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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


DESESPERADAMENTE GIULIA / Steva Casati Modignani
DESESPERADAMENTE GIULIA / Steva Casati Modignani

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

DESESPERADAMENTE GIULIA

 

«Não fazemos aquilo que queremos, e no entanto somos responsáveis por aquilo que somos.»

                   JEAN-PAUL SARTRE

 

     Giulia amava o seu filho Giorgio, a neve, as gaivotas, a profissão de escritora, um homem chamado Ermes, o avô Ubaldo e as suas esplêndidas «rosas moribundas», mas no seu sonho não havia nenhuma destas referências afectuosas. Começou a nevar e o seu coração sorriu timidamente. Quem lhe falara de um mal que desperta a recordação das coisas por fazer, dos sentimentos por expressar e do perdão por conceder? Havia dentro dela uma dor sombria, sem consolação e sem amigos. No enquadramento de uma janela via cair vagarosamente a neve, e olhá-la fazia-lhe doer os olhos, como se olhasse para o sol. De repente, a claridade derramou-se à sua volta e era como uma explosão de juventude que exclui a ideia da morte, mas logo a seguir o branco transformou-se no amarelo de uma montanha hostil, disseminada de cadáveres. Giulia reconheceu o seu rosto perdido no meio daqueles mortos abando-nados e sentiu piedade de si mesma. Sabia que estava a sonhar, sabia que havia de acordar, mas tinha a certeza de que aquele estado de espírito, de qualquer modo, não ia mudar.

     Acordou. Amanhecia. Tinha as faces frias e o nariz gelado, a periferia extrema do império, como ela o definia, era um termómetro infalível. Tirou um braço de baixo do cobertor de lã de camelo e teve a confirmação de um frio cortante. Saiu da cama com a memória viva dos mortos do sonho, mas a certeza de ter sonhado não lhe dava nenhum alívio. Tocou no aquecedor por baixo da janela: estava frio. «Valha-me Deus», pensou, «outra vez». Todos os Invernos, no auge do frio, impiedosa como o destino, a caldeira entrava em ruptura. A revisão outonal não adiantava. Aquele aparelho maldito atraiçoava-a no momento menos oportuno. Enfiou o roupão, desceu até ao rés-do-chão, entrou na cozinha e enfrentou a escada para a cave. Tinha os pés enregelados e uma grande tristeza no coração, como se tudo conspirasse contra ela. Entrou no pequeno compartimento da caldeira. Era uma Vaillant de parede, o melhor da tecnologia alemã.

     Uma pequena chama azul com veias avermelhadas tremeluzia no centro do paralelepípedo de esmalte branco, modulando uma resposta trocista às suas interrogações.

     O termostato estava programado para os vinte e dois graus, a pressão da água estava entre o um e o dois, a válvula de borboleta para a libertação do gás perfeitamente aberta. Estava tudo em ordem, mas aquele perfeito maquinismo teutónico não funcionava.

     Regressou à cozinha. O relógio eléctrico por cima do frigorífico marcava as sete. Antes das oito e meia não ia encontrar ninguém no centro de assistência para reparar a caldeira. Partindo do princípio de que o centro estava aberto. Era o último dia do ano e estava muita gente de férias, a aproveitar aquela longa ponte do Natal. Giulia estremeceu. Abriu o forno a gás e acendeu-o: era a única fonte de calor. A casa fria dava-lhe uma sensação de abandono e tornava a sua solidão angustiante. Era a primeira vez que enfrentava sozinha aquele drama doméstico. Antes havia Leo, o marido. No Inverno anterior, Giorgio, o filho, com a vitalidade dos seus catorze anos introduzira até nas situações mais deprimentes uma lufada de esperança; mas o rapaz tinha partido para o País de Gales cinco dias antes. Giulia estava completamente sozinha naquele casarão.

     Da rua, para lá do jardim, ouvia-se o ruído de aproximação de um carro. Ouviam-se passar os automóveis sobre o asfalto batido pela chuva. Aquele amanhecer cinzento mergulhava em tristeza a cozinha espaçosa.

     Giulia fechou melhor o roupão azul-pálido, mas não obteve nenhum calor com isso. Passou os dedos finos pela farta cabeleira escura, afastando uma madeixa rebelde que lhe caía na testa. Resolveu fazer um café. A seguir, talvez fosse reler o último capítulo do romance, com o qual não estava totalmente satisfeita. Havia ali qualquer coisa que não a convencia. Do forno saía uma tepidez agradável. Sentar-se à máquina de escrever sempre fora o melhor remédio, uma maneira de não se dar conta do passar do tempo, o segredo para permanecer jovem e cheia de vitalidade. Assim, a hora de chamar o homem das caldeiras ia chegar mais depressa.

     Ao longe, um madrugador imbecil fez rebentar alguns foguetes de fim de ano. Pensou, sem ficar mais contente por isso, que a estupidez é tão inevitável como a chuva e o sol. O café feito à americana, de um bonito castanho dourado, libertava no ar um aroma delicado. Deitou-o numa chávena luzidia de porcelana às flores e começou a saboreá-lo, amargo e a ferver como estava, observando, para lá da grande janela protegida por uma grade verde, o jardim sem flores, onde os arbustos de rododendros, de azáleas e de rosas entristeciam na atmosfera já envelhecida do dia acabado de nascer. O último dia do ano ou o último dia do mundo? Giulia sentia-se tão abatida, cansada e triste como o seu pequeno jardim. Vislumbrou no meio daquela desolação os raminhos esqueléticos de uma hortênsia que, contradizendo a meteorologia e a estação, começavam a germinar. Mas que optimismo, pensou com inveja. Ela não seria capaz de germinar. Nunca mais. Vivia sensações indefiníveis, isolada no mundo e nos seus próprios pensamentos, possuída por uma emoção íntima e incomunicável. Pensou que se Giorgio ali estivesse ela se sentiria melhor, mas também ele a abandonara, tal como a caldeira, apesar de a ter avisado com algumas semanas de antecedência.

    «Sabes, mamã» chamava-me sempre assim quando queria alguma coisa, «gostava de passar as férias do Natal com os Mattu.» Começara assim a adulá-la em Novembro.

     Os Mattu eram um jovem casal de indianos com três filhos pequenos que viviam em Swansea, no País de Gales, e que tinham recebido o rapaz no Verão anterior durante uma estadia de estudo. Ele tinha gostado muito de estar com eles.

     «Meu querido» respondera Giulia com uma ironia afectuosa, «nunca pensaste que umas férias na montanha, talvez até com a tua mãe, podiam ser mais divertidas e menos dispendiosas?»

     Um mês ou um século atrás? Era, de qualquer modo, um tempo muito remoto, em que ainda havia espaço para projectos, e a perspectiva de umas férias na neve na companhia do filho a animava e a fazia sentir-se jovem. Estava a escrever um novo romance, e vivia o drama solitário mas excitante do autor que nunca sabe se vai conseguir levar até ao fim a história que imaginou.

     O calor que saía do forno embaciava as janelas da cozinha. Pensou com ternura em Giorgio, que uma vez surpreendera a desenhar obscenidades ingénuas nos vidros embaciados, e sentiu uma grande vontade de ouvir a voz do filho.

     Abandonou o ambiente temperado da cozinha e enfrentou o rigor da sala de estar para lhe telefonar. Os tapetes cor de marfim que cobriam o mosaico liberty eram macios mas estavam frios, assim como o papel que escondia uma parede de estuque. Olhou para a lareira de mármore encimada por dois candelabros e um espelho rectangular com uma moldura de nogueira escura. Pensou que podia acender a lareira. Sentou-se num dos dois sofás forrados com um tecido de grandes rosas escarlates sobre um fundo verde e marfim, pôs os óculos e procurou o número dos amigos de Swansea na agenda de pele turquesa, que estava pousada na pequena mesa de vidro, junto a um grande e moderno abat-jour. Eram quase oito horas e Giulia sabia que àquela hora os Mattu já estavam a pé.

     Respondeu a voz doce de Salinda cujo rosto, muito simpático, Giulia tinha visto apenas em fotografia.

     —         Giorgio is sleeping — disse.

     —         Deitou-se tarde, ontem à noite? — perguntou Giulia, desconfiada.

     —         Era só meia-noite — disse Salinda para a tranquilizar. — Os rapazes fizeram uma pequena festa.

     Giulia sentiu-se excluída. Nem sequer teve coragem para lhe gritar que tirasse da cama aquele pequeno malvado egoísta, por amor de Deus! Nunca antes daquele momento lhe tinha vindo à ideia uma imprecação daquele género, para ela quase uma blasfémia, mas agora, pela primeira vez, sentia que era irresistível o desejo de implicar o Todo-Poderoso nas suas questões privadas, de o implicar com raiva, censurando-lhe a incúria e a crueldade.

     —         Quer que o acorde? — perguntou Salinda, sempre doce e compreensiva.

     —         Não — disse Giulia, conformada. — Queria saber se está tudo bem — mentiu. Na verdade queria-lhe dizer que estava gelada, sozinha, naquela casa velha, sem ninguém que lhe desse conforto, e que o gato tinha acabado debaixo de um carro uns dias antes, pagando com a vida o seu primeiro desejo de liberdade. Gostaria também de lhe falar da dor que se tinha instalado dentro dela, mas nenhum dos dois estava preparado para aquela confissão. E não podia certamente dizer-lhe que, precisamente naquele dia, o último dia do ano, tinha que ir a Modena, ao cemitério, para assistir à exumação do corpo do avô. — A sério, Salinda, está tudo bem.

     —         Se quiser digo para lhe ligar logo que acorde — propôs a jovem indiana que, na fotografia que Giorgio lhe tirara no Verão anterior, tinha todo o ar de uma dona de casa satisfeita.

     —         Telefono eu à meia-noite para vos desejar um bom ano — rematou. — Dê um beijo ao Giorgio. E obrigada, mais uma vez. — Desligou e foi-se refugiar no ambiente morno da cozinha. O frio tinha-se entranhado até aos ossos.

     Pensou no avô, naquilo que restava dele, e sorriu ao recordar aquele príncipe da aventura. A câmara de Modena tinha-lhe mandado a ela, à irmã, Isabella, e ao irmão, Benny, que disfarçava sob um diminutivo ridículo o incómodo nome de Benito, uma comunicação assinada pelo presidente: os restos mortais de Ubaldo Milkovich seriam colocados num ossário perene para honrar a memória do camarada Mocho, figura de relevo da luta contra o fascismo, herói da Resistência.

     Giulia tinha prometido a si própria partir por volta das onze, para ter a certeza de que não faltava ao encontro marcado para as duas horas da tarde; mas agora, com o problema da caldeira, conseguiria cumprir o programa? O relógio eléctrico por cima do frigorífico marcava as oito. Tentou entrar em contacto com o técnico da manutenção. Mergulhou outra vez no gelo da sala de estar, levantou o auscultador e apercebeu-se de que alguma coisa não estava a funcionar. Em vez do sinal habitual, ouvia-se um som arranhado, muito incomodativo. Carregou repetidamente no descanso, tentou marcar um número e ao som arranhado sobrepôs-se o sinal de ocupado. Pousou o auscultador e olhou para o elegante despertador que estava pousado numa prateleira de vidro sustida por uma base cilíndrica de madeira talhada e dourada: eram oito e cinco. Teria a doce Salinda desligado mal o telefone dela, lá no País de Gales? Levantou de novo o auscultador e desta vez o aparelho não deu nenhum sinal. Agora era evidente que também o telefone se tinha avariado, logo quando ela tinha uma necessidade desesperada de comunicar com o mundo. Se às oito e meia em ponto não tivesse entrado em contacto com os técnicos, arriscava-se a perder a possibilidade de lhes pedir para virem durante o dia.

     Subiu a escada a correr e regressou ao quarto, um ambiente muito íntimo de que gostava particularmente, em tons pastel de rosa, azul-claro e cinzento pérola. Candeeiros de porcelana clara, com abat-jours rosados, pousados em pequenas mesas-de-cabeceira gémeas, uma de cada lado da cama, difundiam uma luz agradável que afagava duas pequenas poltronas ao estilo veneziano do século XVIII. Nas paredes havia um crucifixo de madeira e uma série de pequenas imagens sacras do século XIX com molduras douradas.

     Giulia evitou olhar para o Cristo, por quem se sentia injusta-mente abandonada. Vestiu-se rapidamente. Na entrada, enfiou um velho casaco de carneiro e saiu. Atravessou a via Tiepolo a fazer uma gincana entre carros e poças de água, sem ligar à chuva que continuava a cair. Entrou num bar que tinha uma indicação de telefone público. Um marroquino zeloso e armado de um farrapo sujo atacava corajosamente o pavimento maltratado por centenas de sapatos, mas parecia destinado a uma clamorosa derrota.

     Giulia aproximou-se da caixa, por trás da qual vociferava uma jovem mulher que tinha todo o ar de estar ali por engano, pois gostaria mais de estar sentada num avião para as Maldivas. Estava de mau humor, e mostrava-o.

     —         Diga — começou a mulher, agressiva, olhando aquela cliente cheia de frio como se fosse uma nódoa de gordura no seu melhor vestido.

     —         Uma ficha para o telefone — disse Giulia impaciente,

estendendo-lhe duzentas liras.

     —         Está fora de serviço — sentenciou a mulher, referindo-se ao telefone público.

     —         Mas eu preciso absolutamente de telefonar — insistiu Giulia, no limite do desespero.

     —         Está fora de serviço — repetiu, fria e impiedosa como uma cobra; depois voltou-se para uns clientes que acabavam de entrar e pediam um cappuccino.

     —         Não me pode deixar usar o seu? — perguntou, suplicante. — Aquele ali — acrescentou, indicando o aparelho ao lado da caixa.

     —         Privado — respondeu, sem olhar para ela, e continuou a trocar cigarros e café por moedas.

     —         Mulher nojenta — explodiu Giulia. — Cidade nojenta, gente nojenta, mundo nojento — gritou, implicando irracionalmente o universo inteiro. Voltou a atravessar o bar sob os olhares desanimados dos clientes, o silencioso espanto da empregada e o ingénuo sorriso solidário do marroquino.

     Dirigiu-se quase a correr à leitaria da piazza Novelli, onde Giorgio e os amigos gastavam a semanada em lanches, Coca-Cola e juke-box. Havia telefone, e funcionava. Giulia marcou o número do técnico, que sabia de cor. — Fala Giulia de Blasco — mal teve tempo para dizer ao funcionário que atendeu do outro lado da linha. Depois desatou a chorar. Meio escondida entre caixas de cerveja e Coca-Cola e uma prateleira cheia de massa e bolachas, com o cheiro adocicado de serradura molhada, agarrada ao auscultador sujo do telefone público, Giulia chorou sem parar. Chorou sobre a sua vida errada, sobre o casamento falhado, chorou porque até o filho a tinha deixado só, porque naquele dia tinha que assistir à exumação dos restos mortais do avô Ubaldo. Chorou porque tinha a casa gelada, porque o telefone não funcionava, chorou porque aos quarenta anos se tinha apaixonado como uma adolescente, mas sobretudo chorou porque ela própria tinha entrado em ruptura. Alguma coisa na admirável constelação do seu organismo tinha falhado. As células de um nódulo no seio extraído um mês atrás não eram do tipo regulamentar. Eram daquelas que continuam a repetir-se sem nunca pararem. Como um interruptor que se acende e nunca mais se apaga. Naquele dia triste de Dezembro, Giulia chorava por muitas coisas, mas sobretudo porque tinha um cancro.

    

     Ermes abriu os olhos e ficou imediatamente desperto, vigilante, atento, com os pensamentos ordenados no límpido arquivo da sua mente. Como sempre, desde sempre. O automatismo biológico que regulava os ritmos do sono e da vigília tinha-se antecipado ao mecanismo do relógio.

     O mostrador do relógio, que brilhava sobre a mesa-de-cabeceira, marcava as seis menos três minutos. Desligou o despertador e saiu da cama. Levantou as persianas e abriu a cortina de musselina branca.

     Estava ainda escuro e chovia sobre aquele esboço da Milão oitocentista que via da sua mansarda. Um cão ladrou ao longe e outro uivou dramaticamente de um jardim próximo. Animais de cidade, que lhe recordavam uma infância desesperada.

     Tinha esquecido o seu problema durante aquelas seis horas habituais de sono profundo, mas agora a realidade representava-se com uma certeza dolorosa e tinha um nome: Giulia. Na véspera tinha-se decidido a falar-lhe novamente da sua doença, sem no entanto ter arranjado coragem para ser explícito. Agora que o grande perseguidor tinha atingido a pessoa que lhe era mais querida, mui-tas certezas se tinham desvanecido, e o grande Ermes Corsini, o famoso especialista da cirurgia e da pesquisa oncológica, perdera o verniz e a segurança de sempre.

     Estavam sentados em frente à lareira acesa a beber champanhe e a elaborar projectos de vida em comum, quando Ermes arranjou coragem e falou.

     —         Vamos ter que fazer radioterapia — comunicou-lhe a sorrir. Procurou com os olhos a garrafa de champanhe no balde de prata, estendeu a mão, pegou nela e encheu os copos de cristal.

     —         Pensei que estivesse tudo em ordem, depois da operação — respondeu Giulia, que se sentiu de repente envolvida por um frio manto de indiferença, ao mesmo tempo que nascia nela uma atitude de rejeição. A sua necessidade de bem-estar negava o exame histológico que há algumas semanas perseguia Ermes.

     —         Temos que te garantir a máxima segurança — murmurou ele, dirigindo-lhe uma expressão demasiado confiante para ser totalmente sincera.

     —         Eu percebo — disse Giulia, apesar de não perceber por que razão Ermes tinha esperado tanto tempo para lhe falar daquela terapia. Observava o líquido dourado que borbulhava no copo e lamentou o facto de ter superado o vício do fumo. Um cigarro, naquele momento, ter-lhe-ia dado uma grande ajuda. — O que é que eu tenho? — perguntou timidamente. Pensou ainda «exactamente», mas não o disse.

    Ermes brincou com as palavras porque não lhe podia dizer que o nódulo que lhe tinha extraído revelara ser um carcinoma ductal infiltrante. Que era maligno, já ele tinha percebido durante a intervenção, quando o bisturi revelou o nódulo duro, acinzentado, com pontos brancos, que despontava como um seixo brilhante por entre o tecido adiposo amarelo do pedaço de seio removido. A cor e a consistência eram igualmente sinais de perigo. De repente, ficou alagado em suor: aquilo era a reacção de um homem incapaz, não de um grande médico; mas tinha à frente o seio indefeso e atacado da mulher que amava e sentia-se terrivelmente assustado.

     Para se acalmar, pensou em todas as vezes em que o olho o traíra. Alguém disse um dia que a utopia pode ser um método de trabalho e que, sem acreditar em milagres, não se pode ser realista. E ele, por amor, acreditaria no milagre. Por muito terrível que fosse aquele mal, ele havia de a ajudar a neutralizá-lo. Pela primeira vez, viajava na sombria carruagem da doença, naquele comboio que às vezes saía do túnel com a luz da cura.

     A vida de Ermes Corsini e de Giulia de Blasco tinha mudado um mês atrás, durante umas breves férias em Paris. Recordava o quarto que ocupavam no Hotel des Beaux-Arts, na zona universitária; a cama de ferro forjado, o tapete florido, o calor dos corpos debaixo do edredão, os seios macios de Giulia que ele não se cansava de acariciar, e a descoberta repentina e dolorosa do nódulo.

     Ermes localizou-o mentalmente: «mama direita, quadrante inferior interno, próximo do sulco sub-mamário». Aquele homem cheio de charme, que sabia ser convincente na sala de operações e em alguns espaços mais reservados, nas salas de aula da universidade e nos gabinetes dos políticos, sentiu-se gelar.

     Chegou da rua o som de uma pianola que executava uma valse musette.

     —         Dói-te aqui? — perguntou, tocando-a com dedos experientes.

     —         Não, porquê? — Giulia sorriu.

     —         Por nada — disse ele, tentando aparentar não dar muita importância ao assunto.

     A personagem de olhar impenetrável que o mundo conhecia e estimava, em cuja presença os doentes começavam logo a melhorar, não se parecia com o homem que naquele momento a olhava.

     —         Estás a interrogar-me como médico? — brincou, pondo-se, no entanto, de prevenção. — Vamos lá ver o que é que há por baixo dos dedos do grande cirurgião — acrescentou, tocando ela própria o seio. — Eu não sinto nada — continuou, tranquila.

     —         Então, se calhar, não é nada — disse ele com uma indiferença ostensiva. Giulia procurou inutilmente o sorriso irresistível, os olhos sorridentes, os lábios sensuais, e decidiu-se.

     —         O que é que poderia ser? — perguntou com cautela.

     —         Um quisto. Os seios das mulheres mediterrânicas têm mui-tos quistos. Não sabias?

     —         Nunca me tinha associado a um grupo étnico. E, para além disso, nada me assusta. Porque seja o que for que eu tenha, tenho-te a ti para me tratar.

     A mamografia revelou uma sombra opaca no local do nódulo. Então Ermes fez uma biópsia. Penetrou no nódulo com uma agulha, aspirou e fez um esfregaço. A resposta foi de cortar a respiração. O técnico do laboratório escreveu: «Positiva a pesquisa de células tumorais malignas».

     Ermes sabia que a biópsia é um diagnóstico infalível.

     —         Tenho um cancro. Não é verdade? — Giulia leu-lhe o desânimo nos olhos.

     —         Para te dar uma resposta exacta tenho de te operar primeiro — explicou-lhe, recusando-se a torná-la participante do receio que sentia.

     Programou a operação: ressecção parcial da mama e esvazia-mento axilar. Um dos seios de Giulia ficaria, no fim, mais pequeno do que o outro. Mas os seus seios eram tão pequenos que não se ia notar uma grande diferença.

     Operou-a no início de Dezembro, numa manhã cheia de sol. O ar estava ameno e fazia lembrar o Outono. Como um feiticeiro, pensou que aquele era um sinal de bom presságio.

     —         Como é que te sentes? — perguntou.

     Um ramo de rosas escarlates com um pé muito comprido fora colocado numa jarra, no quarto que ela ocupava na clínica.

     —         Como se estivesse nas tuas mãos — ela sorriu, confiante.

     —         E estás, e estás — confirmou ele, acariciando-lhe o rosto.

     Giulia tinha-se entregue de corpo e alma ao criador, delegando nele todas as responsabilidades. Sentia-se relaxada, serena, como uma menina ao colo da mãe.

     Veio uma enfermeira dar-lhe uma injecção.

     —         O que é? — perguntou.

     —         É um pré-anestésico. Vai sentir-se mais tranquila.

     —         Eu já estou tranquila.

     Ermes ajudou-a a enfiar uma bata branca curta que substituiu a camisa de seda e verificou se ela não trazia anéis ou fios, se as unhas estavam pintadas e se as meias brancas eram de algodão.

     Enquanto a enfermeira conduzia a cama em direcção ao ascensor, ele pegou-lhe na mão, entrou com ela no bloco operatório e ficou junto dela até a ver mergulhar no domínio silencioso da anestesia, contando para trás a partir de cem; aos noventa e sete a mão dela abandonou-se na dele e a respiração flutuou no vácuo.

     Pela primeira vez, Ermes não tinha à frente um seio para operar, mas uma pessoa em toda a sua complexidade, com todas as implicações possíveis. Na cama da sala de operações estava a sua mulher, uma criatura apaixonada e sensível, que o tinha levado a conhecer, aos quarenta e cinco anos, as grandes emoções de um amor autêntico.

     Desencadeou-se dentro dele um mecanismo de rejeição: naquele momento teria de boa vontade abdicado do seu papel.

     Em frente a ele estava Franco Rinaldi, o assistente; um jovem tão ambicioso como hábil. Ao lado, a instrumentista esperava em adoração as ordens do «seu» professor. Na cabeceira, o anestesista controlava no monitor a situação cardíaca da paciente.

   Frios e racionais, como trabalhadores dedicados, moviam-se com precisão e pontualidade naquela turbina de grandes dramas que é a sala de operações.

     O anestesista fez um sinal ao assistente.

     —         Está tudo em ordem — disse Rinaldi.

     A instrumentista estendeu-lhe um pequeno bisturi. Ermes agarrou-o com firmeza e com uma mão segura fez uma incisão, exercendo a pressão suficiente para abrir o seio no ponto indicado pela mamografia. Localizou imediatamente o grande inimigo, o seixo maligno que tinha atacado Giulia à traição.

     A enfermeira encarregou-se do tumor e levou-o para o laboratório. Daí a dez minutos teria uma resposta do exame no congelador. Entretanto, ampliou a ressecção para ficar com a certeza de que tinha retirado tudo.

     —         Controla a pressão — ordenou ao anestesista. Estava alagado em suor.

     —         Cento e vinte — respondeu o anestesista.

     Ninguém teve dúvidas sobre a natureza da doença, mas ninguém falou. Perante a sua confirmação, todos se fechavam no mais absoluto mutismo. Era a sua maneira de reagir em presença do grande desconhecido.

     O resultado chegou quando Ermes estava a coser o seio. Era a pior coisa que lhe podia acontecer a ela, a ele, ao projecto de vida dos dois.

     Iniciou naquele momento a parte mais delicada e complexa da intervenção: o esvaziamento da axila.

     Fez uma incisão cutânea de cima para baixo. Consolou-o pensar que em seguida aquela ferida ia ficar invisível, escondida na cavidade axilar. Afastou a pele até encontrar a margem do grande peitoral e, passando por baixo com o bisturi, teve muito cuidado para não tocar a veia axilar, o plexo braquial e os feixes nervosos. A seguir começou a libertar a cavidade axilar do seu conteúdo para extirpar os nódulos linfáticos que constituem a drenagem dos tu-mores da mama. Se os nódulos linfáticos fossem também positivos, ele e Giulia ficariam realmente numa situação tremenda. Ermes mandou-os também para análise e rezou. Rezou para que o exame de laboratório, que neste caso só chegaria dali a alguns dias, desse negativo.

     Ao acordar, Giulia encontrou o sorriso de Ermes.

     —         Então? — perguntou-lhe, levando instintivamente uma mão ao seio. A sensação de ardor era atenuada por um saco de gelo. A cânula de drenagem inserida na axila não a incomodava.

     —         Tirei-te uma coisa pequena.

     —         Má?

     —         O que é que importa? Agora já lá não está.

     Quando encontrava numa paciente um nódulo de um centímetro ou pouco mais, costumava ficar satisfeito, porque no fundo tinha feito um diagnóstico precoce. O tumor é pequeno, pensava; pode-se tratar, vai sarar sem a extracção total da mama. Na realidade, quando depois ia ver, descobria que naquele único centímetro havia vários milhares de células e que o pequeno nódulo já tinha em cima uma história de cinco, oito, dez anos.

     E depois, quando é que se podia considerar derrotado o grande inimigo?

     —         Vou morrer? — perguntou Giulia, tranquila.

     —         Estás curada — mentiu. E entretanto estava obcecado com a reacção dos nódulos linfáticos e pensava já que, em qualquer caso, devia submetê-la à radioterapia.

     Respirou de alívio quando soube que o carcinoma não tinha libertado células, mas não ousou ainda falar-lhe de radioterapia. Finalmente, na noite anterior, enchera-se de coragem e dissera-lhe. Já tinha passado um mês após a operação e não queria esperar mais.

     Ermes entrou na casa de banho, abriu a torneira do chuveiro e deixou que aquele jacto quentíssimo lhe fustigasse a pele. Era a melhor maneira de se preparar para enfrentar o último dia de trabalho do ano.

     Antes, acordar era para ele uma alegria. A perspectiva da sala de operações ou de um congresso era suficiente para o entusiasmar. Amava aquela profissão. Tornar-se médico e cirurgião fora o seu objectivo de sempre e nem sempre fora fácil. Necessitara de muita tenacidade, uma força de vontade desmedida e uma inteligência extraordinária para se tornar naquilo que era.

     A descoberta da doença de Giulia tinha abalado todas as suas certezas, acordar foi-se tornando uma coisa cada vez mais triste e a sala de operações passou a ser uma rotina.

     Na cozinha, Ersilia, a governanta de sessenta anos, com uma simpática expressão de dureza compassiva, preparara o café e o sumo de laranja.

     Ersilia trabalhava em casa de Ermes desde que ele deixara a mulher; mas era como se o conhecesse desde sempre. Sentia-se orgulhosa por servir um homem que toda a gente considerava importante; aprendera a ler-lhe os pensamentos e a proteger a sua privacidade.

     —         Dormiu bem, senhor professor? — perguntou, depois de lhe ter dado os bons-dias.

     —         Como sempre — respondeu, enquanto se sentava e começava a deitar o café na chávena. Bebeu devagar aquele café negro, amargo, a ferver.

     Tocou o telefone. Ersilia olhou para Ermes com um ar interrogativo antes de responder.

     —         Diga que estou — decidiu ele. Eram sete horas e pensou que podiam estar a ligar-lhe do hospital.

     —         É o brigadeiro Caruso — anunciou a mulher, tapando o bocal com a mão.

     O brigadeiro Carmine Caruso, do núcleo de investigação, tinha--se tornado um afectuoso adepto de Ermes desde que o cirurgião lhe curara a mulher. Tinham passado cinco anos da intervenção, mas o homem da polícia não deixava de lhe estar reconhecido. Com as suas investigações tinha até conseguido saber o dia de nascimento daquele homem brilhante e mandava-lhe plantas de interior no seu aniversário, vinhos de qualidade no Natal e postais na Páscoa. Às vezes telefonava-lhe a pedir um conselho, mas era a primeira vez que o importunava a uma hora tão imprópria.

     —         Digo-lhe que não está? — perguntou Ersilia.

     —         Deixe-me falar com ele — decidiu Ermes, pegando no auscultador. — O que é que se passa, Caruso? — perguntou. Pensou na mulher.

     —         Senhor professor, desculpe ligar-lhe a uma hora tão inconveniente, mas eu tinha de o avisar de que vai ter problemas — disse de um só fôlego. Estava alarmado e não se preocupava em escondê-lo.

     —         Veja lá se me explica — pediu Ermes.

     —         Alguém fez uma acusação contra si. Está a ouvir-me?

     A comunicação estava a ser dificultada pelo ruído do tráfego por cima do qual emergia a sirene de uma ambulância. Era evidente que o homem estava a ligar de um telefone público.

     —         Estou a ouvi-lo perfeitamente — confirmou, apercebendo-se de que o seu interlocutor falava a sério.

     —         Então siga o meu conselho. Desapareça, senhor professor. O reconhecimento que lhe devo obriga-me a cometer uma irregularidade grave. De um momento para o outro pode ser emitido contra o senhor um mandado de captura. Não li o relatório que lhe diz respeito, mas ouvi uma conversa de corredor. De certeza que alguém lhe quis aplicar um golpe sujo. Permita-me que desta vez seja eu a fazer-lhe uma sugestão — continuou, com a voz alterada pela emoção. — Não se deixe ficar em casa. Nem sequer na clínica.

     —         Mas porquê? — perguntou Ermes, subitamente desanimado.

     —         Eu dizia-lhe, se soubesse. Mas, entretanto, desapareça. Mais vale defender-se estando livre do que na cadeia. Vou tentar saber mais alguma coisa. Telefone-me o senhor, logo à noite, de onde estiver.

     Ermes ouviu o estalido do aparelho do outro lado da linha, e depois olhou para o auscultador como se estivesse à espera de alguma informação suplementar.

     —         Acha que é verdade? — perguntou Ersilia, que tinha ouvido a voz que se escapava do aparelho. Estava incrédula e preocupada.

     —         Acho que se trata de um equívoco. — Ermes não podia interpretar de outra maneira o aviso do brigadeiro.

     Só assim se podia explicar o telefonema de Carmine Caruso. Não concebia a possibilidade de ter alguma culpa que pudesse justificar a mínima apreensão.

     Ele tinha um único problema: Giulia. Resolveu ligar-lhe. Eram já oito horas e ela devia estar acordada. O número estava ocupado. Ermes pensou que tinha levantado o auscultador, como costumava fazer quando não queria ser incomodada.

    

     A seguir a Piacenza, quando as faixas da auto-estrada passam a três, Giulia ocupou imediatamente a da direita, que estava sempre livre quando não havia camiões porque era reservada a veículos lentos. A Itália é um país de ferraristas, pilotos e mentalidade de Fórmula Um, que não se resignam a percorrer aquela faixa que um escritor sagaz, Luca Goldoni, denominou como «a faixa da desonra». Giulia considerava-a, pelo contrário, a «faixa da reflexão». Ao volante do seu Mercedes verde, de 1972 (o ano do nascimento de Giorgio), a uma velocidade moderada, em sincronia com o fluxo lento e tenaz dos seus pensamentos, a remoer tramas e personagens para os seus romances que a crítica culta definia, quando não os ignorava, como romances de evasão ou de puro entretenimento, e de que os leitores, pelo contrário, gostavam muito. Giulia tinha adoptado como sua a opinião de um literato famoso: «A estupidez do crítico é o seu maior dote».

     Sorriu. Por um momento esquecera o seu drama.

     Uma chuva fina e incomodativa manchava o vidro da frente, reduzindo a visibilidade, e o monótono movimento dos limpa pára-brisas conseguia acalmar, em parte, a sua ansiedade. Dali a menos de uma hora ia enfrentar uma situação insólita: a exumação dos restos mortais do avô. Incomodava-a pensar que, mesmo naquele mo-mento difícil, ia estar sozinha, porque Benny e Isabella, os irmãos, como sempre, tinham atirado para canto.

     — Minha querida, tu entendes muito bem — começou Isabella, de forma a não deixar dúvidas sobre a sua deserção. — Eu não consigo mesmo fazer certas coisas.

     Giulia não via nada de macabro naquele ritual anunciado. Infinitamente mais triste era o pensamento do grande inimigo que se instalara dentro dela, até porque duvidava de que estivesse realmente extirpado, uma vez que Ermes lhe propunha a radioterapia.

     —         Também é teu avô — replicou Giulia.

     —         Eu sei — continuou Isabella, hesitante, mas bem determinada na recusa. — Mas não podiam fazê-lo noutro dia qualquer? Tu não achas que é idiota exumar os ossos de um morto no último dia do ano?

     Isabella era grandiosa na sua vacuidade, bem apoiada numa beleza vistosa e superficial, uma grande cabeleira castanha e um look a meio caminho entre Madonna e Rita Hayworth. — Não sabia que houvesse, para certas incumbências, dias inteligentes e dias idiotas — rebateu Giulia, aborrecida com a irmã mais velha, rica, afectada e snob, que a tratava impropriamente por «minha querida».

     —         Lá começas tu com os teus sofismas. Sabes muito bem que no último dia do ano, vamos, como sempre, para Cortina com os miúdos. Como é que eu faço, minha querida, para convencer o Alberigo, que já marcou o hotel, a ceia e tudo o resto? — A voz tinha--se-lhe tornado mais doce com a mentira. Isabella era maternal nas justificações e nos ensinamentos, mas não nos afectos.

     Giulia, que conhecia de cor os discursos da irmã, já sabia a continuação da história. Agora vai-me dizer, pensou, que o Alberigo conseguiu a suite do segundo andar do Posta, e que já aceitou o convite da Clara Agnelli e do Nuvoletti para a Villa Bella.

     —         Sabes, reservaram-nos a suite do segundo andar do Hotel Posta — anunciou pontualmente. Depois, com um ar de cumplicidade subtil, inclinando-se intencionalmente para a irmã, acrescentou: — E, como é evidente, no domingo vamos almoçar a Villa Bella, convidados pela Clara e pelo Nuvoletti. — Era uma gabarola, que tratava os seus «segredos» com um certo diletantismo, com a certeza de ser absolutamente convincente.

     Isabella nunca se conformara com o facto de ter casado com um grossista de peixe, Alberigo Sodi, um profissional astuto e competente que dominava aquele sector de mercado e que continuava a acumular dinheiro. A grande disponibilidade económica que derivava daquele sólido desafogo contribuía para aumentar as ambições sociais de Isabella, excluída dos ambientes in, aos quais tentava aceder com fantasias medíocres. Em vez de considerar uma sorte o

ter-se casado com o rei do peixe, afligia-se na procura de uma promoção social. — E além disso, minha querida — continuou, implacável —, vamos falar claramente: o avô era mais teu do que nosso. Por isso, se alguém tem que tratar desta história extra-vagante dos ossos, esse alguém és tu. Sabes que o Benny pensa exactamente como eu. E eu falo também em nome dele.

     Acabara finalmente de pôr as cartas na mesa. Mas por que seria que toda a gente se sentia na obrigação de decidir por ela? E por que deveria ela própria ser responsável por tudo aquilo que acontecia no mundo? Se lhes tivesse dito à queima-roupa: tenho um cancro, seriam capazes de a responsabilizar, demonstrando que até aquilo tinha acontecido por culpa dela. Leo, o marido, tinha decidido em que momento ela devia ter um filho, Giorgio impunha--lhe um Natal solitário, Isabella e Benny decretavam que devia ser ela a representar a família no cemitério de Modena. Ela, certamente, não faltaria àquele encontro; mas por que razão tinha de o assumir como uma imposição? O que haveria de errado com ela? Por que seria que aqueles que deviam amá-la, e de quem legitimamente esperava gestos e pensamentos de solidariedade, a consideravam, pelo contrário, um capacho onde podiam limpar os pés sujos?

     —         O que quer dizer mais meu avô do que vosso? — reagiu, levantando a voz.

     —         Mas é claro. Todos nós sabemos que tu eras a preferida. A mim e ao Benny, tolerava-nos. Benito, como ele dizia, tem o nome que merece. Acusava-nos de termos saído em tudo ao professor fascista. O professor fascista era o nosso pai. Só tu é que eras da raça dele — disse Isabella, irritada. — Chamava-te Giorgio por-que esperava um macho. Racista e misógino. Depois tu chamaste Giorgio ao teu filho. Estavas sempre com ele. Gozavas de uma liberdade que a nós era negada. Enchia-te de presentes.

     Finalmente Isabella desabafava também em nome e por conta do irmão. Foi preciso passarem vinte anos depois da morte do avô para que viesse finalmente à tona a inveja que sentiam dela e a hostilidade em relação ao velho bandoleiro que, de facto, sempre tivera um fraco por Giulia.

     —         Estou a ver que és uma lutadora — comentou Giulia.

     —         Nem sequer me interessa discutir, minha querida. Digo a verdade. O avô Ubaldo sempre teve falta de tacto. Quando morreu, só por pouco não mandou o meu casamento ao ar. Lembras-te do cadáver no carro?

     Giulia recordava com algum divertimento a comédia macabra daquela morte.

     —         Já chega ou queres continuar? — perguntou.

     —         Deixemo-nos de discussões — propôs Isabella, magnânima. — O que é preciso é preparar um lençol.

     —         O quê? — perguntou, pasmada.

     —         É claro, um lençol pequenino para os ossos, não é? Os ossos vão ser postos numa caixinha. Têm que se embrulhar num lençol.

     Giulia perguntou a si própria como seria que aquela tonta da irmã sabia aquelas coisas. — E onde é que se vendem esses lençóis pequeninos? — perguntou, aterrada. Imaginou que teria de se dirigir a uma loja de artigos funerários, se é que havia alguma, ou a uma empresa especializada.

     —         Não te preocupes, querida — tranquilizou-a, com uma generosidade interesseira —, eu mando-o fazer. Em linho, como é evidente. Talvez até com um entremeio de renda.

     Era a primeira vez que Isabella lhe resolvia uma complicação. — Já agora, manda bordar também as iniciais — deixou escapar Giulia.

     —         Não me lembrei disso — respondeu, surpreendida. Era demasiado idiota para captar a ironia. — A bordadeira deve saber o que tem que fazer.

     Agora, o lençol de linho com entremeios de renda estava em cima do assento ao lado dela, embrulhado em papel de seda branco e atado com uma fitinha brilhante de seda preta. Como é evidente, tinham sido também bordadas as iniciais: um U esvoaçante de Ubaldo e um M elaborado de Milkovich.

     —         Se estiveres em algum sítio, avô — começou Giulia a dizer--lhe —, estás com certeza a sorrir deste último carnaval organizado pelos filhos «bons» do professor.

     Uma onda de ternura aflorou-lhe a alma e começou a cantarolar a velha canção do avô:

     Lontano, lontano sul mare le splendide rose morenti.

     Ti invitano donna ad amare La notte di stelle cadenti'

 

1 «Lá longe, lá longe no mar / as esplêndidas rosas moribundas.

Convidam-te, mulher, a amar / a noite de estrelas cadentes (N. da T.)

 

     Ingénuas, banais e previsíveis como as letras de muitas canções, também a da cantiga do avô atingia uma grande intensidade emotiva graças a uma melodia sofrida e carregada de efeito. Simples e eficaz como todos os motivos populares, ia directa ao coração.

 

Como dizia a canção: rosas moribundas ou rosas morenas? A assonância entre «rose morenti» e «rose morene» é impossível de reproduzir na tradução portuguesa. (N. da T.)

 

Giulia já não se lembrava bem, e agora parecia-lhe de grande importância aquele esclarecimento que, infelizmente, era impossível na ausência do avô. Aquele trecho musical conseguia comunicar alegria ou tristeza em função do estado de espírito de quem ouvia. O seu olhar de menina abria-se para horizontes longínquos, numa paisagem nocturna carregada de perfumes misteriosos e de rosas escarlates. Na origem das suas invenções fantásticas havia sempre aquele tema, repetido como uma elegia.

     Havia também outras histórias contadas pelo avô que contribuíram para desenvolver nela um talento singular de narradora, mas todas as histórias que Giulia pensava e escrevia tinham naquela velha canção a sua matriz.

     Tinha comprado um ramo de rosas escarlates de um perfume intenso, aveludadas e carnudas, de um vermelho tão escuro que parecia negro. Agora aquelas rosas estavam ali, no assento, ao lado do lençol, última homenagem ao avô e ao seu sonho juvenil.

     Lágrimas quentes obrigaram-na a reduzir a velocidade. Chorava sobre a fábula turbulenta e triste da sua juventude. Não tinham nada a ver com as lágrimas desesperadas de umas horas atrás, quando tinha finalmente conseguido lançar o seu grito de ajuda ao técnico zeloso. Quando partiu para Modena a casa estava quente outra vez, o telefone funcionava e o sorriso do técnico, que admirava nela a escritora e se considerava orgulhoso por lhe ter sido útil, reconfortou-a num certo sentido. Mas aquela sombra na alma persistia e não dava sinais de diminuir. Agora achava que já tinha percebido. Não tinha medo da realidade que, apesar de dolorosa, se pode sempre tentar circunscrever, da mesma forma que Ermes tinha tentado neutralizar o seu mal. Tinha medo do medo que não se pode medir. Temia aquela doença, a peste dos tempos modernos. Estava aterrorizada com aquele mal que chega não se sabe porquê, não se sabe de onde, que se pode insinuar por todo o lado, sem respeito pela raça, pela condição, pela riqueza ou pela cultura. Era esse inimigo impiedoso, que imaginava com uma cabeça de medusa, que desencadeava nela o medo do medo. O que adianta curar um cancro se depois se morrer de medo? Sorriu, enxugando as lágrimas, ao mesmo tempo que um painel anunciava a saída para Modena.

    

     Giulia estacionou o Mercedes muito perto do cemitério de San Cataldo. Não passava ninguém por ali, para além de um velho Fiat 500, duas motorizadas e algumas bicicletas. Todos os outros tinham celebrado no dia 1 de Novembro o culto dos mortos e agora gozavam, com a consciência em paz, a grande ponte natalícia. O frio tinha-se acentuado e a chuva transformara-se em neve ligeira. Pegou no embrulho com o lençol, no ramo de rosas escarlates, levantou a gola larga do casaco de vison e dirigiu-se à casa do guarda do cemitério.

     — Já estão a começar — informou uma mulher corada e simpática, depois de lhe ter fornecido as indicações necessárias. A tremer de frio, chegou à alameda onde estava o túmulo do avô e viu ali um homem. Giulia conhecia-o bem.

     A neve continuava a cair. Giulia observou a figura maciça daquele homem, que trazia um sobretudo escuro, de corte impecável. Um véu branco cobria agora o cemitério, conferindo à paisagem uma aura particular. Dois empregados enfiavam a enxada na terra encharcada, retirando de cada vez um torrão pesado de terra negra e espessa que depositavam na beira da cova onde estavam metidos até à cintura, e actuavam com a paciente alacridade dos camponeses daquela região. Até o indivíduo que se voltara para ela e agora vinha ao seu encontro com um passo ligeiro tinha o sorriso largo e franco da gente da província, apesar de estar elegantemente vestido e de ter maneiras de grande senhor.

     —         Prazer em ver-te, Giulia — cumprimentou, tirando por um momento o chapéu e mostrando uma farta cabeleira prateada.

     Giulia estendeu-lhe a mão e ele inclinou-se para lha beijar. Tinha o estilo de um aristocrata e a natureza sorridente de um homem mundano.

     —         O senhor nunca vai deixar de me surpreender, senhor deputado — comentou. — Será a perseverança das recordações? — perguntou Giulia com cautela.

     —         Também. Mas é sobretudo a profundidade dos sentimentos — disse com uma voz clara e robusta, dominando bem as palavras, uma maneira típica de quem está habituado a falar e a convencer. Segurando-lhe ao de leve no cotovelo, conduziu-a até à campa do avô. Pela primeira vez, o destino não a deixara sozinha a enfrentar uma experiência maior do que ela. Só que, provavelmente, a pusera ao lado da pessoa errada. Com efeito, não estava assim tão certa de que o deputado Armando Zani, que soubera adaptar-se às progressivas deslocações do poder, fosse o homem certo para presenciar a exumação dos restos daquele romântico herói, ladrão, sonhador e, à sua maneira, cavalheiro, que tinha sido o seu avô.

    

     Ermes estava nervoso e nem se perguntou porquê. Tinha mil e uma razões para o estar. Nunca tantos pensamentos juntos tinham preenchido o seu espírito, nunca a alma lhe infligira tanta dor. Ersilia, a governanta fiel, desta vez não o podia ajudar. O telefone de Giulia continuava a dar-lhe, peremptório e petulante, o sinal de ocupado. Talvez para comunicar com alguém e não porque se sentisse em perigo resolveu ligar, apesar daquela hora imprópria, a Elena Dionisi, a sua advogada. E fê-lo imediatamente, porque já estava atrasado.

     Respondeu-lhe a voz jovem e ensonada de uma mulher que falava um italiano limitado e pitoresco. Era a empregada de cor.

     —         A senhora doutora não está — declarou. — Você quem é? Apeteceu-lhe desligar. Mas respondeu à letra.

     —         Sou um amigo. Preciso de falar com ela. Imediatamente.

     —         Você não pode — afirmou a mulher.

     —         Porquê?

     —         Porque a senhora doutora voou no avião. — Falava devagar, como se tivesse à frente dela toda a eternidade, sem mostrar sequer vontade de sair do torpor em que se iria refugiar quando aquele intruso desligasse.

      —         Não deixou um endereço?

     —         Eu não percebe.

     —         Quando regressa?

     —         Não sabe. Você telefona escritório. Lá dizer tudo.

     Irritou-se perante a ignorância daquela mulher que não compreendia o seu problema e que não se sabia exprimir. Lembrou-se que a sua mãe tinha sido também empregada doméstica quando as ajudantes domiciliárias se chamavam criadas e trabalhavam duramente.

     —         Eu vou ligar para o escritório — disse, antes de desligar. Depois desistiu, porque não ia encontrar ninguém no escritório antes das nove horas. Voltou a marcar o número de Giulia, recebendo novamente o sinal peremptório de ocupado.

     Chegou ao bloco operatório com alguns minutos de atraso e de péssimo humor. Tinha duas operações marcadas: uma ao seio e outra ao estômago. O anestesista, a instrumentista, os assistentes e o pessoal da sala estavam já nos seus lugares. Ermes despiu-se, calçou os chinelos, lavou-se e enfiou a bata. Uma enfermeira ajudou-o a calçar as luvas. Naquele preciso momento esqueceu tudo: Giulia, a doença dela e o aviso do brigadeiro Caruso. Agora havia só o seu trabalho, que exigia a máxima concentração e uma participação total.

     Quando saiu do bloco operatório eram duas horas da tarde. A mastectomia não apresentou dificuldades particulares e demorou pouco mais de uma hora. A ressecção gástrica, pelo contrário, criou-lhe alguns problemas. O tumor era muito mais extenso do que aquilo que as radiografias tinham revelado e a limpeza cuidadosa demorou mais tempo do que o previsto. Em compensação, estava tranquilo. Tinha feito um bom trabalho.

     Nilla, a chefe do serviço, veio ao encontro dele com uma agressividade insólita. Parecia que o queria arrastar, ou fazê-lo parar, ou apenas defendê-lo.

     —         Estão ali dois senhores — começou a mulher, com um tom dramático. Ermes ficou preocupado. Normalmente aquela flecha, magrinha mas incansável, não se deixava intimidar nem pela autoridade, nem pela morte, nem pelo diabo.

     —         E então? — sorriu.

     —         Dizem que são polícias.

     Ermes conservou intacta a sua imperturbabilidade, mas recordou as palavras do brigadeiro Caruso: «Não se deixe ficar em casa. Nem sequer na clínica».

     Mas era preciso esclarecer de uma vez por todas aquela palhaçada. Ao fim e ao cabo, não tinha feito nada de mal. Experimentou quase uma sensação de alívio quando foi ao encontro dos dois polícias à paisana no fundo do corredor.

     —         O senhor é o professor Ermes Corsini? — perguntou o mais velho dos dois, que estava vestido com elegância e tinha um ar muito civilizado.

     —         Sim, sou eu — confirmou, estendendo-lhe a mão. Estava pronto para apertar a do seu interlocutor ou para receber um mandado de captura. Mas o que recebeu foi um par de algemas nos pulsos.

     —         Lamento muito, senhor professor — quase se desculpou o agente. — Mas tenho de lhe dizer que está preso.

    

     A madeira apodrecida e encharcada do caixão destacava-se como uma mancha escura no esplendor da neve e estava lascada como cartão. Os coveiros bateram com a enxada na caixa que continha os restos mortais do avô. A tampa opôs uma frágil resistência e, antes de ficar feita em pedaços, Giulia desejou que o interior revelasse o vazio. Porque ser um cadáver é o mais intolerável dos ultrajes. Apetecia-lhe pensar que o avô Ubaldo se tinha dissolvido juntamente com todos os mortos da terra e que a sua alma esvoaçava ali em volta, por entre as borboletas de neve.

     — Não precisas de olhar — disse o deputado, pondo-lhe um braço em volta dos ombros. Giulia leu-lhe nos olhos de pedra escura o seu próprio desalento. Aquele invólucro apodrecido continuava, no entanto, a encerrar a majestade infinita da morte. Armando Zani tinha sessenta anos, aparentava cinquenta, mas a ideia do inevitável encontro com a eterna inimiga começava a angustiá-lo.

     Giulia desviou os olhos por um instante e depois decidiu contemplar a verdadeira face da morte. As mãos dos coveiros, calçadas com luvas, limpavam, com uma escova áspera, os ossos de Ubaldo Milkovich, para depois os depositarem na urna forrada com o lençol de Isabella. Não sentiu medo nem aversão, pelo contrário, pensou nos ossos do avô como uma grande energia de fogo que se imobiliza e se torna terra. Está escrito, recordou: um homem não crescerá mais do que os seus ossos. Dissera-lho um velho africano.

     Quando um homem morre ficam os ossos, que semeia na terra. Sinal de que ali tudo pode recomeçar. Giulia ficou mais calma.

     — Já acabou tudo — disse o homem para a animar, sem lhe captar os pensamentos secretos, enquanto ela apertava ainda nos braços o ramo de rosas escarlates.

     Um dos homens encarregou-se de levar a pequena caixa até ao ossário, que ficava mesmo no fundo daquela rua. A meio do caminho tropeçou, oscilou perigosamente, depois voltou a equilibrar-se e evitou uma queda temível.

     O deputado Zani estremeceu ao imaginar os ossos, acabados de limpar, espalhados pela neve, enquanto Giulia foi invadida por uma espontânea alegria infantil. O avô dera mais uma vez um ar da sua graça. Até a morte, que o apanhara na alcova da exuberante Maria Luigia Rancati Pallavicini, viúva inquieta, reitora severa e chefe do professor Vittorio de Blasco, fora divertida e zombeteira, na linha da figura picaresca de Ubaldo Milkovich. «E pensar que para mim era uma santa», não se cansava de repetir o pai de Giulia, vinte anos atrás, referindo-se à reitora, quando ocorreu aquela terrível desgraça que, para o professor de Blasco, não era tanto a morte do avô como o facto de a tempestuosa biografia do velho Milkovich se ter concluído em cima de uma imaculada pedagoga, exemplo e orgulho do liceu da via Giovanni Pascoli.

     — Uma grande pega — conseguiu finalmente gritar a resignada Carmen, mãe de Giulia, que, para viver sossegada, optou no seio da família pelo partido da não agressão. — O meu pai lá terá as suas culpas, que Deus lhe perdoe, mas ela é uma grande pega.

     O avô estava em Milão com dois setter gordon de um bonito tom negro com manchas cor de fogo, da sua criação. Participou numa exposição canina, da qual saiu vencedor, e Carmen insistiu para que o pai passasse em casa deles pelo menos uma noite. Ele aceitou o convite da filha e, na sala de visitas da via Tiepolo, conheceu Maria Luigia Rancati Pallavicini, reitora do liceu da via Pascoli e chefe de Vittorio de Blasco.

     Perante aquela cinquentona morena e bem constituída, de pernas compridas e cruzadas com graça, lábios grandes e macios, olhos doces e resplandecentes de desejo, o comportamento habitual de Ubaldo Milkovich modificou-se radicalmente e Carmen apercebeu-se desde logo de que não precisava de recear os comentários ferozes que habitualmente gelavam os interlocutores. O pai bebia o café devagar, com a desenvoltura de um lorde, a falar pouquíssimo, anuindo com moderação e dedicando àquela interlocutora sorrisos delicados. Só quando era gentilmente solicitado aprofundava o tema da conversa e, a partir de uma referência aparentemente casual, construía uma história fascinante.

     Naquela sala, habituada às disputas escolásticas e às bisbilhotices entre colegas, entrou o vento impetuoso de uma realidade nos limites da lenda: dias de caça inesquecíveis, esperas palpitantes no vale, pesquisas extenuantes na montanha, episódios comoventes concentrados na amizade e no amor.

     —         Mas a sua vida é um romance! — exclamou a reitora, enquanto um lampejo de sensualidade emergia no seu olhar de gata e um súbito rubor lhe tingia as faces.

     —         São os últimos fulgores de uma fogueira que se extingue — comentou inesperadamente o avô, estendendo os braços e inclinando a cabeça para melhor explorar o decote da blusa cor de nata e as pernas compridas da reitora que, nesse momento, se cruzaram, revelando uma sombra com perfume de mel.

     —         O senhor quer é elogios, senhor Milkovich — respondeu a mulher, manifestando a sua simpatia por aquele irresistível narrador e uma grande admiração por aquele belo homem já não muito jovem, com coração de pirata e o ânimo de um poeta, elegante e direito nas calças de fustão um pouco desbotadas, com um casaco de veludo e uma camisola de gola alta que sublinhava um belo rosto viril marcado pelo tempo.

     —         Sou um velho tronco que não volta a rejuvenescer — disse ele, a sorrir, com uma falsa tristeza.

     Mais tarde, naquela mesma noite, na tranquilidade da sua casa, a viúva encostou àquele tronco a sua própria inquietude e achou-o sólido, ainda que não eterno. Mas foram precisos muitos assaltos para apagar a vitalidade de Ubaldo Milkovich, e o fim chegou quando os ardores da mulher estavam já aplacados. Com o último fogo de artifício, explodiu uma artéria dentro dele e o sangue inundou--lhe o cérebro, provocando-lhe um sono doce e profundo do qual não voltaria a acordar. Aquela bela morte apanhou-o com um sorriso radioso aceso pelo intenso delírio do último orgasmo.

     Um telefonema nocturno deu o alarme. Giulia nunca mais ha-via de esquecer aqueles longos instantes que se lhe tinham gravado na memória com a precisão de uma película fotográfica, o corredor do andar de baixo tenuemente iluminado, o telefone de parede de baquelite negra, pendurado ao lado do bengaleiro com espelho central, os patéticos quadros com vistas do golfo de Nápoles, as duas pequenas poltronas oitocentistas forradas de veludo vermelho e a família de Blasco inteira em roupas de dormir: o pijama de riscas do pai, a camisa de florzinhas da mãe, Benny de pijama azul e cor-de-rosa, Isabella de baby-doll de nylon cor-de-rosa e ela que vestia um pijama branco de pintas verdes, uma das melhores peças de roupa interior que possuía.

     Acima de tudo e de todos, o grito sufocado do professor Vittorio de Blasco: «O teu pai!». E a invectiva: «Aquele porco!» O facto de ele ter morrido era secundário em relação ao escândalo. Depois, tudo se passou com a rapidez de um filme cómico. O professor estava aterrado por causa do lugar e da carreira, Isabella pedia a Deus que Alberigo, o namorado, nunca viesse a saber daquilo, Carmen balbuciava por entre as lágrimas que no fundo ele tivera o fim que desejava, Benny, que tinha vinte e cinco anos e era formado em Direito, informou o pai sobre os riscos que corriam se aceitassem transportar o cadáver até casa para evitar o escândalo.

     Avaliados os riscos e os benefícios, o projecto foi aprovado, e os de Blasco, excepcionalmente, infringiram a lei para salvar a honra e a respeitabilidade da reitora, para além de duas carreiras. A meio da noite, o corpo do avô foi transferido para a casa da via Tiepolo onde, quando acabaram de o arranjar, até Giulia o pôde ver. Um sorriso zombeteiro pairava ainda sobre os seus lábios.

     Agora os ossos do avô e a sua energia de fogo ficariam encerrados naquele mausoléu, embora ninguém pudesse travar o espírito indomável e a fantasia desenfreada de Ubaldo Milkovich. A partir daqueles ossos, certamente, tudo iria recomeçar. O deputado Zani estendeu uma mão aos dois homens, que tiraram o barrete para agradecer com um gesto que já não se usava.

     — Descansa em paz, comandante Mocho — murmurou Armando, recordando as últimas batalhas sangrentas na Montagna Gialla, quando meia Itália estava ainda em poder dos fascistas e dos nazis e a Resistência acendia os corações para a esperança. Tinham vivido juntos a epopeia militante, o rapaz e o homem, o comissário político e o comandante do «batalhão Mario», dois camponeses apaixonados pela liberdade, pela sua terra, prontos para lutar por uma causa justa e para morrer por um ideal. Armando Zani sorriu com aqueles pensamentos enfáticos que lhe passavam pela cabeça, recordações longínquas que sem aquele ritual teriam permanecido como fantasmas esquecidos.

     Giulia pousou as rosas aos pés do ossário e depois olhou em volta, tentando encontrar a rua onde ficava o túmulo da mãe.

     —         A Carmen está ali em baixo — afirmou o homem, que intuíra o pensamento de Giulia, indicando com a mão uma pequena ala-meda de ciprestes.

     Uma lápide enegrecida pelo tempo estava marcada com as palavras: CARMEN MILKOVICH, viúva de Blasco. Por baixo dos símbolos alfa e ómega havia duas datas: 1920, ano de nascimento; 1973, ano da morte. Tinha vivido cinquenta e três anos, não fora muito tempo, mas também não fora pouco. O tempo de casar com o homem errado, de se apaixonar por um sonho e de decidir morrer.

     Havia um vaso com uma estrela do Natal sobre a campa.

     —         Fui eu que lha trouxe — admitiu Armando, em resposta à pergunta muda de Giulia.

     —         Em vida, tê-la-ia apreciado muito — censurou-o. A neve pousava agora suavemente sobre a terra, sobre as campas, sobre a grande gola de vison de Giulia, sobre as folhas vermelhas da estrela de Natal.

     —         Eu sei — admitiu ele.

      —         Agora é uma homenagem tardia — acusou-o, de forma explícita.

     —         Queres dizer que os mortos não sabem o que fazer com as flores dos vivos?

     —         Quero dizer que os vivos pensam saldar assim as contas com a sua consciência.

     Armando olhou por um instante para os pés, que se enterravam na neve.

     —         Tu também trouxeste flores ao teu avô — disse.

     —         Trouxe flores aos meus sonhos. Rosas «morenas» para a minha juventude perdida. — Tirou um lenço do bolso do casaco de peles e debruçou-se a limpar a fotografia da mãe. Era uma imagem dos anos sessenta, quando Carmen tinha a idade de Giulia. Eram as duas muito parecidas, mas Carmen parecia muito mais nova do que ela. E triste.

     —         És muito impiedosa nos teus juízos — censurou-a.

     —         Sou apenas sincera. Uma qualidade que não se aplica aos políticos.

     —         Para já, és apenas ofensiva. Inutilmente ofensiva.

     —         Até à próxima, senhor deputado — despediu-se, com uma voz neutra, seguindo pela alameda que conduzia à saída do cemitério. — E obrigada por ter vindo — acrescentou, com uma indiferença protocolar, sem se preocupar em lhe estender a mão.

     O homem aproximou-se dela e obrigou-a a parar, agarrando-a por um braço e forçando-a a voltar-se.

     —         Mas o que é que tu queres de mim? — perguntou com ódio.

     —         Por que não se pergunta o que quer o senhor de nós? — replicou com uma dureza insólita. — Não tem nada a ver com aquele cavalheiro que foi o meu avô. — Tinha ido longe de mais e levou uma mão à boca. — Era melhor eu não ter dito isto, não era? — confessou, enquanto a sua expressão passava de sombria a irónica.

     —         Tratando-se de um homem que, entre as suas várias vocações, tinha também a de ladrão, diria que sim. — Ficou grato àquela declaração imprudente que mitigou a aspereza do diálogo. — Paz? — propôs, conciliador, oferecendo-lhe a sua mão larga.

     Giulia apertou-a e disse — Paz política, senhor deputado Zani. Um véu piedoso sobre um monte de hipocrisia — rebateu, agressiva. — O senhor veio aqui para salvar a sua alma. Só que essa já se perdeu nos labirintos do poder.

     —         Mas o que é que tu sabes de mim, menina presunçosa? O que sabes tu da minha vida, dos meus sentimentos?

     —         Não é com sentimentos que se sobrevive no palácio — acusou-o, pondo naquelas palavras toda a sua indignação. — Os sentimentos, os sonhos e os ideais ficaram sepultados com a minha mãe.

     O homem imobilizou-se como se tivesse sido atingido por um raio e fitou-a com raiva. — Mas o que é que tu sabes, menina? O que é que tu sabes da tua mãe e de mim?

    

     Carmen levantou-se de madrugada e teve que esperar numa longa fila para conseguir algum pão com a senha do racionamento. Conseguiu ainda arranjar um pouco de sal e alguns preciosos fósforos. A noite tinha sido relativamente tranquila. As sirenes tocaram duas vezes, alguns aviões passaram muito alto, mas não largaram uma única bomba. Quase parecia que estavam em paz. Carmen ficou preocupada.

     Tirou do cabelo os papelotes que lhe garantiam uma mise económica mas eficaz. Lavar a cabeça e pentear-se o melhor possível dava-lhe prazer e fazia-a sentir-se viva e em paz consigo mesma. Pegou numa escova elegante com um pesado cabo de prata e pensou no pai, que lha oferecera.

     Começou a arranjar o cabelo, que se deixava manusear num penteado metódico, semelhante ao dos pagens renascentistas. Admirou o resultado no espelho do toucador. Não ficou muito entusiasmada, a imagem reflectida no espelho não a satisfazia: uma mulher de vinte e quatro anos que deixara para trás as perturbações, as emoções violentas e as ilusões da juventude, mas que ainda não estava preparada para enfrentar com a compostura necessária uma vida conjugal burguesa.

     Sentia-se traída e, de certa forma, era como se a sorte a tivesse privado de um bem importante que lhe competia por direito. Se, porém, alguém lhe pedisse para indicar esse bem, ela não saberia responder.

     Quando conheceu o professor Vittorio de Blasco («Tinhas logo que te meter com um figlio delia lupa'», comentou ironicamente Ubaldo Milkovich, o seu pai), sentiu-se a tocar o céu com um dedo, e certamente o casamento com aquele jovem professor, culto, perfeitamente inserido na nova Itália, implicou uma viragem na sua vida. Ao casar com ele, abandonou a existência nómada e desregrada imposta pelo pai, na qual se alternavam momentos grandiosos e grandes períodos de miséria, sempre à margem da cidade tão ardentemente desejada por Carmen. Mas o pai, que fascinava os homens com as suas empresas aventureiras e enlouquecia as mulheres com os seus olhos eslavos, era obrigado a viver na proximidade de espaços abertos, com a dupla vantagem de pagar rendas modestas e de ter à disposição vastos prados para a criação de cães atrevi-dos e cheios de pulgas, no meio de gente que tolerava aquele louco a quem o regime não consentia outra ocupação devido ao seu passado antifascista. Por outro lado, honestamente, aquele era o único trabalho que Ubaldo Milkovich, intolerante em relação a toda e qualquer disciplina, podia desempenhar.

     Carmen, ao casar-se com de Blasco, realizava um sonho: mu-dar-se para uma grande cidade como Milão, que satisfazia a sua necessidade de respeitabilidade e de ordem.

     Estava cansada de ser tratada, ainda que com simpatia, como a «filha do criador de cães» que, para além do mais, nos meios bem pensantes, era considerado um homem conflituoso, irascível e violento. Havia algum exagero neste juízo lapidar, mas de facto Ubaldo Milkovich não era aquilo que se pode considerar um homem tranquilo.

     Em 1921, juntamente com um dos seus cinco irmãos, em frente ao café Apollo na Piazza Mazzini, conseguiu afugentar dez fascistas, maltratando-os brutalmente, após o que se sentou numa das poucas cadeiras restantes e mandou vir uma garrafa de lambrusco grasparossa de Castelvetro, que era a sua bebida preferida. Os prejuízos foram pagos sem queixume pelo proprietário do café, que já recebera em troca um espectáculo como nunca se tinha visto e como

nunca mais se voltaria a ver. Ubaldo Milkovich foi condenado a dois anos de desterro.

     Agora Carmen era uma senhora acomodada, tinha uma casa, uma vida organizada e um papel no círculo pequeno-burguês do professor. Mas era uma realidade diferente daquela com que tinha sonhado, uma rotina exausta, pontuada por um ritual que se revelava aborrecido, repetitivo, superficial e vazio. Sem falar da ginástica necessária para tornar suficientes as seiscentas liras mensais do ordenado do professor. Mas aquilo que mais a fazia sofrer na relação sem paixão e sem ímpetos que tinha com o marido era a falta de um elemento que tinha feito parte da sua vida tanto como o ar: a fantasia. Faltava-lhe aquele bandoleiro do pai, os seus amigos imprevisíveis, e a mãe, terna, ingénua e vulnerável, de olhar sonhador, que Ubaldo tratava por rainha apesar de a obrigar a viver numa casa de lavoura no meio da lama.

     Tinham passado seis anos desde que deixara Modena e há pelo menos cinco que sofria de uma nostalgia desesperada. A família era sagrada para ela, tinha dois filhos, um marido que lhe dera um nome com ascendências nobres e não podia voltar atrás, como gostaria o pai, que a receberia de braços abertos.

     Quando se mudou para Milão, para a casa da família na via Tiepolo, gostava de pensar que habitaria aquele palacete com jardim até ao fim dos seus dias. Depois, com o passar dos anos, aquela casa transformou-se numa espécie de prisão para toda a vida, e aquela realidade maravilhosa que a fascinara aos dezoito anos já não lhe parecia tão bonita.

     Um ano depois do casamento, o nascimento de uma criança veio alegrar a família. Para honrar e recordar o fundador do império, mas também para conquistar as boas graças do reitor que era oficial da milícia, Vittorio de Blasco impôs-lhe o nome de Benito. Carmen aguentou a decisão e sofreu muito por causa disso, mas Ubaldo Milkovich tranquilizou-a. Seria uma crueldade inútil molestar aquela filha tão duramente atormentada por aquele casamento negativo. Dois anos depois nasceu Isabella. Quando Benito completou cinco anos e Isabella três, muita coisa tinha mudado, não só no mundo, em Itália, em Milão, na sua casa, mas também em si própria. O fascismo tinha «esticado a bota até à África Oriental», como dizia uma cançoneta de caserna, mas tinha empurrado o país para uma guerra sangrenta, as prisões estavam cheias de bons democratas e até o ar chorava de dor, de fome e de miséria. Um Mussolini resignado e impotente, sobrevivente à queda do regime, era o maestro desajeitado do declínio de uma época.

     A casa da via Tiepolo estava em péssimas condições e no Inverno anterior tinham queimado os móveis da sala para se aquecerem.

     —         Também me posso pentear? — perguntou Isabella, com a sua vozinha petulante, ao surpreender Carmen em frente ao espelho. A pequena era bonita, parecia uma senhora em miniatura, e prometia tornar-se muito ambiciosa.

     Carmen estendeu-lhe distraidamente a escova, pensando no dia cansativo que a esperava. Havia as incursões aéreas que obrigavam a fugas precipitadas para a cave, reforçada com traves de madeira que de pouco adiantariam contra os efeitos de uma bomba.

     Um toque de campainha prepotente fê-la estremecer. Desceu ao rés-do-chão, seguida de Isabella e de Benito, que desde alguns meses atrás o professor tratava prudentemente por Benny. Abriu a porta e viu um rapazinho parado em cima de uma bicicleta.

     —         É a senhora Carmen Milkovich? — perguntou.

     —         Sim, sou eu — respondeu, espantada.

     —         Então isto é para si — replicou, entregando-lhe um bilhete.

     —         O que é? — murmurou a mulher, intimidada.

     —         É uma chamada para si, de Modena — explicou o rapaz, que aquele desempenho insólito tornava importante. — Uma chamada telefónica no posto público da piazza Cordusio.

     Carmen fechou devagar a porta de casa.

     —         Mãe, quem foi que telefonou? — perguntou Benny.

     —         É o telefone, é o telefone — cantarolou Isabella.

     —         É o avô — exclamou Carmen, e a suspeita de uma desgraça gelou-lhe o coração. — Aconteceu alguma coisa ao avô — acrescentou baixinho, dirigindo-se aos filhos como se estes pudessem compreender o seu drama.

     Sabia que o pai estava na Resistência, e aquele telefonema de Modena só podia significar que lhe tinha acontecido alguma coisa.

     Ubaldo Milkovich andava a monte em qualquer parte, numa cabana nos Apeninos ou em qualquer quinta perdida, e provavelmente estava bem. A má notícia, pelo contrário, referia-se à mãe.

     Carmen devia partir imediatamente e levaria também os filhos se o professor não se tivesse oposto em nome, por uma vez, de um providencial bom senso.

     Aquela mãe terna e ingénua, de olhar sonhador, estava gravemente doente. O tio Berto, que lhe ligara, não tinha sabido ou podido dizer-lhe mais.

     Vittorio de Blasco resignou-se a deixá-la partir sozinha. Ele trataria dos filhos com a ajuda de uma vizinha e conservaria o seu lugar de professor fascista que o salvara da frente e do desterro na Alemanha.

     Na estação central, Carmen apanhou um comboio em que alternavam carruagens de gado e de terceira classe. Trazia sapatos de cortiça com tacão ortopédico e um casaco castanho de 1940. Fora suposto usá-lo para ir à grande exposição mundial de Roma, que não chegou a realizar-se por causa da guerra. A sua silhueta tinha‑se arredondado ligeiramente depois da segunda gravidez e o casaco ficava-lhe apertado.

     —         Eu dou-te notícias — disse ao marido, para o sossegar. — E fica com os olhos bem abertos para esses dois meninos.

     —         Volta depressa — recomendou ele, uma vez que, em qualquer caso, não ia conseguir retê-la. À sua maneira, gostava dela.

     Foi uma viagem desastrosa de três dias, feita de breves deslocações e longuíssimas paragens. De dia, estradas e caminhos-de-ferro eram patrulhados pelos caças aliados, e, de noite, os bombardeiros ingleses não davam tréguas. As pessoas estavam habituadas a perscrutar o céu e a reconhecer os vários tipos de aviões. O medo era‑lhes desconhecido. Coabitava-se com a morte, que podia vir de qualquer lado: da boca de uma espingarda, do cano de uma metralhadora, da explosão de uma bomba. Poucas pessoas morriam na sua própria cama e, em certo sentido, eram privilegiadas. Toda a gente sabia como se comportar perante um ataque aéreo, sem dramas nem histerismo.

     Carmen viajou de comboio até Piacenza numa calma e fria noite de luar. Ouviu histórias desesperadas e divertidas até ao Pó onde, juntamente com outros, apanhou um barco que os levou até à outra margem. O ar gélido, as manchas de neve azulada, a claridade da lua sobre a água e o cheiro límpido do Inverno recordavam-lhe as heroínas dos romances russos que lera em jovem. Continuou por etapas em vários camiões até Parma e viajou durante um dia em veículos de carga que andavam pelos ribeiros e pelos rios a carregar areia e pedras. Voltou a apanhar o comboio em Reggio Emilia. Em Rubiera, o comboio foi metralhado. Os últimos quilómetros fê-los a pé porque os partigiani 2

 

2 Militantes da Resistência italiana, movimento que durante a II Guerra Mundial se desenvolveu contra a ocupação dos nazis e dos seus aliados. (N. Da T)

 

tinham feito explodir o caminho-de-ferro em vários sítios. Entrou na cidade ao escurecer, arrastando atrás de si uma mala pequena e estragada onde levava algumas coisas indispensáveis. Os mantimentos de sobrevivência tinham acabado e, se não fosse a generosidade de um camponês, ter-se-ia achado em sérias dificuldades. Passou um camião das brigadas negras com a sua farda macabra e a caveira no barrete. Cantavam com palavras ofensivas um hino religioso.

     Estavam embriagados de medo e de brandy, excitados pela violência acabada de exercer durante uma rusga. Três rapazes desarmados, ensanguentados, com as mãos atadas com arame, as faces cheias de escoriações e de nódoas negras, estavam sentados no meio dos repubblichini, 3

 

Termo usado durante a Resistência (1943-1945) para indicar os soldados chamados às armas pelo governo fascista da República Social Italiana e, num sentido mais genérico, os que aderiram àquela república. (N. da T.)

 

com os olhos fixos num ponto longínquo. E, no entanto, não havia medo naqueles rostos maltratados. Ao peito de um deles, atado com uma corda, estava pendurado um cartaz: Bandido! Os olhares mudos dos rapazes e o canto desajeitado dos fascistas desapareceram numa esquina. Carmen reconheceu-se naqueles jovens prisioneiros, camponeses como ela, com uma grande vontade de viver e muita dignidade perante a morte. Pensou que num mundo sem guerra, governado por leis, aqueles jovens, vítimas e carrascos, se encontrariam todos juntos numa sala de baile ou num cinema, ou que poderiam ter uma briga por causa de uma rapariga.

     Caminhou por entre edifícios destruídos e cheios de escombros numa cidade irreconhecível, devastada pelos bombardeamentos. Quando chegou a casa, a mãe já tinha morrido. A avó Stella tinha-lhe fechado os olhos, as vizinhas tinham-na vestido e o padre rezava as orações dos mortos. O rosto daquela mãe terna e vulnerável, de olhar sonhador, exprimia uma grande severidade. Tinha morrido sozinha, com uma força que apenas os débeis possuem às vezes. Não fora a doença a causa da sua morte, mas as investidas dos fascistas que queriam saber através dela onde estava o comandante Mocho. Tinham-na agredido até à morte para lhe arrancar notícias sobre o marido e os outros companheiros, que ela não quis dar.

     Por um instante, Carmen recordou a aldeia da mãe, onde tinham estado juntas antes da guerra. Ela era uma menina e havia um conjunto de casas que dormitavam ao sol, imóveis e silenciosas como numa fábula. A mãe era jovem, bonita, e trazia um vestido às flores. O campo era um grande mar verde onde estremecia o ouro baço do grão acabado de ceifar e o cobre brilhante das folhas iluminadas pelo sol ao entardecer. Os montes, ao longe, limitavam o vale como gigantes morenos. Agora era Inverno, estava frio, e havia a guerra com a sua carga de violência e de morte. Carmen olhou para aquele corpo exangue com o rosário entrelaçado nas mãos unidas e começou a chorar.

     Depois alguém a ajudou a chegar até à sua cama de solteira, onde se abandonou a um longo sono sem sonhos.

    

     Tinha acabado tudo, o sacrifício e a vida da mãe, o velório, o funeral. Farrapos de neve esvoaçavam no ar cinzento antes de pousarem na terra fresca da sepultura. Toda a gente parecia estar com muita pressa, o padre, os coveiros, os poucos parentes e as amigas. Agora que começavam a partir demasiadas pessoas, a mor-te tinha perdido um pouco da sua antiga nobreza.

     Os únicos que participaram com atenção no ritual fúnebre, observando todas as pessoas presentes, foram dois homens à paisana vestidos com compridos e largos sobretudos de fazenda preta. Eram inequivocamente agentes da polícia. Estúpidos e obstinados, procuravam Ubaldo Milkovich, ou qualquer sinal que os pudesse conduzir até ao já mítico partigiano.

     Tinha acabado tudo. A tortura, a dor, a respiração ligeira e o olhar sonhador daquela terna mãe pertenciam à memória. Só o sentimento da vingança estava presente. Um sentimento irreprimível como um grito. Subitamente, foi invadida pelo desejo de matar. Não conseguiria saldar as contas, mas evitaria que as hienas que tinham torturado a mãe voltassem a morder.

     Recordou uma frase pronunciada por um comentador da rádio Londres: «Uma vergonha para quem fez regredir a história até aos confins da barbárie». Eram palavras belas e nobres, mas ineficazes contra o nó de raiva impotente que lhe pesava na alma e lhe apertava a garganta.

     — É melhor regressares a Milão — aconselhou a avó Stella, à saída do cemitério. Aquela velhinha débil, aconchegada num xaile negro, tinha uma entoação diferente na voz, e o seu olhar cor de açucena parecia desmentir aquelas palavras. Também a avó estava com muita pressa. Os únicos que pareciam não ter pressa alguma eram os dois polícias à paisana, que investigavam com uma obstinação grosseira.

     —         Tenho a minha mala em casa — explicou Carmen.

     —         O Tonino já a trouxe — informou a avó. — Está aqui.

     Tonino era um rapaz. Tinha catorze anos, mas aparentava doze. Por isso, nem os alemães nem os fascistas lhe davam importância. Também Modena se tinha transformado numa cidade de mulheres, velhos e crianças. Os homens, ou tinham morrido nas várias frentes, ou estavam nas prisões, ou na Resistência, ou nas brigadas negras, ou vestiam a farda da Wermacht e das SS.

     Carmen percebeu que a velha lhe queria transmitir uma mensagem e agradeceu-lhe.

     —         É melhor ires até à estação ver se por acaso há algum comboio que parta em direcção ao Pó — insistiu a velha com uma determinação insólita. — Da estação é sempre possível partir, mesmo que haja guerra — acrescentou, com uma ponta de malícia que confirmou as suspeitas de Carmen.

     Carmen abraçou-a, pegou na mala e dirigiu-se à estação Grande. As pessoas chamavam-lhe assim para a distinguirem da estação Pequena, da qual partiam os comboios para a província.

     Cada qual seguiu o seu caminho, desorientando os dois polícias, obrigados a escolher quem haviam de seguir. Decidiram-se pela avó e por um velho amigo da família, deixando Carmen livre para se encaminhar sozinha em direcção aos caminhos-de-ferro.

    

     O carregador entrou na sala de espera de terceira classe e aproximou-se de Carmen, que reconheceu naquele homem idoso e robusto um amigo do pai. Dois soldados alemães olhavam para ela, aludindo descaradamente à sua feminilidade, e riam entre eles.

     —         Eu levo a mala — começou o carregador, inclinando-se para pegar nela.

     Carmen olhou-o espantada, mas decidida a seguir o percurso que ele lhe indicasse.

     —         Está bem — disse.

     —         Tu vais atrás dela — ordenou o homem, indicando uma rapariguinha com uma cabeleira tão farta que um grande lenço cinzento não conseguia escondê-la toda. — Chama-se Marina. Confia nela — acrescentou, com um ar despreocupado.

     Carmen abanou a cabeça em sinal de assentimento. Marina calçava uns sapatos muito pesados e trazia vestido um casaco castanho esburacado e de um tamanho demasiado grande para o seu corpo débil. Quando se dirigiu à saída, Carmen foi atrás dela, ao mesmo tempo que o carregador se afastava com a mala.

     Atravessaram o largo da estação e dirigiram-se às arcadas. Encostadas a uma coluna estavam duas bicicletas de senhora.

     —         Monta e pedala — disse Marina.

     Saíram da cidade pela via Vignolese. Carmen sentia-se perfeita-mente à vontade na bicicleta. A toda a volta eram visíveis os sinais dos bombardeamentos e dos disparos de metralhadoras. Um sol pálido tinha aparecido no céu, mas não conseguia mitigar o frio que lhe mordia as mãos e as pernas.

     Em Vaciglio, Marina entregou Carmen a Maria. Em Montale, Maria confiou-a a Iris. E assim, de estafeta em estafeta, passando por casas de lavoura que mascaravam bases secretas, seguindo sinais invisíveis, abatida pelo cansaço, chegou aos primeiros contra-fortes dos Apeninos com a luz da lua. Havia alguma neve no chão e sobre os telhados. Numa casa de uma aldeia devorada por um incêndio recente, comeu pão e queijo e bebeu vinho sob o olhar cordial de dois velhos montanheses de expressão branda e cheia de optimismo.

     Uma solidariedade completa e desconhecida abria-lhe portas imprevisíveis que se voltavam a fechar atrás de si sem deixar rasto, como na água.

     A lembrança do marido e dos filhos era uma impressão ténue que a ligava ao passado, mas que pertencia a outro mundo, muito distante da aventura que estava a viver.

     Carmen percebeu que tinha chegado ao seu destino quando viu uma grande e robusta cabana de troncos. O novo dia pousava nítido e frio sobre o silêncio intacto da montanha. Era uma construção ampla e velha escondida no meio das faias, em tempos refúgio de lenhadores e caçadores. Para lá se conseguir chegar era preciso conhecer a sua localização exacta. A montanha tinha-lhe construí-do em volta uma espessa barreira vegetal. Nas traseiras do refúgio corria um riacho tumultuoso.

     Ao entrar, sentiu primeiro o cheiro tranquilizante do fogo, de-pois ouviu o som de uma harmónica, uma valsa terna e melancólica que evocava o mundo colorido e luminoso das barracas de feira da sua infância. Talvez fosse o cansaço, o sono e o frio a comunicar-lhe aquela ilusão de felicidade. No entanto, o cheiro e o som eram reais.

     Carmen bateu com força os pés gelados no chão, na tentativa de os aquecer. Uma lanterna de petróleo pendurada no tecto espalhava uma luz amarelada. O lume crepitava na lareira.

     —         Tu és a Carmen — disse o rapaz, que estava sentado ao lado do lume. Tinha na mão a harmónica, que reflectia a luz como um pequeno espelho.

     —         Eu sou a Carmen — confirmou ela. Tremiam-lhe as pernas de emoção e cansaço.

     —         Senta-te aqui em frente à lareira — convidou-a, levantando--se para lhe chegar uma cadeira.

     Carmen sentou-se e tirou o xaile que lhe protegia a cabeça, libertando uma cascata de cabelos negros.

     —         Não pensava que chegasses tão depressa — disse o rapaz.

     —         Ai não? — replicou ela sem convicção, sentindo antes um desejo irresistível de tocar o tronco aceso com o atiçador para o ver soltar faúlhas crepitantes.

     Jone, a estafeta com quem fizera o último pedaço de caminho, surgiu por detrás de um tabique com um tachinho de leite que pôs na lareira, e depois trouxe um pão que cortou às fatias.

     —         Onde é que vamos? — perguntou, aterrada, com a ideia de ter de continuar a andar.

     —         Chegaste ao fim da viagem — disse o rapaz para a consolar. Era magro e forte, apesar de parecer ter menos de vinte anos. O rosto praticamente imberbe fazia um estranho contraste com as mãos grandes e os cabelos espessos. Vestia umas calças de fustão e uma camisola pesada de lã crua feita à mão.

     Jone deitou o leite quente nas tigelas de barro. Estendeu uma a Carmen, juntamente com o pão tostado nas brasas, e ficou com a outra. O cheiro do fogo, do leite e do pão era o cheiro da vida.

     Comeram devagar, enquanto o rapaz as observava, deleitando-se com o prazer delas.

     Carmen apontou para a harmónica que o rapaz tinha ainda na mão.

     —         Tocas bem — disse.

     O rapaz corou.

     —         Distrai-me — replicou timidamente, baixando os olhos sobre o instrumento. — Foi um prisioneiro russo que ma deu. Simeon. Ele sim, tocava bem. Morreu — concluiu, com um suspiro.

     O rapaz tinha uns olhos negros, grandes, ensombrados por umas pestanas compridas. E havia muito orgulho no seu olhar indagador e reflexivo.

     —         Não vamos ter com o meu pai? — perguntou Carmen, segura das suas palavras.

     —         Não. Ele é que vem ter connosco. É mais fácil e menos arriscado. — Falava pouco e em voz baixa, um hábito adquirido entre os companheiros de luta.

     — Como te chamas? — perguntou a mulher ao rapaz.

     —         Chama-me Gordon.

     Carmen recordou um herói de banda desenhada americano, protagonista de aventuras extraterrestres. Sorriu como se o rapaz estivesse a comandar um jogo cujo mecanismo ela ainda não conhecia.

     —         É um nome estranho — observou, continuando a comer.

     —         Nós aqui temos todos nomes estranhos — explicou Gordon. — O teu pai é o comandante Mocho.

     Carmen, para reprimir uma gargalhada, quase se engasgou com uma colherada de pão e leite.

     —         É bem capaz de ter sido ele a escolhê-lo — comentou, com a boca cheia, pensando naquele imprevisível exibicionista que era Ubaldo Milkovich, que transferira a sua desfaçatez irónica e astuta para a seriedade de um empenhamento político e militar. — Onde é que ele está agora? — perguntou.

     Gordon começou a contar, com uma voz quente e expressiva, a história de um combate na Montagna Gialla, mas Carmen apenas o seguiu durante um breve trecho, porque depois adormeceu de repente. Gordon e Jone ergueram-na e instalaram-na num colchão que esta última lhe tinha preparado por detrás da parede de tábuas.

     Quando acordou na cabana, Carmen estava só e uma acha grossa agonizava na lareira, sinal de que ninguém tinha alimentado o fogo nas últimas horas. A luz pálida de um frio crepúsculo invernal escoava-se pela janela pequena. Tinha dormido durante todo o dia e agora sentia-se bem. Parecia-lhe estar em férias. Era como se real-mente existisse um lugar onde não havia guerra e ela o tivesse encontrado. De longe, chegou o som melodioso da harmónica, que evocava os majestosos cavalos brancos dos torneios. Agora aquela valsa assemelhava-se ao sorriso melancólico de Gordon, que a acolhera na cabana, a alimentara e a embalara com aquela voz quente e expressiva. Recordava o seu olhar, o rosto simpático e as mãos grandes e fortes.

     Gordon entrou, trazendo consigo uma baforada de ar gelado.

     —         Dormiste bem? — perguntou.

     —         Acho que sim — respondeu, feliz por voltar a vê-lo. O rapaz pôs sobre as brasas um grande pedaço de madeira que começou imediatamente a arder.

     —         Se calhar vais ter que esperar mais uma noite pela chegada do teu pai — anunciou-lhe.

     —         Soubeste alguma coisa?

     —         Soube que vai demorar — rematou.

     O mundo ardia numa guerra sangrenta, ela tinha deixado o marido e os filhos, tinha atrás de si uma experiência de morte e, no entanto, nunca se tinha sentido tão viva, de uma forma tão egoísta. Uma alegria radiosa, quente e vibrante, circulava-lhe nas veias.

     —         Eu espero — disse com um suspiro que o rapaz tomou por uma dolorosa resignação.

     Pelo contrário, Carmen dava-se conta de que, pela primeira vez na vida, se sentia completamente livre, dona dos seus pensa-mentos e das suas acções. O pai, que desejava um macho, nunca tivera uma grande consideração por ela; a mãe educara-a para que se tornasse uma boa dona de casa; o marido, o homem a quem entregara o seu futuro já em parte melancolicamente passado, era demasiado senhor de si para descer ao nível dela e ela não era sufi-cientemente forte para subir ao dele. Ou não seria por acaso ao contrário? Agora ali, com aquele rapaz sereno e respeitador que a tratava de igual para igual, sentia que alguma coisa podia começar, alguma coisa que finalmente dependesse apenas dela, da sua iniciativa pessoal. E sentiu um desejo irresistível de lhe dizer que gostava dele, porque a sua presença e a sua voz a perturbavam.

     Ao atiçar o fogo, Gordon tocou-lhe a mão e Carmen sentiu-se arder. Surgiram lágrimas nos seus olhos.

     —         Não estás bem? — perguntou o rapaz, que atribuiu a comoção ao luto recente, à família distante, à ânsia de ver o pai e ao facto de se encontrar num ambiente desconhecido.

     —         Acho que estou apaixonada por ti — confessou, espantada com tanta frontalidade.

     —         Estás a brincar — disse o rapaz, corando.

     No silêncio que se seguiu ouviu-se, límpida e alegre, a voz do riacho. Gordon acendeu um cigarro e aspirou o fumo longa e voluptuosamente.

     —         Nunca falei tão a sério — murmurou ela, beijando-o devagar nas faces e nos cantos da boca.

     —         Acho que estás a fazer um disparate — avisou, enquanto ela o empurrava docemente para a cama improvisada do outro lado do tabique.

     Seria, então, aquela a paixão que transtorna os amantes, uma espécie de arrebatamento que leva a oferecer e a receber, o impulso que a sua feminilidade mortificada por um casamento sem amor nunca tinha sabido exprimir?

     —         Já perdemos muito tempo — disse ela, tocando-lhe o ouvido com os lábios. — E amanhã podemos já não estar aqui. O rapaz despenteou-lhe os caracóis negros.

     —         Vem cá— disse-lhe baixinho, mantendo-a junto a si.

     Beijaram-se e, juntos, esqueceram a guerra e a espera.

     E foram suspiros ansiosos, quebrados, emoções muito doces, e por fim a realização do desejo, uma perturbação profunda que apagou todas as outras emoções e encheu a escuridão de uma infinidade de pequenas estrelas. Carmen sentia-se leve, feliz, habitada por um prazer difuso, e um ténue frémito sob a pele irradiava devagar como os círculos deixados por uma pedra que se lança à água; não um brusco sobressalto, mas um lentíssimo regresso à vida, um desejo de ternura, de beijos ligeiros, de palavras sussurradas. Sonharam juntos com um mundo de paz onde as pessoas se sentam às mesas dos cafés e vão ao cinema ou ao teatro.

     —         Gostavas de estar num sítio como este? — perguntou ele.

     —         Gosto de estar aqui se tu estiveres ao pé de mim — respondeu.

     Ao longe ribombou um tiro de canhão e Carmen, instintivamente, abraçou o rapaz com mais força. Gordon intuiu na reacção dela uma necessidade de protecção.

     —         Não penses nisso — sossegou-a. — Vai passar depressa, e depois viveremos num mundo melhor. As coisas feias vão ser apagadas para sempre. É por isso que combatemos.

     Carmen sorriu, pensando no amor que acabava de descobrir, e ouviu a voz dele, quente, descrever um sítio junto ao mar onde havia de a levar um dia, quando o mundo tivesse regressado à paz. Quando Carmen adormeceu, o rapaz tentou pensar que ainda ha-via uma guerra para combater, mas não conseguiu, porque não havia lugar para outros pensamentos enquanto ela estivesse nos seus braços e sonhassem juntos com o mar. Então abandonou-se ao sono e deslizou com ela para aquele lugar entre as oliveiras, ouviu as ondas contra os rochedos e viu o céu sulcado de gaivotas brancas.

    

     Ubaldo Milkovich, o comandante Mocho, chegou quatro dias depois do combate na Montagna Gialla; para Carmen e para o rapaz, foram dias gloriosos de amor. O encontro com o pai foi um brusco e doloroso regresso à realidade e às recentes recordações de morte, atiçadas pelo homem que acabava de perder a sua doce companheira. E queria saber pormenores que Carmen não lhe podia contar. Estava muito diferente do homem que ela conhecera, este pai astuto e descarado, grande conversador, incomparável contador de histórias muitas vezes inventadas, sempre abundantemente enriquecidas. Tinha um rosto sério de combatente, uma postura de guerreiro a que não se pode permitir qualquer exibicionismo.

     — Tens que regressar a Milão — disse. — Aqui estamos em cima de um barril de pólvora. Se calhar fiz mal em mandar-te vir — continuou, arrependido.

     Carmen abraçou-o cheia de reconhecimento e de amor.

     —         O que é que se passa com a minha menina tranquila? —

     espantou-se o homem, habituado à moderação de Carmen.

     —         Quando voltamos a estar juntos? — perguntou ela.

     —         Em breve — garantiu ele. — Mais depressa do que tu imaginas.

    

     Carmen ficou apenas um dia com o pai; o tempo de tomarem juntos uma refeição frugal, de ouvir uma vez mais o som dolente da harmónica de Gordon, de tirar algumas fotografias com uma Eastman «made in USA» e de permitir ao pai adivinhar o que tinha acontecido entre ela e Gordon. Depois o rapaz foi com ela até a Montale.

     —         Chamo-me Armando — confessou, como se com isso lhe entregasse um pedaço de amor e lhe depusesse a vida nas mãos. — Sou Armando Zani. E um dia voltaremos a ver-nos, se tu quiseres — acrescentou, comovido.

     Naquele momento, Carmen lembrou-se de que era casada e mãe de dois filhos, enquanto que provavelmente para o rapaz ela tinha sido a primeira, verdadeira mulher.

     —         Se for esse o destino, voltaremos a ver-nos — afirmou, sem ênfase, com um nó na garganta.

     Montou na bicicleta e pedalou atrás da estafeta sem olhar para trás. Pendurada no guiador levava uma pequena bolsa que continha um pedaço de pão e de queijo, uma harmónica e uma velha edição de A Mãe, de Máximo Gorki.

     —         São as coisas mais preciosas que tenho — disse Gordon quando lhas deu.

     Agora Carmen afastava-se daquela esplêndida história de amor com os olhos velados pelo choro e o coração cheio de uma infinita melancolia.

 

     No caminho de volta, Giulia parou algumas vezes na auto‑estrada para telefonar a Ermes. Ersilia, a governanta, não sabia, estranhamente, onde ele estava. No hospital teve a mesma resposta.

     Era a primeira vez, desde que se conheciam, que Ermes parecia esquivar-se a dizer onde estava. Por isso ficou preocupada, não por ele, mas por si própria. Desde que fora atingida pela doença, passava da euforia à depressão, à indiferença, à negação dos factos, à resignação, para depois se deixar apanhar pela espiral da angústia. As constantes, nesta oscilação emocional, eram a visão egoísta das coisas (pensava sobretudo em função da sua própria vulnerabilidade) e a suspeita. Se surpreendia Ermes ao telefone, imaginava logo que estava a discutir com um colega sobre algum aspecto mais alarmante da sua doença.

     Apressou a viagem até casa, na esperança de encontrar uma mensagem na caixa do correio. Era essa a maneira oitocentista que tinham de comunicar em caso de necessidade, e pela primeira vez lamentou o facto de não ter gravador de chamadas.

     Não encontrou nenhum sinal da passagem de Ermes por sua casa. Abandonou o casaco de peles em cima de uma pequena poltrona liberty no hall, ao lado de um espelho com uma moldura florida, tirou as botas e calçou umas confortáveis pantufas de carneira.

     O toque do telefone encheu-a de esperança. «É ele», pensou, com uma sensação de alívio. Mas era Ambra, mulher-a-dias, amiga sincera, militante comunista convicta, que considerava Giulia como uma camarada por causa das suas ideias progressistas.

     —         Não, não sou o Ermes — começou, tendo-se apercebido da desilusão de Giulia. — Lamento muito.

     —         Não faz mal — brincou Giulia. — De qualquer modo, é uma voz amiga.

     —         Só queria ter a certeza de que já tinha voltado. Para além disso — calou-se por breves instantes, — é para lhe lembrar que já fui às compras. Ah, e em cima do fogão está o molho de atum, que já está pronto. Basta aquecer. Correu tudo bem com o camarada avô? — perguntou.

     —         O comandante Mocho foi ter com os companheiros no ossário dos mártires da Resistência — respondeu.

     Ambra e Giulia tinham a mesma idade, mas Ambra, instintiva-mente, assumira o papel de mãe. Uma fome constante, de certa for-ma equilibrada por uma actividade incessante, justificava a tendência para a obesidade que uma altura considerável tornava menos visível; tinha uma expressão calma e alegre. O partido era a sua fé, e Giulia uma filha a proteger. Tratara de Giorgio com a dedicação de uma mãe e ajudara-o a crescer com um afecto que não excluía algumas palmadas. Parecia ter nascido para ser mãe. Mas nunca se tinha casado, e dedicava toda a atenção a um pai idoso, com quem vivia, a Giulia e a Giorgio. Era aquela a sua família.

     —         Foste uma querida, como sempre — agradeceu Giulia. — Alguém ligou enquanto eu estive fora?

     —         Não, ninguém. Está preocupada com alguma coisa?

     —         Não — respondeu secamente. — Se não voltarmos a falar, bom ano.

     —         Para si também. Do coração. Mas ainda falamos, espero.

     —         Claro. E obrigada por tudo. — Desligou.

     Já por outras vezes Ermes estivera um dia inteiro sem dar sinais de vida, mas pelo menos ela sabia a razão e o lugar onde se encontrava. E se ele tivesse ligado de manhã, quando a linha estava interrompida? Esta possibilidade convenceu-a, mas não a tranquilizou. Não era sexta-feira, não era dia treze, mas era inequivocamente um dia horroroso, que tinha começado mal e que continuava da pior maneira. Era o fim do ano.

     Resolveu subir e tomar um banho, o que sempre exercia sobre ela um efeito relaxante. Meteu-se na água fumegante e perfumada e conseguiu obter uma sensação agradável, mas não a tranquilidade de que necessitava. A tensão não dava sinais de se dissolver. Só a chegada de Ermes é que a faria sentir-se melhor. Sentia necessidade de ser tratada como uma menina, como uma criatura um pouco tonta, inocente, imatura, indefesa e muito amada. Sim, quando Ermes voltasse ia refugiar-se nos braços dele, e o bálsamo das suas certezas dar-lhe-ia o equilíbrio de que precisava. Antes que chegasse a noite ele ia certamente dar sinais de vida. Tinha-lhe dito que esperariam juntos a chegada do novo ano.

     Aproximou uma mão do seio onde estava o corte já cicatrizado, para sentir o discreto vazio deixado pela operação, mas não conseguiu tocá-lo. Era mais forte do que ela. Tinha até recusado ver-se ao espelho. Lembrou-se do albatroz de Baudelaire, da toutinegra da Quercia caduta de Pascoli, pensou numa andorinha feri-da, numa gaivota prisioneira do alcatrão e elaborou uma espécie de balanço das situações negativas da sua vida: a morte do avô, o aborto, a queda de bicicleta de Giorgio e o internamento no hospital.

     O toque do telefone interrompeu o curso daqueles tristes pensamentos.

     —         Giulia, és tu? — agrediu-a uma voz enérgica. — Se não te encontrasse, podia ter-me suicidado. Porque desta vez tenho que te contar uma que não tem pés nem cabeça.

     Giulia reconheceu a sua amiga Gaby.

     —         O que queres? — perguntou, pouco delicadamente.

     —         Estou completamente transtornada. Interessa? — Provocou, com uma voz petulante.

     —         Não.

     —         Se calhar escolhi o momento errado para te ligar.

     —         Afirmativo.

     —         Estás a comportar-te de uma maneira ignóbil com uma amiga que precisa de se confessar.

     —         Ninguém é perfeito — concluiu, e desligou.

     Gaby Gabbi, três casamentos, três divórcios, quatro filhos, sexóloga e directora de um consultório familiar, orgulhosa defensora da queca livre, coleccionadora e experimentadora incansável de órgãos sexuais masculinos, como os definia para não descair no palavrão, tinha certamente uma nova aventura erótico-sentimental para contar a Giulia.

     A última vez que se tinham encontrado fora quando Gaby a convocou com urgência ao Cova, na via Montenapoleone, para tomar um cappuccino.

     Parecia um tempo tão distante aquele em que se divertia com as histórias à Boccaccio daquela amiga desaparafusada! E só tinha passado pouco mais de um mês. Giulia tinha-se surpreendido a dividir o tempo em antes da doença e depois da doença. Antes da doença, as aventuras erótico-sentimentais de Gaby divertiam-na, e só se admirava por a amiga não ter ainda produzido a partir delas um livro sensação.

     Não lhe faltavam nem a fantasia nem o descaramento.

     Se a tivesse deixado falar, certamente que a sua história lhe ia levantar um pouco o moral. Da última vez tinha sido irresistível.

     —         Joseph Bertrand é um anormal! — exclamou sem sequer a cumprimentar, ao encontrá-la no bar, atraindo a atenção de alguns clientes que esperavam e que a olharam escandalizados.

     Continuou: — Trinta e quatro anos, dez de profissão, com um nome ligado às equipas mais importantes: Williams, Brabham, McLaren, Ferrari. Duas mulheres, um divórcio, mulheres e corações despedaçados em todos os circuitos. — Gaby conhecera-o num almoço em casa de uns amigos e tinha-se atirado a ele como um gavião. Um ás do volante era coisa que faltava à sua colecção, e não o ia deixar escapar.

     —         Em suma, andaste com ele? — perguntou Giulia, observando a amiga.

     Um elegante casaco de pêlo de camelo realçava a cabeleira acobreada que caía em ondas até aos ombros, deixando intuir um corpo jovem, harmonioso e bem feito. O rosto, de contornos definidos, era mais simpático do que bonito, mas o conjunto formava a imagem de uma mulher atraente.

     —         A ideia era essa — suspirou, enquanto o cappuccino arrefecia na chávena. — Em resumo: vejo-o, olho para ele e desejo-o ardentemente. Naquele momento só pude apreciar «aquele escultural objecto de desejo» que lhe encheu as calças só de me olhar nos olhos. Isto foi o prelúdio. Inesperadamente, dois meses depois, o Bertrand liga-me para o consultório e diz: estou em Milão de passagem. Vai ter comigo ao hotel Rosa. Foi só o tempo de me lavar e lá fui eu. Chego ao quarto e ele está ao telefone. Fala com a Ferrari e atira-me beijinhos. Eu, já conheces a minha discrição, vou para o quarto. Dispo os collants e fico à espera. Ele chega passado um bocado. Começámos na marmelada. Eu vou na onda e ele fica cada vez mais excitado. Mas não se despe, e isso começa a levantar suspeitas. A um determinado momento, no cúmulo da exaltação, baixa o fecho das calças e põe cá fora um instrumento de primeiríssima ordem. Então põe uma cara de parvo, agarra no protótipo e começa a masturbar-se aplicadamente em silêncio, até se vir num esguicho que nem te conto. Depois, volta a arrumar as miudezas e diz: gostaste? Diz lá, achas isto normal para um herói de Fórmula Um?

     Giulia saiu da banheira com um sorriso nos lábios. Se calhar teria feito bem em ouvir a irresistível Gaby Gabbi em vez de lhe desligar o telefone na cara. Embrulhou-se num roupão de banho azul-celeste e ficou ali, no banco da casa de banho, a secar-se com cuidado, à espera que a campainha da porta ou o telefone tocassem para anunciar a chegada de Ermes. Vestiu-se e pintou-se como se ele estivesse quase a chegar.

     Desceu até à sala de estar e ligou a televisão a tempo de ver as primeiras imagens do telejornal. Do écran, Ermes Corsini olhava-a directamente nos olhos. Era um olhar cheio de desalento e de raiva. Entre dois polícias, algemado, como numa velha ilustração da Domenica del Corriere, saía da esquadra da via Moscova para entrar num carro que o conduziria à esquadra de San Vittore. O repórter do telejornal sublinhava aquela sequência dramática com um comentário frio: «Foi preso, em Milão, o conhecido cirurgião Ermes Corsini. A acusação é de negligência, para além de interesse privado em actos médicos.»

    

     Ermes sentou-se em frente ao vice-procurador. — Eram precisas as algemas? — perguntou, impassível. — É a lei — disse o magistrado, juntando as mãos em cima da secretária, mãos pequenas, de dedos secos, e seguramente frias. Era um homem pequeno, que Ermes considerou nervoso. O nariz insolitamente grande e carnudo criava uma desarmonia singular com a boca pequena e fina. Os olhos salientes podiam fazer pensar em problemas de tiróide. A voz era grave e bem colocada.

     O secretário, pelo contrário, era um homem robusto, de meia idade, que denunciava no rosto ainda bem conservado uma potente capacidade digestiva. Estava sentado à máquina de escrever, e de vez em quando virava-se para espreitar aquele personagem importante cujo interrogatório estava a formalizar.

     O escritório de advogados, à espera do regresso de Elena Dionisi, mandara-lhe o colaborador mais próximo da advogada, um rapaz elegante, de ar vivo e olhar atento.

     Cumpridas as formalidades habituais, o magistrado começou o interrogatório.

     — O senhor lembra-se de ter recebido dois milhões de liras do pai de um doente seu para conseguir o internamento urgente do filho e a consequente intervenção cirúrgica? — corou com a tentativa de formular a pergunta de um só fôlego. Parecia prevenido sobre a maneira de actuar com aquela celebridade que, em sua opinião, era um daqueles sujeitos a meter na ordem.

     —         Será que posso saber o nome desse cavalheiro? — perguntou Ermes, cuja calma deixou o magistrado embaraçado.

     —         Egidio Leva. É o nome do pai. O filho chama-se Camillo. Camillo morreu. O pai acusa-o dessa morte.

     —         Porquê?

     —         Porque o senhor recusou uma segunda intervenção. Quando outro cirurgião decidiu operá-lo, já era demasiado tarde.

     —         Posso saber qual foi a razão da minha recusa? — perguntou Ermes, que começava então a lembrar-se.

     —         Claro. Porque já não havia dinheiro. E sem milhões não ha-via operação. Correcto, professor? — Naqueles grandes olhos arregalados surgiu um profundo desprezo.

     A cabeça de Ermes funcionava rapidamente para recompor a história de Camillo Leva. Nove anos. Uma criança de expressão indefesa e um olhar extremamente doce que o tratava pelo nome. «Ermes, vou voltar a andar de bicicleta?», perguntava-lhe. «Eu espero que sim», respondia o médico, que o operara a um osteosarcoma no joelho com metástases nos pulmões. Os protocolos internacionais sugeriam a amputação, mas a metástase pulmonar e outros sinais condenavam-na. Ermes não achou bem mutilar o miúdo. Só um milagre o podia salvar. Um mês depois da operação, Camillo voltou ao hospital e foi ter com ele a correr pelo seu próprio pé. «Tu é que tinhas razão, Ermes», disse-lhe, reconhecido. «Continuo a andar de bicicleta.» Parecia curado, mas Ermes sabia que não estava. De qualquer modo, tinha deixado de sofrer. Com cautela, disse aos pais para não criarem ilusões. A realidade desmentia as suas previsões, e o pai e a mãe de Camillo acreditavam no que viam. A ideia de ter proporcionado àquela criança alguns meses de felicidade não o consolava. Passou o Outono e, durante o Inverno, enquanto brincava com os amigos a atirar bolas de neve, Camillo caiu e o joelho, em dois dias, ficou inchado. Levaram-no ao hospital. Uma consulta foi suficiente para revelar a situação em toda a sua gravidade.

     — Acabou — disse aos pais. — Levem-no para casa. Fiquem junto dele e dediquem-lhe todo o amor que puderem. Vamos fazer todos os possíveis para que não sofra.

     —         O senhor tem que o operar outra vez — intimou-o o pai.

     —         Eu não — recusou decidido. — Só ia servir para torturar uma jovem vida que se está a apagar.

     —         Então vamos a outro lado — disse o homem, furioso.

     —         Quem foi que o operou da segunda vez? — perguntou ao magistrado.

     —         Um grande médico — respondeu. — O professor Attilio Montini.

     Ermes empalideceu e o juiz anotou mentalmente a primeira falta, um pequeno sinal que, dado o autocontrole do imputado, tinha um grande significado. O nome de Montini era um dos que Ermes gostaria de apagar da sua vida e da face da Terra, mas não podia, porque estava ligado a ele para sempre, no bem e no mal. O grande catedrático amava demasiado os aplausos e as luzes das câmaras para não ir atrás dos milagres, mesmo na pele de uma criança. A maior parte das vezes não conseguia, mas quando obtinha um resultado momentâneo a televisão e os jornais ficavam por conta dele.

     —         O senhor conhece bem o professor Attilio Montini. Não é verdade?

     —         Parece-me óbvio.

     —         E os dois milhões? — perguntou bruscamente o magistrado.

     —         Quais? — Ermes ficou surpreendido, porque se tinha esquecido completamente do argumento da acusação.

     —         Aqueles que foram necessários para garantir o internamento urgente no hospital — respondeu, provocador.

     —         Nunca os vi. Sou pago pelo hospital. Não aceito contribuições suplementares dos doentes internados. Não preciso nem tenho direito a isso.

     —         É capaz de o demonstrar?

     —         Não preciso de demonstrar coisa nenhuma — reagiu, com uma voz ligeiramente alterada. Até àquele momento, só tinha visto estas cenas no cinema, e nunca o tinham convencido muito.

     —         Mas o senhor Leva pode fazê-lo.

     —         Pode fazer o quê?

     —         O senhor Leva pode demonstrar-lhe que lhe deu aquele dinheiro, apesar de o senhor, para não levantar suspeitas, o ter exigido em numerário.

     Ermes olhou para o advogado, que lhe sorriu em sinal de solidariedade. Naquele momento, era a única coisa que podia fazer.

     —         E como é que o pode demonstrar? — Começava a perder a paciência. — Isso é uma acusação que não tem pés nem cabeça. — Queria dizer que era indecente, que era uma infâmia; mas tinha ou-vido demasiados réus excelentes defenderem-se escolhendo do vocabulário os termos mais sonantes. E não lhes servira de nada.

     —         Então que demonstre.

     —         O senhor Leva prestou um testemunho preciso — atacou o magistrado, fazendo oscilar para trás e para diante, sobre o pescoço estreito, a cabeça larga, arredondada na parte superior, com um grande nariz carnudo que pendia sobre a boca pequena e o queixo.

     —         Um testemunho preciso — repetiu. — Conhece o Dr. Gianni Macchi?

     Ermes ouviu um concerto de campainhas de alarme.

     —         Claro que conheço. Foi um dos meus assistentes. Um dos piores... — O jovem advogado interrompeu-o com um olhar. — Desculpe — começou a ficar preocupado —, mas o que é que o Dr. Macchi tem a ver com isto?

     O magistrado não o ouviu e seguiu o curso dos seus pensamentos.

     —         Portanto, o Dr. Macchi foi um dos seus assistentes. E não gozava da sua estima nem da sua confiança.

     —         Em certo sentido — admitiu, recusando-se a olhar para o advogado, do qual não captava os sinais de perigo.

     —         O senhor neutralizava-o com a sua autoridade — disse o juiz, agressivo.

     —         Não percebo.

     — A tal ponto que metia ao bolso, à frente dele, o dinheiro que garantia aos seus doentes privados um tratamento público privilegiado.

     —         Nego-o da maneira mais absoluta — afirmou Ermes, recebendo uma aprovação muda do advogado.

     — O Dr. Macchi, pelo contrário, confirma esta circunstância e jura que viu o senhor Leva pagar-lhe dois milhões em numerário.

     —         É falso. — Sentia-se prisioneiro de um labirinto e não tinha nenhum fio que o orientasse para a saída. Era um detido à espera de julgamento, crucificado por uma acusação infame: extorsão agravada por ter operado num hospital público mediante uma compensação. O fim penoso de uma criança de nove anos sublinhava a crueldade do delito que trazia consigo outras imputações, interesse privado em actos de ofício e falsidade ideológica. — As minhas declarações de inocência, portanto, não têm nenhum peso.

     - Só contam as provas — disse o vice-procurador com uma ponta de sadismo.

     As acusações tremendas que agora o encostavam à parede tinham sido montadas com habilidade e fria determinação por alguém que o odiava profundamente.

     Alguém que tinha sabido instrumentalizar a dor e o desejo de vingança de um pai.

     Lá fora começava o fogo-de-artifício de fim de ano, Giulia estava provavelmente a regressar a Milão e ele, o professor Ermes Corsini, o excelente investigador, o insuperável cirurgião, estava prestes a ser transferido para a prisão de San Vittore.

     Tenho o dever de lhe comunicar que o tribunal terá devidamente em conta uma confissão plena — aconselhou o magistrado, com um tom insinuante

     Ermes sentiu um desejo irresistível de partir a cara ao homem que já o condenara sem processo. Mas voltou-se para o advogado.

     - Alei permite-me não responder às perguntas? — perguntou-lhe.

     - Permite, sim.

     - Então tenciono valer-me desse direito — concluiu.

     Quando saiu da esquadra, jornalistas, fotógrafos e repórteres de televisão imortalizaram o acontecimento. Os seus inimigos quiseram colocar no centro de uma tarte muito bem conseguida uma cereja vistosa.

    

     Podia ser o dia da vingança, mas aquele homem sentiu apenas uma náusea.

     —         Não, assim não! — exclamou.

     —         Então, como? — Ela sorriu, saboreando perfidamente o prazer de um acontecimento longamente sonhado. — É um acto de justiça reparadora.

     —         Oh, meu Deus! Não precisavam de ter descido tanto — sibilou Gianni Macchi, enquanto no ecrã do televisor passavam as imagens de Ermes Corsini, algemado e transferido para San Vittore. O seu ídolo, o seu mestre, o seu perseguidor, até no momento da queda e do escândalo exprimia uma dignidade grandiosa. Era um mito sem declínio e continuava a ser um convite para fugir do mundo da banalidade e do tédio, do insucesso, da capitulação, uma exortação a não haver rendição. Ele, Gianni Macchi, pelo contrário,

comportava-se como um vencido, como se estivesse ele preso, privado da sua liberdade. Apertou com ferocidade a pele macia da poltrona para vencer a náusea.

     —         De que é que estavas à espera? Que o apontassem como exemplo, incitando os cirurgiões a comportarem-se como ele? — replicou Marta Montini, que estava sentada a seu lado a remexer uma azeitona no Martini enquanto lançava um olhar matador a um jovem jornalista que a abordara para uma entrevista poucas horas antes. Ela prometera-lhe um encontro para depois do jantar.

     Gianni Macchi não reagiu. Enterrou-se ainda mais na acolhedora poltrona do bar. Sentia-se um verme, e parecia-lhe que os frequentadores brasonados do Hotel Palace de Saint Moritz exprimiam de certa forma a sua reprovação, tal como Marta tinha feito. Olhou para aquela mulher como se a visse pela primeira vez, e o seu mal--estar aumentou. A notícia transmitida pelo telejornal deixou-o transtornado.

     Marta engoliu rapidamente o Martini.

     —         Encontramo-nos ao jantar — disse, com uma suprema indiferença.

     Mediu-a com o olhar enquanto ela atravessava aquele breve es-paço do bar com o passo firme e enérgico de mulher alta, que contradizia a sua figura diminuta e mole, um pouco dengosa.

     Aos quarenta e oito anos, Marta Montini, filha do célebre cirurgião e catedrático Attilio Montini e mulher separada de Ermes Corsini, comprou uma nova juventude a um célebre cirurgião plástico que, no Verão anterior, lhe restituíra um aspecto de mulher de trinta anos ao fazer desaparecer as bolsas por baixo dos olhos, as rugas, os primeiros sinais do duplo queixo e, já que estava com a mão na massa, lhe dera um jeito aos seios e às nádegas. O resultado era realmente extraordinário e as amigas, quando a viam na sauna, ficavam roídas de inveja.

     Gianni perguntou-se se o que naquele momento sentia por ela não era mesmo ódio. Antes das imagens da prisão, estava louco por ela e sentia-se correspondido. Tinham passado poucos minutos, mas a situação tinha-se invertido. Agora tinha a certeza de que naquele ambiente que não era o seu, com aquela mulher mimada, rica e autoritária estava a fazer uma figura de cão de companhia. Tinha trinta anos, era um homem atraente, tinha um diploma em Medicina conseguido com muito esforço, mas era um cirurgião medíocre que nunca chegaria a brilhar na sala de operações. Que raio estava ele a fazer no Palace de Saint Moritz com uma mulher muito mais velha do que ele, que o tratava como um cachorro?

     —         Marta! — chamou, fazendo-a parar à porta do bar.

     —         Sim? — respondeu ela, voltando-se com um sorriso de apresentadora de televisão. Naquela delicada camisola cor-de-rosa, parecia leve e suave como uma borla de pó-de-arroz, mas ele tinha agora a certeza de que aquela aparência macia escondia aguilhões venenosos. Os olhos dos presentes voltaram-se para eles. O tom e o comportamento daquele homem prometiam desenvolvimentos excitantes.

     —         Apesar de tudo, ainda é teu marido. O pai da tua filha — pronunciou, de uma forma clara, agarrando-a por um braço. O sorriso doce de Marta endureceu ligeiramente.

     —         Mete-te na tua vida, rapaz — e gelou-o, com o tom da patroa que se dirige ao escravo.

     Foi como se lhe tivesse dado uma bofetada. Passou instintivamente uma mão pela face onde ainda lhe ardia a bofetada que recebera de Ermes muitos meses atrás, quando enterrou mais do que devia um bisturi no tecido delicado de uma cavidade abdominal. Tinha errado e sabia-o, e tinha a consciência de que só a intervenção oportuna de Ermes salvara a vida do paciente. Fora a sua última experiência na sala de operações. Tirou a bata e abandonou a clínica para sempre. O rótulo de incompetente com que tinha sido marcado condenava-o à clínica geral, à desesperante rotina burocrática e à função de receitar medicamentos.

     Marta Montini apanhou-o na queda e voltou a endireitá-lo

apresentando-lhe o pai, que já tinha mais de setenta anos e agora só operava pontualmente, mas que continuava a ter um peso notável nos meios clínicos. O excluído sentiu-se renascer e voltou a acreditar em si próprio. Marta pareceu-lhe a mulher mais doce, mais fascinante e mais desejável do mundo, e seria capaz de fazer qualquer coisa por ela. E quando ela realmente lhe pediu uma coisa, ele fê-la sem pensar duas vezes.

     Agora, pela primeira vez desde que subira à jangada de salva-mento de Marta Montini, dava-se conta de que tinha sido apenas um instrumento nas mãos daquela criatura rica, egocêntrica, mimalha e vingativa. Embarcara por amor, apesar de o sentimento ter sido um álibi para a esperança de regressar ao meio dos bisturis de ouro sob a égide do pai-barão. Agora, a sua última ilusão acabava de cair.

     Deixou-a ir. Sentia-se mal e bateu no fundo quando ela lhe sibilou baixinho: — Põe-te a mexer, rapaz. Agora já não me serves para nada.

     Gianni dirigiu-se ao elevador. Precisava de apanhar os cacos da sua existência para decidir se ainda valia a pena voltar a juntá-los.

    

     O jornalista à caça de indiscrições sobre as personagens mundanas observou e memorizou o episódio, que oportunamente enriqueceria de detalhes. Improvisou: «Marta Montini, expoente de primeira linha da Milão que conta, filha única de um dos últimos barões da medicina, Attilio Montini, e mulher separada de Ermes Corsini, acabava de chegar ao Palace de Saint Moritz no momento em que as algemas da polícia se fechavam sobre os pulsos do marido. As acusações são conhecidas: negligência e interesse privado em actos clínicos. Marta estava acompanhada por um jovem e atraente cirurgião, o Dr. Gianni Macchi, que até há poucos meses trabalhava com Ermes Corsini. A amizade que provavelmente existia entre os dois já não é tão terna, depois de uma violentíssima discussão de contornos ainda imprecisos. Não há entretanto vestígios de Teodolinda, a filha de Marta e Ermes, de dezasseis anos, grande animadora de festas. Marta Montini anunciou que a filha está a estudar em Inglaterra, mas não é improvável que tenha sido afastada no momento oportuno para evitar um envolvimento imediato e pesado no escândalo paterno.»

    

     Teodolinda emergia lentamente do torpor do sedativo, mas encontrava-se ainda a uma confortável equidistância entre o sonho e a realidade, uma espécie de terra de ninguém onde reinava a indiferença total por aquilo que estava a acontecer dentro e fora dela. Depois, aos poucos, o incómodo no baixo-ventre tornou-se um sofrimento tenebroso e insistente e ela teve plena consciência das condições em que se encontrava. Por um portão misterioso, a dor penetrou-a e invadiu-a.

     O primeiro pensamento foi para o pai, que neutralizara aquele nome bárbaro, Teodolinda, exigido pelo avô-barão, transformando-o num afectuoso e brevíssimo Tea. Depois lembrou-se. Estava no quarto número quarenta e seis da casa de saúde Villa Azurra, em Locarno. Depois do aborto. Reconstituiu o ritual: recordou o sorriso frio do ginecologista que lhe ia fazer o aborto e voltou a ouvir as palavras tranquilizadoras do anestesista antes do sono artificial. «Está tudo bem.» Porém, ela sentia que alguma coisa não batia certo, porque aquela vida que despontava dentro dela poderia brilhar sem prejudicar ninguém. O aborto não era o resultado de uma escolha, mas a consequência de uma imposição. E isso fazia-a sentir-se duplamente culpada e infeliz.

     Pela janela, viu as luzes reflectidas na margem do lago. Era noite. O quarto estava mergulhado numa penumbra azulada. As cortinas de renda, as tapeçarias floridas, os gladíolos coloridos numa jarra de cristal, tudo lembrava um disfarce mal conseguido. Pairava no ar um vago odor a desinfectante que denunciava o reduzido nível de frescura daquele local.

     Tea sentiu muito calor e, com um gesto brusco da perna, afastou a coberta. Um fio de sangue saiu-lhe da vagina, impregnando o penso. Carregou no botão em cima da mesa de cabeceira, ao lado da cama e, imediatamente, como se estivesse à espera atrás da porta, entrou uma enfermeira. Já não era a da manhã, mas parecia-se muito com ela. Era nova, cheia de saúde, e exprimia eficiência e segurança.

     —         Estou a perder sangue — disse Tea.

     A enfermeira pegou numa bacia de metal brilhante, meteu-lha por baixo das nádegas, tirou-lhe as cuecas e verificou o penso.

     —         Está tudo óptimo — disse, tranquila.

     —         E o sangue?

     —         É normal — garantiu. Pegou num recipiente com água mor-na e lavou-a, depois secou-a delicadamente, substituiu o penso e voltou a pôr no sítio a coberta com um rigor profissional.

     —         E se voltar a acontecer? — perguntou Tea.

     —         Nesta fase, não há motivo para preocupação — afirmou. Invejava a segurança da enfermeira.

     —         Então, tudo bem — admitiu, não sem ironia. — É como arrancar um dente.

     A mulher não registou a provocação. Eram esquisitas estas raparigas ricas e mimadas. Primeiro abortavam e depois manifestavam sinais de arrependimento.

     —         O senhor professor disse que pode tomar um chá — comunicou. — Quer que lho traga? — Era mais simpática do que a colega da manhã.

Passou-lhe uma mão pela testa para afastar as madeixas de cabelo loiro.

     —         Pode chamar a minha mãe? — perguntou Tea.

     —         A senhora Montini foi-se embora — respondeu.

     Tea não perguntou para onde.

     —         Quando volta?

     —         Vem buscá-la daqui a uns dias. Se não houver problema. Mas não vai haver — disse para a tranquilizar.

     Tea começou a chorar. Grandes lágrimas silenciosas como gotas de chuva sulcaram-lhe as faces de seda pálida. Instintivamente, virou a cara para o outro lado, mas a enfermeira já tinha visto; via muitas como ela naquela clínica, e cada uma reagia de maneira diferente. Sentiu muita pena da rapariga, pouco mais do que uma menina, com uma figura estupenda e que parecia ter tudo da vida, mas que na realidade era prisioneira de um desespero profundo.

     —         Quer que ligue a televisão? — perguntou.

     Tea acenou um sim quase imperceptível.

     A enfermeira carregou num botão, depois pousou o comando na mesa de cabeceira e saiu silenciosamente. Tea limpou as lágrimas com a dobra do lençol. Seguiu distraidamente algumas imagens de um improvável gato Silvestre dobrado em alemão. Pegou no comando e procurou programas italianos. Naquele zapping frenético apanhou a imagem do pai, que entrava algemado no carro da polícia, seguido pela voz neutra do locutor que o atacava com as suas acusações infamantes.

     —         Nãããããão! — Um grito lancinante e desumano jorrou-lhe das profundezas do seu ser. Um grito alimentado pelo desespero acumulado, pelas coisas tremendas que vira à sua volta e pelas que viveu na primeira pessoa, uma rebelião clamorosa e definitiva contra tudo e contra todos.

     Aquele grito foi acompanhado por um gesto involuntário e violentíssimo. Tea atirou com uma força insuspeitável o comando contra o ecrã. O televisor explodiu e a enfermeira irrompeu no quarto, seguida por duas empregadas. Não houve perguntas, nem comentários. Se um doente da Villa Azzurra decidia transformar o televisor num alvo, era totalmente livre de o fazer. Levaram o aparelho. A enfermeira deu uma injecção a Tea e tudo voltou a cair no silêncio.

     Quando acordou, o relógio de pulso marcava as duas horas da manhã. Havia uma chávena de chá em cima da mesa de cabeceira. Estava morno. Deviam ter-lho trazido há pouco tempo. Sentou-se na cama, começou a beber e sentiu-se melhor. Pousou a chávena vazia e levantou o auscultador do telefone.

     —         Dê-me uma linha — disse à telefonista.

     A mulher hesitou alguns instantes.

     —         Por favor, não me arranje problemas, menina. Não lhe posso dar a linha, nem passar-lhe nenhuma chamada que não seja da sua mãe. — Parecia lamentar o facto sinceramente.

     —         Não faz mal — respondeu Tea, resignada. De qualquer maneira, sabia o que tinha a fazer. Levantou-se, atravessou o quarto, abriu as duas portas do armário embutido onde na véspera tinha arrumado as suas coisas: vestidos, sapatos, dinheiro e passaporte. Queria deixar imediatamente aquele lugar maldito. O armário estava tão vazio como uma praça no dia 15 de Agosto. Até a roupa interior tinha desaparecido.

     Marta tinha pensado em tudo. Na elaboração dos seus planos, não se descuidava com os pormenores. Tea estava prisioneira naquela clínica suíça para onde tinha sido arrastada com uma chantagem e onde fora obrigada a abortar, sozinha como um cão, sem ter sequer a possibilidade de comunicar com o homem que amava.

     —         Mãe, odeio-te! — Exprimiu o seu sentimento em voz alta e esperou que aquelas palavras agressivas atingissem Marta, onde quer que ela estivesse. Desta vez, tinha-a tramado realmente. Tudo começara uma semana antes quando Tea, por um momento, teve a ilusão de conseguir vergar a vontade da mãe.

     —         Estou grávida — confessou, esperando que a notícia rebentasse na face de Marta como uma bomba. Porém, a mãe nem pestanejou.

     —         Ai sim? — replicou com uma indiferença total.

     —         Nem sequer te admiras?

     —         Com o furor que tens no corpo e o bom senso que te falta,

admira-me que o irreparável não tenha acontecido mais cedo. Posso saber quem é o responsável?

     —         É o tenente Marcello Belgrano — respondeu Tea.

     —         Já devia imaginar. Tu e o teu herói de telenovela — comentou com desprezo.

     —         Quero casar com ele — disse, na tentativa de a desorientar.

     —         Um casamento esplêndido — sorriu. — «Uma cretina e um morto de fome. Casaram hoje.»

     —         Não te admito isso — gritou, a arder de indignação.

     —         A herdeira e um professor de equitação. Um clássico. — Recordou o rosto inesquecível e o porte aristocrático do conde Belgrano di Sele e vieram-lhe também à ideia os mexericos que circulavam sobre ele. Renovara o contrato com o Exército para se poder permitir um cavalo. A família, de nobreza antiga, que tinha conhecido momentos de verdadeiro esplendor, estava reduzida à mais completa pobreza, e ele vivia numa mansarda alugada de um palácio que tinha pertencido ao pai. Tinha pouco mais de trinta anos, maneiras de grande senhor e uma conta corrente com o álcool, de que dependia. Uma rica peça.

     —         Eu amo-o — replicou Teodolinda, enterrando-se cada vez mais na banalidade e no lugar-comum. Mas defendia a sua esplêndida utopia e isso tornava mais nobre aquela rebelião.

     Marta atingiu-a com uma forte bofetada, que a deixou atordoada.

     —         Eu também te amo — sorriu perfidamente. — E tenho o dever de te proteger. Por isso vais abortar.

     —         Não vou.

     —         E eu retiro ao teu belo cavaleiro o pouco que ainda lhe resta.

Deixo-o com o rabo no chão, se me é permitido o eufemismo. — A rapariga sabia que Marta nunca fazia ameaças vãs.

     Tea tinha a certeza de que, perante uma gravidez, aquela mãe terrível acabaria por aceitar o facto consumado. Porém, deixara-a de rastos com a chantagem e as ameaças. Se se tivesse dirigido ao pai, as coisas não teriam provavelmente acabado assim.

     Mas agora tinha que correr até Ermes porque era ele quem precisava de ajuda.

     Saiu do quarto. Luzes azuladas conferiam um aspecto gelado àquele corredor comprido para o qual se abriam as portas dos vários quartos. Ao fundo, à direita, lembrava-se bem, ficava o escritório do professor Willy Kebler que, na véspera, durante um colóquio muito formal, a olhara com o desprezo frio do calvinista perante o pecado, sem no entanto desdenhar dos ganhos avultados que o pecado lhe proporcionava. Havia um telefone directo em cima da secretária, um aparelho autónomo que não passava pela central.

     A porta do escritório não estava fechada à chave e cedeu à ligeira pressão de Tea. A luz da lua fazia sobressair os elementos decorativos de aço e os cristais. Ficou imóvel durante uns longuíssimos instantes, aterrada com a ideia de ser surpreendida porque, nesse caso, fechar-se-ia a sua única porta de saída. Fixou o biombo branco atrás do qual estava a cadeira ginecológica com os apoios para as pernas onde tinha sido observada antes da intervenção.

     Levantou devagar o auscultador do descanso e marcou o número. Respondeu-lhe quase logo a voz cansada e aflita do tenente Marcello Belgrano.

     —         Onde estás? — perguntou o homem com uma sensação de alívio. — Ando à tua procura há três dias.

     —         Ajuda-me, Marcello — implorou Teodolinda, começando a soluçar. — Mataram o nosso filho. E agora querem destruir o meu pai.

     Marcello Ottavio Belgrano materializou-se silenciosamente ao lado dela, sem que ninguém na clínica se tivesse apercebido da sua presença.

     —         Marcello, vem cá. E abraça-me — disse a rapariga, que já não se sentia tão aprisionada.

     Ele sorriu-lhe. Numa mão apertava um raminho de junquilhos e na outra segurava as asas de um saco da Gucci. Pousou o saco no chão e estendeu as flores a Tea, que o olhava como se ele fosse um anjo salvador.

     —         Só tu é que te podias lembrar das flores num momento como este — soluçou, lançando-lhe os braços ao pescoço. Também ele a apertou contra si. — Foi ela que me obrigou — disse, acusando a mãe. — Eu não queria abortar — acrescentou, alternando palavras e lágrimas.

     —         Agora já passou — tentou acalmá-la.

     —         Obrigou-me mesmo — repetiu —, percebes? — Não lhe disse que se ela se tivesse recusado a mãe o tinha arruinado a ele, mas ele percebia muito mais do que aquilo que a rapariga imaginava. Percebeu que a mãe tinha feito chantagem com ela e que a tinha coagido, mas estava perfeitamente consciente de ter actuado da mesma forma em relação a ela. E sentiu pena daquela rapariga, ainda no limiar da adolescência, exposta aos ventos furiosos da primeira juventude, entre uma mãe prepotente e um destroço da aristocracia à procura de uma tábua de salvação. É claro que, à sua maneira, Marcello Belgrano a amava, mas será que alguma vez lhe teria dedicado mais do que um simples olhar sem a perspectiva de um dote respeitável?

     —         Não penses mais nisso — disse-lhe, limpando-lhe as lágrimas e falando-lhe com doçura. — Trouxe-te roupa. Veste-te e vamos embora.

     —         E os documentos? Como é que eu posso regressar a Milão sem passaporte? — perguntou, preocupada.

     —         A tua mãe está em Saint Moritz.

     —         E daí?

     —         Eu levo-te até lá. Nesta fase — raciocinou —, um escândalo não interessa a ninguém. O objectivo dela, no fundo, já o atingiu, não é?

     No rosto de sofrimento de Teodolinda brilhou a luz de um sorriso.

     —         Tenente Belgrano — disse, a fungar como uma menina. — Tu és grande. Se não existisses, era preciso inventar-te.

     Marcello tinha argumentos sólidos para demonstrar o contrário e estava firmemente convencido de que, se nunca tivesse existido, o mundo não se tinha ressentido disso, e ela teria menos problemas para resolver. Era de tal maneira verdade aquilo que pensava que mais do que uma vez tomara seriamente em consideração a ideia de desaparecer da face da Terra.

     —         Não me dês mais valor do que aquele que eu tenho, minha menina — brincou, enquanto a ajudava a vestir-se. O vestido da Gucci que tinha escolhido para ela ficava-lhe a matar e fazia sobressair um corpo ainda imaturo.

     —         Amo-te — disse Teodolinda, acariciando-lhe a face encovada.

     —         Eu sei — respondeu, beijando-a por entre os cabelos. Aquilo que acontecera, no fundo, era também culpa dele. Ou melhor, era sobretudo culpa dele. Usara-a, como os outros homens da vida dela. E ele tinha sido o pior deles todos, porque a engravidara de propósito, com o intuito preciso de casar com ela, para resolver de uma vez por todas o problema da sobrevivência. Conheceu-a por acaso, fez-lhe a corte por cálculo, engravidou-a por necessidade, mas agora sentia que a amava de todo o coração. — Sofreste muito? — perguntou, abraçando-a.

     —         Não demasiado — respondeu, escondendo a cabeça na cova do seu braço. Sentia-se bem junto dele, porque lhe dava aquela sensação de segurança de que já não se lembrava desde os tempos da infância, quando o pai vivia ainda com ela e com a mãe. — Viste o que fizeram ao meu pai? — perguntou.

     —         Li os jornais — disse ele, que efectivamente não sabia muito mais do que isso.

     —         Acreditas naquelas coisas horríveis que disseram dele?

     —         Não sei — defendeu-se.

     —         Alguém quer destruí-lo. E eu sei quem é. E também sei porquê — afirmou com decisão. — Tenho que ir ter com ele. O mais depressa possível.

    

     À meia-noite, os habituais foguetes saudaram o novo ano. Os vários canais de televisão esgotaram os seus programas barulhentos e os cães uivaram em desespero, reagindo a todo aquele estrondo.

     Alguns automóveis com o rádio no máximo levavam para casa os últimos foliões.

     Elena Dionisi ligou-lhe de Barbados.

     —         Bom ano — desejou-lhe.

     —         Estás a gozar comigo? — perguntou Giulia.

     —         A ironia é a tua melhor arma — respondeu a advogada de Ermes, que era também amiga dela.

     —         E o que é que eu posso fazer? — Era uma pergunta sem resposta, e ela sabia-o.

     —         Esperar com confiança — aconselhou. — Eu parto daqui a uma hora.

     —         Mas o que é que pode ser? — insistiu, referindo-se à acusação aviltante que tinha justificado aquela clamorosa prisão de Ermes.

     —         Pode ser um equívoco. Uma vingança. Eu não acredito que Ermes seja culpado. Exactamente como tu. Sabes muito bem que nos dias de hoje basta o testemunho de um arrependido para mandar um cavalheiro para a prisão.

   As palavras de Elena atenuaram durante alguns minutos o pesadelo daquela noite insone. Antes do amanhecer, Giulia tomou dois calmantes e adormeceu.

     Foi acordada pelo telefone.

     —         Olá, mamã, bom ano — desejou Giorgio. Aquela voz oscilante entre os tons cristalinos da infância e os roufenhos da adolescência estava ali, próxima, forte e clara como se o filho, em vez de estar lá longe no País de Gales, estivesse no quarto ao lado.

     —         Para ti também, meu filho — retribuiu, tentando manter uma aparência de alegria naquela voz empastada pelo sono.

     —         Diz a verdade, acordei-te?

     —         Não! — mentiu.

     —         O que fizeste ontem à noite? — perguntou. Conhecia-a bem e percebeu que alguma coisa não estava bem. — Disseste à Salinda que voltavas a ligar. Depois não voltaste a dar sinais de vida.

     —         Tive muito que fazer — tentou justificar-se. — Quando me despachei já era muito tarde.

     —         O Ermes está contigo? — perguntou o rapaz, preocupado.

     —         Estou sozinha — disse, quase a chorar.

     —         Por que não foste para a neve? — indagou.

     Ela conseguiu juntar toda a sua capacidade de mentir que, na verdade, era pouca.

     —         Estou muito atrasada com o novo romance — justificou-se. — Preciso de recuperar. — Desfiou uma série de mentiras convincentes, e quando se despediram Giorgio estava novamente alegre e tranquilo.

     Ela também não ganhava nada em incomodá-lo, até porque isso não lhe ia resolver os problemas.

     Tomou o pequeno almoço do costume, duas grandes chávenas de café de filtro, uma fatia de pão torrado e mel. Vestiu umas calças de flanela cinzenta e uma camisola de caxemira branca. Desceu até ao escritório, no rés-do-chão e sentou-se à máquina de escrever. Uma folha branca e a velha Valentina materializavam os encanta-mentos produzidos pela sua fantasia. Giulia conseguia isolar-se e trabalhar mesmo quando havia uma grande confusão dentro de casa, Giorgio e os amigos que se divertiam a fazer de conta que estudavam, Ambra com o aspirador, os cães dos vizinhos a ladrar. Um escritor, onde quer que se encontre, tem que estar dentro da história que está a escrever. Mas havia demasiadas coisas que tinham arrancado Giulia àquele romance e agora, por muito que se esforçasse por apanhar os fios da narrativa para regressar ao centro da história e fazer mexer as personagens em função do jogo de papéis, não conseguia.

     Pensava em Ermes, que passara a primeira noite do ano numa cela, e na reportagem da televisão e nos títulos dos jornais que nenhuma prova de inocência jamais apagaria. Pensou em si própria e no grande inimigo que Ermes tinha removido, mas que continuava a viver dentro dela como um fantasma e que nenhum atestado de cura exorcizaria. Oscilava lentamente na onda daqueles pensamentos à espera de uma luz, mas continuava escuro.

     Sobre tudo aquilo prevalecia, impiedosa, a obsessão do mal, um perigo rastejante que ela intuía mas que não sentia ainda e que talvez nunca se chegasse a manifestar. Mas então por que razão tinha que fazer radioterapia? Era tudo muito aleatório e controverso. A única certeza era a de que aquele organismo a atraiçoara. Tentou imaginar um universo complexo e tumultuoso de sessenta mil biliões de células que constituem o Homem e pareceu-lhe sair dos limites do possível. Navegou de sistema em sistema numa galáxia que obedecia, enquanto obedecesse, a um governo central capaz de manter o projecto do nosso corpo sempre igual a si próprio, capaz de reconstituir os onze biliões de células que perdemos em cada minuto. Em cada segundo, manifestam-se milhões de células anómalas, potencialmente cancerosas; mas nem todos temos um cancro, porque os erros são assimilados pelo sistema imunitário, que é um sistema de controlo geral, refundidos na complexa tipografia do nosso organismo e restituídos, oportunamente corrigidos, ao grande rio da vida. Assim lhe explicara Ermes longamente. Gostou da analogia com o sistema tipográfico, porque isso lhe permitia entender o mecanismo perverso que tinha deixado que o grande inimigo se insinuasse dentro dela. Observava o movimento contínuo da galáxia e o lento fluir do grande rio, tentando identificar os buracos negros que podiam sugar aquilo que restava da sua vida. Descobriu que se amava a si própria de uma forma irresistível. Punha-se a escutar o próprio corpo, esperando captar os sinais fascinantes e misteriosos que dão ordem às células para se diversificarem segundo a sua função. Por que razão teria a organização central dado uma ordem errada? Onde estava o problema? Se tivesse identificado a origem das mensagens, provavelmente teria podido intervir, corrigindo os eventuais erros. Sabia, sobre aquele grande inimigo, todas as coisas que um doente devia rigorosamente ignorar, as mesmas que provavelmente tornavam problemáticas as decisões de Ermes. A lembrança daquele homem prevaleceu sobre a sua obsessão. Talvez um dia viesse a contar a vida de Ermes e a dela. As luzes e as sombras de uma existência complexa, a aspereza de uma escalada, as quedas, os golpes baixos, o egoísmo sórdido, os grandes gestos, a intensa história dos dois, a sua experiência pessoal de mulher que aos quarenta anos descobre o amor. E a morte.

     Giulia estendeu a mão e tirou da jarra de porcelana que se encontrava do lado direito da secretária uma rosa escarlate. Aquele perfume intenso fê-la recuar no tempo, em direcção a uma recordação longínqua que lhe passou pela memória com a clareza de um filme. O Verão dos seus dez anos em casa do avô. Calor africano.

     Os cães estão imóveis e silenciosos à sombra, com a língua pendente. Um zumbido de insectos flutua no ar imóvel. As cigarras parecem enlouquecidas. Ela está só naquela grande cozinha. Depois de a ter explorado de uma ponta à outra, sai para o ar deserto e embriagado de sol, chega ao portão e esconde-se atrás do tronco nodoso de uma roseira que trepa pela coluna onde se fixam os gonzos. O perfume extenuante daquelas rosas e o zumbido dos insectos suspenso no ar quente servem de pano de fundo aos seus pensamentos, primeiro confusos, depois soltos em direcção ao céu, como os ramos da planta que a esconde aos olhos das poucas pessoas que por ali passam. Sob o sol, a erva cortada torna-se palha, e a toda a volta flutua um perfume agradável. Na estrada passam poucos automóveis e são também raros os grandes carros puxados por bois pacientes ou por cavalos, as bicicletas e os camiões. Giulia não gosta dos camiões. São desengraçados, ruidosos, incomodativos ao ouvido, levantam uma poeira irrespirável e metem-lhe medo. Os animais amarrados aos carros, ao contrário, provocam-lhe uma pena infinita: suados, cansados, resignados, fustigados. Giulia gosta dos automóveis e tem uma admiração desmedida pelos seus ocupantes, que são a expressão de um desafogo sonhado, de um luxo proibido, de um bem-estar inatingível. Vê-os passar e contempla a poeira que deixam atrás de si, semelhante à cauda do cometa na cabana do presépio. O seu pensamento mais atrevido, a fantasia mais audaz, consiste em imaginar-se a bordo de um automóvel na estrada, enquanto o avô, no papel de espectador, a aponta orgulhosamente aos ceifeiros: «Aquela é a minha neta».

     Um automóvel luzidio, grande e negro pára exactamente à altura da grade e Giulia vê sair Zaira, a vistosa filha de dezoito anos de uma viúva vizinha do avô. Um cumprimento, um sorriso, o ruído de uma porta que se fecha, o automóvel arranca e Zaira atravessa um pedaço do prado a cambalear perigosamente por causa dos tacões altíssimos, fazendo saltar os seios grandes e fartos, que para Giulia são uma atracção de tipo diferente, mas irresistível, daquela que sente pelos automóveis. Passa uma mão pelo peito magro e interroga-se sobre o seu futuro de mulher. Será que ela também vai ter uns seios tão vistosos e tão bonitos? Talvez esteja a sonhar demasiado. Zaira tem cabelos negros e lisos, uma cascata que lhe acaricia os ombros com um toque de veludo.

     Sobre a pele da rapariga, Giulia vê brilhar minúsculas gotinhas de suor que parecem orvalho. Zaira faz oscilar a carteira de ráfia entrançada que fica presa nos espinhos de um ramo de roseira. E o refúgio secreto de Giulia é descoberto.

     —         Olá — diz Zaira. Manter-se em equilíbrio sobre o terreno acidentado custou-lhe bastante. Bufa, fazendo um pouco de teatro, e difunde à sua volta um vago aroma de salva e de musgo. — O que é que estás a fazer aí atrás? — pergunta.

     —         Estou a olhar — confessa Giulia candidamente, saindo do esconderijo. Zaira balanceia-se um pouco em cima dos tacões, um de cada vez, trespassando-a com aquele olhar malicioso de mulher que conhece as coisas da vida.

     —         E o que é que há para ver? — indaga.

     —         Não sei o que hei-de fazer mais — justifica-se Giulia, respirando o perfume de Zaira e olhando para as grandes manchas de suor por baixo das axilas. Ela nunca viu manchas daquelas nos seus vestidos.

     Porque nunca transpira. Nem com aquele calor todo.

     —         Queres vir até minha casa? — convida Zaira, que passa o portão e avança pela eira.

     A casa é uma divisão do tamanho da cozinha do avô, com chão de terra batida e traves de madeira no tecto. Mas aqui respira-se um ar diferente. De parede a parede há cordas esticadas onde está pendurada alguma roupa interior a secar. Na parede ao lado da janela há fotografias de cantores. Giulia reconhece Harry Belafonte.

     —         Gostas? — pergunta Zaira, indicando a imagem de «Banana Boat». — Lançou o ritmo das Caraíbas no mundo inteiro — explica, confiante da sua própria cultura.

     —         Gosto — afirma a pequena timidamente, mas já o seu olhar curioso captou a magia cromática de muitos frascos de perfume, bâtons e vernizes.

     Zaira liberta-se das sandálias, atira a carteira para cima de uma cadeira, bufa e começa a despir-se. Fala do calor que está, da necessidade que tem de se refrescar e de outras banalidades que Giulia ouve com veneração. Ficou pregada à porta, na soleira, e observa-a. Aquilo que sai da boca de Zaira não são palavras, são pérolas que ressaltam no pavimento de terra batida com um som precioso e carregado de mistério.

     Zaira capta o olhar ávido da pequena e sorri maliciosa.

     —         Nunca tinhas visto uma rapariga nua? — pergunta-lhe.

     Giulia abana a cabeça, envergonhada. Nunca viu uma mulher completamente nua, nem sequer a mãe, tão tímida e reservada, tão pudica. Giulia sente vergonha, como se ela própria estivesse nua e a outra completamente vestida.

     Zaira, pelo contrário, deleita-se com o seu corpo doce e agressivo, que provoca espanto na pequena e que faz nascer nela um sentimento intraduzível que ultrapassa a simples curiosidade. A rapariga molha um pano branco e

passa-o por baixo das axilas, cantarolando um tema em voga vindo da América: Only you. Canta-o em inglês, deixando em êxtase Giulia, que não percebe nada mas que se dá conta de estar em presença de um ser superior.

     —         Entra — convida-a, continuando as suas abluções sumárias. — Viste-me sair do carro? — pergunta.

     —         Sim. — Giulia sorri, esbugalhando os olhos.

     —         É bonito, não é?

     —         Fantástico. De quem é? — pergunta, cheia de curiosidade.

     —         De um imbecil que me queria apalpar as mamas só pelo facto de me ter trazido a casa.

     —         E apalpou-te? — pergunta Giulia, corando.

     —         Sim. E também apanhou uma estalada. Não sabias que os homens querem sempre apalpar as mamas às mulheres?

     —         Mas são bonitas — disse a miúda, enchendo-se de coragem. Zaira sorri, satisfeita.

     —         Tu podes apalpar, se quiseres.

     Giulia hesita, fica vermelha, confusa, queria fugir mas está presa num feitiço. Zaira pega-lhe numa mão e leva-lha até ao seio grande e sólido, com um túrgido mamilo escuro no centro de uma auréola cor de café com leite. Por baixo da palma da mão, Giulia sente a tepidez suave da carne palpitante e parece-lhe, sabe-se lá porquê, que executa um sacrilégio. Retira a mão, assustada. A rapariga dá então uma grande gargalhada e começa a brincar com ela.

     —         Queimaste-te? Ou tens medo que te coma? Anda lá, responde. — Provoca-a, e entretanto vai-se deitar numa pequena cama encostada a uma parede, ao lado de uma mesinha cheia de jornais onde está pousado um grande rádio Marelli. Zaira tem uma voz rouca e lenta, uma voz suave como uma esponja e, com certeza, uma alma sombria, pensa Giulia, que sente por aquela rapariga uma atracção irresistível. Faz-lhe lembrar uma pintura crua e zombeteira reproduzida num livro no escritório do pai-professor. E no preciso momento em que aborda a imagem paterna, a pequena sente-se culpada e convence-se de que está a olhar e a pensar em alguma coisa censurável, alguma coisa que merece uma punição, um pecado que teria justificado o castigo do professor. Giulia foge, seguida pela gargalhada forte de Zaira.

    

     O telefone distraiu-a daqueles pensamentos e, para pegar no auscultador, retirou a mão do seio doente. Tinha levado instintiva-mente a mão ao peito como quando tinha dez anos e viu o seio grande e sólido de Zaira. Naquela altura acariciava uma esperança, agora organizava uma defesa.

     —         Bom ano, beleza — desejou uma voz de homem do outro lado do fio. — Em nome da Corinna também — acrescentou. Era Leo, o ex-marido, o pai de Giorgio. Corinna era a companheira actual.

     —         Obrigada, para vocês também — replicou friamente, para que ficasse claro que não lhe agradava aquela intrusão e que não queria saber nada dele e menos ainda de Corinna. Mas era evidente que Leo não lhe telefonava no primeiro dia do ano pelo prazer de lhe formular aquele desejo. Nunca tivera pensamentos desse género, nem mesmo enquanto estavam casados. Quanto mais agora. Era evidente que o gato e a raposa queriam um favor, e depressa saberia qual.

     —         Tens notícias do Giorgio? — perguntou, com um tom de pai extremoso.

     Giulia controlou-se. Era demasiado experiente para reagir como gostaria.

     —         Está bem — respondeu.

     —         Estás com alguém?

     —         Não.

     —         Não te queria incomodar — disse, preocupado, com o habitual tom pretensamente auxiliador e tranquilo do patriarca protector. Sabia tudo sobre ela: que àquela hora estava sempre a trabalhar, que estava sozinha e que a sua intrusão a incomodava. Por duas razões, porque era um filho da mãe e porque tinha insistido em mandar Giorgio para o País de Gales.

     —         Mas incomodaste — afirmou, com sinceridade mas sem ressentimento.

     —         Desculpa.

     —         A ti tanto te faz. O que queres?

     —         Bem, como sabes, eu e a Corinna vivemos juntos. Ela está todo o dia em casa e aborrece-se.

     —         Eu também gostava imenso de me aborrecer um bocadinho, mas não tenho tempo — replicou.

     Leo ignorou a piada.

     —         Por isso pensámos — continuou, — que talvez tu a pudesses propor ao teu editor como tradutora. Sabes, ela domina muito bem o alemão. A mãe dela é uma von Manstein. Acho que já te tinha dito. E por isso... — continuou a desfiar aquele rosário de lugares--comuns, mas Giulia já tinha deixado de ouvir. Sempre se caracterizara pela inoportunidade. Ela estava no maior desespero e ele vinha perorar por causa daquela meia crucca' que não sabia como ocupar o tempo. Típico de Leo.

     Recordou, ao fim de tantos anos, umas férias em Forte dei Marmi. Era noite, era Verão e estava fresco. Estavam na Capannina com uns amigos e tinha-se levantado uma brisa cortante. Leo dançava com uma rapariga que acabava de conhecer. A certa altura aproximou-se de Giulia e ela esperou que ele a fosse convidar para dançar, salvando-a de uma situação humilhante. Ou que a levasse para casa. Ou que ficasse ao pé dela. Mas o que ele fez foi

tirar-lhe delicadamente o xaile dos ombros, dizendo-lhe: «Não te importas, pois não? A senhora que está a dançar comigo tem frio.»

     Cresceu dentro dela uma raiva feroz por todos aqueles anos da sua vida que passara como sua escrava.

     —         Vai para o inferno, Leo — disse pacatamente ao homem que tinha espalhado ao vento parte da sua juventude.

     —         Desculpa? — fingiu não perceber aquilo que tinha percebido perfeitamente.

     Giulia desligou e sentiu-se tranquila. A coragem da verdade deu-lhe uma sensação de paz. Já não estava disposta a ter paciência com ninguém, à excepção de Giorgio e de Ermes, porque ninguém tinha tido paciência com ela; nem Leo, nem os outros homens que tinha conhecido, excluindo o avô Ubaldo, que era um caso à parte. Ninguém tinha tido paciência com ela, nem o pai, nem a irmã, nem o irmão. De cada vez que saía dos eixos, e acontecia-lhe com frequência, ali estavam eles de espingarda apontada para lhe ordenarem peremptoriamente que voltasse ao caminho certo. E nem sempre tinham razão, pelo contrário, a maior parte das vezes estavam completamente errados. E depois devia ser uma razão de sentido único, porque nunca estava do lado dela.

     Tentavam reconduzi-la ao núcleo familiar e induzi-la ao respeito das regras que eram a honra dos de Blasco, mas Giulia nunca se poderia comportar como eles, porque pertencia a uma outra raça.

    

              OMITEM - AGOSTO 1945 -1956

    

     Foi como um relâmpago num céu sereno. Carmen tinha-se estendido numa preguiceira no pequeno pátio da casa da via Tiepolo e comia com grande deleite um pão com manteiga e açúcar. Já não conseguia caber naquele vestido ligeiro de algodão às flores, de tal maneira tinha engordado.

     Através da janela da sala de jantar, que servia também de escritório, chegava a voz rouca e professoral do marido, que declamava: — Superior stabat lupus, longeque inferior agnus... Como é que podemos traduzir isto? — perguntou.

     — O lobo estava em cima e, muito mais abaixo, o cordeiro — respondeu uma hesitante voz infantil, a do filho mais novo do dono da charcutaria, que trocava os primeiros rudimentos da cultura clássica por uma saborosa mortadela de Bolonha, queijo e ovos frescos. O professor Vittorio de Blasco estava a fazer o que podia. Se o rapaz passasse de ano, havia a esperança de um presente suplementar.

     Da cave chegavam umas marteladas tremendas, alternadas com as vozes dos dois filhos, dominadas de vez em quando pela voz sonante do avô. Benny, de seis anos, e Isabella, de quatro, observavam o avô Ubaldo a construir um carrinho de madeira para o irmão que estava para chegar. Era uma tórrida manhã de Agosto, e o termómetro ia subir ainda mais. Uma glicínia entristecia no ar imóvel e Carmen, entre duas dentadas, meditava sobre a ausência de vento que piorava a situação quando uma contracção aguda lacerou aquele torpor. Exactamente como um relâmpago num céu sereno. Depois, outra vez a normalidade. Esperou que fosse só uma impressão ou, em qualquer caso, um sinal que não tivesse nada a ver com a gravidez. Se os cálculos estavam certos, deveria dar à luz nos primeiros dias de Setembro. Agora, contou pelas pontas dos dedos, era apenas o dia 13 de Agosto. Vinte dias mais cedo? Será que se tinha enganado a fazer as contas? Insinuou-se uma suspeita nos seus pensamentos, mas excluiu-a imediatamente. Abandonou o pão em cima da mesa de ferro, e aquela renúncia instintiva sublinhava a importância da dúvida e do sinal. Só uma razão muito forte poderia levá-la a pôr de parte aquele pão branco e fofo, perfumado de manteiga e açúcar, um requinte a que ainda não se tinha habituado após os longos anos de guerra em que a comida tinha sido pouca e péssima.

     Mas a que propósito é que se lembrava de dar crédito a um nal que provavelmente só existira na sua imaginação? Não, não, estava enganada. Uma nova contracção acompanhada de uma dor forte nas costas contradisse-a, comunicando-lhe a certeza de estar próxima do parto. A suspeita que tivera pouco antes embrenhou-se nos subterrâneos da consciência e fundiu-se com os outros pensamentos refutados.

     Carmen chamou o marido e o homem apareceu à janela com um ar aborrecido.

     —         Por que é que não dizes ao teu pai para parar com aquele martelo insuportável? — censurou-a, como se ela fosse responsável por aquele incómodo. — Eu estou a trabalhar — concluiu, cheio de si.

     Carmen nem sequer o ouviu.

     —         Vai chamar a parteira — ordenou, com um tom que nã admitia réplicas.

     —         A parteira? — perguntou, com curiosidade e preocupação. — Porquê?

     —         Porque tenho a impressão que está na hora — disse, acariciando aquela barriga enorme.

     O professor corou, fez uma careta, balbuciou palavras imcompreensíveis, transtornado pela perspectiva de um acontecimento maior do que ele, e depois desapareceu à procura da parteira.

     Carmen, pelo contrário, acalmou-se e decidiu que ainda tinha tempo de acabar o pão com manteiga e açúcar antes de se arrastar até casa e subir as escadas que conduziam ao quarto. Pela primeira vez, interrogou-se sobre aquele novo filho. Agora estava realmente com curiosidade de ver o rosto que teria; e, para além disso, não lhe desagradava nada a ideia de se libertar finalmente daquele fardo. Transportar uma barriga como a dela, com aquele calor enorme, era realmente um cansaço tremendo.

    

     —         Vamos chamar-lhe Giulia — disse o professor. — Como Giulia Beccaria, a mãe de Alessandro Manzoni. — Estava rígido e desajeitado na presença da parteira, uma mulher bonita, exuberante, com um grande sorriso, que lhe estendia aquele embrulhinho aos berros.

     —         Pegue nela — tentou fazê-lo reagir, mas ele não ousava esticar as mãos. Achou-a feia e má, aquela última filha. Os outros dois, ao nascer, não eram assim tão roxos nem gritavam como possessos.

     Carmen observava o marido à espera de uma reacção que tardava em chegar e que, possivelmente, não chegaria nunca. Estava encharcada de suor por causa do calor e do cansaço.

     O professor decidiu pegar nela ao colo e a pequena aumentou o ataque, gritando com uma intensidade desesperada.

     —         Giulia de Blasco — repetiu o professor, aproximando-a da janela para a observar melhor. A luz débil do crepúsculo enchia já o quarto de sombras e ele queria observar melhor aquela criatura para a qual tinha escolhido um nome ilustre que sintonizava perfeitamente com o apelido de Blasco, de antiga origem espanhola, usado também por Teresa de Blasco, avó de Manzoni, casada com Cesare Beccaria. Pelo menos era isto que defendia o professor Vittorio de Blasco, que exultava como um corvo sapiente quando falava daquela ilustre linhagem.

     — A nobreza do sangue — insistia em recordar — não precisa de riqueza para se manifestar. E acrescentava, enchendo o peito de ar: — Eu sinto-o correr nas veias, este sangue azul que vai descendo através dos ramos.

     Carmen, da cama, continuava a observar o perfil do marido, Perpetuamente severo, perscrutando a recém-nascida que gritava, na ânsia de encontrar nela uma qualquer analogia com os de Blasco.

     —         Tem todo o ar de ser uma grande intrometida — considerou. — Nasceu antes do tempo e depois... meu Deus, como ela grita.

     Naquele momento surgiu à porta do quarto um homem imponente, com uma cabeleira farta e loira, olhos de eslavo e um sorriso impávido.

     —         Entra, pai — disse Carmen com uma sensação de alívio. Parecia o irmão mais velho do seu marido. Tinha quarenta e nove anos e a expressão de um rapazinho.

     —         Disseram-me que é uma menina — comentou, sem lamentação mas com uma ponta de nostalgia em relação ao macho que esperava. — E pela maneira como se faz ouvir até aposto que vai saber fazer-se respeitar. — Tinha um ar satisfeito ao inclinar-se para depositar um beijo suave na face da filha. Depois voltou-se para o genro, estendendo os braços: — Dá-ma cá. Eu sei muito bem lidar com as raparigas.

     O professor ficou aliviado com a ideia de se libertar daquele embrulho barulhento.

     —         Minha menina, não chores — sussurrou Ubaldo Milkovich. — Não há motivo para chorar quando há tanto amor à tua volta.

     Com aquelas palavras, no nicho formado pelo braço forte do avô, a menina acalmou e fez com os lábios tenros um trejeito curioso que podia até ser interpretado como um sorriso.

     —         Vai chamar-se Giulia — repetiu o professor ao sogro —, como a mãe de Alessandro Manzoni.

     —         Vai chamar-se Giorgio — disse baixinho o avô, a pensar no nome que tinha guardado para o filho que não chegara a ter. De-pois entregou Giulia à mãe para que ela lhe desse de mamar.

     Carmen olhou para a menina, que era fofa e cor-de-rosa e mamava serenamente o seu leite e o seu amor. Tinha cabelos negros e lisos e pestanas muito compridas.

     —         Giulia, gostas? — insistiu o professor, à procura de aplausos para aquela escolha tão feliz.

     —         Gosto, soa bem — respondeu distraidamente.

     Carmen observou com olhos diferentes o marido, o pai e a filha, mas o seu pensamento estava muito longe, numa cabana sólida de troncos, enquanto um novo dia vinha pousar no silêncio nítido e frio da montanha. Sentiu o cheiro do fogo, do leite e do pão, o cheiro da vida que era o da filha recém-nascida. Recordou Gordon e foi reencontrá-lo na pequena Giulia.

     «Giulia Zani», pensou, embalando aquele doce segredo.

     Era Agosto, estava calor e a cidade parecia suster a respiração no ardor do Verão, mas soprava um vento novo sobre o mundo, e as pessoas, ébrias de liberdade e de amor, dançavam ainda nos terraços finalmente iluminados para curarem mais depressa as feridas que a guerra tinha provocado até nas suas almas.

     —         Giulia de Blasco — insistiu o professor.

     «Giulia Zani», repetiu Carmen para si, para que o seu único sonho de amor nunca mais acabasse.

     Benny e Isabella tinham aparecido também à porta do quarto e olhavam a recém-chegada com curiosidade.

     —         Entrem, meninos — convidou o pai. — Já viram o que a cegonha nos trouxe?

     Quando começaram as dores as duas crianças foram encaminhadas para casa dos vizinhos porque, segundo o professor, podiam ficar traumatizados com os lamentos e os berros da parturiente, mas sobretudo para evitar que, na idade deles, adquirissem algumas noções sobre os mistérios da gestação e do parto e, portanto, da concepção.

     Giulia tinha adormecido. O avô extraiu das profundezas de um bolso que continha de tudo um pouco (desde a faca de caça ao cachimbo) um pingente com um fio. Era um pequeno topázio branco em forma de coração encastoado num rebordo de esmalte azul com muitas safiras pequenas. Parecia ser uma peça antiga.

     —         Vais pôr-lho ao pescoço quando for altura — disse à filha,

referindo-se a Giulia.

     — Obrigada, pai — sorriu Carmen, evitando cautelosamente interrogá-lo sobre a origem daquela jóia.

     —         Agora tenho que ir — disse, com uma piscadela de olho dissimulada. — O comboio para Modena parte daqui a uma hora. — Perdê-lo significava dormir em casa da filha, e era isso que lhe apetecia fazer, até porque Giulia já ali estava, mas a contiguidade com o professor deixava-o pouco à-vontade. Entre os dois homens existia um abismo infinito.

     Carmen agradeceu-lhe. Tinha vindo carregado de provisões no próprio dia em que Giulia decidiu nascer e, diante da neta, que insistia em tratar por Giorgio, intuiu o grande segredo da filha e quase ficou satisfeito com isso.

     — Mais vale uma Zani-Milkovich desordeira e turbulenta do que uma de Blasco anémica — concluiu para si próprio.

    

     Giulia desatou num pranto. Estava deprimida, angustiada. Tinha feito chichi na cama. Que vergonha. Recordava as palavras severas do pai: «Sete anos são sete anos. E aos sete anos certas fraquezas e certos vícios já não são admissíveis.» Dava-se conta de que, na sua idade, certas transgressões não eram permitidas e não se deviam cometer. No entanto, ela tinha feito chichi na cama. Estava a sonhar e sentia-se feliz. Tinha a sensação excitante de apertar entre as coxas o tronco liso e quente de uma árvore, enquanto subia, ligeira como o ar, cada vez mais alto em direcção às pêras douradas que brilhavam por entre a folhagem luzidia. Mas o triunfo daquela exaltação que a possuía devia explodir no momento em que agarrasse a pêra de ouro para a qual esticava as mãos. Acordou mesmo quando estava quase a agarrá-la e o cristal ténue da felicidade desfez-se em cacos. A tepidez do sonho era a do chichi que lhe escorria ao longo das pernas, tornando-se logo frio e desagradável. Que vergonha!

     Carmen aproximou-se e inclinou-se sobre ela e, com um gesto que lhe era habitual, passou-lhe os dedos pelos cabelos.

     —         Por que choras? — perguntou-lhe em surdina, com muita ternura.

     —         Fiz chichi — confessou, profundamente humilhada, sem ousar mexer-se.

     A mãe levou o indicador da mão direita aos lábios, pedindo silêncio.

     —         Se o pai ouve, já sabes que temos sermão — murmurou Carmen com um fio de voz.

     Giulia obedeceu, limpando as lágrimas enormes com as costas das mãos. A ideia de o pai descobrir que tinha molhado a cama outra vez aterrava-a. Ia logo servir de bandeja a toda a gente aquela notícia vergonhosa, humilhando-a com ferocidade.

     —         A minha filha, aos sete anos, ainda faz chichi na cama — contava aos parentes e amigos. — E claro que a mãe tem uma parte da culpa — explicava. — Se em vez de lhe dar mimo lhe aquecesse o traseiro com umas palmadas salutares, conseguiam-se evitar certas incontinências. — E reforçava com o facto de Benny e Isabella, sob aquele aspecto, terem sido sempre perfeitos.

     Qualquer ocasião era boa para sublinhar a diferença de Giulia, que se comportava como se não pertencesse à família de Blasco. A suspeita de que aquela última filha fosse o resultado de uma traição nunca se tinha levantado, como é evidente. No desmesurado orgulho dos de Blasco não havia lugar para uma dúvida tão vergonhosa, que faria abalar o pedestal de frágeis certezas sobre o qual se apoiava uma grande ilusão.

     Carmen levou a filha ao pediatra para uma consulta atenta.

     —         É uma criança saudável — sossegou-a o médico. — E, no caso dela, o distúrbio, que se chama enurese nocturna, não pode ser atribuído a uma doença propriamente dita. É muito provável que dependa de causas psicológicas.

     —         E não há um remédio?

     —         Há dois: o amor e o tempo. Faça sentir à Giulia que gosta muito dela. Mas, sobretudo, não lhe ralhe quando ela molhar a cama — concluiu.

     O professor zangou-se com as duas, mas desta vez sobretudo com a mulher, que tinha gasto umas boas duas mil liras em troca de uma opinião completamente insensata.

     Era Inverno e Carmen achou que o frio também não devia ser alheio ao distúrbio de Giulia. A casa da via Tiepolo, construída nos primeiros anos do século pelo avô do professor, não possuía uma instalação para aquecimento. A única divisão aquecida era a cozinha, onde um fogão económico tinha a dupla função de aquecer o ambiente e de preparar a comida. Em 1952, a nobre família de Blasco vivia pior do que os camponeses nas suas casas do campo.

     Carmen mudou-lhe o pijama molhado, envolveu-a numa toalha de felpa e levou-a para o quarto onde dormia e cuja cama conservava ainda a tepidez do seu corpo.

     Giulia sentiu-se outra vez feliz. O professor estava na cozinha e já não ia voltar a subir para a pôr fora da cama com o indicador esticado, prevenindo-a de que as crianças deviam crescer de maneira espartana; alguns anos atrás diria «de maneira romana».

     Carmen achava que aquilo não era viver de maneira espartana mas, muito simplesmente, como pobres, com a diferença de que os miseráveis não eram condenados aos rituais de um formalismo odioso e hipócrita.

     Entrou Benny, que trazia já a pasta na mão. Fez uma careta a Giulia e depois pôs-se em bicos de pés para beijar a mãe. Carmen, quando viu como ele estava vestido, sentiu um aperto no coração. Na escola faziam pouco dele porque usava um par de sapatos velhos que eram dela, aos quais o professor mandara cortar o tacão e que, devido a esta modificação, tinham as pontas arrebitadas.

      Depois foi a vez de Isabella. Para aumentar a bainha do casaco azul claro, Carmen tinha-lhe pregado uma pele de carneiro que se estava a desfazer. Isabella deu um beliscão na orelha de Giulia, que lhe puxou uma trança. Pegaram-se furiosamente sem falar. Carmen separou-as e os dois mais velhos saíram.

     —         Hoje não vais à escola — decidiu a mãe.

     —         Deixas-me ficar em casa contigo? — exultou Giulia, esbugalhando aqueles olhos enormes e negros com pestanas de seda.

     —         Hoje vamos sair as duas. Vamos ao centro comprar qual-quer coisa — decretou Carmen, mostrando à filha algumas notas de mil que pescara no avental às flores.

     —         São do avô Ubaldo, não são? — perguntou a pequena, que sabia muito bem a resposta.

     O antigo partigiano, abandonada a vida política, tinha-se tornado um instrutor de cães de quem se falava nas revistas especializadas. Nos últimos anos tinha ganho prémios nas mais importantes competições de caça, e os clientes mais abastados disputavam-no. Mas ele, Ubaldo Milkovich, que pelos seus méritos desportivos tinha recebido a cruz de cavalaria, fazia uma selecção rigorosíssima: só se ocupava dos cães que lhe eram simpáticos e, fiel a um princípio pessoal, trabalhava apenas quando lhe apetecia. No entanto, uma ajuda para Giulia e para Carmen era coisa que nunca faltava.

     O professor insurgia-se sempre contra aquele dinheiro e aquelas coisas cuja origem — e nisto Carmen não podia deixar de lhe dar razão — era bastante duvidosa. As relações de Ubaldo Milkovich não excluíam ladrões e vigaristas, pessoas em qualquer caso muito simpáticas e brilhantes, que manifestavam estima e consideração pelo amigo envolvendo-o nas suas transacções. Para além do mais, as suas mãos, a opinião era unanimemente partilhada entre os mestres do furto, eram mãos de ouro que sabiam entrar em acção no momento certo, obedecendo ao princípio lendário de tirar aos ricos para dar aos pobres, excluindo inequivocamente a violência.

     O pingente em forma de coração que Giulia trazia ao pescoço provinha de um cofre que se encontrava em cima da cómoda do quarto da marquesa Ludina Manodori-Stampa, uma criatura de rara beleza, na qual o fascínio, a nobreza e o ardor existiam em quantidades iguais. Afinal, tinha sido ela a convidar o sorridente caçador para o seu quarto e ele, no meio das preciosidades do cofre, escolheu a coisa menos valiosa, porque era bonita e gostou dela. Provavelmente a marquesa, com o sangue azul aceso pela paixão proibida, nem sequer se deu conta de que lhe faltava o fio com o coração de topázio: primeiro, teve outras coisas em que pensar, de-pois, uma recordação fantástica para embalar.

     —         Um casaco para mim? — perguntou Giulia, em êxtase.

     —         Um casaco para ti e outro para a tua mãe — sorriu Carmen, que sentia ter direito a uma peça decente. Tinha trinta e dois anos e não queria que a juventude lhe escapasse por entre os dedos como se fosse areia. Sentiu um desejo irresistível de ignorar aquela inútil respeitabilidade formal que o marido lhe impunha. Ela, que fora a única a não dançar pelas ruas depois da libertação, porque o decoro dos de Blasco o não permitia, sentiu um grande desejo de alegria e uma necessidade de aventura. A culpa também era dela, que escolhera a estabilidade de uma existência burguesa, mas considerava ter já pago por inteiro aquele erro juvenil. Olhava para Giulia, que irracional e injustamente preferia, também porque lhe recordava a única grande paixão da sua vida, o emocionante abandono nos braços de um rapaz que, entretanto, se tornara um homem importante: o deputado Armando Zani, um político de primeira linha e de grande futuro. Era uma história irremediavelmente acabada, mas Carmen sentia que, por baixo das cinzas daquele amor, tinha ficado uma brasa ardente que não dava sinais de se apagar.

     No quarto ao lado, Giulia remexia as gavetas da cómoda na tentativa problemática de encontrar um vestidinho decente. Escolheu o melhor, para sair com a mãe. Era comovente o elo que unia aquela mulher ainda jovem e resignada àquela menina estranha de grandes olhos sonhadores e cheios de medo. Formavam um mundo à parte, que os outros olhavam com desconfiança.

     —         Mamã, estou pronta — anunciou Giulia, à porta do quarto. Vestia um casaco castanho que já não servia à irmã e tinha na cabeça o gorro de lã azul claro que o avô lhe tinha oferecido no Natal.

     Carmen voltou-se para ela de repente, surpreendida no meio das recordações, enquanto procurava numa velha caixa de chocolates uma fotografia um pouco desbotada.

     —         Por que é que estás a rir, mãe? — perguntou a menina, indo ao encontro dela.

     Carmen tinha os olhos brilhantes e a comoção obrigava-a a um esgar que Giulia tomou por alegria.

     —         Porque és muito bonita e eu tenho orgulho em ti — mentiu, sossegada com o engano da filha.

     —         Que beleza — exultou, ao ver a caixa em cuja tampa havia rosas pintadas. — É nova?

     — Já tem muitos anos — respondeu Carmen, tentando não dar importância ao assunto.

     —         Posso vê-la?

     Agora Carmen já não podia esconder o cofre dos seus segredos daquela criança doce e curiosa. No fundo, para além dela própria, era a única que tinha direito a ver.

     —         Claro que podes — sorriu-lhe, empurrando a caixa na direcção de Giulia, que levantou a tampa e viu uma harmónica brilhante, uma velha edição de A Mãe, de Máximo Gorki e uma fotografia desbotada.

     —         Isto toca? — perguntou, indicando o pequeno instrumento.

     —         Tenta — sugeriu a mãe.

     Giulia aproximou a harmónica dos lábios e soprou, extraindo alguns sons.

     - É tua? — quis saber a menina, que não teve coragem de pedir à mãe que lha desse.

     —         Um dia vai ser tua — disse a mãe, intuindo o seu pensamento.

     — A sério? — replicou feliz, voltando a colocar delicadamente o instrumento no seu lugar.

   — Já acabou, menina curiosa? — brincou Carmen.

     —         Posso ver aquela fotografia?

     A mãe estendeu-lhe a pequena fotografia instantânea que a mostrava feliz ao lado de um rapaz muito bonito com os cabelos despenteados pelo vento.

     —         Mas esta és tu — exclamou. — E ele, quem é? — perguntou.

     —         Sim, sou eu — confirmou Carmen, evitando responder.

     —         Eras tão nova!

     —         E tu ainda nem eras nascida. Eu estava com o avô, na montanha.

     —         E ele? — insistiu Giulia.

     —         É um partigiano. Chamava-se Gordon — explicou Carmen, recuperando aquela preciosa recordação e voltando a colocá-la na caixa como se fosse uma relíquia.

     —         Que nome tão esquisito. Era por isso que te estavas a rir? — suspeitou a pequena. Aquela foi a primeira vez que Giulia viu o pai.

    

     A primeira vez que encontrou o pai, Giulia tinha onze anos, estava em Modena e o avô, excepcionalmente, levou-a ao café Molinari, o sítio mais prestigiado e mais bem frequentado da cidade, na via Emilia, em pleno centro histórico, logo a seguir aos Portici del Collegio, a um passo do Duomo e da Ghirlandina. Era ali que havia os doces mais saborosos e, entre estes, os gelados que Giulia preferia.

     Ubaldo Milkovich mandou vir um café para ele e um cone gigante para a neta. Isto era a grande vida para Giulia, uma vida diferente da sombria casa da via Tiepolo. Em volta do avô era uma profusão de cumprimentos e de sorrisos, um crepitar de comentários divertidos. Havia muita estima e consideração por aquele cigano que, na altura certa, soubera comportar-se como um herói, desafiando a morte com um sorriso nos lábios. Agora vivia numa pequena propriedade na periferia da cidade, com os seus cães e os seus sonhos.

     De repente, o burburinho do café cedeu o lugar a um profundo silêncio. Foram poucos instantes, e depois retomaram-se as conversas. À porta tinha aparecido um bonito homem, à volta dos trinta anos, com uma expressão sorridente e um olhar muito vivo e penetrante. A roupa, de bom corte e excelente confecção, demasiado elegante para passar despercebida, não conseguia apagar a origem camponesa da personagem, que estava presente nas mãos grandes e fortes.

     Entretanto, o homem tinha-se aproximado de Giulia e do avô.

     —         Este belo sujeito era um partigiano — disse Ubaldo directa-mente ao interessado, que lhe sorria com amizade, recebendo em troca um desprezo que, provavelmente, era apenas aparente.

     —         Bons olhos te vejam — cumprimentou Armando. — Eu, quando venho de Roma, às vezes dou sinais de vida, mas tu nem isso.

     —         Somos duas pessoas muito ocupadas — respondeu o avô com ironia. Recordou o último combate e os sobreviventes adormecidos nos buracos cavados na montanha. Ele e Gordon estavam estendidos no chão frio da madrugada. Pinceladas esbranquiçadas tingiam o horizonte. Duas grandes nuvens de contorno lilás estavam imóveis no céu tranquilo. Havia uma única estrela, pequena e débil, esquecida pela noite. E depressa havia de desaparecer. O caminho serpenteante era como uma fita cinzenta e deserta que se contorcia até onde os olhos alcançavam. O caminho seguia para norte, e por ali passariam os alemães. Pela última vez. O círculo apertava-se com a inexorável lentidão da lava, queimando a cauda ao inimigo em fuga. A terra tremia e os corações dos homens emboscados batiam como sinos em festa. A última vez. A seguir, cada um seguiria o caminho de casa. Uma casa verdadeira, uma cama verdadeira. Uma mulher. Gente pelas ruas a saudar o regresso. Um pombo selvagem veio pousar no ramo de uma árvore. Era de um bonito tom cinzento, tinha o papo coberto de penas brancas e olhava de um lado para o outro com uns olhos vivos e negros. Depois levantou voo e Ubaldo seguiu-o e sorriu-lhe como a um sinal de paz. O último combate. A coluna motorizada que subia devagar desaparecia às vezes para voltar a aparecer ainda maior. Os vidros dos pára-brisas reflectiam os raios do sol que acabava de nascer. Eram seis autocarros negros de soldados com capacetes brilhantes. Precedia-os um automóvel com dois oficiais que foi o primeiro a virar quando começaram a explodir as granadas. A primeira foi lançada pelo comandante Mocho, a segunda por Gordon. Tinha coragem para dar e vender, aquele rapaz, além de determinação e inteligência.

     Ubaldo olhou para Armando Zani no café, e à sua figura elegante vieram sobrepor-se os soldados alemães ceifados pelas rajadas, dobrados em dois como velhas fardas ensanguentadas no parapeito de um camião. Outros jaziam na estrada e na erva. Um sol quente e dourado brilhava no céu alto de Abril e as pessoas enlouqueciam pelas ruas a abanar bandeiras e lenços. Os combatentes voltavam a casa e as mulheres abraçavam-nos mesmo que nunca os tivessem visto. À noite, as estrelas apareceram em catadupa no céu sereno. Em todo o vale arderam fogueiras imensas. A guerra terminara.

     —         E quem é esta menina tão bonita? — perguntou Armando.

     —         É a filha da Carmen — respondeu o avô.

     O autocontrolo daquele homem habituado a mascarar as emoções e a dominar os sentimentos disparou no momento certo. — Muito gosto — disse. — É muito parecida com a mãe. — Recordou Carmen, que amara no refúgio da montanha, a afastar-se de bicicleta num triste dia de Inverno.

     —         Este sujeito tão bonito, foi em tempos um homem — disse Ubaldo, voltando-se para Giulia. — Agora é apenas um político. Apresento-te o senhor deputado Armando Zani. Representante do povo. Que é como quem diz.

     —         Como te chamas? — perguntou Armando, inclinando-se sobre ela.

     —         Giulia — respondeu, corando.

     —         É um nome importante. Giulia deriva do grego Joulos — explicou Armando, sorridente. — Significa «penugento». Tu és penugenta? — acrescentou, divertido.

     —         Acho que não — objectou a menina. Era «penugento» o misterioso triângulo no ventre de Zaira, mas isso ela não quis dizer.

      —         Não, tu és só bonita — disse o homem.

     Muitos clientes do café Molinari cumprimentaram o deputado Armando Zani. Alguns paravam a observar o homem e a menina, mas ninguém notou a extraordinária parecença entre os dois: os olhos negros e profundos, as longuíssimas pestanas de cera e o sorriso espontâneo que conferia à expressão luz e inteligência. Giulia sentiu uma atracção irresistível por aquele homem, mas obedeceu ao olhar do avô que a aconselhava a manter as distâncias.

     Agora os dois homens encontravam-se frente a frente e a menina fascinada seguia aquele diálogo insólito.

     —         Passei por aqui na esperança de te encontrar — disse Armando.

     —         Passaste por aqui porque eu te disse para vires — precisou Ubaldo.

     —         Quanto mais velho ficas, mais insuportável te tornas.

     O avô tocou num braço do amigo e saíram do café. Atravessaram a rua e dirigiram-se aos Portici del Collegio, seguidos pela pequena.

     —         Queria apresentar-te a Giulia — disse o avô.

     —         Já o fizeste, e eu fiquei contente por isso — replicou Armando.

     —         Estou a ficar velho — admitiu melancolicamente.

     —         Isso já eu tinha dito.

     —         E ela — indicou Giulia —, tem muitos anos pela frente. Pode ser que, quando eu já cá não estiver, ela venha a precisar de ti. E tu vais ajudá-la — acrescentou num tom firme —, como um pai.

     O nome de Carmen não voltou a ser pronunciado e nenhuma recordação foi referida na conversa. Os dois homens apertaram as mãos.

    

     Armando passou pelo rosto a palma da mão que humedecera com Floris 89, a colónia inglesa com um vago perfume de citrinos que usava há vinte anos, desde que Giulia lha oferecera num encontro casual no aeroporto de Linate.

     Giulia era encantadora e ele tinha-se visto reflectido nos olhos dela, tão intensos, onde chispavam pequenas chamas amarelas. Já as tinha visto nos olhos de Carmen, no tempo em que se amaram. Só que os reflexos de ouro no olhar da rapariga eram gerados pela ira. Alguém que ela esperava encontrar no aeroporto tinha faltado ao encontro. Por isso entregou a Armando, que encontrou por acaso, um pequeno embrulho muito elegante confeccionado com cuidado numa perfumaria londrina.

     — Era para uma pessoa que não está aqui. Posso oferecer-lho a si?

     Havia naquela rapariga qualquer coisa que o atraía, mas havia também alguma coisa que o deixava pouco à vontade. Provavelmente ela conhecia aquela velha história com a mãe, e essa certeza tinha para ela significados que ele não conseguia compreender totalmente.

     Arranjou o nó da gravata, deixou que o empregado o ajudasse a enfiar o sobretudo de pêlo de camelo, pegou na pasta e saiu do vestíbulo luminoso do seu apartamento que dava para a piazza Navona. Um dos guarda-costas esperava-o com a porta do elevador aberta. Desde os anos de chumbo' que andava sempre com segurança.

     No carro, continuou a pensar em Giulia e no último encontro que tiveram no cemitério de Modena. O que é que ela lhe tinha dito sobre a estrela de Natal que ele pousou na campa de Carmen? «Em vida, tê-la-ia apreciado muito. Agora é uma homenagem tardia.»

     O que podia ele ter feito? Levá-la consigo num cavalo branco? Era casada, mãe de dois filhos, era mais velha do que ele e corria o risco de comprometer todos os seus projectos. E ela, fiel como era aos seus princípios, será que o tinha seguido? Envergonhou-se daquelas reflexões de romance

cor-de-rosa. Aquela história tinha um sentido porque durara o tempo de uma grande labareda. Tinha vinte anos quando a guerra acabou, e esqueceu-a imediatamente. Foi um episódio importante, talvez o mais importante de todos os que constelaram a sua vida sentimental, mas as mulheres eram apenas parêntesis mais ou menos agradáveis, mais ou menos vinculativos na fatigante escalada para o sucesso. Nos anos empolgados da contestação e dos protestos feministas, uma das figuras de maior destaque do movimento, que ele tinha levado para a cama, contou numa entrevista que, como amante, ele não era nada de especial. Era uma história distante que agora o fazia sorrir.

     O automóvel ministerial manobrava com dificuldade no tráfego caótico da capital, mas ele estava de tal maneira imerso nos seus pensamentos que nem se dava conta.

     Sim, Carmen não caíra no vazio como as outras, porque era a sua primeira, verdadeira história de amor, porque era a filha de Ubaldo Milkovich, porque era a mãe de Giulia, aquela rapariga estranha que encontrava sempre no Verão quando regressava à sua cidade e que continuara a ver por uma série inexplicável de coincidências singulares. Em Modena, porém, a menina, já mulher, parecia ter assumido o papel da acusação.

     No gabinete recebeu distraidamente as primeiras visitas. Não dedicou qualquer atenção particular nem mesmo à estupenda colaboradora de um empresário famélico que tentava obter o seu consenso para um grande negócio.

     —         Senhor deputado Zani, não gostaria de aprofundar melhor este assunto, talvez até durante o próximo fim-de-semana? — Propôs a loira resplandecente, com um sorriso inequívoco e um olhar cheio de promessas. Por baixo do casaco de leopardo trazia um vestido escarlate, que acentuava as formas de um corpo extraordinário.

     Toda a gente sabia que Armando Zani apenas concedia certas facilidades se os projectos fossem limpos, socialmente úteis, e se a margem a devolver ao partido fosse compatível com os seus princípios morais. É claro que era uma maneira peculiar de ver as coisas, mas, segundo ele, não era a pior maneira de enfrentar o problema político do financiamento necessário à sobrevivência do partido. A nível pessoal era incorruptível, e por isso a única probabilidade de obter alguma coisa era enfiar-lhe uma mulher na cama.

     —         O avião particular da empresa está à disposição para qual-quer eventual deslocação — propôs a loira com uma voz aflautada, pois julgava ter captado um sinal positivo. O empresário recompensá-la-ia de forma adequada, mas a simples ideia de entrar na intimidade de um personagem tão misterioso excitava-a terrivelmente.

     —         Na minha idade, os fins-de-semana de aprofundamento, digamos assim, já não me interessam — afirmou com o ar mais cordial deste mundo. — Nem quero pensar como é que me vai julgar, — acrescentou, fingindo alguma preocupação —, mas não lhe levo a mal, seja qual for a sentença. Um homem que recusa tanto encanto, merece apenas desprezo. De qualquer maneira, preferia um projecto que tivesse em conta os interesses gerais, para além dos pessoais do seu administrador delegado, que quis conferir plenos poderes a uma embaixatriz tão fascinante — concluiu, levantando-se para se despedir.

     Falava com mestria, mas não conseguia apagar os sinais de cansaço por baixo dos olhos e as rugas que aumentavam e se aprofundavam na testa quando se punha em guarda. Estava realmente cansado. E desiludido. As imagens de Ubaldo Milkovich, de Carmen e de Giulia não o abandonavam. O seu olhar de pedra negra, que fazia tremer inimigos e adversários, mostrava sinais de cedência. Passara a vida a escalar a íngreme montanha do poder e tinha-se escudado contra todas as possíveis adversidades num sector onde se combatia sem exclusão de golpes. E, no entanto, bastava-lhe a recordação de um amor, a memória de um amigo e o tom asperamente crítico de Giulia para que emergisse a vulnerabilidade escondida, aquela parte de si que parecia perdida juntamente com aquele ridículo nome de guerra, Gordon, que abandonara nas montanhas.

     Carregou num botão e um funcionário diligente abriu a porta do gabinete. Era um convite claro, o sinal inequívoco de que a reunião tinha acabado. A senhora apertou o casaco de leopardo, fez um rígido sorriso de circunstância, apertou a mão que o homem lhe estendia e afastou-se com toda a dignidade que lhe permitiam os sapatos de tacão muito fino e o movimento de ancas imposto pelo justíssimo vestido vermelho.

     O funcionário fechou a porta nas costas da visitante.

     —         Tem uma chamada de Milão — anunciou o homem.

     —         De quem?

     —         Da senhora de Blasco.

     Armando passou uma mão pela testa. Tirou um cigarro de uma caixa de prata que estava em cima da secretária, levou-o aos lábios e depois voltou a

pô-lo no lugar. Os médicos impunham-lhe muitos cuidados aborrecidos.

     —         Digo que não está? — perguntou o funcionário, ao ver aquele ar perplexo.

     —         Não. Passe-ma imediatamente ordenou, assumindo uma expressão séria e atenta.

     Era a primeira vez, numa vida inteira, que Giulia lhe telefonava para Roma, para o ministério.

     —         Giulia — exclamou assim que ouviu a voz dela. — Como estás?

     —         Preciso de ajuda — respondeu ela, passando por cima dos cumprimentos de circunstância.

     —         O que aconteceu assim de tão grave? — perguntou Armando.

     —         Conhece o Ermes Corsini?

     —         Claro. Quem é que não o conhece? Sobretudo depois desta história, toda a gente fala dele. Mas tu — acrescentou, preocupado — o que é que tens a ver com ele?

     Giulia contou-lhe tudo o que sabia, tentando ser breve, clara e concisa.

     O homem disse que tinha percebido.

     —         Acha que pode fazer alguma coisa? — perguntou ela, com uma voz angustiada.

     —         Farei tudo aquilo que estiver ao meu alcance.

     —         Nunca lhe vou poder agradecer o suficiente.

     —         Tenta descontrair, se puderes — aconselhou. — Se houver algum caminho para sair desta embrulhada, eu descubro-o. — Sabia que a ia ajudar.

    

     Armando ocupou o seu lugar no avião para Milão. Uma hospedeira, ao reconhecê-lo, sorriu-lhe com simpatia. Ele devolveu o sorriso e depois fechou-se nos seus pensamentos. O telefonema de Giulia, a história que lhe contou e o pedido de auxílio que lhe dirigiu tinham aberto uma grande fenda no passado. Na tentativa de percorrer em sentido inverso as etapas mais importantes da sua vida, encontrou-se face a face com aquele rapaz débil, de mãos de gigante e cara de menino, que era o partigiano Gordon.

     O que restava nele do rapaz daquele tempo? Nada. E não tanto pelas células que se tinham perdido e reconstituído, e pelos traços somáticos que se tinham modificado, mas pela ausência de ilusões. Aquele jovem, capaz de se espantar e de sonhar, tinha desaparecido no vazio. Como se nunca tivesse existido. O carácter concreto da vida política impunha-lhe esquemas e ritmos que, por vezes, excluíam a pureza dos princípios morais que o tinham empurrado para a luta antifascista. Agora que o comandante Mocho estava morto, a única referência da sua grande utopia era Giulia.

     Ignorou as recomendações dos médicos, chamou a hospedeira, pediu-lhe um cigarro e acendeu-o. Depois envergonhou-se daquela fraqueza, e esmagou-o no cinzeiro.

     «Giulia», murmurou, a mais amada dos seus filhos. Finalmente formulara de forma explícita o pensamento que há muitos anos tentava inutilmente afastar. Há anos que sabia que Giulia era sua filha, desde o dia em que Ubaldo Milkovich o convocou a Modena.

     Sim, Giulia era filha dele apesar de, para não transtornar a vida de Carmen nem a sua, por generosidade e por medo ou, como político, por um simples sentido de oportunidade, se ter contentado em segui-la de longe, para não se deixar descobrir, para não complicar a sua existência, para não meter a mão na consciência, onde definhavam as recordações da sua vida sentimental e dos seus afectos.

     Crissy, a americana que com ele casara trinta anos atrás, mais por snobismo intelectual do que por vocação para o matrimónio, tinha há muito regressado a Boston, levando consigo os dois filhos: John, que agora ensinava matemática na Universidade do Massachusetts, e Linda, que fazia estudos de soprano e vivia em Los Angeles com um realizador demasiado ocupado e pouco empreendedor para produzir obras que enchessem os cinemas e fossem êxitos de bilheteira. Crissy tinha voltado a casar com um advogado e passava por Roma uma vez por ano, porque a capital italiana era uma etapa do seu itinerário turístico europeu.

     Crissy, John e Linda pertenciam ao passado, tal como o partigiano Gordon e Carmen. Giulia, porém, era o presente, a projecção dos seus melhores dias.

     Abriu a pasta de pele negra, tirou de lá um dossier e começou a ler as informações referentes ao magistrado que privara Ermes Corsini da liberdade e que o estava a interrogar. Um informador e alguns colaboradores, num brevíssimo espaço de tempo, forneceram-lhe uma minuciosa descrição do homem cujo apelido deixou Armando curioso, pela sua estranheza: Cesena. Amilcare Cesena. esquecível. Naquelas poucas folhas estava tudo sobre ele, sobre a vida, a carreira, os vícios privados e as públicas virtudes. Naqela síntese clara, o parlamentar viu o perfil de um esqueleto que jogava às escondidas no armário do magistrado. Sobretudo quando luta por uma causa justa, uma arma eficaz é indispensável. A inocência é a condição mais difícil de provar quando a acusação é bem arquitectada.

     Em Milão dirigiu-se ao Hotel Manzoni onde, desde sempre, reservavam o mesmo apartamento, tranquilo, confortável, com a linha independente que lhe permitia comunicar por telefone o risco de que ouvidos curiosos escutassem as conversas. Um rapazes da segurança, especialista na matéria, controlava sistecamente a limpeza das instalações.

     Marcou um número e perguntou à mulher que lhe respondeu do outro lado da linha: — Onde é que eu posso encontrar, digamos que casualmente, aquele nosso amigo?

     —         Às vinte e trinta. Vai jantar ao Toulà.

     —         Estou a ver que se permite alguns luxos.

     —         Excepcionalmente. Vai estar com uma senhora que lhe interessa particularmente.

     —         Quem é?

     —         Aquela top-model americana que o senhor sabe.

     —         Arranje maneira de ela lá não estar — ordenou com naturalidade, com a certeza de ser obedecido.

      Assim, quando o Dr. Amilcare Cesena atravessou a sala do restaurante precedido por um maître que o conduzia a uma mesa afastada, ao abrigo de olhares indiscretos, encontrou o deputado Zani sentado numa mesa central, aparentemente interessado apenas no líquido cor de âmbar de um aperitivo.

     —         Perdoe-me o atrevimento — disse Armando. — O senhor é o Dr. Amilcare Cesena. O que apanha os barões — acrescentou, com uma admiração simpática. — Permita-me que o cumprimente. — Estendeu-lhe a grande mão camponesa e apertou a mão seca e fria do magistrado. — Verdadeiramente louvável. E devo dizer-lhe que a sua fotografia que foi publicada nos jornais não lhe faz justiça. Não quer sentar-se à minha mesa? — sugeriu, sem lhe dar tempo para reagir. — Consideraria isso um prazer e uma oportunidade para uma construtiva troca de opiniões.

     O magistrado, que reconhecera imediatamente o poderoso político, em qualquer outra ocasião teria considerado um privilégio sentar-se à mesa de Armando Zani. Mas naquela noite estava à espera de Diana Brown, uma

top-model americana que conhecera recentemente e com a qual não queria ser visto. Logo quando se permitia um prazer mundano, tinha que tropeçar num personagem tão importante e tão incómodo, dadas as circunstâncias.

     —         Acontece que estou à espera de uma pessoa — desculpou-se o Dr. Cesena, olhando nervosamente para o relógio.

     —         Então, enquanto espera — convidou Zani com uma irresistível cordialidade —, sente-se um momento e prove uma gota deste autêntico Albana da Romagna. Seco — precisou —, da cor do ouro e conservando por dentro o sol e a simpatia da sua terra. É uma reserva muito especial — continuou, com um ar cúmplice que revelava um aspecto inédito do homem político conhecido como um exemplo de seriedade e de rigor. — Aqui têm sempre guardada uma pequena reserva para mim — revelou Armando, ao mesmo tempo que nos seus olhos brilhava uma ironia tranquila.

     —         Muito me lisonjeia, senhor deputado — o grande nariz carnudo sobre o rosto pequeno de olhos bovinos mexeu-se de uma maneira cómica devido a uma contracção nervosa, uma espécie de tique que o atacava nos momentos de nervosismo, assinalando um mal-estar profundo. — Não quero abusar — acrescentou, tentando salvar-se in extremis.

     —         Aproveite, aproveite — convidou Armando. Fez um sinal ao maitre, que veio diligentemente afastar a cadeira de braços para permitir que o convidado ocupasse o seu lugar.

     —         É o destino — comentou Armando, com o tom convincente de um actor de categoria. — Não é que eu estava mesmo a pensar em si no momento em que aqui entrou?

     O maaître serviu o vinho nos finos copos de cristal.

     —         É realmente uma estranha coincidência — disse sem entusiasmo. Gostaria de poder acreditar na história lisonjeira daquele aldrabão que lhe estragara a noite e que certamente perseguia qual-quer esquema obscuro.

     —         Foi realmente um bom trabalho — disparou Armando. — Um indivíduo abjecto entregue à justiça. E logo a seguir surge-me a oportunidade de poder manifestar a minha satisfação consigo ao lado.

     —         Um acaso — replicou o magistrado, dando-se conta agora de que a presença de Zani ali, àquela hora, não era efectivamente casual.

     —         Muito bem, Dr. Cesena — felicitou-o com um ar de sério envolvimento. — Um acaso. Mas só o acaso nos pode aparecer como uma mensagem. Os acontecimentos previsíveis são mudos. Só o acaso é que nos fala. E nós temos que procurar ler dentro dele como os ciganos na borra do café.

     O que quereria ele? O trago de Albana ficou-lhe atravessado. Sufocou um irritante ataque de tosse no guardanapo.

     —         Talvez — balbuciou.

     O político mudou de registo, de expressão e de tom.

     —         Ermes Corsini — repetiu —, um personagem acima de qual-quer suspeita. A comunicação social vai amplificar a sua imagem durante semanas, meses, anos, e ficará para sempre na história desta sociedade.

     —         É provável — disse o magistrado sem entender se o interlocutor, que falava da projecção da imagem no tempo e no espaço, aludia à sua própria ou à do cirurgião. Devia estar atento. Estava composto, controlado, e só aquele tique facial o traía. A sua mente, com a velocidade de um computador, recuperou as informações relativas ao caso Corsini.

     —         Infelizmente — continuou Armando. Agora já não sorria. A seriedade e rigor tinham substituído o bom humor e a disponibilidade do seu rosto. — E, no entanto, este cirurgião, que toda a gente inveja, foi sujar-se num delito tão infame. Um homem extraordinário — prosseguiu, observando a contraluz o amarelo ouro do Albana no copo de cristal. — Um investigador genial. Uma vida sem mancha. Uma carreira fulgurante. Um prestígio internacional. Depois, de repente, inexplicavelmente, por um punhado de moedas, o mais infame dos crimes. A exploração da dor do próximo. Mas que digo eu? — sublinhou. — Não a dor em termos genéricos. A dor e a vida de uma criança, o desespero de uma família. — Agora falava de um modo quase imperceptível, mas a sua voz era cheia de raiva. O Dr. Cesena fixou-o com os seus grandes olhos bovinos.

     —         Infelizmente, os factos estão contra ele — quase se defendeu.

     —         E se os factos tivessem sido construídos por alguém que quisesse ver o nome dele na lama?

     —         Olhe que aqui não entra a camorra, nem a mafia, nem os arrependidos — lançou um primeiro sinal. — O que se concluiu foi que o bom nome caiu à lama por si próprio.

     —         E se eu lhe dissesse, sob palavra de honra, que Ermes Corsini é inocente? Se lhe dissesse que foi preso com base numa maquinação caluniosa, o senhor acreditava?

     Amilcare Cesena sentiu-se encostado à parede. Olhou para Armando, que estava agora calado, e compreendeu que o seu interlocutor tinha alguns trunfos na manga e que os ia jogar no momento oportuno. Percebeu que Diana Brown não ia aparecer e que Armando Zani estava ao corrente de alguns dos seus pequenos grandes segredos. Ermes Corsini tinha-se transformado numa castanha escaldante no fogo alimentado pelo político, inexplicável e visceralmente interessado naquela história.

     —         Como homem — rebateu —, por nada deste mundo ousaria pôr em dúvida a sua palavra. Um magistrado, porém, precisa de provas. Provas concretas e inexpugnáveis.

     —         Como aquelas que o levaram a prendê-lo? — desafiou.

     —         Como aquelas que justificaram a prisão preventiva. Eu nunca privaria um cidadão da sua liberdade pessoal se não tivesse plena consciência da sua culpa. — Tinha cortado as asas a um intocável, mas tinha a verdade do seu lado e em nome disso era capaz de arriscar a carreira. Tinha testemunhas esmagadoras, e por isso não devia temer nada nem ninguém. E as suas transgressões sexuais diziam respeito apenas à sua vida privada, como gostava de se justificar com a sua própria consciência.

     —         Eu tenho uma admiração desmedida pelos homens seguros de si — disse Armando. — O senhor sabe aquilo que quer.

     —         Parece-me legítimo. A verdade está do meu lado.

     Armando bebeu um gole de vinho com grande prazer.

     —         Alguém defende que a verdade é, às vezes, um ponto de vis-ta — afirmou. — Também se diz que a verdade triunfa sempre, mas isto não é uma verdade.

     Onde quereria chegar aquele aldrabão de colarinho branco? Quando tiraria ele o ás de trunfo do baralho falsificado? Por que se obstinava em defender aquele barão arruinado?

     —         A sua mãe teria morrido de qualquer maneira — surpreendeu-o Armando com uma voz calma, recordando-lhe um episódio secreto da sua vida. — Ninguém a podia ter salvo. Os médicos fizeram os possíveis, acredite. O seu ódio é injustificado. O senhor confunde justiça com vingança.

     Em tempos, a humanidade depunha nas mãos dos sacerdotes as ânsias e os medos e esperava dos sacerdotes, implorante, uma palavra de conforto, um sinal. Depois chegaram os médicos, que os suplantaram com as suas catedrais assépticas que prometiam cura e imortalidade. Ele tinha sentido que no interior daquelas estruturas os novos sacerdotes absolviam e condenavam à vontade deles. Recordou a agonia desesperante da mãe e uma mão de ferro apertou-lhe o estômago. Tinha a certeza que aqueles iluminados omnipotentes a tinham matado, tratando como uma artrose um tumor da coluna vertebral.

     —         Vejo que sabe tudo sobre mim — sibilou, ao mesmo tempo que na sua face de pergaminho, dominada por aquele grande nariz, se difundia um tom acinzentado.

     —         E sobre os seus amores, Dr. Cesena. Talvez não saiba exactamente tudo, mas aprofundei o tema das suas preferências sexuais.

     —         Chegámos à chantagem — replicou com desprezo.

     —         De maneira nenhuma — rebateu —, estamos numa curva em que se vislumbra uma via de saída.

     O magistrado inclinou-se para a frente e apoiou as mãos sobre a mesa.

     —         Eu vou até ao fim — ameaçou.

     —         Tem toda a minha aprovação — disse Armando. — Mas, uma vez que o estimo, queria evitar-lhe um erro que pode influir sobre a sua carreira e ofuscar a sua imagem de magistrado.

     —         Acho que está a perder o seu tempo, senhor deputado Zani —replicou, à laia de despedida.

     —         Conceda-me ainda uns instantes da sua atenção — pediu.

     —         Imagine que há alguém disposto a testemunhar que o senhor assediou e violentou a irmã mais nova de Diana Brown. Um magistrado que usa a violência com uma rapariga de quinze anos. Não será isto um delito infame?

     —         É uma infâmia! — reagiu. — Eu tive...

     —         Relações sexuais completas? É a definição correc ta.

     —         Tive relações livremente aceites.

     —         Com a cumplicidade e a mediação da irmã em troca de favores que só um homem da sua condição e da sua posição era capaz de lhe fazer. Mesmo assim, o quadro, no momento em que fosse levado ao conhecimento dos seus superiores, não iria favorecer a sua posição profissional. Deixemos de parte a moralidade, que está completamente deslocada. Mas admitamos que um colega seu se encontrava perante a prova concreta da violência praticada. Uma versão defendida pelo menos por duas testemunhas sob juramento. Como é que o senhor se comportava?

     —         Mas eu tenho a certeza de que sou inocente.

     —         Mas o seu colega considerá-lo-ia culpado. Exactamente como o senhor considera culpado Ermes Corsini que, como vai resultar do processo, é completamente inocente. E agora pode poupar as palavras de raiva — concluiu, dominando o interlocutor com a sua figura ao levantar-se. — Pense mas é na maneira mais rápida de tirar Ermes Corsini da cadeia. Se não for libertado rapidamente, o senhor vai sentir na pele o que significa ser acusado injustamente.

     A protuberância implantada como um leme no rosto do magistrado torceu-se com uma frequência insólita.

     Os olhos aquosos encheram-se de tristeza e resignação.

     —         Não me parece que seja assim tão fácil — disse para tentar ganhar tempo.

     —         Nem sequer deve ter sido fácil decidir a prisão de Ermes Corsini, suponho. E, no entanto, o senhor conseguiu.

     —         Vou fazer o melhor que puder. — Estava destruído.

     —         Nunca duvidei — concluiu Armando, deixando-o ali plantado. Lá fora, os guarda-costas esperavam-no. Dez minutos mais tarde avisava Giulia de que aquele pesadelo estava prestes a terminar.

    

     Giulia fez-se muito pequenina para se poder esconder no abraço de Ermes, o seu gigante ofendido mas ainda capaz de lhe garantir ajuda e protecção, ainda em condições de lhe dar a confiança e a segurança de que precisava. Em poucos dias tinha conhecido a infâmia da prisão e a humilhação de rituais vergonhosos. Numa reportagem televisiva de pouco mais de um minuto, em várias colunas de jornais, tinham naufragado o prestígio e a credibilidade de um grande médico que dedicara toda a vida à ciência e à investigação. A sua condição de inquirido impedia-o de exercer. Tinha sido suspenso de todas as funções.

     —         Como é que estás? — perguntou-lhe, apertando-a contra si.

     —         E tu é que me fazes essa pergunta a mim? — replicou, enquanto lhe dava muitos beijos no pescoço e no ombro. — Trataram-te como um delinquente. Pobre querido.

     —         Pelo menos, estou cá fora, que é um termo que tem um significado incrível para quem esteve lá dentro — rebateu com uma ponta de ironia, acariciando-lhe as costas nuas e fazendo-a sentir um prazer muito especial.

     Tinham evitado encontrar-se à saída da cadeia. Uma decisão imprevista tinha-o posto de novo em liberdade e, desta vez, o magistrado conservara a reserva mais absoluta sobre a notícia e nem um fotógrafo nem um jornalista estavam presentes no momento da libertação. Liberdade provisória, mas liberdade, em qualquer caso. Restava aquela mancha desonrosa, a perspectiva do processo, mas existia a possibilidade de se defender e a esperança de descobrir a verdade.

     Giulia chegou a casa dele. Ermes estava sozinho, ela refugiou-se nos seus braços e amaram-se com a exaltação que nasce sempre da dor e das lágrimas. Só agora, exaustos, mas não aplacados, reconheciam-se também nas palavras.

     —         O que vais fazer agora? — perguntou, preocupada.

     —         Férias. Umas férias longas e imerecidas — brincou, ostentando a expressão serena e decidida que lhe era habitual. Parecia que aqueles acontecimentos não o tinham sequer beliscado. — É a primeira vez desde que me formei que posso dispor do meu tempo. Vou precisar da tua orientação turístico-geográfica. Nunca saí do circuito fechado dos congressos. Das maiores cidades do mundo recordo os aeroportos e salas enormes a abarrotar de médicos. Uma melancolia que nem te conto.

     —         Eu gostava que mostrasses ódio, ressentimento, raiva. Se calhar fazia-te bem — observou Giulia.

     —         E adiantava alguma coisa? — objectou ele. Quantas vezes não lhe teria apetecido enfurecer-se perante um quadro patológico irreversível, mas tinha sempre conseguido controlar a sua própria emotividade. A raiva não produz saídas favoráveis e afasta as soluções possíveis.

     —         Prenderam-te injustamente.

     —         Isso é verdade.

     —         Acusaram-te injustamente.

     —         Depende do ponto de vista — observou Ermes.

     Giulia sentou-se na cama e olhou-o incrédula.

     —         Decididamente, não te entendo — concluiu.

     —         Mete-te na pele daquele pobre homem, dilacerado pela morte do filho. Não podendo acusar o Padre Eterno, acusa-me a mim que sou certamente mais vulnerável, menos poderoso e mais fácil de perseguir — disse, tentando não levar as coisas demasiado a sério, pelo menos naquilo que lhe dizia respeito.

     —         Mas a acusação de peculato? — indagou Giulia.

     — Grave, infame, dificilmente sustentável por ser falsa, mas igualmente compreensível. Vem de um assistente que ofendi em frente a toda a gente. Quis vingar-se.

     —         Será possível um médico chegar a tanto?

     —         O médico é um homem — afirmou, enquanto se levantava e enfiava um roupão de felpa. Passou em revista os colegas. Conhecia-os a todos de cor. Havia o moralista, o tímido, o técnico, o superficial, o bom, o mau, o inteligente, o perverso, o cínico, o indiferente. Porque, infelizmente, não existe nenhuma actividade humana à volta da qual não girem a ambição, o amor, o ódio, o rancor e a vingança.

     —         Onde vais? — perguntou Giulia ao ver que Ermes se preparava para sair do quarto. — Deixas-me aqui sozinha?

     —         Estou esfomeado. Queres seguir-me nesta expedição ou preferes que o grande caçador regresse com a presa?

     Ersilia, a governanta, tinha desaparecido prudentemente, deixando o terreno livre. Depois de uma incursão à cozinha foram sentar-se no sofá da sala de estar a comer fruta e a conversar, aproximando-se em largos círculos concêntricos do problema que os angustiava. Na proximidade do ponto sensível, as palavras já não adiantavam e Ermes tocou-lhe delicadamente o seio.

     Giulia reagiu bruscamente e afastou-se. Desde o dia da operação que não deixava que a tocassem. De repente, apercebera-se de que o seio, para além de ser particularmente vulnerável, era importantíssimo do ponto de vista psicológico. Recordava agora a primeira função de procriação, ligada ao aleitamento, e as sucessivas funções simbólicas que aumentam quando a fisiológica diminui.

     Agora que tinha medo de o perder, e em parte considerava que já o tinha perdido, dava-se conta de que o seio faz parte da vida a dois, não só como mecanismo de sedução e de função erótica ou como estímulo directo táctil, mas que faz também parte da integridade do corpo.

     No início tinha consentido que Ermes lhe tratasse a ferida, mas depois de a marca da intervenção ter cicatrizado nunca mais permitira que a tocasse. Só tinha conseguido observá-la na cama do consultório. Giulia ergueu uma barreira entre aquele seio maltratado e o resto do mundo, reduzindo assim as possibilidades de um contacto espontâneo e natural mesmo com Ermes. Talvez as coisas tivessem corrido melhor se tudo se tivesse resolvido com a intervenção cirúrgica, mas a perspectiva da radioterapia obrigava-a a um longo confronto com o seu próprio mal e com a diminuição que isso lhe provocava. E, no entanto, sentia por vezes que o desespero trazia consigo a esperança, como se da depressão se pudessem elaborar aspectos positivos. Ficava assim potenciado o amor pela vida e a gratificação decorrente das pequenas banalidades quotidianas. Sentia-se numa montanha russa à completa mercê de um mecanismo que a arrastava dificilmente para cima e que logo a seguir a lançava vertiginosamente para baixo; um baloiço que lhe cortava a respiração e que lhe ameaçava o equilíbrio. Assim, agarrava-se às suas próprias forças e às de Ermes. Formavam um par ainda mais unido, agora que tinham um inimigo comum contra o qual lutar.

     Aquele seio, como todas as coisas da vida, tornava-se importante no momento em que o podia perder e perder-se com ele. Ao longo dos anos tinha-o gravado com experiências e significados. Era um atributo corpóreo ligado à sensualidade, à relação erótica e à vida a dois, cobiçado e desesperadamente invocado. Giulia, em criança, olhava os seios grandes e sólidos de Isabella e depois confrontava-os com os seus, imaturos, pouco salientes, privados de qualquer interesse. — Minha querida, tens de te conformar — dizia a irmã para a humilhar, enquanto punha as mãos em copa por baixo dos seios pesados, desafiando-a com um sorriso vitorioso. — És seca, pobre Giulia. É verdade que uns seios bonitos são tudo numa mulher. Repara bem na vista que faz um vestido em cima de mim. Em ti, que és uma tábua rasa, não há vestido que aguente.

     Giulia tentava saber a causa daquele defeito. Era culpa dela. Andava sempre curvada, com os ombros para dentro, em vez de se mexer com o peito para fora, desenvolta e livre, como Zaira lhe tinha ensinado. Zaira dos seios de manteiga e açúcar, Zaira do perfume de salva, de erva acabada de cortar e de musgo, Zaira de pele aveludada, Zaira que suga docemente os seus mamilos juvenis.

     — Vais ver com que mamas bonitas vais ficar, se eu chupar um bocadinho — dizia-lhe com aquela voz lenta e um pouco rouca, de timbre apaixonado e sensual.

     Giulia nem sequer tinha forças para respirar, de tal maneira ficava perturbada com aquilo que Zaira lhe fazia. Golfadas de sangue quente faziam-lhe bater o coração na garganta. Era um prazer indizível. Fechava os olhos e via girândolas enlouquecidas que explodiam com as cores do arco-íris quando finalmente Zaira lhe to-cava o ventre com a leveza de uma borboleta, e depois se demorava com dedos experientes e conversa em voz baixa por entre a penugem do púbis, deixando-a esvaída de toda e qualquer energia.

     —         Gostas assim? — perguntou a rapariga. — Diz a verdade, não é bom? — acrescentou.

     Giulia acenou que sim. Tinha as faces em fogo, o sangue num tumulto e continuava com os olhos fechados para não deixar escapar todas aquelas cores que se dispersavam lentamente no escuro como estrelas cadentes. Morriam ao longe, no mar, as esplêndidas rosas do avô, mas sem nostalgia e sem lamento, como morrem os desejos satisfeitos.

     —         Vais ficar com umas mamas estupendas, vais ver — prometeu. — Mas lembra-te de pôr sempre o peito para fora — preveniu. — Agora és uma menina, mas quando tiveres dezoito anos como eu vais ser um borracho — insistiu, com aquela voz lenta e um pouco rouca, abrindo o roupão de algodão às flores.

     Estavam estendidas na cama de Zaira, no espaço entre a parede e o fogão apagado. O canto dramático das cigarras envolto pelos ruídos ligeiros da hora do calor batia contra as portadas semicerradas. Não havia mais nenhum rumor para além da respiração das duas e da voz de Zaira, cheia de sensualidade como os grandes seios de manteiga e açúcar e o ventre perfumado de salva e de musgo.

    —         És capaz de me fazer a mesma coisa que eu te fiz a ti? — perguntou a rapariga.

     —         Tu não precisas. Já tens as mamas grandes — hesitou Giulia, assustada com a ideia de ter que tomar a iniciativa.

     —         É para continuarem bonitas. Não sabias? Tu és mesmo um desastre, Giulia. Não sabes nada de nada. Lembra-te disto: os beijos de mulher fazem ficar com as mamas bonitas. Os dos homens, pelo contrário fazem-nas murchar. Nunca deixes que um homem te toque. Eles não sabem nada sobre nós. Percebeste?

    Giulia anuiu, ao mesmo tempo que, desastradamente e de má vontade, se debatia com os mamilos de Zaira.

     —         Não tens mesmo jeito nenhum, pequena — disse Zaira impaciente, ao levantar-se da cama de repente e enquanto apertava o roupão. — E agora levanta-te — ordenou. — Daqui a pouco chega a minha mãe. Ninguém deve saber destas nossas brincadeiras. São um segredo entre nós. Não te esqueças. Nunca.

     Zaira falava-lhe como se ela fosse uma atrasada mental. Pelo contrário, tinha um espírito vivo e uma grande curiosidade. Não estava nada preocupada com Zaira, mas estava muitíssimo interessada naqueles jogos que a rapariga inventava para ela. Pecava sem conhecer o pecado e só muito mais tarde, primeiro com a gravidez e depois com o aparecimento da doença, veio a elaborar tormentosos sentimentos de culpa aos quais atribuía uma acção nefasta até no desencadear daquela proliferação celular anómala.

     Alguns anos mais tarde os seus seios tornaram-se opulentos, mas só durante um breve período, depois do nascimento de Giorgio, que se agarrava selvaticamente aos mamilos e lhe provocava uma dor que a fazia chorar. O menino passou ao biberão e o seio de Giulia ficou doente: tornou-se duro como uma pedra e começou a doer-lhe. Assim, o seio que tinha abdicado da sua função erótica tornou-se uma fonte de dor e de medo antes de voltar à normalidade. Mas foi preciso que passassem muitos meses para que Leo, o marido, pudesse voltar a acariciá-lo. Agora acontecia-lhe a mesma coisa.

     Olhou para Ermes, que sorria, a abanar a cabeça.

     —         Eu falo contigo e tu não me ouves — ralhou-lhe com doçura.

     —         É claro que te ouço — protestou ela.

     —         Então mostra-me — insistiu ele.

     —         O quê?

     —         Estás a ver como tenho razão? Falo e tu não me ouves. Preciso de te ver o seio.

     —         Não — recusou ela, aninhando-se em cima do sofá com os joelhos dobrados à altura do peito. — Fica para outra vez — tentou adiar.

     —         Ignorar um problema equivale a esconder-se dele.

     —         Mas se eu já não tenho nada — insistiu, à procura de justificações.

     —         Mais uma razão para me deixares dar uma apalpadela — argumentou ele com o tom persuasivo de quem se dirige a uma criança pouco racional.

     — Uma apalpadela de que género? — indagou Giulia, desconfiada.

     — Erótico-profissional — garantiu, esforçando-se por ser convincente.

     Giulia deixou-o fazer o que ele queria, mas sempre um pouco tensa. Ermes examinou as cicatrizes, examinou em profundidade com as pontas dos dedos, seguiu por baixo das axilas a cadeia dos nódulos linfáticos extirpados. Parecia satisfeito.

     —         Como é que está? — interrogou com uma voz preocupada.

     —         Como eu já te tinha dito. Muito bem. Sabes que amanhã estão à tua espera na clínica para programar a radioterapia?

     —         Estou outra vez doente, não é? — Dobrou-se sobre si própria como uma marioneta abandonada pelos fios.

     —         Se estivesses eu batia com a cabeça na parede — explodiu ele. Era sincero. — É uma garantia suplementar. Um processo previsto pelo protocolo para se ter a certeza de que a coisa não se repete. Nunca mais.

     —         Não podemos esperar? — propôs. — Primeiro gostava que tu saísses desta embrulhada — tentou protelar.

     —         Faz de conta que já saí e obedece. — Tinha regressado o médico infalível, o demiurgo que a metia debaixo da asa protectora e ela, de repente, sentiu-se tranquila como um gato enroscado ao sol que vive aquele instante sem nostalgia do passado, sem medo do futuro, sem a imagem da morte suspensa sobre os seus dias atormentados. Naquele momento surgiu o telefonema de Elena Dionisi. A advogada estava radiante.

     —         Amilcare Cesena renunciou ao cargo — anunciou. — Ermes, acho mesmo que temos um santo no paraíso.

     O santo no paraíso chamava-se Armando Zani. Mas isso nem Elena Dionisi nem Ermes sabiam. Giulia sim.

    

     Marta emergiu numa nuvem de vapor da banheira cor-de-rosa na grande casa de banho da suite do Palace de Saint Moritz. Pegou, da prateleira por cima do lavabo, num pente e numa tesoura com que penteou e arranjou os pêlos do púbis. Enfiou um roupão de banho macio, ligou o secador e orientou o jacto de ar quente para aquele triângulo perfeito, semelhante a um minúsculo canteiro de um jardim à italiana, continuando a penteá-lo para tornar a penugem loira volumosa e fofa. Pensava naquele jovem jornalista à caça de notícias mundanas. Tinha sérias intenções de o apanhar. Era jovem, robusto,

agradava-lhe e podia tornar-se útil.

     Despiu o roupão e espalhou por todo o corpo um creme hidratante, massajando com cuidado especial os tornozelos, os joelhos e os cotovelos. Quando terminou a operação olhou-se ao espelho. Estava perfeita, sem um fio de gordura nem um grumo de celulite. Só o ventre tinha perdido elasticidade, e a ginástica para reforçar os abdominais já não bastava para remediar os estragos produzidos pelo tempo. Ia completar quarenta e oito anos dentro de poucos dias e tinha que programar uma nova intervenção estética reparadora, desta vez à barriga.

     Marta era uma perfeccionista. E não admitia que houvesse situações que pudessem evoluir independentemente dos esquemas que tinha em mente. Quando esta eventualidade se perfilava, corria imediatamente para as soluções sem olhar a meios para o fazer. Assim se comportara com Teodolinda quando teve conhecimento daquela ingenuidade de se deixar engravidar; agira da mesma forma com Ermes quando este teve o mau gosto de romper o casamento porque a surpreendeu mesmo no meio de uma sessão de strip. E pensar que tinha feito tanto por ele e pela carreira dele. O pai-barão tinha removido todos os obstáculos entre o seu miserável ponto de partida e os cumes do sucesso. Vestiu um vestido de crêpe negro, que sublinhava a perfeição dos seios e da cintura fina e tornava mais vivo o ouro dos cabelos ondulados. Pôs duas pulseiras de brilhantes e mais brilhantes nas orelhas. O espelho devolveu-lhe a imagem de uma senhora bonita e elegantíssima, com um sorriso celestial. Aquela criatura esplêndida, cintilante de jóias e de fascínio, estava à altura da situação. Marta deu-se por satisfeita. Entrou na sala que comunicava com o quarto e o separava do de Gianni Macchi. Precisava de fazer alguns telefonemas antes de descer para jantar. Depois trataria de liquidar aquele jovem médico indeciso acerca de tudo, um homem sem futuro e sem espinha dorsal, um personagem incómodo e maçador, um cúmplice de que já não precisava.

     Ligou ao pai, que estava de férias no Quénia. Como é evidente, teve o cuidado de não o informar sobre aquilo que tinha acontecido a Ermes. Dar-lhe-ia a sua própria versão dos factos quando ele regressasse, manobrando as coisas de modo a que o velho catedrático ficasse fora daquela embrulhada. O pai devia regressar um mês depois e ela esperava que entretanto não chegasse a ler os jornais italianos.

     Depois foi a vez da clínica Villa Azzurra de Locarno.

     —         Sou Marta Montini — anunciou à telefonista. — Passe-me a minha filha.

     As suas antenas sensíveis captaram um sinal anómalo quando a mulher respondeu: «Um momento, por favor», em vez do habitual «Imediatamente, minha senhora.»

     Uma voz de homem fê-la estremecer,

     —         Fala Corrado Mambretti. O director. Estou consternado, minha senhora. A sua filha...

     —         Roeu a corda — concluiu Marta imediatamente.

     —         Então a senhora sabe...

     —         Percebi pelo tom da sua voz — replicou, expedita. — Tem alguma ideia do sítio para onde ela terá ido? — perguntou.

     —         Nenhuma, minha senhora. Estou consternado — insistia em sublinhar.

     —         Quando saiu?

     —         De tarde. A enfermeira deu-lhe um calmante que devia fazê--la dormir até à hora do jantar. Acredite...

     —         O senhor está consternado, já sei. Mas é evidente que a história não vai acabar aqui — avisou Marta, e desligou sem se despedir.

   Talvez aquele inútil do Gianni Macchi ainda lhe pudesse prestar um último serviço antes de sair da sua vida. A porta de comunicação estava fechada à chave. Bateu, mas não obteve resposta. Provavelmente estava ainda no bar, a embebedar-se. Decidiu descer, enquanto mentalmente rogava pragas contra ele, contra a víbora da filha e contra aquele patife que era Ermes Corsini. Tal e qual o pai, pensou. Sempre prontos para morder, mesmo quando se pensa que já se neutralizaram. O sorriso celestial tinha desaparecido, os lábios tinham-se tornado muito finos e cortantes e uma contracção de raiva revelava uma grande sede de vingança. Em frente a um espelho do hall alterou a expressão para uma postura afável e sonhadora. Sabia fazer ainda melhor, mas aquela correcção rápida também não estava mal. Conseguiu sobretudo alisar algumas rugas que, nos momentos de cólera, escarneciam daquele delicado e trabalhoso lifting.

     Gianni Macchi não estava no bar, nem no restaurante, nem tinha saído, porque a chave não estava na recepção.

     —         A senhora deseja que o procure? — ofereceu-se o recepcionista, pronto para satisfazer aquela cliente que lhe dava umas consideráveis gorjetas.

     —         Não, deixe estar — replicou, apanhando rapidamente o elevador que se estava a fechar.

     É capaz de ter adormecido, aquele cretino, pensou com raiva.

     Quando ela tinha um problema, ninguém podia estar em paz, toda a gente devia unir esforços para o resolver quando e como ela queria.

     Voltou a subir e bateu à porta que dava para o corredor, mas não obteve resposta. Tentou o puxador e a porta abriu-se. Gianni Macchi estava na poltrona ao pé da janela, mesmo ao lado da cama, e olhava-a com uma fixidez sorridente.

     — Estás bêbedo como um carroceiro — disse em tom de provocação. — Mas para carroceiro ainda te falta a força e a virilidade. — Apanhou um copo de whisky que estava caído na alcatifa e pousou-o na mesa onde estava uma garrafa quase vazia. — Mas o que é que tem assim tanta graça? — perguntou, numa censura àquele sorriso imóvel e trocista. Aproximou-se dele irritada, pronta para o esbofetear, mas depois de o ter observado de perto levou uma mão à boca para sufocar um grito. Estava paralisada de terror perante a macabra imobilidade daquele olhar sem vida.

     Bastaram-lhe alguns segundos para reencontrar a frieza necessária.

     Não tocou em nada no quarto, para além do telefone.

     — Preciso de um médico com urgência — disse ao recepcionista. — O Dr. Macchi não está bem.

     Foi o médico do hotel que anunciou que estava morto. Marta viu o bloco de notas ao lado do telefone e leu a mensagem escrita por Gianni: «Prefiro morrer como um homem, já que vivi como um verme. Peço desculpa a toda a gente, a Ermes Corsini em particular».

     Arrancou a folha e conseguiu amarfanhá-la a tempo, escondendo-a na palma da mão antes de aparecerem algumas pessoas por trás dela. Também lá estava o jornalista mundano. Ia escrever nessa noite o seu primeiro artigo policial.

    

     Do terraço panorâmico, Giulia viu o avião planar com a leveza de uma libelinha gigantesca, seguiu-o ao longo da pista até à zona de paragem e quando a porta se abriu começou a tremer de impaciência. Esforçou-se para distinguir o seu menino por entre a multidão de passageiros. Uma emoção muito próxima do pânico impedia-a de se comportar racionalmente na tentativa de identificar o filho no meio de tanta gente. Depois viu uma cabeleira farta e loira, um blusão azul, uma mochila bem conhecida e, àquela distância, intuiu o doce perfil de Giorgio. Então sentiu o coração dar saltos de alegria e recordou as palavras que o avô lhe repetia sempre que lhe vinham as lágrimas aos olhos: «Não há motivo para chorar quando há tanto amor à tua volta.» Tinha um futuro, agora que Giorgio também tinha regressado a casa.

     Abraçaram-se na sala das chegadas e apercebeu-se de que naqueles dias tinha crescido ainda mais. Já estava mais alto do que ela.

     E tinha apenas catorze anos.

     —         Vens mais pesadinho, com os Mars, o molho inglês e a Coca-Cola — disse Giulia.

     —         Como boas-vindas, não está mal — retorquiu, um pouco triste.

     —         Acertei?

     —         Na mouche — admitiu. — Mas como é que sabes? — continuou com um sorriso de resignação. Não havia maneira de lhe esconder nada, e isso deixava-o doido.

     — Leio na tua cara. Essas espinhas todas não são só acne juvenil.

     -  A partir de amanhã entro em dieta. Está prometido — afirmou solenemente o rapaz, elevando uma mão à altura do coração. As suas boas intenções começavam sempre no dia seguinte.

     Ao longo da auto-estrada de Malpensa para Milão, Giorgio foi um cronista inigualável daquelas breves férias de Natal: falou de um mar tempestuoso que agredia as costas do País de Gales, de raparigas petulantes e maliciosas que o atormentavam com uma pergunta que o fazia corar e o deixava confuso: are you a virgin? Era virgem, e não gostava de falar disso. Giulia tomou conhecimento de uma retirada estratégica perante um bando de punks ameaçadores e de uma derrota memorável às setas. Mister Mattu tinha obviamente ganho. Deliciou-a com os pormenores ingénuos e divertidos da festa de passagem de ano e explicou-lhe detalhadamente como se cozinhava o frango de caril.

     —         E tu, como passaste as festas? — interrogou, por sua vez. Tinham acabado de passar a portagem e dirigiam-se ao corso Sempione.

     —         Eu? — perguntou ela também, para ganhar tempo, como se ele lhe tivesse pedido para lhe dizer qual a distância entre a terra e a nebulosa de Andrómeda. Giulia, da nuvem em que flutuava, precipitou-se na dura realidade.

     —         Sabes que me arrependi por te ter deixado sozinha? — confiou-lhe, acariciando-lhe o braço.

     —         A sério? — disse ela, reprimindo um soluço.

     —         Passa-se alguma coisa? — insistiu Giorgio, que acabava de ler uma perturbação insólita no rosto da mãe.

     Como podia ela falar-lhe do grande inimigo que se tinha instalado dentro dela, da radioterapia que estava já programada, da prisão e da suspensão de Ermes depois da infame acusação de peculato? Ela não estava preparada e talvez ele não estivesse ainda em condições de perceber uma situação tão complexa.

     —         Não tens outra pergunta de reserva? — replicou em vez de responder.

     —         Mãe, eu já não sou uma criança. Se alguma coisa se passa contigo, eu tenho o direito de saber — protestou Giorgio com um tom tão autoritário que a surpreendeu.

     —         O gato fugiu — anunciou. De qualquer maneira, também era uma desgraça, uma má notícia que podia servir para medir o grau de sensibilidade do rapaz.

     —         Por que é que o deixaste fugir? — disse, agressivo. Ora aí estava, em certos momentos Giorgio ficava parecido com Leo, pronto para a acusar antes ainda de saber como as coisas se tinham passado.

     —         Eu não o deixei fugir — reagiu com irritação. — Foi ele que fugiu. Saltou da janela para o rés-do-chão.

     —         E como é que a história acabou?

     —         Mal.

     —         Mal, como? — perguntou, aflito.

     —         Muito mal. Um carro atropelou-o. Eu e a Ambra só pudemos recolher os restos mortais — continuou Giulia em surdina.

     —         Oh, não! — gritou o rapaz esmurrando o tablier.

     —         Acaba com isso, Giorgio — pediu. — Eu também estava muito ligada a ele. E sofri. E ainda sofro. Mas há factos inevitáveis perante os quais temos que nos conformar. O teu histerismo não o vai fazer regressar à vida. Somos todos mortais. Até a tua mãe.

     —         Mas entretanto ele morreu. E tu estás viva — quase censurou. Era uma observação de uma lógica implacável. Giulia decidiu fechar a torneira das reflexões e dos aprofundamentos que faria entrar em movimento a espiral da depressão e da instabilidade emotiva.

     Juntaram-se os três, ela, o filho e Ambra, sentados à mesa da cozinha, em frente a uma grande terrina da qual provinha um aroma requintado de risotto amarelo, temperado com manteiga e queijo curado, como Giorgio gostava. Ninguém comeu.

     —         Comemo-lo logo à noite, salteado — concluiu Ambra com muito bom senso, com a certeza de que bastariam poucas horas para que o rapaz reencontrasse o apetite perdido.

     Giorgio quis prestar uma homenagem à campa do gatinho, cavada num canteiro onde, na Primavera, floria o açafrão que tingia aquele canto do jardim de um azul intenso raiado de amarelo. O rapaz fez uma careta bizarra, e depois explodiu em soluços libertadores. Dez minutos mais tarde cortejava com sucesso a terrina de risotto amarelo.

     Quando Ambra se foi embora, Giorgio telefonou primeiro ao pai e depois aos Mattu para lhes dizer que já tinha chegado a casa. A seguir abraçou Giulia, como quando era pequenino.

     —         Desculpa — sussurrou.

     —         De quê? — sorriu deliciada com aquela espontânea ternura de Giorgio.

     —         Eu sei que não foi por tua culpa, a história do bichano. Era por isso que estavas tão séria? — perguntou.

     —         Também por isso.

     —         E mais?

     Tinha que lhe dizer alguma coisa, e escolheu a confissão mais simples e credível, a mais fácil de explicar e de perceber, a história de Ermes.

     —         Levantaram um processo ao Ermes — declarou sem hesitação.

     —         Porquê? — perguntou indignado, ao mesmo tempo que os olhos de ouro lhe brilhavam de raiva.

     —         Acusam-no de ter recebido dinheiro de um pobre diabo. Acusam-no de não ter prestado ao filho desse homem certos cuidados de que precisava. A criança morreu.

     —         É claro que nada disso é verdade — afirmou, convicto.

     —         É uma acusação completamente infundada.

   —         Está na cadeia?

     —         Esteve, mas só durante alguns dias. Mas não é isso que importa. Suspenderam-no de todas as funções e... Oh, meu amor... — Giulia refugiou-se nos braços do filho da mesma maneira que, quando era criança, procurava protecção nos da mãe.

     —         Vai correr tudo bem, mãe — consolou-a. — O Ermes é forte. É de first quality — tentou aligeirar a questão, enquanto acariciava a cabeleira farta da mãe, que agora estava calada, tranquilizada pelas palavras do rapaz. — Vais ver que acaba tudo em beleza.

     —         Espero bem. É forte, como tu dizes, mas a suspensão mata‑o. Longe do ambiente dele sente-se como um peixe fora de água.

     —         Gostas muito dele, não gostas?

     —         Gosto.

     —         Como de mim? — perguntou, desconfiado.

     —         São duas espécies diferentes de amor.

     —         Olha que eu posso ficar com ciúmes — brincou, mas não demasiado.

     —         Não tens nenhuma razão para isso — Giulia fez-lhe uma festa.

     —         E depois — replicou, satisfeito —, nós os dois já nos conhecemos há catorze anos. O Ermes é um amor recente.

     —         Ai isso é que não é — corrigiu ela. — Nisso estás completa-mente enganado. Eu tinha quinze anos quando o encontrei pela primeira vez.

     —         Nunca me tinhas contado isso — resmungou Giorgio, desorientado.

     —         Posso fazê-lo agora. Se quiseres — tentou aliciá-lo.

     —         A sério? — exultou, enroscando-se no sofá da sala de estar ao pé dela, com a atitude alegre de quem, desde criança, se preparava para escutar uma longa fábula daquela mina inesgotável de histórias que era a sua mãe.

    

     A quela valente constipação foi aceite como justificação válida para escapar à missa, que ela considerava aborrecidíssima e que ainda ninguém a conseguira fazer apreciar. O domingo era o dia das dores de cabeça, dos rituais formais, dos sermões insípidos, da saída em grupo da família de Blasco, dos cumprimentos no adro, das bisbilhotices sussurradas dentro e fora da igreja, da paragem na confeitaria onde o professor saboreava o inevitável camparino, enquanto Benny e Isabella tinham direito a um refrigerante de cápsula e ela a uma groselha. Carmen observava aquele cerimonial melancólico, que se concluía com uma caixinha de cinco pastéis que o chefe de família mandava preparar para mais tarde, em casa, no fim do almoço. Giulia preferia àquele ritual já gasto uma valente constipação, causada provavelmente por uma queda brusca da temperatura que tinha descido para valores outonais. Era Junho, mas o vento frio que transportava bátegas de chuva pesada não sabia disso.

     Giulia tinha o nariz vermelho, os olhos molhados e espirrava continuamente. Em contrapartida, ficaria sossegada durante algumas horas, senhora absoluta do silêncio daquela casa.

     Enfiou a mão entre a rede da cama e o colchão e agarrou no livro que ali tinha escondido na noite anterior, um romance proibido de Henry Miller, Trópico de Câncer. Tinha-lho emprestado uma amiga, e ela devorava-o às escondidas. Giulia fora sempre uma estudante pouco convicta, mas uma leitora apaixonada. Começou em criança, por instigação do avô e contra as proibições do pai, a ler Salgari, Verne, Raphael Sabatini, London e, para sobreviver ao tédio dos esquemas impostos pela liturgia familiar, reinventava as aventuras do Corsário Vermelho e criava a fantasia de ser uma nobre donzela capturada pelos piratas do Mar das Caraíbas; ou então juntava-se a um grupo de exploradores para ir à descoberta das minas do rei Salomão e almoçava à mesa do capitão Nemo a bordo do Nautilus. A seguir leu avidamente os livros que encontrou em casa: os grandes franceses, os grandes russos. Um ano atrás descobrira os americanos. Agora, Henry Miller fazia-a corar e surpreendia-a.

     Cobriu os ombros com um xaile e recomeçou a ler a partir do ponto em que tinha ficado na noite anterior. Estava perante uma situação particularmente escabrosa quando foi perturbada por um ruído. Vinha do jardim. Fechou o livro de repente e escondeu-o debaixo da almofada. Não estava só. Ao primeiro golpe seguiram--se outros, mais decididos e violentos. Abandonou o calor do leito e foi até à janela, afastou a cortina e viu um homem muito jovem que, com um machado pesado, deitava abaixo um pinheiro doente e irremediavelmente condenado à morte. Aquela decisão dolorosa tinha sido tomada pelo professor e agora a sentença estava a ser posta em prática. Por um instante, Giulia sentiu-se Lady Chatterley, mas logo a seguir prevaleceu um realismo mais sadio e perguntou-se quem poderia ser aquele louco que, em tronco nu, apesar do frio, desferia contra aquela pobre árvore golpes de cavaleiro antigo.

     Quando o jovem se virou para o lado onde ela estava, reconheceu-o. Era Ermes, o filho de uma mulher-a-dias que, de vez em quando, desde que as condições económicas da família de Blasco tinham melhorado, dava uma ajuda em casa. O rapaz tinha um físico extraordinário. A sua professora de História da Arte teria comparado aquela doçura viril com o Apoio de Praxíteles.

     A constipação que lhe fazia lacrimejar os olhos não lhe impedia avaliações de carácter estético. Estremeceu perante aquele sujeito estranho que, de tronco nu, se encarniçava contra um pobre pinheiro doente. Encerrou o assunto com um encolher de ombros e um prudente regresso à cama quente, sossegada pelo facto de não haver nenhum perigo à vista. Podia regressar tranquilamente à leitura. Recuperou o livro, abriu-o, aventurou-se por entre os caracteres do primeiro parágrafo e voltou a fechá-lo de repente. As lágrimas turvavam-lhe a visão, o nariz picava-lhe, a cabeça ressoava como um quarto vazio. Fechou os olhos e percebeu que o tórax nu do rapaz e aquele belo rosto de herói grego lhe tinham ficado impressos no espírito como numa película fotográfica. Voltou à janela para olhar para ele. A certeza de não ser vista acentuava-lhe o desejo. Reparou que tinha um lenço ao pescoço no momento em que o tirou para enxugar o suor que lhe descia copiosamente da testa.

     O jovem aparecia com frequência naquela casa desde há alguns dias e o professor referira-se frequentemente a ele enquanto estavam à mesa, confrontando a sua aplicação inteligente com a indesejável e obtusa indolência de Isabella.

     —         É filho de uma empregada, é certo — pontificou. — É o produto de uma família desequilibrada e miserável, mas sabe tanto grego e latim como eu, que ensino estas matérias. Enquanto tu, uma de Blasco, te arriscas a chumbar. Que vergonha! — Agora Giulia recordava em pormenor tudo aquilo que dizia respeito a Ermes como se, de repente, ele lhe tivesse entrado no coração e nos pensamentos.

     —         Se ele é assim tão bom, por que é que vem assistir às aulas? — rebateu com um tom polémico Isabella, que se preparava, de má vontade, para o exame de acesso à universidade.

     —         Porque quer ganhar uma bolsa de estudo. Porque quer ir para a universidade. Para compensar, trata da horta.

     A fungar e a espirrar com gosto, Giulia vestiu-se rapidamente, desceu à cozinha e apareceu à porta do jardim. Ermes lançava golpes potentes e Giulia viu-lhe os músculos que vibravam por baixo da pele brilhante. Ele estava de costas voltadas e ela teve que gritar para se fazer ouvir. Finalmente voltou-se, e os seus olhos azuis libertaram relâmpagos. Ou assim lhe pareceu, e ficou um instante a contemplar aquele rosto maravilhoso, de uma beleza ardente e grave.

     —         Precisas de alguma coisa? — perguntou, apoiando-se no cabo do machado que tinha espetado no chão.

     —         Perguntei-te se querias um café.

     —         Se calhar — exclamou, oferecendo-lhe um sorriso afável.

     —         Então entra — convidou, enquanto esticava a trança comprida num gesto que lhe era habitual.

     —         Chama-me quando estiver pronto — replicou, regressando à guerra contra a pobre árvore.

     —         Já está pronto! — gritou a rapariga, irritada com a firme segurança do rapaz.

     Ermes interrompeu o trabalho e enfiou uma camisola de algo-dão. Sentaram-se os dois à mesa da cozinha.

     —         O meu pai diz que tu tens vinte anos. É verdade? perguntou ela.

     Ele tomava o café devagar e com grande prazer e olhava para ela, mas era como se não a visse. Anuiu com um ar distraído. Percebia-se que para ele, naquele momento, a coisa mais importante era aquele café perfumado, negro, doce e muito quente.

     —         O meu pai diz que tu és muito bom aluno — continuou.

     —         Isso é bondade dele.

     —         Mas então, se és assim tão bom, por que é que só vais fazer agora o exame de acesso à universidade?

     —         Porque comecei a primária aos oito anos.

     Giulia sufocou um espirro no lenço e teve pena de não o poder libertar ruidosamente como era seu hábito.

     —         Porquê?

     —         Porquê, o quê?

     —         Por que é que foste para a escola com oito anos?

     —         Um simples esquecimento da minha mãe. E depois eu também não morria de vontade de estudar.

     Caterina, a mãe, procurava no vinho de péssima qualidade um antídoto contra uma existência envenenada pelo desespero e pela miséria, com um marido que entrava e saía da cadeia, onde cumpria penas por pequenos furtos e expedientes de pouco valor. Estava muitas vezes embriagada, e então

esquecia-se de ser uma mãe afectuosa, uma pessoa, um ser humano. Giulia sabia essas coisas, mas interessavam-lhe agora pela primeira vez.

     —         Por que é que te chamas Ermes? — continuou a interrogá-lo.

     —         Uma ideia do meu pai — respondeu ele. — Ermes era o mensageiro dos deuses — precisou —, mas a minha função é mais de cão de guarda. Acabou o recreio — acrescentou, enquanto apanhava com a colher o açúcar que tinha ficado no fundo da chávena e o saboreava como se fosse um rebuçado. — Obrigado — despediu-se, envolvendo-a naquele terno olhar azul.

     Ermes saiu para o jardim e Giulia seguiu-o. Estava convencida de que não existia no mundo rapaz mais bonito. Tinha-o debaixo de olho há já algum tempo, mas só agora ele se tinha revelado. Já não chovia.

     —         Por que é que a tua função é de cão de guarda? — martelou, a seguir a um espirro que lhe saiu do fundo da alma.

     —         Já tomaste alguma coisa?

     —         Não adianta. E depois, hoje é o terceiro dia. Amanhã estou boa. Anda lá, conta-me, por que é que a tua função é de cão de guarda?

     —         Foi-me atribuída pelo meu pai — respondeu Ermes, fazendo descer o machado até à base do tronco onde tinha já cavado uma fenda profunda. Deixou o machado enterrado na madeira, cuspiu nas mãos e esfregou-as energicamente uma na outra.

     —         Continua — insistiu, implacável.

     Os olhos combativos do jovem fixaram-se nos dela.

     —         Tens a certeza de que queres saber a história toda? — preparou-a.

     —         Eu gosto de histórias. Gosto de ouvir e de contar. E a do cão de guarda encheu-me de curiosidade.

     —         Tenho que tomar conta da minha mãe — explicou.

     —         Porquê?

     —         De cada vez que o meu pai era preso, ela acabava por engravidar. Teve seis filhos, de seis homens diferentes. — O sofrimento que se notava naqueles olhos claros desmentia o sorriso desencantado que se espalhava nos lábios macios e bem desenhados. Por que razão estaria a contar aqueles pormenores da sua vida logo a ela, à menina das tranças negras e dos olhos de veludo escuro?

     A límpida sinceridade de Ermes, em vez de a escandalizar, comoveu Giulia.

     —         Sou mesmo uma estúpida — envergonhou-se, assustada com a verdade que tinha arrancado com as suas perguntas infantis. — Quando abro esta boca só faço disparates.

     Ermes sorriu-lhe e absolveu-a com um ligeiro encolher de ombros.

     —         São coisas que toda a gente sabe aqui no bairro — disse —, coisas de que toda a gente fala, mas que toda a gente finge não saber. Sabem que a minha mãe bebe, e do resto também. Eu podia calar-te com uma mentira. Mas tu és demasiado séria. Não mereces mentiras. De qualquer maneira, gosto muito da minha mãe e também do meu pai, de quem me considero filho, para todos os efeitos. Ercole Corsini não foi para mim o pior dos pais, apesar de não descender de uma ilustre família aristocrata.

     —         Não falemos de descendência — disse Giulia alarmada, a pensar na origem verdadeira ou suposta dos de Blasco.

     —         Não ficaste escandalizada? — perguntou ele.

     —         E por que havia de ficar? O meu pai diz que és muito inteligente e que estás muito bem preparado — mudou de discurso.

     —         Olha, minha menina, eu tenho que acabar este trabalho. De-pois vou para casa estudar. Por que não esperas que eu faça o exame de acesso à universidade para continuarmos a conversa?

     —         Como diz o meu avô, não sei bem aquilo que quero, mas quero já. Em Julho não estou cá. Vou para Modena — explicou Giulia.

     Ermes fez uma coisa de que ela não estava à espera, mas que achou surpreendente. Enfiou o machado na árvore com um golpe vigoroso, segurou com as mãos fortes e quentes o rosto corado da jovem e, olhando-a intensamente, disse: — És uma criatura preciosa e rara, Giulia. Mesmo com o nariz vermelho e com esses pobres olhos inchados e pisados. És ingénua como uma menina e inteligente como uma mulher. E também és simpática — concluiu, beijando-a na ponta do nariz.

     Naquele momento Giulia pensou em Zaira, nos seus lábios tépidos de veludo, e foi percorrida por um arrepio que nem sequer aquela doce amiga tinha sabido dar-lhe. Agarrou os pulsos do rapaz, sentiu sob a palma das mãos a seda daquela penugem loira e apertou com força para que aquele momento mágico não lhe fugisse.

     —         Tu sabes perturbar uma mulher — disse, orgulhosa, a sorrir--lhe por entre as lágrimas que, desta vez, não eram provocadas apenas pela constipação.

     —         Eu não tenho tempo para raparigas, sobretudo se forem como tu.

     —         O que é que têm as raparigas como eu?

     —         Não deixam os rapazes como eu trabalhar como deve ser.

     —         Mais vale dizeres que não gostas de mim.

     —         Gosto de ti, apesar de, normalmente, seres muito mais bonita.

     —         Por que não demonstras? — provocou, fechando os olhos.

     Ermes inclinou-se sobre ela, apoiou os lábios nos lábios de Giulia, e humedeceu-os ligeiramente com a ponta da língua. Giulia susteve a respiração, derretida com tanta delicadeza. Aos quinze anos um homem tinha-a beijado, como nunca ninguém o fizera, como nem mesmo Zaira era capaz de fazer.

     —         Passaram milhões de vírus para o meu organismo. Dois dias de incubação e eu também vou ter a mesma constipação que tu. Chega-te como demonstração de quanto eu gosto de ti?

     —         És extraordinário, Ermes — confessou sem reserva. Tinha o nariz vermelho, os olhos inchados e cheios de lágrimas, a voz sumida, estava emocionada e maravilhosamente ridícula, mas nunca tinha sido tão feliz nem nunca se tinha sentido tão bonita.

     O rapaz virou-lhe as costas e regressou ao pinheiro doente para acabar com ele.

     —         Vai para casa, estás a apanhar frio — aconselhou.

     Giulia entrou em casa a correr e foi-se fechar no quarto. Precisava de estar sozinha para fantasiar sobre a primeira autêntica experiência de amor da sua vida. Pouco depois ouviu o ruído do pinheiro a cair.

    

     Ermes trabalhava todas as tardes, das cinco às oito, no talho da via Beato Angelico, onde lhe pagavam como se fosse um em-pregado qualificado porque, segundo o dono do talho, tinha umas mãos de fada. Ninguém, nem mesmo o patrão, era capaz de tratar a carne com tanta mestria. Nas suas mãos a faca transformava-se numa varinha de condão e o resultado era surpreendente. Eram sempre cortes para exposição.

     Preparava o ossobuco, a rabada, o cachaço, a alcatra, o pojadouro, a agulha da pá, o rosbife e os bifes de lombo de uma maneira impecável. As clientes disputavam-no porque era bonito e atendia bem, e acabavam por ir ao talho só ao fim da tarde, quando tinham a certeza de o encontrar.

     —         Olha lá, por que é que não deitas fora aqueles livros todos e vens trabalhar comigo? — propôs-lhe o dono do talho. Era um homem alto e magro, com cara de cavalo, olhos remelosos e um ridículo bigode à Charlot.

     —         Eu trabalho exactamente para poder pagar os livros. Não quero ser carniceiro.

     —         Então o que queres ser?

     —         Cirurgião.

     —         E agora, aqui, o que é que fazes? — surpreendeu-o o homem, revelando o aspecto irónico do seu carácter. — Fazes a mesma coisa do que um cirurgião. Com a vantagem de os teus pacientes não virem nunca a dizer mal de ti. Ouve o que eu te digo: tens uma profissão de ouro nessas mãos. Eu não tenho filhos. Um dia podias ficar tu com o negócio. Pensa só que maravilha de perspectiva!

     Pela idade, aquele homem podia até ser pai dele, mas o rosto excluía qualquer relação de sangue. E, no entanto, pensando bem, tornar-se proprietário de um dos talhos mais rentáveis do bairro seria uma meta realmente importante para ele, nascido e criado na miséria. O filho da Caterina, dono de um estabelecimento. Ermes sorriu.

     —         Vou pensar nisso — mentiu, para encerrar uma discussão que não lhe interessava.

     Depois daquele domingo de Junho, Giulia tornou-se uma frequentadora assídua do talho onde Ermes trabalhava. E depois de ali estar, deixava passar as clientes que tinham chegado depois dela para poder olhar para ele mais tempo, protegida por alguma sadia dona de casa. No momento em que a servia, tinha sempre um sorriso para ela. Uma piscadela de olho servia para lhe recordar o primeiro beijo, que o rapaz parecia não ter esquecido. Quando se encontravam na casa da via Tiepolo, Ermes, pelo contrário, parecia nem a ver, empenhado como estava na perspectiva dos exames que se aproximavam.

     Giulia não sabia dar um nome ao sentimento que nutria por ele, mas desejava aquele rapaz com toda a alma e, se pudesse formular um desejo, gostaria que ele voltasse a beijá-la como tinha feito naquele frio domingo de Junho.

    

     —         Então, minha menina, acorda! — Carmen tentou despertá--la quando a surpreendeu a admirar Ermes, que estava sentado no pequeno jardim por baixo das glicínias a traduzir para o pai Os Annaes de Tácito.

     —         O que foi? — perguntou Giulia, voltando-se de repente. Um intenso rubor queimava-lhe as faces.

     —         Realmente, é um bonito rapaz — afirmou Carmen, pondo--lhe afectuosamente uma mão no ombro. — Mas tenho a impressão de que está bem mais preocupado com outras coisas — acrescentou, surpreendendo-se numa inconsciente imitação do marido professor.

     — Talvez se eu cortasse o cabelo — observou, passando a mão pela trança negra e comprida naquele gesto gracioso que lhe era habitual. — Ou se pusesse bâton como a Isabella — continuou, esticando os lábios para a frente para imitar a irmã.

     —         Não me parece que adiantasse alguma coisa — replicou a mãe. — Aquele rapaz tem outras coisas na cabeça. E tu, minha menina, és muito nova. — Beijou-lhe o cabelo e olhou para longe, para um passado que tinha agora assumido os contornos de um sonho.

     —         É normal eu pensar sempre e só nele? — perguntou-lhe.

     —         Normal e justo. A tua idade é a do grande amor — sorriu com uma ponta de melancolia pelo seu amor perdido.

     —         Achas que estou apaixonada?

     —         Acho que sim. Mas tenho a certeza de que ele não esgotou a tua reserva de amor nesta primeira experiência. Ainda te vais apaixonar muitas outras vezes antes de encontrares o homem certo — prognosticou Carmen esperando que, em algum lugar, o homem certo para a filha existisse realmente. — Anda, vamos para cima — sugeriu, e empurrou-a docemente em direcção às escadas. — Tens de fazer a mala. Ou já te esqueceste de que amanhã vamos para casa do avô?

     —         Mas eu não posso voltar a vê-lo, se for para Modena — disse Giulia, parando no primeiro degrau como se estivesse numa encruzilhada. O seu rosto exprimia o mais completo desânimo.

     —         Voltas a vê-lo quando regressares — tentou convencê-la a mãe. — Não podes dizer: pára, mundo, que eu quero descer, só porque achas que perdeste a cabeça por uma pessoa que nem dá conta de que tu existes.

     —         Mas olha que eu fazia isso, mãe, se fosse possível — confessou, e refugiou-se nos braços dela. Carmen apertou-a contra si.

     —         Talvez eu não seja a pessoa mais indicada para te dar conselhos. E, para além disso, os jovens sabem errar muito bem sozinhos — concluiu. — Mas agora — acrescentou, tropeçando, desta vez conscientemente, noutro lugar comum — posso falar-te de mulher para mulher. Aquilo que te quero dizer é que nunca deves sacrificar nada por um homem: não vale a pena.

    

     Carmen anunciou que ia ficar apenas um dia em Modena e de nada valeu a insistência do avô, que queria que ela ali ficasse pelo menos uma semana. Ubaldo Milkovich parecia ter envelhecido durante o último ano, apesar de continuar cheio de vitalidade e de energia, sempre disponível física e mentalmente, pródigo em ofertas e desvelos. Carmen tinha lido na Gazzetta que o deputado Armando Zani se encontrava na cidade, sabia que as probabilidades de o encontrar eram remotas, mas existia uma possibilidade e ela não queria que um encontro casual pudesse reabrir uma ferida que nunca chegara a cicatrizar completamente.

    —         Só pergunto por que foi que trouxeste uma mala, se era para ficares só uma noite — censurou-a o avô na manhã seguinte à chegada delas.

     —         Sou precisa em casa — afirmou, à procura de um álibi.

     —         Um homem e uma mulher — rebateu, referindo-se a Benny e a Isabella —, e mais um professor — acrescentou com desprezo, excluindo deliberadamente da categoria das pessoas da família o marido da filha — precisam da mamã. Vê se me explicas direito.

     Carmen estava pronta para partir. Trazia um bonito vestido de seda, de grandes flores cor-de-rosa sobre um fundo escuro. O corpo justo e a saia que caía em pregas abundantes acentuavam a figura esguia, sublinhada por um cinto largo e umas sandálias de tacão fino. Os cabelos escuros e fartos, apanhados na nuca, deixavam a descoberto a linha harmoniosa do pescoço. Giulia olhou-a com admiração.

     —         Eu levo-te à estação — ofereceu-se a filha.

     —         Achas que eu não sei o caminho? — troçou Carmen.

     —         Realmente — replicou o avô, ácido. — Se soubesses, vinhas cá mais vezes. E, sobretudo, ficavas mais tempo. — Tinha acabado de comer uma omelete de cebola e bebeu o vinho que restava no copo, limpando depois a boca com as costas da mão. Aquela tinha sido a primeira refeição do dia.

     —         Papá, para que é que precisamos de discutir? — Ela sorriu, conciliadora, esperando que o pai não insistisse para ela ficar.

     Ubaldo levantou-se da mesa com aquele seu corpo sólido e resmungou: — Força, Giorgio. Hoje a tua mãe está com o fogo no rabo. Vamos lá embora.

     Da casa do avô até à estação era meia hora de caminho, seguindo pela via Emilia até depois da ponte da Pradella para depois virar à direita e seguir pela grande avenida que ladeava o jardim público. A depressão tinha-se afastado, o vento frio abrandara e a respiração quente do Verão acariciava a cidade.

     Foram de bicicleta. Giulia instalou-se na do avô, a mala foi amarrada ao cesto e Carmen montou a velha Bianchi de senhora que tinha sido da mãe e que agora era a preferida da filha. Atravessaram o terreiro, subiram uma rampa curta e chegaram à via Emilia. Quando entraram na cidade, os comerciantes começavam a levantar as grades das lojas.

     Pararam no semáforo da ponte da Pradella e foi ali que Giulia viu Armando Zani a atravessar a rua deserta.

     — Bom dia, senhor deputado — exclamou, agradavelmente surpreendida, com a sua voz aguda. — Voltamos a encontrar-nos este ano.

     O homem sorriu satisfeito com aquele encontro imprevisto, fez um sinal para cumprimentar Ubaldo e só então reconheceu Carmen na mulher que seguia a uma curta distância o avô e a neta.

     Armando Zani aproximou-se do pequeno grupo, olhou para Carmen como se olha para uma desconhecida, mas aos poucos, durante uns longuíssimos instantes, foram emergindo as recordações da guerra, no centro da qual se consumara uma labareda de amor.

     Giulia não sabia explicar aquele silêncio embaraçado, mas reparou que Armando Zani, em comparação com a mãe, que mesmo assim ela achava muito jovem, parecia um rapaz.

     —         Estás óptima — disse, olhando-a intensamente.

     Carmen rezou para que ele não lhe contasse as rugas e notou que o partigiano Gordon tinha perdido todos os vestígios do dialecto. Olhou para os pedais da bicicleta como se aquela atitude ingénua bastasse para esconder o rubor que lhe tingia as faces.

     —         E tu estás óptimo — respondeu. Era a primeira vez que se encontravam e falavam ao fim de dezasseis anos, desde um melancólico crepúsculo invernoso em que se tinham separado com promessas de amor eterno.

     Havia entre eles embaraço e tensão, um silêncio carregado de sentimentos não expressos, de palavras não ditas, de gestos reprimidos. Foi o avô quem reencontrou o sentido da realidade.

     —         Estou a ver que te casaste — disse, indicando a aliança que brilhava no dedo de Armando.

     Giulia lembrou-se da fotografia que a mãe conservava ciosa-mente numa velha caixa de chocolates na gaveta da cómoda e compreendeu o embaraço, a tensão e a dor de Carmen. Recordou um rapaz e uma rapariga felizes, sorridentes, com os cabelos despenteados pelo vento.

     —         Os anos passam — quase se justificou. — E então temos vontade de montar casa, de acabar com a vida errante. — Inclinou por sua vez o olhar para a ponta dos mocassins para esconder o seu próprio embaraço.

     —         Adeus, Gordon — disse Carmen, estendendo-lhe a mão.

     Ele conservou-a apertada na sua durante uns instantes, mas não passou por ali nenhuma corrente, nenhum frémito, só uma vibração tão ténue como a esperança de um recomeço. Um sonho impossível.

     —         Ainda tens aquela harmónica pequenina? — perguntou-lhe em voz baixa.

     —         Que pergunta — respondeu Carmen de um modo vago, deixando-o na dúvida. Depois quis ser explícita, sobretudo para o fazer sentir-se culpado. — Também tenho ainda uma fotografia.

     —         Uma fotografia? — reflectiu, absorto.

     Esquecera-se disso, mas tinham passado muitos anos, ele era outra pessoa e tinha mil e um compromissos, mil e uma coisas em que pensar. Só a juventude ficara inalterada.

     —         Não faz mal — disse ela, e abanou a cabeça. Libertou a mão, agarrou no guiador, deu um impulso com o pé e recomeçou a pedalar em direcção à estação, seguida a uma curta distância pelo pai e por Giulia, que se tinham despedido à pressa de Armando Zani.

    

     Na estação sentaram-se as duas juntas, Carmen e Giulia, num banco da sala de espera de segunda classe, enquanto o avô foi ao bar tomar um café e dar dois dedos de conversa com os carregadores, que eram seus amigos.

     Carmen parecia distraída e tinha um sorriso vago nos lábios; na realidade, tentava conter a onda de recordações sufocadas durante tanto tempo, a vergonha de ser traída por um rubor imprevisto, a humilhação de ter sido esquecida.

     —         Pensavas em Armando Zani quando me disseste para nunca sacrificar nada por um homem? — perguntou Giulia.

     Carmen encolheu os ombros e não respondeu. O lábio superior tremia-lhe de emoção e ela tinha medo, se falasse, de desatar num pranto.

     Giulia tinha percebido que entre ela e Armando tinha havido qualquer coisa de muito importante. Perguntou-se se a mãe teria sentido por ele aquilo que ela sentia por Ermes. Quem sabe se o partigiano Gordon a teria beijado como Ermes a tinha beijado a ela. Sentiu vergonha por causa daquele pensamento irreverente. Que disparate. Carmen, a mulher do professor Vittorio de Blasco, nunca se teria abandonado a semelhante devassidão.

     —         Armando Zani é teu pai — confessou Carmen, quase num sussurro. Engoliu como se estivesse entalada com um pedaço de comida amarga. Aquelas palavras tinham-lhe causado uma fadiga imensa.

     —         Meu pai — balbuciou Giulia, quase sem compreender o significado daquelas palavras.

   —         Podes dizer à vontade aquilo que pensas de mim — disse, autorizando-a a manifestar o que lhe ia na alma.

     —         Oh, mãe — abraçou-a com um afecto tenaz. — E ele, sabe?

     —         Não me parece — respondeu Carmen. — E gostava que nunca viesse a saber.

     A estas palavras essenciais, carregadas de significados profundos, sobrepôs-se o anúncio da chegada do comboio, que entrou na estação poucos minutos depois.

     —         Gosto muito de ti, mãe — disse Giulia, e abraçou-a antes de ela entrar na carruagem.

     Carmen agarrou na mala que o pai lhe estendia e desapareceu no corredor. Giulia e o avô esperaram em vão vê-la aparecer à janela. Quando o comboio retomou a marcha, Carmen estava a chorar na casa de banho da segunda classe.

    

     Passaram alguns dias durante os quais Giulia, a pensar na confissão da mãe, atravessou emoções e estados de alma muito diferentes.

     Até que, de repente, lhe pareceu sair como de uma névoa confusa e se deu conta de que, fosse como fosse, a partir daquele momento ia começar a perceber quem era, de onde vinha. Precisava de se habituar à nova realidade da sua vida, mas entretanto tinha uma base de partida, podia contar com um ponto fixo para reencontrar a sua nova identidade.

     Uma tarde, o velho e a rapariga seguiram pela via Emilia para leste. Giulia pedalava ligeira sentindo-se, pela primeira vez, nova-mente feliz.

     —         Vamos para casa? — perguntou.

     —         Não te apetece pedalar um bocado? — perguntou o avô, por sua vez.

     —         Sempre — afirmou Giulia.

     —         Então vira à direita — ordenou Ubaldo. — Vamos a casa dos marqueses Manodori Stampa.

     —         Fazer o quê?

     —         Querem-me entregar um setter inglês para treinar.

     Percorreram muitos quilómetros debaixo de sol ao longo da via Vignolese. Depois de Vaciglio entraram por um grande portão de ferro forjado e avançaram por uma avenida muito longa ladeada por choupos antigos no fim da qual, numa perspectiva quase mágica, se divisavam os amarelos e os laranjas da villa dos marqueses encastoada no verde.

   À medida que se aproximavam, as proporções do edifício iam aumentando e, quando chegaram ao terreiro em frente à casa, o avô desviou por um caminho que a contornava.

     —         Mas não era à casa grande que nós tínhamos que ir? — protestou Giulia.

     —         Nós temos que ir ao canil, que fica atrás das cavalariças — explicou o avô, pacientemente. Passaram ao lado de um jardim onde alguns empregados se ocupavam a manter sebes, canteiros e árvores numa geometria perfeita. Pairava no ar um delicado perfume de tília. Passaram a villa, contornando-a, e desembocaram na área das cavalariças, que percorreram a todo o comprimento até um muro coberto por um denso entrançado de roseiras. E assim chegaram a um pequeno espaço onde ficava o recinto dos cães.

     Um empregado mexia uma sopa de arroz e carne para os animais. Era um homem de meia idade, ligeiramente curvado pela artrite e pelo trabalho. Tinha olhos pequenos, de um esplêndido azul marinho, que faziam um efeito estranho naquela cara curtida pelo sol e pelo vento, negra da barba, com umas sobrancelhas fartas e orelhas de abano. Trazia um chapéu de feltro gasto bem enterrado na cabeça robusta que assentava sobre um pescoço forte e musculoso. O homem pousou rapidamente a marmita e foi ao encontro do avô, cumprimentando-o com uma cordialidade respeitosa.

     —         Vieste por causa do setter inglês? — perguntou.

     —         Sim — afirmou o avô, encostando a bicicleta. — Vim para mais uma recruta. — Os cães reconheceram-no e aproximaram-se a ganir e a abanar a cauda contra a rede metálica.

     —         E esta menina linda é a tua ajudante?

     —         É a minha neta. De Modena, pelo sangue. De Milão, por acaso. Chama-se Giorgio.

     —         Giorgio? — pasmou o guarda dos cães, enquanto ia ao encontro dela para a cumprimentar com o barrete na mão. — Muito prazer, menina — apresentou-se, com um ar cerimonioso e embaraçado.

     —         Chamo-me Giulia — tranquilizou-o, apertando aquela mão forte e calejada.

     —         Lieto' — repetiu o homem.

     —         Ele está contente por te conhecer — explicou o avô —, mas está a tentar dizer-te que o nome dele é Lieto; em boa verdade, e se pensarmos na cara que tem, devia ser triste. — Giulia riu-se com aquele jogo de palavras.

     —         A senhora marquesa é que tem o setter — avisou Lieto com um lampejo de ironia camponesa nos olhos azuis. — Disse para irem ter com ela — acrescentou, apontando para as cavalariças.

     Giulia encostou a bicicleta ao pé da do avô e caminharam os dois na direcção indicada.

     —         Ainda não te disse quem é a senhora marquesa — murmurou o avô como se estivesse à beira de lhe revelar um grande segredo.

     —         A marquesa sou eu — disse uma voz proveniente de uma box, uma voz lenta, sensual e ligeiramente rouca que Giulia conhecia bem.

     À porta, por baixo da cabeça bela e nobre de um cavalo de pêlo luzidio, apareceu Zaira, a doce Zaira da pele de veludo. Estava elegantíssima, vestida de amazona. Os cabelos negros com reflexos de seda cobriam-lhe os ombros. Estava esplêndida.

     —         Olá, Giulia — saudou-a com um sorriso quente enquanto ia ao encontro dela. Encostou o rosto ao dela, mas ao mexer-se os seus lábios de veludo afloraram os lábios de Giulia.

     Cresceste — notou Zaira.

     — E tu viraste marquesa — replicou Giulia que agora estava da altura dela e a olhava nos olhos para lhes procurar no fundo as dimensões da alma, ou uma mensagem de amor, ou um qualquer sentimento no qual se pudesse reconhecer.

     —         Mas não cresci nem um centímetro — brincou.

     —         Mas mudaste.

     Aquele golpe de teatro viera embaciar a severa consciência conquistada naqueles dias difíceis em que a mãe lhe permitira ler o livro secreto do seu passado. No olhar sensual de Zaira apenas identificava pequenas coisas concretas.

     —         Em que é que me achas diferente? — indagou, rodando sobre si própria.

     —         Por exemplo, mudaste de cheiro — surpreendeu-a.

     —         Não, aquilo que tu sentes é o perfume da riqueza — afirmou Zaira, erguendo uma mão em cujo anelar brilhava um valioso solitário e pousando-a entre a clavícula e o seio de Giulia. — Mas também aqui alguma coisa mudou. — Fechou a mão e dirigiu-lhe um sorriso malicioso.

     Giulia furtou-se instintivamente àquela grosseira tentativa de sedução que em tempos a capturara.

     —         Estás muito elegante — elogiou-a, para se fazer perdoar. O avô, entretanto, experimentava o cão no prado por detrás das cavalariças e fazia-o correr para avaliar a velocidade, a postura e o estilo.

     —         Tenho um guarda-roupa que nunca mais acaba — tentou

interessá-la. — Podes experimentar os meus vestidos mais bonitos.

     Giulia sentia-se pouco à-vontade e não sabia se era o local, a presença do avô, a nova versão de Zaira, o segredo que lhe fora há pouco confiado pela mãe ou a recordação de Ermes que lhe provocavam aquele efeito.

     —         Eu não sei usar vestidos bons — surpreendeu-se a afirmar, como se estivesse a brincar às senhoras.

     —         Bonita como és — elogiou Zaira, acariciando-a com o seu olhar carregado de desejo — podias ser manequim.

     —         Logo eu — corou.

     —         Já alguma vez viste a villa? — Mais do que uma pergunta, era um convite. — Merece, sabes? — acrescentou.

     —         Eu acho que temos de ir embora. — Giulia iludiu habilmente a pergunta insidiosa da amiga mais experiente. Alguma coisa tinha irremediavelmente mudado dentro e fora dela e não conseguia comunicar com a espontaneidade de outros tempos.

     —         Diz-me lá, não estás com ciúmes, pois não?

     —         Com ciúmes de quê?

     —         Com ciúmes por me ter casado. — A voz lenta e ligeiramente rouca da mulher divertia-se em tons baixíssimos e produzia o efeito de uma lufada de vento sobre a pele que estremecia com aquela carícia ligeira.

     —         Estou apenas surpreendida — confessou Giulia, que ainda não conhecia o ciúme.

     —         Vem comigo — ordenou, pegando-lhe na mão com determinação. — Vou raptar a sua neta por um momento — disse para o avô, que naquele momento regressava com o setter ofegante da corrida.

     Ubaldo Milkovich voltou-se para olhar aquelas duas criaturas estupendas: uma um pouco sombria e inquietante, a outra solar e cheia de surpresas.

     —         Mas tem que ser mesmo só um momento, marquesa — declarou com firmeza o velho, carregando com a sua voz trocista o título nobiliário.

     Percorreram uma série de salas e salões que, na opinião de Giulia, teriam merecido uma atenção reverente pela perfeição da decoração, a maravilha dos quadros, dos tapetes e dos móveis, enquanto que Zaira atravessava aqueles ambientes refinados com a suprema indiferença dos novos-ricos a quem tudo parece ser devido.

     —         Ora aqui está, isto é o meu reino — anunciou Zaira escancarando uma porta de dois batentes lacada num tom claro com acabamentos em dourado. Giulia observou um quarto de rara beleza: ao lado de peças valiosas do período neoclássico, sabiamente combinadas com móveis estilo império, reinava, sobre uma preciosa mesinha de época com aplicações de bronze dourado, o monumental Marelli.

     —         Que te parece, heim? — perguntou Zaira.

     —         Parece-me uma profanação — disse Giulia, olhando para aquele enorme aparelho de rádio.

     Zaira deixou-se cair num sofá forrado de brocado e desatou às gargalhadas.

     —         Tu és extraordinária, Giulia. A sério. Imagina que a minha sogra, quando viu aquele rádio, disse exactamente a mesma coisa. Uma profanação.

     Giulia olhou à volta como se se sentisse prisioneira de um encantamento. Mas que raio fazia ela ali, naquela espécie de manicómio? A história da Gata Borralheira e do Príncipe não se aplicava a Zaira. Havia por detrás da elegância e do luxo um elemento som-brio, a suspeita de uma aliança satânica, de um pacto sinistro.

     —         É só uma opinião — explicou Giulia.

     —         Tens classe. Como a Ludina. É uma grande chata, mas tem estilo para dar e vender. E tu és parecida com ela.

     —         Ludina — murmurou Giulia. — A tua sogra — precisou, como se duvidasse das suas próprias palavras, que evocavam uma aventura galante do avô da qual ouvira falar em voz baixa e em que nunca quisera acreditar.

     —         Conheces?

     —         Ludina Manodori Stampa? — repetiu, numa interrogativa, enquanto levava uma mão ao pescoço para ter a certeza de que o pingente em forma de coração, o seu talismã, estava bem escondido por baixo da gola da camisa.

     —         Exactamente. Onde a conheceste? — perguntou Zaira, curiosa.

     —         Ouvi falar dela. Como toda a gente, por estes lados. Nunca a vi. Juro — garantiu, levando a mão direita à altura do coração. Havia mais coincidências misteriosas naquela casa, naquele momento, do que em toda a sua vida: ela, Zaira, a relação ambígua entre as duas, o pingente, a marquesa e o avô eram as peças de um mesmo mosaico complexo que, no entanto, aparecia aos olhos da rapariga ofuscado pela recordação de Ermes.

     —         Aproxima-te de mim — convidou Zaira. — Sou a mesma de sempre.

     Giulia não se mexeu. Como poderia explicar-lhe que ela, pelo contrário, não era a mesma? Que se tinha apaixonado por um rapaz, por Ermes?

     —         Tu é que sim, minha pestinha, tu mudaste muito — murmurou Zaira, que começava a descobrir na beleza ardente e primaveril de Giulia modulações que já não lhe pertenciam, como se aquela jovem amiga, que iniciara nos prazeres subtis de um amor proibido, estivesse agora sintonizada em outro comprimento de onda.

     Dizia-lho o instinto, aquele impulso interior que tinha guiado os seus passos desde os níveis mais baixos da escala social até às altas esferas da aristocracia de sangue.

     —         Provavelmente, mudei mesmo — admitiu.

     Zaira pegou na grande trança de Giulia e acariciou-lhe a face.

     —         Estás apaixonada — afirmou.

     —         Estou apaixonada — confessou, olhando-a nos olhos.

     —         Mas quando ele te beija, vês girândolas que explodem em mil cores? — murmurou-lhe junto aos lábios.

     —         Da única vez que me beijou, vi a chama do sol — replicou, apesar de não ter a certeza de que Zaira pudesse compreender.

     A marquesa passou as pontas dos dedos ao longo do pescoço de Giulia e deixou-as escorregar sobre o seio, onde desenhou uma espiral que terminou no mamilo.

     —         Fala-me dele — pediu-lhe.

     —         Fala-me antes tu do teu marido — retorquiu Giulia, enquanto se afastava da amiga e se dirigia à janela que dava para o parque. Viu o avô aproximar-se da villa por um caminho de saibro ladeado de sebes de buxo. Vinha de bicicleta e trazia pela trela o setter dos marqueses.

     —         Um dia conto-te a minha história com ele.

     —         Por que não agora? — interrogou-a, cheia de curiosidade.

     —         Agora só te posso dizer uma coisa. Olha para os meus seios. Estão mais bonitos do que nunca, porque nunca nenhum homem lhes tocou — explicou, enquanto lhe pegava nas mãos e as pousava na seda cândida da blusa.

     Giulia separou-se dela rapidamente.

     —         Este jogo não me diverte — afirmou com convicção. — Já não me diverte. — Abriu a porta e atravessou a correr as salas antigas, seguida pelo som das sandálias no mosaico e no mármore dos pavimentos e do seu nome pronunciado pela amiga, que a julgava ofendida. Porém, ela apenas se sentia feliz. Porque tinha quinze anos e estava apaixonada.

     A Zaira de voz lenta e rouca, a Zaira de alma sombria e lábios de veludo, a Zaira que lhe acendia os sentidos como girândolas enlouquecidas, já não existia. O que existia na sua vida era a doçura viril de Ermes, uma aurora radiosa que nascia a Oriente.

    

     Giulia e o avô regressaram de bicicleta debaixo do sol. O setter inglês, jovem e vivo, depois daquele treino extenuante no prado tinha refreado a agressividade e corria ao lado do treinador para o qual, de vez em quando, levantava os olhos doces e bondosos com ar de quem pede compreensão para as forças que se estão a esgotar. Giulia pedalava sem falar. Tinha ficado séria, pensativa.

     —         O que é que se passa? — perguntou o velho.

     —         Nada — mentiu.

     —         É por causa da Zaira? — insistiu o avô, que intuía o mal--estar da rapariga.

     —         Também — admitiu ela.

     —         Falou-te do marido?

     —         Não. Parece que aquilo está tudo envolto num grande mistério.

     —         Só para ti é que é mistério, minha menina. Toda a gente sabe que o jovem Francesco é um pobre coitado. Doente daqui — disse, batendo na testa com a mão ocupada com a trela.

     —         Louco? — perguntou ela?

     —         Num certo sentido — hesitou o avô, abandonando a sua franqueza habitual.

     —         Não me podes dizer? — perguntou, curiosa, manifestando a sua própria desilusão.

     —         No sentido em que não é um homem — confessou com relutância, sem ousar olhá-la nos olhos. — Tem necessidade de certos jogos, digamos assim. Mas é impotente. E a tua amiga aceita-o como ele é, satisfazendo-o em tudo. As jóias, as riquezas e os títulos têm um preço. Um preço que nem toda a gente está disposta a pagar.

     —         Mas a Zaira está — afirmou Giulia tristemente, a pensar na amiga.

     —         Fazias-me um favor se não voltasses a visitá-la — disse o avô. — Eu já sabia que hoje de manhã, muito provavelmente, a iríamos encontrar. Queria que a visses para te poder explicar logo como é que as coisas funcionam.

     Giulia sentiu-se então culpada pelos jogos eróticos simultaneamente desejados e sentidos.

     —         Nunca mais a vou ver — prometeu.

     —         És uma menina bonita — elogiou. — Porque, sabes — acrescentou —, os ricos são pessoas esquisitas. Nunca se sabe como lidar com eles — explicou. — Servem-se dos outros, usam-nos e depois deitam-nos fora.

     —         A marquesa Ludina também? — sorriu Giulia.

     O velho continuou a pedalar como se não tivesse ouvido.

    

     O Ermes já cá não está — disse o dono do talho.

     — Já cá não está, como? — insistiu Giulia.

     Já não trabalha aqui. Foi-se embora — tinha o ar desolado e ofendido de um marido traído por uma mulher ingrata.

     Giulia sentiu-se morrer. Tinha passado o mês de julho inteiro e metade de Agosto a pensar nele, a contar os dias, e ele tinha desaparecido.

     —         Não deixou nenhum recado para mim? — perguntou, agarrada à última esperança.

     —         Não. Porquê, devia ter deixado?

     —         Devia-me ter deixado um livro — corou.

     —         Tente ir a casa dele — aconselhou-a, sublinhando mais uma vez o seu distanciamento definitivo do empregado de quem mais gostava.

     Giulia despediu-se e saiu precipitadamente do talho. Ficou triste, intratável, e fechou-se como um ouriço. Aos irmãos, o comportamento de Giulia não incomodava, o pai nem chegava a vê-la e Carmen, que sabia tudo, observava e calava-se. O que poderia ela fazer para aliviar aquele primeiro grande sofrimento de amor? O amor, pelo menos do seu ponto de vista, era como certas pequenas pensões familiares onde todo o luxo está concentrado na entrada. E a sua menina ainda não tinha penetrado na miséria dos quartos de móveis maltratados, de chão de linóleo pegajoso, de paredes cheias de manchas. Talvez fizesse mal em generalizar a sua experiência pessoal. Talvez o destino tivesse reservado para Giulia um futuro diferente. Entretanto, porém, a filha estava convencida de que era a mais infeliz das mulheres e só uma nova experiência sentimental poderia apagar aquela primeira desilusão.

     Carmen apenas podia registar a diferença entre Giulia e Isabella. Esta última, não se deixando envolver emocionalmente mais do que aquilo que bastava para tirar o maior prazer de um namoro banal, trazia pendurados vários rapazes sem se empenhar em definitivo, entregando-se àqueles que lhe agradavam e andando com os poucos que, segundo ela, tinham os requisitos necessários para se transformarem em prováveis maridos. Isabella era um concentrado de racionalidade e de precisão. Era uma daquelas mulheres que pedem tudo e nunca dão nada. Giulia era diferente, e a sua balança sentimental estaria sempre em déficit, porque aquilo que dava era sempre muito mais do que aquilo que recebia.

     Era Setembro. Faltavam quinze dias para a abertura das escolas. Mais para acalmar a ansiedade paterna do que por uma natural inclinação para os estudos, Giulia lia e comentava os primeiros cantos do Inferno. O professor defendia que aquele trabalho lhe ia ser útil mais tarde, ao longo do ano. Era certamente verdade, mas ela tinha a cabeça noutro lugar. Carmen, que tricotava por baixo da glicínia, ouvia-a e intervinha quando tinha a impressão de que Giulia estava com dificuldades. De tanto ouvir o marido, e por ter durante anos desempenhado as funções de substituta com Benny e Isabella, sobretudo nas disciplinas clássicas, tinha adquirido uma cultura de bom nível. E enquanto raciocinavam juntas sobre a dor desesperante que oprimia o coração do conde Ugolino, condenado a comer a cabeça do arcebispo Ruggieri, a milhões de quilómetros de distância daqueles hendecassílabos sublimes, perguntou: — Mãe, posso ir a casa dele?

     —         Não — respondeu Carmen, secamente. Sabia muito bem a quem ela se referia.

     —         E a Caterina?

     —         Se calhar nunca mais volta — tentou rematar.

     —         E como é que eu vou fazer para ter notícias do Ermes? — perguntou, pronunciando pela primeira vez o nome do rapaz.

     —         A Caterina foi internada num hospital por causa de uma doença grave no fígado — comunicou-lhe.

     —         Quando?

     —         No princípio de Agosto.

     —         E não soubeste nada do Ermes?

     —         Veio uma semana antes agradecer ao professor o bom resultado dos exames.

     —         Então viste-o! — exclamou. — Como é que ele estava? — perguntou, corando.

     —         Feliz. Tinha passado no exame de acesso à universidade com a melhor nota. O Corriere d'Informazione até lhe dedicou um artigo.

     —         E tudo isto se passou enquanto eu cá não estava — observou, com profunda mágoa. — Se não o vejo, enlouqueço. Deixa--me ir a casa dele com uma desculpa qualquer.

     —         Fica onde estás — replicou, inflexível. — Se ele tiver vontade de te ver, vem cá. E deixa de roer o desgraçado do lápis. Parece a cabeça do arcebispo Ruggieri.

     —         Podias lá ir tu saber notícias da mãe. Era sempre um gesto de caridade cristã — insistiu, massacrando aquilo que restava do seu orgulho.

     —         Seria uma hipocrisia vergonhosa — contrapôs Carmen. — A maneira mais segura de perder um homem é andar atrás dele. Nunca faças isso. Por nenhuma razão.

     —         Assim arrisco-me a não voltar a vê-lo — lamentou-se, em desespero.

     —         Isso, ninguém pode dizer.

     —         O que é, outra vez a história do destino?

     —         Também. E para além do mais és muito nova.

     —         Não sei o que fazer com a juventude, se é isto que ela tem para me oferecer — disse Giulia, e chorou desesperada.

     —         Vais conhecer outros rapazes. — Carmen tentou consolá-la, abrindo-lhe os braços. — Vais apaixonar-te outra vez.

     —         Nenhum é como ele. É único. Oh, mãe, eu não quero mais ninguém. — Saltavam-lhe dos olhos grandes lágrimas que rolavam pelas faces de seda.

     Passou um Outono tristíssimo, durante o qual definhou a olhos vistos e consumiu os discos das mais românticas canções de amor. Quando chegou o Inverno, o professor concordou com a mãe e com o avô em oferecer-lhe umas breves férias na neve. Giulia foi para San Vigilio di Lana d'Adige, perto de Merano. Ali conheceu um professor de ski, Karl Zuegg, e apaixonou-se por aquele homem sorridente e atlético. Quando acabaram as férias, Giulia voltou a chorar no ombro de Carmen e continuou com este hábito são e libertador até que encontrou Leo. A partir daí, já mulher, aprendeu a guardar para si os segredos e as lágrimas.

     Depois passaram os anos, foi mãe, conheceu as alegrias e as dores do casamento e deu-se conta de que, uma vez mais, tinha feito tudo errado. Conheceu outros homens, desejou muitos deles, amou alguns, mas de todas as vezes, num cantinho da memória, despontava o rosto esplêndido de Ermes, a sua força, o sorriso límpido, a extenuante doçura do primeiro beijo.

     Isto Giulia nunca o disse, nem mesmo à mãe.

     Ermes continuou a ser, durante vinte e cinco anos, a mais bela recordação da sua vida.

 

     Quando o interesse jornalístico sobre Ermes e a sua triste história começou a desvanecer, o escândalo do «infame cirurgião» ganhou novos contornos. A história de amor entre ele e Giulia foi lançada para a primeira página de todos os jornais, que publicaram pelo menos uma fotografia do casal entre todas as que foram tiradas nos locais mais impensáveis e em períodos anteriores à prisão.

     Giulia conseguiu contar os seus inimigos e admirou-se por serem tantos, mas o maior espanto foi o de se ver retratada ao lado de Ermes numa série de serviços fotográficos executados à traição: nas ruas de Milão, em Paris, numa pequena praia na Costa Smeralda, durante uma visita às escavações de Morgantina, num barco ao longo do Hudson e em frente ao Palácio de Buckingham durante o render da guarda. Havia fotografias de Giulia a passar o portão do prédio onde Ermes morava e fotografias de Ermes a entrar em casa de Giulia na via Tiepolo. A secreta história de amor do cirurgião processado e da escritora tornou-se o assunto mais seguido, resultando até no reaparecimento dos primeiros romances de Giulia nas montras e nas listas dos livros mais vendidos.

     — Ando a dizer-te isto desde que eras uma menina assim desta altura: fica longe dos homens. Ou te estragam as mamas, ou te estragam a vida — recordou-lhe a marquesa Zaira Manodori Stampa, que se deixou cair numa poltrona e cruzou as pernas esguias, compridas e perfeitas.

    

     Com aquela referência jocosa, Giulia sentiu uma dor lancinante no sítio exacto em que Ermes tinha identificado o mal e o tinha retirado. Instintivamente, levou uma mão ao seio e empalideceu.

     —         És muito monótona — murmurou, assustada. — Monótona e banal. — Como poderia impedir aquela desbragada de mencionar a parte do seu corpo que para ela se tinha tornado tabu se a amiga, felizmente, não sabia nada sobre a sua doença?

     —         Em tempos, divertia-te — respondeu, magoada.

     —         Esses tempos já não existem — tentou conciliar. Giulia estava sentada em frente à amiga por um dever de hospitalidade, mas sem entusiasmo e sem prazer.

     Zaira tinha-se apresentado em casa de Giulia com uma capa de raposa prateada, um ramo de rosas de um bonito vermelho escuro numa mão e uma caixa de bombons na outra.

     —         E, no entanto, apanhaste outra vez o comboio errado —

censurou-a, enquanto tentava desajeitadamente abrir a caixa de bombons e desistia de repente.

     —         O que é que tu sabes da minha vida? — perguntou, agressiva. — O que é que tu sabes sobre um homem e uma mulher juntos? — acrescentou Giulia, levantando a voz de um modo insólito. A ferida no seio doía-lhe cada vez mais. O fantasma da doença era uma presença alarmante.

     —         Eu também fiz parte da tua vida — recordou-lhe. — No cofre dos teus segredos também há um bocadinho da Zaira — acrescentou ela com uma voz lenta e grave.

     —         Quem não tiver pecados, que atire a primeira pedra — recitou Giulia, a olhar para a hóspede. No fundo, tinha alguma estima por aquela mulher de quarenta e sete anos, agressiva e inteligente, oportunista e fantasiosa, que tinha vencido até a mais difícil das partidas, a partida contra o tempo.

     Parecia ainda uma jovem. Nascida na miséria, criada na ignorância, era agora uma das estilistas mais conceituadas e o seu património, avaliado em milhões, fora por ela construído com inteligência, imaginação e instinto, enquanto que a fortuna financeira dos marqueses Manodori Stampa se tinha perdido em cães, cavalos, salas de jogo, festas e investimentos errados.

     —         O único homem com quem vivi — reflectiu —, ensinou-me muito pouco sobre a vida a dois. Não tinha capacidade para o fazer. Mas ainda que tivesse sido o melhor dos maridos, teria tido muito pouco a dizer a uma mulher que sempre recusou esse papel. De todas essas coisas de que tu falas, Giulia — continuou —, do afecto e da protecção que um homem te pode dar, eu não sei nada. Nunca ninguém me amou — murmurou, enquanto o seu olhar elanguescia. — Nunca ninguém me protegeu. Toda a gente me usou, assim como eu usei aqueles que pude. — Falava tão baixo que Giulia mal percebia as suas palavras. — Do amor só conheço os aspectos mais humilhantes e dolorosos: o mercenário e o da rejeição. Sim, amei alguém que tive através do engano, alguém que, quando descobriu o jogo e o amor, não quis mais saber de mim — confessou, olhando-a intensamente. Giulia viu brilhar uma lágrima, mas Zaira apressou-se a neutralizá-la com um lenço antes que lhe derretesse a maquilhagem que tinha nas pestanas.

     —         Desculpa, Zaira. Eu não sabia — balbuciou Giulia, confusa.

     —         Estava a falar de ti, imbecil — disse a marquesa, pondo a mesma agressividade no tom de voz. — Mas não penses muito nisso. Provavelmente amei-te porque nunca te pude ter de verdade.

     Giulia percebeu que ela estava a sofrer.

     —         Desculpa, de qualquer maneira — repetiu.

     —         Não faz mal — riu-se. E imediatamente voltou a explodir a Zaira de sempre, irreverente e zombeteira, com uma voz lenta e rouca e um olhar guloso. — Mas que bom que é armar escândalo!

     —         A sério? — interveio Giulia, que descobriu que estava distraída e que não estava a prestar atenção nenhuma às palavras da amiga. Sentia, pelo contrário, uma inveja irrefreável por aquela saúde descaradamente ostentada, e sobretudo pelo seu seio íntegro.

     —         E que escândalo — prosseguiu com ênfase. — É que não é assim uma coisa pequenina — sublinhou, medindo entre o indicador e o polegar da mão direita a exígua dimensão dos seus pecados. — Sim, querida Giulia,

deixa-me dizer-te: nisto eu sempre te admirei. És daquelas águas tranquilas que, no fundo, no fundo, se agitam, rodopiam e finalmente explodem em cascatas imponentes de onde nasce o arco-íris.

     Na torrente tumultuosa dos seus pensamentos e das suas angústias, Giulia via, pelo contrário, nascer uma fita negra onde despontavam todos os momentos negativos da sua vida. Depois ficou melhor ao pensar que o desespero pode trazer consigo a esperança e agradeceu mentalmente à amiga, que a ajudava a organizar os aspectos positivos daquela situação.

     —         És uma força da natureza, tu — sorriu.

     —         Porquê, tu não és? Aos quarenta anos explodiste como fogo de artifício e semeaste admiração e inveja. Ficaste com o homem que sempre amaste. E que homem! Quem to diz é uma mulher que vê os machos com uma suprema distância. Todos os jornais falam de vocês. As vossas imagens estão à frente dos olhos de todos. Estás a viver uma aventura de fazer inveja à melhor protagonista dos teus romances. Deixa o tribunal retirar aquelas acusações em que ninguém acredita e está feito. Para ter a publicidade que tu produziste gratuitamente, nós temos que gastar uns milhares.

     Era a versão optimista de uma das suas desgraças, aquela que dizia respeito a Ermes, vista com os olhos de quem está habituado a medir o seu próprio sucesso através das imagens transmitidas pela comunicação social. As luzes fulgurantes da publicidade, segundo Zaira, apagavam tudo o que havia de mal, fazendo sobressair o aspecto positivo da vida.

   Giulia recordou o telefonema da sua agente, uma mulher muito meiga, inteligente, fascinante, de uma beleza inesquecível. Tinha-lhe telefonado pouco antes para lhe anunciar que até os seus primeiros romances tinham regressado às bancas, às montras e, o que era mais importante, tinham saltado para os primeiros lugares nas listas de livros mais vendidos.

     O aspecto positivo do escândalo era, pois, inegável, mas se o preço a pagar era a carreira e a posição de Ermes, para ela aquilo continuava de qualquer maneira a ser um péssimo negócio.

     —         Usa o optimismo como detergente e retira da cara esse véu de tristeza — aconselhou Zaira à despedida. — Isto foi tudo uma maquinação organizada contra o Ermes. Uma brincadeira maldosa de algum colega invejoso. Ele vai sair limpo disto tudo. Acredita no meu instinto — garantiu-lhe com um abraço.

     Foi um abraço amigável, solidário, sem malícia, que exprimia sinceramente o seu estado de alma e a convicção sobre a inocência de Ermes.

 

     Ermes estava impedido de qualquer actividade profissional e os dias pareciam nunca mais acabar. Os testemunhos de solidariedade e de estima que lhe chegavam de todo o mundo não eram suficientes para mitigar a humilhação daquela inactividade forçada, para a qual tinha sido desterrado à espera do julgamento. Com Giulia representava o papel do homem forte, tranquilo e confiante na justiça porque ela tinha necessidade de certezas. Na realidade, estava transtornado por causa daquela inacção e da consciência precisa de que o escândalo em que tinha sido envolvido era o resultado de uma maquinação diabólica preparada com toda a precisão, que não podia depender só do desespero de um pai e do desejo de vingança de um colega ofendido.

     Nem Gianni Macchi nem o pai do pequeno Camillo podiam ter levado a sua história de amor a todos os jornais. Pensou em Teodolinda, a filha. Espantou-se pelo facto de, até àquele momento, ela ainda não ter dado sinais de vida. Resolveu ligar-lhe. Tea tinha direito a uma explicação, até porque Marta não era a pessoa mais indicada para a ajudar a reconstruir um quadro objectivo dos factos.

     Naquele momento, Ersilia passou-lhe uma chamada. Era Elena Diomsi.

     —         Alguma novidade? — perguntou Ermes.

     —         Boas notícias, acho eu — começou a advogada.

     —         Vamos lá saber — replicou, tranquilizado pelo tom alegre de Elena.

     —         Ouve bem o que eu te vou dizer — prosseguiu. — Aquele que tentou desacreditar-te deu mais um passo.

     —         Em que sentido?

     —         No sentido em que nos forneceu uma maneira de o identificarmos.

     Ermes tinha debaixo dos olhos uma página de jornal onde se podia ler: «O alegre cirurgião nas margens do Sena».

     Junto ao título, a fotografia do pequeno Camillo guarnecida de um longo discurso que, com habilidade hipócrita, dava a entender que o responsável da sua morte era o «oncologista desprezível» apanhado com as mãos no mealheiro da criança condenada. Seguia--se uma sequência fotográfica dele com Giulia em Paris.

     —         Então faz-me o favor de me dizeres o nome — replicou sem se preocupar em esconder a sua irritação.

     —         Já soube de onde vêm as fotografias que os jornais têm publicado ao longo destes dias.

     —         Não lances os ingredientes para depois preparares um golpe de teatro. Qual é a agência?

     —         É a Capitol. Distribuiu inteligentemente estes serviços pelos jornais mais importantes e deixou as migalhas para os mais pequenos.

     —         Mas as fotografias, quem foi que as tirou? Quem foi que se deu ao trabalho de gastar uma fortuna para violar a nossa privacidade um pouco por todo o mundo?

     Elena ficou nervosa.

     —         Demos um passo importante, mas é apenas o primeiro. Eu entendo a tua ânsia em esclarecer tudo e depressa, mas temos de dar tempo ao tempo — afirmou. — Não é que eu estivesse à espera de uma condecoração — acrescentou, agastada —, mas um modesto reconhecimento pelo trabalho desenvolvido ter-me-ia dado alguma satisfação.

     —         Obrigado, Elena — disse Ermes. — E peço-te desculpa. Mas se nem entre nós podemos ser sinceros, eu vou acabar no manicómio — confessou. — A partir de agora a mentira e o autocontrolo tornaram-se instrumentos de vida.

     —         Eu é que te peço desculpa a ti. A questão é que demos real-mente um grande passo em frente. A Capitol é uma das agências fotográficas mais importantes. Agora precisamos de saber de quem receberam aquele material. É uma operação delicada, mas não impossível. Confia em mim.

     —         Se não confiasse em ti não seria sincero ao ponto de te revelar a minha vulnerabilidade.

     Ersilia apareceu à porta da sala de estar.

     —         Chegou o brigadeiro Caruso — sussurrou.

     —         Mande-o entrar — disse, cobrindo o bocal com a mão. — Liga-me a qualquer hora, se tiveres novidades — continuou a falar com Elena. — Mas acho que tu tens razão: nada é impossível — concluiu, despedindo-se.

     Carmine Caruso entrou na sala movendo com alguma hesitação os seus grandes pés: a única coisa que nele traía a profissão de polícia. Era um siciliano de olhos azuis e cabelos loiros, esguio e ligeiramente curvado, que tinha o aspecto agradável de um funcionário à moda antiga. Avançava timidamente, como um camponês de antigamente. Os seus olhos, exercitados por anos de frequência de casas de inquiridos ricos, mais vezes com razão do que sem ela, captaram todos os preciosos detalhes daquele ambiente luminoso, e teria sido capaz de classificar e avaliar tapetes, quadros, móveis e objectos antigos e modernos.

     Ermes foi ao encontro dele, esperando que o homem lhe trouxesse a solução do mistério.

     —         De todas as informações que nos interessam, professor, trago uma. Uma só, mas segura e muito interessante — começou, passando por cima dos preliminares com o espírito concreto dos investigadores.

     Tinha pedido a Ermes que o deixasse fazer as suas investigações uma vez que acreditava firmemente na inocência dele.

     —         Sente-se — sugeriu.

     Sentaram-se num sofá amplo.

     —         É só um momento — explicou. — Tenho que retomar o serviço daqui a meia hora. E não tenho muito tempo — acrescentou, estendendo-lhe um envelope grande que extraiu de uma pasta negra. — Aqui pode encontrar tudo aquilo que descobri até agora. Estou a tornar-me responsável por um crime. Se alguém descobre, ainda acabo num mar de complicações. — Sorriu. — E depois seríamos dois a precisar de salvação.

   Ermes tomou o peso ao envelope volumoso.

     —         Só nós é que sabemos — tranquilizou-o. E era a pura verdade. Não falara daquilo nem sequer a Giulia.

     —         Foi seguido, professor. Por todo o lado — informou. — O senhor e a senhora Giulia de Blasco foram alvo dos fotógrafos da Detective International, que tem sede nas principais cidades de todo o mundo. É um trabalho que dura há quatro anos. Aqui — e indicou o envelope — está a história toda. Letra e música.

     —         Quatro anos — repetiu Ermes, e teve uma sensação de náusea. — E o cliente? — perguntou.

     —         Logo à noite vou estar com um amigo que me deve mais do que um favor. Julgo que ele vai ser capaz de me dizer o nome da pessoa ou das pessoas que montaram esta embrulhada.

     —         Portanto, a denúncia e esta encenação são dois elementos do mesmo esquema — pensou em voz alta.

     —         Logo à noite, professor, vamos saber exactamente em que ponto é que estão as coisas.

     Qualquer pergunta suplementar seria inútil. Só lhe restava esperar. Despediu-se de Caruso e ligou para a casa de Marta, na esperança de aí encontrar Tea. Um criado disse-lhe que as senhoras tinham partido para Saint Moritz. Então procurou Tea no Palace. O recepcionista reconheceu-o.

     —         A menina ainda não chegou — comunicou-lhe. — Só está a senhora. Quer que lhe passe a chamada?

     —         Está prevista a chegada da minha filha? — perguntou, ignorando a pergunta.

     —         Não lhe sei dizer, senhor professor.

     —         Se por acaso ela chegar, diga-lhe, mas só a ela — sublinhou — que preciso de lhe falar.

     Piergildo Grandi, o jovem jornalista à caça de notícias bombásticas entre os nomes mais sonantes da alta sociedade, deslizou de lado junto a Marta no leito sumptuoso da suite do Palace. Estava nu, suado, humilhado e vulnerável. Encontrava-se na pior das situações em que um homem se pode encontrar. Não fora capaz. Tinha-se aplicado durante meia hora, recorrendo aos truques mais ignóbeis, mas as fantasias eróticas inutilmente evocadas não conseguiram acender as suas virtudes generativas, que não chegaram a sair do estado de deplorável abandono em que agora se encontravam. O rosto tinha a mesma desoladora tristeza do seu instrumento viril.

     A aventura com Marta, que prometera ser excitante por todas as implicações que parecia comportar, tinha perdido todos os atractivos no momento em que o jovem se encontrou perante aquele esplêndido corpo nu. Um físico perfeito, mas atravessado por longas cicatrizes, sobretudo na base dos seios.

     Piergildo Grandi, jornalista empreendedor, tinha pavor a cicatrizes. Aquele tecido brilhante e saliente lembrava-lhe uma serpente horrorosa, viscosa e nojenta, à espera, pronta para saltar e morder.

     Tinha descoberto em si próprio aquele medo irracional e sem motivo durante a primeira experiência sexual. Ele tinha dezoito anos, ela trinta e seis. Era uma mulher atraente e dava aulas de Edu-cação Física na escola onde o rapaz se preparava para fazer o exame de acesso à universidade. Quando ela se despiu, ele viu sobre aquele corpo perfeito, do umbigo até ao púbis, a serpente maléfica e repugnante resultado de uma cesariana. Foi um desastre. O seu adorno viril decretou uma desistência e teve que adiar por dois anos o baptismo sexual.

     Com Marta tentou vencer aquela fobia, mas a ambição masculina não produziu os resultados esperados porque as cicatrizes condenaram à mortificação o jovem amante. Acariciou-lhe um seio e sentiu-se perdido. Por baixo do veludo daquela pele sentiu a dureza plástica de uma prótese de silicone. Era o fim. Gostaria de se meter num buraco, pela vergonha de se encontrar numa situação tão humilhante com aquela mulher autoritária e doce que prometia um paraíso de delícias.

     — Desculpa — murmurou.

     Marta saltou com agilidade para fora da cama, enfiou um roupão, tirou um cigarro de uma cigarreira de prata, acendeu-o e foi para a sala, instalando-se em frente ao televisor. Estava furiosa.

     Nas últimas horas tinha acontecido de tudo. Aquele idiota do Gianni tivera o péssimo gosto de se matar enquanto estava de férias com ela, a polícia suíça interrogara-a para além do aceitável e, quando esperava remediar as coisas com uma noitada decente, o brilhante jornalista avariara como um mecanismo em mau estado. Esticou-se em direcção ao quarto, esperando escutar os sinais de uma retirada estratégica, mas apenas captou o desolado silêncio nocturno.

     Marta escancarou a porta.

     —         Levanta esse rabo da minha cama, impotente — sibilou, e voltou para onde estava.

     Piergildo Grandi surgiu pouco depois à entrada, completamente vestido.

     —         Já te pedi desculpa — disse com uma voz magoada. — Não é preciso insultares-me.

     —         Só te chamei pelo nome. Ou tens mais algum? Será que és gay? Não. Os homossexuais têm virilidade para dar e vender. — Sentia um prazer indescritível em insultá-lo.

     —         Talvez eu devesse ter tomado em consideração a tua venerável idade — começou ele a reagir. — Mas talvez não seja sequer esse o problema. São as mamas de plástico. Os sinais estratificados de restauros pacientes. Quantos anos tens? Sessenta? Ou será que são mais? — Tinham chegado ao confronto directo, ao insulto, à obscenidade.

     —         Impotente e asqueroso — injuriou.

     —         Não passas de uma velha nojenta que se quer passar por jovem.

     —         Nunca ninguém me insultou desta maneira. — Estava congestionada e o seu olhar celestial estava injectado de sangue e destilava ódio.

     — Já era altura de alguém o fazer.

     Marta arranhou-lhe o rosto como uma pantera enraivecida, deixando-lhe na face esquerda quatro sulcos ensanguentados. O homem empurrou-a violentamente e atirou-a ao chão. Um tapete macio atenuou providencialmente a queda. Ela levantou-se, apoia-da no braço direito.

     —         Se sabes fazer outra coisa, começa a procurar emprego, por-que a tua carreira como jornalista acaba aqui — sentenciou. Piergildo Grandi, inexplicavelmente, à vista do sangue que ia limpando com um lenço, recuperara uma extraordinária tranquilidade. Voltou atrás, aproximou-se dela e apoiou-lhe um pé no ombro, impedindo-a de se levantar. O jovem jornalista, que poucas horas antes a olhava com um ar humilde e submisso, dedicou-lhe um sorriso cruel. — Já sei que tens muito poder, mas não vais fazer nada contra mim — ameaçou-a. — Se mexeres um dedo, eu conto à polícia que te apropriaste de uma mensagem de Gianni Macchi. Praticaste um crime. Chama-se ocultação de provas. Sabes isso, não sabes? Sei de cor o conteúdo daquele bilhete. As palavras do Dr. Macchi eram perfeitamente legíveis mesmo na folha que estava por baixo daquela que tu arrancaste.

     —         Sacana! — gritou, mas ele não a ouviu. Tinha saído e fechado a porta atrás de si.

     Marta não arranjou logo forças para se pôr em pé. Sentia-se subitamente velha e cansada. Era verdade que se tinha metido com um homem cheio de complexos, um fraco, um impotente, mas também era verdade que todos os seus esforços para continuar amarrada à juventude tinham naufragado perante a face inexpressiva daquele escriba de meia tigela. Começou a chorar em silêncio. Era a primeira vez que chorava com tanta vontade. O que seria aquela desesperada necessidade de lágrimas? Aquele sentir-se subitamente vazia e sem confiança? Estava velha, reconstruída, sapientemente restaurada. E tivera de o ouvir da boca daquele impotente que a violentara com uma verdade que tentava inutilmente esconder.

     —         Estás velha — gritou para si própria. — Estás velha e metes nojo!

     Foi assim que Tea a viu ao abrir a porta da sala.

     Marta levantou-se com agilidade e passou uma mão pelos cabelos descompostos.

     —         Por que fugiste da clínica? — perguntou.

     —         É uma longa história.

     —         Quem foi que te ajudou a chegar até aqui?

     —         Quero ir ter com o meu pai.

    

     O tenente Marcello Belgrano, dos condes di Sele, estava empoleirado num banco alto do bar com um cotovelo apoiado no balcão, num equilíbrio precário oportunamente mascarado por uma atitude elegante e desenvolta. Só os olhos experientes do barman, que sabia reconhecer todos os tipos de bebedeira, da mais civilizada à mais agressiva, tinham identificado naquele jovem aristocrata, que se entretinha com o seu copo de whisky, o perdedor por vocação que navega em direcção à catástrofe num estado perene de honrosa embriaguez.

     Tinha-se cruzado com ele no hall, meia hora antes, e tinha-o visto acompanhar a jovem Teodolinda Corsini até ao ascensor. De-pois, do mesmo modo que a agulha da bússola se orienta em direcção ao pólo magnético, assim o jovem de perfil simpático se dirigiu ao bar, atraído por um chamamento irresistível. Ali o encontrou de novo no momento em que substituiu o colega. No olhar embaciado daquele jovem, o barman leu os sinais de uma derrota recente, talvez a última de uma longa série: e seria capaz de apostar as gorjetas do dia contra um copo de água fresca em como o mal-estar do cliente estava directamente relacionado com a jovem Corsini e a mãe, Marta, que chegara alguns dias antes com um companheiro muito novo que se tinha suicidado, arriscando o rebentar de um escândalo em plena estação invernal. O homem tinha ganho cabelos brancos atrás do balcão dos bares de meia Europa; os seus olhos ainda vivos e cintilantes de sabedoria tinham visto de tudo, e o robusto nariz aquilino era capaz de farejar uma complicação a um quilómetro de distância. Tinha recolhido confidências de aventureiros, de vigaristas sem dinheiro, de cortesãos prontos para tudo, de poderosos em desgraça, de milionários generosos e sádicos, magnânimos e mesquinhos, todos os homens, em suma, que se tinham ajoelhado no seu confessionário, que o tinham adulado ou lisonjeado em função da taxa alcoólica presente no sangue, esquecendo-se de tudo no dia seguinte, com a cabeça fresca.

     Por vezes enganava-se na classificação, porque se pode com frequência confundir um milionário com um vigarista, mas tinha a certeza de que conseguia reconhecer exactamente os dois grupos fundamentais: os perdedores e os vencedores. E os perdedores tinham o olhar embaciado, uma indiferença absoluta, mas nem sempre tinham o estilo do cliente que, naquele momento, lhe estendia o copo vazio.

     O barman voltou a enchê-lo. Era a quarta vez em meia hora.

     O homem esticou o braço esquerdo para descobrir o pulso e olhar para o relógio.

     —         Havia aqui um Patek-Philippe — confessou o bêbedo, ao sentir-se observado.

     —         São onze horas, senhor — disse o barman, com um ar muito digno.

     —         E está bom tempo — replicou Marcello com um sorriso. — E Teodolinda mais bonita do que nunca — acrescentou ao levantar-se para cumprimentar Tea, que entrava naquele momento.

     —         Meu amor, vou regressar a Milão com a minha mãe — comunicou, olhando-o com severidade.

     Marcello inclinou-se e beijou-lhe a mão.

     —         Como quiseres, querida — condescendeu, sem discutir a de-cisão dela.

     —         Precisas de alguma coisa? — perguntou Teodolinda, preocupada.

     —         De saber que estás tranquila — respondeu. Nunca lhe diria que para chegar a Locarno, para a tirar da clínica e para a levar à mãe em Saint Moritz tinha empenhado o Patek-Philippe que dificilmente poderia resgatar.

     —         O conselho que me deste foi precioso — disse a rapariga, reconhecida. — Recuperei a liberdade e o passaporte.

     —         Isso é uma boa notícia — exultou Marcello.

     —         E tu? — perguntou ela, mais por dever de cortesia do que por interesse genuíno.

     Marcello Belgrano apercebeu-se de que aquilo era uma despedida.

     —         Resta-me o prazer de ter estado ao teu lado quando precisaste de mim — murmurou com a sua voz grave.

     Tea beijou-o na face e despediu-se dele com a indiferença dos jovens ricos, inconstantes como o céu primaveril.

     —         Quando voltares a Milão, aparece — disse-lhe, sem paixão e sem entusiasmo.

     O aborto, a fuga e as humilhações sofridas pertenciam já a um passado para esquecer.

     —         Eu apareço — repetiu sem expressão.

     Teodolinda afastou-se e desapareceu para lá da porta do bar.

     O tenente Marcello Belgrano dos condes di Sele viu afastar-se e desaparecer a perspectiva de um casamento rico que lhe permitiria voltar a dar lustro ao seu brasão ferrugento. A sua pior aluna, Teodolinda, nunca aprenderia a cavalgar como deve ser. Ele continuaria no Exército, já que era a única maneira de manter um cavalo, e continuaria a viver com a lembrança dela.

Tinha-a engravidado propositadamente, mas agora amava-a verdadeiramente.

     Olhou para a porta pela qual Teodolinda tinha desaparecido e depois, por um hábito antigo, repetiu o gesto de quem olha para o relógio e encontra o pulso nu.

     —         Havia aqui um Patek-Philippe — repetiu ao barman. — Uma velha e preciosa recordação de família. E talvez nunca mais volte ao seu lugar — acrescentou com uma nostalgia sorridente.

     —         Nunca se sabe, senhor — tentou consolá-lo.

     —         Estou reduzido à mendicidade — confessou candidamente.

     —         São coisas que acontecem. Mas a maior parte das vezes acabam por passar.

     —         Você é um homem sábio e paciente — congratulou-se,

estendendo-lhe a última nota de cem francos.

     —         E o senhor é o cliente mais simpático do dia — retribuiu o barman. — Por isso, se me permite — continuou, recusando o dinheiro —, é oferta da casa.

    

     O Ferrari vermelho agarrava o asfalto ao longo das curvas que conduziam ao vale, uma paisagem coberta de neve como um pão de açúcar. Marta tinha recuperado firmeza e confiança, e conduzia aquele automóvel rapidíssimo com grande habilidade. Tinha pressa em pôr o maior número de quilómetros possível entre ela e um lugar que tinha servido de cenário a uma derrota desagradável. Para ela, Saint Moritz era um parêntesis fechado.

     Teodolinda observava o perfil delicado da mãe e sentiu que a detestava profundamente, apesar de, antes de deixar o Palace, ter estabelecido com ela uma espécie de armistício.

     —         Ainda não me disseste como conseguiste escapar da clínica e chegar até aqui — perguntou Marta quando estavam ainda na sala do apartamento.

     —         Grande proeza, não foi? — replicou a rapariga com cinismo. — E ainda por cima sem roupa, sem dinheiro e sem documentos. Vê lá se adivinhas. — Estava pálida, de uma palidez cansada e doente que a tornava mais bonita porque tornava os seus traços mais finos.

     —         Foi um homem que te ajudou, é evidente. Aquele debochado do Marcello.

     —         Foi fantástico. Generoso e fantástico. — Enquanto mantinha aquele confronto difícil com a mãe, Tea continuou a olhar em volta e a tentar explicar toda aquela desordem. — Está lá em baixo à minha espera. E eu tenho muita vontade de casar com ele.

     —         Sabes muito bem que eu posso arruiná-lo.

     —         Eu sei. Mas daqui a dois anos vou poder dispor plenamente das minhas propriedades. Dois anos passam depressa. O pai ajuda--me, tenho a certeza. E ainda que ele se opusesse, qualquer pessoa estaria disposta a

ajudar-me sabendo a fortuna que me toca. Se eu tivesse reflectido com calma há alguns dias atrás, não teria certamente concordado com o aborto. Mas se me casar posso ter outros filhos.

     —         Falas comigo e olhas para mim como se eu fosse a tua pior inimiga.

     —         Mãe, deixa lá as definições.

     —         Sou a tua mãe. E tenho o dever de pensar no teu futuro.

     —         Treta.

   —         Acreditas realmente que aquele teu nobre vigarista te ama? — Estava cansada, marcada por umas olheiras profundas, desgrenhada, tinha uma grande vontade de abandonar aquela discussão e que fossem todos para o diabo. Depois bebeu um grande gole de whisky e acendeu um cigarro, reencontrando assim a postura necessária.

     —         O Marcello ama-me — afirmou Tea.

     —         O Marcello ama-me — imitou-a. — E estamos em pleno melodrama. Mas tu abortaste e ele não mexeu um dedo. Por que não protestou? Por que não fez uma grande cena? Por que não te levou embora antes, no seu cavalo branco? Conhecia as minhas intenções. E não mexeu um dedo. Nem um telefonema para um débil, aristocrático protesto.

     —         Ele não sabia de nada. — Perante a perfídia da mãe começava a perder a calma.

     —         Ele sabia de tudo, mas não fez nada. Mas se me disseres que, perante o facto consumado, ele enlouqueceu de dor, arrancou os cabelos, ameaçou uma carnificina, então eu engulo todas as acusações e digo-te: casa com ele. Tens a minha bênção. Aquele bêbedo ama-te realmente. — Marta fechou atrás de si a porta da casa de banho, deixando a filha com aquela suspeita. Sentia uma grande necessidade de um duche muito quente que desse a ilusão de lhe retirar a ansiedade.

     Tea abraçou uma anónima almofada de hotel e recordou que tinha deitado fora o seu querido urso de peluche na noite em que o pai abandonou definitivamente a casa onde viviam. Depois ruminou nas palavras da mãe. Efectivamente, Marcello, perante aquele filho perdido, não tinha ficado desesperado, não tinha protestado. Limitara-se a sorrir e a dizer que não se tinha passado nada. Marta tinha razão, nem sequer ele a amava. E ela era uma rapariga rejeitada pela mãe, abandonada pelo pai, seduzida por conveniência, com uma necessidade desesperada de afecto e de protecção. À maneira dele, Marcello Belgrano gostava dela, mas mais nada. Nem sequer tinha chorado com ela a perda de uma vida.

     Quando Marta voltou a aparecer, completamente vestida e perfeitamente maquilhada, Teodolinda disse-lhe:

     —         Leva-me para casa. Quero ver o meu pai. Acabou tudo com o Marcello Belgrano.

     A mãe travou oportunamente o sorriso triunfante ao registar a vitória conseguida. Haveria tempo para os festejos.

     Agora, enquanto viajavam para Milão, Tea observou a mãe e

perguntou-se como poderia ela ter mantido o mais absoluto silêncio sobre o escândalo e sobre a longa série de reportagens fotográficas publicadas em todos os jornais. Gostaria de lhe poder ler os pensamentos, mas o rosto de Marta era impenetrável. E, no entanto, tinha a certeza de que ela estava a viver o momento mais difícil da sua vida. Gianni Macchi tinha-se suicidado no quarto ao lado do dela e, por muito ingénua que fosse, tinha suficiente bom senso para perceber que aquela história não ia acabar ali. O pai alimentava as crónicas de um escândalo vergonhoso e animava as reportagens cor-de-rosa dos jornais, mas a mãe, bisbilhoteira e maledicente, tinha-se entrincheirado por trás de uma respeitável reserva.

     —         O pai encontrou a mulher da vida dele — começou, irónica, e sentiu ciúme e ódio em relação a Giulia.

     —         Nós não temos nada com isso — replicou.

     —         Levaste a arte de mentir a níveis impensáveis — comentou.

     —         As performances eróticas do teu pai não nos dizem respeito.

     —         E a acusação de peculato? A vergonha da prisão? Tu conhece-lo bem. E sabes que nunca seria capaz de se sujar com semelhante culpa.

     —         O tribunal é que vai decidir. Mas nós estamos fora dessa tempestade.

     —         Tu estás fora. Eu sou filha dele.

     —         E eu ainda sou a senhora Corsini, se quisermos fazer valer as relações de parentesco. Nenhuma sentença definitiva estabeleceu ainda o nosso divórcio.

     —         E, apesar da surpresa, reages com uma dignidade muito elegante — provocou Tea. — A televisão e os jornais mostram o teu marido algemado, e tu ficas tão impassível como a rainha de Inglaterra. Eu entendo. E entendo que por detrás desse aparente desinteresse se esconde uma pérfida satisfação. Mas como sou mulher e conheço as dentadas do ciúme, recuso-me a acreditar que a tua indiferença perante a história de amor do pai com aquela escritora seja sincera. A não ser que... — deixou-a curiosa.

     —         A não ser que? — solicitou Marta.

     —         A não ser que tu já soubesses a verdade há muito tempo — surpreendeu-a. — E que já te tivesses habituado à ideia.

     —         És louca — sibilou, perdendo subitamente o seu ar imperturbável.

     —         Pode ser que sim — sorriu. — Mas também pode ser que não — continuou, pensativa. Era estranho que só naquele momento se lembrasse de uma conversa telefónica da mãe com um interlocutor anónimo: «Foram para o Ritz. Sempre com Giulia de Blasco», foi o comentário de Marta. Tinham passado meses ou anos? Em todo o caso, era um episódio tão longínquo como o do urso rejeitado. Reconstituindo os factos, apercebeu-se de que quem estava «sempre com Giulia de Blasco» era o pai.

     —         Tu já sabias há muito tempo — afirmou em voz alta, puxando pelos fios do seu raciocínio.

     —         Sabia o quê? — replicou Marta.

     —         Do pai e da escritora — acusou-a. — Por isso é que estavas tão tranquila. E com certeza sabes muitas coisas mais.

     —         Não te importas de te meter nos teus assuntos? — sugeriu, tentando ser simpática.

     —         Só pergunto onde é que vais buscar energias para combater em todas as frentes — provocou Tea. — De onde vem toda essa maldade? Todo esse ódio? Tu queres vê-lo na lama, ao meu pai. Queres vê-lo morto — insistiu.

     Marta empalideceu.

     —         Mete-te na tua vida! — sibilou, esquecendo-se da condução por um momento. O Ferrari chegou a poucos centímetros de um carro que vinha em sentido contrário. Marta guinou para a direita para evitar o choque e recuperou o controlo do automóvel, seguida de uma buzinadela furiosa.

     —         É isso que eu estou a fazer — disse Tea.

     —         És uma galdéria.

     —         Estou a notar um salto qualitativo na linguagem.

     —         O que é que tencionas dizer ao teu pai? — perguntou Marta, que se sentia encostada à parede.

     —         Que o andas a espiar há algum tempo. Desde que ele te deixou, para sermos mais exactos — afirmou Teodolinda. Tinha outras suspeitas na cabeça e ia referi-las a Ermes.

    

     Carmine Caruso estacionou o seu 127 azul no largo do cemitério de Lambrate, a uma certa distância do Panda vermelho que tinha seguido desde a periferia sul da cidade. Observou o casal já não muito jovem que saiu do Panda e, quando os viu entrar o portão do cemitério, saiu por sua vez do carro para se dirigir àquela infinita cidade dos mortos dominada pelo clamor frenético das escavadoras, dos carretos e dos martelos pneumáticos. O tradicional silêncio dos cemitérios estava a ser violado pelo barulho ensurdecedor dos meios mecânicos destinados a abrir novos túmulos.

     Caruso observou o homem e a mulher. Ela era pequena, robusta, mais perto dos cinquenta do que dos quarenta, e levava na mão um cestinho de palha entrançada do qual despontava um ramo denso de pequenas margaridas brancas. Ele, um pouco mais alto, levava um saco de plástico de supermercado. Vestiam pesados casacos cinzentos quase do mesmo tom. Se o agente da polícia tivesse que os descrever num relatório, tê-los-ia definido como pessoas comuns. Mas não tinha nenhuma acta para redigir sobre aquela investigação.

     Entrou no gabinete do guarda e pediu para fazer um telefonema.

     — Estou no cemitério, professor — disse. — Venha ter comigo logo que possa. Sim, já chegaram. Pontuais, como sempre. Siga o percurso que lhe tracei naquela espécie de mapa. Não tem que enganar.

     O homem limpava a campa com um pano de lã. A mulher tocava com dedos leves os contornos da fotografia de um menino de grandes olhos sonhadores, bonito e melancólico. Caruso parou a poucos metros do casal e conseguiu ler no mármore branco um nome marcado em letras douradas: «Camillo Leva, de nove anos.» O cesto das margaridas estava ao pé da lápide.

     — Já viste o frio que está hoje, meu filho? — disse a mãe. Tinha uma luz afável no olhar e uma expressão serena. — Imagina que no largo Loreto o termómetro marca cinco graus negativos — acrescentou.

     O homem olhava-a com uma tristeza resignada. Acabava de recolher os frascos de cera e os panos que tinha utilizado para limpar a campa.

     —         Hoje a tua professora veio visitar-nos — continuou a mulher. — Esteve a explicar na aula a multiplicação com decimais. Tenho a certeza de que tu havias de perceber aquilo num instante, inteligente como és.

     —         Por hoje já chega — disse o homem, que lhe pegou na mão e a convidou a segui-lo. — Com o frio que está ainda apanhas alguma coisa.

     —         Olha, estás a ouvir o teu pai? — continuou ela. — É sempre o mesmo. Sempre aflito. Sempre a fazer as coisas a correr. Ainda bem que saíste a mim. És mais calmo. Mais ponderado.

     O homem levantou-se, mordeu o lábio inferior e abanou a cabeça.

     —         Anda-te embora, Laura — pediu-lhe.

     —         Vamos ficar aqui mais um bocadinho — pediu. — Estamos bem.

     —         Ele não te ouve, Laura. Não te pode ouvir — tentou convencê-la o marido.

     Como resposta fez-lhe um gesto que era um convite para não interromper a conversa. Porque ela vivia com o filho e o filho com ela. E falavam os dois, e entendiam-se. Assim seria até ao dia da Ressurreição. O homem rendeu-se e afastou-se.

     Aquele foi o momento que Carmine Caruso escolheu para avançar. Era um risco que tinha calculado durante muito tempo. Agora ou nunca.

     —         É o senhor Leva, não é verdade? — perguntou.

     O homem assentiu.

     —         O que deseja? — replicou, carrancudo.

     —         Sou Carmine Caruso.

     —         Aquele que me persegue com telefonemas — reagiu com raiva, em voz baixa mas com uma extrema veemência — Vá-se embora. Tudo aquilo que eu tinha para dizer já disse aos polícias e ao juiz.

     —         Eu venho como amigo, não como polícia. Amigo do professor Corsini e seu amigo — precisou Caruso num tom cortês, oferecendo-lhe um sorriso conciliador.

     —         Se é amigo do Corsini não pode ser meu amigo — sibilou. — Veja o que fez o seu querido amigo — acrescentou, indicando a campa de Camillo. — Tenha ao menos respeito por eles. Por ele. E pela dor daquela pobre mulher. Não vê que está de cabeça perdi-da? Vá-se embora! — intimou o pai, levantando a voz.

     A mulher continuava o seu diálogo comovente e louco com o filho. Aquilo que se passava à volta dela não a afectava.

     —         O senhor é um cavalheiro, senhor Leva — disse Caruso. — Aquilo que eu espero de si, aqui mesmo, em frente à campa do seu filho e à dor da sua mulher, é um esclarecimento leal. Por que quis acusar o professor Corsini?

     —         Porque é um assassino e um ladrão. Matou o meu filho e roubou o meu dinheiro.

     —         O professor Corsini ajuda os doentes a curarem-se. Curou a minha mulher e teria curado o seu filho, se houvesse uma possibilidade.

     —         Vá-se embora!

     —         Para além do mais, o senhor não lhe deu um cêntimo. Por-que não lho devia. Nem ele pediu nunca dinheiro — acusou-o com severidade.

     O homem agarrou-o pela gola do sobretudo.

     —         Vá-se embora — repetiu. — Ou então eu chamo a polícia. Percebeu?

     Havia uma dor que transcendia os gestos e as palavras naquele confronto brutal.

     —         O seu filho gostava muito do professor Corsini. Acha que ele ia aprovar o seu comportamento? — insistiu Caruso, impiedoso.

     —         Aquele homem matou-mo — acusou, olhando-o nos olhos. — Matou e tem que pagar.

     A obstinada insistência do pai, que estava certamente de boa fé, fez vacilar as certezas do investigador. E se Leva tivesse razão?

     Corsini tratara e curara a sua mulher, mas se apesar das aparências e dos episódios positivos que o absolviam fosse culpado? Se em certos momentos tivesse prevalecido nele uma personalidade perversa? Estes pensamentos não tinham ainda tomado uma forma definitiva, mas invadiam timidamente o espírito de Caruso.

     Tinha começado a chover, uma chuva fina, gelada e pungente que penetrava até aos ossos. O operário da escavadora que trabalhava ali perto desligou o motor. Chamou um colega que trabalhava junto dele e afastaram-se os dois numa Vespa.

     —         É ele o culpado — insistiu Leva com lágrimas nos olhos. — Recusou-se a operá-lo.

     A mulher, que até àquele momento tinha continuado agachada junto à campa, levantou-se. Viu ao fundo do caminho avançar um homem, alto e direito, com as mãos enfiadas nos bolsos do sobretudo de pêlo de camelo e a gola levantada. À medida que se aproximava, o vulto e o rosto revelavam-lhe uma pessoa conhecida. E quando ele estava já a uma curta distância, reconheceu-o e estendeu-lhe os braços.

     —         Professor Corsini — exclamou. Sorria. Ermes recordou que Camillo tinha aquele mesmo sorriso.

     —         Como está? — perguntou-lhe com interesse.

     A mulher voltou-se para a campa.

     —         Estás a ver que o senhor professor te veio visitar? — exclamou, virada para a fotografia do filho. — Sempre gostou de ti, o senhor professor, sabias? São grandes amigos, os dois.

     Ermes e Caruso olharam-se a tentar compreender, enquanto Leva procurava convencer a mulher a segui-lo.

     —         Vamos embora — disse.

     —         Não, está aqui o professor. Já viu, senhor professor, como ele está bem instalado? — perguntou, com um sorriso.

     —         Então a senhora sabe que o professor Corsini gostava muito do Camillo — interveio Caruso.

     —         Mas é claro que sei. Até se levantou a meio da noite para tratar dele. E, acima de tudo, tirou-lhe sempre as dores. Aquilo foi uma grande maldição.

     —         O seu marido, no entanto, não pensa da mesma maneira — observou Ermes.

     —         É preciso paciência, senhor professor. Entenda — quis desculpá-lo —, ele tinha de implicar com alguém — tentou minimizar.

     —         O professor foi denunciado pelo seu marido e preso por isso — interveio Caruso.

     —         Denunciado? Preso? E por que razão?

     —         Porque o seu marido o considera responsável pela morte do filho — continuou Caruso.

     —         O professor Corsini, responsável?

     —         Não só disso, mas também de ter recebido dinheiro para autorizar o internamento de Camillo na clínica.

     A mulher olhou para o marido sem antipatia, com um ar de censura benévola.

     —         Estás a ver o que arranjaste com a tua mania de quereres castigar o professor? Aquela gente meteu-te coisas erradas na cabeça. És pior do que uma criança — continuou ela. — E depois dizes-me que eu é que me comporto de uma maneira insensata.

     —         Que gente? — perguntou Caruso rapidamente.

     A mulher nem o ouviu.

     —         Não quer que eu fale com o Camillo — explicou a Ermes.

     —         Mas eu falo e ele ouve-me. Porque está aqui comigo. E depois irrita-se consigo só porque alguém lhe mete na cabeça que aquilo que aconteceu ao nosso filho foi por culpa sua. Já para não falar nessa história do dinheiro, que não tem pés nem cabeça. Estás a ver a confusão que armaste? — disse, aproximando-se do marido e acariciando-lhe a cabeça. — E eu que não sabia de nada.

     Ermes pôs-lhe o braço à volta dos ombros e começou a conduzi-la para fora do cemitério. O marido e Caruso seguiram-nos.

     —         E a senhora não sabe o bem que me fez com as suas palavras

     —         agradeceu Ermes.

     —         Porque está a ver, senhor professor — continuou ela, seguindo o discurso que tinha em mente —, o Camillo nasceu tarde, quando já não esperávamos ter filhos. Foi um dom de Deus. Foi o Céu que nos deu o menino, e o Céu que o levou. No outro hospital, alguém convenceu o meu marido de que se o senhor lhe tivesse amputado logo a perna, o Camillo se tinha salvo. Eu deixava-o falar, aquele pobre homem, porque embirrar com alguém, mesmo que fosse a pessoa errada, servia-lhe de escape. Mas nunca imaginei que fosse meter polícias e tribunal. E a prisão. Acha que é capaz de lhe perdoar?

     —         Se eu lhe pedisse, minha senhora, estaria disposta a dizer ao juiz aquilo que me disse agora a mim? — perguntou Ermes.

     —         Eu estou. Mas o meu marido, vai ser condenado?

     —         Provavelmente — replicou Ermes com sinceridade. — Mas certamente que os juizes vão ser benevolentes. E talvez não vá parar à prisão, como me aconteceu a mim. Vão compreender a dor de um pai, como eu a compreendi — concluiu Ermes.

    

     Giulia estava pronta para sair do bunker do centro de radiações. — É apenas uma questão de paciência e de método — explicou-lhe o professor Mauro Pieroni. — Não há nada de mágico, nem de misterioso. Temos os apetrechos mais modernos, é verdade, mas também tentamos acompanhar os doentes. Tentamos fazer com que eles entendam que o controlo é fundamental. O importante é que os tumores sejam atacados no limite da operação cirúrgica e da intervenção radiológica.

     Giulia sentia um grande consolo nas palavras serenas daquele homem de cabelos brancos. Definia-o para si própria como «o guarda do bunker», o único, depois de Ermes, que era capaz de lhe incutir confiança, o único que a ajudava a quebrar a espiral de de-pressão pela qual se arriscava a deixar-se apanhar de cada vez que se dirigia àquele lugar, uma espécie de abrigo anti-atómico para a radioterapia.

     Mauro Pieroni tinha-lhe explicado as motivações da sua escolha profissional.

     — Durante a guerra — contou-lhe —, eu estava na Rússia com o regimento de cavalaria. Enquanto cavalgava na estepe, o meu cavalo perdeu uma ferradura. Um rapaz ferrador do terceiro esquadrão parou para me socorrer. Era um siciliano que me dava pelos ombros. Chamava-se Connestabile. A sua maior aspiração era tornar-se mestre ferrador — sorriu, prosseguindo com as suas recordações.

     —         O Connestabile pousou a bolsa, ferrou-me o cavalo e eu alcancei o regimento. Se ele tivesse continuado em frente, provavelmente eu não estava aqui a contar esta história.

     —         E depois? — pediu Giulia.

     —         Depois chega, minha querida Giulia. — Tratava-a afectuosa-mente por tu, como a uma jovem amiga. — De outro modo, ainda vou parar a um dos teus romances. Em qualquer caso, naquele dia —       continuou —, comecei a pensar que, para ajudar as pessoas a prosseguir na estepe, é preciso parar e socorrê-las.

     Gostava daquele trabalho e tinha muito orgulho nos moderníssimos aparelhos de que o seu centro dispunha. A ponta de diamante era uma Microtron, um aparelho que produzia fotões e electrões.

     Giulia entendeu o mecanismo da máquina quando Mauro lhe deu o seguinte exemplo:

     —         Faz de conta que os electrões são pedras. Se atirares uma pedra directamente com o punho, imprimes-lhe uma certa força. Se a meteres numa funda como o fez o pequeno David, assume uma tal potência que é capaz de abater o gigante Golias. O nosso gigante mau é a doença. E não é por acaso que os alemães chamam aos aceleradores circulares «fundas de electrões». Nós vamos curar-te, Giulia — garantiu-lhe com o seu sorriso pacato.

     Quando saiu da zona protegida, veio uma enfermeira ter com ela.

     —         Senhora Giulia de Blasco — chamou-a, com um tom de voz que a deixou subitamente alarmada.

     —         O que foi?

     —         Chamam-na ao telefone — informou a rapariga, que a conhecia bem e que era uma leitora apaixonada dos seus romances.

     —         Ligaram-me para aqui? — perguntou Giulia, espantada.

     —         Ainda bem que a encontraram. Parece que é urgente. É de sua casa.

     Giulia empalideceu e sentiu o coração começar a bater louca-mente. O sangue pulsou-lhe nas têmporas. «Giorgio», pensou. E entrou em pânico, enquanto corria em direcção ao telefone que a enfermeira lhe indicara. Naquela corrida dramática, ansiosa, deu-se conta de que o filho era a única coisa que realmente contava para ela. Viu-o desfeito por um automóvel, esmagado por um camião, violentado por um bruto, trespassado pela bala de um ladrão ou de um polícia, dilacerado por uma bomba.

     Mal se aguentava nas pernas, o coração estava prestes a explodir, tinha a cabeça em chamas. Conseguiu chegar ao telefone, num pequeno gabinete do serviço. O auscultador estava pousado sobre o tampo brilhante de uma secretária de fórmica branca, aparentemente inócuo.

     —         Estou — disse, agoniada.

     —         Desculpe, mas quem fala? — perguntou uma mulher do outro lado do fio.

     —         Sou a Giulia — respondeu, esforçando-se por parecer calma.

     —         É mesmo a senhora? — perguntou a voz serena de Ambra. — Mas o que foi que lhe aconteceu?

     —         O Giorgio... onde é que ele está? — perguntou Giulia, a tropeçar nas palavras. — O que foi que lhe aconteceu?

     —         Calma — disse Ambra —, o seu filho está na escola. Está óptimo. Não foi por causa dele que liguei — continuou a mulher, tranquilamente.

     Giulia recuperou o fôlego, o coração acalmou, o sangue voltou a circular de um modo menos tumultuoso e sentiu-se invadir por um profundo cansaço. Sentou-se num canto da secretária e tentou controlar a ansiedade.

     —         O que foi, Ambra? — perguntou. Giorgio estava salvo, mas de qualquer maneira devia tratar-se de uma coisa séria se aquela amiga fiel a procurava na clínica, sublinhando, mesmo com a enfermeira, a urgência da chamada.

     —         Ligou a governanta do Dr. Ermes — informou-a. — Queria saber se o professor estava connosco. Saiu a correr depois de um telefonema. Agora há alguém, do hospital, a procurá-lo com urgência. Não sabe onde é que ele pode estar?

     —         Referes-te ao hospital onde eu estou?

     —         Por isso é que telefonei.

     —         Não faço ideia de onde possa estar. — O que poderiam querer dele com tanta urgência? Estava para ser julgado, suspenso de qualquer actividade. — De qualquer maneira, obrigada, Ambra. Vou tentar saber alguma coisa.

     A enfermeira que lhe tinha anunciado o telefonema estava à porta do gabinete. Giulia olhou-a, perplexa.

     —         Anda alguém à procura do professor Corsini? — perguntou.

     A rapariga não sabia de nada. Giulia conhecia o caminho para chegar ao serviço de cirurgia, onde encontraria certamente a chave daquele pequeno mistério, mas não sabia se devia entrar num serviço onde toda a gente a conhecia: como paciente e como amante do chefe suspenso. Não lhe apetecia mostrar-se. E, para além disso, que sentido fazia tentar saber uma coisa que talvez nem lhe dissesse respeito?

     Entraria em contacto com Ermes e com os colegas dele assim que chegasse a casa. Ou assim que ele desse sinais de vida.

     —         Posso telefonar? — perguntou à enfermeira.

     Ligou a Elena Dionisi.

     —         A senhora doutora foi encontrar-se com o vice-procurador - comunicou-lhe a secretária. — O professor Corsini estava com ela.

     —         Muito obrigada.

     —         Já sabe, com certeza, que o homem que o acusava retirou a queixa?

     Não, não sabia até àquele momento, e a revelação provocou-lhe um riso libertador depois de horas e dias de tensão. Riu primeiro baixinho, depois com mais força e finalmente às gargalhadas. A enfermeira olhou para ela, preocupada. Bizarrias de artista, pensou. Giulia continuou a rir enquanto atravessava o grande hall cheio de pacientes, enfermeiros e médicos que olhavam aquela senhora tão elegante e tão feliz.

     Quando passou em frente à cabina transparente da entrada, o porteiro, que a conhecia bem, chamou-a.

     —         Minha senhora — disse-lhe, — andam à procura do senhor professor no serviço de urgência de cirurgia. Andam à procura dele por todo o lado.

      Giulia estava demasiado contente para interpretar a voz alarmada do homem. O filho estava na escola, Ermes tinha ido falar com o vice-procurador porque o homem que o acusava tinha retirado a queixa, Mauro Pieroni tinha-a tranquilizado a propósito do grande inimigo morto a tiros de funda pela sua máquina anti-cancro.

     —         Não sei mesmo onde possa estar — confessou com uma ligeireza sorridente. — Mas o que é que há de tão urgente?

     —         Um acidente de automóvel — anunciou o homem. — A filha do senhor professor está em estado muito grave.

    

     Teodolinda sentia à sua volta uma animação frenética cuja natureza não podia nem queria identificar. Estava protegida por uma escuridão suave e não queria saber nada daquilo que se passava à sua volta. Só lhe interessava recuperar o ursinho de peluche. Onde estaria ele? A única recordação nítida era o ursinho a esvoaçar como uma folha no espaço aberto do rectângulo da janela com a noite ao fundo.

     Da janela do terceiro andar do corso Venezia, olhava para o passeio e não via nada. Era de noite, mas o ursinho branco devia, em qualquer caso, sobressair no cinzento escuro do asfalto, se ali estivesse.

     E se não tivesse sido ela a deitá-lo pela janela fora, mas tivesse ele decidido ir-se embora, como o pai? O pai, quando partiu, bateu a porta de casa com uma tal veemência que os vidros da cristaleira, na sala de estar, tilintaram.

     Agora Tea parece lembrar-se. Há um perfume intenso de aloendro e sopra do mar uma brisa salobra, muito doce. Da villa encastoada em verde vê-se, muito colorida e risonha, a baía de Portofino, os barcos ancorados como uma pintura de Cascella. Tea veste um quimono que o avô lhe trouxe de Tóquio. O pai chegou de Milão. Corre ao encontro dele. Ele ri-se por causa daquele quimono demasiado grande e cómico. Quantos anos tem a Tea? Oito, acabados de fazer.

     — Onde é que está a mãe? — pergunta Ermes.

     Tea ri-se e leva o indicador da mão direita aos lábios.

     —         Chhh! Não podemos incomodá-la — avisa. — Mandou-me ficar longe. Sabes, está com um amigo.

     A menina brinca e o pai entra no jogo.

     —         E nós não conhecemos esse amigo?

     —         Acho que não.

     Ermes parece reflectir.

     —         Sabes o que vamos fazer, nós os dois? — propõe. — Vamos até ao Hotel Splendido. Pedimos um quarto bonito. Vestimos o fato de banho, e depois vamos para a piscina nadar um bocado. Achas bem?

     —         Que bom! — exclama Tea.

     Quando regressam à villa já é noite. Marta está na sala. Ouve música brasileira. Tea também gosta daquele ritmo de samba.

     —         Preciso de falar com a mãe — diz Ermes. — Agora, vai dormir.

     Ela, como viu a mãe fazer tantas vezes, finge que se afasta, e depois volta em bicos de pés para escutar atrás da porta.

     A voz de Ermes é baixa e incisiva.

      —         Se não consegues impedir-te de acasalar como uma cadela com cio — disse-lhe, cortante —, tem ao menos o cuidado de assegurar que a nossa filha não esteja por perto.

     Marta ri-se.

     —         Falou o asceta — rebateu. — De vez em quando lembras-te que também tens uma mulher. Passas dezasseis horas por dia no hospital. E eu, o que é que eu devo fazer? Para ti só existe a carreira. Escolheste-a? Por mim, tudo bem. Mas deixa-me viver a minha vida. — A voz da mãe é trocista, áspera. — Casaste comigo por causa da carreira. Pensas que eu não sei? Talvez nunca tenhas gostado de mim. Mas eu era a filha do Attilio Montini e isso dava-te um jeito danado. Rastejavas como um verme em frente ao barão. Professor daqui, professor dali, professor, posso respirar? E agora, que és director da clínica e catedrático, vens dar-me lições a mim também. Exactamente cinquenta por cento daquilo que tens, e o cálculo é por defeito, é a mim que o deves. Eu a ti não devo nada. Por isso, que cada um viva a sua vida.

     —         Estava-te a falar da Tea. Aquilo que fazes de ti própria não me interessa. Mas já te aviso, se a miúda voltar mais alguma vez a ser envolvida nas tuas relações sórdidas, eu peço o divórcio.

     —         Se insistes no divórcio, eu arruino-te.

     —         Ao casar contigo tive algumas vantagens, mas hoje dá-te jeito a ti seres a senhora Corsini. Agora o meu nome é mais importante do que o teu. Se voltas a meter a miúda nas tuas histórias, eu tiro-te esse privilégio de um momento para o outro.

     Mas por que é que eles estão sempre a discutir? pensa Tea. Ambos dizem que gostam dela. Vai a correr para o quarto e abraça o ursinho. Ela e o urso nunca discutem. Aquela sim, é uma relação bonita. Não é como a do pai e da mãe. Mas então por que razão o deitou pela janela fora?

   Agora lembra-se. Passaram anos e ela já está no liceu. A mãe e o pai saíram. É dia de Sant'Ambrogio. É a inauguração da época lírica no Scala. Há também dois médicos americanos.

     Tarde da noite, Tea acorda e ouve vozes que chegam da sala de estar. Pouco depois, abre-se a porta do seu quarto e ela reconhece o cheiro bom do pai, o cheiro da força e da segurança. Ermes dá-lhe um beijo.

     —         As visitas já foram embora? — pergunta a menina.

     —         Ainda não. Mas eu vou dormir. E tu, dorme também.

   —         Como é que correu a ópera?

     —         Com dignidade.

     —         As pessoas?

     —         Aborrecidas.

     —         E o jantar?

     —         Uma chatice.

     Tea riu-se, divertida.

     —         És muito giro, papá. És ainda mais giro do que o meu urso.

     —         Papá urso e menina ursinha — brinca Ermes, e abraça-a.

     —         Quando é que os americanos se vão embora? — pergunta Tea. — Eles também têm de se levantar cedo, não têm?

     —         Claro. Mas são novos. Podem-se dar ao luxo de dormir pouco. Eu sou um velhote, já sabes.

     —         Quarenta e um anos já é uma certa idade. São realmente muitos anos. Mas não pareces velhote. As minhas amigas são todas doidas por ti.

     — Boa-noite, tagarela. — Ermes dá-lhe um beijo no cabelo e vai-se embora.

     É aquela canção italiana de que ela gosta tanto que a acorda. O relógio da mesinha de cabeceira marca as duas horas. Tea levanta-se. Sai do quarto, avança pelo corredor que conduz à sala. Do salão chega um ritmo de samba e vê-se luz através da porta entreaberta. Tea aproxima-se e, através da fresta, vê a mãe a dançar e, enquanto dança, a despir-se ao som da música. Os dois jovens americanos bebem e riem-se. Um gelo aperta-lhe o estômago, os olhos

enchem-se-lhe de lágrimas e começa a soluçar agachada no chão. Naquele momento dá-se conta de que o pai está ali, de pé, ao lado dela. Abre com força a porta da sala e diz: «Vocês os dois, daqui para fora.» Depois, virado para Marta: «E tu veste-te. Mantenho a minha promessa, a partir deste momento deixas de ser minha mulher.» Depois volta para junto de Tea, pega nela ao colo e leva-a outra vez para a cama.

     No dia seguinte o pai já lá não está. Foi-se embora para sempre, sem uma palavra, e nunca mais voltará àquela casa. Tea agarra no velho urso de peluche, tão gasto e tão amado, e deita-o pela janela fora.

     Teodolinda volta a aproximar-se do rectângulo de céu emoldurado pela janela. Debruça-se para olhar e precipita-se no vazio. É uma descida lenta e flutuante como a de uma folha no Outono. E, finalmente, volta a ver o ursinho. Está ali, branco, pelado, sorridente, e vem ao encontro dela. Depois apercebe-se de que não é o urso, é o pai.

     Ermes tem uma bata verde e a máscara de cirurgião. Tea sorri, mas ninguém se apercebe.

     —         Tea, ouves-me? — pergunta Ermes, com uma voz segura. A rapariga abre os olhos e volta a fechá-los logo a seguir.

     —         Ouviste-me, não foi, minha pequenina? Agora vais dormir, Tea. E quando acordares já vai estar tudo resolvido.

     Tea continua a cair como uma folha de Outono na noite. De-pois é o silêncio sem cores e sem sons, o nada absoluto da anestesia.

    

     Ermes viu as radiografias do tórax de Tea e, quando teve a certeza de saber de cor quais eram os danos provocados por aquele terrível acidente de viação, disse:

     —         Muito bem. Vamos começar.

     À sua direita estava Franco Rinaldi, um dos assistentes, à esquerda Luigi Tosi, especialista em cirurgia torácica. Em frente, o instrumentista. À cabeceira da mesa de operações estavam o anestesista e o seu assistente.

     Ermes, legalmente suspenso de qualquer actividade, não deveria estar ali, mas quando Marta e Tea chegaram ao hospital, Tosi, dadas as condições em que se encontrava a rapariga, ordenou:

     —         Chamem o Corsini. Encontrem-no e mandem-no vir para cá.

     —         Professor, o Corsini, de qualquer maneira, não pode intervir —observou Rinaldi com uma timidez estudada e que não dava para perceber se a referência era dirigida à legitimidade da intervenção ou à improbabilidade de o caso poder ter um desfecho positivo.

     —         Não lhe pedi nenhuma opinião — replicou, cortante.

     O cirurgião, jovem e ambicioso, apressou-se a obedecer, apesar de considerar que a rapariga estava condenada e que o chefe de cirurgia torácica se arriscava inutilmente a ser acusado de cumplicidade.

     Marta Montini estava em estado de choque. Tinha um ligeiro traumatismo craniano e algumas contusões. Tinha saído praticamente ilesa daquela terrível colisão com um TIR à entrada de Milão.

     Ermes viu-a muito rapidamente, e nem sequer parou para a observar. Já se esquecera dela por completo. À frente dos seus olhos estava Tea e as radiografias que indicavam os danos produzidos pelo acidente. Ermes recordava algumas intervenções análogas realizadas muitos anos atrás, quando trabalhara, em início de carreira, num hospital em Nova Iorque. E outras ainda, pouco mais recentes, no serviço de urgência de cirurgia, onde ficou quando regressou dos Estados Unidos.

     —         Que probabilidades temos? — perguntou a Tosi, colocando uma questão estúpida cuja resposta conhecia melhor do que ninguém.

     —         Quarenta, talvez cinquenta por cento — respondeu honestamente o cirurgião torácico. — É um caso difícil — sublinhou.

     —         É um caso desesperado — precisou Ermes.

     Relembrou os outros casos tratados: o mesmo tipo de risco, as mesmas fracturas. Intervenções longas, complexas, delicadas. Poucos tinham sobrevivido.

     Os médicos estavam tensos perante aquele corpo suspenso entre a vida e a morte. Todos eles estavam treinados para enfrentar situações de grande risco, desde a hemorragia grave à paragem cardíaca, mas todos eles reagiam de uma forma insólita perante Tea. Porque não era uma paciente qualquer, era a filha do professor Corsini.

     O coração de Tea parou de bater duas vezes durante a operação e, por duas vezes, Ermes voltou a pô-lo a funcionar, massajando com as mãos a bomba miraculosa que ameaçava render-se. Recordou as poucas vezes em que tinha baixado a máscara na sala de operações e largado o bisturi porque o coração do paciente não tinha recuperado. Aquilo não devia nem podia acontecer com Tea.

    

     No vestíbulo do bloco operatório, Giulia estava já há cinco horas à espera de saber alguma coisa sobre o êxito da intervenção. Tinha sido ela quem localizara Ermes e quem o chamara ao hospital. Tinha sido ela a primeira a

dar-lhe aquela notícia tremenda. Afastou-se apenas uma vez para telefonar a Giorgio, mas logo a seguir retomou a sua paciente e dolorosa espera.

     Ermes foi encontrá-la ali, sentada num banco de plástico. Tirou a touca e sentou-se ao lado dela. Giulia olhou para ele.

     —         Está viva — anunciou. Era tudo aquilo que podia dizer. Beijou-lhe uma mão e acrescentou: — Vai descansar um bocado. Vemo-nos amanhã.

     Giulia afastou-se e Ermes voltou aos cuidados intensivos, para onde Tea tinha sido levada depois da operação. Recordou as palavras de um professor: não há nenhum serviço em medicina, excepto talvez a urgência de cirurgia, em que salte para o primeiro plano a solidariedade humana e o empenho de um médico como num serviço de reanimação. A rapariga estava numa cama especial, ligada a aparelhos complexos que respiravam por ela e mantinham sob controle a pressão arterial, o batimento cardíaco e a função cerebral.

     Era Rinaldi, juntamente com o anestesista, quem fazia a reanimação, quem geria aquela situação de emergência.

     —         Os parâmetros estão dentro da norma — disse o anestesista.

     Ermes tinha feito tudo aquilo que estava ao seu alcance e sabia que só o tempo lhe daria uma resposta definitiva. Parou junto à cama.

     —         Vá descansar — disse a Rinaldi. — Ainda posso vir a precisar de si esta noite.

     O jovem médico retirou-se em boa ordem.

     —         Obrigado — disse Ermes, quando o colega chegou à porta —, obrigado a todos.

     —         Estamos à sua disposição — respondeu o médico em voz baixa.

     Ermes esperou não ter que recorrer a ele, desejou que tudo corresse da melhor maneira e que Tea regressasse lentamente à vida. Os parâmetros estavam dentro da norma, tinha dito o anestesista. Pelo menos naquele momento. E depois? O que é a norma em medicina? Teria ele realmente executado todas as manobras necessárias para a arrancar à morte? Voltou a percorrer mentalmente as várias fases da intervenção, como se folheasse um livro que sabia de cor. O que teria feito Tosi no lugar dele? Os monitores davam sinais tranquilizantes. Tea tinha que sobreviver. De outro modo, que sentido teria a sua vida?

     Por que razão alguém como ele, nascido na miséria, criado no desespero, teria chegado aos cumes da medicina? Por que singular desígnio do destino? Sentia-se perdido perante aquele corpo atormentado, como se sentira perante o corpo de Giulia. Tinham sido precisos todos os conhecimentos acumulados ao longo de anos de estudo e de trabalho para tratar aquelas feridas. Tinham sido precisos anos de sacrifícios, de pequenas alegrias, de grandes desilusões, de tormentos, de compromissos e de infinita paciência. Vinha de longe o homem que por duas vezes tivera nas mãos o coração da filha e o tinha voltado a pôr em movimento. Tinha partido de longe, de muito longe. Era um combatente nato e a inacção cansava-o mais do que a luta. Mas naquele momento só lhe restava esperar. E sentia-se muito cansado.

    

     E já é meio-dia — disse Adone, ao consultar o Omega de pulso em aço. Dois coveiros enchiam a sepultura e os torrões, ao cair sobre o caixão, devolviam um eco sufocado e mole. Ermes pensava naquela montanha de terra que ia pesar sobre o peito da mãe e recordou uma epígrafe latina para um amigo morto: Sit tibi terra laevis. Poderia aquela manta negra dar-lhe algum conforto, pobre Caterina? As atribulações de uma vida dura tinham sido muitas, e talvez no infinito silêncio do nada ela pudesse encontrar alguma paz. Procurou lágrimas de consolo, mas encontrou um nó no peito e uma perturbação sombria. Estaria ali toda a dor pela morte da mãe? Lembrou-se dela jovem, inquieta; depois velha e doente, mas sempre com os olhos cintilantes de uma ansiedade febril, agarrada a uma esperança que continha a frágil consistência dos sonhos.

     No funeral de Caterina estavam apenas Adone, o filho mais velho, e ele, o filho mais novo, que no hospital a assistiu até ao fim. Estava também um padre, com um jovem sacristão enfastiado e distraído que distribuía bênçãos apressadas e incompreensíveis. Er-cole Corsini, o marido, estava na prisão de San Vittore. A cadeia tinha-se tornado a sua residência habitual. Os outros quatro filhos não tinham considerado indispensável renunciar aos seus compromissos para assistir a um ritual que só interessa aos vivos, porque entretanto os mortos não querem saber daquilo para nada, como esclareceu Minerva, que tinha, juntamente com o companheiro, uma banca de peixe no mercado do bairro.

     —         Pois, já é meio-dia — exclamou Ermes. Tinha que entrar ao serviço no hospital à uma hora, e atravessar a cidade inteira em transportes públicos era uma longa viagem.

     —         Cumprimos o nosso dever — suspirou Adone, preparando--se para ir embora. Era um homem de cerca de trinta anos, bem posto, um pouco mais baixo do que Ermes, com uns olhos amigáveis e uma expressão dura no rosto maciço.

     —         Então podemos ir — repetiu Ermes, esperando que Adone lhe oferecesse uma boleia no Fiat 600 novíssimo, de um bonito cinzento pérola. Olhou as folhas amarelecidas que se desprendiam das árvores e dançavam ligeiras no ar já outonal.

     O padre foi-se embora, seguido pelo sacristão.

     —         Bem, então adeus — despediu-se Adone, estendendo-lhe a mão. — Vemo-nos um destes dias. Fizeste muito pela mãe — reconheceu. — Agradeço-te.

     —         Não tens de quê — respondeu Ermes.

     —         São coisas que acontecem — replicou, olhando para o relógio como se estivesse sentado em cima de carvão a arder. — Eu tenho mesmo que ir. Adeus. — Não lhe ofereceu boleia e, para evitar qualquer pedido nesse sentido, avançou à frente dele em direcção à saída.

     Intuiu que o embaraço do irmão era o resultado de uma imposição da mulher, pequena, antipática, feia e gorda, que o considerava como o seu feudo pessoal e se impunha com o peso de uma personalidade dominante. Adone era o único filho verdadeiro de Ercole e Caterina, e era também o único que tinha uma profissão e uma família normal: ele operário especializado, a mulher costureira, um filho diligente e com estudos e um apartamento alugado.

     Ermes imaginava as advertências da mulher, que talvez estivesse à espera dele no carro: «E não te lembres de dar boleia a ninguém no nosso carro. Aqueles, se lhes dás um dedo, agarram-te o braço.»

    

     Às nove horas da noite Ermes passou o portão de um grande edifício popular na via Beato Angelico. Começou a subir os de-graus infinitos, rodeado de cheiros entranhados, desagradáveis mas familiares, que ia deixar. Agora que a mãe tinha morrido, a sua presença naquela casa já não fazia sentido.

     Ao fim de cinco lanços de escadas saiu para uma balaustrada a céu aberto que dava para o pátio. Respirou o ar cortante e estremeceu na camisola leve de lã um pouco deformada. Pensou que tinha de poupar dinheiro suficiente para comprar roupa apropriada para se proteger do frio iminente.

     Entrou no momento em que Achille, um outro irmão, bonito, a cheirar a perfume barato, se preparava para sair.

    —         Olá! — exclamou o jovem, que se considerava muito elegante e se gabava do sucesso que tinha com as mulheres. — Onde estiveste todo o dia? — Era uma pergunta inútil, formal, que não exigia uma resposta.

     Ermes deu-lha, de qualquer maneira.

     —         Primeiro, no funeral da mãe. Depois, a trabalhar.

     —         Muito bem, sim senhor — respondeu ele, que provavelmente não tinha sequer ouvido as palavras do irmão. Achille era o rico da casa. Traficava automóveis para além dos limites da legalidade e manifestava a sua própria generosidade pagando o aluguer por toda a gente. — Então até logo — despediu-se.

     —         Vou-me embora — gritou Ermes atrás dele.

     —         Fazes bem. Muito bem. Diverte-te. Bem precisas.

     Em cima da mesa da cozinha, coberta com uma toalha de plástico aos quadrados castanhos e brancos, Ermes encontrou o jantar. Tirou de cima do prato de sopa o outro prato que o protegia e sentiu o cheiro do caldo já frio e um pouco queimado que, ainda assim, era mais agradável do que o pão com mortadela que comia à hora de almoço. Meteu a colher no prato e começou a comer, sem paixão, com método, mastigando escrupulosamente cada pedaço, porque precisava de se alimentar. Não era um apreciador, nem um comilão. Desde que fosse comestível, estava bem para ele.

     À porta da cozinha, vinda da sala ao lado, apareceu Diana, uma bonita rapariga de vinte e cinco anos, em roupão e despenteada.

     —         Como está? — perguntou, referindo-se à sopa.

     —         Está boa — respondeu Ermes com a boca cheia.

     Diana era uma rapariga meiga, tranquila, vítima de sonhos impossíveis e de homens grosseiros e violentos. Sentou-se à mesa em frente a ele. Pousou os cotovelos na toalha de plástico e bocejou.

     —         Não me perguntas nada? — perguntou, elevando a voz num tom irritado.

     —         Fala baixo — avisou ela. — Tenho um amigo ali dentro — acrescentou, indicando a porta do outro quarto. — Está a descansar.

     Ermes imaginou o cavalheiro que tinha adormecido como uma pedra depois daqueles amplexos furiosos que só ela definia como amor.

     —         Não me perguntas nada da mãe? — insistiu ele, baixando a voz. Caterina tinha partido para sempre e naquela casa ninguém parecia ter dado conta disso. E, porém, tinha-os posto no mundo e feito por eles tudo aquilo que podia e sabia. Dera uma parte de si a cada um. De cada vez que nascia um filho ou uma filha, interpelava Ercole: «Como lhe queres chamar?» E o marido, leitor de textos mitológicos, escolhia entre deuses e semideuses: «Vai-se chamar Achille ou Ermes». Ou então: «Chama-lhe Diana ou Tersicore». Tinha-se resignado, aquele manso ladrão de galinhas, a passar mais anos na cadeia do que fora, e aceitava a mulher como todas as desgraças que o destino que proporcionara: com fatalismo.

     —         A mãe morreu, coitadinha — comentou Diana. — Paz à sua alma. O que se pode fazer por uma pessoa que morreu? — Havia uma certa lógica naquele cinismo.

     —         No entanto, até há dois meses atrás, continuou a trabalhar como uma doida para nós todos — disse.

     —         E a embebedar-se. Bebia como uma esponja, que Deus a tenha na sua glória.

     Diana passou uma mão cansada por entre os cabelos desgrenhados, e depois deitou vinho no copo de Ermes e num outro em que pegou para ela.

     Brindaram à sua memória e falaram dela. Aquela era também uma forma de prestar homenagem à mãe, que repousava na terra fresca sob um céu outonal.

     —         Vim buscar as minhas coisas. Vou-me embora — anunciou Ermes enquanto afastava o prato vazio.

     —         Mas depois vens outra vez? — perguntou.

     —         Vou-me embora para sempre.

     —         Então só fica o Achille e eu — concluiu Diana, pensando no espaço a mais de que ia poder dispor.

     —         Não nos podemos esquecer do Ercole. A casa também é dele.

     —         Não sei se estás a ver— sublinhou com um gesto indolente — o tempo que ele pára em casa. De qualquer maneira, fica sossegado. Na cama da mãe ninguém toca.

     Ermes tirou um saco de pano de um arrumo por cima da porta da entrada e começou a enchê-lo com as coisas dele.

     —         Para onde vais? — perguntou a irmã.

     —         Para um quarto alugado — respondeu o rapaz. — Fica na Porta Romana. Aluguei-o com um colega de trabalho, e assim dividimos as despesas.

     —         Porquê, tu trabalhas?

     —         Sempre trabalhei — explicou Ermes, enquanto continuava a meter as coisas no saco.

     —         Um trabalho fixo, quero eu dizer.

     —         Um trabalho fixo — confirmou, sem olhar para ela.

     Era um diálogo insólito, porque ninguém naquela família era seriamente motivado pela curiosidade. «Cada um por si e Deus por todos», era o lema dos Corsini.

     —         Que trabalho? — perguntou Diana, forçando os habituais esquemas de discrição.

     —         No hospital. Sou servente. Limpo as casas de banho e outras coisas. Mudo as arrastadeiras. Transfiro os doentes. — Trabalhava no hospital há dois meses, desde que a mãe ali fora internada.

     —         E gostas? — perguntou Diana, admirada.

     —         É um trabalho — disse ele, abrindo os braços.

     —         Com tudo aquilo que estudaste, pensava que podias arranjar uma coisa melhor. Um lugar mais alto. Tipo empregado — comentou, desiludida.

     Como poderia explicar-lhe que o diploma de Estudos Clássicos do liceu não o habilitava a nenhum emprego? Os estudos de Grego e de Latim, de História e de Filosofia, de Ciências e de Literatura, não tinham nenhuma finalidade prática. Eram apenas um pilar sólido para sustentar as estruturas seguintes, exercícios de erudição para treinar o espírito e permitir o acesso a um curso universitário. Se tivesse que escrever uma carta comercial, ou que organizar uma conta corrente, ia encontrar sérias dificuldades. E se também conseguisse fazer entender aqueles conceitos à irmã, Diana iria, com toda a sua razão, chamar-lhe louco.

     Mas ele queria ser médico, e um bom médico, como lhe tinham dito, tem de fazer o liceu clássico. Sabia desde pequeno qual ia ser a sua escolha. A pessoa que mais admirava no bairro era o Dr. Ronchi. Vivia numa pequena villa simpática, com jardim, na via Cicognara, era considerado por toda a gente com admiração e respeito e Ermes via-o coberto por um halo mágico, como se lhe bastasse tocar um doente para o curar.

     —         Inscrevi-me na universidade — limitou-se a dizer-lhe.

     —         Tu não és bem acabado — disse, abanando a cabeça. Ermes não ligou.

     —         Preciso de ir ali buscar uns livros. Como é que faço? Do outro quarto chegou um chamamento gutural.

     —         Eu vou lá buscar os teus livros — ofereceu-se. — De qual-quer maneira, o meu amigo já acordou.

     —         Eu conheço-o? — perguntou Ermes, que já tinha perdido a conta aos namorados da irmã.

     —         Acho que não. É um novo — disse ela, candidamente. Diana regressou pouco depois com alguns livros, que o rapaz enfiou no saco.

     —         Bem, então adeus — despediu-se.

     —         Até um dia destes — respondeu ela.

     —         Claro — disse Ermes, sabendo que talvez nunca mais se voltassem a ver.

     Já tinha começado a descer as escadas quando ela o chamou.

     —         Já me esquecia de uma coisa.

     —         Que coisa? — perguntou, parando.

     —         Veio cá uma rapariga à tua procura.

     —         Quando?

     —         Há uns dias.

     —         Disse-te quem era?

     —         Era para aí Gianna. Ou Giulia. Mas fugiu a correr. Ermes ouviu o nome de Giulia e recordou a expressão terna, os olhos grandes e inquietos, a silhueta alta e esguia da rapariga.

     —         Obrigado — disse.

     —         Diz-te alguma coisa, essa Giulia? — perguntou Diana.

     —         Não me lembra nada de importante — mentiu.

     Recomeçou a descer. Sentiu-se contrariado, porque, por um momento, aquela lembrança veio confundir a organização ordenada dos seus pensamentos.

      A ideia de que Giulia o procurava actuava sobre ele com mais força do que uma simples lisonja. Mas apercebia-se de que não tinha tempo para ela. O que foi então que o empurrou em direcção à casa dos de Blasco? O que foi que o levou a parar junto ao muro do jardim? Antes de mais, a certeza de que aquela rapariga imprevisível não o podia ver: eram dez horas da noite e o ar estava frio. Depois, a necessidade de a imaginar mais uma vez no pequeno jardim, com um fundo de hortenses azuis e cor-de-rosa, o nariz e os olhos vermelhos por causa de uma grande constipação e aquele fascínio inocente e simpático que o tinha apaixonado. Se algum dia viesse a amar uma mulher, ela seria Giulia de Blasco. Mas agora, como diria o professor, aquela menina não era areia para a sua camioneta.

     Retomou o caminho, afastando-se para sempre da pequena villa da via Tiepolo com a nostalgia e a saudade que não sentira quando deixou o prédio da via Beato Angelico. À sua frente havia um mundo novo para descobrir.

    

     Ermes abriu o grosso volume de anatomia comparada e alisou a primeira página com cuidado. Estava no escritório confortável e asseado da irmã Alfonsa, que o amava como a um filho. Era imponente, a irmã Alfonsa. Tinha o arcaboiço de um carregador portuário, uma cara masculina, um bigode escuro e umas sobrancelhas grossas. Sabia meter na ordem tanto o pessoal paramédico como os médicos. Até o chefe de serviço tinha cuidado quando falava com ela.

     Se alguma coisa não funcionava na sua enfermaria, o que acontecia com uma certa frequência, levantava a voz até com o Padre Eterno.

     — Meu Senhor — rezava, ajoelhada e com os olhos erguidos para o crucifixo — é precisa aqui a vossa ajuda. Dai-nos uma mão, por piedade!

     Tinha uma voz potente que se ouviria lá em cima se ela a levantasse ao máximo. Ermes tinha a certeza de que o Omnipotente passava um mau bocado quando a irmã Alfonsa o interpelava.

     Era mesmo uma «dura», e só com Ermes é que aquele vozeirão amansava e os seus modos se tornavam mais ternos. Preparava-lhe a gema de ovo batida no café com muito açúcar porque, dizia ela, um pobre rapaz que estuda e trabalha precisa de se alimentar. Por essa mesma razão, integrava na dieta monótona da cantina uns pães robustos e bem recheados.

     Ermes inaugurou a caderneta universitária com uma nota fulgurante, e o peito sumptuoso da irmã Alfonsa inchou de orgulho por baixo do cândido escapulário engomado. Os seus grandes olhos escuros ficaram brilhantes como bagos de uva depois da chuva.

     —         Tu ainda vais ser alguém, meu filho — deixou escapar, como se ele fosse o filho inconscientemente desejado e finalmente encontrado.

     —         Não sei se vou ser alguém — disse-lhe a sorrir. — Já me chegava ser médico.

     No pequeno gabinete da irmã Alfonsa, o rapaz podia estudar quando quisesse, mesmo de noite, nos intervalos ou depois do turno de trabalho. Podia estudar num sítio quente, uma vez que o espaço que dividia com o colega de trabalho era pequeno, gelado e inóspito. Vivia praticamente no hospital.

     Tinha uma grande paixão, talvez uma verdadeira vocação, mas a intensa atracção pela bata branca vinha-lhe da certeza íntima de que a profissão de médico era a mais respeitada. Tinha visto aquela pobre mulher que fora sua mãe iluminar-se perante as palavras dos médicos, mas também as pessoas importantes, na presença do médico, se comportavam da mesma maneira. E depois via os chefes de serviço, os catedráticos, os barões da medicina, que evocavam um mundo feito de autoridade, de respeitabilidade, de cavalheirismo. Eram os sacerdotes de um poder misterioso, rodeado de palavras mágicas que o tornavam inacessível ao profano. Tinha visto pessoas indubitavelmente doentes reencontrar a vontade, o desejo e a capacidade de se curarem só à vista do demiurgo. Ermes decidira que, um dia, havia de ser um entre os eleitos e, se possível, o primeiro entre todos.

     Agora que passara os portões solenes da universidade, Ermes sabia que não ia ser apenas um médico. Havia de se tornar um daqueles especialistas de quem as pessoas falam e sobre quem os jornalistas escrevem.

     Alguém bateu à porta do gabinete e o arrancou àqueles pensa-mentos ambiciosos.

     —         Ermes, abre — ordenou, imperiosa, a voz da enfermeira da noite.

     O rapaz levantou-se, abriu a porta e espreitou para o corredor, ao longo do qual a enfermeira avançava já.

     —         Anda, depressa — disse ela.

     —         O que foi que aconteceu? — perguntou. Para a enfermeira estar com tanta pressa tratava-se certamente de uma emergência.

     Caminharam sobre o linóleo brilhante na débil luz nocturna até ao quartinho individual, mesmo ao fundo do corredor, onde eram internados os moribundos, os doentes em isolamento e, às vezes, os presos com necessidade de cuidados hospitalares. Havia um polícia à porta.

     —         Está ali um homem que diz que é teu pai — comunicou-lhe a enfermeira, desconfiada, pondo-se de lado para que Ermes pudesse entrar.

     Era mesmo ele, o velho Ercole Corsini. Tinha uma cor de cera, as faces encovadas, as maçãs do rosto salientes e os olhos cavados. Parecia mais pequeno e sumido do que de costume.

     —         O que se passa, pai? — perguntou-lhe, como se continuasse uma conversa interrompida há pouco tempo.

     —         Não sei. Dizem que tenho uma hemorragia interna. Tu estás bem, estou a ver. Estás no bom caminho, hein? — Um pálido sorriso transformou-se de repente numa contracção de dor.

     Chegou um médico, observou-o com atenção e viu as radio-grafias.

     —         Pode vir comigo aqui fora? — perguntou a Ermes. O rapaz segui-o até ao corredor.

     —         É um cancro do estômago em fase terminal — comunicou. — Lamento muito. Só podemos programar uma terapia da dor.

     —         O que foi que ele te disse? — perguntou Ercole ao filho, que estava outra vez ao lado dele.

     —         Que te vão curar — mentiu. — São muito bons, neste hospital, sabias?

     —         São uns mentirosos.

     —         Porquê?

     —         Porque eu estou a morrer — respondeu, com a franqueza que lhe era habitual. — E para além do facto nada secundário de estar a morrer, ainda sou obrigado a fazer de conta que acredito num filho idiota que diz mentiras. — Falava com dificuldade e a respiração tornava-se cada vez mais penosa.

     —         Vais-te cansar, pai — disse Ermes baixinho.

     —         Eu quero falar — continuou. — Quero falar da minha mor-te. Estou cansado de dizer aquilo que os outros esperam que eu diga. Vou morrer, Ermes. Nunca te dei nada. Mas também nunca te pedi nada. Fica junto de mim antes que a luz se apague. — O rapaz pegou-lhe numa mão e apertou-a.

     —         Está bem, pai.

     Ercole Corsini morreu com as primeiras luzes da madrugada.

    

     Nos anos que Ermes passou na universidade ocorreram factos memoráveis: Yuri Gagarin realizou o primeiro voo orbital humano em volta da Terra, Hemingway e Marilyn Monroe desapareceram tragicamente da cena do mundo. Os Beatles apareceram. A América, que criou o mito em torno de Kennedy, apagou-o num trágico Novembro, em Dallas. Ermes acusou os sintomas de todas as patologias com que entrou em contacto por motivos de estudo e, no hospital onde trabalhava, conheceu tudo aquilo que havia a conhecer sobre a vida e a morte, a dor e a alegria.

     O seu sonho eram os Estados Unidos, onde poderia fazer um training veloz e intenso. Realizou-o ao ganhar uma bolsa de estudo que lhe permitiu ir para Nova Iorque e trabalhar como research fellow na Columbia University. Trabalhou como um louco no serviço de urgência de cirurgia, chegando a fazer cinquenta horas consecutivas. Aprendeu a dormir em pé, durante poucos minutos, encostado à porta da casa de banho. Accionava o interruptor do sono em quaisquer condições. Quando tinha um dia de descanso, conseguia dormir quinze horas seguidas. Teve várias namoradas, sem nunca arranjar tempo para aprofundar seriamente uma relação. Tinha muitos colegas e poucos amigos, o mais importante dos quais era um austríaco, Adolf Schneiter, um fora de série da medicina.

     Ermes aprendeu as técnicas da cirurgia torácica, da abdominal, operou a nível do aparelho digestivo, das vias biliares, do cólon, do pâncreas; coseu buracos de balas; arranjou fracturas. Atingiu um nível tal que, ao fim de seis meses, a Columbia University lhe atribuiu um salário.

     Quando regressou a Itália era o cirurgião geral mais completo que um hospital podia desejar. Para além disso, tinha títulos sufi-cientes para passar o exame e tornar-se assistente universitário. Entrou para o serviço de urgência de cirurgia do mesmo hospital onde, aos vinte anos, tinha sido admitido como servente. Mas agora ia exercer aquela que, em sua opinião, era a maior de todas as profissões: a cirurgia. Sabia que já não podia passar sem a sala de operações, mas não se queria enterrar numa estrutura que não lhe ia permitir grandes saídas. Queria chegar mais acima, como sempre sonhara. Queria passar a ajudante, mas no organigrama da urgência de cirurgia as cartas estavam lançadas e não havia lugar para ele que, no entanto, era o melhor em absoluto.

     Precisava de um elemento que o impulsionasse, de um cavalo vencedor, de um barão que lhe abrisse o caminho e que, dentro de certos limites, lhe garantisse o acesso à carreira universitária, para se dedicar, para além da assistência aos doentes, à pesquisa científica e didáctica. Ermes tinha definido um objectivo e pretendia atingi-lo. Tinha que manter os olhos bem abertos e esperar que alguém reparasse nele. Os dois chefes de equipa com quem trabalharia de boa vontade já tinham assistentes. Por fim, decidiu tomar em consideração a eventualidade de seguir o professor Arturo Micheletti até Sassari, para se oferecer como assistente voluntário. Foi nessa altura que Adolf Schneiter apareceu em Milão, onde ia participar num congresso.

     —         Por muito bom que tu sejas — disse-lhe o amigo —, se queres abrir caminho, tens que fazer de conta que ainda tens muita coisa para aprender. E isto não é um problema tipicamente italiano, como tu dizes. Talvez aqui seja apenas mais notório.

     —         O Micheletti ajudava-me de boa vontade — explicou Ermes.

     —         Mas não tem nada para te ensinar — observou Schneiter.

     —         O número um nem sempre é o melhor — continuou Ermes.

     — Mas é ele quem leva o carro. Não há alternativas. Ou entras, ou te arriscas a ficar em terra para sempre.

     Passeavam pelas velhas ruas do centro histórico, entre fachadas de palácios antigos que deixavam entrever jardins viçosos e pátios austeros.

     —         Tu és realmente bom — elogiou Schneiter, que comparava mentalmente a familiaridade agradável de Milão com a magnificência da sua Viena de grandes espaços.

     —         O que é pena é sermos só nós os dois a saber disso — sorriu Ermes.

     —         Não é verdade. E tu bem sabes. Diz antes que não basta ter mérito. — Tinha a voz sulcada pela amargura. — Tu foste feito à medida para os Estados Unidos. E a América para ti. Ainda me pergunto por que misteriosa razão não ficaste lá.

     Como poderia explicar-lhe que ele queria ser alguém ali, em Itália, em Milão, onde tinha vivido, onde tinha partido do nada?

     —         Tenho o complexo do emigrante.

     —         Santa Lucia luntana? — brincou, fazendo de conta que arranhava um bandolim.

     —         De certa forma — admitiu Ermes.

     —         Se voltares a pensar no assunto, sabes onde me encontras — disse ao despedir-se.

     —         Eu sei que posso contar contigo. Agradeço-te.

     Schneiter partiu, mas o problema de Ermes ficou. Era pratica-mente impossível penetrar nas fortalezas dos barões, defendidos por guardas prontos para tudo, com o único auxílio das suas próprias capacidades profissionais.

     Por muito que lhe desagradasse deixar aquela cidade, decidiu partir para a Sardenha para ser assistente de Micheletti. Mas depois aconteceu qualquer coisa que lhe alterou os planos e lhe provocou uma viragem decisiva na carreira e na vida.

    

      Há uma chamada para si, Dr. Corsini — comunicou-lhe a enfermeira chefe, que foi ter com ele ao serviço de urgência.

     —         Estou ocupado — replicou Ermes, que continuou a interrogar-se sobre o abdómen inchado e duro de uma paciente consumida por dores intensas.

     —         Desculpe insistir, doutor — continuou ela, com uma voz que um temor reverente tornara insegura. — Está o professor Montini ao telefone.

     Com aquele nome de papa e a arrogância de um ditador, Attilio Montini era um dos últimos barões da velha escola, médico ilustre, grande senhor, pensador brilhante, intriguista tenaz e frequentador incansável dos poderosos.

     —         Diga-lhe que agora não posso — confirmou Ermes, sem se distrair da paciente, que podia apresentar uma complicação abdominal, mas também uma infecção pulmonar.

     —         Eu tenho que lhe dizer isso? — replicou a enfermeira chefe, aterrorizada.

     —         Mande dizer por outra pessoa — aconselhou com ironia. — Eu e esta senhora — acrescentou, sorrindo para a paciente —, temos que resolver aqui um pequeno problema.

     Ao ouvir aquelas palavras, a mulher olhou para ele cheia de reconhecimento.

     —         Eu digo-lhe que está numa urgência — tentou remediar a enfermeira, sabendo que, no entanto, o professor Montini só considerava justificadas as suas próprias urgências.

     —         Diga-lhe o que quiser — respondeu, muito calmo, continuando o exame. Montini viajava noutra galáxia e os seus interesses nunca chegariam a encontrar-se. Arrogante até à insolência, o barão atacava até os colaboradores de maior prestígio com um comportamento altivo e presunçoso.

     Quando Ermes, concluído o turno, foi mudar de roupa, encontrou uma mensagem da enfermeira chefe presa no armário: «O professor Montini espera-o no gabinete».

     O sancta santorum do professor Attilio Montini era um pequeno apartamento mobilado com muito gosto e sem economia. Para Ermes, que vivia em estúdios guarnecidos de uma forma espartana, o reino de Montini era a expressão do luxo mais desenfreado.

     Ermes subiu até ao terceiro andar, passou a entrada revestida de nogueira escura e entreviu, através de uma porta entreaberta, uma claridade ofuscante. Uma enfermeira elegante, bonita, jovem, consciente do seu papel, instalou-o numa sala de poltronas acolhedoras forradas de napa azul. As paredes estavam revestidas de linho cor de mel. Um grande Guttuso, figuras femininas sobre um cenário de paisagem siciliana, sobressaía com uma beleza violenta e apaixonada na parede do fundo.

     —         Gosta? — perguntou Montini, que o surpreendeu a apreciar a pintura. Tinha aberto a porta do escritório para o convidar a entrar.

     —         Muitíssimo — respondeu Ermes.

     —         Aquilo que eu mais admiro no Guttuso é a capacidade descritiva — continuou Montini à porta, observando por sua vez aquela obra de arte. — Em certa medida, parece-se connosco — acrescentou, fixando os olhos negros e penetrantes nos de Ermes.

     —         O Guttuso? — perguntou.

     —         O artista, em geral — precisou. — E o cientista em particular. Que, à sua maneira, é um artista. Um grande quadro. Um grande romance. Uma poesia sublime. Uma intervenção cirúrgica delicada. São sempre resultados obtidos por espíritos sublimes capazes de conduzir um gesto perfeito.

     —         É uma hipótese fascinante — admitiu Ermes.

     — É assim mesmo, meu amigo — disse, com uma inesperada afabilidade. — Quer ele construa uma catedral ou uma bomba atómica, quer produza um quadro ou leve a cabo a operação mais complexa, as ressonâncias para o artista e para o cientista são análogas. É, em qualquer caso, um homem que se satisfaz, como qual-quer homem de engenho, com o resultado obtido. Talvez pense que eu sou um presunçoso — e piscou-lhe o olho. — No entanto, acho legítimo o reconhecimento dos próprios méritos. Mas estou a fazê-lo perder um tempo precioso com as minhas elucubrações — desculpou-se, convidando-o a entrar. Era simpático e amável, mas Ermes, que passara a infância num mundo indiferente e hostil, reconhecia a hostilidade e a indiferença por detrás do sorriso do catedrático e da expressão amigável do seu rosto redondo. O único indício aparente do seu autoritarismo era uma voz metálica e petulante, que traduzia raciocínios irrepreensíveis.

     Montini instalou-se atrás da secretária ampla e indicou a Ermes uma grande poltrona de pele.

     —         Você deve ter-se interrogado sobre o motivo deste encontro, Dr. Corsini — disse o catedrático. Não se referiu ao telefonema.

     —         Se quer que eu seja sincero, não. Mas, por acaso, estou surpreendido com esta convocatória.

     —         Já me tinham dito que você tem um temperamento difícil

— avisou-o, com a expressão severa de quem já meteu na ordem tipos mais duros do que ele.

     Ermes esperou a sequência em silêncio.

     —         Tenho-o debaixo de olho há muito tempo — continuou.

     —         Sinto-me lisonjeado por isso.

     —         Ontem vi um homem feito em pedaços que você, literal-mente, voltou a coser.

     —         Foi um milagre — recordou Ermes, pensando no pedreiro da Puglia que tinha caído de um andaime e tinha sido transferido para a urgência de cirurgia em condições miseráveis. Tinha realmente conseguido recuperá-lo. Conseguiu até pôr no sítio um testículo que tinha sido apanhado a poucos metros de distância do ferido.

     —         Pois é — anuiu Montini —, foi um milagre. Mas acontece que o milagre foi você quem o fez. E que é apenas o último de uma longa série. Fala-se muito disso no serviço — sublinhou, com um ar mundano.

     —         Essa popularidade, de que tenho conhecimento, ainda não me trouxe grandes vantagens — declarou.

     —         Mas pode vir a trazer — disse Montini, deixando-o curioso. — Quer vir trabalhar comigo? — propôs-lhe à queima-roupa.

     Ermes olhou-o impassível e não disse uma palavra. Nunca tinha sequer considerado a ideia de entrar na equipa do grande barão e, provavelmente, não teria nunca mexido um dedo no sentido de pedir para fazer parte dela. De repente, porém, a situação tinha-se invertido. Era Montini quem lhe pedia para se agregar, porque precisava dele. O catedrático operava pouco no hospital e muito na clínica privada. Aliás, dizia-se que a clínica era dele. Apresentava contas astronómicas, mas desde há algum tempo a prestação não estava à altura da recompensa. Provavelmente andava à procura de um cirurgião capaz de acompanhar as obras de arte que ele depois assinaria. Era uma hipótese verosímil. Se a intuição não o enganava, Ermes tinha tirado a carta certa para formar uma combinação vencedora. Mas seria ele cínico ao ponto de pagar aquele preço? Até na aliança mais honesta se projecta a sombra sinistra da cumplicidade, sabia-o agora por experiência directa.

     Montini considerou a impassibilidade de Ermes. Podia aliciá-lo com a perspectiva de grandes vantagens económicas, mas ouviria como resposta que, para ele, o problema não era o dinheiro.

     —         Está a ver, Dr. Corsini — começou a explicar, com a atitude desenvolta de homem do mundo —, eu acho que devia reflectir muito bem sobre a oportunidade que lhe ofereço. Você vem de muito longe. Eu sei, e é também por isso que o aprecio — revelou, abrindo uma fenda sobre o seu passado.

     —         Pessoalmente, porém, não tenho motivos válidos para me orgulhar das minhas origens. O senhor sabe realmente tudo sobre mim — registou Ermes.

     Decididamente, o barão precisava dele. De outra forma não teria gasto tanto tempo e tantas palavras.

     —         Eu amo o hospital e a investigação — disse finalmente Ermes.

     —         E eu ofereço-lhe a possibilidade de realizar os seus grandes amores. Para além da possibilidade de operar na clínica. Conhecendo-o, apercebo-me de que o dinheiro para si não é tudo — afirmou —      , mas certamente concorda comigo que pode sempre ser de alguma utilidade. — Montini apoiou o queixo entre o polegar e o indicador e pousou o cotovelo na secretária, simulando uma profunda reflexão.

     —         Actualmente preciso de um assistente — continuou. — Um colaborador inteligente e capaz que poderia vir a ser meu ajudante e assim seguir a carreira universitária. Acho que já lhe disse tudo — concluiu,

deixando-se cair contra o encosto da cadeira giratória.

     —         Agora é você a falar.

     —         Gostaria de ter algum tempo para pensar no assunto — replicou Ermes.

     —         Quanto tempo? — perguntou Montini, mais tenso.

     Naquele momento, providencialmente, alguém bateu à porta, que logo a seguir se abriu o suficiente para permitir a Ermes enquadrar uma figura feminina minúscula e graciosa, uma mancha rosada sobre o fundo da antecâmara sombria. A impressão que lhe deixou foi a de um vaporoso, suave e perfumado pincel de pó de arroz.

     —         Incomodo? — Aquele pequeno pincel tinha uma voz aflautada, um olhar muito doce, um sorriso radioso e um porte decidido, de dona da casa. — Olá, papá. — Cumprimentou o grande médico e dirigiu a Ermes um olhar cheio de interesse.

     O jovem médico, que agora podia observá-la melhor, corrigiu a primeira impressão: o pincel de pó de arroz tinha-se transformado num pequeno grão de pimenta. Era parecida com o pai e não se podia dizer que fosse uma beleza, mas ao contrário de Attilio Montini, que era decididamente distante até quando se esforçava por ser cordial, tinha um fascínio irresistível.

     —         Dr. Corsini, apresento-lhe a Marta — disse Montini com orgulho. — A minha única filha.

     «E o teu grande desgosto», pensou Ermes. Levantou-se, cumprimentou Marta e sorriu-lhe.

     —         Muito gosto - disse, dedicando-lhe um longo olhar de admiração. — Já me ia embora — justificou-se, enquanto se preparava para deixar o campo livre. — Eu telefono-lhe em breve, professor —     acrescentou. — Amanhã, o mais tardar — precisou.

     Quando chegou à porta, Marta bloqueou-o com um aviso muito firme: — Dr. Corsini, o senhor tem de ir à minha festa.

     —         A minha disponibilidade depende dos meus doentes — hesitou.

     —         É no próximo sábado — insistiu a rapariga.

     —         É um raro privilégio aquilo que me oferece, mas eu não posso decidir agora.

     —         Vai conhecer um monte de gente interessante. A nossa casa de Portofino é um verdadeiro porto de mar. Eu venho buscá-lo, se quiser — decidiu, enquanto os lábios macios se fechavam sobre uns dentes pequenos, brancos e brilhantes.

     Ermes viu acender-se um sinal de perigo. Havia qualquer coisa naquela rapariga que o atraía, mas uma força contrária obrigava-o a manter a distância.

     —         Os meus doentes não sabem que no próximo sábado vai dar uma festa em Portofino — tentou convencê-la. — Eu estou completamente nas mãos deles.

     —         Eu sei tudo sobre si, Dr. Corsini — revelou-lhe, deixando surpreendido. — O pai já me falou das suas capacidades excepcionais. E eu não apareci aqui por acaso. Vim de propósito para o conhecer e para o convidar a ir a nossa casa.

     —         Sabe realmente muitas coisas a meu respeito — tentou

defender-se. Mas quanto mais se opunha às areias movediças daquela nova aliança, mais se sentia prisioneiro.

     —         Também sei que o sábado é o seu dia livre. Por isso, não quero desculpas — concluiu.

     Três dias depois, em frente ao mar de Portofino e sob um céu coberto de estrelas, Ermes achou-se enredado numa história de amor e de interesse que lhe iria marcar a vida e decidir a carreira.

     Com vinte e nove anos, Ermes tinha-se tornado assistente de clínica cirúrgica, Marta era sua mulher e os dois foram pais de Teodolinda. A menina nasceu na casa de saúde do avô e, no exacto momento em que veio ao mundo, ficou submersa por uma montanha de milhões: cinquenta por cento das acções da clínica. E foi logo rica, mimada pelo avô, adorada pelo pai no pouco tempo que a profissão lhe consentia e pouco considerada pela mãe, que queria um rapaz.

     Quando Teodolinda fez um ano recebeu de prenda do avô a villa de Brianza, que não lhe interessava absolutamente nada. A um marido completamente absorvido pelo trabalho, Marta anunciou que não queria mais filhos. Problemas de linha. Logo a seguir partiu com uma amiga para umas férias em Barbados. O breve período de repouso durou um mês, durante o qual Marta nunca telefonou para saber notícias da filha e do marido. No frenético

pingue-pongue entre a clínica e o hospital, Ermes conseguia pensar que naquela família, infelizmente, tudo funcionava da forma prevista. Tinha sido um casamento de interesse, baseado numa aliança ambígua. Todos obtiveram vantagens com aquilo: Marta teve o marido que queria, Montini o assistente cúmplice que desejava e Ermes a carreira com que sonhava. O amor era um ingrediente para os romances cor-de-rosa. Quando, com o passar do tempo, Ermes se apercebeu de que o estilo de vida da mulher não se coadunava com o esquema da «esposa exemplar», estabeleceu com ela uma espécie de acordo tácito baseado na tolerância recíproca. Ela não pedia explicações sobre os compromissos de trabalho que o absorviam completamente, e ele não indagava sobre o uso que a mulher fazia do tempo livre, que era muito.

     Continuaram a viver juntos na casa do corso Venezia, prenda de casamento de Montini à filha, mas dormiam há muito tempo em quartos separados. Tea era confiada aos cuidados de uma rapariga tirânica, despótica e um pouco sádica que, em qualquer caso, substituía a figura materna, totalmente ausente. Tea adorava o pai que, porém, não lhe oferecia uma presença muito assídua.

     Uma noite, ao voltar para casa cedo, Ermes surpreendeu a filha em frente à televisão. Estavam a transmitir um filme de sexo e violência. Apagou o televisor e sentou-se na cama ao lado dela, perguntando a si próprio que danos poderiam produzir aquelas imagens obscenas na psique de uma menina de seis anos.

     —         Onde está a mamã? — perguntou à pequena.

     —         Saiu — respondeu Tea. As imagens que acabara de ver tinham-na perturbado.

     —         Saiu há muito tempo? — perguntou.

     —         Depois de eu comer.

     —         E a tua Ina? — insistiu Ermes.

     —         Foi dançar — informou-o. — Hoje é a noite livre dela.

     —         Mas não está ninguém em casa? — perguntou, alarmado.

     —         Não, papá. A Giovanna também saiu. — Giovanna era a empregada.

     Parecia normal para Tea encontrar-se sozinha naquela grande casa. — E tu, como é evidente, não tens medo — fingiu brincar.

     —         Tenho um bocadinho — admitiu.

     —         E por isso não dormes. — Ermes tentou controlar-se, mas estava desvairado com a recente descoberta.

     —         Estou a ver televisão.

     —         E ainda te assustas mais.

     Tea anuiu com convicção, escondendo um sorriso. Tinha perguntas a fazer sobre aquilo que acabava de ver, mas não arranjou coragem para as formular.

     —         Agora dorme — disse Ermes. — Eu estou aqui contigo — tranquilizou-a.

     Tea adormeceu a segurar a mão do pai. Ermes estava furibundo com Marta, que deixara a filha entregue a si própria e que não se apercebia da situação em que a menina vivia. Foi até à varanda do escritório, seguiu durante alguns instantes o tráfego nocturno e viu um carro parar mesmo em frente à entrada do prédio. Marta saiu, enquanto um homem mantinha a porta aberta. Acompanhou-a até ao portão, beijou-a e assegurou-se de que ela entrava antes de voltar a meter-se no carro.

     O facto de a mulher ter saído com outro não lhe provocava nem ciúme, nem espanto, nem indignação. Talvez aquele homem a amasse; mas será que ele tinha alguma vez estado apaixonado por ela? Relembrou o primeiro beijo, na festa de Portofino. Era ela quem conduzia a dança, pavoneando-se junto das amigas por ter capturado o homem mais bonito e o cirurgião mais promissor.

     Abriu a porta antes de Marta meter a chave na fechadura.

     —         Vieste cedo — quase censurou.

     —         Não o suficiente para evitar que a miúda ficasse sozinha em casa a morrer de medo — acusou-a com uma voz dura.

     —         Por favor, não declames a comédia do marido indignado com a mulher que negligencia os filhinhos — reagiu, enquanto atirava a carteira para cima de um sofá ao lado da porta e se dirigia à sala de estar.

     —         Gente como tu devia ir para a cadeia — gritou. Estava furioso com a mulher, que parecia não se dar conta da gravidade do seu comportamento.

     —         Se virmos as coisas dessa maneira, tu também abandonaste a tua filha — defendeu-se, acusando-o. — És tão responsável como eu.

     —         Esquece — replicou, sem grande convicção.

     —         Ouve lá, quando eu saí às oito e meia — continuou, mais agressiva do que nunca —, a Tea estava a dormir. É verdade — admitiu, enquanto acendia um cigarro —, que não estava ninguém em casa, mas eu tinha prometido voltar cedo. Como vês — documentou a afirmação olhando para o relógio de pulso —, são só onze horas. E eu já aqui estou. De resto, aquilo que vale para mim vale para ti também. Se tu sais, por que é que eu não posso sair também? Vens-me com esse ar de apóstolo. Toda a gente sabe que levas para a cama todas as que puderes. — Apagou o cigarro num cinzeiro, serviu-se de whisky e bebeu um grande trago.

     Ermes sentiu vergonha de si mesmo e da mulher.

     — A partir de amanhã — declarou —, quero uma rapariga para substituir a outra. A Tea não pode voltar a ficar sozinha.

     Marta nem sequer o ouviu e retirou-se para o seu quarto. A substituta da rapariga ia encher um vazio, mas não resolver um problema. O medo de Tea não nascia daqueles abandonos esporádicos, que indubitavelmente tinham algum peso, mas dependia do facto de ter estado sozinha desde sempre, com o pai e a mãe muito ocupados a viver cada um a sua própria vida.

    

     Giulia, por um instante, teve medo do espelho. Depois ganhou coragem e olhou. O resultado tranquilizou-a e sorriu àquela beleza, já não primaveril, mas rica em subtilezas. O cabelo, apesar da radioterapia, estava ainda forte e luminoso, e o corte sapiente de Vittorio atenuava a agressividade do perfil. Os fios de prata que apareciam por entre as ondulações castanhas não lhe desagradavam de todo. Por nada do mundo estaria disposta a submeter-se ao processo cansativo de uma pintura. Giulia considerava os primeiros cabelos brancos e as primeiras rugas como os sinais de uma vida intensamente vivida e não temia a sua acentuação, que testemunhava a progressão da existência e caracterizava as etapas da sua aventura humana. A maquilhagem discreta de Teresa acentuara a profundidade dos grandes olhos escuros, dissipando as sombras de uma terapia debilitante. Vittorio assinou a sua pequena obra de arte com um sorriso satisfeito, ajudou-a a vestir o casaco de vison e acompanhou-a ao elevador. Giulia percorreu as ruas do centro agradavelmente submersa no frio daquele meio-dia de Inverno. Era um daqueles dias de Milão que a comoviam pela luminosidade e pela clareza. O ar tinha a transparência de um cristal e desmentia os dados catastróficos sobre os níveis de poluição. Milão, naqueles mo-mentos, parecia-se com ela, e ela apenas queria ver, naquele cenário agradável, os sinais positivos.

     Tinha um encontro com Ermes e saboreava aquela perspectiva excitante. Não se viam há uma semana, desde a operação de Teodolinda. A rapariga estava fora de perigo e ia ficar completamente curada.

     Naquela manhã, Ermes tinha-lhe telefonado muito cedo.

     —         Como estás? — começou. Sentia-se em falta por a ter deixado um pouco de lado.

     —         Tudo bem — sossegou-o. — Conta-me mas é da Tea.

     —         Melhor não podia estar.

     —         Nem imaginas o alívio que é ouvir-te dizer isso.

     —         Tens algum tempo para um velho amigo?

     —         A vida toda. — Perante aquela afirmação categórica, sentiu‑se subitamente triste. Quanto iria durar a sua existência? Aquele pensamento passou rápido como um moscardo a zumbir e afastou‑se. — Todo o tempo que quiseres — acrescentou.

     —         Hoje ao almoço, está bem?

     —         Está muito bem.

     —         No Toulà?

     —         Óptimo.

     A partir daquele momento, a disposição de Giulia mudou. Sentiu-se calma e feliz. Como já não lhe acontecia há meses, voltou a parar para ver montras, deixando-se seduzir pela beleza das roupas, pelo esplendor das jóias, pela originalidade dos acessórios. Era um bom sinal. Ao passar em frente da Brigatti projectou a compra de uns bons fatos de treino para quando voltasse a frequentar o ginásio; decidiu ainda que naquela tarde se ia oferecer um delicioso tailleur Chanel. Depois lembrou-se de que tinha que ir ao Caravelle, no corso Europa. Largou a velha carteira a tiracolo de Celine que tinha um fecho estragado, e comprou um saco mole, muito vivo, que combinava perfeitamente com o casaco de peles. Chegou ao Toulà com dez minutos de atraso, e por isso, como tinha a vocação da pontualidade, sentiu-se desconfortável. O gerente, ao vê-la entrar, foi ao encontro dela, atencioso.

     —         Senhora Giulia de Blasco — cumprimentou-a com um beija--mão elegante. Parecia insolitamente preocupado em pô-la à-vontade. — Quer

sentar-se na mesa do costume, a do canto? Posso servir-lhe um aperitivo? — Olhos curiosos, reconhecendo a protagonista de uma clamorosa história de imprensa, para além de autora de romances agradáveis, voltaram-se para ela.

     —         Não, obrigada — replicou Giulia secamente, explorando o espaço à procura de Ermes.

     —         O professor telefonou há uns minutos — comunicou-lhe o gerente, intuindo a sua pergunta muda.

     —         Sempre atrasadas, estas sumidades — disse ela a sorrir, agarrando-se a uma débil esperança.

     —         Deixou um recado — retorquiu o gerente, lamentando aquele papel incómodo de embaixador. — Um contratempo. Pede desculpa por não poder vir. Pede muita desculpa — sublinhou. — Vai ligar-lhe para casa durante a tarde.

     A sua felicidade, que navegava colorida e iridescente como uma bola de sabão, estourou, deixando-a na mais dolorosa desilusão. Apeteceu-lhe abandonar-se sobre uma pequena poltrona confortável.

     —         Ofereça-me aquela bebida de há pouco — sorriu, considerando que tinha o direito de se agarrar a qualquer coisa para não afundar.

     —         Tem alguma preferência?

     —         Decida o senhor — respondeu, numa simulação de agonia.

     —         Com certeza, minha senhora.

     O homem, com o aspecto e a eficiência de um manager, serviu-lhe um delicioso cocktail de champanhe que Giulia bebeu. Sentiu uma guinada no seio e recordou que cada ser produz oitocentos milhões de células anómalas por minuto que as defesas orgânicas conseguem neutralizar quando o equilíbrio psico-fisiológico se encontra solidamente em ordem. O seu equilíbrio estava em pedaços. Pensamentos atrozes fervilhavam-lhe no espírito. Tinha que saber imediatamente o que estava a acontecer.

     —         Faça-me um favor, chame-me um táxi — pediu ao gerente. O homem esperou a chegada do carro, acompanhou Giulia, abriu--lhe a porta e ofereceu-lhe uma rosa.

     O taxista, a quem tinha dado o endereço da clínica, queria descreveu-lhe dois projectos originais que tinha para resolver o problema do desemprego e o do custo do dinheiro, revelando-se um potencial presidente do concelho clamorosamente desperdiçado num banal serviço público. A meio do caminho o homem propôs uma engrenagem complicada para anular qualquer vestígio de poluição. Mas Giulia, ferozmente mergulhada no seu drama pessoal, naquele momento particular não estava nada interessada no desemprego, no custo do dinheiro ou na poluição atmosférica. Pensava apenas em si própria e nos seus problemas, desesperadamente.

     Quando chegou o momento de pagar a viagem, deu-se conta de que não tinha dinheiro: o porta-moedas tinha ficado numa bolsa da carteira velha que tinha deixado no Caravelle. O porteiro da clínica pagou por ela, enquanto o taxista protestava contra as clientes ricas que não têm respeito nenhum pelas pessoas que trabalham.

     —         O professor? — perguntou Giulia.

     —         Está no segundo andar — respondeu cerimoniosamente o porteiro, um homenzinho insignificante, subserviente com os poderosos, indiferente com os desconhecidos. — No quarto da filha —       acrescentou, com ar de quem sabe tudo sobre toda a gente.

     Giulia entrou no elevador com uma certeza: não tinha acontecido nada de grave a Tea. O porteiro tê-la-ia seguramente avisado. Mas o instinto, que raramente a traía, denunciava algum perigo.

     Uma enfermeira indicou-lhe o quarto de Tea. Talvez estivesse a fazer uma coisa que não devia, talvez devesse esperar o telefonema de Ermes, mas agora era demasiado tarde. Giulia entreabriu a porta do quarto na penumbra, cortada apenas por uma lâmina de luz. Reconheceu imediatamente a figura de Ermes, de costas para ela.

     —         Eu faço o que tu quiseres — prometeu ele.

     —         Parece-me um sonho, saber que estão juntos outra vez — pronunciou a voz de Tea. Giulia viu Ermes abraçado a uma figura pequena e loira: a mulher.

     —         Podias também dar-me um beijo — sussurrou Marta. Falava com Ermes e olhava para Giulia com um sorriso de triunfo. Ele beijou-a e Giulia sentiu-se morrer.

     —         Vamos voltar a ser uma família unida — continuou Marta, — tu, eu e a Tea.

     Giulia voltou a fechar lentamente a porta e oscilou um instante antes de voltar a percorrer o corredor com passos lentos e curtos. O mundo tinha parado e não respirava, como ela. Era o fim de tudo. Fez um apelo ao seu orgulho, que sempre a tinha impedido de ruir nas situações mais difíceis e deprimentes. Caminhou mais expedita e afastou-se de Ermes para sempre.

    

     Ermes foi tomado por uma sensação de náusea. Era o perfume de Marta, uma forte essência Chanel, que lhe evocava os momentos esquálidos de uma intimidade partilhada. Pensou em Giulia, que reconhecia no perfume das tílias. Soltou-se daquele abraço lenta mas decididamente.

     —         Lamento — disse, voltando-se para a filha — mas não posso. Desculpa.

     —         A Tea só nos pede para tentarmos — interveio Marta, hipocritamente.

     —         Claro — observou Ermes, preocupado.

     —         Anda lá, pai — sorriu a rapariga.

     Era uma pantomina repugnantemente pegajosa e melada, na qual o único elemento sincero era o furor nevrótico de Tea que, depois do acidente, estava obcecada com um sonho: a família novamente reunida.

     Ermes sabia que aquilo não podia funcionar. Estava apaixonado por Giulia e a história com Marta era um capítulo falhado, e definitivamente encerrado, da sua vida. No olhar de Marta brilhava uma luz de triunfo. Não estava disposta a deixar o terreno livre à rival, tanto mais que, à distância de alguns anos, começava a descobrir como o ex-marido era atraente.

     —         Tentar não custa nada — insistiu, improvisando um comportamento e um tom remissivos e inocentes.

     Instintivamente, Ermes afastou-se em direcção à porta: tinha pressa de sair, queria ver Giulia. Precisava de estar com ela. — Agora trata de melhorar — disse à filha.

     —         Eu não quero que tu voltes para aquela mulher — gritou Tea, e imobilizou-se subitamente, porque aquele esforço lhe provocara uma pontada dolorosa no tórax.

     Marta sorriu, vitoriosa, e Ermes deu-se conta de que, no labirinto em que se perdera, dificilmente ia encontrar uma saída. Aproximou-se da rapariga e sentou-se ao lado dela. Não a podia deixar sem uma explicação. Giulia podia esperar.

     —         Por que é que não gostas dela? — perguntou o pai com doçura.

     —         Odeio-a, pai — declarou Tea com a sinceridade dos jovens, que exclui meias medidas. — Odeio-a ao ponto de desejar vê-la morta.

     O desejo de Tea tinha grandes probabilidades de vir a realizar--se. Ermes pensou na doença de Giulia. Marta tinha-se sentado comodamente num sofá ao lado da janela. Não ia perder aquela cena por nada deste mundo.

     —         Eu percebo-te — murmurou Ermes. — Mas temo não poder fazer nada quanto a isso. Não te posso impedir de a odiares, da mesma forma que não me posso impedir de a amar. Os sentimentos que me ligam a ti não têm nada a ver com os sentimentos que me ligam a ela. Não posso satisfazer o teu ciúme voltando a viver com a tua mãe. Tu própria, um dia, não me perdoarias a minha hipocrisia. — Disse hipocrisia e pensou em sacrifício. — Não te posso dar aquilo que não tenho. Por ti faria qualquer coisa. Mas nenhuma felicidade durável pode ser construída sobre a infelicidade dos outros. Se eu aceitasse, estaria a prejudicar a tua honestidade e a tua inteligência. Agora pensa só em ficares boa. Podemos falar sobre isto quando estiveres completamente restabelecida. — Era o discurso mais longo que alguma vez tinha feito à filha, e também o mais sincero.

     —         Eu preciso de afecto — replicou Tea com uma insistência infantil. — Eu também preciso de um pedaço de família que me sirva de referência.

     —         Todos precisamos de afecto. Tu não és diferente dos outros. Mas eu recuso-me a acreditar que possas aceitar a mentira como afecto.

     —         Eu vivi na mentira — surpreendeu-o —, e sempre sozinha

     —         acusou-o. — Onde é que tu estavas quando eu era pequena e precisava de ti? Onde estavas quando eu tive a minha primeira relação sexual? Estavas a tratar da humanidade sofredora e do teu sucesso pessoal. E ela também não estava lá — acrescentou, olhando para a mãe imóvel, encolhida sobre si mesma como um gato pronto para a agressão. Com Marta, Tea tinha adquirido as principais regras da arte da guerra: sabia onde, como e quando atacar para magoar e deixar uma marca.

     Era uma acusação impiedosa que o fez vacilar.

     —         Estás a tentar pôr também essa experiência na minha conta? —perguntou, sentindo-se realmente responsável pelos erros da filha.

     Tea leu uma grande dor no olhar do pai e percebeu que tinha acertado no alvo.

     —         Tinha catorze anos — continuou, implacável. — E ele tinha quase trinta. Sentia-me protegida. Talvez reconhecesse nele o pai que nunca tive. Tu tinhas ido embora. E ela — indicou a mãe, — andava atrás das suas próprias fantasias. Daquela vez senti-me muito mal — continuou. — Estávamos na Grécia. Tu fazias-me uns telefonemas breves. A mãe estava num cruzeiro não sei onde. — Espalhava veneno à volta dela, envolvendo o pai e a mãe.

— Deixei-o de cabeça perdida e ele, depois de fazer amor, ficou alarmado com a ideia de eu poder ficar grávida. Então fomos a correr a Atenas para procurar aquelas injecções que se tomam depois, para evitar a gravidez. Senti-me mal. Ele apanhou um susto de morte e trouxe-me para Milão. — Tea falava com o mesmo tom calmo e preciso com que teria narrado um passeio da escola.

     —         Já percebemos — interveio Marta. — Mas agora acaba com isso. — Estava imóvel no sofá. — As tuas proezas eróticas não nos dizem respeito.

     —         Porquê? Isto é só o princípio. A história tem um desenvolvimento rico de peripécias. Entendo que não seja agradável para um pai e para uma mãe saber estas coisas — martelou.

     —         Já chega — ordenou Marta, com um tom de voz doce que, no entanto, não admitia réplicas. Depois voltou-se para o marido:

     —         Depois daquilo que ouviste, ainda achas que não vale a pena tentar? Uma família remendada sempre é melhor do que nada. Não te parece?

     Ermes ignorou-a.

     —         E depois? — perguntou à filha. Pensou que se naquele mo-mento fechasse a grade do confessionário, esta nunca mais se voltaria a abrir. Lembrou-se de Diana, a irmã, vítima de homens rudes e violentos que, porém, lhe ofereciam sempre uma espécie de amor que lhe era negado pela família desunida de que provinha.

     Marta fulminou-o com a linguagem inconstante dos seus olhos claros e frios. Tea estava débil e cansada, mas tinha sobretudo necessidade de se libertar do peso que a oprimia.

     —         Antes do acidente, abortei — confessou ao pai. — Foi na Suíça.

     —         Foste tu — Ermes acusou a mulher.

     —         A culpa também foi minha — precisou a rapariga. — Foi sobretudo culpa minha. Por fim já não acreditava em mim mesma. Nem na vida que estava a crescer dentro de mim. Já não tinha certezas sobre o amor do homem que estava ao meu lado.

     Marta olhava para o marido sem conseguir ver nada para além daquela máscara de indiferença total. No entanto, ela conhecia-o o suficiente para saber que, por trás daquela compostura formal, tinha surgido uma grande tempestade. Talvez ela tivesse conduzido aquele jogo para além dos limites do razoável e estava a preparar-se para o pior.

     Tea tinha fechado os olhos e reclinado a cabeça, apresentando a Ermes o perfil de uma menina cansada e sofredora. A sua menina. Um emaranhado de dores físicas e morais, um náufrago sem forças sequer para se agarrar ao destroço que o pode salvar.

     —         Eu vou voltar a viver contigo e com a mãe — afirmou Ermes, inclinando a cabeça.

     —         Obrigada, pai — disse Tea.

     Ermes contraiu-se ao sentir no ombro a mão de Marta. Aquele contacto incomodava-o. Viu a perspectiva desoladora de uma vida ao lado dela e considerou aquilo como um sacrifício a cumprir para o bem da filha.

     O telefone da mesa de cabeceira tocou baixinho. Ermes levantou o auscultador.

     —         Professor, há uma chamada para si — disse a telefonista. — É o senhor...

     —         Não — interrompeu-a —, não quero falar com ninguém. — Estava cansado, perturbado.

     —         Parece que é uma coisa urgente — insistiu ela.

      —         Está bem — suspirou Ermes, resignado.

     —         Fala Caruso, professor. — A voz do brigadeiro era tensa e vibrante.

     —         Diga lá — replicou o cirurgião, indiferente.

     —         O inquérito foi muito trabalhoso, mas chegámos ao que interessa. Quero dizer que o autor do escândalo jornalístico tem um nome. E o senhor nem imagina de quem se trata.

     Mas de que estaria ele a falar? Ermes estava a quilómetros de distância da história judicial que ainda o envolvia e da longa série de reportagens fotográficas que tinham aparecido em todos os jornais. Que sentido fazia voltar ao assunto, se tinha que renunciar a Giulia?

     —         A quem é que temos que agradecer? — perguntou Ermes.

     —         À sua mulher, professor. — revelou Caruso. — Foi ela que o mandou seguir durante todos estes anos. Foi ela que tratou da cedência das fotografias à agência que depois as distribuiu aos jornais.

     —         Estou-lhe muito grato — limitou-se a dizer, fixando os olhos no olhar celestial de Marta.

    

     Giulia caminhou durante muito tempo com um passo ligeiro, mantida por uma energia extraordinária. Movia-se com a determinação rápida dos cães vadios que seguem itinerários misteriosos em direcção a metas desconhecidas. Não sabia para onde ia, mas ia depressa. Na realidade, estava a afastar-se de uma desilusão pungente, de uma dor terrível.

     Apesar de tudo, o mundo existia, as casas não se desmoronavam, as pessoas viviam, o bulício frenético da grande cidade continuava como se nada tivesse acontecido. Por que seria que o céu, o ar, os transeuntes apressados, os prédios impenetráveis, as montras atractivas, os automóveis irascíveis e os camiões prepotentes não davam sequer um pequeno sinal de desânimo por aquilo que lhe tinha acontecido? Por que razão aquele mundo infame não se dava conta do seu sofrimento? Ela não era uma pessoa qualquer, era Giulia. Giulia. Desesperadamente Giulia!

     Ermes, o seu homem, o seu primeiro amor, o seu salvador, o seu tudo, que poucas horas antes lhe tinha telefonado para a convi-dar para almoçar e discutir a única coisa certa, o sentimento que os unia, algum tempo depois estava com a mulher, no quarto da filha, a remendar as bainhas de uma família lacerada.

     Passou por um mendigo, um homem de meia idade, forte e com uma grande cabeleira cinzenta, a gola do casaco pesado levantada, no canto de uma loja por baixo do pórtico no início do corso Matteotti. Tinha uma expressão triste, que contrastava com o rosto bem nutrido. Há anos que ocupava aquela posição num digno, imóvel silêncio, com o olhar na ponta das botas forradas de pêlo. Tinha um letreiro bem visível no peito, uma epígrafe piedosa à sua própria indigência e ao desespero da prole. Giulia, com a curiosidade própria dos escritores, seguiu-o um dia quando deixou aquela posição e se enfiou no metropolitano. Viu-o, oportunamente arranjado, com a gola no sítio, o cartaz enrolado, pedir na caixa do bar para trocar as moedas por notas, sentar-se a uma mesa, pedir um bloody-mary e começar a fazer as contas ao que tinha recebido. Uma cifra mais que respeitável, limpa de deduções, impostos e despesas. Daquela vez, Giulia tinha-lhe dado dinheiro, e o mendigo, em troca, interpretou uma cena bem montada sobre os vários graus da miséria humana, usando um estilo bem delineado para tornar a história convincente. Giulia identificou, por detrás da tentação constante de suscitar a piedade do próximo, um carácter alegre e um temperamento agradável que brilhava nos olhos castanhos muito mais jovens do que aqueles cabelos cinzentos. Ficou a saber que ia a todos os jogos do Milan, que lia a Capital e a Gazzetta dello sport, que seguia muitas vezes a equipa amada até em jogos fora de casa e que tinha um Uno último modelo estacionado na via Borgogna. Daquela vez ficou satisfeita com a descoberta, mas agora a capacidade do homem, que sabia feliz, saciado e de óptima saúde, para mobilizar a misericórdia dos outros sobre uma dor inexistente, fez nascer nela uma indignação profunda. Aquele actor perfeito tinha o sentido do público e a capacidade de tornar verosímil uma sequência de mentiras miseráveis, enquanto que ela, enterrada no sofrimento, suscitava admiração e inveja.

     —         Giulia — chamou uma voz bem conhecida atrás de si. Uma mão veio pousar-lhe no braço.

     Ao voltar-se encontrou dois grandes olhos escuros que a acari-ciavam e lhe sorriam. Havia muita doçura naquele olhar, muita compreensão naquela voz quente e aveludada. Giulia sentiu-se mais leve. Lembrou-se da mãe, que também a olhava daquela maneira quando sabia que ela estava em crise.

     —         Oh, é você — exclamou, e sentiu vontade de lhe atirar os braços ao pescoço e chorar.

     —         Procurei-te por todo o lado — disse Armando Zani, em tom de censura.

     A expressão dela endureceu e o olhar ficou mais frio. — Acho que ainda não lhe agradeci tudo o que fez pelo professor Corsini — lembrou-se.

     —         Estás sempre à defesa — replicou ele. — Por que não tentas deixar-te ir? — Tinha-lhe dado o braço e caminhavam ao longo da via Santo Spirito.

     —         Estou cansada, Armando — murmurou, encostando-se a ele. Pela primeira vez, chamou-o pelo nome e preparava-se para o tratar por tu.

     —         Por que não me falaste da tua operação? Tive que saber por outras pessoas — disse com doçura.

     —         Agora já acabou tudo. São águas passadas — mentiu.

     —         Isso não justifica o silêncio.

     —         É verdade — respondeu ela a sorrir.

     —         Tu sabes quem eu sou, não sabes?

     —         Sempre soube.

     —         E perdoaste-me? — perguntou Armando.

     —         Não tenho nada que te perdoar. Só que agora já não podemos continuar a fingir — disse Giulia.

     —         Estaremos a tempo de recomeçar? — perguntou. — Preciso do teu afecto — acrescentou.

     Giulia abraçou-o.

     Os raros transeuntes admiraram-se ao ver, naquela fria tarde de Inverno, uma mulher magnífica e elegante a chorar nos braços de um homem de meia idade, como um pai e uma filha que se encontram depois de uma longa separação.

    

     Giulia estava aninhada no canto do táxi que a levava para casa. Tinha os olhos fechados e gostaria que também sobre os seus pensamentos sombrios descessem, moles, as pálpebras do esqueci-mento. Mas aquela dor não tinha pálpebras nem escudos de nenhum tipo. Tinha falado durante muito tempo com Armando Zani, o seu verdadeiro pai, mas a voz do sangue não se tinha feito sentir com a intensidade tão querida à tradição. Ele comoveu-se, ela achou algum consolo naquele encontro, sentia o homem mais como um padrinho do que como um pai, um amigo poderoso a quem se podia dirigir em caso de necessidade, um ombro sólido sobre o qual podia chorar. Falou-lhe da mãe, daquele encontro no refúgio nos Apeninos, da história de amor, da batalha sangrenta na Montagna Gialla, mas eram já recordações desbotadas.

     A noite caía rapidamente, uma noite fria de Inverno que estremecia sob um céu de tinta. A casa da via Tiepolo estava mergulhada num crepúsculo ameaçador. Só através das persianas do quarto de Giorgio se via alguma luz. Lá dentro estava calor, mas Giulia não sentiu nenhum conforto naquela tepidez.

     Ambra deixara-lhe uma mensagem em cima da mesa da cozinha: «1. Pagar a factura da luz; 2. O selo do carro; 3. A conta do jardineiro, que trabalhou seis horas».

     Espetou o bilhete no prego ao lado do balcão. Do quarto de Giorgio, no andar de cima, não vinha nenhum ruído. Esperou que o filho estivesse a estudar.

     Giulia passou pelo escritório e, em cima da mesa, ao lado do telefone, encontrou uns quantos recados que Giorgio apontara. Traduziu com alguma dificuldade os hieróglifos do rapaz, que tinha uma caligrafia tão desordenada como os seus pensamentos juvenis: «Ligou o Ermes.

     Outra vez o Ermes.

     Insistentemente o Ermes.

     Incansavelmente o Ermes.

     O Ermes, que chatice!

     Ainda o Ermes.

     Sempre o Ermes, mas que raio é que se passa com vocês os dois?»

     Subiu ao andar de cima. A porta do quarto de Giorgio estava entreaberta e ele não pensava nem de longe no estudo. Estava absorvido com uma partida de futebol no computador. Aqueles desafios que opunham uma inteligência fresca aos programas de um cérebro electrónico deprimiam-na e deixavam-na indisposta. Mas naquele momento a obsessão do filho deixou-a completamente indiferente.

     Ele rosnou um cumprimento vago, sem afastar o olhar daqueles homenzinhos de computador, e ela olhou-o indecisa sobre o comportamento a assumir. Parecia-lhe já não saber como viver. Aos quarenta anos não tinha ainda aprendido aquela profissão difícil. E com a idade dela, nas condições em que se encontrava, eram real-mente poucas as esperanças de recuperar o tempo perdido.

     Giorgio era o mais constrangido dos dois. Quando ela o surpreendia, como ele dizia, a fornicar com os jogos de vídeo, sofria a hostilidade da mãe contra o seu passatempo preferido.

     —         Então, mãe — protestou —, não me cumprimentas? — Estava completamente desorientado com o olhar vazio e o comportamento da mãe.

     —         Olá — disse Giulia, dirigindo-se ao seu quarto.

     Giorgio foi atrás dela.

     —         Há problemas? — perguntou.

     Ela deixou-se cair em cima da cama. Estava desfeita.

     —         Alguns.

     —         Tu não estás bem — replicou o rapaz, com um tom responsável de pessoa adulta.

     Giulia olhou para ele como se o visse pela primeira vez. Era um rapaz extraordinário. O cabelo farto, cor de mel, emoldurava um rosto de anjo. Era mais alto do que ela. Tinha um físico solidamente harmonioso que a sweat esfiapada e os jeans desbotados punham ainda mais em evidência. Aquela juventude que pulsava ao lado dela não lhe dava, porém, o conforto esperado.

     —         Estar bem, estar mal — filosofou com ironia —, é tudo muito relativo. — Devia estar destruída, pronta para deitar ao lixo, mas pelo menos com o filho não precisava de se preocupar em esconder isso. Até que ponto poderia ser sincera?

     —         Acho que estás a dizer imbecilidades — atacou, com uma linguagem menos simpática. No entanto, a voz ingénua e a intenção afectuosa mitigavam a aspereza do novo léxico familiar.

     Nos olhos negros e infelizes de Giulia tremeu uma grande comoção.

     —         Estás a esconder-me alguma coisa — criticou Giorgio com ternura, encostando à cama o pouf em que se sentou, mesmo em frente a ela.

     Um sorriso débil e cortante desenhou-se nos lábios de Giulia, acentuando a ausência de disponibilidade para qualquer forma de diálogo. Envergonhou-se do seu egoísmo e lembrou-se do comportamento agressivo e conflituoso do avô Cesare de Blasco, barricado por trás de um desesperado e exclusivo amor por si próprio. Então o sorriso cortante abrandou e sentiu um arrebatamento por aquele rapazinho adorável, que se sentia um homem para a poder ajudar a remover os seus desgostos, para participar na vida dela. E se ele estivesse realmente maduro para compreender as suas ânsias e partilhar as suas preocupações? Seria correcto continuar a esconder-lhe a verdade?

     Naquele momento tocou o telefone.

     —         Apaixonadamente, Ermes — disse Giorgio, enquanto semi-cerrava os olhos numa divertida tentativa de imitação de uma mulher apaixonada e apontava o aparelho em cima da mesinha de cabeceira.

     —         Atende tu e diz que eu não estou — ordenou ela rapidamente. Giorgio levantou o auscultador.

     —         Olá Ermes — cumprimentou, muito seguro. — A mãe pediu-me para te dizer que não está. Mas eu vou-ta passar. Vejam lá se se entendem os dois. — Pousou o auscultador em cima da cama e saiu do quarto. Com um suspiro, Giulia pegou nele e levou-o ao ouvido.

     —         O que é que se passa contigo, Giulia? — perguntou, preocupado.

     —         Acho que já não temos muita coisa a dizer, nós os dois — murmurou lentamente e com algum esforço.

     —         Algum problema? — perguntou, referindo-se à saúde dela.

     —         São só problemas — respondeu-lhe, referindo-se a tudo aquilo que a angustiava.

     —         Não percebo — replicou, desanimado.

     —         E no entanto, depois daquilo que aconteceu hoje, a situação parece-me muito clara — rematou ela.

     Ermes pensou no encontro cancelado.

     —         Não pude mesmo ir ter contigo — justificou-se, aliviado. — Tive uns problemas com a Tea. Desculpa-me — acrescentou, admirado com o facto de Giulia, habitualmente tão equilibrada e tão racional, reagir com uma veemência tão irracional.

     —         Problemas com a Tea. Está bem. Mas com a tua mulher não — replicou.

     —         O que é que a minha mulher tem a ver com isto?

     —         Se era ela a senhora a quem tu estavas abraçado ao lado da cama, então tem alguma coisa a ver, sim — disparou. — Como é que ficou depois aquela tentativa de reconciliação tão comovente?

     —         Oh, meu Deus! — exclamou Ermes, que finalmente compreendia o comportamento de Giulia. — Como foi que soubeste?

     —         Não soube — precisou ela. — Vi. Tive o privilégio raro e nojento de vos ver abraçados no supremo interesse da família — continuou, agressiva. — Tinha ido ter contigo à clínica.

     —         Mas não sabes o que realmente aconteceu. Não sabes nada.

     —         Sei quanto basta. E agora vamos ao menos encerrar este episódio com um mínimo de dignidade? — propôs.

     —         Não sejas criança, Giulia. Eu amo-te, e tu sabes. És a minha namorada. Eu estou metido em complicações até aos olhos. E preciso de ti.

     —         Por que não vais ter com a Marta Montini? — replicou, em tom de troça, disposta a iniciar uma discussão. Estava pronta a disparar salvas de vulgaridade banal para defender o amor próprio ofendido, o orgulho ferido, mas conteve-se para não perder a com-postura. — Esquece, Ermes, eu já nem te estou a ouvir. — A imagem de Ermes abraçado a Marta dançava-lhe diante dos olhos. Sabia que aquilo era um comportamento irracional, mas já não o queria. Ermes estava contaminado. Se a tocasse, contaminava-a também a ela.

     —         Queres fazer o favor de me ouvir só por um momento? — gritou.

     —         Adeus, Ermes — disse Giulia, para concluir aquela conversa penosa. Perguntou-se por um instante se teria agido correctamente. Mas o que é correcto quando o que está em jogo é o ciúme e o ressentimento? Seguira o instinto, a raiva, as emoções e o sofrimento.

     Tinha sofrido por causa de Leo, o marido, ao descobrir a traição que ele tentou inutilmente impingir como um banal incidente de percurso, uma divagação insignificante sobre o tema da vida conjugal. Um episódio sem peso que, no entanto, a fez sofrer de uma maneira atroz. Só que naquela altura tinha vinte e seis anos e naquela idade as pancadas absorvem-se com mais facilidade. A sua intransigência e o seu moralismo, pelo contrário, tinham continuado os mesmos.

     Desceu à cozinha e encontrou Giorgio, que estava a preparar uma salada de atum. Estava zangado e implicativo.

     —         O que é que se passa, meu menino? — tentou interrogá-lo.

     —         E não me chames menino — protestou.

    —         O que é que se passa? — Fez-lhe uma festa.

     —         É que tu não tens consideração por mim — censurou-a.

     —         Como é que podes dizer uma coisa dessas? — perguntou, sentida.

     —         Se tivesses consideração por mim, abrias-te comigo. Tu fazes de conta que és sincera, mas estás cheia de mistérios.

     Giulia abriu o frigorífico e pegou numa taça onde estava uma beterraba vermelha cortada em fatias e temperada com sumo de limão. Era um dos alimentos com funções antitumorais que ela consumia. Tinha-lho aconselhado uma amiga que conhecera um guru durante uma viagem à Índia e que estava convencida de que era capaz de controlar o seu próprio cancro alimentando-se de uma certa maneira, com vegetais específicos, e respeitando a cozinha macrobiótica. Com efeito, essa mulher convivia há catorze anos com um linfogranuloma que, segundo a ciência, deveria tê-la aniquilado em poucos anos.

     A ciência desmentia aquele tipo de terapia dos tumores; a história pessoal daquela mulher confirmava-a. Giulia pensou que toda a gente tem o direito de se exprimir sobre um assunto ainda em grande parte envolvido em mistério. Nunca tinha falado sobre isso com Ermes, mas tinha seguido algumas regras, de resto compatíveis com a terapia cirúrgica e com a radioterapia.

     Sentou-se à mesa mesmo em frente a Giorgio. Olhou para a taça cheia de beterraba, que constituía integralmente o seu jantar, e disse:

     —         Sabes que o Ermes me operou ao peito.

     —         Eu sei — disse o rapaz com a boca cheia, erguendo para ela os olhos salpicados de ouro.

     —         Pois bem, não era propriamente uma coisa benigna.

     —         O que é que queres dizer?

     —         Que tenho de fazer uma terapia suplementar para neutralizar completamente aquilo.

     —         Mas ficas curada — respondeu, alarmado.

     —         Posso ficar curada — afirmou, temendo ter-se aventurado demasiado longe e já não encontrar forças para regressar.

     —         Então não precisas de te preocupar — tentou tranquilizá-la, sem demasiada convicção.

     —         Mas há mais — continuou Giulia, que estava já decidida a despejar o saco. — Hoje descobri que o Ermes se estava a reconciliar com a mulher. Na clínica. Já te disse praticamente tudo — concluiu, enquanto trespassava as fatias de beterraba com um garfo como se fossem imagens de Ermes e Marta abraçados.

     Giorgio olhava-a com a boca ainda cheia; tremeu-lhe um sorriso de pena nos lábios e os olhos humedeceram-lhe.

     —         Estás mesmo tramada, mãe — decretou, enquanto deglutia pão, lágrimas e salada de atum. — Desculpa aquelas acusações injustas. Sou mesmo um imbecil.

     Giulia estendeu-lhe uma mão por cima da mesa e falou-lhe como a um velho amigo.

     —         Tenho um tumor e sofro de ciúmes — confessou. — Isto não é com certeza um sinal de maturidade.

     —         Também sofrias de ciúmes com o pai — recordou-lhe.

     —         E tu sabias? — perguntou, espantada.

     —         Não era precisa a argúcia do inspector Colombo para descobrir isso. Vocês separaram-se por tu seres ciumenta?

     —         Eu tornei-me ciumenta. Antes era estúpida. Por isso é que me meti com ele. Ele era um homem, e eu uma miúda inquieta. Quando o encontrei, ele tinha uma profissão fascinante, escrevia. Passaram vinte anos — precisou. — Aconteceu no dia em que o avô Ubaldo morreu — concluiu, e aquela recordação fê-la sorrir.

    

     O corpo sem vida do avô tinha sido instalado no sofá de flores da sala de estar e Benny telefonou ao médico de família, o Dr. Benzoni.

     —         O avô está-se a sentir mal — anunciou o rapaz.

     —         Muito mal? — perguntou o médico, para ter alguma ideia da situação.

     —         Talvez até já esteja morto — comunicou-lhe Benny, depois de um instante de hesitação.

     —         Mas então está vivo ou morto? — perguntou o médico, que começava a ficar irritado.

     —         Por que não vem dar uma vista de olhos, para confirmar? — propôs.

     O professor Vittorio de Blasco sentiu-se mal por causa daquele insulto brutal à respeitabilidade da família; por isso, quando o médico chegou teve, antes de mais, de tratar dele.

     O Dr. Benzoni não era um génio da medicina, mas tinha anos de experiência. Percebeu que o problema do dono da casa era o coração. Recomendou-lhe repouso absoluto enquanto esperava exames mais detalhados e deu-lhe uma injecção.

     Isabella, preocupada mais com o noivado do que com a crise cardíaca do pai e com a morte do avô, barricou-se no quarto que partilhava com Giulia e jurou que não se mexia dali enquanto o cadáver de Ubaldo Milkovich não saísse daquela casa.

     Carmen chorava e Giulia, que conhecia o temperamento do médico melhor do que os outros, decidiu contar-lhe toda a verdade sobre a morte do avô. O Dr. Benzoni percebeu, e declarou que o velho tinha morrido na casa da via Tiepolo com uma apoplexia.

     Foi naquela noite trágica que Giulia conheceu Leo. Benny, que tinha ido à farmácia da estação central para comprar os medicamentos receitados ao pai pelo Dr. Benzoni, encontrou-o e, em nome de uma antiga amizade, convidou-o para ir a casa deles. Precisava de ajuda naquela situação difícil.

     —         Esta é a minha irmã Giulia — disse Benny ao amigo. — Este é Leo Rovelli. — Estavam na cozinha com a intenção de preparar um café.

     —         Rovelli, o enviado do Corriere? — perguntou Giulia, que tinha ouvido o irmão falar dele.

     —         Suponho que sim — brincou, fixando-a com os olhos azuis.

     —         Mas isso é fantástico! — exclamou sem reserva. E sentiu que por aquele homem alto, de contornos simpáticos, cabelos loiros e fartos e expressão aristocrática e inteligente, seria capaz de fazer qualquer coisa. Entretanto, devorava-o com os olhos.

     —         Você também me parece extraordinária — disse, lisonjeiro, sinceramente conquistado por aquela ingenuidade exuberante.

     —         Extraordinária? — murmurou, dando-se conta, naquele momento, de que não estava apresentável: em pijama, despenteada e descomposta. Corou e pareceu ainda mais bonita e desejável. — Tenho que me ir arranjar — acrescentou.

     —         Porquê? — perguntou ele, sem deixar de a contemplar.

     —         Li as suas reportagens de África. Que vida maravilhosa a sua — não pôde deixar de exclamar.

     —         Vamo-nos tratar por tu, não achas melhor? — propôs ele.

     —         Claro — corou. — Sabes uma coisa? Pensava que o Benny dizia que te conhecia só para se armar.

     —         Mas é pura verdade.

     —         Pareces mais velho do que ele — atirou.

     —         Isso é típico das meninas — respondeu, apanhando-a em falta. — Para vocês, um homem próximo dos trinta anos é velho.

     —         Eu não queria dizer isso — desculpou-se, e ficou muito vermelha. Carmen entrou, surpreendendo-os em animada conversa. Benny apresentou o convidado à mãe.

     —         Não era pior se tu te fosses mudar — disse-lhe Carmen severamente. O seu olhar duro relembrou-lhe que um momento como aquele, com o avô morto e o pai vítima de uma crise cardíaca, não era altura para conversa mole com a primeira pessoa que aparecesse.

     —         Eu volto já — desculpou-se ela.

     Foi preciso ameaçar com a intervenção de Carmen para que Isabella, que se tinha fechado à chave, lhe abrisse a porta. Tinha rolos no cabelo e o rosto empastado com um creme castanho nojento.

    —         Bah! — Giulia deitou-lhe a língua de fora. — Pareces uma múmia. — Entretanto tinha enfiado uma saia de flores escarlates e uma blusa de piquet branco.

     —         Estás escandalosa — disse Isabella.

     Giulia girou sobre si própria, levantando a saia rodada.

     —         Escandalosa? Porquê?

     Isabella estava sentada na beira da cama, concentrada a arranjar as unhas.

     —         Lá em baixo está o avô morto, o nosso pai está doente, e tu

vestes-te como a rapariga do luna park.

     —         E tu estás grotesca. Se o teu namorado te visse, fugia mais depressa do que uma lebre — disse Giulia para a provocar, enquanto passava rapidamente uma escova no cabelo.

     —         Es a vergonha da família — insistiu.

     —         Entendido.

     —         Tal e qual o teu avô.

     —         Que está lá em baixo. Morto. E tu estás a ofendê-lo.

     —         Eu estou a ofender-te a ti.

     —         Tens medo que ele venha de noite puxar-te pelos pés? — tentou assustá-la.

     Isabella, inconscientemente, levantou os pés e sentou-se em cima deles, assumindo um caricato comportamento de defesa. — Eu sempre gostei do avô — mentiu.

     —         Eu, no teu lugar, não tinha assim tanto a certeza — insinuou, e fechou a porta atrás de si.

     Giulia abandonou Isabella e aproximou-se em bicos de pés do quarto dos pais onde, ao lado da cama do pai, estava Benny.

     —         Como é que ele está? — perguntou Giulia, baixinho.

     —         Adormeceu.

     —         O que diz o médico?

     —         Não lhe parece assim muito grave, mas tem que ser internado no serviço de cardiologia para observação. — Benny estava muito ligado ao pai, não dando, por seu lado, grande importância à morte do avô. — Tenta convencer a mãe a descansar um bocado — continuou. — Nós tratamos de velar o avô.

     —         Nós quem?

     —         Eu, tu e o Leo. A mãe está muito cansada.

     Quando entrou na sala de estar, Giulia encontrou a mãe a fazer crochet ao lado do avô. De vez em quando levantava os olhos para observar aquele rosto de cera sobre o qual pairava ainda a ideia de um sorriso que ela retribuía.

     Giulia não conseguiu dissimular o seu próprio espanto perante a serenidade de Carmen.

     —         Estava a pensar na última vez em que estivemos realmente juntos, eu e o avô — contou-lhe. — A guerra estava quase no fim. E tu ainda não eras nascida. És parecida com ele.

     —         Vai-te deitar, mãe. — Giulia acariciou-lhe os cabelos e deu--lhe um beijo na testa.

     —         Não te preocupes comigo. Eu estou muito bem aqui. Faz um café. E vê se há bolachas.

     Giulia sentia-se em paz consigo própria e com os outros, e perguntou-se como poderiam coexistir a dor e a felicidade, e como podia o desejo de viver prevalecer sobre o desespero naquela casa visitada pela morte. E, no entanto, eram aqueles os sentimentos que lia no bonito rosto da mãe, os mesmos que lhe habitavam a alma.

     Na cozinha, Giulia encontrou o professor Leone Bossi, o vizinho da casa ao lado. Era um violinista de salão de baile que, às vezes, por um pedido especial e uma módica retribuição, se exibia na igreja em ocasiões solenes. O seu cavalo de batalha era a Ave-maria de Gounod. Tinha uma mulher feia, caprichosa e despótica, originária do interior da Liguria, que falava um italiano catastrófico. O solista estava habituado a deitar-se tarde, e o velório em casa dos de Blasco era uma boa ocasião para uma ausência justificada do aborrecido leito nupcial e um pretexto para estar em boa companhia.

     Giulia surpreendeu-o na sua ocupação preferida, contar histórias extraordinárias. Tinha o rosto redondo, olhos grandes e salientes como os de um batráquio, a testa alta e curva, uma careca brilhante coroada de longos e fartos cabelos brancos e uns lábios carnudos e irrequietos que revelavam uma dentadura imperfeita, com alguns espaços vazios, enegrecida pelo fumo e pela piorreia. Tinha um físico singular: mais de anão alto do que de homem pequeno. Simpático no conjunto, com uma voz de baixo profundo na qual vibrava uma virilidade intensa. A sua plateia era representada por Leo, que encontrava algum interesse naquele personagem insólito.

     —         Conte-me tudo — incitou Leo. — Não me deixe pendurado — acrescentou, a olhar para Giulia com intenções inequívocas. — Estás fantástica — sussurrou, tocando-lhe uma mão quando ela passou junto a ele para ir até ao lava-loiça.

     —         O senhor, Dr. Rovelli, que é jornalista, podia escrever um livro sobre uma história como esta — continuou Leone. — E a história que lhe estou a contar é tão verdadeira como o Evangelho.

     —         Continue, por favor — disse Leo, que não perdia Giulia de vista.

     —         Esse meu amigo estava inequivocamente morto — disse, continuando com aquela narração macabra. — Pois bem. Eu afasto-me um momento. Quando volto ao quarto do morto, encontro-o sentado na cama, hirto como um bacalhau, com os olhos arregalados e os braços esticados paralelamente às pernas. Uma coisa para deixar qualquer um sem fôlego — acrescentou, acentuando os tons mais sombrios da voz para sublinhar o horror daquela história. — É capaz de imaginar a cena? O quarto silencioso, a luz vacilante das velas e o morto no meio da cama, subitamente sentado e hirto como um fantoche a trespassar-nos com os olhos. Isto aconteceu na minha terra. Antes da guerra. Acredite em mim.

     —         Eu acredito, e depois? — perguntou o jornalista que, entre-tanto, não deixava de olhar para Giulia.

     —         Tinham-se-lhe encolhido os nervos — continuou o violinista. — Percebe, doutor? O senhor sabia que às vezes se encolhem os nervos aos mortos? Por isso é que acontece que o cadáver, em vez de ficar esticado, se senta.

     —         E o senhor como é que resolveu o problema? — insistiu Leo.

     —         Pedi socorro. Veio um amigo. Ele agarrava-o pelos pés e eu tentava empurrá-lo para baixo, pelos ombros. Os nervos chiavam como as cordas de um violino quando estão para rebentar. Achei que tinha conseguido. Largo-o, mas o braço dele salta como um arrocho e atinge-me mesmo aqui — acrescentou, espavorido, tocando o nariz verrugoso. — Uma bordoada que me deixa a sangrar.

     Giulia captou a expressão divertida de Leo, mas não percebeu se era efeito da narração ou do assombro estampado no seu rosto.

     —         Uma coisa inacreditável — comentou Leo, muito sério.

     —         O que é que eu lhe tinha dito? — exultou Leone, enquanto os olhos de batráquio se projectavam perigosamente para fora do seu espaço natural.

     —         Se não fosse o senhor a contar esta história, eu tinha dúvidas.

     —         Mas não acaba aqui — reforçou a dose, passando a ponta da língua pelos lábios carnudos.

     Giulia servia o café nas chávenas do melhor serviço que possuíam. Entre ela e o jornalista houve uns olhares carregados de cumplicidade. Ele piscou-lhe o olho e aquele gesto confidencial contribuiu para aumentar a confusão em que ela se encontrava.

     —         E como foi que acabou, senhor Bossi?

     —         Pensámos em metê-lo logo no caixão. Mas o morto conseguiu despregá-lo. Por isso foi preciso chamar um médico, que lhe cortou os nervos e, finalmente, o desgraçado descansou em paz. Tal e qual — concluiu o violinista, enquanto mexia o café e abanava repetidamente a cabeça.

     Giulia foi à sala levar um café à mãe. Olhou para o avô e estremeceu com a ideia de que de um momento para o outro ele se fosse sentar com os braços esticados e os olhos arregalados como o amigo do senhor Bossi. Mas não aconteceu nada. No entanto, enquanto olhava para ele, teve a impressão de que o peito do velho subia e descia respirando lentamente.

     —         Mãe, não te parece que está vivo? — murmurou, como se temesse que o avô a pudesse ouvir.

     Carmen inclinou-se e tocou a testa do pai.

     —         Isso era o que tu querias. É a projecção de um desejo.

     —         Talvez seja devido ao facto de eu não me conformar com a ideia de ele estar morto. É uma realidade que não aceito — confessou Giulia. — Não me admirava nada que ele agora se levantasse mesmo e dissesse que era só uma brincadeira. Mãe — murmurou —, há uma coisa de que eu me envergonho. E difícil falar, mesmo contigo.

     —         O que foi? — perguntou Carmen, resignada. Agora que já tinha acontecido tudo, o que mais lhe poderia ocorrer?

     —         Tenho muita pena que o avô esteja morto. Mas não sinto nenhuma dor. E, no entanto, gosto muito dele. Sempre gostei. Não consigo chorar. Pelo contrário, tenho uma grande vontade de viver.

    O sorriso do avô pareceu acentuar-se.

     —         Esse foi sempre o desejo dele. Estou contente por ele e por ti. A vida continua, minha menina. Agora vou descansar um bocado — suspirou, enquanto se levantava.

     O professor Bossi entrou na sala.

     —         Vá dormir, dona Carmen — sossegou-a. — Eu fico aqui com o seu pai. Se me permite, até lhe faço uma pequena serenata. Uma peça apropriada. A Ave-maria de Gounod...? — Piscou-lhe um olho com discrição.

     —         Seria a única oração de toda a vida dele. Que Deus lhe perdoe.

     —         Mal também não lhe faz.

     —         Faça como entender — replicou Carmen. — Desde que não incomode o professor. Está doente. — E começou a subir as escadas com dificuldade, agarrando-se ao corrimão.

     Giulia foi à cozinha. Leo estava a fumar um cigarro ao lado da grande janela que dava para o jardim. A ténue respiração da madrugada acariciava o céu.

     —         Queres? — perguntou, enquanto lhe estendia o maço.

     —         Nunca fumei.

     —         É uma boa ocasião para experimentares.

     A rapariga pegou num cigarro e meteu-o ingenuamente entre os lábios que tremiam. Leo aproximou a chama do Dupont, ela aspirou o fumo azulado e teve a impressão de que ia sufocar. Ele riu ao vê-la atirar o cigarro para o jardim e corar pela vergonha de não ter passado aquela prova.

     Benny entrou na cozinha para dizer que o professor tinha acordado e que se sentia novamente mal.

     Giulia e Leo beijavam-se.

    

     - Mas tu de onde vens? De que raça és? Não és uma de Blasco,

valha-me Deus! — disse Benny agressivo, com os olhos

faiscantes de ira, um ar enfurecido e uma voz carregada de desprezo.

     Estavam no jardim, sentados no banco ao fundo do caminho. Por trás deles, as rosas trepadeiras formavam uma sugestiva parede florida. Em frente havia dois grandes arbustos salpicados de bagos vermelho vivo.

     —         Só nos beijámos — tentou ela justificar-se.

     —         Só se beijaram? — repetiu escandalizado. — Com o avô morto na sala e o pai num estado tão grave.

     —         Evitar este beijo não traria nem o avô de volta nem a cura do pai. — Não via a hora de o irmão acabar com aquela prédica, por-que nada nem ninguém poderia apagar aquilo que sentia por Leo. Tinha uma pressa desesperada de o voltar a ver.

     —         A Isabella nunca teria descido tão baixo — atirou-lhe. — De-vias seguir o exemplo da tua irmã. Se o pai soubesse, no estado em que está, sofreria um choque muito forte. Se calhar nem sobrevivia.

     —         Por causa de um beijo — murmurou Giulia.

     —         Não há nada que te faça parar — continuou.

     —         Ouve, Benny — Giulia tentou encerrar o assunto. — Já está feito... com as consequências que tiver. Talvez eu tenha errado. Mas o pai não sabe de nada. E não vamos com certeza ser nós a comunicar-lhe esta notícia terrível — disse com ironia.

     —         Podes ter a certeza — confirmou ele. — Se eu fosse teu pai,

dava-te uma tareia. E até acho que um bom par de bofetadas te fazia bem. E claro que o pai não vai saber de nada. Pelo menos até ficar bom. Entretanto, quem manda em casa sou eu. E proíbo-te de voltares a ver o Leo. Fiz-me entender? — intimou-a.

     —         É claro que te fizeste entender — sossegou-o, dirigindo-se lentamente a casa, enquanto pensava na desculpa que ia arranjar para sair imediatamente. Trazia um vestido de linho azul adornado com uma grande trança de corais à volta do pescoço. Era uma jovem extraordinariamente bonita e irremediavelmente apaixonada. Estava também dominada por uma tensão extrema: tinha um encontro marcado com Leo e arriscava-se a chegar atrasada. Ou de nem sequer chegar. A indignação do irmão tê-la-ia deixado completamente indiferente se não a impedisse de realizar o seu plano, mas assim ameaçava ser alguma coisa mais do que uma fastidiosa lição de moral.

     A sucessão de acontecimentos negativos não dava sinais de acabar. Primeiro foi o funeral do avô, que a encheu de tristeza, depois o internamento do pai na clínica, que a obrigava, durante o turno de assistência que lhe competia, a ficar sentada ao lado da cama durante horas em que era obrigada a ler excertos de Virgilio, marcando bem a métrica e tendo o cuidado de não errar, porque nesse caso o professor agitava-se, e isso não era bom.

     Agora faltava-lhe o tom de preceptor vitoriano de Benny. Quando os apanhou a beijarem-se, voou para outro lado. Esperou alguns dias antes de a encarar com a severidade carrancuda de uma madre abadessa. Giulia entrou na sala onde Carmen se estava a despedir de uns colegas do marido, que tinham vindo apresentar-lhe as condolências pela morte do pai e pedir notícias de Vittorio.

     —         Mãe, eu vou estudar para casa da Silvana — anunciou Giulia. Tinha debaixo do braço alguns livros amarrados com uma cinta de borracha.

     —         Está bem — autorizou Carmen distraidamente, enquanto Giulia cumprimentava as visitas e lhe dava um beijo.

     —         Onde é que pensas que vais? — perguntou Benny,

surpreendendo-a à porta de casa.

     —         Venho munida de um salvo-conduto — declamou com uma solenidade fingida.

     —         Não me provoques, Giulia.

     —         Tenho autorização da mãe — declarou muito séria.

     —         Para ir onde?

     —         A casa da Silvana. Estudar.

     —         Não podias escolher uma amiga que morasse mais perto? — objectou.

     A casa de Silvana ficava na outra ponta da cidade, e eram precisos três quartos de hora para lá chegar em transportes públicos.

     —         É a mais disponível — justificou-se. — E também a melhor. A melhor entre as melhores.

     —         Então deixa-me o número do telefone, porque daqui a uma hora ligo-te para ver se lá estás.

     Giulia tinha uma vontade desesperada de o mandar àquela parte. Porém, ditou-lhe o número, obediente, e saiu com um suspiro de alívio.

     Leo estava à espera dela no carro, na esquina com a piazza Novelli. Giulia sentou-se ao lado dele. Cheirava a água de colónia, a tabaco, e vagamente a gasolina. E havia as vibrações daquela voz doce e escura como uma torta de café que lhe faziam bater o coração com muita força e emoção.

     Reclinou o assento, esticou as pernas e deixou-se escorregar até quase desaparecer abaixo do nível da janela, depois cobriu a cara com os livros e sentiu-se protegida naquela fortaleza impenetrável que, entretanto, se tinha posto em movimento.

     —         Tenho três quartos de hora para chegar a casa da minha amiga — comunicou.

     —         Temos meia hora só para nós — cronometrou Leo, partindo a todo o gás em direcção ao aeroporto.

     Em cinco minutos, percorrendo o viale Forlanini, chegaram a uma pequena estrada no meio dos campos, ladeada por um riacho, perto do aeroporto de Linate. Um Caravelle levantou, rugindo com a potência dos seus reactores.

     Leo deu-lhe um abraço apertado e ela sentia-se inebriada com aquela força, aquele perfume, aquelas promessas e os sonhos que lhe enchiam o espírito e o coração.

     —         Um dia havemos de embarcar juntos num avião maior, mui-to maior do que aquele — sussurrava-lhe ao ouvido, provocando--lhe arrepios extenuantes. — Vou levar-te ao fim do mundo. Vou mostrar-te pessoas e países de que nem sequer ouviste falar. Vamos viver juntos aventuras inesquecíveis.

     —         Vais-me levar a tomar um café-crème e um croissant num bistrot dos Champs Elysées, em Paris?

     —         Claro. E depois vamos a Nova Iorque. Percorremos a Quinta Avenida, entramos no Tiffany, comemos um hot-dog num banco do Central Park e subimos ao Empire State Building. E depois vamos ver espectáculos fabulosos na Broadway — prometeu ele.

     —         E levas-me — continuou, com um olhar sonhador — às ilhas dos mares do sul?

     —         Agora levo-te mas é à tua amiga — respondeu, chamando-a à dura realidade. — Já passou meia hora. E temos que correr para chegar a tempo.

     —         Protesto formalmente contra o relógio. Avança como um louco quando estamos juntos. Parece parado quando não estás comigo.

     Leo inclinou-se para a beijar.

     —         Pode ser que um dia arranjemos uma manhã ou uma tarde inteira só para nós — auspiciou Leo.

     —         O Benny está furioso. Controla-me como um mastim. E rosna como um cão de guarda.

     —         Também está danado comigo. Ameaçou contar tudo à minha mulher, se eu te voltar a ver.

     —         E isso era grave? — perguntou ela.

     —         Não sei. Se calhar até me fazia um favor. É um assunto que, mais cedo ou mais tarde, vou ter de abordar com ela.

    

     Silvana Tonani tinha um rosto comprido, mole, estranho, com uma ironia triste. Tinha uma tez pálida, dentes compridos e amarelos cobertos por lábios grossos, em tudo semelhantes aos de um peixinho vermelho. Não sorria, boqueava. Em contrapartida, tinha um cabelo maravilhoso, denso e ondulado, e uns olhos grandes de uma beleza indescritível. Frequentava com Giulia o primeiro ano de Línguas e coleccionava notas máximas.

     Quando falava, pronunciava as palavras lentamente, carregando os lábios espessos como uma funda. Disparava as consoantes labiais, sobretudo o «p», com borrifos de saliva que aspergiam livros, cadernos e os desgraçados interlocutores que se encontrassem no seu raio de acção. Um dos seus temas preferidos era o das grutas de Postumia, que visitava todos os anos com a família.

     À parte isso, Silvana era uma amiga deliciosa. Tinha uma paixão doentia pelo estudo e um talento inato para ensinar. Tinha muita paciência com Giulia, cujas inquietações a impediam regular-mente de se concentrar. Giulia sonhava com ilhas inexploradas, viajava nas asas da fantasia, apaixonava-se por um verso, uma cor, comovia-se com uma frase; Silvana sonhava com o dia em que teria à sua frente uma turma de alunos, atentos às suas aulas.

     — Vou escrever no quadro — explicou. — Vou usá-lo muito. Gosto de ver nascer, redondas e corpulentas, as letras do giz — acrescentou com sensualidade —, e sinto um arrepio quando o giz se parte. Depois sento-me à secretária. Ou fico em pé no estrado, que me vai fazer parecer mais alta. E vou ter toda a gente abaixo de mim. Todos pendurados nas minhas palavras. — E naquela orgia de «p» e de «b» partiam-lhe dos lábios borrifos perigosos contra os quais não havia defesa.

     Giulia invejava a segurança da amiga, o saber exactamente aquilo que queria fazer dali a quatro anos. Ela, pelo contrário, não sabia nada do futuro.

     —         Com certeza que, logo que for colocada — continuou —, arranjo um namorado. Antes não. Porque o namoro ocupa muito tempo. Caso-me e tenho pelo menos dois filhos. O primeiro aos vinte e oito anos. O segundo, dois anos depois. — Não tinha dúvidas, nem hesitações, nem perturbações particulares.

     —         Talvez até consigas ler o nome do teu marido na tua bola de cristal particular — interrompeu Giulia, com mais admiração do que ironia.

     —         Talvez seja um professor como eu — respondeu Silvana. — A escola oferece muitas oportunidades de encontro. Para já — reflectiu, enquanto um sorriso lhe levantava os lábios carnudos, iluminando-lhe o rosto —, preferia um médico. Talvez já com o consultório montado. Ou até, quem sabe, um advogado. Especializado em direito civil, se possível. Podia trabalhar com o meu pai.

     —         Mas onde arranjas tu tanta segurança? — replicou Giulia com energia. — De onde te vêm todas essas certezas medonhas? Eu não sei o que vou fazer daqui a um instante — lamentou. — Quero a lua. Percebes? — Corou, enquanto uma confissão lhe saltava dos lábios. — Estou loucamente apaixonada por um homem casado.

     A expressão desproporcionada de Silvana acentuou-se e os seus lábios de peixe atingiram um volume incrível.

     —         Um homem casado? — murmurou, incrédula e aniquilada.

     —         Um homem casado — repetiu Giulia.

     —         Diz-me que não é verdade — pediu, escandalizada.

     —         É mesmo assim, juro-te.

     —         Mas tu és doida varrida — censurou-a com severidade. Uma de Blasco envolvida numa história vergonhosa. Mas isso é inadmissível.

     —         Por que não uma de Blasco? — perguntou, espantada. — Porquê uma história vergonhosa?

     —         Porque... porque... porque sim. — Com aquela resposta sibilina partiram rajadas de borrifos que borrifaram livros, cadernos e as mãos de Giulia, que tentou em vão organizar uma defesa.

     Sem o dar a entender, e seguindo um esquema preciso, aquela água parada tinha posto os olhos em Benny de Blasco e sonhava enlear o jovem procurador, cujo apelido tinha o eco de uma nobreza antiga. Cada coisa a seu tempo, pensava aquela programadora implacável. De outro modo, não perderia tanto tempo com aquela desmiolada da Giulia. A qual, na sua ingenuidade, não tinha percebido nada sobre as intenções da amiga.

     —         E quem é esse homem casado por quem estás loucamente apaixonada? — perguntou, com um ar professoral.

     —         Leo Rovelli — respondeu, exultante.

     —         Não me digas que é o jornalista do Corriere — respondeu, incapaz de esconder espanto e admiração.

     —         É mesmo ele.

     —         Não é possível.

     Giulia não conseguiu controlar o entusiasmo. — É um homem lindíssimo. Alto. Loiro. Forte. Protector. Meigo. Uns olhos azuis de morrer. Uma voz quente, vibrante. Uma cultura imensa. Hemingway. Estás a ver o Hemingway? Ele escreve assim. Sabe de cor excertos inteiros dos romances dele. Telefona-me e, como se não fosse nada de especial, diz-me: vou a Cuba. Ou ao Rio. Ou a Nova Iorque. Ou a Nairobi. — Acabava de concluir com uma série de mentiras fantásticas o perfil de Leo, entusiasmada com aquele jogo tão excitante. Conheciam-se há poucos dias, e ele não poderia ter partido para todos aqueles destinos. A viagem mais longa tinha terminado nos arredores do aeroporto de Linate. — Um homem. Um homem a sério — exclamou com ênfase.

     —         Até pode ser — admitiu Silvana, mantendo-se bem agarrada à realidade. — Mas um homem a sério não faz andar à roda a cabeça de uma rapariga estando em risco de a comprometer. Um homem a sério ficava com a mulher, em vez de andar a rondar uma menor — raciocinou Silvana, em quem sempre prevaleciam o sentido prático e o bom senso.

     —         A mulher não tem nada a ver com isto — respondeu, zangada. — Ele já deixou de gostar dela há uns tempos. Se calhar até nunca gostou dela. Mais dia menos dia separa-se. Isso a mim não me interessa. Como não me interessa o casamento — concluiu, calorosamente.

     —         Quais são então as tuas aspirações?

     —         Romper com estes estúpidos esquemas burgueses.

     —         Mas o que é que tencionas fazer na vida?

     —         Não tenho a certeza de querer fazer alguma coisa. Basta-me viver. — Pensou numa existência cheia de exaltações, de mistérios, de surpresas, um espaço para pôr à prova a coragem dos sentimentos e a violência das emoções, dia após dia.

    

     E chegou o dia da sua primeira, grande experiência de mulher. Tinha finalmente arranjado uma desculpa plausível: uma pesquisa na biblioteca que lhe ia ocupar uma manhã inteira. O sol fazia-lhe estranhos jogos de luz no cabelo, a sua alma ria e o coração galopava como um poldro enlouquecido.

     Leo foi ter com ela ao viale Abruzzi, encostou ao passeio e Giulia entrou.

     —         Temos a casa de um amigo meu por nossa conta — comunicou, mostrando-lhe uma chave. — Queres vir comigo?

     Olhou-o sem encontrar um monossílabo para confirmar a sua própria disponibilidade. É claro que queria ir, mas ele não podia pretender uma resposta seca a uma pergunta tão peremptória. Não é que estivesse à espera de muitas palavras, mas talvez de uma for-ma menos brutal, de um convite muito terno em que não estivesse tudo tão explícito.

     —         Quem cala, consente — decidiu por ela.

     Uma aceleradela nervosa, uma chiadeira de grande prémio, uma furibunda gincana no trânsito e, dez minutos depois, Giulia desembarcava no esquálido apartamento de um desconhecido, num quarto despido onde pairava um áspero e incomodativo odor de charuto toscano misturado com naftalina. Sobre a cama havia uma coberta de tecido brilhante, de um verde desbotado, bastante gasta e não muito limpa.

     Tinha poucas certezas na vida, mas estava convencida de que aquele não era o sítio para uma primeira experiência amorosa. Ela, que tinha caminhado com Leo por onde nascem as grandes ilusões e por onde a vida se torna poesia, não podia aceitar aquele palco sórdido para um começo tão importante.

     Ficou agarrada ao puxador da porta enquanto Leo baixava as persianas, não tanto para criar uma atmosfera romântica, mas para atenuar a desolação daquele ambiente em que a coisa mais alegre e interessante era uma horrenda pintura abstracta coberta de pó, uma mancha de cor sobre aglomerado de madeira sem moldura.

     Quando Leo se virou para ela, Giulia ia a sair.

     —         O que é que se passa? — perguntou-lhe, surpreendido.

     —         Não gosto disto — respondeu.

     —         De que é que não gostas? — insistiu, irritado.

     —         Desta casa, deste quarto, desta cama.

     —         É um sítio como outro qualquer — justificou-se, enquanto se aproximava dela pronto para mil e um gestos de ternura. — O nosso amor é que interessa.

     —         Tu não prometeste levar-me a um sítio qualquer — reagiu.

     —         O que foi que eu te prometi? — replicou ele, vendo esfumar-se uma aventura excitante.

     —         Paris, Londres, Nova Iorque, Rio, Havana — enumerou, contando pelos dedos.

     —         Em meia manhã? — perguntou ele. — Em três horas atravessamos os Alpes. Ou mesmo o oceano. És doida? Eu já devia imaginar que tu não passas de uma menina assustada.

     —         Não, não sou uma menina assustada — rebateu com altivez. — Sou uma mulher responsável. Tenho vinte anos. Só que tinha imaginado um sítio diferente para a minha primeira vez.

     —         A tua primeira vez? — gritou Leo, desorientado.

     —         Porquê? O que é que julgavas?

     —         Mas, desculpa lá, tu... eu... — tropeçou nas palavras. — Estou quase a ir para a cama contigo e tu dizes-me que é a primeira vez?

     Os olhos de Giulia encheram-se de lágrimas.

     —         É assim tão grave? — perguntou, com os lábios a tremer.

     —         Não, mas não podias ter-me dito logo que eras virgem?

     —         Se és um homem com a experiência que dizes ter, até podias ter imaginado isso por ti próprio — respondeu, agressiva.

     —         Mas pensa nas tuas palavras, que diabo— atacou. — Nada de casamento. Nada de compromisso. Se um homem me agrada, ando com ele. Se ficasse grávida, tinha o bebé sozinha. Se um homem e uma mulher se desejam, é normal que vão para a cama juntos. O facto de tu seres casado não significa nada para mim. Valha-me Deus! Isto não são palavras nem pensamentos de uma rapariga virgem.

     —         O que é que impede uma rapariga virgem de pensar exacta-mente como eu? — replicou.

     —         Por favor, Giulia, não vamos complicar mais as coisas com uma polémica estéril. — Leo acalmou e abraçou-a.

     O odor desagradável de charuto e naftalina parecia agora mais forte e repugnante.

     —         Não me toques — Giulia afastou-se.

     —         Talvez tenhas razão — admitiu. — Fui demasiado precipitado. E grosseiro — tentou amansá-la.

     —         E ficaste assustado com a minha virgindade — atirou-lhe.

     —         Tenta perceber — tinha o olhar equívoco do jogador de roleta.

      —         Leva-me a casa — ordenou ela.

     —         Então não queres mesmo perceber — tentou convencê-la.

     Giulia recordou os seus sonhos como confeitos coloridos e comparou-os com a esquálida realidade em que se encontrava metida.

     —         Quero ir para casa. — Sorriu-lhe sem rancor.

     Lá fora o sol não voltou a brincar com os cabelos dela porque se tinha escondido por trás de uma densa camada de nuvens.

    

     Giulia telefonou, na via Solferino, para o Corriere delia Sera. Tinha sido dura com Leo e aquela despedida brusca tinha-lhe deixado um amargo de boca.

     — O doutor Rovelli está de folga — comunicou a voz pretensiosa de um homem que tinha seguramente uma alta opinião de si próprio. Desligou. Como é que fazia agora para lhe dizer que continuava a amá-lo, que se tinha portado como uma menina estúpida e ingénua, que estava de partida, que ia ficar fora de Milão durante muitos dias?

     Vencendo a sua timidez natural ligou-lhe para casa e, enquanto otelefone tocava, tentou pela primeira vez imaginar o ambiente onde Leo vivia com outra mulher, partilhando com ela, no bem e no mal, os dias e as noites.

     Atendeu uma voz clara e autoritária, e Giulia sentiu-se um raminho ao vento. A força e a legitimidade sopravam contra ela, impedindo-a de continuar.

     — Quem fala? — perguntou a mulher.

     Um automatismo muito semelhante ao instinto de fuga levou-a a interromper a comunicação, e sentiu-se, ela que não perdia uma ocasião de desfraldar o estandarte da verdade a qualquer preço, como um menino que toca à campainha de uma casa desconhecida e foge com quanta força tem. Pior, sentiu-se como o autor de uma carta anónima. E, para além disso, estava trespassada pelo espinho do ciúme. Uma coisa era saber que ele era casado, outra coisa era sofrer a presença autoritária e real da mulher. Aquele belo papagaio colorido erguido pelo vento da juventude era agora maltratado por uma tempestade repentina. A sua vida continuava a ser como uma montanha russa onde alternavam a embriaguez da descida e a ansiedade estrénua da subida; nunca uma modulação compatível com uma visão equilibrada da existência. Entre duas tempestades, mo-mentos repentinos de sol e de azul.

      Giulia subiu até ao seu quarto e começou a preparar as coisas para a viagem. Ia para Modena. Os proprietários da casa onde o avô tinha vivido com os cães tinham mandado os herdeiros proceder ao despejo daquele espaço por ter cessado o contrato de arrendamento.

     Carmen tinha que ficar junto do marido, que ainda precisava dela. O professor parecia estar sempre à beira da recuperação, mas não havia maneira de sair da crise. Naquela noite, ao jantar, ficou decidido que Giulia se ocuparia daquilo. Benny, como de costume, tinha um compromisso importante. Isabella, perante aquelas incumbências, desfalecia.

     —         Não há coisas de valor na casa do avô — preveniu-a a mãe.

     —         Porém — pensou melhor —, com ele nunca se sabe. Vais encontrar roupa de casa muito bonita. Mete-a no baú, juntamente com todas as recordações da casa: fotografias, as espingardas de caça e o serviço de porcelana.

     —         Eu lembro-me das molduras liberty. Algumas em latão e outras em prata — interveio Isabella, com uma indiferença estudada, enquanto misturava migalhas de pão no molho dos pimentos.

     —         Acho-as engraçadas. Ficavam muito bem na minha sala de estar.

     —         Ficarão igualmente bem na nossa — replicou Carmen, tirando-lhe qualquer ilusão.

     Desde que tinha começado os preparativos para o casamento, Isabella não pensava noutra coisa e avaliava tudo nessa única perspectiva.

     Giulia pensava em Leo. A irmã podia ficar com o que quisesse. Para ela bastava a nuvem branca onde as recordações rodopiavam como partículas enlouquecidas. Naquele momento, Leo era a sua obsessão. Se ao menos tivesse podido falar com ele, se ao menos tivesse podido dizer-lhe que ia partir.

     Quando a carapaça negra do telefone despertou com um toque, Giulia precipitou-se em direcção ao corredor, arriscando-se a derrubar tudo e todos.

     —         Estou! — gritou ao auscultador.

     —         Não queres fazer uma revisão sobre A Canção de Rolando? — Era Silvana.

     —         Não — respondeu Giulia secamente.

     —         O meu pai dá-me boleia até tua casa — insistiu a amiga.

     —         Estou cheia de complicações — confessou. — Não estou em condições de ler, nem de escrever, nem de perceber nada,

     —         Então damos dois dedos de conversa — continuou Silvana, que fazia daquilo uma questão de vida ou de morte.

     —         Nem sequer me apetece falar, acredita.

     —         Tenho um disco dos Beatles — murmurou, como se lhe estivesse a revelar uma coisa proibida. — Posso levá-lo. Se calhar a tua irmã também ia gostar. E o teu irmão.

     —         Está bem — capitulou, por cansaço.

     Giulia regressou à sala de jantar.

     —         Daqui a pouco está aí a Silvana — anunciou.

     —         A tua amiga feiosa? — gracejou Benny.

     —         Arma-te em engraçado — picou Isabella. — Entretanto, ela faz-te olhinhos. Quando se tem um pai e uma fortuna como a dela aos ombros, a beleza passa para segundo plano. Acredita em mim.

     —         Tens medo de apanhar um esgotamento nervoso se, por uma vez, te meteres na tua vida? — respondeu o rapaz.

     Foi um serão penoso e, enquanto os irmãos entreteciam discursos banais sobre o repertório original e agradável dos Beatles, Giulia foi ter com a mãe à cozinha.

     —         Por quem te apaixonaste desta vez? — disparou Carmen com segurança, enquanto lhe estendia um prato para ela limpar.

     —         Não se te pode esconder nada — protestou Giulia.

     —         Tu não podes. Desde os teus quinze anos, daquela primeira vez com Ermes Corsini, que te apaixonas perdidamente pelo rapaz errado. Já conheço de cor os teus rubores, as tuas distracções e tudo o resto — disse Carmen.

     —         Desta vez não se trata de um rapaz — disse Giulia, corando.

     —         Ai não? E quem poderá ser este misterioso desconhecido?

     —         Um homem — declarou com grande seriedade.

     —         Sabe-se lá em que é que eu estava a pensar — disse Carmen com ironia.

      —         Um homem casado — precisou Giulia.

     Carmen sentiu apertar-se-lhe a boca do estômago. Fechou a torneira, limpou as mãos e respirou fundo. Até o sermão que lhe podia fazer voltou para dentro. E não houve censuras. Era difícil comunicar com aquela filha estranha e diferente, que fugia a todos os esquemas imagináveis e se aventurava por caminhos proibidos que, mais cedo ou mais tarde, iriam desaguar numa dor profunda.

     Carmen seleccionou as pessoas com quem Giulia tinha contactado naqueles últimos tempos.

     —         Leo Rovelli — tentou adivinhar.

     —         Sim, é mesmo ele — admitiu a rapariga.

     —         É uma coisa séria?

     —         O amor é sempre uma coisa séria.

     —         Arranja maneira de o teu pai nunca vir a saber disso — disse Carmen, preocupada.

     Giulia sentiu vergonha pela indiferença com que vivia a doença do professor, cujo restabelecimento demorava a chegar. Era um problema que complicava a vida de toda a gente, sobretudo a dela, obrigando-a a partir sem ter sequer tempo de avisar Leo.

   —         Ele nunca vai saber — garantiu.

     —         E eu espero que passe. Depressa. E que não te faça demasiado mal. — Carmen foi até junto dela e beijou-lhe os cabelos.

     Giulia abraçou-a. Mãe e filha ficaram assim, abraçadas uma à outra, sem falar, unidas pelo amor e por uma outra coisa ainda mais tenaz, a consciência da dor.

    

     Carmen foi acompanhar a filha. Viu-a entrar no comboio e ocupar um lugar num compartimento de segunda classe de um directo para Roma. Olhou para as imensas arcadas de vidro e ferro da estação, que tinham para ela a solenidade de uma catedral. Por entre os assobios e os sopros dos comboios, as mensagens incompreensíveis dos altifalantes, as vozes dos vendedores e dos carregadores e o ruído dos viajantes, Carmen foi visitada pelas recordações de uma viagem distante. Há pouco mais de vinte anos, quando ela própria apanhara aquele comboio para Modena. Ainda se lembrava do tecido, da cor e do corte do casaco que vestia, da mala, dos sapatos ortopédicos, da miséria, da tristeza e da dor. O que o mundo tinha mudado em vinte anos. O que a vida dela tinha mudado. Aquela longínqua viagem de guerra tinha-lhe dado uma filha. Extraordinária. E infeliz como ela. Isabella estava protegida pela dura carapaça do egoísmo e por uma astúcia inata. Benny tinha uma inteligência prática. Giulia era o único guerreiro sem armadura e oferecia-se, desarmada e vulnerável, às experiências da vida.

     Passaram carrinhos com jornais, bebidas e sanduíches.

     —         Queres alguma coisa? — perguntou Carmen.

     —         Não tenho fome, mãe.

     —         Então alguma coisa para leres — insistiu.

     —         Não, mãe — sorriu. — Tenho os meus pensamentos, que me fazem companhia.

     —         Grandes pensamentos? — Carmen tentou brincar. — Num cérebro pequeno os grandes pensamentos são perigosos — replicou.

     A locomotiva assobiou.

     Giulia debruçou-se para apertar a mão que a mãe lhe estendia.

     —         Gosto muito de ti, minha pequenina — disse Carmen, comovida.

     —         Eu também, mãe.

     —         Giulia — chamou ainda Carmen, quando o comboio começava já a mover-se. — Agarra a felicidade quando a encontrares. E não penses no que vai ser depois — foi quase um grito.

     Giulia mandou-lhe um beijo levando a mão aos lábios, como quando era pequena.

    

     Na praça de estação de Modena, Giulia viu partir o autocarro e teve um gesto de contrariedade. Quem sabe quanto tempo teria de esperar pelo seguinte.

     —         Menina de Blasco? — perguntou-lhe uma espécie de oficial chileno, enquanto tirava o boné de pala e o levava à altura do peito. Giulia olhou-o, surpreendida e assustada.

     —         Está a falar comigo? — perguntou, apesar de constatar que não havia mais nenhum de Blasco por ali perto.

     —         Sim, menina — confirmou. — O carro está à sua espera — acrescentou, indicando uma limousine azul com vidros escuros que a impediam de ver o interior.

     Giulia sentiu vontade de rir. O seu oficial chileno era apenas um chauffeur fardado. Mas por que razão um motorista de farda e um automóvel tão importante a esperavam na estação?

     O homem pegou-lhe no saco de viagem e depois abriu a porta traseira. Sentada no carro, à espera dela, estava a marquesa Zaira Manodori Stampa.

    

     Anda lá, entra. E não faças essa cara de visionária. Sou a Zaira, não sou a Nossa Senhora — incitou a amiga com a sua voz rouca e sensual, autoritária e alegre.

     Giulia sentou-se ao lado dela.

     —         Pareces saída de um quadro do Renascimento — disse Giulia.

     —         Não digas disparates — defendeu-se, satisfeita.

     Zaira aparentava uma grande credibilidade no seu novo papel de aristocrata. Os cabelos negros, compridos e fartos, estavam apanhados na nuca, numa trança encerrada numa rede de fios de ouro. O rosto moreno de faces rosadas adquiria luz de duas pérolas estupendas nos lobos das orelhas. O vestido de crêpe de seda cor-de--rosa com salpicos cinzentos e negros era de uma simplicidade comovente. Giulia não deixou de observar os pés, excelentemente modelados por umas sandálias de verniz, quase rasas, que mostravam as unhas pintadas de vermelho.

     —         Onde é que vamos? — perguntou. — Ou tenho que me conformar com o meu papel de serva humilde? — acrescentou, com uma ponta de sarcasmo.

     —         Vamos para casa do avô. Do teu, é claro — informou Zaira. — Não foi por isso que vieste a Modena?

     —         Mas como é que tu sabes? — perguntou Giulia, espantada.

     —         Acontece que é propriedade minha.

     —         Desde quando? — quis saber Giulia.

     —         Desde há alguns anos.

     —         Tu és diabólica.

     —         Comprei a quinta e o complexo inteiro: a casa, os estábulos. A minha velha casa incluída. Comprei uma mão-cheia de recordações — revelou.

     —         Então foste tu que nos mandaste despejar a casa do avô — deduziu Giulia.

     —         Oh, não. É a administração que trata dessas coisas. Eu, como vês, destinei aos herdeiros Milkovich uma recepção digna do grande avô.

     —         Se tivesse vindo a minha mãe, não tinha encontrado na estação nem sequer uma bicicleta velha. Quanto mais um carro de grande estadão!

     Os olhos negros de Zaira brilharam de desejo.

     —         A questão é que te amo, Giulia — sussurrou, pousando uma mão cheia de anéis sobre os jeans desbotados. — E te desejo. Podia dar-te tudo o que quisesses, se fosses um bocadinho menos estúpida.

     —         Não — replicou Giulia. — Ninguém me pode dar tudo aquilo que eu quero. Nem mesmo tu.

     O carro passou o portão de ferro batido e Giulia viu nas colunas as rosas carnudas da sua infância e das suas primeiras perturbações. Saiu na eira e tirou a chave de casa da carteira, enquanto o motorista pousava o saco de viagem junto à porta.

     —         Obrigada pela boleia — disse à amiga, que não se tinha mexido do lugar. — E pela recepção.

     —         Fico em casa à tua espera — convidou Zaira.

     —         Não me parece que possa lá ir — desculpou-se.

     —         Porquê? — perguntou, ressentida.

     —         O teu administrador só me deu dois dias para o despejo — precisou. — Como vês, não me posso dar ao luxo de nenhuma distracção.

     —         Então venho eu ter contigo — decidiu a marquesa, que leu na ironia da rapariga um sinal desfavorável. — Tenho projectos para este espaço rústico. Podem interessar-te.

     O único assunto que lhe podia interessar era o que se referia a Leo, mas não tinha vontade de falar com Zaira sobre isso.

     Acenou com a mão e dirigiu-se a casa, enquanto o Mercedes retomava a marcha. Lá dentro havia o cheiro do avô, dos cães, das espingardas de caça, do tabaco de cachimbo. Abriu para trás a janela que dava para os campos ensolarados e a luz irrompeu com a violência das recordações. Imagens evocadas pelos objectos palpitantes de vida materializaram-se sob o sol. Giulia sentiu que naquela sala havia muitas palavras ditas e caladas, que andavam em turbilhão à volta dela, umas atrás das outras. E, pela primeira vez, sentiu o desejo irresistível de apanhar palavras e pensamentos e de os pôr em ordem.

     As sombras do entardecer surpreenderam-na enquanto ainda estava a colocar com um cuidado religioso, dentro de grande baú, os objectos mais insignificantes, cada um dos quais representava uma peça de um mosaico construído sobre o fio da memória.

     Quando o dia estava já a apagar-se, foi até à porta olhar para o céu, onde surgiam as primeiras estrelas em volta de uma ténue foice de lua. Os pirilampos bordavam tramas luminosas sobre o tapete musical tecido pelos grilos.

     Giulia encostou-se à ombreira da porta, porque aquela enchente de recordações se abatia sobre ela, ameaçando derrubá-la. Voltou a ouvir os latidos dos cães e a voz potente do avô a metê-los na ordem. Depois o vento trouxe-lhe a voz de Zaira, o seu perfume de salva, o arrepio provocado pelos seus gestos atrevidos. Depois veio a antiga canção: Lontano, lontano sul mare, le splendide rose morene. Morenas ou moribundas? Nunca mais iria saber, agora que o avô tinha partido para sempre. Depois a noite reabsorveu sons, vozes e recordações, deixando-a só.

     Naquele silêncio arrebatador sentiu passos incertos, e à