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DESERTO REAL / Jean Sasson
DESERTO REAL / Jean Sasson

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

DESERTO REAL

Lutas e vitórias da princesa Sultana

 

A 7 DE SETEMBRO DE 1978 viajei para a Arábia Saudita com a ideia de que viveria e trabalharia nesse país somente durante alguns anos, mas acabei por permanecer em Riade, a capital desse reino no deserto, até 1991.

Em 1983 conheci Sultana Al Sa’ud, uma princesa de sangue real. Esta mulher encanta­dora exerceu sobre mim uma fascinação que me tem acompanhado desde então.

Trabalhei no Hospital e Centro de Pesquisa Rei Faisal durante quatro anos. Durante esse período, foi-me dada a oportunidade de conhecer vários membros da extensa família monárquica saudita, tendo chegado à triste conclusão de que, no seu todo, eram pessoas egocêntricas e mimadas. A maior parte era incapaz de ver para lá da monarquia e da sua aparência exterior.

No entanto, Sultana era o contrário de qualquer dos membros da família real que eu conhecera. Era jovem e de grande beleza. Os cabelos negros caíam-lhe sobre os ombros e tinha uns olhos que cintilavam de curiosidade. Era frequente os seus lábios abrirem-se em gargalhadas espontâneas. Vestida com roupas de elevado preço que complementava com jóias que prendiam o olhar, Sultana atraía a atenção de todos os que a rodeavam.

Para além da beleza e do encanto, por de mais patentes, eu tinha esperado que este membro da realeza fosse como todos os outros que conhecera até então, mas senti-me tão surpreendida, como agradada, ao descobrir que Sultana era uma mulher com uma mente in­dependente que parecia desejosa de trazer alterações à vida das mulheres da Arábia Saudita. Não obstante ter sido criada com todos privilégios que a fabulosa riqueza da família reinante da Arábia Saudita lhe permitia, Sultana não fazia o mínimo esforço para ocultar que, no respeitante a questões que envolvessem o sexo feminino, estava em franca rebelião contra as tradições e costumes do seu próprio país.

À medida que a nossa amizade foi evoluindo lentamente, fiquei a conhecer uma mulher de carácter com uma grande força de vontade. Apesar do seu juízo de valores e conduta se mostrarem com frequência toldados pela paixão - criando muitas vezes inesperadas situa­ções emocionais entre adultos -, é fácil ignorar esse comportamento, uma vez que Sultana é altruísta, sensível e interessada por todas as questões relacionadas com outras mulheres. Sempre que se depara com qualquer injustiça praticada contra alguém do seu sexo, entra logo em acção, independentemente do perigo que a sua integridade física possa correr.

Quando Sultana me confiou que concebera muitos planos para revelar ao mundo as his­tórias trágicas da vida das mulheres sauditas, mas que nunca tivera a liberdade para os pôr em prática, por causa do perigo que tal acção traria à sua família mais chegada, bem como a si própria, concordei em ajudá-la a concretizar os seus desejos. Em conjunto, chamaríamos a atenção do mundo para estas histórias verdadeiras, horríveis e inacreditáveis.

Por conseguinte, protegendo o seu anonimato, transformei-me no porta-voz da prin­cesa.

No livro Sultana - A Vida de Uma Princesa Árabe, o mundo ficou a conhecer pela primeira vez a vida de Sultana como filha indesejada de um homem cruel, numa sociedade impiedosa que atribui pouco valor às mulheres. A irmã que Sultana mais amava, Sara, havia sido casada contra a sua vontade com um homem bastante mais velho, que não conhecia nem amava. Desde o dia do seu matrimónio, Sara fora sujeita a terríveis abusos de natureza sexual perpetrados pelo marido. Só depois de Sara ter realizado uma tentativa de suicídio é que o pai lhe permitiu intentar uma acção de divórcio, deixando-a regressar a casa.

As experiências infelizes da infância da própria Sultana fizeram com que esta se tornas­se numa adolescente rebelde. Todavia, aprendeu, da maneira mais aterradora, que a rebelião contra o sistema inflexível que vigora no seu país só poderia levar ao desastre, quando uma das suas amigas foi executada pelo próprio pai, acusada do «crime» de conduta sexual ina­dequada.

Com a idade de dezasseis anos, Sultana foi informada pelo pai de que este lhe havia arranjado um casamento com um primo, Kareem. O noivado de Sultana e Kareem foi dife­rente da maioria dos noivados sauditas, dado que Kareem pediu para conhecer a sua futura noiva, desejo que lhe foi concedido. Aquando do primeiro encontro entre os dois, Sultana e Kareem sentiram-se fortemente atraídos um pelo outro. Apaixonaram-se num ápice, tendo vindo a desfrutar de uma união muito especial de amor mútuo, sentimento tão contrário ao que sucedia com a maior parte dos casamentos sauditas.

Os primeiros anos de matrimónio trouxeram a Sultana a tranquilidade que sempre dese­jara. Ela e Kareem foram abençoados primeiro com um filho, Abdullah, e depois com duas filhas, Maha e Amani.

Sultana e a família continuaram a viver em Riade durante a Guerra do Golfo, em 1991. Sultana sentiu-se entristecida por esta guerra pois, ao invés de ajudar a situação das mu­lheres da Arábia Saudita, tal como esperara, tornara as suas vidas ainda mais difíceis. Quan­do a guerra terminou, Sultana ficou mortificada porque «os véus finos passaram a ser mais espessos, os tornozelos desnudados foram cobertos e as correntes soltas ficaram mais apertadas» .

Em As Filhas da Princesa Sultana, a princesa e eu contámos ao mundo que a sua família mais chegada tomara conhecimento de que ela era a princesa por detrás do livro Sultana - A Vida de Uma Princesa Árabe, o qual se tornara num dos livros mais vendidos em muitos países, embora o segredo da sua identidade tivesse sido mantido no que respeita ao resto da família real. Os leitores também ficaram cientes de que, mal-grado a batalha constante de Sultana contra o status quo, e o seu casamento relativamente esclarecido, às suas duas filhas não escaparam às pressões exercidas pelos preconceitos feudais de que as mulheres da Arábia Saudita são alvo.

Cada uma das filhas de Sultana reagia de forma diversa à herança saudita. A filha mais velha, Maha, odiava a existência que as saudiarábicas são forçadas a levar, e, seguindo o caminho trilhado por Sultana, também ela se rebelou contra as injustiças que via serem infligidas às mulheres do seu país. A sua mente ficou de tal maneira perturbada que foi for­çada a submeter-se a tratamento psiquiátrico em Londres, antes de poder retomar uma vida normal na Arábia Saudita.

Por seu lado, Amani, a filha mais nova de Sultana, reagiu de uma forma que a mãe con­siderou ainda mais perturbadora. Amani abraçou a fé islâmica, imbuída de um confrangedor grau de fanatismo. Enquanto Sultana se batia contra os véus, Amani batalhava pelos véus.

Neste terceiro livro, Sultana pediu-me que fosse, uma vez mais, a sua voz. Embora ela continue a desafiar o tratamento e tome conhecimento do abuso constante a que estas mulheres são submetidas no seu próprio país, situação que tem tanto de alarmante quanto de rotineiro, Sultana também descobriu uma nova direcção que lhe permite ajudar as mulheres de todo o mundo, persistindo na sua galante cruzada em prol das reformas que se impõem.

Apesar de os leitores deste livro ficarem a saber que Sultana está longe de ser perfeita, e que amiudadas vezes as suas imperfeições são demasiado humanas, ninguém poderá duvidar da sua sinceridade sempre que a questão se prenda com a luta pelos direitos da mulher.

Na minha qualidade de escritora, e de sua amiga, é com orgulho que conto a história desta extraordinária princesa.

 

 

                   O MEU SONHO

HÁ ALGUNS MESES atrás, enquanto eu dormia, a minha mãe, a quem tanto bem quero, visitou o meu sonho. A mãe vinha envolta num manto bordado de um vermelho ful­gurante; os seus cabelos negros e longos estavam entrançados com fios dourados. As faces, de pele macia, mostravam uma expressão radiante e o seu olhar sensato, de quem tudo sabia, cintilava.

A sua aparição, sob uma árvore verdejante de folhas tremeluzentes, junto de uma nas­cente de água do mais azul que se possa imaginar, deslumbrou-me. Em seu redor cresciam abundantes plantas de cores vívidas.

No meu sonho, sentia o coração a bater desordenadamente.

«Mãe!», chamei. Com os braços abertos, corri ansiosamente na sua direcção. Mas de­parei-me com uma barreira invisível que, de uma maneira atormentadora, a mantinha fora do meu alcance.

A minha mãe olhou fixamente para a mais nova dos seus filhos terrenos, deixando adivinhar uma expressão de muito amor, ao que se aliava uma resignação feita de tristeza.

E foi então que ela falou. Embora a sua voz fosse sonora e doce, a revelação era impla­cável. «Sultana», disse ela, «a minha viagem por aqui foi frustrada pelas tuas dores, descon­tentamentos, desilusões e infortúnios». Ela estava tranquilamente a analisar-me. «Minha fi­lha, quando tu eras uma criança caprichosa, foram muitas as vezes em que me vi forçada a assustar-te de forma a que te comportasses de uma maneira razoável». Arqueou as sobran­celhas. «Estou a ver que a minha presença continua a ser necessária, Sultana».

A percepção com que fiquei por ter causado preocupações à minha mãe, até mesmo depois de ela ter entrado no Paraíso, provocou-me uma explosão de lágrimas.

Nasci princesa num reino abastado do deserto onde a perseguição às mulheres aumenta cada vez mais, se bem que eu não pudesse contestar que havia levado uma vida pouco convencional.

«Minha mãe, fui levada através da vida por um vento magnífico!», gritei. «Como é que eu poderia ter vivido a minha vida de um modo diferente?».

«Até mesmo no meio de uma batalha acesa, Sultana», retorquiu a minha mãe com um lento abanar de cabeça, «qualquer coração generoso luta com justeza».

Retraí-me.

O semblante da minha mãe suavizou-se.

«Mas não é este o assunto de que desejo falar-te agora, minha filha».

«Então o que é?», perguntei num tom de súplica.

«Sultana, a tua vida é semelhante à de um mágico insensato que vai revelando as suas inúmeras habilidades. Pareces ter tudo na vida; contudo, não tens nada. Minha filha, a tua existência não te traz felicidade».

Sentindo-me desesperada, desejando que a minha mãe me confortasse tal como havia feito no passado, o significado das suas palavras passou-me ao lado.

Foi então que as pétalas frágeis das flores que a rodeavam começaram a cair; o semblante da minha mãe também começou a desvanecer-se.

«Mãe! Por favor, não se vá embora! Espere!».

Naquele momento, a sua silhueta incandescente mal se distinguia, apesar de eu a ouvir dizer com toda a clareza: «Sultana, no meio de um banquete, estás esfomeada. Desintegra-te em algo maior do que tu própria, minha filha».

Emergi desse sonho num êxtase de alegria, mas a recordação da misteriosa mensagem da minha mãe continua a assombrar-me.

Infelizmente, eu tinha de reconhecer que as palavras da minha mãe eram a expressão da verdade; de facto, permiti que a minha vida estagnasse. Em tempos, saí à descoberta de uma maneira nobre e estimulante de melhorar a vida das mulheres da minha nação. Todavia, ten­do eu concluído que não podia fazer nada contra o poder inexpugnável dos homens da Ará­bia Saudita, permiti a mim mesma sentir-me cada vez mais desencorajada. Não obstante, se as mulheres do meu país continuarem a casar contra a sua vontade, se continuarem a abusar delas fisicamente e a serem violadas com o beneplácito da lei, e até mesmo legalmente as­sassinadas por mero capricho dos seus pais, maridos e irmãos, como é que eu poderei parar de lutar?

No seguimento da visita da minha mãe, enchi-me de uma coragem que fui buscar ao conhecimento de que continuava a existir para mim um objectivo nesta batalha constante, um novo papel que me fora destinado desempenhar. No entanto, neste momento eu desco­nhecia até onde é que esta determinação me poderia levar.

 

                   O DESTINO DE MUNIRA

DIZ-SE QUE UMA das principais tradições do Islão teve origem num encontro entre o Profeta Maomé e os seus seguidores, quando o Profeta agarrou num bordão e escre­veu no solo: «Não existe um entre vós cujo lugar onde tome assento não tenha sido escrito por Deus, quer seja no Inferno, quer no Paraíso». Com base nesta tradição, a fé islâmica en­sina que todas as coisas da vida estão predestinadas, e que o destino de qualquer pessoa foi traçado por Alá. Enquanto para muitos muçulmanos este fatalismo dá origem a uma resigna­ção dignificante perante as agruras da vida, no que me diz respeito, tenho vindo a lutar insis­tentemente contra esta inércia pessimista, o que me impede de aceitar as trágicas existências vividas por tantas mulheres sauditas em nome da vontade pré-ordenada de Alá.

Assim, quando chegou ao meu conhecimento que uma terrível parte da história da nos­sa família estava prestes a ser repetida, compreendi que nunca poderia limitar-me a aceitar, com uma atitude fatalista, o destino horrendo e vergonhoso que estava destinado a uma das minhas sobrinhas.

A nossa família tinha regressado recentemente ao palácio de Riade após uma viagem ao Egipto. O meu marido, Kareem, e o nosso filho mais velho e único varão, Abdullah, en­contravam-se em casa, no escritório de Kareem. Amani, a nossa filha mais nova, estava no jardim com os seus animais de estimação, enquanto eu optara pela sala de estar na compa­nhia da nossa filha mais velha, Maha.

Subitamente, a minha irmã Sara e três das suas quatro filhas, Fadeela, Nashwa e Sahar, irromperam porta adentro.

Levantei-me com um sorriso a fim de saudar a irmã que mais amava, mas apercebi-me do medo que transparecia do olhar de Sara.

Enquanto se agarrava às minhas mãos, os olhos escuros de Sara procuravam desespera­damente os meus. Disse-me para me sentar, dado que era portadora de notícias consternadoras.

- O que é que se passa, Sara?

A voz melodiosa de Sara deixava adivinhar uma enorme amargura.

- Sultana, enquanto estiveste fora, Ali combinou o casamento de Munira. A boda será dentro de dez dias a contar de amanhã.

Maha agarrou-me a mão, que retirou da de Sara, e enterrou as unhas na palma da minha mão.

- Oh, mãe, não!

Afastei as mãos, levando os dedos à face com gestos nervosos. Havia um pensamento que me atormentava o cérebro impiedosamente. Outra mulher jovem, sangue do meu sangue e carne da minha carne, estava destinada a casar contra a sua vontade.

Munira era a filha mais velha do meu desprezível irmão Ali. Era uma rapariga bonita, embora franzina, dando a impressão de ser muitos anos mais nova do que efectivamente era. Munira sempre fora uma criança obediente, cujo comportamento tímido merecia a nossa simpatia e afecto.

A mãe de Munira, Tammam, era a primeira mulher de Ali, a prima de sangue real que o meu irmão desposara havia muitos anos. Na ocasião, Ali não havia hesitado em apregoar, com jactância, que o seu matrimónio com Tammam tinha como única finalidade satisfazer as suas necessidades sexuais sempre que regressasse ao nosso país entre os semestres esco­lares no estrangeiro. O amor e afecto eram sentimentos que nunca constaram da sua agenda.

Qualquer pessoa poderia, com bastante facilidade, ter previsto o infeliz futuro de Tammam. Haviam-na casado quando era uma simples criança, pelo que nunca tivera a opor­tunidade de se desenvolver em termos emocionais. Até mesmo como mulher madura, só muito raramente é que Tammam participava em qualquer conversa e, quando falava, o tim­bre da sua voz era tão baixo que o seu interlocutor era forçado a chegar-se perto dela para conseguir ouvir o que dizia.

Três anos depois de ter casado com Tammam, Ali desposou uma segunda mulher. Uma vez que Tammam era uma mulher que cumpria irrepreensivelmente os seus deveres, Ali foi interrogado pela nossa irmã mais velha, Nura, quanto à necessidade de uma segunda esposa.

Mais tarde, Nura revelou-nos que Ali declarara que o seu descontentamento se prendia com a infelicidade de Tammam. Sentia-se encolerizado e desconcertado pelo facto de a sua jovem noiva se ter transformado numa mulher melancólica. Manifestando uma enorme per­plexidade, Ali afirmou que Tammam não tinha sorrido nem uma única vez desde o dia em que ele se tornara seu marido!

A união de Tammam com Ali produziu três crianças: duas filhas e um filho. As garotas eram tão tristonhas quanto a mãe, enquanto o filho era uma réplica, perfeita e arrogante, do pai. Actualmente, as fileiras já engrossaram com o acréscimo de mais doze crianças, fruto de seis mulheres para além de Tammam.

Munira levara uma existência conturbada e infeliz. Como filha de um homem que pou­co se preocupava com as filhas, passara os seus primeiros anos de vida a esforçar-se por conquistar o amor do pai, um homem que não tinha amor para dar. Nesse aspecto, a procura do amor paternal, ao qual Munira dedicou a sua infância, assemelhava-se bastante à minha. Mas a similaridade terminava aí. Pelo menos eu tinha conseguido sobreviver à carência do amor paternal, mantendo intacta a minha capacidade de amar.

O amor frustrado que Munira dedicara ao pai foi-se transformando gradualmente em desamor antes de se tornar num misto de medo e ódio. Agora, esses sentimentos abrangiam todos os homens - até mesmo os que eram bons para ela. Cinco anos antes, aos dezasseis anos, Munira dissera à mãe que desejava permanecer em estado de celibato.

Por conseguinte, ao contrário da maioria das raparigas sauditas, que passavam a maior parte da sua juventude a aperfeiçoar métodos para manterem os seus futuros maridos satisfeitos, Munira decidiu que desejava para si própria uma vida diferente. Tirou um curso de assistente social, com a intenção de dedicar a sua vida a ajudar os deficientes que tão des­denhados são no nosso país. Não obstante essa decisão, tornou claro que só prestaria os seus cuidados aos deficientes do sexo feminino.

Durante algum tempo, Ali deu a impressão de ter esquecido por completo que a sua fi­lha mais velha continuava solteira. Mas infelizmente, por ocasião de um evento de carácter familiar, alguém lhe chamou a atenção para o facto de a filha continuar solteira. Agora, Ali negava à filha o único prazer que ela havia almejado, o de lhe permitirem permanecer sol­teira.

No preciso momento em que uma rapariga nasce em territórios árabes, os progenitores começam imediatamente a pensar num casamento adequado. Tendo em mente futuras alian­ças, as famílias com filhos considerados bons partidos eram analisadas com toda a minúcia. Enquanto qualquer rapariga saudita permanecer solteira, tem de se manter virgem. Por outro lado, uma virgindade prolongada é considerada uma desgraça para qualquer família.

Agora que Munira completara os vinte e um anos, o seu estado de solteira provocava um enorme mal-estar ao pai.

Entretanto, Maha interrompeu os meus pensamentos. A minha filha nutria grande cari­nho pela prima, conhecendo os pontos de vista de Munira quanto ao casamento.

- Mãe! O tio Ali não pode obrigar a Munira a casar, pois não?

- A quem é que Munira foi prometida? - perguntei atabalhoadamente.

Sara hesitou durante tanto tempo que me levou a pensar que não tinha resposta.

- Sultana, Munira casar-se-á com Hadi - disse ela finalmente, soltando um longo SUSPIRO.

A minha memória estava incapaz de associar um rosto ao nome.

- Hadi? Quem é ele?

- O Hadi. Sultana, não te recordas? O amigo de infância de Ali que acompanhou a nossa família na viagem ao Cairo.

- Esse Hadi? - perguntei, mal podendo falar.

- Sim. Esse Hadi - retorquiu Sara com uma expressão pesarosa.

A recordação da experiência traumática que ambas partilhávamos abateu-se sobre nós.

Sem querer acreditar, como que mesmerizada, olhei para a minha irmã.

- Não, não - foi tudo o que consegui proferir.

- Quem é esse Hadi? - inquiriu Maha num tom de exigência.

Na verdade, quem era? Por onde deveria começar?

- É um amigo de infância de Ali, minha filha - tartamudeei. - Tu não sabes nada dele.

Sara sentou-se mais próximo de mim enquanto as suas mãos procuravam as minhas. Continuámos a fitar-nos. Os pensamentos ocorriam-nos em uníssono. Sara revivia o período mais traumático de toda a sua vida.

Há mais de vinte anos, Sara desposara contra a sua vontade um homem bastante mais velho, um indivíduo que tinha abusado dela sexualmente desde o primeiro momento da união entre ambos. Somente depois da tentativa de suicídio que Sara empreendera é que a nossa mãe tinha conseguido convencer o nosso pai a permitir que Sara se divorciasse.

Apesar do seu regresso a casa da nossa família, a minha querida irmã fora incapaz de re­cuperar de uma depressão crónica e debilitante.

Durante esse mesmo período de tempo, a nossa irmã mais velha, Nura, e o marido Ahmed tinham começado a construir um novo palácio. Nura planeara viajar até Itália para comprar mobiliário para a sua casa; durante o percurso visitaria o Cairo.

Para minha grande surpresa e deleite, Nura e Ahmed convidaram-me a mim e a Sara para os acompanharmos nessa viagem, juntamente com os filhos. Mas todas as moedas têm duas faces, e a minha felicidade foi moderada ao fim de pouco tempo quando o pai decidiu que o meu irmão Ali e o seu amigo Hadi também fariam parte da nossa comitiva.

A notícia, pouco agradável, causou-nos algum desalento; não obstante, decidimos fazer a viagem.

Enquanto permanecemos no Cairo, Sara e eu ficámos atónitas ao constatarmos que o amigo do nosso irmão conseguia ser ainda mais detestável do que ele! Nenhuma de nós tinha imaginado que tal fosse possível! Ao fim de pouco tempo, descobrimos que, em com­paração com o Ali mimado e de feitio difícil, Hadi era a encarnação da perversidade.

Embora fosse um estudante no Instituto Religioso, uma escola frequentada pelos rapa­zes de Riade, que se destinava a formar mutawwas, ou homens da religião, Hadi não absor­vera nenhuma da bondade que o nosso sagrado Alcorão ditava. A sua alma negra permane­cia inexpugnável perante aquela educação religiosa.

Hadi detestava as mulheres com uma determinação vingativa, expressando frequente­mente a opinião de que todas as raparigas de tenra idade deveriam casar aos primeiros sinais da menstruação. Na mente de Hadi, as mulheres encontravam-se nesta terra para cumprirem três objectivos: saciar os apetites sexuais dos homens, servir os homens e dar à luz os filhos dos homens.

Como é evidente, Hadi perfilhava a opinião de que Sara e eu éramos fêmeas incontrolá­veis, o que não se coibia de dizer com frequência. Sara e eu estávamos convencidas de que, se tivesse sido ele o senhor dos nossos destinos, já teríamos sido apedrejadas até à morte, com o próprio Hadi a atirar-nos a primeira pedra!

Apesar do ódio que nutria pelo sexo feminino, coisa que não sentia o mínimo pejo em manifestar, Hadi estava disposto a manter relações sexuais com tantas mulheres quantas lhe fosse possível. Nessa viagem ao Cairo e a Itália fez precisamente isso. Mas, mais perturba­dor do que isso, Ali aliara-se a Hadi naquela conduta perversa! Durante a permanência no Cairo, Sara e eu inadvertidamente surpreendemos Hadi e Ali abusando sexualmente de uma garota que não teria mais de oito anos de idade! A cena foi de horror e violência, e tanto eu como Sara nunca conseguimos banir da nossa mente as imagens obsessivas daquilo que pre­senciámos nesse dia.

Certas de que um rapaz tão perverso como aquele acabaria por se transformar num ho­mem perverso, agora sentíamo-nos cheias de um sentimento de pânico perante a perspectiva de uma pessoa daquelas passar a ter em breve um domínio absoluto sobre uma criança que­rida e tenra que não se encontrava preparada para se defender.

Caí nos braços de Sara num pranto soluçante. As nossas lágrimas eram tão contagiantes que as nossas filhas começaram a chorar convulsivamente, tal como nós.

Como é evidente, o som dos nossos gritos de angústia chegaram ao escritório de Kareem, pois ele e Abdullah entraram apressadamente no quarto pouco depois.

Cheio de preocupação, Kareem afastou-me da minha irmã.

- Sultana! Sara! O que é que aconteceu?

- Quem é que morreu? - perguntou Abdullah à irmã, Maha, num tom de exigência. - A morte seria preferível! - tartamudeei por entre gemidos.

- O quê? O quê? - Kareem mostrava-se cada vez mais alarmado.

- É por causa da prima Munira, meu pai - adiantou Maha. - O tio Ali arranjou-lhe casamento.

Até mesmo Kareem recuperou a compostura ao ouvir aquela notícia. Todos os mem­bros da nossa numerosa família tinham conhecimento da repulsa que Munira sentia pelos homens e pelo casamento.

Ao contrário de muitos homens sauditas, o meu marido não era um homem que acredi­tasse na força no que dizia respeito ao casamento. Kareem e eu havíamos acordado há mui­tos anos que as nossas filhas deveriam ter uma educação escolar antes do matrimónio, além de que, quando fosse altura de elas se casarem, teriam o direito de escolher os seus próprios maridos. Tanto Maha como Amani jamais teriam de enfrentar a situação pouco auspiciosa em que Munira se encontrava.

Na realidade, a nossa religião proíbe que as mulheres sejam forçadas a uma união que não seja do seu agrado; contudo, à semelhança de muitas outras coisas, muito do que é bom na nossa fé islâmica é mal interpretado ou simplesmente ignorado.

- Com quem é que ela vai casar? - perguntou Kareem em voz alta para se fazer ou­ vir acima dos sons emitidos pelas mulheres que choravam convulsivamente.

- Não vais acreditar - disse-lhe eu com um suspiro.

- É um grande desastre - acrescentou Sara, limpando as lágrimas que lhe corriam pelas faces abaixo.

- Digam-me, quem é ele?

- Ali vai casar a filha com um velho amigo - retorqui, olhando para Kareem com uma expressão de tristeza.

- Velho em idade? - interrogou Kareem com um esgar.

- Velho em dois aspectos - disse eu. - Um velho amigo que é velho!

- Por favor, Sultana! - redarguiu Kareem, já exasperado - Não me obrigues a estar com adivinhas.

- É o Hadi... o homem de quem Ali é amigo há muito tempo - adiantou Sara numa voz entrecortada, incapaz de continuar sentada por mais tempo. - O detestado Ali!

O rosto do meu marido empalideceu. Os seus olhos mostravam-se ameaçadores. A sua voz era de descrença.

- Hadi, aquele da viagem ao Egipto?

- Precisamente esse Hadi!

- Oh! Isso nunca resultará. - Kareem olhou para o filho. - Abdullah, necessito de falar imediatamente com Ali. Vamos ter de adiar a nossa reunião da manhã.

Abdullah acenou com a cabeça, mostrando uma expressão solene.

Conquanto Ali fosse amigo de Hadi, nenhum dos irmãos do primeiro mantinha relações com o homem. A antipatia que todos nutriam por ele fazia com que se distanciassem, com a excepção de Ali. Somente este é que era capaz de encontrar qualidades admiráveis em Hadi. Sem dúvida alguma que ele não fazia parte do nosso pequeno círculo social composto por familiares e amigos mais íntimos.

Embora tivesse sido educado como homem da religião, Hadi trabalhava actualmente para o governo saudita. Devido à amizade que mantinha com um príncipe de posição eleva­da, conseguira manobrar de forma a ocupar um lugar perfeito que lhe permitiria vir a ser fa­bulosamente rico.

Levando em linha de conta as excelentes perspectivas financeiras, aqueles que não ti­nham conhecimento do seu carácter repulsivo poderiam considerá-lo um bom partido, um marido desejável. Mas duas das minhas cunhadas conheciam três das esposas de Hadi, tendo ouvido dizer que a sua natureza perversa se acentuara ao invés de abrandar. Era suficiente saber que Hadi era secretamente apelidado de «o filho favorito de Satanás» pelas mulheres que desposara.

Ao ouvir as palavras de Kareem, senti um pequeno raio de esperança. Apesar de saber que as irmãs de Ali jamais poderiam ter a mínima influência junto dele, se os homens da nossa família tomassem medidas, talvez a pobre Munira pudesse ser salva de um destino que ela certamente considerava pior do que uma morte súbita.

- Quando é que vais falar com Ali?

- Amanhã.

- Asad irá contigo - prometeu Sara. - E eu vou telefonar a Nura. Talvez o Ahmed também vá contigo. Este casamento tem de ser impedido!

Com estes planos prestes a serem postos em prática, senti-me um tudo-nada mais ali­viada.

Kareem e eu estávamos física e emocionalmente tão exaustos por causa deste drama fa­miliar que nessa noite dormimos sem nos abraçarmos amorosamente como era nosso hábito.

Bem cedo na manhã seguinte, fiquei deitada na cama enquanto Kareem tomava o seu duche matinal, interrogando-me sobre o que aquele dia nos poderia trazer. Dado recear que Kareem pudesse esquecer-se de me contar alguns pontos importantes relativos à conversa que teria com o meu irmão, eu tentava pensar numa maneira de conseguir ouvir furtivamen­te a conversa que iam travar.

Quando Kareem foi para a sala de estar adjacente, a fim de telefonar ao meu irmão, retirei com todo o cuidado o auscultador do telefone junto à cama e pus-me a escutar a conversa. Ou­vi-os combinar encontrarem-se no palácio de Tammam, onde Ali recebera o telefonema de Kareem. Era por de mais óbvio que Ali passara a noite anterior com a sua primeira mulher.

Corri apressadamente para o quarto de Maha. - Veste-te depressa! - disse-lhe eu.­

Vamos visitar a tua tia Tammam e Munira. Elas precisam de nós.

Quando disse a Kareem que Maha e eu estávamos de saída para visitarmos Tammam e Munira, vi uma ruga de preocupação na fronte do meu marido.

- Sultana, se tu e Maha desejam visitar Tammam e Munira, não tenciono impedir-vos.

Mas tem cuidado e promete-me que não te intrometerás no meu encontro com o teu irmão.

Com uma inocência dissimulada, dei-lhe a minha palavra de que não perturbaria a con­versa de ambos. Todavia, Kareem não me pediu que lhe prometesse não escutar o que diriam.

Tammam não nos esperava, embora desse a impressão de se sentir agradada com a visita, mostrando-se de uma grande afabilidade.

Depois de saudar a tia, Maha foi directamente para o quarto da prima Munira.

Antes da chegada de Kareem, convenci Tammam de que seria do nosso interesse sentarmo-nos sossegadamente no salão de banquetes contíguo à sala de estar de Ali.

- É possível que sejamos chamadas - aleguei.

Assim que entrámos no amplo salão, comecei a remexer no conteúdo da minha enorme mala de mão.

Há muitos anos que aprendera que, ao pedir autorização para qualquer acção pouco or­todoxa que pudesse pôr em prática, estaria a abrir a porta a uma resposta negativa. Conse­quentemente, agora limitava-me a agir deixando que os outros reagissem.

Tammam ficou boquiaberta, mas era demasiado tímida para protestar quando retirei um dispositivo electrónico da minha bolsa, inserindo o pequeno aparelho auditivo na minha ore­lha direita. Sorri a Tammam, que não ocultava a estupefacção que sentia.

- Quem sabe o que é que os homens poderão engendrar contra mulheres de boa índo­le? - disse eu à guisa de justificação.

Havia adquirido este dispositivo há vários anos numa loja da especialidade em Nova Iorque - num estabelecimento que tinha em armazém uma extraordinária variedade de dis­positivos para espionagem - depois de ter lido um anúncio publicitário numa publicação do hotel com informações ao cliente. Durante esse período da minha vida, acompanhar de perto as actividades secretas de Amani tinha sido para mim algo da maior importância. Receando que ela pudesse causar danos físicos a si própria, devido a um fervor religioso levado ao ex­tremo, senti-me impelida a espiar a minha filha mais nova. No entanto, ao fim de pouco tempo comecei a sentir-me enfadada com as suas infindáveis conversas respeitantes aos aspectos minuciosos da nossa fé religiosa, o que me levara a guardar aquele dispositivo de escuta.

Contudo, nessa manhã bem cedo, antes de me dirigir a casa de Ali, recordei-me dessa engenhoca, que me permitiu estar preparada para ouvir, sem que ninguém se apercebesse, aquilo que dissessem os poderosos homens que dirigiam as nossas vidas.

Examinei a engenhoca durante alguns momentos. A experiência do passado mostrara­-me que, ainda que o mecanismo não funcionasse na perfeição, conseguia amplificar bastan­te as vozes que viessem das salas adjacentes.

Brindei Tammam com um sorriso confiante, embora pudesse constatar que ela se sentia receosa. A minha cunhada sentava-se, como se houvesse sido acometida de mudez, com as mãos sobre a boca.

Inadvertidamente, eu elevara o volume ao máximo; por conseguinte, quando na sala contígua Kareem, Asad e Ahmed saudaram Ali num timbre de voz elevado, os meus pés ergueram-se do chão, impulsionando o meu corpo contra a parede.

Tammam emitiu um pequeno grito de temor.

Recuperada a minha compostura, levei um dedo aos lábios.

Afortunadamente, as saudações prolongadas dos homens eram tão entusiásticas que não se aperceberam de nada de anormal.

Sorri enquanto escutava. Desde sempre que sentia o maior prazer ao ouvir, em segredo, conversas que de outro modo me estariam interditas.

Os quatro homens passaram longos momentos em silêncio enquanto preparavam o chá a seu contento. Quando finalmente começaram a, falar, a conversa abordou temas de some­nos importância. Depois de se terem inteirado do estado de saúde de todos os presentes, abordaram vários assuntos relativos aos negócios. Durante bastante tempo, a conversa dete­ve-se no declínio do estado de saúde do rei. O tio Fahd é, por excelência, o dirigente mais próximo da minha família, existindo uma grande apreensão perante a perspectiva do dia em que ele deixará de poder reinar.

Eu já começava a sentir-me impaciente, mas Ahmed abordou finalmente o assunto que realmente os levara a combinar aquela reunião.

- Ali, ouvimos a notícia de que Munira vai casar dentro em breve.

Fez-se uma pequena pausa. Pouco depois, Ali fez soar uma sineta, chamando uma das servas para que esta lhes servisse alguns bolos acabados de confeccionar, com que acom­panhariam o chá.

Assumi que o meu irmão tentava ganhar tempo, com o intuito de ponderar a resposta a uma questão tão inesperada.

Seja como for, a verdade é que o meu irmão tem o hábito de comer em excesso. Para meu grande gáudio, com o passar dos anos, continua a aumentar de peso.

Entretanto, o dispositivo de escuta funcionava com tanta eficiência que ao fim de pou­co tempo ouvi o estalar dos lábios carnudos de Ali enquanto este devorava bolo após bolo de mel. Os outros homens mantinham-se em silêncio.

Por fim, saciado o seu apetite, Ali estava preparado para dar resposta à questão que Ahmed levantara.

- Sim. Estás certo, Ahmed. Munira está em idade de casar. Encontrei-lhe um bom partido. - Hesitou antes de acrescentar: - Seguramente que Tammam já informou as mi­nhas irmãs quanto à data das celebrações matrimoniais.

Kareem pigarreou antes de dar uma réplica que serviria para apalpar o terreno.

- Ali, peço-te que nos consideres como teus irmãos. E é na qualidade de irmãos que estamos aqui para te apoiar em quaisquer decisões que possas vir a tomar... seja qual for o assunto.

- Isso é verdade - secundou Asad com prontidão.

- Ali, os ziguezagues da vida humana - prosseguiu Kareem com grande tacto - são assaz enigmáticos. Pergunto a mim mesmo se terás feito brilhar o archote da luz sobre o carácter, muito particular, de Munira, ou sobre a idade do homem que ela desposará.

Por fim, Ahmed foi direito ao assunto sem estar com mais rodeios.

- Por acaso Munira não será mais nova do que alguns dos filhos de Hadi?

Fez-se um silêncio total.

- Caso Munira deva casar-se - sugeriu Asad apressadamente -, não haverá outro homem mais próximo da sua idade e que seja mais do seu agrado?

Era indubitável que Ali não se sentia satisfeito com aquela interferência, extraordinariamente invulgar, nos seus assuntos particulares.

Ainda assim, deve ter-se sentido alvo de uma cilada, dado que fez uma concessão sur­preendente.

- Deixarei que seja Munira a decidir!

Levei as mãos à boca, evitando causar qualquer perturbação. Depois de ter recuperado o domínio sobre as minhas emoções, fiz um gesto a Tammam, após o que coloquei as mãos sobre a cabeça, e em seguida dirigi-as para o chão, num sinal de que rezava e louvava Alá.

Tammam, aparvalhada, fitou-me com uma expressão de perplexidade. Deu-me a im­pressão de pensar que eu lhe indicava estar na hora da oração do meio-dia, uma vez que lan­çou um olhar ao seu relógio, abanando a cabeça de um lado para o outro num gesto que di­zia não.

- Ali vai permitir que seja Munira a decidir! - articulei numa voz lenta e sussurrada. Tammam esboçou um sorriso de timidez.

Pela primeira vez na minha vida, senti um resquício de simpatia por Ali. Tammam era uma criatura tão fraca de carácter! Se fosse eu a mãe de Munira, teria tido uma enorme difi­culdade para suprimir a alegria que sentiria ao ouvir aquela novidade. Movida por um senti­mento de caridade, concluí que as suas emoções haviam sido permanentemente embotadas por anos de maus tratos.

- Vou chamar Munira - anunciou Ali num tom decisivo. Ouvi o som abafado dos seus passos enquanto a porta era aberta para logo ser fechada.

Enquanto Ali esteve ausente, os três homens que aguardavam encetaram uma conversa trivial cujo tema eram as férias recentes que havíamos passado no Egipto. Senti-me um pou­co desiludida, uma vez que acalentara a esperança de que eles discutissem algum assunto confidencial, de família, de que eu não tivesse conhecimento, embora não tão confidencial que eu não pudesse repeti-lo.

Dentro em pouco, apercebi-me de que Ali regressara à sala. A sua voz retumbante ex­pressava confiança em si próprio.

- Munira, os teus tios sentem um grande amor e estima por ti. Dispuseram de algum do precioso tempo que retiraram à sua atarefada vida de negócios para te congratularem pessoalmente pelo teu matrimónio prestes a celebrar-se.

Kareem, Asad e Ahmed murmuraram algo numa voz sussurrada, mas Munira não lhes deu réplica alguma.

Conhecedora do temor que os homens inspiravam à minha sobrinha, desconfiei que a pobre rapariga se sentiria tão avassalada pela atenção masculina que lhe era dirigida que te­ria sido acometida de mudez.

- Munira - continuou Ali -, minha filha, um homem, Hadi, pediu-me que te tornas­ses na sua adorada esposa. Certamente que estarás ciente da amizade que ele nutre por esta família, assim como da sua capacidade de prover às tuas necessidades, bem como às de qualquer filho que possam vir a ter. Pedi a Deus Todo-Poderoso autorização para te oferecer em matrimónio a Hadi. Agora, Munira, diz-me se aprovas.

Esperei pelas palavras de Munira. E esperei. E continuei a esperar.

- Munira?

Silêncio.

Ali exprimiu-se com um timbre de exultação.

- Deus é grande! O silêncio de Munira expressa a sua aprovação! - Riu-se entusias­ticamente. - Vai, volta para o teu quarto, minha filha, e fica sabendo que a modéstia de que deste provas neste assunto fez com que o teu pai se sentisse muito feliz.

Senti uma sensação de entorpecimento no rosto, que se espalhou por todo o corpo. Compreendi que, com toda a astúcia, Ali se servira de um truque cheio de manha para calar a boca dos seus familiares masculinos. Citara, quase palavra por palavra, aquilo que o Profe­ta Maomé havia perguntado à sua própria filha Fátima quando ajustara o casamento dela com um primo, Imam Ali. Quando Fátima não lhe deu resposta, todos os bons muçulmanos souberam que o Profeta havia interpretado a recusa da rapariga em dar-lhe réplica como um sinal da sua grande modéstia.

A porta bateu com estrondo.

Dadas as circunstâncias, não havia mais nada que o meu marido e os irmãos pudessem acrescentar. Caso o fizessem, estariam a argumentar contra as palavras do sagrado Profeta! Ali agradeceu-lhes profusamente.

- A vossa preocupação para com a minha família iluminou o meu coração! Considero-me um homem deveras afortunado! Por favor, voltem a visitar-me dentro em breve.

Quando os homens partiram, a porta voltou a bater com estrondo. Ouvi o riso à socapa do meu irmão, numa manifestação de contentamento.

Com um gemido atormentado, encostei-me à parede numa atitude de desalento. O que é que acontecera? Teria Ali ameaçado Munira durante o curto trajecto através do palácio? Ou teria ele aterrorizado a filha ao ponto de ela ter emudecido?

As lágrimas corriam-me pelas faces; olhei para Tammam e abanei a cabeça lentamente.

Estava tudo perdido!

Como uma mulher que nunca conhecera o poder da esperança, Tammam não se mos­trou surpreendida nem tão-pouco perturbada. Levantou-se e aproximou-se, colocando-se ao meu lado. Chorei enquanto ela me confortava.

Pouco depois, a porta abriu-se de rompante.

Tínhamos sido descobertas por Ali!

Do alto de toda a sua estatura, o meu irmão fitou a mulher e a irmã com um olhar pene­trante.

Olhei-o com a mesma expressão. Senti-me invadida por um sentimento de desdém. Sem dúvida que naquele momento, aos meus olhos, o meu irmão parecia fisicamente mais ofensivo do que em qualquer outra ocasião. A sua figura assumira uma rotundidade visível até mesmo sob o thobe. Usava um par de óculos novos com aros de osso com lentes espes­sas, que faziam com que os seus olhos parecessem chocantemente grandes.

A aversão que sentíamos um pelo outro era mútua. As experiências da nossa infância haviam criado enormes distâncias entre nós, e jamais serão ultrapassadas. Presentemente, o ódio que existia entre o meu irmão e eu era de uma tal densidade que me levou a imaginar que a escuridão em meu redor era cada vez maior.

Numa atitude desafiadora, falei de uma maneira que parecia que o veneno gotejava da minha língua.

- Ah, meu irmão, quão perverso és! Com certeza absoluta que o Dia do Juízo Final não será do teu agrado.

As faces descoradas de Tammam desfizeram-se em pavor, retraindo-se perante a minha afronta, tal era o terror que sentia. Era evidente que jamais fizera frente ao marido. A pobre mulher tentou desculpar as minhas palavras - tão-somente as palavras de outra mulher de uma casta inferior -, mas Ali atalhou o pedido de desculpas com um rápido gesto de rejei­ção que esboçou com a mão.

Não admira pois que ele não lhe tenha amor, pensei com crueldade. Nenhum homem poderia respeitar alguém que mostrasse tamanha cobardia.

Enquanto eu observava o semblante de Ali, sabia que ele procurava na sua mente uma observação que me magoasse. Eram muitas as ocasiões em que eu, por meio de palavras, ti­nha levado a melhor ao meu irmão. Ele nunca fora particularmente rápido no uso das pala­vras, e agora parecia estar ainda mais perdido, sem que estas lhe assomassem aos lábios.

Sorri com afectação, recostei-me para trás e descontraí-me. Quando nos confrontáva­mos numa batalha de inteligência, eu conseguia sempre eclipsar Ali.

Subitamente, ele encheu as bochechas flácidas de ar.

O meu esgar desdenhoso começou a desvanecer-se com lentidão. Teria Ali compreendido, tal como eu, que quando uma pessoa saía vencedora não havia necessidade de uma réplica verbal?

Começou a rir-se numa demonstração de regozijo.

A visão do meu irmão obeso, que não escondia a satisfação que sentia, ali de pé numa atitude triunfante, sabendo que era inteiramente apoiado pelas instituições legislativas do meu país, que tão entrincheiradas estavam, fez com que me deixasse cair ao chão assolada pelo desespero.

O destino de Munira fora traçado e eu receava que não houvesse nada que pudesse fazer ou dizer para alterar o horror que a aguardava.

Mesmo depois de Ali ter fechado a porta e começar a caminhar lentamente no seu pas­so pesado, percorrendo o extenso corredor que levava à entrada do palácio, eu continuava a ouvir o som da sua risada ensurdecida e malévola.

 

                   AS NÚPCIAS DE MUNIRA

O CHOQUE PROVOCADO pelo fracasso no confronto que tivera com Ali levou-me direc­tamente para casa, onde recolhi ao meu leito. Sentia a cabeça a latejar intensamente, pelo que não me reuni à minha família para a refeição da noite.

Mais tarde nessa mesma noite, quando o meu marido, pesaroso, me relatou o encontro com Ali, não lhe contei que já estava a par do resultado dessa visita. Quando comecei a cho­rar, Kareem, compreensivo, confortou-me.

Na manhã seguinte, continuava tão perturbada que permaneci na cama muito depois de Kareem ter saído de casa para os seus escritórios na cidade. Enquanto estava deitada, os meus pensamentos concentravam-se em Munira, e na vida sinistra e aterradora que dentro em pouco passaria a levar. O meu sentimento de impotência face à situação difícil em que a minha sobrinha se encontrava, deu origem a uma questão perturbadora: quando se tratava de melhorar a vida das mulheres em termos individuais, o que é que Sultana Al Sa’ud tinha para mostrar que se devesse aos seus esforços?

Até ao momento, muito pouco - era forçada a admitir. Pela primeira vez na minha vida, fui obrigada a reconhecer que as minhas arrogantes aspirações, no sentido de ajudar mulheres indefesas, haviam resultado em nada.

O meu estado de espírito estava tão em baixo perante este pensamento tão amargo que comecei a ansiar por uma bebida alcoólica. Desejava uma bebida antes de ter sequer tomado o pequeno-almoço! Pondo de lado qualquer pensamento relativo a comida, saí da cama e dirigi-me para a garrafa de uísque escocês que se encontrava sobre a credência do quarto. Depois de me ter servido de uma generosa porção, ingeri uma grande golada, aguardando que fluísse pelo meu corpo a sensação de calor que se seguiria.

De súbito, senti-me atingida por uma segunda preocupação. Ao longo dos últimos me­ses, os desejos que sentia por bebidas alcoólicas tinham-se intensificado. O conforto que o álcool presentemente me proporcionava levar-me-ia a uma situação pessoal de apuros? Esta­ria eu a transformar-me numa alcoólica? Essa possibilidade fez com que arremessasse o copo ao chão. Gemi, cobrindo os olhos com as mãos.

Desde os tempos da minha infância que me ensinaram que as bebidas intoxicantes eram demoníacas, sendo totalmente proibidas aos muçulmanos. Continuo a recordar-me de a mi­nha mãe dizer que o Profeta Maomé amaldiçoara muitos homens por causa das bebidas al­coólicas. A mãe dizia que o Profeta amaldiçoava os homens que as destilavam, os que as transportavam, aqueles que as recebiam, aqueles que as serviam, aqueles que as consumiam, aqueles que as comercializavam, aqueles que devoravam os seus lucros, aqueles que as com­pravam e aqueles que as vendiam. Ninguém era poupado!

E contudo, malgrado

o aviso pouco auspicioso de minha mãe, agora dava comigo, não sei bem como, encurralada na promessa de uma felicidade fugidia, tão facilmente encontra­da numa garrafa de álcool.

Não sou a única a cometer este pecado no seio da família Al Sa’ud. O álcool tem vindo a exigir um pesado tributo às vidas de muitos dos meus primos de sangue real. Para falar com franqueza, devo dizer que se estes primos não estão a comprar, ou a vender bebidas alcoóli­cas, estarão a bebê-las. E não hesitam em fazê-lo, não obstante os dois tabus: o religioso e a lei.

O que é que a nossa mãe pensaria?

Todos os que vivem no reino da Arábia Saudita estão inteiramente cientes de que é ile­gal consumir álcool. É do conhecimento geral que todos os anos existe um grande número de sauditas, assim como de estrangeiros, que são presos devido à infracção de possuírem ou consumirem bebidas alcoólicas. Também é do conhecimento geral que essas leis não se apli­cam aos membros da família Al Sa’ud. Contudo, enquanto os membros do sexo masculino da família real continuam a não ser punidos por qualquer crime que possam cometer, no que toca aos membros do sexo feminino da família Al Sa’ud as coisas mudam de figura. Embora estejamos a salvo da condenação pública pelos deslizes que possamos cometer, devido ao embaraço que tais erros poderiam provocar aos nossos dirigentes, as mulheres da minha fa­mília são forçadas a pagar uma elevada penalidade caso venham a adquirir qualquer tipo de vício.

Regressando à cama, tentei contar pelos dedos todas as primas de sangue real que se haviam tornado dependentes do álcool ou de estupefacientes, mas acabei por ter falta de de­dos. No espaço dos últimos cinco anos, o problema tornara-se tão agudo que dentro do reino começaram a abrir clínicas especializadas destinadas ao abuso de estupefacientes. Deixou de ser necessário que os homens da família Al Sa’ud enviassem para o estrangeiro as suas mu­lheres viciadas em álcool ou drogas, a fim de que estas se submetessem a uma cura de desin­toxicação.

Apenas alguns meses atrás eu fora visitar uma prima internada numa dessas clínicas. A atmosfera que lá reinava era de opulência e privilégio. Os passos abafados, e as vozes sus­surradas, indicavam às visitas que se encontravam num estabelecimento hospitalar sem paralelo com nenhum outro. Os médicos e as enfermeiras eram estrangeiros, à semelhança do que acontecia com o demais pessoal hospitalar. Para se certificarem de que os doentes nunca se encontravam sozinhos, eram destacadas cinco enfermeiras para cada um deles, to­das elas mulheres acostumadas a prestar os seus serviços a princesas excessivamente mima­das.

Deparei com a minha prima instalada nuns aposentos compostos por três divisões, onde os luxos do dia-a-dia da sua vida eram duplicados. Havia cozinheiros especiais que prepara­vam as refeições mais refinadas, as quais eram servidas em porcelana da melhor qualidade. A minha prima continuava a vestir-se com roupas dos costureiros mais famosos enquanto servia de anfitriã aos familiares e amigos mais chegados que a visitavam nos seus aposentos da clínica. Os únicos acessórios que faltavam naquelas instalações eram o álcool e os estu­pefacientes.

Embora o tratamento que lhe era ministrado consistisse em muitas sessões com médi­cos qualificados, não estava sujeita à humilhação - ou ao benefício - da terapia de grupo, tal como acontecia com os viciados dos países ocidentais.

O custo deste tratamento especial nessa clínica excedia os 100 000 riais sauditas (26 000 dólares) por semana. A minha prima esteve internada nesse estabelecimento hospi­talar durante dezasseis semanas, tendo sido dada como curada da dependência de que so­frera. Infelizmente, decorridos escassos meses depois de ter tido alta, voltou uma vez mais a cair no vício do álcool.

As últimas contas dizem-me que esta prima já foi tratada nessa clínica especializada pelo menos em cinco ocasiões.

No entanto, uma vez submetida a esse tipo de terapia, quer venha a ser curada ou não, nada voltará a ser o mesmo para a infeliz esposa saudita. O pessoal doméstico não tem pejo em coscuvilhar entre si, pelo que a verdade acaba sempre por vir à superfície. A princesa vi­ciada é olhada com grande piedade pelas suas primas, mas habitualmente o marido rejeita-a, sendo muito possível que venha a casar com uma segunda mulher, ou até mesmo que peça o divórcio. Tal como qualquer mulher saudita bem sabe, o divórcio acarreta a perda de tudo - o estatuto social e os filhos. Uma mulher divorciada torna-se socialmente isolada ao fim de pouco tempo, para além de se ver votada ao ostracismo.

Recentemente, o marido de Hazrat Al Sa’ud, uma outra prima de sangue real depen­dente do álcool, divorciou-se dela. Os seus cinco filhos de tenra idade, que vivem actual­mente com o pai e com as duas outras mulheres com quem ele casou, foram proibidos de manter qualquer contacto com Hazrat. Também foi repudiada pela sua própria família de sangue, pelo que presentemente vive sob a supervisão de uma tia idosa já cega e duas servas filipinas. No entanto, a atracção que o álcool exerce sobre Hazrat é tão forte que continua a aproveitar cada oportunidade imprudente que se lhe depare para adquirir as bebidas que lhe arruinaram a vida.

Apenas há uma semana, a minha irmã mais velha, Nura, disse-me que Hazrat havia provocado uma explosão quando tentava preparar uma mistela de vinho caseiro a partir de sumo de uva, açúcar e fermento. Nura contou-me que a tia de idade jurou que a explosão fora tão estridente que pensara que os iraquianos estavam a bombardear Riade. Abrigou-se debaixo de uma cama, onde permaneceu até que ouviu Hazrat a chorar e a lamentar-se por causa da bebida que se perdera.

Era inegável que a vida de Hazrat se encontrava completamente arruinada pela mesma ânsia de álcool que eu agora experimentava.

Senti-me percorrida por um calafrio. Receosa pelo que o futuro me reservaria caso o meu segredo viesse a ser revelado, prometi a mim mesma que Kareem jamais deveria intei­rar-se de que eu consumia bebidas alcoólicas logo às primeiras horas da manhã. Há muito que compreendera que a minha força e temeridade eram as setas que haviam trespassado o coração do meu marido, fazendo-o sentir-se atraído por mim. Sem sombra de dúvida que as fundações que serviam de base ao nosso amor acabariam por se desmoronar caso Kareem descobrisse a minha fraqueza.

Horrorizada perante o desvio que a minha vida tomara, jurei a mim mesma que conse­guiria ultrapassar aquele desejo pelo álcool, tão progressivo e perigoso. Comecei a recitar em voz alta os noventa e nove nomes de Alá, na esperança de que, ao provar a minha devo­ção, o Deus de todos os muçulmanos se apiedasse de mim, concedendo-me a força acrescida que me permitiria derrotar a minha fraqueza. Os meus lábios moviam-se enquanto murmura­va as palavras: «O Compassivo, O Piedoso, O Soberano, O Sagrado, O Portador da Paz, O Protector, O Todo-Poderoso, O Criador, O Majestoso, O Grande Perdoador...».

A minha sincera devoção foi interrompida por uma Maha histérica. A minha filha in­formou-me que Munira tinha acabado de telefonar lavada em lágrimas. A pobre rapariga confirmara a Maha aquilo que eu já esperava - eu tinha tido boas razões para o seu silêncio no dia em que recebera a visita dos tios. Munira acrescentara que Ali a ameaçara de espan­camento, tratamento a que a mãe também seria submetida se ousasse abrir a boca em protesto contra o noivado da filha com Hadi.

A pobre Munira também confidenciou que as suas preces diárias consistiam actualmen­te em súplicas a Deus para que lhe concedesse uma morte prematura antes da data do matri­mónio.

Foi então que me ocorreram as recordações da tentativa de suicídio de Sara, o que me levou a levantar-me da cama. Em coligação com Maha, fui pondo de parte, uma após outra, as hipóteses de salvação da noiva.

Por último, concluímos que um plano simples seria o melhor. Decidimos esconder Munira em nossa casa em geddah, até que Hadi se sentisse tão mortificado pela relutância mostrada pela sua jovem noiva que anularia o noivado.

Cheia de ansiedade, telefonei a Sara pedindo-lhe que viesse rapidamente a minha casa. Esperava persuadir a minha irmã, a mais inteligente, a juntar-se a nós, com a finalidade de arquitectarmos uma estratégia mais refinada.

Quando Sara chegou, surpreendeu-me ao rejeitar logo aquela ideia, chegando ao ponto de me advertir que se sentia impelida a alertar Kareem quanto ao meu objectivo imprudente.

- Sara! - exclamei num tom de admoestação. - Em tempos percorreste o mesmo caminho que a pobre Munira. Será que as recordações pessoais dos abusos que sofreste não te instigam a salvar esta pobre rapariga?

Sara deu a impressão de ter ficado paralisada.

- Sara?!

A expressão meditativa no rosto de Sara desvirtuava o tom calmo da sua voz.

- Sultana - confessou ela -, todos os dias da minha vida são ensombrados pelo que aconteceu durante essa época. Até mesmo quando sinto a maior felicidade ao lado de Asad, há sempre uma centelha de dor que se entranha na minha consciência. - Fez uma breve pausa. - Se eu pudesse salvar Munira do destino que a espera, não hesitaria em fazê-lo. Mas só Deus é que tem poder para a salvar, Sultana. Somente Deus.

- Deus concedeu às mulheres mentes astuciosas para que pudessem maquinar - contrapus. - De que outra maneira é que poderemos derrotar a natureza maléfica dos homens?

Sara colocou uma mão leve sobre o meu ombro.

- É possível que tenhas a idade de uma mulher madura, minha irmã, mas em muitos aspectos continuas a ser uma criança.

Afastei-me dela, sentindo-me tão decepcionada e encolerizada que estava incapaz de dizer fosse o que fosse.

- Então, Sultana? Tenta pensar com clareza por uns momentos, e aperceber-te-ás de que, seja o que for que possas fazer para esconder Munira, só servirá para que o nosso ir­mão, e Hadi, se sintam ainda mais determinados. Se esconderes a nossa sobrinha, acabarão por encontrá-la. Então, em qualquer dos casos, Hadi casará com ela, mas nessa altura o seu coração estará cheio de cólera e azedume. Os teus esforços só farão com que a sua vida seja ainda mais amargurada.

Tal como um pássaro engaiolado que finalmente acaba por aceitar o seu cativeiro, a leveza da esperança abandonou o meu corpo. Deixei-me cair em cima do sofá, envolvendo o corpo com os braços. Sara dizia a verdade; portanto, pus momentaneamente de lado todos os pensamentos para salvar a minha sobrinha daquela situação. Sabia que, a não ser que ocor­resse um milagre, Munira seria a futura esposa de Hadi. Não havia nada que qualquer uma de nós pudesse fazer para o evitar.

Depois de Sara se ter ido embora para casa, voltei para a cama, onde passei o resto do dia num estado de letargia e impotência.

Decorreram nove dias tão fugazes como se fossem meros momentos. A véspera do dia do matrimónio de Munira chegou com demasiada rapidez.

Embora Ali não nutrisse qualquer sentimento de amor pela filha mais velha, a posição que ocupava na qualidade de príncipe de categoria elevada garantia que o casamento de Mu­nira seria, inevitavelmente, um acontecimento grandioso. Tanto as celebrações como o casa­mento teriam lugar no King Faisal Hall, um edifício de grandes proporções situado em Riade, onde já se tinham realizado muitos dos casamentos da família real saudita.

Na noite do casamento houve uma correnteza de limusinas que paravam defronte da mansão, dando saída a grupos de mulheres com os rostos velados. O nosso motorista deteve­-se em frente da ampla escadaria que dava acesso à entrada do edifício. Havia dois porteiros, que correram pressurosos para as portas da nossa viatura; as minhas filhas e eu saímos para uma noite repleta de música. Chegava-me aos ouvidos o ritmo da música de dança árabe que vinha da mansão enquanto nos aproximávamos da escadaria.

Apesar de estarmos todas veladas, eu sabia que a maior parte dos outros convidados eram membros da família real, ou mulheres cujas famílias mantinham ligações importantes com a nossa família.

Para além do noivo e do seu pai e irmão, e também o pai da noiva, e possivelmente um mutawwa, ou homem religioso, nunca se viam homens neste tipo de celebrações. No meu país, os homens e às mulheres celebram os casamentos em locais diversos. Enquanto nós, as mulheres, nos reuníamos no King Faisal Hall, os nossos homens congregavam-se no palácio de Ali, em Riade.

Enquanto eu e as minhas filhas transpúnhamos a fachada da ampla mansão, um magote de servas vestidas exactamente da mesma maneira, de veludo vermelho e capas, aguarda­vam-nos para nos aliviarem dos mantos e véus que envergávamos. Nós as três usávamos elaborados trajes caros de famosos costureiros, os quais havíamos adquirido no ano anterior durante as férias em Paris. Eu usava um vestido de noite preto, coberto por uma renda ver­melha italiana.

Alguns dias antes, numa tentativa para me abstrair do infortúnio de Munira, Kareem enviara um empregado de confiança, oriundo do Líbano, rumo a Paris a bordo de um dos nossos aviões particulares, com a única finalidade de adquirir uma prenda especial que que­ria oferecer-me. Naquele momento, a gargantilha de diamantes encontrava-se bem segura em redor do meu pescoço.

Maha envergava um encantador vestido de seda borgonha, cujo drapejado caía solto dos ombros largos. Usava um colar com diamantes e pérolas com o formato de lágrimas simples que lhe cobriam a linha do pescoço de pele acetinada.

Enquanto escolhia as jóias que usaria, Maha tinha-me segredado que achava apropriado que até mesmo as peças de joalharia dessem a impressão de chorar pela sua querida prima.

Por seu lado, Amani trajava um vestido azul escuro com um casaco a condizer. Man­tendo-se fiel às suas estritas crenças religiosas, optara por um traje extremamente severo, num estilo que a cobria até ao pescoço.

Uma vez que a nossa fé considera natural e adequada a paixão que as mulheres sentem por jóias e demais ornamentos, desde que não sejam usados com o intuito de atrair os ho­mens e excitar os seus apetites sexuais, Amani não poderia levantar qualquer objecção quan­to ao meu desejo de que ela usasse jóias bonitas naquela noite. Recordei à minha devota filha aquilo que ela sabia de antemão - para além de Hadi, o seu assistente, o seu tio Ali e um homem de religião, durante aquela reunião não estariam presentes quaisquer outros ho­mens. Depois de ela ter concordado que a sua fé lhe permitia usar pedras preciosas sem que se sentisse culpada, Amani optou por um encantador colar de rubis e diamantes, uma peça que fora manufacturada de maneira engenhosa, assemelhando-se a um cacho de flores cinti­lantes.

Tinha de admitir que as minhas duas filhas eram encantadoras, e, em qualquer outra ocasião, eu ter-me-ia sentido orgulhosa de as exibir.

Quando Maha e Amani se juntaram às primas que tinham idades semelhantes às suas, deixei-as a sós e comecei a percorrer a vasta mansão.

A música fazia-se ouvir num tom tão elevado, e a cantora tinha uma voz tão esgani­çada, que eu só podia associar aqueles sons a guinchos de terror! Ou seria apenas a minha imaginação?

Retraí-me. Acima de mim brilhava uma coluna de luz. Tal abundância de iluminação criava um efeito ofuscante. Sob as ordens de Ali, haviam chegado do Egipto, vindos de avião, alguns decoradores especiais, que revestiram toda a superfície do tecto com pontos de luz de cores cintilantes. Olhando em meu redor, observando o salão, senti-me perplexa perante a ostentação de toda aquela decoração. A sala extravasava de pontos de iluminação, enquanto as taças espalhafatosas transbordavam de rebuçados embrulhados em papel de alumínio dourado. Do tecto pendiam festões de veludo que não serviam qualquer objectivo que fosse óbvio. Das colunas pintadas a dourado pendiam enormes cascatas de arranjos flo­rais, em cima das mesas e até mesmo fixas às paredes. Mas as flores haviam sido combina­das ao acaso, sem que tivesse havido o cuidado de harmonizar cores ou temas. Viam-se ro­sas vermelhas juntamente com malmequeres amarelos, e orquídeas lilás misturadas com cravos azuis.

O estrado extravagantemente ornamentado de onde Hadi e Munira veriam - e seriam vistos - os convidados presentes no casamento, fora coberto de luzes vermelhas e verdes intermitentes!

Eu encontrava-me tão absorta com aquela exibição dispendiosa, mas de mau gosto, que não dei pela presença de Sara que entretanto se aproximara, afastando-se da multidão que se apinhava.

- Sultana. - Senti um braço carinhoso que me enlaçava a cintura.

- Sara - sorri. - Graças a Deus que me encontraste.

Com um olhar de reprovação, Sara acenou indicando a cena à nossa volta. - Nesta noite, sinto-me embaraçada por ser irmã do meu irmão.

- Também eu me sinto constrangida por mais de uma razão, para além da decoração - concordei.

- Quem me dera ter-te ajudado a esconder Munira - admitiu Sara.

- De verdade? - perguntei, arquejante.

- Sim. Nesta questão, os nossos corações são como se fossem um só.

Abracei a minha irmã tentando confortá-la, tal como ela fazia comigo.

- Tiveste razão quando me dissuadiste, Sara. Ali teria passado as areias do deserto a pente fino para encontrar a filha e entregá-la a Hadi. - Soltei um suspiro de resignação. ­Não existe fuga possível para a filha de um homem como ele.

De mãos dadas, Sara e eu começámos a percorrer o salão, saudando muitas das tias e primas enquanto procurávamos as nossas irmãs.

Antes que chegasse a altura de Munira fazer a sua aparição, as dez filhas da nossa mãe muito amada, Fadeela, haviam-se reunido num círculo.

No entanto, entre nós não reinava a alegria. Todas as irmãs se sentiam extremamente entristecidas pelo motivo que nos juntara.

No seguimento da morte da nossa mãe, Nura, a filha mais velha, tinha, com o nosso consentimento, assumido o lugar de chefe das irmãs.

Ela era a figura inabalável que frequentemente mostrava o caminho às suas irmãs mais novas, apontando a realidade das nossas vidas. Estóica e forte, dava a impressão de que, de todas as irmãs, Nura fora aquela que conseguira alcançar um domínio absoluto sobre as suas emoções. Mas, naquela noite, até Nura se mostrava subjugada pela tristeza. Tinha-nos acompanhado na viagem ao Egipto, altura em que a verdadeira natureza do carácter de Hadi se dera a conhecer à nossa família. Ao contrário de muitos dos que ali se reuniam, ela tinha conhecimento da corrupção de alma do homem que dentro em pouco seria dono e senhor de Munira.

- Esta é uma noite triste, muito triste - sussurrou Nura, de olhos presos no estrado nupcial.

Sara estremeceu ao pensar na noite que aguardava Munira. Suspirou.

- Se ao menos a querida rapariga não receasse os homens.

- Quer ela tema os homens ou sinta amor por eles, esta será uma noite cruel - disse Tahani desalentada.

Olhei para trás de Tahani e observei a querida Reema, a quinta filha da nossa mãe, que discretamente manipulava o dispositivo clínico que recolhia as excreções do seu organismo. O instrumento encontrava-se bem dissimulado por baixo do vestido, mas Reema, constante­mente ansiosa, adquirira o hábito de o verificar e tornar a verificar compulsivamente. Depois da brutal agressão por parte do marido, Saleem, Reema necessitara de uma colostomia, pelo que nunca mais voltaria a recuperar o controlo da função excretiva do corpo.

- Como é possível aceitarmos tudo isto? - perguntei acaloradamente, sentindo-me irada ao recordar-me do sofrimento de mais outra mulher às mãos de um homem.

- Chiuuu - fizeram as minhas irmãs em uníssono, tentando impedir-me de despertar as atenções das mulheres que se encontravam mais próximas de nós.

- Acredito firmemente - continuei por entre os dentes cerrados - que deveríamos atirar pedras contra o palácio do rei, ao invés de assistirmos a este vergonhoso evento.

- Sultana - advertiu Nura -, não faças uma cena.

- És tu quem deveria fazer uma cena comigo, minha querida irmã - retorqui, chegando ao ponto de me surpreender com a minha impertinência.

Nura não me deu réplica, embora me lançasse um olhar de advertência.

- Todas as mulheres da Arábia Saudita deviam juntar tantas pedras quantas estives­sem ao seu alcance para as arremessarem aos nossos homens - repeti eu.

Oito das minhas nove irmãs - Nura, Reema, Tahani, Baher, Dunia, Nayam, Haifa e Soha - arquejavam como se fossem uma só. Apenas Sara permaneceu em silêncio.

Observei-as enquanto trocavam olhares encrespados.

Vendo o sentimento de desilusão que se desenhava no meu rosto, e sabendo que eu ansiava por um único acto de bravura e iniciativa de todas elas, Sara avançou e agarrou-me pela mão.

De súbito, como que em erupção, começaram a ouvir-se vibrações agudas, sons feitos com a língua, por detrás das portas fechadas.

As minhas irmãs foram salvas de outros traumas infligidos por mim quando o cortejo nupcial teve início.

Tremendo de cólera e de tristeza, avistei seis dançarinas de grande beleza que transpunham dramaticamente as portas abertas.

As mulheres eram bailarinas profissionais vindas do Egipto, e usavam trajes elaborados que revelavam os seus corpos de formas voluptuosas. Quando as dançarinas passaram por nós, senti-me perplexa ao ver um piscar de olhos convidativo.

Fitei Sara com um olhar interrogador, ao que ela respondeu com um encolher de ombros.

Eu tinha ouvido dizer que uma das nossas primas tomara como amante lésbica uma dançarina egípcia, e perguntara a mim mesma se os benefícios monetários de que essa mu­lher passara a gozar haviam posto ideias na cabeça das suas congéneres.

As tocadoras de tambor, usando vestidos com bordados garridos, entoavam cânticos, sendo seguidas pelas bailarinas. Reconheci estas mulheres como sauditas oriundas de uma tribo leal à nossa família.

Neste cortejo também participavam doze garotinhas entre os três e seis anos de idade, que vinham atrás das tocadoras de tambor. Eram as meninas das flores e vinham maravilho­samente trajadas com vestidos de cetim cor-de-rosa, sapatos e faixas no cabelo condizentes. Espalhavam pétalas que haviam sido tiradas de orquídeas púrpura.

Pela fragrância que chegava até mim, soube que aquelas pétalas tinham sido especial­mente perfumadas com um incenso cuja fragrância era adocicada. Estas crianças eram mem­bros da nossa família real; os seus maneirismos infantis tinham tal encanto que fizeram com que assomassem sorrisos aos lábios de muitos dos presentes.

Depois de as dançarinas terem formado um círculo à volta do estrado, onde havia uma espécie de trono, começaram a dançar entre si num frenesim musical. Era o sinal de que a noiva já começara a percorrer o corredor.

Dado que eu era uma mulher baixa, fui forçada a pôr-me em bicos de pés para ter uma vista melhor.

Munira caminhava em passos lentos pelo extenso corredor. Usava um vestido de noiva em renda tom de pêssego. O seu semblante ensombrado estava ligeiramente velado por um véu da mesma cor. No tecido haviam sido cosidas imitações de diamante que reflectiam as luzes do salão, o que produzia um efeito dramático de cintilações que os olhos de Munira não conseguiam projectar.

A cauda pesada do vestido era levada por primas adolescentes bastante jovens, cuja mé­dia de idades se situava entre os treze e os dezanove anos. Estas raparigas usavam uns vesti­dos em cetim de um laranja abominável que certamente não teriam sido escolhidos por elas.

A vassalada por aquele desarmónico remoinho de cores, flores e indumentárias, pensei que aquele era o casamento menos atraente a que jamais assistira. Tudo o que dizia respeito àquela ocasião era tão incompatível quanto os próprios Hadi e Munira, a noiva e o noivo.

Sara e eu trocámos olhares de incredulidade. Eu sabia que os pensamentos da minha irmã acompanhavam a minha linha de raciocínio.

Quando Munira passou por nós, avistei fugazmente as suas faces pálidas. Os olhos não deixavam adivinhar a mínima expressão, olhavam em frente, um momento vazio no tempo que parecia querer perdurar para todo o sempre.

Senti um desgosto enorme!

Depois de Munira se ter sentado no estrado, chegara finalmente o momento que tanto me aterrorizava. Estava na altura de o noivo fazer a sua entrada.

O som elevado de vozes que percorriam o salão reduziu-se a um murmúrio audível.

Hadi, acompanhado por um dos seus irmãos, caminhou na direcção da desafortunada Munira. Ali e um mutawwa seguiam-no de perto.

Munira fitava Hadi com um olhar plácido. Mas, por breves momentos, o seu rosto foi atravessado por um sofrimento excruciante. Sabendo que fora encurralada como um animal, não havendo qualquer esperança de libertação, Munira parecia corajosamente determinada em manter a sua dignidade.

Hadi não retribuía o olhar da noiva, ao contrário do que teriam feito a maior parte dos noivos que fossem olhados por aquela com quem iam contrair matrimónio. Ao invés, olhava irritadamente para as faces descobertas das convidadas! Era por de mais evidente que os anos não o tinham mudado. Tinha-se a impressão de que estava a saborear a rara oportuni­dade de poder furtar um longo olhar licencioso às mulheres sem véus, numa situação em que a ausência destes era oficialmente sancionada.

A idade adulta só servira para reforçar a natureza depravada daquele homem? Chocadas com os seus olhares devassos, as mulheres reagiram com um murmúrio de vozes escandalizadas.

Sara encrespou a mão no meu braço com tanta força que os seus dedos ficaram bran­cos. Eu sabia que ela tinha, receio de que eu me libertasse e corresse para Hadi e lhe batesse com toda a força que conseguisse reunir.

Era difícil acreditar que as coisas pudessem piorar, mas eu já decidira, num ápice, que se Hadi me brindasse com um olhar romântico, cuspir-lhe-ia no rosto, após o que informaria as suas inúmeras senhoras de sangue real de tudo o que sabia a respeito daquele homem.

A assistência foi poupada a essa cena excitante, pois quando chegou ao lugar onde nos encontrávamos, Hadi afastou o olhar das presentes, olhando para a noiva que negligenciara. O seu semblante foi atravessado por um sorriso de deleite. Na realidade, era um homem afortunado.

Não existia nada que me surpreendesse mais do que constatar que Hadi mal havia en­velhecido desde a época da nossa viagem ao Egipto, o que acontecera há tantos anos! Cer­tamente que um indivíduo tão malévolo deveria ter degenerado num homem mal-encarado e mirrado! Eu esperava ver uma aparência que revelasse as suas iniquidades, mas não era esse o caso. Embora Hadi tivesse ficado mais corpulento, as suas feições continuavam jovens. Quem é que poderia adivinhar que sob aquela pele macia vivia o coração de um bruto?

A minha mente foi atravessada por um pensamento de amargura. As nossas jovens são obrigadas a sacrificar a sua juventude para que homens do calibre de Hadi possam alimen­tar-se da sua beleza! É por devorarem raparigas adolescentes que tais homens permanecem tão robustos!

Fui forçada a conter as lágrimas.

Entretanto, Hadi reuniu-se a Munira no estrado nupcial, mostrando-se deveras satisfeito consigo próprio.

Observei Ali, que se encaminhava para junto do par de noivos, e então afastei-me.

Desassociei-me mentalmente dele, do meu irmão de sangue.

A cerimónia oficial dos esponsais tivera lugar no princípio da semana, na presença dos familiares mais próximos, apesar de a noiva e o noivo não se terem encontrado nesse mo­mento. Esta ocasião tinha por único objectivo celebrar as núpcias.

Nura tentou obrigar-me a mim e a Sara a reunirmo-nos às nossas irmãs, para desejarmos as maiores felicidades à noiva e ao noivo, mas ambas recusámos participar.

Como é que poderíamos fingir alegria quando um dos homens mais imorais que algu­ma vez nos fora dado conhecer reivindicava a partir de agora uma posse absoluta sobre a jovem mulher doce e inocente que era carne da nossa carne e sangue do nosso sangue?

Sorri com um sentimento de amargura ao ouvir as expressões de admiração por parte de primas, dirigidas ao rico e bem-parecido marido de Munira.

Na minha língua pairava uma prece silenciosa.

Ó meu Deus, tende piedade das mulheres sauditas. E rapidamente!

 

                     O MEU SEGREDO

No DIA QUE se seguiu à «sagrada união» de Munira, Kareem foi forçado a ausentar-se da Arábia Saudita por causa de uma viagem de negócios ao Japão que duraria três se­manas. Abdullah acompanhou o pai. Chegara a data pouco auspiciosa em que Abdullah teria de regressar à universidade que frequentava nos Estados Unidos, tendo ficado combinado que partiria de avião para a Califórnia depois de ter passado alguns dias com Kareem no Japão. Sentia os olhos rasos de lágrimas sempre que me recordava de que não veria o rosto bonito do meu amado filho durante três longos meses.

Para além dos nossos serviçais, as minhas filhas e eu estávamos sozinhas no nosso pa­lácio de Riade. Mas estas filhas pouco conforto proporcionavam à mãe, uma vez que elas também se preparavam para o ano escolar prestes a começar. Preferiam passar o pouco tem­po que lhes restava na companhia das amigas.

Sempre fui uma pessoa desassossegada que se aborrece com facilidade, e tenho de con­fessar que sou extremamente inquisitiva em relação às actividades dos meus filhos. Portan­to, passava as horas vazias percorrendo os corredores desertos do segundo andar da nossa casa, de um lado para o outro, detendo-me amiudadas vezes na ombreira da porta dos quar­tos das minhas filhas. Quando eram mais novas, as minhas filhas haviam partilhado a mes­ma ala do palácio. Mas agora, devido à determinada propensão de Amani em destruir as revistas de moda de papel lustroso e as cassetes de música de Maha, Kareem e eu decidimos mudar Amani para uma ala do palácio virada a sul, enquanto Maha continuou na ala norte. Por conseguinte, os passos que eu dava eram em grande número.

As minhas descobertas raramente variavam. O som persistente de cânticos e orações ema­nava habitualmente dos aposentos de Amani; enquanto os risos num tom elevado, e a música de rock and roll ainda mais estridente, se escoavam por detrás da porta do quarto de Maha.

Sentindo-me enfastiada por espiar as minhas filhas que tão previsíveis eram, retirei-me para os meus aposentos particulares. Com os pensamentos completamente dominados pela trágica situação de Munira, não me sentia com disposição de participar nos habituais chás da tarde, que tinham lugar na casa de mulheres que eram familiares ou amigas.

Hadi levara a sua jovem noiva para Marrocos, onde a lua-de-mel teria a duração de um mês. Apesar de me ser extremamente penoso pensar na agonia por que Munira estaria a pas­sar, desejava ter a confirmação de que a pobre rapariga estava bem. Portanto, decidi telefo­nar a Tammam para lhe perguntar se tinha recebido notícias dos recém-casados. Foi com grande incredulidade que ouvi Tammam confessar-me que sentira demasiada timidez em perguntar a Hadi o número de telefone do hotel onde o casal ficaria hospedado. Bati com o auscultador do telefone, não desejando arriscar-me a uma possível explosão de cólera da minha parte perante aquele comportamento sensaborão de Tammam que tanto me enfurecia.

Não havia nada a fazer senão aguardar. Para minha grande consternação, comecei a sentir desejo de uma bebida alcoólica, embora tivesse lutado contra esse desejo pecaminoso.

Algumas horas mais tarde, recebi o telefonema de uma Tammam agitada que me infor­mou que Munira telefonara sub-repticiamente, aproveitando uma ocasião em que Hadi se encontrava fora do quarto do hotel, para dizer à mãe que detestava e receava o seu novo marido, mais ainda do que acreditara ser possível.

Depois de ter desligado o telefone, estendi-me em cima da cama, doente de desespero. Senti uma sensação de entorpecimento que se espalhava pelo meu corpo. Quão impotente eu me sentia! Não havia nada que eu, ou qualquer outra pessoa, pudéssemos fazer para ajudar Munira. Legalmente, agora estava casada com Hadi.

Alguns anos antes, eu ficara bem ciente de que não existia nenhuma autoridade no nosso país que pudesse interferir numa questão pessoal entre homem e mulher. Haveriam de passar mais mil anos em que o corpo das mulheres sauditas continuaria a ser propriedade dos homens sauditas!

Como eu odiava o desamparo a que estávamos votadas!

Senti que as lágrimas me corriam pelas faces abaixo. O meu coração palpitava perigo­samente. Decidi concentrar rapidamente os meus pensamentos noutros assuntos. Sim, ocu­paria o meu tempo com uma tarefa específica. Tinha negligenciado a manutenção do registo das bebidas alcoólicas que a nossa família mantinha em armazém. Tencionava fazer uma inspecção inesperada. Não que tivesse a mínima intenção de tomar qualquer bebida, prometi a mim mesma enquanto despia a camisa de dormir pela cabeça - muito simplesmente, que­ria certificar-me de que ninguém tinha andado a surripiar esses produtos tão escassos e de preço elevado. Dado que o consumo de bebidas alcoólicas é proibido na Arábia Saudita, é assombrosamente dispendioso adquirir um grande fornecimento no mercado negro. Uma garrafa pode custar qualquer coisa entre 200 e 350 riais sauditas (de 55 a 95 dólares).

Percorri o nosso palácio a esmo, cega para a magnificência da recente decoração a que fora sujeito, sem me deter para apreciar as salas repletas de quadros muito valiosos, tapeça­rias e mobiliário antigo europeu. No ano anterior, Kareem e eu havíamos contratado um de­corador milanês, o qual, entusiasticamente, contratara trabalhadores para deitarem abaixo as paredes, substituindo tectos e janelas, construindo quartos com cúpulas e abóbadas, colunas elevadas e câmaras ocultas. Ele coordenou cores e texturas, carpetes persas, cortinados de seda e pisos de mármore, tendo acrescentado ao recheio algumas peças de mobiliário antigo de origem italiana e francesa. A combinação dos Arabescos e arcos da tradição do Médio Oriente com o resplendor do italiano moderno resultara numa atmosfera de informalidade que provocava uma grande inveja, e atenção, por parte dos nossos primos de sangue real.

Passei pela vasta zona de estar entrando na área reservada aos charutos e às bebidas, deparando-me com uma das serviçais filipinas que limpava o pó à cristaleira de madeira de sequóia onde costumávamos guardar as bebidas. Abruptamente, disse-lhe que encontrasse outra coisa para fazer. Quando tive a certeza de que ela já saíra da sala, comecei a contar as garrafas. Senti uma alegria imensa ao constatar que Kareem havia fornecido o nosso aprovi­sionamento de maneira extremamente generosa. Encontrei mais de duzentas garrafas de bebidas alcoólicas, onde se incluíam sessenta de licores variados.

Com um coração leve, passei à adega, uma espaçosa estrutura de madeira de carvalho especialmente construída para manter uma temperatura e grau de humidade adequados à nossa colecção de vinhos.

Verdade fosse dita: estávamos bem fornecidos, pensei. Pouco depois, a minha mente deambulou até a uma arena perigosa. Com certeza que Kareem não daria pela falta de algu­mas garrafas aqui e ali.

Enquanto avaliava a abundância de bebidas tão à mão de semear, fui invadida pelos desejos que tão familiares me eram. O meu voto de abstinência desvaneceu-se com a maior das facilidades. Ocultei duas garrafas de uísque escocês debaixo d, minha túnica solta e, prometendo a mim mesma que só me permitiria a ingestão de uma bebida, comecei a subir a escadaria de mármore em espiral até aos nossos aposentos particulares.

Uma vez no interior, fechei a porta à chave, acariciando as garrafas que trouxera com toda a ternura. Em seguida comecei a beber, na esperança fervorosa de que talvez pudesse obliterar da mente a imagem do tormento de Munira, que se desenrolava naquele preciso momento.

Vinte e quatro horas mais tarde, fui despertada em sobressalto por sons próximos que correspondiam a vozes histéricas.

Abri os olhos quando alguém começou a bater-me nas faces. Ouvi chamar pelo meu nome. - Sultana! - O rosto preocupado de Sara encontrava-se perto do meu. - Sultana! Consegues ouvir-me?

Senti um baque de ansiedade. A julgar pelo meu desconforto físico, receei ter sofrido um acidente, estando agora a despertar de um estado de coma.

Ouvi o choro soluçado de Maha.

- Mãe! Acorde!

Sara confortava a minha filha.

- Deus seja lovado, Maha! Ela continua entre os vivos.

Tentando aclarar a confusão que ia na minha cabeça, pestanejei. Queria falar mas encontrava-me incapaz de articular as palavras. Chegava-me aos ouvidos uma miscelânea de línguas: filipino, tai e arábico, em vozes femininas excitadas e gritadas. Sentindo-me zonza, perguntei a mim mesma por que razão é que o meu quarto se encontrava cheio de tantas mulheres palradoras!

- O que é que aconteceu? - perguntei à minha irmã numa voz enfraquecida.

Com rugas de sofrimento na fronte, Sara parecia procurar as palavras.

- Sultana - perguntou ela finalmente -, como é que te sentes?

- Não muito bem - respondi, antes de repetir: - O que é que aconteceu?

A voz elevada de Amani, aumentando de volume a cada palavra que proferia, sobre­ pôs-se a tudo o mais.

- Mãe, cometeste um crime muito grave!

- Cala-te! Estou a falar a sério! - gritou Maha, tentando conter o pranto convulsivo. - Eu tenho a prova, aqui! - As palavras de Amani ecoaram por todo o quarto.

Virei a cabeça e deparei com Amani, que empunhava em cada mão, com todo o vigor, uma garrafa vazia que contivera uísque.

- Mãe, estiveste a beber! - gritou ela. - Com certeza que o sagrado Profeta te amal­diçoará por este pecado!

- Amani, dá-me as garrafas e depois faz-me o favor de saíres do quarto - disse Sara, olhando para a sobrinha com uma expressão sombria.

-Mas...

- Agora, menina, faz como te digo. Sai do quarto - acrescentou Sara, retirando as garrafas das mãos de Amani com gestos delicados.

Depois do pai, a tia Sara era a pessoa que Amani mais respeitava e amava. Obedeceu, mas não sem que antes proferisse uma ameaça de despedida.

- Vou contar ao pai o que se passou, no preciso momento em que ele chegar a casa.

Apesar de me sentir tão aturdida, apercebi-me das voltas que o meu estômago dava perante aquela perspectiva.

Cuidadosamente, Sara colocou as garrafas vazias aos pés da cama, após o que assumiu o controlo da situação.

- Quero que toda a gente saia do quarto.

- Eu não! - choramingou Maha.

- Sim, tu também, Maha.

Quando a minha filha se inclinou para me beijar, murmurou-me num sussurro:

- Não te preocupes com Amani, mãe, eu sei como é que hei-de calar a língua dispara­tada que ela tem.

A expressão nos meus olhos deve ter traído a minha curiosidade.

- Vou ameaçar dizer a todas as amigas religiosas de Amani - clarificou Maha - que ela usa roupas reveladoras e namorisca com os rapazes!

Embora aquilo não fosse verdade, eu sabia que uma ameaça daquelas causaria uma enorme preocupação a Amani, uma vez que a reputação de que goza é a de uma verdadeira crente, a qual jamais poderia cometer um único pecado. Eu sabia que aquilo estava errado, mas ao mesmo tempo dei-me conta da gravidade da minha situação actual caso Kareem fos­se alertado para a minha fraqueza. Consequentemente, não repreendi Maha, mas lancei-lhe um sorriso de lábios contraídos, o que ela talvez interpretasse como uma aprovação relutante da minha parte.

Quando saiu do quarto, Maha esforçou-se por empurrar a pesada porta de madeira con­tra o revestimento - naquele momento, apercebi-me de que fora destruído.

Sara respondeu à minha pergunta silenciosa.

- Quando tu não respondeste aos nossos chamamentos, ordenei a um dos motoristas que arrombasse a porta.

Senti lágrimas de humilhação que me assomavam aos olhos.

- Tu estavas como morta, Sultana - acrescentou Sara, agarrando numa toalha com que começou a limpar-me a testa. - Receei o pior - continuou ela com um grande suspiro. Pegou num copo com sumo de tomate e encorajou-me a beber uns goles por uma palhinha. - O teu silêncio quase me pôs doida! - Começou a afofar as almofadas sob a minha cabe­ça antes de se sentar na beira da cama.

- Sultana, tens de me dizer tudo agora - disse ela após soltar um profundo suspiro.

Não obstante Sara dar a impressão de se manter imperturbável, apercebi-me de que se sentia extremamente desiludida, sentimento que se espelhava nos seus olhos escuros.

Pensando que a morte seria bem-vinda para alguém tão desgraçada como eu, deixei descair os ombros e comecei a chorar desabaladamente.

Sara acariciou-me as faces e os braços. A sua voz era afectuosa quando me disse a ver­dade nua e crua.

- Sultana, as tuas filhas e as tuas serviçais informaram-me de que começaste a beber álcool em excesso.

Abri as pálpebras de repente. Ao fim e ao cabo, o meu hábito de beber não constituíra segredo para ninguém!

Sara aguardava uma explicação. Naquele momento, compreendi que a minha irmã nun­ca seria capaz de compreender a origem do meu sofrimento.

- Tu ainda tens crianças pequenas que precisam de ti! - gritei.

Apercebi-me, pelo esgar de perplexidade no rosto da minha irmã, de que ela começava a recear pela minha sanidade mental, assim como física.

- E tens os teus livros! - acrescentei num tom de lamento.

Era verdade. Sara coleccionava livros apaixonadamente, cujos temas abrangiam toda uma vasta gama de tópicos que a interessavam. Era o passatempo da sua vida, coleccionar e ler livros, actividade que lhe proporcionava infindáveis horas de alegria e contentamento. A sua valiosa biblioteca era composta por obras em turco, arábico, inglês, francês e italiano. Os seus livros de arte, guardados em estantes especiais, eram maravilhosos, sendo difícil descrevê-los. Também reunira uma colecção, sem preço, de manuscritos antigos que narra­vam a idade dourada dos árabes.

Eu sabia que, se alguma vez houvesse uma tragédia cataclísmica de grandes propor­ções, Sara nunca ficaria sozinha no mundo, uma vez que procuraria, e encontraria, refúgio na grande quantidade de livros que possuía.

- Sultana, de que é que estás a falar?

- E o teu marido nunca vai para fora em viagens longas! - acrescentei. O trabalho só muito raramente lhe exigia ter de ir ao estrangeiro, o oposto do que acontecia com Kareem. - Além de que Asad te ama mais do que Kareem gosta de mim!

Sara estava casada com Asad, o irmão de Kareem. Há muitos anos que eu sabia que Kareem nunca me amaria com a mesma intensidade com que Asad adorava a minha irmã. Embora eu jamais tivesse invejado o grande amor que existia entre eles, era frequente que eu ansiasse esperançosamente pelo mesmo tipo de devoção por parte de Kareem.

- Sultana!

Comecei a explicar-me por entre o soluçar do meu choro de autocomiseração.

- Os meus filhos já são quase adultos... já não querem que a mãe interfira nas suas vidas. - O que acabara de dizer correspondia à verdade. Três dos seis filhos de Sara ainda eram suficientemente crianças para continuarem a exigir cuidados diários da mãe.

- Sultana, por favor. O que dizes não faz sentido nenhum.

- Sara, nada se concretizou como eu tinha planeado! Nenhum dos meus três filhos continua a depender de mim... Kareem está mais tempo fora do que em casa... já para não mencionar que existe um número infindável de mulheres como Munira por este mundo gri­tando por ajuda, e não há nada que eu possa fazer para as ajudar! - comecei a chorar histe­ricamente. - E, para cúmulo, receio bem estar a transformar-me numa alcoólica. - Em face do vazio e humilhação da minha vida, gritei: - A minha vida é um fracasso!

Os braços de Sara enlaçaram-me num abraço carinhoso.

- Minha querida, és a pessoa mais corajosa que me foi dado conhecer. Acalma-te, mi­nha pequena irmã, acalma-te...

Subitamente, ocorreu-me à mente a imagem da minha mãe. Queria voltar a ser criança, estar nos lugares onde vivera a minha infância, esquecer todas as desilusões da vida adulta que haviam sucedido entretanto. Queria regressar no tempo.

- Quero a mãe! - gritei tão alto quanto me foi possível.

- Acalma-te, Sultana. Por favor, pára de chorar. Não sabes que a mãe continua junto de nós, até mesmo agora?

O meu choro convulsivo começou a abrandar enquanto olhava em redor. Ansiava por voltar a ver a minha mãe, ainda que a sua fisionomia só me aparecesse sob a forma de apari­ção, tal como acontecera nos meus sonhos. Mas não avistei nada.

- A mãe não está aqui - lamentei-me. Depois do ataque de choro ter acalmado, descrevi a Sara o meu sonho. Para mim, a dor da morte da nossa mãe nunca mais sararia.

- Bem vês - retorquiu Sara -, o teu sonho só prova a verdade das minhas palavras. O espírito da nossa mãe está sempre connosco. Sultana, também eu sinto frequentemente a presença da mãe. Ela vem ter comigo nos momentos mais inesperados. Ainda ontem, quan­do olhava para um espelho, vi a nossa mãe surgindo com toda a clareza por detrás de mim. Só a avistei de relance, mas foi o suficiente para que eu soubesse que chegará o dia em que, uma vez mais, todos nós voltaremos a estar reunidos.

Senti-me invadida por um sentimento de paz. Se Sara também tinha visto a mãe, então eu sabia que ela existia. A integridade da minha irmã jamais é posta em causa por quem quer que seja que a conheça.

Ficámos sentadas em silêncio; ambas nos recordávamos dos dias em que éramos crian­ças inocentes, tendo uma mãe que possuía um infindável repositório de sabedoria, o que fazia com que nos sentíssemos compreendidas e protegidas da maior parte dos perigos da vida, por via do amor que nos dedicava.

Quando me mexi por baixo das cobertas da cama, as duas garrafas vazias de uísque tom­baram para o chão.

O olhar ensombrado de Sara dirigiu-se para as garrafas e depois para mim.

Recordando-me da razão que provocara o alarme que levara Sara à minha beira, uma vez mais senti-me invadida por uma depressão sombria.

- Estás a percorrer um caminho perigoso, Sultana - segredou Sara.

Sentei-me, encaracolando uma madeixa de cabelo à volta de um dedo.

- Eu odeio a minha vida inactiva! - ripostei numa explosão de têmpera.

- Sultana, podias fazer mais com a tua vida. Tens de assumir a responsabilidade da tua própria felicidade. Ser-te-ia benéfico encontrar um passatempo ou uma ocupação que prendesse a tua atenção.

- Como é que eu posso? O véu interfere em tudo o que faço! - resmunguei. - Não sou capaz de acreditar que tenhamos tido a pouca sorte de nascermos num país que obriga as suas mulheres a usar mortalhas de negro!

- Estava convencida de que era a solidão que te levava a beber - comentou Sara num tom de secura. - Com os olhos semicerrados de cansaço, acrescentou: - Sultana, estou convicta de que tu serias capaz de discutir com o próprio Alá!

Sentindo-me invadida por emoções desgovernadas, plena de incerteza quanto à causa exacta da confusão que ia dentro de mim, fitei Sara com um encolher de ombros.

- Sabes, a Amani tem razão. Fui amaldiçoada pelo Profeta. E Ele deve ter-me amaldi­çoado em diversas ocasiões. Por que outro motivo é que tudo o que é amargo na minha vida haveria de se manifestar ao mesmo tempo?

- Estás a ser disparatada, Sultana! Não acredito que o nosso sagrado Profeta amaldi­çoe uma mulher conturbada. Estarás tu à procura de uma vida sem problemas?

- lnshallah! (Oxalá!)

- Minha pequena irmã, pretendes uma vida que não existe. Todos os que vivem têm os seus problemas. - Fez uma pausa antes de continuar. - Até mesmo os reis sofrem de problemas que não podem ser resolvidos.

Eu sabia que ela estava a referir-se à saúde debilitante do nosso tio Fahd, o homem que era o monarca da Arábia Saudita. À medida que os anos iam passando, ele ia ficando cada vez mais frágil. Presentemente, era um homem com tudo o que a vida lhe pudesse propor­cionar, menos saúde. Quando, recentemente, sofrera um grave revés clínico, todos os mem­bros da nossa família se recordaram da sua própria mortalidade, bem como do facto de que todo o dinheiro do mundo, mesmo aliado aos cuidados médicos mais modernos, não conse­guiria manter a morte afastada para sempre.

O timbre firme da voz de Sara suavizou-se.

- Sultana, tens de aprender a suportar os sofrimentos da vida sem recorreres a solu­ções inadequadas. - Afastou a garrafa de uísque com a ponta do pé.

- Transformaste-te na escrava de um novo poder, um poder perigoso que poderá dar origem a outros problemas ainda mais graves do que aqueles que te levaram a beber!

- Amani poderá dizer a Kareem - disse eu por fim, manifestando o meu maior temor.

- Terás de ser tu a primeira a pô-lo ao corrente - retorquiu Sara num tom de voz neutro. - Seja como for, é preferível não guardares segredos do teu marido, Sultana.

Examinei atentamente a minha irmã. Sem qualquer traço de rancor, compreendi que sempre fora ofuscada pela sua beleza, assim como pela sua virtude.

Apesar de ter sido arrancada de casa de forma inesperada, Sara estava impecavelmente trajada com um vestido de seda acabado de ser engomado, calçando um par de sapatos a condizer. Usava um requintado conjunto de pérolas à volta do pescoço de linhas delicadas. Os abundantes cabelos negros haviam sido penteados de uma maneira que lhe ficava muito bem; tinha uma cútis de grande beleza; as pestanas eram tão compridas e bastas que não necessitava de se maquilhar.

A vida pessoal de Sara era uma réplica da perfeição do seu aspecto físico. O seu casa­mento com Asad era o melhor de que eu tinha conhecimento. Nunca a ouvira elevar a voz ao marido, nem sequer a queixar-se dele. Haviam sido muitas as ocasiões em que eu tentara fa­zer com que ela me confidenciasse qualquer fraqueza do marido, mas sem o mínimo sucesso. Enquanto eu era culpada de gritar, beliscar e até mesmo esbofetear os meus filhos, nunca tinha visto Sara perder a compostura com qualquer dos seus filhos. A minha irmã era a mãe satisfeita das seis crianças que Huda, a escrava da nossa família, profetizara há tantos anos.

Mal-grado alguns problemas que de tempos a tempos surgiam com a sua segunda filha, Nashwa,Sara mostrava-se sempre carinhosamente firme. Chegara ao ponto de estabelecer uma relação calorosa com a mãe de Asad e Kareem, a impopular Noorah de feitio difícil. Mais ainda, a minha irmã era um dos poucos membros dos Al Sa’ud que jamais haviam ingerido álcool ou fumado cigarros.

Era inquestionável que Sara não tinha quaisquer segredos a esconder do marido. Como é que uma mulher daquelas, sem mácula, poderia alguma vez compreender que, à medida que eu envelhecia, os meus maus hábitos se acentuavam ao invés de se dissiparem?

Dava a impressão de que a minha vida estivera sempre imbuída de um profundo aspec­to de intriga. O meu hábito de beber era somente um dos muitos segredos que eu ocultava de Kareem. Ao longo dos anos em que havíamos estado casados, eu apresentara-me aos olhos do meu marido sob uma luz mais lisonjeira do que a realidade. Chegara mesmo ao ponto de lhe mentir em relação ao número de quilos que aumentara recentemente!

Não desejando desiludir ainda mais a minha irmã dando-lhe a conhecer as facetas mais fracas do meu carácter, impedi-me de lhe confiar tudo o que me ocorria ao pensamento. Em vez disso, apressei-me a fazer-lhe uma promessa.

- Nunca mais voltarei a beber; se ao menos não tivesse que confessar a Kareem. Não serei capaz de suportar isso. Ele jamais me perdoará.

- Oh? O que é que pensas que Kareem poderia fazer?

- Bem... é possível que ele me bata - redargui, esticando incomensuravelmente a ver­dade.

Os olhos negros de Sara arredondaram-se numa expressão de descrença.

- Sara, tu própria sabes muito bem que Kareem não gosta de pessoas que não sejam capazes de controlar os seus hábitos. No mínimo dos mínimos, o amor que sente por mim não será tanto como até agora.

- Posto isso, o que é que vamos fazer para acabar com este hábito? - perguntou Sara com um adejar de mãos. - As tuas serviçais disseram-me que, sempre que Kareem está fora, tu bebes ao ponto de quase entrares num quase estado de coma alcoólico.

- Quem é que te disse uma coisa dessas? - perguntei cheia de indignação.

- Sultana, controla a cólera. Essa informação foi induzida por uma preocupação ge­nuína pelo teu bem-estar.

- Mas...

- Não. Não te direi - atalhou Sara numa voz firme e pouco indulgente.

Tentei descobrir qual das serviçais é que me teria espiado, mas, com tantas mulheres no palácio, não havia maneira de saber com segurança contra quem deveria dirigir a ira que sentia. Com uma expressão pensativa, Sara cerrou os lábios.

- Sultana, tive uma ideia. O Ramadão terá lugar dentro de pouco tempo. Nessa altura, em qualquer dos casos, estarás impossibilitada de comer ou beber de manhã à noite. E quan­do Kareem não estiver junto de ti, certificar-nos-emos de que Maha ou eu estejamos sempre ao teu lado. Será assim que derrotaremos esse teu hábito tão pecaminoso. - Sara inclinou­-se mais para mim com um sorriso nos lábios. - Deste modo, teremos oportunidade de passar muito tempo juntas. - Senti a ternura que trespassava da sua voz. - Será como nos dias da nossa infância em que estávamos sempre juntas!

Comecei a roer as unhas, tendo-me ocorrido o problema principal que continuava a sub­sistir.

- Mas como é que vamos impedir Amani de contar a Kareem?

Sara afastou a mão com que eu cobria a boca, segurando-a entre as suas.

- Eu falo com ela; não te preocupes com isso.

Eu era uma prisioneira com comutação de pena capital! Sabia que se a ameaça de Maha não assustasse Amani, de forma a que esta se mantivesse em silêncio, então Sara consegui­ria, com certeza absoluta, convencer a garota a não falar com Kareem. Sorri de felicidade, sabendo que, sob o olhar vigilante de Sara, tudo estaria bem. Lentamente, as minhas preocu­pações começaram a desvanecer-se.

- Agora já sinto fome. Queres ficar para uma refeição comigo? - perguntei por fim, sentindo-me capaz de me descontrair.

- Vou telefonar para casa a avisar que me demoro um pouco mais - aceitou Sara com um ligeiro meneio de cabeça.

Falei para a cozinha através do intercomunicador do palácio, perguntando à chefe das cozinheiras o que é que preparara para a refeição do meio-dia. Satisfeita com o que ouvi, ex­primi a minha aprovação. Em seguida, informei-a de que a minha irmã e eu comeríamos no jardim, dado que o céu encoberto proporcionava uma temperatura mais fresca do que a ha­bitual.

Depois de ter lavado as faces e as mãos e de ter mudado de vestuário, atravessámos o palácio até aos jardins exteriores. Caminhávamos de braço dado sob uma fileira de árvores frondosas que propiciavam uma sombra fresca ao longo do percurso. Detivemo-nos para admirar os arbustos em flor carregados de botões a desabrocharem em vermelhos e dourados. Com a riqueza ilimitada dos Al Sa’ud podemos fazer muitas coisas de grande beleza, até mesmo transformar um deserto ressequido num jardim verdejante!

A comida ainda não tinha sido servida, mas sentámo-nos nas cadeiras confortáveis dis­postas em redor de uma mesa com tampo de vidro. A mesa era encimada por um toldo ver­melho.

Passado pouco tempo surgiram três serviçais filipinas que equilibravam pesadas ban­dejas de prata com pratos. Enquanto esperávamos que nos servissem, bebíamos chá quente bem adoçado, discutindo os planos escolares dos nossos filhos. Depois de as criadas terem posto a mesa e servido os pratos, conversámos e rimos durante toda a refeição composta de uma grande variedade de saladas, acompanhadas de almôndegas cozinhadas em natas e galinha assada e recheada com ovos cozidos e arroz.

Lembrei-me das palavras de Sara quanto à aproximação do Ramadão. Com esse pensa­mento em mente, servi-me uma segunda vez de todos os pratos, sabendo que durante o Ra­madão teria de me esforçar por me abster de me alimentar durante as horas de luz, entre o amanhecer e o pôr-do-sol.

Enquanto saboreava a comida que tinha no prato, os meus pensamentos desfilavam pelo que me esperava durante este período de sacrifício.

Os muçulmanos espalhados por todo o mundo começariam dentro em pouco a perscru­tar o firmamento, procurando a lua nova. Logo que a avistassem, teria início o período de Jejum.

O meu mais ardente desejo era que, pela primeira vez na minha vida, eu estivesse à altura de cumprir o meu juramento de muçulmana.

 

                   ACORRENTANDO O DEMÓNIO

O RAMADÃO É um dos cinco pilares do Islão, sendo obrigatório que todos os muçul­manos em idade adulta observem os seus costumes. O Alcorão diz: «Ó tu que és cren­te! O jejum foi-te ordenado, tal como foi ordenado àqueles que te antecederam, para que possas (aprender) a dominar-te a ti próprio e a permanecer consciente da presença de Deus...» (2: 183).

Embora eu respire com um pouco mais de facilidade sabendo que durante este mês especial as portas do Paraíso estão abertas, enquanto as do inferno se mantêm cerradas, com o demónio acorrentado e impossibilitado de causar maldades, a devoção estrita ao Ramadão nunca se ajustou ao meu carácter tão particular.

Sempre me senti possuída por uma grande vontade de ser tão devota quanto as minhas irmãs e a minha mãe, mas sou forçada a admitir que não tenho estado isenta de pecado nas minhas devoções. Até mesmo durante a minha meninice, quando comecei a aprender pela primeira vez os rituais do Ramadão, eu sabia que o meu fracasso no cumprimento destes preceitos seria inevitável. Por exemplo, foi-me dito que impusesse o silêncio à minha língua, devendo evitar mentir, usar uma linguagem obscena, rir e falar mal dos outros. Os meus ou­vidos deviam fechar-se a tudo o que fosse ofensivo. As minhas mãos não deveriam estender­-se para acções maléficas; tal como os meus pés não me deveriam levar a cometer más ac­ções. Caso eu, inadvertidamente, permitisse que a poeira espessa ou o fumo denso entrassem na minha garganta, o meu jejum seria considerado nulo! Não só não podia comer ou beber desde a aurora até ao pôr-do-sol, como também me advertiam de que ao enxaguar a boca não devia engolir, ainda que acidentalmente, uma única gota de água! Mas, mais importante do que tudo o mais, deveria jejuar bem do fundo do coração, o que significava que todas as mi­nhas preocupações terrenas deveriam ser banidas, para que apenas os pensamentos de Alá preenchessem a minha mente. Por último, devia penitenciar-me por qualquer acção ou pen­samento que pudesse distrair-me da recordação de Alá.

Desde o momento em que comecei a jejuar na minha adolescência, era frequente obri­garem-me a penitenciar-me pelo fracasso em cumprir integralmente as obrigações da fé. O Alcorão diz que «Alá não te repreenderá por aquilo que não for intencional nos teus jura­mentos, mas repreender-te-á pelos juramentos que se juram com um zelo fervoroso. Conse­quentemente, a expiação consiste em alimentar dez dos necessitados com a média de abun­dância com que alimentas os teus, ou prover roupas para eles, ou a libertação de um escravo...» (5:89).

Desde o dia do nosso casamento, Kareem e eu já perdemos a conta ao número de necessitados que o meu incumprimento na observância dos juramentos no Ramadão alimentou e vestiu.

Enquanto saboreava a segunda porção de sobremesa com mel, jurei em silêncio que este ano iria deixar a minha família atónita devido à constância com que seguiria os precei­tos do Ramadão.

Depois de Sara ter regressado para o seu palácio, dediquei-me ao estudo devoto do Al­corão, num esforço de preparação para o mês de espiritualidade religiosa que se avizinhava.

Dez noites mais tarde, ouviu-se o anunciar ressonante e entusiástico vindo da mesquita local informando os crentes de que o mês sagrado do Ramadão tivera início. A lua nova fora avistada em primeiro lugar por um grupo de muçulmanos, merecedores de toda a confiança, numa pequena aldeia egípcia. Eu sabia que a mesma mensagem de felicidade seria ouvida em todos os cantos do mundo onde residissem muçulmanos. Chegara a altura de to­dos os que perfilhavam a fé muçulmana se esforçarem por alcançar um estado de perfeição.

O Ramadão havia começado já há seis dias quando Kareem regressou a Riade para se reunir à sua família durante o cumprimento de tão importantes rituais.

Quando Amani garantiu à sua tia Sara que não revelaria a Kareem o meu problema com a bebida, fiz o juramento de nunca mais proporcionar à minha filha, que tão temente a Deus era, a possibilidade de acenar com tal nó corredio em frente dos meus olhos.

Senti um raio de esperança, acreditando que tudo haveria de correr pelo melhor.

Durante o mês do Ramadão, toda a rotina da nossa vida do dia-a-dia fica alterada. Cos­tumamos levantar-nos pelo menos uma hora antes do nascer-do-sol. Nessa altura fazem-se as abluções, recitam-se os versículos do Alcorão e rezam-se as orações. Servem-nos então uma refeição antes do amanhecer, a que se chama sahoor, habitualmente composta de quei­jo, ovos, iogurte ou leite, fruta fresca e pão. Devemos ter o cuidado de terminar esta refeição antes que surja o primeiro raio de luz da aurora clareando a noite escura. Depois de comer­mos, mas antes que o sol se erga, rezam-se mais orações.

Durante o resto do dia, somos obrigados a abstermo-nos de comer, beber, fumar e ter relações sexuais. Durante o dia, rezamos ao meio-dia e outra vez ao fim da tarde.

Assim que o sol deixa de se ver no firmamento, o nosso jejum é quebrado pela ingestão de uma pequena porção de água, sumo ou leite. Nesta altura oferece-se uma oração: «Ó Deus! Jejuei para Vosso contentamento. Ó Deus! Aceitai o meu jejum e compensai-me». Só então é que podemos alimentar-nos. As tâmaras são o alimento habitual que quebra o jejum. Depois desta pequena merenda, depressa se aproxima a hora da oração do pôr-do-sol, assim como da refeição do jantar.

Todos os dias, antes do ocaso, durante o mês do Ramadão todos os membros das nos­sas extensas famílias reúnem-se habitualmente no palácio de Sara e Asad, onde confraterni­zamos e partilhamos o banquete da noite. O ambiente é sempre de celebração, uma vez que o nosso estado de espírito é de uma maneira geral bastante elevado devido ao triunfo que sentimos pelo domínio que exercemos sobre nós próprios.

Esta atmosfera de celebração acentua-se à medida que o mês do Ramadão chega ao fim. Os muçulmanos começam a preparar-se para o Eid-ul-Fitr, os festejos de três dias que assinalam o fecho do Ramadão. Enquanto muitos muçulmanos devotos preferem o período austero em que se esforçam por alcançar a perfeição, no que me diz respeito, considero que a celebração do Eid é o período mais agradável.

Dado que não tenho qualquer agenda especial para o mês do Ramadão, geralmente transformo a noite no dia, mantendo-me acordada ao longo de toda a noite. Vejo vídeos de filmes norte-americanos, leio o Alcorão e jogo ao Solitário. Logo que Kareem sai de casa para o escritório, durmo até tarde durante o dia, descansando ao longo das horas em que sin­to mais fome e sede, de molde a não ser tentada a quebrar o jejum. Tenho sempre o maior cuidado em me levantar para a oração do meio-dia, o que volto a repetir para a reza a meio da tarde; nesta altura é frequente eu oferecer súplicas suplementares.

Por ocasião deste Ramadão em particular, Sara partilhava comigo estas horas difíceis, o que acontecia com muita frequência, tal como me prometera. Sempre que Sara não podia deixar a sua casa, Maha permanecia resolutamente ao meu lado. Apesar de me sentir amiúde apática e com fome durante as horas da tarde, sabia que dentro em pouco chegaria a hora do crepúsculo, altura em que Kareem retornaria a casa a fim de nos levar para o palácio de Sara.

Por alturas do décimo nono dia de jejum do Ramadão, eu ainda não quebrara um único juramento! Sentia-me cada vez mais orgulhosa por nem sequer uma só vez me ter sentido tentada a comer sorrateiramente um pouco de comida, beber um gole de água, ou mesmo fumar um cigarro! Mais importante ainda, fora extraordinariamente bem sucedida na luta contra a tentação de beber bebidas alcoólicas.

Kareem e Maha brindaram-me com muitos sorrisos encorajadores, assim como elogios.

A cada oportunidade que se lhe deparava, Sara congratulava-me. Até Amani manifestou maior afecto para comigo. Eu nunca tinha conseguido ir tão longe no Ramadão sem escorre­gar nessa encosta resvaladiça dos meus desejos desenfreados.

Acreditava sinceramente que, ao menos uma vez na vida, teria conseguido alcançar a perfeição total que tão ansiosamente almejava, não fora o meu odiado irmão Ali.

Embora ele conhecesse os sentimentos das irmãs quanto ao casamento de Munira, Ali insistiu em que Hadi e a sua noiva se juntassem à nossa extensa família ao décimo nono dia, aquando do pôr-do-sol, quando quebrássemos o jejum. Na noite anterior, o casal havia re­gressado a Riade terminada a sua lua-de-mel em Marrocos.

Todavia, Hadi não era um homem que fosse bem-vindo ao seio do nosso círculo íntimo, tendo nós assumido que ele e as suas quatro mulheres e filhos se reuniriam com a sua própria família por altura da quebra dos jejuns diários.

Portanto, quando informei Sara de que Hadi e Munira estariam entre os seus convida­dos, imaginei que seríamos obrigados a testemunhar a primeira subjugação em público da pobre Munira.

- Como é que nos poderemos regozijar - vociferei, furiosa perante aquela perspec­tiva - com tal pessoa como Hadi sentado à nossa mesa?

- Será uma noite difícil - concordou Sara enquanto passava a mão pelas minhas costas - Mas temos de a ultrapassar com graciosidade.

A encrespação que sentia nos músculos das mandíbulas endureceu a minha voz.

- Hadi casou com Munira tendo em vista um único objectivo! Ele sempre quis uma oportunidade de se insinuar no seio da vida familiar dos membros da realeza!

Sem saber o que dizer, Sara ergueu as mãos ao céu.

- Não há nada que possamos fazer, Sultana. Ele desposou a filha do nosso irmão.

Tudo o que façamos para encolerizar Hadi, recairá sobre a cabeça de Munira.

- É o mesmo que chantagem - resmunguei numa manifestação de irritação.

Entretanto, Maha começou a segredar ao ouvido de Nashwa, dizendo-lhe algo que fez com que as duas se rissem às gargalhadas.

Sara e eu olhámos fixamente para as nossas filhas.

A minha voz elevou-se mais, traduzindo uma irritação crescente.

- Por que é que estão a rir-se?

As faces de Maha enrubesceram e, mesmo antes de ela começar a falar, apercebi-me de que a minha filha engendrara uma pequena mentira.

- Estávamos a falar de uma rapariga da escola, mãe. Mais nada.

- Filha! Não quebres o jejum com uma mentira! Esqueceste-te de que estamos no Ramadão?

- Nashwa? - A voz de Sara era afectuosa.

Nashwa era uma garota que se assemelhava a Maha em muitos aspectos, mas tinha maior dificuldade em mentir à mãe do que a minha filha.

- Foi apenas uma brincadeira, minha mãe.

- E...? Por favor, partilha essa brincadeira connosco.

Nashwa trocou um olhar de mal-estar com Maha.

- Bem - começou a dizer -, Maha quer que lancemos um feitiço sobre Hadi, de maneira a que o seu órgão masculino entre num sono perpétuo.

- Menina! - exclamou Sara, mostrando-se estupefacta. - Afasta esses pensamentos da tua cabeça! Só Alá é que tem esse poder!

Senti-me irada por Maha conseguir mentir com tamanha facilidade, enquanto Nashwa não era capaz de o fazer. Lancei um olhar de desconfiança à minha filha. Continuaria Maha a sentir-se atraída pelo embuste da magia negra?

Apercebendo-se de que eu a examinava atentamente, Maha mostrava-se agitada.

Há quatro ou cinco anos, Maha fora apanhada a planear lançar um feitiço maléfico so­bre o seu próprio irmão. Mas convenci-me de que Kareem e eu própria a tínhamos assustado ao ponto de desistir de todos os pensamentos acerca da prática de magia negra. Talvez não, reflecti pensativamente. Era do meu conhecimento que um determinado número dos nossos familiares de sangue real acreditavam firmemente nas artes do oculto.

Não partilhei os meus pensamentos com Sara, mas no meu íntimo concordei em que a vida de Munira passaria a ser muito melhor se o marido ficasse impotente. Ao fim e ao cabo, caso se verificasse uma situação dessas, ela seria bem sucedida numa petição de divórcio.

Na Arábia Saudita, os homens podem divorciar-se das mulheres a qualquer altura sem que seja necessário apresentarem um motivo, enquanto as mulheres não são tão afortunadas. Não obstante, se o marido for impotente, ou não sustente adequadamente a sua família, mal­-grado as dificuldades, é possível que a mulher o obtenha.

Mais tarde, aquando da chegada de Hadi e Munira, a primeira coisa que vi foi a infeli­cidade que se reflectia no rosto da minha sobrinha. Senti-me tão chocada pelo seu mau as­pecto físico que só me apetecia bater em Hadi com todas as minhas forças. Munira perdera muito peso num único mês, e agora a sua estrutura óssea era bem visível através da carne.

Sara e eu trocámos um olhar horrorizado.

Sara pôs-se de pé.

- Munira, não estás nada com bom aspecto, menina. Vem sentar-te. Munira olhou para Hadi, procurando a aprovação do marido.

O espírito da vida já se lhe tinha escoado do corpo!

Hadi meneou ligeiramente a cabeça, fazendo estalar a língua num som que significava não.

Munira permaneceu obedientemente ao lado do marido.

Entretanto, Hadi fez estalar os dedos num sinal destinado a Munira.

- Café.

Embora o palácio tivesse muitas serviçais prontas a satisfazer todos os nossos desejos, Hadi queria mostrar-nos que um dos nossos era sua escrava!

Compreendendo que as mulheres da nossa família se sentiam abismadas em face da situação embaraçosa em que Munira se encontrava, as faces desta avermelharam-se de ver­gonha enquanto mantinha os olhos presos no chão.

- Munira! - interpelou Hadi em voz alta. O seu rosto foi atravessado por uma expressão mal-humorada.

Esta dirigiu-se obedientemente à cozinha num passo vacilante para ir buscar o café.

O mau humor de Hadi transformou-se numa expressão de regozijo. Voltou-se, fitando a família de Munira. A satisfação que se lhe estampava no rosto era insuportável de ver!

Sara mantinha-se imobilizada, de olhar fixo em Nura; pouco depois olhou para Hadi e de novo para Nura. Não sabia o que fazer perante a rudeza deliberada de Hadi para com a sua jovem esposa. Para além de Reema, todas as filhas de Fadeela tinham maridos respeita­dores, e nem sequer Saleem denegria Reema em presença da família desta.

Entretanto, Ali chegou precisamente quando Munira regressava da cozinha com o café de Hadi.

Invariavelmente, o meu irmão possui o condão de me provocar. Agora, tal como a ser­pente que ele era, Ali aproximou de Hadi o seu corpo entroncado num passo coleante, tendo a coragem de lhe perguntar se os seus exercícios de lua-de-mel o haviam mantido tão ocupa­do que não tivera tempo para desfrutar da beleza morna das mulheres marroquinas.

As faces de Munira avermelharam-se, adquirindo um acentuado tom carmim; era óbvio que se humilhava pela devassidão dos comentários do pai.

A raiva era tanta que comecei a tremer. Ali não se recordaria de que Munira era uma rapariga tímida, que tudo o que desejava da vida se limitava a que a deixassem sozinha?

De repente, não fui capaz de aguentar mais aquela situação insustentável! O meu irmão era uma massa de carne humana desprovida de sentimentos e que não merecia viver! Levan­tei-me de um salto, com a violência a preencher-me a mente.

Kareem tinha-se mantido atento e, quando se deu conta da imprudência do sentimento que se apoderara de mim, apressou-se a colocar-se ao meu lado. Agarrando-me pelo braço, forçou-me a dirigir-me para outro canto do vasto salão.

Sara e Nura juntaram-se a nós num passo apressado.

Ali mostrou-se desorientado quando me apanhou a lançar-lhe um olhar assassino. Con­cluí que o homem não só não tinha qualquer resquício de compaixão, como também não devia muito à inteligência! Verdadeiramente, ele não compreendia que cada uma das suas palavras magoaram a sua inocente filha! Para Ali, as mulheres eram propriedade dos ho­mens, possessões cujos sentimentos e bem-estar eram aspectos que nunca deveriam entrar no seu reino de pensamento.

As minhas irmãs e Kareem encorajaram-me a ir para os aposentos de Sara, onde des­cansaria por uns momentos. Haviam tido oportunidade de testemunhar muitas altercações entre mim e Ali, esperançados em que poderiam evitar uma cena que, sem sombra de dúvi­da, perturbaria a atmosfera do banquete daquela noite.

Eu disse que, na minha opinião, Sara e Asad deveriam ordenar a Ali e Hadi que saíssem de sua casa.

Nura engoliu em seco uma ou duas vezes fitando Sara.

- Estamos em tua casa, Sara. Faz o que mais te aprouver.

- Temos de pensar em Munira - recordou Sara a todos nós na sua voz tranquilizante.

- Tudo o que possamos fazer que encolerize Hadi, acabará por lhe ser prejudicial.

Com toda a veemência, dei voz à minha objecção.

- Como é que poderia ser pior? Ela é escrava de um homem cujo maior prazer é tor­turar mulheres! Pelo menos, se o atacarmos, ele ficará ciente de que o seu comportamento não merece a aprovação da família da mulher!

Sem me dar resposta, Sara e Kareem afastaram-me enquanto Nura voltava a reunir-se ao resto da família. Quando abandonámos a sala, ouvi as risadas e as piadas de Ali e Hadi.

Depois de me terem convencido de que uma curta sesta me proporcionaria um racio­cínio mais calmo, Kareem e Sara deixaram-me sozinha. Mas a imagem da humilhação que Munira sofrera não me abandonava os pensamentos, impedindo-me de conciliar o sono. Agitada, virava-me de um lado para o outro enquanto cismava nos intermináveis abusos a que as mulheres estavam sujeitas no nosso país. Nós, as mulheres sauditas, não possuíamos nada para além das nossas almas, e isso somente porque nenhum homem conseguira, até ao momento, arquitectar um método de se apoderar delas!

Precisamente quando estava prestes a fechar os olhos, avistei uma garrafa de vinho em cima de uma pequena mesa a um canto do quarto. Apesar de Sara não beber, o marido, Asad, era um apreciador de vinhos franceses.

Cheguei à conclusão de que necessitava de uma bebida em vez de uma sesta. Nada mi­tigaria melhor as minhas emoções do que um copo de bom vinho francês de sabor encorpa­do. Há muitos dias que eu não consumia uma única bebida, desde que Sara me salvara do meu estupor alcoólico. Em pensamento, ia contando os dias e as noites. Durante os últimos vinte e nove dias e noites, conseguira dominar os meus desejos a um ponto que jamais so­nhara poder ser possível.

Agora, abandonando todo e qualquer pensamento relativo ao Ramadão, assim como a promessa que fizera à minha irmã, lancei as cobertas para os pés da cama e dirigi-me para a garrafa, como se estivesse enfeitiçada. Constatei que a garrafa se encontrava quase cheia, e, toda satisfeita, agarrei-a firmemente na mão. Em seguida fui à procura de um cigarro. Em­bora seja uma fumadora inveterada, desde a hora que precedera a alvorada que não fumara um só cigarro. Olhei para o relógio sobre a mesa de cabeceira de Asad. Ainda faltava pelo menos uma hora para que se pudesse quebrar o jejum, mas eu sabia que não seria capaz de esperar tanto tempo. Incapaz de encontrar aquilo que o meu organismo tanto desejava, saí do quarto de Sara e percorri o corredor até aos aposentos de Asad. Com certeza que aí encontraria os cigarros.

Encontrei vários maços de Rothmans, uma marca familiar embora estrangeira, espalha­dos pelo quarto de Asad. Sobre a mesa de cabeceira havia um isqueiro em ouro. Agora que estava de posse daquilo que procurava, sabia que seria preferível descobrir um lugar recata­do onde pudesse tomar a bebida e fumar o cigarro em tranquilidade. O quarto de Sara não seria o mais adequado. Kareem ou a própria Sara poderiam ir lá para se assegurarem de que eu estava efectivamente a descansar. Sem qualquer hesitação, decidi esconder-me na casa de banho de Asad.

Nunca tinha visto a casa de banho do meu cunhado, embora não me tivesse surpreen­dido por ser tão grande. Agarrei num copo que estava no lavatório antes de me sentar num requintado banco de veludo.

Com mãos que tremiam, acendi o meu primeiro cigarro do dia. Depois de ter inalado o fumo que tanto me satisfazia enchendo os pulmões, retirei a rolha da garrafa de vinho e enchi o copo. Ia bebendo o vinho de Asad enquanto desfrutava do seu cigarro.

Durante um curto momento, a vida voltava a ser boa de se viver.

Exactamente quando saboreava os meus secretos tesouros, ouvi o som de passos que se aproximavam. O terror de vir a ser apanhada em falta percorreu-me o corpo como um cho­que eléctrico. Corri rapidamente para o grande chuveiro de Asad e fechei a porta de vidro.

Apercebi-me demasiado tarde de que tinha deixado a garrafa de vinho aberta no chão ao lado do banco! O cigarro continuava a arder; apressei-me a extingui-lo numa das extre­midades de um azulejo do chuveiro, tentando soprar o fumo do cigarro para que se dissipasse.

A porta rangeu um pouco quando se abriu. A figura corpulenta de um homem projectou a sua sombra no chuveiro quando entrou na casa de banho.

Felizmente a porta de vidro do chuveiro estava gravada com uns cisnes negros de gran­des dimensões. Espreitei em redor do traçado dos cisnes. O intruso era o meu irmão Ali!

Eu deveria ter adivinhado.

Embora não conseguisse ver os pormenores com clareza, cerrei as pálpebras quando o meu irmão ergueu o thobe, baixou as cuecas e começou a urinar. Repugnada pelo som das suas águas, levei os dedos aos ouvidos. Urinou durante tanto tempo que comecei a compre­ender que uma tal quantidade não poderia ser excretada por uma pessoa que se tivesse abstido de líquidos durante todo o dia. Foi então que soube que Ali levava os juramentos do Ramadão menos a sério do que desejaria que os outros soubessem. Aquela informação satis­fez-me ao máximo, mal conseguindo conter o riso ao imaginar a reacção dele caso eu saísse de repente do chuveiro para o confrontar.

Depois de ter accionado o autoclismo e de ter composto as roupas, Ali deixou-se ficar durante alguns momentos defronte de um grande espelho de parede. Bateu nas bochechas, passou os dedos pelo bigode espesso e sobrolhos, fazendo estalar os lábios carnudos por diversas vezes enquanto admirava o reflexo da sua pessoa no espelho.

Eu mal conseguia conter o quanto me sentia divertida. Tive de tapar a boca com as mãos para evitar uma explosão de riso.

Quando Ali se voltou para sair da casa de banho, os seus olhos foram atraídos pela gar­rafa de vinho. Durante escassos momentos, ficou a olhar pensativamente para a garrafa, de­ pois caminhou até ela em passos rápidos e bebeu todo o conteúdo.

Examinou o rótulo.

- Ah! Um bom ano - comentou para si próprio antes de deixar cair a garrafa vazia dentro de um caixote do lixo, após o que saiu da casa de banho.

Desalentada, encostei-me à parede. Tanto que eu desejara beber aquele vinho!

Foi então que comecei a rir-me à socapa perante a absurdeza de toda aquela situação; depois de ter limpado as faces de lágrimas de satisfação, ocorreu-me de súbito um pensa­mento desagradável. No que tocava ao assunto da abstinência, Ali e eu éramos iguais em hi­pocrisia e falta de força de vontade!

Eu encontrava-me tão incapaz de acorrentar o demónio da minha alma quanto Ali! Regressei à nossa reunião de família imbuída de um estado de espírito amortecido. Foi com uma nova humildade que dei por mim a sentir-me mais tolerante para com Ali do que imaginara ser possível às primeiras horas dessa noite.

A pobre Munira não proferiu uma única palavra durante toda aquela longa refeição. Sentava-se em silêncio ao lado do marido enquanto mordiscava uma pequena porção de ga­linha com arroz.

As minhas primas e eu trocámos muitos olhares de preocupação ao longo dessa noite. Os nossos corações sobressaltaram-se mais de uma vez; contudo, não estava no nosso poder alterar o curso da vida de Munira. Todas nós receávamos que a vida dela pouco mais seria do que um acumular de grandes sofrimentos.

Estávamos absolutamente impotentes perante aquela situação. Apenas Alá poderia sal­var Munira.

 

                   O PALÁCIO PARAÍSO

DESDE os TEMPOS da minha infância que eu sempre acreditei que os sonhos, uma vez sonhados, jamais se perderiam verdadeiramente. E assim, a despeito da desencoraja­dora verdade de no décimo nono dia do Ramadão eu ter quebrado o meu jejum ao fumar um cigarro e - mais blasfemo do que tudo o resto - ter bebido um copo de vinho que me era proibido, eu continuava a sonhar em vir a ser a muçulmana devota ao mesmo nível sublime da minha mãe e irmãs. Continuava a albergar a esperança de que seria possível transformar­-me numa pessoa irrepreensível, mal-grado todos os meus defeitos. Resolvi que não havia necessidade de acrescentar a humilhação ao mal-estar de ter de confessar a minha fraqueza aos demais membros da família. Em qualquer dos casos, não me restavam muitas dúvidas de que Deus fora testemunha do meu comportamento pecaminoso e, no que me dizia respeito, isso era uma vergonha mais do que suficiente. A minha única esperança era que a minha mãe estivesse tão ocupada com a sua própria vida espiritual que a conduta desonrosa da fi­lha na Terra lhe passasse despercebida.

Kareem era outra questão. No dia anterior ao fim do Ramadão, viajámos até ao nosso palácio situado no Mar Vermelho, em Jeddah. Ao fim da tarde, eu estava sentada no jardim com Kareem e as minhas filhas enquanto esperava que o último dia do Ramadão terminasse. Apercebi-me de que Kareem me observava atentamente. Mostrava uma expressão tão pen­sativa que comecei a sentir-me ansiosa. Teria Amani faltado à promessa que fizera a Sara? Teria a minha filha dado a conhecer a Kareem a vergonhosa condição de intoxicada em que me vira enquanto ele estivera no Japão?

Desejava perguntar a Kareem o que lhe ia pela mente, mas receava que o assunto que o levava àquela introspecção pudesse ser algo que eu não desejasse discutir.

Retraí-me toda quando Kareem começou a falar.

- Sultana - disse ele com um sorriso -, quero que saibas que me sinto muito orgulhoso de ti.

Tendo estado na expectativa de ouvir alguma crítica, aquele elogio semeou grande confusão na minha cabeça. Deixei-me ficar sentada, olhando-o fixamente sem falar. Qual seria a sua intenção?

- Sim, sinto-me deveras orgulhoso - repetiu, fitando-me com uma expressão de tanta ternura que cheguei a pensar que ele ia talvez beijar-me. Mas uma vez que esta conversa tinha lugar durante o dia, e levando em consideração que continuávamos a observar o jejum do Ramadão, ele limitou-se a acariciar-me as mãos.

- Orgulhoso? - perguntei a medo, sentindo grande perplexidade.

- Sim, minha querida. - O sorriso de Kareem alargou-se. - Sultana, desde o pri­meiro ano em que nos casámos, tenho vindo a testemunhar a luta enorme com que te debates todos os anos durante o período do Ramadão. Sei que, para ti, conseguires levar a cabo o jejum é um milhar de vezes mais notável do que para qualquer pessoa vulgar.

Agitei-me com um certo mal-estar, sem saber bem o que fazer. Embora tivesse concluí­do que seria preferível não confessar a minha fraqueza na manutenção do jejum, sentia-me avassalada por um sentimento de culpa ao aceitar os elogios por um feito que eu não concre­tizara. O peso da minha consciência abateu-se com toda a força sobre o meu coração.

Sabia que tinha a obrigação de dizer ao meu marido a verdade, independentemente de quão desagradável pudesse ser para ambos.

- Mas, Kareem...

- Não protestes, Sultana. Deves ser, e serás, largamente recompensada por teres cum­prido os teus juramentos.

- Kareem, eu...

- Querida, há muito que compreendi que Alá cria algumas pessoas para que estas sejam bastante mais fogosas do que os demais. Estou em crer que Ele procedeu assim com um objectivo mais elevado. Apesar de essas pessoas poderem criar distúrbios, é frequente que tal seja pelo melhor. - Sorriu-me com doçura enquanto fitava o meu rosto. - Tu és precisamente uma dessas pessoas, Sultana.

- Não, não, Kareem, preciso de te dizer que...

Kareem calou-me colocando um dedo sobre os meus lábios.

- Pensei muitas vezes que tu sentes com maior profundidade do que qualquer outra pessoa que conheço, e que os teus sentimentos, que tão profundos são, causam-te frequente­mente grande sofrimento.

- Kareem, ouve...

- O pai tem razão, mãe - interrompeu Maha. - Serás compensada muito mais do que a dobrar por teres sido capaz de dominar o desejo que sentes pelos prazeres terrenos. ­

Maha olhou para Kareem com uma expressão de contentamento. - Eu também me sinto muito orgulhosa da mãe.

- Não! - gritei. - Vocês não compreendem! - Apoiei a cabeça sobre as mãos, sol­tando um grito em surdina. - Vocês não compreendem! Eu tenho de me penitenciar!

Nesse momento, senti finalmente que teria a coragem de explicar as razões da necessi­dade desesperada de me emendar, e para confessar que era menos pura do que qualquer de­les acreditava.

Todavia, Amani escolheu aquele momento para me atormentar.

- Vocês estão a elogiar uma muçulmana - começou ela num tom desdenhoso – por fazer aquilo que é uma exigência mínima que se espera de todos os muçulmanos?

Ignorando as palavras de Amani, o timbre de voz de Kareem era de perplexidade enquanto me afastava as mãos do rosto.

- Penitência? Pelo quê, Sultana?

Compreendi que não desejava confessar os meus defeitos em frente de uma criança tão impiedosa como Amani. Soltei um profundo suspiro.

- Tenho de me aperfeiçoar a fim de expiar os pecados do passado.

Senti-me culpada ao ver o brilho de orgulho e ternura nos olhos de Kareem. Como é que eu podia descer tão baixo?

- Como bem sabes, sempre fui uma pecadora - tartamudeei, baixando a cabeça.

Naquele momento estava a ser manipuladora, e daí ter mais uma razão para me sentir culpada! Tinha a certeza de que Deus haveria de me punir severamente por continuar a en­ganá-los daquela maneira tão despudorada. Em silêncio, fiz um juramento de que não espe­raria mais do que até à ocasião em que Kareem e eu estivéssemos a sós para restabelecer a verdade dos factos. Tencionava confessar-lhe tudo.

Os meus pensamentos focaram-se na minha mãe. Suspirei, falando inadvertidamente em voz alta.

- Quem me dera que a mãe estivesse junto de nós.

- Somente os fracos é que não conseguem aceitar a vontade de Deus – declarou Amani com uma expressão de escárnio.

Lancei a Amani um longo olhar de uma tristeza resignada.

Ela abriu a boca como se tencionasse insultar-me uma vez mais, mas Kareem fitou-a com uma expressão inflexível que denotava reprovação.

- Estamos praticamente no fim do Ramadão, Amani, e tu insultas a tua mãe?

Estas palavras impediram Amani de continuar.

De súbito, vinda através do altifalante da mesquita local, ouviu-se uma voz melodiosa anunciando que a lua nova do mês do shawwal, o qual era o décimo mês hijra, fora avistada e confirmada. O Ramadão chegara ao fim! As celebrações do Eid-ui-Fitr podiam começar a partir de agora. Expressámos a nossa alegria trocando abraços e congratulações, no que incluímos os criados; cada um de nós pedia a Deus que nos mantivesse de boa saúde até ao próximo Ramadão.

O período do Ramadão que eu preferia tinha chegado, embora a alegria que sentia fosse um tudo-nada ensombrada pelo facto de ainda não me ter penitenciado.

O Eid, a celebração mais especial do Islão, que se prolonga por três dias, era assinalada por toda uma variedade de eventos organizados pelo governo, incluindo fogo de artifício, recitais de poesia, arte dramática, concursos de pintura e concertos de música tradicional. Cada um de nós comemora visitando familiares e amigos e oferecendo-lhes presentes.

Celebrámos pela noite adentro até que os primeiros raios dourados da luz da manhã começaram a surgir no horizonte. Por conseguinte, nessa noite não houve oportunidade para eu me confessar a Kareem.

Na manhã seguinte, após uma noite de exaustão, só despertámos ao meio-dia depois de um longo sono. Enquanto permanecia deitada na cama, couracei-me para poder confessar a Kareem os meus juramentos quebrados, mas assim que ele acabou de se vestir, recordou-me que passaria a maior parte do dia no palácio de Jeddah do nosso bem-amado rei Fahd. A men­te de Kareem já se encontrava de tal maneira preenchida com as várias tradições do Eid que achei por bem deixar a nossa conversa para mais tarde.

Ainda assim, dava comigo mergulhada num dilema. Quer confessasse a Kareem ou não, continuava a ter de me penitenciar de forma apropriada. O que teria de fazer antes de dar início à minha ronda de visitas e oferta de prendas.

Quando Kareem já estava prestes a sair porta fora, corri para ele e agarrei-o pelo braço. - Querido, esqueceste-te? Este ano, sinto o desejo de alimentar muitas pessoas pobres.

- Os meus dedos puxavam-no pela manga. - Ainda mais do que nos anos anteriores.

- Terei eu necessidade de alimentar mais gente pobre do que quando comeste aquele abundante prato de maamool hei tamur? (Bolos recheados de tâmaras) - perguntou ele com um sorriso.

- Sim - respondi, enrubescendo e mordendo o lábio.

Aquele humilhante incidente acontecera há dois anos durante o Ramadão. As nossas cozinheiras tinham passado muitas horas a misturar as especiarias, farinha e tâmaras para a confecção desses bolos com que a nossa família se deliciaria depois da refeição da noite. Du­rante toda a manhã, a fragrância que emanava desses doces deliciosos tinha pairado por todo o palácio, fazendo com que eu salivasse ansiando pela minha sobremesa favorita. Sentia tanta fome, devido ao jejum, que perdi qualquer resquício de bom senso, tendo passado todo o dia a imaginar bolos de tâmaras.

Posteriormente, nessa mesma tarde, depois de saber que todos os outros descansavam nos seus quartos, entrara furtivamente na cozinha. Estava tão concentrada no pensamento de provar esses bolos que não reparara na presença de Kareem. Servindo-me da porta do frigo­rífico para me ocultar, comera bolo após bolo.

Kareem observava-me em silêncio enquanto eu continuava a comer vorazmente. Mais tarde dissera-me que depois de ter visto o primeiro bolo desaparecer dentro da minha boca, decidira automaticamente que, já que eu começara, mais valia satisfazer a fome que sentia, uma vez que o pecado de comer muitos bolos era o mesmo que se tivesse comido um só.

O sorriso malicioso de Kareem alargou-se mais enquanto observava o meu embaraço perante aquela recordação.

- Sultana, certamente que não há necessidade de alimentar tantas famílias como fiz no ano passado, quando fumaste mais de um maço de cigarros durante o Ramadão. Não con­cordas?

- Pára, Kareem! - Afastei-me encolerizada. - Não brinques comigo!

- Sim - continuou Kareem sem ligar ao que eu disse -, dei contigo acocorada dentro de um dos teus roupeiros rodeada de pontas de cigarro.

Riu-se com ternura daquela recordação, arreliando-me ao mesmo tempo que mostrava afecto.

- Diz lá, Sultana, que pecado é que cometeste desta vez?

Finalmente, Deus concedera-me a abertura por que eu tinha rezado, mas eu já decidira que naquela manhã não havia tempo para me confessar.

- Não fiz nada! - declarei na defensiva. - Muito simplesmente, desejo partilhar a nossa enorme riqueza com os que são menos afortunados do que nós.

Kareem olhou-me com uma expressão de cepticismo.

- Não será a nossa boa fortuna uma obrigação de praticarmos generosidade? - per­guntei.

Na sua pressa de se reunir aos primos e tios no palácio do rei, Kareem aceitou a minha palavra.

- Muito bem, Sultana. Vou dizer a Mohammed que compre comida suficiente para alimentar trinta famílias necessitadas. Achas que isso é o suficiente para compensar os teus pecados?

- E diz a Mohammed que também lhes compre roupas - acrescentei com prontidão.

Mohammed era um empregado egípcio de confiança. Ele não entraria em coscuvilhices com os outros serviçais sobre a dimensão da expiação que a nossa família fazia.

- E roupas também - anuiu Kareem um tanto enfastiado.

Soltei um suspiro de alívio. Dado que quem quer que quebrasse um juramento estava sujeito a uma penalidade de alimentar dez pessoas necessitadas, pensei que alimentar e ves­tir trinta famílias seria mais do que suficiente para cobrir o meu pecado de ter quebrado o jejum, para além de ter bebido vinho.

Depois de Kareem ter saído dos nossos aposentos, chamei Libby, uma das minhas cria­das das Filipinas, para que me preparasse o banho. Sentia-me de coração leve e com uma sensação de liberdade por ter reconciliado os meus pecados com tanta facilidade pelo mero acto de dar esmola; comecei a entoar baladas arábicas de amor enquanto estava mergulhada no banho.

Depois de me ter posto bonita com maquilhagem e perfume, a minha cabeleireira egíp­cia penteou os meus longos cabelos negros num complicado penteado em tranças que pren­deu com valiosos ganchos de cabelo que comprara recentemente no Harrods, em Londres. Procurando entre os muitos vestidos pendurados no meu roupeiro, escolhi uma das minhas indumentárias preferidas de cetim vermelho desenhado por Christian Dior.

Satisfeita com o reflexo que via no espelho, perguntei às minhas filhas se já estavam prontas, tal era a ânsia que eu sentia em começar a tarde de celebrações alusivas às festivida­des do Eid visitando vários familiares.

Observei atentamente enquanto três das criadas colocavam um grande número de pren­das, com que eu e as minhas filhas presentearíamos os nossos familiares e amigos, dentro do porta-bagagens do nosso novo Mercedes. As caixas elegantemente embrulhadas em papel de oferta continham delicadas réplicas de mesquitas em chocolate, lenços de seda bordados com fios dourados, frascos dos melhores perfumes franceses, águas-de-colónia e colares de pérolas.

Eu sabia com toda a exactidão qual seria o palácio que desejava visitar em primeiro lugar!

No ano anterior, um primo excêntrico, que não conhecíamos muito bem, construíra um palácio magnificente que há muito eu ansiava visitar, porque tinha ouvido muitas histórias fantásticas narradas pelos nossos amigos sobre as maravilhas que continha.

Ao que se dizia, este primo, de nome Faddel, dispendera somas incalculáveis na cons­trução de um palácio e jardins circundantes, de forma a que se aproximasse tanto quanto possível do próprio paraíso, o Paraíso Celestial tal como é descrito no nosso sagrado Alcorão.

O sagrado Alcorão proporciona muitos pormenores das glórias e prazeres que aguar­dam aqueles que veneram Deus, caso vivam uma existência terrena como bons muçulma­nos. As almas pacientes e obedientes têm razões para esperar passarem a eternidade num extenso jardim irrigado por riachos encantadores e onde existem muitas árvores frondosas e verdejantes, vestidos com sedas e jóias. Passarão o seu tempo recostados em poltronas en­quanto comem das comidas mais refinadas. O vinho não será proibido, ao contrário do que acontece na Terra, e será servido em cálices de prata que lhes serão apresentados por servas de grande beleza.

Qualquer muçulmano suficientemente afortunado para conseguir alcançar o Paraíso será aguardado por uma outra recompensa. Todas as suas necessidades serão satisfeitas, en­tre as quais todos os seus desejos sexuais, por jovens virgens de grande sedução, jamais to­cadas por outro homem. Cada homem possuirá setenta e duas destas maravilhosas virgens.

As mulheres devotas também terão entrada no Paraíso, dizendo-se que estas mulheres receberão a maior das alegrias ao recitarem o Alcorão, ao mesmo tempo que experimentarão o êxtase supremo ao contemplarem a face de Alá. Estas mulheres serão rodeadas por crian­ças que nunca atingirão a idade adulta.

Como é evidente, as mulheres muçulmanas - que, por pressuposto, não sentirão dese­jos sexuais no Paraíso - não terão à sua espera parceiros com quem possam manter rela­ções sexuais.

Apesar de estar cheia de curiosidade, perguntando a mim mesma como é que o meu primo Faddel teria igualado na Terra as maravilhas do Paraíso, também albergava um pres­sentimento de mau agouro. Por qualquer razão, o meu coração dizia-me que não fosse ao palácio, que voltasse para trás. Malgrado esta advertência, não hesitei em avançar levando comigo as minhas duas filhas.

Aquando da chegada ao «Palácio Paraíso», nome que, por troça, lhe tinha sido dado por uma das nossas primas, o motorista deu com os portões de ferro trancados. Não se viam ves­tígios do guarda-portão. O nosso motorista foi à procura dele, tendo-me informado de que avistara, através da janela da guarita, dois pés descalços que saíam de debaixo da cadeira do guarda.

Ordenei ao motorista que batesse na divisória de vidro. Finalmente, os portões foram abertos por um sonolento guarda do Iémen e, por fim, lá pudemos entrar na propriedade.

Embora o caminho de acesso fosse pavimentado com muitas pedras polidas de preço elevado, de cuja superfície saíam reflexos luminescentes, proporcionava um percurso bas­tante acidentado para os que chegavam de automóvel. Eu olhava em redor com grande inte­resse enquanto passávamos por baixo de densas ramadas de um arvoredo compacto. Depois de termos passado por aquele bosquete, deparámos com um cenário de rara beleza capaz de cortar a respiração.

O palácio de Faddel não era um edifício de grandes dimensões, tal como tínhamos es­perado, mas sim uma sucessão de pavilhões brancos de um branco imaculado. Talvez quinze ou vinte pavilhões similares com telhados azul-celeste que se elevavam a grande altura, dispostos em círculo rodeando um pavilhão maior, o que criava uma panorâmica de grande imponência.

O relvado que rodeava os pavilhões formava uma carpete de um verde luxuriante. Também vimos canteiros de raras flores de cores garridas, dispostos por toda a superfície da propriedade de maneira artística. A combinação de cores dos pavilhões brancos, os telhados azuis, o relvado verde e as flores de cores vívidas formavam uma composição verdadeira­mente bela e inspirada.

- Olhem, meninas - disse eu -, a relva aqui é tão verde como as esmeraldas do meu novo colar!

- São mais de dez pavilhões! - Exclamou Maha.

- São dezoito - adiantou Amani num tom de voz que não traía a mínima emoção.

- Amani - disse eu, apontando para uma tabuleta ornamentada a ouro onde se lia a palavra «garanhões» escrita com letras verdes. - Há um caminho que vai dar aos estábulos.

Senti-me um pouco surpreendida por Faddel ter estábulos. Embora um grande número dos meus primos adquirisse e criasse cavalos de elevado preço, nunca ouvira dizer que Faddel mostrasse algum interesse de natureza equestre.

Amani inclinou-se mais para junto de mim e espreitou para a tabuleta, mas não disse nada.

O motorista começou a percorrer um caminho serpenteante que nos levou por baixo de uma imponente arcada em mármore branco. Certamente que aquilo seria a entrada do pavi­lhão maior. A porta do nosso Mercedes foi aberta por um porteiro egípcio de elevada estatu­ra, que nos recebeu com umas boas-vindas efusivas, após o que avançou num passo apres­sado para nos abrir as imensas portas duplas que davam acesso a um amplo vestíbulo. Aguardou enquanto o motorista retirava as prendas que eu seleccionara antecipadamente para oferecer a este primo e à sua esposa.

Depois de me ter certificado de que tinha nas mãos os embrulhos apropriados, entrei no salão de recepção. As minhas filhas vinham atrás de mim. Fomos saudadas num arábico per­feito por uma encantadora mulher asiática que se apresentou como Layla. Sorria com doçura enquanto dava as boas-vindas aos primeiros visitantes do dia. Informou-nos que a sua se­nhora, a nossa prima Khalidah, viria ao nosso encontro dentro em pouco. Entretanto, ela acompanhar-nos-ia até à residência principal.

Enquanto eu seguia atrás dela, fui reparando minuciosamente em tudo o que espantava o meu olhar, uma vez que nenhumas das minhas irmãs, nem sequer Kareem, tinham visitado este tão afamado «Palácio Paraíso».

Fomos conduzidas através de um espaçoso corredor. As paredes estavam revestidas a seda amarela de uma tonalidade esmaecida, com um delicado motivo floral. A alcatifa tinha muitos padrões de flores exóticas em tons garridos, e pássaros de um colorido frenético. En­quanto caminhávamos, sentíamos os pés a afundarem-se na superfície fofa.

- Onde é que estão os pássaros que estou a ouvir? - perguntou Amani a Layla subi­tamente.

Só então é que me apercebi do trinado em coro de pássaros que se ouvia à distância. Layla soltou um pequeno riso.

- O que estão a ouvir é apenas uma gravação. - A sua voz tinha um timbre tão agra­dável e musical que rivalizava com a melodia dos pássaros. - O meu senhor insiste em que todos os sons dentro de casa sejam agradáveis ao ouvido.

- Oh! - exclamou Amani.

Senhor?, pensei para mim. O primo Faddel?

Maha começou a fazer perguntas à jovem mulher que tinha mais ou menos a sua idade.

Ficámos a saber que Layla trabalhava na Arábia Saudita para Faddel e Khalidah, há já cinco anos. Cheia de orgulho, acrescentou que se sentia muito feliz com o ordenado que auferia pois podia suportar a sua extensa família que vivia em Colombo, capital do Sri Lanka.

Entretanto, Amani fez a pergunta abrupta que eu hesitava em fazer.

- Por que motivo é que tens um nome arábico, Layla?

Uma vez mais, a jovem mulher esboçou um sorriso.

- Não sou hindu. Sou muçulmana. A minha família é descendente de homens do mar.

- Fez uma pausa antes de acrescentar: - Como é evidente, só os muçulmanos é que são autorizados a entrar neste paraíso.

Maha tocou-me ao de leve com o cotovelo, mas eu consegui afivelar uma expressão impassível.

De súbito, o longo corredor abria-se num imenso salão circular. Tinha colunas orna­mentais, mobiliário luxuoso, lustres de cristal e relógios, carpetes valiosíssimas, espelhos amplos e elegantes painéis de cerâmica, o que compunha um efeito geral de abismar.

Viam-se vários divãs baixos forrados a sedas de tons suaves, que se alinhavam impeca­velmente sob janelas arqueadas compostas por vitrais elaborados em triângulo, que reprodu­ziam cenas de guerreiros árabes em plena batalha. De uma fonte com dois níveis de extremi­dades prateadas corria uma água límpida que reflectia a luz. Sobre o centro de várias mesas de mogno bem polido, com embutidos de madrepérola, viam-se jarras de porcelana chinesa. O chão de azulejos azuis cintilava espreitando por debaixo das extremidades de carpetes persas.

Ergui o olhar e avistei um magnificente baldaquino que dava a impressão de se arquear em direcção ao firmamento. O tecto fora pintado de forma a dar a ilusão de nuvens de penugem macia contra um fundo do mais azul dos azuis. O efeito geral era de cortar a respiração.

Era-me impossível negar que o meu primo mandara construir a residência que alguma vez me inspirara tanta admiração; os meus olhos nunca tinham visto nada como aquilo. Até agora, aquele palácio era ainda mais teatral do que qualquer um dos que o nosso rei mandara construir. Certamente Faddel atingira os seus objectivos, pensei. O Paraíso não poderia ser mais maravilhoso do que aquela residência palaciana.

Layla fez soar uma sineta, anunciando que dentro em pouco seriam servidos alguns refrescos. Pouco depois deixou-nos para ir anunciar a nossa chegada à sua senhora. Sentei-me num dos divãs de seda, indicando o lugar junto de mim.

- Venham, sentem-se comigo no paraíso - disse eu na brincadeira.

Maha riu-se e sentou-se.

Amani fitou-nos com um olhar inflexível.

- O Paraíso não é assunto com que se brinque - retorquiu, franzindo o sobrolho numa manifestação de reprovação enquanto observava aquele salão extravagante. - Seja como for, o excesso de luminosidade forma um deserto.

Uma vez mais, olhei em redor com um olhar mais crítico. Amani tinha razão. O palácio de Faddel era demasiado perfeito. Demasiado maravilhoso. Quando os olhos não vêem nada senão perfeição, até a perfeição perde o seu poder de nos perplexar.

Foi então que entraram no salão quatro serviçais. Uma delas trazia pequenos pratos de cristal e guardanapos cuidadosamente dobrados; as restantes erguiam grandes bandejas de cobre repletas de comida. Deliciada, optei por algumas amêndoas cobertas de açúcar, en­quanto Maha abarrotava o seu prato com pequenas sanduíches, queijos delicados, figos e cerejas.

Amani declinou toda e qualquer oferta de hospitalidade.

As quatro servas eram todas filipinas de beleza e graciosidade excepcionais. Enquanto fitava aquelas jovens mulheres inconcebivelmente atraentes, ocorreu-me de repente que Faddel deveria ser um homem verdadeiramente obcecado por tudo quanto fosse belo. Dava a impressão de se sentir determinado em rodear-se apenas de objectos de grande beleza, quer se tratasse de panorâmicas ou pessoas. Ao que tudo indicava, chegara à conclusão de que as pessoas fisicamente pouco atractivas não seriam bem-vindas no Paraíso. Quase co­mecei a rir-me em voz alta quando pensei que, se uma aparência bonita era o critério para a obtenção da chave do Paraíso, com certeza que o próprio Faddel seria excluído. Deus não abençoara o meu primo de modo a que pudesse ser considerado um homem bem-parecido.

Amani apanhou-me de surpresa quando correu para uma das janelas.

- Olhem, há uma família de gazelas a pastar no relvado! - disse aos guinchos.

Na realidade, avistei quatro gazelas. Teria Faddel um jardim zoológico?

- Mais tarde podemos perguntar a Khalidah se é possível darmos uma volta pelos jardins - prometi à minha filha. - Provavelmente existirão outros animais que possas ver. - Eu quero ver os cavalos - acrescentou Amani com determinação.

- Havemos de ver, minha filha.

Pouco depois ouvi um roçagar de seda e ergui o olhar, deparando com Khalidah segui­da por Layla, que acabavam de entrar no salão. Há vários anos que eu não via Khalidah, mas constatei que a sua beleza continuava imutável. À luz da preocupação de Faddel, por de mais evidente, com todas as coisas que fossem belas, senti-me aliviada por ela continuar a ser de assombrar. Caso contrário, certamente que o marido já se teria divorciado dela.

Usava um traje todo enfeitado com pérolas brancas de tamanho ínfimo, num tom de verde que realçava na perfeição os seus cabelos castanhos; os seus olhos eram de uma tona­lidade ambarina com centelhas douradas. A sua cútis de cor clara estava demasiado maqui­lhada para o meu gosto, embora não contribuísse em nada para diminuir o impacto das suas feições encantadoras.

Levantei-me para lhe retribuir o abraço que me deu.

- Sultana!

- Khalidah!

Depois de as mútuas saudações de paz e agradecimentos a Alá pela boa fortuna da nossa saúde estarem concluídas, Maha presenteou Khalidah com as nossas ofertas.

Esta agradeceu-nos profusamente e colocou as prendas de lado com todo o cuidado. Por seu turno, retirou três prendas de uma mesa pejada de presentes, dando instruções a Layla para que as entregasse ao nosso motorista. Mais tarde poderíamos abrir as nossas pren­das, disse ela, depois de regressarmos a casa.

Apresentou desculpas por estar sozinha, explicando que o marido e os seis filhos ti­nham ido visitar o palácio de um amigo, embora devessem voltar dentro em pouco. Mira­culosamente, ela apenas dera à luz filhos varões, e essa façanha, por si só, fizera com que fosse o alvo de grande admiração e inveja.

Khalidah mostrava-se ansiosa por nos mostrar a sua casa, pelo que foi com satisfação que a segui através do vasto Complexo de pavilhões. Cada um destes consistia num pequeno conjunto de divisões, cada numa decorada com tesouros de uma beleza inimaginável. Ao fim de pouco tempo, sentia a minha cabeça num rodopio ao ouvir os pormenores que Khalidah nos dava relativos ao chão de mosaicos, murais e tectos pintados.

Não faltou muito para que eu desejasse escapar àquela profusão de banheiras de alabas­tro, jarras ornamentadas com jóias e cobertas de seda. Necessitava de ar e espaço, o que me levou a sugerir que fôssemos para o jardim.

- Ouvi muita coisa acerca dos teus maravilhosos jardins.

- Sim, claro - concordou Khalidah afavelmente. - Sentemo-nos no jardim

- E os garanhões, mãe - recordou-me Amani.

Khalidah reagiu de maneira estranha ao pedido de Amani. Apesar do excesso de ma­quilhagem, apercebi-me de que as suas faces empalideceram subitamente. A voz tremia-lhe. - Pois bem, esse é um domínio dos homens, Amani.

- Eu gosto de cavalos e não sou homem - alegou Amani cheia de indignação.

- Amani! - adverti, enquanto olhava para Khalidah com alguma cautela. – Ainda temos de visitar outros lugares. Hoje só podemos visitar os jardins.

Eu não mantinha uma relação estreita com esta prima, mas sabia que não eram muitas as pessoas acostumadas a lidar com uma criança tão indisciplinada como Amani.

- Venham, vamos até aos jardins - convidou Khalidah com graciosidade, ignorando o comportamento grosseiro da minha filha.

Maha disse que precisava de ir à casa de banho, acrescentando que se juntaria a nós mais tarde. Entretanto, Layla já regressara depois de ter feito o recado de que fora incumbi­da, pelo que acompanhou Maha.

Reparei nos lábios de Amani, os quais, intumescidos devido à ira que sentia, formavam um beicinho deveras pouco atraente. Quando começou a caminhar ao meu lado, belisquei­-lhe o braço, indicando-lhe assim que devia conter a língua e o seu mau feitio.

Khalidah conduziu-nos por um amplo caminho de seixos flanqueado por sebes cerra­das. Avistámos o jardim muito antes de lá chegarmos e, tal como eu tinha esperado, provou ser bastante requintado. O perímetro era bordejado por árvores, e em cada canto cresciam plantas que formavam uma florida nuvem de botões e flores. A fragrância do perfume das flores chegava-nos às narinas enquanto caminhávamos despreocupadamente pelo jardim. Os canteiros planos, e cheios de flores, davam lugar a pequenos lagos pejados de peixes exó­ticos; vimos uma série de riachos de águas borbulhantes cuidadosamente construídos, o que nos rodeava de uma atmosfera tranquilizante de água a correr. Senti-me verdadeiramente espantada.

O meu olhar foi atraído por um belveder artisticamente traçado.

- Podemos sentar-nos?

- Com certeza, tudo o que vos der prazer.

Estava eu prestes a sentar-me quando Amani soltou um pequeno grito. Tinha reparado numas gaiolas cheias de pássaros que se encontravam por perto.

Segui o seu olhar. Eram umas gaiolas pequenas que pendiam dos ramos de todas as árvores, e todas elas mantinham em cativeiro um número excessivo de pássaros.

Amani correu apressadamente para as gaiolas.

- Tens muitos pássaros, Khalidah - comentei com um certo mal-estar enquanto observava Amani, que ia que nem uma flecha de uma gaiola a outra.

Khalidah dava a impressão de estar mesmerizada pela pequena figura apressada de Amani. Falava como se estivesse mergulhada num transe.

- Sim. Faddel acredita que o Paraíso está cheio do trinar de muitos pássaros.

Até mesmo à distância eu conseguia detectar a expressão de fúria estampada no rosto de Amani.

- Amani? - chamei - Amani, por favor, vem para junto de nós, minha querida.

Com os punhos cerrados numa manifestação de cólera, Amani correu na direcção de Khalidah começando a gritar.

- Estas gaiolas são demasiado pequenas! Não têm comida nem água suficientes!

Khalidah pareceu momentaneamente atordoada pela grosseria da minha filha; faltaram­-lhe as palavras.

- Amani! - repreendi. - Deves pedir desculpa!

As lágrimas corriam pelas faces da minha filha.

- Alguns dos pássaros estão mortos!

Voltei-me para Khalidah, fazendo uma tentativa para desanuviar a situação.

- Não prestes atenção a Amani. Para a minha filha, todas as criaturas constituem fonte de um infindável fascínio.

Amani olhou-me desdenhosamente como se eu fosse uma traidora.

- As gaiolas são excessivamente pequenas! Não têm comida suficiente!

- Amani! Ordeno-te que peças desculpa. Imediatamente!

Num esforço para apaziguar a minha filha, Khalidah começou a tartamudear.

- Mas... minha querida, no Paraíso existem pássaros.

A minha filha gritou com tanta força que as veias do pescoço e da fronte ficaram visíveis sob a pele.

- Os pássaros no Paraíso voam em liberdade!

Khalidah mantinha as mãos enclavinhadas na garganta.

Amani estava prestes a entrar num estado de histerismo.

- Voam em liberdade, digo-te eu! Os pássaros no Paraíso voam em liberdade! Tu és cruel por os manteres confinados desta maneira!

- Amani! Já chega! - Dirigi-me para a minha filha, preparada para lhe dar um bom abanão. Estava na hora de a levar para casa.

Khalidah mantinha a mão na garganta.

- Mas volto a dizer-te, Amani - começou a dizer, mostrando-se impotente -, que existem pássaros no Paraíso. Tenho a certeza disso.

Amani lançou-lhe um olhar coruscante de ódio. A sua voz estava cheia de desprezo. - Jamais virás a descobrir! Os teus olhos malvados nunca verão o verdadeiro Paraíso! Sentindo-se desconcertada perante uma agressão tão inesperada, Khalidah dobrou-se sobre si mesma e perdeu a consciência.

Horrorizada, fiquei a observar Amani, a qual, agarrando naquela oportunidade, corria de uma gaiola para a outra. Começou a retirá-las das árvores!

Enquanto me ajoelhava tentando erguer Khalidah, vi que Maha corria na minha direc­ção num estado de grande agitação. A sua voz elevada deixava transparecer indignação.

- Mãe, sabias que o primo Faddel mantém prisioneiras um grupo de raparigas muito jovens? Tem um harém de mulheres jovens! Estão sob cativeiro num dos pavilhões! Alarmada e chocada, eu limitava-me a olhar com fixidez para Maha.

Foi então que Maha reparou em Khalidah caída por terra.

- O que é que aconteceu à prima Khalidah?

Senti-me espantada comigo mesma com o meu tom de voz calmo.

- Amani insultou-a. Khalidah perdeu os sentidos. - Fiz um gesto na direcção do palácio. - Vai buscar ajuda, depressa.

- E quanto àquelas pobres raparigas?

- Despacha-te, Maha. Mais tarde lidaremos com esse problema. - Baixei o olhar para Khalidah, ficando aliviada ao constatar que continuava a respirar.

- Vai buscar ajuda! Imediatamente! - ordenei a Maha.

Esta começou a correr na direcção do palácio gritando pelo nome de Layla.

Por entre todo aquele tumulto e confusão, avistei Amani a sair do jardim, debatendo-se com um carregamento difícil de manejar. Levei alguns momentos até compreender que a minha filha se apropriara das gaiolas que continham os pássaros de Faddel!

- Ó Alá! - gritei então. - Amani! Amani! Volta aqui!

A braços com tantas gaiolas, quantas lhe eram possível levar, Amani desapareceu de vista.

 

                   AVES-DO-PARAÍSO

EM TEMPOS OUVI alguém dizer que não nos recordamos de dias da nossa vida, embora nos recordemos de momentos. Sei que isto é verdade, dado que eu própria já vivi tais momentos de «pico».

Todavia, naquela ocasião, senti-me invadida pelo desespero enquanto segurava na ca­beça de Khalidah sobre o meu regaço. Com esforço, procurei Maha, aguardando impaciente­mente que ela regressasse. Sentindo-me impotente, só conseguia observar o pequeno corpo de Amani que corria velozmente de um lado para o outro através do jardim, em incursões em que juntava gaiolas apinhadas de aves chilreantes. Jamais me esquecerei desse momento!

Por fim, Maha regressou ao jardim na companhia de Layla. No encalço das duas vi­nham três homens egípcios. Só me restava assumir que aqueles homens eram serviçais a sol­do de Faddel.

Layla já fora advertida da difícil situação em que Khalidah se encontrava, pelo que rapidamente se apressou a prestar-me assistência juntando-se aos meus esforços, até então inúteis, de tentar reanimar a sua senhora. Com um manifesto mal-estar, os três homens limi­tavam-se a observar enquanto se mantinham em redor da figura inanimada de Khalidah.

Entretanto, Amani prosseguia com a sua urgente tarefa de esvaziar o jardim paradisíaco de Faddel de todas as criaturas cantantes. Felizmente, os empregados de Khalidah mostra­vam-se tão preocupados com o estado da sua ama que nem reparavam no comportamento frenético da minha filha, cena que tinha lugar nas costas deles.

Finalmente Khalidah abriu os olhos, mas quando viu o meu rosto acima do seu, gemeu e voltou a perder os sentidos. Após a terceira reanimação da minha prima, apenas para testemunhar as reincidências imediatas, decidi que Khalidah deveria ser levada para a sua cama. Enquanto dava instruções aos serviçais, pus-me de pé.

- Rápido, ergam a vossa ama e levem-na para dentro do palácio.

Os três homens trocaram olhares de inquietação, após o que deram alguns passos atrás. Os olhos traíam os seus pensamentos; apercebi-me de que me consideravam desarranjada do juízo. Finalmente, o mais baixo de todos começou a falar.

- Minha senhora, é proibido.

Ali, de pé, com a indefesa Khalidah aos meus pés, compreendi que aqueles homens se sentiam repugnados só de pensar em tocar no corpo de Khalidah, a qual era irrefutavelmente a sua ama, não obstante ser uma mulher.

Muitos fundamentalistas muçulmanos acreditam que todas as mulheres são impuras e que se tocarem, ainda que seja apenas na palma da mão, numa mulher que, aos olhos da lei, não esteja ligada a eles, sofrerão com carvões incandescentes que serão aplicados na palma das suas próprias mãos no Dia do Juízo Final.

Uma vez que se diz que o Profeta Maomé se recusou a tocar em qualquer mulher que não lhe pertencesse, existem muitas hadiths, ou interpretações, das palavras e acções do Profeta quanto a esta matéria. Uma hadith bastante popular sobre este tópico diz que «Um homem que esteja a rezar poderá interromper as suas orações caso uma de três coisas pas­sem defronte de si: um cão negro, uma mulher ou um burro». Em mais de uma ocasião cheguei ao ponto de ouvir o meu próprio pai dizer que preferia ser salpicado por um porco do que roçar contra o cotovelo de uma mulher que não conhecesse.

Sem pensar, corri apressadamente para os dois homens mais próximos de mim e agarrei-os simultaneamente pelos braços.

- Levem a vossa senhora para dentro do palácio! Imediatamente!

Os dois homens, com os olhos arregalados de receio, debatiam-se tentando libertar-se de mim. Com um olhar de choque e repulsa genuínos estampados no rosto, os dois homens baixaram-se até ao chão, começando a esfregar terra na pele dos braços onde eu lhes tinha tocado.

A reacção deles enfureceu-me. Eu continuava a sentir-me ofendida apesar de saber que o Alcorão adverte que se um homem tocar numa mulher que lhe seja estranha, e não puder encontrar água com que se lavar, então deverá procurar terra «limpa» para retirar as impure­zas dessa mulher, esfregando-se.

Entretanto, Layla, com uma grande agilidade de raciocínio, interveio.

- Esperem - disse ela. - Tenho uma ideia. - Num passo rápido, regressou ao inte­rior do palácio.

Voltei a concentrar as minhas atenções em Khalidah. Comecei a dar-lhe pancadinhas nas bochechas chamando-a pelo seu nome. Ela recusava-se a responder aos meus chama­mentos, mas quando me voltei para me dirigir a Maha, vi a minha prima a olhar-me através das pálpebras ligeiramente semicerradas. Era óbvio que Khalidah fingia o seu estado, de modo a poder escapar-se a responder às acusações de crueldade proferidas por Amani e, através deste comportamento, conquistar a nossa simpatia.

Pouco depois, Layla regressou com um cobertor que estendeu no chão junto da ama, como se fosse um manto. Dado que os estúpidos servos continuavam a recusar-se a tocar em Khalidah, Layla, Maha e eu fizemo-la rolar da relva para cima do cobertor. Em seguida ordenei aos homens que agarrassem nas pontas do cobertor, mas eles continuaram a retrair­-se. Gritei-lhes que faria com que fossem encarcerados! Sabendo que eu era de sangue real, cada um deles, com mostras de relutância, lá agarrou numa ponta do cobertor. Com um sem­blante cheio de resignação sofrida, foi com todos os vagares que começaram a transportar a debilitada Khalidah de volta ao palácio.

Ordenei a Maha que fosse procurar a irmã, a qual eu deixara de ver pelo jardim, dizen­do-lhe que a levasse até junto de mim no palácio.

Depois de Khalidah se ter reanimado o suficiente para poder tomar chá, apresentei pro­fusas desculpas pelo infeliz incidente. A minha prima bebeu o seu chá em silêncio, recusan­do-se a olhar para mim. Mas quando lhe chamei a atenção para o facto de muitas crianças modernas serem incontroláveis e altamente excitáveis, ela brindou-me com um ligeiro ace­nar de quem concordava comigo. Eu tinha ouvido alguns mexericos em que se dizia que vá­rios filhos de Khalidah eram problemáticos, o que me levou a ficar com a impressão de que ela tinha um certo grau de compreensão por eu ter uma criança tão desafiadora como Amani.

Depois de umas despedidas sombrias, deixei o palácio sem ter informado Khalidah de que os pássaros de Faddel haviam deixado de viver no seu paraíso terrestre. O raciocínio que me levou a esta omissão deveu-se ao facto de eu ter planos optimistas para a devolução dos pássaros antes que alguém desse pela sua falta.

Enquanto percorria o extenso corredor que me levaria até à entrada do palácio, Maha correu para mim. Demos as mãos. Começou a falar quase sem fôlego por causa da corrida.

- Amani desapareceu e o nosso motorista também!

Respirando fundo, quase esbocei um sorriso ao recordar-me de um antigo provérbio que a minha mãe me repetia amiudadas vezes.

- Não te esqueças, Maha: «Independentemente da altura a que um pássaro possa voar, está destinado a pousar algures». Haveremos de encontrar Amani. E esses pássaros estarão com certeza junto dela.

Interrogando Mustafá, o porteiro egípcio, fiquei logo a saber que o nosso motorista aju­dara Amani a reunir os pássaros de Faddel, tendo conduzido a minha filha e o seu carrega­mento ilícito para bem longe do palácio. Mustafá mencionara que ficara surpreendido por a sua senhora ter oferecido à minha filha uma oferta Eid de tantos pássaros. Sussurrara estas palavras por detrás da mão, como se partilhasse um segredo: «o meu amo e a minha ama são muito agarrados aos seus pertences terrenos».

Olhei pensativamente para este pobre homem. Apercebi-me de que nem tudo era per­feito no paraíso de Faddel.

Na religião islâmica existe uma grande obrigação de se dar esmola, quer compulsiva quer voluntariamente. Durante muitos anos, tinham-me chegado aos ouvidos rumores de que Faddel, que era um dos homens mais ricos da Casa Al Sa’ud, transformara desde sempre num grande espectáculo o pagamento do obrigatório zakat (a pequena percentagem de ren­dimentos, semelhante a um dízimo, requerida por lei a todos os muçulmanos), e, contudo, recusava-se a contribuir voluntariamente com um único rial saudita para fins de caridade. No mundo árabe, espera-se que haja generosidade, muito em especial por parte dos que são abastados, mas até mesmo os árabes pobres são generosos ao extremo, acreditando que é uma grande humilhação receber mais do que se dá.

No entanto, Faddel era evidentemente um homem de mãos largas na satisfação dos seus desejos pessoais, embora fosse mesquinho no que dizia respeito aos outros. Faddel pagava salários de miséria ao seu pessoal, imaginei, estando disposto a esfregar com toda a satis­fação a face dos pobres nas areias do deserto, sem mostrar o mínimo remorso. Certamente que um homem dessa natureza exigiria a devolução dos pássaros que comprara com o seu próprio dinheiro.

Enquanto estes pensamentos desfilavam velozmente pela minha mente, Mustafá tratou de arranjar um dos motoristas de Khalidah que nos conduzisse ao nosso palácio. Enquanto a viatura rolava através das ruas de Jeddah, Maha mostrava-se impaciente por chamar à minha atenção o assunto das jovens raparigas no harém de Faddel.

Ciente da presença do motorista, silenciei a minha filha com um olhar e uma cotovelada. - Minha querida, prometo-te que serei toda ouvidos - murmurei-lhe - e que ajuda­remos essas jovens mulheres, mas primeiro temos de devolver os pássaros antes que alguém dê pela sua falta.

Assim que os meus pés tocaram no caminho que dava acesso à entrada do nosso palácio, comecei a chamar pela minha filha mais nova.

- Amani!

Três dos jardineiros filipinos, Frank, Tony e Jerry, ergueram o olhar que concentravam na tarefa da poda.

- Ela foi por ali, minha senhora - indicou Tony, apontando na direcção do jardim reservado às mulheres.

- Nós ajudámo-la a transportar uma grande quantidade de pássaros, minha senhora acrescentou Jerry.

Esplêndido, pensei, falarei com Amani enquanto os servos enchem as gaiolas.

Nesse momento avistei o automóvel de Kareem, que percorria com lentidão o caminho particular da nossa casa. Couracei-me para o que estava para vir enquanto o via sair do as­sento de trás, dirigindo-se a mim. Pareceu-me estar de bom humor depois de ter passado todo o dia com o rei e com os outros primos da realeza, pois sorriu-me jovialmente.

Senti um baque de pena pelo meu marido, sabendo de antemão que a sua boa disposi­ção se dissiparia dentro em breve. Soergui as sobrancelhas num gesto de saudação, embora não tivesse falado ou sorrido quando ele me apertou a mão.

- Qual é o problema, Sultana? - perguntou Kareem, que me conhecia bem.

- Nunca serás capaz de acreditar no que tenho para te dizer - disse eu com alguma preocupação.

Enquanto lhe relatava as peripécias da tarde ocorridas no palácio de Faddel, as faces de Kareem foram adquirindo várias tonalidades de vermelho à medida que a sua fúria se acen­tuava.

- E agora, Amani está no jardim com os pássaros - concluí.

Sem fala, Kareem pôs-se de pé enquanto tentava abarcar as consequências de a sua fi­lha ter furtado um grande número de pássaros a um primo da monarquia.

O toque persistente do telemóvel de Kareem interrompeu os nossos agitados pensamen­tos e, para minha irritação, o meu marido atendeu o telefone. A conversa não era do seu agrado, dado que as suas faces ficaram ainda mais vermelhas.

- Sim - disse ele numa voz calma. - O que ouviste corresponde à verdade. Sim.

Vou tratar do assunto imediatamente. - Kareem lançou-me um olhar directo.

- Quem era?

- Faddel quer que esses malditos pássaros lhe sejam devolvidos. De imediato!

Gemi. Ainda não tinha decorrido mais de uma hora e Faddel já tivera conhecimento das tropelias de Amani! O meu plano de devolver os pássaros sem grande alarido deixara de ser viável.

Precisamente nesse momento, Maha veio a correr do jardim reservado às mulheres.

- Mãe, a Amani diz que prefere matar-se do que permitir que lhe tires os pássaros! Dei um estalo com as mãos.

- Estou convencida de que ela está a falar verdade - acrescentou Maha melodramaticamente. - Diz que se estrangulará com o cinto de couro vermelho!

Soltei um grito.

Com um olhar de preocupação, Kareem tomou o caminho do jardim das mulheres.

Maha e eu fomos atrás dele sem proferirmos palavra. Tony, Frank e Jerry seguiram o nosso exemplo, mantendo-se a uma distância discreta.

Amani permanecia de guarda em frente de uma fileira de gaiolas. No seu rosto via-se uma expressão de determinação; os seus olhos brilhavam de exaltação.

Apesar de se sentir furioso, Kareem falou com cautela.

- Amani, acabei de receber um telefonema muito perturbador do primo Faddel.

Contou-me uma história inacreditável. Diz que tu roubaste os seus pássaros. Isto é verdade, minha filha?

Amani esboçou um sorriso com lábios que eram contrariados pela expressão do seu olhar.

- É verdade que salvei alguns pássaros de uma morte terrível, meu pai.

- Sabes bem que deves devolver esses pássaros, minha filha - continuou Kareem com calma. - Não te pertencem.

Os meus olhos fitavam Amani com uma expressão de súplica, na esperança de que ela acatasse o que o pai lhe dizia.

O sorriso dissimulado de Amani desapareceu. Pensou durante breves momentos antes de inclinar a cabeça num gesto de desafio. Numa voz clara e segura, começou a citar um versículo do Alcorão: - «E eles alimentam, por amor a Deus, os indigentes, os órfãos e os cativos». - E acrescentou nas suas próprias palavras: - Os muçulmanos justos não deixa­rão que qualquer animal morra à fome.

Todos os muçulmanos sabem que as autoridades islâmicas concordam em que a pala­vra «cativo» abrange os animais sujeitos a cativeiro pelo homem, e que as criaturas nessas circunstâncias devem ser alimentadas de forma adequada, sendo-lhes dado abrigo e cuida­dos por parte dos muçulmanos fiéis.

- Vais ter de devolver esses pássaros, Amani - repetiu Kareem, inflexível. Da boca de Amani saiu um grito estrangulado.

- Não havia comida nem água em muitas das gaiolas! - A sua voz enrouquecida abrandou de tom quando se voltou para olhar fixamente para uma das gaiolas mais próximas de si. - Quando olhei para as suas doces cabeças, soube que teria de os salvar! - Fez um gesto na direcção de um banco atrás de si. - Cheguei demasiado tarde para poder salvá-los a todos - acrescentou numa voz estremecida. - Descobri mais de duas dúzias de pássaros mortos.

Olhei para o banco, sentindo-me sobressaltada ao avistar um grande número de pássa­ros mortos alinhados numa fileira perfeita. Amani havia colocado à volta dos pequeníssimos corpos uma coroa de flores acabadas de colher. As lágrimas começaram a formar-se nos seus olhos.

- Mais tarde, tenciono fazer-lhes o funeral - prometeu Amani.

Maha, insensível, riu às gargalhadas; os três jardineiros filipinos fizeram eco do seu riso.

- Calem-se e saiam já daqui! - ordenou Kareem com irritação.

Maha encolheu os ombros, voltou-se e afastou-se, mas o som do seu riso divertido acompanhou-a enquanto percorria um caminho que atravessava o jardim.

Os três filipinos esconderam-se atrás de uma sebe. Não chamei a atenção de Kareem para a sua presença, uma vez que eram três dos meus serviçais preferidos, não me querendo arriscar a reflectir neles a enorme cólera cujo alvo deveria ser Amani. A vida dos nossos servos solteiros é tão vazia de uma existência familiar que têm tendência para mostrar um grande interesse pelos nossos dramas familiares.

Naquele momento Amani chorava convulsivamente.

- Recuso-me a devolver os pássaros! - declarou ela com veemência. - Se me obri­gar a fazer isso, lanço-me às águas do Mar Vermelho!

Fiquei quase sem respiração, primeiro a ameaça de estrangulamento e agora o mar!

Como é que eu poderia proteger a minha filha da força dos seus próprios sentimentos?

Na voz de Kareem adivinhava-se cansaço e exaustão.

- Amani, minha doçura, eu compro-te um milhar de outros pássaros.

- Não! Não! Não quero devolver estes pássaros! - Amani lançou o seu pequeno cor­po sobre uma das gaiolas com pássaros e começou a guinchar.

Atormentados, Kareem e eu corremos para junto dela.

- Querida! - gritei -, vais ficar doente. Acalma-te, minha pequenina. - O choro soluçado de Amani vinha do mais fundo do seu âmago. Eu tinha ouvido falar de uma prima que chorara tão histericamente perante a visão da mãe morta que provocara a ruptura de um vaso sanguíneo da garganta, tendo estado prestes a reunir-se à mãe na sepultura! Naquele momento ocorreram-me à mente visões horríficas da possibilidade de vir a acontecer tal coisa à minha própria filha. Nunca tinha visto Amani tão atormentada.

Numa atitude de grande ternura, Kareem tomou a filha nos braços.

- De acordo, Amani. Podes ficar com esses pássaros. Comprarei outros que oferecerei a Faddel.

Aquela ideia tão-pouco foi ao encontro da aprovação de Amani.

- Não! - gritou. - Estás pronto a fornecer novas vítimas ao assassino?

Kareem abraçava a filha bem junto de si. Ele e eu trocámos um olhar de desespero.

Tomou o pequeno rosto da garota nas suas mãos largas enquanto lhe implorava:

- Amani, se ao menos deixasses de chorar, prometo-te que pensarei em qualquer coisa que possamos fazer quanto a este assunto.

O choro desenfreado de Amani deu lugar a uns gemidos dignos de piedade. Kareem tomou a filha nos braços e levou-a para dentro do palácio, dirigindo-se para o quarto de Amani. Enquanto Kareem a confortava, passei uma busca ao quarto, de onde retirei todos os artigos que pudessem vir a ser utilizados com o fim de causar danos físicos a si própria. Também me apoderei de todos os objectos aguçados ou pontiagudos que se encontravam na casa de banho. Amani não pareceu aperceber-se daquilo que eu fazia.

Quando saí do quarto de Amani, ordenei a Maha que ajudasse as nossas serviçais a re­vistar todo o palácio. Até que aquela crise tivesse passado, eu queria que tudo aquilo que pudesse ser usado como arma ou para infligir ferimentos fosse fechado a sete chaves.

Maha começou a resmungar, dizendo que estávamos dispostos a salvar os estúpidos pássaros de Faddel e não nos preocupávamos com as jovens raparigas que se encontravam detidas contra a sua vontade. Era verdade que eu tinha esquecido tudo sobre aquilo de Maha alegar ter descoberto um harém com raparigas em situação angustiante. Apressei-me a sos­segar a minha filha.

- Maha, dá ao teu pai e a mim tempo para que esta situação se acalme. Depois disso, prometo-te que investigarei o que está a acontecer com essas jovens mulheres.

Quando Maha me mostrou uma expressão feia e começou a fazer pouco da irmã, a minha paciência esgotou-se e perdi as estribeiras.

- Agora cala-te! Sabes muito bem o que é que Amani sente quando se trata de ani­mais. Como é que te sentirias se a tua irmã cortasse a garganta ou se enforcasse?

- Prepararia um banquete e daria uma festa de arromba - respondeu Maha com des­dém.

Dei-lhe duas bofetadas que resultaram no seu arrependimento, apressando-se a fazer o que eu lhe tinha dito.

Quando regressei ao quarto de Amani, o meu maravilhoso marido elaborava uma lista das exigências de Amani no que respeitava aos cuidados a ter com os pássaros resgatados. Era óbvio que, tal como eu, ele pressentia que Amani se encontrava perigosamente à beira de um colapso nervoso.

Kareem voltou-se para mim erguendo a lista.

- Sultana, envia um dos motoristas com a incumbência de comprar vinte gaiolas espa­çosas, sementes variadas para pássaros e quaisquer brinquedos que a loja possa ter em armazém.

- Sim, claro - murmurei. Enquanto eu examinava a lista, fiz o que Kareem me pe­dira. No espaço de uma hora, dois dos nossos motoristas tinham regressado da cidade depois de terem ido às lojas especializadas em animais de estimação; ambos tinham açambarcado tudo o que havia nesses estabelecimentos que se relacionasse com os cuidados a prestar a pássaros.

Kareem deu instruções aos nossos seis jardineiros para que pusessem de lado as suas tarefas habituais a fim de ajudarem a mudar os pássaros das gaiolas pequenas para as novas, bastante mais espaçosas. Só depois de Amani ter inspeccionado os pássaros, vendo com os seus próprios olhos que as criaturas estavam a ser bem alimentadas, abrigadas e com água para beber nas gaiolas de maiores dimensões, é que ela concordou em ir dormir.

Eu continuava a sentir-me apreensiva devido aos acontecimentos daquele dia, pelo que destaquei seis serviçais para vigiarem a minha filha enquanto ela dormia, tarefa em que se revezariam por turnos.

Maha, continuando irritada por causa dos eventos do dia, recusou-se a fazer-nos com­panhia durante a refeição da noite. Kareem e eu estávamos demasiado exaustos emocio­nalmente para nos preocuparmos com a sua atitude, tendo permanecido em silêncio enquan­to comíamos uma ligeira refeição de espetadas de galinha sobre uma camada de arroz.

Faddel telefonou a Kareem por três vezes, mas este recusou-se a atender as chamadas. Só depois de terminarmos a nossa refeição é que ele lhe retribuiu o telefonema, assegurando Faddel de que o visitaria no dia seguinte.

Em seguida, Kareem informou a cozinheira de que tomaríamos o café no jardim reser­vado às mulheres, onde nos sentámos a uma mesa debaixo de uma das árvores. Apesar de ser quase escuro, o som jovial do chilrear dos pássaros irrequietos e o chapinhar nos bebe­douros criavam uma comoção barulhenta difícil de ignorar. Mas foi com satisfação que eu escutava os pássaros que desfrutavam das suas novas vidas.

Um olhar que Kareem me lançou fez com que eu me levantasse da cadeira e fosse para o seu colo. Sabia que os pensamentos do meu marido eram iguais aos meus: caso devolvês­semos aqueles pássaros, Amani seria muito capaz de pôr em risco a sua integridade física. E contudo, se optássemos por comprar outros pássaros que substituíssem os que ela havia furtado, certamente que Amani acabaria por descobrir o logro. Por outro lado, Faddel não era o tipo de homem que desistisse com facilidade. O que é que nós poderíamos fazer numa situação daquelas?

- Tens algum plano, Kareem? - perguntei-lhe num sussurro.

O meu marido suspirou mas não proferiu palavra durante um longo momento.

- Aquele Faddel é um sacana avarento. Decidi doar-lhe uma parcela das minhas me­lhores propriedades em Riade se ele desistir de manter pássaros, seja de que espécie forem, no seu ridículo paraíso. Isso fará com que Amani se sinta feliz.

- Um imóvel dos mais valiosos a troco de um amontoado de pássaros cantantes todos sujos! Ó Alá. Vamos passar a ser o alvo de uma grande risota!

- Não. Faddel não mencionará este assunto. Não só é um avarento como também um cobarde. Tornarei bem claro que não será do seu interesse espalhar a notícia do nosso negó­cio privado.

- Ele é um homem malévolo - concordei, ocorrendo-me de súbito o que Maha afir­mara ter descoberto. Senti-me tentada a perguntar a Kareem se sabia alguma coisa sobre o harém particular de Faddel, mas concluí rapidamente que o meu pobre marido já tinha tido a sua quota-parte de problemas num só dia.

Enquanto nos sentávamos sob as árvores, todos os pássaros do jardim começaram a cantar bruscamente e ao mesmo tempo. Kareem e eu ficámos sentados em silêncio enquanto ouvíamos os seus trinados, avassalados pela beleza daquele som.

Mais tarde, depois de termos tomado o nosso café, retirámo-nos para os nossos apo­sentos. Aquele longo dia havia finalmente chegado ao fim, pelo que eu me sentia extrema­mente grata. No entanto, quando me recordei da promessa que fizera a Maha, tive alguma dificuldade em conciliar o sono. Os eventos daquele dia tinham exaurido todas as minhas energias. O que é que a nova manhã nos traria?

 

                   O HARÉM PARADISÍACO

QUANDO ABRI os olhos na manhã seguinte, dei comigo sozinha na cama. Chamei por Kareem mas não obtive resposta. Os meus pensamentos estavam tão desordenados que necessitei de alguns minutos para que os acontecimentos do dia anterior me ocorressem à mente. Amani - e os seus pássaros! Esse tinha sido o motivo por que Kareem despertara tão cedo; o negócio com Faddel, que envolveria os pássaros, seria certamente a primeira prioridade do seu dia.

Vesti um simples roupão de algodão antes de deixar os meus aposentos. Primeiro parei junto da porta de Maha e fiquei à escuta. Não ouvi qualquer som, o que era um bom sinal. Se Maha já tivesse acordado, ouvir-se-ia através da porta o reverberar de um tipo de música capaz de perfurar os tímpanos. Era meu desejo que a minha filha dormisse até ao meio-dia. Eu necessitava de tempo a sós para arquitectar uma resposta apropriada à alegada situação de cativeiro das raparigas, a fim de impedir a nossa família de mergulhar numa outra crise que envolvesse os Faddel.

Com um suspiro, bani aquele pensamento desagradável da minha mente enquanto me encaminhava para o quarto de Amani. A minha filha mais nova continuava a dormir. Uma das cinco domésticas das Filipinas, das que eu tinha destacado para a vigiarem, estava senta­da à beira da cama.

- Minha senhora, a sua filha dormiu placidamente durante toda a noite.

Voltei pelo mesmo caminho, de volta aos meus aposentos antes de ordenar que me trouxessem um pequeno-almoço ligeiro composto por iogurte, queijo e pão espalmado da cozinha. Em contraste com os terríveis tumultos do dia anterior, dispunha de tempo para uma deliciosa ociosidade.

Preguiçosamente, comecei a mexer o café enquanto me sentava no nosso terraço particular, desfrutando da vista espectacular sobranceira ao Mar Vermelho que o nosso palácio em Geddah nos proporcionava. Estava um dia digno de um deus. O céu estava azul e sem nuvens, os raios de sol aqueciam sem estarem demasiado quentes àquela hora. As faixas de luz do sol penetravam profundamente nas águas cristalinas do Mar Ver­melho. Ao observar as ondas que se espraiavam lenta e suavemente contra a linha da costa, ao fim de pouco tempo o meu corpo ficou em sintonia com o ritmo do mar. Se ao menos todos os dias pudessem ser tão serenos como este.

Antes de ter terminado o meu pequeno-almoço, Kareem regressou a casa. Instalou-se na cadeira ao meu lado, começando a petiscar da comida que ia tirando com os dedos dos pratos.

Eu observava em silêncio as belas feições do meu marido, prolongando aqueles minutos de tranquilidade tanto quanto me fosse possível.

- Conta-me - disse eu por fim.

Kareem uniu os sobrolhos, abanando a cabeça com uma expressão de cansaço.

- Aquele sacana do Faddel afirma ter desenvolvido uma afeição muito especial pelo diabo dos pássaros.

- Não está disposto a trocar os pássaros por uma propriedade? - perguntei, sem querer acreditar no que ouvia.

Kareem soergueu as sobrancelhas.

- Claro que está disposto, Sultana. Mas mostrou-se deliberadamente relutante.

- Conta-me tudo.

- Não desejo reviver todos os pormenores, Sultana - retorquiu ele com alguma impaciência. - Tudo de que precisas de saber é que agora somos proprietários dos pássaros do primo Faddel, ou melhor, Amani é que é a dona deles. Para além de ter a palavra de Faddel de que não voltará a ouvir-se qualquer trinado de pássaro no seu paraíso terreno. - Baixou ligeiramente o seu tom de voz. - Estou convencido de que o homem é um lunático. Será possível que acredite verdadeiramente que pode ser mais esperto do que Deus ao experimen­tar o paraíso sem a morte? - Kareem abanou a cabeça de um lado para o outro mostrando uma expressão intrigada. - Um autêntico lunático.

Brindei o meu marido com um sorriso de gratidão.

- Pelo menos Amani sentir-se-á consolada. Não existem muitos pais que fossem a tais extremos pela felicidade dos seus filhos. - Inclinei-me para o meu marido, dando-lhe um beijo nos lábios à laia de brincadeira.

Mas o semblante de Kareem endureceu.

- Sultana, estes primos nunca foram nossos amigos; portanto, não sou capaz de compreender como é que optaste por visitá-los em primeiro lugar. Por favor, para benefício de todos nós, a partir de agora mantém-te afastada dessa família.

Tentei ocultar as minhas emoções para que não se reflectissem no meu rosto. Desejava desesperadamente pôr Kareem ao corrente da chocante afirmação de Maha de que existia um harém onde havia raparigas cativas contra a sua vontade, e, caso isso fosse verdade, dar­-lhe a conhecer a necessidade urgente que sentia em ajudá-las. Mas eu não podia falar, uma vez que aquela ocasião não era a mais oportuna. Eu sabia que o meu marido consideraria o destino das jovens mulheres em cativeiro como algo que estava fora da sua esfera de in­fluência. Sem dúvida que me proibiria de interferir no assunto.

Kareem agarrou-me no braço, olhando-me profundamente nos olhos enquanto dizia:

- Mantém-te afastada de Faddel e de Khalidah. Estás a compreender, Sultana?

Limitei-me a um acenar de cabeça murmurando:

- Wala yoldaghul moumenu min juhren marratayn - que significa: «Aquele que acredita nunca é mordido segunda vez por uma serpente do mesmo buraco de serpente».

Mostrando-se satisfeito por ter exposto as suas razões, Kareem levantou-se afivelando uma expressão solene.

- Temos de ser sensatos quando escolhemos aqueles com quem nos relacionamos, Sultana. Qualquer associação com gente da igualha de Faddel só nos poderá acarretar conse­quências desagradáveis. Estou a pensar em visitar Hanan e Mohammed - acrescentou o meu marido. - Gostarias de vir comigo?

- Estou-te agradecida, mas não. É preferível que hoje eu fique junto das nossas filhas. Mas, por favor, meu querido, importas-te de levar as prendas Eid que eu comprei para lhes oferecer?

Eu sentia um grande afecto por Hanan, a irmã mais nova de Kareem, assim como pelo marido Mohammed. Na realidade, além da mãe de Kareem, Noorah, eu gostava de todos os membros da família do meu marido, aguardando com grande deleite a oportunidade de os visitar na companhia do meu marido. À medida que os anos iam passando, compreendia que era realmente muito afortunada por ter casado com alguém de uma família como a de Kareem.

Pouco depois o meu marido saiu do palácio. Quando acabei de tomar banho, fui infor­mar Amani das boas novas que o pai me trouxera. A pobre garota continuava na cama dor­mindo a sono solto. O dia anterior havia sido tão difícil para ela! Olhando para a forma adormecida do corpo da minha filha, senti-me invadida pelo grande amor que nutria por ela, mal-grado a sua língua afiada. Beijei-lhe a face ao de leve antes de sair ao encontro de Maha.

Com a crise de Amani posta de lado, sabia que agora teria de prestar mais atenção à história de Maha a fim de continuar a manter o respeito que a minha filha me tinha, bem como o respeito que tinha por mim própria na qualidade de defensora dos direitos da mulher.

Maha já se levantara e estava a vestir-se. Para minha grande surpresa, constatei que não ouvia música. Os seus olhos foram ao encontro dos meus no reflexo do espelho do toucador. Compreendi que ela continuava encolerizada devido ao incidente do dia anterior.

- O que é que aconteceu aos malfadados pássaros? - perguntou ela num tom de amuo.

- O teu pai já tratou do problema - respondi-lhe cautelosamente. - A partir de ago­ra os pássaros pertencem a Amani.

Maha mostrou uma expressão exasperada.

- Como é que o pai conseguiu arranjar isso?

- Fez uma proposta bastante generosa a Faddel- admiti.

- Pois bem, eu recuso-me a assistir ao funeral de quaisquer pássaros! - retorquiu Maha arrepanhando o lábio. - Estou a falar a sério, minha mãe!

Com suavidade, levei uma mão ao ombro de Maha, falando para a sua imagem reflec­tida no espelho.

- Se esse for o teu desejo, Maha.

Num gesto brusco, ela afastou o ombro da minha mão.

Eu sabia que um pedido de desculpas seria justificado.

- Minha querida, lamento muito o que sucedeu ontem. De verdade que tenho muita pena, mas ao ouvir-te dizer coisas tão cruéis e com tanta falta de sentimentos no que respeita à tua irmã, isso fez com que eu me sentisse deveras irritada. Acredita no que te digo: se acontecesse algum mal a Amani, a última coisa que tu farias seria festejar e dançar. - Fiz uma pausa por breves momentos antes de acrescentar: - Se alguma tragédia afectasse seria­mente Amani, o teu coração ficaria para sempre sobrecarregado pelas tuas palavras irreflec­tidas.

Depois de avaliar as minhas palavras, a fúria de Maha pareceu dissipar-se. Sorriu-me.

- Tens razão, mãe. - Girou sobre si mesma no banco do toucador, olhando atentamente para o meu rosto. - Agora já podemos ir salvar aquelas pobres mulheres no palácio do primo Faddel?

Soltei um suspiro fundo. Também eu, em tempos, me sentira avassalada pelo desejo de ajudar todas as mulheres em necessidade. Numa manifestação de ternura, acariciei a face de Maha antes de me sentar na sua cama.

- Querida, fala-me dessas jovens mulheres. Como é que tiveste conhecimento da sua existência?

Maha pôs de lado a borla do pó-de-arroz e voltou-se para mim. O ritmo da sua voz acelerou e as palavras entaramelaram-se.

- De acordo, mãe, vou contar-te tudo. Ontem, depois de ter saído da casa de banho daquele palácio demoníaco, não vi Layla em parte alguma. Uma vez que não sabia onde é que o jardim se situava, comecei a percorrer a propriedade à tua procura. Procurei por toda a parte e ao fim de pouco tempo perdi-me naquele labirinto de pavilhões! Dei comigo a per­correr o caminho que levava aos cavalos, convencida de que os jardins pudessem localizar­-se nessa área.

Maha fez deslizar na minha direcção o banco do toucador pelo chão. Agarrou as mi­nhas mãos e apertou-as nas suas.

- Mãe, o primo Faddel não possui nenhuns cavalos! Aquela tabuleta indica um pavilhão cheio de jovens mulheres de grande beleza!

Fui forçada a concentrar-me por um minuto antes de se ter feito luz na minha cabeça. Garanhões! Compreendi que aquela tabuleta era a ideia que Faddel fazia de uma boa piada - uma piada a expensas de rapariguinhas inocentes, sem dúvida alguma.

- Talvez existam algumas mulheres que optem pela vida que levam? – sugeri a medo. Eu sei que a pobreza que grassa em outros países muitas vezes obriga raparigas bastante novas, ou as suas famílias, a concordarem em vender o seu corpo.

- Não! Não! - desabafou Maha, sacudindo a cabeça vigorosamente de um lado para o outro. - Várias destas jovens mulheres lançaram-se aos meus pés suplicando-me que as salvasse! - Os olhos de Maha marejaram-se de lágrimas. - Algumas delas não terão mais de doze ou treze anos!

Soltei um grito de angústia. Aquelas rapariguinhas ainda eram mais novas do que Amani. - O que é que lhes disseste?

- Prometi-lhes que haveria de voltar, e dentro em pouco! Que levaria a minha mãe até a elas, e que ela saberia o que fazer.

- Oh, Maha. - Fechei os olhos e deixei que o queixo me pendesse para o peito. – Se ao menos a vida fosse assim tão simples.

Com um sentimento de grande desânimo, recordei-me do número de vezes em que também eu tinha sido tão idealista e optimista quanto a minha filha. Agora, aos quarenta anos, eu sabia que intrometer-me entre os homens e os seus apetites sexuais não era um assunto assim tão simples. Muitos homens sentem uma inclinação natural, e não apenas os homens do Médio Oriente, que os leva a procurar rapariguinhas muito novas, ou jovens mulheres, para servirem de suas conquistas sexuais. E, com muita frequência, dão a impressão de não se preocuparem que os seus prazeres sejam alcançados à custa de alguém tão jovem forçada contra a sua vontade.

- Mas que mundo tão cruel e maléfico em que vivemos! - desabafei com desânimo enquanto as lágrimas me assomavam aos olhos.

Maha fitava-me com uma expressão de quem confiava em mim.

- O que é que tencionas fazer, mãe? Eu prometi-lhes!

Admiti algo que me era penoso. - Não sei, Maha. Não sei.

- Talvez o pai possa ajudar - retorquiu Maha com um sentimento de esperança que se reflectia no seu rosto inocente. - Tal como ele ajudou a salvar os pássaros de Amani!

Deixei-me ficar sentada em silêncio, debatendo-me contra a força irresistível da nossa realidade. Recordei-me com toda a clareza de uma altura em finais de 1980 quando Corazon Aquino, à época a presidente das Filipinas, tinha transformado aquele assunto numa questão diplomática: as jovens filipinas que eram contratadas como criadas para trabalharem na Ará­bia Saudita mas que, quando chegavam a este país, eram forçadas a servir como escravas com objectivos sexuais. Aquino tinha proibido as filipinas solteiras de viajarem para a Ará­bia Saudita.

Nessa ocasião, o nosso próprio rei Fahd ficou furioso perante esta restrição insultuosa, tendo reagido com uma proibição da sua lavra, decretando que todos os filipinos, tanto ho­mens como mulheres, estariam proibidos de trabalhar na Arábia Saudita caso a proibição da presidente Aquino entrasse em vigor. A corajosa tentativa de Aquino para proteger as suas concidadãs foi um fracasso, dado que a economia do seu país dependia em grande medida dos filipinos que trabalhavam em terras do Médio Oriente cheias de riquezas que advinham da indústria petrolífera, os quais costumavam enviar para o seu país as divisas em moeda estrangeira com que sustentavam as famílias. E, portanto, as jovens mulheres filipinas con­tratadas como criadas continuam a servir os nossos homens na qualidade de servas que satis­fazem os seus apetites sexuais, função que é acrescida das obrigações de trabalho doméstico. - Mãe?

Na minha mente, procurei uma solução, mas, uma vez mais, fui forçada a admitir o inevitável.

- Não sei o que fazer.

- Se o pai é capaz de libertar um monte de pássaros, por que motivo é que ele não pode fazer o mesmo em relação a seres humanos?

- O teu pai vai estar fora durante todo o dia.

- Nesse caso, minha mãe, temos de ir até lá. Traremos essas raparigas para nossa casa e podemos contratá-las como criadas! - disse a minha filha cheia de paixão.

- Maha, o assunto é mais complicado do que tu pensas.

Com um salto, a minha filha pôs-se de pé; no seu rosto reflectia-se fúria e sofrimento. - Nesse caso, vou sozinha! Tal como Amani fez com os pássaros, eu própria libertarei essas raparigas!

Sabendo que a minha filha já tomara uma decisão, compreendi que não me restava qualquer escolha.

- Muito bem, Maha. Iremos juntas.

Informei a minha criada filipina, Letha, de que íamos sair, dando-lhe instruções para que, mal Amani despertasse, lhe dissesse que a partir de agora os pássaros eram dela. E de seguida acompanhei Maha de regresso ao «Palácio Paraíso», sem saber o que me esperaria.

Depois de termos chegado aos terrenos do palácio de Faddel, disse ao nosso motorista: - Vamos encontrar-nos com Khalidah no exterior do palácio - apontei para a tabule­ta que dizia «garanhões». - Por favor, deixe-nos aqui e vá para os portões, onde deve espe­rar que o chamemos. - Tanto o motorista como eu tínhamos telemóveis.

Um olhar de cepticismo atravessou o semblante do motorista, embora tivesse acatado as instruções que eu lhe dera.

Maha e eu mantínhamo-nos em silêncio enquanto percorríamos o extenso caminho. Ambas tínhamos plena consciência de que estávamos a envolver-nos num assunto muito sé­rio. E tudo sem o conhecimento de Kareem.

Ao fim de pouco tempo, avistei o infame pavilhão, isolado, tal como Maha o havia des­crito. No que me dizia respeito, aquele edifício parecia idêntico aos outros pavilhões, com a excepção de que as janelas tinham grades, como constatei depois de uma análise mais minuciosa.

- Como é que vamos entrar? - perguntei num murmúrio, certa de que aquele edifício estaria fechado a sete chaves.

- A porta não está fechada à chave - informou-me Maha, embora me custasse a acre­ditar. - Perguntei às raparigas por que razão é que não fugiam. Várias delas disseram-me que já o tinham feito mas, sem passaportes e demais documentação de viagem de que neces­sitavam, assinados por um homem saudita, seriam sempre devolvidas a um castigo certo, para além de passarem a estar sujeitas a um tratamento ainda pior do que o anterior.

- Humm. - Não me custava nada a compreender essa situação. Infelizmente, a maior parte das pessoas que vivem na Arábia Saudita, tanto estrangeiros como cidadãos do país, sentir-se-iam demasiado receosos de possíveis retaliações, o que os impediria de oferecer ajuda a qualquer mulher que afirmasse estar a ser vítima de servidão sexual. São escassas as pessoas que se arriscariam a serem encarceradas em benefício de um estranho; era frequente os homens da minha família vingarem-se de pessoas que se atrevessem a expor a faceta sombria da vida na Arábia Saudita.

Enquanto nos aproximávamos do pavilhão, um homem baixo e com um aspecto estra­nho saiu de uns arbustos interpondo-se no nosso caminho. Ambas nos sentimos tão choca­das com a sua aparição que gritámos.

Com a respiração arquejante, fiquei imobilizada sem proferir palavra enquanto avaliava aquela invulgar criatura. Era de estatura baixa e escanzelado, com uma pele de um negro de ébano. Dava a impressão de ser mais baixo do que na realidade era devido a uma curvatura da coluna vertebral. As faces, de pele curtida pelo tempo, mostravam a sua extrema idade. A pele caía-lhe em dobras flácidas em redor das mandíbulas. Sim, concluí, na realidade aquele era o ancião mais idoso com que alguma vez me deparara.

No entanto, e apesar da sua idade avançada, usava uma túnica de um amarelo garrido e um colete vermelho enfeitado com lantejoulas. Tinha um turbante de seda numa tonalidade turquesa, o qual enrolara à volta da cabeça. As calças compridas, talhadas num tecido em brocado rico, tinham fios dourados, sugerindo os costumes de uma outra época.

- Em que é que a posso ajudar, minha senhora? - A voz do homem fazia-se ouvir num timbre invulgarmente agudo. E de simpatia!

Examinei o seu rosto mais de perto, deparando com uns olhos castanhos que cintilavam de curiosidade.

- Minha senhora? - O homem acenou uma pequena mão de pele escura em frente dos meus olhos.

Reparei que ele tinha um anel em cada dedo.

- Quem és tu? - perguntei a custo.

- Sou Omar - respondeu ele cheio de orgulho. - Omar, do Sudão.

Pela primeira vez, apercebi-me de que o rosto do ancião era tão desprovido de pêlos como o meu. Subitamente, ocorreu-me um pensamento. Estaria eu a olhar para um eunuco? Interroguei-me. Com certeza que os eunucos teriam deixado de existir há muito na Arábia Saudita!

Num passado ainda não muito distante, viviam bastantes eunucos na Arábia. Embora a fé islâmica proíba os muçulmanos de castrarem rapazinhos com as suas próprias mãos, aos que perfilhavam esta religião não estava interdito possuírem escravos eunucos. De facto, os meus antepassados consideravam os eunucos como bens extremamente valiosos, estando dispostos a pagar avultadas quantias pela sua posse. Em tempos idos, os eunucos tinham por missão vigiar os haréns dos árabes abastados. Também era frequente avistá-los nas mesqui­tas de Meca e Medina, onde tinham a incumbência de separar as mulheres dos homens sem­pre que qualquer membro dos dois sexos entrasse em qualquer mesquita.

Ali estava eu, nos nossos dias, a olhar para um desses eunucos tristemente envelhecido.

Tinha a certeza de que era isso mesmo.

Ocorreram-me aos lábios palavras de azedume, uma vez que fiquei imediatamente con­vencida do papel que aquele homenzinho desempenhava no pavilhão de Faddel.

- Suponho que estejas de guarda ao harém de Faddel?

- Não, minha senhora - replicou ele rindo-se à socapa -, de facto não estou. ­Beliscou as dobras de pele flácida que lhe pendiam do braço. - Eu só teria capacidade para guardar prisioneiros que fossem voluntários, nada mais.

Baixei os olhos para aquela figura mirrada, constatando que ele tinha razão.

- Em tempos, o pai de Faddel foi meu amo - começou ele a explicar. - O filho per­mite-me que continue a viver aqui.

Maha ultrapassou com rapidez o receio que o homenzinho lhe inspirara. Manifestou a sua impaciência tocando-me no braço.

- Mãe! Por favor, temos de nos despachar!

A presença inesperada de amar transportara-me para outra época, fazendo com que me sentisse curiosa e desejasse fazer muitas perguntas àquele eunuco, mas a razão premente que me levara até ali tomou precedência. Tinha de encontrar as mulheres encarceradas antes de vir a ser descoberta por Faddel. A minha única esperança era que o eunuco não alertasse Faddel e Khalidah quanto à nossa entrada na sua propriedade, sem que para tal tivéssemos sido autorizadas.

- Viemos aqui com o único objectivo de falarmos com as jovens mulheres que vivem ali - expliquei, apontando para o pavilhão. - Não tencionamos demorar-nos muito. Dou­ -te a minha palavra de honra.

Omar inclinou a cabeça para o solo numa vénia cheia de graciosidade.

- Será muitíssimo bem-vinda.

Encantada perante aquela exibição de cortesia, sorri a Maha e passei apressadamente pelo homenzinho.

Assim que transpusemos a entrada do pavilhão, fomos logo rodeadas por um grande número de jovens mulheres que se mostravam muito agitadas. A maioria tinha feições asiáticas. Maha foi saudada com muitos abraços e beijos. Vozes felizes ecoavam pela sala.

- Mantiveste a tua palavra! Seremos libertadas!

- Caladas! Ainda acordam os que já estão na sepultura! - acautelei perante aquela euforia.

Levei um momento a inspeccionar o harém de Faddel, enquanto aquelas rapariguinhas ansiosas giravam à volta de Maha, fazendo-lhe toda a espécie de perguntas. Surpreendente­mente, levando em linha de conta a preocupação que Faddel mostrava para que tudo fosse belo, a sala onde nos encontrávamos tinha um aspecto bastante pouco requintado. Apesar de ser evidente que o mobiliário custara bom dinheiro, e de as paredes estarem revestidas por sedas douradas, a decoração excessivamente elaborada dava-lhe uma atmosfera espalhafa­tosa e de pouco asseio.

Viam-se pilhas de cassetes de vídeo e cinzeiros que transbordavam de pontas de cigar­ro, havendo cinza amontoada por toda a sala.

Examinei as jovens bem de perto. Eram todas extremamente belas, mas as roupagens espalhafatosas atraíam o olhar para mais do que os belos traços da sua fisionomia. Algumas trajavam ao estilo ocidental, com blusas de alças e calças de ganga; outras usavam camisas de noite transparentes. Não havia nada de fascinante nas indumentárias usadas naquele harém. Lamentavelmente, todas elas eram inconcebivelmente jovens.

Conquanto a maioria das raparigas fosse asiática, vi uma que me pareceu ser árabe. Várias fumavam cigarros e beberricavam bebidas geladas. Nunca me tinha passado pela ca­beça que um harém, e as suas ocupantes, pudessem ter um aspecto tão notoriamente ordiná­rio. Todavia, eu imaginava que aos olhos de Faddel estas jovens mulheres seriam réplicas das sedutoras virgens, as huris, descritas no Alcorão. Suspeitei que observava um palco que se destinava a proporcionar a Faddel deleites inenarráveis. E contudo, aquele deveria ser o cenário de infernos inadmissíveis para estas mulheres que ali se encontravam contra a sua vontade.

- Sentem-se depressa, todas vós! - ordenei enquanto tirava um bloco de notas e uma caneta da minha mala de mão onde cabia tudo e mais alguma coisa. - Não dispomos de muito tempo - acrescentei enquanto olhava na direcção da entrada do pavilhão. Fiquei sem respiração ao ver que Omar viera atrás de mim e de Maha, e que agora se encontrava con­fortavelmente sentado sobre o chão alcatifado. Esboçava um sorriso rasgado. Não obstante, havia algo dentro de mim que me dizia nada ter a recear daquele homenzinho.

- Agora vou passar-vos este bloco de apontamentos. Agradeço a todas que escrevam o vosso nome e o endereço onde os vossos familiares possam ser contactados.

A sala foi atravessada por um longo gemido de desilusão e frustração. Uma das rapari­gas mais velhas, a qual imaginei ter uns vinte anos, perguntou-me numa voz suave:

- Isso quer dizer que não vamos consigo hoje, minha senhora?

Com um sentimento de tristeza, abarquei toda a sala com um gesto da mão.

- Não me é possível. Olhem bem para vós mesmas, sois muitas. Não tenho maneira nenhuma de vos obter passaportes. Antes do cair da noite estariam todas de volta aqui. ­Fiz uma pausa, começando a fazer uma contagem rápida. Contei vinte e cinco rapariguinhas no interior daquela sala. Em seguida, tentei fazer-me ouvir acima das vozes das jovens.

- As vossas famílias têm de protestar junto das embaixadas dos países de origem de cada uma de vós. Esta é a melhor oportunidade de virem a obter a liberdade que tanto desejam.

Acto imediato, começaram a ouvir-se vozes choradas em clamor apresentando as suas objecções.

Uma das raparigas mais novas, que revelou ter vindo da Tailândia, tomou a palavra numa voz choramingada.

- Mas, minha senhora, foram os meus próprios pais que me venderam a este homem.

- A voz chorada enfraqueceu. - Eles nunca me ajudarão...

- Essa também é a minha história - interveio outra rapariga que tremia nas suas rou­pas reduzidas. - Fui levada da minha pequena aldeia no Norte para Banguecoque. O meu irmão recebeu muitos dólares americanos quando me vendeu.

- Eu acreditei que tinha sido contratada para trabalhar como criada! - atalhou outra das raparigas. - Mas não passou tudo de uma grande mentira!

- E eu? Eu estava empregada como costureira numa fábrica. Passava os dias a coser à máquina; enquanto as noites eram passadas a servir muitos homens. Fui vendida a três homens diferentes antes de ter sido comprada pelo amo Faddel.

Tentando reunir os meus pensamentos que tão perplexos estavam, troquei um olhar com Maha. Se as famílias daquelas rapariguinhas as tinham realmente vendido para uma vida de escravidão, como é que eu poderia ajudá-las?

- Deixem-me pensar - disse eu com nervosismo. - Necessito de me concentrar.

Entretanto, houve uma jovem de beleza delicada, com os olhos cheios de lágrimas, que me tocou ligeiramente no braço.

- A senhora deve levar-nos consigo! Se ao menos conhecesse a minha história, não me deixaria ficar aqui, nem sequer por um único momento!

Fitando os olhos entristecidos daquela jovem mulher, senti o coração despedaçado.

Apesar de recear estar a perder tempo, dispus-me a ouvi-la com toda a atenção.

- Eu venho de uma família numerosa do Laos - começou a jovem a dizer, sentindo­-se encorajada pelo meu silêncio. - A minha família passava muita fome e por isso, quando dois homens de Banguecoque ofereceram dinheiro para me levarem com eles, os meus pais não tiveram outra escolha. Fui acorrentada com outras três raparigas da minha aldeia, e em seguida fomos levadas para Banguecoque. Fomos deixadas num armazém espaçoso. Depois éramos obrigadas a ficar de pé, todas nuas, em cima de uma plataforma defronte dos homens que enchiam o armazém. Fomos vendidas num leilão. Houve duas raparigas que foram ven­didas ao dono de um bordel, mas eu fui comprada por um homem que era representante de alguns árabes. E foi assim que vim parar aqui, minha senhora. - A voz dela enfraqueceu, transformando-se numa súplica digna de piedade. - Por favor, não me deixe ficar aqui.

Aquela história deixou-me aturdida ao ponto de ficar em silêncio. Havia mulheres que eram vendidas em leilões aos que as arrematavam pelo preço mais elevado?

- Por que é que não leva estas raparigas ainda hoje, minha senhora? - perguntou Omar, interrompendo. - Deixe-as junto das embaixadas. Estou em crer que lá encontrarão abrigo.

O que Omar dizia era verdade. Ocorreu-me à mente um noticiário televisivo que vira em Londres, cujo tema eram as criadas filipinas que sofriam maus tratos no vizinho Kuwait, as quais haviam procurado refúgio dessa maneira. Apesar de o governo kuwaitiano ter negado essas histórias de maus tratos, tendo forçado as jovens mulheres a viverem numa espécie de limbo durante muitos meses, elas acabaram por conquistar a liberdade e regressar aos seus países de origem.

Uma vez mais, sorri a Omar. Esperara que ele não fosse um inimigo, embora nunca tivesse sonhado que ele pudesse ser um aliado.

As vozes suaves misturaram-se numa exigência de liberdade.

- Sim! Sim! Leve-nos ainda hoje!

Uma bonita rapariga de feições arábicas aproximou-se de mim a medo.

- Por favor, minha senhora, ajude-nos. O nosso amo é um homem muito cruel. Ele e quatro dos seis filhos procuram-nos todos os dias. E muitas vezes ele traz outros homens maus com ele.

- A nossa vida aqui é demasiado horrorosa - atalhou outra rapariga, olhando-me com uma expressão de súplica. - Nunca será capaz de imaginar tudo o que somos obriga­das a suportar neste lugar, minha senhora.

Respirei fundo. Deveria eu tentar salvar estas raparigas, quaisquer que fossem as conse­quências? Um olhar ao rosto de Maha respondeu à minha pergunta: Sim, devia! Mas primei­ro era necessário arquitectar um plano de acção. Fitei as raparigas em meu redor. Muitas delas usavam roupas extremamente reduzidas. Não poderia levá-las naquela figura através das ruas da conservadora Arábia Saudita. As multidões encolerizadas reunir-se-iam para lhes arremessar pedras, o que faria com que o meu plano falhasse redondamente. - Tendes mantos com que cobrir o corpo?

Várias das raparigas trocaram olhares.

- Que saibamos, aqui não há nenhuns - adiantou uma delas.

- Sirvam-se dos lençóis das camas - sugeriu Omar, lançando-me um olhar matreiro de quem conhecia a vida. - Existem muitas camas de onde se podem virar várias cobertas.

Olhei de fugida para as portas abertas que circundavam o harém. A maior parte davam acesso a pequenos cubículos onde se viam camas.

Enquanto as raparigas corriam de quarto em quarto reunindo lençóis e cobertas de cama, algumas das mais pequenas reuniram-se à minha volta. Senti-me atónita ao aperceber-me de que duas destas rapariguinhas eram meras criancinhas! Uma delas não teria mais de oito ou nove anos!

Apertei estas crianças bem junto de mim, esforçando-me por conter lágrimas de raiva.

Como é que uma mãe poderia vender a sua própria filha? Era absolutamente impensável.

Sentia a cabeça num rodopio. Sabia que não teria meios para transportar as vinte e cinco raparigas num só automóvel. A despeito do risco que envolvia esta missão secreta, era forçoso que eu telefonasse para casa, instruindo vários dos outros motoristas para que viessem ao meu encontro no palácio de Faddel.

- Maha, vai com estas garotas procurar cobertas com que possam tapar-se - disse eu à minha filha. - Quando Maha tirou as crianças dos meus braços, procurei o telemóvel dentro da minha bolsa, embora a oportunidade de fazer esse telefonema nunca viesse a surgir.

A sala transformou-se num caos quando Faddel, Khalidah e três homens corpulentos irromperam por ali adentro. Senti um frio de morte no sangue que me percorria as veias ao observar os olhos frios de Faddel.

- Quando ouvimos o tumulto que por aqui vai, não fazíamos a mínima ideia de que tí­nhamos uma convidada tão distinta - disse Faddel com um sorriso afectado enquanto retirava o telefone dos meus dedos entorpecidos. - Sultana, não és bem-vinda a esta casa. Sai daqui imediatamente.

Olhei para Khalidah, que se mantinha atrás de Faddel. Na última vez em que a vira, ela tinha desmaiado. Naquele momento mostrava-se absolutamente calma.

- Com certeza, Khalidah, que não aprovas o que aqui se passa.

- Não é a ti, Sultana, que cabe ajuizar aquilo que se passa no lar de um homem ­retorquiu ela com desprezo.

Quando as jovens mulheres apreenderam o significado do que estava a passar-se, ou­viu-se um coro de gritos que percorreu toda a sala. Faddel fez um gesto rápido com a mão. Os três homens entroncados que o acompanhavam começaram a empurrar as raparigas para os quartos, fechando-as à chave.

- Maha! - gritei, olhando à minha volta cheia de frenesim. - Vem já para aqui! ­

A hipótese de que a minha filha pudesse ser fechada à chave juntamente com aquelas pobres mulheres levou-me ao limiar de um ataque de histerismo.

Assim que a encontrei, agarrei-lhe nas mãos. Depois de se encontrar em segurança jun­to de mim, comecei a implorar a Khalidah, na esperança de que ela apoiasse a causa daque­las mulheres, suas iguais.

- Khalidah, deves saber que estas rapariguinhas são violadas repetidamente... pelo teu marido, filhos e outros homens! - Fiz uma pausa. - E sem dúvida alguma que, como mãe e esposa, esta situação não poderá ser do teu agrado, não será assim?

À superfície, Khalidah era extraordinariamente bela, mas as palavras que proferiu na­quela ocasião provaram-me que no seu íntimo era feia. Pior ainda, ela encontrava-se emo­cional e espiritualmente morta.

As minhas palavras não tiveram o efeito de a comover.

- Sultana, este assunto só diz respeito aos homens.

- Se realmente acreditas no que disseste, Khalidah, então não passas de um junco ao sabor do vento, sem capacidade para raciocinares por ti própria.

As faces de Khalidah enrubesceram, mas não deu réplica ao meu desafio.

Há alguns anos atrás eu ouvira dizer que a atracção que Khalidah sentira pela fabulosa fortuna de Paddel era o factor que a levava àquela obediência e lealdade cegas. Eu sentia uma enorme vontade de gritar a Khalidah, recordando-lhe um provérbio cheio de sabedoria: «Aquela que casa com um gorila por dinheiro, quando o dinheiro se dissipa, o gorila continua a ser um gorila». Na realidade, a vida é bastante estranha, sendo muito possível que um dia Khalidah desse por si junto de um Paddel empobrecido, cuja maldade provaria ser mais permanente do que a sua riqueza.

Mas optei por não dar a conhecer os meus pensamentos, apercebendo-me de que tais palavras não beneficiariam a causa da liberdade daquelas jovens mulheres.

Por seu lado, Paddel teve o arrojo de tentar justificar as suas perversas acções.

- Embora o assunto não te diga respeito, Sultana, todas as mulheres que aqui se encontram foram vendidas pelos pais. Receberam aquilo que almejavam, tal como eu. Estas transacções foram legítimas. Não fiz nada de mal.

- Em termos legais talvez não, Paddel. Mas moralmente, decerto que sim. Paddel limitou-se a um encolher de ombros.

Aguilhoada por saber de antemão que não seria bem sucedida, sendo-me impossível proporcionar a liberdade àquelas raparigas, insultei o meu primo intencionalmente.

- Paddel, será que para ti é assim tão terrivelmente difícil encontrar parceiras sexuais que não tenham de ser previamente acorrentadas?

- És uma besta malvada! És sim! - acusou Maha, voltando-se para ele com uma expressão desdenhosa.

- Sultana, estou em crer que tu e as tuas filhas andam a conspirar com o fito de enegrecerem a minha reputação - ripostou Paddel com um risinho de satisfação.

Maha colocou o braço à volta da minha cintura.

- Mãe! Não podemos deixá-las aqui, não é verdade?

Senti o coração desfeito ao olhar para o rosto de Maha.

- Sim, minha filha, é o que temos de fazer. Não nos resta nada que possamos fazer aqui. - Puxei-a para que me acompanhasse. - Vamos embora.

Entretanto, Khalidah virou costas e saiu da sala.

A voz suave e enganadora de Paddel proferiu palavras ameaçadoras enquanto me con­duzia, e à minha filha, para fora daquele lugar.

- Sabes, Sultana, se fosses outra pessoa qualquer, não teria hesitado em matar-te.

Caminhando ao lado daquele homem depravado, senti um ódio tão grande como jamais havia sentido por qualquer outra pessoa, até mesmo pelo meu irmão Ali. Como eu ansiava por poder ameaçar Faddel com um milhão de maldições! Contudo, eu sabia que a lei vigente na Arábia Saudita não tinha provisão nenhuma que pudesse auxiliar aquelas pobres rapa­rigas. Não havia nada que eu pudesse fazer. Mas o que me magoava acima de tudo era o facto de Faddel estar bem ciente dessa lacuna.

Enquanto nos afastávamos, ouvia os gritos das rapariguinhas que haviam ficado com os corações desfeitos, chamando por detrás das portas trancadas. Aquilo era algo que eu não conseguia suportar! Não era capaz de imaginar como é que aquela situação estaria a afectar Maha.

A minha mente foi invadida por pensamentos lúgubres. «Ó Alá! Que terra esta! Que gente esta! Temos tanta riqueza que nem pensamos duas vezes quando trocamos valiosos bens imobiliários por um ninho de pássaros mal amanhados que possam satisfazer os capri­chos disparatados dos nossos filhos. E contudo, estamos tão corruptos moralmente que, de maneira rotineira, mantemos jovens mulheres em cativeiro como escravas da sexualidade dos homens, e, incrivelmente, não existem meios legais à disposição de gente decente para que possam libertar essas mulheres». O sentimento de vergonha que eu sentia pelo meu país e pelos meus concidadãos estava ao rubro.

Faddel chamou o nosso motorista. Teve a precaução de se manter ao nosso lado até que nos visse partir. Quando o nosso carro se aproximou, Faddel abriu a porta, devolveu-me o telemóvel e despediu-se com uma expressão de ironia.

- Tens de voltar a visitar-nos, Sultana - disse, rindo-se sarcasticamente. - Mas, por favor, certifica-te de que te diriges à residência principal.

Por vezes, as derrotas que sofremos na nossa vida parecem estar para lá da resistência humana. Fiquei incapaz de falar, sentindo-me impossibilitada de raciocinar, até me ter visto livre da presença asquerosa de Faddel.

Maha começou a chorar. O meu coração estava demasiado magoado para poder ofere­cer-lhe palavras de conforto, limitando-me a acariciar-lhe os ombros.

Quando chegámos à primeira curva do caminho de acesso ao palácio, o eunuco Omar colocou-se em frente do automóvel. O nosso motorista meteu travões a fundo. Omar bateu no vidro da janela brindando-nos com o seu sorriso rasgado e desdentado.

- Abra a janela! - ordenei ao motorista.

- Minha senhora, posso ir consigo? - perguntou Omar na sua voz feminina de timbre agudo.

- Comigo? Pensei que fazias parte da família de Faddel.

- Eu disse que tinha autorização para viver aqui, minha senhora. Não disse que era bem-vindo - acrescentou. - Desde que o pai de Faddel faleceu, há mais de quinze anos, não sou verdadeiramente bem-vindo nesta casa.

- Bem... - olhei de relance para o espelho retrovisor, constatando que o motorista me observava com um semblante de alarme. Voltei a concentrar-me em amar. - Foste comprado como escravo pela família de Faddel?

- Há muitos anos que os escravos foram todos libertados.

Aquilo correspondia à verdade. Em 1962, o presidente norte-americano J. F. Kennedy apelou pessoalmente ao rei Faisal, que na altura desempenhava o cargo de primeiro minis­tro, para que abolisse a escravatura na Arábia Saudita. O nosso governo honrou o pedido do presidente Kennedy, tendo comprado a liberdade de todos os escravos que existiam no país pelo preço de quase cinco mil riais sauditas (1500 dólares por cabeça). Muitos destes escra­vos, então libertados, permaneceram na residência dos seus antigos senhores. Embora amar houvesse optado por continuar com a família de que em tempos fora propriedade, era intei­ramente senhor do seu destino.

- Por favor, minha senhora.

Pensando com rapidez, avaliei aquele pedido invulgar. Talvez Faddel viesse a punir amar por este não o ter informado da minha chegada ao harém. A partir de agora, eu estava bem ciente de que ele seria bem capaz de um acto hediondo.

- Pois bem, entra - convidei com alguma relutância. - Vem connosco.

- O que é que te leva a querer viver com a minha família? - perguntei ao homen­zinho depois de ele se ter instalado.

Omar examinou-se minuciosamente por breves momentos antes de me responder.

- Bem... - disse ele finalmente - há muitos anos que vivo nesta terra. Quando tinha oito anos fui roubado à minha família no Sudão, tendo sido vendido a um abastado turco. Nesse mesmo ano, o meu dono viajou para Meca por ocasião do haj. - Soltou uma risada casquinada. - Ele era um idiota gordo que comia muitas gorduras e açúcar, e o resultado foi ter caído fulminado enquanto andava à volta dessa pedra preta na grande mesquita. Fui levado pelas autoridades antes de ter sido dado como presente ao avô de Faddel, ao qual as autoridades deviam um favor qualquer. Presentemente, tenho oitenta e oito anos de idade. Portanto, tenho vivido entre a vossa gente durante oitenta anos. - Deixou-se ficar em silên­cio durante um longo momento antes de acrescentar: - Antigamente, os árabes deste país ainda tinham um pouco de humanidade nos seus corações. Mas já perdi a conta aos anos que passaram desde que, pessoalmente, testemunhei um único acto de generosidade. - Respirou fundo. - Há alguns anos, prometi a mim mesmo que serviria a próxima pessoa generosa que encontrasse. - Olhou para mim esboçando um sorriso cheio de jovialidade.

Foi então que me apercebi da realidade do que eu acabara de fazer. O meu marido era um homem indulgente, mas eu não era capaz de imaginar o que ele iria dizer quando depa­rasse com este eunuco vestido de uma maneira tão extravagante.

Quando chegámos ao nosso palácio, Maha correu logo para o seu quarto lavada em lágrimas.

Disse a Omar que esperasse por mim na sala de estar principal. Foi com satisfação que ele obedeceu.

Fui procurar Amani, e, tal como sabia de antemão, encontrei-a no jardim com os seus pássaros. Deixei-me ficar a observar a minha filha enquanto ela apaparicava as suas aves com sementes especiais e mimos. Bem, pelo menos aqueles pássaros em especial não volta­riam a sofrer. O jardim estava cheio do seu alegre chilrear.

Respirei fundo, ao mesmo tempo que avaliava as minhas vitórias e derrotas. Os pássa­ros chilreantes estavam em liberdade, enquanto as jovens raparigas continuavam em cati­veiro!

Quando Kareem chegou a casa, encontrando-me sentada na sala de estar a tagarelar com um eunuco baixinho de pele negra, ficou a olhar-me com fixidez, lançando-me uma expres­são de total incredulidade. Pobre homem! Não fazia a mínima ideia do que acontecera du­rante a sua ausência. Tão-pouco sabia que a partir de agora tinha um eunuco que passaria a fazer parte do seu pessoal doméstico.

 

                   A HISTÓRIA DE UM EUNUCO

FORAM MUITAS AS vezes em que ouvi Kareem declarar que Deus escreve direito por linhas tortas. Agora, ao vê-lo dirigir-se a mim num passo cambaleante, como que en­torpecido devido ao choque, eu esperava ter a possibilidade de suavizar a reacção exaltada do meu marido ao recordar-lhe a afirmação que fizera.

- Kareem, neste momento compreendi o verdadeiro significado das tuas sábias pala­vras. Deus cose direito por linhas tortas. - Afastei o olhar do seu rosto, concentrando-me no eunuco. - Foi Deus quem trouxe Omar pessoalmente do Sudão para viver na nossa casa.

A reacção automática de Kareem, motivada pela proverbial hospitalidade árabe, impe­diu-o momentaneamente de manifestar a ira que sentia em relação a mim. Olhou para aquele estranho homenzinho sentado ao meu lado e saudou-o cortesmente.

- És muito bem-vindo a nossa casa, Omar.

Tentei enfeitiçar Kareem com o meu entusiasmo.

- Querido! A história de Omar é uma lenda do nosso passado!

Kareem não ocultou o cepticismo que sentia enquanto observava o conjunto das roupas espalhafatosas que Omar usava.

-Oh?!

Eu não queria que Kareem julgasse Omar com dureza, dado ter compreendido que aquele homem baixinho não escolhera o papel que fora forçado a desempenhar ao longo de toda a sua vida.

- Sim! A missão de toda a vida de Omar tem sido a de um protector. Um protector de mulheres!

Precisamente nessa altura, Amani entrou no palácio com uma fileira dos seus novos pássaros de estimação equilibrados sobre um braço. Como que por milagre, a nossa filha já tinha adestrado alguns dos pássaros que salvara do jardim paradisíaco de Faddel.

Com um sorriso rasgado que se lhe espelhava pelo rosto, Omar pôs-se de pé num salto.

- Jovem senhora, eu vi, escondido nos arbustos, a forma como levou esses pobres pássaros do palácio do amo Faddel, dando-lhes liberdade. Certamente que será favorecida por Alá pela sua bondade!

Amani nunca fora elogiada por ter protegido quaisquer animais. Desarmada, brindou Ormar com um sorriso caloroso.

A tolerância, ainda que relutante que Kareem mostrara, começava a transformar-se em alarme.

- Deus Todo-Poderoso, Sultana! O que é isto! Também trouxeste o anão de Faddel? - Omar não é um anão! - protestei. - Omar é um eunuco!

Kareem ergueu os braços ao céu.

- Sultana! - A sua voz elevada, e os movimentos gesticulantes que imprimia aos braços, fizeram com que os pássaros de Amani começassem a esvoaçar pelo salão em estado de pânico. - Pai! - gritou Amani.

Omar correu para ajudar a minha filha a juntar os pássaros e devolvê-los ao jardim.

Assim que a porta se fechou depois de os dois terem saído, tentei acalmar Kareem explican­do-lhe os acontecimentos da manhã, justificando como é que um eunuco idoso, vestido de maneira extravagante, vivia agora em nossa casa.

Quando Kareem começou a compreender que eu não só tinha desobedecido às instru­ções que me dera, regressando ao palácio de Faddel, como também criara outra situação de confusão no palácio quando me encontrava numa segunda missão de caridade, a tolerância que mostrara para com o meu comportamento dissipou-se por completo.

- Salvai-me, Alá, dos lábios mentirosos e línguas enganadoras! - gritou Kareem. As veias inchadas no seu rosto e pescoço eram preocupantes.

Tentei contar-lhe a situação difícil das pobres mulheres cativas contra a sua vontade, mas os gritos clamorosos do meu marido sobrepunham-se às minhas palavras. Ao fim de pou­co tempo, havíamos encetado um concurso de gritaria sem qualquer objectivo prático; a nossa discussão só terminou quando ambos ficámos enrouquecidos.

Logo que Kareem se remeteu ao mutismo, tentei contar-lhe a história trágica das po­bres mulheres subjugadas por Faddel com o propósito de servirem a sua sexualidade, mas até mesmo a tenebrosa realidade daquelas rapariguinhas inocentes encarceradas num harém não teve o mínimo impacto na cólera que ele continuava a sentir.

- Eu sei que primeiro deveria ter confiado em ti, meu marido - disse eu com humil­dade. - Mas tu já tinhas tantas preocupações por causa de Amani e dos pássaros que hesitei. - Aproximei-me mais dele, colocando a mão sobre a sua coxa. - Se eu não tivesse acedido a acompanhar Maha, fazendo um esforço para libertar aquelas jovens, ela jamais me perdoaria.

Kareem sacudiu a cabeça numa manifestação de ira.

- De que é que isso te serviu, Sultana? As mulheres continuam a pertencer a Faddel

Não há nada que possa alterar essa realidade! Sabes muitíssimo bem que ninguém neste país defenderá a causa de mulheres nessa situação! - Fez um gesto na direcção do lugar onde Omar estivera sentado. - Por conseguinte, o que é que conseguiste? O acréscimo de um eunuco idoso ao pessoal de uma família que não precisa dele?

Ficámos sobressaltados ao ouvir Omar a pigarrear atrás de nós. A julgar pela expressão sombria que se reflectia nas suas faces de peles flácidas, era evidente que ouvira os duros comentários que Kareem fizera.

- Vou sair de sua casa imediatamente, meu amo - tartamudeou Omar num tom de voz agudo e de humildade. - Tem toda a razão. Um eunuco é uma criatura sem préstimo. Pelo menos nos dias que correm.

Os olhos de Omar estavam humedecidos; receei que o pobre homem caísse de joelhos e desatasse a chorar.

Há alturas em que Kareem mostra ser um homem sensível, e esta foi uma dessas ocasiões.

- Lamento as minhas palavras impensadas, Omar. Aos olhos de Alá, não existe nin­guém que não tenha préstimo. E se Faddel não protestar por causa da tua ausência, serás muito bem-vindo ao seio da nossa família.

A postura de Omar adquiriu imediatamente outra desenvoltura.

- Oh, meu amo, ninguém sentirá falta da minha presença nesse palácio! Houve uma ocasião em que me ausentei com um visitante de Taif, e só estive fora durante quatro meses. Quando regressei, constatei sem margem para dúvida que a minha ausência tinha passado despercebida ao amo Faddel e sua esposa.

Omar continuou pesarosamente.

- Os outros servos disseram-me que Faddel e Khalidah manifestaram a esperança de que eu tivesse ido para o mato e ali morresse. Esses dois até choram a pouca comida de que o meu pequeno corpo necessita! - Passou a mão pelo brocado das suas calças. - O meu amo Faddel negou-me os fundos de que eu precisava para comprar roupas mais apropriadas. É por isso que continuo a usar este traje tão antigo dos dias do meu passado, meu amo.

- Aqui poderás comer toda a comida que te apetecer, Omar - retorquiu Kareem sor­rindo com generosidade. - E também vou dizer a Mohammed que te ajude a arranjar rou­pas novas. Uma vez que passarás a viver connosco, terás as vestimentas apropriadas.

Omar fitou-me com olhos brilhantes antes de voltar a concentrar-se em Kareem.

- Meu amo, Deus respondeu às minhas preces! Eu sabia que uma mulher tão boa como a vossa esposa só poderia ter desposado um homem generoso!

Olhei de relance para Kareem, pensando que talvez ele fizesse coro com os elogios de Omar, mas não o fez. Ao invés, deu uma pequena palmada nas costas de Omar.

- Meu amigo, só mais uma coisa, não te refiras a mim como «amo». Nenhum homem é dono de outro. Por favor, trata-me por príncipe Kareem.

- É um hábito que vem de há muito e que será difícil de quebrar - redarguiu Omar com um acenar de aquiescência -, mas vou esforçar-me, príncipe Kareem.

Com um sorriso no rosto, o meu marido reclinou-se no sofá, chamando as servas para que nos servissem chá.

Sentia-me perplexa ao ver que a tremenda ira do meu marido fora tão rapidamente apa­ziguada por aquele pequeno homem! Ao pensar no que se passara anteriormente, recordava­-me da maneira como Omar me confortara no dia anterior, apercebendo-me de que este eunuco possuía uma enorme influência tranquilizante. Olhei para Omar com um novo pen­samento em mente. Seria possível que aquele homenzinho viesse a provar ser uma dádiva inesperada que surgira no seio da minha família extremamente emocional e esgotada?

Kareem olhou para Omar, demonstrando um grande sentimento de generosidade.

- Omar, conta-nos alguma coisa do teu passado. Eu estava convencido de que o último eunuco da Arábia Saudita já tinha morrido há muitos anos.

Omar mostrou-se muito animado.

- Será com todo o prazer que vos direi tudo o que quiserdes saber - replicou ele entusiasticamente.

Sorri. Já tinha reparado que Omar adorava contar histórias.

Com a atitude de jovialidade que lhe era natural, Omar sentou-se mais a direito, ajeitando cuidadosamente as calças compridas de balão, após o que se acomodou no sofá cru­zando as pernas. Quando ergueu a cabeça, fitando Kareem, os seus olhos adquiriram uma expressão nostálgica enquanto começava a narrar os pormenores da vida que levara.

- Recordo-me de pouco de bilad as-Sudan, conhecida como «terra da gente preta», mas sei que a tribo da minha família, os Humr, eram nómadas guardadores de gado. Seguíamos as chuvas e a erva alta. Era uma época perigosa. Muitos dos chefes africanos trabalhavam de perto com os esclavagistas muçulmanos, capturando e vendendo a sua própria gente. Todas as mães Humr viviam permanentemente atemorizadas pela preocupação de que os seus filhos lhes fossem roubados. Ainda hoje me recordo dos suaves olhos castanhos da minha mãe a olhar para mim, e os avisos severos para que nunca me afastasse para longe dos membros da nossa tribo. - Os olhos de Omar espelhavam o sofrimento que sentia. – Eu era uma criança inconsciente que não obedecia à sua mãe. O maior anseio de todos os Humr jovens era virem a ser elogiados pelas suas qualidades de caçadores. Os rapazinhos passa­vam a vida a juntar pedras que arremessavam aos pássaros ou a outros animais pequenos. Eu não era diferente dos outros, e um dia, enquanto juntava pedras macias, afastei-me incons­cientemente um pouco da tribo. No preciso momento em que me preparava para lançar uma pedra a uma abetarda, fui agarrado de repente pelas costas e levado daquele lugar. Nunca mais voltei a ver a minha mãe.

Mesmo depois de decorridos tantos anos, Omar limpou as lágrimas que não conseguira conter ao pensar na mãe.

- Mas isso foi há muito, muito tempo.

Ficámos com a impressão de que se fizera uma pausa no tempo. Senti-me inacredita­velmente triste por causa desse garoto que havia sido arrancado aos braços da mãe, assim como pelo homem que nunca tivera a oportunidade de viver a existência para que nascera.

Omar recomeçou a falar em voz baixa sem olhar para Kareem nem para mim.

- Eu não estava sozinho na minha desgraça. Havia muitos homens, mulheres e crian­ças que também tinham sido afastados das suas aldeias ou tribos. Fomos amarrados uns aos outros, começando a caminhar em direcção ao Mar Vermelho. Passámos muitos dias e noites a viajar. Quando finalmente chegámos ao Mar Vermelho, o nosso chefe encontrou-se com um egípcio de fé cristã. Ambos travaram uma conversa em voz baixa sobre os jovens cativos do sexo masculino. A fileira de escravos foi percorrida por uma onda de pânico quando alguém ouviu o homem dizer que um determinado número de rapazes dos mais novos seriam aliviados das suas três jóias mais preciosas. Sem saber ao certo em que é que consistiam estas três dádivas preciosas, não protestei com veemência excessiva quando fui retirado da fileira e me separaram dos demais escravos cativos, tendo sido afastado para um pouco mais longe.

Manifestamente pouco à vontade, Kareem interrompeu a narrativa de Omar.

- Um momento, Omar. - O meu marido voltou-se para mim. - Sultana, por favor vai à cozinha e pede à cozinheira que nos prepare qualquer coisa para comer.

Apercebi-me imediatamente da intenção de Kareem. Ele não queria que eu estivesse na sala quando Omar começasse a descrever ao pormenor a narrativa gráfica da sua castração. Na sociedade conservadora da Arábia Saudita, a minha presença seria considerada impró­pria. Situação que se verificaria, ainda que Omar não pudesse ser classificado de homem em toda a acepção da palavra. O pobre Omar tinha cumprido um destino triste e incerto. Não era homem nem mulher, embora o seu estatuto fosse ligeiramente inferior ao de um homem, mas mais elevado do que o de uma mulher.

Não levantei objecções à sugestão de Kareem, apesar de já me ter couraçado para poder ouvir os pormenores lúgubres da castração de Omar. Sabia que logo que nos encontrássemos a sós, Kareem não teria pejo algum em contar-me tudo aquilo de que falassem. No entanto, sentia-me demasiado impaciente para poder esperar. Decidi ouvir o resto da história de Omar do outro lado da porta.

- Sim, claro - repliquei, levantando-me e saindo da sala. Num passo apressado, diri­gi-me para a cozinha, onde dei instruções à cozinheira para que preparasse uma merenda de queijos, frutas e alguns doces dos melhores.

Depois de ter saído da cozinha em passos silenciosos, coloquei-me atrás da porta que dava para a sala de estar.

Omar continuava a falar; pouco depois compreendi que não tinha perdido a parte prin­cipal da narrativa.

- ...O homem encontrava-se bem preparado para cumprir a sua missão. A lâmina estava bem afiada e, sem que eu soubesse o que estava prestes a acontecer-me, fui brusca­mente aliviado dos três órgãos masculinos.

Kareem soltou um arquejo audível.

- É indubitável que a palavra de Alá foi alvo de escárnio por parte desses homens e das suas acções cruéis!

- Nesse dia, Alá não foi encontrado em parte alguma - disse Omar pensativamente -, embora o Seu nome tivesse sido invocado em mais de uma ocasião por todos os rapazes submetidos a este cruel tratamento.

Ouvi Kareem respirar fundo.

Omar recordava-se de todos os pormenores da sua penosa experiência.

- Inseriram um tubo na abertura que ficou em lugar do meu pénis, de forma a que o orifício não viesse a fechar. Eu sangrava profusamente, mas o fluxo de sangue parou quando o assistente do homem verteu azeite a ferver sobre os meus ferimentos. - Omar soltou uma risada casquinada. - Presenteou-me com os genitais dentro de um boião, quando eu me contorcia de dores! Guardei esse boião e o seu conteúdo durante muitos anos, até que há quinze anos foi roubado por um brincalhão cruel.

- É um milagre que não tenhas perecido a meio de toda essa crueldade - comentou Kareem a custo.

- Como se pode ver, consegui sobreviver. O número de rapazes castrados nesse dia cifrou-se em dez. Houve um que morreu imediatamente. Os que sobraram foram enterrados na areia até ao pescoço. - Uma vez mais, Omar soltou uma risada pouco humorada. ­Quem poderá saber quem foi o mentecapto cruel que decidiu que a areia escaldante era o remédio que permitia a sobrevivência? Por conseguinte, durante três dias e três noites não nos deram água nem tão-pouco comida. No fim desse período de tempo, só três dos nove ra­pazes é que continuavam entre os vivos.

Ao ouvir aquela narrativa, senti os joelhos enfraquecidos. Aquela história era a mais aterradora que alguma vez ouvira! Não obstante saber que em tempos idos os eunucos eram muito apreciados em vários países, eu nunca tinha reflectido na terrível agonia por que esses pobres homens passavam. Esperava sinceramente que Deus houvesse reservado os lugares mais escaldantes do inferno para os homens perversos que cometeram actos daquela natu­reza!

O pobre Omar continuou a descrever a sua trágica saga.

- De todo o lado choveram os parabéns quando o cristão retirou o tubo do pequeno orifício que servia para a passagem de águas, altura em que o líquido esguichou; aqueles ho­mens sabiam que quem conseguisse verter águas sobreviveria. Somente dois dos três que continuavam vivos é que conseguiram urinar, eu próprio e um outro rapaz. O corpo mutila­do do terceiro rapaz foi envenenado pela sua própria urina, pelo que ao fim de pouco tempo pereceu no meio de muitos gritos atrozes. Decorrido o quarto dia, fomos embarcados num navio que navegou rumo a um empório de escravos situado em Constantinopla. Sobrevivi à castração. O mercador de escravos sabia que eu lhe renderia uma choruda maquia de dinheiro.

Concordei com um acenar de cabeça. Nessa época, os eunucos eram muito apreciados no desempenho da função de guardas de mulheres muçulmanas e podia-se ter a maior con­fiança neles. Nos aposentos femininos, só era permitida a entrada a homens impotentes.

As palavras de Omar interromperam a minha linha de pensamento.

- Consequentemente, o esclavagista tratou os dois rapazes castrados com mais brandura do que mostrava para com os outros escravos. Fomos alojados no convés superior onde éramos bem alimentados, enquanto os outros pobres desgraçados foram mantidos empilha­dos nos porões uns em cima dos outros durante toda a travessia por mar. Tanto quanto me foi dado saber, não lhes deram água nem comida. Quando chegámos ao porto de Constantinopla, muitos deles haviam morrido.

Calculei que a história de Omar já deixara para trás a parte que Kareem achara por bem que eu não ouvisse; regressei à sala em silêncio e sentei-me.

- Continua - disse Kareem ao olhar interrogador de Omar. - Agora já não há problema.

Omar fitou-me com um sorriso.

- Eu já disse à senhora que fui comprado por um turco abastado. Ele era dono de um determinado número de escravos, mas possuía apenas dois eunucos que estavam a ficar velhos. Disse-me que quando eu fosse mais alto e forte seria o escolhido para vigiar as suas mulheres. Entretanto, fui levado pelo meu novo senhor na peregrinação a Meca. O meu amo morreu lá enquanto orava na grande mesquita, pelo que passei a ser propriedade das autori­dades de Meca. Esses homens ofereceram-me ao avô de Faddel, ao qual as autoridades des­sa cidade deviam um favor. O tempo que passei com essa família não foi de infelicidade. Eu comia da mesma comida com que a família se alimentava. Com catorze anos de idade, foi­-me confiada a guarda das esposas do meu amo, assim como das escravas. O tempo passou sem sobressaltos até depois da morte do avô e do pai de Faddel. Eu não tinha mais lugar ne­nhum onde pudesse viver, por isso continuei em casa de Faddel. - Omar olhou-me aten­tamente. - Faddel não se parece em nada com o avô ou com o pai, minha ama. - Fez uma pausa. - Se alguém responder a Faddel, é o mesmo que ser enviado para o inferno e punido para todo o sempre.

Suspirei de desespero quando subitamente me recordei das jovens mulheres que agora eram propriedade de Faddel. Poderia o inferno ser pior do que a situação em que essas mulheres se encontravam? Ao pensar em Faddel, ocorreu-me à mente a imagem da esposa, Khalidah. Se ela quisesse, poderia ajudar aquelas desgraçadas.

- Na minha perspectiva, Khalidah é tão perversa como Faddel! - disse eu acalorada­mente.

Omar encolheu os seus ombros franzinos.

- Se o senhor da casa tocar pandeiro, que não se condene a família por dançar. Kareem olhou-me com um sorriso nos lábios.

Com um instinto que era fruto de um matrimónio de muitos anos, eu sabia que muitas vezes Kareem desejava que eu dançasse ao som da sua música!

- Isso nunca acontecerá, meu marido - murmurei-lhe.

Kareem riu-se em voz alta antes de voltar a concentrar a sua atenção em Omar.

Este endireitou o turbante enquanto sorria a Kareem.

- Mas hoje sinto-me mais feliz do que há muitos anos a esta parte. É bom viver com uma família generosa.

Naquela altura entraram na sala várias servas trazendo a merenda. Os olhos de Omar brilharam ao ver a comida; os seus dedos estenderam-se avidamente para os bolos de mel.

Atónitos, Kareem e eu observávamos Omar, que consumia rapidamente mais alimentos do que seria de esperar num homem com o dobro do seu tamanho.

Mais tarde nessa mesma noite, quando já nos encontrávamos na privacidade dos nossos aposentos, Kareem confessou-me que tinha reflectido demoradamente sobre Omar. Tentou convencer-me de que o pequeno eunuco não deveria viver na Arábia; em vez disso, seria preferível enviá-lo para um dos palácios que tínhamos no estrangeiro, onde passaria a viver. Para se salvaguardar a segurança de Omar, ninguém no nosso país poderia saber que o eunuco, que em tempos pertencera à família de Faddel, se tinha refugiado junto de nós.

Embora Omar, sob o ponto de vista legal, fosse livre, já para não mencionar que em vá­rias ocasiões Faddel manifestara a irritação que sentia por ter de dar guarida e alimentar um eunuco idoso, não nos restavam dúvidas de que ele se sentiria insultado por Omar ter pre­ferido viver junto de outra família. E quem é que poderia adivinhar se Faddel tentaria ou não vingar-se no pobre Omar?

De início, senti-me consternada perante a ideia de enviar o pobre Omar para longe. Ele dava a impressão de se sentir tão satisfeito e feliz no seio da nossa família. Além do mais, eu adorava o homenzinho, antevendo que a sua presença dócil poderia ajudar a trazer uma paz que seria muito bem-vinda à nossa vida familiar. No entanto, depois de uma noite de refle­xão, a ideia de Omar poder levar a existência de um homem livre, fora da Arábia Saudita, fez com que um sorriso de satisfação aflorasse aos meus lábios. Além do mais, raciocinei, poderíamos continuar a vê-lo no estrangeiro.

Na manhã seguinte, Kareem passou algum tempo a sós com Omar. Ficou decidido que ele passaria a viver na nossa villa no Egipto. Nesse país densamente povoado - fervilhante de egípcios, árabes e africanos -, um homem baixo de pele escura e com uma voz esgani­çada poderia passar despercebido. A mesada que Kareem passaria a dar-lhe, proporcionar­-lhe-ia uma liberdade financeira que ele jamais conhecera.

Omar pareceu sentir-se louco de alegria por poder regressar ao continente que o vira nascer, começando a falar entusiasticamente numa viagem que faria ao Sudão, onde poderia tentar encontrar quaisquer membros que ainda restassem da sua família ou tribo.

A felicidade que Kareem e eu sentimos ao testemunharmos a alegria de Omar propi­ciou-nos prazer e contentamento. Até Kareem foi forçado a concordar que a minha segunda viagem ao palácio de Faddel trouxera algum bem. Se bem que a minha visita não tivesse proporcionado qualquer benefício às raparigas, a partir de agora o eunuco Omar passaria a levar uma vida maravilhosa que jamais sonhara vir a ser possível!

Durante o período que mediou até à partida de Omar para o Egipto, afeiçoámo-nos a ele. Ao fim de pouco tempo, aquele homem baixinho passara a ser o confidente em que toda a família confiava. Para minha grande perplexidade, até Amani chorou quando prometeu a

Omar que nunca se esqueceria de tudo o que ele lhe dissera, tencionando fazer todos os possíveis para se tornar numa muçulmana mais tolerante e dócil do que fora até então.

Todos nós ficámos a ansiar pelo dia em que poderíamos voltar a ver de novo o rosto generoso de Omar.

 

                   O PROFETA MAOMÉ DIFAMADO

VÁRIOS DIAS DEPOIS de Omar ter partido da Arábia Saudita com destino ao Egipto, Kareem disse-me que Asad e ele próprio tinham de fazer uma viagem a Nova Iorque. Havia negócios importantes que exigiam a presença de ambos. Sabendo que eu continuava desgostosa por causa da trágica situação das jovens que viviam no harém de Faddel, Kareem pensou que eu precisava de experiências novas que me ocupassem o pensamento, sugerindo então que eu os acompanhasse nessa viagem.

Inicialmente não senti muita vontade de o acompanhar, sentindo-me insultada por Ka­reem me dar a impressão de não confiar em mim não me deixando ficar sozinha na Arábia Saudita. Se o meu marido acreditava que eu talvez renovasse os meus esforços no sentido de obter a libertação daquelas pobres mulheres logo que ele se ausentasse do país, estava redondamente enganado. Nada que eu pudesse dizer ou fazer poderia convencer Kareem de que me tinha resignado perante a impossibilidade de fazer fosse o que fosse numa situação daquelas. Embora eu quisesse ajudar as raparigas com todas as veras da minha alma, não estou totalmente desprovida de bom senso. Compreendia muitíssimo bem que quando o assunto se prendia com rapariguinhas que haviam sido vendidas pelos seus próprios proge­nitores, tendo passado a viver num país cujo governo não via nada de irregular numa situa­ção com aquelas características, realisticamente, eu não tinha quaisquer meios para resolver o problema.

Quando tomei conhecimento de que Sara, juntamente com duas das nossas primas, Maysa e Huda, também fariam a viagem para Nova Iorque, mudei de ideias, ansiando por as acompanhar.

Uma vez que as escolas tinham reaberto depois das férias do Ramadão, Sara e eu concordámos em que os nossos filhos permaneceriam em Riade com Nura, a nossa irmã mais velha.

Quando chegou a data da partida, o nosso grupo viajou com destino a Londres a bordo de um dos aviões a jacto que possuímos. Depois de uma breve escala na capital inglesa, prosseguimos viagem rumo aos Estados Unidos.

Incluindo as três criadas que nos acompanhavam - Afaaf, Libby e Betty -, a bordo do avião viajavam sete mulheres. Para passarmos o tempo, começámos a entretermo-nos com histórias divertidas, apesar de os nossos risos terem cessado quando Maysa imprimiu um novo cunho à conversa ao partilhar connosco uma história particular que achámos aterradora.

Maysa é uma palestiniana que desposou Naif Al Sa’ud, um dos meus primos preferi­dos. Embora transbordasse de vivacidade e fosse atraente, Maysa não poderia ser conside­rada uma mulher de grande beleza, apesar de ser extremamente popular entre todos os que a conhecem. Nascera em Hebron, passando uma infância recheada de numerosos aconteci­mentos numa Palestina sob ocupação. Ao longo dos anos, a nossa família ouviu muitas his­tórias contadas por Maysa sobre refugiados em fuga, lutas travadas nas ruas contra soldados israelitas e a participação dos irmãos mais novos na mais recente intifada, a rebelião palesti­niana contra os israelitas.

Os árabes palestinianos sempre estiveram mais de acordo com os direitos da mulher do que os árabes do deserto. Reconhecendo a inteligência de Maysa, os seus pais fizeram muitos sacrifícios para que a filha pudesse receber uma boa educação académica. Maysa foi enviada para Beirute a fim de estudar na prestigiosa Universidade Americana de Beirute. Foi aí que conheceu o meu primo Naif. Cheia de vivacidade, Maysa não levou muito tempo a conquistar o coração dele. Profundamente apaixonados quando se casaram, ambos desfru­tam de uma união mais feliz do que a maioria dos casais do meu país. Apesar de só terem uma filha, Naif jamais manifestou o mais pequeno interesse em desposar uma segunda mu­lher com o objectivo de alargar a sua família.

Maysa é uma pessoa generosa que se preocupou sempre com os problemas dos seus se­melhantes. Se não está preocupada com as crianças com fome do Iraque devido ao embargo petrolífero, está a pensar nas vítimas do tremor de terra que abalou o Irão ou a China.

Algumas semanas antes da nossa viagem, Maysa havia regressado da visita anual que costuma fazer à sua família da Palestina, na cidade árabe de Hebron. No decurso dessa visi­ta, fora testemunha da visão mais hedionda que se possa conceber aos olhos de um muçul­mano.

A voz de Maysa era trémula enquanto relatava o que presenciara.

- Eu sabia que naquele dia não devíamos ter saído! Há várias semanas que a situação era de tumulto e eu não queria arriscar-me a que a minha querida mãe pudesse ser atingida por uma pedra arremessada ao acaso. Mas a minha mãe sentia-se desassossegada, insistindo em que caminharíamos somente até à esquina da nossa rua, após o que regressaríamos. Só desejávamos respirar um pouco de ar fresco, nada mais! Quando chegámos ao fim da nossa rua, sentimo-nos aliviadas ao constatar que tudo estava calmo. Assim, decidimos continuar a passear por outra rua mais afastada. - Maysa deu uma palmada na testa. - Foi esse o nosso erro!

Maysa mostrou-se agitada perante a recordação desse dia. - Avistámos uma mulher jovem que corria à nossa frente e ia afixando cartazes nas paredes. Pensámos que a mulher era uma corajosa contestadora palestiniana que colava os cartazes em protesto contra os israelitas!

Deu outra palmada na testa, mas desta feita com mais força. - Como é que duas mu­lheres ingénuas poderiam saber que aquela mulher era uma sionista que atacava o nosso amado Profeta!

Deixou-se cair para trás no assento, gemendo perante aquela recordação.

Sara deu-lhe uma suave palmadinha de encorajamento.

- Se for muito doloroso para ti, não nos contes mais nada, Maysa.

- Eu devo contar-vos, Sara! - retorquiu Maysa sentando-se a direito. - Todos os muçulmanos devem tomar conhecimento desta história! - Maysa é uma mulher religiosa, embora não seja estrita ao ponto de se tornar irritante.

Todos os passageiros que se encontravam a bordo, incluindo Asad e Kareem, escuta­vam o que ela dizia.

- Pois bem, digo-vos uma coisa, nunca senti um choque como aquele. Com a curiosi­dade aguçada, a mãe e eu parámos em frente de um daqueles cartazes. Precisámos de alguns momentos para compreendermos que aquilo que o cartaz retratava era uma semelhança que nenhum muçulmano deveria viver para ver.

Pôs-se a olhar em frente com um olhar vazio, permanecendo em silêncio até que Sara lhe tocou no braço.

- Maysa?

- Digo-te, Sara, os meus próprios lábios hesitam em proferir as palavras.

- Por amor de Deus, Maysa! - interpus. - Conta-nos! Esta expectativa está a deixar-nos loucas.

As faces de Maysa empalideceram enquanto fitava atentamente o rosto de todas nós.

O seu tom de voz reduziu-se a um murmúrio.

- Era uma caricatura do nosso Profeta! - Enterrou a face nas mãos antes de gritar: ­

No cartaz, o nosso bem-amado Profeta Maomé era reproduzido na imagem de um porco!

Todas as mulheres que se encontravam no avião fizeram ouvir um arquejo de horror.

Esforcei-me por manter a compostura enquanto apertava com força a mão de Kareem. - Sim! Ali estava Ele, mesmo em frente dos meus olhos! O profeta Maomé retratado na imagem de um porco! Só posso dizer-vos que o meu coração quase parou de bater. E a mãe? Pois bem, desmaiou! Tive de pedir ajuda para a levar de volta ao apartamento! E ainda não recuperou! Deixou de ser a pessoa que foi em tempos!

A pobre Maysa deixou-se cair contra o encosto do assento.

- Desde essa altura que tenho sofrido de pesadelos horríveis. Todas as noites, o Profeta

Maomé vem visitar-me em sonhos, com corpo de um homem e o rosto repulsivo de um porco!

- Oh, Maysa - murmurou Sara cheia de simpatia. - Que horrível que isso deve ser para ti.

Sonhos com o nosso amado Profeta sob a forma de um porco! Retraí-me, lamentando que Sara tivesse convidado Maysa para nos acompanhar nessa viagem. No que me dizia res­peito, não queria ser contaminada por me encontrar próxima de uma pessoa que tinha sonhos tão perversos!

Maysa começou a chorar desabaladamente.

- Digo-te, Sara, esta situação chegou ao ponto de eu recear fechar os olhos porque, com toda a certeza, estou a cometer um pecado do mais desprezível que possa existir, uma vez que não sou capaz de impedir que estes sonhos ocorram.

Comecei a sentir remorsos por causa da minha reacção inicial, tentando olhar para Maysa com mais generosidade.

Libby, a minha criada filipina, interveio na conversa.

- Recentemente, li um artigo num jornal onde se afirmava que os inimigos dos países árabes envolviam as suas balas numa camada de banha de porco antes de as dispararem na guerra contra os muçulmanos.

Era um escândalo bem conhecido. No caso de um soldado muçulmano vir a ser ferido ou morto por essas munições contaminadas, seria automaticamente excluído do Paraíso. A re­ligião islâmica não permite que os muçulmanos tenham qualquer contacto com carne de por­co. Os seguidores do islamismo acreditam que ao tocarem em carne de porco ficarão impe­didos de entrar no Paraíso.

O choro soluçado de Maysa tornou-se mais audível, implorando a Sara que a beliscasse caso fosse necessário - qualquer coisa que a impedisse de adormecer e de sonhar aquele pesadelo blasfemo.

Rezei a Deus para que erradicasse da mente de Maysa aquela imagem demoníaca. Aba­nando a cabeça num gesto de tristeza, virei costas e encaminhei-me para o meu lugar. Quando estava prestes a sentar-me, reparei que a criada de Sara, Afaaf, se encontrava sozi­nha e chorava. Fiz um sinal a Sara e ambas nos aproximámos de Afaaf.

- Afaaf, estás a sentir-te mal, minha querida? - perguntou Sara tocando-lhe no ombro.

O rosto de Afaaf era a expressão de uma grande infelicidade. Tentou falar mas foi-lhe impossível. Por fim, depois de Libby lhe trazer um copo de água, encorajando-a a beber um pouco, Afaaf disse-nos:

- Peço desculpa por estar a chorar, mas esta história terrível fez-me recordar a manei­ra como o nosso sagrado Profeta tem sido difamado, e de muitas formas... - Afaaf recome­çou a chorar - ...e o Seu nome e as Suas palavras sagradas são frequentemente utilizados como arma de vingança e perversidade, até mesmo pela Sua própria gente. Será que isso também não mancha o nosso Profeta?

Sara anuiu mas não deu réplica.

Sem saber o que fazer, mantinha-me de pé enquanto a pobre Afaaf chorava convulsiva­mente. Se existia alguém no mundo que tivesse uma boa razão para chorar, essa pessoa era Afaaf.

Era uma refugiada do Afeganistão. Apesar de ter escapado à guerra no seu país de ori­gem, nunca conseguiria recuperar das perdas terríveis que aí sofrera. Tinha perdido toda a sua família. Os pais e um irmão haviam sido abatidos durante a longa guerra que precedera a subida ao poder do brutal regime dos Taliban(nota:1). Afaaf e a irmã mais nova tinham ficado sozi­nhas sem a protecção de nenhum homem, num país que na actualidade era dirigido por ho­mens que, com toda a firmeza, estavam determinados a controlar totalmente todos os aspec­tos da vida de uma mulher.

Em 1994, quando os seguidores dos Taliban, que agora governavam o Afeganistão, chegaram ao poder, haviam levado a cabo a supressão de mulheres a um nível nunca visto. Enquanto a vida das mulheres sauditas poderá ser inacreditavelmente sombria, eu ficara a saber através de Afaaf que a vida das mulheres no Afeganistão era bastante mais trágica e dura do que a nossa existência.

Na sua ânsia de restaurarem a pureza islâmica, os Taliban tinham lançado um assalto aterrador contra as suas próprias mulheres. Para além de as mulheres do Afeganistão serem obrigadas a cobrir o seu corpo e faces com o burga, uma peça de vestuário de tecido espesso, semelhante a uma tenda, ainda mais desconfortável e estranho do que a abaaya e véu saudi­tas, também estavam proibidas de falar em voz alta ou de rirem em público. Apesar de terem todo o corpo completamente tapado pelo burga, os homens que detinham o poder afirmavam

 

(nota:1) Palavra persa que significa «estudantes». Movimento fundamentalista islâmico que em finais de 1994 pas­sou a controlar mais de dois terços do Afeganistão. O fanatismo religioso leva-os a proibirem as mulheres de fre­quentarem escolas, trabalhar ou aparecer em público sem que sejam acompanhadas por um homem. (N. da T.)

 

que o som de vozes femininas tinha por si só o poder de os excitar! Adicionalmente, as mu­lheres eram impedidas de frequentar a escola, de usarem maquilhagem, jóias ou sapatos de salto alto, e até mesmo de trabalharem para poderem prover ao seu sustento e das suas famí­lias. Estava-lhes interdita qualquer actividade que faz parte de uma vida normal.

Os decretos que emanavam daquele regime de tamanha dureza chegavam ao ponto de se estenderem às crianças. No Afeganistão, actualmente é crime ver televisão e cassetes de vídeo, brincar com brinquedos e qualquer jogo, ouvir música ou até ler livros!

Quando os Taliban chegaram ao poder, a vida de Afaaf mudou drasticamente. Em tem­pos trabalhara como professora mas deixara de ter autorização para ensinar. Noutros tempos, tinha usado o cabelo curto, mas disseram-lhe que era crime as mulheres cortarem o cabelo!

Pouco depois de Os Taliban se terem guindado ao poder, a irmã de Afaaf fora apanhada a conversar com um homem com quem não tinha parentesco nenhum. Ela limitara-se a per­guntar àquele ex-vizinho pelo estado de saúde dos seus pais idosos. Houve um grupo de rapazes adolescentes que presenciou aquela troca de palavras, exigindo ver uma prova de que a irmã de Afaaf era parente do homem. Como é evidente, foi-lhe impossível produzir tal prova, pelo que fora levada perante o Departamento de Protecção da Virtude e Prevenção dos Vícios, tendo sido condenada por um painel de juizes masculinos a cinquenta vergastadas.

Afaaf fora forçada a assistir à punição em que a sua querida irmã foi amarrada a um poste e açoitada com uma correia de couro. Tratara-lhe dos ferimentos de forma a recuperar a sua saúde, mas a pobre mulher sentia-se tão deprimida pelas alterações que a sua vida sofrera que engoliu uma grande quantidade de veneno para ratos. Dado que as mulheres eram proibidas de recorrer aos hospitais, acabou por morrer nos braços de Afaaf.

Uma vez que nada mais tinha a perder, Afaaf fugiu para a fronteira do Paquistão. De­pois de ter entrado furtivamente neste país, um dos homens de Asad - um indivíduo que por acaso fora ao Paquistão com a incumbência de procurar pessoal doméstico que fosse trabalhar para a Arábia Saudita - deu-lhe emprego.

Afaaf levou o rosto às mãos e soltou um profundo suspiro.

- Os muçulmanos fanáticos difamam o Profeta e as Suas palavras porque estão deter­minados em destruir a vida de todas as mulheres.

Eu sentia-me tão tocada pela tristeza que só me apetecia chorar com aquela pobre mu­lher. Na minha opinião, a desgraçada Afaaf era um dos seres humanos mais infelizes que me fora dado conhecer. Encontrava-se verdadeiramente sozinha no mundo - e tudo isso devido à perversidade dos homens que deturpam intencionalmente o significado das palavras do sa­grado Profeta, movidos pela obsessão que sentem em subjugar as mulheres.

Dirigi-me para um dos lugares de janela num passo lento e sentei-me. Encostei a cabe­ça ao pequeno vidro. Depois de me ter tapado com um cobertor, cerrei os olhos. Senti uma alegria enorme por viver na Arábia Saudita e não no Afeganistão. Estive quase a rir-me da ironia daquele pensamento, dado que existem muitos perigos para as mulheres da Arábia Saudita, país onde os homens fanáticos também possuem uma grande capacidade de lhes ar­ruinar as vidas.

No ano anterior tinha-se verificado um evento estarrecedor, que uma vez mais me ocor­reu à mente. Tratava-se do caso de uma jovem chamada Hussah, uma das amigas de Maha que frequentava a mesma escola e que se vira confrontada com o extraordinário poder que os homens do nosso país detinham sobre as mulheres em nome da religião.

Hussah era uma rapariga invulgarmente bonita e com um temperamento encantador. As notas que obtinha na escola eram prova da sua inteligência, enquanto a sua personalidade efusiva lhe granjeara muitas amigas. Era frequente Maha dizer que Hussah iluminava os dias aborrecidos passados na escola.

Hussah visitara o nosso palácio em mais de uma ocasião e eu também comecei a sentir apego por aquela jovem. O meu afecto por ela aumentou quando soube que a mãe tinha morrido no ano anterior, e que a nova mulher do pai não gostava dela. Mal-grado esta triste­za, Hussah mostrava-se sempre sorridente e afável.

Aos três anos de idade, a família de Hussah mudara-se para o Egipto onde permaneceram durante dez anos. No Egipto, acostumara-se a uma maior independência do que aquela que era permitida às raparigas na atmosfera inflexível que reinava na Arábia Saudita. Quando a família regressou a Riade, apesar da liberdade que vivera nos seus primeiros anos de vida no Egipto, Hussah aceitara sem se queixar a existência que levava entre os sauditas. Usava obedientemente o véu e a abaaya em lugares públicos, sem sequer protestar contra as outras restrições que eram impostas a todas as mulheres.

Sentindo-se em segurança no interior do complexo habitacional da sua família, Hussah agia como uma rapariga moderna normal. Usava calças de ganga e camisolas de algodão de manga curta, mantinha conversas banais ao telefone durante horas a fio e passava muitas ho­ras a nadar na piscina da família. Sempre gostara de actividades desportivas, sentindo-se entristeci da por as mulheres na Arábia Saudita não serem autorizadas a competir em eventos como as Olimpíadas. Esse sonho está fora do alcance das saudiarábicas, pelo que o bom de­sempenho de Hussah na natação era um prazer que deveria ficar só para si.

O trágico destino de Hussah deveu-se ao amor que sentia pela natação. Quando nadava as suas braçadas diárias, era frequente usar um biquini, hábito que revelava o facto de ter sido abençoada com um corpo de linhas voluptuosas.

Infelizmente para ela, a família que vivia na casa contígua à sua era composta por fun­damentalistas islâmicos. Quando o filho mais velho dessa mesma família avistou de relance o corpo sensual de Hussah no seu reduzido biquini, a vida dela ficou alterada para sempre.

Embora todas as residências sauditas sejam circundadas por muros altos, muitas vezes dos andares superiores avistam-se os jardins adjacentes. A casa da família de Hussah era uma villa térrea, enquanto a dos vizinhos tinha três pisos. Caso alguém que se encontrasse no último andar lançasse um olhar através de uma determinada janela pequena, seria compen­sado com uma vista do jardim contíguo, abrangendo a piscina. Enquanto a maior parte dos muçulmanos respeitosos selaria uma janela dessas, esse não foi o caso naquela situação.

O jovem Fadi andava a estudar para vir a ser um mutawwa. Depois de ter observado Hussah no seu biquini, ficou tão exasperado que comprou uma câmara fotográfica munida de uma objectiva de longo alcance, com que tirou muitas fotografias à jovem enquanto esta nadava na privacidade da sua própria piscina. Tal como o destino determinaria, num desses dias em que Fadi tirava fotografias sub-repticiamente o topo do biquini de Hussah desaper­tou-se por mero acidente. Os seios ficaram completamente expostos, o tempo suficiente para o vizinho captar a imagem em película.

Cheio do veneno que somente os farisaicos possuem, Fadi queixou-se junto das autori­dades religiosas locais, alegando que Hussah era uma pecadora perversa que expusera inten­cionalmente os seios para que ele os visse. No seu fervor, afirmou com falsidade que os olhos de Hussah se tinham cruzado com os seus e que ela lhe sorrira convidativamente antes de ter baixado a parte de cima do biquini. Mais ainda, declarou que a acção de Hussah fizera com que pecasse sonhando com megeras nuas. A fim de recuperar o seu antigo estado de pureza, exigiu que Hussah fosse apedrejada até à morte!

Caso as autoridades locais tivessem concordado com Fadi, a pobre rapariga já estaria na sepultura. No entanto, o pai dela foi pressionado a acreditar que os anos passados no es­trangeiro, e as pequenas liberdades de que Hussah desfrutara nessa época, haviam tido in­fluência no seu carácter, ao ponto de a terem transformado numa flagrante exibicionista. Estes homens da religião que falaram com ele acreditavam que a educação escolar e os passatem­pos das mulheres eram factores que garantiriam a decadência da sociedade saudita.

Num gesto de generosidade, concordaram em não punir Hussah, caso o próprio pai da rapariga tomasse determinadas medidas drásticas. Hussah teria de ser removida da escola, ficaria proibida de nadar e, mais importante do que tudo, seria obrigada a contrair matrimó­nio no espaço de um mês. Também insistiram em que o futuro marido de Hussah deveria ser um homem mais velho, com experiência em dominar mulheres obstinadas. De facto, esses homens até tinham já um marido em mente. Acreditavam que o próprio pai de Fadi seria uma boa escolha dado que já tinha três esposas, sabendo os religiosos que ele era um ho­mem devoto e estrito. Ele nunca permitiria a Hussah quaisquer oportunidades que pudessem trazer vergonha ao seu nome de família. Felizmente para ela, informaram eles, este vizinho tinha visto a fotografia de Hussah, tendo concordado em aceitar o dever moral de «subju­gar» aquela sedutora depravada!

Não se fez menção alguma ao facto de Fadi ser, obviamente, um voyeur; não fora esse o caso e ele teria tido a decência de desviar o olhar do jardim particular de outro homem. Tão-pouco foi reconhecido que a visão da fotografia de Hussah poderia ter despertado o desejo sexual no pai de Fadi, em vez de um sentimento de obrigação religiosa.

De início, o pai de Hussah bateu-se pela filha. Contudo, estava em minoria. A sua nova esposa tomou o partido dos mutawwa, afirmando que Hussah não era a filha pura que ele acreditava que fosse, tendo acrescentado que a rapariga acabaria sem sombra de dúvida por arruinar o bom nome da família com o seu comportamento reprovável. Psicologicamente es­magado pela pressão que o assolava de todas as frentes, e acreditando que a filha viria a ser alvo de uma punição mais exemplar caso ele não se submetesse às autoridades religiosas, o pai de Hussah acabou por consentir no casamento.

Numa questão de escassos momentos, a vida de Hussah passara de uma liberdade rela­tiva à maior das opressões. Depois de um matrimónio acelerado, Hussah só conseguira tele­fonar a Maha uma vez, mas o som da sua voz tremente foi interrompido quando a comunica­ção foi abruptamente cortada.

Tendo no pensamento, onde ocupava lugar de destaque, a história da vida absolutamen­te arruinada destas duas mulheres, eu perguntava a mim mesma como é que tantos homens da fé islâmica se esqueciam de que o Profeta Maomé jamais se cansou de tecer elogios à in­finita misericórdia de Alá. Todos os capítulos do Alcorão, à excepção de um só, começa com o bismillah: «Em nome de Deus, o Piedoso, o Misericordioso».

A triste realidade era que Afaaftinha razão. Existia um grande número de muçulmanos que de facto difamavam o Profeta e os seus ensinamentos sempre que oprimiam a mulher em Seu nome.

E o que é que nós, mulheres, poderíamos fazer contra isso? No mundo muçulmano, crê-se que apenas o homem é que tem capacidade para interpretar o Alcorão. Se qualquer mulher se queixasse da maneira como as suas iguais, à semelhança de Afaaf ou Hussah, eram tratadas, seria acusada de minar a nossa fé - um crime imperdoável que acarretaria a mais severa das punições.

Estes pensamentos foram interrompidos quando ouvi Maysa, que, a despeito de todos os seus esforços, acabara por dormitar no seu lugar gritando durante o sono. Sabendo que a desafortunada Maysa via, naquele preciso momento, o nosso bem-amado Profeta na figura de um porco, eu sabia que os seus sonhos eram ainda mais perturbadores do que os meus pensamentos. Eu não desejava estar na situação de Maysa, mesmo que a troco de todas as liberdades do mundo.

 

                   ANJOS ROUBADOS

POUCO TEMPO DEPOIS, O nosso avião aterrou no Aeroporto de La Guardia, em Nova Ior­que. Felizmente, passámos com rapidez pelos serviços alfandegários e de imigração, uma vez que um dos diplomatas sauditas do nosso consulado nova-iorquino tinha ido ao nosso encontro para nos evitar burocracias, assegurando-se de que nos era proporcionado o tratamento reservado a pessoas importantes.

Éramos aguardados por dez limusinas que nos transportariam, juntamente com as bagagens, até ao Hotel New York Plaza. Todas nós nos sentíamos muito entusiasmadas, pelo que foram necessários longos momentos para que decidíssemos quem é que ia com quem, e em que automóvel.

Exasperado, Kareem começou a gritar, dizendo que lhe lembrávamos um bando de grandes pássaros negros a esvoaçarem de um lado para o outro. As outras mulheres acal­maram-se e rapidamente começaram a sentar-se no interior das viaturas; mas eu deixei-me ficar de lado, recusando-me obstinadamente a entrar numa das limusinas até que Kareem apresentasse desculpas pelos seus comentários pouco elegantes.

Kareem apercebeu-se de que eu estava decidida a marcar uma posição firme; soergueu os ombros numa atitude de resignação.

- Lamento muito, Sultana - disse ele. - E agora, por favor, entra no carro!

Um tudo-nada apaziguada, sentei-me junto de Sara e Maysa. Observei o motorista da limusina a revirar os olhos; era evidente que o homem não estava acostumado às exibições de histrionismo por parte das mulheres da realeza saudita. Apesar daqueles percalços, ao fim de pouco tempo seguíamos a caminho do Hotel Plaza.

Kareem reservara toda uma ala do velho e magnificente hotel, que desde há muito era o nosso preferido aquando das viagens que fazíamos à cidade de Nova Iorque. Com uma consistência regular, o pessoal do Plaza provara a sua discrição, proporcionando a sua hospitalidade aos visitantes oriundos de países abastados do Médio Oriente. Esses serviços, propiciados com tanto tacto, nunca caíam no esquecimento.

Enquanto percorríamos o trajecto até à cidade, sentia-me maravilhada a observar as mulheres que passavam velozmente por nós ao volante dos seus automóveis. Quando visito outras terras, nunca me canso de ver aquela cena! Na Arábia Saudita não é permitido que as mulheres conduzam, e dado que esta restrição não tem qualquer fundamento na nossa reli­gião, sempre me encolerizou. Há alguns anos, Kareem deu-me lições de condução no deser­to. Aprendi a conduzir mas nunca percorri as ruas do nosso próprio país sentada ao volante de um automóvel. Para agravar ainda mais esta situação insultuosa, a qualquer mulher de quarenta anos é interdito conduzir na Arábia Saudita e, contudo, os rapazes que não têm mais de oito ou nove anos de idade são vistos amiudadas vezes ao volante de carros que se­guem a grande velocidade repletos de mulheres aterrorizadas. Alguns dos beduínos do meu país dão aos seus camelos um tratamento melhor do que concedem às suas mulheres. Na Arábia Saudita não é invulgar ver crias de camelos instaladas no lugar do passageiro da fren­te, nas cabinas com ar condicionado, de camionetas de caixa aberta, enquanto as mulheres de caras veladas são transportadas na caixa aberta!

Agora, ao observar as mulheres norte-americanas a conduzirem com à-vontade por en­tre o tráfego da cidade, senti-me com um moral mais elevado. Certamente que, ao visitar um país como os Estados Unidos, eu poderia esquecer-me finalmente das desventuras sofridas por um tão grande número de mulheres. Acto contínuo, senti-me satisfeita pela liberdade de que gozavam as mulheres que via em meu redor. Lamentavelmente, tal como acontece com tanta frequência na minha vida, o meu desejo não me foi concedido.

O trânsito fluía com rapidez, pelo que o percurso de automóvel do aeroporto até ao hotel não durou mais do que trinta e cinco minutos. Um segundo funcionário do consulado tratara de contratar um serviço de segurança especial, que já se encontrava a postos quando chegámos ao hotel; fomos directamente escoltados até aos nossos aposentos. Chegados ao andar onde ficaríamos instalados, as mulheres separaram-se. Num estado de grande excita­ção, combinámos que não cederíamos às consequências do jet-lag (nota:1), tendo decidido mudar de roupa tão depressa quanto nos fosse possível, após o que nos reuniríamos nos aposentos de Sara antes de darmos início a uma orgia de compras por que há muito aguardávamos.

Depois de Kareem e eu termos inspeccionado os nossos aposentos, concluindo que nos satisfaziam, ele voltou-se para mim com um sorriso nos lábios.

 

(nota:1) Condição que se caracteriza por vários efeitos psicofisiológicos, tal como fadiga e irritabilidade, que se verificam em voos alongados através de diversos fusos horários. (N. da T)

 

- Sultana - começou a dizer -, tenho de sair dentro em pouco, mas antes de partir quero oferecer-te uma pequena prenda.

Olhei para Kareem com uma expressão interrogadora. O que é que seria? O meu mari­do é um homem generoso que tem o hábito de me inundar com ofertas de preço elevado nas ocasiões mais inesperadas.

Foi então que me passou para a mão um cartão de crédito de platina, o American Ex­press.

- Sultana, vais poder utilizar este cartão para comprares o que quer que te apeteça até atingires o limite de quinhentos mil dólares americanos.

Ao ver a expressão que se desenhara no meu rosto, sorriu.

- Minha querida, ultimamente tens andado sob uma tensão tão grande que mereces um pouco de divertimento. Mas - acrescentou -, este cartão de crédito muito provavelmente não será suficiente para que possas adquirir jóias. Caso encontres qualquer peça especial que desejes comprar, pedes ao gerente da loja que te a reserve e amanhã enviarei alguém do meu banco que possa efectuar a compra.

Fiz girar o cartão que mantinha nas mãos. Esta era a primeira vez que possuía um car­tão de crédito. Sempre que vou às compras na Arábia Saudita, nunca pago os artigos que ad­quiro. Deixo sempre que seja um dos gerentes dos nossos negócios a ocupar-se dos porme­nores relativos aos pagamentos. Estou acostumada a limitar-me a apontar para o que quero, sabendo antecipadamente que as compras serão pagas mais tarde. No entanto, hoje sentia­-me satisfeita por não irmos acompanhadas de um desses gerentes, sendo eu a responsável pelo pagamento de todas as compras que fizesse.

Kareem sacou então de um volumoso maço de notas de vários valores e em moeda ame­ricana que tinha na sua pasta e encafuou-as literalmente dentro da minha mala de mão. Por três vezes, advertiu-me para que não permitisse que algum estranho visse aquele dinheiro; o meu marido não queria que os assaltantes de roubos por esticão me desfizessem a cabeça.

Nesse momento Asad bateu à porta e Kareem saiu apressadamente com o irmão, com destino a uma reunião de negócios.

Finalmente fiquei sozinha. Liguei para Libby, pedindo-lhe que viesse ao meu quarto para me preparar um banho. Depois da longa viagem de avião, necessitava de me refrescar.

Pouco depois, ociosamente mergulhada na banheira, decidi que faria compras nos Bergdorf Goodman, uns grandes armazéns bastante do agrado de muitas das mulheres da família Al Sa’ud.

Depois de me ter vestido, reuni-me às minhas companheiras de viagem nos aposentos de Sara. Ao cabo de prolongadas discussões, ficou decidido que Sara e Maysa me acompa­nhariam aos Bergdorf Goodman. Libby, Betty e Afaaf aguardavam em silêncio esperando pelas nossas instruções. Geralmente levamos as nossas servas sempre que vamos fazer com­pras, mas naquele dia o nosso coração estava tão entristecido por causa de Afaaf que Sara e eu decidimos surpreendê-las, oferecendo-lhes um bónus em dinheiro, para além de lhes dar­mos o dia de folga. As três mulheres sorriram de gratidão antes de saírem para fazer com­pras na Quinta Avenida.

A sétima mulher do nosso grupo, a prima Huda, declinou juntar-se a nós. No que lhe dizia respeito, as compras podiam esperar. Em vez disso, anunciou que tencionava ficar nos seus aposentos permitindo-se requintados alimentos e bebidas. De facto, já tinha encomen­dado três grandes latas de caviar de esturjão branco, tendo a intenção de passar a tarde a co­mer caviar acompanhado de champanhe enquanto via as novelas que a televisão norte-ame­ricana transmitia.

Atónita, fiquei a olhar para Huda. Por que razão é que qualquer mulher optaria por se manter fechada a comer nos aposentos de um hotel ao invés de fazer compras na cidade de Nova Iorque? Nós, as mulheres sauditas, passamos uma parte tão grande da nossa vida en­clausuradas que qualquer pessoa pensaria que uma oportunidade como aquela nunca seria passada em branco.

Encolhi os ombros sem dizer nada que pudesse convencer Huda a mudar de ideias. Não era uma das minhas primas favoritas, pelo que não mantínhamos um relacionamento parti­cularmente chegado. Eu não era capaz de compreender a obsessão que ela tinha por comida; todas as conversas que se travavam com ela, mais cedo ou mais tarde acabavam por abordar algum prato especial que ela teria preparado ou comido em qualquer lugar. Corria uma his­tória entre a nossa família, repetida em diversas ocasiões com grande satisfação, em que se dizia que muitas vezes Huda e o marido iam a França de avião especialmente para comerem uma única refeição.

Só Sara é que tinha generosidade suficiente para suportar as longas conversas em que ela descrevia pratos dignos de gastrónomos. Por este motivo, Huda agarrava-se a Sara, e a minha generosa irmã era demasiado boa para a afastar. Por conseguinte, senti-me aliviada por Huda ter decidido permanecer no hotel.

A caminhada até aos Bergdorf Goodman tomou-nos somente alguns minutos, mas para mim foi um passeio estimulante, dado que nunca me canso destas liberdades tão simples que a maioria de todas as mulheres do mundo tomam por garantidas. Ali estava eu, em plena luz do dia, vestida com uma saia-e-casaco Armani azul, com um corte que se ajustava ao meu corpo, percorrendo uma rua da cidade apinhada de homens. Ali, as mulheres não tinham de recear a súbita aparição de um mutawwa, a polícia religiosa saudita com os seus bastões com que atingiam qualquer mulher suficientemente imoral que se vestisse de forma tão pro­vocadora.

Sentia-me radiante e a vaidade não era pouca. Sempre me sentira entristecida por não ter sido abençoada com pernas alongadas, ao contrário das minhas irmãs. Contudo, embora as minhas pernas fossem curtas, eram bem torneadas. Eu estava bem ciente de que os meus sapatos azuis de salto alto, que condiziam com o vestuário, davam bastante realce às minhas pernas. A brisa fazia com que os meus cabelos compridos e anelados adejassem; enquanto trocava frivolidades com Sara e Maysa, lançava a cabeça para trás. Sentia-me exuberante e feliz por ter a liberdade de mostrar o meu rosto, por exibir as minhas roupas elegantes enquanto caminhava pelas ruas de uma grande cidade - e tudo isto sem a presença de uma escolta masculina que pairasse por perto!

Ocorreu-me que as mulheres ocidentais são, na realidade, bastante mais afortunadas do que pensam. Este pensamento levou-me a Afaaf. Sabia que ela deveria estar a desfrutar deste dia de doce liberdade, ainda mais do que eu.

Lancei um olhar fugaz a Maysa e sorri. Ela não tinha o cuidado de se preocupar parti­cularmente com a sua aparência pessoal. Todavia, um fato preto de preço elevado cobria muitas falhas. Sara vestia-se com mais recato do que Maysa e eu, usando um vestido de seda de cor creme com uma gola de rebuço que lhe tapava o pescoço, de mangas compridas, mas, como sempre, tinha uma aparência de cortar a respiração.

Senti-me deliciosamente feminina e bonita quando me apercebi de que era admirada por diversos homens que nos olhavam demoradamente enquanto caminhávamos pela rua. Se bem que a minha postura, que dava um tanto ou quanto nas vistas, atraísse a sua atenção inicial, não me passava despercebido que os seus olhares se prendiam por mais tempo em Sara, a qual, como é evidente, estava completamente alheada de que era o foco de tantos olhares apreciadores.

Depois de termos entrado nos armazéns, segui o meu comportamento habitual sempre que me via confrontada com aquele género de exposição de mercadorias de fazer perder a cabeça: comprei todos os artigos que despertaram o meu interesse! Num curto período de tempo, já tinha seleccionado quinze dispendiosos vestidos de noite que se destinavam a ser usados em festas e casamentos. Existe uma competição enorme entre as mulheres da família Al Sa’ud, o que me levou a procurar os estilos mais modernos e originais. Não estive com perdas de tempo a provar os vestidos; o meu costume é comprar muitas roupas para depois oferecer as que não me servem ou que posteriormente não me agradam.

No entanto, eu não era egoísta ao extremo; também comprei várias prendas maravilhosas para os meus filhos e marido.

Quando informei uma das empregadas de balcão que levaria uma dúzia de blusas de seda, todas da mesma cor e feitio, ela concluiu de imediato que éramos membros da família real da Arábia Saudita, optando por chamar um dos gerentes da loja. Depois desse episódio, passámos a ser acompanhadas pelo gerente enquanto examinávamos a vasta colecção de roupas de marca dos grandes armazéns Bergdorf Goodman.

Decorrido pouco tempo, haviam sido chamadas dez empregadas para levarem os pesa­dos sacos das compras. Era por de mais evidente no rosto dos que se encontravam à nossa volta que a nossa orgia de compras nos Bergdorf Goodman constituía um evento deveras excitante.

Embora o conjunto das compras de Sara e Maysa não enchessem mais de cinco sacos, eu necessitei de mais de trinta sacos onde coubesse tudo o que tinha adquirido. Certamente, pensei, Kareem teria de reforçar o meu cartão especial com fundos adicionais; senti-me perplexa quando o gerente me informou de que a despesa total que eu fizera nos Bergdorf Goodman totalizava somente 388 000 dólares.

Sara não se mostrou surpreendida quando lhe dei conhecimento da oferta que Kareem me fizera, dado que a maior parte dos membros da nossa família são fabulosamente ricos e, aquando das viagens em que fazemos compras, costumamos comprar tudo o que desejamos. Mesmo assim, as nossas compras eram uma gota de água quando comparadas com os bens imobiliários e transacções comerciais que os nossos maridos efectuavam enquanto fazíamos compras.

Maysa nascera no seio de uma família palestiniana de meios modestos e, assim, a sua reacção era de reprovação perante as minhas extravagâncias.

- Multiplicai os vossos bens, aumentai os vossos fardos - ouvi-a murmurar sem que ela se apercebesse. Olhou para mim abanando a cabeça num gesto de tristeza. - Se Alá de­cidir abençoar-me com mais cem anos de vida, jamais me enquadrarei no esbanjamento imprudente que se verifica nesta família. Realmente, Sultana, com toda a certeza que até tu já deves estar cansada de comprar inumeráveis vestidos para festas e jóias de preço elevado, não achas?

Não me senti ofendida pelas suas palavras. Quem é que poderia irritar-se com uma mu­lher que levava uma vida exemplar de uma generosidade que se devia a tanto altruísmo? Eu sabia que Maysa preferia gastar a abastança do marido fazendo bem aos pobres. Numa ocasião, ouvira dizer que Naif e Maysa suportavam oitenta famílias palestinianas que viviam na Faixa Ocidental; não só lhes proporcionavam abrigo, alimentação e vestuário, como também custeavam a educação escolar dos filhos.

Abracei Maysa apenas para que ela soubesse que não me tinha ofendido. Contudo, não me dei ao trabalho de justificar o meu estilo de vida tão extravagante, uma vez que não sen­tia mal-estar algum, pois sabia que Kareem e eu dávamos muito mais da nossa riqueza aos pobres do que aquilo que era requerido pela nossa fé religiosa. Que mais é que haveríamos de fazer?

Depois de termos regressado da nossa exaustiva aventura das compras, retirei-me para os meus aposentos a fim de descansar antes do jantar.

Ao fim da tarde, Kareem ainda não tinha chegado ao hotel; sabendo que a minha irmã e as outras mulheres do nosso grupo muito provavelmente ainda estariam a descansar nos respectivos quartos, comecei a sentir-me inquieta. Decidi telefonar a várias mulheres norte­-americanas com quem fizera amizade há muitos anos.

Foi com prazer que ouvi a voz de uma amiga muito querida, Anne, a qual, ao ouvir a minha voz, soltou um pequeno guincho de satisfação.

- Graças a Deus que telefonaste, Sultana! Eu queria tanto ligar-te para Riade, mas re­ceei que pudesse haver alguém que escutasse a nossa conversa.

Sorri. Anne está convencida de que todas as linhas telefónicas do meu país estão sujei­tas a escuta.

- Sultana, aconteceu uma coisa terrível! Uma garotinha americana, que ainda não fez cinco anos, foi raptada e levada para o teu país. O pai, um saudita, tirou-a à mãe, uma norte­-americana. Como é evidente, a pobre mãe está num grande estado de histerismo; tenho estado na esperança de que nos pudesses ajudar a descobrir o paradeiro da criança.

Senti que o coração me caía aos pés ao ouvir aquela história. Será que eu jamais conse­guiria escapar àquelas histórias confrangedoras? Ao longo de todos os dias da minha vida ouvia falar de mulheres exploradas, maltratadas e que eram alvo de abusos; mas, ao contrá­rio da maior parte das mulheres sauditas, eu recusava-me a aceitar que estas situações fizes­sem parte da condição feminina. Há alguns anos, cheguei à triste conclusão de que os abusos exercidos sobre as mulheres não eram um factor característico da Arábia Saudita. Era, sim, um fenómeno que se verificava a nível mundial.

Infelizmente, as vitórias que eu alcançava ao ajudar as mulheres nestas situações eram aflitivamente escassas. Naquele momento, as minhas esperanças de conseguir pôr de lado as preocupações dessa natureza, desfrutando de uns quantos dias livres de preocupações na América do Norte, haviam sido destruídas. O meu coração já começara a sofrer por causa daquela garotinha e da sua mãe.

Sabendo que Anne esperava uma resposta, respirei fundo.

- Anne, tu sabes bem que é muito difícil ajudar qualquer pessoa nessa situação no meu país.

- Eu compreendo, Sultana - retorquiu Anne com uma nota de tristeza na voz -, mas eu estava esperançada em que tu pudesses fazer algo.

- O pai em questão é algum membro da minha família, os Al Sa’ud?

- Não, ele não faz parte da monarquia.

- Bem, pelo menos conta-me o que sucedeu. - Com um suspiro, lancei um olhar ao relógio sobre a mesa de cabeceira. O jantar teria de esperar.

- Quer tu estejas ou não em posição de poder fazer alguma coisa, pelo menos esta mãe sentir-se-á mais encorajada quando eu lhe disser que falei contigo.

- Conta-me tudo o que souberes - disse eu enquanto acendia um cigarro e tragava profundamente o fumo. Aquilo poderia levar algum tempo.

- A mãe desta criança chama-se Margaret McClain. É instrutora na Universidade Estatal do Arkansas, onde conheceu um estudante saudita de nome Abdulbaset Al-Omary, com quem posteriormente veio a casar.

Al-Omary? Pessoalmente, eu não conhecia nenhuma família da Arábia Saudita que ti­vesse aquele nome. Mas dado que a minha vida gira em redor do círculo dos membros da família real, esta lacuna nos meus conhecimentos não era de surpreender.

- Pelo que me foi dado saber, o casamento teve lugar com bastante celeridade - con­tinuou Anne. - Depois de casados em conformidade com a lei, o admirador encantador e afectuoso transformou-se rapidamente num marido ciumento e irracional.

- Essas facetas não são invulgares no homem árabe - comentei entredentes. Eu nunca tinha conseguido descobrir a razão para este padrão comportamental, perturbador e consisten­te, em muitos dos homens árabes que cortejam mulheres não-árabes. Tendo em linha de conta que só um número bastante reduzido de homens é que conhecem as mulheres que desposarão em território da Arábia Saudita, em casamentos arranjados pelas famílias, os homens sauditas não têm oportunidade de se mostrar encantadores antes do matrimónio. Mas quando existe a possibilidade de romancearem com mulheres de outros países, nenhum apaixonado consegui­rá mostrar-se tão atento e fascinante como um pretendente saudita, ou, na verdade, de qual­quer nacionalidade árabe, incluindo os sírios, egípcios, kuwaitianos e jordanos.

Proferem-se palavras de ternura, oferecem-se prendas e fazem-se promessas. Regra geral, nunca são mencionados quaisquer potenciais problemas relativos a uma educação diferenciada em termos culturais e religiosos. Mas assim que a mulher é atraída a um casa­mento, é frequente o homem transformar-se num tirano que se torna abusivo e grosseiro no relacionamento com a esposa, sem esquecer que poderá passar a interessar-se por outras mulheres bonitas.

As diferenças de religião e cultura podem, ao fim de pouco tempo, dar origem a graves problemas matrimoniais. A maneira de vestir habitual da mulher em questão, aspecto que mereceu elogios durante o período em que foi cortejada, passa a ser declarada como dema­siado reveladora. São-lhe atiradas à cara acusações abusivas proferidas em voz alta, caso ela se atreva a falar com outro homem.

Aquilo que poucas pessoas não-árabes compreendem é que todos os árabes estão acostumados a levar a sua avante em todas as situações familiares. Nunca haverá paz em casa até que ele seja reconhecido como o chefe incontroverso, um facto de que muitas espo­sas não-árabes não se apercebem até que seja demasiado tarde.

Eu assistira a situações semelhantes vezes sem conta, uma vez que um certo número dos meus primos haviam desposado mulheres europeias e norte-americanas. Estes primos sauditas declaravam amar tudo o que tivesse a ver com as suas mulheres estrangeiras antes de se casarem; contudo, depois de efectivada a união matrimonial, davam repentinamente a impressão de que detestavam tudo aquilo que afirmaram ter amado previamente.

Quando estes casais começam a ter crianças, invariavelmente o homem insistirá em que os filhos sejam educados apenas segundo os princípios da fé muçulmana. A herança religiosa da mãe é considerada como não tendo a mínima importância.

No caso de o casamento resultar em divórcio, a mulher corre o grave risco de vir a perder a tutela dos seus filhos. A lei islâmica prevê que as mães só podem ficar com os seus filhos varões até estes completarem os sete anos de idade, e apesar de as filhas poderem permane­cer junto das mães até à puberdade, nos países muçulmanos a idade da puberdade no tocante às mulheres é com muita frequência bastante prematura, podendo ser aos oito anos. E caso um homem saudiarábico reivindique a tutela dos filhos ou filhas, independentemente da idade destes, a mãe não poderá recorrer a qualquer meio legislativo. Se as crianças viverem num outro país, numa fase posterior é frequente os pais árabes roubarem os filhos levando­-os para o seu país de origem. São poucos os governos que interferirão a favor da mãe quan­do o homem árabe tem a tutela dos seus próprios filhos.

A história de Anne interrompeu a minha linha de pensamento.

- Margaret deu à luz uma filha, Heidi, cujo pai é Abdulbaset, mas o casal divorciou-se pouco depois do nascimento da criança. Embora Abdulbaset tenha feito ameaças frequentes, afirmando que jamais permitiria que a filha fosse educada nos Estados Unidos, ele continua­va a frequentar uma universidade norte-americana. Por conseguinte, Heidi encontrava-se a salvo temporariamente. Ou, pelo menos, foi o que Margaret pensou. Foi então que, apenas há alguns meses, Abdulbaset levou a criança durante uma das suas habituais visitas de fim de semana. Decorrido esse fim de semana, não entregou a filha à mãe. Desde essa altura que a amargurada mãe não vê a criança. Mais ou menos uma semana depois, Margaret recebeu um telefonema de Abdulbaset, o qual afirmou que tinha Heidi junto de si na Arábia Saudita.

- Pobre, pobre mulher - murmurei, perguntando a mim mesma como é que uma mu­lher poderia suportar uma perda tão terrível como aquela.

- Sultana - continuou Anne em voz mais baixa -, Heidi é a filha mais nova de Margaret. Os outros dois filhos, do seu primeiro casamento, são bastante mais velhos do que a garota. Toda a família tem o coração destroçado por causa desta perda. Em toda a minha vida, nunca senti tanta pena de alguém como sinto por ela.

- O meu próprio coração está dilacerado perante o pensamento da infelicidade que ela deve sentir - retorqui num sussurro.

- Não há nada que possas fazer? A pobre Margaret não é capaz de pensar em mais nada.

Os meus pensamentos corriam à desfilada. O que é que eu poderia fazer? Que ajuda é que eu poderia oferecer? Não conseguia pensar em nada.

- E quanto ao teu próprio governo? - perguntei por fim. - Essa mulher deveria dar a conhecer a sua história ao vosso presidente.

- Sultana! - exclamou Anne rindo-se. - Nenhum vulgar cidadão norte-americano seria autorizado a falar pessoalmente com o presidente sobre um assunto desta natureza!

- Oh?! - exclamei surpreendida. - Na Arábia Saudita o mais simples dos homens pode abordar o nosso rei. Não é invulgar que bastantes problemas de pequena monta, que envolvam cidadãos sauditas, sejam resolvidos pelo próprio rei. Na realidade, o nosso rei via­ja regularmente por todo o país de visita a várias tribos, de forma a que as pessoas possam abordá-lo com maior facilidade. - Como é que era possível que fosse mais difícil abordar um presidente do que um rei?

- Não, Sultana. Aqui as coisas não se passam assim. Os Estados Unidos constituem um território demasiado vasto. É claro que Margaret já contactou o Departamento Estatal dos Estados Unidos. Mas o nosso governo não pode fazer grande coisa quando a situação envolve a soberania de um outro país.

- Não estou a compreender. Está em causa uma criança norte-americana que foi arrebatada à mãe. Por que motivo é que o teu governo não intervém numa situação dessas?

Pelo que eu tinha visto dos soldados norte-americanos na Arábia Saudita, era capaz de visualizá-los a atacarem a casa desse Abdulbaset Al-Omary e, muito simplesmente, devol­verem a criança à sua mãe. De que é que serve um governo que não puder executar uma tarefa tão simples como devolver uma criança à sua mãe?

- Não... não. Aparentemente, se a criança estiver em solo da Arábia Saudita, en­contra-se ao abrigo da lei saudita. Somente o teu governo é que poderia devolver Heidi à mãe. - Anne hesitou. - Mas, como é evidente, os sauditas não tomarão essa medida.

Perante aquela situação, temi muito que a pobre Margaret nunca mais voltasse a ter a tutela da sua filha.

- O que é que tu sabes desse Abdulbaset Al-Omary? - perguntei. - Onde é que ele trabalha? Onde é que vive?

- Bem... a Margaret nunca esteve na Arábia Saudita, pelo que não faz a mínima ideia do local onde ele reside. Ele licenciou-se na Universidade Estatal do Arkansas, o que o habi­lita a ensinar programação de computadores. Mas, tendo em consideração que Abdulbaset só muito recentemente regressou à Arábia Saudita, Margaret não tem maneira de saber se ele arranjou emprego.

- Humm. - Eu estava a pensar numa forma de poder ajudar. Se ao menos houvesse um número de telefone ou o endereço de uma residência.

- Anne, não está na minha mão salvar essa criança. Certamente que estarás ciente disso. Mas se a mãe puder fornecer alguma fotografia de Heidi e do pai, farei tudo o que estiver ao meu alcance para os localizar, mas, por favor, não fiques com muitas esperanças.

- Eu tenho uma fotografia recente de Heidi - redarguiu Anne -, mas vou ter de telefonar a Margaret para que me arranje uma do pai.

- O acto malévolo que ele cometeu envergonha todos os muçulmanos - murmurei. - Bem, Margaret diz que Abdulbaset afirma ser um muçulmano devoto.

- Acredita, Anne, que nenhum muçulmano verdadeiramente bom arrancaria uma criança dos braços da sua mãe - ripostei, encolerizada.

Antes de darmos a nossa conversa por terminada, Anne prometeu enviar-me quaisquer informações adicionais relativas ao caso, para o Hotel Plaza.

Soltei um suspiro fundo, sentindo-me oprimida pela visão deprimente da estupefacção da inocente Heidi ao encontrar-se num país estranho, muito distanciada da sua mãe que tanto amava. Ao fim de pouco tempo, a minha tristeza transformou-se em cólera, sentimento que foi crescendo até começar a sentir um ódio irracional dirigido a todos os homens.

Quando Kareem regressou aos nossos aposentos no hotel, recusei-me a responder às suas perguntas sobre o meu dia de compras. Confuso com a minha atitude carrancuda, conti­nuou a interrogar-me persistentemente, até que explodi.

- Tu e todos os outros homens à face da Terra deveriam ser açoitados, Kareem!

A boca do meu marido abriu-se de surpresa; a sua expressão cómica acabou por convencer-me a contar-lhe a razão do meu azedume.

- Telefonei a Anne.

Os lábios de Kareem formaram uma linha fina.

- Oh...? - Embora ele simpatize com Anne, acredita que é uma mulher que preferiria trepar a um muro a ter de transpor um portão aberto, mas eu sei que a obstinação de Anne se deve a um desejo sincero de ajudar todas as pessoas, razão que me leva a gostar dela e a admirá-la.

Contei a Kareem os pormenores da conversa que eu e Anne havíamos travado. A reac­ção do meu marido correspondeu exactamente àquilo que eu poderia ter previsto. A despeito do facto de ele se mostrar mais receptivo quanto aos assuntos do sexo feminino do que a maioria dos homens árabes, sente relutância em perder o seu tempo com problemas que acredita serem irresolúveis.

- Sultana, quando é que vais começar a aprender que é impossível a uma simples mulher resolver todos os problemas das demais mulheres?

- É por isso que necessitamos da ajuda dos homens... homens no poder!

Kareem abanou a cabeça num gesto de determinação.

- Recuso-me a envolver-me nessa situação, Sultana. Trata-se de um assunto de carácter pessoal que será mais bem resolvido pelos membros da família afectada.

Não consegui conter, nem por mais um momento, a enorme vontade que sentia em atingir Kareem! Dei-lhe um pontapé na canela mas não lhe acertei.

Kareem, rindo-se, agarrou-me e puxou-me para si.

Desfiz-me em lágrimas. Sem a ajuda dos homens, como é que nós, as mulheres, pode­ríamos vir a alterar o curso das nossas vidas? Os homens detinham todo o poder político!

Movido pelo desejo de alterar o curso daquela noite, Kareem começou a beijar-me as faces.

- Acontece que eu me preocupo contigo, Sultana - acrescentou ele. Acariciou-me as costas. - Tens uns ombros tão estreitos, minha querida, e no entanto tentas carregar sobre estes ombros delicados todos os problemas que afligem as mulheres.

Recusei-me a dar-lhe resposta.

- Querida, tenho uma prenda especial para te oferecer - continuou ele depois de ter examinado cuidadosamente o meu rosto. - Estava a guardá-la para mais tarde, mas este parece-me ser um momento apropriado.

Opus resistência à tentativa de Kareem de me beijar nos lábios. Não estava interessada em mais uma prenda valiosa.

- Não é o que estás a pensar, minha querida. - Fez uma pausa. - Escrevi um poema que te dediquei.

Surpreendida, recostei-me para trás. Nós, os árabes, somos «gente do ouvido», ao invés de «gente da palavra escrita», e é frequente sentirmo-nos inclinados a expressar os nossos sentimentos mais profundos através da composição de poesia que depois lemos em voz alta.

No entanto, Kareem era um dos poucos árabes que eu conhecia que só muito raramente organizava os seus pensamentos e emoções sob a forma de poesia. O meu marido possui uma mente analítica, o que atribuo à sua formação de advogado.

Com suavidade, Kareem conduziu-me a uma cadeira.

- Senta-te, minha querida.

Ajoelhou-se no chão e agarrou-me nas mãos; os seus olhos fitavam os meus. A sua voz, forte e clara, ficou reduzida ao murmúrio de um homem apaixonado.

 

         Tu vais primeiro

         Transpões a porta antes de eu passar.

         Entras na limusina enquanto eu espero

         Ao teu lado.

         Entras nas lojas enquanto eu me deixo

         Ficar para trás, guardando-te as costas.

         Sentas-te à mesa à minha frente.

         Por favor, saboreia as vitualhas mais

         Saborosas enquanto eu me sento silenciosamente.

         O meu desejo é que vás primeiro, em todas as

         Ocasiões da vida terrena.

         Só uma vez é que irei antes de ti,

         E isso será no meu último momento.

         Porque quando a morte nos reclamar,

         Tu deves ser a última a partir.

         Porque não sou capaz de viver um segundo sem ti.

 

Kareem beijou-me as mãos.

Sentindo-me extremamente emocionada, não fui capaz de proferir uma única palavra.

Por fim, disse em palavras hesitantes:

- Kareem, isso foi a coisa mais bela que alguma vez disseste. A prenda mais maravi­lhosa que alguma vez me pudesses dar: ajoelhaste-te aos meus pés. - E acrescentei: ­

Uma cesta plena de diamantes não me proporcionaria maior prazer.

Kareem arqueou as sobrancelhas numa expressão divertida.

- Oh? Tem cuidado com o que dizes, Sultana, ou oferecerei a cesta de diamantes aos pedintes.

Sorri-lhe.

Kareem acariciou-me as faces com a mão.

- Agora, Sultana, diz-me se gostaste de ir às compras.

Senti um sentimento de culpa. Na verdade, sou uma mulher bem-aventurada por ter um marido que me satisfaz todos os desejos.

- Claro que sim, meu querido, diverti-me imenso. Comprei muitas coisas encantadoras. Nenhum dos homens que eu conheço é mais generoso para com a sua família.

Vi que as minhas palavras lhe agradaram enormemente.

Para todos os maridos da Arábia Saudita, é motivo de grande orgulho o facto de pode­rem adquirir seja o que for que as suas esposas e filhos possam cobiçar. Entre os homens da família Al Sa’ud existe uma renhida competição, dado que cada um tenta ultrapassar os ou­tros comprando para as suas famílias os adornos mais raros, assim como os bens mais PRECIOSOS.

Todavia, muito em segredo, as bugigangas de preço elevado que o dinheiro podia com­prar já haviam deixado de proporcionar alegria e felicidade à mulher de Kareem. Em tempos idos, eu tinha procurado consolo para os meus problemas comprando muitos artigos dispen­diosos e de grande beleza. Mas algo mudara. Compreendi que as minhas orgias de compras como a daquela manhã não voltariam a proporcionar-me a consolação psicológica de que necessitava.

O que é que estaria a suceder comigo? Estaria eu a tornar-me como Maysa? Interro­guei-me. Uma tal alteração na minha personalidade perturbaria tudo o que era familiar nas nossas vidas. Sem dúvida alguma que Kareem não saberia como reagir perante uma mulher que tivesse perdido o gosto por jóias caras e belas roupas. Eu não desejava levantar uma barreira entre mim e o meu marido. Teria de acabar por partilhar estas novas e estranhas sensibilidades com Kareem. Mas isso não aconteceria hoje. Ambos estávamos exaustos.

Kareem continuava a preocupar-se com a minha depressão, que parecia não querer abandonar-me; e, dado que estaria ocupado com reuniões de negócio, pediu a Sara que me vigiasse de perto durante o resto da nossa estadia.

Sara insistia em que devíamos desfrutar de tudo o que a cidade de Nova Iorque tinha para nos oferecer, o que fizemos. Vimos duas peças teatrais na Broadway; visitámos o Museu Americano de História Natural e o Museu Guggenheim; jantámos em alguns dos mais lu­xuosos restaurantes de todo o mundo, Le Bernardin, Le Cirque, o Lutece e The Quilted Giraffe.

No dia anterior ao da nossa partida de Nova Iorque, recebi uma encomenda da minha amiga Anne. Rasguei o papel e analisei o conteúdo cuidadosamente. Fiquei satisfeita ao ver uma fotografia a cores da pequena Heidi. Era uma garota encantadora com um sorriso rasgado.

Anne também incluíra várias folhas dactilografadas com várias informações que abran­giam diversos factos sobre outras crianças roubadas por pais sauditas às suas mães norte­-americanas, as quais haviam sido levadas do seu país de nascimento sem autorização ma­terna. Senti-me chocada por constatar que mais de dez mil crianças, em que quase duas mil eram norte-americanas, haviam sido ilegalmente retiradas às suas mães não-árabes, actos cometidos por pais sauditas, e as quais viviam actualmente na Arábia Saudita.

Comecei a chorar enquanto lia as histórias individuais de mães que não viam as suas crianças há vários anos. A dor de se perder um filho era pior do que qualquer outro sofri­mento; coisa de que eu tinha a certeza absoluta.

Examinando o material que Anne me enviara, vi uma fotografia do pai de Heidi, Abdulbaset Al-Omary. Fisicamente, não se podia dizer que não fosse um homem atraente, e contudo, a fazer fé em tudo o que me fora dito sobre a sua conduta, não descobri nada que pudesse admirar.

Se ao menos eu pudesse chegar a este homem. Suplicar-lhe-ia que devolvesse a criança à mãe. Infelizmente, Margaret McClain não fora bem sucedida nos seus esforços para des­cobrir uma morada ou número de telefone que correspondesse ao paradeiro do ex-marido, pelo que eram efectivamente bastante remotas as hipóteses de se vir a descobrir onde é que Heidi se encontrava.

Deixei a cidade de Nova Iorque num estado de espírito melancólico. A viagem com a minha família e amigas a bordo do nosso avião particular não desanuviou o meu moral som­brio. Retirei-me da atmosfera de jovialidade e sentei-me afastada dos outros passageiros.

Sara lançou-me um olhar protector, embora não tivesse tentado atrair-me para o círculo das mulheres. Huda encontrava-se concentrada numa descrição alongada cujo tema era um prato especial que tivera oportunidade de saborear no Bouley's, um dos melhores restauran­tes franceses de Nova Iorque. Sara sabia que eu achava absurda e cada vez mais irritante a obsessão que Huda tinha pela comida.

Até mesmo no meio de vozes excitadas, eu conseguia manter-me perdida nos tristes pensamentos cujo tema eram as crianças inocentes roubadas às suas mães.

Os meus pensamentos voltaram a concentrar-se em Heidi. Que futuro é que estaria reservado àquela criança solitária? Com base no que lera sobre o pai saudita de Heidi, fiquei a saber que a pobre garota seria criada no mais estrito lar muçulmano. Dentro de pouco tem­po seria forçada a usar o véu, pelo facto de no meu país muitas rapariguinhas muçulmanas serem obrigadas a velar a face até mesmo antes de atingirem a puberdade. No seguimento do véu, indubitavelmente, seria coagida a um casamento forçado, desposando um homem que não conheceria até à chocante noite em que o casal se deitasse na mesma cama.

Tentei adormecer, mas o meu sono era inquieto. Depois de ter passado algumas horas a mexer-me de um lado para o outro no assento desconfortável, Sara sentou-se ao meu lado para me dizer que aterraríamos dentro em pouco. Faríamos escala em Londres, onde passa­ríamos a noite antes de prosseguirmos viagem com destino à Arábia Saudita.

Tivesse eu sabido que durante a nossa curta estadia em Inglaterra seríamos humilhados por causa de uma tremenda cobertura da imprensa escrita, que se concentrava num caso sau­dita de natureza jurídica, e teria pedido a Kareem que cancelasse a aterragem em Londres, ordenando que o avião seguisse para Paris.

  

                   DECAPITADAS

QUANDO CHEGÁMOS AO aeroporto londrino, fomos confrontados com as perturbadoras parangonas dos jornais: as duas palavras que mais chamavam a atenção eram Arábia Saudita e Decapitações.

- O que é que está a acontecer? - perguntei a Kareem. Eu estava a ficar preocupada por causa da minha família.

Kareem começou a falar em voz baixa enquanto nos conduzia através do aeroporto.

- É o caso daquelas duas enfermeiras britânicas. Ao que tudo indica, foram dadas como culpadas de assassinato.

- Oh, sim - retorqui, recordando-me rapidamente do incidente que tanta atenção atraíra no estrangeiro.

A história tinha começado há mais ou menos um ano quando duas enfermeiras britâni­cas, Deborah Parry e Lucille McLauchlan, haviam sido presas na Arábia Saudita sob suspei­ta do assassínio de Yvone Gilford, uma enfermeira australiana. E agora, durante o tempo em que estivéramos em Nova Iorque, um tribunal saudita concluíra que as duas mulheres eram culpadas de homicídio qualificado. Há muito tempo que o povo britânico rejeitara a pena de morte, mas na Arábia Saudita os assassinos continuam a ser sentenciados à morte. Era óbvio que estávamos a entrar numa cidade cheia de grande agitação perante a ideia de duas cida­dãs britânicas perderem a cabeça sob a acção do sabre de um carrasco da Arábia Saudita.

Estremeci. Embora creia firmemente que o crime de assassínio exige uma punição exemplar, sempre achei que a decapitação era extremamente estarrecedora! Na verdade, existe muita gente que considera todo o nosso sistema jurídico primitivo e ultrajante. A lei islâmica, ou sharia, é a base da lei civil e criminal em toda a Arábia Saudita; por seu lado, esta fundamenta-se no Alcorão e na suna (exemplos das ordens e obras do Profeta Maomé).

E ao contrário das leis vigentes em muitos países ocidentais, a sharia dá ênfase aos direitos da sociedade no seu todo em detrimento dos direitos individuais.

As sentenças estabelecidas pela infracção das leis islâmicas são implacáveis e severas. Os perpetradores de crimes de estupro e homicídio são decapitados, os adúlteros são apedre­jados até à morte e os ladrões sofrem a amputação da mão direita. Existem outras condena­ções que abrangem chicotadas em público, assim como multas e períodos de prisão, méto­dos estes mais universalmente aceites. É possível que estas sentenças severas possam parecer brutais, mas o certo é que nas nações muçulmanas existe uma média de criminalida­de mais baixa do que a que se verifica em muitos outros países.

Compreendendo que todo o nosso sistema jurídico se encontrava sob rigorosa análise por parte da imprensa britânica, todos os membros do nosso grupo mostravam-se invulgar­mente taciturnos enquanto os nossos motoristas nos conduziam para a zona da Grande Londres.

Depois de termos chegado ao nosso andar em Knightsbridge, Kareem e Asad saíram logo para a embaixada da Arábia Saudita com a finalidade de se inteirarem da situação. As mulheres instalaram-se no apartamento, começando logo a ler os jornais que Kareem com­prara no aeroporto.

Enquanto lia, senti-me estremecer; os relatos do drama que aquelas duas enfermeiras britânicas estavam a viver, preenchiam as primeiras páginas dos jornais. Todos os aspectos do sistema judicial saudita eram explorados e condenados. Acima de tudo, os jornais pare­ciam manifestar a indignação sentida pela autorização que a nossa sociedade «primitiva» concedia aos familiares da vítima permitindo-lhes que tivessem uma palavra a dizer em rela­ção ao tipo de pena a que os condenados deviam ser sentenciados.

Na Arábia Saudita, no caso de crime de homicídio qualificado, a família da vítima tem o direito de exigir que o assassino seja morto da mesma maneira, ou por meio de qualquer outra punição por que optem. É um facto que se têm verificado casos em que famílias da Arábia Saudita optam por infligir ao assassino o mesmo castigo que o seu ente querido so­freu; por exemplo, esfaquear o condenado até à morte, ou até mesmo atropelá-lo passando­-lhe com um carro por cima. Não obstante, a maior parte dos sauditas aceita a sentença mais habitual, que se traduz na morte por decapitação.

Aos familiares da vítima também é concedida uma segunda opção: receberem «dinhei­ro de sangue» a troco de pouparem a vida ao homicida. Embora noutros tempos os camelos fossem a moeda de troca no que respeitava ao «dinheiro de sangue», hoje em dia essas in­demnizações fazem-se em riais sauditas ou em dólares. Foram estabelecidas indemnizações por perdas e danos, de acordo com as circunstâncias, numa escala de 120000 a 300 000 riais sauditas (45 000 a 80 000 dólares). Claro que se a vítima for uma mulher, o «dinheiro de sangue» cifra-se em metade do que é atribuído à vida de um homem.

No caso em questão, as duas mulheres haviam sido dadas como culpadas do assassínio de uma terceira mulher. A imprensa britânica dizia que a família da vítima fora abordada quanto à possibilidade de aceitar «dinheiro de sangue» pela morte do ente querido, de acor­do com o estipulado na lei saudita, apesar de a família da vítima residir na Austrália. O ir­mão da mulher morta, Frank Gilford, de acordo com o que se dizia, mostrara-se ultrajado perante a ideia de que a vida da sua irmã pudesse ser comprada e liquidada, pelo que, sentin­do-se extremamente encolerizado, recusara a oferta do «dinheiro de sangue».

Eu concordava com Frank Gilford. No seu lugar, também teria rejeitado a oferta desse «dinheiro de sangue». Como é que alguém poderá atribuir um valor monetário a qualquer vida? Quem dera que os homens da Arábia Saudita sentissem o grau de amor e estima pelas suas mulheres que os ocidentais demonstravam, reflecti, pensativa, ao comparar a reacção de Frank Gilford com um caso verdadeiro que ocorrera recentemente em território saudiará­bico.

A história que então me ocorreu à mente tivera lugar quando a viatura de um estran­geiro embriagado chocou com um automóvel que transportava mulheres, matando duas sau­ditas. Nesta situação haviam sido cometidos simultaneamente dois crimes graves: a ingestão de bebidas alcoólicas e homicídio; por conseguinte, o estrangeiro foi enviado de imediato para o calabouço. Não havia dúvidas de que o homem seria condenado à morte ao abrigo das leis rigorosas que vigoram na Arábia Saudita. A sua única esperança era convencer o marido das mulheres mortas a aceitar «dinheiro de sangue». Caso contrário, seria decapitado.

Apesar de outros casos similares ocorridos na Arábia Saudita demonstrarem que grande parte dos sauditas prefere o método «olho por olho», o advogado do acusado preparou uma petição de oferta de «dinheiro de sangue».

Quando o caso foi levado perante um juiz saudita, ninguém ficou mais chocado ao ver a reacção do marido das vítimas do que o estrangeiro culpado e o seu advogado. O marido das duas mulheres mortas levantou-se defronte do juiz e disse: «Meritíssimo, peço que o prisioneiro seja posto em liberdade. Não exijo a sua morte e tão-pouco o seu dinheiro. As duas mulheres que morreram eram esposas que tomei na minha juventude, tendo envelhe­cido tanto que já não podiam prestar-me qualquer serviço». Este homem chegou ao ponto de olhar para o réu e sorrir-lhe. «Estou satisfeito por me ver livre delas, pois agora já posso substituí-las por outras duas mulheres mais novas».

De acordo com o que a lei estipula, o juiz saudita não teve outra opção senão libertar aquele estrangeiro bem-aventurado. Posteriormente, constou que o marido até agradeceu ao estrangeiro, dizendo-lhe que há muito tempo desejava divorciar-se das mulheres, mas não quisera entrar num acordo financeiro!

Uma vez mais, reflecti na sorte que tinham as mulheres de outras nações. Ser apreciada e estimada é algo que se encontra para além das expectativas de muitas cidadãs saudiarábi­cas.

Voltei a concentrar-me no destino das duas enfermeiras britânicas. A partir do momen­to em que haviam sido sentenciadas, com a pena a pairar por perto, o interesse do público atingira o auge. Embora tenha havido um determinado número de mulheres que foram deca­pitadas na Arábia Saudita, nunca houve nenhuma oriunda de um país ocidental que tenha sofrido este destino tão cruel.

A tensão existente entre os governos da Arábia Saudita e da Grã-Bretanha era crescen­te. Os britânicos sentiam-se abismados com a possibilidade de duas das suas cidadãs pode­rem vir a ser executadas, enquanto os sauditas estavam encolerizados em face das críticas dos britânicos em relação ao sistema judicial do seu país.

Huda interrompeu os meus pensamentos erguendo o olhar do jornal que estivera a ler. - Estes ingleses não deveriam reclamar contra o método de pena capital dos sauditas.

Saeed Al Sayaf, o carrasco oficial, maneja o sabre com muita destreza. Numa ocasião, o meu marido assistiu a uma decapitação e falou do trabalho de Saeed tecendo-lhe os maiores elogios. Essas mulheres britânicas têm muita sorte por poderem contar com os serviços de um carrasco com tanta prática. - Huda deu um estalo com a língua. - Num dado minuto, estas mulheres deixarão de ter as suas cabeças. Não sofrerão nem sequer um momento de dor.

Sara, horrorizada, olhava para Huda.

Levei a mão à garganta e fiquei como que paralisada. Eu também sabia algo sobre a perícia de Saeed Al Sayaf no manejo do sabre, dado que o vira há vários anos aquando de uma entrevista que ele dera na televisão saudita. Nunca consegui esquecer-me do indivíduo. A jovialidade que mostrara não correspondia em nada ao seu trabalho horripilante. É um dos funcionários do Ministério do Interior. Exercendo a função de carrasco desde muito jovem, já desferiu o sabre em muitas ocasiões e, presentemente, anda a ensinar o seu mister a um dos filhos para que este o possa substituir. Aquando das decapitações, Saeed afirmara que utilizava um sabre especial com que fora presenteado pelo príncipe Ahmad bin Abdul Aziz Al Sa’ud.

Saeed também está incumbido do cumprimento da execução de sentenças atribuídas a crimes menores, tal como as penas por furto. Recordei-me de Saeed explicando que usava facas de lâmina afiada para decepar as mãos dos gatunos, uma vez que seria difícil acertar na região exacta num alvo tão pequeno como um pulso caso utilizasse uma arma tão grande como um sabre.

Durante essa entrevista, declarara ainda que preferia muito mais cortar cabeças à ma­chadada do que decepar pulsos. Também exprimiu a grande decepção que sentia em virtude da florescente economia da Arábia Saudita, o que fizera baixar o índice criminal. Passara a haver poucos criminosos que o mantivessem ocupado! Nessa altura, também discutira algumas das suas decapitações mais memoráveis. Na verdade, depois de ter decapitado mais de seiscentas cabeças, assim como ter decepado sessenta mãos, tinha muitas histórias para contar.

O relato mais apavorante envolvia dois condenados parceiros no crime, os quais tinham sido sentenciados a uma execução em simultâneo. Isto aconteceu antes da implementação da norma que obriga a vendar os olhos dos condenados. Como resultado, o segundo homem teve oportunidade de observar o sabre de Saeed a golpear o pescoço do camarada; a cabeça decepada caiu aos seus pés. O homem, aterrorizado, soergueu o olhar, vendo que Saeed pre­parava o sabre para o decapitar. Desmaiou e caiu por terra. Foi examinado pelo médico de serviço à execução, que declarou que o coração do homem deixara de bater. Quando o corpo do amigo era levado para ser sepultado, o homem caído recuperou os sentidos. O carrasco foi chamado de novo, e o homem implorou que lhe poupassem a vida.

Jamais esquecerei o sorriso de perversidade que se desenhou na expressão do carrasco, enquanto soltava uma risada casquinada perante a recordação daquilo que deve ter sido um dos seus melhores dias. Como é evidente, Saeed não poderia concordar com tal coisa, pelo que o homem foi imediatamente decapitado.

Uma vez mais, Huda fez-se ouvir.

- É óbvio que essas mulheres britânicas são culpadas do crime de assassínio. Devem pagar pelo crime que cometeram contra Alá.

Sara, com o seu coração generoso, olhou para a nossa prima sem querer acreditar no que ouvia.

- Oh, Huda! Decerto que não sentes o que estás a dizer.

- E por que não? Se um cidadão saudita cometer um crime em Inglaterra ou nos Estados Unidos, não será obrigado a responder pelo seu crime? - Huda fez estalar os dedos num gesto de quem põe o assunto de parte. - Será que as nossas leis muçulmanas não têm qualquer significado?

Entretanto, Maysa acenou com um jornal e começou a falar.

- Não leste este relato, Huda? Talvez estas mulheres estejam inocentes. O artigo diz que foram torturadas pela polícia saudita. Sabes bem que esse tipo de coisas acontece.

Huda lançou-lhe um olhar malévolo.

- Maysa, não sejas tão ingénua. É claro que essas mulheres cometeram o crime de que foram acusadas! Foram dadas como culpadas num tribunal saudita! E que outra coisa é que qualquer criminoso estrangeiro afirmaria senão brutalidade por parte da polícia? É um truque típico dos ocidentais para escaparem ao castigo!

Nessa altura, Huda pôs-se de pé e endireitou o vestido.

- Tanta conversa provocou-me fome. Acho que vou dizer à cozinheira de Sultana que me prepare uma nova receita que descobri em Nova Iorque.

A aversão até então oculta que eu sentia por Huda estava prestes a vir à superfície.

Falei num timbre de voz bem elevado para que ela pudesse ouvir-me.

- Dá a impressão de que a glutona tem um apetite insaciável por sangue, assim como pela comida.

Huda encostou-se desamparada contra uma parede, como se houvesse sido acometida de violentas dores no peito, mas apercebemo-nos de que ela fingia. Apesar disso, Sara e Maysa correram para ela. Enquanto era levada para fora da sala, Huda gritava que estava a ter um ataque do coração e que alguém devia chamar o marido, para lhe dizer que começas­se a tratar do funeral.

Entretanto, as nossas criadas entraram na sala mostrando-se alarmadas, mas eu tranqui­lizei-as.

- Não se preocupem. Embora Huda esteja destinada a sofrer de um colapso cardíaco, o seu destino não tem a mínima relação com as minhas palavras. O destino fatal de Huda encontra-se directamente ligado às espessas camadas de gordura que têm vindo a acumular­-se em redor do seu coração.

As criadas começaram a rir-se. Se bem que tivesse excesso de peso, Huda era a mulher mais robusta de toda a extensa família Al Sa’ud. Desde os seus tempos de meninice que fingia rotineiramente ter ataques do coração. Muito plausivelmente, garanti a todas as pre­sentes que Huda haveria de desfrutar de muitos pratos deliciosos antes de ouvir o derradeiro chamamento de Deus.

Continuando a sorrir, dirigi-me à cozinha para dar instruções a Jada, a cozinheira e governanta que mantínhamos em Londres, para que preparasse o nosso jantar.

Para minha surpresa, descobri que Jada já nos tinha cozinhado um pequeno banquete: salada de beringelas, sopa de lentilhas, pilafe e espetadas. Vi que aquela preciosa rapariga até tinha cozido pão árabe para nos agradar.

- Estou tão feliz por a senhora estar aqui em casa - disse ela enquanto começava a colocar os alimentos em bandejas. - Às vezes sinto-me muito sozinha - admitiu numa voz suave.

Dei comigo a cismar na vida de Jada. Era forçada a reconhecer que sabia muito pouco sobre a vida da rapariga. No ano anterior, de viagem a Inglaterra sozinho, Kareem desco­brira que a nossa criada e um dos nossos motoristas mantinham uma relação ilícita. Dado que ambos eram casados com terceiros, Kareem rescindiu os seus contratos de trabalho, en­viando-os de volta aos respectivos parceiros matrimoniais. Foi nessa altura que contratou Jada.

Naquele momento ocorreu-me que Kareem dissera então que Jada tinha chorado copiosamente, pedindo-lhe que a deixasse ocupar aquela posição de criada e cozinheira. Dissera ao meu marido que vinha de uma família pobre do Egipto, o que a obrigava a traba­lhar para ajudar a financiar a educação universitária de um irmão mais velho. Se bem que ela se tivesse apresentado em nossa casa sem quaisquer referências, Kareem adivinhou boas qualidades na rapariga, não hesitando em contratá-la sem mais perdas de tempo.

Recordei-me de ter ouvido dizer que os seus progenitores tinham emigrado do Egipto há alguns anos. Depois de o pai não ter conseguido arranjar um emprego adequado em Londres, surgiu-lhe a possibilidade de um emprego numa fábrica, o que levara a família até à cidade de Manchester. Presentemente, Jada vivia em Londres; continuava solteira e era muito raro que tivesse oportunidade de visitar a família. Uma vez que Kareem e eu só nos instalamos na nossa casa de Londres uma ou duas vezes por ano, eu sabia que Jada deveria passar longos e aborrecidos meses com poucas distracções que lhe animassem os dias.

Ao olhar para a juventude que as feições do rosto de Jada não desmentiam, calculei que não seria muito mais velha do que a minha filha mais nova, Amani. E contudo, Jada condu­zia-se como uma mulher madura, enquanto Amani exibia bastante amiúde uma conduta in­fantil. A vida de abastança e privilégios traz à superfície atributos pouco atractivos, pensei para comigo. E, era forçada a admitir, isso também me incluía.

Fazendo-lhe algumas perguntas numa voz gentil, fiquei a saber que Jada tinha sido uma aluna excelente nos seus tempos de escola, tendo ansiado desde sempre por tirar um curso de Medicina. A sua maior ambição era regressar ao Egipto, onde desejava cuidar de mulhe­res grávidas que viviam em pequenas aldeias, num esforço para reduzir a elevada taxa de mortalidade infantil que se verificava nesse país, para além de querer combater a prática da excisão feminina.

Recentemente, verificara-se um aceso sentimento de ultraje a nível internacional, celeu­ma que se devera ao hábito egípcio de excisar as mulheres, o que levava Jada a desejar fer­vorosamente ajudar a esclarecer as suas cidadãs, de forma a que elas rejeitassem aquela prá­tica tão bárbara.

- É uma causa admirável - disse-lhe eu com o pensamento a recuar no tempo. - A neta de Fatma, a nossa governanta no Egipto, foi obrigada a sujeitar-se a essa prática brutal.

Inacreditavelmente, foi a própria mãe da criança, Elham, quem insistiu em que esse acto desumano tivesse lugar! Eu própria acompanhei Fatma para tentarmos convencer Elham a não submeter a filha a uma mutilação tão perigosa. Mas ela acreditava sinceramente que a nossa religião exigia que as mulheres fossem excisadas, pelo que a filha não poderia ir contra as leis da sua religião. - Soltei um profundo suspiro, continuando a sentir-me deprimida sempre que pensava naquilo. - Estou de acordo em que a única solução para se pôr cobro a este costume hediondo é o esclarecimento das mulheres.

- Elas têm de aprender a questionar a autoridade - retorquiu Jada. - Caso contrário, continuarão a acreditar em tudo o que os pais e maridos lhes disserem.

- Isso é verdade - concordei.

Tendo em vista as suas aspirações pessoais, fiquei surpreendida ao saber que Jada não guardava qualquer sentimento de animosidade pelo facto de a totalidade do seu salário se destinar à educação universitária do irmão. Jada ficava apenas com algumas libras para si própria.

- Depois de o meu irmão conseguir obter a licenciatura - continuou Jada com um sorriso -, pedir-lhe-ei que passe a custear a minha educação escolar. - Aquela rapariga generosa estava tranquilamente segura de que os seus sonhos acabariam por se realizar, e que o irmão honraria os seus desejos, da mesma maneira que ela havia honrado os seus numa atitude tão altruísta.

Olhei-a imbuída de um enorme fascínio. Sabia que, se me tivesse encontrado na mesma situação com o meu irmão Ali, eu teria preferido fazer uma fogueira com o meu salário a entregar-lho. Lamentavelmente, eu desconfiava que os sonhos de Jada talvez nunca viessem a ser cumpridos. Uma vez concluído o curso, o mais provável seria que o irmão se casasse. A partir de então, as necessidades da mulher e dos filhos precederiam inevitavelmente os interesses da irmã.

Enquanto me afastava da cozinha, ocorreram-me à mente pensamentos sobre Afaaf e Hussah. Uma vez mais, sentia-me espantada pela forma como os desejos e necessidades das mulheres árabes eram sempre preteridos em benefício dos desejos dos homens árabes.

Existe uma terrível verdade que impregna todas as culturas muçulmanas - uma verdade de que só um pequeno número de muçulmanos está disposto a admitir. Em todas as sociedades árabes ou muçulmanas, a vida das mulheres assemelha-se a uma cera macia que os homens podem moldar a seu bel-prazer, de acordo com as suas crenças e desejos individuais.

Como Kareem e Asad só regressaram da embaixada saudita noite adentro, as mulheres desfrutaram a sós do banquete que Jada nos preparara. Huda, continuando irritada com o comentário que eu fizera antes, optou por comer no isolamento do seu quarto. Dado que nos sentíamos cansadas devido aos rigores da viagem, assim que terminámos a refeição da noite recolhemos aos nossos quartos.

Na manhã seguinte, seguimos de novo para o aeroporto, prosseguindo viagem até à Arábia Saudita. Havíamos estado ausentes do reino durante somente oito dias mas, por qual­quer razão inexplicável, para mim o tempo que estivera fora parecia-me interminável.

O nosso avião aterrou em Jeddah, cidade onde Maysa e Huda residem. Os restantes membros do grupo esperavam continuar viagem até Riade dentro dos dias mais próximos. Depois de tomar conhecimento da trágica história de Heidi, mal conseguia esperar para ter Maha e Amani nos meus braços.

Nessa noite, no nosso palácio em Jeddah, Kareem e eu relaxámos bebendo algumas bebidas antes de nos retirarmos. O tópico da nossa conversa foi a crise do momento entre a Arábia Saudita e a Inglaterra. Embora eu tivesse tentado mudar de assunto mais de uma vez, Kareem sentia-se extremamente irritado por o nosso país ser alvo de críticas pelo facto de dar cumprimento às leis da nação - leis essas que mantinham o nosso índice de criminali­dade substancialmente abaixo do que se verificava na maioria dos outros países espalhados pelo mundo fora.

Toda aquela conversa de decapitações perturbou-me mais do que o habitual, muito em especial porque Kareem estabeleceu um paralelo pormenorizado entre as crueldades bárba­ras dos métodos norte-americanos aplicados à pena capital, tal como a cadeira eléctrica e a câmara de gás, e o método mais rápido e humano da decapitação.

Momentos depois de nos termos retirado, Kareem adormeceu num sono profundo. Eu, por outro lado, virei-me e tornei a virar-me na cama durante toda a noite.

Por qualquer razão, os meus pensamentos detinham-se no destino trágico de um homem jovem, de nome Abdullah Al-Hadhaif, cuja história era bem conhecida de todos os saudiarábicos. Em Agosto de 1995, este homem tinha apenas trinta e três anos e era o pai de seis crianças ainda pequenas, quando foi executado sob ordens do governo saudita. Junta­mente com muitos outros sauditas, Abdullah, os seus dois irmãos e o pai de idade avançada haviam sido presos sob a acusação de crimes de natureza política, o que abrangia uma conduta pessoal que ofendia o nosso governo, tal como falar abertamente em mesquitas, distribuição de panfletos, ou de cassetes, banidos pelo Estado.

Na altura disse-se que o pai idoso de Abdullah fora torturado na prisão, tendo sido tão brutalmente seviciado que acabou por morrer de um ataque cardíaco. Como é natural, isto enraiveceu os filhos do Al-Hudhaif mais velho, sendo o sensível Abdullah quem mais sentiu os efeitos dessa raiva. Quando foi libertado da prisão, começou a procurar o agente da polícia secreta que tinha torturado o seu pai. Depois de conhecida a identidade do homem em questão, Abdullah vingou-se lançando contra ele um recipiente cheio de ácido. Este ficou gravemente ferido mas não morreu, tendo ficado capaz de identificar o seu atacante.

Abdullah voltou a ser enviado para a cadeia. Toda a raiva em estado latente sentida pe­las autoridades sauditas contra os seus opositores passou a estar concentrada neste único homem. Os amigos e familiares de Abdullah relataram que ele havia sido selvaticamente torturado para o obrigarem a confessar. Algumas destas informações diziam que fora mergu­lhado num líquido corrosivo como vingança pelo seu ataque ao polícia. As suas entranhas foram insufladas através do ânus, ao mesmo tempo que eram proferidas ameaças de que sua mãe e esposa, que ele tanto adorava, seriam sexualmente violentadas na sua presença.

Ainda assim, Abdullah Al-Hadhaif recusou-se a assinar qualquer confissão.

A fúria sentida pelos seus algozes acentuou-se ainda mais devido à obstinação que mostrava. Um dos relatos diz que Abdullah foi pendurado como se fosse um carneiro no matadouro, com a cabeça amarrada entre as pernas. Fora tão impiedosamente espancado que ficou paralisado da cintura para baixo.

Eu via-me forçada a admitir que os homens da minha família eram inacreditavelmente cruéis! A tragédia de Abdullah só terminou quando foi decapitado.

Quais teriam sido os derradeiros pensamentos daquele homem torturado? É uma per­gunta que faço a mim mesma. Teria sentido medo e tristeza ao pensar que não viveria para criar os seus seis filhos? Ou ter-se-ia sentido aliviado porque a morte dentro em pouco lhe traria paz, libertando-o da agonia por que passara nos seus últimos dias de vida? Só Deus conhecia a resposta às minhas perguntas.

Entretanto, a minha mente começou a ser preenchida por muitas outras imagens excru­ciantes. Tinha a certeza de que Heidi vivia muitas horas de infelicidade a chorar pela mãe. A pobre Afaaf encontrava-se sozinha no mundo. E Hussah, legalmente, pertencia a um homem cruel, a exemplo do que acontecia com Munira.

Incapaz de conciliar o sono, saí silenciosamente da cama para preparar uma bebida de rum e Coca-Cola que tencionava beber. Concluí que nada mais me ajudaria a alcançar um estado de olvido.

E assim, dei início a uma longa noite de ingestão de muitas bebidas alcoólicas. Fiquei tão embriagada que, durante uma ida até ao meu roupeiro para ocultar uma garrafa vazia, tropecei na orla do roupão e derrubei uma jarra. Ainda me estiquei para tentar apanhá-la, mas o álcool havia reduzido a minha capacidade de movimentos e a jarra acabou por se esti­lhaçar contra uma parede. No silêncio da noite, o estrondo da jarra que se quebrara era ensurdecedor. ­

Quando Kareem, sobressaltado, saltou da cama, eu estava incapaz de coordenar o cére­bro com a língua, o que me impediu de falar em minha defesa!

Kareem apercebeu-se de imediato de que a sua mulher estava tão embriagada que não conseguia falar sem que as palavras lhe saíssem entarameladas.

- Sultana! - gritou ele chocado.

- Ó Alá! - tartamudeei para mim mesma. - Os meus pecados foram descobertos! Não me recordo de mais nada do que se passou nessa ocasião, uma vez que fiquei inconsciente, obliterando por fim as imagens terríveis que tentara afogar na bebida.

 

                   A REVELAÇÃO DO MEU SEGREDO

PERMANECI NO MISTERIOSO reino das trevas durante longas horas, o que acontece quando a mente se fecha; nenhuma informação, recente ou antiga, é processada. Não me sentia sobrecarregada com tristezas, tão-pouco me sentia tranquilizada por sonhos agradáveis. A minha breve ausência da realidade não poderia durar; todavia, tive o prazer daquele estado de inconsciência despovoado de sonhos, até que fui despertada pelos sons característicos do dia-a-dia de qualquer casa na manhã seguinte.

Quando finalmente abri os olhos sob a luminosidade agressiva, a primeira imagem que vi foi a face de Kareem. Subitamente, surgiu-me à mente a recordação de ele ter acordado para descobrir a mulher num estado de embriaguez. Na esperança de poder redimir o desas­tre da noite anterior através de um milagre, cerrei as pálpebras com toda a força, rezando a Deus para que o que sucedera na noite anterior não tivesse acontecido, que tudo não passas­se de um sonho mau.

Quando olhei de novo para a fisionomia de Kareem, fiquei ciente de que Deus não tinha respondido à minha prece. Os olhos tristes e sabedores de Kareem eliminaram qual­quer esperança de que ele continuasse a desconhecer o meu vício de beber secretamente. Sem necessidade de qualquer palavra, a expressão no rosto do meu marido disse-me que ele sabia que eu tinha um grave problema de álcool.

A voz clara do meu marido era enganadoramente calma.

- Sultana, como é que te sentes?

Não me restava a menor dúvida de que a partir de agora o meu futuro se tinha alterado para sempre, uma vez que o meu destino seria, inquestionavelmente, o de uma mulher divorciada e escarnecida.

Este pensamento enchia-me de tanto horror que estava incapaz de falar.

- Sultana?

- Não estou a sentir-me muito bem, marido - repliquei numa voz a medo.

Kareem acenou com a cabeça.

Ficámos a olhar-nos fixamente durante muito tempo, sem proferir uma única palavra. Nenhum de nós tinha coragem para tentar prosseguir com qualquer conversa.

No meio daquele silêncio, foi com lentidão que recuperei a presença de espírito. Rapi­damente recordei a mim mesma que não tinha a certeza até que ponto, exactamente, é que Kareem sabia do meu problema com a bebida; talvez eu devesse levar em consideração aquele sábio provérbio árabe: «A tua língua é o teu cavalo e, se o deixares à solta, atraiçoar­-te-á».

Agarrei-me à ideia de que Kareem pudesse acreditar que o meu estado de embriaguez não fosse mais do que uma ocorrência esporádica. Ao fim e ao cabo, haviam sido muitas as ocasiões em que ao longo do nosso casamento nos saciámos juntos com bebidas alcoólicas sem que ele alguma vez tivesse expressado o seu desagrado.

- Precisamos de conversar, Sultana.

Permaneci em silêncio.

Desviando o olhar de mim, Kareem esfregou os olhos e respirou fundo.

- Não dormi a noite toda. - Com um suspiro de cansaço, olhou-me uma vez mais. ­Pergunto a mim mesmo como é que conseguiste ocultar de mim este problema com a bebida, e por tanto tempo.

- Problema com a bebida? - perguntei na mesma vozinha a medo.

Ignorando a minha pergunta, Kareem continuou a fitar-me enquanto articulava palavras suaves que eu não desejava ouvir.

- Por favor, não consumas o nosso tempo tentando provar a tua inocência, quando é por de mais evidente que és culpada. Já falei com a Sara. Fiquei a saber que quando estou fora é muito frequente beberes em excesso.

Não valia a pena negar aquele facto. Através do seu semblante angustiado, eu soube que Kareem se encontrava a par da verdade. Senti o peito apertado pelo sofrimento daquele pensamento.

- Nada voltará a ser como antes - disse eu, começando a chorar enquanto torcia as mãos. Já estava a imaginar os mexericos cruéis acerca da minha pessoa, os quais se espa­lhariam rapidamente entre a extensa família dos Al Sa’ud. A minha reputação estava arruinada para todo o sempre!

- Estás a chorar como uma criança por aquilo que não podes defender como mulher? As palavras de Kareem atingiram-me qual adaga de lâmina aguçada e, contudo, não fui capaz de parar de chorar. Tinha acontecido o pior! A desesperada necessidade que eu sentia pelo álcool havia sido revelada; estava irremediavelmente perdida. Kareem iria divorciar-se de mim. O escândalo humilharia os meus filhos. O meu irmão Ali, que eu tanto odiava, sentir-se-ia exultante por a minha vida ter sofrido uma viragem para o pior. E o meu esquivo pai sentir-se-ia inteiramente justificado pela desafeição que sentia pela filha mais nova da sua primeira mulher, mais ainda do que até então. O meu choro soluçado tornou-se ainda mais profundamente sentido.

O meu choro desesperado suavizou o coração de Kareem. Levantou-se e encaminhou­-se para mim. Sentou-se na beira da cama, começando a afastar os cabelos do meu rosto.

- Querida, não estou zangado contigo - disse ele. - Estou zangado comigo mesmo.

- Por que motivo é que estás zangado contigo próprio? - perguntei, olhando-o con­fusa.

- Não consegui ver o que se passava mesmo em frente dos meus olhos. - Pensativamente, Kareem limpou as lágrimas das minhas faces.

- Se eu não tivesse andado tão ocupado com os meus negócios, já me teria apercebido do teu problema há muito tempo. Por favor, perdoa-me, Sultana.

Fui invadida por uma sensação de alívio. Kareem estava disposto a carregar o meu far­do sobre os seus ombros. Acusava-se a si próprio e não a mim. Uma vez mais, fora salva! A irresponsabilidade permitia-me gozar de outra imerecida comutação da pena, o que fez com que me sentisse ansiosa por concordar com Kareem, e dizer que ele tinha andado demasiado ocupado com assuntos de negócios. Ele negligenciara a sua mulher. Precisamente quando estava prestes a abrir a boca para expressar a minha presunção e sentimento de vitória, senti abruptamente a proximidade do espírito da minha mãe no quarto. Com a respiração arque­jante, olhei em redor. Se bem que não pudesse ver a minha mãe, sabia instintivamente que ela se encontrava presente, testemunhando este encontro entre mim e o meu marido.

- Sultana, estás a sentir-te bem? - Com uma expressão de grande preocupação, Kareem levou a mão à minha face e acariciou-a.

Acenei que sim, mas continuava incapaz de proferir palavra. O espírito da minha mãe estava a tornar-se cada vez mais forte. Sou incapaz de expressar o terror que me assolou quando me senti como que atingida por um golpe, tendo a certeza absoluta de que estava a ser sujeita a uma qualquer espécie de julgamento diferente de todos os outros; esperava-se de mim muito mais do que as minhas imaturas reacções habituais. Uma voz silenciosa disse­-me a medo que se eu queria alguma vez voltar a sentir uma paz e alegria genuínas, teria de alterar o meu comportamento.

Decorreram longos momentos antes de recuperar o dom da palavra. Olhei bem de fren­te para o meu marido.

- Kareem - comecei -, recuso-me a continuar a procurar vitórias vergonhosas. Foi a minha própria fraqueza, e não a tua, que deu origem a este dilema. Tu não tens culpa alguma. Portanto, apaga essa preocupação do teu rosto, marido. Só eu é que sou responsável pelo meu problema com a bebida.

Pronto, tivera a coragem de o dizer! Por uma vez na vida, não tinha recorrido aos meios mais fáceis que me permitissem iludir as minhas imperfeições pessoais. Kareem mostrou-se chocado, à semelhança do que acontecia comigo, por aquela nova maturidade com que eu assumia as minhas responsabilidades.

Sorri ao meu marido.

- Prometo que a partir deste momento tenciono fazer um esforço para combater este problema.

- Querida, combateremos este problema juntos - retorquiu Kareem tomando-me nos seus braços.

Na verdade, estar nos braços ternos de Kareem era uma grande consolação. Eu deseja­va tanto ultrapassar os meus desejos vexantes pelo álcool, ao que se aliavam todas as menti­ras e secretismo subjacentes. Radiante de esperança e optimismo, ao fim de pouco tempo o meu estado de espírito era de alegria.

Mais tarde, Kareem foi ao encontro de Asad, que se instalara no nosso palácio de Jeddah com Sara.

Como queria falar com a minha irmã, liguei para os aposentos das visitas, falando com Sara através do intercomunicador do palácio. Combinámos que nos encontraríamos no jardim reservado às mulheres.

Depois de abraçar a minha irmã, confiei-lhe sem mais delongas tudo o que se tinha passado entre mim e Kareem. A felicidade que Sara sentia por mim ficou bem patente ao elogiar a minha coragem.

- Quando surgiu o primeiro indício de problemas, deverias ter aliviado a tua consciên­cia contando tudo ao teu marido - disse ela. - Eu sabia que Kareem não reagiria da ma­neira que pensaste que faria. - Fez uma pausa antes de prosseguir: - Devias tê-lo visto a noite passada, Sultana. Mostrou-se extremamente desgostoso quando soube que o teu maior receio era que ele te abandonasse quando tu mais necessitavas dele.

Ainda tentei persuadir a minha irmã a contar-me tudo o que Kareem dissera acerca de mim e do nosso casamento, mas Sara recusou-se. As confidências que o meu marido lhe fizera eram para ser mantidas em segredo.

- Somos duas mulheres afortunadas, Sultana - recordou-me ela com ternura. - Ambas casámos com homens que são maridos maravilhosos. - Ficou em silêncio antes de admitir: - Nesta terra, este tipo de homens é tão raro quanto os diamantes sem qualquer imperfeição.

Fiquei a meditar nas palavras de Sara; o que ela dizia correspondia à verdade. Indu­bitavelmente, Asad era um marido como nenhum outro. Ele adorava a minha irmã. Desde o momento em que os olhos de Asad a haviam visto, todas as mulheres tinham deixado de existir para aquele antigo boémio. Sara era uma mulher bem-aventurada.

Se bem que Kareem me tenha desiludido grandemente em mais de uma ocasião, esses episódios dolorosos tinham acontecido há muito tempo. Com o passar dos anos, Kareem transformara-se num marido e pai afectuoso e interessado. Também eu podia considerar-me uma mulher afortunada.

Depois de ter dado à minha irmã um segundo abraço em que pus todo o afecto que guardava no coração, regressei aos meus aposentos. Alguns minutos depois, Kareem entrou no quarto e, com um sorriso rasgado, disse que tinha uma ideia que seria do meu agrado. Corri para o meu marido e puxei-o para mim. Cambaleou com a força do meu abraço; acabámos por cair os dois de costas sobre a cama.

Kareem tentou falar mesmo quando eu continuava a beijar-lhe os lábios, olhos e nariz. - Sultana, eu...

Só pelo facto de eu saber que me fora concedida uma segunda oportunidade de redimir a minha vida, senti-me como o ladrão a quem dizem que vai perder uma mão mas que logo fica a saber que o carrasco morreu, pelo que a pena tem de ser comutada. Sentia-me tão ali­viada e feliz que beijei Kareem até ele se ter esquecido da ideia que desejava discutir comi­go. Passado pouco tempo, ambos estávamos embrenhados num apaixonado acto sexual.

Mais tarde, depois de Kareem ter acendido um cigarro que ambos partilhámos, e que ele me dava a fumar, perguntou-me:

- A que é que se deve o que acabou de acontecer?

- Será que eu não tenho autorização para mostrar ao meu marido o quanto estou apaixonada por ele? - perguntei na brincadeira.

- Claro que sim, minha querida. - Sorriu-me. - Sempre que te sentires tão arrebata­da com esse amor, chama por mim.

- Por quem mais é que eu haveria de chamar? - perguntei-lhe, rindo-me.

Kareem ergueu o cigarro ao alto e, mostrando-se feliz, esfregou a face contra a minha. - Também eu te amo, querida.

Colocou o cigarro entre os meus lábios, esperando que eu inalasse o fumo antes de voltar a levá-lo aos seus próprios lábios.

- Que ideia é essa que mencionaste?

- Oh, sim. Hoje tenho andado a pensar que já passou muito tempo desde que fizemos uma viagem juntos até ao deserto, em família. - Os seus olhos começaram a perscrutar o meu rosto procurando uma reacção. - Estou em crer que tu, Sultana, beneficiarias mais do que qualquer outra pessoa com uma viagem ao deserto, o que nos permitiria regressar às nossas raízes.

O que ele disse era verdade. Enquanto ele e Abdullah se juntavam bastante amiúde aos seus primos de sangue real em passeios de caça e falcoaria, era extremamente raro que eu e as minhas filhas participássemos nessas incursões pelo deserto. Remontando no tempo, apercebi-me de que haviam decorrido largos anos desde que a nossa família se retirara para o deserto. Em tempos idos, essas jornadas que nos levavam a um modo de vida mais simples, que não era governada por relógios e calendários, tinham-me proporcionado uma enorme tranquilidade mental.

Não consegui ocultar os meus sentimentos.

- Sim - anuí -, o deserto. Essa viagem dar-me-ia grande prazer, Kareem.

Embora os saudiarábicos residissem actualmente em palácios requintados situados em cidades modernas, ainda não nos esquecemos de que os nossos antepassados mais recentes eram uma gente nómada e tribal que vivia em tendas. Em boa verdade, hoje em dia existem poucos nómadas que percorram regularmente os vastos desertos arábicos. Ao longo dos últi­mos vinte anos ou mais, o governo saudita tem vindo a encorajar os beduínos tribais a aban­donarem as suas tendas e mudarem-se para as cidades. E contudo, todos os saudiarábicos trazem no seu sangue a recordação tribal dos viandantes nómadas. Apesar de a família Al Sa’ud ter abandonado o deserto muito antes do grande número dos nossos concidadãos, não somos diferentes dos demais sauditas quando se trata de dedicarmos um amor sem limites ao deserto.

No ano 1448 d. C., os primeiros membros do clã Al Sa’ud retiraram-se do deserto agres­te, tendo começado a cultivar a terra em redor do povoado hoje conhecido pelo nome de Diriya. Os homens da nossa família tornaram-se agricultores e mercadores de sucesso; com o passar do tempo, transformaram-se naquilo que conhecemos pela designação de árabes citadinos. Por conseguinte, nós, os Al Sa’ud, não nos consideramos nómadas, e no entanto sentimo-nos inexplicavelmente atraídos, como que pela força de um íman, para aquilo que para nós é um mar irresistível de areias majestosas.

Kareem interrompeu os agradáveis devaneios em que eu mergulhara.

- Vamos tornar esta viagem num evento de família - disse ele observando-me. ­

Convidaremos toda a gente.

- Espero que não incluas o Ali! - protestei rapidamente, sabendo qual o significado exacto das palavras de Kareem.

- Minha querida, não te parece que chegou a altura de tu e o teu irmão deixarem o passado para trás? - perguntou Kareem tocando-me na face com a mão. - Que bem é que poderá advir dessa hostilidade incessante, quer para ti quer para ele?

- Como é que eu poderei ter amizade por um homem como Ali? Irmão ou não, ele é demasiado desprezível para que as palavras o possam traduzir! - ripostei obstinadamente.

- Pois bem, se convidamos um, temos de convidar todos.

Eu sabia que a razão estava do lado de Kareem. Seria um insulto chocante, um desprezo total pela tradicional hospitalidade árabe, convidar todos os nossos irmãos para nos acompanharem ao deserto e omitir deliberadamente Ali e a sua família. Caso viesse a verificar-se um insulto dessa natureza, o escândalo de uma desavença no seio da nossa família tornar-se-ia no assunto mais falado em Riade.

- Sendo assim, convida-o, uma vez que não pode ser evitado - retorqui com um suspiro. - Mas devo dizer que me desagrada verdadeiramente a forma como nós, os árabes não podemos mostrar-nos abertos quanto aos nossos sentimentos - acrescentei entredentes.

- Tu nasceste princesa árabe, Sultana - disse Kareem com uma pequena risada. ­- Por que haverás de lutar contra a tua sina?

Que mais é que poderia ser dito?

Mal-grado o pensamento odioso em relação ao meu irmão, senti-me mais calma do que me sentia há já bastante tempo. Com ternura, enlacei a cintura de Kareem puxando-o mais para junto de mim.

- Vamos fazer uma pequena sesta - sugeri.

Embora fosse raro o meu marido dormir durante o dia, também ele se sentia fatigado por causa da nossa viagem intercontinental.

- Um pouco de descanso seria bem-vindo - concordou. Enquanto era seduzida pelo sono, ouvia o meu marido citando em voz suave um antigo credo beduíno que lhe fora ensi­nado pelo pai. Senti uma vaga de nostalgia, mesclada com tristeza, por um modo de vida que se perdera para sempre.

 

         Vastas terras por onde deambular

         Cobertas por ervas boas para o pastoreio

         Amplos poços cheios de águas das mais doces

         Uma tenda grande onde cabe uma extensa família

         Uma mulher bela com um doce temperamento

         Muitos filhos e algumas filhas

         Possuir grandes manadas de camelos

         Pertencer a uma tribo honrada

         Ir a Meca

         Viver uma vida longa sem vergonha

         Ser salvo do fogo do inferno

         Desfrutar das recompensas do Paraíso!

 

Embalada por visões agradáveis da existência simples que outrora os meus antepassa­dos tinham vivido, fui levada pelo sono.

Se bem que o meu vergonhoso segredo tivesse sido descoberto pelo meu marido, dormi um sono profundo com a serenidade de uma mulher que agora podia olhar para o seu futuro com uma nova esperança. Se eu tivesse adivinhado que o dia seguinte traria um outro drama familiar, dando origem a alguns dos momentos mais perturbadores da minha vida, tenho a certeza de que a minha sesta da tarde teria sido bastante menos descansada.

 

                   AMEAÇA AO TRONO

ENQUANTO KAREEM DESFRUTAVA do seu duche matinal, deixei-me ficar debaixo das co­bertas remexendo-me de um lado para o outro. Tinha imensas saudades das nossas filhas; estava ansiosa por partir de Geddah e regressar a Riade.

Quando o som da água a correr deixou de se ouvir, levantei-me da cama e dirigi-me para a varanda adjacente ao quarto dos nossos aposentos. Afastando os cortinados para o lado, olhei para fora. A vista era a que eu esperara. O dia era típico da Arábia Saudita, lumi­noso e soalheiro.

Decorridos escassos momentos, Kareem saiu do chuveiro e aproximou-se de mim. Não tentou levar as mãos aos seios para os acariciar. Vários anos atrás, eu tinha viajado para a Suíça onde fui submetida a cirurgia mamária reconstrutiva, para substituição de um seio que perdera por doença cancerosa de que sofrera nos primeiros anos do nosso casamento. Como parte da terapia médica, disseram-me que esse seio teria de ser massajado diariamente, a fim de manter a suavidade e leveza dos ingredientes líquidos que compunham o meu novo seio. Desde essa altura, Kareem insistira que seria ele quem assumiria a responsabilidade da mi­nha terapia.

Espalhou-se um sorriso convidativo pela sua face.

- Queres voltar para a cama, Sultana?

- Não, meu querido - respondi, retribuindo-lhe o sorriso. - De verdade que não quero mais nada para além de ver o rosto maravilhoso das nossas duas filhas.

O sorriso do meu marido esmoreceu embora se mostrasse compreensivo.

- Sim, claro. Eu também sinto a falta delas. - Fez uma breve pausa. - Telefona a Nura e diz-lhe que chegaremos a Riade ainda hoje, ao fim da tarde. Um dos motoristas dela deve levar as crianças a casa depois de saírem da escola.

Pouco depois já nos encontrávamos no aeroporto prontos para entrarmos no nosso avião, a bordo do qual percorreríamos o curto trajecto de Jeddah a Riade. Quando chegá­mos, Sara e eu trocámos despedidas apressadas antes de entrarmos em automóveis separa­dos. Sara sentia-se tão ansiosa como eu por ver os seus próprios filhos.

Maha e Amani aguardavam a nossa chegada. Depois de abraços cheios de ternura e saudações, dei às minhas filhas as prendas que lhes havia comprado em Nova Iorque. Am­bas foram presenteadas com muitas roupas, algumas engenhocas electrónicas, CDs, vídeos e livros.

Nessa altura, Kareem disse que tinha trabalho à sua espera. Fiquei ainda mais decepcio­nada quando tanto Maha como Amani expressaram o desejo de voltarem para os respectivos aposentos a fim de retribuírem telefonemas das amigas. Foi com alguma dificuldade que as convenci a ficarem mais um pouco junto da mãe.

Desde que as minhas filhas tinham entrado na adolescência, começaram a preferir a companhia das amigas à da sua própria mãe; era frequente eu desejar possuir o poder extra­ordinário de regressar no tempo para, uma vez mais, poder desfrutar dos dias em que os meus filhos eram ainda crianças pequenas.

- Vamos ficar sentadas aqui durante algum tempo - disse eu com um sorriso, esten­dendo os braços num gesto convidativo. - Depois podem ir fazer os vossos telefonemas.

Chamei uma das serviçais para que nos servisse laban gelado (leitelho), a bebida que ambas preferiam.

Maha sorriu, aninhando-se junto a mim no sofá amplo defronte do televisor. Por seu turno, Amani enroscou-se num cadeirão enorme.

Maha bocejou, agarrando no comando do televisor para ligar o aparelho. Há vários anos que Kareem adquirira uma grande antena parabólica que permitia captar canais televisivos de todo o mundo. Na Arábia Saudita é contra a lei possuir uma antena parabólica. O nosso governo insiste em censurar a informação que os seus cidadãos vêem, ouvem ou até mesmo lêem. Todavia, as pessoas suficientemente abastadas para poderem comprar e importar ante­nas parabólicas, fazem tábua rasa deste decreto-lei, o que se deve em parte à programação limitada que a televisão saudita tem para oferecer, e que tão entediante é! Com certeza que não estaríamos interessados nos noticiários sanitários, aliados aos inumeráveis relatos de autofelicitações pelas boas acções levadas a cabo pelos membros da nossa própria família real, o que era tudo de que se dispunha nos canais sauditas.

As autoridades religiosas da Arábia Saudita também são contra as antenas parabólicas por diversas razões. Os homens da religião temem que os bons muçulmanos sejam adversa­mente influenciados pelas imagens transmitidas do Ocidente em decadência. Não é invulgar um comité de mutawwas, ou homens religiosos, percorrer as ruas das cidades sauditas à procura de antenas parabólicas. Se bem que as residências em Riade sejam rodeadas por muros altos, regra geral os telhados planos são visíveis das ruas.

Os mutawwas vão de rua em rua observando o topo dos telhados, e caso descubram uma antena deste tipo, tentarão destruí-la por quaisquer meios ao seu alcance. Arremessam pedras e paus contra a antena parabólica e, se isso falhar, atiram pedras e paus aos proprie­tários dessas antenas. Precisamente há um ano, um grupo de mutawwas indisciplinados ficou tão exaltado pela presença de uma antena parabólica que chegaram ao extremo de dis­parar contra o objecto da sua fúria! Na altura, havia uma pobre indiana que estendia roupa no telhado. Quando os mutawwas começaram a disparar as suas armas de fogo, a mulher foi alvejada no abdómen. Felizmente sobreviveu ao ferimento.

Desde esse incidente, os proprietários sauditas de antenas parabólicas têm feito tudo ao seu alcance para ocultar esse género de equipamento. Hoje em dia, muitos dos topos dos telhados na Arábia encontram-se completamente circundados por placas de metal sus­pensas de elevados postes de aço que bloqueiam a quem esteja na rua a visão dos telhados onde estão instaladas. Mas esta camuflagem só serviu para encorajar os mutawwas a dispa­rarem contra as próprias placas.

Como é evidente, os Al Sa’ud não têm de se preocupar com as desagradáveis activida­des levadas a cabo pelos mutawwas.

Quando Maha sintonizou um canal que transmitia uma comédia inglesa, que mostrava uma mulher a ridicularizar um homem, reparei que o lábio de Amani se arrepanhava num trejeito de repulsa. No mundo árabe, mulher alguma faria troça de um marido em frente de terceiros, tão-pouco se mostraria uma mulher que demonstrasse mais inteligência do que um homem.

Sem que nada o deixasse adivinhar, Amani levantou-se de um salto, agarrando brusca­mente no comando.

- Mãe! - gritou Maha em protesto.

Decididamente, esta não era a tarde de prazer e descontracção na companhia das mi­nhas filhas que eu esperara com tanta expectativa. Com um gesto da mão, indiquei a Amani que me entregasse o comando.

Num esforço para apaziguar os ânimos das minhas duas filhas, comecei a percorrer todos os canais procurando um programa que fosse adequado ao entretenimento de todas nós. Bastante inesperadamente, sintonizei uma peça noticiosa num canal britânico acerca do professor Mohammed Al Massari, um cidadão saudita que havia ultrajado ao extremo todos os membros da família Al Sa’ud. De imediato, fiquei tão concentrada naquele programa que Maha e Amani foram esquecidas.

O professor era um erudito cujas ideias subversivas sobre a democratização da Arábia Saudita o tinham afastado do seu próprio país. Fora libertado depois de ter sido detido e encarcerado, embora fosse continuamente assediado pelas autoridades sauditas. Conseguira fugir da Arábia Saudita no ano passado, tendo procurado refúgio em Inglaterra. Desde en­tão, tinha organizado um bando de exilados saudiarábicos, os quais formaram uma organiza­ção baseada em Londres que se intitulava de «O Comité para a Defesa de Direitos Legíti­mos». A fim de apaziguarem a fúria que sentiam perante as injustiças de que haviam sido alvo, este grupo de dissidentes atraíra recentemente a atenção dos meios de comunicação social do Ocidente ao relatarem a alegada corrupção existente na família real saudita de que fazíamos parte. Na realidade, era inquestionável que estas revelações causaram muitas noi­tes de insónia nos palácios dos Al Sa’ud. Aquele homem expusera tantos segredos de famí­lia que os meus familiares perguntavam a si próprios como teria ele obtido informações tão confidenciais como as que revelara. Teriam algumas das pessoas que trabalham para a nossa família agido como espiões a soldo dos nossos inimigos?

De acordo com as alegações de Mohammed Al Massari, dizia-se que determinados membros da família governante que ocupavam posições elevadas haviam cometido rotinei­ramente o crime de peculato no montante de milhões de riais, desde luvas que receberam de contratos celebrados com o estrangeiro, até à confiscação de terrenos de valor elevado que eram propriedade de cidadãos vulgares. Afirmava que as pessoas burladas se sentiam demasiado atemorizadas para protestarem, dado que receavam vir a ser detidas e encarceradas sob falsas acusações. Alegava-se que toda esta corrupção dera origem a mais de cinquenta mul­timilionários no seio da nossa extensa família.

Na minha opinião, era difícil acreditar em tudo o que Al Massari afirmava, ainda que eu não pudesse negar a existência de muita corrupção em algumas linhas reais da nossa família. Por exemplo, tínhamos o caso de uma princesa proeminente, uma prima que eu conhecia bastante bem e que, toda risonha, se gabava com frequência das rendas escandalo­samente inflacionadas que recebia pelo arrendamento de edifícios alugados pelo aparelho militar saudita.

O que me fez sentir tão indignada é o facto de não haver a mínima necessidade de um comportamento desses. O montante mensal que todos os membros da monarquia recebem excede largamente as suas necessidades. Dado que cada príncipe e princesa recebe 35 000 riais sauditas (10000 dólares) mensais, qualquer linha da família real poderá auferir de vá­rias centenas de milhar de dólares mensalmente.

Existiam ainda outras alegações. Este professor e os seus associados também acusavam um certo número de jornalistas estrangeiros, colaboradores de revistas e jornais muitíssimo conceituados, de receberem subornos avultados com o objectivo de vilipendiar e difamar outros jornalistas que ousavam escrever a verdade sobre o nosso país e governo. E ali estava Mohammed Al Massari falando com toda a liberdade através da televisão britânica, que era transmitida para todo o mundo, enquanto era ouvido com todo o interesse e simpatia pelo repórter que o entrevistava.

Levantei-me de um salto e coloquei-me em frente do televisor.

Quando Maha começou a falar, disse-lhe que se calasse.

- Cala-te e olha. - Inclinei-me para a frente. Queria gravar na memória as feições da­quele traidor. A aparência física daquele inimigo da minha família equiparava-se, sem dú­vida alguma, ao retrato maléfico que eu já compusera na minha mente. Contudo, observava um homem de postura digna cujos olhos cintilavam de inteligência. A julgar pelo seu aspecto benévolo, qualquer observador menos atento nunca sonharia que houvesse algo de particularmente importante nos pensamentos do homem; certamente que nunca lhe ocorreria que o homem tivesse ideias tão desesperadas como a destronização de um monarca. Ali estava um indivíduo perturbador!

Kareem já tinha falado em várias ocasiões sobre este professor. Era considerado uma ameaça agoirenta à governação dos Al Sa’ud, e ao trono que permitia à minha família rei­vindicar o país como seu, assim como as receitas públicas do reino. Eu sabia que o meu marido, pai, irmão, primos e tios tomariam medidas extremas para protegerem o seu direito de controlo do petróleo da Arábia - o ouro negro que actualmente fluía num milhar de ribeiros directamente para os cofres do clã real.

Enquanto continuava a prestar atenção ao programa, os meus pensamentos corriam velozmente. O entrevistador dava a impressão de aprovar o facto de a Inglaterra estar a tor­nar-se cada vez mais num paraíso para os dissidentes como o professor Al Massari. Todavia, eu pensava que os cidadãos britânicos poderiam um dia vir a lamentar terem oferecido asilo aos opositores dos governos ricos em reservas petrolíferas, posto que os homens da minha família são extremamente vingativos. Ao fim e ao cabo, em tempos houve uma vendetta go­vernamental saudita contra o povo britânico. Em 1980, a princesa Misha'il, a neta do prínci­pe Mohammed, foi condenada à morte na Arábia Saudita pelo crime de adultério. Este acon­tecimento deu lugar a um filme onde se dramatizava a sua história, Morte de Uma Princesa, realizado por uma companhia televisiva independente, o qual fora transmitido na televisão britânica.

Quando o rei Khalid tomou conhecimento do conteúdo desse filme, sentiu-se constran­gido e ultrajado por causa daquela representação em filme da realeza saudita. Com carácter temporário, cortou relações diplomáticas com a Grã-Bretanha, chamando a Riade o embaixa­dor saudiarábico nesse país. Mais grave ainda, os contratos celebrados com firmas britânicas, no valor de milhões de libras, foram cancelados, com a consequência de se terem perdido muitos postos de trabalho britânicos.

Quando a transmissão terminou, voltei a sentar-me no sofá e continuei a beber o meu laban gelado. Mohammed Al Massari não tinha nada o aspecto que eu imaginara, reflecti pensativamente. Ao invés, tinha a aparência do erudito que era e não o contestador político em que se transformara.

Maha tirou-me das mãos o comando, sintonizando um canal que apresentava vídeos musicais. O semblante de Amani parecia de granito enquanto olhava para o vazio.

- O que é que teria levado aquele homem a odiar-nos? - murmurei de forma audível e enclavinhando as mãos. Por que haveria ele de arriscar a sua reputação, a liberdade e o bem-estar da sua família, e tudo em nome de uma ideia?

- Não sei, minha mãe - murmurou Maha.

- Eu sei. - Amani renasceu para a vida, apresentando um sorriso de quem se sentia satisfeita consigo própria.

Fiquei atónita, fitando Maha com uma expressão estupidificada; esta também se mos­trava intrigada. As palavras de Amani desencadearam uma vaga de especulações na minha mente.

- O que é que tu sabes a respeito daquele homem, Amani?

- Queres realmente saber?

Como uma adaga que trespassasse a minha mente, ocorreram-me pensamentos deses­perados de Amani aliada a qualquer organização política proibida.

- A tua mãe exige saber! - gritei-lhe depois de a olhar com fixidez.

- De acordo - replicou ela, como se estivesse orgulhosa por ter conhecimento de algo muito especial.

Passaram velozmente pelo meu pensamento palavras que não poderiam ser ditas. A minha filha fazia parte de uma rebelião! O que é que eu e Kareem poderemos fazer?

Amani aclarou a garganta antes de começar a falar.

- A mãe perguntou por que motivo é que o professor estava disposto a arriscar tudo por tudo. A razão é muito simples, minha mãe. O professor cresceu numa família que sem­pre questionou o direito da nossa família ao trono.

Invadida por um sentimento de ansiedade e receando pela minha filha, limpei a testa e a região acima do lábio superior com um lenço de papel. Não fui capaz de conter a língua durante mais tempo.

- Espera, Amani - pedi, falando numa voz crocitante que saía de uma garganta ressequida. - Tu fazes parte desta organização que foi banida?

O silêncio abateu-se sobre a sala; ninguém falou.

- Amani! - gritei.

A minha filha soergueu-se sobre o cadeirão, aninhando as pernas por baixo do torso. Com ousadia, olhou-me bem de frente, sentindo-se deleitada com a agonia que infligia à sua mãe visivelmente abalada.

Senti o coração apertado por uma grande tristeza. Não posso negar que Amani é uma garota encantadora. Tem as feições de uma boneca e uma pequena figura perfeitamente delineada. A sua cútis tem a cor do mel e um nariz delicado de linhas direitas, uns lábios rosados e cheios, uns dentes perfeitos e de grande brancura e uns olhos aveludados cor do chocolate, bem espaçados, por baixo de umas sobrancelhas arqueadas em forma de «V». E contudo, apesar de a minha filha se tornar mais bela com o passar de cada ano, a sua per­sonalidade tem vindo a mostrar-se cada vez menos atractiva. Com o decorrer dos anos, cada vez estou mais convencida de que a beleza interior é mais importante - para que se possa viver uma existência de felicidade - do que a beleza exterior; consequentemente, eu sabia que desejava com todo o ardor virar Amani do avesso.

Por fim, quando já estava prestes a agarrar na minha filha para lhe dar um bom abanão, ela lançou-me um olhar semicerrado e pretensioso abanando uma mão no ar.

- Não, mãe. Não se preocupe. - Estreitou os olhos quando continuou: - As mulheres não desempenham qualquer papel no movimento do professor. Não sou desejada.

- Alhamdulilah! Deus seja louvado! - Pela primeira vez na minha vida, senti-me sa­tisfeita por ouvir dizer que as mulheres eram excluídas.

Amani elevou o seu tom de voz.

- Tomei conhecimento de tudo o que sei através de uma amiga cujo irmão distribui documentos e cassetes em prol desta organização. O irmão é um simpatizante fervoroso do professor, estando inteirado de tudo o que diz respeito à sua vida. Ele contou à irmã tudo o que lhe estou a dizer.

Recuperando a minha compostura, olhei para Maha.

- Nós, as mulheres, não nos devemos esquecer de que a nossa própria família pode fazer mais pelo sexo feminino na Arábia Saudita do que qualquer outra pessoa - disse-lhe eu. - Com certeza que a conversa deste indivíduo, cujo lema é a luta que trava pelos direi­tos democráticos, evaporar-se-á no calor do deserto; seja como for, no que diz respeito aos direitos da mulher, ele é, obviamente, um saudita típico.

Voltei a concentrar a minha atenção em Amani.

- A organização do professor não beneficiará as mulheres em rigorosamente nada. Foste tu própria quem o disse.

- A mãe disse que queria tomar conhecimento de tudo o que dissesse respeito a este ­homem. Continua a querer? - perguntou-me Amani num timbre provocador, articulando as palavras com lentidão.

- Quero saber tudo o que tu souberes sobre este homem, Amani.

- Muito bem. - Amani mordeu o lábio numa expressão de concentração. - Onde é que eu ia?

- A família do rebelde pôs sempre em causa o direito da nossa família ao trono ­adiantou Maha.

- Ah, sim. Ele vem de uma família pequena que fomenta a democracia; assim, o pro­fessor estava determinado a ajudar à criação de um processo de reformas. Esperou que o go­verno procedesse a essas reformas, mas essa espera foi em vão.

Conquanto eu começasse a sentir algum respeito por este Al Massari, chegando ao pon­to de concordar em que eram necessárias algumas reformas, nunca desejei que a minha fa­mília fosse despojada do poder que detém. E, apesar de Mohammed Al Massari poder ser um homem de pensamentos brilhantes, eu desconfiava de que, muito possivelmente, viria a concluir ser difícil manter a coesão de um país que fora criado há várias décadas por um guerreiro genial.

A Arábia Saudita é uma nação formada por muitas facções diversas onde se inclui o sector dos beduínos sem educação escolar, famílias cuja riqueza provém dos negócios e pro­fissionais da classe média. É assaz difícil à nossa família, detentora do poder desde a criação da Arábia Saudita, manter feliz um grupo de cidadãos de uma tal diversidade sem que seja forçada a ceder perante reformas democráticas.

Voltei a concentrar a minha atenção na voz monocórdica da minha filha.

- O professor não foi capaz de converter outras pessoas à sua maneira de pensar. Mas quando o Iraque invadiu o Kuwait, a situação mudou de figura. Nós, os sauditas, ficámos abis­mados ao descobrirmos que não conseguíamos defender-nos contra o invasor, necessitando de exércitos estrangeiros que viessem ajudar-nos. De súbito, em face da presença de forças armadas estrangeiras, finalmente o saudita comum começou a politizar-se. Ouviram-se mui­tos saudiarábicos dizendo que a presença desses exércitos estrangeiros que pisavam a nossa amada terra era tão vergonhosa que seria o último prego no caixão da Casa dos Al Sa’ud.

Com as mãos, Amani fingiu que pregava um prego com um martelo.

- E portanto, o tio Fahd perdeu o seu próprio povo quando abraçou o inimigo vindo do Ocidente.

- Muito simplesmente, isso não corresponde à verdade, Amani! - ripostou Maha em protesto. - Todos os sauditas amam o rei!

Amani brindou a irmã com um sorriso de condescendência, sem se dar ao incómodo de contradizer a afirmação que esta fizera.

Recordando-me do medo, bastante genuíno, de que Saddam Hussein, o nosso vizinho árabe e antigo amigo, pudesse efectivamente bombardear as nossas cidades, citei um pro­vérbio árabe: -- Nunca te esqueças, Amani, de que um inimigo prudente é mais seguro do que um amigo imprudente!

- E então, que mais é que sabes, Amani? - perguntou Maha cada vez mais curiosa. - O resto da história é do conhecimento de toda a gente - respondeu Amani com um encolher dos seus ombros franzinos. - No momento em que os exércitos ocidentais chega­ram ao nosso território, os sauditas começaram a despertar de um sono prolongado. Os intelectuais passaram a participar em reuniões clandestinas, na sequência do que foi formado um grupo de oposição.

Torci o nariz. O que Amani dizia era verdade. Todos os saudiarábicos sabiam que um comité de cinquenta dissidentes, incluindo eruditos, homens de negócios, juízes e dirigentes religiosos, tinham escrito uma carta ao rei. Nesta carta exigia-se o fim da opressão, pedindo­-se a participação na governação do Estado. Mais de quatrocentos proeminentes saudiarábi­cos subscreveram o documento dos dissidentes. Quando esta carta foi apresentada ao rei, diz-se que ele entrou em estado de choque antes de consultar o Conselho dos Decanos Eru­ditos. Agindo sob as ordens do rei, este conselho condenou o comité, dizendo que deveria ser abolido e os seus membros punidos. A polícia secreta prendeu o professor e encarcerou­ -o na prisão de Al Hayir situada a alguns quilómetros de Riade.

Amani retomou a palavra.

- Sei que o professor Al Massari esteve na prisão durante seis meses; durante parte desse tempo esteve confinado à solitária.

Num gesto de simpatia, Maha fez estalar a língua.

- Não te esqueças, minha filha, de que este homem exigiu a queda da nossa família disse-lhe eu lançando-lhe um olhar duro.

Afastando o olhar, as faces de Maha enrubesceram.

- A minha amiga contou-me que este professor foi torturado enquanto esteve na cadeia - continuou Amani. - Enquanto era interrogado, os guardas da prisão escarravam­-lhe no rosto, batiam-lhe nos pés com uma cana de bambu, puxavam-lhe pelas barbas e socavam-lhe as orelhas.

Fiquei a olhar para as minhas mãos, sentindo-me envergonhada ao ouvir o que sabia serem situações rotineiras nas cadeias sauditas.

- A minha amiga também me disse que o professor foi acusado de heresia. É evidente que ele se recusou quando lhe impuseram que confessasse. O Supremo Tribunal não foi capaz de chegar a uma linha de acção. Era óbvio que estavam a lidar com um homem de coragem, e a lei dizia que deviam decapitá-lo ou libertá-lo. Posto que receavam estar a criar um mártir, deram ao professor a oportunidade de recorrer da sentença. Disseram-lhe ainda que seria libertado, sendo-lhe concedida a possibilidade de reflectir sobre as suas acções. Caso se mantivesse afastado das controvérsias de carácter político, talvez pudesse perma­necer em liberdade.

Pensei que esta era a maneira de agir da minha família. Existe sempre esperança de que os problemas se limitem a desaparecer. Se ao menos todos os dilemas da vida fossem assim tão simples!

- Pois bem, é claro que o professor não é um homem que possa ser silenciado, por isso, imediatamente após a sua libertação, recomeçou a participar nas acções do comité. Uma fonte secreta avisou o professor de que estava a ser preparada contra ele uma acusação capital de traição. O comité concordou que tinha chegado a altura de o professor abandonar a Arábia Saudita, continuando a sua luta a partir do estrangeiro. Preparou-se um elaborado plano de fuga.

Senti o coração muito agitado. Estaria a minha própria filha no segredo da informação relativa a essa fuga?

- O professor e um amigo arquitectaram um estratagema que lhes permitiu visitar um amigo doente que se encontrava internado num hospital. Encontraram-se com um terceiro homem que tinha uma extraordinária semelhança física com o professor, o qual tomou o seu lugar. Quando os dois homens saíram do hospital, os agentes do governo que seguiam todos os movimentos do professor foram no encalço do homem errado. Tendo deixado de ser se­guido, foi fácil ao professor chegar ao aeroporto de Riade. Munido de um passaporte falso, seguiu de avião para uma pequena cidade situada na fronteira do Iémen. Esperou durante dois dias pelos seus contactos iemenitas, homens que conheciam um caminho que lhe per­mitiria evitar os controlos dos postos alfandegários. O pequeno grupo secreto atravessou a pé a fronteira saudi-iemenita. Chegados ao Iémen, eram aguardados por novos contactos que o ajudaram a efectuar a viagem para Londres.

O timbre de voz de Amani era baixo e pesado.

- É claro que todos sabem que quando a fuga do professor foi descoberta, o seu pró­prio filho e irmãos foram feitos reféns pela nossa família, que os enviou de imediato para a cadeia. - Amani recostou-se contra as costas do cadeirão e respirou fundo. - E esta é a história do professor. - No nosso país, praticamente toda a gente com menos de trinta anos está a par deste assunto, e actualmente um grande número de gente jovem apoia em segredo o professor Al Massari.

Lentamente, movimentei a cabeça num gesto pesado. Seria por este motivo que as ma­nifestações e demonstrações de gente, que se mantinha pacificamente sentada, andavam a perturbar a paz do território? Dentro em pouco, receava eu, toda a nação haveria de partilhar as exigências urgentes do professor para que se realizassem mudanças no aparelho governa­mental.

- Nós todos, os Al Sa’ud, estamos condenados - disse eu num gemido, enterrando a cabeça nas mãos.

 

                   A PROFECIA DE KAREEM

NESSE PRECISO MOMENTO Kareem entrou na sala.

- O que é que se passa com a vossa mãe? - perguntou às filhas, mostrando-se preo­cupado.

- A mãe sente-se consternada porque a Amani pertence a um grupo revolucionário ­respondeu Maha sem pensar.

A confusão espelhou-se nos olhos de Kareem e, durante um curto período de tempo, as palavras voaram de todas as direcções sem que ninguém compreendesse verdadeiramente o que estava a acontecer. Depois de ter compreendido que Amani estava de posse de mais informações do que as que deveria ter sobre o homem que exigia a queda da nossa família, Kareem assumiu a atitude de um homem selvaticamente possesso.

- Filha! Perdeste todo o bom senso? - gritou ele a Amani. - És uma seguidora das ideias desse homem?

Amani protestou a sua inocência.

- Eu não sou uma seguidora! Limito-me simplesmente a relatar o que me contaram. - A minha filha olhou com frieza para o meu rosto. - A mãe insistiu em que eu lhe contasse tudo. A culpa é dela!

- Esquece o que a tua mãe disse! Não deves associar-te a ninguém que tenha adoptado a causa do nosso inimigo, aquele que mais se faz ouvir! Todos os dias se efectuam deten­ções! - Kareem bateu com os punhos numa parede, fazendo com que os quadros, de preço elevado, estremecessem. - És uma criança de uma estupidez atroz!

Alarmada, vi que Amani mordia as paredes interiores da boca.

Estava eu prestes a confortar a minha filha quando Kareem me dirigiu toda a força da sua cólera.

- Sultana! Educaste as tuas filhas para serem rebeldes! Não estou disposto a suportar isto nem mais um momento!

Senti-me tão chocada com a acusação de Kareem que fiquei incapacitada de falar.

Maha saiu furtivamente da sala; Amani tentou acompanhá-la, mas Kareem ordenou-lhe que ficasse.

- Espere um pouco, meu pai, tenho uma coisa que o interessará. - Amani girou sobre os calcanhares e abandonou a sala num passo apressado.

Kareem permanecia paralisado, como se fosse uma pedra.

Com o mal-estar que sentia, comecei a descrever círculos pela sala.

Entretanto, Amani regressou com uma pasta que entregou silenciosamente ao pai.

Era bem patente que a cólera de Kareem aumentava de minuto a minuto, dado que começou a mexer no fecho da pasta com gestos desajeitados. Depois de a ter aberto, come­çou a examinar papel após papel, lançando sucessivamente as folhas para o chão. Eu nunca tinha visto Kareem num tal estado de agitação.

- Onde é que arranjaste estes papéis? - gritou ele a Amani.

- A minha amiga roubou-os do quarto do irmão - confessou ela.

- Aqui tens! - Num gesto brusco, Kareem meteu nas minhas relutantes mãos uma pilha de papéis.

Agarrei num maço de cigarros, começando a brincar com a embalagem enquanto tenta­va concentrar-me nas páginas impressas. Depois de acender um cigarro, consegui acalmar­-me por fim, o que me permitiu compreender o significado dos papéis que tinha nas mãos.

Com rapidez, vi que aquelas folhas eram cópias de comunicados à imprensa, assim como documentos escritos pelo doutor Al Massari e outros dissidentes sauditas. O documento que seleccionei para ler intitulava-se «Príncipe do Mês», onde se revelavam as alegadas acti­vidades de um dos meus primos mais velhos que ocupava o cargo de governador de uma das províncias. O documento declarava: «Ele foi ouvido a dizer nas majlis (a casa aberta onde os cidadãos apresentam as suas queixas ao governador) que As tribos do Sul têm a mentalidade de escravos; eu encho-lhes as barrigas e monto às costas deles». E: O meu avô, Abdul-Aziz, disse-me que as gentes desta província são uma miscigenação de macacos e escravos.

O autor deste documento prosseguia acusando o meu primo de vários pecados, incluin­do a apropriação de vastas extensões de terras da província, que em seguida vendia obtendo um lucro elevadíssimo.

Enquanto eu examinava apressadamente todos os documentos, constatei que cada pági­na continha, no mínimo, uma acusação brutal contra um tio ou um primo. Um destes últimos era mesmo acusado de um assassínio! Um contabilista das Linhas Aéreas Sauditas fora espancado até à morte depois de ter apresentado a este primo uma factura num total de vários milhões de riais. Como é evidente, nunca ninguém havia sido indiciado por este ho­micídio.

Qualquer distanciamento que eu tivesse esperado ser capaz de manter, desvaneceu-se rapidamente quando deparei com o nome do meu próprio pai. Levei a mão à boca para evi­tar gritar enquanto lia rapidamente uma litania de actos perversos que lhe eram atribuídos. Senti que o coração me caía aos pés, uma vez que desconfiava que algumas daquelas denún­cias pudessem ter um fundo de verdade. Avassalada por pensamentos tristes sobre o meu pai, olhei para o rosto do meu marido e filha. Ocorreram-me à mente uma centena de per­guntas, mas as perguntas morreram-me nos lábios ao olhar para a expressão recolhida do meu marido.

No entanto, Amani não se conteve.

- Pai, isto é verdade? - Agarrou com força no documento que mostrava a Kareem.

- A nossa família, os Al Sa’ud, prendem crianças?

A pergunta da minha filha fez com que eu me pusesse de pé.

- «Na semana passada, Fahd Al-Mushaiti, de onze anos de idade» - comecei a ler em voz baixa por cima do ombro de Amani - «e Mansour Al-Buraydi, de doze anos de ida­de, foram detidos em Buraydi, acusados de serem portadores de panfletos que provocaram a cólera dos Al Sa’ud. Parece que esta família real esqueceu, convenientemente, que estão a igualar os crimes de Saddam Hussein, contra quem se bateram no passado. Também se es­queceram de que os seus jornais, até mesmo nos dias de hoje, continuam a criticar as acções deste».

A nossa filha desafiadora persistia.

- Pai, responda-me: é verdade que a nossa família prende crianças?

Kareem retirou o documento da mão de Amani. Não lhe respondeu.

- Meu pai? - insistiu Amani chorosa.

Kareem começou a enfiar os documentos dentro da pasta.

- Sabes bem que os nossos inimigos mentem - redarguiu ele numa voz neutra.

- Muito do que acabei de ler é verdade, meu marido.

Fervilhando como uma panela sobre uma chama forte, Kareem lançou um olhar irado na minha direcção.

- Mas é evidente que esses relatos são excessivamente exagerados - acrescentei com rapidez.

Nessa altura, Kareem tentou recuperar todos os documentos, mas eu escondi atrás das costas os que tinha nas mãos.

- Quero voltar a ler uma secção em particular - aleguei. - Mais tarde, ainda esta noite, devolver-tos-ei.

Depois de ter respirado fundo e com alguma dificuldade por diversas vezes, Kareem voltou a concentrar a sua atenção em Amani.

- Não vou pedir-te que me indiques o nome de quem te forneceu estes documentos, mas só na condição de banires essas pessoas da tua vida.

- Mas, meu pai, ela é minha amiga! - protestou Amani numa voz aguda.

- Isto é uma ordem, criança! Recuso-me a permitir que a minha própria filha confraternize com os nossos inimigos!

Amani começou a chorar, mas a atitude de Kareem não deu mostras de abrandar.

- Amani?

Decorridos alguns momentos, ela deu-lhe a sua palavra.

- Prometo, pai.

Atemorizada ao ponto da submissão, Amani segredou qualquer coisa ao ouvido do pai antes de receber um abraço cheio de ternura, após o que saiu da sala.

Agora o olhar penetrante de Kareem estava preso em mim. Imitou o som da minha voz. - Muito do que acabei de ler é verdade, marido! - Kareem fervia de raiva. – Uma mulher que apoia o marido é um grande tesouro, Sultana!

Só muito recentemente é que eu tinha aprendido que um guerreiro astuto sabe quando bater em retirada. Incapaz de rivalizar com a fúria intensa de Kareem, e receosa de o provo­car ainda mais, abandonei a sala num passo apressado.

Kareem saiu porta fora, afastando-se do palácio que nem uma flecha. Quando vi que ele não regressara para a refeição da noite, fiquei a saber que não voltaria a vê-lo até bastan­te mais tarde.

Fui ver as crianças, deparando com uma Amani invulgarmente acabrunhada, que se re­tirara cedo para o seu quarto. Maha falava ao telefone.

Enquanto esperava pelo meu marido, olhava constantemente para o relógio. Durante aquela espera, aproveitei para ler uma vez mais as acusações viperinas contra muitos dos mais proeminentes membros da minha família. Comecei a ler alegações de comportamento adúltero, roubo, actos de repressão, prisões indevidas e desrespeito para com as responsabi­lidades inerentes ao elevado estatuto que nós, os Al Sa’ud, havíamos tido a felicidade de herdar.

A minha desconfiança de que existiria um fundo de verdade nestas alegações deprimia­-me. Ao fim de pouco tempo, este estado de espírito tão em baixo levou-me a imaginar que Kareem estaria naquele preciso momento nos braços de outra mulher. Muitos dos príncipes da família Al Sa’ud cometem o delito de trazer para o nosso país mulheres com um carácter de moral duvidosa a fim de desfrutarem do prazer ilícito de natureza sexual que elas lhes pro­porcionam. Perseguida por visões do meu bem-amado acariciando outra, comecei a andar desassossegadamente pela sala. Numa explosão de frustração, estilhacei uma jarra de cristal que lancei contra a parede. Até este gesto falhou em me proporcionar qualquer alívio; come­cei a chorar.

Estava incapaz de conciliar o sono. Quando finalmente consegui cerrar os olhos, a lu­minosidade que entrava através das travessas dos estores das janelas indicou-me que o dia começava a nascer.

Kareem só regressou a casa a meio da manhã.

Preparava-me para telefonar ao irmão do meu marido, Asad, quando Kareem transpôs a porta. Mal-grado os olhos congestionados, mostrava a expressão de um homem acabado de regressar de uma simples incumbência rotineira.

- Minha doçura - começou ele a dizer, inclinando-se para me beijar.

O sorriso calmo que se desenhava nos meus lábios ocultava o desespero que ia no meu íntimo. Todas as mulheres têm uma fonte secreta de conhecimentos acerca do seu marido. Cheirei a fragrância de outra mulher no meu marido, o que não hesitei em lhe dizer.

Numa tentativa para me aplacar, Kareem começou a urdir mentira após mentira, mas eu, invadida por uma fúria feita de ciúme, comecei a arrastar três malas de viagem para dentro do nosso quarto.

Emalei as minhas roupas.

Kareem desemalou as minhas roupas.

A conversa tomou o mesmo rumo das nossas acções, com tudo repetido por palavras diferentes.

Olhei fixamente para uma das malas vazias e ameacei-o com o divórcio.

Kareem agarrou no telefone e disse-me para ligar para um determinado número, ale­gando que passara a noite em casa de um amigo, acrescentando que esse amigo juraria ser verdade que não haviam estado acompanhados de mulher nenhuma.

Sabendo de antemão que um amigo desses o protegeria, compreendi que jamais viria a saber a verdade.

- Por que razão haveria eu de ferver água? - perguntei num tom de escárnio. - Continuaria a não passar de água.

Temporariamente derrotada pela liberdade que apenas os homens reivindicam como sua, senti um impulso de desespero que me levou a desejar infligir sofrimento ao meu ma­rido. Recordando-me do juramento que lhe fizera de derrotar o hábito de beber, e sabendo que Kareem se sentiria profundamente ferido caso eu o quebrasse, encaminhei-me para o anuário onde guardávamos o nosso fornecimento de bebidas alcoólicas. Desarrolhando a garrafa de uísque, comecei a beber directamente do bocal. Os meus olhos cruzaram-se com o olhar siderado de Kareem.

- Os maridos mandam, as mulheres aguentam - disse-lhe eu, dando a conhecer o que me ia na mente. Fiz uma pausa para beber outro gole, após o que ameacei: - Se fores para a cama com outra mulher, Kareem, então não duvides de que me tornarei numa alcoólica.

- Ah! Uma bebida - retorquiu Kareem, pestanejando numa dissimulada expressão de surpresa enquanto olhava para o seu relógio de pulso. - Às dez da manhã! Mas que ideia maravilhosa, Sultana! - Caminhou na minha direcção, tirou-me a garrafa das mãos e também ele bebeu um grande gole da garrafa.

Limpou os lábios e o bigode com as costas da mão.

- Se a mulher que eu amo se transformar numa alcoólica, nesse caso também eu me tornarei num alcoólico!

Fiquei a olhar para o meu marido. Eu não tinha o mínimo desejo de que nenhum de nós se tornasse num alcoólico!

O mais vago dos sorrisos começou a esboçar-se na expressão de Kareem. O meu mari­do é um homem composto por duas partes distintas: uma que é adorável e outra que é detes­tável. Comecei a enfraquecer depois de olhar para os seus grandes olhos negros cheios de tanta ternura.

Quando o peito dele começou a agitar-se num riso silencioso, a cólera que eu sentia evaporou-se de imediato. Dei uma gargalhada enquanto voltava a colocar a garrafa dentro do armário.

De súbito, ambos estávamos presos num abraço apaixonado. O nosso último desacordo ficou rapidamente enterrado no mesmo contentor sem fundo para onde iam todos os outros assuntos por resolver do nosso casamento.

Na manhã seguinte, um Kareem de expressão solene disse que tinha de falar comigo acerca de um assunto importante. Depois de ter dado ordens na cozinha para que preparas­sem um café bem forte, fiquei sentada em silêncio bebendo da minha chávena e ouvindo o meu marido partilhar os seus pensamentos.

- O incidente com Amani fez-me repensar as minhas ideias quanto ao futuro da Ará­bia Saudita. Decidi investir um montante mais avultado dos nossos recursos financeiros em transacções no estrangeiro.

- Que motivo é que te levou a tomar uma decisão dessas? - perguntei depois de o fitar com um olhar abstracto.

- Para bem dos nossos filhos, Sultana. - Fez uma pausa. - Estás de acordo? Tentando concentrar-me, esfreguei a fronte com os dedos da mão.

- Para te ser franca, não sei bem. É muito cedo para estar a pensar em negócios. - In­terrompi-me por breves instantes, acrescentando: - Não te parece que já temos negócios que cheguem no estrangeiro?

Conjuntamente, Kareem e eu éramos proprietários de hotéis e demais negócios na Europa, Estados Unidos e Ásia. Neste momento, já era quase impossível manter controlo sobre tudo o que possuíamos. No seguimento de uma avaliação contabilística recente, fomos informados de que a globalidade dos nossos bens imobiliários, em numerário e actividades comerciais espalhadas por todo o mundo, ascendia a quase novecentos milhões de dólares.

- Ouve o que te digo, Sultana - prosseguiu Kareem inclinando-se para mim. - Até a nossa filha, a sobrinha do rei, critica este regime. És capaz de imaginar o que os outros sauditas pensarão da nossa família? Sultana, há-de chegar o dia em que perderemos a Arábia Saudita. Talvez isso não se dê durante a nossa vida, mas sem sombra de dúvida que suce­derá na vida dos nossos filhos.

Senti-me deprimida pelas palavras do meu marido, se bem que aquele fosse um tópico que a nossa família já abordara em diversas ocasiões.

- Não há nada que dure para sempre - disse Kareem, cismador. - Eventualmente, a nossa família acabará por perder o controlo. Receio muito que a Arábia Saudita esteja desti­nada a trilhar o mesmo caminho tomado pelo Irão e o Afeganistão. A onda insidiosa do fun­damentalismo islâmico está a crescer, formando uma vaga gigantesca que tragará todos os países muçulmanos. - Fez uma pausa para reunir os seus pensamentos.

A noção de a Arábia Saudita seguir o mesmo destino do Afeganistão acelerou as pulsa­ções do meu coração, assolado por um sentimento de medo. A triste história de Afaaf, a criada de Sara, tornava bastante claro um determinado factor. Na hipótese de a Arábia Sau­dita vir algum dia a ser governada por fundamentalistas, as mulheres sauditas seriam ainda mais oprimidas.

A voz de Kareem ficou carregada de um azedume mais acentuado.

- Além do mais, a única razão que nos permite continuar a manter o poder é o facto de os Estados Unidos precisarem do petróleo saudita. Um dia destes, essa necessidade será preenchida por qualquer outro recurso. Os cientistas já começaram a descobrir produtos alternativos que supram a necessidade de combustíveis de que o mundo ocidental carece. Quando esse dia chegar, a Arábia Saudita e a nossa família serão matéria fungível na pers­pectiva dos norte-americanos. Todos os políticos americanos são pessoas que só zelam pelos seus interesses, sentindo total desprezo pelos dos outros. Não hesitarão em nos lançar aos chacais no preciso momento em que a nossa utilidade passar à história, da mesma maneira que se descartaram de Mohammed Reza Xá Palevi (nota:1). - Kareem olhou-me com tristeza.

 

(nota:1) Xá do Irão, antiga Pérsia, de 1941 a 1979, ano em que abandonou o país durante a revolução dos funda­mentalistas islâmicos, com o apoio dos EUA, nação de quem era aliado em política externa e que posteriormente o abandonou à sua sorte. (N. da T.)

 

- Sultana, de acordo com as minhas estimativas, dentro de vinte anos estaremos todos a viver em exílio.

- Ainda que deixemos de governar - comecei a dizer num murmúrio, prendendo o meu olhar no de Kareem -, será que não poderemos continuar a viver no nosso próprio país levando uma vida na obscuridade?

- Não - retorquiu ele com um suspiro de desalento. - Estamos fadados a carregar para sempre o peso do nosso nome de família. A governação passará a ser da responsabi­lidade de um regime fundamentalista. A Arábia Saudita será demasiado perigosa para qual­quer Al Sa’ud. Seremos odiados por toda a gente.

Eu sabia que o meu marido dizia a verdade. Temos um ditado que diz: «Os árabes ou estão aos teus pés ou sobre a tua garganta», o que me levava a compreender que, de um momento para o outro, o nosso destino poderia ser invertido. Nós, os Al Sa’ud, reinamos ou seremos destruídos, não existe nenhum meio-termo.

Kareem abanou a cabeça num gesto de cansaço.

- Os únicos culpados somos nós, mais ninguém, Sultana. O que é que temos feito para que os dirigentes religiosos sintam alguma simpatia pela nossa família? Nada! O que é que fizemos para assegurar estabilidade à comunidade empresarial? Nada! Os nossos pais não dão ouvidos aos seus filhos. Umas quantas cedências aqui e ali não prejudicariam ninguém. Essa atitude fortaleceria a nossa posição. Mas não. Os nossos pais fazem ouvidos moucos.

Não conseguem ouvir nada para além do fantasma do seu próprio pai, um homem que se considerava o martelo enquanto os seus súbditos eram os pregos.

Aquiesci com o que ele dizia. Todos sabiam que o avô Abdul Aziz, o guerreiro beduíno que criara o reino da Arábia Saudita em 1932, governara a sua família e os cidadãos do seu país com uma mão firme.

Kareem bateu palmas antes de se recostar mais para trás.

- É inútil, Sultana.

Começaram a correr lágrimas de tristeza pelas minhas faces.

Kareem procurou um lenço nas suas algibeiras.

- Sultana, por favor, não chores.

Enterrei o nariz no lenço do meu marido. Sabia que tudo o que ele dissera correspondia à verdade. Esta situação devia-se ao facto de os anciãos da nossa família serem homens de­masiado obstinados, e idiotas de mais para compreenderem que muitas vezes é necessário que haja mudanças, ainda que seja só para se poder manter a situação. E por que é que os Al Sa’ud não eram capazes de dominar o presente clima de nepotismo, corrupção e esbanja­mento que tanto enraivecia os cidadãos da Arábia Saudita? Todos os membros do clã Al Sa’ud já eram ricos e poderosos a um extremo difícil de imaginar. Ainda que nunca mais voltassem a ganhar um único rial saudita, todos os membros da minha família poderiam continuar a viver um cento de vezes rodeados de um esplendor inacreditável.

As lágrimas continuavam a correr-me pelas faces.

- Sultana, minha querida, por favor, pára de chorar - pediu-me Kareem num sus­surro.

Para grande alívio do meu marido, finalmente consegui controlar as lágrimas, embora nada pudesse aliviar o temor do que o futuro nos reservava.

 

                   O WADI AL JAFI

TRÊS SEMANAS MAIS tarde, o nosso palácio em Riade fervilhava de servos numa grande excitação que passavam apressadamente uns pelos outros. Concluíam os últimos pre­parativos necessários ao início da jornada que a nossa família faria por terras do deserto. Muitos deles acompanhar-nos-iam nessa viagem, uma alteração rara na rotina do seu dia-a­-dia. Combinados com as actividades de grande azáfama dos serviçais, ouviam-se os gritos dos trabalhadores que, com grande alarido e suando profusamente, carregavam mobiliário e equipamento pesado em grandes camionetas de mudanças.

Apesar de todos se sentirem deliciados perante a perspectiva de passarem uma tem­porada no deserto, os meus familiares nunca estão dispostos a abdicar do seu opulento estilo de vida. Acostumados a levar uma existência luxuosa, não temos o mínimo desejo de igualar as condições de dureza que os nossos antepassados do deserto haviam suportado.

Naquele momento, juntamente com as tendas beduínas de lona negra, e mobiliário feito por encomenda, os trabalhadores carregavam tapetes persas, almofadas de seda, luxuosas peças de roupa de casa, delicada louça de porcelana, copos de cristal, talheres de prata, assim como os tachos e panelas mais triviais. A louça de casa de banho, especialmente con­cebida para viagem, incluía banheira, sanitas e lavatórios, peças que aguardavam o momento de serem embaladas. Depois de todos estes artigos terem sido carregados nas camionetas, as enormes malas de marca que continham o nosso guarda-roupa seriam carregadas em último lugar para que lhes pudéssemos chegar com mais facilidade.

Já haviam sido carregados, num camião em separado, cinco geradores a gás que nos dariam energia. Forneceriam energia a duas enormes arcas congeladoras cheias até cima, assim como aos três frigoríficos que esperavam a sua vez de serem carregados. Ao lado destes havia dois fogões com as respectivas bilhas de gás.

Os jardineiros filipinos tinham a tarefa de embalar os alimentos frescos, incluindo frutos e legumes importados do Egipto, Jordânia e Itália. Mais de mil garrafas de água mine­ral Evian aguardavam a sua vez de serem levadas para uma camioneta em separado. Tam­bém se viam dois grandes camiões-cisterna cheios de água para cozinhar e para os banhos, prontos para a nossa partida.

Como pano de fundo, ouvíamos o balido e o cacarejar de ovelhas e galinhas que tinham chegado recentemente do bazar de animais. Depois de uma hora de exposição ao sol escal­dante em cima da caixa aberta de uma camioneta, estas pobres criaturas estavam a ficar im­pacientes e barulhentas. Também levávamos alguns camelos, uns para servirem de montadas enquanto outros, menos felizardos, seriam preparados como alimento que seria servido du­rante um banquete no deserto.

Tomei um apontamento mental para não me esquecer de manter a sensitiva Amani tão longe quanto possível da área onde os animais seriam abatidos. A garota sentir-se-ia devas­tada se testemunhasse a matança de qualquer animal.

Na semana anterior, Kareem tratara de arranjar vinte e cinco veículos novos todo-o-ter­reno e com ar condicionado, que foram entregues no nosso palácio e que serviriam para transportar o nosso extenso grupo.

O jardim era percorrido por vozes elevadas e irritadas. Uma das nossas três cozinheiras egípcias gritava obscenidades a uma das ajudantes de cozinha.

Os falcoeiros, os tratadores que amestravam e cuidavam dos valiosos falcões de Kareem, caminhavam pelo jardins com os animais ao seu cuidado empoleirados nas mãos ergui das (protegidas por luvas de couro dasma, uma vez que as garras curvas dos falcões são capazes de rasgar a carne até ao osso). Com a sua poderosa capacidade de visão, asas longas e pon­tiagudas, bicos fortes e arqueados, e garras alongadas e curvas, os falcões atacam facilmente os coelhos do deserto, pombos selvagens e hubara, uma ave migratória de grande porte, também conhecida pelo nome de abetarda.

Os falcões usavam um burga de cabedal, ou capuz. Em redor do jardim viam-se alguns poleiros, especialmente feitos para os falcões, a que se chamava wakar Al tair. A Península Arábica é um dos últimos lugares na Terra onde os homens caçam com falcões. A estação do Inverno ainda não tinha chegado bem ao fim, o que permitiria aos nossos maridos goza­rem do prazer da caça durante a estadia no deserto.

No meio de toda aquela actividade, Maha e eu olhámo-nos, exprimindo uma compreen­são mútua, antes de desatarmos às gargalhadas. A miscelânea de todas aquelas cenas de grande colorido e ruídos clamorosos faziam com que o nosso jardim se assemelhasse a um bazar exótico a fervilhar de movimento.

Até Amani esboçou um sorriso, embora estivesse muito atarefada dando instruções a uma criada filipina, de fisionomia abatida, quanto à alimentação e cuidados a prestar aos seus numerosos animais de estimação durante a sua ausência. Esta criada acabara de saber que seria um dos dez serviçais que não haviam sido bafejados pela sorte pois Kareem desig­nara-os para permanecerem no nosso palácio em Riade.

Não obstante eu nunca me cansar de assistir a este género de cenas, ainda tinha de to­mar o meu banho da manhã, e por isso decidi regressar ao interior do palácio. Tendo em conta o calor inclemente que se fazia sentir no exterior, disse a uma das criadas que emba­lasse um fornecimento suplementar de protector solar.

Depois do banho e de ter amaciado a pele com uma loção espessa, vesti um vestido de algodão azul claro que me dava pelos tornozelos. Nós, os sauditas, temos o hábito de nos vestirmos para o deserto tal como o fazemos para a cidade; os homens protegem-se dos efeitos de um sol intenso com thobes e as mulheres com trajes compridos.

Em seguida, entrancei os cabelos compridos antes de preparar o véu, o lenço e a abaaya. Depois de termos saído da nossa propriedade, seria obrigada a cobrir-me com estas peças de vestuário.

Apalpei aquelas roupas de seda com um sentimento de desagrado e repulsa. Durante as viagens ao estrangeiro, sentia-me sempre grata por poder livrar-me daquelas peças de roupa que tanto odiava, mas na Arábia Saudita constituem uma parte detestável do meu quotidia­no. Depois de olhar para o mundo sem ser através de um pano negro, e de respirar o ar fres­co sem ter de o fazer por um filtro de tecido, o véu dá-me sempre a sensação de que todo o peso do mundo se abate em redor do meu corpo, embora seja feito de um tecido fino pareci­do com gaze. Soltei um profundo suspiro. Eu era uma mulher adulta, mas continuava con­fundida pelas contradições que existiam na minha vida. Afastei da mente estes pensamentos negativos antes de voltar a sair para o jardim.

Os irmãos e irmãs e respectivas famílias que nos acompanhariam na viagem já tinham chegado; quando os motoristas puseram os motores em funcionamento, o nosso extenso grupo começou a apinhar-se à volta das viaturas.

As minhas irmãs Sara, Nura, Tahani, Dunia e Haifa seguiriam comigo no mesmo veí­culo, enquanto os nossos maridos iriam em duas viaturas. Os nossos filhos formaram grupos seguindo ao volante dos jipes em que viajavam. Depois de todos os membros da família se terem instalado, o resto do grupo saltou para as viaturas que estavam desocupadas.

Iniciava-se por fim a viagem por que tanto havíamos ansiado! Só de pensar na aventura que nos aguardava, já sentia a presença do sangue quente dos meus antepassados percor­rendo-me as veias.

Olhei para as minhas cinco irmãs. Quando o nosso veículo começou a sair dos terrenos do palácio, todas elas prenderam os véus que lhes cobriam o rosto. E contudo, até mesmo por debaixo dos mantos negros e dos véus cada uma das minhas irmãs continuava a ser uma figura individual; eu conseguia distinguir umas das outras com toda a facilidade.

Há vários anos que Nura usava óculos; o contorno das armações era bem visível atra­vés do tecido do seu véu. Os óculos de sol de Tahani mantinham-se comicamente empolei­rados sobre a cana do nariz, do lado de fora do véu. Sobre o véu e lenço de Haifa, a amante de música, viam-se os auscultadores de um pequeno aparelho vermelho estereofónico. Olhei para o chão, onde avistei um par de ténis Reebok de uma cor garrida que espreitavam por baixo da orla do vestuário de Dunia. Sara calçava sandálias de couro.

Sentindo uma ponta de malícia, e sempre irritada por causa do ridículo hábito do uso dos véus, decidi desconcertar as minhas irmãs.

- Façamos deste um novo dia nas nossas vidas! - gritei. - Vamos tirar os nossos véus e lançá-los às areias do deserto! - Levei as mãos à nuca para retirar o véu.

Sara soltou um pequeno grito e afastou-me as mãos do véu.

Olhando para mim através do espelho retrovisor, o nosso motorista egípcio desatou às gargalhadas. O que eu sentia em relação ao manto negro e ao véu não era segredo para ele, e era frequente ele parecer deliciar-se com o meu comportamento pouco convencional em pú­blico.

Nura, a matriarca da nossa família, ergueu o véu e olhou-me com uma expressão infle­xível.

- Sultana! Ordeno-te que pares com isso! Neste dia, vais concentrar-te na viagem e não no teu véu.

- Nura, acabaste de provar o meu ponto de vista - disse eu na brincadeira, apontando para o seu rosto exposto. - Até tu sabes que as palavras têm pouco significado quando ditas por detrás de um véu.

Aquilo era verdade! A palavra falada e a expressão facial estão unidas; uma sem a ou­tra nunca são levadas a sério.

Tahani começou a rir-se à socapa ao ver a expressão de Nura, que denotava mal-estar, tão exposta por baixo do véu erguido. Todas nos rimos com a excepção de Nura.

- Pois bem - resmunguei -, calculo que não me fará mal nenhum usar o véu por mais umas quantas horas.

Naquele momento, compreendendo que durante todo aquele episódio eu estivera a brincar com ela, Nura inclinou-se para a frente com a intenção de me beliscar o braço. Esca­pei-me escondendo-me atrás de Sara. Começámos a rir-nos como rapariguinhas.

- Não te preocupes, Nura - disse eu -, é óbvio que Alá quer que eu use este véu que detesto, até ao dia em que for para a sepultura.

O nosso estado de espírito, pleno de jovialidade, continuou a manifestar-se enquanto a nossa caravana passava por várias cidades modernas situadas em oásis de tamareiras. Tínha­mos planeado montar o acampamento numa área entre as Montanhas Tuwayq e as Dunas de Dahna. Havia nessa área um wadi, o leito seco de um rio, conhecido pelo nome de Wadi Al lati, um velho trilho utilizado pelos beduínos.

O ruído do engrenar das mudanças na caixa de velocidades dos nossos veículos todo-o­-terreno, juntamente com os solavancos das rodas, começaram a instalar-se, tal como a fadi­ga no meu corpo. Estava ansiosa que a jornada terminasse para que a nossa aventura no de­serto pudesse ter o seu início. Ao cabo de algumas horas de condução, chegámos a uma vasta extensão de planícies de areias, a curta distância do Wadi Al lati. Se bem que naquela área existissem alguns povoados, vilas e acampamentos não muito distanciados, as nossas tendas seriam erguidas numa zona isolada.

O local que Kareem seleccionou mereceu o meu agrado. Acima de nós pairava a soli­dão e a quietude. Nem sequer se ouvia o trinar dos pássaros naquele lugar despovoado de árvores. As minhas irmãs, incluindo Nura e as demais mulheres do grupo, imitaram-me com satisfação quando retirei o véu das minhas faces e a abaaya do meu corpo.

A remoção das nossas roupas pretas exteriores não era considerada imprópria, dado que nos encontrávamos no círculo familiar da nossa família mais chegada e pessoal doméstico. É difícil ocultarmos o nosso rosto daqueles que vivem nos terrenos circundantes dos nossos palácios; por conseguinte, devido a necessidades de natureza prática, os homens contratados pelas nossas famílias ao fim de pouco tempo acostumavam-se a ver as faces descobertas das mulheres e filhas dos seus empregadores.

O céu aberto e a brisa do deserto, que acariciava a minha pele, proporcionaram-me uma sensação de bem-estar. Sentindo-me livre e feliz como se fosse uma criança, comecei a rir­-me quando os filhos mais novos de Sara começaram a correr atrás dos pequenitos de Tahani. A areia erguia-se devido ao impacto dos seus pequenos pés descalços. Os mais pe­queninos também sentiam a atracção exercida pela liberdade do deserto.

Numa expectativa cheia de felicidade, sentei-me no grupo formado pelas minhas irmãs e pelas nossas filhas mais velhas, enquanto os homens que trabalhavam para a nossa família se esforçavam para montar as tendas de pêlo negro de cabra, as quais iriam abrigar as nossas famílias ao longo das duas semanas seguintes. Sentíamo-nos felizes e contentes enquanto bebíamos o nosso chá quente e bem açucarado, preguiçosamente sentadas sobre as carpetes espalhadas pela areia endurecida no seu leito pelos ventos fustigantes do deserto.

A montagem daquelas tendas gigantescas não era tarefa fácil, até mesmo para os que já estavam acostumados àquele trabalho, e a confusão que reinava com os postes das tendas a tombarem, sendo inevitável que os topos também cedessem, foram motivo para explosões de gargalhadas em mais de uma ocasião.

Ao observar os homens que não davam tréguas à teimosia das tendas, senti-me parti­cularmente grata pela posição privilegiada que me fora concedida nesta vida. Por tradição, todas as tarefas associadas com as tendas negras são inteiramente da responsabilidade das mulheres. Primeiro, estas estão incumbidas da tosquia das cabras, após o que procedem à fiação; em seguida, tecem os fios em tecidos que serão as paredes e topos das tendas. Mas o seu trabalho não se fica por aí, uma vez que do mesmo fio também têm de tecer os tapetes que cobrirão o solo, e demais panos necessários no interior das tendas, tais como cortinados para as paredes, carpetes e divisórias que separarão o espaço interior das tendas. Estas «casas de pêlo» têm servido de lar aos povos do deserto desde tempos imemoriais.

Embora sejam conhecidas pelo termo de tendas beduínas negras, não são totalmente pretas mas mescladas com as várias tonalidades existentes na pelagem das cabras. O tama­nho das tendas varia, dependendo da riqueza e importância do proprietário da tenda.

Como seria de esperar, todas as nossas tendas foram especialmente manufacturadas, sendo bastante mais espaçosas e requintadas do que a maioria dos beduínos pobres alguma vez tivera oportunidade de ver. Cada uma destas tendas era composta por doze largas faixas de tecido negro, cada uma medindo mais ou menos trinta metros de comprimento. Eram suportadas por oito estruturas de madeira. Até a mais pequena das nossas tendas, que media somente cerca de dezoito metros de comprimento, seria considerada extraordinariamente espaçosa pela maioria dos beduínos.

Pouco depois as mulheres cansaram-se de observar aquela actividade fervilhante muito antes de o acampamento estar montado. Apesar de não pouparmos elogios aos trabalhadores mais rápidos, apenas cinco dos tectos das tendas estavam bem firmes ao cabo de várias ho­ras de trabalho esforçado realizado por muitos homens. Ainda havia um grande número de tendas que esperavam pela sua vez de serem montadas. Sem dúvida alguma que só algumas horas depois do anoitecer é que todas as tendas estariam montadas.

Cheias de impaciência, decidimos pedir a Asad que nos acompanhasse num curto passeio fora do perímetro do acampamento. Dentro em pouco, com Asad na vanguarda, for­mou-se um grupo bastante grande de mulheres e crianças que caminhavam alegremente pelo deserto, apesar de o sol ainda estar bem alto no firmamento e continuar a brilhar durante mais algumas horas. Erguíamos as nossas faces destapadas ao sol, o que nos proporcionava um prazer enorme enquanto caminhávamos atrás das crianças saltitantes.

Os olhos de Amani cintilavam de satisfação por ajudar uma cria de camelo que percor­ria o mesmo caminho. Nessa mesma manhã, quando os homens descarregavam os camelos e as ovelhas, Amani apegara-se àquela cria de pelagem castanha clara que agora balia num passo cambaleante, oscilando a cabeça na extremidade de um pescoço comprido na direcção de Amani. O animal fora retirado à mãe prematuramente, pelo que naquele momento reconhecia uma nova fonte de conforto, seguindo Amani para onde quer que ela fosse.

Quando a minha filha começou a arrulhar, falando com esta cria de camelo como se fa­lasse com um bebé, soube imediatamente que não haveríamos de comer a carne tenra daquele animal em particular. Com a sua camada de pêlo macio e encaracolado, membros compridos e, especialmente, as suas pestanas gigantescas e espessas, aquele bebé camelo conquistara os nossos corações. A minha única esperança era que Amani não insistisse em que ele ficasse alojado na nossa tenda.

Soltei um suspiro taciturno enquanto observava Amani, perguntando a mim mesma como é que alguma vez conseguiria curar a minha filha da sua disparatada loucura por ani­mais. Sara tocou-me no ombro. Ambas trocámos um olhar de pesar. A minha querida irmã compreende todas as minhas emoções.

As crianças começaram rapidamente a formar grupos, espalhando-se por diversas di­recções e prometendo-nos que não se afastariam do nosso ângulo de visão.

Asad sentou-se numa pequena elevação, dizendo que daquele ponto poderia observar­-nos a todos. Sorriu alegremente ao erguer os binóculos de lentes de grande alcance.

As minhas irmãs e eu caminhávamos de mãos dadas em direcção a uma enorme eleva­ção de areias. Comecei a examinar a infinidade do deserto diante de nós.

- Pensem bem: noutras épocas, a totalidade do nosso mundo preencheu todo este amplo vazio.

- O que não aconteceu há muito tempo - atalhou Sara, inclinando-se para colher uma flor amarela do deserto.

- Nem sequer sou capaz de imaginar a vida sombria a que as mulheres escaparam - ­interveio Dunia como se lamentasse a sina dessas mulheres e estremecendo ao pensar no tra­balho duro que naquele preciso momento era realizado no acampamento.

Nura soltou uma risada casquinada enquanto revirava os olhos. Sara e eu trocámos olhares que diziam tudo. Ambas nos havíamos sentido verdadeiramente chocadas quando soubemos que Dunia concordara em acompanhar-nos nesta viagem ao deserto. Era extre­mamente raro que a minha irmã Dunia se aventurasse fora da segurança dos seus palácios. Para nossa grande surpresa, depois de se ter certificado de que disporia de amplo espaço para a sua terapeuta egípcia (cuja função era dar-lhe massagens) e para a sua especialista facial, uma libanesa, finalmente decidira acompanhar-nos. Eram muitas as vezes em que Sara e eu nos sentíamos aborrecidas perante a futilidade de Dunia. Sem a menor dúvida que a minha irmã possuía a personalidade ideal para uma princesa da família real saudita. Das dez filhas que a minha mãe dera à luz, nenhuma desfruta melhor de uma vida de lazer do que Dunia. O seu passatempo preferido é tornar-se tão perfeita quanto as imperfeições do seu rosto e corpo lhe permitem. Esta nossa irmã conseguiu atingir o máximo dos máximos no preenchimento dos seus dias com a alimentação, dormir, submeter-se a tratamentos de beleza e com visitas que fazia aos familiares e amigas. Não lê jornais, revistas ou livros, tão­-pouco faz qualquer tipo de exercício físico nem mostra qualquer interesse pelo que se passa fora das paredes do seu palácio. Com o decorrer dos anos, comecei a aperceber-me de que a fadiga debilitante de que Dunia sofre surge cada vez mais cedo durante o dia, pelo que as horas que dispende a descansar são cada vez mais alongadas. Em tempos, receei que Dunia pudesse estar mentalmente diminuída mas, ao que tudo indica, não é esse o caso. Muito sim­plesmente, não existe nada que agite a sua mente preguiçosa.

Ainda assim, não é má pessoa; nunca magoou fosse quem fosse em toda a sua vida. E contudo, tanto quanto me é dado saber, também nunca ajudou ninguém. É claro que nós, as suas irmãs, sentimos muito amor por ela, sobretudo por a nossa mãe, que tanto amávamos, lhe dar a vida também. Embora Dunia não tenha herdado nenhuma das qualidades excelen­tes da nossa mãe, é do nosso sangue. Não temos outra alternativa senão amá-la.

De súbito, Nura deteve-se e inclinou-se para a frente a fim de apanhar uma mão-cheia de areia do deserto.

- Sim. Foi por muito pouco que escapámos à vida dura dos nómadas.

Dunia deu umas temas palmadinhas na sua própria face.

- Nura, vais fazer com que eu fique com rugas de preocupação com conversas dessas.

Todas nos rimos a bandeiras despregadas. A falta de qualquer tipo de paixão que Dunia mostrava, quer fosse a favor ou contra qualquer assunto, em combinação com um número infinito de cuidados faciais, massagens e cremes especiais, tem mantido a sua pele impecá­vel. Nenhuma ruga se atreveria a visitar o rosto de Dunia!

Alguns anos antes, em privado, Kareem alcunhara a minha irmã de «a Múmia», dizen­do que nada se escrevera no rosto de Dunia durante os anos que passara nesta terra.

Entretanto, Nura agarrou em Dunia, abraçou-a e pespegou-lhe um beijo sonoro nas duas faces.

- Oh! Dunia! Estás preocupada com a possibilidade de vires a ter rugas?

A interpelada cerrou os lábios e forçou um sorriso. Como era habitual, foi incapaz de pensar numa resposta adequada. Sim, a mente da minha querida irmã devia, com toda a certeza, estar vazia, pensei com tristeza.

A partir daquele ponto, continuámos a andar em silêncio até chegarmos ao topo da ele­vação. Subitamente, as dunas de Dahna surgiram em todo o seu esplendor à nossa frente. Grão após grão de um areal infinito que formava montanhas de areia de um avermelhado es­pectacular; várias das dunas elevavam-se a uma altura tal que davam a impressão de tocar na orla do céu azul. Sustive a respiração, maravilhada perante a grandiosidade daquela pano­râmica.

As minhas irmãs mantinham-se em silêncio, permitindo que os seus sentidos reagissem àquela visão da antiguidade de areias vermelhas que brilhavam como cobre à luz do sol. Ficava-se com uma sensação de humildade ao pensarmos que durante milhares de anos os nossos antepassados tinham sentido uma admiração reverente em face da beleza de uma paisagem de tal grandiosidade, tal como nós agora tínhamos o privilégio de a admirar. En­quanto permanecíamos fascinadas, a ausência de qualquer som humano parecia rugir aos meus ouvidos; pus-me a ouvir atentamente o nada. No entanto, quando me esforcei por lobrigar à distância, pensei ver qualquer coisa que se deslocava. Fiz uma pala com as mãos acima dos olhos.

- Olhem! - gritei, olhando para o outro lado daquele mar de areia. - As dunas estão a mexer-se!

O vento não passava de uma ligeiríssima brisa, e contudo a areia parecia rolar na nossa direcção. Semicerrei os olhos tentando ver mais longe. Seria uma miragem do deserto?

Sara cambaleou para trás numa manifestação de receio, ao mesmo tempo que me aper­cebia de que não se tratava da areias em movimento, mas sim de um grande grupo de ho­mens montados em camelos que se deslocavam através do areal na nossa direcção. Aqueles homens eram desconhecidos e estávamos numa situação vulnerável, sozinhas, a alguma distância do nosso protector Asad, e com os nossos rostos e cabelos descobertos! O som de gritos penetrantes causaram-nos outro choque. Vários dos viajantes do deserto tinham de­senrolado os seus ghutras, os panos axadrezados a branco e vermelho que lhes cobriam a cabeça, tendo começado a acenar-nos! Obviamente, os homens eram beduínos que nos ti­nham avistado e vinham a grande velocidade, montados nos seus camelos e direitos a nós!

Extraordinariamente alarmadas, as minhas irmãs e eu gritámos pelos nossos filhos, em particular pelas raparigas, enquanto nos dirigíamos para Asad aos tropeções pela areia. Tomada de pânico, Tahani gritou quando tropeçou na orla do seu vestido comprido e caiu de frente no solo. Dunia recusou-se a parar para ajudar a irmã; continuou a correr a uma veloci­dade excepcional, e ao fim de pouco tempo deixámos de a avistar.

Asad deixou cair os binóculos enquanto corria ao nosso encontro. Quando viu a origem do nosso receio, tentou acalmar-nos encaminhando-se para o acampamento num passo ligeiro. Tencionava estar presente para poder saudar os viajantes do deserto.

Uma hora mais tarde, as minhas irmãs e eu já estávamos capazes de nos rir ao pen­sarmos naquele incidente. Isto é, todas menos Dunia. Continuava a chorar de terror, apesar de naquele momento já estarmos sentadas na segurança da nossa espaçosa tenda, protegidas pelos nossos homens. A criada de Dunia aplicava toalhas humedecidas sobre a testa da sua ama aterrorizada, mas não havia nada que conseguisse acalmar a nossa irmã. Encontrava-se firmemente convicta de que tinha escapado por uma unha negra de ser capturada por aqueles homens, que a forçariam a viver o resto da sua vida na condição de esposa beduína contra a sua vontade.

Se bem que nos pareça estranho, continuam a existir algumas tribos na Arábia que não capitularam perante a perspectiva de passarem a levar uma existência urbana. E é uma rea­lidade que estes árabes do deserto se sentem ofendidos, o que é do conhecimento geral, ao ponto de chegarem a ser violentos quando são recusadas as suas ofertas de compra de mu­lheres desejáveis. Quem é que poderia dizer com toda a segurança que estes nómadas não teriam adoptado costumes do passado, decidindo sem qualquer pejo roubar uma de nós?

Em 1979, uma mulher norte-americana que Sara conhece bem, escapou por pouco a uma situação dessas. Esta mulher, Janet, acompanhada do namorado, Bill, um norte-ameri­cano que trabalhava para Asad como gestor de um dos seus muitos negócios, tinham encon­trado um acampamento de beduínos por ocasião de uma viagem de um dia no deserto. Bill, que já vivia na Arábia Saudita há alguns anos, era fluente em arábico. Quando o casal foi convidado pela tribo para tomar chá, Bill sentira-se muito satisfeito com a oportunidade, tão rara, de poder mostrar a Janet um autêntico acampamento beduíno.

Mas, desde o início, aquele encontro com os beduínos era inquietante. Os homens da tribo sentiram-se cativados pela beleza daquela mulher, pela sua cútis cor de marfim, olhos verdes e lânguidos, com uns cabelos ruivos que lhe caíam até à cintura; jamais tinham visto uma beleza feminina tão enfeitiçadora.

Depois do segundo copo de chá, o chefe da tribo tornou-se mais ousado e perguntou a Bill o preço total que pagara por aquela mulher. À laia de gracejo, Bill respondeu que a sua mulher era muito cara - de facto, seria mulher para custar uns cem camelos. Com toda a solenidade, o chefe beduíno abanou a cabeça enquanto olhava, como que mesmerizado, para aquela beleza de cabelos avermelhados. Em boa verdade, aquela mulher provaria ser extre­mamente dispendiosa! O chefe bateu palmas e concordou: sim, estava disposto a sacrificar a sobrevivência financeira da sua tribo para poder possuir uma mulher tão irresistivelmente tentadora. Sim, também ele pagaria cem camelos por ela. Ainda mais, os olhos perfurantes e intensos do chefe mostravam que ele tinha de possuir aquela mulher!

Para grande consternação de Bill, o chefe chamou de imediato os seus homens para que começassem a reunir cem dos seus melhores camelos, que deveriam separar da sua enorme manada. Quando Bill, com toda a cortesia, declinou aquela generosa oferta, o montante foi duplicado e redobrado. Quando finalmente o chefe compreendeu que a mulher não estava à venda, pelo menos para ele, por nenhum número de camelos, a sua atitude alterou-se num ápice, passando de uma hospitalidade cordial a um estado de raiva própria de alguém que se sentia ofendido. Não era merecedor de tal mulher? Aquilo era um insulto!

A situação começou a deteriorar-se rapidamente; o casal assustado escapou por uma unha negra à multidão exaltada. Correram para a sua viatura e saíram dali a toda a velocida­de, embora fossem perseguidos por beduínos montados em camelos durante uma curta dis­tância. Quem sabe o que teria acontecido se não tivessem ido num veículo veloz, que acabou por deixar para trás, envoltos em poeira, aquela horda de beduínos ofendidos e irados?

Depois de ter saudado os nossos beduínos, Asad convidou-os para tomarem chá no nosso acampamento. Posteriormente, informou-nos de que os homens que tanto nos tinham assustado eram membros de uma tribo beduína que haviam saído para caçar.

Naquele momento, esperávamos que esses homens se fossem embora para podermos reunir-nos aos nossos maridos. Pouco depois, o aroma da refeição da noite começou a ator­mentar os nossos estômagos que já grunhiam; pouco depois, começámos a ouvir as despedidas em voz alta dos homens. Depois de terem conseguido obter dos nossos maridos a promessa de que dentro em pouco visitaríamos o seu acampamento, os beduínos foram finalmente em­bora.

Sentindo-me muitíssimo agradecida pela sua partida, fui a primeira a transpor a cortina que cobria a abertura da nossa tenda. As minhas irmãs e demais mulheres seguiram-me apres­sadamente.

Estávamos todos com fome e, sem mais perdas de tempo, instalámo-nos em círculo em redor de carpetes cobertas por toalhas de linho branco que serviam de mesa. Ainda que seja hábito na Arábia Saudita os homens comerem primeiro - as mulheres devem esperar, comendo depois o que restar da refeição -, é um costume que não observamos. Quando o grupo é composto apenas por membros da nossa família, as refeições são feitas em conjunto. Até o arrogante Ali come com bastante frequência ao mesmo tempo que as suas mulheres e filhos. Consequentemente, estávamos já todos sentados de pernas cruzadas quando as nossas serviçais trouxeram jarros com água para que pudéssemos passar as mãos por água.

Crescia-me água na boca em antecipação ao banquete que nos seria servido. As cozi­nheiras tinham-se atarefado na preparação da nossa refeição desde que chegáramos ao acam­pamento. Todas as questiúnculas que haviam existido entre elas tinham sido esquecidas; as três cozinheiras enfileiraram-se inchadas de orgulho quando o cortejo de comida começou. As enormes bandejas de latão e bronze, com pelo menos três metros de comprimento, eram carregadas por seis homens. Numa das bandejas, e sobre uma camada de arroz, serviram-nos um pequeno camelo que estivera a assar num espeto durante todo o dia. Dentro do camelo vinha um borrego que, por sua vez, fora recheado com galinhas. Por seu turno, as galinhas estavam recheadas com ovos cozidos e legumes. As serviçais começaram a colocar à nossa frente taças com várias saladas, azeitonas e queijos, acompanhadas por uma grande varie­dade de outros pratos.

Os nossos rituais alimentares começaram com todo o fervor. Kareem proferiu a bênção Bismillah - «Em nome do Misericordioso Alá». No seu papel de anfitrião, começou a in­sistir em que o marido de Nura, Ahmed, o mais velho naquela reunião de família, fosse o primeiro a provar a comida.

Ahmed insistiu que não, que não era merecedor de tal honra. A voz de Kareem eleva­va-se cada vez mais com um fervor crescente, declarando que o nome da nossa família cairia na ignomínia caso Ahmed não fosse o primeiro a saborear os alimentos.

Eu ouvia aquele diálogo sem escutar, uma vez que já estou tão acostumada àquela espécie de rituais que habitualmente não presto atenção a estas demoras antes de iniciarmos as refeições. Mas naquela ocasião sentia-me prestes a desmaiar, tanta a fome que sentia. Se bem que não tivesse dito nada, ocorreu-me fugazmente a ideia de que nós, os sauditas, dedicamos um excesso de tempo a ritos que não fazem qualquer sentido, uma vez que o des­fecho já é do conhecimento de todos. Sabia-se antecipadamente que Ahmed acabaria por permitir que Kareem o persuadisse a comer a primeira garfada.

O meu marido e Ahmed alongaram aquele ritual de tal modo que pensei que talvez me servisse furtivamente de uma almôndega que estava dentro de uma taça perto da minha mão. Na altura em que eu levava a mão à taça, tentando passar despercebida, Kareem formou uma bola de arroz na palma da sua mão e ofereceu-a a Ahmed. Finalmente, o meu cunhado ce­deu. Lançou a bola de arroz para dentro da boca, antes de a encher com um naco de carne da carcaça do camelo.

Era o sinal de que o banquete poderia principiar. As tigelas começaram a ser passadas de mão em mão, enquanto outros pares de mãos ansiosas se estendiam para a bandeja de maiores dimensões. Estavam todos tão esfaimados que aquela foi uma rara ocasião em que a nossa refeição não foi interrompida por nenhuma conversa.

Depois de termos comido até à saciedade do prato principal, os servos começaram a trazer tabuleiro atrás de tabuleiro repletos de doces feitos de natas, frutos secos e mel. Apesar de todos termos os estômagos cheios, ninguém se absteve de provar aqueles doces deliciosos.

Elevaram-se vozes que davam graças de Alhamdililah, ou seja, «Sejam dadas graças a Deus». Por fim, trouxeram-nos taças de prata cheias de água de rosas para que todos pudes­sem lavar as mãos e a boca. A nossa refeição terminara.

- Venham todos, sentemo-nos lá fora à volta da fogueira - sugeriu Kareem.

Com o desaparecimento do sol, o ar da noite que se fazia sentir no deserto era frio, pelo que foi com satisfação que nos juntámos em redor das brasas incandescentes da enorme fo­gueira. Até mesmo as crianças mais pequenas se nos reuniram. Logo depois, voltámos a cair no hábito de partilharmos as nossas histórias, uma actividade muito do agrado de todos por ocasião das reuniões de família.

Quando os servos começaram a servir-nos café e chá, e limonada para as crianças mais pequenas, vários membros da família começaram a contar em verso histórias empolgantes sobre a vida nas caravanas do deserto e a guerra tribal.

No passado, os árabes e os beduínos tinham lutado amiudadas vezes entre si. Esses ata­ques mórbidos eram considerados uma maneira honrosa de proteger a tribo a que os guer­reiros pertenciam. Nenhum destes clãs era mais temido do que o dos Al Sa’ud, os quais não hesitavam em chacinar impiedosamente os seus inimigos, gabando-se de que, aquando das suas incursões, nunca deixavam um único guerreiro com vida. Aqueles que eram conside­rados inocentes - as mulheres, as crianças e os idosos - davam consigo distribuídos pelos vitoriosos.

Tocados por estas histórias, era óbvio que os homens mais velhos da nossa família se sentiam atraídos pelo passado, porque quando Ahmed se levantou de um salto, chamando os servos para que lhe trouxessem o sabre, os nossos maridos juntaram-se-lhe. Dentro em pou­co, o nosso grupo foi brindado com a dança masculina da ardha, uma versão da dança da guerra dos árabes.

Esbocei um sorriso radiante ao observar Kareem e os outros homens a saltarem por todo o recinto enquanto entoavam cânticos, ao mesmo tempo que brandiam os seus sabres desenhando floreados extravagantes. O meu irmão Ali iniciou uma peleja com Asad, em que os dois esgrimiam os respectivos sabres, mas ao fim de pouco tempo começou a perder ter­reno, mostrando-se atrapalhado e com as faces congestionadas. Embora Ali seja bastante mais corpulento do que Asad, que é magro, com o passar dos anos a carne de Ali transfor­mou-se em gordura, enquanto Asad, um homem extremamente disciplinado, manteve toda a sua saudável musculatura.

Depois de muitos momentos de jovialidade, os nossos homens, com as respirações ofegantes, voltaram a reunir-se à volta da fogueira. Ergueram ao ar odres com água, fazendo pontaria para que o esguicho lhes entrasse certeiramente dentro da boca. Com grande habili­dade, direccionaram os jactos de água directamente para a garganta, sem que salpicassem os lábios com uma única gota.

Quando Tahani começou a contar uma história de amor da tradição beduína, Ali in­terrompeu-a escarnecendo daquelas sentimentalidades. Para minha grande consternação, Tahani silenciou-se imediatamente.

Ali olhou na direcção das crianças mais pequenas, dizendo com severidade:

- Estas lendas de amor distorcerão as vossas mentes, levando-vos a pensar na direc­ção errada. A lição mais importante de todas deve ser aprendida através da história que estou prestes a contar-vos.

Troquei um olhar com Sara mas, recordando-me da promessa que fizera a Kareem ­que não discutiria com o meu irmão durante aquela viagem -, esforcei-me por mostrar inte­resse.

Até mesmo numa situação em que se encontrava rodeado por tantas mulheres da sua própria família, o meu irmão foi incapaz de refrear os profundos preconceitos que tinha contra as mulheres. Teve a ousadia de contar a lenda de um jovem beduíno que depois de ter sido brutalmente atacado pelos membros de uma tribo rival, tendo ficado gravemente ferido, foi salvo por uma mulher que ele não conhecia. O jovem sentira-se tão revoltado ao deparar com as mãos de uma desconhecida que lhe tocava no corpo que escarrou no rosto da mulher, exigindo que ela fosse apedrejada! Ali fitou os filhos e sobrinhos mais pequenos e, sentindo­-se confiante no seu exaltado papel de homem mais velho cheio de sabedoria, disse àqueles garotos impressionáveis que era preferível morrer às mãos de um inimigo do sexo masculi­no do que ser salvo por uma mulher desconhecida!

Fiquei boquiaberta. A fim de me impedir de dizer o que pensava, fui obrigada a segurar a língua entre os dentes.

A história de Ali mereceu a reprovação de todos os presentes, embora toda a gente lhe tivesse mostrado bastante mais cortesia do que ele merecia e, para minha grande desilusão, não chegou aos nossos ouvidos nenhum furor de criticismo.

A fisionomia de todas as mulheres que ali se encontravam não ocultava o desagrado que sentiam, mas Kareem aclarou a garganta e começou a contar uma última história. No meu coração, senti uma ternura enorme pelo meu marido, visto ser aparente, no que me di­zia respeito, que ele desejava que as nossas crianças fossem dormir com outras ideias em mente que não aquelas com origem na lenda perversa que Ali narrara.

Kareem concentrou a sua atenção nas crianças e jovens adultos.

- Queridas crianças, as qualidades mais desejáveis a que qualquer pessoa poderá almejar são a generosidade e a hospitalidade. Assim sendo, é com todo o prazer que vos vou falar de um árabe que foi o homem mais generoso que alguma vez viveu.

Começou a narrar uma história popular entre os beduínos, uma narrativa que emociona o coração de qualquer árabe, dado que nada nos impressiona mais do que as histórias de grande generosidade.

- Diz-se que todos os homens grandiosos nascem em tendas pequenas. E foi este o caso com o xeque Hatim. Nasceu numa tenda pequena mas, depois de ter trabalhado muito, conseguiu vir a ser um dos xeques mais ricos que pastoreavam os seus rebanhos por toda a extensão do deserto. O nome deste xeque andava na boca de todos os homens, não por causa da sua riqueza mas sim por essa grande virtude árabe, a generosidade, que ele praticava mais dedicadamente do que qualquer outro homem ao cimo da Terra. Dava a todos os que lhe pe­diam, sem nunca ter posto em questão as necessidades de qualquer pessoa. Não recusava os pedidos de ninguém, nem sequer os dos seus inimigos. Houve uma ocasião em que quatro­centos homens, mulheres e crianças esfomeados abandonaram as colinas ressequidas pela seca, dirigindo-se à tenda do xeque. E o que é que ele fez? Abateu e assou cinquenta came­los para poder alimentar essa gente com carne. O sultão de Roum, ao ouvir falar deste xeque, teve a certeza de que a sua generosidade era fingida, que seria uma maneira de ele se publicitar a si mesmo, assim como os artigos que tinha para venda. O sultão decidiu enviar os seus homens para que pedissem ao xeque Hatim aquilo que ele possuísse de mais precioso, um valioso garanhão conhecido por todo o lado, para ver se o xeque era tão gene­roso quanto as pessoas apregoavam. Esse garanhão, Duldul, era o melhor cavalo de toda a Arábia. Fora criado com os filhos de Hatim, tendo partilhado de todas as alegrias e tristezas da família. O cavalo era tão amado que nunca sentira o toque de um chicote, nem tão-pouco ouvira uma palavra mais desabrida. Pois bem, os homens do sultão perderam-se durante a viagem por causa de uma grande tempestade, e quando chegaram ao seu destino estavam todos esfaimados e quase meios-mortos. Ficaram surpreendidos quando avistaram somente três pequenas tendas e nada de rebanhos de animais, apesar de o xeque Hatim ter ido ao seu encontro montado no seu querido corcel Duldul. Os homens do sultão viram, com toda a clareza, que o xeque não esperava visitas, e contudo ele saudou-os com cordialidade e muita hospitalidade. Ao ver os seus convidados num estado tão deplorável, anunciou que iria mandar preparar um banquete. Depois de terem observado aquelas terras de pastoreio sem qualquer vegetação, aqueles homens sentiram-se surpreendidos quando, mais tarde, se sentaram para uma refeição composta por uma carne deliciosa que fora assada sobre brasas e com que posteriormente se fizeram várias sopas, para além de outros pratos muito saboro­sos. Os homens esfaimados declararam que nunca haviam sido alimentados de uma maneira tão magnífica. Entretanto, os homens do sultão começaram a sentir-se envergonhados da sua missão, dizendo ao xeque que tinham ido a mando do sultão de Roum com a finalidade de pôr à prova. a sua generosidade ao pedirem-lhe que lhes oferecesse o garanhão Duldul.

O xeque Hatim deixou-se ficar sentado como se tivesse sido atingido por um golpe mortí­fero. Antes de começar a falar, as suas faces ficaram de uma palidez de morte. «Ah, meus amigos, se ao menos me tivessem dado a conhecer a vossa missão no momento em que chegaram. Nunca poderíeis ter adivinhado as circunstâncias em que me encontraram. Eu não estava preparado para receber convidados, dado que chegámos a este lugar apenas há dois dias. Temos estado à espera das nossas coisas de casa e dos rebanhos, mas caíram umas grandes chuvadas e as torrentes de água impediram a chegada dos meus bens. Quando vos vi chegar, exaustos e com fome, o que é que eu poderia ter feito? Na minha tenda não havia carne nenhuma, também não existiam quaisquer cabras ou ovelhas à distância de um dia de viagem. Poderia eu falhar, não vos oferecendo a minha hospitalidade? Não consegui supor­tar o pensamento de homens com fome na minha tenda. E assim, o meu valioso cavalo, Duldul, esse corcel sem igual, que adivinhava todos os meus desejos e obedecia a todas as minhas palavras... que outra coisa é que eu poderia ter feito? Agora, ide e dizei ao vosso descrente sultão Roum que, na situação extrema em que me encontrava, fui forçado a cozi­nhar e a servir-vos à ceia o maravilhoso e obediente Duldul», acrescentou o xeque com lágrimas que lhe corriam pelas faces.

Naquele momento, Kareem sorriu às crianças mais pequenas, que estavam de olhos arregalados perante a ideia de tamanha hospitalidade.

- Agora, meus meninos, fiquem sabendo que acabaram de ouvir a história de um verdadeiro árabe, o melhor de entre todos, um homem cuja generosidade nunca é posta em questão.

A lenda que Kareem contara pusera-nos a sorrir bem-humorados; o grupo começou a desmembrar-se enquanto cada um se dirigia para a sua tenda.

Mas quando Ali passou por mim, a sua expressão arrogante continuava a irritar-me. Quando o meu irmão me ofereceu a face para que eu lhe desse um beijo de boas-noites, o meu corpo contraiu-se. Vi pelo canto do olho que Kareem me observava.

Sorri e pus-me em bicos de pés.

Ali inclinou-se para mim.

Como que a atormentá-lo, os meus lábios passaram-lhe pela face antes de eu lhe segredar ao ouvido a maldição beduína de que eu mais gostava.

- Que todos os camelos da tua manada fiquem coxos, Ali.

Enquanto Kareem me olhava com uma expressão de aprovação cheia de ternura, Ali ficou com os olhos presos em mim, espantado com o que acabara de ouvir. Continuava a sentir-se deleitado com o seu papel de homem cheio de sabedoria, pelo que não era capaz de adivinhar a razão por que eu lhe dissera aquelas palavras de desprezo.

Esbocei um sorriso triunfante antes de me dirigir para a minha tenda.

A nossa tenda tinha sido instalada há algumas horas, de acordo com as instruções de Kareem. Fora dividida em cinco partes. As divisórias eram cortinas de veludo; a secção mais espaçosa destinava-se às refeições, sendo também a área onde convivíamos com os nossos familiares, enquanto duas das áreas eram os quartos de dormir, e outras duas serviam de casa de banho. Kareem e eu partilhávamos um dos quartos e casa de banho, enquanto o outro era das minhas filhas.

Entrei no quarto mais espaçoso, mobilado com sofás feitos por encomenda; assim como almofadas de seda em bege e tom de pêssego que haviam sido colocadas contra duas paredes. O solo arenoso do deserto estava coberto por tapetes persas. As selas de camelos ornamentadas com franjas douradas e prateadas seriam mais tarde utilizadas pelos nossos homens aquando das suas saídas pelo deserto, mas agora encontravam-se penduradas numa terceira parede. Esta decoração era completada por estandartes, sabres e pela bandeira saudita.

Todo aquele espaço havia sido mobilado com peças únicas de belas mobílias. As nos­sas camas eram encimadas por dosséis de tecido leve de onde pendiam cortinas translúcidas a toda a volta, e que serviam para nos proteger o corpo da poeira e dos insectos do deserto.

A minha criada já tinha colocado a camisa de dormir sobre o leito; depois de ter lavado a cara e escovado os dentes, comecei a despir-me. Suspirei de satisfação quando me estendi no meu lado da cama. Aquele dia da minha vida fora mais agradável do que grande parte dos outros. Passados escassos momentos, adormeci sem sequer ter dado pela entrada de Kareem no quarto.

 

                   AREIAS EM TURBILHÃO

OS DIAS SEGUINTES foram deveras agradáveis para toda a família. Os nossos homens montaram nos seus camelos em caçadas à vida selvagem do deserto, enquanto os nos­sos filhos se entretinham em jogos intermináveis com os primos e primas. Por seu lado, as mulheres desfrutavam de longas caminhadas pelo acampamento, admirando as vistas pano­râmicas e partilhando muitas recordações felizes da nossa meninice.

Decorridos três dias da nossa estadia, os maridos sugeriram que visitássemos o acam­pamento da tribo de beduínos, cujos homens tanto nos haviam sobressaltado no nosso primeiro dia no deserto. Todas nós estávamos desejosas de ir a esse acampamento, uma vez que todos os árabes que vivem em cidades morrem de curiosidade quanto ao estilo de vida dos beduínos.

Todas as mulheres, isto é, à excepção de Dunia, que recusou o convite terminantemen­te, alegando, que o seu delicado temperamento não poderia, pura e simplesmente, sobreviver ao choque que seria visitar um sujo acampamento de beduínos; assim, ficou com as nossas crianças e servas.

As pessoas pouco familiarizadas com a Arábia Saudita acreditam que todos os árabes são beduínos; na realidade, os árabes citadinos e os árabes beduínos do deserto só muito raramente é que coexistiram em paz, e até mesmo nos nossos dias continua a existir um con­flito disseminado entre ambos. Os árabes das cidades troçam dos beduínos considerando-os idiotas e simplórios, enquanto os beduínos injuriam os árabes citadinos, apelidando-os de amorais e pecadores. Num passado não muito distante, o Bedu selvagem costumava encher as narinas com panos sempre que tinha necessidade de ir à cidade, evitando assim ser contaminado pelo odor dos árabes da cidade.

Não obstante estas diferenças, é com toda a cordialidade que os beduínos acolhem os que visitam os seus acampamentos, embora esta hospitalidade seja frequentemente de curta duração.

Durante a minha juventude tive a oportunidade de ir a vários acampamentos de beduí­nos, o que fazia com que me sentisse curiosa em saber se os anos entretanto decorridos tinham trazido algumas melhorias às suas vidas soturnas. Recordava-me de que os beduínos que tinha visto se apinhavam no interior de tendas cheias com o lixo que produziam.

A vida de qualquer beduíno começa com um elevado índice de mortalidade infantil. As crianças que conseguem sobreviver aos primeiros tempos de vida andam descalças e sujas pelos acampamentos, sem receberem qualquer tipo de educação escolar. E as mulheres! Mal conseguia pensar nelas sem um estremecimento involuntário. É inquestionável que em todas as classes saudiarábicas as mulheres são desdenhadas, sendo natural e irrevogavelmente consideradas como seres inferiores aos homens, mas a existência das beduínas é ainda pior, seja qual for a bitola por que se as afira, dado que não possuem a riqueza imprescindível para poderem aliviar a dureza das suas vidas. As beduínas são terrivelmente sobrecarregadas com um trabalho físico muito duro. Para além de servirem os maridos e terem de cuidar dos seus muitos filhos, as suas responsabilidades de nómadas abrangem a montagem e desmon­tagem dos acampamentos.

Enquanto sofríamos os solavancos do percurso de automóvel através do deserto, a minha mente estava preenchida com estes pensamentos. Felizmente, a distância que tivemos de percorrer não foi superior a quinze quilómetros. Ao fim de pouco tempo, começámos a avistar à distância uma espiral de fumo que se evolava de uma fogueira. Mas os homens do acampamento já tinham visto as nuvens de poeira levantadas pelos nossos veículos muito antes de termos avistado o seu acampamento. Mais de vinte homens já tinham montado nos seus camelos, aguardando a nossa chegada a uma curta distância da entrada do complexo de tendas.

Houve um beduíno em especial que despertou a minha atenção. Era um homem robusto de meia-idade, com uns olhos negros de expressão autoritária e feições bem cinzeladas. Com o seu longo manto preto que adejava atrás de si, mostrava uma postura régia, o mesmo acontecendo à sua magnífica montada, um pujante camelo fêmea com poucos anos. O olhar do beduíno era penetrante, fitando-nos com uma autoconfiança que não admitia desafios. Ao avistar os visitantes desconhecidos, nem um pequeno sorriso se lhe desenhou nos lábios, embora eu tivesse achado bastante divertido que os lábios do seu camelo parecessem enta­lhados num sorriso perpétuo.

Com uma dignidade um tanto pomposa, circundou os nossos veículos mais de uma vez, como se estivesse a inspeccionar-nos. Sem necessidade de perguntar, eu sabia que aquele homem era o chefe da sua aldeia. Os beduínos são orgulhosos e não mostram subserviência perante homem algum, nem sequer na presença de homens da realeza. Ele mostrar-nos-ia que as boas-vindas com que fôssemos acolhidos dependeriam da sua aprovação.

Quando Ahmed meteu a cabeça pela janela do nosso veículo, o chefe, que disse cha­mar-se xeque Fahd, mostrou finalmente um rasgado sorriso de boas-vindas que se lhe espe­lhou no rosto. Com uma voz retumbante, qual trovão, saudou-nos com a esperança da bên­ção de Alá. Com um floreado das mãos, apontou o caminho do povoado.

Àquele sinal, os outros beduínos começaram a gritar as suas boas-vindas. Montavam nos seus camelos alegremente, circundando as nossas viaturas enquanto nos dirigíamos com lentidão para o acampamento.

Quando o xeque Fahd gritou que honrava os convidados, acto imediato o acampamento beduíno adquiriu vida. As mulheres veladas, com os braços cheios de crianças, acompanha­das de outras um pouco mais velhinhas e mal vestidas, começaram a sair da fileira de tendas montadas num terreno em declive.

No mesmo instante em que saí do jipe em que viéramos, fui atingida pelo forte odor que pairava no ar. Torci o nariz ao sentir o fedor de animais que viviam por perto, ao que se misturava o cheiro de fossas de abate empapadas de sangue. Comecei a andar com alguns melindres, dado que o solo estava contaminado pelos dejectos dos animais. Encontrava-me numa povoação cujo solo só era lavado pelas chuvas, e há muito tempo que não chovia. Disse a mim mesma que cada passo que dava era um passo de regresso ao passado.

Vimos mais de dez mulheres, vestidas com roupas de cores garridas, que se encaminha­vam para nós com as faces veladas pelos véus característicos das beduínas. É costume estas mulheres terem os olhos descobertos, enquanto a tradição das árabes da cidade é cobrir o rosto completamente. Quando nos deram as boas-vindas, todas as suas energias fluíram atra­vés dos seus olhos escuros e vivazes.

Os nossos maridos acompanharam os homens até à tenda do xeque onde tomariam chá, enquanto as minhas irmãs e eu seguíamos as mulheres do acampamento. A mais alta de todas, que usava uma indumentária de um azul garrido toda bordada com fios dourados, chamava-se Faten; sem grandes perdas de tempo, informou-nos que era a favorita das quatro mulheres do xeque. Os seus olhos cintilavam de orgulho enquanto nos conduzia para a sua tenda pessoal.

Tal como o Alcorão decretava, este xeque proporcionava aparentemente uma tenda individual para cada uma das suas esposas, da mesma maneira que os árabes citadinos cons­truíam vilas ou palácios para cada uma das suas mulheres.

- Na minha qualidade de esposa preferida do xeque Fahd, dou-vos as boas-vindas à minha tenda - disse Faten com um gesto floreado enquanto nos acompanhava até ao interior da tenda.

Ao transpor a entrada da tenda, uma cortina adejante de pêlo de cabra, olhei em redor com um interesse indisfarçável. O interior era abafado e escuro, à semelhança do que me recordava das tendas de beduínos que visitara na minha infância. No centro daquele espaço havia uma fogueira na areia, onde o café era preparado, rodeada por amontoados de Cinzas esbranquiçadas de fogueiras anteriores. A minha atenção foi despertada por numerosos matizes espalhafatosos. Almofadas de vários tons de laranja, cambiantes de azuis e verme­lhos, empilhadas contra colchões, a par de mantas de retalhos de cores garridas, tachos e panelas, produtos alimentares e roupas dobradas e amontoadas por todo o lado.

Tudo aquilo dava a impressão de falta de higiene; da tenda emanava o fedor a doença. Mas o que me causava maior tristeza eram as crianças de tenra idade. Por toda a tenda ecoa­va o choro de várias criancinhas rabugentas, enquanto a garotada suja, que há pouco tinha começado a andar, espreitava por detrás das saias das mães.

Foi com pesar que vi um garotinho de aspecto infeliz, que parecia ter quatro ou cinco anos, que usava as mãos para se deslocar pelo chão. Quando uma das mulheres constatou que a criança aleijada, tão digna de dó, despertara a minha atenção sem que ninguém a inci­tasse, deu-me a informação de que durante os primeiros tempos de vida da criança a mãe deixara-o cair acidentalmente de cima de um camelo.

Tentei tomá-lo nos meus braços, mas o garoto começou a gritar de medo. Uma das mu­lheres, que assumi ser a mãe, bateu nas pernas atrofiadas da criança até que ele se arrastou para um canto da atenda, onde ficou a choramingar.

A desgraça da situação daquele garoto despedaçou-me o coração. Ao contrário das gentes de outras culturas, os árabes, e em especial os beduínos, não cuidam particularmente dos seus duentes. Enquanto as crianças saudáveis são consideradas uma fonte de riqueza e prestígio para as suas famílias, uma criança que não seja saudável é uma vergonha pavo­rosa. Era muito duvidoso que aquele garotinho alguma vez viesse a receber cuidados médicos. O mais provável seria continuar a levar uma vida curta e de infelicidade, ficando para sempre um estropiado mal alimentado e carente de amor.

Senti uma vontade desesperada de agarrar naquele rapazinho e levá-lo comigo, mas no meu país uma reacção dessas é uma coisa impensável. Perante os casos de tamanha negli­gência, as crianças nunca são retiradas às suas famílias, quaisquer que sejam as circuns­tâncias.

Quando uma das mulheres me deu uma rude cotovelada no braço, aceitei a chávena de chá que ela me oferecia. Estava suja com porcaria ressequida das muitas vezes em que havia sido utilizada. Uma segunda mulher, com cicatrizes nas mãos devido às muitas tendas que tivera de montar, deitou o chá quente dentro da chávena. Não me restava qualquer outra al­ternativa senão beber daquela chávena, caso contrário a nossa anfitriã sentir-se-ia extrema­mente ofendida.

Satisfeita por ver que todas as suas convidadas tinham sido servidas, Faten retirou o véu. Sentiu orgulho em mostrar-nos que, efectivamente, era uma mulher muito bonita e muito jovem, que não teria mais de dezoito ou dezanove anos, próxima da idade de Maha.

As outras beduínas também retiraram os seus véus. Estas tinham uma aparência bastan­te mais idosa e desgastada do que Faten. Não admirava, pois, que ela fosse a esposa favorita, uma vez que ainda não sofrera as consequências da vida dura no deserto e de partos sucessivos.

Faten saracoteava-se diante de nós enquanto nos mostrava as suas muitas bugigangas, dizendo que eram ofertas especiais que recebera do xeque.

- Ele deixou de visitar as outras esposas - acrescentou ela com um sorriso rasgado, apontando para três das beduínas presentes. Estas três mulheres trocaram olhares suben­tendidos de irritação, enquanto eu e as minhas irmãs continuávamos sentadas num silêncio cheio de mal-estar. Quando uma das mulheres mais velhas insistiu para que nós também removêssemos os nossos véus, assim o fizemos.

Faten ficou embasbacada perante a beleza de Sara. Era óbvio que estava habituada a ser a celebridade do povoado, mas nenhuma mulher poderia suplantar o encanto de Sara, que era bonita de morrer. Se a minha querida irmã vivesse num país onde as mulheres não fossem obrigadas a cobrir o rosto, seria famosa pela sua magnificente beleza.

As outras mulheres sassaricavam em redor de Sara, começando a tocar-lhe nas faces e cabelos. Uma delas disse a Faten que se o xeque Fahd tivesse oportunidade de ver uma mu­lher como Sara, certamente abandonaria a cama desta por se sentir frustrado. As outras três mulheres do xeque manifestaram o seu acordo pressurosamente.

Faten, uma mulher visivelmente mimada, revelou ser invejosa, começando a ordenar às outras mulheres que lhe levassem isto e aquilo. O seu timbre de voz era notoriamente des­cortês e elevado e, numa atitude simbólica de resistência, as outras fingiram que não com­preendiam o que ela lhes dissera para fazerem.

As palavras trocadas adquiriram uma tal agressividade e os olhares tornaram-se tão en­furecidos que receei estarmos prestes a testemunhar uma altercação entre aquelas mulheres de maneiras grosseiras. Aquela exibição de má educação fez-me reflectir no que teria sido a realidade da minha própria vida caso os nossos antepassados não tivessem trocado as areias do deserto pelas cidades. Na cultura beduína, a posição social da mulher depende única e exclusivamente da sua juventude, beleza e capacidade de produzir filhos. Era inquestionável que uma beduína da minha idade, que tivesse sofrido a perda de um seio e a possibilidade de voltar a dar à luz, seria desprezada pelo marido. Sem dúvida alguma eu teria passado a ser a serva de uma beldade tão insensível como Faten!

Pela primeira vez de há muito a esta parte, reconheci que os saudiarábicos estavam a dar alguns passos progressivos, ainda que pequenos, no sentido de melhorarem as condições de vida das sauditas. Senti um raro momento de gratidão pelo meu estatuto actual.

Quando Sara, manifestamente constrangida, ameaçou voltar a cobrir-se com o véu caso não fosse deixada em paz, as mulheres gritaram que se sentariam sossegadas só pelo prazer de poderem admirar a mais perfeita criação de Alá.

Faten não conseguiu aguentar-se por mais tempo! Com o lábio arreganhado num trejei­to de cólera, fitou Sara com olhos de fúria enquanto a amaldiçoava.

- Que fiques coberta de pústulas! Que Alá te desfigure o rosto!

Todas nós ficámos sem fala, talo choque que sentíamos perante aquele comportamento incivilizado.

Num silêncio cheio de dignidade, Sara levantou-se para se ir embora. Faten interpretou mal a atitude de Sara, assumindo que era um desafio. Os seus olhos bem espaçados espelha­vam uma expressão selvática, as narinas fremiam; começou a avançar na direcção da minha irmã, que tão dócil era, com a intenção manifesta de agir com violência! Atemorizada, Sara imobilizou-se e levou a mão à garganta.

Desde o primeiro e infeliz casamento de Sara, época em que fora brutalizada às mãos de um marido cruel, todos os membros da nossa família estavam firmemente determinados a oferecer a Sara uma protecção física incondicional. Nura avançou com a intenção de servir de escudo à irmã, embora não tivesse sido tão rápida quanto eu.

Coloquei-me à frente de Sara, precisamente no momento em que a mão de Faten se estendia para ela. Senti uma dor violenta no rosto. Aquela mulher beduína, maluca de todo, torcera-me o nariz!

Em tempos, eu ouvira o meu pai dizer: «Aquele que não faz com que um beduíno o tema, dentro em pouco receará o beduíno». Era por de mais evidente que aquela mulher não compreenderia nada além da força. Quando Faten estendeu a mão para me torcer o nariz uma vez mais, soltei um grito e saltei para ela. Haviam passado muitos anos desde a última ocasião em que me envolvera em qualquer tipo de altercação física; todavia, os anos da mi­nha infância em que lutara com Ali, bastante mais corpulento do que eu, tinham-me ensina­do a ter movimentos ágeis e certeiros. Mas sou demasiado pequena para poder resistir por muito tempo a uma mulher possante como Faten. Movimentei-me com rapidez, tencionando agarrá-la pelo pescoço, forçando-a a cair de costas sobre o solo. Tropecei na orla da minha saia comprida e caí em cima da minha adversária.

Era óbvio que as outras beduínas odiavam Faten, dado que nenhuma fez fosse o que fosse para a ajudar; ao invés, riam-se e tomavam o meu partido.

- Ó princesa, arranca-lhe os olhos! - incitou uma delas aos gritos.

- Torce-lhe o pescoço - encorajou-me uma outra.

As minhas irmãs estavam num grande histerismo, com receio de que a pérfida Faten levasse a melhor à irmã mais nova. Os seus gritos ressoavam através da pequena tenda.

Faten conseguiu apanhar uma mão-cheia de areia do solo e arremessou-a contra o meu rosto.

Momentaneamente cega, puxei os cabelos de Faten até que ela ergueu as mãos ao ar implorando a misericórdia de Alá.

Pelo sim, pelo não, bati-lhe com a cabeça contra o chão duro por duas vezes, após o que me pus de pé. Enquanto sacudia o pó da saia, mimoseei-a com o maior insulto que me ocorreu à mente.

- É assim que dás as boas-vindas aos teus convidados?

Eu sabia que a verdadeira tradição beduína trata os convidados com um respeito enor­me. Até mesmo um inimigo mortal tem direito a três dias de graça, depois de ter abandona­do os limites de uma tenda beduína.

À medida que eu proferia cada palavra, as faces de Faten ficavam cada vez mais ver­melhas, apesar de não ter avançado mais na minha direcção. As outras beduínas começaram a rir-se histericamente em face da derrota de Faten.

Nura e Tahani apressaram-se a sacudir a areia que eu tinha nas faces e cabelos.

- Sultana! Ela magoou-te? - gritou Tahani.

- Não - respondi, rindo-me. Quando os meus olhos se prenderam nos de Faten, numa troca de olhares de ódio mútuo, lancei-lhe o insulto final.

- Esta beduína luta como se fosse uma criança.

Prendemos os véus com rapidez de forma a cobrirmos o rosto, após o que nós as três seguimos atrás de Sara e Haifa, que saíam apressadamente da tenda.

Entretanto, os homens tinham-se apercebido do tumulto e haviam começado a sair da tenda de Fahd, olhando em redor com uma confusa expressão de preocupação. Quando nos aproximámos dos nossos maridos, estando prestes a explicar-lhes a situação, ouviu-se um grito selvático que explodiu atrás de nós.

E agora, o que é que estará a acontecer?, perguntei a mim mesma.

Voltei-me, deparando com as areias em turbilhão devido ao impacto dos passos de Faten que corria. A beduína tresloucada agarrou em duas mãos-cheias de areia e correu para mim. Antes que eu me pudesse mexer, já ela tinha arremessado a areia à minha cabeça.

- Que Alá lance todos os Seus castigos em cima da tua cabeça! - vociferou ela.

Os homens ficaram sem fala. Estavam mudos, atordoados com o gesto de um desprezo tão ultrajante por parte de Faten. Senti o sangue gelar nas veias ao ouvir a maldição que ela me lançara; em silêncio, e com uma postura cheia de dignidade, inclinei-me para a frente e comecei a sacudir a areia da cabeça e do véu. Que fosse Faten a assumir o papel de vilão.

Com grande satisfação, uma das beduínas mais velhas explicou ao xeque Fahd que a sua nova noiva tinha atacado fisicamente uma das suas convidadas.

- Sultana! - gritou Kareem correndo para mim. - Estás magoada?

O xeque começou a correr no encalço de Faten, que naquele momento se afastava tam­bém num passo de corrida.

- Mulher estúpida! - ouvimo-lo a gritar. - Desonraste a minha tenda!

Com certeza absoluta que Faten apanharia uma boa tareia do marido, mas merecia ser espancada, raciocinei.

Nura urgiu os nossos homens para que nos levassem para fora de um lugar que, para nós, era primitivo e assustador, ao que eles acederam sem mais demoras.

Depois de todos estarem inteirados dos pormenores do ocorrido, fui elogiada como se fosse uma heroína.

Sara é o membro mais querido de toda a nossa família, e até mesmo Kareem compreen­deu que a minha única opção tinha sido defendê-la. Asad ficou tão abalado com o pensa­mento de que uma beduína louca tivesse estado prestes a atacar a sua bem-amada que disse a Sara que me ofereceria a peça de joalharia mais cara que encontrasse em Riade, como mostra da gratidão que sentia. Até Ali avaliou o meu acto com grande orgulho, dizendo a todos os que estivessem dispostos a ouvi-lo que foi ele quem me ensinou as tácticas de luta, com o que fui forçada a concordar. Nos dias seguintes, as conversas, cujo tema era a luta vitoriosa que eu travara com Faten, mantiveram o nosso acampamento num elevado estado de excitação.

Quando o xeque Fahd apresentou um pedido de desculpas sob a forma de dez camelos fêmea Batiniyah, ficámos cientes de que o comportamento de Faten fora, efectivamente, um episódio que muito envergonhava aquele orgulhoso chefe beduíno. Os camelos Batiniyah são oriundos de Oman, sendo considerada uma das melhores raças de camelos. Os dez animais eram de elevada qualidade, uma vez que todos tinham cabeças pequenas, com a parte superior larga, olhos grandes, narinas pequenas e orelhas compridas.

A riqueza de qualquer tribo beduína é aferida pelo tamanho e qualidade da sua manada de camelos, e dez Batiniyah são extremamente dispendiosos. Desconfiando que eles repre­sentavam o que de melhor existia na manada do xeque Fahd, Kareem não desejava aceitar aquela valiosa oferta. Ainda assim, não poderia declinar, uma vez que a sua recusa teria ofendido profundamente o xeque. Portanto, as beldades Batiniyah juntaram-se à nossa própria manada.

Depois de tal melodrama, tentámos desfrutar dos últimos dias da nossa viagem ao deserto com actividades mais inofensivas.

 

                     SEPULTADA EM VIDA

ALGUMAS MANHÃS ANTES de regressarmos a Riade, fui rudemente despertada por Maha. - Mãe - gritou a minha filha -, venha depressa. O tio Ali está a morrer.,

- O que é que estás a dizer, menina? - perguntei, ainda atordoada de sono.

- O tio Ali foi mordido por uma serpente venenosa! Nesta altura já deve ter exalado o último suspiro!

- Alá! Não!

Ao ouvir aquilo, a minha criada aproximara-se trazendo um dos meus roupões de algodão até aos pés, com que cobriu a minha camisa de dormir. Calcei um par das sandálias de reserva que Kareem mantinha na entrada da tenda e comecei a correr com Maha na direc­ção da tenda de Ali.

Entretanto, já se tinham reunido do lado de fora da tenda quatro das nossas servas e outros empregados. Enquanto Maha e eu furávamos por entre toda aquela gente, ia ouvindo as conversas agitadas que travavam entre si.

- Ele deu apenas alguns passos fora do campo - dizia um dos criados filipinos -, quando, vinda não se sabe de onde, surgiu uma serpente monstruosa que lhe ferrou a mão!

- Essas cobras podem voar que nem pássaros - afirmou excitadamente um dos egíp­cios que trabalhavam para a nossa família.

- Até mesmo um homem corpulento não é capaz de resistir à dentada de uma yaym! - adiantou um outro que era sudanês.

Ao ouvir aquelas palavras, emiti um gemido. A yaym! Se ainda não tivesse morrido, certamente que Ali não conseguiria sobreviver. Eu sabia que o veneno daquela espécie de serpentes era mais mortífero do que o veneno mais forte. A yaym, da família das cobras­-capelo, é uma das três espécies venenosas existentes na Arábia, assim como a mais rara.

Porque só muito raramente é avistada, são muito escassos os relatos que dêem conta de ter provocado mortes.

Apesar de o meu irmão ter feito com que me fosse muito fácil não gostar dele, chegan­do ao ponto de fazer com que por vezes eu o odiasse, nunca lhe desejei a morte. Não obstan­te, tive sempre fortes desejos de que ele mudasse a sua maneira de ser tão maléfica. Se o destino de Ali fosse morrer naquele dia, eu sabia que essa tragédia provocaria uma tristeza enorme no espírito da minha mãe.

Quando irrompi pela entrada da tenda, senti o corpo desfalecer perante a cena com que me deparei. Sem fazer o mais pequeno movimento, Ali encontrava-se deitado num colchão no chão, rodeado pelas suas mulheres, as quais davam já a impressão de prantearem a morte do marido. Ele está morto, pensei, soltando um grito de angústia.

- Sultana! - exclamou Kareem colocando-se ao meu lado.

Comecei a chorar e procurei consolo no peito largo de Kareem.

- Sultana, Ali pergunta insistentemente por ti - disse-me o meu marido. - Ele continua entre os vivos? - perguntei, abismada.

- Continua... mas tens de ser corajosa. Parece-me que a hora dele chegou.

Com um olhar, observei tudo o que me rodeava, constatando que a crise incutira uma actividade frenética na nossa família. Nura, Sara e Haifa andavam numa grande azáfama cortando folhas da planta ramram. Depois de moída, esta substância serviria para fazer chá, algo que os beduínos utilizam rotineiramente como antídoto para neutralizar o veneno de serpentes. No entanto, eu sabia que se Alá houvesse determinado que Ali tinha de falecer naquele dia em particular, nada do que as minhas irmãs pudessem fazer alteraria o destino do meu irmão. Todos os muçulmanos acreditam que o destino de todos nós é traçado no princípio dos tempos, não existindo um único mortal que possua a capacidade de alterar ou interferir nos desígnios de Deus.

- Ó Alá, salva-me, imploro-te! - gritava Ali.

Kareem conduziu-me até junto do meu irmão. Fiquei com a sensação de que o coração me caía aos pés quando vi que Ali transpirava profusamente, e que os seus lábios tinham adquirido uma cor violácea. Realmente, tudo indicava que o meu irmão atravessava os der­radeiros momentos da sua vida.

As mulheres de Ali afastaram-se para o lado, permitindo que eu me ajoelhasse à beira da sua cama.

- Ali - chamei num murmúrio. - Sou a tua irmã, a Sultana.

De início não houve qualquer resposta. Ao invés, Ali esforçou-se por respirar. Apertei as mãos frias do meu irmão.

Ali virou a cabeça e abriu as pálpebras, fitando-me com um olhar directo. A expressão do seu rosto manifestava uma tristeza incomensurável.

- Sultana?

- Sim...? - Preparei-me para um momento de grande emoção. Certamente que, numa situação daquelas, Ali pediria perdão pelos actos ofensivos que praticara ao longo da sua vida. Como é que ele poderia morrer sem que primeiro reconhecesse o extraordinário sofrimento que me causara, assim como a outras mulheres, expressando o remorso que sen­tia?

Nesse preciso instante, Nura abeirou-se de Ali num passo apressado.

- Toma - disse ela num tom de voz que, traía ansiedade. - Ali, abre a boca, bebe isto. - Nura segurava numa chávena de chá feito de ervas da planta ramram. Levou a chávena aos lábios de Ali.

Enquanto este bebia a infusão, Nura sussurrava-lhe palavras de consolo, dizendo-lhe que devia tentar, com todas as suas forças, continuar a viver.

- Sim, eu vou tentar, Nura - retorquiu Ali com grande determinação. - Vou tentar.

Eu também tinha esperanças de que Ali não morresse. Era muito possível que um susto daqueles, reflecti, fizesse com que ele se tornasse num pai e marido melhores daí em diante. Aguardei junto do meu irmão. Pouco tempo depois, ele olhou-me directamente.

- Sultana, és tu? - segredou.

- Sim, Ali.

- Sultana, tenho a certeza de que estarei morto dentro de alguns momentos.

Suspirei, não desejando contrariar as suas palavras, caso a morte de Ali, marcada para aquele dia, fosse a vontade de Deus. Mas quando o observei mais de perto, verifiquei que os lábios não estavam tão azulados como há pouco. Talvez o antídoto tivesse começado a pro­duzir efeitos.

Ali aguardava para ver se eu tinha mais alguma coisa a dizer. Perante o meu silêncio, recomeçou a falar.

- Sultana, dado que estou a caminho da sepultura, pensei que talvez tivesses algo de importante a partilhar comigo.

- Bem, Ali, só espero que a bondade e a bênção de Alá estejam contigo - tartamudeei, sentindo-me confusa.

- Oh? - O semblante de Ali espelhava desilusão.

O que é que o meu irmão quereria de mim?

Numa voz entrecortada, Ali retomou a palavra. - Sultana, pensei que talvez quisesses pedir-me perdão.

A surpresa que senti foi tanta que elevei o tom de voz mais do que fora minha intenção.

- Pedir perdão?

Ali deu a impressão de ter ficado absolutamente chocado com a minha resposta; con­tudo, a julgar pelo timbre da sua voz, começara a recuperar as suas forças.

- Sim - confirmou. - Sultana, deves pedir perdão pelo teu mau comportamento.

Atormentaste-me durante toda a minha vida.

Com que então! As forças renovadas de Ali faziam-se acompanhar da arrogância de sempre! Fiquei tão perturbada com a viragem inesperada que se dera na situação que come­cei a gaguejar.

- Eu não tenho nada que me obrigue a pedir perdão, Ali! Na verdade, eu estava à es­pera que fosses tu a pedir-me perdão!

Ali lançou-me um longo olhar empedernido.

- Não fiz nada de mal - murmurou finalmente. - Sempre fui um pai excelente para os meus filhos e um bom marido para as minhas mulheres, um filho que sempre obedeceu ao pai e um irmão com que as minhas irmãs sempre puderam contar. Portanto, devo pedir perdão porquê?

A única coisa que fui capaz de fazer foi fitar o meu irmão com um olhar de desespero. Acreditaria ele realmente nas palavras que acabara de proferir? Concluí de imediato que o meu irmão se sentia efectivamente incapaz de reconhecer todo o mal que existia dentro de si! Muito linearmente, não possuía a capacidade de raciocinar como qualquer ser humano normal. No mais fundo do seu íntimo, Ali acreditava que eu é que era a pecadora que tanto mal fizera!

Dadas as circunstâncias, fui forçada a refrear a língua, caso contrário teria amaldiçoado o meu irmão. Embora me sentisse impelida a dar largas à minha fúria, não desejava ser as­sombrada por remorsos profundos. Sem dúvida que eu sentiria remorsos se o meu irmão morresse com as minhas maldições a soarem-lhe aos ouvidos.

Ainda assim, foi-me difícil conter todas as palavras que me assomavam aos lábios. Re­tirei a minha mão da de Ali e afaguei-lhe a face.

- Que Alá te conceda as duas maiores bênçãos, Ali.

- Obrigado, Sultana - agradeceu com um sorriso. Franziu o sobrolho ligeiramente.

- Quais foram as duas bênçãos que me desejaste?

- Rezo para que Alá te proporcione saúde - retorqui, retribuindo-lhe o sorriso -, mas mais importante ainda, Ali, rezo para que Alá faça com que reconheças todas as tuas iniquidades.

A surpresa foi tanta que Ali ficou de queixo descaído.

Afastei-me da sua beira sem desejar ouvir a resposta dele. Pela primeira vez na minha vida, os pensamentos e o comportamento do meu irmão não exerciam a mínima influência sobre mim. O forte elo de ódio que nos ligara até então foi cortado para sempre. Deixei de odiar Ali; na realidade, até senti uma corrente de simpatia por ele.

Juntamente com os outros membros da minha família, aguardei na tenda de Ali pelo que o resto do dia nos poderia trazer. Ficámos a vigiá-lo enquanto ele gemia e se agitava na cama, gritando para que aquele sofrimento tivesse um fim rápido. Houve momentos em que acreditámos que ele morreria a qualquer instante; também existiram ocasiões em que nos pareceu que Ali viveria para ver outro nascer-do-sol.

Entretanto, a serpente que ferrou Ali foi encurralada e capturada por vários dos nossos empregados. Consequentemente, fez-se a feliz descoberta de que a criatura não era, ao fim e ao cabo, uma yaym, tal como se receara inicialmente, mas sim uma hayyah ou víbora das areias. Estas últimas também são venenosas, mas o seu veneno não é tão mortífero como o das yaym. A maior parte dos que são mordidos pelas hayyah conseguem sobreviver, embora a experiência seja assustadora e dolorosa.

Todos os presentes deram largas ao regozijo que sentiam ao sabermos que Ali, antes dado como morto, iria sobreviver.

Asad confortou-o com aquela notícia.

- Deus seja louvado, Ali - disse -, por as tuas irmãs terem preparado o antídoto.

Aquilo correspondia à verdade, sendo óbvio que o antídoto reduzira as dores de Ali apressando a sua recuperação. Todavia, com uma indiferença cheia de frieza, Ali ignorou os esforços das irmãs.

- Não, Asad - acrescentou ele -, aconteceu que ainda não tinha chegado a minha hora. Não te esqueças do ditado cheio de sabedoria que diz: «até que o meu dia chegue, ninguém poderá fazer-me mal; quando o meu dia chegar, ninguém poderá salvar-me». ­Ali sorriu. - As minhas irmãs não tiveram a mínima interferência no modo como este dia chegou ao fim.

Até mesmo as mulheres de Ali trocaram olhares de incredulidade ao ouvirem aquelas palavras. Mesmo assim, levando em consideração o facto de a morte ter estado tão próxima dele, a família encontrava-se predisposta à generosidade, pelo que ninguém lhe disse uma palavra de repreensão.

Antes de abandonarmos a tenda de Ali, abeirámo-nos todos do seu leito desejando-lhe uma rápida recuperação. Quando chegou a minha vez, ele olhou-me com uma expressão escarninha.

- Ah, Sultana, eu sabia que Deus não levaria um homem como eu deste mundo maravilhoso, deixando que uma pecadora como tu continuasse a desfrutar das Suas bênçãos.

Com tristeza, sorri a Ali. E a despeito de termos trocado um abraço, li nos olhos do meu irmão que a inimizade continuaria a reinar entre nós.

Com Kareem ao meu lado, regressei exausta à nossa própria tenda. O meu marido dormiu a sono solto durante toda a noite, mas o meu não foi tão tranquilo. Noite adentro, a minha mãe voltou a visitar-me sob a forma de sonhos intermináveis. Repetia insistentemente a mesma mensagem: que a minha vida terrena não me trazia a felicidade e a satisfação que poderiam ser alcançadas. Só despertei ao som das primeiras orações do dia que entravam na nossa tenda.

Os meus sonhos tinham sido tão verídicos que tinham desaparecido os anos que haviam decorrido entre a morte da minha mãe e o momento actual. Por conseguinte, foi com expec­tativa que olhei em redor, acreditando sem a mínima dúvida que a minha mãe estaria presen­te, em carne e osso, esperando com palavras de ternura o momento de preparar a sua filha mais nova para um novo dia.

Foi então que me recordei de que a mãe morrera há mais anos do que aqueles em que eu vivera com ela. Quando ela faleceu, eu tinha apenas dezasseis anos; desde então, vivera vinte e quatro longos anos sem ter um abraço da minha mãe. Este pensamento deprimiu-me tanto que me levantei da cama; vesti-me rapidamente e saí da tenda sem dizer a ninguém para onde tencionava ir.

Com lágrimas de desespero que me corriam pelas faces, comecei a caminhar sozinha deserto adentro.

O que é que a minha mãe quereria de mim? Como é que eu poderia ser a pessoa que ela pensava que eu devesse ser? Onde é que eu tinha fracassado? Que mudanças é que poderia fazer na minha vida?

A minha mente estava tão torturada que não dei pelo sol que entretanto começara a iluminar o firmamento acima das areias do deserto. Só me apercebi da presença de Sara, que se aproximara, quando ela se sentou ao meu lado.

- Sultana...? - Tocou-me no braço.

A expressão que ela viu nos meus olhos pareceu perturbá-la.

- Minha querida irmã, estás a sentir-te bem? - perguntou-me Sara.

A chorar, lancei-me nos braços da minha irmã.

- Tens de me dizer, Sultana. O que é que se passa contigo?

- Eu sempre tracei a minha vida da maneira como desejava vê-la, Sara - murmurei, tentando sufocar o choro. - Mas agora apercebo-me de que vivi uma vida inútil. Foi a mãe quem me disse.

Sara examinou o meu rosto minuciosamente antes de responder.

- A tua vida não foi inútil, Sultana. Protegeste os teus filhos. Fizeste de Kareem um homem feliz. Para além de te teres colocado numa situação de grande perigo, ao alertares o mundo para a situação difícil em que as nossas mulheres vivem.

- Não foi suficiente... não é suficiente... - tartamudeei por entre as lágrimas. – A mãe continua a dizer que eu devia fazer mais.

Sara deixou-se ficar sentada em silêncio durante muito tempo.

- Sultana, poucos de nós fazem o suficiente - disse ela após ter reflectido a sós consigo mesma. - Finalmente, eu sei que é assim.

Olhei para Sara com um interesse renovado. Teria ela sonhado também com a nossa mãe?

- O que é que queres dizer? - perguntei.

Sara soltou um profundo suspiro antes de tirar da algibeira do casaco, que usava por cima do vestido, um bocado de papel que fora dobrado várias vezes.

Começou a articular as palavras espaçadamente e num tom de suavidade.

- É tão fácil ser-se um cobarde na Arábia Saudita. Há tanta coisa a perder.

Parecia abstracta e triste. A que estaria ela a referir-se?

- Sultana, agora compreendo que deveria ter removido céu e terra para ajudar Munira. Em conjunto, com o auxílio das nossas irmãs, poderíamos ter sido bem sucedidas ajudando a pobre pequena a fugir para outro país.

Fiquei sem fala. Teria acontecido alguma coisa a Munira? Teria morrido?

Sara entregou-me o papel dobrado que tinha nas mãos.

- Ontem à noite encontrei isto - disse Sara em voz baixa. - Os remorsos que sinto são tantos que o meu coração está despedaçado.

Desdobrei o papel, deparando com uma página cheia de uma caligrafia pequena e precisa. - Há algumas semanas - começou Sara a explicar -, emprestei a Munira um dos meus livros. No dia em que ela mo devolveu, eu estava a fazer as malas para esta viagem. Pensando que talvez pudesse reler o mesmo livro durante o percurso, trouxe-o na minha bagagem. A noite passada não conseguia adormecer e decidi folhear as páginas desse livro; encontrei isto.

Os olhos de Sara estavam vermelhos e alagados de lágrimas. Levou a ponta do dedo à folha de papel.

- Lê o que a Munira tem a dizer, Sultana.

Convencida de que estava prestes a ler uma carta de suicídio, as minhas mãos começaram a tremer tanto que mal conseguia focar o olhar no papel em movimento. Sara ajudou­-me a manter a missiva imóvel.

Munira escrevera um poema.

 

Vivi e sei o que é sorrir

Vivi a vida de uma rapariguinha com promessas esperançosas

Vivi a vida de uma rapariguinha que sentiu a calidez da feminilidade

Vivi o sentimento de ansiar pelo amor de um homem bom

Vivi a vida de uma mulher cujas esperanças foram frustradas

Vivi a vida de alguém cujos sonhos foram espezinhados

Vivi conhecendo um medo atroz de todos os homens

Vivi por entre os medos levantados pelo espectro da cópula demoníaca

Vivi para ver o demónio sob o disfarce de um homem que dirige todas as minhas acções

Vivi como uma pedinte que suplica e implora a este homem que me deixe sozinha

Vivi para testemunhar o prazer que o meu marido sente na sua masculinidade

Vivi para ser violada pelo homem a quem fui dada

Vivi somente para suportar as violações nocturnas

Vivi para ser sepultada em vida

Vivi para me perguntar por que é que aqueles que afirmam amar-me ajudaram ao meu enterro

Vivi por entre todas estas coisas e ainda não fiz vinte e cinco anos

 

Ambas ficámos incapazes de proferir uma única palavra; o sofrimento era insuportável. A minha irmã e eu só conseguíamos entreolharmo-nos. Sem dizer nada a Sara, fiquei ciente de que, independentemente das consequências, eu tinha de me esforçar mais para alterar as condições de vida das mulheres, as quais, à semelhança de Munira, corriam o perigo de virem a ser sepultadas antes de terem morrido.

Regressei ao acampamento com a minha irmã, sabendo que naquele momento a minha vida mudara para todo o sempre. Jamais poderia voltar atrás.

 

                   O CÍRCULO DE SULTANA

EM TEMPOS, LI que por cada dádiva que Alá concede aos Seus filhos, Ele lança simul­taneamente um desafio equivalente. Eu acreditava que aquilo era verdade, dado que nunca tinha ouvido falar nem sequer lera sobre uma única vida humana que abrangesse somente perfeição e felicidade. Certamente que o meu próprio carácter está crivado de im­perfeições e, por causa destas falhas, fui forçada a enfrentar muitas tristezas.

Se bem que me tenham sido concedidas inúmeras bênçãos, também se me depararam muitos obstáculos. Ao escolher os meus progenitores, Deus decidiu unir um pai cruel a uma mãe dedicada. Proporcionou-me alguns anos maravilhosos na companhia da minha mãe, após o que a afastou de mim quando eu ainda era muito jovem. Concedeu-me o elevado estatuto de uma princesa num reino dominado pela monarquia; e, contudo, esse elevado estatuto pouco valeria numa nação tradicionalmente hostil à condição feminina.

Há alguns anos que comecei a ver a vida delineada à minha frente, como se o meu des­tino já tivesse sido lavrado. Não me agrada aquilo que sei que inevitavelmente acontecerá: a minha riqueza multiplicar-se-á, ao mesmo tempo que os meus bens aumentarão, mas, em simultâneo, a minha felicidade e satisfação ficarão reduzidas. O mal-estar que persistia no padrão diário da minha vida deu origem a um problema com o álcool, o que me levou a uma vida de apatia, em que estupidamente desbaratei toda e qualquer perspectiva de atingir o objectivo de toda uma vida: ajudar as mulheres que necessitassem de auxílio. O facto de estes factores adversos serem algo que eu impusera a mim mesma minaram os meus senti­mentos de merecimento. A Sultana de há algum tempo atrás, que em tempos sonhou com um destino glorioso, transformou-se numa alma apática, infeliz e perdida.

Miraculosamente, foi-me concedida esta nova compreensão que me deu a conhecer que o meu padrão de vida teria de ser alterado: o aparecimento em sonhos da minha querida mãe; o efeito do melancólico poema de Munira; e até mesmo a experiência de quase morte por que Ali passara; tudo isto foram aspectos que contribuíram para a minha nova perspec­tiva. Acreditarei sempre que Deus arquitectou pessoalmente com mão de mestre todos estes acontecimentos com o objectivo bem claro de produzir a metamorfose mágica que eu expe­rimentei no deserto naquele dia. Para qualquer pessoa que acredite no poder de Deus Todo­-Poderoso, não poderá existir mais nenhuma explicação.

Apesar de a partir desse momento a minha vida se ter tornado ainda mais complicada, não lamento absolutamente nada. Se a minha dramática transição não tivesse ocorrido, sei que teria permanecido atolada numa infelicidade cheia de inquietude. Mais importante ain­da, uma jovem paquistanesa, de nome Veena, teria continuado a viver numa submissão de sexualidade brutal.

- Nunca mais - disse eu a Sara quando retornámos ao acampamento. - Jamais vol­tarei a permanecer em silêncio face à crueldade e maus tratos a que qualquer mulher seja su­jeita.

Sara aquiesceu com uma expressão inflexível. Ela compreendia. Precisamente nesse momento, avistei o filho mais novo de Dunia, Shadi, que saía de uma viatura começando a saudar os seus tios e primos com grande entusiasmo.

- Shadi já chegou - murmurou Sara numa voz suave.

- Com certeza que Dunia se sentirá feliz - repliquei com um sorriso.

Shadi é um jovem de vinte anos, alto e de constituição maciça, que não apresenta uma aparência particularmente atractiva. No entanto, tudo o que eu conhecia pessoalmente acerca deste sobrinho era bastante superficial, uma vez que só tínhamos oportunidade de nos encontrar aquando das grandes reuniões de família. Agora, recordo-me vagamente de Dunia ter mencionado há algum tempo que Shadi se reuniria posteriormente ao resto da família durante esta jornada ao deserto. Dunia não se coibira de mostrar o orgulho que sentia ao anunciar que Shadi era o mais brilhante dos seus filhos, acentuando que a sua habilidade para os negócios ultrapassava de longe a de todos os outros jovens da família dos Al Sa’ud. De facto, Dunia confidenciava presunçosamente a todos os que a quisessem ouvir que Shadi possuía interesses em vários negócios de sociedade com outros no Paquistão, tendo acabado de regressar de uma viagem a esse mesmo país onde havia adquirido mais negócios. As minhas irmãs e eu não nos tínhamos sentido pessoalmente ofendidas perante aquelas pala­vras aleivosas, embora constituíssem um insulto aos nossos queridos filhos.

Naquela ocasião, Sara e eu não avançámos para saudar Shadi, uma vez que ele já se encontrava rodeado pelos seus tios e jovens primos de expressões ávidas. Mais tarde, tería­mos oportunidade de dar as boas-vindas ao nosso sobrinho, decidimos, enquanto nos enca­minhávamos para as nossas próprias tendas.

Não me senti particularmente surpreendida ao avistar uma jovem mulher que usava roupas paquistanesas, a qual estava sentada no assento traseiro do veículo de Shadi; é fre­quente os homens da nossa família transportarem serviçais de um lugar para o outro. Assumi que a jovem seria uma das criadas da minha irmã, que teria sido levada para o nosso acampamento no deserto a pedido de Dunia.

Quando regressei à minha tenda, fui informada pela minha própria criada, Libby, que Kareem se tinha mostrado preocupado ao encontrar a nossa cama vazia, tendo dado instru­ções para que me procurassem. Depois de ela lhe ter assegurado que eu estava bem na companhia de Sara, Kareem levara as nossas filhas para um último passeio de camelo pelo deserto.

Sentindo-me grata por aqueles momentos de solidão, permiti-me a ociosidade de um banho. Tomar banho no deserto não tinha nada de difícil, uma vez que as nossas casas de banho estavam equipadas com uma pequena sanita, um lavatório de proporções ínfimas e uma banheira espaçosa. Durante o dia, o sol do deserto aquecia a água contida em cisternas enormes situadas do lado de fora das tendas.

Depois de Libby ter enchido a banheira com água quente, deixei-me ficar de molho durante algum tempo antes de tentar lavar a areia que tinha nos cabelos. Em seguida, prepa­rei-me para aquilo que eu esperava que viesse a ser um último dia e noite agradáveis pas­sados no deserto. Vesti um vestido de algodão que me dava pelos tornozelos, antes de colo­car o meu tapete das orações sobre o chão atapetado da tenda.

Depois de me ter ajoelhado na direcção de Meca, rezei a Deus, pedindo-lhe que man­tivesse a minha vida numa rota a direito com respeito à minha conduta. Nessa altura, o meu coração e mente ficaram mais em paz comigo mesma, dado que albergava grandes espe­ranças de poder enfrentar as tentações da vida com uma integridade renovada. Afortunada­mente, naquela ocasião não tive a mais pequena intuição de que as primeiras e mais difíceis provas estavam prestes a experimentar-me.

Depois de ter lido o poema de Munira, passei a ser uma Sultana mais cordata do que me era habitual. Necessitava de tempo para assimilar os meus pensamentos; por isso, quan­do o meu marido e filhos me convidaram para um pequeno passeio no deserto, declinei o convite. Quando as minhas irmãs insistiram para que eu participasse numa partida de gamão, recusei-me.

Embora tivesse passado sozinha o último dia daquela estadia no deserto, não senti a mínima solidão. Preocupada com os meus próprios pensamentos, eu era uma mulher que, uma vez mais, apanhava os cacos da sua vida. Senti que a minha força interior se fortalecia com uma determinação renovada que me levava a querer alterar o curso da minha vida.

Naquela noite, a nossa reunião de família foi a mais agradável de todas as que havía­mos passado no deserto, uma vez que havia uma pungência especial no facto de sabermos que o dia seguinte nos remeteria a todos à rotina da vida urbana. Quando a reunião daquela noite chegou ao fim, sob as estrelas que cintilavam no céu, abraçámo-nos carinhosamente antes de cada um regressar à sua tenda.

Quando já estávamos na nossa própria tenda, Kareem, eu e as nossas filhas passámos uns momentos descontraídos. Víamos polaróides que havíamos tirado no nosso acampamen­to no deserto. Quando Amani começou a bocejar, concluímos que chegara a hora de irmos para a cama. Eu sorria quando Kareem e eu nos retirámos para o nosso quarto.

Precisamente quando estava prestes a puxar as cobertas para cima da cabeça, a fim de trocar a roupa pela camisa de dormir, fui sobressaltada por gritos de angústia.

- O que é que foi isso? - perguntei ao meu marido, sem ocultar o nervosismo que sentia.

Kareem inclinou a cabeça como se assim fosse capaz de ouvir melhor.

- Parece-me que eram gritos de mulher.

- Ó Alá! Rezo para que ninguém tenha sido mordido por uma serpente.

À medida que os gritos se intensificavam, Kareem agarrou numa lanterna e saiu apres­sadamente da tenda. Fui atrás dele.

Os gritos também haviam perturbado Nura e Sara que, acompanhadas dos respectivos maridos, Ahmed e Asad, se juntaram de imediato a mim e a Kareem. Enquanto percorría­mos o labirinto que atravessava o espaçoso acampamento, vimos vários dos nossos empre­gados que saíam apressadamente das suas tendas, tentando descobrir a origem daquela comoção.

Os gritos foram-se atenuarando, embora continuássemos a seguir o som até a uma das tendas mais pequenas onde estavam alojadas as nossas serviçais. Do interior da tenda não saía luz alguma, mas sim a música estridente do rock and roll norte-americano que subita­mente quase nos perfurou os ouvidos.

- Algumas das mulheres começaram a discutir por causa de qualquer coisa - res­mungou Kareem mostrando-se aliviado.

- Agora estão a tentar dissimular a discussão com música aos berros – retorquiu Ahmed com um acenar de aquiescência.

Eu não me encontrava tão segura de que tudo estivesse bem.

- Uma vez que já estamos aqui - sugeri -, devíamos certificar-nos de que todos estão bem.

- Sim - concordou Sara.

- E para lhes dizer que desliguem a música - interveio Ahmed com alguma irritação.

- Estão a incomodar todos os que se encontram no acampamento.

Enquanto os nossos maridos aguardavam do lado de fora da tenda em questão com mostras de impaciência, as minhas irmãs e eu entrámos na tenda com cautela. De súbito, a música deixou de se ouvir.

Aquela tenda, onde se alojavam dez ou mais criadas, estava dividida em várias áreas privadas por cortinas de tecido espesso. Enquanto apartava as cortinas, empunhava ao alto a lanterna de Kareem e olhava para o rosto das mulheres.

- Estão a sentir-se mal?

- Estamos bem, minha senhora - respondeu uma das mulheres.

- O que é que aconteceu?

- Aqui não há problema nenhum - adiantou outra das mulheres

- Humm. - Eu adivinhava pela expressão das mulheres, e a julgar pelo tom das suas vozes, que não tinham estado a dormir. Com certeza que aquelas mulheres haviam escutado os gritos que se ouviram nas tendas mais afastadas! E contudo, ninguém se oferecia para dar nenhuma explicação.

- Elas estão a esconder qualquer coisa - segredei às minhas irmãs.

- Quem é que ouvimos a gritar? - perguntou Nura num tom de exigência quando, finalmente, chegámos à fala com Libby.

Os olhos desta estavam humedecidos de lágrimas, embora fosse evidente que não era Libby a fonte dos gritos que ouvíramos.

- Venha, minha senhora, eu mostro-lhe - murmurou ela, olhando-me após alguns instantes de hesitação.

Libby estava familiarizada com o interior daquela tenda, pelo que rapidamente nos con­duziu através de várias áreas divididas antes de apontar para uma secção em particular.

- Ali, minha senhora - sussurrou ela antes de virar costas, começando a correr para a sua cama.

Tudo aquilo era muito estranho. Direccionei o feixe de luz para aquela área, deparando com uma visão terrivelmente ultrajante! Vimos dois homens que violentavam uma mulher. Havia um terceiro que era um mero espectador. Sara gritou.

Um dos homens cobria a boca da pobre vítima, num esforço para silenciar os seus gri­tos. Quando nos avistou, ficou sentado como que paralisado. Reconheci o homem: era Taher, filho do meio da nossa irmã Tahani.

Como que numa cena ao retardador, o homem que se encontrava em cima da mulher desnudada virou gradualmente a cabeça na nossa direcção. Fiquei sem respiração ao reco­nhecer Rashed, um dos muitos filhos de Ali.

Olhei de relance para o homem sentado ao canto do quarto e, para minha grande sur­presa, deparei com Shadi, o filho preferido de Dunia. A expressão que li no seu rosto foi de completa surpresa. Jamais antecipara uma intrusão daquelas - e certamente nunca por parte das suas tias.

- O que é que está a passar-se aqui? - perguntou Nura enraivecida e aos gritos. - Kareem! Vem cá! Rapidamente! - gritei.

Compreendendo que os nossos maridos se mantinham por perto, os meus três sobrinhos começaram a fugir da cena, empurrando-me a mim e a Nura rudemente, após o que atiraram Sara ao chão. Atingi um dos três com a lanterna, apesar de não ter conseguido retardar a retirada frenética. Nura correu atrás dos três.

- Kareem! Ajuda-nos! - gritei ao meu marido.

Os nossos maridos detiveram os três quando se escapavam da tenda; ouvimos mais gritos.

Subitamente, o interior pouco espaçoso da tenda ficou apinhado com outras serviçais. Enquanto se ouviam gemidos fracos vindos da mulher que fora atacada, as outras reuniram­-se à sua volta. Com dificuldade, furei por entre o amontoado de mulheres, a fim de ver quem é que tinha sido atacada. Era a mesma mulher jovem que eu vira com Shadi há algu­mas horas.

- Os nossos sobrinhos violaram a criada de Dunia! - gritei.

Sara colocou-se de imediato ao meu lado. Começou a reconfortar a infeliz rapariga.

- Pobrezinha, pobre rapariga.

A pobre jovem estava toda despida. Encontrava-se deitada e indefesa diante de nós. O seu rosto era uma medonha máscara de terror, o seu corpo delicado era agitado por um choro convulsivo. Era tão pequena que dava a impressão de ser mais uma criança do que uma mulher. Calculei que não deveria exceder os quinze, dezasseis anos.

Entretanto, Libby entrou no quarto e começou a acalmá-la.

- Veena, pára de chorar. Agora já estás em segurança.

- Tragam uma celha com água e toalhas - ordenou Sara. - Ela ficou gravemente ferida.

Pela primeira vez, reparei que o sangue escorria pelas pernas da rapariga, caindo sobre o tapete persa.

A fúria que senti perante aquela brutalidade injustificada era difícil de controlar. Sentia uma vontade enorme de agredir os atacantes, e saí para fora da tenda com essa intenção em mente. O som dos nossos gritos fez com que todos os membros da nossa família tivessem saído das suas tendas. As vozes das minhas irmãs, dos seus maridos e filhos, juntamente com as dos nossos servos, misturavam-se num alvoroço generalizado.

Senti-me satisfeita ao constatar que Kareem mantinha Shadi bem seguro. Com uma expressão sombria, Asad agarrava Taher pelo braço. Por seu lado, Ahmed colocara os dois braços em redor da cintura de Rashed.

Nura tentou, em vão, fazer-se ouvir acima do clamor de todas aquelas vozes. Elevando a minha voz tanto quanto me foi possível, também eu tentei esclarecer o que tinha acontecido.

- Houve uma mulher indefesa que foi atacada! - gritei vez após vez.

À excepção de Shadi, parecia que ninguém ouvia as minhas palavras. Os nossos olha­res encontraram-se. O olhar que ele me lançou era de escárnio, o que fez com que me sen­tisse de tal maneira furiosa que pensei seriamente em procurar um pau bem pesado com que pudesse bater naquele meu sobrinho!

Por fim, a voz autoritária de Ahmed aquietou a multidão.

- Calados! Todos!

Depois de ter percorrido com um olhar o rosto de todos os presentes, acrescentou:

- A família reunir-se-á na minha tenda. Agora!

Kareem começou a afastar-se puxando o relutante Shadi e obrigando-o a acompanhá­-lo. Apressei-me a ir no seu encalço.

- Sultana, o que é que aconteceu? - perguntou Tahani, que corria ao meu lado.

Com tristeza, olhei para a minha irmã. Tahani era uma mãe maravilhosa, e eu sabia que tinha criado os filhos de forma a respeitarem as mulheres. Sentir-se-ia devastada quando tomasse conhecimento da participação de Taher naquele hediondo ataque.

- Vamos pedir ao teu filho que nos dê uma explicação, Tahani - disse-lhe sim­plesmente, abraçando-a.

Tahani baixou os olhos, temendo aquilo que acabaria por saber. Dunia, chorando lágri­mas de mãe, seguia ao lado de Shadi.

Denotando calma, Ali já começara a interrogar o filho, Rashed.

- Foste acordado por causa de uma coisa dessas?! - perguntava o meu irmão, cuja voz se elevou repentinamente deixando adivinhar irritação.

- Ali, por favor, não discutas este assunto em frente de quem trabalha para nós ­repreendeu Ahmed.

Olhei por cima do ombro. Os nossos serviçais, com uma curiosidade manifesta, se­guiam-nos a curta distância.

No momento em que entrámos na tenda de Ahmed, voltou a ouvir-se o clamor de vozes uma vez mais; toda a gente pretendia falar ao mesmo tempo. Só depois de Kareem ter gritado irritadamente, recordando a todos que Ahmed era o mais velho dos membros da nossa família ali presentes - e que, nessa qualidade, merecia ser ouvido -, é que o tumulto de vozes se acalmou.

- No que me diz respeito, não estou a par do que aconteceu - começou Ahmed a dizer. - Tudo o que sei é que fomos despertados pelos gritos que se ouviram vindos da ten­da das serviçais. Quando as nossas mulheres saíram das respectivas tendas para investi­garem a origem do tumulto, ouvimos mais gritos.

Com a mão livre, Ahmed fez um gesto na direcção de Taher, Rashed e Shadi.

- Estes três jovens saíram a correr da tenda em questão, um local que lhes é interdito. Os gritos de dentro da tenda pediam-nos que detivéssemos os intrusos.

- Portanto, assim fizemos - acrescentou com um encolher de ombros. - Como é que poderíamos saber que os intrusos eram os nossos próprios sobrinhos?

Acenou com a cabeça, indicando o local onde Nura se mantinha de pé.

- Nura terá de vos relatar o que sucedeu no interior dessa tenda.

A minha irmã fez-me um sinal para que me aproximasse de si. Com uma determinação inflexível, encaminhei-me lentamente para Nura e dei-lhe o braço. Ali lançou-me um olhar ameaçador que ignorei.

- Sultana, Sara e eu - começou Nura a explicar - testemunhámos uma cena apavo­rante. - Com a cabeça, indicou os sobrinhos. - Estes jovens, que todos nós amamos, esta­vam a violar uma mulher. Vimos esse abuso sexual com os nossos próprios olhos.

Olhei com fixidez para os meus sobrinhos, mostrando-lhes todo o desprezo que me mereciam. O filho de Ali, Rashed, exibia um sorriso escarninho! O filho de Duma, Shadi, parecia estar enraivecido. Dos três, apenas Taher dava a impressão de estar envergonhado.

Tinha as faces vermelhas e o queixo pendia-lhe sobre o peito.

- Não apenas isso - continuou Nura -, mas, na pressa de fugirem, estes nossos sobrinhos empurraram e acotovelaram as suas próprias tias! A pobre Sara foi atirada ao chão.

Foi a primeira vez que Asad tomou conhecimento daquele incidente. Antes que eu tivesse oportunidade de lhe dizer que Sara não se magoara, Asad, com um gesto cheio de brusquidão, empurrou Taher para o lado e correu para fora da tenda com a intenção de pro­curar a mulher. A pobre Tahani começou a chorar desabaladamente. Dunia desfaleceu e tombou em cima de Haifa.

- Quem é que foi violada? - inquiriu Haifa.

- Não conheço essa mulher - respondeu Nura encolhendo os ombros.

- É uma mulher que dá pelo nome de Veena - adiantei. - Estou em crer que se trata de uma das criadas de Dunia.

Pela primeira vez desde o início daquela conversa, Shadi fez-se ouvir em sua própria defesa. A sua voz era abrupta.

- Essa mulher não trabalha para a minha mãe. Pertence-me.

- Shadi tem razão - interveio Dunia erguendo o olhar. - A mulher é dele.

- Trouxe-a do Paquistão quando lá estive - continuou Shadi respirando ruidosamen­te. - Ela é minha; posso fazer com ela o que bem me apetecer.

Senti um nó no estômago. Com base nos conhecimentos que eu tinha do passado de Ali e dos seus filhos, sabia que alguns dos meus sobrinhos viajavam com frequência até à Tailândia, Filipinas, Índia e Paquistão com a finalidade de comprarem os favores sexuais de jovens prostitutas. Mas esta era a primeira vez que eu ouvia dizer que qualquer desses meus sobrinhos tinha, efectivamente, comprado uma mulher, trazendo-a para o reino da Arábia Saudita como escrava dos seus prazeres sexuais. Aquele procedimento não era, sem dúvida alguma, invulgar no nosso país, estando eu farta de saber que para um determinado número dos nossos primos, tal como Faddel, esse tipo de actividade era prática comum; todavia, ne­nhum dos nossos maridos ou filhos descera a uma degradação moral tão baixa como aquela. Pelo menos até esta noite.

Fitei Shadi sem ocultar a repulsa que ele me inspirava. Com que então o meu próprio sobrinho não se deteria perante fosse o que fosse que o impedisse de satisfazer a sua luxúria!

De posse daquela nova informação, os nossos maridos começaram a manifestar um certo desconforto. Kareem soltou Shadi, enquanto Ahmed retirou o braço da cintura de Rashed.

Adivinhei imediatamente o que os nossos homens pensavam. Caso Taher, Rashed e Shadi tivessem entrado na tenda das mulheres, o que lhes era estritamente proibido, tendo abusado de uma das nossas serviçais, eles teriam considerado que havia motivo para punirem os jovens. Mas agora que sabiam que Shadi era dono da mulher de quem havia abusado, de súbito a situação passara a ser vista à luz de outra perspectiva, independentemente de quanto o ataque pudesse ter sido abusivo. Aos olhos deles, o que acontecera com Veena era um as­sunto pessoal entre um homem e a mulher que ele comprara, pelo que não lhes assistia qual­quer direito de interferência!

- Shadi, vós três haveis procedido mal ao empurrarem as vossas tias! - disse Ahmed ao ver a expressão de indignação que se reflectia no meu rosto. - Cada um de vós pedirá desculpa.

Os lábios grossos de Shadi apertavam-se num trejeito de raiva.

- Sim - corroborou Dunia. - Não posso acreditar que um filho meu tenha empurra­do as minhas próprias irmãs!

Voltei-me para trás, olhando Dunia com desprezo. Era evidente que a minha irmã se sentia aliviada por os nossos homens terem passado a concentrar as suas atenções nas ma­neiras dos filhos em vez de analisarem a conduta criminosa dos três rapazes.

- É claro que eu apresento as minhas desculpas - disse Shadi, mostrando-se abespi­nhado.

Ali deu uma pequena cotovelada no filho.

- Eu também peço desculpa - secundou Rashed com um sorriso forçado.

Embora se mostrasse demasiado envergonhado para nos olhar a direito, Taher também resmungou um pedido de desculpas.

Naquele momento, Sara e Asad entraram na tenda; a minha irmã garantiu-nos que não se tinha magoado.

- Agora, peçam desculpa outra vez - encorajou Ali. - A vossa tia Sara podia ter ficado ferida devido ao vosso acto estouvado.

Em palavras rápidas, os três jovens apresentaram individualmente a Sara o seu pedido de desculpas.

Esta ignorou os rapazes, procurando-me entre todos os presentes.

- Sultana, Veena perdeu muito sangue. - Parece-me que necessita de cuidados médi­cos com a maior urgência.

Levei a mão à boca; fiquei momentaneamente sem palavras perante a imagem que me ocorreu à mente.

- Ela está sob a minha responsabilidade - declarou Shadi ao ver que ninguém falava. - Vou levá-la de regresso à cidade.

Fiquei arquejante. A menos que alguém actuasse, a escravatura de Veena seria tacita­mente aprovada pela nossa família, caso permitíssemos que ele a levasse dali. O assunto fi­caria encerrado para sempre. A pobre Veena seria utilizada como um brinquedo sexual de Shadi e dos seus amigos enquanto se mantivesse jovem e atraente. Depois de se terem can­sado da rapariga, passaria a ser uma serva da casa.

Eu sabia que não poderia permitir que aquela infeliz rapariga continuasse nas garras do meu cruel sobrinho. Era forçoso que alguém se batesse pela causa daquela mulher indefesa! Olhando em redor para examinar a fisionomia dos meus familiares, compreendi que tal acção dependia de mim. Teria de salvar aquela mulher!

- Não! - gritei com veemência, chocando todos os presentes. - Não farás tal coisa, Shadi! Kareem e eu é que vamos levá-la a um médico!

- Sultana, este assunto não nos diz respeito - atalhou Kareem, implacável.

Contudo, o tom da minha voz silenciou as objecções do meu marido. - É um assunto que nos diz respeito! Não quero saber do dinheiro que Shadi pagou por Veena, Kareem. Nenhuma mulher devia ser propriedade de homem algum contra a vontade desta, e é inegá­vel que ele não tem o mínimo direito de abusar dela e de a violar!

Antes de enfrentar os nossos homens, olhei para Sara.

- Nunca mais ficarei indiferente perante a situação de uma mulher que seja vítima de abusos. - Cheia de determinação, endireitei os ombros. - Se Shadi tentar levar esta mulher daqui para fora, primeiro terá de me matar!

Sara avançou e agarrou-me na mão.

- Shadi também terá de me matar.

- Ó Alá! Ajudai-nos! - gritou Dunia.

- Sultana e Sara têm razão - disse Nura, puxando-me para mais junto de si. – Não podemos permitir uma situação que envergonha o próprio Alá.

Juntas, Tahani e Haifa abeiraram-se de mim para me abraçarem.

- Eu estou do lado das minhas irmãs - adiantou Haifa.

Os olhos de Tahani estavam marejados de lágrimas ao olhar para o filho, Taher.

- Os nossos filhos cometeram um acto perverso. Também eu me juntarei ao círculo de Sultana.

Ali, com um olhar enfurecido, fitou os nossos maridos enquanto se expressava com insolência.

- Não sois capaz de controlar as vossas mulheres?

Kareem pareceu ter ficado ofendido mas não disse nada. Sem saber o que fazer, Ahmed optou por continuar em silêncio.

Asad foi o único que manifestou a sua opinião.

- As nossas mulheres têm toda a razão. Não podemos sancionar uma perversidade destas. Se os nossos filhos precisam de parceiras sexuais, existem muitas mulheres que concederão os seus favores de boa vontade. Não há nenhuma necessidade de os nossos filhos tomarem uma mulher pela força.

A mudança de situação não adoçou o temperamento de Shadi.

- Estão a interferir nos meus assuntos! - gritou ele. - Essa mulher pertence-me e não há nada que possam fazer quanto a esse facto!

Dunia, que naquela altura já se tinha recuperado, levantou-se e correu para junto do filho. Dando o braço a Shadi, olhou para mim e para as minhas irmãs.

- Não estais a pensar com clareza, minhas irmãs. Por razões de saúde, os nossos filhos precisam de mulheres. Caso contrário, verificar-se-á uma acumulação dos fluidos do orga­nismo, o que provocará uma doença grave.

Com uma expressão de enfado, Nura abanou a cabeça perante tanta ignorância.

- Não sabes o que estás a dizer, Dunia.

Mas esta perseverou.

- Não se esqueçam de que a mulher em questão foi comprada ao próprio pai. Ele recebeu mais dinheiro do que aquilo que poderia esperar vir a ganhar em mais de cinco anos! Foi com prazer que vendeu a sua filha! Com prazer, sou eu quem vos diz! O meu filho não fez nada de errado!

Senti-me tão enojada que nem sequer fui capaz de olhar para Dunia, a minha própria irmã.

- Dunia tem razão - começou Ali a dizer. - Sem mulheres à nossa disposição para as práticas sexuais, os nossos filhos solteiros acabarão por adoecer.

- Quer isso dizer que nós, os homens, somos animais, Ali? - perguntou Asad exal­tado.

Foi então que, estupidamente, Ali tentou responsabilizar Alá.

- Asad - disse ele -, O Grande Alá, O Próprio, criou-nos da maneira que somos. Ao ouvir aquilo, Ahmed não se conteve e explodiu.

- Oh, cala a boca, Ali. Falas como se todos os homens fossem idiotas fracos e sem préstimo.

As faces de Ali ficaram de um vermelho intenso, mas a força das palavras de Ahmed tiveram o condão de o silenciar.

Troquei um breve olhar de satisfação com Sara, após o que comecei a caminhar para a saída da tenda. Iniciara-se uma batalha de vontades, e eu sabia que se a minha vontade não prevalecesse, a vida de outra mulher acabaria por ser destruída.

Desafiei Shadi uma última vez.

- Vou ter com Veena, Shadi. Caso a desejes tanto, ao ponto de me matares, então ela será tua.

- E a mim também - declarou Sara sem um momento de hesitação.

- E eu - secundou Tahani em voz baixa.

- Eu também vou contigo, Sultana - disse Haifa alto e bom som.

- Shadi, as tuas tias formarão um círculo de protecção em redor de Veena - anunciou Nura num timbre de voz claro e elevado. - Aconselho-te a não tentares atravessá-lo.

- O círculo de protecção de Sultana - acrescentou Tahani de repente num tom pleno de veemência.

Com a excepção de Dunia, o resto das minhas irmãs juntou-se a mim quando saí da tenda.

Exceptuando Asad, que seguiu Sara de imediato, os nossos homens ficaram a sós sem disfarçar o choque que sentiam.

 

NESSA MESMA NOITE, em que eu e as minhas irmãs formámos um círculo de protecção à volta de Veena, os nossos maridos acabaram por nos dar o seu apoio por fim. Veena foi transportada para uma clínica particular em Riade, onde foram tratadas as lesões internas que sofrera. Ficámos a saber que havia perdido alguns litros de sangue durante a medonha agressão de que fora vítima. Veio a descobrir-se que tinha apenas catorze anos de idade. Posteriormente, depois de ter sido considerada fisicamente apta para poder ter alta da clíni­ca, eu e as minhas irmãs tomámos conhecimento dos pormenores da vida desgraçada que Veena levara.

Nascera nos bairros de lata de Lahore, no Paquistão. A família habitava num pardieiro construí do com desperdícios de madeira, placas de metal e cartão que os pais de Veena haviam encontrado numa das muitas lixeiras que existem em Lahore. O pai era calceteiro, enquanto a mãe era uma mendiga que andava pelas ruas da cidade.

A infância de Veena fora brutal. Jamais frequentara a escola; ao invés, desde que tinha aprendido a andar começara a pedir esmola seguindo o exemplo da mãe.

Entretanto, os progenitores de Veena tiveram outros filhos até que a família passou a contar com doze membros. Era muito raro haver comida suficiente para todos. Veena não se recordava de uma única ocasião em que tivesse comido até sentir o estômago saciado.

No Paquistão, tal como na Arábia Saudita, a vida das mulheres não tem o mais pequeno valor. Muitas vezes as famílias pobres sacrificam as filhas para o bem-estar geral de todo o agregado familiar. Foi o que aconteceu com Veena.

Sempre foi uma criança pequena e bonita e, quando chegou à idade da puberdade, o seu aspecto atraente despertava a atenção das pessoas que se cruzavam com ela nas ruas da cidade, à semelhança do que acontecia nas redondezas do bairro da lata onde vivia. Várias mulheres conhecidas da família começaram a contar histórias de outras raparigas bonitas, que haviam proporcionado às respectivas famílias uma quantia avultada paga por abastados donos de bordéis que andavam constantemente à procura de novas virgens.

Dado que toda a família de Veena vivia numa única divisão, ela tivera oportunidade de observar o pai e a mãe quando tinham relações sexuais; consequentemente, compreendia bem o significado das palavras dessas mulheres. No entanto, sabendo de antemão que nunca teria uma palavra a dizer em relação ao seu futuro, Veena mantinha-se em silêncio.

Ao fim de pouco tempo, a sua beleza não passou despercebida a um homem que costu­mava calcorrear as ruas da cidade a observar as jovens mulheres que pediam esmola. Procu­rou a mãe de Veena para lhe dizer que, assumindo que a rapariga ainda fosse virgem, havia uma oportunidade de a família vir a obter uma grande quantia em dinheiro a troco da pureza daquela filha. Receosos de contraírem o vírus da Sida, assim como outras doenças venéreas, havia muitos homens de posses que procuravam raparigas que ainda fossem virgens. O homem em questão ofereceu uma pequena quantia, uma espécie de entrada, prometendo que se Veena fosse vendida a um homem abastado, regressaria com o restante dinheiro.

Sem mais perdas de tempo, a mãe de Veena correu à procura do marido; os três adultos chegaram a um acordo quanto ao montante que a desafortunada Veena valia.

A rapariga recordava-se de que os progenitores pareciam ter-se sentido entristecidos com a sua partida, embora compreendesse que o dinheiro que proporcionara à família garantiria um ano de vida sem problemas aos outros onze membros.

Pediu que lhe dessem tempo para se despedir dos irmãos, mas o homem alegou que ainda tinha de concretizar outras transacções, e se Veena não o acompanhasse imediatamen­te, anularia o acordo que fizera com os pais. Veena partiu com o desconhecido. Levava o coração agitado por um sentimento de terror, mas reuniu toda a sua coragem para benefício dos irmãos e irmãs mais novos.

Durante mais de um mês ficou junto de outras dez raparigas numa pequena casa em Lahore. Sentiu-se satisfeita pela oportunidade de poder tomar banhos frequentes e de usar roupas decentes. Pela primeira vez em toda a sua vida, deram-lhe comida em grande quan­tidade. Veena pensou que talvez lhe agradasse permanecer naquela casa para sempre. Mas isso não haveria de se verificar, dado que vários homens ricos, muitos deles estrangeiros, visitavam regularmente a casa para avaliarem as reservas disponíveis de jovens mulheres. Todas as raparigas acalentavam a esperança de virem a ser compradas por um homem de idade - uma vez que se sabia que as suas exigências de natureza sexual seriam menores do que as dos homens mais novos.

Uma a uma, as outras raparigas foram sendo compradas e abandonavam a casa. Veena começou a ver com tristeza que um determinado número de raparigas infelizes, as que não tinham a sorte de ter sido escolhidas por clientes individuais, eram levadas para os bordéis da cidade. Na verdade, chegou a sentir que tinha muita sorte quando a informaram que fora comprada para satisfazer os prazeres de um só homem, um indivíduo abastado do Médio Oriente, um homem de nome Shadi.

Veena nunca tinha visto Shadi, uma vez que ele a seleccionara através de um álbum de fotografias. Ele alojara-se em casa de um dos seus sócios de negócios paquistanês; porém, não desejava que esse homem, ou a sua família, viessem a saber que durante a sua estadia no país tinha comprado uma jovem virgem.

Finalmente chegou o dia de Veena se encontrar face a face com Shadi, vários dias antes de partir de Lahore. O vendedor de raparigas levara-a a um café, onde Shadi daria a sua aprovação final à compra que fizera. O encontro foi tão fugidio que Veena nem sequer teve tempo de trocar uma só palavra com o seu novo dono. Sentiu-se decepcionada ao constatar que, efectivamente, ele era um homem jovem e forte. Recordava-se do que as outras rapa­rigas costumavam dizer acerca dos apetites sexuais dos homens mais novos, o que fez com que se sentisse assustada. No entanto, não tinha palavra a dizer sobre o seu futuro. E, de­masiado cedo, chegou o dia em que Veena abandonaria o seu país para sempre.

Na viagem de avião do Paquistão até à Arábia Saudita, os servos de Shadi sentaram-se na classe económica junto de Veena, enquanto Shadi viajava em primeira classe. Duas horas depois de o avião ter aterrado em Riade, Shadi partira para o deserto a fim de visitar os pais e outros membros da sua família. Tinha-se feito acompanhar de Veena e demais servos durante essa viagem. Veena afirmava que Shadi não trocara uma só palavra com ela durante essa viagem, apesar de ter reparado que ele a olhou fixamente em diversas ocasiões.

Tendo esperado até que a família se retirasse, Shadi levara os seus dois primos até à tenda onde Veena fora alojada.

«Aqui está a prostituta que eu comprei no Paquistão», dissera ele aos dois primos.

Apesar de Veena se ter preparado para manter relações sexuais com um homem, não sabia, jamais tinha imaginado, que a sua primeira experiência sexual se traduziria num assalto brutal perpetrado por três homens que lhe eram desconhecidos.

Depois de ter sido violentamente despida, primeiro fora violada por Shadi. Veena cho­rou ao afirmar que nunca tinha sentido tantas dores! Ao fim e ao cabo, a mãe nunca tinha gritado durante as relações sexuais que mantivera com o marido. Veena não fazia a mais pe­quena ideia de que o órgão sexual do homem pudesse ser tão grande, e que doesse tanto.

Quando começou a chorar, implorando aos homens que parassem, estes limitaram-se a rir tapando-lhe a boca. Quando o terceiro homem trepou para cima dela, Veena acreditou verdadeiramente que morreria no acto de estupro. Mas então, miraculosamente, havia sido salva. Mas o que é que lhe aconteceria agora?

Enquanto eu e as minhas irmãs só desejávamos enviar Veena para junto dos seus pro­genitores, concluímos que a pobreza em que a família vivia poderia, uma vez mais, levá-los a vender Veena.

Fui a escolhida para dizer a Veena que tínhamos decidido que ela passaria a viver em casa de Sara, ajudando a minha irmã a cuidar dos seus filhos mais pequenos. As minhas ir­mãs e eu sabíamos que ninguém na nossa família se atreveria a tomar qualquer medida con­tra Sara, dado que esta irmã é muito querida por toda a gente.

A alegria que vi reflectida no rosto de Veena quando ouviu aquela notícia, compensou todos os momentos de medo e cólera por que eu passara a fim de poder libertar esta jovem mulher. Não obstante, eu e as minhas irmãs ficámos com o coração despedaçado ao inteirarmo-nos da história de Veena, uma vez que sabíamos bem de mais que existiam mui­tos milhares de vidas atribuladas como a dela. Ficámos sentadas durante várias horas discutindo o que poderíamos fazer para impedirmos o abuso gratuito e contínuo a que as mulheres e jovens inocentes estavam sujeitas.

Durante esta época triste, o mundo ficou chocado com a morte da encantadora Diana, a Princesa de Gales. A morte da princesa Diana desviou momentaneamente os nossos pen­samentos da vida cruel de Veena. Várias de nós tinham conhecido esta mulher extraordi­nária durante os anos em que ela percorreu todo o mundo na sua qualidade de princesa real. Embora nenhuma de nós pudesse afirmar que era uma amiga chegada de Diana, todas nós sentíamos grande admiração por ela. Agora, era-nos quase impossível imaginar uma mulher tão jovem e cheia de vida a caminho da sua sepultura.

Nos dias que antecederam o seu funeral, enquanto via a cobertura televisiva da sua vida, fiquei a saber de muitas boas acções que a princesa fizera em vida e que eu desconhe­cia até então. Aparentemente, nenhuma pessoa era demasiado pobre ou doente para atrair a atenção desta mulher generosa. Para além de ser bem conhecida por levar fielmente a cabo as causas por que se batia, o que fazia com um empenho e acompanhamento continuados. A princesa Diana, através da tremenda generosidade e compaixão que eram seu apanágio, pro­vou que uma só pessoa pode fazer a diferença. Cada uma das acções de generosidade, apa­drinhadas por uma determinada pessoa, ressoava como um seixo que caísse na água, provo­cando pequenas ondas que depois se espalham muito além do gesto original.

Esta ideia arreigara-se tão acentuadamente na minha mente que, por fim, comecei a compreender que estava nas minhas mãos ajudar outras mulheres. Reuni todas as minhas irmãs.

- De repente, compreendi que a única maneira de ajudarmos as outras mulheres é fazer o que fizemos em relação à pobre Veena - expliquei. - De todas as vezes que qual­quer de nós ouvir falar de uma mulher maltratada, juntar-nos-emos para ajudar essa pessoa de qualquer forma ao nosso alcance. - Fiz uma pausa. - Formaremos um círculo de soli­dariedade.

- Juntas, seremos uma grande força - secundou Haifa, demonstrando o seu entusiasmo.

- Eu tenho algumas amigas em quem posso confiar - adiantou Sara com um acenar de cabeça. - Elas também devem começar a procurar mulheres que estejam em situações adversas.

- O teu círculo trará benefícios a muitas mulheres, Sultana - disse Nura apertando­-me a mão.

Nunca me tinha sentido tão contente com o rumo da minha vida como naquele mo­mento.

Seguindo o exemplo da encantadora princesa Diana, que tanto se preocupara com os outros, eu sabia que aquela espiral de solidariedade se expandiria de mãe a filha, percorren­do a cadeia da vida e alargando-se mesmo aos séculos vindouros. A minha esperança é que todas as mulheres acabem por se reunir ao meu círculo, e que por todo o mundo estendam uma mão amiga a outra mulher que necessite desse gesto.

Rezo para que Alá, em toda a sua generosidade e misericórdia, abençoe a nossa missão.

 

                                                                                Jean Sasson  

 

                      

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