Translate to English Translate to Spanish Translate to French Translate to German Translate to Italian Translate to Russian Translate to Chinese Translate to Japanese

  

 

Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


DESPERTAR / Odete Beane
DESPERTAR / Odete Beane

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblio "SEBO"

 

 

 

 

   

A trama, envolvente cheia de mistérios, tem duas narradoras principais: Branca de Neve e sua filha, Emma Swan.

A história se passa na fictícia cidade de Storybrooke, cujos moradores são personagens de contos de fadas que, depois de atingidos por uma poderosa maldição, perderam a lembrança de sua verdadeira identidade e foram transportados da Terra Encantada para o mundo real. A única esperança de que os habitantes de Storybrook recuperem a memória —e com ela seus poderes mágicos— reside em Emma Swan, que foi enviada para fora da Terra Encantada ainda bebê, antes de o feitiço ser lançado.

E para que a filha de Branca de Neve seja bem sucedida, precisará contar com o auxílio de seu filho Henry, que possui um livro de contos de fadas que contém a chave para acabar com a maldição!

Emma Swan sabe muito bem como se virar sozinha. Ela foi abandonada quando ainda era um bebê e a vida não tem sido exatamente um conto de fadas para ela desde então.

Quando o filho que ela abandonou anos atrás a encontra tudo se tornará ainda mais complicado. Henry tem 10 anos agora e acredita que a mãe tenha nascido em um mundo alternativo mágico e que, na verdade, seja a filha desaparecida da Branca de Neve com o Príncipe Encantado.

Emma não acredita em uma palavra, mas de acordo com Henry, ela é a única que pode quebrar a maldição, jogada pela Rainha Má, e que afeta todos os personagens dos contos de fadas. Eles estariam presos na nossa realidade, na cidade de Storybrooke, sem seus poderes mágicos e sem qualquer lembrança de quem realmente são. Ao levar o garoto de volta para Storybrooke, Emma se vê atraída por esta estranha cidade misteriosa. A essência da magia parece estar por perto, mas seria possível que Chapeuzinho Vermelho, Grilo Falante e Fada Azul realmente existissem? Seria Emma capaz de aceitar o próprio destino?

Prepare-se para uma fábula moderna com reviravoltas emocionantes!

 

 

 

 

 

 

                                                                   CORAÇÕES ERRANTES

 

                                 BEM-VINDO A STORYBROOKE

ELA VINHA CAÇANDO RYAN MARLOW HAVIA CERCA DE três semanas, desde que ele tinha esvaziado as contas ban­cárias da família e fugido de Nova York, sob o peso de acusações de peculato. Por que motivo Ryan decidira pa­rar cm Boston a fim de namorar um pouco online era uma incógnita, mas Emma Swan não se importava nem um pouco com o que os fugitivos que ela rastreava fizessem ou deixassem de fa­zer. Ela não era paga para tomar conhecimento das histórias deles; recebia para descobrir onde estavam, capturá-los e levá-los para a cadeia.

Emma levantou-se e ficou observando o rapaz, um pouco incomodada com os saltos altos.

Marlow ainda não a tinha visto, e ela o olhou por um instante. Era bo­nito, exatamente como aparecia nas fotos, mas também possuía algo de ba­julador. O que completava o quadro, é claro, porque arrogância e petulância pareciam ser a regra entre esses banqueiros.

Havia algo em sua fria autoconfiança enquanto ele esperava, o que na verdade a deixou enjoada. Ela se aproximou de Ryan.

— Ah, você deve ser Emma — disse ele, levantando-se quando ela se apro­ximou da mesa, e ela estampou seu melhor sorriso de boas-vindas, estendendo-lhe a mão. Franziu a testa ao ver suas unhas... Tinha se esquecido de pintá-las...

Ele abriu um sorriso largo c lascivo. Como um lobo.

Eles se cumprimentaram com um aperto de mãos, e o homem manteve os olhos fixos nela.

Ryan— disse ela.

Enquanto se sentava, Emma depois de ver algo em seus olhos, sorriu para ele e disse:

— Bem, você parece aliviado.

Sinto muito disse ele, rindo nervosamente. - Nunca sabemos como será a aparência de uma pessoa quando a conhecemos pela internet, entende?

— Ele foi para o seu lugar e se sentou. E você, bem... E muito bonita, tanto on-line como na vida real.

Emma não corou, apenas baixou os olhos, fingindo se sentir lisonjeada. Como era mesmo que estava escrito no perfil on-line dele? Divorciado, sem fi­lhos, gostava de ioga e de basquete? Certo. Emma conhecia a história da "vida real" dele. La em Nova York, ele tinha três filhos, todos com menos de dez anos de idade, e uma esposa que trabalhava meio período para tentar se virar sozinha. Naquele exato momento, a esposa estava tentando conseguir alguma ajuda da Previdência Social. Arrasada. Falida. Precisando explicar aos filhos onde estava o papai.

Essa era a vida real. E ali estava Ryan Marlow, que ainda tinha vontade de namorar depois de fazer isso com outra pessoa.

— Então - disse Ryan. — Fale-me um pouco de você, Emma. Emma deu seu sorriso mais sensual.

— Bem disse ela. - Em primeiro lugar, devo dizer que sou muito boa em julgar o caráter dos outros.

Ryan Marlow pareceu surpreso.

Ela ia adorar acabar com esse cara.

 

EM OUTRO MUNDO, EM OUTRO TEMPO. Branca de Neve estava de mãos dadas com o Príncipe Encantado no salão de baile do Castelo Real.

Todos os súditos do reino cercavam o casal. Os dois se olhavam nos olhos enquanto o bispo perguntava a Branca se ela queria ficar com o Príncipe para sempre.

Não houve hesitação. Ela disse nervosa e amorosamente que sim, c os dois sorriram um para o outro, enquanto o bispo os declarava marido e mulher.

Os músicos da corte começaram a tocar, e o Príncipe e Branca se inclina­ram para se beijar uma vez mais.

Tinha sido uma espécie de milagre. O Príncipe havia despertado Branca de um sono amaldiçoado, provocado por sua madrasta, a Rainha Má. E, como se viu, eles ainda não estavam livres dela.

Dessa vez, assim que seus lábios se tocaram, um tremendo estrondo de trovão sobrepujou a música, e muitos no salão gritaram. Os convidados se vi­raram todos ao mesmo tempo em direção às grandes portas do salão de baile, onde o som se originara, que tinham se aberto de repente com grande violên­cia, atingindo as paredes de cada lado da entrada.

Lá, no limiar das portas, havia uma figura toda de preto.

A Rainha Má.

Novamente.

"Maravilhoso" pensou Branca. "Mais um pouco disto."

Os guardas correram quando ela começou a caminhar em direção a Branca e ao Príncipe, agarrados um ao outro no centro do salão.

A Rainha enviou meia dúzia de guardas pelos ares com apenas um movi­mento da mão...

Sua magia continuava poderosa, não havia dúvida.

Quando ela já estava perto deles, Branca empurrou o Príncipe para trás, agarrou o punho de sua espada e a desembainhou antes que ele pu­desse detê-la. Branca de Neve apontou a lâmina para a Rainha, com os olhos flamejantes.

Você não ê bem-vinda aqui disse, e sua voz forte ecoou pelo enorme salão. — Vá embora.

A Rainha parou de andar, mas continuou sorrindo. Olá novamente, Branca de Neve — disse ela.

O Príncipe, segurando a mão de Branca, empurrou lentamente a espada para baixo até que sua ponta tocasse o piso de pedras.

— Ela não tem mais poder — disse ele a Branca, calmamente.

— Nós já ven­cemos.

O Príncipe estava certo, ela sabia - depois que ele a despertou da maldição da Rainha, ambos uniram o reino contra ela, destronando-a e permitindo que o amor voltasse a reinar.

Deixe-nos em paz disse o Príncipe, dirigindo-se à Rainha. Você já foi derrotada, e não permitirei que estrague este dia. Nem mais um dia. Deixe nos desfrutar nossa felicidade, você foi derrotada.

Pelo contrário disse a Rainha. Não estou aqui para estragar nada. Vim apenas lhes dar um presente.

— Não queremos nada! Disse Branca rapidamente. Não lhe importava o que quer que fosse.

E, no entanto, vou dá-lo a vocês disse a Rainha. Levantou uma so­brancelha. — Muito generoso da minha parte, não acham?

A Rainha era linda e aterrorizante ao mesmo tempo. Possuía feições seve­ras, cabelos negros como ônix, olhos penetrantes e gelados. Talvez um dia, há muito tempo, ela tivesse sido uma jovem e inocente donzela, a mais bela do mundo, mas agora todos podiam ver que o ódio e a amargura haviam extraído todo o calor do seu rosto. Branca a conhecia há muito tempo, e, a cada vez que a via, a Rainha se mostrava mais amargurada. A jovem não conseguia enten­der como uma pessoa poderia odiar tanto.

Enquanto a Rainha Má falava, mais guardas invadiam o salão, cercando-a, mas o olhar da mulher não vacilou um instante sequer:

—Meu presente para vocês é a felicidade — disse ela.

— Esta felicidade. Hoje.

—O que você quer dizer com isso? — perguntou cauteloso o Príncipe.

— Quero dizer que amanhã, meu caro Príncipe — respondeu a Rainha -, começarei o trabalho da minha vida. Destruir a felicidade de vocês. Perma­nentemente.

Ante isso, o Príncipe já tinha ouvido demais, e lançou sua espada em uma manobra ultrarrápida. Ela voou em direção à Rainha, com a ponta para a frente, atingindo-a bem no coração.

Pouco antes de acertá-la, porem, a Rainha desapareceu em uma escura nu­vem de fumaça negra e roxa.

E com ela desapareceu também a espada.

Branca de Neve, com a mão no braço daquele que se tornara seu marido, ficou observando a nuvem rodopiar e se dissipar.

 

EXAUSTA, EMMA CAMINHOU PELO CORREDOR até seu apartamento, segurando os sapatos vermelhos entre os dedos da mão esquerda, e com a direita um saco de compras da mercearia. Prender Ryan Marlow não fora tão satisfatório como esperava, e agora ela estava com uma tremenda dor de cabeça.

Sua mão também doía. Ele tentara fugir, é claro. Todos os homens sempre tentam fugir. Conseguira chegar até o carro e o encontrara amassado. Não foi nada difícil para ela resolver. Nesse momento ela socou a cabeça dele no carro.

Essas coisas, a caçada, as perseguições, tudo ficara um pouco previsível. No entanto, se não fosse isso, o que mais ela saberia fazer? E para onde mais ela iria? Alguma coisa estava fora do lugar, mas ela não se permitiu pensar muito sobre isso. Nada que um pouco de sono e algumas doses de uísque não pudes­sem curar.

Já no apartamento, depositou as compras no balcão da cozinha, ligou a música e desembrulhou o bolo de caneca de aniversário que tinha comprado para si mesma. Pegou o pacote de velas no saco de compras, retirou uma do pacote, prendeu-a no bolo e acendeu-a. Não era uma festa daquelas, não... Mas, pelo menos, era alguma coisa...

Ficou olhando para a chama da vela por um momento. Mais um ano, mais um ano sozinha.

Emma fechou, então, os olhos e pensou: "Por favor, não me deixe ficar so­zinha no meu aniversário.”.

Esse pedido parecia deprimente rodando em sua cabeça, mas era esse o seu verdadeiro desejo, Emma teve de admitir.

Não que ela desejasse ficar alimentando a auto piedade. Muitas pessoas ti­nham um passado bem pior que o dela, e Emma era forte o bastante para aguentar a dor de sua história, que passava em branco. Isso não queria dizer que não ficasse sozinha, nada disso, mas significava que podia lidar com a solidão. Ape­nas sentia a necessidade de desejar, às vezes, que a solidão fosse embora.

Assim que apagou a vela, a campainha tocou. Emma franziu a testa olhando para a porta, e por alguns instantes passaram por sua mente os vários fugitivos que ela tinha caçado nos últimos anos. Tentou lembrar-se de algum que teria sido libertado recentemente da prisão. Provavelmente, imaginou. A qualquer momento ela iria até a porta da frente e uma mar­reta despencaria em sua cabeça.

Deu alguns passos e espiou pelo olho-mágico:

Mas, que diabos...?! Quando abriu a porta, viu um rapazinho estranho ali olhando para ela. Ele linha o tabelo castanho desgrenhado e trazia uma mochila cheia às costas. Olhava para ela com os olhos arregalados.

— Pois não? — disse Emma, hesitante.

Olá - disse o garoto. — Você é Emma Swan?

— Sou eu — disse Emma. Posso ajudar em alguma coisa? O garoto sorriu e estendeu a mão.

— Sou Henry Mills — disse ele. — Sou seu filho.

Emma ficou olhando para ele, de olhos arregalados. E não estendeu a sua mão.

— Eu não tenho filho — disse ela, atônita.

O menino pareceu ignorar o comentário. E em vez de responder, passou por ela, olhando para a cozinha.

Ela estava chocada demais para fazer qualquer coisa, para procurar detê-lo.

— Dez anos atrás comentou o menino observando tudo ao redor, voltando-se depois para ela —, você deu um bebê para adoção?

Emma não disse nada novamente. Seu rosto ficou sem cor, aliás. Ela notou isso quando se olhou no espelho.

— Pois então, eu sou esse bebê. Você vai comer o bolo? E-eu...

Sim, poderia ser ele. Emma não achou que ele estivesse mentindo, e podia reconhecer seus olhos nos do garoto. Mas, se ele era o filho que ela, durante tantos anos, havia tentado esquecer e apagar da lembrança, vê-lo ali, pedindo de forma tão inocente um pedaço de bolo, foi algo que a deixou confusa: ficar ou fugir? Sentiu-se tonta, sentiu-se...

Não sabia muito bem o que estava sentindo.

(Nunca sabia o que de fato sentia.)

Emma fechou a porta da entrada c se virou, tentando pensar em alguma coisa para dizer.

Sim... Quero dizer, não, pode comer o bolo. Pode comer tudo, se quiser... — respondeu, distraída.

Isso pareceu agradar ao menino. Emma colocou o bolo em um prato, ti­rou a vela e ofereceu a cie um banquinho, enquanto pedia licença e saia da co­zinha.

No banheiro, olhou seu rosto no espelho com cuidado, equilibrando-se com as mãos apoiadas na beirada da pia. Que diferença da pessoa de dez anos atrás, quando tinha apenas dezoito anos e estava completamente sozinha. Lembrou se, também, de ter se olhado no espelho então nos últimos dias antes do parto, quando se escondera em uma cela empoeirada da prisão, sim­plesmente esperando, sem nenhuma boa alma para ajudá-la. Solidão. Emma lembrou-se de se sentir assim na ocasião, percebendo que o bebê que ela es­tava prestes a dar para alguém poderia ter significado o fim dessa solidão, caso ela o tivesse mantido. Mas não foi o que Emma fez.

Respirou fundo.

— Recomponha-se, Swan — disse em voz alta.

Ao som da própria voz, a parte mais razoável, cética e forte de sua mente se mexeu e voltou à vida. A velha Emma. Aquela Emma durona, a agente de fianças que é mais uma caçadora de recompensas. A verdadeira pergunta: Quem era esse garoto, realmente? Certamente não era o seu filho. Ali estava ela, perturbada por aquela situação, e por tudo o que sabia aquele menino devia estar fuçando em suas coisas na outra sala, ou então poderia ser o esto­pim de um esquema que devia envolver um grande número de homens inva­dindo o seu apartamento, bem no momento em que ela estava começando a se abrir para ele...

Sim, aquilo só podia ser um golpe. Isso mesmo. Alguém devia conhecer o seu passado e saber muito bem como entrar em sua vida. Ela, então, correu de volta para a cozinha, pronta para começar a gritar.

O garoto estava sentado à mesa, comendo o bolo. Ele olhou para ela, e seus olhos a desarmaram.

— E aí? - disse ele. — Como estava o banheiro?

— Oi — respondeu ela, franzindo a testa novamente.

Emma se aproximou dele, apoiou a mão sobre a mesa, e a recolheu. Esse garotinho estava fazendo com que ela não tivesse bem certeza de como devia se comportar.

Eu... Então, eu gostaria de lhe fazer algumas perguntas — disse ela final­mente.

Tudo bem — disse o menino. — Manda. Como... Como é que você me encontrou?

Sou um cara de muitos talentos respondeu. Ele parecia entediado com a pergunta, e muito mais interessado em estudar a reação dela do que em ava­liar qualquer coisa que tivesse a ver com os próprios sentimentos. Mas as coisas não estão saindo do jeito que pensei...

—Que coisas? Esta conversa?

— Exatamente.

— E como achou que fosse acontecer?

— Sei lá, como nos programas da Oprah, entendeu? Com choradeira, abraços...

— Bem, eu não sou do tipo chorona, garoto.

— E, já percebi - disse ele, concordando.

Se ela não fosse crescidinha o suficiente, poderia pensar que o menino es­tava zombando dela. Ou repreendendo-a, pelo menos.

— Bem, devemos ir andando — acrescentou ele.

Emma sorriu ceticamente, franzindo a sobrancelha. Apreciava a audácia daquele pirralho, quem quer que fosse ele.

Desculpe-me, mas não sabia que íamos sair - respondeu ela. — Você es­tava de saída, eu estava indo para a cama. E ambos estávamos prestes a nunca mais nos ver de novo...

Mas nós vamos sair, sim — disse ele, assentindo com a cabeça. - Você tem de voltar para casa comigo. Tem de me dar uma carona, pelo menos.

— E onde é essa casa?

— Em Storybrooke.

Emma olhou para ele. E depois voltou os olhos para o livro, que Henry ha­via acabado de tirar da sua mochila. "Ah, entendo... Esse moleque", pensou, "está no meio de algum tipo de evento 'psicológico'."

— Storybrooke? - disse ela finalmente. - Você está brincando comigo?

— Não, por quê? - perguntou ele inocentemente. Esse é o nome do lugar...

Tudo bem, moleque, agora escute aqui - disse ela. - Foi tudo muito di­vertido, mas... em primeiro lugar, eu não tenho filhos. Em segundo lugar, es­tou chamando a polícia agora mesmo. Não tenho tempo para isso, e você deve ser um fugitivo. Os seus pais sabem onde você está? Vou chamar a polícia. — Emma foi em direção ao telefone, após ter ameaçado duas vezes.

— Não, não vai.

Emma olhou para o menino, já com o telefone na mão. O que você disse?

Disse que você não vai chamar a polícia - respondeu ele, dando ou­tra mordida no bolo. Porque, se fizer isso, eu direi a eles que você me se­questrou.

Emma refletiu sobre o que ele dissera. Todas as suas dúvidas voltaram. Se ele era realmente seu filho, aquele era um bom plano. Os policiais suspeita­riam que ela tivesse um motivo para reaver seu filho biológico, e, no mínimo, ela ficaria presa na burocracia por horas, possivelmente dias. Chamar a polícia, de fato, lhe traria muito mais problemas do que vantagens, mesmo que ela es­tivesse com a razão.

Mas, ainda assim, havia algo errado com aquela situação toda. Ele real­mente não poderia ser seu filho, não é?

Olhe, garoto disse ela. — Gosto de pensar que tenho um superpoder. Uma coisa que sempre posso fazer. Você sabe o que é? Sempre posso dizer quando alguém está mentindo. Sempre. E você, garoto, está mentindo.

Ela não tinha certeza se acreditava naquilo, mas deixou-se levar. Emma era boa em desencavar mentiras, mas a questão era que o menino parecia realmente estar dizendo a verdade. O que significava que ela não sabia o que pensar.

Henry engoliu o último pedaço do bolo:

Eu também sou bom em dizer quando as pessoas estão mentindo disse ele.

— Ah, é? Então diga.

Ele balançou a cabeça lentamente. Emma pôde ver que a confiança dele es­tava começando a minguar, o garoto parecia chateado. "E apenas uma criança", pensou a mulher.

Então, o coração de Emma começou a amolecer, e ela pensou: "Não, Emma. Ele é seu filho".

Eram as pequenas coisas. Suas orelhas eram as mesmas do pai. O formato dos olhos — ela conseguia ver seus próprios olhos lá. só um pouquinho, só um lampejo, como se estivesse se olhando no espelho naquele exato momento. Emma podia até mesmo ouvir alguma coisa em seu tom de voz. Claro que te­ria sido bom ser capaz de comparar as orelhas, os olhos e a voz do menino com os de seu próprio pai, de sua própria mãe. Mas isso era outra coisa. Ela nunca tinha conhecido seus pais.

" Isso aqui não é um golpe", Emma pensou. "Você sabe disso."

— Por favor, não chame a polícia — disse Henry. — Tudo bem? Apenas vá para casa comigo.

Emma respirou fundo.

— Tara Storybrooke disse ela. O que mais ela poderia lazer? Você pre­cisa de uma carona para casa, para Storybrooke? Isso é o que está pedindo. Um pedido simples, não é?

— A-hã.

Emma suspirou. Não havia como brigar com esse garoto.

— Ok, então. Vamos para Storybrooke.

Ela não podia acreditar no tamanho do sorriso dele.

 

BRANCA DE NEVE, com a barriga bastante aumentada tanto pelo novo ser como pela ansiosa expectativa, rapidamente seguiu o carcereiro através do escuro cor­redor. Ela e o Príncipe Encantado estavam indo conversar com o único homem em todo o reino que poderia responder à sua pergunta. Branca não tinha conse­guido recuperar a paz desde as ameaças da Rainha; precisava saber a verdade.

O carcereiro, um homem volumoso e dispéptico, não gostou nem um pouco dessa ideia.

— Não revelem seus nomes a esse homem, e usem estas capas aqui — disse ele, passando dois pesados mantos encapuzados para o Príncipe.

— Sua melhor defesa é o anonimato.

O Príncipe pegou as capas, vestiu a sua e entregou a outra para Branca.

— Por que eu deixei você me convencer a fazer isso? — perguntou o Prín­cipe a ela.

Branca vestiu seu manto também e manteve o ritmo de suas passadas ao lado dele.

— É a única maneira   respondeu.   Você sabe que sempre tenho razão.

— Ele tem razão de ser cauteloso, milady disse o carcereiro com mau agouro. — Ninguém se encheu de mais pesar do que aquele que conversou com Rumpelstiltskin.

O Príncipe e Branca de Neve trocaram um olhar: ambos ficaram um pouco preocupados com as palavras do carcereiro.

Deixe que eu fale — disse simplesmente o Príncipe.

Bem no final do longo e escuro corredor, os três chegaram ate a última cela Nenhuma luz vinha de dentro dela, mas a chama que tremeluzia nas tochas permitiu que enxergassem as grades irregulares.

O carcereiro disse:

— Rumpelstiltskin! Tenho uma pergunta para fazer a você.

— Não, você não! disse uma voz perplexa, saída da escuridão. — Eles é que têm. Branca de Neve e o Príncipe Encantado gostariam de saber se as pa­lavras da Rainha devem ser levadas em consideração. Estou certo?

— Como você sabe disso? — perguntou o carcereiro.

— Quem esteve aqui falando com você?

Ninguém, meu bom homem! — soou a voz de Rumpelstiltskin. Branca não conseguia vê-lo, mas parecia que ele tinha se posto rapida­mente de pé. Ela sabia que ele poderia agir como um felino quando quisesse. O Príncipe colocou a mão sobre a sua espada.

Vamos deixar esse jogo de lado — disse Branca, puxando o capuz para trás e dando um passo á frente. — Diga-nos o que você sabe.

— Farei isso — respondeu Rumpelstiltskin, caminhando para perto das barras da cela. —  Se você me der algo em troca, doce Branca de Neve.

   O Príncipe Encantado também deu um passo adiante, colocando-se entre Branca e as grades.

— Você não vai sair daqui. Não há nenhuma possibilidade de que isso ve­nha a acontecer. Portanto, nem sequer tente.

—Não, não agora disse Rumpelstiltskin. Claro que não. Vou sair mais tarde. Quando todos formos embora. O que preciso agora é de garantias. Para mais tarde. Então?

— O que quer dizer?   Perguntou o Príncipe Encantado.   O que...

— Basta nos dizer o que você quer — disse Branca. — Não temos tempo para esse tipo de coisa agora.

— O nome da criança que vai nascer deve ser... muito lindo...

— Absolutamente! - gritou o Príncipe.

— Combinado— disse Branca de Neve, ignorando-o. Agora nos diga...

O que a Rainha tem planejado para nós? Como é que ela vai roubar a nossa feli­cidade? Sei que ela tem um plano concreto, só não sei o que poderá ser!

Rumpelstiltskin estava junto às grades da cela agora, e eles podiam enxer­gar seu rosto marcado. O nariz dele estava entortado e cheio de verrugas, seus dentes, amarelados e afiados. Um lance de magia fizera isso com ele, mas Branca não sabia exatamente como tinha acontecido, e, naquele momento, era o que menos lhe importava.

Ele sorriu, balançando a língua grotesca fora da boca. A Rainha Má criou uma poderosa maldição — disse rapidamente. —Ou pelo menos pôs as mãos em uma dessas maldições. E ela está vindo. Será uma maldição que não afetará apenas estas terras. Vai tocar todas as terras... Logo vocês todos estarão em uma prisão. Assim como eu. Só que pior. Sua prisão, a prisão de todos nós, será o Tempo...

— Ora, vamos lá... — disse o Príncipe. — Isso é loucura. Rumpelstiltskin o ignorou, e sua voz tornou-se grave.

O tempo vai parar. Vamos todos ficar presos, e sofrendo, por toda a eternidade. A Rainha governará a todos nós, vai nos escravizar. Ficaremos perdidos, confusos. Sem esperança. Não haverá mais finais felizes. Ele espe­rou, deixando que as palavras fossem assimiladas. Nenhum de nós pode fa­zer coisa alguma para impedir que isso aconteça.

Branca olhou para ele assustada. Rumpelstiltskin estava sempre cheio de malandragens, mas realmente nunca mentira. Esso a fez acreditar que ele dizia a verdade, que todos eles estavam em grande perigo, assim como a Rainha prometera.

— Então, quem pode impedir? — perguntou ela.

— A criança — disse Rumpelstiltskin, olhando para a barriga de Branca. A criança será capaz de detê-la. Você tem de levá-la embora por segurança — concluiu. - E para longe daqui. Quando a criança atingir a idade de vinte e oito anos, começará. Ela irá nos salvar... A todos nós. -- disse essa última frase de forma muito simples, como se fosse apenas uma questão de curso natural.

Ela? — disse o Príncipe, voltando-se para Branca. O carcereiro estava gesticulando para que eles fossem embora. — Mas é um menino!

— E mesmo? - perguntou Rumpelstiltskin. - Eu não acho senhor Prín­cipe! — e cantarolou as últimas palavras.

Temos de nos preparar disse Branca ao Príncipe. Venha, meu amor. A profecia dele está correta, tenho certeza!

Esperem! — gritou Rumpelstiltskin. — O nome da criança! Preciso saber! Tínhamos um acordo!

Branca virou-se, olhando para o monstro que era o homem.

Emma —  disse ela. — O nome dela será Emma.

 

AS ESTRADAS ESTAVAM TRANQÜILAS e vazias. Logo eles saíram dos limites de Boston.

Emma olhou de relance para o menino, que tinha o livro aberto no colo. Com base na ilustração, parecia que ele estava lendo sobre Branca de Neve, ou alguém que se parecesse com a Branca de Neve, e que também gostava de ficar brincando com passarinhos, ao menos... Mas essa era uma parte da his­tória que Emma não conhecia. A heroína estava em uma espécie de masmorra, conversando com um duende. Emma olhou para a estrada e tentou se lembrar da história. Branca de Neve não tinha conhecido um grupo de anões? E eles não ficavam cantando e dançando? As coisas estavam todas de­sordenadas em sua cabeça. Um de seus pais adotivos tinha mostrado a ela os desenhos da Disney, e ela os adorara. Mas quando criança tudo aquilo pare­cera uma longa sequência de um mesmo conto de fadas, e Emma tinha a ten­dência de confundir todos eles.

— Você gosta desse livro, hein? — perguntou ela.

Henry não respondeu, e ela olhou para ele, esperando vê-lo absorto de­mais em sua história. Mas ele estava olhando para a frente, de olhos bem aber­tos, sorrindo.

— Chegamos — disse ele.

Emma seguiu o olhar do menino e viu a placa: bem vindo a storybrooke.

— Ótimo! — respondeu ela — Bem-vindo a Storybrooke. Aqui estamos. Fantástico. E qual é o endereço?

— E uma cidade muito pequena — disse ele. — Muito simples.

— Aposto que é simples — Emma murmurou, desacelerando o carro ao passar pelas primeiras casas e lojas da cidade.

Era como qualquer cidade, em qualquer parte dos Estados Unidos, real­mente... Lojas e casas, algumas delas novas e brilhantes, outras velhas e cm-poeiradas. Provavelmente complicada e não tão bonita quando você olhasse as coisas sob a superfície. Ela nunca tinha ouvido falar de Storybrooke, mas co­nhecia essa cidade como conhecia qualquer outra cidade. Certo — disse ela. — E onde você mora? Não vou dizer.

Emma revirou os olhos e estacionou o carro. Crianças... Hilário. A intensi­dade dos sentimentos que ela tivera em seu apartamento havia desaparecido. Agora eslava apenas cansada e confusa. E não mais a fim de descobrir o que estava acontecendo. Tudo o que precisava fazer agora era apenas levá-lo para casa e não ser presa. "Faça com que esse seja o seu objetivo, Swan", ela pensou. "Mantenha isso em mente e faça com que as coisas sejam simples."

Havia poucos carros estacionados ali perto, e já era tarde o suficiente para que todas as lojas estivessem fechadas.

O lugar parecia deserto. Ela olhou para um relógio construído no que pa­recia ser uma biblioteca.

Olhe, já são oito e quinze — disse Emma.   Vamos parar com essas brin­cadeiras...

— Esse relógio sempre marca oito e quinze — disse Henry.

— O quê?

— A Rainha Má fez isso respondeu o garoto. Parou o tempo. E enviou todo mundo de lá para cá. O povo da Floresta Encantada. Então eles ficaram presos aqui na cidade. E presos no tempo também. E nem mesmo sabem disso...

— Por que as pessoas simplesmente não vão embora e voltam para um lugar onde o tempo funcione? — perguntou Emma.

E que acontecem coisas ruins sempre que alguém tenta fugir.

Ah, é? Emma apertou os olhos. Que tipo de coisas ruins? Antes que Henry pudesse responder, Emma foi surpreendida por uma leve batida na janela do lado do passageiro. Um homem magro, de aparência ino­fensiva, estava de pé ao lado do carro. Ajeitava os óculos, tentando focar no passageiro sentado no banco. Ele estava segurando um guarda-chuva, embora não estivesse chovendo.

— E você, Henry?   Perguntou ele.

Henry virou-se e olhou para o homem. E abaixou o vidro da janela.

— Oi, Archie —   disse Henry.

Archie ajustou os óculos de novo, olhando para Emma. Ela sorriu.

E quem é essa? —   perguntou o homem. "Amigável, mas desconfiado" pensou Emma. "Eu ficaria assim também."

— Essa é minha mãe — respondeu o menino. — Eu... Eu não...

— começou ela.

Minha verdadeira mãe — acrescentou Henry. Archie olhou para Henry por um longo momento, depois para Emma. Entendo...

— Eu só estou tentando levá-lo para casa — disse Emma, alegando inocên­cia com um olhar. — Você pode me dar o endereço certo? Ele apareceu na mi­nha casa em Boston. E não sei onde mora... E ele não quer me contar.

Perfeitamente... - disse Archie, aparentemente mais relaxado. — Ele vive na casa da prefeita, é claro, Regina Mills. Naquela mansão lá na Rua Mifflin.

Emma, de sobrancelhas levantadas, olhou para Henry, que encolheu os ombros inocentemente.

— A prefeita? — disse ela. - Sério? Você é o príncipe desta cidade?

— Por que motivo perdeu a nossa sessão de hoje, Henry?

— Eu estava fora da cidade— respondeu Henry. — De férias. Archie lançou lhe um amigável olhar de compreensão.

— Tudo bem... O que foi que eu disse sobre a mentira, Henry?

— Que só machuca a pessoa que conta a mentira. No final. Archie assentiu.

— Vou levar o garoto para casa, doutor — disse Emma. — Obrigada.

Ela se afastou com o carro, observando aquele estranho homem pelo espe­lho retrovisor.

— Então, esse é o seu psiquiatra, hein? Eram sempre pessoas esquisitas... Mais ou menos — disse Henry. — Mas ele é também o Grilo Falante. Como...?

Todo mundo aqui — insistiu Henry. — Já disse a você. Todo mundo aqui é um personagem de conto de fadas. Você não estava ouvindo? Do meu livro. Ele apontou.

— Todas as histórias deste livro são reais.

Emma olhou novamente para o homem, que ficava cada vez menor e menor no espelho retrovisor. Ela inclinou a cabeça. Ele andava de um jeito engraçado. Claro, garoto — disse ela.   Como quiser...

 

Eles seguiram em silêncio enquanto Emma procurava a casa da prefeita. Ela havia se distraído com a tarefa de trazer Henry de volta para casa e não se permitiria pensar muito sobre o que o menino lhe havia contado. Tudo o que lem­brava era de um bebe fofinho, que fora autorizada a manter no colo em uma cama dura da prisão por apenas alguns instantes. Era uma coisinha fofa, ma­cia, que chorava e olhava para ela com os olhos enevoados. Depois disso, a de­solação emocional. Meses sofrendo por isso. Anos. Era engraçado como uma coisinha tão pequena pudesse um dia crescer e se transformar em um ser que falava que andava. Era quase a mais louca fantasia que existia.

Nada em sua vida a havia magoado e machucado mais do que o momento em que a enfermeira tirara o bebê de suas mãos. Ela estava tão exausta, que nem conseguiu chorar. Lembrava-se do rosto delicado do bebê, e evitou dar outra olhada de relance para Henry e compará-lo com suas lembranças.

Viu a Rua Mifflin e virou ali; era simplesmente uma rua sem saída, e logo ficou óbvio qual era a mansão da prefeita.

Lar doce lar? — disse Emma, enquanto parava o carro.

— Tenho certeza de que seus pais vão ficar felizes em ter você de volta.

— É só a minha mãe — disse Henry, olhando para as mãos. — E ela é a encarnação do mal.

— Eu sei, a gente se sente assim às vezes... Ele ergueu os olhos.

— Não disse ele, suavemente. Você não entende. Ela é realmente o mal, de verdade... O Maligno. Satã. Todos esses caras, entendeu?

Ela não queria que sua voz fraquejasse, mas não sabia o que dizer ao garoto. Seria seu trabalho confortá-lo? Como é que uma pessoa poderia...

— Olhe, não acho que... —começou Emma. Henry! Henry!

Emma olhou. Uma mulher de cabelos escuros, bonita e bem-vestida, cor­ria da casa em direção ao carro. Seus olhos estavam fixos em Henry.

— Você se machucou? Por onde andou?

— Estou bem, estou bem... — resmungou o menino.

— Encontrei minha mãe.

A mulher congelou quando ouviu isso, e olhou para Emma pela primeira vez. Emma sentiu frieza em seu coração.

— Você é... a mãe biológica dele? — perguntou ela finalmente. Emma balançou a cabeça, tentando parecer inocente e surpresa:

Aparentemente — respondeu. — Prazer em conhece- la. Emma não soube interpretar o olhar que a mulher lhe lançou em seguida Por fim ela lhe disse

— Bem... entendo. Não gostaria de entrar e tomar uma taça de sidra de maçã?

Henry olhou para ela, esperançoso. Emma disse:

— Você tem alguma coisa mais forte?

Após o encontro com rumpelstiltskin, o conhecimento da maldição fi­cou pairando sobre o castelo como uma névoa fria e sombria. Branca de Neve exigiu ação. Depois de muitas reuniões entre os líderes da Terra dos Contos de Fada, decidiram-se as medidas que deveriam ser tomadas para proteger o reino.

A Fada Azul expôs tudo claramente: se era mesmo verdade que a Rainha Má tinha planejado desencadear uma maldição que prenderia a todos, e que a filha de Branca de Neve seria a única capaz de libertá-los, então a menina te­ria de ser protegida.

O plano da Fada Azul era simples. Usando a última árvore disponível na Floresta Encantada, Gepeto construiria um guarda-roupa que podia proteger Branca de Neve da maldição e transportar as duas, ela e a filha, para um lugar seguro. E nesse lugar. Branca de Neve cuidaria da menina enquanto crescesse, até seu vigésimo oitavo aniversário. Quando ela chegasse a essa idade, Emma cumpriria o papel ao qual estava predestinada e salvaria a todos.

Enquanto Gepeto preparava o guarda-roupa, a gravidez de Branca de Neve chegava cada vez mais próxima do fim. Branca de Neve e o Príncipe En­cantado, sabendo que muito em breve estariam separados, passaram a fazer o melhor que podiam para se preparar para isso. Seria apenas temporário, disse­ram a si mesmos. A pequena Emma iria crescer e salvar todos eles. De algum modo.

Se fosse assim tão simples...

Certa noite, uma nuvem de neblina verde apareceu no horizonte. Parecia se fortalecer e crescer a cada minuto, subindo em cascatas por trás das árvores como se fossem as explosões de um vulcão.

Era isso. A maldição. Estava acontecendo. Agora.

Zangado começou a gritar.

— Chegou a hora — disse o Príncipe a Branca. — Prepare-se.

Mas Branca de Neve, na cama, não conseguia falar. Ela havia sentido uma contração no início do dia e não dissera nada, esperando que desaparecesse. Naquele momento, no entanto, outra, mais intensa, tomou conta do seu corpo, e ela fechou os olhos, respirando profundamente.

— O bebê vai nascer. — disse ela.

Abriu os olhos. E não conseguiu mais segurar as lágrimas. O Príncipe, sur­preso, olhou para ela do outro lado do quarto.

— O bebê está nascendo agora, meu amor.

 

Emma sentou-se no gabinete da prefeita, segurando um copo de sidra, e se curvou para olhar uma pintura que retratava uma macieira.

Mantenho viva essa mesma macieira há muito tempo — disse Regina, ao observar Emma estudando a pintura.

— Ela está bem ali, na Rua Principal disse ela sentada na frente de Emma, com as pernas imaculadas cruzadas, tendo recuperado a compostura.   Sinto que há certo valor no apoio consis­tente, de longo prazo, não acha?

Emma conseguia pensar em uma porção de coisas para dizer em resposta a essa pergunta. Em vez disso, apenas balançou a cabeça, virou-se para Regina e disse:

—Sua árvore é muito bonita.

—Sinto muito que ele tenha arrastado você para fora de sua vida — disse Regina. — Realmente não sei o que deu nele.

— Parece que ele está passando por um momento difícil disse Emma, to­mando um gole de sidra.

— Mas o que sei eu? Essa é apenas a minha impres­são.

— Desde que assumi a prefeitura, equilibrar essas duas coisas, ser mãe e o meu trabalho, tem sido muito difícil. Você deve entender, afinal, presumo que tenha um trabalho.

— Eu tenho um trabalho— confirmou Emma, ignorando a condescendência da prefeita.

—Bem, quando se é mãe solteira, e como ter dois empregos de tempo integral. E então, de fato, exijo ter as coisas em ordem. Eu sou rigorosa com ele.

Mas é para seu próprio bem. Quero que ele seja bem-sucedido; não quero que ele se sinta como se tudo viesse de mão beijada. Só que não acredito que isso me qualifique como má, exatamente. Estou louca?

Ele só está dizendo essas coisas por causa do negócio de conto de fadas.

— Que negócio de conto de fadas?

—Você sabe aquele livro. Ele acha que todo mundo é um desenho, um personagem que saiu do livro, ou algo assim. Quero dizer, o garoto pensa que seu psiquiatra é o Grilo Falante. Então...

Emma, que estava olhando para seu copo, ergueu os olhos para Regina e fi­cou surpresa ao percebê-la um pouco alarmada.

— Sinto muito — disse Regina. Realmente não tenho ideia do que você está falando.

"Meu Deus, ela não sabe do livro", Emma pensou. Estava atravessando muitos limites ali. A melhor coisa a fazer seria ir embora antes que encon­trasse uma maneira de explodir toda a cidade.

Bem, sabe de uma coisa? — disse Emma. — Melhor eu voltar para Bos­ton. Estou atrapalhando você com suas coisas. Fico contente por ele estar se­guro de novo.

Regina se pôs de pé assim que Emma se levantou.

— Eu também— respondeu ela, segurando sua mão, que tinha começado a tremer. — E aprecio muito que você fez, de verdade. Estou feliz que ele esteja de volta em casa e em segurança. Obrigada.

Emma não achou que fosse ter coragem de dizer adeus a Henry, e por isso foi direto para o carro. Abriu a porta e quase entrou sem olhar para trás, para as janelas dos quartos.

Ela o viu de relance, muito rapidamente, antes que a luz da janela se apa­gasse.

Emma o estava abandonando novamente.

"Você vai superar isso", disse a si mesma enquanto dirigia até o final da ci­dade para pegar a estrada de volta a Boston. Aqueles sentimentos passariam. E, além disso, agora ela sabia onde o menino estava, sabia que ele ficaria bem. Isso era uma boa notícia.

Certamente a prefeita iria deixá-la passar por ali de vez em quando para dar um alô... "Puxa", pensou Emma, "devia ter pedido informações sobre os contatos da prefeita. Devia ter."

O olho de Emma percebeu algo pousado no banco do passageiro. Ela aper­tou os olhos e virou-se para acender a luz interna do carro. Era o livro de Henry. "Que danadinho sorrateiro", pensou. Não pôde evitar e deixou esca­par um sorriso. Agora, ao menos ela tinha uma desculpa para voltar...

Ainda sorrindo, e distraída pelo livro, quase não percebeu o lobo parado bem no meio da estrada.

Emma engasgou, pisou no freio e girou o volante totalmente para o lado. A última coisa que viu foi o animal, impassível, casualmente observar o carro dela, fora de controle, derrapar para fora da estrada. Ele nem sequer piscou seus brilhantes olhos vermelhos.

 

DENTRO DE SEUS APOSENTOS, enquanto as nuvens daquela névoa fantasmagó­rica se espalhavam por toda parte, infiltrando-se através da floresta e cercando o castelo, Branca de Neve gritava durante o trabalho de parto enquanto o mé­dico da corte a atendia.

O Príncipe correu para ficar ao lado dela e pegou a mão de Branca, prendendo-a entre as dele. Ele havia tentado convencer Branca de Neve a entrar no guarda-roupa durante os estágios iniciais, mas ela havia se recusado, e por sua vez o havia convencido de que agora era tarde demais, o plano não poderia mais funcionar.

— Ela está nascendo! — gritou o médico. — Mais um empurrão!

E, então, o Príncipe ouviu o choro e viu o bebê nos braços do médico. Ele se virou para Branca, que parecia exausta, mas sorriu para ele mesmo assim.

— Agora...   disse ela, em voz muito baixa — leve-a... O Príncipe franziu a testa.

— O que você quer dizer? Leva-la... Para onde?

— Pegue a nenê - insistiu Branca de Neve. Pegue a nenê e a ponha no guarda-roupa. E o único jeito...

— Não! — gritou ele.   Nunca! Temos de ficar todos juntos e...

— É o único jeito — disse ela, e empurrou Emma para os braços do Príncipe.

Ele a pegou. E olhou para o belo e suave rostinho de sua bebezinha.

Depois, virou-se para Branca. Ela tinha o péssimo hábito de estar sempre certa.

— Cuide dela — disse o Príncipe ao médico, pondo-se de pé.

— Não vai de­morar mais de um minuto.

E correu para fora do quarto, com a menina aconchegada nos braços.

 

EMMA VOLTOU A Si e passou um instante olhando para uma parede de con­creto, perguntando-se por que não estava em seu apartamento, por que es­tava vestida, e, ainda, por que havia claridade do lado de fora, tentando imaginar o que tinha acontecido. Pensou no sonho, em seu filho, no sonho da cidade...

Virou a cabeça e viu as grades.

Diabos! Estava na cadeia.

Em Storybrooke, Maine.

Um homem magro, evidentemente o xerife, estava de pé ao lado de sua mesa, olhando alguns papeis. Quando viu que Emma estava despertando, acenou com a cabeça para ela.

— Bom dia   disse ele. — Sou o xerife Graham. E você está presa.

— Mas... por que estou na cadeia? — foi tudo o que ela disse.

Parece que bebeu um pouco demais na noite passada — e com uma das mãos fez o movimento de quem entorna uma garrafa.

— Bati o carro por causa de um lobo, foi um acidente.

— Lobo? — disse Graham, e parecia genuinamente divertido.   — Essa agora... Já ouvi algumas desculpas boas, mas esta leva o troféu...

Antes que ele pudesse continuar a censurá-la, Regina Mills invadiu a dele­gacia com os olhos arregalados. Foi diretamente ate Graham. Emma, grogue, sentou-se no catre. — Henry fugiu de novo — disse Regina.   Temos de... Regina viu Emma na cela.

O que ela esta fazendo aqui? Antes de esperar por uma resposta. Regina caminhou ate a cela.

— Já entendi. Isso não é uma coincidência, não é? Você sabe onde ele esta! — exigiu a prefeita.

— Minha senhora, eu não o vi desde que saí da sua casa — defendeu-se Emma.

Ela agora se mostrava muito menos interessada em civilidade do que na noite anterior. Olhou para Graham.

— Eu tenho um álibi. Dois, na verdade. Esse sujeito e um lobo.

Graham concordou.

— Bem, isso eu posso garantir, pelo menos. Ela ficou aqui a noite toda.

—Henry não estava em seu quarto esta manhã disse Regina, e Emma podia ouvir uma real preocupação em sua voz.

— E os amigos dele? — disse Emma. — Já tentou falar com eles'

— Ele não tem nenhum amigo.

Emma franziu o cenho, pois não tinha gostado nada de ouvir aquela pequena informação. Henry parecia-se demais com ela mesma na infância. Toda criança tem amigos. E o computador dele? Já Verificou o e-mail?

— E como você sabe disso tudo?

— Eu encontro as pessoas, senhora, esse é o meu trabalho — disse Emma. Não precisa ficar toda preocupada. Deixe-me sair daqui e vou encontrar Henry. Sem cobrar nada.

Regina e Graham trocaram um olhar.

— E depois vou para casa— acrescentou.

Emma olhou para Graham durante longos minutos, tentando adivinhar se ele havia compreendido o trato.

— Bem, os computadores não são exatamente a minha especialidade -disse Graham. — E, além disso, essa moça parece saber do que está falando.

Frustrada, Regina girou nos calcanhares e se dirigiu para a porta.

— Tudo bem. Traga a mulher. Eu só quero encontrar meu filho, não me importa como.

Eles foram para a casa de Regina, Emma na parte de trás do carro, olhando para fora c observando a cidade, nenhum deles falando uma palavra sequer. Uma vez lá dentro, Regina os levou até o quarto de Henry. Emma foi diretamente para o computador.

— O garoto é inteligente —disse ela, depois de um momento. Ele limpou a caixa de entrada. — Emma procurou em seu chaveiro e pegou um pequeno pen drive. Sorte de vocês que sou inteligente também. Um dispositivo que gosto de usar.

Ela introduziu o pen dríve na porta USB do computador de Henry e ficou observando enquanto os arquivos espelhados iam detalhando suas atividades recentes e eram transferidos para o dispositivo.

Henry tem cartão de crédito? — perguntou Emma.

— Ele é muito novo— disse Regina, cruzando os braços, aparentemente ir­ritada com o fato de Emma estar fazendo progressos.

— Claro que não.

— Bem, ele usou um disse Emma, lendo o que aparecia na tela.

— Foi as­sim que conseguiu a passagem de ônibus. Quem é... Mary Margaret Blanchard? —perguntou.

Regina, com os braços ainda cruzados, olhou furiosa para a tela. A professora dele —  respondeu.

— Eu vou matá-la.

— Ah, tenho certeza de que ele roubou o cartão dela disse Emma, e en­tão desligou o computador. —Venha, vamos para a escola, então. Talvez ela saiba de alguma coisa.

 

MAIS UMA VEZ RODARAM EM SILÊNCIO, só que desta vez Emma não via a hora de voltar para casa, para sua vida normal. Olhou para a parte de trás da cabeça de Regina, para seu cabelo perfeitamente esculpido e preso no lugar. Você não pode de repente se imiscuir assim na vida de alguém. Talvez aquela mulher fosse uma cadela, claro, mas ela havia criado Henry. Emma lhe devia um mí­nimo de respeito. Ela lhe devia espaço. Havia estado afastada. Encontrar o menino, cair fora dali... Era isso que Emma faria.

Ela quase disse algo relativo à sua decisão quando Graham anunciou:

— Aqui estamos nós, senhoras.

Estavam na escola.

Mary Margaret Blanchard se parecia, de algum modo, exatamente com o que Emma esperava devido a seu nome: pequena e bonita, com o cabelo escuro cortado rente ao crânio, ao mesmo tempo recatada e, a julgar pelo brilho nos olhos, potencialmente um pouco mal-humorada. Eles chegaram assim que os alunos dela estavam saindo da classe e, quando Regina lhe perguntou sobre o seu cartão de credito, ela fez uma pausa por um mo­mento, pensando. Emma podia ver que ela estava se lembrando do mo­mento exato cm que Henry a havia enganado e furtado o cartão, mesmo antes de ela ir verificar na bolsa. Mary assentiu com a cabeça, vasculhando os compartimentos da sua carteira.

— Que menino esperto! —murmurou a professora. Eu nunca deveria ter dado o livro a ele.

— Que livro é esse de quem todo mundo fala? —perguntou Regina.

— É um livro de histórias, com o qual pensei que poderia ajudar Henry— disse Mary.

— Ele é um menino criativo. E especial. Nos duas sabemos disso. Precisa de estímulos.

Regina parecia ter ouvido o suficiente, ou ter detectado um insulto naquilo que a Srta. Blanchard tinha dito. Bufou e balançou a cabeça, virando-se para Graham.

— Vamos embora, achar Henry. Essa conversa aqui não leva a nada. Virou-se para Mary Margaret. — O que ele precisa Srta. Blanchard, e de reali­dade. Fatos. Verdade. Não precisa de histórias.

Mary Margaret não disse nada, apenas levantou as sobrancelhas. Regina saiu da sala, seguida por Graham.

Mary Margaret sorriu gentilmente para Emma.

—Bem-vinda a Storybrooke disse ela, e desta vez aquilo soou mais como uma piada.

Emma sorriu. Sim, estava certa: ela ia gostar dessa mulher.

— Receio que tudo isso, em parte, seja culpa minha — disse Mary Marga­ret, atravessando a sala e começando a organizar sua mesa. Ele tem estado tão sozinho ultimamente. Apenas pensei que ele precisasse ler historias — disse a professora, refletindo sobre isso por um momento, depois olhou para Emma. —Para que acha que servem as histórias?

—Para passar o tempo, talvez? —sugeriu Emma. E ficou pensando que era uma pergunta estranha.

— Já eu penso que sejam uma maneira de entender nosso próprio mundo retrucou Mary Margaret. — De uma forma diferente.

— A professora balançou a cabeça. — Regina às vezes é muito rígida com Henry, mas os problemas dele são bem mais profundos que isso. Ele é como a maioria das crianças adotadas: zangado, confuso. Fica se perguntando o tempo todo como alguém poderia ter pensado em...

Parou de falar, percebendo com quem estava conversando, dizendo todas essas coisas. Emma estava se sentindo arrasada e ao mesmo tempo feliz que Mary Margaret não tivesse falado tudo aquilo em voz alta. Funcionava com uma brecha em sua armadura, ficar falando sobre os pais.

— Está tudo bem — disse Emma rapidamente. — É historia antiga.

—Não quero julgar ninguém — disse Mary Margaret.

— Peço desculpas. Acho que dei aquele livro a Henry apenas para lhe oferecer o que ninguém aqui parece ter. Um novo sentimento. O sentimento de esperança.

Ela parecia triste, forte e triste ao mesmo tempo. Emma percebeu que Mary Margaret falava sobre si mesma.

— Você sabe onde ele está não é? — perguntou Emma. Mary Margaret inclinou a cabeça e suspirou.

Bem — disse ela. — Não sei dizer com certeza. Mas você pode tentar ve­rificar em seu castelo.

 

                                               FOI O QUE ELA FEZ.

O "castelo" de Henry era pouco mais que um depósito de entulho.

Foi o que pensou Emma, de qualquer modo, enquanto se encaminhava para o parquinho na periferia da cidade. Ficava ao lado do oceano e com vista para o quebra-mar. Do carro, Emma conseguiu ver Henry sentado no se­gundo piso de uma estrutura de madeira cambaleante, com uma única escada em espiral. Ele estava com as pernas cruzadas, olhando para baixo. Antes de descer, ela pegou o livro ao seu lado.

— Você não pode continuar fugindo, garoto disse-lhe Emma enquanto abria caminho com cuidado por aquela frágil estrutura. As pessoas vão ficar preocupadas.

Não vão, não — respondeu ele. — Elas não se importam. Eu trouxe seu livro — disse ela. — Você o esqueceu em meu carro. Henry pegou o livro e disse:

— Deve ser o início da batalha final. Toda essa grande coisa.

—Em algum momento você tem de crescer e deixar para trás essas coisas, Henry tentou Emma. — As historias são ótimas, mas no fim você vai ter de olhar para o mundo real.

Ela não estava gostando de soar como Regina, mas era verdade, não era bom acreditar em coisas que não fossem verdadeiras. Isso deixava a pessoa muito vulnerável. Talvez essa fosse praticamente à única lição de vida que ti­nha a oferecer, e acreditava nela.

— Você não tem de se sentir mal.

— Olhe, garoto, isso não é...

— Mas tudo bem, eu sei por que você me largou. Emma sentiu um aperto na garganta. Ele estava olhando para ela agora, com um doce sorriso no rosto. "Deus", Emma pensou. "Esse garoto sabe como me pegar."

— Você quis me dar a melhor chance que eu poderia ter — continuou Henry. — Sei que fez isso por mim.

Emma não conseguiu segurar as lágrimas que brotavam em seus olhos. Queria pegá-lo e abraçá-lo, aperta-lo contra o peito. Sim, uma vez abrira mão de seu filho, e agora ali estava ela, fazendo tudo de novo... E, de alguma forma, não doía menos dessa vez.

Ela só conseguiu dizer: Como... Como você sabe disso, Henry?

— Porque foi exatamente por isso que a Branca de Neve abriu mão de você — respondeu ele, orgulhoso de si mesmo por toda a sua lógica.

Emma olhou para o livro no colo dele. As histórias servem para nos ajudar a compreender nosso próprio mundo. Mary Margaret tinha razão sobre esse ponto.

Temos de voltar para casa, Henry—   disse ela. Não estou nesse livro, e não existe nenhuma batalha final. Mas eu sou real. E quero você na minha vida. De alguma maneira.

— Não me faça voltar para lá.

— Para onde? — perguntou Emma. Para a sua casa? Onde as pessoas se preocupam com você? Eu nunca tive isso. Eles me encontraram no acosta­mento de uma estrada. Foi lá que os meus pais me deixaram. Na sua idade, eu ainda estava no programa de adoção... O mais próximo que cheguei de ter o que você tem foram três meses aqui, três meses ali... E então me mandavam de volta para o orfanato. Você tem algo estável, algo bom. Está seguro, Henry. Você é querido.

Tudo bem, mas eles não deixaram você no acostamento da estrada in­sistiu Henry.   — Você veio no guarda-roupa, que foi parar lá.

Emma não tinha nenhuma ideia de que guarda roupa era esse de que ele estava falando, mas podia ver que o garoto não iria desistir da sua fantasia.

Ainda não. Talvez em breve, talvez em poucos anos. Talvez quando desco­brisse as meninas. Mas ela estava cansada de tentar convencê-lo a encarar a realidade.

— Vamos lá, garoto — disse ela, estendendo a mão. —Vamos levá-lo para casa.

 

— FIQUE COMIGO.

Branca de Neve o tinha encontrado caído no chão, sangrando, quase in­consciente. Parecia completamente exaurido e estava imóvel agora, olhando para o teto, com a respiração pouco profunda, os olhos vidrados. Branca de Neve segurava a mão do seu amado, chorando. Ela agora estava fraca demais para se mover, porque havia usado toda a energia que lhe restara para chegar até ele. Os soldados da Rainha tinham invadido o castelo à procura do guarda-roupa, mas o Príncipe tinha conseguido. A bebê Emma estava a salvo. O guarda-roupa tinha atravessado para o outro lado. Ela o beijou na face.

— Fique comigo, meu amor—   sussurrou.

— Ah, como o amor é lindo!

Branca de Neve estremeceu ao som daquela voz. Ela a ouvira por toda a sua vida, e ela foi ficando cada vez mais gélida ao longo dos anos. Ouvira a es­perança e a felicidade escoarem para longe dela, dia após dia. Ouvira a mesma voz em seu casamento.

Branca se virou para a Rainha, que olhava com desdém para um de seus cavaleiros.

— A criança — disse. — Dê a criança para mim.

— Sumiu — disse o cavaleiro rudemente.

— Desapareceu. Desapareceu para onde? — exigiu saber a Rainha.

Ela está a salvo — disse Branca. E isso significa que você vai perder, afinal. Você sempre vai perder. E por causa do que você é. O bem vai ganhar sempre.

— Poupe-me do seu discurso disse a Rainha. O bem nem sempre vence. Na verdade, o bem quase sempre perde minha linda jovem. Você vem rece­bendo uma lavagem cerebral neste mundo ridículo sabia? Não, é claro que não. Vou lhe sugerir uma coisa, tente viver uma semana em um reino diferente. Tente ter como monstro como pai. Isso vai ensiná-la a crescer rápido.

Ela estava olhando para a porta. Aquela névoa verde que Branca de Neve ti­nha visto antes chegava finalmente ao castelo, subia pelas paredes e ao redor de­les, como se a sala se inundasse de puro ódio. A nevoa, de alguma forma, era a própria maldição. A Rainha sorriu e abriu os braços. Branca de Neve, com os olhos arregalados, agarrou-se ao Príncipe quando o castelo começou a tremer. Ela se sentiu tonta, mas depois percebeu que o quarto em si é que estava gi­rando... estava rachando. Objetos estranhos se mostravam pelas rachaduras, que deixavam entrever o céu, um vento selvagem uivava pelo quarto. Branca de Neve ouviu o que pensou ser ela mesma gritando.

— Para onde... Para onde estamos indo?

Para aquele outro mundo, minha querida riu a Rainha, com os olhos insanos, os braços agora esticados acima da cabeça. Para um lugar em que o único final feliz será o meu!

 

PELA SEGUNDA VEZ em vinte e quatro horas, Emma observava Regina descer correndo os degraus da porta de sua casa, aliviada por ver o filho. Juntou-se a ele na porta do carro e o abraçou demoradamente. Henry aceitou o gesto, mas não a abraçou. Emma pensou de novo que, por mais distorcida que essa Re­gina fosse, na mentalidade e no comportamento, de fato se importava com Henry.

Depois de um momento, ele se livrou do abraço da mãe e correu para den­tro da casa.

Regina ficou observando o garoto correr, e Emma viu que a porta batida pareceu causar um instante de dor física na prefeita. Obrigada   disse ela, voltando-se para Emma. O prazer foi meu.

— Ele parece ter realmente encantado você.

— Quer saber de uma coisa louca? — disse Emma. — Ontem foi meu ani­versário e, quando apaguei a vela, meu desejo foi que eu não tivesse de passar mais um aniversário sozinha.

E bem quando eu assoprava a vela, Henry apa­receu. — Ela realmente não tinha considerado essa coincidência até então.

Regina a olhou friamente.

— Espero que não haja nenhum mal entendido aqui.

— O que você quer dizer?

     — Isso não é um convite para voltar a fazer parte da vida dele. Você fez a sua escolha. Dez anos atrás. Já é suficientemente duro ser mãe solteira. E fica ainda mais difícil competir com uma estranha que fica enchendo a cabeça dele com histórias divertidas e sei lá mais o que se passa em sua cabeça.

—Mas eu não...

— E, na última década, enquanto você estava fazendo só Deus sabe o quê, eu estive aqui, trocando suas fraldas, cuidando de cada doença, fazendo o tra­balho difícil. Você pode ter dado Henry à luz, mas ele é meu filho!

Emma não poderia competir com isso, e nem sequer tentar.

—Eu não estava...

— Não, você não vai falar —disse Regina, e sua voz tornou-se ainda mais irritada. Ela deu um passo à frente. — Você não vai fazer nada. Lembra-se do que é uma adoção fechada? Lembra-se de que isso foi o que você pediu? Você? Você não tem direito legal sobre Henry. Isso foi uma coisa que você pediu e será cobrada de você. Por isso, sugiro que entre em seu carro e suma desta ci­dade para sempre. Imediatamente. Se não fizer isso, vou destruí-la, nem que seja a última coisa que eu faça!

Emma estava atordoada. Olhou para Regina, que tinha ampliado a sua raiva com aquele discurso. E mais uma vez teve a mesma sensação: quanto mais Regina a queria fora da cidade, mais ela queria ficar.

Com o coração palpitando forte, Emma quase se virou para ir embora. Mas pensou em mais uma coisa que queria perguntar.

— Você o ama? — questionou ela. Regina pareceu surpresa, depois furiosa.

— É claro que o amo— disse, cuspindo as palavras. Então Regina virou-se e voltou para dentro da casa.

 

EMA NÃO TINHA CERTEZA do que acontecera enquanto ela voltou pela Rua Principal. E decidiu não pensar muito sobre o assunto. Na verdade, tinha o mal habito de fazer isso. Ou seja, em vez de refletir, quando viu a placa "Quartos disponíveis" na Pensão da Vovó, uma certeza repentina a inundou: sabia que não poderia abandonar Heury mais uma vez.

Estacionou o carro.

Dentro da pensão, Emma deparou com uma mulher de cabelos grisalhos no meio de uma discussão acalorada com uma jovem de cabelos negros:

—Esta é a minha casa, e estas são as minhas regras. Uma delas é que você não pode ficar fora a noite toda.

— Eu deveria ter me mudado para Boston — disse a garota com desdém. Sinto muito que meu ataque cardíaco a tenha impedido de se instalar no

litoral — gritou a mulher. No mesmo instante em que fez isso, Emma limpou a garganta e a mulher girou o corpo. Deu a Emma um sorriso doce. Emma per­guntou se tinha um quarto. A garota ficou olhando para ela, impassível.

— E claro, é claro! — disse a mulher mais velha, já se aproximando do bal­cão na recepção. — Temos um belo quarto disponível.

Ótimo — disse Emma.

— E qual é o seu nome, querida? — perguntou a mulher, com a caneta na mão.

— Emma. Emma Swan.

— Emma - soou uma voz de homem. — Que lindo nome!

Emma se virou e viu um homem de terno e cabelo comprido e sedoso pa­rado bem atrás dela, de pé.

Ele segurava uma bengala e a olhava com curiosidade. Em seguida, cami­nhou até o balcão, olhando para a senhora.

— Obrigada - respondeu Emma.

— Está tudo em ordem — disse a mulher, e Emma percebeu que ela estava visivelmente intimidada pela presença do homem, quem quer que fosse. Está tudo aqui. — Segurava um envelope na direção dele.

— Sim, claro — disse o homem, pegando-o.

— Confio totalmente em você. Emma viu um bolo de dinheiro quase saindo da parte superior do enve­lope.

O homem sorriu novamente para Emma.

— Encantado em conhecê-la, srta. Swan. Talvez nos vejamos outro dia. Acenou com a cabeça e caminhou para fora.

— Quem era aquele sujeito? — perguntou Emma, uma vez que ele tinha ido embora.

Era o sr. Gold respondeu a garota em tom conspiratório. Ele é o dono deste lugar.

— Da pensão?

— Não — completou a senhora. - De toda a cidade. Emma ergueu as sobrancelhas.

Ah...

— Aqui esta a sua chave ea senhora entregou a Emma uma grande chave de metal, quase cômica por suas intenções artísticas, cheia de floreados. Nada naquela cidade parecia normal, era o que Emma estava percebendo. - Quanto tempo você vai ficar?

— Apenas uma semana respondeu Emma, olhando para a chave. — Ape­nas uma semana.

Esse era o tempo de que ela precisava para ter certeza de que Henry ficaria bem. Deveria bastar. O que mais teria algum sentido? Ela precisava conhecer o seu filho. Teria de ficar perto dele agora que o encontrara. O que mais uma pessoa poderia fazer?

— Uma semana! gritou a senhora. Mas que maravilha! Bem-vinda a Storybrooke.

Emma pegou a chave.

Lá fora, o segundo ponteiro no relógio da torre começou a se mover.

 

                        AQUILO QUE VOCÊ MAIS AMA

EMMA ACORDOU NAQUELA MANHÃ E FICOU SE PERGUNTANDO durante alguns instantes o que estava mesmo fazendo na­quela cidade infernal. Mas logo se lembrou Sabia muito bem por que estava ali.

Ainda se encontrava no banheiro quando ouviu uma batida na porta. Ao abri-la, surpreendeu-se ao encontrar Regina Mills sorrindo para ela.

— Ah, bom dia! — disse Regina. Achei que seria bom parar aqui e lhe trazer um presentinho.

Ergueu as maçãs que trazia em um saco de papel e entrou no pequeno quarto sem ao menos esperar pelo convite. Emma ficou olhando, cautelosa­mente. Tenho certeza de que vai gostar delas quando estiver em seu carro, na viagem de volta. — E acrescentou: — Pena que não tenha conseguido sair da cidade ontem à noite, depois de tudo... Olhando ao redor do quarto com desdém, Regina depositou as maçãs na bancada.

— Decidi ficar — respondeu Emma, olhando para as maçãs. Mas... Obrigada.

Tem certeza de que é uma boa ideia? — Perguntou Regina em tom ale­gre, e aparentemente nem um pouco surpresa com a notícia. Henry tem li­dado com uma série de problemas emocionais. Acho que isso só vai contundi-lo ainda mais, não?

— É que o fato de você já ter me ameaçado por duas vezes nas últimas doze horas — retrucou Emma finalmente —me faz querer ficar mais um pouco.

— Como assim? — disse Regina. — Você considera essas maçãs uma ameaça? Eu não...

— Sou bem capaz de ler nas entrelinhas, prefeita disse Emma, e cruzou os braços. — Acho que vou ficar na cidade até conseguir uma avaliação melhor da situação de Henry por aqui. Quero ter certeza de que ele está bem.

— Entendo... — disse Regina. Você está preocupada com o fato de eu ser uma pessoa má, não é? Então, você anda lendo o livro dele também... Posso lhe garantir que ele está muito bem e que seus problemas estão sendo tratados. Henry não precisa de você.

— O que isso significa?

Significa que ele está fazendo terapia — respondeu Regina. Significa que vai aprender bem depressa que a realidade tem mais sentido que a fanta­sia. Como sempre digo a ele. E significa que apenas uma de nós sabe o que é melhor para o Henry.

— Começo a achar que você está certa sobre isso.

A audácia daquela mulher era inacreditável. Emma não conseguia se ima­ginar entrando tão corajosamente no espaço privado de uma desconhecida e falar assim com tanto desdém, especialmente para alguém que poderia conti­nuar na cidade por mais tempo. Regina lhe dirigiu um sorriso cruel c deu um passo adiante, em direção a Emma.

Foi tudo ótimo — disse Regina, mas já está na hora de você ir embora de Storybrooke.

— Ou então...? — replicou Emma, com os braços ainda cruzados

Regina deu mais um passo em sua direção. Seus rostos estavam a menos de meio metro de distância um do outro, e Regina disse friamente:

— Não me subestime, srta. Swan. Não tem ideia do que sou capaz. Emma fez uma pausa e considerou essas palavras.

— Bem, então vai ter de me mostrar, não é? — respondeu Emma por fim. Os olhos de Regina se apertaram, restando apenas duas fendas estreitas.

— Que assim seja.

Dez minutos depois, sentindo grande necessidade de um café, Emma foi até a lanchonete. Também precisava pensar tentar entender por que Regina estava tão determinada a tirá-la da cidade. "Este lugar... Há alguma coisa que não se encaixa inteiramente cm relação a este lugar... O que seria?", pensou Emma.

Sentiu ainda mais essa estranheza quando viu o próprio rosto olhando para ela na capa do jornal da cidade, o Storybrooke Daily Mirror.

Era uma foto de ficha policial. Emma comprou um exemplar do jornal e sentou-se a uma mesa.

"Sério?" Pensou. "Você levou um dia para arrumar isso?"

Quem quer que tenha escrito o artigo conseguira desenterrar muita coisa sobre a vida dela em um período de tempo bem curto. Seu nome era Sidney Glass; ele sabia que Henry tinha nascido em Phoenix e sabia também onde ela vivera desde então. Conhecia seu problema com a lei. Não estava tudo lá, mas o suficiente. Emma estremeceu. Era por isso que não gostava de cidades pequenas.

— Aí está você.

Emma afastou os olhos do jornal. A mesma garota da pensão, aquela que tinha discutido com a avó, estava ao lado de seu compartimento, sorrindo. Trazia uma xícara de chocolate quente e colocou-a sobre a mesa.

Emma olhou para o nome escrito no crachá: Ruby.

— Obrigada, Ruby, mas não pedi isso — disse Emma.

— Eu sei disse Ruby. Ela sorriu e inclinou a cabeça. Emma ficou impres­sionada com o brilho vermelho do seu batom, era quase incandescente.

— Você tem um admirador.

Emma se virou para olhar pela sala e viu o xerife Graham sentado em um dos compartimentos. Ele estava tomando café e lendo o jornal também. A jovem se levantou e foi até ele, segurando a xícara de chocolate quente.

— Então, decidiu ficar, não é? —   disse ele agradavelmente. Emma ficou apenas olhando.

— Gostaria de me acompanhar? — perguntou Graham. Fez um sinal para ela se sentar.

— Olhe, cara. O chocolate foi um gesto bonito. E é impressionante como foi capaz de adivinhar que gosto de canela no chocolate quente, mas não estou aqui a fim de namoro. Por isso, obrigada, mas não, obrigada, xerife. E abando­nou ruidosamente a xícara na mesa em frente a ele.

— Tudo bem, mas não fui eu que pedi isso— disse o xerife. Ele deu de om­bros, olhando para ela inocentemente.

— Fui eu —  fez-se ouvir uma voz.

Era Henry. Ele estava no compartimento ao lado, sentado tão agachado que Emma não pudera vê-lo.

Também gosto de canela — acrescentou o menino.

— Oi! Estou contente que você tenha decidido ficar...

— Henry, o que você está fazendo aqui? — perguntou Emma.

— Não tem aula hoje?

— Sim, já estou indo — respondeu ele.

—   Você me leva até lá?

Emma suspirou e lançou um olhar de desculpas ao xerife Graham. Ele sor­riu gentilmente e voltou a ler o jornal. Havia alguma coisa naquele xerife que lhe agradava. Claro, ele estava sob as rédeas da prefeita e devia ser completa­mente dominado por ela, mas era um sujeito que parecia estar na dele... E também um tanto bonitão. Um tanto.

Ela acenou dando adeus.

Henry levou Emma para fora da lanchonete.

— Nem acredito que você tenha ficado! Sério! — disse Henry quando eles já estavam na rua. — Agora as coisas vão funcionar!

— O menino estava muito animado, e Emma sorriu.

— Sua mãe preferia que eu fosse embora, acho — disse ela.

— Não era mi­nha intenção ter ficado...

Ela não quer você aqui porque é a Rainha Má. Emma franziu o cenho. Henry parecia ter uma rica vida interior, mas ela não conseguia deixar de pensar no que Regina tinha dito ainda em seu quarto. O menino estava tendo sessões com um psiquiatra, pelo amor de Deus. E se tivesse algo de muito errado com ele? Será que fora certo alimentar essas fantasias, ter ficado ali? Ela não sabia. E teria de falar com Archie.

— Explique-me o que você quer dizer com isso — disse Emma, pensando que seria melhor conversar com ele sobre algo que o entusiasmava do que re­preendê-lo por inventar coisas.

— O quê? A maldição?

— Sim — disse ela. - O que é isso tudo?

— Ah, legal, tudo bem! — disse Henry, ficando cada vez mais animado en­quanto falava sobre esse assunto. — Quer dizer, você e eu precisamos desfazer essa maldição, entendeu? Esse é o nosso trabalho. E o primeiro passo da ope­ração é a "identificação". — Ele ergueu os olhos, confiante. A operação toda é chamada Operação Cobra.

Emma ouvia atentamente enquanto Henry explicava sobre a maldição. Todas as pessoas que moravam em Storybrooke "Todas!" tinham vindo de outro reino A Terra dos Contos de Fada. Elas tinham vivido muito felizes por lá, e ostentavam identidades diferentes. E então, a fim de punir a Branca de Neve e o Príncipe Encantado por terem sido injustos com ela, a Rainha Má decidiu lançar uma maldição sobre todo o reino. Uma maldição segundo a qual ninguém jamais poderia ser feliz. Essa maldição havia transportado to­dos os que viviam na Terra dos Contos de Fada a este lugar, a este mundo no planeta Terra, um lugar que não tinha magia. Ninguém podia sair, o tempo havia parado, e ninguém sabia o que tinha acontecido. Todos estavam com amnésia, e todos tinham ficado presos ali durante vinte e oito anos, vivendo o mesmo dia infinitamente, de novo e de novo. Com exceção de Henry, que ti­nha descoberto tudo, por causa do livro e porque não tinha nascido na Terra dos Contos de Fada.

A Rainha Má precisou pegar a maldição com sua antiga colega e ini­miga, a Malévola explicou Henry. Ela foi ao castelo e lá tiveram essa grande batalha mágica, e a Rainha roubou a maldição do cetro da Malévola. Foi uma loucura de batalha! Emma assentiu, acompanhando o relato. — Mas, para que a maldição funcionasse direito - continuou o garoto, a Ra­inha teve de usar o coração de quem ela mais amava no mundo.

Uau! — disse Emma. — Assustador!

Eu sei! — concordou Henry. E adivinha o coração de quem ela acabou pegando para fazer o feitiço dar certo? Você nunca vai adivinhar!

— Sim, não consigo imaginar de quem a Rainha Má poderia gostar...

— O coração do pai dela! Ela matou o pai para fazer a maldição! Ei!

— disse Emma. — Essa é uma raiva séria.

— A melhor parte—   disse Henry é quem você é.

— Hã? Eu sou da Terra dos Contos de Fada? — perguntou ela. — Quem di­ria, hein...?

Henry ignorou isso e explicou que ela era a filha da Branca de Neve e do Príncipe Encantado.

EMma achou isso hilário.

Henry explicou que aquilo não era tudo, porque Emma era a única pessoa que poderia quebrar a maldição. Estava tudo nas histórias. Ela era aquele bebê que nasceu pouco antes de a maldição cair sobre o reino.

Ele girou sua mochila ao redor do ombro e retirou de dentro dela um con­junto de páginas, que Emma percebeu que deveriam ter sido tiradas do livro. Em seguida, Henry mostrou-lhe a ilustração de um bebê enrolado em um co­bertor, com a palavra "Emma" bordada bem à vista.

— Essa é a sua prova definitiva? — perguntou ela, olhando para a ilustração.

— Há outras Emmas no mundo, como você sabe.

Emma pegou as páginas da mão do menino e começou a examiná-las, em busca de um nome de autor ou de uma data de direitos autorais. Mas não ha­via nada, nenhuma data, nenhum autor. Talvez no próprio livro, quem sabe... Ninguém parecia saber de onde tinha vindo essa coisa. No entanto, ela não podia negar que era mesmo uma coincidência que o bebê tivesse esse cobertor. Um cobertor que se parecia com o que a estava enrolando quando foi encon­trada, o mesmo que levou com ela para todos os lares adotivos. Emma ainda o tinha em algum lugar, embalado em uma caixa lá em sua casa, em Boston. Mas aquela não era uma lembrança do tipo que a jovem gostava de reavivar, porque a maior parte das recordações que vinham junto eram dolorosas.

Acho que você deve ler todas as páginas   —  disse Henry.  

—  Esta parte aqui é a sua história. Sei que você não vai acreditar em mim até que leia tudo...

— O menino balançou a cabeça para si mesmo, então disse: — Você não pode deixá-la ver essas paginas, entendeu? Não pode! Foi por isso que as arranquei do livro. Se ela vir isso, será... muito ruim...

Emma olhou para o livro.

— Sério? — disse ela, olhando para a imagem da Rainha. De fato, a ilustração se parecia um pouco com Regina, e por isso ela enten­deu como Henry tinha se convencido de que tudo aquilo era verdade.

Mais ou menos.

— Muito ruim— continuou ele.

— Muito ruim mesmo! Eles logo chegaram à escola. Antes de entrar, Henry olhou para ela, sorriu e disse:

— Obrigado por acreditar em mim quanto à maldição. Eu sabia que você iria acreditar. — Isso quase a derrubou, ele estava levando aquilo a serio de mais.

"Tudo bem, garoto, mas não acreditei em você nem um pouquinho!", pen­sou Emma.

— Veja, eu não disse que acreditei, rapaz... — disse ela, pensando que prova­velmente seria melhor ser honesta, mas de uma honestidade equilibrada. — Apenas escutei o que era absolutamente verdade.

Ainda assim, Henry continuou a sorrir, em seguida virou-se e fugiu para a sua classe. Emma observou-o ir ainda sem saber como lidar com sua relação

"interessante" com a realidade. Essa brincadeira da "Operação Cobra" parecia dar-lhe uma alegria sem fim, e algum instinto lhe disse que nunca seria uma coisa ruim deixar seu filho sentir alegria. Esse era o trabalho que uma mãe de­veria fazer, não é? Mas outra parte dela pensou que talvez pudesse estar se comportando de forma imprudente, como aquela avó que se intromete e dá doces para o neto até que ele fique doente. Uma pessoa de fora que participa do jogo para conseguir ganhos de curto prazo e não se compromete com os objetivos de longo prazo.

— E bom vê-lo sorrindo.

Emma, assustada, viu que Mary Margaret tinha se aproximado.

— Oh, também acho que sim — respondeu ela.

— Mas não fui a responsá­vel. Foi à magia que fez isso...

— Regina sabe que você ainda está aqui?

Sim. Ela me encantou essa manhã com um discurso irritado. Muito, muito agradável. Como é que essa mulher conseguiu ser eleita servidora pú­blica? Ela não tem habilidades sociais.

— Parece que sempre foi a prefeita — disse Mary Margaret. Emma olhou para ela e levantou uma sobrancelha.

— O que você quer dizer com isso?

— Acho que todo mundo está com muito medo de concorrer com ela — continuou Mary Margaret. — E tenho a impressão de só ter piorado as coisas para Henry quando lhe dei aquele livro.

— Onde você conseguiu esse livro? — perguntou Emma.

— Vejamos... — pensou Mary Margaret. — Não estou totalmente certa... Aqui na escola, talvez?

— Falando nisso, quem ele acha que você é afinal? — perguntou Emma. — Eu? Que bobagem... — Ela sorriu e olhou para baixo. — Na verdade, ele acha que eu sou... a Branca de Neve.

— Uau! A Branca de Neve! — disse Emma, e acenou com a cabeça, impres­sionada. — Nada mal.

— E quem é você?

Emma olhou para ela e não quis responder, pois percebeu o que isso impli­cava quanto ao relacionamento delas. Emma surpreendeu-se com o fato de uma parte da sua imaginação brincar tão ansiosamente com a ideia, tentando se conectar com ela, ainda que por apenas alguns segundos.

 

Era exatamente o tipo de coisa que ela costumava fazer quando ainda era criança, um jogo que jogava sozinha. "Fantasiando a mamãe" era como Emma o chamava, mesmo que nunca tivesse contado a ninguém o que ficava fazendo durante todas aquelas horas, escondida em guarda-roupas ou debaixo de árvores. Passava todo aquele tempo imaginando como seria sua mãe, quem seria, onde moraria, por que tinha sido obrigada a dar Emma para adoção... Aquela fantasia acabou criando, ao longo dos anos, uma imagem esmaecida em sua mente; era quase como uma lembrança. A mulher estava sorrindo e vindo em sua direção com os braços abertos, dizendo: "Emma, Emma", com uma voz doce e suave. Aquilo era bobagem. Criação da sua mente. Uma estupidez. Ela se deu conta disso quando estava com onze ou doze anos, e então desistiu de jogar esse jogo. Para sempre.

— Eu? Ah, eu não estou no livro...

— Isso mesmo — respondeu Mary Margaret. — Você é de algum outro lugar. Emma sorriu.

— Mas tenho de ir ver o Grilo Falante. Mary Margaret franziu a testa.

— O médico dele. Archie — explicou Emma.

— Sabe onde posso encontrá-lo?

Ela sabia. E Emma se encaminhou para o consultório de Archie, perguntando-se se era inteligente o que estava fazendo, envolver-se na terapia de Henry, mas incapaz de voltar atrás. O mais provável é que ele não pudesse lhe dizer nada. Porém, novamente, ela era a mãe de Henry, afinal...

Foi com estranha facilidade que ela se viu pensando em si mesma como a mãe de Henry, e pensou novamente no momento com Mary Margaret, o salto de fé. No caso de Henry, era verdade, ela era sua mãe, mas, ainda as­sim, o conceito era o mesmo, não? Você não sabe nada sobre uma coisa, de­pois acaba descobrindo e... Blam! Começa a repensar tudo. Precisava ter cuidado. Havia alguns pontos sensíveis em sua psique, em que ela se sentia vulnerável. Por muitos anos desenvolvera uma couraça, e agora, em apenas alguns dias, estavam aparecendo fissuras. Se surgissem muitas, alguém aca­baria por explorá-las.

Na porta do consultório, Archie sorriu e a cumprimentou, convidando-a a entrar na pequena sala. Assim que entrou, Emma disse-lhe que precisava con­versar sobre Henry.

Ah, não, eticamente na realidade não devo...

— Sei, sei. Entendo. Sigilo da relação médico paciente. Só quero saber uma coisa. Talvez você possa quebrar as regras apenas por uma vez... Archie ficou mais relaxado e cruzou os braços.

— Do que se trata?

O que causou isso? — perguntou Emma.

Essa simples pergunta martelara em sua mente durante toda a manhã.

— Por que ele está confuso quanto ao que é ou não real? Ele está... Louco? Ou é apenas a sua imaginação? Acho que devo saber se ele está doente ou ape­nas... Não sei... Qual é de fato, o diagnóstico?

Archie pareceu ficar aflito com a pergunta, especialmente pelo uso que ela fazia da palavra "louco". Ajustou os óculos nervosamente, sacudiu a cabeça um pouco mais e caminhou com ela até sua mesa.

— Por favor, não fale assim dele... Por favor, não diga que você acha que ele é louco, isso seria terrível. — Fez um gesto para que ela se sentasse, sentando-se também. — Essas histórias são a sua linguagem. Pense nisso dessa forma. E assim que Henry se comunica com o mundo agora. Ele já passou por tanta coisa... — Essa é a comunicação dele, Srta. Swan. E é uma coisa boa!

Ele está lidando com seus problemas.

Exatamente!

— Quais são os problemas dele, então? — Era a sequência lógica.

Archie pareceu perceber para onde Emma estava indo. Franziu os lábios e inclinou a cabeça.

— E Regina, não é? Ela está deixando o menino infeliz, é isso?

— Não, não, isso e um exagero, uma conclusão muito simplista disse Ar­chie. — Claro que não. Ela é uma mulher complicada e uma mãe bastante se­vera, mas é boa mãe também.

Ele assentia com a cabeça ao dizer isso, observou Emma. O psiquiatra pa­recia acreditar no que estava dizendo.

— Como é seu relacionamento com sua mãe? Entende o que quero dizer? Outra seta diretamente no coração.

— Você obviamente não leu o jornal da manhã — retrucou Emma. O que isso tem a ver com... — Sou adotada também — respondeu ela. — Não conheço minha mãe.

Ah... — exclamou Archie em voz baixa, como se isso tivesse sentido para ele. Assentiu com a cabeça para si mesmo, tocou o queixo.

—   Entendo... Bem, você compreende o que quero dizer.

Os relacionamentos com as mães são sempre complicados. — Sorriu.

—E com os pais também.

— Algo me diz que as coisas são ainda mais complicadas quando se trata de Regina.

—Ela tenta, mas pressiona demais e deixa as coisas mais difíceis— conti­nuou Archie. Aparentemente lutando com outra coisa agora, ele suspirou, em seguida abriu um armário de arquivos. — Leve este arquivo e dê uma lida, você verá.

Emma franziu o cenho, cética. O médico estava agindo de forma estranha; algo estava errado.

—Por que está fazendo isso?

—Porque ele se preocupa com você —respondeu Archie, entregando-lhe o arquivo. — E eu me preocupo com ele.

Emma pensou naquilo. Algo parecia muito errado, com certeza, mas ela queria o arquivo. O que quer que Archie estivesse fazendo, ela tinha certeza de que seria capaz de lidar com aquilo. Mais segura, estendeu a mão e pegou a pasta.

Simples matemática, não é doutor?

—Exatamente — disse ele, ajeitando os óculos novamente. Emma levantou-se, e ele parou para vê-la ir embora.

 

NÃO DEMOROU MUITO PARA QUE EMMA percebesse que seus instintos quanto ao bom doutor estavam certos. Poucas horas se passaram depois de sua visita ao psiquiatra, e o xerife apareceu "misteriosamente" em sua porta, olhando-a severamente.

— Sinto muito, srta. Swan — disse Graham, mostrando-lhe as algemas. — Mas você está presa.

Emma não podia acreditar no que estava ouvindo. Ela estava na porta do seu quarto, depois de ter acabado de tomar banho e trocar de roupa. O xerife olhou para ela com simpatia nos olhos. Ela havia aberto a porta esperando en­contrar a Vovó com uma nova muda de lençóis limpos. Mas, em vez disso, Graham a estava informando de que ela era acusada de ter discutido com Archie e roubado o arquivo de Henry de seu consultório.

—Foi ele que me deu o arquivo —disse Emma ao xerife, entregando-lhe o documento. Isso é ridículo. Você não percebe que foi Regina que armou tudo, não? Ela está de alguma forma, forçando-o a dizer isso.

—Vou ter de algemá-la — disse Graham. —Sinto muito.

—Tudo bem —disse Emma.— Prenda-me novamente. Tem algum pro­blema? Prenda Emma! —Ela se virou e fechou os punhos atrás das costas. -Que bela polícia...

Na delegacia, enquanto ele tirava a foto para o prontuário, Emma pergun­tou ao xerife sobre Regina.

— Toda esta cidade tem medo dela. Você sabe disso, eu sei disso. Por que não fazer alguma coisa? Onde mais ela pôs as suas mãos?

— Ela é a prefeita — disse Graham. —Suas mãos estão em tudo.

—Em tudo? — perguntou Emma, erguendo uma sobrancelha.

—Olhe... disse ele, levando-a até a cela. —Você está aqui há dois dias. Ela está aqui há décadas. Talvez você não saiba de tudo, certo?

— Eu sei o que roubei e o que não roubei — disse Emma.

— Archie está mentindo.

Mais uma vez, Graham não disse nada. Mas Emma podia jurar ter visto algo em seus olhos.

 

ELA SE SENTOU NO CATRE DA CELA, furiosa, antes de ouvir uma voz familiar e então se levantar de novo.

— Ei, você tem de deixá-la sair!

Era Henry. Ele entrou na sala da delegacia, na frente de Mary Margaret Blanchard. Graham, surpreso, ergueu os olhos de sua mesa.

—Henry, o que você está fazendo aqui? — perguntou o xerife. E se virou para a professora do menino, confuso. —Srta. Blanchard?

— Estamos aqui para ajudá-la — disse Henry. Então, depois de olhar para Emma, sorriu e disse: —Bem, ela é que vai pagar a fiança. Não tenho dinheiro.

—Por que você faria isso? —perguntou Emma.

Mary Margaret parecia envergonhada e começou a procurar em sua bolsa. Eu... Eu não sei — disse ela. —Confio em você.

O xerife parecia um pouco surpreso com o rumo dos acontecimentos, mas levou na esportiva.

Enquanto Mary Margaret e Graham cuidavam da papelada. Henry desli­zou para mais perto da cela.

— Bom trabalho — sussurrou para ela. Emma inclinou-se e sussurrou de volta:

— Bom trabalho com quê?

— Em ser presa! Esse era o plano. Eu entendo. - Henry assentiu.   Bus­cando informações. Operação Cobra, certo?

—Claro garoto —   ela sussurrou de volta.

—Algo a ver com isso.

— Ok, então disse Graham do outro lado da sala, segurando uma folha de papel. Mary Margaret sorriu, acenou com a cabeça.

— Parece que tudo está em ordem.

Emma ficou de pé.

— Ótimo — disse ela. Agora, deixe-me sair daqui. E então olhou para Henry. —Tenho algo a fazer.

 

EMMA FOI DIRETAMENTE para a loja de ferragens.

Ela era boa em achar pessoas, sim. Fora isso, possuía um talento especial para dizer quando alguém estava mentindo. Ambas as qualidades tinham aju­dado muito em sua carreira, de caça aos criminosos por recompensa, mas ainda havia uma terceira qualidade, aquela ligação meio oculta e indistinta en­tre essas duas, o que a tornava realmente excepcional naquilo que fazia. Pres­sionada o bastante, ela pode achar fissuras em couraças também. Sabia muito bem atingir as pessoas onde mais sentiam. Se quisesse, Emma poderia desco­brir essas fissuras, e, quando o fizesse, não teria medo de atirar.

Ela encontrou uma serra com motor de dois tempos, pediu a um funcio­nário da loja que a tirasse da caixa c a abastecesse, e pagou-a com cartão de crédito.

—Vai trabalhar no jardim? —perguntou a mulher de trás do balcão.

— Não, na verdade, não — respondeu Emma.

Mas quem aquela mulher pensou que ela fosse? Tome algo valioso de mim, pensou, e retribuirei o lavor.

Esse pensamento se movia em círculos dentro de sua mente; a raiva de Emma a impedia de andar para muito mais longe enquanto caminhava pela Rua Principal. Ela ligou a serra e puxou o cordão enquanto caminhava pelo canteiro, olhando para a macieira de Re­gina. As maçãs significavam alguma coisa para aquela mulher, Emma sabia disso. Quando alcançou o tronco da árvore, hesitou. Então decidiu não der­rubar a coisa. Um tronco importante já seria o suficiente. Um dos maiores. Seria uma ferida, mas não uma ferida mortal. Seria apenas o começo. Emma não se sentia completamente pronta para usar a opção nuclear.

A serra cortou o galho com relativa facilidade, e ele emitiu um sonoro CRRRAAAAAACC pouco antes de despencar da árvore para o solo. Emma sor­riu e deu um passo atrás. Não precisava erguer os olhos para a janela... Sentiu que Regina estava lá, vendo isso acontecer.

Após um momento de silêncio, com o cheiro de gasolina e óleo impregnando o ar, e a árvore ferida não reclamando afinal, Regina explodiu para a rua.

— O que você está fazendo? — gritou a prefeita, caminhando em direção a Emma, que levantou a motosserra como uma arma.

A serra não estava ligada, e Emma não tinha a intenção de cortar Regina ao meio. Ainda não havia chegado a esse ponto. Ainda não.

— Vim colher maçãs... — respondeu friamente.

—Você está maluca!

Emma deu um passo adiante e encarou Regina em frente à árvore partida.

— Não. Quem está maluca é você, se pensa que um golpe malfeito para me acusar de um crime não existente vai me amedrontar. Terá de fazer melhor que isso, minha senhora. Venha atrás de mim de novo e voltarei para acabar com esta casca cheia de vermes. Por que, irmã? Sabe por quê? Porque você não tem ideia do que sou capaz de fazer.

Virou-se e foi embora, deixando Regina ao lado do galho caído, sem palavras. Por cima do ombro, Emma disse: "É sua vez".

 

ALGUMAS HORAS DEPOIS, tendo finalmente esfriado a cabeça após uma cami­nhada no bosque, Emma voltou à Pensão da Vovó com nova determinação. Ainda não sabia como, mas descobriria alguma maneira de fazer parte da vida de Henry. Não iria a lugar nenhum, ficaria bem ali, em Storybrooke.

Vovó, parecendo bastante desconfortável, parou-a no corredor.

— Sinto muito, querida — disse a senhora. Mas temos uma política de não aceitar criminosos aqui. Vou ter de pedir que vá embora.

— O quê? — exclamou Emma. O que foi? A reportagem do jornal? O que aconteceu de manhã?

Vovó assentiu tristemente.

Emma, já não mais surpresa com nada que pudesse acontecer naquela ci­dade, entregou a chave do quarto.

E deixe-me adivinhar — disse ela. — Foi um telefonema da prefeitura que a lembrou de sua própria política...

Tentamos manter as coisas seguras para os nossos hóspedes — disse a Vovó, pegando a chave.

— Isso é tudo.

Bem, já morei em um carro antes, pensou Emma. Arrumou suas poucas coisas e levou-as para o seu VW.

—Mas o que...

Emma apertou os olhos enquanto se aproximava do carro com suas saco­las. Havia uma trava de imobilização na roda dianteira. Regina novamente. Será que essa mulher não dava uma pausa?

Assim que pensou nela, o celular de Emma tocou. Ela não reconheceu o número.

No entanto, logo pôde reconhecer a voz. Era Regina. Queria fazer um acordo.

 

EMMA SE AFASTOU DO CARRO e foi caminhando quase um quilômetro ate o prédio da prefeitura. Emma e Regina se cumprimentaram de forma tensa, e a prefeita fez sinal para ela se sentar. Serviu uma bebida, que não era sidra dessa vez, para sua convidada e preparou uma para si mesma.

—Obrigada por ter vindo— disse Regina.

—Eu gostaria que isso ocorresse de forma civilizada. Acho que podemos dar um jeito na situação.

—Dar qual jeito, em quê? — perguntou Emma.

— Em tudo isso respondeu Regina. — Você. Aqui. Tenho a sensação de que esta mais determinada que nunca a ficar na cidade.

E não sou cega. Sei que ficar no caminho do meu filho só vai fazer com que ele deseje algo ainda mais do que já quer.

Emma se descontraiu um pouco e se afundou na cadeira. Respirou fundo.

— Tudo bem — disse ela.   Estou ouvindo.

— Eu aceito que você esteja aqui para tirar o meu filho de mim. Lá estava. Emma pensou por um momento c depois disse:

— Não é por isso que estou aqui.

Então, qual é o motivo? — perguntou Regina. Emma não tinha absoluta certeza de todos os seus motivos. Aliás, estivera lutando com essa mesma pergunta durante todo aquele dia.

— Estou preocupada com Henry, francamente — disse ela por fim.

— Ele acha que todo mundo nesta cidade é um personagem de conto de fadas. Isso não é um bom sinal. Regina assentiu. E você não acha que isso seja verdade, presumo.

—É claro que não! Não acho que minha mãe seja a Branca de Neve e não acho que você seja a Rainha Má. Henry está tendo muita dificuldade em dis­tinguir a fantasia da realidade. Tudo isso é uma loucura.

Emma franziu o cenho, vendo o sorriso de Regina. Seus olhos tinham se movido quase imperceptivelmente para a direita. Emma então se virou para olhar a porta do escritório. Henry, estampando tristeza no rosto, olhava para ela.

— Você acha que estou louco? — perguntou ele, com os olhos úmidos. O coração de Emma subiu à garganta.

— Henry, não, eu...

Mas já era tarde demais, e ele fugiu. Antes de Emma poder ficar de pé, Henry tinha desaparecido de vista. Furiosa, ela se virou para Regina.

— Você fez isso de propósito. Sabia que ele estaria aqui!

— Claro que eu sabia que ele estaria aqui disse Regina friamente.

— Ele é meu filho. Henry vem para cá às cinco horas da tarde, precisamente, toda quinta-feira. Não sei se você sabe, mas as mães acompanham os filhos...

Emma, com o pulso acelerado, sentiu sua raiva se misturar com tristeza e arrependimento. Havia perdido a batalha, tinha magoado Henry. Não im­portava como isso tinha acontecido. Fora uma idiota por ter vindo até ali.

— Você não tem alma — disse ela a Regina.

Era tudo o que pôde pensar em dizer antes de correr para fora, atrás de Henry.

 

ELE ESTAVA NA TERAPIA, no consultório de Archie. Emma viu os dois através da janela enquanto corria até o prédio. A rápida olhadela lhe disse tudo o que precisava saber. Henry estava sentado em sua cadeira, curvado e deprimido, e essa visão partiu seu coração. Ela não conseguia ver seu filho assim triste, e vê-lo feliz lhe trazia muita alegria. Talvez fosse essa simples bússola o que pode­ria guiá-la.

Entrou no consultório sem bater, e ambos, Henry e Archie, olharam com surpresa para a pessoa que invadia a sala.

— Preciso falar com você — disse Emma. Archie ficou de pé imediatamente.

— Srta. Swan, isto é altamente irregular— disse ele, com a mão estendida para ela. Emma olhou-o diretamente nos olhos e o psiquiatra murchou. Ar­chie começou a remexer nos óculos. Sinto muito sobre o arquivo. Ela me disse que...

— Está tudo bem, Archie — disse ela. Não estou nem um pouco preocu­pada com isso agora. E virou-se para Henry. Preciso que você saiba que fi­quei na cidade por sua causa. Estou aqui por você. Não acredito que você seja louco. O que acho é que esta cidade é uma loucura e essa maldição e uma lou­cura, mas isso não significa que eu ache que você esteja louco.

Henry parecia um pouco cético no início do discurso, mas sua postura foi melhorando enquanto Emma continuava a falar.

Encorajada, Emma puxou o maço de papéis da bolsa e disse:

— Eu li estas páginas. Você estava certo, são perigosas.

E só há uma forma de mantê-la longe da minha história e conhecer tudo sobre mim   cami­nhou até a lareira e lançou os papeis lá dentro.

— Ela nunca mais poderá ler estas páginas. — Todos ficaram vendo os papéis queimarem.  

— Agora estamos em vantagem.

Henry sorriu.

—Brilhante! — gritou.

Emma olhou para Archie esperando um olhar de advertência da parte dele, mas pôde ver que ele estava satisfeito com o modo como aquele simples ato tinha deixado o menino tão feliz.

— Eu sabia que você estava aqui para me ajudar! — exclamou Henry.

— E isso aí, garoto—   disse Emma. — E por isso que estou aqui. Nem mesmo uma maldição pode deter isso.

 

                                             NEVE E PAIXÃO

EM UMA ESTRADA, DEPOIS DO CASTELO DE MIDAS, O Príncipe Encantado e Branca de Neve se encontraram pela primeira vez, cerca de um ano antes de seu casamento.

As condições do encontro, inicialmente, não foram nada amigáveis. Branca de Neve estava vivendo como uma fugitiva quando caiu da árvore sobre a carruagem do Prín­cipe e sua futura noiva, enquanto eles atravessavam a floresta. E claro que, na­quele momento, Branca não sabia quem ele era, o que o futuro lhes reservava ou a maneira curiosa como ele havia chegado àquele noivado... Para ela, aque­les dois eram apenas um casal de ricaços e sua carruagem, apenas um alvo para ser saqueado. Seu objetivo era o mesmo que com os demais que ela havia rou­bado durante sua fuga: conseguir algum dinheiro e escapar ilesa. Para viver e lutar novamente. Para evitar a rainha e seus soldados, para descobrir uma ma­neira de limpar seu nome.

Estirada em um galho horizontal no topo da árvore, ela observava lá de cima enquanto a carruagem rodava e então parava. O homem bastante arro­gante, pensou desceu, caminhou pela trilha e investigou a árvore caída que tinha interrompido a passagem. A árvore estava na estrada porque Branca a havia derrubado durante a noite, colocando-a lá. Um plano simples e ele­gante. Ela ficou espantada com o número de vezes que funcionou.

E, então, pulou da árvore em cima da carruagem. Em questão de momentos - e ela tinha ficado muito boa nisso —, Branca pegou uma bolsa lá de dentro, sem prestar atenção na sonolenta loura da realeza que estava sentada no banco, enrolando seu cabelo. A bolsa era tudo o que importava, — e quando saiu correndo notou seu peso. Haveria algo bem valioso lá dentro. Branca conseguiu alcançar um dos cavalos dos nobres antes mesmo que a loura começasse a gritar.

Trinta segundos depois, com o vento no rosto, Branca de Neve galopava para longe montada em um fogoso cavalo castanho, já pensando na Ponte dos Trolls. E ficou surpresa quando ouviu um grito bem atras dela. Virou-se e viu o homem arrogante em sua perseguição.

Branca revirou os olhos.

"Eles sempre acham que podem me pegar", pensou.

O homem, no entanto, surpreendeu com sua capacidade de andar a cavalo; quando olhou por cima do ombro de novo, ele estava a praticamente duas ca­beças de distância. Branca esporeou seu garanhão mais uma vez, mas foi tarde demais, pois sentiu as pesadas mãos do homem em seus ombros, os dois caí­ram de suas montarias e colidiram com o solo.

Ambos rolaram juntos. Branca encolheu seu corpo como uma bola para suportar o impacto, mas ouviu o grunhido do homem e sabia que ele tinha perdido o fôlego com o tombo. Quando finalmente pararam de rolar, ele es­tava em cima dela, mas sua respiração era irregular. Ele olhou para o seu rosto, e Branca então percebeu que somente naquele momento o rapaz estava desco­brindo que ela era uma mulher. E desdenhou a surpresa que viu em seus olhos.

(Embora fosse obrigada a admitir que fosse um belo par de olhos.)

Ela usou esse breve momento de estranhamento, os dois com os olhares travados um no outro, para bater no queixo dele com uma pedra.

O rapaz caiu para trás, atordoado. Ela estava galopando para longe nova­mente quando ouviu as palavras dele atrás:

Vou encontrar você! Vou acabar encontrando você!

 

MARY MARGARET BLANCHARD caminhava sozinha pela Rua Principal, con­tando as rachaduras da calçada, com as mãos nos bolsos da saia. Havia tido um encontro com o dr. Whale. Um terrível, terrível encontro.

Mary suspirou, chutou uma pedra, olhou para a torre do relógio. Quando fora mesmo a última vez que ela tinha saído com alguém que tivesse apre­ciado? Não sabia... Ele havia se mostrado superior, coisa que talvez ela devesse ter esperado. Afinal, ele era médico. Mas também se mostrara desinteressado, fazendo com que Mary Margaret sentisse uma antiga e familiar tristeza. Será que ela era tão chata assim na opinião das outras pessoas? Custava a fazer contato com os demais... Era difícil para ela... Era como se tivesse saído com os homens errados durante toda a sua vida. Ela...

Seu devaneio foi interrompido pelo que viu do outro lado da rua: Emma Swan, a mãe biológica de Henry, sentada na frente de seu Fusca amarelo, lendo o jornal atentamente.

Mary Margaret sorriu, atravessou a rua e bateu no vidro do carro.

— Você decidiu ficar na cidade por causa de Henry disse Mary Marga­ret. —Não é? — Ela admirou essa atitude. Claro, não conseguia imaginar como seriam as coisas a partir dali, mas admirava mesmo assim.

— Sim, decidi ficar respondeu Emma, espreguiçando-se e esticando as pernas. O que não posso acreditar e que não existam quartos para alugar nesta cidade. —Levantou o jornal. — E nem emprego... Como pode?

— Não sei muito bem o motivo — disse Mary Margaret.

— As pessoas por aqui gostam que as coisas fiquem como estão, acho eu.

— E o que você está fazendo na rua há esta hora? Mary Margaret cruzou os braços.

—Tive um encontro péssimo, muito obrigado...

— Ah, um desses...   — Emma assentiu. —   Conheço muito bem.

— Ninguém nunca disse que o verdadeiro amor era fácil, não é? —retrucou Mary Margaret.

Emma assentiu com a cabeça novamente, e Mary Margaret pensou ter visto alguma coisa nos olhos da outra — algo que tinha a ver com amor verda­deiro, talvez, e que a magoara—, e subitamente se sentiu péssima. Por que ela estava sempre falando mais do que devia?

— Bem disse Emma. - Tenha uma boa noite. Vou voltar para o meu es­critório.

— Você sabe que poderia ficar na minha casa — disse Mary Margaret de repente. Isso a surpreendeu, mas enquanto aquela oferta ficou parada no ar entre as duas mulheres, decidiu que parecia a coisa certa a fazer, de alguma forma. Que poderia dar certo, e que as duas se dariam bem. Deu um sorriso em seguida e acrescentou:

— Quero dizer, claro, apenas até você conseguir se estabelecer, entende? Isso é... hã... muito legal de sua parte— disse Emma. — Mas devo lhe di­zer que não sou de lato. o tipo de companheira de quarto. Sem ofensa, sabe? Mas foi muito gentil de sua parte, muito. Gostei mesmo.

— Claro— disse Mary Margaret. E deu um passo para trás. Claro. O que for melhor para você.

Elas se separaram, e Mary Margaret foi para casa, tentando se distanciar do sentimento de ser rejeitada duas vezes na mesma noite. No dia seguinte, iria como voluntária ao hospital. As pessoas de lá, pelo menos, ficariam felizes em tê-la por perto.

O que a teria compelido a fazer esse tipo de oferta a uma pessoa total­mente desconhecida? Ela não sabia. Não tinha a mínima ideia.

 

— ENCONTREI SEU PAI.

Sentada ao lado de Henry na plataforma superior de seu "castelo", com as pernas penduradas, Emma olhou para ele. —Perdão, não entendi...

—disse ela.

Era sábado, mas Regina ficaria ocupada durante todo o dia, o que significava que Emma e Henry poderiam passar algum tempo juntos. Ela já viera se encon­trar com ele ali antes, e isso realmente parecia bem melhor. Não havia razão para envolver Regina, nenhum motivo para fazer uma confusão de tudo isso. Duvido seriamente disso, rapaz, completou Emma.

Porque certa vez Emma já tentara encontrá-lo. Encontrar os dois, pai e mãe. Não tinha ido muito longe, uma vez que as circunstâncias de seu próprio abandono quando bebê eram um pouco turvas. Não havia nada. Necas. Por isso, não havia uma chance em um bilhão de que esse moleque soubesse de al­guma coisa que ela desconhecesse.

Não, é verdade — insistiu Henry. — Ele esta aqui, aqui na cidade.

O garoto se virou e pegou o tal livro. Emma olhou para o céu rapidamente, percebendo agora o que ele quis dizer. Ele só ficava indo e vindo, sempre com a mesma história...

— Veja disse Henry, virando as páginas ate chegar a uma que mostrava um homem, um homem bonito, de queixo forte, olhos fechados. Seu queixo sangrava e ele estava deitado na grama. —É o Príncipe Encantado. Depois que Branca de Neve o acertou com uma pedra e fugiu.

Mas, escute, que tipo de versão distorcida da Branca de Neve você esta lendo nessa historia, garoto? — perguntou Emma, pegando o livro e folheando as páginas para trás, deixando os olhos vaguearem ao longo do texto.

— É complicado — disse Henry —, mas o ponto é que ele está aqui, e é o amor verdadeiro da srta. Blanchard. e ela nem sequer tem ideia de que ele está aqui. Eu o vi. No hospital. Ele está em coma há muitos anos. Emma virou as páginas de volta para a imagem.

— Esse sujeito? — perguntou ela, apontando para a figura.

— O nome dele é John Doe — disse Henry.

— Então, eles não sabem quem ele é.

—E verdade, mas eu sei — disse ele. — E agora você sabe. E temos de fazer com que ele acorde, para então se lembrar da srta. Blanchard.

Emma estava se prendendo à sua estratégia de seguir o que Henry dissesse. E a pergunta seguinte veio muito naturalmente:

— Ótimo, e como vamos fazer isso?

— Já pensei nessa parte —respondeu o menino.

— Tudo o que precisamos fazer é levá-la para que ela leia essa história para ele.

— Que história?

— A historia dos dois se apaixonando... É importante. Emma não disse nada, apenas olhou para a agua.

— O que foi? — perguntou Henry.

—Você não acha que é isso?

— Não, na verdade, acho que é respondeu Emma. Acredite ou não, acho, de verdade, que sim...

Henry sorriu um sorriso radiante, irresistível. Então, você vai ajudar.

— Claro que sim — disse ela. Mas vamos lazer isso do meu jeito. Não do seu jeito. Do meu. Entendeu?

 

— DEIXE-ME VER SE ENTENDI — disse Mary Margaret, olhando para Emma com ceticismo. — Você quer que eu leia aqueles mesmos contos infantis que dei a Henry para esse John Doe? Que está mergulhado em coma profundo há anos no hospital?

— Isso mesmo!

— E quer que eu faça isso porque Henry acha que a história vai acordá-lo, porque ele é o Príncipe Encantado e eu sou a Branca de Neve, e nós somos al­mas gêmeas, e o verdadeiro amor pode destruir a maldição?

— Sim —respondeu Emma, assentindo com a cabeça e mordiscando seu aipo uma vez mais. — Exatamente isso.

— Isso é loucura. Emma ergueu a cabeça.

— Um pouco — disse ela. — Mas não tanto assim.

Elas estavam no apartamento de Mary Margaret, ambas sentadas no sofá.

Mary Margaret ficou contente quando Emma bateu à porta e, inicialmente, chegou a pensar que era sobre aquela oferta de dividirem o apartamento, mas Emma, que ao que parecia sempre fora muito direta, já começou a explicar sem rodeios o plano que envolvia aquele desconhecido no hospital. Era tudo ridículo. Mas Mary Margaret estudou a estranha mulher, pensando nas impli­cações do plano, no que isso significaria. Ela estava certa. Talvez não fosse tanta loucura assim.

— E o que você não disse completou Mary Margaret — e que ele não vai acordar, Henry verá isso, e será uma forma gentil de mostrar que ele pode es­tar errado sobre essa maldição e tudo o mais...

Emma deu um sorriso rápido, mordendo novamente seu aipo.

—Mais ou menos por aí — disse ela.

E, assim, Mary Margaret concordou. Por quê? Havia milhares de razões. Ela gostava de Emma Swan, gostou do plano para ajudar Henry, e da elegância simples daquela solução. Gostou, também, da oportunidade de ler para um paciente, um paciente muito bonito, na frente do Dr. Whale. Sim, essa parte era bobagem, mas, se ela estava sendo honesta, teria de admitir que notara John Doe várias vezes, todas as vezes que passou por ele e sentiu um vislum­bre de tranquila familiaridade roçando em algum lugar de sua mente. Em seu caminho para o hospital, com o livro debaixo do braço, ela se perguntou se gostava de John Doe porque ele sempre estivera lá, sempre tão consistente, um homem sempre tão confiável. Não, ele não conversara com Mary Margaret, ele não tinha ideia de quem ela era, mas sempre permaneceu o mesmo. Ele era como ela. Estava sozinho, e preso ali em Storybrooke.

Era incrível para ela como a vida parecia mudar pouco naquela cidade. Estava ali há tanto tempo, mas, a cada ano, as crianças pareciam ser as mesmas, seus confusos sentimentos sobre Storybrooke pareciam ser os mesmos, e sua solidão —alguma parte obscura de si mesma que simples­mente não acreditava que ela fora feita para ser uma pessoa caseira, que não conhece ninguém, que passa as noites ali sozinha, bebendo chá— , bem, essa situação nunca mudava. E como era Storybrooke, estagnada ou segura? Era ambas as coisas, estagnada e segura. Pequenas coisas como essa visita ao hospital funcionavam tanto como trabalho em si como para ocu­par o seu tempo.

Sentou-se na beirada da cama do desconhecido, deixou-se ficar confortável e abriu o livro.

Olhou para as palavras, olhou de volta para John Doe.

— Sei que é estranho disse ela. — Estou fazendo isto por uma amiga. Tente ser paciente comigo.

Ela olhou através das amplas janelas de vidro e viu o Dr. Whale do lado mais distante do andar, fazendo sua ronda, a cabeça presa em uma planilha. Olhou de novo para John Doe e ergueu as sobrance­lhas. — Desculpe se ficar chato.

Ela leu a história que Emma tinha indicado, e a história lentamente to­mou forma sozinha. Era sobre Branca de Neve como fugitiva, nada mais que uma ladra que se escondia nos bosques; leu sobre o primeiro encontro com o Príncipe, e sobre o segundo encontro, e a combustão lenta dos sen­timentos que começaram a brotar entre os dois, que tinham muito mais em comum do que poderiam imaginar. Mary Margaret não tinha lido o li­vro todo antes de dá-lo a Henry, e em um ponto ela fez uma pausa, olhou para John Doe e disse:

— Talvez este livro não seja apenas para crianças. O que você acha? Para ela, parecia adequado a todas as idades.

Ela viu a palavra de novo: "bandido". Alguém fugindo, alguém que que­brou as regras, alguém que viveu corajosamente, viveu de uma forma que não se encaixava nas normas sociais. Não, ela não era definitivamente uma ban­dida, não. Era uma pessoa boa, cuidadosa, gentil, cautelosa, cumpridora da lei. Ela não gostava de criar problemas. Não era como Emma Swan. Ela queria ser, mas não sabia como fazer isso.

"Posso não ser uma bandida", pensou. "Mas tenho um coração bandido."

Mary Margaret ainda estava presa na emoção da história quando chegou ao final. e seus olhos se moveram para as últimas linhas, sua curiosidade agu­çada pelo conto. O Príncipe Encantado e a Branca de Neve estavam ficando juntos, mesmo que tivessem brigado o tempo todo. Leu: "... Um olhou nos olhos do outro; e não precisaram de palavras para expressar o que sentiam no coração. Pois era aqui. à sombra da Ponte dos Trolls, que o amor deles tinha nascido. E eles sabiam, não importa o quanto estivessem separados, que sem­pre encont...".

Mary Margaret parou, com a voz presa na garganta.

Impossível.

Mas ela sentiu.

Lentamente, já sabendo o que veria, deixou que seus olhos se movessem do livro para a mão esquerda, que o segurava. Seu coração, já batendo rápido, co­meçou a disparar.

A mão de John Doe estava em sua mão.

Não apenas pousada em sua mão. Mas apertando-a.

Ela se levantou, cobriu sua boca, afastando a mão dele da sua.

Depois de um último olhar para os olhos dele, ainda fechados, ela foi pro­curar o Dr. Whale.

 

BRANCA DE NEVE DEU UMA ÚLTIMA OLHADA em seus pertences, sabendo que provavelmente tinha se esquecido de alguma coisa importante, mas também atormentada demais para se preocupar com isso naquele mo­mento. Sua casa no tronco da árvore não ficava longe do lugar onde rou­bara o tolo arrogante (e bonito) e o derrubara com uma pedra, e pensou então que seria mais prudente desocupar a área. Mas havia algo sobre aquele homem...

Ela olhou para o seu pertence mais precioso: o pequeno frasco de cristal com uma quantidade minúscula de um potente pó de fadas. Havia apren­dido a lutar com as mais diversas armas ao longo dos últimos meses, mas esta era de ordem superior. Magia. Com aquele pó ela seria capaz de derru­bar ate o mais perigoso dos inimigos. O plano dela, é claro, era utilizar o pó contra a Rainha Má. Ela não sabia como poderia vir a ter essa oportuni­dade, ou quando ela viria, mas, quando isso acontecesse, Branca de Neve estaria pronta.

Prendeu o frasco ao redor do pescoço, amarrou o ouro em sua cintura e afastou-se da árvore. Deu um passo e então sentiu o chão debaixo de seus pés começar a se mover.

E se mover para cima, na verdade. Uma rede, coberta de folhas. Antes que ela pudesse reagir, viu-se pendurada a seis metros de altura, amarrada, presa.

— Oi, olá, você ai em cima ouviu-se uma voz, uma voz que ela reconhe­ceu, e uma expressão sombria surgiu em sua testa.

Era ele, o homem arrogante. Lá estava ele, com as mãos sobre os quadris, parecendo muito orgulhoso de si mesmo.

— Eu avisei que encontraria você.

— Ora, por favor... - disse Branca de Neve, pegando a adaga. Puxou-a e já estava prestes a começar a cortar a rede.

— Ah-ah-ah-ah! - disse o Príncipe, vendo isso. Será uma bela queda, e tome cuidado, é bem possível que quebre o pescoço. Posso baixar você até aqui, com muito cuidado...

Eles olharam um para o outro. ... Por um preço — acrescentou.

— E essa e a única maneira que você consegue pegar uma mulher Capturando-a em uma rede?

— E o meu método preferido de capturar ladrões, na verdade - respondeu ele. - Tenho vários outros métodos para a captura de mulheres.

— Bem, você não e um verdadeiro Príncipe Encantado? — disse Branca de Neve. Ele sorriu diante disso.

— Tenho um nome de verdade...

— Não me interessa retrucou ela. — Você e o Príncipe e pronto. Tire-me daqui, Príncipe.

Ele parou de sorrir.

— Sem dúvida, assim que devolver o que é de minha propriedade.

— Já se foi há muito tempo... Então, vamos ter de recuperá-la. Imagino que não tenha ido muito longe. Aquela bolsa continha um anel de casamento muito querido para mim. Ele me foi dado pela minha mãe, na verdade.

— Ah, claro disse Branca de Neve, revirando os olhos.

—Aquela chata na carruagem! Ah, ali! Claro que você se casaria com alguém assim. Deixe-me adivinhar. Ela é uma princesa. O casamente é e muito importante.

— Você é incrivelmente rude para alguém na sua situação, presa em uma rede — disse o Príncipe.

— Está ciente disso?

— Por que eu iria ajudá-lo? — perguntou Branca de Neve.

— Por que diabos iria ajudá-lo a encontrar o seu lindo anel? E o que você vai fazer? Vai me tor­turar se não achar o seu anelzinho?

— Não respondeu o Príncipe, e agora Branca de Neve podia ouvir em sua voz que ele tinha parado de jogar o seu jogo. Eu não faria isso, mas al­guém mais sim, provavelmente.

Ela o estudou através dos buracos da rede. Ele olhou de volta, sem pestanejar.

— O que quer dizer?

— Quero dizer que sei que você é Branca de Neve - disse —, e se você não me levar a essas joias, vou entregá-la aos homens da Rainha. - Dizendo isso, puxou de dentro do colete um cartaz dobrado de "Procura-se" e, depois de desdobra-lo, ergueu-o para que ela o visse. A semelhança era incrível. Ela du­vidava que tivesse algum sentido protestar.

A escolha é sua. Ajude-me ou eu a entrego. E tenho a sensação de que a Rainha não seria tão encantadora quanto eu.

 

ELA CONCORDOU EM LEVAR O PRÍNCIPE ao lugar em que tinha vendido as joias, e ele imediatamente a baixou da armadilha, dizendo-lhe que confiava que ela não fugiria de novo, porque ele iria encontrá-la mais uma vez, não faria dife­rença. Por mais que ela pudesse ter gostado de acertá-lo no queixo com uma pedra (de novo), era mais razoável ir recuperar o anel.

Durante três horas eles caminharam c conversaram pouco, e durante todo o tempo Branca de Neve bufava enquanto abria caminho pelo bosque. Logo atrás dela, o Príncipe caminhava casualmente, e havia algo na arrogância dele que ela detestava. Perto do meio-dia ele disse que deviam descansar e ela in­clinou-se contra uma árvore, olhando para o oeste.

—E o que é isso? — perguntou ele.

Branca percebeu que estava brincando com o talismã que usava em torno do pescoço.

— Não é da sua conta — disse ela, puxando a mão para longe do frasco de vidro.

— Agora é disse ele, e com um movimento rápido arrebatou o delicado objeto e puxou-o do pescoço dela.

— Cuidado! — gritou ela. — E uma arma. E pó de fada. Transforma qual­quer inimigo em algo facilmente esmagável!

O Príncipe, divertido, levantou uma sobrancelha e estudou o pequeno frasco de vidro.

—É mesmo? — perguntou ele. — E então por que não usou isso contra mim?

— Estou guardando para alguém que importa de verdade disse Branca de Neve.

—Como a Rainha?

—Não interessa.

— É, talvez não disse o Príncipe. Mas diga-me, o que exatamente você fez contra ela para merecer tamanha ira? E impressionante.

Ela odeia a si mesma, e por isso odeia todos os outros também, em espe­cial a mim, aparentemente. Não fiz nada contra ela.

O Príncipe estudou-a, e ela olhou para trás, ciente do fogo em seus pró­prios olhos e sem fazer nada para esconder isso.

Ele deu de ombros.

— Muito bem, então — disse ele. — Ensine-me a bisbilhotar. E lhe devolveu o frasco.

— O quê? — Exclamou Branca de Neve. Você está... me devolvendo?

—Ele não estava jogando pelas regras de senhor e prisioneiro.

— Sim respondeu ele, encolhendo os ombros novamente. Claro. Pa­rece-me que você vai precisar disso.

 

HENRY E EMMA SENTARAM-SE JUNTOS na lanchonete, à espera que Mary Mar­garet chegasse para contar como fora a leitura da história para John Doe na noite anterior.

— Não quero que você tenha muitas esperanças — disse Emma, beberi­cando seu chocolate quente.

— Nós...

Os dois ergueram os olhos quando Mary Margaret, parecendo mais ani­mada do que Emma jamais a vira antes, entrou na lanchonete e seguiu em li­nha reta para a mesa deles.

— Ele acordou disse ela com simplicidade, deslizando para dentro do compartimento.

Emma não queria nem adivinhar que tipo de sorriso se estampava no rosto de Henry. Não era esse o plano.

— Eu... O que você disse? — perguntou ela.

Ele agarrou minha mão. Bem no final da história.

Ele está se lembrando— disse Henry. Assentiu com a cabeça para si mesmo, como se isso fizesse todo o sentido do mundo, e se levantou.

— Vamos para o hospital— disse ele.  

—Vamos lá! — e correu para a porta. Emma inclinou a cabeça e olhou para Mary Margaret. O que você está fazendo? — disse ela.

— Ele realmente segurou a minha mão! — insistiu Mary Margaret, parecendo-se mais com Henry falando do que Emma se preocupou em considerar.

— Fizemos... Não sei, houve algum tipo de ligação.

— Não é do tipo que tem a ver com as Brancas de Neve e os Príncipes En­cantados, por acaso?

Não, não — disse Mary Margaret. — Foi... apenas uma ligação.

— Bem, então acho melhor irmos ver por nós mesmos — completou Emma.

 

O XERIFE GRAHAM encontrou-se com todos eles na porta do hospital, com as mãos espalmadas para frente, o que fez Emma pensar que algo mais tinha acontecido.

— O que aconteceu? — perguntou ela.

Nada com que você tenha de se preocupar— respondeu Graham, olhando por cima de seu ombro.

— Suponho que estejam aqui por causa do que aconteceu ontem à noite, não? Entre John Doe e a Srta. Blanchard? Graham cumprimentou Mary Margaret com a cabeça, e Emma lembrou-se de que todas essas pessoas ti­nham relações. Só que não tinha ideia de qual seria a deles dois.

— Mas o que há de errado? — perguntou Mary Margaret.

—Ele está bem?

—Não é que não esteja bem — disse Graham, virando-se e guiando-os pelo hospital. —E que ele se foi.

— Como assim, se foi? — disse Emma.   — Como isso é possível?

Eles se aproximaram do dr. Whale, que balançava a cabeça, estudando um gráfico.

— Não temos muita certeza — disse Graham.

— Não é possível — disse o dr. Whale. — Cientificamente, pelo menos acrescentou.

— E ainda assim ele não está aqui disse Emma.

— Será que alguém o le­vou embora?

— Não sei.

O Dr. Whale ficou em silêncio, olhando acima dos ombros dos interlocuto­res. Emma ouviu o clique de saltos altos batendo no piso. Ficou tensa e virou-se a tempo de ver Regina caminhando em direção a eles.

— O que elas estão fazendo aqui? — exigiu saber a prefeita. Que tipo de operação você está executando aqui, xerife? Isso é ou não a cena de um crime?

—O que você fez? — Henry perguntou a Regina. O rosto dela se suavizou um pouco quando olhou para ele, ela inclinou-se e tocou-lhe o ombro.

— Nada, Henry. Vim aqui para descobrir o que aconteceu com ele.

Por que a prefeita se envolveria com uma pessoa desaparecida?— per­guntou Emma.

Regina se endireitou.

— Porque sou o contato de emergência dele.

—Você o conhece? — perguntou Mary Margaret. — Como?

— Não o conheço, eu o encontrei disse Regina. — Anos atrás. Ao lado da estrada.

Mas esperem... — disse Mary Margaret. Se ele está lá fora, em algum lugar, onde quer que esteja ele pode... Não se pode simplesmente acordar de um coma e ficar bem.

— Ela olhou para o Dr. Whale. —Pode?

— Ele ficou com tubos de alimentação durante anos, as pernas estão atrofiadas, e, se estiver consciente, deve estar desorientado e em pânico. Assim, respondendo à sua pergunta, não. Ele não está bem. Precisa voltar imediata­mente Não quero especular sobre o que poderia acontecer a esse homem.

—Então, encontre o — ordenou Regina, pegando a mão de Henry.

— Este lugar não é para você disse ela. Vamos lá. Não quero que você ande com aquela mulher

Protestando com os olhos, Henry olhou para Emma conscientemente an­tes de ser arrastado para fora. Ela sabia o que estava se passando em sua mente. Encontre-o, ele estava dizendo para Emma.

 

UMA HORA A MAIS em sua caminhada, Branca diminuiu o ritmo e, em seguida, parou o Príncipe colocando a mão em seu braço.

— Tudo bem — disse ela, olhando em direção à ponte. Estamos aqui. Te­mos de ter cuidado.

— Cuidado com os trolls? — perguntou o Príncipe. — Você está brincando? Você já se encontrou com um trolls?

O Príncipe olhou para ela.

— Então, temos de ter cuidado —ela repetiu, e em seguida levou-o até a ponte de pedra.

Ela odiava trolls, mas eles não eram os piores parceiros de negócios. Sempre tinham ouro e sempre pareciam dispostos a comprar dela os bens roubados. Seu coração começou a bater um pouco mais rápido que antes, e Branca de Neve se aprumou, respirou fundo e, juntos, ela e o Príncipe saíram para ficar sobre a ponte.

Ao vê-la olhando para si, ele sorriu de volta.

E Branca se viu um pouco desarmada com isso, na verdade. O quê? — perguntou ela.

— E agora? — disse ele, indo até a borda, olhando para baixo. Temos de fazer ruído de trolls?

— Não — disse Branca, pegando a bolsa.   Temos de bater à porta deles.

Ela pisou na pedra coberta de musgo e depositou meia dúzia de moedas de ouro na borda da ponte.

— Dê um passo atrás — ordenou ela, e o Príncipe obedeceu.

Primeiro, ouviram o som de coisas raspando. Branca já tinha visto os trolls escalando a grande estrutura de suporte da ponte, e não tinha vontade de ver isso novamente. Eles eram como aranhas, só que ainda mais feios. Os trolls vi­viam lá embaixo, onde ela imaginava que devia ser uma imundície. Ela estre­meceu só de visualizar como deveria ser... "Deus me livre de um dia encontrá-los naquele lugar", pensou.

O Príncipe, com um olhar impertinente no rosto enquanto ouviam o som, disse:

— Então, eles são...

O líder dos trolls foi o primeiro a aparecer, pulando ao lado da ponte. Ma­gro, trôpego, revestido de musgo e terra, ele se arrastou sobre a borda e se en­direitou sobre seus oito pés. Branca tocou a mão do Príncipe, que ele havia movido para o punho da espada, e negou com a cabeça. Ele olhou para ela e deixou a mão cair ao lado do corpo.

— Não é muito carismático, não? — murmurou.

— Quem, em nome de Deus, é esse? — trovejou o líder dos trolls, apontando para o Príncipe. Depois, esticou lentamente o pescoço e olhou para ela. — E você, por que voltou? Nosso negócio já foi feito.

—Estou aqui para fazer um novo negócio — disse ela calmamente.

Quero comprar de volta um item: o anel.

O líder dos trolls franziu a testa, resmungou, olhou para um de seus compa­triotas, que surgiu com um pequeno saco de estopa, cavou lá dentro e tirou um anel. Ele ergueu o objeto, e depois o deixou cair de volta no saco.

— Não vou fazer negócio com ele aqui — disse o troll. —Perguntei uma vez e vou perguntar de novo. QUEM E ELE?

Estas últimas palavras explodiram para fora dele, como se viessem de al­gum poço de raiva e tormento. Branca não permitiu que seu rosto mostrasse nenhuma emoção, mas estava com medo. Muito assustada.

— Ele não é ninguém — respondeu. — Vamos fazer o negócio. E se eu lhe der todo o seu dinheiro de volta e você só me der o anel? Pode ficar com todo o resto.

Ele inclinou a cabeça, pensando no que a garota dissera. Finalmente, de­pois de um longo e cético olhar para o Príncipe, virou-se para um de seus companheiros e assentiu. O outro troll puxou novamente o saco cheio de joias.

— Obrigado — disse o Príncipe. E Branca pensou: "Não, não faça isso, não agradeça a ele". Mas o rapaz não captou seu olhar de advertência, e continuou com suas maneiras ridículas: —Apreciamos muito a sua ajuda.

O líder dos trolls ergueu a mão, olhando para o Príncipe, dizendo para o outro troll esperar.

— Olhe para essas mãos zombou o chefão, apontando para as unhas lim­pas do rapaz. E sorriu diabolicamente. — Olhe que traseiro bem alimentado... Esse sujeito é um nobre!

O chefe dos trolls rosnou estas últimas palavras e Branca soube imediata­mente que o negócio não prosperaria, pelo menos não de modo civilizado. To­dos os cinco trolls puxaram suas adagas.

— E daí? — perguntou o Príncipe, em tom de desafio na voz.

Branca baixou a cabeça. Nunca admita isso — sussurrou ela.

— Peguem o bonitão! — ordenou o chefe, e os outros se moveram em torno do Príncipe, que empurrou Branca para longe e ergueu a espada.

Contudo, nem teve a chance de usá-la. Foi cercado e derrubado pelos velo­zes trolls com movimentos felinos, que se mostraram incrivelmente suaves e duas vezes mais rápidos que o seu aspecto desajeitado sugeria.

Branca observou impotente enquanto eles rasgavam o saco que o Príncipe carregava e que continha todas as posses da jovem. Tudo o que o Príncipe ha­via tirado dela caiu ao chão, e logo um dos trolls tinha encontrado o cartaz do­brado de "Procura-se" nas vestes do Príncipe. O chefe da gangue desdobrou-o, deu uma olhada por muito tempo e balançou a cabeça, olhando para ela.

Branca de Neve — disse ele. — Temos feito negócios com a Branca de Neve durante todo esse tempo! — ele riu. Que bela recompensa! —disse, e depois ordenou aos seus capangas. — Peguem a garota também!

Dois dos trolls vieram em direção a ela, e, enquanto se moviam Branca vis­lumbrou que o Príncipe estava se livrando dos outros. Ela se abaixou no úl­timo instante e os dois trolls a perderam. Enquanto se arrastava até a frente para recolher os seus pertences, bem como as joias, viu o Príncipe jogando um dos trolls nos outros dois, o que era impressionante, pensou, e imediatamente percebeu que ambos tinham agora o caminho livre para fugir.

—Venha! — gritou Branca, e se virou para correr.

Ouviu, então, os passos dele bem atrás dela e em seguida ele sendo derrubado.

Branca olhou para trás e viu: outro troll havia subido pela ponte e agarrado o tornozelo do Príncipe bem na hora em que ele estava passando, e agora to­dos os outros estavam empilhados em cima dele. Se ela partisse, estaria livre e teria tudo. Mas ele estaria morto.

Branca não pensou por muito tempo.

Deixou cair a bolsa no chão e abriu o frasco do pó, tudo em um mesmo movimento, então girou nos calcanhares e voltou para onde estava ocorrendo a briga. O chefe dos trolls viu a chegando e lhe lançou um sorriso nojento:

— O sangue real é o mais doce.

Em resposta a essa frase, Branca jogou um punhado de pó em sua cara. O monstro virou uma lesma e caiu por uma rachadura da ponte.

Os outros trolls vieram para cima dela e, um por um, ela atirou um pouco de pó neles, transformando-os em caracóis. Quando terminou, o Príncipe es­tava sozinho deitado na ponte, olhando para ela, abismado, enquanto alguns caramujos impotentes se arrastavam pelas travessas de madeira. O frasco do pó das fadas estava vazio.

Você me salvou...   disse ele, ficando de pé. — Obrigado!

—Foi à única coisa honrada a fazer naquela hora - disse Branca.

O príncipe olhou para o frasco vazio. Mas agora você não tem mais sua arma.

— Mas vou pensar em outra maneira... — respondeu ela. — ... de matar quem preciso matar. Eu não podia ir embora e deixar o Príncipe Encantado morrer.

—Tenho um nome, você sabe — disse ele. — É James.

Bem, James... Prazer em conhecê-lo. Branca estava quase envergonhada pela maneira como ele estava olhando para ela agora, e sentiu-se corar. Virou-se de costas, para que ele não visse.

— Vamos— disse ela.— Vamos sair daqui antes que mais desses trolls apare­çam.

—Ele acenou com a cabeça. Os dois caminharam juntos, lado a lado. Branca ouviu um som gratificante quando o Príncipe pisou, firme e deliberadamente, em um dos caracóis.

 

EMMA, GRAHAM E MARY MARGARET vasculharam o bosque por horas, na espe­rança de encontrar o homem perdido, cada um deles lançando o feixe de luz da lanterna para frente e para trás nos troncos das árvores e nos arbustos grossos, espinhosos. Graham era um bom rastreador, e conseguiu seguir a tri­lha de John Doe por uma distância bem razoável, antes de perder os rastros. Mary Margaret observou Emma, parecia estranhamente emocionada com tudo isso Emma se perguntou o que poderia estar acontecendo em sua cabeça. Provavelmente devia estar pensando que de algum modo era responsável por aquilo. Que Deus a ajudasse se ela estivesse achando que aquele era seu Prín­cipe Encantado, pensou Emma.

Eles se separaram no ponto em que a trilha terminou, mas os três se reuni­ram de novo depois de trinta minutos de busca de pouco sucesso. Emma es­tava a ponto de sugerir que deviam esperar até de manhã para retomar a busca quando ouviram um barulho na direção do hospital.

—Quem está aí? — perguntou Graham seca e decisivamente na direção do ruído.

Sem responder, Henry apareceu na clareira, com o sorriso que era sua marca registrada estampado no rosto.

Meu Deus, garoto disse Emma, indo em direção a ele. — Sua mãe vai me matar se souber que você está aqui fora.

— Você já o encontrou? — perguntou Henry, olhando de Emma para o xe­rife Graham.

— Desculpe Henry — disse Graham.

— Ainda não. E Emma tem razão, precisamos levar você para casa.

Posso ajudar, pessoal — disse Henry — Sei para onde ele está indo.

—Para onde? — perguntou Mary Margaret.

— E como pode saber disso?

—Sei por que já conheço a história, entendeu? — respondeu Henry.

—Ve­nham!

Escapou antes que Emma pudesse segurá-lo pela parte de trás da camisa, e, depois de um momento estranho cm que um ficou olhando silenciosa­mente para o outro, os outros três correram atrás dele, chamando-o pelo nome.

"Mas que moleque rápido", pensou Emma, esquivando-se à esquerda e à direita para evitar troncos pouco visíveis na escuridão. Ela corria depressa para manter a luz da lanterna firmemente para frente, mas só pegava vis­lumbres ocasionais da grande mochila de Henry saltando.

— Ei, garoto! — gritou ela. — Vamos lá! Aonde você vai?

Mas Henry não diminuiu o passo.

Ele os levou pela floresta até que ela e Graham surgiram ofegantes, na cla­reira às margens de um rio que Emma ainda não tinha visto. Henry parou e se virou, esperando que eles se reunissem, porque Mary Margaret tinha ficado para trás. e então finalmente ela emergiu do bosque também.

— É a ponte — disse Henry, apontando para a escuridão.

Emma olhou para onde ele apontava. O caminho que levava para fora de Storybrooke atravessava o rio ali, seguindo por aquela ponte branca e enfer­rujada.

Quando ela olhou para Henry, pronta para lhe perguntar o que estava fa­lando, o menino já examinava o local ao redor, perto da linha das árvores. — Ele tem de estar aqui, em algum lugar.

— Ah, meu Deus disse Mary Margaret, com a mão sobre a boca. Apon­tou para o rio. — Vejam! — disse. — Ele está lá. Eu o vi!

John Doe estava lá, de fato. Caído de bruços no rio, sem se mexer, e o camisolão do hospital ondulava em uma nuvem à sua volta.

Graham foi o primeiro a chegar até o homem, vadeando o rio. Conseguiu erguer John Doe rapidamente e arrastou-o para a margem, e em seguida pu­xou o walkie-talkie do cinto e chamou uma ambulância. Enquanto ele falava, Mary Margaret ajoelhou-se, colocou a mão no peito de John e, lentamente, in­clinou-se sobre o seu rosto.

—Volte para nós — sussurrou em seu ouvido.

Emma, sentindo-se desconfortável, porque estava certa de que aquele ho­mem tinha morrido, observava sombriamente de cima enquanto Mary Mar­garet fazia respiração boca a boca no suposto cadáver. Emma não sabia exatamente como agir em relação a tudo aquilo. Não tinha coragem de dizer a Mary Margaret o que era óbvio. Segurando o pulso de John Doe, à espera de batimento, Graham provavelmente estava pensando a mesma coisa. Estaria ela louca ou Mary Margaret estava mesmo beijando John Doe?

Pouco tempo depois, Henry estava de pé ao lado de Emma, observando a cena também. Ela sentiu uma intensa necessidade de cobrir os olhos do menino.

— Ele vai ficar bem — disse Henry com conhecimento de causa.

— Não se preocupe. Ela precisa beijá-lo para que acorde. Faz total sentido. Não é besteira.

— Vamos torcer para que ele acorde garoto — disse ela, colocando a mão em seu ombro.   — E não me importo se isso faz sentido ou não.

Emma podia ouvir as sirenes à distância agora; Graham, assistindo a tudo com profunda expressão de tristeza, parecia estar à beira de parar Mary Mar­garet, impedindo a de continuar com aquilo. Ele olhou para Emma e ela deu de ombros.

E então John Doe engasgou.

Emma podia sentir a excitação de Henry com aquele som, e deu alguns passos em direção a eles, seguida por Henry Ela conseguiu acordá-lo

—disse Henry

Emma não sabia direito o que tinha acontecido. Virou a luz de sua lan­terna no rosto de John Doe e ficou chocada ao ver que seus olhos estavam abertos. Ele estava olhando para Mary Margaret.

— Obrigado — conseguiu dizer o homem.

Ele enxugou o rosto, molhado da água do rio, e olhou em volta, confuso.

— Meu nome é Mary Margaret. Você sabe quem você é?

Ele olhou para ela, aparentemente procurando a resposta.

— Não — finalmente respondeu.

— Eu... eu não sei...

 

MINUTOS DEPOIS A AMBULÂNCIA CHEGOU, e o dr. Whale e os paramédicos le­varam John Doe. Emma observou Mary Margaret, que olhava para eles com preocupação. Em um minuto, a ambulância se afastou.

Ela entendeu mal, pensou Emma, olhando para Mary Margaret, que agora tinha começado a brincar com o seu colar.

Devemos ir para o hospital e ver como ele está — disse a professora para ninguém em especial.

Emma se aproximou.

— Sim concordou, assentindo com a cabeça. Devemos ir até lá. Venha, vamos.

Eles marcharam em silêncio até o degrau e escalaram a ponte, para atra­vessá-la. Emma sorriu um pouco quando viu a placa presa à ponte. Estava es­crito, em simples letras pretas, PONTE TOLL, anunciando que um dia ela deveria ter tido um pedágio ou coisa assim. Mas alguém tinha achado diver­tido rabiscar um "R" entre o "T" e o "O"...

 

O PRÍNCIPE E BRANCA DE NEVE tinham corrido quilômetros pela floresta antes de parar para respirar, sempre mantendo um ritmo acelerado en­quanto mantinham boa distância dos trolls. Branca era uma corredora melhor que o Príncipe, ela logo percebeu, e diminuiu o ritmo (apenas ligeiramente).

Depois de uma hora, a corrida tornou-se caminhada. Eles estavam segu­ros. Não havia mais nenhuma razão para ficarem juntos, reconheceu Branca. E ainda assim continuaram caminhando lado a lado, sem dizer nada. Andaram mais um pouco. Um pouco mais.

Finalmente, depois de se passar mais uma hora, ambos chegaram a estrada, e lá existia uma bifurcação. Era o momento de partir. O Príncipe olhou para suas botas e disse; Bem. Isso tudo foi muito interessante...

— Foi, concordo — disse Branca. — Você esmagou um deles quando fugimos... e olhou para ele maliciosamente.

— Certamente não foi de propósito, foi?

—Ah, não...   — disse o Príncipe, fixando o olhar nos olhos dela. — Foi de propósito, sim. Achei aquele som de esmagar muito gratificante... Ela riu. E ambos riram um pouco, um dc frente para o outro.

— Acho que devemos fazer a nossa troca disse o Príncipe. Estamos indo em direções diferentes.

— Você está certo — disse ela.

Seus olhos pousaram nos olhos dele por mais um momento, e então ela en­fiou a mão no colete c retirou de lá o pequeno saco de joias. Ele, por sua vez, pegou a bolsa com as moedas de ouro. Segurou no alto, deixou-a cair na outra mão e virou a palma para cima. Branca esvaziou ali o saco de joias. Ambos olharam para baixo enquanto ele vasculhava e achava o anel.

— Eu sei, eu sei — disse ele, olhando-a nos olhos. — Não é o seu tipo de joias.

— Quem sabe? — disse ela, arrancando o anel da mão do Príncipe.

— Só há uma maneira de descobrir, certo? Ela sorriu e deslizou-o em seu dedo. O encaixe foi perfeito, e ela ergueu a mão, espalmando os dedos.

— Você está certo — disse ela.

— Não é para mim.

Ele assentiu com a cabeça, colocou o restante das joias de volta no saco, e tomou a mão dela na sua. Quando ele tirou o anel de seu dedo, disse:

Se precisar de mais, pode ficar com todo o restante das joias.

Esso não é necessário disse Branca. Nós dois conseguimos o que precisávamos hoje. Acho...

—Sim. talvez sim — disse o Príncipe.

O momento embaraçoso se passou, e Branca resistiu ao impulso de dizer algo bobo, para aliviar a tensão daquela situação. Mas não quis.

— Boa sorte para você — disse ele. Então: — Se precisar de alguma coisa...

— ... você irá me encontrar? — sugeriu ela, e um sorriso leve apareceu em seu rosto.

Sim — disse ele. — Sempre...

Você sabe que isso pode parecer loucura — ela disse —, mas acredito em você.

Ele assentiu com a cabeça e deu um passo para trás.

— Talvez devamos esperar e descobrir — disse ele. Balançou a cabeça de novo e olhou para a trilha que deveria seguir. E girou de volta para ela.

—Adeus, Branca de Neve — disse.

—Foi um grande prazer fazer negócio com você.

— Adeus, Príncipe Encantado — respondeu ela, e girou, nos calcanhares, descendo a trilha a seu lado.

Ela não se virou para olhar, porque não queria que ele visse que suas faces estavam muito coradas.

 

ELES TINHAM DE ANDAR todo o caminho de volta ao pequeno hospital de Storybrooke, e no momento em que chegaram, Emma observou novos veículos estacionados na frente do prédio. Olhou com desdém para o Mercedes de Re­gina, em seguida para a ambulância estacionada em cima das listras de emer­gência perto da porta de entrada.

Dentro do prédio, um grande número de enfermeiros, bem como o dr. Whale, estava reunido em torno da cama de John Doe, examinando-o. Emma notou outra mulher ao seu lado, alguém que não se parecia com um profissio­nal médico. Era loira, alta, de aparência majestosa. Seu rosto estampava preo­cupação. Falou com John Doe lentamente, como se estivesse explicando alguma coisa, e ele olhou para ela.

Assim que chegaram perto da cama de John, Regina os viu e veio inter­ceptá-los.

— Não tenho certeza do que você pensa que está fazendo nesta cidade— disse Regina, dirigindo-se a Emma, mas estou começando a ficar cansada das interrupções que você começou a causar.

— Olhou para Mary Margaret e disse: — Parece que há um monte de novos... conflitos em Storybrooke desde que você chegou, Srta. Swan. Não acho que isso seja coincidência. Talvez não — disse Emma.

— Talvez você esteja certa. Regina olhou para trás, tentando compreender o que as palavras de Emma poderiam querer dizer. A própria Emma não sabia, mas gostou da reação que tinham causado.

— Quem é... essa mulher? — disse Mary Margaret fracamente, ignorando o conflito surdo a seu lado, ignorando a raiva de Regina. Ela, por sua vez, estava olhando para a mulher loira ao lado de John Doe, que agora acariciava seu ca­belo.

— Seu nome é Kathryn disse Regina. — A esposa de John Doe. E o nome de John Doe é David. David Nolan.

— São vocês? — perguntou Kathryn, olhando por cima, com um sorriso ali­viado ainda pregado no rosto. — Vocês são as pessoas que o encontraram? Muito obrigada. Muito obrigada, mesmo— disse ela, saindo do lado de David e cruzando o quarto. Segurou as mãos de Mary Margaret nas suas e disse: — Não sei como lhe agradecer.

— Não entendo disse Mary Margaret. — como você não soube que ele es­tava aqui? Antes?

Uma cortina de melancolia tomou conta do rosto de Kathryn, e ela lenta­mente liberou as mãos de Mary Margaret, olhando para o grupo:

— Nós... nós nos separamos. Há alguns anos. Foi sob... terríveis circuns­tâncias, uma briga feia. Ele saiu e me disse que estava deixando a cidade, que ia se mudar para Boston, que o casamento estava acabado. E acho que, durante todo esse tempo, apenas supus que ele estivesse lá, que tivesse... seguido em frente...

— Ela olhou de volta para ele, que estava preocupado com o Dr. Whale. — E durante todo esse tempo, ele estava bem aqui - concluiu.

— E você não tentou entrar em contato com ele nenhuma vez?

— perguntou Emma com ceticismo.

Ela não gostou daquilo. Não gostou da forma como aquela mulher surgira, tampouco do olhar de esperteza no rosto de Regina.

— Claro que sim disse Kathryn, voltando-se. — Mas ninguém sabia onde ele estava. Se uma pessoa não quer ser encontrada, existe um limite ate onde você pode procurar por ela...

— Olhou para Regina e sorriu calorosamente. — Mas a prefeita juntou as peças e me telefonou agora à noite. E ina­creditável. Isto é, é como se estivéssemos começando de novo. Temos uma segunda chance.

— Isso é tão lindo — disse Mary Margaret, sorrindo para a mulher. Emma duvidava que ela fosse à única pessoa no quarto que podia ver que aquele sentimento não era verdadeiro.

Kathryn voltou para o lado da cama de David.

— Vamos lá, Henry — disse Regina. — Hora de ir para casa.

Quando passou por Mary Margaret, Henry olhou para ela e disse em bom tom:

— Não acredite em nada disso. Ele acordou por causa de você. A história. Amor verdadeiro. O destino de vocês é ficarem juntos.

—Henry! — disse Regina. Mas Henry correu, saindo do quarto. Regina, sacudindo a cabeça em de­salento, seguiu atrás dele.

— Com licença —  disse Emma às suas costas. — Senhora prefeita. Regina se virou.

—Uma palavra antes de ir embora?

Regina suspirou, balançou a cabeça em consentimento. As duas deixaram o quarto juntas. Henry já estava no estacionamento quando Regina parou de andar, e as duas mulheres se viraram uma para a outra.

— O amor não é uma coisa linda? — perguntou Regina.

—Estou tão feliz que essa história trágica tenha tido um final feliz. Isso nunca acontece...

— Nada dessa história tem sentido disse Emma secamente.

— Vamos deixar de lado esses joguinhos.

—O que é que você acha, então? — perguntou Regina, de olhos brilhantes, parecendo estar se divertindo. — Que estou usando magia negra naquela mu­lher? Forçando a coitada a mentir?

— Não, mas acho que está fabricando algo. — Não tenho ainda como saber o motivo. Mas isso cheira mal, seja o que for.

—Você sabe Srta. Swan — disse Regina, caminhando de volta em sua direção, que coisas ruins acontecem. Mesmo em cidades pequenas como Storybrooke.

Storybrooke é exatamente como qualquer outro lugar— disse Emma. Cheia de pessoas boas, com algumas pessoas podres jogadas na mistura.

— Estou surpresa de que não fique feliz ao ver duas pessoas unidas

— disse Regina. — Não há maldição pior no mundo que estar sozinho. Não é verdade? Regina sorriu e olhou por cima do ombro em direção ao estacio­namento. — Tenho sorte de ter Henry — disse. Seria terrível não ter abso­lutamente ninguém...

 

MARY MARGARET SENTOU-SE SOZINHA à sua própria mesa da cozinha, segu­rando um copo de água em uma das mãos, descansando a outra no colo. En­quanto seu prato de macarrão com queijo esfriava à sua frente, ficou pensando em tudo o que tinha acontecido desde que John Doe (seu nome era David, lembrou-se) havia tocado em sua mão.

Tomou um gole de água, suspirou, fez os dedos correrem por entre os cabelos.

Misturou alguns fios do macarrão no molho de laranja, pousou o garfo de volta no prato e girou o anel no dedo médio.

Quando ouviu uma batida na porta, sabia que não poderia ser ele, pois de­veria estar em casa com a mulher, no processo de reaprendizagem de sua pró­pria história. Tinha visto os dois se abraçando. E, além disso, por que esperaria que um estranho batesse à sua porta? Ninguém queria esse tipo de coisa...

Tentando se convencendo de que não esperava que fosse ele, abriu a porta e viu Emma olhando para ela.

As duas mulheres se entreolharam. Mary Margaret viu-se então sorrindo, pelo menos um pouco.

—Olá, Emma — disse.

— Oi.

— O que eu posso... Está tudo bem?

— Sim, tudo bem — disse Emma. O homem misterioso acordou e a Rai­nha Má está dormindo em sua torre. Somos boas.

Mary Margaret riu suavemente e abriu a porta um pouco mais.

Quer entrar? — perguntou.

— Tenho um jantar pronto e poderia dividi-lo com você se...

Na verdade, o que eu queria mesmo era saber se a sua oferta sobre o quarto ainda esta de pé — disse Emma.

— Ah — disse Mary Margaret, legitimamente surpresa.

Ela havia se esquecido de toda aquela história por conta das emoções desse dia. Mas ficou feliz que Emma estivesse ali.

— Com certeza. Entre.

Emma assentiu com a cabeça e entrou na sala. Deu uma olhada ao redor, obviamente satisfeita. Mary Margaret sentiu-se melhor. Não pretendia pensar muito no por que daquilo.

— Mas que bela casa você tem disse Emma. E descansou a mão no balcão da cozinha. — Muito melhor que o banco de trás de um carro.

— Isso é verdade — disse Mary Margaret, e as duas mulheres riram.

— Mas estou contente que você esteja aqui — disse ela.

— Realmente, Emma. Seja bem-vinda.

 

                                                   O PREÇO DA MAGIA

NA MANHÃ SEGUINTE, EMMA CAMINHOU COM HENRY DE SUA casa até o ponto de ônibus, despreocupada se Regina os ve­ria ou não.

Ele estava muito feliz por vê-la, animado com John Doe e a Operação Cobra, e Emma ouviu seu falatório alegre­mente. Regina não iria afastá-la dali. Não mais. Depois que Henry acenou em despedida e o ônibus se afastou, Emma teve de dar uma parada rápida quando a única viatura policial da cidade avançou sobre uma entrada de garagem c bloqueou seu caminho na calçada.

Graham acenou, desejou-lhe um bom dia e pulou para fora do carro. Você quase me atropelou   disse Emma.

—   Olá!

—Tive de chamar a sua atenção disse Graham. Essa foi a única forma que imaginei de fazer isso...

— Vai me prender de novo? — disse Emma. — Deixe-me adivinhar. Acu­sada de ser uma pedestre imprudente.

Ele sorriu e abaixou a cabeça, movimento que Emma considerou ser sua maneira de reconhecer a forma injusta como tinha sido tratada até agora. Emma sabia que Graham era simpático a ela, mesmo que ele e Regina pare­cessem ter uma relação complicada. Havia algo entre o xerife e a prefeita, tal­vez algo romântico. Ela não podia dizer o que era, mas sentia isso. E era uma coisa que tinha sentido. Muitas horas extras trabalhando juntos; nenhum de­les comprometido... Ela ainda não sabia como se encaixava na equação de Storybrooke, mas certamente era um assunto que importava.

Na verdade, quero lhe oferecer um emprego —disse Graham. Preciso de ajudante Sei que você é boa nisso. E acho que poderíamos trabalhar muito bem juntos.

— Algo me diz que sua chefe não gostaria disso — disse Emma.

Ela se surpreendeu com a oferta. Ficou lisonjeada, além do mais. E não se importaria de trabalhar algumas horas extras com Graham também, agora que começava a pensar nisso.

Ela disse que não. Mas ele lhe pediu que pensasse sobre o assunto. Ela disse que o faria, e o xerife foi embora, aparentemente satisfeito por ter conse­guido esse compromisso dela.

A próxima surpresa veio na lanchonete, vinte minutos depois, quando Re­gina entrou em seu compartimento, deu um sorriso diabólico e disse:

— Bom dia, Srta. Swan. Seu passeio com o meu filho foi bom?

— E claro que você já sabe tudo sobre isso — respondeu Emma.

Não estou aqui para falar nisso. Não me importo com essa história. E entendo o seu desejo. Ele é uma criança adorável — disse Regina.

— Então, vamos lá — disse Emma secamente Sobre o que quer conversar comigo?

— Raízes, Srta. Swan. O problema são as raízes — respondeu Regina.

— Raízes?

— Isso mesmo — disse Regina. — Você não tem nenhuma raiz. Anda à de­riva pelo mundo, nem tem capacidade de ficar muito tempo no mesmo lugar. Phoenix, Nashville, Tallahassee, Boston... E agora está aqui. Sem aluguel, fi­cando com a Srta. Blanchard. Por quanto tempo será dessa vez? Você com­preende, vê o que estou querendo dizer? Estou contente que Henry esteja feliz, mas faço este apelo a você. Se for honesta consigo mesma, não entende que isso vai acabar machucando Henry em vez de ajudá-lo?

Emma olhou fixamente, sentindo o frio que reconhecia como caracterís­tica de um medo que ela tinha de si mesma.

Regina percebeu isso e enfiou a faca ainda mais profundamente:

— Você vai deixar a cidade, com o tempo. As pessoas não mudam. Por que não poupar os sentimentos de seu filho e arrancar logo o esparadrapo? Vai doer, mas apenas uma única vez...

A prefeita levantou-se e foi embora.

Emma ficou tão perturbada com o comentário, que se pôs de pé também, tentando pensar em algo para dizer em resposta. Mas as palavras não vieram. Tudo o que conseguiu fazer foi derrubar todo o seu chocolate quente, e o lí­quido escorreu sobre o seu suéter.

Ruby viu isso acontecer, teve pena e mandou-a ir ate a lavanderia da lan­chonete para lavar o suéter.

— Minha amiga está lá atrás — disse ela, como se fosse uma ordem.

— É simpática, converse com ela. Você vai lá? Ela deve estar passando por alguma dificuldade — disse Ruby, e foi embora.

Com certeza, pensou Emma. Feliz em poder ajudar. Encolheu os ombros e se dirigiu para os fundos da lanchonete.

A amiga de Ruby estava de fato lá, tentando (sem sucesso) lavar um con­junto de lençóis brancos, chorando enquanto fazia isso. Emma lhe deu alguns conselhos com base cm seu conhecimento muito limitado de roupa: Tente um pouco de alvejante, amiga. Mas, ao sentir alguma conexão, a garota, Ashley era o nome dela, agarrou-se a Emma como um cachorrinho perdido e foi logo contando toda a sua história triste. Ruby com certeza tinha razão: ela estava passando por problemas. Dezenove anos, grávida, sozinha no mundo, nenhum plano, nenhuma maneira de ganhar dinheiro. "Onde é que já ouvi essa histó­ria antes?", pensou Emma, ao escutar as preocupações da jovem.

Eu não sei, não sei — disse Ashley.   Às vezes, tenho vontade de desistir. Você tem dezenove anos agora   disse Emma. — Eu era uma adolescente de dezoito.

Ashley olhou para ela, percebendo o que Emma estava dizendo.

Fica mais fácil com o tempo — mentiu Emma.

—Mas, escute. O que vou dizer ê importante: quem decide ê você. Vai ter de escolher e, se resolver que pode fazer, faça. Porque vai conseguir.

Ashley limpou o rosto, deixando que as palavras de Emma fossem assimiladas.

Emma acrescentou:

— A vida está aí para ser seguida. Você tem de seguir sua vida. Não parece que seja algo assim tão simples, mas é.

Isso pareceu atingir Ashley.

Algumas das nuvens que tinham estado sombreando seu rosto se dissiparam. Emma se surpreendeu um pouco com o pró­prio discurso, mas foi como ela chegara até ali. Seja ousado, seja forte, não há nenhuma outra maneira.

Demoraria apenas algumas horas para que ela descobrisse que Ashley le­vara literalmente adiante seu conselho.

 

ERA SÁBADO, e Mary Margaret e Emma estavam juntas no apartamento. Os poucos pertences de Emma já tinham sido entregues, vindos de seu aparta­mento em Boston. Ela estava arrumando suas roupas enquanto Mary Margaret fazia ovos mexidos. A vida estava começando a parecer um pouco mais normal.

— E só isso? Isso é tudo o que você tem? — perguntou Mary Margaret ava­liando a caixa.

—Não sou nenhuma colecionadora de tralhas. Não guardo coisas — res­pondeu Emma.

— Bem, fica mais fácil de fazer a mudança, certo? — disse Mary Margaret. Antes que Emma pudesse ficar chateada com o inocente comentário de

Mary Margaret, a campainha tocou.

Mary Margaret foi atender e arquejou um pouco quando viu quem era. O s.r. Gold, com um curativo na cabeça, escurecia a porta de entrada.

- Olá, Srta. Blanchard — disse ele educadamente. — Estou procurando a Srta. Swan.

Emma caminhou para a porta e se colocou atrás de Mary Margaret. Lem­brava-se dele da Pensão da Vovó, na sua primeira noite na cidade. Sujeito as­sustador, esse...

Sim? — foi tudo o que Emma disse.

— Ah, Srta. Swan... Olá! — disse ele. — Talvez você se lembre do nosso breve encontro? Sou Gold, um homem de negócios... da região.

— Eu me lembro - respondeu Emma. Ele assentiu e continuou:

— Um passarinho me contou que você e muito boa em localizar as pessoas. E, como preciso rastrear alguém, pensei em dar uma passada aqui e oferecer-lhe trabalho.

Tanto ela como Mary Margaret ficaram olhando para o homem por um longo tempo. Mary Margaret, em seguida, deu uma desculpa e se retirou. Emma, cautelosa, mas intrigada, deu de ombros e convidou-o a entrar.

- O nome dela é Ashley Boyd disse ele, enquanto ambos se sentavam no sofá da sala de estar.

— Ela roubou algo de mim.

— Por que você não chamou a polícia?

—Porque esse é um assunto delicado. Não quero que a garota tenha pro­blemas. Só preciso ter de volta aquilo que me foi roubado.

— O que foi que ela roubou? — perguntou Emma.

— Não acho que seja importante que você saiba do que se trata disse ele. — Encontre a garota, sei que você pode encontrá-la. E, quando a encontrar, o que me foi roubado estará com ela.

Emma não sabia o que pensar, mas não faria mau algum ganhar um pouco de dinheiro nessa altura dos acontecimentos. Não tinha conseguido ganhar nem um centavo até agora, desde que chegara à cidade.

— Ela invadiu minha loja ontem à noite, murmurando alguma coisa sobre tomar o controle, sobre o fato de ter escolhido assumir o controle da vida de alguém, algum disparate desse gênero — disse ele.

Gold deu de ombros, tocou o curativo na cabeça, e, quando ele fez isso, Emma tentou esconder o brilho de surpresa nos olhos. "Minha nossa", pensou, "é a mesma Ashley da lanchonete".

Tudo bem - Emma se viu falando. — Tudo bem. Vou encontrá-la.

O s.r. Gold, aparentemente satisfeito, levantou-se e agradeceu à jovem. Na porta, quase foi atropelado por Henry. que vinha pulando, com um grande sorriso no rosto.

— Eu tenho até... - vinha exclamando Henry, mas parou no meio da frase quando viu o sr. Gold olhando para ele.

— Olá, meu jovem - disse o sr. Gold. A srta. Swan e eu estávamos conver­sando sobre assunto de negócios. Eu já estava de saída. Até mais ver.

Henry parecia aterrorizado. E Emma sabia o porquê disso; lembrou-se do livro: Henry achava que Gold era Rumpelstiltskin.

— Olá, sr. Gold -- disse Henry bem baixinho, e depois entrou no aparta­mento, cabisbaixo.

Assim que o sr. Gold foi embora, Emma sentou-se com Henry e lhe disse que ele não poderia continuar a aparecer ali em segredo, mesmo que ela qui­sesse muito vê-lo. Explicou que Regina encontraria uma maneira de usar esse artifício contra eles. Henry assegurou-lhe que estava tudo bem que ele tinha até as cinco horas c que sua mãe nunca saberia. Emma não gostou nem um pouco disso. Antes que pudesse insistir no ponto que ele deveria ir embora para evitar ainda mais problemas, Henry começou a fazer perguntas sobre o motivo pelo qual o senhor Gold fora até lá.

Ele me pediu para encontrar uma pessoa — disse ela.     Uma garota. E apenas um trabalho.

Que garota? —   perguntou Henry.

— Duvido que você a conheça, rapaz disse ela, lamentando ter começado a contar a conversa com o homem.

Henry sentou-se no sofá e começou a mexer em sua mochila, tirando algu­mas coisas. Pegou seu livro e começou a folhear as páginas.

— Ela está grávida? — perguntou ele.

Emma voltou-se para ele com os olhos arregalados.

— Como você sabe disso? — perguntou ela.

 

O PLANO DE EMMA ERA SIMPLES. Ela nunca fazia um plano complicado, a me nos que precisasse disso, e em sua experiência, sempre que ela tentava en­contrar alguém, era mais simples começar a busca os amigos. Emma não sabia muita coisa sobre Ashley, mas sabia que tinha uma amiga em Storybrooke: Ruby.

Ela e Henry foram direto para a lanchonete. Quando viu que Ruby ficou um momento livre, Emma puxou-a até a porta de trás e perguntou se ela tinha algum palpite sobre onde Ashley poderia ter se escondido.

— Não sei não... disse Ruby, balançando a cabeça.

— Desculpe-me — disse, enquanto empurrava a porta para trás e a mantinha aberta. - Estou es­perando que eles me devolvam o meu carro, me desculpe.

— Você acha que o namorado teria algum envolvimento nisso?

— pergun­tou Emma.

— Ele deve ter alguma relação com esse assunto, para estar envolvido no caso — disse Ruby. Ele não fala com ela há pelo menos seis meses. E um idiota completo.

Ela mencionou que ele não tinha... feito a coisa certa — disse Emma.

— Quando descobriu que ela estava grávida.

Ele terminou com ela disse Ruby com desdém, mastigando com som alto o seu chiclete.

Parecia que ela estava prestes a dizer alguma coisa, mas naquele momento um caminhão de reboque rodava pelo estacionamento dos fundos, puxando um Camaro vermelho cereja. O reboque parou e o motorista saiu, acenou para Ruby( que acenou de volta de maneira bastante provocante, Emma percebeu, e ainda acrescentou uma despedida rebolativa dos quadris só para ter certeza), e começou a descer o veículo. Era um belo carro para uma garçonete, pensou Emma.

—E onde está a família de Ashley? — perguntou Emma.

—Na verdade, ela realmente não tem família — disse Ruby.

— Parece que tem uma madrasta horrível em algum lugar. Acho que deve ter meias-irmãs. Não sei. Ela não fala com elas.

Henry puxou de maneira conspiratória a jaqueta de Emma, e lhe acenou quando ela olhou para baixo. Emma balançou a cabeça negativamente e man­dou-lhe um olhar de "agora não, moleque".

— Sabe de uma coisa? Talvez você devesse perguntar ao Sean—   disse Ruby. Talvez ele saiba de alguma coisa. Ele mora com o pai.  

— Ela pegou a mão de Emma, puxou-a para si e, em seguida, pegou a caneta atrás da orelha. — Vou anotar o endereço.

 

UM HOMEM CORPULENTO, na casa dos cinquenta anos, abriu a porta quando Emma tocou a campainha, naquele grande sobrado de meados do século pas­sado. Devia ser o pai.

Ela perguntou por Sean, e o homem se apresentou como Mitchell Herman, perguntando o que ela queria. A maneira como ele disse o próprio nome, a maneira como ele apertou a mão dela e cruzou os braços depois disso - Emma sentia quando não ia gostar de alguém. Esses ricaços gordos e mandões não faziam exatamente o tipo dela.

Emma estava feliz por ter deixado Henry no carro enquanto explicava que Ashley havia sumido e que tinha sido contratada para encontrá-la. Contou-lhe alguns outros detalhes, mas Mitchell assumiu de cara o que ela lhe deu no início e disse:

—É claro que ela desapareceu, é claro que ela não cumpriu o acordo. Não se pode confiar nela para ser uma boa mãe, não se pode confiar nela para fazer a coisa certa. Para início de conversa, ela se permitiu ficar grávida, não e?

"Ah", Emma pensou. "Eu realmente não gosto de você."

— Quem está na porta, pai? Emma ouviu alguém falar e, atrás de Mit­chell, Sean emergiu de um quarto nos fundos e veio pelo saguão.

Ele era tão jovem, apenas um garoto, não devia ter nem mesmo vinte anos. Assim como Ashley Emma não podia acreditar que seu próprio filho, um dia, também pudesse se transformar em semelhante criatura, viva e grandalhona. E não podia acreditar que ela mesma tivesse sido como Ashley...

— Está tudo bem? — perguntou Sean.

— Não, Sean, nem tudo está bem disse Emma, e sua voz soou de repente dura, inflexível.

— Ashley está desaparecida. Se você souber de algo, deve me dizer onde ela está ou então precisa avisar a polícia. Agora mesmo.

—E estou fa­lando sério, se souber de qualquer coisa...

Sean ficou extremamente agitado quando ouviu essa informação, e tentou passar pelo pai, que o deteve e bloqueou a porta.

— O que você quer dizer com "desapareceu"? — disse Sean.

— Onde ela está? E o bebê?

— Não — disse Mitchell. Virou-se para o filho.

— Fique aí dentro, vamos conversar em um minuto.

— Já entendi disse Emma. — Você é o motivo, certo? Foi por isso que ele rompeu com a menina, por sua causa.

Mitchell olhou para ela como um idiota.

— Eu tinha tudo arranjado para aquela menina. Tudo certo. E ela estava de acordo. Foi tudo muito civilizado. Tudo o que a garota tinha a fazer era seguir adiante, e pronto.

—O que você quer dizer com "tinha tudo arranjado"?— perguntou Emma.

— Quero dizer exatamente isso mesmo — ele respondeu.

— Eu tinha feito um acordo.

— Pelo bebê? Você vendeu o bebê? E quem é o comprador? —perguntou Emma.

Mitchell Herman parecia honestamente confuso agora, e Emma foi re­lembrando palavra por palavra da conversa, tentando descobrir o que lhe te­ria escapado.

E então percebeu.

— Gold — disse. — É claro.

— Sim, claro, Gold — disse o homem. —Não foi ele quem a contratou? Para trazer o bebê de volta? Achei que você trabalhava para esse sujeito.

Emma fechou os olhos, já devia ter adivinhado toda a história lá atrás, na lanchonete, quando estivera conversando com Ruby... Ruby, que sabia de tudo também, desde o começo E a tinha enviado até ali para conseguir mais algum tempo para Ashley. A propriedade de Gold que Ashley tinha roubado era... ela mesma. Droga pensou Emma, girando o corpo e correndo de volta para o V W.

Já dentro do carro, deu partida no motor.

— Temos de encontrar essa garota, Henry disse Emma, pondo o carro em marcha. — Ela entrou em pânico e precisa de nossa ajuda. E já deve estar fugindo da cidade.

Ha apenas uma estrada que leva para fora de Storybrooke — disse Henry. — Mas...

— Não me venha com essa história de maldição agora, garoto — disse Emma. — Isto é real, isto é de verdade. Ela está fugindo e deve estar bem longe, a esta altura.

Dez minutos mais tarde, sentindo-se como se estivesse interpretando o papel principal em um pesadelo, Emma fez uma curva na estrada tora da ci­dade e viu o vermelho brilhante da parte traseira do Camaro apontando para cima, para fora de uma vala. Ela bateu o carro, pensou Emma ao pisar no freio, e em seguida saiu correndo para o carro de Ruby. Ashley não estava ao vo­lante, o que foi um alívio, na verdade. Emma olhou em volta, examinou a mata. E ouviu os gemidos quase imediatamente.

Ela e Henry encontraram a garota uns três metros além da linha das árvo­res, sentada no chão, segurando a barriga. Quando ela viu quem se aproxi­mava, olhou-os, e seus olhos estavam cheios de terror.

—O bebê — gritou ela. — O bebê está nascendo agora!

 

EMMA E HENRY SENTARAM-SE JUNTOS na sala de espera da Emergência do hos­pital, quando Ashley desapareceu no final do corredor, levada pelos enfermei­ros. Emma, nervosamente olhando para seus sapatos, não percebeu quando Henry ergueu os olhos do livro e a estudou. Ela torcia as mãos e mexia nos de­dos, ocupada demais, imaginando o que Ashley estaria passando. Imaginando e lembrando. Não podia acreditar que Ashley tivesse chegado tão perto do de­sastre. Uma garota como essa sozinha na floresta...

—Você é a única— disse Henry.

Emma olhou para ele

—O que foi que você disse? — perguntou Emma.

—Você é a única que pode sair de Storybrooke disse ele.

— Todos nós es­tamos presos aqui. Se quiser, pode ir embora. Você sabe disso, certo?

— O que você quer dizer com isso?

São as regras da magia. E assim que a maldição funciona. As pessoas que já estão aqui na cidade não podem sair, porque acontecem coisas ruins sempre que tentam escapar. Você não está presa, entendeu? Você é especial. Você não é daqui. Então pode ir embora quando quiser, a qualquer momento. E tudo bem em relação a isso, vou entender...

Ela sentiu vontade de estender a mão, puxa-lo para si, aconchegar a cabeça dele contra o peito. Para protegê-lo das coisas que não tinham sentido. Mas Emma se recompôs, estendendo a mão e segurando o braço da cadeira.

—Qualquer um pode ir embora, garoto — disse ela. Não ha nenhuma maldição. - Ela viu que o medico vinha em direção a eles pelo corredor.

—E, além disso, acrescentou, ficando de pé, não vou a lugar nenhum. Há muita gente perdida por aqui.

O sorriso no rosto do medico contou a Emma tudo o que ela precisava sa­ber, mesmo antes dc ouvir os detalhes: a bebê tem dois quilos e setecentos, e tanto ela como a mãe estão saudáveis e felizes.

— Obrigada disse Emma. O alívio da tensão fez com que soltasse os om­bros. Ela pegou na mão do médico e a apertou. Muito obrigada — disse.

Henry tinha de estar em casa às cinco da tarde, se ela quisesse evitar outra sessão de broncas por parte de Regina, então mandou que ele recolhesse suas coisas e ambos cruzaram a sala em direção ao banheiro. Com o canto do olho, através da janela da frente, viu o sr. Gold se aproximando do hospital, balan­çando a bengala alegremente. Ele entrou, olhou em volta.

Emma foi até ele, tomou-o pelo braço e acompanhou-o até as máquinas de venda automática.

— Deveria ter me contado disse ela. — Sobre a bebê. Ela não é uma mer­cadoria, e essa coisa toda cheira muito mal!

Ah! — disse Gold, deliciado. — Então... é uma menina?

— Ela vai ficar com a bebê. A escolha não é sua. Ela é quem tem de esco­lher.

—Mas ela já escolheu Srta. Swan retrucou Gold. Meses atrás. Temos um contrato.

Então, vá para casa e rasgue-o — disse Emma, — porque isso não significa mais nada. Nada mais.

Ficaram olhando um para o outro por um momento. A tensão se quebrou quando Gold, inclinando a cabeça, com um brilho de admiração nos olhos, disse:

— Muito bem, Srta. Swan. Vou deixá-la escapar disso. Mas comigo não fica nenhuma dívida sem ser paga. A senhorita vai ter de me dar algo em troca.

— Que tal um saco de roupa suja? —disse Emma.

—Basta dar um pulinho rápido em meu apartamento, pois tenho um lá.

— Você me deve um favor. Um favor — disse ele, levantando um dedo. Simples. Você gosta das coisas simples, não é?

Ela não estava gostando daquilo, mas não parecia ter escolha.

— Tudo bem — disse Emma. E estendeu a mão.

— Combinado.

Juntos, Emma e Henry rodaram pela cidade, passaram pela lanchonete, onde Emma vislumbrou Ruby flertando com Billy, o garoto do caminhão de reboque. Emma deixou Henry em casa com quinze minutos de antecedência da hora marcada, e estava de volta à casa de Mary Margaret dez minutos de­pois, sem saber direito o que fazer do dia. O que ela sabia que não iria a lugar nenhum. Ligou para o xerife Granam e perguntou-lhe se a oferta de emprego ainda estava de pé, porque, se estivesse, toparia.

Proteger e servir — disse Emma, olhando para o relógio da torre.

— Sou um bocado boa nisso.

— Certamente, parece ser disse Graham. Vejo você na segunda-feira, Emma

 

                                   O PASTOR

EMMA FINALMENTE ESTAVA COMEÇANDO A SE ESTABELECER em Storybrooke. Sempre gostara da sensação de uma nova cidade, especialmente nos primeiros dias, quando a pró­pria vida parecia nova outra vez e o passado ainda não a tinha encontrado. Nunca durava muito tempo. Mas o pe­ríodo de lua de mel era, sempre, bastante elétrico. Era a sua sensação favorita.

Mas ali, em Storybrooke, era diferente. Aquele era um lugar literalmente povoado pelo seu passado, na forma do filho; por isso, a situação inusitada fez Emma se tornar muito consciente de que havia penetrado em um novo capi­tulo de sua vida agora, e que os próximos passos não seriam os mesmos de an­tes. Isso a assustou. Até agora, só tinha de cuidar de si mesma. Porém, dali em diante, seria diferente.

Mas, por enquanto, sentia-se bem. Algo que sempre esteve fora de sintonia parecia ter se corrigido sozinho em seu coração.

Graham mostrou-lhe as entranhas do trabalho policial de forma simples, brincando (ou estaria flertando?) com ela enquanto a tornava ciente de todos os cantos e recantos da cidadezinha de Storybrooke, contando-lhe as disputas de longa data entre os vários moradores.

Porém, ela ainda não sabia direito o que pensar da crença de Henry em tal maldição. Ele falava nisso sem parar, e ela ainda estava fazendo de conta que entrava na brincadeira. Quando ele começava a discutir o assunto para con­tar-lhe, por exemplo, que a razão de Marco e Archie serem amigos próximos era que Marco de fato era Gepeto, e Archie, o "Grilo falante", sempre tinha sido seu amigo, consciência e companheiro ,ela balançava a cabeça em con­cordância e pensava: "O que você esta fazendo. Swam?".

Mary Margaret era outra história, história que parecia um pouco mais reconhecível para Emma. Ela havia caído de amores por David Nolan, ho­mem casado que ela nem conhecia direito. E isso não era nada bom. Não era bom por uma série de razões. Ela falava sobre David demais da conta, e pas­sava mais tempo no hospital do que deveria. O homem encorajara suas visi­tas e pedia-lhe que ficasse até mais tarde em muitas ocasiões. Ele havia até mesmo dito a Mary que sentia uma ligação especial com ela, como se a co­nhecesse muito mais do que conhecia a própria esposa.

Mary voltou para casa naquela noite dizendo de repente a Emma que se demitira da equipe de voluntários do hospital, que "não poderia ir para lá de novo", e essa atitude fez Emma pensar que sua amiga tinha autoconhecimento suficiente para ter feito a escolha mais sábia. Mas Emma havia visto e sentido o amor, e sabia o que isso poderia provocar em uma pessoa. Sua nova companheira de quarto, que a princípio parecia equilibrada e não propensa a súbitas mudanças de humor estava agora aos pedaços.

Emma não pressionou demais, esperando que esse sentimento desapare­cesse. Não apenas pelo bem de Mary Margaret, mas por Henry também. Para ele, como já tinha dito inúmeras vezes, tinha todo o sentido que os dois fos­sem atraídos um pelo outro. Era só uma questão de tempo até que a ordem na­tural das coisas fosse restaurada.

O Príncipe Encantado e a Branca de Neve juntos, sua filha Emma já cres­cida e presente, o neto Henry sorrindo para todos eles, toda a família estável, sólida e unida.

Quando Emma pensou na situação desse jeito, em termos da árvore fami­liar perfeitamente construída por Henry para seu deleite, a vida de fantasia do menino deixou de parecer inocente para se mostrar perigosa. Algo que pode­ria acabar machucando-o muito mais do que ele já tinha sido ferido.

 

EMMA LEVOU HENRY PARA FESTA de boas-vindas de David em sua casa, e no caminho Henry que tinha notado quando Mary Margaret murmurara para Emma: "Não posso ir, não deveria ir" — explicou à mãe como o Príncipe En­cantado teve de acabar desposando a tal mulher, Abigail. Não que Emma te­nha perguntado.

— Ele realmente não a ama! — disse Henry a Emma.

— Essa é a coisa. Ele fi­cou preso nesse rolo de casamento com o Rei Midas, o pai dela, e foi obrigado a concordar cm se casar com ela ainda que acreditasse no amor verdadeiro.

—Ele teve de concordar? — perguntou Emma. — Por quê?

Porque era, de qualquer forma, um falso Príncipe Encantado - assentiu Henry para si mesmo, como se mediante essa resposta as coisas viessem a ter um perfeito sentido para sua mãe.

— O que é um falso Príncipe Encantado?

- Ok! Vou explicar isso. Não é tão complicado assim disse Henry.

—Há muito tempo, antes de a Branca de Neve e o Príncipe Encantado se conhece­rem, esse outro rei, o Rei George, não conseguiu ter um herdeiro e chamou Rumpelstiltskin e foi mais ou menos assim: "Ei, Rumpelstiltskin, preciso de um bebê, você pode me arranjar um?".

Emma sorriu com a releitura do conto feita por seu filho. Rumpelstiltskin fazia tráfico de bebês? — perguntou Emma.

— Sim — disse Henry.   Por um bom preço.

— Bom saber— disse Emma.

E assim, esse Rumpelstiltskin levou um menino de uma família de pas­tores e fez um acordo, e deu o bebê ao Rei George, e esse menino cresceu para ser o Príncipe Encantado— explicou Henry.

Emma tentou ao máximo ouvir, enquanto Henry desenvolvia uma historia complicada de gêmeos, falsas identidades e matança de dragões, mas sua mente vagou para Mary Margaret, e para o real e concreto David Nolan, que passava claramente por um momento difícil para tentar reajustar sua vida de casado com Kathryn. A história toda era estranha, e Emma ainda suspeitava que Regina tivesse inventado algo ali. embora não soubesse o que, ou por que a prefeita faria uma coisa dessas.

Ao chegarem a festa, David se aproximou deles.

Quando ele apareceu e sorriu, Emma poderia dizer que ele estava descon­fortável ali, rodeado por seus antigos "amigos", que ele não conhecia. David sabia quem era Emma, porque ela estivera lá no hospital, e porque fora uma das pessoas que ajudaram a encontrá-lo.

David cumprimentou a e a Henry, e levou seus casacos para guardar no armário. Kathryn veio até ali e disse um rápido "Olá", mas saiu correndo para a cozinha.

— Você parece meio perdido por aqui —   disse Emma.

— Vamos lá. Es­conda-se aqui conosco. Não mordemos.

David sorriu obviamente aliviado, e os três foram para um canto da sala:

— Obrigado — disse ele.

—É um pouco opressivo tudo isso.

— Não posso nem imaginar — disse Emma.

Ele pareceu ficar nervoso, e então Emma lhe lançou um olhar do tipo "pode me contar tudo".

Sinto muito, sei que... sei que você vive com Mary Margaret. E estava aqui me perguntando se você sabe quando ela vai chegar — disse ele.

"Ah...", pensou Emma.

Emma cruzou os braços c deixou escapar um sorriso brusco.

Ah, sim. Ela não pôde vir   foi tudo o que disse.   Sinto muito. David continuou a observá-la, procurando um sinal do que isso poderia significar. Emma não sentia necessidade de elaborar a sua explicação.

—Ela estava ocupada, é? — disse David.

— Não, ela não está! — disse Henry, sorrindo. Ela está em casa, pendu­rando as casinhas dos passarinhos. Você deveria ir falar com ela. Por causa do seu amor eterno.

— Henry! —disse Emma, pondo uma mão no ombro do menino.

—Esta é a festa dele e ele não pode sair entendeu? E dizendo isso, voltou-se para Da­vid. Além disso, Mary não está se sentindo muito bem. E realmente melhor assim.

Sim - disse David.   Provavelmente é melhor.

 

MARY MARGARET ESTAVA EM PÉ no alto de uma escada quando ouviu alguém dizer seu nome.

Assustada, quase caiu, mas conseguiu se apoiar no tronco da árvore bem à sua frente. Então virou o corpo para vê-lo.

Oh, David — disse ela sentindo uma tristeza repentina e quase inexpli­cável ao olhar diretamente para seus olhos. Olhar para o rosto daquele homem era como olhar diretamente para um problema insolúvel.

— Você não deveria ter vindo.

Mas não havia ninguém na festa que eu quisesse ver — disse ele.

Ela desceu da escada e atravessou o quintal.

— Você é casado - disse Mary Margaret uma vez que tinha chegado até David. — Não podemos fazer isso. Isto é, não tem nenhum sentido.

Ela quase riu com essa última palavra, mas ele não parecia achar engra­çado. Porém, era a pura verdade. Mais que tudo, ela simplesmente não enten­dia nada daquilo. Nem de seus próprios sentimentos.

Isso não importa disse ele, tomando as suas mãos. Ela resistiu, mas o homem as segurou.

—Olhe me escute. Eu sei, entendo. Eu estava em coma, e tinha essa outra vida, mas você... Não sei, tem uma coisa, Mary Margaret. Nós dois sentimos isso. Não sei que tipo de pessoa eu era, mas sei quem sou agora. Sou uma pessoa que confia em seu coração. E meu coração está me dizendo que a minha vida autêntica, que a minha vida real, está de alguma forma por aqui. Não quero voltar lá, onde estava antes.

Lágrimas brotaram nos olhos dela, e ela sentiu que. abria um sorriso preocupado.

Nesse momento, puxou as suas mãos.

— Acho que é mais simples que isso, David — disse. Acho que é apenas porque eu o salvei. Isso é tudo. Esse sentimento logo vai embora.

Ela se virou e retirou-se pela porta dos fundos.

 

EMMA VOLTOU PARA CASA, e encontrou Mary Margaret torturando o piso da cozinha com um esfregão. Afastou-a dali para que ela pudesse se acalmar, conversar sobre o que estava acontecendo e tomar uma bebida. Mary Marga­ret aceitou e lhe contou sobre a visita de David a seu quintal. Admitiu que fi­cou tentada, que também sentiu alguma coisa por ele.

—Ele é casado— advertiu Emma.

—A vida dele está uma bagunça. Não é o momento certo, Mary Margaret. Você não pode se envolver nessa confusão toda. Eu sei — respondeu calmamente. — Por isso, pedi que ele fosse embora. Fez bem —disse Emma.  

— Pode ser que agora não pareça, mas fez bem. Acho que você sabe, lá no fundo, que algo não está direito, que a sua consciên­cia não gosta. Confie nela. Confie em si mesma.

 

MARY MARGARET NÃO DORMIU BEM e sonhou com a ponte do pedágio, onde eles encontraram David, sonhou com ele de braços na água. Repetidamente, via-o ficar de pé, pondo os lábios nos seus.

Quando acordou, já estava claro, e ela ouviu pássaros gorjeando lá fora. Sentiu-se intranquila e ficou pensando se estaria doente. Mas em vez disso, le­vantou-se da cama, vestiu-se e foi até a lanchonete.

E logo desejou não ter feito isso. Porque encontrou o dr. Whale na porta do estabelecimento.

Ele era realmente um homem desagradável — e ela sempre pensara assim. Bonito o suficiente, com certeza, mas obviamente presunçoso. E bajulador também. O tipo de pessoa que você não gostaria que sua filha namorasse.

Os olhos dele brilharam e se cravaram nos dela, antes que Mary pudesse passar por ele e sentar-se a uma mesa. O médico tocou em seu braço, o que a fez afastar-se.

— Mary Margaret — disse ele, em tom contrito. —Tenho tentado falar com você. Espero que a sua demissão do serviço voluntário do hospital não tenha tido relação com aquele nosso encontro.

Seu narcisismo chegou perto de fazê-la rir, mas a mulher manteve uma ex­pressão séria no rosto.

— É muito grosseiro da minha parte não ter telefonado para você, eu sei disse o médico. — Peço desculpas. Talvez você nunca mais queira sair comigo outra vez. De qualquer forma, você tem o meu número.

Dizendo isso, saiu da lanchonete, alheio à interpretação muito diferente da noite em questão por parte de Mary Margaret.

No entanto, ela não conseguia rir disso, por mais que no fundo fosse essa a sua vontade.

Quando se viu sozinha em seu compartimento, com seu chocolate quente, seu estado de espírito afundou mais ainda ao se perguntar o que a vida de fato preparava para ela nessa cidade. Como teria chegado ao ponto em que se encontrava? Era como se toda a sua história não fosse real, embora sempre fosse a primeira a assumir a responsabilidade por suas ações, por suas escolhas...

—Olá. srta. Blanchard.

Mary Margaret olhou para cima e ficou surpresa ao ver Regina de pé, ao lado de sua mesa.

— Posso acompanhá-la por um momento? —perguntou Regina.

— Não vai demorar muito tempo — Ela deslizou pelo sofá e ficou bem em frente a Mary Margareth.   E sobre minha amiga Kathryn.

Regina permitiu que essa informação se fixasse na outra mulher. Mary Margaret, por sua vez, tratou de não revelar nada de seus sentimen­tos. Mas sabia o que estava por vir, e silenciosamente se preparou. Eu não sabia que a Sra. Nolan era sua amiga — disse.

- Não sei o que você está tentando trazer, mas nunca é aconselhável exibir a experiência de "destruidora de lares" em seu currículo, Mary Margaret disse Regina.   Especialmente em uma cidade pequena como esta. As coisas podem ficar muito desagradáveis, e rapidamente.

Com os olhos arregalados, Mary Margaret não conseguia pensar em nada para dizer.

Não se faça de idiota comigo, Srta. Blanchard — disse Regina. David deixou sua esposa na noite passada. Você não sabe nada sobre isso, não?

— Não. — respondeu ela. — Não sabia! E pensou: "Ele a deixou?"

— Tinha certeza de que diria isso — disse Regina. Kathryn está arrasada. Você e eu sabemos que ele e um homem confuso que ainda não se lembrou completamente de quem é. Por que você não faz um favor a todos, o de voltar para sua pequena e insignificante existência, e dar espaço para que o casal possa resolver suas feridas e ter a chance que merece?

Sem esperar resposta, Regina deslizou do compartimento, ajeitou o terninho de executiva e saiu da lanchonete, batendo os saltos no piso pelo caminho.

 

MAS NÃO HOUVE SINAL DELE. Paz e sossego. Nada aconteceu. Mary Margaret começou a acreditar que tudo estava finalmente desaparecendo e que a vida avançaria, começando a voltar ao normal.

E então, em uma manhã de quarta-feira, quase ao meio-dia, ela olhou pela janela ao lado da porta de sua sala de aula. David estava do lado de fora, olhando para ela, acenando-lhe para que viesse até ali.

Seus alunos estavam todos fazendo a leitura em silêncio; então, ela .suspi­rou, levantou se de sua mesa e saiu da sala.

— O que está fazendo aqui? — sussurrou ela, sem se preocupar em esconder sua raiva. — Você simplesmente não pode vir aqui.

Não consigo parar de pensar em você — disse David. Abandonei Ka­thryn. Não a escolhi. E acho que nós deveríamos ficar juntos — falou ele direta e deliberadamente.

Mary Margaret foi pega de surpresa pela sua franqueza. Como tudo isso aconteceu assim, em tão pouco tempo?

Isso é loucura - disse ela. — Você tem de ir embora. Como assim, é uma loucura? —   perguntou David. — Você não sente o mesmo por mim? Vamos, responda-me se não está sentindo a mesma coisa.

Mary Margaret ficou olhando para ele, não conseguindo articular uma palavra.

Escute— disse ele. — Você não precisa decidir nada agora. Apenas venha se encontrar comigo hoje à noite Perto da ponte em que me achou. Se você concluir que isso pode dar certo, encontre-me lá às nove horas. Estarei espe­rando - disse David sorrindo. — Se for se encontrar comigo lá, a gente segue em frente a partir dali. Mary Margaret disse:

— Vá embora.

Encontre-me lá hoje à noite   respondeu ele

— Não posso.

Apenas pense nisso— disse David. — Apenas pense. E tudo o que eu lhe peço.

 

CONTRA SEU MELHOR JUÍZO, Mary de fato pensou naquilo. Pensou o dia todo, durante a aula, e também enquanto caminhava da escola para a delegacia. A professora pediu o conselho de Emma sobre o ocorrido, e ela a surpreendeu dizendo que deveria ir ao encontro de David. Que uma coisa era ele aparecer de repente na casa dela; e outra, completamente diferente, era ter largado a es­posa, Kathryn. Isso fazia toda a diferença, aparentemente. Emma disse que David tinha feito uma escolha, e estava comprometido. Talvez fosse a hora de ela fazer uma escolha também.

— Nada disso parece baseado em algo... concreto...   disse Mary Margaret

— Sim, mas o amor nunca parece ter realmente um sentido — respondeu Emma. Nunca é baseado em algo. Não em algo que você possa ver de ime­diato, pelo menos.

— Mas, então... O que eu faço?

— Você não acha que... — disse Emma —... que os corações podem ver a verdade? Um pouco melhor que os nossos olhos?

— Estou surpresa de ouvir você dizer isso — confessou Mary Margaret.

— Quem disse que não havia algo de romântico em mim? — respondeu Emma. - Em algum lugar, lá no fundo... Bem fundo, mas existe não existe?

— Nunca pensei — retrucou a outra.

Mary Margaret ficou surpresa com o conselho de sua amiga, mas em seu coração sabia que ela queria ir, queria escolher David. Não entendia como os dois haviam chegado ali tão rápido, do jeito que tinha acontecido, mas não se importava mais.

A PREFEITA TINHA UMA REUNIÃO naquela noite Henry aproveitou a oportu­nidade para fugir e correr até o apartamento de Emma e Mary Margaret. Na porta, Emma deu uma olhada para ele e disse:

— Você não pode continuar fazendo isso, Henry.

— Ela está fora — respondeu ele. — E não voltará para casa antes das dez. Emma relutava em deixá-lo entrar, sabendo que estava perto de se tornar impotente quando o menino se mostrava tão animado sobre as coisas. Eram apenas oito horas, afinal, e Mary Margaret já tinha chegado trocado de roupa, chorado um tanto e saído correndo, uma hora antes.

— E então? — disse Emma ao mesmo tempo que se sentava à mesa na sua frente. — O que devemos fazer?

— Você não me deixou contar o final da história — disse Henry.

— Sobre o Príncipe Encantado.

— É isso mesmo, não deixei — disse ela.

— Sei que você pensa que isso é uma estupidez, mas é importante — disse Henry. Eu vi o jeito como ele estava quando ficou perguntando sobre ela E isso e natural!

— Por que acha que é natural? — perguntou Emma.

— Por causa do anel - respondeu Henry

— Explique.

— Depois que o Príncipe aceitou permanecer como Príncipe Encantado, teve de ir para casa e se despedir de sua mãe pela última vez. Ela sabia que o filho estava sendo forçado a se casar com Abigail, e que ele acreditava de fato no amor verdadeiro, por isso foi a mãe dele quem lhe deu o anel. Quando ela o deu, contou-lhe que o amor sempre seguiria o anel.

— Bonito - disse Emma. -- Então, ele e Branca de Neve se apaixonaram em uma tentativa de pegar o anel de volta.

— Certo! — exclamou Henry. — E, então, viu-se que o amor de tato seguia aquele anel.

— Interessante — disse Emma. — Acho... Emma sempre gostou disso nos contos de fadas, a maneira como as profecias acabavam se tornando realidade, mas de uma forma que ninguém esperava.

— E uma bela história — disse Emma.

— Isso não é uma história — retrucou Henry.

— Tudo bem — disse Emma. — E uma bela história sobre algo que não é uma história.

— Acho que da próxima vez que você se encontrar com Mary Margaret — disse Henry, deve olhar o que ela usa no pescoço. Antes de continuar pen­sando que é tão inteligente assim.

— O quê? — perguntou Emma. — Como assim?

— Porque ela está com ele — disse Henry.

—  O anel

Emma percebeu que sabia do que seu filho estava falando -- ela tinha visto o anel em uma corrente ao redor do pescoço de Mary Margaret. Emma não ti­nha pensado muito nisso nem perguntado o que era. Porque sempre imagi­nara que era herança de família.

— Então, só para ver se entendi disse Emma. — Sua professora, que é a Branca de Neve, que também é a minha mãe, se apaixonou por um homem com amnésia, que é o Príncipe Encantado; ela agora está usando ao redor do pescoço um anel que esteve, durante algum tempo, na posse de um grupo de trolls gananciosos que vivem debaixo de uma ponte; e esse anel foi antes rou­bado por ela do Príncipe Encantado, que estava por sua vez a ponto de en­trega Io a filha do Rei Midas, Abigail.

— Que é na verdade, hoje em dia, Kathryn — acrescentou Henry.

— Entendi—   disse Emma.

— Agora tudo está esclarecido. Henry assentiu.

— A-hã! Tudo esclarecido.

 

MARY MARGARET FOI PARA A PONTE do pedágio, sabendo que iria se magoar. Apesar do fato de ter realmente acreditado quando David lhe falou sobre seus sentimentos, o homem era bem esquisito, de certa forma, ele era... Ele não sa­bia quem era. Não literalmente, não metaforicamente, não de qualquer outra forma. Por que ela estava se deixando cair nessa?

"Porque uma parte de você acredita", veio a resposta de algum lugar dentro de Mary Margaret...

Como chegou cedo à ponte, decidiu descer até a beira da água para ouvir a correnteza fluir, para esperar. A lua estava grande e brilhante. Sua mão foi para o seu colar, e ela torceu o anel entre dois dedos enquanto se perguntava como seria sua vida com aquele homem. Será que os moradores da cidade iriam odiá-la por ter tirado David de uma mulher casada? Será que isso im­portava? Ela não sabia. O amor de fato valia a pena, entretanto. Isso era tudo o que sabia.

Ela esperou sozinha o que lhe pareceu um longo tempo. O prazer da fan tasia agora estava começando a se transformar em ansiedade. Ele estava atra­sado, e isso trouxe a realidade de volta. O outro lado dela —  o cético começou a assinalar claramente todos os problemas com essa situação, co­meçando com o que era óbvio: ela não o conhecia. Mary não conhecia esse ho­mem e estava agindo como se o amasse. O quanto, perguntou-se de novo, o quanto a solidão poderia fazê-la acreditar em uma coisa que havia inventado apenas para que doesse um pouco menos?

— Mary Margaret.

Ela se voltou e sorriu. Ela o viu

Você veio — disse ele, movendo-se cm sua direção. Ele parou quando chegou perto de Mary, no momento em que ela esten­deu os braços e tentou abraçá-lo.

Claro que sim —   disse ela. — Mas você parece... Desapontado.

— Não é isso — disse ele ainda sem fôlego. —  É que eu... me lembro.

Mary Margaret olhou em seus olhos, considerando com cuidado o que ele tinha dito, e em seguida deu um passo para trás.

— Lembrou-se de sua antiga vida, quer dizer   disse ela sem rodeios.

— De tudo— respondeu.

— Eu... eu me perdi no caminho e fui parar na loja do sr. Gold e vi isso... Esse moinho de vento estava à venda lá. E recebi toda essa enxurrada de lembranças de Kathryn, de termos comprado a casa juntos. Eu... está tudo lá, Mary Margaret. Um monte de coisas está lá. Estou me lembrando.

— E você se lembra de que ama Kathryn — disse ela. Ele olhou para ela.

Mas ela não disse nada, porque não tinha nenhum interesse em deixá-lo escapar sem mais nem menos.

— Eu... eu não sei — disse ele.   Simplesmente não sei. Mas me lembro dela agora, e sinto que tenho de honrar essas lembranças. É a coisa certa a fazer.

— A coisa certa a fazer, David — disse ela, com a voz trêmula. A coisa certa a fazer teria sido não me envolver nisso, para começar.

— Eu sei — murmurou David. Sinto muito. Entendo — disse ela.

— Você já fez a sua escolha. Seus olhos estavam secos. Ela sentia mais raiva que dor. Raiva de si mesma por não ter pensado direito. De que isso tudo fora apenas resultado de sua so­lidão, e do sentimento que sempre tivera de que merecia mais, um sentimento tão forte algumas vezes, que fazia parecer que ela de fato tivera mais em algum lugar, em algum tempo, e estava sendo agora torturada pela ilusão de uma vida quando tinha tão pouco.

Eu não sei— disse ele. Uma flecha perfurou seu coração. Ao ouvi-lo trabalhar seus sentimentos de forma tão violenta, tão descuidada, tão arrogante... Ela se virou para ele. Acho apenas que isso tudo não tem de ser. Melhor eu ir embora   disse Mary de costas para ele. Mary Margaret. Ela não disse nada, apenas seguiu o seu caminho. E não derramou nem uma lágrima até que estivesse sozinha.

 

EMMA NÃO SABIA DOS DETALHES sobre o que tinha acontecido entre David e Mary Margaret, nem que Mary Margaret tinha se dirigido ao bar, e que tinha bebido mais do que nos últimos seis meses. Enquanto Emma patrulhava a ci­dade, porém, sentiu uma nova tensão no ar. Storybrooke não parecia mais tão sonolenta quanto antes. Casos! Intrigas! Ela achava que gostava dessa nova Storybrooke. Se tosse perguntar a Henry, ele provavelmente diria que era a presença dela rompendo o statusquo. Ela ainda...

— Mas o que...? — exclamou Emma em voz alta.

Ela parou o carro.

Alguma coisa estava ocorrendo.

Ela estava na esquina da Rua Mifflin com a Principal, e podia jurar que ti­nha acabado de ver alguém pulando para fora da janela do segundo andar da mansão de Regina.

Emma desligou o motor, pegou o cassetete e deslizou em direção à aber­tura na cerca viva de Regina, que seria o local por onde a pessoa tentaria pas­sar para ir embora. Tomou fôlego, ouviu passos, levantou o cassetete e desceu-o com toda a força quando viu um vulto escuro.

O cassetete acertou a figura, que desabou no chão.

Depois de um gemido, ouviu uma voz que lhe pareceu familiar.

-— Ai.

-— Graham? — disse ela, ajoelhando-se e pondo a mão em suas costas.

— Que diabos esta fazendo aqui?

Percebendo qual seria a resposta à sua pergunta, ela ajudou o homem a se levantar, limpando a poeira de sua roupa.

— Ah. Entendo. Bem, sinto muito. Você está bem? — perguntou ela.

— A prefeita precisava de mim para.. —  disse ele.

— ... dormir com ela? — perguntou Emma.

Eles olharam um para o outro, e então Graham tentou explicar. Emma, um pouco enojada por ele, não queria ouvir nada. E assim, do nada, sua atitude perante as intrigas mudou.

 

                       O CORAÇÃO É UM CAÇADOR SOLITÁRIO

VOCÊ PERCEBE - DISSE MARY MARGARET ENQUANTO COMIA o seu cereal — que aquelas eram minhas, certo?

Emma olhou para a cozinha e viu o vaso quebrado gote­jando e a pilha de flores no canto. Ela tinha saído, visto as flores e perdido o controle. Um pouco.

Já não podia suportar a ideia de Graham continuar com sua missão de levá-la para a cama, especialmente agora que ela sabia sobre Re­gina. Emma tinha visto as flores, tinha concluído que eram dele, e jogado to­das no chão da sala. Algumas vezes ela era bem decidida.

Às vezes, ele também era. Na noite anterior, Emma tinha ido à lanchonete para tomar alguma bebida, e descobriu o xerife Graham lá, bastante alcooli­zado e extremamente beligerante.

As coisas tinham andado muito estranhas entre eles nos poucos dias desde aquela noite em que Emma o tinha apanhado saindo da casa de Regina, e, de certa forma, isso era de esperar. Ele não conseguia lidar com a ideia de alguém conhecer seus segredos, o que era verdade em relação a todos os homens que ela havia rastreado até então.

Desdém súbito. Isso era o que ela pensava, pelo menos, quando um Graham bêbado atirou em sua direção um dardo que quase a atingiu. As coi­sas ficaram ainda mais estranhas depois que ela saiu e ele a seguiu na rua.

"Estranhas" é só uma maneira de falar. Ela saiu da lanchonete, c o xerife apanhou sua jaqueta e a seguiu. Lá fora, o ar estava fresco. - Deixe-me falar com você - disse ele na calçada. Ela não parou, mas diminuiu o ritmo das passadas.

Sobre o quê? —  disse ela finalmente. Graham correu para alcança- Ia.

— Sinto muito. Deixe-me pedir-lhe desculpas. Deixe-me, por favor, deixe-me explicar. Explicarei tudo.

— Explicar o quê? Você está dormindo com a prefeita, que particularmente não aprecio que está tentando me manter afastada de meu filho, e que é, aliás, nossa patroa. Não há nada a explicar. Não quero o seu pedido de desculpas. Vá para casa.

Mas não sinto nada por ela. Eu não... Você não entende— respondeu ele. Emma parou de andar c se virou para encará-lo.

— Já estive em relacionamentos ruins, Graham — disse ela. Grande coisa. Saia disso c se aprume, rapaz. Não é problema meu.

— Estou tentando explicar a você disse ele. —Porque sinto algo, sim, mas é por roa'.

Isso pegou Emma desprevenida.

Ele se inclinou e beijou-a antes que ela pudesse reagir.

Para Emma, foi um sentimento estranho ser pega de surpresa dessa forma, e ela realmente não esperava que ele fosse fazer algo tão descarado. Por um momento transitório, antes que a raiva explodisse, Emma se permitiu sentir o que poderia ser ficar com Graham. Não por muito tempo. Mas foi um mo­mento agradável, não podia negar. O tipo de sentimento que não vivia ha muito tempo.

Ela não podia demonstrar-lhe isso, apesar de tudo.

— Que diabos você está fazendo? perguntou Emma, afastando-se. Havia um olhar distante nos olhos de Graham.

— Viu isso? — disse ele rapidamente, olhando ao redor.

— Se vi que você me beijou sem o meu consentimento? —disse Emma com raiva. — Sim, isso eu vi. Eu estava aqui.

— Não. Você não viu aquele lobo? — contrapôs Graham.

Não passe dos limites comigo de novo - avisou Emma de maneira rís­pida, dando um passo para trás, nem um pouco interessada em mais um de seus jogos.

—Não está tudo bem, não. Você está bêbado, e esteve perto de uma agres­são, do meu ponto de vista. Vá para casa, e acabe com isso.

—Sinto muito— disse ele. — Só quero sentir alguma coisa. Não posso...

—Tudo bem disse— Emma. Sinta alguma coisa. Isso e bom. Mas, seja o pie for, não vai senti-lo comigo.

Isso tudo aconteceu na noite anterior. Ela não parou de pensar no beijo desde então.

—Eram suas? — disse Emma, olhando para Mary Margaret.

— Pensei que fossem de Graham.

—Hum, não — disse Mary Margaret.

— Foram enviadas pelo dr. Whale.

— Ah disse Emma, ao mesmo tempo que ia para o armário buscar a pá de lixo. — Ah...

Enquanto Emma limpava a sujeira que tinha feito, Mary Margaret lhe contou sobre sua noite com dr. Whale. Emma sentiu uma espécie de alegre sa­tisfação ao imaginar sua amiga entregando-se a tais prazeres, por mais inofen­sivos que fossem. Tinha sido o oposto de sua experiência com Graham.

Mary Margaret precisava de um pouco mais de risco na vida e, além disso, deveria deixar David no passado. E aquele encontro foi bom. Emma disse isso a ela.

Talvez disse Mary Margaret. — Acho que sim. Mas sabe o que tam­bém é bom?

— O quê?

— Admitir que você tem sentimentos por alguém — disse Mary Margaret. Por exemplo, admitir que tem sentimentos com relação a Graham.

Emma franziu o rosto. Sobre o que você está falando?

— E tão óbvio, Emma - disse Mary Margaret, sorrindo maliciosamente. Todo mundo pode ver. Você não precisa sair por aí quebrando vasos para dei­xar isso ainda mais óbvio.

— O cara fica andando na minha cola, e isso é tudo — disse Emma, sa­bendo que não estava com muita vontade de contar a verdade. - Não posso fi­car irritada com isso sem que as pessoas fiquem fofocando?

—Emma — disse ela. — Vamos lá.

— O quê?

O muro— disse Mary Margaret. — Esse muro que você construiu em torno do seu coração. — E balançou a cabeça, encolhendo os ombros.

— Você acha que isso e uma coisa que a protege. E provavelmente protege mesmo. Mas ha um custo nisso.

Emma ficou surpresa com a nuvem de tristeza que se expandiu em seu peito enquanto ouvia as palavras da amiga. Uma parede, um muro. Um escudo. Ela não queria correr o risco de dizer nada, por medo de parecer emo­cionada demais. Então, em vez de falar alguma coisa, esperou, admirando aquela intuição emocional de Mary Margaret, e em particular ressentindo-se disso também.

— Ficará mais difícil sentir o amor — disse Mary Margaret — enquanto es­tiver se defendendo tão bem assim.

 

QUANDO SEU PAI MORREU, houve uma névoa. Branca de Neve não teria sido capaz de descrevê-la dessa forma imediatamente após o ocorrido, e, além disso, não havia ninguém com quem pudesse conversar sobre seus sentimen­tos. Um dia ele estava bem, e no dia seguinte tinha ido embora. Veio essa névoa, e Branca mergulhou sozinha nela por todo o funeral. Dor. Foi ela que causou a nevoa. Foi ela que criou o nevoeiro que se espalhou em sua alma. Branca de Neve não conseguia ver nada através dele, e não era ela mesma dentro dele. Era uma garota perdida e sozinha no mundo. Estava cega.

A neblina nunca se desfez totalmente, é claro. Ela nunca havia sentido uma perda como essa, e todo o seu ser pareceu ter se desfeito em frangalhos Ela não conseguia encontrar clareza, a paz parecia tê-la abandonado, a paz já nem sequer parecia possível. Nunca parece possível após a morte de um pai.

Ela também se sentia culpada, como se pudesse tê-lo salvado, mesmo que não soubesse muito bem o que poderia ter feito. Mais uma vez, foi tudo muito nebuloso.

Branca foi rapidamente transportada para longe do castelo pela Rainha e enviada para uma das propriedades rurais. Dormiu irregularmente na primeira noite lá, sonhando com seu pai como um homem mais jovem. Seu pai, o homem que lhe mostrou o mundo. O homem que lhe ensinou a conhecer a razão, a bondade e a compaixão. Mas, no sonho, continuava perdendo a pista do pai na praia; ela lhe mostrava conchas e, sempre que ia atrás de uma nova conchinha. Branca se virava, segurando a concha, mas ele não estava lá.

Ela quase não dormiu.

Na manhã seguinte, um cavaleiro - um dos guardas da Rainha, talvez?

—aguardava nos jardins. Ele se ofereceu para acompanhá-la em uma caminhada ela floresta.

Branca de Neve olhou em sua direção. Ele usava uma espécie de capacete, um elmo, e ela não podia ver seu rosto, mas se sentia desconfortável e não conseguia reconhecer sua voz.

Ela assentiu com a cabeça para o homem, e ele acenou de volta.

— Milady? — disse ele.

Gosto de manter um ritmo acelerado — disse ela, concordando. A cami­nhada lhe faria bem. — Por favor, tente me acompanhar.

Ele confirmou com a cabeça novamente, e partiram em direção à floresta.

Ambos caminharam em silêncio por algum tempo A jovem havia notado que o homem parecia desconfortável com aquela armadura pesada.

 

A floresta estava calma. Seus pensamentos foram novamente para o pai dessa vez, para o homem que ela tinha visto se apaixonar pela Rainha, todos aqueles anos. Ele ainda se mostrava gentil e compassivo na época, mas Branca de Neve jovem como era então— percebia como a solidão havia conseguido invadir seu espírito. Mesmo o homem mais sábio poderia se tornar... outra coisa. Após o desgosto causado por um coração partido, tudo era possível.

—Quando estavam longe do castelo, Branca de Neve começou a falar.

— Quando eu era garotinha — disse ela —, o palácio de verão era o meu lu­gar favorito. A montanha ao redor era como se fosse um berço. Ela sempre me fez sentir segura. Estou ansiosa para voltar aqui, muito mesmo. — Fez uma pausa em sua fala, mas continuou a caminhar. - Porém, me pergunto agora se aquele sentimento de segurança não vinha de fato do meu pai, c não do pró­prio palácio.

O estranho cavaleiro espreitou-a através da fenda do elmo. Ela parou de andar e se virou para encará-lo, estudando-o de volta.

— Vamos, vá em frente — disse ela. - Pode tirar isso.

O homem fez o que lhe foi sugerido e retirou o elmo da cabeça. E Branca o estudou. Ele era bonito, magro e de aspecto severo. Uma barba irregular cobria seu queixo. Mas o homem não disse nada.

— Muito mais fresco dessa forma, não é? — disse ela.

O cavaleiro assentiu com a cabeça, colocando o capacete debaixo do braço.

— E você não é um cavaleiro real, não? —perguntou ela. Como você sabe disso? — perguntou o homem.

—Porque, sem falhar, sempre que menciono o nome de meu pai, recebo as condolências de um cavaleiro Mas você e outra coisa, não e? — perguntou ela.

— Você é quem a rainha escolheu. Para me levar embora. Para me tirar do ca­minho — disse Branca de Neve, respirando fundo e preparando-se.

— Você tem bons instintos — respondeu ele, deixando cair o capacete.

E colocando a mão no punho da espada.

— E você tem armadura demais — disse ela.

Antes que o homem pudesse reagir, ela se enrolou e explodiu em direção a ele, com os braços esticados para frente. Atingiu-o no estômago, o suficiente para mandá-lo tropeçando para trás. Não acostumado a que seu centro de gra­vidade estivesse tão alto, o tropeço se transformou em uma pesada queda. Branca já tinha avançado uma boa centena de metros antes que o cavaleiro fi­casse de pé novamente, para persegui-la.

—VOCÊ SABE QUE sou UMA BOA PESSOA, não é verdade, Mary Margaret?

Graham estava na escola. As aulas já haviam terminado. Ele e Mary Mar­garet conversavam do lado de fora de sua sala de aula, e os poucos alunos res­tantes sussurravam pelos corredores. Mary olhava para ele com uma preocupação suave estampada nos olhos. Aparentemente, o xerife vinha se sentindo desorientado desde aquele "incidente" com Emma na noite anterior. Mary Margaret não podia dizer o que estava acontecendo com aqueles dois, mas queria ajudar. De algum modo.

— Claro. Graham — disse ela. Claro que sim. E você, está bem? Está co­berto de suor e branco como um papel. Não tem dormido bem?

— Ela sentiu o rosto dele.   Você está queimando. O que andou fazendo durante a noite toda?

— Não sei, eu... Venho tendo essa sensação de que você e eu já nos conhe­cemos - disse ele. — Em algum tipo de... Não sei, em uma espécie de outra vida, entendeu? Não sei. Parece loucura. Balançou a cabeça e olhou para o corredor. — Sinto muito por ter vindo aqui. Não sei o que estou tentando con­seguir.

— Por que acha isso? -- perguntou ela.

— A noite passada —respondeu ele , quando beijei Emma, tive toda essa visão. De... de alguma coisa. Outro mundo. E você estava lá, e nós nos conhe­cíamos. De algum modo. Eu estava... estava atacando você. Com uma faca. Acho, não sei! Não sei porque estaria fazendo isso

— Você está parecendo Henry falando - disse ela. Henry?

— Ele acha que somos todos personagens de seu livro de histórias disse ela.   E que não conseguimos nos lembrar, só isso.

— Que tipo de livro? — perguntou Graham.

Um livro de contos de fadas - disse Mary Margaret, ao mesmo tempo que dava de ombros. Branca de Neve e os anões, esse tipo de coisa com­pletou, revirando os olhos.

— Sim, eu sei — disse ele. — Esse menino. Que louco!

 

EMMA SWAN ESTAVA SENTADA com os pés sobre a mesa do xerife quando Re­gina invadiu o escritório. Emma olhou para ela rapidamente e não se moveu.

— É tão maravilhoso ver você. Regina   disse ela.

Maravilhoso? — disse Regina com desdém.

— Cumprindo seu dever cí­vico, então?

— Estou no meu horário de descanso, senhora — disse Emma, franzindo o cenho para ela. - O que deseja?

— Quero deixar as coisas bem claras respondeu Regina. — Para você. So­bre Graham. Fique longe dele.

Emma ficou absorvendo isso durante alguns instantes, imaginando que o que Regina devia ter pensado era verdade. Será que havia corrido algum boato sobre o beijo? Talvez. Ou talvez Graham houvesse dito algo a ela.

— Ele é meu chefe   disse ela finalmente. — E, assim sendo, não posso ficar longe do meu chefe. Agora, se você está falando com relação à noite passada acrescentou Emma —, foi algo espontâneo e não solicitado. Então, não sei o que lhe dizer a não ser que não estou interessada nele. Pode ficar com o xerife o quanto quiser.

— Você tem sido um estorvo desde que chegou a esta cidade, Srta. Swan disse Regina. — Se eu fosse você, tomaria muito cuidado para não pintar a si mesma como a vagabunda da cidade.

"Tudo bem. então", pensou Emma.

—Faça --me um lavor. Regina   — disse Emma sem rodeios.

— Caia tora do meu escritório. E nunca mais volte a falar comigo desse jeito de novo.

Regina parecia satisfeita, porque aparentemente tinha atingido algum ponto nevrálgico de Emma, deixando-a nervosa. Sorriu e saiu sem dizer uma palavra.

Emma a observou indo embora, trancou a porta, e então cuidou de alguns papéis por uns minutos, deixando a irritação esfriar. Estava acostumada a ter Regina intrometendo-se em sua vida e dizendo coisas incendiárias — o que aparentemente era parte do trabalho dela, mas dessa vez foi um pouco dife­rente. Dessa vez foi sobre sua vida romântica, e não sobre seu filho. Emma po­dia ver que a raiva de Regina tinha abordado um novo ângulo a partir daquele momento.

Mas não foi apenas isso. Ela sentiu algo também. Talvez Mary Margaret estivesse certa. Talvez ela tivesse erguido algum tipo de parede ao seu redor. Uma parede tão perfeita, tão sem emendas, que nem sabia que estava lá, e muito menos conseguia enxergar por cima dela. Será que, de fato, nutria senti­mentos por Graham?

Foi despertada de seu devaneio poucos minutos depois pela voz do filho chamando seu nome.

— Emma, Emma! — gritou Henry, correndo pela delegacia com a mochila pulando atrás dele.

— Ei, ei, ei, garoto— disse ela, já em pé.

— Acalme-se. O que há de errado? Henry, ofegante, tirou a mochila das costas e jogou-a no chão.

— É Graham - disse ele. — Acho que ele está começando a se lembrar!

— Começando a se lembrar do quê, garoto? — perguntou ela.

—Sente-se. Retome o fôlego.

Emma pegou um pouco de água, e Henry finalmente se sentou ao lado de sua mesa e se recompôs. Depois, disse que Graham tinha ido vê-lo. Esteve lá para perguntar sobre o livro e sobre os contos de fadas.

— E o que você disse a ele? - perguntou Emma. Henry olhou para baixo.

— Henry?

— Eu contei a ele o que acho que deve ser a verdade —disse Henry.

— Disse que ele era o Caçador, e que esses flashes que viu quando beijou você foram flashes dele se lembrando daquele tempo.

— Ele lhe contou sobre isso? — perguntou ela. Henry encolheu os ombros.

— Sim — respondeu. — Mas eu já tinha ouvido sobre isso, de qualquer ma­neira.

"Cidades pequenas" pensou Emma. Isso resolveu o mistério de como Re­gina sabia do beijo.

Ela não gostara da ideia de Graham, que obviamente não era ele mesmo, ficar correndo pela cidade tendo visões de alguma coisa, e certamente não gostara da ideia de ele ir procurar uma criança acreditando no que ela tinha a dizer sobre a intersecção entre a fantasia e a realidade. Graham estava, é claro, potencialmente no meio de um surto psicótico, percebeu. Emma pre­cisava encontrá-lo.

— Para onde você o mandou? — perguntou ela.

— Não vou mandá-lo a lugar nenhum— disse Henry.

—Contei a ele apenas que a Rainha o aprisionou em um acordo e lhe ordenou que fosse matar Branca de Neve.

Emma franziu o cenho. No universo de Henry, a Rainha era Regina, e Branca de Neve era Mary Margaret.

— E por que ela faria isso? — perguntou Emma.

— Porque a Rainha matou o pai de Branca de Neve, e ela sabia que tinha de se livrar de Branca de Neve também. Mas não podia fazê-lo sozinha, por­que não queria correr o risco de ser descoberta. Então, foi procurar pelo inte­rior e encontrou o Caçador — respondeu Henry.

— Tudo bem.

— E dai que vem a coisa do lobo —disse Henry.

— Ele amava os lobos, c ti­nha um lobo como amigo. E a Rainha sabia disso, então prometeu proteger os lobos se o Caçador a ajudasse a matar Branca de Neve.

— E então, o que aconteceu?

— O Caçador vestiu-se como um dos guardas de Branca de Neve — disse Henry — e quase a matou, mas ela fugiu. Enquanto ele estava atrás dela, percebeu de repente que não queria fazer isso.

— Quanta bondade... — disse Emma, inclinando-se para trás em sua ca­deira. Olhou para a mochila largada no chão.

— Você realmente conhece essas histórias de cor, não é? Nem mesmo pre­cisa do livro.

—Conheço todas elas — respondeu Henry.

Emma não gostou do jeito como ele disse isso.

— Então, para onde ò que ele foi quando vocês acabaram de conversar? — perguntou.

— Não sei disse Henry. Ficou muito chateado quando contei que a Rainha roubou seu coração, ao descobrir que ele...

— Então, você não sabe onde ele está? — perguntou Emma.

— Tudo o que ele disse — respondeu Henry foi que precisava encontrar o lobo. Antes que fosse tarde demais

Um lobo.

Com certeza

Emma tinha visto uma dessas coisas. Uma vez.

 

ELA FOI MAIS RÁPIDA DO QUE ELE ESPERAVA— os homens sempre a subesti­mavam. Ela sabia que não seria capaz de fugir dele para sempre, mas teria tempo suficiente para fazer o que precisava. Depois de alguns minutos pela floresta, Branca de Neve encontrou uma árvore atrás da qual se esconder sem ser vista, agachou-se e começou a escrever uma carta para a Rainha. Desde que pudesse dizer o que queria, ela poderia aceitar sua morte. Desde que a mensagem chegasse.

Em poucos minutos, o Caçador a encontrou. Ela já havia concluído o texto.

Branca mal olhou para cima quando ele surgiu ao lado do tronco da árvore.

Ofegante, ele a agarrou pelos braços, viu o que estava fazendo e balançou a cabeça, descrente.

— Você está correndo para salvar sua vida e decide parar e escrever uma carta? — perguntou o homem. — Nunca vou entender as pessoas. Sejam nobres ou não.

— Ele levantou o punhal.

— Você teria me capturado com o tempo disse ela, deixando de lado a pena e dobrando o papel. O homem fez uma pausa com o punhal. Este foi um melhor uso do meu tempo. Ela olhou para cima e segurou a carta para ele.

— Por favor, entregue esta carta a Rainha depois de me matar.

O que ela diz? — perguntou ele.

— Pode lê-la, se quiser disse ela. — Não é um truque — acrescentou Branca, vendo o ceticismo em seu rosto. - Pode ler primeiro, e depois pode me matar Estou pronta.

Cautelosamente, ele estendeu a mão livre e pegou a carta. Enquanto lia as palavras dela, Branca de Neve viu como ele lentamente deixou o punhal cair para o lado do corpo.

E então, uma surpresa: ela viu uma lágrima em seu olho. Viu quando a lá­grima escorreu pelo rosto do homem.

Branca de Neve não disse nada.

O homem enfiou a carta em sua túnica.

— Pegue isto— disse ele, segurando um pedaço de junco.

—Ele funcionará como um apito. Sopre quando precisar de ajuda. A ajuda virá. Você está me deixando... ir?

Sim. vá — disse ele, endireitando-se.

—Ganharei o máximo de tempo que puder.

— Mas... por quê?

Corra   disse ele. — Não me faça mais perguntas. Basta correr, menina.

 

GRAHAM ESTAVA SAINDO DA CASA DE REGINA quando Emma o viu. Ela passou por ele, parou atrás de sua picape e estacionou, esperando que ele chegasse. Logo, ele se aproximou.

—Ei, xerife —disse ela. — Você parece estressado. Posso lhe falar um mi­nuto?

Ele olhou para cima e a viu em pé na frente de seu carro, de braços cruza­dos.

— Não agora, Emma — disse ele, continuando a andar.

—Estou ocupado Você deveria estar na delegacia.

— Estou tentando ajudar.

— Mas não está ajudando — disse ele.

— Ei, pare— disse ela, vindo em sua direção.

Emma colocou a mão no braço de Graham e disse-lhe que ele precisava de algum descanso, que não era bom dar tanta atenção a uma criança de dez anos de idade. Graham, frustrado, disse a ela que Henry era a única coisa que pare­cia fazer algum sentido em tudo aquilo. Tentou contar a ela sobre o lobo para lhe dizer que de alguma forma aquilo se encaixava, que ele não podia sentir mais, que n.io sentia nada ha muito tempo.

— Não tenho coração — disse ele.

—E não posso dizer de outra maneira.

     — Você tem, sim — disse Emma, balançando a cabeça para ele.

Como aquele homem pudera cair nessa espiral de loucura depois de ape­nas um contato no meio da rua? Claro, ela não podia negar que Graham havia se excedido, mas foi apenas um mau momento, ele tinha bebido. Porém, pode­riam consertar tudo. Emma não entendeu o que tinha acontecido com ele.

— Graham, vamos lá — disse ela, dando um passo a mais e se aproximando dele. Depois, pegou a mão do xerife, levou-a ao seu peito e a segurou lá. -Sinta.

Ele fechou os olhos e inspirou.

— Isso é apenas uma maldição - disse ele.

— Não é real.

— Não disse Emma. — Não é. Isso é você. Esse é o seu coração. Você está bem.

Olhando por cima do ombro de Emma, Graham disse:

—Estou?

Ela franziu o cenho para isso, curiosa, e se virou para olhar. Ela engasgou. O lobo. O lobo estava lá, parado na calçada, bem perto, a menos de três metros deles.

— E-eu vi aquele lobo antes —disse Emma.

Na sua primeira noite ali. No meio da estrada, quando ela tentou sair de Storybrooke. Graham tinha feito troça dela.

E agora ali estava ele, perseguindo-a.

"Mas o que realmente está acontecendo aqui?", Emma pensou.

— Então, somos dois — disse Graham. — Venha.

 

ELES SEGUIRAM O LOBO PELA FLORESTA. Graham recontou a Emma a história que tinha ouvido de Henry que, no outro mundo, a Rainha tinha roubado seu coração — e disse que lhe ocorrera naquele momento que o lobo poderia guiá-lo de volta para o seu coração.

— Esse lobo era meu companheiro no outro mundo — insistiu Graham. — Acho que ele está tentando me mostrar onde encontrá-lo.

— Mas você já tem seu coração, Graham — disse Emma.

Ele balançou a cabeça

— Não. Eu tenho de pegar o meu coração de volta, Emma — disse ele. Tenho de fazer isso.

— Preciso mostrar mais uma vez como você parece insana agindo desse jeito? — perguntou ela.

— Não é necessário — disse Graham, distraído.

— Veja.

Eles estavam na entrada do cemitério. O lobo tinha trotado até uma grande cripta e parado, farejando na porta, olhando para eles. Emma teve de admitir, aquele lobo se parecia demais com o animal que vira quando tentava partir de Storybrooke.

— Lá dentro —disse Graham. — Meu coração está lá dentro.

Ele correu para a cripta. Emma o seguiu.

O interior da cripta estava relativamente limpo, considerando-se o que era, e Graham começou a procurar ao longo das paredes e do chão da pequena sala de pedra, claramente tentando descobrir um painel secreto, alguma coisa. Nada. Emma apenas observava, sem saber direito o que fazer. Ela poderia tentar encontrar uma maneira de trazê-lo de volta à realidade? Ou isso que ele estava sofrendo era algo maior, algo que exigiria... hospitalização?

A breve pesquisa que Graham fez não revelou nada.

Ele olhou ao redor novamente. Então, em seguida, deixou seus olhos pou­sarem sobre o caixão que ali estava.

— Não. Você não pode sair por aí desenterrando sepulturas, Graham disse Emma. — Pare por um segundo. Pense nisso. Deixando a lei de lado, você não está bem. Você...

— O que vocês dois estão fazendo aqui?

Emma e Graham se viraram, assustados com a terceira voz que surgira na cripta.

Regina, segurando flores, a poucos metros de distância da cripta, estava parada com um olhar de choque legítimo no rosto.

— Trabalho policial — disse Emma, saindo para a grama.

— O que você está fazendo aqui?

Colocando flores no túmulo do meu pai — disse ela —, como é meu há­bito semanal.

"Conversa", Emma pensou, olhando para Regina com grande ceticismo. Aquele era o túmulo do seu pai? Não era nada além de suspeito. E essa palavra nem sequer fazia justiça ao que Emma estava pensando.

— Estamos procurando algo — disse Graham a Regina.

— Você não me parece nada bem, querido — disse Regina, suavizando o rosto, já que agora via Graham. - Venha, vou levá-lo para casa.

— Não.

Regina, tensa, dirigiu o olhar para um e depois para o outro. Finalmente, ergueu o queixo e assentiu.

— Entendo Você e ela.

— Não tem nada a ver com isso disse Graham com firmeza. É sobre você. Eu não a amo e eu não quero estar com você. Não mais, Regina. Não me parece direito. — Ele balançou a cabeça e olhou para baixo, frustrado. Graham tentou mais uma vez. Não sinto nada quando estou com você. E quero a chance de sentir... alguma coisa.

Regina sentiu-se rejeitada, e uma onda de fúria surgiu em seus olhos. Emma viu Graham preparando-se para receber mais algum xingamento no estilo padrão de Regina, mas, de repente, os olhos dela se viraram para Emma.

— A culpa é sua - disse ela. — Não pode ficar longe daquilo que amo, pode?

— Bem, eles não param de procurar por mim, Regina— disse Emma.

— Talvez você devesse se perguntar por que as pessoas continuam fugindo de você.

Sentiu-se bem ao dizer isso.

— Regina, não é...

Regina ignorou as palavras de Graham e deu um passo rápido em direção a Emma, deixando cair às flores na grama, e, para surpresa de todos, deu um soco direto na boca de Emma.

Sua cabeça pendeu para trás e ela sentiu uma dor muito forte em torno da boca, mas não caiu, e conseguiu se manter estável esticando o braço e se apoiando no caixão. Viu quando Graham pulou para conter Regina antes que ela pudesse atacá-la novamente.

Emma olhou para Regina por mais outro momento, enquanto esfregava o queixo.

Então, sem dizer uma palavra. Emma se afastou. Ainda ouviu o final da conversa entre eles enquanto se dirigia de volta à cidade. Não iria fazer nada naquele momento.

Graham — tentou Regina. Sua voz tinha suavizado.

— Não fale comigo — disse Graham. — Não fale mais comigo. Não temos mais nada. Nunca mais.

Emma sorriu.

 

MAIS TARDE, Graham limpou o pequeno corte no queixo de Emma com água oxigenada. Ela protestou, mas deixou que ele o fizesse. Ela gostava de estar perto dele, da atenção que ele estava lhe dando. E gostou do que ele tinha dito lá atrás, na cripta. Para Emma, esse podia ser o início de uma nova história. Uma nova história de amor, talvez, apesar de Emma nunca tê-la chamado as­sim antes.

Não entendo nada disso — dizia Graham. O lobo, nada disso. Acho que muito do que tem acontecido pode ser por causa de Regina. E possível sentir-se louco quando se está no relacionamento errado.

— Fale-me sobre isso— disse Emma.

— Em primeiro lugar, não sei como pude ir tão longe nesse relacionamento com ela — disse o xerife.

— Pois eu sei por que fazemos isso disse Emma, pensando em todas as ve­zes que isso já tinha ocorrido com ela.

— É seguro. E ficar sozinho é terrível. Ai!

Graham passou água oxigenada sobre o corte aberto, que ardeu. Ele sorriu desculpando-se e tocou sua mão.

— Tudo vai ficar melhor — disse Graham.

— Estamos chegando lá — disse Emma. Inclinou-se e o beijou. Parecia a coisa mais certa a fazer.

Foi bom, e muito breve. Uma pequena brecha no muro, pensou Emma. O xerife se afastou dela depois de um momento. E sorriu para ela de forma estranha.

— O que houve? — perguntou Emma.

— Há algo de errado?

— Eu me lembro — disse ele. Você se lembra do quê?

— A primeira vez que nos beijamos, eu tive um flash disto — disse Graham. —Só um flash.

 

Foi isso que despertou tudo. E agora, agora posso me lembrar de tudo. — Ele estava ficando cada vez mais excitado. E pegou a mão dela.

—Ela é a Rainha Má, Emma. Ela...

As pernas de Graham de repente se dobraram, e Emma estendeu a mão para ele, preocupada.

— Você está bem? — perguntou ela.

Enquanto seus olhos se viravam para trás, ele tentou reunir forças para emitir um som, mas Emma não conseguia entender o que ele tentava dizer.

— Ei, ei! — disse ela, segurando-o para ficar de pé.

— Vamos lá, Graham. Você está apenas com tontura, não é?

Mas era muito pior do que uma tontura, ela logo percebeu, e o peso do corpo dele forçou ambos para baixo. Ele olhou tristemente para Emma. A tristeza foi o que realmente a assustou.

Graham! — gritou ela, sacudindo-o. — Graham!

Ele gemeu novamente e tomou fôlego algumas vezes.

—Eu amo você — disse ele.

— Não se comporte como se estivesse morrendo, Graham — disse ela, e o pânico tomava conta de sua voz. — Por favor, não faça isso!

Ele estendeu a mão e tocou o rosto de Emma. Ela estava chorando. Ele usou toda a força que tinha para enxugar as lágrimas dela.

 

E ELE SE FOI. . Desse jeito, ele se foi sem muita explicação. Parada cardíaca? No momento em que a ambulância chegou, Emma já sabia, no fundo de seu cora­ção, que ele deixara este mundo. Ela ficou com ele sentada no chão, chorando sobre o corpo do xerife, ate que os paramédicos, delicadamente, precisaram removê-la de perto dele. Emma ficou em choque quando eles o puseram na maca e o levaram embora. Não havia necessidade de ir ao hospital. Era óbvio para todos na sala. Ao contrário de John Doe, Graham não acordaria mais. Não haveria milagre nesse caso.

 

                                                                    CORAÇÕES PERDIDOS

 

                           ALMAS DESESPERADAS

DESDE A MORTE DE GRAHAM, EMMA VINHA ANDANDO COMO,

uma sonâmbula no trabalho de xerife temporária. Storybrooke, de repente, passou a ser de novo uma cidade tranquila, como se estivesse dando algum espaço a Emma para lamentar a morte de seu amigo.

As informações sobre Graham eram simples: ele morrera de causas naturais, uma fibrilação no coração que o perseguia desde a infância.

O dr. Whale mostrou-lhe o exame e Emma aceitou, mas uma parte dela suspeitava de algo errado com a morte de Graham. Contudo, isso não queria dizer que ela estivesse preste a acreditar em maldição. Era apenas o tipo de coisa que as pessoas costumavam pensar quando se sentiam vulneráveis, e ela tinha visto isso acontecer milhares de vezes. A verdade era que Graham se fora, e ponto final.

Era uma manhã de quarta-feira quando Emma chegou ao escritório, na delegacia, c encontrou uma mensagem no correio de voz. O Sr. Gold lhe pedia que fosse ate sua loja de penhores quando ela achasse conveniente. Com nada mais acontecendo, ela pegou seu café e voltou para o carro de policia.

Encontrou Gold no escritório, aplicando algum tipo de liquido claro em um tecido. Emma supôs que o odor horrível que impregnava aquela sala, entre estéreo e suor, vinha daquilo. Quando ela se anunciou, Gold não olhou para cima, mas continuou a aplicar o líquido.

Lanolina — murmurou o homem.

— É disso que vem esse cheiro.

— Adorável   — disse Emma.

— É pela mesma razão que a lã de ovelha repele a água — observou ele. Incrível, realmente. Altamente inflamável, é claro.

— Recebi a mensagem. O que posso lazer por você? — disse Emma.

— Eu queria expressar as minhas condolências pela morte do xerife Gra­ham, agora que a poeira já baixou — disse Gold, finalmente erguendo os olhos. Emma não teria chamado aquele olhar de simpático, mas podia ver que ele es­tava tentando ser gentil. — Não é bom para a cidade. Mas sei que vocês eram próximos.

— Gold começou a limpar em torno de sua mesa.

— Você vai se sair bem como substituta dele.

— Não estou substituindo o xerife Graham.

— Duas semanas atuando como xerife faz de você a xerife, Srta. Swan. Isso é o que diz a lei.

—   Não me diga... — replicou Emma.

Ela não tinha bem certeza do que pensava da ideia. Xerife Swan...

— Eu também queria informar que tenho algumas das coisas dele aqui, e gostaria de lhe perguntar se deseja ficar com algo. — Gold levantou-se, pegou uma caixa de papelão em uma bancada ali perto, e levou-a até ela.

Colocou a caixa sobre a mesa, e Emma viu uma série de itens que logo re­conheceu: a jaqueta de couro de Graham, seus óculos de sol e o celular.

— Não quero nada disso — disse Emma sem emoção na voz, olhando para a caixa.

Sentiu uma forte aversão só de pensar na ideia de ficar com as coisas de Graham, e a força desse sentimento a surpreendeu. Perguntou-se, por um mo­mento, como Gold tivera acesso àqueles itens, mas fazer perguntas significava continuar a discutir sobre Graham. Ela não podia fazer isso agora.

— Não? — disse Gold casualmente. — Que tal isto? — Ele puxou dois walkie-talkies da caixa. — Estes parecem ser de policiais. Você não tem utilidade para eles? — Ou será que seu menino não iria querê-los para brincar, pelo menos?

Emma suspirou e pegou os dois walkie-talkies.

— Tudo bem — disse. —Obrigada.

— As crianças crescem tão rápido disse Gold. Você vai querer guardar tantas lembranças quanto puder.

Emma olhou para ele. Gold estava fazendo aquela mesma cara, algo entre compassivo c desonesto.

— Não sei — respondeu Emma.

 

EMMA ENCONTROU HENRY sentado em seu "castelo" à beira-mar. Faltava ape­nas meia hora para começarem as aulas, e ele estava de muito mau humor; não pareceu nem um pouco animado com os walkie-talkies, apenas pegou-os e os enfiou na mochila. Emma sugeriu que poderia usá-los para continuar sua Operação Cobra, mas o garoto apenas olhou para trás quando ela mencio­nou isso, e depois voltou a observar o mar. Aquilo que antes parecia trazer uma energia maliciosa a seu olhar agora não exercia praticamente nenhum efeito.

— O que há de errado? — perguntou ela, depois de alguns minutos de silên­cio.

— Sinto que devemos parar a Operação Cobra — disse Henry.

—Parecia muito divertido. Mas agora o xerife Graham está morto.

— Isso não teve nada a ver com você nem com a maldição. Ele tinha um co­ração doente. E sabia disso desde muito cedo.

Henry virou-se e olhou para ela com grande seriedade.

— Não foi isso o que aconteceu — disse ele. — A Rainha matou o xerife, porque vocês dois estavam se apaixonando e ele era escravo dela. E ela estava louca da vida.

— Sei que você pensa desse jeito, mas às vezes acontecem coisas ruins sem nenhum motivo.

— Isso não é verdade, não retrucou o menino, cada vez mais agitado.

— Ela o matou porque ele era bom, e o bem sempre perde por aqui. E você é boa, e isso significa que você vai perder...

— O bem nem sempre perde — replicou Emma.

— O que acontece é que é mais difícil para o bem, porque joga com mais regras.

Henry pareceu vagamente interessado nesse ponto, embora ainda tenha permanecido distraído, desligado.

— Verdade, o bem deve jogar limpo — disse ele.

— Olhe, Henry, você precisa tirar da cabeça essa ideia de que Regina ma­tou uma pessoa   disse Emma. —Ela não fez isso. Não é justo com ela.

Henry sorriu.

—O que é? — perguntou Emma.

— Você tem razão —   disse ele. —Não devemos deixá-la ainda mais furiosa do que ela já está Não é?

Emma ergueu a cabeça.

— Não foi isso que eu quis dizer, garoto.

— Eu sei — disse Henry. — Mas, ainda assim, é melhor.

 

ELA DEIXOU HENRY NA ESCOLA e em seguida voltou para a delegacia, pronta para mais um longo dia de... muito pouco a fazer.

Quando entrou, seus olhos foram direto para a mesa de Graham, como sempre faziam. Seu distintivo ainda estava lá. Emma se imaginou usando aquilo imaginou como seria mudar toda a sua vida, estabelecendo-se em um lugar. Foi até a mesa e pegou o objeto.

— Você não vai precisar disso. Emma virou-se nos calcanhares.

Regina, de braços cruzados, estava na porta.

— A posição vem automaticamente para mim amanhã —disse Emma.

— Não e isso que diz a lei?

Sim, ela vai automaticamente para você, se o prefeito não nomear nin­guém — disse Regina, passeando pela sala, olhando com desdém para a ba­gunça na mesa de Emma. — E estou nomeando alguém nesta tarde.

— Quem? — Disse Emma.

— Sidney Glass, do Storybrooke Daily Mirror — disse ela casualmente. Ele conhece bem a cidade, já está aqui há algum tempo

— Um repórter? — perguntou Emma. — Ele não é qualificado para o serviço.

— Ah, pois eu acho que ele será ótimo— respondeu Regina, sorrindo.

— E será ótimo ter alguém aqui que não esteja trabalhando ativamente para me prejudicar.

— Graham me escolheu por uma razão, Regina — disse Emma.

— Sei que você não gosta disso, mas foi assim que aconteceu.

— Sim, uma razão, eu sei — disse ela. — Ele queria dormir com você. Isso não é verdade.

— Não é? — continuou Regina. Como Emma não conseguisse pensar em nada que pudesse dizer como resposta, a prefeita completou: De qualquer maneira, é hora de resolvermos isso de forma definitiva. Você e eu sabemos que é inapropriado você continuar sendo empregada pela cidade. Por isso, teia de arrumar algum outro trabalho.

—O que esta dizendo? —   perguntou Emma.

—Estou dizendo —disse Regina, pegando o distintivo de Graham das mãos de Emma — que você está sendo despedida.

 

EMMA FOI FALAR COM GOLD. Havia algo em seu comportamento anterior que lhe dera um palpite de que ele estaria interessado em ajudar. Ele não estava sendo amigável, não havia isso de ser amigável, com ele. Gold queria apenas que Emma fosse a xerife.

Em sua loja, Emma contou o que Regina tinha feito. Isso tudo parecia uma espécie de jogo de xadrez para ele.

— Regina está quase certa disse ele, puxando um documento da gaveta de um armário atrás de sua mesa. Era um documento velho e empoeirado. Ele abriu e mostrou. — Este é o estatuto da cidade — disse Gold com um sorriso, ao abri-lo na bancada. — Deixe-me mostrar onde a prefeita está errada.

Regina convocou uma entrevista coletiva em seu gabinete, mais tarde, na­quela manhã, para anunciar a contratação de Sidney Glass como o novo xerife da cidade.

Glass, como era de se esperar, estava radiante na frente das câmeras, entu­siasmado com essa promoção, sempre tão ansioso para fazer as vontades de sua amada prefeita. Emma não conseguia suportar aquele cara.

Mas as coisas não eram tão simples, como Gold tinha apontado. Ela ficou por ali e assistiu à arrogante entrevista coletiva de Regina por apenas um minuto ou dois antes de decidir dar seu próximo passo

Quando Emma entrou no gabinete, até mesmo Regina pareceu surpresa.

— A coisa não é bem assim — disse Emma. Ela não pode nomeá-lo desse jeito, sem mais nem menos. Temos de ter uma eleição. E eu estou concor­rendo.

— O prefeito tem o direito de...

Não, não tem interrompeu Emma, erguendo a cópia do estatuto de fundação da cidade para quem quisesse ver. E destacou a passagem.

O prefeito pode indicar um candidato, mas deve haver uma eleição.

Tudo bem. srta Swan disse Regina, sem se preocupar em pegar a có­pia para examinar com cuidado.

— Vamos continuar com as formalidades. E o candidato que já nomeei, o sr. Sidney Glass, será, então, o novo xerife. — Sidney Glass, por sua vez, parecia desnorteado com todos aqueles acontecimen­tos, mas manteve seu sorriso para as câmeras.

—Que tal isso?

— Perfeito — disse Emma.

As câmeras todas se voltaram para ela.

 

ALGUMAS HORAS DEPOIS DE estragar os planos da prefeita, Emma estava fa­zendo a ronda, a pé, quando entrou na lanchonete e viu Henry através da ja­nela. Ele estava em um compartimento, sozinho. Ela sorriu ao vê-lo ali, lendo o que supôs que fosse o livro de histórias. Mas quando entrou, percebeu que ele estava lendo o jornal, não o livro.

— Estudando os acontecimentos atuais?

Henry olhou para ela e Emma notou que ele estava muito preocupado.

— O que foi?

— Você ainda não viu, não é?

Ela se sentou no compartimento e puxou o jornal por cima da mesa. Sua antiga foto da prisão estava lá, a que Graham tinha tirado e ela sentiu uma pontada de tristeza quando aquela pequena lembrança voou através de sua mente como um passarinho, mas o título era novo. Dizia: "Ex-presidiária Emma Swan deu à luz atrás das grades".

Emma retesou-se, sentou-se e pegou o jornal.

— Como é que eles fazem isso tão rápido? — murmurou, passando os olhos pela notícia.

O artigo escrito por Sidney Glass incluía todos os detalhes de seu inci­dente de estar "em posse de bens roubados". O que era impossível. Ou deveria ter sido impossível, de qualquer maneira.

— Isso é verdade? — perguntou Henry em voz baixa. — Eu nasci na cadeia? Ela olhou para ele por cima do jornal e, em seguida, pousou-o em cima da mesa.

— Sim, é verdade — respondeu Emma —, mas é complicado. Eu não quis que você soubesse, porque não achei que isso importasse.   Ela suspirou, pegou o jornal e dobrou-o. — Vamos nos livrar disso. Venha. Vamos até o seu castelo.

—É a mesma coisa de novo — disse Henry. — O mal sempre ganha, porque ele não precisa jogar limpo. Você não pode simplesmente jogar isso fora. Essa notícia já acabou com sua eleição.

— Nada está acabado, Henry — retrucou ela. — Vamos ter apenas de fazer alguns ajustes. — Ela estendeu a mão sobre a mesa e pegou a mão dele. Relem­brando sua conversa na casa de penhores, disse: — Além disso, tenho um novo aliado. O sr. Gold.

— Ele? — disse Henry, com os olhos escancarados. — Ele é pior que ela.

— Pois não estou tão certa disso — disse Emma. - E, além do mais, ele tem algumas boas ideias.

Mas Henry estava inconsolável, e se manteve ensimesmado enquanto Emma tentava animá-lo. No final, o menino cruzou os braços e sacudiu a cabeça.

— O bem nunca vence - repetiu novamente. — Simplesmente não vence-respirou fundo e olhou para Emma. —E como com Rumpelstiltskin e seu filho.

Emma apertou os olhos.

— Rumpelstiltskin? O tal Gold? Mas ele não tem filhos!

Henry revirou os olhos.

— Seu filho é simplesmente a coisa mais importante da vida dele...

— É mesmo? — disse Emma, lembrando-se do que Archie tinha dito a ela sobre a língua dele semanas antes.

—Eu não sabia disso.

— Ele era um grande covarde, antes de possuir a magia. Era motivo de cha­cota de toda a sua aldeia. Exceto seu filho, Baelfire, que realmente o amava e não se importava com nada daquilo.

Henry então contou a Emma toda a história: como Rumpelstiltskin, pri­meiramente, ganhou seu poder, depois que sua arrogância o levara a ser enga­nado por um mago chamado Zoso e aprisionado em uma maldição que o atormentou durante décadas. Zoso enganou Rumpelstiltskin fazendo com que ele jogasse a maldição sobre si mesmo. Isso lhe conferiu uma magia pode­rosa, mas interferiu em a sua capacidade de sentir, de ser humano. E fez seu fi­lho, Bae, temê-lo em vez de amá-lo.

— Mas isso é horrível — disse Emma, tentando imaginar o que de fato Henry estaria lhe dizendo com aquela história em particular. Perguntou-se se aquilo teria algo a ver com seu novo papel de xerife.

Você esta certa — disse Henry.  

— E o pior é que é apenas outra história em que o bem perde. Zoso é o bandido, e vence.

— Parece é que Rumpelstiltskin e o vilão, no entanto — disse Emma. Sim   disse Henry.   —Eu sei. Mas ele não era assim.

 

EMMA ESBRAVEJOU PELO RESTANTE DA TARDE e resolveu, depois de fechar o escritório, que tinha uma ou duas coisas a dizer a Regina.

Emma havia visto o jornal por toda a cidade e sabia que todo mundo estava lendo a noticia. E a raiva que sentia não era devido à eleição ou ao estrago feito em sua campanha, não realmente. Era que agora Henry sabia de algo que ela não queria que ele soubesse e ninguém, nem Regina nem Sidney Glass, nin­guém tinha o direito de contar seus segredos.

Dirigiu-se para a Câmara Municipal. A luz estava acesa no gabinete dc Regina, que ficava no andar superior, onde Emma estivera naquela mesma manhã, e ela entrou pela porta sem sequer bater.

Regina, surpresa, engasgou quando ergueu os olhos de cima de sua pa­pelada.

— Aqueles eram registros juvenis — disse Emma.

— Você não tinha o di­reito. Sei que você quer que Sidney vença, mas não tinha esse direito.

— É muito mais fácil ganhar eleições públicas quando não se esteve na ca­deia, srta. Swan. Acho que as pessoas merecem saber quem estariam esco­lhendo como xerife, não? Trata-se de Henry também. Ele deve saber a verdade, penso. Não deve?

Emma não disse nada.

Regina, já entediada com a conversa, voltou para sua papelada.

Além disso, você pode discutir isso durante o debate e esclarecer even­tuais imprecisões. O que acha?

— Debate?

Regina se levantou e colocou alguns papéis em sua pasta.

—O debate. É amanhã.

—   Sorriu secamente, ajeitou o terninho e passou por Emma, caminhando para fora do gabinete. Emma a seguiu. Bom saber disso — disse ela.

— Você e Sidney podem discutir por quanto tempo quiserem — disse Regina.

— A verdade acabará vindo à tona, é o que sempre acontece Talvez a cidade venha a saber com quem você tem ido para a cama nesta campanha. Seria interessante.

Elas estavam na escada dos fundos agora. Regina abriu a porta, e as duas mulheres desceram os degraus. Quando chegaram ao primeiro patamar do lance de escadas, Regina parou e disse:

— Você não acha que eles devem saber sobre você e Gold? Estendeu a mão para a porta.

— Não estou indo para a cama com ninguém disse Emma. Estou ape­nas lutando com fogo contra...

Regina gritou antes que ela pudesse terminar a frase.

Uma parede de chamas irrompeu quando Regina abriu a porta, jogando-a para trás, em cima de Emma, e depois para o chão. Ela caiu com força contra os degraus que tinham acabado de descer, e Emma, segurando o corrimão para manter o equilíbrio e erguendo o outro braço para proteger o rosto do calor, olhou para baixo e viu Regina, que segurava o seu tornozelo. "Nós duas vamos queimar aqui dentro", pensou Emma, mas depois afastou esse pensa­mento da mente e se ajoelhou ao lado de Regina.

— Venha — disse ela. - Precisamos sair daqui.

Não posso andar— disse Regina, olhando para as chamas atrás de Emma. — Todo o edifício está pegando fogo. Travou os olhos nos de Emma.

— Você tem de... — Você precisa me tirar daqui.

Emma, sem hesitar, levantou-se e entrou no átrio em chamas da Câmara Municipal, encontrou um extintor de incêndio e começou a esparramar jatos de espuma em torno de si mesma e até a base da escada, criando um caminho que iria levar as duas à segurança da rua.

Voltou até Regina, então, e poderia jurar, antes de segurar a mulher em seus braços, que a prefeita parecia surpresa por ela ter retornado. "O que ela pensou que eu iria deixá-la aqui?", perguntou-se Emma, levantando sua rival nos braços. Levou a mulher cuidadosamente através do átrio cercado pelas cha­mas e pela fumaça, permanecendo no caminho que havia criado com a espuma.

Emma chutou a porta da rua e viu carros da polícia, caminhões dos bom­beiros e os repórteres agrupados na calçada circular, todos eles com os olhos arregalados para a imagem diante deles: a xerife temporária, coberta de fuli­gem e suor, carregando a prefeita para fora de um edifício em chamas.

Todas as câmeras começaram a gravar e a piscar seus flashes.

— Ponha-me no chão —disse Regina.

— Ponha-me no chão.

Paramédicos correram na direção delas, enquanto Emma baixava suave­mente a prefeita no chão, ofegando enquanto fazia isso.

— Está reclamando do modo como salvei a sua vida?

     — Duvido seriamente que você tenha salvado a minha vida — disse Regina, empurrando uma máscara de oxigênio para longe, franzindo a testa.

— Onde está Sidney? — gritou. Então, para Emma: —Duvido que houvesse muito pe­rigo.

Emma sacudiu a cabeça, levantou-se e deu um passo para trás, enquanto as demais autoridades cuidavam de sua prefeita. Não havia vitória, com essa mulher.

 

EMMA CONVERSOU COM OS BOMBEIROS por algum tempo depois que eles ti­nham levado Regina para o hospital e apagado o incêndio. Algo não parecia certo em relação àquele incidente. Um incêndio enquanto as duas estavam lá? Coincidência? E depois de passar alguns minutos bisbilhotando nos escom­bros, descobriu exatamente o porquê de desconfiar de alguma coisa. Quando Emma descobriu o pano, foi direto para a casa de penhores de Gold.

— Você começou o fogo —disse ela, batendo o pano em sua mesa.

— Posso sentir o cheiro da sua lanolina.

Gold olhou para ela com um sorriso calculado no rosto.

— Fiquei aqui a noite toda — disse ele em resposta.

—Claro que não fiz nada disso que está dizendo— e olhou para o trapo. Admito que haja cheiro de produtos químicos. Mas existem muitos odores químicos. Produtos quími­cos pegam fogo, muitas vezes.

— Não quero ganhar assim — disse Emma.

—É isso que significa ter uma aliança com você? Viver quebrando as regras? Não é desse jeito, não é quem eu sou.

— Quem c você? — disse Gold. — Alguém que será um verdadeiro xerife para esta cidade, não um mero figurante. Isso faz de você a melhor candidata.

Emma não tinha nada a dizer com relação a isso, e assim Gold continuou: Esta pronta para o debate de amanhã? Não pensei sobre isso.

— Sidney Glass é um sujeito traiçoeiro, e tenho certeza de que ele estará pronto. Aconselho você a vir preparada.

 

A IMAGEM DE EMMA CARREGANDO REGINA para fora do prédio em chamas es­tava na capa do Storybrooke Daily Mírror na manhã seguinte, e durante todo o dia a cidade ficou em polvorosa com a noticia. Emma não se importou muito com a positividade e a confiança que isso trouxe para a sua candidatura, mas o pa­pel de Gold na coisa toda a mordeu o dia inteiro, mesmo enquanto seus ami­gos, como Ruby, a Vovó, Mary Margaret, Henry, Archie, e ainda outros, ficaram fazendo campanha para ela nos últimos minutos. Emma se encontrou com Mary Margaret cerca dc trinta minutos antes do debate, e as duas cami­nharam juntas para a biblioteca.

— Você vai vencer — disse Mary Margaret. — Posso sentir isso. E aquela foto?

Foi um comentário positivo demais, Emma não suportou e contou a Mary Margaret das suas suspeitas sobre a participação de Gold no incêndio. Mary Margaret ouviu toda a história, e então ficou em silêncio por um longo mo­mento. Quando elas se aproximaram da biblioteca, juntaram-se à multidão que se reunia ali. Parecia que todos em Storybrooke estavam lá para assistir ao debate.

— Que tipo de mensagem isso vai significar para Henry? — disse Emma, enquanto ambas subiam as escadas. — Vencer desse jeito?

   — Ele precisa saber?

— Mas isso significaria estar mentindo para ele — disse Emma.

— Sim, só que dizer a verdade pode levar você a perder a eleição.

— Bem, acho que é um risco que vou ter de correr. Mary Margaret concordou com aquilo.

—Então, a coisa é simples — disse ela. — A coisa é simples.

 

QUANDO CHEGOU A HORA DE EMMA FALAR      , ela ainda não tinha certeza sobre o que iria dizer Sidney tinha respondido com os clichês usuais, e procurou manter a segurança com relação a todas as perguntas de Archie. O público pa­receu reagir positivamente a isso. Com base apenas na força dos aplausos. Emma sabia, quando caminhou para o pequeno palanque armado, que pode­ria aproveitar a onda de "heroína" durante o caminho para a vitória.

Mas não demorou muito tempo na frente do público, que era de fato toda a população da cidade, até começar a ouvir as palavras de Mary Margaret: A coisa é simples. De fato, às vezes as coisas não são tão complicadas. Nós é que as tor­namos complicadas para podermos nos esconder delas.

— Desculpem, desculpem - disse Emma no meio de uma resposta que es­tava dando sobre sua opinião com relação a uma ordem municipal contra o ex­cesso de ruídos. Olhou para a primeira fila e viu Henry, de olhos brilhantes, sorrindo para ela. — Preciso voltar um pouco atrás e contar uma coisa sobre aquele recente incêndio no prédio da Câmara Municipal.

A multidão ficou imóvel e em silêncio. Emma não sabia se estava prestes a cometer um grande erro, mas sabia que tinha de fazer aquilo.

— Foi o Sr. Gold que começou aquele incêndio disse ela, e pôde ouvir o som da plateia prendendo a respiração.

—Ele começou esse fogo —continuou — porque estava tentando me ajudar a vencer esta eleição. Transformando-me em heroína.

— Emma respirou fundo e esperou que os sussurros e as conversas chocadas se acalmassem. - Eu sei, entendo e sinto muito — olhou para Regina, que estava sentada ao lado de Henry, de braços cruzados, com uma mistura de surpresa e satisfação presunçosa no rosto. Regina — disse Emma, eu não sabia disso, mas não posso aceitar, nem me beneficiar disso Você poderia ter se ferido. Para mim, o mais importante é dizer a verdade sobre o que aconteceu.

Ela pôde ver, no fundo da sala, o sr. Gold se levantar, com uma expressão impassível no rosto. Virou-se e caminhou em direção à saída.

Isso provavelmente vai me custar a eleição   disse Emma.   Mas não quero ganhar à custa de uma mentira.

 

DEPOIS EMMA E HENRY FOI PARA A LANCHONETE. Doces para Henry. Uma boa dose de bebida para Emma. Depois de um tempo, ela já nem sentia mais a bebida descer pela garganta.

Henry parecia bem com o resultado de tudo. Depois de comer seu último bocado de torta, ele limpou a boca, vasculhou em sua mochila, e de lá tirou os antigos walkie-talkies de Graham, dando um a ela.

— Para que isso? — perguntou Emma.

Pensei sobre isso um pouco mais — respondeu Henry. E acho que a Operação Cobra deve ser retomada. Você enfrentou o sr. Gold. E uma heroína.

— Você acha? Qualquer que fosse o resultado, ela estava feliz em ouvir seu filho dizer isso.

— Eu lhe disse que ele virou um cara mau apos conseguir seus poderes disse Henry. — E, depois disso, a única pessoa que ele amava estava com medo dele. E se a mesma coisa acontecesse com você?

— Como assim? O que você quer dizer?

— E se você conseguisse seu poder por ser uma pessoa ruim, como ele fez? Isso significaria que qualquer coisa que fizesse seria sempre assustadora. Tal­vez você pudesse ganhar, mas todos nos começaríamos a ter medo de você.

— Então, você está revendo suas idéias sobre o bem c o mal, hein?

Um pouco — disse Henry, sorrindo. Acho que não sabia que se pode vencer escolhendo o caminho certo. Muitas dessas histórias não têm exemplos disso.

— Ah... Você está derretendo meu coração, garoto!

— Prefiro ser bom como você, e perder, a ser ruim e ganhar.

Era a primeira vez que Emma se sentia bem com alguma coisa depois de muitos dias.

Mas essa sensação boa foi destruída apenas alguns momentos mais tarde, quando Emma ergueu os olhos da mesa em que estavam e viu Regina na porta, com Sidney seguindo-a logo atrás. "Aqui vêm eles para tripudiar", pen­sou. "Exatamente o que eu preciso agora..."

— A festa da vitória é em outro lugar   disse ela. Sidney não respondeu, e não parecia particularmente feliz. Emma olhou para Regina.

Parabéns — disse a prefeita secamente. Parabéns por quê?— perguntou Henry.

— Foi uma votação apertada, mas as pessoas parecem ter respondido bem a um candidato que pode enfrentar o sr. Gold.

—Ela balançou a cabeça. — Ima­ginem só isso

— Você está brincando comigo.

— Não, não está, filho — disse Sidney. Ele se sentou junto de Emma e Henry.

— Você não escolheu um amigo muito bom nesse sr. Gold, srta. Swan. Mas ele é um inimigo excelente. Bom proveito.

Emma não pôde deixar de sorrir um pouco. Ela era xerife.

Xerife de Storybrooke, Maine.

Todo mundo que ajudou em sua breve campanha começou a aparecer na lanchonete para comemorar, todos eles dizendo a Emma que ela havia feito a coisa certa. Enquanto Emma sorria e aceitava os parabéns, não conseguia dei­xar de pensar: Sou uma porção Jc coisas, mas não uma mentirosa. Estava contente, porque seu filho sabia disso também.

 

O SENHOR GOLD JÁ ESTAVA NA DELEGACIA esperando por Emma quando ela chegou. Emma estava vindo da lanchonete, ligeiramente alta, com a intenção de cuidar de alguns papéis antes do início de seu primeiro dia oficial como xerife. Quando ela chegou, viu de imediato: a jaqueta de Graham estava pendurada no cabide ao lado de sua mesa.

— Achei que você poderia querer isso, afinal. Ao ouvir aquela voz. Emma deu um salto.

Sua mão foi para o coldre e ela quase sacou a arma.

Gold estava parado no canto, rindo. Descansava apoiado na bengala.

— Como você entrou aqui?

— As portas estavam destrancadas— disse ele, passeando pela sala.

—De qualquer forma, queria parabenizá-la por sua vitória. Muito benfeito srta Swan. Seu desempenho no debate dessa noite foi louvável.

— Se está com raiva de mim por ter exposto seu golpe, não pedirei descul­pas — disse ela.

— Eu não queria nada como um incêndio. Nem pedi por isso.

— Não, não pediu — disse ele. — E não pediu a oportunidade de se opor a mim. Mas conseguiu ambas as coisas. E usou as duas muito bem. Emma franziu o cenho.

—O que você quer dizer com isso?

— Quero dizer que você precisava de algo grande para vencer —disse ele.

— E eu lhe dei algo grande.

Imobilizada pelo que via nos olhos de Gold, Emma avaliou suas palavras. Podia ver o que ele estava querendo dizer: que ele tinha planejado muito mais do que apenas aquele incêndio. Gold havia planejado que ela fosse dizer a ver­dade também. E Emma tinha feito exatamente o que ele esperava que fizesse.

— Mas... Eu não compreendo — disse Emma. — Por que você quer tanto que eu seja xerife?

Ah, não sei — respondeu Gold, atravessando a sala e dirigindo-se para a porta. Nunca se sabe. Você me deve um favor, lembre-se. Talvez eu só qui­sesse ter você em condições de me conceder um que seja muito bom. Quando chegar a hora de limpar a casa...

— Limpar a casa — repetiu Emma, ainda processando a extensão da mente tortuosa de Gold.

"Nunca mais confie nesse sujeito", pensou ela. "Nunca mais."

— Não se preocupe, vamos encontrar uma maneira de me pagar esse favor — disse ele, abrindo a porta. — Parabéns, srta. Swan.

Emma foi para a sua mesa de trabalho, sentindo um pouco de fraqueza nos joelhos. Olhou para o retrato de Henry. Emma não sabia o que pensar.

 

                                     O CAFE DA MANHÃ

DEPOIS QUE ELA E O PRÍNCIPE SEGUIRAM CAMINHOS separados, Branca de Neve ingressou mais profundamente na floresta, continuando a sobreviver com o que conseguia extrair da terra, enquanto se escondia dos lacaios da Rai­nha, acrescentando mais camadas de terra e de resistência à sua aparência nobre, tornando-se uma mulher mais forte e autossuficiente. Uma bandida. Sozinha, mas destemida.

De tempos em tempos, sua velha amiga Chapeuzinho Vermelho ia à flo­resta para levar suprimentos até a pequena cabana de caçador, que Branca de Neve tinha ocupado. E embora ela não gostasse de admitir, ia também levar notícias dos planos de casamento do Príncipe Encantado.

Ela o amava. De alguma forma, havia se apaixonado por ele na Ponte dos Trolls, mas tinha levado meses para perceber isso.

—Então que noticias você tem para mim? —perguntou a chapeuzinho

Vermelho certa vez, quando as duas mulheres se encontraram em um pasto, a quilômetros do reino, mas não muito longe da cabana de caça escondida.

— O casamento vai acontecer em dois dias — disse Chapeuzinho com sim­patia. - Ele vai se casar com a filha de Midas. Aceitou o casamento.

Branca de Neve sentiu sua esperança se desvanecer um pouco mais. Ele es­tava com outra pessoa era uma verdade simples. Ela, por sua vez, estava presa a uma fantasia, uma história boba que não se assemelhava em nada à realidade. Era o tipo de coisa que uma criança inocente poderia fazer. Ela, por princípio, não gostava de pessoas crédulas, e agora estava mostrando ser uma delas.

—Eu só queria... —disse ela   ... tirá-lo da minha cabeça. E uma loucura.

— Bem... Eu ouvi falar de um homem — disse Chapeuzinho. —Parece que é capaz de atender até mesmo ao mais profano dos pedidos.

Branca de Neve ficou surpresa. Será que uma magia poderia realizar tal fa­çanha?

— Como se chama esse homem? — perguntou.

—Rumpelstiltskin —disse Chapeuzinho Vermelho.

—Você já ouviu falar nesse nome?

— Não — disse Branca de Neve. Nunca ouvi falar. Mas que é um nome engraçado, ah, isso é mesmo.

 

ERA SÁBADO DE MANHÃ, e a cidade estava em polvorosa. Havia uma tempes­tade a caminho de Storybrooke, e Mary Margaret queria estar pronta. Ela também queria evitar a lanchonete a todo custo, afinal tinha ido lá muitas ve­zes. Assim como David.

Ela havia desenvolvido uma espécie de plano oculto, totalmente ridículo, para "se encontrar sem querer" com ele na lanchonete todas as manhãs. No início, Mary Margaret tinha gostado de vê-lo, uma vez que esse era o único momento em que podia estar com ele, mas sabia que era um comportamento pouco saudável, perigoso e estúpido. Emma pensava assim também. Viu Mary Margaret na lanchonete no dia anterior, percebeu isso, e lhe disse que era uma má ideia.

— Você vai acabar se machucando por causa disso disse Emma.

— Afinal, está brincando com fogo.

— Você está certa — disse Mary Margaret.

— Tem razão.

E então, em vez de ir até a lanchonete, ela foi à mercearia c se abasteceu com pilhas, garrafas de água e alguns outros itens essenciais. Odiava tempes­tades, sempre odiou tempestades. Não conseguia lembrar exatamente por que — algo a ver com a forma como as nuvens giravam no céu, e o mundo parecia diferente e mudado. Não gostava de caos.

Ela acalentava esses pensamentos quando chegou ao final de um corredor e deu um encontrão em Kathryn.

As duas colidiram com tanta força que acabaram derrubando tudo o que estavam carregando.

— Desculpe, sinto muito — disse Mary Margaret, pondo-se de joelhos para pegar suas próprias compras e ajudar Kathryn com as dela. Foi humilhante ver aquela mulher, muito mais ter de falar com ela, e pior ainda ter tropeçado nela daquele jeito.

A julgar pelo nervosismo estampado no rosto de Kathryn, ela estava sen­tindo algo similar.

— Está tudo bem — disse Kathryn. — Não há problema.

Mary recolheu suas pilhas e Kathryn entregou-lhe a água. Mary Margaret pe­gou mais uma coisa, uma pequena caixa branca, e entregou-a a Kathryn, pronta para pedir desculpas mais uma vez. Então, percebeu o que estava segurando.

Era um teste cie gravidez.

— Obrigada — disse Kathryn, pegando a caixa e oferecendo mais um sor­riso tenso de desculpas.

 

CAMINHANDO PARA CASA, Mary Margaret viu-se lutando contra as lágrimas. Largou suas coisas e partiu para a floresta nas proximidades da entrada da ci­dade. Queria caminhar e esvaziar a cabeça.

Mary Margaret estacionou e seguiu pela trilha, ainda abalada com o que tinha visto na loja. Por que estava se sentindo assim? Ela mal conhecia David, e não compreendia por que havia se apaixonado por ele, se aquilo era amor ou o quê, pensou.

Um ponto de vista mais razoável seria observar que Kathryn estava grá­vida, sentir uma pontada rápida de inveja e continuar em frente, feliz pela mu­lher e por David. Mas, quando viu a caixa de teste de gravidez sentiu-se arrasada. Sentiu-se como se seu coração tivesse sido arrancado do peito c mos­trado a ela. Nada daquilo tinha qualquer sentido. E mesmo se...

Mary Margaret parou.

Entre os arbustos, bem ao lado da trilha, estava uma pomba.

A pomba parecia ferida ou doente, ela não sabia. Parecia ter sido pega em uma rede ou uma tela de malha, e ficara com os pés enrolados e presos. A ave es­lava aprumada e acordada, tremendo e lutando para se mover. Levantava as asas como se estivesse se preparando para decolar, para logo baixá-las novamente.

Mary se ajoelhou.

—O que há de errado, menina? — disse ela.

— Como é que foi ficar presa desse jeito?

A pomba simplesmente arrulhou.

Mary Margaret a pegou. Devia levá-la para o abrigo de animais. David trabalhava lá, mas isso agora era irrelevante.

Dito isso, estava quase certa de que ele trabalhava aos sábados.

Então, pegou o pássaro atordoado e ferido e foi para o seu carro. Dirigiu-se ao abrigo de animais, com a intenção de ajudá-la a voltar para a sua ninhada. Quando viu David, a dor de ter notado o teste de gravidez na mão da mulher dele ainda estava em sua mente, e ela perguntou pelo chefe do abrigo, um ve­terinário chamado Thatcher.

Com David e Mary Margaret observando, o dr. Thatcher cortou a rede que prendia os pés da ave, examinou suas asas e determinou que não havia os­sos quebrados.

Há uma má notícia, infelizmente— disse ele a Mary Margaret. Esta é uma pomba do Atlântico Norte. Pertence a uma espécie migratória, bem rara entre as pombas americanas. Esses pombos formam laços fortes, monogâmicos talvez, ou seja...

— Se ela não voltar para o seu bando, ficará sozinha. Para sempre... Correto — disse Thatcher.

— Isso não quer dizer que ela não possa ser feliz aqui, por conta própria, mas, com a tempestade que se aproxima, tem pouco tempo de poder voltar para o lugar a que pertence.

— Então, quer dizer que preciso encontrar o seu bando — disse Mary Mar­garet — e libertá-la, uma vez que consegue voar. Preciso levá-la de volta para o local onde a encontrei.

— Sim... poderia dar certo - disse o dr. Thatcher, pegando uma pequena gaiola no armário. Ele a trouxe para a mesa e a colocou ao lado da ave. Eu não a impediria de tentar, Mary. Seria provavelmente o final mais feliz, de qualquer modo — disse, e em seguida sorriu e esfregou as mãos. — Boa sorte — desejou, enquanto se encaminhava para a saída. —Se não encontrar o bando, não hesite em trazê-la para cá.

— Ouça— disse David. — Com essa tempestade chegando, não tenho tanta certeza assim de que deve...

— Pare de querer tomar conta de mim - disse ela. -- Não preciso da sua ajuda.

David olhou para ela, um pouco magoado.

— O que foi que eu lhe fiz? Não entendo o que você...

Você não fez nada, David —disse Mary Margaret, ao mesmo tempo que pegava a gaiola. — Absolutamente nada.

Caminhou em direção à porta de saída e foi embora.

 

EM UMA NOITE ENEVOADA, Branca de Neve se encontrou com Rumpelstiltskin no lago. Depois que Chapeuzinho Vermelho lhe falara do feiticeiro misterioso, ela não tinha sido capaz de afastar a ideia de um feitiço que pu­desse libertá-la de seu amor ou, pelo menos, que liberasse seus pensamen­tos por um homem que não estava disponível para ela. Ela enviou uma mensagem pelos pássaros da floresta e Rumpelstiltskin concordou em ter um encontro com ela.

Branca de Neve amarrou seu bote e, quando se virou, o viu sentado à sua frente, em seu próprio barco. Ela saltou do barco, prendendo a respiração.

—Você realmente é a mais bela, não é?—disse ele, com um terrível e irô­nico sorriso no rosto encoberto pelas sombras.

Branca de Neve ficou imaginando o que poderia obrigar um homem a fa­zer coisas tão terríveis em troca de magia.

Ela se inclinou em direção a ele, inclinou a cabeça. Ela estava com medo, mas fascinada.

—Procurando alguma coisa? — perguntou Rumpelstiltskin.

Estou precisando de uma cura — disse ela finalmente. — Para o amor. Rumpelstiltskin começou a rir.

—Amor! — gritou ele. - Uma coisa tão chique e bonita. Tão maravilhosa e tão dolorosa. Estou certo?

—Eu gostaria de não estar mais apaixonada — disse ela.

—Você poderia fa­zer um feitiço qualquer?

— Eu não posso fazer isso — disse ele. O amor é muito poderoso para er­radicar, infelizmente. O que eu posso fazer, porém, é criar um feitiço que faça você esquecer o objeto de seu amor. Talvez não seja exatamente a mesma coisa, eu sei. Mas pode resolver sua aflição...

Branca de Neve considerou essa opção. Mas qual a diferença? O que difere de não se lembrar da pessoa amada e não estar mais apaixonada? Para ela, era o mesmo.

— Sim —disse ela. — Eu quero isso.

— Muito bem — disse Rumpelstiltskin, que fez surgir um frasco esguio e mergulhou-o no lago.

Quando retirou o frasco cheio, passou a mão esquelética sobre a água e um brilho branco saiu do líquido. Ele sorriu.

— Isso é tudo? —disse ela.

Ele estendeu a mão para frente e arrancou um fio de cabelo da cabeça de Branca, fazendo-a se assustar, cambalear e cair para trás. O barco bateu con­tra o cais.

— Ainda não — disse ele, divertindo-se com a sua surpresa.

— Nem todos os amores são iguais. Eu tenho de fazê-lo um pouco mais... pessoal, digamos -explicou o feiticeiro, enquanto deixava cair o fio de cabelo dentro da poção e colocava uma rolha na parte superior.

— Tome — disse ele, entregando o frasco a ela.

— Beba isso. Você vai esquecer o seu verdadeiro amor e todas as histórias entre vocês dois.

"Esquecer nossas histórias?", Branca de Neve pensou, perguntando-se se a dor de esquecê-lo não seria pior que a dor de não ter o Príncipe Encantado.

— Não duvide de si mesma agora, querida — disse Rumpelstiltskin.

— O amor nos faz mal. Ele assombra nossos sonhos e destrói nossos dias. Começa guerras e termina vidas.

—O amor já matou mais que qualquer doença. A cura?

Esse é um presente.

E qual é o preço desse presente? — perguntou ela.

O preço? —perguntou ele, como se ainda não tivesse pensado nisso. Branca de Neve estava cética.

Mas Rumpelstiltskin apenas sorriu novamente e mostrou mais alguns fios de seu cabelo, que tinham vindo junto daquele que arrancara.

— Isto será a minha paga — disse ele.

— O que você quer com o meu cabelo? — perguntou ela.

— Você precisa deles agora que eu os tenho? — perguntou o homem como resposta.

Branca de Neve não conseguia imaginar por que ela precisaria dos fios de cabelo, e concluiu que não se importava mais com aquilo. O preço parecia muito baixo.

 

BRANCA DE NEVE FEZ A JORNADA DE VOLTA para o seu canto na floresta. Re­mou em seu barco rio acima durante a noite, e depois caminhou a pé por toda a manhã, parando uma vez para comer. Evitou olhar para o frasco que estava no bolso da túnica, porque na verdade não queria vê-lo. Uma coisa era fanta­siar sobre uma poção e outra completamente diferente era ter essa poção. Será que realmente queria esquecê-lo? Mesmo que ele se casasse? Não foi uma parte dela, de qualquer forma, que gostou de tê-lo amado e de ter conhecido esse amor? Quem seria ela se deixasse de se lembrar? Alguém completamente diferente?

O debate em sua mente durou toda a manhã e a tarde. Ela demorou pelo menos uma hora para decidir não beber a poção, mas uma pontada de tristeza veio quando ficou imaginando o casamento, e a dor começou a fisgar de novo; então a jovem resolveu engolir o liquido ali, naquela mesma hora. Ficou an­dando para a frente e para trás, sem saber o que fazer, ate que chegou a um vale familiar, olhou para cima e percebeu que estava de volta cm casa, a sua ca­bana, onde ficaria hospedada sabe-se lá por quanto tempo. Vendo a estrutura bastante modesta da casa, ela se encheu de tristeza novamente, sabendo que passaria a noite sozinha, c a noite seguinte, sozinha, e a noite seguinte a essa, ainda sozinha. Não queria encarar uma vida como essa com o peso do arre­pendimento, também. Então, pegou o frasco do bolso, tirou a rolha, levou-o aos lábios...

No céu, bem acima dela, viu uma pomba solitária circulando e descendo em direção a ela.

Imobilizada no mesmo local, viu a ave circular e pousar na sua frente.

Havia um pergaminho atado em seus pés, em uma minúscula bolsa cilín­drica. Ela rapidamente abriu e leu, e, enquanto as palavras passavam por sua mente, seu coração se elevava com alegria e esperança. O bilhete dizia:

 

           Querida Branca de Neve,

Não ouvi falar mais de você desde o nosso último encontro, e só posso supor que tenha encontrado a felicidade que tanto desejava. Mas preciso que saiba que não se passa um dia sequer em que eu não pense em você. E, infelizmente, sou incapaz de seguir em frente até saber com certeza que o meu amor não é correspondido. Em dois dias devo me casar. Venha para mim antes disso. Venha para mim e me mostre que sente o mesmo, e poderemos ficar juntos para sempre. Se não fizer isso, terei a minha resposta. Mas, se houver qualquer dú­vida em sua mente, deixe que ela se acalme. Eu a amo. Branca de Neve.

                   Por toda a Eternidade,

                   Seu Príncipe Encantado

 

 

Ela olhou para cima, com os olhos em chamas. Rapidamente, colocou a ro­lha de volta no frasco. Dobrando o bilhete e pondo-o em seu bolso, ela se vi­rou e começou a voltar pelo caminho de onde tinha vindo.

Branca de Neve precisava chegar ao castelo antes que fosse tarde demais.

 

MARY MARGARET ESTAVA NO MEIO DA FLORESTA, e não se importava com a tempestade que se aproximava. Preocupava-se com uma única coisa: uma ave.

Estava determinada a devolver a pomba ao seu lugar certo no mundo. A ideia de uma criatura viva, fosse uma pomba, uma pessoa, um veado, um lobo, um cão, um pássaro azul, não importa, forçada a uma posição que não era a sua, ia contra a verdadeira natureza das coisas... Bem, isso era demais para ela suportar. Queria fazer o máximo que pudesse.

David tinha lhe ligado quinze minutos antes e ela se recusou a atender, sa­bendo que era inevitavelmente sinal de algum tipo de confusão.

A chuva começou com uma garoa fina. Mary Margaret não estava muito longe da estrada e tinha encontrado um pasto aberto com uma boa visão do céu. A partir dali, poderia ver a revoada de pombos chegarem. Não esperava um milagre, sabia disso, mas o que mais poderia fazer? Sua esperança era de que o bando de pássaros estaria agitado pelas chuvas e que eles voariam para o sul, na tentativa de evitar o mau tempo. Se o fizessem, ela iria encontrá-los ali.

Ficou lá, esperando por vinte minutos, e enquanto isso a chuva se tornou mais intensa. Finalmente ouviu um trovão à distância c imediatamente con­cluiu que não era mais seguro continuar onde estava.

Encharcada e desani­mada, pegou a gaiola e começou a marchar em direção à estrada. "Isso é loucura", pensou. "O que você está fazendo é algo desesperado, estranho e in­sano O que pensa que esta fazendo?"

Não teve tempo para responder a si mesma, no entanto. Nesse mesmo instante, um raio atingiu o solo em algum lugar nas proximidades, e um po­deroso trovão a fez saltar do chão. Quando pulou, cambaleou para tras e es­corregou na lama. Sentiu o solo deslizar debaixo de seus pés e procurou se agarrar firmemente a uma árvore estreita, cm que mal conseguiu se segurar. Em pânico, olhou por cima do ombro e deslizou pela encosta em direção a um barranco.

Aquela garoa inicial era agora uma chuva torrencial, e Mary Margaret não conseguia ver o quanto o barranco era profundo. Estava em apuros. Sé­rios apuros.

Até que viu uma mão vindo em sua direção.

—Mary Margaret! —   gritou David, inclinando-se na direção dela.

— En­contrei você, graças a Deus! Pegue minha mão!

Ela o fez, ele a puxou para cima, e juntos (com a pomba) correram para uma cabana nas proximidades, a mesma que David tinha visto através das ár­vores do bosque. Estava trancada e não havia ninguém lá, então David chutou a porta e eles correram para dentro, felizes por poderem se abrigar da chuva. Ambos estavam encharcados e tremendo.

— Precisamos de alguma coisa para secar você — disse ele. — Espere um pouco falou David, enquanto olhava ao redor para ver se encontrava cober­tores, toalhas ou quaisquer peças de roupas secas.

— De quem é esta cabana? — perguntou ela.

— Você acha que tudo bem fi­carmos aqui?

— Você divide a sua casa com a xerife, então duvido que ela vá se importar respondeu David.

Ele encontrou um cobertor e o trouxe para ela, pondo-o em seus ombros. Eles estavam próximos. Muito próximos. Mas, então, Mary Margaret se afastou.

—Não— disse ela. — Por favor.

Não entendo o que está acontecendo de errado — disse ele.

O que está errado é que tenho fortes sentimentos por você, David disse Mary.

David apenas olhava.

— Por que você acha que vou todas as manhãs até a Vovó, no mesmo horário em que você está lá? É só para ver você. Não me importo de ser pontual, não me interessa, e isso não é apenas uma coincidência, eu... Só quero ver você. Não posso. Mas faço isso. Sei que não devo, mas não sei mais o que fazer.

David, ao longo desse discurso, não conseguiu deixar de exibir o mais tí­mido sorriso. Parecia deslumbrado, um pouco confuso. O que é?

— perguntou Mary Margaret.

— Você vem às sete e quinze todas as manhãs para me ver? — perguntou

ele.

Sim —disse ela.

— É embaraçoso. Não para se vangloriar. Ele balançou a cabeça.

Não estou me vangloriando   disse ele.

— O que é, então?

— Eu vou às sete e quinze, todas as manhãs, para ver você, Mary Margaret disse ele. — Estamos fazendo a mesma coisa. Ambos se aproximaram e então se abraçaram. Sem dizer nada, foram chegando cada vez mais perto, até que seus lábios quase se tocaram. Os olhos de David já estavam se fechando quando Mary Margaret, de repente, se afastou. Seus olhos se abriram, e um olhar de confusão se estampou em seu rosto.

— Como você pode fazer isso com Kathryn, David? — sussurrou Mary Margaret.

E pensou: "Como eu posso fazer isso? Essa não sou eu!"

— O que está querendo dizer? - falou ele. — Já lhe disse, não sinto...

—Não é isso, David. Eu sei. Eu sei— disse ela.

— O que você sabe? — perguntou ele.

—Sei que ela está grávida —disse ela.

Isso não produziu exatamente a reação que Mary Margaret esperava. O que ela imaginou que fosse acontecer? Alguma negação, uma espécie de ra­cionalização, coisa que estava começando a ver que David era muito bom em fazer, racionalizar... Em vez disso, porém, ele pareceu legitimamente surpreso.

— O que foi que você disse? — perguntou ele.

"Ele ainda não sabe", pensou ela. "Não sabe que Kathryn está grávida."

 

EMMA TENTOU RASTREAR "ESTRANHO" durante o dia todo. Alguém

— um homem tinha chegado à cidade em uma motocicleta há alguns dias, e estava deixando a maioria das pessoas da cidade nervosa. Também fazia com que Regina ficasse nervosa o suficiente para que ela viesse até Emma e lhe pedisse para investigar o sujeito. Ele, aparentemente, havia se aproximado de Henry fora da casa de Regina e feito uma série de perguntas.

Pela primeira vez, Emma concordou com sua inimiga. Estranhos na cidade fazendo perguntas estranhas para os meninos não era exatamente algo bom. Independentemente do menino. Nesse caso, era ainda pior.

Ninguém sabia seu nome, e, a julgar pelo que havia de informação no mo­mento, nem estava hospedado em nenhum lugar da cidade. Ele parecia conti­nuar surgindo nessa ou naquela rua, e, além de tudo, tinha uma caixa de aparência misteriosa unida à parte traseira de sua motocicleta. Emma não gos­tava da maneira como ele se escondia e parecia ficar espreitando.

Até ali, ela só tinha as informações com as quais havia começado. Ele era um homem barbudo de trinta e poucos anos e rodava em uma motocicleta. Era alguém que aparentemente exibia certa arrogância, e, quando Emma chegava perto, ele sempre parecia estar indo em outra direção. Em três oca­siões diferentes, Emma o vira na cidade, e a cada vez, quando ela começava a se dirigir para ele ou chamá-lo, alguma coisa surgia. Ou ela era chamada para outro lugar, ou o homem montava na moto e desaparecia.

Porém, em vez de ela encontrar o estranho, foi o estranho que a encontrou. Ela estava sentada em um dos compartimentos da lanchonete, tentando pen­sar quem poderia ser o homem, quando ele se sentou em frente a ela.

—Você? — disse Emma, olhando para ele, com o café quase chegando a sua boca.

— Você está me seguindo durante o dia todo disse ele. Então, suponho que queira falar comigo.

O que você andou conversando com Henry outro dia? — perguntou ela.

— Está falando daquele moleque que veio até mim e começou a me fazer perguntas? Chama-se Henry? - perguntou ele.

Emma não disse nada.

Ele costuma fazer tantas perguntas assim? Quero dizer, o moleque me parece bastante... precoce —   disse o homem.

— O que você estava fazendo do lado de fora da casa dele?

—Minha moto quebrou — respondeu ele.

—E por que você decidiu dar essa longa volta com sua caixa misteriosa? — perguntou ela.

Ele deu um tapinha na mesa. — Quem disse que é misteriosa?

—Tudo bem. E então, o que há nela? —perguntou Emma.

— E frustrante ficar sem saber, não é?

—Apenas diga-me o que há lá dentro —disse ela.

—Por quê? — perguntou o homem. —É ilegal transportar caixas por estes lados?

—Não — disse ela. — Claro que não.

Ele lhe sorriu, mas os lábios de Emma sequer se moveram.

— Você realmente quer saber o que há dentro dela, não é? — perguntou.

—Isso mesmo —disse Emma.

—Quero saber, sim.

— Bem, vai ter de esperar — disse ele.— Vai ter de esperar um longo tempo. E ficar observando eu carregá-la mais um pouco por aí. Sua imaginação vai criar todos os tipos de histórias sobre ela. Será uma cabeça cortada que está lá dentro? Ou uma máquina mágica? Uma pilha de documentos secretos? O que poderia estar dentro dessa caixa?

— Não se faça de engraçadinho - disse ela. —Você é muito suspeito.

Eu poderia forçá-lo a me mostrar.

— Ou... — disse ele — ... podemos fazer isso de uma forma mais fácil. Você pode me deixar lhe pagar uma bebida a qualquer hora e eu lhe digo logo.

Ela olhou para ele tentando avaliar se aquele sujeito era sério. E decidiu responder ao seu blefe, dizendo:

—Tudo bem, se é uma bebida o que você quer, que seja.

—Um drinque?

—Sim, um drinque somente.

— Está certo — disse ele.

O estranho estendeu a mão e abriu a tampa da caixa para mostrar a Emma o que havia lá dentro. Uma máquina de escrever.

—Sério? —disse ela.

Sou escritor — disse ele. —Este lugar é inspirador para mim. E por isso que estou aqui.

 

BRANCA DE NEVE CORREU PARA O CASTELO e atravessou os portões na noite anterior ao casamento, poucas horas antes de Abigail chegar. Ela se disfarçou com um traje de entregadora dc flores e caminhou na direção de onde achou que seriam os aposentos do Príncipe Encantado, escondendo-se dos guardas ao longo do caminho. Chegou perto, mas muito perto, antes de tropeçar em um corredor escuro, e então um jovem guarda esticou a cabeça para tentar ve­da. Seu rosto ficou tenso, e ele investiu contra ela com uma velocidade sur­preendente. O guarda a prendeu com facilidade e ignorou suas histórias enquanto a levava para baixo, em direção ao calabouço, acreditando que ela fosse um ladrão comum.

No momento em que foi trancada em sua cela, ela começou a procurar uma saída. Será que poderia arrombar a fechadura? Escalar a parede? Ela não sabia como, mas tinha de sair dali. Precisava parar o casamento.

—Acalme-se, irmã — disse uma voz. —Você ficará presa aqui até que eles decidam de outra forma.

Ela olhou para a cela vizinha, onde um homem de voz profunda descan­sava em um canto, com as pernas cruzadas.

Ele era barbudo e careca. E sorriu para ela, dando um aceno amigável.

—Prazer em conhecê-la — disse ele.

— Não preciso deles para me soltarem daqui —disse ela. Vou encontrar meu próprio caminho.

—Tudo bem, então — disse ele.

—Faça da sua maneira. — Vai descobrir um jeito de escapar.

Ele a observou andando em sua cela para lá e para cá, até que perguntou:

— Qual é o seu nome?

— Branca de Neve - disse ela.

Será que realmente importava um criminoso comum saber seu nome? A Branca de Neve? — perguntou ele, de repente, muito interessado. Aquela Branca de Neve que é procurada pela Rainha? A única e a própria — disse ela.

— E você?

— Zangado —disse ele, levantando - se.

— Sinto muito em ouvir isso — disse ela.

— Não, não — disse ele, acenando para ela.

— Esse é o meu nome.

—Como assim, seu nome é Zangado? — disse Branca. Que tipo de nome e esse?

Ele deu de ombros.

— É um nome de anão — retrucou ele. Que tipo de nome é Branca de Neve?

Branca de Neve apenas sorriu e os dois começaram a conversar, enquanto ela tentava encontrar um ponto fraco naquela cela. Uma hora se passou, eles conversaram sobre muitas coisas, enquanto ela ficava mais e mais preocupada com a possibilidade de ser obrigada a passar semanas ali, perdendo a oportu­nidade de impedir o casamento. Zangado explicou como ele tinha ido parar no calabouço, e o mesmo fez Branca de Neve (vagamente, com cautela). Eles discutiram o amor. o amor perdido, e o arrependimento.

Os olhos de Zangado se iluminaram quando ele falou a respeito de uma mulher que ele tinha amado, e do quanto se arrependeu por tê-la deixado es­capar pelos dedos.

— O amor em geral causa muita dor, não é mesmo? — disse ela. — Será que é isso que faz valer a pena?

— Sim, causa muita dor, é verdade — disse Zangado. Mas vale a pena. É uma dor boa.

— Dor boa? Por acaso existe algo assim? Uma dor boa? Sim, existe

—disse ele. —Garanto.

Eu poderia esquecer meu amor se decidisse fazer isso   disse ela, e con­tou sobre a poção que tinha obtido no encontro com Rumpelstiltskin.

Zangado pareceu impressionado com a ideia, mas depois de um momento balançou a cabeça.

— Não... Não está certo   disse ele.

Por que não se libertar disso? — perguntou ela.

— Porque não seria verdadeiro disse ele. Porque o amor sempre estaria lá no fundo, em algum lugar, comendo você por dentro. Não se pode fingir que aquilo que é verdadeiro não seja verdadeiro. Independentemente do que você se lembra. Dê-me a dor, e o que é honesto. Eu aceitaria isso a qualquer momento!

A-hã... — disse Branca de Neve, e retomou suas tentativas de encontrar um jeito de escapar daquela cela um pouco mais freneticamente.

Isto é, até Zangado explicar a ela que seria mais sábio poupar sua energia.

— Se você realmente quer sair daqui — disse ele— apenas relaxe. Espere uns dez, minutos.

— E como isso poderia me ajudar? — perguntou Branca de Neve.

— Você verá - disse ele. -- Tenho bons amigos.

Ela estava exausta, não somente por sua busca furtiva de uma fuga, mas também por causa de todos os dias e dias de viagem... Do acordo com Rumpelstiltskin, da corrida desesperada até o castelo... Ela se permitiu sentar e fe­char os olhos. E caiu em um sono profundo quase imediatamente.

—El, IRMÃ!

Branca despertou ao ver Zangado e outro anão em sua cela, ambos sor­rindo para ela.

— Ela é bonita - disse o segundo anão, o que ela ainda não conhecia. A jovem esfregou os olhos, ficando de pé.

— O que está acontecendo? — perguntou ela. — Quem é ele? Como conse­guiu abrir as portas?

— Este é Sorrateiro, ele e meu amigo — disse Zangado, apontando para o outro anão com o polegar.

—Ele veio para me libertar, e agora nós vamos li­bertar você. Venha.

Ela olhou por cima da cabeça deles e viu um guarda deitado no chão, apa­rentemente inconsciente.

— Mas por que você faria isso por mim? — perguntou ela, correndo para fora da cela atrás dos anões.

Pulou com agilidade por cima do guarda, ao mesmo tempo imaginando como os dois tinham conseguido fazer aquilo.

— Porque simpatizei com a sua história do coração partido, irmã — disse Zangado, sem olhar para trás. — Nós todos passamos por isso. Deus, eu odeio o amor. Mas o amo, ao mesmo tempo.

— Silêncio, vocês dois! — sussurrou Sorrateiro. Ele os levou para uma grade no chão e apontou para uma escada que descia pelo buraco.

— Vamos lá. Para as catacumbas. Depressa!

Branca se apressou atrás dos dois, cuidando para que os guardas não os percebessem. Logo, eles estavam debaixo do castelo, pelos túneis sinuosos das criptas. Sorrateiro bem na frente, iluminando com uma tocha o caminho para Branca de Neve e Zangado

Eles correram até que Branca de Neve ficou sem fôlego; ela não tinha ideia do lugar para onde estavam indo. Mas confiava neles, porque Zangado voltara até ela. Eles poderiam ter deixado a garota lá na cela, dormindo, por toda a eternidade.

Quando alcançaram um cruzamento no caminho, Sorrateiro parou.

— Você está tentando encontrar o Príncipe Encantado? — perguntou, e ela assentiu com a cabeça.

— Vá por aquele caminho — disse ele, apontando para um longo túnel. — Você verá uma escada no final. Suba-a e, em pouco tempo, estará na torre. Então, deu um tapinha no ombro de Zangado.

—Nós iremos por este caminho   disse ele. - Para fora do castelo. Vamos!

Zangado sorriu para ela.

— Até logo, irmã — disse ele. — Boa sorte! Os dois anões fugiram, deixando-a sozinha no escuro.

— Adeus — respondeu ela, na escuridão. Não tinha mais tempo a perder.

A CHUVA PAROU NAQUELE MOMENTO constrangedor em que Mary Margaret disse que Kathryn estava grávida. David parecia chocado. Mary Margaret la­mentou a sua indiscrição, mas havia algo de bom, pelo menos, no fato de Da­vid não saber, porque ele continuou perseguindo-a. Ele não estava muito consciente de si mesmo, mas não era um monstro, afinal das contas, Mary precisava admitir isso. O homem estava confuso também.

Ela pegou a gaiola.

— Venha, vamos levá-la de volta para seu bando.

Os dois caminharam cm silêncio de volta para o mesmo campo em que Mary Margaret tinha estado antes de escorregar na lama. Ela olhou cautelosa­mente para a ravina de onde quase tinha despencado. O lugar em que David a tinha achado. David a havia encontrado e salvado. Era lá...

— Mary Margaret — disse ele. — Nós temos de...

— Chhh... Você ouviu isso? — perguntou ela. Ambos olharam para cima ao mesmo tempo

— É o bando de pombos!

Eles devem ter esperado a tempestade acabar!  

—Estão aqui! — grilou Mary.

Excitada, ela se ajoelhou na grama molhada e abriu a gaiola. Trouxe a pombinha para fora, acariciou a cabeça da ave mais uma vez, e segurou-a para que o bico ficasse apontado para o céu.

Não demorou nada depois disso, bastou apenas mostrar o céu para a pomba. Ela se agitou nas mãos de Mary Margaret c saiu voando, ganhando al­titude rapidamente, batendo as asas com força (e com o que parecia ser muita alegria), enquanto se reunia mais uma vez com sua família.

Mary Margaret tinha um sorriso radiante no rosto. Fazia muito tempo que não se sentia feliz assim. David, observando também, se aproximou e ten­tou passar o braço ao seu redor.

—David, não— disse ela. —Não faça isso. Por favor. —Ela se afastou e abraçou a si mesma.  

— Não podemos. Não está certo.

— Como você pode dizer não depois que nós dois acabamos de admitir isso? Eu não entendo...

Porque você a escolheu mesmo assim, David - respondeu Mary.

—Por que não a deixou, se me ama tanto?

— Não sei... - disse ele. Porque eu tinha uma vida com ela também. Por­que os dois caminhos parecem certos...

Não se pode andar por dois caminhos

E que... Parece que um é de verdade e o outro não, independentemente de qual deles eu tomar.

— Não importa o que você faça, alguém vai se machucar - disse ela. - Não existe nenhuma maneira de você não magoar alguém, David. E não está acei­tando isso!

Ele baixou a cabeça, refletindo. Em seguida, olhou para o céu.

— Não consigo parar de pensar em você — disse ele bruscamente.

—Também não consigo parar de pensar em você — respondeu ela.

— Mas temos de esquecer um ao outro. Temos de fazer isso, não há outra maneira.

 

BRANCA DE NEVE ANDOU pelas escuras catacumbas o mais rápido que conseguia, tateando seu caminho sem uma tocha. Em questão de minutos, encon­trou o final do corredor e a escada, assim como Sorrateiro havia dito que aconteceria, e começou a subir os degraus em direção a luminosidade de outra grade, antes mesmo de testa-los para ver se não estavam podres. Por tudo o que ela sabia, o casamento estava ocorrendo exatamente naquele momento. Não havia tempo para pensarem segurança.

No alto da escada, a garota afastou uma pesada grade de madeira e foi su­bindo ate chegar a um pátio. Atravessou correndo a área aberta, com a inten­ção de entrar por uma grande porta na base da torre que ela sabia que abrigava os aposentos do Príncipe. Antes que pudesse fazer isso, porém, ouviu alguns gritos muito além da área aberta. Virou-se a tempo de ver algo desolador: a trezentos metros de distância, Zangado e Sorrateiro tinham sido encurralados pelos guardas do castelo. Enquanto a jovem olhava com horror. Sorrateiro ten­tou escapar passando pelo portão de entrada do castelo.

Mas não conseguiu.

Uma flecha, disparada de um guarda no alto da torre, desceu a toda a velo­cidade e atingiu-o no peito. O grito de Zangado foi alto o suficiente para lhe causar arrepios, mesmo á distância em que estava.

Branca de Neve não hesitou em se dirigir até lá, pois Zangado ainda estava em perigo, ajoelhado ao lado do corpo de seu amigo. Ela puxou uma tocha da parede enquanto corria, saltando sobre uma pilha de barris derrubados, e abriu caminho por trás do grupo de homens que haviam encurralado seu novo amigo. No momento em que ouviu o capitão da guarda ordenar a seus homens que matassem Zangado, ela alcançou os primeiros montes de feno ao lado dos estábulos. Com os olhos bem abertos, gritou para eles e segurou a tocha acima do feno.

— DEIXEM-NO IR! - exigiu Branca, no instante em que eles todos se vi­raram para vela. Silêncio.

MANDEI QUE O DEIXASSEM IR   — repetiu. —OU VOU FAZER ESTE CASTELO ARDER ATE O CHÃO!

Deve ter sido muito convincente, porque o capitão, com um gesto de mão, ordenou a Zangado que saísse do castelo e nunca mais voltasse. Com os olhos vermelhos de lágrimas e de raiva. Zangado lançou outro olhar para o seu amigo caído, cm seguida olhou para Branca de Neve e deu um aceno de cabeça sutil e simples. Obrigado. Virou-se e correu.

Belo gesto — disse o capitão da guarda, caminhando em direção a ela. Mas não deixa de ser uma ameaça vazia, não acha?

Ele levantou um braço, e Branca de Neve franziu a testa, sem saber o que o capitão tinha querido dizer.

Ela entendeu quando ouviu o zunido de outra seta descendo da torre. Pre­parou-se para a morte, mas sentiu a tocha ser tirada de sua mão. A tocha foi levada pela seta para longe de Branca de Neve e do feno, carregando com ela sua vantagem e qualquer esperança que tivesse de sobrevivência.

— Acredito que o Rei George gostaria de ter uma palavra com você, querida menina —disse o capitão da guarda.

—Você se importa de vir comigo?

— VOCÊ VAI LHE DIZER QUE NÃO O AMA disse o Rei George.

—E que nunca o amou. Esses são os meus termos. São simples. Você concorda?

Branca de Neve estava diante do homem, c toda a sua coragem e a postura de desafio iam sendo drenadas para fora dela.

Os guardas a haviam arrastado pelas escadas até os aposentos privados do rei, onde ele aguardava já vestido para o casamento. Ele era arrogante, dis­tante. Indiferente. Ela o odiava. Odiava tudo o que ele representava. E já po­dia ver que o rei tinha vencido.

—E se eu me recusar? —disse ela.

Ele deu de ombros, puxando uma luva decorativa.

— Então vou matá-lo — respondeu o homem —Faz pouca diferença para mim.

— Seu próprio filho? —perguntou ela, incrédula.

—Somente por despeito? E política?

— Ele não é meu filho — disse o Rei George enigmaticamente, sem se preo­cupar em olhá-la nos olhos. — E, além disso, sim. Com assuntos deste porte, a política sempre triunfa sobre o amor. Todas as vezes. Estou surpreso por você não compreender isso, considerando o seu pedigree.

Não havia nada que Branca de Neve pudesse fazer, nenhum truque, ne­nhuma jogada especial. Ela não podia dar ao Príncipe um código secreto, al­gum sinal escondido, porque isso simplesmente significaria que o Príncipe iria buscá-la, e significaria a sua morte.

Ela não só tinha de rejeita-lo, mas teria de convencê-lo a ficar longe dela Feria de machuca lo.

E ela o tez. O rei "permitiu" a ela se esgueirar para os aposentos do Prín­cipe Encantado, onde o jovem se preparava para o casamento. Branca de Neve estava triste. Ela entrou no quarto dele sem fazer ruído e, escondida atrás de uma cortina, observou-o por um minuto ou dois, seu coração se partindo em pequenos fragmentos a cada segundo que passava. Ele se movia lentamente e olhava para fora da janela, suspirando, a espera dela.

— Príncipe James— , sussurrou Branca de Neve. Ele se virou e viu Branca de Neve.

Você veio! — gritou o Príncipe, indo em direção a ela. Tentou abraçá-la e ela permitiu, apenas por um instante, mas ficou rígida em seus braços. Com o tempo, ele deu um passo para trás e olhou para ela, confuso. Você recebeu a minha carta, então? Recebi.

— Então, veio me dizer que me ama também disse ele. — Por qual outro motivo viria ate aqui? Qual é o problema?

Não, James — disse ela, não se permitindo usar o seu nome para ele. Mesmo isso era muito doloroso. — Vim para fazer o oposto. Vim aqui para di­zer que não o amo e que nunca o amei. Você está... confuso.

Era como se ela estivesse novamente testemunhando a seta atingir o pobre Sorrateiro no peito, só que desta vez tinha sido ela a atirar. Ele digeriu suas palavras. Deu um passo para trás, olhou para ela.

— Não sinto nada por você - disse ela. Case-se com Abigail. Seja feliz com ela. Esqueça-se de mim. Eu não o amo. — Tudo isso dito em um tom mo­nótono.

—Não acredito em você - disse ele, finalmente, não conseguindo conter a raiva e a dor que estava sentindo. — Você... Se acreditasse em tudo isso que está me dizendo, não teria vindo.

— E verdade — disse ela, dando um passo cm direção a porta. Acredite em mim, c verdade. Eu não quero que você desperdice sua vida pensando de outra forma.

Ela se virou e saiu da sala.

Branca de Neve já passara pela porta, e estava a uma distância segura, quando irrompeu em lágrimas.

 

NO CAMINHO DE VOLTA PARA A FLORESTA, Branca de Neve viajou lenta­mente, de novo presa na mesma indecisão sobre usar ou não a poção. A dor era muito maior agora, e ela achava que não poderia suportar por muito mais tempo, mesmo que fosse mais "real" viver com a dor. Sempre que imaginava que o casamento aconteceria em breve, que logo teria terminado, e que nunca mais o veria novamente... bem, ela chorava enquanto se afastava do castelo.

Acima de seus soluços, ouviu uma voz profunda vinda das árvores ao lado da estrada:

— Ei, irmã.

Assustada, distraída pelos próprios pensamentos, a jovem deu um pulo para trás. E observou quando uma série de formas em movimento emergiu da floresta e lentamente a rodeou.

Foi somente depois de um momento de pânico que ela percebeu que tinha reconhecido um rosto. Zangado. Os dois se abraçaram. Ela ficou aliviada de encontrar uma pessoa conhecida.

—E você, o encontrou? — perguntou ele. — Deixou tudo bem claro e definido?

— Sim, eu o encontrei... Mas não disse a ele o que deveria ter dito.

—Você vai ficar bem, não vai? — perguntou ele, sorrindo calorosamente e pondo um braço em volta dela.

— Vai ficar tudo bem.

Quando ele percebeu que Branca de Neve estava prestes a chorar de novo, disse:

— Ei, ei, venha cá, preciso lhe apresentar meus companheiros, os seis. Va­mos afastar a sua mente desses pensamentos. Se não começarmos a rir de al­guma coisa muito em breve, todos nos vamos acabar chorando!

— Sinto muito — disse ela.

—   O Sorrateiro... Estou tão envolvida nas minhas coisas que...

— Está tudo bem, tudo bem — disse ele. — Vamos nos recordar dele e pres­tar condolências. Há muito tempo para isso. Vamos apenas dar um alô por agora.

Ela sorriu para todos, e cada um por sua vez sorriu de volta.

Então, Zangado apresentou-os por seus nomes, um por um.

 

ELE A LEVOU PARA O ESPAÇOSO CASEBRE DOS SETES ANÕES, um lugar com amigos, um lugar com colegas. Os dias se passaram, e ela tentou se adaptar aos seus dias, mas a cada noite ficava pensando no Príncipe e imaginando sua nova vida. A dor foi ficando cada vez pior.

E então, um dia. Zangado correu para o quarto dela, exultante com a notí­cia que havia recebido. O casamento não acontecera! O príncipe tinha dei­xado o castelo, presumivelmente em busca de Branca de Neve, e Abigail havia ficado sozinha no altar. O Rei George emitiu uma recompensa por sua cabeça. O reino estava em alvoroço!

O Príncipe Encantado, seu verdadeiro amor, estava, naquele momento, em busca de sua amada.

— Ele a deixou! — gritou Zangado, com um sorriso no rosto quando olhou para ela.

Ela estava em sua cama, acabando de acordar. Ele foi até a cabeceira.

— O Príncipe largou a Abigail e está procurando por você! Vamos lá! Vo­cês vão poder ficar juntos!

Branca de Neve fez uma careta.

— Não é o que você queria? — perguntou Zangado, confuso. Mas então ele viu o frasco em sua pequena mesa de cabeceira. Vazio.

— Quem? — disse Branca de Neve. — Que Príncipe?

Zangado tinha chegado tarde demais.

A jovem havia bebido a poção e apagado sua memória. Zangado sorriu tristemente para ela.

— Ah, irmã   disse ele. — Você não podia aguentar mais, não é?

— Não estou entendendo... — disse ela.

— Tudo bem— disse ele, tomando-lhe a mão.

—Está tudo bem.

 

MARY MARGARET E DAVID, tinham conseguido evitar um ao outro. Nenhum dos dois fora mais à lanchonete. Mas era apenas uma questão de tempo antes que seus caminhos se cruzassem novamente.

E não as sete e quinze, mas às sete e quarenta e cinco

Na verdade, exatamente as sete e quarenta e seis.

Eles se encontraram na casa da Vovó. Finalmente, os dois acabaram fi­cando um ao lado do outro na calçada, ambos segurando o café, ambos perfei­tamente conscientes da presença um do outro. Eles tinham tentado alterar seu horário em função do horário do outro, e cada um havia mudado sua agenda exatamente do mesmo modo.

Deram alguns passos juntos. David disse:

— Estou tentando não me encontrar com você— balançou a cabeça.

Como e que vamos conseguir deixar de nos ver?

— Aparentemente, não conseguiremos — disse Mary Margaret. Isso é um problema.

— Você esta certo —   disse ela. — É um problema... Eles se olharam.

— Ela não esta grávida — disse David.

Mary Margaret assimilou essa informação, parecendo então pronta para falar. Mas não o fez. Em vez disso, deixou cair o seu cale. Nem olhou para baixo.

David largou o café também, e eles se inclinaram na direção um do outro. O beijo, depois de esperarem tanto tempo, em nada foi parecido com o que tinham sentido antes.

 

                             BELEZA EXTERNA

O INVERNO DESCEU SOBRE A CIDADE COMO UMA VINGANÇA, trazendo com ele todos os tipos de acidentes e chamados de emergência. Emma raramente via Mary Margaret e so­mente uma vez ou outra conseguia contornar os esforços crescentes de Regina para mantê-la longe de Henry. Ela sentia falta do filho e a cidade não era algo simples de lidar. Não com aquela Regina ao redor.

Entretanto, ela estava trabalhando o tempo todo, sem parar, e fazia parte agora de uma comunidade. O que era diferente, bem diferente. Emma estava contente com isso, de verdade, mas as coisas haviam mudado muito desde os primeiros dias de outono, quando a única razão pela qual estava em Storybrooke era manter Henry seguro. O que passara a acontecer agora? Ela sentia que afundava cm algo, algo confortável e complacente. Era isso que significava "ter raízes"? Se fosse, então haveria alguma diferença entre a vida enraizada e a vida na prisão? Esse inverno a fizera se sentir o tempo todo sonolenta com a segurança de ter raízes. Essa passagem do tempo tinha feito esse lugar se pare­cer... normal...

Caminhando para a delegacia depois de dizer a Mary Margaret, Ruby c Ashley que não se juntaria a elas em sua planejada noite de meninas no Dia dos Namorados, ela recebeu um telefonema de um policial da delegacia. O que houve? — perguntou.

Alguém, ao que parecia, tinha acabado de ser visto invadindo a casa do Sr. Gold.

— Eu cuido disso — disse ela, e desligou o telefone. Emma jogou seu café no cesto de lixo e correu para o lado leste da cidade a pé. No total levou cinco minutos para chegar a casa do Sr Gold ,uma mansão alta e esguia no lado da cidade em que os cidadãos mais ricos da região viviam. Um vizinho tinha chamado a polícia, porque a porta da frente estava aberta e, quando Emma chegou, pôde constatar que isso era verdade.

Ela puxou a arma e seguiu o caminho para dentro da casa.

A casa do sr. Gold estava cheia de antiguidades: armários, escrivaninhas, sofás, canapés e almofadas de veludo faziam aquele lugar se parecer mais com um salão de café parisiense do que uma casa do século XXI. Emma fez uma varredura na casa, indo de aposento em aposento com sua arma na mão, anunciando-se antes de entrar em cada um deles.

Quando desceu as escadas, ouviu passos nas proximidades e sentiu o cora­ção começar a bater forte. Alguém tinha entrado pela porta da frente e agora estava se encaminhando para a sala. Silenciosamente, Emma atravessou a co­zinha, firmou-se e virou-se para a sala, de arma em punho e engatilhada.

— Parado! — ela se ouviu dizendo com firmeza, antes mesmo de se firmar nos pés.

A figura em frente a ela se virou e balançou a arma em sua direção; Emma apertou o gatilho levemente, sentindo-o se pressionar contra a parte de trás de seu dedo. Manteve-se assim, sem disparar.

— Srta. Swan — disse o invasor. Era o Sr. Gold.

Emma abaixou a arma e expirou, aliviada. Gold abaixou a arma também. Eu não podia imaginar que fosse você a invadir a minha casa — disse ele.

— Você tem licença para isso? — perguntou Emma, olhando para a sua arma.

— Claro que sim! — disse ele. — E você, tem uma para a sua?

— Engraçadinho — disse ela, pondo a arma no coldre.

Ela apontou para uma caixa de vidro quebrada no canto da sala.

— Parece que, quem quer que seja que invadiu a sua casa, estava atrás de algo bem específico — disse ela. — Assim que recebi o telefonema vim direto para cá. Sua casa está limpa, já revistei tudo.

O Sr. Gold ficou quieto por sua vez, olhando em silêncio para a caixa de vidro.

— Entendo — disse ele finalmente. Nesse momento, engoliu em seco. Isso é tudo, então.

— Ah, quer dizer que... E tudo, então? — disse Emma. Sinto muito por incomodá-lo...

—Não foi isso que eu quis dizer — disse Gold. —Peço desculpas. É um choque para uma pessoa quando sua casa é invadida.

— Ele respirou fundo, deu-lhe um sorriso.

— Embora eu ache que talvez possa lhe dar uma boa pista considerando o que foi levado. Acredito que o homem com quem deva falar chama-se Moe, Moe French.

—Tudo bem— disse Emma.

— Vou checá-lo.

—Ela olhou para o Sr. Gold desconfiada. — Algum motivo em especial para estar preocupado com esse homem?

— Imagino que você tenha de preencher alguns papéis, relatórios... —disse ele.

—Aceita um chá?

 

MARY MARGARET ESTAVA ANIMADA com a ideia de sair com as meninas, mesmo que fosse, é claro, apenas um substituto para o que ela realmente queria fazer: passar o Dia dos Namorados ao lado do homem que amava. Mas isso não era possível.

Na calçada, porém, David correu para alcançá-la.

— Preciso falar com você — chamou ele.

Uma sombra de nervosismo se apoderou dela e se tornou clara em seu rosto quando Mary percebeu que ele tinha como objetivo falar com cia em público. Desde aquele beijo, ela se esforçou para ser mais discreta. Não tinha interesse em ser conhecida como destruidora de lares. E mal podia acreditar que David estivesse sendo tão descarado.

— Não acho que a gente deva...

— Só não quero que você saia com as meninas esta noite — disse ele. Não faça isso. E pronto.

Isso a deixou furiosa.

— Você realmente acha que tem o direito de me dizer o que devo fazer? —perguntou ela. — Pense melhor.

— Não, eu não acho — admitiu David. — Mas, mesmo assim, não quero que você vá. Já pensei melhor.

— Bem, sinto muito disse ela. Mas não tenho nada melhor para fazer no Dia dos Namorados. Não tenho ninguém com quem sair. Então farei algo divertido com as meninas, para variar— disse ela, balançando a cabeça.

— Estou cansada, David — continuou. — Estou muito cansada de ter de manter isso em sigilo. Já chega, não quero mais continuar assim.

— Mas não quero que as coisas sejam assim — disse ele.

—Sinto como se você estivesse me punindo.

— Engraçado — disse ela. E assim que eu me sinto todos os dias. Só que em relação a você.

— Mas o que está acontecendo, de onde vem tudo isso? — disse ele. Ainda outro dia nós estávamos...

— Não sei David — disse ela. — Talvez eu tenha acordado para alguma coisa. Ou talvez tenha me lembrado de uma coisa em especial. Sobre o res­peito, a mim mesma. Simplesmente não posso deixar de pensar que você vai continuar assim para sempre se eu lhe der uma chance.

— Isso não é verdade — disse ele.

—Não?

David pareceu murchar com esse comentário, mas ela. não se sentiu mal por ele. Sentiu-se mal por si mesma. E se afastou.

 

EMMA TELEFONOU PARA O SR. GOLD assim que voltou à delegacia, e logo ele es­tava lá, com um olhar ansioso. Ela mostrou sua mesa coberta com os itens que tinha recolhido na casa de Moe Erench.

Trabalho malfeito, de fato. Divertido ou até mesmo idiota ao máximo. Moe French tinha inclusive usado uma fronha para roubar as antigüidades do se­nhor Gold. A xerife conseguiu um mandado e revistaram a casa dele. Estava tudo lá. A fronha, ainda cheia com as coisas roubadas, fora pousada em cima da mesa da cozinha. Mas não havia nenhum sinal de Moe French.

Não está aqui — disse o sr. Gold, alguns instantes depois de vasculhar a mesa com os olhos.

Havia abajures e candelabros, lindas peças de porcelana chinesa, cigarreiras e peças de joalheria.

— Estas não são as suas coisas? — perguntou Emma, surpresa.

— São elas, sim disse o sr. Gold, irritado. — Mas não é tudo. Ele roubou algo muito específico. E muito valioso para mim — completou, enquanto pas­sava por ela, já saindo em direção à porta.

— Gostaria que você pelo menos soubesse como fazer o seu trabalho. "O que estaria preso em sua garganta?", foi o que se questionou Emma.

— Poderia ajudar muito se me dissesse o que está procurando, Sr. Gold — disse Emma, observando o homem apressar-se para ir embora. Mesmo para ele, aquela era uma situação delicada. — Estou andando no escuro aqui. Que tal uma dica?

—Não é o caso — disse ele, olhando sobre o ombro.

— Por favor, encontre o sr. Moe French. Ele levará você para o restante.

— O que ele é seu?

Um cliente — disse ele.

— Um inimigo?

— Um cliente, já disse — respondeu.

Ele parou e virou-se apenas o suficiente para olhá-la de soslaio.

— E, caso não consiga encontrá-lo, saiba que resolverei o assunto com os meus próprios recursos — disse ele.

— Não faça nenhuma estupidez, Sr. Gold — disse Emma.

— Obrigado pelo aviso — retrucou o homem— , mas nunca faço isso.

 

O DIA SE TRANSFORMOU EM NOITE, e a escuridão tomou conta de Storybrooke. Emma, apesar de seus melhores esforços, não conseguiu localizar Moe French, e, enquanto dirigia para cima e para baixo pelas ruas da cidade, desejou que Graham estivesse ali ao seu lado para ajudar. Ele sempre teve um talento espe­cial para encontrar pessoas, não é mesmo? Nada tinha estado exatamente do mesmo modo sem ele.

O beijo que trocaram o último beijo, ainda permanecia com ela.

Mary Margaret foi se encontrar com Ruby e Ashley na Toca do Coelho. Ela sorriu, juntamente com as outras duas, enquanto Ashley contava algumas histórias engraçadas sobre a dificuldade em lidar com o bebê alguns dias. Fi­cou ouvindo diligentemente enquanto Ruby descrevia seus problemas para namorar e se queixava de como era difícil encontrar um cara bom em Story­brooke. Sua vontade era contar mais sobre David, e descrever como tinha sido frustrante estar com alguém em segredo, mas não era hora de fazer isso. Mary não podia lazer isso com ele. Ela amava Ruby, mas tinha medo de que a história estivesse espalhada por toda a cidade até a manhã seguinte, se Mary Mar­garet admitisse o caso.

— E quanto a você, Mary Margaret? — perguntou Ashley depois que Ruby parecia ter acabado com sua explosão de informações.

— Quanto a mim o quê?

Sua vida amorosa — disse Ashley. - Nada de novo com o Dr. Whale?

— Deus, não — disse Mary Margaret, franzindo a testa e tomando um gole de sua bebida.

—   Isso foi um grande erro.

— Acho até interessante vocês dois juntos— disse Ruby. — Ele pode ser um grande erro, mas é um grande erro lindo!

— Eu só... — No entanto, Mary Margaret nem terminou a frase. Ela não podia acreditar no que estava vendo.

Do outro lado do salão, no bar, David estava sentado ao lado de Archie. Os dois estavam conversando, mas ele lançou um olhar furtivo na direção dela.

— O quê? — disse Ashley, virando-se para onde ela estava olhando.

— Mi­nha nossa! — disse ela quando viu David. — Mas que dupla estranha...

Eu não acho que eles estejam namorando, será...? —disse Ruby, e come­çaram a rir. — Não seria bem engraçado?

— Você não acha estranho ele não passar o Dia dos Namorados com Kathryn? — perguntou Ashley.

— O que estaria fazendo aqui?

Mary Margaret pediu outra bebida. Ela sabia a resposta, é claro.

David estava ali para manter o controle sobre Mary. Ela o ignorou o tempo todo.

Quando chegou a hora de ir embora, Mary Margaret recolheu suas coisas, despediu-se das meninas que protestaram, mas ela estava exausta, — e saiu da Toca do Coelho. David a seguiu, assim como ela adivinhara que faria, e, quando os dois estavam a poucos quarteirões de distância, ele a chamou e Mary se virou.

Quando David a alcançou, Mary Margaret disse:

— Vi você lá. Isso foi repugnante.

— O que você quer dizer com "repugnante"? —  perguntou ele

— Não preciso de você me perseguindo respondeu a jovem. Já é ruim o suficiente como esta. O que as pessoas vão pensar?

—Não sei   — disse ele. — E existe uma parte de mini que não se importa.

Bem, mas eu me importo — disse ela, de braços cruzados.

— Esta é uma cidade pequena. E isso que estamos fazendo não está certo.

David assimilou as palavras, acenou com a cabeça e enfiou a mão no ca­saco. Do bolso interno, tirou um cartão e o entregou a ela.

— Trouxe para você um cartão do Dia dos Namorados - disse ele. - Aqui está.

Mary Margaret aceitou o cartão, sem pensar direito no que estava fazendo, e abriu-o.

Ela leu, franziu a testa e olhou para David, segurando-o:

— " Kathryn, eu uivo por você"? David ficou surpreso.

— Opa, cartão errado, sinto muito — disse ele, arrancando-o da sua mão. Enfiou a mão no casaco e pegou o outro cartão.

—Aqui, este é o correto.

Ela pegou o segundo cartão, mas não o abriu.

Em vez disso, olhou com tristeza para David.

— Isso não está dando certo — disse ela.

— Nós dois sabemos.

— Nós podemos fazer dar certo — disse ele.

—Apenas me dê um tempo. Por favor, Mary Margaret.

Ela suspirou.

— Você deveria ir para casa e ficar com Kathryn — disse ela.

Eu vou — disse ele. — Mas achei que seria importante lhe desejar um Fe­liz Dia dos Namorados. E foi o que fiz.

— Está bem, obrigada — disse ela rigidamente.

— Feliz Dia dos Namorados para você também.

 

EMMA TINHA TIDO UM DIA ESTRANHO. Depois de algumas horas caçando a peça faltante do sr. Gold, ela foi se tornando cada vez mais desconfiada das suas in­tenções. Algo lhe dizia que Gold estava tramando alguma coisa e que o tal Moe French era mais do que apenas um "cliente".

Depois de seu estranho intercâmbio de informações com o sr. Gold em seu escritório, ela foi para a lanchonete com uma pilha de papéis - informações sobre as varias propriedades de Gold dentro dos limites e ao redor de Storybrooke   e começou a vasculhar no meio daquela papelada toda em busca de conexões com Moe French. Emma estava profundamente envolvida com uma planilha incrivelmente chata sobre os registros fiscais do homem quando olhou para cima e viu Henry sorrindo para ela.

— O que está fazendo? — perguntou ele.

—Trabalhando — disse ela, tomando um gole de café.

—Por que você não esta em casa?

— Minha mãe esta ocupada de novo —disse ele, deslizando no banco à sua frente.

—E a gente quase nunca se vê mais, então...

Emma olhou para ele. O que Henry estava dizendo era verdade, Regina estava trabalhando duro para mantê-los separados. O que tornava tudo ainda mais frustrante, porque agora ela não teria tempo para dedicar ao menino.

— Você quer ouvir sobre Rumpelstiltskin? — perguntou ele.

— Realmente não estou com vontade, garoto — disse ela. Emma levantou a cabeça e franziu a testa.

— Onde esta seu livro?

— Estou apenas me lembrando dessa historia... — disse ele rapidamente.

— Realmente não tenho...

— Mas é muito louca — disse ele, com os olhos arregalados. Flavia um reino que precisava de sua ajuda, e assim lá foi Rumpelstiltskin para ajudá-los, e eles disseram que precisavam dele para acabar com a Guerra dos Ogros, por­que era muito perigosa, e em troca ele pediu a mão de uma bela jovem e...

Mas Emma tinha visto algo em um dos papéis e levantou a mão.

O sr. Gold possuía uma casa fora da cidade. Um chalé.

Ela não tinha conhecimento disso.

Emma teve um palpite. Moe French estava desaparecido; Gold não fora visto em lugar nenhum naquele dia. Ela decidiu ir dar uma olhada.

— Desculpe garoto—   disse ela.

— Tenho de sair e checar uma coisa. Sério? — disse ele, um pouco desapontado. — Da próxima vez, é uma promessa — disse ela.

Ela foi de carro até os limites da cidade e, em seguida, pegou uma velha estrada de terra, seguindo o mapa empoeirado, que veio junto com o carro da policia. Havia apenas uma coisa... Algo estava errado com essa coisa toda. Não e que apenas uma pessoa estivesse mentindo. Todo mundo estava mentindo. Havia uma história completa por baixo de tudo, e essa historia estava faltando.

Ela podia sentir a sua ausência.

Emma entrou em uma curva e viu um caminhão.

O caminhão de Moe French.

Seu palpite estava certo.

Ela entrou no chalé com a arma na mão. e quando o fez, deparou com uma cena horrível: o sr. Gold, enlouquecido, batendo em Moe French, que estava sangrando e inconsciente.

Ela deteve o sr. Gold e o algemou. Ele pareceu se entregar no segundo em que viu o rosto da xerife. Emma chamou uma ambulância e o indiciou sob a acusação de agressão. Os paramédicos socorreram Moe French e o levaram para o hospital, mas não tinham certeza sobre suas chances de sobreviver.

Emma e Gold não conversaram muito durante a viagem de volta para a delegacia de polícia.

 

— EU SEI O QUE VOCÊ ESTÁ PENSANDO— disse Emma.

— Devo um favor a você, e esta na minha prisão agora. E sua vontade e não estar aqui neste momento, estou certa?

Terminados os procedimentos da detenção, Emma sentou-se em sua mesa, comendo um sanduíche. O sr. Gold estava na cela, sentado calmamente, ou­vindo-a procurar esclarecer a situação. Ela não era normalmente tão simplista assim. Talvez estivesse tentando tirar o melhor de uma situação ruim.

— Quando eu precisar do favor, vou exigir esse favor — disse ele final­mente.

Emma deu outra mordida no sanduíche e ficou observando-o com cui­dado. Antes que ela pudesse responder, no entanto, os dois ouviram a porta da frente bater e olharam naquela direção. A prefeita e Henry entraram.

— Eu estava me perguntando se você gostaria de passar uma hora com Henry — disse Regina.

Emma terminou o sanduíche, olhou para Regina, em seguida voltou o olhar para o sr. Gold.

— Deixe-me adivinhar. Então, você vai poder conversar com ele a sós.

Regina encolheu os ombros.

— Talvez — disse ela.

—  Você quer ir com Henry ou não?

Emma assentiu

— Eu fico com ele, sim— disse ela. — Pode deixar. — Olhou de volta para Gold.

— Está de acordo com isso?

— Claro — respondeu ele.

— Somente desta vez — disse Emma a Regina. Ela e Henry saíram.

Por alguns minutos, não conversaram, e Emma tentou imaginar o que estava sendo dito entre aquelas duas pessoas muito estranhas na cadeia. Eram inimigos, estava claro, mas Emma sabia que havia algo além de uma simples animosidade. Aquilo vinha de muito tempo. Havia segredos entre eles.

— O que é que rola entre esses dois? — perguntou Emma finalmente.

— O que você quer dizer? - perguntou Henry. Ela balançou a cabeça.

— Não sei, Henry — disse ela. — Foi um dia estranho, hoje.

— O que o sr. Gold fez para ir parar na cadeia? — perguntou Henry.

— Ele atacou uma pessoa disse Emma. — Eu o peguei espancando um homem.

—Que homem?

Emma olhou para ele e apertou os olhos.

—Moe French — disse ela.

Henry assentiu como se soubesse quem era, mas não disse nada.

— O que foi? — disse Emma.

— Você não vai acreditar em mim se eu lhe contar —respondeu Henry então por que eu deveria falar alguma coisa?

— Experimente para ver se é verdade.

— Bem — disse Henry.

— Você se lembra de quando lhe disse que Rumpelstiltskin se tornou um cara mau quando obteve o poder?

—Sim — disse ela.

— Um pouco mais tarde, depois que ficou sozinho, e seu filho Bae já tinha ido embora, ele conheceu uma garota e se apaixonou por ela, e quase se tornou um cara bom de novo.

— Quase?

—Sim — disse Henry. — Ele tinha de escolher. Logo depois que a garota o beijou. E escolheu ficar poderoso em vez de apaixonado e ser um cara normal Que foi exatamente o que aconteceu quando ele perdeu Bae.

— O filho dele morreu?

— Não — disse Henry. — Simplesmente desapareceu.

Eles caminharam em silêncio por mais alguns minutos. Ambos estavam perto da escola agora, e a noite estava fria e quieta. As folhas tinham desapa­recido das árvores e o vento chacoalhava os ramos. Não havia esse tipo de tranquilidade em Boston.

— Bela — disse Henry.

— O quê? — perguntou ela.

— Essa foi à garota por quem ele se apaixonou — disse Henry. — Mas de­pois que ele a rejeitou, a pobre Bela voltou para casa, e seu pai, achando que ela não estava mais apta para se casar, acabou trancando-a.

— E o que aconteceu com ela? — perguntou Emma.

— Ela se matou - disse Henry. — De qualquer forma, foi isso que a Rainha disse que aconteceu.

Emma pensou de novo e se lembrou do brilho nos olhos do sr. Gold ba­tendo em Moe French. O que foi mesmo que ela ouviu Gold gritar?

—Você a man­dou embora!

— E... deixe-me adivinhar — disse Emma. Moe French era o pai da me­nina.

— Você ainda tem de perguntar?

Emma sacudiu a cabeça. Essa vida de fantasia do garoto fora muito bem montada, ela se sentia obrigada a admitir. E havia sabedoria, e também ver­dade nela. Henry conhecia muito sobre a cidade, mesmo que nem se desse conta de tudo o que sabia.

— O amor é difícil disse Emma, pondo a mão em seu ombro.

— E os pais também.

Henry olhou para ela, depois assentiu.

— Acho que sim —disse ele.

— Acho que isso é verdade.

 

                 O QUE ACONTECEU COM FREDERICK

PARECIA QUE TODA VEZ QUE EMMA SWAN ESCLARECIA UM problema, mais dois surgiam no lugar do primeiro. Mas e sua tensa relação com Regina? Tudo parecia estar calmo por ora, mas quem sabe aonde isso poderia levar? O caso de Gold e Moe French' Claro, ela havia encontrado a propriedade de Gold e o sr. French estava estabilizado no hospital, mas Gold, com uma equipe de advogados, tinha de algum modo conseguido escapar da acusação mais grave e saído de tudo aquilo com nada mais que um puxão de orelha como punição por espancar um homem até próximo de tirar a sua vida.

Emma estava começando a se lembrar de que a vida de caçadora de recompensas era muito mais atraente que a própria aplicação da lei. Era simples encontrar uma pessoa. Era muito mais complicado quando toda a história entrava em jogo.

Ela ainda não tinha compreendido exatamente o que acontecera entre Gold e o florista. E estava conformada com a ideia de que nunca saberia.

Mas havia ainda mais. Henry, como se descobriu depois, tinha perdido seu livro durante a grande tempestade. (Ou. de acordo com ele. Regina ti­nha usado a tempestade como uma oportunidade para roubar seu livro.) Seu "castelo" fora derrubado pelos fortes ventos, e, antes que alguém tivesse tido a chance de arrumar a bagunça, Regina tinha enviado as escavadeiras para limpar os destroços. A prefeita nunca apreciou a ideia de que Henry tivesse um lugar especial para si mesmo, e odiava ainda mais aquele lugar, porque era o espaço que Emma e Henry usavam para conversar. Teria ela sabido que o livro de Henry estava enterrado na areia? Emma não fazia ideia. Claro que nunca daria essa pista a Regina, mas também ela não ficaria surpresa se o livro de contos estivesse agora no fundo de um aterro, mais uma vitima das circunstâncias.

Henry estava chateado sem as suas histórias, mas Emma se perguntou se isso, no final das contas, não poderia ser a melhor coisa para ele. Ela havia pro­metido ao garoto que procuraria o livro, mas até agora não tinha despendido muito esforço nisso. Emma não se importaria de ter um pouco mais de hones­tidade e realidade em seu relacionamento com o filho.

Mas um dia, ao vê-lo na lanchonete uma tarde, a xerife não conseguiu dei­xar de pedir a Henry que lhe contasse uma de suas histórias.

Pensou que tal­vez isso pudesse ajudá-lo a se lembrar do livro e escapar daquele desânimo. E assim, quando ele olhou para ela, levemente interessado, perguntou:

— Qual delas?

Emma disse:

— Não sei. Uma sobre amor.

— Já lhe contei como o Príncipe Encantado fez para que Branca de Neve se lembrasse dele de novo, mesmo depois de ela ter bebido a poção?

— Acho que não. Que poção era essa, mesmo?

— A poção que a fazia se esquecer de que o tinha conhecido — disse Henry, e o tom de sua voz foi subindo.

Emma ficou contente ao vê-lo se animar de novo para a vida, embora não sorrisse, sabendo que isso poderia detê-lo. Ao contrário, balançou a cabeça se­riamente.

— Isso mesmo! — exclamou ela. — Rumpelstiltskin a fez para ela.

— Certo. E ela tomou enquanto estava com os anões, pois o Rei George lhe disse que mataria o Príncipe Encantado se ela ficasse no caminho daquele ca­samento arranjado.

— Pobre menina.

—Eu sei! — disse Henry.

— Mas o Príncipe foi procura-la mesmo assim.

Emma ouviu Henry contar o resto da história.

O Príncipe encontrou Chapeuzinho Vermelho e, com a ajuda dela, fi­nalmente descobriu onde se escondia Branca de Neve. Mas ela não se lem­brava dele e, pior que isso, não queria ter nada a ver com ele, uma vez que se tornara obcecada em matar a Rainha. Ele tentou impedi-la, várias vezes. Mas nada conseguiu ate o dia em que a salvou, atirando-se na frente de uma flecha que ela havia disparado contra a Rainha, provando a Branca de Neve que ele realmente a amava, que seu beijo era poderoso o suficiente para quebrar a maldição, e assim Branca de Neve foi capaz de se lembrar de quem ele era.

— Então, depois disso — perguntou Emma —, ela não quis mais matar a Rainha?

— Ela ainda a odiava — disse Henry, pensativo. — Mas, como conseguiu seu amor de volta, ele era mais importante.

— E, então, eles viveram felizes para sempre?

— Não! —disse Henry.

— Tudo estava apenas começando. Isso porque, quando parecia que os dois ficariam bem, os capangas do Rei George desco­briram onde eles estavam e arrastaram o Príncipe para longe de Branca de Neve novamente.

 

Emma estava querendo fazer mais perguntas, mas justo nessa hora Henry ficou de pé.

— Tenho de ir para a escola — disse ele. — Se eu ainda tivesse o livro, eu o daria a você e assim poderia ler essa história sozinha. Emma sorriu.

— Eu ainda estou procurando por ele. Não perca as esperanças. Ainda não.

Henry foi embora e Emma suspirou, tomando um gole de café. Ela estava começando a amar aquele garoto.

Emma estava no caixa, pagando a Ruby, quando um estranho caminhou para dentro da lanchonete com o capacete de motociclista debaixo do braço Não era bem esse sujeito que Emma queria ver agora. Ele lhe deu um breve aceno de cabeça.

— Ei! — exclamou ele. — Justo quem eu vim procurar.

Ela revirou os olhos e recolheu o troco de Ruby, que olhou para o homem, depois para Emma, e então sorriu.

— Minha esperança era que a gente pudesse tomar aquele drinque que você me prometeu — disse ele.

— O que me diz?

— Temos um problema — disse Emma.

— Não saio com caras cujos nomes— , não sei. Trata-se de uma política pessoal.

Ele assentiu com a cabeça de novo c olhou para baixo. Muito justo

— disse o homem. — Meu nome e August W. Booth. O que é esse W?

— Wayne. Isso pode ser motivo para romper o nosso acordo?

— Não — disse Emma. — Acho que não.

— Então, agora você não tem nenhuma razão para não sair comigo - retru­cou ele. — Hoje à noite. Quando você terminar o seu trabalho. Eu a encontro exatamente ali fora. - Apontou para a porta e deu-lhe outro sorriso.

Ele não esperou pela resposta dela; em vez disso, saiu pela porta, pegou a moto e foi embora.

Esse era um cara confiante ou ofensivamente arrogante? Emma não conse­guia definir direito. Ela ainda estava de pé perto do caixa, pensando nisso, quando olhou e viu Mary Margaret no balcão, na parte de trás, olhando para ela com um grande c curioso sorriso.

Emma foi até lá.

— Eu não sabia que você estava aqui disse Emma.

— Está se escondendo aí como se fosse uma bandida.

— E que notei que você estava envolvida em algum tipo de história com Henry — explicou ela — e não quis interromper. O mais importante é; quem e ele?

— Isso é o que estou tentando descobrir— respondeu Emma.

— Mas não sei. Não é nada.

— "Nada" com você quer dizer alguma coisa disse Mary Margaret.

Além disso, se fosse realmente nada, não estaríamos aqui falando sobre isso.

— Mas o que você está fazendo aqui nos fundos, afinal? —perguntou Emma. — Se eu não a conhecesse, diria que estava se escondendo.

— Sim — reconheceu Mary Margaret, tomando um gole de café.

— Estou evitando...

— Evitando? O quê?

Ela respirou fundo.

—Durante as últimas semanas... — começou.

— David e eu estivemos...

— Vocês estavam tendo um caso, eu sei — disse Emma.

Ela fez um sinal com a cabeça para Ruby, que já conhecia o olhar: "Mais café". Essa tinha sido uma das mais épicas paradas para tomar café que a xe­rife fizera nos últimos tempos.

Mary Margaret estava atordoada.

— Como é que sabia do nosso...

— Ora, isso é óbvio — respondeu Emma. — Sou a xerife desta cidade e di­vido o apartamento com você... Mas, mesmo que fosse cega, teria sido capaz de acenar pela forma como anda agindo!

—Eu não sabia que era tão obvio assim.

Emma encolheu os ombros.

— Sim, bem — disse ela.

— E o que vai fazer a respeito disso?

Naquele momento, Ruby depositou a xícara de café na frente dela, e Emma sorriu em agradecimento.

— Não se trata do que eu venha a fazer —disse Mary Margaret , mas sim do que David vai fazer. Ele está contando a Kathryn. Hoje...

—Tudo? — perguntou Emma, impressionada. Ela não achava que David tivesse esse tipo de coragem. E estava preocu­pada com sua amiga, pois David parecia ser um manipulador clássico, no final das contas. Aparentemente, não importava se ficara cm coma ou tivera uma parte do cérebro queimada, se tinha aquilo dentro dele, quer dizer, se tinha tendência a ser um porco nos relacionamentos, então era isso que ficava.

—Tudo! — respondeu Mary Margaret.   — Absolutamente tudo.

— E o que causou isso?

Ela disse a ele que prefere se mudar para Boston— disse Mary Margaret e que deseja fazer Faculdade de Direito. Assim, parece que tudo está cami­nhando nessa direção.

— Bem, esse homem já fez grandes declarações antes — disse Emma.

— E agora, o que ele conseguiu é fazer você ficar se esgueirando pela cidade. Tenha cuidado, Mary Margaret.

— Eu sei — disse ela. — Eu sei. Terei.

 

MARY MARGARET ESTAVA ENTRE DUAS AULAS, descendo pelo saguão da escola em meio a um mar de estudantes, quando seu celular tocou. Na maioria das vezes não atenderia, mas era David.

— Oi... você... hum... Você fez aquilo? — perguntou Mary Margaret, ten­tando não parecer muito esperançosa.

— Sim, e foi ruim — respondeu ele.

— Sinto muito —  retrucou ela, tentando parecer simpática.

— Não, foi... Foi mesmo muito ruim...

— Mas pelo menos contou a verdade, então agora podemos começar a recolher as peças. Podemos recomeçar a partir de um lugar real, e não de uma mentira — disse Mary Margaret, sentindo que um peso tremendo tinha aca­bado de ser retirado de cima de seus ombros.

Apesar de todas as pessoas à sua volta, ela parou de andar, fechou os olhos e deixou-se absorver por aquela sensação. Finalmente. Finalmente, eles pode­riam ficar juntos.

Ele pareceu fazer uma estranha pausa antes de continuar a falar.

— Ei, quero ver você. Posso passar por aí quando você tiver acabado a aula?

— Claro que sim! Vejo você mais tarde, então. E, David... Você fez a coisa certa.

Ambos desligaram.

Quando ela abriu os olhos, seu sorriso estava algo diferente. Primeiro, foi um sorriso de confusão. Em seguida, desapareceu por completo.

Kathryn estava caminhando diretamente para ela.

— Kathryn, eu... Mary Margaret começou a falar, mas não foi capaz de completar a frase, porque Kathryn lhe deu um violento tapa no rosto.

Mary Margaret viu estrelas por um momento quando recuou, absorvendo o golpe. Os muitos estudantes e outros professores que estavam no corredor ficaram todos em silêncio ao ver o tapa. De repente, não havia mais ninguém em movimento. Todo mundo estava assistindo à cena.

— Vamos conversar — disse Mary Margaret. — Mas não aqui...

— Não me importo se essa conversa for muito embaraçosa para você

— disse Kathryn. — O que você fez é imperdoável. Imperdoável. Se eu fosse você, não seria capaz de viver comigo. E o mesmo vale para David. Vocês dois se merecem.

— Kathryn — disse Mary Margaret. — Nenhum de nós dois queria que isso acontecesse assim. Mas foi algo que aconteceu. E sabíamos que a única coisa a fazer era contar-lhe agora, antes que...

— Contar? Você acha que foi isso o que ele fez? Ele não me disse nada. Mentiu para mim durante toda a manhã. Disse que não temos conexão. Bem, sabe de uma coisa? Ele estava certo. Não temos mesmo. Porque ele estava muito ocupado tendo uma conexão com você —Kathryn bufou e sacudiu a ca­beça. — Ele sempre foi covarde. Você deveria saber disso. E não vai mudar com você, saiba disso também.

Mas Mary Margaret estava muito mais interessada no que a mulher tinha dito antes para notar o seu comentário sobre covardia.

— Ele não... não contou a você? — perguntou.

— Não — respondeu ela. — Não contou. E se mentiu para você sobre isso, é muito, muito bom. Agora você também sabe como ele é...

Isso era aparentemente tudo o que Kathryn tinha a dizer. Sem outra pa­lavra, ela se virou e caminhou para o corredor, de volta pelo mesmo trajeto da vinda.

 

UM POUCO MAIS TARDE, NAQUELE DIA, Emma, irritada, mais uma vez se postou na frente da lanchonete da Vovó, lugar onde parecia estar aparentemente con­denada a passar o resto de sua vida, esperando que August chegasse.

Não podia acreditar que tivesse concordado com aquilo. Ouviu o rugido do motor da moto dele antes de vê-lo.

August veio pela Rua Principal e parou ao lado dela.

— Olá! — disse ele. — Não tinha certeza de que apareceria.

— Sempre cumpro com meus compromissos — disse ela.

Ele sorriu e deu-lhe um capacete sobressalente.

— Vamos lá, quero lhe mostrar uma coisa.

— Deve estar brincando comigo.

— Como?

Isso não é um pouco... próximo demais para um primeiro encontro? -disse ela, olhando para a moto.

— Não me importo se você não se importar — disse ele. Vamos lá. Será divertido.

Emma balançou a cabeça e suspirou.

— Tudo bem — disse ela. — Dirija com cuidado.

Eles foram para o leste, pela estrada que levava para fora da cidade, mas antes de chegarem à placa de sinalização, que agora tinha ficado famosa por­que muitas pessoas pareciam ter problemas com o veículo exatamente ao re­dor desse ponto, August reduziu a velocidade e virou a moto, entrando pela floresta.

Emma agarrou-se a ele mais apertado c disse:

Está brincando comigo? Eu sou a xerife!

Mas ele a ignorou.

Levou apenas alguns minutos para chegarem a um campo aberto. Outro minuto montados na moto, e então August parou e desligou o motor.

Os dois desceram, e ele a levou morro acima, até um antigo poço. Emma nunca tinha estado ali antes.

— Belo poço — disse ela.

—Você sabe mesmo como divertir uma garota. Está decepcionada? — perguntou ele.

—Bem, quando você disse tomar uma bebida — explicou Emma, olhando para baixo, no poço —, eu me enganei, porque tinha certeza de que estava se referindo a algo... mais... alcoólico...

— Tudo bem, na próxima vez — disse August.

— Desta vez, há algo mais importante.

Ele foi para o poço c alcançou a velha corda, e em seguida começou a puxá-la para cima.

— Você sabe que este poço, supostamente, e especial? Há uma lenda que diz que este poço é alimentado por um antigo lago subterrâneo, cuja água tem propriedades mágicas.

— Legal, você parece o meu filho falando.

Moleque inteligente, aquele — disse o homem. A lenda diz que beber desta água fará retornar algo para você. Algo perdido.

— Embora seja um estranho, você com certeza sabe muito sobre esta cidade —disse Emma.

— E você sabe muito pouco para ser a xerife...

Você já esteve em Storybrooke antes, August? — perguntou ela, curiosa. Havia alguma coisa com esse cara.

Era como se tudo fosse apenas um jogo. Ele puxou o balde.

Emma viu que August tinha dois copos de estanho nos bolsos, que fo­ram, então, colocados na borda do poço. O homem serviu alguns goles em cada um.

— Sei tudo isso por uma simples razão   disse ele. — Li a placa.

Ele acenou com a cabeça, e Emma olhou para a placa, que trazia toda a his­tória. Estava tudo ali mesmo. Ela sorriu e balançou a cabeça.

— Você realmente acredita em magia, então? — perguntou.

— Sou escritor. E mantenho a mente aberta.

—Claro, mas magia?

— Acredito na água disse ele. A água é poderosa. Culturas tão antigas quanto o tempo a adoraram. Ela percorre todas as terras, conectando-nos uns aos outros. O que mais teria propriedades tão místicas?

— Um pouco de provas poderia ser bom retrucou ela— , para apoiar tais alegações.

— Bem, as provas nem sempre nos levam à verdade — disse ele.

— Não?

Eles olharam um para o outro por alguns minutos. Emma teve de admitir que estava sentindo um pouco de eletricidade no ar. Ela não queria, mas ad­mitiu.

Ele lhe entregou um copo, ergueu o outro, e então fez um brinde.

— Você é a cética, eu vou ser o crente —disse ele.

— Seja como for, a água e boa para beber.

— Saúde   disse Emma. —Saúde.

Eles brindaram e beberam.

 

AS COISAS NÃO ESTAVAM TÃO AGRADÁVEIS ASSIM em outras partes de Storybrooke. As aulas tinham acabado, e Mary Margaret estava voltando para casa, ainda atordoada com o que havia acontecido com Kathryn. Atordoada também com aquilo que tinha aprendido naquele dia: David havia mentido para ela. Não só ele tinha ficado com medo de contar a verdade para sua es­posa, mas também mentira para Mary Margaret. Mentira a elas apenas para se proteger. E agora havia muito mais problemas do que ele poderia ser capaz de resolver.

Como ela tinha se deixado levar para essa situação? Depois de um período tão curto de tempo? Fazia apenas uns dois meses que tudo tinha... Tudo pelo menos estava bem, então Emma chegou, e David acordou... Ela não sabia. O mundo parecia estar muito mais desperto e excitante que antes, mas era mais perigoso também. Ela não tinha certeza se não achava melhor a ilusão de calma do que uma versão mais autêntica das coisas.

Virou em Lima esquina, na Rua Principal, e colidiu com a Vovó.

Ela sorriu.

 

— Olá, Vovó —   disse. — Sinto muito. Fiquei perdida em meus pensamen­tos e...

— Tudo bem, querida, eu... — Mas a Vovó interrompeu seu próprio pedido de desculpas quando viu quem era.

— Ah, você... Como? — disse Mary Margaret.

— Você deveria ter vergonha de si mesma — disse a Vovó, inclinando-se em sua direção. Balançou a cabeça com desdém, e Mary Margaret não con­seguia acreditar na quantidade de desprezo em seus olhos.

— O que você fez é imperdoável.

— Mas eu...

Porém, a Vovó apenas bufou, olhou para o lado e continuou seu trajeto rua abaixo.

De cabeça baixa, à beira da desesperança, Mary Margaret foi caminhando até sua casa.

 

ELA VIU DE SUA JANELA: "VAGABUNDA".

Alguém havia escrito isso em seu carro, e agora David estava do lado de fora, esfregando para tentar limpar. Perfeito. Ele sabia que era o responsável. Não, ele de tato não tinha escrito aquilo, mas suas mentiras é que haviam feito tudo acontecer. E, por que ele sabia disso, estava tentando limpar.

Superficialmente, sem jeito.

E tarde demais.

Ela saiu para a rua.

—Quem fez isso? — perguntou.

Ele se virou surpreso, E lançou lhe um olhar suplicante.

— Não sei. E não sei como é que alguém soube...

— Vou lhe dizer como souberam — disse Mary Margaret.

—Eles sabem por que sua esposa foi à minha escola hoje e me deu um tapa. Na frente de todo mundo!

Ele levou um momento para assimilar aquilo. Mary imaginou sua mente cheia de esquemas, fazendo as suas tabulações: mas como as minhas mentiras toram desfeitas?

—Sinto muito —   disse ele. — Não e você que deveria carregar todo o peso.

— Ela me contou, David — disse Mary Margaret, de braços cruzados. Ela me disse que você nunca contou nada a ela. Que você não contou a ela sobre nós.

— Mas... Eu não entendo - disse David.

— Então, como ela fez para des­cobrir?

— Pois essa é exatamente a pergunta errada para fazer agora — disse Mary Margaret, enfurecida por sua audácia.

— O que você deveria estar se perguntando é por que pensou que menti, mentir tanto para mim como para Kathryn, poderia ser a coisa certa a fazer. Não viu quanto dano causou? Você não pode enfiar o gênio de volta na gar­rafa, David.

— Também não posso controlar a forma como as pessoas vão reagir às no­tícias — argumentou David.

— Tem razão. Mas pode controlar o que faz. E você mentiu. Isso é o que causou tudo. E por isso que toda a cidade pensa que sou uma vagabunda.

Mary Margaret apontou para a palavra que tinha sido escrita em seu carro e balançou a cabeça em frustração.

David deixou cair o pano no balde, encostou-se no carro, e colocou a ca­beça entre as mãos.

— Pensei —disse ele que ela apenas sairia da cidade. Eu não queria que ninguém se machucasse mais do que o previsto.

—E agora todos estão feridos - disse ela. — Imagine isso.

— Nós vamos endireitar as coisas disse ele, estendendo a mão para ela.

—Vai demorar um pouco, mas tudo bem.

—Não me toque David! —   disse ela. —Não pode consertar o que foi feito.

— O que você está dizendo? Não entendo, eu...

— É simples, David. É o fim. Acabou. Você estragou tudo.

Ele soltou um sorrisinho patético, e o rosto de Mary Margaret não se mexeu. Ela não era capaz de se sentir mal por ele.

Não agora.

— Você acha que estou brincando? — perguntou ela.

— Pois não estou.

Trate de viver com isso para sempre.

Ela o deixou lá e voltou para o seu apartamento.

 

O MAINE ERA UM LUGAR GELADO NO AUGE DO INVERNO, e não houve dia mais frio do que aquele. Não caíra muita neve naquele ano, mas estava abaixo de zero enquanto Emma caminhava para casa depois de August deixá-la na dele­gacia de policia. Sentia-se exausta, e muito preocupada com Mary Margaret. A cidade toda estava falando sobre o assunto, e as coisas pareciam estar pio­rando. Emma já tinha visto isso acontecer antes, quando ela mesma fora o cen­tro dos comentários, e não gostou da lembrança. Nem um pouco.

Atravessando a rua, algo chamou sua atenção por trás do pneu de uma ve­lha picape. Algo saindo de uma pilha de folhas sujas.

Emma franziu o cenho e se ajoelhou para investigar. Não podia acreditar no que estava vendo ali, exatamente ali...

O livro. O livro de Henry. Bem ali na rua.

Ela se levantou, limpou a poeira da capa, folheou algumas páginas. E abriu na história que Henry lhe contara sobre o Sr. Gold e a jovem, e olhou para al­gumas das imagens.

Emma não sabia bem por quê, mas tinha encontrado a coisa. No mínimo, Henry ficaria feliz, e essa idéia a deixou feliz.

Dirigiu-se para a delegacia.

No entanto, não teve muito tempo para se sentir feliz com o livro, por­que os chamados de emergência começaram a chegar no momento em que entrou pela porta. Primeiro de um motorista, depois de David e, depois disso, de Regina.

Kathryn havia desaparecido. Ninguém sabia onde estava.

O carro dela, vazio, fora encontrado na vala perto da periferia da cidade.

Ela havia sumido.

 

                             A CAPA VERMELHA

EMMA FEZ A ÚNICA COISA QUE PODERIA FAZER: ORGANIZOU uma caçada humana. O que parecia ser toda a população da cidade compareceu na manhã seguinte a que Kathryn Nolan desapareceu, e eles passaram um pente-fino no bosque, em uma linha de trinta metros de extensão, na es­perança de encontrar algum sinal dela. David estava lá, assim como Mary Margaret, mas ficaram bem longe um do outro. Emma es­tava angustiada por ter de ouvir os murmúrios abafados de muitos dos cida­dãos, comentando sobre a professora. Por que é que Mary Margaret tinha de carregar sozinha, o peso da reputação manchada, enquanto ninguém parecia se importar com o tato de David, o homem, ter de bom grado participado do mesmo caso?

Emma não ficara surpresa com esse comportamento machista, mas não gostava dele.

Ambos tinham cometido erros. No entanto, Mary Margaret era a única pessoa que estava sofrendo.

A caçada humana não deu em nada.

Emma não conseguira nada com suas buscas também. Ate a manhã em que Sidney Glass, o ex-editor do jornal da cidade e seu antigo adversário na disputa pelo cargo de xerife, apareceu em seu escritório com um fragmento de informação bastante interessante.

Emma sabia que Sidney havia sido demitido por Regina logo depois da tempestade, mas não sabia por que, e na verdade não queria conhecer os detalhes. Suspeitava que tivesse algo a ver com a fracassada campanha para xerife, mas também desconfiava que houvesse mais que isso. O homem sempre a irritava. Não apenas por causa da campanha, mas pelo artigo desprezível que tinha escrito sobre o seu passado, e também por aquela maneira irritante como ele, ao menos ate ali, se pendurava em cada palavra de Regina.

Desde que havia sido demitido, Sidney vinha passando muito tempo be­bendo na Vovó e na Toca do Coelho. Emma tinha sido forçada a "escoltá-lo" para casa uma noite depois de encontrá-lo bêbado e delirante no meio da Rua Principal, a meia-noite. Ele tinha se enfiado cm sua própria toca de coelho, aparentemente, razão pela qual Emma ficou cctica quando o homem chegou ao seu escritório com um envelope pardo, alegando ter os registros telefônicos "verdadeiros" de David Nolan.

— Em oposição a quê? — disse Emma.  

— A registros telefônicos falsos?

Isso mesmo—   disse ele. — Os registros que você tem são falsificados. E lhe entregou o envelope. — Estes são os registros telefônicos verdadeiros.

Está me dizendo que a policia tem os registros errados — disse ela. E que você, um ex-editor de jornal, tem os registros certos?

— Isso mesmo.

Emma pegou o envelope e olhou para o papel que havia dentro dele. Asse­melhava-se aos registros oficiais que recebera da companhia telefônica depois da intimação, mas com uma diferença importante: a versão de Glass mostrava uma chamada de oito minutos entre David e Kathryn uma hora depois da ul­tima vez que Kathryn tinha sido vista.

Emma tentou raciocinar sobre aquilo. Teria Glass fabricado aqueles regis­tros? Se sim. para quê? E qual era a outra possibilidade? Que tivesse recebido de fato os registros falsificados pela companhia telefônica? Sc isso fosse ver­dade, quem tinha feito aquilo, e por que?

— Por que você espera que eu aceite esse papel como verdadeiro e o outro que tenho como falso? — perguntou ela.

— Porque não tenho nenhum interesse nisso — disse Sidney. "Mas é claro que não tem interesse", pensou Emma.

O problema e que, quando Emma foi checar pessoalmente na companhia telefônica e resolver a confusão, descobriu que os registros de Glass eram pre­cisos, e que a cópia original que ela havia recebido vinda da prefeitura, estava incorreta. Essa foi a diferença. Os registros originais haviam passado pelo es­critório de Regina. E tinham sido alterados nesse caminho. Ela perguntou a todos ali como uma coisa dessas poderia acontecer, mas eles não puderam ex­plicar, tampouco o pessoal do escritório de Regina.

Sidney Glass tinha vindo até ela com boa informação. Isso foi interessante. E, por algum motivo, parecia que Regina estava tentando afastá-la de David como provável suspeito.

Ela gostava de David, embora ele tivesse se comportado como um idiota du­rante o caso. Mas Emma não podia deixar sua simpatia pelo homem impedi-la de fazer o seu trabalho, e, com o registro dos telefonemas, fazia todo o sentido trazê-lo para um interrogatório Não havia ainda um corpo, ainda não, de qual­quer maneira, mas Emma sabia que alguns dias sem a mínima pista eram um mau sinal para uma pessoa desaparecida. Então, na noite da Feira do Dia dos Mineiros, quando a maior parte da cidade estava distraída, ela se aproximou discretamente de David e pediu-lhe que viesse até a delegacia com ela.

— Não vou prendê-lo disse a xerife— , mas precisamos conversar sobre aquele dia.

David veio por vontade própria, embora estivesse inflexível quanto à sua inocência. Emma não esperava nada menos que isso, e não o pressionou de­mais durante o interrogatório. Ele disse que não poderia explicar o registro do telefonema, e que devia haver um engano.

—   Você não entende, Emma — disse David. — Essa coisa toda praticamente te destruiu. - Ele balançou a cabeça e esfregou os olhos.

— Se ao menos houvesse uma maneira de ter feito tudo melhor, sabe?

— Às vezes, a vida é apenas confusa, não importa o que se faça — disse ela. Mas, David... Eu não deveria dizer isso, mas vou lhe dizer: acredito em você.

Acho que você não teve nada a ver com isso. Não sei onde ela está nem o que aconteceu, mas não acredito que você seja o responsável.

— Obrigado — disse ele.

— É bom ouvir isso. Muito bom.

— Também acho que é melhor você procurar um advogado — disse Emma

O olhar de preocupação voltou.

 

REGINA APARECEU NA DELEGACIA UMA HORA MAIS TARDE, querendo saber como ia a investigação de Emma. No momento, parecia que a sua guerra pessoal estava em compasso de espera. Emma nunca tinha visto Regina tão preocupada com outra coisa que não fosse ela mesma. Ela, assim como David, parecia realmente abalada com o desaparecimento de Kathryn

— Não há nenhuma novidade — disse Emma. Sinto muito em ter de di­zer isso.

— Por que você trouxe David Nolan para cá? Emma olhou para ela, surpresa.

— Você estava me vigiando na delegacia, Regina? — perguntou.

— Eu o vi sair daqui disse ela, e encolheu os ombros. — E agora quero sa­ber o que você está pensando. Trata-se da cadeia de comando, sou sua supe­riora e estou agindo conforme os meus direitos.

Emma sacudiu a cabeça. A mulher sabia tudo sobre a cidade. Aquilo era sobre-humano.

— Eu estava perguntando a ele sobre os registros telefônicos. Ele, aparente­mente...

— Falou com Kathryn na noite em que ela desapareceu, sim — disse ela, assentindo com a cabeça. -- Já fui informada do registro errado.

— Aquilo foi um pequeno passo — disse Emma.

— Mas não cheguei ainda a nenhuma conclusão.

— Srta. Swan, por favor. Ele não tem nada a ver com isso — disse Regina. "Interessante" pensou Emma. "Regina está do lado de David." Ela não sa­bia o que isso significava. Ainda não.

— E você tem tanta certeza disso, por quê? — quis saber Emma.

— Porque o conheço. E porque conheço esta cidade. Talvez você tenha uma vantagem por ser uma estranha, por ser alguém que pode ver as coisas de um novo ângulo, mas sou prefeita aqui há bastante tempo e consigo ter uma sensi­bilidade para esse tipo de coisa — disse Regina.

Emma não gostou do modo categórico de Regina. Regina se levantou.

— A questão é que eu gostaria de ver um pouco mais de urgência neste es­critório. Talvez um pouco mais de criatividade. E sobre esse novo estranho na cidade? Que tal alguns sequestradores? Ou ladrões? E sobre o sr. Gold? Já fa­lou com ele? Quero que você encontre a minha amiga. E como se você nem se­quer tivesse começado a investigar!

— Todos nós queremos encontra-la, Regina — disse Emma.

— Basta ter paciência. Sou boa em encontrar pessoas. As vezes e complicado.

 

DEPOIS QUE O AÇADOR A LIBEROU e ela fugiu para a floresta, Branca de Neve ficou com pouco mais do que as roupas do corpo. Foi difícil avançar enquanto abria um novo caminho pelas árvores, sozinha, sem a ajuda de um único amigo, e ela ia vivendo com o que conseguia encontrar no mato, dormindo na floresta por semanas, contando com a generosidade de estranhos para passar os dias. Estava finalmente pegando o jeito de viver como fugitiva quando algo novo mudou tudo: a neve.

E o frio.

E o vento.

E o gelo.

Ela havia feito tudo certo nas primeiras semanas, vivendo por conta pró­pria, pedindo comida e por vezes encontrando um camponês amável que a deixava dormir no celeiro. A Rainha c seus homens ja tinham começado a im­pressão de cartazes de "'Procura-se" com a imagem dela, que estavam distri­buindo por todos os cantos, e Branca sabia que a bondade das pessoas não duraria muito tempo mais. Se ela se expusesse muito, alguém acabaria por en­tregá-la.

Uma noite, quando a temperatura caiu consideravelmente. Branca de Neve se viu tremendo c cambaleando pela floresta, pensando, pela primeira vez, que aquilo tudo aquilo poderia ser a morte dela.

Escapara do Caçador somente porque se tornara invisível. Não era a pior coisa do mundo quando se estava fugindo, mas o problema de ser invisível era que também ninguém po­deria ajudá-la.

Já não conseguia sentir as mãos ou os pés quando viu, no alto de uma co­lina, uma pequena fazenda e um pouco de luz em uma janela. Parou ao lado de uma árvore c ficou olhando. Uni jovem estava na janela, e conversava com al­guém. A trinta metros da casa principal havia um galinheiro. Galinheiros, ela sabia, costumavam ser excelentes lugares para dormir. Quentes, livres de seres humanos, e cheios de ovos. Ela sentia tanto frio que, vendo a pessoa na janela distraída com o jovem, decidiu arriscar e correu pela neve em direção ao galinheiro.

Uma vez lá dentro, franziu o nariz por causa do cheiro das galinhas, que cacarejaram e ficaram agitadas com a nova hóspede. O galo parecia leve mente perturbado por sua presença e começou a se exibir em cima de um pouco de feno, reafirmando quem mandava por ali, mas logo se acalmou, e

Branca de Neve se alojou em um canto do galinheiro. Adormeceu quase imediatamente.

 

BRANCA SONHOU COM SEU PAI, e com o tempo antes da Rainha, quando sua mãe tinha acabado de morrer e o pai a levou até a praia, para brincar de cas­telo nas rochas. Era uma lembrança querida, mas no sonho havia mais: o pai estava feliz olhando para a água, e quando Branca de Neve se virou para onde ele estava olhando, viu a mãe se levantar das ondas com um sorriso no rosto. Ela estendeu os braços para Branca de Neve, e o peso de toda aquela tristeza se ergueu e sumiu. Elas estariam juntas novamente, mesmo que apenas por um dia, mesmo que apenas nesse sonho.

Branca se virou para o pai.

— É a mamãe! — gritou.

Ele assentiu com a cabeça.

— Sim — respondeu. — Vá se encontrar com ela!

Branca de Neve olhou para a mãe, a uns dez metros na agua do mar. Preo­cupada, olhou para o pai.

— Não posso chegar até ela! — gritou.

— Pode, sim —   gritou ele de volta. — Você tem de nadar!

— Mas estou com medo.

— Não importa — gritou o pai.

— Ela está morta, de qualquer maneira! E eu também!

Branca de Neve acordou de repente, com a imagem do pai ainda persis­tente por trás de seus olhos, o rosto dele sorridente. Era madrugada, e as gali­nhas estavam inquietas novamente.

Seu estômago roncou, e então Branca de Neve sentou-se e olhou para elas.

— Sinto muito—   disse ela—   , mas vocês têm algo de que eu preciso.

Branca se movimentou dentro do galinheiro e recolheu dois ovos, não que­rendo pegar muitos a ponto de os proprietários notarem sua falta, nem trazer algum tipo de dificuldade depois para eles. Colocou-os suavemente na bolsa e estava prestes a sair quando ouviu alguma coisa.

Passos.

Alguém eslava chegando.

Ela correu para um canto, no fundo do galinheiro, e agachou se por trás de algumas caixas, sabendo que poderia muito bem chegar ao seu fim naquele momento. Não precisava ser a Rainha ou qualquer um dos seus homens. Apenas um agricultor com raiva.

Alguém entrou e Branca de Neve se enrolou como uma bola. Ao fazê-lo, porém, seu manto raspou contra a parede de madeira e ela fechou os olhos, sa­bendo que o barulho a tinha denunciado.

—   Olá! Quem está aí? — perguntou a voz.

Era a voz de uma mulher.

A visão inicial de Branca, de um fazendeiro irritado com um forcado apontando para o seu coração, acabou se transformando cm outra pessoa. Uma garota. Alguém de bom coração. Talvez.

Ela decidiu se arriscar.

Lentamente, Branca de Neve se levantou de trás da pilha de caixas. Uma jovem de pele clara, vestindo um manto vermelho com capuz, olhou-a de volta.

— Quem é você? — perguntou a menina de vermelho.

— Sinto muito - disse ela. — Eu estava roubando ovos. Eu sinto muito.

A garota sorriu.

— Bem... Você é a ladra mais honesta que já conheci. Peguei apenas dois — disse ela, e os mostrou, segurando-os para a me­nina. — Eu estava com muita fome. E está tão frio lá fora...

— Você passou a noite toda aqui? - perguntou a garota.

Branca de Neve assentiu.

— Não sabia que há um lobo monstruoso a solta? — perguntou a garota de capuz vermelho.

Branca de Neve parecia preocupada.

— Achei ter ouvido alguma coisa, sim disse ela. — Mas... é melhor eu ir embora. Vou deixar isto aqui.

— E procurou um lugar para devolver os dois ovos.

— Não, não, está tudo bem — disse a garota. — Pode ficar com eles. Não me importo. Qual é o seu nome?

— Meu nome? — disse Branca de Neve. Meu nome é Margaret. Não... É Mary. Mary.

— É um belo nome — disse a garota. — Posso chama-la de Mary?

Branca de Neve assentiu.

— Venha, você pode ficar com a gente, tenho certeza de que estará tudo bem disse a garota.

— Meu nome é Chapeuzinho. — Levou a jovem para fora do galinheiro e na neve.

— Só preciso pegar água do poço. Mas, diga-me, não entendi uma coisa. O que você está fazendo aqui fora?

Elas caminharam pela neve em direção a um poço, e Branca de Neve igno­rou a pergunta. Em vez de responder, disse:

— O que é esse monstro?

Ajudou Chapeuzinho com o balde e, em seguida, o baixaram no poço.

- E a "Temporada do Lobo". Um lobo assassino solto por aí. Grande como um pônei, mas muito mais sanguinário. Vem atacando por toda esta área já faz algum tempo. Ele mata o gado e... espere. Essa roldana se prende de vez em quando. Se você puder...

Branca de Neve deu mais alguns passos e ficou no alto de uma colina. Chapeuzinho se juntou a ela, e Branca de Neve não pôde deixar de levar a mão à boca. Em toda a volta delas, havia corpos de homens, espalhados como bonecos quebrados. O vermelho de seu sangue tinha manchado o branco da neve.

 

RUBY E A VOVÓ ESTAVAM BRIGANDO e discutindo há semanas. Como muitos na cidade começaram a passar parte do dia na lanchonete da Vovó, não era se­gredo que as duas mulheres estavam tendo problemas. E não foi surpresa quando, depois de uma discussão sobre um turno na noite de sábado, Ruby largou a lanchonete, deixando a avó cuidando sozinha da casa cheia.

— Há muito elas estão brigando — murmuravam as pessoas.

— Não acredito que isso não tenha acontecido antes —diziam outros. Emma e Mary Margaret assistiram desconfortáveis a todo o desenrolar da discussão. No fim de tudo, Ruby saiu e gritou que estava saindo da ci­dade, indo embora para Boston. A avó não respondeu e, quando Ruby já ti­nha ido embora, agiu como se realmente não se importasse com a ausência da neta.

— Caramba disse Emma. — As coisas não vão bem na vida doméstica, acho...

— Elas sempre estiveram até as tampas uma da outra —   disse Mary Margaret voltando-se para seu chocolate quente. — E não sei por quê.

— Desculpe, estou sendo superficial — disse Emma. — Estávamos falando sobre David.

— Só quero ter certeza de que ele está bem — disse Mary Margaret.

— Não mas não consigo evitar, eu me preocupo com ele.

— Ele está bem. Esta abalado, claro, e preocupado que as pessoas pensem que tenha algo a ver com isso. Mas está bem — disse Emma.

— Você tem alguma pista sobre Kathryn? — perguntou Mary Margaret. — Nenhuma. Não tenho nada. Acho que devo voltar à estaca zero e repensar desde o inicio. Estou perdida.

— Será que não deveria verificar em Boston de novo? — perguntou Mary Margaret.

— Ela não está lá, se é o que quer saber.

— Não entendo como uma pessoa pode simplesmente desaparecer por completo —  disse Mary Margaret.

— Do carro. O que aconteceu? Será que ela

Ambas saíram da lanchonete dez minutos mais tarde, e Emma notara que o humor de Mary Margaret havia se deteriorado dramaticamente após aquela parte da conversa. Emma estava preocupada com a amiga, mas sabia que provavelmente não deveria ser vista socializando tanto com ela.

Mary Margaret talvez fosse um pouco ingênua para perceber isso, mas não de suspeitas. Para Emma. Mary Margaret parecia muito inocente, bem pouco ciente dos perigos do mundo. Ela era independente, mas ao mesmo tempo parecia ter um escudo em volta de si. Uma combinação comum.

Fazia frio, e Emma estava de braços cruzados, abraçando o próprio corpo, quando começaram a virar a esquina. Tanto ela quanto Mary Margaret ficaram surpresas ao ver Ruby em pé no ponto de ônibus.

Ruby estava uma pequena mala e estava olhando para a Rua Principal, furtivamente.

— Você abe que os ônibus nunca aparecem—    disse Emma.  

—   Para onde está indo?

— Qualquer lugar —  foi tudo o que Ruby disse,

— Nós ouvimos a briga —  disse Mary Margaret.

— Todos nós, acho

— Sim, bem, isso significa apenas que você ouviu a verdade. Estou farta dela, farta de ter de servir comida. E cansada de Storybrooke. Vou para Bos­ton - disse Ruby.

— Nada de especial será resolvido agora à noite — disse Mary Margaret.

— Você trabalhou o dia todo, e o frio está congelante. Fique em nossa casa esta noite. Pense nisso. Descanse e tenha uma boa noite de sono conosco.

Ruby olhou para as duas mulheres. Não demorou muito a assentir em con­cordância.

— Tudo bem— disse ela. — Uma noite.

 

A AVÓ DE CHAPEUZINHO RECEBEU BRANCA de Neve na casa principal com uma generosidade incomparável. Branca de Neve gostou dela imediatamente, em­bora parecesse ser também uma mulher geniosa. Chapeuzinho logo contou a ela o que as duas tinham achado do lado de fora, e as três foram verificar.

A avó olhou sombriamente para a cena perto do poço. e. com o sol mais alto, foi à cidade para fazer soar o alarme. Logo, dezenas, ou até centenas de pessoas se reuniram em frente à prefeitura para discutir o que devia ser feito. Aparentemente, o que os moradores ali chamavam de "Temporada do Lobo" estava a ponto de terminar, porque agora o prefeito estava furioso, já que meia dúzia dos homens mais fortes da cidade tinha sido dizimada. Um bom nu­mero de pessoas, homens e mulheres, estava com fome de vingança. Falava-se de outro grupo de caça para ir à procura do lobo naquela mesma noite.

Branca de Neve se perguntava em que acabara de se meter. Uma parte dela pensava que poderia ser de fato melhor roubar comida no meio da noite, mas agora havia a ameaça desse lobo. E o que era mais importante, ela sabia que, enquanto as pessoas estivessem distraídas com seus próprios problemas, não se preocupariam muito com ela.

— A única coisa que sei é que ontem a noite foi O ÚLTIMO MASSACRE!

A multidão aplaudiu em aprovação. Muitos se levantaram e gritaram:

— Matem o monstro!

— Se eu tivesse permanecido com o grupo por apenas dez minutos a mais, poderia agora estar entre os mortos— gritou o prefeito.

Talvez tivesse sido capaz de matar a fera!

— Você, certamente, teria falhado — disse uma voz.

Branca de Neve olhou para a esquerda, assim como também o fez Cha­peuzinho. A avó era a pessoa que tinha dito aquilo.

Branca de Neve podia ver que Chapeuzinho estava mortificada pelo co­mentário da avó. Ela notou que o prefeito Tompkins fazia uma varredura com o olhar na sala para identificar a fonte daquela observação.

Seus olhos pousa­ram sobre os de Chapeuzinho e ele sorriu para ela. Chapeuzinho virou a ca­beça e olhou para longe.

"Hummm...", pensou Branca de Neve. "Há algo aí."

— Essa criatura é mais poderosa do que você pode imaginar — disse a avó.

— Mais forte e muito mais inteligente.

— Você não teria tido a menor chance, prefeito. Fiquem todos dentro de casa, fechem as portas, escondam seus filhos, esqueçam o gado! Esse é o meu conselho!

O conselho da avó foi recebido com risos de escárnio-e vaias.

— Já ouvimos você dizer isso antes, viúva Lucas — disse o prefeito.

— Sim, você ouviu — disse a avó mas eu não lhe disse como fiquei sa­bendo.

A multidão ficou em silêncio. A avó ficou de pé.

— Há sessenta anos eu era uma criança, com seis irmãos mais velhos, tão altos como carvalhos, todos veteranos da Segunda Guerra dos Ogros. E meu pai era o maior de todos eles. Veio uma Temporada do Lobo, ele decidiu sair e acabar com o lobo. Um lobo diferente naquela época, claro, mas tão temível quanto o de hoje em dia. Eles fizeram isso por mim. Foram lá caçar o lobo para me proteger. — Naquele momento, a avó quase desmaiou de emoção. Chapeuzinho estendeu a mão e pegou a mão dela.

A avó continuou:

— Eu deveria estar dormindo, mas subi até o telhado e me deitei na palha para assistir. Eles tinham cercado o animal, os sete deles, meu pai e meus ir­mãos, com lanças, todas apontadas para ele. Então, a besta começou... Foi para frente, investindo. Não contra os homens, mas contra as armas, agarrando-as com os dentes, quebrando as varas. Mesmo assim, eles espetaram o animal com as pontas lascadas, mas isso não importou nem um pouco. O lobo rasgou a garganta de cada um tão rapidamente que nenhum deles teve a chance de gritar, ou de orar, ou dizer de adeus.

A multidão permaneceu em silêncio.

A avó lhes deu um olhar longo, lembrando a cada um deles o que tinha visto.

— O monstro olhou para mim com os olhos pretos que nem sequer pare­ciam estar lá. Eram furos no mundo. E então ele se afastou. Já viram algum animal selvagem virar as costas e ir embora como se não se importasse com vocês? Se o lobo atual é como o daquela época, não há como derrotá-lo. Ele já ganhou a batalha apenas por existir em nosso mundo. Não se consegue matá-lo. Tudo o que se pode fazer é se esconder.

A avó soltou a mão de Chapeuzinho, lembrou-a de vestir o capuz, e disse às duas meninas que era o momento de irem embora.

Era apenas meio-dia quando chegaram de volta à sua cabana, e a avó exausta pela noite sem dormir — disse a Chapeuzinho e a Branca de Neve que ela precisava se deitar.

— Não vão para muito longe — disse ela. — E não fiquem aqui fora perto do anoitecer. Vocês me prometem?

— Eu prometo — disse Chapeuzinho.

Assim que a Vovó fechou a porta do quarto dela, Chapeuzinho pegou a mão da Branca de Neve e disse:

— Vamos.

 

MARY MARGARET ESTAVA CANSADA de ficar esperando que as coisas acontecessem. Na manhã seguinte, enquanto Ruby c Emma ainda dormiam, ela ar­rumou em uma mochila as coisas que queria levar e saiu para a floresta à beira da cidade, com a intenção de encontrar Kathryn.

Mary se lembrava de Emma ordenando às pessoas que ficassem em uma li­nha para fazer a varredura do bosque, isso quando havia centenas de pessoas para ajudar nas buscas. Sozinha, porém, era mais difícil chegar a colocar cm prática um sistema eficiente desse jeito. Estacionou seu carro onde o de Ka­thryn havia sido encontrado, verificou de novo a bússola, e resolveu andar em um ziguezague aleatório, sem necessariamente seguir algum tipo de regra E se dirigiu para a floresta.

Mary procurou por duas horas, lembrando-se de se voltar e se reorientar quando a posição do carro de vez em quando. Enquanto procurava, pensou em David, e em Regina, e em quem na cidade poderia ser capaz de prejudicar Kathryn. David? Era impossível. Já não tinha dúvida de que Regina pudesse fa­zer algo assim, mas por que razão? Mary Margaret não conseguia atinar com o motivo. E isso significava que o culpado era alguém que parecia normal e se­guro, algum tipo de sociopata. Ela pensou no dr. Whale e em Sidney Glass. Poderia fazer qualquer...

Mary parou de repente.

David estava a três metros dela. com os olhos vidrados.

— David? —disse ela, andando em direção a ele. — O que está fazendo aqui?

Era estranho, ele não pareceu reconhecê-la. Passou por ela e disse, en­quanto caminhava: Sou eu - falou.

— Sei que é você. Você não parece estar bem - disse ela. Estou procurando.

— David, me escute— disse Mary Margaret, indo atrás dele.

— Emma real­mente não suspeita de você, não importa o que tenha dito. Kathryn está bem, deve estar em algum lugar. Apenas temos de...

— Estou procurando — foi tudo o que ele disse.

Mary Margaret parou c David continuou andando, como um zumbi.

— David? — disse ela.

Estou procurando — disse ele novamente.  

— Estou procurando.

 

HENRY SENTOU-SE COM RUBY NA DELEGACIA DE POLÍCIA, marcando uma série de vagas de emprego em Storybrooke, na esperança de ajudar Ruby a encontrar um novo emprego. Emma estava em sua mesa, envolvida com o desapareci­mento de Kathryn, mas não chegava a lugar nenhum. Ouvia seu filho ten­tando ser útil. Ele sugeriu vendedora; Ruby disse que não estava interessada. Sugeriu mensageira de bicicleta. Ruby disse que era desajeitada.

— Não há nada que eu possa fazer, realmente — disse Ruby.

— Esse é o pro­blema.

— Tenho certeza de que há coisas que você sabe fazer — disse Henry. -Talvez ainda não saiba que sabe...

Sem chance... A única coisa que fiz a vida toda foi trabalhar em uma lan­chonete — disse ela. — Tem de haver mais alguma coisa nesta vida.

O telefone tocou e Ruby atendeu. Depois de ouvir por um momento, ga­rantiu a quem tinha telefonado a Sra. Ginger, que os "passos" que ela estava ouvindo eram do cachorro de Archie, Pongo, e não de um ladrão. A Sra. Gin­ger agradeceu e desligou.

— Eu só queria possuir habilidades — disse Ruby. - Qualquer uma que fosse.

Emma sorriu.

— Parece que você tem algumas — disse Emma.

Henry e Ruby olharam para ela. Emma encolheu os ombros.

— Olhe, você precisa de trabalho, eu preciso de alguma ajuda por aqui. E tenho esta verba no orçamento. Por que você não vem logo para me ajudar no escritório? —disse Emma.

— Ah, não! — disse Ruby.   Eu não poderia fazer o trabalho da policia.

Só quero dizer atender ao telefone e me ajudar com a papelada, esse tipo de coisa - disse Emma.

— Você não vai ter de atirar em ninguém.

— Ah!

— Preciso de alguém. O que me diz?

Ruby ficou pensando por algum tempo, depois sorriu e assentiu com a cabeça.

—O que digo? Tudo bem! — disse ela. —Obrigada, Emma. Obrigada por me dar uma chance em alguma coisa.

— O prazer é meu — disse ela. — E o seu primeiro trabalho será ir até a Vovó e comprar o almoço. Estou morrendo de fome e não tenho tempo.

—Feito

Ruby pegou sua bolsa e foi para a porta. Antes que pudesse alcançar a ma­çaneta, no entanto, a porta se abriu e Mary Margaret, parecendo assustadíssima, entrou na sala.

Acabo de ver David na floresta — disse ela.

— Ele está à procura de Ka­thryn.

Ela não esta lá — disse Emma, balançando a cabeça.

Ha algo errado com ele —   disse ela. — Ele está... confuso. E desorientado.

 

CHAPELZINHO LEVOU BRANCA DE NEVE PARA a floresta, e as duas conversaram sobre a história da Vovó e do lobo. Branca de Neve estava feliz por Chapeuzi­nho não estar muito interessada em sua vida e não fez nenhuma pergunta, e por isso ela deixou a sua nova amiga contar que se sentia presa sob as asas da avó. Chapeuzinho contou a ela tudo sobre Peter também, e que os dois plane­javam ficar juntos.

— Seria aquele rapaz com quem estava falando na sua janela, na noite pas­sada? — perguntou Branca de Neve.

— Você o viu? — perguntou Chapeuzinho.

Eu estava me escondendo na floresta — disse ela. — E ouvi as vozes de vo­cês. Ele parecia bonito.

Chapeuzinho sorriu maliciosamente.

— E é mesmo — disse ela. — Estamos apaixonados. Vamos ficar juntos, mas temos de sair daqui.

— Por quê?

— Porque não há nada aqui para qualquer um de nos — disse ela.

—Fomos feitos para viver em uma cidade grande. Um castelo, a corte. E não para viver na terra. Isto aqui é violento, perigoso, mesquinho.

Branca de Neve tinha muito a dizer sobre as coisas, que também podiam ser violentas, perigosas e mesquinhas na corte, mas segurou a língua. -- E como é Peter? — perguntou Branca de Neve.

— Corajoso! — respondeu Chapeuzinho. — Encantador. Forte. Inteligente. Branca de Neve sorriu, olhando para o rosto de Chapeuzinho, enquanto ela enumerava as qualidades do seu amado. Branca de Neve perguntou-se se algum dia encontraria alguém que a fizesse se sentir dessa maneira. Esperava que sim.

— Estou preocupada que ele va tentar caçar a coisa esta noite— disse Cha­peuzinho. — Pode se machucar. E por isso que estamos indo rastreá-la agora.

Ela deu um sorriso travesso para Branca de Neve, mas agora com um significado completamente diferente.

— O quê? — disse Branca de Neve. —Não podemos...

— Ah, vamos lá, será divertido - disse Chapeuzinho.

— E, além disso, estamos seguras durante o dia... Ele não possui seus plenos poderes ate o meio da noite. — Ela riu, e Branca de Neve ficou chocada e um pouco impressionada com aquela que parecia ser uma garota despreocupada e espontânea.

Sim, ela gostava da garota.

— Sem mencionar que sou boa rastreadora — disse Chapeuzinho. Sei como encontrá-lo. Então, vamos pegá-lo em seu covil ou em sua caverna, e se­remos capazes de levar os caçadores diretamente para o monstro.

— Não sei... - disse Branca de Neve. - Parece perigoso.

— Vamos lá, Mary! — disse Chapeuzinho. — Viva um pouco. "Se você soubesse", pensou Branca de Neve.

Ambas atravessaram um campo aberto, caminhando pela neve, e Chapeu­zinho explicou como procurar pistas. Elas verificaram as pegadas no chão em pontos prováveis por quase uma hora. Branca de Neve ocasionalmente cha­mava Chapeuzinho e apontava para esta ou aquela marca, e Chapeuzinho a desiludia com um "Isso é um cervo" ou "Um cão, com certeza".

Branca estava ficando cansada, e seus pés já estavam congelando, quando Chapeuzinho a chamou e disse:

— Olhe, aqui estão algumas trilhas do lobo.

O que Chapeuzinho apontou parecia ser grande o suficiente para se con­fundir com as marcas de um dragão. Branca de Neve mal podia acreditar em seus olhos.

— E olhe, veja isso — disse Chapeuzinho, conduzindo-a na direção das pe­gadas.

— Veja como estão distantes uma da outra.

— Que tamanho tem essa coisa? — perguntou Branca de Neve, boquiaberta com o comprimento da pegada do lobo.

Grande — disse Chapeuzinho. — Realmente grande. Venha.

 

ELAS SEGUIRAM AS PEGADAS POR QUATROCENTOS METROS. Por um tempo, o lobo parecia ter corrido para algum lugar, mas, enquanto subiam uma colina — e Branca dizia: "Não estamos chegando perto da cabana de novo?" —, as pega­das foram se tornando menos espaçadas. As duas também ficaram confusas quando o tamanho da impressão das patas na neve pareceu diminuir.

—Ele está encolhendo? —  perguntou Branca de Neve, ambas correndo juntas. Não sei. Eu... — disse Chapeuzinho, ao mesmo tempo que parava c apontava para algo.

— Veja.

As pegadas não estavam encolhendo. Estavam mudando de forma.

— Que tipo de monstro é esse. Chapeuzinho? — disse Branca de Neve. Ela perguntou, porque tinha ficado muito claro: as pegadas haviam se tor­nado marcas de botas. No meio do caminho, o lobo parecia ter se transfor­mado em um homem.

— Um monstro, que não c apenas um lobo — disse Chapeuzinho.

Elas continuaram a seguir as pistas sobre a colina e voltaram para o vale. Ne­nhuma das duas abriu a boca, nem mesmo quando a cabana voltou a ficar à vista. As pegadas levavam diretamente para a janela de Chapeuzinho.

—Não entendo - disse Branca de Neve. — Além de Peter, quem mais es­tava na sua janela na noite passada?

Chapeuzinho levou a mão à boca e não disse nada.

— Chapeuzinho? - chamou Branca de Neve.

— Ninguém - disse ela. — So Peter estava aqui. — Com os olhos arregala­dos, olhou para Branca de Neve e disse:

— Peter é o lobo.

 

QUANDO RUBY VOLTOU COM OS SANDUÍCHES, Emma olhou para ela e disse:

— Deixe-os embrulhados. Mary Margaret teve de ir. Vamos procurar Da­vid na floresta.

Ruby pareceu surpresa, e Henry olhou para Emma, dando-lhe um de seus sorrisos tímidos, conhecedores.

Depois que Emma acalmou Mary Margaret e a enviou para casa, Henry já tinha aberto seu livro para lhe mostrar a história de Chapeuzinho e disse:

— Ela está sempre lutando com a sensação de sentir-se inútil, viu?

—Olhe. Você realmente tem de deixa-la fazer as coisas. Ela sabe seguir rastros. Veja.

— Ha uma investigação de verdade em curso, Henry disse Emma.

— Al­guém está realmente perdido e em apuros. E não quero que você fique muito preso nessas coisas da maldição neste momento.

— Mas tudo o que estou dizendo e que Ruby pode ajudar —disse ele. Eu a conheço.

— Tudo bem — disse Emma. — Tudo bem.

E, assim, Emma pediu para Ruby ir junto com ela.

 

EMMA E RUBY CHEGARAM Á PERIFERIA DA cidade, onde o carro de Kathryn ti­nha sido jogado para fora da estrada, e seguiram para o norte, até a floresta. Não havia sinal de David em nenhum lugar e só faltavam poucas horas para o anoitecer.

— As coisas não vão nada bem — disse Emma. — Se ele está aqui em algum lugar e algo está errado com ele...

— O que haveria de errado com ele? — perguntou Ruby, olhando para as arvores.

— Não sei — disse Emma. — Um resquício do coma? Não entendo também. Tudo o que sei e que Mary Margaret parecia muito abalada.

— Eu nem deveria estar aqui — disse Ruby. — Provavelmente estragarei tudo também.

 

Emma gostava de Ruby e queria aliviar sua ansiedade, mas também não tinha tempo para isso e lamentou tê-la trazido. Ruby escolhia seu caminho pelo terreno acidentado como alguém que nunca tivesse estado na mata, e, o que era ainda mais angustiante, parecia mais preocupada com seus pró­prios problemas do que com a tarefa cm mãos. Emma respirou fundo e evi­tou sugerir que Ruby voltasse para o carro. Dois corpos ali seriam ainda piores que um.

— Espere — disse Ruby.

Emma virou-se para Ruby, que estava olhando para dentro da floresta.

— O que foi? — perguntou Emma.

— Eu posso ouvi-lo — disse Ruby.

— Serio?

— Sim. Ou... alguma coisa. Sei onde ele está disse Ruby. Em seguida, olhou para Emma. Em seus olhos Emma viu algo completamente diferente. Alguma coisa... faminta.  

— Você não ouviu?

Antes que Emma pudesse responder, Ruby saiu correndo. Ela corria pela floresta, obcecada por alguma coisa.

— Ei! — gritou Emma, correndo atrás dela.

— Espere! — Para onde você está indo?

— Ele está aqui, venha! — gritou Ruby por cima do ombro.

Elas correram, mas Emma foi ficando cada vez mais para trás. Estava sem fôlego e prestes a lazer uma pausa quando finalmente viu Ruby, a distancia, chegar a uma clareira e cair no chão.

— O quê? — gritou Emma. — O que houve?

Mas Ruby não teve de responder, porque logo em seguida Emma viu com os próprios olhos. David, inconsciente, deitado e enrolado ao lado do tronco de um bordo.

 

— ELE ESTÁ MACHUCADO, DESIDRATRADO, ARRANHADO, tudo o que se possa ima­ginar—   disse o dr. Whale.

—O corte na cabeça é superficial; portanto, não foi essa a causa. Ele está lidando com um problema de saúde mental.

Estavam no hospital. Emma e o dr. Whale ficaram do lado de fora do quarto. David estava acordado, mas continuava afirmando não se lembrar de ter ido para a floresta. Emma não gostou nem um pouco, mas, por ora, não ha­via muito que ela pudesse dizer.

Ela e o dr. Whale voltaram para o quarto.

— Vamos descobrir isso   disse Emma a David. — Aguente firme.

— E como se nada disso tivesse acontecido - disse David. - Quer dizer, sei que aconteceu, porque você esta me dizendo. Mas, agora, parece tão real quanto uma das histórias de Henry.

Emma virou-se para o dr. Whale:

— Como... ele poderia estar... funcional durante um desses... episódios? Quero dizer, ele falou com alguém durante esse episódio.

— Tudo é possível disse o dr. Whale. — As pessoas em estados semelhan­tes, digamos aquelas com medicação para dormir, podem fazer todo tipo de coisa. Cozinhar, conversar, dirigir carros.

—Ele encolheu os ombros. E muito difícil dizer.

— Você quer saber se eu poderia ter dado aquele telefonema?

—disse David, olhando para Emma.

— Ou mais ainda. Entendo. Você acha que a raptei Talvez até mesmo tenha matado Kathryn e nem mesmo saiba que fiz isso...

-- Acalme-se, David   disse o dr. Whale. — Ninguém está dizendo isso. Estamos apenas tentando descobrir o que pode ter acontecido   acrescentou Emma.

Mas isso explicaria tudo — disse David, com olhar desamparado Isso explicaria por que eu não parecia estar mentindo para você. Porque não sei

Pare de falar agora, David - disse uma voz feminina. Emma não preci­sou se virar para reconhecer a voz forte e abrasiva que já conhecia muito bem: Regina. — Por que você está aqui? — continuou ela, e Emma presumia agora que aquilo era dirigido a ela. — Por que ele não tem um advogado aqui pre­sente? Você já leu os direitos dele?

—Não— disse Emma. Até porque ele não foi preso. Estamos apenas conversando.

—Certo.

— O que você está fazendo aqui? — perguntou Emma.

— Ainda sou seu contato de emergência — disse Regina.

— Pensei que houvesse passado para Kathryn — disse David, confuso. — Sim, bem — disse Regina.

 

—Ela está desaparecida ultimamente, e por isso voltou para mim Regina foi até a cama. Estou aqui para oferecer apoio e proteção, se precisar.

— Depois olhou para Emma. Por que você não se concentra em encontrar Kathryn?

"Por que ela está tão empenhada em defendê-lo?", Emma se perguntou.

— O Maine é grande— disse Emma.

— Este quarto já foi vasculhado — retrucou Regina. — Agora vá lá para fora e encontre-a

 

NA SALA DE SESPERA, Emma telefonou para Ruby.

Algo lhe ocorrera.

—Preciso que você saia e verifique algo para mim —disse Emma.

—Agora. Na ultima vez que David teve um desses pequenos passeios de sonâmbulo, acabou indo parar na ponte do pedágio. Imagino que talvez a gente possa ter sorte. Você precisa ir ate lá e dar uma checada. Agora mesmo.

—Eu? — disse Ruby.

— Você se comportou muito bem lá na floresta, Ruby -- disse Emma.

— E pode fazer isso. Se encontrar alguma coisa, me chame. Pegue meu carro. As chaves estão na minha mesa.

Emma acabou voltando à floresta logo após ter recebido a chamada de Ruby, que certamente tinha encontrado algo. A equipe forense não estava muito atrás Ruby, depois de tomar uma xícara de café, sentou-se no VW, parecendo um pouco conclusa Depois de dar uma última olhada na caixa que Ruby havia descoberto no rio, Emma subiu a rampa íngreme c entrou no carro, do lado do passageiro.

— Você agiu bem — disse ela —mais uma vez!

— Não tenho tanta certeza de querer fazer bem essas coisas — disse Ruby.

— Eu sei - ela disse. —Mas esta é uma grande oportunidade.

Emma não estava propriamente satisfeita de ter aquela visão também, mas tinha certeza do que dissera. Eles poderiam seguir em frente agora, uma vez que tivessem o resultado do laboratório. O conteúdo da caixa... Bem, ela podia entender por que Ruby tinha gritado ao telefone.

Emma estendeu a mão e pegou a mão de Ruby.

— Obrigada pelo dia de hoje — disse Emma.

Ruby assentiu com a cabeça e tentou dar um sorriso.

Emma não conseguia pensar em mais nada para dizer.

 

EMBORA PETER PROTESTASSE, Chapeuzinho lhe disse que acreditava que ele fosse o lobo, que ele teria de ser acorrentado, e que ela ficaria com ele durante a noite. A fim de enganar a Vovó depois. Branca de Neve concordou (contra a sua vontade) em usar a capa vermelha e ficar cm seu quarto, apenas para o caso de a Vovó decidir verificar se ela estava dormindo.

As duas mulheres se despediram, e Branca de Neve, vestindo a capa ver­melha, adormeceu no quarto de Chapeuzinho.

Pouco depois da meia-noite, a Vovó foi até o quarto de Chapeuzinho chamá-la.

— Chapeuzinho, querida...   disse a Vovó. - Preciso que você se levante e.. Branca de Neve. bem desperta, tez o seu melhor para ficar escondida entre os lençóis, mas a Vovó. que não era nada tola, percebeu que algo estava errado. Estendeu a mão para Branca de Neve e virou-a. Quando viu que não era Chapeuzinho, seus olhos se arregalaram.

— O que você fez? — sussurrou ela.

— Não fizemos por mal — explicou Branca de Neve.

— Onde ela esta? — perguntou a Vovó, com tanta urgência que Branca de Neve sentiu unia onda de energia nervosa.

— Ela se sentou na cama e explicou sobre Peter.

Ela esta com esse rapaz? — perguntou a Vovó.

— Agora'

— Sim —disse Branca de Neve.

— Ali, meus queridos deuses - disse a Vovó. — Mostre-me onde.

—Ela pe­gou a besta. — Agora mesmo, menina!

 

AS DUAS SE PRESSARAM NOITE ADENTRO. Branca de Neve lutando para man­ter o ritmo da Vovó. Esta parecia saber alguma coisa, mas o que deixou Branca de Neve confusa foram os comentários que a senhora continuava fazendo acerca "daquele pobre menino".

— Você não está entendendo - disse Branca de Neve. —Ele é o lobo. Vi­mos às pegadas. O lobo é também um homem.

— Ele não é o lobo, menina — disse a avo, grunhindo sua desaprovação. Branca de Neve olhou para ela, percebendo as implicações. Chapeuzinho. Chapeuzinho era o lobo.

Parecia óbvio agora, mas, por alguma razão, não parecera antes...

— Você sabia disso' — perguntou Branca de Neve, ainda se movendo rapi­damente para tentar alcançar a Vovó.

— Claro que eu sabia. Sua mãe era uma também, antes de um grupo de caçadores tê-la matado. Pensei que talvez Chapeuzinho não tivesse herdado isso, mas, quando ela fez treze anos, tudo começou.

Paguei um mago para fa­zer aquela capa. que evita que ela se transforme, mas ela não usa sempre, e descobriu uma maneira de sair de casa.

— Por que você não contou a ela? — perguntou Branca de Neve.

— Eu não queria que ela carregasse esse fardo. E uma coisa terrível.

Elas alcançaram a cerca de uma fazenda, e a avó ficou parada, esperando a orientação de Branca de Neve. Branca de Neve apontou.

— Você também e uma, não é? — disse Branca de Neve.

— Sim foi tudo o que a Vovó disse enquanto farejava o ar.

—Sinto o cheiro dela agora. Apenas flechas com ponta de prata vão detê-la. Estamos nos aproximando a favor do vento, então temos uma chance.

Elas de fato tiveram, mas o jovem Peter, não. No momento em que as duas chegaram Chapeuzinho, totalmente transformada, já tinha abatido o seu amado Branca de Neve jogou a capa vermelha sobre ela, e a Vovó foi salva da tragédia de ter de atirar em sua própria neta, mas, para Chapeuzinho que só percebeu a verdade quando acordou e se viu coberta de sangue, sendo carre­gada pelos braços por Branca de Neve e a Vovó, a tragédia já havia aconte­cido. Talvez ela tivesse preferido uma morte rápida por uma seta com ponta de prata, pelo menos naquele momento em particular. Ela chorou quando viu o corpo de Peter. E chorou ainda mais quando percebeu que fora ela que o fi­zera, e que seu plano so havia sido concebido para matar seu grande amor.

Mas não havia tempo para lamentar. Haveria depois décadas c décadas para lamentar. Naquele momento, a Vovó e Branca de Neve tinham de leva--lá para um lugar seguro. Porque, mesmo enquanto Chapeuzinho chorava e estendia a mão na direção do corpo sem vida de Peter, elas podiam ouvir a aproximação do grupo de caça.

— Leve-a para casa, leve-a em segurança — disse a Vovó, uma vez que todos estavam vindo depressa. — Eles estão muito perto.

Branca de Neve e a Vovó taparam os olhos, e Branca de Neve compreen­deu sem que precisassem trocar palavras. A Vovó conseguia controlar o lobo interior. E ia voltar. Para protegê-las.

— Vejo vocês lá pela manhã — disse ela.

Não é preciso dizer que a Vovó sobreviveu. O grupo de caça, não.

 

TENDO OUVIDO QUE DAVID TINHA SIDO ENCONTRADO e havia retornado ao tra­balho, Mary Margaret foi vê-lo no abrigo de animais. Ele estava seguro, era verdade, mas não estava bem. Nem um pouco.

Ela o encontrou andando de um lado para o outro no escritório dos fundos.

— Não sei o que aconteceu. E não consigo ter certeza de nada, Mary Margaret. Posso tê-la matado, levando em conta o que sei até agora... disse David.

— Não, você não a matou. Não vejo isso em seu íntimo — disse Mary Margaret. — E, além disso, ela vai aparecer viva. Basta esperar. Ele balançou a cabeça, frustrado.

Por que eu teria telefonado para ela? — perguntou. — Isso não tem sentido.

Tem de haver uma explicação   disse Mary Margaret. — E se... A porta da frente do abrigo foi aberta e David foi ver quem era Um mo­mento depois, voltou novamente ao escritório. Emma estava atrás dele. Ela deu um aceno para Mary Margaret.

— Encontramos algo à beira do rio — disse Emma. — Perto da ponte do pe­dágio.

E lançou um olhar pesado para David.

— O que foi? — perguntou David.

— Não sei como dizer isso de outra forma, então vou falar diretamente —disse Emma. — Havia um coração humano dentro de uma caixa de joias. Achamos que é de Kathryn.

Mary Margaret apertou o braço da cadeira, sentindo a sala escurecer. Fe­chou os olhos e tentou se recompor. David tinha se encostado em sua mesa, completamente sem energia.

— Eu devo ter feito isso disse ele, à beira das lágrimas. E estendeu os pul­sos. — Prenda-me.

Emma olhou para ele.

— Faça isso -- disse ele.

— Não posso David - disse ela. Há uma impressão digital dentro da caixa. E não é sua.

David e Mary Margaret olharam para ela, confusos. Emma virou-se para Mary Margaret.

— E de Mary Margaret — disse Emma.

 

                                   O CORAÇÃO DAS TREVAS

ALGUNS DIAS DEPOIS QUE BRANCA DE NEVE INGERIU A poção que a fez se esquecer do Príncipe Encantado, ainda se mantinha escondida com os sete anões c sua memória permanecia vazia. Os anões foram percebendo que a perda de memória teve alguns efeitos colaterais. Branca não era... mais a mesma. Estava furiosa, na verdade. O tempo todo. Furiosa com tudo e com todos. E não sabia bem o porquê disso. Zangado tinha um palpite.

Depois de uma manhã observando-a atacar os passarinhos com sua vas­soura, ele foi até os outros anões e disse-lhes que eles tinham de fazer alguma coisa.

— O quê? —perguntou Atchim.

— Não sei — respondeu ele.

— Alguma coisa. Temos de conversar com ela.

E foi isso que eles fizeram. Os anões concordaram com Zangado que seria mais útil para Branca de Neve se todos eles se sentassem juntos e discutissem o assunto, como um grupo. A amizade concordaram todos, e um lugar seguro para a discussão, seriam elementos cruciais para uma intervenção bem-sucedida. Eles bolaram um plano, chamaram um convidado especial, e, quando estavam todos prontos. Zangado foi até o quarto de Branca de Neve e perguntou se ela poderia vir até a cozinha.

— Por quê? — disse ela, defensivamente. — Estou bem aqui.

— Há algumas pessoas aqui disse Zangado — que gostariam de falar com você.

Branca de Neve parecia confusa, mas finalmente cedeu. Na cozinha, porem, deu uma olhada nos rostos sérios dos anões reunidos e virou-se para Zangado.

—O que é isso? — disse ela. Zangado levantou as duas mãos e disse:

— Irmã, irmã. Calma. Somos seus amigos. Só queremos conversar.

—Conversar sobre o quê? — perguntou Branca de Neve.

— Sobre o modo como você está agindo — disse ele— desde o instante em que bebeu aquela poção.

— A poção não é o problema — desdenhou Branca de Neve.

—O verda­deiro problema e que estou vivendo com um bando de anões, quando a mulher que matou o meu pai está se pavoneando ao redor do meu castelo, vivendo a minha vida. E essa e a mesma mulher que tentou me assassinar também. Esta­rei louca? Sim. E estou furiosa.

Não é justo jogar tudo isso em cima de seus amigos — disse o Grilo Fa­lante, que havia se juntado a eles na conversa.

— Você tem razão -- disse Branca de Neve, perdida cm pensamentos.

—Está absolutamente certo.

—Já é um progresso   murmurou o Grilo Falante para Zangado.

— Eu deveria jogar tudo isso na direção dela — disse Branca de Neve. -Matando-a.

 

FOI ESTRANHO DIZER O MÍNIMO, Emma ter de fichar Mary Margaret. Tirou a foto de Mary e preencheu a papelada apropriada, apesar de Mary Margaret ter declarado sua inocência por todos os lados. Emma disse que estava apenas fazendo o seu trabalho e que as impressões digitais eram uma prova concreta. Talvez Mary fosse inocente, mas Emma sabia que entrar em um processo de favoritismo agora poderia provocar consequências terríveis. Ela não exporia Mary Margaret ao perigo agindo precipitadamente. Emma faria tudo para descobrir o que realmente acontecera com Kathryn. Mas, para isso, precisava de tempo.

Para tornar as coisas ainda mais difíceis, Ruby tinha parado de trabalhar com ela, reatara com a Vovó e voltara a ser funcionária da lanchonete, o que significava que Emma estava novamente sozinha no escritório da delegacia, e, naquele momento, havia poucas pessoas com as quais ela pudesse discutir o caso Poucas pessoas de que gostasse, pelo menos.

Regina, que tinha telefonado, disse que queria estar presente no interrogatório, e apresentou-se poucos minutos depois que o fichamento foi feito. Mary Margaret concordou e disse que não precisava de advogado.

— Por que precisaria? — perguntou ela. — Sou inocente.

Conforme Emma fazia as perguntas, Mary Margaret ia mantendo a compostura, e revelou uma nova peça-chave para as informações: aquela era sua caixa de joias. Ela não sabia como aquela caixa tinha ido parar ali, enter­rada na margem do rio, e definitivamente não sabia como um coração fora parar ali dentro, mas a caixa de joias era dela. Mary disse que não fingiria que não era.

Lá fora, enquanto Mary Margaret permanecia na sala de interrogatório, Emma e Regina discutiam suas respostas.

— Ninguém está acusando a srta. Blanchard de ser má pessoa— disse Re­gina. — Mas ela e uma mulher que ha pouco ficou de coração partido.

E daí? Bem, isso pode obrigar as pessoas a fazerem coisas indescritíveis.

 

ZANGADO NUNCA TINHA PENSADO que Branca de Neve fosse do tipo vio­lento, mas observá-la desarmar e derrubar um dos Cavaleiros Negros da Rainha não era nada menos que impressionante. Eles estavam a cerca de oito quilômetros da choupana em que viviam os anões, e ele a seguira, sa­bendo que invadir o castelo da Rainha seria suicídio para Branca de Neve, mas sem saber como detê-la. O Cavaleiro Negro apareceu na estrada e ten­tou intimidá-la, mas ela não pensou em parar. Rapidamente, sem esforço, ela varreu os pés do cavaleiro com a picareta de mineração que tinha reti­rado no casebre. Interrogou-o para saber onde estava a Rainha, zombou dele e mandou-o seguir seu caminho.

Ela tentava vestir a armadura abandonada pelo cavaleiro quando Zangado saiu da floresta e disse:

— Você está louca? Por acaso acha que esse "disfarce" vai enganar alguém? O que você está fazendo aqui? — perguntou ela.

— Está me seguindo?

— Sim, eu a segui, sim   disse ele. — Porque não quero vê-la morta.

— Não serei morta disse ela firmemente. — E, além disso, a Rainha me­rece morrer.

— Isso pode ser verdade, mas a justiça nem sempre tem a ver com o mere­cimento — disse ele.

—Você está com raiva, porque se esqueceu de tudo. Isso fez Branca de Neve parar por um momento.

— O que você quer dizer com isso? —disse ela finalmente.

— Quero dizer que tenho uma ideia melhor disse Zangado.

—Vamos até Rumpelstiltskin para conseguir a sua memória de volta.

 

EMMA TRANCOU MARY MARGARET de volta na cela, disse que estaria fora do es­critório da delegacia por algumas horas e voltou para o apartamento, para vasculhar o lugar.

Mary Margaret alegava que alguém havia invadido a casa delas e roubado sua caixa de joias, mas. quando Emma examinou as fechaduras de ambas as portas, não encontrou nenhum sinal de arrombamento. Havia apenas duas chaves   a dela e a de Mary Margaret. Alguma coisa não estava certa.

Ela foi checar o quarto de Mary Margaret, mas não deu em nada. Emma estava se dirigindo para seu quarto quando ouviu uma batida na porta.

"Meio-dia de uma segunda-feira", pensou. Verificou sua arma e soltou a trava.

— Quem é? — chamou ela através da porta. Sou eu! —disse a voz.

—Henry.

— O que você está fazendo aqui? — perguntou a Henry, depois de abrir a porta.

Ele entrou no apartamento, radiante.

—É como na primeira vez em que nos encontramos, não é? — disse ele. Por que você não está na escola? — perguntou Emma.

— Estou doente.

— Você não esta doente.

Ele suspirou e jogou a mochila no sofá.

— Fiz algumas anotações— admitiu ele. — Mas tenho de ajudá-la. Mary Margaret não é a culpada. Isso realmente é importante para a Operação Cobra.

— Isto não é a Operação Cobra, eu já lhe disse e continuo dizendo: esta é a vida real — afirmou Emma.

— É a mesma coisa — disse ele.

Emma sacudiu a cabeça para um lado e para o outro, desconsolada.

— Tudo bem, então — disse ela. — Você está doente. Logo, pode me ajudar a vasculhar este lugar, então.

— O que estamos procurando?

— Ainda não sei - disse ela.   Qualquer coisa que pareça estranha.

Ela voltou para o seu quarto e começou a esquadrinhar cm torno da janela, para verificar se havia sinais de arrombamento. Cerca de cinco minutos se passaram. "Não há nada por aqui", pensou. "E isso porque ninguém..."

— Acho que encontrei alguma coisa! — disse Henry.

Emma foi para a sala e viu Henry no chão, puxando o respiradouro sob a mesa do café. Ela franziu a testa e mudou a mesa de lado.

— Tem alguma coisa lá embaixo — disse Henry.

— Estou vendo disse Emma, afastando Henry para fora do caminho c estudando a grade de ventilação.

Foi até a cozinha e pegou uma chave de fenda. Levou um minuto para tirar os parafusos e levantar a grade. Quando o fez, a luz do teto iluminou o buraco retangular, e ela pôde ver, então, o contorno do objeto.

— Meu Deus! — disse.

Henry não disse nada.

Emma tirou um lenço da caixa de papel que estava sobre a mesa, estendeu a mão e apertou a lâmina da faca de caça, certificando-se de que o cabo não tocasse em nada.

— Vá para a lanchonete da Vovó disse ela. — Fique lá até que eu volte para pegá-lo.

Emma piscou. Seria sangue na lâmina?

— Mas. eu... — disse Henry.

— Vá, Henry! — disse Emma.

Depois, um pouco mais suavemente, enquanto ambos olhavam para a faca, ela acrescentou: Vá, agora.

 

DEPOIS DE CRUZAR TODA CIDADE, Emma estava de volta ao escritório da delegacia e olhou tristemente para a amiga atrás das grades. Então, disse lemos a arma agora.

A faca foi ensacada e trancada no armário de provas. As coisas estavam fi­cando desoladoras para Mary Margaret.

— Mas na saída de ar do aquecedor?! — gritou ela. - Nem sei como abrir isso.

— Então alguém invadiu a nossa casa e a colocou lá — disse Emma. Você não acredita em mim? - perguntou Mary Margaret.

Acredito em você, Mary Margaret, mas preciso de algumas evidências que apontem na direção certa. Até agora, está tudo apontando para o caminho errado.

— O que está dizendo? — disse Mary Margaret, afundando de volta no banco que havia na cela.

— Estou dizendo que talvez seja a hora de contratar um advogado disse Emma.

— Excelente ideia!

Tanto Emma como Mary Margarct se viraram para ver o sr. Gold em pé na porta, mantendo a bengala delicadamente presa com as duas mãos. Ele ace­nou um "Olá!".

—O que está fazendo aqui? — perguntou Mary Margaret.

— Vim oferecer meus serviços jurídicos — disse o sr. Gold, entrando na sala. — Posso ser muito persuasivo. Pergunte à srta. Swan. Estive nesse mesmo lugar não muito tempo atrás, e, agora, olhe para mim. Um homem livre.

Bem, ajuda muito ter um juiz no bolso — disse Emma.

— E verdade, sim — disse ele. — Mas, srta. Blanchard, tenho acompanhado o seu caso, e acredito que seria aconselhável contratar-me como seu advogado. Imediatamente. Também posso livrá-la dessa cela muito em breve.

O que ela precisa é que eu tenha espaço para realizar o meu trabalho, Gold, não...

— Ninguém está detendo você, xerife - disse Gold. — Estou simplesmente me oferecendo para ajudar...

— Por favor, saia daqui.

Ambos, Gold e Emma, olharam para Mary Margaret.

— Acredito que você deveria reconsiderar, srta. Blanchard — disse Gold. — Eu não estava lhe dirigindo a palavra, sr. Gold — disse ela, lançando um olhar de aço para Emma.    Estava falando com a xerife. Eu gostaria de falar com o meu advogado. Em particular.

Emma olhou para ela com curiosidade, encolheu os ombros e virou-se para Gold.

—Muito bem, você venceu - disse ela para Gold. — Espero que o senhor tenha os melhores interesses dela no coração.

—Claro que sim —    disse ele, sorrindo para Mary Margaret.

—   Pelo menos por algum tempo.

Eles conversaram por quinze minutos. No momento em que Gold saiu, Mary Margaret passou a se sentir muito melhor. Seria aquele homem confiá­vel? Absolutamente não. Mas ela sabia que ele era inimigo de Regina, e tinha certeza de que Regina estava tentando jogar toda a culpa nela. E assim, nesse caso, o inimigo de seu inimigo era seu amigo.

Mary ficou sozinha cm sua cela apenas por um minuto quando Emma vol­tou e acenou para ela, mas não perguntou nada sobre Gold. Não teve tempo de perguntar sobre coisa alguma, na verdade. Poucos minutos depois, David apareceu.

Mary Margaret observou em silêncio enquanto David pedia à xerife al­guns minutos a sós com ela. Emma suspirou e olhou em sua direção. -- Você esta popular agora - disse ela.

—Você se importa?

— Não — disse Mary Margaret. — Vou falar com ele.

E claro que ela faria isso. David era seu único outro defensor na cidade. Emma virou-se para David. Você tem dez minutos.

— Preciso ficar sozinho — disse ele.

Ela assentiu.

—Tudo bem! Vou pegar um café   disse Emma.

— De novo. Dez minutos. Emma saiu. David respirou fundo e foi para a cela onde Mary Margaret aguardava esperançosa, com as mãos nas barras da grade. Você veio — disse ela.

Eu precisava falar com você — disse ele. — Telefonei para Kathryn, real mente. Agora me lembro. Nós conversamos. Ela me disse...

— Mary Margaret, ela me disse, sim, que queria que ficássemos juntos. Ela nos deu sua bênção.

Kathryn fez isso? — perguntou ela.

David assentiu.

— E tem mais —   disse ele. — lembrei-me de outra coisa.

Mary Margaret aguardava, ainda cheia de esperança. David mal conseguia controlar-se para dizer o que contou em seguida.

— Lembrei-me de algo que você disse uma vez disse ele — sobre o desejo de matá-la. Preciso perguntar se você teve algo a ver com o desaparecimento de Kathryn.

Eles olharam um para o outro. Mary Margaret não podia acreditar no que estava ouvindo. Regina deveria ser a mentirosa; Regina é que seria capaz de fa­zer aquelas coisas. Aquilo... aquilo tudo não tinha sentido.

— Quando seus registros telefônicos voltaram, quando encontrei você va­gando na floresta, quando todos pensavam que você tinha matado Kathryn... fiquei do seu lado. Nunca duvidei de você. Mas agora que tudo está apontando para mim... você realmente acha que sou capaz de fazer isso?

David estendeu a mão para a grade da cela.

—Eu... simplesmente não sei mais o que pensar.

—Saia daqui! — disse Mary Margaret. — Você é inacreditável, David.

— Mas eu...

— Saia da minha vista!

 

MARY MARGARET PASSOU UMA NOITE terrível na cela, virando-se e revirando--se de um lado para o outro. Sabia de uma coisa: o que quer que esteja acontecendo, Regina estava por trás. Ela não tinha provas c por isso não podia comprovar nada do que estava pensando, mas sabia. Para ela, seria uma ques­tão de encontrar os fatos. E, nesse meio tempo, precisava de algumas coisas poucas — para manter a fé.

A preocupação de Emma foi crescendo, e cada vez mais ela achava que não seria capaz de encontrar um modo de libertar sua amiga. Os resultados do la­boratório tinham voltado e confirmado que o coração era de Kathryn. Agora era uma investigação de assassinato.

Ela, assim como Mary Margaret, acreditava que Regina estava de alguma forma por trás daquilo, mas até agora Regina a tinha derrotado em todos os movimentos. Então ela foi até o homem que imaginou que poderia ao menos provocar um empate.

Preciso de sua ajuda, sr. Gold   disse Emma a ele.

Estava de pé na casa de penhores dele e Gold, atrás do balcão, com um sor­riso irônico no rosto.

— Não me diga...

— Preciso - disse ela. — Acho que Regina esta por trás do que está aconte­cendo com Mary Margaret. Mas simplesmente não posso provar.

E como eu posso ajudar? — disse ele.

—Não sei como lidar com eia — disse ela. — Não sei... Gold sorriu.

— Mas que enorme ato de humildade de sua parte — disse ele.

— Admiro isso. srta Swan. E esta certa em ser cautelosa. Ela é uma mulher perigosa. Muito perigosa.

— Então me diga — disse Emma. — Diga-me como vencê-la.

 

                         O CHAPELEIRO MALUCO

EMMA E GOLD CONVERSARAM POR DUAS HORAS PARA desenvolver o seu plano. Quando Emma sentiu que estava pronta, os dois voltaram para a delegacia com a intenção de conversar com Mary Margaret.

Um problema: Mary Margaret não estava lá. Henry cumprimentou-os fora do escritório da xerife, onde estava sentado com o seu livro, recostado na porta.

—Seu plano é incrível! — disse ele quando os viu,

—Que plano? — perguntou Emma. — E o que você esta fazendo aqui?

— Eu vim para conversar com Mary Margaret, mas então percebi o que estava acontecendo e decidi esperar você.

Emma franziu o cenho e olhou para Gold, os dois passaram por Henry e entraram na delegacia. Uma pontada de pavor frio atravessou o corpo dc Emma quando ela olhou para a cela vazia.

— Parece que a srta Blanchard decidiu resolver o assunto por suas próprias mãos   disse Gold. — Mas que desenvolvimento interessante desse caso...

Henry vinha vindo atrás deles.

— Henry! —disse Emma. —O que foi que você fez?

— Eu? Não fiz nada — respondeu ele. — Pensei que tivesse sido você. Não era esse o seu plano?

— Não — disse Emma. — Mas pode ser de outra pessoa.

— Ou isso, ou ela escapou por conta própria— disse Gold.

— A acusação formal contra ela, na frente do juiz, é amanhã às oito da ma­nhã   disse Emma. — E agora ela é uma fugitiva. Mary está em grandes apuros.

— Então, você tem ate às oito horas — disse Gold — para encontrá-la. — O que posso lazer para ajudar? — perguntou Henry.

— Vá para casa, garoto — disse Emma. - Isto está ficando muito sério para você se envolver; as coisas podem ficar perigosas.

— O futuro da srta. Blanchard já está em perigo, como você sabe

—afirmou Gold, olhando placidamente para Emma com olhar penetrante.

— Mas eu de­veria lembrá-la de que, se você for pega ajudando a moça, seu futuro também pode muito bem vir a ser prejudicado.

— Não me importo - disse Emma, recolhendo suas coisas.

— Prefiro per­der o meu emprego e ajudar minha amiga.

— Ainda que isso implique um erro judicial? Ainda assim...

— Que interessante! — disse Gold. — A amizade.

— Já teve algum amigo, sr. Gold? Isso muda as coisas.

Sim — disse ele.

—Já ouvi pessoas falando isso. Então, você entende.

Gold assentiu com a cabeça.

Emma não soube dizer se ele respeitava aquilo, duvidava daquilo ou se es­tava apenas achando divertido.

 

ERA TARDE, MAS EMMA DECIDIU DAR UM OLHADA perto da ponte do pedágio.

Não sabia para onde Mary Margaret tinha fugido, mas, sem ajuda, não pode­ria ter ido muito longe, e esconder-se na mata seria uma coisa tão provável quanto qualquer outra. Aquela ponte significava alguma coisa para ela. Talvez tivesse se escondido por lá.

Emma pegou seu carro c foi em direção à periferia de Storybrooke, preocupada com a amiga. Distraída por seus pensamentos, não estava prestando atenção quando passou raspando por uma das margens da estrada e quase atingiu um homem.

Só vislumbrou o vulto por um segundo quando ele cambaleou para fora da estrada, jogando-se longe para evitar ser atropelado.

Emma parou o carro, saiu e correu até ele. No meio dos arbustos, ela encontrou um homem que nunca tinha visto antes, sentado e agarrando o torno zelo Ele balançou a cabeça e disse;

— Olá. Bela noite para uma caminhada.

Era alto e magro, notou Emma. Bonito de maneira ineomum, e vestido de modo mais formal do que a maioria das pessoas em Storybrooke.

— Sinto muito — disse Emma. — Está ferido?

Ele se apoiou em uma árvore para se levantar, e depois tentou colocar um pouco de peso sobre o tornozelo. Mas parecia que aquele tornozelo não se comportaria muito bem.

— Deixe-me lhe dar uma carona até sua casa, pelo menos — disse ela.

— Não se preocupe, estou bem — respondeu o homem, acenando e man­cando de volta para a estrada. — Não há problema.

Mas era óbvio que havia um problema, e ele lutou para caminhar alguns poucos passos.

— Sua casa é longe?

— Cerca de um quilômetro e meio — respondeu ele.  

—Para lá.

— Você não vai conseguir andar tudo isso assim disse Emma.

—Vamos, deixe-me levá-lo até lá, seria uma tolice não fazer isso.

Ele suspirou e pareceu concordar.

— Tudo bem, então. Qual é seu nome?

— Emma Swan — disse ela, estendendo a mão.

— Sou a xerife da cidade. E não acho que a gente tenha se visto antes.

— A xerife! — gritou ele, sorrindo. — Não, não acho também. Não sou um cara de sair muito de casa — ele apertou a mão dela. Mas é um prazer co­nhecê-la. Meu nome é Jefferson.

 

EMMA FICOU SURPRESA QUANDO JEFEERSON apontou sua entrada de carros, uma antiga estrada privada que a xerife nunca tinha notado antes e que fi­cava não muito longe dos limites da cidade. O carro chacoalhou na estradinha que cruzava o bosque uns quatrocentos metros antes de chegar a um portão de ferro forjado que, deixado para trás, levava até a própria casa. Que era impressionante, para dizer o mínimo. Clássica, regia enorme, e ilumi­nada como uma árvore de Natal. Emma não conseguia acreditar no que es­tava vendo O homem vivia em uma mansão no meio do nada. E olhava para baixo, para Storybrooke, como um senhor feudal. Como ela podia não conhecer esse sujeito?

Emma o ajudou a chegar até a porta e, quando ele a convidou para entrar, a xerife aceitou. Tinha de admitir: estava curiosa. Não querendo entrar em muitos detalhes sobre Mary Margaret, contou ao homem que estava a procura de um cão perdido. Ele pareceu aceitara justificativa.

— Você deve ter uma família grande — disse ela, pensando como é que al­guém poderia precisar de tanto espaço assim.

— Não, vivo aqui sozinho — respondeu Jefferson, mancando pelo saguão de entrada.

Emma o seguiu, e eles entraram em uma enorme sala de estar.

— Essa busca que você está realizando — disse ele —, sobre esse cão per­dido... Acho que posso ajudar. Sei que você deve ter aqueles modernos disposi­tivos de GPS e todas essas coisas, mas sou uma espécie de cartografo amador...

— Começou a vasculhar em uma escrivaninha antiga, e, quando se virou, tra­zia na mão um mapa enrolado. Passou por ela mais uma vez, ainda mancando, e desenrolou o mapa em cima do tampo do piano.

— Este mapa mostra a flo­resta em grandes detalhes. Por favor, use-o.

— Hã... — respondeu Emma, olhando o mapa.

— Posso lhe trazer alguma coisa para beber? Um chá para aquecer? Emma estava hipnotizada pelo mapa, e não apenas por seus incríveis deta­lhes, mas também por causa do trabalho artístico que tinha sido executado nele. Começou estudando as áreas que conhecia, lembrando-se de suas várias buscas. Teria sido bom ter tido esse mapa quando eles estavam procurando David...

Ela tirou os olhos do mapa. Jefferson já tinha saído da sala, mas Emma po­dia ouvir o homem mexendo na cozinha, o tilintar de xícaras sendo colocadas juntas em uma bandeja, talvez. Ele reapareceu alguns minutos depois com uma bandeja de chá.

— Achei que talvez fosse uma boa ideia você se esquentar um pouco antes de continuar a sua busca - disse ele.

Emma distraidamente pegou uma xícara.

— Este mapa é incrível — disse ela, sorvendo o chá. —   Você é muito talentoso. Obrigado — disse ele. — E um dos meus passatempos.

— E o que faz para viver? — perguntou Emma.

—Ah, isso e aquilo - disse ele. — Muitas coisas — e se deixou cair no sofá.

—Venha, venha —disse ele.

— Sente-se.

Emma olhou mais uma vez para o mapa, depois foi para o sofá e sentou-se. Talvez tosse o estresse dos últimos dias, talvez tivesse sido a falta de sono, mas ela estava se sentindo de repente cansada. Muito cansada.

— Eu realmente deveria ir embora — disse ela, afundando-se no sofá. Sonolenta, olhou para Jefferson. — Eu deveria...

— Você é bem-vinda para ficar o tempo que quiser.

Inexplicavelmente, ela deixou cair a xícara de chá no tapete. Emma olhou para a mancha molhada, sacudiu a cabeça. "Normalmente, eu teria tentado limpar isso...", pensou.

— Está tudo bem, não se preocupe — disse Jefferson, e a sua voz se esticava, como se estivesse vindo do outro lado da sala.

Ela franziu a testa e olhou para ele. Todo ele estava se esticando.

— Quem...

Emma tentou, mas havia alguma coisa errada. Ela rolou pelo sofá, caiu no chão, vagamente consciente de que tinha sido drogada... que ele tinha...

— Quem é você? — conseguiu dizer, mas o mundo... todo ele... estava fi­cando cinza...

 

ELA SONHOU COM UM HOMEM, UM PAI.. Um pai e sua filha.

Eram apenas eles dois. O pai era ousado, confiante e poderoso. Mas estava se escondendo também. Escondendo-se da Rainha.

Ele e a filha brincando.

Eles estavam seguros.

Eles estavam seguros até que a Rainha voltasse.

 

QUANDO ACORDOU, ELA ESTAVA SOZINHA.

Emma estava na mesma sala, de bruços no sofá e com as mãos amarradas às costas. Levou um momento para recordar o que tinha acontecido. Quando o fez, a adrenalina começou a correr em seu corpo. Ela estava em apuros. Tal­vez um grande apuro. Emma conseguiu se contorcer até chegar à beira do sofá e se virar o suficiente para ver que a xícara de cha ainda estava lá onde tinha caído. Vigiando a porta — ela não sabia para onde Jefferson poderia ter ido— , conseguiu se manter em uma posição sentada, deslizou para o chão e conse­guiu derrubar uma almofada em cima da xícara. Com o salto da bota, esmagou a xícara de chá. Pegou um dos cacos e passou a trabalhar no laço que prendia seus pulsos.

Ficou livre em um minuto.

Depois que se pôs de pé, Emma olhou em volta da sala para ver se achava alguma coisa que servisse de arma, já que sua arma estava no carro, e se fixou em um atiçador de ferro ao lado da lareira. Estava prestes a ir à caça de psicopatas quando percebeu o telescópio perto da janela, apontado para Story­brooke. Verificou a porta mais uma vez e olhou pelo visor do telescópio.

Estremeceu.

Lá estava a delegacia de polícia, em um foco perfeito. Jefferson estivera vigiando os passos de Emma.

Ela tomou fôlego e decidiu não pensar nas implicações dessa descoberta. Em vez disso, foi em direção ao corredor, usando o atiçador como uma espada na mão.

Foi até uma porta entreaberta. Ouviu o som de metal sendo esfregado em metal. Ao chegar mais perto, o que viu através da fenda da porta fez seus olhos se arregalarem: a silhueta de Jefferson em uma sala escura, afiando o que pa­recia ser uma grande tesoura.

Ela deu um passo para trás e respirou fundo. E estava prestes a irromper naquela sala quando ouviu um som diferente.

Um gemido. Vindo do fundo do corredor.

Decidiu investigar, e se afastou da sala onde estava Jefferson, sem saber se era sensato abrir mão do elemento surpresa. Mas aquele gemido baixo chegou até ela novamente, e Emma não poderia ignorá-lo. Virou-se e foi para outra porta fechada. Os sons pareciam estar vindo de trás dela.

Com calma, cuidadosamente, girou a maçaneta e abriu a porta.

No centro da sala havia uma cadeira. Pouco mais que isso. Na cadeira, de mãos atadas, mordaça na boca, olhos gritando de terror, estava Mary Margaret Blanchard.

Emma correu para dentro do quarto, colocou o atiçador de ferro de lado e imediatamente tirou a mordaça da boca de Mary Margaret.

— O que você está fazendo aqui?   sussurrou Mary Margaret

— Eu deveria lhe perguntar a mesma coisa — sussurrou Emma em resposta, movendo-se para tirar a corda que prendia os punhos da amiga. - —Quem é esse sujeito?

Não tenho ideia — respondeu, olhando para a porta.

— Eu estava na flo­resta, correndo, e ele simplesmente me agarrou e me trouxe até aqui.

—Você está machucada?

— Não, e você?

— Não — disse Emma. — Como saiu da cadeia?

— Alguém plantou uma chave debaixo do meu travesseiro explicou Mary Margaret, sussurrando. — Pensei nisso, pensei que estaria em apuros se ficasse mais tempo lá. Não sei, entrei em pânico e fugi.

— Mas quem colocou a chave lá?

— Não sei.

"Esse sujeito", Emma pensou de repente. Fazia muito sentido e, além disso, ele tinha estado vigiando a cadeia. Mas por que ele quereria as duas ali?

Ela puxou a corda e o último nó caiu. Então, a xerife se agachou e começou a desfazer os nós que amarravam os pés de Mary Margaret, falando enquanto fazia isso:

—O que sei é que a gente precisa sair daqui e...

— Emma!

Olá! — veio da porta uma voz fria e perturbadora. Emma girou o corpo. Jefferson estava lá, a silhueta recortada na porta pela luz do corredor. Ele estava segurando uma arma. A arma dela.

— Descobri isto em seu carro, espero que não se importe — disse ele. Acho que lâminas e facas podem ser algo trabalhoso demais... Fazem muita sujeira.

— Já telefonei pedindo ajuda - disse Emma.

— Você não ligou para ninguém - disse ele.

—Ninguém sabe que você está aqui. E agora vai fazer o que eu digo. Vai amarra-la novamente.

Emma tentou ver uma saída, mas ainda não podia perceber nenhuma. Pre­cisava de tempo. Então, assentiu com a cabeça.

— Tudo bem — disse ela. — Mas fique calmo. Aperte — disse ele.

— Bem apertado.

 

JEFFERSON GUIOU EMMA PARA O QUARTO em que ela o tinha visto afiar a te­soura. Uma vez dentro, ele acendeu a luz e Emma ficou impressionada com o que viu.

Chapéus.

Muitos, muitos chapéus.

Eram todos cartolas, todas negras, e cada uma ocupava uma prateleira in­dividual iluminada por trás. No meio da sala havia uma longa mesa coberta de peças de tecido, tesouras, pinças e fôrmas — era a oficina de um chapeleiro.

— Não sei quem você é disse Emma, virando-se para encará-lo.

—Ou o que está fazendo. Mas, se você machucá-la, ou a mim, não vai conseguir escapar.

— Machucá-la? Estou praticamente salvando a vida dela!

— O que significa isso?

— Ela estava tentando fugir de Storybrooke — disse ele.

—Você sabe o que acontece com as pessoas que tentam sair de Storybrooke, não sabe? —Claro que sei — disse Emma. — Elas saem...

— Não, não— disse ele. — Coisas ruins acontecem com cias. A maldição! Emma sacudiu a cabeça.

— Coisas ruins. Maldição? Você parece Henry falando.

— Se ele estiver falando da maldição, então é um garoto esperto

— retrucou Jefferson. — Você deveria prestar mais atenção nele.

"Tudo bem", pensou Emma. "Esse cara é louco."

A expressão de seu rosto trai seu pensamento — disse ele.  

—Sei como deve parecer para você. Mas deixe-me lhe contar uma história.

— Tudo bem — disse Emma, pensando que seria bom mantê-lo falando. Falando e falando o mais que pudesse.

— Era uma vez um homem que vivia para apenas uma coisa: sua filha   começou Jefferson. — Eles moravam juntos na floresta, e ele encontrou uma forma de pagar as despesas fazendo alguns consertos aqui e ali, vendendo produtos no mercado. Eles não tinham muito, mas era o suficiente.

— Parece adorável   disse Emma. Jefferson deu um sorriso sarcástico.

— De fato — disse ele —, mas em histórias como essa, as coisas nunca duram, não é? E claro que esse homem tinha um passado e, claro, o passado o alcançou. Finalmente.

—O que ele era? —   perguntou Emma. —Um cafetão aposentado?

— Não, era uma pessoa que possuía uma coisa especial e muito poderosa. E sabia como fazer uso dela. O homem tinha trabalhado para uma mulher muito má antes, e, em um belo dia, ela apareceu na casa do homem dizendo que precisava de seus serviços. É que essa coisa que ele possuía podia abrir um portal para outro reino, e a mulher precisava chegar a outro lugar, ao País das Maravilhas, na verdade.

— País das Maravilhas? - exclamou Emma. — Por essa eu não esperava...

— Claro que não — replicou ele —, mas o homem sim. Veja, o País das Ma­ravilhas é um lugar onde todas as formas de magia exótica são possíveis, e essa mulher precisava de algo especial. Ela precisava receber de volta algo que tinha perdido, e esse algo estava lá, guardado pela Rainha de Copas.

Qual foi o custo? - perguntou Emma.

— O que?

A pergunta pareceu pegá-lo desprevenido.

— O custo — disse Emma.   Há sempre um custo.

Ah, sim disse Jefferson. — Bem, de início aquela mulher ma prometeu que a falha do homem estaria sempre segura. Mas o custo, como muito bem apontou, era muito maior do que ele esperava.

— O que aconteceu?

Ele ficou preso disse Jefferson. — A mulher o traiu, conseguiu o que veio buscar, e o deixou no País das Maravilhas.

— Ele não conseguia ir para casa, para a sua filha? Ele balançou a cabeça muito lentamente.

— Não — respondeu —, não conseguia.

Emma viu verdadeira dor em seus olhos. Esse sujeito, pensou, é completa­mente insano.

Assim que esse pensamento passou por sua mente, Emma notou quando Jefferson olhou para ela e sorriu.

— Ele ficou enlouquecido, veja você — disse ele.

—Enquanto estava lá. Por­que não poderia voltar. Emma esperou.

Então o que aconteceu?

Jefferson assentiu com a cabeça.

— Mas o claro... Você está ansiosa para saber o final. Qualquer boa história tem um final feliz.

— Ele nunca mais voltou?

Preciso de você — disse Jefferson — para me fazer um chapéu. Emma observou-o. O homem estava olhando para ela como se esperasse que a xerife soubesse do que ele estava falando.

— Como?

Ele apontou a arma ao redor da sala, em seguida apontou para o chapéu que estava na própria cabeça.

— O que você acha? - perguntou Jefferson, e depois riu.

— Sinto muito, mas preciso entender direito... Você me sequestrou para que eu lhe fizesse um chapéu? — perguntou Emma.

Ele colocou a mão nas costas dela e a levou até um banco, em seguida ro­deou a mesa, segurando o tempo todo aquela arma apontada para ela.

— Isso mesmo.

— Mas você já não tem chapéus suficientes?

Os meus não funcionam   respondeu ele. — Esse sempre foi o problema. Mas você tem magia, e é isso que está faltando neste mundo.

"Entendi", pensou Emma. "O chapéu tinha algo a ver com aquele tal por­tal. O tal portal na sua história."

— Estou preso aqui há décadas tentando fabricar um chapéu igual ao meu antigo, um que tenha magia, que possa me transportar de volta para a Terra dos Contos de Fada. Pensei em tudo, entendeu? Esta terra não tem magia, mas você tem, Emma! O que significa que pode fazer um chapéu que funcione!

— Não sei como fazer um chapéu, e muito menos um chapéu mágico disse Emma.

— Experimente fazer...

Ela olhou para ele. O homem não parecia estar bem. Na floresta, ao me­nos, ele tinha aparência de sanidade, mas agora, bem, algo o estava desequilibrando. Emma sentia medo. Tanto por si mesma como por Mary Margaret.

Pegou a tesoura e alcançou uma peça de tecido.

— Você sabe que não existe essa coisa de magia— disse ela.

—Não sabe? Claro, claro! — respondeu Jefferson. —Isso é o que todas as pessoas ignorantes deste mundo parecem dizer com absoluta certeza. Ele riu.

— A não ser quando alguém precisa de um milagre pessoal. Não é? Então as pessoas deste mundo adoooooram acreditar em magia!

— Mas por que você continua falando assim? — perguntou Emma. Acha que não é deste mundo?

— E claro que não sou! — cuspiu ele, irritado com a pergunta.

— Estou preso aqui, mas não sou daqui! Você não ouviu a história que acabei de contar?

— E de onde você é?

— Sou do mesmo lugar de onde vieram todas as pessoas nesta cidade es­quecida por Deus! — Apontava a arma enfaticamente enquanto dizia isso. — E fui separado de minha garotinha. — Jefferson balançou a cabeça.

— Há maldi­ções, srta. Swan, e maldições.

Emma decidiu entrar no jogo.

— Pensei que todo mundo estivesse aqui agora — disse ela.

— Será que sua filha não está aqui, em algum lugar? Isto é um avanço, não é?

— Ela está aqui, sim — disse ele, parecendo desamparado.

—Mas não se lembra de mim. Está morando com outra família e... A campainha tocou.

O pescoço de Jefferson se virou rapidamente e ele olhou para o corredor.

— Fique aqui — disse ele, e saiu. Emma ouviu quando ele trancou a porta pelo lado de fora.

Ela olhou em volta pela sala, sabendo que teria de fazer algum ruído. Essa era sua chance. Talvez sua única chance.

 

EMMA OUVIU O HOMEM CONVERSANDO com alguém na porta da frente durante alguns minutos. Mas não podia gritar, porque isso poderia deixar Mary Mar­garet em perigo. A xerife sentiu sua esperança desvanecer quando ouviu o ronco da moto de August disparar. Logo o rugido do motor desapareceu, e Jefferson voltou para dentro da sala.

— Quase! — gritou ele, e riu enquanto dizia:

— Mas não foi desta vez.

Emma viu quando ele bateu palmas algumas vezes.

"Ainda não", pensou ela.

— Bem, de volta ao trabalho — disse ele. — Você e sua amiga Branca de Neve não vão sair daqui até fazerem isso direito e o chapéu me leve para casa.

 

ELA TRABALHOU NO CHAPÉU ENTÃO, pelo que lhe pareceram horas, fazendo o possível para recriar os contornos dos outros chapéus que ele tinha feito. Não tinha ideia do que estava fazendo, mas sabia que haveria outra oportunidade. De algum modo. Em algum lugar. Ele era muito emocional, muito desequili­brado para conseguir planejar um sequestro racional. Emma precisava apenas ser paciente e continuar sondando.

Algumas horas mais tarde, madrugada adentro, ela viu sua oportunidade.

Jefferson saiu da sala e voltou com o telescópio que ela tinha visto na noite anterior. Enquanto ele o montava perto da janela, riu para si mesmo e então disse:

— Você não acredita em mim, não é?

— Em relação a quê?

— A Grace — respondeu ele, agora vasculhando Storybrooke. — Vou lhe mostrar.

Ela largou a tesoura, sabendo que ele ainda tinha a arma na mão.

— Tudo bem — disse Emma, indo até a janela. — Lá está ela — disse ele. — Veja.

Emma olhou. A luz da manhã podia ver através da janela da cozinha de uma pequena sala. Lá, uma menina estava sentada à mesa, tomando café da manhã com os pais.

— Você acha que essa é a sua filha? — perguntou.

— Sei que é — disse ele. - Aqui ela é chamada de Paige. Emma reconheceu a menina. Na verdade, tinha visto Henry falar com ela do lado de fora da escola. Seu nome era de fato Paige.

— E ela se chama Grace em seu mundo? — perguntou Emma. Ele a olhou com ceticismo.

— O mundo que não acredita que seja real?

Emma encolheu os ombros. Sabia agora que esse era o caminho para che­gar até Jefferson. Acreditar.

— Não tenho mais certeza — respondeu. — Sei que gostaria de acreditar, que quero acreditar. De acordo com Henry, a mulher que está naquele outro quarto é minha mãe. Eu gostaria que isso fosse verdade.

É suficiente? Não tenho certeza. Mas estou aberta a isso.

Ele balançou a cabeça e voltou ao telescópio.

E olhou para fora da janela.

— Você está aberta à fé, então —disse ele.

— Deixe-me dizer-lhe outra coisa. Tem de estar mesmo, se for separada de seu filho. Emma sorriu tristemente.

— Conheço alguma coisa sobre isso...

Voltou para a mesa, e Jefferson deu mais um passo em direção à janela, com as mãos cruzadas atrás das costas.

— Então, às vezes, você sabe que precisa acreditar, porque c a única forma de poder manter a sanidade.

— Talvez.

Emma deu um passo em direção ao telescópio.

— Então, agora você entende por que preciso que o chapéu funcione

— completou ele, olhando para a casa onde a sua "filha" morava.

— Sim, entendo — disse Emma.

Ele estava prestes a dizer algo mais, mas não teve chance. Nesse momento, Emma acertou sua cabeça com o telescópio, e ele caiu no chão, inconsciente. Emma pegou a arma e foi direto para Mary Margaret. Correu para a sala e começou a desatar os nós que a prendiam à cadeira.

— O que aconteceu? — estava dizendo Mary Margaret, mais nervosa agora do que estivera antes. — O que... Emma. Emma!

Mas o aviso veio tarde demais, e Jefferson foi muito rápido. Ele deu um soco em Emma, ela foi cambaleando para a frente, e sua arma voou de suas mãos. Ele pulou em cima dela e a prendeu no chão, enfurecido. Emma agarrou a única coisa em que conseguiu pôr as mãos, o cachecol. Quando ela o puxou, ficou horrorizada ao ver uma longa cicatriz abrangendo a totalidade de seu pescoço.

Jefferson jogou Emma para baixo, atingiu-a na cabeça, e recuperou a arma.

— Cotem-lhe a cabeça... —disse ele, com um sorriso maníaco no rosto. Ele apontou a arma. Emma pensou: "Esta é a minha morte".

E depois, em câmera lenta, algo balançou. Mary Margaret estava livre, brandindo o que parecia ser um martelo de guerra. Não. Era um martelo de críquete.

Ela bateu em Jefferson no meio das costas; ele tropeçou para frente e deixou cair a arma. Quando ele se virou para enfrentar Mary Margaret, a professora eslava pronta para ele. Emma, atordoada, viu quando ela chutou com força o centro do peito do Chapeleiro Maluco, e ele foi voando para trás, gi­rando os braços.

Diretamente para a janela.

O vidro se quebrou, houve um último grito de seus lábios, e de repente Jefferson tinha desaparecido.

As duas mulheres correram para a janela.

Foi uma longa queda, pois a casa estava construída em cima de uma colina. Emma, olhando para baixo, esperava ver uma cena horrível.

Mas, em vez disso, não havia nada. Nenhum corpo. Apenas uma cartola.

 

LÁ FORA, EMMA E MARY MARGARET procuraram algum sinal de Jefferson. O sol já estava alto sobre Storybrooke naquela manhã. Emma estava exausta.

— Quem era ele? — disse Mary Margaret baixinho, abraçando-se, olhando para Storybrooke.

— Um homem solitário   respondeu Emma. E sorriu para Mary Margaret. Talvez a pergunta certa seja: Há quanto tempo você é faixa preta?

— Eu... não sei o que deu em mim — respondeu Mary, olhando para a ja­nela quebrada. Seus olhos pareciam estar enxergando outra coisa, porém, e ela disse:

— Emma, olhe!

Emma olhou para onde ela estava apontando e viu o carro dela, escondido sob uma lona, estacionado atrás de uma garagem.

— Então, xerite— disse Mary Margaret —, acho que você vai me levar de volta agora.

Emma suspirou.

— Corra...

— O quê?

Não deterei você.

— Isso não vai ajudar em nada.

— Pois eu acho que o seu indiciamento é que não vai ajudar cm nada   retrucou Emma. — O importante é que você escolha Você e quem tem de escolher, não eles. Você é minha amiga, e, na minha vida, os amigos tem sido a minha família. — Dizendo isso, colocou a mão no ombro de Mary Margaret —falando serio, não vou abandoná- Iá

Mary Margaret sorriu.

Elas caminharam até o carro de Emma e retiraram a lona.

Todo mundo pensa que eu matei Kathryn - disse Mary Margaret -, mas não faz isso. Ainda assim, acho que podemos vencer essa situação. Não quero fugir.

Emma assentiu.

— Boa escolha — disse ela.

Sua amiga Mary Margaret não estava fora de perigo, certamente ainda não, mas, enquanto rodavam de volta para a cidade, Emma sentiu uma nova e estranha paz descer sobre si. Nenhuma das duas mulheres falou durante a via­gem. Mary Margaret olhou para fora da janela, com a testa encostada no vidro da janela como se fosse um passeio de carro em família e elas estivessem vol­tando de uma longa viagem. Acreditava em sua amiga. Acreditava em sua ino­cência, e sabia que Mary Margaret não seria alguém capaz de prejudicar Kathryn. As duas estavam juntas nessa, para melhor ou para pior.

— Então você acha — disse Mary Margaret, não se voltando para olhar para Emma   que ele era louco?

Claro que era o que ela queria dizer, mas sabia também que Mary Marga­ret estava perguntando sobre algo maior. Emma ficou remoendo essa idéia, mesmo que apenas por um momento, de que tudo era verdade, que as histórias de Henry eram histórias de verdade. Uma parte de Emma desejava que fosse verdade, mas o seu melhor juízo lhe dizia que seria uma tolice pensar assim. Pela primeira vez, porém, Emma considerou que era muito desejável para Mary Margaret acreditar que tinha uma filha, e um amor verdadeiro, e toda uma história que significava amor em sua vida.

— Sim, acho que sim — respondeu Emma calmamente.

— É — disse Mary Margaret, finalmente virando-se e olhando para Emma.

— Eu também.

 

                                                                       ACHADOS E PERDIDOS

 

                     O CAVALARIÇO

ELES LEVARAM MARY MARGARET PARA O TRIBUNAL NA hora certa, e não muito depois disso Emma a trancava na cela de volta, com o coração pesado. As coisas não haviam corrido bem, o juiz tinha determinado que as provas eram suficientes para prosseguir com o julgamento de assassi­nato. Mary Margaret não tinha dito nada. A partir daquele momento, estava sendo acusada pelo assassinato de Kathryn.

— Nós duas estamos exaustas — disse Emma. — Você precisa dormir. Estou indo para casa dormir. Dentro de poucas horas a verei novamente.

Mary Margaret assentiu de cabeça baixa.

— Tenha fé, Mary Margaret — disse Emma. — Tenha fé.

Emma caminhou lentamente pela rua, com a cabeça confusa, o corpo des­gastado após a adrenalina e a emoção da noite na mansão de Jefferson. Em vez de cansada, porém, sentia-se tensa e preocupada, e duvidava que seria capaz de dormir. Considerou dar um passeio, e avaliou voltar para a ponte do pedá­gio em busca de novas provas. Qualquer coisa que pudesse inocentar Mary Margaret. Mas quando viu Henry sentado na lanchonete, tomando uma xí­cara de chocolate quente de manhã, antes de ir para a escola, ela sorriu e en­trou. As vezes o mundo real era demais.

— Ei, garoto — disse Emma. — Você é um colírio para olhos cansados.

— Eu sei o que você veio fazer aqui disse Henry. — Veio para a hora da história.

—Talvez — disse Emma, balançando a cabeça para Ruby, como se solici­tasse uma xícara de café.

Enquanto Henry vasculhava a mochila, procurando seu livro, Emma pen­sou naquele momento com Jefferson em que ele lhe pediu que aceitasse as coisas. Que acreditasse que todas aquelas histórias eram verdadeiras. Ela acreditou nisso por um segundo quando estava fingindo para Jefferson. E isso fez com que ela se sentisse bem.

—Alguma vez você já se perguntou — disse Henry por que Regina real­mente odeia tanto Branca de Neve?

Sim — disse Emma, sem se preocupar em corrigi-lo e chamar Mary Margaret por seu nome real.

Ela estava mais interessada em perguntar a Henry sobre Jefferson, ou o Chapeleiro Maluco, mas não conseguiu reunir forças para encorajá-lo a fazer isso. Estava bem para ela assim, com ele contando suas histórias, mas o contrá­rio faria dela a Mãe Maluca.

— Isso começou lá atrás, há muito tempo — disse Henry, apontando para uma ilustração em seu livro. - Regina era uma menina ainda, e estava apaixo­nada por um rapaz que era cavalariço.

— Regina sabe amar? — perguntou Emma.

—Ah-ah— disse Henry, mas isso não foi uma risada, e Emma pensou: "Es­tou sendo muito simplista com o coração do garoto". Regina tinha criado Henry, afinal de contas. Não era tão simples como Emma queria que fosse.

— Então, o que aconteceu com esse cavalariço? — disse ela.

—E o que isso tem a ver com Branca de Neve?

— A mãe de Regina era realmente uma pessoa muito perversa — explicou Henry. — E tinha conhecimento de magia. Ela começou como camponesa e se casou com esse cara rico, senhor de terras, e estava determinada a fazer de sua filha rainha, um dia. Para ter o poder supremo. E então, um dia. Regina estava cavalgando, e essa garotinha passou correndo montada em um cavalo, total­mente fora de controle. Adivinha quem era?

— Hmmmm— disse Emma. — Branca de Neve?

—Sim! — gritou Henry.

—E Regina a salvou, e o pai de Branca de Neve. o rei, ficou tão feliz que propôs casamento a ela!

— Ah, oh — disse Emma. -- Com isso você quer dizer que o cavalariço es­tava ferrado.

— Mais ou menos — disse Henry, apontando-lhe uma nova imagem. Essa mostrava um jovem casal em um estábulo, ambos com medo, olhando para uma mulher mal-encarada. — Regina bem que tentou dizer "Não" e ficar com o garoto cavalariço, mas sua mãe o matou na frente dela.

Emma franziu o cenho.

— Meu Deus! - disse ela. —Isso é terrível. Esse livro é realmente para crianças?

É para quem quer que seja — disse Henry.

— Não entendo por que Regina odiaria Branca de Neve — disse Emma. —Qual a ligação entre ela e o cavalariço?

— Branca de Neve contou, acidentalmente, para a mãe de Regina, sobre o cavalariço — respondeu Henry muito sério. — Foi assim que ela encontrou os dois no estábulo. Por isso Regina sempre achou que o amor de sua vida fora morto por causa de Branca de Neve.

— Isso é... incrivelmente triste — disse Emma.

— Eu sei. E você sabe o que torna tudo ainda pior? — disse Henry.

— O quê? — perguntou Emma.

— Regina não contou para Branca de Neve que Daniel acabou sendo morto. Branca de Neve nunca soube que tudo tinha acabado tão mal assim.

Emma tinha mais perguntas.

"O que aconteceu com Regina, então? O que aconteceu depois?" Mas não pôde perguntar, porque foi distraída por um barulho do lado de fora da lanchonete.

Algumas pessoas estavam correndo pela calçada, e uma multidão parecia estar se reunindo do outro lado da rua. Emma apertou os olhos tentando ver e se levantou.

— Espere, Henry— disse ela, correu para a porta e atravessou a rua. Havia cerca de vinte pessoas reunidas em torno de algo, mas Emma não podia ver o que era.

— O que está acontecendo? — perguntou ela se aproximando deles.

— O que...

Emma parou de andar de repente, espantada com o que viu. Aquilo era completamente impossível. Mas, de alguma forma, era isso que estava acontecendo. Kathryn, esfarrapada e magra, olhava para todos eles, com o rosto e as rou­pas cobertas de sujeira, sentada no meio do beco.

Viva.

 

A AMBULÃNCIA CHEGOU POUCOS MUNUTOS DEPOIS e Emma enviou Kathryn para o hospital Antes de ela mesma ir ao encontro da mulher, precisava cum­prir uma tarefa rápida. Foi direto para a delegacia.

Mary Margaret estava dormindo em seu catre quando Emma entrou, mas se mexeu quando esta fechou a porta.

— O que é isso? — perguntou ela, vendo Emma andar rápido, a passos largos.

— Você está livre — disse Emma. — Estou retirando as acusações contra você. Kathryn está viva.

— Ela... o quê? — disse Mary Margaret sentando-se, ainda grogue.

— Você pode fazer isso?

— Não sei — disse Emma —, mas já estou fazendo.

Como assim, ela está viva? — perguntou Mary Margaret. Ela está viva, porque nunca esteve em perigo — disse Emma.

— Não em perigo real, pelo menos.

Aquele foi um palpite, mas o palpite estava se desenvolvendo em sua mente.

Ela abriu a porta da cela, e Mary Margaret saiu.

— Vá para casa, tome um banho, descanse. Ainda tenho um monte de per­guntas. Mas uma coisa é certa: você não matou ninguém.

— Mas você já sabia disso — falou Mary Margaret. Sim   disse ela.

— Sabia, sim.

Depois de cruzar toda a cidade, Emma chegou ao hospital assim que o dr. Whale tinha acabado de examinar detalhadamente Kathryn. David estava lá, sentado do lado de fora do quarto. Não parecia bem. Como ela está?

— perguntou Emma.

David olhou para cima e assentiu com a cabeça.

— Acho que ela está bem, não sei — disse ele.

— Essa coisa toda... Sua voz foi sumindo.

— Como você está? — perguntou Emma.

— Não sei — disse ele. — Feliz. Triste. Sobrecarregado. Estou muito aliviado por ela estar viva.

Isso me parece honesto — disse Emma.

— Você... sabe como Mary Margaret está lidando com isso?

— perguntou

— Ela está bem. Está aliviada também, obviamente. Mas acho que está muito traumatizada com tudo isso. Como você pode imaginar.

— Quero falar com ela— disse David.

— Eu sei — foi tudo o que Emma respondeu.

—Então, o que faço? — disse David quando percebeu que Emma não iria colaborar mais.

— Talvez, agora, a melhor coisa a fazer seja simplesmente não fazer nada — disse Emma.

E saiu sem dizer o que os dois sabiam ser verdade: Mary Margaret não queria ver David. Não depois que ele, tão facilmente, deixou de acreditar nela.

David assentiu. Ele entendia, Emma sabia disso. Provavelmente, não que­ria pensar nisso, mas tinha entendido.

Ela entrou no quarto de Kathryn.

O dr. Whale estava dizendo alguma coisa a Kathryn, e, depois de um momento escutando, Emma percebeu que ele estava falando com ela sobre seu relógio.

— ... ainda é o único relógio suíço sem peças japonesas, e isso custa mais, porque...

"O que há com esse sujeito?", pensou Emma.

Ele parou de falar quando percebeu que Emma estava no quarto.

— Xerife Swan disse, fazendo um gesto em direção a Kathryn.

— Ela está acordada, como pode ver.

Emma ignorou-o e foi para a cabeceira de Kathryn.

— Kathryn, sou Emma Swan disse. Nós nos conhecemos na festa de boas-vindas a David.

— Eu me lembro — disse Kathryn.   Você e a xerife. E divide o aparta­mento com Mary Margaret.

Emma achou seu tom de voz meio estranho. Não era um tom de voz nor­mal.

— Isso é verdade - disse ela—, mas não estou aqui para jogar com favoritismos de nenhum tipo. Não quero tomar muito do seu tempo, mas se você pu­der se lembrar do que aconteceu, ou se puder nos ajudar de alguma forma... Kathryn assentiu.

— Não me lembro de muita coisa — disse ela. — Tive um acidente de carro. Eu me lembro do airbag explodindo. E, depois, a próxima coisa de que me lembro é de estar no escuro, em algum porão. Não vi ninguém, não havia comida nem água. Depois disso, não sei. Acho que eu estava drogada. O dr. Whale concordou.

— Ainda estamos tentando eliminar as substâncias do organismo dela — disse ele. — Mas ela estava, sim, definitivamente drogada.

— Acordei em um campo perto dos limites da cidade c simplesmente co­mecei a andar — disse Kathryn. — Isso é tudo o que posso dizer.

— Nesse período, não viu ninguém? — perguntou Emma.

— Não ouviu ne­nhuma voz nem sentiu o cheiro de algum perfume? Alguma colônia? Não existe nenhum detalhe em tudo o que você passou que queira me dizer?

— Nada. Gostaria de poder ajudar, especialmente depois que... Enquanto estive fora, todo mundo pensou que eu estivesse morta. E isso mesmo? Emma olhou para o dr. Whale.

— Quem veio fofocar? - disse ela. O dr. Whale deu os ombros. "Não gosto desse sujeito", pensou Emma.

— Percebi que ela precisava saber — disse ele. Iria acabar lendo sobre o seu coração no jornal, não é verdade?

— Desculpe-me —  disse Kathryn. — Meu coração o quê?

— Você não tem de se preocupar com esses detalhes agora - disse rapida­mente Emma, sem saber como explicar para aquela mulher que haviam dito que seu coração tinha sido encontrado cm uma caixa de joias. O importante é que você está viva e a salvo.

Embora agora saibamos que alguém pode ter adulterado os resultados do exame de DNA.

Os resultados do DNA? - disse Kathryn. - Do que você está falando' Realmente não entendo.

— Não se preocupe - disse Whale. — O seu ainda está lá onde deveria estar. A polícia encontrou um coração e acreditava-se que fosse o seu.

"Que ótimo", pensou Emma.

Kathryn, parecendo horrorizada com esse detalhe, voltou-se para Emma.

— Mas quem faria isso?

— Alguém que está tentando jogar a culpa em Mary Margaret disse Emma. — Não sabemos quem, ainda.

Kathryn balançou a cabeça

— Por quê? — perguntou ela. —Por que alguém faria uma coisa dessas?

— Não sabemos — disse Emma.

 

NAQUELA NOITE, A FESTA EM COMRMORAÇÃO á libertação de Mary Margaret foi bem movimentada, cheia de convidados. Até mesmo August foi convidado.

Enquanto Emma bebericava ponche e observava August se misturar aos demais, ficou se perguntando sobre aquele estranho homem que tinha che­gado à cidade tão recentemente. Ela ainda não conseguira entendê-lo.

Mas prestou atenção quando Henry e Mary Margaret se aproximaram dela. Henry disse à professora que tinha um cartão para lhe entregar. Era da parte de todas as classes da escola, e nele estava escrito:

"Estamos muito felizes por não ter sido você quem matou a Sra. Nolan." — Muito obrigada, Henry —disse Mary Margaret, levando a mensagem na esportiva. - Por favor, diga a todos que estarei de volta em breve.

— Também tenho um sino para lhe dar — disse ele, entregando-lhe uma pequena caixa. — Para as saídas.

Emma sorriu.

Quando ela ergueu os olhos, Gold estava olhando para ela, e ele acenou com a cabeça para o canto da sala. Ela se aproximou.

Emma decidiu pôr para fora o que estava sentindo:

— Não sei o que você está fazendo com Regina, mas sei que essa coisa toda não é tão limpa como está fingindo que seja. Vocês dois, de alguma forma, prepararam tudo isso. Não sei como, nem por quê, porém sei que alguma coisa está acontecendo.

— Mas o que a faz pensar que eu possivelmente teria algum tipo de arranjo com a prefeita?

—Não sei — disse Emma. - Pode chamar de palpite.

—Palpites não são provas - disse Gold — , e você é uma xerife.

— Não foi você que fez com que Kathryn aparecesse do nada? —perguntou ela. Você fala como se eu tivesse poderes mágicos -- disse Gold.

— Às vezes, parece que você os tem, sim — disse Emma. Não entendo     disse Gold. — Você está sugerindo que eu, ao mesmo tempo, estava trabalhando com Regina e contra ela?

— Não sei — disse Emma. — Talvez você estivesse trabalhando na diagonal.

— Talvez — disse Gold. E sempre difícil falar algo sobre mim, não é verdade?

— Sim. E.

—Deixe-me lhe fazer uma pergunta completamente diferente — disse ele - O que você acha desse forasteiro? Esse tal de August? Você confia nele? Emma olhou para ele. E Gold fez o mesmo. — Estou começando a fazer isso — respondeu.

— Seu nome completo é August Wayne Booth — disse Gold.

— É obvia­mente um nome falso.

Emma ficou em silêncio por um momento, e então disse:

— Os escritores usam pseudônimos. Não estou preocupada com August.

— Então você confia nele - disse Gold.

— Não sei se confio nele - disse Emma— , mas confio nele muito mais do que em você.

— Ah, você deveria confiar mais em mim, srta. Swan — disse Gold.

— Sem pre cumpri os meus acordos.

—E sempre diz isso também — disse Emma.

—Sim, sempre falo mesmo - disse Gold. — Porque é verdade.

 

NA MANHÃ SEGUINTE, EMMA ESTAVA NA LANCHONETE, tentando desfrutar de uma xícara de café com calma pela primeira vez desde que Mary Margaret tinha sido liberada. Não sabia por que, mas não se sentia tão aliviada quanto esperara Claro, sua amiga estava fora de perigo e Kathryn, segura, mas ela já tinha visto demais, presenciado tantos acordos insinceros, tanta gente de duas caras que aquilo tudo era demais para, realmente, sentir que Storybrooke estivesse "limpa". No mínimo, ela agora sabia como essa cidade era desestruturada. E como se não bastasse, Sidney Glass, ex-editor do Storybrooke Daily Mirror, estava bêbado de novo às oito da manhã. Ele se sentara no compartimento de canto.

Emma balançou a cabeça, esperando que ele não fizesse nada que a obrigasse a atirá-lo na cadeia. Ele havia alegado que Regina o demitira por causa da eleição, mas Emma suspeitava que ainda não sabia a historia completa. O que sabia era que Sidney tinha raiva de Regina. Já suspeitava antes, mas os seus delírios durante essas prisões de fim de noite eram todos sobre "ela" ou "aquela mulher". Glass nunca revelava sobre quem estava falando, porem era bastante óbvio para Emma, especialmente depois que ele de bom grado tinha bancado o cachorrinho de Regina. Os dois pareciam ter tido uma briga feia, mas Emma não confiara nele e nunca confiaria.

Infelizmente, Glass a percebeu logo depois que ela o viu, veio camba­leando para sua mesa e sentou-se.

—Sr. Glass - disse Emma. — Provavelmente, este não é o melhor horário para ficar bêbado.

— Toda hora é a melhor para se beber — disse Glass.

Ele assentiu com a cabeça uma vez mais como se estivesse confirmando a ideia para si mesmo.

— O que você quer? —perguntou Emma.

Quero explicar para você — disse Glass — que esta cidade tem todos os tipos de segredos.

Não c novidade para mim - disse Emma. — Contudo, obrigada.

Não tenho tanta certeza de que você saiba todos eles disse Glass.

— Não fique se achando...

— Deixe-me adivinhar — disse Emma. Você está prestes a me contar mais alguns?

— Um deles, talvez disse Glass. Um ou dois. Sei o que você está pen­sando: Regina fez algo para aquela garota. E sei o que mais está pensando: Gold está envolvido nisso também Estou certo?

Emma não disse nada, apenas olhou para ele.

— Parece que estou...

Estou feliz que ela esteja a salvo, Sidney —disse Emma, levantando-se.

— Espero que você fique bem também.

Deixou alguns dólares sobre a mesa e Glass olhou fixamente para eles. A esperança é eterna — disse Glass, ainda olhando para os dólares. Tem de ser.

A esperança é uma boa coisa — disse ela.

— Mas gosto de provas. E da verdade.

Ele assentiu com a cabeça ante esse comentário. Só mais uma coisa, Srta. Swan — disse ele.

— Diga.

— As coisas estão prestes a mudar - disse ele, novamente. Você vai ter a sua verdade. Mas há outra parte da informação que você precisa ter.

— Estamos falando novamente sobre Kathryn? Sidney meneou a cabeça.

— Não — disse ele. — Estamos falando sobre chaves mestras. Emma levantou as sobrancelhas.

— Estou ouvindo - disse.

— Elas formam um jogo — disse Sidney. — Estão com Regina. Abrem todas as portas da cidade.

— Isso é ridículo -- disse ela.

— Eu sei—   disse ele— , mas não quer dizer que não seja verdade. Por que está me contando isso?

Sidney suspirou e olhou para a mesa.