena continuar viva... mas ele voltaria. Daquela vez iria ser diferente. Tinha de ser. A história teria um final feliz.

            - Eu não acho que ele esteja, de fato, envolvido politicamente. Apenas passa a vida lutando contra moinhos de vento. É um idealista, um sonhador, um escritor. Foi para Pamplona, para as guerrilhas. É tipo Hemingway. Acho que ele soube que havia guerra na Espanha e foi combater, só isso. Não sei. Não o via há anos. Desde mil novecentos e vinte e nove que não estou com ele... e não o vejo desde trinta e dois, quando regressei aos Estados Unidos e me casei com Malcolm.

            - E porquê agora? Porque é que de repente ele aparece aqui? Para vê-la?

            - Não. - Abanou a cabeça - Deveres familiares.

            O pai está muito velho, provavelmente às portas da morte, ou perto disso.

            - Ele telefonou-lhe quando chegou, ou escreveu?- Ela abanou a cabeça.

            - Acha que a seguiu? Está zangado pelo fato de ter voltado a casar? Ela suspirou e lançou ao inspetor um olhar prolongado e duro.

            - Não sei se ele me seguiu, acho que não. Não telefonou... e sim... acho que está zangado por eu me ter casado outra vez... e com a questão do Teddy... ele não sabia. Na sexta-feira disse-lhe que tinha casado, mas não disse nada sobre Teddy. E ontem ele o viu.

            - Ontem? - John Taylor parecia intrigado e ela prosseguiu.

            - No Central Park. Fomos ao lago dos barcos, mas estava gelado. - Taylor assentiu com a cabeça e ficou pensando no que se teria passado no segundo encontro.

            - Combinou com ele encontrarem-se lá?

            Foi mais uma coincidência. A casa dele é junto ao parque, perto do lago dos barcos.

            - Queria encontrá-lo lá?

            - Nunca me passou pela cabeça. - Olhou-o nos olhos, ainda tremendo.

            - Pensou nele?

            Ela assentiu, fixando o seu olhar no de Taylor. Não pensara em mais nada desde que o vira na Catedral de Saint Patrick.

            Não acha que dois encontros são coincidências demais, após sete anos? Não o vê durante sete anos e, de repente, ali está ele, duas vezes em dois dias. Não acha que ele estava deliberadamente à sua procura?

            - Talvez. - Era possível. Ela fizera a mesma pergunta a si própria.

            - Ele queria alguma coisa de si? - Os olhos de Taylor sondavam tudo nela. Marielle hesitou e depois assentiu.

            - Sim... queria ver-me.

            - Porquê?

            - Não tenho certeza... para falar... para falar de coisas que já não interessam, já acabou tudo... pertence ao passado... foi há muito tempo atrás. Estou casada com o Malcolm... o meu marido... há seis anos. - As palavras dela arrastavam-se a pouco e pouco, ao mesmo tempo que olhava para John Taylor com uma expressão de desolação. Ele aparecera na sua vida numa altura horrível e ela mal o via. Via a cara dele e ouvia a sua voz, mas não sabia quem ele era, não sabia nada. Sentia-se entorpecida e desesperadamente assustada, sempre que pensava em Teddy.

            - Quando é que casou com ele? - Ele prosseguia, com um tom de voz monótono, delicado, mas sem nunca deixar de a interrogar.

            - Em mil novecentos e vinte e seis... aos dezoito anos... - Foi então que ela lhe lançou um olhar duro e decidiu que tinha de lhe contar. - O meu marido não sabe disto, inspetor. Ele acha que eu me "portei mal" na Europa, quando tinha dezoito anos. Acho que o meu pai insinuou a todos os amigos que eu tinha tido um flerte sério com um pretendente impróprio ."Nada mais. O meu pai era um sonhador". A verdade é que, como o meu pai bem sabia, eu estive cinco anos casada e vivendo na Europa. Tentei contar esta história ao Malcolm, quando ele me pediu em casamento, mas ele não quis ouvir. Disse que cada pessoa tem o seu passado e que era melhor deixá-lo intacto e por revelar. O que chegou aos seus ouvidos foi a história que o meu pai fez circular para se poupar à vergonha; acho que o meu pai nunca admitiu a nenhum dos amigos que Charles e eu éramos casados. Vivemos na França... - Havia uma expressão distante nos olhos dela... - E fomos muito felizes. - Ao dizer aquelas palavras parecia ainda mais bonita.

            - E o que mudou isso? - A voz dele era profunda e rouca, tentando não se distrair com ela.

            - Várias coisas. - Estava tentando esquivar-se e ele sentiu isso de imediato. O sonho deles fora destruído por uma coisa. Uma única coisa. Uma tarde hedionda, da qual nenhum deles nunca se conseguira recuperar.

            - Senhora Patterson... Marielle... eu preciso saber o que aconteceu... por você... pelo Teddy. - As palavras de John foram diretas ao coração dela e os olhos encheram-se de lágrimas quando olhou para ele.

            - Não consigo falar disso agora. Nunca consegui... Exceto com o meu médico na clínica.

            - Tem de conseguir. - Ele estava determinado e cheio de força, mas ela continuava a resistir-lhe.

            - Não posso. - Levantou-se, caminhou pela sala e ficou durante muito tempo parada a olhar pela janela. Lá fora havia a escuridão e, no meio da escuridão, encontrava-se Teddy. Então virou-se para olhar para o inspetor, que nunca vira tanta dor estampada no rosto de alguém em toda a sua vida. Mais do que nunca, teve vontade de estender os braços e de acarinhá-la.

            - Desculpe. Detesto estar fazendo passar por isto. - Nunca dissera aquelas palavras a ninguém antes, mas também nunca sentira aquela sensação por nenhuma mulher. Transparecia uma pureza e uma docilidade, ao mesmo tempo uma fragilidade que o assustava de modo genuíno. - Marielle. - Permitiu-se utilizar o primeiro nome dela sem sequer lhe perguntar, mas tinha de fazer o possível para a aproximar dele. - Tem de me contar.

            - Nunca contei ao meu marido... talvez se ele soubesse... se ele tivesse sabido... - Talvez nunca tivesse existido Teddy ou sequer um casamento.

            - Pode contar a mim. - Queria que ela confiasse nele.

            - E depois? Vai contar à imprensa? - Os olhos dela perfuravam os dele, mas ele abanou a cabeça devagar:

            - Não posso lhe prometer nada. Mas dou-lhe a minha palavra. Farei o possível e o impossível para manter os seus segredos intactos, a não ser que impliquem a segurança de Teddy. Concorda? Ela respondeu com um aceno de cabeça e voltou-se para a janela, olhando para o jardim.

            - Nós tivemos um filho, o Charles e eu... um menino chamado André... - Sentia um nó na garganta ao pronunciar o nome dele. - Nasceu onze meses depois de nos casarmos... tinha cabelo preto brilhante e olhos azuis enormes. Era como um anjinho... um pequeno querubim gorducho, e nós os adorávamos. Levávamo-lo para todo o lado. - Tornou a virar-se para John, pois de repente sentiu que tinha de lhe contar a história. - Era tão lindo, e passava a vida a rir.

            - Onde quer que fôssemos com ele, as pessoas conheciam-no. - John observava-a, enquanto ela falava, e não gostou da expressão dos seus olhos ou da maneira como contava a história. - Charles adorava-o... e eu também... e houve um ano em que fomos passar o Natal à Suíça. O André tinha dois anos e meio e divertimo-nos brincando na neve. Até construímos um boneco de neve. - As lágrimas começavam a escorrer-lhe pelas faces, lágrimas de dor, e ele não a interrompeu. - Uma tarde, Charles quis subir à montanha para esquiar, mas eu queria ficar em Genebra. Então o André e eu fomos dar uma volta pelo lago, falamos e brincamos... o lago estava gelado, estava lá um grupo de mulheres e crianças e nós paramos e ficamos conversando. E eu estava falando com uma delas sobre meninos da idade dele... - Naquela altura mal conseguia falar, mas continuou, inspirando profundamente em busca do ar que lhe faltava, ao mesmo tempo que se debatia com cada palavra que articulava. - Sabe como são as mulheres, adoram falar sobre os seus filhos; então elas e eu estávamos falando da traquinice dos rapazinhos de dois anos e meio e, enquanto falávamos... enquanto falávamos, - tocou nos olhos com a mão tremendo e John, sem pensar, estendeu a mão na direção dela, como que para a ajudar a continuar, e ela agarrou a mão dele. - ... Enquanto estávamos conversando, ele correu para cima do gelo com as outras crianças e depois, de repente, ouviu-se um horrível... horrível... - Ela mal conseguia prosseguir, a sala parecia tão abafada, mas John apertava-lhe a mão o máximo que podia e ela continuou. Naquele momento não tinha consciência da presença dele, estava perdida num tempo que quase a destruíra.

            - ... Ouviu-se um ruído seco horrível... quase como um trovão... e o gelo quebrou-se... três crianças caíram dentro de água... uma delas era o André... desatei a correr pelo gelo com as outras mulheres, as pessoas gritavam. Eu fui a primeira a alcançar o buraco... consegui retirar as duas moças... apanhei-as - soluçava... - apanhei-as... mas não consegui apanhá-lo... tentei... tentei com tanta força... tentei tudo o que pude... até me meti dentro de água, mas ele tinha escorregado para debaixo do gelo, e depois encontrei-o... -

            A voz dela soava distorcida pela dor e John Taylor chorava ao ouvi-la... - Estava todo azul e jazia nos meus braços tão pequenino e gelado, e tão sossegado... eu tentei de tudo... tentei fazer respiração boca a boca, tentei aquecê-lo... a ambulância chegou e o levamos para o hospital, mas... - Ela levantou os olhos para John, voltando então a tomar consciência da presença dele, e ambos choravam pelo rapazinho que morrera debaixo do gelo em Genebra. - Não conseguiram salvá-lo. Tinha morrido nos meus braços, disseram eles, quando o puxei para fora... mas nem sequer respirava... como é que eles podiam saber quando morreu? - E isso que interessava?

            - A culpa foi toda minha... eu devia estar tomando conta dele e não estava. Estava falando com aquelas malditas mulheres... sobre ele... e ele desapareceu... um momento de conversa e matei-o...

            - E Charles? - Ele fizera a pergunta-chave, e mal recuperara do que acabara de ouvir, mas via-se que havia mais pela expressão dela, ainda devastada pela história que acabara de lhe contar.

            Ele culpou-me, claro. Mantiveram-me no hospital, e de qualquer maneira eu queria ficar lá... com o André... deixaram-no nos meus braços durante muito tempo, eu abracei-o com tanta força, só pensava em conseguir que ele voltasse a ficar quente, mas claro... - Soava um pouco enlouquecida, à medida que prosseguia com a história.

            - O que é que Charles fez quando chegou ao hospital? - A voz dele era suave. Fizera uma pergunta importante e ela olhou para John Taylor sem o ver e respondeu:

            - Bateu-me... com força... sem parar... depois... eles disseram... eu achei... não importava... eles disseram que quando eu saltei para o gelo...

            - O que é que ele lhe fez, Marielle?

            - Tentou espancar-me... disse que eu tinha morto o André, que a culpa era toda minha... bateu-me... mas eu merecia... e... - Reprimiu um soluço horrível e emitiu um som que Taylor nunca ouvira em outro ser humano, era um lamento de dor que parecia. quase um latido. - Eu perdi o bebê... - Tornou a levantar os olhos para ele, e daquela vez, ele pôs-lhe o braço em volta e puxou-a para junto de si, para a deixar soluçar nos seus ombros. Abraçou-a contra o peito e afagou-lhe o cabelo sem pensar no que fazia.

            - Oh, meu Deus. - Deu-se conta de súbito. Estava grávida...De cinco meses... uma menina... morreu nessa noite, no mesmo dia que o André. - Ficou então sentada bastante tempo, em silêncio, chorando, sossegada, nos braços de John Taylor.

            - Lamento... Lamento muito o que lhe aconteceu... fazê-la passar por isto agora. - Mas ele tivera de o fazer. Tivera de descobrir o que ela estava escondendo. Tinha percebido pela expressão dos olhos dela, mas não imaginava que fosse tão grave.

            - Eu estou bem - disse ela, mais calma, e por um lado até estava, mas por outro, não. Lembrara-se de repente que Teddy desaparecera... e acrescentar isso aos outros era demais. Era por isso que John Taylor tinha de encontrá-lo. - Não estava bem. Durante muito tempo. Acho... acho que se pode chamar de colapso nervoso ou qualquer coisa mais. Suponho que Charles também ficou fora de si, Tiveram de arrancá-lo de cima de mim naquela noite, e disseram-me que desmaiou no funeral. Não sei... não me deixaram sair. Internaram-me numa clínica privada em Villars e eu fiquei lá durante vinte e seis meses. Charles pagou tudo, mas eu nunca o via. Por fim deixaram que ele viesse me visitar antes de me darem alta e pediu-me que voltasse para ele, mas eu não podia, Sabia que tanto ele como eu achávamos que eu matara o nosso filho, senão ambos os nossos filhos. Não só deixara o André afogar-se, como saltara para a água gelada e matara o bebê. E o que é que queriam que tivesse feito? Deixá-lo afogar-se? Não, eu fiz o que tinha que fazer, mas levei dois anos para chegar a essa conclusão e outros seis para conseguir viver com isso, desde então. Acho que - começou de novo a chorar com mais força - acreditei... quando Teddy nasceu, que Deus decidira perdoar-me. Tive imensas dificuldades em engravidar e sempre pensei que estava sendo castigada.

            - Isso é coisa de louco. Você foi castigada o suficiente. O que é que fez na vida para merecer isso?

            Ela sorriu com tristeza para o homem com quem acabara de partilhar a sua vida.

            - Passei a maior parte da minha vida tentando ver se chegava a alguma conclusão sobre isso. - Ele tornou a tocar-lhe na mão e serviu-lhe uma pequena porção de brande na xícara de chá por onde ela bebera. Servira-se de uma das garrafas de cristal de Malcolm e continuava a parecer-lhe inacreditável que ela nunca tivesse contado nada ao marido. Mas que fardo solitário tivera ela de carregar na sua vida, não era para admirar que sofresse de enxaquecas.

            - E o encontro na igreja? - Mas naquele momento já calculava o que havia se passado.

            - Era o aniversário da... morte das crianças. Eu vou sempre à igreja acender velas por eles e pelos meus pais. E, de repente, ali estava Charles, que parecia mais uma visão.

            Taylor perguntou-se a si próprio se a visão lhe teria agradado. Naquele momento estava fascinado por ela e por tudo o que ela passara, mas que, apesar de tudo, conseguira ultrapassar e continuar a sua vida. Era muito mais forte do que parecia, muito mais madura.

            - Ainda está apaixonada por ele? – Ele queria saber agora.

            - Sim, suponho que uma parte de mim sempre estará. - Era tão honesta com ele, tão sincera; havia algo nela que transparecia seriedade. Naquele momento até se lhe arrepiava a pele só de pensar nas acusações do motorista de que ela tinha um "namorado". - Mas essa parte da minha vida acabou. - Parecia estar falando a sério.

            - Era isso que ele queria? Que voltasse para ele?

            - Não sei. Só estive com ele aquele bocadinho na Catedral de Saint Patrick e estávamos perturbados. Ele não parava de dizer que a culpa não era minha, mas eu sei que ele sempre esteve convencido disso. Acusou-me de ter assassinado o nosso filho, de negligência... - Tornou a desviar o olhar de John e desta vez ele forçou-a a beber um gole de brande. - A verdade é que eu fui negligente. Tinha vinte e um anos e cometi um erro terrível, Conversei com aquela mulher por uns momentos e ele morreu... O fato de Charles estar disposto a perdoar-me, tendo em conta o que sentiu por mim, até me surpreende.

            - Tem certeza de que ele a perdoou?

            Ela olhou com sinceridade para o inspetor. Essa era a grande questão.

            - Não sei. Na sexta-feira achei que sim, quando estive com ele na Catedral de Saint Patrick. Contei-lhe que casara de novo e acho que ele ficou admirado, e talvez não muito satisfeito, mas pareceu aceitar o fato. Mas, no dia seguinte, quando o vimos no parque... ele ficou furioso por causa do Teddy, furioso por eu ter outro filho... e ele não. Disse que eu não merecia ter outro filho e eu senti-me como se ele estivesse a me ameaçar, mas acho que o disse sem pensar. Falou na hipótese de levar a criança para me forçar a ir com ele. - O que John Taylor acabara de ouvir era música para os seus ouvidos e teve então quase certeza de que tinham o homem que procuravam. Apenas precisavam encontrá-lo. Graças a Deus que ela tinha confiado nele. Com alguma sorte encontrariam o menino, encerrariam o ex-marido atrás das grades e o esqueceriam. Por mais pena que tivesse dela, por tudo o que passara, Taylor sentia muito menos compaixão por Charles, que a espancara no hospital quando ela estava grávida e que, em vez de a consolar, a acusara de ter assassinado os filhos. Abandonara-a na clínica durante dois anos e, de algum modo, deixara-a carregar com o fardo da culpa da morte do filho pelo resto da vida. Na perspectiva de John Taylor, o tipo devia ser castigado.

            - Acha que ele estava falando sério, quando disse essas coisas?

            - Não tenho certeza. Não faço idéia. Não consigo imaginá-lo a fazer mal a alguém, muito menos a uma criança. Mas não tenho certeza se ele ainda está muito revoltado ou não, e tive medo de lhe ocultar o que se passou. - Afinal de contas, o fato de o motorista a ter acusado de ter um namorado acabara por ser uma bênção.

            Já eram seis da manhã e não havia progressos no caso, nem novas pistas sobre o paradeiro de Teddy, mas a informação que ela acabara de lhe dar, os ajudariam a avançar. Apontou cuidadosamente o nome e a morada de Charles e prometeu ter uma conversa discreta com ele dentro de umas horas. Se ficasse satisfeito com o álibi dele e acreditasse nas suas palavras, o assunto Charles Delauney ficaria encerrado e nada mais haveria a dizer. Caso contrário, teria de atuar com base no que descobrira. Tinha uma esperança secreta de descobrir alguma coisa. Quanto mais não fosse, o tipo era um idiota e era evidente que a ameaçara. Era perfeitamente possível que tivesse levado o menino, até como vingança pelos filhos que perdera, e por ainda a acusar da morte deles, ou porque simplesmente queria obrigá-la a voltar para ele. Mas John prometera a Marielle nada revelar à imprensa ou ao FBI ou a Malcolm, até ter falado com Charles Delauney. Era o máximo que podia fazer por ela e ela ficou-lhe grata pelo esforço.

            Quando saíram do escritório, eram quase sete da manhã e ainda estava escuro; porém ainda tiveram uma longa conversa no átrio da frente, Ele olhou para ela, desejando poder prometer-lhe que iria encontrar Teddy. Pelo menos isso ela merecia nesta vida. Desconfiava que o casamento com Malcolm Patterson não era mais do que um negócio. Tudo o que ela tinha na vida era Teddy e ele desaparecera. E Taylor sentia o quanto ela o adorava. Era evidente que nunca voltaria para Charles, uma decisão acertada, na opinião de Taylor, mas ela não tinha ninguém na vida que pudesse ajudá-la. Era impossível entender como é que o menino podia ter desaparecido à meia-noite dessa noite, sem deixar vestígio, sem emitir um som. Haviam-no simplesmente tirado da cama, com o pijama vermelho vestido, e... desaparecera.

 

            Após a sua longa conversa com John Taylor, Marielle perambulou pela casa como um fantasma. Primeiro, regressou ao seu quarto, mas depressa percebeu que não agüentava ficar lá: as paredes pareciam fechar-se em volta dela como que para asfixiá-la e quase não conseguia respirar. E sem sequer se dar conta, deu consigo a subir as  escadas, a caminho do quarto de Teddy. Era o único lugar onde queria estar, o único compartimento onde poderia senti-lo próximo. Era inacreditável... não conseguia perceber. Quem faria uma coisa daquelas e por que razão? Era óbvio que tinha de ser por dinheiro.

            Já tinham instalado na casa linhas telefônicas especiais e havia polícias por todo o lado. Esperavam por uma chamada telefônica ou por uma carta contendo um pedido de resgate. Os jornais matutinos já tinham sido lidos de cima abaixo, à procura de mensagens dos raptores. Estavam sendo utilizados todos os métodos habituais. E havia mais homens do FBI à espera para falar com Malcolm. Naquele momento ela sentia-se inútil. Não havia nada a fazer, a não ser rezar para que o seu filho ainda estivesse vivo.

            Ajoelhou-se junto à cama dele e pousou a cabeça, perdida nas lembranças da sensação de tocar-lhe e de senti-lo poucas horas antes, quando o deitara na cama com o seu pijaminha vermelho de gola azul bordada. Miss Griffin fizera-o para ele e Marielle não conseguia deixar de pensar se ele estaria com frio ou com medo... se estavam sendo bons para ele ou se tinha comido. Não saber onde ele estava era insuportável e Marielle mal conseguia respirar enquanto permanecia ali ajoelhada.

            Ouviu um som no quarto e voltou-se de repente, a tempo de ver Miss  Griffin parada atrás dela, ainda pálida, mas formal, na sua farda, e, pela primeira vez em anos, olhava para Marielle com uma expressão amigável. Sentia que tinha de dizer uma coisa a Marielle e, tal como esta, mal conseguia articular as palavras.

            - Eu... - Os lábios tremiam-lhe. Desviou o olhar. Não conseguia suportar ver a agonia estampada na cara da jovem mulher. Refletia com demasiada clareza exatamente, o que ela própria sentia. - Lamento... eu devia ter... eu devia ter ouvido... - Desatou a chorar, mal pronunciando as palavras que a estavam a torturar. - Eu devia ter sido capaz de os deter.

            - A senhora não podia saber... e deviam ser muitos para si. - Armados com cordas e clorofórmio, e talvez armas, estavam bem equipados para o que haviam vindo fazer. - Não deve culpar-se. - Levantou-se lentamente, tão digna, tão bondosa e, sem emitir uma única palavra, pôs os braços em volta da mulher. Também chorava, mas não deixou de abraçar a velha senhora como se esta fosse uma criança, tentando tranqüilizá-la. Fez com que a ama se sentisse ainda pior, pois tinha consciência de que sempre fora severa demais com Marielle. Mas sempre a considerara tão fraca, tão comodista, tão superficial. E naquele momento assistia a outra característica que nunca soubera existir em Marielle, uma força silenciosa que a ajudava não só a ela própria, mas aos outros todos.

            As duas mulheres ficaram juntas durante bastante tempo, amparando-se uma à outra, sem falar, e depois Marielle tornou a descer as escadas. Mal começou a descer, percebeu um rebuliço, ouviu vozes aos gritos e percebeu que eram os jornalistas no exterior, tentando forçar o caminho através da Polícia, quando a porta da frente se abriu.

            - Chegou! - Ouviu um grito dos polícias, tentando imaginar quem seria, rezando para que fosse alguém importante para o caso. E quando olhou através do balaústre, viu que era Malcolm. Estava em casa, com um ar aristocrático e pálido, no seu sobretudo preto, terno escuro e chapéu. Tinha um ar fúnebre subindo as escadas, e os dois encontraram-se a meio caminho, ela ainda de roupão e descalça. Ele abriu-lhe os braços e durante muito tempo ficou ali parado, abraçando-a, até que, por fim, subiram ao andar de cima e ele só falou quando chegaram ao quarto dela.

            - Como é que isto pode ter acontecido, Marielle? Como é que eles podiam forçar a entrada e fazer tudo tão à vontade. Onde estava o Haverford? E as criadas? Onde estava a Miss Griffin? - Era como se ele exigisse que ela tivesse mantido o filho deles e a casa em segurança e ela o tivesse desapontado. Via naquele momento que os olhos dele estavam plenos de recriminação e de dor, e o olhar que ele lhe deu colocou-a de rastros. Não havia desculpa, não havia explicação. Ela nem conseguia explicar a si própria o que acontecera. Mal conseguia entender o que acontecera.

            - Não sei... eu também não percebo... ouvi um ruído enquanto estávamos falando ao telefone, mas não pensei que fosse alguma coisa... nunca me ocorreu que houvesse alguém dentro de casa além dos empregados, quer dizer... nem sequer sabia que a Edith não estava em casa... - Entretanto já tinham lhe devolvido o vestido, sujo, manchado, com marcas de baton, cheirando a tabaco e a uísque barato.

            Mas ela não queria saber do vestido. Só queria saber do seu filho.

            - Eu devia ter contratado seguranças - disse Malcolm olhando para ela em agonia. - Nunca pensei... sempre achei que a sua atitude de histeria em relação ao caso Lindbergh era tão disparatada... quem diria que estaria certa? - Fitava-a, um homem rendido, o seu único filho desaparecera e com ele a esperança, a felicidade, o bem-estar. De um momento para o outro, Malcolm ficara com um aspecto mais velho, como se pudesse não sobreviver àquela situação. Fez com que Marielle tivesse a sensação de que tinha sido ela própria a destruir aquele homem, por ter sido tão descuidada. E, no entanto, a culpa não era dela... não era... ou era? Era tudo muito confuso, tal como o fora anos antes. Confuso em relação à questão de quem tinha a culpa ou porquê. Ter-se-ia André afogado por ter fugido para o gelo, e porque é que ela conseguira apanhar as duas meninas e não o seu próprio filho? Teria morto o bebê por ter saltado para a água à procura de André... ou o bebê morrera por Charles ter lhe batido? E agora aquilo... seria culpa dela... ou dele... ou de outra pessoa qualquer? Parecia enlouquecida e, à medida que ia passando distraidamente com as mãos pelo cabelo, este ficava desgrenhado, e Malcolm observava-a, tendo a súbita sensação de que ela parecia estar enlouquecendo.

            - Devia se vestir - aconselhou ele com delicadeza, deixando-se afundar pesadamente numa poltrona -, há policiais por todo o lado e lá fora está apinhado de jornalistas. Nos próximos dias, se sairmos de casa, temos de tentar ir pelo jardim. - Olhou então para ela com um ar ainda mais sombrio: - A Polícia diz que não há pedido de resgate. Telefonei para o banco e eles já têm à nossa disposição notas marcadas para quando recebermos a chamada ou o pedido de resgate. - Era tudo o que podiam fazer enquanto esperavam, e de repente Marielle sentiu-se aliviada por ele estar em casa. Tomaria as rédeas da situação, faria com que fosse tudo feito como deve ser. Os obrigaria a trazerem Teddy para casa. Levantou então os olhos para ele, sentindo mais do que nunca que o desapontara, o que ele nunca lhe fizera a ela. Nunca a desapontara. Nunca, durante todos aqueles anos em que haviam estado casados.

            - Lamento tanto, Malcolm... não sei o que dizer...

            Ele assentiu, mas não lhe disse que a culpa não era dela. E Marielle percebeu então, ao olhar para ele, que ele achava mesmo que a culpa era dela. Malcolm levantou-se devagar e afastou-se, enquanto ela permaneceu parada olhando para o jardim onde Teddy costumava brincar, mas percebeu que ele estava chorando. Tinha quase receio de o confortar, de lhe dizer alguma coisa, de lhe estender a mão na sua dor. Se ele a culpava por não proteger Teddy como devia, o que é que ela poderia dizer-lhe que o consolasse? Enquanto estava ali parada a observá-lo, desamparada, sentiu aquela dor habitual começar a afetar-lhe a cabeça e por uns momentos esteve quase a desmaiar. Ele voltou-se, olhando para ela, e reconheceu os sintomas. Marielle estava com um aspecto horrível, mas Malcolm não ficou admirado. Sentia-se tão mal como ela.

            - Está pálida, Marielle. Está começando a ter uma dor de cabeça?

            - Não - mentiu ela. Não iria permitir que ninguém visse como ela estava fraca naquele momento, o medo que sentia, como estava vulnerável e rendida. Tinha de ser forte, por ele, pela criança, por todos eles. Tentou manter o equilíbrio enquanto lutava contra a náusea. - Estou bem. Vou me vestir. - Devia ter ido para a cama, mas sabia que não conseguiria dormir. E não teria agüentado os pesadelos.

            - Vou falar com os homens do FBI. - Malcolm comunicara com alguns dos seus conhecimentos em Washington e eles haviam prometido telefonar a J. Edgar Hoover, O diretor tinha providenciado uma escolta policial que permitira que Malcolm chegasse em casa o mais rapidamente que o seu Franklin Twelve permitira. O embaixador alemão também telefonara para exprimir o seu choque e a sua preocupação em relação ao que acontecera.

            - Foram muito amáveis - disse Marielle num sussurro pouco audível, imaginando se o agente Taylor iria contar a Malcolm a história de Charles. Mas se isso contribuísse para encontrar Teddy, ela estava disposta a agüentar. Taylor prometera-lhe que manteria os segredos dela, se pudesse, no caso de não afetar a busca do menino, e ela concordara prontamente. Estava disposta a sacrificar-se, ao seu casamento, à sua vida, tudo por Teddy.

            Malcolm, então, ficou olhando para ela durante algum tempo com uma expressão dura, e por uns instantes sentiu-se mal.

            - Eu não quero te culpar... Sei que a culpa não é sua. Simplesmente não entendo como é que isto pode ter acontecido. Tinha um ar tão lúgubre, como um moribundo. Perdera o amor da sua vida, mas ela também. E não podia ajudá-lo.

            - Eu também não entendo - concordou ela calmamente. E depois saiu do quarto e pôs um vestido de casimira cinzento e meias de seda cinzentas. Penteou o cabelo e lavou a cara, calçou uns sapatos de crocodilo pretos, rezando para que conseguisse controlar a dor de cabeça.

            Depois de se arranjar foi para a cozinha com intenção de organizar e providenciar refeições para os agentes da Polícia e do FBI que estavam trabalhando na casa, mas mal chegou lá, descobriu que Harverford já tinha tratado disso. Estavam levando tabuleiros com sanduíches para cima, com tigelas de fruta, bolos e enormes cafeteiras de café fumegante. Quando voltou para cima, descobriu que tinham montado um bufet na sala de jantar, mas este estava praticamente intacto, pois os homens andavam de tal modo ocupados que mal tinham tido tempo de comer.

            - Posso fazer alguma coisa? - perguntou ela ao sargento encarregado. O'connor tinha ido para casa horas antes e havia outro turno a trabalhar. Não reconheceu nenhum dos homens da noite passada, e estes continuavam passando a casa a pente fino, à procura de impressões digitais e à espera de chamadas telefônicas relacionadas com o pedido de resgate. Ela era a única que não tinha ido para a cama. E quando passou pela biblioteca, viu que Malcolm estava embrenhado numa conversa com dois dos homens do FBI. Ele lançou-lhe uma olhadela, desviou o olhar em seguida, e por um momento Marielle perguntou-se se estariam a falar sobre ela. Os homens fitaram-na com uma expressão estranha, enquanto ela se deteve à frente da porta, após o que se afastou. O que poderiam ter falado? O que haveria a dizer? Ela não tinha a culpa de Teddy ter sido raptado... ou teria? Estariam a culpá-la por causa de Charles? Teriam razão? Estariam a contar a Malcolm? Quando regressou ao átrio da frente, sobressaltou-se ao ouvir um enorme tumulto. O tom das vozes no exterior aumentou de volume e, quando se abriram uns centímetros da porta da frente, apareceram de repente a seu lado meia dúzia de estranhos a gritar, flashes a explodir-lhe na cara e formou-se uma cadeia de polícias, uma espécie de escudo, que os empurraram de volta para o exterior, escapando apenas uma mulher pequena e ruiva. Era bonita, jovem, muito baixinha e usava um chapéu preto ridículo e um vestido horrível. Ficou olhando para Marielle como se a conhecesse e, antes que Marielle percebesse o que estava acontecendo, a pequena ruiva desatou a fazer-lhe perguntas.

            - Como é que se sente, senhora Patterson? Está bem? Há alguma notícia? Soube de alguma coisa acerca do pequeno Teddy? Qual é a sensação? Está com medo? Acha que ele pode já estar morto? - E durante todo esse tempo havia luzes explodindo à distância, cegando-a com a luz que emitiam e a dor que causavam, quase como se fizessem parte da sua dor de cabeça. E enquanto se debatia para conseguir sair dali, ouviu uma voz poderosa a seu lado e duas mãos fortes afastaram-na pelos ombros. Era John Taylor.

            - Ponham essa mulher daqui para fora! - E, de um momento para o outro, a ruiva tinha desaparecido, a porta da rua estava novamente fechada e o ruído afastou-se. Percebeu que John lhe amparava o braço e a conduzia até uma cadeira da entrada. Quando regressou à casa, a imprensa forçara a sua entrada junto com ele. - Raio de escumalha. Da próxima vez entro pela cozinha. - Olhava para ela com preocupação evidente e parecia muito cansado. Mas ela ainda estava pior e, quando lhe entregou um copo de água que tinha pedido a um dos seus homens para ir buscar, ela deu um pequeno gole, esboçou um sorriso, mas daquela vez não conseguiu controlar as lágrimas. A dor de cabeça estava forte demais, a fúria de Malcolm, o seu terror em relação ao que estaria acontecendo a Teddy, era apenas exaustão pura. E a ruiva fizera umas perguntas tão horríveis. E se ele estivesse morto? E se eles o tivessem morto? E sim, ela estava com medo. Desesperada de medo. E Malcolm parecera tão desgostoso e tão zangado quando voltara. Olhou para John Taylor e suspirou, envergonhada por ter perdido a sua compostura.

            - Desculpe.

            - Por quê? Por ser humana? Aqueles cretinos metem-me nojo. - E depois baixou o tom de voz, olhando para ela. Acabara de falar com Charles Delauney: - Há algum lugar onde possamos falar em particular? Na biblioteca outra vez? Ela abanou a cabeça.

            - O meu marido está lá falando com dois dos seus homens. - E depois pôs-se a pensar. - já sei. - Foi à frente, indicando o caminho até à pequena sala de música que nunca era utilizada. Estava cheia de livros e instrumentos musicais antigos e alguns dos arquivos de Malcolm. Há muito tempo atrás, Brigitte utilizara-o como escritório.

            Havia uma secretária, duas cadeiras, um pequeno sofá, onde ele a instalou, puxando depois uma das cadeiras para si e ficando a olhar para ela durante algum tempo. Só a conhecia desde a noite anterior, mas estava disposto a acreditar em cada palavra que ela dissesse e a pôr as mãos no fogo por ela. Nunca conhecera nenhum ser humano como Marielle. Era como uma personagem de um livro ou de um sonho, com o tipo de força interior e ideais que as pessoas reais não tinham, pelo menos as pessoas que ele conhecia. Porém, era ao mesmo tempo uma mulher jovem, extraordinariamente atraente. E fora vítIma de procedimentos bruscos e incorretos Por parte de dois homens, nenhum dos quais havia causado boa impressão a John.

            Delauney parecera-lhe um menino rico mimado, bêbado, comodista, iludido com os seus ideais políticos, e que continuava a chorar pelo que lhe acontecera há quase dez anos e pelo fato de ela não ter estado disposta a voltar para ele, depois de quase a ter morto. Taylor sentiu que, se tivesse oportunidade para isso, Charles poderia ser impetuoso e perder a cabeça, quem sabe até tornar-se perigoso, e ter raptado Teddy como vingança. E Malcolm também não lhe agradara. Até aquele momento, apenas o conhecia da imprensa e sempre lhe parecera muito frio e afetado.

            - Aconteceu alguma coisa? - Pior do que já estava? Como se tal fosse possível, pensou Marielle. - Soube de alguma coisa? - Olhou para ele com os olhos muito abertos, ficando de repente amedrontada, mas ele depressa abanou a cabeça e a tranqüilizou.

            - Sobre o Teddy, nada. - John sentia-se como se na noite anterior tivessem partilhado os segredos de uma vida inteira. E, naquele momento, queria fazer todo o possível para a proteger. Ela sofrera o suficiente, confiara nele e ele não queria trair essa confiança. Mas também não queria pôr a vida da criança em perigo e estava preocupado. - Acabei de passar três horas com Charles Delauney. - Marielle observava-o com uma expressão ansiosa, imaginando o que Charles teria dito.

            - Disse-lhe que eu lhe contei tudo?

            - Sim. Ele censura-se, ou pelo menos diz que sim, por ter ficado desvairado depois do que aconteceu e por reagir tão mal. Mas também afirma que, quando a viu no parque com Teddy no dia seguinte, ainda estava embriagado da noite anterior, e que não tem certeza do que lhe disse, mas dispôs-se a admitir que provavelmente se excedeu. Contudo, insiste que não queria mal a ninguém e que nunca faria nada que magoasse o Teddy.

            - Acredita nele? - Ela procurou os seus olhos carente da verdade e disposta a acreditar nele. Confiava nele. Havia algo nele que transparecia um sentido de justiça inato e pressentiu corretamente que ele não a trairia. Lembrou-se de como a amparara na noite anterior e a abraçara, enquanto ela chorava a morte de André.

- ira.

            - Esse é que é o problema. - Olhou para ela e abanou a cabeça, ao mesmo tempo que se recostava na cadeira. - Não acredito. Acho que ele não faria mal ao Teddy, como no caso Lindbergh ou outra coisa do gênero, mas considero-o um menino mimado. Acredito que ele faria qualquer coisa para obter o que quer: ameaças, medidas coercivas, talvez pior. Talvez ele levasse Teddy para a aproximar dele.

            - Talvez na cabeça dele esta seja uma maneira boa de o fazer. Não tenho certeza. Nem sequer sei o que penso. Mas posso dizer-lhe que acho que não acredito nele- O fato de me dizer que estava bêbedo e tentar desculpar as ameaças que fez não me convenceu. - Charles tinha uma expressão selvagem no olhar, o cabelo preto despenteado, não se barbeara e sentia-se no ar o cheiro de álcool. Tinha aspecto de tipo devasso e selvagem, cuja vida não lhe tinha corrido bem e talvez fosse capaz de algumas atitudes bastante assustadoras, tudo em nome da justiça. Afinal, estava envolvido numa guerra que não era sua, apenas pelo puro prazer de matar, ou pelo menos era esse o ponto de vista de John Taylor. Este não conseguia entender causas políticas ou causas nobres, guerrilhas na Espanha, ou alguém espancar a mulher grávida, quando tinham acabado de perder o filho. Não percebia este tipo de pessoas. A única que ele percebia, sabe Deus porquê, era Marielle, e queria ajudá-la.

            - Estou preocupado com ele e quero que saiba disso. Quero dizer que vamos vigiá-lo e eu gostaria de voltar lá e fazer uma busca na casa. O que também quer dizer que talvez não seja possível manter o seu segredo e queria avisá-la disso. Talvez queira contar alguma parte ao seu marido antes que ele fique sabendo por outras vias.

            Ela assentiu com um gesto, grata pelo aviso, pelo menos estava a dando-lhe uma chance de ser ela própria a contar ao marido. Na realidade, John Taylor fazia jus à confiança que depositara nele, e tentou sorrir-lhe, mas doía-lhe tanto a cabeça que não conseguiu. Estremeceu, ante uma dor repentina, e ele reparou.

            - Está bem?

            - Estou ótima. - Eram palavras que já não queriam dizer nada, mas que eram esperadas.

            - É melhor tentar dormir um pouco. Ou então perderá as forças quando precisarmos realmente de você. - Ela anuiu, mas não se conseguiu imaginar voltar a dormir alguma vez... até que Teddy estivesse de volta. Como iria viver sem ele? Não podia tocar-lhe ou abraçá-lo ou saber onde ele estava, se estava seguro, se estavam a tratar dele decentemente... de repente ansiou pelo cheiro a bebê, do seu pescoço e do seu cabelo... pelo seu riso... os bracinhos gorduchos à roda do seu pescoço, ou a maneira como olhava para ela, dizendo-lhe desse modo o quanto a amava. Como iria sobreviver sem ele até o encontrarem? Perdida naqueles pensamentos, quase desfaleceu, sentindo então uma mão firme no braço, como que salvando-a dos seus próprios terrores.

            - Marielle, agüente-se... nós vamos encontrá-lo. - Ela assentiu e levantou-se, percebendo então que tinha coisas bastante difíceis a dizer a Malcolm.

            - Vai dizer alguma coisa ao meu marido sobre Charles? Estava preocupada, mas não aflita. Se tinha de lhe contar, contaria. Era tão simples quanto isso. Não era altura para esconder qualquer coisa que fosse, se isso pudesse prejudicar Teddy.

            - Vou-lhe dizer que, tal como muita gente neste momento, Charles Delauney é um possível suspeito. Não tenho bem certeza que ele seja capaz de fazer alguma coisa. Mas posso dizer-lhe desde já que ele não me agrada. Não me agradam as ameaças que ele fez ou a idéia de ter ficado tão zangado por a senhora ter outro filho e ele não. Acho que, à sua maneira um pouco alucinada, ele ainda a ama. Diz que quer que volte para ele. E, na cabeça dele, isso é razão suficiente para a senhora voltar a correr para ele, só porque ele diz. - Não lhe contou o que Charles dissera sobre o casamento de Marielle com Malcolm, que era tudo uma fraude e um fingimento, e que todo mundo na cidade sabia que ele tinha outras mulheres; que as pessoas diziam que ela vivia como uma freira e que Malcolm, estava bom para ela. Charles Delauney parecia achar que tudo isso junto era razão suficiente para que ela deixasse Malcolm. Dissera também que achava que Marielle não amava Malcolm e que casara com ele pelas razões erradas, pois estava sozinha no mundo, com medo e insegura, após a sua saída da clínica na Suíça; que ela procurava um pai, não um marido. Mas perante a visão de Delauney com o seu aspecto selvagem e ar de louco, era fácil perceber o porquê da escolha dela. Taylor podia entender a atração que exerceria um homem como Malcolm Patterson e, não obstante, também conseguia entender porque é que uma moça de dezoito anos teria sido atraída por Delauney. Ele era diferente, atraente, selvagem e cheio de romance, mas os homens assim também eram perigosos... homens assim faziam asneiras... como bater nas mulheres ... ou fazer ameaças e acusações horríveis. Mas raptariam esses homens os filhos de outras pessoas? Isso faria parte dessa maneira de ser? E era essa a questão.

            Taylor não sabia a resposta. Mas de uma coisa tinha certeza: se Charles tivesse feito tal coisa, não teria sido por dinheiro. E talvez fosse essa a razão de não ter havido o pedido de resgate. Charles teria apenas contratado gente para tirar o menino a Marielle e escondê-lo. Mas o que faria ele com a criança, quando a tivesse em seu poder?

            Então John Taylor levantou-se, acompanhou-a devagar, até à saída do compartimento, e ela tornou a agradecer-lhe por tê-la avisado do que ia contar a Malcolm. Voltou-se e olhou para John Taylor pela última vez com o sobrolho carregado. Era tudo tão confuso.

            - Acha mesmo que ele faria uma coisa destas? Refiro-me ao Charles. - Era difícil de acreditar. Sempre fora selvagem e descontrolado, mas não daquela maneira... ela não conseguia acreditar que ele levasse mesmo Teddy. Ele a odiaria tanto assim? Era difícil de imaginar.

            - Não sei. - Taylor estava sendo sincero com ela. - Quem me dera saber a resposta.

            Ela assentiu e regressou ao caos que imperava na sala de estar principal. Malcolm encontrava-se lá, com um ar carregado, um homem do FBI de cada lado, e ela apresentou-o a John Taylor.

            - Tenho estado fora falando com algumas pessoas sobre o caso. - Os olhos dele não passaram uma única vez por Marielle. Era esperto. Mas também não tinha certeza, ao observar Malcolm, de que discordava de Delauney. Parecia não haver qualquer calor no seu trato a Marielle, qualquer apoio visível, apenas a própria preocupação e a dor de perder o único filho. Em vez de pedir a ajuda de John, exigiu que ele encontrasse o filho. - Estamos todos preparados para um possível pedido de resgate, sir - respondeu John Taylor com um respeito que não sentia. Na verdade, já tinha certeza de que não gostava dele.

            - Eu também - declarou Malcolm. - O Departamento do Tesouro vai mandar-nos notas marcadas esta manhã.

            - Temos de ter muito cuidado ao efetuar essa transação. - Fora um desastre no caso Lindbergh e John não queria que nada desse errado desta vez. - Gostaria de falar consigo esta tarde, se tiver tempo. - John queria saber se Malcolm suspeitava ou se tinha medo de alguém.

            E, tal como fizera com Marielle, queria falar com ele a sós, mas também queria dar tempo a Marielle para lhe contar a sua história com Charles Delauney.

            - Falo consigo agora - replicou Malcolm com ar carrancudo. Dormira no carro na viagem e descansara mais que Marielle ou John Taylor.

            - Lamento, mas tenho outros assuntos a tratar primeiro. - Quanto mais não fosse, queria voltar para o gabinete, tomar um banho e fazer a barba, beber outro café forte e refletir um pouco sobre a conduta a seguir. A verdade é que não tinham quaisquer pistas: só Charles e o fato de o motorista ter admitido, de manhã, que alguém lhe telefonara há umas semanas atrás e lhe oferecera cem dólares se ele escolhesse aquela noite para sair com Edith. Ele até achara que estavam a gozar com ele, pois há que tempos que andavam a planejar ir ao baile de Natal irlandês no Bronx, por isso não fez nenhum sacrifício. Mas os cem dólares haviam chegado num envelope simples na semana anterior e ele jogara-o no lixo, gastara o dinheiro e nem voltara a pensar no assunto. Disse que não tinha reconhecido a voz no telefone, mas que notara que tinha sotaque, desconhecia o tipo de sotaque, talvez inglês ou alemão. Insistiu que não se conseguia lembrar. Mas mesmo que Delauney tivesse raptado a criança, não o teria feito pessoalmente. E, era suposto que na semana anterior, ele ainda não vira Marielle e não saberia que ela tinha um filho... ou saberia? Seria tudo um plano maquiavélico? Teria ele andado a observá-la durante semanas ou meses? Teria recebido notícias dela regularmente enquanto estivera na Europa? Estaria a planejar a sua vingança há anos? Era difícil fazer com que tudo aquilo fizesse sentido, baseado em tão pouco, e ainda era cedo demais. Mas porque é que o motorista não suspeitara do telefonema? Podia estar relacionado com um plano para assaltar a casa ou atacar Malcolm ou Marielle. Mas para John Taylor ficara bem claro que o motorista não se importava com o que sucedesse aos patrões.

            Malcolm pareceu aborrecido por Taylor não poder falar com ele naquele momento, mas mal percebeu com quem estava lidando, mencionou de novo a sua viagem a Washington. Taylor entendeu perfeitamente. A mensagem era "fazer bem, fazer agora, fazer à minha maneira ou se arrependerá". O problema era que Taylor não era desse tipo. E não estava disposto a ser pressionado por Malcolm.

            - Falo com o senhor esta tarde, sir. Digamos, por volta das quatro?

            - Está ótimo. Presumo que os seus homens saberão como encontrá-lo, se vier alguma chamada antes disso? Era uma bofetada muito suave, dizia indiretamente que ele estava a "desaparecer" do local.

            - Claro.

            - Muito bem. Agora, há alguma coisa que o senhor possa fazer em relação àqueles abutres estacionados à porta da nossa casa?

            - Receio que não. Todos eles pensam que estão ali fora para defender a Primeira Emenda. Mas podemos fazê-los recuar um pouco, afastá-los da casa. Vou mandar os meus homens tratarem disso.

            - Veja se consegue - frisou o outro com uma expressão austera, em vez de lhe agradecer. Taylor saiu, Malcolm baixou o olhar para a mulher e murmurou por entre dentes: - Não gosto dele.

            - Ele é um homem bom. Foi muito amável conosco ontem à noite. - Não lhe disse o quanto, mas causara-lhe uma impressão durável, na ausência do marido.

            - Ficaria mais impressionado se ele encontrasse o teu filho. Vê se não se esqueça disso, Marielle. - Como se ela pudesse. Perguntava-se si própria porque estaria ele sendo tão cruel com ela, apesar de saber que estava nervoso, parecendo de algum modo achar que era tudo sua culpa. Ou seria tudo imaginação dela? Estaria a sentir-se novamente responsável, como se sentira em relação a André e ao bebê? Iria tudo na vida ser sempre culpa dela? Era esse sentimento que em geral disparava as suas dores de cabeça, isso e a terrível impotência que sentia sempre que as coisas corriam mal e ela não podia fazer nada. Mas, naquele momento, não podia pensar nisso, não podia pensar no que poderia estar acontecendo ao Teddy. Tinha de ser forte. E sabia que, antes do regresso de John Taylor nessa tarde, teria de contar a Malcolm.

            - Podemos subir por uns momentos? - Olhava para o marido transparecendo nervosismo e ele fitou-a com uma expressão estranha, como se ela lhe estivesse propondo alguma coisa e ele não estivesse acreditando no que ouvia. - Preciso falar com você.

            - Não é o momento ideal para isso. - Tentava mandá-la embora, pois queria responder à chamada do embaixador alemão. Ficara comovido por este lhe ter telefonado.

            - É sim. Malcolm, é importante. Não pode esperar? - Mas ele via pela expressão dela que Marielle tinha alguma coisa grave para falar com ele. Verdade seja dita, ela estava surpreendendo-o. Para uma mulher que parecia ir abaixo sempre que a vida lhe corria minimamente mal, dava a impressão de estar  agüentando aquela crise bastante bem.

            Tinha um ar cansado, naturalmente, e estava pálida, mas parecia calma e razoável e, além das patéticas mãos trêmulas em que ele reparara logo, parecia estar controlando as suas emoções. Mas ele não assistira à cena horrível que se dera no quarto do rapaz apenas nessa manhã, a sua crise de choro que parecia interminável, abraçada ao ursinho de pelúcia e sentindo-se cada vez mais aterrorizada quando pensava no filho. Mas ela estava lutando contra isso, porque sabia que tinha de fazê-lo. Se não, entraria em pânico e sucumbiria por completo.

            - Malcolm, suba comigo. - Estava sendo insistente.

            - Está bem, está bem. Já vou. - Marielle esperou por ele no quarto de vestir dela, pois não sabia onde estar, andando de um lado para o outro no interior do pequeno compartimento enquanto esperava. Não sabia por onde começar ou o que dizer e teve pena de não ter forçado Malcolm a ouvi-la antes de casarem, mas naquele momento ele não quisera saber, agora, porém, tinha de ser.

            Malcolm subiu meia hora mais tarde, no momento em que ela se dispunha a ir lá abaixo à sua procura, mas por fim apareceu, parecendo enorme dentro do pequeno quarto; sentou-se numa cadeira e olhou para ela visivelmente irritado.

            - Pronto, Marielle, não faço a mínima idéia do que pode querer falar comigo numa altura destas. Espero que seja importante e que esteja relacionado com o Teddy.

            - Pode ser que sim. Espero que não - acrescentou ela, calmamente, sentando-se num pequeno sofá em frente dele. Era estranho o fato de se sentir tão distante dele, de estarem tão afastados um do outro, mesmo numa crise daquelas. Na verdade, de repente, a relação deles parecia pior que nunca. - Tem a ver comigo. E acho que é importante. Há muitos anos, antes de nos casarmos, disse-te que havia coisas na minha vida que você poderia não gostar, ao que você respondeu que todo mundo tinha o seu passado e que isso não era importante. Achou que era melhor não mexermos no passado, mas eu achei que era justo te contar. - Suspirou e teve de se debater para conseguir arranjar ar para respirar. Tudo aquilo era tão difícil que ela parecia ter sempre dificuldade em respirar. Mas sabia que tinha de lhe contar. E daquela vez ele tinha de ouvir. – Lembra-se? - perguntou ela, com brandura e, por uns momentos, os olhos dele amansaram. Talvez ele estivesse apenas sofrendo, disse ela para si própria. Talvez o choque de perder Teddy fosse tão grande que ele não conseguisse dar qualquer amparo a Marielle, tal como ela própria e Charles não tinham sido capazes de se ampararem um ao outro, há nove anos atrás. Por vezes, quando a agonia comum é demasiado grande, uma pessoa só consegue lutar sozinha. Pensava se não seria isso mesmo que estava acontecendo naquele momento e que ele, afinal, talvez não estivesse a censurá-la. Mas tinha que prosseguir.

            - Lembro-me bem - respondeu ele. - Mas o que é que isso tem que ver com o que está acontecendo agora? Ou com Teddy? - A sua expressão era de quem estava a acusá-la, mas ela forçou-se a ignorá-lo.

            - Não sei. Não tenho certeza. Mas tenho de te contar o que realmente sei. - Respirou fundo e continuou, sem ter consciência de como estava bonita: - O meu pai contou aos amigos mais íntimos que eu, aos dezoito anos, durante o Grand Tour, tivera um namorico de adolescente e que fizera umas asneiras. E depois convenceu todo mundo de que eu decidira ficar em Paris estudando. Bem, nem tudo era mentira, mas muito pouco correspondia à verdade. Eu vivi muito mais do que um namorico. Fugi, fugi de casa com o Charles Delauney. Tenho certeza que deve conhecer o pai dele. - Malcolm assentiu com a cabeça. Conhecera-o, melhor do que ao pai dela. Era um velho duro, mas inteligente, com uma fortuna monstruosa. Mas nunca conhecera o filho. Diziam que era um renegado da pior espécie, um escritor; e que fugira para a guerra aos catorze ou quinze anos e que, depois disso, ficara na Europa. O velho Delauney dizia que ele não prestava, e era tudo o que sabia desse Charles, mas naquele momento parecia admirado com a confissão de Marielle. - Casei com ele quando tinha dezoito anos e, quando regressamos da nossa lua-de-mel e os meus pais quiseram anular o casamento, já eu estava grávida. Então eles voltaram para casa e eu fiquei. O casamento nunca foi anulado. E tivemos um menino... - Teve de lutar contra as lágrimas enquanto falava. Após todos aqueles anos, contar a história duas vezes num dia era quase insuportável. Mas sabia que tinha de lhe contar. O desaparecimento de Teddy mudara tudo. - Chamava-se André - tornou a reprimir um soluço - e era parecido com o Teddyzinho, só que tinha o cabelo preto, em vez de louro como você. - Tentou sorrir, mas Malcolm não disse nada. Não estava achando piada à narrativa. E ela sabia que, para Malcolm, tinha de se cingir aos fatos. Ele não tinha que saber o quanto ela amava André nem como amara desesperadamente Charles nem como fora horrível quando André morreu. Malcolm apenas tinha de saber que ele morrera e que Charles ficara doido ao ver Teddy. Tinha de ouvir da boca dela, para que não pensasse que ela estava protegendo Charles. A única pessoa que ela queria proteger era Teddy. E Malcolm tinha de ouvi-la até o fim, se quisessem encontrá-lo.

            - Morreu quando tinha dois anos... na Suíça. Eu estava grávida de outra criança e o bebê também morreu. Malcolm pareceu sentir-se desesperadamente desconfortável por um instante.

            - Como é que eles morreram?

            - André se afogou. - Fechou os olhos com força e esforçou-se por manter a compostura, mas, ao contrário do que John Taylor fizera na noite anterior, Malcolm Patterson não se aproximou dela. - Foi correndo para o interior do lago... que estava gelado... o gelo quebrou e ele caiu lá dentro... junto com duas meninas. Eu salvei-as. - A voz tornava-se monótona à medida que prosseguia, tentando não ver o rosto dele de novo, tentando não sentir a cara gelada dele junto à sua enquanto tentava fazê-lo voltar à vida, tentando não cheirar a pele do bebê que ela tanto amara... exatamente como Teddy... e se Teddy também morresse... como iria ela sobreviver? Debateu-se para continuar, enquanto Malcolm a observava. - Não consegui apanhá-lo. Estava debaixo do gelo. - Foi um sussurro sem fôlego, depois do qual a sua voz ficou mais forte. Contar-lhe era como escalar uma montanha e o ar parecia cada vez mais rarefeito. - Charles sempre me considerou responsável. Achou que a culpa foi minha porque eu não estava atenta. Estar, estava, mas encontrava-me falando com uma pessoa... a mãe das duas meninas... ela disse que a culpa não tinha sido minha, mas eu penso que foi. E Charles também. Nesse dia ele estava esquiando e quando voltou tentou matar-me... ou talvez não... talvez estivesse fora de si de tanta dor... de qualquer modo, perdi o bebê. O teria perdido de qualquer maneira, devido à água gelada.

            - Saltei para a água para apanhar André. - Malcolm assentiu, hipnotizado pelo horror que lhe provocavam as palavras dela, e o seu rosto empalidecera ao ouvi-la, - Charles sempre achou que eu matei os dois, que os perdemos por minha culpa. E eu... eu... - A voz vacilou, não conseguiu continuar e baixou a cabeça, tornando a olhar para ele, com o rosto pleno de angústia, os olhos repletos de horror, um horror que ele nunca iria sentir e que ninguém nunca apagaria de dentro dela. - Suponho que se pode dizer que depois sofri um colapso nervoso. Estive no hospital... uma clínica... um sanatório... durante mais de dois anos. Tinha vinte e um anos, quando isto aconteceu, e tentei matar-me várias vezes. - Decidira contar-lhe tudo. Malcolm tinha o direito de saber e não podia haver mais segredos entre eles.

            - Não queria viver sem Charles e os meus filhos. Fiz tudo para tentar morrer e eles fizeram tudo o que puderam para me salvar. Nunca mais vi Charles durante esse tempo... aliás, vi-o apenas uma vez durante aquele primeiro ano. Veio dizer-me que o meu pai morrera, poucos meses depois do André. Dizem que foi o choque do crack da Bolsa que o matou, e eu não duvido... não me disseram que, a minha mãe se suicidou seis meses depois. Admito que, sem o papá e sem mim... - A sua voz diminuiu de intensidade e Malcolm entendeu o que ela queria dizer. - Só me contaram isto um ano depois, e na altura, presumo que já estava melhor. Por fim disseram que eu receberia alta, que devia voltar para o mundo e conviver com o que acontecera.

            - Que a culpa não era minha, que eu não era responsável e que, se Charles continuasse a achar que sim, então era uma coisa que ele teria de descobrir por si próprio. - Tornou a respirar fundo, parecendo um pouco mais calma, e olhava pela janela, abstraída. - Ele veio me ver uma vez antes de eu sair e me disse como lamentava, que estava fora de si de tanto sofrimento, que a culpa não tinha sido minha e que não estava falando sério. Mas eu via nos olhos dele que sim, que ele ainda acreditava que eu tinha morto os filhos dele. Eu ainda o amava. - Voltou-se para olhar para Malcolm com sinceridade. - Nunca deixara de amá-lo, mas sabia que, se tivesse ficado com ele, me sentiria sempre culpada. Haveria sempre culpa entre nós. Não podia voltar para ele. Tinha de ficar só. Portanto, saí da clínica e voltei para os Estados Unidos, e essa foi a última vez que o vi.

            - E depois te conheci - soltou um suspiro -, e você foi tão bom para mim. Tomou conta de mim e foi sempre muito amável. Casamos. Na verdade, eu nunca quis voltar a casar. Achava que não seria justo para quem quer que fosse... tinha a minha consciência pesada. Mas parecia que você não se importava... e... - De repente sentiu-se culpada. - Estava sozinha... e às vezes tinha muito medo. Você me fez sentir segura. - Eu achei que também poderia ser boa para você... e talvez te fazer feliz. - Então baixou os olhos, pensando no nascimento de Teddy, e as lágrimas começaram a escorrer-lhe novamente pelas faces. Dera-lhe muito para ele absorver em pouco tempo. - Fiquei tão feliz quando o Teddy nasceu.

            - Eu também. - A voz dele soou áspera no interior daquele pequeno compartimento. - É para ele que eu vivo. Sempre achei que havia um pequeno mistério no seu passado, Marielle. Mas nunca desconfiei que fosse assim tão desagradável. - Ela sentiu-se envergonhadíssima com as palavras dele.

            - Eu sei - anuiu ela -, foi por isso que achei que devia saber. Achei que devia saber antes de decidir casar comigo, mas você não quis ouvir. - Ele concordou, assentindo com a cabeça, e ela continuou. - Nunca mais voltei a ver Charles desde que regressei aos Estados Unidos. Nunca mais o vi até sexta-feira passada. Encontrei-o por acaso na Catedral de Saint Patrick. Fui acender uma vela por alma das crianças e dos meus pais. Era o aniversário da morte dos nossos filhos - ela obrigou-se a articular as palavras que odiava - e ele estava lá. Disse que tinha vindo a Nova Iorque para ver o pai.

            - E o que disse ele? - Malcolm estava interessado naquela parte da história.

            - Queria me ver de novo e eu disse que não podia.

            - Porque não? - Estava a pondo-a à prova com as suas palavras e ela sentiu-se magoada por ele lhe fazer uma pergunta daquelas.

            - Porque gosto de você, porque somos casados. Pelo Teddy.

            - E ele ficou zangado? - Malcolm parecia quase ansioso.

            - Não, nesse momento não... ambos estávamos perturbados. É um dia horrível todos os anos.

            - E ele te telefonou?

            - Não, encontrei-o por acaso, no parque no dia seguinte com o Teddy, no lago dos barcos. Acho que tinha estado bebendo ou ainda estava bêbado da noite anterior. Tinha uma expressão desvairada e ficou em estado de choque quando percebeu que nós tínhamos um filho... um menino... e ficou muito zangado - admitiu ela. Era esta a razão da história toda.

            - Que disse ele? Fez mal à criança? - Malcolm parecia aterrorizado com o que ela estava contando.

            - Claro que não. Nem acho que seja capaz de uma coisa dessas e eu nunca permitiria. - Tomou fôlego. - Mas ficou muito zangado. Acho que me ameaçou. Disse que eu não merecia outra oportunidade. E - respirou fundo antes de lhe contar - disse uns disparates sobre levar o Teddy para me obrigar a voltar para ele. Mas, Malcolm, tenho certeza de que não estava falando sério. Mesmo assim, achei que devia saber disto. A Polícia perguntou se alguém me tinha ameaçado ou teria razões para estar zangado comigo e, por amor a Teddy, contei-lhes. - Malcolm ficou admirado por ela não ter ficado mais ansiosa por proteger Charles Delauney, e via-se nos olhos dela quando falava dele que ainda sentia muito carinho por ele.

            - Contou isto à Polícia? Tudo?

            - Sim. - Ela assentiu devagar com a cabeça. já não se envergonhava. Era doloroso, mas não tinha a culpa. Finalmente acabara por aceitar esse fato.

            - É uma bela história para contar. Imagino que dará uma leitura interessante nos jornais.

            - O senhor Taylor prometeu-me que faria os possíveis para mantê-la confidencial. Mas já foi falar com o Charles.

            - Parece saber muito sobre a investigação.

            Ela não lhe respondeu de início.

            - Quis que soubesse isto através de mim. Achei que tinha o direito de saber. - Ele assentiu com a cabeça e pôs-se de pé com um ar profundamente preocupado, olhando depois para ela e, por um instante, ela achou que ele estaria zangado.

            - Pelo visto, o teu contato com o Delauney pode muito bem ter posto a vida do nosso filho em perigo, Marielle. Já pensou nisso? - Censura de novo... e responsabilidade... porque seria sempre culpa dela? Por que razão provocaria a sua vida, as suas falhas ou a sua estupidez sofrimento aos outros?

            - Sim. Mas eu não planejei encontrar-me com ele. Foi um acaso.

            - Tem certeza disso? Tem certeza que o Delauney não estava seguindo-a e estava à tua espera na igreja?

            - Ele ficou tão admirado quanto eu. E o lago dos barcos é em frente à casa do pai dele, no interior do parque.

            - Então não devia ter ido até lá. - o tom de voz de Malcolm, era severo, estava acusando-a. E naquele momento era óbvio que ele estava culpando-a. - Não devia ter feito nada que pusesse em risco a vida do meu filho - não era o filho deles, era o filho dele - e tendo em conta o teu passado, admira-me que o tivesse levado até ao lago dos barcos, principalmente com este tempo. - Não poderia ter dito nada mais cruel. Marielle levara anos para conseguir fazer aquilo e nem sequer o deixara aproximar-se da água.

            - Como é que pode dizer uma coisa dessas? - Estava chocada. As palavras dele atingiram-na como um soco, mas naquele momento isso não importava a ele. Estava demasiado preocupado. Começou a andar de um lado para o outro enquanto falava.

            - Como é que pode contar-me uma história destas e ficar esperando que eu te perdoe? Esteve envolvida com um homem horrível, que você própria admitiu ter tentado te matar e que pode muito bem ter morto a criança que trazia no ventre, e vai expor o meu filho a esse perigo, reconhece que ele te ameaçou, que ele ameaçou levá-lo por uma razão qualquer... e o que é que espera de mim, Marielle? Compaixão pelos teus filhos que morreram? Ou pelo meu que foi raptado? Trouxe esse homem para a minha vida, trouxe-o até à porta da minha casa, levou o meu filho ao parque onde poderiam se encontrar, expôs o Teddy e provocou este lunático até ele levar o nosso filho, e o que é que espera de mim agora, depois de tudo isto... perdão? - Havia lágrimas nos olhos dele e raiva na sua voz.

            Marielle permanecia de pé à sua frente, desamparada, chorando.

            - Não sabemos se ele o levou - replicou ela numa voz agonizante; contara-lhe tudo e sabia que ele nunca a perdoaria. - Não sabemos nada.

            - O que eu sei é que esteve envolvida com pessoas que podem muito bem custar a vida do meu único filho... e a você, do teu último.- Malcolm - ela fechou os olhos e quase desfaleceu com as palavras dele -, como é que pode dizer isso?

            - Porque é verdade - bradou ele -, porque o Teddy pode estar morto neste momento, enterrado numa sepultura que nunca será encontrada, ou se ainda não estiver, pode estar a qualquer momento. Pode nunca mais ver o teu filho. - Ele estava cercando-a como um pesadelo, com os seus rugidos e acusações aterradoras. - E o que tem de perceber, o que tem de te convencer, é que foi você que levou Teddy até ele, foi você que provocou esse homem, foi você que trouxe Charles Delauney para a nossa vida... foi você, Marielle, a culpada de tudo. - Ela sobressaltou-se com a dor que ele lhe causava, mas não podia contrapô-lo. Talvez tivesse feito tudo o que ele disse. Talvez mais uma vez a culpa fosse toda dela e, ao mesmo tempo que o ouvia, ia-se enterrando numa cadeira, enquanto a enxaqueca lhe atacava o cérebro violentamente com tanta força que ela mal conseguia manter o equilíbrio. Voltou a ouvir todas aquelas vozes, a sentir aquela dor familiar, tal como antes, ouviu o marulhar da água sob o gelo e, quando ouviu Malcolm fechar a porta do quarto, já se encontrava praticamente inconsciente.

            Parecia ter passado muitas horas quando ouviu um som e levantou os olhos, deparando-se com a empregada que tinha sido amarrada e amordaçada pelos raptores na noite anterior. Era Betty, que lhe trazia a roupa lavada. O Sr. Patterson mandara todo mundo voltar ao trabalho numa tentativa de fazer a casa voltar à normalidade, com exceção de Edith e Patrick, que tinham sido avisados para não saírem da cidade. O FBI ainda estava muito interessado nas histórias deles.

            - A senhora está bem, senhora Patterson? - Betty correu para junto dela, parecia que tinha desmaiado e estava a meio caminho entre a cadeira e o chão, quando Betty a encontrou. O som da sua voz acordou Marielle da sua inconsciência e esta olhou em volta, dilacerada pela dor, lembrando-se rapidamente do que acontecera e do que Malcolm dissera... era tudo culpa dela... ela trouxera Charles para o meio deles... e Charles levara Teddy... mas teria mesmo levado? E porquê? Seria possível que ele a odiasse tanto assim? E as outras pessoas, também a odiariam?... teriam razões para isso?... De repente desejou ter morrido anos antes, quando devia ter morrido ... talvez até debaixo do gelo com os seus bebês.

            - Senhora Patterson...

            - Estou bem... - murmurou Marielle, debatendo-se para se pôr de pé, tentando ajeitar o vestido e alisar o cabelo, observada pela assustada moça. Marielle parecia morta, de tão pálida, adoentada, enquanto lutava para manter o equilíbrio. - ... não estou muito bem... é só uma dor de cabeça... nada de preocupante... - Caminhou devagar até ao seu quarto, seguida por Betty, que tinha vivido a sua própria tortura na noite anterior, mas a Polícia tranqüilizara-a,  dizendo que a culpa não era dela, que ela não podia ter feito nada para os deter e que, se tivesse tentado, provavelmente a teriam morto. Portanto já não se sentia culpada, apenas sentia que tivera sorte. Ao contrário de Marielle, que se culpava por tudo o que se passara na sua vida durante os últimos nove anos. Era um fardo pavoroso que tinha de carregar.

            - Quer um pano frio?

            - Não... não... obrigada... vou apenas deitar-me por uns momentos - mas mal o fez, começou a ver o quarto rodando e pensou que ia vomitar. Era quase como estar embriagada, mas pior, pois era muito doloroso. - Há alguma novidade? - Levantou a cabeça por um instante, já deitada, mas Betty apenas abanou a cabeça, indo correr os estores e, pouco depois, quando saiu do quarto, já Marielle fechara os olhos de dor, mas não dormia.

            Betty encontrou no andar de baixo John Taylor, que lhe perguntou onde estava a Sra. Patterson. Betty respondeu-lhe que a senhora tinha uma dor de cabeça e se encontrava descansando.

            - Deixe-a descansar - acrescentou ele. Só queria ter certeza de que Marielle contara a Malcolm a história de Charles antes da reunião deles, mas mal entrou na biblioteca, nem precisou perguntar nada. Malcolm Patterson tinha uma expressão carrancuda quando o cumprimentou.

            - A minha mulher contou-me do Charles Delauney - disparou Malcolm de imediato. E John partiu do princípio de que ela lhe contara o resto também, mas Malcolm não tinha ar de quem ficara comovido. - É uma história chocante. Acha que ele é o nosso homem? - Estava visivelmente frenético em relação ao filho e não queria que ficasse nada por vasculhar, independentemente da dimensão do escândalo.

            - Pode ser. Não temos qualquer testemunho, nenhuma prova. Ele tem um álibi para a noite passada, não é nada de especial, mas agarra-se a ele, e nós fomos verificá-lo e confirma-se. Esteve bebendo num bar da Terceira Avenida. E antes disso esteve com amigos no "21". De qualquer modo, não o teria feito com as próprias mãos; imagino que, a fazê-lo, teria contratado pessoas.

            Malcolm refletira muito sobre o assunto desde que Marielle lhe contara a história.

            - Se foi uma vingança, não haverá pedido de resgate. E por hora, não há nenhum - concluiu com austeridade. - Isso é verdade. Mas o menino desapareceu há menos de vinte e quatro horas. Muita coisa pode acontecer nas próximas horas.

            - Quero o Delauney preso - vociferou Malcolm. - Agora! Está percebendo?

            - Sim, sir, estou - respondeu John Taylor numa voz tensa. - Mas precisamos de provas e não há nenhuma. Não há absolutamente nada, além do fato de ele estar embriagado e de ter proferido algumas ameaças que podem perfeitamente ter sido inconseqüentes. E que foi casado com a sua mulher. - Malcolm fitou-o, parecendo não gostar muito do rumo que a conversa estava tomando.

            - Então parece-me, senhor Taylor, que seria melhor sair e ir à procura de provas, não era?

            - Está sugerindo que as fabrique? - Taylor estava fascinado com ele. Por mais poderoso que o homem fosse, ou importante, ou inteligente, ou supostamente charmoso, John Taylor desconfiava que, no fundo, Malcolm Patterson era uma besta.

            - Não estou sugerindo nada do gênero. Estou dizendo-lhe para encontrar provas.

            - Se existirem, as encontrarei.

            - Ainda bem. - Colocou-se de pé, indicando que a entrevista estava terminada, e Taylor teria achado divertido, não fora o fato de não gostar de Malcolm. E, por um momento, até desconfiou se a sua própria hostilidade não teria a ver com ciúmes. O homem tinha tudo: dinheiro, poder e uma mulher pela qual Taylor teria dado o braço direito. E algo lhe dizia que, para Malcolm Patterson, ela era a única coisa que ele possuía que não lhe era preciosa.

            - Receio que tenha de lhe fazer mais algumas perguntas.

            - Certamente. - Malcolm tornou a sentar-se com um ar cooperativo e oficial. Queria fazer tudo o que estivesse ao seu alcance para reaver o filho.

            - Há alguém que possa querer vingar-se do senhor? Alguém que lhe tenha dirigido ameaças, digamos, durante o ano que passou, nem que sejam tolices, coisas que podem não ter parecido importante no momento, mas, à luz do que aconteceu a noite passada, lhe venham à cabeça agora?

            - Não me lembro de nada. Pensei nisso a noite toda, desde Washington, mas não consigo lembrar-me de ninguém que pudesse querer fazer-me mal.

            - Quaisquer suscetibilidades da parte de associações políticas mais sensíveis? Qualquer ex-empregado insatisfeito? - Malcolm tornou a balançar a cabeça. - Mulheres com quem tenha estado envolvido? O que me contar se manterá confidencial no que me diz respeito. - Era o mesmo que prometera a Marielle. - Mas pode ser importante.

            - Agradeço - disse Malcolm com frieza -, mas não será necessário. Não tenho andado envolvido com mulheres. - Parecia ofendido pelo simples fato de mencionarem o assunto.

            - Ex-mulheres que podem ter ficado ressentidas por ter tido um filho com outra pessoa após tantos anos?

            - Pouco provável. A minha primeira mulher é casada com um dos mais importantes pianistas de concerto do mundo e mora em Palin Beach; e a outra está casada com o presidente de um banco e vive em Chicago. - E foi então que fez uma observação que John considerou um golpe baixo, porém não demonstrou qualquer reação. - Aparentemente, ao contrário da minha mulher, as minhas antigas esposas não são pessoas perigosas.

            - Talvez Charles Delauney também não o seja. - Sentiu que tinha de dizer alguma coisa para defendê-la.

            - Não me interessa quem é, inspetor. Só quero o meu filho de volta.

            - Faltavam onze dias para o Natal.

            - Eu entendo, senhor Patterson, todos nós. E iremos fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para que isso aconteça.

            - Volte lá e fale com o Delauney. - Taylor não gostava de receber ordens de civis, mas assentiu com a cabeça, levantando-se e agradecendo a Malcolm pela sua complacência. O agente reparou que ele tinha um ar cansado e desgastado, mas, para um homem da sua idade, parecia bastante saudável e tranqüilo, tendo em conta o que acontecera. E, quando perguntou por Marielle antes de sair, disseram-lhe que ela estava de cama, abatida por uma enxaqueca.

            Do seu quarto, ali mesmo em cima, Marielle ouviu a porta da frente a fechando-se quando Taylor saiu e os berros dos jornalistas enquanto ele abria caminho por entre eles. Pouco depois, a Polícia interditou a área da frente da casa para os manter à distância. Mas para Marielle eram apenas ruídos. Encontrava-se deitada no escuro, dominada pela dor que a cegava, rezando por Teddy em silêncio.

 

            Quando Taylor voltou no dia seguinte, ainda não havia notícias de Teddy. Os raptores não tinham dito uma única palavra, não haviam telefonado nem mandado qualquer carta e continuava a não haver pedido de resgate. E a imprensa estava tendo um dia em cheio. Havia fotografias antigas de Malcolm e Marielle espalhadas por todos os jornais. Patrick, o motorista, dera uma entrevista, insinuando que havia um homem envolvido com Marielle, e havia uma fotografia dele com Edith com o vestido branco Madame Grès, de Paris, que pertencia a Marielle. Fora tirada na noite do rapto, quando ainda se encontravam no baile de Natal irlandês, no Bronx, e haviam posado para a fotografia com um ar imponente.    No jornal da tarde do dia anterior saíra uma fotografia de Marielle com ar assustado e desorientada, quando a imprensa forçara a entrada para o interior da casa, e outra dela em roupão, que havia sido tirada através das janelas da biblioteca. Mas, apesar de Patrick ter insinuado que poderia haver um homem na sua vida, não havia qualquer referência a Charles Delauney.

            - É uma reportagem de leitura agradável - comentou Malcolm com cinismo ao pequeno-almoço, um dia depois do seu regresso. - Não gosto de ler sobre a minha mulher acompanhando outros homens. - Não a via desde que a deixara com a sua dor de cabeça no dia anterior e ela ainda tinha um ar abatido; no entanto, assegurava que estava melhor.

            - Eu te contei o que aconteceu. - Ficou arrasada com as palavras de Malcolm.

            - Talvez devesse ter explicado a situação ao Patrick.

            Então ela levantou os olhos para ele intempestivamente e, por um momento, quase perdeu o controle. Mas até esse esforço fez com que a dor de cabeça quase voltasse.

            - Talvez devesse ter intruido melhor os seus espiões a apresentarem relatórios mais minuciosos, Malcolm.

            - O que é que quer dizer com isso? - Olhou para ela com frieza.

            - Exatamente o que ouviu. Nenhum dos seus empregados foi minimamente afável para mim desde o dia em que cheguei a esta casa e você sabe disso.

            - Talvez você não saiba se impor, Marielle. Ou talvez saibam de alguma coisa que eu não sei.

            - Como se atreve! - Sempre fora tão dedicada, tão leal, tão decente para ele. E, naquele momento, por causa de Charles, ele censurava-a por tudo. Malcolm mudara do dia para a noite. Era uma insinuação tão injusta que ela saiu da sala de jantar com lágrimas nos olhos, indo chocar-se com John Taylor.

            - Bom dia, senhora Patterson. - Olhou-lhe o rosto e percebeu que a tensão estava dando cabo dela. Taylor entretanto voltara a casa de Delauney e avisara-o para não se sair da cidade, mas ainda não tinham provas e o álibi dele era sólido. Até àquele momento não havia pistas que levassem a alguém que ele pudesse ter contratado para raptar Teddy. Mas o FBI estava tentando desesperadamente reunir provas para formular uma acusação, partindo também do princípio que Teddy podia muito bem ter sido levado daquele estado para Nova Jersey. E até àquele momento, Charles Delauney era o maior suspeito.

            As pessoas que tinham pago cem dólares a Patrick para este passar a noite fora haviam desaparecido sem deixar rastro e, até ali, era tudo o que tinham. Betty e Miss Griffin não haviam visto nem ouvido nada e não podiam ajudá-los.

            - Sente-se melhor hoje? - Perguntou Taylor com calma.

            Ela assentiu. Como se poderia sentir melhor com Teddy ainda desaparecido?

            - Há alguma notícia?

            - Ainda não. Mas estamos trabalhando nesse sentido e esperamos. Mais cedo ou mais tarde receberemos um telefonema para pedir o resgate e então poderemos prosseguir. Hoje quero tornar a falar com alguns dos elementos do seu pessoal para ver se algum deles se lembra de alguma coisa que possa ter ficado esquecida no meio de toda aquela excitação. - Ela assentiu com a cabeça, soava razoável. E Taylor também queria falar com Malcolm.

            Então ela voltou para a ala das crianças e ficou surpreendida por encontrar lá o marido. Estava de pé no quarto de Teddy, com um ar combalido, tocando nos brinquedos da criança e passando a mão pela almofada dele. Ao vê-lo, as lágrimas voltaram aos olhos de Marielle. Sentiu-se culpada pelas palavras incisivas que haviam trocado lá em baixo. Estavam ambos sob uma tensão horrível. Enquanto olhava em volta, sentiu novamente o coração a despedaçar-se. Recordou quando lhe afagou a bochechinha, ele deitado com o seu pijama vermelho de gola bordada que Miss Griffin lhe fizera. Havia minúsculos comboios em toda a roda, bordados por Miss Griffin nos seus cuidadosos pontos azuis.

            - É impossível acreditar que uma criança possa simplesmente desaparecer no ar, não é? - lamentou-se Malcolm e ela concordou em silêncio. Olhou para ela com um ar pesaroso e a sua voz soava mais amena do que há uma hora atrás. Ali, naquele quarto, uma pessoa podia sentir-se triste, mas não zangada. Ele afundou-se lentamente na cadeira de balanço junto à cama e fixou os olhos no local onde estivera deitado o seu filho pela última vez, antes de o levarem. - Estou sempre pensando no comboio lá em baixo à espera dele. - As lágrimas deslizavam dos olhos de Malcolm à medida que ia falando e Marielle voltou-se para que ele não visse as suas próprias lágrimas. Então ele estendeu a mão e tocou na mão dela. - Desculpe o que aconteceu esta manhã. Estava exausto. E ontem também... isto tudo é um pesadelo tão grande, Marielle. O que é que vamos fazer? - Era a primeira vez que ela o via derrotado e, de repente, começou a sentir pena dele. Parecia muito pequeno, de um momento para o outro.

            - Vamos rezar para que ele volte para casa depressa. - Tentou soar calma, ao mesmo tempo que lhe apertava a mão. E, pouco depois, Haverford veio à procura dele para lhe dizer que Brigitte estava à sua espera no escritório. Malcolm continuava lutando para manter o seu trabalho em dia e Brigitte fora extremamente prestativa e compreensiva. Chorara durante horas quando ouvira as notícias e continuava sem conseguir acreditar que fosse verdade.

            Quando Malcolm saiu para ir até ao escritório, Marielle seguiu-o e voltou para o seu quarto. Pelo menos tinham feito mais ou menos as pazes. Trocou algumas palavras com Brigitte, quando se encontraram. As duas mulheres choraram e Brigitte abraçou-a calorosamente, incapaz de falar por uns momentos, antes de se afastar para ir trabalhar com Malcolm. Marielle sempre soubera quanto Brigitte adorava Teddy.

            A tarde já ia longa, quando por fim John Taylor acabou de interrogar o pessoal pela segunda vez e pediu para falar com Malcolm. Não ficara admirado com o que ouvira até então, pois Marielle avisara-o, mas mesmo assim não gostou nada. Os empregados fizeram uma descrição de uma mulher diferente daquela que ele vira na noite do rapto. De uma mulher fraca, caprichosa e assustada, sempre a esconder-se. Miss Griffin afirmara que a senhora Patterson era demasiado nervosa e ansiosa e que isso não era saudável para o menino. Na verdade, às vezes andava tão nervosa que nem sequer o queria ver e, de início, demorara bastante tempo até se adaptar à criança. Primeiro, praticamente não demonstrara qualquer interesse por ele, como se não tivesse certeza se o queria ou não. E só ultimamente começara a passar algum tempo com ele "nos intervalos das suas dores de cabeça".

            E da última vez que falara com Edith, esta chamara-lhe menina mimada, insinuando que até estava sendo branda, que Marielle gastava tanto dinheiro em roupa que até era milagre ainda não ter levado o marido à falência. Afirmou que Marielle passava o tempo todo dormindo ou a descansando e que não dedicava tempo nenhum a gerir a casa, o que também não fazia mal nenhum, pois ninguém lhe teria ligado de qualquer maneira. Frisou bem que eles trabalhavam todos para o Sr. Patterson e que já o faziam antes de ela lá chegar. E até culpou Marielle, e não Malcolm, pelo fato de ter perdido o emprego.

            A governanta não dissera quase nada, apenas que sabia muito pouco dos

hábitos da Sra. Patterson. Também tornou muito claro que a Sra. Patterson não lhes interessava. Apenas o Sr. Patterson era importante.

            A única que disse algumas palavras amáveis foi Betty. E Haverford parecia sentir pena dela, apesar de não dizer a razão, recusando-se a abrir-se com John Taylor. E, claro, a última vez que haviam interrogado Patrick, este persistira na sua história do "namorado", sobre a qual Taylor sugeriu que ele se mantivesse calado, pois havia mais coisas por trás que ele não tinha conhecimento e facilmente poderia dar consigo como testemunha material, o que, pelo menos por algum tempo, pareceu assustá-lo e fazê-lo manter-se em silêncio.

            Mas a descrição que Taylor obteve foi a de uma mulher detestada por todos, por razões que ele não conseguira aprofundar. Ela era a proscrita que confessara ser, na sua própria casa, e muito poucas das pessoas que supostamente trabalhavam para ela pareciam conhecê-la ou gostar dela. Taylor ficou com a sensação de que ela estava afastada de todos eles e desconfiou corretamente que Marielle era uma pessoa muito solitária. Quando entrou na biblioteca para falar com Malcolm, ainda não conseguira afastar aquela questão da cabeça, e mencionou o assunto na altura em que Haverford lhes trouxe um café.

            - Porque é que - serviu-se de uma colher de açúcar sem acrescentar leite e levantou os olhos para Malcolm - tantos dos seus empregados parecem não gostar da sua esposa? - Confirmou que Haverford os observava, mas o velho mordomo nada disse.

            Malcolm soltou um longo suspiro e pôs-se a olhar pela janela.

            - Ela não é uma pessoa forte, sabe... é fraca, assustadiça, e talvez eles sintam isso. Ela teve - pareceu hesitar - ahh... problemas mentais, digamos... no passado... e ainda sofre de horríveis dores de cabeça.

            - Isso não é razão para odiá-la. - Pareciam todos ter tão pouca consideração por Marielle como pessoa, como se ela não contasse, como se ela não existisse, como se trabalhassem para ele e não para ela e fizessem questão que todos soubessem disso. E John Taylor não conseguiu deixar de se perguntar se não teria sido Malcolm a provocar tudo aquilo, retirando-lhe a autoridade na sua própria casa. Ela parecia não ter qualquer controle sobre ninguém, nem sobre o filho, nem sobre o seu pessoal e muito menos sobre o marido. Até Miss Griffin admitira que nunca cumpria as ordens da Sra. Patterson. Recebia as ordens, como ela própria dizia, do pai do rapaz. Mas quando ele lhe perguntou porquê, ela não conseguiu explicar, argumentando apenas que Marielle era fraca e que não conhecia a sua própria cabeça, mas isso não fizera qualquer sentido para John Taylor. Ela não parecera fraca, quando falara com ela. O que ela dizia fazia sentido, era inteligente e educada, e o fato de sofrer de dores de cabeça não a tornava doente mental. Mas essa era a sensação que ele estava tendo naquele momento, que eles todos achavam que ela era um pouco "aluada", como se nem a sua cabeça nem o seu discernimento fossem de confiança. E ele não conseguia evitar de perguntar a si próprio o que os teria levado a pensar assim. - Não acho que alguém a odeie aqui. Que coisa horrível para se dizer. - Malcolm sorriu, gentil, mas depois olhou para ele quase com tristeza.

            - Ela não é uma moça forte e teve problemas terríveis. Quem sabe se será capaz de agüentar o choque disto tudo? Esta pode ser a gota de água num quadro mental já por si muito débil.

            - É isso que pensa? - Taylor pressentiu que ele estava querendo dizer alguma coisa, mas não tinha certeza do quê. E havia mais um assunto que ele queria abordar. Mas estava guardando-o para mais tarde. - É isso que está me dizer? - Taylor pressionava-o. - Que ela tem perturbações mentais?

            - Claro que não. - Malcolm pareceu ofendido com o insulto dirigido à sua mulher. - Estou lhe dizendo que ela é uma pessoa frágil.

            - E isso não é a mesma coisa? Não me está me dizendo que ela pode desabar com o rapto de Teddy? É essa a imagem dela nesta casa durante todos estes anos, que é "frágil", como o senhor diz, e que não deve ser levada a sério? Foi o senhor quem lhes disse isso ou eles apenas adivinharam?

            - Eu disse-lhes que eles deviam lidar comigo e não incomodá-la. - Parecia aborrecido. - Mas não vejo qualquer relação entre isso e o rapto do meu filho - rematou ele, secamente.

            - Por vezes, é muito importante traçar o quadro por inteiro.

            - O quadro por inteiro, neste caso, é que ela é uma moça frágil com um passado horrível, como o senhor sabe, e eu acabei de descobrir. Dois anos num hospício e nove anos de dores de cabeça imaginárias. - Soava impiedoso e Taylor não gostou das palavras dele. Era como se estivesse tentando anulá-la como pessoa, e de algum modo tinha transmitido essa imagem a todos os que trabalhavam para eles. Taylor desconfiava que apenas Haverford tinha uma opinião diferente.

            - Está afirmando que as dores de cabeça dela são imaginárias?

            - Estou lhe dizendo que ela é neurótica. - Fora longe demais para o que desejava e de repente ficou muito irritado com John Taylor.

            - Suficientemente neurótica para estar envolvida com Charles Delauney no rapto do seu próprio filho?

            Malcolm fez um ar chocado, mas durante bastante tempo não respondeu.

            - Nunca pensei nisso. Mas suponho que seja possível. Qualquer coisa é possível. Não sei. Já lhe perguntou?

            - Estou perguntando ao senhor. Acha que ela seria capaz de fazer uma coisa dessas? Acha que ela ainda está apaixonada por ele? - Taylor perguntava-se a si próprio até onde Malcolm iria para condenar a sua própria mulher e não gostou da resposta que este deu.

            - Não faço idéia. Terá de descobrir por si próprio.

            John Taylor assentiu com a cabeça.

            - E o senhor, qual é o seu grau de envolvimento com Miss Brigitte Sanders? - Era uma pergunta que andara guardando para Malcolm e sobre a qual queria obter uma resposta. E adorou ver a expressão de Malcolm, quando lhe fez a pergunta.

            - Desculpe - Malcolm parecia ofendido. - Miss Sanders tem sido minha secretária nos últimos seis anos, como seguramente sabe, e não tenho o hábito de me envolver com as minhas assistentes de secretariado.

            John Taylor pareceu divertido com a resposta.

            - Segundo me consta, o senhor casou com a sua última.

            Malcolm corou que nem um tomate e não pareceu nada divertido.

            - Miss Sanders tem uma reputação acima de qualquer suspeita.

            - Sem dúvida impressionante. - Taylor não pareceu nada entusiasmado e, no fundo, estava divertindo-se com a situação. Na verdade, estava adorando. - Mas os dois viajam muito juntos, até para a Europa. E reparei que até nos barcos onde viajam, ao seus quartos são sempre contíguos. - Investigara tudo em detalhes, até consultara os planos do convés.

            - Isso é perfeitamente normal, já que ela trabalha comigo. Uma vez que investigou com tanta precisão, tenho certeza de que sabe que também costumo levar a minha outra secretária comigo, a senhora Higgins. Anda pelos cinqüenta e muitos anos e tenho certeza de que ficaria extremamente lisonjeada com as suas sugestões. - Mas não era a mulher mais velha que interessava a John, era Brigitte. E também sabia que a Senhora Higgins não viajava com ele há uns bons dois anos, mas não revelou isso.

            - Peço desculpas se a pergunta é impertinente, sir. Mas da mesma maneira que tivemos de aprofundar a história da vida da sua mulher, é importante que também saibamos da sua. Uma amante irritada é capaz de fazer coisas muito cruéis.

            - Miss Sanders não está irritada com nada nem é minha amante, posso assegurar-lhe. - Ainda estava corado pelas sugestões que Taylor fizera, Continuaram conversando por pouco tempo sobre o envolvimento de Malcolm com a Alemanha, os seus negócios nos Estados Unidos e a hipótese de ter feito inimigos em algum dos seus negócios. Mas parecia não haver nada que valesse a pena referir. A conclusão a que Taylor chegou ao fim de tudo foi que Teddy fora raptado ou por dinheiro ou por vingança. Se fosse por dinheiro, teriam notícias dentro em breve. Se fosse por vingança, teria de ser Charles, e John rezava para que Delauney não fizesse mal ao menino.

            Voltaram a referir Delauney e Taylor reiterou que não havia provas contra o homem, nada que o relacionasse com a criança ou com o crime, com exceção dos disparates que dissera a Marielle. E não podia prender um homem por ser estúpido. Tinha um álibi, não havia provas e, mesmo que tivesse um motivo, era tudo bastante inconsistente.

            - Continuo achando que é o nosso homem - afirmou Malcolm solenemente, enquanto acompanhava John à porta, e o agente concordou.

            - Infelizmente, eu também. E se for, esperemos que consigamos apanhá-lo.

            Malcom deixou-o à porta e Taylor abriu caminho à força através do amontoado de jornalistas no exterior. Por fim, duas horas depois, quando Malcolm e Marielle estavam sentados a jantar na sala de jantar, o telefonema chegou.

            Dois polícias atenderam, fingindo serem empregados, ligaram imediatamente o gravador e, no momento em que Malcolm falou com um tom de voz inocente, já estava tudo funcionando. Haviam pedido para falar com ele numa pronúncia gritante, que se percebia ser proveniente ou do sul do Bronx ou do leste de Jersey.

            - Sim, fala o senhor Patterson. - Quatro agentes e Marielle ouviam a conversa em várias extensões. - Quem fala?

            - Tenho aqui um amigo... um garotinho com um pijama vermelho. - Marielle, que ouvia com a mão tapando o auscultador, sentiu-se tonta. Haviam-no levado exatamente quarenta e oito horas antes e chorava, agarrada ao telefone com a mão trêmula.

            - Como está ele? - Malcolm ouvia com os olhos fechados.

            - Está ótimo. Tem um bocado de frio, acho. Precisamos de dinheiro para comprar roupas para o garoto.

            - Posso falar com ele? - pediu Malcolm calmamente, mas o policial que o observava reparou que tinha a mão tremendo.

            - Nã... está dormindo. Primeiro vamos falar de dinheiro.

            - De quanto é que precisa?

            - Oh... eu diria que cerca de duzentos mil dólares dava para comprar um bom cobertor. - Era uma quantia quatro vezes maior do que a que os Lindbergh tinham pago e valia a pena. - Em notas sem marcas, espertinho. Num cacife na Grand Central Station. Deixe lá o dinheiro. Não quero tiras envolvidos. Não quero notas marcadas. Não quero brincadeiras. Deixe lá o dinheiro pelo tempo que demorarmos para o ir buscar. E quando estivermos prontos, levamos o garoto de volta.

            - Como é que eu sei que ele está bem agora?

            - Não sabe. - A voz soava áspera e repulsiva. - Mas se me tentar qualquer coisa, se disser aos tiras, se fizer alguma coisa... nós matamos o garoto. - Enquanto ouvia, Marielle tinha a impressão de que a sala rodava e o suor escorria pelo rosto de Malcolm, quando este desligou. Anotara todas as instruções e de qualquer maneira a chamada ficara gravada.

            John Taylor chegou menos de meia hora depois, Malcolm ainda estava pálido e Marielle não parara de tremer. Não os tinham deixado falar com a criança e Taylor lembrou-lhes que não havia maneira de saberem se a chamada era verdadeira ou se fora feita por algum maníaco ou por alguém com vontade de ganhar dinheiro fácil. As pessoas eram cruéis e às vezes queriam participar da emoção. Mas pelo menos era uma esperança, algo a que se podiam agarrar, e, quando Taylor saiu, Malcolm pousou a cabeça entre as mãos e começou a soluçar.

            Era a única esperança que tinham de voltar a ver Teddy à meia-noite dessa mesma noite o dinheiro já estava à disposição. O Serviço de Informações do Departamento do Tesouro transferira meio milhão de dólares em notas marcadas para a conta de Malcolm no dia anterior e Taylor telefonou ao presidente do banco e pediu-lhe para libertar duzentos mil. Com esse dinheiro encheram uma pequena mala de pele de crocodilo e, às duas da manhã estava tudo a postos num cofre na Grand Central Station. Tinham recebido instruções para porem um anúncio no Daily Mirror quando a mala estivesse no lugar. Na manhã seguinte, o anúncio saíra onde devia e centenas de polícias à paisana pululavam pela Grand Central Station, andando para a frente e para trás, dormindo em bancos, comendo cachorros-quentes, lendo revistas, como qualquer outra pessoa, e à espera que alguém viesse buscar o resgate. Porém, após três dias, tornou-se óbvio que ninguém iria pegar o dinheiro. A chamada acabou por se revelar uma brincadeira cruel e, à medida que a esperança se desvanecia, Marielle nem sequer conseguia sair da cama. No sábado estava pálida e Malcolm ainda tinha pior aspecto. A tensão era visível nos dois e, de algum modo, parecia tudo ainda pior, pois só faltavam seis dias para o Natal. A perspectiva de passar o Natal sem ele era ainda mais agonizante. Malcolm fitava Marielle através da mesa de jantar com a comida intacta.

            - Porquê? Porque não vieram buscar o dinheiro? - Marielle andava obcecada com a chamada e a ameaça de matarem Teddy, se algo corresse mal. E se o tivessem feito? E se tivessem entrado em pânico e o tivessem morto?

            - Taylor diz que foi uma brincadeira. - Estava novamente sendo incisivo com ela. Mas ele também já não agüentava a pressão. - Continuo a achar que foi o Delauney.

            - Então porque é que não encontram alguma coisa, raios? Por Deus, porque é que não conseguem descobrir quem fez isto! - Levantou-se e regressou ao andar de cima, incapaz de continuar ali sentada por mais tempo. Até a presença já familiar de John Taylor deixara de ser tranqüilizante e, no dia seguinte, Malcolm implorou-lhe que fosse fazer outra busca à casa de Delauney e Taylor prometeu que iria.

            Era a noite de domingo, precisamente uma semana depois do rapto, quando encontraram o que procuravam. Estava na garagem da mansão dos Delauney, na adega, escondido atrás de umas caixas velhas. Um dos policiais descobriu o que de inicio pensou ser um farrapo, não tinha melhor aspecto que isso, mas quando afastou a caixa viu-o e elevou-o com um ar espantado, percebendo então que encontrara o que andavam à procura. Era um pijama vermelho de criança com pequenos bordados azuis na gola. Subiu as escadas o mais depressa que pôde e pediu para falar com o agente Taylor, mostrando-lhe o que havia encontrado. Taylor ficou a olhar para o pijama durante algum tempo e depois pôs-se a pensar onde estaria a criança e o que Delauney teria feito com ela. Havia muitas coisas por esclarecer a partir daquele momento.

            Voltou para junto de Delauney e mostrou-lhe o que tinham encontrado. Charles escondeu a cabeça entre as mãos e jurou que não fora ele.

            - O meu próprio filho morreu há anos. - Levantou o olhar implorante para John. - Eu sei como é... porque haveria de fazer isso a outra pessoa? - Não fazia sentido e John, do fundo do coração, tinha esperança que não tivesse sido Charles o autor do rapto.

            John Taylor algemou-o e pouco depois já se encontravam na prisão da cidade, o pijama vermelho cuidadosamente selado num invólucro na mão de Taylor e Charles Delauney preso sob acusação de rapto.

            John telefonou a Malcolm e a Marielle, e ela desatou a chorar quando ouviu que tinham encontrado o pijama de Teddy.

            - Mas onde está ele? - Era só isso que importava.

            - Ainda não sabemos. Vamos interrogar Delauney agora. Mas quis trazê-lo para interrogá-lo aqui, pois podemos ser mais duros. - Ambos sabiam que John Taylor estava falando sério. - Telefone se descobrir alguma coisa. - Mas isto explicava o fato de não ter havido pedidos de resgate verdadeiros. Charles fizera-o por vingança ou por raiva ou para ficar com Marielle, e certamente não precisava do dinheiro deles. Tinha a única coisa que queria: o menino. Mas a verdadeira questão era: o que lhe teria feito depois de raptá-lo? E onde estaria naquele momento? E pior que tudo... ainda estaria vivo?

            Marielle tinha o coração despedaçado, quando John Taylor desligou, e não conseguiu deixar de imaginar o que Malcolm estaria pensando. Este não lhe dirigiu uma única palavra. Apenas subiu as escadas e fechou a porta do seu quarto em silêncio.

 

            Quando a informação relativa à prisão de Charles Delauney se espalhou, a imprensa perdeu a cabeça e, na manhã seguinte, havia dez vezes mais jornalistas à porta da casa dos Patterson.

            Malcolm só saía sob forte escolta policial. Os jornalistas também já perseguiam John Taylor e o chefe da Polícia. Queriam saber tudo. Eram notícias escaldantes e eles queriam a história. O herdeiro de uma das maiores fortunas do país fora preso, acusado de rapto... mais ainda, era um crime passional, uma saga de vingança... o acusado fora casado com a atual mulher do descendente de outra família nobre e considerava-a responsável pela morte do filho de ambos. Não obstante todos os esforços empreendidos por Taylor, a notícia transpirara e, pelo Natal, o escândalo já estava na boca da opinião pública e totalmente fora de controle. Por essa altura Charles já se encontrava sob custódia no Quartel-General Federal de Detenções há cinco dias e ainda não havia notícias de Teddy. Delauney continuava a jurar que não fazia idéia do paradeiro dele e que não tivera nada que ver com o rapto, o que levou John Taylor a temer que este o tivesse assassinado. Para seu próprio desgosto, acabou por dar essa informação a Malcolm e Marielle na noite de Natal. Mas naquela altura tinha certeza de que a teimosia de Delauney em relação ao crime significava que o cometera por vingança e, na sua opinião, era mais do que provável que Charles o tivesse assassinado.

            - Oh, meu Deus! - O corpo de Malcolm oscilou da cabeça aos pés, quando Taylor lhe contou, mas daquela vez Marielle manteve-se firme, pondo o braço à volta dele como que para acalmá-lo. Há alguns dias que não tinha uma enxaqueca e a sua vida rodava em torno da espera de notícias de Teddy.

            - Eu não posso acreditar nisso - replicou ela com serenidade, em resposta às novidades de Taylor. - Não posso acreditar que nunca mais voltaremos vê-lo. Independentemente do que o Charles tenha feito, não acredito que ele o tivesse morto.

            - Sê razoável! - gritou-lhe Malcolm na presença de John Taylor. - Quando é que vai entender que o homem o levou para se vingar da morte do seu próprio filho? O filho dele morreu e o meu também... - E pela maneira como ele falou não havia dúvida de que a culpava por tudo. John Taylor também ouviu a insinuação, mas não podia fazer nada para ajudá-la. Desejou poder segredar-lhe "seja forte" ou abraçá-la, antes de sair da sala. Mas não podia dizer nada. Apenas lhe apertou a mão imperceptivelmente, saindo de seguida acompanhado por Malcolm. Naquele ano o Natal nem sequer existiu para eles; não houve troca de presentes nem de pensamentos ou sentimentos calorosos. A casa não foi decorada e o quarto de Teddy era como um pequeno altar de veneração por tudo o que haviam perdido. Parecia que ambos iam até lá com freqüência para renovar a esperança e a determinação. Marielle não podia acreditar que nunca mais o iria ter nos seus braços, não podia acreditar que ele tivesse desaparecido... não era possível... Charles não seria capaz disso.

            Depois de John sair, passou a noite em claro e decidiu o que tinha de fazer. Na manhã seguinte, quando Malcolm saiu para tratar de negócios, mandou que lhe preparassem o carro e pediu a um dos polícias para conduzi-la à prisão. De início ficaram um pouco confusos, mas depois de falarem com o sargento do comando acederam.

            Fizeram-na sair sigilosamente pela porta dos criados, num vestido e chapéu pretos, um casaco de peles antigo, da sua mãe, e o carro avançou a custo por entre os jornalistas estacionados no exterior da casa, em direção à prisão, com Marielle tremendo sentada no banco de trás entre dois polícias. Não saía de casa desde a noite do rapto e era aterrorizador abrir caminho à força por entre a multidão e ser conduzida a uma esquadra da Polícia por quatro agentes. Mas ela sabia que tinha de fazer aquilo. Dissessem o que dissessem, ela tinha de vê-lo.

            Charles estava detido há seis dias. Tinham apresentado uma queixa formal contra ele quase de imediato. Taylor ainda não perdera as esperanças de obter uma confissão, ou pelo menos de saber o paradeiro da criança através dele, se conseguissem forçá-lo a falar. Porém, até àquele momento, ele não desistira de manter o silêncio. Quando Marielle chegou, havia uma multidão de jornalistas nos degraus da frente da esquadra e, mal a viram de relance, perderam a cabeça, mas a escolta abriu caminho e pouco depois ela se encontrava no interior, ofegante e  tremendo. Explicou quem viera visitar, ao que se seguiu uma série de consultas em sussurro e comentários murmurados.

            Não era dia de visita e era uma situação extremamente irregular, mas ela disse-lhes quem era e que tinha de vê-lo.

            Por fim, um dos sargentos de serviço levou-a para dentro e deixou-a num pequeno compartimento vazio, fazendo entrar Charles dez minutos depois. Trazia umas calças grosseiras, uma das suas camisolas, umas botas que pareciam da tropa, tinha a barba ligeiramente crescida de alguns dias e uma expressão nos olhos que ela não via há anos, uma expressão de dor e de sofrimento que lhe dizia o que ela viera saber mesmo antes de lhe perguntar alguma coisa. Ele começou a chorar mal a viu. O guarda deixou-os a sós no compartimento e ele agarrou-a e abraçou-se a ela.

            - Não fui eu, Marielle... eu juro... nunca faria uma coisa dessas... eu havia perdido a cabeça. Estava bêbedo nesse dia... não sei... só de te ver ali com ele... me lembrou o André...

            - Eu sei... eu sei... shhh... eu tinha de falar com você. - Afastou-o para poder olhar para ele e sentiu-se feliz por ter vindo. Precisava ouvir da boca dele o que na realidade acontecera. Ele sentou-se devagar e ela o fez à frente dele e fitou-o. Tinham chegado tão longe e a dor que existia entre eles ainda era tão grande. - O que é que aconteceu?

            - Eu não sei. Eles dizem que encontraram o pijama dele na minha garagem. Por Deus, Marielle... diga-me que não acredita que é verdade...

            - Como é que foi lá parar?

            - Não sei. juro por Deus que não sei... sou um idiota... fui horrível para você... estava errado... estava doido... mas passei o resto da minha vida tentando expiar o meu erro; nunca fiz mal a ninguém... lutei pelos meus amigos, estava disposto a morrer pelas causas deles, pois não tenho mais nada a perder.. porque iria fazer-lhe mal? Porque iria te fazer mal? Já te fiz muito mal e por Deus... - Soluçava enquanto ela lhe dava as mãos. - Ainda te amo...

            - Eu sei - sussurrou; ela também ainda o amava. Mas ainda amava mais Teddy. Era o seu bebê. - Mas onde está ele?

            - Juro que não sei. - Levantou então os olhos para ela: uns olhos claros, profundos e verdadeiros, e acreditou nele

            - Eu juro, Marielle, mesmo se eles me matarem. juro que não sei de nada sobre o rapto do menino. Espero que o encontre, por você. Apesar de todos os disparates que te disse, você merece.

            Ela assentiu.

            - Obrigada. - Como teriam chegado àquele ponto? Como acontecera tudo aquilo?

            O guarda regressou e disse que ela tinha de ir embora. Ela anuiu, levantou-se e Charles lançou-lhe um olhar prolongado e intenso, antes de sair.

            - Acredita em mim - foi tudo o que ele disse. Soava verdadeiro. Mas se não tinha sido ele, quem teria sido? Naquele momento não estava mais perto da verdade do que estivera antes de lá ir. Mas, pelo menos, sabia que não fora Charles Delauney. E quando ia sair do pequeno compartimento, ficou espantada por ver John Taylor, que vinha na sua direção. Ele era do FBI, não era da Polícia, e não tinha nada a fazer ali, apesar de ela ter partido do princípio de que ele viera ver Charles, mas a sua expressão era sombria, ao encaminhá-la para um gabinete privado.

            - O que é que está fazendo aqui? - Parecia zangado com ela, quase tão zangado como Malcolm ficaria, mas, de qualquer modo, ela estava contente por ter vindo. Valera a pena.

            - Tinha de vê-lo.

            - Você é louca.

            Ela abanou a cabeça, sabendo que não era.

            - Ele diz que não o fez. E eu acredito nele. - Ela precisara saber, de perguntar, de vê-lo.

            - E o que é que acha que ele iria dizer? Que o matou? - Ela vacilou ao ouvir aquelas palavras, mas ele estava zangado com ela por ter vindo ver Charles. - Ele não lhe diria a verdade. Tem a cabeça a prêmio e neste momento fará tudo o que puder para a salvar.

            - Porque é que ele iria mentir?

            - Porque é que ele iria dizer-lhe a verdade? Há demasiado em jogo para ele. Marielle, ouça-me, mantenha-se afastada daqui. Mantenha-se afastada dele. Se conseguirmos, encontraremos o seu filho, mas este homem não pode fazer nada por você. Só lhe trouxe dor... deixe-o em paz... - Não lhe cabia a ele dizer, mas sabia que ela estava sendo enganada. Naquele momento já sabia demais sobre Charles Delauney.

            O seu desregramento na Espanha, os desvarios a que se entregava de tempos em tempos... o fato de lhe ter batido quando ela... o fato de ainda a amar. Nem sequer estava certo da sanidade mental dele.

            Ainda estavam para examinar esse aspecto. Mas John não queria que ela ficasse ainda mais magoada. E, quando a imprensa tivesse conhecimento desta visita, iria ganhar o dia. - Venha, eu vou levá-la para casa. - Ela assentiu, já disposta a ir. - E da próxima vez que quiser fazer uma visita destas, telefone-me primeiro.

            - E o que é que você vai dizer? - Sorria, enquanto ele a encaminhava para o exterior. John mandara pôr o carro a trabalhar e só tinham de dar uma corrida em flecha até ao carro, sob a chuva de disparos dos fotógrafos. Mais tarde iria haver uma fotografia dela a entrar no carro, com John Taylor atrás. - O que é que teria dito se eu lhe tivesse pedido para me trazer aqui? - Perguntou ela, ao mesmo tempo que se instalavam no banco de trás do carro, e ele franziu as sobrancelhas.

            - Teria dito que não. Sem qualquer dúvida.

            - Foi por isso que não lhe telefonei. - Ela sorriu. Mas sentia-se aliviada. Acreditava em Charles. Talvez a culpa não fosse toda dela. E John Taylor, sentado a observá-la, pensava em como ela era uma mulher deslumbrante e em como gostava dela. Muito mais do que devia.

            - Da próxima vez que tiver uma idéia destas, levo-a a dar uma volta de carro e prego-lhe um bom sermão - avisou ele, como se estivesse a ralhar com uma criança.

            - Era isso que eu temia - replicou ela com serenidade e depois não abriu mais a boca durante o caminho até casa.

            Durante o caminho para a parte residencial da cidade, Taylor observava-a, sentindo uma profunda pena dela. Sabia como estava desesperada para encontrar o filho e começava a acreditar que não iriam conseguir. Também começara a ter o mesmo pressentimento no caso Lindbergh e desejara ardentemente estar errado, mas no fim, acabou por estar certo.

            Quando chegaram a casa, entraram correndo pela cozinha e ela agradeceu-lhe por tê-la acompanhado. Mas na manhã seguinte Malcolm não ficou tão agradecido. A visita de Marielle a Charles na prisão estava estampada em todos os jornais, com fotografias dela por todo o lado, incluindo uma com o braço de John à sua volta no momento em que entravam no carro. Quando Malcolm chegou a casa estava lívido.

            - O que foi isto, Marielle?

            - Ele estava protegendo-me da imprensa - explicou ela, tranqüila. E John estava certo. Os fotógrafos tinham ganho o dia.

            - Ele parece estar gostando. Foi idéia dele te levar para ver Delauney?

            - Não, a idéia foi minha. Encontrei-o lá. E Malcolm... lamento. Eu tinha mesmo vê-lo... queria ouvir da boca dele.

            - E ele te contou como é que matou o teu filho? Ele te contou essa parte? Ou pôs-se a chorar pelo seu próprio filho? - Malcolm estava enraivecido.

            - Malcolm, por favor...

            - Por favor o quê... o teu amante... o teu ex-marido, o teu o que quer que lhe queira chamar, pega no meu filho e você quer que eu sinta pena dele? Foi isso que foi fazer? Dizer-lhe que tem muita pena dele? Sabe de quem é que eu tenho pena? Tenho pena do Teddy... do nosso menino, que provavelmente estará morto, que pode muito bem ter sido espancado ou apunhalado ou terem-lhe partido alguma coisa ou magoado... - Ela gritava ao mesmo tempo que ouvia, tapando as orelhas com as mãos, incapaz de suportar aquilo por mais tempo.

            - Pára! Pára! Pára! - Disparou da sala de jantar aos gritos e foi para o seu quarto. Era demais para ela. Estavam acontecendo demasiadas coisas. E todos pareciam censurá-la. A culpa era dela por conhecer Charles, por ter sido casada com ele, por não ter conseguido salvar o seu filho. Charles também a culpava por isso, e agora Malcolm culpava-a pelo rapto de Teddy.

            John Taylor veio vê-la nessa tarde e foi suficientemente delicado para não mencionar o furor que ela provocara na imprensa, mas também não tinha mais notícias para lhe dar. Tinham tornado a fazer uma busca na casa de Charles, por precaução. E dessa vez encontraram um dos brinquedos de Teddy, um ursinho de pelúcia, escondido no quarto do próprio Charles. Já não restava qualquer dúvida. E, dessa vez, até Marielle acreditou neles.

 

            Em meados de janeiro, os preparativos para o julgamento já estavam sendo diligenciados e continuava a não haver notícias de Teddy. Haviam passado três semanas e meia desde o seu desaparecimento e Malcolm voltara a Washington por alguns dias, para assistir a uma sessão secreta conjunta dos comitês para os assuntos militares da Câmara dos Deputados e do Senado e para se encontrar com o embaixador americano na Alemanha, Hugh Wilson, que se encontrava em casa, para uma breve estada.

            Marielle estava sozinha em Nova Iorque, dentro de casa, rodeada de guardas, e já não via John Taylor há quase uma semana. Uma daquelas tardes, ela estava tratando de uns papéis, tentando manter o pensamento afastado de Teddy e não ir ao quarto dele. Não agüentava ouvir rádio. Ou se ouviam notícias do julgamento, o que a irritava, ou os programas preferidos de Teddy, como The Lone Ranger, que a faziam chorar e a deprimiam. E Marielle acabara por odiar a visão de Shirley Temple, pois fazia-lhe lembrar Teddy. Finalmente haviam despachado Miss Griffin para umas curtas férias junto da irmã em Nova Jersey. Esta também já estava quase histérica. E para Marielle era um alívio não ter de olhar para ela quando ia lá acima.

            Agora já podia ficar sozinha no quarto dele, com as roupas dele, os brinquedos, os utensílios, como a escova do cabelo. às vezes ficava lá horas seguidas a tocar nas coisas dele ou sentada na sua cadeira preferida ou deitada na cama dele, tentando não pensar na última noite que ele passara lá.

            Nesse dia, Haverford apareceu na biblioteca no momento em que ela punha de lado o último papel. O olhar de Haverford era suave e amável. Tinha imensa pena dela, apesar de nunca se atrever a dizê-lo.

            - Há uma pessoa que quer vê-la. Uma certa Miss Ritter. Diz que tem hora marcada.

            - Não conheço ninguém com esse nome.

            - Conhece sim. - Quando ouviu o som daquelas palavras, Marielle voltou-se e viu uma mulher jovem entrando no quarto onde estava trabalhando. Era de estatura pequena, tinha cabelo ruivo, pareciam mais ou menos da mesma idade, e a moça não lhe era estranha, apesar de Marielle não conseguir localizá-la. E de um momento para o outro deu consigo a rezar para que se tratasse de qualquer tipo de ameaça ou pedido de extorsão, alguém que a pudesse levar até ele, mas essa esperança já quase se desvanecera.

            O resgate nunca fora buscado e continuava guardado no cofre da Grand Central Station.

            - Quem é a senhora? - Marielle parecia confusa e Haverford pôs-se a postos para defendê-la, se fosse caso disso. E então, de repente, Marielle lembrou-se. Reconheceu-a como a jornalista que daquela vez, no início de tudo, forçara a entrada na casa, e quando lançou um olhar ao mordomo, a moça pareceu assustar-se.

            - Posso falar com você a sós?

            - Não... desculpe... não pode. - Marielle soava bem mais corajosa do que se sentia. A moça parecia muito arrojada e segura de si própria e Marielle estava sendo muito cuidadosa.

            - É importante, por favor... - implorava a moça. Vestia outro dos seus vestidos absurdos.

            - Acho que não. Como é que entrou aqui?

            - Marcamos uma entrevista para esta tarde. – Tentava ser descarada, mas Marielle não se deixou levar na conversa. Não tinha entrevistas marcadas de qualquer espécie há mais de um mês, exceto com investigadores e agentes da Polícia.

            - Lamento, Miss...

            - Ritter. Beatrice Ritter. Bea. - Sorriu, tentando encontrar alguma coisa a que se pudesse agarrar para captar o interesse de Marielle e esta lhe pedisse para ficar, mas Marielle não se deixou convencer.

            - ... vai ter de sair... - Por um momento, a moça pareceu amargamente desapontada e depois assentiu.

            - Eu percebo. Só queria falar com você sobre o Charles. - Ouvir o som do nome dele foi como que uma corrente elétrica a atravessar o compartimento e Marielle fitou-a.

            - Porquê?

            - Porque ele precisa de você. - Era tudo demasiado complicado para poder ser discutido com uma estranha.

            - Madame?... - Haverford lançou-lhe um olhar inquiridor e, sem saber porquê, Marielle decidiu deixar a moça ficar, nem que fosse por um instante. Assentiu com a cabeça e ele deixou-as a sós, não sem primeiro alertar dois polícias à saída, que Marielle viu perto da porta.

            - Não entendo porque está aqui. Foi o Charles que a mandou falar comigo? - Não sabia nada dele desde a sua visita à prisão, nem desde que tinham encontrado o ursinho que finalmente a convencera da culpabilidade dele.

            Bea Ritter queria ser sincera com ela e percebeu que tinha de ir direto ao assunto, antes que lhe pedissem que se retirasse. O próprio Charles dissera-lhe que Marielle nunca a receberia.

            - Sou da Associated Press. E não acho que ele tenha cometido o crime. Quero ver se posso ajudar a descobrir quem foi. Queria saber se me ajudaria. - Foi tão clara e tão concisa quanto conseguiu ser.

            - Receio bem que não possa concordar com você, Miss... Ritter. - Tentava lembrar-se do nome dela. - Eu também não achava que ele tivesse cometido o crime, mas já encontraram dois objetos que o ligam ao meu filho, o pijama que ele vestia quando o levaram e o seu ursinho de pelúcia preferido. E não apareceu mais ninguém. - Para Marielle já não restavam dúvidas.

            - Talvez os verdadeiros raptores estejam com medo e tenham boas razões para não aparecerem. Tem de haver uma razão. - Bea estava convencida da inocência de Charles. Passara horas com ele e não acreditava que fosse capaz de cometer aquele crime. Mas Marielle já não cria na inocência dele. Levantou-se com serenidade, dando a entender que desejava que a moça a deixasse.

            - Receio bem que não possa ajudá-la. - Os seus olhos estavam cheios de dor, o coração demasiado pesado. Não queria ouvir aquela moça defendendo Charles. Tudo o que queria era ter o seu filho de volta.

            - Acredita que ele tenha sido capaz? - Tinha de saber. Queria saber se Marielle acreditava nele. Mas Marielle tinha medo do que ela pudesse escrever nos jornais.

            - Acredito que ele seja capaz. Não há outra resposta possível. E ele ameaçou fazê-lo. - Estava firmemente convencida, mesmo que a moça não estivesse. Após todos aqueles anos, o seu coração acabara por endurecer em relação a Charles Delauney.

            - Ele estava embriagado. - Era evidente que ela falará com ele e Marielle sentia-se incomodada com a persistência dela. Era inteligente e forte e extremamente determinada. Prendia o cabelo num pequeno coque, vestia um casaco barato azul-escuro com um vestido combinando e um chapéu ridículo com uma flor vermelha, mas, de um modo estranho e exuberante, era bonita.

            - Estar embriagado não é desculpa. Lamento... - Dirigiu-se para a porta e Bea Ritter não se mexeu.

            - Senhora Patterson, ele a ama... - As palavras detiveram-na e Marielle voltou-se, fitando-a zangada.

            - Foi ele que lhe disse isso? É óbvio. Há anos que isso não é óbvio para mim e eu não quero ouvir. - Após todo aquele tempo estava finalmente muito zangada com ele e mortalmente ferida pelo que ele lhe fizera. Mas Bea Ritter recusava-se a partilhar o ponto de vista de Marielle.

            - Ele é inocente. - Estava tão determinada, tinha tanta certeza, que quase fez com que Marielle se sentisse assombrada enquanto a ouvia, mas não queria voltar a sentir-se perseguida por Charles. Ele levara o seu filho.

            - Como se atreve a dizer que ele é inocente! Se assim for, onde está o meu filho?

            - Ele não sabe. Ele jura. - Os olhos dela nunca se desviaram do rosto de Marielle. - Se Charles soubesse, nos contaria.

            - Você nem sequer o conhece. - Mas ela conhecia-o melhor do que Marielle pensava. Passara horas com ele, na prisão, depois de subornar dois polícias. De início fora apenas uma história, uma entrevista, mas por qualquer razão estranha acreditou nele. Tinha certeza de que ele estava dizendo a verdade e prometera a si própria que iria fazer tudo o que estivesse ao seu alcance para ajudá-lo. Na verdade, até fora ter com Tom Armour a pedido dele, implorando-lhe para que aceitasse representar Charles. Os dois conheciam-se já de alguns anos, mas até àquele momento, Armour recusara-se a atender todas as chamadas e cartas de Charles. Fora Bea que fizera mudar a maré, que implorara em nome dele - que convencera o jovem advogado criminal de que Charles estava mesmo inocente, não obstante o caso estar bastante mal para o seu lado. E fora ela que lembrara a Tom que, se ele não aceitasse o caso e Charles perdesse, este seria condenado à morte... um homem inocente, insistindo ainda que Tom seria determinante para o caso. Graças a Bea Ritter, Tom Armour aceitara finalmente a representar Charles.

            - Vai ajudar-me? - Os olhos dela imploravam e Marielle não queria ouvi-la, tal como Tom Armour não quisera, mas tivera de ouvir. Bea Ritter era desconfortável mente convincente.

            - Encontre o meu filho e eu acreditarei em você - disse Marielle com frieza.

             Vou tentar. - Por fim, Bea Ritter levantou-se. - Posso telefonar-lhe se surgir alguma coisa? - Marielle hesitou e depois, apesar de tudo, assentiu com a cabeça.             Obrigada. - Bea deteve-se por uns momentos olhando para Marielle, como se estivesse refletindo sobre tudo o que ouvira, e depois tornou a agradecer-lhe e saiu, seguida pelo olhar de Marielle.

            Marielle ainda se encontrava sentada na secretária, pensando em si e sentindo-se infeliz, quando John Taylor chegou com o promotor público. Era um homem de estatura alta, magro, reservado com um aspecto algo assustador, que parecia ter certeza absoluta de que Charles Delauney raptara o seu filho e que até tinha certeza de que ele o matara. Marielle vacilou, quando ouviu as suas palavras, e John Taylor sofria ao vê-la assim. Era bem diferente do grito de socorro lançado por Bea Ritter em favor de Charles.

            O promotor público referiu que o julgamento estava marcado para Março, que previa um veredicto de culpado e que esperavam toda a colaboração dela e do marido.

            - O que é que isso quer dizer, senhor Palmer?

            - Quer dizer que estou à espera que a senhora esteja presente no julgamento, que fique lá sentada e que faça com que os jurados se interessem pelo caso. Queremos que eles sintam o que significou para a senhora a perda do seu menino, para que condenem o senhor Delauney. E, se tivermos sorte e conseguirmos confirmar ou mesmo comprovar que ele atravessou os limites do estado com o menino, ganharemos a pena de morte, senhora Patterson, nada mais, nada menos. - A maneira como ele falou fê-la estremecer. Também lhe fez sentir que iria tentar condenar Charles mais com base nas emoções do caso do que nos fatos.

            E era preocupante para ela ser "exposta" durante o julgamento. A Taylor também não lhe agradava, mas entendeu a situação. Bill Palmer era um promotor público muito respeitado, mas como ser humano não dava muito por ele. - Claro que, se nessa altura já tivermos encontrado o seu filho, também gostaríamos de o ver no tribunal, mas apenas por pouco tempo. - Marielle ficou ali sentada pensando como adoraria que isso acontecesse. Se ao menos conseguissem encontrá-lo e ele pudesse estar presente.

            - Mais alguma coisa? - Estava sendo brusca com ele, pois as palavras eram tão horríveis, mas ele não pareceu perceber, levantando-se e preparando-se para sair.

            - Contataremos com a senhora. - Ajustou os óculos, encarou-a fixamente, como se estivesse avaliando se daria uma boa testemunha, e agarrou a sua pasta. - Gostaria de falar com o seu marido quando ele voltar de Washington; faça o favor de informá-lo.

            - Eu lhe direi. - Ele saiu, Taylor deixou-se ficar e ela soltou um suspiro, ao mesmo tempo que se sentava no sofá. Tinha sido um mês interminável, uns tempos hediondos, e continuavam a não fazer idéia do que acontecera a Teddy. Não houvera telefonemas, nem informações, apenas algumas pistas erradas e uma série de indivíduos desequilibrados, desde New Hampshire a Nova Jérsei.

            - É gentil. - Estava referindo-se ao promotor público e Taylor riu, ao mesmo tempo que acendia um cigarro e a observava. Ela era uma cúmplice, entre outras coisas, quando a vida não a subjugava até à extinção.

            - Ele é bem melhor na sala de audiências do que na sala de visitas.

            - Sorte a dele. - E depois fitou-o inquisitivamente. Sem saberem como, tinham se tornado amigos. Por vezes sentia que ele era o seu único aliado. - Presumo que o julgamento vai ser mesmo horrível.

            - Vai ser duro. E eles vão expor coisas da sua vida de uma maneira que não irá gostar... pelo menos a defesa, talvez a sua estada na clínica ou qualquer coisa parecida. Têm de fazer o possível para a desacreditar.

            - Porquê? Eu não estou acusando o Charles. - Apesar de nos últimos tempos estar convencida da culpa dele, pelo menos quase sempre. Só tinha dúvidas de vez em quando. Então, contou a John o que acontecera com Bea Ritter.

            - Afaste-se disso. Apenas ficará magoada. Todas as informações que a imprensa conseguir serão deturpadas e usadas para a apunhalar pelas costas. - Ela concordou. Mas e se a moça dos chapéus esquisitos tivesse razão? Era tão inteligente, tão intensa e tão séria. - às vezes não sei o que pensar - admitiu ela, deprimida. - E o que é que isso interessa? O Teddy desapareceu. Tudo o resto é tão insignificante. - Enquanto falava os seus olhos eram tão grandes e tão tristes. Perdera três filhos no decorrer de uma vida tão curta.

            - Para o Charles não é insignificante. A vida dele está em jogo. Irá agarrar-se a tudo o que puder para sobreviver. Escolheu um bom advogado. Um homem chamado Tom Armour. Inteligente, jovem, consegue ser brutal na sala de audiências., Se alguém for capaz de salvar o pescoço de Delauney, então esse alguém é ele.

            - Não sei se fico contente. já não sei o que pensar.

            - O Malcolm diz que foi ele. E quando encontraram o urso... - Os olhos dela encheram-se de lágrimas e pestanejou para as afastar. - Mas não sei... quando fui visitar o Charles, acreditei quando ele disse que não foi ele. Mas se não foi ele, onde está o Teddy? - Era a única pergunta à qual ninguém conseguia responder e Taylor, enquanto a observava, sentiu-se tão atraído por ela que mal a ouvia. Nunca se sentira assim por ninguém, nem sequer pela mulher, e muito menos pelas mulheres com quem lidava normalmente nas investigações; mas havia algo nela que o desorientava. Algo tão vulnerável e delicado que, quando estava perto dela, só tinha vontade de se aproximar e acariciá-la.

            - Quem me dera saber a resposta a essa pergunta - confessou ele por fim, mas os seus olhos acariciavam-na à medida que lá fora ia ficando escuro e os dois permaneciam sentados no sofá. Era mais uma noite fria e ela encontrava-se só, como sempre. Malcolm estava fora e, não obstante a presença da Polícia por todo o lado, a casa parecia tão vazia e tão solitária. Taylor gostaria de poder levá-la para jantar a algum lugar onde houvesse barulho e risos e fumo e música. Gostaria de poder afastá-la de tudo, de homens que lhe batiam e lhe destroçavam o coração, dos outros que a ignoravam. Sabia mais de Malcolm Patterson naquele momento do que gostaria e de uma coisa tinha certeza, que Marielle recebia menos do que merecia, por parte de todos. E John Taylor gostaria de poder mudar as coisas. - Gostaria de poder apagar tudo isto da sua vida, Marielle. - Não era muito profissional da sua parte dizer aquelas palavras, mas ela sentiu-se profundamente comovida.

            - É gentil da sua parte. Eu também, acho... Costumava acreditar que as coisas difíceis aconteciam por uma determinada razão. Não tenho certeza de continuar acreditando nisso. Já me aconteceram coisas demais. - Era inacreditável que, devido a circunstâncias terríveis e totalmente imprevisíveis, aquela mulher tivesse perdido três filhos.

            - Tem filhos? - Sabia tão pouco dele e porém, há um mês que já tinha percebido que ele lhe agradava.

            - Dois. Uma moça de catorze e um rapaz de onze. - E então, de um momento para o outro, arrependeu-se do que tinha dito, mas ela parecia tranqüila quando assentiu com a cabeça.

            - O André teria onze anos - e a menina oito... o bebê que morrera sem sequer começar a respirar e sem nome... era apenas bebê Delauney.

            - Jennifer e Mathew - acrescentou ele, para a distrair.

            - E eles são parecidos com você? - Ela sorria, satisfeita por estar falando com ele apenas de coisas normais que não tivessem que ver com raptos e assassínios.

            - Não sei. As pessoas dizem que ele se parece comigo. É difícil de dizer. E a Marielle? O que é que gosta de fazer quando a vida corre normalmente?

            Ela sorriu ante aquela pergunta.

            - Gosto de nadar, de dar grandes passeios a pé, de andar a cavalo... gosto de música... há muitos anos atrás pintava, mas já não o faço há muito... - "Desde o hospital", mas não o disse. - Gostava de todas as coisas disparatadas que fazia com o Teddy. - No fim, acabava tudo por recair naquele ponto, só conseguia pensar nisso. - Vimos a Branca de Neve no dia em que... no dia...

            - Eu sei - anuiu ele com brandura. Lembrava-se. Então ele pôs a mão sobre a dela, ao mesmo tempo que ela o olhou pensando por que razão ele se preocupava com ela, porque era tão bom, mas sentia-se grata por ele estar ali. Parecia estar sempre presente quando era necessário para ela.

            - Marielle... - Pronunciou o nome dela com doçura, o ar entre eles parecia estagnado e depois, sem dizer uma palavra, inclinou-se para ela e beijou-a. Ela sentiu todo o seu corpo a derreter-se perto dele, quando ele a tomou nos braços e a estreitou, e só conseguia pensar no poder que ele emanava, na emoção e na força, na bondade. Não soube o que lhe dizer quando ele se afastou, e ambos pareciam surpreendidos, mas pela expressão dela era evidente que estava feliz.

            - Não sei o que dizer agora... só que você é muito importante para mim... e que não tenho certeza se teria conseguido sobreviver a tudo isto sem a sua ajuda.

            - Eu quero estar presente quando precisar de mim... - Queria dar-lhe muito mais que isso, mas não sabia como dizer-lhe. Afastou-se lentamente e recostou-se no sofá, pensando no que tinha feito e porquê, sabendo apenas que tivera de o fazer. Nunca poderia ter-lhe dado nada do que ela possuía. Só podia dar-lhe a única coisa que sabia que ela não tinha, nem naquele momento, nem há muitos anos: amor. E tinha certeza de uma coisa, Malcolm Patterson não a merecia. Ela olhava para John em silêncio e, ao mesmo tempo que John lhe acariciava a mão e a beijava, percebia que há muito tempo não a sentia tão calma.

            - Você ama a sua mulher? - Queria saber, mais por curiosidade do que por outro motivo qualquer. Queria conhecê-lo melhor. E ele só podia ser sincero com ela. Hesitou primeiro e depois assentiu. - Ela tem muita sorte. - Mas ele não queria falar da mulher com ela.

            - Não tenho sido capaz de pensar em mais ninguém, desde a noite em que a conheci. Naquela noite só queria abraçá-la. - Trocaram um olhar prolongado e intenso, cada um sabendo o que o outro estava a sentir. Nem sequer precisavam de palavras. Só precisavam um do outro. E ambos sabiam que ele podia perder o emprego... e a mulher... mas a verdade era que, naquele momento, ele não se importava. Só queria estar com ela, tomar conta dela, protegê-la como ninguém antes o fizera.

            Marielle também se sentia atraída por ele, mas não conseguia imaginar o que iria acontecer. Eram ambos casados, felizes ou não, e, por muito zangado que Malcolm estivesse com ela naquele momento, ela não podia deixá-lo, depois de perderem Teddy.

            - O que é que vai nos acontecer? - perguntou ela com brandura.

            - O que é que quer que aconteça, Marielle? - A voz dele era profunda e agradável.

            - Não tenho certeza. - Parecia preocupada. Não queria magoar ninguém, nem John nem a mulher dele, nem sequer Malcolm. John acariciou-lhe o cabelo sedoso cor de canela. E a verdade era que estava disposto a deixar Debbie por ela, mas sabia que se dissesse isso a Marielle, a assustaria e a faria sentir-se culpada. Não queria fazer promessas que não podia cumprir, porém desejava-a intensamente. Queria estar junto dela, ajudá-la, abraçá-la, dar-lhe tudo o que ela não tivera antes. Queria-a por inteiro... a sua alma... a sua vida... o seu corpo...

            - Você não tem tido muita sorte na vida. - Comentou ele com um sorriso triste e havia nos seus olhos mais bondade junta do que ela vira em toda a sua vida.

            - Não, acho que se pode dizer isso... Teddy foi um deles... e agora você... talvez não tenha direito a mais nada da vida... - talvez só tenhamos direito a possuir alguma coisa que valha a pena durante alguns anos, alguns dias. .. alguns momentos... - Tivera André por uns breves dois anos... Charles por três... Teddy por quatro... talvez já tivesse tido o suficiente... talvez não tivesse direito a mais. Talvez não existisse o "para sempre".

            - Você não pede muito.

            - Não tive chance. - Olhou-o nos olhos e ele inclinou-se beijou-a novamente. Daquela vez ficaram sem fôlego e ele não tinha certeza de conseguir controlar-se por muito mais tempo.

            - Quero que seja feliz... - sussurrou ele, caloroso, mas ela olhou para ele com tristeza. Apesar de ele lhe ter proporcionado alguma felicidade naqueles poucos minutos preciosos, ela não esperava mais, e queria que ele soubesse isso. E tudo o que queria naquele momento era encontrar Teddy.

            - Têm sido uns tempos terríveis.... - disse ela com brandura.

            - Eu sei. - Pegou-lhe na mão, desejando poder resolver todos os problemas dela. Talvez com o tempo... mas arrepiou-se só de pensar no que aconteceria com ela se nunca encontrassem o menino, ou se apenas encontrassem o corpo dele. - Tem de ser forte, Marielle. - Sabia que ela já o era. - Estou aqui para a ajudar. - E depois passou-lhe uma idéia pela cabeça, porque, na verdade, ela pedia-lhe muito pouco. -  Porque é que exige tão pouco de todo mundo? Porque é tão boa pessoa? - E foi aí que percebeu ter encontrado a chave do problema. Era por isso que todos eles a odiavam. Porque ela não esperava nada deles, porque dava sem querer nada de volta, e fazia-os sentirem-se horrivelmente em falta. Era boa, amável, pura demais, e sempre disposta a suportar a dor que eles lhe causavam. - Não seja tão boa pessoa... mesmo para mim, Marielle... não faça isso... - Tornou a beijá-la e, daquela vez, ela beijou-o com intensidade e por fim parou e afastou-se com um sorriso que deu a volta ao coração de John. Mesmo tão digna e tão doce, não deixava de emanar uma aura de paixão que o estava deixando louco.

            - Se não pararmos depressa teremos um problema sério pela frente. - Olhou para ele intencionalmente quando falou.

            - Não tenho assim tanta certeza de não querer que isso aconteça - respondeu ele com voz rouca. E ela tinha certeza de ser também o que queria. Não fazia amor há três anos e os músculos dele sob a camisa tinham um aspecto poderosamente atraente, no entanto, naquele momento não precisavam daquele tipo de complicação, e ambos sabiam disso.

            - Quando isto tudo estiver terminado, você e eu iremos ter uma conversa séria, senhora Patterson. Não sei o que vai acontecer. Mas sei muito bem que, quando esse momento chegar, não irá se desvencilhar de mim com tanta facilidade.

            Nunca se sentira assim com nenhuma mulher, nem sequer com a sua, e não estava disposto a desistir agora, que sabia como era. No momento em que conhecera Marielle, sentira que a sua vida estava prestes a mudar para sempre. Mas também tinha consciência de que estava em dívida para com ela, tinha de lhe encontrar o filho e, se não conseguisse isso, pelo menos tinha de ampará-la durante o julgamento e ajudar na condenação de Charles Delauney.

            - Quer comer alguma coisa antes de sair? - ofereceu ela, mas ele abanou a cabeça.

            - Tenho de voltar para o gabinete - respondeu, relutante, detestando ter de deixá-la. Raramente ia para casa antes das dez da noite. Porque no fundo não tinha vontade. Dissera a Marielle que amava a mulher e amava... amara... costumava amar... Mas a verdade era que amava os filhos ainda mais e era esse amor e a religião que professavam que os mantinha juntos. - Telefono-lhe amanhã - sussurrou ele, pensando se ela estaria arrependida do que haviam feito, do que haviam dito, e se sentiria embaraçada, mas os olhos dela transpareciam felicidade quando se levantou e olhou para ele de um modo estranho.

            - Eu sei que devia sentir-me culpada, mas não sinto. Sinto-me muito calma. - Como se tivesse acontecido algo muito especial. Algo correto. Algo bom. Algo que ambos precisavam e desejavam. E ele também se sentia assim. Mas lhes seria permitido ter isso alguma vez na vida? Ainda era cedo demais para saber a resposta a essa pergunta.

            - Boa noite, senhora Patterson - despediu-se ele com brandura, roçando os seus lábios nos dela antes de saírem da sala e ficarem sob a vigilância dos agentes de serviço nessa noite. - Boa noite, Marielle... - sussurrou ele. Ela sorriu, acompanhando-o à porta principal, e pouco depois subia calmamente as escadas em direção ao seu quarto. Era a primeira vez num mês que sorria, era tão maravilhoso sentir-se amada e desejada de novo, mesmo que fosse apenas por momentos.

 

            Bill Palmer, o promotor público, tornou-se um visitante assíduo da casa enquanto preparava o caso, e por períodos de tempo prolongados, permanecia fechado no gabinete com Malcolm. Falou com vários membros do pessoal e teve várias conversas com Edith e Patrick, que já não se encontravam ao serviço da casa. Por fim, em meados de Março, tornou a falar com Marielle, desta vez a sós, sem a presença de John Taylor ou do marido.

            - Antes de levá-la a depor, senhora Patterson, quero certificar-me de que tem certeza do que acredita ter acontecido. Está percebendo? - Ela tinha certeza que sim, e Palmer era um daqueles indivíduos que falava com um tom de voz intencional, além de não haver absolutamente nada de cativante na sua pessoa. O cabelo era liso escorrido e o rosto pálido. Teria provavelmente a idade de John Taylor, um homem dos seus quarenta e poucos anos. Tinha uma predileção por ternos de riscas e gravatas escuras, usava óculos e estava visivelmente impressionado com Malcolm.

            - Eu entendo - respondeu ela calmamente. Mas continuava a haver muito pouco que dizer. Ouvira um ruído já tarde nessa noite e à meia-noite subira para ver se estava tudo bem com Teddy, apenas para lhe dar um beijo, explicou, pela centésima vez, mas o advogado não parecia nada comovido com o recital dela. Só estava interessado em condenar Delauney. Detestava homens como Charles, socialistas ocultos em vestes de homem rico, segundo a sua perspectiva. Um playboy mimado que pensava que podia fazer tudo o que queria. - Encontrei a Betty e Miss Griffin amarradas e amordaçadas. Miss Griffin também tinha uma almofada sobre a cabeça e tinham-na adormecido com clorofórmio. E o Teddy não estava lá... foi só o que aconteceu na realidade... ele tinha desaparecido. - E não acontecera mais nada desde essa altura, à exceção do alarme falso em relação ao resgate deixado na Grand Central Station. Este nunca tinha sido retirado e os autores do pedido não haviam voltado a telefonar, o que convenceu logo a Polícia e o FBI de que a chamada fora feita por algum maníaco.

            - E o pijama encontrado na casa do Delauney, era o do seu filho? - Ela sentiu-se como se já estivesse a prestar depoimento, enquanto ele andava de um lado para o outro na sala e a observava.

            - Acho que sim - respondeu ela com suavidade.

            - Não tem certeza. - Ele parou de andar e fitou-a, como se estivesse furioso.

            - Tenho certeza, mas...

            - Mas o quê, senhora Patterson? - Malcolm avisara-o de que ela nunca tinha certeza, nunca era determinada, nunca mostrava coragem suficiente para se defender ou ter as suas próprias convicções.

            - Não sei como foi parar lá. - Malcolm afirmara, injustamente, que não se podia confiar de verdade nas emoções dela.

            - Foi o Delauney que o deixou lá, claro. Como é que poderia ter ido parar na casa dele, junto com o ursinho de pelúcia do garoto? Não acredita que Charles Delauney raptou o seu filho? Houve uma longa pausa enquanto ela voltava a ponderar no assunto. Fizera a mesma pergunta a si própria vezes sem conta, no decorrer dos últimos dois meses e meio, e pensava que já sabia a resposta, as provas estavam à vista; porém, por vezes, sentia-se insegura quando pensava em Charles como pessoa. E toda a gente dizia que ele continuava a afirmar a sua inocência. Mas as provas... as provas... o pijama... o urso...

            - Sim, penso que sim. - Parecia sofrer quando proferia aquelas palavras.

            - Mas não tem certeza? - Ele cuspia cada palavra como se lhe doesse. - Acredita que haja mais alguém que possa ter raptado o seu filho? - Ela abanou a cabeça. Sentia-se como se estivesse encolhendo ao ouvi-lo.

            - Não sei. Acho que ninguém sabe do paradeiro dele, ou já o teríamos encontrado.

            Bill Palmer mostrou um ar chocado.

            - Não quer que seja feita justiça, senhora Patterson? Não quer ver castigado o homem que levou o seu filho? É o que o seu marido quer, e a senhora? - Ele fazia com que o fato de ela não querer que Charles fosse executado soasse antipatriota. Mas na verdade, não era o que ela queria.

            - A única coisa que eu quero é que o meu filho volte para casa.

            - Aceita a possibilidade de que ele o possa estar morto?Ela fechou os olhos ao mesmo tempo que assentia com a cabeça e depois tornou a abri-los, pensando como iria sobreviver ao julgamento. Os últimos dois meses e meio tinham sido um pesadelo. Os jornais perseguiam-nos dia e noite e quase todos os dias havia fotografias deles na primeira página, ou de Teddy, ou de Charles, já nem sequer podia ouvir rádio sem escutar histórias sobre si própria, ou sobre Charles ou Malcolm, a maior parte delas falsas e muito exageradas, com escândalos imaginários. Fora vista dançando, Malcolm pedira-lhe o divórcio, Charles fugira da prisão, alguém vira Teddy. Eram intermináveis, totalmente falsas e perfeitamente infernais. E Bill Palmer fazia parte desse pesadelo.

            - Entende que este homem pode ter morto o seu filho, porém não tem  certeza de acreditar na culpabilidade dele. Está correto?

            - Sim - rematou ela -, sim, é isso... Não... - E mudou de opinião. - Acho que foi ele. - Palmer tinha um ar profundamente enfastiado e ela voltou-se, levantando-se e atravessando a sala, lutando contra os seus próprios sentimentos. - Não tenho certeza absoluta de que Charles tenha raptado e morto o meu filho. Mas acredito que seja possível, devido ao pijama e ao ursinho de pelúcia.Ele dirigiu-lhe um sorriso glacial.

            - É essa a minha função, não é? Porque é que não tem confiança em mim, senhora Patterson, deixando-se convencer? Sabe que o seu marido acredita na culpabilidade de Charles Delauney. - Estava tentando acalmá-la. Mas ela já conhecia a opinião do marido e a razão dessa opinião. Este achava que era tudo culpa dela, e isso também não era verdade.

            - Ele não o conhece tão bem quanto eu.

            - Presumo que não. Mas o senhor Delauney espancou-a quando estava grávida, não foi?

            Ela não deu resposta durante bastante tempo, olhando fixamente o jardim, desejando poder ver o filho.

            - Mais ou menos. Não sei se poria as coisas nesses termos. Ele bateu-me... mas estava fora de si devido à dor...

            - E não foi essa atitude que matou a criança que trazia no ventre?

            - Não sei. Mas ele não vai responder a tribunal pela morte do meu bebê.

            - Não, mas talvez pela morte do seu filho. E, se foi capaz de o fazer uma vez, talvez o possa ter feito de novo.

            - Isso é ridículo. Os dois casos são completamente diferentes.

            - Está defendendo-o, senhora Patterson? Vai defendê-lo durante o julgamento? - Era isso que ele queria saber. Queria saber a posição dela antes que pudesse estragar-lhe o caso, e já estava ligeiramente preocupado.

            - Essa não é a minha função, senhor Palmer. Não estou aqui para defender ninguém. Só me interessa o meu filho.

            - E a mim só me interessa a justiça.

            - Então, justiça seja feita. - Dirigindo-lhe um olhar longo e duro, Palmer deixou-a com um ar preocupado e infeliz. Patterson tinha razão: ela era instável e emocional, não inspirava confiança, e ele começava a perguntar-se a si próprio se afinal o motorista não estaria certo. Talvez ela ainda estivesse apaixonada por Charles Delauney. Talvez já estivessem envolvidos emocionalmente antes do rapto. Talvez houvesse alguma coisa mais por detrás daquilo tudo, que não se tornava claro à primeira vista. Mas os seus investigadores não haviam encontrado nada de duvidoso em relação a ela. O pior que se podia dizer de Marielle era que gastava demasiado dinheiro em roupas, mas isso parecia não incomodar Patterson.

            Nessa tarde, depois da saída de Patterson, John Taylor chegou pouco depois. Visitá-la fazia agora parte da sua rotina diária. Gostava de conversar com ela ou, como acontecia às vezes, simplesmente de ficar sentado com ela tomando café em silêncio. Gostava de estar ali, perto da jovem. Por vezes passava horas na casa, fingindo que controlava os seus homens, só para poder estar por perto quando ela descia.

            Era como voltar a ser criança, sorriam um para o outro, trocavam um olhar, ou ela trazia-lhe uma sanduíche que ele pegava, tocando-lhe fugazmente. Adorava o cheiro dela, a maciez da sua pele e, se tivesse sorte e ninguém andasse por perto, talvez até tivesse oportunidade de beijá-la. Estava morto por sair dali na companhia dela, por dar longos passeios a pé na Primavera ou simplesmente irem a um cinema e comer pipocas. Mas não podiam ir a lado nenhum. Tinham de permanecer no interior, esconderem-se e conversarem. E sempre o intrigara o fato de raramente ver Malcolm quando estava lá em casa. O homem nunca aparecia, mas isso era a situação ideal para John Taylor.

            - Como vai isso? - segredou ele, enquanto despia o casaco. à chegada, vira Bill Palmer a sair num táxi. - O Palmer anda a tratando-a bem?- Acho que está desapontado comigo por eu não querer ver o Charles eletrocutado. Ou pelo menos, por não estar suficientemente entusiasmada com o fato.

            - Eu também estou preocupado com isso - disse-lhe John, acariciando-a no braço a caminho da biblioteca. - Que mais posso dizer para a convencer?

            - Mostre-me provas... mostre-me o meu filho...

            - Quem me dera. Mas está realmente convencida da inocência dele?

            - Não - admitiu ela. - O problema é que também não estou cem por cento convencida da sua culpabilidade. Acho que foi ele, mas não estou totalmente convencida. - Por vezes essa dúvida torturava-a e sentia-se feliz por não ser um jurado.

            - Quando encontramos o pijama, tornou-se certo e sabido, e você sabe isso. - Mas ele também sabia que ela não queria acreditar que a criança estivesse morta e o fato de não ser encontrada sugeria isso, como era do conhecimento geral. Talvez negar a culpa de Charles significasse crer que Teddy ainda estava vivo. Talvez ela não tivesse capacidade para acreditar na verdade dos fatos. E, às vezes, John duvidava que alguma vez viessem a encontrá-lo. Odiara ter achado a criança dos Lindbergh, detestara informá-los disso, detestara o estado em que eles haviam ficado. Sendo ele próprio pai, era-lhe insuportável pensar nisso. E agora, quem sabe se Marielle também não viria a ter de encarar Uma situação parecida. Tudo o que podia esperar por ela, era que tivesse sido rápido e indolor.

            - O julgamento vai ser horrível, não vai, John? - perguntara ela enquanto tomavam o café que Haverford lhes trouxera. Até o velho mordomo começara a se afeiçoar a ele. Taylor era amável para com Marielle e a sua presença reconfortante. Fazia com que todos na casa se sentissem seguros. E apenas dois policiais suspeitavam que o interesse de Taylor por Marielle não se resumia a trabalho, mas eram suficientemente discretos para se manterem calados. Até àquele momento, o segredo deles estava seguro, mas o sentimento que nutriam um pelo outro parecia cada vez mais intenso. Continuavam a tentar viver o dia-a-dia, concentrando-se em Teddy e no julgamento, mas ambos sabiam que haveria de chegar o momento em que teriam de enfrentar a situação e o futuro de ambos. Mas por agora, nenhum deles tinha de tomar qualquer decisão. Em vez disso, continuavam a concentrar a sua atenção no julgamento que tinham pela frente.

            - Acho que vai ser duro, para ser franco. Acho que eles vão desenterrar uma data de histórias que podem vir a ser muito dolorosas para você- confirmou John calmamente, enquanto bebia o seu café.

            - Mal posso esperar. - Ela sabia o que ele queria dizer e também sabia que Malcolm a tratava como uma criminosa desde que haviam prendido Charles Delauney. Era como se acreditasse que ela fosse cúmplice dele, ou que, de algum modo, o tivesse induzido a raptar Teddy. Não havia chance de voltarem a ter intimidade, de se encontrarem; ele repelira-a e deixara-a à deriva num mar de solidão e terror.

            - Já que falamos nisto, voltou a ter alguma notícia da Bea Ritter? - Era a jovem ruiva determinada que abraçara a causa de Charles e estava a pô-los a todos loucos. Lançara uma campanha em sua defesa na imprensa. Telefonava com freqüência a John Taylor, ao advogado de defesa, aos investigadores, ao promotor público, e Marielle sabia que ela lhe havia telefonado várias vezes, mas deixara de atender as suas chamadas. Já não tinha mais nada a dizer-lhe e falar com ela punha-a sempre nervosa.     

            - Acho que telefonou ontem. -  E depois, de repente, olhou para John com um ar divertido. - Estará apaixonada por ele? - Verdade seja dita, era uma moça muito bonita, mais ou menos da idade de Marielle, mas tinha a energia e a garra de dez homens e John achava-a extenuante.

            - Eu também já pensei nisso, para dizer a verdade. Mas você sabe que há várias malucas que perdem a cabeça por tipos como ele, tipos acusados de terem cometido crimes realmente graves, e ficam obcecadas pela inocência do acusado. Ela tanto pode ser uma dessas como apenas mais uma jornalista metida.

            - Mas pelo menos dá a impressão de que se preocupa mesmo com ele. Sempre que falei com ela, parecia determinada a convencer-me.

            - Eu sei. - John abanou a cabeça e terminou o café. - Podia ter lhe sido pior. Ele precisa de toda a ajuda que conseguir e um pouco de publicidade positiva na imprensa não vai piorar a situação. Só espero que não seja mau para nós, Marielle. - Olhou para ela com sobriedade, ao mesmo tempo que se punha de pé.            - Tenha cuidado para não cooperar involuntariamente com a defesa. Seja qual for a sua opinião, não vai querer ajudá-los. - Ela queria perguntar-lhe porquê, mas já sabia a resposta. O que eles queriam era a verdade sobre o que acontecera a Teddy. Pouco depois ele foi embora e ela voltou a ficar sozinha. Tornou a subir até ao quarto de Teddy para tocar nas coisas dele, dobrar algumas roupinhas e dispor os ursinhos de pelúcia de maneira diferente. Não conseguia manter-se afastada do quarto. Mas o pobre do Malcolm. Nem sequer suportava ir até lá.

            E foi no dia seguinte, pouco depois do meio-dia, que chegou Tom Armour, o advogado de defesa. Telefonara e pedira para falar com ela de manhã cedo. Ela telefonara a John e perguntara-lhe se seria aconselhável e John respondera-lhe com sinceridade, dizendo que não achava prudente, mas que não era ilegal. Porém, ela tinha curiosidade em conhecer o homem e queria ter algum indício do que iria ter pela frente.

            Malcolm viajara para Boston por alguns dias e Marielle encontrava-se sozinha quando o conheceu. Trajava um vestido preto, que parecia ser a sua única vestimenta nos dias que corriam, como se já se encontrasse numa espécie de luto. Ele trazia um terno azul-escuro e tinha o cabelo louro-escuro que devia ter sido mais claro na infância. Os seus olhos castanhos eram calorosos e, de início, pareciam dóceis. Mas ao falar com ela, o tom de voz não tinha nada de brando. Foi educado, firme e nada incorreto. Os seus olhos pareciam penetrar nos dela, à procura de respostas. Haverford acompanhou-o à biblioteca e, após as delicadezas iniciais, ele olhou-a nos olhos e fez-lhe uma pergunta muito direta.

            - Antes do julgamento, gostaria de ter uma idéia do que vai dizer sobre o meu cliente. - Não quisera aceitar o caso, pois a princípio pensara que Charles era um menino mimado. Mas começara a gostar dele e, agora que aceitara defendê-lo, a sua lealdade era total para com Charles Delauney.

            - O que quer dizer exatamente, senhor Armour? - Ela sabia através dos jornais que ele freqüentara a Universidade de Harvard, que era o sócio mais novo de uma firma muito importante e que tinha trinta e poucos anos. Charles contratara o melhor e tinha todo o direito de fazê-lo. Mas mais do que a sua reputação. Tom Armour transparecia algo de calmo e intrigante. Era um homem atraente, mas não foi essa a característica que Marielle notou nele. Ficou mais impressionada com a inteligência estampada no seu rosto e com a sua aura de determinação.

            - O senhor Delauney deu-me uma idéia do que aconteceu... há muitos anos. Acho que ambos sabemos do que estou falando. - Referia-se à morte de André, mas ela apreciou o fato de ele não o mencionar. - Ele reconhece que agiu de forma abominável e que o seu comportamento pode ser mal interpretado. A senhora é a única Pessoa que pode testemunhar com exatidão sobre a atitude dele e porquê. Qual é a sua perspectiva sobre o assunto?

            - Acho que ele perdeu a cabeça de tanto sofrimento. E eu também. Ambos fizemos tolices. Passou-se tudo há muito tempo. - As lembranças provocaram-lhe uma expressão triste e Armour observava-a- Era uma bonita mulher, mas achou que tinha os olhos mais tristes que alguma vez vira e a sua pessoa intrigava-o. Nunca tivera dúvidas de que Charles Delauney continuava apaixonado por ela e o fato de o sentimento Poder ser recíproco passara-lhe pela cabeça, mas Delauney insistia veementemente que não houvera nenhum envolvimento entre ambos antes do rapto. Na verdade, por estar casada com Malcolm, ela recusara-se a encontrar-se com ele. Tom Armour ficara ligeiramente impressionado com aquela atitude dela, mas seria preciso muito mais para realmente o impressionar.

            - Acha que o meu cliente é um homem Perigoso?

            Era uma pergunta complicada e ela demorou algum tempo a ponderá-la.

            - Não. Acho que ele é insensato. Impetuoso. Até desagradável, as vezes. - Sorriu, mas Tom Armour não lhe retribuiu o sorriso. - Mas não acho que ele seja perigoso.

            - Acha que ele raptou o seu filho?

            Ela hesitou durante bastante tempo, tentando ser sincera.

            - Não sei. - Olhou-o nos olhos com firmeza e gostou do que viu. Parecia um homem honesto, alguém em quem se podia confiar. E se o tivesse conhecido em outras circunstâncias, sabia que teria gostado dele. Achou que Charles tinha muita sorte em tê-lo como advogado. - Não sei. Acho que foi ele. As provas estavam lá. Mas quando penso nele, lembrando-me como ele era... como o conheço... não vejo como possa tê-lo feito.

            - Acha que, se ele tivesse levado o seu filho, lhe teria feito mal?

            - Não sei porquê... - Pensou um pouco e depois tornou a olhar para ele. -... Não sei porquê, mas não consigo acreditar nisso. - Porque se ele tivesse feito tal coisa, isso o destruiria.

            - Porque é que acha que ele poderia tê-lo raptado? Por vingança pelo filho que perdeu? Por raiva uma vez que a senhora não se quis encontrar com ele?... Porque ainda a ama?

            - Não tenho certeza. - Como ela desejava ter essas respostas.

            - Acha, que alguém pode ter tentado incriminá-lo intencionalmente? - Charles insistia nesse ponto desde o início. E Tom Armour acabara por acreditar nele.

            - Possivelmente. Mas quem? E como é que ele teria o pijama e o ursinho de pelúcia do Teddy se o meu filho nunca tivesse estado com ele? - A defesa também pensara nisso, e eram perguntas de difícil resposta, a não ser que os raptores de Teddy estivessem tentando implicá-lo, mas isso era uma possibilidade muito remota. E como é que iriam saber da existência dele? Esse era o ponto mais fraco da defesa.

            O grande trunfo era que a própria mãe da criança não estava totalmente convencida de que Charles Delauney seria capaz de cometer o crime. Armour desconfiava que ela poderia oscilar para ambos os lados, o que seria perigoso para o cliente.

            Fez-lhe mais algumas perguntas em seguida, tomou várias notas e agradeceu-lhe pelo tempo que despendeu com ele, ao mesmo tempo que fechava a pasta. E quando ela se levantou, olhou para ele e decidiu ser sincera.

            - Disseram-me para não falar consigo hoje. Que não era "prudente, mas

que também não era ilegal ". - Citou John, sabendo que Malcolm e o promotor público teriam ficado lívidos se desconfiassem.

            - Então porque o fez? - Estava fascinado com ela, não tanto pelo aspecto físico, mas pelos seus modos calmos e pela sua paz interior. Parecia tudo menos uma mulher que tivesse estado internada num hospital mental ou que tivesse enlouquecido. Talvez tivesse simplesmente desistido de viver, como Charles explicara. Mas naquele momento estava decididamente de volta e, sob uma aparência de frieza, havia muito fogo e uma inteligência aguçada. Tinha gostado de falar com ela.

            - Senhor Armour, só quero a verdade. É tudo o que quero. Até mais do que justiça. Se o Teddy estiver morto, quero saber... e sim, quero saber quem o matou e porquê... mas se ele estiver vivo, quero que o encontrem... só quero saber onde está para que possa voltar para casa.

            Tom Armour assentiu com a cabeça. Entendia. E por outras razões, também era o que ele queria.

            - Espero que venhamos a descobrir, senhora Patterson... tanto por ele como pela senhora... e pelo senhor Delauney.

            - Obrigada.

            Haverford acompanhou-o à saída e Marielle seguiu-o com os olhos, enquanto ele descia as escadas. Parecia um homem que controlava tudo o que tocava. E invejou-lhe a autoconfiança. Mas sob aquele ar seguro ela sentiu algo mais. Algo caloroso e forte e muita dedicação. A caminho da biblioteca, tornou a pensar na sorte que Charles tinha por o ter como advogado.

 

            O julgamento teve início numa tarde fria e ventosa de Março, sentindo-se um vento fustigante e uma chuva que gelava os ossos, à medida que os jurados, o público e a imprensa iam desfilando até à sala de audiências. Aconteceu na mesma semana em que Hitler invadiu Praga e anunciou ao mundo que a Tchecoslováquia era dele a partir daquele momento. Mas até Malcolm estava menos preocupado que o normal com o que se passava pelo mundo. Só conseguiam pensar no julgamento Estado contra Charles Delauney.

            O julgamento ia decorrer no tribunal distrital e, às treze horas em ponto, Malcolm e Marielle chegaram na limusine Pierce-Arrow, conduzidos por dois agentes da Polícia e acompanhados por quatro homens do FBI, entre os quais John Taylor. Este sentia-se contente por estar presente, para dar força a Marielle, e ela percebia a sua presença, o que a encorajava. Malcolm não lhe dirigira uma única palavra desde que haviam saído de casa. As suas acusações silenciosas nos últimos meses tinham começado a fazê-la sentir-se diminuída. Quando saíram do carro, Marielle tinha um ar tão cinzento quanto o seu vestido e Malcolm deu-lhe o braço em silêncio, enquanto subiam as escadas do tribunal. Ela vestia um casaco cinzento-claro e um chapéu combinando, que quase foi arrastado pelo vento, no momento em que os homens da imprensa começaram a descer em torrente em direção a eles e os agentes do FBI tiveram de abrir caminho à força para eles passarem. Quando entraram na sala de audiências, Marielle percebeu quão doloroso tudo aquilo iria ser para ela e ao mesmo tempo da inutilidade do julgamento. No fim, não iriam ter Teddy de volta. Qual era então o objetivo? Ele desaparecera e, três meses depois, as esperanças de tê-lo de volta e salvo já quase se haviam desvanecido.

            Tudo aquilo iria ser um exercício de acusações. Os Patterson ocuparam os seus lugares na fila da frente, atrás do promotor público. John Taylor sentou-se ao lado de Marielle e um dos seus assistentes junto de Malcolm. Havia dois homens do FBI atrás deles e dois polícias fardados de cada lado e à frente; estavam portanto rodeados de proteção mais do que adequada. E Brigitte já se encontrava na sala, à espera, quando eles chegaram. Deitou um olhar caloroso a Marielle e acenou delicadamente com a cabeça a Malcolm, pouco depois apareceu o oficial de justiça, pedindo para que todos se levantassem, enquanto o juiz entrava na sala, nas suas vestes pretas, observando a assistência. Era um homem alto, de feições irregulares e cabelo grisalho, parecido com o de Malcolm. Na verdade, os dois homens eram conhecidos, mas a sua reputação era de um juiz rigoroso e Malcolm não levantara objeções quando ocorreu a sua nomeação para este caso.

            O juiz, Abraham Morrison, ocupou o seu lugar e lançou um olhar carrancudo em volta. Houve um silêncio prolongado e começou-se a sentir um mal-estar geral, em especial por parte dos membros da imprensa, que ele parecia examinar minuciosamente, seguindo-se os jurados, os Patterson, o argüido e os advogados.

            - Chamo-me Abraham Morrison. - As suas palavras soaram sonoras. - E não vou tolerar despropósitos nesta sala de audiências. Se alguém aqui se comportar de modo inadequado, será posto fora tão depressa que até ficará com a cabeça rodando. Se a imprensa se descontrolar, será impedida de permanecer aqui dentro até ao fim. Qualquer desobediência a este tribunal será alvo de prisão. Qualquer tentativa de exercer medidas coercivas em relação a um jurado ou de entrar em contacto verbal com um jurado será alvo de processo por parte do tribunal. Fui bem claro? - Houve acenos de cabeça e murmúrios. - Estamos aqui devido a um assunto sério. Um crime de pena capital. Está em risco a vida de um homem e uma criança pode ter perdido a vida. Não são assuntos que eu trate de ânimo leve.- Olhou então diretamente para o setor da imprensa. - E se vocês perseguirem alguém que se encontre aqui dentro, sejam os jurados, o argüido ou as testemunhas - apontou com os olhos para os Patterson -, estarão no olho da rua antes que o meu oficial de justiça tenha tempo para os colocar lá. Todos entenderam as regras aqui dentro? - Houve um silêncio longo em que todos sentiram o temor respeitoso que ele inspirava. - Entendido? - A voz dele tornou a ressoar e ouviu-se um coro de "sim, senhor". - ótimo. Então talvez possamos dar início a este julgamento. Não tolerarei qualquer circo no meu tribunal. Que isso fique bem claro desde o início. - Mais acenos de cabeça e ele pôs os óculos e examinou atentamente alguns papéis. Foi então que Marielle olhou para o outro lado, onde se encontrava a mesa do réu, reparando que Charles estava mais magro e mais pálido e que o cabelo nas têmporas parecia mais grisalho do que da última vez que o vira. Vestia um terno azul-escuro, uma camisa branca e uma gravata escura, e tinha um ar mais respeitável que a maior parte das pessoas que se encontravam na sala, mas não era essa a questão. Tom Armour também tinha um ar extremamente sério, num terno listrado com colete. E, de repente, dava a impressão de ser mais jovem do que quando o recebera na sua própria casa. Nunca contara a Malcolm a reunião que tivera com ele.

            O juiz Morrison tornou a levantar os olhos e o seu olhar percorreu a sala de uma ponta à outra.

            - Acho que todos sabemos por que nos encontramos aqui hoje. Trata-se de um caso de rapto. O rapto de Theodore Whitman Patterson, um menino de quatro anos. Os pais encontram-se aqui hoje. - Acenou vagamente na direção de Marielle e Malcolm e ela sentiu o coração a bater desordenadamente. Era difícil de acreditar que, após três meses de publicidade constante, houvesse alguma pessoa viva que não soubesse quem eles eram, mas era como se o juiz Morrison os quisesse apresentar. Este tinha gosto em exigir o máximo de decoro e respeito,

mas também apreciava um cunho pessoal na sua sala de audiências. - O argüido chama-se Charles Delauney. E a teoria, senhoras e senhores - e estou a dirigir-me aos possíveis jurados, - diz que o senhor Delauney está inocente até prova em contrário. Cabe à acusação prová-lo. O promotor público, o senhor Bill Palmer - acenou na sua direção -, terá de vos convencer, sem margem para dúvida, da culpabilidade do senhor Delauney. Caberá então ao senhor Armour - acenou na direção de Tom - convencer-vos da inocência do mesmo. Se o senhor Palmer não apresentar um caso convincente, se vocês não estiverem convencidos, se não acreditarem, sem margem de dúvida, que o senhor Delauney raptou essa criança, então terão de absolvê-lo.

            - Têm de ouvir com muita atenção e levar muito a sério a responsabilidade que pesa sobre os vossos ombros. E eu os aviso neste momento de que este júri será isolado. Serão instalados num hotel, às custas do Estado, pelo tempo que durar este julgamento. E não poderão falar com ninguém, exceto com os vossos colegas jurados. Não poderão telefonar aos vossos filhos, conversar com o marido, receber a visita de um amigo, sair para ir ao cinema. Terão de ficar no hotel com os outros jurados até que tenham cumprido a vossa obrigação sob todas as reservas e sem qualquer distração. A imprensa não vos facilitará a vida, jornais, rádio, é tudo muito tentador e muito perturbador. Mas terão de fazer o maior esforço possível para se manterem inatingíveis enquanto não terminar o julgamento. E se houver aqui alguém para quem o fato de ser isolado apresenta uma privação indevida durante as próximas semanas, por razões de saúde ou familiares, que fale por favor, quando o seu nome for pronunciado. Iremos precisar de doze jurados e de dois suplentes. E, senhoras e senhores, agradecemos desde já a vossa presença. - Voltou-se então para o oficial de justiça e mandou-o nomear os eventuais jurados.

            A primeira mulher estava tão assustada que quase tropeçou a caminho do seu lugar e tremia tanto que Marielle, que a observava, percebeu de imediato. O segundo jurado também era uma mulher, uma senhora negra de idade, que teve bastante dificuldade em chegar ao seu lugar, de tão idosa e aleijada. Em seguida foram chamados dois homens, ambos de meia-idade, um homem de cerca de quarenta anos e só com uma perna, uma chinesa com umas tranças incrivelmente longas, um jovem bem-parecido, duas moças bonitas e uma senhora de meia-idade que não parava de olhar para Marielle e Malcolm, ainda dois homens e, por fim, duas mulheres de aspecto comum, como suplentes.

            Mal os jurados ocuparam os seus lugares, o juiz Morrison apresentou aos presentes o advogado nomeado pelo Estado, Bill Palmer. Este virou-se, olhou em volta e depois tornou a voltar-se para o júri, dando um sorriso.

            - Olá, o meu nome é Bill Palmer. Sou o promotor público nomeado para este caso e estou aqui para representar o Povo. Sou o vosso representante neste caso e irei precisar da vossa ajuda para condenar este homem - acenou vagamente na direção de Charles -, que nós acreditamos ter raptado um menino de quatro anos, Teddy Patterson, doze dias antes do Natal. - Como se este fato tornasse o crime ainda pior, o que efetivamente tornara, mas apenas para os pais.   - Se algum de vocês conhecer este homem, conhecer a mim ou ao advogado de defesa, senhor Tom Armour, o senhor doutor juiz ou qualquer pessoa associada a nós, deverá falar agora ou irá prejudicar o caso, e então será dispensado. Basta informar o juiz quando forem chamados e lhes perguntarem o nome e a profissão. - Então, sentou-se abruptamente, ao mesmo tempo que Tom Armour se levantara, apresentando-se, e Marielle percebeu de imediato que Tom tinha uns modos muito mais cativantes junto dos jurados. Não falava com eles como se fosse superior, como Bill Palmer, e tinha modos delicados, em vez da postura desagradável do promotor público. Explicou que o caso contra o Senhor Delauney era puramente circunstancial e que havia dois aspectos que relacionavam o seu cliente ao caso, mas que não existiam provas de que ele tivesse realmente raptado a criança ou que tivesse alguma coisa que ver com o caso. E enquanto Tom falava, Marielle reparou que vários jurados assentiam com a cabeça. Tornou a sentar-se, depois de lhes agradecer pela ajuda com um sorriso caloroso, o que fez com que as duas moças dessem um risinho e o juiz, ao notá-lo, franziu as sobrancelhas em sinal de desagrado.

            - Devo lembrar-lhes, minhas senhoras - bramiu ele do alto -, que isto não é um acontecimento social nem um assunto divertido. Agora - prosseguiu, voltando então o olhar para os outros -, alguém aqui tem problemas de saúde que os impeça de serem isolados? - A senhora negra de idade levantou a mão e Morrison olhou para ela com um sorriso caloroso. - Sim? O seu nome, por favor, minha senhora?

            - Ruby Freeman.

            - Sim, senhora Freeman?

            - São as minhas pernas. Sofro de uma terrível artrite. Estão sempre doendo-me. - Levantou os olhos para ele com tristeza.

            - Posso ver que sim - assentiu com ar de compaixão.

            - Há noites que mal me posso mexer. E a minha filha... toma conta de mim... eu ajudo a tomar conta do bebê dela enquanto ela está trabalhando. - A mulher desatou a chorar mal acabou de falar. - Se eu não for para casa ... ela não pode ir trabalhar... não teremos com o que comer ... o marido dela foi morto na fábrica onde trabalhava... -

            A saga de desespero parecia não ter fim.

            - Nós entendemos. Talvez a sua filha consiga encontrar alguém que a ajude por um curto período de tempo. Mas, senhora Freeman, acha que vai sofrer demasiado com dores, estando presente durante o julgamento?

            - Acho que sim, meritíssimo. As pessoas não imaginam o sofrimento que é ter artrite, até a sentirem na pele. Tenho oitenta e dois anos e há vinte que tenho esta artrite que quase me matou.

            - Tenho muita pena. E pode ser dispensada. Obrigada por ter vindo aqui hoje - agradeceu ele com delicadeza. Mais ninguém levantou a mão, portanto pôde prosseguir. Mas a primeira jurada estava tão nervosa que também pediu para ser dispensada. Disse que tinha cálculos biliares, que o seu inglês não era muito bom e que o marido, muito doente, precisava dela. Ela e o marido eram cidadãos americanos, mas de naturalidade alemã. E antes que pudesse contar mais alguma coisa, o juiz Morrison dispensou-a. A moça chinesa das tranças não falava sequer inglês, sendo também dispensada.

            Enquanto isso, as duas moças passaram o tempo todo aos risinhos e o juiz tornou a adverti-las. Mas então Bill Palmer pôs-se de pé e começou a interrogar os jurados, seguindo-se Tom, e rapidamente estes começaram a retirar-se pela saída lateral.

            Os dois homens de meia-idade eram empresários e portanto ficaram. Ambos casados, tinham netos sensivelmente da mesma idade de Teddy. O homem com uma só perna disse ter quarenta e dois anos e perdido a perna na Grande Guerra e agora vendia seguros para a Traveller's Insurance.

            O rapaz negro trabalhava de dia para os correios e tocava trombone à noite, no Small's Paradise, disse que não tivera tempo para se casar e todos riram. E as duas moças foram dispensadas, pois o juiz considerou que não sabiam comportar-se com dignidade. Tinham ambas vinte e dois anos, eram solteiras e pareciam achar tudo aquilo uma brincadeira, servindo a retirada delas como aviso para os outros. A mulher de meia-idade que passava a vida olhando para Marielle e Malcolm trabalhava como secretária e nunca tinha se casado. Vivia em Queens e era impossível perceber se era ou não complacente com Charles. Parecia não conseguir tirar os olhos dos Patterson e o juiz teve de adverti-la uma vez para não desviar a sua atenção do processo. Como conseqüência, no fim a defesa excluiu-a, tal como aos dois homens que a precederam. Ambos os lados mantiveram as duas suplentes, o que lhes deixou oito lugares por preencher, e foram precisos mais quatro dias para fazê-lo. E no fim acabou por ficar um júri misto muito interessante. Os dois homens de meia-idade com netos pequenos continuavam, apesar de Marielle ter certeza de que Tom teria querido se ver livre deles, pois poderiam ser demasiado complacentes com a acusação. Tinha-se tornado uma atividade fascinante fazer conjecturas sobre o raciocínio dos advogados. E fosse este julgamento sobre outro assunto qualquer, poderia ter espicaçado a curiosidade de Marielle. Tanto o veterano só com uma perna como o músico negro foram mantidos. E o último homem que ficou era de origem chinesa e professor de economia na Universidade Colúmbia. Todos os outros jurados, bem como os suplentes, eram mulheres.

            A mais nova de todas era mais velha que Marielle e tinha três filhos, mas todos eles muito maiores que Teddy. Havia uma mulher que fora freira durante trinta anos e renunciara aos seus votos recentemente para voltar para casa e tomar conta da mãe moribunda. E quando a mãe morrera, decidira não regressar ao convento, mas também não se casara. Havia duas mulheres amigas, que haviam calhado no mesmo júri por coincidência, ambas eram professoras na mesma escola e solteiras.

            Seguiram-se mais três mulheres que pareciam muito normais, casadas, sem filhos, secretárias ou empregadas de grandes empresas. Uma trabalhara para um advogado por pouco tempo, mas confessara não ter muitos conhecimentos legais e nenhum dos advogados objetou à sua permanência. Era, virtualmente, um júri composto por pares de Charles, e um grupo de pessoas aparentemente normais, decentes e justas.

            Já era sexta-feira, pouco antes do meio-dia, quando o juiz ordenou ao júri que fosse para casa tratar dos seus assuntos e aproveitar o último fim-de-semana, pois a partir de segunda-feira seriam isolados. Ordenou-lhes que não lessem os artigos nos jornais que se referissem ao caso nem que ouvissem rádio durante o fim-de-semana.

            Suspendeu temporariamente a sessão até segunda-feira de manhã e Marielle até ficou espantada por se sentir tão cansada, quando apenas tinham decorrido cinco dias com o processo de seleção do júri. Parecera interminável ouvir as histórias das pessoas e observar os advogados na sua decisão de as excluir ou manter. Quando ela e Malcolm se levantaram, Charles foi levado para passar mais um fim-de-semana na prisão e Tom Armour passou por ela sem dar qualquer sinal de reconhecê-la.

            Os homens do FBI levaram-nos a casa e Bill Palmer veio falar com Malcolm nessa tarde. Estiveram bastante tempo na biblioteca, mas nunca na presença de Marielle, e esta tomou café com John Taylor na sala de estar. Da parte dele não havia qualquer novidade, mas pelo menos era um alívio falar com alguém compreensivo, depois da difícil semana que passara. Sempre que Marielle pusera um pé fora da sala de audiências, Bea Ritter precipitara-se sobre ela, implorando-lhe que a recebesse. Telefonou mais uma vez nessa tarde, mas Marielle não atendeu. Estava demasiado esgotada para lidar com ela ou ouvir os seus apelos em prol de Charles. E Marielle não queria ajudá-la.

            - É uma moça séria - comentou John Taylor. - Deve estar doida por ele.

            - Algumas pessoas ficam assim por ele. - Marielle sorriu. Não tinha segredos para aquele homem. - Eu também já me senti assim. Mas, por outro lado, só tinha dezoito anos.

            - E agora? - John Taylor fez um ar preocupado, mas não com o caso, e Marielle sorriu.

            - Agora sou muito mais madura. - Mas isso também não queria dizer que quisesse que ele fosse condenado à pena de morte, se não a merecesse. Continuava a passar uns maus bocados com esse problema e o FBI não fora capaz de lançar nova luz sobre o caso. No princípio dessa semana tinha havido uma hipótese de alguém ter visto uma criança parecida com Teddy. Mas, tal como todas as outras pistas que haviam tido, quando foram confirmar, acabou por se revelar falsa.

            - Está com um ar cansado. - Taylor falou com doçura, enquanto lhe servia um segundo café.

            - Foi uma semana difícil.

            - Não tão difícil como irá ser a próxima e a seguinte. Ele sabia o que a esperava, conhecia as pessoas envolvidas no processo. O promotor público era um filho da mãe duro de roer e queria ganhar aquele caso. Sabia que o mundo inteiro estava seguindo o julgamento, até FDR, e não estava disposto a deixar que a defesa ganhasse, custasse o que custasse. E Armour também era duro, mas de uma maneira menos suja, mais decidida, ia direto ao assunto e depois destruía a pessoa. E o tipo de coisas que iam desenterrar e fazer lembrar a Marielle não iriam ser agradáveis. - Está preparada?

            Preocupava-se com ela, por mais resistente que fosse, também era frágil, e detestava vê-la passar por todo aquele sofrimento. Lembrava-se de como fora quando lhe contara o que acontecera a André. Mas até estava agüentando bastante bem, tendo em conta o fato de que passara três meses sem Teddy. - Aconteça o que acontecer - tentava pô-la de sobreaviso -, não deixe que a assustem... não os deixe fazer sentir que a culpa é sua. - Sabia que este era o maior fantasma dela há anos. - Você sabe que não é. - Tentava dar-lhe confiança.

            - Gostaria que o Malcolm também fosse da mesma opinião. Continua a culpar-me por tudo. Por ter trazido o Charles de volta para a nossa vida, o que nos custou o Teddy.

            - Você também não queria que isso acontecesse. - Que idiota que era o homem. E, pouco depois, quando o viu atravessando o átrio na companhia de Bill Palmer sentiu o mesmo. John estava falando com um dos seus homens e Malcolm estalou os dedos na sua direção, como se Taylor fosse um cão, gesto mal aceito.

            - O promotor público vai precisar da sua ajuda, senhor Taylor - informou Malcolm. Tinha muito pouco respeito por John Taylor. Este não fora nada eficaz na sua missão de encontrar Teddy. - Precisamos de informações.

            - Sobre Delauney? - Palmer assentiu com a cabeça.

            - Porque não vamos conversar em qualquer lugar? - sugeriu o advogado, mas quando foram, Taylor não gostou nada do que ouviu. Tratava-se de pura campanha, de informações sujas sobre o passado, que nada tinham que ver com Teddy, e Taylor objetou. O advogado queria que ele o ajudasse a desenterrar fatos sobre Marielle e Charles que este sabia serem dolorosos para ela.

            - O que isso tem a ver com o caso?

            - São informações sobre o caráter dele, pelo amor de Deus, homem. Não seja hipócrita. Estamos falando em ganhar.

            - Ganhar o quê? Ganhar a condenação de um homem inocente ou apanhar o tipo que cometeu realmente o crime? Se ele for culpado, você não precisa deste tipo de merda, Palmer.

            - Se você não o fizer, outro qualquer o fará.

            - Então é disso que se trata agora? Apanhá-lo a todo o custo? E então ela? Você sabe o que lhe vai fazer com tudo isto? - Eram fatos relacionados com a morte de André, em Genebra, e com o tempo que ela passara na clínica, após o sucedido, e Taylor sabia, tal como Palmer, que se Charles fosse considerado culpado, não precisavam de nada daquilo para ganhar.

            - A senhora Patterson não é problema meu, Taylor. E é o próprio marido que quer. Repare, se não nos for útil, também não usaremos essa informação.

            - Que simpático - comentou Taylor em tom sarcástico, pensando para si próprio que preferia as táticas de Tom Armour. E era difícil acreditar que Patterson estivesse disposto a sacrificá-la só para pegar Delauney. Mas Malcolm estava convencido de que Delauney raptara o seu filho e estava disposto a fazer qualquer coisa para ver Charles condenado. Talvez em alguns aspectos, disse Taylor de si para si, quando começou a fazer os telefonemas, não se pudesse apontar o dedo a Malcolm por isso. Pelo menos se fosse ele próprio a obter as informações, poderia antever a próxima jogada de Palmer e avisar Marielle do que estaria para vir. Mas o que Taylor não sabia era que Malcolm também estava fazendo telefonemas e que andava atrás de informações muito mais importantes.

            O fim-de-semana passou-se depressa demais para o gosto de Marielle. Na segunda-feira de manhã já estavam de volta ao tribunal e deu-se início ao julgamento propriamente dito.

 

            Na semana que se seguiu, as considerações iniciais dos advogados soaram muito secas, quando comparadas com as anteriores observações dirigidas ao júri. Mas algumas das expressões menos bonitas por parte dos dois advogados acabaram por se revelar bastante eficazes. Na sua apresentação do caso, o promotor público assegurou ao júri e aos presentes na sala de audiências que estavam lidando com um potencial raptor, talvez pior, com um assassino de bebês, um homem que no passado atacara mulheres, matara homens sem pestanejar, um mentiroso, um comunista e uma ameaça para todos os Americanos.

            Explicou-lhes que o pequeno Teddy Patterson fora arrancado de casa dos pais no meio da noite, no escuro, e que as pessoas que tomavam conta dele tinham sido adormecidas com clorofórmio, atadas e amordaçadas, que poderiam até ter acabado mortas também, que a criança desaparecera sem deixar rastro, não voltando a ser vista, e que era provável que já estivesse morta, enterrada numa vala, num campo, mas que, para aqueles que a amavam, desaparecera para sempre.

            À medida que o ia ouvindo, Marielle agarrava-se mais à cadeira e a lengalenga de Palmer parecia arrastar-se indefinidamente; que Charles sempre fora um homem ruim, que Teddy poderia vir a ser um homem dócil e que todos deveriam se sentir lesados pelo fato daquela criança ter desaparecido sem nenhuma razão plausível. E se isso acabasse sendo verdade, se Teddy nunca mais voltasse, então a própria Marielle teria de concordar com ele. Era deveras doloroso acreditar que aquele menino tivesse desaparecido para sempre.

            As considerações de Tom Armour foram apenas ligeiramente mais tranqüilizadoras. Disse-lhes que Charles Delauney era um homem decente, honesto, em alguns aspectos profundamente perturbado, que perdera o seu próprio filho nove anos antes e que, na verdade, acabara também por perder a filha ainda por nascer, enfim, toda a sua família, e que, conhecendo por experiência própria a dor que sentira, nunca faria mal a nenhuma criança e seria incapaz de privar alguém dos seus próprios filhos. Combatera honrosamente na Grande Guerra e desde então na guerra civil espanhola. Não era comunista. Era tão-somente um homem que acreditava na liberdade. Educado, inteligente, decente, porém com o coração despedaçado pela destruição de todos os seus sonhos de juventude, admitia ter sido pouco sensato em alguns comportamentos anteriores, ou mesmo em palavras que proferira, mas os jurados não estavam perante um homem que fosse realmente capaz de raptar o filho de alguém. E a defesa iria provar que não o fizera. Mais ainda, lembrou a todos que o Senhor Delauney estava sendo julgado por rapto e não por assassínio. E, se os jurados ouvissem com atenção o que iria ser provado, tinha certeza de que o iriam absolver. Enquanto falava, Tom Armour caminhava pausadamente frente ao júri, olhando cada um dos seus membros nos olhos, falando diretamente com eles, não de um modo condescendente, mas como seus iguais, como amigos, certificando-se de que entendiam e acreditavam nas suas palavras. O que fazia era com mestria e era fascinante observá-lo. Também lhes explicou que o promotor público iria expor o seu caso em primeiro lugar, do princípio ao fim, e que, naturalmente, Tom iria contra-interrogar as testemunhas, mas que não apresentaria os seus argumentos até a acusação ter terminado a sua exposição. E tornou a lembrar-lhes que a acusação teria a seu cargo provar-lhes, sem margem de dúvidas, que Charles Delauney raptara Teddy Patterson e que, se a acusação não os conseguisse convencer desse fato, quer gostassem ou não de Charles como pessoa, teriam de o absolver. Mas Tom assegurou-lhes que, quando terminasse de lhes expor os seus argumentos, iriam chegar à conclusão que Charles estava sendo vítima de uma injustiça.

            Deu-se um longo silêncio quando ambos terminaram e o juiz Morrison instruiu o promotor público para que este chamasse a sua primeira testemunha. Marielle ficou petrificada quando ouviu o seu nome. Não fazia idéia de que ele pretendia chamá-la como primeira testemunha. Levantou o sobrolho, quando passou por John, que tentou tranqüilizá-la com o olhar, porém estava preocupado com o que Palmer iria fazer. Sabia o que se descobrira através dos telefonemas que fizera e não havia nada que pudesse prejudicar grandemente. Mas não fazia idéia do que Palmer e Malcolm haviam descoberto sem a sua ajuda.

            Marielle sentou-se no banco e alisou com cuidado o seu vestido preto simples. Cruzou as pernas nervosamente, ao mesmo tempo em que olhava em volta, descruzando-as em seguida. Enquanto isso, Bill Palmer andava de um lado para o outro com um ar empertigado e observava-a. Contemplava-a, como se houvesse algo de estranho no comportamento dela, como se suspeitasse dela, e, mais do que uma vez, balanceou o olhar entre ela e o argüido, como se entre eles existisse um elo imperceptível. Era como se estivesse tentando transmitir ao júri um sentimento vergonhoso ou indecoroso. E a atitude dele estava enervando Marielle. Esta olhou para o juiz, depois para Malcolm, que desviou o olhar, por fim para John, que a observava com ar grave, e esperou pela primeira pergunta de Palmer.

            - Diga o seu nome, por favor.

            - Marielle Patterson.

            - O seu nome completo, por favor.

            - Marielle Johnson Patterson. Marielle Anne Johnson Patterson - disse, sorrindo, mas ele não lhe retribuiu o sorriso.

            - Há mais algum nome?

            - Não, senhor. - Duas mulheres do júri sorriram e Marielle sentiu-se um pouco melhor. Mas as mãos tremiam-lhe terrivelmente e ela manteve-as no colo, onde ninguém poderia vê-las.

            - Alguma vez teve um nome diferente, senhora Patterson? - E foi então que percebeu a pergunta dele.

            - Sim. - Porque estaria fazendo aquilo? Em que iria ajudar? Não entendia.

            - Pode dizer-nos esse nome, por favor? - Fez ressoar as palavras como que para assustá-la e ela não conseguia ver os olhos de Malcolm.

            - Delauney - respondeu com serenidade.

            - Pode falar um pouco mais alto, por favor, para que os jurados a ouçam?

            Ela corou e disse mais alto, para todos poderem ouvir, enquanto Charles a observava com compaixão.

            - Delauney. - De repente, Charles sentiu pena dela. Mais pena ainda do que John Taylor, pois já imaginava o que se iria se seguir. Palmer era mais esperto do que pensavam. Ia desacreditá-la desde o início, para que tudo o que ela dissesse daí para a frente não valesse de nada. Não estava disposto a correr o risco de pôr em causa a culpabilidade de Charles em público e enfraquecer o seu caso perante o júri.

            - Está de algum modo relacionada com o argüido?

            - Fui casada com ele.

            - Quando foi isso?

            - Em mil novecentos e vinte e seis, em Paris. Tinha dezoito anos.

            - E de que tipo de casamento se tratava? - Fingiu estar sendo simpático com ela, até sorriu. Mas, naquele momento, ela já se tinha percebido que ele iria desacreditá-la. - Foi um casamento grande? Pequeno?

            - Nós fugimos.

            - Compreendo... - Fez um ar compungido, como se ela tivesse feito algo de errado que ele lamentasse. - E estiveram casados durante quanto tempo?

            - De fato, foram cinco anos. Até mil novecentos e trinta e um.

            - E como acabou o casamento? Em divórcio?

            - Sim, efetivamente. - Havia uma ligeira película de suor cobrindo-lhe a testa e ela rezava para que não desmaiasse ou vomitasse.

            - Não se importa de nos dizer porquê, senhora Delauney... - desculpe, Patterson... - Fingiu que a palavra lhe tinha escapado, mas ela sabia que era de propósito, apenas para realçar o fato de ter sido casada com Charles, e sim, ela importava-se de responder, mas sabia que não tinha direito de escolher.

            - Não se importa de nos contar a razão do divórcio?

            - Eu... nós... perdemos o nosso filho. E nenhum de nós jamais se recuperou do choque. - Disse tudo pausadamente e com muita calma, e tanto John Taylor como Charles ficaram orgulhosos dela. Ambos sentiam o coração despedaçado ao vê-la ali, mas ela não sabia disso. - Acho que se pode dizer que foi isso que destruiu o nosso casamento.

            - Foi essa a única razão do seu divórcio do senhor Delauney?

            - Sim, éramos muito felizes antes disso.

            - Compreendo. - Assentiu novamente com a cabeça, e ela começou a odiá-lo. - E onde estava a senhora quando conseguiu o divórcio? Ela entendeu mal a pergunta, mas Taylor não.

            - Na Suíça.

            - Estava lá por alguma razão em especial? - E então percebeu. Ele estava tentando destruí-la completamente. Mas não podia. Se o fato de ter perdido três filhos ainda não tinha dado cabo dela, nada conseguiria. Nem aquele homem, nem aquele tribunal, nem aqueles processos. Manteve a cabeça levantada e olhou-o diretamente nos olhos.

            - Sim, estive internada numa clínica.

            - Estava doente? - Não lhe ia dar mais informações do que as que era obrigada. E ele sabia exatamente o que queria e porquê, mas naquele momento ela também já tinha percebido.

            - Sofri um colapso nervoso, quando o nosso filho morreu.

            - Houve alguma razão especial para isso ter acontecido? A morte dele foi inusitadamente traumatizante? Uma doença prolongada... uma doença grave? - Os olhos dela encheram-se de lágrimas ao ouvi-lo, mas não estava disposta a ceder a favor deles. Limpou as lágrimas e falou com os lábios trêmulos, enquanto todos os que se encontravam na sala de audiências aguardavam.

            - Ele se afogou. - Fora isso. Tudo o que era obrigada a dizer. O que estava escrito no certificado de óbito. André Charles Delauney, dois anos e cinco meses, morte por afogamento.

            - E a senhora foi responsável por esse... acidente... - Ele acentuou a palavra quase como se tivesse planejado fazê-lo antes e Charles sussurrava freneticamente ao ouvido de Tom, que de imediato se pôs de pé num protesto veemente.

            - Protesto, meritíssimo. O senhor doutor está a induzir a testemunha e a insinuar que a morte da criança foi culpa dela. Não nos cabe decidir isso aqui. Não é a senhora Patterson que está sendo julgada aqui, é o meu cliente.

            O juiz Morrison elevou o sobrolho na direção dos dois homens, surpreendido com a gentileza de Tom Armour.

            - Deferido. Um pouco menos de zelo, por favor, senhor doutor.

            - Desculpe meritíssimo. Vou reformular a minha pergunta. - Sentiu-se responsável pela morte da criança? - Mas ,aquela pergunta era ainda pior, pois  ninguém saberia se fora realmente culpa dela, e não havia maneira de voltar atrás.

            - Sim, senti-me.

            - E foi essa a razão do seu colapso nervoso?

            - Acho que sim.

            - Esteve internada numa clínica psiquiátrica?

            - Sim. - A voz dela ia-se tornando gradualmente mais branda e Charles sentiu-se agoniado com tudo aquilo, tal como John Taylor. Malcolm Patterson olhava em frente com uma expressão imperscrutável.

            - Esteve, com efeito, mentalmente doente, está correto?

            - Suponho que sim. Estava muito perturbada.

            - Durante muito tempo?

            - Sim.

            - Quanto tempo esteve internada?

            - Dois anos.

            - Mais que dois anos?

            - Pouco mais. - Mas Tom Armour já estava de pé novamente.

            - Volto a lembrar ao tribunal que a senhora Patterson não está sendo julgada.

            - Deferido. Doutor Palmer, onde é que pretende chegar com isso? Se julgarmos cada uma das testemunhas individualmente, nem dentro de seis meses chegaremos ao fim deste caso.

            - Se me permitir, meritíssimo, mostrarei o meu objetivo dentro de breves instantes.

            - Está bem, senhor doutor, mas seja breve.

            - Sim, senhor. Agora, senhora Patterson. - Tornou a voltar-se para Marielle. - Esteve internada numa clínica psiquiátrica durante mais de dois anos, certo?

            - Certo. - Palmer assentiu na sua direção e, pela primeira vez, pareceu quase contente com ela.

            - Alguma vez tentou cometer suicídio durante esse tempo? - Quando ele fez a pergunta, ela pareceu empalidecer por um momento.

            - Sim, tentei.

            - Mais do que uma vez?

            - Sim.

            - Quantas vezes?

            Ela pensou um pouco e deitou uma olhadela inconsciente ao pulso esquerdo, mas as cicatrizes já não eram visíveis graças a um habilidoso cirurgião plástico.

            - Sete ou oito vezes. - Manteve o olhar baixo daquela vez; não era nada de que se orgulhasse. E podia ter respondido que não se lembrava.

            - Foi porque se sentiu responsável pela morte do seu filho?

            - Sim - respondeu ela, quase de um grito.

            - E onde se encontrava o senhor Delauney durante esse tempo?

            - Não sei. Não o vi durante vários anos.

            - Estava tão perturbado quanto a senhora?

            Tom Armour tornou a protestar, mas nem ele conseguia salvaguardá-la.

            - O senhor doutor está pedindo à testemunha que faça conjecturas sobre o estado de espírito do meu cliente. Porque não guardar isso para mais tarde?

            - Deferido. Senhor doutor, está avisado. - Morrison já estava começando a ficar aborrecido e Palmer pediu desculpa, mas era visível que não estava arrependido.

            - O senhor Delauney era senhor de si quando a criança se afogou?

            - Não. Eu estava sozinha com ela. Charles andava a esquiar.

            - E acusou-a da morte da criança?

            - Protesto! - gritou Tom. - Está novamente fazendo conjecturas sobre o estado de espírito do meu cliente.

            - Indeferido, senhor Armour - entoou o juiz -, pode ser importante. Protesto indeferido.

            - Repito, senhora Patterson - daquela vez disse o nome certo -, o argüido culpou-a pela morte da criança?

            - Penso que sim... estávamos ambos extremamente perturbados.

            - Ficou muito zangado?

            - Sim.

            - Como? Bateu-lhe? - Ela hesitou na resposta. - Bateu-lhe?

            - Eu...

            - Senhora Patterson, a senhora encontra-se sob juramento. Por favor responda à pergunta. Ele bateu-lhe?

            - Deu-me uma bofetada.

            - Meritíssimo. - Bill Palmer mostrou um telegrama ao juiz e depois entregou-o a Tom Armour para este o inspecionar. - Este telegrama foi remetido pelo administrador do Hospital Sainte Vierge em Genebra e afirma que, segundo os arquivos deles, o marido da senhora Marielle Delauney lhe "bateu", utilizaram a palavra battue, cuja tradução é "bater", segundo a observação a que foi submetida no hospital, na altura da morte do filho. Sofreu danos extensos, abortando ainda no decorrer dessa noite. - Houve um sobressalto na sala e depois Palmer tornou a virar-se para ela, que empalidecera. - Diria que este relatório está correto, senhora Patterson?

            - Sim. - Não conseguiu dizer mais nada. Mal conseguia falar.

            - O senhor Delauney bateu-lhe em mais alguma ocasião?

            - Não.

            - E alguma vez sofreu de perturbações mentais antes do incidente da morte do seu filho?

            - Não.

            - Diria que está totalmente recuperada?

            - Sim.

            Houve uma breve pausa, em que Palmer consultou algumas notas, prosseguindo em seguida.

            - Senhora Patterson, sofre crises de fortes enxaquecas?

            - Sim.

            - E quando começaram?

            - Em... depois... durante a minha estada na Suíça.

            - Mas as tem tido desde então?

            - Sim.

            - Recentemente?

            - Sim.

            - Quando?

            Ela tentou esboçar um sorriso, mas não conseguiu.

            - Ainda este fim-de-semana.

            - Diria que teve quantas crises no último mês?

            - Talvez quatro ou cinco por semana.

            - Tantas? - Parecia estar com pena dela. - E antes do rapto do seu filho? A mesma quantidade?

            - Talvez duas ou três por semana.

            - Tem mais algum problema recorrente, devido ao seu passado, senhora Patterson? É invulgarmente tímida ou retraída, por vezes tem medo das pessoas? Tem medo de enfrentar responsabilidades... de ser acusada de coisas; Tom Armour tornou a levantar-se, na tentativa de deter o que se estava transformando numa chacina.

            - O meu colega não é psiquiatra. Se acha que precisa de um psiquiatra, deve chamar um perito ao banco das testemunhas.

            - Meritíssimo. - Bill Palmer voltou a aproximar-se do juiz e depois acenou com outro papel a Tom Armour. - Este telegrama é do médico da senhora Patterson, da Clínique Verbeuf em Villars, confirmando que ela esteve mesmo lá enclausurada.

            - Protesto! - Tom estava furioso e Marielle nem sequer era cliente dele. - A senhora não esteve na prisão!

            - Deferido. Senhor Palmer, por favor, modere a sua linguagem.

            - Desculpe, meritíssimo. A senhora Patterson esteve internada por um período de dois anos e dois meses devido a um colapso nervoso e a uma profunda depressão. Aparentemente, tentou suicidar-se inúmeras vezes, sofrendo ainda de fortes crises de enxaquecas. Este foi o diagnóstico oficial.

            O doutor Verbeuf acrescenta ainda que tem conhecimento de que as enxaquecas persistem e que, em alturas de grande stress, como esta que está a atravessando neste momento, a sua saúde mental pode ser considerada extremamente frágil. Sem qualquer intenção, o bom doutor acabara com ela. E dissesse ela o que dissesse a partir daquele momento, iriam pensar que estava perturbada, constituindo uma testemunha que não inspirava confiança.

            Mas Palmer ainda não tinha terminado. Após o telegrama do Doutor Verbeuf ser admitido como prova B, Palmer prosseguiu com o seu interrogatório.

            - Teve algum caso com o argüido desde o divórcio?

            - Não, não tive.

            - Viu-o nos últimos meses ou antes de o seu filho ser raptado?

            - Sim, encontrei-o casualmente na igreja, no dia do aniversário da morte do nosso filho. E no dia seguinte, no parque.

            - O seu filho estava consigo em alguma dessas ocasiões?

            - Sim, na segunda.

            - E qual foi a reação do senhor Delauney? Ficou contente por o conhecer?

            - Não. - Ela baixou os olhos para não ter de olhar para ele. - Ficou perturbado.

            - Diria que ficou zangado? Ela primeiro hesitou e depois assentiu com a cabeça.

            - Sim.

            - Ameaçou-a de algum modo?

            - Sim, mas não sei se estava falando sério.

            - E quando é que o seu filho foi raptado, senhora Patterson? - Se não conseguisse mais, estava a fazendo-a passar por extremamente estúpida.

            - No dia seguinte.

            - Acredita que haja uma relação entre as ameaças do senhor Delauney e o desaparecimento do seu filho?

            - Não sei.

            E então tornou a mudar de tática.

            - Alguma vez beijou o senhor Delauney desde o vosso divórcio, senhora Patterson? - Ela hesitou por uns instantes e depois assentiu com a cabeça. - Por favor, responda à minha pergunta.

            - Sim.

            - E quando foi isso?

            - Quando o encontrei na igreja. Não o via há quase sete anos e ele beijou-me.

            - Foi apenas um beijo rápido na face ou um beijo nos lábios, como no cinema? - A audiência largou um riso abafado, mas Marielle nem sequer sorriu. E John Taylor sabia que Palmer estivera falando com o motorista e que este persistira na sua estúpida história do "namorado".

            - Foi um beijo nos lábios.

            - E visitou-o na prisão?

            - Sim. Uma vez.

            - Senhora Patterson, ainda ama o senhor Delauney? - A partir daquele momento, tudo o que ela pudesse dizer sobre ele seria inútil. Ela tornou a hesitar e depois abanou a cabeça.

            - Penso que não.

            - Acredita que ele raptou o seu filho?

            - Não sei. Talvez. Não tenho certeza.

            - E sente-se de algum modo responsável por esse rapto?

            - Não tenho certeza... - A voz dela foi-se abaixo ao pronunciar aquelas palavras e todos que se encontravam na sala se lembrou do que o médico suíço escrevera: que sob o efeito do stress, a sua saúde mental podia tornar-se extremamente frágil. Palmer fizera com ela exatamente o que queria. Desacreditara-a totalmente. Marielle soou atrapalhada e confusa, insegura em relação à culpabilidade de Delauney, ou à sua própria culpa, uma mulher que tentou suicidar-se várias vezes, que sofria de enxaquecas e que provavelmente teria sido responsável pelo afogamento do seu primeiro filho. E se agora a defesa quisesse utilizá-la como testemunha, não lhe serviria de nada, e Palmer sabia disso. Era exatamente o que ele se propusera a fazer, porém lavara o chão com ela no processo e John Taylor sabia muito bem quem o tinha ajudado. Malcolm. E o próprio Taylor sentiu-se culpado por cada telefonema que fizera. Mas os seus tinham sido todos inofensivos.

            - Obrigado, senhora Patterson - agradeceu Bill Palmer com frieza e depois voltou-se para Tom Armour. - A testemunha é sua.

            - A defesa gostaria de chamar a testemunha mais tarde, meritíssimo. - Queria dar tempo a todos para se acalmarem. principalmente a Marielle, que parecia morta, enquanto descia do banco das testemunhas, e o juiz suspendeu a audiência até depois de almoço, às duas da tarde. Mas, quando tentou sair da sala com Malcolm e os homens do FBI, Marielle foi asfixiada pela imprensa, que se aglomerou à volta, à porta da sala de audiências. Charles tentara captar o olhar dela à saída, mas Marielle estava demasiado agoniada para sequer olhar para ele, além dos jornalistas que tentavam agarrar-lhe a roupa, flagelando-a com perguntas aos gritos, enquanto ela saia do tribunal.

            - Fale-nos do hospital... dos suicídios... do seu menino... Conte-nos tudo...  Marielle, dê-nos uma dica! - As vozes deles ainda tiniam aos seus ouvidos, no decorrer da viagem para casa. John Taylor olhava friamente pela janela, Apenas Malcolm se atreveu sussurrar-lhe e ela ficou estupefata com as suas palavras.

            - Foi repugnante. - Ela olhou para ele, sem saber a que é que ele se referia, certamente à maneira como Palmer a tratara, mas percebia pela expressão dele que Malcolm se referia ao que ouvira sobre ela. Não pronunciou mais nenhuma palavra e os olhos dela encheram-se de lágrimas no caminho para casa. Na biblioteca, a sós, ela perguntou-lhe a que é ele se referia, mas naquele momento ele apenas olhou para ela com desdém.

            - Marielle, como pode?

            - Como pude o quê? Contar-lhe a verdade? Qual era a minha alternativa? Ele sabia de tudo de qualquer maneira. Ouviu o que diziam as cartas dos dois médicos.

            - Meu Deus... os suicídios... as enxaquecas... dois anos numa clínica psiquiátrica...

            - Eu te contei em Dezembro. - E contara, logo após o rapto de Teddy. Mais exatamente, na manhã seguinte.

            - Naquele momento não soou assim. - Malcolm tinha um ar de quem estava genuinamente horrorizado e, de repente, ela sentiu-se profundamente envergonhada. Fitou o homem que pensava conhecer e correu para o seu quarto no andar de cima, trancando a porta. Mas pouco depois reparou num pedaço de papel sendo introduzido por debaixo da porta. Apenas dizia: "Telefone para o seu médico." Primeiro pensou que fosse alguém tentando ser maldoso, mas depois reconheceu a letra de John Taylor e pôs-se a matutar sobre a razão de ele querer que ela telefonasse ao seu médico. Mas então veio-lhe luz. Algo dentro dela lhe disse.

            Foi a correr buscar a agenda, pegou no auscultador e pediu à telefonista que fizesse a ligação. Eram nove da noite em Villars, mas ela sabia que o médico estava lá permanentemente, pois vivia lá. E estava mesmo em casa; ficou surpreendido quando a ouviu:

            - O que é que está acontecendo aí?       

            Marielle contou-lhe sobre o rapto, mas partiu do princípio que ele já sabia, e ele contou-lhe que já respondera a muitas perguntas. Ela não lhe contou que ele a desmoralizara com o seu telegrama, pois sabia que iria ficar muito transtornado se soubesse que as suas palavras tinham sido deturpadas. Aquele homem salvara-a em determinado momento da sua vida.

            - Está bem? - perguntou ele, bastante preocupado com ela.

            - Penso que sim.

            - Les migraines?

            - Melhores, às vezes. Agora não. É difícil, com o desaparecimento de Teddy... e o Malcolm... o meu marido... tive de lhe contar sobre o Charles e o André... e da clinique. Ele nunca quis saber de nada, antes de casarmos.

            - Mas ele sabia. - O Doutor Verbeuf soou como se estivesse surpreendido por ela não saber disso. - Ele telefonou-me antes de se casarem em... oh... quando foi isso?... Mil novecentos e trinta e dois? Sim, foi isso. Foi no mesmo ano em que você foi embora. Você saiu em Fevereiro e ele deve ter telefonado em Outubro. - Tinham casado três meses depois, em janeiro, no dia de Ano Novo.

            - Ele lhe telefonou? - Ela estava confusa. - Mas porquê?

            - Queria saber se podia fazer alguma coisa por você... pelas enxaquecas... tornar a sua vida mais feliz... Eu disse-lhe que você devia era ter vários filhos. - Mas agora estava triste por ela estar de novo envolvida numa tragédia. Era uma moça tão boa e não tivera muita sorte na vida. - Já têm alguma notícia da criança?

            - Ainda não.

            - Me mande notícias.

            - Darei. - Perguntou-se a si própria se ele fazia idéia o uso que haviam dado ao seu telegrama e, quando desligou, pensou nos motivos que teriam levado Malcolm a agir daquela maneira. Soubera de tudo, durante todos aqueles anos, e contudo, quando ela lhe contara, ficara chocado e até deixara Bill Palmer utilizar aquelas informações.

            No entanto, não houve tempo para perguntas, pois tiveram de se apressar para estarem de volta ao tribunal antes das duas. E ela não contou nada a John durante a tarde. Estava profundamente perdida nos seus próprios pensamentos e tinha dúvidas demais. Nessa tarde, o promotor público chamou Patrick Reilley a depor e este descreveu o que vira na Catedral de Saint Patrick e a expressão de Delauney no parque, na tarde seguinte. Disse que Charles estava furioso e que o vira a agarrá-la e a tentar abaná-la.

            E as horas pareciam intermináveis, até chegar a hora em que poderia confrontar-se com Malcolm. O caminho de regresso a casa decorreu novamente em silêncio e, quando por fim ficaram a sós, ela foi encontrá-lo no quarto de vestir. Estava vestindo-se para um jantar sossegado no seu clube. Disse que precisava sair dali e de descansar a cabeça por uma noite.

            - Você mentiu.

            - Sobre o quê? - Virou-se para ela, visivelmente desinteressado.

            - Deixou que eu contasse a história toda depois de Teddy desaparecer. E já sabia. Sabia de tudo... do André... do Charles... da clínica. Porque não me disse?

            - Acha mesmo que eu casaria com você sem saber do seu passado? - Fitou-a com uma expressão irônica. Pela parte que lhe cabia, ela fizera figura de idiota no banco das testemunhas naquele dia, e fizera-o pelo mesmo... beijar Charles Delauney na igreja. Era repelente.

            - Você mentiu.

            - E você pôs a vida do meu filho em perigo. Trouxe esse filho da mãe para a nossa vida e, por sua causa, ele levou-o daqui. - Parecia que ele não se importava sobre o que haviam dito sobre a fragilidade do estado mental de Marielle, ela custara-lhe tudo o que era importante para ele. - E o que eu sei ou não sobre você não lhe diz respeito. É assunto meu.

            - Como é que pode contar à Bill Palmer?

            - Porque se ele não a desacreditasse, você poderia ficar do lado daquele idiota com quem esteve casada... aquele filho da mãe... aquele assassino... mas você, com esse seu coração de manteiga, ainda não meteu na cabeça que ele é culpado.

            - Então me fez passar por tudo aquilo? Para que eu não pudesse ajudá-lo? - Ela deixara de entende-lo e perguntou-se a si própria se alguma vez o conhecera como ele era realmente.

            -Se ele for parar na cadeira elétrica pela morte de Teddy, será pouco.

            - Então é isso? Um jogo de vingança entre vocês os dois? Ele leva o Teddy e você o manda para a morte? O que é que está acontecendo com todos vocês? - Sentiu-se enfastiada ao olhar para ele.

            - Saia do meu quarto, Marielle. Não tenho nada a para te dizer hoje à noite.

            Ela fitou-o, incrédula. Ele a desmoralizara conscientemente com o intuito de destruir Charles.

            - Já não sei quem você é.

            - Isso deixou de ser importante.

            - Está tentando me dizer o quê? - Ela falava aos guinchos, mas tivera um dia horrível e já não agüentava mais.

            - Acho que você percebeu muito bem.

            - Acabou, não é? - Se é que alguma vez tinha existido alguma coisa. Houvera alguma coisa em comum, exceto Teddy?

            - Acabou tudo no dia em que o Delauney levou o meu filho daqui. Agora pode voltar para ele, quando tudo acabar, e podem ambos chorar pelo que fizeram. Nunca a perdoarei. - E ela sabia que ele estava falando sério.

            - Quer que saia agora, Malcolm? - Estava disposta a fazê-lo. Teria ido para um hotel nessa noite, se fosse esse o desejo dele.

            - Está assim tão ansiosa por provocar mais escândalos? Podia ao menos ter a decência de esperar até deixarmos de estar na ribalta, depois do julgamento.

            Ela assentiu e pouco depois regressou ao seu quarto. Já não havia mais nada que pudesse surpreendê-la. Estava casada com um estranho, um homem que a odiava por ter perdido o filho. Mais um. A vida tinha sido cruel para com ela. E acontecesse o que acontecesse em seguida, encontrassem ou não Teddy, ela sabia que o casamento estava acabado.

 

            Na manhã seguinte, Marielle tomou o pequeno-almoço, apenas uma xícara de chá e parte de uma torrada, ao mesmo tempo em que dava uma olhada no jornal. Estava tudo lá, o horror do dia anterior.

            A humilhação e a desmoralização a que fora sujeitada nas mãos de Bill Palmer. O primeiro artigo que leu dizia que Marielle tinha sido doente mental durante anos e que tivera de ser carregada do banco das testemunhas aos gritos. Era tão injusto o que lhe estavam fazendo com ela, continuava a não conseguir acreditar que Malcolm os ajudara naquilo tudo. E depois virou a última página e viu o artigo escrito por Bea Ritter. A princípio decidiu que não ia lê-lo, mas à medida que passava os olhos pela página, parou e recomeçou, ao mesmo tempo que estes se enchiam de lágrimas.

            "Aristocrática, elegante, digna, Marielle Patterson foi chamada a depor ontem, nunca perdendo a dignidade ou a compostura à medida que a acusação a destroçava durante várias horas, numa tentativa de desacreditá-la totalmente. Uma tentativa que não foi bem sucedida, para admiração de todos os que a viram. Suportou a dor de relatar as circunstâncias em que ocorreram as mortes dos seus dois filhos, num trágico acidente há quase dez anos, deixando os presentes sem fôlego. E continuou, explicando o seu subseqüente divórcio de Charles Delauney. A experiência vivida numa clínica na Suíça foi ouvida não com compaixão ou compreensão, mas ridicularizada e utilizada para a desacreditar como testemunha... "O artigo continuava mais meia página e fechava com as seguintes palavras: "Uma coisa é certa: após termos ouvido o depoimento da mãe da vítima, chegamos à conclusão que Marielle Patterson é uma senhora dos pés à cabeça. Saiu da sala de audiências com a cabeça bem erguida, apesar de, como qualquer mãe sabe, o seu coração estar despedaçado."Seguia-se então a assinatura de Bea Ritter.

            Marielle enxugou os olhos com o guardanapo e levantou-se para pôr o chapéu. As palavras de Bea Ritter haviam sido amáveis, mas não alteravam o fato de o seu próprio marido e o promotor público terem preparado uma armadilha para prejudicá-la, de modo a não poder ajudar Charles Delauney. Ela nem nunca tivera intenção de ajudá-lo. Mas a sua incerteza em relação à culpabilidade de Charles preocupara-os visivelmente.

            John Taylor e os outros homens já se encontravam dentro do carro à sua espera, quando desceu. Quando subiu para o Pierce-Arrow, usava novamente um chapéu e um vestido pretos e um casaco escuro de pele de castor. Nem uma única palavra foi pronunciada no caminho para o centro da cidade. Marielle não dirigiu uma única palavra a Malcolm ou a John, enquanto o primeiro passou a viagem inteira olhando pela janela. Nem John tinha capacidade para lhe dizer muito. Tocou-lhe uma vez na mão de leve, quando se sentaram, mas não se atrevia a mostrar os seus sentimentos naquele lugar. Apenas queria lhe oferecer a sua solidariedade, mas era difícil fazê-lo numa sala de audiências.

            O juiz Morrison tornou a lembrar o que se esperava de todos um comportamento decoroso. E, dirigindo um olhar aguçado à imprensa, lembrou-lhes que era irresponsável da parte deles relatar coisas que não tinham realmente acontecido. Incomodara-o ler o relato da suposta retirada em braços de Marielle do seu tribunal.

            E em seguida, prosseguiu a chacina do dia anterior. Aparentemente, Bill Palmer decidira que não era suficiente obter o testemunho de Marielle, mas que deveria chamar outras pessoas para depor, para ajudarem a desacreditá-la. Após o que, sem qualquer compaixão pela mãe da criança, apenas a voz de Malcolm seria ouvida, e este não duvidara da culpabilidade de Delauney, nem por um minuto.

            Patrick Reilly, o motorista, foi novamente chamado ao banco das testemunhas, seguido por Edith e por Miss Griffin. E juntos, com a ajuda de Bill Palmer, fizeram um retrato de uma mulher nervosa, histérica e instável, incapaz de gerir a sua própria casa, tomar conta do seu filho ou ser de alguma utilidade real para o marido.

            - Diria que a senhora Patterson é uma pessoa responsável - perguntou Bill Palmer à ama, ao mesmo tempo que Tom Armour se punha de pé de um salto, pelo que parecia a milionésima vez, objetando.

            - Esta senhora não é uma perita. E a competência da senhora Patterson não está sendo aqui julgada. Chame um psiquiatra se quiser esse tipo de testemunho, senhor doutor, não uma empregada, por amor de Deus!

            - Se não tiver cuidado com a linguagem, senhor Armour, cito-o por desrespeito! - rugiu o juiz.

            - Desculpe.

            - Indeferido. - E o martírio continuou, sem ninguém que a apoiasse.

            John Taylor e Charles Delauney sabiam que não era verdade, mas nada podiam fazer para acrescentar uma palavra amável; estavam impotentes. E até o marido se virara contra ela.

            - Diria que a senhora era uma boa mãe? - perguntou por fim Bill Palmer a Miss Griffin, e a mulherzinha hesitou apenas por uns segundos. O suficiente para magoar profundamente Marielle.

            - Não muito. - Todos engoliram em seco e Marielle quase desmaiou. Parecia prestes a tombar para a frente, mas John Taylor puxou-a rapidamente para trás com firmeza, antes que a imprensa desse conta do sucedido.

            - Importa-se de nos dizer porque não?

            - É demasiado doente para poder ajudar alguém e é muito nervosa. As crianças precisam de um clima de estabilidade, de pessoas fortes. Como o senhor Patterson. - Parecia muito orgulhosa de si própria e Marielle tornou a perguntar-se o que teria feito para aquela gente a odiar tanto.

            - Meritíssimo. - Thomas Armour levantou-se de novo com um ar fatigado. - Este julgamento não se destina à obtenção da custódia da criança. As capacidades da senhora Patterson como mãe não são para aqui chamadas. Isto é um caso de rapto, e eu ainda estou para ouvir alguém mencionar sequer o meu cliente. Na verdade, estas pessoas nem sequer o conhecem. - Mal conheciam também Marielle, mas Palmer queria ter certeza de que Marielle ficaria completamente desmoralizada, sem sombra de dúvida, para que, se mais tarde fosse chamada pela defesa, não tivesse qualquer utilidade. Quem iria dar ouvidos a uma mulher que estivera internada numa instituição psiquiátrica durante anos e que nem sequer era considerada uma boa mãe pelos seus próprios empregados? Palmer cumprira aquela tarefa na perfeição. E naquela tarde completou o quadro.

            Malcolm Patterson foi chamado a depor pela acusação, logo após o almoço.

            - Tinha conhecimento do passado da sua mulher, senhor Patterson?

            - Não. - Os olhos azuis frios de Malcolm fitavam Bill Palmer diretamente e nem por um instante permitiu que Marielle entrasse no seu campo de visão.

            - Não fazia idéia de que ela estivera internada numa clínica psiquiátrica, está correto?

            - Sim, está, ou nunca teria casado com ela. - Marielle já sabia que o que ele estava dizendo era mentira. A única coisa que não sabia era a razão de Malcolm querer desmoralizá-la. Sentou-se muito direita e de cabeça erguida e fixou o olhar num ponto sobre a cabeça dele, na parede, pensando em momentos mais felizes... com o pequeno Teddy.

            Sentia-se completamente impotente para se defender naquele momento ou para expor o logro de Malcolm. E essa era a intenção dele.

            - Sabia que ela tinha sido casada com Charles Delauney?

            - Não, não sabia. Ela nunca me contou. Sabia que tinha. havido um pequeno interlúdio juvenil. Ouvi dizer que ela tinha vivido um romance em Paris, quando era jovem, mas mais nada. Ela ocultou-me o fato de ter sido casada.

            Bill Palmer assentiu com a cabeça, compartilhando a tristeza de Malcolm por este ter sido enganado pela mulher.

            - Sabe alguma coisa sobre o senhor Delauney, sir?

            - Apenas a sua reputação. O pai manteve-o fora do país durante muitos anos.

            - Protesto! - Tom já estava de novo de pé. - Teríamos de ouvir o testemunho do senhor Delauney pai, para ele nos afirmar isso. Não há qualquer prova de que a família do meu cliente o quisesse fora do país. De fato, passava-se exatamente o contrário. Queriam que ele voltasse para casa.

            - Deferido. Boato. Pode prosseguir, senhor Palmer.

            - Alguma vez viu o senhor Delauney?

            - Nunca, até este julgamento.

            - Alguma vez ele telefonou, ameaçou, molestou, a si ou a algum membro da sua família?

            - Protesto!

            - Indeferido!

            Malcolm respondeu.          

            - Ameaçou a minha mulher e o meu filho. Disse-lhe que raptaria o filho se ela não voltasse para ele.

            - E quando foi isso?

            Malcolm baixou a cabeça por uns instantes, antes de responder, e depois olhou diretamente para a sala de audiências.

            - Um dia antes de o meu filho me ser levado.  

            - Viu o seu filho mais alguma vez depois desse dia?

            Malcolm abanou a cabeça, incapaz de falar.

            - Importa-se de falar alto para ficar em ata, por favor, sir? - A sua voz denotava toda a amabilidade que deveria ter utilizado para com Marielle e não fez.

            - Desculpe... não... não vi...

            - E há quanto tempo foi isso?

            - Quase há três meses, até hoje. O meu menino foi-nos levado em onze de Dezembro... pouco depois do seu quarto aniversário.

            - Houve chamadas ou pedidos de resgate por escrito?

            - Apenas uma, mas não era verdadeira. O dinheiro nunca foi resgatado.

            - A implicação era óbvia. Delauney não pedira resgate, porque o que queria era vingança e, de qualquer maneira, de dinheiro é que não precisava.

            - Acredita que o seu filho ainda está vivo?

            Ele tornou a abanar a cabeça, mas daquela vez esforçou-se por falar.

            - Não, não acredito. Acho que, se estivesse vivo, já teria sido devolvido. O FBI procurou-o em todos os estados. Se ainda estivesse vivo, já o teriam encontrado.

            - Acredita que o senhor Delauney é o autor do rapto?

            - Acredito que tenha contratado pessoas para o raptarem e provavelmente matarem.

            - O que é que o convenceu disso?

            - Encontraram o pijama do Teddy... do meu menino na casa dele... e um ursinho de pelúcia que ele adorava... ele vestia esse mesmo pijama quando foi levado. - E, apesar de ser quem era, desatou a chorar, e podia-se sentir toda a compaixão dos presentes na sala de audiências passando para o lado dele. O promotor esperou com delicadeza até ele se compor. E, no seu lugar, Brigitte secava os olhos com um lencinho de renda.

            - Acredita que a sua mulher ainda ama o senhor Delauney? - Teria querido dizer "está envolvida com", mas os investigadores não haviam encontrado absolutamente nada que pudesse corroborar o fato de ela ter andado a dormir com Charles, tendo portanto decidido jogar pelo seguro e não utilizar qualquer expressão que pudesse ser desaprovada.

            - Acredito que sim. Soube pelo meu motorista que, dois dias antes do rapto, eles se encontraram na igreja e que ela o beijou várias vezes. Acho que ela nunca deixou de amá-lo durante todo o tempo que esteve casada comigo. Talvez seja por isso que sempre foi tão doente. - Faziam-na passar por inválida, em vez de uma mulher jovem com uma vida complicada, que sofria de dores de cabeça, uma mulher que passara por uma tragédia e mesmo assim conseguira sobreviver.

            - Acha que a sua mulher é culpada pelo rapto do seu filho? - Fez a pergunta como se estivesse à espera de um veredicto e Malcolm esperou o tempo suficiente para responder, para que todos pensassem que era o que estava fazendo.

            - Acho que Charles Delauney raptou o meu filho por culpa dela. Acho que é por culpa dela e que ele a considera responsável pela morte do seu próprio filho e que se tenha querido vingar no meu. A culpa é dela por tê-lo trazido para a nossa vida. - Olhou para a sala de audiências com um ar angustiado e depois para ela, mas ela não lhe retribuiu o olhar.

            - Senhor Patterson, apesar de sentir que a senhora Patterson é em parte responsável por... esta tragédia, imagina-se a si próprio vingando-se dela de algum modo? Castigando-a ou fazendo mal a alguém que ela ame? Magoando-a a ela? - Já o tinha feito. Marielle sabia-o bem demais. Através de todas as suas atitudes nos últimos dias e o modo como se comportara desde o rapto de Teddy e as palavras que proferira no banco das testemunhas. já era suficientemente doloroso ter perdido o seu filho, mas ainda ser atacada pelo marido... já era mais do que suficiente para a destruir; não obstante, ela continuaria a lutar para o evitar. - Imagina-se a vingar-se nela ou em alguém? - Repetiu Bill Palmer, e Malcolm, ali sentado como um deus, articulou uma única palavra e a sua voz ecoou na sala.

            - Nunca.

            - Obrigado, senhor Patterson. - Voltou-se para Tom: - Senhor Armour, a testemunha é sua.

            Tom Armour levantou-se e não pronunciou uma única palavra num espaço de tempo interminável, começando então a deslocar-se pela sala. Passou em frente dos jurados e sorriu para alguns deles, como que para os descontrair. Por fim, dirigiu-se para o estrado em frente a Malcolm, mas já não sorria.

            - Boa tarde, senhor Patterson.

            - Boa tarde, senhor Armour. - Malcolm exibia um ar solene pouco usual, mas Tom Armour parecia extremamente descontraído, consciente de que o mundo o observava. Era uma tática intrigante.

            - Diria que... - Parecia procurar as palavras certas. - Que o seu casamento com a senhora Patterson tem sido um casamento feliz?

            - Diria, sim.

            - Apesar da doença dela... da falta de credibilidade que ela inspira... das suas dores de cabeça?

            Por um momento, Malcolm não teve certeza do que dizer, mas rapidamente recuperou as energias.

            - Certamente que não facilitaram a nossa vida, mas acho que tenho sido feliz.

            - Muito feliz?

            - Muito feliz. - Malcolm pareceu aborrecido, não conseguia ver onde queria chegar o advogado de defesa.

            - Já foi casado anteriormente?

            Malcolm resmungou as palavras e esticou o queixo para fora, quase visivelmente.

            - Sim. Duas vezes. Todos sabem.

            - E a senhora Patterson tem conhecimento disso?

            - Claro.

            - Diria que esse fato prejudicou de algum modo o seu atual casamento?

            - Claro que não.

            - Teria incomodado o fato de saber que a senhora Patterson já tinha sido casada?

            Daquela vez ele hesitou.

            - Provavelmente não. Mas preferiria que ela tivesse sido honesta comigo.

            - Naturalmente. - Tom concordou com ele.

            - Senhor Patterson, alguma vez teve outros filhos?

            - Não. O Theodore é... era... o meu único filho.

            - Diz... era... já não acredita que ele esteja vivo?

            Tom fez um ar admirado, como se tal lhe parecesse improvável.

            - Não... já não acredito que ele esteja vivo. Acho que o senhor Delauney o matou. - Disse aquilo para irritar Tom, mas não conseguiu.

            - Eu entendo. Mas se ele estiver morto... e todos nós aqui somos os primeiros a esperar que não seja esse o caso... mas se estiver... como descreveria tal acontecimento na sua vida?

            - Desculpe... não percebo.

            Tom Armour aproximou-se e olhou-o nos olhos.

            - Se o seu filho morreu, senhor Patterson, o que é que sente? O que é que vai fazer da sua vida? - O tom de voz de Tom era implacável. Mas sem hesitar, Malcolm fitou Tom e respondeu.

            - Acabará comigo... a minha vida nunca mais será a mesma.

            - Senhor Patterson, diria que esse fato o deixaria arrasado?

            Malcom pendeu a cabeça e assentiu, antes de voltar a olhar para Tom.

            - Claro... é o meu único filho...

            Tom assentiu, compreensivo, e depois aproximou-se mais um pouco.

            - O arrasaria não é... então porque é que ficou tão chocado com o fato de a senhora Patterson ter ficado praticamente arrasada após a morte do outro filho. Estava à espera de uma atitude diferente?

            - Não, eu... - Pareceu sentir-se desconfortável por uns instantes.

            John Taylor cerrou os lábios, mas Marielle esforçava-se por não ouvir o que estava se passando. - Imagino que deve ter sido muito difícil.

            - Ela tinha vinte e um anos... e estava grávida dele de cinco meses... o filho pequeno morre... o pai morre poucos meses depois... a própria mãe suicida-se nos seis meses que se seguem... o marido vira-se contra ela, perturbado pelo seu próprio sofrimento devido à morte da criança. O que faria, senhor Patterson? Como se sentiria? Agüentaria bem?

            - Eu... eu... - Não conseguia responder e o júri parecia estar interessado nas palavras de Tom.

            - A senhora Patterson encontra-se presente na sala de audiências?

            - Sim... claro...

            - Pode apontá-la para eu ver?

            - Meritíssimo - Bill Palmer pôs-se de pé, pronto para se opor à pergunta -, será necessário assistir a esta charada?

            - Tenha paciência, senhor doutor. Senhor Armour, continue, mas não se ponha com muitas atitudes disparatadas, pois temos ainda muitas testemunhas para ouvir e os nossos amigos jurados não querem ficar para sempre num hotel às custas dos contribuintes. - Ouviram-se uns risinhos abafados na sala e Tom Armour sorriu. Em comparação com o que Marielle conhecera dele antes, Tom parecia de repente surpreendentemente divertido. Mas aquele ar era ilusório. Dentro dele havia um dispositivo que controlava a tensão de uma maneira incrível.

            - Senhor Patterson, faça-nos o favor de apontar a sua mulher? - Malcolm o fez. - Ela encontra-se aqui hoje e o dia de ontem para ela foi tudo menos fácil, ter de falar sobre a morte dos filhos, do rapto do seu filho, da sua estada na clínica na Suíça... ou do seu casamento com o senhor Delauney... Mas ela encontra-se presente. Parece-me sã e muito controlada. - Marielle, sentada ao lado de John Taylor, tinha um ar calmo. Malcolm estava furioso, mas esforçava-se desesperadamente por esconder as suas emoções. - Concorda comigo, sir? A mim parece-me bastante normal e provavelmente a todos os que se encontram aqui. Diria que ela está agüentando bem, apesar de tudo?

            - Presumo que sim - acedeu ele, com certo pesar.

            - Diria que os problemas anteriores dela pertencem ao passado?

            - Não sei - respondeu ele com brusquidão. - Não sou médico.

            - Há quanto tempo estão casados?

            - Há mais de seis anos.

            - Alguma vez durante esse período de tempo a senhora Patterson foi internada num hospital devido a problemas mentais?

            - Não, não foi.

            - Diria que ela já fez alguma coisa que pusesse em perigo a vida do seu filho?

            - Sim. - Quase gritou para Tom e, daquela vez, o advogado de defesa pareceu estupefato, querendo clarificar a situação rapidamente, antes que ficasse ainda pior. Mas a resposta de Malcolm havia-o apanhado de surpresa.

            - O que é que ela fez para pôr em perigo a vida do seu filho?

            - Ligou-se a Charles Delauney. Até o levou ao parque, expondo-o a um homem destes. E depois ele raptou o Teddy! - Gritava e acenava com uma mão e Tom suspirou de alívio.

            - A senhora Patterson afirma que o encontro não foi combinado, que se depararam com o senhor Delauney acidentalmente.

            - Não acredito nela.

            - Alguma vez lhe mentiu antes?

            - Sim, sobre a história dos problemas mentais e o casamento com Charles Delauney. - Tom sabia que era mentira, mas decidiu não o provocar naquele momento.

            - Se isso é verdade, senhor Patterson, alguma vez ela lhe mentiu, sem ser dessa vez?

            - Não sei.

            - Está bem, então, sem ser o encontro no parque no dia antes do rapto do Teddy, alguma vez ela fez alguma coisa que pudesse pôr em perigo a vida do seu filho? Levando-o a algum lugar perigoso... deixando-o abandonado... ou até deixando-o sozinho na banheira?

            - Não sei.

            - Se lembraria se ela tivesse exposto o seu filho a algum perigo?

            - Claro! - Malcolm enterrava-se lentamente e John Taylor estava adorando.

            - Acredita que a sua mulher lhe foi fiel, sir?

            - Não sei.

            - Alguma vez teve razões para suspeitar da fidelidade dela?

            - Não. - Encolheu os ombros, como se não lhe importasse.

            - O senhor viaja muito, não é?

            - Tenho de viajar. Negócios.

            - Claro. E o que é que a senhora Patterson faz quando o senhor está viajando?

            - Fica em casa. - Estava irritadíssimo. - Com enxaqueca. - Algumas pessoas presentes riram-se, mas o júri estava sério. Tentavam seguir tudo o que ele dizia.

            - Ela costuma acompanhá-lo nas viagens, senhor Patterson?

            - Raramente.

            - E por que razão? Prefere não levá-la consigo?

            - Não. Ela escolhe ficar em casa com o nosso filho.

            - Compreendo. - O retrato da má mãe estava desfazendo-se lentamente nas mãos de Tom e John Taylor, que, como homem do FBI fazia parte da acusação, sentia-se aliviado por ela. - E o senhor, costuma viajar sozinho?

            - Claro.

            - Não leva ninguém consigo?

            - Claro que não. - Fez um ar altamente irritado ante a impertinência da pergunta.

            - Nem sequer uma secretária?

            - Claro que levo uma secretária. Não consigo fazer o meu trabalho sozinho.

            - Compreendo. Costuma levar a mesma ou é acompanhado por secretárias diferentes?

            - Por vezes levo as minhas duas secretárias.

            - E se apenas leva uma delas, há alguma preferência.

            - Levo Miss Sanders com freqüência. Está comigo há muitos anos. - Algo nas palavras de Malcolm dava a idéia de ela ter cem anos de idade, mas Tom Armour fizera o trabalho de casa e não se deixou enganar.

            - Há quanto tempo ela está consigo, sir?

            - Há seis anos e meio.

            - Está emocionalmente envolvido com ela, senhor Patterson?

            - Claro que não! - bramiu ele. - Nunca me envolvo com as minhas secretárias!

            - E quem foi a sua última secretária antes de Miss Sanders? - Fora apanhado e sabia-o.

            - A minha mulher.   

            - A senhora Patterson foi sua secretária? - Tom Armour esbugalhou os olhos de surpresa, como se não soubesse, e o juiz pareceu divertido com a pergunta.

            - Apenas alguns meses, até casarmos.

            - Foi assim que a conheceu?

            - Presumo que sim, apesar de conhecer vagamente o pai dela.

            - Também conhece o pai de Miss Sanders, senhor Patterson?

            - Mal. - Lançou a Tom Armour um olhar altivo. - É padeiro em Francoforte.

            - Compreendo. E onde vive Miss Sanders?

            - Não faço idéia. - Mas naquela altura, até Marielle começou a ficar intrigada.

            - Nunca foi a casa dela?

            - Talvez, algumas vezes, em reuniões...

            - E não consegue lembrar do lugar onde ela mora?

            - Está bem, está bem. Lembro-me. Na esquina da Cinqüenta e Cinco com a Park.

            - Parece um bairro muito aprazível. O apartamento é bom?

            - Muito agradável.

            - É grande?

            - O suficiente.

            - Oito divisões, uma sala de jantar, um escritório para o senhor, dois quartos, dois quartos de vestir, duas casas de banho, uma sala de estar enorme e uma varanda, está certo?

            - É provável. Não sei. - Mas naquele momento as suas faces já estavam vermelho-vivo, para estupefação de Marielle.

            - É o senhor quem paga o aluguel do apartamento de Miss Sanders? - Marielle tinha os olhos fixos nele, sem querer acreditar no que ouvia. Abobalhada como era, nunca suspeitara. Brigitte sempre fora tão simpática com ela, tão amável, e tão generosa para com Teddy. E agora, por fim, Marielle percebia porquê e, no fundo do seu coração, sentia-se ferida. Brigitte e Malcolm a haviam  feito de idiota e, verdade seja dita, tinham conseguido.

            - Eu não pago o aluguel do apartamento de Miss Sanders - afirmou Malcolm com dureza.

            - Qual é o salário de Miss Sanders?

            - Quarenta dólares por semana.

            - É um salário razoável. Mas não muito adequado para pagar um apartamento que custa seiscentos dólares por mês. Como é que acha que ela paga o aluguel, senhor Patterson?

            - Não é da minha conta.

            - O senhor mencionou que o pai dela é padeiro.

            - Meritíssimo. - Bill Palmer pôs-se de pé, simulando aborrecimento. - Onde é que isto tudo vai conduzir?

            - Isto tudo - replicou Tom Armour, perdendo o ar divertido -, vai mostrar que, não obstante a fraca memória do senhor Patterson, os seus extratos bancários, os seus cheques e os seus registros provam que é ele quem paga aquele apartamento. - Os detetives de Tom haviam trabalhado bem.

            - E mesmo que pague, qual é o problema?

            - Seamus O'Flannerty, o porteiro do prédio, irá depor para nos confirmar que o senhor Patterson vai até lá todas as noites depois de sair do escritório e que, freqüentemente, passa lá a noite. Que quando viajam, muitas vezes partilham o mesmo quarto. Que Miss Sanders vai trabalhar de casaco de peles e este Natal, duas semanas após o rapto, o senhor Patterson ofereceu a Brigitte Sanders um colar de diamantes da Cartier. - Para mim, é mais do que evidente, meritíssimo, que o senhor Patterson tem mentido.

            - Protesto indeferido, senhor Palmer - disse o juiz calmamente, já sabendo perfeitamente quem Malcolm era. - Gostaria de lhe lembrar novamente, senhor Patterson, que se encontra sob juramento. Talvez o senhor Armour pudesse reformular a pergunta.

            - Com certeza, meritíssimo. - Tom estava satisfeito por lhe fazer a vontade. - Senhor Patterson, permita-me que volte a lhe perguntar, o senhor tem ou não mantido uma relação amorosa com Brigitte Sanders? - Por uns momentos, parecia não se ouvir um único som na sala de audiências.

            Mas antes que este pudesse responder, já o promotor estava de novo de pé.

            - Essa informação é irrelevante para este caso, meritíssimo.

            - Penso que não - afirmou Tom Armour com frieza. - A acusação desacreditou por completo a senhora Patterson como testemunha, alegando que ela mantinha uma relação amorosa com o meu cliente, o que não é verdade. O meu cliente esteve fora do país durante os últimos dezoito anos até poucos dias antes do rapto. Mas presume-se que, como amante rejeitado ou ex-marido magoado, o senhor Delauney tenha procurado vingar-se. Se, na verdade, o senhor Patterson tem mantido uma relação amorosa estável e duradoura com Miss Sanders, é igualmente possível que esta possa querer vingar-se.

            - Vingar-se de quê, de um colar de diamantes? - perguntou Palmer e desta vez toda a sala se riu.

            - Responda à pergunta, senhor Patterson - advertiu o juiz com pesar.

            - Mantém uma relação amorosa com Miss Sanders?

            - Talvez - respondeu ele com brandura.

            - Importa-se de falar um pouco mais alto - pediu Tom com delicadeza.

            - Sim, sim... mantenho... mas ela não raptou o meu filho - Brigitte, no seu lugar, empalidecera e Marielle não conseguia tirar os olhos dela.

            - Como é que sabe? - perguntou Tom Armour a Malcolm.

            - Ela não faria uma coisa dessas. - Parecia muito ofendido.

            - O meu cliente também não. Tenciona casar com Miss Sanders, sir?

            - Claro que não.

            Tom elevou o sobrolho.

            - Costuma oferecer casacos de peles e colares de diamantes a todas as suas secretárias?

            - Certamente que não.

            - Ela deseja casar com o  senhor?

            - Não faço idéia. Isso nunca esteve em questão.

            - Obrigado, senhor Patterson. Pode retirar-se.

             Mas Bíll Palmer quis fazer-lhe uma última pergunta.

            - Senhor Patterson, Miss Sanders alguma vez o ameaçou a si ou de fazer mal ao seu filho e afastá-lo de si?

            - Certamente que não. - Fez uma expressão horrorizada. - É uma jovem muito educada e boa. - Com umas pernas fabulosas e alguns dotes que Marielle nunca sonhara.

            - Obrigado. Não tenho mais perguntas.

            Malcolm regressou ao seu lugar muito corado. E, pouco depois, Brigitte saía da sala de audiências. Foi assaltada pela imprensa à saída, ficando com o vestido rasgado, quando por fim conseguiu entrar num táxi chorando.

            Em seguida, a acusação chamou uma série de peritos em medicina legal para provar o fato de que o ursinho e o pijama eram realmente de Teddy. E a última testemunha do dia foi um homem que dizia ter andado na escola com Charles Delauney e que Charles o ameaçara uma vez, quando tinham catorze anos. A testemunha, um jovem advogado nervoso de Boston, que quisera testemunhar voluntariamente para ser prestável, afirmou que sempre achara que Charles era um pouco tresloucado. Tom Armour protestou; o protesto foi deferido e o júri começou a denotar um certo aborrecimento. O dia fora longo, acabando por fim, e todos se sentiram aliviados por deixarem o tribunal. John e Marielle trocaram um longo olhar à saída e Malcolm não pronunciou uma única palavra no caminho para casa. Quando chegaram, foi direito ao escritório, fechou a porta e fez vários telefonemas. E, sem uma palavra, saiu, escancarando a porta principal meia hora mais tarde, enquanto John Taylor e alguns homens do FBI fingiam não estar vendo. Todos sabiam o que tinha acontecido nesse dia no tribunal. John foi vê-la, após Malcolm ter saído, e os dois sentaram-se e conversaram sossegadamente.

            - Ficou surpreendida? - perguntou-lhe ele com delicadeza, referindo-se a Brigitte.

            Marielle sentia-se como um balão esvaziado. Fora mais uma tarde exaustiva e, em muitos aspectos, uma tarde triste.

            - Sim, fiquei. Devo ser muito estúpida, mas sempre gostei dela. É uma boa moça e sempre foi tão querida para com o Teddy. - Estava pensativa, enquanto falava, lembrando-se de todos os presentinhos, das coisas que ela fizera, dos doces, dos brinquedos, das camisolas... De algum modo Marielle sentia-se como uma autêntica idiota. Perguntava a si própria há quanto tempo duraria a relação deles. Provavelmente desde o início, foi a conclusão a que chegou, passando em revista os últimos seis anos e meio, o que a fez sentir ainda mais idiota. Como fora estúpida e como eles eram traiçoeiros.

            - É provável que ela tenha tentado fazer amizade com o Teddy para impressionar o seu marido.

            - Talvez - assentiu Marielle com tristeza. - Acho que não é muito importante. - Ele havia de ter de ir a algum lugar para satisfazer as suas necessidades, não dormiam um com o outro há anos e ela sabia que ele era uma pessoa muito física. Mas a verdade é que ela simplesmente nunca pensara em Brigitte. Passara-lhe pela cabeça uma vez, um dia em que a jovem alemã estava especialmente bonita, e, de início, sentira-se um pouco ciumenta quando eles começaram a viajar juntos, mas depois disso nunca mais pensara no assunto. E agora sabia que ele ia para o apartamento dela todos os dias depois do trabalho, que muitas vezes passava lá a noite e que até pagava o apartamento. Estava mais casado com Brigitte do que com ela própria, ou, pelo menos, era o que lhe parecia. Já não tinha nada que a ligasse a ele. Nem obediência, nem afeto, nem lealdade, nem fidelidade... nem sequer – Teddy.

            John observava-a em silêncio, enquanto ela se perdia naqueles pensamentos, e pensou na sua própria mulher e no que poderia acontecer quando o julgamento chegasse ao fim. Sabia melhor que ninguém que não podiam continuar daquela maneira para sempre. Porém, não obstante os sentimentos que partilhavam, tanto ele como Marielle haviam-se abstido de falar em termos de futuro. Estavam acontecendo coisas demais na vida de ambos no presente, para poderem pensar em alguma coisa que não fosse o julgamento e em encontrar Teddy.

            - Quase senti pena do Malcolm - confessou ela mais tarde, enquanto o acompanhava à porta. John detestava deixá-la à noite e, entretanto, as horas que passava com ela haviam-se tornado preciosas para ele. - Deve ter sido difícil para ele ser exposto daquela maneira. - Enquanto estivera no banco das testemunhas Malcolm tinha uma expressão furiosa, e Brigitte entrara em pânico.

            - Não tão difícil como ontem foi para você. - Como era possível que ela sentisse compaixão por ele? Era uma moça espantosa. - Ele passou o tempo todo mentindo. - Mas tinham-no apanhado no fim. O que Malcolm não admitia era que sempre tivera conhecimento de tudo o que se passara com Charles e do período que permanecera na clínica. Mas o júri não sabia. Apenas sabiam que ele era um mentiroso e talvez um trapaceiro. - Ele merece o que teve. Merece pior, por tudo o que fez com você. Não precisavam ter feito o que fizeram.

            - Bom, mas fizeram. Não têm de se preocupar com a minha complacência em relação ao Charles e com o fato de eu poder enfraquecer o caso da acusação. Agora o meu testemunho é insignificante. - Desejava não ter sequer de ir ao tribunal. Era tudo tão doloroso.

            - Continua sendo complacente com ele, Marielle?

            Não tinha certeza. Há meses que estava na dúvida.

            - Não sei. Simplesmente não sei o que penso... as provas estão todas lá e porém, pensava que o conhecia melhor, mesmo após todos estes anos. Independentemente do que ele disse, não acreditei nas ameaças dele no parque... e depois o Teddy desapareceu... não sei o que pensar. - Já não agüentava pensar mais naquele assunto... a cama vazia que ainda estava quente, quando lhe tocara. Já tinham passado três meses desde a última vez que o vira, três meses desde a última vez que tivera o seu menino nos braços... o menino que a haviam acusado de ser demasiado fraca e instável Para tomar conta.

            - Se ele estiver inocente... se voltarmos a encontrar o Teddy - e ele ainda tinha esperanças de que isso acontecesse, embora já duvidasse muito. Já passara muito tempo. Começava a parecer tempo demais, como no caso dos Lindbergh. - Voltaria para Charles? - Há dias que queria fazer-lhe esta pergunta. Queria saber, pois, no fundo do seu coração, sabia que ela ainda o amava.

            - Não sei - confessou ela com sinceridade. - Acho que não. Não podia. Existe demasiada dor entre nós. Pense no que sentiríamos quando olhássemos todas as manhãs. Se ele for inocente e o Teddy voltar para casa... o Charles nunca me perdoará por esta...  

            Levantou os olhos para ele e John sentiu-se incomodado.

            - Tudo de mal que acontece neste mundo não é culpa sua. Não foi você quem fez aquelas ameaças no parque, foi ele. É ele o tolo que, ou realmente cometeu o crime, ou transformou a própria vida num inferno, por aquele monte de disparates que disse. Da última vez que me dei conta, a única coisa que você fez foi ir passear no parque com o seu filho. A culpa não é sua, por Deus, tal como o rapto do Teddy também não é culpa sua... nem o afogamento do outro menino... Pare de acreditar em qualquer mentira que estes crápulas lhe oferecem de bandeja. - Ela sorriu-lhe. Amava-o por acreditar nela, por protege-la e se preocupar com ela, e por tentar encontrar Teddy..

            Mas perguntava-se a si própria o que restaria para os dois, uma vez terminado tudo aquilo. Provavelmente muito pouco. Ficariam amigos, mas haviam-se conhecido num momento que, para ela, permaneceria sempre na sua memória como dolorosa. Mas naquele momento John estava preocupado com outra questão, após ouvir os testemunhos dos últimos dias. Percebera o que Patterson tinha na manga. Se encontrassem o menino, começava a suspeitar que Patterson iria abrir um processo pela posse da custódia do filho, acusando-a de ser uma mãe negligente, e que iria pedir o divórcio. Era aí que entrava a questão da instabilidade mental da mãe e os testemunhos da ama e das empregadas. John Taylor estava vendo aonde Malcolm iria levar aquilo tudo, mas não queria assustá-la. E talvez isso nunca fosse acontecer. Talvez nunca encontrassem Teddy.

            - Tome conta de si - segredou ele pouco depois, enquanto descia correndo as escadas da frente, desejando poder beijá-la. E, a caminho do seu quarto, Marielle assumiu corretamente que Malcolm estaria com Brigitte.

            Não se incomodou a voltar para casa nessa noite, nem sequer a fazer um telefonema. A farsa estava terminada. Marielle perguntava-se onde estariam eles naquele momento, de forma a evitarem os jornalistas, que deveriam andar doidos na pista deles para obter uma história escaldante. Também pensava na quantidade de vezes que as chamadas dele para ela não teriam sido feitas do apartamento de Brigitte. Era incrível o pouco que sabia da vida do marido. Considerara-o tão respeitável, tão amigo, tão amável com ela e, em vez disso, há anos que andava construindo um caso contra ela nas suas próprias costas: sempre soubera da sua estada no hospital e do seu casamento com Charles, e há anos que a enganava com Brigitte. Não era um retrato bonito. Ainda continuava a pensar nisso, deitada no escuro, quando, às dez horas da noite, o telefone tocou. Pensou em não atender, pensando que pudesse ser ele. Mas havia sempre a possibilidade de ser uma chamada com informações sobre Teddy. Sabia que os agentes da Polícia que ainda permaneciam na casa atenderiam a chamada, mas mesmo assim queria saber. Ficou surpreendida quando ouviu a voz de Bea Ritter pedindo ao agente que passasse a chamada a Marielle e este não querendo faze-lo.

            - Deixe estar, Jack. Estou aqui. Sim?

            - Senhora Patterson?

            - Sim.

            - Fala Bea Ritter. - Até a voz dela soava nervosa e enérgica. Era uma jovem excitada, cheia de vida e em busca de uma história grandiosa. De qualquer modo, Marielle queria agradecer-lhe pelo artigo surpreendentemente decente que ela escrevera sobre a sua presença na sala de audiências. Agradeceu-lhe e a pequena ruiva pareceu embaraçada. - Eles foram indecentes com você. Senti-me enojada a assistir àquilo.

            - Pelo menos não me levaram nos braços para fora da sala, como os outros escreveram.

            - São uma cambada de desprezíveis. Se as coisas não acontecem como eles querem, inventam-nas; eu não faço isso. - E então houve um momento de silêncio. Quando Bea decidira telefonar, não tinha muitas esperanças de conseguir falar com Marielle e, de um momento para o outro, estavam as duas falando uma com a outra como se fossem velhas amigas, mas Bea estava assustada e aquele assunto era importante. - Desculpe telefonar tão tarde... não tinha certeza de conseguir falar com você... Senhora Patterson, posso falar uns minutos?

            - Porquê?

            - Tenho de falar pessoalmente. Não lhe posso dizer por telefone. Mas tenho mesmo de falar com você.

            - Está relacionado com o meu filho? - Teria ela uma pista?... uma alternativa... uma esperança... quase sentiu o coração parar.

            - Não. Não diretamente. Está relacionado com o Charles Delauney.

            - Por favor, não me peça isso. Por favor... você assistiu ao que me fizeram ontem... não posso ajudá-lo.

            - Por favor... ouça apenas... quero ajudar a encontrar o autor do rapto do seu filho, e não foi o Charles. Eu acredito nele.

            - Ele sabe que está me telefonando?

            Ela corou que nem um tomate do outro lado da linha e abanou a cabeça.

            - Ele mal me conhece. Fui falar com ele algumas vezes, mas é extremamente distraído. No entanto, estou convencida de que é inocente e quero ajudá-lo.

            - Quero encontrar o meu filho. - É só isso que eu quero - disse Marielle com tristeza.

            - Eu sei... eu também... a senhora o merece... por favor, receba-me... por uns minutos apenas.

            - Quando? - Um encontro entre elas iria fazer furor na imprensa, imagine o escândalo. E eles já tinham escândalos que bastassem, com a revelação da relação de Malcolm. com Brigitte.

            - Posso passar aí agora? Quer dizer... eu sei, é uma imposição horrível. - Estava morta de medo, mas tinha de a ver.

            - Eu... eu não acho que...

            - Por favor... - A moça estava quase chorando e, por fim, Marielle concordou.

            - Está bem. Venha.

            - Agora?

            - Sim. Consegue estar aqui dentro de meia hora? - Por ela estaria lá dentro de meio minuto.

            Quando Bea Ritter chegou, Marielle estava vestida e esperava por ela no andar de baixo. Bea entrou e realmente tinha uma expressão de quem estava quase assustada. Tinha vinte e oito anos, mas, de um momento para o outro, os seus modos impertinentes pareciam ter-se desvanecido, dando lugar a um ar quase infantil. Era uma moça minúscula, muito mais pequena que Marielle, e vestia umas calças compridas pretas, uma camisola pesada de casimira também preta e uma gabardina por cima. Tinha o cabelo preso e não usava maquiagem, dando a impressão de haver algo de muito limpo e puro nela, exatamente o que fizera John Taylor gostar dela.

            - Não sei o que espera de mim - afirmou Marielle calmamente, enquanto se sentavam. - já lhe disse ao telefone que não há nada que eu possa fazer para ajudá-la.

            - Eu nem sequer quero a sua ajuda - admitiu Bea Ritter, olhando para ela com ar pensativo. Desejara voltar a ver aquela mulher durante semanas e agora ali estava, sentindo uma sensação de estranheza, por estarem ali sentadas como amigas, duas mulheres que queriam a mesma coisa por razões diferentes. Bea queria que encontrassem o menino para que Charles ficasse inocentado e Marielle só queria o filho de volta. - Apenas quero falar consigo, saber o que pensa... assim... não para os jornais...- nem perante uma sala de audiências?

            - Ontem no tribunal fui sincera - afirmou Marielle com um suspiro, pensando por que razão a teria deixado ir até lá. Era tão enérgica, tão emotiva, quase que a enervava, porém sentia que estava em dívida para com ela. Mas qual era a vantagem de voltar a discutir a mesma coisa? - isto é para o jornal? - Bea abanou a cabeça e Marielle percebeu que ela estava sendo sincera.

            - Não, é para mim. Tenho de saber. Porque eu também não acho que tenha sido ele. - Falava como se Marielle acreditasse no mesmo, mas sentia que sim, por mais que ela negasse.

            - Porquê?

            - Talvez eu seja maluca, mas acredito nele. Confio nele. Admiro tudo o que ele defende. Acho que ele é um idiota, que fez coisas tão horrivelmente estúpidas, e que nunca deveria ter-lhe dito o que disse naquele dia, no parque; mas se ele tivesse mesmo intenção de levar o menino, nunca as teria dito.

            - Eu também pensava assim... até eles encontrarem o pijama do bebê... - Era engraçado, Marielle ainda pensava nele assim... "o bebê"... aos quatro anos... o bebê que ela poderia nunca mais voltar a ver. Teve de lutar contra as lágrimas que ameaçavam brotar. - Como é que o pijama foi lá parar, se não foi ele que o levou?

            - Senhora Patterson... Marielle... posso tratá-la assim? Pertenciam a duas vidas diferentes, a dois mundos diferentes, mas durante aqueles breves instantes, eram amigas, com um objetivo em comum: encontrar o filho dela. E Marielle respondeu, assentindo com a cabeça: - Ele jura que o puseram lá para incriminá-lo. Acha que pagaram a alguém para pôr o pijama... talvez alguém daqui, da sua própria casa.

            - Mas esse era o pijama que ele tinha vestido. Eu o vi. Tinha uns comboiozinhos bordados, o mesmo que ele vestia na noite em que o levaram.

            - Ele tem algum pijama igual? - Marielle abanou a cabeça.

            - Exatamente, igual, não.  

            A jovem jornalista abanou a cabeça com uma expressão angustiada. Queria desesperadamente ajudá-lo e Marielle teve vontade de lhe fazer uma pergunta. "Porque é que se preocupa tanto? É a história ou o homem?" Fitou-a com firmeza e os olhos de Bea não vacilaram.

            - É ele - e depois prosseguiu num tom de voz mais ameno -, ainda o ama, não é? - Marielle hesitou bastante tempo, pensando se poderia ou não confiar nela; porém, por alguma razão, confiou. E sabia que Bea não a desapontaria.

            - Sempre amei. Suponho que sempre amarei. Mas agora faz parte do passado. - Pouco a pouco, Marielle começava a perceber os seus sentimentos. - Charles disse a mesma coisa, quando falei com ele. Mas ele também a ama. Acho que agora está mais assente. Acho que tudo isto o fez voltar a si.

            - Um pouco tarde. - Marielle sorriu com tristeza.

            - Ele acha que o menino está vivo. - Queria dar-lhe esperança, como não lhe podia dar respostas.

            - Quem me dera que fosse verdade. O FBI acha que já passou muito tempo. Têm receio... - Não conseguia dizer as palavras e os olhos encheram-se de lágrimas, ao mesmo tempo que virava a cabeça. Era tudo tão insignificante. Para que é que servia o julgamento? O que quer que fizessem com Charles, não traria o seu filho de volta.

            - Não acredito nisso. - Bea Ritter fitava-a sem se mexer e então estendeu a sua minúscula mão, agarrando a de Marielle com firmeza. - E vou fazer tudo o que estiver ao meu alcance para ajudá-los a encontrar seu filho. Utilizarei todos os poderes conferidos à imprensa, mexerei todos os cordões. - Tinha uns conhecimentos fora do normal no submundo, explicou, devido a uma série de artigos que escrevera, e o chefe da máfia local adorara-os. Bea fizera dele um herói, à sua maneira, e ele prometera-lhe que estaria sempre pronto a ajudá-la, e ultimamente, depois de falar com Charles, Bea ficara com vontade de lhe telefonar.

            - O que é que queria de mim? - perguntou Marielle, cansada. Gostava da moça, mas era tarde e era tudo tão desesperante. - Porque é que veio aqui?

            - Queria olhá-la nos olhos e ver por mim própria em que é que a senhora acredita. Acho que não sabe... mas também não tem certeza de ter sido ele.

            - É verdade. É justo. Talvez se eu estivesse no seu lugar pensasse exatamente da mesma maneira. Ele deve tê-la feito passar uns maus bocados quando... - Ambas sabiam que ela se referia à morte do filho.

            - Ele estava fora de si - explicou, sorrindo com tristeza -, talvez ainda esteja. - Um pouco. - Bea sorriu. - Tem de estar, para se meter em combates na Espanha. - Mas Bea admirava-o por isso e adorara as histórias que ele escrevera. Charles mostrara-lhe algumas. Haviam conversado durante horas na prisão, um dia, e ele chorara quando afirmara não ser culpado. E ela acreditara nele. Naquele momento jurara ajudá-lo e sabia que Marielle era uma peça importante para consegui-lo. Independentemente do que haviam feito com ela, era alguém que podia ajudá-la. - Lamento o que aconteceu com o seu marido - comentou Bea com cautela.

            - Eu também. Amanhã de manhã é que vão ser elas nos jornais.

            - Pois vão. - Bea já vira algumas das páginas soltas. - Mas a Marielle despertará um pouco mais de compaixão nas pessoas. No outro dia arrasaram mesmo consigo. Até senti nojo, e foi por isso que escrevi aquele artigo. - Bea era uma espécie de Robin dos Bosques, sempre a defender os oprimidos, os derrotados, os pobres, os perdedores. Ela e Charles pareciam ter tanto em comum.

            - Porquê o Charles? - perguntou Marielle com brandura. - Porquê ele? Porque é que se preocupa tanto com ele?

            - Não quero vê-lo morto sem razão. Também nunca acreditei totalmente na culpabilidade do Bruno Hauptmann. Sei que havia algumas provas, mas muitas eram circunstanciais. Muita coisa foi obra da histeria criada pela imprensa à volta do caso. Foi a minha primeira história, tinha eu vinte e um anos, e sempre achei que podia ter feito a diferença, mas não fiz. Talvez desta vez eu consiga. Ou pelo menos tentarei até ao fim.

            Marielle não se atreveu a perguntar-lhe mais nada, mas havia mais alguma coisa nos olhos da moça, e algum tempo depois decidiu perguntar-lhe.

            - Está apaixonada por ele? - Não era por ciúme nem por uma questão de posse. Era apenas uma pergunta. E Bea Ritter deteve-se algum tempo olhando para ela, antes de responder.

            - Não tenho certeza. Não quero estar. Não é essa a questão. - Mas era por isso que ela se preocupava tanto e Marielle sabia. Sorriu-lhe.

            - Ele sabe ou está sendo tão tapado como sempre foi? Às vezes, quando queria, Charles conseguia ser muito irritante. E claro que, naquele momento, estava envolvido numa questão muito mais importante. Mas Bea riu com as palavras dela.

            - Acho que talvez esteja sendo tão tapado como sempre foi, mas é provável que ande demasiado ocupado. - O homem estava lutando pela vida. Então, de repente, Bea fez uma expressão preocupada. - Voltaria para ele? - Mas Marielle abanou a cabeça sem hesitação. Houvera demasiada dor, passara-se demasiado tempo, demasiado sofrimento. Amava-o, sabia que sempre o amaria, mas agora já era tarde demais.

            Marielle pensou que a pequena ruiva seria perfeita para ele, se alguma vez tivessem oportunidade e ele fosse absolvido. Devia-lhe muito, mas, segundo Bea, nem sequer tinha consciência disso.

            - O que é que vai fazer agora, Bea?

            - Não sei... Vou cobrar algumas dívidas... falar com alguns velhos amigos... acompanhar alguns detetives privados meus conhecidos... - E talvez falar com Tom Armour, se precisasse de dinheiro. Talvez ele estivesse disposto a pagar por algumas dicas ou favores especiais. Estava disposta a tudo, falar com quem quer que fosse, ir a qualquer lugar, pagar a quem fosse preciso. - Talvez não se descubra nada, mas pelo menos todos tentamos... e talvez isso nos conduza ao Teddy.

            - Vai me dizer, se souber de alguma coisa, não?

            - Mal saiba. - As duas mulheres levantaram-se e Marielle acompanhou-a à porta. Sabia que nunca seriam amigas. Mas gostava dela. Era uma moça fora do comum, esperta. Charles tinha mais sorte do que imaginava por tê-la conhecido.

            Bea Ritter desapareceu na noite e Marielle subiu as escadas, já passava da meia-noite. Quando apagou a luz, ficou deitada na cama pensando em Malcolm, provavelmente instalado num apartamento no Park Avenue... e no seu menino, por quem rezava, a dormir numa cama, rodeada de estranhos.

 

            O julgamento prolongou-se por semanas, enquanto Hitler conquistava Memel, no Báltico. Parecia ter conseguido afastar as notícias mundiais das primeiras páginas dos jornais, nem que fosse só em Nova Iorque. Mas a Grã-Bretanha e a França haviam anunciado que estavam prontas para apoiar a Polônia. E, no fim de Março, para grande desgosto de Charles, a guerra civil espanhola terminou, por fim, quando Madrid caiu nas mãos de Franco. Nessa altura já haviam perecido mais de um milhão de pessoas, em três anos, uma população inteira cedera. Para Charles era uma tragédia, como ele sabia ser também para os seus amigos na Europa. A luta acabara. A guerra estava perdida. Mas naquele momento, Charles Delauney tinha de travar a sua própria guerra, a batalha pela sua sobrevivência.

            Marielle nunca mais ouviu falar de Bea Ritter desde aquela visita tardia. Mas continuava a ler os artigos dela no jornal, ficando emocionada pela maneira como ela a apoiava.

            Como era previsível, durante várias semanas a imprensa não se calara sobre a relação de Malcolm e Brigitte, mas, não obstante os constantes pedidos, Marielle manteve-se afastada de tudo, não fazendo quaisquer comentários. Há semanas que ela e Malcolm mal dirigiam a palavra um ao outro e Marielle apenas vira Brigitte uma vez desde então. A moça substituíra o seu sentimento de culpa por um ar arrogante, mantendo-se sempre perto de Malcolm, como se estivesse tentando provar que era ela a vencedora. A Marielle parecia-lhe uma defesa muito pobre, pois não invejava a sua posição incomoda.

            Sentia-se traída pelas mentiras deles e pela falsa amabilidade de Brigitte, mas a zanga já passara e nem sequer sentia ciúmes. Há muito que ele não lhe pertencia; no entanto, sentia-se profundamente magoada pela decepção que Malcolm lhe provocara. A única vez que tentou discutir o assunto com ele foi desprezada e Malcolm fingira estar "ofendido". Disse-lhe que, no seguimento do comportamento dela em relação a Charles, não lhe devia qualquer explicação, o que nada acrescentara à situação, a não ser a confirmação da culpa dele. Mas esse fato já fora oficializado.

            Ela relembrou-lhe com frieza que, se ele continuasse a passar as noites no apartamento da moça, a imprensa ia continuar a persegui-los, após o que notou que ele voltou a dormir em casa em vez de ficar no apartamento de Brigitte. Mas mesmo assim ela continuava a vê-lo raramente.

            A tensão que se criara entre os dois era insuportável, tal como o julgamento se tornara insuportável; um verdadeiro rol de depoimentos de peritos, detetives e pessoas irrelevantes, confirmando a culpabilidade de Charles e contestadas uma a uma por Tom Armour.

            Passaram-se três semanas inteiras, até chegar a vez da defesa. E Tom chamou Marielle como sua primeira testemunha. Primeiro conduziu-a cuidadosamente pelo mesmo terreno, repondo a sua credibilidade exatamente nos pontos onde Bill Palmer a destruíra. E o retrato que começou a emergir das mãos dele era bem diferente do que Malcolm e Bill haviam feito. Em vez de uma inválida, de uma doente mental, uma mulher a quem não se podia confiar o próprio filho, Tom demonstrou com clareza o que realmente se tinha passado, como ela ficara destruída pela morte do filho, o aborto e a posterior perda do marido. Tom Armour admitiu abertamente que Charles agira de modo irrefletido e que a tratara mal. Haviam ficado ambos desfeitos pela dor, explicou Tom, e, quando pediu a Marielle para descrever a cena em que andara às apalpadelas à procura do corpo de André nas águas geladas do lago de Genebra, não havia uma alma na sala de audiências que não tivesse os olhos úmidos. Marielle explicou como conseguira salvar as duas meninas e não o seu próprio filho, pois este deslizara mais para o interior do gelo, e descreveu o estado em que o encontrou, jazendo inerte e cinzento nos seus braços. Teve de parar várias vezes, enquanto descrevia a cena, após o que recontou a noite que passara no hospital e o aborto que sofrera. De um só golpe, haviam ambos perdido a família, e Charles não agüentara. Charles ficara pior que ela. Então, Marielle fora-se abaixo e, durante os meses que se seguiram, só quisera morrer para se juntar aos seus bebês.

            - Ainda se sente assim? - Perguntou-lhe Tom com serenidade, enquanto vários jurados se assoavam.

            - Não - respondeu ela com tristeza.

            - Acredita que o Teddy ainda está vivo? Os olhos encheram-se de lágrimas, mas ela prosseguiu.

            - Não sei... espero que sim... tenho tanta esperança... - Passou o olhar pelos jornalistas e depois pela assistência. - - Se alguém sabe onde ele está... por favor, por favor, traga-o para casa... nós faremos tudo o que nos pedirem... só não lhe façam mal... - Um fotógrafo aproximou-se correndo, o flash de uma máquina fotográfica explodiu-lhe no rosto no momento em que pronunciava as palavras e o juiz ordenou ao oficial de justiça que expulsasse o fotógrafo da sala.

            - E se alguém voltar a fazer a mesma coisa, vai preso. Estamos entendidos? - bramou o juiz Morrison, enquanto Marielle se recompunha. Pediu-lhe desculpa e ela ficou à espera da próxima pergunta de Tom.

            - Acredita que Charles Delauney levou o seu filho? - Era uma pergunta perigosa, mas ele queria que o mundo soubesse o que ela pensava, pois achava que ela não estava convencida de que fora Charles.

            - Não tenho certeza.

            - Acha que ele faria uma coisa dessas? Conhece-o melhor do que ninguém. Ele amou-a e fê-la sofrer, chorou consigo... até lhe bateu... provavelmente fez-lhe coisas piores a si do que a qualquer outra pessoa. - O próprio Charles o admitira na presença de Tom e porém, o que Marielle contara a Tom sobre Charles, dizia-lhe que esta não acreditava na culpabilidade de Charles. - Sabendo o que sabe dele, senhora Patterson, acredita que ele tenha raptado o Teddy?

            Ela hesitou uma eternidade e acabou por abanar a cabeça, escondendo a cara entre as mãos, e Tom Armour esperou.

            - Ainda ama este homem, senhora Patterson?

            Ela olhou para Charles com tristeza. As coisas horríveis que lhes haviam acontecido, O sofrimento que haviam partilhado e porém, há muito tempo atrás, haviam sido tão felizes.

            - Não - respondeu ela com brandura. - Gosto dele. Provavelmente gostarei sempre dele. Foi o pai dos meus filhos. Amei-o muito quando era nova.. mas agora... só tenho pena dele e, se foi ele o autor deste horrível ato, então espero que me devolva o meu filho são e salvo. Mas já não o amo. Causamos muito sofrimento um ao outro, durante demasiado tempo. - Tom Armour assentiu com a cabeça, sentindo mais respeito por ela do que ela poderia imaginar. Era uma mulher excepcional. Agüentara o interrogatório, partilhara a sua coragem, a sua vida, a sua alma, perder dois filhos nas mãos do destino, e agora mais um, e ainda estava de pé. Admirava-a mais do que ninguém, mas a sua expressão durante o interrogatório nada revelou.

            - Teve algum caso amoroso com o senhor Delauney desde que se casou com o senhor Patterson?

            - Não - respondeu ela calmamente.

            - Teve algum caso com alguém? Alguma vez foi infiel ao seu marido? - Olhava-a nos olhos e os olhos dela não vacilaram quando se encontraram com os dele.

            - Não, não tive. - Era verdade. Beijara John Taylor, mas nada mais, e nessa altura o seu casamento já tinha acabado.

            - Obrigado, senhora Patterson. Não tenho mais perguntas. - Ajudou-a a descer do banco e Marielle, esgotada, regressou ao seu lugar, desta vez não sentindo a sensação de derrota que sentira quando fora interrogada por Bill Palmer.

            Em seguida, Tom chamou Haverford ao banco das testemunhas. Este descreveu-a como uma pessoa decente, justa e inteligente, uma mulher íntegra, uma verdadeira senhora, declarou com orgulho, o que a comoveu. Disse que ela sempre fora maravilhosa com o filho e que ele, Haverford, sempre se sentira chocado pelo modo como os outros empregados do Sr. Patterson a tratavam. Era como se todos estivessem convencidos de que não lhe deviam nada a ela, apenas ao Sr. Patterson. O próprio Haverford sentia que o Sr. Patterson nunca a apoiara. Agia como se ela não mandasse em nada, como se ela fosse uma simples hóspede, e era assim que a consideravam na casa. Confirmou que Miss Griffin era abominável com Marielle, a governanta ainda pior, que Edith lhe roubava as roupas e que todos, incluindo o Sr. Patterson, sabiam disso. Referiu que todos os empregados faziam troça dela quando estavam reunidos na cozinha.

            - Está dizendo que não havia respeito pela senhora Patterson na sua própria casa? - Tom Armour pressionava-o para se certificar de que o júri ficaria bem ciente da situação em que ela vivia.

            - Estou sim, sir - respondeu Haverford com ar digno, no seu terno escuro feito por medida em Londres.

            - Diria que foi o comportamento da senhora Patterson que levou a essa atitude, senhor Haverford? A senhora Patterson é, tal como anteriormente foi sugerido nesta sala de audiências, uma mulher fraca e irresponsável, sem qualquer mérito? - O velho mordomo ficou visivelmente ofendido com tal sugestão, pensando que Tom o entendera mal.

            - O que eu disse, sir, é que é uma das melhores pessoas que alguma vez conheci. É inteligente, meiga, justa, decente, boa e, depois de tudo o que passou, não percebo como é que alguém lhe pode chamar uma mulher fraca. - Quem tivera as depressões e os desmaios, tendo de ser medicada desde que se dera o rapto, fora Miss Griffin.

            - Se atreveria a dar uma explicação sobre a razão por que ninguém no lar dos Patterson a respeitava? - Bill Palmer começou a protestar e depois decidiu que não valia a pena; o velho era inofensivo.

            Haverford assentiu com a cabeça, ansioso por explicar essa razão ao júri.

            - Foi o senhor Patterson quem nos disse logo de início que... - tentava lembrar-se das palavras exatas, mas não conseguia - ...que ela não estava muito bem; bem, não foi exatamente isto. Mas ele disse-nos que ela era muito frágil e nervosa. E insinuou que as ordens dela eram para ser ouvidas com educação, mas basicamente ignoradas. Disse que ela não sabia nada de como se geria uma casa e, mais tarde, que não sabia nada de crianças. E o que ele disse fez-nos saber a todos o lugar dela em relação ao senhor Malcolm.

            E foi ouvindo as palavras de Haverford que Marielle também ficou sabendo disso. Mas continuava a não perceber a razão por que Malcolm o fizera. Fizera dela objeto de desdém e ridicularizara-a desde o início. Talvez apenas quisesse manter o controle sobre tudo e nunca tivesse havido realmente um lugar para ela na casa dele, exceto como mãe de Teddy, e mesmo nesse aspecto raramente a deixavam ser útil. Tinha conhecimento do caso amoroso que o senhor Patterson. - mantinha com Miss Sanders? - Perguntou-lhe então Tom.

            - Tinha, ou pelo menos, suspeitava - respondeu Haverford com um ar frígido de desaprovação.

            - Alguma vez mencionou as suas suspeitas à senhora Patterson?

            - Claro que não, sir.

            - Obrigado, senhor Haverford. - Tom pôs a sua testemunha à disposição da acusação, mas Bill Palmer decidiu não lhe fazer mais perguntas. Não o considerava importante. Mas Marielle ficara comovida com o testemunho dele e o júri também.

            Sentiu-se de algum modo vingada com as palavras de Haverford, mas não deixava de ser embaraçoso ouvir aquilo tudo em alto e bom som e, ao mesmo tempo, sentiu-se confortada por se perceber que a sensação que tivera durante todo aquele tempo fora real e não ilusória. O que continuava a não fazer sentido era a razão por que Malcolm a fragilizara perante todos. Tinha de haver uma razão. Ou será que ele se apaixonara por Brigitte quase desde o início? Estaria  tentando livrar-se de Marielle? Teria ele ficado com esperança que ela fugisse ou que simplesmente desistisse, deixando Teddy com ele? Mais depressa morreria. Mas porquê humilhá-la, mentir-lhe, enganá-la? Porque se dera ao trabalho de casar com ela, em primeiro lugar? Teria sido tudo uma mentira desde o início? Mas quando se lembrava dos românticos primeiros tempos que passara com ele, não conseguia acreditar que isso fosse verdade.

            A testemunha seguinte que Tom chamou a depor foi Brigitte Sanders. E houve uma agitação considerável na sala quando ela se apresentou. Era uma moça bonita, não se podia negar, e emanava uma aura de sexualidade, mais do que Marielle alguma vez se dera conta. Talvez porque naquele momento já não tivesse nada a esconder. O segredo deles fora exposto e, de certa forma, Brigitte sentia-se orgulhosa.

            Trajava um vestido preto insinuante e Marielle reparou que parecia caro. O seu coque estava penteado na perfeição e usava o verniz e o bâton vermelho-vivo, como era habitual. E todos concordaram que ela era muito atraente. o seu aspecto fazia com que Marielle, comparativamente, se sentisse bem modesta. Mas o que Marielle não se dava conta era do ar frio, calculista e duro que Brigitte transparecia para todos os que se encontravam na sala, quando comparada com Marielle. Tom Armour achou-a insuportavelmente alemã na maneira de ser. E ela respondia às suas perguntas num tom de voz insolente. Era um estilo que Marielle nunca a vira utilizar antes e perguntou-se a si própria se Brigitte não estaria na defensiva, agora que o segredo tinha sido desvendado e fora exposta ao mundo como amante de Malcolm.

            Brigitte admitiu que Malcolm passava a maior parte das tardes com ela, e algumas noites, e disse que ele nunca fora feliz com a mulher e que apenas casara com ela para ter filhos. As palavras dela abalaram Marielle e esta pôs-se a pensar se não seria verdade. Teria sido isso, então?

            - E nem sequer isso ela conseguiu fazer com facilidade - comentou Brigitte com ironia. Para trás havia ficado o calor, a preocupação, a ternura que sempre dedicara a Marielle e a Teddy. Estava disposta a contar tudo e Malcolm tinha uma expressão preocupada enquanto a observava.

            - Importava-se de explicar o seu último comentário, Miss Sanders? - Pediu Tom com delicadeza.

            - Demorou muito tempo para engravidar. - Tom Armour absteve-se de sugerir que talvez o Sr. Patterson andasse passando muitas noites no apartamento dela. - Verdade seja dita, ele estava tão farto de esperar que andava  pensando em pedir o divórcio quando ela engravidou. - Houve um murmúrio na assistência e Marielle baixou os olhos para o chão, ao mesmo tempo que o juiz fazia soar o seu martelo. Marielle, sentada junto de John Taylor, sentia-se corar. Ele não se mexeu nem disse nada, mas sentiu pena dela, sabendo como era reservada e discreta. Não devia estar sendo fácil para ela.

            - Na altura já estava envolvida com o senhor Patterson?

            - Perguntou Tom Armour a Brigitte, mas ela demorou muito tempo a responder. - Quer que repita a pergunta? Devo lembrar-lhe que está sob juramento.

            - Sim, estava - respondeu ela, um pouco menos impertinente.

            - Quando começou a essa relação, exatamente? Marielle conteve a respiração, enquanto esperava pela resposta sentia uma certa curiosidade.

            - Dois meses depois de se casarem. Em Fevereiro. E Marielle desconfiava que sabia a data exata. Fora a primeira viagem de negócios que ele fizera sem a companhia dela. Não perdera tempo. E fora nessa altura que ele se tornara particularmente reservado! Durante algum tempo ela pensara que Malcolm estava desapontado por ela não ter engravidado, mas já tinha sido enfeitiçado por Brigitte e, aparentemente, o feitiço mantivera-se.

            - Ficou muito zangada por ele estar casado com a senhora Patterson e não com a senhorita?

            - Não, eu... - Parecia vagamente desconcertada com as perguntas. - Eu sabia que ele queria ter um filho e ele... Malcolm... o senhor Patterson... foi sempre muito generoso comigo. – Todos tinham percebido. Tom não a pressionou no sentido de saber porque é que ele queria um filho de Marielle e não dela. Em vez disso, perguntou-lhe se Malcolm prometera casar com ela, quando obtivesse o divórcio de Marielle, e ela não se comprometeu, respondendo que nunca haviam falado sobre isso, o que Tom considerou improvável. Era óbvio que o tinham feito, pois ela lançou um olhar a Malcolm.

            Explicou que viajavam juntos para todo o lado, principalmente para a Alemanha, onde o Sr. Patterson tinha muitos interesses. Afirmou que não se sentia embaraçada por ser sua amante, mas disse-o com um ar provocador e Tom Armour não ficou muito convencido. Disse também que gostava muito do menino, que Malcolm o adorava e que ficou arrasado quando o rapaz fora raptado. Acrescentou que raramente via Marielle na companhia da criança.

            - Estava sempre na cama com dores de cabeça. - Usou o mesmo tom desagradável e irreverente que os empregados haviam utilizado em relação a Marielle. Exceto Haverford, nenhum deles falara dela com amabilidade. Brigitte abandonou o banco das testemunhas num grandioso espetáculo de pernas, balançando bem o traseiro quando passou por Malcolm e este desviou o olhar, fingindo não reparar. Depois desta cena, e durante quase uma semana, os procedimentos voltaram ao normal. Foram chamados a depor outros peritos em medicina legal e investigadores. Não haviam encontrado impressões digitais no local, nenhuma prova que pudesse conduzir a Charles; apenas o pijama e o brinquedo encontrados na sua casa e Tom Armour insistia em que facilmente poderiam ter sido postos lá para o incriminarem. Ninguém na casa dos Delauney vira o menino e o álibi de Charles na noite do rapto era inatacável. Era difícil encurralá-lo. Por fim, na quarta semana de julgamento, Charles foi chamado a depor, e enquanto percorria o caminho até ao banco das testemunhas não se ouvia um som na sala de audiências.

            Charles Delauney estava magro e jurou solenemente, prometendo dizer a verdade, com um ar sério, lançando um olhar nervoso na direção do júri. Tom Armour e ele já tinham passado todas as perguntas a pente fino e o primeiro tentara adverti-lo de todas as rasteiras que poderiam lhe pregar.Tom perguntou-lhe onde estivera durante os últimos dezoito anos, enquanto vivera na Europa. Ele explicou que vivera na França durante vários anos e nos últimos anos na Espanha, onde combatera contra Franco.

            - Também serviu na Grande Guerra, senhor Delauney? - Perguntou-lhe Tom e Charles respondeu que sim. Possuía um aspecto muito atraente e muito pálido, e um ar muito mais velho do que aquele que Marielle vira na Catedral de Saint Patrick. Tinham sido quatro meses diabólicos para ele, desde que fora preso. E, como se já não bastasse, o advogado acabara de lhe dizer que o pai estava piorando com muita rapidez. - Que idade tinha quando se ofereceu como voluntário?

            - Quinze anos.

            Tom assentiu em sinal de aprovação.

            - E foi ferido ao serviço do seu país?

            - Sim, em Saint-Mihiel. E depois disso regressei a Nova Iorque para estudar durante três anos. Mas voltei para a Europa em mil novecentos e vinte e um. Estive em Oxford, e na Itália durante algum tempo, e depois mudei-me para Paris.

            - Foi aí que conheceu a sua mulher, atualmente a senhora Patterson?

            - Foi. - Olhou para ela e sorriu, apesar de tudo, e ela parecia bastante preocupada. já não tinha certeza do que queria que acontecesse. Queria que fosse feita justiça a ele e ao seu menino, e não tinha certeza a qual deles, ou se a algum deles, iria ser feita justiça. - Conheci-a em vinte e seis. Ela tinha dezoito anos e casamos no fim daquele Verão.

            - Amava-a, senhor Delauney? - Tom olhava para ele como se fosse uma pergunta importante. - Amava a sua mulher?

            - Sim ... amava-a muito... ela era tão jovem... era maravilhosa ... com um espírito belo e brilhante. Era tudo novo e excitante para ela... - Deixou-se levar pelas recordações por uns momentos e depois olhou para Tom, como quem pede desculpa, e falou com muita brandura.

            - Éramos muito felizes.

            - E tiveram um filho?

            Charles assentiu.

            - Um menino... André... estávamos casados há quase um ano, quando ele nasceu. Era uma criança muito especial. - Todas as crianças eram especiais, pensou Marielle para si própria... Teddy também era... todas elas eram.

            - Diria que tinha uma relação bastante íntima com a criança?

            - Sim.

            - Fora do comum?

            - Talvez. Nós estávamos sempre juntos. Viajávamos bastante e eu escrevia em casa. Marielle era maravilhosa com ele. Tomava conta dele sozinha.

            - Sem a ajuda de uma ama? - interrompeu Tom.

            - Ela não queria ninguém para ajudá-la. - Marielle sorriu.

            A vida era tão mais simples nesses tempos, sem pessoas como Miss Griffin à volta.

            - Então vocês eram muito próximos. Extremamente próximos?

            - Acho que se pode dizer isso.

            - E esse fato teria tornado o choque de perdê-lo muito mais traumático, concorda?

            - Acho que deve ter sido. E éramos ambos tão jovens... simplesmente não agüentamos. Eu a culpei e ela a mim... e nada disso alterou os fatos.

            - Ela culpou-o a si?

            - Não exatamente... estava me referindo à perda do bebê... mas, verdade seja dita, Marielle culpava-se era a si própria, e eu estava sendo tão duro com ela - a voz ficou presa na garganta, cheio de remorsos, ainda agora, e olhou-a nos olhos, do outro lado da sala. - Eu estava errado. Percebi isso depois. Mas quando percebi já não consegui alcançá-la... ela não me queria. E os médicos achavam... eles achavam que, se eu fosse visitá-la na clínica, ela ficaria transtornada...

            Tom queria pegar o touro pelos chifres, para que não restassem quaisquer segredos para o júri.

            - Bateu-lhe na noite da morte do seu filho, senhor Delauney? - Falou num tom de voz horrível e Charles assentiu com um ar de sofrimento.

            - Bati. Estava doido naquela noite... tinha acabado de ver... e não acreditava que ela tivesse deixado que aquilo lhe acontecesse... queria destruir alguma coisa... queria morrer... dei-lhe uma bofetada com muita força... - A recordação e o som dessa bofetada iriam persegui-lo pelo resto da sua vida.

            - E ela perdeu o bebê devido a isso?

            - Não - ele abanou a cabeça, lançando a Marielle um olhar angustiado. - O médico disse que o bebê já estava morto quando ela chegou ao hospital. A exposição à água gelada tinha matado o feto. Mas eles ainda não lhe tinham dito. - Marielle engoliu um soluço quando ouviu as palavras dele, ela nem sequer chegara a saber que o bebê já estava morto, só soubera que o perdera nessa noite, no meio daquele horror todo.

            - Na altura considerou-a responsável pela perda das duas crianças? - Tom Armour prosseguiu inflexível no interrogatório ao seu cliente e Bea Ritter estremecia ao ouvi-lo, mas sabia que tinham de pôr tudo em pratos limpos, se quisessem salvá-lo. Como uma ferida horrível que tinha de ser extirpada e limpa, se quisessem salvar o doente.

            - Sim - sussurrou Charles Delauney. - Sim... e eu estava enganado. A culpa não foi dela. Mas quando percebi isso já era tarde demais.

            - Tê-la-ia morto nessa noite se pudesse?

            - Não! - Charles fez um ar horrorizado. - Eu nunca quis magoá-la. Eu próprio é que estava demasiado magoado.

            - Teve de ser afastado dela, quando lhe bateu, ou parou por iniciativa própria?

            - Parei por iniciativa própria e depois a deixei ali, saí e estive a noite toda bebendo. E quando voltei na manhã seguinte, para lhe dizer como lamentava o que tinha acontecido, estava ela na sala de operações. Perdera o bebê. E nunca mais recuperou depois disso. Nunca cheguei a vê-la ou falar com ela ou conversar com ela sensatamente. - As lágrimas deslizavam pelas faces de Charles e de Marielle à medida que ele ia falando.

            - Foi ao funeral do seu filho?

            - Sim.

            - E a sua mulher?

            Ele abanou a cabeça, incapaz de falar momentaneamente.

            - Não. Ela estava demasiado doente. Ainda estava internada no hospital, em Genebra. - O que era bem diferente da Clínica Verbeuf, em Villars, que, então todos já tinham ouvido falar.

            - Alguma vez teve vontade de ter mais filhos, sir? - perguntou Tom, e Charles abanou a cabeça com muita rapidez:

            - Não. Não desejo ter mais nenhum filho. É uma das razões por que nunca voltei a casar. Sinto que tive o meu filho e o levaram. Passei a vida a dedicar-me a outras atividades, a escrever sobre coisas que me pareciam importantes, a lutar por causas em que acreditava, pois tenho menos a perder que muitos outros homens; se for morto, ninguém chorará por mim. Levei uma vida livre de compromissos. Com mulher e filhos não podia fazer isso.

            - Ressente-se das outras pessoas por causa das suas famílias?

            - Não - respondeu Charles com calma. - Nunca me ressenti disso. Fiz as minhas opções e vivi de acordo com elas.

            - Alguma vez quis voltar para a sua mulher?

            - Sim - admitiu ele calmo. - Antes de ela ter alta do hospital, pedi-lhe para voltar para mim, mas ela não quis. Disse que iria sempre sentir-se responsável pelo que tinha acontecido e que não acreditava que eu não a culpasse por isso.

            - Amava-a, senhor Delauney?

            - Sim. - Não tinha vergonha de confessar.

            - E na sua opinião, ela ainda o amava?

            - Acho que sim.

            - Ainda a ama hoje?

            - Sim - respondeu ele calmamente. - Talvez nunca deixe de a amar. Mas entendo que as nossas vidas seguiram direções diferentes, nem acho que nos déssemos bem. - Dirigiu-lhe um sorriso carinhoso. - Não me parece o tipo de mulher que se sinta feliz a acampar no sopé de uma montanha, enquanto o marido combate nas trincheiras. - Por toda a assistência esboçaram-se sorrisos. Poucas mulheres estariam dispostas a isso, exceto uma, que o teria seguido sem pestanejar até à montanha que ele escolhesse.

            - Quando a encontrou casualmente na Catedral de Saint Patrick, em Dezembro passado, há quanto tempo não a via?

            - Há quase sete anos.

            - E ficou muito comovido por vê-la?

            - Muito. Era o dia do aniversário da morte do nosso filho e para mim foi muito importante vê-la nesse dia.

            - Ela ficou contente por vê-lo, sir?

            - Acho que sim.

            - E levou-o a acreditar que estaria disposta a vê-lo de novo?

            - Não - respondeu, abanando a cabeça com firmeza.

            - Disse que não podia por causa do marido. - Em comparação com o testemunho de Malcolm sobre o seu ninho de amor com Brigitte, fazia um contraste gritante. - Na verdade, até foi bastante firme nesse ponto.

            - E ficou zangado?

            - Não, fiquei com pena. Na altura, só conseguia pensar nos tempos passados e no que tínhamos passado juntos; e queria estar com ela.

            - Ela contou-lhe do filho?

            - Não, não contou, e eu fiquei chocado quando o vi no dia seguinte. Estava extremamente embriagado, e fiquei zangado por ela não me ter contado no dia anterior que tinha um filho. Era um menino muito bonito. E eu disse-lhe muitas coisas estúpidas sobre ela não o merecer. Na minha embriaguez, as minhas palavras eram mais dirigidas a mim próprio, mas, em todo o caso, portei-me muito mal.

            - Ameaçou-a?

            - Provavelmente - respondeu ele com sinceridade.

            - Estava falando a sério?

            - Não.

            - Telefonou-lhe, repetindo as ameaças, ou já lhe tinha telefonado antes?

            - Não.

            - Alguma vez dirigiu ameaças físicas a alguém, ou concretizou ameaças físicas? Alguma vez fez isso na sua vida?

            - Não!

            - E desta vez foi diferente? Concretizou essas ameaças, senhor Delauney? - O tom de voz de Tom aumentava e subia de intensidade na sala de audiências.

            - Não, não concretizei essas ameaças. Nunca lhe teria feito mal a ela nem ao menino.

            - Raptou Theodore Whitman Patterson, o filho da senhora e do senhor Patterson, da sua casa, na noite de onze de Dezembro do ano passado, ou contratou ou conspirou com alguém para que o fizesse?

            - Não, senhor.

            - Sabe onde se encontra o menino?

            - Não... lamento, mas não sei... quem me dera saber...

            - O pijama e o brinquedo do menino foram encontrados na sua casa uma semana mais tarde?

            - Sim.

            - Faz idéia de como foram parar lá?

            - Não faço a mínima idéia.

            - Na sua opinião, como é que acha que foram parar, senhor Delauney?

            - Não sei. Acho que alguém os deve ter posto lá para me incriminar.

            - Porque é que acha que alguém faria isso?

            - Para que seja eu a pagar pelo crime que eles cometeram. É a única razão que me ocorre.

            - Faz idéia de quem possa ter sido?

            - Não.

            - Tem inimigos, alguém que tivesse jurado fazer-lhe mal?

            - Não... talvez apenas o general Franco... - Houve um sorriso geral.

            - O senhor é comunista, senhor Delauney?

            - Não - ele sorriu. - Sou republicano, ou pelo menos costumava ser. Hoje em dia, suponho que seja mais liberal.

            - Pertence ao Partido Comunista?

            - Não, senhor.

            - Guarda algum ressentimento contra a senhora Delauney... a senhora Patterson, no presente, pelo fato de ela o ter deixado? Ou contra o senhor Patterson, por ser marido dela?

            Charles dirigiu-lhe um olhar de homem para homem e teve vontade de lhe cuspir na cara, mas controlou-se enquanto respondia.

            - Pelo que ouvi nesta sala de audiências, ele não a merece. Mas não guardo qualquer ressentimento contra ele nem contra Marielle. Ela já sofreu o suficiente nesta vida. Merece alguém melhor que qualquer um de nós e merece ter o filho de volta. - Marielle ouvia-o com lágrimas nos olhos. Era um homem decente, sempre fora.

            Naquele momento, ao ouvir as palavras dele, já não acreditava que ele pudesse ter raptado Teddy. E Tom Armour rezava para que o júri ficasse com a mesma impressão.

            - É culpado pelo crime pelo qual é acusado, senhor Delauney? Pense bem e lembre-se que está sob juramento. Está de algum modo envolvido no rapto da criança em questão?

            Charles olhou para ele com um ar solene e abanou a cabeça devagar.

            - Juro que não tive nada a ver com isso.

            Então, Tom Armour voltou-se para a acusação.

            - A testemunha é sua, senhor Palmer. A acusação tentou fazer carne picada de Charles, fazê-lo confessar que tinha mentido, dar a impressão de que ele era ainda pior do que parecia, por ter batido em Marielle após a morte do filho de ambos.

            Mas agora já estava tudo exposto, já não havia segredos e Charles manteve-se firme na sua história. Continuou a afirmar que não estava relacionado com o rapto e que não fazia idéia de como o pijama aparecera na sua garagem. Não havia qualquer prova da presença da criança na garagem, não havia resíduos de carne nem de unhas, nenhum cabelo, mais nenhuma peça de roupa, nenhum sinal de que Teddy pudesse ter estado sequer perto de Charles Delauney.

            O seu testemunho foi exaustivo e durou dois dias, após o que o mistério continuava por resolver; todavia, Charles mantivera-se firme até ao fim. Não era culpado. A única questão era: teria ele convencido o júri?

            Malcolm saiu da sala de audiências sozinho, nesse dia, e Marielle deteve-se na igreja a caminho de casa. Queria rezar por uma sentença misericordiosa, fosse qual fosse, e pelo seu menino. A Páscoa começara e acabara e as outras crianças tinham andado à procura de ovos de Páscoa e brincado com pequenas galinhas, e em casa, o quarto de Teddy continuava vazio. Partia-lhe o coração ir até lá, e, porém, todos os dias encontrava alguma boa razão para ir à procura de alguma coisa, para deitar alguma coisa fora, para dobrar alguma roupa.

            Miss Griffin há muito que se fora embora e ainda se encontrava em casa da irmã em Nova Jersey; recentemente, a governanta contara a Marielle que Miss Griffin estava prestes a aceitar um emprego em Palm Beach, com um novo bebê. Sorte a dela, pensou Marielle... sorte a dela de ter um bebê a quem se dedicar. Mas para Marielle não havia novos bebês e ela só queria o pequeno Teddy. Doía-lhe o coração quando pensava no seu cabelo sedoso, na bochechinha firme, nos lábios doces a beijarem-na, mas ele já ali não estava... desaparecera... provavelmente para sempre. Tentava aceitar esse fato, dia após dia, e pensar nele tornava a traição de Malcolm cada vez menos importante.Ajoelhou-se no altar da Igreja de Saint Vincent Ferrer durante muito tempo e por fim John Taylor veio juntar-se a ela, ajoelhando-se a seu lado. Estivera no tribunal com ela todos os dias, mas pouco pudera fazer, tinham descoberto pouca coisa. Desde que haviam encontrado o pijama e o ursinho na casa de Charles Delauney não havia quaisquer outros progressos no caso.

            As alegações finais sobre o caso iriam ter lugar no dia seguinte e Taylor sentia-se totalmente impotente. Achou que Delauney tinha estado bem no seu depoimento dos últimos dois dias, até o fez pensar duas vezes, no entanto continuava a considerá-lo culpado.

            Pousou a mão carinhosamente no braço de Marielle. Estava cada vez mais magra e bastante pálida, mas aquelas terríveis crises de dores de cabeça haviam-se tornado mais escassas.

            - Pronta para ir para casa? - Ela suspirou e assentiu com a cabeça.

            Por vezes queria ficar ali, de joelhos, para sempre, rezando a Deus para que trouxesse Teddy de volta para casa. já há meses pedia que isso acontecesse. Não falou durante o caminho até casa. Os jornalistas continuavam apinhados à sua porta, mas Taylor tornara-se perito em esquivar-se deles e a levá-la para dentro da casa através da cozinha. Era estranho pensar que o julgamento estava quase no fim. A Polícia iria continuar na casa deles por uns tempos e o FBI iria certamente dar uma vista de olhos de vez em quando, mas não tinham descoberto pistas, nem houvera nenhuma chamada ou malucos a telefonarem à meia-noite. já não havia razão para lá continuarem.

            O caso estava encerrado. A única coisa que restava era saber o que o júri iria fazer com Charles Delauney. Taylor perguntava-se a si próprio se isso também a estaria preocupando naquele momento. Sabia que ela ainda se preocupava com ele, provavelmente mais do que conseguia admitir.

            - Quer ficar sozinha? - perguntou ele com brandura, quando chegaram a casa, e ela levantou os olhos para ele em sinal de gratidão e assentiu com a cabeça. No fim, ficaria só. A sua relação com Malcolm estava acabada, Teddy desaparecera... e, se executassem Charles Delauney, não restaria ninguém no mundo que alguma vez a tivesse amado. Cortava-lhe a respiração só de pensar nisso, e Taylor sabia que ela estava a passar tempos difíceis. Acariciou-lhe o braço e depois a face. - Força... não é tão mau como por vezes parece. - Mas ambos sabiam que pior não podia ser. Ficou a observá-la a subir as escadas devagar, com a cabeça baixa, mas então começou a ficar preocupado. E se ela fizesse o tipo de loucura que fizera anos antes? Estava na dúvida se devia ficar ou segui-la até lá acima, quando um dos seus polícias o avisou de que Malcolm estava no andar de cima; então Taylor pediu-lhe para ficar de olho nela e voltou para o seu gabinete.

            Quando deixou John, Marielle subiu até ao quarto de Teddy. Sentou-se numa cadeira de balanço e fechou os olhos. Estava escuro lá fora e havia algumas estrelas no céu que ela conseguia divisar através das cortinas do quarto. Pensou nas poesias infantis que haviam declamado juntos, nas canções que ela lhe cantara na última noite em que haviam estado juntos. As lágrimas escorriam-lhe pelas faces, quando, de repente ouviu um ruído. Voltou-se e deparou-se com o marido.

            - O que está fazendo aqui? - perguntou ele com frieza.

            - Vim aqui para me sentir mais próxima do Teddy.

            - Não vai adiantar nada - replicou ele com maldade - ele morreu. Graças ao teu ex-marido.

            - Porque você é tão cruel? - atreveu-se ela a perguntar desta vez. - E como é que podes estar tão certo de que ele morreu? Como é que sabe que daqui a algum tempo ele não virá para casa?

            Malcolm Patterson fitou-a com frieza. Deixara cair a máscara desde o início do julgamento. Perdera o seu disfarce e já não se importava. Ia divorciar-se dela. Se ele voltar, Marielle, não voltará para "nós" ou para você, não tens condições para ser mãe dele. Era exatamente o que Tom Armour previra. Andara consultando o caso Venderbilt e sabia muito bem como se construíram esse tipo de casos.

            E era isso mesmo que Malcolm estava fazendo. O testemunho da ama, da empregada, o telegrama do hospital psiquiátrico, tudo para demonstrar que ela não era capaz... no caso de o encontrarem.

            - Quem é você para decidir uma coisa dessas? - perguntou ela com tristeza. - E porque é que me odeia tanto?

            - Eu não te odeio. Só sinto desprezo por você. É fraca... e deixou que esse comunista entrasse na nossa vida para roubar o nosso filho e matá-lo.

            - Sabe que isso não é verdade. - Não se movera da cadeira de balanço enquanto ele se ia aproximando.

            - É uma tonta, Marielle. Uma tonta e uma mentirosa. - Os olhos dele fulminavam-na, mas os dela também. - Como é que espera que alguém te respeite?

            - E a Brigitte? - perguntou ela calmamente. - É assim tão melhor que eu? - A afronta ainda a magoava. Percebera por fim de que ele a desprezara durante todos aqueles anos. Mas porquê? Porque é que a odiava? Fizera-o por si próprio ou por Brigitte?

            - Brigitte não tem nada que ver com isto. Nós é que nunca devíamos ter casado.

            - Então porque é que o fizemos? - Já não entendia nada dele.

            - Se eu tivesse conhecido a Brigitte antes de você, talvez nós não nos tivéssemos casado. Mas te conheci primeiro. E queria tanto ter filhos. - Após dois casamentos estéreis, Marielle parecera-lhe a resposta às suas preces. E era tão jovem, tão indefesa. Agradara-lhe o fato de ela estar sozinha no mundo. Podia controlá-la e gostava disso. Na verdade, o incidente da clínica nem sequer o incomodara. Apenas servira para a tornar ainda mais dependente dele. Então foi por causa dos filhos? Para ter um filho?

            - Talvez. - Ela fora usada. Para ele, ela fora apenas isso. Um instrumento para lhe dar um filho. Mas não tinha sido só isso, ela sabia e ele também, quer admitisse ou não. No início, por um breve período de tempo, ela tivera certeza de que ele a amava. E, depois... aparecera Brigitte. Agora finalmente percebia.

            - E agora o que é que vai fazer? Casar com a Brigitte e ter mais filhos? - Ele não lhe contou que Brigitte não podia ter filhos e que a paixão deles era uma paixão genuína.

            - O que eu faço a partir de agora não é da tua conta, Marielle.

            - Eu saio de casa mal o julgamento acabe - informou ela com calma. Mas ia levar as coisas de Teddy... tinha de as levar consigo... caso ele voltasse de novo para casa... pela primeira vez em anos, começava a sentir a mesma confusão que costumava sentir na clínica em Villars... aquela estranha dor, na cabeça, que a impossibilitava de pensar ou de tomar qualquer decisão... naquele momento só conseguia pensar em Teddy.

            - Para onde é que vai mudar? - Os olhos dele pareciam sugar-lhe toda a energia.

            - Não interessa. Darei a minha morada ao FBI para poderem me encontrar... no caso de.. quando o encontrarem.

            Ele fitou-a com desdém. Ela estava enlouquecendo de novo. Via-se. E nunca lhe passou pela cabeça que era ele a estava levando a isso. Eles não vão encontrá-lo, Marielle. Nunca. Não percebe isso?

            - Ficarei instalada num hotel. - Ignorou a pergunta dele e desviou o olhar, enquanto Malcolm a fitava. Já dissera ao seu advogado quanto dinheiro iria lhe dar. Ia desembaraçar-se dela, pagando-lhe uma determinada quantia em dinheiro, e era mais que provável que ela fosse parar numa instituição qualquer. Quando ele saísse da sua vida, Charles fosse executado e ela se convencesse de que nunca voltaria a ver o filho, provavelmente não resistiria. De qualquer modo, vou partir em viagem. Pode organizar as suas coisas.

            - Para onde vai? - A voz saíra-lhe muito fraca, como se tivesse de se concentrar para falar, e as mãos tremiam.

            - Não tem mais nada que ver com isso. De súbito, quando ouviu as palavras dele, sentiu-se entrar em pânico. Quem tomaria conta dela, quando ele se fosse?... quem a ajudaria a tomar conta de Teddy? Mas, de repente, deu-se conta que não precisava de ninguém. Só precisava de algum tempo para se recuperar de tudo o que acontecera. Percebeu o que lhe estava acontecendo e lutou com todas as forças contra os demônios que a assaltavam. Fez um esforço sobre-humano para se levantar devagar e desceu para o seu quarto. Ele que fizesse o que quisesse. Mas nunca lhe poderia tirar as recordações do filho que amara e do quanto o amara. E, tomando consciência disso, percebeu então que iria conseguir resistir.

            John Taylor telefonou-lhe nessa noite. Estava preocupado com ela. Sabia o preço que ela estava pagando pelo julgamento.

            - Está bem?

            - Sim. Foi um dia difícil. - E Malcolm fora ainda mais difícil.

            Sentia-se exausta, mas feliz, por estar a ouvir a voz dele.

            - Vai ser ainda pior nos próximos dias. As alegações finais e o veredicto vão ser exaustivos. Você só tem de permanecer calma, Marielle. - E ele estaria lá, ao lado dela.

            - Eu sei... eu estou bem... John, não há notícias dele?... Quero dizer, de Teddy?

            - Não - respondeu ele com brandura -, não há. - Sabia que finalmente ela estava aceitando esse fato. Após quatro meses, não havia mesmo nenhuma esperança, e ele sabia. - Se acontecer alguma coisa, eu aviso.

            - Eu sabia.

            - Marielle... - Ele sabia que os telefones estavam sob escuta, mas desejava poder dizer-lhe o quanto a amava.

            - Eu sei... não faz mal. - A voz dela soava tão fraca e triste, e ele sofria por ela, desejando poder abraçá-la. Mas deixou-a sentada no seu quarto com duas lágrimas abandonadas a rolar pelas faces abaixo. Eram lágrimas de exaustão tanto quanto de dor.

            - Seja forte por mais alguns dias apenas. Talvez possamos passar algum tempo juntos, quando tudo isto estiver terminado. - Sabia que ela precisava desesperadamente se afastar dali. Tinha medo que ela desabasse novamente e, nessa noite, estivera perto, mas não o fizera. - Até amanhã - disse ele com brandura.

            - Boa noite - sussurrou ela, pousando o telefone em seguida. - E naquela noite, enquanto Marielle adormecia, Bea Ritter pensava em telefonar a Tom Armour.

 

            Desde que chegara a casa no fim da tarde, Tom Armour estivera limando as arestas das suas alegações finais, ficando satisfeito por o produto final ser exatamente o que ele queria. Espreguiçou-se, bocejou, voltou a ler tudo mais uma vez e por fim decidiu fazer uma sanduíche. O seu apartamento parecia ter sido assolado por ninhos de ratos e, quando abriu o frigorífico, lembrou-se que estava vazio.

            Estava ele a contemplá-lo esfomeado quando o telefone tocou, e Tom ficou indeciso quanto a ir atender ou não. Provavelmente eram outra vez os malditos jornalistas, mas, por outro lado, até podia ser alguma coisa importante.

            - Sim? - Pegou no auscultador distraído. Estava tentando decidir se valeria a pena sair e ir comer qualquer coisa ou se era melhor ir para a cama dormir umas horas para acordar descansado. Descansado, mas definitivamente faminto. Também não almoçara nesse dia e conseguia ouvir o estômago roncando, ao mesmo tempo que segurava o auscultador junto ao ouvido, intrigado com quem poderia estar telefonando àquela hora. A única mulher interessante na sua vida anunciara-lhe o seu próximo casamento com outra pessoa pouco antes do Natal. Alegava que Tom estava casado com o seu trabalho e que estava farta de ouvi-lo falar nos seus casos. Mas aos trinta e seis anos, Tom conseguira estabelecer-se como um dos advogados criminais mais distintos da cidade.

            - O senhor Armour está? - Era uma voz feminina que ele não conseguia reconhecer, mas que soava muito agradável.

            - Quem é que acha que é a esta hora? O mordomo?

            E então de repente ficou pensando se não seria uma chamada de algum maníaco, relacionada com Charles Delauney. Representá-lo tinha sido um trabalho interessante, mas no início do caso também lhe valera a sua dose de chamadas de malucos e de cartas ameaçadoras... como é que pode representar um monstro desses, etc., etc., etc.

            - Quem fala? - perguntou ele com um semblante preocupado. Há semanas que ninguém telefonava para sua casa, há meses até, quanto mais uma mulher com voz sedutora.

            - Fala Beatrice Ritter. É você, Tom?

            - Mais ninguém. - Entretanto já sabia quem era e ela agradava-lhe. Gostara dela quando fora ter com ele e lhe implorara que aceitasse o caso de Charles. E gostara dos artigos que ela escrevera desde então sobre Marielle e sobre Charles e o seu julgamento. Era fácil perceber que estava do lado dele.

            - Preciso de falar com você. - Soava séria e excitada.

            - Força. Apanhou-me. - Com um estômago roncando e uma geladeira vazia e nada que fazer até de manhã.

            - Pode encontrar-se comigo em algum lugar?

            Ele olhou para o relógio e retraiu-se. Era um homem atraente e estava de pé na cozinha com a camisa branca que usara no julgamento nessa tarde e as calças e os suspensórios, e tudo o que engolira nas últimas catorze horas fora uma enorme quantidade de café. - São quase onze da noite. Não pode esperar até amanhã de manhã?

            - Não, não pode. - Soava desesperada.

            - Aconteceu alguma coisa?

            - Tenho de falar com você.

            - Assassinou alguém?

            - Estou falando sério... por favor... confie em mim... não pode esperar até amanhã de manhã.

            - Presumo que esteja de algum modo relacionado com o meu cliente? - Ela tornara-se a campeã da sua causa por razões que Tom não percebia muito bem, mas estava disposto a aproveitar-se disso, se fosse do interesse do seu cliente.

            - Sim, bastante.

            - E não pode esperar?

            - Acho que não. - Parecia muito séria.

            - Está disposta a vir até ao meu apartamento? - A maior parte das moças não estaria disposta a visitar um homem àquela hora da noite, mas ela não era uma moça qualquer. Era jornalista. Estava habituada a fazer coisas que nenhum homem ou mulher no seu perfeito juízo faria e ele admirava a maneira corajosa como ela perseverava nas suas decisões. Era uma mulher minúscula com uma determinação gigantesca. E gostava dela. Um dia até poderiam vir a tornar-se amigos, mas não naquele momento.

            - Estou indo... - disse ela excitada. - Mas não me diga que vive em Nova Jérsei.

            - Lexington e que tal a Rua Cinqüenta e Nove, entre a Terceira? - Vivia numa rua sossegada de edifícios de arenito.

            - Diria que estou com sorte. Eu vivo na Quarenta e Sete. Vou apanhar um táxi e estou aí dentro de cinco minutos.

            - Me faz um favor primeiro?

            - Claro.

            - Arranja-me uma sanduíche de rosbife? Não como desde o café da manhã.

            - Mostarda ou maionese?

            - As duas. Qualquer coisa. Até como o saco. Estou esfomeado.

            - Certo.

            A campainha soou vinte minutos mais tarde e ali estava ela, de calça azul-escura e camisa azul-clara. Tinha um laço azul no cabelo e entregou-lhe um saco castanho com uma cerveja, dois pickles e o sanduíche.

            - Você é uma santa! - Nem se preocupou com o que ela tinha para lhe dizer, estava apenas agradecido por lhe ter trazido o jantar. - Quer dividir a cerveja?

            - Não, obrigada. - Abanou a cabeça e sentou-se numa cadeira da cozinha. Era como se fossem velhos amigos, mas ele sabia que ela assistira ao julgamento todo e que, indiretamente, tinham vivido aquela guerra juntos.

            - Como é que acha que está correndo?

            - Não tenho certeza. O júri é imprevisível. às vezes me dá a impressão de que os homens gostam mais dele do que as mulheres... não tenho certeza. Pelo menos você concedeu à Marielle Patterson alguma credibilidade.

            - Patterson revelou-se um grande filho da mãe. - Ele assentiu, sem nunca esquecer o fato de ela ser jornalista e de poder estar tentando algum truque com ele. - Você prestou um grande serviço ao Charles Delauney.

            - Obrigado. Hoje ele fez bonito no banco das testemunhas, pelo menos na minha opinião.

            - Eu também achei - concordou ela com suavidade. Conseguira captar-lhe o olhar, quando ele ia saindo do banco das testemunhas, e ele sorrira-lhe, quando ela o cumprimentara com um sinal. Ficara comovido com o interesse e a confiança que ela depositava nele, e um pouco confuso com o seu entusiasmo, mas gostava dela. Não tanto quanto ela dele, mas aos olhos de Bea, era um começo... a não ser que... mas isso era com Tom Armour... e com o júri.

            - Então, o que foi? O que é que a traz aqui a esta hora com uma sanduíche de rosbife? Presumo que não veio cá só para me dizer que admira o meu estilo na sala de audiências.

            - Não - esboçou um sorriso -, mas você é muito bom. Melhor do que a maior parte que tenho visto. - E então a sua expressão ficou séria. Tinha uma coisa muito importante para lhe contar. E ambos sabiam que Charles Delauney não tinha muito tempo. Os dois advogados iam fazer as suas alegações finais no dia seguinte e, depois disso, cabia ao júri decidir. - Fiz uma coisa muito estranha - confessou ela, aceitando uma dentada de um dos pickles dele. - Telefonei para uma pessoa sobre quem escrevi um artigo há muito tempo... bem, de qualquer modo... no ano passado. Provavelmente sabe quem ele é, Tony Caproni.

            - O patrão da máfia de Queens? - Tom Armour fez um ar atônito. - Você anda em boas companhias, Miss Ritter.

            - Escrevi um artigo sobre ele e ele gostou do artigo. Disse que se alguma vez precisasse de um favor dele, que lhe telefonasse. E foi o que eu fiz.

            - Telefonou ao Caproni? Porquê? - Mais uma vez estava impressionado com a coragem que ela demonstrava. Tony Caproni era um dos homens mais perigosos de Nova Iorque, mas também um dos mais poderosos no mundo em que se movia.

            - Queria saber se ele tinha ouvido alguma coisa, se conhecia alguém que conhecesse alguém que.. talvez alguém no chamado submundo soubesse quem realmente teria raptado o garoto ou... não sei, achei apenas que valia a pena tentar.

            - E? Ele estava a zero, presumo. O FBI também tentou a mesma tática. Tentaram através de todos os informadores, de todos os seus contatos no submundo e não conseguiram nada.

            - O Tony também não, da primeira vez que lhe telefonei. - Pousou o pickles e agarrou num dos braços de Tom. - Ele telefonou-me esta noite. Só me deu o nome de um sujeito e o número de telefone e disse-me para lhe telefonar.

            Tom parou de comer e fitou-a.

            - E ele sabia de alguma coisa?

            - Alguém... ele não sabe quem... pagou-lhe cinqüenta mil dólares para pôr o brinquedo e o pijama na casa de Charles. Ele não quer testemunhar, mas se lhe prometermos perdão, ele fala. Está com medo, Tom. Está com um medo de morte, mas tem pena do Charles e diz que testemunhará. Também disse que acha que o garoto está vivo e que quer falar, antes que aconteça alguma coisa.

            - Santa merda... oh meu Deus... dê-me o número dele. - Ela tirou o número da mala, ele pegou no telefone e depois olhou para ela. - Isto não é uma armadilha? Se você puser isto nos jornais, eu a mato.

            - Juro. É verdade. - E por razões que nunca descobriu, Tom acreditou nela.

 

            O juiz Abraham Morrison fez soar o seu martelo e iniciou a sessão exatamente às dez e quinze da manhã seguinte. Tom Armour tinha um olhar particularmente brilhante e vestia uma camisa branca engomada, um terno azul-escuro e uma gravata nova, e até se levantara um quarto de hora mais cedo para engraxar os sapatos. Gostava de aparecer no seu melhor no final do julgamento, quando o aspecto da pessoa era realmente importante. E Charles tinha um ar muito sóbrio, de terno cinzento-pardo, e usava uma gravata do pai.

            - Hoje iremos ouvir as alegações dos advogados, senhoras e senhores - explicou o juiz ao júri. Haviam estado instalados no Hotel Chelsea no decorrer do último mês e devia ter sido desgastante. Alguns já começavam a aparentar um ar muito macilento. Quando o juiz acabou de falar, Tom Armour levantou-se e pediu para se aproximar, no que foi acompanhado por Bill Palmer.

            - O que foi, senhor doutor? - perguntou-lhe o juiz, franzindo o cenho e baixando o tom de voz.

            - Novas provas, meritíssimo, e um pequeno problema. Podemos falar nos seus aposentos? - O juiz fez um ar pouco satisfeito. O caso estava praticamente no fim e agora falavam em provas novas. Que raio queriam dizer com aquilo?

            - Está bem, está bem. - Fez sinal com a mão aos dois advogados para entrarem e ficaram lá dentro até às onze e meia, discutindo um com o outro e com o juiz. Este estava disposto a deixar depor o homem, mas não a conceder-lhe perdão. Se o que o informante dizia era verdade, o ato de colocar o pijama de Teddy na casa de Charles Delauney era um crime punido a nível federal e, provavelmente, ele estaria ocultando mais informações sobre os raptores.

            - Eu acho que devíamos prendê-lo - opinou Palmer com as mãos baixas.

            - Não posso violar a minha fonte - explicou Tom.

            - E se ele está mentindo?

            - E se não estiver? Se foi ele que pôs o pijama e o urso, então

            Charles Delauney está inocente.

            - Por amor de Deus. Quem é esse homem? - perguntava Palmer, quase aos gritos.

            - Não posso dizer, até chegarmos a um acordo.

            O juiz fez um ar infeliz quando acabou de ouvir os argumentos dos dois, não ficando nada satisfeito com o acordo a que tinham chegado.

            - Concedo-lhe quarenta e oito horas para confirmar essa informação, para descobrir se é uma mentira ou não. Recorra ao FBI, aos Fuzileiros, ao Exército. Não me importa o que vai fazer, mas veja se consegue mais que isto. E não prometo nada ao homem. Investigue, descubra o que se está acontecendo. Mas daqui a quarenta e oito horas é bom que apareça neste tribunal com provas, ou cito-o por desobediência e mando prender o seu escaldante informante confidencial. Entendido?

            - Sim, senhor. Obrigado. - Tom Armour estava radiante. Tinha dois dias para trabalhar num milagre, mas talvez o amigo de Bea o ajudasse.

            - Sujeita-se à suspensão da audiência por dois dias? - perguntou o juiz a Palmer.

            - Tenho alguma alternativa? - Fez um ar aborrecido, mas resignado. Estava preparado para dar o seu melhor nas alegações finais.

            - Digamos que não. - O juiz sorriu e Tom Armour riu-se.

            - Então eu concordo, não é? É bom que essa informação seja boa. Pessoalmente acho que é tudo mentira. Delauney é mais culpado que o diabo, aquele desgraçado daquele comuna filho da mãe.

            - Não fale assim do meu cliente - avisou Tom Arrnour com severidade.

            - Então não aceite clientes desse tipo. Os três homens voltaram para a sala de audiências e o juiz informou que surgira a hipótese de novas provas e que a sessão ficava suspensa durante dois dias para investigação; a audiência recomeçaria na sexta-feira. Agradeceu a todos pela sua presença e a sessão foi devidamente suspensa, ao mesmo tempo que Tom segredava com Charles, explicando-lhe o que acontecera. E mal se levantou de novo, fez sinal a John Taylor.

            - Posso falar com você um minuto? Precisamos de ajuda.

            - Claro. - Oficialmente, da maneira como tudo decorrera, John estava ali para ajudar a acusação. Mas, na verdade, estava lá para ajudar fosse quem fosse para encontrar Teddy.

            - Podemos ir para um lugar sossegado por uns minutos?

            Deixou Charles, para que este fosse novamente conduzido à cela, e seguiu Taylor até um gabinete vazio.

            - O que é que conseguiu?

            - Não tenho certeza, mas acho que é uma boa pista. - Explicou-lhe a fonte e contou-lhe o que o homem dissera. - Ele está morto de medo. Recebeu a ordem de quem a deixou e agora é cúmplice, ou pelo menos será condenado por obstrução à justiça. O tipo tem um cadastro de meio metro, encontra-se em liberdade condicional e está borrado de medo de aparecer.

            - Pelo menos não é mudo. Quem é ele? Talvez o conheça.

            - Provavelmente conhece. Mas tem de me garantir perdão para o homem se eu lhe disser o nome.

            - Não posso garantir merda nenhuma, Armour. Mas garanto-lhe que dou um pontapé no cu se não partilhar a sua informação comigo. Não estamos aqui apenas para proteger o couro do seu cliente. Estamos à procura de um garoto de quatro anos que pode estar morto neste momento e, se não estiver, corre grande perigo!

            - Eu sei disso, raios! Mas você não pode dar cabo da minha fonte. Ele também acha que o garoto ainda está vivo. Você tem de me prometer que não vai simplesmente apanhá-lo e prende-lo.

            - Não vou prende-lo. Quero falar com ele. Se quiser, pode vir comigo. Quem é ele? - Armour ainda estava preocupado com o fato de poder meter o homem em problemas.

            - Chama-se Louie Polanski - balbuciou Tom, rezando para que Taylor não o levasse preso.

            - Louie? Louie the Lover? Aos diabos!, o Louie e eu já nos conhecemos há anos. Mandei-o para a prisão há quinze anos atrás, quando eu próprio ainda era um puto... salvei-lhe a vida. Os amiguinhos dele da máfia estavam tentando matá-lo na ocasião e nós oferecemos-lhe uma cela simpática e acolhedora e proteção durante cinco anos. Ele me adora. - John Taylor até se abrira num sorriso.

            - Está falando sério? - Tom parecia atônito com a história que acabara de ouvir.

            - Ele falará comigo. Juro. - E quando Tom tornou a telefonar a Louie, este estava esperando junto ao telefone e concordou em encontrar-se com Tom Armour e John Taylor.

            Encontraram-se à uma da tarde, num restaurante italiano em Greenwich Village, gerido pela máfia, e há anos que era utilizado como local seguro para conversas particulares, e Taylor conhecia-o bem, apesar de ser novidade para Tom Armour. O homem com quem se encontraram era baixo e obeso, careca, e suava abundantemente. Estava com os nervos à flor da pele, quando confessou o que tinha feito, mas na realidade até parecia genuinamente satisfeito por ver John Taylor.

            - Eu nunca devia ter feito aquilo. Foi uma loucura. Mas o raio do dinheiro era tanto e parecia tão fácil. - E fora. Até àquele momento.Taylor olhou para Tom.

            - Quem lhe teria pago tanto dinheiro para incriminar Delauney? Há alguém que anda querendo prejudicar seu cliente.

            - Macacos me mordam se eu não adoraria saber quem - confessou Tom com amargura.

            - Dizem que o puto ainda está vivo, mas eu não sei onde nem quem o tem - balbuciou Louie, olhando por cima do ombro.

            - O que é que os leva a dizer isso? Consegue descobrir? - De um momento para o outro, Taylor negociava com ele.

            - Vou tentar saber. Mas acho que alguém anda tentando encobrir as coisas. Há muito dinheiro mudando de mãos e eles devem ter contratado tipos bons, porque ninguém diz nada. - Exceto Louie, graças a Deus. Taylor deu consigo a rezar para que os parceiros de Louie tivessem razão e que Teddy ainda estivesse vivo.

            - Faz alguma idéia do paradeiro dele? Uma dica? Uma pista? Alguma coisa que possamos agarrar?

            - Talvez ele já esteja fora do país. - Haviam pensado nessa hipótese. Mas há meses que mantinham os portos e o aeroporto sob vigilância cerrada, até as fronteiras com o Canadá e o México. Tinham fechado tudo até há bem pouco tempo. Entretanto calcularam que Teddy já estivesse morto ou partiram do princípio que ninguém iria tentar levá-lo para fora do país. Mas, de repente, esse fato pôs John pensativo. A pressão exercida sobre os portos tinha sido aliviada apenas na semana anterior. Valia a pena dar mais uma olhada. Olhou para Louie com um ar de quem estava interessado.

            - Acabou de me dar uma idéia, Louie. Te adoro.

            - Sim? Então o que é que vai fazer por mim? Ouça... eu devolvo o dinheiro... só gastei dez mil. Pode ficar com os outros quarenta. Ofereça-os ao FBI, por Deus, dê-os ao juiz. Mas, merda, eu não quero ser preso de novo.

            - Fazemos assim. - Taylor fitou-o com ar sério. - Se descobrirmos alguma coisa, arranjo um acordo por ter nos ajudado a encontrar o garoto. Se não o encontrarmos, podes estar metido numa grande confusão. Mas farei o que puder. Depois te telefono.

            - Sim... diga-me alguma coisa... - Nervoso, Louie the Lover fitava Tom, e John Taylor retirou-se para fazer um telefonema.

            - Obrigado por ter falado conosco - agradeceu Tom com calma. - Isto pode significar a vida do meu cliente.

            - Sim - Louie sorria nervosamente -, e o meu couro. Mas... eh... não gosto de ver pessoas a fazerem mal a uma crinaça. Mete nojo. Sabe o que eu quero dizer. Como a história do Lindbergh. Nesses tempos eu estava dentro por causa de um pequeno roubo a um banco. Até me meteu nojo, tipos daqueles... matarem um bebê.    

            - Acha que eles podem tê-lo morto? - Tom até se sentia agoniado, só de falar nisso, não apenas pelo seu cliente. No decorrer do julgamento começara a admirar Marielle e não suportava pensar que ela poderia passar por aquilo. Principalmente depois de ter perdido outros filhos e pelo problema que estava a atravessar em relação a Malcolm.

            - É difícil de dizer - respondeu Louie com seriedade. - às vezes, quando há dinheiro envolvido, pode dar para os dois lados. E se diz por aí que isto é caça grossa.

            - Quem me dera saber quem foi. - Tinha certeza que não era Charles Delauney. Acreditava nele antes, mas agora não tinha qualquer espécie de dúvida. Mas se o trabalho tinha sido feito de modo tão profissional, então também duvidava que alguma vez descobrissem o autor. Ou o pobre Teddy. E Taylor regressou com um ar soturno.

            - O que foi? - perguntou Taylor.

            - Não sei. Talvez seja uma busca em vão, mas vamos pôr o porto abaixo nos próximos dias. Nunca se sabe o que se vai lá encontrar. Mas ouvi dizer que temos dez navios de carga e seis de passageiros para virar do avesso. Deve dar para nos mantermos ocupados durante uns tempos. E você, Louie, dá conta do teu recado também e veja o que consegue descobrir. - E se não conseguissem, ficariam com o seu testemunho em como tinha posto o urso e o pijama. Mas Taylor sabia que, no fim, poderia acabar por não ser assim tão fácil protegê-lo.

            - Eu te telefono.

            - Obrigado pelo almoço. - Louie olhou para ambos e não ficou arrependido de ter vindo. Se encontrassem o garoto, talvez tivesse valido a pena. Uma pessoa tinha de fazer alguma coisa que o fizesse sentir bem de vez em quando, mesmo que lhe custasse.

            E quando saíram do restaurante, Taylor enfiou-se numa cabina telefônica e fez outro telefonema. Telefonou para casa de Marielle e não queria que ninguém ouvisse a conversa.

            - Olá. Sou eu. - Sabia que ela reconheceria a sua voz. - Pode encontrar-se comigo na mesma igreja onde estivemos ontem, digamos... dentro de vinte minutos?

            - Claro. - Parecia surpreendida. E quando ele se foi encontrar com ela, vinha sozinha. Escapara pela porta dos fundos e descera a rua como qualquer pessoa normal, sem que alguém reparasse. Usava um lenço na cabeça, um casaco de lã e óculos escuros.

            - Aconteceu alguma coisa? - Tinha um ar preocupado e ele sorriu-lhe para a tranqüilizar.

            - Não, mas vou andar muito ocupado nos próximos dois dias. Se não me vir, não fique preocupada.

            - Algo relacionado com as novas provas que eles mencionaram no julgamento esta manhã? - Parecia surpreendida. - Via-o literalmente todos os dias desde a noite do rapto. Nos tempos que corriam, ele era o seu único amparo.

            - Sim, tem a ver com isso.

            - É alguma coisa... em relação ao Teddy?... - Tê-lo-iam. encontrado... ou pior, o corpo dele? Mas não se atreveu a perguntar.

            - Não acredito que esteja relacionado com o que quer que seja, mas estamos verificando. Não se preocupe. Eu te aviso, se aparecer alguma coisa - garantiu-lhe ele. Não queria que ela ficasse com esperanças, não era justo fazer isso. - Mas primeiro quero fazer-lhe uma pergunta. Uma coisa que os meus homens descobriram acidentalmente esta manhã. Fora isso que o levara a pensar no porto, isso e as palavras de Louie the Lover. As duas coisas juntas haviam-lhe feito soar uma campainha na cabeça. Antes disso, calculara que fosse um erro ou qualquer coisa que ela não tinha lhe contado.

            - Você e o seu marido estão planejando ir a algum lugar nas próximas semanas?

            - O Malcolm? Há semanas que mal fala comigo e ontem à noite disse-me que estava tratando dos papéis do divórcio. - Mas ela não tinha ar de quem ficara perturbada. Estava aceitando tudo bastante bem, tendo em conta o que passara. - Um bom sujeito! Então não está planejando fazer uma viagem com ele? - Estava certo que não, mas tinha de confirmar.

            - Não. Porquê? - Marielle parecia desorientada.

            - Acha que ele pode estar a planejando uma pequena lua-de-mel para tentar fazer as pazes?

            - Comigo, não, pelo menos. Disse-me que o advogado dele me telefonaria.

            - Quando foi isso tudo?

            - Ontem à noite, quando vim da igreja - explicou, e então, de repente, lembrou-se de uma coisa que ele dissera no quarto de Teddy.

            - Ele disse que ia viajar. É isso que quer dizer?

            - Talvez. - Mas não lhe contou que o Sr. e a Sra. Patterson tinham feito reservas para largar no Europa. Apenas podia partir do princípio que Malcolm iria levar Brigitte, planejando fazê-la passar por sua mulher. Não era a primeira vez que isso acontecia e, a bordo de um navio, as pessoas tinham tendência para serem bastante discretas. Uma bela viagem, que ele tinha planejado para si próprio, enquanto Marielle ficava à espera de ser contatada pelo advogado dele. Que estupor. - De qualquer modo, estava apenas divagando. Calculei que fosse um erro.

            - Achou que eu estava planejando escapar para fora da cidade? - Sorriu, mas mesmo quando sorria, nos tempos que corriam, só havia tristeza nos seus olhos. Sofrera demais nos últimos quatro meses. Ele teve vontade de abraçá-la, mas não lhe pareceu nem o momento nem o lugar certos para faze-lo, além de que tinha muito que fazer.

            - Não pense que pode sair da cidade sem o FBI na sua alçada, senhora Patterson.

            - Deixe que lhe diga que essa proposta até me soa muito atraente.- Sorria, enquanto se dirigiam para a saída da igreja. - Quando voltarei a vê-lo?

            - Assim que eu consiga escapar. Passo na sua casa ou telefono-lhe. Ou então vejo-a no tribunal, na sexta-feira de manhã. - Fez-lhe um sorriso carinhoso e pôs o braço à volta dos ombros dela. Cuide-se. - Sabia que quando não estivesse ocupado iria estar constantemente preocupado com ela. Seguiu-a a maior parte do caminho e depois ficou a vê-la a subir a rua até à mansão dos Patterson. Então, apanhou um táxi até ao seu gabinete.

            E nos dias que se seguiram, Marielle não teve notícias de ninguém. Malcolm tinha ido para Washington encontrar-se com o embaixador alemão e levara Brigitte com ele. Tom Armour andava ocupadíssimo dando os últimos retoques nas suas alegações finais e mantendo Charles calmo. Este andava com os nervos em frangalhos com o que estava se passando, desde que Tom lhe contara partes da história de Louie. Se tivesse conhecimento de tudo, então é que Tom tinha certeza de que Charles teria ficado doido. Mas já sabia que Louie tinha posto o urso e o pijama na sua casa. O que não sabia era que Louie talvez não estivesse disposto a testemunhar se o FBI não lhe prometesse perdão e proteção.

            - Mas isso prova que eu sou inocente - replicava ele, quase aos gritos.

            - Eu sei. Mas o sujeito tem de estar disposto a testemunhar.

            - Qual é o nome dele? - Como se fizesse alguma diferença, mas Tom Armour sorriu.

            - Louie the Lover.

            - Ótimo. É mesmo o tipo de homem que eu preciso de ter do meu lado.

            - Ouça, meu amigo, se foi ele quem pôs aquele pijama e se estiver disposto a testemunhar esse fato em tribunal, então é exatamente o tipo de pessoa que você precisa de ter do seu lado.

            - Como diabo você conseguiu descobri-lo? - A esperança começava a desvanecer-se, mas ele sabia que ainda não estava completamente perdido. Teriam de acontecer imensas coisas antes de poder ser absolvido e, se Louie the Lover, ou o que quer que ele se chamava, desaparecesse do mapa, Charles sabia que estava praticamente morto.

            - Na verdade, recebi uma informação no meio da noite, de uma amiga sua, ou admiradora, pelo menos.

            - Quem é? - Charles parecia intrigado.

            - Beatrice Ritter - respondeu Tom, como se não fosse nada com ele.

            - É uma moça e tanto, não é? Muito determinada - e então Charles ficou pensativo. - às vezes faz-me lembrar Marielle, quando era jovem. Ela era uma bola de fogo, tão cheia de vida, tão divertida e irrequieta. Acho que a vida lhe levou essas qualidades depois daquilo. - Parecia triste. - Ou talvez tenha sido eu o culpado. - Agora era tão séria, tão bela e boa e tão sossegada. Mas mesmo assim, havia um lado dela que queria rir e divertir-se e tornar a ser feliz. Tom Armour percebera isso quando falara com ela. - Acha que ela se recuperará depois disto? - Fazia a pergunta a Tom, como se este a conhecesse, mas Charles já tinha percebido que o seu advogado tinha um bom instinto em relação a pessoas.

            - Acho que sim. Não acredito que alguma vez volte a ser a jovem despreocupada da sua juventude, tal como você a descreve, mas poucas são as pessoas que continuam assim quando chegam aos trinta anos. Irá restabelecer-se, mas nunca esquecerá. Continuará, porque é forte.

            - Mas então suspirou, ela merecia muito mais do que recebera.

            - E como é que você consegue estar tão feliz a maior parte do tempo? - Perguntou Charles, para provocá-lo. Nos últimos quatro meses tinham ficado amigos, Charles respeitava Tom e este gostava dele.

            - Sou apenas estúpido, acho. - Mas Tom também tivera a sua quota de tragédia na vida. Contara-a a Charles, há algum tempo atrás, quando este lhe relatara a história de André. Tom perdera a mulher e a filha bebê dez anos antes, num acidente de automóvel, logo após acabar o curso de Direito. Por mais estranho que parecesse, acontecera no mesmo ano em que Charles perdera André. E também nunca voltara a casar. Mas era doido pelo seu trabalho e estava convencido que um dia se casaria, quando tivesse tempo... quando não estivesse defendendo lunáticos como Charles Delauney... quando sentisse coragem para voltar a amar alguém... mas para Tom Armour, esse dia ainda não tinha chegado.

            Tom teve uma carga de trabalhos para manter Charles distraído nos dois dias que se seguiram e este não parava de lhe perguntar se tinha alguma novidade de John Taylor. Mas não tinha. O próprio Tom estava ansioso por saber alguma coisa, e só se atrevera a telefonar uma vez, encontrando Taylor por sorte no gabinete. E Taylor parecia exausto.

            - Com mil raios, homem, sabe o que é virar dezesseis barcos do avesso? Pusemos a merda do porto em abaixo, o que é que você quer dizer com "se apresse"? - E haviam pedido a mesma cooperação ao porto de Nova Jérsei, mas para esses fora mais fácil: só tinham cargueiros atracados. Contudo, Manhattan era um poço de cobras e todos os navios estrangeiros estavam furiosos por serem revistados, até saberem do que se tratava, e então tornaram-se um pouco mais cooperantes, mas não muito. A notícia do rapto já começara a ser esquecida e a deixar de prestar atenção ao caso. E os inconvenientes de uma busca geral, com tudo o que envolvia, eram monumentais. Até tinham feito uma busca no Europa, o barco em que Malcolm iria partir mais tarde, mas estava limpo. E os alemães haviam ficado altamente aborrecidos por verem o seu barco revistado.

            - Eu já lhe disse que lhe telefonaria se conseguíssemos alguma coisa. Desde ontem à noite que não punha os pés no meu gabinete e só vim aqui para tomar um banho, porque já não agüentava o meu cheiro. Tem alguma queixa a fazer, senhor Armour? - Taylor estava sendo incisivo, mas Tom sabia que não era por mal, estava apenas cansado.

            - Nenhuma, apenas um cliente nervoso.

            - Diga-lhe para não tirar as calças. Estamos dando o nosso melhor. Agora, pode fazer-me um favor? - Hesitou primeiro, e depois decidiu pedir-lhe na mesma.

            - Claro. O que é? Quer que telefone ao Louie the Lover? - Sorriu e John riu.

            - Não. A Marielle Patterson. Deve estar em transe, tentando imaginar o que está acontecendo. Eu não lhe disse que o Louie recebeu cinqüenta mil dólares para fazer o trabalho. Só lhe contei que tínhamos uma pista nova. Não quis que ela ficasse com esperança.

            - Claro. O que quer que lhe diga?

            - Não sei... - Taylor hesitou e Tom deu consigo a pensar no tipo de interesse que Taylor teria por ela, mas convenceu-se a si próprio de que era demasiado desconfiado em relação a tudo, que estava se tornando num verdadeiro estupor. - Certifique-se apenas que ela está bem. O Patterson está fazendo que ela passe por momentos muito difíceis. Está divorciando-se dela, sabia?

            - Que belo tipo! - Tom ficou enojado, mas não surpreendido com o que acabara de saber.

            - Tirou-me as palavras da boca. Ele não sabe a sorte que tem. Mas acho que vai ter o que merece com a pequena Miss "Bochelândia". Por debaixo de toda aquela cabeleira loura, parece uma boa peça.

            - Posso citá-lo, agente especial Taylor? - Tom riu e Taylor respondeu-lhe com um riso abafado pelo cansaço.

            - Sempre que quiser, senhor doutor.

            - Mas você tem de admitir que a pequena "boche" estava boazuda, sentada no banco das testemunhas. - Riram ambos, após o que Taylor voltou ao trabalho, reorganizando os seus agentes. Já tinham virado doze navios do avesso e ainda havia mais quatro até à manhã seguinte. Tom consegu