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Poesia & Contos Infantis

 

 

 


DIANA, A CAÇADORA SOLITÁRIA / Carlos Fuentes
DIANA, A CAÇADORA SOLITÁRIA / Carlos Fuentes

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

DIANA, A CAÇADORA SOLITÁRIA

 

Não há pior escravidão do que a esperança de ser feliz. Deus promete-nos um vale de lágrimas na terra. Mas, afinal, esse sofrimento é passageiro. A vida eterna é a eterna felicidade. Rebeldes, insatisfeitos, respondemos a Deus: Não merecemos uma parcela de eternidade na nossa passagem pelo tempo? As trapaças de Deus são piores do que as de um croupier de Las Vegas. Promete-nos felicidade eterna e pranto na terra. Convencemo-nos que conhecer a vida e vivê-la bem é o supremo desafio a Deus no seu vale de lágrimas. Se ganhamos o desafio, seja como for, Deus vinga-se de nós: nega-nos a imortalidade à sua beira, condena-nos à dor eterna. Contra toda a lógica, atrevemo-nos a conferir lógica à Divindade. Pensamos: Deus não pode ser o criador da miséria e do sofrimento, da crueldade e da barbárie humana. De qualquer maneira, isto não foi criado por um Deus bom mas por um Deus mau, por um Deus fingidor, por um Deus mascarado que só podemos vencer esgotando as armas do mal que Ele próprio criou. Sexo, crime e, sobretudo, a imaginação do mal. Não são estas, também, dádivas de um Deus maligno? Convencemo-nos, assim, que só assassinando o Deus usurpador conseguiremos, limpos de corpo, livres de mente, ver o rosto do Deus primordial, o Bom Deus. Mas o Grande Croupier tem outro ás metido na manga. Tendo esgotado o corpo e a alma para chegar até Ele, Deus revela-nos que Ele não é senão o que Não É. Apenas podemos saber de Deus aquilo que Deus não é. Nem os Santos nem os Místicos nem os Doutores da Igreja sabem o que Deus é; nem o sabe o próprio Deus, que cairia fulminado pela sua própria inteligência se o soubesse. Deslumbrado, S. João da Cruz foi quem mais se aproximou da inteligência de Deus, apenas para nos transmitir esta ideia: "Deus é Nada, o Nada supremo, e para chegar a Ele é necessário viajar para o Nada que não pode ser tocado ou visto ou compreendido em termos humanos". E para humilhar a esperança, S. João apenas nos deixa esta terrível passagem: "Todo o ser das criaturas, comparado com o infinito ser de Deus, não é nada... Toda a formosura das criaturas, comparada com a infinita formosura de Deus, é suma fealdade. " Talvez Pascal, santo e cínico francês, seja o único cuja aposta salva, simultaneamente, a nossa consciência e a nossa concupiscência: Se apostas na existência de Deus e Deus não existe, não perdes nada; mas se Deus existe, tens tudo a ganhar.

Entre S. João e Pascal, dou a Deus um valor nominal, isto é, substantivo: Deus é a cómoda taquigrafia que reúne, num único abraço, a origem e o destino. Conciliar os dois é o desejo imemorial da raça. Optar apenas pela origem pode transformar-se primeiro numa nostalgia lírica e a seguir totalitária. Casar apenas com o destino pode ser uma forma da fatalidade ou da quiromancia. Origem e destino devem ser inseparáveis: memória e desejo, a passagem rápida pelo presente, o futuro aqui e agora... Aí quereria situar Diana Soren, uma mulher perversamente tocada pela divindade. Entre Pascal e S. João da Cruz, quereria criar para ela um mundo mítico, verbal, que se aproxime da pergunta mendicante que estende a mão entre a terra e o céu. Podemos amar na terra e merecer um dia o céu, não como penitentes, flagelados, eremitas ou esfomeados da vida, mas participando nela plenamente, obtendo e merecendo os seus frutos terrenos, sem por isso sacrificarmos a vida eterna, sem pedir perdão por ter amado

«not wisely but too well"

A mitologia cristã, que opõe a caridade ao julgamento implacável do antigo testamento, não atinge a belíssima ambiguidade da mitologia pagã. Os protagonistas do cristianismo são eles próprios, nunca os outros. Exigem um acto de fé, e a fé, disse Tertuliano, é o absurdo: "É certo porque é incrível. " Mas o absurdo não é a ambiguidade. Maria é virgem embora conceba. Cristo ressuscita embora morra. Mas quem é Prometeu, o que rouba o fogo sagrado? Porque usa a sua liberdade apenas para a perder? Teria sido mais livre se não a usasse e não a perdesse, embora também a não ganhasse? A liberdade pode ser conquistada por outro valor que não seja a própria liberdade? Nesta terra, só podemos amar se sacrificamos ao amor, se perdemos o ente querido pelo nosso próprio procedimento, pela nossa própria omissão?

É preferível algo a tudo ou a nada? Foi o que perguntei a mim mesmo quando acabaram os amores que aqui vou relatar. Ela deu-me tudo e tirou-me tudo. Pedi-lhe que me desse algo melhor do que tudo ou nada. Pedi-lhe que me desse algo. Esse "algo" só pode ser o instante em que fomos ou julgámos ser felizes. Quantas vezes me disse: Serei sempre o que sou agora? Recordo e escrevo para recuperar o momento em que ela seria sempre como foi, nessa noite, comigo. Mas tudo o que é singular, em amor ou em literatura, recordação ou desejo, rapidamente é aniquilado pela grande maré que nos rodeia sempre como um incêndio seco, como um dilúvio ardente. Basta que saiamos um minuto da nossa própria pele para sabermos que somos rodeados por uma pulsação omnipotente que nos precede e nos sobrevive, sem se importar com a minha vida ou com a dela, com as nossas existências.

Amo e escrevo para conseguir uma vitória passageira sobre a imensa e poderosíssima reserva do que ali está mas não se manifesta... Sei que o triunfo é fugidio. Em contrapartida, deixa-me a minha própria reserva invencível que é a de fazer algo - neste momento - que se não pareça com o resto das nossas vidas. Imaginação e palavras indicam-me que, para que a imaginação diga e a palavra imagine, o romance não deve ser lido como foi escrito. Esta condição torna-se extremamente problemática numa crónica autobiográfica. O escritor deve ser pródigo nas variações sobre o tema escolhido, multiplicar as opções do leitor e enganar o estilo com o próprio estilo por meio de alterações constantes de género e distância.

Isto transforma-se em exigência máxima quando a protagonista é uma actriz de cinema: Diana Soren.

Contam que Luchino Visconti, para provocar o misto de assombro e deleite no olhar de Burt Lancaster durante as filmagens de uma cena de O Leopardo, encheu com meias de seda uma bolsa que era suposto estar cheia de ouro. Diana era assim: uma surpresa para todos pela incomparável suavidade da sua pele, mas sobretudo uma surpresa para ela própria, a pele surpreendida com o seu próprio prazer, assombrada por ser desejada, tersa, perfumada. Não gostava de si, não concedia importância a si própria, não se sentia bem na sua própria pele? Porquê?

Eu, que vivi com ela dois meses apenas, quero correr agora a abraçá-la de novo, senti-la pela última vez e garantir-lhe que podia ser amada com paixão por ela própria, que a paixão que procurava não a excluía a ela... Mas as ocasiões perdem-se. Deixamos uma amante. Voltamos a uma desconhecida. O erotismo da representação plástica consiste, precisamente, na ilusão da permanência da carne. Como tudo no nosso tempo, o erotismo plástico acelerou-se. Um medalhão, um quadro supriram durante muitos séculos a ausência da amada. A fotografia acelerou a ilusão da presença. Mas só a imagem cinematográfica nos dá, simultaneamente, a evocação e o imediato. Esta é ela como era nessa altura mas também como é agora, para sempre...

É a sua imagem mas também a sua voz, o seu movimento, a sua beleza e a sua juventude imperecíveis. A morte, grande madrinha de Eros, é simultaneamente vencida e justificada pela reunião com a amada que já não está a nosso lado, quebrando o grande pacto da paixão: sempre unidos, até à morte, tu e eu, inseparáveis...

O cinema dá-nos tão-só a imagem real da pessoa: ela era assim, e se interpretar a Rainha Cristina, é Greta Garbo; se pretender ser Catarina da Rússia, é Marlene Dietrich; a Irmã Alférez? É Maria Félix, claro. A literatura, pelo contrário, liberta a nossa imaginação gráfica; na novela de Thomas Mann, Aschenbach morre em Veneza com os mil rostos da nossa imaginação em movimento; no filme de Visconti, apenas tem um rosto, fatal, imutável, fixo: o do actor Dirk Bogarde.

Diana, Diana Soren. O seu nome evocava essa ambiguidade antiquíssima. Deusa nocturna, lua que é metamorfose, um dia cheia, minguante no seguinte, unha de prata no céu depois de amanhã, eclipse e morte daqui a algumas semanas... Diana caçadora, filha de Zeus e gémea de Apoio, virgem seguida por uma corte de ninfas mas também mãe com mil tetas no templo de Éfeso. Diana corredora que só se entrega ao homem que corra mais depressa do que ela. Diana/Eva detida na sua eterna fuga unicamente pela tentação das três maçãs caídas. Diana da encruzilhada dos caminhos, chamada por isso mesmo Trívia: Diana adorada nos cruzamentos de Times Square, Picadilly, Campos Elíseos...

Por fim, o jogo da criação derrota-se a si mesmo. Primeiro, porque se desenrola no tempo e o tempo é um cabrão. O romance ocorre em 1970, quando as ilusões dos anos 60 ainda resistiam a morrer, assassinadas pelo sangue mas também vivificadas por ele. Primeira rebelião contra o que seria a nossa própria e fatal sociedade de fim de século, tão breve, tão ilusória, tão repugnante. Os 60 mataram os seus próprios heróis; a orgia norte-americana comeu os seus filhos - Martin Luther King, os Kennedy, Jimmy Hendrix, Janis Joplin, Malcolm e entronizou os seus cruéis padrastos, Nixon e Reagan. Jogávamos com Diana ao jogo de Rip Van Winkle: que diria o ancião se acordasse depois de dormir cem anos e encontrasse os Estados Unidos de 1970, com um pé na Lua e o outro nas selvas do Vietnam? Pobre Diana. Salvou-se de acordar hoje e ver um país que perdeu a alma nos doze anos de espúreas ilusões, banalidades idiotizantes e avareza sancionada de Reagan e Bush. Salvou-se de ver a violência que a sua pátria levou ao Vietnam e à Nicarágua, instalada como boomerang nas ruas sacrossantas dos subúrbios profanados pelo crime. Salvou-se de ver as escolas primárias inundadas de droga, as secundárias transformadas em campos de combate irracional e gratuito; salvou-se de ver a morte quotidiana, por acaso, de crianças assassinadas por pura casualidade ao assomarem a uma janela, de clientes de restaurantes crivados de balas com um hambúrguer na boca, de assassinos em série, de predadores impunes, de corrupções sacralizadas porque roubar, enganar, matar para alcançar o poder e a glória também fazia, naturalmente, parte do Sonho Americano. O que teria dito Diana, o que teria sentido a caçadora solitária vendo as crianças da Nicarágua mutiladas pelas armas dos Estados Unidos, os negros pontapeados e feridos pela polícia de Los Angeles, a parada de grandes mentirosos da conspiração Irão-Contras jurando a verdade e autoproclamando-se heróis da liberdade? Que diria, ela que perdeu o filho, de um país onde se considera seriamente a hipótese de condenar à morte as crianças criminosas? Diria que os 60 acabaram por embranquecer, desbotados como Michael Jackson para melhor castigar todos os que se atreverem a ter cor. Escrevo em 1993. Antes de terminar o século, as fossas ardentes, os rios secos, os arrabaldes enlameados encheram-se com a cor do emigrante mexicano, africano, sudanês, argelino, do muçulmano e do judeu, outra vez, outra vez...

Diana, a caçadora solitária. Esta narrativa com o lastro das paixões de outrora derrota-se a si mesma porque nunca atinge a perfeição ideal daquilo que se pode imaginar. Nem sequer a deseja, porque se a palavra e a realidade se identificassem, o mundo acabaria, o universo já não seria perfectível, simplesmente porque seria perfeito. A literatura é uma ferida por onde brota o indispensável divórcio entre as palavras e as coisas. Podemos perder todo o nosso sangue por esse orifício.

Sós no fim, como sós estávamos no princípio, recordamos os momentos felizes que salvámos da pulsação misteriosa do mundo, reclamamos a escravidão da felicidade e apenas ouvimos a voz da reserva mascarada, o pulso invisível que finalmente se manifesta para proclamar a verdade mais terrível, a condenação inapelável do tempo na terra:

Não soubeste amar. Foste incapaz de amar.

Conto agora esta história para dar razão ao terrível oráculo da verdade. Não sube amar. Fui incapaz de amar.

 

Conheci Diana Soren numa noite de Ano Novo. O arquitecto Eduardo Terrazas, meu amigo, organizou uma reunião em sua casa que, na oportunidade, festejava a minha reconciliação com minha mulher, Luisa Guzmán. Eduardo e eu tínhamos partilhado uma casita em Cuernavaca durante todo o ano de 69. Eu escrevia de segunda a sexta-feira, quando ele e a namorada vinham da Cidade do México para passar o fim-de-semana dedicado aos amigos, à comida e ao álcool. Passavam por lá -muitas raparigas. Completei quarenta anos em 68 e entrei numa crise da meia-idade que durou esse ano todo e culminou numa festa que dei em honra do escritor norte-americano e meu amigo William Styron no Bar La Opera da Avenida Cinco de Mayo, uma recriação frívola da belle époque mexicana (se isso alguma vez existiu). La Opera andava muito por baixo devido a demasiadas partidas de dominó e cuspidelas fora do escarrador.

Convidei todos os meus amigos para homenajearem Styron, que acabava de publicar, com grande êxito e escândalo, As Confissões de Nat Turner. O escândalo foi provocado por muitos grupos negros, que negavam ao autor o direito de falar na primeira pessoa pela boca de um personagem de cor, o escravo rebelde Nat Turner, que em 1831 encabeçou uma insurreição de sessenta escravos, incendiando e matando em nome da liberdade até que, encurralado num bosque onde sobreviveu sozinho durante meses, acabou por ser assassinado. A partir daí, as leis dos escravos tornaram-se mais severas mas, ao tornarem-se mais severas, provocaram maiores rebeliões. Styron conta a história de uma das quedas - mais de treze - do calvário norte-americano que é o racismo.

Quando Bill se sente muito acossado na sua terra, telefona-me para vir até ao México e eu faço o mesmo quando o México me sufoca e sei que posso refugiar-me na ilha do meu amigo, no Atlântico Norte, Martha's Vineyard. Vivíamos agora os dois numa casa que aluguei ao separar-me de Luisa Guzmán, situada no bairro empedrado de San Ángel, uma cidade à parte até há pouco tempo, para onde as famílias da capital iam passar férias no século XIX e que agora sobrevive disfarçada com um manto monacal no meio do barulho e do fumo do Periférico e da Avenida Revolución. A minha casa de neo-solteiro era construída com materiais de demolição. O seu autor era um arquitecto mexicano, Caco Parra, especialista em reunir portões de quintas expropriadas, estípites de igrejas nacionalizadas, velhas traves do vice-reinado desaparecido, colunas sacrílegas e altares profanados: uma história completa de libertação e entrega dos apoios privilegiados do passado aos transitórios refúgios civis do presente. Com todos esses elementos, Parra construía casas estranhas e atraentes, tão misteriosas que os moradores podiam perder-se nos seus labirintos e nunca mais serem vistos.

Martha's Vineyard, pelo contrário, é um lugar aberto aos quatro ventos, calcinado pelo sol três meses ao ano e chicoteado o resto do tempo pelos gelados sopros da grande baleia branca que é o Atlântico Norte. Recordo Styron refugiado na sua ilha e imagino que o capitão Ajab, de Melville, partiu para matar não a baleia mas o oceano, o próprio Nepturno, da mesma forma que os imperialistas belgas do Coração de Trevas, de Conrad, disparam não contra um inimigo negro mas contra um continente inteiro: África. Na ilha de Styron, no entanto, mesmo nos meses de maior calor a neblina avança todas as noites, vinda do mar, como se quisesse lembrar ao Verão que é apenas um véu transitório que acaba por ser abafado pela grande capa cinzenta de um longo Inverno. Avança a neblina do mar sobre as praias, as escarpas de Gay Head, os ancoradouros de Vineyard Haven, as sebes e as casas, até chegar aos umbigos da ilha, as melancólicas lagunas interiores, onde o mar se reconhece e morre afogado.

O mar, no Inverno, uiva em redor da ilha, mas não tanto como os meus convidados do Bar La Opera, para onde cometi a imprudência de convidar, indiscriminadamente, todas as minhas namoradas da altura, fazendo crer a cada uma que era ela a favorita. Adorava fomentar estas situações, nas quais a paixão oculta, o rancor que faz aumentar a paixão e o ciúme prestes a explodir como uma ferida que nos mancha as camisas como se sangrássemos pelos mamilos, me permitia ver claramente as fragilidades do sexo e enaltecer, em contrapartida, o vigor da literatura. Não só convidei as minhas amantes para a Fiesta de La Opera, como aos novos escritores de La Onda, José Agustín, Parménides Garcia Saldaria, Gustavo Sáinz, que eram quinze anos mais novos do que eu e mereciam coroas

que já tinham murchado sobre cabeças mais velhas, como a minha. Libérrimos, descontraídos, humoristas, inimigos mors da solenidade, escreviam ao ritmo do rock e eram as estrelas naturais de uma festa que, para além do mais, pretendia dizer ao governo autoritário e assassino de 2 de Outubro de 1968: Os senhores duram seis anos, nós duramos toda a vida; a vossa saturnália é sangrenta e opressiva, a nossa é sensual e libertadora.

Tais justificações não me absolviam da frivolidade nem da crueldade dos meus jogos eróticos. Acreditava então, apesar de tudo, que a literatura, o meu evangelho, tudo desculpava. Em seu nome, outros sucumbiam à droga, ao álcool, à política, inclusivamente à polémica como desporto literário. Eu, e não era o único, sucumbi ao amor mas reservava-me um direito de distanciamento, de manipulação, de crueldade. Assumia, deliciado, as vestes de Beltenebros, o Lúcifer que habita na deslumbrante armadura moral do herói da cavalaria Amadis de Gaula. Logo que perde a sua heroicidade e sucumbe à paixão, Amadis transforma-se no seu irmão inimigo, o Belo Tenebroso: Don Juan. E a tentação donjuanesca é uma tentação erótica, embora também literária. Don Juan subsiste porque nada o pode satisfazer (ou, como cantaria a melhor encarnação contemporânea de Don Juan enxertado com Lúcifer, you can't get no satisfaction). É a insatisfação do Libertino sevilhano que lhe abre as portas da metamorfose perpétua. Sempre desejoso, sempre ávido, nunca acaba, nunca morre: transforma-se. Nasce jovem e com poucos amores (dois ou três em Tirso), envelhece num instante, saciado mas insatisfeito, mau e cruel cavaleiro (em Molière). O querubim perverso e juvenil de Tirso transforma-se na máscara mortal de Louis Jouvet, uma gárgula gálica racionalista que já não acredita no tempo infinito da vida adolescente ("tanto assim me fiais") mas que é, ele próprio, o que usa a máscara da agonia. Byron, para evitar a competição, domestica Don Juan e senta-o a tomar chá com a família num daqueles Invernos ingleses que "terminam em Julho e recomeçam em Agosto". Mas dá um requebro argentino a essa metamorfose doméstica. Don Juan descobre que não está apaixonado pelo amor mas sim por si próprio. O amor de Don Juan por Don Juan é uma armadilha terrível - em nada inferior à do amor.

Ser tudo isto, que sonho, que elixir, o Don Juan de Gautier, Adão expulso do Paraíso mas que permanece com a recordação de Eva, a recordação encarcerada que o prende à busca perpétua da amante e mãe perdida. O Don Juan de Musset vive mergulhado num mundo de tabernas e bordéis, onde espera encontrar a "mulher desconhecida". Engana-se; apenas procura Don Juan e, embora todas as mulheres com ele se pareçam, nenhuma era ele. Mas talvez o verdadeiro Don Juan, o mais público por ser o mais secreto, seja o de Lenau, o que admite que quer possuir simultaneamente todas as mulheres. Este é o triunfo final de Don Juan, o seu prazer mais certo: tê-las todas ao mesmo tempo.

- Esta noite hei-de gozá-las, a todas.

Mais do que a ubiquidade, o prazer de Don Juan, no entanto, depende do disfarce e do movimento. É como o tubarão: tem de movimentar-se constantemente para não mergulhar no fundo do mar e morrer. Move-se, move-se mascarado, a máscara encobre a sua situação larvar, mutante, metamórfica. Move-se e muda tão rapidamente que as suas próprias imagens não conseguem alcançá-lo. Nem Aquiles nem tartaruga, Don Juan é a parábola do homem disfarçado cujos disfarces correm sempre atrás dele. Está nu. Goza nu. Mas para se mover tem de vestir-se, disfarçar-se e, entretanto, deixar para trás o último disfarce, já conhecido, já adivinhado, antes de assumir o seguinte. No seu momentâneo abandono na sua nudez de Duchamp trepando pelas varandas e descendo pelas escadas, Don Juan é Don Juan somente para deixar para trás a sua própria imagem. Corre, impossível de alcançar por qualquer imagem que queira fixá-lo, experimentando a velocidade do prazer na velocidade da mudança, vencendo todas as fronteiras. Don Juan é o fundador do Mercado Comum Europeu, tem amantes na Alemanha, Turquia e Espanha, informa-nos Mozart, são já mil e três. Maquiavel do sexo, figura disfarçada para escapar à vingança de pais e maridos, mas sobretudo, para escapar ao tédio... Assim, secreta, ridícula, dolorosamente, queria eu ser...

Don Juan menor, quarentão da noite mexicana, aspirava como homem a esse poder de metamorfose e movimento, mas sobretudo desejava-o como escritor. Amando ou escrevendo, nada é mais excitante ou mais belo do que reconhecer a resistência mútua entre o poder que exercemos sobre um semelhante e o poder que o outro - homem ou mulher - exerce sobre nós. Tudo o resto se esfuma no meio da tormenta incontrolável da atracção mútua, da resistência que, por ânsia de poder ou de mera sobrevivência, ou talvez de perversidade, opomos à atracção alheia. Claro que o encanto desta luta é sucumbir a ela. Como? Com quem? Quando? Por quanto tempo? É este o terreno comum do sexo e da literatura. Passa o anjo com asas de cinza. Don Juan é esse anjo negro, Eros bastardo, Cupido em chamas, Panasca de si próprio, que deposita na orelha, pálpebras, orifícios nasais, orelhas, boca, eu, cus, occipício se necessário, do ser amado, as sementes de um sorriso, de uma voz, de um olhar. De um desejo. Depois, Beltenebros, o melancólico, fala-me baixinho ao ouvido e diz-me: "Não haverá nada mais triste do que o sabor das mulheres que nunca terás, dos homens que perdeste por medo, por convencionalismo, por receio de dar o passo proibido, por falta de imaginação, por incapacidade de te transformares no outro, como Don Juan."

Quero ser muito sincero neste relato e não ocultar nada. Posso ferir-me a mim próprio à vontade, mas, pelo contrário, não tenho o direito de ferir ninguém a não ser eu, a menos que, em todo o caso, primeiro enterre no meu peito o punhal que, amorosamente, acabo por partilhar com outrem. Refiro, para já, os temores que me assaltam. Procuro justificar sexo com literatura e literatura com sexo. Mas o escritor - amante ou autor - acaba por desaparecer. Se grita, desintegra-se. Se suspira, funde-se. É necessário ter consciência disto antes de afirmar, acima de todas as coisas, que a vida nunca é generosa duas vezes.

Naquela noite em La Opera, num cenário viscontiano, ou seja, operático, senti que eu mesmo enterrava o punhal com demasiada frequência, ferindo-me a mim mais do que às mulheres que pretendia manipular mas que, bem de mais o sabia, podiam pagar-me na mesma moeda. Escolhi uma, mereci o ódio das restantes e, com Styron e Terrazas, parti no dia seguinte para Guadalajara e costa do Pacífico, onde ia ser inaugurado o Hotel Camino Real, de Puerto Vallarta, obra do meu amigo arquitecto.

Ali recebi a prevista lição. Uma tarde, a rapariga que viera comigo deixou, como quem não quer a coisa, uma carta sobre a nossa cama de hotel. Era dirigida a outro namorado, marcando um encontro para o Ano Novo, que se recusava a passar comigo. "Escritores, só para um bocado, porque me alimentam a mona para depois me apetecer mais estar contigo, querido. Os velhotes, aliás, têm os seus prazeres... como beber champanhe durante todo o dia. Faz-me azia no estômago.

Tem-me preparados os meus refrescos, rico. Lembra-te que eu sem as minhas Coca-Colas não consigo funcionar... " Fiz-me desentendido, mas quando regressámos à Cidade do México procurei a minha mulher e pedi-lhe que passássemos juntos o Ano Novo e puséssemos fim a uma separação de quase um ano. Ela seria, uma vez mais, a minha vitória inevitável sobre os amores passageiros.

 

Luisa Guzmán fora - continuava a ser - uma mulher de excepcional beleza. Morena, com um tom pálido, crepuscular e luminoso, a sua pele brilhava mais em vez de escurecer com a luz dos grandes olhos negros, rasgados, quase orientais, que poisavam sobre os continentes gémeos dos seus pómulos altos, asiáticos, frementes. Era uma visão de sonho, lânguida e em busca de si própria, mas que uma tristeza resignada e sofrida dominava. Também era actriz e queria mais do que o meio mexicano lhe podia dar. Foi lançada aos quinze anos como aspirante ao panteão das deusas do cinema mexicano, tal como ela morenas, altas, com olhos ensonados e pómulos de caveira imortal.

Não conseguiu nem os papéis nem os argumentos nem os realizadores necessários para obter esse milagre mínimo chamado estrelato. Procurou incansavelmente o melhor, quer em cinema, quer em teatro; amava tanto a sua profissão que, paradoxalmente, acabou com ela. Tal como Diana Soren, apenas fez dois ou três filmes bons. Depois, desde que pudesse trabalhar, aceitava fosse o que fosse. O tempo, o desgaste encarregaram-se de negar-lhe os primeiros papéis, anteciparam-lhe um envelhecimento que não era seu; refugiou-se nos papéis de "característica", procurando oportunidades de brilhar que nin guém conseguiu entender por serem excêntricas.

Quando nos conhecemos, Luisa estava casada e eu saía de uma tentativa frustrada de matrimónio "decente". Umas a seguir às outras, as meninas-bem de que a minha situação familiar me aproximava acabavam por abandonar-me, obedecendo às geladas ordens dos pais: eu não era rico e, embora fosse uma pessoa decente, não pertencia a uma grande família de financeiros ou políticos e o meu talento estava ainda por ser comprovado; além disso, escrever é uma profissão de risco, sobretudo na América Latina: quem vive dos seus livros nos nossos países Dos meus amores de juventude, apenas me restava o sabor de muitos lábios jovens e frescos e a pergunta com o passar dos anos: o que disseram, quando perderam a frescura, quando se transformarão em gretas em vez de lábios? Não amei nenhuma como a uma namorada morta, transformada em cinzas num acidente aéreo; não houve na minha vida jovem com lábios mais frescos. Mas as suas cinzas eram também as dos lábios de uma outra mulher com quem estive prestes a casar. Recusou-me porque eu não era suficientemente católico; segundo diziam os seus pais, era "ateu" e comunista. Casou com um gringo] de patas enormes, barriga dilatada por demasiadas cervejas e uma concessão de bombas de gasolina Texaco no Middle West. Mas as namoradas faziam também parte desse destino desconhecido, desse horror que evoquei no princípio da minha narrativa, e que consiste em adivinhar a reserva poderosa daquilo que não se revela ainda. Não há maior melancolia do que esta: não conhecer todos os seres

 

1 Gringo - designação depreciativa dada aos naturais dos Estados Unidos. (N. da T. )

 

que poderíamos amar, morrer antes de os conhecer. As minhas namoradas, beijadas, tocadas, desejadas, só ocasionalmente possuídas, pertenciam, afinal, a esse magma do desconhecido ou do não dito; regressavam todas ao vastíssimo campo das minhas possibilidades, da minha ignorância.

Conheci Luisa Guzmán antes do êxito do meu primeiro romance. Creio que me quis por mim mesmo, como eu a quis a ela, pela sua beleza e simplicidade, aquela evidente, esta disfarçada por um turbilhão de peles, boatos, imagens. Mais do que nos filmes, vira-a nos jornais, subindo e descendo escadas de aviões, sempre abraçada a um grande panda de pelúcia. Era a sua marca registada, uma imagem infantil mas mais correcta do que publicitária.

Luisa tivera uma infância desgraçada, um pai ausente, ou melhor, exilado pelo orgulho aristocrático da mãe, escritora rebelde, "senhora-bem" de Puebla, que sempre colocou o seu egoísmo sexual e literário à frente de qualquer dever familiar. O pai, alto, índio, rude, deparou com a porta fechada da casa da mulher e da filha e desapareceu para sempre nas altas brumas e no aroma picante das nossas serras. Ainda muito pequena, Luisa foi enviada para um internato de onde apenas emergiu, adolescente, quando a sua beleza e a profissão da mãe formaram uma conjunção perfeita na cabeça desta.

Magoada, Luisa chegou-me como uma ave ferida que voou do cenário de um teatro da Rua de Sullivan até aos meus braços que a esperavam, ansiavam por ela para preencher uma solidão simultaneamente criativa e imbecil. Os meses de disciplina e abandono, durante os quais me afastava definitivamente do mundo social da minha família e lutava para terminar o meu livro, deixaram-me com os braços vazios. Ela conseguiu preenchê-los com a sua paixão e ternura, mas tambem com uma grande tristeza no olhar profundo. Essa tristeza era uma inquietação prematura para a minha própria alegria. Acabei um livro; amo uma mulher.

Demorei a compreender que a tristeza nos olhos de Luisa não era passageira mas sim intrínseca. Talvez viesse, quem sabe, dessas serras brumosas e condimentadas do pai, da melancólica tristeza das casas rurais e dos seus habitantes, muitas vezes desordeiros e hipócritas, como convém a uma região que é viveiro de caciques e noviças, de homens cruelmente ambiciosos e de mulheres cruelmente recatadas. Mas, mais do que tudo, reconhecia na beleza mestiça da minha mulher as serras brumosas e condimentadas do seu pai, onde se acumulavam a paciência e a bondade, aliadas ao rancor e à vingança.

 

Estávamos agora juntos na celebração do Ano Novo em casa de Eduardo Terrazas e Luisa parecia mais bonita do que nunca, morena, alta, decotada, com um vestido negro que reflectia os fulgores do penteado ao alto, das sobrancelhas e das pestanas, quase da sua pele escura que, no entanto, brilhava como uma lua indígena, esculpida, lutando para dar visibilidade à sua própria e secreta luz interior que não tinha cor; ou que talvez a oferecesse a uma paleta de emoções, situações e acidentes que englobavam, simultaneamente, a profunda firmeza e a terrível insegurança desta mulher: entre essas duas qualidades residia a sua fatalidade.

Sentia-se permanente e era-o. Perdoava-me tudo; eu havia regressado sempre. Ela era o refúgio, a laguna serena onde eu podia escrever. Conhecia a minha verdade. A literatura é a minha verdadeira amante e tudo o resto, sexo, política, religião se a tivesse, morte quando a tiver, passa pela experiência literária, que é o filtro de todas as restantes experiências da minha vida. Ela sabia isso. Arranjava e mantinha, como um fogo permanente, o lar da minha escrita, esperando-me sempre, acontecesse o que acontecesse. Os meus amigos sabiam que assim era e os mais generosos, se eram amigos das minhas amantes, avisavam-nas: "Ele nunca deixará a Luisa. Mais vale que saibas disso. Em contrapartida, encontrarás sempre em mim um amigo."

Isto é, a regra mais básica dos donjuanes de todos os tempos é aquilo que, em mexicano, se costuma dizer: "Vamos a ver se é chiclete e pega. " O meu caso não era excepcional. Todos tinham o seu chiclete e tentavam fazê-lo pegar, umas vezes com êxito e outras não. Havia esposas que não toleravam isto; outras, fingiam não perceber. Luisa e eu tínhamos um pacto expresso. Mesmo que o meu chiclete pegasse, eu regressaria. Regressaria sempre. Era a minha pior chantagem. Estive sempre exposto a que ela me pagasse na mesma moeda. Talvez o tenha feito. As mulheres - as melhores - sabem guardar os segredos, não são as faladoras do estereótipo. As mulheres mais interessantes que conheci não contam a ninguém a sua vida sexual. Nem as suas amigas mais íntimas sabem de nada. E nada intriga e excita mais um homem do que uma mulher que guarde os seus segredos melhor do que ele próprio. Mas o donjuan, por definição, proclama os seus triunfos, quer dá-los a saber, quer ser invejado. Luisa era secreta. Eu era um parvalhão, um vagabundo do sexo que não merecia a lealdade, a firmeza, a renovada fé de uma mulher como Luisa. Era esta a sua força. Por isso me suportava tudo. Por isso, uma vez mais, estava com ela naquela noite. Era mais forte do que eu.

Em casa de Eduardo Terrazas estavam também muitos amigos na noite de S. Silvestre de 31 de Dezembro de 1969. José Luis Cuevas, o extraordinário artista cujo doloroso abraço procura incluir todas as visões marginais, excluídas, do desejo, e Berta, a sua mulher. Fernando Benítez, o meu firme e velho amigo, o grande promotor da cultura na imprensa mexicana, o romancista, o explorador do México invisível, e Georgina, a sua mulher. Cuevas, com 35 anos, era um gato-montês, fingindo modos de sociedade que dificilmente dissimulavam a sua natureza selvagem, inquieta, prestes a saltar sobre uma presa de sangue quente como o seu para a estripar, devorar e ficar assim com a sensualidade de poder imaginá-la: haveria nele um assassino sublimado pela arte? Sempre acreditei nisso, assim como em Benítez, homem sensual entre os que o são, sexista, adorador da mulher mas também misógino e eremita, havia no fundo um frade franciscano, um Bartolomé de las Casas redentor de índios, um desses irmãos que vieram para salvar almas e proteger corpos logo que se concluiu a conquista do México. Era possível imaginá-lo conduzindo um BMW descapotável, a toda a velocidade, rumo a Acapulco e a um fim-de-semana orgiástico, mas também era possível vê-lo subir no lombo de um burro por uma serra inóspita onde o esperavam não só as tribos perdidas mas também os bacilos que lhe foram destruindo o estômago, o pâncreas, os intestinos...

Ano Novo. Esta passagem de 1969 para 1970 era digna de ser celebrada porque marcava o fim de uma década e o início de uma nova. Embora verdade seja que ninguém chegou a acordo sobre o que significa o zero no fim de um ano. Terminaram os 60, começaram os 70, ou os 60 reclamam mais um ano, um prolongamento agónico da festa e do crime, da rebelião e da morte, dessa década repleta de acontecimentos, tangíveis e intangíveis, tripas e sonhos, pedras e recordações, sangue e desejo: a década do Vietnam e de Martin Luther King, dos Kennedy assassinados e do Maio parisiense, de Chicago e Tlatelolco, de Marilyn morta... Uma década que pareceu programar-se para a televisão, para preencher os horários desertos dos ecrãs, deixando-os sem fôlego, "banalizando o milagre, transformando o pequeno selo electrónico no pão nosso de cada dia, o esperado do inesperado, o fac-símile da realidade que iria culminar, logo que iniciados os 70, no primeiro passo do homem na Lua. Suspeita imediata. A viagem à Lua foi filmada num estúdio de televisão? Desencanto instantâneo. Poderá a Lua continuar a ser a Diana romântica depois de um gringo lá ter deixado a sua merda?

Chegaram mais convidados. A China Mendoza, jornalista e escritora, possuía um espectacular sentido de auto-afirmação durante os anos 60. Nesta década de modas loucas, usava roupa que parecia inventada por ela e não copiada de qualquer revista. Lembro-me dela nessa noite, com uns óculos prateados em forma de borboleta e uma minissaia que era na realidade um pijama, um babydoll cor-de-rosa, cheio de folhos que deixavam ver umas cuequinhas a condizer.

Rosa, a lindíssima viúva do artista Miguel Covarrubias, chegou acompanhada por um traficante de arte nova-iorquino muito parecido com o actor Sydney Greenstreet, ou seja, imensamente gordo e velho, careca, ainda com algumas melenas brancas, sobrancelhas de carrasco e lábios de fígado. Rosa vestia um dos seus vestidos dourados de Fortuny, que se e'nrolam como uma toalha e se desfraldam como uma bandeira, proclamando: - A minha pátria é o meu corpo. Às portas da morte, Rosa Covarrubias desmentia a sua idade. Pertencia também ao panteão das belezas mexicanas, essas "caveirinhas imortais", como lhes chamou Diego Rivera ao pintar Dolores del Rio. É óbvio que sim. Os ossos da face nunca envelhecem, são o paradoxo de uma morte que, por definição, não tem idade, a fachada como insígnia secreta da beleza e do seu preço. Luisa Guzmán - vi-a afastar-se e subir as escadas - pertencia a essa raça. Quanto mais próximo da pele estava o osso, mais belo era o rosto, mas mais visível a morte, também. A beleza vivia da sua agónica proximidade.

Com Rosa e Greenstreet vinham três marchands de tableaux ingleses que observavam com assombro e desagrado os mexicanos a abraçarem-se, dando palmadas nas costas e agarrando-se uns aos outros pela cintura. O inglês sente repugnância pelo tacto e apenas roça a pele alheia. As suas ideias sobre o clima e a temperatura também são muito especiais e um deles, muito parecido com o primeiro-ministro Harold Wilson, declamou as palavras de Byron que eu acabava de recordar.

- O Inverno inglês termina em Julho e recomeça em Agosto.

Disse que estava muito calor e abriu uma janela.

Terrazas decorara a casa com inúmeros balões que pendiam, amarrados ao tecto, aguardando o momento da passagem de um ano para o outro. Os balões tinham, a stencil, o logotipo das Olimpíadas de 1968, desenhado pelo próprio Eduardo Terrazas. Quando estavam quase a soar as doze badaladas, Berta Cuevas, para anunciar o Ano Novo, aproximou o cigarro aceso do cacho de balões que simbolizavam, na arte de Terrazas, as tradicionais doze uvas da celebração. Não sabia que estavam cheios de gás. A explosão assemelhou-se a um terramoto repentino e atirou-nos a todos ao chão, de encontro às paredes, varrendo tudo o que estava em cima das mesas, virando cadeiras, deslocando quadros. Greenstreet apanhou com um estofo do século XVII em cima da cabeça e os restantes, Rosa, os Benítez, Cuevas e Berta, a China, não pensávamos nos outros, apenas tínhamos consciência de nós mesmos, da nossa possível morte, da surpresa instantânea do acidente, do cancelamento de todas as perguntas excepto uma: estou vivo? A seguir vêm as censuras, o aborrecimento, as dores. Naquele momento, apenas a estupefacção nos dominava. Estávamos todos com a boca aberta; começámos a rir quando os três ingleses, desprovidos de toda a fleuma, se olharam ao espelho para terem a certeza da sua existência e verificaram que tinham colados à cara bocadinhos de balão com o logotipo das Olimpíadas do México 68. Pareciam três exploradores subitamente transformados, por sortilégio de um sacrifício tribal, em sacerdotes tatuados pelos ritos que conseguiram exterminar. Um deles, no entanto - recuperei os sentidos -, tinha-nos salvo a vida ao abrir a janela para que entrasse uma corrente de ar vinda, sem dúvida, das montanhas da Escócia.

Luisa salvou-se e salvou a sua aparência impecável. Subira para ir ao toucador e agora descia, alarmada. Nesse momento, a porta da rua abriu-se e Eduardo Terrazas entrou com Diana Soren, que saíra para ir buscar a outra festa.

- Chegamos a tempo? - perguntou o anfitrião, vendo-nos levantar do chão, ainda aturdidos.

É possível sair de um caso amoroso e entrar noutro sem magoar ninguém? Digo isto como simples exemplo das múltiplas perguntas que fazemos a nós mesmos quando, abruptamente, nos apercebemos que algo vai começar, mas só à custa daquilo que vai acabar. Era pequena, loura, com o cabelo cortado como o de um rapazito, branca, pálida, com olhos azuis ou talvez cinzentos, muito risonhos, combinando constantemente com o sorriso, com as covinhas nas faces. Não vinha espalhafatosamente vestida: um fato de noite greco-californiano, comprido, que não lhe ficava bem porque a fazia parecer mais baixa do que era, um tanto atarracada. Eu - e quantos outros? - recordava-a nos seus filmes importantes. Em ambos, Diana Soren fazia valer o seu físico de adolescente vestida como homem. Primeiro, foi Santa Joana e a armadura permitia-lhe mover-se com energia e ductilidade, cómoda na guerra como nunca estivera numa corte de saias de balão e cabeleiras empoadas; armada para combater como soldado, vestida de soldado. Pagá-lo-ia caro, na fogueira, acusada de bruxaria e talvez, sem que fosse referido, de lesbianismo, de androginia. Pelo contrário, no único filme bom que fez depois, em França, era uma jovem que apenas usava T-shirt e jeans, percorrendo os Campos Elíseos com o seu exemplar do Herald Tribune erguido, apregoando... Desenvolta, livre, guerreira de Orleães ou vestal do Quartier Latin, adoravelmente feminina porque para chegar até ela era necessário percorrer os despenhadeiros da androginia e do homoerotismo, sempre vira em Diana Soren, no ecrã, um subtítulo nunca escrito: Há o amor que não se atreve a dizer o seu nome, mas há uma coisa muito pior, o amor sem nome. Como chamar o possível amor com esta possibilidade pura que, ao entrar na festa de Ano Novo 1970, depois de uma explosão de gás, se chamava "Diana Soren"?

Olhei-a. Olhou-me. Luisa olhou-nos enquanto nos olhávamos. A minha mulher aproximou-se e disse-me ao ouvido:

- Creio que devemos ir embora.

- Mas a festa ainda está a começar - protestei.

- Para mim, já terminou.

- Por causa da explosão? Não me aconteceu nada, vê. Mostrei-lhe as mãos serenas. - Prometeste-me esta noite. "

- Não sejas egoísta. Olha quem acabou de chegar! Admiramo-la muito.

- Não pluralizes, por favor.

- Gostava de falar um bocado com ela.

- Não voltes muito tarde - disse arqueando a sobrancelha, reflexo quase inevitável, pavloviano, genético, numa actriz mexicana.

Não voltei mais. Sentado ao lado de Diana Soren, falando de cinema, da vida em Paris, descobrindo amigos comuns, senti-me traidor e, como sempre, disse interiormente que, se não atraiçoava a literatura, não me atraiçoava a mim mesmo; o resto não me preocupava. Mas ao roçar com a ponta dos dedos a mão de Diana Soren, tive a sensação que a traição, a existir, teria de ser dupla. Diana, afinal, era a esposa de um autor francês bastante popular e premiado, Ivan Gravet, que escrevera dois livros muito interessantes sobre a sua juventude como refugiado da Europa Oriental, primeiro, e mais tarde como combatente na guerra. Os seus romances mais recentes pareciam escritos para o cinema e foram produzidos em Hollywood, mas havia sempre um quê de inteligência em tudo o que escrevia, aliado a um crescente desencanto. Imaginava-o capaz de uma brincadeira final, desmedida mas sem ilusões. Era meu colega. Seria atraiçoável? Ele próprio, se se parecesse comigo, daria mais importância aos seus livros do que às suas mulheres... Comecei a desejar Diana.

Os encontros de um homem e de uma mulher realizamse a dois níveis. Um exterior, filmável, se quiserem, o nível da expressão, da atitude, do olhar, do movimento. É mais interessante o nível interno, em que começam a surgir, a amontoar-se, sensações, perguntas, dúvidas, divagações, imaginações, sobretudo a imaginação dela; ela própria, o que estará a pensar, como será, o que imaginará a meu respeito? Face ao encanto daquela cabeça loura recortada como um capacete para um combate medieval ou para a luta de rua dos anos 60 (que ficaram para trás naquela noite, os anos 60 subitamente tão distantes como a Guerra dos Cem Anos), imaginava um convite surpreendente, carnal, a cabeça de Diana Soren dizendo-me, imagina o meu corpo, ordeno-te, cada pormenor da minha cabeça, do meu rosto, tem a sua equivalência no meu corpo, procura no meu corpo o sorriso da minha boca visível, procura as covinhas das minhas faces, procura a respiração do meu narizito arrebitado, procura o Par táctil e excitável dos meus olhos, procura a companhia gémea do meu cabelo louro, macio, lavado, curto, às vezes penteado, outras livre como o vento, mas próximo, muito próximo do seu modelo mais íntimo, invisível, inseguro: a minha carne.

Era esse o nível do meu desejo nascente, enquanto conversávamos delicadamente no sofá de casa de Eduardo Terrazas. Não o devia revelar, pois outro artigo da constituição dos encontros ordena que nunca entreguemos a uma mulher as munições que pode armazenar para dispará-las contra ti quando (e não deixará de haver um dia) quiser atacar-te. É uma coisa que lhes é intrínseca: armazenarem os nossos pecados e descarregá-los em cima de nós quando lhes convém e não estamos à espera. Defesa própria? Não. As mulheres são grandes na arte de nos fazerem sentir culpados. Para disfarçar o meu próprio e imperioso desejo, recorri à ideia antiafrodisíaca da mulher como geradora de culpas, a mulher como verdadeira Reserva Federal ou Fort Knox da Culpa, armazenando-as para evitar a inflação e atirando depois os lingotes das censuras pouco a pouco, destilados, cruéis, envenenados, por fim vitoriosos, porque nós, os homens, maravilhosos paradigmas de generosidade, nunca faríamos aquilo... Pensei na traição que, no meu caso, já se consumara mesmo que não acontecesse nada com Diana Soren - Luisa só, de regresso a San Ángel - e a traição que ela podia concretizar se eu conseguisse o que queria naquela noite; mais do que nunca, decidi que devia ser uma traição dupla, partilhada, que nos unisse e nos excitasse...

Luisa e Ivan, as nossas testemunhas ausentes, suspensos como dois anjos exterminadores sobre os nossos corpos mas respeitando a nossa traiçoeira integridade porque, afinal, nos amavam, nos recordavam com prazer e não perdiam a esperança de se juntarem a nós. E nós a eles, também?

Falávamos de outros lugares, outros amigos dispersos pelo mundo, e sentíamos que começava a ligar-nos não só essa fraternidade cosmopolita, errante, mas também o preço da mesma. Ser de todos os lugares, dissemos, é não ser de lugar nenhum... Onde se sentia ela bem? Em Paris, em Maiorca, disse-me. Los Angeles? Riu. Esse lugar, não só era horrível no seu aspecto físico, exterior, como era irremediavelmente horrível por dentro.

- Como se diz em francês, em espanhol? Há uma palavra inglesa perfeita para Hollywood: smugness.

- Convencido, satisfeito consigo mesmo?

- É isso - riu ela. - A presunção de ser universal, sabes? O umbigo do mundo. O que ali acontece é o mais importante do mundo. Todos os outros são uns hicks...

- Uns campónios...

- Apenas Hollywood é internacional, cosmopolita. Boy, quando lhes provas que não é assim, detestam-te, fazem-te pagar caro, detestam-te.

- Como sabes? Estão todos mascarados com as suas caras bronzeadas.

- Como tu! - riu, abrindo muito os olhos com um assombro trocista ao observar o queimado com que vim de Puerto Vallarta. Fez-me lembrar que voltei queimado em vários sentidos.

Aquele sorriso encantou-me. Disse para mim mesmo que o podia repetir as vezes que quisesse, durante séculos, sem nunca me cansar. O sorriso e o riso cristalino de Diana Soren, tão alegres, tão vivos naquela noite de Ano Novo, no México. Como era possível não a adorar logo? Mordi o lábio. Estava a adorar uma imagem vista, perseguida, lamentada também ao longo de quinze anos... A minha vaidade impelia-me. Queria ir para a cama com uma mulher desejada por milhares de homens. Queria montá-la com a vigorosa respiração de cem mil homens vigorosos na minha nuca, desejando ser eu, estar na minha posição. Estaquei. Como poderia ela alguma vez partilhar comigo esse orgulho e essa vaidade?

Estava a subestimar, ao longo dessa noite, a capacidade feminina de conquista, o donjuanismo do sexo oposto. Não gostamos de admitir numa mulher a perseverança ou a sorte que admiramos em nós próprios. A nossa vaidade (ou a nossa cegueira) são muito grandes. Ou talvez revelem uma secreta modéstia que pode ser o principal atractivo de um indivíduo, a sua secreta, irresistível fraqueza apelando, inconscientemente, para o abraço da mãe amorosa, protectora, descobridora do enigma da nossa vulnerabilidade tão cuidadosamente disfarçada, oculta, negada...

Diana voltava com frequência ao tema do lar e do exílio. Perguntou-me se conhecia James Baldwin, o escritor negro exilado em França. Não; era amigo de Bill Styron mas eu não o conhecia, apenas lera as suas obras.

- Diz uma coisa - os olhos de Diana fitaram o candelabro colonial de onde pendiam, como tristes planetas mortos, os balões queimados do Ano Novo -: Um negro e uma branca, por serem norte-americanos, sabem mais sobre si mesmos e um sobre o outro do que qualquer europeu sobre qualquer norte-americano, branco ou negro.

- Acreditas que se pode regressar a casa? - perguntei. Abanou repetidas vezes a cabeça, levantando as pernas e

juntando-as para apoiar a testa nos joelhos.

- Não. Não se pode.

- Nunca regressas à tua terra natal?

- Regresso. Por isso é que sei que não se pode regressar.

- Não compreendo.

- É uma farsa. Tenho de fingir que gosto deles. Ergueu o rosto. Fitou o meu olhar inquisitivo e disse muito depressa, como se quisesse libertar-se: - Os meus pais. Os meus amigos da escola. Os meus namorados. Detesto-os.

- Porque ficaram lá, no buraco?

- Sim. Mas também porque lá se salvaram. Não tiveram de representar papéis, como eu. Talvez os odeie porque os invejo.

- És uma actriz. O que tem isso de estranho...

Lowa, Lowa - riu, com um eco de desespero. - Não sei se nós, os Americanos, nos devíamos exilar todos, como Baldwin e eu, ou ficar todos em casa, como os meus pais e os meus namorados. Talvez o nosso erro, o erro dos Estados Unidos, seja sair para o mundo. Nunca compreendemos o que se passa fora de casa. Somos uns campónios, como tu dizes, uns hicks. Hollywood! Se não souberes a última piada, quem se deita com quem, o salário que recebe cada um, julgam que és um tarado, um analfabeto. Todas as suas piadas são sobre assuntos provincianos, locais. Piadas de família, percebes? Não compreendem uma pessoa como eu, que nunca lhes dá o prazer de contar piadas ou de os informar dos seus amores.

- Baldwin também diz que a Europa tem o que vos falta a vocês, um sentido da tragédia, do limite. Em contrapartida, vocês têm o que falta aos Europeus, um sentido das possibilidades ilimitadas da vida... Uma energia que...

- Gosto. Gosto disso. Gosto.

A mão ardente de Diana na minha quando a festa acabou e apenas ficámos ela, Terrazas e eu. Diana convidou-nos a tomar o último copo na suite do seu hotel e Eduardo disse que nos deixaria lá enquanto ia buscar uma amiga ao Anderson's, no Paseo de la Reforma, e logo viria reunir-se a nós no Hilton, que não ficava longe.

Nunca chegou. Diana e eu divertimo-nos escrevendo telegramas conjuntos a todos os nossos amigos parisienses. Continuámos a falar de Hollywood, ela, do México, eu, bebendo champanhe e começando a brincar um com o outro, enquanto eu jurava a mim mesmo que nunca a amaria, que o campo do amor era demasiado vasto para o sacrificar ao amor, que nessa mesma noite poderia tê-la substituído por outras, muitas, que amá-la, no entanto, era uma tentação excitante e que eu nunca haveria de interrogar-me mais tarde se me podia privar dela... Nessa noite, sim, poderia deixá-la com um pretexto qualquer e sair daquela suite que mais parecia um set da MGM num hotel destinado a desmoronar-se no próximo grande tremor de terra da Cidade do México.

Enquanto ela se despia, eu olhava pela janela do quarto a estátua do rei azteca Cuauhtémoc vigiando, com a lança erguida, os prazeres da sua cidade perdida.

 

Durante o longo e maravilhoso primeiro de Janeiro de 1970, na suite do Hilton, não nos vestimos, usámos toalhas quando os criados do serviço de quartos chegavam, descobrimos mil pormenores que nos ligavam, tínhamos nascido ambos em Novembro, os escorpiões pressentem-se, não gostava que a chamasse gamine como comecei a chamá-la, deixei de chamar, pelo contrário ambos gostávamos da palavra francesa desolé, desolado, lamento muito, começámos a repeti-la por tudo e por nada, desolé disto, desolé daquilo, sobretudo ao pedirmos um ao outro um pouco de amor físico declarávamo-nos desolés, lamento muito mas queria beijar-te, lamento ainda mais mas podes aproximar-te... Desolados.

Aproximar-me. De cada vez que o fazia tudo o resto ia ficando para trás, esfumava-se como a noite quando clareia o primeiro dia do ano sobre o cruzamento de Reforma com Insurgentes. Minha linda e sinistra cidade, centro de todas as belezas e de todos os horrores concebíveis, México D. F. Os encontros na minha cidade eram provocados vezes de mais pela solidão ou pelo desejo de pândega, de grupo, de pertencer a algo. A vida sexual na Cidade do México a partir de certo nível de rendimentos (tudo aqui é determinado pelas brutais diferenças de classe) é um escorrega, um tobogán de prazeres incertos, parciais, imediatos, nunca adiados, que só terminam com a morte. Então, ao morrer, apercebemo-nos que estivemos sempre mortos.

Diana não. Da mesma forma que enfurecia as bisbilhoteiras de Beverly Hills porque nunca ninguém sabia com quem ia para a cama numa cidade em que todas o apregoavam, fazê-lo agora, compreendia eu, era um acto pleno, desejado, não acidental, e no entanto, não sei porque senti isso, perigoso. Disse para mim mesmo, ao cair da tarde e recordando o prazer de fazer amor com Diana, que nem ela nem eu tínhamos ilusões. A nossa relação era passageira. Ela estava ali para fazer um filme, eu era o feliz contemplado de uma festa de Ano Novo. Passageira mas não gratuita, não um pis aller, um à falta de outra coisa, ou, como expressivamente se diz no México, um peoresnada. Piorenada, nenhum, Dom Ninguém, pobre diabo. Tanto os Mexicanos como os Espanhóis adoram negar ou rebaixar a existência do outro. Os Gringos, os Anglo-Saxões em geral, são melhores do que nós pelo menos nisso. Preocupam-se mais com a pessoa do lado, envolvem-se mais do que nós. Talvez por isso sejam melhores filantropos. A nossa crueldade fidalga, vestidos de negro e com a mão no peito, é mais estética mas mais estéril. Intrigava-me reconhecer em Diana precisamente a qualidade interior da crueldade, da destruição, numa mulher, todos o sabíamos, tão solidária, tão dedicada a causas liberais, nobres, compassivas. O seu nome aparecia em todos os manifestos contra o racismo, em prol dos direitos civis, contra a OAS e os generais fascistas da Argélia, pela protecção dos animais... Até tinha uma sweatshirt com a efígie do ícone supremo dos anos 60, o Che Guevara, transformado, com a sua brutal morte em 1967, em Chie Guevara, o salvador de todas as boas consciências do chamado Radical Chie europeu e norte-americano, essa capacidade ocidental de descobrir paraísos revolucionários no Terceiro Mundo, e nessas águas lustrais lavar os seus pecados de egoísmo pequeno-burguês... Era assim mesmo.

Ernesto Guevara, morto, estendido como o Cristo de Mantegna, era o mais belo cadáver da época que nos coube. Che Guevara era o São Thomas Moore da Segunda (ou Enésima) Descoberta Europeia do Novo Mundo. Desde o século XVI que somos a Utopia onde a Europa se pode lavar dos seus pecados de sangue, avareza e morte. Hollywood era a Sodoma norte-americana, que arvorava bandeiras revolucionárias para disfarçar os seus vícios, a sua hipocrisia, a sua pura e simples fome de lucro. Seria Diana diferente ou era mais uma dessa legião de utopistas californianos, destilada, além disso, graças ao marido, pelo alambique do sentimentalismo revolucionário francês?

Nunca deixei de pensar nestas coisas. Mas o encanto, a sedução, a infinita capacidade sexual de Diana, embriagavam-me, intrigavam-me, anulavam a minha capacidade de julgamento. No fim, disse para comigo: o que posso criticar-lhe a ela que não possa, antes, criticar-me a mim mesmo? Hipócrita actriz, minha semelhante, minha irmã. Diana Soren.

Tinha na boca um sabor a pêssego. Reconheço que até essa noite desconhecia o uso de cremes vaginais com sabor a frutos. Iria descobrindo, nas noites seguintes, sabores de morango, ananás, laranja, recordando os gelados que em criança adorava lamber numa maravilhosa geladaria da cidade chamada La Salamanca, onde os frutos mexicanos, tão deliciosos, se transformavam em sorvetes ligeiros, vaporosos, derretidos na sua plenitude ao tocarem as nossas línguas e palatos e entregando essa mesma plenitude no instante de se evaporarem. Imaginava Diana com os sabores da minha infância na vagina, mamão, goiaba, sapota, guanabano, manga... Ela fazia uma utilização maravilhosa e, para mim, a partir de agora, perfeitamente imaginável, de um produto comercial excêntrico, o creme vaginal com sabor a fruta... Em contrapartida, a minha imaginação era impotente quanto à roupa interior que guardava nas gavetas do hotel. Não tentarei descrevê-la. Era indescritível. Era uma incitação, uma oferta, uma loucura. A qualidade das rendas e das sedas, a forma como se entrelaçavam, abriam e fechavam, revelavam e ocultavam, imitavam e transformavam, apareciam e desapareciam, contrastava maravilhosamente com a simplicidade guerreira, andrógina, que já referi: Diana a santa combatente, Diana a gamine parisiense. Censurei-me a mim mesmo. Ela odiava essa palavra. Desolé.

O que provocava uma vista de olhos a essas gavetas (porque algo me impedia de tocar no seu conteúdo, de me deliciar com as suas texturas) era ver e tocar e deliciar-me na carne que se podia ocultar por baixo de semelhantes delírios. Que maravilha: uma rapariga vestida com uma T-shirt e calças de ganga azul e, por baixo desta indumentária popular, as intimidades de uma deusa. Qual?

Ela mesma me deu a chave na segunda noite do nosso amor. Na primeira, guiara-me secretamente até à sua roupa interior sentando-se nos meus joelhos e mudando de voz, dizendo-me ao ouvido com uma vozinha infantil, levanta-me a sainha, vais levantar-me a sainha, não é verdade? não vais tocar nas minhas cuequinhas? por favor, toca nas minhas cuequinhas, amor, peço-te, pelo que mais adores, levanta-me a sainha e tira-me as cuequinhas, não tenhas medo, tenho dez anos mas não vou contar a ninguém, diz-me que tocas, amor diz-me o que sentes quando me levantas a sainha e me tocas na ratinha e me tiras as cuequinhas.

Na segunda noite, nua, deitada em cima da cama, evocou outros espaços, outras luzes. Estava no auditório da sua escola em lowa, a High School. Era de noite. Lá fora tinha nevado. Tinham estado durante todo o dia ensaiando os vilancicos e as pastorelas para a festa de Natal. Ela e ele ficaram sós para ensaiar mais um pouco. A noite de Dezembro avança, cai bruscamente, azul e branca. Havia uma clarabóia no auditório. Os dois deitados, olhando para cima, viam passar as nuvens. Depois deixou de haver nuvens. Houve apenas lua. A lua iluminou-os. Ela tinha catorze anos. Foi a primeira vez que fez amor completamente, virginalmente, com um homem...

Soube então que deusa era, ou melhor, que deusas, porque era várias. Era Ártemis, irmã de Apoio, virgem caçadora cujas flechas antecipavam a morte dos ímpios, deusa da Lua. Era Cibele, patrona dos orgiastas que em sua honra se castravam à luz da Lua, rodeando a deusa ladeada por leões, que assim dominava a natureza. Usava uma coroa de torres. Era Astarte, a deusa nocturna da Síria que, com a Lua sob as suas ordens, movimentava as forças do nascimento, da fertilidade, da decadência e da morte. Era, finalmente e acima de tudo, Diana, o seu próprio nome, uma deusa que aceita como único espelho um lago onde se reflictam, idênticos, ela e o seu mundo tutelar, a Lua. Diana e o seu ecrã. Diana e a sua câmara. Diana e o seu sacrifício, a sua celebridade, as suas flechas subindo e descendo no inapelável medidor da bilheteira.

Era Diana Soren, uma actriz norte-americana que veio ao México para fazer, numas montanhas espectaculares próximo da cidade de Santiago, um filme de cowboys que começava a ser filmado amanhã mesmo, no dia 2 de Janeiro, no estúdio 6 dos Estúdios Churubusco da Cidade do México.

Ali deixava de pertencer-me. Apoderavam-se dela as cabeleireiras, as maquilhadoras, as costureiras. No entanto, só confiava os seus verdadeiros adereços a Azucena, a sua secretária, dama de companhia, cozinheira e massagista catalã. Nessa primeira manhã no set, marginalizado, diverti-me muito explorando os cremes utilizados por Azucena para embelezar Diana. A boca continuava a saber-me a pêssego. Besuntavam a minha Joana d'Arc com fórmulas que teriam conduzido directamente à fogueira as bruxas medievais que se atrevessem a dá-las, secretamente, às mulheres carentes, insatisfeitas, de todas as aldeias de Brabante, Saxónia e Picardia. Uma gelatina concentrada, anticelulítica e multiadelgaçante, aplicável quotidianamente no ventre, ancas e nádegas até fazer penetrar por completo as suas biomicroesferas; um transdifusor adelgaçante baseado em sistemas osmoactivos de difusão contínua; um creme reestruturante e liporredutor para combater as gorduras da pele; uma mousse esfoliadora, translúcida, rosada, para eliminar as células mortas; um unguento de abacate e calêndula para suavizar os pés; uma máscara de tutano de vaca... Santo Deus! Serviriam para alguma coisa todos aqueles cosméticos? Sobreviveriam a uma noite de amor, a uma paródia, a uma chuvada, a um discurso político no PRI? Adiariam apenas o que todos víamos: um mundo de mulheres gordas, enrugadas, com celulite? Mascarariam os unguentos a própria morte? E só então, preparada com todas aquelas bruxarias, ambos rodeados pelo bulício de um set cinematográfico, isolados na intimidade do camarim sobre rodas, nos entregávamos, deliciados, ao amor exigente, inesgotável de Diana, coberta de bálsamos mas pedindo para ser usada, usa-me, dizia, gasta-me, quero ser usada por ti; teria eu o sentido apurado dos limites para não passar do uso ao abuso? Ela impedia-me de o saber. Nunca conhecera mulher mais exigente mas também com mais completa entrega, recoberta de unguentos etéreos, perfumados, saborosos, sem os quais, Diana, eu já não saberia viver.

O amor é não fazer outra coisa. O amor é esquecer esposos, pais, filhos, amigos, inimigos. O amor é eliminar todos os cálculos, todas as preocupações, toda a avaliação dos prós e dos contras.

Começava na cena dos joelhos e das cuequinhas.

Culminava com a recordação do auditório, da terra coberta de neve e da lua passando pela clarabóia.

Fodia incessantemente.

- Um dia - ria-se de bom humor - estarei em estado de subjectividade total. Isto é, morta. Ama-me agora.

- Ou entretanto...

Convidou-me a segui-la na estada em Santiago. Dois meses. O estúdio tinha-lhe alugado uma casa. Não a vira, mas se eu fosse com ela seríamos felizes.

Separámo-nos. Ela foi à frente. Eu decidi segui-la, perguntando intimamente se bastariam a literatura, o sexo e muito entusiasmo. Deixei uma nota a Luisa pedindo perdão.

 

- És completamente louco - riu-se ela quando cheguei à casa de Santiago e Diana me agarrou nas mãos, oferecendo-me a face e depois correu para trás, sem tropeçar, ligeira e descalça, direita ao quarto. - Azucena, traz as malas do senhor, disse à dama de companhia, e para mim, bem vês, conheço a casa de trás para a frente e da frente para trás, posso percorrê-la às cegas, não é difícil, não é grande mas é feia...

Riu-se e dei-lhe razão. No táxi que me conduziu do aeroporto vi de relance a catedral, no centro da cidade, duas altas torres elegantes e filigranadas, com varandas em cada um dos três patamares da subida, e perguntei uma vez mais a mim mesmo por que razão os Espanhóis construíram para a eternidade e nós, os mexicanos modernos, para o sexénio... Santiago nunca foi uma grande cidade, apenas um mero posto fronteiriço para garimpeiros audazes que, procurando ouro e prata, encontraram sobretudo ferro, e para o levarem tiveram de combater uns tantos índios, poucos e mais interessados em praticar tiro ao arco do que em matar crioulos. Em vão procurei alguma amostra da nossa arquitectura urbana que considero elegante, o neoclássico, ou mesmo do parisiense porfirista, mas não descobri nada... O cimento grosseiro, o vidro estalado, a instantaneidade desintegrando-se instantaneamente, uma modernidade morta ao nascer, uma arquitectura nescafé iam-se estendendo desde o centro até à casa que deram a Diana, uma toca modernista de um andar, indescritível, com a entrada por uma garagem, pátio interior com móveis de ferro, uma sala ampla com móveis igualmente indescritíveis, cobertos de mantas regionais, os quartos, não sei que mais, esqueci tudo, era uma casa sem existência, não merecia que ninguém a recordasse.

O entusiasmo de Diana habitava-a. Era esse o seu luxo, a sua distinção. Maravilhou-me a sua boa-disposição. Aqui estávamos numa aldeia, literalmente, abandonada pela mão de Deus, como se Deus quisesse vingar-se dos homens que tanto o tinham desiludido mandando-os viver nesta planície seca, pedregosa, ardente de dia, gelada de noite, uma coroa dura e inútil de rocha vulcânica rodeada de barrancos, separada do mundo à faca, como se o próprio Deus não quisesse que ninguém viesse até aqui a não ser para espiar os seus pecados, condenado.

- Todos dizem que isto é o lugar mais aborrecido do mundo - informou-me Diana, enquanto arrumava a minha roupa no roupeiro. - Já não têm conta os westerns feitos aqui. Parece que a paisagem é espectacular e os salários locais baixos, combinação irresistível para Hollywood.

Era verdade. Nesse mesmo fim-de-semana descobrimos que não havia aqui restaurantes mas havia muitas farmácias; não chegavam até cá jornais estrangeiros, excepto as imprescindíveis revistas Time e Newsweek e, mesmo assim, com uma semana de atraso, quando as notícias já estavam ultrapassadas; cabarés, nem sequer tentativas divertidas de inventar trópicos impossíveis na montanha mexicana, apenas tabernas malcheirosas a cerveja e a pulque, de onde estavam legalmente excluídos os soldados, os padres, os menores e as mulheres; e apenas um único cinema, especializado em comédias de Clavillazo e colecções de pulgas. A televisão ainda não estendia as suas asas parabólicas para o universo e ninguém nesta equipa dedicaria um só minuto a uma telenovela mexicana a branco e preto. Os gringos podiam extasiar-se com nostalgia vendo anúncios de produtos ianques. Nada mais.

A cabeleireira de Diana ofereceu-se para me cortar o cabelo, evitando assim o corte de magala que parecia ser a moda entre os homens de Santiago, determinado pelo método ultramoderno de enfiar uma taça na cabeça dos cavalheiros, cortando sem compaixão tudo o que saísse debaixo daquele capacete. Todas as nucas masculinas arvoravam esse corte radical, parecido com os barrancos da região. Betty, a cabeleireira, decidiu, como digo, evitar-me tal horror.

- Ainda bem que vieste - disse, enquanto me molhava o cabelo. - Salvaste Diana do stunt man.

Olhei-a interrogativamente. Agarrou na tesoura e pediu para não me mexer.

- Não sei se o viste. É um fulano muito profissional, muito bom no seu trabalho, que é muito utilizado em filmes do Oeste pela sua forma de montar e, sobretudo, de cair de um cavalo. Anda atrás da Diana desde as filmagens anteriores, no Oregon. Mas lá a concorrência era muito forte.

Betty ria tanto que quase me ia deixando como Van Gogh.

- Cuidado!

- Disse que no México é que a ia conquistar. E aí apareces tu!

Suspirou.

- Estas filmagens são muito aborrecidas. O que há-de fazer uma rapariga sem um namorado? Resignamo-nos ao que há.

- Obrigado!

- Não, de ti ouvi dizer que eras meigo, apaixonado e culto. Aliás, nota-se.

- Já te agradeci uma vez, Betty.

- Se fores à zona onde estão a filmar, vê-lo-ás. É um tipo baixinho mas flexível, curtido como uma sela de montar, louro, com uns olhos desconfiados.

- Porque não ficas tu com ele?

Betty riu com vontade, mas a vontade era mais forte do que o riso.

O comentário da cabeleireira acerca das anteriores filmagens no Oregon fez-me começar a imaginar coisas. Quis convencer-me, perversamente, que a única forma de amar uma mulher é saber como foi amada, o que dizem dela e como são todos os homens que a amaram antes de mim. Não comentei isto com Diana, era demasiado cedo. Reservei isso para uma ocasião que adivinhei inevitável. Mas podia afirmar-lhe que se fizesse amor hoje, o faria apenas comigo, mas se morresse hoje, morreria para todos e todos pensariam no amor que tinham feito com ela com tanto direito como eu.

Disse-lho numa noite fria, quando os lençóis recém-lavados ainda estavam húmidos e não nos deixavam dormir, desconfortáveis, conscientes da falta de comodidades que ali tínhamos mas dispostos a vencer, a começar pelos lençóis frios; íamos aquecê-los. O nosso amor seria invencível.

- Só estou a sós contigo enquanto estiveres viva, Diana. Se morreres, não posso estar a sós contigo. Seríamos acompanhados por todos os fantasmas dos teus amores. Com direito, com razão, não achas?

- Ai, meu amor, a única coisa que me assusta é pensar que tu e eu vamos morrer um antes do outro, um de nós vai ficar só, é isso que me enche de mágoa...

- Jura-me que se isso acontecer vamos pensar com muita força um no outro, Diana, com muita força, tu em mim e eu em ti...

- Com muita força, juro-te...

- Com muita, muita força...

Afirmou depois que o único leito da morte é quando dormimos sós. Eu dissera que a morte é o grande adultério, porque já não podemos evitar que os outros possuam o ser amado. Pelo contrário, na vida, eu queria evitar, por experiência, o mínimo brilho de posse no meu olhar. Apesar das nossas palavras apaixonadas, não queria perder de vista que a nossa relação era passageira, receava apaixonar-me, entregar realmente o meu coração a Diana. Apesar dessa convicção, via aproximar-se essa possibilidade. Dissipei o meu receio na primeira noite da nossa vida comum neste elevado deserto mexicano, resumindo a minha fantasia perversa numa ideia quase científica.

- Todos formamos triângulos - disse-lhe. - Um par não é mais do que um triângulo incompleto, um ângulo solitário, uma figura truncada.

- Norman Mailer escreveu que o casal moderno é formado por um homem, uma mulher e um psiquiatra.

- E na Rússia de Estaline definia-se a literatura realista socialista como o eterno triângulo entre dois estacanovistas e um tractor. Não brinques, Diana. Todos formamos triângulos, falta-nos descobrir qual. Qual será?

- Bem, tu, eu e a tua mulher já somos um. O meu marido, tu e eu somos outro.

- São demasiado óbvios. Deve haver algo mais excitante, mais secreto...

Olhou-me como se se controlasse, como se a minha ideia a encantasse mas, ao mesmo tempo, a afastasse por agora...

Senti (ou quis imaginar) que não tinha posto a ideia totalmente de parte, que havia qualquer coisa de estimulante na hipótese de termos, cada um de nós, o seu amante particular mas que havia algo de superiormente excitante em partilhar a própria cama com uma terceira pessoa, homem ou mulher, não interessava. Ou então alternávamos, mulher para ela e para mim uma noite; homem para ambos, outra...

Estávamos na nossa etapa romântica. Regressámos rapidamente à plenitude do par que éramos, sem necessidade de complementos. E regressámos mais longe, mas para trás, para um sentimento encantador que ela exprimiu assim:

- Angustia-me a ideia dos pares que se perdem.

- Não compreendo.

- Sim, os pares que podiam ter sido e não foram, lês couples qui se ratent, sabes, que se cruzam como barcos na escuridão. Isso angustia-me muito. Apercebes-te como isso acontece, com que frequência?

- Constantemente - respondi, acariciando a cabeça reclinada no meu peito. - É o mais normal.

- Como somos felizes, meu amor, como tivemos sorte!

- Desolé, mas somos demasiado normais.

- Desolé.

 

Descobrimos que o drugstore da praça principal, tal como a farmácia nas novelas de província de Flaubert, era o centro da vida social de Santiago e divertíamo-nos a observar as coisas que vendiam aqui e que se não encontravam em mais lado nenhum, ou as coisas habituais na Europa ou nos Estados Unidos e que não se encontravam aqui. A perfumaria era atroz, apenas produtos locais com aromas de cabaré barato. Dava vontade de ir à igreja aspirar o cheiro do incenso para nos purificarmos. Pasta de dentes McLean, a preferida de Diana? Nem sonhar. Bermuda Royal Lyme, a loção que eu costumava usar? Estávamos condenados a Forhans e Myrurgia. Rimo-nos, tacitamente unidos na cidadania do consumo internacional. México, país de elevadas tarifas e de empresas protegidas da concorrência externa!

Os jovens universitários de Santiago marcavam encontro na porta do drugstore e um deles aproximou-se de mim, numa manhã em que fui sozinho comprar lâminas para a barba e supositórios de glicerina para a minha obstipação crónica, e disse-me que lera alguns dos meus livros, me reconhecera e queria contar-me que em Santiago o governador e as autoridades em geral não tinham sido eleitos democraticamente, mas sim impostos da capital pelo PRI, não eram pessoas que compreendessem os problemas locais e muito menos os dos estudantes.

- Julgam que somos todos peões e que continuamos na época de D. Porfirio - afirmou. - Não se aperceberam da mudança.

- Mesmo apesar de 68? - perguntei.

- Isso é o mais grave. Continuam como se nada se tivesse passado. Os nossos pais são camponeses, operários, comerciantes e, graças ao seu trabalho, nós podemos ir para a universidade e aprender outras coisas. Dizemos-lhes que temos mais direitos do que eles julgam. Um camponês pode organizar uma cooperativa e mandar o dono do moinho moer a mãe, se quiser...

- Que, seja como for, ainda mói que chegue - respondi, sem provocar sequer um sorriso do estudante.

Continuou, e deixei de esperar qualquer sentido de humor da sua parte. - ou os donos dos camiões, que são os piores exploradores. Eles é que decidem se levam a colheita ao mercado e quando e por quanto, e não se pode protestar. As colheitas apodrecem. Um operário tem o direito de se associar, não deve estar subjugado aos broncos dos dirigentes da CTM.

- Vocês dizem essas coisas às pessoas que aqui trabalham?

Respondeu-me que sim. - Alguém tem de os informar. Alguém tem de desenvolver a sua consciência. Oxalá que o senhor, agora que aqui está...

- Estou a escrever um livro. Além disso, não posso comprometer os meus amigos norte-americanos. Estão aqui a trabalhar e não se podem meter em política. Custar-lhes-ia caro. Sou hóspede deles, tenho de os respeitar.

- Muito bem. Fica para outra vez.

Estendi-lhe a mão e pedi para não ficar aborrecido. Podíamo-nos encontrar para tomar café, um destes dias. Sorriu. Tinha uma dentadura horrível. No entanto, era alto, elegante, com um olhar lânguido e um bigode zapatista mas caído, ralo como a barba, incompleta, dispersa, quase púbica.

- Chamo-me Carlos Ortiz.

- Tem piada, temos o mesmo nome.

Isso alegrou-o. Agradeceu-me ter-lho dito e até sorriu.

À noite, Diana e eu continuávamos a construir a nossa paixão. Não me atrevia a perguntar-lhe nada sobre os seus amores passados, nem ela me fazia qualquer pergunta sobre os meus. Avançara duas ideias: a companhia da morte e a tendência natural para o triângulo. Na realidade, o que ambos queríamos nesta etapa da nossa relação era sabermo-nos únicos, sem precedentes e irrepetíveis. Nas primeiras noites sucediam-se palavras e actos, actos e palavras, às vezes umas antes dos outros, outras vezes ao contrário, raras vezes ao mesmo tempo, porque as palavras do coito são irrepetíveis, frequentemente grotescas, infantis, muitas vezes porcas, sem interesse ou excitação a não ser para os amantes.

Em contrapartida, as palavras antes ou depois do acto tendiam sempre, nestes primeiros dias em Santiago, a proclamar a alegria e a singularidade do que se passava connosco. Com Diana Soren nos braços até senti que não escrevera nada antes. O amor era começar de novo. Ela alimentava e fortalecia esta ideia, pois chegou a dizer que nos estávamos a conhecer na criação, antes do passado, antes de lowa e da sainha e da lua, chegou a dizer isso. Transformava tudo, afinal (e eu ficava-lhe grato), numa fantástica visão da alegria como simultaneidade. Às vezes, no orgasmo, gritava: porque não acontece tudo ao mesmo tempo? Não era uma pergunta, era um desejo. Um ardente desejo a que me aliei, soldado à sua carne e às suas palavras. Sim, por favor, que aconteça tudo ao mesmo tempo...

Éramos únicos. Tudo começava connosco. E então intrometia-se a literatura. Recordava Proust: "... conhecer de novo Gilberte como no tempo da criação, como se ainda não existisse o passado". E daquilo era apenas um passo para o bolero que `às vezes nos entrava pela janela com a voz de Lucho Gatica, vindo dos quartos dos criados: "No me preguntes mas, Déjame imaginar que no existe el pasado que nacimos el mismo instante en que nos conocimos..."

É verdade que ainda não tinha lido a frase de um romance

Do marido, Ivan Gravet, a qual diz, mais ou menos, que um casal existe enquanto é capaz de se inventar ou porque é preferível a merda à solidão. O problema do casal é deixar de se inventar.

Preferia pensar que estava preso dentro do corpo daquela mulher, como um feto que vai seguindo a sua gestação e que receia, ao mesmo tempo, ser atirado para o mundo, perder a mãe que o nutre, Diana, Ártemis, Cibele, Astarte, Deusa original.

Adoro a tua fronte carregada - dizia Diana, quando eu me punha a pensar nestas coisas.

Tu, pelo contrário, tens sempre a fronte desanuviada...

Ah! - exclamou ela -, é que, se um dia me vires sofrer, terás de pagar por isso.

 

Logo que cheguei à casa alugada para Diana reclamei, como os exploradores espanhóis do século XVI, um espaço para mim e lá instalei a minha máquina portátil, o meu papel e os meus livros. Diana olhou-me com uma surpresa risonha.

- Não vens ao set comigo?

- Claro que não. Costumo escrever das oito à uma.

- Quero exibir-te no set, quero que me vejam contigo.

- Lamento muito. Ver-nos-emos todas as tardes, quando terminarem as filmagens.

- Os meus homens acompanham-me sempre ao set - e acentuou o sorriso.

- Eu não posso, Diana. A nossa relação desmoronar-se-ia em vinte e quatro horas. Amo-te à noite. Deixa-me escrever de dia. Se não, não nos vamos entender, acredita.

A verdade é que eu estava no meio de uma crise de criação que eu próprio ainda não avaliava. Os meus primeiros romances tiveram êxito porque, no México, um novo público leitor se reconheceu (ou, talvez melhor, se desconheceu) neles, disse somos assim ou não somos assim, mas em todo o caso deu uma resposta interessada, e às vezes mesmo apaixonada, a três ou quatro livros meus que eram vistos como ponte entre um país convulsionado, hipócrita, rural, fechado e uma nova sociedade urbana, aberta e talvez demasiado abúlica, demasiado acomodada e inconsciente. Desvanecia-se um espectro da realidade mexicana apenas para que outro ocupasse o seu lugar. Qual deles era melhor? O que sacrificávamos num caso e noutro? Agradecer-te-ei sempre - disse-me uma companheira de trabalho na Chancelaria, quando foi publicado o meu primeiro romance e eu precisava de um salário burocrático - teres mencionado a rua em que vivo. Nunca até agora a tinha visto em letra de forma num romance. Obrigada!

A verdade é que o tema social desses livros não tinha verdadeiro valor para mim se não fosse acompanhado por uma renovação formal do género literário. A forma como o dizia era para mim tão importante ou mais do que aquilo que realmente dizia. Mas todos os escritores têm uma relação primária com os temas que surgem do seu meio e uma relação muito mais elaborada com as formas que inventam, herdam, copiam ou parodiam - todo o romance contém estas vertentes, alimenta-se destas fontes: romance e impureza são irmãos; romance e originalidade são consogros. Não quis repetir o êxito dos primeiros romances. Talvez tenha errado ao procurar a minha nova fraternidade apenas na forma, divorciando-me da matéria. O facto é que um dia atingi o esgotamento palpável entre o fundo vital e a expressão literária.

Vivi vários anos em Paris, Londres e Veneza, procurando a nova aliança da minha própria vocação. Encontrei-a talvez, e passageiramente, num canto fúnebre à modernidade que se nos esgotava a todos por igual, europeus e americanos, íamos mudar de pele, quer nos agradasse quer não. As agitações dos anos 60 em todo o mundo não me ajudaram; apenas tornaram evidente que a juventude estava algures mas não num escritor mexicano que em 1968, o ano crucial, completou quarenta anos. Mas nesse mesmo ano houve a carnificina da Plaza de las Três Culturas, no México, e a noite de Tlatelolco. O assassínio impune de centenas de jovens estudantes pelas forças armadas e agentes governamentais irmanou todos os mexicanos, para além das nossas diferenças biológicas ou geracionais. Irmanou-nos, quero dizer, não apenas em partidos mas na dor; mas também nos dividiu em posições contra e a favor do comportamento oficial. José Revueltas foi preso pela sua participação no movimento renovador; Martin Luis Guzmán elogiou o presidente Gustavo Díaz Ordaz, responsável pela carnificina, num banquete do Dia da Liberdade de Imprensa. Octavio Paz renunciou ao seu lugar de embaixador na índia; Salvador Novo entoou uma área de agradecimento a Díaz Ordaz e às instituições. Eu, de Paris, organizei pedidos de libertação para Revueltas e condenações da violência com que o Governo, à falta de soluções políticas, dava sangrenta resposta ao desafio dos estudantes. Estes eram, nem mais nem menos, do que os filhos da revolução mexicana que explorei nos meus primeiros livros. Eram os jovens educados pela revolução que os ensinou a acreditar em democracia, justiça e liberdade. Eles agora apenas pediam isso mesmo e o Governo, que se afirmava emanado da revolução, respondia-Lhes com a morte. Até àquela altura, o argumento oficial tinha sido: Vamos pacificar e estabilizar um país desfeito por vinte anos de luta armada e um século de anarquia e ditadura. Vamos proporcionar educação, comunicações, saúde, prosperidade económica. Vocês, por vosso lado, vão permitir que, para conseguir tudo isto, adiemos a democracia. Progresso hoje, democracia amanhã. É uma promessa. É este o pacto.

Os jovens de 68 pediram democracia hoje e essa exigência custou-lhes a vida a eles, mas devolveu-a ao México.

Esperava que os novos escritores traduzissem tudo isto em literatura, mas não me excluía a mim mesmo a um olhar duro, acusando-me de cumplicidades e cegueiras que me impediram de participar melhor, mais directamente, nesse separar das águas da vida moderna do México que foi 68. O meu pesadelo repetido era um hospital onde as autoridades negaram a entrada aos pais e familiares dos estudantes, onde ninguém atou uma etiqueta de identificação ao dedo do pé nu de um único cadáver...

- Aqui não vai haver amanhã quinhentos cortejos fúnebres - disse um general mexicano. - Se o permitirmos, o Governo cai...

Não houve cortejos fúnebres. Houve a vala comum. A minha mulher, Luisa Guzmán, escrevia-me do México cartas serenas mas secretamente angustiadas: "... estava a ensaiar no Teatro Comonfort, nas Belas-Artes, em frente de Tlatelolco, quando comecei a ouvir um intenso tiroteio e vi os helicópteros do Governo metralhando indiscriminadamente estudantes e civis. Aquilo durou mais de uma hora e, quando saímos do teatro, os estudantes atiraram-se a mim e aos outros actores, gritando: estão a matar os vossos filhos! Nunca ouvi tantas exclamações de horror e desespero. Foi a pior noite de muitas vidas. No dia seguinte, os jornais não mencionavam os helicópteros e declaravam trinta mortos. Ninguém sabe como começou o tiroteio. Os jovens garantem que, misturados com os manifestantes, havia indivíduos que, provavelmente, dispararam os primeiros tiros. Depois, alguém os viu trocando ordens e armas com os soldados. Cada pessoa dá uma versão diferente dos acontecimentos. Todos têm cada dia mais medo não apenas da violência mas do que há por trás dela, e para não servirem interesses obscuros, não servem nenhuns..."

Respondi-lhe que queria regressar ao México, participar mais. Acabava de visitar Praga. O mundo estava a mudar de pele, era preciso fazer qualquer coisa.

"O México não é Praga - respondeu-me Luisa Guzmán - e tu bem o sabes. A classe média está assustada e encosta-se às autoridades e à ordem. Falei com motoristas e pessoas humildes. A sua ignorância e indiferença continuam a ser as mesmas. Engolem todas as mentiras da televisão e da imprensa e continuam a acreditar no espantalho do comunismo ameaçador. Bem sei que apesar de tudo isto, ou precisamente por isso, é preciso lutar e que, se cairmos pelo caminho, paciência. Mas vir meter-se na boca do lobo e verificar que a armadilha estava armada para apanhar idealistas parece-me absurdo, triste e até ridículo. Os dirigentes estudantis desaparecem misteriosamente, sem deixar rasto. Outros quase foram mortos com tortura. A tua única possibilidade de participar seria na clandestinidade. A traição e a corrupção estão demasiado enraizadas entre nós. Talvez meia dúzia de jovens aguentem o embate dos tiros de meio milhão de pesos, mas a maioria acabará por ceder. Desculpa o meu pessimismo; não quero fugir às responsabilidades, mas apenas acalmar o entusiasmo que te provocou a visita à Checoslováquia. Aqui, não se passa um dia em que, por palavras ou por escrito, não digam que és um traidor à pátria. Não deves vir. Tanto és herói como traidor e eu recuso-me a falar com as pessoas, estou cansada de ouvir juízos sem fundamento..."

Regressei em Fevereiro de 1969. Percorri uma manhã, com raiva e lágrimas, de mão dada com Luisa Guzmán, a praça de Tlatelolco. A minha imaginação literária levou-me a começar a preparar uma oratória teatral sobre a conquista do México, outra das feridas selvagens que infligiram ao corpo daquilo a que chamamos, sem grande definição, a pátria, o país, a nação... Uma terra sempre apunhalada, inventada como sobrevivência. Elena Poniatowska e Luis González de Alba escreveram os grandes livros sobre a tragédia de Taltelolco e eu tive de contentar-me em admirá-los e sentir que também falavam em meu nome. Agora, o encontro fortuito com o estudante Carlos Ortiz, na praça de Santiago, reavivava em mim todos aqueles sentimentos. Nem todos tinham cedido, como previra Luisa Guzmán. Quem cedeu fui eu, o traidor fui eu. Não fui capaz de dar o valor que merecia à lealdade e à paciência da minha mulher. Regressei ao México e quis compensar a minha mescla de horror político e esterilidade literária com a novidade dos amores, renunciando - talvez para sempre - a mergulhar no amor de Luisa, torná-lo exclusivo, conhecer mais profundamente a mulher que naqueles momentos me teria permitido também ir mais fundo na política e na literatura. Quebrei o fio de Ariadne. A minha frivolidade é imperdoável. Havia de pagar o meu afastamento de Luisa muitas vezes, repetidas vezes, ao longo do que me restava de vida. Não soube dar o golpe, como cá dizemos. Talvez devesse ter reconstruído o nosso amor. Seria ainda reconstruível, ou era já um grande vazio, uma mentira, uma repetição? Percorri de mão dada com ela a praça de Tlatelolco. A ternura e o horror misturavam-se no meu peito; seria a minha recusa desta cerimónia da morte apenas um pretexto para afirmar uma capacidade de amor abstracta, geral, sem conteúdo concreto? Seria eu incapaz de amar verdadeiramente? Apenas me podia aturdir, multiplicando aventuras para me convencer, erradamente, que podia amar? Porque não distingui nessa altura o amor que ela me oferecia, ali a meu lado, um amor conhecido, talvez até rotineiro, mas certo?

Tlatelolco foi para mim um sinal terrível - a minha própria ferida de escritor e amante - da separação entre o fundo vital das coisas e a sua expressão literária na minha obra. Agora, em Santiago, ia sentar-me e provar a mim mesmo que era capaz de sair do meu próprio buraco. Embora angustiado, também me sentia feliz. O amor exaltado com Diana podia ser o meu novo ponto de partida. Se se esgotou o filão original da minha literatura, qual seria o novo? Dir-mo-ia o amor? A resposta ia depender da intensidade desse afecto. Por isso deixei a minha casa, atraiçoei a minha mulher, expus-me a outra queda brutal na desilusão e agora ela pedia-me para passar o dia vendo como a maquilhavam e penteavam no set? Não há nada mais aborrecido do que as filmagens. Não ia perder tempo. Em meu nome e em nome dela.

- Tu e eu temos uma coisa em comum - disse a Diana, numa noite fria e aborrecida -, perdemos o momento do início, da estreia. Bem vês, tanto se pode perder no cinema, como na literatura ou no amor...

- Estás a falar de uma mulher que já foi e deixou de ser aos vinte anos - respondeu Diana. - was a has-been at twenty.

Disse-lhe que essa expressão da língua inglesa sempre me tinha chamado a atenção, esse "já foi" ou "já não é", que implica um destino fechado, acabado. Eu era demasiado optimista para pensar assim; creio que somos seres incompletos, inacabados, que ainda não dissemos a nossa última palavra. Leio e releio um extraordinário poema do meu poeta favorito, Quevedo (Diana nunca ouviu falar dele; em contrapartida, Azucena, a sua secretária, conhece-o e pede-me que repita o poema e depois o traduza enquanto permanecemos os três sentados à pirosa mesa de jantar, de ferro forjado branco, da casa alugada de Santiago).

"Ontem partiu. Amanhã ainda não chegou, hoje está passando sem parar um momento; sou um Fui e um Será e um É cansado... "

Talvez o que falte aos Gringos, disse com bom humor, seja um sentido sério da morte em vez de um sentido trágico da fama. Não há nenhum país que dê tanto valor à fama como os EUA. É o culminar da grande barafunda moderna, essa salva de trombetas que há meio milénio afirma que não basta o nós, nem sequer o eu, é necessário o nome, o renome, a fama. Já então Andy Warhol o afirmara: "todos seremos famosos durante quinze minutos". Perguntei a Diana se acreditava que a sua fama terminara aos vinte anos. Apoiou a cabeça loura e bem modelada no meu ombro e a mão sobre o meu coração.

- Para mim, como actriz, sim...

- Enganas-te - consolei-a. - Queres que te conte o que se passa comigo como escritor? Garanto-te que não somos muito diferentes.

- Podemos começar outra vez, se nos amarmos muito?

- Creio que sim, Diana - respondi, profundamente emocionado.

Esses momentos não duram muito. Pode perdurar a vontade da paixão, e eu exercia-a com Diana contra Diana, para Diana, com todas as minhas forças. Estava convencido que ela me correspondia à sua maneira. Para ambos, o amor era sempre a oportunidade de começar de novo, embora para ela viver fosse viver o que ainda não se vive, enquanto para mim era saber viver outra vez o que já se viveu. Melhor ou pior, não quero abandonar a uma orfandade errante o meu próprio passado. Para Diana, o triunfo inicial no cinema e, em seguida, a mediocridade dos seus filmes mais recentes fechavam-lhe a porta da sua profissão de actriz. Mas era esta profissão que ela se levantava todas as manhãs para exercer. Da cama, via-a reagir ao alarme do despertador, beber o café que Azucena lhe trazia num tabuleiro muito bem arranjado (Azucena é uma trabalhadora espanhola, tem gosto pelo seu trabalho, sente orgulho naquilo que faz e fá-lo bem); enfiar uma T-shirt e uns jeans, como o seu personagem mais célebre, a Donzela de Orleães, que descobriu a moda mais cómoda para uma mulher guerreira: vestir-se como um homem; atar um lenço à cabeça e sair atirando-me um beijo seco, enquanto eu roubo mais uma hora de sono, acordo recordando com um intenso prazer a noite com Diana, tomo o duche, faço a barba pensando naquilo que vou escrever (o chuveiro e a navalha são os meus melhores inspiradores da criação: água e aço, devo ser muito árabe, muito castelhano). Via a minha amante sacrificar-se e disciplinar-se por uma profissão em que ela própria não acreditava nem se via, não distinguia o seu futuro, e instalava-me o resto do dia neste enigma, simultaneamente grande e pequeno: O que quer na realidade Diana Soren, se aquilo que faz não é o que quer fazer?

O tédio de Santiago transformou-se no tema mais aborrecido das nossas conversas; parecia um acordo inquebrantável: todos, ela e eu, a secretária e os restantes membros do grupo, concordavam que Santiago era o lugar mais aborrecido do mundo.

Em vez dos telegramas festivos que costumamos enviar aos amigos comuns no dia de Ano Novo, ela enviou dois ou três telegramas desolados, todos dizendo a mesma coisa, uma única palavra: HELP!

Os círculos dividiram-se. Na casa maior e mais elegante, nos arredores de Santiago, instalaram-se o actor principal, que era um famoso protagonista de séries de televisão, com a respectiva companheira e o realizador do filme, um homem taciturno embora prometedor, que também se tinha formado na televisão. No melancólico hotel do centro da cidade, ficaram o operador de câmara, um inglês que prestava explícito culto a Onán, e um actor que teve muita fama no teatro operário dos anos 30. Mas o centro solar das filmagens eram o protagonista masculino, a namorada e o realizador.

- São muito simpáticos e dou-me bem com eles - disse Diana. - Mas com a condição de vivermos separados e nos vermos pouco. Eles preferem passar as noites com cerveja e póquer.

Nós nunca faríamos isso. Perguntei intimamente em que ocuparíamos as noites, para além de nos amarmos muito. Diana disse que tinha convidado o característico do filme, o actor norte-americano Lew Cooper, a viver connosco.

- Não te preocupes. Tem setenta anos e é muito inteligente. Vais gostar dele.

Eu sabia muito bem quem era. Primeiro, porque foi o grande actor das obras de Clifford Odets nos anos 30 e de Arthur Miller nos anos 40. Segundo, porque foi uma das vítimas da caça às bruxas macarthista dessa mesma década. Repugnavam-me todas as pessoas que tinham denunciado os colegas, condenando-os à fome e, por vezes, ao suicídio. Em contrapartida, eram para mim heróis aqueles que, como disse Lillian Hellman, se negaram a adaptar as consciências à moda política do momento. Cooper, estranhamente, ficava entre as duas categorias. Havia quem dissesse que era um homem completamente apolítico e que as suas declarações perante a Comissão de Actividades Antiamericanas eram inócuas. Referira os que já tinham sido referidos ou que, francamente, se tinham eles próprios declarado comunistas. Pode dizer-se que nunca acrescentou um nome inédito à lista do inquisidor. Mas, embora em sentido restrito não tivesse denunciado ninguém, o facto moral é que na realidade referiu nomes ou, pelo menos, os confirmou. Como julgar este acto? Cooper continuou a trabalhar. Outros, que se recusaram a falar, não voltaram a pisar um set. Eu, que não fazia parte do mundo político norte-americano mas de um mundo moral que o ultrapassava, lutava entre as minhas convicções de esquerda e a minha ética pessoal contrária a todo o maniqueísmo fácil e sobretudo, a qualquer suspeita de fariseísmo. Deveria ser feita uma distinção pontual, dificílima, entre os casos de delacção activa, sedenta de sangue, vingativa, invejosa e oportunista e as fraquezas e quedas a que todos talvez estejamos expostos? A ambiguidade moral da atitude de Cooper tornava-o mais interessante do que culpado. Um, entre tantos, devia ser o meu próprio semelhante. Quem me garantia que, em determinadas circunstâncias, eu próprio não teria agido como ele? Todo o meu ser intelectual e moral se rebelava contra isso; mas o meu ser sentimental, humano, cordial, chamem-lhe o que quiserem, levava-me a perdoar a Cooper, como talvez um dia alguém tivesse de me perdoar a mim. Há pessoas que se irmanam assim com a nossa fraqueza porque, com um aperto no coração, nós próprios nos reconhecemos neles. Cooper não merecia a minha censura mas sim a minha compaixão. De qualquer forma, sentia curiosidade em conhecer as pessoas que formavam a equipa, mas Diana enervou-se com as minhas perguntas. - Hollywood adora as biografias fabricadas. Poupam tempo e, sobretudo, evitam que tenhamos de pensar. Permitem que assumamos um ar de objectividade, quando, na realidade, o que engolimos é caldo de mexericos. Marilyn Monroe: Jovem triste e solitária. Pai irresponsável. Mãe louca. Saltou de orfanato em orfanato. Nunca devia ter deixado de ser Norma Jean Baker. Não aguentou o fardo de ser Marilyn Monroe. Comprimidos, álcool, morte. Rock Hudson: Um lindíssimo motorista texano de camiões. Habituado a circular de noite pelas estradas, livre, encontrando rapazes e amando-os. Descobrem-no. Transformam-no numa estrela. É obrigado a esconder a sua homossexualidade. Metem-no num estúdio cheio de câmaras e reflectores. Todos sabem que é uma rainha. O mundo tem de acreditar que é o mais viril de todos os galãs. Quem desiludirá toda a gente? A morte, a morte...

Riu e serviu-se de um copo de uísque, sem pedir que eu o fizesse por ela.

- Não acredites na minha biografia. Não acredites quando te disserem: Diana Soren. Provinciana. A rapariga da porta ao lado. Ganha um concurso para interpretar a Santa Joana de Shaw no cinema. Ganha-o entre dezoito mil concorrentes. Do anonimato à glória num instante. É dirigida por um verdadeiro sádico. Humilha-a, pretende arrancar-lhe uma grande actuação com a sua crueldade, mas de facto apenas a convence de que nunca será uma grande actriz. E assim é. Diana Soren não é uma grande actriz. Diana Soren aceita qualquer merda que os estúdios lhe ofereçam para se disfarçar, para que o mundo acredite que Diana Soren é isso: apenas uma actriz medíocre. Então Diana pode dar-se ao luxo de ser o que quer ser, sem que ninguém lhe ponha limites...

Brindei com ela. - E o que queres ser?

- As filmagens vão demorar dois meses - os olhos cinzentos (ou eram azuis?) desapareceram por trás de um véu de vidro ambarino. - Tu próprio mo dirás quando isto acabar.

 

Fomos jantar algumas noites a casa do actor principal, que vivia com a namorada e o realizador. Repugnava a Diana aquela espécie de alojamento colectivo que pretendia reproduzir a vida de Hollywood longe de Hollywood - uma versão sublimada, mais desdenhosa e evidente, livre e worldweary, daquilo que os Norte-Americanos procuram quando saem dos EUA, o lar longe do lar, os Holiday Inn todos idênticos uns aos outros, as mesmas toalhas e os mesmos sabonetes nos locais habituais; a mesma informação, revistas, filtros de segurança mental... A diferença entre o turista vulgar e o artista de Hollywood é que o primeiro, mesmo assustado, vive afinal com a palavra wonderful nos lábios, o mundo parece-lhe fascinante, incrível, exótico... desde que possa regressar ao lar fora do lar, o Holiday Inn, a mesma ementa todas as noites. O artista de cinema, pelo contrário, já viu tudo, está cansado, nada o impressiona, as filmagens são um mal necessário, que passem depressa, matemos o tédio com sexo, álcool, mexericos e imortalidade. Esta mistura não me surpreendia. O sexo dizia-nos que estávamos vivos embora num local morto. O álcool supria a natureza excepcional do sexo, à força e fisicamente, com um estado vagamente ensonado e flutuante que, como afirmava o actor principal, tornava tudo actual, já repararam? bastam uns martinis para que tudo o que nos aconteceu se torne presente...

- O que queres dizer, doçura? Não compreendo - dizia a namorada.

- Gostavas de ser sempre feliz? - perguntava o actor, segurando-lhe no queixo e olhando-a fixamente nos olhos.

- Ora, quem não gostava?

- Mas não és, não é verdade? - Olha lá, mas quem é...

- Mas quando bebes, és feliz...

- Sou, embora pague isso na manhã seguinte... - riu-se, como uma parvinha.

- Isso não interessa. Bebes e não és apenas feliz.

- Não?

- Juntas todos os teus momentos de felicidade, é como se os revivesses todos juntos, ao mesmo tempo, aqui, agora, compreendes?

- Sim, compreendo. Estás a ver porque gosto tanto de ti? Mais ninguém me faz compreender as coisas...

O actor ria guturalmente e apertava a arruivada cabeça da companheira de encontro ao peito peludo e descoberto pela camisa vermelha como uma capa de toureiro, mas ela queixava-se da corrente que o actor usava ao peito, ai, magoas-me, arrepelas-me as sobrancelhas...

O galã tinha uns olhos taxidérmicos e quando a fitava ela derretia-se, dizendo só vi esses olhos nas cabeças dos veados quando as utilizam como decoração nos clubes de campo...

O sexo, o álcool e os mexericos. Porque se o álcool nos tornava felizes, também nos soltava a língua, quem ia para a cama com quem, por quanto, para quê, que papel deram à Lilly, a quem o roubou, quem está de abalada, quem sobe como a espuma. A imortalidade.

- Achas que a Lilly vai durar?

- Não sei. Tudo é relativo. Durar mais do que o quê?

- Bem, com certeza menos do que as cabeças de Mount Rushmore.

- Ou mais do que quem, então?

- A Garbo durou muito e retirou-se a tempo. Anna Sten não durou nada, retiraram-na a tempo. Lupe Vélez durou muito mas não soube retirar-se a tempo. Valentino foi retirado pela morte aos trinta anos...

- Olha, o importante não é que lugar ocupas mas quanto lugar. É o espaço que conta, não o tempo. Pouco tempo, mas muito espaço, és importante. Pouco espaço, mas muito tempo, és um pobre diabo.

- Depende da publicidade. E do talento, claro.

Mas ao dizer "talento", os olhos de todos tornaram-se fugidios, entreolhavam-se como se não estivessem ali ou fossem todos de vidro, como o licenciado de Cervantes, e então era necessário pensar no sexo outra vez, para ser, saber que sou, saber que és, e reiniciar a ronda, álcool, mexericos, imortalidade, quem vai sobreviver, quem vai durar, vamos foder, vamos beber, vamos mexericar, vamos durar?

Disse em voz baixa a Diana que tudo isto me fazia lembrar uma das instituições mais repulsivas do mundo, o cocktail-party americano, em que ninguém se digna conceder mais de dois ou três minutos a ninguém, nem ao desconhecido mais fascinante nem ao mais íntimo e velho amigo. Sim, és de vidro, olham através de ti para ver quem é o seguinte favorecido a quem concederão uns minutos antes de lhe mostrar um fosto congelado e desdenhoso porque o seguinte já espera a sua vez, etc. Tudo isto, segurando um copo com uma mão uma salsicha vienense enrolada em bacon gorduroso com a outra. Isto quer dizer que apenas cumprimentavam com dois dedos e com a boca mais inchada do que as bochechas de Dizzy Gillespie tocando trompete.

- Como foi a tua chegada a Hollywood? - interrompi-me a mim mesmo.

Nessa noite, Diana não cheirava a cremes perfumados. Cheirava a sabonete e envergava um macacão e uma T-shirt branca. Só eu sabia os excitantes segredos que se ocultavam debaixo daquela simplicidade.

Contou muitas coisas que eu já sabia, outras que desconhecia.

Escolheram-na para fazer o papel de Santa Joana de Shaw entre dezoito mil aspirantes. Foi um estrelato por eliminação - tudo nos EUA é uma corrida de estafetas -, umas a seguir às outras, as concorrentes eram recusadas porque não atingiam o que era pretendido. Umas tinham o nariz comprido ou curto de mais, outras o pescoço também demasiado curto ou comprido, outras pareciam muito grandes no ecrã.

- O ecrã torna as pessoas maiores. O ideal é seres pequena e esguia ou, se fores grande, ser esbelta e graciosa nos movimentos, como Ava Gardner, ou misteriosa como Garbo, ou convincente como Ingrid Bergman. Outras tinham os mais belos olhos do mundo, mas Deus dera-lhes pescoços de cortisona. Outras ainda tinham corpos de Vénus, mas caras de lua cheia...

- Tu és Diana, a caçadora da Lua...

Riu-se. - Ouvi isso desde o primeiro dia no set: uma rapariga muito pequena para um papel muito grande, murmuravam. Um grande actor inglês teve pena de mim. Vais ser uma estrela antes de seres uma actriz, disse-me ele. Era isso que me assustava: as boas intenções e a compaixão, não a exigência tirânica do realizador. Afinal, este estava convencido de ter uma ideia precisa daquilo que Shaw pretendia. Apenas me pedia que estivesse à altura do autor, fosse Santa Joana, sem se importar se eu era actriz ou estrela, ou se era pequena ou grande para o papel. Lembras-te do que Shaw disse da sua Santa?

Disse-lhe que sim, era uma obra de que gostava muito. Shaw vê a Idade Média como uma piscina de excêntricos e Santa Joana como um dos seus peixes mais estranhos. Irritou toda a gente. Era uma mulher vestida de homem: irritava o machismo feudal. Dizia-se emissária de Deus: irritava os bispos, aos quais se sentia superior. Dava ordens ao rei de França e pretendeu humilhar o de Inglaterra. Mandava à merda os generais e demonstrava-lhes que era melhor estratego do que eles. Como não haviam de queimar uma mulher assim?

Diana curvou a cabeça. - O realizador disse-me: Se tivesse sabido lidar politicamente com todos, com os reis, generais, bispos e senhores feudais, teria vivido durante muito tempo. Era uma mulher incapaz de ceder. Não sabia fazer compromissos. Era uma masoquista. Queria sofrer para chegar ao céu.

Pendurou-se-me ao pescoço, emocionada, quase a soluçar, o que devo fazer, ceder ou ser íntegra, viver muito tempo ou morrer jovem na fogueira, o quê, diz-me, meu amor?

Quis responder-lhe com humor, porque a emoção também se apoderava de mim. Mas não me saiu nada; o espírito santo não me visitava nessa noite. Fiz um sinal de discrição com o dedo para que todos compreendessem. Olhavam-nos com estranheza. Conduzi-a até à varanda de madeira que dava para um vale. O ar frio do deserto nocturno despertou-nos. Quem me dera que tivesses sido tu a dirigir-me - disse Diana, oferecendo-me o seu sorriso de covinhas.

- Shaw diz que Joana foi como Sócrates e Cristo. Mataram-na sem que ninguém levantasse um dedo para a defender.

- Exigi ver o filme de Dreyer A Paixão de Joana d'Arc. Eles - o estúdio - não queriam. Que me ia influenciar. Que a comparação me ia esmagar. A Falconetti era uma Joana infinitamente triste, eu não tinha essa tristeza, não tinha de onde a arrancar...

- E decidiste ser Santa Joana na vida.

Olhou-me inquisitivamente. - Não. Decidi que Joana estava louca e merecia morrer na fogueira. Interroguei-a, surpreendido.

- Claro. Todo aquele que luta pela justiça está louco. O cristianismo é uma loucura, a liberdade, o socialismo, o fim do racismo e da pobreza são tudo loucuras. Se defendes isso, estás louco, és uma bruxa e acabarão por queimar-te...

Nunca me fitou com mais profunda melancolia, como se no seu olhar nocturno, tão transparente, passassem as imagens em claro-escuro de Dreyer, a Falconetti com o cabelo rapado e os olhos de uva sangrenta, as paredes brancas, as túnicas negras dos bispos, os lábios exangues de Antonin Artaud, prometendo outros paraísos...

- Há uma filósofa andaluza muito idosa, Maria Zambrano, que diz o seguinte: A revolução é uma anunciação, e o seu vigor pode medir-se pelos eclipses e quedas que suporta. Joana era uma revolucionária. Era uma cristã.

- O mau - disse ela com súbita amargura - é que o realizador não compreendia isso... O imbecil acreditava que Joana era Santa porque sofria e não porque gozava, sendo insuportável para todos.

- Tinha de ser queimada - disse em conclusão, sem pensar muito.

- Literalmente, literalmente. O realizador amarrou-me ao poste, mandou pegar fogo e nem sequer filmou a cena. Viu as chamas aproximarem-se de mim. Queria ver-me assustada para me transformar na sua Santa Joana. O filho da puta era capaz de me ver arder ali. Os técnicos salvaram-me quando as chamas tocaram o meu hábito. O realizador estava feliz; eu já tinha sofrido: era uma santa. Não me deixou ser rebelde. Fracassámos ambos.

Esta declaração devolveu a serenidade a Diana.

- Para fugir da tirania do director, casei com um escritor ilustre que podia dominar o próprio realizador e todos os estúdios de Hollywood.

- E satisfez-te a ti?

Olhou-me como se eu fosse outro, de cristal, um licenciado de vidro a mais.

- Nunca fales mal de Ivan.

- Admiro-o muito - disse, com um riso cordial.

- Nunca te rias quando falares dele.

Virou-me as costas e regressou à sala. Segui-a. O actor, muito bêbado, repetia sem cessar, completamente perdido na nação mexicana, "I'm very cross in Verá Cruz, I'm very cross in Vera Cruz", a namorada interrogava-se se Lilly, a estrela em ascensão, ia durar ou não, e o operador de câmara afirmou que tinha a solução portátil para todos os problemas da solidão sexual nas filmagens distantes, abrindo o fecho éclair e mostrando-nos o sexo como uma grande pêra murcha, ao mesmo tempo que gritava viva o amor próprio! e o actor declarava very cross in Veracruz e a namorada suplicava-lhe nunca sejas um já fui, um hás been, abandonar-te-ia, juro que te trocaria por outro, o êxito é o meu afrodisíaco...

- Como vês - suspirou Diana quando a camioneta nos levava até ao centro de Santiago -, Hollywood não passa de uma série de cápsulas biográficas, vitaminas ou veneno que podes comprar no drugstore.

 

Quem não precisava de cápsula biográfica era Azucena. A princípio, tudo me pareceu incerto a seu respeito. Para já, a idade. Era de baixa estatura, muito magra, com uma musculatura quase viril mas que, com certeza, se devia a uma, a várias vidas de intenso trabalho. A natureza do seu trabalho junto de Diana Soren era indeterminada. Azucena estava, invisivelmente, em tudo. Fazia as malas para viajar, desfazia-as ao chegar, arrumava as coisas todas no seu lugar. Assegurava-se de que a roupa estivesse lavada e passada. Encarregava-se de acordar Diana, de lhe trazer o pequeno-almoço e de organizar as refeições para todos nós. Fazia os telefonemas indispensáveis, comprava os bilhetes de avião, reservava os hotéis, respondia a telegramas, enviava fotos autografadas da estrela (quantas lhe pediriam por mês, em média? ), filtrava chamadas telefónicas, pedidos pertinentes e impertinentes. Secretária, dama de companhia, criada de luxo, cúmplice, guarda-costas? Como deveria ser designada?

Azucena. Não era bonita. Tinha uma dessas caras catalãs que parecem feitas à navalha ou nascidas de uma montanha: duras, pétreas, angulosas. Os lábios eram finos e grandes, o nariz comprido e de extremidade fremente, o olhar velado por pálpebras e bolsas pesadas, os olhos simples ranhuras que, no entanto, revelavam um brilho inteligente. Das sobrancelhas e do penteado dependia tudo. O arco, a espessura da sobrancelha. A forma, a cor do cabelo. Azucena escolhera um penteado e uma cor de cabelo neutra, acaju, que proclamava a sua mensagem: Hei-de envelhecer com esta cor e com este corte de cabelo. Envelhecerei sem que ninguém note, até que todos julguem que tive sempre a idade da minha morte.

Não podia tirar da cabeça a ideia de que nestas filmagens, apenas ela e eu sabíamos quem era Quevedo. "Ontem partiu, Amanhã ainda não chegou... " Sentia curiosidade em averiguar a forma real das suas sobrancelhas. A forma artificial era uma interrogação, não uma declaração neutra como a cabeleira, mas sim um desafio que questionava, sobrancelhas arqueadas de que estava excluído o assombro, deixando apenas e sempre a pergunta.

Como era espanhola, tínhamos facilidade em comunicar. Não apenas pela língua, mas por uma qualidade que adivinhei primeiro e depois comprovei nela. Vendo-a mover-se, ágil e nervosa, sempre vestida com saia, blusa e casaquinho, que era o uniforme profissional citadino dessa época, mas com umas pernas espanholas musculosas, fortes, de tornozelos grossos, adivinhei que havia muitos camponeses por trás da seca figura de Azucena, mas havia, sobretudo, uma tradição de trabalho, não apenas honrado como orgulhoso. Em tudo o que esta mulher fazia havia orgulho do que fazia... Contou-me um dia que os seus avós eram camponeses do Baixo Ebro, vizinhos de Poblet há séculos. Os pais foram para Barcelona e abriram uma pequena mercearia; mandaram-na estudar Taquigrafia, mas os tempos eram difíceis para Espanha, os jovens tinham de trabalhar para manter os pais e os irmãos; foi criada de mesa e contrataram-na quando começaram a fazer filmes americanos em Espanha, conheceu o marido da senhora e aqui estava...

Estava, digo, com essa dignidade no trabalho que associamos, embora nos custe, ao rígido sistema de classes europeu. Talvez também se deva à velha dignidade medieval outorgada à função, ao ofício. Quando se sabe que séculos antes e séculos depois de nós fomos e seremos carreteiros, ferreiros, pedreiros, ourives, estalajadeiros, conferimos uma dignidade espontânea ao nosso lugar, ao nosso trabalho. Esta certeza - esta fatalidade, este orgulho? - contrastavam com o culto moderno da mobilidade social, a upward mobility que nos torna eternos insatisfeitos com o lugar que ocupamos, eternos invejosos do que já chegou a um lugar superior ao nosso, usurpando, com certeza, o local a que temos direito... Azucena não falava disso, mas era indubitável que tinha passado por guerra e ditadura, tinha visto prisão e morte, sabia do vil garrote e a Guardia Civil infundia-lhe pavor. Mas o trabalho continuava: semear, arar, vender alfaces ou servir às mesas. Se ela não desse dignidade ao seu trabalho, ninguém daria. A perspectiva desse trabalho era a continuidade, a permanência. Estava onde estava, com gosto, sem desprazer, e quando às vezes, à tarde, visitava o local das filmagens para me reunir com Diana, via o contraste com a cabeleireira e o stunt man. Tanto eles como os restantes actores, técnicos, produtores e realizador, todos imensamente angustiados, ocultando a angústia por trás de uma máscara de jocosidade. A brincadeira, o joke, a graça permanente são uma característica atroz dos Norte-Americanos, o wisecrack, a piada instantânea, a resposta irónica ou engraçada, são uma extensa mas ténue máscara que cobre o vasto território dos Estados Unidos e disfarça a angústia dos seus habitantes; essa angústia é a de se movimentarem, de não estarem quietos num único lugar, de chegar a outro sítio, de fazer, de se fazer, de fazê-lo, make it. Detestam o que estão a fazer porque todos, sem excepção, quereriam fazer outra coisa para serem um pouco mais. Os Estados Unidos não tiveram Idade Média. É esta a sua grande diferença dos Europeus, mas também de nós, os Mexicanos, que descendemos dos Aztecas mas também do Mediterrâneo, dos Fenícios, dos Gregos e dos Romanos, mas também dos Judeus e dos Árabes e, aliado a tudo isto, da Espanha Medieval. Também se chega ao México pela estrada de Santiago

- não este das filmagens, mas o da Via Láctea até Compostela. Mais tarde, quando os meus alunos de Harvard se queixaram das remotas tradições que eu ia buscar para explicar a América Latina contemporânea, perguntar-lhes-ia:

- E para vocês, quando começa a história?

Respondiam-me sempre: Em 1776, quando nasceu a nação norte-americana.

Os USA, nascidos como Minerva da cabeça de Júpiter, armados, íntegros, cultos, livres, invejados... e dotados de mobilidade social, sempre para cima, ser sempre um pouco mais, alguém mais, mais do que o vizinho. O país sem limites. Era essa a sua grandeza mas também a sua escravidão.

Azucena era a dama de companhia, a criada invisível, digna, serenamente satisfeita. Às vezes era impossível saber se estava ou não estava. Andava com passos de gato pela casa de Santiago. Uma manhã entrou para despertar Diana trazendo o tabuleiro do pequeno-almoço nas mãos e apanhou-nos a foder, ostensivamente: um sessenta e nove voluptuoso que não era possível dissimular. Deixou cair o tabuleiro. Com o estrépido, Diana e eu separámo-nos atabalhoadamente. Pelo acaso da posição ou da luz, o meu olhar cruzou-se com o de Azucena. Vi nos seus olhos a vertigem de se imaginar amada.

 

Em momentos em que me sentia muito terno, muito vulnerável, momentos esses que julgava partilhar com Diana, atribuindo-lhe todas essas qualidades, se assim se podiam considerar, ou fragilidades, como acabaram por revelar-se, propunha-lhe que deixasse tudo, que viesse comigo para um dos postos universitários norte-americanos que às vezes me ofereciam. Nunca tinha ensinado numa universidade gringa. Imaginava-a como uma espécie de remanso bucólico rodeado de lagos, bibliotecas cobertas de hera e boas papelarias, que constituem o motivo principal da minha atracção pelo mundo anglo-saxónico. Sinto uma angústia profissional nos países latinos; a inferior qualidade do papel, que é o meu instrumento de trabalho, é uma privação comparável à de um pintor desprovido de tintas, ou dispondo de pincéis mas sem ter as telas. A tinta escorre num caderno feito no México; o papel espanhol é próprio de uma antiguidade comercial ou contabilística saída dos romances de Pérez Galdós, primo do ábaco e irmão do pergaminho, e em França uma empregada mal-encarada impede o escritor de cheirar, tocar, sentir a proximidade do papel.

Pelo contrário, no mundo anglo-saxónico, o papel é suave como seda, a variedade dos instrumentos colorida, extensa bem classificada. Entrar numa papelaria em Londres ou Nova Iorque é penetrar num paraíso de frutos escrevinhadores, canetas que voam como açores, pranchas que seguram com a ductilidade de uma mão apaixonada, clips que são verdadeiros alfinetes de prata, pastas que são protocolos, etiquetas que são credenciais, cadernos que são deuteronómios... Durante anos, regressava ao México carregado com cadernos de papel acetinado para que o meu amigo Fernando Benítez pudesse escrever comodamente os seus grandes livros sobre as sobrevivências indígenas no México, cómoda e sensualmente. Benítez estava impedido de entrar nos Estados Unidos pela lei da exclusão ideológica do macarthismo, nem que fosse para comprar bons cadernos de trabalho. Mas isso é outra história. José Emílio Pacheco, o poeta mexicano, diz que a primeira coisa que faz antes de comprar um livro é abri-lo ao acaso e meter o nariz no meio das páginas. Esse cheiro magnífico, comparável ao que se pode sentir entre os seios ou entre as pernas de uma mulher, multiplica-se por mil nas estantes das grandes bibliotecas universitárias dos Estados Unidos. E eu convidava Diana, sem demasiada convicção, admito, mas com uma espécie de entusiasmo indefeso, repito, se quiseres podemos viver juntos numa universidade, tu podes ir filmar...

Ela interrompia-me: - Seria melhor do que Santiago.

Agradecia-lhe os bilhetinhos que me mandava todos os dias do local de filmagens nas montanhas, enquanto eu ia escrevendo a minha oratória. O melhor de todos (o que guardarei sempre), dizia: "Meu amor, se conseguirmos sobreviver a este lugar, somos invencíveis. O que pode separar-nos? Amo-te. " Mas agora disse que sim, viver num campus universitário americano poderia ser bonito. Ela, todos os anos, regressava à sua terra, no lowa, para comemorar o Dia da Acção de Graças, esse Thanksgiving que apenas os Gringos celebram. Recorda-lhes a sua inocência; é isso o que na realidade celebram. Evocam o aniversário dos fundadores puritanos da colónia de Massachussets, chegados ao rochedo de Plymouth em 1620 fugindo da intolerância religiosa em Inglaterra. Para divertimento de alguns amigos, chamo-lhes os primeiros clandestinos dos Estados Unidos. Onde estavam os seus vistos, os seus cartões verdes? Os puritanos eram trabalhadores imigrantes, tal como os mexicanos que hoje atravessam a fronteira sul dos Estados Unidos em busca de trabalho e são recebidos, às vezes, com paus e com tiros. Porquê? Porque invadem com a sua língua, com a sua comida, com a sua religião, com os seus braços, com os seus sexos, um espaço reservado para a civilização branca. São os selvagens que regressam. Em contrapartida, os puritanos têm a boa consciência do civilizador. Roubam terras, assassinam índios, decretam a separação sexual, impedem a mestiçagem, impõem uma intolerância pior do que a que deixaram para trás, caçam bruxas imaginárias e são, no entanto, os símbolos da inocência e da abundância. Um grande peru recheado com maçãs, nozes e especiarias e regado com um molho espesso dá aos Estados Unidos, todos os Novembros, a certeza do seu duplo destino: a Inocência e a Abundância.

- É para isso que voltas todos os anos?

Afirmou que era aquele o seu melhor papel. Fingir que continuava a ser uma rapariga simples da província. Não lhe era difícil mimar os seus valores de classe média. Mamara-os, crescera com eles.

- É o papel que os meus pais esperam de mim. Não me custa nada. Garanto-te que é o meu melhor papel. Merecia um Oscar só por saber representá-lo tão bem. Torno a ser a rapariga da porta ao lado. A vizinha. Tens razão.

Os olhos velaram-se-lhe de nostalgia.

- Esteja onde estiver, na última quinta-feira de Novembro regresso à minha terra natal e celebro o Dia da Acção de Graças.

- E os teus pais, como aceitam isso?

- Servem vinho. É a única vez que fazem isso. Acreditam que, se servirem vinho, eu ficarei satisfeita e não sentirei a falta de Paris. Vêem-me como uma mulher estranha, sofisticada. Eu tento convencê-los que sou a mesma rapariga provinciana que sempre fui. Servem vinhos franceses. É a sua maneira de me dizerem que sabem que sou diferente deles que, pelo contrário, continuam a ser os mesmos.

- E eles acreditam? Achas que acreditam?

- Vamos jogar scrabble. Ainda só são oito horas. Inventámos diversos jogos de salão para passar as noites.

O mais frequente é o jogo da verdade. O castigo para mentir era um prazer: dar um beijo ao mentiroso. Mais valia dizer a verdade e guardar os beijos para a noite. Mas Cooper, o velho actor, estava sozinho e, no entanto, não desejava beijar nem ser beijado.

A pergunta esta noite era proposta por mim: Porque pomos um travão nas nossas grandes paixões?

O que queres dizer, perguntou o actor, que se não as travássemos voltaríamos à lei da selva? Isso já sabemos, disse com um trejeito amargo do nariz e dos lábios, muito característico dos seus papéis no cinema.

Não, expliquei; o que lhes peço é que, muito pessoalmente, declarem por que razão, na maior parte dos casos, quando surge a oportunidade de viver uma grande paixão pessoal, a deixamos passar, fazemos de parvos, às vezes parecemos cegos, face à oportunidade por excelência de nos empenharmos em algo que nos proporcionará uma satisfação superior, uma...

- Ou uma profunda insatisfação - disse Diana.

- Também é verdade - concordei. - Mas vamos por partes. Lew.

- OK, não direi que toda a grande paixão nos devolve ao estado animal e rebenta com as leis da civilização. Mas acontece a toda a hora, desde o sexo com a nossa mulher até à política. Talvez o receio mais secreto seja que uma paixão cega, irracional, nos arranque ao grupo a que pertencemos, nos torne culpados de traição...

O velho falava dolorosamente. Interrompi-o, sem me aperceber que violava a minha própria premissa. Não o deixei entregar-se à sua paixão porque senti que a estava a personalizar, identificando-se de mais com a sua própria experiência... Diana olhou-me com curiosidade, habituada à minha propensão para os modos cordatos, para evitar fricções...

- Dizes isso por causa do sexo, referes-te à paixão sexual?

Não, disse-me Cooper com o olhar. - Sim, é isso. A paixão arranca-nos ao grupo familiar. Pode violar a endogamia. Endogamia e exogamia. São as leis fundamentais da vida. O amor com o grupo ou fora dele. O sexo dentro ou fora. Decidir isso, saber se o sangue fica em casa ou se torna vagabundo, errante, eis o que nos impede de seguir a grande paixão. Ou nos atira de cabeça no abismo do desconhecido. Precisamos de regras. Não importa que sejam implícitas. Têm de ser seguras, claras para o nosso espírito. Casas dentro do clã. Ou casas fora. Os teus filhos serão da nossa família ou serão estranhos. Ficarás aqui, perto da casa dos teus avós, ou partirás para o mundo.

- Vocês partiram para o mundo - disse eu aos Norte-Americanos. - Nós, os Mexicanos, ficámos por cá. Até vos oferecemos meio país porque não o povoámos a tempo.

- Não te preocupes - riu Diana. - Em breve a Califórnia tornará a ser vossa. Toda a gente fala espanhol.

- Não - disse. - Responde à pergunta do jogo.

- Responde tu primeiro. As damas no fim. - Enrodilhou-se sobre si mesma como um gato angora. Nunca foram tão profundas, tão prometedoras as covinhas da sua face.

- Eu confesso que tenho medo que uma paixão me roube o tempo de que preciso para escrever. Deixei passar muitas ocasiões de prazer porque previ que as consequências seriam negativas para a minha literatura.

- Diz! - Mais covinhas do que nunca, quase impudicas.

- Ciúmes. Dúvidas. Tempo. Voltas e mais voltas. Locais de encontro. Confusões. Mal-entendidos. Mentiras.

- Tudo aquilo que rouba paixão à paixão. - Diana abanou comicamente a cabeça loura.

- Não há mulher que não possas conquistar se lhe dedicares tempo e carinho. São mais importantes do que o dinheiro ou a beleza. Tempo, tempo, a mulher é devoradora do tempo do homem, eis a questão. Dedicar-lhes muito tempo.

- Nós não perdemos tempo. Vimo-nos e pronto - disse Diana como se estivesse a beber uma taça invisível. - Tu e eu.

- Tenho o pavor de ficar sem tempo para escrever continuei. - Escrever é a minha paixão. Todo o escritor nasce com o tempo contado. Desde o momento em que se senta a escrever, inicia uma luta contra a morte. Todos os dias a morte se aproxima do meu ouvido e me diz: Um dia menos. Não vais ter tempo.

- Há uma coisa pior - disse Cooper. - Um amigo meu, cientista da UCLA, afirmou-me que virá o dia em que, ao nascer, te poderão dizer, primeiro, de que vais morrer, e segundo, quando vais morrer. Vale a pena viver assim?

 

Deitei-a, meiga e abandonada, chorando, procurando habituar-me aos cuidados que ela parecia exigir e que eu, com um prazer imenso, lhe proporcionava. Era como uma criança, deitada de lado, chorando suavemente, um pouco agitada na sua pequenez física, solicitando protecção e ternura. Eu queria dar-lhas; acomodei-a na cama, tapei-a contra o frio do deserto, acariciei-lhe a cabeça, já tão habituado ao corte de cabelo de Santa Joana, sempre pronta para a guerra e para a fogueira. Não deixava cabelos soltos na almofada, como outras mulheres. Na realidade, não deixava qualquer rasto, como se a sua limpeza sueca, luterana, fresca como um bosque, azul como um fiorde, agarrada com desespero às longas horas do Verão, como se o Inverno sem luz fosse o espelho sombrio da morte, fosse puro espírito, imaterial. Vi, senti tudo isso ao agasalhá-la nessa noite em que chorava pensando (imaginei eu) nas ocasiões perdidas para a paixão, nos momentos que passaram, nos chamaram, não fizemos caso e desapareceram para sempre. É inútil tentar recuperá-los. Foram-se para sempre. Não se transformaram em hábito.

Em contrapartida, disse para mim mesmo acariciando-lhe a cabeça enquanto ela mergulhava em sonhos invisíveis, tudo aquilo que aceitamos transforma-se em hábito, inclusivamente a paixão. Sorria, acariciando a sua cabeça loura de cabelos muito curtos; o papel de Santa Joana transformara-se num hábito para ela, Diana seria para sempre uma mulher pequenina, o pardalito, pocelle, a virgem, a donzela de Orleães, a santa lutadora, pequena, loura, com o cabelo cortado militarmente para que ninguém duvidasse da sua vontade guerreira, para lhe assentar bem o capacete de combate: o cabelo cortado muito curto para que ardesse menos na fogueira. Disse-Lhe em silêncio que seria Deus a dar-lhe a sua auréola: uma grande cabeleira incendiada na noite, arrastada ao longo da noite, que seria vista como o rasto do Diabo.

Santa Joana... Até a santidade se torna hábito, a paixão, a morte, o amor, tudo. Nas poucas semanas passadas em Santiago, este quarto era já um sítio familiar, habitual. Sabíamos onde encontrar tudo. A minha roupa aqui. A dela acolá. O pequeno espaço da casa de banho dividido equitativamente. Isto é: oitenta por cento para ela, que viajava com uma variedade luxuosa e desconcertante de cremes, lápis, vernizes, unguentos, loções, perfumes, lacas... Eu, por meu lado, apenas precisava de espaço para a minha navalha e para o meu creme de barbear, o meu pente e a minha escova de dentes. Lamentei-me da pasta Colgate que tinha de comprar no México, porque as altas tarifas de importação nos deixavam sem grandes possibilidades de escolha.

- Porquê? De qual é que gostas?

Entre brincadeiras e invenções, acabei por dizer que era da pasta Capitão, um dentífrico que usava em Veneza e que me fazia lembrar a pasta feita em casa pela minha avó, em Jalapa. A minha avó não confiava nos produtos feitos sabe-se lá onde, sabe-se lá por quem, e que acabávamos por meter na boca.

Por isso fazia tudo em casa, a cozinha, a carpintaria, a costura... A pasta Capitão lembrava-me a minha avó porque era cor-de-rosa por dentro e branca por fora, com a figura de um ilustre senhor bigodudo do princípio do século, certamente o próprio Capitão, conferindo uma garantia de tradição e segurança ao produto. O meu avô, afirmou, devia parecer-se certamente com esse Capitão do século dezanove. A minha avó ter-se-ia apaixonado por um homem assim, com as grandes bigodaças, o rígido colarinho alto e a gravata de plastrón.

- A pasta do Capitão - ri-me.

Passados três dias, Diana entregou-me um embrulho com dez tubos da famosa pasta Capitão. Tinha-os mandado vir de Itália. Assim, sem mais nem menos, estalando os dedos, de Roma para Los Angeles para a Cidade do México e para a cidade provinciana de Santiago. Em três dias, a minha amante realizava-me um capricho despropositado, inesperado. Simultaneamente, o que me parecia uma simples vontade da minha parte, nem sequer uma paixão, instalava-se como hábito na nossa casa de banho. Eu já não precisava de desejar a minha pasta de dentes italiana. Aqui estava, como se me tivesse sido enviada do céu por Santa Apolónia, a santa padroeira dos dentistas e das dores de dentes.

Olhei Diana adormecida. Vivia no mundo da satisfação instantânea. Eu sabia que esse mundo existia. Os jovens de Paris, em Maio de 68, tinham-se rebelado vagamente contra o que chamavam a tirania do consumo, a sociedade que trocava o ser pelo parecer, a aquisição como prova de existência. Um mexicano, por mais que viaje pelo mundo, está sempre ligado à sociedade da necessidade, regressamos à necessidade que nos rodeia no México por todos os lados, e se temos um pouco de consciência, é-nos difícil imaginar um mundo onde tudo o que se deseja se obtém imediatamente, mesmo que se trate de uma pasta de dentes cor-de-rosa. Sempre considerei que o vigor da arte na América Latina se deve a esse risco enorme de saltar sobre o abismo da necessidade, com a esperança de cair de pé na outra margem, a da satisfação. Esta custa-nos muito, se não por nós próprios, pelo menos em nome daqueles que nos rodeiam.

Uma pasta vinda de Itália em três dias. Um hábito, não um desejo, nem sequer um capricho. Abanei a cabeça, como se quisesse sair ou entrar no sonho de Diana. Tudo se torna um hábito. Diana dorme do lado direito da cama, perto do telefone. Eu durmo do lado esquerdo, perto de alguns livros, um caderno de notas e duas esferográficas. Mas esta noite, ao deitar-me, estendo a mão para agarrar num livro, ergo os olhos e deparo com os de Clint Eastwood. Deixei cair o livro, espantado. Tinha-se quebrado o hábito. Diana colocara do meu lado da cama uma fotografia de Clint Eastwood dedicada, com amor, a Diana. Esse inconfundível olhar lacónico, azul e gelado, tão intenso como uma bala. A maneira de falar lenta e parca, como se a parcimónia do diálogo fosse o lubrificante da velocidade do tiro. Um cigarro fino e apagado entre os dentes cerrados. Era a foto de um guerreiro que esteve em Tróia, um Aquiles de cabedal e pedra, agora longe do mar cor de vinho de Homero, no meio de uma saga épica sem água, sem costas, sem velames, uma saga épica da sede, do deserto, e a ausência de poetas que cantem as façanhas do herói. A sua tristeza era essa, ninguém o cantava. Clint Eastwood. Um herói amargo olhava-me por entre as pestanas louras e por baixo das sobrancelhas de areia. Quebrara-se o hábito estabelecido. Devia ter imaginado. Devia saber sempre que nenhum hábito existiria por muito tempo ao lado de Diana. O seu choro, naquela noite, era apenas a recordação das vezes em que devia ter chorado e não o fez.

Queria perguntar-lhe um dia: - Só choras por causa das vezes em que não o fizeste quando devias?

O olhar de Clint Eastwood impediu-me de a acordar naquele momento para lhe perguntar aquilo que já sabia. Ela chorava hoje porque não chorou antes, quando devia. Acabava de fazer um filme com Clint Eastwood, no Oregon. Foram umas filmagens demoradas. Demoraram meses. Foram amantes. Mas não tinha o direito de perguntar nada, de averiguar nada. Ela também não. Essa era efectivamente uma lei não escrita, um acordo tácito entre amantes. Amantes modernos, quer dizer, livres. Não andar a averiguar o que aconteceu antes, com quem, quando, durante quanto tempo. A regra civilizada era não perguntar nada. Se ela quisesse contar-me qualquer coisa, muito bem. Eu não ia demonstrar curiosidade, ciúmes, nem sequer bom humor. Ia manter uma tranquilidade absoluta, fitando dia e noite o olhar do guerreiro do Oeste, colocado a meu lado como quem põe o Sagrado Coração de Jesus à cabeceira, para que nos abençoe e proteja. Não lhe ia dar o prazer de perguntar nada. Se queria dizer qualquer coisa sobre Clint Eastwood e a sua imagem subitamente aparecida como um ex-voto de agradecimento junto da cabeceira do nosso leito erótico, isso era um problema dela. A paixão, os ciúmes, diziam-me: reclama, faz uma cena, manda essa puta gringa para o caralho. A minha inteligência dizia-me: não lhe dês esse prazer. Iria adorar isso. E daí? E daí se se aborrecer comigo, se romper comigo, se eu me for embora, e daí? Tudo. Essa era a questão, pois a verdadeira paixão que então sentia por ela proibia-me de fazer qualquer coisa que pusesse em Perigo o facto de estar a seu lado, mais nada. Não me enganava.

Havia muito nisto de uma falta de dignidade quase canina. Colocava-me a fotografia do seu galã anterior mesmo por baixo do nariz e eu aguentava. Aguentava porque não me queria separar dela. Não queria fazer nada que quebrasse o encanto do nosso amor. Mas ela sim. Aquela fotografia era uma provocação. Ou era a forma que ela arranjara para me indicar que ambos íamos ter outros amores, antes ou depois do nosso? Não quis ver uma ruptura antecipada em tudo isto. Não o podia admitir. Negaria a intensidade da minha própria paixão, que era estar com ela, foder com ela. Sempre, sempre...

Entre os ciúmes e a ruptura estava o caminho da tranquilidade, da sofisticação, da reacção civilizada. Não se dar por achado. Tomar tudo com muita sans façon. Queria pendurar fotografias de Clint Eastwood por toda a casa? Pendurasse. Olhá-la-ia como uma espécie de adolescente provocadora, brincalhona, alienada, cuja erupção seria curada pela minha paciente e civilizada maturidade. Tinha mais dez anos do que ela. Diana queria puxar-me pela língua? Eu trincá-la-ia.

Mas eu também não dormi tranquilo; a minha própria explicação não me conseguia satisfazer. Era tudo demasiado fácil. Tinha de haver mais qualquer coisa e, nessa madrugada, quando ela acordou às cinco e se aproximou de mim, dando e oferecendo o seu amor quotidiano, a minha resposta foi quase mecânica e no fim, erguendo-se da cama, embrulhada no lençol como se os olhares de Clint Eastwood e deste seu servidor, juntos, fossem de mais, disse:

- Meu caro senhor, já passou duas semanas de prazer. Quando pensa dar-me prazer a mim?

 

Não é preciso dizer que nessa manhã não escrevi uma única linha. Como podia dedicar-me aos amores de Hermán Cortês e de La Malinche1 quando os meus se complicavam tão misteriosamente? O que deram um ao outro, o que puderam dar um rude soldado da Estremadura e uma princesa cativa, ainda para mais de Tabasco? Mais alguma coisa do que uma aliança política através do sexo? Mais alguma coisa que a união, verbal e carnal, das línguas? Diana, pelo contrário, foi filmar na Sierra Madre um western ridículo e eu fiquei a matutar no prazer que, pelos vistos, eu não lhe conseguira dar, gozando-o sozinho.

Por um momento, quase me convenci que era como todos os homens, sobretudo os Latino-Americanos, que procuram a sua satisfação imediata e se estão marimbando para a mulher. Fui o meu melhor advogado; convenci-me rapidamente que não era o meu caso, dera calor e atenção a Diana Soren, a minha paciência não estava em dúvida e a minha paixão muito menos. Ela era tão voraz como eu desejoso de a

 

1 Referência ao conto "As Duas Margens", de A Laranjeira, editado pelas Publicações Dom Quixote em 1995. (N. T. )

 

satisfazer. Se o prazer masculino a que ela se referiu esta manhã era o simples, imediato de me pôr em cima dela e virme, nunca o fiz sem todos os preâmbulos, o foreplay, que a sabedoria sexual prescreve para satisfazer a mulher e levá-la até um ponto anterior ao culminar que conduza, com sorte, ao orgasmo partilhado, o coito emocionante, formado em partes iguais de carne e espírito: virmo-nos juntos, viajarmos até ao céu... Falhei noutro capítulo? Revi tudo. Pedi-lhe um broche quanto pressenti que ela queria mamar picha, que agarrá-la pela nuca e aproximá-la do meu pénis erguido, como se fosse uma escrava dócil, era o prazer que ambos desejávamos. Mas também entendi quando o que ela queria era o cunilíngua lento e saboreado com que a minha língua ia descobrindo o sexo invisível de Diana, envergonhando-me da obstrução total da minha própria forma masculina, tomatuda, evidente como uma mangueira abandonada num jardim de relva loura; nela, em Diana, o sexo era um luxo oculto, por trás do velo, entre as pregas que a minha língua explorava até chegar ao palpo mínimo, nervoso, agitado e sobressaltado do seu clitóris de puro mercúrio. Não faltaram os sessenta e nove, e ela possuía a infinita sabedoria das verdadeiras amantes, que conhecem a raiz do sexo do homem, o nó de nervos entre as pernas, a igual distância entre os testículos e o ânus, onde se encontram todos os frémitos viris quando uma mão de mulher nos acaricia ali, ameaçando, prometendo, insinuando um de dois caminhos, o heterossexual dos testículos ou o homossexual do cu. Essa mão mantém-nos em suspenso entre as nossas inclinações abertas ou secretas, as nossas potencialidades amatórias com o sexo oposto ou com o mesmo sexo. Uma amante verdadeira sabe dar-nos os dois prazeres e dá-los, além disso, como promessa, isto é, com a máxima intensidade do apenas desejado, do não realizado. O amor total é sempre andrógino.

Ela própria queria que eu a sodomizasse? Fi-lo das duas maneiras, pondo-a de gatas para entrar na vagina por trás, ou lubrificando-lhe o ânus para penetrar, rasgando-o, no casulo da sua maior intimidade. Dei-lhe unguentos, reguei-a com champanhe uma noite, molhando-nos aos dois por entre gargalhadas; já falei do seu maravilhoso aroma vaginal de frutos maduros; passei-lhe a minha loção masculina nas axilas e entre as pernas; ela escondeu o seu próprio perfume atrás da minha orelha, para que ali ficasse para sempre, como disse; eu próprio a enfeitei como a uma Vénus doméstica com a espuma do meu creme de barbear Noxzema e numa aborrecida tarde de domingo barbeei-lhe os sovacos e o púbis e guardei tudo numa taça vazia de marmelada, até que florescesse ou apodrecesse horrivelmente, sei lá...

Acabei por me rir com vontade de todas estas pentelhadas, recordando, para terminar (julguei eu, nesse momento) com a maravilhosa frase do moribundo e cachondo milionário Volpone na comédia de Ben Jonson:

- Eu gosto das mulheres e dos homens, sejam de que sexo forem...

Era isso que nos faltava: partilhar o sexo com outros, era esse o prazer a que se referia Diana? O que queria? Um ménage à trois? Com quem? Com o stunt man que servi para neutralizar? Nesse caso, para que metê-lo numa tríade? Ela acabaria sozinha com ele; dessa volta de parafuso não me privaria eu: deixá-la-ia só com um homem que eu servi para afastar, só com ele e sem o ménage à trois... A partouze, a orgia francesa, também não me parecia muito interessante ou possível com um velho actor, uma cabeleireira que mascava pastilha elástica, uma austera dama de companhia espanhola, um realizador rechonchudo, gordo e barbudo e um operador de câmara que proclamava a sua adesão ao culto de Onán como prazer salvador e seguro das prolongadas filmagens cinematográficas...

Com animais?

Fetichismo?

O espelho. Talvez não tivéssemos explorado suficientemente os espelhos.

Não pude desenvolver esta fantasia, porque quando olhei para o espelho que cobria uma das portas da casa de banho, vi reflectido o olhar do Vaqueiro Metafísico, Clint Eastwood, e caí em mim. Já sabia o que Diana desejava.

Nus na cama, nessa noite senti-a fria e perguntei se lhe apetecia fazer amor.

- Por que não me perguntas antes se gosto de fazer amor contigo? - disse, enrodilhando-se entre os lençóis.

- Está bem. Pergunto.

- O quê?

- Gostas de fazer amor comigo?

- Tonto - disse com o seu sorriso mais fulgurante, mais cheio de covinhas.

- Eu gostaria de fazer amor contigo em nome de todos os homens que já o fizeram - disse-lhe, aproximando-me bruscamente do seu ouvido.

- Não digas isso. - Ela estremeceu ligeiramente. Agarrei-a pela cintura. - Não sei se to devo dizer.

- Somos livres. Não estamos na defensiva, nem tu nem eu.

- Há uma coisa que gosto em ti. Finges que estamos sós quando fodemos.

- E não estamos?

- Não. Quando nos deitamos eu vejo passar pela tua pele uma infinidade de homens, desde o teu primeiro namorado até aos teus amantes ausentes mas vigentes...

Olhei de través a foto da estrela de Por Um Punhado de Dólares e senti um calafrio.

- Continua, continua...

Eu não sabia o que estava a fazer com as mãos. Apenas ouvia as minhas palavras.

- Pode haver sexo apenas entre duas pessoas? - Não, não...

- Gostas de saber que penso em todos os homens que te desfrutaram antes quando eu mesmo te fodo?

- E atreves-te a dizer-mo?

- Não o sabes, Diana? Não te agrada também?

- Não me digas isso, por favor.

- Não te desiludo ao dizer-te isto?

- Não - quase gritou. - Não, eu gosto...

- De pensar que comigo se deitam contigo todos os homens que te foderam durante a tua vida?

- Eu gosto, eu gosto...

- Julguei que não gostarias...

- Não digas nada. Sente como eu estou a sentir...

- Porque não nos atrevemos a sentir esse prazer se nos agrada tanto?

- Que prazer? De que estás a falar?

- Deste prazer; o que te dou pensando que sou outro, o que tu sentes imaginando que eu também sou outro, admite...

- Sim, gosto, enlouquece-me, não pares...

- Gostaria que estivessem todos aqui, vendo tu e eu fodermos...

- Sim, eu também, não pares, continua...

- Não te venhas ainda...

- Hoje estás a dar-me uma grande tusa...

- Aguenta, Diana, estão todos a olhar-nos; olham-nos e invejam-nos ali do espelho...

- Diz-me que também gostas que eles nos olhem...

- Gosto que pretendas que o fazemos sozinhos. Gosto de saber que te agrada...

- Gosto, gosto, gosto...

Quando acabámos, ela voltou-se para mim, semicerrou os olhos cinzentos (azuis? ) como uma bruma esquecida e disse-me:

- Que falta de imaginação a tua.

 

Com razão ou sem ela, sempre vivi para escrever. Quase desde a infância, a literatura foi para mim o filtro da experiência, desde o medo de um castigo paterno até à mais recente noite de amor. Sexo, amor, política, alma, tudo para mim passa pela experiência literária. A expectativa do livro refina e fortalece os dados da vida vivida. Talvez nada disto seja assim e, na realidade, seja ao contrário: é a imaginação literária que determina, provoca, as restantes situações "reais" da minha vida. Mas se é assim, eu não dou conta. Gostaria de ter consciência de que para mim a realidade não é um facto simples nem pode ser definida por uma única das suas dimensões. Há pessoas para quem a realidade é apenas o mundo objectivo, concreto: uma cadeira é uma cadeira, a montanha sempre ali esteve, a nuvem passa mas obedece às leis da física: tudo isto é real. Para outras pessoas não há realidade senão a interior, a realidade subjectiva. A mente é uma vasta sala vazia que se vai enchendo pouco a pouco, enquanto vivemos, com o mobiliário das percepções. O mundo objectivo existe, mas não tem sentido se não passar pelo crivo da mente. A subjectividade confere realidade a um mundo de objectos mudos, sem vida. Mas há uma terceira dimensão que é onde a minha individualidade entra em contacto com os outros, com a minha sociedade, com a minha cultura. Isto é, existe algo que não é nem paradoxo nem impossibilidade, e que se chama a individualidade colectiva. É nela que me sinto mais realizado, mais satisfeito, mais em consonância com o mundo. É nessa individualidade partilhada que englobo a família, as mulheres e o sexo, os amigos... Portanto, para mim, a realidade é uma estrela de três pontas: a matéria, a psique e a cultura. A realidade material, a realidade subjectiva e a realidade do encontro do meu eu com o mundo. Não gosto de sacrificar nenhuma delas. Só quando as três estão presentes, posso dizer que sou feliz.

Os nossos jogos de salão nocturnos continuaram e um deles era o scrabble, o jogo de palavras formadas por fichas em cima de um tabuleiro. Ganha quem formar mais palavras com as letras que lhe calharem em sorte. A combinação alfabética muda conforme as línguas, pois o castelhano é abundante em vogais e o inglês, pelo contrário, utiliza muito mais as consoantes. Os W, os SH e os duplos TT, ou SS formam, em inglês, conjugações inconcebíveis em castelhano. Nós, por nosso lado, temos o clitóris da língua, o N, que enlouquece os estrangeiros porque lhes parece uma extravagância hispânica, medieval, comparável à Santa Inquisição, quando, na realidade, é uma letra futurista, que abrange e suprime os difíceis coitos do GN em francês, do NH em português ou do impronunciável NY inglês.

Jogávamos os três como uma família aborrecida e estável, Diana, Lew e eu, com um alfabeto inglês. Embora conheça bem a língua inglesa, não me pertence nem eu lhe pertenço. Nunca sonhei em inglês. Mentalmente, falo essa língua traduzindo velozmente do espanhol. Isso nota-se porque abundam no meu inglês as paronímias espanholas, as locuções de origem latina e árabe muito mais do que as de raiz saxónica ou germânica. O meu erro, naquela noite, foi ter à frente dos meus olhos a palavra wheel (roda) perfeitamente formada e com cinco espaços seguidos para a completar e ganhar muitos pontos e apenas me ocorrer wheelbarrow (carroça) porque às vezes cantarolava uma linda canção irlandesa, "Molly Mallone", que percorria as ruas compridas e estreitas com a sua carrocinha (she plowed her wheelbarrow through the streets long and narrow), mas essa palavra precisava de seis espaços e, além disso, eu não dispunha das letras necessárias. Tive de passar e Lew, de imediato, preencheu o cobiçado espaço do jogo com as suas cinco letras, house, para formar a palavra inglesa wheelhouse, timoneira. Disse que não conhecia essa palavra. Diana olhou-me com irritação. Virou violentamente as letras que descansavam no meu encaixe e demonstrou-me que podia ter preenchido o espaço com chair, wheel-chair, que significa, simplesmente, cadeira de rodas.

- É assim que pensas ir ensinar numa universidade dos EUA? - disse-me com um tom de ironia insuportável. Tem cuidado. Os estudantes é que te vão ensinar a ti.

- Sabem tudo, ou apenas estão convencidos que sabem?

- Sabem mais do que tu, disso podes ter a certeza disse Diana e Lew baixou os olhos e pediu que continuássemos a jogar.

Foi o próprio Lew Cooper quem sugeriu outro jogo para as nossas noites de tédio de Durango. Imaginemos, disse ele, que somos Rip Van Winkle e adormecemos durante vinte anos. Ao acordar, que espécie de país encontraríamos?

- México ou Estados Unidos? - perguntei para deixar claro que havia mais do que um país no mundo.

Olharam-me como se eu fosse um verdadeiro tarado.

Cooper caiu de imediato, como era inevitável, na perda da inocência que tanto obceca os Gringos. Sempre perguntei a mim mesmo quando foram eles inocentes, ao matar índios, ao entregarem-se ao destino evidente e darem largas às suas ambições continentais, do Atlântico ao Pacífico? Quando? No México temos uma grande admiração pelos cadetes que se atiraram do alto da fortaleza de Chapultepec em vez de se renderem às tropas invasoras do general Winfield Scott. Terão sido adolescentes perversos que se negaram a entregar a sua bandeira à inocência invasora? Quando foram os Estados Unidos inocentes? Quando exploraram o trabalho negro escravizado, quando se massacraram entre si durante a Guerra da Secessão, quando exploraram o trabalho de crianças e imigrantes e armazenaram fortunas colossais obtidas, sem dúvida, de forma inocente? Quando espezinharam países indefesos, como a Nicarágua, as Honduras, a Guatemala? Quando lançaram a bomba sobre Hiroxima? Quando McCarthy e as suas comissões destruíram vidas e carreiras por mera insinuação, suspeita, paranóia? Quando desfolharam a selva da Indochina com veneno? Ri para mim, guardando a minha possível resposta à pergunta do jogo Rip-Van-Winkle. Sim, talvez os EUA só tivessem sido inocentes no Vietnam, pela primeira e única vez, acreditando que podiam, como disse o general Curtis Lê May, chefe da Força Aérea dos Estados Unidos, "bombardear o Vietname, de regresso à idade das cavernas". Que espantoso deve ter sido para o país que nunca tinha perdido uma guerra, estar a perdê-la precisamente face a um povo pobre, asiático, amarelo, etnicamente inferior na mentalidade racista que, evidente ou disfarçada, envergonhada ou combativa, todo o gringo tem gravada na testa como uma cruz.

Eram dois norte-americanos a falar, e eu, talvez porque ambos eram actores, imaginei que a famosa inocência fosse apenas uma forma de autoconsolação promovida sobretudo pelo cinema. Na literatura, desde o princípio, desde o torturado puritanismo de Hawthorne, os pesadelos nocturnos de Põe e os diurnos de James, nunca houve inocência mas sim receio da força obscura que cada ser humano tem dentro de si; por exemplo, o protagonista de Moby Dick é o eu inimigo e não um cetáceo. Concordo que isto é quase uma definição da boa literatura, a épica do eu inimigo... Não sei se Tom Sawyer e Huck Finn são realmente inocentes ou apenas um bom desejo bucólico, em que o contacto com a família (Tom) ou com o rio (Huck) os distrai momentaneamente do dever de ganhar dinheiro, dominar os inferiores e praticar a arrogância como direito divino. Em todo o caso, Mark Twain não era inocente, era irónico, e a ironia, de acordo com o seu inventor moderno, Kierkegaard, é negativa, "um desenvolvimento anormal que... como os fígados dos gansos de Estrasburgo, acaba por matar o indivíduo". Mas, ao mesmo tempo, é uma maneira de chegar à verdade porque limita, define, torna finito, anula e castiga o que consideramos ser certo.

É no cinema americano que se cria o mito da inocência, sem qualquer ironia. Os meus olhos infantis estão cheios dessas figuras do campo, provenientes do pequeno povoado rural, que chegam às cidades e se expõem aos piores perigos, lutando contra o sexo (Lillian Gish), as locomotivas (Buster Keaton), os arranha-céus (Harold Lloyd). Como adorei, em pequeno, os filmes sentimentalmente inocentes de Frank Capra, onde o valente Quixote provinciano, Mr. Deeds ou Mr. Smith, vence com a sua inocência as forças da corrupção e da mentira. Era um belo mito, de acordo com a política moral e humanista de Franklin Roosevelt. Tendo em conta que o New Deal foi seguido pela guerra mundial e a luta contra o fascismo, que não só não era inocente como era diabólico, os Norte-Americanos (e nós também) acreditaram totalmente no mito da inocência. Eles, graças à sua virtude, salvaram duas vezes o mundo, derrotaram as forças do mal, identificaram e aniquilaram os perfeitos vilões, o Kaiser e Hitler. Quantas vezes ouvi os norte-americanos de todas as classes dizer: "Este século, fomos duas vezes salvar a Europa. Deviam estar mais gratos". Para eles, como nos "romances internacionais" de Henry James, a Europa é corrupta, os Estados Unidos são inocentes. Não acredito que haja outro país, sobretudo um país tão poderoso, que se sinta inocente ou faça alarde disso. Os hipócritas Ingleses, os cínicos Franceses, os orgulhosos Alemães (os inimputáveis e autoflagelantes Alemães, tão desprovidos de ironia), os violentos (ou lacrimosos) Russos, nenhum deles acredita que a sua nação tenha alguma vez sido inocente. Os Estados Unidos, no entanto, declaram que a sua política externa é completamente desinteressada, quase um acto de filantropia. Como isto não é nem nunca foi verdade para nenhuma grande potência, incluindo os Estados Unidos, ninguém os acredita, mas a autoconvicção norte-americana confunde toda a gente. Todos sabem que tipo de interesses estão em jogo, mas ninguém é capaz de o admitir. Aquilo que é desinteressadamente defendido é a liberdade, a democracia e salvar os outros de si mesmos.

Imaginei Diana em criança, ouvindo sermões luteranos numa igreja de lowa. O que podia ficar numa cabecinha infantil quando um pastor lhe diz que os homens são todos culpados, inaceitáveis, condenados e, no entanto, Cristo os aceita, apesar de serem inaceitáveis, porque a Sua morte bastou para redimir todos os nossos pecados? Semelhante doutrina condena-nos a viver procurando justificar a fé de Cristo em nós, ou condena-nos a ser totalmente irresponsáveis, dado que os nossos pecados já foram redimidos no Golgota?

As palavras do velho actor andavam muito longe das minhas cogitações. O seu Rip Van Winkle despertava e não reconhecia o país fundado por Washington e Jefferson. Lew Cooper via o que ele próprio viveu com os olhos abertos. Via a terrível necessidade puritana de contar com um inimigo visível, determinado, que não deixasse dúvidas. O mal norte-americano era a obsessão maniqueísta que apenas compreende o mundo dividido em bons e maus, sem redenção possível. Cooper dizia que nenhum norte-americano pode viver tranquilo se não souber contra quem está a lutar. Disfarça isto dizendo que deve reconhecer o mal para defender os bons. Mas quando Rip Van Winkle desperta, descobre com frequência que os bons, para se defenderem, assumiram as características dos maus. McCarthy não perseguiu os comunistas que via debaixo dos colchões; perseguiu e humilhou e destruiu democratas com os mesmos métodos que Vichinsky utilizou na União Soviética para combater precisamente os comunistas. As vítimas do macarthismo, da Comissão de Actividades Anti Norte-Americanas, da Comissão Dies, de todos esses tribunais da inquisição actualizados, foram Washington, Jefferson, Lincoln, disse Cooper com profunda tristeza. Condenamo-nos a nós próprios. Rip Van Winkle prefere meter-se outra vez no buraco da árvore e dormir mais vinte anos. Sabe que, quando acordar, vai deparar com a mesma coisa.

- Um país que, apesar de tudo, não esteve à altura dos seus ideais? - perguntei aos meus companheiros de jogo.

- Sim - respondeu Cooper. - Nenhum país esteve, mas os outros são mais cínicos. Nós somos idealistas, não sabias?

Estamos sempre do lado do bem. Onde nós estivermos, está o bem. Quando não acreditamos nisto, enlouquecemos.

- Nunca devíamos sair - disse Diana com grande simplicidade. Recordo-a naquele momento, sentada no tapete, com as pernas cruzadas e as mãos unidas no regaço.

- O romance de Thomas Woolfe que se chama You can't go home again... Não podes regressar a casa... é o título mais verdadeiro de toda a literatura americana... Sais de casa e nunca mais podes regressar, por muito que queiras... - acrescentou Diana com uma expressão cansada.

Perguntei-lhe com o olhar se era o seu caso. Abanou a cabeça.

Contou que ao regressar da sua estada em França encontrou uma nova geração na Califórnia, no Middle West, na Costa Leste, que queria dar o melhor de si sem que a deixassem. Era tão grande o contraste entre os ideais dos jovens na década que acabava de passar, os anos 60, e a corrupção, a mentira clamorosa dos governantes, a violência que rebentava por todos os orifícios da sociedade... Diana contou nessa noite o que estava na mente de toda a gente, mas contou-o como aquilo que ela era, uma rapariga do Middle West que tinha ido dormir para Paris e depois, como Rip Van Winkle, regressara nos anos 60, na voragem dos assassínios dos Kennedy e de Martin Luther King, da morte de dezenas de milhares de rapazes saídos das povoações rurais para as selvas asiáticas, os mortos do Vietname, os soldados drogados, os mortos inúteis, para nada, ainda bem que para a frente não iam os rapazes brancos, iam os negros e os chicanos, a carne para canhão, e no país havia um coro de mentirosos afirmando que estávamos a conter a China, salvando a democracia vietnamita, impedindo a queda dos dominós... Johnson, Nixon, os porta-vozes da hipocrisia, da ignorância, da estupidez. Como não se havia de desiludir uma geração inteira, como não haviam de acabar metralhando estudantes em Kent State, espancando manifestantes em Chicago, encarcerando os Panteras Negras? Para quê? - O tom de Diana elevou-se, parecia que ela própria estava a despertar de um longuíssimo sono por trás de um ecrã prateado que era a sua própria visão do mundo. - Não foi para fazer fortuna, não foi para uma corrupção vulgar, embora enriquecessem cem empreiteiros e uma dúzia de grandes companhias que trabalhavam para a defesa, tudo bem, isso consigo entender, mas enlouquece-me a capacidade destes canalhas para se apaixonarem pelo seu próprio poder, para acreditarem nesse poder como numa coisa não só duradoira como importante, santo Deus, os cretinos acreditam que o seu poder importa, não sabem que a única coisa que importa é a vida de um rapaz que mandaram para que morresse inutilmente numa selva asiática, um rapaz atordoado que para justificar a sua presença ali incendiou uma aldeia e matou todos os seus habitantes, se assim não fosse para que estava ali, para que servia aquela metralhadora cujo fabrico dera trabalho a milhares de operários e às suas famílias, uma única metralhadora dava o poder a Lyndon Johnson, a Richard Nixon, à Deusa Mentira, à Puta Poder? Diana Soren despenhava-se, a sua voz ia caindo num estranho abismo, num vazio, ia tornar a dormir mais vinte anos desde que não soubesse o que se passava nesse lar ao qual nunca se podia regressar... A América era o que se passava fora do sono.

Carregou no botão do seu leitor de cassetes e ouviu-se a voz de José Feliciano cantando Baby Ligbt My ire. Cooper ergueu-se indignado e desligou o aparelho. Parodiou a voz de Feliciano. Era nisto que tínhamos caído, era esta a música de hoje, música selvagem de cretinos, baby light my ire, fez uma mímica de nojo e pediu licença para ir dormir.

 

Bem assente a minha prerrogativa de ficar em casa e escrever durante todo o dia, apareci uma manhã de surpresa no local das filmagens. Diana não se aborreceu por não a ter avisado, recebeu-me com grandes demonstrações de alegria, mostrou-me e apresentou-me a toda a gente e convidou-me para tomar um café na sua caravana. Era a mesma que tínhamos usado nos Estúdios Churubusco, no México. Agora, disse ela com olhar provocante, não precisamos de a usar como nesa altura. Porque não? respondi.

Quando saímos da caravana, a maquilhadora e a cabeleireira esperavam-na, impacientes. O realizador estava inquieto. O dia nublado ia clarear. Observava o céu através de um aparelho muito fino e misterioso, fechando um dos olhos e franzindo toda a cara, como se esperasse instruções do alto para continuar a filmar e poupar dinheiro a uma companhia que, com certeza, trabalhava ao lado de Deus, com a sua bênção e mandato.

A paisagem das montanhas de Santiago desmorona-se e reconstrói-se de acordo com os caprichos da luz. Segui pela planície até às montanhas que acumulavam toda a sombra do dia, oscilando como árvores sob a ilusão do firmamento. Uns garotos jogavam futebol num campo improvisado. O espectáculo era cómico, porque as cabras não respeitavam a zona demarcada para o jogo e invadiam-na constantemente; nessas alturas, os pequenos deixavam de ser peles camponeses e regressavam à sua condição de guardadores de rebanhos. Um rebanho de carneiros pachorrentos, com a lã emaranhada como uma suja peruca de magistrado inglês, desceu'velozmente até ao campo, e o rapazito que cuidava deles foi recebido com assobios e insultos pelos jogadores. Um deles saltou-lhe em cima, tirou-lhe a vara de pastor e começou a bater-lhe com ela. Corri a detê-lo, separei-os, chamei ao agressor desleal porque era mais alto do que o agredido, e cobardes aos outros jogadores, que se preparavam também para se vingar dos carneiros que apagavam o desenho dos limites do campo desportivo, feitos com giz.

- Deixem-no lá, seus cobardolas. Não tem culpa.

- Tem culpa, sim - disse o grandalhão. - É um convencido. O que é que ele julga? Lá porque foi Benito Juárez...

Esta alusão pareceu-me tão insólita que primeiro me deu vontade de rir e depois me provocou curiosidade. Olhei com atenção o garoto agredido. Não teria mais de treze anos, tinha um aspecto retintamente indígena, as faces eram como duas metades de um jarro de barro, os olhos tinham uma tristeza ancestral, passada de século para século. Vestia camisa e macacão, usava um chapéu de folhas de palmeira entrelaçadas e sandálias e até cuidava de um rebanho. Era realmente uma repetição de Benito Juárez, que até aos doze anos não falou espanhol, foi um pastor analfabeto e depois, como sabem, presidente, vencedor de Maximiliano e dos Franceses, Benfeitor das Américas e especialista em frases célebres. A sua imagem impassível está em mil praças de cem cidades mexicanas. Juárez nasceu para ser estátua. Este garoto era o original.

Ofereci-lhe uma Coca e fomos andando até ao local das filmagens.

- Porque é que eles te atacam?

- Ficaram com muita inveja por eu ter sido Juárez.

- Conta-me lá isso.

Disse-me que no ano anterior estivera ali uma equipa de televisão inglesa para fazer um filme e convidaram-no a fazer o papel de Juárez em criança, cuidando do seu rebanho. Tudo o que teve de fazer foi passar com os carneiros em frente das câmaras. Deram-lhe dez dólares. Os outros rapazes olharam-no com raiva, mas ele gastou parte do dinheiro oferecendo Cocas a todos, embora a maior parte a tivesse entregado ao pai. Os outros nem assim se acalmaram. Ganharam-lhe ódio. Isolaram-no. Ele perguntou aos ingleses quando passa o filme, posso vê-lo? Eles disseram que dali a um ano. Com certeza havia de ser anunciado nos jornais e nos guias de TV. Ele disse isso aos rapazes, mas só serviu para o tomarem como alvo das suas troças. Quando é que te vamos ver na televisão, Benito; vão fazer de ti uma estrela de cinema, Benito; isso não serão tudo tretas, Benito?

Perguntou-me se eu sabia se o filme já se tinha estreado e quando seria visto aqui em Santiago, para calar a boca a todos aqueles idiotas.

Não, disse, não sei nada, nunca ouvi falar desse filme...

O rapaz apertou os lábios e deixou a Coca-Cola a meio, pedindo licença para ir tratar do rebanho.

Regressei à zona das filmagens. O stttntman estava a fazer uma cena em frente das câmaras, na qual domava um potro selvagem. Envergava o fato do actor principal, que o olhava sentado na sua cadeira de dobrar, bebendo um bloody-mary. O realizador ordenou que dessem um tiro que enervasse o potro e então o stuntman entrou para o dominar. Procurou Diana com o olhar, sentada ao lado do actor, e o realizador interrompeu para o censurar, não tinha nada de olhar para os actores, não precisava de ter a aprovação de ninguém. Não percebia que estava sozinho numa montanha mexicana domando um potro selvagem, ainda não sabia que há uma ilusão cénica que consiste em negar a quarta parede do cenário, a que se abre para o público, para a cidade, para o mundo, para a magia, o realizador tornou-se muito eloquente e no seu olhar eu reconhecia o estudante da arte de Stanislavsky e Lee Strasberg, reduzido (ou elevado, segundo a forma como for encarado) a este posto de criador de uma arte onde a arte nunca se deve notar? Estava tudo bem, disse para mim mesmo. Era um bom compromisso. Nas mãos de um Bunuel, de um Ford, de um Hitchcock, era o melhor compromisso. Dizer tudo com uma arte que, de tão superior e intensa, não se notava, fundindo-se com a correcção da execução técnica. Uma arte semelhante ao olhar.

O stuntman levou o caso para a brincadeira, riu e disse em voz alta:

- O escritor mexicano que venha domá-lo. Os Mexicanos são considerados grandes cavaleiros.

- Não - gritei-lhe -, não sei montar. Mas tu não sabes escrever um livro.

Não me compreendeu, ou era muito estúpido, porque levou o resto do dia a fazer coisas práticas, deslocou caravanas, amarrou cabos, levantou máquinas, arreou cavalos, experimentou espingardas e contou cartuchos de salva em voz alta, tudo como se me quisesse impressionar com a sua habilidade mecânica, a mim que nem sequer sei conduzir um carro nem pregar um prego. O seu exibicionismo físico, no entanto, reconfortava-me.

Houve vezes, depois de a cabeleireira me ter contado que desde o Oregon o stuntman andava atrás de Diana, em que o imaginei dentro da caravana com ela, enquanto eu permanecia em Santiago escrevendo os meus linguados, com pouca vontade e cada vez menos ilusões. Agora, vendo os seus espalhafatos machistas, convenci-me que nunca lhe tinha tocado. Exibia-se demasiado, insistia, não estava seguro, não era um rival...

De regresso a Santiago, Diana reclinou-se no meu ombro e brincou com as minhas unhas, excitando-me. Passámos de automóvel ao lado do rapazito que fora Juárez e contei a história a Diana.

- O que lhe disseste?

- A verdade. Que não sabia de nada.

Ela emitiu um ruído gutural que sufocou imediatamente, levando a mão à boca e largando-me as unhas.

- Fizeste muito mal.

- Não compreendo.

- Como hás-de compreender? És o homem que tem sempre a mesa posta, não sabes o que é lutar, sair do buraco...

- Diana...

- Devias ter-lhe dito que sim, não percebes? Devias ter dito que o viste, que ia muito bem, que o filme é um êxito por toda a parte, que em breve virá a Santiago e calará a boca aos amigos...

- Mas isso era uma ilusão...

- O cinema é uma ilusão! - os seus olhos gritaram mais do que a sua voz.

- Recuso-me a dar falsas esperanças a esta gente. É pior. Juro-te que acaba por ser pior. A queda é desastrosa.

- Pois eu acho que se deve dar uma mão a quem dela necessita; todos precisamos que nos dêem a mão...

- Uma esmola, queres tu dizer...

- Ok, seja, uma esmola...

- Para que nunca deixem de ser pedintes. Detesto a caridade, a filantropia...

Afastou-se de mim, como se eu a queimasse; estava gelada.

- Amanhã mesmo vou procurar o garoto.

- Vais torná-lo ainda mais desgraçado, podes crer.

- Vou procurar esse filme, vou trazê-lo cá, vou mostrá-lo ao pequeno, à família, aos amigos...

- Vão odiá-lo mais do que nunca, vão invejá-lo, Diana, e não haverá sequelas, não haverá outro filme...

- Como tens pouca imaginação! És completamente desprovido de imaginação e de compaixão também...

- Para ti todas as coisas são como pastas de dentes italianas...

Voltámos as costas um ao outro, olhando atentamente uma paisagem sem interesse, inexistente, desfocada.

 

Deixaste a porta aberta.

- Enganas-te. Vê. Está bem fechada.

- Refiro-me à porta da casa de banho.

- Sim, está aberta. E então?

- Pedi-te que a mantivesses sempre fechada.

- Mas estou a entrar e a sair constantemente...

- Porquê?

- Pelo que quiseres. Porque fui subitamente atacado pela vingança de Moctezuma, porque...

- Mentes. Isso não vos acontece. É-nos reservado só a nós.

- A diarreia não conhece fronteiras nem culturas, sabias?

- És de uma espantosa vulgaridade.

- Mas que diferença te faz que a porta da casa de banho esteja aberta ou fechada?

- É um favor que te peço.

- Que encanto! Ainda bem que não mo ordenas. Afinal

estou em tua casa...

- Não disse isso. Apenas te peço que respeites...

- A tua mania?

- A minha insegurança, estúpido. Sou muito susceptível ao que está aberto ou fechado; tenho medo, ajuda-me, respeita-me...

- A nossa relação vai depender de eu fechar ou deixar aberta a porta da casa de banho?

- É uma coisa tão pequena! E, realmente, estás em minha casa.

- E tu no meu país.

- Comendo merda, é verdade.

- Podemos regressar a lowa e comer frituras engorduradas embrulhadas em celofane, hambúrgueres de carne de cão, quando quiseres...

- Se não respeitas a minha vulnerabilidade, podes ficar com a outra casa de banho e deixar esta apenas para mim...

- Também posso ir dormir para outro quarto.

- Estou a pedir-te um favor mínimo: deixa fechada a porta da casa de banho. Tenho medo das portas das casas de banho abertas, está bem?

- Mas não te importas de dormir com as cortinas da janela abertas.

- Disso gosto.

- Pois eu não. Entra um sol terrível logo de manhã cedo e não me deixa dormir.

- Empresto-te uma máscara da American Airlines.

- Para ti, que te levantas de madrugada, tudo bem. Mas eu fico com uma enxaqueca tramada.

- Vai à farmácia e compra uma aspirina.

- Porque insistes em dormir com as cortinas abertas?

- Estou à espera.

- De quem? Do Drácula?

- Há noites belíssimas em que a lua invade o quarto, transformando-o e transportando-me a um outro momento da minha vida. Talvez isso se repita.

- Se repita?

- Sim, a luz da lua dentro de um quarto, de um auditório, transforma o mundo, podes crer.

- Disseste-me para não acreditar na tua biografia.

- Acredita apenas nas imagens que eu te for oferecendo.

- Desculpa. Deixarei a porta fechada, não vá escapar um raio de lua sequer.

- Obrigada.

- Se alguma noite entrar.

- Vai entrar. A minha vida depende disso.

- Parece-me que queres dizer: a minha memória.

- Não te lembras de nenhuma noite que quisesses recuperar?

- De muitas.

- Não, não podem ser "muitas". Ou uma só ou nada.

- Tinha de pensar bem.

- Não. Imagina.

- Diz-me que acessórios me faltam, Duse.

- Não te rias.

- Duse meduse.

- Faz falta a neve.

- Aqui?

- Neve sempre. Neve durante as quatro estações do ano. Não imagino nada sem neve. Neve lá fora. Um círculo. Um teatro circular. Um auditório. Uma clarabóia. A noite. Eu deitada no palco. Os dois sozinhos. Ele em cima de mim. Procurando com a mão. Levantando-me a saia.

- Assim?

- Explorando-me com uma ternura maravilhosa que nenhum outro homem soube dar-me.

- Assim?

- Pacientemente, explorando, levantando-me a sainha, metendo a mão por dentro das minhas cuequinhas, procurando na obscuridade...

- Assim.

- Até que a lua passa e a sua luz nos inunda, a luz da lua ilumina a minha primeira noite de amor, o meu amor...

- Assim, assim...

- Assim. Por favor, já.

- Mas não há lua, lamento.

- O quê?

- Que a lua não esteja ali. Vamos ter de esperar. Ou, se quiseres, compro uma lua de papel e penduro-ta sobre a cama.

- Já te disse que não tens imaginação.

- Pronto, não chores, não é caso para isso.

- Quase. Quase conseguiste. Que pena!

- Toma.

- O que estás a fazer? O que é isso?

- Uma prenda. Em troca da pasta de dentes.

- Mataste a minha imaginação. Não tens esse direito.

- São três da manhã. Tens de levantar-te muito cedo. Queres mais alguma coisa?

- Levanta-te e fecha a porta da casa de banho, por favor.

- Boa noite.

 

As autoridades de Santiago ofereceram um jantar à equipa de filmagem. Foi preparado um pátio do edifício colonial da Câmara com mesas e cadeiras e decorado com papel recortado e lanternas chinesas. Os funcionários distribuíram-se equitativamente: o Senhor Governador com o realizador, o presidente da Câmara com o actor e a namorada, Diana e eu com o comandante da zona militar, um general de aspecto atraentemente oriental. Dizem que o general Francês Maxime Weygand era filho natural da imperatriz Carlota e de um tal coronel López, ajudante de campo de Maximiliano, que o atraiçoou duas vezes: primeiro, com a imperatriz, e depois no cerco republicano de Querétaro, onde López abriu o caminho aos juaristas para capturarem o imperador austríaco. Nessa altura, Carlota já partira para a Europa para pedir auxílio a Napoleão III, outro traidor, e ao papa Pio IX. Enlouqueceu no Vaticano e foi a primeira mulher (oficialmente) a passar a noite nos quartos pontifícios.

Enlouqueceu ou foi um pretexto para dissimular a sua gravidez e o seu parto? Nunca mais saiu do enclausuramento no seu castelo, e o governo real da Bélgica pagou os estudos em St. Cyr ao jovem cadete "Weygand", nascido em 1867 em Bruxelas, tendo chegado a ser chefe do Estado-Maior de Foch na Primeira Guerra e comandante supremo aliado quando se iniciou a Segunda. Aquele militar de rosto manchu, maçãs do rosto salientes, nariz maia, lábios finos como uma navalha encimados por um bigodinho ralo, muito bem recortado, pouco mais do que uma sombra, deve ter chamado a atenção em França. De baixa estatura, ossatura fina e musculatura firme, com o cabelo negro rapado nas têmporas, descrevo o general Weygand apenas para descrever o general Agustín Cedillo, comandante da zona militar de Santiago. Associo-o com o império imposto por Napoleão III ao México porque, para além do mais e sem dúvida por um descuido republicano, continuavam a figurar numa das varandas do pátio as armas do imperador: a águia com a serpente, mas coroada e tendo por baixo do nopal o lema: EQUIDADE NA JUSTIÇA.

Sentado na minha frente, ao lado de Diana, fitava-nos curiosamente a ambos, de soslaio, como se o seu olhar directo fosse reservado para as grandes ocasiões. Imaginei que estas talvez fossem apenas as do desafio e da morte. Não tive dúvidas: aquele homem olharia de frente para um pelotão de fuzilamento, quer para dar a ordem de fogo quer para a receber, com a mesma equanimidade. Evitaria, pelo contrário, olhar directamente qualquer pessoa na vida do dia-a-dia, porque no nosso país e entre homens, um olhar directo é um olhar de desafio e provoca uma de duas reações: a do cobarde, é baixar os olhos, agachar-se e desandar de lado, como diz a canção; a do corajoso é suster o olhar do outro, para ver quem o baixa primeiro. A situação precipita-se quando um dos dois valentões pronuncia as palavras rituais: "O que está a olhar? " A violência aumenta se for utilizada a forma familiar do tuteio: "O que estás a olhar?", e já não tem remédio se for acrescentado um insulto directo: "O que estás a olhar, boi, cabrão, filho da puta?"

Conhecedor do protocolo do olhar no México, olhei de lado o general Cedillo, tal como ele nos olhava, a Diana e a mim, e deixei vaguear o olhar pelo pátio, reparando que esta atitude se repetia de mesa para mesa. Todos evitavam fitar-se directamente nos olhos, excepto os inocentes gringos da equipa de filmagens. O governador olhava de través o comandante, e este o governador; o presidente da Câmara procurava evitar os olhares dos dois, e eu vi, num canto do pátio, um grupo de jovens em pé, e entre eles o rapaz que me tinha abordado na praça propondo-me um diálogo, o jovem de bigode zapatista e olhos lânguidos chamado Carlos Ortiz, o meu homónimo.

O comandante fixou-me nos olhos e disse, sem desviar os seus: - Conhece os estudantes de cá?

Disse-lhe que não, que só por acaso um ou outro teria lido os meus livros.

- Não há cá livrarias.

- Que pena! E que vergonha.

- É o que eu digo. Temos de trazer os livros da Cidade do México.

- Ah, constituem importações exóticas - disse com o mais amável dos meus sorrisos, mas traindo a disposição humorística e brincalhona que normalmente me provocam as conversas com as autoridades. - Talvez até subversivas.

- Não. Aqui, o que sabemos, sabemo-lo pelos jornais.

- Pois então sabem muito pouco, porque os jornais são muito maus.

- Refiro-me às pessoas comuns.

Esta forma arcaica deu-me vontade de rir e obrigou-me a pensar qual seria a origem social do comandante. A sua catalogação era um enigma. As diferenças de classe no México são tão brutais que é muito fácil classificar as pessoas em cacifos preestabelecidos: índio, camponês, operário, classe média baixa, etc. O mais interessante são as pessoas que não podem ser facilmente classificadas, pessoas que não apenas ascendem socialmente, ou arranjam um verniz de educação, como as que, quando ascendem, trazem consigo um outro requinte, secreto, antiquíssimo, herdado de sabe-se lá quantos antepassados perdidos que talvez tenham sido príncipes ou guerreiros numa das mil antiquíssimas nações do antigo México. Se assim não fosse, onde iriam buscar essas reservas de paciência, estoicismo, dignidade, discrição, que tanto contrastam com as plutocracias ruidosas, vazias, ostentatórias e cruéis do meu país? Na realidade, as duas classes do México são formadas por aqueles que se deixam seduzir por modelos ocidentais que não são os seus, porque não têm a cultura da morte e do sagrado, transformando-se numa classe média vulgar e estúpida; e por aqueles que conservam a herança espanhola e indígena da reserva aristocrática. Não há nada mais patético no México do que o indivíduo da classe média vulgar, situado entre a aristocracia índia e a burguesia ocidental, o que se curva até ao umbigo para cumprimentar, ou passa a correr sem olhar sequer, gritando: "tu, da gravatinha, tu, do chapeuzinho, tu, do bigodinho..."

O general Cedillo parecia (tão semelhante a Maxime Weygand) ter vindo dessas mesmas profundidades que viram nascer o general Joaquín Amaro, que saiu da serra yaqui de Sonora para se juntar ao Corpo do Noroeste de Álvaro Obregón (um jovem louro e de olhos azuis que, em criança, levava o leite à minha avó materna, em Álamos), com lenço vermelho na cabeça e brinco numa orelha, para se transformar, graças à sua maravilhosa mulher crioula, num jogador de pólo e numa elegantíssima figura marcial e, por mérito da sua própria inteligência, no criador do moderno exército do México, saído da revolução. Quanto a mim, o general Cedillo parecia-me vir desse mesmo molde. Faltavam-lhe as pinceladas coloridas do general Amaro, que era zarolho e falava um francês impecável. Mas em 1970, não era difícil imaginar a presença do general Cedillo nas fileiras da revolução, muito jovem quando se juntou a ela, é certo, mas também muito velho, porque herdava séculos de refinado mutismo camponês. Diana fitava-o com curiosidade, admitindo, sem mo confessar, que não o entendia. Eu, que julgava entendê-lo, controlava-me, dando ao general uma margem de mistério impenetrável, mas sentindo a inevitável tentação do escritor: troçar da figura da autoridade.

- Tiveram dificuldades com os estudantes em 68 - perguntei de repente, tentando provocá-lo.

- Como em toda a parte. Foi um movimento de descontentamento que só honra os jovens - respondeu surpreendentemente.

Senti-me desmoralizado pelo general, o que não me agradou mesmo nada.

- Foram rebeldes - disse eu - tal como o senhor na sua juventude, meu general.

- Deixarão de sê-lo - retorquiu ele, pegando na deixa que eu involuntariamente lhe dera. - Quem não é rebelde em jovem, é-o depois de velho. E o rebelde velho é ridículo.

Ia dizer uma palavra mais grosseira, mas olhou de lado para Diana e fez um ligeiro gesto de cabeça, como um mandarim que entra num pagode.

- Houve necessidade de sangue? - perguntei abruptamente.

Olhou para a mesa do governador com um lampejo de ironia no olhar.

- Aquando da primeira manifestação, houve quem me pedisse que saísse com a tropa para os reprimir. Eu apenas lhes respondi: Senhores, vai haver sangue mas não ainda. Esperemos mais um pouco.

- É preciso saber calcular o momento da repressão?

- É preciso saber quando as pessoas já o que querem é ordem e segurança, amigo. As pessoas acabam por fartar-se da desordem. O partido da estabilidade é o maioritário.

Essa alusão amistosa era já um desafio que tentava colocar-me numa situação de inferioridade perante o homem do poder. E esse poder era o do conhecimento, da informação. Ri-me interiormente: primeiro falou de livros e jornais, apenas para me dar a entender que a verdadeira informação, a que conta para agir politicamente, não se obtém nisso que os Espanhóis chamam "o negro", isto é, o impresso.

Serviram-nos alguns luxuosos pratos regionais, interrompendo o diálogo. Eram testículos de porco acompanhados de tortilhas regadas com mole e recusei o lugar-comum de observar as caras - assombro, repugnância, terror, incredulidade - dos norte-americanos. Comer ou não comer? Era esse o justificado dilema dos Gringos no México. Olhei Diana intencionalmente, incitando-a a provar o prato picante, pedindo-lhe que não sucumbisse ao lugar-comum. Já lho dissera: - Eu como seja o que for, tanto no teu país como no meu, e cá me arranjo com as doenças, lá ou cá. Vocês dão uma lamentável impressão de desnorteamento face à comida mexicana. Porque podemos nós ter duas culturas e vocês apenas uma, que esperam comodamente encontrar para onde quer que viajem?

Diana provou as tortilhas regadas com mole, e a seu lado o governador riu como se ladrasse ao ver a estrela de cinema comer o prato que era o orgulho nacional.

- Há pessoas pouco hábeis em política que se antecipam aos acontecimentos e deitam tudo a perder - disse o general, com menos discrição mas com crescente ironia, evitando fitar, mas obrigado a ouvir, os estranhos ruídos do governador. Estes podiam ser explicados pela euforia culinária ou porque naquele momento entrassem os inevitáveis mariachis tocando o seu inevitável hino, o som de La Negra. "Negrita dos meus amores, olhos de papel voando", cantarolou o simpático governador.

- Teriam evitado esses erros ocupando o poder - disse provocadoramente.

- Quem?

- Os senhores, os militares.

O general Cedillo abriu os olhos e ergueu as rugas da testa onde deveriam encontrar-se umas inexistentes sobrancelhas.

- Caramba, D. Benito Juárez teria dado duas cambalhotas no túmulo.

Lembrei-me do pequeno pastor que fizera figuração no filme inglês.

- Pretende dizer que o exército mexicano não é o exército argentino, que os senhores respeitam sempre as instituições republicanas?

- Quero dizer que somos um exército saído da revolução, um exército popular...

- Que, no entanto, dispara contra o povo, se for preciso.

- Se a autoridade institucional, os civis, nos ordenarem respondeu sem pestanejar, mas senti que o tinha ferido, que tinha tocado numa chaga aberta, que a recordação de Tlatelolco envergonhava o exército, que queria esquecer esse episódio, que não se falava disso, se bem compreendi o que Cedillo me estava a dizer: apenas recebemos ordens, a nossa honra está incólume.

- Não deveriam fazer trabalho de polícias, ou de falcões - respondi, e arrependi-me de imediato por tê-lo feito, não por mim, mas pelos meus amigos norte-americanos, por Diana. Estava a violar as minhas próprias regras, que explicara ao estudante Carlos Ortiz: Não tenho o direito de os comprometer politicamente.

Arrependi-me também porque pensei que, comparando-os com polícias e arruaceiros, estava a insultar os militares desnecessariamente, por brincadeira, por mera provocação. Mas, como sempre me acontece, quanto mais jurava que não me meteria em política, mais a política se metia em mim.

- Sei que o senhor foi muito crítico em relação ao que se passou em 68 - disse, limpando os lábios do molho do porco.

- E não disse tudo o que devia - respondi descontrolado, furioso.

- Diga à sua amiga que tenha cuidado - disse então o samurai mexicano, subitamente transformado num verdadeiro senhor da guerra, dono das vidas reunidas naquela noite em torno da sua vontade, do seu capricho, do seu mistério.

Não podia acreditar no que ouvia. Diga à sua amiga que tenha cuidado, foi isso o que o general disse? Como se quisesse dissipar quaisquer dúvidas, Cedillo fez então o que eu receava: fitou Diana. Fitou-a directamente, sem disfarces, despudoradamente, com um brilho selvagem no qual detectei, com pavor, luxúria e morte, uma natureza domesticada durante séculos apenas para melhor saltar sobre a presa, de antemão vencida, no momento oportuno em que o general assim entendesse. Queria-a, ameaçava-a, detestava-nos, e o olhar do comandante transmitia-nos naquele momento, a Diana e a mim, um intenso ódio social, uma implacável oposição de classe, um ressentimento que me atingiu em baforadas, comunicado pela intensidade do olhar, geralmente velado, do militar, aos restantes comensais, ao presidente da Câmara, ao governador, à sociedade local, aos guarda-costas que ao olharem para Cedillo, como quem recebe uma hóstia e se sente cheio do corpo e espírito do Senhor, se moveram, se agitaram, se agruparam, avançaram um pouco, levando a mão aos secretos sovacos armados, até que o descer das pálpebras, a ordem de tranquilidade, lhes foi transmitida por esses mesmos olhos habituados a mandar e a ser obedecidos sem a menor objecção, de longe, às cegas, se necessário fosse.

Foi como uma ressaca súbita: a maré retirou-se, o instante de tensão ficou-se por ali, os gorilas recomeçaram a fumar e a formar círculos maçónicos, o idiota do governador pôs-se a assobiar, o presidente da Câmara ordenou que trouxessem os cafés, mas eu senti que permanecia dentro de mim o alarme provocado pelo general; a sua ameaça não se dissipava e sube que me acompanharia, por meu mal, durante o resto do tempo que passasse em Santiago, perturbando o meu amor, o meu trabalho, a minha tranquilidade...

- Não arranjes complicações no México - disse a Diana quando me desculpei em seu nome, tinha de começar às cinco da manhã, levantámo-nos e seguimos muito lentamente para fora do pátio. - Se te meteres nelas, nunca mais te safas.

Diana fitou-me, impávida, como se a insultasse ao recomendar-lhe cautela.

No entanto, deu-me prazer olhar para um canto do pátio, ver o grupo de estudantes e aperceber-me que os distinguia perfeitamente dos guarda-costas. Não havia confusão possível. Carlos Ortiz era uma pessoa muito diferente do general e dos seus gorilas. Salvou-me a noite sabê-los diferentes, novos, talvez eles próprios salvos... A inquietação em relação a Diana, devido àquilo que disse o general, sobrepôs-se, porém, a qualquer motivo de satisfação. O que pretendeu dizer? Em que podia uma actriz de Hollywood afectar, interferir, provocar um general do exército mexicano?

- Sentiste como o ambiente estava pesado? - perguntei a Diana. -"

- Senti, mas não percebi porquê. Tu percebeste?

- Não. Também não.

- Invejam-nos porque nos amamos - e deu uma deliciosa gargalhada de mulher.

- Sim. Deve ser isso, com certeza.

Ressoavam-me no cérebro as frases do general Agustín Cedillo: - Diga à sua amiga que tenha cuidado. Quando quiser, passe às duas da tarde para almoçar comigo no Clube. É aqui mesmo, na Praça de Armas.

 

Para corresponder à oferta da pasta de dentes italiana e fazer-me perdoar pela atitude em relação ao pequeno pastor, saí numa tarde aborrecida e nublada em busca de qualquer coisa para Diana. As ruas de Santiago, à tarde, são terrivelmente solitárias; espalha-se sobre os passeios um sol plúmbeo e não abundam nesta cidade nem as árvores nem os toldos para que nos possamos abrigar. Sentia-me cansado e aborrecido depois de andar dez quarteirões. Apoiei-me a uma porta de batentes de ocote1 e, ao fazê-lo, entreabri a visão de uma caverna cheia de tesouros. Era um antiquário que, por razões provincianas que tenho dificuldade em compreender, não tinha qualquer anúncio cá fora. Também há restaurantes em Oaxaca, [livreiros em Guadalajara e bares em Guanajuato, que não anunciam o que são. A sua convicção, imagino, é que os verdadeiros clientes não precisam de publicidade para chegar até lá. Esses lugares secretos do México sentem que a afluência publicitária iria diminuir a qualidade daquilo que oferecem, nivelando o gosto pelo menor denominador comum. A verdade

 

1 Ocote - espécie de pinheiro mexicano cuja madeira é muito apreciada. (N. T. )

 

é que no México há um país secreto que não é anunciado, que apenas a tradição conhece e reconhece. Ali são geridas e se perpetuam a cozinha, as lendas, as recordações, os diálogos, tudo o que desaparece, evaporando-se, logo que é anunciado pela luz de néon.

Havia muitos móveis da viragem do século. As famílias, ao modernizarem-se, ao emigrarem da província para a capital, abandonaram estas maravilhas do fim do século, os cadeirões de vime, os espelhos de corpo inteiro, as cómodas com tampo de mármore, os lavatórios, os quadros tradicionais - caçadas, naturezas-mortas... O dono da loja aproximou-se. Era um mestiço de olhos achinesados e com uma camisa de riscas, sem colarinho nem gravata, embora o colete tivesse uma valiosa corrente de ouro a atravessá-lo. Sorri e perguntei-lhe se o negócio ia bem. "Guardo coisas", disse ele. "Impeço que se transformem em pó. " "Posso ver? " "Faça o favor."

Encontrei uma estante com cartazes e gravuras maltratadas. Não sei como tinham vindo ali parar cartazes do transatlântico francês Normandie, com as suas belíssimas linhas art deco, embora já percebesse melhor os de filmes da MGM que eu próprio vi no cinema íris do México quando era garoto: Motim a Bordo, Mãe Terra, Maria Antonieta... Os meus dedos tocaram num papel rugoso, resistente, menos danificado do que os cartazes. Farejei, senti qualquer coisa no seu tacto e puxei-o com muito cuidado daquele ninho de tintas esquecidas. Era um Posada. Uma gravura de José Guadalupe Posada, perdida naquela loja, bem conservada, com a marca de gravação de António Vanegas Arroyo, Rua de Santa Teresa, número 1, ano de 1906. Peguei-lhe como se estivesse no Albertina de Viena e tocasse numa gravura de Lucas Cranach. Não exagero na comparação. Há um parentesco, distante mas inegável, entre o pintor alemão do século XVI e este artista mexicano da província, falecido apenas em 1913. Liga-os a longa dança da morte, a galharda que implacavelmente vai entrançando corpos, dia a dia acrescentando tesouros ao pecúlio mais abundante da humanidade, a morte.

Limpo, directo, bárbaro, requintado, Posada comunicava uma notícia. Uma senhora com um vestido negro de cauda, de revólver na mão, acabava de assassinar outra senhora também com um vestido negro de cauda, também de pistola na mão. Obviamente, a primeira senhora tinha-se adiantado à segunda. Mas a assassina voltava as costas a uma varanda aberta para a luz do dia, como se a recompensa pelo seu crime fosse, apesar de tudo, a vida. Em contrapartida, a mulher assassinada era prisioneira de uma serpente cujos anéis a sufocavam, fazendo duvidar se, na verdade, tinha sido assassinada pela sua presumível rival, ou se Posada, como noutras ocasiões, com a serpente envolvendo vigorosamente o corpo da mulher e apertando-a, representava uma epiléptica. De qualquer forma, por trás dela abriam-se as fauces de um monstro devorador, de dentes afiados, que era, na realidade, a entrada de um circo. Dessa boca aberta saíam, voando, morcegos e demónios, almas penadas, súcubos e íncubos: um carnaval completo do sonho maligno, um pesadelo que transformava o assassínio de uma elegante senhora vestida de negro por outra que podia ser a sua dupla, num entrudo de doença, morte, riso, jogo, notícia, tudo misturado...

O homenzinho do colete com a corrente pediu-me tão pouco dinheiro que estive para lhe dar o dobro, como brinde. Não o fiz porque se teria sentido ofendido. Esperei até depois do jantar para entregar a prenda a Diana. Naquela noite estava cansada e adormeceu de imediato. Li durante um bocado e imitei-a. Dar-lhe-ia a oferta no dia seguinte. Acordei sobressaltado. Ela estava sentada a meu lado, tremendo.

- O que te aconteceu, Diana?

- Estava a sonhar.

Interroguei-a em silêncio e ela contou-me o seguinte: Uma mulher vestida de negro matava-a com um tiro de pistola. Diana caía mortalmente ferida, envergando também um vestido negro, e a morte, embora instantânea, era acompanhada de convulsões.

- E que mais?

- Era só isso.

- Não tinhas uma serpente enrolada?

- De que estás a falar? Devo dizer-te que o mais importante era o céu, um pedacinho de céu que se via pela janela.

- A assassina estava de costas para a varanda aberta.

- Como sabes?

O sonho de Diana inquietou-me tanto que cometi o erro de insistir, perguntando-lhe se atrás dela se abria uma horrível boca cheia de vampiros.

- Não, nem essa tal cobra me apertava. Por favor, poupa-me o Freud para Principiantes! Já te disse que não quero uma biografia com enfeites freudianos. Repito-te que quando ouvires dizer: pobre rapariga provinciana devorada pelo êxito instantâneo, não acredites. Não acredites na história da inocente maltratada pelo realizador tirânico e teutónico. Acredita apenas nas imagens de mim que tu próprio guardares da nossa relação.

- Muitas são-me dadas por ti, não tenho de as inventar.

- Então, não acredites em nada a meu respeito.

 

Decidi não satisfazer as suas manias irracionais, a porta da casa de banho sempre fechada, as cortinas das janelas sempre abertas, esperando que entrasse a luz da lua sobre uma paisagem nevada. A sua acusação magoava-me: "Não tens imaginação. " O que eu queria era que ela e eu partilhássemos a imaginação do futuro e não aquela doentia imaginação de um passado em que eu não figurava. Havia nisto orgulho, mas também receio de que a memória de Diana me dominasse e nos perdêssemos ambos numa reconstrução funerária de momentos irrecuperáveis. Parecia-me estranho encontrar-me nesta posição, eu, mexicano, supostamente sobrecarregado com excessivo passado, e ela gringa do Middle West, supostamente desprovida de memória. Seria por isso mesmo que queria inventar um baú de recordações, um verdadeiro tesouro onomatopaico, convidando-me a recriá-lo com ela? Com certeza. Mas, naquele momento, eu vivia numa ânsia de poder sobre as mulheres impulsionada pela vaidade e pelo capricho; excluía a vaidade e o capricho da mulher, eliminava-os e às vezes eliminava-as também a elas, se não obedeciam à minha vontade de eliminar os seus próprios caprichos. Uma vez fui a Taxco com uma rapariga mexicana rica que se queixou do quarto do hotel. Achava-o muito rasca. Chamei-a insuportável menina-bem, sem capacidade de adaptação, sem fantasia nem espírito de aventura, mas o que na realidade lhe estava a querer dizer era: Dá graças por eu te ter trazido comigo a este weekend. Tinha decidido que nenhuma mexicana havia de adquirir poder sobre mim por capricho, vaidade e orgulho. Adiantava-me a elas, dava-lhes a provar do seu próprio chocolate. Tinham-me ferido de mais quando era novo, eram fracas, vaidosas, fáceis de convencer quando os pais me apagavam das listas de maridos elegíveis pela simples razão de que eu não tinha dinheiro e os meus rivais tinham. Agora que elas me procuravam, pagava-lhes na mesma moeda, embora sabendo que me magoava mais a mim do que a elas. Ao negar a Diana essa parcela da sua imaginação que reclamava, estava a deixar-me levar pela inércia dos meus amores antigos. Ela não era uma jovenzinha mexicana e eu estava a cometer um grave erro com uma mulher excepcional. Quis repará-lo quanto antes, dar-lhe a entender que me curvava ao seu desejo de fechar a porta e imaginar uma noite de lua nevada. Ela estranhava a minha atitude e, por vezes, irritava-se. Implorava-me que fechasse a porta, mas atirava-me à cara, com uma violenta raiva, não a ajudar a recuperar a sua imaginação perdida. A sua segunda atitude confirmava-me uma elementar convicção hispano-árabe de que quem manda no harém não é o eunuco mas sim o sultão. Pelo contrário, Diana tornava-se terrivelmente frágil e doce quando suplicava, deixa a porta da casa de banho fechada, por favor, e então eu sentia-me culpado de não lhe fazer a vontade. Não sei se via nesta súplica uma coisa que sempre me revoltou: alguém dando-me ordens, sobretudo ordens sobre a ordem. Tive uma boa relação com o meu pai, muito boa mesmo, salvo nesse ponto. Gostava de o fazer perder a paciência com a minha falta de ordem. Era filho de uma alemã e ufanava-se da sua absoluta e estranha devoção à ordem. Os seus armários, os seus papéis, os seus horários eram um exemplo de vida ordenada. Eu amontoava papéis na minha secretária, deixava as camisas sujas atiradas para o chão e, um dia, na frente dele, calcei primeiro os sapatos e depois, com dificuldade, as calças. Aquilo horrorizou-o, aborreceu-o e, ao mesmo tempo, provocou-lhe uma ternura que eu não esperava. Viu a minha fragilidade. Aceitou-a. Perdoou-me. Nunca mais me deu uma ordem. E eu nunca mais aceitei uma ordem de ninguém. Organizei a minha vida a partir do meu trabalho, para ser independente ou, pelo menos, para escolher as minhas dependências com uma certa liberdade. E a minha falta de ordem física transformou-se num motivo de ordem mental. Na confusão dos meus papéis de trabalho, livros e cartas, eu sei sempre - e apenas eu sei - onde estão as coisas. Como se tivesse radar na cabeça, a minha mão dirige-se certeiramente para a torre de Pisa dos meus papéis e encontra de imediato, exactamente, aquilo que procura. Às vezes a torre cai, mas a referência nunca se perde. As emoções, em contrapartida, resistem a ser catalogadas na ordem ou na desordem. Desafiam-nos a encontrar a sua forma para se dissiparem logo a seguir, como o aroma de certas flores que nos parece o mais exacto, o mais real do mundo e não tem, afinal, outra forma a não ser a da rosa ou do nardo de onde emana. Sabemos, como é óbvio, que a forma da rosa não é o seu aroma; este, com efeito, é um espectro semelhante às emoções que são o mais real mas também o mais difícil de apreender do mundo. Castiguei-me mentalmente pelos meus erros na relação com uma mulher como Diana Soren, deixando-me deslizar pelo pequeno tobogán dos meus amores caseiros. Convenci-me de que ela me dava paixão e ternura e eu tinha sorte de mais para não perceber o privilégio que era amá-la, rendendo-me, se tal fosse necessário, ao seu capricho e à sua imaginação.

Acordou perturbada noutra noite. Disse-me que se imaginara entrando num salão que esperava encontrar cheio de gente. De longe, ouviam-se as conversas, os risos, a música e até o entrechocar dos copos. Mas, ao entrar no salão, não estava lá ninguém. Apenas se ouvia o roçagar de uma saia comprida, como se fosse de tafetá. Começou a gritar para que a ouvissem fora. Acordou, e eu pensei na gravura que lhe ofereci.

 

Os caprichos e sobressaltos nocturnos foram adormecendo a minha atenção. Se a ouvia mexer-se de noite, já não fazia caso. Se se levantava da cama, imaginava-a, em sonhos, correndo cortinas e fechando portas. Quando aparecia nos meus pesadelos, estava vestida de negro em frente de uma varanda e outra mulher vestida da mesma forma disparava sobre ela.

A música, no entanto, não figura neste inventário de caprichos. Tudo se passava no meio de longos silêncios pontuados pelos disparos. A voz de Diana, distante mas estranha, despertou-me uma vez cantarolando qualquer coisa com uma voz que não era a dela, como se outra voz distante, talvez morta, tivesse regressado para se apoderar da sua, aproveitando o mistério da noite para recuperar uma presença perdida no esquecimento, na morte, no desgaste do tempo.

A sensação era tão insólita e tão alarmante que concentrei toda a minha atenção, sacudindo a névoa da mente para a ouvir e ver, claramente, numa noite em que a lua cheia entrava pela janela aberta com um imenso abraço branco. Diana, sentada junto da janela, vestida com o seu babydoll branco, cantarolando uma canção que pouco a pouco fui distinguindo.

Era um êxito da jovem Tina Turner e chamava-se Remake me, ou Make me Over, Refaz-me, Faz-me de Novo.

Diana tinha qualquer coisa nas mãos, cantava para um objecto, claro, o telefone, admiti com dor e ciúme súbitos, dissipando a imagem de uma mulher perturbada pela lua cheia, uma loba desamparada uivando à deusa da noite, Ártemis, a sua Némesis, Diana, a sua homónima.

Se um lampejo de dor me disse primeiro que estava louca, a seguir uma punhalada de ciúme avisou-me, canta para alguém... Devia interromper o melodrama com mais uma furiosa cena de ciúmes? A cautela pôde mais do que a honra e a curiosidade mais do que ambas. Nem Hamlet nem Otelo, nessa noite fui um Epimeteu qualquer, mais interessado em saber o que se estava a passar do que em impedi-lo ou ignorá-lo. Se não me controlasse, não saberia o que se estava a passar... Abri a caixa de Pandora.

Fingi-me adormecido. Deixei de a ouvir. Daí a bocado senti o seu corpo quente junto do meu mas estranhamente afastado, sem procurar os meus pés com os seus, como fazia às vezes...

Até quando ia aguentar o desejo de saber com quem falava Diana às três da manhã, a quem cantava canções de Tina Turner pelo telefone? Porque a partir daquela noite, todas as noites ela falou, sentada no meio de um charco de luz da lua minguante, com uma voz distante e incompreensível a princípio (outra voz, imitada ou possuída, Diana dona de uma voz mimética, ou esta possuída por Diana, não sei) mas que todas as noites, à medida que a lua ia agonizando, se tornava mais alta, mais audível, passando da letra da canção Remake me para frases não cantadas mas ditas com a mesma voz longínqua, aveludada, que não era a voz de Diana. A sua voz normal vinha de cima, do olhar claro, quando muito dos encantadores seios macios e brancos; esta voz nocturna provinha das tripas, dos ovários, quando muito do diafragma, e dizia coisas que eu não conseguia compreender sem saber a pergunta ou a resposta que vinha do outro lado da linha, onde quer que fosse...

Lembrei-me da pasta Capitão trazida de Itália e imaginei a ligação de longa distância com qualquer ponto da Terra. Era impossível adivinhar; apenas ouvia, com crescente inquietação, a voz estranha de Diana, as palavras inexplicáveis.

- Who takes care of me? Quem cuida de mim?

Soube que não era eu. A mim não me pedia isso. Cuida de mim. Pedia-o a outro, a outros. Um amante, os pais, o marido, com quem mantinha uma relação de afecto e proximidade (três da manhã no México, meio-dia em Paris)? Mas soube também que quem falava não era ela. Disse-o claramente. Uma noite, dizia: Sou Tina, outra: Sou Aretha, outra: Sou Billie... Compreendi as alusões retrospectivamente. Billie Holliday era a mais dolorosa de todas as cantoras de jazz, a nossa voz de cada mágoa, a voz que não nos atrevemos a ouvir em nós mesmos mas que ela assume em nosso nome, como um Cristo negro, feminino, Cristo crucificado que assume todos os nossos pecados:

      

           "got the moon above me

             but no one to love me

             lover man, where can you be?"

 

Aretha Franklin era a voz feliz da alma, a grande cerimónia colectiva da redenção, um baptismo renovado, purificador

que nos despojava do nome usado, gasto, dando-nos outro

jí novo, limpo e brilhante.

 

           "A woman's only human you've got to understand"

 

e Tina Turner era a mulher ferida, abusada, vítima da sociedade, do preconceito, do machismo, a mulher jovem que de todas as formas sentia na sua subjugação a promessa de uma maturidade livre, limpa, que ia encher o mundo de alegria porque um dia ela teve conhecimento de grandes dores.

 

           "You might as well face it: you're addicted to love"

 

Entre uma canção e outra, ouvi as frases que não tinham sentido para mim porque não faziam parte de uma melodia conhecida, gravada e repetida por todos, eram apenas estrofes mutiladas de um diálogo que para mim era o monólogo de Diana à luz da lua.

- Como? Sou branca.

O que lhe terão dito? A que respondia, quem lhe fazia perguntas? O que queria dizer Diana quando dizia para o bocal: Faz-me ver como se fosse outra? Estas perguntas começaram a torturar-me, pelo seu mistério intrínseco, pelo distanciamento que criavam entre a minha amante e eu, porque a obsessão de saber o que se passava, com quem falava Diana, interrompia as minhas manhãs, impedia-me de trabalhar, mergulhava-me na depressão literária. Revia sem entusiasmo as folhas escritas e achava-as insossas, mecânicas, desprovidas de paixão e do enigma da minha possível vida diária: Diana era o meu enigma, mas transformava-me num enigma para mim próprio. Ambos éramos apenas possibilidades.

Esperava com impaciência a noite e o mistério.

Da cama, não me atrevia a interromper o diálogo secreto de Diana. Apenas provocaria uma cena, talvez até uma ruptura. Confessava-me cobarde, uma vez mais, perante a ideia de perder a minha adorada amante. Nada ganharia levantando-me da cama, dirigindo-me a ela, arrancando-lhe o auscultador do telefone, exigindo como um marido de melodrama: com quem estás a falar, com quem me enganas?

Humilhei-me a mim mesmo remexendo nas coisas de Diana para ver se descobria um nome apontado ao acaso, um número de telefone, uma carta, qualquer indício do seu misterioso interlocutor nocturno. Senti-me sujo, pequeno, desprezível, abrindo caixas, carteiras, malas, porta-moedas, metendo os dedos como obscuros vermes por entre cuecas, meias, soutiens, toda essa roupa interior indescritível, que um dia me deslumbrou e que agora manuseava como se fossem trapos velhos, lenços de papel descartáveis, sujos...

Tinha de ser ela a dar-me a oportunidade. Deu-ma uma noite. Convidou-me, tenho a certeza, a partilhar o seu mistério.

 

O velho actor estivera deprimido nessa noite, desfiando recordações e saudades de um tempo passado que acabou por abandoná-lo. Sentia-se atraiçoado pelo seu tempo. Sentia que ele próprio também atraiçoara qualquer coisa, a promessa, o optimismo dos anos do New Deal. Na sua evocação de nomes, obras e organizações das anos 30 havia, simultaneamente, nostalgia e desdém, sim, uma nostalgia desdenhosa. Dizia para si e para nós: houve tantas promessas que não se cumpriram; dizia para si e para nós: não merecíamos que se tivessem cumprido.

Nessa noite, gostaria de ter canalizado esse sentimento para um dos jogos de salão com que tentávamos disfarçar o tédio de Santiago. Como não obteve resposta, nem de Diana nem de mim (ambos absortos, ela com certeza já sabia de mim como eu sabia dela, no enigma desses telefonemas nocturnos, dissimulados, nunca referidos à luz do dia), Lew Cooper lançou-se na explicação não pedida do motivo que o levara a referir nomes perante a Comissão de Actividades Antiamericanas da Câmara dos Representantes. Foi conciso e contundente:

- Ninguém me merecia respeito. Nem os membros da Comissão, nem os membros do Partido Comunista. Tanto uns como outros me pareciam desprezíveis. Tanto uns como outros traficavam com a mentira. Porque havia de me sacrificar por uns ou por outros? Para salvar a minha honra? Morrendo de fome? Não imaginem que fui cínico. Apenas me comportei como todos eles, os fascistas de direita que me interrogavam e os fascistas de esquerda que nunca levantaram um dedo por mim. Fui selectivo, isso é verdade. Nunca indiquei o nome de ninguém que fosse fraco, de alguém que pudesse ser afectado. Fui selectivo. Apenas dei o nome daqueles que, em Moscovo, se teriam comportado para comigo como estes se comportavam em Washington. Eram dignos uns dos outros. Porque havia de ser o bode expiatório das suas mútuas canalhices?

- És capaz de avaliar o mal que podes ter feito àqueles que não querias prejudicar? - perguntei.

- Não os mencionei. Foram outros que falaram neles. Se houve vidas destruídas, não fui eu que as destruí. A única coisa que fiz foi não me destruir a mim próprio, admito.

- O mal dos Estados Unidos é que se fores denunciado como antipatriota, toda a gente acredita. Na URSS, pelo contrário, ninguém acreditaria. Vichinsky não tinha o mínimo crédito, mas McCarthy, pelo contrário, tinha.

Isto disse eu, mas Diana apressou-se a acrescentar: O meu marido disse sempre que o dilema dos liberais norte-americanos é terem um enorme sentido da injustiça e nenhum sentido da justiça. Denunciam mas não actuam.

- Eu li-o - corroborei. - E acrescenta ainda que se recusam a enfrentar as consequências dos seus actos.

Seria o momento de lhe perguntar, serenamente, se a pessoa com quem comunicava de noite era, precisamente, o marido? E se assim não fosse? Que toca de vermes - can of worms - ia destapar? Fiquei mais uma vez calado. O actor discorria sobre a emoção extraordinária das experiências cénicas do Group Theatre em Nova Iorque, a comunhão entre o público e os actores, nos anos 30, o tempo e os palcos da minha juventude...

A fronteira esbatia-se entre o palco e a plateia. As pessoas sentadas nas poltronas eram actores também e sentiam-se deslumbradas por essas actuações extraordinárias, sem se aperceberem da terrível ilusão que partilhavam, actores e espectadores. As tragédias interpretadas no teatro por aqueles iam transformar-se, triste, dolorosamente, nas tragédias vividas por estes. E os actores, como parte da sociedade, não iam escapar ao destino que antes interpretaram. Francês Farmer, loura como um trigal, acabou destruída pelo álcool, pela prostituição, pela loucura e pelo fogo. John Garfield, detentor de toda a raiva urbana acumulada, morreu fazendo amor.

- Não o invejas? - interrompeu Diana.

- J. Edgar Bromberg, Clifford Odets, Gale Sondergaard, todos perseguidos, mutilados, queimados pelos caçadores de bruxas...

- Odets foi casado com uma mulher de sublime beleza - recordei. - Luise Rainer. Uma vienense anunciada como "a Duse do nosso tempo". A Duse porquê? Porque não ela própria: Luise Rainer, a incomparável, frágil, diáfana, exaltada Luise Rainer, ferida pelo mundo porque queria ser...

- Outra - disse Diana. - Não compreendes? Queria ser outra, Duse, Bernhard, não ela própria...

- Falas por ti mesma - ousei.

- Falo por qualquer actriz - disse Diana com veemência e despeito.

- Claro, toda a actriz quer ser outra, ou não seria actriz - disse Lew, peremptório.

- Não - respondeu Diana com um olhar assustado. É mais do que isso, é negares-te a assumir os papéis que te são destinados, recusá-los, para assumir, pelo contrário, os personagens de que apenas ouvimos falar...

A propósito, repeti ali mesmo as suas palavras, personalizando-as, radicando-as nela, despojando-a da protecção inglesa do infinitivo do verbo ("ser ou não ser") ou do colectivo ("ouvimos"): - Tu negas-te a assumir os papéis que te dão. Tu interpretas os personagens de quem apenas ouviste falar...

Disse isto para não falar daquilo de que queria realmente falar: com quem falas ao telefone às três da manhã? A verdade é que a minha mente enveredava por caminhos tortuosos. O actor sentiu a tensão entre nós dois crescer acima da sua própria e continuou a evocar: - Ouvi Luise Rainer dizer uma coisa muito bonita a Clifford Odets. Disse-lhe que nascera de sete meses e andava sempre à procura dos dois meses que lhe faltavam. E acrescentou: Encontrei-os contigo. Mas ele era muito esquerdista e escreveu na sua obra: A greve geral deu-me os dois meses que me faltavam. Não o amor, mas a greve. A verdade é que andamos todos à procura dos meses que nos faltam. Dois ou nove, tanto faz. Queremos mais. Queremos ser outros. Diana tem razão... Odets sacrificou a mulher para criar um lema político.

- Diana quer disfarçar-se e disfarçar-nos - ri-me sarcástica, ofensivamente. - A ti, convidou-te para disfarçar o nosso concubinato. Embora seja um facto e toda a gente saiba, tem de disfarçá-lo, sabes, para representar, para ser outra, para representar bem na vida porque não sabe representar bem no ecrã... Lixam-me as putas que pretendem ser olhadas como donas de casa da classe média.

- Boa noite - disse Lew levantando-se abruptamente e olhando-me com desprezo.

- Não, não vás ainda embora. Não sabes que vivemos com Diana num mosteiro, do qual tu és o superior e eu o noviço? Ou será um falanstério artístico, tu o jogral, eu o escriba e Azucena a criada feia. Mas aqui ninguém fornica, ora essa! Pelo que se tem visto, toda a gente vem para aqui para se recolher, não para foder. Porco convento, ruim falanstério...

- Prefiro ouvir o rock and roll, que detesto, a ouvir estes disparates. Boa noite, Diana.

- Boa noite, Lew - disse ela, com um olhar inquieto mas resignado.

Imitei-a com voz esganiçada: - Ai, quem fui eu convidar para partilhar a minha casa...

- Vem dormir, querido. Bebeste de mais hoje.

 

Era verdade, e custou-me a conciliar o sono. Apercebi-me de tudo. Nessa noite, ela levantou-se. Ostensivamente, não se voltou para olhar e ver se eu estava a dormir. Saiu do quarto. As cortinas estavam abertas. A luz da lua caía livremente sobre o velho telefone preto. Ouvi um ligeiro click. Levantei-me e avancei até à piscina lunar. Estendi a mão para agarrar no auscultador. Detive-me, assustado. Dar-se-ia ela conta que eu sabia? Falaria nesse momento de outro lugar da casa? Tinha o direito de ouvir uma conversa privada? Vasculhara as carteiras, as gavetas, a roupa interior... Que importância podia ter uma indignidade mais?

Ergui o auscultador e escutei as duas vozes pela extensão telefónica. A dela era a voz desconhecida que aprendi a adivinhar de noite, secretamente. Uma voz vinda de uma outra geografia, de uma outra idade, para se apoderar da sua... Isto era a minha fantasia. Na realidade, não passava da voz da actriz Diana Soren interpretando um papel que nunca lhe dariam no ecrã. A voz de uma negra. Falava com um negro. Isso era evidente. Mesmo que fosse um branco imitando um negro, como ela imitava uma negra, era a voz de um negro. Quero dizer, era a voz de alguém que queria ser negro, apenas negro. Foi isso que me impressionou, dissipando as brumas etílicas da minha crescente amargura (tango, bolero... )- Compreendi agora o que tinha ouvido nas noites anteriores, no quarto, quando ela dizia coisas como "Faz-me ver como se fosse outra", ou "Como? Sou branca".

- Faz-te negra.

- Como? Sou branca.

- Arranja maneira de o fazeres.

- Estou a fazer o impossível.

- Não, Aretha. Não sejas estúpida. Não te peço para mudares a cor da pele. Tu entendes.

- Queria estar contigo - disse Diana transformada em Aretha. - Daria fosse o que fosse para estar contigo, na tua cama.

- Não podes, baby, estás metida na jaula. Eu já saí da jaula...

- Não falo da jaula, falo da cama, tu e eu...

- Liberta-nos, Aretha. Liberta o negro que não quer mulher branca porque atraiçoa a mãe. Liberta o branco que não quer negra porque atraiçoa os seus preconceitos. Liberta o negro que quer branca para vingar o pai. Liberta o branco que quer negra para a humilhar, abandonar, escravizar até no prazer. Faz tudo isso, baby, e serei teu...

- Procurarei mudar de alma, se é isso o que queres, meu amor.

- Não podes.

- Porquê? Não me...

O negro desligou mas Diana continuou a ouvir a estática do telefone. Eu desliguei apressadamente e dirigi-me para a cama com um imenso sentimento de culpa. Mas na noite seguinte, não resisti à tentação de continuar a ouvir a conversa interrompida mas eterna, noite após noite...

Disse-lhe que procuraria mudar de alma e ele disse não podes. Ela pediu que não a condenasse assim, que não fosse injusto, mas ele insistiu, não podes, no fundo acreditas que nós, negros, queremos ser brancos, e por isso tu nunca poderás ser negra. Diana Soren disse que queria justiça para todos, recordou ao negro que era contra o racismo, que tinha marchado, que se tinha manifestado, ele sabia, porque não a aceitava como a uma igual? Ele deu uma gargalhada que deve ter acordado todos os pássaros adormecidos de Los Angeles e Santiago. Queres que nos admitam nos country clubs, perguntou a Diana, nos hotéis de luxo, nos macdonalds, mas nós não queremos lá ir, queremos que nos excluam, queremos que nos façam o favor de nos dizer não entrem, vocês são diferentes, detestamo-los, cheiram mal, são feios, parecem macacos, são estúpidos, são outros. Arquejava com força e dizia que cada vez que um branco liberal e filantrópico falava contra o racismo sentia vontade de o capar e obrigá-lo a engolir os tomates.

- Não quero ser como vocês, não quero ser como tu!... Na noite seguinte disse-lhe que ela apenas se queria ver

como o outro lado para se ver como verdadeiramente era, cada um tinha o seu objectivo, ele o seu e ela o dela...

- Respeita-me. Sou actriz acima de tudo, não sou política...

O homem deu uma gargalhada.

- Então dedica-te ao que te diz respeito e não brinques com o fogo, cabrona. Vê se entendes uma coisa. Ninguém se pode ver como é se não se vir separado, divorciado do género humano, radicalmente afastado, empestado, só, com os seus...

Ela disse quase chorando que não podia, que isso que ele queria era impossível e ele insultou-a, chamou-a you cunt you fucking white cunt, e ela soltou uma espécie de suspiro de alegria...

- Terias de ser negro puro, negro de África, antes de ser trazido para cá, antes de te misturares e nem mesmo assim poderias viver à parte...

- Cala-te, Aretha, cala-te, puta...

Com um ar de triunfo, Diana disse-lhe que não havia negros puros na América, que todos descendiam também de brancos...

- Não to digo para te ofender, digo-te para pensares que partilhas qualquer coisa comigo...

- Cala-te, puta, tu não tens uma gota de sangue negro, tu não tens um filho mulato...

Ela respondeu que gostaria de cair nessa tentação, mas livremente, não para provar nada.

- Não quero usar o meu sexo para conquistar argumentos.

- Puta, cona branca...

Telefonou na noite seguinte para pedir perdão. Pretendeu explicar-se com uma humildade que me pareceu suspeita. Disse-lhe que ela queria mudar o sistema. Acrescentou depois, com uma humildade manhosa, com voz de Pequeno Sambo, como és boa, como és compassiva e como és hipócrita! Precisava de entender que o sistema não se muda, disse, recuperando pouco a pouco o seu tom normal, agressivo; o sistema destrói-se. Ela não se perturbou, não admitiu a troça, respondeu com honestidade e emoção que queria ajudá-los.

- Mas acho que não sei como...

- Começa por não me lembrares que sou mulato.

- És, agradas-me assim, quero-te assim, isso não te interessa?

Mais valia que lhe dissesse que ele também ia cair em tentação, como os seus antepassados, que ele também ia ceder perante uma teta branca, que ele também ia ter um filho mulato com ela, o que lhe parecia isso? aceitá-lo-ia honestamente? não iria por todo o lado gritando que ela não, ela não era promíscua, era uma calúnia, ela nunca teria filhos que não fossem arianos, brancos, nórdicos...

- Eu também vou insultar todos os negros - dizia agora o mulato ausente com uma voz de mar encapelado - a todos os negros que deveriam ser apenas africanos e atraiçoaram a sua descendência caindo na tentação de foder uma mulher branca e ter filhos café com leite, diz isso, puta, pensa isso, dá-me essa bofetada, por muito longe que estejas, Aretha, juro que vou sentir a tua pancada, ainda mais forte porque estás longe, fodendo com um branco, vejo-te daqui, não há distância suficiente entre a Califórnia e o México para que eu não te veja ou não cheire a tua cona loura e cuspa nela...

- Não digas nomes, não digas lugares...

- Não sejas estúpida. Sabem tudo. Gravam tudo. Estás na Lua?

- Sou Aretha. Chamo-me Aretha.

- Faz-te negra.

- Como? Sou branca.

- Hás-de arranjar maneira de o conseguir. Não te posso aceitar se o não fizeres.

- Ligo-te amanhã.

- Está bem. Fuck off, bitch...

Na noite seguinte foi o último telefonema. Ele falou muito calmamente e disse que o erro de Diana era acreditar que todos eram culpados, inclusive ela, inclusive os opressores. Assim, todos seriam inocentes. Não, apenas estavam oprimidas as crianças que não saíam do ghetto, as mães drogadas, os pais obrigados a roubar, os homens castrados pelo clã, eram esses os oprimidos, não os pobres opressores.

- Sabes como te podes fazer negra, Aretha? Já notaste que neste país só há crimes censuráveis se forem cometidos por negros? Já notaste que as vítimas negras não comovem ninguém, só as brancas? É isso que te peço, Aretha, torna-te vítima negra e verás como te atiram para a berma da estrada, como uma cadela, para que os camiões te passem por cima e te transformem num cadáver ensanguentado. Comete um crime de negra e paga-o como negra. Sê vítima como negra, para que ninguém sinta compaixão por ti.

O negro começou a rir e a chorar ao mesmo tempo. Tremia-me a mão, mas desliguei silenciosamente e voltei para a cama, como todas as noites, antes dela. Fingi que dormia. Diana contava com o meu sono pesado e com a minha dificuldade em acordar de manhã. Regressou em silêncio e deitou-se. Senti como adormecia de imediato, satisfeita, aliviada, como se nada a satisfizesse mais do que esta troca nocturna de insultos, paixões e culpas. Eu, com os olhos abertos, prisioneiro do céu baixo deste quarto subitamente congelado, descascado, desbotado, repeti várias vezes, como quem conta carneiros, que a minha paixão não tinha nenhum valor comparada com as que acabava de escutar, que ouvindo a paixão de Diana e do seu negro devia aceitar que a minha era passageira e que talvez, cavalheirescamente, devesse renunciar a esta situação, voltar as costas a Diana e regressar à minha vida na Cidade do México. Mas na vigília dessa noite, que diminuiu consideravelmente a minha própria paixão, outra certeza se foi afirmando pouco a pouco, involuntariamente, embora parte de mim ainda não a formulasse com clareza. Senti, disse para mim mesmo, deixei que se manifestasse em mim, mas também fora de mim, a ideia de que a vida civilizada respeita as leis e a vida selvagem as despreza. Não queria dizer isso, nem sequer pensá-lo, porque contradizia ou depreciava, por sua vez, a dor que pude sentir na raiva do negro amante de Diana. E, apesar disso, repugnava-me tanto a ideia de uma supremacia negra como a de uma supremacia branca. Não podia pôr-me no lugar desse interlocutor desconhecido. Não precisava de dizer a Diana que eu não era jive, que eu não era sensível aos ritmos negros da rua... Quis ser sincero e imaginar-me, por minha vez, nas sandálias desse rapaz que fez o papel de Juárez. Teria dado a mão ao pequeno Juárez, tê-lo-ia ajudado a transformar-se naquilo em que se transformou: um índio branco, um índio zapoteca com o Código de Napoleão como almofada, um advogado cartesiano, um fraco homem de leis republicano em vez de um feiticeiro, um mau advogado em vez de um bruxo em contacto com a natureza e a morte, animador do inanimado, dono das coisas que não se podem possuir, milionário da miséria? O que faria eu pelo pequeno Juárez? Nada. O negro de Diana - decidi chamar-lhe a sua Pantera - conhecia-me melhor do que eu a ele e talvez até melhor do que eu me conhecia a mim mesmo. Sabia que, quando quisesse, eu lhe podia tirar tudo a ele. Tudo. Os negros castrados, enforcados, linchados, que são os marcos da história dos Estados Unidos, são também o santoral dos negros inocentes. O Pantera decidiu deixar de ser a vítima. Deus nunca deteve o braço assassino do Abraão branco quando enterrou o punhal nas entranhas do seu filho, o Isaac negro.

 

Passei uma manhã péssima, mas à hora de almoço decidi ir dar uma volta pelo Club para ver se, como todos os dias, lá estava o general Agustín Cedillo. Como era costume antigo, bebia um cálice de conhaque antes do almoço e convidou-me a sentar. Preferi uma cerveja, porque não há no mundo cerveja melhor do que a mexicana. Isto fez-me sentir um tanto chauvinista, mas a sensação soube-me bem. Recordei-me do que Diana me dissera acerca de James Baldwin: Um negro e um branco, pelo facto de serem ambos norte-americanos, sabem mais sobre si mesmos e sobre o outro do que qualquer europeu sobre qualquer deles. Sucede o mesmo com os Mexicanos. Na outra noite, sentira o ódio de classes estalar entre o general e eu. Esta tarde, pelo contrário, a cerveja levantou-me o ânimo e fez com que me reconhecesse nele. Pedimos ambos ao mesmo tempo "dois tehuacanes", sabendo que em nenhuma outra parte do mundo entenderiam o que eram essas águas minerais. Convidou-me para almoçar e o ritual da mesa - desde pedir tortilhas com recheio de huitlacoche1, sabendo que só nós

 

1 Huitlacoche - fungo que ataca as espigas de milho e que é muito apreciado em culinária pelos Mexicanos. (N. T. )

 

mexicanos, entendemos e apreciamos comer o cancro negro do milho, até receber um cesto com tortilhas quentes, escolhê-las delicadamente, estendê-las na palma da mão aberta, barrá-las com guacamole1, juntar um piripiri pequenino e enrolar tudo; desde a referência em diminutivos e possessivos à comida (os seus feijõezinhos, os seus piripirizinhos, as suas tortilhazinhas), até às alusões secretas, familiares, ternas à saúde, ao clima, à idade (tem passado mal, está a escampar, já é muito mais velho) criou o ambiente propício para abordar o assunto que me preocupava e para me afastar, com uma cumplicidade que o general ignorava, da alienação extrema do par, Diana e o seu Pantera, que ainda me zumbia nas orelhas. Eles eram outros. O meu general, o meu general, ai! esse era meu.

- Disse na outra noite que a minha namorada devia ter cuidado. Porquê?

- Olhe, meu amigo, eu não sou desconfiado nem ando a ver coisas onde elas não existem. Mas o caso é que existem agitadores aqui e além, compreende-me, e não gostaríamos que a Senhora Soren se visse comprometida por qualquer imprudência.

- Quer referir-se a Panteras Negras lá e guerrilheiros da Liga aqui?

- Não exactamente. Quero FBI em todos os lados, é isso que quero dizer. Muito cuidado.

- O que me recomenda?

- O senhor é amigo do encarregado da pasta do Interior.

- É Mário Moya Falência, andámos juntos na escola. É um velho e querido amigo.

 

1 Guacamole - acompanhamento, que pode ser confeccionado sob a forma de pasta ou em bocados, feito com abacate, cebola, tomate, coentros e piripiri. (N. T. )

 

- Vá ter com ele à Cidade do México. Tenha cuidado. Vele pela sua namorada. Faça-lhe ver que não vale a pena.

Quando nessa noite Diana regressou, disse-lhe que iria à Cidade do México no dia seguinte. Tinha de tratar de uns negócios pendentes. Ela bem sabia que eu tinha deixado tudo em suspenso para segui-la até Santiago. Dentro de poucos dias, uma semana no máximo, estaria de regresso. Olhou-me com tristeza, procurando adivinhar a verdade, imaginando que talvez eu a tivesse adivinhado a ela mas abrindo um grande leque de possibilidades. O que saberia eu? Seria isto o fim? Ir-me-ia para sempre? Era o fim da nossa relação? Atraíam-me mais a minha mulher, a minha filha, os meus interesses na capital?

- Deixo aqui tudo, os meus livros, os meus papéis, a minha máquina de escrever...

- Leva as pastas de dentes.

Nada atenuava a tristeza dos seus olhos.

- Só uma. O resto fica tudo como penhor.

- Como penhor? Isso agrada-me. Talvez estejamos todos aqui apenas como penhor.

- Não imagines Deus como um prestamista judeu.

- Não, eu acredito em Deus. Tanto que não posso imaginar que nos pôs aqui na terra para não sermos nada.

- Amo-te, Diana - disse, e beijei-a.

 

A primeira coisa que fiz ao chegar à Cidade do México foi ligar para o meu amigo Luis Bunuel e marcar um encontro. Costumava visitá-lo uma ou duas vezes por mês, entre as quatro e as seis da tarde. A sua conversa alimentava-me e estimulava-me extraordinariamente. Bunuel não só fora testemunha do século (avançavam a par: nasceu em 1900), como um dos seus grandes criadores. É interessante que os teóricos franceses do surrealismo tenham deixado belos ensaios e outros textos escritos com uma linguagem de clareza cartesiana, até quando solicitam a escrita automática e o "desregramento dos sentidos". Os surrealistas franceses, para além da provocação, não parecem comprometer a sua cultura racionalista nem devolver-lhe o sopro de loucura que devia animar Rabelais ou Villon. São os surrealistas sem teoria, intuitivos, como Bunuel em Espanha e Max Ernst na Alemanha, que conseguem incorporar a sua cultura na sua arte, dando actualidade crítica ao passado e limites historicamente perversos à pretensão de novidade moderna. Tudo está preso a distantes memórias e solos antigos. Removendo-os, surge a verdadeira modernidade: a presença do passado, a advertência contra o orgulho do progresso. Os místicos espanhóis, a tradição picaresca, Cervantes e Goya eram os pais do surrealismo de Bunuel, assim como a imaginação nocturna, cruel e exorbitada das histórias de fadas germânicas era a mãe de Ernst.

A casa de Bunuel na Colónia del Valle não tinha características próprias. Essa era, portanto, a sua característica: não a ter. De tijolo vermelho e com dois andares, parecia-se com qualquer vivenda da classe média do mundo. A sala tinha o aspecto de um consultório de dentista e nunca vi o quarto dele; sei que gostava de olhar para paredes despidas e dormir no chão, quando muito numa cama de madeira, sem colchão nem molas. Estas penitências quadravam bem com a sua moral rígida, opressivamente burguesa e puritana para alguns, para outros asceticamente monástica. A sua casa estava quase despida de enfeites, salvo um retrato de Bunuel quando jovem feito por Dali nos anos 20. Agora - desde a Segunda Guerra - eram inimigos, mas Luis mantinha esse retrato no vestíbulo como uma homenagem emocionada à sua própria juventude e, também, à amizade perdida...

Recebia num barzinho com um balcão comprado no Puerto de Liverpool1, mas tão bem fornecido como o do Oak Bar do Plaza de Nova Iorque - o lugar onde Bunuel gostava de beber "os melhores martinis do mundo", na sua opinião. Preparava agora para mim um bunueloni, delicioso mas embriagante, e proclamava: - Bebo um litro de álcool por dia. O álcool vai dar cabo de mim.

- Mas o senhor está muito bem - disse, admirando a sua robustez aos setenta anos, os ombros direitos, o tórax bem desenvolvido e os braços fortes apesar de magros.

 

1 Puerto de Liverpool - grande armazém da Cidade do México onde se vende de tudo. (N. T. )

 

- Fui há pouco tempo ao médico. Separadamente, tenho enfisema, divertículos intestinais, colesterol elevado e uma próstata gigantesca. Separadamente, estou perfeito. Mas se se juntar tudo, caio fulminado.

Usava geralmente uma camisa desportiva sem mangas, o que acentuava a nudez da sua cabeça de camponês e filósofo. A cabeça calva e o rosto vincado pelo tempo faziam-no parecer-se com Picasso, com De Falia, com Ortega Gasset. Os espanhóis ilustres acabam parecidos com picadores reformados. Bunuel partilhava a terra natal com Goya: Aragão, que tinha fama cósmica de grandes cabeças. A verdade é que ninguém sonha mais do que os seus filhos. São sonhos fantásticos, de conciliábulos de bruxas e comunicação entre homens, animais e insectos. E sabido que as formigas são os seres vivos que melhor comunicam entre si, telepaticamente, a grandes distâncias, e creio que Luis Bunuel era um apaixonado pela entomologia porque os Aragoneses, tal como as formigas, comunicam de longe, através do espaço e também através do tempo. Mantêm-se em contacto graças aos pesadelos, às bruxas, aos tambores.

Não estava satisfeito comigo nessa tarde em que o fui visitar. Professava uma adesão sem reservas à fidelidade matrimonial e à duração dos casais. Considerava intolerável que um homem e uma mulher, tendo selado o pacto de viverem juntos, o violassem. Censurava-me abertamente o abandono de Luisa Guzmán, de quem gostava muito e que aparecera num ou dois dos seus filmes; mas, aliado a essa exaltação do laço matrimonial, Bunuel não ocultava o seu horror pelo acto sexual. Nos seus filmes era raro ver-se um corpo nu, a não ser como contraponto necessário à narração; um beijo, nunca, parecia-lhe uma "indecência"; e fornicação, nem pensar: apenas o desejo, agitando-se nos jardins da idade de ouro, o desejo para sempre insatisfeito a fim de manter o vermelho-vivo da chama da paixão.

Olhava os seus olhos verdes, tão distantes como um mar que eu nunca tivesse navegado, e via passar neles a nave de Tristão, herói secreto de Bunuel por ser o herói do amor casto, nunca consumado. A Idade Média era a verdadeira época de Bunuel, o seu tempo natural; por lá navegava o seu olhar, detendo-se acidentalmente no nosso "detestável tempo", e era necessário vê-lo e entendê-lo como um exilado desse tempo passado, um estrangeiro chegado ao meio de nós vindo do século XIII, quase despido, apenas com uma camisa desportiva sem mangas, como um monge eremita a quem não dão mais do que uns trapos para cobrir as vergonhas.

Dessa época perdida trazia Bunuel a ideia do sexo - dizia-me agora - como procedimento de animais, more bestiarum, de acordo com as palavras de Santo Agostinho. "O sexo", ia dizendo, "é uma aranha peluda, uma tarântula que devora tudo, um buraco negro do qual nunca mais sai quem a ele se entregar". Era surdo (também como Goya) e abandonara a utilização da música nos seus filmes, excepto se tivesse uma origem natural: aparelho de rádio, realejo na rua, orquestra numa estância de esqui. Antes, inundara o seu cinema com os acordes infinitamente apaixonados, doces e tempestuosos de Liebestraum, de Wagner. A música de Tristão e Isolda era a cantata do amor casto, do qual foram expulsas as tarântulas do sexo.

- Mas S. João Crisóstomo proibiu os amores castos, dizendo que só serviam para aumentar a paixão, dando mais fogo ao desejo...

- Está a ver porque é o mais excitante do mundo? Sexo sem pecado é como um ovo sem sal.

Caía sempre na sua armadilha. Bunuel preconizava a castidade para aumentar o prazer, o desejo, a sede do corpo amatório. Era leitor de Santo Agostinho e entendia que a queda apenas significa que a lei do amor foi violada. O amor tem uma lei, que é amar a Deus. Amarmo-nos a nós próprios é violar a lei de Deus e enveredar pelo caminho da perdição, cada vez mais baixo, pelo buraco negro do sexo até ao buraco final da morte. Regressar ao amor significa passar pela castidade, mas para isso precisamos de ajuda. Não o conseguimos sozinhos. Regressar a Deus vindos do inferno da carne e da sua autocomplacência é como violar a lei da gravidade. Violar e voar.

- E quem nos dá a mão? - perguntei a Bunuel.

- O poder, nunca - exclamou com paixão. - Nunca os poderosos, civis ou eclesiásticos. Apenas os humildes, os rebeldes, os marginalizados, as crianças, os apaixonados... Só esses nos dão a mão.

Afirmava isto com uma enorme paixão e pela minha memória passavam as crianças abandonadas dos seus filmes, os pares enamorados, os mendigos malditos, os sacerdotes humilhados pela sua devoção cristã, todos os que renunciavam à vaidade do mundo e apenas esperavam o abraço de um irmão. Os rebeldes também, perguntei a Bunuel, os rebeldes também nos ajudam?

- Se não obedecerem a nenhum poder - respondeu Luis à minha pergunta. - Se forem completamente gratuitos.

Nessa altura, Bunuel estava a imaginar um guião para um filme que nunca realizou, baseado na história do anarquista francês Ravachol, que começou por ser ladrão e assassino. Matou um velho adelo e um idoso eremita na província francesa, violou o túmulo de uma condessa e esfaqueou duas solteironas donas de uma oficina de ferreiro. Foram todos actos gratuitos. Mas um dia confessou ter roubado dinheiro ao eremita, assim como às solteironas ferreiras, e as jóias com que a condessa fora enterrada, para obter dinheiro para a Causa anarquista.

Os anarquistas, no entanto, não lhe deram a sua bênção até que Ravachol veio para Paris e, com um assistente chamado Simón, o Biscoito, se dedicou a fabricar bombas para colocá-las à porta das casas dos juizes. Por desgraça, o Biscoito enganou-se nas portas e quem morreu não foram os juizes mas sim uns transeuntes. Esse facto, em si mesmo - comentava Bunuel -, tornava o acto fantasticamente gratuito.

Só quando Ravachol foi executado, ali de Julho de 1892, os anarquistas o reclamaram como um dos seus, o canonizaram a posteriori e até inventaram um verbo, ravacholizar, que significa fazer voar em bocados e que deu origem a uma bela canção, Dansons la ravachole vive lê son de l'explosion

- Ao subir ao cadafalso, gritou viva o anarquismo. Era filho ilegítimo e usava carmim para disfarçar a palidez das faces.

- Aprova o seu comportamento, Luis?

- Em teoria, sim.

- O que quer dizer?

- Que o anarquismo é uma maravilhosa ideia de liberdade, não ter ninguém acima de nós, nenhum poder superior, nenhuma cadeia. Não há ideia mais maravilhosa. Não há ideia menos praticável. Mas deve manter-se a utopia das ideias, caso contrário transformamo-nos em bestas. Também a vida prática é um buraco negro que nos leva até à morte. A revolução, a anarquia, a liberdade são os prémios do pensamento. Apenas têm um trono: a nossa cabeça.

Afirmou que não havia ideia mais maravilhosa do que fazer o Louvre ir pelos ares e mandar para o caralho a humanidade e todas as suas obras. Mas apenas se isso permanecesse como ideia, se não fosse levado à prática. Porque não distinguimos com clareza entre as ideias e a prática; o que nos obriga a transformar a ideia em prática? E a mergulharmos no fracasso e no desespero? Os sonhos não se bastam a si próprios? Seria loucura pedir a cada sonho que temos à noite que se transforme em realidade durante o dia ou será castigado. Alguém conseguiu já fuzilar um sonho?

- Já - disse eu -, embora não com espingardas mas sim com lanças. O imperador azteca Moctezuma reuniu todos os que tinham sonhado com o fim do império e a chegada dos conquistadores e mandou-os matar...

Olhou o relógio. Eram sete horas. Tinha de me retirar. Não lhe interessavam os Aztecas, e o México parecia-lhe um muro protector, com a parte superior coberta de vidros partidos.

 

Estou sentado em frente da minha mulher, Luisa Guzmán, na grande sala da casa que juntos ocupámos durante dez anos no bairro empedrado de San Ángel. Temos ambos um copo de uísque na mão, olhamo-nos e pensamos algo, o mesmo ou diferente do que pensa o outro. Os copos são pesados, largos, com um fundo grosso e de reflexos flutuantes como o olho de um de polvo no fundo do mar dos Sargaços. Ela abraça o seu panda de peluche.

Olho-a, penso e digo intimamente que é preciso fazer qualquer coisa que não seja parecido com o resto das nossas vidas. A imaginação é isso. Mas olhando para ela sentada à minha frente, imaginando-a como ela me imagina, prefiro ser claro e directo. Durante todo aquele tempo, Luisa Guzmán não administrara a minha vida social - era pouco sociável - nem a minha vida financeira - era profundamente indiferente ao dinheiro. Apoiava a minha vida literária; tinha paciência para o meu tempo de escritor e de leitor. Administrava, isso sim, a minha vida sexual. Ou seja, não criava obstáculos, acreditava que a sua abstenção garantia o meu próximo regresso. Tinha sido sempre assim.

Em todo o caso, ali sentado, olhando-a como ela me olhava a mim, com toda a carga das recordações sobre os nossos ombros, soube que sempre se me adiantara em todas as ocasiões. Ela própria não pôde conceber uma fidelidade à prova do êxito que o meu primeiro livro teve. Obtive aos vinte e nove anos uma celebridade a que eu próprio não dei demasiada importância, pois se sempre soube algo foi que a literatura é uma longa aprendizagem, exposta, em todos os momentos, à imperfeição, se as coisas nos correm bem, à perfeição, se nos correm mal, e sempre ao risco, se queremos merecer aquilo que escrevemos. Não acreditei nos elogios que me fizeram, pois sabia-me muito longe de atingir as metas que imaginava, nem nos ataques que me prodigalizaram. Ouvi as opiniões dos amigos e todos me animavam. Ouvi a minha e apenas ouvi isto:

- Não te acomodes ao êxito. Não te repitas facilmente. Impõe a ti próprio desafios impossíveis. Mais vale que fracasses por visar demasiado alto do que triunfes por te acomodares por baixo. Foge da segurança. Assume o risco.

Não sei em que momento da nossa relação Luisa sentiu que eu precisava de mais, algo mais mas junto dela, que fosse o equivalente erótico do risco literário. Ou da ambição. Tínhamos rido muito quando, uma semana depois de nos termos apaixonado, um famoso escritor mexicano a foi visitar para reclamar que me tivesse preferido a mim e não a ele.

- Eu - disse - sou mais famoso, mais bonito e melhor escritor do que o teu namorado.

O assombro de Luisa e o meu deveu-se, principalmente, à imperturbável continuação da amizade do grande autor com ela e comigo. Fracassou o seu delirante pedido de mão (ou mudança de mão), mas nunca mudou o seu sorriso amável e, sempre o soubemos, a sua ambição ilimitada, tão simpática e bem fundamentada, embora ele a imaginasse triste mas segura de obter poder e glória com as letras. Luisa fez-me ter (ou confirmou-me) a certeza de que mais vale ser uma pessoa humana do que um glorioso autor. Mas, às vezes, ser pessoa implica uma crueldade maior do que a ingénua promessa da fama literária.

Agora, sentados um em frente do outro, sem qualquer necessidade que eu lhe dissesse que não me podia privar de Diana Soren, ela, sem me dizer uma palavra, abraçada ao seu panda de peluche e com o copo de uísque na mão, recriminava-me por toda a crueldade acumulada da nossa relação e atirava-me à cara a facilidade com que escondia a crueldade sob a máscara da criação literária. Os seus olhos disseram-me:

- Estás a deixar de ser uma pessoa. Enquanto o foste, respeitei as tuas paixonetas. Acabei por compreender que não te respeitas a ti mesmo. Não respeitas as mulheres com quem vais para a cama. Usa-las como pretexto literário. Nego-me a continuar a sê-lo.

- A culpa é tua. Devias ter posto um ultimato desde a primeira vez que comecei a andar com outra.

- Terno e malvado. Como é possível?

- Há anos que aceitas as minhas infidelidades.

- Perdão. Já não posso competir com tantos esforços da imaginação e da fantasia de todo o género feminino...

- Tens razão: para mantermos o nosso amor, acabamos por matá-lo...

Atirou-me violentamente com o copo, pesado como um cinzeiro, apanhando-me no lábio inferior. Olhei com melancolia o melancólico panda, levantei-me acariciando o lábio dorido e saí para sempre.

 

Não encontrei Mário Moya. Estava numa conferência sobre população em Bucareste e só regressaria daí a duas semanas. Encolhi os ombros e achei que o assunto podia esperar. Era mais ou menos o tempo que faltava para que terminassem as filmagens em Santiago e todos nós regressássemos a... Para onde iria Diana, para onde iria eu? Continuaríamos juntos? Duvidava. Em Paris, esperava-a o marido. Em Los Angeles, um pantera negra com quem falava ao telefone às três da manhã. Em Jeffersontown, um namorado idealizado, perdido, um Tristão do Middle West que agora talvez fosse um farmacêutico barrigudo, inchado de cerveja Miller Light e fanático dos Chicago Cubs.

Não tinha ilusões. Não partiria comigo rumo a um idílico campus norte-americano coberto de hera. O que eu não queria é que fosse o que fosse interrompesse o tempo actual, o tempo juntos em Santiago e depois, com sorte, uns dias na Cidade do México, um encontro em Paris... Gostava de imaginar um Verão juntos na ilha que ela e eu adorávamos, Maiorca, que explorara há pouco tempo com uma amiga maravilhosa, a escritora Hélène Cixous, e onde Diana e Ivan tinham uma casa... Tudo, dizia eu para mim mesmo no voo de regresso a Durango, tudo menos perdê-la estas duas semanas que faltavam. Uma ideia bailava constantemente na minha cabeça, excluindo qualquer outra. Eu era o seu amante porque não deixavam entrar no México o seu verdadeiro lover, o líder dos Panteras Negras. Devia antecipar-me a um desaire, antecipar a ruptura, ser eu a tomar a iniciativa de romper com ela, antes que ela, mais do que romper, abandonasse, deixasse, esquecesse a nossa relação?

Telefonei-lhe algumas vezes da Cidade do México. Tenho dificuldade em comunicar pelo telefone. A invisibilidade do interlocutor enche-me de impaciência e angústia. Não posso cotejar as palavras com a expressão facial. Não posso saber se quem me fala está só ou acompanhado, vestido ou nu, maquiLhado ou de cara lavada. A mentira é o preço do progresso. Quanto mais avançam os progressos tecnológicos, mais compensamos o nosso atraso moral ou imaginativo com a arma disponível: a mentira. Acabo de sair do duche. Estou nua. Vou sair. Desculpa. Estou só. Estou só. Estou só.

- Amo-te, Diana.

- As palavras são muito bonitas e não custam caro.

- Acho-te esquisita.

- E, no entanto, não estás aqui. Ora, ora!

- Regresso na sexta-feira. Passaremos juntos o fim-de-semana.

- Espero-te com impaciência. Adeus.

Não tive tempo de lhe dizer que receava por ela, que tomasse cuidado consigo, que fora por causa disso que viera à Cidade do México, para tentar saber qualquer coisa e protegê-la. Mas as minhas relações com o governo de Díaz Ordaz eram péssimas; só tinha lá um amigo, o meu companheiro de estudo Mário Moya, subsecretário de Estado do Interior, e ele não estava.

- Vim por tua causa, Diana, estou aqui por ti - gostaria de ter-lhe gritado, mas estava pouco seguro do assunto, não havia pressa, pensei. Preocupava-me mais, agora, saber que cara teria ela quando falava comigo com aquela secura. Seria esse o próximo avanço tecnológico: o telefone com ecrã para podermos olhar para a cara de quem nos fala? Que atroz violação da intimidade, disse para mim mesmo, que infinita complicação: estar sempre arranjado, penteado, maquilhado, vestido (ou despido, conforme a versão). Ou despenteando-nos rapidamente para justificar a nossa sonolência: "Acordaste-me, querido, estava a dormir, sozinha. " E, ao lado, um barrigudo de bigode, com um macacão vestido, vendo futebol pela televisão e engolindo uma caneca de cerveja.

Começou a perseguir-me a ideia de Diana como um objecto de arte que era necessário destruir para possuir. No sexo como na arte, o prazer interrompido é um veneno, cria igualmente uma ambiguidade que é o líquido amniótico da paixão e da arte. Poderia sair do êxtase à custa de destruir o objecto que o provocava, Diana? Devia, por outras palavras, adiantar-me a ela? Devia garantir desde já a continuidade possível do prazer na sua única atmosfera, a da ambiguidade, a de um pode ser ou não ser, nada se resolveu, tudo permaneceu no maravilhoso reino do possível, razão pela qual as alternativas de um relato ou de uma paixão se multiplicam e abrem em leque, comprometendo, ao mesmo tempo que a enriquecem, a nossa liberdade?

Aterrámos em Santiago às cinco da tarde sem eu conseguir responder às minhas próprias perguntas.

O trajecto do aeroporto até casa de Diana pareceu-me desta vez particularmente longo. A monotonia da cidade, à medida que iam fechando os estabelecimentos e as grades de protecção iam caindo como estrondosas cataratas de metal, somente era quebrada pelo lento baloiçar das árvores e pela sombra crescente da montanha que se apoderava da cidade. Vi guajolotesl inquietos e sebes de cactos gravados, cobertas com os signos dos amantes, nomes, Agapito loves Cordelia, corações entrelaçados, feridas mortais que deixavam na pele verde uma cicatriz parda.

- O que se passa? - perguntei ao motorista do táxi. Porque vamos tão devagar?

- Há uma manifestação - respondeu. - Mais um protesto dos estudantes. Porque é que não se dedicam a estudar? Cambada de vadios!

A praça central cheirava a mostarda. Cobria-a uma nuvem vaga e esparsa. As pessoas saíam correndo pelas ruas em volta, tossindo, tapando o nariz com lenços, camisolas, jornais. Imaginei o governador ladrando por trás de uma janela. Vi o jovem líder Carlos Ortiz passar correndo, com sangue a escorrer da cabeça.

- Feche as janelas, senhor, e agarre-se bem.

Deu uma volta em e escapou para o bairro onde ficava a minha casa provisória, os meus papéis e os meus livros. Senti que a paisagem de Santiago se desmoronava, que os seus habitantes perdiam velozmente as suas tendências políticas...

 

1 Guajolote - espécie de peru mexicano. (N. T. )

 

A cara de Azucena provocou-me um arrepio. Nunca demonstrava nada. Eram-me desconhecidas as suas emoções. Conversávamos às vezes cordialmente, como já referi. Unia-nos a língua. Determinados versos que todos aprendemos nas escolas de língua espanhola. "Ontem partiu. Amanhã ainda não chegou."

Respeitava-a, como já disse também, pela sua dignidade, o seu orgulho de fazer bem o que lhe competia fazer bem neste mundo. No pequeno mundo de Hollywood transplantado para Santiago, era a única, afinal, que não tinha pena de si própria nem vivia devorada pela ânsia de ascensão. Era superior à patroa. Não queria ser outra. Era outra. Era ela.

Recebeu-me desta vez com a casa meio às escuras, estranhamente silenciosa, com uma expressão diferente da habitual, na qual levei algum tempo até distinguir uma atitude de simpatia, de afecto, de solidariedade para com a outra pessoa hispânica da casa. Por um instante, senti-me perfeitamente melodramático, como o poeta Rodolfo perguntando aos seus companheiros de boémia porque andam de um lado para outro em silêncio, porque choram. Mimi morreu. Sem querer, Azucena dissimulava com certeza qualquer coisa parecida com um anúncio fúnebre.

- Diana? - perguntei, como teria feito em voz alta, mas desta vez apenas num sussurro, como se receasse interromper uma novena a Nossa Senhora.

- Espera aqui por ela. Vem já - disse Azucena, convidando-me a esperar na sala.

Caía a noite. Lew Cooper não se encontrava no bar, como era hábito, preparando um cocktail, bem merecido pelo duro trabalho de exteriores. A porta do quarto estava fechada. Mas tinha lá a minha roupa e na casa de banho as minhas pastas de dentes italianas. Dirigi-me, impaciente, aborrecido, para o canto da galeria onde estavam a minha máquina de escrever, os meus papéis e livros. Alguém tinha arrumado aquilo. Encontrei tudo empilhado em montinhos perfeitamente simétricos.

Voltei-me para ir procurar Azucena e reclamar por esta violação da minha criatividade. Em vez dela, ali estava, dividida pela luz da galeria ao cair da noite, metade luz, metade sombra, perfeitamente dividida em duas, como um quadro feminino de Ingres, a minha amada, Diana Soren. Avançou na minha direcção, separada de si mesma pela luz, sem ceder um milímetro da sua pessoa luminosa à sua pessoa sombria, nem vice-versa. Era tal o contraste que até o seu cabelo louro, curto, parecia branco do lado da zona envidraçada e negro do lado da parede. O encanto era quebrado pelo vestuário. Com uma bata acolchoada cor-de-rosa, abotoada até ao pescoço, completamente doméstica, e umas chinelas felpudas, Diana Soren um cogumelo invertido, uma vassourinha ambulante...

Não foi isto - nem a magia da sua aparição entre a luz e a sombra, nem o ridículo com que classifiquei, instintivamente, o seu aspecto - o que me impediu de me aproximar, tomá-la nos braços, abraçá-la e beijá-la como sempre. Não chegou até junto de mim. Estacou e sentou-se num cadeirão de vime, o objecto mais imperial desta casa despida de pretensões, fitando-me intensamente. Sentei-me na minha cadeira de palha, em frente da mesa de trabalho, e cruzei os braços. Talvez Diana tivesse lido o meu pensamento. Talvez imaginasse, como eu, como iria terminar o nosso amor e o que se lhe iria seguir. Pensava comunicar-lhe, antes de mais nada, a inutilidade da minha viagem à Cidade do México. Não consegui averiguar nada da suposta ameaça do FBI insinuada pelo general Cedillo. Ia dizer-lho, mas ela antecipou-se, precipitada, brutal.

- Perdoa-me. Tenho outro amante.

Dominei a minha perturbação, dominei a minha raiva, dominei a minha curiosidade...

- Nos Estados Unidos? - perguntei sem me atrever a mencionar as minhas indiscrições telefónicas.

- Está outro homem a viver nesta casa.

- Quem? - perguntei sem me atrever, agora, a pensar no Regresso de Clint Eastwood e dizendo para mim mesmo que, pelo menos, a um Pantera Negra não deixariam passar na fronteira. O stuntman? Ri-me interiormente por pensar nisso sequer. Ri-me ainda mais com a possibilidade extrema do velho Lew Cooper dormindo na minha cama, ao lado de Diana.

- Carlos Ortiz.

- Carlos Ortiz?

- O estudante. Já o viste aqui na cidade. Diz que te conhece, te admira e já falou contigo.

- Olha se me odiasse e se recusasse a falar-me... - tentei brincar.

- Desculpa.

- Não se trata de desculpar. Trata-se de falar.

- Não gosto de dar explicações.

Pus-me em pé, irritado. - Trata-se de falar.

- Se queres...

- Porquê, Diana? Julguei que éramos muito felizes.

- Também sabíamos que iria acabar.

- Mas não assim, de repente, antes do tempo, antes de terminarem as filmagens e com um rapaz...

- Mais novo do que eu?

- Não, isso não tem importância.

- Então o que é que tem importância? Ferir-te a ti, humilhar-te, achas que isso me agrada?

- Não cumprir o nosso amor, não o esgotar, é isso...

- Não creio que nos faltasse já nada.

- Diana, eu ofereci-te tudo o que pude, continuarmos juntos se quisesses, irmos juntos para uma universidade disse estupidamente, ofuscado por uma vaga sensação de cegueira sentimental repentina.

Teve razão ao responder-me brutalmente, sem sentimentalismo: - Não sejas ingénuo. Eu, passar a vida numa terrinha de merda, coberta de hera mas feita de nada? Estás louco.

- Porquê, porque vens a fugir de outra terrinha, porque não queres nunca dar a ti mesma a oportunidade, a chance, de regressar à tua casa e voltares a sair de lá, renovada?

- Querido, estás a delirar. Eu sentia-me sufocada naquela terra. Teria saído de lá, fosse como fosse.

Interroguei-a com ternura. Creio que sentiu isso, porque acrescentou uma coisa que me deu prazer; disse que não a interpretasse mal, em Jeffersontown sentia-se sufocada não apenas pela pequenez da terra, mas pela imensidão da natureza que a rodeava. Era um mundo impossível de captar.

E no mundo que escolheste, perguntei, sentes-te protegida? Nunca saberás quem és, Diana? Tens de estar protegida por outros, pela seita, pelas pessoas bonitas, o jet set, os panteras negras, os revolucionários, seja quem for desde que haja barulho, choro, alegria, bulício e domínio, é isso que queres, é isso o que eu não te dou, sentado num canto escrevendo folhas e folhas?

Estava a ser ridículo. Não me conseguia controlar. Caía em tudo aquilo que detestava. Merecia a resposta de Diana.

- Eu sei quem sou.

- Não sabes! - gritei-lhe. - É esse o teu problema. Ouvi-te falar pelo telefone com o negro. Queres ser outra, queres assimilar-te ao sofrimento dos outros para seres outra. Julgas que ninguém sofre mais do que um negro. Quando vais descobrir, estúpida, que o sofrimento é universal, inclusivamente branco?

- Carlos ensinou-me isso.

- Carlos? - disse como um eco, não só da minha própria voz, mas da minha própria alma, incapaz de dizer a Diana que tinha acabado de vê-lo, ferido, numa manifestação no centro da cidade.

- Tinha-te lido - respondeu Diana, friamente.

- Ele? Já mo disseste.

- Não, eu. Acreditei que fosses um verdadeiro revolucionário. Alguém que põe os seus actos onde põe as palavras.

Não é verdade. Escreves mas não fazes. És como os gringos

liberais.

- Estás louca. Não compreendes nada. A criação é um

acto, o único acto. Não precisas de morrer para imaginar a morte. Não precisas de ser preso para descrever o que é uma prisão. E não serves de nada fuzilado, assassinado. Já não escreves mais livros.

- O Che foi em busca da morte.

- Era um mártir, um herói. Um escritor é algo muito mais modesto, Diana - continuava a falar, exasperado, mas agora talvez já dominando as minhas razões.

- Carlos é capaz de subir a uma montanha para lutar. Tu, não.

- E o que tem isso a ver contigo? Vais segui-lo? Vais ser a sua companheira de soldado?

- Não. A sua base é aqui. É aqui que luta. Nunca me seguirá.

- É isso que é cómodo para ti, não é verdade? Saber que esse pobre rapaz nunca te seguirá. A menos que deixe de ser guerrilheiro e se transforme em chulo. Pobre Diana! Queres ser outra? Queres ser a parteira da revolução universal? Queres o papel de Joana d'Arc casada com Malcolm X? Deixa-me dizer-te uma coisa. Procura ser uma boa actriz. É esse o teu problema, querida. És uma actriz medíocre, fraca, e queres compensar a tua mediocridade com todas as fúrias da tua pessoa quotidiana. Porque não levas a sério os papéis que tens de interpretar no cinema? Porque os recusas e assumes os personagens de quem apenas ouviste falar?

- Não compreendes nada. A ti já te tive.

- Um mês, três semanas e quatro dias...

- Não, já te conheço, já sei quem és, devia tê-lo sabido desde o primeiro momento, deixei-me arrastar pela ideia de que eras diferente; acção e pensamento, como Malraux...

- Pelo amor de Deus, poupa-me a comparações odiosas...

- Ingénuo! Apenas me ofereces decência. Ingénuo. Decente. E culto!

- Como vês, só defeitos...

- Não, admiro a tua cultura. De verdade. Não há dúvida que tens uma sólida base. Muito sólida. Clássica, professor, clássica.

- Obrigado.

- Em contrapartida, este rapaz... - disse, com uma ferocidade que não lhe conhecia, uma selvajaria alucinante, como se finalmente me mostrasse o lado oculto da Lua. - Este rapaz tem tudo mal, cheira mal, tem os dentes podres, precisa de ir a um dentista, não sabe comer, não é nada requintado, é rude, receio que me bata, e é por tudo isso que me agrada, por tudo isso que é irresistível; agora preciso de um homem de quem não goste, um homem que me devolva ao gutter, ao esgoto, ao escoadouro, que me faça sentir um nada, que me obrigue a lutar de novo, a sair do fundo, a sentir que não tenho nada, que preciso de conquistar tudo, que me faça correr a adrenalina...

Corri a abraçá-la. Não resisti mais. Estava a chorar e abraçou-se com força a mim, mas não parou de falar, entre soluços, estás louco, não procuro um negro, ou um guerrilheiro, procuro alguém que não seja como tu, detesto as pessoas como tu, decentes e cultas, não quero um autor famoso, decente, refinado, ocidental por muito mexicano que se julgue, europeu como o meu marido, és o meu marido de novo, a repetição de Ivan Gravet, outra vez a mesma coisa, aborrece-me, aborrece-me, aborrece-me, pelo menos o meu marido sempre lutou numa guerra, sempre fugiu da Rússia, perseguido por ser judeu, por ser criança, por ser pobre, tu fugiste de quê? o que te ameaçou? sempre tiveste a mesa posta e correste sempre atrás de mim, procurando alcançar-me, alcançar a minha imaginação... És o meu marido de regresso, mas Ivan Gravet é mais famoso, mais europeu, mais culto, mais refinado, melhor escritor do que tu!

Aspirou ar e engoliu as suas próprias lágrimas. - Não tolero um homem como tu.

Afastou-se. Voltou-me as costas. Avançou até ao bar. Segui-a. Preparou um highball com mãos trémulas. Falou de costas para mim.

- Desculpa. Não te queria ferir.

- É melhor beberes. Não te preocupes - respondi, pousando-lhe a mão sobre o ombro; erro.

- Não. Não me toques.

- Vou sentir a tua falta. Vou chorar por ti.

- Eu não. - Ofereceu-me o seu olhar final, a fusão de todos os seus olhares, os olhos alegres, cansados, iluminados, vazios, fugazes, órfãos, pensativos, altruístas, conventuais, prostibulários, felizes, desgraçados, mortos.

Pestanejou repetidas vezes, de uma maneira estranha, onírica, quase de louca, e disse: - Não chores por mim. Daqui a dez anos a tua gamine será uma velha com mais de quarenta anos. O que vais fazer com um cavalo tordo de ancas largas e pernas curtas? Dá graças a Deus por te safares a tempo. Conta as tuas bênçãos e esquece as tuas perdas. Adeus. Desolé.

- Desolé.

Azucena ajudou-me a guardar as minhas coisas. Tirou a minha roupa do quarto. Perguntei-lhe com o olhar se o estudante estava lá. Entendíamo-nos sem falar. Negou com a cabeça. Não era preciso ajudar-me, mas fazia-o de boa vontade, para que não me sentisse só, ou corrido, ou enganado, ou mal visto por ela, em última instância. Ela também sabia que eu não precisava da sua ajuda; fiz-lhe sentir que lhe estava grato. Trocámos poucas palavras enquanto guardávamos nas minhas duas malas de documentos os livros, os papéis, as canetas e eu tapava cuidadosamente a máquina de escrever.

- Ela também foi uma debutante. Gosta de ajudar os que começam.

Ri-me. - A parteira da revolução, já lhe disse.

- Vive muito angustiada. Leva tudo a sério. Sente-se perseguida.

- E creio que tem razão. Às vezes julgava que era apenas uma paranóia, mas começo a acreditar que tem razão. O rapaz só lhe vai complicar a vida.

- Diana gosta do risco. Tu não lho proporcionavas.

- Já mo disse. Diz-lhe que tenha cuidado consigo. Não pude fazer nada por ela na Cidade do México. Oxalá goze muito o seu novo amor.

Azucena suspirou. - Uma mulher bela não procura beleza no seu companheiro.

Pareceu-me um comentário cruel dito por ela. Imaginei os papéis trocados. Azucena e um homem bonito. A equação era injusta. Uma vez mais, quem ganhava era o homem. Nunca a mulher.

No corredor cruzei-me com Lew Cooper. Não me disse nada. Apenas resmungou.

Azucena saiu à rua correndo e entregou-me uma coisa.

- Esqueceste-te disto.

Era uma embalagem de marmelada cheia de pêlos.

 

Os ciúmes matam o amor mas não o desejo. É este o verdadeiro castigo da paixão atraiçoada. Odeias a mulher que quebrou o pacto de amor, mas continuas a desejá-la, porque a sua traição foi a prova da sua própria paixão. Foi o que aconteceu com Diana. Não terminámos na indiferença. Teve a inteligência de me insultar, de me humilhar, de me agredir selvaticamente para que eu não a esquecesse resignadamente; para que eu continuasse a desejá-la com esse nome pervertido da vontade erótica que são os ciúmes.

Vi pela última vez a casa de Santiago na penumbra de um entardecer do mês de Fevereiro, transformada numa fortaleza inexpugnável. Essa casa onde eu entrava e saía à vontade, onde escrevera quotidianamente, era-me agora estranha, repugnante. Queria cercá-la, como os Romanos à Numância ibérica, queimá-la e assassiná-la como as legiões fizeram à Massadah judia. Foi com esse desejo que a olhei à despedida, lhe dei a volta com os últimos passos, como se em vez de penetrar Diana pudesse penetrar a casa que partilhámos.

O destino tinha-me dado essa mulher. Outro homem não ma podia tirar. Muito menos alguém que eu considerava um correligionário, um estudante de esquerda, um traidor...

O cheiro fétido do gás lacrimogéneo chegava até ali vindo do centro da cidade e desejei mesmo, naquele instante, que o exército capturasse o meu rival, que o grande general Cedillo em pessoa lhe cortasse os tomates e, se escapasse, que eu o encontrasse um dia e tivesse a coragem de o matar por minhas mãos. No entanto, uma sorridente ironia se apoderou de mim quando tive esse pensamento:

- Não tires esse gosto ao governo.

Norman Mailer diz que os ciúmes são uma galeria de retratos em que o ciumento é o guarda do museu. Repeti a imagem de todos e cada um dos meus momentos com Diana, mas agora com o jovem estudante no meu lugar, nas minhas posições, gozando o que fora meu, com a boca cheia do sabor a pêssego, gozando a sabedoria sem limites das carícias de Diana, transformado no espectador único do lago onde a Caçadora se reflecte...

Os ciúmes são como uma vida dentro da nossa vida. Podemos tomar um avião e regressar à capital, telefonar aos amigos, começar de novo a escrever, mas estamos constantemente vivendo outra vida, à parte mas dentro de nós mesmos, com as suas próprias leis. Essa vida dentro da nossa manifesta-se fisicamente. Como diz a expressão popular, faz circo na nossa barriga. Acordamos com o Atayde1 à solta no ventre, é verdade. Uma maré selvagem, amarga, biliosa, agita-se, sobe e desce desde o coração às tripas e das tripas ao sexo tolhido, inútil, transformado em ferido de guerra. Apetece pendurar uma medalha no pobre pénis. E, a seguir, uma coroa fúnebre. Mas a maré não comemora nada nem se detém por muito tempo em

 

Atayde - referência ao Circo Atayde, um dos mais antigos e célebres do México. (N. T. )

 

qualquer parte do corpo. Percorre-o como um líquido venenoso e o seu objectivo não é destruir o corpo, mas sim assediá-lo e espicaçá-lo para que os seus piores fluidos ascendam à cabeça, se fixem, verdes e duros como escamas de serpente, na nossa língua, na nossa respiração, no nosso olhar...

Por um momento, a ruptura fez-me sentir expulso da vida, tal como se sente a morte de um ente querido. Só que essa dor, podemos manifestá-la; a dor dos ciúmes devemos escondê-la, obscura e envenenada, para evitar a compaixão ou o ridículo. O ciúme evidenciado expõe-nos ao riso dos outros. É como voltar à adolescência, essa infausta idade na qual tudo o que fazemos publicamente - andar, falar, olhar - pode ser alvo do riso dos outros. A adolescência e o ciúme separam-nos da vida, impedem-nos de a viver. O curioso desta minha experiência era que me sentia separado da vida, não pelo receio adolescente do ridículo, mas sim pela tristeza fatal da velhice. Diana fez-me sentir velho pela primeira vez. Tinha completado quarenta anos. O meu rival não teria mais de vinte e quatro. Diana, trinta e dois. Ri-me. Uma vez que quis entrar numa discoteca em Itália com uma rapariga norte-americana de dezoito anos, o guarda impediu-me a entrada dizendo: - É só para jovens.

- Sou o pai dela - respondi, impassível.

Tinha então trinta e cinco anos. Agora, quantas portas não se fechariam, umas atrás das outras? Ela afirmou que o fazia para meu bem. Dentro de dez anos seria uma rabuda com celulite. Lamentei não lhe ter dito que não, que podia ser diferente, era isso que ela queria, se se entregasse à sua profissão e deixasse de procurar fora da representação os papéis que dessem sentido à sua vida... Pensando nisto, quis convencer-me da minha própria superioridade. Bastava-me trabalhar com seriedade nas minhas coisas para não envelhecer, nem em dez anos nem em cem. Era este o poder da literatura. Mas a condição é partilhar esse poder com os outros. E eu, já antes o disse, sentia uma perda dessa força inicial, parecendo-me com Diana nesse aspecto. A minha pulsão literária, como a da sua Santa Joana, tinha-se desgastado. O esplendor do início desvanecia-se, fatalmente. Como reanimar a chama?

Regressei de Santiago com um punhado de papéis que não serviam para nada. Bastou-me lê-los friamente, como contraponto à minha convulsão interior, ardente, para saber que não prestavam- De qualquer forma, ia publicá-los. Tinham uma finalidade política. Embora, se ninguém os lesse, que objectivo político cumpririam? Enganava-me voluntariamente a mim mesrno. Precisava de mentir como criador para sobreviver como homem. Mas no centro do meu agitado desejo brilhava uma convicção cada dia mais forte. O outro do escritor não está a-li, real e verdadeiro, esperando o que espera que lhe dêem. O leitor deve ser inventado pelo autor, imaginado para que leia o que o autor precisa de escrever, não aquilo que dele se espera. Onde está esse leitor? Escondido? É preciso procurá-lo. Ainda por nascer? Há que esperar pacientemente que nasça. Escritor, atira a garrafa ao mar, tem confiança, não atraiçoes a tua própria palavra, mesmo que hoje ninguém a leia, espera, deseja, deseja mesmo que não gostem de ti...

Nunca poderia dizer isto a Diana Soren. Soaria como uma coisa melodramática, inútil: - Há grandes papéis para as actrizes maduras.

Seria inútil porque, nesta altura da sua vida, Diana Soren não saberia o que fazer com o seu próprio êxito.

Apercebi-me disso e amei-a ainda mais do que nunca. Amei-a de novo. Pensar nisto salvou-me do meu próprio ciúme, do meu viver interrompido, da minha ruptura e expulsão da vida, da minha vida dentro da minha vida mas separado da minha vida: isto é, dos meus ciúmes. Vi-a, com a pequena distanciação adquirida, como uma mulher que sabia finalmenmte quem era. Uma estrangeira em todos os lados, condenada à solidão e ao exílio. Uma activista política, condenada desta vez ao desespero, à irrelevância e, finalmente, outra vez à solidão. Uma actriz madura, condenada à decadência, ao esquecimento e, para sempre, outra vez à solidão. A história de Diana Soren era a história das suas solidões. Diana era uma caçadora solitária.

Ela e eu partilharíamos isso? Não podia senão formular uma resposta. Eu teria dado tudo por ela, só porque ela não teria dado nada por mim.

Aceitar esta verdade era afastar-me para sempre de Diana, renunciar a toda a ilusão romântica de nos tornarmos a ver ou passarmos uma temporada juntos... Talvez apenas nos restasse um traço de união. Podíamos contar um romance a todos os que um dia quiseram libertar-se de uma situação amorosa sem magoar ninguém. É impossível.

Pensei em Luisa. Devoravam-me os ciúmes de Diana ao mesmo tempo que o meu amor por Diana morria. Quis dar esse amor a Luisa. Com ela não sentia quaisquer ciúmes, podia ser a receptora de um amor que eu já não queria dissipar no meu jogo de espelhos, na minha ansiedade de combinação... Uma vez mais me enganava a mim mesmo.

É verdade que, uma vez mais também, ela aceitou as regras do nosso pacto. Não havia nisso debilidade ou submissão, mas sim uma força activa. O nosso pacto sobrevivia a todos os acidentes passageiros. Tínhamos uma casa, uma filha, um grupo de amigos, tudo aquilo que torna possível uma vida diária que com Diana era impossível.

Estava a enganar-me a mim próprio. Viriam outras tentações irresistíveis. As actrizes estrangeiras aborrecem-se quando estão fora a filmar. Querem companhia mas não perigo. Trocam nomes entre si: na índia, Fulano; no Japão, Sicrano; no México, Beltrano. Cavalheiros que as levam a passear, são correctos, bem-parecidos, inteligentes, brilhantes, bons amantes, discretos... Como resistir à parada de beldades que faziam parte desse circuito de informação ao qual, para minha alegria eterna, pertenci quando tinha quarenta anos? Como negar-me ao jogo de espelhos em que se iam reflectindo, imagem dentro da imagem dentro da imagem, a paixão e os ciúmes, o desejo e o amor, a juventude e a velhice, o pacto do amor e o pacto diabólico: adia-me o dia do juízo, deixa-me gozar um dia mais da minha juventude, do meu sexo, dos meus ciúmes, dos meus desejos... mas também do meu pacto com Luisa. Tanto assim me fiais?

Ela não se enganava. "Há-de voltar sempre para mim", dizia aos nossos amigos. Sabia que sob esta maré incessante se sedimentava, no entanto, uma estabilidade necessária na qual o amor e o desejo se uniram sem violência, dispensando a necessidade dos ciúmes para incrementar o desejo, ou a necessidade da culpa para agradecer o amor. Luisa esperava pacientemente, por trás da sua belíssima máscara mestiça, o dia inevitável em que uma única mulher me desse tudo o que eu necessitava. Uma só. Não era ela.

Diana partiu. Partiu quando começavam as chuvas no México e o ar voltou a ser de cristal e ouro durante um único dia.

 

Parte do drama final de Diana Soren, li-o nos jornais.

Diana saiu grávida do México. Eu não sabia. O FBI sabia. Com essa informação entre mãos, decidiram destruir Diana. Porquê? Porque era uma figura emblemática do Radical Chic hollywoodesco, a celebridade que empresta a sua fama e entrega o seu dinheiro às causas radicais. Diana, quando a conheci, era partidária dos Panteras Negras. Já referi a relação de que tive conhecimento, de noite e pelo telefone. Conhecia os cambiantes do seu apoio. O FBI não é para subtilezas. Quero crer que o "grande público" norte-americano faça uma diferença, por exemplo, entre a política integracionista de um Martin Luther King e a política separatista de um Malcolm X. Creio que durante os anos a que me refiro, muitos norte-americanos brancos (muitos amigos meus) apoiaram o protesto civil de King como um ideal progressista: a integração gradual do negro na sociedade branca dos EUA, a conquista pelo negro dos privilégios do branco. Malcolm X, pelo contrário, advogava uma nação negra separada, oposta ao mundo branco, dado que este apenas conhecia e aceitava a injustiça. Se o mundo branco era injusto consigo próprio, como não havia de o ser com o mundo negro? Ambos, afinal, viveriam em guetos separados pela cor mas unidos pela dor, a violência, as drogas e a miséria.

Este confronto precisava de uma ponte. Diana conheceu em Paris James Baldwin, o escritor que partilhava com ela pelo menos duas coisas: o exílio como solidão e a procura de outro norte-americano como fraternidade. Baldwin introduzia a dúvida perpétua entre os extremos, turvava de propósito as águas para que ninguém acreditasse - duas faces da mesma moeda - na facilidade da justiça ou na fatalidade da injustiça raciais. Baldwin não queria a integração humilhada, caritativa. Também não queria que a união do negro com o negro fosse a cadeia do ódio ao branco. Tanto ao branco como ao negro, ao sulista como ao nortista, Baldwin pedia o mais simples e também o mais difícil: Tratem-nos como seres humanos. Mais nada.

"Olha para mim", pediu Baldwin a Diana, "olha para mim e interroga-te sobre a vida, as aspirações e a humanidade universal ocultas sob a minha pele escura..."

Pelas conversas nocturnas de Diana, julguei que ela pensava assim. Queria ser dura contra o racismo e contra a hipocrisia branca, mas queria ser igualmente dura com um mundo negro separado radicalmente do branco. Tendo-a conhecido, a explicação parece-me bem clara. Diana Soren queria ver-se como outra para poder ver-se como era. Correu o perigo de ver apenas o negro que desejava ver, e pagou-o bem caro. O FBI, tal como o KGB, a CIA, a GESTAPO ou a DINÁ de Pinochet, precisam de simplificar o mundo para designar claramente o inimigo e aniquilá-lo sem arrière-pensées. As agências político-policiais, que são as guardiãs do mundo moderno e do seu bem-estar, precisam de inimigos concretos para justificar o seu emprego, o seu orçamento, o pão dos seus filhos.

Decidiram em Washington que Diana Soren preenchia perfeitamente esse papel: famosa, bela, branca, Santa Joana das causas radicais (chamei-lhe parteira de revolucionários, sem imaginar que a minha metáfora se iria tornar cruelmente realidade), Diana foi espiada e acossada invisivelmente e em silêncio pelo FBI. A agência policial esperava o momento para a destruir. Era uma questão de oportunidade. Diana Soren era destrutível. Mais do que qualquer outra pessoa. Acreditava que a injustiça se combatia não apenas com a política, mas também com o sexo, com o amor e com o abismo romântico. Isto tornava-a perfeitamente vulnerável. Quando a Agência soube da gravidez de Diana, no México ou pouco depois, viram a oportunidade de se movimentarem contra ela, por fim, aproveitando a sua fraqueza.

Compreendi então as advertências do general Agustín Cedillo e amaldiçoei-me por não ter encontrado Mário Moya na Cidade do México ou, simplesmente, por ter acreditado em Diana, por não a ter tratado com desdém ("és uma paranóica") ou por me ter encerrado, depois, na prisão dos meus ciúmes. Mas, afinal, o que poderia eu fazer? Soube demasiado tarde de tudo isto. Seria eu o pai? Não acredito. As nossas precauções funcionaram sempre. Seria então o jovem Carlos Ortiz, o meu sucessor nos favores de Diana? Era mais possível. Ela via nele um herói revolucionário e em mim uma aborrecida repetição do marido.

No entanto, um revolucionário mexicano não tem força simbólica suficiente para fazer reagir o grande público branco, puritano e democrático, dos EUA. Era como ter um filho de Marlon Brando - Viva Zapata! uma experiência exótica, assimilável. Mas que a estrela branca, loura, de olhos azuis (ou seriam cinzentos? ), descendente de imigrantes suecos, nascida numa terreola do Middle West, criada entre gasosas e filmes de Mickey Rooney, luterana, graduada pela High School local, namorada colectiva da equipa de futebol e, no singular, de um rapaz sadio e forte, privilegiada pelos deuses, escolhida entre duzentas mil aspirantes para interpretar uma santa; rica, livre, casada com um homem famoso, mimada pelo jet set; que esta favorita do Deus Branco desça à cave do cruzamento de raças, da torva e obscura entrega da feminilidade caucasiana a uma brutal picha negra, isto era agitar a noite da alma norte-americana, ressuscitar os fantasmas sangrentos da castração, dos negros enforcados com os testículos enfiados na boca, das cruzes em chamas, das cavalgadas do Klan... Um mulato só era aceitável, imaginável, como filho de um homem branco e de uma mulher negra, produto de um capricho ou de um desespero do senhor da plantação, o senhor branco demasiado respeitoso à sua mulher branca, o senhor branco com direito de pernada feudal, o senhor branco aborrecido pela longa gravidez da sua própria mulher, o pai dos mulatos: um patriarca branco... Mas que uma mulher branca fosse a matriarca do mundo canela, a povoadora dos bosques de crianças bastardas, mestiças, degradadas, do Novo Mundo, da utopia americana, isso não, isso causava repugnância à consciência mais liberal, isso atingia o próprio núcleo do pulso norte-americano, remexia com as tripas e os colhões da decência norte-americana. Tinha de ser uma criança negra, filha de um revolucionário negro e de uma frívola, enlouquecida, actriz branca. Isso atingia o horror total. A branca era escrava do negro.

O FBI é paciente. Esperou até que a gravidez de Diana se tornasse óbvia. A aprovação do plano para a caluniarem utilizou os seguintes termos: "Diana Soren apoiou financeiramente o Partido dos Panteras Negras e deve ser neutralizada.

A sua actual gravidez devida a (nome riscado) prõporciona-nos essa oportunidade."

Procederam da seguinte forma:

Os agentes do FBI em Los Angeles espalharam um boato entre os jornalistas de escândalos cinematográficos. Fizeram circular uma carta, assinada por uma pessoa fictícia, cujo texto dizia o seguinte:

"Estava a pensar em ti e a lembrar-me que te devo um favor. Imagina que estive em Paris na semana passada e, por acaso, encontrei Diana Soren ostensivamente grávida... A princípio julguei que tivesse voltado a juntar-se com Ivan, mas ela confessou-me que o pai era (nome riscado) dos Panteras Negras. Como vês, a rapariga não pára. De qualquer forma, quis dar-te a notícia em primeira mão..."

As colunas de escândalos de Hollywood começaram a repetir o boato: "A notícia do dia é que Miss D. a famosa actriz, está à espera de um filho. Diz-se que o pai é um proeminente Pantera Negra. " A notícia espalhou-se, atingiu o nível da credibilidade, adquiriu mais respeitabilidade do que a Bíblia e foi referida num breve suplemento informativo de um semanário norte-americano de circulação internacional - a ponto de ser uma das revistas que se podiam comprar no drugstore da praça de Santiago, onde eu procurava pastas dentífricas e um jovem estudante me abordou, convidando-me a

conversar com o seu grupo...

- Desculpa - disse nessa altura, e hoje dá-me vontade de rir. - Não quero comprometer os meus amigos norte-americanos. Aqui, sou apenas um hóspede...

Essa publicação referiu pela primeira vez o nome de Diana. Ela e Ivan processaram a revista por calúnia e ganharam creio que cerca de dez mil dólares.

O que soube a seguir foi que Diana dera à luz prematuramente, por cesariana, e que o bebé morrera passados três dias.

Uma semana depois do parto, Diana voou de Paris para Jeffersontown para enterrar o bebé. Expôs o cadáver na agência funerária e toda a gente desfilou em redor do féretro, ansiosa por verificar a cor da pele.

- Branco não é.

- Mas negro também não. Não têm feições negras.

- Com os mulatos, nunca se sabe. Enganam muito.

- E como é que sabes que este é o verdadeiro bebé de Diana? Um feto negro é facilmente atirado para o lixo.

- Queres dizer que comprou um cadáver de bebé branco apenas para o exibir aqui?

- Quanto pode custar isso?

- Mas é legal?

- Vendo bem, é um bebé branco.

- Mas tocado por uma brocha escura, não te deixes enganar.

- Então, quem é o pai?

- O marido diz que é ele...

Isto causou um ataque de riso em toda a fila de curiosos.

Diana Soren não fez caso. Estava demasiado ocupada a tirar fotografias do pequeno cadáver no ataúde branco. Tirou cento e oitenta fotos do bebé morto.

 

No final dos anos 70 conheci Ivan Gravet. Encontrámo-nos num longo fim-de-semana no castelo de uma amiga comum, Gabriella van Zuylen, na província holandesa. Gabriella é uma mulher encantadora e lindíssima, amante dos jardins e amiga de Russel Paige, o magnífico desenhador de parques britânico, acerca do qual escreveu um livro monográfico.

O castelo é uma mole imponente, sobretudo no meio da paisagem plana da Holanda. Destaca-se como uma montanha, mas Gabriella dedicou-se a expandir, completar e embelezar a paisagem holandesa, tão serena e plana, com o mistério da natureza inventada, diversa, circular, da imaginação barroca.

Entre as curiosidades do jardim, destacava-se um labirinto de altíssimas sebes, cuja forma perfeitamente geométrica, regular como um caracol vegetal, só podia ser apreciada do topo do castelo. Mas dentro do dédalo, o sentido da forma perdia-se de imediato e, por conseguinte, o da orientação. Todos nós, os trinta convidados de Gabriella, mais tarde ou mais cedo acabámos por penetrar no labirinto e por perdermo-nos nele, até que ela, com a alegria inteligente que a caracterizava, vinha em nosso socorro, rindo.

A minha mulher, que tem medo dos espaços sem saída, não quis participar na exploração do dédalo e preferiu acompanhar Gabriella numa visita ao Museu Frans Hals de Haarlem. Eu aventurei-me, com o desejo consciente de me perder. Em primeiro lugar, porque seria ser consequente com a finalidade do labirinto. Depois, porque estava convencido que entrar nele com vontade de sair era a forma mais segura de se transformar em prisioneiro do touro mítico que o habita. Perder-se, pelo contrário, perdendo o desejo de salvação, é dar prazer ao minotauro, transformá-lo em aliado, adormecer as suas suspeitas. Assim deve ter procedido Teseu.

Eu não tinha fio de Ariadna. Mas ao encontrar-me de frente, cara a cara, com Ivan Gravet no labirinto, pensei que Diana Soren era esse fio ao qual, de certa forma, ambos nos confiávamos nesse instante, apenas nesse. Já o tinha visto, como é natural, desde sexta-feira, durante os jantares e almoços magníficos de Gabriella. À noite, era exigido o smoking, e apenas Ivan, entre todos os homens, era a excepção à regra. Vestia uma indumentária que só posso comparar com as que vi em fotografias de Estaline e Mão: uma túnica cinzenta, abotoada até ao pescoço, sem gravata, com mangas compridas, demasiado compridas. Não era aquilo a que nos anos 70 se chamou, em ataques de moda terceiro-mundista, um Mão ou um Nehru. O casaco de Ivan Gravet parecia realmente comprado no GUM da Praça Vermelha, ou herdado de algum membro do Politburo. A última vez que o vi foi numa fotografia do bem esquecido Malenkov. Kruschev já só usava casaco e gravata. Na indumentária de Ivan Gravet - que não mudou durante as três noites no castelo - havia a nostalgia de um mundo russo perdido; havia, simultaneamente, humor e luto...

Rimos quando nos encontrámos. Não era possível conversarmos de outra forma, disse Ivan, marcámos encontro neste labirinto. Porquê? perguntei; eu nunca disse nada, ninguém nos relacionaria; além disso, estamos noutro país e a puta já morreu, disse brutalmente, curioso por saber mais mas desejando também precipitar a reacção de Ivan no pouco tempo que o labirinto nos concedia. Curioso: senti que ambos dávamos menos importância e menos tempo a um dédalo criado para aprisionar eternamente aqueles que nele se aventurassem do que à passagem pela alfândega de um aeroporto.

- É que tu não soubeste a dificuldade de amar uma mulher a quem não podes ajudar, nem modificar, nem deixar - disse ele.

Concordei. Diana fazia parte de um passado que já não me dizia respeito. Há oito anos que vivia com a minha nova esposa, uma rapariga sadia, moderna, activa, linda e independente, com quem tinha dois filhos e uma relação sexual amorosa, pessoal, que ambos partilhávamos sem nos submetermos um ao outro, conscientes de que a continuidade da nossa relação dependia do facto de nenhum dos dois a considerar nunca como algo seguro, habitual, conseguido sem esforço da nossa parte. Longe de Diana, longe do meu passado, sentia-me ainda próximo da minha alegria literária recuperada. Não queimei as folhas escritas em Santiago, ao lado de Diana, mas saltei delas, com mais poder e convicção do que nunca, para a obra que me esperava, me reclamava e que me deu a maior alegria da minha vida. Não queria acabar de a escrever. Nenhum romance me granjeou tantos leitores inteligentes, próximos, permanentes, que me interessam... Com este romance encontrei os meus verdadeiros leitores, aqueles que queria criar, descobrir, ter. Aqueles que, comigo, queriam descobrir a figura de uma insegurança máxima constitutiva, não psicologias já esgotadas, mas sim figuras desprotegidas, geradas num outro circuito da comunicação e do discurso: a língua, a história, as épocas, as ausências, as inexistências como personagens, e o romance como ponto de encontro de tempos e seres que, de outra forma, nunca apertariam as mãos.

Apertava-mas, afectuosamente, Ivan Gravet. Não se ofendera com a divertida citação literária do Judeu de Malta, de Marlowe. Éramos escritores e homens do mundo, e acrescentou: eu devia compreender duas coisas sobre o destino de Diana. Ela e ele, ambos, não tinham protestado contra a calúnia do FBI por um racismo abruptamente surgido dos seus genes caucasianos. O FBI com certeza que jogava com essa carta. Protestar contra a calúnia podia ser entendido como asco, repúdio de um bebé negro. Eles - Diana e Ivan - viram a armadilha. Mas a cólera de Diana era contra a manipulação política do seu sexo. O FBI reduzia-a a um objecto sexual. Apresentava-a como uma mulher branca desejosa de um homem negro. Além disso, e por fim, não era verdade. O pai não era negro - tu e eu sabemos isso - e o bebé também não.

- Porque teve de exibi-lo em Jeffersontown? Julguei que não lhe interessasse o que dirão desse mundo.

- Ela nunca quis ser julgada como uma personalidade esquizóide, a rapariga provinciana dividida entre o lar, a família, a paz de espírito, a estabilidade de classe média, os Natais, os Dias de Acção de Graças e tudo o resto...

- Mas teve de fotografar o cadáver da criança? Parece-me uma...

- Precisava de ser testemunho da sua própria morte. Foi isso. Quis ver como seria vista se ela própria regressasse morta à sua terra, queria ver as caras, ouvir os comentários, quando ainda o podia fazer. Esse bebé foi uma Diana substituta, uma criança inocente, Diana pura e renascida. Bem vês, a puta morreu no seu país. E morre constantemente.

- Desculpa. Je suis desolé - disse e lembrei-me de Diana.

Apertou-me o braço. - Queria responder à opressão com algo mais do que a política, que não entendia. Acreditava que a sexualidade e a vida romântica seriam o seu contributo para um mundo em que tudo isso existia em excesso. Não se apercebeu que uma coisa levava à outra, estás a ver? a rebeldia ao excesso sexual e este ao álcool e a bebida à droga e a droga ao terror, à violência, à loucura...

- Então temos de julgá-la como aquilo que não queria, como a rapariga provinciana que não resistiu ao mal de um mundo para o qual não estava preparada...

- Não. Eu amei-a. Perdão: amo-a.

- Eu já não.

- Era uma ingénua política. Avisei-a muitas vezes que os governos democráticos sabem que a melhor maneira de controlar um movimento revolucionário consiste em criá-lo, Em vez de o encarnarem, como os regimes totalitários, inventam-no, controlam-no e contam com um inimigo de confiança. Ela nunca compreendeu isto. Várias vezes caiu na armadilha. O FBI decidiu dar-lhe o pontapé final com uma grande gargalhada.

- Julguei que a ias defender.

- Claro que sim. Diana Soren, meu caro amigo, foi um ser ideal. Resumiu o idealismo da sua geração, mas foi incapaz de vencer uma sociedade corrupta e um governo imoral. É tudo. Pensa nela assim.

Ouvimos a voz alegre de Gabriella procurando por nós no labirinto, chamando-nos para a mesa.

 

A versão mais terrível do fim de Diana foi-me dada por Azucena, a secretária catalã. Encontrei-a por acaso nas ramblas de Barcelona, a meados dos anos 80. Tinha ido visitar a minha amiga e agente literária Carmen Balcells com um intuito altruísta. Queria pedir-lhe que apoiasse o romancista equatoriano Marcelo Chiriboga, injustamente esquecido por todos excepto por José Donoso e por mim. Ocupava um posto subalterno no Ministério das Relações Exteriores, em Quito, onde a altitude o sufocava e o emprego o impedia de escrever. O que podíamos fazer por ele?

Azucena trouxe-me à memória os dias passados no México e a grata recordação da sua presença, sempre tão digna. Enquanto seguíamos em direcção ao Paseo de Gracia, onde eu estava alojado, falou com a cabeça baixa e fez uma exposição severa, objectiva, dos factos que, por respeito a Diana e a si própria, Azucena não queria rebaixar ao sentimentalismo.

Acompanhou-a aos Estados Unidos, ao enterro do bebé em Jeffersontown. No voo de Paris para Nova Iorque e depois para lowa, Diana esteve serena, com um sorriso distante, quase beatífico, imaginando o cadáver no ataúde branco que a acompanhava naquela viagem que realizara dúzias de vezes. Mas no voo de regresso, de JFK a De Gaulle, sucedeu uma coisa terrível. Diana pediu licença para ir à casa de banho. Três minutos mais tarde saiu nua, gritando e correndo ao longo do corredor. Ninguém se atreveu a tocar-lhe, a detê-la, até que um negro grandalhão a agarrou, embrulhou num cobertor e devolveu, subitamente tranquilizada mas fitando intensamente os olhos do passageiro negro, ao seu lugar ao lado de Azucena, na primeira classe. A catalã deu-lhe uns comprimidos soníferos e garantiu às hospedeiras que dali em diante Diana dormiria tranquilamente.

Durante algum tempo continuou tranquila em Paris, partilhando o apartamento do Boulevard Raspail com Ivan, com quem já não tinha relações. Procurava, pelo contrário, rapazes nos bares e hotéis de Paris, sobretudo se eram jovens e hippies, com um ar de espiritualidade e um culto pela droga, que começou nessa altura a consumir a sério, naturalmente, como o passo seguinte do seu amadurecimento espiritual e da sua rebelião. Mas pertencia ao mesmo tempo à cultura do álcool, e Diana não era uma mulher que abandonasse uma etapa anterior da sua vida quando mergulhava numa nova.

Nas palavras de Azucena entendi uma grande verdade sobre a minha antiga e passageira amante. Queria tudo, não de uma forma avara ou egoísta mas, pelo contrário, como uma forma de generosidade para consigo própria mas também para com o mundo, os mundos, que ia vivendo. A província do Middle West norte-americano, Hollywood, o mundo intelectual que o marido lhe proporcionou em Paris, a revolta dos anos 60, as causas liberais, os Panteras Negras, o revolucionário mexicano, ia acumulando tudo para que todos esses mundos continuassem a ser seus mas, sobretudo, para que nenhum deles a considerasse ingrata ou incapaz de corresponder ao seu próprio passado. O passado era uma responsabilidade inconclusa que ela tinha a obrigação de carregar consigo, mesmo tendo fracassado.

- Era por isso que não sacrificava nada? Por isso regressou a lowa com a criança morta?

- Não sei - respondeu Azucena com simplicidade. A verdade é que Diana sofreu muito. Metia-se numa complicação e nunca mais saía dela, a não ser que se metesse noutra.

Queria manter-se magra para voltar a filmar. As dietas rápidas enfraqueciam-na e enervavam-na. Aumentava a dose de álcool para abafar os receios. O álcool fazia-a inchar. Aumentava a droga para emagrecer e deixar de beber. Entrou e saiu de várias clínicas. Aí, entretinha-se a repetir diversas vezes os gestos e ocupações mais simples. Azucena visitava-a todos os dias e via-a erguer-se, ir à casa de banho, urinar, evacuar, tomar o pequeno-almoço, lavar a sua roupa no lavatório, fazer a cama e voltar a deitar-se. Mas cada um destes actos, cada um, demorava entre duas a três horas, deixando-a esgotada. Depois de varrer o quarto, tornava a deitar-se até ao dia seguinte, quando se levantava e ia à casa de banho e toda a ronda recomeçava.

Nessas alturas, fitava Azucena com um misto de sentimentos e emoções. Olhava-a de través, para se assegurar que a catalã estava a olhar para ela, vendo o que fazia e, o que era mais importante de tudo, aprovando-a, aplaudindo o seu esforço e a importância de cada um dos seus actos...

Esteve durante muito tempo numa clínica perto de Paris, sobre o rio, donde apenas se viam chaminés de fábricas através das grades da janela. Lá, Diana começou por dedicar-se a redescobrir a sua própria cara com a mão, em frente de um espelho, como se tentasse recordar-se de si mesma. Esse acto transformou-se num rito diário. A permanência das suas feições parecia depender daquilo. Sem esse ritual, Diana teria perdido a sua própria cara.

Um dia, no entanto, Azucena verificou que os dedos de Diana já não seguiam os contornos do rosto. Pelo contrário notou, ao aproximar-se - desenhavam outra coisa sobre ele. Não a quis alarmar. Observou-a durante vários dias, curiosa, preocupada, ligando as coisas. Seguiu o olhar de Diana do espelho para a janela. Ela desenhava com um dedo, sobre a sua própria cara, a paisagem exterior de chaminés. Queria o mundo. Queria criá-lo. Apenas o podia reproduzir como uma tatuagem invisível sobre o rosto num espelho cheio de manchas.

Estava morta por dentro. A sua morte interior precedeu a morte exterior. Os homens que a acompanhavam eram, no melhor dos casos, os seus guardas, os seus carcereiros. Acompanhavam-na na droga. Via-os num dia como amigos, no dia seguinte como inimigos. Fugia deles para apanhar desconhecidos nos vestíbulos dos hotéis em frente das grandes estações, Gare de Lyon, Austerlitz, Gare du Nord. As estações dos viajantes menores, anónimos, comerciais. Quem seriam? Era disso que se tratava: Ninguém. O sexo sem bagagem, nada que entrasse verdadeiramente na sua vida, porque ela não abandonava nada, e o excesso de bagagem já era muito pesado, muito caro...

- Quis simplificar tanto a sua vida que, para o fim, comia apenas alimentos para cães.

Ninguém lhe dava trabalho. Imaginava um estranho filme

- disse-me Azucena nessa tarde em Barcelona, sentados por fim num café das ramblas - no qual não se passava nada mas tudo se passava ao mesmo tempo. Eram quatro cenas simultâneas, sem pessoas, lugar puro, cor pura, sensação pura. Um lugar era um deserto. Era o México. Outro lugar era apenas pedra. Era Paris. Outro lugar eram luzes, muitas luzes. Era Los Angeles. Outro lugar era neve e noite. Era lowa. Queria reuni-los todos num filme e só então, quando estivessem todos reunidos, ela entraria no filme.

- Sabes uma coisa, Azucena? Agora vou dar uma volta para ver pela última vez cada um dos lugares onde vivi.

Foi a última coisa que lhe disse.

 

Cruzei-me com ela uma noite, num restaurante de Paris, nos finais dos anos 70. Sorriu-me fixamente mas não me reconheceu. Era como uma morta a quem não tivessem fechado os olhos. Um sorriso sem destinatário. O olhar desfocado. Uma zombi de carnes inchadas. Uma carne miserável. Uma beleza maltratada. Não consegui evitar que me assaltasse um sentimento inútil. Teria podido ajudá-la? Seria de alguma forma culpado disto que estava a ver e que me olhava sem me reconhecer? Um simples rapaz do Middle West norte-americano tê-la-ia feito feliz para sempre? Há uma parte da vida que não se deixa purificar? Não tenho explicação para o inexplicável. Mas o mundo também não a tem.

 

Uns anos mais tarde, tomei um avião de Los Angeles para Nova Iorque, sem escala. Acabava de fazer uma série de conferências em universidades da Califórnia e decidira oferecer a mim próprio o luxo de uma primeira classe num Jumbo, para descansar à vontade durante o longo trajecto de seis horas e meia. Ia muito pouca gente na primeira classe. Quando já estávamos todos sentados, um funcionário da Pan American Airways (que detinha então o serviço de costa a costa) conduziu à primeira fila uma mulher esplêndida, que passou, com um perfume entre olímpico e selvático, uma negra de saia curta e pernas longas, coxas perfeitas e seios maravilhosos, mas com um ventre de mãe, de deusa da terra subjugada da África e da América. O pescoço tenso acumulava e revelava todos os pesares, medos e timidez desta leoa, porque o era, coroada com uma juba de animal, com tons de girassol, acobreados, vermelhos, louros, negros, púbicos. É óbvio que a reconheci. Era Tina Turner e chamou-me a atenção a sua dor, a sua modéstia dissipando por completo o ar de estrela, a arrogância imerecida. Os olhos velados diziam para si mesma: Não tenho direito a tudo isto, mas mereço-o. Não pedia desculpa pela sua fama, mas preferia que participássemos, pelo menos no seu anonimato de viajante, o sentido humano das suas canções. Aninhou-se junto à janela da primeira fila, tirou os sapatos, colocou as protecções negras para os olhos, e uma hospedeira, discreta, cobriu-a com uma pele de vicunha, suave, infinitamente envolvente, maternal, que protegia a cantora do som e da fúria, acariciando-a com o doce sono da fadiga.

Não quis olhá-la demasiado, não quis ser curioso nem impertinente. Pensei na canção que ouvia tantas vezes Diana Soren, Who takes care of me? quem toma conta de mim, e olhando a leoa adormecida, envolta na sua própria pele, admirei com uma dolorosa ternura a força desta mulher humilhada, espancada, burlada, para conseguir sobrepor-se às suas mágoas sem se vingar dos seus verdugos, sem pedir a morte ou a prisão de ninguém, conquistando sozinha o direito a ser ela própria e mudar o mundo com a sua voz, o seu corpo, a sua alma, sem sacrificar nenhum dos três. A sua arte, a sua raça, o seu espírito... Pobre Diana, tão forte, que não teve defesas contra as fraquezas do mundo. Maravilhosa Tina, tão fraca, que aprendeu a defender-se de todas as forças do mundo...

 

Só fui a lowa muitos anos mais tarde, durante um circuito de conferências pelo Middle West norte-americano. Quando ela me pedia, "ajuda-me a recriar a minha terra", eu dizia-lhe que não, "não tenho nada a ver com isso". "Já viste em mil filmes", ria ela, conhecendo o meu interesse erudito pelo cinema. Por isso sabia - respondi - que a pequena localidade que se vê nos filmes é sempre a mesma, existe para sempre nos estúdios da MGM e foi onde Mickey Rooney namorou todas as raparigas da High School e encenou obras de teatro no celeiro. Rua central com os respectivos signos: barbearia, loja de gelados, Woolworth's, o jornal local, a igreja e a câmara, substituindo a prisão, o bar e o prostíbulo da época heróica. Disse-lhe que tudo isso que ela e eu julgávamos certo por tê-lo visto com os nossos olhos no ecrã, era um mito inventado por emigrados judeus da Europa Central, que queriam proporcionar, com gratidão, a imagem ideal de uns Estados Unidos perpetuamente bucólicos, pacíficos, inocentes, onde os garotos andavam de bicicleta pelas ruas distribuindo jornais, os namorados davam as mãos nos baloiços dos alpendres e o universo era um imenso relvado perfeitamente cortado, perfeitamente aberto e apenas limitado, às vezes, pela mesma cerca branca que Tom Sawyer pintou um dia.

Quando os meus amigos da Universidade de Madison me levaram a lowa, em 1985, descobri que o mito era exacto, embora fosse impossível saber se a localidade tinha imitado Hollywood, ou se Hollywood era mais realista do que eu supunha. O tribunal presidia à vida de Jeffersontown: um edifício neo-helénico, com cornijas e estátuas cegas segurando as balanças da Justiça. A Rua Principal era exactamente o que se poderia esperar, com edifícios baixos de ambos os lados da artéria, sapatarias, drugstores, um Kentucky Fried com o omnipresente Coronel Sanders, um MacDonald's e um bar.

- A escola secundária. Não deixes de me falar da escola secundária - pedia ela.

- Mas se nunca lá estive, se não tenho nada a ver com isso, como queres...

Os jovens continuam a reunir-se no bar a beber cerveja. São rapazes altos e fortes. Falam do que fizeram nesse sábado em que eu estive na terra natal de Diana. Tinham ido caçar mapaches. Era o desporto favorito dos jovens da terra. Esse animal carnívoro, de origem americana, tem um nome algonquino muito difícil, "arouchgun", e desenvolve uma prodigiosa actividade nocturna. Tem um pêlo de um cinzento-amarelado, cauda com anéis pretos, pequenas orelhinhas erectas e mãos quase humanas, esguias como as de um pianista. Mas o focinho é uma máscara negra, veneziana, que lhe serve de disfarce para que com maior facilidade trepe às árvores, coma tudo, lave a comida antes de a ingerir e, disfarce sobre disfarce, construa a sua guarita nas cavidades das árvores. Mapache mascarado: dorme no Inverno, mas não hiberna. Tem as suas ninhadas de cerca de meia dúzia de mapachitos em apenas sessenta dias. Em pequenino, é simpático e brincalhão; depois de velho, torna-se irascível como um avô solitário. Come tudo: ovos, milho, melões. É o pesadelo dos agricultores, que o perseguem. Os velhos mapaches rabugentos sabem escapar. Mais facilmente são apanhados os jovens. Mas, jovem ou velho, torna-se selvagem quando encurralado. É terrível na água, pois pode afogar o seu adversário.

O mapache abunda nas colinas, montes e pradarias de lowa, que é uma terra negra, fértil, de imensas pastagens que foram apodrecendo durante milhões de anos. Os rapazes passaram a semana ocupados em coisas umas vezes agradáveis, outras desagradáveis. As Matemáticas são demasiado abstractas, a Geografia demasiado concreta e não têm nada a ver com aquilo, quem quer saber onde fica o México, o Senegal, a Manchúria? quem vive lá? será que vive lá alguém? dagos, chinks, kykes, niggers, spiks, viste alguma vez alguém que viesse de lá? Por outro lado, o drugstore era o lugar de encontros, os amores iniciavam-se partilhando uma Coca Cola de cereja com duas palhinhas, como nos filmes de Andy Hardy, e continuavam na sala de cinema aos sábados à noite, as mãos suadas unidas no amor e no consumo de pipocas, vendo-se viver no ecrã como nas cadeiras, olhando Mickey Rooney e Ann Rutherford de mãos dadas vendo dois jovens imaginários de mão dada vendo...

- Jogavam basquete no ginásio. Não deixes de lá ir. É fácil imaginá-los. Nunca mudam.

A aula de História era a mais aborrecida. Passava-se sempre "antes", numa espécie de museu eterno onde tudo estava morto, onde não havia pessoas como eles, excepto quando passavam para o ecrã e se transformavam em Clark Gable e Vivien Leigh, essa é que era história, mesmo que fosse mentira.

A realidade podia ser uma ilusão, tomar um batido de chocolate com a namorada, ir ao cinema ver mais ilusões todas as semanas. Todos sabiam que se casariam ali mesmo, viveriam ali mesmo e como quase todos eram bons rapazes, seriam bons maridos, bons pais e conformar-se-iam com o envelhecimento das suas antigas namoradas, as carnes excessivamente flácidas, a morte do sexo, a morte do romance, do romance, do romance, que era como se a Lua se apagasse para sempre. Em contrapartida, um grupo de homens jovens à caça de mapaches vibravam em conjunto com uma emoção que não se comparava a nada. As espingardas eram óbvios prolongamentos da sua masculinidade e mostravam-nas, limpavam-nas, carregavam-nas, como se mostrassem os falos uns aos outros, como se os actos apenas insinuados nos vestiários dos campos de futebol fossem autorizados na caça ao mapache com essas espingardas tão fáceis de obter, num país onde o direito a adquirir e usar arma era sagrado, estava na Constituição...

- Vai ao edifício da escola secundária por um instante, por favor...

Os cães pareciam cegos, com grandes orelhas caídas, apenas concentrados num único sentido, o olfacto. Cegos, surdos, cheios de carraças azuladas que, depois da caça, bebendo cerveja junto à fogueira, os rapazes se divertiam a arrancar-lhes.

- E um edifício dos anos 50, moderno, baixo...

Às vezes, desprovidos de objecto olfactivo, os cães perdiam-se, cegos, surdos. Bastava então deixar a samarra do dono num lugar do campo para que o cão, infalível, regressasse. Era este o mundo real. Era este o mundo admirável, certo, concreto, inteligível. Onde um cão voltava ao ponto onde estava a samarra do seu dono. Abraçavam-se, rindo e bebendo, dando cotoveladas uns aos outros, como davam toalhadas nos duches e evitavam, escrupulosamente, olhar demasiado para baixo. Bastavam as espingardas. As espingardas podiam ser olhadas livremente. Podia-se tocar na espingarda do companheiro. Juntos podiam esfolar os mapaches junto à fogueira e regressar a casa, com os seus trofeus sangrentos e os seus cães surdos.

- Há um anfiteatro numa das alas do edifício... Não deixes de o visitar...

Um deles era diferente. Parecia-lhe pouco caçar mapaches e tirar-lhes a pele. Dantes, iam ao futebol com casacos de pele de mapache. Agora já não. Dantes, os caçadores do Oeste selvagem faziam gorros com pele de mapache. Agora já não. Dantes havia aqui homens, homens de verdade. Era preciso ser homem de verdade para caçar o que dantes havia aqui em lowa: nada mais, nada menos do que búfalos. Agora já não.

- Ofereceu-me uma moeda de cinco centavos com um búfalo de um lado e um índio pele-vermelha do outro. Ainda a tenho. Disse-me que tivesse cuidado com ela. Era curioso. Primeiro tinham desaparecido os búfalos e os índios e depois a moeda que os representava. Agora, tinham de um lado um distinto cavalheiro com peruca, que era o intocável, o santo norte-americano Thomas Jefferson, e do outro a sua maravilhosa casa, Monticello, construída para ele. Era um homem da Ilustração.

Quem matou o último búfalo? perguntava esse rapaz a Diana. Esta terra estava cheia de búfalos. Quem, quem terá morto o último...

No resto dos Estados Unidos, todos os postes de telefone são feitos de metal. Aqui, ainda os fazem de madeira. Como se os fios não pudessem falar sem as vozes do bosque. A noite que passei na terra de Diana, pensando nela, foi uma noite escura e eu, no meu quarto de hotel, com a janela aberta, senti-me como os cães de caça cegos e mergulhados na escuridão, só que eu não tinha olfacto, embora mantivesse as orelhas bem aguçadas, tentando ouvir no escuro o que dizia o silêncio. Falariam dela? Lembrar-se-iam como o pai a levou um dia para apanhar um avião para Los Angeles, uma garota de dezassete anos com o cabelo comprido e castanho, e como regressou noutro dia, num Cadillac aberto, envolta num mink mas com o cabelo curto como o de um recruta, louro como o de uma... estrela? Foi assim que a passearam, que a mostraram pela rua principal, entre o drugstore e a sapataria, o tribunal e a escola secundária.

- Vem ao anfiteatro. Espera que nasça a Lua. Vamos esperar um bocado. Vais levantar-me a saia. Vais acariciar-me o púbis. Vais tirar-me as cuequinhas. Quando a Lua nascer, vais tirar-me a virgindade.

Era a garota do lado, igual a todas, salvo por aqueles olhos cinzentos únicos, incomparáveis (ou seriam azuis?). Não sei se esses olhos de Diana podiam viver para sempre olhando os olhos dos pais e parentes e amigos. Observei os olhos dos velhos de lowa e surpreendi-me uma vez mais com a simplicidade, a bondade, a infância recuperada e eterna desses olhares, embora o cabelo fosse branco como o Natal, e os rostos mais marcados do que o mapa das estradas por onde um dia correram os búfalos. Eram estes homens brancos e suaves como o malvaísco os mesmos rapazes cruéis e insensíveis que saíam aos sábados para caçar mapaches? Eram os mesmos que, cheios de desejo de sangue e violência insatisfeita, saíram para matar o último búfalo?

- Agora sim, fode-me, quando a luz da lua entrar pelo tecto de vidro do anfiteatro, fode-me, Luke, fode-me como da primeira vez, dá-me o mesmo prazer, faz-me tremer da mesma maneira, meu amor, meu amor...

Quando nessa noite nasceu a Lua em lowa e eu a vi da janela do Howards Johnson's, fiquei convencido que Luke, onde quer que estivesse e fosse quem fosse agora, a tinha recortado e mandado pendurar no céu. Em honra dela. Era a sua lua de papel.

Amanheceu o domingo em que eu devia partir e lembrei-me que ela me pedira não deixes de ir à igreja e ouvir o sermão.

Entro sempre um pouco amedrontado nas igrejas protestantes, que não são as minhas, pois a ausência de qualquer adorno faz-me recear uma hipocrisia essencial que priva Deus da sua glória barroca e os crentes de partilhá-la, em troca de um branco puritanismo que só se pinta de branco como os sepulcros dos fariseus para melhor lançar as culpas do mundo sobre os restantes, os diferentes, os outros.

O pastor subiu ao púlpito e, estupidamente, desejei dar esse papel a um actor conhecido, Orson Welles em Moby Dick, Spencer Tracy em São Francisco, Bing Crosby em Os Sinos de Santa Maria, Frank Sinatra em O Milagre dos Sinos. Surpreendi-me rindo baixinho, enquanto recordava a extravagante imaginação de Hollywood para inventar padres boxeurs, cantores, ou de dimensões falstaffianas... Não. Este homenzinho de cabelo branco e cara de cera era quase uma hóstia humana, sem cor, branco como a farinha celestial. Demorei a distinguir o calor carbónico dos seus olhos como berlindes negros. E a sua voz não parecia sair dele; fascinado, comecei a acreditar que aquela voz era apenas um veio de transmissão de outra voz, distante, eterna, descrita pela fé luterana, tenhamos uma confiança absoluta em Deus porque Deus justifica o homem, Deus aceita o homem porque o homem aceita que é aceite apesar da sua inaceitabilidade. Como pode o homem ter fé que Deus aceitaria todos os pecados que qualquer indivíduo, mesmo o mais limpo, oculta no seu foro íntimo e excreta para o Mundo material? O homem, na fé, acredita que é recebido pela graça de Deus e que os seus crimes são perdoados em nome de Cristo, que com a sua morte redimiu todos os nossos pecados. O preço que a igreja impõe a essa fé é o de obedecer por dentro e por fora à vontade divina. Isso exige a fé, não a razão, pois a razão conduz ao desespero. É difícil conceber racionalmente que Deus perdoe o que é injusto. O crente abraça-se ao Evangelho para compreender que Evangelho quer dizer: Deus perdoa os crentes em nome de Cristo, não em nome dos seus méritos. É isto o que devem entender perfeitamente este domingo. Pensam que Deus perdoa porque Ele é justo, não porque vocês o sejam. Nunca conseguirão reunir méritos suficientes para que lhes seja perdoada nem sequer a tortura de uma mosca, nem a desdenhosa pisadela de uma formiga. Acreditam erradamente que Deus é justo. Não, a justiça não é aquilo que Deus é, mas sim o que Deus dá. O que Deus outorga. O que vocês não podem dar a si mesmos nem a ninguém. Embora sejam justos, não poderão dar justiça a ninguém senão por intermédio de Deus. Blasfemos: Imaginem um Deus tão injusto como vocês são, ou tão justo como vocês quereriam conseguir ser. Não importa, não importa nada, nada, nada. Só Deus pode dar a justiça, embora Ele próprio seja injusto. Só Deus pode distribuir o direito, embora Ele próprio o viole ao criá-los a vocês. Vivam com isso, bem-amada grei, procurem viver com essa convicção, tenham a coragem mas também a angústia de saber a verdade de Deus: A justiça recebe-se, a justiça não se tem, a justiça não se dá, a justiça não se merece, a justiça é algo que Deus nos dá quando assim o decide, porque Deus também não é justo Deus apenas tem poder, o poder de perdoar, embora ele próprio não mereça qualquer perdão. Como pode merecê-lo, se cometeu o erro de criar estes seres concupiscentes, criminosos, ingratos, estúpidos, autodestrutivos, que somos todos nós, as criaturas de um Deus culpado? Vivam com isso, meus irmãos, tenham a força de viver com a nossa impossível e exigente fé, pensem num Deus que não merece perdão mas que tem o poder de nos perdoar a nós, não caiam no desespero, esperem e confiem.

Terminou. Sorriu. Deu uma gargalhada e abafou-a pondo a mão sobre a boca.

Depois da missa, percorri as ruas de Jeffersontown onde nasceu e cresceu Diana Soren. Nos alpendres, baloiçavam-se os velhos de cabelo branco e olhar azul, inocente, sempre inocente, tão distante da geografia e da história, tão incentes que não queriam saber o que faziam os seus próprios governantes nesses lugares ignorados, cheios de spiks e dagos e niggers e, sobretudo, comunistas. Os olhos da inocência, ao cair da noite, fitam uma lua de papel sobre um povoado de lowa e dão carta branca a Thomas Jefferson porque é branco e elegante, embora tenha escravos, é mais inteligente do que todos eles juntos, por alguma razão o elegeram, só temos um presidente de cada vez, é preciso acreditar nele, ponham o seu perfil nas montanhas e nas moedas, atirem ao ar as moedas do índio e do búfalo para ver onde caem, a terra é imensa, negra como um escravo, podre como um comunista, molhada como um mexicano, a terra continua a crescer, a frutificar, a apodrecer, porque a terra está a apodrecer há milhões de anos.

Era a sua lua de papel, a mesma que ela viu nesse dia mítico para a sua feminilidade, antes de partir para o mundo apenas com um arco e uma flecha, Diana, a caçadora solitária sobre a terra negra e podre de lowa. Era a sua lua de papel, a mesma que iluminou a noite final dos búfalos, enquanto os rapazes os caçavam a cavalo, de noite, disparando as espingardas até apagar a própria lua. A mesma que permitiu aos mapaches orientarem-se, perturbados, para as suas guaritas nos buracos das árvores, perseguidos pelos rapazes que mataram o último bisonte das pradarias. Mas eles caçam em matilha, todos juntos, gritando, erguendo vitoriosamente as espingardas fálicas à luz da lua. Apenas ela caça sozinha, esperando ser tocada por igual pelos raios da lua e pela compaixão do Deus caprichoso e culpado que a criou.

Tenho a certeza que foi pensando em tudo isso que o pastor sorriu e gostaria de ter rido e continuado a rir para troçar, para ficar bem, para se libertar da angústia do seu próprio discurso. Mas nada disso interessou. Nessa noite cresceram as águas do Mississipi a leste e do Missun a oeste, transbordando das suas margens e afogando toda a terra de lowa, de Osceola a Pottamottomie, de Winnebago a Appanoose, arrastando nas suas correntes lodosas casas e carros, postes de madeira e colunas neo-helénicas, agulhas de igrejas, colheitas de trigo e milho, papas com olho de ciclope e galos com crista de estandarte, apagando os rastos do búfalo e afogando os mapaches desesperados, adormecendo a pradaria inundada para regressar ao nome do país índio, lowa: país adormecido mas vigiado pelo antónimo do país branco, lowa: olho de falcão. País sonolento por minutos, por minutos desperto, a terra afunda-se e desaparece, e ninguém, com o correr do tempo, pode regressar a ela.

 

Diana Soren morreu. Encontraram-na já em decomposição dentro de um Renault numa ruazinha de Paris. Estava ali há duas semanas. Encontrava-se embrulhada numa manta de Saltillo. Será a que comprou comigo em Santiago? A notícia do telegrama diz que a seu lado havia apenas uma garrafa vazia de água mineral e um bilhete de suicida. A polícia de Paris teve de chamar a equipa de saúde para desinfectar a ruela onde encontraram o seu corpo encerrado em companhia da morte há já duas semanas. O que restava dela estava coberto de queimaduras de cigarro. Perguntei a mim mesmo, no entanto, se no fim, na morte, ela se sentiu bem na sua pele.

 

O FBI prestou homenagem póstuma a Diana. Admitiu que a tinha caluniado em 1970, como parte de um programa de contra-informação chamado COINTELPRO. J. Edgar Hoover, o director da agência na altura, aprovou a acção: Diana Soren foi destruída porque era destrutível. O director em funções em 1980, William H. Webster, declarou que tinham terminado para sempre os dias em que o FBI usava informação difamatória para combater os partidários de "causas impopulares". A calúnia, afirmou, já não é o nosso negócio. Apenas levamos em linha de conta a conduta criminal.

 

                                                                                Carlos Fuentes  

 

                      

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