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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


DOCE CONQUISTA / Carole Mortimer
DOCE CONQUISTA / Carole Mortimer

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblio VT

 

 

 

 

O estranho aproximou-se dela e falou: "Vou me casar com você". Passado o susto, Lori achou graça da investida inesperada daquele moreno de olhos cinzentos. Afinal, nunca vira um homem usar um método tão atrevido e abscuro para se aproximar de uma garota numa festa. Não trocaram endereço ou telefone e, para Lori, tudo não passou de uma brincadeira. Numa certa manhã, porém, mal acreditou no que viu: o estranho da festa estava ali, em sua sala de trabalho, exibindo um enorme sorriso. "E então, gatinha, aceita casar comigo ou precisarei convencê-la?", ele perguntou, antes de surpreendê-la com um beijo. Mas Luke Randell era o último homem com quem Lori poderia se casar...

 

 

 

 

Lori se debatia na escuridão, enfrentando de novo o mesmo pesa­delo. Reviu o rosto angustiado do pai, o desespero da mãe e, final­mente, o ódio de Nigel.

— Devia ter-me contado — ele a acusava, furioso.

Ouviu sua própria voz, suplicando, pedindo que ele não a conde­nasse por seu passado. Mas os olhos azuis de Nigel continuaram frios, seus cabelos loiros desarrumados, de tanto serem jogados com raiva para trás.

— Sabe que nunca poderei me casar com você, Lori!

— Nigel... eu te amo! Por favor, não me deixe! Todos já me abandonaram, papai, mamãe e... agora você! Não pode fazer isso!

— Não? Pois é exatamente o que farei. E, da próxima vez que se envolver com alguém, trate de contar a verdade a seu respeito. Não tente enganar mais ninguém, porque, se ficar quieta, eu me encarrego de contar tudo.

— Nigel, como pode ser tão cruel? Você disse que me amava!

— Eu amava Lori Parker, não Lorraine Chisholm. Jamais poderia amar Lorraine. Nunca! Nenhum homem decente pensaria em tê-la como esposa.

As palavras ressoavam na sua cabeça. Nenhum homem decente... como esposa... como esposa...

— Lori, acorde! — Alguém a sacudiu pelo ombro.

Lori esforçou-se para voltar à realidade. Abriu os olhos devagar, focalizando o rosto de Sally.

— Você está bem? — ela quis saber, preocupada. — Gritava tão alto que pensei que alguém a estivesse atacando.

Lori se apoiou nos braços, tirando o cabelo loiro do rosto. Seus olhos castanhos-dourados ainda pareciam confusos.

— Tive um pesadelo. Era tão real que pensei que estivesse viven­do aqueles momentos de horror.

— É sempre assim com pesadelos, por isso apavoram tanto. Você gritava e se debatia como se fizesse parte de um filme de horror.

— Foi assim mesmo que me senti, mas, felizmente, já nem lembro mais sobre o que era — Lori mentiu, não querendo entrar em maio­res detalhes.

Levantou-se e separou a roupa que ia vestir. Era alta, magra, com os seios pequenos e os quadris pouco arredondados. Se não fosse pelos compridos cabelos loiros, poderia passar por um rapazinho. Tinha vinte e quatro anos, mas parecia mais jovem. Sabia que os homens a achavam atraente.

— Se já esqueceu, não vai me contar quem era Nigel? — Sally insistiu.

— Nigel? — Lori fingiu inocência. — Que Nigel?

— Era o que eu queria saber. Você repetiu esse nome milhares de vezes, em seu sonho.

— Não conheço ninguém chamado Nigel! — Lori abaixou a ca­beça, tentando achar as meias na gaveta e assim fugir dos olhares inquiridores da amiga.

— Deve se lembrar da pessoa. Pense um pouco...

— Tenho certeza de que, se conhecesse alguém chamado Nigel, eu ia me lembrar, Sally. Acontece que não conheço. — Fechou a gaveta com força.

— Desculpe. Não quis ser intrometida.

— Sou eu quem deve pedir desculpas. O pesadelo me deixou tão nervosa que fiquei agressiva.

— Não se preocupe com isso. Nós duas estamos um pouco exci­tadas com o casamento de Nikki. Talvez por isso tenha tido esse sonho ruim.

— Tem razão. — Lori sorriu, satisfeita de ver a amiga pôr de lado aquele pequeno mal-entendido. — Posso usar o banheiro antes?

— Claro!

Lori pegou a roupa e foi tomar banho. Sally tinha acertado em cheio. O casamento de Nikki realmente havia despertado velhas lem­branças e a fizera sonhar com Nigel.

As três moças trabalhavam num escritório de advocacia, em departamentos diferentes. Nesse dia, Nikki se casaria com Paul Hammond, um dos sócios da empresa e chefe dela. Nessa mesma data, há cinco anos, ela, Lori, deveria ter se casado com Nigel Phillips, her­deiro da fortuna Phillips.

O pai de Nigel também era dono de um escritório de advocacia, onde Lori trabalhava como secretária. Desde o início, ele fora contra o casamento e, depois de descobrir toda a verdade sobre o passado da sua possível nora, contou o que soubera ao filho, que imediata­mente rompeu o noivado. Nigel fez isso de uma maneira tão cruel e agressiva que, mesmo agora, passados cinco anos, ainda machucava Lori, fazendo-a sonhar com a discussão e viver novamente aqueles momentos de dor.

E agora Nikki ia casar na mesma data e a tinha convidado para ser dama de honra. Sua primeira reação fora recusar, mas depois seu orgulho a fizera aceitar. Nigel a tinha deixado com o espírito preve­nido contra os homens em geral, mas não podia permitir que ele atrapalhasse sua vida.

— Pronto, Sally. Agora é sua vez. — Lori saiu do banheiro, já vestida, uma toalha enrolada na cabeça.

Foi para o quarto e começou a secar e escovar os cabelos até que ficassem brilhantes e sedosos, formando uma moldura dourada em torno de seu rosto bonito.

— Já estou saindo, Lori. — Sally apareceu de jeans e camiseta. — Vou até o cabeleireiro e a encontro depois, na casa de Nikki, para nos vestirmos lá. Está bem?

— Ótimo.

— Tem certeza de que não quer mesmo ir ao cabeleireiro?

— Não adianta, Sally. Meu cabelo parece ter vida própria e, por mais que eu tente modificá-lo, fica sempre como quer.

— Você é feliz, Lori. Quem me dera ter esse tom maravilhoso no meu... Bem, até já.

— Até já.

Quando Sally saiu, Lori pensou que ia sentir falta de Nikki! Ela era uma amiga leal e sincera. Tinham se conhecido na própria firma, Ackroyd, Hammond & Hammond. O sr. Ackroyd já havia morrido, o sr. Hammond, chefe de Lori, ia se aposentar e Paul Hammond, o noivo de Nikki, estava encarregado de tudo.

O pai de Paul tinha ficado felicíssimo com o noivado do filho com a secretária. Por que o velho Charles Phillips, pai de Nigel, não se sentira do mesmo jeito em relação ao filho e a ela, Lori? Mas não! Ele deixara bem claro que não admitia que os netos tivessem nas veias o sangue dos Chisholm.

Lori baixou a cabeça, aborrecida. Por que não conseguia tirar Nigel da cabeça? Parecia-lhe revê-lo, como quando o tinha conhecido, dez anos mais velho que ela, vivido e experiente, fascinando-a desde o primeiro instante. O amor parecia tão forte que levara Nigel a pedi-la em casamento poucas semanas depois.

A família dele não aprovou sua escolha. A mãe, muito esnobe, le­vantou o nariz, recusando-se a aceitar Lori como futura nora. O pai ficou furioso e a irmã, Margot, foi muito estúpida e grosseira, cha­mando-a de caça-dotes. Uma semana antes do casamento, Charles Phillips descobriu o que precisava saber para acabar com o sonho dourado de Lori.

Quando ela viu o amor deixar os olhos azuis de Nigel, para ser substituído pelo desprezo, sentiu que seu mundo desabava. Tomou verdadeiro horror de Charles Phillips e Jacob Randell, que tinha sido o principal causador de sua infelicidade. Por causa dele, seu pai morrera cedo demais, deixando a mãe triste e infeliz, até que também falecesse.

Lori se olhou no espelho e viu a tristeza imensa que pairava em seus olhos, de uma beleza invulgar, com uma borda dourada em torno da íris, que lhe dava o ar de um gato. Sacudiu a cabeça para afastar aqueles pensamentos ruins. Queria estar feliz e alegre no casamento da amiga. Terminou de arrumar o cabelo, caprichou na maquilagem e vestiu-se com jeans e camiseta, deixando para pôr o vestido longo na casa da noiva.

Na casa de Nikki reinava o caos! A sra. Dean andava, nervosa, de um lado para outro, vendo se tudo corria bem. Preocupava-se porque as flores para os padrinhos e o buquê da noiva ainda não tinham chegado da floricultura e com mil outros detalhes. O sr. Dean estava tão emocionado com o casamento da filha que tinha se trancado no escritório, sem se decidir vestir-se.

Lori chegou e assumiu o controle da situação. Ligou para o florista e soube que as flores já vinham. Verificou se os presentes que chegavam eram colocados no lugar adequado e depois foi ver o sr. Dean, convencendo-o de que estava na hora de se arrumar para levar a filha ao altar. Só então foi encontrar Nikki.

— Lori! Que bom que chegou! Não sei o que fazer com a grinalda! Não a levei ao cabeleireiro e agora não consigo prendê-la direito.

— Deixe que eu dou um jeito.

Com paciência e arte, colocou a grinalda sobre os cabelos de Nikki, ajeitando-a até que ficasse bem presa.

— Você é maravilhosa, Lori! Ficou melhor do que eu podia sonhar.

— Não é para isso que se tem damas de honra? Para ajudar em tudo o que for preciso? E Sally? Ainda não chegou?

— Não. Ainda não chegou do cabeleireiro e mamãe está preocupa­da também com isso! Nem sei por que resolvemos fazer um casamento tão cheio de coisas! Não teria sido mais fácil se simplesmente fôsse­mos ao juiz de paz e assinássemos o registro? Para que tanta confu­são com igreja, festa, flores, convidados, vestido?

— Toda noiva se sente assim, antes do casamento, Nikki. Mas, quando tudo tiver passado, verá que valeu a pena.

— Deve ter razão, mamãe disse a mesma coisa. Mas, sinceramente, preferiria que tudo já tivesse passado.

— Nada disso, Nikki. Aproveite cada instante deste dia glorioso.

Os olhos de Nikki brilharam, ao se ver novamente no espelho, com o vestido branco, o véu muito longo, a grinalda enfeitando sua cabe­ça com flores.

— Você está certa, Lori. Vou me casar com Paul, o homem que amo, e nada mais importa.

— Ótimo! Bem, Nikki, vou descer para ver se seu pai já foi se arrumar e para lhe trazer o buquê, se é que chegou.

— Está bem. Sabe, Lori, foi bom ter conversado com você. Estou mais calma e muito feliz por me tornar a esposa de Paul. Nós nos amamos demais e esperamos com ansiedade a noite de núpcias. Nós nunca... — Nikki baixou os olhos, sem coragem de concluir o que ia dizer.

— Sei disso — Lori falou, sorrindo. — O dia não se torna ainda mais especial? Embora ninguém atualmente se escandalize com noivas que já não são virgens, nada como usar esse vestido branco sabendo que tem total direito a ele, não é?

— Concordo com você, Lori. Você também... — Nikki corou. — Desculpe, não devia ter perguntado.

— Não importa, Nikki. Sou virgem ainda e pretendo continuar a ser, até que encontre o verdadeiro dono de meu coração... se um dia o encontrar!

— Vai encontrar, sim. — Nikki sorriu, ficando ainda mais bonita.

— Você é atraente demais para que os homens não a notem. Só fico feliz por Paul gostar de mulher morena, e não loira, senão... não sei, não...

As duas riram com vontade.

— Bem, vou descer, Nikki. Se tudo estiver em ordem, vou me ves­tir também.

Lori desceu e encontrou a sra. Dean agitadíssima, embora as flores já estivessem lá. Não se impressionou, pois, afinal, toda mãe tem o direito de ficar nervosa no casamento da filha.

Pouco a pouco, tudo se ajeitou. O sr. Dean desceu vestido, muito elegante e emocionado, a sra. Dean foi se arrumar, Sally chegou e em pouco tempo estavam todos prontos. Pegaram os carros e foram para a igreja.

As portas se abriram, os primeiros compassos da marcha nupcial cortaram o ar e as damas de honra, muito charmosas em seus vestidos verde-água, começaram a seguir pela nave. Alguns passos atrás en­trou Nikki, de braço dado com o pai. A igreja estava repleta, as luzes acesas, os convidados todos de pé, observando o cortejo.

Assim que a cerimônia começou, Nikki entregou o buquê para Lori, que prestava muita atenção às palavras bonitas que o padre falava e que depois eram repetidas pelos noivos. Eles se olhavam com muito amor, as mãos entrelaçadas, trocando os juramentos, antes de inicia­rem sua vida juntos.

No entanto, alguma outra coisa, indefinível, prendia a atenção de Lori. Sentia-se arrepiada, sem conseguir explicar por quê. Correu os olhos pela igreja, pensando que talvez alguém a estivesse observando. No entanto, todos pareciam ter a atenção voltada para os noivos. Mas... aquela mesma sensação persistia, deixando-a pouco à von­tade.

Foi então que ela o viu! Desviou o olhar imediatamente, mas o rosto do desconhecido ficou gravado na sua cabeça. Ele estava sen­tado com a família Hammond, era moreno, alto, os olhos acinzentados, um jeito arrogante e atraente em seus trinta e tantos anos.

Ela não resistiu e tornou a olhá-lo, para encontrar os olhos dele cravados nela. Lori voltou o rosto para os noivos. Não queria mais dar atenção àquele desconhecido insolente, que ousava encará-la com tanto atrevimento! Que homem arrogante! Por que estaria sentado junto da família do noivo?

Mesmo com o rosto voltado para o altar, podia sentir que conti­nuava a ser observada. Que sensação desagradável! Quem ele pensava ser? Alguém irresistível? Mal sabia ele que ela estava vacinada contra os homens!

A cerimônia terminou e os noivos saíram, distribuindo sorrisos. Fu­ram para o pátio da igreja, onde o fotógrafo os aguardava.

O desconhecido estava lá de novo, no meio dos convidados, vendo os noivos e as damas posarem para as fotos. Mais uma vez ele obser­vou atentamente Lori. Seus cabelos muito pretos brilhavam ao pôr-do-sol e ele dava a impressão de ser um homem muito poderoso. Tal­vez por ser tão alto.

Lori, ao lado dos noivos, ergueu a cabeça, numa atitude de desa­fio. Seu cabelo parecia feito de fogo, os olhos estavam ainda mais felinos que normalmente.

— Luke! — Paul Hammond chamou. — Venha tirar uma foto conosco.

— Não, obrigado — ele respondeu, a voz grave, demonstrando estar acostumado a mandar.

— Ora, Luke, venha! — Paul insistiu.

— Só se eu ficar ao lado de uma dama de honra — ele falou com malícia.

Todos riram, a não ser Lori e Jonathan Anderson, um dos padri­nhos do noivo, que trabalhava no escritório de Paul e tentava, há mais de seis meses, namorar Lori. Ele passou o braço ao redor da cintura dela.

Lori teve vontade de matá-lo. Como Jonathan ousava fazer isso? Se não preferisse passar despercebida, se afastaria dele e lhe diria umas boas verdades. E tudo por causa daquele desconhecido insolente.

— Como é, Paul, fico ao lado da dama de honra? Da loira? — Luke insistiu.

— Claro que sim! — Nikki riu.

— Então aceito. — Ele se adiantou, com um andar elegante e firme.

— Lori é uma felizarda — Sally comentou baixinho com Nikki. — Onde escondeu essa maravilha de homem durante tanto tempo?

Lori estava sem jeito. Jonathan tinha cedido seu lugar a Luke, que, sem cerimônia, a enlaçou pela cintura. Ele sorriu e Lori retesou o corpo, um pouco intimidada.

O fotógrafo arrumou o grupo, pedindo que todos sorrissem. Outras fotos foram tiradas e Luke não saía de perto de Lori, sempre segurando-a pela cintura.

— Agora só os noivos — o fotógrafo avisou.

Lori aproveitou a oportunidade para desaparecer entre os convida­dos. Para seu alívio, viu que Luke conversava com o pai de Paul. Não tinha a menor intenção de ficar com ele.

Depois das fotos tiradas, foram para o salão de recepção. Lori no­tou que, onde quer que estivesse, Luke continuava a observá-la. Ele tinha um olhar provocante e dominador, enigmático e insustentável.

Jonathan levou uma taça de champanhe para ela, aproveitando para ficar um instante a seu lado, Lori notou que ele estava zangado e sabia por quê.

— Quem, diabo, esse homem é? — Jonathan explodiu.

— Não faço a menor idéia, mas deve ser da família Hammond, ou amigo íntimo, porque estava no banco deles.

— Pelo jeito, Nikki também o conhece.

— Acho que sim, mas nunca a ouvi mencionar seu nome.

— Vamos dançar? — Jonathan convidou.

— Vamos.

Foram até a pista de danças. Jonathan era um homem excelente, Lori sabia disso, mas algo a impedia de começar um namoro com ele. Talvez fosse por causa do seu tipo físico, muito parecido com o de Nigel, ou talvez porque achasse que, com seu temperamento cal­mo e pacato, ele jamais a aceitasse, quando soubesse que era Lorraine Chisholm.

Dançavam bem, rodopiando pelo salão. Lori chamava a atenção por sua elegância e pelos cabelos loiros e rebeldes. Durante muito tempo, aproveitaram a música.

— Vamos parar um pouco, Jonathan? — Lori propôs, afinal.

— Para quê? Se aquele insolente a vir parada, é bem capaz de tirá-la pára dançar. Não pretendo lhe dar essa chance.

Lori olhou ao redor, percebendo que Luke ainda a observava. O que ele estaria procurando? Um medo irracional tomou conta dela. Será que Luke a tinha reconhecido?

Percebeu uma sensação de vazio na boca do estômago, a mente dominada pelo pânico. Sabia que Charles Phillips havia remexido em seu passado até encontrar o que queria. Alguém deveria ter feito esse serviço para ele. Esse desconhecido, de alguma forma, estaria ligado a esse fato? Mas... mesmo que estivesse, como poderia reconhecê-la, se tinha visto uma garota jovem e despreocupada, tão diferente do que ela era agora? Não era possível! Sua imaginação a estava levando para um terreno perigoso.

— Vamos sentar um pouco, Jonathan? Estou cansada.

— Mas...

— Não se preocupe. Se ele tiver a coragem de me convidar para dançar, eu recuso.

Os dois foram para o salão de jantar. Depois de algum tempo, o sr. Hammond se aproximou.

— Vamos dançar, Lori?

Ela aceitou com prazer. Gostava muito do chefe, achava-o alegre e simpático. Já era sua secretária há dois anos e ele a considerava esforçada e inteligente.

— O casamento foi maravilhoso, sr. Hammond — ela comentou.

— Também achei. Fiquei muito emocionado e contente com minha nora. Ela é bonita e meiga. Acho que Paul vai ser muito feliz.

— Sem dúvida, sr. Hammond. Eles se amam bastante e só isso importa.

Deram mais umas voltas pelo salão, até que o sr. Hammond parou, de repente.

— Com sua permissão, vou ceder minha vez a um jovem amigo nosso. Ele está querendo conhecê-la desde que a viu. Dance com ela agora, Luke.

Lori ficou furiosa. Que truque sujo! Não podia se recusar, por cau­sa do chefe. Não tinha outro remédio senão continuar dançando.

— Muito espertos! — Luke comentou, assim que a tomou pelos braços.

— O quê?! — Lori não entendeu nada.

— Seus olhos. Parecem ver e saber de tudo. Parecem ser casta­nhos, mas, quando se repara bem, se nota o halo dourado. E eles ainda mudam de cor, de acordo com seu humor. Agora mesmo, estão cor de mel, porque está zangada. Não sei se já lhe disseram, Lori, mas tem os olhos de uma gata. — Ele riu. — Quando era pequeno, tinha um gatinho angorá com esse mesmo tipo de olhos. Gostava de agradá-lo até que ronronasse de prazer.

— Que história fascinante... — ela comentou, com o máximo de sarcasmo.

— Também gosta de ser misteriosa como um gato. — Luke con­tinuou, imperturbável. — Também arranha, quando se sente acuada?

Lori o encarou com frieza. Ele podia se julgar muito atraente e ter sucesso com as mulheres, mas não com ela!

— Nunca me ponho numa posição em que possa me sentir encur­ralada, senhor... Luke. No entanto, admiro muito o gato. Acho-o um animal cheio de graça e magnetismo.

— Eu também. Agora mais que nunca. Por isso mesmo, prefiro vê-la ronronar do que arranhar.

Lori se afastou, indignada.

— Nunca ronrono, sr. Luke. Nunca. Com licença, Paul e Nikki já vão viajar e quero me despedir deles. — Deixou-o ali, afastando-se com dignidade.

— Obrigada por sua ajuda, Lori. — Nikki a abraçou. Estava feliz, o rosto brilhando de alegria, vestida com um elegante conjunto de linho azul-claro. — Tudo correu muito bem, não acha?

— Foi maravilhoso!

Paul se aproximou e segurou a noiva pela mão. Iam tomar o avião para passar a lua-de-mel em Barbados. Antes de sair, Nikki ainda perguntou:

— O que vai fazer com o pobre Luke, Lori? Ele parece encan­tado com você!

— Mas, Nikki, nem...

— Venha, minha querida. — Paul a puxou pelo braço. — Sinto interrompê-las, mas o avião não espera e o carro já está aí para nos levar.

— Tenho que ir, Lori, na volta vamos conversar bastante. Lori sorriu e os dois foram saindo abraçados.

— Nikki tem razão. Estou encantado — uma voz profunda falou a suas costas. Lori nem precisou virar-se para saber que era Luke. — Então... o que vai fazer comigo?

— Absolutamente nada! Talvez... ignorá-lo.

— Não vai conseguir.

Lori se concentrou em ver a amiga que partia, mantendo-se em silêncio. Nikki abraçou os pais, deixou o buquê com a mãe e, com um sorriso radiante, saiu de casa, de braço dado com o marido.

— Se ela tivesse jogado o buquê, eu o teria pegado para você — Luke continuou falando às suas costas. — Você será a próxima noiva, Lori. Será minha noiva.

— Ficou louco?

— Talvez, mas uma coisa é certa, Lori: vai se casar comigo!

— Nunca! Ouviu bem? Nunca! — ela declarou, convicta, e logo depois saiu dali, indo se juntar aos outros convidados.

Aquele tal Luke não regulava bem! Mal tinha falado com ele e já começava a amolá-la com aquela conversa de casamento! Devia ser louco, não tinha dúvidas.

— Lori... — o sr. Hammond a chamou. — Fico contente de ver que você e Luke se deram bem.

— Sim... mas...

— Ele é um rapaz excelente, brilhante... Realmente muito bri­lhante!

Lori ficou impressionada. O sr. Hammond não era de elogiar as pessoas e, sem dúvida, mostrava irrestrita admiração por Luke. Gos­taria muito de saber por quê.

— Aliás, não me impressiono por ele ser assim — seu chefe con­tinuou. — Com o pai que tem, só podia ter herdado essas qualidades. Tenho muito orgulho de ser amigo dos dois.

— Quem é o pai dele?

— O melhor advogado que já conheci em minha vida. Jacob é sensacional.

— J... acob? — Lori nem tinha coragem de pronunciar aquele nome inteiro. Seu corpo tremia, temendo a resposta.

— Isso mesmo, Jacob Randell. Um advogado perfeito. Só cometeu um erro, no caso Chisholm. Mas não deve se lembrar, não é? Foi muito antes de você começar a trabalhar em advocacia.

Mal sabia ele que ela se recordava muito bem do caso todo e tam­bém de Jacob Randell. Ele era um advogado destemido, cruel, sem dó nem piedade. Se não fosse por Jacob, seu pai, Michael Chisholm, ainda estaria vivo. Não, jamais esqueceria aquele homem.

O caso tinha se arrastado por meses na Justiça. Lori e a mãe eram procuradas pelos repórteres em todo lugar a que iam. Não as deixa­ram em paz nem no dia do enterro de Michael.

— Foi uma pena que aquele caso não chegasse a uma conclusão — o sr. Hammond continuou falando. — Mas não vou continuar a cansá-la com minhas histórias, principalmente num dia alegre como hoje. Eu e meu amigo Jacob não devemos parecer muito interessantes para uma jovem. Vá e divirta-se, Lori. Ainda é cedo.

 

A mente de Lori estava confusa. Então Luke era filho do homem que mais odiava no mundo, do homem que tinha causado o suicídio de seu pai, a morte prematura da mãe e a briga com Nigel? Mesmo transtornada, procurou manter a calma. Pediu licença ao chefe e foi ao banheiro. Não conseguia apagar as imagens que lhe apareciam, tão reais como tinham sido doze anos atrás.

Nessa ocasião, ela e a mãe tinham mudado o sobrenome para Par­ker. Mas a mudança não conseguira apagar o que a mãe sentia, nem o fato de o pai ter sido acusado de ser um criminoso, nem de ter co­metido suicídio antes que a sentença fosse confirmada pelo juiz.

Durante os cinco anos seguintes, Lori viu a mãe definhar até mor­rer. Daí para a frente, a garota de dezessete anos tinha jurado vingar-se de Jacob Randell.

Fez vários cursos, sempre tentando se tornar uma excelente secre­tária, com a única finalidade de conseguir um emprego ao lado de Jacob Randell. Queria descobrir alguma coisa que pudesse desacre­ditá-lo em sua profissão. Sabia que, se ele tinha errado com seu pai, provavelmente teria outros erros em sua longa carreira de advogado brilhante.

Mas, antes que atingisse seu objetivo, soube que Jacob Randell tinha se aposentado. Seus planos de vingança caíram por terra.

E agora... agora descobria que o homem odiado tinha um filho, um homem que dissera que ia casar com ela! Não havia simpatizado com Luke mesmo sem saber quem era, mas, agora que conhecia sua identidade, passara a odiá-lo.

Há muito tempo não pensava em sua vingança. Tinha enterrado os anos de amargura e tristeza, sabendo que nada mudaria o passado. Seu pai e sua mãe não poderiam ser ressuscitados, assim como seu caso de amor com Nigel.

— Lori... não sabia que estava aqui — Ruth Hammond, a mãe do noivo, falou, chegando junto dela.

— Vim me arrumar um pouco. Fiquei emocionada com a partida de Nikki — Lori disfarçou para explicar seus olhos amargurados.

Gostava da esposa de seu patrão. Era uma mulher fina, de maneiras delicadas, que sempre tinha uma palavra amável para todos. Lori admirava muito o casal e sabia que eles nutriam uma afeição especial por ela.

— Claude e eu gostaríamos muito que viesse almoçar conosco amanhã, Lori. Está bem para você? Seremos só quatro.

— Quatro?

— Isso mesmo. Eu, Claude, você e Luke. Lori estremeceu involuntariamente.

— Sinto muito, sra. Hammond, mas já tenho outro compromisso. Vou visitar minha tia.

— Não pode visitá-la outro dia?

— Sinto muito, mas é impossível.

Lori sabia que a tia-avó, Jessie, ficaria inconsolável, se não fosse vê-la no dia combinado. Ela estava numa casa de repouso para gente idosa e adorava as visitas regulares de Lori.

— Que pena! Luke está conosco só neste fim de semana. Depois, vai mudar para seu próprio apartamento. Quem sabe dá um jeito de vir para o chá? — Ruth insistiu.

— Sempre passo o dia todo com minha tia.

— Então não há nada que eu possa fazer, não é? Que pena, gos­taria muito que conhecesse Luke...

— Eu já o conheci, sra. Hammond.

— Sei disso, mas aqui tem tanto movimento e interrupções, que não dá nem para conversar. Ele esteve durante muitos anos nos Es­tados Unidos e perdeu o contato com os amigos. Nós o conhecemos desde que era criança. Bem... se não pode... só posso lastimar a oportunidade perdida. — Ela levantou, resignada. — Não vai voltar à festa, Lori?

— Já, já. Só vou retocar a maquilagem.

— Não sei por que se preocupa com isso. É tão jovem e bonita que está sempre encantadora. Só na minha idade é que se pensa em ajudar a natureza.

Lori riu junto com Ruth, mas, assim que ela saiu, ficou séria de novo. A amargura a invadia, como sempre acontecia quando revivia o passado. Para conseguir esquecer a morte da mãe, tinha deixado o apartamento que dividia com ela e trocado de emprego. Anos mais tarde, conhecera Nigel, apaixonara-se e mais uma vez a vida lhe pre­gara uma peça.

Agora, para cúmulo do azar, Luke tinha surgido, trazendo de volta as lembranças dolorosas, arrasando a autoconfiança que tinha desen­volvido durante todos aqueles anos. Mas não se deixaria destruir, dessa vez. Agora era Lori Parker, e não Lorraine Chisholm. Era uma secretária excelente e trabalhava num dos escritórios mais conceitua­dos de Londres. Nenhum fato do passado iria prejudicá-la.

O melhor era pedir desculpas aos pais de Nikki e ir embora. Assim poria um ponto final em seu ainda novo relacionamento com Luke, pois não teria oportunidade de revê-lo.

— Pensei que fosse ficar escondida aí a noite toda, gatinha.

Lori virou-se. Tinha acabado de sair do banheiro e já ouvia aquela voz que tanto queria evitar. Luke estava encostado numa coluna, es­perando por ela. Observou-o melhor. Fisicamente, era muito diferente do pai. Tinha os cabelos bem escuros, quando os do pai eram pratea­dos; era bem mais alto, magro e atlético, quando o pai era gordo e barrigudo. Só não sabia ainda se Luke era tão implacável e cruel como Jacob.

Jamais esqueceria que, graças às palavras venenosas de Jacob, seu pai fora incriminado. O interrogatório o reduzira a um estado tão de­plorável que já nem sabia o que respondia. Tinha sido por causa de Jacob que ele tinha se matado.

— Gatinha... — Luke estava junto dela, observando seu rosto pálido.

— Não estava me escondendo, nem tenho por que agir assim. Com licença.

— Não vá embora. — Ele colocou a mão sobre o braço dela. — Fugiu de mim o dia todo. Agora não vou mais deixá-la escapar. Por que recusou o convite de Ruth?

Lori apertou os lábios e com os olhos procurou Jonathan, para cha­má-lo em seu socorro.

— Tenho um compromisso para amanhã.

— Pode mudá-lo, não é?

— Nunca tomo esse tipo de atitude. Quando tenho um compro­misso, eu o cumpro.

— Muito bem. Mostra que tem sentimentos muito elevados. Mas, mesmo assim, gostaria de ver minha noiva amanhã. Talvez até pu­déssemos discutir os detalhes do casamento.

— Não está regulando bem, deve ter tomado muito champanhe.

— Quando decidi casar com você, não tinha experimentado uma gota de nada.

— Quando você decidiu? Pensei que fosse uma decisão tomada em conjunto.

— Mas é. Você apenas está demorando um pouco mais do que eu para chegar à mesma conclusão.

— Nós nos conhecemos hoje!

— E acha que precisa de mais tempo? Para mim é o suficiente. Lori suspirou. Não dava para discutir com aquele homem. O melhor era ir embora logo. Correu os olhos pela sala à procura de Jonathan, que tinha prometido levá-la para casa. Não podia ficar ali. Ia acabar perdendo a cabeça e seria capaz de dizer coisas insuportáveis!

— Gatinha, eu...

— Não me chame assim! Não gosto! — ela quase gritou. Final­mente, seus olhos encontraram Jonathan. — Ei, Jonathan! — chamou.

Luke olhou para Jonathan, que se aproximava depressa.

— Ele é seu namorado?

— É — ela mentiu. Afinal de contas, não era exatamente o que Jonathan queria ser? Não estava prejudicando ninguém, com sua men­tira.

— Seu compromisso de amanhã é com ele?

Ficou tentada a dizer que sim, mas isso era ir longe demais, pois Ruth poderia ter lhe contado sobre a visita à tia.

— Não.

— Foi o que pensei. Não estou desistindo de você, gatinha. Os Jonathans deste mundo são muito pouco significativos para mim. Acre­dito que também não signifiquem muito para você.

— Lori! — Jonathan os alcançou, demonstrando o prazer que sen­tia ao vê-la. — Boa noite, sr. Randell — ele cumprimentou com respeito, impressionado por ter descoberto que Luke era o filho do grande Jacob Randell.

— Vamos embora, Jonathan? Já está na hora — Lori pediu.

— Ah... sim. Quando quiser. Foi um prazer conhecê-lo, senhor. — Jonathan apertou a mão de Luke.

— O prazer foi meu. — Luke virou-se para Lori: — Tornaremos a nos encontrar.

Lori o encarou e, vendo a determinação em seu olhar, ficou apreen­siva. Luke tinha os mesmos olhos do pai, frios e duros como o aço.

— Duvido muito — ela declarou com frieza. — Vamos embora, Jonathan?

— Claro.

Quando se acomodou no carro de Jonathan, os joelhos de Lori tremiam e os dentes batiam uns contra os outros. Ele não percebeu nada. Sentou e começou a conversar assim que o carro se movimentou.

— Sabe quem ele é? — Parecia impressionado por ter conhecido o filho da "Velha Raposa", como Jacob Randell era conhecido nos tribunais.

— Sei. — Lori suspirou e colocou a mão na testa, tentando segu­rar a cabeça, que latejava de dor.

— Pois é, já pensou ter que ficar à altura do velho Jacob? Sabe que Luke também é advogado?

Lori não sabia, mas não foi uma surpresa tão grande para ela. Fi­lho de peixe, peixinho é. Luke tinha seguido as pegadas do pai. Pro­vavelmente, era tão brilhante quanto Jacob, fazendo defesas ou acusa­ções fabulosas, dignas de figurar na história dos tribunais.

— Não sabia que Jacob tinha um filho. E você? — Jonathan per­guntou.

— Nunca pensei nisso. — Era verdade. Jacob tinha destruído sua família e ela nunca tinha pensado na possibilidade de ele poder dar ou receber amor de alguém.

— O sr. Hammond não se cansou de elogiá-lo — Jonathan con­tinuou, sem perceber que Lori não tinha o menor interesse de falar sobre esse assunto.

— É verdade. Também ouvi.

— Gostaria muito de saber se Luke...

— Jonathan — ela o interrompeu, zangada —, incomoda-se se mudarmos de assunto? Não agüento mais falar sobre esse tal de Luke Randell.

— Desculpe. Eu só queria... Você tem razão. Por que estou fa­lando dele, se finalmente a tenho todinha para mim? Vai me convidar para tomar um café?

— Acho que Sally...

Foi a vez de ele interrompê-la:

— Ela saiu com o namorado faz muito tempo. Devem estar curtin­do essa noite linda.

— Está bem. Então está convidado para uma xícara de café.

— Só isso?

Lori sorriu, ao mesmo tempo que se perguntava por que nunca tinha permitido que Jonathan fosse além da amizade. Ele era divertido. E precisava muito de divertimento, àquela altura de sua vida Precisava apagar da memória, entre outras coisas, aquele par de olhos cinzentos que sabia ser muito duros e também suaves como veludo.

— O casamento pode ter deixado Sally mais romântica, mas não teve o mesmo efeito sobre mim — ela anunciou.

— Sou mesmo muito azarado!

Quando chegaram ao apartamento, verificaram que Sally e Dave não estavam lá. Deviam ter ido para a casa dele. Era uma pena que Sally estivesse tão apaixonada, Lori pensou, porque Dave não de­monstrava sentir o mesmo por ela.

— Que lugar aconchegante. Lori — Jonathan comentou, exami­nando a sala toda. — Além de ser uma garota incrível, também tem bom gosto.

— Obrigada. Gosto do que tenho aqui.

— Tudo com você é assim. Sempre a máxima perfeição.

— Tomou champanhe demais, não é, Jonathan?

— Nada disso Não preciso de bebida para achá-la bonita. Não foi o que Luke também disse? — Ele suspirou. — Vou ter que obser­vá-lo de perto, Lori. Aquele homem tem muita lábia.

— E eu tenho princípios inflexíveis, Jonathan. Jamais saio com um homem que detesto.

— Ora, Lori, não é esse o caso e...

— Acho melhor ir embora agora — ela o interrompeu. — Tive­mos um longo dia e estou realmente cansada.

— Eu sei, mas... — Jonathan viu a determinação naquele rosto bonito. — Está bem. Acho que não adianta nada insistir em ficar um pouco mais, não é? Mas que tal convidá-la para sair?

Lori sorriu levemente. Jonathan não fazia a menor idéia do tumulto que havia em seu coração. Tinham sido muitas emoções juntas. A alegria pelo casamento da amiga, o ódio ao ver o filho do homem que era o culpado por seus maiores sofrimentos... Provavelmente, Jonathan estranhara que a geralmente calma e fria Lori Parker esti­vesse tão azeda e explosiva nessa ocasião.

— Por que não lenta me convidar na segunda-feira? — ela propôs.

— Já ouvi essas evasivas várias vezes, Lori. Há seis meses que age assim comigo. Pensei que hoje, finalmente, tinha conseguido chegar mais perto de você.

Lori percebeu que ele havia se chateado e resolveu ser mais amável:

— Vamos jantar juntos na segunda-feira, Jonathan?

— Claro! Não ouse mudar de idéia, Lori. Segunda-feira, às oito horas, venho pegá-la. Não vá arranjar desculpas. — Ele saiu asso­biando, muito feliz.

Lori foi para o quarto. Recusava-se a pensar por que havia con­cordado em sair com Jonathan. Também não queria pensar em Luke. Estava acostumada a esconder seus sentimentos no fundo de seu co­ração, num lugar inacessível. Ocupou o pensamento com Sally, preo­cupada com as numerosas noites que ela passava com Dave.

 

Sally ainda não tinha chegado, na manha seguinte, quando Lori se levantou para tomar café. Depois de comer alguma coisa, resolveu se vestir para ir visitar a tia. Escolheu um conjunto de calça compri­da azul-marinho com uma blusa de bolinhas combinando. Fazia ques­tão de estar bonita porque tia Jessie, apesar de seus oitenta anos, gostava de vê-la bem-vestida.

— Está atrasada — Jessie comentou, ao vê-la chegar.

No lar das pessoas idosas havia pequenos apartamentos, geral­mente divididos por duas pessoas. O de Jessie era bem pequeno e ela o dividia com a sra. Jarvis, que no momento passava uma semana na casa do filho casado.

A sala tinha plantas por todos os lados, todas elas muito verdes e bem tratadas. Jessie adorava suas plantas e fazia questão absoluta de estar cercada por elas. Por sorte, a sra. Jarvis partilhava de seus interesses e as duas velhinhas se divertiam plantando e replantando, adubando e regando.

— Desculpe, tia Jessie, mas dormi um pouco mais, hoje de manhã.

Com olhos ainda muito vivos, ela examinou bem a sobrinha, de quem gostava tanto. Notou que havia algo de diferente nela, uma an­siedade, uma tristeza, não podia definir exatamente o quê.

— Aconteceu alguma coisa, querida? — perguntou à queima-roupa.

Lori não respondeu. Gostava demais da tia e não queria preo­cupá-la.

— Não vai me dizer, Lori?

— Não aconteceu nada, tia Jessie. — Havia trazido uma nova planta para a tia e tratou de levá-la para junto da janela. Ao passar perto da porta da cozinha, sentiu um aroma gostoso no ar. — O que está fazendo de gostoso? Frango?

— Já foi olhar dentro do forno? — Jessie brincou. — Mas adivi­nhou. É isso mesmo. Estou preparando um frango porque sei que gosta muito.

— Tem razão, tia Jessie. Não existe nada mais gostoso que o fran­go que você faz. — Ela deixou o vaso na janela. — Está bem aqui?

— Ainda não aprendeu a mexer com plantas, minha querida? Sua velha tia precisa lhe ensinar todos os segredos, enquanto ainda tem a cabeça lúcida. Essa folhagem não gosta de correntes de ar e, por­tanto, não pode ficar diante da janela. Ponha no outro móvel, onde receberá a luz e calor, sem ficar exposta ao vento.

Lori obedeceu. Mudou o vaso para uma outra prateleira, onde já havia várias plantas muito viçosas.

— Ainda estou esperando sua resposta, Lori. Não me venha com evasivas de novo. O que aconteceu?

— Uma amiga minha se casou ontem.

— Nikki, não foi? Lembro-me que me falou sobre esse casamento. Sei também que dia foi ontem, mas... não pensa mais naquele Ju­das, não é verdade?

Lori deu risada. Quando apresentara Nigel a Jessie, houvera uma antipatia mútua. Nem ela gostara dele, nem Nigel simpatizara com a tia. "Uma velha caquética", ele tinha dito. "Um moleque pomposo e orgulhoso", ela tinha comentado. Depois que desmancharam o noi­vado, Jessie passou a chamá-lo de Judas.

— Claro que não penso mais nele, tia Jessie — Lori garantiu.

— Sei que na data de ontem, há cinco anos, vocês deveriam ter se casado. Mas também sei que ele não era o rapaz certo para você. Se realmente a amasse, teria insistido em casar, mesmo que você fosse acusada de roubo, e não seu pai.

Lori mais uma vez lembrou de tudo. Quando a história começara, seu pai trabalhava num banco, como gerente. Houvera uma auditoria e fora encontrada uma diferença no caixa. Como gerente, ele ficara sendo o principal suspeito. Apesar de negar veementemente que ti­vesse qualquer coisa a ver com o desfalque, seu pai fora levado a jul­gamento. O grande Jacob Randell conseguira convencer os jurados de que ele era a pessoa com melhores condições para cometer o crime, uma vez que guardava consigo todas as chaves.

— Conte o que aconteceu, Lori. — A Tia continuava a examiná-la com os olhos vivos.

Mas Lori não podia falar. Jessie era velha demais e merecia passar seus últimos anos em paz, sem maiores problemas. Já tinha dado seu apoio irrestrito quando precisara de carinho e proteção. Para ela, os fatos acontecidos há doze anos faziam parte de uma época dolorosa do passado, mas que havia terminado. Se falasse de Luke Randell, a tia provavelmente ficaria preocupada.

— Me emocionei com o casamento, tia Jessie. Por um instante, pensei que podia ter sido o meu.

— Esqueça aquele Judas. Ele não vale nada. Você saiu ganhando em não ter casado com um homem sem coragem e sem fibra. Quero que me conte como foi o casamento. A noiva estava bonita?

— Muito. — Lori começou a descrever os detalhes do casamento. Sabia que a tia adorava as novidades para depois contá-las à sra. Jarvis.

— E quem é esse Jonathan?

— Um amigo. Ele é advogado e trabalha na firma do sr. Hammond.

— Gosta dele?

— Gosto.

— Então por que ele é só um amigo?

— Bem, vou sair com ele amanhã à noite.

— Isso é ótimo! Lembre-se que o tempo passa e ninguém fica mais jovem do que já é.

— Logo você vem me lembrar disso, tia Jessie? Você também nunca se casou!

— Não foi por falta de pretendentes. Sempre recusei porque não queria nenhum homem mandando em minha vida. Além disso, onde ele iria ficar? Como ia sobrar lugar para ele, no meio de tantas plantas?

As duas riram com gosto.

— Estou morrendo de fome, tia Jessie. Será que o almoço está pronto?

— Vamos para a cozinha terminá-lo.

Lori adorava passar o dia com a tia. Sentia-se mais leve e animada, quando falavam sobre pequenas bobagens que as divertiam tanto. Era bom estar ali e afastar para longe a lembrança perturbadora de Luke. Mas, pensando bem, fora por sua própria culpa que tinham se en­contrado. Não fora ela quem escolhera trabalhar no meio de advo­gados? Mais cedo ou mais tarde, terminariam se vendo.

No dia seguinte, no escritório, passou o dia todo sobressaltada, esperando a cada minuto que Luke aparecesse de surpresa. Respirou aliviada quando chegou a hora de ir embora.

Jonathan chegou pontualmente. Lori estava pronta, esperando por ele.

— Que bom que não mudou de idéia! Então continua de pé nosso jantar para hoje?

— Claro que sim. Duvidou que eu não cumprisse com o que pro­meti?

— Pedi a todos os santos que mantivesse nosso acordo — ele de­clarou, com voz rouca.

— Estou muito contente com seu convite, Jonathan.

— Eu também. — Um brilho novo apareceu nos olhos dele.

Foram para um restaurante pequeno, e Lori apreciou a comida, o vinho e, principalmente, a conversa gostosa de Jonathan. Ele falava sobre diferentes assuntos, todos interessantes, desde esportes até livros de mistério.

— Não consigo descobrir o assassino, Lori. Nunca.

— Você? Um advogado criminalista?

— É uma vergonha, não é? Mas confesso que nunca acerto.

Os dois riram com vontade. Em seguida, Lori olhou para o relógio.

— Fico triste por interromper nossa conversa, mas já são mais de onze horas e amanhã temos um dia de trabalho pela frente.

— É verdade. Amanhã temos que estar muito alertas.

— É mesmo? Por quê?

— Porque... Obrigado — ele disse ao garçom, que lhe trouxe a conta. Separou o dinheiro necessário e depois se levantou, puxando a cadeira para Lori. — Vamos embora?

Ela o seguiu e foram até o carro. Entraram e logo depois o veículo deslizava macio pelas ruas já não muito movimentadas.

— Por que temos que estar alertas amanhã? — Lori insistiu.

— O Garoto Maravilha vai nos fazer uma visita. Quer ver como se age nos casos aqui em Londres, pois está mais acostumado com os procedimentos dos Estados Unidos.

Lori passou a língua nos lábios, que, de repente, tinham ficado se­cos. Sabia a quem ele se referia quando falava em "Garoto Maravi­lha".

— Luke Randell vai ao escritório amanhã?

— Vai. — Jonathan a olhou, espantado. — Você não sabia?

— Não.

— O sr. Hammond me contou hoje à tarde. Pensei que soubesse, é secretária dele...

— Ele não me disse nada.

— Provavelmente esqueceu, Lori. O sr. Hammond está ficando velho.

— Talvez. — Ela achou mais fácil concordar, mas sua conclusão era bem diferente. Luke devia ter pedido ao sr. Hammond que não lhe contasse. Assim a forçaria a ser amável com ele, pois estaria desprevenida e na presença do chefe.

— Sabe a que horas ele pretende ir?

— Às dez e meia. Vai ser apenas uma visita informal, segundo me disse o sr. Hammond.

Lori ficou mais aliviada por saber o que ia acontecer. Ainda bem que Jonathan tinha tocado no assunto!

Quando chegaram ao apartamento, a luz estava acesa e Lori pensou que Sally deveria estar em casa. Com muito jeito, pediu a Jonathan que não entrasse, porque queria deitar logo para estar bem disposta no dia seguinte.

— Claro, eu compreendo, Lori. Já é tarde. Acha que poderíamos sair outra vez?

— Gostaria muito.

— De verdade?

— Mesmo, mas vamos deixar passar mais uns dias, está bem? Nor­malmente, não saio durante a semana — inventou, não querendo se envolver demais com ele. Gostava de Jonathan, mas... havia sempre um "mas" em sua vida.

— Podemos deixar para combinar na sexta-feira. Está bem assim? — Jonathan propôs mais que depressa.

— Ótimo.

— Então acho melhor ir embora. — Ele hesitou, olhando com in­tensidade para a boca de Lori, sem coragem de tomar a iniciativa.

Ela ficou nas pontas dos pés e facilitou a tarefa, oferecendo os lábios para um beijo de boa-noite. Era engraçado como Jonathan conseguia ser tão confiante no tribunal e tão tímido quando ficava junto dela.

Finalmente Jonathan se foi e ela entrou no apartamento. A primeira coisa que viu foram as pontas de cigarro amassadas no cinzeiro. Então Dave tinha estado ali! Estaria na cama com Sally?

Foi para o quarto um pouco apreensiva, mas encontrou a amiga dormindo, um sorriso de paz lhe entreabrindo os lábios. Era uma pena que Sally estivesse tão apaixonada por um rapaz como Dave Greene, que provavelmente ainda a faria sofrer muito!

No dia seguinte, Lori caprichou ao se vestir. Escolheu um conjunto preto, que não lhe ficava muito bem, nem pela cor nem pelo feitio. Escovou o cabelo e o prendeu num coque. Não queria atrair a atenção de Luke e procurou ficar o mais feia possível.

Já estava no escritório há meia hora quando o sr. Hammond che­gou. Ele pareceu surpreso por vê-la daquele jeito, mas não fez qual­quer comentário. Eram quase dez e meia quando ela foi até a copa preparar um chá para seu chefe. Arrumou duas xícaras na bandeja e depois a levou para o escritório, colocando-a sobre a mesa.

Com pontualidade britânica, Luke chegou à hora marcada. Lori pensou que. felizmente, estava prevenida a respeito dele. Já o achara atraente no casamento e agora estava ainda mais. Usava um terno cinza-escuro, muito bem talhado, uma camisa branca e uma gravata discreta.

Luke não pareceu surpreso por vê-la vestida como se estivesse cin­qüenta anos e estivesse num enterro. Chegou perto da mesa, inclinou-se para ela, o rosto alegre, os olhos brilhando intensamente.

— Como vai, gatinha? Não lhe disse que íamos nos encontrar de novo?

Lori mal o cumprimentou e logo pegou o interfone.

— Sr. Hammond? O sr. Randell está aqui para vê-lo.

— Mande-o entrar, Lori.

— Por que tanta pressa? — Luke continuava sorrindo. — Queria conversar com você primeiro.

Lori levantou-se e se aproximou da porta do escritório de seu che­fe, mas Luke foi mais rápido e a impediu de abri-la.

— Ainda não. — Luke segurou o queixo pequeno, obrigando-a a encará-lo. — Jante comigo esta noite.

— Sinto muito, mas...

— Por que não?

Lori suspirou. Mesmo caprichando para parecer velha e feia, ele não havia desistido.

— Porque prefiro não ir.

— Será que lhe causei má impressão?

— Não é isso...

— É sim.

— Por favor, entre. O sr. Hammond está esperando.

— Estou aqui para vê-lo, mas ainda não vou entrar. — Luke es­tendeu o braço e a segurou mais perto de si. — Você se preparou tanto para me esperar, mas foi bobagem. Pode estar vestida com um saco de batatas que, mesmo assim, eu a acho a coisa mais encanta­dora que já vi sobre duas pernas longas e sensuais. — Ele a apertou contra o corpo.

Lori virou a cabeça de um lado para o outro, tentando escapar dos lábios que se aproximavam cada vez mais dos seus. Estava presa naqueles braços fortes que a apertavam contra o peito musculoso. Os lábios pressionaram os dela, acariciando-os com delicadeza, de uma tal maneira que ela não sentia vontade de se mexer.

Luke a abraçou com mais força, seus lábios excitando Lori. Julga­va que a resistência que ela oferecia era apenas uma fachada.

— Gatinha, pare de lutar...

— Não estou...

Nesse momento a porta se abriu.

— Lori, onde... — O sr. Hammond parou no meio da frase, ao dar com a secretária nos braços de seu visitante. — Não sabia o que o estava detendo aqui fora, Luke. Devo estar mais velho do que penso.

Lori soltou-se dos braços de Luke e foi direto para sua mesa.

— Preparo essas cartas num instante, sr. Hammond. — Abaixou a cabeça e começou a bater a máquina.

— Não precisa ter tanta pressa, Lori. — O sr. Hammond dirigiu-se a Luke: — Sabe, é a primeira vez que vejo minha secretária atra­palhada e sem jeito. E você é o culpado, seu malandro!

Lori datilografava com pressa, seus dedos parecendo ter asas. Não queria tomar conhecimento dos dois homens, porque sabia que estava sendo motivo de riso.

— Vejo você mais tarde, gatinha — Luke ainda falou, antes de fechar a porta.

Lori parou com seu serviço e cobriu o rosto com as mãos. Por que tinha permitido que aquele insolente a pegasse desprevenida? Ainda podia sentir a pressão dos lábios carnudos contra os seus, como se ele continuasse a beijá-la. A sensação era tão forte que foi para o banheiro e lavou o rosto, tentando esquecer o incidente.

Olhou-se no espelho e viu seu rosto pálido, os olhos muito grandes cheios de surpresa e impaciência. Tinha bancado a idiota na frente do chefe. Tinha feito sempre tanta questão de manter sua vida parti­cular separada do trabalho e agora... O que o sr. Hammond ia pensar dela? Não estava beijando Luke, mas não era o que parecia.

Voltou ao trabalho. Os dois homens ainda estavam fechados no escritório. Logo depois, o interfone tocou.

— Lori, traga a pasta do caso Danfield, por favor.

Era o caso mais importante cm que estavam trabalhando no mo­mento. Por que iam mostrá-lo logo a Luke? Bem, não era de sua conta.

Separou o que lhe era pedido e entrou na sala, sem sequer olhar na direção onde Luke estava sentado. Já ia sair quando ele se levantou e se apressou em lhe abrir a porta.

Lori não ousou levantar a vista para além daquela mão que segu­rava a maçaneta. Era bonita e grande, com dedos longos e finos. Não era a mão de um trabalhador, nem de um homem que passava o dia todo atrás de uma mesa, apenas exercendo a atividade mental. Havia força e sensibilidade naqueles dedos.

— Gosto de velejar — Luke explicou, sem que ela perguntasse nada.

Lori se assustou. Será que ele conseguia ler seus pensamentos?

— Do que está falando, meu rapaz? — O sr. Hammond também se interessou.

— Estava dizendo a Lori que adoro velejar. — Luke voltou a atenção para ela. — Não gostaria de ir, um dia, comigo?

— Obrigada, mas fico enjoada no mar. — Ela passou por ele para entrar em sua própria sala.

Luke ficou na porta e continuou a conversa:

— Eu poderia curar isso.

— Não quero ser curada. — Enfrentou seu olhar, sabendo que Luke tinha percebido o duplo sentido das palavras.

— Acha que a cura pode ser pior que a própria doença?

— Sem dúvida nenhuma.

— Já tentou, alguma vez?

— Várias.

— E o resultado foi sempre o mesmo?

— Sempre.

— Talvez... tenha velejado com o homem errado. Lori apertou mais os lábios.

— Não creio que esse seja o problema.

— Não?

— Não. Creio que simplesmente não gosto, só isso.

— Que pena! Pode ser tão maravilhoso! — Luke se voltou de novo para o sr. Hammond. — Ia me contar sobre esse caso Danfield... — A porta se fechou com suavidade.

Lori sentou na cadeira e cobriu de novo o rosto com as mãos. Por que tinha permitido que aquele tipo de conversa fosse adiante? Os dois sabiam que, na verdade, não estavam falando sobre velejar.

Mas Luke conseguia fazê-la sentir-se como uma adolescente, insegura e vulnerável. Por quê?

 

Luke voltou ao escritório todos os dias. Quando chegou sexta-feira, Lori estava em ponto de bala. Ele não perdia a oportunidade de convi­dá-la para sair e ela já tinha dado todas as desculpas possíveis.

Acabou marcando um encontro com Jonathan, quando não tinha a menor intenção de fazer isso. Mas era uma maneira de manter Luke a distância.

Naquele dia, Luke tornou a convidá-la e foi com imenso prazer que ela avisou que não podia porque já tinha outro compromisso.

— Com Jonathan Anderson?

— Isso mesmo.

— Mas por quê? Ele não significa nada para você! Lori ficou vermelha.

— Como ousa dizer isso? Não sabe nada a meu respeito e nunca saberá.

— Bobagem, gatinha. Nem a aversão que demonstra sentir por mim é verdadeira. Mas, mesmo que fosse, não faria diferença alguma.

— Não estou entendendo. Não faria diferença para que?

— Para meus planos de casar com você.

— Ora... — Ela se levantou, zangada. — O sr. Hammond me pediu que o levasse direto a seu escritório. Quer que lhe abra a porta ou pode fazer isso por si mesmo?

Luke se ergueu, sua figura imponente enchendo a sala com sua presença.

— Faço o que for para deixá-la feliz, gatinha.

— Qualquer coisa?

— Dentro do razoável, é claro.

— Então... que tal ficar longe de mim?

— Isso não é possível. Nem agora nem no futuro.

— Por quê? — Lori não se conformava com essa obsessão de sair com ela; já tinha demonstrado várias vezes que não estava interes­sada nele.

— Quer mesmo saber a resposta?

— Não. — Já sabia. Estava cansada de saber, porque ele não can­sava de repetir que ia se casar com ela.

— Ainda bem. Eu a estou vencendo pouco a pouco, não e? — Luke lhe deu as costas e foi para o escritório de Claude Hammond.

Lori ficou furiosa. Esperava que, depois de tantas recusas, Luke se desse por satisfeito e a deixasse em paz. Por que ele não se interes­sava pelas outras secretárias, que estavam loucas por um convite? Mas não! Era ela! Era o alvo indiscutível daquele homem! Ele parecia decidido a levar seus planos de casamento até um final feliz. Mas Luke ia cansar de esperar, porque, decididamente, não queria lhe dar a menor oportunidade de se aproximar!

Luke compareceu á reunião da diretoria, sentando-se perto de Claude Hammond. Mostrava-se à vontade, informado de todos os assuntos.

Lori também estava ali, como em todas as reuniões, tomando nota do que era discutido. No final, com voz muito séria, Claude Hammond pediu silêncio e se levantou para falar:

— Vocês todos devem ter notado que Luke Randell tem vindo aqui diariamente, nesta semana. Daqui para a frente, ele estará entre nós de modo permanente. Faz tempo que venho pensando em me apo­sentar. Para minha alegria, Luke concordou em tomar meu lugar. Creio que todos se alegrarão com esta notícia.

Lori não ouviu mais nada. Estava abaladíssima! Luke ia trabalhar naquele escritório! Ainda por cima, no lugar do seu chefe! Onde ela, como secretária do sr. Hammond, iria ficar?

Quando a reunião terminou, saiu da sala junto com os outros, chocadíssima! Não podia ficar mais ali!

— Que reviravolta nos acontecimentos, não, Lori? — Jonathan comentou, ao lado dela.

— Nem fale...

— Eu imaginava algo assim, mas não pensei que fosse tão depres­sa. Aliás, o sr. Hammond foi muito feliz em conseguir que um homem como Luke se tornasse seu sócio.

— Nunca imaginei que isso acontecesse, Jonathan. Esperava que, quando o sr. Hammond se aposentasse, alguém daqui de dentro tomas­se seu lugar.

— Não concordo com você, Lori. Nunca houve a mais leve refe­rência a esse respeito. Tenho a impressão de que o sr. Hammond já pensava em Luke há muito tempo. Aliás, a escolha não poderia ter sido melhor.

Era incrível! Jonathan não se importava que uma pessoa de fora viesse comandar os que já trabalhavam na firma há tantos anos! Pelo jeito, todos admiravam tanto Luke que estavam felizes de obedecer a suas ordens. Mas ela não!

Foi direto para sua mesa. Sentou-se e começou a bater sua carta de demissão. Não queria ir embora, gostava muito de trabalhar ali, mas não suportaria ficar sob o mesmo teto que Luke. Ia entregar a carta nesse dia mesmo, porque assim poderia se livrar daquela situa­ção em, no máximo, um mês. Não seria fácil agüentar todos esses dias, mas tinha que cumprir o aviso prévio e dar um tempo para que arranjassem uma nova secretária.

Pouco depois Luke apareceu, sozinho.

— Seja bem-vindo à Ackroyd, Hammond & Hammond — ela falou, muito seca, sem um sorriso.

— Que pena que não ficou alegre com a notícia, Lori... Mas... não se pode ter tudo na vida, não é? — Ele chegou mais perto e viu a carta, ainda presa na máquina de escrever.

— O que é isso?

— Era uma carta particular para o sr. Hammond.

— Não se esqueça de que, daqui para a frente, toda a correspon­dência do sr. Hammond deve passar pelas minhas mãos. O que signi­fica essa carta?

— Se já a leu, não é bastante óbvio?

— Claro que é, mas estou mais interessado no porquê de você tê-la escrito.

Lori desviou o olhar.

— Pensei que isso também fosse óbvio.

— Talvez. — Luke chegou mais perto e segurou-lhe o rosto para que ela o olhasse de frente. — Está fazendo isso por minha causa?

Ela suspirou, sem querer encará-lo, mas respondeu em voz firme:

— Sim.

Luke apertou os lábios. Mostrava uma expressão determinada, de quem sabe o que quer e luta para conseguir. Estava tão parecido com o pai que Lori sentiu uma vontade incontrolável de afastar-se dele.

— Está disposta a deixar esse emprego de que gosta, só porque não quer trabalhar comigo?

— Isso mesmo.

— Me odeia tanto assim?

— Sim.

Luke fez uma pausa ligeira e respirou fundo antes de acrescentar:

— E se eu lhe pedisse para ficar?

— Não modificaria minha decisão. Trabalho aqui como secretária do sr. Hammond e, uma vez que ele não estará mais aqui, prefiro me afastar também.

— Seu cargo não está em discussão, Lori. Claude não podia ima­ginar que tomaria essa atitude, ele sempre contou com sua lealdade para com a firma. No entanto, se prefere trabalhar como secretária de Paul, posso dar um jeito.

— Nikki é a secretária dele.

— Mais um motivo para fazermos a troca. Não creio que seja uma boa idéia um homem trabalhar tendo a esposa como secretária.

— O problema não é seu. Eles é que devem decidir, não acha? — Lori estava indignada. Então Luke já queria mandar em Paul Hammond?

— Tenho a impressão de que não entendeu a situação direito, Lori. Agora me tornei o sócio majoritário. No futuro, nossa firma vai se chamar Randell, Hammond & Hammond.

— Meu Deus! Paul...

— Paul sabe de tudo há muito tempo. Mas que diferença faz a reação dele? Ou ele é algo mais do que o marido de sua amiga?

— Como ousa fazer essa insinuação?

— Bem... pela sua reação, admito que estava errado.

— Sem dúvida alguma!

— Bem, voltemos ao assunto principal. Se eu lhe pedisse, concor­daria em adiar sua demissão por alguns meses?

— Eu...

Nesse instante, Claude Hammond entrou na sala.

— Luke... — Ele viu Lori e se dirigiu a ela: — Deve ter ficado surpresa com minha decisão, não é? Mas tenho certeza de que con­corda em que Luke foi uma excelente aquisição para nossa firma.

— Não creio que Lori partilhe de sua opinião, Claude — Luke respondeu, antes que ela conseguisse abrir a boca.

— Pelo contrário, sr. Hammond — Lori conseguiu falar. — Sei que ele é um excelente advogado.

— Luke é mais do que excelente. — Claude sorriu para o rapaz. — Nem posso acreditar que tive a sorte de conseguir que ele se unisse à nossa firma.

— É que... foi uma decisão tão súbita, sr. Hammond... — Lori comentou. — Pensei que só fosse se aposentar no ano que vem.

Claude Hammond se tornou meio evasivo, o sorriso sumindo de sua boca:

— Luke conseguiu vir mais cedo do que esperávamos. E, além disso... bem, Ruth estava contando com umas férias. Portanto, de­cidi viajar na próxima semana.

— Na próxima sem... — Lori ficava cada vez mais espantada, mas Luke lhe fez um sinal imperceptível para que não insistisse no assunto.

Lori percebeu e, mesmo sem saber por quê, achou que devia ficar quieta. Olhou para seu chefe e pela primeira vez notou seu rosto pá­lido, a roupa larga pela perda de peso, os olhos cansados sem brilho. Tinha estado tão preocupada com seus próprios problemas que não percebera a mudança que agora se tornava evidente.

— Onde vão passear? — perguntou, forçando-se a parecer animada.

— Pensamos em fazer um cruzeiro pelas ilhas gregas. Bem, ainda tenho muitas coisas para providenciar e, se não começar agora, sou capaz de ficar mais um mês por aqui. Luke, pode vir comigo?

— Vou num minuto. Estou tentando persuadir Lori de que sou irresistível e não posso perder a chance.

Claude riu com vontade.

— Boa sorte! Acho que vai precisar dela! — Ainda rindo, entrou na sala e fechou a porta.

O sorriso desapareceu do rosto expressivo de Luke, que se tornou sério e preocupado.

— Obrigado por cooperar, Lori.

— Há alguma coisa errada com o sr. Hammond? Ele não vai sair de férias, não é?

— Por enquanto, não.

— Ele não está bem de saúde?

— Exatamente. Tem problemas com o coração e...

— Mas já faz anos que tem e está sempre bem...

— Já sabia?

— Há muito tempo. Muitas vezes tive que lembrá-lo de tomar os comprimidos que o médico receitou. Além disso, sei que normalmente faz exames para ver se está bem. Há quinze dias foi para o hospital fazer o último. O que há com ele?

— Os últimos exames mostraram que sua saúde piorou muito. Ele precisa ser operado.

— Então... então... na semana que vem...

— Isso mesmo. Vai para o hospital.

— Coitado! — Sentia-se realmente triste. Gostava muito do chefe e de trabalhar para ele. — Nikki e Paul não sabiam de nada?

— Exatamente. Se soubessem da operação, provavelmente teriam adiado o casamento, e Claude não queria que isso acontecesse. Mas a operação é vital e tem que ser realizada logo.

— Foi por isso que ele mandou chamá-lo?

— Foi. — Luke parou por um instante, vendo o olhar sarcástico dela. — Não me olhe assim, Lori. Não pense que foi fácil desistir de minha vida profissional e voltar para a Inglaterra em tão pouco tempo.

— Desculpe. Tem razão. Não é fácil se mudar de cidade, que dirá de país!

— O importante é a saúde de Claude. Para que ele fique bem, tem que ter paz de espírito e sossego. Estou aqui porque ele queria que eu viesse. Tanto Claude como Paul sempre foram muito ligados a mim, portanto, não podia deixá-los na mão.

— Assim como eu também não posso falhar agora, não é? Preci­so continuar aqui.

— É o que eu acho, mas, naturalmente, a decisão é sua. Se pedir demissão agora, deixará Claude preocupado, mas nem eu nem ele poderemos impedi-la.

Lori viu-se presa numa armadilha. Claude era o tipo de homem que gostava de ter tudo em ordem para que ficasse tranqüilo. Já devia estar muito aborrecido por largar o escritório de uma hora para outra. Claro, contava com Luke, mas ele só viera há uma semana, ao passo que ela, tendo trabalhado com Claude durante anos, estava bem a par de tudo. Se pedisse demissão, era bem capaz que o chefe desistisse da operação até que as coisas ficassem sob controle. Não podia fazer isso com ele!

Mas... também não ia agüentar ficar ao lado de Luke. Estaria trabalhando com o filho do homem que causara a morte de seu pai! Não ia suportar!

O rosto de Lori se contraiu, refletindo as dúvidas que a atormen­tavam. Luke percebeu seu conflito interior.

— Assim que Paul e Nikki voltarem da lua-de-mel, prometo que vou fazer umas mudanças por aqui e poderá trabalhar para ele. Prova­velmente Nikki se dará melhor comigo.

Lori notou o insulto oculto nas últimas palavras, mas não mor­deu a isca.

— Acho que seria a melhor solução.

— Então é o que vamos fazer, se é o que quer. Garanto, po­rém, que nosso relacionamento se restringirá estritamente ao plano comercial.

— É o que mais desejo.

Luke a olhou de lado, reparando em sua expressão fria.

— Se eu tivesse tempo...

— O que faria? — ela o desafiou.

— Se tivesse tempo, derreteria esse gelo que cobre seu coração. — Sua voz mudou de tom: — Mas agora preciso ver se é mesmo uma secretária eficiente.

— Não tenha dúvidas de que estou à altura do serviço. Pelo me­nos, o sr. Hammond nunca reclamou.

— Não sou Claude e tenho minha própria maneira de trabalhar — Luke rebateu, e foi para a sala de Claude Hammond.

Lori suspirou. Não tinha outra alternativa. Teria que trabalhar para o homem que odiava. Só de pensar que Paul e Nikki ficariam fora mais três semanas, sentia vontade de jogar tudo para o ar e nunca mais aparecer naquela firma.

Luke e Claude ficaram conversando por mais de uma hora. Quando foi embora, Luke passou pela mesa dela.

— Até segunda. Esteja aqui às nove horas em ponto.

— Estarei, não se preocupe.

— Tenho certeza. Não é a eficiente srta. Parker?

Lori ignorou o comentário sarcástico. Pouco depois Claude Hammond a chamava. Pegou lápis e o bloco de anotações, passou a mão nos cabelos para ajeitá-los e entrou na sala com um sorriso no rosto.

— Não vai precisar de nada disso hoje, Lori. Luke me disse que conversou com você; portanto, não temos necessidade de fingir.

— Sinto tanto, sr. Hammond...

— Eu sei, minha cara, e agradeço sua solidariedade. Mas estarei fora daquele hospital em pouco tempo e aí então levarei Ruth para o nosso planejado passeio às ilhas gregas. Quando voltar, vou ficar como assessor jurídico. Ainda tenho muito que ensinar a esses jovens.

— Claro! — Lori enxugou rapidamente as lágrimas que apare­ciam em seus olhos.

— Fiquei feliz que tenha concordado em continuar trabalhando com Luke. Ele é um rapaz maravilhoso e foi muita sorte conseguir que viesse.

— Eu sei...

— Na verdade, Luke deveria se juntar a nós só no ano que vem. Teve que desistir de um contrato lucrativo com uma companhia petro­lífera nos Estados Unidos para vir para cá. Não pode avaliar o que esse gesto significou para mim.

Lori podia ver a tranqüilidade no rosto do chefe. Ficou feliz. Ele se recuperaria mais depressa, sabendo que tudo corria bem. No en­tanto, uma dúvida a atormentava e resolveu perguntar:

— Por que Luke nunca se associou ao pai? Não seria mais lógico?

— Não conheço a história em detalhes, mas sei que Luke e o pai se desentenderam. Têm personalidades muito diferentes e acho que jamais poderiam trabalhar juntos. Além disso, Jacob já se aposentou.

Se Luke não se entendia com o pai por ser muito diferente dele, talvez não fosse tão má pessoa como ela julgava. Mas mesmo essa certeza não alterava o fato de ele ser filho de Jacob Randell. A mesma crueldade do pai devia correr nas veias do filho.

Naquela noite, Lori saiu com Jonathan. Preocupada com o rumo dos acontecimentos no escritório, não notou a atenção com que ele a tratava, ignorou a admiração estampada nos olhos azuis.

Jonathan perguntou, afinal:

— Por que está aborrecida, Lori? Não gostou da idéia de Luke fazer parte da firma?

— Aborrecida? — ela repetiu, tentando ganhar tempo.

— É. Achei que não gosto de saber que terá de trabalhar para Luke.

— Não será por muito tempo, Jonathan. — Lori lhe contou so­bre as mudanças que aconteceriam assim que Paul e Nikki chegas­sem da viagem. — Luke acha que não é bom que marido e mulher trabalhem juntos.

— Concordo com ele. Não é bom para os negócios e menos ainda para o casamento.

— Chego até a concordar nesse ponto, mas não é um pouco cedo para ele começar a dar ordens?

— Por quê? Afinal, ele é o presidente da firma, agora.

Lori não disse mais nada. Odiava aquele jeito de Jonathan falar de Luke como se este fosse um herói. Felizmente, ele mudou de assunto, convidando-a para passarem o domingo juntos. Lori recusou. Encontros freqüentes acabariam trazendo problemas. Só tinha acei­tado esse segundo convite para se livrar de Luke.

Quando Jonathan a deixou na porta do apartamento, Lori lhe deu um beijo no rosto, muito leve.

— Obrigada pela noite maravilhosa. Tenha um bom fim de sema­na. — Ela entrou depressa, fechando a porta em seguida.

O apartamento estava quieto, Sally já dormia. Sem fazer barulho, trocou de roupa e deitou também.

Na manhã seguinte, Sally já estava de pé e vestida, quando Lori se levantou.

— Vou passar o dia fora, Lori. Como foi ontem à noite?

— Muito bem. — Lori não entrou em detalhes. — Vai sair com Dave?

— Vou, sim.

— Estão namorando firme?

Sally corou e desviou o olhar, antes de responder:

— Gosto muito dele.

— E Dave?

— Também gosta de mim. — Ela se levantou. — Vou preparar uns ovos para você. É só sentar que daqui a pouco estão prontos.

Lori compreendeu que a amiga não queria discutir o assunto. Não gostava de Dave, mas Sally era adulta e devia saber o que estava fazendo.

— Vai sair com Jonathan hoje? — Sally perguntou.

— Hoje não. — E, se tivesse juízo, nunca mais, pensou. Ele era do tipo sério, que poderia até pensar em casamento, e não queria que sofresse por sua causa.

— Então leia o jornal. — Sally pegou-o e entregou-o à amiga. — Precisa se preparar para enfrentar o novo chefe, amanhã.

— Está bem. — Lori sorriu. — Divirta-se bastante.

— É o que pretendo. Não espere por mim, Lori. Posso chegar bem tarde.

Lori entendeu a indireta. Isso queria dizer que provavelmente ela nem viria dormir em casa. Não fez nenhum comentário e, quando Dave apareceu para pegar Sally, conversou normalmente com ele.

Depois que eles saíram, pegou o jornal e foi para a sala. Sentou no sofá e esticou as pernas, satisfeita por poder ficar à vontade, sem obrigações. Só agora percebia o quanto estivera tensa na semana an­terior. Não queria nem imaginar como se sentiria quando se passas­sem as três semanas em que ficaria sob as ordens de Luke.

Seu único consolo era saber que ele também estivera tenso. Tinha notado que a observava o tempo todo, o desejo visível em seus olhos tão expressivos, ora frios e distantes, ora cheios de calor. Sentia-se feliz por poder rejeitá-lo, sabendo que era um golpe em seu orgulho de homem. Por outro lado, daria a vida para nunca tê-lo encontrado. Nessa última semana voltara a ser amarga, o desespero se apoderara de seu coração. Precisava estar preparada para enfrentar aquelas três semanas de trabalho sob as ordens dele. Portanto, o jeito era se distrair bastante nesse domingo.

Começou a ler o jornal, pelas notícias locais, depois as internacio­nais e, por fim, a parte social. Então viu uma foto que quase a fez desmaiar de susto, uma dor intensa tomando conta de seu ser.

A foto era de Nigel. De pé, bem próxima dele, a felicidade estampada no olhar, estava sua noiva! Nigel aparecia elegantíssimo, num fraque, e a moça, maravilhosa, num vestido de noiva muito bonito, o véu preso por uma grinalda de flores de laranjeira.

A imagem por si só dizia tudo, mas Lori ainda leu a notícia inteira. Havia os detalhes do casamento, a descrição do vestido de noiva, a lista de convidados, quase todos nomes conhecidos na sociedade lon­drina. Ela era Carolina Maughan, uma velha amiga da família Phillips, filha de lorde Maughan. A recepção fora na casa do lorde e tinham comparecido mais de trezentas pessoas.

Lori quase perdeu a respiração. Olhava a foto sem poder desgrudar os olhos. Via Nigel elegante como sempre, o cabelo muito bem arru­mado, os olhos bonitos e expressivos, talvez um pouco mais cansados do que ela lembrava. Essa foto deveria ter sido dela e de Nigel, e de cinco anos atrás! No entanto... ele estava ali, com outra mulher.

Reparou na data do casamento e seus olhos se encheram de lá­grimas. Nigel casara no mesmo dia e mês que tinha marcado com ela... só que com outra noiva!

 

A primeira reação de Lori foi chorar até que não tivesse mais lágrimas. Depois, começou a raciocinar.

Quando Nigel tinha terminado o noivado com ela, não lhe dera esperanças, declarando que não queria vê-la nunca mais. Não queria saber da filha de um homem que seria condenado, ele dissera, sem piedade.

Mesmo assim, ela, como uma idiota, ainda acalentava o sonho de que um dia ele reconheceria que a amava e que poderiam planejar uma vida juntos. Pura asneira romântica! Isso jamais se tornaria realidade!

Mas... tinha vivido com essa esperança no coração durante cinco anos! E agora, o que restava? Nada! Nada, a não ser um vazio imen­so e uma raiva enorme das pessoas que haviam arruinado sua vida, os Randell!

Era tarde demais para se vingar de Jacob Randell, porque ele já tinha se aposentado, mas Luke estava ali, à mão. E ela sabia a ma­neira perfeita de se vingar dele: ia explorar o desejo que despertava naquele homem que se julgava irresistível!

Olhou mais uma vez para a foto do jornal. Reparou no jeito bonito do cabelo de Nigel, nos olhos que pareciam um pedaço do céu, no traje de casamento, muito elegante. Ele estaria assim, se o casamento fosse com ela? Como seria a vida dos dois, se o pai dele não tivesse interferido.

Observou a noiva, muito jovem, bonita como um botão de rosa mal entreaberto, molhado pelo orvalho da manhã. O artigo dizia que Caroline Maughan tinha dezenove anos e que era uma beleza loira. Exatamente o que ela, Lori, era, há cinco anos. Será que Nigel não tinha conseguido esquecê-la e a revivera nessa moça?

Os Randell eram culpados por destruir seus sonhos e os de Nigel. E eles iam pagar caro, ah, se iam!

No dia seguinte, seu primeiro dia como secretária de Luke, chegou ao escritório animada, sem demonstrar a amargura que a dominava.

Luke a observava o tempo todo não perdendo um só de seus movi­mentos. Lori fingia não perceber e procurava agir com naturalidade.

Durante a manhã, ele teve que cuidar de alguns negócios externos, e foi nesse tempo que Jonathan apareceu. Lori ficou sem graça, por ter que recusar seu convite para jantar, mas deixou bem claro que não pretendia continuar saindo com ele. O telefone tocou várias vezes, nesse meio tempo, e a maior parte das vezes era uma voz de mulher, rouca e sensual, que perguntava por Luke com muita insistência.

Quando Luke voltou, Lori lhe deu os recados, inclusive os da voz rouca de uma americana chamada Marilou. Quando planejara sua vingança contra Luke, não pensara na possibilidade de ele ter uma namorada, mas nem isso a desanimou. Mesmo que levasse mais tem­po, ia conseguir o que queria.

— Obrigado pelos recados, Lori. Vou sair agora para almoçar.

— Sim, senhor.

— E você, não vai almoçar?

— Vou ficar por aqui mesmo. Trouxe um lanche de casa.

— Hoje não vai sair com Jonathan? Brigou com o namorado?

— Ele não é meu namorado. Só saí com ele duas vezes.

— E foi depois que eu vim para cá?

— É...

Luke apertou os olhos, como se assim pudesse observá-la melhor.

— Está tentando se proteger, Lori? Não precisa disso. Eu não mor­do. Posso provar, se a gente sair junto para jantar. Que tal?

— Marilou poderia não gostar. Luke sorriu e seu rosto se descontraiu.

— Tem razão. Ela é uma garota muito possessiva.

— Então não deve fazê-la esperar.

Luke se inclinou sobre a mesa, deixando o rosto muito perto do dela.

— Vai se tornar uma secretária tão eficiente que é capaz de saber de todos os meus movimentos, antes mesmo que eu os decida?

Lori estava com a cabeça inclinada para trás, os cabelos lhe caindo pelos ombros.

— Pensei que fosse ao contrário. Que você é que pudesse ler meus pensamentos.

— Cheguei a achar que podia, Lori...

— É mesmo? E o que eles lhe dizem agora?

Luke se inclinou ainda mais, segurando o queixo dela entre os dedos.

— Eles me dizem que... dizem que... — Os olhos cinzentos procuravam penetrar na imensidão dos dela. Em seguida, ele soltou uma gargalhada e se levantou para sair. — Vou lhe dizer depois do almoço.

Lori viu-o sair pela porta. Estava certa. Ele ia almoçar com a tal Marilou. Provavelmente voltaria bem depois de terminado o horário destinado ao almoço.

Acabou se enganando, pois Luke voltou precisamente uma hora depois, trazendo pelo braço uma loira pequena, com vinte anos no máximo. O que estava havendo com os homens? Eles não se interes­savam por garotas de mais de vinte e um?, Lori pensou, aborrecida.

Luke fez as apresentações.

— Marilou quis dar uma olhada por aqui. Quer descobrir o que me fez deixar meu escritório nos Estados Unidos, com ar-condicionado e todas as comodidades modernas.

— Estou achando muito bonito — a moça comentou, com um sorriso. — Até a srta. Parker é bem diferente do que tinha imaginado.

— É mesmo? — Luke sorriu. — Como a tinha imaginado?

— Mais velha.

— Então realmente foi uma surpresa! Porque ela é quase tão jo­vem quanto você, Marilou. E quase tão bonita!

Marilou se derreteu de alegria com o elogio. Lori apenas os obser­vava, vendo como Luke se divertia com o ciúme da americana. Logo ele a levou para conhecer sua sala e depois de pouco tempo voltaram.

— Agora está na hora de me deixar trabalhar, Marilou. Tanto eu como Lori temos muito que fazer.

Que atitude típica de um machão dominador!, Lori pensou. Luke tinha usado a moça para lhe provocar ciúme e agora a mandava em­bora sem cerimônia! Virou-se para os arquivos e começou a guardar umas pastas. No entanto, pelo rabo dos olhos, via o casal perto da porta.

— Hoje à noite, então, Luke? — Marilou pôs os braços em redor do pescoço dele. — Por favor, meu amor! Vou me sentir muito soli­tária sem você!

Luke a abraçou, sem apertá-la muito.

— Estarei muito ocupado, hoje à noite. — Ele adoçou as palavras para tornar a recusa menos dura.

— Vai trabalhar?

— Vou.

— Com a srta. Parker? — Marilou olhou com raiva na direção de Lori.

— Possivelmente. Tudo vai depender de eu conseguir ou não con­vencê-la a fazer isso.

— Vai conseguir, querido, tenho certeza. Conheço bem seu poder de persuasão.

— Não deixe que seu pai a ouça dizer isso. — Luke se afastou, colocando as mãos nos bolsos. — Ele poderia interpretar mal.

Marilou correu os dedos pelo peito de Luke, fazendo um beicinho.

— Papai me mandou para cá para tentar convencê-lo a voltar aos Estados Unidos e trabalhar com ele. É o que vou fazer... de todas as maneiras que puder!

Luke riu suavemente.

— Nisso não se inclui sedução, não é? Gostaria muito, mas não sei se seu pai pensa do mesmo jeito. Quanto a voltar aos Estados Uni­dos, não existe a menor chance de me convencer, Marilou. Estou muito contente aqui.

Imediatamente Marilou olhou na direção de Lori.

— Era o que eu temia.

— Vamos conversar sobre isso amanhã, Marilou. Podemos jantar juntos e falar sobre o assunto.

Lori voltou a sentar por trás de sua máquina de escrever enquanto Marilou beijava Luke. Que boba! Já tinha esquecido o ciúme só porque ele a convidara para jantar!

Esse episódio tinha sido muito bom, pensou. Precisava conhecer seu inimigo para poder combatê-lo melhor. Quanto mais soubesse sobre ele, melhores seriam suas chances de vitória.

Quando Marilou saiu, esperou que Luke se virasse para ela.

— Garota bonita! — comentou então.

— Muito!

— Seu último patrão deve valorizar muito seus serviços, senão não mandaria a própria filha para... falar com você. — Ela usou seu tom mais irônico.

— Acontece que Marilou já tinha esta viagem programada à In­glaterra muito antes que eu decidisse vir. Gerry deve ter dito à filha que me procurasse enquanto estivesse aqui, mas sei que não pediu para ela fazer mais do que isso. Marilou tem a imaginação muito fértil.

— Deve ter mesmo. — Lori baixou os olhos para seu bloco de apontamentos.

— O que você me diz de meus poderes de persuasão?

Sem que ela percebesse, Luke tinha chegado mais perto, e podia sentir a respiração dele junto de seu pescoço. Com os olhos calmos e frios, respondeu, encarando-o:

— Ainda não pensei sobre isso. Nem sabia que tinha tais poderes. Luke endireitou o corpo, mas continuou perto dela.

— Admito que não estão funcionando muito com você... por enquanto. Mas não perco as esperanças.

Afastou-se e, de repente, ficou sério e compenetrado, assumindo a posição de advogado competente diante de sua secretária.

Lori não se espantou, quando descobriu como ele era eficiente. O sr. Hammond não costumava fazer elogios à toa. Também não ficou admirada por ver a rapidez com que Luke se inteirara dos casos em andamento. Ele dava mesmo a impressão de ser capaz e inteli­gente, do tipo que sabe resolver todas as situações. Sabia até lidar com garotas como Marilou. Ela, Lori, seria o único ponto fraco na armadura dele? Tinha que tirar vantagem dessa fraqueza! Mas, antes disso, precisava conhecê-lo melhor para delinear seus planos de vingança.

Também assumiu seu papel de secretária treinada e competente.

— Tem uma entrevista marcada para daqui a dez minutos — disse a Luke. — Se precisar de mim, estou disposta a fazer horas extras.

— Não vai encontrar Jonathan hoje?

— Já disse que não.

— Quis apenas confirmar. Ele poderia ter aparecido aqui enquan­to estive fora.

— Jonathan esteve aqui, mas somos apenas colegas de trabalho. É natural que a gente converse de vez em quando.

— Jonathan nunca comenta nada a respeito dos casos confidenciais que assumiu aqui no escritório?

— Claro que não! — Ela corou, indignada. — Ele é muito res­ponsável e consciente de suas responsabilidades.

— Você o admira, Lori?

— Como advogado, sim.

— Eu... — Luke se calou, porque o telefone começou a tocar, na mesa de Lori. — Salva pelo gongo! — ele murmurou, e foi para sua sala.

Lori atendeu e, depois disso, começou a trabalhar em ritmo acele­rado. Embora fosse excelente datilografa e quase não cometesse erros, já eram mais de oito horas quando terminou o serviço. Colocou sobre a escrivaninha as folhas do relatório que havia batido, para revisá-las no dia seguinte.

Luke entrou, as mangas arregaçadas, a gravata solta, o colarinho desabotoado. Passou a mão pelos cabelos, parecendo um pouco cansado.

— Terminou, Lori?

— Já. — Ela esticou os braços, para relaxar os músculos cansa­dos, depois de tantas horas de trabalho.

— Está com dor nas costas?

— Um pouco — ela admitiu.

Luke chegou por trás da cadeira e começou a massagear os ombros e o pescoço dela.

— Está melhor agora? — ele quis saber logo depois.

Lori fazia um esforço tão grande para não tirar aquelas mãos de seu corpo que nem sentiu o alívio da massagem. Mas, se retirasse as mãos dele com decisão, tudo estaria perdido. Precisava se policiar para não demonstrar a aversão que sentia por Luke.

— Bem melhor, obrigada. — Ela se afastou, sem parecer grossei­ra, como se precisasse ficar de pé e fazer um pouco de exercício. — Terminamos por hoje?

— Felizmente. Pegue seu casaco que vou levá-la para casa.

— Obrigada, tenho meu próprio carro.

— Então venha jantar comigo.

— Hoje não, obrigada. Preciso só de um banho quente e de uma boa cama.

— Parece uma boa idéia!

— Para mim também. — Lori ignorou as segundas intenções por trás daquelas palavras aparentemente inocentes. — Então, com licença.

— Lori! — Luke a alcançou na porta.

— Sim? — ela perguntou, num tom gelado.

— Nada... nada. Eu a vejo de manhã.

Lori voltou para casa dirigindo com calma, parando em cada farol vermelho. Mas, intimamente, sentia a cabeça tumultuada. Luke era o tipo de homem que sabia manobrar as mulheres. Provavelmente tinha usado Marilou para subir na carreira e agora também queria se aproveitar dela, Lori, por um motivo bem diferente. Precisava acal­mar o desejo que o consumia e usava aquela louca promessa de casa­mento como uma isca para atraí-la. Mas ele ia ver que seria neces­sário muito mais do que uma promessa de casamento para levá-la à cama dele. Mesmo que chegassem ao altar, ele jamais faria amor com ela!

Sentia-se animada e excitada, ao pensar no dia em que diria a Luke quem era. Queria ver a cara dele ao saber que era a filha do homem que o pai dele tinha perseguido, obrigando-o a cometer suicídio. Sua vingança seria doce, valia a pena esperar.

Luke não foi ao escritório, na manhã seguinte. Lori tinha muito que fazer e ainda estava guardando uns papéis no arquivo quando ele apareceu, pouco depois do meio-dia. Tinha a aparência cansada, olheiras profundas. Usava um terno escuro e suas maneiras eram formais.

— Traga uma xícara de café, por favor — pediu, entrando em sua sala.

Lori se apressou em obedecê-lo. Que pena! Tinha se vestido com tanto cuidado, colocando um vestido que lhe realçava as formas boni­tas, e Luke nem reparara nela! Preparou a bandeja e levou-a, forçando-se a dar um sorriso.

— Parece muito contente hoje, Lori.

— Por que não? Deveria estar aborrecida?

— Alguma notícia do hospital? — ele perguntou, ansioso.

— Hospital? — Ela ficou atônita quando lembrou: Claude! Como havia esquecido que ele seria operado nesse dia? — Não, não tive notícia nenhuma. Os recados que recebi estão em sua mesa.

— Está bem. Então vá almoçar, enquanto estou aqui.

Lori saiu da sala, certa de que tinha caído na consideração de Luke. Aliás, na dela própria também. Sabia da operação de seu antigo chefe, chegara até a pensar nele de manhã, mas estava tão empolgada com seus planos de vingança que esquecera aquilo completamente.

Não conseguia se perdoar! Mesmo que estivesse travando uma ba­talha com Luke, isso não era motivo para esquecer da saúde de seu antigo chefe, sempre tão atencioso e delicado.

Ligou para o hospital, assim que voltou à sua mesa.

— Ele ainda está na sala de cirurgia. Pode deixar que ligamos para dar notícias assim que a operação terminar — avisou a irmã de Ruth, que tinha vindo para o casamento.

Sentiu-se melhor, depois do telefonema, e resolveu almoçar fora com Sally. Quase não via mais sua amiga no apartamento, pois ela passava a maior parte das noites na casa de Dave.

— Que tal trabalhar sob as ordens desse dínamo humano? — Sally quis saber.

— Ele é muito capaz e eficiente.

— E muito bonito também, não acha? Já a convidou para sair?

— Não!

— Por que tanto espanto, Lori? Depois que ele a devorou com os olhos, no casamento, não é de se estranhar que eu faça essa pergunta.

— Bem... na verdade, ele já...

— Você teve a coragem de recusar? Como? Conseguiu resistir a tanto charme?

Lori lembrou do rosto atraente de Luke. De fato, não era fácil resistir.

— Dei um jeito.

— Você é louca!

— Quer dizer que, se ele a tivesse convidado, teria aceitado?

— Comigo é diferente, Lori. Tenho Dave, nós nos amamos, mas você... Bem, não tem namorado, não é?

— Por falar nisso... você e Dave estão realmente firmes?

Sally corou e baixou os olhos antes de responder:

— Dave me convidou para ir morar com ele.

Lori manteve o rosto impassível, sem precisar se esforçar. Tinha feito isso milhares de vezes, durante o julgamento do pai ou quando precisava enfrentar os repórteres.

— Acha que eu devo aceitar, Lori?

— A decisão é sua e só você pode tomá-la. Dave quer casar com você?

— Talvez...

— Não tem certeza?

— Ele acha que deveríamos morar juntos durante algum tempo para depois decidirmos. — Sally estava muito embaraçada. — Sabe como é? Uma espécie de casamento de experiência.

— E o que acha disso, Sally?

— Ainda não sei. É uma decisão difícil de tomar.

Lori gostaria muito de dizer à amiga o que realmente achava. Queria dizer que não devia ser boba e se envolver com Dave dessa maneira, porque ele não parecia ter a menor intenção de casar com ela. Mas, se a aconselhasse assim, Dave era capaz de considerar o caso terminado e Sally a acusaria de ter atrapalhado sua felicidade. Era melhor deixar que a amiga resolvesse a própria vida.

— Está muito pensativa — Luke comentou, quando ela entrou na sala.

— Como prefere me ver: alegre ou pensativa?

— Na verdade, de nenhum dos dois jeitos. Prefiro tê-la ronronando em meus braços.

Lori percebeu que ele tentava irritá-la e que realmente tinha conse­guido. Seu rosto estava em fogo, embora seus olhos castanhos se mostrassem mais frios do que gelo.

— Creio que isso é impossível.

— Você crê? Que bom! Então já dei um passo à frente.

Sem se incomodar com a raiva dela, ele deu um sorriso vitorioso. Estava tão perto que lhe bastava estender a mão para alcançá-la. Ela baixou os olhos.

— O que se esconde sob esses cílios tão espessos? — Luke tocou-a no rosto e se afastou. — Bem, vou almoçar, agora. — Ele deu dois passos e depois parou. — Ah! Lori...

— Sim? — Ela ficou tensa no mesmo instante, sem saber o que esperar.

— Ligaram do hospital...

— O sr. Hammond está bem, não é? — ela perguntou, ansiosa.

— Está, sim. Vai ficar umas horas na unidade de terapia intensiva, mas tudo está correndo muito bem.

— Graças a Deus!

— Penso da mesma forma. Vou vê-lo amanhã à noite, se já estiver um pouco melhor. Gostaria de ir comigo?

Lori pensou um pouco antes de responder. Queria muito ver Claude Hammond, mas, se aceitasse, Luke não acharia que ela estava dispos­ta a aceitar outros convites? E daí? Queria ir e pronto!

— Gostaria muito. Obrigada por me convidar.

— Ótimo. Jantamos juntos depois.

— Acho que não. — Ela sorriu.

— Está bem. Um sim por dia é o máximo que me atrevo a esperar. Então estamos combinados. Amanhã à noite faremos uma visita a Claude... juntos. — Ele riu com gosto. — Sabe, até o som dessa palavra parece esquisito. Mas talvez, com um pouco de sorte e com um pouco do que Marilou chama de "meu poder de persuasão", po­deremos usá-la mais vezes.

Luke ainda riu e logo depois saiu da sala, contentando-se com a promessa de visitarem o amigo na noite seguinte. Lori ficou pensan­do. Era isso o que ele queria? Estar junto com ela? Muito bem. Ia cansar de vê-la por perto. Daria um jeito para que isso acontecesse. Mas... cada minuto dessa proximidade ia significar uma verdadeira tortura para ele.

 

 

 

CAPÍTULO VI

 

 

 

Lori quis vestir uma roupa bem elegante e sensual. Afinal, não estava em horário de trabalho. Escolheu um vestido cor de ouro ve­lho, em estilo chinês, de gola bem alta e fechada, com saia reta, aberta dos lados quase até a coxa.

Era uma ocasião especial e queria estar bonita. Era a primeira vez que saía com Luke. Tinha que causar boa impressão e deixá-lo encan­tado. Isso não fazia parte de sua vingança?

Escovou bem o cabelo, até que caísse suave, em ondas brilhantes sobre os ombros. Colocou sandálias de salto alto e depois se olhou no espelho. Ficou satisfeita. Sentia-se sexy, mas não ousada demais.

Quando entrou na sala, Sally, num de seus raros dias em casa, le­vantou a cabeça e assobiou, mostrando admiração.

— Minha nossa! Que charme!

— Estou bem, Sally? Ou acha que exagerei?

— Está perfeita! Não só para visitar o sr. Hammond, mas princi­palmente para acompanhar um homem do tipo de Luke.

— Vou ao hospital. Acha mesmo que não exagerei?

— Nada disso, Lori. Nada é demais quando o acompanhante é Luke.

Pouco depois, a campainha tocou e Luke chegou. Observou Lori por uns segundos e, embora não dissesse nada, demonstrou perfeita­mente que tinha gostado de vê-la daquele jeito.

— Entre, Luke. Já conhece minha amiga, Sally?

— Já a vi no escritório, não é, Sally? — Luke cumprimentou-a. — Tudo bem?

— Tudo certo, e você?

— Você foi a outra dama de honra do casamento de Nikki e Paul, não foi? É secretária de Kenneth Mitchell?

— Isso mesmo. — Sally estava radiante por ele ter lembrado de tantos detalhes a seu respeito.

— Não sabia que morava com Lori.

— Já faz anos que dividimos este apartamento e nos damos muito bem.

Ficaram conversando por vários minutos. Sally e Lori sentiram-se à vontade com Luke, que estava alegre e bem-disposto, vestido esportivamente, com uma calça cinza e paletó azul-marinho. A camisa azul-clara, aberta até o meio do peito, deixava entrever os pêlos escuros.

Finalmente se despediram de Sally e foram para a rua, onde um Jaguar esporte estava estacionado. Só podia ser um carro desse tipo, Lori pensou. Casava bem com a personalidade de Luke. Ele, muito amável, abriu a porta para que ela entrasse e depois se acomodou a seu lado.

— Sua companheira de apartamento é muito simpática — comentou.

— Também acho. Nós nos damos muito bem.

— Ela continua saindo com aquele rapaz com quem estava no casamento?

— Ainda — Lori confirmou, surpresa por Luke ter reparado nos dois.

— Engraçado... eu o achei tão pouco atencioso com ela, que pensei que o caso já tivesse terminado.

Luke era muito mais sensível do que ela supunha! Como ele perce­bia as coisas com facilidade! Teria que ser muito cuidadosa, para que não descobrisse suas verdadeiras intenções.

— Não sei muito bem como eles estão, mas sei que continuam saindo juntos.

— Sabe mais que isso, Lori, mas acha que não é da minha conta, não é? É uma pena! Gostei de Sally e não desejaria vê-la sofrer.

— Sally é adulta e capaz de aprender com os próprios erros.

— Da mesma maneira que você fez?

Lori engoliu em seco. Não era fácil conversar com Luke! Ele per­cebia as coisas longe demais.

— O quê?!

— Bem, já vi que tem amigos, que se dá bem com pessoas mais velhas como Claude e Ruth, que todos simpatizam com você. Portan­to, cheguei à conclusão de que só está com o espírito prevenido contra os homens. Acertei, Lori? Já sofreu no passado?

— Não está esquecendo de alguma coisa? Já esqueceu que tenho Jonathan?

— Jonathan? Você mesma disse que ele não é seu namorado.

— Mas é um homem... um amigo!

— Não é a mesma coisa. Quando foi a última vez que teve um namorado, alguém que gostava de beijar e com quem gostava de estar junto?

— Isso não vem ao caso! — Ela se pôs na defensiva.

— Alguma vez teve um namorado assim?

— Claro.

— Quando?

Lori suspirou. Luke tinha conseguido abalá-la. Ele era direto e não deixava nada ao acaso. Queria saber sobre os homens de sua vida e não ia sossegar enquanto não conseguisse! Não tinha o direito de fazer perguntas tão íntimas e, no entanto, tinha feito.

— Já fui noiva.

— Por que não se casou com ele?

— Porque mudei de idéia. Qualquer mulher tem esse direito, não concorda?

Estavam chegando ao hospital., Luke dirigiu-se para o estaciona­mento e durante algum tempo ficou entretido, manobrando o carro. Só quando desligou o motor continuou a conversa, como se ela não tivesse sido interrompida:

— Quanto tempo faz que isso aconteceu? — Passou o braço sobre o banco, nas costas de Lori. Não tirava os olhos dela, perturbando-a com sua simples presença e com seu cheiro de lavanda pós-barba. — Quanto tempo? — ele tornou a perguntar.

Lori se inclinou para pegar a bolsa que tinha deixado no chão do carro. Era uma maneira de escapar daquela proximidade que a deixava aturdida.

— Alguns anos... — Ela abriu a porta do carro e, ao descer, notou que seu vestido se abria, nos lados, deixando suas pernas à mostra. Reparou que Luke não se mexia e, inclinando-se, falou, para dentro do carro: — Não está na hora de entrarmos? O horário de visitas está no fim.

Luke saiu, trancou as portas e depois segurou Lori pelo braço, levando-a para a entrada do hospital.

— Quantos anos, exatamente, Lori? — ele continuou a insistir.

— Quatro ou cinco, não me lembro direito.

— Não lembra?!

— Não.

— Então... não o amava!

— Acho que amava, na época.

— Também não tem certeza sobre seus sentimentos? Ou sua me­mória está tão fraca assim?

Lori não respondeu. Felizmente tinham chegado ao quarto de Claude. Ele estava deitado, muito pálido, os olhos semicerrados, em­bora mostrasse um esboço de sorriso nos lábios.

— Gosto de vê-los por aqui — disse em voz baixa.

Lori se aproximou da cama e apertou a mão dele. Luke fez o mesmo. Em seguida, os dois cumprimentaram Ruth, que mostrava no rosto sinais evidentes dos maus momentos que tinham enfrentado.

— Não vamos demorar muito, Claude — Luke explicou. — Vie­mos aqui apenas para dizer que não se preocupe com o escritório. Lori e eu estamos nos dando muito bem e tudo está sob controle. Agora só precisa se preocupar em ficar bom de novo para levar Ruth às ilhas gregas.

Claude sorriu e virou-se para a esposa.

— Só falta um pouquinho, não é, querida?

— Isso mesmo, Claude. Mais uns dias e poderemos ir. — Ela sor­riu e deu um beijo na testa do marido.

Luke puxou uma cadeira para Lori sentar e ficou por trás dela, conversando com muita naturalidade, não só com ela como também sobre ela. Meia hora depois, eles se levantaram para ir embora.

Depois das despedidas, Luke a segurou pela cintura, ao deixarem o quarto. Lori percebeu que ele tomava atitudes mais íntimas, mas não se incomodou com isso. Se Luke acreditava estar fazendo progres­so com ela, melhor ainda; sua decepção seria maior quando chegasse o momento da vingança.

No entanto, assim que se viram no corredor, fez questão de escapar do braço que a envolvia.

— Como é, vamos jantar? — Luke perguntou, quando chegaram ao carro.

— Já jantei, obrigada.

— Mas eu ainda não.

— Então por que não me deixa em casa e vai a algum lugar?

— Preferiria que viesse comigo.

— Não posso, tenho que lavar umas roupas.

— Puxa! Para você sou menos interessante que um saco de rou­pas para lavar?

— Tenho que lavá-las, além de passar outras peças e...

— Já sei. Não precisa dizer mais nada. Entendi a mensagem.

Lori reprimiu um sorriso. Luke não tinha gostado desse golpe em seu orgulho. Provavelmente, qualquer outra mulher teria largado coi­sas muito mais importantes só para sair com ele.

— Você nunca come em casa? — perguntou, curiosa. — Não saiu com Marilou para jantar, ontem?

— Muitas vezes faço as refeições em casa, mas ontem jantei fora com Marilou. Está satisfeita com as respostas? Ou está preparando o caminho a fim de me convidar para experimentar alguma coisa que saiba cozinhar?

— Nem pense nisso.

— Tudo bem, mas, se um dia resolver mostrar seus dotes culiná­rios, lembre-se de que estou disponível.

— E como acha que Marilou reagiria, se eu o convidasse?

— Ela não sabe cozinhar!

— Que pena! Mas deve ter outros atributos, não é?

— Não sei. — Luke ficou sério, deixando de lado o tom de brin­cadeira. — Marilou saiu há pouco tempo de um colégio caríssimo para onde Gerry a mandou estudar. Ela chegou aos Estados Unidos apenas um mês antes de eu vir para cá. Além disso, não tenho o hábito de seduzir mocinhas. Tenho trinta e nove anos, Lori, e Marilou está com vinte!

— E daí?

— Não me envolvo com garotas tão jovens. Por outro lado, adoro derreter blocos de gelo. — De repente, Luke a segurou nos braços, pressionando-lhe a boca com selvageria.

Lori não lutou, nem tentou se livrar. Recebeu o beijo sem corres­ponder. Ficou passiva, sentindo os lábios que se moviam sobre os seus.

— Gatinha! — Luke murmurou junto do ouvido dela. — Não seja fria! Me beije também.

Lori sentia o cabelo escuro e macio junto de seu rosto, os lábios quentes de Luke em sua orelha, mordendo-a de leve, tentando excitá-la. Nesse momento, uma imagem muito vivida se formou em sua men­te. Reviu o próprio pai e Jacob Randell na primeira página dos jornais. Viu o sorriso triunfante de Jacob e o pai, acabrunhado pelo peso das acusações que lhe eram dirigidas. Era demais! Não podia suportar o toque do filho daquele homem tão odiado!

— Não! — Ela se soltou, erguendo para Luke os olhos úmidos de lágrimas.

— Gatinha...

— Pare com isso! Ouviu bem? Pare com isso! Meu nome é Lori e não sou sua gatinha! Nem preciso que alguém derreta meu gelo. Ninguém, muito menos você!

— Desculpe, Lori. — Ele a segurou pelo braço. — Não pretendia aborrecê-la. Por que ficou tão perturbada? Já deve ter sido beijada antes.

Lori percebeu que tinha agido mal. Deveria ter se recusado a beijá-lo com calma e dignidade, e não com o coração na mão, como havia feito. Não era uma garotinha que ficava assustada pelo pri­meiro beijo.

— Tem razão, Luke. Já me beijaram antes, mas... — Ela tentou sorrir. — Mas não assim, com raiva.

— Desculpe — Luke passou os dedos, de leve, no rosto dela. — Teve razão, ao imaginar que possa existir alguma coisa entre mim e Marilou. No entanto, garanto que, para mim, ela é apenas a filha de meu ex-patrão. Marilou volta para os Estados Unidos no próximo fim de semana e só o que sinto é alívio. — Ele suspirou. — Aceita jantar comigo amanhã?

De propósito, ela hesitou e viu um lampejo de alegria cruzar os olhos dele. Luke achava que tinha ganhado a batalha. Achava que uma explicação sobre seu relacionamento com Marilou, além de umas carícias, teria o poder de dominá-la e conquistá-la. Luke era um bobo arrogante! Igualzinho ao pai!

— Acho que não, Luke. Tenho que passar umas roupas a ferro. — Ela saiu do carro, batendo a porta com força. Entrou depressa no prédio, antes que ele tentasse segui-la.

Muito feliz por ter ganhado sua primeira batalha, pegou o elevador, com um sorriso brincando nos lábios.

No dia seguinte, Luke parecia um furacão incontrolável. Falava com ela apenas o necessário e, mesmo assim, de maneira brusca e ríspida.

Lori chegou a se perguntar se não teria ido longe demais. Agora, Luke mal a olhava, como se ela fizesse parte da mobília. Até o per­fume que normalmente usava acabou por irritá-lo.

— Que cheiro é esse? — Luke reclamou, quando ela entrou na sala. — Abra a janela! O ar está irrespirável!

Lori não retrucou. Fez o que ele mandou e foi ao banheiro lavar as mãos e o rosto, tentando eliminar os vestígios do perfume. Quando voltou ao escritório, Luke já estava impaciente, dizendo que precisava dela para ditar umas cartas. Ditou rápido demais, de propósito, para que ela perdesse várias palavras.

Lori voltou para sua sala, cansada e com dor de cabeça. Possivel­mente tinha se excedido, mostrando que preferia ficar em casa pas­sando roupa a sair com ele para jantar. Agora precisava pensar numa maneira de reconquistá-lo, mostrar que estava disponível... até um certo ponto.

Na hora do almoço, Luke saiu sem nem ao menos lhe dizer até logo. Lori sentiu que precisava pensar numa tática de reaproximação o quanto antes. Nesse instante, Marilou entrou.

— Luke saiu para almoçar — Lori explicou.

— Que pena! — Marilou olhou para o relógio. — Pensei que es­tivesse adiantada e que daria tempo de encontrá-lo aqui. Bem, não tem importância. Vou direto ao restaurante onde combinamos de nos encontrar. Até logo.

— Até logo. Espero que faça uma boa viagem para casa.

— Viagem? — Os olhos azuis de Marilou estavam cheios de raiva. — Não vou para lugar nenhum.

— Desculpe, é que Luke me disse que tomaria o avião para casa amanhã.

Marilou sorriu, sem tentar esconder que não gostava de Lori.

— Mudei de idéia... ou melhor, Luke me convenceu a ficar. Ain­da não lhe contei da minha decisão, será minha grande surpresa de hoje.

— Tenho certeza de que ele ficará muito satisfeito.

— Não só ele como eu também. Até logo, Lori.

Chateada, Lori percebeu que não podia perder tempo. Luke não estava tão desinteressado de Marilou, se ia vê-la de novo e se a tinha convencido a ficar na Inglaterra por mais tempo. Teria que mudar sua tática. Marilou era insistente e se agarraria a Luke sem lhe deixar uma brecha para conquistá-lo. Era melhor agir de uma vez, antes que perdesse a chance.

Luke chegou do almoço mais bem-humorado. Lori nem precisou pensar por quê. Era evidente. A companhia de Marilou o tinha abran­dado. Muito bem! Ia aproveitar a oportunidade.

Levantou-se da mesa e foi pegar o casaco para sair. De propósito, fingiu tropeçar e se apoiou no braço de Luke, que, muito solícito, segurou-a para não deixá-la cair.

— Cuidado — ele murmurou, junto ao ouvido dela. — Não sei por que as mulheres insistem em usar saltos altos. Você se machucou?

— Acho que torci o tornozelo. — Lori ergueu os olhos, encarando-o, os lábios entreabertos num convite mudo.

Os olhos de Luke se acenderam numa chama de desejo. Ele a se­gurou um pouco mais perto, para logo em seguida soltá-la e se afastar.

— Pode andar?

— Creio que sim. Não se incomode comigo, deve ter muita coisa para fazer e não quero atrapalhar.

— Deixe de bobagem! Talvez seja melhor fazer uma compressa, para evitar que o tornozelo inche.

— Não é preciso! — Lori deu uns passos, mancando ligeiramente. — Daqui a pouco estarei bem de novo.

Luke a seguiu com o olhar, reparando no corpo perfeito dela.

— Sabe que tem as pernas mais sexy que já vi?

Lori ficou feliz. Sua tática já estava começando a surtir efeito.

— Não é a primeira vez que me diz isso. — Ela o olhou meio de lado, como se estivesse encantada com o elogio e um pouco sem graça de admitir.

— Quando vai parar de me esnobar, hein, Lori? Quando vai acei­tar meu convite para jantar?

— Que tal hoje, à noite? — Ela sorriu.

— Verdade?

— Por que não? Você tem outro compromisso? Com Marilou?

— Mesmo que tivesse, eu não iria.

Lori sentiu que tinha vencido uma etapa. Ótimo! Logo poderia rea­lizar seu objetivo. Faria esse homem sofrer tudo aquilo que ela havia sofrido por causa do pai dele!

Luke chegou mais perto e segurou-a nos braços.

— Hoje à noite, então?

Nesse momento, a porta do escritório se abriu.

— Lori, eu... — Jonathan parou ali, surpreso ao vê-la nos braços do chefe. — Desculpe. — Ele saiu, fechando a porta em seguida.

Lori ficou preocupada. Não queria que Jonathan descobrisse dessa maneira o que estava acontecendo com ela e Luke. No entanto, ficava cada vez mais difícil recusar os convites dele sem parecer grosseira. Agora, pelo menos, tinha certeza de que Jonathan não insistiria mais.

— Quer que eu vá falar com ele para explicar tudo? — Luke per­guntou.

— Explicar o quê?

— Bem... que nós... — Luke franziu a testa. — Explicar por quê? Ele é apenas um amigo, não é, Lori?

— Isso mesmo.

— Jamais me conformaria em ter apenas sua amizade, Lori. Nunca!

Luke se apossou dos lábios dela, dessa vez sem raiva, mas explo­rando, tateando, em busca de pontos sensíveis. Lori correspondeu, beijando-o também e... gostando! Não era possível! Estava ali ape­nas para levar adiante sua vingança! Aquilo era uma farsa para ela. Não precisava gostar do que fazia! E no entanto... Não! Não ia gos­tar! Não de um beijo de Luke! Afastou-se bruscamente.

— Gatinha... é o tornozelo que a incomoda?

— Não. — Lori sorriu, fingindo estar muito feliz. — A que horas vai me buscar?

— Às oito, está bem?

— Ótimo. Então vou tratar de almoçar, senão acabo saindo tarde daqui.

Luke riu e a soltou. Com um aceno gracioso, Lori saiu.

Quando voltou do almoço, com o tornozelo já curado, Lori notou que Luke estava de bom humor, voltando à antiga amabilidade. Na hora de ir embora, ele avisou:

— Estarei em sua casa às oito, para pegá-la, gatinha.

— Está bem. Até mais tarde.

Lori foi para o estacionamento e, para sua infelicidade, encontrou Jonathan.

— Sinto muito — falou. Só tinha saído com ele duas vezes, mas lastimava que a tivesse visto nos braços de Luke. Não era a melhor maneira de demonstrar que não havia mais nada entre os dois.

— Eu também, Lori. Pensei que gostasse de mim.

— Mas eu gosto!

— No entanto, prefere Luke, não é? Claro, um sócio majoritário tem muito mais a oferecer do que um simples associado.

Lori percebeu que devia tê-lo magoado profundamente. Jonathan não costumava ser tão amargo. Colocou a mão no braço dele e disse, sinceramente:

— Fico muito triste com o que houve, Jonathan. Não queria ma­goá-lo. O que mais quero é ser sua amiga.

— E eu desejava mais que isso!

— Eu sei, e foi por esse motivo que não quis sair mais com você.

Jonathan ainda estava sentido, mas com menos raiva.

— Luke é assim tão importante para você?

— Acho que sim. — Ela não queria afirmar nem mentir.

— Então eu lhe desejo toda a felicidade do mundo. Gostaria que a situação fosse diferente, mas não posso competir com Luke.

— Jonathan, não diga isso! — Ela riu, ao ver a maneira solene do colega.

— É verdade, Lori. — Ele sorriu também, mas com tristeza. — Espero que seja muito feliz com Luke, mas... se as coisas não derem certo, estarei sempre à sua disposição. — Jonathan se inclinou e a beijou de leve nos lábios.

— Não poderia agir assim com você, Jonathan, mas lhe agradeço tanta consideração.

Lori pegou o carro e foi embora. Não estava satisfeita por ter ma­goado Jonathan, mas tinha sido melhor assim.

Luke chegou ao apartamento de Lori às sete e meia, o rosto fechado numa expressão de raiva mal contida. Nem se impressionou por en­contrá-la vestida apenas com o robe que pusera depois do banho.

Lori seguiu-o para a sala, sem entender por que ele tinha chegado mais cedo e tão zangado.

— Não tínhamos marcado às oito?

— Exatamente.

— Então chegou antes da hora, Luke. Ainda não estou pronta.

— Ele está aqui?

— Ele? — Lori repetiu como uma boba, sem entender nada.

— Jonathan. Ele está aqui? É por isso que está usando esse robe? Acabou de fazer amor com ele?

— Claro que não! Acabei de sair do banho e por isso estou com o robe. Por que Jonathan deveria estar aqui?

— Não sou bobo, Lori. A janela de minha sala dá para o estacio­namento. Vi vocês dois juntos e também a maneira como ele a beijou!

Luke estava com ciúme! Nunca tinha pensado que ele pudesse rea­gir com tanta violência! Seu rosto parecia uma máscara de ódio, os lábios estavam apertados numa linha fina. Normalmente, ele era tão controlado e sarcástico, e agora... havia sido completamente domi­nado pelo ciúme!

— Luke...

— Não tente me dar desculpas, Lori. — Ele a puxou para mais perto. — Vai precisar de muito mais do que desculpas para aplacar minha ira, para apagar o beijo que vi!

— O que preciso fazer? — ela perguntou, tentando-o.

— Isto!

Luke apertou-a contra seu corpo forte, enquanto a beijava com fúria. Tinha as mãos nas costas dela, pressionando-a para que sen­tisse sua força, o desejo que crescia em seu corpo másculo.

Para sua surpresa, Lori não teve repulsa por ele. Não ofereceu re­sistência, ao sentir que ele a forçava a abrir os lábios para beijá-la com maior intimidade. Luke abriu o roupão e desceu a mão pelo colo, até atingir a elevação dos seios dela. Ficou acariciando-os, até per­ceber que Lori reagia às suas carícias.

Lori suspirou involuntariamente. Pouco a pouco, entregou-se às carícias, suaves mas alucinantes. Encostou-se em Luke, arqueando o corpo para ficar mais unido ao dele. Enquanto isso, tentava se convencer de que permitia que ele a beijasse e tomasse essas intimidades apenas para que sentisse uma dor ainda maior quando fosse rejeitado.

Luke desceu os lábios da boca para o queixo dela, seguindo a linha do pescoço, até alcançar os seios. Brincou com o mamilo duro, des­pertando sensações desconhecidas em Lori. Ela jamais imaginaria que pudesse sentir tanto prazer com esses momentos de doce intimi­dade e calor.

Abraçou Luke, segurando-se nele. Suas pernas tinham ficado moles de repente, quase incapazes de agüentar o peso de seu corpo. Tinha que parar com aquelas carícias eróticas ou... não seria mais capaz de se controlar! Sabia que para conquistá-lo precisava permitir que ele a beijasse e acariciasse, mas, se não parasse agora... iria longe demais.

Afastou-se, rindo, reparando que Luke mal conseguia se controlar. Ele endireitou o corpo e passou a mão pelos cabelos revoltos.

— Desculpe, gatinha, mas fiquei louco da vida, vendo Jonathan tocá-la. Perdi o uso da razão. Você me desculpa?

Lori viu que Luke ainda estava inseguro, sem saber qual seria sua reação àquele ataque de ciúmes e à demonstração de desejo incontrolável. Era assim que queria que ele ficasse. Tinha que estar sempre desconfiando para que a chama do desejo ardesse cada vez mais.

— Vou terminar de me vestir — ela falou com voz calma, sem demonstrar o que sentia. — Fique à vontade que não demoro.

Assim que se viu sozinha, encostou-se na parede do quarto, deixan­do que a fraqueza e a emoção que sentia finalmente se manifestassem. Tinha consciência de que a chama do desejo também a havia quei­mado.

Não contava com isso! Jamais pensara na possibilidade de se sentir atraída fisicamente por Luke! Essa parte não tinha entrado em seus planos. Julgava-se imune à atração daquele homem!

Sem dúvida, era uma dificuldade a mais para ser vencida, mas da­ria um jeito. Tinha que dar! Luke podia ser um homem ardente e sensual, atraente até demais, mas não era um selvagem. Se ela se re­cusasse a fazer amor, ele não insistiria. Seu orgulho não permitiria! Nem pensou na possibilidade de ser ela a não querer interromper as carícias, da próxima vez que estivesse junto com Luke.

O jantar foi delicioso, em todos os sentidos. A comida estava perfeita e Luke, mais charmoso que nunca, tentando de todas as maneiras despertar o interesse dela.

O restaurante era um dos melhores de Londres, o serviço, eficiente. Luke devia ir lá com freqüência, porque os garçons o tratavam com muita gentileza.

Lori olhava a seu redor, encantada com o ambiente fino e elegante, mas Luke só tinha olhos para ela. Reparava no rosto bonito, nos olhos castanhos, nos seios evidentes sob a seda preta do vestido colante. Não disfarçava que ainda pensava naqueles momentos de paixão que tinham vivido no apartamento. Sempre dava jeito de tocar nas mãos e nos braços de Lori.

Ele sabia dirigir a conversa. Falava de vários assuntos, demonstran­do conhecimento em diversas áreas, desde política a teatro, não só na Inglaterra como em outros países. Parecia estar a par das últimas novidades em matéria de ciências e livros.

Lori não precisou fingir que estava adorando a companhia dele. Foi uma noite muito agradável, em que ela descobriu que tinham muitos interesses em comum.

A situação só se tornou tensa quando, em determinado momento, Luke lhe perguntou sobre a família. Lori perdeu toda a alegria. Lem­brou que esse homem, de cuja companhia gostava tanto, era o filho da pessoa que havia desgraçado seu pai.

— Não tenho mais família — explicou, puxando a mão que des­cansava entre as dele. — Meu único parente vivo é uma tia de meu pai. Ela está numa casa de repouso para gente idosa. Foi para lá por­que quis, achando que ficaria melhor entre pessoas da mesma idade. Gosto muito dela e vou vê-la sempre que posso. E você? Tem família grande? — Ela queria pisar em terreno menos perigoso.

— Só meu pai é vivo. Mamãe morreu há vários anos.

— Sinto muito. Seu pai é Jacob Randell, não é?

— Isso mesmo.

— Ele é um homem famoso!

— Vamos sair daqui? Prefiro ficar sozinho com você.

Lori percebeu que agora era ele quem queria mudar de assunto. Por quê? Também não queria falar sobre o pai? Sabia por Claude que os dois não se davam bem, mas... seria por isso que Luke evi­tara falar dele? Estaria ressentido por não ter atingido a fama de Jacob? Não. Ele construíra uma bela carreira por si mesmo e não tinha por que sentir ciúmes de ninguém.

Foram para casa em silêncio, ouvindo a música suave de Barry Manilow.

— Gosto muito desse compositor. Fui assistir a um show dele no Albert Hall — Lori comentou.

— Gostou?

— Foi fantástico. Já o viu, ao vivo?

— Uma vez. Também gostei muito.

Lori ficou surpresa. Luke não parecia ser do tipo que gosta de música romântica. De qualquer maneira, gostou de ter mais esse ponto cm comum com ele.

— Gosto muito de seu perfume, Lori. Tenho que lhe pedir descul­pas por ter sido tão estúpido, hoje de manhã. Mas estava muito mal-humorado!

— Ainda bem. Este perfume é um dos meus preferidos. Ele é...

— Sensual, cheio de fogo, como você. — Luke riu. — Talvez por isso eu tenha ficado tão bravo de manhã. Sabia que toda essa sensua­lidade e beleza estavam fora de meu alcance. Pelo menos, foi o que pensei de manhã. — Num gesto possessivo, ele colocou a mão na coxa dela.

Rapidamente, Lori pensou numa maneira de distrair a atenção de luke para outra coisa.

— Gostou da surpresa que Marilou lhe fez na hora do almoço?

— Que surpresa?

— De dizer que tão cedo ela não vai voltar para os Estados Uni­dos.

— Ela não vai? — Luke parou o carro em frente ao prédio de Lori.

— Ela disse que não — Lori falou, espantada. — Na hora do al­moço, Marilou passou no escritório, esperando encontrá-lo. Disse que ia vê-lo no restaurante. Presumi que tivesse lhe contado a novidade lá. Desculpe se estraguei uma surpresa.

— Continuo sem entender, Lori, não vi Marilou no restaurante nem noutro lugar. Para dizer a verdade, a última vez que estive com ela foi no escritório, naquele dia em que você também estava lá.

— Mas ela disse... Bem, talvez tenha entendido mal.

 

Lori ficou furiosa. Marilou a tinha enganado! Devia ter percebido o interesse de Luke por sua secretária e resolvera inventar mentiras para ver se ela desistia de Luke. Não se perdoava por ter caído na armadilha como uma criança inocente. Em função do que ouvira de Marilou, decidira mudar seus planos de vingança, saindo com Luke e até permitindo certas liberdades. E agora ficava sabendo que nada daquilo era necessário!

— Deve ter entendido muito bem, Lori. — Luke desceu do carro e abriu a porta para ela. — Marilou é muito infantil e toma atitudes de criança. Deve ter ficado com raiva, ao saber que eu estava inte­ressado em você, e resolveu contar mentiras para ver se nos afastava. Eu...

Naquele instante, um carro parou na frente do Jaguar e Sally des­ceu, os ombros sacudidos por soluços. Passou por eles, sem reconhe­cê-los.

— Tenho a impressão de que Sally acabou de aprender uma lição de vida — Luke falou, assim que ela entrou no prédio.

Lori o olhou com raiva.

— Não fale assim! Nem sabe o que aconteceu.

— Calma, Lori. Sua amiga está ferida e fico triste com isso, mas não precisa se virar contra mim.

— Vocês são todos...

— Gatinha! — Ele a interrompeu, fechando seus lábios com um beijo carinhoso.

Lori esqueceu sua raiva e, por um longo momento, correspondeu ao beijo. Foi Luke quem se afastou primeiro, fazendo com que ela encostasse a cabeça em seu ombro.

— Normalmente, não faço demonstrações de carinho na rua, Lori, e seu apartamento não é, no momento, o lugar adequado para ficarmos juntos. Portanto, vamos ter que adiar nossos carinhos.

Lori ficou furiosa consigo mesma por ter correspondido com tanto ardor.

— Concordo com você. Vamos adiar indefinidamente.

— Lori...

— Tenho que ir ver Sally. Obrigada pela noite agradável. Gostei muito.

— Gatinha...

— Tenho que ir. Não quer me telefonar amanhã?

Luke não estava acostumado a ser dispensado dessa forma e Lori exultou ao ver a insatisfação dele. Era bom! Tinha que mantê-lo na insegurança. Não podia deixá-lo perceber que ele a dominava.

— Boa noite, Luke. — Ela saiu do carro e foi direto para o prédio, sem olhar para trás. Mesmo assim, podia sentir o olhar de Luke cra­vado em suas costas.

Não sentia pena dele. Nenhum homem era digno de pena! Mesmo porque Luke não devia ficar sozinho nunca. Sempre haveria garotas, como Marilou, dispostas a diverti-lo.

Encontrou Sally no quarto, deitada, soluçando desesperada.

— Sally, o que aconteceu? — Chegou junto da amiga e a abraçou. Durante algum tempo, Sally continuou chorando, encostada nela.

Depois levantou a cabeça, o rosto marcado pelas lágrimas, a dor apa­recendo em seus olhos azuis.

— É alguma coisa com Dave? Ele está doente?

— Não, mas gostaria que estivesse e que eu fosse a causa desse sofrimento.

— Não quer me contar o que houve?

— Dave tem outra, Lori. Ele já estava saindo com ela antes mesmo de começar comigo.

A situação era bem pior do que Lori tinha imaginado. Sentiu o co­ração pesado de pena da amiga.

— Como descobriu?

Sally riu com amargura, depois se levantou e ficou andando de um lado para o outro, agitada demais para ficar parada.

— Ele mesmo me contou.

— Que horror!

— Não lhe contei que Dave me convidou para ir morar com ele? Pois bem, respondi que ainda não estava certa se queria ou não. Hoje ele me disse que já não fazia mais diferença, porque essa outra moça, Joana, tinha se mudado para lá. Ela foi para a casa dele neste fim de semana, Lori! — Sally começou a soluçar de novo. — Dave só saiu comigo para me dizer adeus!

Lori abraçou novamente Sally. Como os homens eram insensíveis!

Como Dave podia agir assim com uma moça meiga e confiante como sua amiga? Não havia nenhum que fosse exceção a essa regra? Sally chorou até não poder mais. Depois, continuou a falar:

— A maior ironia é que, se eu tivesse concordado em ir morar com Dave na semana passada, hoje estaria lá com ele e essa tal Joana é que estaria chorando.

— Você preferia que tivesse sido assim?

— Pelo amor de Deus! Claro que não, Lori! Não poderia confiar em alguém que agisse assim! Estou triste porque acabei com o homem que acreditava amar. Mas... fui boba por não perceber que ele não merecia meu amor. Estou muito aborrecida, é claro, mas não seria pior se estivesse morando com ele e descobrisse que ele era um mulherengo?

— Concordo com você, Sally. Pode estar sofrendo agora, mas, se tivesse concordado com Dave, sua decepção teria sido muito maior.

— Lori... sabe que chegamos a ser amantes, não é?

— Sei.

— Fui uma idiota! Tão estúpida que nem sei por que não percebi antes o tipo de homem que Dave era.

— Você o amava, Sally, e isso transforma tudo.

— Tem razão, mas agora meu ódio é tão grande quanto o amor que sentia. E, acredite, é muito mais fácil odiar do que amar!

Lori se assustou. Pensara sobre isso em relação a Luke muitas vezes. No entanto, tinha adorado a companhia dele nessa noite. Tinha sido gostoso conversar com ele, trocar idéias, ver seu sorriso, seus olhos tão expressivos... Mas ele também se mostrara insensível, quando vira Sally chegar em prantos. Os homens eram todos iguais.

Ouviu Sally chorar a noite inteira. Deixou que ela desabafasse sem incomodá-la. Sabia que há determinadas dores que têm que ser curtidas sozinhas.

Quando Sally apareceu na cozinha, na manhã seguinte, tinha olhei­ras profundas e uma aparência cansada. Lori insistiu para que ela se alimentasse e procurou distraí-la com uma conversa leve, mas Sally logo voltou ao assunto que a perturbava:

— Não me conformo por ter sido tão boba, Lori. Não sei como não percebi que Dave só queria saber de sexo.

Lori não respondeu, pensando que Luke devia ser igualzinho ao ex-namorado de Sally. Tinha certeza de que, se concordasse em fazer amor com ele, Luke esqueceria aquela conversa de casamento no mes­mo instante.

— Desculpe, Lori. Não sei por que continuo falando sobre o mes­mo assunto. E, pensando bem, também tenho minha parcela de culpa, não é? Eu poderia ter dito não. quando ele me levou para a cama.

— Não se culpe, Sally. Você estava certa de que o amava e tudo o que se faz por amor é válido.

— Não sei, Lori. Tudo o que fiz era tão contra meus princípios! Meus pais ficariam escandalizados, se soubessem o que andei fazendo. Nesse ponto, você é bem mais feliz que eu. Não tem pais para dar explicações.

Lori ficou quieta. Será que Sally realmente pensava assim? Não teria esquecido a falta imensa que os pais faziam?

— Não quero ser egoísta e só falar de meus problemas, Lori. Fale de você. Como foi sua noite com Luke?

Lori se perguntou como tinha sido. Achava que tudo correra bem e que estavam se entendendo às mil maravilhas. No entanto, já era quase hora do almoço e ele ainda não tinha telefonado.

— Foi bom.

— Vai vê-lo de novo hoje?

— Não sei, não combinamos nada.

— Acho Luke é um homem sensacional!

— Você, Sally? Pelo seu jeito, pensei que não quisesse mais saber de homem nenhum!

— Não quero mesmo, mas... não sei... Luke parece um tipo especial de pessoa, sincero e confiável. — Sally suspirou. Depois se virou, muito animada, para a amiga: — Vamos fazer compras? Nada como uma roupa nova para deixar feliz uma garota triste.

Lori não sabia bem se devia ir ou não. Se fosse, perderia o telefone­ma de Luke, se é que ele ia ligar. Mas, por outro lado, se ele ligasse e ela não estivesse, seria uma maneira de mostrar que não lhe dava tanta importância.

— Vamos. Quem sabe até encontro alguma coisa de que eu goste! As duas saíram, muito contentes. Ficaram fora duas horas, e entra­ram em diversas lojas, experimentaram um mundo de roupas e Sally acabou comprando uma calça de veludo preta muito extravagante e bonita.

Quando chegaram ao apartamento, o telefone estava tocando. Sally correu para atender.

— É Luke — avisou em seguida.

— Obrigada. — Lori pegou o fone. — Como vai, Luke?

— Por onde, diabos, você andou? Liguei para aí a tarde toda! Ele estava furioso, exatamente como ela queria que estivesse.

— Saí a tarde toda.

— Aonde foi?

— Fui a umas lojas.

— Sozinha?

— Não, não fui sozinha.

Por um instante, o fone permaneceu mudo, para depois Luke explo­dir do outro lado:

— Esteve com Jonathan!

— Não...

— Esteve, sim! Não adianta mentir!

Lori podia visualizar o rosto contorcido dele, os lábios apertados tentando controlar o ciúme que o dominava.

— Já não tínhamos resolvido esse caso de Jonathan ontem à noite?

— Nada disso. Não resolvemos nada. Quando lhe perguntei por que tinha beijado Jonathan, você não respondeu. Apenas me beijou e tudo ficou por isso mesmo. — Luke parecia aborrecido por não ter sido mais firme. — Bem, por que ele a estava beijando, Lori?

— Por que não?

— Porque eu... — Luke tentou se controlar, antes de prosseguir. Respirou fundo e respondeu com calma: — Porque pensei que eu fosse o único homem em sua vida, no momento. Pretende continuar a ver Jonathan?

— Se eu quiser...

A respiração de Luke chegava aos ouvidos de Lori, pesada e rápida.

— E se eu lhe pedir que não faça isso?

— Você está me pedindo, Luke?

— Estou.

Ela não respondeu imediatamente. Deixou-o sofrer com a dúvida, para depois falar em tom firme:

— Concorda então?

— Concordo, se é o que quer.

— Sem dúvida, é o que quero. — Ele fez uma pausa. — Vamos sair, hoje à noite?

— Não sei se devo deixar Sally sozinha...

— Ela é adulta e sabe se cuidar, Lori. Preciso mais de você do que ela. Tentei não falar com você, mas não resisti e acabei ligando. Sabe disso, não é?

Lori não pôde evitar um sorriso de satisfação.

— Se não queria... por que ligou?

— Porque não consigo ficar longe de você, minha gatinha! Vamos sair juntos! Passo por aí às sete para pegá-la. Até logo. — Luke des­ligou o telefone, antes que ela tivesse tempo de opor alguma resistência.

Lori repôs o fone no gancho. Não ia discordar. Não era isso o que queria. Luke já tinha sofrido o suficiente para um dia. Agora podia ser um pouco carinhosa com ele. Assim alternaria os momentos de alegria com os de sofrimento. Sua vingança teria que ser longa, sutil, sem que ele percebesse suas intenções.

— Vai sair? — Sally perguntou. Estava diante do espelho, experi­mentando a calça nova.

— Prefere que eu fique?

— Claro que não! Não precisa se preocupar comigo, Lori. Não sou a primeira nem a última mulher a sofrer uma desilusão. Fico muito bem aqui. Pretendo me cuidar um pouco, para esconder este aspecto de viúva chorosa. -— Mesmo falando com animação, as lágrimas es­corriam pelo seu rosto. — Desculpe. Estou sendo muito boba.

Lori abraçou a amiga.

— Vou ficar com você, Sally. Podemos ir a um cinema, ou, se pre­ferir, jogamos cartas, ou...

— Nada disso, Lori. Já fez muito passando a tarde toda comigo. Mas, realmente, prefiro ficar um pouco sozinha. Não quero parecer ingrata, mas preciso reorganizar minha vida e só eu posso fazer isso.

Lori sabia o que Sally queria dizer. Quando seu noivado tinha ter­minado, aproveitara a companhia de outras pessoas para se distrair, mas também sentira necessidade de se isolar para refletir sobre seus problemas.

— Compreendo, Sally. Logo estarei de volta para conversarmos mais.

Às sete horas, quando Luke chegou, foi Sally quem abriu a porta. Ficou conversando com ele uns dez minutos e depois foi ver por que Lori demorava tanto.

— Ainda não está pronta? Luke está impaciente.

— É mesmo? — Lori continuou a pentear o cabelo com calma. Estava lindíssima, num vestido branco de alças finas, um cinto largo marcando sua cintura estreita, a saia rodada caindo com graça ao redor dos quadris.

— Está maravilhosa! Luke vai ficar encantado, mas é melhor se apressar. Ele está andando para cá e para lá desde que chegou. Daqui a pouco é capaz de furar nosso carpete!

Lori sorriu, enquanto passava o batom.

— Minha demora não vai fazer mal nenhum a ele. Pelo contrário!

— Não abuse, Lori. Luke não é do tipo que se deixa esperando. Além disso, não sei o que conversar com ele! Não consigo esquecer que é meu patrão!

— Não pense assim, Sally. Ele é apenas um homem.

— Como gostaria de ser tranqüila assim com os homens, Lori! Como é que consegue?

— Não faço nada, Sally.

— Mesmo assim, Luke está todo derretido.

Lori ficou feliz. Era isso exatamente o que pretendia. Já que o pai dele tinha causado a infelicidade de sua família, o filho ia pagar por tudo. A melhor maneira seria deixá-lo tão apaixonado que realmente quisesse casar com ela. Quando fosse sua esposa, então lhe diria quem realmente era.

— Vou voltar para a sala e dizer que está pronta. — Sally foi para a porta.

— Pode dizer, mas ainda não estou.

— Lori... não pode agir assim!

— Ora, Sally, o interesse de um homem só é verdadeiro quando ele não se incomoda de esperar pelo menos vinte minutos pela mulher amada. — Ela olhou para o relógio de pulso. — Ainda vou ficar aqui mais cinco minutos.

— Ele poderia ir, é um risco que corro.

— Não fica preocupada? — Sally estava espantadíssima. — Um homem tão maravilhoso e você nem liga, se o perde?

— Não vá se animando, Sally. Ele é meu!

— Acha que não sei disso? — Sally sorriu. — Bem, vou lá dizer que estará pronta em um minuto.

— Quatro, para ser exata.

— Se ele já não tiver furado nosso carpete!

Lori riu, ao ver a amiga ir para a sala. Mas depois voltou a pensar em Luke. Ele estava impaciente por vê-la? Ótimo! No entanto, preci­sava tomar cuidado, porque não tinha ficado indiferente a ele. Bem que gostara de estar nos braços de Luke, de beijá-lo...

Quando ela finalmente foi para a sala, Luke se mostrou encantado ao vê-la. O desejo aparecia em seus olhos cinzentos, dando-lhe um brilho novo. Despediram-se de Sally, que logo tratou de ir para o quarto para deixá-los mais à vontade.

— Fez isso de propósito? — Ele estava apenas a alguns centíme­tros de Lori, seu calor deixando-a inebriada.

— Fiz o quê?

— Me deixar esperando tanto tempo. Sabia que eu não via a hora de estar com você, minha gatinha! — Seus lábios tocaram os dela.

Foi um beijo longo e sensual, mas finalmente Lori se afastou.

— Sally está no quarto, Luke. Não fica muito bem...

— Então vamos. Já estamos atrasados mas podemos dar um jeito.

— Atrasados para quê?

— Pensei em dar um pulo no hospital para visitar Claude antes de começar nosso programa.

— Ótimo, então vamos indo. Pegaram o elevador e foram para o carro.

— Como vai indo Sally? Já se recuperou? Achei-a bastante abatida — Luke comentou.

— Ela está com o coração partido.

— Acabou com o namorado?

— Sim. Fico aborrecida, Luke. Não gosto de vê-la sofrer daquele jeito.

— Não vá descontar em mim, Lori. Não fui eu quem magoou sua amiga!

— Desculpe. Não quis ser tão amarga! Luke ficou sério.

— Que tipo de jogo está fazendo comigo, Lori?

— Eu... Como assim? Não estou entendendo.

— Sabe muito bem que a quero e como me sinto a seu respeito. Não vá usar esse sentimento para tirar vantagens de mim. — A voz de Luke continha ameaças veladas.

— Continuo sem entender.

— Não trate meu amor como se fosse meu ponto fraco, gatinha.

— Amor?! — Ela agora estava surpresa. Sabia que ele a desejava, mas... amor?!

— Sabe que estou terrivelmente apaixonado por você, Lori!

Ela baixou os olhos. Era a primeira vez que ele confessava amá-la. Seria verdade?

— Não tinha descoberto ainda, gatinha?

— Você nunca disse nada!

— Pensei que...

— Existe uma diferença enorme entre amar e desejar, Luke. E, até agora, você só falou de desejo.

— Mas pensei que fosse tão evidente que você soubesse!

— Como poderia?

— Que diabo! — Ele suspirou fundo. — Bem, chegamos ao hospi­tal. Voltamos a falar sobre isso depois, está bem?

— Se você quiser...

Entraram no quarto de Claude e o encontraram um pouco melhor e já sentado na cama.

— Entrem, meus amigos. Ruth foi para casa, ver como estavam as coisas por lá. Isso é a maior prova de que estou bem, não acham?

— Sem dúvida. Gostaríamos de ter vindo mais cedo, mas Lori quis ficar tão bonita que atrasamos. — Luke passou o braço em volta da cintura dela.

— Ela é bonita de qualquer jeito. — Claude riu, contente por vê-los juntos. — Mas tem um temperamento terrível.

— Tem razão. Já tive oportunidade de vê-la zangada.

— Eu também. — Claude riu de novo. — Têm vindo aqui sempre juntos. Vão passear depois?

— Vamos, sim. — Luke sorriu e olhou para Lori. — Eu sempre disse que não era bom marido e mulher trabalharem juntos, mas isso é bem capaz de acontecer conosco, não é?

Lori apenas corou e não disse nada.

— Verdade, Luke? — Claude abriu ainda mais o sorriso. — Fico muito contente.

— Estou fazendo força, Claude, mas ela é uma garota difícil de se convencer.

Todos deram risada e a conversa mudou de rumo. Logo deixaram Claude para irem jantar. Como sempre, a companhia de Luke foi muito agradável e Lori ficou encantada com a versatilidade dele.

Depois do jantar, dançaram, e Lori se sentiu derreter, naqueles bra­ços protetores e carinhosos. Deslizava pelo salão, como se estivesse nas nuvens, gozando o abraço cheio de ternura, os beijos leves que recebia na testa e nos cabelos.

Quando chegaram em casa, Luke a beijou com mais paixão, apossando-se dos lábios dela por longos minutos.

— Luke... Acha mesmo que sou difícil de convencer?

— Em relação ao casamento, eu acho. Olhe que tenho tentado, e até agora não consegui nada. Você não facilitou as coisas para mim.

— Preferia que tivesse sido diferente? — Ela passou a mão por entre os botões da camisa, até chegar ao peito dele, sentindo entre os dedos os pêlos macios.

— Acho que gostaria de um pouco mais de facilidades. Lori. Você é a primeira mulher que peço em casamento e tenho a impressão de que não me levou a sério.

— Sua aproximação inicial foi sui generis. Não concorda comigo? Mas... estou começando a levá-lo a sério agora. — Lori abriu o botão da camisa e deu um beijo leve no peito musculoso. Pôde sentir nos lábios o estremecimento de prazer que havia causado.

— Não pare de me acariciar, gatinha — ele falou com voz rouca.

— Você é insaciável!

— Com você, sou mesmo!

— E com Marilou? — Lori afastou-se, saindo do círculo dos braços de Luke.

— Aquela jovem foi para casa hoje de manhã, de avião. Fiz ques­tão de verificar se tinha mesmo embarcado.

— Então não gostou da surpresa que ela tinha preparado para você?

— Nada! E demonstrei claramente isso.

— Ela gostava de você, Luke.

— Acontece que estou apaixonado por você, Lori.

— Posso acreditar nisso?

— Tem que acreditar, minha querida. Posso vê-la amanhã, de novo?

— Normalmente visito minha tia, nos domingos.

— Então vou com você. Está bem?

— Não sei...

— Por que não, Lori? Já não acha que está na hora de eu conhecer sua família? Ela representa toda sua família, não é?

— É verdade.

Lori estava em dúvida. Nunca tinha passado pela sua cabeça que Luke pudesse se encontrar com tia Jessie. Embora ela já tivesse oitenta anos, estava completamente lúcida e conservava toda sua inteligência. Se, por um acaso, descobrisse que Luke era filho de Jacob Randell, logo deduziria que a sobrinha planejava uma vingança. E aí... talvez resolvesse interferir em seus planos. Não devia arriscar.

Por outro lado, era justo que Luke quisesse conhecer a única pessoa que lhe restava da família. Seria natural ele ir visitar sua tia. E tam­bém parecia normal ela querer conhecer o pai dele. Era melhor concordar.

— Está bem, Luke. Mas lembre-se que tia Jessie está muito velha e por vezes não fala coisa com coisa. — Lori intimamente pediu per­dão a Deus por sua mentira.

— Não ligo para isso, Lori. Ela é sua tia e sei que vou gostar dela. Agora venha para meus braços para me dizer boa-noite.

O beijo foi suave e terno, demorado e já cheio de saudades.

— É melhor ir embora agora, Luke. Preciso ver como vai Sally.

— Sabe que tenho vontade de convidá-la para ir ao meu aparta­mento, onde não há nenhuma Sally e onde poderíamos ficar à vontade?

— Nem pense nisso, Luke. Sabe que eu diria não.

— Tem razão. — Ele endireitou o corpo. — A que horas quer que venha buscá-la? — Às dez está bem?

— Ótimo.

Lori se despediu e fechou a porta. Depois, devagar, abriu a porta do quarto. Sally estava lá, recostada nos travesseiros, lendo uma revista.

— Divertiu-se bastante?

— Bastante. E você, passou bem?

— Liguei para o apartamento de Dave...

— Foi mesmo? E o que ele disse?

— Ele não estava lá. Foi Joana quem atendeu ao telefone. — Sally nem tentava esconder as lágrimas.

Lori sentou junto dela e segurou-lhe as mãos geladas.

— Ela sabia quem você era, Sally?

— Acho que não. E eu também não disse. Acho que não odeio Dave a esse ponto. Sei que, com o tempo, Joana acabará descobrindo sozinha quem ele é.

— Fez bem, Sally. Pelo menos não vai ficar com remorso.

Lori deitou e apagou a luz. Mas durante muito tempo ainda ficou pensando em tudo o que estava acontecendo: no sofrimento de Sally, na idéia fixa de Luke de casar com ela e, principalmente, no encontro dele com tia Jessie.

 

Luke chegou pontualmente e, dessa vez, encontrou Lori pronta, à sua espera. Ele estava com calça esporte, uma camisa de gola olímpica c um blazer combinando.

— Estou bem assim? — quis saber. — Acha que sua tia vai gostai de mim?

— Sem dúvida.

— Você também está um doce, com esse vestido. — Luke estendeu os braços. — Venha cá.

— Já está na hora de ir embora. — Tinha medo de ficar ali no apartamento, a sós com ele, sabendo como gostava dos carinhos de Luke.

— Temos tempo para um beijo de boas-vindas, não e?

Luke a segurou nos braços e foi aproximando o rosto do dela, até que seus lábios se tocaram. Foi um beijo terno, carinhoso, e enquanto se beijavam o tempo parecia ter parado. Ele a acariciava com ternura, suas mãos subindo e descendo pelas costas dela, pressionando-a con­tra si.

O vestido de Lori, de seda muito fina, facilitava o contato daquelas mãos experientes. Ela entregou-se à excitação do beijo, sentindo seu corpo invadido por um desejo incrível. Procurou acariciá-lo, entrela­çando os dedos nos cabelos dele, roçando as mãos em suas orelhas.

Luke acabou encontrando o zíper do vestido de Lori e abriu-o, dei­xando que caísse de um dos ombros. Beijou o pescoço dela até en­contrar a elevação dos seios.

— Gatinha, amo você!

Lori perdeu a noção do tempo e do espaço. Sentiu-se levada para o sofá, onde ele sentou, pondo-a no colo. Os carinhos continuaram, mais ousados, até que Luke começou a beijá-la nos seios. Lori não pôde evitar um gemido de prazer.

— Isso, minha querida. É assim que quero tê-la.

Era incrível, mas era verdade: estava nos braços de Luke, recebendo seus carinhos, retribuindo-os e... gostando!

Lutou para sentar, tratando de fechar seu vestido. Não conseguia olhar para Luke. Estava sem jeito por ter permitido tanta intimidade.

— Amo você, Lori. — Ele continuava com a perna encostada na dela. — Amo você, somos ambos adultos e não vejo por que deva ficar embaraçada por saber que sentimos um desejo violento um pelo outro. É uma coisa que normalmente acontece, entre um homem e uma mulher. — Ele fez uma pausa. — Chegou a fazer amor com seu ex-noivo?

Lori retesou o corpo. Levantou-se e foi até o espelho dar um jeito nos cabelos revoltos, sentindo-se furiosa. Como Luke ousava fazer esse tipo de pergunta? Não tinha o direito de saber nada a seu respeito, principalmente sobre Nigel!

— Lori? — Ele estava de pé, junto dela, o olhar preocupado. Ela se forçou a sorrir. Precisava se mostrar mais carinhosa.

— Nunca lhe perguntei nada sobre seus amores passados, não é, Luke?

— Isso é diferente.

— Por quê? Só porque fui noiva? Isso não quer dizer nada. Luke. Uma aliança de noivado não implica intimidades sexuais, não acha?

— Sempre pensei assim, Lori, mas preciso saber de você.

— Por quê? — Ela estava começando a ficar zangada. — Que diferença faria...

— Tenho que saber! — Luke estava com a expressão alterada, o corpo tenso, prestes a explodir.

— Nunca fiz amor com meu ex-noivo, Luke. Está satisfeito agora?

Ele respirou fundo, a tensão aliviada, sua expressão voltando ao normal.

— Estou. Sabe, Lori, não consigo reprimir meu ciúme. Só de pensar que um dia esteve nos braços de um outro homem, tenho vontade de matá-lo.

Lori pegou o casaco e a bolsa, que estavam sobre uma cadeira.

— Disse que não fiz amor com meu ex-noivo, mas isso já faz cinco anos, Luke. Eu estava com dezenove anos, era ingênua e bobinha. Tenho vinte e quatro anos agora e sou uma mulher.

— Com todos os anseios de uma mulher... É isso o que quer dizer?

— Exatamente.

— Não acredito em você. Ainda não esqueci uma conversa que ti­vemos sobre velejar e o que você disse através de metáforas.

— Também lembro. Então deve se recordar que lhe disse que já tinha tentado.

— Uma vez, foi isso o que afirmou.

— Várias vezes — ela corrigiu com teimosia. — Vamos embora agora. Minha tia está nos esperando ao meio-dia e não quero chegar atrasada.

— Ainda não terminamos nossa conversa e...

— Não quero mais falar sobre esse assunto. — A voz dela soou dura e ríspida. — Saí com você algumas vezes e isso não lhe dá o direito de pedir explicações sobre minha vida. Agora, se não quiser ir visitar minha tia...

— Vou com você, sem dúvida nenhuma! — Luke segurou-a pelo braço e logo depois pegaram o carro.

Os pensamentos de Lori estavam confusos. Tinha sido malcriada, mas isso fazia parte de seus planos. Naturalmente, poderia ter contado que ela e Nigel haviam resolvido esperar o casamento para se tornarem mais íntimos. E esse casamento não se realizara. Poderia ter contado, também, que jamais permitira que outro homem fosse além de uns beijos na boca mais prolongados. Poderia ter dito, até jurado, que nunca homem nenhum chegara tão perto dela como ele. Mas Luke não precisava saber de nada disso. Por que todo homem se julgava no direito de ser experiente e vivido e, quando se tratava da mulher, es­perava encontrar uma virgem pura e intocada?

Fizeram a viagem no mais absoluto silêncio, mas, quando chegaram ao pequeno apartamento de tia Jessie, a expressão de Luke mudou e ele tentou sorrir. Olhou para Lori e, num gesto decidido, pegou-a nos braços e a beijou com fúria.

Ela se assustou com essa mudança inesperada, mas gostou que tudo tivesse terminado daquela maneira.

— Não quero nem saber quantos homens fizeram parte de sua vida antes de me conhecer, Lori. Só sei que quero casar com você!

Beijou-a de novo, carregando-a nos braços e dando voltas com ela. Lori ficou até com vergonha. Imagine se alguém os visse! Olhou ao redor, mas, para seu alívio, não havia ninguém.

— Não me tente muito, minha gatinha, senão sou capaz de levá-la para longe daqui.

Luke riu, colocando-a no chão.

Lori se assustou. Só agora percebia que a situação estava saindo do seu controle. Cada vez gostava mais dos carinhos de Luke, que a trans­portavam para longe da terra. Tinha que tomar mais cuidado. Naquela manhã, no apartamento, quase mandara sua vingança para os ares, de tão encantada que ficara com os beijos alucinantes de Luke. Não devia ficar sozinha com ele, a não ser em lugares onde ele não pudesse fazer nada além de beijá-la.

Mas... e a aversão que tinha por ele? Parece que a atração física que sentia dominava qualquer outro tipo de sentimento!

Abriu a porta do apartamento e viu a tia molhando as plantas no pequeno terraço. Jessie falou de lá mesmo muito séria:

— Está atrasada de novo, Lori. É incrível como se esquece dos compromissos. Não sei o que seu chefe deve achar de você!

— Ele acha — Luke falou, sorrindo e dirigindo-se para tia Jessie — que ela é a moça mais bonita do mundo e que pode chegar aqui só para a hora do almoço, se passar a manhã comigo.

Tia Jessie o olhou com ar crítico. Gostou do que viu, porque ime­diatamente sorriu. No entanto, uma preocupação ainda sombreava aqueles olhos cansados.

— Não me disse que o sr. Hammond era casado e que tinha um filho crescido, Lori?

— Ele é e tem um filho tão crescido que está em lua-de-mel — Lori explicou, dando risada.

Tia Jessie tornou a reparar em Luke. Lori sabia o porquê desse exame, o único rapaz que tinha apresentado a ela fora seu noivo, Nigel. A tia não havia gostado dele. No entanto, parecia estar encan­tada com Luke.

— Então... esse jovem não é o sr. Hammond? Quem é? Jonathan? Lori sentiu o corpo de Luke se retesar.

— Não é Jonathan, tia Jessie. Ele é meu novo chefe, Luke Randell. — Falou com medo, observando a tia para ver sua reação ao ouvir o sobrenome tão significativo.

Mas a tia não deu mostras de reconhecê-lo. Pelo contrário, sorriu, ao apertar a mão de Luke, que lhe entregou um ramo de flores do campo.

— Muito obrigada. Foi muito amável.

— Foi um prazer. Aliás, acho que, pelo cheiro gostoso, vai ser um dia só de prazeres.

— Estou fazendo uma carne assada de que Lori gosta muito. Es­pero que também a aprecie, Luke.

— Tenho certeza que adorarei.

— Então, Lori, dê uma olhada na cozinha para ver se já esta no ponto. Enquanto isso, eu e Luke vamos conversar um pouco.

— Está bem, tia Jessie. Vou ver o almoço e preparar a sobremesa. Já trouxe tudo pronto, mas preciso pôr num prato. — Lori foi para a pequena cozinha, mas, antes de entrar, recomendou: — Não vá con­tar nenhum de meus segredos!

— Você não tem segredos, minha querida, a não ser ter sido noiva daquele homem horrível.

— Tia Jessie!

Luke soltou uma gargalhada gostosa. Estava gostando muito da tia de Lori. Era uma velhinha franca, que não se deixava intimidar.

— Conte mais. Quero saber de tudo. — Ele se inclinou na cadeira, para ficar perto de sua anfitriã.

— Bem, ele...

— Tia Jessie, por favor! — Lori insistiu. Não queria que Luke fi­casse sabendo nada de Nigel. — Conte a Luke como eu fui uma garota levada, conte tudo o que eu aprontava, mas, por favor, deixe meu ex-noivo fora da conversa.

— Está bem. Eu prometo, Lori. Agora vá olhar aquela carne, antes que fique queimada.

Lori se distraiu na cozinha, mas ouvia a risada espontânea de Luke, vinda da sala. O que quer que tia Jessie estivesse contando, ele estava se divertindo.

O mesmo clima alegre e descontraído continuou durante o almoço. Tanto Luke quanto a tia pareciam aproveitar a companhia um do outro e se divertiam brincando com Lori.

— Espero que seja muito bom e gentil com minha sobrinha — tia Jessie preveniu-o, quando já estavam de partida. — Sob esse exterior frio e controlado, ela é uma garota que já sofreu muito no passado.

— Tia Jessie, por favor... — Lori ficou pálida, com medo de que a tia fizesse revelações indiscretas.

— Pretendo ser muito bom para ela — Luke falou, muito sério. — Não é o que se espera que um marido seja com a mulher amada?

— Luke!

— Loris, será possível? — Tia Jessie interrompeu-a. — Não deixa os outros falarem! Então pretende casar com minha sobrinha-neta, Luke?

— Assim que ela aceitar minha proposta de casamento.

— Ela está lhe dando trabalho nesse sentido?

— Demais!

— Porém, você me parece forte e decidido. Tenho certeza que sa­berá convencê-la. Aquele bobo alegre...

— Temos que ir embora agora, tia Jessie — Lori imediatamente interrompeu-a. O dia tinha corrido muito bem, sem incidentes, e não ia facilitar nos últimos minutos.

— Lori não gosta que eu fale sobre ela — tia Jessie disse a Luke. — Isso não me espanta. Ele não era uma boa pessoa e não servia para ela. Não tinha coragem nem...

— Tia Jessie!

— Temos mesmo que ir. — Luke resolveu acabar com aquela pe­quena discussão. — Gostei demais de conhecê-la, dona Jessie, e espero poder vir vê-la outras vezes. Quem sabe, muito em breve, terei o di­reito de chamá-la de tia Jessie, como Lori faz?

Lori estava realmente espantada. Os dois já se tratavam pelo pri­meiro nome, com muita liberdade e carinho. Tia Jessie tinha conhe­cido Nigel por mais de um ano e sempre fizera questão que ele a chamasse de srta. Chisholm. Em poucos minutos, Luke a conquistara.

Na volta para casa, ele falou, com muita sinceridade:

— Gostei dela!

— Quem sabe vocês dois deveriam se casar!

— Não chego a tanto, mas gosto dela, Lori. Aliás, não devia falar sobre ela como faz. Jessie não tem nada de arteriosclerose, como me fez supor.

— Realmente, ela anda bem, ultimamente. Sinto muito, Luke. Na verdade, fico contente que tenham se entendido.

— Pelo jeito, ela não gostava muito de seu ex-noivo, não é?

— É verdade.

— Por que não?

— Não sei. Talvez porque ele não tentou impressioná-la.

— Eu também não tentei, Lori. — O rosto de Luke estava sombrio.

— Sabe, às vezes tenho a impressão de que você não gosta de mim.

Lori corou. Havia deixado seu temperamento falar mais alto e não podia permitir que isso acontecesse. No momento, Luke estava muito apaixonado por ela, mas, se percebesse seus planos, esse amor se trans­formaria em ódio mortal. Luke se mostrava sempre muito amável, mas já o tinha visto bravo no escritório e sabia do que ele era capaz.

— Está imaginando coisas, Luke.

— Você acha?

— Claro. — Ela o acariciou de leve no rosto. — Por que eu sairia com você, se não gostasse?

— É verdade. Por quê?

— Não vamos estragar um dia tão gostoso, Luke. Não quero co­meçar uma discussão.

— Temos discutido muito, não acha, Lori? Acha que vamos con­tinuar assim mesmo depois de casados?

— Ainda nem disse sim e você já imagina como será depois do casamento?

— Ainda não me aceitou, mas vou continuar insistindo até que aceite.

— Não acha que eu devia conhecer sua família, antes de decidir sobre um passo tão importante como o casamento? — ela sugeriu, aproveitando a oportunidade. — Afinal, você já visitou tia Jessie.

— Agora só tenho meu pai — ele respondeu, com o olhar distante.

— Não vejo razão para que você o conheça.

Lori arregalou os olhos. A briga entre pai e filho teria sido tão séria assim? Mais do que Claude havia sugerido? Isso prejudicava muito seus planos de vingança!

— Por que não? — Luke pareceu nem ouvi-la, mergulhado em seus próprios pensamen­tos. Os olhos estavam sombrios, a boca apertada, com os cantos li­geiramente caídos.

— Quer ver de perto o grande Jacob Randell? — por fim ele disse.

— Não. Quero apenas conhecer seu pai.

— Ele nunca foi um pai para mim, Lori. Quando criança, rara­mente o via. — Minha mãe morava no campo e meu pai passava a maior parte de seu tempo em Londres. Só conseguia estar com ele quando, esporadicamente, aparecia na escola em que eu era aluno interno. — Luke falava com amargura, os olhos sombreados de tristeza.

— Mesmo assim, você se tornou advogado, como ele!

— Não tinha muita escolha e, para ser sincero, não fazia questão de escolher. O filho de Jacob Randell só podia se tornar advogado. Durante muito tempo, eu o admirei muito, profissionalmente falando. Mas nunca tive a menor vontade de entrar em seu escritório, embora ele fosse um sucesso.

— Por quê? Não seria bom para sua carreira?

— Digamos que eu me desencantei com a maneira como ele exercia sua profissão.

— Foi por isso que viajou para os Estados Unidos?

— Foi.

— Então, não faz questão que eu o conheça?

— Para você, Lori, é muito importante conhecê-lo?

— É. Não se esqueça que, para mim, ele é seu pai.

— Então vou ligar para ele. Vamos vê-lo na próxima semana. Lori concordou, mal acreditando que faltava tão pouco para conhe­cer o homem que ela havia odiado durante doze longos anos.

— Não sei por que faz tanta questão de conhecê-lo, Lori. Mas quero que lembre que é comigo que vai casar, não com ele — Luke falou, encerrando o assunto.

Luke convidou-a para jantar num restaurante pequeno, pouco movimentado, mas cuja comida era deliciosa. Havia um pequeno palco onde uma moça cantava as canções românticas do momento.

Lori notou que as mulheres se viravam para ver Luke. Sem dúvida, ele era muito charmoso e atraente. Só então reparou no pessoal que freqüentava o restaurante. Reconheceu vários artistas, tanto de teatro como de televisão, cantores da atualidade, pintores de renome. Luke não parecia impressionado por estar no meio de celebridades, mas ela não cabia em si de alegria.

Foram dançar, bem apertadinhos um contra o outro, ao som de uma música suave. De repente, uma mulher chamou Luke pelo nome. levando seu par para onde eles estavam. Luke parou de dançar, mas não soltou a cintura de Lori.

— Mas que surpresa! Margot! — ele cumprimentou, sorrindo com prazer.

A mulher mostrou sua alegria, ao vê-lo, atirando-se nos braços de Luke e beijando-o na boca. Lori se afastou assustada, quando a reco­nheceu. Muito pálida, sentindo as pernas tremerem, quis sair dali no mesmo instante.

Aquela mulher era Margot Phillips, a irmã mais nova de Nigel! E ela parecia conhecer Luke muito bem!

 

Na última vez que Lori a vira, ela estava com dezesseis anos e era uma garota voluntariosa e mimada. No instante em que se conheceram se antipatizaram. Margot tinha vindo do colégio interno para a festa de noivado do irmão.

Mas tudo isso fora há muito tempo. Cinco anos! Agora Margot era uma moça bonita, loira como o irmão, com os mesmos olhos azuis que agora brilhavam de felicidade, o corpo esguio e bem-feito.

Lori ficou preocupadíssima! A presença de Margot podia atrapalhar completamente seu relacionamento com Luke. Com poucas palavras, ela poderia contar tudo a Luke e mais uma vez lhe estragar a vida.

— É tão bom vê-lo de novo, Luke! — Margot exclamou alegre­mente, parecendo esquecer o rapaz que a acompanhava. — Quando voltou dos Estados Unidos?

— No mês passado. — Ele puxou Lori para mais perto de si. Margot a olhou com curiosidade, aparentemente sem reconhecê-la!

Tinha o olhar observador e frio, mas não deu mostras de saber quem ela era.

— Margot, temos que ir embora. O pessoal já está se levantando — o companheiro da garota reclamou, mostrando uma mesa onde todos estavam de pé.

Margot pareceu irritada, mas, mesmo assim, olhou na direção indi­cada. Lori também prestou atenção, o coração batendo mais rápido, o medo crescendo em sua mente. E se Nigel também estivesse ali? Que perigo! Mas não era possível, lembrou, Nigel estava em lua-de-mel!

— Preciso ir — Margot falou com tristeza. — Ligue para mim, Luke. Tem meu telefone, não tem?

— Tenho, sim.

Margot o beijou nos lábios de novo.

— É maravilhoso tê-lo de volta, Luke. — Mal cumprimentou Lori com um gesto de cabeça e se afastou, sempre seguida pelo fiel rapaz.

Lori sentia as mãos úmidas de nervosismo. Virou-se para Luke, sugerindo com timidez que eles também podiam ir embora, pois já es­tava ficando tarde e teriam que trabalhar no dia seguinte.

— A maneira extravagante de Margot me cumprimentar não abor­receu você, não é, gatinha? — Luke quis saber, já no caminho de casa.

— Claro que não.

— Conheço-a desde criança e ela sempre teve esse jeito exagerado de me recepcionar.

Lori sentiu de novo um frio na boca do estômago. Nunca pudera imaginar que Luke conhecesse Margot. E, se a conhecia desde criança, provavelmente era amigo de Nigel e da família Phillips.

— Fui à faculdade de Direito com Nigel, irmão de Margot — Luke continuou explicando. — Naquela época, fomos bons amigos.

A situação ficava pior a cada segundo! Luke conhecia Nigel e até fora amigo dele! Será que sua vingança ia terminar de maneira abrup­ta, justamente agora que estava chegando a seu objetivo?

— Nigel casou há poucas semanas. Não fui ao casamento, mas vi a notícia nos jornais. Não viu também?

— Não — Lori mentiu, sem olhá-lo.

— Todos os meus amigos estão se casando, quando pensei que a maioria ia se transformar em solteirões inveterados! Nigel, não, por­que já esteve noivo uma vez antes, embora não chegasse a casar.

Lori retesou os músculos, ao ouvi-lo falar sobre o noivado anterior de Nigel. Também ele teria sido contra a noiva?

— Por que ele não casou com aquela noiva? — perguntou, simu­lando inocência.

— Não faço idéia — ele mentiu, e Lori percebeu que estava men­tindo. Luke sabia exatamente por que o casamento não acontecera. — Mal reconheci Margot. Ela devia ter quatorze anos, naquela oca­sião. Acho encantador como uma criança se transforma numa mulher charmosa!

— Notei mesmo — ela comentou com ironia.

— Não precisa ficar zangada, Lori. Para mim, Margot é uma criança.

— Do mesmo jeito que Marilou, não é? As garotas não ficam crianças a vida toda, Luke. Marilou não agiu como criança, nem Margot!

— Gostaria que você tomasse essas atitudes impetuosas, Lori.

— Talvez um dia eu o surpreenda.

— Não vejo a hora de esse dia chegar!

Na semana seguinte, Lori tirou uma noite para ir ao cinema com Sally e distraí-la um pouco. Numa outra noite, as duas ficaram em casa, lavando e passando roupa. Mas nas outras ela esteve com Luke.

Foram visitar Claude, que se recuperava bem, conversando bas­tante, muito feliz por vê-los juntos. No sábado à noite assistiram a uma nova peça de teatro que se tornava um grande sucesso. Em se­guida, foram jantar num restaurante agradável e sossegado.

— Falei com meu pai hoje — Luke contou, enquanto bebia o seu vinho.

Lori sentiu as mãos trêmulas. Não tinha mais falado da visita a Jacob Randell para não parecer insistente demais. No entanto deixara bem claro que só daria sua resposta final sobre o pedido de casamento depois que conhecesse Jacob.

Tinha sido muito cuidadosa para não ficar sozinha com Luke nunca mais, a não ser por poucos minutos. Ele notou suas manobras e se irritou, quase atingindo o ponto máximo de saturação. Mas Lori agia assim para se controlar. Percebera, quando voltaram do jantar onde encontraram Margot, que cada vez apreciava mais a companhia de Luke. Deliciava-se com os carinhos que recebia e correspondia aos beijos com o mesmo ardor que sentia nele. Sentia-se fraca diante de Luke, o desejo tornando-a vulnerável demais. Precisava evitar qual­quer situação mais íntima, porque não sabia se teria forças suficientes para se manter distante.

— O que foi que ele disse? — perguntou, voltando a pensar em Jacob Randell.

— Não muito. Mas isso não é novidade. Papai nunca fala muito.

— Você falou de... mim?

— Naturalmente! Foi só por isso que liguei para ele. Vamos vê-lo amanhã.

— Ainda nem me convidou, Luke, e não sabe se eu posso ir!

— Nem vou convidar. A idéia foi sua e agora não pode recusar — Luke falou, zangado.

— Mas eu...

— Vamos embora, Lori. — Ele se levantou e pagou a conta do restaurante.

— Luke...

— Vamos embora, já disse.

O garçom ficou preocupado, vendo os fregueses saindo sem tocar no jantar encomendado. Ofereceu-se para trazer alguma outra coisa, mas Luke afirmou que não iam ficar. Constrangido, o homem se afas­tou de cabeça baixa.

Lori ficou sem graça. Todos olhavam na direção deles e ela não gostava de ser o centro das atenções.

— Não devia ter sido tão rude com o garçom — ela o repreendeu, já no carro.

— Faço como quero e ninguém tem nada com isso!

— Não gosto que falem assim comigo!

Luke não respondeu. Deu partida no carro, que começou a deslizar macio pelas ruas pouco movimentadas.

— Luke, você me ouviu?

— Ouvi.

Lori tentou entender a causa de tanto mau humor e chegou à con­clusão de que era a visita indesejada ao pai.

— Se prefere não ir amanhã à casa de seu pai, está bem para mim. Não faço questão.

— Já está tudo combinado. — Luke nem olhou para ela, o rosto frio e preocupado. — Contei a meu pai sobre você e ele está ansioso por conhecê-la.

Ela também se sentia como Jacob. Queria ver o homem que temia e odiava. Em sua imaginação, ele aparecia como um gigante invencí­vel, que estaria agora com setenta anos, mas nem por isso era menos perigoso.

— Que bom! — respondeu com sinceridade.

— Não sei se vai ser bom ou ruim, fiz apenas o que me pediu. — Luke mudou de tom de repente: — Sally está em casa hoje?

Ela hesitou antes de responder. Não podia mentir, porque seria fácil ele comprovar a mentira.

— Não. Ela saiu com o irmão e um amigo.

Tinha ficado satisfeita por ver que Sally estava começando a sair com outras pessoas. Por outro lado, não podia contar com o escudo protetor da amiga.

Chegaram em casa e Luke estacionou o carro em frente ao prédio.

— Quer entrar, para tomar uma xícara de café? — ela convidou, rezando para que ele não aceitasse.

— Se é só para o café... não.

Luke não escondia as intenções que tinha. Lori sabia que, se o dei­xasse entrar, acabaria fazendo amor. No entanto, se recusasse, podia considerar malogrados seus planos de vingança, porque ele ia desa­parecer de sua vida.

— Se leva tanto tempo assim para decidir, não faço questão! Tal­vez fosse melhor adiarmos a visita a meu pai, até que você tivesse certeza absoluta de seus sentimentos. Não gostaria de ter que avisá-lo, daqui a pouco, de que desistimos de casar.

— Sabe que não é isso que quero, Luke.

— Sei? Como? Você nunca diz nada! Não sei o que se passa em sua cabeça, Lori! Nunca lutei tanto para conseguir uma mulher e já estou ficando cansado dessa brincadeira de esconde-esconde.

Lori estava num beco sem saída! Se se recusasse a ter maiores inti­midades, ele iria embora para sempre. Por outro lado, se concordasse em fazer amor, Luke não pensaria mais em casamento. O que fazer?

— Tem razão, Luke. É melhor cancelar a visita a seu pai. — Ela saiu do carro. — Pelo menos até que você tenha certeza do que quer. Até agora, seu amor se concentra abaixo da cintura. — Bateu a porta do carro e entrou no prédio sem olhar para trás.

Estava no apartamento há não mais de cinco minutos quando ouviu batidas na porta. Sabia que era Luke. Tinha olhado pela janela e o carro dele permanecia estacionado na rua.

— Talvez meus sentimentos estejam concentrados abaixo de minha cintura — ele rugiu, assim que ela abriu a porta —, mas essa não foi uma maneira de falar própria de uma moça educada. Já não agüento mais essa espera, gatinha. Claro que desejo você! Não poderia amá-la sem desejá-la. E você insiste em me manter afastado, me negando até o prazer de tocá-la ou de sentir seu calor. Preciso tocá-la, Lori! Quero estar sempre perto de você!

Lori sentiu suas reservas se derreterem como neve sob sol forte. Sem se dar conta, viu-se deitada no sofá, com Luke a seu lado. Com gestos lentos e sensuais, ele lhe tirou a roupa, deixando-a apenas de calcinha e sutiã.

Entre beijos leves, doces e carinhos, Luke a acariciava, murmu­rando palavras ternas, cheias de amor. Suas mãos experientes e quen­tes percorriam o corpo dela, descendo pelo pescoço, subindo aos seios, sentindo a cintura fina, o estômago chato. Por um instante, ele parou por aí, sem se aventurar mais para baixo.

Depois tocou os seios dela, e Lori se entregava àquelas carícias sem pensar em mais nada, a não ser no prazer que elas lhe causavam. Abriu a camisa de Luke, tocou os músculos fortes, os pêlos escuros, beijando-o várias vezes no rosto, no pescoço, no peito...

Luke perdeu então suas reservas e acariciou-a no corpo todo. Com as mãos, ele a explorava centímetro por centímetro, detendo-se nos pontos que proporcionavam maior prazer a Lori.

Ela gemia, ainda sem acreditar que pudesse viver tantas sensações diferentes e maravilhosas, nunca antes experimentadas. Então, Luke pegou a mão dela e instigou-a a acariciá-lo, da mesma forma que fazia com ela.

Lori sentiu que Luke a carregava nos braços e a levava para o quar­to, colocando-a com muita delicadeza em sua cama estreita. Mas, em vez de se deitar ao lado dela, ele apenas a beijou nos lábios, nos seios e nas coxas, mal a tocando. Depois se endireitou e, com os olhos ainda cheios de paixão, disse numa voz rouca:

— Sonhe comigo, minha querida.

— Você... você vai embora? — Ela voltou à terra, não podendo acreditar que a fome de seu corpo não seria saciada.

— Preciso lhe provar que é a você que amo, não a seu corpo. A coisa que mais quero no mundo é fazer amor com você, mas faço questão de mostrar que não quero só isso. Quero você inteira, amo você mais do que qualquer outra coisa na vida. E, se esta minha ati­tude não lhe provar meu amor, então desisto!

Lori percebeu o esforço que Luke fazia para agir assim. Ainda via a tensão com que ele apertava as mãos, o rosto contraído, a dor es­tampada nos olhos.

— Já provou, Luke. Acredito em você.

— Quero sua resposta agora, Lori. Já não posso mais esperar. Você vai casar comigo?

— Sim! Sim! — ela exclamou, sem hesitar. Tinha certeza de que ele a amava até mais do que tinha esperado.

Então... então por que não estava radiante? Pelo contrário, sen­tia-se deprimida, sem forças, quase triste...

Luke fechou os olhos, suspirou fundo, aliviado de sua tensão. En­tão se abaixou e beijou-a nos lábios sussurrando em seu ouvido:

— Diga que me ama, Lori...

— Amo você — ela murmurou.

Tinha se apaixonado por Luke mesmo sem saber. Amava-o como nunca amara ninguém antes. Precisava dele para ser feliz. Queria pas­sar o resto de seus dias na companhia dele, para construírem um fu­turo...

No entanto, estava apaixonada pelo filho do homem que odiava e contra quem planejara uma terrível vingança. Luke não era uma pes­soa que perdoava e esquecia com facilidade. Quando soubesse a ver­dade, poderia querer destruí-la, da mesma maneira como ela planejara fazer com o pai dele! A vida apresentava muitas dessas ironias. Tinha saído em busca de vingança, traçara seus planos c, de repente, encon­trara o amor...

— Amo você, Luke — ela tornou a repetir, erguendo os braços para puxá-lo para mais perto.

Sentia o rosto banhado de lágrimas, que se misturavam no beijo ardente e cheio de amor que trocou com Luke. O que ia fazer? Como enfrentar aquela situação, tão nova e inesperada? Como podia mudar mus planos, para que eles não se voltassem contra ela, destruindo-a e aniquilando-a no que tinha de mais sagrado? Amava Luke Randell e não havia dúvida nenhuma a esse respeito!

 

Luke foi embora logo depois de declarar seu amor. Sally chegou meia hora depois e Lori fingiu que estava dormindo, porque precisava de paz para pensar em sua vida.

Foi uma noite passada em claro, as lágrimas correndo por seu rosto. Sentia-se num beco sem saída. Agora que tinha encontrado o grande amor de sua vida, não podia conservá-lo! Assim que Luke descobrisse quem ela era, não ia mais querer saber de casamento.

Amava-o incondicionalmente. Amava cada gesto, cada olhar, o jeito de ele segurá-la perto do coração, os beijos, os carinhos, sua figura alta e elegante, os cabelos escuros, enfim, cada pequena partícula que fazia parte dele! Não poderia mais viver sem ele.

No entanto, agora não havia como deter as engrenagens do plano que tinha preparado com tantos detalhes para se vingar. E o fim de tudo seria amargo, doloroso e sofrido. Esse homem maravilhoso e per­feito, que a amava tanto, transformaria o amor em ódio, assim que soubesse que ela era Lorraine Chisholm. Jamais a perdoaria por não ter revelado sua identidade.

Quando estavam a caminho da casa de Jacob Randell, Lori não conseguia esconder sua apreensão. Tremia sem parar, as mãos presas uma na outra para tentar esconder a luta interior que a deixava can­sada e zonza.

— Tem alguma coisa, querida? — Luke perguntou, preocupado, vendo-a tão trêmula. — Sinto muito se lhe dei uma impressão errada a respeito de meu pai. Ele não é tão ruim que você precise ter medo. Não me dou muito bem com ele, mas tenho certeza de que será muito amável com você. — Sorriu e acrescentou: — O velho ainda gosta de ver mulheres bonitas.

Lori não respondeu. Tinha medo da percepção de Jacob Randell. Já se tinham passado doze anos e, durante aquele tempo, ela deixara de ser a garota confusa para se transformar numa mulher confiante. Mas, basicamente, sua aparência era a mesma. Podia ter emagrecido, ficado bonita, mas seu cabelo loiro e indomável era inconfundível.

— Não se preocupe, gatinha. — Luke pôs a mão entre as dela. — Estarei a seu lado.

Estacionou o carro junto de uma casa pequena, pintada de branco, numa vila calma e sossegada a cinqüenta quilômetros de Londres, em Surrey.

— Não era bem isso o que esperava de Jacob Randell, não é? — Ele a ajudou a sair do carro.

De fato, Lori esperava que ele morasse numa mansão, mais de acordo com sua personalidade majestosa. O próprio Jacob Randell foi uma surpresa para ela. A empregada os levou para o extenso gra­mado que havia nos fundos da casa. À sombra de uma árvore copada, ela viu o grande advogado... numa cadeira de rodas. Parecia alquebrado, os cabelos totalmente brancos, os olhos, outrora vivos e pers­picazes, agora quase sem brilho.

Lori sentiu pena dele, achando até esquisito ter pensado em se vin­gar de uma figura tão patética.

— Desculpe não me levantar para recebê-la. — A voz de Jacob continuava firme e autoritária como ela podia lembrá-la. — Mas, co­mo vê, não posso fazer isso.

— Como vai, sr. Randell? Tem uma casa muito agradável.

— Também gosto dela. — Ele se virou para o filho: — Então, Luke, esta é a moça que queria que eu conhecesse?

Lori olhou para Luke e ficou surpresa. Ele estava frio e distante, os olhos duros como aço.

— Isso mesmo. Esta é Lori, papai. Minha noiva.

— É mesmo? — Jacob Randell observou-a melhor.

Lori estremeceu. Ele ia reconhecê-la? Ia lembrar da filha de Michael Chisholm? Não sabia o que fazer, se isso acontecesse. Instintivamente, chegou mais perto de Luke, que a abraçou, olhando-a com carinho.

— Como sempre, meu filho, tem muito bom gosto. Agora, que tal pedir à sra. James para nos servir o chá?

Luke hesitou por um instante. Depois deu um último olhar para Lori e foi para dentro da casa.

— Sente-se, minha cara. — Jacob mostrou-lhe uma cadeira.

Ela obedeceu, mais nervosa ainda por não poder contar com o apoio de Luke.

— Não sou assim tão assustador, não é?

— Eu... eu...

— Ficou tão pálida que pensei que estivesse aterrorizada. — Ele sorriu e Lori tremeu ainda mais. Podia lembrar muito bem daquele sorriso.

— Seu nome é Lori? Ou esse é apenas um apelido carinhoso que meu filho lhe dá?

— Não, senhor. Meu nome é Lori.

— Bem incomum!

Ela corou intensamente, as mãos nervosas se ocupando com a barra da saia. Tinha medo que ele lembrasse de tudo.

— Então pretende casar com meu filho?

— Hum... num — ela confirmou, mesmo sabendo que esse casa­mento jamais chegaria a se realizar.

— Quando será o casamento?

— Ainda não decidimos a data.

— Ainda não? — Ele parecia espantado.

— Ficamos noivos ontem e temos tempo para resolver.

— Não é muito próprio de Luke deixar as coisas em suspenso. Uma vez decidido, ele não se preocupa com mais nada.

Lori achou melhor ficar quieta. Sabia como Luke estava impacien­te, tendo falado de casamento desde o dia em que a vira. Pará seu alívio, ele voltou e sentou-se a seu lado, logo entrelaçando as mãos com as dela.

— Meu pai não está amolando você, está, Lori?

Ela não tinha a menor vontade de ser a causa de uma discussão entre pai e filho.

— Seu pai e eu estávamos apenas conversando.

— Perguntei a ela quando iam casar, Luke.

— Quando Lori e eu decidirmos a data, eu o avisarei. — Luke continuava frio e indiferente. — Quer comparecer à cerimônia?

— Claro!

Lori notou o antagonismo que existia entre os dois. Pouco depois a empregada chegou, trazendo um carrinho com o chá, e a tensão diminuiu.

Ainda conversaram por mais algum tempo, mas Lori ficou contente quando Luke a convidou para ir embora.

— Sua noiva parece ansiosa para ir para casa — Jacob comentou com sarcasmo. — Nossa companhia deve ser um pouco pesada de­mais.

— Não é o que todos dizem quando nos vêem juntos. Pelo menos, era o que mamãe achava.

— Não traga sua mãe para a conversa!

— Está bem. — Luke pegou Lori pela mão. — Eu o aviso sobre o casamento.

— Gostei muito de conhecê-la. Lori. — Jacob controlou a fúria que sentia.

Fizeram o caminho de volta em silêncio. Lori estava perdida em seus próprios pensamentos. Tinha temido tanto esse confronto e, afi­nal, não fora tão ruim como imaginara. Já não sentia medo do onipo­tente Jacob Randell. Pelo contrário, até sentia pena dele. O pai de Luke era um velho amargurado, preso numa cadeira de rodas, e que não contava com o amor e o carinho do seu único filho. Só lhe res­tavam as lembranças de um passado distante e de uma carreira bri­lhante.

— Não sabia que seu pai precisava ficar numa cadeira de rodas — ela comentou.

— Papai não gosta de tocar no assunto e, para ser sincero, não creio que isso tenha afetado sua agressividade. Ainda pode usar sua linguagem sarcástica com maestria, produzindo grandes efeitos.

— O que aconteceu com ele?

— Machucou a espinha num acidente de carro. Mamãe morreu no mesmo acidente.

— Sinto muito, Luke!

— Eu também. Ele é que devia ter morrido! — Luke passou a mão pela testa. — Desculpe, Lori. Sempre que visito meu pai, fico agitado e amargo. Como deve ter reparado, não existe amor entre nós dois.

— Eu sei...

Luke respirou fundo para se acalmar.

— Agora que o viu, está satisfeita?

— Luke... gostaria que... — Lori segurou a mão dele.

Se pelo menos ele soubesse a amargura que ela sentia antes e que agora tinha sumido, graças ao amor dele! Se não tivesse conhecido Luke e despertado para o amor, poderia ter se tornado uma mulher amarga e desiludida, com ódio na alma, como Jacob Randell. Ironi­camente, fora o filho de Jacob que a salvara desse destino cruel! Ja­mais tornaria a ser uma pessoa cheia de rancor, incapaz de amar!

— Quer acabar tudo comigo, agora que conheceu meu pai?

— Não, Luke, você não é seu pai. — Que pena que tivesse com­preendido isso tão tarde! Tarde demais!, Lori pensou.

— Então vamos sair amanhã para comprar o anel de noivado?

— Amanhã? — Ela engoliu em seco.

— Não há motivos para esperar! — Luke riu com vontade. — Só quero ver a cara de Paul e Nikki quando voltarem, hoje, da lua-de-mel. Vão saber de grandes novidades. Claude no hospital e nosso noi­vado.

— Não podemos guardar a notícia do noivado um pouco mais, só para nós?

— Por quê?

— Porque ainda não nos conhecemos bem e talvez pudéssemos...

— Quero que o mundo inteiro saiba que você me pertence, Lori. Principalmente para que uma pessoa se convença disso.

Ela sabia que ele se referia a Jonathan.

— Jonathan não significa nada para mim, Luke.

— Não terei certeza de nada até que me pertença totalmente, de corpo e alma. Quero expulsar os outros homens de seu coração, Lori, e é isso que vou fazer! Nem que leve a vida toda, vou conseguir!

— Luke... — Lori passou a língua pelos lábios secos. — Não há nem nunca houve nenhum outro homem que conquistasse meu coração ou meu corpo. — Agora ela tinha certeza de que nunca tinha amado Nigel, porque nunca sentira essa febre alucinada que experi­mentava cada vez que estava com Luke. — Menti para você.

— Mas... por quê?

— Porque eu...

— Porque eu era arrogante e presunçoso, não é? Mas não devia ter me contado a verdade, gatinha.

— Ora, por que não?

Ele a olhou, os olhos queimando de desejo e paixão.

— Porque pretendia levá-la para minha casa e lhe mostrar exata­mente o quanto a amo. Agora, acho melhor esperarmos.

— Não, Luke... gostaria de ir para sua casa — ela falou com timidez, mas muito segura do que dizia.

— Tem certeza?

— Tenho.

Como se sentia diferente daquela mulher cheia de ódio, fria e cal­culista, que queria fazer com que Luke se apaixonasse por ela! Agora tinha se tornado uma escrava daquele amor.

Luke não podia se conter. Pisou firme no acelerador e o carro voou pela rua, na tarde quente. Lori ria feliz, a seu lado, antecipando a emoção dos momentos que a aguardavam.

Não se sentiu nervosa nem tímida, ao entrar no apartamento de Luke. Era grande, muito bem decorado, com todas as características de um apartamento de solteiro. Não se impressionou com o luxo que via. Enxergava somente o desejo profundo que aparecia nos olhos de seu amor.

A sala estava iluminada apenas pelos últimos raios de sol, que atra­vessavam as venezianas fechadas. Nessa semi-obscuridade, Luke lhe beijou os olhos, a ponta do nariz arrebitado e finalmente os lábios que se abriam para recebê-lo.

Ela ficou nas pontas dos pés, pressionando os seios contra o peito largo, sentindo a rigidez dos músculos de Luke. Trocaram beijos, até que ouviram o telefone tocar, insistentemente.

— Droga! — ele exclamou. — Vou deixar o fone fora do gancho. — Levou-a até o quarto e fechou a porta. — Me dê dois minutos e depois teremos a noite toda só para nós.

Luke saiu, deixando Lori ali, examinando o quarto bonito com um terraço cheio de plantas, os quadros, a cama larga. Ela abriu a porta que dava para o banheiro e, de repente, sentiu uma vontade imensa de tomar banho. Seria uma maneira de se livrar das emoções contra­ditórias que a assaltavam, para ter um relacionamento novo com Luke e poder entrar em paz no paraíso que lhe estava reservado.

Num segundo, tirou a roupa. Não linha por que ficar encabulada por sua nudez, quando Luke chegasse. Correu para o chuveiro e dei­xou que a água morna deslizasse pelas curvas de seu corpo.

Quando Luke a viu assim, o desejo brilhou em seus olhos. Lori es­tendeu os braços e ele entrou também sob o chuveiro, ainda vestido.

— Tire sua roupa — Lori sugeriu, enquanto se beijavam louca­mente.

— Tire você, gatinha. Quero sentir seus carinhos.

Ela nunca tinha despido um homem, mas sua intuição e o amor que sentia a dirigiram. Beijou os ombros largos, os pêlos do peito forte, para depois abrir o zíper com mãos trêmulas. Lentamente, foi desnudando-o, reparando em cada detalhe do corpo de Luke. Como ele era perfeito, os músculos rijos, os quadris estreitos, as pernas longas. Lori suspirou e tremeu, antecipando os momentos de prazer que viriam.

Luke pegou o sabonete e começou a lavar o corpo dela, partindo do pescoço, descendo pelos braços, circundando levemente os seios, baixando para o estômago, para as coxas...

Lori sentiu uma excitação crescente, avassaladora, quase insupor­tável.

— Quero ser sua... — ela murmurou, num êxtase.

— Minha adorada!

Luke juntou o corpo ao dela e então Lori esqueceu tudo, a não ser o prazer imenso que sentia. Deixou que ele a penetrasse, sem medo ou vergonha, tornando cada partícula de seu corpo viva e vibrante, aumentando o prazer até que atingiram juntos o clímax. Depois eles se abraçaram, relaxados, com os desejos realizados.

Mais tarde ele a carregou para a cama.,colocando-a sobre as co­bertas para imediatamente se juntar a ela. Sentiam os corpos molha­dos, mas quentes, um cansaço doce e gostoso envolvendo-os mansa­mente.

Lori não cabia em si de felicidade. Pertencia a Luke de corpo e alma! Era dele, assim como ele lhe pertencia! Podia existir alegria maior na vida do que amar e ser amada? Nada se comparava à delícia extrema do contato íntimo com o ser amado!

No entanto, logo chegaria o dia em que Luke não ia mais querê-la, ela pensou, já sofrendo. Assim que soubesse sua identidade, iria odiá-la e não mais amá-la.

— Faça amor comigo, Luke! Mais uma vez! — pediu, desesperada para aproveitar a delícia do amor, enquanto ele ainda a qui­sesse.

Luke riu, feliz. Apertou-a entre os braços, acariciando-a.

— Se for tão exigente assim, depois que casarmos, não vou ter disposição nenhuma para trabalhai!

Já passava das oito quando Luke a levou para casa, na manhã se­guinte. Lori disse para ele ir sozinho para o escritório porque preferia ficar um tempo no apartamento. Tinha que dar alguma explicação a Sally por sua ausência nessa noite.

— Sou outra boba, Sally, igualzinha a você.

A amiga estava na cozinha, preparando o café da manhã.

— Não é a mesma coisa, Lori. Luke a ama, não tenha dúvidas sobre isso. Venha comer alguma coisa.

— Obrigada, Sally, mas já comi.

Foi para o quarto trocar de roupa, lembrando com alegria a refeição gostosa que tinha feito com Luke, entre risadas e beijos. Sally apa­receu na porta.

— Como foi a visita ao pai dele? O grande homem é tão perigoso como dizem?

— Não. Eu o achei apenas um homem velho e triste. E você, pas­seou bastante no sábado?

— Muito. Saí com um rapaz. Tenho certeza de que ele nunca será a paixão da minha vida, mas foi agradável. A propósito, você teve uma visita, ontem.

— Quem?

— Ele não disse o nome. Apenas perguntou por você e, quando disse que não estava, respondeu que a procuraria numa outra hora.

— Só espero que não apareça quando Luke estiver por aqui. Ele é tão ciumento...

— Já notei!

— Vamos embora, Sally, ou chegaremos tarde. Nikki e Paul de­vem chegar hoje e quero recebê-los.

— Nikki não vai estar tão bonita como você, Lori.

— Estou muito feliz, Sally. E a felicidade transforma as pessoas, não acha?

Quando Lori entrou no escritório, viu a porta da sala de Luke fe­chada. Ela ficou aliviada. Teria tempo de ver a correspondência e organizar seu trabalho antes que surgissem mais obrigações.

Estava feliz, depois de descobrir as maravilhas do amor. Sentia-se uma mulher completa e realizada. Ia gozar seus momentos de felici­dade enquanto eles durassem.

A porta da sala de Luke se abriu e ela ergueu o rosto, um sorriso radiante nos lábios. No mesmo instante, esse sorriso gelou em sua boca, quando reconheceu quem saía do escritório. Era Nigel!

Nigel continuava bonito e elegante como sempre. Não parecia en­velhecido, a não ser pelos olhos, que mostravam algumas rugas.

Mas Lori não se impressionou com ele. Como podia ter amado esse homem, que agora lhe era completamente indiferente? Por causa de Nigel, tinha elaborado seus planos de vingança contra Luke.

Observou-o com olhos frios e um rosto sério.

— Sabe por que estou aqui, Lori? — ele perguntou, chegando bem perto dela.

— Não é difícil adivinhar. — Tinha certeza de que Nigel fora ali para arruinar sua vida, porque se sentira humilhado cinco anos atrás.

— Continua linda como sempre! — Ele percorreu o corpo dela com olhar insolente. — Estive no seu apartamento, ontem, e sua ami­ga me contou que tinha saído... com Luke. — Nigel deu uma risadinha irônica. — Logo com Luke, Lori? Não podia ter escolhido outra pessoa? Se despreza tanto o pai dele, como pode sair com ele?

Lori ficou quieta. Realmente tinha ficado furiosa com Jacob Randell e Nigel sabia disso.

— Parece que as coisas mudaram, Lori. Está apaixonada pelo filho de seu carrasco? É difícil de acreditar! Pelo menos, eu acho, e Luke também.

— O que disse a ele?

— Apenas a verdade. Que você tinha jurado se vingar do pai dele.

— Luke... Luke acreditou em você?

— Claro! É a verdade, não é?

— Agora compreendo tudo. Margot me reconheceu, não foi?

— Exatamente. Assim que cheguei da lua-de-mel, ela me contou que a encontrou.

"Devia ter desconfiado! Ninguém muda tanto para não ser reco­nhecido. Nem mesmo em cinco anos!", Lori pensou, desiludida.

— Li a notícia de seu casamento no jornal, Nigel. Sua esposa é muito bonita.

— Também acho. Carolina é filha de lorde Maughan, que é juiz.

Lori compreendeu, então, por que Nigel tinha escolhido aquela moça para se casar. Era uma maneira de subir na carreira. Ele era ambicioso e não ia deixar passar a oportunidade.

— Ótimo para você.

— É mesmo. Carolina é uma esposa muito conveniente.

— Fico contente com isso.

— Fica mesmo? No entanto, tentou destruir minha vida, há cinco anos!

— E agora você arruinou a minha de propósito!

— Não foi uma justiça poética?

Lori não respondeu. Nigel era muito cínico e não se importava de fazer os outros sofrerem.

— No entanto... — Nigel se inclinou sobre a mesa — fiquei de­sesperado por perdê-la, Lori. Amava você como nunca mais amei ninguém, incluindo Carolina. Talvez... agora que estou casado, e você livre de Luke... possamos nos encontrar e reviver velhas cha­mas. Quando achar conveniente, é claro.

— E se nunca for conveniente? — Ela procurava se manter calma, mas sentia a indignação crescer.

— Por que não? Sei que você e Luke são amantes; portanto, não tem nada a perder.

— Saia daqui! — Lori se levantou, indignada. — Não sei como um dia pude pensar que o amava! Você é insuportável, revoltante e desprezível! Vá embora! Já causou muito mal num dia só!

Nigel ficou espantado com aquela reação.

— Deve estar apaixonada por Luke! Mal posso acreditar!

— Estou mesmo.

— Meu Deus! Pobre Lori! — Nigel balançou a cabeça como se realmente sentisse pena. Depois, saiu do escritório sem dizer adeus.

Lori ficou agitadíssima. Queria ver Luke, tentar desfazer o mal-en­tendido, mas não tinha coragem de entrar no escritório dele sem que ele a chamasse.

— Posso entrar? — Nikki apareceu na porta. Estava bonita, a ima­gem perfeita da felicidade. — Ouvi dizer que não é muito seguro en­trar aqui sem bater, principalmente quando você e Luke estão juntos.

Lori não quis estragar o prazer de Nikki logo em seu primeiro dia no escritório. Tratou de desconversar:

— Quem lhe disse isso?

— Claude. Fomos visitá-lo ontem. Achei-o muito bem-disposto, melhor ainda do que antes de nosso casamento.

Lori mal prestava atenção à conversa. O que Luke fazia no escri­tório? Por que continuava fechado lá?

— Que tal? Gosta de seu novo chefe? — Nikki brincou com ela.

— Gosto.

— Claude me contou que não é um simples gostar... Disse que é muito mais que isso.

— Não sei... Na verdade, Luke prefere que você seja a secretária dele.

— É mesmo?

— De verdade. Você se incomoda?

— Não... mas vou deixar que Paul decida. Afinal, agora ele é meu marido. Eu...

Finalmente, a porta do escritório se abriu e Luke apareceu. Estava pálido, os olhos como gelo, distante. Cumprimentou Nikki com frieza, o que a fez sair do escritório no mesmo instante.

— Venha até minha sala, Lori.

Ela obedeceu e sentou-se, apertando as mãos para que parassem de tremer.

— É esperar demais achar que tudo é mentira, não é? — A voz de Luke estava dura como pedra.

— É...

— Por que, diabo, não me disse nada? Apenas para que eu não descobrisse seus planos de vingança? Foi para isso que saiu comigo?

— Foi... mas...

— E ontem à noite... também foi parte desse plano sórdido de se vingar?

— Não! — ela gritou, desesperada, erguendo para ele os olhos cheios de lágrimas.

— Foi, sim! Queria que eu sofresse mais ainda quando me aban­donasse. Eu pensei que tinha nos braços a mulher que amava e que também me amava com loucura. No entanto, você me envolveu pro­fundamente, para que minha dor fosse maior! — O desprezo que ele sentia era evidente. — Quando pretendia me dizer que era a filha de Michael Chisholm? Antes ou depois de nos casarmos?

— Depois... mas...

— Claro que depois! Eu sofreria mais ainda, por saber que a filha de Michael Chisholm era minha esposa!

Lori reconhecia que Luke tinha razão para estar furioso. O namoro começara como ele dissera. Porém, o amor tinha transformado tudo! Por que não conseguia convencê-lo disso?

— Sobre o que estava conversando com Nigel, no escritório, ainda há pouco?

— Ele se ofereceu para ter um caso comigo — ela falou franca­mente, achando que naquele instante não podia haver meias verdades.

— E você aceitou?

— Claro que não!

— Mas ele é a razão de tudo isto, não é?

— Não sei onde quer chegar, Luke.

— Quando Nigel entrou em meu escritório e me disse que você era Lorraine Chisholm e que havia jurado se vingar de meu pai, minha primeira reação foi vir aqui e sacudi-la até esganá-la. — As mãos dele se abriam e fechavam, como se ainda quisessem fazer isso. — Mas resolvi me dar um tempo para pensar. Então lembrei que você só concordou em sair comigo depois que Nigel casou. Eu sabia que ele tinha sido noivo de Lorraine Chisholm e que rompera com ela ao descobrir sua identidade. O que, aliás, me deixou revoltado.

— Continuo sem entender, Luke.

— Nem pode, porque, apesar de ter passado a noite em meus bra­ços, me conhece muito pouco, Lori. Pensa que aprovei a atitude de meu pai em relação ao seu? Acha que eu podia ficar em paz, sabendo que meu pai perseguiu um homem inocente até que ele ficasse tão desesperado a ponto de tirar a própria vida? Nunca! Detestei meu pai pelo que fez!

Ah! Como não tinha descoberto a causa do antagonismo que existia entre pai e filho?, Lori se lamentou. Luke dera tantos sinais disso, e ela, idiota, não havia percebido nada. Estava tudo ali para ver, e, no entanto, fora cega.

— Odiei o sofrimento que meu pai causou a você e à sua mãe — Luke continuou. — Mas não havia nada que eu pudesse fazer, na ocasião. Não ia adiantar falar com sua mãe ou tentar me desculpar, se eu não tinha feito nada e não era responsável pelas atitudes de meu pai. Nunca imaginei, porém, que os efeitos psicológicos do caso fossem tão fortes em você que chegasse a tais extremos para conseguir sua vingança. Ainda ama Nigel, não é verdade?

— É a você que eu amo! — Lori gritou, desesperada.

— Não continue fingindo...

— É a verdade, Luke.

— Não acredito e, mesmo que acreditasse, nada mais daria certo entre nós. Sempre que tivéssemos qualquer discussão, você me lem­braria do que meu pai fez ao seu.

— A única coisa que quero é ficar perto de você, Luke. Quando não me quiser mais, é só me mandar embora.

Luke se voltou para ela, a expressão dura, os lábios apertados, os olhos quase que vidrados.

— Quero que vá embora agora. — Deu-lhe as costas, colocando as mãos nos bolsos. — Já conversei com Paul, e Nikki começa a tra­balhar para mim hoje. Você fica no lugar dela, por enquanto. Claude ainda não está totalmente recuperado e não pretendo aborrecê-lo di­zendo que sua secretária favorita deixou a firma. Você pode continuar por aqui até que ele esteja bom.

— E, quando isso acontecer, devo sair?

— Sim.

Lori correu para o banheiro, mal contendo os soluços que escapa­vam de sua garganta.

 

A semana seguinte foi a pior de sua vida. Luke se mostrava arro­gante, não tomando conhecimento de sua presença. Ela passava as noites em meio a pesadelos horríveis, sentindo o corpo arder na febre do desejo não realizado. Muitas vezes levantava-se de madrugada e ficava andando de um lado para outro, na sala, tentando achar uma maneira de reconquistar Luke.

No domingo, foi visitar tia Jessie, como sempre fazia.

— O que aconteceu com você, minha querida? Está parecendo uma alma do outro mundo!

— Não precisa me desanimar ainda mais! — Lori respondeu, re­batendo o comentário da tia com amargura.

— Vamos deixar de meias palavras, Lori. Onde está Luke?

— Não estamos mais juntos.

— Por quê?

— Porque não.

— Prefere que eu descubra tudo sozinha? Pois bem. Ele sabia que você é filha de Michael Chisholm?

— Então... então... você sabia que Luke é filho de Jacob Randell?

— Claro que sim! Ainda não estou senil, minha querida! Assim que ouvi o sobrenome dele, percebi quem era. Por que não deixa o passado enterrado, Lori? Você ama Luke, não é?

— É verdade.

— Ele também a ama. Então, por que não esquecem o que acon­teceu há tanto tempo?

— Eu já esqueci, tia Jessie, mas ele não consegue. Não me culpe pelo que papai fez, mas...

— Reparou que esta é a primeira vez que você admite que seu pai pode ter sido culpado?

— Mas ele não era!

— Aí é que se engana, Lori. Ele era culpado.

— Não é possível!

Jessie pegou a mão de Lori e a fez sentar ao seu lado, no sofá.

— Não posso mais continuar enganando você. Precisa saber a ver­dade. Disse à sua mãe que deveria lhe contar, mas ela se recusou. Seu pai, meu sobrinho, era culpado de tudo de que foi acusado. Ele se matou porque Jacob Randell ia trazer as provas para o tribunal. A amante de seu pai ia testemunhar contra ele.

Lori arregalou os olhos, chocada pelo que ouvia.

— Amante?

— Ele já estava com ela há dois anos e o dinheiro que desviou ia servir para irem morar em outro lugar, quando ele abandonasse você e sua mãe.

— Mas... e a carta... em que ele se dizia inocente?

— Michael nunca escreveu essa carta.

— Então...

— Sua mãe a escreveu para não estragar a imagem que você tinha de seu pai.

— Por que mentiram para mim, tia Jessie?

— Porque você era uma criança, com doze anos, e já tinha sido muito machucada. Sua mãe não quis que soubesse que seu pai não era um homem direito, como pensava. Também não gosto de lhe dizer essas coisas, mas acho que é preciso. Só não falei antes, quando você e Nigel desmancharam o noivado, porque sabia que Nigel era um ho­mem fraco e não a merecia. Mas Luke é uma pessoa excelente e não quero que o perca.

— A verdade não modifica nada, tia Jessie. Veio apenas provar que Jacob Randell tinha toda a razão.

— Exatamente. Não é hora de Luke reconhecer que o pai estava certo, para que termine essa animosidade entre eles?

— Como sabia disso?

— O próprio Luke me contou, quando esteve aqui. Portanto, agora tem que conversar com ele e explicar o que realmente aconteceu.

— Ainda não compreendo uma coisa, tia Jessie. Se Jacob Randell sabia que meu pai era culpado, sabia sobre sua amante e sobre o di­nheiro que tinha sido extraviado, por que ele mesmo não contou a Luke?

— Acho que precisa perguntar isso ao próprio Jacob Randell.

Lori pensou que não tinha coragem. Não poderia enfrentar aquele homem tão poderoso dizendo que era Lorraine Chisholm! No entanto, duas horas depois se viu no carro, dirigindo para a casa do grande advogado.

— Por favor, diga ao sr. Randell que Lorraine Chisholm está aqui para vê-lo — falou com a empregada.

— Por aqui, por favor.

Jacob Randell estava na sala, perto da janela, um jornal aberto no colo.

— Lori, como vai? — Ele sorriu. — Luke não veio com você?

— Não. Estou sozinha. Não parece surpreso por me ver, sr. Ran­dell.

— Sabia quem você era assim que a vi chegar com Luke. Não mu­dou tanto assim, em doze anos, Lori. Agora me diga: como posso ajudá-la?

Ela sentou ao lado daquele homem que um dia jurara odiar para sempre.

— Por que nunca disse a verdade sobre meu pai?

Por um instante, ele hesitou, para depois olhá-la com carinho.

— Já tinha feito muito mal, minha cara. Seu pai estava morto e nada o traria de volta à vida.

— Mas ele era culpado!

— Eu sei, mas, se tivesse levado o julgamento com mais calma, maior generosidade, talvez...

— Sabe que papai teria se matado de qualquer modo!

— Talvez, mas não podia deixar que você e sua mãe continuassem a sofrer as conseqüências do que ele tinha feito.

— É por isso que nunca permitiu que a verdade fosse publicada?

— Para que ia permitir, Lori? Seu pai estava morto, o banco sa­tisfeito porque o dinheiro tinha sido devolvido. Para que causar maior sofrimento a vocês duas?

— Mas com isso perdeu o amor e o respeito de Luke! Uma sombra cobriu os olhos de Jacob.

— Foi esse o preço que tive que pagar.

— Mas não vou deixar que isso continue assim. Posso ter perdido Luke, mas não permitirei que o senhor também o perca para sempre. Vou lhe contar a verdade.

— Preferiria que não agisse assim, Lori.

— Por que não?

— Já é muito tarde para nós dois. Posso não ser culpado de muita coisa de que Luke me acusa, mas, mesmo assim, carrego o peso de outras culpas. Fui muito ambicioso e o caso de seu pai me apareceu como mais um degrau para subir em minha carreira. Não me importa­va se alguém ia ou não sofrer com isso. Lancei mão de tudo, até da amante de seu pai, sem me preocupar em pensar se sua mãe sabia a respeito dela ou se levaria um choque quando soubesse.

— Isso fazia parte de sua profissão, sr. Randell. Estava defendendo seu cliente. Luke precisa compreender isso.

— Agora é tarde demais, Lori. Mas, para ser sincero, teria muito prazer em tê-la como nora.

— Mesmo sabendo que meu pai era culpado de um desfalque?

— Esses traços das pessoas não são hereditários, e você me parece uma boa moça. Gostaria que casasse com Luke.

— Talvez seja tarde demais.

— Mesmo assim, promete que virá me visitar de vez em quando? Gosto de sua companhia.

— Farei o possível.

Já era tarde quando Lori chegou a Londres. Estava exausta, física e emocionalmente. Tinha sido um dia de grandes choques e revela­ções. Mas, mesmo assim, iria ver Luke. Precisava falar com ele en­quanto tivesse coragem.

Luke abriu a porta do apartamento vestindo um pijama, com um robe por cima, os cabelos revoltos, como se tivesse estado dormindo. Tinha olheiras profundas, o olhar cansado.

— Gostaria de falar com você — Lori anunciou com determinação.

— Agora não, já é muito tarde.

— Acabei de dizer a seu pai que nunca é tarde demais.

— Meu pai? Foi vê-lo? — Luke estava surpreso demais com o que ouvia. — Por quê?

— Posso entrar, ou prefere que lhe conte tudo aqui na porta? — Mantinha a voz calma, mas por dentro fervia, sentindo o coração ba­ter na boca.

Luke deixou que ela entrasse. Foram para a sala, onde Lori sentou e ele ficou de pé.

— Por que foi ver meu pai?

— Porque eu precisava saber a verdade.

— Sobre o quê?

— Sobre os motivos que o levaram a manter silêncio a respeito de meu pai, arruinando sua reputação como advogado, perdendo o res­peito do filho. Algum dia você lhe perguntou a verdade, Luke?

— Já sabia.

— Tia Jessie me disse que meu pai era culpado de tudo aquilo de que foi acusado.

— Esse fato já era de meu conhecimento, Lori, e não e isso que me aborrece. Pela ação de meu pai, o seu cometeu suicídio.

— Está enganado, Luke.

— Não estou. — Luke foi até o bar e se serviu de uma dose de uísque, para depois voltar para junto dela. — Não sei o que meu pai lhe disse, mas preciso preveni-la de que ele é um grande mentiroso. Enganou minha mãe durante trinta e cinco anos...

— Por favor, Luke, me escute por uns minutos.

Com má vontade, Luke sentou para ouvir. A princípio pareceu de­sinteressado, mas depois se concentrou no que ela dizia. Lori contou tudo aquilo que tinha aprendido naquele dia tão longo.

— Como vê, Luke, seu pai foi tão desprendido que não deixou que a verdade aparecesse, embora soubesse que você ia achá-lo insensível e sem coração. Mas agora que sabe como tudo aconteceu, compreen­de como ele teve sentimentos nobres, não é?

— Tem razão.

— Graças a Deus!

— Por que resolveu me contar tudo isso, Lori?

— Para reabilitar seu pai diante de você.

— Por nenhuma outra razão? Ela corou e baixou os olhos.

— Não.

— Tem certeza?

Lori sentiu que precisava ir embora. Tinha feito o que se tinha pro­posto e era o suficiente.

— Preciso ir, Luke. É tarde e estou cansada.

— Não teve a esperança de que, se me contasse tudo, nosso mal-entendido também estaria desfeito? — Ele tinha a voz rouca e tensa.

— Não.

— Por que, Lori? Por que nem por um instante você procurou reatar nosso relacionamento? Era o que eu mais queria!

Lori ergueu os olhos, tão feliz que mal ousava acreditar no que tinha ouvido.

— Luke!

— Amo você, Lori! E espero que me ame também!

— Luke, meu querido! Eu te adoro!

Ele a segurou nos braços, num abraço saudoso e cheio de amor.

— Seu plano acabou saindo todo errado, não foi, Lori? Ficou apai­xonada por mim, quando o que pretendia era me odiar, não é?

— Isso mesmo, Luke.

— Minha querida! — Ele a apertou contra o peito, passando a mão em seus cabelos macios e sedosos, que formavam um halo de fogo em redor do rosto marcado pelas lágrimas. — Então... você fez amor comigo por amor?

— Por muito amor!

Lori ergueu o rosto para ele, mostrando a imensidão do sentimento que a dominava. Seus lábios se juntaram num beijo longo, que poderia durar para todo o sempre.

— Vamos apagar toda a amargura de nossas almas, Lori. Temos amor bastante para isso!

— Não só para nós, mas para seu pai também, não é, Luke? — Em sua imensa felicidade, Lori não se esqueceu do homem triste, preso a uma cadeira de rodas, ansiando por um pouco de carinho do filho. Afinal, ele tinha se sacrificado muito em benefício dela!

— Também para ele, Lori. Vou visitá-lo.

— Amanhã?

— Amanhã não, porque temos uma coisa importantíssima para fazer.

— O quê?

— Vamos tratar de nossos papéis de casamento. Quer ser minha esposa?

— Claro! É o que mais desejo na vida!

— Mais do que ficar comigo hoje à noite? — Luke a provocou, mostrando o desejo que sentia.

— Se eu não for embora, talvez amanhã você não consiga sair para providenciar a licença de casamento. — Lori sorriu, mostrando o quanto o desejava também.

Beijando-a com muito amor, Luke carregou-a nos braços e a levou para o quarto. Lori encostou a cabeça no ombro dele.

Se não fossem ao cartório no dia seguinte, poderiam ir no outro. Tinham uma vida inteira pela frente, para ficarem juntos, para se amarem, para serem felizes.

 

 

                                                                  Carole Mortimer

 

 

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