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Poesia & Contos Infantis

 

 

 


DESAPARECIDO EM MASSILIA / Steven Saylor
DESAPARECIDO EM MASSILIA / Steven Saylor

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

DESAPARECIDO EM MASSILIA

 

Que loucura! murmurei. Davo, eu sabia que era um erro sair da estrada. Belo atalho!

 

Mas, sogro, tu ouviste o que disse o homem da taberna. A estrada para Massília não é segura. Os Massilianos estão fechados dentro da cidade, sitiados. E as tropas de César andam tão ocupadas com o cerco, que nem se lembram de patrulhar a estrada. Os bandidos gauleses andam à solta, preparando ciladas a quem quer que se atreva a circular pela estrada.

 

Neste momento, um bandido gaulês não seria totalmente mal recebido. Pelo menos, podia dar-nos umas indicações. Estudei o confuso panorama que nos rodeava. Tínhamos avançado gradualmente ao longo de um vale estreito e comprido, com as falésias de ambos os lados erguendo-se em degraus imperceptíveis à nossa volta, como gigantes a levantar lentamente a cabeça, e neste momento estávamos rodeados por todos os lados de muros lisos de calcário claro. Um ribeiro, quase seco no final de um Verão comprido e quente, corria lentamente pelo estreito desfiladeiro, com as margens rochosas sombreadas por pequenas árvores. Os nossos cavalos escolhiam delicadamente o caminho, contornando rochas bicudas e raízes nodosas de árvores, tão espessas como o braço de um homem. Era um percurso lento.

 

Tínhamos partido da taberna de manhã cedo. Seguimos o conselho do taberneiro e abandonámos quase imediatamente a estrada romana, lisa, ampla e cuidadosamente construída. Era seguirmos o Sol em direcção ao sul e avançarmos num sentido geralmente descendente em direcção ao mar, que dificilmente poderíamos deixar de chegar a Massília, tinha-nos dito o taberneiro, especialmente tendo em conta a quantidade de homens de César que estavam acampados diante da cidade. Agora que o Sol começava a esconder-se por trás das falésias a oeste do vale, eu começava a pensar se o sujeito não nos teria pregado uma partida de mau gosto.

 

As sombras carregavam-se por entre as rochas. As raízes das árvores, abertas sem ordem sobre o chão pedregoso, pareciam animar-se e estremecer à luz esbatida. Uma vez e outra, pelo canto do olho, imaginei protuberâncias espessas de cobras circulando por entre as rochas. Os cavalos pareciam sofrer a mesma ilusão. Resfolegavam e relinchavam repetidamente, testando os cascos contra as raízes nodosas.

 

Não sabia como tínhamos entrado no vale e sentia-me igualmente hesitante quanto à maneira como dele sairíamos. Tentei tranquilizar-me. O Sol tinha desaparecido por trás das falésias à nossa direita, por isso estávamos a viajar para sul. Tínhamos seguido o sentido da corrente, o que significava que, provavelmente, caminhávamos em direcção ao mar. Para sul e na direcção do mar, como nos aconselhara o taberneiro. Mas onde estaríamos, em nome do Hades? Onde estava Massília, com o exército de César acampado diante? E como conseguiríamos sair deste corredor de pedra?

 

Uma tira de sol pálido iluminou as pontas mais altas das falésias orientais à nossa esquerda, dando uma coloração vermelho-sangue à pedra branca de giz. O brilho cegava. Quando baixei os olhos, as sombras que aumentavam à nossa volta pareceram-me ainda mais escuras. A água borbulhante do riacho parecia preta.

 

Uma brisa quente atravessou o vale como um suspiro. O ouvido e a vista tornaram-se enganadores, incertos; na agitação das folhas das árvores, ouvi gemidos de homens e silvos de serpentes. Por entre as rochas, surgiam estranhos fantasmas de faces retorcidas, corpos atormentados, fenómenos impossíveis, que se desvaneciam em pedra com a mesma velocidade. Apesar da brisa quente, estremeci.

 

Davo seguia atrás de mim, assobiando uma melodia que um cantor gaulês ambulante tinha cantado na taberna na noite anterior. Não era a primeira vez, nos 20 e tal dias que tinham passado desde a nossa partida de Roma, que eu perguntava a mim próprio se o meu imperturbável genro seria realmente temerário, ou apenas falho de imaginação.

 

De repente, tive um sobressalto. Devo ter puxado as rédeas e emitido um ruído de alarme, porque o meu cavalo parou de repente, e Davo empunhou a sua espada curta.

 

Sogro, o que foi? Eu pestanejei.

 

Nada...

 

Mas sogro...

 

Não foi nada, com certeza... Olhei fixamente para a confusão de rochas e ramos baixos. Por entre os fantasmas fugidios, tinha-me parecido entrever uma cara, uma cara real, com olhos que também me olharam uns olhos que eu reconheci.

 

Sogro, o que foi que viste? Pareceu-me ter visto... um homem.

 

Davo perscrutou a escuridão.

 

Um bandido?

 

Não. Um homem que conheci no passado. Mas seria... impossível.

 

Quem era?

 

Chamava-se Catilina.

 

O rebelde? Mas cortaram-lhe a cabeça há que tempos, era eu miúdo.

 

Não foi assim há tanto tempo foi há 13 anos. Suspirei. Mas tens razão, Catilina foi morto no campo de batalha. Eu próprio vi a sua cabeça... espetada num pau, à entrada da tenda do general que o derrotou.

 

Bem, nesse caso, não podia ser Catilina a pessoa que viste, pois não? Havia um ligeiro requebro de dúvida na voz de Davo.

 

Claro que não... Foi um movimento da luz... a sombra de umas folhas na pedra... a imaginação de um velho. Pigarreei. Catilina tem-me ocupado muito o pensamento nos últimos dias, à medida que nos aproximamos de Massília. Estás a ver, quando decidiu fugir aos seus inimigos de Roma, era para aqui que Catilina tencionava vir para Massília, quero eu dizer. Massília é o fim do mundo ou, pelo menos, o fim do caminho para os exilados romanos, um porto seguro para os derrotados e amargos, e os conspiradores fracassados que viram as suas esperanças destruídas em Roma. Em Massília, eles são bem-vindos desde que tragam ouro suficiente para pagar a estadia. Mas não foi isso que sucedeu a Catilina. No final, preferiu não fugir. Ficou e lutou. E por isso perdeu a cabeça. Estremeci. Odeio este sítio! Só se vêem rochas nuas e árvores definhadas.

 

Davo encolheu os ombros.

 

Não sei. Eu até o acho bonito.

 

Dei um toque no cavalo e prossegui.

 

Por um qualquer efeito mágico da hora, parecia que a obscuridade em nosso redor não aumentava, antes permanecia imóvel, nem mais leve, nem mais carregada. Tínhamos entrado num mundo de crepúsculo, onde os fantasmas espreitavam e esvoaçavam por entre as árvores.

 

Atrás de mim, mais enervante de que tudo o resto, Davo assobiava, ignorando os fantasmas que nos rodeavam. Éramos dois homens adormecidos sonhando sonhos diferentes.

 

Olha, sogro, ali adiante! Parece uma espécie de templo...

 

E era mesmo. De repente, saímos do labirinto de rochas. O ribeiro deu uma curva para a nossa esquerda. A falésia de pedra à nossa direita abriu-se numa grande curva semicircular, semelhante a um vasto anfiteatro de calcário. Uma fina queda de água escorria do cume suspenso. A parede era fendida por ribeiros. Nas pedras, cresciam fetos e musgo.

 

O solo à nossa frente era plano. A certa altura, há muito tempo, este espaço tinha sido limpo e transformado numa vinha. Postes vacilantes demarcavam fileiras regulares, bem distanciadas umas das outras, mas as vinhas, cheias de folhas e carregadas de uvas pretas, tinham crescido sem controlo, formando um emaranhado selvagem.

 

Rodeava esta vinha uma vedação de aspecto peculiar. Quando nos aproximámos, percebi que era feita de ossos não de animais, mas de homens, ossos de braços e de pernas, pregados uns aos outros e enterrados no solo. Alguns dos ossos tinham apodrecido e tinham-se esmigalhado, ganhando uma cor castanha-escura ou quase preta. Outros eram muito brancos e estavam perfeitamente intactos. Dois pilares de calcário marcavam uma porta de acesso ao interior da vedação. Os pilares eram esculpidos, com cenas de batalha. Os vencedores usavam armaduras e elmos com penachos, ao estilo dos navegantes gregos; os vencidos eram Gauleses de calções de couro e elmos com asas. Para além dessa entrada, um caminho de lajes partidas cobertas de ervas daninhas ia dar a um pequeno templo redondo com o telhado em cúpula, que ocupava o centro da vinha. Fiquei petrificado pela estranheza daquilo que nos rodeava. A escuridão à nossa volta abrandou um pouco. O pequeno templo parecia brilhar ligeiramente, como se o mármore pálido tivesse corado ao crepúsculo.

 

Atrás de mim, Davo susteve a respiração.

 

Sogro, eu conheço este sítio!

 

Como, Davo? De um sonho?

 

Não, da taberna, ontem à noite. Era com certeza acerca este sítio que ele cantava!

 

Quem?

 

O cantor ambulante. Depois de tu teres ido dormir, eu ainda lá fiquei a ouvi-lo. Ele cantou uma canção sobre este sítio.

 

O que dizia a canção?

 

Há muito tempo, uns gregos navegavam por Itália e pela Sicília, e vieram ter aqui, à costa sul da Gália. Fundaram uma cidade e chamaram-lhe Massília. A princípio, os Gauleses receberam-nos de braços abertos, mas depois houve problemas - batalhas, uma guerra. Uma dessas batalhas teve lugar num vale estreito, onde os Massilianos montaram uma armadilha aos Gauleses, matando-os aos milhares. O sangue que escorreu dos corpos tornou o solo tão rico, que as vinhas cresciam de um dia para o outro. Os Massilianos usaram os ossos dos mortos para construir uma vedação à volta da vinha. E os Gauleses continuam a cantar o acontecimento. É essa canção que eu tenho andado a assobiar o dia todo. E aqui estamos nós!

 

E o templo?

 

Isso não sei. Calculo que tenha sido construído pelos Massilianos. Vamos dar uma vista de olhos? Talvez uma oferenda à divindade local nos ajude a encontrar a via de saída deste maldito lugar.

 

Desmontámos, prendemos os cavalos a uns anéis de ferro que havia nos pilares e percorremos o caminho de lajes partidas. As vinhas estremeceram, animadas por uma lufada de vento quente. O céu estava de um azul-submarino, listado de tintas cor-de-rosa e amarelas. Chegámos aos degraus do templo e erguemos os olhos. Esculturas em relevo decoravam os entablamentos que cercavam o telhado, mas a pintura do mármore estava tão desmaiada, que era impossível discernir as imagens. Subimos os degraus. Havia uma porta de bronze, entreaberta e imobilizada nos gonzos. Voltei-me de lado e deslizei para o interior. Tendo em conta o seu tamanho, Davo teve de se espremer.

 

Apesar das pequenas aberturas que havia junto ao tecto, a luz era muito esbatida. As paredes circundantes desapareciam na escuridão. Tive a sensação de ter entrado num espaço sombrio sem fronteiras perceptíveis. Os meus olhos foram atraídos para um pedestal que se encontrava no centro do compartimento. Havia qualquer coisa naquele pedestal, uma forma vaga, desconhecida. Dei um passo em frente, esforçando a vista.

 

Uma mão agarrou-me o ombro. Ouvi o deslizar do aço a ser retirado de uma bainha. Tive um sobressalto, e depois senti um bafo quente no ouvido. Era apenas Davo.

 

O que está naquele pedestal? sussurrou ele. É um homem? Ou...

 

Eu partilhava a sua confusão. A forma amorfa que se encontrava em cima do pedestal dificilmente poderia ser a figura erecta de um deus. Podia ser um homem de gatas no chão, observando-nos. Podia ser uma Górgona. A minha imaginação voava descontrolada.

 

Subitamente, uma explosão de som ecoou pelo templo um ruído crepitante, sibilante, de risos abafados.

 

O som provinha da porta, atrás de nós. Voltei-me. Por causa da luz que ficava para além dela, apenas distingui uma silhueta. Por momentos, imaginei que um monstro de duas cabeças, com braços e pernas de metal, nos ladrava da porta de entrada. Depois, apercebi-me de que os ladridos eram gargalhadas contidas, e que as duas cabeças pertenciam a dois homens dois soldados, a avaliar pelos seus elmos e armaduras adequadamente brilhantes e as espadas que empunhavam. Tinham passado juntos pela brecha da porta, agarrados um ao outro, a rir.

 

Davo colocou-se à minha frente, empunhando a espada. Eu afastei-o.

 

Um dos soldados disse:

 

Bonita, não é essa coisa que está em cima do pedestal?

 

Quem...? comecei eu a dizer. O que...?

 

Ouve-me isto, Marco, o velho fala Latim! disse o soldado. Quer dizer que não és gaulês? Nem um massiliano que escapou ao laço?

 

Eu inspirei profundamente e endireitei-me.

 

Sou um cidadão romano. Chamo-me Gordiano.

 

Os soldados pararam de rir e separaram-se.

 

E o grandalhão é teu escravo?

 

Davo é o meu genro. Quem são vocês?

 

Um dos soldados encostou o ombro à porta e abriu-a mais uns centímetros. O guincho das dobradiças pôs-me os nervos em franja. O companheiro, que era quem falava, cruzou os braços.

 

Somos soldados de César. E somos nós que fazemos as perguntas. Precisas de saber mais alguma coisa, cidadão Gordiano?

 

Depende. Saber os vossos nomes pode vir a ser-me útil da próxima vez que falar com Gaio Júlio.

 

Era difícil ver-lhes as caras mas, pelo silêncio que se seguiu, percebi que os tinha desnorteado. Conheceria realmente o seu imperador o suficiente para o tratar pelo nome próprio? Podia estar a fazer bluff ou não. Num mundo virado do avesso pela guerra civil, era difícil julgar um estranho que se encontrava num lugar estranho e devia haver poucos lugares mais estranhos do que este.

 

O soldado pigarreou.

 

Muito bem, cidadão Gordiano, a primeira coisa a fazer é conseguirmos que o teu genro guarde a arma.

 

Eu fiz um aceno de cabeça a Davo, que embainhou a espada, pouco satisfeito.

 

Não era contra vocês que ele a tinha empunhada disse eu. Lancei um olhar por cima do ombro para a coisa que estava sobre o pedestal. A luz que provinha da porta era agora mais intensa, o que permitia definir melhor a sua forma, mas o objecto continuava a ser intrigante.

 

Oh, ela! disse o soldado. Não receies, é apenas Artemísia. Eu franzi o sobrolho e estudei a coisa.

 

Artemísia é a deusa da caça e das florestas. Traz um arco e anda acompanhada por um veado. E é bonita.

 

Nesse caso, os Massilianos têm uma estranha ideia da beleza disse o soldado, porque isto é o Templo de Artemísia e isso... seja lá o que for... que está em cima do pedestal é a própria deusa. Acreditas que eles trouxeram isso desde a Jónia quando migraram para aqui, há

500 anos? Ainda antes de Rómulo e Remo mamarem o leite da loba, ou pelo menos é o que afirmam os Massilianos.

 

Estás a dizer que isto foi esculpido por um grego? Custa-me a acreditar.

 

Esculpido? Eu disse que foi esculpido? Ninguém fez essa coisa. Caiu do céu, deixando um rasto de fogo e fumo pelo menos é o que dizem os Massilianos. Os sacerdotes deles declararam que se tratava de Artemísia. Bem, se olharmos para ela de um certo ângulo, conseguimos mais ou menos ver... Abanou a cabeça. Seja como for, os Massilianos veneram Artemísia acima de todos os outros deuses. E esta é a Artemísia que lhes pertence em exclusivo. Esculpem cópias em madeira dessa coisa, miniaturas, que têm em casa, como qualquer romano tem em sua casa uma estátua de Hermes ou de Apolo.

 

Espreitando a coisa que estava em cima do pedestal, e inclinando a cabeça, discerni uma forma que talvez pudesse ser considerada feminina. Via agora uns seios pendentes bastante mais do que dois e um ventre inchado. Não havia delicadeza, nem artifício. A imagem era rude, básica, primeva.

 

Como é que sabes tudo isso? perguntei. O soldado encheu o peito de ar.

 

Sabemos, o meu camarada Marcos e eu, porque fomos designados para guardar este local. Enquanto dura o cerco, é nossa função manter este templo e o pomar que o rodeia a salvo dos bandidos e dos saqueadores embora eu não consiga imaginar o que poderia alguém levar daqui e, como podes verificar pessoalmente, os Massilianos deixaram arruinar o local. Mas César não quer que, quando o cerco terminar, Pompeu ou outro qualquer possam dizer que ele desrespeitou os santuários e os templos locais. César honra todos os deuses incluindo as pedras caídas dos céus.

 

Eu observei a cara feia do soldado.

 

Tu és um sujeito ímpio, não és?

 

Ele riu-se.

 

Rezo quando preciso. A Marte antes de uma batalha. A Vénus quando lanço os dados. Para além disso, não imagino que os deuses me prestem grande atenção.

 

Atrevi-me a tocar na coisa que estava sobre o pedestal. Era feita de uma pedra escura e sarapintada, brilhante e impermeável em certas zonas, noutras coberta de poros finos. Ao atravessar o vale, eu tinha avistado formas de fantasmas, ilusões de luzes e sombras, mas nada tão estranho como isto.

 

Tem um nome, essa rocha do céu continuou o soldado. Mas só um grego é capaz de o pronunciar. Nenhum romano consegue...

 

A voz provinha algures do interior do templo. A estranha palavra - se de uma palavra se tratava, e não de uma tosse ou de um espirro ressoou e ecoou no pequeno espaço. Os soldados ficaram tão espantados como eu. Fecharam os elmos, reviraram os olhos e tocaram as espadas.

 

Uma figura encapotada avançou de entre as trevas. Já devia estar ali quando Davo e eu entrámos mas, devido à obscuridade, nenhum de nós a vira.

 

Falava num sussurro áspero e rouco.

 

A pedra caída do céu é um xoanon, e xoanon é o nome que os Massilianos dão às imagens de Artemísia que esculpem em madeira.

 

Os soldados mostraram um súbito alívio.

 

És tu! disse aquele que falava. Pensei, não sabia o que havia de pensar! Pregaste-nos um susto.

 

Quem és tu? perguntei. O homem tinha o rosto escondido debaixo do capuz.

 

- És o sacerdote deste templo?

 

Sacerdote? O soldado riu-se. Já alguém viu um sacerdote vestido com semelhantes farrapos? Sem responder, a figura encapuçada passou por ele e saiu. O soldado apontou para a própria cabeça e fez um gesto, indicando que o homem era louco. Baixou a voz. Pusemos-lhe a alcunha de Rábido. Não é que o sujeito seja perigoso, mas não é bom da cabeça.

 

Vive aqui?

 

Quem sabe? Apareceu no acampamento pouco depois de César ter dado início ao cerco. De lá de cima veio a indicação de que devíamos deixá-lo em paz. Anda por onde quer. Desaparece durante uns tempos, depois volta a aparecer. Dizem que é um adivinho, embora não adivinhe grande coisa. É bastante estranho mas parece-me inofensivo.

 

É massiliano?

 

Talvez. Também pode ser gaulês. Ou romano, tanto quanto sei; fala Latim. Não há dúvida de que sabe umas coisas acerca dos assuntos locais, como acabaste de ver. Como é que ele chamou ao inchaço do pedestal? O soldado tentou repetir a palavra, mas não teve grande sucesso. Seja como for, por que é que tu e o teu genro não saem do templo? Está a ficar de tal maneira, que já não se vê uma mão diante da cara aqui dentro.

 

Seguimos os soldados até ao átrio e descemos os degraus. O adivinho estava à saída do portão, onde havia agora cinco cavalos presos aos pilares.

 

Muito bem, Gordiano de Roma, o que vieste aqui fazer? perguntou o soldado.

 

Para já, ando à procura de uma maneira de sair deste vale. Ele riu-se.

 

Isso é fácil. Marco e eu acompanhamos-te. Na verdade, vamos acompanhar-te até à tenda do nosso comandante. Dado que tratas ”Gaio Júlio” pelo nome próprio, talvez te sintas mais à-vontade explicando-te a um oficial. Olhou para mim de esguelha. Quem quer que sejas, não me importo de te dizer que fico satisfeito por teres aparecido hoje. As coisas correm lentamente por aqui, estamos muito longe da acção. Vocês os dois são os primeiros visitantes que recebemos no templo. Têm a certeza de que não são saqueadores? Ou espiões? Estou a brincar!

 

Preparámos os cavalos. Os soldados fizeram o mesmo. O adivinho conferenciou com eles por momentos. O soldado dirigiu-se a nós por cima do ombro.

 

Rábido está a dizer-me que quer seguir connosco durante algum tempo. Não se importam, pois não?

 

Eu observei a figura encapuçada montar o seu pónei de dorso arqueado e encolhi os ombros.

 

Os soldados seguiram à frente, até uma estreita fenda na parede de pedra. Era impossível detectar a abertura, a não ser que a pessoa se aproximasse muito. Eu duvidava de que Davo e eu tivéssemos conseguido encontrá-la sozinhos, mesmo à luz do dia. Um caminho rochoso passava por entre as paredes de calcário, e o espaço era tão estreito, que eu podia tocar nas paredes de ambos os lados sem estender os braços. A passagem estava mergulhada em sombras profundas, e era quase tão obscura como o interior do templo. O meu cavalo começou a sacudir-se, em protesto por estar a ser conduzido por caminhos ásperos e desconhecidos numa escuridão quase total. Finalmente, surgiu diante de nós uma tira vertical de luz desmaiada. O caminho era a descer, inclinado como uma escada.

 

Emergimos da fissura de forma tão abrupta como tínhamos entrado nela. Atrás de nós, erguia-se uma falésia de calcário a pique. À nossa frente, uma densa floresta, cerrada e escura.

 

Como é que vamos poder percorrer aquela vastidão de noite? perguntei a Davo num sussurro. Estes bosques devem estender-se interminavelmente.

 

Uma voz assustou-me. Era o adivinho. Eu pensava que ele seguia à nossa frente, juntamente com os soldados, mas de repente estava ao meu lado.

 

Neste sítio, nada é o que parece murmurou ele em voz rouca. Nada!

 

Antes que eu pudesse responder, os soldados voltaram para trás, afastando o adivinho e ladeando-me, e a Davo, como se fôssemos ovelhas num rebanho. Achariam realmente que nós podíamos tentar fugir para aquele bosque fundo e escuro?

 

Mas a floresta não era tão comprida como parecera. Atravessámos rapidamente as trevas protectoras e, de súbito, emergimos numa vasta clareira. O último brilho do crepúsculo iluminava uma paisagem de cepos de árvores a perder de vista. A floresta tinha sido arrasada.

 

O soldado apercebeu-se da minha confusão e riu-se.

 

Obra de César! disse. Quando os Massilianos se recusaram a abrir-lhe as portas, ele observou as espessas muralhas da cidade e decidiu que era aconselhável proceder a um ataque por mar. O único problema era não dispor de navios! Por isso, César decidiu construir uma armada de um dia para o outro. Mas, para se construírem navios, são necessárias árvores compridas ciprestes, freixos, carvalhos. Não há assim tantas árvores dessas nesta terra rochosa; foi por isso que os Massilianos declararam sagrada esta floresta e não lhe tocaram uma única vez, durante as centenas de anos que aqui estão. Os deuses habitaram estes bosques, diziam, deuses que aqui viviam muito antes da chegada dos Massilianos, deuses tão antigos e ocultos nas trevas, que nem os Gauleses tinham nomes para eles. Este local era cerrado e bravio, com o solo poeirento de tanta madeira apodrecida ao longo dos anos, com teias de aranha do tamanho de casas no alto dos ramos. Os Massilianos construíram altares, sacrificavam ovelhas e bodes aos deuses desconhecidos da floresta. Mas não tocavam nas árvores, receosos de um horrível castigo divino.

 

Mas César não se deixou deter por isso. Oh não! ”Cortem-me essas árvores”, ordenou, ”e construam-me os navios de que eu preciso!” Mas os homens a quem ele ordenou que fizessem o corte estavam assustados. Ficaram imobilizados, não conseguiam baixar os machados. Para ali estavam, olhando fixamente uns para os outros, estremecendo como rapazinhos. Homens que tinham incendiado cidades, assassinado Gauleses aos milhares, assustado o próprio Pompeu, obrigando-o a fugir de Itália com medo de atacarem uma floresta. César ficou furioso! Agarrou num machado de lâmina dupla que um dos homens tinha na mão, empurrou o sujeito da frente, e começou a retalhar o maior carvalho que encontrou. As lascas de madeira voavam pelos ares! O velho carvalho estalou e gemeu. César só parou quando a árvore se esmagou no chão. Depois disso, toda a gente acedeu a desbastar as árvores. Com medo de que César fosse atrás deles de machado na mão! O soldado riu-se.

 

Eu acenei com a cabeça. O meu cavalo parecia satisfeito por se ter afastado de lugares estreitos e rochosos. Não tinha dificuldade em escolher o caminho por entre os cepos das árvores.

 

Mas se este bosque era sagrado... Pensei que me tinhas dito que César tinha decidido respeitar os lugares sagrados dos Massilianos.

 

O soldado fungou.

 

Quando lhe convém!

 

Ele não receia cometer sacrilégios?

 

Era sacrilégio deitar abaixo uma velha floresta, cheia de aranhas e de tojos? Não faço ideia. Talvez o adivinho possa dizer-nos. Qual é a tua opinião, Rábido?

 

O adivinho ia pensativo, um pouco afastado. Voltou a cabeça encapuçada para o soldado, e falou num tom rouco e tenso.

 

Eu sei o que foi que o romano veio cá fazer.

 

O quê? O soldado ficou surpreendido, mas recuperou com um sorriso. Bem, então conta-me! Poupas-nos o trabalho de o torturarmos para descobrirmos. Estou a brincar! Vá lá, adivinho, fala.

 

Veio à procura do filho.

 

A estranha voz, emergindo do capuz sem rosto, gelou-me o sangue. Senti baterem-me asas dentro do peito. Involuntariamente, sussurrei o nome do meu filho:

 

Meto!

 

O adivinho puxou as rédeas ao cavalo e deu uma volta.

 

Diz ao romano que se vá embora. Não tem nada a fazer aqui. Não pode ajudar o filho. Afastou-se em passo lento na direcção de onde tínhamos vindo, voltando para o que restava da floresta.

 

O soldado fez uma careta e estremeceu, como um cão a sacudir a água.

 

Que tipo estranho. Não dá pena vê-lo pelas costas! Davo puxou-me a manga.

 

Sogro, o sujeito é mesmo adivinho! Se não, como é que ele podia saber...

 

Eu sibilei a Davo, mandando-o calar. Por um momento de loucura, considerei a possibilidade de voltar para trás, em perseguição da figura encapuçada, para saber que mais poderia ela dizer-me. Mas sabia que os soldados, apesar de todas as suas graças, não mo teriam permitido. Neste momento, éramos prisioneiros.

 

Subimos uma pequena colina. Lá no alto, o soldado parou e apontou para diante, para o alto de outra colina distante, iluminado por fogueiras de acampamento.

 

Estão a ver aquilo? É o acampamento de César. E, para além dele, fica Massília, de costas para o mar. Abrir-nos-á os portões, mais cedo ou mais tarde. Porque César o diz!

 

Eu olhei para trás de nós. Um mar de cepos de árvores brilhava sob a Lua ascendente. O adivinho tinha desaparecido na noite.

 

Diz que se chama Gordiano. Afirma ser cidadão romano. Trata o imperador por ”Gaio Júlio”, como se o conhecesse. Afirma que não dirá mais nada, excepto ao próprio Trebónio. O que te parece, senhor?

 

O soldado tinha-me passado ao respectivo centurião; o centurião tinha-me passado ao comandante da coorte; neste momento, o comandante da coorte conferenciava com o oficial que ocupava o posto imediatamente acima do seu. Eram horas de jantar no acampamento. De onde me encontrava, à porta da tenda dos oficiais, mas do lado de dentro, se espreitasse pela abertura, veria uma fila de homens de taças de metal nas mãos, avançando desordenadamente a um ritmo constante. Havia uma tocha colocada em cima de um poste na intersecção mais próxima da rede de caminhos entre as tendas; a luz incidia nas faces cansadas e sorridentes dos homens, satisfeitos por terem chegado ao final do dia, embora alguns deles estivessem praticamente a dormir em pé. Muitos estavam sujos de pó, e parecia que alguns tinham andado a rebolar-se na lama. O trabalho de um soldado durante um cerco é um nunca mais acabar de escavações: trincheiras, latrinas, túneis por baixo das muralhas do inimigo.

 

De algures na extremidade da fila, ouvi o bater monótono e repetitivo de uma colher de pau contra uma taça de metal. Chegou-me às narinas o odor de uma espécie de guisado. Ter-me-ia cheirado a porco? Davo e eu tínhamos comido apenas umas fatias de pão desde que tínhamos saído da taberna, nessa manhã. Ao meu lado, ouvi o estômago de Davo roncar.

 

Da sua cadeira portátil, o oficial observou-me sem grande simpatia. Estávamos a atrasar-lhe o jantar na messe dos oficiais.

 

Francamente, comandante de coorte, isto não podia ter esperado até de manhã?

 

Mas, senhor, entretanto, o que fazia eu com estes dois? Tratava-os como convidados de honra? Ou como prisioneiros? Ou libertava-os e corria com eles do acampamento? É certo que o mais velho tem um ar inofensivo, mas o mais novo, que ele afirma ser seu genro...

 

Deves ser tão estúpido como pareces, comandante de coorte, embora isso não me pareça inteiramente possível, se baseias o tratamento que dás aos saqueadores e infiltrados no ”ar que eles têm”. É a melhor maneira de um espião massiliano te espetar uma faca nas costas.

 

Não sou um espião massiliano disse eu. O meu estômago roncou, como que para realçar a afirmação.

 

Claro que não lançou o oficial. És um cidadão romano chamado Gordiano pelo menos assim o dizes. Estavas a saquear o templo de Artemísia?

 

Dirigíamo-nos a Massília. Perdemo-nos pelo caminho.

 

Por que saíram da estrada?

 

O taberneiro disse-nos que aquela parte do caminho era dominada por bandidos. Tentámos usar um atalho.

 

Em primeiro lugar, o que iam fazer a Massília? Têm lá família ou relações comerciais? Ou andam à procura de alguém no acampamento?

 

Eu baixei a cabeça.

 

O comandante de coorte ergueu as mãos ao alto.

 

É neste ponto que ele se fecha como uma ostra, senhor. É manifesto que esconde qualquer coisa.

 

O oficial inclinou a cabeça.

 

Espera aí. Gordiano, eu já ouvi esse nome. Comandante de coorte, estás dispensado.

 

Perdão, senhor?

 

Vai-te embora. Já, antes que os cozinheiros distribuam todos os bocados decentes que meteram na comida de porcos desta noite.

 

O comandante de coorte fez uma saudação e saiu, lançando-me um derradeiro olhar de desconfiança.

 

O oficial levantou-se da cadeira portátil.

 

Não sei como é que vocês se sentem, mas eu estou a morrer de fome. Venham comigo.

 

Onde vamos? perguntei eu.

 

Disseste que querias falar com o próprio César, não foi? Ou, se isso não fosse possível, com o oficial encarregado do cerco? Então, venham daí. Gaio Trebónio nunca se atrasa para o jantar, na sua tenda. Bateu as palmas e esfregou as mãos. Se eu tiver sorte, pode ser que me convide a jantar com ele.

 

O oficial não teve sorte. Logo que anunciou quem eu era e expôs as circunstâncias, Trebónio, que estava sentado a mastigar uma perna de porco, despediu-o sumariamente. O oficial lançou um derradeiro e prolongado olhar, não a mim, mas à perna de porco.

 

Tal como Marco António, Trebónio fazia parte da geração mais jovem, que desde o princípio se tinha agarrado à cauda do cometa da carreira de César, e estava decidida a cavalgá-la, em direcção à glória ou à perdição. Na arena política, Trebónio fizera o trabalho de mãos de César quando este era tribuno, tendo-o ajudado a alargar os seus domínios na Gália para além dos limites constitucionais. Na arena militar, fora um dos tenentes de César na Gália, tendo ajudado a esmagar os nativos. Agora que se tinha iniciado a guerra civil, escolhera uma vez mais o lado de César. Se o seu apetite era sinal de alguma coisa, ele não era perturbado por remorsos; a perna de porco que tinha nas mãos estava trincada até ao osso.

 

Reconheci-o de forma vaga, de o ter avistado ao longe nas raras vezes que visitara o meu filho Meto nos acampamentos de César. Subitamente, recordei-me de certa ocasião, em Ravena, em que Meto me tinha dito, de passagem, que Trebónio possuía um arquivo de graças de Cícero, que tinha publicado para os amigos. Quer dizer que Trebónio tinha sentido de humor; ou, pelo menos, apreciava a ironia.

 

Observou-me com curiosidade. Não havia qualquer razão para ele reconhecer a minha cara, mas conhecia o meu nome.

 

És o pai de Meto disse ele, tirando uma lasca de carne de entre os dentes.

 

Sou.

 

Não és parecido com ele. Ah, mas Meto foi adoptado, não foi? Eu acenei com a cabeça.

 

E este?

 

É o meu genro.

 

Parece-me bastante grande.

 

Sinto-me mais seguro quando viajo com ele.

 

Diz-lhe que vá lá para fora.

 

Eu acenei com a cabeça. Davo franziu o sobrolho.

 

Mas, sogro...

 

Talvez estes homens pudessem acompanhar Davo à messe dos oficiais sugeri eu, referindo-me aos soldados que estavam sentados e de pé no interior da tenda, a jantar. Assim, não teremos de ficar a ouvir o estômago dele a roncar ali fora.

 

Boa ideia disse Trebónio. Saiam todos!

 

Ninguém questionou a ordem. Momentos depois, Trebónio e eu estávamos sozinhos.

 

Tive esperanças de ainda encontrar César disse eu. Trebónio abanou a cabeça.

 

Partiu há uns meses. Tem coisas mais importantes a fazer do que estar aqui sentado a matar à fome um punhado de gregos. A notícia não chegou a Roma?

 

Os mexericos do Fórum nem sempre são fiáveis.

 

César esteve aqui no começo, sim. Pediu amavelmente aos Massilianos que lhe abrissem as portas da cidade. Eles hesitaram e gaguejaram. César exigiu-lhes que abrissem as portas. Eles recusaram. César preparou o terreno para o cerco conferenciou com os engenheiros, delineando uma estratégia para derrubar as muralhas, supervisionou a construção dos navios, deu instruções aos oficiais, dirigiu-se às tropas. Depois, foi-se embora. Tinha assuntos urgentes a tratar em Espanha. Trebónio sorriu com ar ameaçador. Mas, logo que resolva o problema das legiões de Pompeu ali estacionadas, regressa e eu terei o privilégio de lhe apresentar Massília, aberta como um ovo.

 

Em Roma, ouvimos dizer que os Massilianos apenas desejavam permanecer neutros.

 

Isso é mentira. Quando Pompeu partiu de barco para leste, em direcção à Grécia, o seu confederado, Lúcio Domício Aenobarbo, veio para aqui. Domício chegou antes de César. Convenceu os Massilianos a porem-se do lado de Pompeu e a fecharem as portas da cidade a César. Eles cometeram a loucura de o ouvir.

 

Eu ergui uma sobrancelha.

 

O Verão chegou e está quase a acabar. As portas de Massília continuam fechadas e presumo que as muralhas ainda estejam de pé.

 

Trebónio rangeu os dentes.

 

Mas não por muito mais tempo. Mas não deves ter andado este caminho todo para me fazeres perguntas sobre operações militares. Gostarias de falar com César, não é verdade? Pois nós também. Terás de te contentar comigo. O que pretendes, Gordiano?

 

A tenda estava vazia. Só Trebónio me ouvia.

 

O meu filho, Meto. O seu rosto endureceu.

 

O teu filho atraiçoou César. Conspirou para o matar, mesmo antes de César ter atravessado o Rubicão com as suas tropas. Tudo isso veio à luz depois de Pompeu fugir de Itália e de César tomar Roma. Foi a última vez que o vimos. Se o teu filho veio para Massília, veio sozinho. Se está dentro da cidade, não tens maneira de chegar até ele enquanto as muralhas não caírem. E, quando isso acontecer, se encontrarmos Meto, ele será preso e César tratará pessoalmente dele.

 

Acreditaria no que estava a dizer? Saberia a verdade? Até eu tinha sido enganado durante algum tempo, convencendo-me de que Meto traíra César. Meto, que lutara do lado de César na Gália, que transcrevera as memórias do grande homem, e partilhara a sua tenda. Mas a verdade era bastante mais complicada. A traição de Meto fora uma impostura elaboradamente construída, um estratagema destinado a levar os opositores de César a confiarem em Meto e a receberem-no nas suas fileiras.

 

Meto não tinha traído César, era um espião de César.

 

Era por isso que eu tivera a esperança de encontrar César. Fora o próprio César a conceber o esquema da traição forjada de Meto. A sós com César, eu poderia falar à-vontade. Mas até que ponto estaria Trebónio informado dos factos? Se César o mantivera na ignorância, eu jamais conseguiria convencê-lo da verdade. E até podia ser perigoso fazê-lo

 

perigoso para Meto, se ele ainda fosse vivo...

 

O tom de voz neutro de Trebónio e o seu olhar de aço não faziam suspeitar de nenhum sentido oculto. Tanto quanto me podia aperceber, quando falava da traição de Meto, ele falava do que julgava ser a verdade. Fá-lo-ia apenas por pensar que eu ignorava os factos? Estaríamos a jogar um jogo de sombras e marionetas, em que cada um de nós conhecia a verdade mas tinha o cuidado de não a revelar ao outro?

 

Tentei puxar por ele.

 

Trebónio, antes de Meto sair de Roma, eu estive com ele, falei com ele. Apesar das aparências, não acredito que ele seja traidor a César. Julgo que não é. E certamente que, conhecendo Meto como conheces e conhecendo César-, tu também deves sabê-lo. Não sabes?

 

Ele abanou secamente a cabeça. A sua expressão tornou-se mais carrancuda.

 

Ouve, Gordiano, o teu filho era meu amigo. A sua deserção foi um punhal, não apenas nas costas de César, mas também nas minhas

 

e nas costas de todos os homens que têm combatido ao lado de César Apesar disso, e por estranho que pareça, não posso dizer que lhe queira mal. Vivemos tempos terríveis. As famílias dividem-se irmão contra irmão, marido contra mulher, e até filho contra pai. É uma desgraça. Meto tomou uma decisão, uma decisão errada mas, tanto quanto sei, fê-lo com honra. Neste momento, é meu inimigo, mas eu não o odeio. Quanto a ti, não te culpo por aquilo que o teu filho fez. És livre, podes ir-te embora. Mas, se vieste conspirar com Meto contra César, tratar-te-ei com a mesma severidade com que trataria qualquer traidor. Mandar-te-ei crucificar.

 

Era o que eu ganhava em tentar puxar por ele. Se Trebónio conhecia a verdade, não estava disposto a revelar-ma.

 

Atacou os poucos bocados de carne que ainda restavam da perna de porco, e em seguida prosseguiu.

 

O conselho que te dou, Gordiano, é dormires bem esta noite, e em seguida fazeres meia volta e voltares a Roma. Se tiveres notícias de Meto, diz-lhe que César terá a sua cabeça. Se não tiveres, espera por elas. A espera será dura, eu sei, mas serás informado do destino de Meto, mais cedo ou mais tarde. Conheces certamente aquele ditado etrusco: ”Quando o luto começa, nunca mais acaba, por isso é inútil fazê-lo começar mais cedo do que o necessário”.

 

Eu pigarreei.

 

Esse é que é o problema, compreendes? Na véspera da minha partida de Roma, eu recebi uma mensagem de alguém que se encontrava no interior de Massília. A mensagem dizia... que Meto tinha sido morto. Foi por isso que eu fiz esta viagem, para saber, se o meu filho ainda está vivo... ou não.

 

Trebónio encostou-se na cadeira.

 

Quem te enviou essa mensagem?

 

Não estava assinada.

 

Como é que ela te chegou às mãos.

 

Foi deixada no degrau da entrada de minha casa, no Palatino. Trouxeste-a contigo?

 

Trouxe. Meti a mão na bolsa que trazia pendurada no cinto e tirei um pequeno cilindro de madeira. Com o mindinho, extraí lá de dentro um fragmento enrolado de pergaminho. Trebónio arrancou-mo da mão como arrancaria um despacho a um mensageiro.

 

Leu em voz alta.

 

”Gordiano: envio-te uma notícia triste de Massília. O teu filho Meto morreu. Perdoa-me a brusquidão. Escrevo-te apressadamente. Sabe que Meto morreu leal à causa, ao serviço de Roma. A sua morte foi a morte de um herói. Era um jovem corajoso e morreu corajosamente, aqui em Massília, embora não tenha morrido no campo de batalha.”

 

Trebónio devolveu-me a mensagem. Quer dizer que a recebeste anonimamente?

 

Sim.

 

Nesse caso, nem sequer sabes se vinha de Massília. Podia ser uma intrujice perpetrada por alguém de Roma.

 

Talvez. Mas é possível que a mensagem tivesse sido enviada de Massília?

 

Queres tu dizer, seria um navio massiliano capaz de passar pelo nosso bloqueio? Oficialmente, não.

 

E na realidade?

 

- Pode ter havido umas quantas... ocorrências... especialmente à noite. Os Massilianos são marinheiros experimentados, e os ventos locais favorecem a saída da baía durante a noite. Os navios de César estão ancorados

 

atrás das grandes ilhas, à saída da baía, mas um barco pequeno podia ter passado por eles no escuro. E então? E se a mensagem veio efectivamente de Massília? Se o mensageiro estava a dizer a verdade, por que não a assinou?

 

Não sei. Desde o dia em que César atravessou o Rubicão, toda agente anda mascarada. Intrigas e traições... o segredo pelo segredo...

 

Se Meto morreu, o autor podia ter-te mandado alguma recordação sensível, o anel de cidadão de Meto, no mínimo.

 

Talvez Meto se tenha afogado, e o seu corpo se tenha perdido. Talvez tenha morrido de... Na minha imaginação, concebi chamas e empalideci perante a ideia. Não te parece que eu já revolvi o assunto um milhar de vezes dentro da minha cabeça, Trebónio? É a primeira coisa em que penso quando acordo, e a última antes de adormecer. Quem me mandou esta mensagem, porquê, de onde, e é verdadeira ou não? O que aconteceu ao meu filho? Olhei de frente para Trebónio, permitindo que a infelicidade se me estampasse no rosto. Certamente que, se ele soubesse se Meto estava vivo ou morto, me diria pelo menos isso, a fim de aliviar o sofrimento de um pai. Mas a sua expressão ameaçadora permaneceu tão imutável como a de uma estátua.

 

Compreendo o teu dilema disse ele. É uma coisa terrível a incerteza. Lamento muito. Mas não posso ajudar-te. Por um lado, se Meto está vivo e em Massília, colocou-se do lado de Domício, traindo César. Não podes entrar na cidade para o veres, e se pudesses eu não to permitiria. Terás de esperar até os Massilianos se renderem, ou nós deitarmos as muralhas abaixo. Nessa altura, se descobrirmos Meto... queres realmente estar cá quando isso acontecer, para assistires ao seu destino como traidor? Por outro lado, se Meto já morreu, continuas a não ter maneira de entrar em Massília e descobrir como é que isso aconteceu, ou quem te enviou essa mensagem. Ouve, prometo-te o seguinte: quando tomarmos Massília, se houver notícias de Meto, eu mando-te dizer o que descobrir. Se Meto for apanhado, mando-te dizer o que César decidir fazer-lhe. Não posso prometer-te mais do que isso. Pronto, a tua missão está cumprida. Já podes voltar para Roma, com a consciência de que fizeste tudo o que um pai podia fazer. Vou mandar preparar-te um sítio para dormires esta noite. Partes amanhã de manhã. Estas últimas palavras foram ditas no tom inconfundível de uma ordem.

 

Ele estudou o osso sem carne que tinha na mão.

 

Mas o que é feito da minha boa educação? Tu deves estar esfomeado, Gordiano. Vai ter com o teu genro à messe dos oficiais. O guisado não é tão mau como parece, na verdade.

 

Eu saí da tenda e encontrei a messe pelo cheiro. Apesar dos roncos do meu estômago, tinha perdido o apetite.

 

Atribuíram-nos umas camas de campanha na tenda dos oficiais, junto à tenda do próprio comandante. Se Trebónio estava realmente convencido de que Meto era um traidor, era generoso da sua parte acolher com semelhante hospitalidade o pai de um traidor. Mas era mais provável que preferisse manter-me junto a si, para ter a certeza de que eu deixava o acampamento na manhã seguinte.

 

Muito depois de todos os outros terem adormecido, com Davo a ressonar suavemente ao pé de mim, eu permanecia acordado. Talvez tenha dormitado uma ou duas vezes, mas era difícil perceber se as imagens que se formavam na minha cabeça eram sonhos ou fantasias despertas. Via o desfiladeiro onde nos tínhamos perdido nessa tarde, a vedação feita de ossos, o templo escuro e a pedra caída do céu, agachada e primeva, que representava Artemísia, a floresta arrasada, o adivinho que sabia por que razão eu viera...

 

A que género de sítio teríamos chegado? No dia seguinte, se Trebónio levasse a sua avante, pôr-nos-íamos de novo a caminho antes de que eu tivesse possibilidade de descobrir.

 

Finalmente, empurrei a manta para trás e saí da tenda. A Lua cheia acabava de se formar, criando sombras compridas e escuras. As tochas que iluminavam as veredas ardiam lentamente. Caminhei sem destino, subindo gradualmente a colina, até me encontrar numa clareira que ficava ao pé da tenda de Trebónio. Era no alto da colina, de frente para a cidade.

 

Na escuridão, imaginei que Massília era um enorme monstro de barbatanas no dorso, que saíra a custo do mar e se deixara cair em terra, de cara para baixo, sendo depois rodeada de muralhas de calcário. A crista dentada que percorria a sua espinha era uma cordilheira de colinas. As muralhas circundantes brilhavam, azuis, ao luar. Sombras impenetráveis escondiam-se por trás das torres. A intervalos regulares, ao longo as ameias, tremeluziam tochas, meros pontos de chamas cor de laranja. De cada um dos lados da cidade, do lado de fora das muralhas, duas baías davam para o mar; a enseada maior, à esquerda, era o porto principal. A face parada das águas era preta, excepto nos pontos onde o luar lhe conferia um brilho prateado. Para além da cidade, as ilhas atrás das quais estavam ancorados os navios de César eram silhuetas cinzentas e rugosas.

 

Entre o local elevado onde nos encontrávamos e a extensão mais próxima da muralha, havia um vale mergulhado em sombras. Do outro lado do abismo de ar, aquela extensão de muralha parecia desconcertantemente próxima; eu conseguia avistar claramente duas sentinelas massilianas que patrulhavam as ameias, com os elmos tremeluzindo à luz das tochas. Por trás deles, erguia-se uma colina negra, que era a cabeça emplumada do monstro marinho da minha imaginação.

 

Algures na escuridão rodeada por estas muralhas iluminadas pelo luar, o meu filho tinha morrido, sugado para o ventre daquele monstro reclinado. Ou estava ainda vivo, prosseguindo um destino tão sombrio como a noite.

 

Ouvi passos e senti uma presença atrás de mim. Uma sentinela, pensei, veio mandar-me para a cama, mas, quando me voltei, vi que o homem vestia uma túnica de dormir. Era para o baixo e usava uma barba cuidadosamente aparada.

 

Subiu para um ponto não muito distante do cume da colina, cruzou os braços e estudou a paisagem.

 

Também não consegues dormir? observou, sem estar propriamente a olhar para mim.

 

Não.

 

Nem eu. Estou demasiadamente excitado por causa de amanhã.

 

Amanhã?

 

Ele voltou a cabeça, estudou-me por momentos, depois franziu o sobrolho.

 

Eu conheço-te?

 

Sou um visitante. Cheguei hoje de Roma, ao final do dia.

 

Ah, pensei que fosses um dos oficiais de Trebónio. Enganei-me. Eu também o estudei. Depois sorri.

 

Mas eu conheço-te.

 

Conheces? Debruçou-se sobre mim. Está escuro. Não consigo...

 

Encontrámo-nos em Brundísio, há uns meses, em circunstâncias não muito diferentes destas. César montara um cerco. Pompeu estava preso no interior da cidade, e desesperado por partir de barco. César tinha construído uns aterros e quebra-mares extraordinários à entrada do porto, numa tentativa de o fechar e prender os navios de Pompeu no interior. Tu apontaste-me as estruturas e explicaste-me a estratégia, engenheiro Vitrúvio.

 

Ele bateu os dentes, franziu o sobrolho, e em seguida abriu muito os olhos.

 

Claro! Tu chegaste na companhia de Marco António, mesmo antes de se desencadear aquela loucura do Hades. Acenou com a cabeça. Gordiano, não é? Sim, já me lembro. E és, és o pai daquele sujeito, Meto.

 

Sou.

 

Houve um silêncio, pouco confortável da minha parte. Olhámos juntos para a paisagem iluminada pelo luar.

 

O que sabes acerca do meu filho? - perguntei-lhe por fim. Ele encolheu os ombros.

 

Nunca tive ocasião de o conhecer. Como sou engenheiro, sempre trabalhei com outros oficiais de César. Conheço-o de vista, claro. Vi-o a cavalo ao lado do imperador, a tirar notas enquanto César ditava. É a sua função, ao que sei, colaborar com César escrevendo cartas e memórias.

 

Que mais sabes sobre Meto? Devem circular boatos. Ele resfolegou.

 

Nunca oiço as bisbilhotices do acampamento. Sou engenheiro e construtor. Acredito naquilo que posso ver e medir. Não se podem construir pontes por ouvir dizer.

 

Eu acenei com a cabeça, pensativo.

 

Quer dizer que ele está no acampamento, o teu filho? perguntou Vitrúvio. Vieste de Roma visitá-lo, foi? Bem, mas também foste de Roma a Brundísio vê-lo, não foi? Os deuses devem ter-te concedido um traseiro mais resistente para as viagens do que a mim!

 

Eu mantive o rosto desprovido de expressão. Quer dizer que Vitrúvio não sabia. A história da traição de Meto ficara confinada aos oficiais superiores ou mais próximos do círculo de César. Inspirei profundamente.

 

Trebónio disse-me que não há maneira de entrar em Massília disse eu, deixando cair o nome do comandante do cerco.

 

O engenheiro ergueu uma sobrancelha.

 

É uma cidade bem fortificada. As muralhas estendem-se a toda a volta, num círculo contínuo ao longo da terra, ao longo do mar, ao longo da praia de areia que fica diante do porto. As muralhas são feitas de blocos de calcário maciço, reforçadas a intervalos por torres de bastiões. Extremamente bem construídas; os blocos parecem estar ligados e empilhados na perfeição, sem cimentos nem ferros de metal. As secções inferiores têm ranhuras para seteiras. As ameias superiores têm plataformas para os arcos mecânicos e a artilharia de torção. Podes ter a certeza de que não é a mesma coisa do que sitiar um forte gaulês feito de troncos! Nunca entraremos à força de aríetes, nunca derrubaremos as muralhas com catapultas.

 

Mas é ou não possível abrir brechas nas muralhas? Vitrúvio sorriu.

 

O que sabes tu sobre a arte de montar um cerco, Gordiano? Esse teu filho deve ter aprendido qualquer coisa nas campanhas que fez com César no norte e na compilação das suas memórias.

 

O meu filho e eu costumamos falar de outras coisas quando nos encontramos.

 

Ele acenou com a cabeça.

 

Nesse caso, eu digo-te como é. As principais virtudes do sitiante são a paciência e a perseverança. Se não pode entrar esmagando e queimando, tem de cavar como uma térmita. Os sapadores ficarão com toda a glória neste cerco. São eles que escavam, abrindo caminho por baixo das muralhas. Escavando o suficiente em comprimento, consegue-se abrir um túnel para entrar na cidade. Escavando o suficiente, em profundidade e amplitude, consegue-se fazer com que uma secção da muralha se esmague por acção do seu próprio peso.

 

Quase parece excessivamente simples.

 

Longe disso! É necessária tanta reflexão e trabalho para destruir uma cidade como para construí-la. Pensa na nossa situação aqui. César decidiu montar o acampamento neste local, por ser elevado. Para além de se conseguir ver a cidade e avistar o mar, ainda se tem uma visão clara das operações de cerco, que têm lugar no vale, mesmo abaixo de nós. É aí que decorrem as actividades mais intensas. Neste momento, está escuro, o vale está mergulhado em sombras, mas assim que amanhecer verás o que realizámos ali em baixo.

 

Em qualquer cerco, o primeiro passo é escavar uma contravalação ou seja, uma trincheira funda, paralela às muralhas da cidade e oculta por tabiques. Isso permite fazer circular os homens e o equipamento de um lado para o outro. A nossa contravalação percorre todo este vale, desde o porto, à nossa esquerda, até à enseada mais pequena, à nossa direita, do outro lado da cidade. Além disso, a contravalação protege o acampamento da cidade; evita que o inimigo saia pelos portões, organizando um contra-assalto. E também impede que qualquer pessoa que se encontre para além do acampamento introduza alimentos frescos na cidade. Isso é importante. A fome é a fraqueza de qualquer homem. Foi erguendo os dedos, enquanto recitava uma lista. Isolamento, privações, desespero, fome: nenhum aríete consegue igualar o poder destas circunstâncias.

 

Mas, para montar um ataque, é necessário trazer as torres de rodas e os engenhos de cerco até às muralhas. Se o solo não estiver nivelado, podes estar certo de que não o está naquele vale, é necessário alisá-lo. Foi por isso que César ordenou a construção de um talude maciço a um ângulo adequado, relativamente à muralha, uma espécie de passagem elevada. Foi necessário proceder a um nivelamento aturado antes de podermos colocar os fundamentos; até parecia que estávamos a construir uma pirâmide egípcia, a avaliar pela quantidade de terra que transportámos. O talude é constituído principalmente por troncos, empilhados uns em cima dos outros, sendo cada nível perpendicular ao anterior, com terra metida nos interstícios, para torná-lo sólido. No ponto em que atravessa a zona mais profunda do vale, o talude tem 80 pés de cima a baixo.

 

Durante todo o tempo que duraram estes trabalhos de escavação e construção, os Massilianos nunca deixaram de fazer fogo sobre nós do alto das muralhas, evidentemente. Os homens de César estão habituados a lutar com os Gauleses, que não têm armas mais poderosas do que lanças, setas e fundas. Mas estes Massilianos são completamente diferentes. É um facto, embora me custe muito admiti-lo, que a artilharia deles é superior à nossa. As catapultas e os engenhos balísticos que eles utilizam lançam projécteis maiores e lançam-nos mais longe. Estou a falar de dardos ligeiros de 12 pés, que choviam sobre os homens quando eles estavam a tentar empilhar aqueles troncos pesados! As nossas protecções habituais escudos e parapeitos móveis eram totalmente inadequadas. Para proteger os trabalhadores, tivemos de construir abrigos a toda a volta do talude, mais resistentes do que quaisquer estruturas que tenhamos construído anteriormente. É isso que me agrada na engenharia militar, há sempre um problema novo para resolver! Construímos os abrigos com a madeira mais robusta que conseguimos encontrar, blindámo -los com toros de um pé de espessura, e cobrimos tudo com barro à prova de fogo. Os seixos rolavam por cima de nós como pedras de granizo Os dardos gigantes faziam ricochete como se tivessem atingido metal

 

Ainda assim, o barulho no interior dos abrigos, com os projécteis e as pedras a baterem por cima, põe os nervos em franja a qualquer um! Eu posso dizê-lo; passei bastante tempo lá em baixo, a supervisionar o trabalho.

 

- Quando o talude estava quase pronto, começámos a construir uma torre de cerco montada sobre cilindros, com um aríete inserido na plataforma inferior. Está ali em baixo, na ponta de cá do talude. Amanhã, será empurrada ao longo da passagem, e os Massilianos não terão maneira de a deter. Os homens que se encontram nas plataformas superiores da torre de cerco vão protegidos por resguardos feitos com tapetes de cânhamo, tão espessos que os projécteis não conseguirão penetrá-los. Quando a torre for encostada à muralha, os homens das plataformas superiores poderão atirar sobre os Massilianos que se aventurarem a sair da cidade para tentar impedir a operação, enquanto os homens da plataforma inferior fazem girar o aríete à sua vontade. Sabes o género de pânico que isso provoca numa cidade sitiada? o bum, bum, bum de um aríete contra as muralhas? Vai ouvir-se a milhas de distância.

 

Eu espreitei para baixo, para o vale. Por entre as sombras cinzentas e pretas, consegui distinguir a linha direita do talude que atravessava o vale, desde um ponto localizado mesmo abaixo de nós até à base das muralhas da cidade. Também consegui aperceber-me da volumosa massa da torre de cerco na extremidade mais próxima.

 

Mas eu pensei que tinhas dito que as catapultas e os aríetes nunca conseguiriam derrubar as muralhas de Massília.

 

E disse. Vitrúvio riu-se. É preferível não dizer mais nada. Eu ergui uma sobrancelha.

 

O aríete é apenas uma diversão?

 

Ele estava demasiadamente orgulhoso da sua concepção para poder negá-lo.

 

Como te disse, toda a glória irá para os sapadores. Eles têm andado a cavar furiosamente desde o dia em que montámos o acampamento. Criaram uma rede de túneis, que percorrem as muralhas de um lado ao outro. O mais comprido fica ali. Apontou para a esquerda, na direcção da porta principal da cidade, e do porto, para além dela. De acordo com os nossos cálculos, os cavadores terminarão ao longo do dia de amanhã. Num abrir e fechar de olhos, disporemos de uma passagem para o interior das muralhas da cidade. Mesmo atrás dos cavadores, seguirão tropas pelo interior do túnel, à espera de saírem daquele buraco do chão como formigas de um formigueiro espicaçado. No interior de Massília, correrão para a porta principal. Os massilianos terão concentrado todos os homens que tiverem conseguido juntar noutro local, no ponto onde a torre de cerco e o aríete estiverem a fazer o assalto à muralha. Um ataque ao portão, feito do interior da cidade, apanhá-los-á completamente de surpresa. O portão será nosso; e, quando os nossos homens o tiverem aberto, Trebónio conduzirá pessoalmente o ataque à cidade. O cerco terminará. Os massilianos não terão alternativa, senão render-se e suplicar misericórdia.

 

E Trebónio terá misericórdia com eles?

 

As ordens de César eram tomar a cidade e aguentá-la até ao seu regresso. Ele tenciona ditar pessoalmente as suas condições aos Massilianos.

 

Quer dizer que não haverá um massacre?

 

Não. A não ser que os massilianos sejam suficientemente loucos para combater até à morte. Não é provável no fundo, são comerciantes, mas nunca se sabe. Ou a não ser que...

 

Sim?

 

A não ser que os nossos homens se descontrolem. Pela maneira como a sua voz perdeu o brilho, percebi que já tinha assistido a ocorrências semelhantes. Meto tinha-me falado das cidades gaulesas saqueadas e pilhadas por soldados romanos enlouquecidos. Parecia impensável que semelhante coisa pudesse ser feita ao povo de Massília, aliado de Roma há séculos. Mas estávamos em guerra.

 

Vitrúvio sorriu.

 

Percebes agora por que não consigo dormir, a pensar no dia de amanhã.

 

Eu acenei com a cabeça, sorumbático.

 

Julguei que um passeio e um pouco de ar fresco ajudassem, mas agora, também não me parece que vá conseguir adormecer.

 

Amanhã, se Vitrúvio tivesse razão, Massília seria penetrada. Nesse caso, por que motivo insistira Trebónio em me mandar embora? O que saberia ele sobre Meto, que eu ignorava? Estaria a poupar-me à visão da execução do meu filho? Ou a poupar-me à descoberta de um destino ainda mais horrível, que já se abatera sobre Meto? A minha imaginação fatigada começou a girar, descontrolada.

 

Sabes uma coisa? disse Vitrúvio, muito animado. Vi umas cadeiras portáteis na tenda de Trebónio. Vou buscá-las. Podemos sentar-nos aqui os dois, à espera do nascer do Sol. A recordar-nos do cerco de Brundísio, ou outra coisa qualquer. Deves ter notícias frescas de Roma. Não consigo imaginar como estará a cidade neste momento, com Marco António, o amigo de César, à frente dos destinos da cidade. Uma orgia gigantesca, calculo. Não saias daqui.

 

Foi buscar as cadeiras e voltou rapidamente, trazendo também um par de mantas.

 

Falámos sobre as hipóteses de César acabar rapidamente com os seus inimigos em Espanha; da possibilidade de Pompeu reunir uma força formidável no Oriente, para desafiar César; da reputação de António para as pândegas e a bebida. Sóbrio ou não, António mantivera rigorosamente a ordem. Eu garanti a Vitrúvio que o estado de espírito em Roma estava longe de ser orgiástico. Atordoada com os tumultos dos últimos meses e receosa do futuro, a cidade sustinha a respiração e andava em bicos de pés de olhos muito abertos, como uma virgem no meio de uma floresta.

 

Falámos dos exilados romanos famosos, que ao longo dos anos tinham fixado residência em Massília. Gaio Verres era o mais conhecido; quando fora governador da Sicília, a sua rapacidade atingira extremos tais, que Cícero o levara a tribunal por mau desempenho do cargo, e conseguira obter a sua condenação, mandando-o a toque de caixa para Massília, acompanhado de uma fortuna em saque. Milo, o chefe do bando reaccionário, fugira para Massília depois de ter sido considerado culpado do assassínio de Clódio, o chefe do bando radical; que destino teria, se César tomasse a cidade? Havia dezenas de exilados destes em Massília, incluindo homens que tinham sido condenados por diversos crimes políticos durante a campanha de ”limpeza” do Senado levada a cabo por Pompeu; alguns eram certamente desonestos até à medula, mas outros tinham simplesmente cometido o erro de contrariar Pompeu e os anticesarianos que tinham dirigido o Senado nos últimos anos. No interior das muralhas de Massília, devia haver mesmo antigos partidários de Catilina, rebeldes que tinham preferido a fuga e o exílio à morte em combate ao lado do seu chefe.

 

Olhei fixamente para as muralhas de Massília e para o monstro escuro e pesado da cidade que ficava para além delas e perguntei a mim próprio se Verres, Milo e todos os outros estariam a dormir. Qual seria a sensação de ser um exilado romano em Massília, com o novo senhor de Roma a bater às portas da cidade? Alguns deviam estremecer de medo, outros de júbilo.

 

Vitrúvio falou-me do cerco. O primeiro recontro importante tinha sido uma batalha naval. Uma frota massiliana surpreendentemente reduzida de 17 navios tinha-se aventurado a sair do porto. Os 12 navios de César saíram de trás das ilhas e foram ao seu encontro. Os massilianos assistiram das muralhas da cidade, enquanto os romanos assistiam da colina onde nos encontrávamos sentados.

 

Não era uma grande frota disse Vitrúvio, falando depreciativamente do seu próprio lado. Navios apressadamente construídos com madeira verde, pesados, dirigidos por soldados que nunca tinham andado de barco na vida. Nem sequer se incomodaram a tentar suplantar os Massilianos com as suas manobras; limitaram-se a andar em frente, apanharam os navios inimigos com ganchos de abordagem, saltaram para bordo e lutaram corpo-a-corpo nos conveses, como se estivessem a atacar em terra seca. O mar ficou vermelho com o sangue. Daqui de cima, viam-se grandes manchas de vermelho, carmesim-brilhante contra o azul domar.

 

A batalha tinha corrido mal para os massilianos. Nove dos 17 navios em que seguiam tinham-se afundado ou sido capturados; os restantes tinham fugido, regressando ao porto. Só o forte vento de terra, pelo qual a costa sul da Gália é famosa, impediu os navios de César de os perseguirem; com o vento de frente, os experientes marinheiros massilianos eram os únicos que conseguiam manobrar pelos estreitos, de forma a reentrarem no porto. Mas a batalha confirmara o bloqueio. Massília estava isolada, quer por terra, quer por mar.

 

Poderia haver outra batalha naval, se Pompeu conseguisse enviar reforços navais aos massilianos. Mas Vitrúvio continuava convencido de que o conflito seria resolvido em terra, e não sobre as águas, e antes mais cedo do que mais tarde. Amanhã, sussurrou ele, enquanto eu me deixava arrastar para uma sonolência inquieta debaixo da manta, demasiadamente cansado, apesar das preocupações, para conseguir permanecer acordado mais um momento que fosse.

 

Na hora que antecedia o nascer do Sol, fui acordando gradualmente. A noite e o sono foram recuando em estádios imperceptíveis. Uma visão enublada, como que em sonhos, infiltrou-se no mundo desperto. Da palidez, emergiu diante de mim a arena da batalha descrita por Vitrúvio.

 

Aconchegado na cadeira portátil, com a manta enrolada à minha volta e sobre a cabeça, como um capuz, vi as muralhas brancas de leite de Massília tingirem-se de um suave tom cor-de-rosa à luz crescente da madrugada. O monstro preto que ficava para além delas tomava forma e configuração, transformando-se numa cordilheira de colinas, com as casas amontoadas ao longo das encostas, e os templos e cidadelas que coroavam o topo das colinas. Para além dele, o mar passava de preto obsidiana a azul de chumbo. As ilhas à entrada do porto adquiriam solidez e dimensão.

 

No vale abaixo de mim, a contravalação que rodeava Massília atravessava a terra calcada como uma cicatriz. O talude que Vitrúvio me tinha descrito erguia-se sobre o vale como uma enorme represa, e a torre de cerco móvel avultava-se abaixo de nós. Não vi quaisquer sinais dos túneis de que Vitrúvio tinha falado, mas para a minha esquerda, num canto onde a muralha do lado de terra dava uma curva para trás, a fim de acompanhar o porto, avistei as torres maciças que flanqueavam a porta principal de Massília. Algures naquela zona, os homens de César tencionavam cavar uma saída para a luz do dia.

 

Lenta mas seguramente com a mesma lentidão e segurança com que estas imagens se iam tornando manifestas da escuridão, tomei uma decisão.

 

Parecia-me que, na minha juventude, sempre fora metódico e cauteloso, lento a dar qualquer passo que pudesse ser irrevogável, temeroso de cometer um erro que pudesse ter o pior resultado possível. Era irónico que, nos meus dias de sabedoria duramente conquistada, me tivesse tornado uma criatura de impulsos, capaz de correr grandes riscos. Talvez fosse um sinal de sabedoria um homem voltar as costas ao medo e confiar aos deuses a tarefa de o manterem vivo.

 

Vitrúvio? disse eu.

 

Ele agitou-se na cadeira, pestanejou, pigarreou.

 

Sim, Gordiano?

 

Onde começa o túnel, aquele que hoje dará acesso à cidade? Ele voltou a pigarrear. Bocejou.

 

Ali à esquerda. Estás a ver aquele maciço de carvalhos ali em baixo, metidos numa concavidade que dá para a encosta da colina? Na verdade, quase não se vêem os topos das árvores. É aí que fica a entrada do túnel, quase em frente à porta principal, mas escondida das muralhas da cidade. Os sapadores já lá devem estar em baixo, a substituir o equipamento de escavação, a confirmar as medições. Os soldados que vão tomar parte no ataque começarão a reunir-se dentro de uma hora.

 

Eu acenei com a cabeça.

 

Como vão equipados?

 

Com espadas curtas, elmos, armaduras ligeiras. Coisas pouco pesadas. Têm de andar ligeiros, com o máximo de desembaraço. Não queremos que tropecem uns nos outros e se esfaqueiem enquanto percorrem o túnel, ou que lhes pese o excesso de equipamento quando precisarem de trepar para fora do túnel.

 

Pertencem todos a alguma coorte em particular?

 

Não. São voluntários especiais, seleccionados em diversas coortes. Nem todos os homens se adaptam a este género de missão. Não é possível treinar eficazmente um homem para não ter medo do escuro nem entrar em pânico num espaço apertado e fechado. Há homens que, por muito corajosos que sejam, metidos dentro de um túnel, se molham a seguir à primeira curva, no instante preciso em que perdem de vista a luz do Sol. Não são bons companheiros num momento de crise. Os sapadores estão ao seu melhor nível no interior de túneis, evidentemente, mas os sapadores estão lá para cavar, e não para lutar. Por isso, são necessários combatentes que não tenham medo de pisar uma ou outra minhoca. Os voluntários que vão proceder ao ataque têm andado a fazer exercícios em túneis ao longo dos últimos dias. Como transportar um archote aceso, de maneira a que não se apague, como evitar fugir em pânico, pisando os camaradas, se o túnel ficar às escuras, memorização de sinais de avanço e recuo, e por aí adiante.

 

Parece uma coisa complicada. Vitrúvio resfolegou.

 

Nem por isso. Eles não são engenheiros. São homens simples. Apenas precisam de um certo treino, para não tropeçarem em si próprios num local apertado.

 

Eu acenei com a cabeça, pensativamente.

 

Calculo que qualquer indivíduo razoavelmente inteligente seja capaz de perceber o que tem de fazer sem grandes treinos.

 

Certamente. Um doido. E, se alguma coisa corresse horrivelmente mal, morreria tão depressa como aqueles que foram especialmente treinados para a missão. Enroscou-se debaixo da manta, fechou os olhos e suspirou.

 

Um brilho vermelho surgiu no horizonte denteado, para leste. Afastei a manta dos ombros e disse a Vitrúvio que ele teria de assistir sozinho ao nascer do Sol. Ele não respondeu. Retirei-me a ouvir um suave ressonar.

 

Na tenda dos oficiais, consegui acordar Davo e tirá-lo da cama sem despertar os outros. Semiadormecido e confuso, ele acenou com a cabeça quando lhe expliquei o que tencionava fazer.

 

Eu sabia, por Meto, como é que César organizava os seus acampamentos, e onde poderia encontrar os armazéns de equipamento excedente. A tenda que eu procurava ficava mesmo por trás da de Trebónio, e não estava guardada. Que castigo consideraria o comandante adequado a dois intrusos apanhados a roubar armas durante um cerco. Tentei não pensar nisso, enquanto procurávamos à luz mortiça, por entre elmos ameigados, espadas entalhadas e caneleiras malcasadas.

 

Este serve perfeitamente, sogro. E não consigo encontrar nenhuma mossa.

 

Ergui os olhos e vi Davo a experimentar um elmo. Abanei a cabeça.

 

Não, Davo, compreendeste mal. A culpa foi minha, por me ter explicado enquanto ainda estavas meio a dormir. Sou eu que vou entrar pelo túnel, e não tu.

 

Mas eu vou contigo, evidentemente.

 

Não é necessário. Se Vitrúvio tiver razão, a cidade será tomada dentro de poucas horas. Poderemos reencontrar-nos amanhã, talvez mesmo esta noite.

 

E se o engenheiro não tiver razão? Bem sabes o que Meto costuma dizer: numa batalha, as coisas nunca correm exactamente como se previa.

 

Passei o dedo pela lâmina embotada e ferrugenta de uma espada.

 

Davo, lembras-te do que aconteceu na véspera da nossa partida de Roma? A tua mulher, a minha filha estava muito, muito perturbada.

 

Não mais do que a tua mulher! Betesda estava frenética. As maldições que ela pronunciou arrepiaram-me os cabelos todos, e nem sequer percebo Egípcio.

 

Sim, Diana e Betesda ficaram ambas furiosas. Mas, na noite que antecedeu a nossa partida, eu fiz as pazes com Betesda. Ela compreendeu por que motivo eu tinha de vir, que não podia ficar ociosamente sentado em Roma sem saber o que se passava com Meto, sem ter a certeza se ele estava vivo ou morto. Mas com Diana as coisas foram diferentes.

 

Ela também acabou por compreender.

 

Foi? Ainda consigo ouvi-la: ”Papá, que ideia é essa de levares Davo contigo? Não acabas de regressar de Brundísio, onde foste arrancá-lo às garras de Pompeu? Agora queres voltar para outro campo de batalha, voltar a pô-lo em risco?” E tinha uma certa razão.

 

Sogro, tu não podias de maneira nenhuma viajar sozinho. Um homem com a tua idade...

 

E tu fizeste com que Diana percebesse isso. Parabéns, Davo tens mais influência sobre a minha filha do que eu jamais tive! Mas, antes de partirmos, ela obrigou-me a prometer que não te colocaria em perigo se pudesse evitar fazê-lo.

 

Estás a querer dizer que essa história do túnel é perigosa?

 

Claro que é! Os homens não foram feitos para cavar por baixo da terra como coelhos, como não foram feitos para voar ou para respirar debaixo de água. E, de uma maneira geral, as pessoas não se sentem muito satisfeitas quando vêem sair um exército de um buraco no chão.

 

Podes ser morto, sogro.

 

Passei a ponta do dedo por outra lâmina e sobressaltei-me quando ela me cortou. Chupei a gota de sangue vermelho e brilhante.

 

É possível que sim.

 

Nesse caso, eu vou contigo. Eu abanei a cabeça.

 

Não, Davo...

 

Ficou combinado que eu vinha contigo para te proteger. Até agora, não tiveste grande necessidade de protecção.

 

Não, Davo. Eu prometi à tua mulher que te levava para casa, vivo.

 

E eu prometi à tua mulher a mesma coisa!

 

Ficámos a olhar um para o outro, depois desatámos ambos a rir.

 

Nesse caso, tenho a impressão de que a questão é saber qual delas receamos mais disse eu. Calámo-nos um instante, e depois dissemos em uníssono: Betesda!

 

Eu suspirei.

 

Muito bem, Davo. Parece-me ter visto ainda agora uma cota de malha que te deve servir.

 

O nosso equipamento era suficientemente convincente para enganar, pelo menos, o chefe das escavações. Na verdade, o homem mal olhou para nós quando passámos por ele, de taças estendidas para uma dose de papas de milheto. Mas reparou nos nossos tamanhos; Davo recebeu uma porção com o dobro do tamanho da minha.

 

Comemos apressadamente, e depois partimos. O acampamento, que se encontrava tão calmo e silencioso na hora que antecedera a madrugada, fremia agora de excitação. Os mensageiros corriam de um lado para o outro, os oficiais gritavam, soldados de olhos brilhantes sussurravam uns com os outros, enquanto formavam fileiras. Toda a gente parecia sentir que este era um dia especial.

 

Descemos a colina, sempre com a muralha da cidade e a contravalação à nossa direita. Ao fundo e em baixo, oculta dos vigilantes das muralhas da cidade, detectei uma curva na encosta da colina, sombreada de carvalhos, tal como Vitrúvio a tinha descrito. A pequena concavidade já estava a abarrotar de homens, cujos elmos se iam tornando visíveis por entre as árvores à medida que íamos descendo.

 

Um caminho bastante usado ia dar à concavidade. Os homens afastaram-se para o lado, empurrando-se para criarem lugar para nós. Um rápido olhar aos seus equipamentos fez-me perceber que não me tinha enganado muito na escolha do nosso. Não chamávamos a atenção, pelo menos desse ponto de vista.

 

Os homens falavam em voz baixa. Atrás de mim, ouvi alguém dizer:

 

Que idade tem aquele? Não é costume ver muitas barbas grisalhas nas missões especiais.

 

Outro soldado mandou-o calar.

 

O que foi que te passou pela cabeça, para desafiares a hubris, logo hoje? Ou não estás interessado em viver o suficiente para ficares com a barba grisalha?

 

Não era um insulto disse o primeiro soldado.

 

Então cala a boca. Se um tipo consegue viver tanto tempo como aquele combatendo nos exércitos de César, deve ter os deuses do seu lado.

 

O primeiro soldado resmungou.

 

E o grandalhão que vai com ele? Não me lembro de o ter visto nos exercícios de treino. Pensava que esta missão era apenas para tipos baixos como nós. Aquele boi ainda fecha o túnel como uma rolha metida numa garrafa!

 

Cala-te! Vem aí o homem. É agora!

 

Flanqueado por oficiais, Trebónio surgiu na encosta da colina, acima de nós. Vinha equipado a rigor, com um elmo de penacho e uma protecção de peito esculpida, onde incidiam os raios do sol da manhã que atravessavam o vacilante dossel de carvalhos. Dei uma pequena cotovelada a Davo.

 

Baixa a cabeça. E agacha-te, o melhor que puderes. Trebónio ergueu a sua voz de orador, apenas o suficiente para encher a concavidade.

 

Soldados! Os auspícios são favoráveis. Os augures declararam que este dia é adequado para a batalha, mais do que adequado, um dia propício para César e os homens de César. Hoje, se parecer bem aos deuses, as portas de Massília abrir-se-ão, graças aos vossos esforços. César ficará muito satisfeito, e recompensar-vos-á devidamente. Mas deixem-me repetir o que vos disse desde o início deste cerco: quando Massília cair, será César, e apenas César, a decidir o seu destino. Não haverá saques, nem violações, nem incêndios. Sei bem que todos me compreendeis. Tende presentes os treinos. Segui as ordens do vosso comandante de missão. A operação vai começar. Nada de aclamações! Silêncio! Guardai as vozes para mais tarde, para quando puderdes lançar um grito de vitória das muralhas de Massília.

 

Trebónio saudou-nos. Como um corpo, nós respondemos à saudação.

 

Entrar! gritou um oficial. À nossa volta, toda a gente começou a mexer-se, sem que eu percebesse em direcção a quê. Davo deixou-se ficar perto de mim, curvado. Seguimos a corrente como grãos de areia numa ampulheta. A concavidade foi-se esvaziando. Os homens desapareciam como se a própria terra os engolisse. Não parecia haver uma ordem precisa, já que cada homem se metia na fila tão rápida e eficazmente quanto podia. Eu também avancei.

 

De repente, vi a boca do túnel à minha frente. Troncos robustos contornavam um buraco escuro aberto na encosta da colina. Por instantes, fiquei imóvel. Que género de loucura me trouxera até este momento? Mas não havia maneira de recuar. Trebónio estava a observar-nos. Davo

 

chocou comigo por trás.

 

Avançar! disse a mesma voz que nos tinha ordenado que entrássemos. Eu estendi a mão, onde me foi colocada um archote aceso. Lembra-te dos treinos disse um oficial. Não o deixes apagar!

 

Avancei, baixando a cabeça e segurando o archote com a firmeza possível; tremia-me a mão. Entrei na boca do túnel. Atrás de mim, ouvi um ruído metálico e um resmungo era o elmo de Davo a chocar com o lintel.

 

Avançávamos a um ritmo constante. A princípio, o túnel era nivelado, mas depois começava a descer gradualmente. Uma armação de madeira sustentava as paredes e o tecto. Em muitas zonas, a largura do túnel mal dava para dois homens se cruzarem. E, num ou noutro ponto, quando atravessava uma parte localizada entre duas faces rochosas, ainda era mais apertado. O tecto nunca era suficientemente alto para me permitir andar direito. Se eu tinha de avançar ligeiramente inclinado, o pobre Davo tinha praticamente de se dobrar ao meio.

 

O túnel parou de descer e voltou a ficar nivelado. O passo abrandou. De vez em quando, imobilizávamo-nos abruptamente. Os homens chocavam uns com os outros. Os archotes caíam-lhes das mãos ou apagavam-se, sendo rapidamente reacendidos noutros. Sem eles, a escuridão teria sido absoluta.

 

Parámos, voltámos a avançar; voltámos a parar e voltámos a avançar. A atmosfera era húmida e bafienta. O fumo dos archotes queimava-me os olhos. Uma viscosidade fria poisou sobre mim. Inspirei, enchendo os pulmões de ar húmido.

 

O túnel começou a subir, quase imperceptivelmente. Voltámos a imobilizar-nos. Passou algum tempo. Ninguém falava.

 

Finalmente, na ausência de ordens de movimento, alguns homens começaram a sussurrar. O som parecia o de um assobio ouvido através de um trompete. Ocasionalmente, das zonas vagamente iluminadas à minha frente ou atrás de mim, chegavam-me risos sinistros. Que género de piada macabra estariam os homens a contar uns aos outros? O sentido de humor de Meto tinha mudado substancialmente desde que ele se fizera soldado; tornara-se mais vulgar e mais cruel, mais trocista de deuses e homens. Rir-se na cara de Marte, chamava-lhe ele; assobiar de passagem pelo Hades. Por vezes, dizia Meto, com a morte certa agigantando-se à sua frente a própria ou a dos inimigos, um homem não tinha alternativa, a não ser gritar ou rir. O que aconteceria se um só homem, dentro deste túnel, começasse a gritar, em pânico? Pensei nisso, e senti-me agradecido pela libertação proporcionada pela ocasional gargalhada cruel.

 

Na dianteira da fila, iniciou-se uma cadeia de sussurros. O jovem soldado que estava à minha frente voltou-se para mim e murmurou:

 

Esperamos aqui enquanto os sapadores escavam a última parte do túnel. Passa para trás. Eu repeti a mensagem a Davo. Quando me voltei, o jovem soldado que estava à minha frente ainda olhava para mim. A sua voz parecera-me familiar; subitamente, apercebi-me de que se tratava daquele que tinha estado a falar sobre mim, que estávamos na concavidade. À luz tremeluzente do archote que tinha na mão, pouco mais parecia do que uma criança.

 

O seu escrutínio era intenso, mas não hostil. Tinha os olhos extraordinariamente abertos. Parecia nervoso.

 

Eu sorri.

 

Já que querias saber, tenho 61 anos.

 

O quê?

 

Ouvi-te falar com o teu amigo, antes de entrarmos no túnel. ”Que idade tem aquele?”, perguntaste tu.

 

Perguntei?

 

Ele mostrava-se mortificado. Bem, podias ser meu avô. Ou mesmo meu bi...

 

Já chega, jovem!

 

Ele riu-se, de esguelha.

 

Talvez tenha sido a Fortuna a colocar-me ao teu lado. Marco disse que os deuses devem gostar de ti, se conseguiste chegar à idade a que chegaste vivendo da espada. O que te parece? Talvez hoje possas transmitir-me um pouco dessa boa sorte.

 

Eu sorri.

 

Neste momento, não tenho a certeza de ter grande sorte a dispensar.

 

Subitamente, um profundo e abafado bum!, atravessou o túnel, como se um relâmpago tivesse atingido a terra ali perto. Senti-o nos ouvidos, nos dentes e nos dedos dos pés. Soou outro bum!, e mais outro.

 

O que é aquilo? A voz do jovem soldado quebrou. Ele revirou os olhos para cima. De onde é que isto vem?

 

É o aríete disse eu, tentando manter um tom sereno. Devemos estar exactamente por baixo da muralha.

 

O soldado sacudiu a cabeça.

 

Eles avisaram-nos disto. Mas não pensei... que fosse tão...

 

Bum! Um fio de areia começou a correr do barrote que ficava por cima da nossa cabeça. O soldado apertou-me o antebraço.

 

É muito longe disse-lhe eu. A centenas de passos de distância. A vibração repercute-se pelas pedras. Parece mais perto do que é.

 

Claro. É longe. Ele abriu a mão e soltou-me o braço. Tinha-mo apertado o suficiente para deixar impressas as marcas dos dedos.

 

Os estampidos pararam, depois recomeçaram; pararam, depois recomeçaram, uma vez e outra, e outra. Mesmo por cima da minha cabeça, o tecto do túnel parecia particularmente afectado. Fios de terra, depois torrões, depois grandes bocados de terra, caíram sobre mim. De vez em quando, o jovem soldado apertava-me impulsivamente o braço.

 

O ar estava a ficar cada vez mais húmido, sujo e cheio de fumo. Os nossos archotes acabaram; foram-nos passados novos archotes a partir da entrada do túnel. Os sapadores que se encontravam à cabeça da fila passavam baldes de pedras e terra.

 

Disseram-nos que não teríamos de sujar as mãos brincou o homem que se encontrava atrás de Davo, num tom de queixa fingida. O jovem soldado deu uma gargalhadinha nervosa. Pareceram decorrer horas.

 

Finalmente, os sapadores começaram a passar pás e outras ferramentas de escavação. Depois, foram os próprios sapadores que começaram a sair, recuando ao longo da fila em direcção à entrada. Passaram por mim com alguma facilidade, mas foi um pouco mais difícil passarem por Davo.

 

Em nome do Hades, o que está este gigante aqui a fazer? murmurou um deles.

 

Davo sussurrou-me ao ouvido.

 

Isto está quase a acabar, não está, sogro?

 

Calculo que sim.

 

Tentei preparar-me para o que se passaria a seguir. Nunca fora soldado mas, há uns anos, combatera ao lado de Meto na sua primeira batalha, em Pistória, onde Catilina tinha morrido; e, há apenas uns meses, testemunhara as últimas horas do cerco de Brundísio, onde eu próprio quase morrera. Tinha uma ideia dos perigos que poderiam esperar-me. Mas, como qualquer soldado, imaginei outro cenário. Talvez as coisas corressem bem. Apanharíamos os massilianos desprevenidos, com as atenções voltadas para o aríete, exactamente de acordo com a estratégia de Trebónio. Não encontraríamos praticamente resistência nenhuma, e abriríamos as portas da cidade sem grandes lutas. Trebónio faria uma entrada triunfal sem derramamento de sangue. Os massilianos perceberiam que era inútil oferecerem resistência, e deporiam as armas. Davo e eu tiraríamos as armaduras, afastar-nos-íamos discretamente, e faríamos uma busca à cidade até encontrarmos Meto, são e salvo e muito surpreendido por nos ver.

 

Tomada a cidade, a missão secreta de Meto teria chegado ao fim, e ele render-se-ia a Trebónio, apresentaria provas da sua lealdade a César, e tudo acabaria em bem.

 

Quantos dos presentes no túnel estariam neste momento a reconfortar-se com cenários igualmente optimistas das horas que se aproximavam?

 

Bum! Bum! Bum!

 

Um sólido e pesado torrão de terra caiu sobre a minha cabeça, atirando-me para diante, de encontro ao jovem soldado. Davo agarrou-me no ombro, para me equilibrar.

 

Depois, da nossa frente, chegou-nos outro som. Não se parecia nada com o ribombar provocado pelo aríete. Era um crescendo contínuo e interminável. Um rugido.

 

Os meus ouvidos zumbiram. Pareceu-me ouvir berros, mas foram abafados pelo estrondo incessante e engolidos pelo súbito rugido.

 

Uma rajada de vento frio atingiu-me na cara. O vento apagou o archote que eu tinha na mão, e todos os archotes adiante de mim. Mergulhámos na escuridão. O vento continuava a soprar, trazendo consigo o cheiro a água.

 

Já não era possível equivocar-me acerca dos gritos que, estranhamente distorcidos pelo túnel, se combinavam numa espécie de gemido monstruoso, semelhante ao rugido dos espectadores num circo. Ouvi os estalidos e choques dos troncos de árvores desfeitos em lascas.

 

Senti a pele a ficar quente. O coração batia-me com toda a força. Num acto reflexo, empederni-me. Uma parte de mim sabia que não serviria de nada.

 

O muro de água abateu-se sobre nós.

 

Num instante, mais rápido que o pensamento, o jovem soldado foi lançado contra mim como se fosse uma pedra atirada por uma catapulta, deixando-me sem respiração.

 

Depois, houve um estrondo de caos e confusão. Parecia-me que me encontrava em cima de um alçapão que se tinha aberto de repente; porém, em vez de cair, fui erguido ao ar. De trás de mim, algo me rodeou o peito e me levantou. Sem saber bem como, fui empurrado de encontro ao tecto do túnel, onde fiquei numa espécie de cavidade, acima do dilúvio, a olhar para ele. A escuridão não era absoluta; uma chama solitária tremeluzia ainda algures.

 

Mesmo abaixo de mim, fixei os olhos escuros e brilhantes do jovem e aterrorizado soldado. Ele agarrou-se a mim quando a água correu em volta dele e o cobriu. Eu também tentei agarrá-lo, mas a força da água, dos corpos e dos detritos era excessiva. Qualquer coisa o atingiu na cabeça, com tanta força que todo o seu corpo deu um tremendo solavanco. Ele revirou os olhos. Soltou-se da minha mão e desapareceu, perdido na catarata de espuma.

 

Embora parecesse impossível, senti que ficara suspenso imediatamente acima da superfície da inundação, como uma libelinha. Nas suas profundezas, vi passar mãos, pés, rostos, espadas, armaduras e cotas de malha brilhantes, e pedaços de madeira partida, todos avistados por instantes, para desaparecerem em seguida.

 

O dilúvio prosseguia, sempre, sem parar. Finalmente, o rugido acalmou. A força da água abrandou e acabou por deter-se. Ouvi ruídos gorgolejantes, o bater de pequenas ondas, misteriosos rangidos e estalidos, tremores e gemidos. Estranhamente diferente do anterior mais pesado e mais profundo, ouvi o longínquo um!, do aríete contra as muralhas de Massília.

 

E ouvi outro som, tão perto que parecia quase uma parte do meu ser. Era Davo, atrás de mim, acima de mim, respirando para o meu ouvido como um corredor cujo coração estava prestes a rebentar.

 

Estes acontecimentos sucediam-se num caos inexplicável e o mais inexplicável de tudo era o facto de eu continuar vivo. Gradualmente, comecei a perceber o que tinha acontecido.

 

Um momento antes de a tromba de água nos atingir, Davo pusera um braço à minha volta, de trás. Quando a água chegou, os nossos pés foram erguidos do chão; mas Davo agarrou-se à trave que se encontrava por cima de nós, pelo que fomos ejectados para cima. A terra deslocada por acção das vibrações do aríete fora tanta, que se tinha aberto uma cavidade no tecto. Davo comprimira os pés e os cotovelos contra as arestas dessa cavidade, continuando a segurar-me, e sem nunca largar o achote, cuja luz vacilava loucamente; tudo ao mesmo tempo.

 

Já noutras ocasiões Davo dera provas de enorme força e extraordinários reflexos. Ainda assim, ter agido tão depressa e com tal segurança em face de uma catástrofe tão repentina e devastadora parecia mais do que humano. Que deus teria considerado adequado salvar-me desta vez?

 

Quando conseguiu recuperar o fôlego, Davo sussurrou:

 

Estamos vivos. Nem acredito.

 

Mas durante quanto tempo? pensei eu, olhando fixamente para a água escura e turva que corria abaixo de nós.

 

Davo, já me podes largar.

 

Ele soltou-me. Lentamente, eu deslizei para dentro de água. Os meus pés encontraram o fundo. Em bicos de pés, de pescoço esticado, conseguia manter o queixo acima da linha de água. A cavidade do tecto era o único ponto que não estava coberto de água. Ao recuperar o equilíbrio, a água deixara-nos esta bolsa isolada de ar.

 

Uma coisa sólida mas maleável embateu-me no tornozelo. Estremeci, sabendo que se tratava de carne humana.

 

Lenta e cuidadosamente, Davo soltou-se. O truque era manter o archote aceso e acima do nível da água. Os pés escorregaram-lhe com um salpico que me atirou água para as narinas. Tossi e pestanejei. Instantes depois, Davo estava de pé a meu lado, segurando o archote ao alto. O elmo dele roçava o topo da cavidade.

 

Quando o choque da catástrofe começou a amainar, e com ele a excitação de termos sobrevivido, comecei a aperceber-me da terrível situação em que nos encontrávamos. Tínhamos escapado a uma morte, mas apenas para nos confrontarmos com outra, bem mais terrível. Os homens que tinham sido arrastados e se haviam afogado tinham, ao menos, morrido de repente e sem terror.

 

Amaldiçoei-me. Por que teria vindo? Tinha-me apercebido de que era uma loucura ao ver diante de mim a entrada para o túnel. Por que teria permitido que Davo viesse comigo? Fizera da minha única filha viúva. Massília já reclamara Meto para si. Agora, reclamar-nos-ia também aos dois.

 

O fundo deste archote está molhado disse Davo. Não

 

vamos ter luz por muito tempo.

 

Isso ainda seria pior: ficarmos mergulhados na mais completa escuridão, enterrados vivos como uma Vestal, sem esperança de salvação.

 

Subitamente, apercebi-me de que o ressoar do aríete tinha terminado. A notícia da inundação devia ter chegado aos ouvidos de Trebónio. A invasão pelo túnel tinha sido um fracasso. A operação fora cancelada. A torre de cerco com o aríete fora afastada das muralhas. No mundo acima de nós, a batalha tinha terminado.

 

O que aconteceu, sogro? Que inundação foi esta?

 

Não sei. Calculo que os Massilianos soubessem da existência do túnel, ou então adivinharam. Talvez tivessem construído um reservatório de água dentro da muralha, um fosso interior. Teriam de bombear água do porto para o encherem, mas têm engenheiros tão espertos como Vitrúvio.

 

Quando os sapadores finalmente chegaram ao outro lado, a água inundou o túnel. Deve ter morto todos os que estavam cá dentro.

 

Excepto nós dois.

 

Sim disse eu sombriamente.

 

O que vamos fazer, sogro?

 

Morrer, pensei. Depois, olhei para os olhos dele e tive um sobressalto. Davo não tinha feito a pergunta ociosamente. Estava à espera de que eu lhe respondesse. Estava com medo, mas não desesperado. Tinha uma expectativa real de sobreviver porque, como sempre, o sogro, que era um homem sábio, havia de se lembrar de qualquer coisa. A força e os reflexos de Davo acabavam de nos salvar a vida. Agora, era a minha vez de lhe devolver o favor.

 

Durante quanto tempo consegues suster a respiração? perguntei eu.

 

Não sei.

 

O suficiente para nadares daqui até à entrada do túnel? Vamos sair daqui a nado?

 

Não podemos propriamente ir a pé. Voltamos por onde viemos?

 

Eu abanei a cabeça.

 

É longe de mais. A entrada que fica no interior de Massília deve ser mais perto.

 

E se estiver bloqueada? Ouvi tábuas a partir. Se a terra cedeu...

 

Se houver uma obstrução, teremos de contorná-la, não achas? Davo pensou nisto e acenou com a cabeça. À luz da chama vacilante,

 

estudei-lhe o nariz perfeitamente cinzelado, os olhos brilhantes, o queixo resoluto. A minha filha achara-o bonito, apesar da sua natureza simples, e, sem o meu consentimento, ele tornara-se pai do meu neto. Curioso, pensei, que, de entre todas as caras do mundo, a dele fosse a última que eu via em vida. Ainda mais estranho era o facto de me encontrar confrontado com a possibilidade de me afogar num buraco debaixo da terra. A morte por afogamento era aquela que sempre me assustara mais, e aquela que menos esperava encontrar neste dia, neste sítio.

 

Eu não sabia nadar. Davo podia ter pulmões e força suficiente para nadar até à segurança, mas teria eu?

 

Quando tentamos? perguntei eu.

 

Era difícil abandonar a segurança da cavidade enquanto o archote durasse. Mas, se esperássemos que ele acabasse e ficássemos mergulhados na mais profunda escuridão, eu podia perder a coragem, juntamente com o sentido de orientação.

 

”É como tirar um espinho...” citei eu.

 

”Quanto mais depressa, melhor” disse Davo, completando o provérbio. Eu devia ir à frente, para o caso de haver alguma coisa a bloquear a passagem..

 

Isso é boa ideia concedi. Se eu fosse à frente e os meus pulmões não aguentassem, bloquearia a passagem a Davo. Devíamos tirar as armaduras. São muito pesadas. Deixa-me segurar no archote, enquanto tu despes a tua. Vira-te. Eu ajudo-te a desapertar as tiras. Quando ele terminou, devolvi-lhe o archote e comecei a desapertar a minha armadura. O mais difícil foi manter a cabeça fora de água enquanto levava as mãos às pernas para desapertar as caneleiras. Davo segurava-me o ombro com o seu braço forte.

 

E as espadas? perguntou ele.

 

Eu toquei na bainha que tinha à cintura.

 

Podemos precisar delas. Para cortar alguma coisa acrescentei. O pensamento aterrorizou-me.

 

E os elmos? perguntou ele.

 

É melhor não os tirarmos. Protegem-nos a cabeça. Quem sabe contra que chocaremos no percurso?

 

Ele acenou com a cabeça. A luz estava a tornar-se mais esbatida. Senti um nó na garganta.

 

Davo, passámos juntos por muita coisa. Em Brundísio, salvaste-me a vida...

 

Pensei que tinhas sido tu a salvar-me a minha! disse ele, e riu-se. Davo não era homem para despedidas sentimentais de última hora.

 

Falamos sobre isso mais tarde disse eu, depois de termos saído deste sarilho. Achas que ainda há vinho nas tabernas de Massília, ou que se esgotou por causa do bloqueio? Tenho sede.

 

Davo parecia não estar a ouvir. Esticou o queixo e estreitou os olhos.

 

Estás pronto, sogro?

 

Eu tentei inspirar profundamente, mas tinha o peito apertado, como se estivesse preso debaixo de uma barra de ferro. Engoli em seco.

 

Estou.

 

Davo estendeu-me o archote. Os nossos olhos encontraram-se por momentos, depois ele voltou-se e desapareceu por baixo da superfície. Antes que pudesse pensar duas vezes, eu inspirei e mergulhei o archote na água.

 

Ouvi um breve sibilar, seguido de uma súbita e total escuridão. Fechei os olhos e mergulhei abaixo da superfície. Esbracejei, bati os pés. Por momentos, tive a aterradora ilusão de estar a ser impulsionado em direcção a um vazio escuro e infindável. Depois, os meus dedos abertos roçaram contra as paredes do túnel. Nadei em frente, às cegas, deixando-me guiar pelas paredes do túnel.

 

Uma coisa fria tocou-me na cara, e a seguir pareceu deslizar como uma serpente contra o meu peito e a minha barriga. Agarrei na coisa para a afastar, mas fiquei preso num estranho abraço de metal duro e carne flexível. Primeiro, fiquei espantado, depois horrorizado. Era o corpo de um soldado. Encolhi-me, mas tinha os braços e as pernas dele enrolados à minha volta. Esperneei como um louco, até o corpo me largar, e recomecei a nadar freneticamente.

 

O caminho estava desobstruído. O coração rugia-me nos ouvidos e sentia que os pulmões me estalavam, mas não tinha dificuldade em nadar. Batia os pés e movia os braços, e comecei a pensar que, afinal, talvez conseguisse escapar.

 

Depois, o elmo bateu-me em qualquer coisa sólida. Sentia-me tonto. Ergui a mão e senti a extremidade irregular de uma trave partida por cima de mim, cortante como um dardo. E se o caminho à minha frente estivesse cheio de traves partidas? Imaginei Davo, que era maior do que eu, ainda mais vulnerável, empalado num espeto, agitando-se, a sangrar sem forças, bloqueando o caminho, impedindo-me de passar. A imagem era tão real que, por instantes, pensei em voltar para trás. Mas era impossível. Nunca seria capaz de encontrar a bolsa de ar, agora que a escuridão era absoluta.

 

Fiquei imobilizado, com medo de avançar, e medo de voltar para trás. Perdi por completo a coragem. Pontos de luz dançavam-me diante dos olhos, tornando-se rostos na escuridão. Eram os rostos anónimos dos mortos que me rodeavam, recuando para o infinito.

 

O tempo parou. A pressão que sentia nos pulmões dominava tudo o resto, incluindo o pânico. Esperneei, esbracejei e nadei às cegas, o mais que pude, esquecendo o perigo. Nadei com tal velocidade, que apanhei Davo. O pé dele bateu-me no elmo. Em desespero, eu imaginei-me a agarrar-lhe a perna e a passar por ele, a nadar para a frente dele, abrindo caminho até à superfície.

 

Na braçada seguinte, no ponto onde deviam ter tocado nas paredes, os meus dedos nada encontraram. De repente, os lados do túnel tinham desaparecido.

 

Abri os olhos. À frente e acima de mim, vi uma luz difusa e aquosa, Entre mim e essa luz, avultava-se o volume coleante de Davo, em silhueta escorçada. Vi-o parar e voltar-se, qual Mercúrio de asas nos pés suspenso no ar. Estendeu a mão para trás. Eu estendi a minha. Davo agarrou-a.

 

As minhas forças tinham acabado. Não sei como, mas Davo apercebeu-se disso. Com uma braçada, puxou-me para cima, para cima, para cima, em direcção a um círculo cada vez mais amplo de luz. Por instantes, vi o mundo de luz e ar como o veria um peixe espreitando do fundo de um lago. Vistos através da água, os homens que estavam à entrada, espreitando a nossa chegada, eram vacilantes e alongados. As suas vestes brilhantes tremeluziam como chamas multicolores.

 

Um instante mais tarde, cheguei à superfície. A luz feriu-me os olhos. Inspirei num longo grito invertido. À minha frente, Davo sucumbiu, metade dentro, metade fora de água, arfando e tossindo. Eu passei por ele a rastejar, desesperado por sair completamente de dentro de água. Rolei sobre mim, deitando-me de costas, e fechei os olhos, sentindo o calor do Sol na face.

 

Devo ter perdido a consciência, mas só por momentos. Acordei lentamente, no meio de uma confusão de vozes, que falavam em grego vozes de homens, de velhos, falando umas por cima das outras. A tagarelice reduziu-se a uma discussão entre duas vozes.

 

Em nome de Hades, de onde vêm estes dois?

 

Estou-te a dizer que devem ter atravessado o túnel. Eu assisti a tudo, umas grandes bolhas de ar no fosso, depois um som esquisito de sucção, e depois um remoinho. Olha até onde foi a água!

 

É impossível! Se havia um túnel, e foi inundado pela água do reservatório, como é que estes dois vieram a nadar contra a corrente? Não faz sentido. É inquietante vê-los sair da água desta maneira.

 

Andas sempre à procura de explicações religiosas! A seguir, vais dizer que saíram da boca de Artemísia. Estou-te a dizer que cavaram debaixo da muralha.

 

Não têm ar de sapadores. Também não têm grande ar de soldados.

 

Ai não? Não estão de elmos na cabeça? Em minha opinião, devíamos matá-los!

 

Cala-te, seu pateta. Entregamo-los aos soldados quando eles chegarem.

 

Para que havemos de esperar? Achas que eles pensavam duas vezes antes de abrirem ao meio um grupo de velhos massilianos que encontrassem a tagarelar na praça do mercado?

 

Parecem inofensivos.

 

Inofensivos? Aquilo que eles têm nas bainhas são espadas, seu idiota. Vocês aí, ajudem-me a tirar-lhes as armas. E tirem-lhes também os elmos. Senti-me virar de um lado para o outro na areia e ouvi pancadas na água ao pé de mim.

 

Olha, o outro está a voltar a si. Está a abrir os olhos. Pestanejei e olhei para cima, vendo um círculo de velhotes a olhar para mim. Alguns deles recuaram, alarmados. A sua consternação quase me fez rir. O simples facto de estar vivo fazia-me sentir leviano.

 

Discutam o tempo que quiserem disse-lhes em grego. Mas não me mandem outra vez lá para dentro.

 

O meu grego podia estar enferrujado e a minha pronúncia ser rústica, mas isso não era justificação para a investida que se seguiu.

 

O mais beligerante dos velhotes aquele que tinha sugerido que nos matassem ali mesmo, começou a bater-me com uma bengala. Era uma criatura magrizela e ossuda, mas tinha uma força surpreendente. Protegi a cabeça com os braços. Ele começou a fazer-me pontaria aos cotovelos.

 

Pára com isso! Pára imediatamente! Era uma voz nova, uma voz de homem. Provinha de uma certa distância. Escravos, agarrem aquele velho horrível.

 

O meu atacante recuou, erguendo a bengala para se defender de dois gigantes seminus que se avultaram subitamente diante de mim. O velhote estava furioso.

 

Maldito sejas até ao Hades, Bode Expiatório Se os teus escravos me tocarem, nem que seja com um dedo, faço queixa de ti aos Timoukoi.

 

Fazes mesmo? Esqueces-te, velho, de que eu sou intocável.

 

A voz era aguda, áspera e dissonante.

 

De momento, talvez. Mas depois? Ha, bode Expiatório? Quando chegar o momento de dar cabo de ti, juro que serei eu próprio a empurrar-te da Rocha do Sacrifício com um pontapé.

 

O círculo de homens susteve a respiração.

 

Calamitos, foste longe demais! disse aquele que tinha estado a discutir com ele. A deusa...

 

Artemísia abandonou Massília, como terás reparado e é natural que o tenha feito, dada a impiedade desta cidade perversa. César espreme-nos num torno, e qual é a solução de que os Timoukoi se lembram? Um Bode Expiatório, que assuma os pecados da cidade! E nós, os cidadãos famintos, ficamos engelhados como espantalhos, enquanto aquele espantalho engorda todos os dias. O velhote lançou a bengala ao chão com tanta força, que ela se partiu ao meio. Depois afastou-se a passos largos, furioso.

 

Abençoada seja Artemísia! O velho pateta não pode impedir-se de ser feio e mal-educado, mas não tem necessidade nenhuma de ser blasfemo, ainda por cima. Estiquei o pescoço e vi que a voz do meu salvador provinha de uma liteira que se encontrava ali perto, acompanhada por uma comitiva de carregadores. Escravos! Peguem naqueles sujeitos e metam-nos aqui dentro da liteira.

 

Os escravos baixaram os olhos para mim com ar duvidoso. Um deles encolheu os ombros

 

Senhor, não tenho a certeza de que os carregadores consigam levar-vos aos três na liteira. O maior parece terrivelmente pesado. Nem sequer tenho a certeza de que esteja vivo.

 

Eu rolei na direcção de Davo, alarmado. Ele estava de costas, imóvel, de olhos fechados, muito pálido. Momentos depois, para meu alívio, tossiu e as pálpebras estremeceram-lhe.

 

Se o peso é excessivo, só têm de ir a casa a correr, buscar mais escravos para nos carregarem disse o nosso misterioso protector, cuja voz dissonante e a irritação tornava ainda mais dissonante.

 

Espera, Bode Expiatório! O mais calmo dos dois velhotes que tinham estado a discutir a nossa chegada avançou. Não podes simplesmente ir-te embora com estes homens. Eles provêm do exterior dai cidade. Aquele ali falava grego com pronúncia romana. Apesar da blasfémia, Calamitos tinha razão numa coisa eles podem ser perigosos. Tanto quanto sabemos, são assassinos, ou espiões. Temos de os entregar aos soldados.

 

Que disparate. Eu sou o Bode Expiatório escolhido pelos sacerdotes de Artemísia e investido pelos Timoukoi. Durante a crise, todos os dons enviados pelos deuses me pertencem, e eu dou-lhes o destino que entender Incluindo os peixes que dão à costa nas praias de Massília e decidi reclamar estes dois peixes perdidos. Não há dúvida de que foi Artemísia quem os atirou a esta praia artificial. O grandalhão parece uma baleia encalhada.

 

O sujeito é louco! murmurou um dos velhos. Mas, legalmente, é capaz de ter razão disse outro. Os dons enviados pelos deuses pertencem de facto ao Bode Expiatório...

 

Enquanto os velhos discutiam uns com os outros, dois braços fortes ergueram-me no ar e voltaram-me ao contrário. Eu não estava em situação, nem de resistir, nem de os ajudar. Eles levaram-me como se fosse um peso morto. Captei uns vislumbres do que me rodeava. Estávamos num canto da cidade. Adiante de nós, avultavam-se as grandes muralhas de Massília, que eram muito diferentes vistas do interior, porque tinham encostada uma fila de plataformas e escadas entrecruzadas, e aos seus pés o reservatório semiesgotado do qual nós tínhamos emergido. Um pouco adiante, duas torres gémeas flanqueavam a maciça porta de bronze que constituía a principal entrada na cidade. A seguir à porta, a muralha fazia uma curva apertada e ficava de frente para o porto, porque para além dessa extensão de muralha avistei o topo dos mastros dos navios. Fui transportado para dentro de uma liteira, a única que se via na enorme praça para onde dava a porta principal da cidade. Todos os edifícios que rodeavam a praça pareciam vazios. As janelas estavam cerradas; as lojas fechadas. À excepção dos carregadores da liteira, praticamente não se avistava ninguém.

 

As cortinas verdes da liteira abriram-se. Fui suavemente colocado sobre uma cama de almofadas verdes. Diante de mim, reclinado entre mais almofadas, estava o meu salvador. Vestia uma túnica verde, que combinava com as almofadas e as cortinas da liteira; fiquei confuso com tanto verde. Os seus braços e pernas esgalgados pareciam compridos de mais para aquele espaço; teve de dobrar os joelhos para eu caber. Era entroncado, mas tinha uma cara lúgubre e um cabelo fino e claro. Uma estreita tira de barba contornava-lhe o queixo pontiagudo.

 

Momentos depois, os dois escravos que me tinham transportado, ajudados por dois dos carregadores, conseguiram transportar Davo para a liteira. Eu afastei-me e eles depositaram-no ao meu lado. Ele olhou em volta, confuso.

 

O desconhecido parecia achar-nos divertidos. Os seus lábios finos curvaram-se num sorriso, e havia riso nos seus olhos cinzentos e carregados.

 

Bem-vindos a Massília, quem quer que sejam!

 

Bateu as palmas. A liteira foi erguida. Eu senti-me nauseado. O nosso anfitrião apercebeu-se da minha perturbação.

 

Vomita, se precisas disse ele. Tenta fazê-lo para fora da liteira; mas, se não conseguires, não te preocupes. Se sujares uma ou duas almofadas, eu deito-as fora.

 

Engoli em seco.

 

Já passa.

 

Oh, não te contenhas! aconselhou-me ele. Um homem nunca deve refrear os impulsos naturais do seu corpo. Se não tivesse aprendido mais nada, teria pelo menos aprendido isso nos últimos meses.

 

A meu lado, Davo recuperou o entendimento. Agitou-se e sentou-se direito.

 

Sogro, onde estamos?

 

O nosso anfitrião respondeu.

 

Estás na cidade mais perversa do mundo, jovem, e chegaste no momento mais terrível da sua história. E eu sei o que digo; nasci aqui. E aqui morrerei. Entretanto, conheci a abundância e a pobreza, a alegria e a amargura. Sobretudo a pobreza e a amargura, para ser honesto. Mas agora, na sua hora derradeira, a minha cidade perdoa-me e eu perdoo-lhe. Trocamos as únicas coisas que temos para dar: ela a sua dádiva final, eu, os meus últimos dias.

 

És um filósofo? perguntou Davo, franzindo o sobrolho.

 

O homem riu-se. Era um som parecido com o de uma gadanha a cortar vidro espesso.

 

Chamo-me Jerónimo disse ele, como que para mudar de assunto. E vocês?

 

Gordiano disse eu.

 

Ah, és romano, como suspeitou o velhote.

 

E este é Davo.

 

Um nome de escravo?

 

É liberto; é meu genro. Para onde nos levas?

 

Para o meu túmulo.

 

O teu túmulo? perguntei eu, pensando que não tinha compreendido a palavra grega.

 

Eu disse isso? Queria dizer a minha casa, evidentemente. Agora encostem-se e descansem. Estão seguros comigo.

 

De vez em quando, eu lançava uma olhadela pelo meio das cortinas que encerravam o compartimento. A princípio, mantivemo-nos numa rua larga, uma rua principal. Não havia uma loja aberta e a rua estava vazia, o que permitia aos carregadores avançarem a bom ritmo. Depois, saímos do caminho principal para um labirinto de ruas menores, cada uma mais estreita do que a anterior. Começámos a subir, a princípio gradualmente, depois de forma mais acentuada. Os carregadores mantinham a liteira nivelada, mas nada podia disfarçar as sucessivas curvas apertadas que eles tinham de fazer colina acima.

 

Finalmente, a liteira deu uma guinada e parou.

 

Chegámos! declarou Jerónimo. Flectiu as pernas e saiu do compartimento com a graça lenta de um insecto gordo. Precisas de ajuda? perguntou-me por cima do ombro.

 

Não, disse eu, saindo do compartimento com as pernas vacilantes. Davo saiu atrás de mim e poisou-me uma mão no ombro, para nos equilibrar a ambos.

 

Como quer que tenham entrado na cidade, foi nitidamente uma provação para ambos disse Jerónimo, olhando-nos de cima a baixo. O que poderia reconfortar-vos? Comida? Vinho? Ah, pela vossa expressão, vejo que o segundo. Venham, vamos beber juntos. E não será a zurrapa local. Vamos beber do que se bebe em Roma. Acho que ainda me resta algum Falem de boa qualidade.

 

A casa tinha sido construída em linhas romanas, com uma pequena entrada e um átrio que dava para o resto da habitação. Era uma casa de homem rico, com as paredes sumptuosamente pintadas e um elegante mosaico de Neptuno (ou Poseidon, já que estávamos numa cidade grega) na piscina do átrio. A seguir a uma sala de jantar formal, no coração da casa, avistei um jardim rodeado por um peristilo de colunas vermelhas e azuis.

 

Vamos bebero vinho no jardim? dissejerónimo. Não, é melhor irmos para o telhado, adoro exibir a vista.

 

Subimos um lanço de escadas atrás dele, e chegámos a um terraço no telhado. Árvores altas de ambos os lados da casa proporcionavam sombra e isolamento, mas a vista para o mar era desimpedida. A casa tinha sido construída na crista de uma cumeeira que atravessava a cidade. Abaixo de nós, a cumeeira descia a pique, de tal maneira que olhávamos de cima os telhados da cidade, organizados em degraus até às muralhas. Para além das muralhas, o mar estendia-se até um horizonte de nuvens leves e azuis. Para a esquerda, conseguia ver uma ponta do porto e, para além dela, a linha denteada da costa. Do outro lado da entrada do porto, ficavam as ilhas atrás das quais estavam ancorados os navios de guerra de César. Protegendo os olhos contra o sol baixo, vi um dos navios espreitar de trás da ilha mais afastada. Aquela distância, o navio era minúsculo, mas o ar estava tão limpo, que eu conseguia distinguir os marinheiros de sombras compridas que circulavam pelo convés.

 

Jerónimo seguiu a direcção do meu olhar.

 

Sim, lá está ela, a armada de César. Acham que estão escondidos por trás da ilha, mas nós conseguimos vê-los, não é verdade? Foste; apanhado! Agitou os dedos no ar, num gesto afectado, e riu-se do seu próprio absurdo, como se tivesse consciência de que essa criancice não combinava com as rugas de sofrimento antigo que lhe rasgavam a face.

 

Assististe à pequena batalha naval que tivemos há pouco tempo? Não? Digo-te que foi digna de se ver. As pessoas alinharam-se nas muralhas, ali em baixo, para assistir, mas eu tinha aqui um ponto de observação perfeito. Catapultas lançando projécteis! O fogo varria os conveses! A água coberta de sangue! Perdemos nove barcos. Nove em 17 uma catástrofe! Uns foram afundados, outros capturados por César. Que dia humilhante para Massília. Não imaginas como me diverti. Olhou com ar sinistro para o ponto, agora calmo, onde decorrera a batalha, depois voltou-se para mim e a sua expressão iluminou-se. Mas eu prometi-vos vinho! Sentem-se aqui. Estas cadeiras são feitas de terebinto importado. Disseram-me que não convinha deixá-las ao ar livre, mas tanto me importa!

 

Sentámo-nos ao sol. Um escravo trouxe-nos vinho. Gabei a colheita, que era inequivocamente falerniana. Jerónimo insistiu em que bebesse mais. Contra o meu próprio bom senso, assim fiz. Depois do segundo copo, Davo adormeceu na cadeira.

 

O pobre sujeito parece exausto disse Jerónimo.

 

Foi por muito pouco que não morremos hoje.

 

E ainda bem que não morreram, senão eu estaria a beber sozinho.

 

Olhei-o intensamente, pelo menos tanto quanto mo permitia o terceiro copo de Falerniano. Até agora, ele não tinha feito uma única pergunta sobre nós quem éramos, como tínhamos entrado na cidade, o que viéramos fazer. A sua falta de curiosidade era intrigante. Talvez pensei, estivesse apenas a ser paciente, à espera da melhor oportunidade, permitindo-me recuperar por completo.

 

Por que foste salvar-nos? perguntei.

 

Principalmente para irritar aqueles velhos que andam pela praça do mercado, aqueles que estavam a dar-te pontapés e a discutir sobre ti como se fosses um peixe a precisar de ser extripado.

 

Conhece-los?

 

Ele sorriu pesarosamente.

 

Conheço sim, conheci-os toda a vida. Quando eu era rapaz, eles estavam no auge da vida, muito seguros de si próprios, cheios da sua própria importância. Agora, eu sou um homem e eles são velhos, e não têm nada melhor para fazer do que circular pela praça o dia inteiro, espalhando maledicências e comentando a vida de toda a gente. Neste momento, a praça está fechada não há nada para comprar nas lojas, mas eles continuam a ir até lá, dia após dia, assombrando aquele local. Sorriu. Gosto de passar por lá de liteira de vez em quando, só para escarnecer deles.

 

Escarnecer deles?

 

Eles tratavam-me bastante mal, percebes? Eu também costumava passar os dias na praça do mercado... quando não tinha um telhado que me cobrisse. Aquele velho pateta do Calamitos era o pior. E ainda ficou mais desagradável desde que a comida começou a escassear. Que alegria vê-lo tão irritado, que até partiu a bengala! Quando penso nas vezes em que me bateu com ela...

 

Não compreendo. Quem és tu? Ouvi-os chamarem-te bode Expiatório. E o velho disse que ia fazer queixa de ti aos Timoukoi. Quem são eles?

 

Ele olhou sombriamente para o mar durante muito tempo, depois bateu as palmas.

 

Escravo! Para eu poder contar a história e o meu novo amigo Gordiano poder ouvi-la, precisamos ambos de mais vinho.

 

O que sabes acerca de Massília? perguntou Jerónimo.

 

Que é muito, muito longe de Roma disse eu, sentindo uma punhalada de saudade, ao pensar em Betesda, em Diana e na minha casa do Monte Palatino.

 

Mas não o suficiente! disse Jerónimo. Quando César e Pompeu têm uma discussão, Massília fica suficientemente perto para levar por tabela. Não, o que eu quero dizer é: o que sabes acerca da cidade propriamente dita, como está organizada, quem a governa?

 

Na verdade, nada. Trata-se de uma antiga colónia grega, não é? Uma cidade-estado. Que remonta aos tempos de Aníbal.

 

Ah, muito antes disso! Massília já era um porto de mar pleno de actividade quando Rómulo ainda vivia numa cabana à beira do Tibre.

 

História antiga. Encolhi os ombros. Sei que Massília tomou o partido de Roma contra Cartago; e que, desde então, as duas cidades têm sido aliadas. Franzi o sobrolho. Sei que vocês não têm rei. Calculo que a cidade seja governada por um corpo eleito. Foram vocês, os Gregos, que inventaram a democracia, não foram?

 

Fomos nós que a inventámos, sim, mas livrámo-nos rapidamente dela, pelo menos de grande parte dela. Massília é governada por uma timocracia. Sabes o que quer isso dizer?

 

Um governo dos ricos. O grego estava a voltar-me à memória.

 

Dos, para e pelos ricos. Uma aristocracia do dinheiro, e não de nascimento. Exactamente o que seria de esperar numa cidade fundada por mercadores.

 

Não será o local ideal para se ser pobre disse eu.

 

Não disse Jerónimo num tom carregado. Olhou intensamente para o copo de vinho que tinha na mão. Massília é governada pelos Timoukoi, um corpo de 600 membros cujos cargos são vitalícios. As substituições têm lugar na sequência da morte dos seus membros; são os próprios Timoukoi que nomeiam e votam nos candidatos às substituições.

 

Autoperpetuam-se. Fiz um aceno de cabeça. Muito insular.

 

Oh, sim, no seio dos Timoukoi, a atitude é muito ”nós”, e ”eles”, os de dentro e os de fora. Compreendes, um homem tem de ser rico para ser um Timoukos, mas é preciso muito mais do que isso. A família tem de ter a cidadania massiliana há três gerações, e ele próprio tem de ter tido filhos. Raízes no passado, uma estaca no futuro e, aqui no presente, uma grande quantidade de dinheiro.

 

Muito conservadordisse eu. Não é de espantar que o sistema massiliano fosse tão admirado por Cícero. Mas não há uma assembleia do povo, como em Roma, onde os comuns possam fazer-se ouvir? Não há maneira de as pessoas vulgares darem, pelo menos, largas às suas frustrações?

 

Jerónimo abanou a cabeça.

 

Massília é exclusivamente governada pelos Timoukoi. De entre os 600, é seleccionado um órgão rotativo, o Conselho dos Quinze, encarregado da administração geral. Desses 15, três são responsáveis pelo funcionamento diário da cidade. Desses três, um é eleito Primeiro-Timoukos, que é o mais parecido que nós temos com aquilo a que vocês chamam um ”cônsul”, chefe executivo em tempos de paz e comandante militar supremo em tempos de guerra. Os Timoukoi fazem as leis, mantêm a ordem, organizam os mercados, regulamentam a banca, gerem os tribunais, contratam mercenários, equipam a armada. O seu domínio sobre a cidade é absoluto. Como que para exemplificar o que estava a dizer, apertou os dedos à volta do copo que tinha na mão, até ficar com os nós dos dedos brancos. A sua expressão fez-me remexer na cadeira, pouco à-vontade.

 

E que lugar ocupas tu, nesse esquema de coisas? perguntei suavemente.

 

Um homem como eu não tem lugar nenhum respondeu ele pesadamente. Oh, agora tenho. Sou o Bode Expiatório. Sorriu, mas o seu tom de voz era amargo.

 

Jerónimo pediu mais vinho. Trouxeram-nos mais Falerniano. Semelhante largueza numa cidade sitiada parecia, no mínimo, imoral.

 

Deixa-me explicar-te disse ele. O meu pai era um dos Timoukoi foi o primeiro da minha família a ascender a essa posição. Elegeram-no logo após o meu nascimento. Alguns anos depois, foi elevado ao Conselho dos Quinze, sendo um dos homens mais jovens jamais eleitos para esse corpo. Devia ser um homem de grande ambição, para ter subido tanto e tão depressa, deixando para trás homens pertencentes a famílias mais abastadas e mais antigas do que a nossa. Como podes imaginar, havia entre os Timoukoi alguns que tinham inveja dele, que achavam que ele se tinha apoderado de honras que lhes eram devidas.

 

Eu era filho único. Ele educou-me numa casa não muito diferente desta, aqui mesmo, na crista da cordilheira, onde habita o dinheiro antigo. A vista do nosso telhado era ainda mais espectacular do que esta; ou talvez seja a minha nostalgia que a embeleza. Via-se Massília inteira abaixo de nós, o porto cheio de navios, o mar azul estendendo-se pelo horizonte sem fim. ”Tudo isto será teu”, disse-me certo dia. Eu devia ser muito pequeno, porque me lembro de que ele me pegou ao colo e me pôs aos seus ombros, dando uma volta lenta sobre si próprio. ”Tudo isto será teu...”

 

Qual era a origem do dinheiro dele? perguntei.

 

O comércio.

 

O comércio?

 

Toda a riqueza de Massília provém do comércio de escravos ou de vinho. Os Gauleses despacham escravos pelo Rio Ródano abaixo, para os venderem em Itália; os Italianos expedem vinho por via marítima, desde Ostia e de Neápolis, para o venderem aos Gauleses. Escravos por vinho, vinho por escravos, com Massília no meio, fornecendo as embarcações e ficando com a sua parte. É esse o fundamento de toda a riqueza de Massília. O meu bisavô iniciou a nossa fortuna. O meu avô aumentou-a. O meu pai aumentou-a ainda mais. Possuía muitos navios.

 

Depois, vieram os tempos maus. Eu era muito novo, novo de mais para conhecer os pormenores do negócio do meu pai. Ele contou à minha mãe que tinha sido atraiçoado por outros, enganado por homens pertencentes aos Timoukoi, que considerara seus amigos. Teve de vender os navios, um por um, para pagar aos credores. Não chegou. Depois, o nosso armazém, que ficava junto ao porto, foi destruído pelo fogo. Os inimigos do meu pai acusaram-no de ter sido ele a provocar o incêndio, a fim de destruir os registos e escapar às dívidas. O meu pai negou. Jerónimo fez uma longa pausa. Se eu fosse mais velho, capaz de compreender tudo o que estava a passar-se. Nunca saberei a verdade se o meu pai foi responsável pela sua própria ruína ou se foi destruído por outros. É doloroso não chegar a saber toda a verdade.

 

O que lhe aconteceu?

 

Foi suspenso do Conselho dos Quinze. Os Timoukoi deram início aos procedimentos destinados à sua expulsão.

 

Houve uma acusação criminal?

 

Não! Foi pior do que isso. Não estás a ver? Ele tinha perdido toda a sua fortuna. Em Massília, não há escândalo maior. Qual é a coisa mais importante, para um romano?

 

A sua dignidade, suponho eu.

 

Então imagina um romano totalmente despido da sua dignidade, e poderás compreender. Em Massília, um homem nada é sem a sua riqueza. Ter possuído uma fortuna e tê-la perdido é uma coisa que só pode acontecer ao pior dos homens, a um homem tão vil que ofendeu os deuses. Um homem assim deve ser evitado, desprezado, deve-se cuspir-lhe em cima.

 

O que lhe aconteceu?

 

Há uma lei em Massília. Imagino que tenha sido concebida para homens como o meu pai. O suicídio é proibido, com penas impostas à família do suicida a não ser que um homem peça licença aos Timoukoi.

 

Licença para destruir a sua própria vida?

 

Sim. Foi o que fez o meu pai. Os Timoukoi analisaram o assunto como teriam analisado uma conta de comércio. Livrava-os da vergonha de terem de o expulsar, compreendes. O voto foi unânime. Levaram a gentileza ao ponto de lhe fornecerem a necessária dose de cicuta. Mas ele não a tomou.

 

Não?

 

Optou pelo caminho mais difícil. Estás a ver ali em baixo, onde a terra se encontra com o mar, aquele dedo de rocha que avança para dentro da muralha da cidade, tão maciço que tiveram de construir a muralha à volta dele?

 

Estou. A rocha era desprovida de vegetação, e o seu cume era totalmente branco, contra o pano de fundo do mar azul.

 

Oficialmente, chama-se Rocha do Sacrifício. Há quem lhe chame Rocha do Suicídio ou Rocha do Bode Expiatório. Uma pessoa suficientemente ágil consegue trepá-la a partir das ameias das muralhas. Se a pessoa estiver suficientemente em forma, poderá trepar da base para a parte superior sem ter de passar pelas muralhas. Não é tão íngreme como parece, e há muitos pontos de apoio. Mas, lá do alto, é um local assustador A visão cá para baixo é vertiginosa, uma imensa inclinação a pique, até ao mar. Quando o vento está forte e de trás, um homem tem de fazer um grande esforço para evitar ser lançado dali abaixo.

 

O teu pai atirou-se dali?

 

Lembro-me muito bem dessa manhã. Foi no dia seguinte àquele em que os Timoukoi aceitaram o pedido. Vestiu-se de preto e saiu de casa sem uma palavra. A minha mãe chorava e arrancava os cabelos, mas não tentou segui-lo. Eu sabia onde é que ele ia. Subi ao telhado e fiquei a vê-lo. Vi-o chegar ao sopé da rocha. Tinha-se juntado uma multidão para assistir à subida. Parecia tão pequeno, visto do nosso telhado uma figura preta minúscula escalando uma rocha branca em forma de dedo. Quando chegou lá acima, não hesitou, nem sequer um instante. Saltou por cima da borda e desapareceu. Num momento estava ali, no momento seguinte tinha desaparecido. A minha mãe estava a assistir, de uma janela abaixo de nós. Deu um grito no momento em que ele desapareceu.

 

Que horror disse eu. Um hábito antigo levou-me a recuperar os pormenores por resolver. O que aconteceu à cicuta? Logo que fiz a pergunta, soube a resposta.

 

No dia seguinte, os credores vieram expulsar-nos de casa. A minha mãe nunca teria suportado isso. Encontraram-na na cama, tão calma como se estivesse a dormir. Tinha violado a lei ao beber a cicuta entregue ao meu pai; também violou a lei ao misturá-la com vinho, porque as mulheres de Massília estão estritamente proibidas de beber vinho. Mas ninguém tentou acusá-la. Não havia mais nada a confiscar, e ninguém a castigar para além de mim. Presumi que eles pensassem que eu já tinha sido suficientemente castigado pelos pecados dos meus pais. Inspirou profundamente. Às vezes, sinto-me ressentido com ela por não ter ficado comigo. Também me sinto ressentido com ele. Mas não posso querer-lhes mal. As vidas deles tinham acabado.

 

O que te aconteceu?

 

Durante algum tempo, fui passado, de má vontade, de um parente para outro. Mas todos eles me consideravam amaldiçoado. Não me queriam em suas casas, com receio de que a maldição passasse para eles. Ao primeiro sinal de problemas um incêndio na cozinha, um filho doente, uma dificuldade no negócio da família, eu era mandado embora. Por fim, os parentes acabaram. Procurei trabalho. O meu pai tinha-me proporcionado bons professores. Sabia filosofia, matemática, Latim. Provavelmente, sabia mais do negócio do que pensava, já que tinha aprendido com o meu pai. Mas nenhum dos Timoukoi me contratava. Seria de supor que um desses romanos exilados que estão sempre a aparecer em Massília me tivesse achado útil, mas nenhum deles tocava em mim, com receio de ofender os Timoukoi.

 

De vez em quando, encontrava trabalho como operário. Não é fácil um homem livre, viver do trabalho manual, há demasiados escravos capazes de fazer o mesmo trabalho, e não é preciso pagar-lhes um salário. Não posso dizer que tenha conseguido mais do que manter-me vivo. Em certos anos, com grande dificuldade. Vestia os farrapos deitados ao lixo por outros homens, comia o lixo dos outros homens. Engoli o orgulho e pedi esmola. Durante longos períodos, não tive um tecto debaixo do qual me abrigar. O Sol e o vento transformaram a minha pele em couro. Tanto melhor; uma pele endurecida era aquilo de que eu precisava quando aquele velho pateta do Calamitos me batia com a bengala, chamando-me vadio, inútil, parasita, filho de pai amaldiçoado e de mãe ímpia.

 

Calamitos, é um dos Timoukoi?

 

Não, por Artemísia! Nenhum daqueles velhos idiotas é rico. São contemporâneos do meu pai que nunca fizeram grande coisa. Quando eu era novo, andavam todos incendiados de ambição; a inveja que tinham do meu pai e do seu êxito, em especial Calamitos, dava cabo deles. Depois da morte do meu pai, tinham um prazer especial em se alegrarem com a minha esqualidez e me tomarem como alvo da sua crueldade. Nada conforta tanto os desgraçados como poderem desprezar alguém ainda mais desgraçado do que eles.

 

O Sol estava a baixar no horizonte e começava a levantar-se vento. As árvores altas que nos rodeavam estremeciam e abanavam, e as suas sombras eram cada vez mais compridas.

 

Que história horrível disse eu baixinho.

 

É simplesmente uma história verdadeira.

 

A maneira como descreves a Rocha do Sacrifício, também a deves ter escalado.

 

Algumas vezes. A primeira vez, por curiosidade, para ver o que o meu pai tinha visto, para conhecer o local onde ele tinha acabado.

 

E depois?

 

Para o seguir, se me parecesse que tinha chegado o momento. Mas nunca ouvi o chamamento.

 

O chamamento?

 

Não sei que outro nome hei-de dar-lhe. Sempre que a escalava, tencionava realmente saltar. Nada havia que me retivesse neste mundo amaldiçoado. Mas, quando chegava ao alto, nunca sentia que devia fazê-lo. Acho que estava à espera de ouvir o meu pai e a minha mãe chamarem-me, e eles nunca o fizeram. Mas agora não tardará... será mesmo em breve...

 

O que pretendia Calamitos dizer quando te chamou Bode Expiatório?

 

Ele sorriu amargamente.

 

Isso é outra das nossas encantadoras tradições antigas. Em tempos de grande crise de epidemias, fomes, cerco militar, bloqueio naval, os sacerdotes de Artemísia escolhem um Bode Expiatório, que tem de ser aprovado pelos Timoukoi, é claro. Idealmente, é a criatura mais miserável que conseguem encontrar, uma não-entidade patética cuja falta ninguém sentirá. Quem melhor do que o filho de dois suicidas, o mais inferior dos inferiores, aquele pedinte irritante que assombra a praça do mercado, e de quem toda a gente gostará de se ver livre? Há uma espécie de cerimónia um axoan, o ”Artemísia preside sobre nuvens de incenso, os sacerdotes entoam uns cânticos, esse género de coisas. O Bode Expiatório veste-se de verde, coloca um véu verde; a deusa não tem qualquer desejo de lhe ver a cara. Depois, os sacerdotes levam o Bode Expiatório em parada pela cidade, com todos os assistentes vestidos de preto, como se se tratasse de um funeral, e as mulheres ululando lamentos. No final da procissão, vem o Bode Expiatório; o seu destino, porém, não é um túmulo, mas uma excelente casa, especialmente preparada para ele. Os escravos dão-lhe banho e ungem-no com óleos, depois vestem-lhe roupas delicadas todas neste tom de verde, que é a cor do Bode Expiatório. Chegam mais escravos, que lhe despejam vinho dispendioso pela garganta abaixo e o enchem de acepipes. Ele pode circular pela cidade, e põem à sua disposição uma elegante liteira, verde, evidentemente. O único problema é que é como se ele estivesse dentro de um túmulo. Ninguém fala com ele. Nem sequer olham para ele. Até os escravos desviam os olhos e dizem apenas o estritamente necessário. Todo este luxo e estes privilégios mais não são do que uma simulação, uma falsidade. O Bode Expiatório vive uma espécie de morte-em-vida. Embora lhe sejam proporcionados todos os prazeres físicos, começa a sentir-se... totalmente sozinho. Ligeiramente... irreal. Quase invisível. Talvez isso seja de esperar. Durante todo este tempo, a crer nos sacerdotes de Artemísia, ele acolhe na sua pessoa, por qualquer dispositivo místico, os pecados de toda a cidade. Bem, isso levaria qualquer pessoas sentir-se ligeiramente incomodada.

 

Qual é o fim de tudo isto?

 

Ah, estás ansioso por chegar ao fim. É melhor esquecer o futuro e viver no presente! Mas, já que perguntas: quando chegar o momento adequado não sei bem como é que os sacerdotes o determinam, mas desconfio de que o Conselho dos Quinze tem alguma coisa a dizer sobre isso, no momento adequado, quando todos os pecados da cidade tiverem sido acolhidos pela pessoa mimada, entumecida e saciada do Bode Expiatório, será altura de proceder a outra cerimónia. Mais incensos e mais cânticos, mais assistentes vestidos de preto, mais mulheres de luto ululando. Mas, desta vez, a procissão terminará ali. Apontou para o dedo de rocha. Na Rocha do Suicídio, Rocha do Sacrifício, Rocha do Bode Expiatório. Acho que o nome pouco importa. Ali começou a minha infelicidade. E ali terminará a minha infelicidade.

 

Deu um longo suspiro, depois sorriu com ar triste.

 

Com certeza que tens perguntado a ti próprio, meu amigo, por que motivo te não fiz perguntas sobre ti, por que me mostro tão curiosamente indiferente sobre os dois romanos que saíram daquele fosso interior. A resposta é a seguinte. Não me interessa quem és nem de onde vieste. Não me interessa que tenhas vindo com a intenção de matar o Primeiro-Timoukos, ou de vender os segredos de César à colónia de exilados romanos despejados em Massília. Estou apenas satisfeito por ter companhia! Não imaginas o que significa para mim, Gordiano, estar aqui sentado no cimo deste telhado a ver cair o dia, partilhando esta vista magnífica e este vinho magnífico com outro homem, a ter uma conversa civilizada. Não me sinto... tão sozinho, tão invisível. É como se tudo isto fosse real, e não uma mera simulação.

 

Eu estava cansado por causa do que tinha passado durante o dia e sentia-me inquieto por causa da história do Bode Expiatório. Olhei de esguelha para Davo, que ressonava suavemente, e senti inveja.

 

Durante a nossa conversa, o Sol tinha mergulhado para além do horizonte aquoso. Era a hora sombria. A linha que dividia o mar do céu estava a tornar-se indistinta, a dissolver-se. Fragmentos etéreos de luz prateada pairavam aqui e ali, à superfície da água. Mais perto de nós, as sombras iam crescendo. Aos nossos pés, as pedras do pavimento ainda emitiam calor, mas das árvores que nos rodeavam, agora amortalhadas nas suas próprias sombras, erguiam-se lufadas de ar mais fresco.

 

O que é aquilo? sussurrou Jerónimo debruçando-se, com uma entoação de premência na voz. Ali em baixo... na rocha!

 

Vindas de lado nenhum, surgiram duas figuras a meia altura da Rocha do Sacrifício. Ambas a escalavam; uma delas ia bastante mais à frente do que a outra, mas a figura que seguia mais abaixo estava a ganhar terreno.

 

Será... uma mulher, o que te parece? sussurrou Jerónimo. Referia-se à figura da frente, que vestia uma capa com capuz, escura e volumosa, que flutuava ao vento, revelando aquilo que só podia ser um vestido de mulher. Os seus movimentos eram hesitantes e incertos, como se se sentisse fraca ou confusa. Essa hesitação permitia à figura que a seguia continuar a fazer diminuir o espaço entre ambos. O perseguidor era indubitavelmente um homem, porque vestia uma armadura, embora não usasse elmo. Tinha o cabelo escuro cortado rente e os braços e as pernas pareciam escuros, em contraste com a pedra branca e o azul-pálido da capa ondulante.

 

Ao meu lado, Davo agitou-se e abriu os olhos.

 

O que...?

 

Ele está a persegui-la murmurei eu.

 

Não, está a tentar detê-la disse Jerónimo.

 

O crepúsculo pregava-me partidas nos olhos. Quanto mais me esforçava por distinguir o drama que decorria ao longe, na rocha, mais difícil se tornava discernir os complicados movimentos das duas figuras. Era quase mais fácil observar-lhes os progressos pelo canto do olho.

 

Davo inclinou-se para diante, subitamente alerta.

 

Aquilo parece perigoso sugeriu.

 

A mulher fez uma pausa e voltou a cabeça para olhar para trás. O homem estava muito perto, quase o suficiente para conseguir agarrar-lhe os pés.

 

Ouviram aquilo? sussurrou Jerónimo.

 

Ouvimos o quê? disse eu.

 

Ela guinchou concordou Davo.

 

Pode ter sido uma gaivota objectei eu.

 

A mulher deu uma corrida súbita. Atingiu o alto da rocha. A capa agitou-se furiosamente à sua volta. O homem deu um passo em falso e agarrou-se à superfície da rocha, depois recuperou e voltou a segui-la. Por instantes, formaram uma figura única, depois a mulher desapareceu, ficando apenas o homem, uma figura delineada contra o céu de chumbo.

 

Davo susteve a respiração.

 

Viram aquilo? Ele empurrou-a!

 

Não! disse Jerónimo. Estava a tentar retê-la. Ela saltou!

 

A figura distante ajoelhou-se e espreitou por cima do precipício por longos momentos, com a capa azul-clara açoitada pelo vento. Depois, olhou em volta e desceu a face da rocha, não exactamente por onde tinha vindo, mas virando para a secção mais próxima de conexão com a muralha da cidade. Quando viu que estava suficientemente próximo, saltou da rocha para a plataforma da ameia. Tropeçou ao cair, e aparentemente magoou-se. Desatou a correr, coxeando ligeiramente, apoiado na perna esquerda. Não se via mais ninguém na plataforma, já que os massilianos tinham anteriormente feito retirar todos os seus homens

 

para o outro lado da cidade, para responderem ao assalto do aríete de Trebónio.

 

A coxear, o corredor chegou à torre de bastião mais próxima e desapareceu na escadaria. A base da torre não era visível para nós. Não havia mais nada para ver.

 

Poderosa Artemísia! O que vos parece aquilo? perguntou Jerónimo.

 

Ele empurrou-a insistiu Davo. Eu vi. Sogro, bem sabes que eu tenho uma visão muito boa. Ela tentou apoiar-se nele. Mas ele empurrou-a por sobre o precipício.

 

Não sabes o que dizes declarou Jerónimo. Estavas a dormir quando eu expliquei a Gordiano que aquela é a Rocha do Sacrifício, também chamada Rocha do Suicídio. Ele não ia a persegui-la pela rocha acima. Ela foi até lá para se suicidar, e ele tentou impedi-la. E quase conseguiu! Subitamente, as rugas profundas que tinha em volta da boca suavizaram-se. Cobriu a cara com as mãos. Pai! gemeu. Mãe!

 

Davo olhou para mim, franzindo o sobrolho com ar espantado. Como poderia eu explicar-lhe a infelicidade do Bode Expiatório?

 

Fui salvo dessa necessidade pela chegada de um escravo sem fôlego, um jovem gaulês muito corado, de cabelo cor de palha todo revolto.

 

Senhor! gritou a Jerónimo. Homens lá em baixo! O Primeiro-Timoukos em pessoa, e o Pró-Cônsul romano! Exigem ver... as tuas visitas. O escravo lançou um olhar prudente a Davo e a mim.

 

Não tivemos outra advertência. No momento seguinte, com grande ruído de passos, emergiu da escada um grupo de soldados, que chegou ao terraço do telhado de espadas na mão, brilhando à luz do crepúsculo.

 

Davo reagiu imediatamente. Saltou da cadeira, puxou por mim, obrigando-me a levantar, empurrou-me para a extremidade do terraço e postou-se na minha frente. Como estava desarmado, ergueu os punhos. Nos seus tempos de escravo, fora treinado como guarda-costas. Os seus treinadores tinham feito um bom trabalho.

 

- Olha para trás, sogro sussurrou. Há maneira de saltarmos do telhado?

 

Eu olhei por cima do parapeito baixo do terraço. Lá em baixo, no pátio, vi mais soldados de espadas na mão.

 

Não há hipótese disse. Poisei-lhe uma mão no ombro. Recua, Davo. E abandona essa posição de lutador. Só vais conseguir antagonizá-los. Aqui, os intrusos somos nós. Temos de confiar na piedade deles.

 

Inspirei profundamente. Jerónimo tinha-me dado bastante a beber, mas nada que comer. Sentia a cabeça leve.

 

Os soldados não esboçaram qualquer movimento de ataque. Ficaram alinhados, com as espadas na mão, mas baixadas, e limitaram-se a olhar para nós. Jerónimo ficou frenético.

 

O que estão vocês aqui a fazer? Isto é a residência sagrada do Bode Expiatório. Não podem entrar aqui armados. Nem sequer podem entrar, sem autorização dos sacerdotes de Artemísia!

 

Como te atreves a invocar a deusa, cão ímpio! A voz sonante provinha do homem que tinha evidentemente mandado os soldados escada acima, e que chegava agora atrás deles. Usava uma armadura magnífica, brilhante como uma moeda recém-cunhada. Uma capa azul-clara esvoaçava atrás dele. A crista de cauda-de-cavalo do elmo que trazia debaixo do braço também fora tingida de azul-claro. A cor combinava com a dos seus olhos. Pareciam pequenos demais, tal como o seu nariz fino e a sua boca estreita, para uma testa tão larga e uma queixada ainda mais ampla. Usava o cabelo comprido e prateado lançado para trás, em juba.

 

Apolónides! disse Jerónimo, pronunciando o nome como se fosse uma maldição. Por entredentes, acrescentou, para mim: O Primeiro-Timoukos.

 

Apolónides era seguido por outro homem, que trazia a armadura dos comandantes romanos. Tinha um disco de cobre na couraça, com a cabeça de um leão gravada em relevo. Reconheci-o imediatamente; mas a verdade é que eu sabia que ele estava em Massília e não foi uma surpresa vê-lo. Ele reconhecer-me-ia? O nosso único encontro fora breve, e tivera lugar há vários meses.

 

Por todos os deuses! Lúcio Domício Aenobarbo pôs as mãos nas ancas e olhou-me fixamente.

 

- Não posso acreditar. Gordiano, o Descobridor.

 

- Quem é este grandalhão?

 

É o meu genro, Davo.

 

Domício acenou com a cabeça, afagando pensativamente a barba ruiva que lhe cobria o queixo.

 

Quando foi a última vez que eu te vi? Não me digas foi em casa de Cícero, em Fórmias. No mês de Março. Ias a caminho de Brundísio. Eu vinha para aqui. Ha! Quando o velhote que anda pela praça do mercado contou a Apolónides que dois romanos se tinham arrastado para fora do nosso fosso interior, ele quis ter a certeza de que não se tratava de um par de homens meus que se tivessem extraviado, antes de lhes cortar a cabeça. Ainda bem que eu vim com ele, para te identificar! Quem diria...?

 

A sua expressão obscureceu-se. Eu percebi a mudança com a mesma clareza com que teria percebido se ele tivesse dado voz aos seus pensamentos.

 

Finalmente, tinha-se recordado, não apenas do meu nome e da minha ligação a Cícero; mas também de que eu era o pai de Meto. Se Meto tivesse vindo para Massília, mantendo secretamente a sua lealdade a César mas procurando uma posição entre os inimigos de César, Domício seria o homem a quem teria ido oferecer os seus serviços. Ter-se-iam encontrado? O que se teria passado entre eles? O que saberia Domício acerca do paradeiro de Meto? Por que se teria obscurecido tanto a sua expressão, de um momento para o outro?

 

Quem é este sujeito? perguntou Apolónides, impaciente. Era óbvio, pela maneira como conversavam, que ele e Domício se consideravam da mesma categoria um deles era o comandante supremo das forças massilianas; o outro, o comandante das tropas romanas estacionadas em Massília, leais a Pompeu e ao Senado Romano.

 

Chama-se Gordiano, e chamam-lhe o Descobridor. É um cidadão romano. Encontrámo-nos uma vez, por pouco tempo. Domício semicerrou os olhos e estudou-me como estudaria um mapa voltado de pernas para o ar.

 

Leal a César ou a Pompeu? Apolónides olhava para mim mais como se eu fosse um animal desconhecido; seria doméstico ou selvagem?

 

Excelente pergunta disse Domício.

 

E como se explica a sua presença na cidade?

 

Outra excelente pergunta. Olharam ambos fixamente para mim.

 

Eu cruzei as mãos diante do peito e inspirei profundamente.

 

Não gostava de mudar de assunto, mas acabamos de assistir a uma coisa verdadeiramente assustadora. Ali... ao fundo. Apontei na direcção da Rocha do Sacrifício.

 

O que estás a dizer? Apolónides olhava-me intensamente. Responde à minha pergunta! Como foi que entraste na cidade?

 

Uma mulher e um homem, um soldado, a avaliar pela maneira como estava vestido, treparam agora mesmo àquela rocha em forma de dedo. Estávamos os três aqui sentados e pudemos observá-los. Um deles caiu lá abaixo. O outro fugiu.

 

Tinha conseguido captar a sua atenção.

 

O quê? Alguém saltou da Rocha do Sacrifício?

 

A mulher.

 

Ninguém está autorizado a subir à Rocha do Sacrifício. E o suicídio é estritamente proibido em Massília, a não ser que seja aprovado! ladrou Apolónides.

 

Nesse caso, calculo que se tenha tratado de um assassínio.

 

O quê?

 

O homem empurrou-a! explicou Davo. Eu pigarreei.

 

Na verdade, há um certo desacordo quanto a isso. Apolónides observou-nos de olhos semicerrados, depois fez um gesto de mão a um dos soldados.

 

Tu aí, leva uns homens e vai até à Rocha do Sacrifício. Não subam lá acima, examinem a zona em redor. Procurem vestígios de que alguém se atreveu a trepá-la. Façam perguntas. Descubram se alguém viu um homem e uma mulher escalarem-na.

 

A mulher vestia uma capa preta ajudei eu. O homem trazia uma armadura, sem elmo. Vestia uma capa azul-clara... bastante semelhante à tua, Timoukos.

 

Apolónides recuou.

 

Um dos meus oficiais? Não acredito. Inventaste essa história para evitar responder às minhas perguntas!

 

Não, Timoukos.

 

Primeiro-Timoukos! corrigiu ele. O seu rosto vermelho contrastava fortemente com a capa azul-clara. Eu vi um homem exausto no final de um dia cansativo, já sem um átomo de paciência.

 

Claro, Primeiro-Timoukos. Perguntaste-me como se explica a nossa presença aqui. A verdade é que os homens de Trebónio escavaram um túnel por baixo das muralhas da cidade, que devia ir ter ao pé da porta principal...

 

Eu sabia! Apolónides deu um murro na palma da mão. Eu bem te disse, Domício, que o aríete desta manhã não passava de uma diversão. Trebónio sabe perfeitamente que não será capaz de derrubar as muralhas de Massília com um brinquedo daqueles. Enquanto nós estávamos distraídos, ele tencionava enviar uma força de menores dimensões por um túnel, e tomar a porta principal.

 

- É isso que estás a dizer, Descobridor?

 

Exactamente, Primeiro-Timoukos.

 

O remoinho que foi visto, e a descida do nível da água no fosso interior, disseste que se devia a uma fuga, a um erro nas nossas fortificações, Domício!

 

Agora, era Domício quem estava a ficar vermelho, uma tonalidade que chocava com a da sua barba cor de cobre.

 

Não sou engenheiro. Limitei-me a sugerir essa possibilidade. Mas não, foi precisamente como ”pensava Trebónio sempre planeara entrar escavando um túnel. Eu sabia! Foi por isso que mandei escavar aquela trincheira e a mandei encher de água, para evitar uma tentativa desse género. E resultou! Diz-me que eu tenho razão, Descobridor.

 

Irradiava satisfação. Agora, eu era seu amigo, o mensageiro de boas-novas. Engoli em seco.

 

O túnel estava cheio de soldados, que esperavam emergir no momento em que os sapadores abrissem caminho. Esperámos várias horas. Ouvíamos o ruído do aríete a bater nas muralhas, ao fundo... Baixei os olhos. De repente, o túnel foi inundado. Uma tromba de água, que levou tudo à sua frente.

 

Perfeito! exclamou Apolónides. Os soldados empurrados pelo túnel fora, como ratos num esgoto romano! Domício franziu o sobrolho, ao ouvir isto, mas nada disse. E Descobridor como conseguiste sobreviver?

 

O meu genro puxou-me para uma cavidade no tecto do túnel. Esperámos até a força da água acalmar, e depois saímos dali a nado. Tanto quanto sei, fomos os únicos sobreviventes.

 

Acho que os deuses devem gostar de ti, Descobridor. Apolónides olhou de esguelha para Jerónimo. Não é de espantar que este miserável Bode Expiatório te tenha recolhido e trazido para sua casa. Está convencido de que vais trazer-lhe felicidade.

 

Não tens o direito de estar aqui! guinchou Jerónimo de súbito. A casa do Bode Expiatório é sagrada. A tua presença aqui é um sacrilégio, Apolónides.

 

Imbecil! Não sabes o que dizes. Tenho o direito de entrar em qualquer casa que possa albergar inimigos de Massília. Apolónides voltou a olhar para mim. É esse o caso, Descobridor?

 

- O que estavas a fazer naquele túnel com os homens de Trebónio, senão a tomar parte numa invasão armada da cidade?

 

Primeiro-Timoukos, olha para mim. Sou um homem velho. Não sou um soldado! Não sou partidário de nenhum dos lados, nem eu nem Davo. Viajámos por terra desde Roma. Passámos uma noite no acampamento de Trebónio. Eu queria entrar na cidade, e vi uma maneira de o conseguir. Davo e eu disfarçámo-nos e metemo-nos entre os soldados. Trebónio não soube. Teria ficado furioso se tivesse descoberto. O objectivo da minha vinda a Massília não é militar nem político. É pessoal.

 

E qual a natureza exacta desse objectivo ”pessoal”?

 

O meu filho Meto desapareceu em Massília. Olhei de esguelha para Domício, cuja expressão se mantinha enigmática. Vim à procura dele.

 

Um filho desaparecido? A ideia pareceu suscitar a simpatia de Apolónides, que acenou lentamente com a cabeça. O que te parece, Domício?

 

- Tu conheces o sujeito.

 

Não o conheço assim tão bem. Domício cruzou os braços.

 

Pró-Cônsul disse eu, dirigindo-me a Domício com o título formal a que ele aspirava, sabendo que considerava ser ele, e não César, o governador da Gália legalmente nomeado pelo Senado Romano. Se Cícero aqui estivesse, responderia por mim. Tu e eu jantámos juntos à sua mesa, em Fórmias; ambos dormimos debaixo do seu tecto. Sabias que ele me chamou certa vez ”o homem mais honesto de Roma”? A citação era exacta. Não vi necessidade de acrescentar que Cícero a não pronunciara propriamente como um elogio.

 

Domício inclinou a cabeça para trás e inspirou audivelmente pelo nariz.

 

Responsabilizo-me por estes dois, Apolónides. Tens a certeza?

 

Domício hesitou um momento. Tenho.

 

Óptimo. Então o assunto está resolvido. Apolónides bocejou, pondo à vista uns molares que rivalizariam com os de qualquer cavalo do Nilo. Por Hipnos, estou cansado. E com fome! Este maldito dia nunca mais acabará? Tive esperança de ter um momento de paz, mas agora acho que tenho de ir verificar o estado do fosso interno, para ter a certeza de que continua a suster a água.

 

Voltou-se para se ir embora. Alguns dos seus soldados saíram da fila, a fim de o precederem pelas escadas abaixo. No segundo degrau, ele parou e olhou para trás.

 

Oh, Descobridor, se a história que me contaste for verdadeira, hoje deste uma gargalhada na cara de Trebónio, infiltrando-te entre os seus homens e atravessando o túnel com vida. Nós também nos rimos bastante dele. O aríete que mandou contra as muralhas da cidade? Acabámos por dar conta dele. Os meus soldados fizeram baixar uma corda com um nó corredio, capturaram a cabeça do aríete, e puxaram-na para cima. E ainda bem: aquelas pancadas estavam a fazer-me dores de cabeça. Devias ter visto a reacção, naquela encosta onde Trebónio se reúne com os engenheiros dele. Ficaram furiosos! Aquele aríete será um belo troféu. Depois de termos quebrado o cerco e mandado Trebónio dar uma volta, talvez eu o exponha num pedestal, na praça do mercado.

 

Voltou-se e desceu mais uns degraus.

 

Primeiro-Timoukos! chamei eu. O... incidente... na Rocha

 

do Sacrifício. O soldado e a mulher...

 

O assassínio! insistiu Davo.

 

Ouviste-me mandar lá os meus homens respondeu Apolónides bruscamente, voltando a deter-se. Eu trato disso. Não te preocupes mais com o assunto.

 

Mas eu ouvi-te ordenar-lhes que não subissem à rocha. Se não lhes permites examinar o local onde...

 

Ninguém pode subir à Rocha do Sacrifício! Incluindo tu, Descobridor. Lançou-me um olhar penetrante. Os sacerdotes de Artemísia santificaram-na durante o mesmo ritual que investiu o Bode Expiatório. A partir do momento em que o Bode Expiatório é investido, até ao dia em que cumpre o seu destino, a Rocha do Sacrifício é terreno sagrado, cujo acesso está proibido a todos. A próxima pessoa a pisá-lo, e só quando os sacerdotes de Artemísia o disserem, será aí o teu amigo Jerónimo. E essa será também a última que o pisará. Lançou um olhar sardónico ao nosso anfitrião, depois voltou-se, desceu rapidamente os degraus e desapareceu, com os soldados atrás dele.

 

Não é mau tipo, para grego comentou Domício num murmúrio.

 

Onde estão os teus soldados, Pró-Cônsul? perguntou Jerónimo, desconfiado.

 

Os meus guarda-costas ficaram à porta disse Domício. Apolónides impediu-os de entrar. A tal ponto vai a sua piedade, nenhum estrangeiro armado entrará na casa do Bode Expiatório. Não te preocupes. Não sairão de onde se encontram enquanto eu não lhes disser. Por Hércules, estou com fome! Não quererás, para dar mostras de uma certa hospitalidade...

 

Jerónimo fixou-o com um olhar carregado durante longos momentos, depois bateu as palmas e ordenou a um escravo que trouxesse comida. Em seguida, retirou-se para dentro de casa, amuado.

 

Comerei bastante melhor aqui do que comeria em casa de Apolónides confidenciou-me Domício. Este sujeito fica com as melhores partes. Há um sacerdote de Artemísia que vigia a distribuição. A cidade enfrenta a possibilidade de uma grave escassez, mas ninguém diria, pela maneira como alimentam este ganso.

 

Os escravos trouxeram lamparinas para o terraço, depois tabuleiros de comida, juntamente com pequenas mesas de tripé. A visão daquele festim deixou-me tonto de fraqueza. Havia pedaços fumegantes de carne de porco, cobertas de mel e anis, um patê de pãezinhos doces e queijo mole, um puré de favas com gengibre, uma sopa de cevada, temperada com funcho e cebolas e uns bolinhos de mosto mosqueados de passas.

 

Domício comeu como um homem esfomeado, com as mãos, que depois limpava chupando os dedos. Ao ver tais maneiras, Davo esqueceu qualquer pretensão de refinamento, e fez o mesmo. Eu estava atormentado pela fome, mas sentia-me quase incapaz de comer, com o estômago apertado de ansiedade por causa de Meto. O que saberia Domício? Tentei abordar o assunto algumas vezes, mas Domício recusou-se a responder enquanto não tivesse satisfeito o seu apetite. A que estaria ele a brincar?

 

Finalmente, encostou-se na cadeira, bebeu um longo gole de vinho, e deu um arroto.

 

A melhor refeição que comi nos últimos meses! declarou. Quase valeu a viagem a esta cidade maldita, não achas?

 

Eu vim cá...

 

Sim, já sei. Não foi por causa da comida! Vieste à procura do teu filho.

 

Conheces Meto? perguntei suavemente.

 

Oh, sim. Domício afagou a barba ruiva e calou-se durante muito tempo, satisfeito com a contemplação do meu desconforto. Por que se mostraria tão enfatuado? Por que vieste à procura dele, Gordiano?

 

Recebi uma mensagem em Roma, uma mensagem anónima, supostamente proveniente de Massília. Toquei na bolsa que tinha suspensa no cinto, apalpei o pequeno cilindro de madeira, e perguntei a mim próprio se o fragmento de pergaminho teria sobrevivido à inundação. A mensagem dizia que Meto... tinha morrido. Que tinha morrido em Massília.

 

Uma mensagem anónima? Curioso.

 

Por favor, Pró-Cônsul. O que sabes acerca do meu filho? Ele beberricou o vinho.

 

Meto chegou à cidade vários dias antes do exército de César. Disse que estava farto de César; que queria juntar-se a nós. Eu achei estranho, naturalmente, mas acolhi-o. Proibi-o de sair das instalações militares e atribuí-lhe certas obrigações ligeiras nenhuma delas delicada ou secreta, como calculas. Vigiava-o. Depois, chegou um navio de Pompeu, o último a chegar antes de César ter construído a sua pequena armada e bloqueado o porto. Pompeu informava-nos sobre diversos assuntos a sua fuga a César por uma unha negra em Brundísio, a sua posição em Dirráquio, o moral dos senadores exilados de Roma. E fazia uma referência específica ao teu filho. Pompeu afirmava que lhe tinham chegado às mãos ”provas incontroversas” a frase era dele de que Meto era efectivamente um traidor a César e de que devíamos confiar nele. Isso parecia resolver o assunto; da última vez que ignorei as advertências de Pompeu, tive razões para lamentar o facto embora houvesse muitas responsabilidades a atribuir. Referia-se à humilhação que César lhe infligira em Itália, quando Pompeu aconselhara Domício a retirar-se perante o avanço de César, e a juntar as suas forças às dele, mas Domício insistira em marcar a sua posição, permanecendo em Corfínio; Domício fora capturado, fizera uma tentativa (fracassada) de suicídio, sendo depois perdoado por César e libertado; fugira então para Massília com um bando de gladiadores esfarrapados e uma fortuna de seis milhões de sestércios.

 

No entanto, apesar da mensagem de Pompeu prosseguiu ele, eu continuava a ter as minhas desconfianças do teu inteligente filho. Milo tinha-me avisado. Deves recordar-te de Tito Anio Milo, exilado há uns anos por ter morto Clódio na Via Ápia.

 

Claro. Fui eu que investiguei o assunto, por ordem de Pompeu.

 

Pois foste! Já me tinha esquecido. Cometeste... alguma ofensa... contra Milo?

 

Que eu saiba, não.

 

Não? Bem, seja por que motivo for, receio que Milo não gostasse muito do teu filho. Suspeitou imediatamente dele. ”Esse rapaz não presta”, disse-me. É possível que eu não tivesse prestado grande atenção a Milo ele não é propriamente conhecido pela sensatez das suas avaliações, mas o que ele dizia era um eco dos meus próprios instintos. Continuei a vigiar o teu filho com muito cuidado. Ainda assim, nunca consegui apanhá-lo a fazer fosse o que fosse. Até...

 

Domício voltou a cabeça e fixou a paisagem, beberricando o vinho em silêncio durante tanto tempo, que parecia ter-se esquecido do que estava a dizer.

 

Até o quê? perguntei eu, tentando manter um tom firme.

 

Sabes uma coisa acho que deve ser Milo a contar-te. Sim, acho que seria melhor. Vamos visitá-lo agora mesmo. Poderemos gabar-nos do excelente jantar que acabamos de comer, enquanto Milo se alimenta a pão seco e restos do molho de peixe de conserva que trouxe de Roma.

 

Quando o conhecera em casa de Cícero, meses antes, decidira que Domício era uma criatura pomposa e frívola. Agora, percebia que era também mesquinho e malévolo. Parecia deliciado com o meu sofrimento.

 

Despedimo-nos do Bode Expiatório.

 

Jerónimo convidou-nos, a Davo e a mim, para regressarmos, e dormirmos nessa noite debaixo do seu tecto. No próprio momento em que prometia fazê-lo, eu perguntava a mim próprio se não estaria a mentir. Lá por ter escapado à morte por duas vezes nesse dia, não tinha qualquer razão para pensar que ela não viesse ainda buscar-me.

 

A morte já teria vindo buscar Meto? Até agora, Domício recusara-se a dizer-me, mas eu não conseguia deixar de pensar nas suas palavras: Milo não gostava muito do teu filho. Por que motivo as teria dito no passado?

 

No caminho para casa de Milo, passámos por um bairro de casas grandes e elegantes. Fiquei surpreendido ao ver que eram bastantes as que tinham telhados de colmo uma recordação de que não estávamos em Roma, onde até os pobres dormem debaixo de telhas de barro.

 

A Lua estava tão brilhante, que não precisávamos de tochas. O único som que se ouvia era o dos passos dos guarda-costas de Domício nas lajes do pavimento. As ruas estreitas de Massília, quase vazias durante o dia, ainda estavam mais desertas à noite.

 

Lei marcial explicou-nos Domício. Um rigoroso recolher obrigatório. Só aqueles que têm assuntos de Estado podem sair depois de escurecer. Presume-se que qualquer outra pessoa que o faça não anda metida em coisa boa.

 

Espiões? perguntei eu. Ele resfolegou.

 

Ladrões e agentes de mercado negro, diria antes. Neste momento, o maior receio de Apolónides não é Trebónio, com os seus túneis e os seus aríetes; é a fome e as doenças. Já começámos a sentir faltas. Enquanto o bloqueio se mantiver, a situação só pode piorar. Se as pessoas se sentirem suficientemente famintas, poderão invadir os celeiros públicos. Nessa altura, descobrirão que a situação é mesmo má. Os Timoukoi receiam que possa haver uma revolta.

 

As autoridades não armazenaram cereais suficientes para a eventualidade de um cerco?

 

Oh, o problema não é a quantidade. Os armazéns estão cheios mas metade dos cereais estão podres. As reservas de emergência têm de ser substituídas de tanto em tanto tempo; três anos é a regra para a maioria das cidades. Apolónides nem sequer me sabe dizer quando foi a última vez que os celeiros foram reabastecidos. O Conselho dos Quinze achou que era uma despesa inútil. Agora, estão a ser confrontados com as consequências da sua avareza, e os meus homens estão reduzidos a meias rações.

 

Recordei-me de que Domício saíra de Itália com seis milhões de sestércios; era o suficiente para partir para Massília e tomar ao seu serviço um exército de mercenários gauleses, e ainda sobrava muito. Mas nenhum dinheiro poderia alimentar um exército, se não houvesse alimentos que comprar.

 

Não me interpretes mal prosseguiu. Apolónides é uma excelente pessoa, e não é mau general. Sabe tudo o que há para saber sobre navios e máquinas de guerra. Mas é como os outros massilianos: no fundo, é um comerciante, está sempre a fazer cálculos e a pensar no lucro. Estes Gregos são espertos, mas têm uma visão estreita das coisas. Não são como nós, os Romanos. Falta-lhes uma certa fogosidade, uma maneira mais ampla de olhar o mundo. Nunca serão mais do que participantes menores no grande jogo.

 

Apolónides tem filhos? perguntei. Estava a recordar-me da repentina suavidade da sua expressão quando lhe expliquei que tinha vindo a Massília à procura do meu filho.

 

Claro. Nenhum homem pode ser Timoukoi se não tiver descendência.

 

Ah, pois. OBode Expiatório explicou-me isso.

 

Mas, no caso de Apolónides, o assunto é um tanto delicado. Verás. Ou antes, o verás. Sorriu a uma piada secreta.

 

Não compreendo.

 

Apolónides tem apenas uma filha, chamada Cidímaque. A sua fealdade é lendária. Bem, é mais do que feia; na verdade, é um monstro.

 

Horrenda. Nasceu com um lábio-leporino e a cara toda disforme, como se fosse uma massa de cera derretida. Cega de um olho e com uma bossa nas costas.

 

Em geral, esses bebés são expostos à nascença disse eu. As pessoas livram-se deles discretamente.

 

Pois é. Mas a mulher de Apolónides já tinha tido dois abortos, e ele estava desesperado para ascender a Timoukos, e para isso precisava de ter filhos. Por isso, não expôs Cidímaque e conseguiu ser eleito para a vaga seguinte.

 

Não tem mais nenhum filho?

 

Não. Dizem que o parto da mulher a deixou estéril. Outros dizem que era o próprio Apolónides quem receava gerar outro monstro. Seja como for, a mulher dele morreu há uns anos, e Apolónides não voltou a casar-se. Apesar das suas deformidades, dizem que Apolónides tem um amor genuíno pela filha, tanto como qualquer pai.

 

Já aviste?

 

Apolónides não a esconde. É raro ela sair, mas janta com os convidados dele. Oculta a cara com véus e raramente fala. Quando o faz, é com uma voz arrastada, presumo que devido ao lábio-leporino. Vi-lhe a cara de relance, uma vez. Atravessava o jardim de casa de Apolónides. Cidímaque estava ao pé de uma roseira. Tinha afastado o véu para cheirar um botão, e eu surpreendi-a. A cara dela faz parar o coração de um homem.

 

Ou parti-lo, calculo.

 

Não, Descobridor. A beleza parte o coração de um homem, a fealdade não! Domício riu-se. Digo-te o seguinte: a cara de Cidímaque é uma visão que não desejo voltar a ter. Não sei qual de nós ficou mais enervado. A rapariga fugiu, e eu também. Abanou a cabeça. Quem pensaria que semelhante criatura arranjaria marido?

 

É casada?

 

O casamento teve lugar mesmo antes de eu chegar a Massília. O jovem chama-se Zenão. Contrasta espantosamente com a mulher; na verdade, é mesmo bonito, o safado. Não é que eu goste de rapazes mas, entre Zenão e Cidímaque...! Riu-se. Há quem diga que se tratou de um casamento de amor, mas eu acho que isso é apenas o sentido de humor destes Massilianos. Zenão pertence a uma família modesta, mas respeitável; casou-se com ela pelo dinheiro e pela ascensão social, claro. É assim que tenciona ascender a Timoukos se conseguir dar um filho a Cidímaque.

 

Apolónides ficou satisfeito com o casamento?

 

Calculo que não houvesse muitos jovens cheios de perspectivas interessados em cortejar o monstro, nem sequer para se tornarem genros do Primeiro-Timoukos. Domício encolheu os ombros. O casamento parece ter resultado. Todas as noites Zenão e Cidímaque jantam sentados à direita de Apolónides. O jovem trata-a com grande deferência. Às vezes, falam em voz baixa e riem-se discretamente um com o outro. Se a pessoa não soubesse o que se esconde por baixo do véu fez uma careta e estremeceu, pensaria que estavam tão apaixonados como quaisquer recém-casados.

 

A porta da casa de Milo foi aberta por uma jovem escrava gaulesa, de cabelo louro e entrançado. Trazia muito pouca roupa, mesmo tendo em conta que a noite estava quente. Falava mal grego, e com uma pronúncia atroz, mas era óbvio que não tinha sido adquirida pelas suas faculdades linguísticas. Ria incessantemente, quando nos convidou a entrar. A única luz disponível era a lamparina que ela trazia na mão; fora da casa do Bode Expiatório, o combustível era tão severamente racionado como a comida. O óleo era de má qualidade. Mas o cheiro a ranço do fumo ajudava, pelo menos, a cobrir o odor a humanidade por lavar que permeava a casa. Em vez de ir a correr chamar o seu senhor, a rapariga voltou-se e gritou por ele.

 

Esperava que a porta fosse aberta por um guarda-costas murmurei a Domício por entredentes. Julgo recordar que, quando partiu para o exílio, Milo trouxe consigo um numeroso grupo de gladiadores.

 

Domício acenou com a cabeça.

 

Alugou os gladiadores aos massilianos, como mercenários. Pelo menos a maior parte; calculo que tenha mantido um ou dois, como guarda-costas. Devem andar por aí, provavelmente tão embriagados como o seu senhor. Receio que o caro Milo se tenha deixado ir. Talvez as coisas tivessem corrido de outra maneira se Fausta o tivesse acompanhado para o exílio. Referia-se à mulher de Milo, a filha do ditador Sula, falecido há muito. Ela teria insistido em manter, pelo menos, as aparências. Mas Milo sozinho...

 

Domício foi interrompido pela chegada do próprio, que irrompeu na entrada com uma lamparina numa mão e uma taça de prata com vinho na outra, descalço e vestindo apenas uma tanga.

 

A última vez que eu vira Tito Anio Milo fora em Roma, há três anos, durante o seu julgamento pelo assassínio de Clódio, o chefe do bando rival do seu. Ignorando o conselho de Cícero, Milo recusara-se a observar a antiga tradição que leva um homem a apresentar-se ao tribunal despenteado e esfarrapado. Milo dava mais importância ao seu orgulho do que à necessidade de suscitar compaixão. Desafiador até ao fim, enfurecera os seus inimigos comparecendo ao seu próprio julgamento meticulosamente arranjado.

 

Desde então, a sua aparência tinha-se alterado consideravelmente. Tinha o cabelo e a barba mais grisalhos do que eu me recordava e a precisarem desesperadamente de uma aparadela. Os olhos injectados de sangue e a cara inchada. Estava ainda menos vestido do que a jovem escrava a tanga descuidadamente arranjada dava a impressão de que poderia soltar-se a qualquer momento, mas não era, nem de longe, tão agradável à vista. O seu físico corpulento de lutador tinha perdido a forma, como uma escultura de barro amolecida pelo calor E precisava de tomar um banho.

 

Lúcio Domício o caro Barba Ruiva em pessoa! Que honra. O cheiro a vinho do hálito de Milo era ainda mais forte do que o repugnante odor do seu corpo. Entregou a lamparina à jovem escrava e deu-lhe uma palmada no traseiro. Ela riu-se. Espero que não tenham vindo ao cheiro do jantar. Acabámos as rações do dia logo de manhã. Temos estado a fazer um jantar bebido, não temos, minha pomba? A rapariga ria-se como uma louca. Mas quem são estes sujeitos que trouxeste contigo, Barba Ruiva, tTenho a certeza de que não conheço o grandalhão; um bruto simpático. Mas esta barba grisalha... grande Júpiter! Os seus olhos cintilaram, e eu entrevi uma sugestão do velho e astucioso Milo. Será aquele cão que costumava caçar por ordem de Cícero quando não abocanhava os dedos ao próprio. Gordiano, o Descobridor! Em nome do Hades, o que estás tu a fazer neste lugar maldito?

 

Gordiano veio à procura do filho explicou Domício, num tom desprovido de expressão. Eu disse-lhe que era contigo que devia vir falar.

 

O filho? Oh, sim, estás a referir-te deu um violento soluço, a Meto.

 

Sim. Parece que Gordiano recebeu uma comunicação anónima, supostamente proveniente de Massília, informando-o do falecimento de Meto. Fez uma longa viagem, conseguiu mesmo penetrar dentro das muralhas da cidade, correndo grandes perigos, porque quer saber a verdade sobre esse assunto.

 

A verdade disse Milo lacrimosamente. A verdade nunca me serviu para nada.

 

Sobre o meu filho perguntei impaciente, o que podes dizer-me?

 

Meto. Sim, bem... Milo recusava-se a olhar-me de frente. É uma história triste. Muito triste.

 

Eu estava completamente exausto, confuso, desorientado, longe de casa. Viera a Massília por uma única razão, descobrir o que acontecera a Meto. Domício tinha-me arreliado, indicando recatadamente que Milo conhecia a resposta; agora, Milo parecia incapaz de completar uma frase.

 

Pró-Cônsul disse eu a Domício por entredentes, por que motivo não podes ser tu a dizer-me o que aconteceu a Meto?

 

Domício encolheu os ombros.

 

Achei que Milo gostaria de ter o privilégio de ser ele a contar-te. Normalmente, gosta tanto de se gabar...

 

Maldito sejas!

 

Milo atirou a taça contra a parede. Davo desviou-se, para evitar os salpicos. A jovem escrava emitiu um ruído, entre um guincho e uma gargalhada. Isto é indecente, Barba Ruiva. Indecente Trazeres o pai do homem a minha casa e escarneceres de ambos desta maneira!

 

Domício não se deixou perturbar.

 

Conta-lhe, Milo. Senão, conto-lhe eu.

 

Milo empalideceu. Ficou muito branco. A sua carne nua estava coberta por um brilho de suor. Os ombros agitaram-se-lhe. Agarrou-se à garganta.

 

Pombinha! Traz-me o jarro. Depressa!

 

Com uma sucessão de gargalhadas maníacas, a escrava loura poisou a lamparina, atravessou o compartimento, desapareceu por momentos, e voltou trazendo consigo um recipiente de barro alto e com uma grande boca. Milo ajoelhou-se, agarrou nas asas do recipiente e vomitou sonoramente para dentro dele.

 

Francamente, Milo! Domício franziu o nariz, repugnado. Davo nem parecia ter reparado; tinha a sua atenção concentrada na jovem escrava que, tendo-se inclinado para ajudar o seu senhor, revelava inadvertidamente partes até agora escondidas da zona inferior da sua anatomia. Nem Flauto pusera jamais em cena quadro tão absurdo, pensei Apetecia-me gritar de frustração.

 

Gradualmente, com a rapariga a limpar-lhe o queixo, Milo voltou a pôr-se de pé. Parecia consideravelmente menos embriagado, ainda que não propriamente sóbrio. Tinha uma aparência totalmente desgraçada.

 

Não consegui resistir.

 

Foi uma pena que os juizes não te tenham visto neste estado durante o teu julgamento. É possível que não tivesses sido obrigado a sair de Roma.

 

O quê? Milo pestanejou e olhou em volta, confuso.

 

Meto disse eu fatigadamente.

 

- Diz-me o que aconteceu a Meto. Ele deixou descair os ombros.

 

Muito bem. Anda, vamos sentar-nos no escritório. Pombinha, passa-me uma dessas lamparinas.

 

A casa era uma confusão tremenda. Havia roupas espalhadas pelo chão e penduradas em estátuas, taças, copos e pratos sujos empilhados por toda a parte, as mesas e o chão estavam cobertos de rolos de pergaminho por abrir. A um canto de uma das salas, uma figura reclinada, presumivelmente um guarda-costas, ressonava ruidosamente.

 

O escritório de Milo era o compartimento mais desarrumado de todos. Havia cadeiras para os quatro, mas primeiro Milo teve de afastar fragmentos de pergaminho, pilhas de roupa (incluindo uma toga de aspecto dispendioso, mas cheia de nódoas), e um gato que deu um sonoro miado. Atirou tudo isso para o chão. O gato fugiu do compartimento a bufar.

 

Sentem-se ofereceu Milo. Vestiu uma túnica enrugada pela cabeça, poupando-nos à visão do seu peito corpulento e suado. Então queres saber o que aconteceu ao teu filho. Milo suspirou e desviou os olhos. Acho que não há razão nenhuma para não te contar a história toda, ainda que seja uma história deplorável...

 

Diz-me, Gordiano, fazes alguma ideia do que o teu filho andou realmente a fazer nos últimos meses? Milo limpou um restinho de vómito do queixo com a ponta da túnica.

 

Não sei bem se percebo o que queres dizer.

 

Estavas a par do joguinho dele ou não? Desse espectáculo de marionetas que ele tentou encenar, fazendo-se passar por traidor a César.

 

Eu olhei-o bem de frente. A mentira descarada nunca fora o meu forte, mas há maneiras mais subtis de contornar a verdade.

 

Eu sabia que Meto e César se tinham separado da última vez que ambos estiveram em Roma. Foi no mês de Aprilis, depois de César ter corrido com Pompeu de Itália, na altura em que Domício se dirigia aqui para Massília. Falou-se de uma conspiração contra César, concebida por alguns dos seus oficiais mais próximos. Dizia-se que Meto tinha tomado parte nessa conspiração. Supostamente, o esquema teria sido descoberto e Meto não tivera alternativa senão fugir.

 

Milo acenou com a cabeça.

 

Foi disso que o teu filho quis convencer-nos. Até é possível que te tenha convencido a ti.

 

Ergueu uma sobrancelha astuta. A medida que a embriaguez ia recuando, vinha à superfície um Milo que me era mais familiar o chefe de bando que inflamava a populaça, o político que não temia a violência, a vítima fanfarrona de um sistema legal tão impiedoso como ele próprio, e ao qual se recusara a pedir misericórdia. Apesar da sordidez das circunstâncias e do seu declínio físico, Milo continuava a ser um homem muito perigoso. Já não desviava os olhos. Acreditaste que o teu filho era um traidor, Gordiano?

 

Eu falei cuidadosamente, sentindo o olhar de Domício poisado sobre mim.

 

A princípio, pareceu-me impossível que Meto fosse capaz de se voltar contra César. Sempre tinha havido um elo de ligação entre eles, uma proximidade...

 

Nós também ouvimos esses boatos, interrompeu Milo. Um arroto mal disfarçado recordou-me que ele ainda estava mais embriagado do que sóbrio.

 

Ignorei a insinuação e prossegui.

 

Mas não percebes que foi precisamente essa proximidade que me levou a aceitar que Meto tinha atraiçoado César? A proximidade pode gerar o desprezo. A familiaridade pode transformar o amor em ódio. Quem teria mais probabilidades de se sentir repelido pela implacável ambição de César, pela maneira descuidada como estava a destruir a República, do que um homem que partilhava a tenda com César dia após dia, que o ajudava a escrever as suas memórias, que acabou por perceber a maneira precisa como a sua mente funcionava? Na verdade, fora esse o meu raciocínio quando eu próprio acreditei, durante algum tempo, que Meto se tinha transformado num traidor.

 

Milo abanou a cabeça.

 

Se não conheces a verdade, então lamento profundamente a tua situação. Aqui o Barba Ruiva também se deixou enganar disse ele, encolhendo os ombros na direcção de Domício. E, ao que parece, Pompeu também. Mas eu não. Nem por um momento!

 

O fanfarrão sobrepõe-se finalmente ao bêbedo comentou Domício com secura. Os dois trocaram um olhar gelado.

 

Milo prosseguiu.

 

Toda essa conversa de Meto ter mudado de campo era um disparate. Eu sou muito perspicaz, quando se trata de avaliar personalidades. Não te esqueças de que geri as ruas de Roma durante anos. Era o meu bando que fazia o trabalho sujo de Pompeu, para que ele pudesse manter as mãos limpas. Um candidato favorável precisava de uma assembleia simpática para um discurso? Lá estava o meu bando em grande força. A escória de Clódio intimidava um senador no Fórum? O meu bando chegava em poucos minutos, e limpava-os dali para fora. Era preciso adiar uma eleição? O meu bando estava preparado para chocar uma ou duas cabeças junto dos quiosques de votação. Bastava eu estalar os dedos. Tentou exemplificar, mas atrapalhou-se com os gestos, e não conseguiu produzir qualquer som.

 

As moedas que trazias dentro da bolsa falavam mais alto observou Domício com sarcasmo.

 

Milo franziu o sobrolho.

 

A questão é que uma pessoa não pode ser chefe de um bando de homens sem ter aprendido a avaliar o carácter de um homem, a perceber a melhor maneira de o persuadir, a conhecer os seus limites, aquilo que ele é ou não capaz de fazer a meter-se debaixo da sua pele. Mal poisei os olhos sobre Meto, aqui em Massília, percebi imediatamente que ele não era um traidor. Não era suficientemente esquivo para isso. Não cheirava a um homem que está por conta própria. E que motivo poderia ter para se voltar contra César? Toda essa conversa empolada do amor que se transforma em ódio não passa de bosta de vaca, Gordiano.

 

Há homens que têm maior amor à República do que ao seu imperador disse eu com suavidade.

 

Mostra-me um só! Um só! ladrou ele, e depois desatou a tossir, ficando com a testa coberta de suor. Preciso de uma bebida murmurou.

 

Eu também precisava. Tinha a garganta tão seca, que mal conseguia engolir.

 

Prossegue disse com voz rouca.

 

Milo recostou-se na cadeira, perdeu o equilíbrio e quase caiu. Domício riu à socapa. Davo revirou os olhos.

 

Milo recuperou e prosseguiu, mais calmo.

 

Considera a minha posição. Tudo me correu mal em Roma. O meu julgamento foi uma farsa. A populaça de Clódio incendiou o Senado! Nem sequer permitiram que Cícero terminasse o seu discurso em minha defesa. Afogaram-no em berros, pedindo a minha cabeça. O veredicto fora pronunciado antecipadamente. Só um homem poderia ter-me salvo mas o meu querido amigo, Gneu Pompeu, o Grande em pessoa, voltou-me as costas. Depois de tudo o que eu tinha feito por ele...

 

Pegou numa tanga que estava caída no chão e limpou a testa.

 

Até Fausta se recusou a acompanhar-me para o exílio. A cabra! Casou-se comigo porque pensou que eu era uma estrela em ascensão, mas quando as coisas começaram a azedar largou-me mais depressa do que uma pulga larga um cão que está a afogar-se. E foi assim que cheguei a Massília, sem pátria, sem família, sem amigos. Abandonado. Esquecido. ”Não te aflijas, Tito”, disse-me Cícero. ”Massília é uma cidade civilizada, cheia de cultura e de saber... um governo admirável... um clima delicioso... a comida é excelente.” Era fácil de dizer; Cícero nunca pôs os pés neste Hades-sobre-a-terra! Pode admirar Massília ao longe, descontraidamente instalado na sua casa do Palatino, ou numa das suas residências de Verão. Eu também tinha casas de Verão...

 

Fechou os olhos por momentos e suspirou, depois prosseguiu.

 

Agora, o mundo está todo de pernas para o ar. César controla Roma com os seus exércitos de renegados. Pompeu e o Senado fugiram para o ultramar. Nem os mais antigos aliados de Roma, estes malditos Massilianos, estão a salvo. E eu, no meio disto tudo? Milo, que sempre foi leal, mesmo quando isso feria as suas perspectivas de futuro. Milo, que foi abandonado pelos seus amigos, incluindo o Grande, por causa de um simples incidente, completamente estúpido, na Via Ápia.

 

Com a confusão instalada, era de supor que Pompeu estivesse disposto a voltar a acolher-me, ansioso por fazer as pazes. Mas não! Chegou uma mensagem de Pompeu. Lançou-se numa inquietante imitação do Grande, no seu estilo mais pomposo: ”Não saias de Massília, bom Milo. Deixa-te estar onde estás! O veredicto contra ti ainda é válido, e a lei deve ser respeitada. As tuas alternativas não mudaram: o exílio ou a morte. São César e os da sua laia que advogam a permissão de regresso a Roma dos exilados políticos; eu não posso, de maneira nenhuma, fazer o mesmo, nem sequer a um amigo como tu especialmente a um amigo como tu. Apesar da actual crise na verdade, a causa da actual crise não pode haver absolutamente nenhuma excepção à severa majestade da lei romana.” Por outras palavras: ”Continua a apodrecer em Massília, Milo!”

 

À luz esbatida da lamparina, vi um brilho de lágrimas nos seus olhos. Por favor, deuses, poupai-me ao espectáculo de ver Milo chorar

 

Ele inspirou profundamente e continuou.

 

Aquilo que me estava a fazer falta, compreendes, era uma maneira de recuperar as boas-graças de Pompeu, de o impressionare de o colocar em dívida para comigo, se pudesse. Mas como, aqui metido em Massília, só com uma mão-cheia de gladiadores, e mesmo esses já alugados aos Massilianos como mercenários? Depois ocorreu-me: e se eu denunciasse um perigoso espião? E não apenas um espião, mas um espião colocado nas nossas fileiras pela mão do próprio César, um espião em que Pompeu nos dera instruções pessoais para confiarmos? Não seria coisa pequena. Primeiro passo na reabilitação de Milo!

 

Antes de mais nada, tinha de conseguir que Meto confiasse em mim. Essa era a parte mais fácil. Olha para mim! Não sou cego à minha própria situação. Sei até que ponto desci. Ando nu todo o dia. Vivo numa casa que fede a urina. Sou um romano exilado de Roma, um homem sem perspectivas, sem dignidade sequer, amargo, desesperado, o candidato ideal para recrutamento para um jogo perigoso. Oh sim, Meto veio ter comigo; procurou-me imediatamente. Com certeza pensou que estava a ser subtil, mas eu lia-lhe os pensamentos como se ele os tivesse expresso em palavras. Pobre e velho Milo, abandonado por todos; deve ser fácil atraí-lo para a causa de César, deve estar maduro e pronto para espetar uma faca nas costas do seu velho amigo Pompeu. Eu deixei-me ir; deixei Meto seduzir-me. Lenta e seguramente, ele foi abrindo caminho na minha confiança. Eu dei um grande espectáculo, no dia em que achei que tinha chegado o momento de lhe mostrar aquela mensagem em que Pompeu me dizia para me deixar estar. Chorei lágrimas verdadeiras quando lha li; e não estava a representar.

 

Depois disso, foi só uma questão de tempo. Percebi que o dia se aproximava. Mesmo antes de aquilo acontecer, soube até da hora em que Meto faria o seu avanço, da mesma maneira que um agricultor sente o odor da chuva no vento. A cena passou-se nesta sala. Eu estava preparado para ela. A armadilha tinha sido montada. Estás a ver aquele biombo de madeira, ali no canto? Aqui o Barba Ruiva estava, escondido atrás desse biombo. Vá lá, Barba Ruiva, mostra às nossas visitas como foi que te escondeste, à escuta. Podemos reencenar o momento.

 

Continua a história! lançou Domício.

 

É um lindo biombo, não é? Trabalhado em terebinto na Líbia, julgo eu. Aqueles contornos são em folha de ouro. Era do pai de Fausta; imagina as utilizações que o velho Sula, que era um homem ladino, terá dado a um biombo como este, por trás do qual podia esconder-se! Trouxe-o comigo quando saí de Roma. Fausta queria ficar com ele, mas eu rapinei-lho mesmo diante do nariz dela. Pergunto a mim próprio se lhe terá sentido a falta.

 

Conta a história, Milo sussurrei eu em voz rouca. Ele baixou os olhos.

 

Não vais gostar do final.

 

Conta-me!

 

Muito bem. Tens de compreender que aqui o Barba Ruiva pensava que eu andava enganado. Dizia-me que eu estava desorientado por causa da quantidade de Massiliano de má qualidade que bebia. ”Estás enganado quanto a Meto”, dizia-me ele. ”Podemos confiar nele; é o próprio Pompeu quem o diz. Aquilo que Meto sabe sobre César e a maneira como a mente dele opera dava para encher um livro. Tem um valor incomensurável para nós.” Ha! Não olhes para mim dessa maneira, Barba Ruiva. Foste tu que insististe em trazer Gordiano a minha casa. Se eu te picar um pouco, tens de aguentar.

 

”Portanto, tínhamos o Barba Ruiva a ouvir tudo atrás do biombo, e ele conseguiu enfiar naquela despensa ali por trás uns dez soldados escolhidos a dedo provavelmente, os mesmos guarda-costas que o escoltaram esta noite. Meto não suspeitou de nada. A certa altura, o Barba Ruiva fez barulho. Meto olhou de esguelha para o biombo. Eu disse-lhe que era uma ratazana. E era mesmo! Milo riu-se. Domício olhava-o friamente.

 

Meto e eu andámos às voltas, às voltas um do outro. A pombinha trouxe-nos vinho, e eu fingi estar embriagado bem, talvez não estivesse a fingir completamente. Embriagado ou não, dei um espectáculo digno de Róscio, o autor. O meu papel era o do desesperado que está mesmo à beira do precipício, e que apenas precisa de um sopro de ar nas costas para mergulhar; do cobarde que juntou a última coragem que lhe resta e apenas precisa de mais uma volta do parafuso para chegar ao ponto; do amante a rebentar de emoção, que não consegue ser o primeiro a dizer ”Amo-te”. Falámos e falámos, sempre às voltas, o teu filho e eu, com o Barba Ruiva a enervar-se por trás daquele biombo, pronto para espirrar a qualquer momento, tanto quanto eu sabia. A tensão era terrível. Calculo que o meu desempenho tenha sido tanto mais convincente por causa disso.

 

Finalmente, Meto deu o passo. ”Milo”, disse ele, ”estás como se estivesses numa prisão, aqui em Massília. Domício trata-te como a um escravo. Não tens qualquer esperança de reconciliação com Pompeu. As situações desesperadas exigem decisões desesperadas. Talvez devesses considerar a possibilidade de tomar uma decisão radical.”

 

- ”Mas para onde é que eu posso ir?”, perguntei-lhe. ”Depois de Massília, o porto seguinte é o Hades.”

 

Meto abanou a cabeça. ”Há outra alternativa.”

 

””Referes-te a César? Mas César nunca me aceitará. Confia demasiado na boa vontade dos Clodianos. Aquela escumalha voltava-se contra ele no preciso momento em que ele me aceitasse.”

 

”César já não precisa dos Clodianos”, disse Meto. ”Neste momento, já é maior do que Clódio. Maior do que Roma. Pode aliar-se com quem decidir fazê-lo, seja quem for”

 

- ”Mas tu voltaste as costas a César”, disse eu.

 

- Meto olhou-me de frente. ”Talvez não”, disse.

 

- Eu disse-lhe: ”Não posso negar que pensei nessa possibilidade. Parece-me que é a minha única alternativa. Mas preciso de um intermediário, de alguém que me ajude a atravessar para o outro lado. Diz-me, Meto, tu és esse homem?”

 

- Meto acenou com a cabeça. Por qualquer motivo que eu desconheço, oBarba Ruiva achou que era esse o momento ideal para deitar o biombo ao chão com grande estardalhaço. O coração quase me subiu à boca. No instante seguinte, Meto estava de pé, de punhal na mão. Viu o Barba Ruiva, viu a minha expressão, viu o primeiro dos soldados sair a correr da despensa. Devia ter acabado tudo num instante. Em vez disso... Milo calou-se e bebeu mais um gole.

 

- Conta-me!

 

Não é preciso gritares, Gordiano. O Barba Ruiva conta-te. A partir daqui, a história pertence-lhe.

 

Domício olhou-me friamente.

 

Eu tinha dado instruções aos meus homens para capturarem Meto, mas para não o matarem se pudessem evitar fazê-lo. Eles foram excessivamente cautelosos.

 

Ou desajeitados! interrompeu Milo.

 

Foi tudo muito rápido prosseguiu Domício. Meto fugiu da sala antes que os meus homens conseguissem capturá-lo. Eu tinha mais homens postados à saída da casa, mas Meto surpreendeu-nos, correndo para o jardim e trepando ao telhado. Saltou para uma viela secundária e correu para as traseiras da casa. Eu tinha mais homens aí, mas ele passou por eles. Eles perseguiram-no. Ele corria muito depressa. Podia ter-lhes escapado por completo, se um dos meus homens não lhe tivesse atirado uma lança, que o atingiu na coxa. Isso obrigou-o a abrandar.

 

Ainda assim, conseguiu chegar à muralha da cidade, no ponto onde ela corre em paralelo ao mar. Trepou as escadas até às ameias, perto da Rocha do Sacrifício...

 

A Rocha do Sacrifício! sussurrei eu, recordando vivamente a cena a que assistira ao crepúsculo.

 

Não foi tão louco que saltasse da rocha disse Domício. A espuma e as rochas lá em baixo teriam morto qualquer um. Não, continuou a correr até uma curva onde a muralha desce a pique até águas profundas. Talvez fosse esse o seu objectivo desde o início; é possível que tivesse estudado antecipadamente o local, fazendo planos para aquele género de emergência. Suponho que é possível, embora muito difícil, um homem mergulhar da muralha e nadar até às ilhas onde se encontram ancorados os barcos de César.

 

Meto não aprendeu a nadar quando era criança murmurei eu. Teria aprendido a nadar no exército?

 

Bem, se soubesse nadar, poderia ter conseguido uma fuga limpa... O coração deu-me um salto dentro do peito.

 

Mas...?

 

Mas não foi isso que aconteceu. Os meus homens seguiam-no de perto. Estavam quase em cima dele quando ele saltou. Um deles jura que espetou Meto com uma seta durante a queda, mas pode tratar-se de gabarolice. A queda, só por si, podia tê-lo morto. Ele desapareceu debaixo de água. Quando os meus homens o viram voltar à superfície, fizeram cair sobre ele uma chuva de setas. O Sol dava-lhes nos olhos, lançando um brilho ofuscante sobre as ondas, o que dificultava a visão, mas alguns homens juram que viram sangue na água. Todos viram o corpo dele ser arrastado para o mar pela corrente. Dizem que não mexia os braços nem as pernas, como faria qualquer homem que estivesse consciente; limitou-se a flutuar como um pedaço de cortiça durante algum tempo, e em seguida desapareceu abaixo da superfície.

 

Domício encostou-se na cadeira e cruzou os braços, parecendo muito satisfeito consigo próprio.

 

Bem, Gordiano, era isto que querias saber? Foi para descobrir isto que fizeste a longa viagem que fizeste? O teu filho morreu como um proscrito, perseguido pelos soldados do legítimo Pró-Cônsul da Gália. Calculo que possas retirar um certo consolo do facto de ter morrido leal ao seu imperador, que não a Roma.

 

O mundo parecia ter-se contraído às dimensões naquele compartimento esquálido e mal iluminado. O rosto de Milo, mergulhado na sombra, era impossível de ler. Domício tinha uma expressão de satisfação presumida. Eu nunca partilhara com o meu filho o amor que ele tinha por César, mas que pequenos me pareciam estes homens, em comparação com ele!

 

Senti uma mão suave no ombro.

 

Sogro, estás exausto. O Bode Expiatório prometeu-nos uma cama para esta noite. É melhor irmos andando.

 

Levantei-me sem pronunciar palavra e saí do escritório de Milo. Milo, quase a tropeçar, correu atrás de nós.

 

A pombinha acompanha-vos à saídadisse ele. E vou mandar um dos meus gladiadores convosco, para vos indicar o caminho. Está em vigor um recolher obrigatório, mas neste bairro não é provável que vos interroguem. Se isso acontecer, mencionem o Barba Ruiva. Baixou a voz e poisou-me uma mão no braço. Gordiano, não tive qualquer prazer em denunciar o teu filho. Meto foi tão honesto comigo como eu fui com ele. César nunca me teria aceite. Nunca! Meto tentou enganar-me, como eu o enganei a ele. Eu tentei afastar o braço, mas Milo agarrou-mo e baixou a voz até um sussurro. Não me sinto orgulhoso do que fiz, Gordiano. Mas tive de o fazer!

 

Eu tinha os olhos inundados de lágrimas. Puxei o braço para me libertar dele. Enquanto me afastava apressadamente, ouvi Domício dizer para o compartimento vazio:

 

Nesse caso, quem foi que enviou aquela mensagem anónima que trouxe Gordiano a Massília? Isso é que eu gostava de saber...

 

Mal me lembro do percurso que fizemos ao luar pelas ruas de Massília e do nosso regresso a casa do Bode Expíatório. Jerónimo olhou para mim e fez um aceno grave de cabeça.

 

Ah, más notícias comentou suavemente. Sem mais uma palavra, conduziu-me, e a Davo, a um quarto com duas camas. O meu espírito estava num estado de agitação tal, que eu não conseguia pensar na possibilidade de adormecer. Apesar disso, o sono chegou, tão depressa e tão profundamente como se tivesse sido drogado.

 

Sonhei com projécteis lançados de catapultas, Com corpos em chamas caindo a pique de torres de cerco. A meu lado, o engenheiro Vitrúvio conversava animadamente sobre máquinas de morte. Era interrompido por um adivinho encapuçado, que lhe dava uma cotovelada e lhe murmurava ao ouvido, em voz alta: ”Diz ao romano que ele não tem nada a fazer aqui.” Um soldado com uma capa azul flutuante passou por nós a correr, coxeando ligeiramente, e desapareceu num buraco no chão. Eu peguei na mão de Davo e disse-lhe que tínhamos de ir atrás dele. O buraco ia dar ao Hades. Vi uma cabeça sem corpo levitando por entre vapores de água e jactos de chamas, com o pescoço rodeado de anéis de sangue. ”Catilina!”, gritei. A cabeça lançou-me uma gargalhada sardónica e desapareceu. Uma figura envolvida numa capa saiu do nevoeiro. Afastou os véus e eu fui confrontado com uma xoanon ”Artemísia animada, deformada e horrenda. ”Casa-te comigo”, disse a coisa, e eu recuei horrorizado. Subitamente, o Hades foi completamente inundado. Corpos flutuantes passavam por mim. As chamas sibilavam e morriam. Tudo era escuridão. A água continuava a subir. Enchi o peito de ar e senti a queimadura da água salgada na garganta e no nariz. Sentia uma estranha mistura de alívio e pavor, e uma tristeza que me esmagava como uma pedra. Estaria a sonhar com a minha própria morte aquosa, ou com a de Meto?

 

Acordei, a pensar. Até em sonhos, o meu filho se recusa a aparecer-me.

 

Depois apercebi-me de que Davo estava de pé, a meu lado, com a mão no meu ombro e o rosto carregado de preocupação.

 

Onde estamos? perguntei. As palavras saíram-me como quem arqueja; tinha estado a chorar.

 

Em casa do Bode Expiatório em Massília. Eu pestanejei e acenei com a cabeça.

 

Que horas são? Já anoiteceu.

 

Mas já tinha anoitecido quando nos deitámos. Com certeza...

 

Já anoiteceu outra vez. Dormiste o dia todo. Estavas a precisar.

 

Sentei-me e gemi. Tinha as articulações hirtas. Doíam-me os músculos. A viagem, a provação da inundação do túnel, a revelação da noite anterior tinham-me esgotado por completo. Sentia-me oco como um junco.

 

Deves ter fome disse Davo.

 

Não.

 

Então continua a dormir. Empurrou-me suavemente para baixo.

 

Impossíveldisse eu, estremecendo ao recordar-me dos pesadelos que tinha tido. E é tudo quanto recordo, até acordar na manhã seguinte.

 

Se não soubesse que estávamos numa cidade sitiada, bloqueados por terra e por mar, ameaçados pela fome e pela doença, nunca teria adivinhado pelo pequeno-almoço que nos foi servido em casa do Bode Expiatório. Deram-nos fécula adoçada com romãs e mel, tâmaras recheadas de pasta de amêndoas, e tantos figos frescos quantos conseguíssemos comer.

 

Repousado e alimentado, sentei-me sozinho no terraço do telhado do Bode Expiatório e comecei a aperceber-me da situação em que tinha colocado Davo e a mim próprio. A partir do momento em que recebera a mensagem relativa a Meto, o meu único pensamento fora vir a Massília, descobrir a verdade, e nunca pensara para além disso. Sempre tinha presumido que encontraria Meto com vida ou, na pior das hipóteses, que descobriria que ele tinha desaparecido. Em vez disso, a mensagem anónima fora confirmada. O meu filho tinha morrido e o seu corpo perdera-se. Eu não tinha mais nada a fazer em Massília mas, graças à minha perseverança e ao meu engenho, estava preso no interior da cidade.

 

Fora para isto que os deuses me tinham salvo depois da inundação do túnel? Na altura, tinha-lhes agradecido, esquecendo-me de que eles são sempre os últimos a rir.

 

Se estivesse em Roma, poderia ao menos partilhar o meu desgosto com Betesda e Diana e com Eco, o meu outro filho, e os ritmos diários da cidade ter-me-iam proporcionado uma certa distracção. Em Massília, não tinha nada que fazer, excepto matutar.

 

Não tinha amigos em Massília. Milo tinha praticamente assassinado o meu filho. Domício desprezava-me e eu desprezava-o. Apolónides considerara-me abaixo do seu interesse. Só Jerónimo me acolhera com hospitalidade, mas por cima da sua cabeça pairava uma nuvem de ruína e morte que só contribuía para me deprimir ainda mais. Sentia-me como muitos exilados romanos deviam ter-se sentido aqui em Massília: impotente e sem esperança, afastado de tudo aquilo que fazia com que valesse a pena viver. Mesmo que Jerónimo continuasse a proporcionar-me alimentos e abrigo, como poderia eu continuar a existir em semelhante estado, hora após hora, dia após dia?

 

As minhas emoções percorreram toda uma gama de recriminações. Recriminei-me por ter vindo a Massília. Recriminei Milo por ter armado a cilada que perdera Meto. Recriminei Meto por ter aceite missão tão perigosa. Recriminei César por uma multiplicidade de culpas por ter seduzido o meu filho (em todos os sentidos, se os rumores que me tinham chegado aos ouvidos eram verdadeiros), por tê-lo enviado numa missão absurda, ao encontro da morte certa, e já agora por ter atravessado o Rubicão. Que vaidade a do homem, que o levara a acreditar que o seu destino devia eclipsar tudo o resto, que o mundo inteiro fora feito para estremecer à sua sombra! O sofrimento que tinha causado já!

 

Quantos mais filhos morreriam antes que ele tivesse concluído os seus projectos? Meto amara o homem, dera a sua vida por ele. E eu odiava César por isso.

 

Se fechasse os olhos, via Meto com toda a clareza. Não via apenas um Meto, via muitos: o rapazinho que vivia na casa de Crasso, em Baias, onde nascera escravo e onde eu conhecera; percorrendo orgulhosamente, ainda que com uma certa hesitação, o Fórum aos 16 anos, no dia em que vestira a sua toga da masculinidade; vestido de soldado a primeira vez em que, chocado, o vira dentro de uma armadura na tenda de Catilina, mesmo antes da batalha de Pistória. Fora uma criança bela e brilhante, cheia de risos. Transformara-se num jovem elegante e robusto, orgulhoso das cicatrizes de batalha. Sempre que voltava a casa depois de uma campanha na Gália com César, eu acolhia-o com um misto de felicidade e temor, satisfeito com o facto de ele estar vivo, receoso da possibilidade de vir mutilado, desfigurado ou aleijado. Mas os deuses tinham achado por bem mantê-lo vivo e inteiro ao longo das batalhas. Até agora.

 

Dentro da minha cabeça, havia uma vozinha que murmurava: Mas o corpo de Meto nunca foi encontrado. Pode ser que ele ainda esteja vivo... de alguma maneira... algures. Eu recusava-me a ouvi-la. Estas ilusões mais não eram do que fraqueza. Só poderiam conduzir a um desapontamento mais profundo e a uma infelicidade ainda maior.

 

Andava pois às voltas, interminavelmente, entre a dor e a irritação, entre as memórias doce-amargas e a dúvida, entre as desilusões de esperança e uma razão dura e fria, e de regresso à dor, sem decidir fosse o que fosse. Sentava-me no terraço do telhado do Bode Expiatório, a olhar fixamente, horas seguidas, para a Rocha do Sacrifício, ao longe, e para o mar indiferente, para além dela.

 

Passou um dia, passaram dois, ou talvez fossem três ou quatro, talvez mais. A minha memória desses tempos é confusa. Tanto Davo como Jerónimo me deixavam quase sempre sozinho. De vez em quando, vinham servir-me, e julgo que comeria. Faziam-me a cama todas as noites, e julgo que dormiria. Sentia-me embotado e distante, a levitar como a cabeça de Catilina levitava nos meus pesadelos.

 

Depois, certa manhã, Jerónimo veio anunciar-me que tinha uma visita à minha espera no átrio.

 

Uma visita? perguntei.

 

Um mercador gaulês. Diz que se chama Aráusio.

 

Um gaulês?

 

Há muitos gauleses em Massília.

 

O que pretende?

 

Não quis dizer.

 

Tens a certeza de que é comigo que ele quer falar?

 

Pediu para falar contigo, e disse o teu nome. Certamente não há mais do que um Gordiano, oDescobridorem Massília.

 

Mas o que pode ele querer?

 

Só tens uma maneira de descobrir. O Bode Expiatório ergueu uma sobrancelha e lançou-me um olhar esperançoso, como o que uma mãe preocupada lançaria a um filho que estivesse a recuperar de uma febre.

 

Nesse caso, é capaz de ser melhor falar com ele disse eu, pesadamente.

 

É assim mesmo! Jerónimo bateu as palmas e mandou um escravo trazer o visitante.

 

Aráusio era um homem de meia-idade, de cabelo castanho ralo, compleição avermelhada e bigode descaído. Usava uma túnica branca simples; mas, a avaliar pela qualidade dos sapatos que calçava, era um homem de meios; e, a avaliar pelo colar e as pulseiras de ouro que usava, não era avesso a demonstrá-lo. Tinha uma atitude irrequieta e mantinha-se afastado de Jerónimo, que se deixara ficar no terraço. Apercebi-me de que tinha um medo supersticioso do Bode Expiatório, o terror do contágio. Assim sendo, o que o teria induzido a entrar em sua casa?

 

Fez um inventário do que o rodeava. Terei imaginado que teve um sobressalto quando viu ao longe a Rocha do Sacrifício?

 

Chamo-me Aráusio disse. És tu o Gordiano, aquele a quem chamam o Descobridor?

 

Sou. Não sabia que tinham ouvido falar de mim em Massília. Ele lançou-me um sorriso desagradável.

 

Oh, não somos tão ignorantes como imaginas, nesta cidade dos confins. Massília pode não ser Atenas nem Alexandria, mas tentamos manter-nos a par do que se passa no grande mundo que está para além de nós.

 

Peço desculpa. Não pretendia sugerir...

 

Oh, não tem importância. Estamos habituados a que os Romanos torçam o nariz quando aqui chegam. Afinal, o que somos nós, senão um posto avançado de gregos de segunda e gauleses pouco civilizados, que vivem à beira de uma estrada que não vai dar a lado nenhum?

 

Mas eu não disse...

 

Então não digas mais nada. O homem ergueu uma mão. Vou dizer-te ao que venho, e tu poderás dignar-te achar a minha proposta interessante, ou não. Como te disse, chamo-me Aráusio e sou mercador.

 

Em escravos ou em vinho? perguntei. Aráusio ergueu uma sobrancelha. Disseram-me que, aqui em Massília, são as duas únicas alternativas.

 

Aráusio encolheu os ombros.

 

Faço um pouco de ambos. O meu avô costumava dizer: ”Os Romanos são preguiçosos; os Gauleses, sedentos. Mandamos escravos numa direcção, e vinho na outra.” Não nos saímos nada mal; embora não tão bem como isto.

 

Com um gesto, apontou a casa onde nos encontrávamos. Os seus olhos abarcaram a vista. Voltei a vê-lo focar intensamente a Rocha do Sacrifício, para em seguida desviar o olhar.

 

Subitamente, abandonou aquela atitude beligerante, como se se tratasse de um escudo de que deixara de ter necessidade.

 

Dizem... que tu viste o que se passou sussurrou. Que ambos viram. Atreveu-se a lançar um olhar a Jerónimo.

 

Vimos o quê? perguntei. Mas claro que ele só podia estar a referir-se a uma coisa.

 

A rapariga... que caiu da rocha. A sua voz tinha uma entoação fatigada.

 

Jerónimo cruzou os braços.

 

Ela não caiu. Saltou.

 

Foi empurrada! Davo, que até então se mantivera discretamente oculto do outro lado da porta, sentiu-se forçado a manifestar-se.

 

Eu olhei para a Rocha do Sacrifício.

 

Rapariga, dizes tu. Mas por que lhe chamas ”rapariga” e não ”mulher”? Nós os três vimos uma figura vestida de mulher, com uma capa com capuz. Não conseguimos ver-lhe a cara, nem sequer a cor do cabelo. Tinha energia suficiente para trepar à rocha, mas fazia-o com hesitação. Talvez fosse nova, talvez não. Olhei para Aráusio. A não ser que tu saibas mais do que nós.

 

Ele esticou o queixo, para o impedir de tremer.

 

Acho... Talvez saiba de quem se trata. Tanto Jerónimo como Davo se aproximaram.

 

Acho... que a rapariga que caiu... era a minha filha. Eu ergui uma sobrancelha.

 

A voz de Aráusio tornou-se subitamente abafada e amarga.

 

Ele enganou-a, estão a ver. Até ao momento preciso em que se casou com aquele monstro, deixou que Rindel pensasse que poderia escolhê-la a ela.

 

Rindel? disse eu.

 

A minha filha. É o nome dela. Era o nome dela.

 

Quem é que a enganou?

 

Zenão. O filho de uma cabra disse que a amava. Mas, tal como os outros gregos, que são uns mentirosos, no fundo, o que ele queria era subir na vida.

 

Zenão. Onde é que eu tinha ouvido este nome há pouco tempo? ADomício, recordei, quando me contara a história de Apolónides e da sua filha horrivelmente deformada, Cidímaque. O jovem que se casara recentemente com Cidímaque chamava-se Zenão.

 

Estás a referir-te ao genro do Primeiro-Timoukos?

 

A esse mesmo. Nós não éramos suficientemente importantes para ele. Embora eu pudesse comprar e vender o pai de Zenão, se quisesse. Embora Rindel fosse uma das raparigas mais bonitas de Massília. Nós somos gauleses, compreendem, não somos gregos; e nenhum membro da nossa família foi jamais eleito Timoukos. Nesta cidade, isso coloca-nos apenas um degrau acima dos bárbaros que vivem na floresta. Ainda assim, Zenão podia ter-se casado com Rindel. Os gregos e os gauleses casam-se entre si. Mas Zenão queria mais do que isso. Maldita seja a sua ambição! Viu uma possibilidade de trepar até ao alto, e aproveitou-a, passando por cima da cabeça da minha pobre Rindel.

 

Uma parte de mim, entorpecida de dor por causa de Meto, queria que o homem se fosse embora. Mas outra parte de mim agitou-se, ainda que de má vontade. Sentia-me curioso. Olhando para Aráusio, cujo rosto mostrava agora toda a sua infelicidade, senti igualmente um baque de compaixão. Não éramos ambos pais que choravam a morte dos seus filhos? Se bem percebia, a filha dele e o meu filho tinham perdido as respectivas vidas a poucas centenas de pés um do outro, por baixo da mesma muralha, em consequência de um mergulho no mesmo mar impiedoso.

 

Ela estava desesperadamente apaixonada por ele prosseguiu Aráusio. Por que não? Zenão é belo e encantador. Deslumbrou-a. Os jovens não são capazes de ver abaixo da superfície das coisas. Quando ele lhe disse que também a amava, ela pensou que já estava...

 

Tinha encontrado a felicidade e nada poderia perturbá-la. Não posso dizer que não tenha ficado satisfeito; ele teria sido um excelente par para ela. Depois, Zenão deixou de ir visitá-la. E depois soubemos que se tinha casado com Cidímaque. Rindel ficou desfeita. Chorava e arrancava os cabelos. Fechava-se sozinha; não comia nem falava com ninguém, nem sequer com a própria mãe. Depois começou a sair de casa às escondidas, desaparecendo durante horas a fio. Eu fiquei furioso, mas de nada serviu. Ela dizia que lhe fazia bem dar grandes passeios sozinha. Imaginem, uma rapariga a passear sozinha pelas ruas em pleno dia, sem companhia! ”As pessoas hão-de pensar que endoideceste”, disse-lhe eu. Talvez estivesse a endoidecer. Devia tê-la vigiado melhor, mas as coisas estão num caos tal... Abanou a cabeça.

 

O que te leva a pensar que a pessoa que vimos na Rocha do Sacrifício era Rindel? perguntei eu. E como é que ouviste falar no assunto? Como é que soubeste que nós vimos o que aconteceu?

 

Massília é uma cidade pequena, Gordiano. Toda a gente fala nisso. O Bode Expiatório tem dois romanos alojados em sua casa, e nem vais acreditar no que eles viram:

 

Um homem a correr atrás de uma mulher pela Rocha do Sacrifício acima, e ela caiu lá do alto. E um desses romanos é uma personagem chamada Gordiano, o Descobridor; faz investigações a pedido de pessoas como Cícero e Pompeu, desenterra escândalos e bisbilhota o interior das camas das outras pessoas.”

 

Não seria exactamente a descrição que eu faria do meu próprio modo de vida, mas senti-me curiosamente lisonjeado ao ver que o meu nome era suficientemente conhecido para alimentar a bisbilhotice de uma cidade onde eu nunca tinha posto os pés. Claro que tudo aquilo que tivesse a ver com o Bode Expiatório tinha interesse para os locais, e qualquer morte na Rocha do Sacrifício suscitaria especulações.

 

Quanto ao motivo por que estou convencido de que se tratava de Rindel... Houve uma quebra na voz de Aráusio. Ele pigarreou e prosseguiu. Nessa manhã, ela voltou a desaparecer. Foi dar um passeio, pensei eu. Mas tinha mais coisas com que me preocupar. Foi nesse dia que os romanos começaram a usar o aríete. Tanto quanto eu sabia, as muralhas da cidade podiam ceder a qualquer momento. Afinal, as muralhas aguentaram-se; os nossos soldados até capturaram o aríete, e vão fazer dele um troféu. Mas Rindel... Pigarreou. Rindel não voltou para casa. A noite caiu, e com ela o recolher obrigatório, e continuava a não haver notícias dela. Fiquei irritado, depois preocupado, depois frenético. Mandei escravos à sua procura. Um deles voltou para casa com um boato sobre uma rapariga que tinha sido vista na Rocha do Sacrifício, perseguida por um soldado um oficial, vestindo uma capa azul. Os seus olhos firmaram-se nos meus. É verdade? Foi isso que vocês viram?

 

O homem vestia uma capa azul-clara reconheci eu. Lembrava-me de a ver flutuar ao vento.

 

Zenão! Devia ser ele. Eu sabia! Rindel deve ter ido à procura dele, para lhe pedir explicações. Ele tinha-a enganado, atraiçoado, feito sofrer terrivelmente casando-se com aquele monstro em vez de se casar com ela. Quem sabe o que Rindel lhe terá dito, ou o que ele lhe terá dito a ela? E acabou com ele a empurrá-la rocha acima, e depois...

 

Ninguém estava a empurrar ninguém objectou Jerónimo. A mulher que nós vimos ia à frente, e o homem seguia atrás dela. Ele estava nitidamente a tentar detê-la. A tragédia é que não conseguiu. A mulher é que saltou.

 

Não, Aráusio tem razão, insistiu Davo. A mulher estava a tentar fugir ao homem. Depois, ele apanhou-a e empurrou-a. Aráusio olhou para mim.

 

E tu, Gordiano, o que dizes?

 

Tanto Jerónimo como Davo olharam para mim, em busca de confirmação. Eu voltei o meu olhar para a Rocha do Sacrifício.

 

Não tenho a certeza. Mas ambas as versões podem ser verdadeiras. Não percebes que é importante?

 

Aráusio inclinou-se para diante.

 

Se Zenão empurrou Rindel, foi assassínio. A besta sem coração!

 

Se a mulher era Rindel; se o homem era Zenão.

 

Mas tinham de ser eles! Rindel não voltou para casa. Não podia simplesmente ter desaparecido, numa cidade tão pequena como Massília, com todas as saídas bloqueadas. Era ela que estava naquela rocha. Sei que era! E o homem era Zenão, com a sua capa azul de oficial; tu próprio viste isso.

 

E, se era a tua filha e Zenão, e se as únicas testemunhas do evento fomos nós os três, que nos encontrávamos aqui neste terraço, então há pelo menos duas opiniões diferentes relativamente ao que pode ter acontecido, e não há maneira de as reconciliar.

 

Mas há uma maneira. Há uma pessoa que conhece a verdade insistiu Aráusio. Zenão!

 

Eu acenei lentamente com a cabeça.

 

Sim, se Zenão era o homem de capa azul que nós vimos, então, ele é o único que pode dizer-te exactamente o que aconteceu, e porquê.

 

Mas ele nunca mo dirá! Mentiu à minha filha quanto ao amor que lhe tinha. Também vai mentir quanto a isto.

 

A não ser que alguém possa obrigá-lo a dizer a verdade.

 

Quem? O sogro dele, o Primeiro-Timoukos? Apolónides controla a polícia e os tribunais da cidade. Não se deixará deter seja pelo que for para proteger o genro e evitar um escândalo. Aráusio baixou os olhos.

 

Mas pode haver um escândalo. Já se fala nisso. Toda a gente sabe que houve uma morte na Rocha do Sacrifício. Ainda ninguém sabe quem foi, mas a verdade não tardará a espalhar-se. ”Ouvi dizer que foi a filha de Aráusio, aquele mercador gaulês”, dirão as pessoas. ”Chamava-se Rindel. Enlouqueceu depois de Zenão a ter rejeitado. O pai devia ter previsto o que ia acontecer.” E devia mesmo. Devia tê-la trancado no quarto! Como é que ela pôde trazer semelhante vergonha à família? A não ser que eu possa provar que Zenão a empurrou, toda a gente presumirá que ela se matou. Um suicídio ilegal, não sancionado pelos Timoukoi

 

uma ofensa aos deuses no próprio momento em que eles se preparam para julgar a cidade e decidir se Massília vive ou morre! Como posso eu suportar semelhante coisa? Será a minha ruína!

 

Eu senti uma súbita frieza pelo homem. Viera ter connosco tomado pelo desgosto pelo desaparecimento da filha. Agora, parecia mais preocupado com o mal que isto causaria à sua reputação pessoal. Mas oBode Expiatório teve uma reacção diferente. Jerónimo sabia o que significava sofrer o ónus da humilhação pública e da ruína em Massília, ser proscrito pelos pecados dos outros. Olhou para Aráusio de lágrimas nos olhos.

 

Foi por isso que vim falar contigo, Descobridor disse Aráusio. Não só porque tu presenciaste a cena, mas também por aquilo que se diz sobre ti. Que tu descobres a verdade. Que os deuses te conduzem a ela. Eu conheço a verdade a minha filha não saltou; tem de ter sido empurrada mas não posso prová-la. Apolónides podia espremer Zenão, para lhe arrancar a verdade, mas não o fará. Mas talvez haja outra maneira qualquer de trazer a verdade à luz, e se houver, tu és o homem indicado para o fazer. Designa os teus honorários. Posso pagar-tos. Como prova, tirou uma das espessas pulseiras que trazia no braço e colocou-ma na mão.

 

O ouro amarelo era trabalhado, com imagens de uma caçada. Arqueiros e cães perseguiam um antílope, e Artemísia assistia a tudo, não na estranha figura da xoanon dos Massilianos, mas na imagem tradicional de uma jovem robusta de membros compridos e graciosos, armada de arco e flechas. O trabalho de mãos era de um extremo requinte.

 

Como era a tua filha? perguntei suavemente. Aráusio sorriu debilmente.

 

Rindel tinha o cabelo loiro. Usava-o entrançado, como a mãe. Às vezes deixava as tranças soltas. Outras vezes enrolava-as à volta da cabeça. Brilhavam como cordas de ouro, como a pulseira que tens na mão. Tinha a pele branca e suave como pétalas de rosa. Os olhos azuis como o mar a meio da manhã. E quando sorria... Susteve a respiração, estremecendo. Quando Rindel sorria, eu sentia-me como um homem deitado num prado de flores num dia quente de Primavera. Olhou para mim de lágrimas nos olhos.

 

Eu acenei com a cabeça.

 

Eu também perdi um filho, Aráusio. Meto nasceu escravo, e não era da minha carne, mas eu tinha-o adoptado, e ele tornou-se romano. Quando era pequeno, era cheio de risos e partidas, brilhante como uma moeda acabada de cunhar. Acalmou à medida que foi crescendo, tornando-se mais pensativo e comedido, pelo menos na minha presença. Às vezes, parecia-me que era mais reservado e tristonho do que seria de esperar num rapaz da sua idade. Mas, de vez em quando, ainda se ria, exactamente como quando era miúdo. O que eu diria para ouvir Meto rir de novo! O mar abaixo das muralhas de Massília reclamou-o para si, como dizes que reclamou a tua filha. Vim de Roma à sua procura, mas ele tinha partido antes da minha chegada. Agora, já nada posso fazer para ajudar o meu filho...

 

Então ajuda a minha filha! suplicou Aráusio. Salva-lhe o bom nome. Ajuda-me a provar que ela não saltou da Rocha do Sacrifício. Prova que Zenão a assassinou...

 

Davo pigarreou.

 

Já que estamos aqui fechados em Massília, sogro, o dinheiro dava-nos jeito...

 

E não há dúvida acrescentou Jerónimo de que precisas de alguma coisa com que te ocupes, Gordiano. Não podes continuar como tens estado, sentado neste terraço a matutar do nascer ao pôr do Sol.

 

Os conselhos de ambos não tiveram qualquer influência sobre mim. Já tinha tomado uma decisão.

 

Desde que assistimos àquele incidente na Rocha do Sacrifício, há uma coisa que tenho perguntado a mim próprio. Falei devagar, tentando escolher as palavras com todo o cuidado, embora não houvesse uma maneira delicada de falar do assunto. Já outros caíram da Rocha do Sacrifício bodes expiatórios... suicidas. Os seus restos nunca foram encontrados? Seria de esperar que acabassem por... dar à costa. Estava a pensar na mulher que tínhamos visto. Mas também estava a pensar em Meto.

 

Jerónimo baixou os olhos.

 

Os meus pais nunca foram encontrados sussurrou ele. Aráusio pigarreou.

 

Por vezes, dependendo da estação do ano e da altura do dia, a corrente é muito forte. Sim, houve corpos que vieram dar à costa, mas nunca entraram no porto; a corrente não o permite. Foram encontrados corpos a milhas de distância de Massília e outros nunca mais foram encontrados, porque grande parte da linha de costa é constituída por rochas íngremes e aguçadas. Um corpo que seja empurrado contra a costa tem grandes probabilidades de ficar desfeito em pedaços entre as rochas, ou escondido numa gruta inacessível, ou de ser sugado para uma caverna submarina, que nem os olhos dos deuses alcançam.

 

Depois da batalha naval com César, devem ter ficado dezenas de corpos nas águas fora do porto disse eu.

 

Aráusio acenou com a cabeça.

 

Sim, mas nenhum deles foi recuperado. Se foram dar à costa, e se ficaram ao alcance da vista e dos braços, terão sido os romanos a recuperá-los, e não nós. São os romanos que controlam a linha de costa.

 

Quer dizer que, mesmo que a mulher que nós vimos tivesse dado acosta...

 

Se alguém a tivesse encontrado, teriam sido os romanos. Aqui em Massília, ninguém teria ouvido falar disso.

 

Estou a ver Então devemos abandonar por completo a esperança de identificar a mulher pelos seus... restos mortais. Os meus pensamentos voltaram-se de novo para Meto. O que teria acontecido ao seu corpo? Certamente que, se tivesse sido encontrado e identificado pelos homens de César, Trebónio teria sabido, e ter-me-ia dito. Parecia mais provável que, tal como Rindel se de facto se tratava de Rindel, Meto tivesse sido empurrado para o mar alto, engolido para sempre por Neptuno, e que fosse impossível recuperá-lo.

 

Suspirei.

 

Nesse caso, temos de determinar a identidade da mulher por outros meios. Podemos começar por considerações práticas. Por exemplo, o que levava vestido a mulher que vimos na Rocha do Sacrifício naquele dia? E era a mesma coisa que a tua filha vestia da última vez que saiu de tua casa?

 

Jerónimo recordava-se de que a mulher vestia uma capa cinzento-escuro. Davo achava que era mais azul do que cinzenta. Para mim, era mais verde do que azul. Tanto quanto Aráusio se recordava, nenhuma peça de vestuário da sua filha correspondia a qualquer destas descrições, porque ela preferia cores claras, mas não tinha a certeza. A mulher e as escravas domésticas conheciam o guarda-roupa de Rindel melhor do que ele. Talvez alguma delas se recordasse ou, por eliminação, conseguisse deduzir com precisão o que Rindel levava vestido no dia em que saíra de casa pela última vez.

 

Falámos mais um pouco, mas Aráusio estava confuso, e incapaz de pensar com clareza. Eu disse-lhe que fosse para casa e visse que informações conseguia obter da mulher e das escravas.

 

Depois de ele partir, fiquei sentado no terraço, passando indolentemente os dedos pela pulseira de ouro, e estudando as mudanças de luz na Rocha do Sacrifício, e no mar para além dela. Subitamente, reparei que Davo olhava para mim de esguelha, com um sorriso de alívio nos lábios.

 

Aparentemente, era o meu dia de receber visitas. Logo que Aráusio se foi embora, entrou um escravo a correr, para dizer a Jerónimo que tinham chegado mais duas visitas, também elas interessadas em falar com Gordiano, o Descobridor.

 

Gregos ou gauleses? perguntou Jerónimo.

 

Nem uma coisa nem outra, Senhor. Romanos. Chamam-se Publício e Minúcio.

 

O Bode Expiatório ergueu uma sobrancelha.

 

Pensei que não tinhas amigos em Massília, Gordiano.

 

Não faço ideia de quem sejam. Talvez se trate de outro interrogatório acerca daquilo que vimos na Rocha do Sacrifício.

 

Talvez. Queres recebê-los?

 

Por que não?

 

Momentos depois, subiam ao terraço dois homens ligeiramente mais jovens do que eu. Publício era o mais alto, e estava a perder cabelo; Minúcio era mais baixo e tinha a cabeça cheia de caracóis. Mesmo que não me tivessem dito os nomes, eu tê-los-ia reconhecido como romanos pela maneira de vestir. Em Massília, os Gregos usavam a túnica pelos joelhos ou a clâmide drapejada, e os Gauleses túnicas, e por vezes calças; estes homens, porém, vestiam togas, como se se tivessem arranjado para um evento formal no Fórum Romano. Que género de homem, mesmo que seja romano, veste uma toga num dia de calor, numa cidade estrangeira sitiada?

 

As togas tinham ar de terem sido recentemente lavadas e estavam impecavelmente dispostas sobre os ombros e dobradas sobre os braços. Perguntei a mim próprio se se teriam ajudado um ao outro a compô-las; a esta distância de Roma, seria possível encontrar um escravo que soubesse como se compunha uma toga? Apesar da gravidade que demonstravam, havia neles qualquer coisa de cómico; podiam ser um par de camponeses espantados chegados à cidade para entregar uma petição ao magistrado do Fórum. Parecia absurdo, especialmente dado o estado de coisas que se vivia em Massília, que se tivessem vestido com aquela formalidade apenas para virem falar com Gordiano, o Descobridor.

 

A sua atitude era rígida. Quando Jerónimo me apresentou, estenderam o queixo e fizeram-me a saudação militar em uníssono, batendo com o punho fechado no peito.

 

Aparentemente, tinham-me confundido com outra pessoa. Era isso que eu ia dizer, quando Publício falou. A emoção que havia na sua voz sobrepôs-se à dignidade da sua atitude, fazendo-o gaguejar.

 

És quero eu dizer, és mesmo és o Gordiano?

 

Julgo que sim. Não é um nome assim muito vulgar concedi. O companheiro deu-lhe uma cotovelada.

 

Claro que é ele! Só pode haver um Gordiano, o Descobridor.

 

Talvez não respondi eu. Alguns filósofos ensinam que cada homem é único, mas outros estão convencidos de que todos nós temos um duplo.

 

Publício soltou uma ruidosa gargalhada.

 

Ainda por cima tem graça! Claro, era de esperar. Com a fama de esperteza que tem, e isso tudo. Abanou a cabeça, olhando para mim. Nem acredito. Estou realmente a ver-te, em carne e osso! Os seus olhos brilhavam, como se ele fosse Jasão e eu o tosão de ouro. O seu escrutínio era desconcertante.

 

Minúcio apercebeu-se do meu desconforto.

 

Estás desconfiado, é natural, nesta cidade abandonada pelos deuses. Baixou a voz. Há espiões por toda a parte. E embusteiros.

 

Embusteiros?

 

Intrujões. Impostores. Mentirosos e malandros. Corruptores dos crédulos.

 

Começo a pensar que Massília é muito parecida com Roma. Eu falava a sério, mas eles voltaram a tomar as minhas palavras como uma graça, e deram gargalhadas cacarejantes. Com quem estariam a confundir-me? Com um comediante popular? Com um filósofo itinerante com uma comitiva respeitosa?

 

Penso, cidadãos, que me terão confundido com outro Gordiano.

 

Certamente que não disse Publício. Não és o pai de Meto, o companheiro íntimo de César?

 

Eu sustive a respiração.

 

Sou.

 

O mesmo Gordiano que combateu ao lado do seu filho Meto, então acabado de vestir a toga da masculinidade, sob o estandarte do grande Lúcio Sérgio Catilina...

 

Catilina, o libertador! entoou Minúcio com súbito arrebatamento, de mãos postas e olhos erguidos ao alto.

 

... na batalha de Pistória?

 

Sim respondi eu suavemente. Estive em Pistória... com Meto. E com Catilina. Há muitos anos.

 

Fez passado observou Minúcio. E o 13 é um número místico!

 

Tu e o teu filho foram os únicos seguidores de Catilina que sobreviveram a essa batalha prosseguiu Publício. Todos os outros pereceram, ao lado do grande Libertador. Neste universo, nada ocorre sem um motivo. Todos fazemos parte de um plano divino. Os deuses escolheram-te, Gordiano, e ao teu filho, para transmitires a memória dos momentos derradeiros da vida de Catilina.

 

Escolheram? Eu só me lembro de haver muito barulho e confusão, e gritos, e sangue por toda a parte. E medo, pensei. Nunca conhecera medo semelhante ao que senti quando as tropas romanas reunidas contra Catilina começaram a convergir sobre nós naquele campo de batalha do norte de Itália. E ali estava eu, dentro de uma armadura mal combinada, com uma espada na mão, por um único motivo: porque o meu filho, com o entusiasmo ardente de um rapaz de 16 anos, tinha decidido juntar-se ao chefe condenado de uma revolução condenada e, não tendo conseguido persuadi-lo a abandonar Catilina, eu estava decidido a morrer combatendo a seu lado. Mas acabou por ser Meto a salvar-me a mim, abandonando o campo de batalha para me arrastar, inconsciente, para um refúgio seguro, onde fomos os únicos, de entre todos aqueles que combateram do lado de Catilina, a sobreviver. No dia seguinte, no acampamento do vencedor, vi a cabeça de Catilina espetada numa estaca. Ele fora um homem cheio de encanto e de graça, que irradiava uma sensualidade infecciosa; nada poderia expressar de forma mais pungente a completude da sua destruição, do que a visão daquela cabeça sem vida, de boca escancarada e olhos vazios, que ainda me assombrava os pesadelos. Assim terminara a revolução que Catilina prometera aos seus seguidores; assim terminara o chefe a que estes homens insistiam ainda, inexplicavelmente, em chamar o Libertador.

 

Pistória! disse Publício, que pronunciou o nome do local da batalha como se se tratasse de um santuário sagrado. Tu estiveste mesmo lá, ao lado do próprio Libertador?

 

Ouviste as suas últimas palavras?

 

Ouvi o discurso que ele fez às tropas. Fora um discurso irónico e retorcido, sem medo e sem ilusões. Catilina olhara para a destruição de olhos bem abertos, perversamente desafiador até ao fim.

 

E assististe aos seus momentos finais?

 

Eu suspirei.

 

Meto e eu estávamos perto de Catilina quando a batalha começou. Ele espetou no chão o estandarte da águia. Foi aí que tomou a sua posição derradeira. Vi o estandarte cair...

 

O estandarte da águia! Publício susteve a respiração. O estandarte da águia do próprio Mário, que fora confiado a Catilina para que o entregasse ao libertador seguinte.

 

Publício e Minúcio ergueram os braços e entoaram em coro:

 

O estandarte da águia! O estandarte da águia!

 

Sim, bem... Eu estava a sentir-me cada vez menos à-vontade na presença destes dois acólitos servis de um libertador morto. Se eram apoiantes tão determinados de Catilina, por que motivo não estiveram também em Pistória?

 

Da mesma maneira que cantavam em coro, assim também coraram em uníssono. Publício pigarreou.

 

Nós e alguns outros precedemos Catilina aqui em Massília, viemos preparar o caminho para a sua chegada. Mesmo até ao fim, ele teve em mente fugir para Massília, a fim de planear o seu regresso triunfal a Roma a partir daqui. Mas depois, infelizmente, não conseguiu abandonar o país nem o povo que procurara libertar da tirania do Senado. Catilina preferiu o martírio ao exílio. Tomou posição em Pistória, e aí morreu. Competia-nos a nós, a mão-cheia de seguidores seus que tinham fugido para Massília, manter viva a sua memória.

 

Manter vivo o seu sonho! acrescentou Minúcio.

 

E agora, os deuses trouxeram-te aqui, Gordiano, o Descobridor. Trouxeram-te, a ti e ao teu filho, a Massília! Só pode ser um sinal de que a fé que mantivemos viva todos estes anos era justificada, de que os deuses olharam para nós e nos deram a sua bênção.

 

O meu filho, como é que sabiam que ele estava aqui?

 

Porque ele veio falar connosco, evidentemente. Procurou-nos em segredo. Quando nos revelou quem era...

 

Nada menos do que Meto, que combateu com Catilina em Pistória, que atravessou o Rubicão com César...

 

Nem podíamos acreditar. Era um sinal, evidentemente. Um sinal do favor dos deuses...

 

Favor? lancei eu. Seus idiotas! O meu filho morreu.

 

Fez-se um silêncio desconfortável. Os meus dois visitantes olharam de esguelha um para o outro, mantendo-se calados mas fazendo funcionar as sobrancelhas e os lábios, como se estivessem a discutir qualquer coisa apenas por meio de uma troca de expressões faciais. Finalmente, Publício avançou. Pegou-me na mão, que eu tinha caída ao longo do corpo, sem energia.

 

Vem connosco, Gordiano. Temos uma coisa para te mostrar. E uma coisa para te dizer.

 

Digam-me já, nesse caso. Ele abanou gravemente a cabeça.

 

Não, aqui não. Olhou de lado para Jerónimo e baixou a voz. Este sítio... não é adequado. É impuro, queria ele dizer. Está sujo, por causa do Bode Expiatório. Vem, Gordiano. Tens de ver o que temos para te mostrar. Tens de ouvir o que temos para te dizer.

 

Eu engoli em seco. A visita do mercador gaulês tinha-me distraído, tinha-me engodado com um quebra-cabeças, que me transportaria para fora de mim próprio e da minha infelicidade. A visita destes Catilinianos de última hora tinha voltado a mergulhar-me num passado infeliz e num presente ainda mais miserável. Que coisa tão importante teriam eles para me mostrar? O que poderiam dizer-me, que eu não soubesse já? Olhei para Davo, que percebeu a minha indecisão e encolheu eloquentemente os ombros, como quem diz: Por que não? O que temos nós a perder, sogro, aqui fechados à beira de lado nenhum?

 

Muito bem disse eu. Davo e eu iremos convosco.

 

E onde tencionam levar os meus convidados? perguntou Jerónimo, que obviamente tinha os romanos em tão pouca conta como eu.

 

Isso, Bode Expiatório, tem de ser segredo disse Publício, de nariz no ar.

 

Mas eu sou o anfitrião deste homem e, como tal, estou obrigado a velar pela sua segurança. Antes de ele sair de minha casa, têm de me dizer onde tencionam levá-lo.

 

Publício e Minúcio conferenciaram em sussurros. Finalmente, Publício ergueu os olhos.

 

Calculo que não tenha importância contar - disse, numa referência pouco subtil ao facto de o Bode Expiatório ter os dias contados. Vamos levar Gordiano a casa de Gaio Verres.

 

Verres! O nome era sinónimo de corrupção, extorsão, ganância sem limites e do pior género de desgoverno. Enquanto as minhas visitas nos conduziam, a Davo e a mim, pelas ruas de Massília, perguntei a mim próprio que possível ligação teriam estas duas últimas e deploráveis ovelhas do rebanho de Catilina com o mais famoso de todos os exilados romanos.

 

Fora Cícero quem processara Gaio Verres, há pouco mais de 20 anos. O caso fora um grande escândalo e conferira a Cícero a fama de advogado proeminente de Roma, precisamente por ter destruído Verres, que fugira para Massília antes de o tribunal poder pronunciar o seu veredicto de condenação. A acusação contra Verres era de extorsão e opressão criminosa do povo da Sicília durante os três anos em que fora governador provincial da ilha. Os governadores romanos sempre tinham tido fama de explorarem as suas províncias e encherem a bolsa à custa dos governados, enquanto o Senado, cujos membros esperam a oportunidade de um dia fazerem o mesmo, finge não ver. Era indicativo da enormidade da conduta de Verres que ele tivesse sido levado a tribunal pelos seus crimes.

 

De acordo com Cícero, que também fora administrador na Sicília, Verres não se limitara a extorquir a população e a pilhar os seus tesouros cívicos, mas destituíra a ilha de virtualmente todos os objectos belos que ela possuía. O apetite de Verres por obras de arte ganhara foros de mania. Gostava especialmente de pinturas em cera encáustica sobre madeira, entre outros motivos porque eram fáceis de transportar, e constituíra diligentemente uma colecção das melhores pinturas passíveis de serem retiradas de todos os locais públicos e de todas as galerias privadas da Sicília. Mas a sua grande paixão eram as estátuas. Antes de Verres, todas as praças de todas as cidades da Sicília, incluindo as mais humildes, estavam decoradas com estátuas de heróis locais ou de divindades particularmente veneradas; depois de Verres, os pedestais ficaram vazios excepto nos casos em que o canalha, para espremer ainda mais os habitantes locais, os tinha obrigado a erigir estátuas de si próprio, cobrando-lhes somas escandalosas por esse privilégio. Quem quer que se atrevesse a opor-se-lhe, fosse siciliano ou romano, era impiedosamente eliminado. O seu comportamento durante os anos em que controlara a ilha fora mais o de um pirata do que de um governador provincial.

 

Logo que a comissão de Verres terminou, e que ele regressou a Roma, os Sicilianos exigiram uma compensação ao Senado Romano e procuraram uma maneira de processar o homem que os tinha roubado. Cícero assumiu a causa e, apesar de todas as manigâncias legais de Verres, e da relutância do Senado em processar um dos seus, Cícero e os Sicilianos acabaram por levar a sua avante. As provas reunidas contra Verres eram de tal maneira devastadoras, que até o Senado teve de agir; e, enquanto o julgamento prosseguia, Verres preferiu fugir de Roma a enfrentar o veredicto. O connoisseur das belas-artes estabeleceu outra moda na escolha do seu destino; Verres fugiu para Massília e, nos 20 anos de caos político que se seguiram, seria imitado por onda após onda de exilados políticos romanos.

 

Eu sabia quem era Gaio Verres, evidentemente nenhum romano o ignorava, mas nunca o tinha visto. Sabia que estava aqui, em Massília, mas nunca esperara que os nossos caminhos se cruzassem. A verdade, contudo, é que, desde o momento em que tínhamos emergido na cidade, provenientes do túnel inundado, nada acontecera que fosse previsível ou esperado. Parecia-me cada vez mais que Massília era um mundo desconhecido, com as suas regras próprias, às quais eu teria de me sujeitar, voluntária ou involuntariamente.

 

A casa de Verres não ficava longe da do Bode Expiatório, algures a meio do caminho para casa de Milo. No interior das suas muralhas, Massília era uma cidade pequena, e o bairro elegante, muito compacto.

 

A casa surpreendeu-me pela sua opulência. Pensamos que os exilados vivem arruinados e na miséria, ou pelo menos numa situação de contenção. Mas a casa de Verres era ainda mais aparatosa do que a do Bode Expiatório, com uma fachada alegre, em cor-de-rosa e amarelo, e colunas elaboradas de ambos os lados da entrada. O escravo que nos abriu a porta mandou-nos logo entrar; os Catilinianos eram obviamente visitas conhecidas. O chão da entrada era em mármore amarelo com veios vermelhos

 

em remoinho e, como em qualquer casa romana, viam-se nichos de ambos os lados, com bustos dos antepassados de Verres. Pelo menos foi o que eu pensei, à primeira vista. Quando os meus olhos se adaptaram à obscuridade, vi que os bustos afinal não eram de antepassados, a não ser que Verres reclamasse descender de homens como Péricles, Esquilo e Homero. Tinha usado os nichos reservados à exposição sagrada para a exibição de espécimes da sua colecção de esculturas!

 

Um escravo conduziu-nos ao interior da casa. Havia estátuas e pinturas por toda a parte. Muitas das pinturas estavam colocadas nas paredes, apertadas umas contra as outras, mas também havia outras amontoadas nos espaços estreitos entre os pedestais e as paredes, e algumas estavam mesmo empilhadas aos cantos. Mas não eram as pinturas, por muito realistas que muitas delas fossem retratos, cenas pastorais, episódios da Ilíada e da Odisseia, quadros eróticos que sobressaíam. O que dominava a casa eram as estátuas, que não se encontravam apenas nos nichos e outros locais habituais, diante de colunas e por baixo de arcos. Havia dezenas de estátuas, talvez centenas, de tal maneira amontoadas em algumas salas, que o espaço para passar era apertado. A disposição era absurda; uma Diana de arco e flechas espetava o cotovelo no nariz de um estadista siciliano obscuro, e parecia apontar directamente para a cabeça de um Júpiter sentado a poucos passos de distância, cujo olhar severo era dirigido a um par de veados empinados em tamanho natural, feitos em mármore e impecavelmente pintados, incluindo as manchas brancas que tinham nos flancos. A casa era grande e os compartimentos espaçosos, mas não era um palácio, e teria sido necessário um palácio para guardar de forma adequada uma tão grande quantidade de obras de arte. Assim, eu tinha a peculiar sensação de ter tropeçado numa festa com numerosos convidados ominosamente silenciosos, uma estranha combinação de convivas de bronze e mármore deuses e animais, gauleses moribundos e sátiros às cabriolas, atletas nus e dramaturgos há muito desaparecidos.

 

Era uma espécie de blasfémia, tratar obras de arte, especialmente imagens dos deuses, desta maneira, sem qualquer respeito pelo seu poder incomparável e a sua singularidade. Estremeci.

 

Em nome do Hades, por que me trouxeram aqui? perguntei a Publício.

 

Verás disse ele num tom sussurrado. Verás!

 

Por fim, chegámos ao jardim do centro da casa, onde um homem imensamente gordo, metido dentro de uma túnica vermelha, se levantou de um banco para nos acolher. Uma franja de cabelo branco cercava-lhe a cabeça perfeitamente redonda. Por entre as dobras de gordura que lhe rodeavam o pescoço, entrevia-se uma fieira de pérolas e contas de lápis-lazúli. Anéis de prata e de ouro brilhavam-lhe nos dedos. Entre eles, vi o que me pareceu um anel de ferro de cidadão. Verres não tinha o direito de o usar. O veredicto do tribunal retirara-lhe a cidadania.

 

Publício! Minúcio! Que prazer ver-vos. Bem-vindos a minha casa. Juro por Artemísia que ele está cada vez maior disse Publício

 

entredentes, num tom mais de espanto do que de desdém, e depois, em voz alta: Gaio Verres! Que amabilidade da tua parte dares-nos as boas-vindas. Trazemos-te dois convidados, recém-chegados de Roma.

 

Ah! Roma... Os olhos pequeninos de Verres brilharam. Tão perto, mas tão longe. Um dia...

 

Sim, um dia concordou Publício em tom anelante. E talvez já não esteja assim tão longe, pelo aspecto que as coisas tomam. O mundo está de pernas para o ar.

 

E cuspiu estes dois, disse Verres, olhando para Davo e para mim.

 

Ah, sim, deixa-me apresentar-vos. Gaio Verres, este é Gordiano, chamado o Descobridor.

 

É o pai de Meto acrescentou num sussurro.

 

Se Publício esperava que o nosso anfitrião ficasse impressionado, o gordo desiludiu-o. Verres olhou-me de alto a baixo, como se estivesse a avaliar um objecto cuja aquisição acabava de ser-lhe proposta. A sua indelicadeza era quase refrescante, depois do servilismo obsequioso dos Catilinianos.

 

Da última vez que eu estive em Roma, tu eras conhecido como o cão de caça de Cícero disse com brusquidão. Cuspiu o nome de Cícero como se se tratasse de um insulto.

 

Talvez respondi-lhe friamente. Mas tu saíste de Roma há muito tempo, Gaio Verres. Os Catilinianos contraíram-se. Seja como for, nada tive a ver com o teu julgamento.

 

Verres resmungou. Voltou a sua atenção para Davo e ergueu uma sobrancelha.

 

E este grandalhão?

 

Davo é o meu genro.

 

Verres cruzou os braços e esticou a pele dos seus diversos queixos.

 

Um modelo digno do grande Míron. Gostaria de o ver nu. Mas com que género de adereços? É demasiado adulto para ser Mercúrio. Não tem feições suficientemente inteligentes para passar por Apolo. Não é tão grosseiro que possa ser Vulcano, nem velho e cansado, para passar por Hércules, embora talvez um dia... Não, já sei! Dêem-lhe um elmo e uma espada e pode ser Marte. Sim, especialmente a franzir o sobrolho daquela maneira...

 

Interpretando a expressão de consternação de Davo como um sobrolho franzido de irritação, Publício falou apressadamente.

 

Gordiano e Davo chegaram à cidade há poucos dias. Foi no dia do aríete...

 

Sim, sim, eu sei disse Verres. Por esta altura, já toda a gente ouviu a história aqui em Massília. Dois romanos atravessaram a nado um buraco de ratos inundado de água e foram pescados pelo Bode Expiatório, que anda agora a engordá-los, embora ninguém consiga perceber porquê, já que é o Bode Expiatório que vai acabar, um dia destes, como prato principal.

 

Esta descontraída impiedade induziu um silêncio desconfortável nos dois Catilinianos. Publício mordeu o lábio. Minúcio baixou os olhos.

 

Era óbvio que, dos três, Verres era, de longe, a personalidade mais forte. Fora um tirano e um tirano continuava a ser, ainda que os seus domínios tivessem encolhido, não se estendendo agora para além das paredes da sua própria casa.

 

Muito bem prosseguiu Verres, tenho a impressão de que sei o que vieram cá fazer. Não vieram admirar o meu Júpiter de marfim de Cízico, nem o Apolo que trouxe de Siracusa, nem apreciar a beleza do meu Alexandre efésio, ou aproveitar a rara oportunidade de apreciarem a minha Medusa em miniatura, executada por um aluno de Praxíteles. Sabiam que as serpentes que ela tem na cabeça foram feitas em comalina maciça? São incrivelmente delicadas! A maior não é mais espessa do que o meu dedo mindinho. Os Siracusanos diziam que as serpentes se partiam com toda a certeza se eu me atrevesse a retirá-la do sítio, mas nenhuma delas sofreu o mais leve arranhão na viagem de barco até Roma... e depois até Massília.

 

Fascinante, Gaio Verres disse Publício, num tom que indicava que tinha ouvido a história mais do que uma vez. Mas aquilo que nós viemos efectivamente ver isto é, aquilo que viemos mostrar a Gordiano, para que ele pudesse observá-lo uma vez mais, com os seus próprios olhos...

 

Sim, sim, já sei ao que vieram. Nunca vêm cá para outra coisa. Verres chamou um escravo, falou-lhe num sussurro, e mandou-o embora. O escravo regressou com uma chave de bronze, uma coisa enorme, volumosa, com diversos entalhes, e uma lamparina vacilante. Para que era a lamparina, se o Sol ainda ia alto? Verres pegou na chave e na lamparina e mandou o escravo embora.

 

Sigam-me disse.

 

Saímos do jardim. Percorremos um comprido corredor até às traseiras da casa, onde um lanço de escadas íngremes ia dar a um nível subterrâneo.

 

A passagem subterrânea era tão estreita, que tínhamos de avançar em fila. Verres e os Catilinianos iam à minha frente, e Davo na retaguarda. O chão era irregular e traiçoeiro. A chama vacilante da lamparina de Verres era demasiadamente fraca para nos iluminar os pés, mas iluminava as massas de teias de aranha que pairavam por cima das nossas cabeças. Em certos pontos, o tecto estava descaído; Publício e Davo, que eram os mais altos, tinham de se curvar.

 

Finalmente, a estreita passagem subterrânea terminava numa porta de bronze. Ouviu-se um ruído metálico, quando Verres meteu a chave no buraco de uma fechadura, mexendo-a de um lado para o outro. O percurso não fora especialmente cansativo, mas quer Publício quer Minúcio respiravam com dificuldade. À luz vacilante da lamparina, vi que ambos tremiam.

 

Davo poisou-me a mão no braço e murmurou-me ao ouvido:

 

Sogro, não estou a gostar disto. Quem sabe o que haverá naquele quarto? Pode ser uma prisão. Ou uma câmara de tortura. Ou...

 

Ou um esconderijo, penseieu. Os Catilinianos tinham falado de Meto. Ele fora ter com eles, tinha-os procurado. Disseram-me que tinham uma coisa para me mostrar, uma coisa que eu só poderia ver em casa de Verres. Senti uma súbita excitação irracional, e dei por mim a respirar com tanta dificuldade como eles.

 

A porta abriu-se para dentro, chiando nas dobradiças. Verres entrou, deixando-nos mergulhados na escuridão.

 

Vá, então, entrem disse ele. Publício e Minúcio avançaram, visivelmente abalados. Davo insistiu em passar à minha frente e entrar primeiro que eu. Fui o último a aceder ao comprido e estreito compartimento.

 

Não se tratava de uma prisão nem de uma câmara de tortura, mas a coisa mais lógica e mais óbvia que poderia existir atrás de uma porta de bronze por baixo da casa de um homem rico: uma sala do tesouro. A câmara estava atulhada de caixas de jóias faustosamente ornamentadas e urnas a transbordar de moedas, de pequenas estatuetas de prata e de talismãs esculpidos em pedras preciosas. As paredes estavam cobertas de armas antigas e objectos de carácter militar do género que os coleccionadores apreciam. No meio desta desordem, os meus olhos foram atraídos para uma coisa que se encontrava ao fundo do compartimento. Estava separada do resto, com espaço à volta, para se ver melhor.

 

Reconheci-a imediatamente, e senti uma repentina e dolorosa punhalada de nostalgia. A primeira vez que a vira fora num cenário não muito diferente deste, iluminada por uma lamparina num local mergulhado na escuridão: uma mina a norte de Roma, onde Catilina e o seu círculo íntimo estavam escondidos. Era um objecto de prata, e estava encarrapitado em cima de uma estaca alta, adornada com um galhardete vermelho e dourado. No meio da obscuridade, ergui os olhos para a águia de bico elevado e asas abertas. Se não fosse o brilho da prata, podia bem ser uma ave real, imobilizada em glória.

 

A águia, o estandarte de Catilina sussurrei.

 

Ainda te lembras! disse Publício.

 

Claro que me lembrava. Como poderia esquecê-la? A última vez que a vira estava a ser derrubada em Pistória, perdida no caos da batalha, marcando o local onde Catilina caíra.

 

Publício tocou-me no braço e sussurrou-me ao ouvido:

 

Era disto que o teu filho vinha à procura. Era esta a verdadeira natureza da sua missão em Massília!

 

Eu fixei os olhos na águia, fascinado pelo jogo de luz e sombras nas suas asas abertas.

 

O que foi que disseste? Não compreendo.

 

Antes de Catilina, era Mário quem transportava o estandarte da águia, Mário, o mentor e herói de César na sua campanha contra os Teutanos e os Cimbros aqui da Gália.

 

Isso foi há muito tempo disse eu.

 

Sim, antes de César ter nascido. Mário derrotou os Teutanos e os Cimbros. Voltou a Roma em triunfo, com o estandarte da águia. Anos mais tarde, preparava-se para levá-lo de novo para a guerra contra Mitrídates, no Oriente. Mas nessa altura Sula, que fora seu lugar-tenente, voltou-se contra ele e houve a guerra civil. Sula marchou sobre Roma! Por fim, Mário foi morto e o estandarte da águia caiu nas mãos de Sula, que estavam manchadas de sangue. Ele tornou-se ditador, mas só durante algum tempo, porque não tardou a morrer, consumido pelos vermes nascidos da sua própria carne. Uma morte horrível, mas ele não merecia outra coisa; os deuses trataram-no com justiça. E depois ninguém sabe exactamente como, o estandarte da águia passou para as mãos de Catilina.

 

O Libertador! exclamou Minúcio, batendo no peito com o punho cerrado.

 

Durante muitos anos, Catilina guardou-o em segredo, esperando pela sua hora prosseguiu Publício.

 

Eu acenei com a cabeça.

 

Cícero dizia que Catilina guardava a águia de Mário num compartimento secreto e se inclinava diante dela antes de conspirar os seus crimes.

 

O criminoso era Cícero! disse Publício com veemência.

 

Um homem como ele nunca teria sido capaz de compreender o verdadeiro poder do estandarte da águia. Catilina manteve-o guardado em lugar seguro até chegar o momento de o levar de novo para o campo de batalha, contra as mesmas forças que Mário tinha combatido, os opressores dos fracos, os profanadores dos puros, os embusteiros que enchem o Senado e troçam das virtudes que engrandeceram Roma.

 

Numa voz esbaforida e impaciente, Minúcio prosseguiu a história.

 

Mas ainda não chegara o momento.

 

Catilina foi prematuro; a sua causa estava condenada. Só restámos nós, os poucos que fugimos para Massília, para preservar a sua memória, e os deuses permitiram que as serpentes que governavam o Senado dominassem mais algum tempo. Os assassinos de Catilina cortaram a cabeça do Libertador, e exibiram-na em triunfo... mas nunca chegaram a encontrar o estandarte da águia! De contrário, tê-lo-iam destruído, fundido, reduzido a um pedaço de prata disforme, e lançado ao mar. Mas a águia enganou-os.

 

Procurámo-la durante anos disse Publício, empurrando o colega, agarrando-me no braço e aproximando a cara da minha. Contratámos agentes, oferecemos recompensas, seguimos pistas falsas...

 

Aqueles que tentaram enganar-nos arrependeram-se! exclamou Minúcio.

 

Mas a águia tinha desaparecido. Desesperámos...

 

Alguns de nós perderam a esperança...

 

Receámos que os nossos inimigos a tivessem efectivamente descoberto, e destruído. Publício susteve a respiração e voltou a cabeça para olhar a águia de prata. Afinal, estava aqui! Aqui em Massília, a salvo nesta cave! Escondida debaixo da terra, na escuridão, atrás de uma porta de bronze. Como se a águia soubesse onde devia comparecer ao encontro marcado com o seu próximo proprietário.

 

Ergui os olhos para a águia, e depois para Verres, que estava atrás de Minúcio e Publício, e que apertou os lábios mas nada disse.

 

Quer dizer que Gaio Verres é o vosso actual chefe? perguntei.

 

Claro que não! disse Publício. Verres é apenas o guardião do estandarte, a quem ele foi confiado para que o entregue ao seu próximo e verdadeiro proprietário. Não há lugar melhor para ela, pelo menos temporariamente, do que aqui, esquecida pelo mundo inteiro e a salvo dos seus inimigos.

 

Eu acenei com a cabeça.

 

E quem é o seu próximo e verdadeiro proprietário?

 

Mas não é óbvio? É César, naturalmente. César completará aquilo a que Mário e Catilina deram início. César abolirá o Senado; já os obrigou a exilarem-se. César vai restaurar o Estado romano...

 

Vai restaurar o mundo! exclamou Minúcio.

 

É esse o seu destino. E fa-lo-á sob este estandarte. Quando as muralhas de Massília caírem e a cidade abrir as suas portas a César, e o imperador em pessoa as atravessar, resplandecente de glória, a águia estará aqui, à sua espera. Achas que foi mera coincidência que Massília tenha sido o primeiro destino de César, depois de ter tomado Roma? Oh não! Já lhe tinha chegado aos ouvidos o rumor de que o estandarte da águia de Mário se encontrava aqui em Massília. Ele veio procurá-lo. Mas os Timoukoi colocaram-se do lado de Pompeu e fecharam as suas portas a César. Loucos! Para obter aquilo que lhe pertence por direito, César foi obrigado a sitiar a cidade. Mas um homem como César pode recorrer a instrumentos mais subtis do que catapultas e torres de cerco. Enviou o teu filho Meto, que tinha combatido ao lado de Catilina para confundir os inimigos de César e encontrar o estandarte da águia, que havia desaparecido.

 

E agora vieste tu sussurrou Minúcio. O pai de Meto! Tu, que também lutaste ao lado do Libertador. Quando César vier tomar Massília, tu estarás aqui e assistirás ao momento em que ele tomar posse do estandarte da águia. Estás a ver como os deuses conduzem bem as coisas? Os fios com que eles tecem as nossas vidas mortais são como um padrão, que só é visível dos céus; aqui na terra, nós apenas podemos adivinhar os seus desígnios. Abanou a cabeça e sorriu, divertido com o carácter maravilhoso de tudo aquilo.

 

Subitamente, a estreita cave pareceu-me apertada e abafada, e os tesouros espalhados neste compartimento tão espalhafatosos como a massa de estátuas amontoadas nas salas por cima das nossas cabeças. O próprio estandarte da águia, brevemente investido de magia pelo entusiasmo simples destes acólitos, era afinal mais um objecto entre tantos, belo e precioso mas feito por mãos humanas com um objectivo demasiadamente humano, agora reduzido a um entre mil objectos do inventário de um avaro despudoradamente ganancioso. Abanei a cabeça.

 

O que me importa tudo isso? O meu filho morreu.

 

Publício e Minúcio trocaram um olhar entendido. Publício pigarreou.

 

Mas não estás a perceber, Gordiano. É nisso que te enganas. O teu filho não está morto.

 

Eu olhei para ele emudecido. Pelo canto do olho, vi uma ponta de luz criar a ilusão de que a águia de prata se tinha movido.

 

O que foi que disseste?

 

Meto não morreu. Oh, sim, toda a gente pensa que morreu; menos nós. Porque nós vimo-lo.

 

Viram-no? Com vida? Onde? Quando? Minúcio encolheu os ombros.

 

Mais do que uma vez, desde que supostamente se afogou. Aparece onde menos esperamos. Parte da sua missão é preparar o caminho para César e, para isso, a águia de prata tem de estar pronta, evidentemente...

 

Para o Hades com a águia de prata! gritei. Davo apertou-me o braço para me conter. Para o Hades com César, onde pode bem ir juntar-se a Catilina, que isso pouco me importa! Onde está Meto? Onde é que eu posso vê-lo?

 

Eles encolheram-se como se eu lhes tivesse batido, ergueram os olhos para a águia, e depois desviaram-nos, como se tivessem vergonha de ter trazido um blasfemo à sua presença.

 

Sofreste muito, Gordiano disse Publício por entredentes. Reconhecemos o teu sacrifício. Ainda assim, não pode haver desculpa para semelhante impiedade.

 

Impiedade? Vocês trazem-me a esta... a uma... não conseguia pensar em nenhuma palavra que descrevesse adequadamente a casa de Gaio Verres - e acusam-me de impiedade! Quero ver o meu filho. Onde está ele?

 

Não sabemos disse Minúcio em tom submisso. Ele vem ter connosco onde e quando lhe parece mais adequado. Tal como Catilina...

 

O quê?

 

Oh, sim, vemos Catilina com bastante frequência, aqui nas ruas de Massília. Minúcio abanou a cabeça. Dizes que ele está no Hades, mas estás enganado. O seu lémure nunca repousou, nunca abandonou a terra, desde a batalha de Pistória. Ele tinha planeado vir aqui em vida, e o seu lémure viajou até cá na morte. Às vezes, toma a forma de um adivinho, escondendo-se dentro de uma capa com capuz, para que ninguém possa ver-lhe o rosto, nem a cicatriz da ferida que lhe separou a cabeça dos ombros...

 

Lembrei-me do adivinho que tinha aparecido subitamente no templo de xoanon Artemísia e seguira viagem connosco até à floresta destruída dos arredores de Massília, aquele a quem os soldados romanos chamavam, em tom de troça, Rábido. A figura encapuçada tinha-me dito: Neste sítio, nada é o que parece. Nada foi, depois, para os soldados: Eu sei o que foi que o romano veio cá fazer Veio à procura do filho. Digam ao romano que se vá embora. Não tem nada afazer aqui. Não pode ajudar o filho...

 

De repente, o subterrâneo ficou frio como um túmulo. Eu estremeci e cerrei os dentes, para os impedir de bater.

 

Quer dizer que Meto vos procura... Tinha um aperto na garganta que me dificultava a fala. Que Meto vos procura como lémure. Tal como Catilina?

 

Publício encolheu os ombros. A sua voz estava agora calma, abandonada toda a irritação.

 

Quem sabe? O que importa? Meto desempenhou o seu papel na história do estandarte da águia, tal como Catilina, antes dele; como tu podes ainda desempenhar o teu, Gordiano. Senão, como explicas que os deuses te tenham enviado a Massília?

 

De factomurmurei eu. Sentia-me vazio, como me tinha sentido nas horas mais penosas que passara em casa do Bode Expiatório, vazio de ira, de esperança, até do desdém que sentia por estes discípulos afectados e pelo seu estranho culto. Olhei para além deles, para Verres, que me devolveu o olhar com uma expressão sardónica, quase incapaz de conter o riso. Nem sequer conseguia ter energia suficiente para sentir aversão por ele. Não sentia nada.

 

Leva-me daqui, Davo, sussurrei. Preciso de respirar. Saímos do compartimento, mas era Verres que segurava a lamparina

 

e, sem ela, a passagem era negra de breu. Lembrei-me do túnel inundado e senti-me tonto. Esperámos que Verres trancasse a porta de bronze, depois encostámo-nos à parede enquanto ele passava desajeitadamente para a nossa frente. O contacto forçado com o seu corpo volumoso repugnou-me. O cheiro do seu perfume, misturado com o do suor e do fumo da lamparina, era nauseabundo.

 

Subimos as escadas, emergimos na casa, e prosseguimos para o jardim, depois para a entrada, sem uma palavra. À porta, os catilinianos hesitaram. Se tinham mais alguma coisa a dizer, eu não estava com disposição para os ouvir.

 

Não precisam de me acompanhar a casa de Jerónimo disse eu. Davo e eu conseguimos encontrar o caminho.

 

Nesse caso, vamos andando disse Minúcio.

 

Cada um deles me apertou uma mão, olhando-me nos olhos.

 

Tem força, Gordiano disse Publício. O momento da nossa libertação chegará muito em breve. Todas as perguntas encontrarão resposta. Depois, partiram.

 

Eu vacilei, sentindo-me ligeiramente tonto. Davo segurou-me no braço.

 

Atrás de mim, Verres riu-se.

 

São ambos completamente loucos, claro disse. E não são os únicos. Há vários fanáticos destes aqui em Massília, fiéis a Catilina e àquilo a que chamam o seu sonho. Já viste uma coisa assim? São completamente loucos, todos eles.

 

Eu voltei-me para ele.

 

E tu, Gaio Verres? Que palavra utilizarias para descrever a tua pessoa?

 

Ele encolheu os ombros.

 

Aquisitivo, suponho. E astuto espero. Há dez anos, quando um dos meus contactos em Itália me propôs a venda daquele estandarte da águia, pensei que podia ser um bom investimento era certamente uma aquisição singular, mas não fazia ideia de que pudesse um dia permitir-me comprar o meu regresso a Roma.

 

O que estás tu a dizer?

 

Os nossos dois amigos poderão ser loucos, mas numa coisa têm razão: César quero estandarte da águia. Oh, não é por motivos místicos. Nem por razões políticas; os antigos apoiantes de Mário já se juntaram todos do seu lado. Não, é por razões sentimentais. Afinal, Mário foi o seu mentor, e era seu conterrâneo; e Catilina era seu amigo. Eu sempre desconfiei de que César teria apoiado Catilina abertamente, se o momento fosse oportuno.

 

Aqueles dois acham que César veio direito a Massília buscar a águia. Verres riu-se.

 

Qualquer pessoa que saiba ler um mapa percebe por que motivo César fez o desvio que o trouxe aqui: Massília fica a caminho de Espanha, onde César tinha de ir resolver o problema das tropas de Pompeu antes de poder dar os passos seguintes. Ainda assim, ele quer o estandarte da águia e, por acaso, ele pertence-me. Semelhante prémio valerá certamente a redenção de um exilado inofensivo como eu.

 

Esperas que César te devolva a cidadania em troca da águia?

 

Parece-me um negócio razoável.

 

Quer dizer que te limitas a usar os Catilinianos.

 

Da mesma maneira que eles esperam usar-me. Eles repugnam-me. Calculo que também tenham repugnância por mim. Mas temos uma coisa em comum: todos nós temos saudades de casa. Queremos voltar para Roma. Queremos voltar para casa.

 

Também eu, Gaio Verres sussurrei. Também eu.

 

Davo e eu regressámos a casa do Bode Expiatório. Eu tinha a cabeça num tumulto. Afirmando descuidadamente terem visto Meto depois da sua queda no mar, os Catilinianos tinham suscitado em mim esperanças cruéis, a seguir desfeitas. Eram loucos, como Verres tinha dito. E, contudo... uma parte de mim agarrava-se a esta migalha de esperança, mesmo diminuta, de que Meto estivesse vivo. Seria o facto de não ter visto o seu corpo morto que me impedia de aceitar o facto inelutável da sua morte? A incerteza abria caminho à dúvida, e a dúvida à esperança; mas a falsa esperança era mais cruel do que a dor do conhecimento seguro.

 

O que pensar da referência dos acólitos às aparições de uma figura encapuçada que afirmavam tratar-se do lémure inquieto de Catilina, cuja aparência era estranhamente semelhante à do adivinho encapuçado a quem os guardas romanos chamavam Rabidoeria realmente sido com o espírito de Catilina que eu me encontrara nos bosques à entrada de Massília? Teria o próprio Catilina, conhecedor da morte do meu filho, tentado advertir-me de que não devia entrar na cidade?

 

Eu imaginava Meto, uma vez e outra, a cair do alto da muralha. A imagem confundia-se com a memória da mulher que tínhamos visto subir aos tropeções a encosta da colina, para em seguida desaparecer, quer por ter sido empurrada, quer por ter saltado ou caído...

 

Percorria as ruas de Massília confuso, só vagamente consciente do que me rodeava, permitindo a Davo que dirigisse os nossos passos. Quando ele me tocou no braço e me sussurrou ao ouvido, tive um sobressalto.

 

Não estou bem certo, sogro, mas tenho a impressão de que estamos a ser seguidos.

 

Eu pestanejei e olhei em volta, apercebendo-me pela primeira vez da presença de outros transeuntes. Andavam pela rua mais pessoas do que me parecera. A vida prosseguia em Massília, apesar do cerco.

 

Seguidos? Por que dizes isso?

 

Há dois sujeitos que parecem estar sempre uns cem passos atrás de nós. Acabamos de completar uma volta à casa de Verres e eles continuam a seguir-nos.

 

Voltei-me e vi que nos encontrávamos de novo diante da porta da casa de Verres. Estava de tal maneira embrutecido, que nem sequer tinha reparado que Davo me fizera andar em círculos.

 

E estão a aproximar-se?

 

Não, parece-me que mantêm a mesma distância. E tenho a impressão...

 

Sim.

 

Tenho a impressão de que já nos tinham seguido, quando saímos de casa do Bode Expiatório. Nessa altura, não tive a certeza. Mas devem ser os mesmos dois.

 

São provavelmente funcionários dos Timoukoi, que andam de olho nos convidados romanos do Bode Expiatório disse eu. Se as autoridades nos mantêm sob vigilância, não podemos fazer grande coisa. Reconhece-los? Já os terás visto, por exemplo, entre os soldados de Apolónides?

 

Davo abanou a cabeça.

 

Estão longe demais para eu conseguir observá-los bem. Franziu o sobrolho. E se não forem dos Timoukoi? E se alguém nos tiver mandado seguir?

 

Não me parece provável. Ou parecia? Se eu tinha aprendido alguma coisa desde a minha chegada a Massília, era a esperar o inesperado.

 

Olhei para trás, tentando fazê-lo de forma descomprometida.

 

As quais te referes? Davo abanou a cabeça.

 

Não estão à vista. Esconderam-se. Mas, sogro... não vimos já aquele? Voltei a cabeça e segui o olhar de Davo, na direcção de uma ruela

 

lateral, onde um grupo de cerca de 20 mulheres, todas de cestos vazios nas mãos, se tinha reunido diante da montra fechada de uma loja, sussurrando com expressões furtivas, atraídas o facto era dolorosamente óbvio pela promessa de um qualquer agente do mercado negro, de rações de contrabando, à venda em certo local, a determinada hora. O que pensariam os Timoukoi daquilo?

 

Vejo muitas mulheres, Davo, mas não vejo nenhum homem.

 

Ali, logo a seguir às mulheres, de capuz. É o adivinho que conhecemos à entrada de Massília!

 

Sustive a respiração. A figura só se avistava por vislumbres, e no entanto, tal como Davo, eu percebi imediatamente que se tratava do adivinho. Mas era impossível; como podia ele ter penetrado nas muralhas da cidade? A nossa imaginação estava a pregar-nos partidas; os Catilinianos tinham feito referência a um visitante encapuçado, e isso trouxera o adivinho para o primeiro plano dos nossos pensamentos. A figura nem sequer devia ser um homem; seria simplesmente mais uma mulher, que se mantinha um pouco afastada da multidão. E, no entanto...

 

Avancei na direcção da ruela e dirigi-me ao grupo de mulheres. Davo seguiu-me. Teria apenas imaginado que a figura encapuçada que estava a seguir à multidão teve um repentino sobressalto?

 

Davo agarrou-me o braço. Eu tentei sacudi-lo, mas ele apertou-mo ainda mais.

 

Sogro, lá estão eles outra vez os dois homens que têm andado a seguir-nos. Atrás do adivinho, na extremidade da rua. Devem ter ido dar a volta.

 

Vi os dois homens a que Davo se referia. Estavam demasiadamente longe de mim para que pudesse ver-lhes as caras, e vestiam túnicas castanhas simples, sem nada que os distinguisse. Virando a cabeça, a figura encapuçada também pareceu tê-los avistado, e teve outro sobressalto. Eu tentei avançar em direcção a ele, passando pelo ajuntamento de mulheres. A minha expressão deve tê-las alarmado; ouvi exclamações em grego, falado com demasiada rapidez para que conseguisse percebê-lo, e elas começaram a dispersar como passarinhos assustados. Pensaram que Davo e eu éramos funcionários enviados pelos Timoukoi com a missão impedir as transacções de mercado negro.

 

Por momentos, tudo foi confusão, e de repente a estreita ruela ficou deserta. As mulheres tinham desaparecido. Bem como os dois homens que estavam na outra ponta da rua. Bem como a figura encapuçada se de facto lá tinha estado.

 

Nessa noite, sonhei com o dia da toga de Meto, o dia em que ele fizera 16 anos e vestira pela primeira vez a toga da masculinidade, para dar um passeio pelo Fórum, em Roma. Na noite anterior, entrara em pânico e sentira-se paralisado pela dúvida; como poderia um rapaz que nascera escravo vir a ser um verdadeiro romano? Mas eu tinha-o consolado, na manhã do dia marcado, o meu coração inchara de orgulho ao vê-lo percorrer o Fórum, cidadão entre cidadãos.

 

No meu sonho, tudo era exactamente como tinha sido naquele dia, à excepção do facto de eu não conseguir ver a cara de Meto; era estranho, mas não o via de todo, porque havia uma espécie de hiato na minha visão, uma ausência, uma névoa vazia no sítio onde ele devia estar. Contudo, o Fórum de sonhos por onde avançava a nossa pequena comitiva era, de alguma maneira, ainda mais nítido do que a vida, super-real, cheio de cor e de ruído. Passámos pelos grandes templos e atravessámos espaços públicos. Subimos a comprida escadaria que ia dar ao alto do Monte Capitolino, e quem havia de se cruzar connosco, senão um grupo de senadores, entre os quais, nada mais nada menos do que César Como político que era, sempre ansioso por estar nas boas graças de potenciais apoiantes, César felicitou Meto pelo dia da sua toga, embora mal tivesse olhado para ele. Teria sido a primeira vez que César e Meto se encontravam face a face? Devia ter sido. Quem poderia ter imaginado então quão intimamente se entrelaçariam os destinos de ambos?

 

No meu sonho, César era especialmente nítido. O seu rosto era quase uma caricatura de si próprio, os malares elevados e a testa altiva ligeiramente exagerados, os olhos vivos brilhando febrilmente, os lábios finos num sorriso característico, como que suscitado por alguma piada secreta que apenas César e os deuses conhecessem.

 

Os senadores passaram. A nossa comitiva prosseguiu. No alto do Capitolino, o meu velho amigo Rufo observou os auspícios, pesquisando o céu em busca de aves onde pudesse ler a vontade dos deuses. Esperámos muito tempo, porque não surgia pássaro algum, fosse de que espécie fosse. Finalmente, uma enorme forma alada atravessou os céus como um relâmpago, vindo poisar aos nossos pés. A águia olhou para nós, e nós para ela. Eu nunca vira uma águia tão ao pé. Estava tão perto que, se me atrevesse a estender a mão, conseguiria tocar-lhe. Subitamente, com um majestoso bater de asas, partiu. O que significava aquilo? A águia era o mais divino dos pássaros, o favorito de Júpiter. De acordo com Rufo, o facto de um deles ter sido avistado no dia da toga de Meto, e em especial tão de perto, era o melhor de todos os augúrios. No entanto, já nessa altura eu me sentira vagamente apreensivo; mais tarde, quando Meto viu o estandarte da águia de Catilina, pareceu-lhe que se tratava de outro sinal da vontade dos deuses, de uma marca do seu destino, e penso que deve ter sido nesse instante que verdadeiramente se tornou homem, ou seja, que se colocou irrevogavelmente fora do meu controlo, e em perigos dos quais eu nunca mais poderia protegê-lo.

 

Subitamente, fui transportado, como acontece nos sonhos, para um local completamente diferente. Estava na câmara de tesouros que ficava por baixo da casa de Gaio Verres, no meio do amontoado de moedas brilhantes e artefactos incrustados de jóias. Parecia-me que Meto também estava ali, mas invisível. O estandarte da águia avultava-se diante de nós, com vivacidade inquietante até que, de repente, a águia ganhou vida! Soltou um guincho e bateu as asas, tentando levantar voo naquele espaço apertado, agitando-se exasperada, lacerando o ar com o bico e as garras em forma de punhal. Eu tapei os olhos, O sonho transformou-se num pesadelo de gritos, sangue e confusão.

 

Depois acordei.

 

Davo abanava-me suavemente.

 

Sogro, acorda! Está a passar-se uma coisa importante.

 

O quê? Abanei a cabeça, confuso e sem saber bem onde me encontrava.

 

Chegou um navio durante a noite...

 

Um navio?

 

Conseguiu passar o bloqueio romano. É um navio mensageiro. Estão a chegar reforços navios cheios de soldados enviados por Pompeu!

 

O pesadelo pegava-se a mim como teias de aranha. Sentei-me, estendi a mão, às cegas, para o jarro que tinha ao lado da cama, e borrifei a cara com água. O quarto estava sombrio, mas não estava completamente mergulhado na escuridão, já que era iluminado pelo vago brilho que antecede a aurora. Por um instante fugidio, pareceu-me, para além de qualquer dúvida, que Meto se encontrava no quarto. Olhei em volta e, embora não o visse, tive a certeza de que ele devia estar ali presente, ainda que de algum modo invisível. Davo viu-me olhar fixamente o espaço e franziu o sobrolho.

 

Sogro, estás doente?

 

Eu demorei algum tempo a responder.

 

Não, Davo. Não estou doente. Só me dói o coração... Isto pareceu descansá-lo.

 

Nesse caso, é melhor levantares-te. Toda a cidade está acordada, embora ainda não tenha amanhecido. As pessoas andam pelas ruas, em cima dos telhados, penduradas das janelas, a chamar-se umas às outras. Eu não percebo grego, mas Jerónimo diz...

 

Jerónimo diz que a madeira apodreça e Poseidon os leve! O nossa anfitrião estava à porta, com uma expressão sombria no rosto.

 

Eu pigarreei.

 

É verdade, o que Davo me disse? Que chegou um navio durante a noite?

 

Um navio mensageiro, de velocidade. Aparentemente, conseguiu passar pelo bloqueio e entrou no porto sem ser visto pelos romanos. É espantosa a rapidez com que a notícia se espalhou pela cidade, como um incêndio saltando de telhado em telhado.

 

E há mais navios a caminho?

 

É o que dizem os boatos. Um dos almirantes de Pompeu chegou a uma guarnição costeira de massilianos chamada Taurois, a poucas milhas para norte. Dizem que tem 18 galeras está ao nível da frota de César. Suspirou, com ar sombrio. Anda, Gordiano. Veste-te e vem tomar o pequeno-almoço comigo.

 

Eu esfreguei os olhos e perguntei a mim próprio qual seria mais precário, o sonho que eu tinha deixado ou aquele para o qual despertara. Voltaria a haver um tempo em que pudesse acordar de manhã e saber exactamente, com abençoada e entediante previsibilidade, o que cada hora do dia traria consigo?

 

Tomámos o pequeno-almoço no terraço do telhado. Era um local privilegiado, cujo soberbo isolamento sobre uma paisagem distante conferia um sentimento de reclusão, embora a palpável excitação da cidade até ali chegasse. De baixo, da rua, subiam pedaços de conversas de transeuntes, especulando sobre a dimensão e a qualidade dos esperados reforços, prevendo a aniquilação da armada que efectuava o bloqueio, gozando a terrível vingança que seria exercida contra as forças de César. Umtrompeteiro tocou o seu instrumento na rua; um pregoeiro anunciou que todos os escravos ficavam confinados às respectivas casas e que os cidadãos capazes deviam apresentar-se imediatamente nas docas, por ordem dos Timoukoi. Dos templos próximos, saíam cantos de louvor à estranha xoanon Artemísia dos Massilianos e ao seu irmão, Ares. Ao longo da muralha que dava para o mar, uma corrente regular de mulheres, crianças e velhos caminhava em direcção às torres dos bastiões, subindo as escadas em caracol e desfilando depois pelo parapeito.

 

Foi assim que as coisas se passaram quando a armada massiliana saiu para o mar, para se apoderar dos navios de César? perguntei ajerónimo.

 

Ele seguiu a direcção do meu olhar, e contemplou igualmente a muralha.

 

Exactamente. Todos os não combatentes se reuniram na muralha, a assistir. Parados como estátuas, espreitando para o mar, ou formando pequenos grupos, ou andando nervosamente de um lado para o outro. Lacerados entre a esperança e um medo terrível de que as coisas corressem mal como correram, da última vez. Um leve e sardónico sorriso curvou-lhe os lábios. Reparaste que alguns levaram cobertores e guarda-sóis, e até pequenas cadeiras portáteis? Vieram preparados para estar ali o dia todo. Da última vez, aqueles espectadores também levaram cestos de comida. Observar homens a matarem-se uns aos outros faz fome. Mas hoje não vejo ninguém com cestos. Calculo que as rações não cheguem. Queres mais pão, Gordiano? E uma tâmara recheada?

 

A luz oblíqua do Sol em ascensão incidia na face da Rocha do Sacrifício. Embora desse a ideia de que o seu cume proporcionaria a melhor vista possível do porto e das águas para além dele, os espectadores evitavam-no, preferindo os parapeitos feitos pelo homem.

 

Sabes, Davo disse eu, tive um súbito impulso de ver a Rocha do Sacrifício.

 

Podemos vê-la daqui.

 

Pois podemos. Mas eu quero observá-la mais de perto. Davo franziu o sobrolho.

 

Apolónides disse-nos que era proibido ir até lá. É um terreno sagrado, enquanto o Bode Expiatório estiver... Apercebeu-se do que tinha dito e desviou os olhos de Jerónimo.

 

Eu acenei com a cabeça.

 

E nós mantivemo-nos obedientemente longe. Até agora. Noutro dia qualquer, se fôssemos meter o nariz na muralha e na Rocha do Sacrifício, teríamos chamado imediatamente as atenções. Ter-nos-iam mandado sair de lá, talvez até nos tivessem detido. Mas hoje, com as autoridades distraídas e tanta gente na rua, talvez possamos aproveitar-nos da multidão e da confusão por ela gerada. Meti na boca outra tâmara recheada e saboreei-a. Come bem, Davo. É possível que não voltemos a comer tão cedo; não seria razoável levar comida para o meio de uma multidão faminta e obrigada a passar sem ela.

 

Lá fora, na rua, ninguém pareceu reparar em mim, mas Davo atraiu olhares curiosos. Os escravos estavam proibidos de sair de casa e todos os cidadãos capazes tinham sido convocados para as docas. Para além da mão-cheia de soldados estacionados aqui e ali, a fim de manterem a ordem, não se via mais nenhum jovem entre as mulheres, crianças e velhos que se dirigiam às muralhas. Os ombros largos e a estatura possante de Davo chamavam a atenção.

 

Mas ninguém nos impediu de nos misturarmos com as outras pessoas que se dirigiam para a torre de bastião mais próxima, a fim de subirem a escada que ia dar às ameias. Fora dentro desta torre que desaparecera o soldado da capa azul depois de a mulher ter mergulhado no precipício. Fora por estes degraus que ele fugira ao seu crime, se de crime se tratara. Nós estávamos a percorrer o mesmo caminho que ele, mas em sentido contrário. Cada um dos nossos passos nos aproximava mais da Rocha do Sacrifício.

 

A meio da subida, fiz uma pausa para recuperar o fôlego. Davo esperou ao meu lado, enquanto os outros iam passando.

 

Algum sinal das sombras que ontem nos seguiram? perguntei, espreitando para o centro oco da escadaria.

 

Que eu tivesse visto, não respondeu Davo. Os dois homens que ontem vi salientar-se-iam quase tanto como eu no meio desta multidão.

 

Prosseguimos e em breve saíamos do bastião para a plataforma que corria ao longo das ameias. À nossa direita, na direcção do mar, as pessoas comprimiam-se ao longo da muralha exterior, empurrando-se umas às outras para conseguirem melhores lugares. Voltei-me e olhei na direcção oposta, para a crista de colinas e o amontoado de telhados que constituíam acidade. Procurei a casa do Bode Expiatório em vão, até Davo ma apontar; nessa altura, vi claramente a figura de Jerónimo, vestido de verde e sentado no terraço do telhado de sua casa, rodeado de árvores altas. Se nos viu, ele não deu sinais disso. Para além da linha de edifícios da cidade, vi o cume da colina onde Trebónio estabelecera o seu acampamento, e de onde o comandante estaria indubitavelmente, neste preciso momento, a vigiar a cidade, e o mar para além dela.

 

De frente para o mar, apenas conseguia ter uns vislumbres de azul por entre a multidão. Davo conseguia espreitar por cima do aglomerado de pessoas, e disse-me que via desde a entrada do porto até às ilhas do mar alto, e mesmo para além delas. De costas para a muralha, o número de pessoas era suficientemente escasso para nos permitir avançar na direcção da Rocha do Sacrifício, que se foi avolumando diante de nós à medida que nos aproximávamos. O desgastado dedo de calcário era branco, com manchas de cinzento e faixas de preto descendo ao longo de suaves reentrâncias e contornos sinuosos. Era mais alto do que a muralha, e prolongava-se para o exterior, suspenso sobre o mar como a proa saliente de um navio. À medida que nos aproximávamos da rocha, a multidão ia ficando cada vez menos compacta; as secções da muralha que ficavam mais perto da rocha estavam completamente vazias. Certamente que os Massilianos se mantinham afastados por temor e respeito supersticioso pela santidade da rocha, mas também havia outra razão, de carácter mais prático: para lá de um certo ponto, a rocha suspensa obscurecia a visão das ilhas que ficavam para além do porto e bloqueava por completo a visão da entrada do porto.

 

Nos pontos onde a muralha confinava com a rocha, as pedras tinham sido habilmente recortadas, por forma a preencherem a lacuna, de tal maneira que a rocha formava uma protuberância sobre as ameias, constituindo uma espécie de caverna superficial. Tínhamos visto o homem da capa azul saltar da rocha para a muralha. Descobri o local aproximado para onde ele devia ter saltado e ergui os olhos para o lábio suspenso da rocha. O salto da rocha para a muralha era de, pelo menos, dez pés, talvez mais. Recordei-me de que o homem tinha tropeçado ao saltar, correndo para a torre de bastião a coxear, apoiado preferencialmente na perna esquerda.

 

Inicialmente, pareceu-me que tínhamos chegado a um beco sem saída, e que a única maneira de ascender à zona de rocha suspensa, passando por ela, chegar à extensão seguinte de muralha era escalá-la. Mas não era bem assim. No canto da esquerda, onde a muralha confinava com a rocha do lado da cidade, a parte saliente formava um declive, recuando consideravelmente. Aí tinham sido toscamente escavados na pedra uns degraus pouco profundos, alguns pouco maiores do que dedos dos pés. Era necessário dar um passo considerável, na oblíqua e sobre uma queda acentuada, para chegar ao primeiro degrau, e os que se seguiam estavam erraticamente espaçados e pareciam formar um percurso sinuoso, tendo sido escavados mais de acordo com os peculiares contornos da rocha do que para se adequarem à dimensão dos passos de um homem. Para subir ou descer da rocha por meio destes degraus, seria necessário um grau considerável de agilidade e de força, já para não falar de coragem e paciência, e devia ter sido por isso que o homem da capa azul os tinha ignorado, preferindo o atalho que consistia em saltar directamente para a muralha.

 

Davo olhou para mim e ergueu uma sobrancelha.

 

Queres que eu vá à frente, sogro? Terei menos dificuldade em chegar àquela primeira reentrância. Depois, posso dar-te uma ajuda, se precisares.

 

Se eu precisar? Estás a ser muito diplomata, Davo. Mesmo que tivesse a tua idade, hesitaria em dar o primeiro passo. Então despacha-te, agora que ninguém está a ver.

 

Olhei rapidamente para a multidão, por cima do ombro, e depois suspendi a respiração enquanto Davo erguia os braços para agarrar a face da rocha com ambas as mãos, levantava o pé esquerdo para se apoiar no primeiro degrau e içava o corpo, fazendo-o oscilar brevemente para fora, sobre um recanto vazio que ficava entre a rocha e a muralha. Fez uma pausa, testando o equilíbrio e calculando o movimento seguinte, depois oscilou para cima e para trás, novamente sobre o vazio, e ergueu o pé direito até ao degrau seguinte. A manobra permitiu-lhe transferir o centro de gravidade bem para cima da rocha, e ouvi-o soltar um suspiro de alívio um instante antes de mim.

 

Agora tu, disse e estendeu-me a mão. Se o seu braço fosse ligeiramente mais curto, eu não lhe teria chegado.

 

Apertou-me a mão com força. Com a outra, eu agarrei-me à face da rocha e levantei o pé esquerdo o mais que podia. O degrau estava ligeiramente acima do que eu conseguia atingir mas Davo puxou-me com firmeza e ergueu-me o suficiente para que os meus dedos dos pés deslizassem sobre a reentrância. Dei um impulso para cima e oscilei sobre o vazio, sentindo-me repentinamente enjoado e perdido.

 

Devagar sussurrou Davo. Não desvies os olhos da rocha, não olhes para baixo. Estás a ver o degrau seguinte?

 

Estou.

 

Não é tão longe como parece.

 

Não sei por quê, mas isso não me descansa muito.

 

Davo continuava a apertar-me a mão com firmeza. Eu levantei o pé direito, procurei desajeitadamente o degrau e encontrei-o. Dei outro impulso sobre o vazio e, por um instante vertiginoso, tive a certeza absoluta de que, se Davo não estivesse a agarrar-me a mão, teria perdido o equilíbrio e caído. Olhei para baixo. Era uma queda a pique quase até lá ao fundo. Um corpo em queda acabaria por embater na muralha ou na rocha, ressaltando depois entre as duas. Fechei os olhos e engoli em seco.

 

Momentos depois, estava em segurança em cima da Rocha do Sacrifício, tendo recuperado o equilíbrio. Mais um passo fácil para cima, e estava no lábio saliente da rocha, sobre uma superfície relativamente horizontal.

 

Davo soltou-me a mão e avançou de joelhos à minha frente. Eu trepei atrás dele.

 

A vista da Rocha do Sacrifício era totalmente desafogada em todas as direcções, mas o cume tinha uma ligeira depressão a meio, uma espécie de língua estriada, de tal maneira que, se nos agachássemos, não seríamos vistos pelos espectadores alinhados nas ameias, de ambos os lados da rocha. Mas continuávamos visíveis para quem estivesse a observar-nos de uma das casas que ficavam por trás de nós. Quando me voltei para dar uma vista de olhos ao telhado da casa do Bode Expiatório, vi que Jerónimo se tinha levantado e se encontrava na extremidade do terraço, inclinado para diante com as mãos apoiadas na balaustrada, a observar intensamente.

 

Espreitando por cima da aresta da rocha, olhei para baixo, para a secção da muralha que ficava a seguir. A multidão reunida neste sector das ameias ainda era mais numerosa; mas, tal como do outro lado, embora a rocha não constituísse uma barreira visual, as pessoas mantinham-se afastadas dela. Procurei uma maneira de descer para a muralha, mas este lado ainda era menos acessível do que aquele por onde tínhamos vindo; aparentemente, não havia sequer uns degraus toscos.

 

Sempre inclinado, voltei-me na direcção do mar e arrastei-me para diante, a fim de espreitar sobre o precipício. A rocha formava uma prateleira, que se estendia muito para lá da linha da muralha, terminado em seguida de forma abrupta. Deitei-me ao comprido na rocha e meti a cabeça por sobre a crista. Muito ao fundo, vi rochas denteadas de superfície, banhadas por ondas de espuma que brilhavam em tons de azul-esverdeado e de ouro à luz suave da manhã.

 

Davo arrastou-se para o meu lado e também espreitou lá para baixo.

 

O que te parece, Davo? Achas que alguém conseguia sobreviver a uma queda destas?

 

Impossível! Claro que, se não fossem as rochas...

 

Olhei para além dele, para a zona da muralha da qual Meto tinha saltado. Era uma parte em que a muralha descia a pique até ao mar, sem rochas na base. Se não fossem as rochas... o que aconteceria? Um homem poderia bater na água e sobreviver? Não valia a pena prosseguir esta linha de pensamentos, mas dei por mim a olhar intensamente para as profundidades azul-esverdeadas, como se elas guardassem um segredo que poderiam revelar-me se eu as contemplasse tempo suficiente e com a firmeza necessária.

 

De repente, Davo deu-me uma cotovelada e apontou. Sogro, olha!

 

Uma galera massiliana apareceu à entrada do porto, remando em direcção ao mar alto. Tinha o convés pejado de arqueiros e artilharia balística. Atrás dela, seguia outro barco, e outro, todos eles com os remos a brilhar ao sol. No alto de cada mastro, um galhardete azul-claro era agitado pela brisa.

 

À medida que se iam tornando visíveis, os navios eram recebidos com aplausos pelos espectadores, a começar pela secção da muralha que ficava mais perto da entrada do porto, e avançando em direcção ao local onde nos encontrávamos, de tal maneira que se precipitavam sobre nós ondas sucessivas de aclamações. Os espectadores acenavam com mantas, faziam girar os guarda-sóis, ou tiravam peças de roupa e agitavam-nas no ar. Vistas dos convés dos navios que saíam do porto, as muralhas de Massília deviam constituir um animado espectáculo de cor e movimento.

 

Pensei que a armada massiliana tinha sido destruída disse Davo.

 

Não foi destruída, ficou apenas danificada. De tal maneira, que deixou de estar à altura dos barcos de César estacionados no mar. Não há dúvida de que os armadores têm trabalhado duramente a reparar as galeras que sobreviveram à batalha e a recuperar velhos barcos olha, ali vai uma embarcação pouco maior do que um barco de pesca, mas instalaram uns tabiques para protegerem os remadores e montaram uma catapulta no interior.

 

Surgiram mais navios, todos eles com galhardetes azuis-claros. O primeiro a sair do porto recolheu os remos e soltou as velas, oscilando na direcção do porto a fim de apanhar um vento ascendente que o impulsionou na direcção do canal que ficava entre o continente e as ilhas do mar alto. Os outros barcos seguiram o mesmo curso, navegando habilmente ao longo da linha da costa e desaparecendo da vista atrás das colinas baixas que ficavam na extremidade mais distante do porto.

 

Para onde vão eles? perguntou Davo.

 

Jerónimo disse que a armada de apoio está ancorada na costa, a poucas milhas, para norte, num local chamado Taurois. Os barcos massilianos devem ter intenção de se juntar a ela, a fim de atacarem os navios de César em conjunto.

 

Por falar nisso... Davo apontou para as ilhas ao largo. Do porto escondido no lado mais distante, saiu uma galera, seguida por várias outras. A frota de César soltava as amarras, em perseguição dos massilianos. Por que teriam demorado tanto? De acordo com Jerónimo, o navio mensageiro de Pompeu tinha passado sem alertar os barcos que procediam ao bloqueio. Aparentemente, o súbito aparecimento de uma armada massiliana recomposta tinha apanhado de surpresa a frota de César. Agora, esforçavam-se por reagir.

 

O último dos navios massilianos já tinha deixado o porto, dirigindo-se à parte norte da costa, e a primeira das galeras de César ainda não tinha conseguido contornar as ilhas e lançar-se em sua perseguição. Era óbvio que as galeras massilianas eram mais velozes e conduzidas com mais habilidade.

 

Se isto fosse apenas uma corrida, os massilianos ganhavam sem apelo nem agravo comentou Davo.

 

Podem ter melhores navios e marinheiros mais competentes concedi eu, mas o que acontecerá quando tiverem de combater? Uma terceira voz respondeu:

 

Se ao menos os massilianos dispusessem, como os troianos, de uma Cassandra capaz de responder a essas perguntas!

 

Davo e eu apanhámos um susto e olhámos para cima. Era Jerónimo, que se avultava sobre nós, de mãos nas ancas e com o rosto totalmente iluminado pelo sol da manhã.

 

O que estás aqui a fazer? perguntei eu. Jerónimo sorriu.

 

Tenho a impressão de que tenho mais direito a estar aqui do que tu, Gordiano.

 

Mas como...?

 

Da maneira mais fácil, subindo a face da rocha a partir do solo, como fizeram o soldado e a mulher. Vi-vos há bocado, a trepar para a rocha a partir da muralha. Tiveram muita sorte em não ter caído e partido o pescoço.

 

Ouvi pequenos gritos de surpresa e alarme e levantei a cabeça, apenas o suficiente para olhar por cima das arestas da rocha para os espectadores que se encontravam nas muralhas de ambos os lados.

 

As pessoas viram-te, Jerónimo. Acho que devem ter-te reconhecido pelas roupas verdes que usas. Estão a olhar fixamente... a apontar...

 

a sussurrar.

 

E então? Deixá-las. Devem pensar que vim atirar-me daqui. Calculo que gostassem disso; daria boa sorte à frota. Mas eu não faço tenções de saltar. Seria prematuro. Compete aos sacerdotes de Artemísia escolher o momento mais adequado. Avançou até à beira do precipício e espreitou para baixo. Davo e eu deixámo-nos estar deitados, mas afastámo-nos para lhe dar passagem. Já passou muito tempo desde a última vez em que aqui estive disse ele. É uma sensação estranha.

 

Subitamente, uma forte rajada de vento atingiu a rocha. Jerónimo cambaleou. Davo e eu arquejámos e estendemos as mãos para lhe agarrarmos os tornozelos. Ele vacilou mas conseguiu recuperar o equilíbrio. O brilho de pânico que passou pelos seus olhos foi seguido por uma gargalhada seca.

 

O nosso famoso vento! Começou cedo, hoje. Pergunto a mim próprio que efeito terá sobre a batalha.

 

Jerónimo, senta-te! É perigoso estares de pé.

 

Sim, acho que vou sentar-me. Mas recuso-me a deitar-me, como vocês. Não tenho qualquer motivo para me esconder. Nem vocês. Agora estão comigo. Estão com o Bode Expiatório e, se o Bode Expiatório decidir sentar-se de pernas cruzadas na sua rocha a ver o mar na companhia dos seus amigos, quem pode proibir-lho?

 

Se a memória me não falha, o Primeiro-Timoukos proibiu-o, e de forma bastante explícita.

 

Apolónides! Jerónimo fungou e fez um aceno de mão no ar, como se os ditames do Primeiro-Timoukos tivessem para ele o mesmo significado que o zumbido de uma mosca.

 

A presença do Bode Expiatório na rocha continuou a causar sensação entre os espectadores que se encontravam nos parapeitos da muralha, mas por pouco mais tempo. As pessoas acabaram por se cansar de apontar e sussurrar Sabiam que a Rocha do Sacrifício era terreno sagrado e sabiam que não podiam lá ir; mas desconfio de que, à semelhança da maioria, deixassem os pormenores mais delicados das leis sagradas ao cuidado das autoridades encarregadas dessas coisas. Se o Bode Expiatório aparecia na rocha, bem, tanto quanto sabia, era ali que ele devia estar.

 

Aceitaram a sua presença como parte do espectáculo do dia era mais um dos rituais da batalha, como o eram os cantos provenientes dos templos, e voltaram-se de novo para o mar, para ver o que se estava a passar.

 

Mas não havia nada que ver. O último barco massiliano tinha desaparecido, subindo a costa em direcção a leste. O mesmo acontecera ao último dos navios romanos, que tinham partido em sua perseguição. Se houvesse uma batalha, seria travada noutro local, presumivelmente ao largo de Taurois, onde estava ancorada a frota de apoio de Pompeu. Os espectadores não tinham mais nada para onde olhar, para além do mar vazio, mas ninguém parecia ter vontade de abandonar um lugar duramente conquistado na muralha. Mais cedo ou mais tarde, havia de aparecer um barco. Seria massiliano ou romano? Os olhos de Massília observavam, ofuscados pelo sol da manhã reflectido nas vagas, e continuavam à espera.

 

De trás de nós, provinha o som ininterrupto dos cantos dos templos. Aumentava ou diminuía de acordo com os caprichos do vento que o trazia até aos nossos ouvidos. Durante longos períodos, eu não me apercebia do canto e esquecia a sua presença; depois, voltava a ouvi-lo de repente, e apercebia-me de que nunca tinha desaparecido. Eram cantos a Artemísia, cânticos a Ares, cânticos a uma multidão de deuses, competindo pelos ouvidos do Olimpo. Diferentes cantos ecoavam simultaneamente por toda a cidade. De vez em quando, chocavam entre si, dissonantes. Outras vezes, em momentos raros e evanescentes, combinavam-se em harmonias casuais de beleza celestial.

 

Tal como os restantes assistentes da muralha, também nós começámos a discutir o que estaria a acontecer e o que aconteceria depois.

 

Era disto que Apolónides e os Timoukoi estavam à espera, é por isto que têm estado a rezar pela chegada destes navios de Pompeu

 

dizia Jerónimo. A não ser que o bloqueio possa ser quebrado, é só uma questão de tempo até a cidade cair. Mesmo que Trebónio não consiga penetrar nas muralhas, a fome fará o trabalho dele. A escassez já começou. Sabem que até se fala em cortar as minhas rações? As minhas rações, o quinhão do Bode Expiatório, já podem ver como estão as coisas.

 

Na muralha, não muito longe dali, uma criança chorava com persistência, provavelmente de fome. Jerónimo suspirou. Viste a armada sair, Gordiano. Quantas galeras massilianas contaste?

 

Dezoito, mais uma série de embarcações mais pequenas.

 

E quantas galeras de César contaste? Também 18.

 

E diz-se que a frota de Pompeu também chega às 18 embarcações. Os sacerdotes vão certamente descobrir algum significado místico nestes múltiplos de 18! Mas o que eles significam, em termos práticos, é que, juntas, as frotas massiliana e de Pompeu excedem a de César numa proporção de dois para um. Uma clara vantagem, com que qualquer jogador gostaria de se contar! Claro que já vimos o que acontece quando as galeras massilianas atacam as de César, ainda que os navios de César tenham sido construídos à pressa e sejam conduzidos pela infantaria é o desastre para Massília! É certo que os reforços trazidos por Pompeu devem introduzir, pelo menos, um certo equilíbrio... mas o que terá levado o seu comandante a ancorar em Taurois? Por que não se dirigiu imediatamente a Massília, se a sua intenção era quebrar o bloqueio? Há qualquer coisa estranha nesta chamada ”força de apoio”. Sabes o que é que eu acho? Acho que se dirigem a Espanha, para se juntarem à armada de Pompeu que lá se encontra, e que esta paragem nas proximidades de Massília não passa de uma visita de cortesia, para cheirarem o vento e verem para que lado sopra. Oh, vão prestar assistência a Massília desde que isso não lhes altere muito os planos. Mas que género de resistência estarão dispostos a opor quando virem o tipo de soldados com que terão de se confrontar e quando o seu próprio sangue começar a tingir o mar de vermelho? Olha, o que é isto? Tirou outra tâmara recheada do bolso, olhou para ela com desagrado, e lançou-a ao mar.

 

Ouvi um pequeno gemido de Davo, seguido de um ronco do seu estômago.

 

Até podes ter razão, Jerónimo concedi. Mas também podes não ter. Consigo imaginar outro cenário. As frotas travam uma batalha e os navios de César são destruídos. Por que não? Pompeu tem oficiais tão inteligentes como os de César, e soldados igualmente corajosos. O bloqueio é quebrado. Os Timoukoi recuperam o controlo do mar e da linha de costa. Os navios de transporte podem entrar e sair. Os armazéns de alimentos são reabastecidos; a fome termina. Enquanto as muralhas aguentarem, Massília pode manter Trebónio à distância por tempo indeterminado.

 

Ou mesmo fazer melhor: se esses 18 navios de Pompeu chegarem a Massília cheios de soldados, Domício e Apolónides poderão decidir organizar um contra-ataque a Trebónio, que poderá ser obrigado a retirar, ou mesmo ser destruído. Se Massília se transformasse num baluarte seguro para Pompeu, o caminho de regresso de César a Itália ficaria bloqueado. Ele ficaria preso em Espanha. Entretanto, Pompeu poderia congregar as suas forças na Grécia e na Ásia, regressar a Itália por via marítima e afastar Marco António...

 

”Pode”... ”podia”... ”e se?” Jerónimo abanou a cabeça. Num universo governado por deuses caprichosos, tudo é possível. Mas fecha os olhos. O que ouves? Uma criança a chorar porque tem fome. Apolónides e os Timoukoi são responsáveis por isso. Quando César veio bater-nos à porta, eles tomaram uma decisão e tomaram a decisão errada. Era nesse momento que deviam ter procurado a sabedoria dos deuses. Agora é tarde de mais...

 

E assim passámos um longo dia, a falar de política e da guerra. Quando esses temas se esgotaram, passámos a outros aos dramas gregos e às comédias romanas nossas preferidas, aos méritos relativos de diversos filósofos, à prosa de César, em comparação com a de Cícero. Jerónimo deliciava-se a argumentar. Fosse qual fosse a posição que eu tomasse, ele tomava a contrária e, de uma maneira geral, levava a melhor sobre mim. Tinha a vantagem de se ter actualizado recentemente sobre estas questões, parecia um jovem aluno imerso em conhecimentos. O seu papel de Bode Expiatório proporcionava-lhe o acesso a todos os prazeres; e os livros, que lhe tinham sido negados durante os seus anos de pedinte, eram um deles. Massília era famosa pelas suas academias, e não tinha escassez de livros. Tinham sido entregues em casa do Bode Expiatório às carradas. Ele enchera-se de rolos de pergaminho, da mesma maneira que se tinha enchido de comida.

 

Passaram várias horas. Os cânticos dos templos nunca foram suspensos.

 

Davo participava pouco na conversa, se exceptuássemos um ocasional grunhido do seu estômago. Eu também estava a ficar esfomeado, se é que se pode chamar fome ao apetite de um homem bem alimentado quando é privado de alimentos durante algumas horas. Como é que isso podia comparar-se com o que sentiam os espectadores que se alinhavam nos parapeitos das muralhas? Numa cidade sitiada, os não combatentes recebem sempre rações mais pequenas do que as dos seus defensores. As mulheres, as crianças e os velhos são as primeiras vítimas da fome, e os menos capazes de a suportar. A que nível de ansiedade diária, contínua, teriam descido aqueles que nos rodeavam? Até onde seriam capazes de continuar a emagrecer, e durante quanto tempo teriam ainda de suportar essa situação? Pessoas realmente famintas comeriam fosse o que fosse para encherem o estômago aparas de madeira, o enchimento das almofadas, até excrementos. A fome priva as suas vítimas de qualquer vestígio de dignidade, antes de lhes roubar a vida. E, para aqueles que sobrevivessem à fome, seguir-se-ia inevitavelmente a peste. Depois, a rendição aos sitiantes, as violações, os saques, a escravidão...

 

Tal como os espectadores ao longo das muralhas, eu observava o mar com ansiedade.

 

Conheces a Falácia do Enkekalymmenos? perguntoujerónimo de repente.

 

Davo franziu profundamente o sobrolho ao ouvir uma palavra tão comprida, e em grego.

 

A Falácia do Velado traduzi eu.

 

Sim. É mais ou menos assim: ”Consegues reconhecera tua mãe?” ”Claro. ”Reconheces esta mulher velada?” ”Não.” ”E, no entanto, esta mulher velada é. a tua mãe. Portanto, consegues reconhecera tua mãe... e não consegues reconhecê-la.”

 

Eu franzi o sobrolho.

 

O que foi que te levou a pensar nisso?

 

Não sei bem. Foi qualquer coisa que li recentemente. Aristóteles, seria? Ou Platão...?

 

Davo mostrava-se pensativo.

 

Não estou a perceber a ideia. Pode-se cobrir qualquer mulher com um véu, e enganar o filho dela, para que não a reconheça. Mas também pode não resultar. Ergueu uma sobrancelha, mostrando-se invulgarmente astuto. E se o filho reconhecesse o perfume dela?

 

Suspeito de que o véu é metafórico, Davo.

 

A falácia é uma alegoria epistemológica interveio Jerónimo, mas isto também era grego para Davo.

 

Eu pigarreei, disposto a discutir a falácia por puro e simples tédio.

 

Como é que sabemos o que sabemos? Como podemos ter a certeza daquilo que conhecemos? E o que significa ”conhecer”, já agora? Muitas vezes, dizemos que ”conhecemos” uma pessoa ou uma coisa, quando o que realmente queremos dizer é que sabemos que aspecto têm. Conhecer realmente uma coisa, conhecer a sua essência, é um conhecimento de uma ordem diferente.

 

Jerónimo abanou a cabeça.

 

Mas o objectivo da falácia não é esse. A ideia é que podemos conhecer e não conhecer ao mesmo tempo. Podemos encontrar-nos num estado de conhecimento e num estado de ignorância sobre o mesmo assunto simultaneamente.

 

Encolhi os ombros.

 

Isso é uma descrição da maioria das pessoas, relativamente à maioria dos assuntos, a maior parte do tempo. Parece-me...

 

Olhem! disse Davo. Olhem para ali!

 

Tinha aparecido um navio, que contornava o promontório, proveniente de Taurois. Pelo galhardete azul-claro que tinha no topo do mastro, percebemos imediatamente que era uma embarcação massiliana.

 

Um enorme aplauso irrompeu entre os espectadores. Os velhos batiam com os pés. As crianças lançavam gritos agudos. As mulheres, que estavam de pé há várias horas debaixo de um sol quente, desfaleciam e desmaiavam. Embora o navio ainda estivesse longe demais para que os seus ocupantes pudessem ver fosse o que fosse, muitos espectadores acenavam com farrapos de panos.

 

Os aplausos tornaram-se mais fortes à medida que a embarcação se aproximava da entrada do porto. Mas não se via mais nenhuma atrás daquela, e as aclamações começaram a perder intensidade. Claro que o facto de o navio chegar isolado não significava necessariamente um resultado sinistro; talvez se tratasse de um navio mensageiro enviado à frente dos restantes com a notícia da vitória. Ainda assim, havia qualquer coisa de perturbador na maneira como o barco se aproximava, pois não mantinha um curso a direito, mas guinava erraticamente para a esquerda e para a direita, como se a tripulação fosse reduzida ou estivesse completamente exausta. À medida que o navio se aproximava, tornava-se evidente que tinha sofrido danos consideráveis. O aríete da proa, em forma de bico de ave, estava desfeito. Muitos dos remos tinham-se perdido ou partido, de tal maneira que a fileira de remos que penetrava a linha de água tinha mais intervalos do que o sorriso de um mendigo. Os restantes moviam-se desalinhados uns dos outros, como não houvesse um tocador de tambor capaz de manter os remadores num ritmo certo. O convés parecia um matadouro, com as catapultas derrubadas e as tábuas partidas, cheio de corpos prostrados e imóveis. Os marinheiros não acenaram ao aproximarem-se da entrada do porto, mantendo os olhos baixos e o rosto desviado. Reparei numa figura em particular, um oficial que vestia uma capa azul-clara. Estava sozinho à proa do barco mas, em vez de olhar em frente, mantinha-se de costas para a cidade, como se a visão de Massília lhe fosse insuportável.

 

Os aplausos diminuíram, acabando por morrer. Um silêncio frio desceu sobre os espectadores.

 

Todos os olhos se voltaram para o promontório, à espera do navio seguinte. Mas, quando se avistaram outras embarcações muitas embarcações, uma frota inteira vogando em formação, não estavam onde todos esperavam vê-las. Dirigiam-se para o mar-alto, estavam muito para além das ilhas que ficavam em frente ao porto, e mal se viam. Vogavam a grande velocidade para ocidente, para longe do cenário da batalha e para longe de Massília.

 

Davo, tu gabas-te de veres muito bem. O que vês lá ao fundo? perguntei eu, embora já soubesse qual devia ser a resposta.

 

Ele pôs uma mão diante da testa, para fazer sombra, e estreitou os olhos.

 

Não são navios massilianos; não têm galhardetes azuis-claros. E também não são os navios feitos à pressa de César. Mas são barcos de guerra romanos.

 

Quantos?

 

Ele encolheu os ombros.

 

Bastantes.

 

Conta-os!

 

Observei o movimento dos seus lábios.

 

Dezoito anunciou finalmente. Dezoito galeras romanas.

 

Os chamados navios de apoio de Pompeu! Todos juntos. Todos intactos. Vogando em direcção a Espanha. Nem sequer participaram na batalha! Devem ter ficado para trás, a ver. Se lhes tivesse parecido que a frota massiliana estava à altura da de César, ter-se-iam juntado à batalha. Isto só pode querer dizer...

 

Fui interrompido por um som tão estranho, tão cheio de desespero, que me gelou o sangue nas veias. O navio quase destruído que estava de regresso devia ter chegado ao porto, e ter sido abordado por aqueles que o esperavam ansiosamente. A tripulação tivera de contar a notícia. O som que eu ouvira devia ter tido origem ali, nos primeiros homens que tinham escutado essa notícia. Eles gemiam. Os que estavam por trás deles ouviram o ruído e repetiram-no. Aqueles gemidos eram uma mensagem sem palavras, mais devastadora do que quaisquer palavras. Espalhou-se pela cidade como o fogo numa floresta, aumentando cada vez mais de volume. Chegou aos devotos que se encontravam nos templos, cujo canto se transformou abruptamente em gritos e lamentos. Chegou aos espectadores que estavam na muralha e prosseguiu até nós, tão rápida e tão palpavelmente, que eu me encolhi ao senti-la aproximar-se e abater-se sobre nós como uma onda de puro desespero.

 

Toda a cidade se juntava num imenso gemido colectivo. Eu nunca tinha ouvido nada assim. Se os deuses têm ouvidos, certamente que o terão escutado, mas os céus não deram qualquer resposta; o firmamento permaneceu imóvel. Até um homem de coração endurecido pode ser convocado à piedade por um cordeiro a balir ou um cão a ganir. Estarão os deuses de tal maneira acima dos mortais, que são capazes de ouvir o desespero de uma cidade inteira sem nada sentirem?

 

Uma espécie de loucura tomou conta dos espectadores que se encontravam alinhados nas muralhas. As mulheres caíram de joelhos, arrancando os cabelos. Um velho saltou para cima da muralha e atirou-se ao mar. As pessoas voltaram-se para a Rocha do Sacrifício, apontando para o Bode Expiatório e gritando maldições em grego, velozes e violentas demais para que eu fosse capaz de as compreender.

 

Acho que talvez sejam horas de eu voltar para casa disse Jerónimo. O seu tom de voz era firme, mas ele estava pálido. Tinha tirado os sapatos enquanto estava sentado na rocha, de pernas cruzadas. Levantou-se e debruçou-se para voltar a calçá-los, depois deu um pequeno grito e estendeu a mão. Tinha pisado qualquer coisa.

 

Bonito foi o seu único comentário, quando ergueu o objecto e olhou para ele. Brilhava ao sol; tratava-se de um anel de prata, bastante pequeno, como se se destinasse ao dedo de uma mulher, e só com uma pedra. A pedra era escura e brilhante. Meteu-o no bolso onde tivera as tâmaras recheadas. Eu queria vê-lo melhor, mas Jerónimo estava com pressa. Gritaram-lhe novas maldições. A multidão convergia gradualmente de ambos os lados para a Rocha do Sacrifício.

 

A descida pela íngreme face da rocha foi fácil, em comparação com o método que Davo e eu tínhamos usado para subir até lá acima. Descemos mais depressa do que me teria agradado, mas nunca senti o mesmo género de perigo que sentira ao oscilar sobre o vazio com a mão de Davo apertando a minha. Lá em cima e à nossa volta, os gemidos prosseguiam. Enquanto descíamos, o ruído ecoava nas muralhas da cidade, tornando-se ainda mais forte e mais irreal.

 

Perto da base, o trajecto tornou-se mais íngreme, de maneira que tivemos de descer de costas, voltados para a face da rocha. Quando nos aproximávamos do solo, olhei por cima do ombro e senti-me aliviado, ao ver que a zona parecia deserta; receara que uma multidão irada estivesse à espera do Bode Expiatório. Mas onde estava a liteira verde que o transportara até aqui? Aparentemente, os carregadores tinham entrado em pânico e fugido.

 

Depois, avistei uma figura nas sombras de um edifício vizinho e quase perdi o pé. Davo seguia ao meu lado. Apertei-lhe o braço.

 

Olha para ali! sussurrei. Estás a ver?

 

Onde? O quê?

 

Era a mesma figura encapuçada que tínhamos visto pela primeira vez à entrada da cidade, e outra vez ao voltarmos de casa de Verres. Eukekalymmenos sussurrei.

 

O quê?

 

OVelado.

 

A figura saiu hesitantemente das sombras, e aproximou-se da base da rocha, como se viesse ter connosco. Ergueu as mãos. Por momentos, pareceu-me que tencionava tirar o capuz e mostrar a cara.

 

Subitamente, imobilizou-se e olhou por cima do ombro para as sombras de onde tinha vindo. Lançou-se como uma seta na direcção oposta, com a capa a ondear atrás de si, e desapareceu.

 

Momentos depois, percebi o que o tinha obrigado a fugir. Uma companhia de soldados saiu das sombras e avançou em passo de marcha até à base da Rocha do Sacrifício.

 

O comandante mandou parar os homens com um sinal de mão, depois cruzou os braços e olhou para nós com ar ameaçador.

 

Bode Expiatório! Chegou ao Primeiro-Timoukos a informação de que foste visto na Rocha do Sacrifício, violando terreno sagrado. Por ordem do Primeiro-Timoukos, ordeno-te que abandones imediatamente o local. O mesmo se aplica aos teus dois companheiros.

 

Bem, francamente! disse Jerónimo, mostrando-se petulante e ligeiramente ofegante. A rocha alisava consideravelmente na base, de maneira que ele pôde voltar-se e dar os últimos passos de frente para o oficial. Davo vinha atrás dele, abrandando um pouco o passo, para ter a certeza de que eu vinha bem.

 

Pronto, já saímos da rocha. Agora que cumpriste a tua missão, podes ir andando. Jerónimo falava incisivamente com o oficial. A não ser que tenhas vindo acompanhar-me a casa, a fim de que eu chegue em segurança. Aparentemente, a minha liteira desapareceu, e está a formar-se uma multidão pouco simpática nos parapeitos...

 

Vim para te acompanhar, mas não a casa disse o oficial, sorrindo com ar escarninho.

 

De repente, o sarcasmo de Jerónimo abandonou-o. Eu estava atrás dele, e vi tremerem-lhe as mãos. Apertou-as uma na outra para impedir que isso acontecesse. Vacilou como se estivesse tonto.

 

Se os soldados não vinham escoltá-lo a casa, vinham escoltá-lo para onde?

 

Massília tinha perdido a sua armada. Massília fora traída por Pompeu. O povo já tinha diante de si a perspectiva da fome e da peste; agora teria de considerar a capitulação e o desastre total. Esta cidade era mais velha do que Roma, era a sua antiga aliada; ainda mais velha do que a cidade inimiga de ambas, Cartago. Mas Cartago fora destruída, tão completamente obliterada que não restava qualquer vestígio dessa cidade outrora magnífica e do seu orgulhoso povo. Massília poderia ser igualmente destruída. Até agora, a esperança mantivera essa cruel possibilidade à distância. Agora, a esperança tinha morrido. Seria este o momento de o Bode Expiatório merecer o seu nome? Teriam os sacerdotes da xoanon ”Artemísia decidido que esta hora, negra entre todas, era o momento apropriado para o Bode Expiatório tomar sobre os seus ombros todos os pecados desta cidade aflita, levando-os consigo para o esquecimento? Estariam estes soldados encarregados de o levar de novo para o alto da rocha, em direcção ao precipício, e o lançar sobre a borda já sem a violar, mas realizando o seu destino, enquanto Massília inteira assistia, amaldiçoando o seu nome?
Sustive a respiração. Por fim, o oficial disse:

 

Não vais regressar a tua casa, Bode Expiatório. Venho buscar-te para te levar directamente a casa do Primeiro-Timoukos. E tenho ordens para também levar estes dois connosco. Olhou para Davo e para mim. Vamos embora!

 

Nós obedecemos docilmente. Os soldados desembainharam as espadas e formaram em falange à nossa volta. Em passo rápido, afastámo-nos da Rocha do Sacrifício, dirigindo-nos para casa de Apolónides.

 

Enquanto atravessávamos o coração da cidade, tive razões para me sentir agradecido pela nossa escolta armada.

 

As ruas estavam cheias de homens e mulheres, correndo de um lado para o outro, em pânico. Devido às suas vestes verdes, Jerónimo era rapidamente reconhecido. Gritos de ”Bode Expiatório! Bode Expiatório!” precediam-nos. A princípio, os cidadãos pelos quais passávamos contentavam-se em gritar maldições, agitar os punhos cerrados e cuspir para o chão. Depois, alguns deles começaram a perseguir a nossa pequena comitiva, correndo ao nosso lado, acenando com os braços e gritando histericamente, com as caras retorcidas de ódio. Em breve estávamos rodeados por uma multidão itinerante. Instigados pelos amigos, um ou outro homem, e mesmo algumas mulheres, atreviam-se a empurrar a falange em movimento. Os soldados repeliam-nos vigorosamente com os escudos, mas alguns conseguiam meter uma mão nos intervalos entre os soldados. Queriam tocar no Bode Expiatório, não conseguindo agarrá-lo, faziam gestos obscenos. Um deles conseguiu meter a cabeça. Cuspiu para a cara de Jerónimo antes de ser novamente lançado para o meio da multidão.

 

Finalmente, o comandante ordenou aos seus homens que usassem as espadas, se necessário. Quando o homem seguinte atravessou a falange, viu-se um brilho de aço e ouviu-se um guincho. As gotas quentes espirraram-me para a cara. Limpei as faces. Para além do sangue que tinha nas pontas dos dedos, entrevi o homem ferido caindo para trás, a gemer, agarrado ao braço.

 

Depois disso, a multidão manteve-se à distância, mas começou a lançar-nos coisas, utilizando tudo aquilo que tinha à mão mãos cheias de pedrinhas e pequenas rochas, pedaços de pedras da calçada partidas e fragmentos de telhas, lascas de madeira, e até objectos domésticos, como pequenos potes de barro, que explodiam com um estoiro ruidoso quando embatiam nos escudos e nos elmos dos soldados. A chuva de objectos tornou-se de tal maneira abundante, que o comandante ordenou aos seus homens que formassem em tartaruga. Por cima das nossas cabeças, foi criado um telhado de escudos. Um sólido muro de escudos rodeou-nos, com as espadas surgindo nos interstícios.

 

Estava escuro no interior da tartaruga. Enquanto avançávamos, eu era empurrado de todos os lados. O cheiro a suor dos soldados enchia-me as narinas. O choque dos objectos atirados parecia uma tempestade de granizo.

 

Loucos ímpios! Hipócritas! Idiotas! Jerónimo cerrava os punhos e gritava o mais que podia. A pessoa do Bode Expiatório é sagrada! Façam-me mal, que só estão a amaldiçoar-se a si próprios! Os seus brados eram absorvidos pelos ruídos metálicos e os gritos da multidão.

 

Por fim, chegámos ao nosso destino. O comandante gritou as suas ordens. Os soldados contraíram-se, em formação ainda mais cerrada. Atravessámos uma espécie de portal. Uns portões de bronze fecharam-se atrás de nós, amortecendo os gritos da multidão que ficara do lado de fora. Os soldados dissolveram a formação.

 

Estávamos num pequeno pátio de chão de cascalho. Aliviado por me ter liberto da tartaruga e da multidão, ergui os olhos e, por um breve e incongruente momento, fiquei espantado com a beleza do céu que nos cobria. Era a hora do crepúsculo. O firmamento estava azul-escuro no zénite, iluminado na direcção do horizonte em tons de aquamarino e de um cor de laranja improvável, listrado de faixas altas de nuvens ténues e alongadas, inundadas pelo brilho vermelho de sangue do Sol poente.

 

Fui novamente chamado ao presente pelo ruído metálico de objectos lançados contra o portão fechado. A multidão não tinha dispersado. Os soldados estavam ocupados a verificar se a barra horizontal que segurava os portões estava bem posta. Com um ar um bocadinho enervado, o comandante subiu um curto lanço de escadas que iam dar ao alpendre de uma casa de aspecto magnífico. A porta estava aberta. No limiar, vi Apolónides, de braços cruzados, olhando para nós.

 

Primeiro-Timoukos! bradou o oficial, fazendo uma saudação. Conforme ordenaste, trouxe-te o Bode Expiatório, juntamente com os dois homens que foram vistos na sua companhia, no solo proibido da Rocha do Sacrifício.

 

Demoraste a trazê-los.

 

Vim pelo caminho mais directo, Primeiro-Timoukos. O nosso progresso foi... difícil.

 

Qualquer coisa talvez um jarro de vinho se esmagou contra os portões do pátio, com uma ruidosa explosão.

 

Quero aquela multidão imediatamente dispersa disse Apolónides.

 

Primeiro-Timoukos, o ruído é enganador. Não são tão perigosos como possas pensar Estão completamente desorganizados. São ruidosos, mas não estão armados...

 

Nesse caso, deve ser fácil dispersá-los. O oficial esfregou o queixo.

 

A visão do Bode Expiatório excitou-os. Se lhes dermos algum tempo para acalmar, talvez...

 

Imediatamente, disse eu! Chama os arqueiros. Derrama algum sangue, se for preciso, mas limpa imediatamente as ruas. Compreendes?

 

O oficial fez nova saudação e desceu as escadas. Apolónides voltou a sua atenção para nós. Primeiro olhou para Davo e para mim e depois concentrou-se em Jerónimo, que lhe devolveu um olhar taciturno.

 

É uma sorte ainda estares vivo disse Apolónides por fim.

 

A deusa protege-me respondeu Jerónimo, em voz firme, mas rouca, de tanto ter gritado. Tenho um desígnio superior.

 

Os olhos azuis-claros de Apolónides faiscaram. Um leve sorriso percorreu a sua boca, pequena demais para o enorme queixo.

 

Chama-lhe o que quiseres. O teu desígnio superior vai conduzir-te direitinho ao Hades. Quando os encontrares, dá cumprimentos meus aos teus pais.

 

Jerónimo tornou-se rígido e, por momentos, pensei que ia subir as escadas a correr e atirar-se a Apolónides. Mas Apolónides, que conhecia Jerónimo melhor do que eu, nem vacilou.

 

Quer dizer que estou preso? perguntou Jerónimo. Apolónides resfolegou.

 

Não sejas ridículo. Mandei trazerem-vos para aqui para vossa própria segurança. Devias estar-me agradecido pela minha diligência.

 

E os meus amigos? Estão presos? Apolónides olhou para nós.

 

Não tenho a certeza. Ainda não decidi. Acreditas que tive outras coisas em que pensar durante todo o dia? Entretanto, vão passar a noite aqui quero manter-vos debaixo de olho.

 

Apolónides retirou-se sem mais uma palavra. Alguns escravos vieram acompanhar-nos até dentro de casa, onde nos mostraram as nossas instalações. Pelo caminho, atravessámos o jardim central, onde era evidente que estava a ser preparado um jantar de dimensão considerável. Um pequeno exército de escravos andava de um lado para o outro, transportando canapés, mesinhas, lamparinas portáteis e pilhas de tabuleiros de serviço vazios. Tratava-se de uma celebração, pensei simplesmente, esta noite não haveria rabões para celebrar

 

Enquanto Jerónimo era conduzido aos seus aposentos privados, Davo e eu éramos acompanhados ao longo do mesmo corredor, mas na direcção oposta. Descemos um curto lanço de escadas. O corredor foi-se tornando mais estreito, o tecto mais baixo, o caminho menos iluminado, até chegarmos finalmente a um quartinho sem janelas, mesmo na extremidade do corredor. Havia duas pequenas camas de campanha, e o espaço entre elas era apenas o suficiente para circularmos de lado. Uma luz reduzida provinha de uma pequena lamparina suspensa, onde ardia óleo rançoso. Deixei-me cair na minha cama e apercebi-me, com um longo suspiro, de que estava mesmo cansado. Mas era impossível dormir. Sempre que fechava os olhos, via os rostos retorcidos da multidão.

 

Ao ouvir o som de passos, sentei-me. Jerónimo estava à porta. Apreciou as nossas acomodações e ergueu uma sobrancelha.

 

Aconchegado foi o seu único comentário.

 

Calculo que as tuas acomodações sejam bastante maiores. Ele encolheu os ombros.

 

Uma antessala, um quarto de cama e mais um compartimento, com uma varanda privada. Menos do que isto seria um insulto à deusa!

 

À luz vacilante da lamparina, reparei que ele tinha um objecto minúsculo no dedo mindinho da mão esquerda. Era o anel com uma pedra preta encastrada que tinha descoberto na Rocha do Sacrifício. Com o tumulto dos acontecimentos, tinha-me esquecido dele.

 

Ele seguiu a direcção do meu olhar e girou o dedo, fazendo com que a pedra brilhasse à luz.

 

Fica-me apertado, mesmo no dedo mindinho. O que te parece, Gordiano?

 

É um anel de mulher, obviamente. Acho que nunca tinha visto uma pedra assim.

 

Não? Calculo que sejam mais procuradas em Massília do que noutros sítios, por causa da xoanon Artemísia. É uma lasca de pedra caída dos céus, da mesma maneira que a xoanon Artemísia caiu na terra há muito tempo. As pedras do céu não são necessariamente bonitas. Na verdade, muitas delas são bastante feias, mas esta até é interessante; não é completamente preta, estás a ver, tem umas espirais de prata enegrecida pelo meio, e é suave e brilhante como mármore polido. Calculo que seja bastante valiosa.

 

É o género de anel que um massiliano podia dar à sua amante?

 

Suponho que sim, se o homem fosse rico e a amante suficientemente bonita para usar uma jóia tão fina. Tirou-o do dedo com um certo esforço e entregou-mo.

 

O que estaria a fazer na Rocha do Sacrifício? perguntei. Vimos a dificuldade que é subir lá acima. Ninguém lá vai por acaso, em especial agora, que é proibido trepar à rocha. Como é que este anel lá foi parar?

 

Jerónimo apertou os lábios.

 

Sabemos de duas pessoas que estiveram na rocha há não muito tempo. O oficial da capa azul-clara e a mulher que saltou.

 

Que foi empurrada corrigiu Davo. Eu acenei com a cabeça.

 

Apolónides mandou os seus homens darem uma vista de olhos nas proximidades da Rocha do Sacrifício, mas proibiu-os explicitamente de subirem à rocha. Temos de presumir que o alto da Rocha do Sacrifício não chegou a ser inspeccionado. O anel podia lá estar desde essa altura.

 

Talvez concedeu Jerónimo. Mas como é que foi lá parar? Parece improvável que tenha escorregado acidentalmente do dedo da mulher, a não ser que ela tivesse umas mãos muito pequenas.

 

Talvez ela tenha tirado o anel do dedo antes de... cair ao mar disse eu.

 

Também pode ter sido o homem a tirar-lho sugeriu Davo. Vimo-los lutar durante algum tempo, lembram-se? Talvez ele lho tenha arrancado do dedo, deixando-o cair quando a empurrou...

 

Quando ela saltou insistiu Jerónimo.

 

Sejacomo for, se este anel proveio efectivamente do dedo da mulher... Não terminei o pensamento. Importas-te de mo confiar durante algum tempo, Jerónimo?

 

Até podes atirá-lo ao mar, pouco me importa. Não me serve para nada. Poisou a mão sobre o estômago. Achas que podemos ter esperança de comer alguma coisa que se assemelhe a uma refeição esta noite?

 

O estômago de Davo grunhiu solidariamente. Como que a responder a uma deixa, um jovem escravo surgiu atrás de Jerónimo, no corredor sombrio.

 

O jantar está servido no jardim anunciou.

 

Um jantar à luz das estrelas excelente! disse Jerónimo, voltando-se para sorrir ao escravo.

 

À débil luz da lamparina, entrevi o olhar de surpresa do rapaz. Os seus olhos aumentaram de tamanho, e depois recuou e desviou o rosto.

 

Não... não é para ti conseguiu gaguejar. Vim chamar os dois romanos.

 

E onde é que eu como? quis saber Jerónimo.

 

Nos... teus aposentos gaguejou o escravo, numa voz que pouco mais era do que um sussurro, mantendo o rosto desviado do Bode Expiatório.

 

Claro disse Jerónimo com secura. O que me terá passado pela cabeça? O Bode Expiatório a jantar sozinho.

 

O jardim estava mal iluminado. Nas poucas lamparinas dispersas por vários pontos, o lume ardia baixo. O óleo, tal como a comida, também se tinha tornado escasso em Massília.

 

A luz era tão incerta, que tive dificuldade em calcular quantas pessoas estariam reunidas no jardim; talvez 50 ou mais. Quem faria parte da lista de convidados de um jantar comemorativo do Primeiro-Timoukos? Os mais importantes de entre os seus colegas Timoukoi; os sacerdotes de Artemísia; os chefes militares; talvez alguns exilados romanos de relevo; certamente, o comandante militar romano. Como seria de esperar, avistei Domício reclinado sobre um cotovelo num canapé de jantar, a beberricar uma taça de vinho. O escravo acompanhou-nos até ao canapé vazio que havia ao lado dele.

 

Domício lançou-nos um olhar remelento. Se alguém tinha razões para se sentir traído pelos acontecimentos do dia, era ele. Em Itália, tinha ignorado os conselhos de Pompeu, tomando posição em Corfínio contra César e, ainda antes de ter começado o cerco, fora entregue a César pelos seus homens. Agora, de novo apanhado numa cidade sitiada por César, desesperado, tinha olhado Pompeu como um salvador e os navios enviados por Pompeu haviam passado por Massília, em direcção ao pôr do Sol.

 

Tinha a fala entaramelada.

 

Olha o homem dos sarilhos. Calculo que saibas que me causaste hoje consideráveis embaraços. Um romano por quem eu me tinha responsabilizado pessoalmente a pisar terreno sagrado! O que foi que te passou pela cabeça, Gordiano?

 

Davo e eu queríamos ver partir a frota respondi suavemente. As muralhas estavam cheias de gente. A Rocha do Sacrifício parecia a alternativa ideal.

 

Sabias que era proibido.

 

Não se pode esperar que um visitante se lembre de todos os costumes locais.

 

Domício aceitou esta ficção pelo que ela valia e resfolegou com cinismo.

 

Por mim, até podes trepar à Rocha do Sacrifício e mijar de lá, para baixo. Melhor ainda, dá um salto para o mar. Provavelmente, é a única maneira de sair desta cidade abandonada pelos deuses. Ergueu o copo vazio. Um escravo destacou-se das sombras e voltou a encher-lho.

 

A única coisa que parece que eles armazenaram em quantidade aceitável foi vinho italiano de qualidade e escravos para o servirem. Que cidadezinha horrenda! Não fazia qualquer esforço para baixar a voz. Olhei em volta. Continuavam a chegar convivas. O estado de espírito geral era sombrio e as conversas discretas. Algumas cabeças voltaram-se na nossa direcção, em reacção à explosão de Domício.

 

Se não tens cuidado disse eu baixinho

a tua língua ainda te causa mais embaraços do que todos os que eu possa ter-te causado.

 

Ele riu-se amargamente.

 

Eu sou romano, Gordiano. Sou mal-educado e não tenho medo. Foi assim que conquistámos o mundo. Pelo menos, alguns de nós. Ah, aí vem outro glorioso vencido Milo! Estamos aqui!

 

Milo surgiu por entre a multidão mergulhada na sombra, com um ar tão sorumbático e remeloso como Domício. Deixou-se cair no canapé ao lado de Domício e estalou os dedos. O escravo trouxe mais vinho, mas eu declinei; pareceu-me que, naquela noite, era preferível manter-me alerta.

 

O jardim era um quadrado, rodeado por uma colunata. No centro, havia uma fonte seca, com uma estátua convencional de Artemísia. Os canapés estavam colocados em Us sucessivos, virados alternadamente para o centro e para fora, de tal maneira que as filas formavam uma espécie de padrão grego, como aqueles que se vêem em volta dos rebordos das túnicas curtas. Deste modo, havia pessoas voltadas para todos os lados, sem haver propriamente um centro; a disposição também permitia ouvir conversas de grupos que se encontravam perto, mas voltados para outros lados. Os lugares mais próximos de nós pareciam ter sido reservados a romanos. Falava-se Latim em murmúrios a toda a minha volta. De um canapé próximo, vi Gaio Verres olhar para mim por cima do ombro; ainda teve a temeridade de me piscar o olho.

 

Entre os convidados, havia pessoas de ambos os sexos, embora os homens fossem em número muito superior ao das mulheres. Reparei que as mulheres, seguindo o costume massiliano, e em acentuado contraste com Roma, não bebiam vinho.

 

Apolónides e a sua comitiva foram os últimos a chegar. Toda a gente se levantou (alguns, como Domício e Milo, sem grande firmeza) em deferência pelo Primeiro-Timoukos. Presumi que os homens de expressões carregadas que rodeavam Apolónides fossem os seus conselheiros mais íntimos. Também estava presente na festa um jovem casal. Eu tinha ouvido falar muito deles. Agora, via-os finalmente juntos: a única filha de Apolónides, Cidímaque, e Zenão, o marido dela.

 

A rapariga trazia um vestido volumoso, feito de um material fino, perpassado de fios de ouro e prata. Os véus coloridos que lhe escondiam a cara eram de uma espécie de gaze. Noutra mulher, vestes tão caras e elaboradas poderiam evocar riqueza e privilégio, mas em Cidímaque pareciam uma espécie de máscara, destinada a desviar as atenções de observadores curiosos da forma corcunda e deformada que se escondia por trás delas. Até as mãos tinha escondidas. Na ausência de qualquer feição humana reconhecível com que o olhar pudesse estabelecer ligação, quase se podia imaginar que algum animal bizarro tinha entrado no nosso meio, oculto por trás daquele aterro de véus.

 

Ela avançou lentamente, com passo incerto. Os restantes membros do grupo evitavam andar depressa, para que ela não ficasse nitidamente para trás. Havia qualquer coisa de profundamente inquietante na visão daquela pequena comitiva, encabeçada pelo homem mais poderoso de Massília, o gigantesco Apolónides de queixo largo, impedido de avançar ao seu próprio ritmo pela forma retorcida de Cidímaque. O momento pareceu-me supremamente estranho; apercebi-me de que nunca tinha visto um mortal tão disforme em contexto semelhante, finamente vestido e a jantar em lugar de honra entre os ricos e os poderosos. Quando vemos este género de infelizes criaturas, estão vestidas de trapos, dormem em sarjetas e pedem nas zonas mais pobres da cidade. Ninguém sabe de onde vêm; ninguém consegue imaginar como continuam a existir. Nenhuma família romana respeitável teria jamais permitido que semelhante monstro vivesse, ou pelo menos tê-lo-ia escondido, não permitindo que fosse visto em público. Mas a passagem a Timoukos exigia descendência, e Cidímaque fora a única filha de Apolónides; ele nunca poderia renegá-la. Podia mesmo acontecer que, como dissera Domício, Apolónides a amasse, como qualquer homem ama a sua filha única. Pensei na minha própria filha Diana, tão inteligente e tão bonita, e tive pena de Apolónides.

 

E que dizer do jovem que avançava ao lado de Cidímaque, apertando-lhe solicitamente o braço, embora esse apoio em nada contribuísse para fazê-la andar a direito? Eu tinha ouvido dizer que Zenão era belo, e era. Tinha aquele género de aparência morena e pensativa que normalmente se associa a jovens poetas dissolutos. Tinha o cabelo escuro em desalinho e os seus olhos apresentavam uma expressão assombrada. Tinha tirado a armadura de combate, mas vestia a capa azul-clara de oficial. Qualquer coisa na sua atitude derrotada brincou com a minha memória, e subitamente percebi que devia ser ele o oficial que tinha visto naquela tarde, de pé, sozinho à proa do único navio que regressara, de costas para os espectadores que se encontravam nas muralhas da cidade.

 

E reparei ainda noutra coisa. Não era imediatamente evidente porque o passo irregular de Cidímaque era muito mais pronunciado, mas Zenão também coxeava ligeiramente, apoiando-se na perna esquerda.

 

Não houve discursos a começar a noite, nem sequer um discurso de boas-vindas de Apolónides. Se o dia tivesse acabado de outra maneira se Massília tivesse obtido uma grande vitória, toda a gente estaria disposta a ouvir discursos e brindes, que reiterariam até ao infinito aquilo que já toda a gente sabia; a vanglória e o regozijo com a derrota dos outros teriam sido, não apenas permissíveis, mas imperativos. Mas o que fora planeado para ser uma celebração tinha mais uma aparência de funeral, embora eu já tivesse assistido a funerais com convivas mais animados.

 

Tinha perguntado a mim próprio com que planearia Apolónides dar um banquete, quando a cidade se confrontava com a perspectiva da fome. Mas a criatividade dos seus cozinheiros era notável. Eu nunca tinha visto alimentos preparados e apresentados com tanto cuidado, servidos em porções tão reduzidas ou em pratos tão espaçados. Em qualquer outra circunstância, teria sido risível servirem-nos um prato que consistia numa única azeitona (nem sequer muito grande) guarnecida com um raminho de funcho. Era apresentado numa travessa de prata minúscula, que talvez se destinasse a criar um efeito de dupla imagem. Milo resmungou e observou com sarcasmo:

 

Então, Gordiano, o que te parece a nova cozinha massiliana? Não estou a vê-la pegar em Roma. Ninguém se riu.

 

O canapé de jantar que eu partilhava com Davo estava colocado de tal maneira que, se eu olhasse para além de Domício e de Milo, conseguia ver a fila de canapés dispostos em U onde estavam instalados Apolónides e o seu grupo. A luz indistinta mal me permitia ver-lhes as caras, e muito menos ler-lhes as expressões, mas até as suas vagas silhuetas eram estudos de desânimo. Quando havia uma interrupção no Latim murmurado que me rodeava, eu conseguia ouvir as conversas; e, à medida que a quantidade de vinho servido ia aumentando, fui ouvindo uma voz forte e sonora erguer-se acima das restantes. Era a voz de Zenão.

 

Entretanto, Domício e Milo mantinham uma conversa rancorosa e desconexa. Vim a saber que o romano encarregado da suposta frota de auxílio era um tal Lúcio Nasídio. Eu não o conhecia, mas eles sim, e tinham opiniões muito precisas acerca dele. Nem Domício nem Milo ficaram surpreendidos com o facto de o sujeito ter evitado a batalha e virado as costas ao ver que as coisas estavam a correr mal para os massilianos; qualquer deles teria recomendado a Pompeu que não encarregasse um poltrão como Nasídio de uma missão tão crítica; este desastre era apenas a mais recente de uma cadeia interminável de decisões erradas de Pompeu; se ao menos um deles tivesse estado ao comando daquela frota... e por aí adiante.

 

De vez em quando, Domício ou Milo tentavam atrair-me para a conversa. Eu respondia com ar distraído, esforçando-me por apanhar a conversa do grupo de Apolónides. Pelos bocados que conseguia ouvir, as minhas suspeitas confirmaram-se: Zenão comandava o navio que regressara com a notícia da esmagadora derrota. Quando Zenão começou a falar sobre a batalha, o murmúrio em Latim que me rodeava morreu. Até Domício e Milo se calaram. Olhavam em frente, fixamente, mas, à semelhança de todos os outros que podiam alcançar a conversa, começaram a ouvi-la.

 

Eles não lutam como homens vulgares dizia Zenão.

 

E sobre que vasto reservatório de experiência baseias tu essa observação, genro? perguntou Apolónides com brusquidão. Em quantas batalhas participaste?

 

Participei nesta! E, se lá tivesses estado, perceberias o que quero dizer. Havia neles qualquer coisa quase sobrenatural. Estamos sempre a ouvir dizer que os deuses assistem às batalhas, que levantam os guerreiros caídos, que os empurram para diante; mas não me parece que fossem os deuses que estavam hoje naquelas águas, animando os vencedores. Era César; a inspiração de César. Eles gritavam o seu nome para se ajudarem uns aos outros a manter a coragem, para envergonharem os mais lentos, para assustarem os inimigos. Hoje vi coisas em que nunca teria acreditado, o género de coisas que se ouvem nas canções. Coisas terríveis...

 

À luz sombria, vi a forma velada de Cidímaque aproximar-se do marido no canapé onde estavam ambos reclinados, sem propriamente lhe tocar, como que para o reconfortar pela simples aproximação. Teria Apolónides, sentado diante deles, franzido o sobrolho? A sua silhueta grisalha estava sentada muito direita, de braços cruzados, ombros tensos, queixada para fora.

 

Zenão prosseguiu, num tom de voz baixo mas claro. De vez em quando, a sua voz tornava-se mais cheia em consequência da emoção, depois ele engolia e prosseguia.

 

As coisas que eu vi hoje! Sangue, fogo e morte... Havia dois romanos idênticos deviam ser gémeos. Estavam numa galera romana que tentava aproximar-se e abordar-nos. Os romanos lançaram-nos os ganchos, mas eram curtos. Continuavam a tentar aproximar-se. Nós manobrávamos para nos afastarmos. Os homens deles eram mais numerosos do que os nossos; ter-nos-iam dominado. A nossa única esperança era afastarmo-nos o suficiente para conseguirmos usar as catapultas contra eles, ou, se pudéssemos, girar por forma a conseguir-mos atacar de frente. Mas o capitão romano continuava a perseguir-nos, como um cão atrás de uma cadela. A certa altura, aproximaram-se tanto, que alguns dos homens deles saltaram para bordo. Eram apenas uma mão-cheia uns oito ou dez, não chegavam de maneira nenhuma para tomar o comando do navio. Semelhante coragem é quase loucura! Fizeram-no pela glória, percebem? Se os romanos tivessem conseguido apanhar-nos com os ganchos de abordagem e lançar-se sobre nós, estes homens poderiam gabar-se de ter sido os primeiros a entrar a bordo.

 

”A frente destes romanos que saltaram para bordo, vinham dois gémeos. Vi-os de perto, o suficiente para perceber que eram absolutamente idênticos. Era enervante, parecia uma visão, uma espécie de prodígio enviado pelos deuses para nos confundir. Numa batalha, a confusão pode matar um homem mais depressa do que outra coisa qualquer. Um instante de incerteza um piscar de olhos, um relance de uma cara para outra, outro piscar de olhos e é-se um homem morto! Eles eram jovens, estes dois, jovens e belos, e riam-se e berravam e cortavam o ar com as espadas.

 

”Mas um deles era descuidado. Avançou excessivamente, distanciando-se dos companheiros e expondo-se a um ataque por trás. Um dos meus homens surpreendeu-o com um golpe cortou-lhe a mão direita pelo punho, a mão que agarrava a espada. O romano não parou de rir. Não, não é bem verdade; o riso transformou-se-lhe noutra coisa, mas continuava a ser uma espécie de riso, pavoroso, imobilizado. Começou a jorrar-lhe sangue do pulso cortado. Ele olhou para aquilo, confuso, ainda com aquele riso de louco. Era de supor que estivesse acabado, mas ele nem sequer vacilou. Sabem o que fez? Inclinou-se, estendeu a mão esquerda e pegou na espada que continuava presa à mão direita cortada. É inacreditável, eu sei, mas eu vi! Conseguiu agarrar na espada, levantou-se e continuou a lutar. Estava a escudar o irmão, a protegê-lo, completamente indiferente à sua própria segurança. Devia saber que era o seu fim; nunca sobreviveria à perda de tamanha quantidade de sangue. Agitava os braços descuidadamente agitava a espada, agitava o punho do qual jorravam grandes esguichos de sangue.

 

- Os meus homens recuaram, horrorizados, nauseados pelo esguicho de sangue. Eu consegui reagrupá-los e, juntos, investimos contra ele. O romano ergueu bem alto o braço esquerdo. Tinha a espada apontada para me cair em cima do crânio. Naquele instante, tive a certeza de que ia morrermas ele não conseguiu baixar a espada. Um dos meus homens avançou de um lado e desferiu um golpe com ambas as mãos, que decepou o braço esquerdo do romano pelo cotovelo. O sangue! O aspecto dele...!

 

Por longos momentos, Zenão calou-se. Todos os que estavam ao alcance da sua voz se tinham calado a ouvi-lo. Cidímaque aproximou-se mais dele, mas sem lhe tocar. Zenão estremeceu e arquejou, depois inspirou fundo e prosseguiu.

 

O punho direito ainda jorrava sangue. O cotovelo esquerdo deitava pastas de sangue. Era horrível! Mas ele não caiu. Continuou de pé e gritou uma única palavra por entre os dentes cerrados. E sabem qual foi? ”César!” Não foi o nome da mãe. Nem foi o nome do gémeo. Nem o nome de um deus. Foi ”César!” O irmão juntou-se a ele, depois vieram os outros romanos, e todos gritavam o nome de César, como se estivessem a lançar-nos uma maldição,

 

”Já os tínhamos dominado, compreendem? O nosso barco tinha conseguido afastar-se da galera romana. Os romanos que tinham saltado para bordo estavam encalhados. Os meus homens reuniram-se. Éramos muito mais numerosos do que eles. Os romanos não tinham qualquer possibilidade de escapar. Apesar disso, o romano ferido sem braços, sem mãos continuava a proteger o irmão. Gritava o nome de César e atirava-se contra nós, agitando-se para um lado e para o outro, utilizando o próprio corpo mutilado como arma. Era inquietante, monstruoso, parecia uma coisa de pesadelo...

 

- Por momentos... por momentos, eu entrei em pânico. Pensei: É o nosso fim. Basta isto. Estes dez romanos, se forem todos assim, estes dez conseguem matar-nos a todos e tomar o navio. Não são homens, são demónios!

 

- Mas eram apenas homens, evidentemente, e morreram como homens. Podiam ter saltado para o mar, para se salvarem, tentado regressar a nado ao navio a que pertenciam ou alcançar outra embarcação romana, mas continuaram a lutar. O romano mutilado acabou por cair. Apunhalámo-lo todo. As feridas quase não sangraram, ele já tinha perdido imenso sangue. Tinha a cara branca como uma nuvem. Continuava a rir, com aquele riso horrível, quando os olhos se lhe reviraram e se deixou cair no convés.

 

- O gémeo gritou ”César!” e lançou-se contra nós, a chorar. Estava louco de dor, desatento. Esfaqueei-o no estômago, depois na garganta. Fiquei chocado com a facilidade com que morreu. Os outros romanos... foram mais difíceis de matar. Foram precisos dois massilianos por cada romano. Mesmo depois de terem morrido todos, e de termos deitado os corpos ao mar, continuavam a matar-nos. Era o sangue deles que nos matava! O convés estava tão escorregadio, que um dos meus homens aquele que tinha dado o primeiro golpe, e cortado a mão ao romano pelo punho caiu e partiu o pescoço. Morreu instantaneamente, de costas, com o pescoço retorcido, os olhos muito abertos, a olhar para os céus.

 

Um silêncio absoluto caíra sobre o jardim. Os convivas dos recantos mais longínquos tinham suspendido as conversas e os escravos que transportavam os tabuleiros estavam parados debaixo da colunata, a ouvir. Até a Artemísia que presidia à fonte seca parecia estar suspensa, a ouvir, com o arco imobilizado nas mãos e a cabeça ligeiramente inclinada para um lado.

 

Cidímaque aproximou-se mais do marido. Zenão, que tinha a cabeça inclinada, estendeu a mão e poisou-lha suavemente no braço, como se fosse ela quem precisasse de conforto.

 

Apolónides permanecia imóvel, consciente do súbito e total silêncio e do feitiço que as palavras de Zenão tinham lançado sobre toda a gente.

 

Foi um dia mau para Massília disse por fim, num tom de voz que pouco mais era do que um sussurro.

 

Zenão soltou uma gargalhada amarga.

 

Foi um dia mau, sogro? Apenas isso? Pois não foi nada, comparado com os dias que se aproximam!

 

Baixa a voz, Zenão.

 

Por quê, Primeiro-Timoukos? Imaginas que há espiões entre nós?

 

Zenão!

 

O facto é que tudo isto aconteceu por tua culpa, tua e dos outros que decidiram colocar-nos do lado de Pompeu, contra César. Eu avisei-te! Eu disse-te...

 

Cala-te, Zenão! Essa questão foi discutida no local e no momento adequados. Foi tomada uma decisão...

 

Por um grupo de velhos patetas e sovinas, que não conseguiram ver o futuro quando ele lhes bateu na cara. Nunca devíamos ter fechado as portas da cidade a César! Quando ele veio ter connosco, a pedir a nossa ajuda e a prometer-nos protecção, devíamos ter-lhas aberto para trás e ter-lhe dado as boas-vindas.

 

Não! Massília sempre foi leal a Roma. Nada mudou e nada mudará jamais. Pompeu e o Senado são Roma, César não é. César é um usurpador, um traidor, um...

 

César é o futuro, sogro! Ao rejeitá-lo, foi a isso que voltaste as costas. Agora, Massília deixou de ter futuro, graças a ti.

 

Cidímaque poisou a mão no braço de Zenão, fosse para o consolar, para o acalmar, ou por ambos os motivos.

 

Este gesto de devoção conjugal irritou Apolónides.

 

Filha! Como podes estar aí sentada, a ouvir este homem falar com o teu pai desta maneira?

 

Cidímaque não respondeu. Eu observei a sua figura velada à luz mortiça. Parecia um oráculo que se recusava a falarobscuro, misterioso, deste mundo mas sem lhe pertencer por completo. O seu rosto e o seu corpo deformado estavam totalmente escondidos, mas a sua postura falava inegavelmente de lealdades repartidas e de um sofrimento atroz ou seria imaginação minha, uma leitura inadequada de uma corcunda velada?

 

Zenão afastou-a sem brusquidão, com delicadeza e levantou-se.

 

A única coisa que eu sei, sogro, é que enquanto andei por lá hoje, a ver os nossos navios arder ou partir-se ao meio e desaparecer por entre as vagas, não ouvi os homens gritarem o teu nome, nem o nome de Pompeu, nem ”Pelos Timoukoi!” Ouvi homens gritarem ”César!” Gritavam o nome dele enquanto matavam, e gritavam-no ao morrer. E depois, foram os homens que gritavam ”César!” que venceram a batalha. Calculo que venham a gritar ”César!” quando deitarem abaixo as muralhas de Massília. ”César!” será o nome que ouviremos quando nos cortarem as gargantas, e ”César!” ficará nos ouvidos das nossas mulheres e das nossas filhas, quando forem despidas, violadas e levadas daqui como escravas.

 

Isto foi de mais para muitos ouvintes. Ouviram-se arquejos, resmungos e exclamações: ”Vergonha!”, ”Hubris!”

 

Apesar da luz sombria, percebi que Apolónides tremia de fúria.

 

Vai-te embora! sussurrou em voz rouca.

 

Por que não? respondeu Zenão. Perdi o apetite, mesmo para esta quantidade patética. Vamos, mulher.

 

Apolónides voltou-se para Cidímaque, que continuava a hesitar. Por fim, pôs-se laboriosamente de pé, arqueada para diante, ao lado do marido. Com lentidão martirizante, saíram ambos do jardim, com Cidímaque a arrastar os pés, pelo braço de Zenão, que coxeava ligeiramente. Apolónides olhava fixamente em frente.

 

Na sequência da saída de Zenão, a festa animou-se estranhamente. De todos os cantos, provinham zumbidos de conversas baixas. As pessoas sentiam-se obrigadas a mostrar a indignação que sentiam por Zenão, ou a sua concordância; ou talvez se sentissem obrigadas a balbuciar com o simples objectivo de preencherem o incómodo silêncio.

 

Não saias daqui murmurei a Davo.

 

Enquanto passava por Milo, ele apontou por cima do ombro e resmungou:

 

É por ali. Pensou que eu ia à procura dos lavabos. São primitivos, comparados com os romanos acrescentou.

 

Dei uma volta, para que não fosse demasiadamente óbvio que ia atrás de Zenão. Havia bastante movimento entre os convivas e os escravos que estavam a servir a refeição, de maneira que passei despercebido.

 

Eles tinham desaparecido por um corredor que saía de uma das colunatas. A passagem dava para uma entrada ampla e comprida. Avancei rapidamente, olhando para dentro dos compartimentos de ambos os lados sem ver ninguém, até chegar à extremidade do corredor, que dava para outro pátio, bastante mais pequeno e mais aconchegado do que aquele onde estava a ser dado o jantar. O pátio era escuro e estava deserto; pelo menos foi o que me pareceu, até ouvir uns sussurros, provenientes das sombras por trás da colunata que ficava do outro lado.

 

Sustive a respiração a ouvir, mas as vozes falavam demasiadamente baixo para que eu conseguisse perceber o que diziam. Podiam estar a discutir, e uma delas era certamente uma voz de homem; para além disso, apenas podia especular. Por fim, pigarreei e disse:

 

Zenão?

 

Houve uma longa pausa. Depois, ouvi a voz de Zenão.

 

Quem está aí?

 

Saí das sombras da colunata para a luz indistinta das estrelas.

 

Chamo-me Gordiano disse.

 

Uma longa pausa. Depois:

 

Eu conheço-te?

 

Não. Sou romano. Sou convidado do teu sogro. Não era totalmente falso.

 

O que queres? Ele emergiu de trás da colunata oposta e deu uns passos em direcção a mim. A capa obscurecia-lhe a silhueta, mas pareceu-me tê-lo visto levar a mão direita à cintura, como se fosse buscar um punhal à bainha. Deu outro passo em direcção a mim.

 

Por breves momentos, fui confrontado com a irónica possibilidade de o meu corpo sem vida poder ser encontrado neste local. Quantas vezes fora chamado para explicar um cadáver descoberto num pátio, procurar pistas que conduzissem à identificação do assassino, explicar o crime? Que piada dos deuses se Gordiano, o Descobridor, acabasse da mesma maneira que aqueles que passara a vida a investigar! O meu corpo seria descoberto por um escravo, que daria o alarme, perturbando a festa do Primeiro-Timoukos. Os ferimentos produzidos pelo punhal seriam comentados e a identidade da vítima um mistério até alguém Domício, Milo, Davo, o próprio Apolónides, me identificar. A partir desse momento, contudo, não era provável que alguém se esforçasse muito a tentar resolver o meu assassínio, talvez à excepção de Davo.

 

A não ser que...

 

Por brevíssimos instantes, que não devem ter sido mais longos do que um piscar de olhos, concebi uma peculiar fantasia: Meto estava vivo, em Massília, e esta era a sua história, e não a minha. Era eu que estava destinado a morrer, e não ele; e era ele que estava destinado a chorar-me e a procurar o meu assassino. Eu era uma simples vítima da história de outra pessoa, da qual cometera o erro de pensar que era o protagonista! Esta fantasia foi de tal maneira real que fui arrancado ao momento, abruptamente desligado da realidade e lançado para o mundo onde habitam os sonâmbulos. Era uma antecipação da morte; todos os homens a têm de vez em quando, em especial quando começam a envelhecer. Afinal, o que é ser um lémure, senão ser riscado da história do mundo, passar à condição de nome escrito no passado, observar mudamente das sombras enquanto outros prosseguem a história dos vivos?

 

Estremeci. Talvez tenha cambaleado ligeiramente, porque Zenão deu outro passo em frente e disse:

 

Não estás bem?

 

Estou perfeitamente consegui dizer. Mas não consegui deixar de observar que coxeias ligeiramente.

 

Ele tornou-se rígido. Seria de culpa, ou a simples reacção à indelicadeza de um desconhecido?

 

Foi um ferimento de batalha respondeu por fim.

 

Da batalha de hoje? Ou coxeias há já vários dias?

 

Ele tinha-se aproximado tanto que, apesar de fraca, a luz das estrelas me permitia ver-lhe o sobrolho franzido no belo rosto.

 

Quem és tu, para me fazeres semelhante pergunta?

 

Em Roma, chamam-me Descobridor. Mesmo aqui, alguns dos teus concidadãos ouviram falar de mim. Um deles veio visitar-me no outro dia, um homem chamado Aráusio. Chorava a morte da filha, de nome Rindel.

 

Para além de Zenão, uma figura emergiu de trás de uma das colunas. As profundas sombras da colunata continuavam a obscurecê-la, mas a silhueta disforme de Cidímaque era inconfundível.

 

O que queres? perguntou Zenão bruscamente, num sussurro.

 

Por que estás a dizer-me isso?

 

Eu baixei a voz, para ficar ao nível da sua.

 

O nome de Aráusio tem algum significado para ti? E o nome de Rindel?

 

Ele voltou a levar a mão ao punhal. Eu senti um frémito de receio, mas a sua agitação tornou-me mais ousado.

 

- Ouve, Zenão. Aráusio está convencido de que sabe o que aconteceu à filha dele, mas não tem a certeza...

 

Em que é que isso te diz respeito, romano?

 

Quando um pai perde um filho, tem necessidade de conhecer a verdade. A dor de não saber corrói um homem, rouba-lhe o sono, envenena-lhe o ar que respira. Acredita no que te digo, sei do que estou a falar! Aráusio está convencido de que só tu podes contar-lhe a verdade sobre o que aconteceu à filha dele. Lancei um olhar à figura de Cidímaque, que permanecia nas sombras. Se não tens nada a esconder, por que baixámos a voz, impedindo a tua mulher de ouvir?

 

A minha mulher... Zenão pareceu engasgar-se com a palavra.

 

A minha mulher não tem nada a ver com isto. Se te atreveres, sequer, a dizer o nome dela, juro por Artemísia que te mato aqui mesmo!

 

Já tinha morto outros homens naquele dia. Não duvidava de que mataria mais um. Atrever-me-ia a insistir? Se me visse levar a mão à bolsinha que tinha na cintura, podia interpretar mal o gesto e tirar o punhal; por isso, fiz uns movimentos muito lentos e disse muito devagar:

 

Tenho uma coisa para te mostrar, Zenão. Está na minha bolsa. Olha, vou tirá-la. Consegues ver o que tenho entre os dedos?

 

Dei por mim a desejar que a luz fosse mais forte, para que ele pudesse ver melhor o anel e eu estudar melhor a sua expressão. Teria reconhecido o anel?

 

A escuridão obscurecia-lhe o rosto, mas ouvi-o emitir um ruído estranho, entre engolir e arquejar. Recuou. O susto, ou a fraqueza da perna, fê-lo vacilar. Cidímaque avançou, sobressaindo das sombras carregadas, apertando o vestido contra o peito; pensou que eu o tinha atacado. Zenão olhou por cima do ombro.

 

Não avances! gritou, com um soluço na voz. Voltou-se de novo para mim e tirou o punhal. A lâmina cintilou à luz das estrelas.

 

Ele ouvia melhor do que eu. Subitamente, tornou-se rígido e baixou o braço. De olhos fixos em qualquer coisa que estava a passar-se atrás de mim, recuou em direcção às sombras da colunata. Passou um braço à volta de Cidímaque, aproximou o rosto do dela, sussurrou qualquer coisa. Retiraram-se os dois para uma zona mais sombria.

 

Sogro, estás aqui!

 

Tive um sobressalto, quando Davo me apareceu por trás. O coração saltou-me até à boca. Não sabia bem se havia de lhe agradecer ou de o amaldiçoar. Teria interrompido no momento em que Zenão podia ter cedido, ou ter-me-ia salvo a vida?

 

Soltei um profundo suspiro e fiquei a olhar fixamente para a escuridão para onde Zenão e Cidímaque tinham desaparecido.

 

Esta noite, houve três coisas que ficaram claras disse eu, erguendo um dedo por cada ponto que ia assinalando. Se o minúsculo quartinho fosse maior, estaria a andar de um lado para o outro. Assim, estava sentado na estreita cama, encostado à parede, tamborilando ociosamente com um pé no chão. Davo estava sentado à minha frente, a bater com os joelhos dormentes um no outro.

 

Primeiro, Zenão reconheceu este anel. Fi-lo rodar entre os dedos, estudando a bizarra pedra à fraca luz da lamparina. Teve uma reacção veemente e imediata.

 

Quer dizer que o anel era mesmo de Rindel, e ficou caído na Rocha do Sacrifício quando Zenão a empurrou lá para baixo disse Davo.

 

Eu abanei a cabeça.

 

Não necessariamente. Não temos a certeza de que este anel tenha pertencido a Rindel; ainda não temos a certeza de que fossem Rindel, ou sequer a Zenão, as pessoas que vimos em cima da rocha naquele dia; e não sabemos, apesar das tuas certezas, se a mulher que vimos foi empurrada

 

Mas só pode ter sido Zenão! Vimo-lo coxear esta noite.

 

Pode haver outra explicação para isso. Ele disse-me que tinha sido um ferimento de batalha.

 

Davo resfolegou.

 

Aposto que ele já coxeava muito antes de ter partido no barco, esta manhã, para a batalha. Deve ser bastante fácil descobrir. Os outros oficiais devem saber há quanto tempo ele coxeia. Apolónides sabe de certeza.

 

O que significa que vai ser fácil resolver essa parte; limito-me a interrogar o Primeiro-Timoukos assim que tiver oportunidade, é isso? Mas tens razão, aquela deficiência não é coisa que Zenão pudesse ocultar aos camaradas. Seria instrutivo saber há quanto tempo coxeia.

 

Ergui outro dedo.

 

A segunda coisa de que temos a certeza é de que Zenão ama realmente Cidímaque. Não obstante aquilo que Domício me contou acerca da fealdade e das deformidades dela, apesar da presunção de Aráusio, de que Zenão só abandonou Rindel para se casar com a filha do Primeiro-Timoukos para poder subir na vida, os dois recém-casados têm um afecto genuíno um pelo outro. Viste-os esta noite? A maneira como ela se aproximava dele; a maneira como ele lhe tocava, acidentalmente, quase sem pensar, mas com ternura. Não estava a representar. O que eu vi foi um homem e uma mulher fisicamente à-vontade um com o outro, unidos por um elo de confiança.

 

Davo resfolegou.

 

Podias ver a mesma coisa entre um homem e um cavalo.

 

Cidímaque é uma mulher, Davo.

 

Uma mulher, um cavalo, se Zenão for tão calculista e ambicioso como Aráusio julga, a mulher com quem se casar poderá não significar para ele nem mais nem menos do que o animal que o transporta. Ele andava apenas à procura de um meio fiável de chegar onde pretendia, e casar-se com Cidímaque levou-o até ao topo. Agora que chegou lá, está amarrado a ela, e terá de a engravidar se quiser aceder a Timoukos. Por isso, obriga-se a representar com ela, e ela sente-se grata por isso. É natural que arrulhe para ele e o reconforte. Entretanto, ele habituou-se a ela. Um homem habitua-se a quase tudo neste mundo qualquer homem que tenha sido escravo to dirá. Muito bem, Zenão consegue tocar-lhe sem estremecer e então? Especialmente tendo em conta a maneira como ela se cobre; provavelmente, permanece embrulhada daquela forma quando ele faz amor com ela, e Zenão limita-se a fechar os olhos e a pensar na bela Rindel

 

O quê? Imagina a rapariga que, em tua opinião, lançou da Rocha do Sacrifício a sangue-frio?

 

”A sangue-frio” é a expressão exacta para definir um homem como Zenão!

 

Abanei a cabeça.

 

Não, este casamento entre Zenão e Cidímaque tem mais que se lhe diga. A maneira como eles tocam um no outro lembrou-me a maneira como tu e Diana se tocam, sem sequer se aperceberem. Sim, é exactamente a mesma coisa.

 

Davo baixou os olhos. O semblante carregou-se-lhe ligeiramente. A sua boa disposição era de tal maneira constante, que por vezes me era fácil esquecer que Davo também estava longe de casa, e também tinha saudades. Ele pigarreou e perguntou, com uma certa lassidão:

 

Qual era a terceira coisa? Disseste que, nesta altura, tínhamos a certeza de três coisas que Zenão tinha reconhecido o anel, que gosta realmente de Cidímaque... e que mais?

 

Que Zenão não é um cobarde. A história que ele contou ao jantar fez-me gelar o sangue nas veias. As coisas que viu hoje devem ter sido aterradoras, mas manteve a frieza e trouxe os seus homens de volta. E não hesitou em enfrentar o sogro. Zenão tem nervo. Tem coragem. Não consigo deixar de perguntar a mim próprio: será o género de homem capaz de atirar uma rapariga de uma ravina abaixo?

 

Davo cruzou os braços, sem se deixar impressionar.

 

Seria, se ela estivesse a causar-lhe problemas o género de problemas que uma mulher desdenhada e desvairada é capaz de criar a um homem ambicioso.

 

Quer dizer que não viste nada de positivo em Zenão? Absolutamente nada?

 

Nada de nada.

 

Pareces muito seguro de ti disse eu suavemente.

 

Por que não? Conheci outros do género de Zenão. Tu não conheceste? Agora, era Davo quem espetava os dedos, um por um. Ama Cidímaque? Não há dúvida de que é benéfico para ele dar a entender que sim, por isso fá-lo.

 

- É um herói? Bem, se o navio dele for tomado durante a batalha, ele morre como os outros, portanto é melhor que lute com a mesma coragem com que lutam os restantes.

 

”Tem nervo? Sem dúvida nenhuma. Pareces admirá-lo por responder a Apolónides em público, mas não me parece que ficasses muito satisfeito se eu mostrasse o mesmo desrespeito por ti, sogro.

 

- Um sujeito como ele poderia ter morto a sangue-frio uma mulher que amou? A verdade é que Zenão é bonito e de boas famílias; o que o impede de ser encantador e amável? Tanto mais fácil se tornará sair impune de um acto verdadeiramente ultrajante, como empurrar de uma ravina abaixo uma antiga amante que se tornou incómoda.

 

Satisfeito com a sua lógica, Davo inclinou a cabeça para trás, fechou os olhos com força, estendeu os braços por cima da cabeça e abriu a boca num enorme bocejo.

 

Eram horas de dormir. Apaguei a luz. A escuridão era tão profunda, que eu via o mesmo negrume, quer tivesse os olhos abertos, quer os tivesse fechados.

 

Teria avaliado assim tão mal o carácter de Zenão? Sentia-me cansado

 

e confuso, como um cão velho que já não pode confiar no seu faro e que, depois de vaguear o dia inteiro, dá por si perdido nos campos, longe de casa.

 

Quando abri os olhos, na manhã seguinte, não consegui perceber se tinha sido a fome a acordar-me ou o ruído que o meu estômago fazia, tão alto roncava ele. O quarto sem janelas estava fracamente iluminado; a única luz provinha da porta aberta e do corredor sombrio que ficava para além dela. Ouvi ao longe vozes indistintas, passos apressados e um vago ruído metálico, sons de grande agitação doméstica.

 

Ocorreu-me que a minha preocupação com Zenão e o incidente na Rocha do Sacrifício não fora mais do que uma distracção, uma benevolência destinada a manter-me o espírito afastado dos problemas em que estávamos envolvidos. Massília encontrava-se à beira do caos, talvez da destruição completa. Uma coisa era passar dias ociosos no conforto da casa de um Bode Expiatório, e outra coisa completamente diferente era confrontar-me com a possibilidade da prisão domiciliária, ou pior ainda, às mãos de Apolónides. Em vez de me ter preocupado com os pecados do genro do Primeiro-Timoukos, talvez devesse ter passado a noite anterior a fazer tudo o que podia para cair nas boas graças de Domício que, se eu me humilhasse o suficiente, talvez se deixasse convencer a proteger-nos, a Davo e a mim.

 

A ideia era de tal maneira repugnante, que dei por mim a erguer o anel à luz débil da manhã e a espreitar para as profundezas da pedra celeste preta.

 

Davo agitou-se. O estômago dele roncou ainda mais alto do que o meu, recordando-me que o nosso problema mais imediato era arranjar comida. Era-me difícil imaginar que Apolónides, com tudo aquilo em que tinha de pensar, se tivesse preocupado em dar instruções aos seus escravos para alimentarem dois desordeiros romanos, que se tinham tornado seus convidados relutantes e indesejados. Pensei que podíamos ir investigar às cozinhas, embora me parecesse improvável que a lúgubre imitação de banquete que nos fora servida na noite anterior tivesse produzido grande coisa, em termos de restos.

 

Davo sentou-se, espreguiçou-se e bocejou. Olhou fixamente para o anel que eu tinha na mão. Pestanejou. Estreitou os olhos. Franziu o nariz. Quando ele se voltou para olhar para a porta, também eu captei o inconfundível odor a pão.

 

O pão apareceu primeiro. A mão que transportava o disco chato e redondo estava escondida atrás dele, de maneira que o alimento parecia levitar; como uma lua, por vontade própria. Seguia-se um braço, e depois o rosto sorridente de Jerónimo, espreitando do lado de lá da entrada no quarto.

 

Têm fome? perguntou.

 

Estamos esfomeados admiti eu. Ontem à noite, abandonei o banquete de Apolónides com mais fome do que tinha ao chegar.

 

O que significa que as suas aptidões como anfitrião estão exactamente ao mesmo nível que os seus talentos de militar e chefe do povo comentou Jerónimo, secamente. Também vos trouxe de beber disse ele, apresentando um odre cheio.

 

Que os deuses te abençoem! disse eu, sem pensar.

 

Na verdade, esse é o único favor que não posso receber. Mas a minha comucópia está cheia a abarrotar de bênçãos terrenas. A noite passada, enquanto vocês passavam fome no banquete de Apolónides, eu jantei sozinho nem vão acreditar! duas codornizes assadas, com uma suculenta guarnição de azeitonas e conserva de peixe. Ter-vos-ia guardado uma parte, mas estar sentado naquela rocha o dia todo, e em seguida percorrer as ruas, foi um trabalho duro para um humilde Bode Expiatório como eu. Recordei a prova que fora a quase revolta do dia anterior e perguntei a mim próprio como é que ele era capaz de brincar com aquilo. Depois da codorniz, vieram os ruivos em molho de amêndoas, os ovos quentes condimentados com limão e assa-fétida, seguidos de bem, basta que vos diga que os sacerdotes de Artemísia insistem em que eu me refastele. Quanto piores são as notícias da batalha, melhor eu me alimento. Sinto-me um ganso que está a ser engordado para um banquete. Deu umas palmadinhas na barriga redonda que se projectava incongruentemente da sua figura esgalgada. Esta manhã, quando acordei, ainda estava tão cheio que não consegui comer nada de maneira que, quando me trouxeram este pão acabado de cozer, pensei em vocês.

 

Cortei o pão macio em semicírculos e dei metade a Davo. Obriguei-me a comer em pequenas dentadas. Davo pareceu-me inalar a sua parte sem sequer mastigar.

 

Quer dizer que estás autorizado a circular à vontade pela casa? perguntei.

 

Ninguém se atreve a limitar-me os movimentos. Quando me vêem, os escravos debandam como folhas do outono levadas por Bóreas. Claro que eu faço os possíveis por não ser incomodativo. Não tenho qualquer intenção de me ir meter nas reuniões do conselho de guerra, ou de importunar recém-casados com os olhos cheios de estrelas. De outra maneira, quando César derrubar as portas da cidade e Cidímaque produzir um monstro guinchante, Apolónides acusar-me-ia de ser o responsável por ambas as catástrofes.

 

Vais voltar para tua casa?

 

Houve uma prega na sua volúvel compostura, semelhante a uma rajada de vento na água.

 

Não me parece.

 

É uma punição por teres subido à Rocha do Sacrifício?

 

Não propriamente. Não é uma punição. Digamos que se trata de uma repercussão.

 

Não compreendo.

 

Convenci os sacerdotes de que tinha todo o direito a subir à rocha; disse-lhes que tinha ouvido Artemísia convocar-me a ir até lá observar a frota. Bem, não era propriamente coisa a que pudessem objectar, pois não? E acho que consegui fazer com que também vos perdoassem a vossa transgressão, Gordiano. Poderiam impressionar a multidão durante algum tempo impondo-vos castigos exemplares queimando-vos vivos, por exemplo, ou pendurando-vos de pernas para baixo e esfolando-vos como se fossem veados, mas eu fiz-lhes ver que, a longo prazo, talvez não fosse grande ideia impor castigos sangrentos a convidados romanos, considerando que parece quase inevitável que, se continuar a existir, Massília venha a ter um senhor romano. Se não for este ano, será no próximo; se não for César, será Pompeu. É mesmo possível que ambos governem Massília, um após o outro. Fiz ver aos sacerdotes que eras amigo de ambos e que, nestes dias, a amizade tem mais valor para um romano do que os laços de sangue.

 

Por outras palavras, salvaste-nos a vida, Jerónimo.

 

Pareceu-me que era o mínimo que podia fazer. É o que se espera de mim, não é verdade, que seja um salvador? Supostamente, a minha morte terá um certo efeito místico, permitindo salvar Massília dos seus inimigos no derradeiro momento. Parece-me cada vez mais improvável que os sacerdotes de Artemísia consigam produzir esse milagre; e, mesmo que isso aconteça, eu não assistirei aos resultados! Mas há uma coisa que posso fazer: é estar aqui, neste buraco a que chamam quarto, a ver os meus únicos amigos, vivos e de razoável saúde, a devorar um pão raso que não me serve para nada e isso proporciona-me um prazer curioso.

 

Nunca um pão me soube tão bem como este comentei suavemente.

 

Jerónimo limitou-se a encolher os ombros.

 

Disseste que não voltavas para tua casa. Por que não, visto que aplacaste os sacerdotes?

 

Porque ela já não existe. Pestanejei.

 

Como?

 

A casa do Bode Expiatório] não existe. A multidão incendiou-a.

 

O quê?

 

Foi ontem ao fim da noite. Calculo que, aqui enterrados, não tenham ouvido os trompetes a dar o alarme de incêndio. Mas eu ouvi-as, lá em cima no meu quarto. Acordaram-me de um sono profundo. Estava a sonhar com a minha mãe; e, estranhamente, era um sonho feliz. Depois, fui acordado pelos trompetes; levantei-me e fui até à varanda. Vi um brilho vermelho na direcção de minha casa. Aparentemente, a multidão reuniu-se ali depois de escurecer. Exigiam que eu fosse apresentado e conduzido à Rocha do Sacrifício. Apolónides tinha postado guardas à porta, mas eram poucos. Eles explicaram que eu não estava lá dentro, mas a multidão não acreditou. Dominaram os guardas e entraram na casa à força. Não me encontrando, saquearam a casa e depois pegaram-lhe fogo. Abanou a cabeça. Provocar um incêndio numa cidade sitiada não é apenas um crime atroz, é uma estupidez incrível. Se o incêndio ficasse descontrolado, consegues imaginar os resultados? O povo fechado dentro das muralhas da cidade, tendo como únicos meios de fuga uma ou outra embarcação, os tumultos, os saques um destino tão horrível como o que quer que César tenha preparado para nós!

 

- Mas os guardas que tinham sido dominados chamaram reforços e tocaram os trompetes de incêndio, e os homens de Apolónides conseguiram conter as chamas. A minha casa ficou destruída, mas as que a rodeiam foram poupadas. Consequentemente, estou uma vez mais desalojado que ironia! e as cabeças dos 20 e tal saqueadores que os homens de Apolónides conseguiram capturar, estão espetadas em estacas, no meio das brasas fumegantes. Os corpos decepados foram lançados ao mar.

 

A última côdea de pão transformou-se em cinzas dentro da minha boca.

 

Jerónimo, isso é terrível!

 

Pois é. Não poderemos voltar a sentar-nos naquele simpático terraço do telhado, a ver as nuvens sobre o mar, a beber Falerniano e a discutir falácias.

 

Não, referia-me...

 

Eu sei, Gordiano. Suspirou. O pior de tudo é que não me atrevo a abandonar esta casa, ou sequer a sair à rua. Se a multidão reconhecesse a minha liteira ou as minhas vestes verdes bem, não tenho qualquer desejo de ser atirado da Rocha do Sacrifício abaixo. Endireitou os ombros. Quando chegar a altura, espero que me façam uma cerimónia completa com incenso, cantos, et cêtera, como vocês dizem em Latim. E não serei empurrado; saltarei de livre vontade, como a pobre rapariga que vimos.

 

Ela foi empurrada disse Davo, num tom de voz que mal se ouvia.

 

Jerónimo ignorou-o.

 

E aqui estou eu, fechado dentro de casa de Apolónides, o lugar de Massília onde menos queria estar, e o lugar onde Apolónides menos gostaria que eu estivesse. Presumo que a deusa ache que nos merecemos um ao outro. Se calhar, Artemísia de rosto severo afinal tem algum sentido de humor.

 

Cruzou os braços e encostou-se à ombreira da porta, examinando o nosso cubículo com uma expressão sardónica.

 

Receio que os desenvolvimentos de ontem te tenham colocado, e a Davo, em circunstâncias um tanto desconfortáveis. Uma lamparina, duas camas estreitas e um único pote de noite para ambos. E nem sequer dispõem de uma porta ou de uma cortina, que vos proporcione alguma privacidade.

 

Podia ser pior disse eu. Podia haver uma porta trancada. Não percebo bem se podemos sair daqui ou não.

 

Tenho a impressão de que, considerando a vaga de acontecimentos, Apolónides se esqueceu por completo de vocês. Tem o prato cheio, perdoem-me a piada de mau gosto. O mais provável é que não volte a pensar em vocês enquanto não voltar a ver-vos. Estas acomodações são espartanas, para dizer o mínimo, mas dado que não têm para onde ir, sugiro-vos que aproveitem a hospitalidade enquanto puderem. Não façam barulho quando aqui estiverem. Procurem um sítio onde despejar o pote de noite. Caiam nas boas graças dos escravos da casa sugiram vagamente que são amigos de César, e que portanto vale a pena ser vosso amigo, mas deixem claro que não são tão íntimos que valha a pena assassinar-vos enquanto dormem e, para além disso, circulem o mais discretamente que forem capazes.

 

Eu acenei com a cabeça.

 

O mais difícil será arranjar que comer. Ontem à noite, ouvi Milo queixar-se a Domício de nova redução nas rações. Todas as doses de todas as casas serão reduzidas.

 

À excepção das minhas. Não te preocupes com a comida, Gordiano. Enquanto andar por cá, não vos deixarei morrer à fome.

 

Jerónimo, não sei realmente como...

 

Então não o faças. Gordiano. Não é necessário. E agora tenho de vos deixar. Os sacerdotes de Artemísia sentem-se obrigados a realizar uma cerimónia qualquer esta manhã, aqui em casa do Primeiro-Timoukos; calculo que de homenagem aos que ontem morreram no mar. Por qualquer razão, esperam que eu esteja presente, avultando-me por trás deles. Voltou-se para se ir embora, depois lembrou-se de qualquer coisa e meteu a mão na bolsinha que trazia consigo. Ia-me esquecendo. Tomem dois ovos de galinha cozidos, ainda com a casca. Podem comê-los ao almoço.

 

Tínhamos resolvido o problema da comida, pelo menos por agora. Mas como é que Davo e eu havíamos de fazer para sair desta casa e voltar a entrar? Circulem discretamente, tinha sido o conselho de Jerónimo mas como? A noite passada, tínhamos entrado no complexo de Apolónides por um portão fortemente guardado. Não era de esperar que nos autorizassem a entrar e sair por um portão guardado sem uma autorização pessoal do Primeiro-Timoukos, ou sem mostrarmos, pelo menos, um documento qualquer.

 

Aceitei outro conselho de Jerónimo e fui à procura do jovem escravo que nos tinha acompanhado ao banquete na noite anterior. O rapaz estava convencido de que nós éramos convidados do seu senhor, e homens de certa importância, além de sermos, como se tornava evidente pela minha pronúncia, de outras terras, precisando portanto de orientações básicas. Quando lhe perguntei qual era a maneira mais fácil de entrar e sair, não hesitou em me mostrar a entrada que era utilizada pelos escravos, um portão que ficava na secção do muro situada nas traseiras do complexo, entre as cozinhas e os armazéns. Este pequeno portão estava guardado, não por soldados armados, mas por um velho escravo que toda a vida tivera este trabalho. Era um sujeito simples e loquaz, com quem era fácil conversar mas que não era fácil compreender, porque lhe faltava uma série de dentes. Quando lhe pedia que repetisse o que tinha dito, fingia que isso se devia ao facto de eu perceber mal o grego, e não de ele pronunciar mal as palavras.

 

Os guardas que estavam ao portão da frente eram uma novidade, disse-me o velho porteiro, tinham sido ali colocados em resposta ao caos da noite anterior. Numa situação normal, a casa do Primeiro-Timoukos não tinha mais segurança do que a casa de qualquer homem rico de Massília, e talvez até tivesse menos; nenhum ladrãozeco se atreveria a vir assaltar o mais proeminente cidadão da cidade.

 

Noutro dia qualquer, esta seria a casa mais segura de Massília! insistia ele. Apesar disso, não podemos deixar entrar qualquer pessoa, pois não? Por isso, quando voltarem, batam no portão assim disse ele, dando três pontapés na madeira. Ou então esqueçam isso, e digam os vossos nomes em voz alta. Eu lembro-me deles tu tens um nome romano engraçado; nunca o tinha ouvido. Mas tenham cuidado aí fora, pelas ruas. As coisas estão a ficar esquisitas. Têm coisas assim tão importantes para fazer, que se atrevam a deixar a segurança desta casa? Bem, deixem lá, não tenho nada a ver com isso.

 

Davo foi o primeiro a sair para o que parecia ser uma viela estreita. Já seguia atrás dele, quando me lembrei de uma coisa e me voltei.

 

Porteiro disse eu, deves conhecer o genro do Primeiro-Timoukos.

 

O jovem Zenão? Claro que conheço. Usa muitas vezes esta porta. Anda sempre apressado, a entrar e a sair. Excepto quando vem com a mulher, evidentemente. Nessa altura, abranda o passo para poder acompanhá-la.

 

Ele sai na companhia de Cidímaque?

 

O médico dela recomenda-lhe que dê longos passeios sempre que pode. Zenão vai com ela. É tocante, a maneira como se preocupa com ela, como gosta dela.

 

Reparei que, ontem à noite, ele coxeava ligeiramente. Sempre foi aleijado?

 

Oh não. É um jovem em plena forma. Em perfeita forma. Ganhou corridas no ginásio quando era rapaz.

 

Estou a ver. Talvez coxeasse por ter sido ferido na batalha de ontem.

 

Não, já coxeia há algum tempo. Mas melhorou muito.

 

Quando foi que ele se feriu?

 

Deixa-me pensar. Ah, sim, foi no dia em que os homens de César tentaram derrubar as muralhas. Foi um dia de loucos, toda a gente corria de um lado para o outro. Zenão deve ter-se magoado a correr para a frente e para trás, nas muralhas.

 

Certamente disse eu. Saí para me juntar a Davo, que estava à minha espera na viela com uma expressão presumida.

 

A casa de Aráusio? Não é longe. Vira naquela rua à esquerda. Hás-de chegar a uma casa com uma porta azul. Desce a viela que passa ao lado dela e, quando chegares a um beco sem saída, estarás na chamada Rua das Gaivotas, por causa de uma louca que costumava pôr peixe na rua para as gaivotas; quando eu era miúda, havia dias em que eram tantas, que não se conseguia andar pela rua por causa da porcaria dos bichos. À tua direita, a rua sobe uma pequena colina. A casa de Aráusio fica no alto dessa colina. Sempre achei que devia ter uma vista maravilhosa do porto...

 

Quem falava era uma jovem magra e pálida, cujo grego tinha uma pronúncia tão forte como o meu, mas gaulesa em vez de romana. Tinha o cabelo louro, afastado da cara doentia e firmemente apanhado na nuca com uma fita de couro, caindo-lhe depois em juba pelas costas abaixo; estava sujo e precisava muito de ser penteado. Não usava jóias, mas as tiras de pele mais clara que exibia em vários dedos provavam que costumava usar anéis. Tê-los-ia vendido por necessidade ou tirado com receio de os mostrar em público?

 

A sua voz tinha uma entoação levemente histérica. Parecia contente por ter com quem falar, mesmo que fossem dois desconhecidos a pedir informações sobre o caminho.

 

Aquelas gaivotas! Quando eu era miúda, lembro-me de ajudar a minha mãe a transportar para casa as compras do mercado num cesto exactamente igual a este que trago hoje, talvez até seja o mesmo, este cesto é mais velho do que eu e uma vez metemos por aquela rua, e foi um erro tremendo, porque as gaivotas atacaram-nos. Que criaturas horríveis! Voaram direitas a mim, deitaram-me ao chão, roubaram o que queriam do cesto e espalharam o resto pela rua fora. Oh, o cesto devia estar cheio com todo o género de coisas, azeitonas e alcaparras e pão raso, mas claro, deve ter sido o peixe que as atraiu... Olhei de relance para o cesto de palha que ela trazia na mão. A pega era de couro, e o desenho gaulês exibia um padrão em espiral em volta do rebordo. Hoje, não seria atacado por nenhuma gaivota por causa do conteúdo. Estava vazio.

 

Ao fundo da rua, à esquerda, disseste tu? Obrigado. Fiz um gesto a Davo, indicando-lhe que prosseguisse. Um brilho de loucura começara a desenhar-se nos olhos da mulher.

 

Estás a ver, Davo? Bem te disse que não seria difícil encontrarmos a casa de Aráusio. Bastava perguntar a um habitante local.

 

Pois. Continuas a perguntar e eles continuam a mandar-nos andar em círculos. Achas que a casa da porta azul é aquela?

 

Aquilo não é azul, é verde.

 

Achas?

 

E não vejo nenhuma viela ao lado.

 

Não, eu também não...

 

Davo inspirou audivelmente. Tinha razões para estar exasperado, pensei, mas depois apercebi-me de que não era apenas isso. Talvez devamos perguntar-lhes a eles disse.

 

A quem?

 

Aos dois tipos que vêm atrás de nós. Resisti ao impulso de olhar para trás.

 

São os mesmos que vimos no outro dia?

 

Acho que sim. Pareceu-me tê-los avistado pouco depois de sairmos de casa do Primeiro-Timoukos. Agora, voltei a vê-los. Não pode ser coincidência.

 

A não ser que haja mais dois forasteiros perdidos a circular pelas ruas de Massília em círculos, à procura da casa de Aráusio. Mas quem os terá mandado? Quem quererá seguir-nos? Não pode ser Apolónides. Dormimos debaixo do seu tecto a noite passada. Se ele quisesse impedir-nos de sair, podia ter-nos fechado à chave num compartimento qualquer. O facto de andarmos hoje pelas ruas significa que ele se esqueceu de nós, que não está preocupado connosco.

 

A não ser que nos tenha permitido intencionalmente sair de sua casa e tenha mandado aqueles dois homens verem onde é que nós íamos sugeriu Davo.

 

Para quê?

 

Talvez saiba o que nós pretendemos.

 

Mas, Davo, nem eu tenho bem a certeza do que é.

 

Claro que tens. Vimos o genro de Apolónides assassinar uma jovem inocente e tu estás a tentar encontrar provas de que foi isso que aconteceu. As coisas já andam a correr bastante mal a Apolónides ultimamente; um escândalo tipo assassínio na família não vai ajudá-lo em nada.

 

Estás a presumir que Apolónides sabe que Zenão matou Rindel... Talvez tenha interrogado Zenão. Talvez Zenão lhe tenha confessado o crime!

 

Estás a presumir que Apolónides sabe que eu tenho algum interesse no assunto.

 

Foste testemunha. Contaste o que viste directamente a Apolónides. E, se ele manteve a casa do Bode Expiatório sob vigilância, sabe que recebeste a visita de Aráusio. Que motivo teria o pai de Rindel para bater àquela porta, senão falar contigo sobre o assassínio?

 

Se eu te conceder que tens razão em tudo isso, por que motivo não se limita Apolónides a fechar-me à chave? Ou a cortar-me a cabeça e pronto?

 

Porque quer saber onde vais, com quem falas. Quer descobrir quem mais suspeita da verdade, para poder lidar igualmente com essas pessoas. Davo deu umas palmadinhas na testa. Sabes como funciona a mente desse género de homens. Apolónides pode não passar de um salmonete, em comparação com tubarões como Pompeu e César, mas nada nas mesmas águas. É tão político como eles, e a sua mente trabalha exactamente como as deles. Está sempre a fazer esquemas, sempre a apagar fogos, a tentar adivinhar o que irá acontecer a seguir e quem sabe o quê, a congeminar maneiras de retirar vantagens de tudo isso. Faz-me dores de cabeça, pensar nesse género de homens. Eu franzi o sobrolho.

 

Estás a dizer-me que eu sou um cão que pensa que foi caçar sozinho, mas que na realidade Apolónides mantém seguro com uma trela comprida?

 

É mais ou menos isso. Davo enrugou a testa. Estas metáforas cansavam-no.

 

Diz-me, Davo, ainda vês os nossos seguidores? Ele olhou discretamente por cima do ombro.

 

Não.

 

Óptimo. Porque esta deve ser a casa da porta azul, e aquela a viela que passa ao lado. Se desaparecermos rapidamente atrás da esquina, pode ser que os despistemos.

 

A casa de Aráusio era exactamente onde a jovem nos tinha dito. Aparentemente, tínhamos enganado os nossos seguidores. Davo ficou à espreita enquanto eu batia à porta, mas não avistou ninguém.

 

Foi Aráusio quem veio à porta. Meto tinha-me contado que era habitual entre as tribos gaulesas ser o dono da casa e não um escravo a receber as visitas; tinha qualquer coisa a ver com as antigas leis de hospitalidade. Aráusio estava pálido e parecia alterado. Só tinham passado dois dias desde que o vira em casa do Bode Expiatório, mas ele aparentava ter perdido, mesmo num período tão curto, uma espécie de centelha vital. O sofrimento provocado pelo cerco e pela sua própria tragédia pessoal tinha-no consumido.

 

Quando me reconheceu, o seu rosto iluminou-se momentaneamente.

 

Gordiano! Perguntava a mim próprio se ainda estarias vivo! Dizem que a casa do Bode Expiatório ficou reduzida a cinzas. Pensei que tivesses...

 

Estou perfeitamente. É uma sorte estar vivo, mas estou.

 

E trazes-me... notícias? Sobre Rindel?

 

Não te trago notícias, ainda não. Trago-te apenas perguntas. A luz que havia nos seus olhos apagou-se.

 

Nesse caso, entra.

 

Era uma casa bem arrumada, limpa e asseada, com alguns ornamentos dispendiosos, para mostrar o sucesso do seu proprietário uma colecção de taças de prata ostensivamente expostas a um canto, algumas peças de estatuária grega colocadas em pedestais, aqui e ali. O gosto de Aráusio era mais refinado do que eu estava à espera.

 

Levou-nos para uma sala, onde uma mulher estava sentada a uma espécie de tear; era um instrumento de concepção gaulesa, que eu nunca tinha visto, como o era o padrão do traje que ela estava a tecer. Apercebi-me de que sabia muito pouco sobre os Gauleses e os seus costumes. Meto tinha vivido anos entre eles, desempenhando o papel que lhe coubera nas conquistas de César, aprendendo as suas línguas e os seus costumes tribais, mas raramente falávamos sobre isso. Por que motivo não teria sido mais curioso, expressado maior interesse pelas suas viagens? Ele andava sempre a correr, e eu também; nunca tinha havido tempo suficiente para falarmos a sério. Agora, não voltaria a haver.

 

A mulher que estava sentada ao tear parou o que estava a fazer e ergueu os olhos para mim. Eu sustive a respiração. Era linda, com uns olhos azuis penetrantes e o cabelo penteado como Aráusio me tinha contado que Rindel penteava o seu, entrançando como cordas de sol. Seria possível que Rindel, a desaparecida, tivesse regressado? Mas não, Aráusio estava ansioso por notícias dela, e o seu estado de espírito teria sido completamente diferente se a filha tivesse regressado.

 

O que significava que a mulher não era Rindel, mas a mãe de Rindel. Pelas faces coradas e o bigode caído de Aráusio, não me fora possível conceber uma imagem clara da bela filha de ambos, capaz de tentar um jovem como Zenão; mas, se Rindel fosse parecida com a mãe na verdade, bastava-lhe ter metade da beleza da mãe, não era difícil imaginar que Zenão se tivesse apaixonado por ela.

 

A minha mulher disse Aráusio. Também se chama Rindel; demos o mesmo nome à nossa filha. Sorriu tristemente. Dá origem a todo o género de confusões, especialmente porque são muito parecidas uma com a outra e a minha mulher parece ter metade da idade que tem. Por vezes, quando andamos pela rua entre desconhecidos, as pessoas julgam que elas são irmãs. Pensam que eu sou um velho que anda a exibir as duas filhas... Ficou com a voz embargada.

 

A mulher levantou-se e cumprimentou-nos com um ligeiro aceno de cabeça. Tinha os lábios apertados e os olhos encheram-se-lhe subitamente de lágrimas.

 

O meu marido diz que podes ajudar-nos. Talvez possa, se a descoberta da verdade for uma ajuda.

 

Queremos saber o que aconteceu a Rindel. Precisamos de saber.

 

Compreendo.

 

O meu marido diz que tu és capaz de a ter visto... no final. Vimos uma mulher na Rocha do Sacrifício. Talvez fosse Rindel.

 

O que vestia ela, da última vez que a viste?

 

Ela acenou com a cabeça.

 

Aráusio disse-me que tu querias saber isso, por isso andei a perguntar e fui ver as roupas dela. Não tenho a certeza, mas acho que devia vestir um vestido amarelo simples, que não era o seu melhor vestido, mas era razoavelmente novo.

 

E uma capa? Com um capuz?

 

Ela franziu o sobrolho.

 

Não me parece.

 

A mulher que nós vimos vestia uma capa escura, possivelmente verde...

 

Mais azul do que verde interrompeu Davo. A mulher acenou com a cabeça.

 

Rindel tem uma capa assim; eu diria que é de um verde-acinzentado. Mas tenho quase a certeza esperem um pouco. Saiu da sala por momentos, depois voltou trazendo uma capa sobre o braço. Cá está ela. Estava no meio das outras roupas. Quer dizer que não podia tê-la vestida, se dizem que a viram... Baixou os olhos e voltou a erguê-los. Se a mulher que viram vestia uma capa como esta, então se calhar nem era Rindel!

 

Aráusio tomou-lhe a mão e apertou-lha; mas, quando ela tentou olhá-lo nos olhos, ele puxou o bigode e desviou a cara.

 

Mulher, não tenhas esperanças. Ambos sabemos o que aconteceu a Rindel. Não vale a pena...

 

Talvez isto seja mais conclusivo. Mostrei o anel com a pedra celeste.

 

Ambos olharam para ele com curiosidade, mas não fizeram qualquer comentário.

 

Isto pertencia à vossa filha?

 

Nunca lhe dei semelhante anel disse Aráusio.

 

Nem todos os anéis que são dados a uma mulher bonita lhe são dados pelo pai.

 

Ele franziu o sobrolho ao ouvir a insinuação.

 

Nunca a vi com ele.

 

Nem eu. A mulher abanou a cabeça. Parecia fascinada com a pedra, incapaz de tirar os olhos dela. Por que estás a mostrar-no-lo? De onde vem?

 

Foi encontrado ontem, no alto da Rocha do Sacrifício. Aráusio ficou subitamente pálido, depois o seu rosto contorceu-se

 

de raiva.

 

Foi ele que lho deu! Maldito porco! Pensou que conseguia aplacá-la, lisonjeá-la, comprar-lhe o silêncio com um anel! Ela deve ter-lho atirado aos pés, indignada. E foi nessa altura que ele...

 

A mulher levou uma mão fechada aos lábios e começou a soluçar. Aráusio abraçou-a, a tremer, com uma expressão entre a cólera e a dor.

 

Eu não tinha pressa em regressar a casa de Apolónides. Andámos pela cidade sem destino. Davo não via sinais do nossos seguidores.

 

O que te parece, Davo? Se não foi Rindel que vimos na Rocha do Sacrifício, então se calhar também não foi Zenão.

 

Oh, não, foi Zenão com certeza. E Rindel.

 

E a capa que a mulher trazia vestida? Ele encolheu os ombros.

 

Talvez Rindel tivesse mais do que uma capa daquelas e a mãe esteja confusa. Ou talvez Rindel tenha levado a capa da mãe, e a mãe ainda não reparou. É um pormenor insignificante.

 

E o anel? Terá sido como Aráusio disse? Zenão tentou dar-lhe o anel como uma espécie de consolação e, vendo que ela recusava, decidiu matá-la?

 

Não necessariamente. Davo franziu o sobrolho. Acho que Zenão lhe deve ter dado o anel há muito tempo, quando se tornaram amantes.

 

Mas os pais dela nunca o viram.

 

Ela não lho mostrou. O anel era isso mesmo, um segredo de amantes, que só Zenão e ela conheciam.

 

Estou a ver. E foi por isso que ela quis tirá-lo do dedo na Rocha do Sacrifício para o desprezar, como ele a tinha desprezado?

 

A não ser...? Davo enrugou a testa. Acho que o que realmente aconteceu foi o seguinte. Foi Zenão quem lhe arrancou o anel do dedo, contra a vontade dela. Acho que foi por isso que ele a perseguiu, para lhe tirar o anel.

 

Mas para quê?

 

Quem pode saber como funciona a mente de semelhante sujeito? Se o anel representava uma promessa que ele tinha feito a Rindel antes de a ter rejeitado, enquanto ela o possuísse, recordar-lhe-ia as mentiras e a traição dele. Talvez Rindel tivesse ameaçado mostrá-lo a Cidímaque, como prova de que Zenão gostava realmente dela e não da mulher deformada com quem se tinha casado.

 

Quer dizer que tirar-lhe o anel não significava apenas recuperar a prova tangível da sua promessa, mas marcava um corte com o passado.

 

Davo acenou com a cabeça.

 

Depois de fazer isso, ele conseguiu arranjar coragem para a empurrar da escarpa abaixo, sem olhar para trás. Eu abanei a cabeça.

 

O homem que descreves é um completo monstro, Davo.

 

Pois é.

 

Virámos uma esquina. Eu estava de tal maneira perdido nos meus pensamentos, que nem me apercebi de onde estávamos, nem quando senti de repente um forte cheiro a madeira queimada. Era um cheiro que vinha misturado com outro, menos agradável, de cinzas mergulhadas em água do mar, e outro ainda, que só gradualmente reconheci como sendo o cheiro a sangue; não era sangue fresco, mas sangue derramado há várias horas. De repente, estávamos diante das ruínas da casa do Bode Expiatório.

 

O local estava cheio de vigas partidas e queimadas, telhas quebradas, poças de água preta e pilhas de cinzas fumegantes. De uma maneira geral, nas ruínas do que foi uma casa abastada, vêem-se restos de móveis e de elementos decorativos os suportes metálicos das lamparinas e as estátuas de mármore sobrevivem ao fogo, mas nestas ruínas não havia artefactos desses; antes de ter sido incendiada, a casa do Bode Expiatório tinha sido esvaziada pelos saqueadores; em contrapartida, o que sobressaía acima do lixo geral eram os restos mortais dos próprios saqueadores. Por entre as ruínas, viam-se estacas metidas na lama e, espetadas nas estacas afiadas e cobertas de sangue, cabeças cortadas. Ouvi Davo murmurar qualquer coisa e vi-o mexer os lábios, a contar.

 

Dezoito sussurrou. Havia entre eles tantas mulheres como homens, alguns dos quais pouco mais pareciam do que crianças.

 

Os saqueadores deviam ter sido decepados ali mesmo, porque aos nossos pés havia grandes poças de sangue. Nas camadas mais finas que cobriam as pedras da calçada, o sangue tinha secado e estava cor de púrpura, quase preto. Onde formava camadas mais espessas, ainda parecia húmido e era vermelho-escuro. Noutras zonas, tinha-se misturado com poças de água suja de fuligem, manchando-as de carmesim-escuro. Dezoito corpos contêm um verdadeiro lago de sangue.

 

Desviei o olhar. Estava com vontade de voltar para casa de Apolónides.

 

De repente, ouvi um som parecido com o de um trovão, seguido por um ruidoso estrondo. A terra abanou. Nas ruas, as pessoas suspenderam o passo e calaram-se.

 

O ruído não era um trovão; o céu estava azul, sem uma nuvem.

 

Será um tremor de terra? sussurrou Davo.

 

Eu abanei a cabeça. Voltei-me na direcção da porta principal da cidade e apontei para uma grande coluna branca que se elevava aos céus, ondeando e aumentando de volume diante dos nossos olhos.

 

Fumo? De um incêndio? disse Davo.

 

Não é fumo. É poeira. É uma grande nuvem de poeira. Do cascalho.

 

De cascalho? O que foi que aconteceu?

 

Vamos ver disse eu; mas tive um calafrio de intuição que me fez palpitar o coração dentro do peito. Sabia exactamente o que se tinha passado.

 

Apolónides achou que era uma grande esperteza abrir aquele fosso interior e enchê-lo de água. Previu que Trebónio tentaria abrir um túnel por baixo da secção da muralha que fica mais perto das portas da cidade, e o fosso era a sua resposta. Resultou, como tu e eu bem sabemos. Quando os sapadores chegaram ao outro lado, o túnel foi inundado e os homens que tinham sido enviados para tomar as portas afogaram-se daquela maneira horrível.

 

Davo e eu tínhamos encontrado um recanto ligeiramente afastado da multidão de espectadores que ocupava a praça do mercado de Massília. Estávamos a poucos passos do local onde tínhamos saído da água, onde eu tinha sido insultado pelo velho Calamito, e onde Jerónimo viera salvar-nos. Parecia que tinha sido há tanto tempo.

 

A luz do dia começava a decair. O Sol baixava num céu sem nuvens, criando sombras compridas.

 

Alguns dos espectadores gemiam e arrancavam os cabelos. Outros baixavam a cabeça, a chorar.

 

Outros mantinham-se imóveis, num silêncio de pedra. Outros ainda, limitavam-se a contemplar esta derradeira e terrível catástrofe que se abatia sobre a sua cidade, de olhos abertos e queixo caído de incredulidade.

 

Um cordão de soldados mantinha a multidão longe dos engenheiros, que trabalhavam freneticamente. Tinha sido aberto um caminho, por onde circulavam os arqueiros e as equipas de operários que chegavam de todas as partes da cidade, convergindo às centenas para este local. Os operários eram mandados para junto dos engenheiros, a fim de receberem as suas ordens. Os arqueiros eram enviados para as torres de bastiões mais próximas, onde subiam a correr as escadas, para se colocarem nos parapeitos das muralhas, que já estavam cheios.

 

A única coisa que restava do fosso era um gigantesco charco de lama e esterco, dentro do qual os engenheiros e os operários andavam de um lado para o outro, gritando ordens e formando filas, passando vigas partidas e pedaços de entulho para a enorme brecha que se tinha aberto na muralha.

 

A brecha era mais estreita em cima e mais larga em baixo. Na zona onde o parapeito se tinha afundado, um homem que tivesse as pernas altas conseguiria, com alguma sorte, saltar para o outro lado. Abaixo desse ponto, porém, a brecha alargava-se tremendamente e continuava a aumentar até atingir a base da muralha. A pilha de detritos formada pelos blocos de calcário que se tinham desmoronado era considerável, mas pequena demais para conter todas as pedras que tinham caído.

 

Não era preciso ser um Vitrúvio para perceber o que tinha acontecido. Com o passar do tempo, o túnel inundado que passava por baixo da muralha havia criado uma abertura de escoamento. A dado momento, essa abertura tinha cedido e engolido os fundamentos, fazendo com que uma secção considerável da muralha entrasse em colapso. Formara-se um buraco gigantesco, que tinha engolido grande parte dos detritos resultantes, de maneira que apenas se avistava uma pilha de entulho, pouco mais alta do que um homem.

 

Uma brecha, qualquer brecha, mesmo pequena nas muralhas de uma cidade sitiada é um desastre. Uma brecha pode sempre ser alargada. Quando atinge uma certa dimensão, deixa de poder ser defendida. Se as forças do sitiante forem suficientemente numerosas e as de Trebónio pareciam-me mais do que suficientes, uma cidade sitiada com uma brecha na muralha acaba por capitular.

 

A grande ironia residia no facto de esta brecha não ter sido aberta pelos sitiantes. É certo que Trebónio tinha mandado cavar o túnel mas, em si mesmo, este era pequeno demais para minar a muralha; nem era esse o seu objectivo. Fora Apolónides a provocar a queda da muralha, ao mandar inundar o túnel que passava por baixo das fundações. Ainda assim, se depois da inundação ele tivesse secado o fosso e enchido a boca do túnel com detritos, é possível que a muralha não se tivesse afundado. Mas Apolónides deixara ficar o fosso, e enchia-o todos os dias, à medida que o nível da água ia descendo. Tinham sido ele e os engenheiros a criar a abertura de escoamento, e o colapso das fundações era uma consequência.

 

A reacção de Apolónides foi mandar encher a brecha o mais que podia, o mais depressa que podia. Enquanto os engenheiros e os seus operários reuniam os detritos, os arqueiros que tinham subido à muralha preparavam-se para os protegerem, se Trebónio organizasse um assalto. Até agora, não tinha havido assalto nenhum, possivelmente porque Apolónides tinha mandado içar uma bandeira branca por sobre a brecha, dando a indicação de que estava disposto a parlamentar.

 

Davo deu-me uma cotovelada e apontou. Duas figuras tinham emergido da massa de soldados reunidos em volta da brecha e dirigiam-se a nós. Eram elas o Primeiro-Timoukos em pessoa, e o seu genro, que seguia atrás. Ambos equipados a rigor. Ambos cobertos de lama da cintura para baixo e, da cintura para cima, de pó branco. Apolónides parecia querer apreciar a brecha à distância, e dirigiu-se ao cordão de soldados, que se encontrava a poucos passos de nós, antes de parar e se voltar para ver. Zenão seguia atrás dele e não se calava.

 

Nunca conseguiremos encher suficientemente o buraco dizia Zenão, pelo menos com material com resistência que chegue para se opor a um aríete. Não é possível. Se Trebónio organizar um assalto em larga escala...

 

Não organiza! respondeu Apolónides. Enquanto tivermos a bandeira branca içada não o fará. Até agora não o fez.

 

Não tem nenhum motivo para se apressar. Pode organizar o assalto amanhã ou depois. A brecha não vai sair dali.

 

É uma brecha, sim, mas uma brecha pequena; suficientemente pequena para ser... defensável. Apolónides falava com os dentes cerrados, continuando a observar a actividade que tinha lugar junto à muralha, e recusando-se a olhar para Zenão. Mesmo que Trebónio alinhasse todo o seu exército para investir contra a brecha, nunca seriam suficientes para tomar as portas. Os nossos arqueiros atingiam-nos, um por um, até os cadáveres dos romanos encherem o buraco. Qualquer homem que passasse pela brecha e por cima da pilha de detritos seria apanhado no lago de lama, como uma abelha no mel, transformando-se num alvo ainda mais fácil para os nossos arqueiros.

 

E se a brecha aumentar?

 

Não aumenta!

 

Por que não? Alguns daqueles blocos que estão pendentes de ambos os lados parece mesmo que vão cair a qualquer momento.

 

Os engenheiros estão a escorar os danos. Eles sabem o que fazem.

 

Como sabiam o que faziam quando encheram o fosso? Apolónides rangeu os dentes e não respondeu.

 

Zenão continuou a insistir.

 

E se Trebónio usar um aríete? As arestas partidas das paredes de ambos os lados desfazem-se como cal.

 

Não usa. Eu não o deixo!

 

Zenão riu-se com ironia.

 

Posso saber como tencionas impedi-lo? Apolónides voltou-se finalmente, para olhá-lo de frente. Verás, genro.

 

O que pretendes dizer com isso?

 

Apolónides sorriu. Lambeu um dedo e espetou-o no ar.

 

Está a levantar-se um vento frio, de sul, graças a Artemísia! Vamos usá-lo em nosso benefício.

 

Como?

 

O vento transporta o fogo. O fogo queima a madeira. De que são feitas as plataformas, as torres de cerco e os aríetes dos romanos, se não de madeira?

 

Zenão arquejou.

 

Qual é o teu plano?

 

Para que hei-de contar-to, genro? Se dependesse de ti, há horas que nos teríamos rendido e aberto as portas. Quase desconfio de que sejas um espião dos romanos, pela maneira como me aconselhas sistematicamente a entregar a cidade a César.

 

Como te atreves? Combati os romanos com a mesma coragem com que os combateu qualquer massiliano. Das muralhas, em alto-mar...

 

E, no entanto, conseguiste regressar ontem, quando tantos perderam a vida.

 

Zenão empalideceu de raiva. Pensei que ia atacar o sogro, mas manteve os braços estendidos ao longo do corpo e os punhos cerrados.

 

Arreámos uma bandeira branca para conversações. Trebónio respeitou-a; não assaltou a brecha. Enquanto tiveres aquela bandeira ao alto, não podes mandar os teus homens pegar fogo às máquinas de cerco dos romanos. César nunca te perdoará semelhante traição.

 

Ao meu lado, Davo bufou e disse baixinho.

 

Que atrevimento o dele, a falar de traição.

 

Por que motivo julgas que chamei todos os arqueiros para as muralhas? disse Apolónides. Para proteger os engenheiros que estão a reparar a brecha de um ataque dos romanos, claro; mas eles também proporcionarão fogo de cobertura aos nossos soldados, quando estes fizerem uma surtida contra as máquinas de cerco.

 

Isso é uma loucura, sogro! A muralha tem uma brecha. O cerco acabou. César deve estar a chegar a qualquer momento...

 

Espetei as orelhas. Esta informação era nova.

 

Não sabemos se assim é replicou Apolónides. Foi apenas um boato...

 

Foi Lúcio Nasídio quem mo disse ontem, a bordo do navio dele. O comandante da frota de Pompeu...

 

Uma frota que desapareceu sem sofrer uma única baixa! Uma frota de cobardes, com um cobarde por comandante!

 

Apesar disso, Nasídio contou-me que se diz que César vem a caminho, de regresso de Espanha. Ouviu a notícia aos nossos soldados da guarnição de Taurois, onde os navios de Pompeu tinham ancorado para passar a noite. César derrotou as legiões de Pompeu em Espanha e chamou os sobreviventes para o seu exército. Dirige-se a Massília a grande velocidade com uma gigantesca força de homens. Pode chegar a qualquer momento amanhã, até! Não podemos resistir-lhe. Acabou, sogro.

 

Cala-te! Queres que a populaça te oiça e se ponha a espalhar esses boatos loucos? Apolónides olhou por cima do ombro, para além do cordão de soldados. Os seus olhos, que perscrutavam a multidão, caíram sobre mim. Por momentos, o seu rosto ficou desprovido de expressão, depois apontou para nós e gritou aos soldados que se encontravam mais perto dele: Tragam-me esses dois homens!

 

Davo e eu fomos bruscamente agarrados, arrastados para o interior do cordão e atirados para diante de Apolónides.

 

Gordiano! O que andas tu a fazer por aqui? A ouvir as conversas? Tu ésum espião, não és? E calculo que estejas conluiado com o meu genro.

 

Zenão estremeceu de fúria.

 

Talvez oiça as conversas, Primeiro-Timoukos, mas não sou um espião respondi, endireitando a túnica que os soldados tinham descomposto.

 

Devia ter-te mandado decapitar, mais o teu genro, logo que vos vi, como aqueles saqueadores que passaram pela casa do Bode Expiatório. Sim, e depois catapultava as vossas cabeças por cima das muralhas, mandando-as a Trebónio!

 

Não sejas estúpido, sogro! protestou Zenão. Este homem é um cidadão romano, conhece César pessoalmente e a piedade de César é a única esperança que nos resta! Mesmo que ele seja um espião, seria uma estupidez matá-lo e exibir a sua morte. Só estarias a ofender César.

 

Para o Hades com César! Olhem, ali vem a força de assalto.

 

Um numeroso corpo de soldados em equipamento de batalha, armados de espadas e lanças, mas transportando igualmente tochas e trouxas de pez, marchava em direcção à praça do mercado, fazendo recuar a multidão com a sua presença. As chamas das tochas estalavam e agitavam-se ao vento.

 

Zenão abanou a cabeça.

 

Sogro, não faças isto. Pelo menos enquanto tivermos a bandeira branca içada. Pelo menos enquanto Trebónio não tiver mandado um oficial para parlamentar...

 

Não há nada a parlamentar! lançou Apolónides. Afastou-se de nós a passos largos, a fim de se dirigir à força de assalto,

 

que neste momento enchia a praça do mercado em assembleia ordenada. A sua voz era sonante, a sua presença marcante. Caminhava de um lado para o outro com a capa azul a ondular ao vento. Percebi por que razão ascendera ao cargo de Primeiro-Timoukos.

 

Bravos de Massília! Há longos meses que sofremos as humilhações e privações resultantes de um cerco injustamente imposto a esta orgulhosa cidade por um arrivista romano, um criminoso renegado. Contra o seu próprio povo, realizou aquilo que nem Aníbal conseguiu: conquistou a cidade de Roma e obrigou o Senado a exilar-se. E depois, para completar os seus crimes, atreveu-se a substituir aquele antigo corpo pelos seus próprios impostores, escolhidos a dedo, de forma a que o falso senado pudesse levar a cabo a pretensão de votar a favor das suas acções, declarando-as legais. Enquanto ele prevalecer, a liberdade será letra-morta em Roma e, se puder, também virá apossar-se da nossa liberdade! Mas não prevalecerá. Com o verdadeiro Senado de Roma e todas as províncias orientais unidas contra ele, não pode esperar vencer no longo prazo. Massília apenas teve o infortúnio de ser a primeira vítima, depois dos infelizes cidadãos de Roma, a atravessar-se no caminho das suas ambições insanes.

 

”Tendes diante de vós uma brecha na muralha a muralha que nunca abriu brechas, que protege Massília há centenas de anos. Para alguns, esta brecha é uma catástrofe. Por mim, vejo-a como uma oportunidade. Porque vamos finalmente poder ripostar. A brecha não é uma abertura para os nossos atacantes, mas para nós! Investiremos sobre eles, apanhando-os desprevenidos. Vamos incendiar e destruir as máquinas de cerco que eles têm usado. Os aríetes deles ficarão reduzidos a lenha. As plataformas serão transformadas em pontes de chamas. As torres serão fogueiras de faróis, uma advertência ao chefe renegado que eles têm, para que não se aproxime!

 

- Os arqueiros que estão no alto das muralhas proteger-vos-ão. Mas, mais do que isso, o vosso escudo será a justeza da vossa causa. Aquilo que ides fazer hoje, fazei-o por Massília; pelos vossos antepassados, que há 500 anos fundaram esta orgulhosa cidade; por aqueles que a preservaram, de geração em geração, livre, forte e independente, contra Gauleses, contra Cartago, até contra Roma; pela xoanon Artemísia, que desceu dos céus e atravessou os mares com os nossos avós, que observa tudo o que se passa nesta cidade. Ela vigia por vós esta noite. O seu arco arremessa o vosso. Ares, o seu irmão, protege-vos na batalha. E ela acolherá nos seus braços amorosos aqueles que tombarem. E encherá de glória aqueles que se mantiverem orgulhosamente no seu posto.

 

Ide! Ide, e não regresseis enquanto não tiverdes coberto de chamas todos os fragmentos de madeira que encontrardes fora destas muralhas!

 

Os homens soltaram uma grande aclamação. Até a desolada multidão dos espectadores pareceu animar-se. Atrás de nós, Zenão baixou a cabeça.

 

Os engenheiros recuaram, deixando a brecha em aberto. Tinham sido colocadas umas pranchas, para facilitar a passagem da tropa de assalto pelo charco de lama e detritos. Os soldados desapareceram na brecha, soltando gritos de combate e acenando com as tochas pelo ar.

 

Caía a noite, mas o céu que ficava por trás da muralha não estava a ficar mais escuro, e sim mais iluminado. Um brilho ígneo emanava do exterior da cidade, das máquinas de cerco em chamas. Das muralhas, os arqueiros disparavam incessantemente, lançando seta após seta, puxando as cordas para trás e soltando-as. O zumbido dos dardos misturava-se com o ruído metálico da batalha, do outro lado das muralhas, e com um ou outro estremecimento e ruído grave, seguido de gritos, quando uma das estruturas em chamas se afundava.

 

Apolónides subiu ao parapeito da muralha para observar o progresso da surtida. Andava de um lado para o outro de braços cruzados. De vez em quando, acenava com a cabeça em sinal de aprovação ou apontava para qualquer coisa em baixo, dando uma ordem a um subordinado.

 

Zenão continuava em terra. Também ele andava de um lado para o outro, mas em silêncio. De vez em quando, olhava fixamente para a brecha, ou para o alto das muralhas, ou para a multidão inquieta que se aglomerava na praça. Cruzava as mãos atrás das costas e matutava.

 

Ambos pareciam ter-se esquecido de Davo e de mim, e fomos autorizados a permanecer no interior do cordão militar.

 

Finalmente, Apolónides desceu das muralhas e voltou para junto de nós. Tinha um porte altivo e erecto. Ergui os olhos e vi que a Lua se tinha erguido no céu, que na direcção do mar estava escuro, salpicado de estrelas desmaiadas. O céu por cima da brecha era laranja de fogo. Aparentemente, a surtida fora um enorme sucesso.

 

Quem poderia saber o que ia acontecer nas próximas horas? Apolónides parecia capaz fosse do que fosse, incluindo a decapitação de dois infelizes romanos, apesar da maneira ousada como Zenão me tinha defendido. Por que teria Zenão feito semelhante coisa? Seria de facto um espião de César, como Apolónides sugerira com sarcasmo, ou simplesmente um pragmático, já preparado para a inevitabilidade da conquista de César? E como é que Zenão sabia que eu conhecia César? Só tinha falado com ele uma vez, na noite anterior, e nessa altura ele parecia não fazer a menor ideia, ou fingira não fazer a menor ideia, de quem eu era...

 

No meio de toda aquela incerteza, era possível que eu não voltasse a ter possibilidades de me confrontar com Zenão. Tirei o anel e avancei em direcção a ele.

 

Zenão voltou-se e viu o objecto na minha mão. Ficou espantado por momentos, depois teve um sobressalto, como tinha tido na noite anterior. Viu o sogro aproximar-se.

 

Guarda isso!

 

Quer dizer que sempre conheces este anel?

 

Por amor de Artemísia, guarda-o, antes que Apolónides o veja!

 

Que importância tem isso? perguntei e, nesse momento, olhando para os olhos escancarados de Zenão, soube a resposta. Parecia-me que a sabia há muito tempo.

 

Mas era tarde de mais. Apolónides já tinha visto que eu tinha qualquer coisa na mão e tinha reparado na reacção de Zenão. Quando se aproximou, olhou para o anel de Zenão. A princípio, pareceu-me ligeiramente curioso, depois surpreendido, depois confuso.

 

Que significado tem isto, Gordiano? perguntou. O que estás tu a fazer com o anel da minha filha?

 

O vento atravessou-me a túnica, que era fina. Tive um arrepio, apesar do brilho ígneo que enchia o céu nocturno. Já tinha percebido tudo. Ou, pelo menos, pensava que tinha.

 

Repito, Descobridor. O que fazes com o anel de Cidímaque?

 

O anel da tua filha...?

 

Sim, claro! Zenão deu-lho no dia do casamento. Ela nunca o tira do dedo.

 

Eu não respondi. Apolónides voltou-se para Zenão, que desviou os olhos.

 

Explica-te, Zenão. Foste tu que lhe deste o anel? Por quê? Foi a paga do espião? Mas Cidímaque nunca permitiria...

 

Não foi o teu genro que me deu este anel, Primeiro-Timoukos. Encontrei-o.

 

Encontraste-o?

 

Encontraste-o? Havia uma nota de histeria na voz de Apolónides. Julgo que, por um rasgo de intuição, terá começado a aperceber-se da verdade. No nosso primeiro encontro, no terraço do telhado da casa do Bode Expiatório, quando eu lhe dissera o que tinha visto na Rocha do Sacrifício, ele prestara-me uma atenção pouco solícita, acusando-me de mentir. A mulher que caíra do precipício não tinha nada a ver com ele. Naquele momento, quem poderia saber, quem poderia imaginar a verdade?

 

Primeiro-Timoukos, acho que sou capaz de te explicar, mas não aqui, neste sítio. Em tua casa. Na presença de... outras pessoas.

 

Esperava uma nova reacção irada, mas o tom da sua resposta foi baixo.

 

Outras pessoas? Quem? A cor desapareceu-lhe por completo do rosto. Ao brilho tremeluzente reflectido das fogueiras do exterior das muralhas, as suas feições eram semelhantes às de uma efígie sem vida, feita de cera. Deixou tombar o queixo e ergueu as sobrancelhas, ficando parecido com as cabeças espetadas em estacas que se encontravam nas ruínas da casa do Bode Expiatório.

 

Não precisámos de tochas que nos iluminassem o caminho até casa de Apolónides. O brilho soturno das máquinas de cerco incendiadas iluminava o céu, lançando uma luz incerta sobre Massília, afogando os seus espaços abertos numa luz vermelho-sangue, criando sombras profundas e escuras nos recantos e recessos.

 

Apolónides mandou alguns soldados seus irem buscar aqueles que eu lhe tinha pedido que convocasse, chamou mais soldados, a quem ordenou que formassem um cordão à nossa volta, e depois não disse mais nada. Também Zenão seguia em silêncio. Uma ou duas vezes, Davo tentou sussurrar-me uma pergunta ao ouvido, mas eu abanei a cabeça e afastei-o. A nossa pequena e sinistra comitiva subiu as ruas sinuosas que levavam à casa do Primeiro-Timoukos.

 

Dentro de casa, os soldados que tinham sido mandados à frente montavam guarda diante dos aposentos de Zenão e Cidímaque. À porta do quarto, estavam Aráusio e a mulher, Rindel, encostados um ao outro e confusos.

 

Primeiro-Timoukos! A voz de Aráusio tremia. - O que significa isto? Os teus soldados foram buscar-nos a casa e arrastaram-nos até aqui sem uma palavra de explicação. Estamos presos? Vejo que o Descobridor está contigo. Ele acusa-me de te ter difamado, a ti e ao teu genro? Não é verdade, Primeiro-Timoukos! Não dês ouvidos à traição romana! Tem ao menos piedade da minha mulher...

 

Cala-te, mercador! disse Apolónides. Falou com Zenão sem olhar para ele. Genro, abre a porta deste quarto.

 

Abre-a tu respondeu Zenão, lentamente.

 

Não o farei! Este é o quarto onde a minha filha cresceu. A minha filha que, desde a primeira vez que se viu ao espelho, me solicitou que não voltasse à sua presença sem me fazer anunciar, que me solicitou que não voltasse a vê-la despida ou desvelada que solicitou que nem os próprios escravos a vissem desvelada, cuja privacidade sempre respeitei escrupulosamente. Quando te casaste com ela, este passou a ser o quarto que ela partilhava contigo, e apenas contigo. Desde a infância de Cidímaque, só aqui entrei uma ou duas vezes. E nunca à força. Jamais toquei na porta, sequer. Não o farei agora. Abre tu a porta.

 

Zenão olhava fixamente para o chão, depois olhou furtivamente para Aráusio e a mulher, mordeu o lábio e soltou uma gargalhada desprovida de alegria. Os seus olhos brilhavam febrilmente. Abanou a cabeça e olhou para mim com desdém, mas também como se estivesse com pena de mim.

 

Lembra-te, de que isto é obra tua! Foste tu, e ninguém mais, a causa disto.

 

Abriu a porta do quarto que partilhava com a mulher.

 

Entrámos todos no quarto, um por um primeiro Zenão, depois Apolónides, depois Davo e eu. Por fim, entraram Aráusio e a mulher. Mostravam-se perplexos; por que motivo teriam sido chamados ao quarto de cama que o homem que tinha atraiçoado a filha de ambos partilhava com o monstro por quem a atraiçoara?

 

O mobiliário era luxuoso, como seria de esperar. Todas as superfícies pareciam estar adornadas de tecidos ricos. As paredes estavam cobertas de tapeçarias sumptuosas, as lamparinas adornadas de pormenores decorativos. A impressão que suscitavam era de um tumulto de texturas e padrões, como se o próprio compartimento estivesse enfaixado em camada após camada de véus.

 

Na extremidade do quarto, uma figura espantada voltou-se para nós. Usava uma capa com capuz e tinha o rosto coberto de véus espessos, como na noite anterior, aquando do sinistro banquete no jardim de Apolónides. Não era de espantar, pensei, que Zenão não tivesse querido que ela visse o anel de Cidímaque quando lho mostrei no pátio!

 

Por momentos, ninguém se mexeu nem falou.

 

Primeiro-Timoukos disse eu calmamente, queres...

 

Não! Quero que sejas tu a fazê-lo, Descobridor. Tira-lhe o véu. A sua voz estava rouca, pouco mais era do que um sussurro. Tive uma súbita e pungente simpatia por ele. Já tinha percebido a verdade, tal como eu. Sabia o que devia ter acontecido na Rocha do Sacrifício, naquele dia; mas qual é o pai que consegue aceitar a morte de um filho antes de ser confrontado com provas, provas definitivas, por muito dolorosas que sejam? O mesmo acontecera comigo: sentia-me incapaz de aceitar definitivamente a morte de Meto. Quando não há provas, subsiste sempre um vestígio de esperança. Apolónides poderia manter essa esperança mais uns momentos. Quando o véu fosse retirado, todas as dúvidas se desvaneceriam. Vi-o empedernir-se, em preparação para o momento, com uma expressão de profunda infelicidade estampada no rosto.

 

Atravessei lentamente o quarto. A figura velada e corcunda oscilou ligeiramente para diante e para trás, à minha aproximação, como se estivesse a colocar a hipótese de uma fuga; mas era impossível fugir. Aproximei-me mais e mais, até ficar suficientemente próximo para ouvir o som de uma respiração ofegante por baixo do véu. Levantei a mão.

 

A figura também levantou a sua e agarrou-me o pulso, para me impedir de erguer o véu.

 

Fiquei parado a olhar, estarrecido, para a mão que me agarrara o pulso. Havia qualquer coisa inadequada completa, total e terrivelmente inadequada. Esta não era não podia ser a mão da mulher que eu estava à espera de encontrar debaixo do véu. A mão dela devia ser suave e delicada, de pele clara e imaculada, ainda mais encantadora do que a da mãe, que se encontrava ao lado do marido, na outra extremidade do quarto, a tremer de confusão. Esta mão era rude, escura e tinha as costas cobertas de pêlos pretos. Não podia ser, de maneira nenhuma, a mão de Rindel, a filha de Aráusio, a amante de Zenão!

 

O coração deu-me um salto dentro do peito. O que tinha eu feito? Como teria chegado a uma conclusão tão distanciada da verdade, arrastando tanta gente atrás de mim?

 

Tira-lhe o véu! gemeu Apolónides, cuja voz tremia de ansiedade.

 

Não havia alternativa. Preparei-me para o choque, a vergonha, o erro terrível que seria Cidímaque desvelada.

 

Nesse momento, porém, Zenão, que também devia ter visto a mão que suspendera a minha, soltou uma estranha gargalhada, carregada de angústia, e bradou:

 

Amada! Já não vale a pena. Aparece!

 

O que quereria ele dizer com aquilo? Não sei como, pressenti que não estava a falar com a pessoa velada, mas com outra pessoa, igualmente presente no quarto. Houve um movimento por trás das tapeçarias da parede. Com um soluço arrepiante, uma figura esguia saiu do esconderijo e atravessou o quarto, correndo para os braços atónitos de Aráusio e da mulher. Eles gritaram de surpresa e alegria, abraçando a filha. Rindel era ainda mais bonita do que eu tinha imaginado.

 

Apolónides, tão confuso como eu, olhava de Rindel para a pessoa velada e ordenou:

 

Tira-lhe o véu, Gordiano!

 

Eu tentei levar a mão ao véu, mas a mão que me prendia os movimentos era forte mais forte do que eu esperava, muito mais forte do que eu. Subitamente, essa mão soltou-me e a figura recuou, endireitando-se, como se deixasse cair a corcunda das costas, crescendo e tornando-se erecta. A mão rude, escura, com as costas cobertas de pêlos pretos subiu até ao véu, agarrou nele e puxou-o.

 

Eu olhei para dois olhos que tinha pensado não mais voltar a ver. O rosto que tinha diante vacilou e tornou-se disforme, obscurecido pelas minhas lágrimas. Pestanejei, limpei os olhos e fixei-o.

 

Meto! sussurrei.

 

No andar de cima, ao longo da ala da casa de Apolónides que ficava voltada para a porta da cidade, havia cinco pequenos compartimentos, todos seguidos, todos eles dando para o mesmo corredor. Eu estava sentado com Apolónides num desses compartimentos.

 

O quarto estava às escuras. A única janela existente proporcionava-nos uma vista da muralha da cidade, ao longe, com os contornos delineados pelas chamas enfraquecidas provenientes das máquinas de guerra romanas. Em diversos pontos, as chamas tinham-se transformado em carvões; o fogo cumprira a sua missão. A luz que ainda restava iluminava as minúsculas silhuetas dos arqueiros massilianos, que patrulhavam incansavelmente as plataformas das muralhas. A brecha propriamente dita tinha os contornos bem iluminados, uma fissura tremeluzente no meio de uma muralha preta de breu.

 

Apolónides olhava pela janela. O seu rosto, iluminado apenas pela luz distante dos fogos, tinha uma expressão impassível. Finalmente, começou a falar.

 

Calculo que, em todas as horas que passaste debaixo do seu tecto, Jerónimo te tenha contado os pormenores da história da sua família.

- A sós com Apolónides, depois do choque que ambos tínhamos recebido, não era esta a primeira declaração que eu estava à espera de ouvir dos seus lábios.

 

Acenei com a cabeça.

 

Conhecia-o há pouco mais de uma hora quando ele me falou da morte dos seus pais e dos anos que ele próprio viveu como órfão e depois como proscrito.

 

O pai dele era um Timoukos.

 

Sim, Jerónimo disse-me. Mas perdeu a sua fortuna...

 

Não a perdeu; foi-lhe roubada. Não lhe foi literalmente roubada, mas foi-lhe tirada por meios desonestos. Os competidores conspiraram para o arruinarem, e foram bem sucedidos. Jerónimo nunca soube exactamente como as coisas se passaram ou quem esteve por trás delas; na altura, era demasiadamente jovem para poder compreender. E eu também.

 

O que estás a tentar dizer-me, Primeiro-Timoukos?

 

Não me pressiones, Descobridor! Deixa-me avançar ao meu ritmo.

 

Eu suspirei. Na sequência do desvelamento de Meto, Apolónides tomara o comando das operações. Os seus soldados tinham levado toda agente para fora do quarto de Cidímaque, pela escada acima, até esta ala da casa. Tínhamo-nos dispersado pelos diversos compartimentos, como prisioneiros fechados nas respectivas celas, com soldados de guarda ao corredor. Num dos compartimentos estava Zenão, noutro Meto, e noutro Davo. Rindel e os pais estavam noutro. E, no último, Apolónides comigo.

 

Foi o meu pai quem esteve por trás disso. O meu pai destruiu o pai de Jerónimo e apoderou-se da fortuna dele. Tudo aquilo que se seguiu o suicídio do pai, o suicídio da mãe, a ruína de Jerónimo foi uma consequência daquilo que o meu pai fez. Ele nunca se arrependeu. E, quando eu tive idade para examinar os livros da família, e acabei por descobrir a verdade, disse-me que eu também não devia lamentar o que tinha acontecido. ”Negócios são negócios”, disse-me ele. ”O êxito é uma prova do favor dos deuses. O fracasso, uma marca do seu desfavor.” O próprio facto de ele ter tido um êxito tão espectacular era uma prova de que não tinha nada que expiar, e eu tão pouco. O meu pai morreu de velhice, na cama, sem remorsos.

 

- Mas, quando Cidímaque nasceu... Apolónides suspirou. No momento em que a vi, pensei: é o castigo dos deuses por aquilo que o meu pai fez, que esta inocente criança seja tão horrivelmente desfigurada. Devia ter-lhe dado imediatamente destino; qualquer outro pai o teria feito, seria um acto de pura compaixão. Mas tinha razões egoístas para deixá-la viver. Ao longo dos anos, esteve muitas vezes doente, mas sobreviveu. Cresceu e, com o passar dos anos, foi-se tornando... ainda mais horrível. Era uma recordação permanente do pecado do meu pai. E, contudo... eu não conseguia odiá-la. Os filósofos não nos dizem que amar a beleza e odiar a fealdade é uma coisa natural, e que é assim que deve ser? No entanto, contra todas as minhas expectativas, contra toda a racionalidade, acabei por amá-la. Por isso, odiava Jerónimo. Culpava-o, não apenas da sua própria ruína, mas da deformidade da minha filha. Podes compreender, Descobridor?

 

Eu nada disse, limitando-me a acenar com a cabeça.

 

Quando os sacerdotes de Artemísia vieram ter com os Timoukoi, reclamando um Bode Expiatório, eu fiz recair a escolha sobre Jerónimo. Pensei que era muito inteligente da minha parte libertar-me finalmente da peste sem ficar com as mãos manchadas de sangue, e de uma maneira que não podia ofender os deuses, mas até lhes seria agradável. Parecia adequado que ele seguisse os passos do pai, que fosse obrigado a lançar-se da Rocha do Sacrifício para o esquecimento, e abandonasse para sempre os meus sonhos culpados. Em vez disso... foi a minha Cidímaque quem caiu da Rocha do Sacrifício! Seria possível os deuses tomarem a sua vontade mais explícita, do que punindo-me com a sua morte no preciso local onde morreu o pai de Jerónimo? O meu pai sempre me disse que os deuses nos amavam. Afinal, desprezam-nos!

 

Que estranho, pensei, é típico dos deuses e do seu retorcido sentido de humor. Eu tinha vindo aMassília à procura de um filho perdido, que afinal não estava perdido, enquanto Apolónides tinha perdido uma filha e nem sequer sabia, e ambos tínhamos descoberto a verdade no mesmo instante.

 

Descobridor, quando me disseste, no terraço de Jerónimo, que tinhas visto um homem e uma mulher na Rocha do Sacrifício e que a mulher tinha caído que longe estava eu, como fui despreocupado, não sabendo... que se tratava da minha Cidímaque! Inspirou audivelmente. Jerónimo afirmou que ela tinha saltado. O teu genro diz que ela foi empurrada. Qual dos dois tem razão, Descobridor?

 

Não sei.

 

Mas Zenão sabe.

 

Eu remexi-me, nervoso.

 

Tencionas torturá-lo, Primeiro-Timoukos?

 

Para quê, quando tu podes descobrir a verdade?

 

Eu, Primeiro-Timoukos?

 

Não te chamam Descobridor? Domício falou-me de ti; disse-me que tu tens um estranho poder pelo qual os homens se sentem forçados a contar-te a verdade. Foi um dom que os deuses te deram.

 

Um dom ou uma maldição?

 

Que me importa isso, Descobridor, desde que forces Zenão a contar-te o que foi que aconteceu exactamente na Rocha do Sacrifício? Faz-me isso... e depois poderás falar com o teu filho.

 

No pequeno quarto onde Zenão fora detido, tal como no quarto onde Apolónides tinha conversado comigo, uma única janela dava para a silhueta distante da muralha da cidade e para os fogos moribundos que ficavam para além dela. Ao contrário da outra, porém, esta janela tinha barras. Apolónides tivera o facto em conta ao escolher este quarto para Zenão.

 

Ainda que eu possuísse efectivamente esse dom invulgar de arrancar às pessoas os seus segredos, não precisaria de fazer grande uso dele com Zenão. Ou talvez fosse como Apolónides tinha sugerido, e o desnudamento dos segredos fosse menos uma habilidade minha do que uma compulsão que os deuses impunham às pessoas na minha presença. Fosse como fosse, Zenão mostrou-se tudo menos relutante em falar. Pareceu-me até que precisava desesperadamente de falar.

 

Calculo que devia ter-te mandado matar foi a primeira coisa que disse, olhando para a janela.

 

Não soube bem o que responder àquilo.

 

Sabia que tu tinhas assistido... ao que aconteceu na Rocha do Sacrifício tu e o teu genro e o Bode Expiatório. Ouvi alguns soldados falarem sobre isso, dizerem que tinham sido mandados interrogar as pessoas que moram nas proximidades da rocha, por causa daquilo que o Bode Expiatório e os seus convidados romanos tinham visto. Mais tarde, nessa mesma noite, passei por Apolónides no pátio da frente, e ele mencionou o assunto de passagem, olhando-me de frente e contando-me o disparate que o Bode Expiatório], tinha relatado, que tinha visto um oficial de capa azul e uma mulher na Rocha do Sacrifício. O coração deu-me um salto até à boca. Mas ele não estava a fazer-me um teste. Não fazia ideia nenhuma. Tinha mais em que pensar. Nem sequer desconfiou.

 

Pensei que era Rindel que estava na rocha contigo porque foi o que Aráusio pensou. Mas era Cidímaque.

 

Era.

 

O Bode Expiatório acha que ela saltou.

 

Acha?

 

Acha. O meu genro tem uma opinião diferente.

 

Por momentos, Zenão absteve-se de responder. Continuava a olhar pela janela, mas estava de tal maneira imóvel, que quase parecia que não respirava.

 

Nunca devia ter-me apaixonado por Rindel disse por fim. Não era minha intenção. Desejava-a, claro, mas não é a mesma coisa. Era impossível não a desejar. Qualquer homem a desejaria. Viste-a esta noite.

 

Só de passagem.

 

Mas o suficiente para perceberes como é bonita.

 

Muito bonita.

 

Extraordinariamente bonita.

 

Sim admiti.

 

Mas Rindel é gaulesa e o pai dela não tem qualquer importância.

 

Segundo Aráusio, é mais rico do que o teu. Zenão franziu o nariz.

 

Aráusio pode ter dinheiro, mas nunca será um Timoukos. Não pode ser. Se eu me tivesse casado com Rindel, nunca seria mais do que o genro de um gaulês rico.

 

E isso seria assim tão mau?

 

Ele resfolegou com desdém.

 

Tu não és de cá. Não podes compreender.

 

Calculo que não. Mas, se te apaixonaste por Rindel apesar de ti próprio, acho que posso compreendê-lo.

 

Quase me tinha reconciliado com... a ideia de me casar com ela. Depois, entrevi... outra oportunidade.

 

Cidímaque?

 

O Primeiro-Timoukos convidou-me para jantar nesta casa maldita. Era uma grande honra, pelo menos foi o que eu pensei, até os meus amigos começarem a arreliar-me. ”Seu idiota! Não sabes que ele anda à procura de um genro?”, diziam-me eles. ”Não és o primeiro candidato que ele convida. Todos os outros foram engolidos pelo monstro! Tem cuidado, não vá ela deitar-te as garras e as presas! Ou, pior ainda, arrastar-te para a sua cama!” E riram-se todos muito à minha custa.

 

- Eu andava assustado com o jantar. Naturalmente, o meu lugar era ao lado de Cidímaque. Ela trazia os véus, claro. A princípio, senti-me nervoso. Cidímaque pouco falava mas, quando o fazia, era bastante espirituosa. Pouco tempo depois, eu pensei: isto não é assim tão mau. Comecei a descontrair-me. Comi e bebi. Observei o jardim. Vi a maneira como eles viviam. Comecei a pensar: por que não?

 

Não és propriamente o primeiro jovem que se casa para subir na vida disse eu, suavemente.

 

Não é que eu desprezasse Cidímaque! Acabei por gostar... bastante dela.

 

E a fealdade dela? A deformidade?

 

Aprendi a... lidar com isso. Sorriu com ar pesaroso. Conheces a imagem da xoanon ”Artemísia?

 

Todos os miúdos massilianos aprendem a reverenciar essa imagem, por estranha que ela seja. Eu disse a Cidímaque que ela era a minha xoanon ”Artemísia privada. O que lhe agradou imensamente.

 

E Rindel?

 

Ele suspirou.

 

Logo que fiquei noivo de Cidímaque, fiz um voto de nunca mais voltar a ver Rindel. Não valia a pena tentar explicar-lhe o que se tinha passado; era preferível cortar de vez, deixá-la pensar o pior e esquecer-me. Teria cumprido esse voto, mas Rindel não me deixou. Enquanto estivesse dentro de casa de Apolónides, estava a salvo. Mas, quando o cerco começou, os meus deveres obrigavam-me a andar pela cidade toda. Rindel procurava-me. Perseguia-me como uma caçadora.

 

Artemísia com o seu arco, murmurei.

 

Em certos momentos, quando eu me encontrava sozinho Rindel surgia de repente diante de mim, sussurrando, acenando, atraindo-me para um canto, dizendo-me que não conseguia esquecer-me, que continuava a querer-me, mesmo sendo eu casado com outra mulher.

 

Eu acenei com a cabeça.

 

Aráusio contou-me que ela desaparecia de casa horas seguidas. Ele pensava que ela dava passeios sem destino, tentando curar o desgosto. Pensava que ela estava a ficar louca.

 

Andava atrás de mim. E, algum tempo depois... os nossos encontros deixaram de ser casuais. Descobrimos um sítio para nos encontrarmos um ninho de amor. Eu tinha-me esquecido... de como ela era bela. Como Artemísia, disseste tu? Não, era Afrodite encarnada! Fazer amor com ela como é que eu hei-de explicar? Como é que posso esperar que percebas sequer uma fracção?

 

Eu suspirei. Como qualquer jovem, ele estava convencido de que o êxtase tinha sido inventado por ele.

 

A última vez que nos encontrámos... assim... foi no dia em que os romanos usaram o aríete. Com a confusão que havia na cidade, eu atrasei-me, mas Rindel esperou por mim. Nunca tinha sido como foi naquele dia. A excitação dos combates o sentimento de perigo que pairava sobre nós, o bater constante do aríete contra as muralhas; não sou capaz de explicar. Nesse dia, parecia que estávamos a fazer amor com novos corpos, com novos sentidos. Ela estava indescritivelmente bela. Eu queria ficar nos seus braços para sempre. Então...

 

Cidímaque descobriu-vos.

 

Sim. Ela já desconfiava. Tinha-me seguido. E descobriu-nos.

 

E então?

 

- Cidímaque ficou histérica. Ver as duas no mesmo quarto, lado-a-lado Rindel nua e Cidímaque velada, mas sabendo eu o que havia por baixo, parecia-me quase impossível que duas criaturas tão diferentes pudessem ser ambas feitas de carne humana. Acho que Cidímaque deve ter visto a minha expressão. Lançou um grito que me fez gelar o sangue nas veias. Saiu a correr do quarto.

 

Pensei que ela era coxa.

 

Eu nunca teria imaginado que ela fosse capaz de se mover àquela velocidade! Especialmente tendo em conta... Ia dizer qualquer coisa, mas calou-se. Vesti-me e pus a armadura não podia ser visto nas ruas sem ela e segui-a. Pensei que ela correria para aqui, para junto do pai, mas depois vi-a ao longe, a dirigir-se para o mar. Corri. Apanhei-a perto da base da Rocha do Sacrifício. Tu viste... o que aconteceu depois.

 

Acenei lentamente com a cabeça.

 

Nesse caso, Jerónimo tinha razão: Cidímaque queria lançar-se da rocha e tu foste atrás dela, para a impedir de o fazer.

 

Esperei que ele respondesse, mas ele limitou-se a olhar fixamente pela janela, em silêncio.

 

E depois prossegui, Rindel tomou o lugar de Cidímaque. Uma mascarada. Uma loucura...

 

Mas resultou! Com a confusão que foi aquele dia, não foi difícil meter Rindel dentro desta casa. Quando nos vimos a sós no quarto de Cidímaque, eu vesti-lhe as roupas e pus-lhe os véus de Cidímaque. Expliquei-lhe que devia encurvar-se e caminhar tropegamente. Disse-lhe que tinha de falar com voz grossa e o mínimo possível.

 

E Apolónides?

 

Desde que o cerco começou que ele não tinha tempo para pensar em Cidímaque. Como ela tinha um marido, Apolónides deixara de ser responsável por ela, e tinha um combate a travar, O jantar de ontem à noite, no jard