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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


DOCE PECADO / Adele Ashworth
DOCE PECADO / Adele Ashworth

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

DOCE PECADO

 

Faz muito tempo que Vivian está longe da vida de Londres. Até a sombra de um escândalo voltar na forma de chantagem: ou recupera um manuscrito de Shakespeare ou todo mundo vai saber o que ela está determinada a esconder de todos. Para salvar sua honra, Vivian tem apenas um caminho: desonrar-se com o Duque de Trent, famoso por sua negra reputação e suspeito de ter assassinado sua esposa, mas também o que possui o cobiçado manuscrito.

O Duque está intrigado com esta dama, que invadiu a sua solidão e quer saber todos os seus segredos através da mais doce e lenta sedução. Ele conseguirá resistir a essa tentação?...

 

 

                   Sul de Cornwall, julho de 1856

Vivian observou fixamente a nota escrita à mão: «Sua excelência deseja…».

Com um sorriso malicioso, pensou o quanto lhe agradava que ele a desejasse… Entretanto, somente o tinha visto uma vez, de longe, e considerar semelhante idéia era o mais escandaloso.

Dobrou a nota sem dedicar nem um pensamento absurdo a mais e a guardou no enorme bolso do blusão de trabalho. Teria as orquídeas preparadas, seu maior orgulho entre as flores que cultivava, em alguns dias, tal e como tinha solicitado seu mordomo. Aquele seria um trabalho remunerado, ou melhor, dizendo, uma obra de arte remunerada, como todos os anos nessa época.

Uma vez mais, satisfaria o pedido formal e estereotipado de flores frescas que tinha feito o reservado duque de Trent; umas flores que utilizava para adornar os ambientes de sua propriedade costeira, a qual se estendia vários quilômetros sobre a colina ocidental com vista para península de Lizard. E esse ano, como todos outros, faria todo o possível para dar uma olhada nesse enigmático homem que tinha conseguido escapar da forca pelo assassinato de sua esposa.

-Senhora Rael-Lamont?

Vivian deu um pulo ao escutar seu nome e se voltou apressada para a porta que havia entre sua casa e o jardim, onde sua governanta a contemplava com uma expressão indecifrável em seu envelhecido e enrugado rosto; ao que parecia não lhe importava absolutamente que sua senhora estivesse sonhando acordada ao invés de estar plantando.

-O que ocorre, Harriet? - perguntou em seguida.

A mulher vacilou e limpou as mãos no avental.

-Veio uma… pessoa para vê-la. Um homem. Um… É um dos atores da companhia shakespeariana que atua no Cosgroves este verão.

Vivian reprimiu o impulso de abrir a boca.

- Há um ator aqui?

Harriet baixou a voz.

- Disse que se chama Gilbert Montague. Não me mostrou nenhum cartão, e é obvio que não o deixei passar, mas decidiu esperar de todas as formas. Diz que tem que falar com a senhora sobre um assunto urgente.

Intrigada, Vivian caminhou até a sombra das trepadeiras que subiam pela grade do alpendre, onde aguardava a governanta, e estendeu uma mão para pegar a toalha que havia em um dos bancos do jardim.

- Disse o que queria? - Nem sequer conseguia imaginar o que queria um ator com ela, nem no aspecto pessoal, nem no profissional.

Harriet entrou no atalho de cascalho e ergueu sua gordinha figura antes de compor uma expressão de desaprovação.

-Não sugeriu motivo algum para sua visita - respondeu de maneira sucinta - Apenas disse que desejava solicitar uns minutos de seu tempo, e que a senhora o receberia. Disse-lhe que comprovaria se estava em casa.

Vivian sorriu para si mesma. Era evidente que estava em casa, mas para cumprir com o protocolo social, Harriet devia comprová-lo. E é obvio, jamais deveria permitir que alguém tão vulgar entrasse na residência privada de uma pessoa.

Afastou o cabelo do rosto. Com o calor do meio-dia sempre lhe formavam uns rebeldes cachos soltos ao redor das bochechas e da testa que jamais conseguia manter ordenados. Estava certa de que tinha um aspecto espantoso depois de haver passado as duas últimas horas trabalhando na terra sob o sol e o ar úmido, mas decidiu que isso não era importante. Dado que o senhor Montague ganhava a vida nos cenários, teria visto coisas muitos piores em seu trabalho ou nas ruas.

- Muito bem, o receberei - disse à governanta, ao mesmo tempo em que levava as mãos às costas para desfazer o laço do blusão de trabalho cheio de manchas. Ao ver que Harriet abria os olhos como pratos reluzentes por causa da surpresa, acrescentou - Mas não o leve a casa; diga-lhe que me reunirei com ele nos fundos, do outro lado da cerca.

Harriet assentiu uma vez com a cabeça e, ao escutar semelhante amostra de sabedoria por parte de sua senhora, sua expressão desaprovadora foi substituída por uma de alívio.

- Sim, senhora. Enviá-lo-ei ali imediatamente.

Sozinha uma vez mais nas sombras vespertinas do isolado pátio, Vivian jogou o blusão sobre o banco e sacudiu as saias de musselina marrom. Tinha três vestidos de trabalho, e nessa manhã tinha escolhido esse em particular porque ficava muito folgado à altura do peito e da cintura, embora, para falar a verdade, não ressaltava em nada sua figura. Apesar de gostar muito de teatro, jamais em sua vida tinha acolhido em sua casa um ator - nem a ninguém de uma posição social tão baixa - de modo que lhe importava muito pouco o que esse homem pensasse dela, em particular.

Saiu de novo à luz do sol e se serviu de meio copo de água de uma jarra que havia sobre a mesa de semeado. Enquanto bebia, sedenta, ouviu o rangido da sólida porta de madeira que anunciava o passo de um intruso na parte mais ocidental da casa.

Secou os lábios depressa com a prega do blusão e se virou para enfrentar o som dos fortes passos que se aproximavam pelo atalho de cascalho. Com um porte tão formal como permitiam as circunstâncias e com as mãos enlaçadas às costas, caminhou para a pequena e frondosa palmeira que havia naquele canto da propriedade. A primeira coisa que apareceu foram umas pernas masculinas, e mais tarde o homem em toda sua extensão.

Vivian retrocedeu um passo quando o tipo se aproximou dela. Já tinha imaginado que seria alto, já que tinha presenciado duas de suas magníficas atuações no teatro. Contudo, não estava preparada para encontrar-se com aquele homem de costas amplas e largas extremidades que nesse momento se erguia em toda sua arrogante elegância diante dela, entre duas raras espécies de valiosas orquídeas, ocultando o sol com a cabeça enquanto a contemplava.

Seu aspecto, embora surpreendentemente na moda, não conseguia ocultar a rudeza de seus fortes traços. Tinha o olhar cravado nela, esperando possivelmente que apartasse a vista em um gesto de insegurança ou desconcerto. Entretanto, Vivian não podia permitir-se parecer covarde. A súbita inquietação que a embargava afiou seus sentidos e a pôs em estado de alerta, lhe advertindo que mantivesse a mente limpa e uma atitude indiferente, inclusive arrogante. Negava-se a deixar-se intimidar por sua enorme estatura. Embora, por mais estranho que parecesse, não estava assustada.

- Imagino que a senhora seja a Sra. Rael-Lamont – ele comentou com uma leve inclinação de cabeça. Tinha pronunciado as palavras em um tom grave e com uma dicção perfeita.

Vivian lhe devolveu a saudação antes de responder.

- Sr. Montague, suponho - respondeu ela - No que posso ajudá-lo?

Parecia a ponto de sorrir enquanto a observava, embora não se aproximou mais.

- Tem um jardim precioso, senhora.

Vivian sabia que nem sequer tinha cuidado das flores ainda, mas não discutiu esse ponto. Parecia muito interessado nela…, ou possivelmente na reação que mostrava diante de sua presença.

- É precioso, sim - replicou com amabilidade - embora na realidade não seja um jardim, mas sim um viveiro.

O indivíduo esboçou um meio sorriso.

-Aceito a correção.

Vivian não sabia se esse homem queria ganhar sua simpatia ou não, mas parecia bastante agradável.

- O que posso fazer pelo senhor, Sr. Montague? - perguntou uma vez mais sem andar. O calor do meio-dia começava a lhe acelerar o pulso.

Depois de percorrê-la com o olhar, aproximou-se alguns passos mais.

-Vi-a várias vezes no teatro. - coçou as costeletas escuras e abundantes, com seus enormes dedos, como se refletisse sobre um ponto muito importante - Acredito que assistiu à representação da noite de Reis, sábado passado.

Isso a deixou atônita. Tinha visto essa representação, e talvez uma ou duas mais com o passar do verão, mas sem dúvida não era tão chamativa como a maioria da audiência local. Era estranho que prestasse atenção nela, e Vivian fez todo o possível para ocultar o incômodo que sentia de repente.

- É certo - replicou sem mais explicações. Cruzou os braços à altura do peito num modo de defesa e insistiu - Mas não acredito que essa seja a razão que o trouxe aqui. Posso ajudá-lo em algo, senhor Montague? O certo é que estou muito ocupada.

- Bom, a verdade é que «ajuda» é a palavra chave, não lhe parece, Sra. Rael-Lamont?

Aproximou-se mais dela e desviou a vista para o lado antes de acariciar com um dedo a folha de uma exuberante orquídea rosa. Vivian sentiu certo desconforto. Estava claro que sua secura não o tinha intimidado absolutamente.

- O que houve com o senhor Rael-Lamont? - perguntou o homem muito devagar.

Durante um breve momento de devaneio, as lembranças de outra vida, um redemoinho de emoções indescritíveis que Vivian tinha suprimido com muita dificuldade, emergiu a superfície e percorreram suas veias para abrasar sua memória como se tratasse de um barril de pólvora. Sentiu que fazia um nó na garganta, que ruborizava e que todo seu corpo começava a acalorar-se de uma maneira insólita, até para o sol do meio-dia próprio da costa meridional.

- O que disse? -sussurrou depois de um instante com voz rouca.

O homem sorriu e levou uma de suas descomunais mãos ao bolso da camisa, por cima do coração.

-Vejo que a assustei.

A angústia que a embargava apagou suas boas maneiras.

-Vá embora, por favor, senhor Montague - ordenou-lhe, ao mesmo tempo em que baixava os braços junto ao corpo e sua boca adotava um gesto severo.

O homem assentiu como resposta, e sua odiosa e enorme boca se curvou em um sorriso de satisfação.

- É obvio senhora. - Entretanto, não fez o menor intento de retirar-se - Entretanto – acrescentou - acredito que antes de partir há certa… coisa sobre a qual deveríamos falar.

Por incrível que parecesse, Vivian ainda não tinha medo do ator. Ao menos, não um medo físico. Harriet seguia dentro da casa, e alertaria aos vizinhos se a ouvisse gritar. Mas estava claro que ele sabia. Não, esse homem tinha razões muito mais sinistras para visitá-la. Intuía-o.

Preparou-se para a comoção que sabia estava a ponto de sofrer.

- O que é o que quer Sr. Montague? – perguntou - Vá ao direto ao assunto.

- Certamente. - Acariciou as pétalas da orquídea com intenção de pô-la furiosa - Pergunto-me - continuou com ar pensativo - Como reagiria se lhe dissesse que tenho provas de que a senhora não é quem diz ser.

A cólera que lhe tinha provocado esse ataque deliberado a uma de suas flores mais delicadas e valiosas se esfumou de repente. Piscou várias vezes, lutando contra o impulso de apartar-se dele.

- Diria que o senhor está enganado – replicou na defensiva.

O homem inclinou a cabeça para um lado e voltou a observar seu rosto de relance.

- Seriamente acredita nisso?

O silêncio que se fez por trás dessa pergunta tão vaga e ambígua lhe provocou calafrios, apesar do calor que fazia a essa hora do dia. E o fato de que o homem tivesse insinuado que conhecia seu segredo mais íntimo lhe provocava um medo aterrador.

Pelo que notou, ele já tinha suposto que não diria nada.

- Talvez lhe interesse saber que sei de boa fonte que não é viúva - assinalou com voz grave e cruel. E em seguida acrescentou- Não o é, verdade, Sra. Rael-Lamont?

Vivian notou que sua boca secava e começou a tremer por causa de um frio interno e entristecedor. Entretanto, negou-se a permitir que ele notasse seu desconcerto.

- Saia de minha propriedade ou farei com que o prendam por entrar sem autorização - respondeu com voz gélida e calma.

- Imediatamente - ele apressou-se a replicar. Mesmo assim, em lugar de dar meia volta e partir como tinha ordenado, aproximou-se ainda mais dela, fazendo ranger a areia fina que havia sobre as lajes de pedra do pátio com a sola de seus sapatos -. Mas acredito que deveria me escutar primeiro - acrescentou. Seus grossos lábios se curvaram em um sorriso tenso, e passeou o olhar desde seus peitos até seus quadris.

Vivian se encolheu de vergonha diante desse olhar ameaçador e carregado de lascívia. Tratou de guardar a compostura para não vir abaixo; a única coisa que lhe impedia de gritar para pedir ajuda era o medo de ficar em evidência. O que mais a assustava era a certeza de que o homem que estava na sua frente sabia e utilizava essa preocupação contra ela.

- Ao que parece, Sra. Rael-Lamont, o problema é o seguinte…

De repente arrancou a orquídea pelo caule e a levou até o nariz.

Isso a enfureceu.

- Como se atreve…?

- Sei muitas coisas sobre seu marido - sussurrou em um tom que já não ocultava sua malícia - Sei muitas coisas sobre seu suposto matrimônio, onde vive seu marido agora e, para completar, por que a senhora se esconde em Cornwall.

«Esconde-se.»

O homem riu entre dentes antes de esmagar a orquídea entre os dedos e jogá-la no chão para pisoteá-la.

- Estou disposto a guardar seu segredo - acrescentou num tom agradável - por um preço razoável.

Os segundos - embora talvez fossem minutos- transcorreram com suma lentidão, como se encontrasse imersa em um pesadelo de uma profundidade insondável.

Vivian não podia respirar, e nem muito menos mover-se ou responder.

Montague se aproximou tanto que teve a impressão de que podia perceber seu aroma: o fedor da imundície que emanava do interior do corpo masculino para assaltar seus sentidos e lhe revolver o estômago.

-O que quer? - replicou por fim em um sussurro rouco, com lábios trementes.

-Veja, parece que chegamos por fim à razão de minha visita. Necessito de sua inestimável ajuda.

Aquele homem estava perturbado; era a encarnação da demência. E ninguém acreditaria em um louco, disse a si mesma para animar-se.

- Consideremo-lo uma pequena chantagem - esclareceu empregando um tom afável.

- Está louco – ela espetou.

O ator jogou a cabeça para trás para soltar uma gargalhada, desta vez genuína.

-Asseguro-lhe que não, senhora. Estou muito bem, e muito bem informado. O que ocorre é que necessito de sustento econômico. A profissão de ator não está muito bem paga.

Ela o fulminou com o olhar e percorreu com os olhos o elegante traje cinza de manhã, a camisa de seda e o meticuloso penteado. Para ser um ator de recursos limitados, não regulava em luxos. Isso a assustou tanto como todo o resto. Era muito provável que tivesse feito o mesmo a alguma outra alma cândida, e com êxito.

Pela primeira vez desde que Montague chegou ao seu jardim, Vivian não só sentiu medo e desprezo, mas também uma sensação de traição e de tristeza. Mas não importava. Uma vez recuperado o sentido comum, negou-se a ser uma de suas vítimas. Estava claro que não sabia… tudo.

Ergueu-se e lhe ofereceu um falso sorriso.

- Sinto muito, senhor Montague. Não estou disposta a ajudá-lo em nada. De fato, resulta-me muito difícil acreditar que esteja aqui, em minha propriedade, insinuando que estou tão assustada e indecisa para me submeter a suas repugnantes exigências. - Compôs uma careta de desprezo e baixou a voz - Parta agora mesmo ou gritarei, e posso lhe assegurar que então terá que atuar dentro dos muros da prisão.

Ele assentiu uma vez sem intimidar-se.

- Como desejar, senhora. Não obstante, acredito que deveria ver isto antes que eu parta.

Vivian observou como metia a mão em um bolso e tirava um pedaço de papel dobrado. Abriu-o e começou a ler desde a primeira linha.

-«Querido senhor Hathaway: Tenho lido as condições do acordo de separação e devo dizer que estou completamente de acordo com elas…»

Vivian teve que apoiar-se no poste que tinha ao lado quando seu corpo começou a tremer.

-«… Meu marido também está de acordo e já tem feito planos para retornar a França o quanto antes for possível…»

-Basta. Detenha-se!

Não lhe fez o menor caso.

-«Minha maior preocupação, é obvio, é que o assunto legal permaneça em segredo. Deslocar-me-ei à Cornwall nos meses vindouros para viver ali tranqüilamente com o dinheiro conseguido após liquidar os recursos que contribuí para o matrimônio. Sei que, como meu advogado, manterá este assunto na mais estrita confidencialidade. “Minha família não deve sofrer dano algum por causa do meu…»

Vivian estirou um braço e lhe arrebatou a nota dos dedos antes de espremê-la entre suas trêmulas mãos.

O homem cruzou os braços à altura do peito.

-Não é mais que uma cópia, é obvio. O original está a salvo em um lugar seguro.

«Em um lugar seguro.» Tal e como ela sempre tinha pensado que deviam estar os documentos legais.

Engoliu seco com força e cravou a vista no ventre do ator.

- Como…? Como conseguiu isto? - Elevou a cabeça de repente e o olhou aos olhos com desprezo - Quanto lhe custou isso, senhor Montague?

Ele entrecerrou os olhos.

- Não tanto como custará a você se não satisfizer meus desejos.

Satisfazer seus desejos? Estava claro que não podia dizer nada a respeito. Jamais havia se sentido tão horrorizada.

O homem deve ter percebido sua confusão, a intensidade de sua indignação. Depois de percorrê-la de cima a baixo com o olhar por uma última vez, deu a volta e enlaçou as mãos às costas antes de começar a caminhar despreocupadamente entre as flores para dirigir-se à porta da grade pela qual tinha entrado. Desde essa perspectiva, pensou Vivian, parecia um cavalheiro.

É um ator, recordou-se.

- Se quer manter este… nível de vida, por chamá-lo de algum jeito, terá que conseguir algo para mim - assinalou Montague com voz brusca, direto ao ponto.

Vivian ficou boquiaberta de incredulidade, não só pelo fato do homem lhe exigir que fosse participante em suas maquinações, mas sim porque sabia que se fracassasse a vida que levava chegaria a seu fim.

- Trata-se de um antigo soneto original, escrito e assinado por alguém importante.

Isso a deixou perplexa.

- O manuscrito - continuou o ator, que seguia de costas para ela e contemplava as formosas rosas amarelas que tinha à sua esquerda - está em posse do duque de Trent.

Vivian tomou o ar entre dentes, algo que ele notou sem dúvida, apesar da distância que os separava.

-Estou seguro de que uma mulher de sua idade e de sua experiência não terá problemas na hora de encontrar uma desculpa para visitar um homem tão retraído. - voltou-se um pouco para lhe dar uma olhada -. Tem guardado sob chave, assim não poderá roubar-lhe. Terá que abrir mão de… outros meios, para conseguir que o mostre e o entregue.

- Não o farei - conseguiu sussurrar em um tom gélido e rouco.

Ele deu a volta para olhá-la cara a cara de novo, ainda com as mãos enlaçadas às costas.

- É obvio que o fará senhora. Não deveria levar muito tempo. Envie-me uma nota ao teatro quando tiver finalizado sua tarefa e me porei em contato com a senhora imediatamente.

Uma vez mais, dirigiu-se para a entrada da grade, mas se deteve rapidamente e acariciou o cavanhaque.

- Além disso, quero deixar este assunto solucionado o quanto antes - acrescentou por cima do ombro em tom indiferente-. Só estarei em Penzance por quinze dias antes de viajar a Londres. Eu não gostaria que houvesse confusão alguma a respeito do que as pessoas devem ou não devem saber sobre sua separação. E acredito que não faz falta que lhe peça que não mencione a ninguém meu nome, minha participação nem este encontro entre nós.

Vivian viu que a comissura de seus lábios se curvava em um sorriso retorcido.

- Boa tarde, Sra. Rael-Lamont.

E em seguida caminhou para a entrada e fechou com muitíssimo cuidado o portão ao sair.

Vivian cravou a vista nesse lugar e se deu conta que, desde que Montague entrou em sua propriedade, ela nem sequer tinha movido os pés.

Muito devagar, baixou o olhar para a orquídea murcha e esmagada que havia sobre o atalho, e uma risada absurda ameaçou escapar de repente de seus lábios. Acabou que, em questão de dez minutos, puderam lhe roubar o mundo e o futuro que com tanto cuidado tinha construído para si mesma.

 

Seu nome completo era William Raleigh, duque de Trent, conde de Shreveport e Kayes, barão de Chesterfield e marido de Elizabeth, a mulher a quem segundo os rumores tinha matado. É obvio Vivian não acreditava… Em tudo.

Naquele instante se encontrava na frente da porta principal de sua propriedade, perto da beira do escarpado que havia em Mousehole, e se deteve um momento para contemplar a elegância de sua mansão, chamada Morning House, conforme mostrava na placa gravada na entrada. O aspecto do edifício retangular de tijolos marrons claro, com suas portinhas cinza escuro e suas gigantescas portas negras de mais de quatro metros e meio de altura, falava mais de uma casa em período de luto que de um exemplo da formosa campina que a rodeava. Não obstante, era muito provável que o duque trouxesse tudo sem cuidado.

Vivian tinha ido várias vezes a esse lugar na carruagem para entregar acertos florais, mas dessa vez tinha optado por percorrer a pé a distância que o separava do povoado, já que não levava nada mais que um ridículo jogo com seu vestido de tarde de cor arroxeado claro. Tinha chovido à alvorada, e embora seguisse nublado, a essa hora da tarde, a bruma impregnava o ar e a fresca brisa do oceano lhe provocava um formigamento na pele do rosto e do pescoço. Uma sensação que adorava.

Havia rumores que, embora o duque passasse onze meses do ano ali, possuía somente uma pequena parte das terras, certamente a zona que rodeava as imediações da casa. Mesmo assim, as paisagens eram impressionantes. De onde se encontrava nesse momento, Vivian podia ver não só a mansão e os prados, mas também o mar, que nesse dia tinha um aspecto cinza e ameaçador, enquanto se estendia para o horizonte que se elevava depois do edifício propriamente dito.

Depois de dar uma baforada de ar, Vivian empurrou a pesada porta de ferro e entrou no pequeno e formoso jardim, ao mesmo tempo em que concentrava seus pensamentos no assunto que devia confrontar. E o enfocaria como um assunto de negócios tinha decidido antes de sair de sua casa essa manhã. Faria uma proposta ao duque. Acima de tudo, ela era uma empresária.

Não viu nenhum criado enquanto caminhava pelo atalho. Recolheu as saias para subir os degraus da entrada e, depois de colocar o chapéu e alisar o vestido, elevou duas vezes a pesada aldavra de bronze.

Ficou um tanto nervosa nos três ou quatro minutos que teve que esperar para que a recebessem. Qualquer um haveria dito que um duque com uma imensa fortuna podia permitir um serviço eficiente, mas o duque de Trent era famoso por ser um homem tão misterioso como rico, em todos os sentidos.

Ouviu por fim como se deslizava o ferrolho do outro lado da porta e, segundos depois de uma paciente espera, a porta se abriu para deixar aparecer um homem grisalho que, a julgar por seu traje singelo e impecável e seu comportamento formal, devia ser o mordomo.

- Bom dia, Sra. Rael-Lamont - disse com uma breve inclinação de cabeça.

Vivian ficou boquiaberta durante um instante diante de tamanha audácia. É obvio, sabia quem era ela porque lhe tinha entregado flores pela entrada de serviço com antecedência, mas nesse dia parecia esperá-la como convidada. Nem sequer tinha tido a oportunidade de lhe entregar seu cartão de apresentação.

- Eu gostaria de ter um momento com sua excelência - disse uma vez recuperada a compostura – Claro, se estiver em casa.

O mordomo fez um gesto afirmativo com a cabeça.

- Entre, senhora.

Abriu a porta de par em par e se moveu para a direita para lhe permitir a entrada. Vivian entrou no vestíbulo e afogou uma exclamação de surpresa. Ao contrário do que ocorria com o exterior do edifício, o interior resultava brilhante, alegre e acolhedor, com chãos de mármore branco, um par de cadeiras estofadas em cetim branco e um enorme abajur de aranha de cristal que pendurava do pálido teto circular. Todos os objetos pareciam dirigir a atenção para uma mesa dourada que havia no meio e sobre a qual descansava um enorme vaso de cristal cheio a transbordar com margaridas, rosas de cor rosa e ramos silvestres. Durante um segundo, um simples segundo, Vivian se sentiu ofendida pelo fato de que o duque comprasse flores em outro lugar de vez em quando.

- Por aqui, se for lhe for agradável - o mordomo insistiu fazendo um gesto com a mão para a esquerda - Sua excelência a receberá na biblioteca.

Vivian mordeu a língua para não lhe perguntar de onde tinham saído essas flores, mas depois lhe ocorreu pensar que ninguém salvo o duque e seu pessoal de atendimento as via. Para falar a verdade, até um duque isolado socialmente necessitava sócios comerciais, mas albergava sérias dúvidas com respeito a que ditos negócios pudessem levar-se a cabo de um lugar tão remoto como a zona do sul de Cornwall. Devia ser uma lástima possuir uma mansão tão grande e formosa, decorada com um gosto tão delicado, e saber que ninguém mais que a eles mesmos poderiam desfrutá-la.

Seus sapatos produziram um ruidoso estalo contínuo enquanto seguia o mordomo pelo corredor à frente. Vivian não pôde evitar olhar para as enormes janelas que havia à sua esquerda, onde as grossas cortinas de cor nata tinham sido retiradas com cordões de borlas dourados para permitir a vista do oceano.

Instantes mais tarde se detiveram frente às portas duplas da biblioteca. O mordomo as abriu sem chamar e se fez colocou de lado para deixá-la passar. A primeira vista, a estadia tinha o aspecto que deveria ter qualquer biblioteca, embora ao parecesse o duque de Trent tinha um gosto refinado e do mais caro.

A sala era bastante grande, talvez um terço da ala sudeste, e cheirava um pouco a tabaco e a couro. Tanto as paredes como os altos tetos estavam decorados com franjas azul marinho e marrom escuro que faziam jogo com as franjas dos abajures florais e o couro marrom dos móveis, colocados ao redor de uma mesinha de madeira esculpida que se encontrava no meio do tapete oriental retangular, no centro do chão de carvalho. A parede do fundo estava ocupada por uma espécie de estufa no que havia distintas variedades de botões de flores e que se achava colocado frente umas gigantescas janelas arqueadas que, sem dúvida, ofereciam uma vista espetacular da praia de areia e do oceano.

As estantes de vidro tinham algo mais que dois metros de altura, e se alinhavam com o passar do muro ocidental que estava a sua direita, cheias e transbordando com material de leitura. Sobre elas havia retratos e quadros de paisagens com bordas douradas. Uma enorme escrivaninha de madeira escura de carvalho se erguia na parede norte, e era ali provavelmente onde o duque se encarregava da papelada da propriedade; junto a ele havia duas cadeiras de balanço estofadas em couro negro, colocadas uma ao lado da outra. Na parede oriental, uma gigantesca chaminé construída em mármore marrom e adornada com madeira esculpida parecia reinar na estadia; nesse momento estava apagada e sem o menor rastro de cinzas.

Apesar de a sala ter um aspecto mais masculino, tal e como se esperava de uma biblioteca, era simplesmente extraordinária.

- Fique à vontade, por favor, senhora - indicou o mordomo, que seguia a seu lado - Sua excelência chegará a alguns instantes. Meu nome é Wilson, e Bitsy se encarregará de servi-la enquanto espera.

Vivian concentrou sua atenção nele uma vez mais.

- Obrigado, Wilson.

Depois de lhe fazer uma pequena reverência, o homem partiu e fechou as portas ao sair. Instantes mais tarde, quando Vivian mal havia começado a tirar as luvas, entrou uma criada com uma enorme bandeja de prata. A moça, bonita e limpa, não teria mais de dezesseis anos, e lhe fez uma reverência antes de caminhar até a mesinha de chá que havia no centro da sala.

- Quer café ou chá, Sra. Rael-Lamont? - perguntou a garota em um tom suave e formal.

- Um chá estaria bem - replicou ela com um sorriso educado, embora lhe intrigasse o fato de como a estavam tratando nessa casa até o momento: não como uma mulher do povoado que vendia flores para ganhar a vida, mas sim como a uma convidada de exceção, cujo nome todos parecia conhecer. Era muito estranho.

Enquanto a moça servia o chá do bule de prata em uma taça de porcelana, Vivian tomou assento de maneira discreta em uma poltrona de couro que havia frente ao enorme sofá de respaldo alto, feito no mesmo e valioso material. Logo que arrumou as saias, a garota colocou a xícara cheia e o pires em uma pequena mesa que havia a sua direita.

- Necessita algo mais, senhora?

O chá fumegante cheirava às mil maravilhas.

- Não, tudo está… muito bem.

A criada lhe fez uma nova reverência e depois partiu apressada, fechando as portas ao sair. Seus rápidos passos ressoaram no corredor que havia do outro lado.

Vivian apressou a desatar o laço do chapéu para tirá-lo e depois retirou o cabelo que tinha caído sobre a testa para colocá-lo em seu lugar. Ajeitou o cabelo, o tinha enrolado em um coque na nuca, mas já tinha mechas soltas, como sempre. Era curioso como se preocupou tanto por seu aspecto nessa manhã, sem outro motivo que o de causar uma boa impressão ao duque de Trent. E também que tivesse conseguido chegar até ali, até essa deliciosa habitação, onde a tinham servido imediatamente segundo sua escolha, para deixá-la depois desconcertada, e conteve uma risada diante do absurdo da situação. Durante um momento se perguntou se o duque tinha herdado sua enorme fortuna depois da morte de sua esposa. Supôs que a riqueza da que fazia ornamento poderia ser motivo do assassinato.

Pegou sua xícara com surpreendente calma e provou o chá, uma maravilhosa e forte infusão da variedade Lapsang Souchong. Sem dúvida, uma variedade pouco convencional para uma convidada ocasional, em especial para uma pertencente a uma classe social inferior. Isso He trazia muitas lembranças.

Durante quase dez minutos não escutou outra coisa que o ruído das ondas que chegavam até ali e que se deslizava através das janelas da estufa. Chateou-lhe um pouco que o duque a fizesse esperar tanto, mas conhecia os de alta linhagem e os muitos que gostavam de deixar claro sua autoridade, se isso na realidade era o que queria demonstrar. Além disso, o tempo sozinha a tinha posto ainda mais nervosa, embora isso o duque não pudesse sabê-lo.

Deu um pulo ao ouvir o súbito estalo do trinco das portas duplas. Virou-se imediatamente para a entrada da biblioteca e se moveu com desconforto em seu assento ao descobrir que o duque a estava observando e que seus olhos escuros e penetrantes estavam cravados nela com gélida intensidade.

Esteve a ponto de deixar cair à xícara de chá. Embora tivesse pensado que Gilbert Montague era um homem alto e intimidador, de nada lhe tinha servido; não estava preparada para a magnífica… e corpulenta figura do honorável duque de Trent. Ruborizada, deixou a taça e o pires sobre a mesinha e ficou em pé muito devagar para enfrentar a esse homem pela primeira vez.

Encontrava-se justo no vão da porta, com uma pose um pouco forçada de sofisticação. Embora vestisse de uma maneira discreta para um indivíduo de sua posição, ia usando com um custoso traje de manhã de seda marrom escuro, que tinha sido confeccionado com medida a fim de que se adaptasse com perfeição e com a força que extenuavam seus amplos ombros e suas largas e musculosas pernas. A camisa de cor nata, também de seda, esticava-se sobre seu peito, revelando sutilmente uma musculatura que ele não tratava de dissimular. Não levava colete, e o lenço do pescoço, de cor marrom claro, somente conseguia concentrar a atenção sobre os maravilhosos traços faciais: o marcado queixo barbeado, a boca grande, o nariz reto e definido, e inclusive a testa, onde a idade tinha começado a marcar umas atraentes rugas.

Entretanto, foram seus olhos cor avelã que a encantaram e que a colocaram ainda mais nervosa. Apesar de sua expressão séria, aquele homem a olhava de tal forma que Vivian se sentia rodeada por seu poder. Não estava segura de que tipo de poder era esse, embora o instinto lhe dissesse que o duque sabia exatamente o que ela estava pensando. Isso a fez cambalear. Apesar de essa ser a primeira vez que estavam tão perto, estava certa de que jamais havia sentido tão desconcertada pela mera presença de um homem.

Passou o tempo sem que ambos fizessem outra coisa a não ser olhar um para o outro. Vivian sentiu secar a boca, de modo que umedeceu os lábios.

Muito devagar, o duque começou a caminhar para ela.

- Sra. Rael-Lamont - disse com uma leve inclinação de cabeça; sua voz era grave, suave e sedutora ao mesmo tempo - É um prazer.

- Excelência - replicou ela em um tom de voz que, graças a Deus, não revelava o desassossego; em seguida se inclinou em uma ligeira reverência.

- Sente-se, por favor - pediu-lhe com tom autoritário antes de aproximar-se um pouco mais.

Vivian ficou calada, sem saber muito bem se devia ficar de pé e lhe oferecer a mão, dado o tom sério do encontro que estava a ponto de acontecer, ou se sentava como se fossem bons amigos.

- Como desejar - limitou-se a murmurar, incômoda.

As sobrancelhas escuras masculinas se arquearam um pouco.

- Certamente.

Vivian notou que ruborizava sob seu intenso escrutínio. Com um ar elegante e distinto, sentou-se uma vez mais na poltrona e arrumou as saias numa tentativa de não olhá-lo na medida do possível, aliviada pelo fato de não ter aplicado ruge antes de sair de sua casa essa manhã; estava claro que não necessitava.

Ele se deteve por fim e situou sua impressionante figura poucos centímetros de distância, com as mãos entrelaçadas às costas. Contemplava-a sem reservas, ou ao menos isso ela constatava. Vivian percebeu o sutil aroma de sua colônia: amadeirado, com um toque de especiarias…

- É uma honra conhecê-la por fim, senhora.

Vivian elevou a cabeça de repente, mas não encontrou nenhum rasgo adulador em sua expressão, nem sequer o menor rastro de humor. O comentário não tinha sido suspicaz, mas ela sabia que o homem devia albergar certos receios. Ninguém visitava jamais o duque que tinha assassinado a sua esposa. Era o que diziam.

- Sente-se também o senhor, por favor, excelência.

Essa inapropriada insistência pareceu desconcertá-lo tanto como a ela mesma. O duque retrocedeu um pouco e, por um efêmero e insignificante segundo, Vivian pareceu ver o relâmpago de um sorriso em seu rosto. Nesse momento desejou afundar-se na elegante poltrona de couro.

- Como desejar - replicou ele muito devagar e com voz grave.

Vivian sabia que tinha repetido de propósito as mesmas palavras que lhe havia dito momentos antes. Entretanto, não sabia se ele brincava ou se estava debochando da arrogância dela.

- Certamente - contra-atacou ao mesmo tempo em que elevava o queixo. Sabia que podia tirá-la imediatamente de sua casa por semelhante insolência, mas algo em seu interior lhe dizia que não o faria.

O duque se limitou a observá-la, a examiná-la, e Vivian se sentiu incômoda. Pouco depois, o duque insinuou um sorriso. De repente, o trocadilho que tinham trocado não parecia mais que isso, um jogo, e grande parte do nervosismo que sentia se desvaneceu. Era estranho que se sentisse como se conhecessem há muito tempo.

Foi ele quem deixou de olhá-la em primeiro lugar e deu a volta para rodear a mesinha de chá a fim de sentar-se no cômodo sofá de couro. Vivian não podia evitar sentir-se um pouco intimidada em sua presença. Por mais insólito que parecesse, jamais havia se sentido dessa maneira na presença de um homem, nem sequer com seu marido.

- O que posso fazer pela senhora, Sra. Rael-Lamont? - perguntou com ar formal para retomar o motivo de sua visita, enquanto se servia de uma fumegante xícara de café.

Vivian obrigou-se a respirar fundo.

- Como é possível que os serviçais conhecessem meu nome antes inclusive de minha chegada, excelência? - Perguntou com o olhar cravado nos penetrantes olhos cor avelã - Nem sequer foi necessário que entregasse meu cartão de apresentação.

Se o rumo da conversação o tinha surpreendido, não deu amostras disso, embora sua testa se enrugasse um pouco enquanto acrescentava um pouco de leite ao café.

Vivian aguardou.

Finalmente, depois de deslizar a colherinha pela beiradas da xícara e deixá-la no pires, ele admitiu:

- Meus criados a conhecem, senhora - Olhou-a nos olhos uma vez mais - E também eu, naturalmente.

Essa resposta, embora vaga produziu-lhe uma súbita e quase perversa sensação de euforia.

- Naturalmente - disse com um sorriso.

Ele tomou um gole de café.

- Depois de tudo, compra flores de meu viveiro muito freqüentemente.

- Assim é.

Ao ver que não pensava acrescentar nada mais, Vivian pegou a xícara de chá e a sustentou frente a ela.

- O arranjo do vestíbulo é precioso, embora não seja meu.

Pareceu-lhe que os lábios do homem se curvavam em um sorriso uma vez mais.

- Rivalidade profissional, Sra. Rael-Lamont?

Vivian endireitou as costas antes de levar a xícara aos lábios.

- Absolutamente - Deu um gole antes de tornar a deixá-la com cuidado sobre o prato - Uma simples observação.

Ele assentiu uma vez com a cabeça.

-Entendo.

E era provável que o entendesse, já que suas bochechas havia tornado a ruborizar-se. Vivian decidiu passar por cima desse fato.

- Importa-lhe que lhe pergunte onde comprou esse ramo?

- Não tenho a menor idéia - respondeu ele antes de tomar outro gole - Foi Wilson quem comprou as flores; ou possivelmente minha governanta, Glenda. Não estou por dentro de suas preferências em relação à decoração sazonal de meu lar.

É obvio que não. Vivian se sentiu ridícula por havê-lo perguntado.

- Não obstante, a partir de hoje direi a meus empregados que comprem somente aquilo que a senhora cultiva e vende Sra. Rael-Lamont - acrescentou em um tom casual.

Ela piscou atônita.

- Oh, não, excelência… Não pretendia…

- Sei que não - interrompeu-a com um sorriso- Para falar a verdade, carece de importância. No que se refere a artigos pessoais, sempre compro o que eu gosto.

Vivian soltou uma gargalhada, divertida pelo comentário.

-As flores são artigos pessoais, excelência?

- Podem sê-lo, não lhe parece?

- Como os sapatos ou os relógios de bolso?

- Suponho que sim - afirmou ele.

Ela se encolheu de ombros.

- Não obstante, faz somente uns momentos disse que as preferências decorativas do serviço não eram de sua particular atenção. -objetou em um tom suave e desafiante - E claro está que as preferências decorativas dos criados não podem comparar-se com a escolha de uns sapatos nem com o elevado preço de um relógio de bolso.

- Certo - Seu sorriso se alargou um pouco e o duque adicionou em um tom de voz um pouco mais grave - Mas a senhora me tem feito trocar de idéia. Suponho que os acertos florais são uma amostra de criatividade, ou podem chegar a sê-lo, e, portanto é um reflexo do artista, daquele que cultivou as lágrimas antes de exibi-las - Inclinou a cabeça para um lado para estudá-la de cima abaixo -. Igualmente com o resto de demonstrações artísticas, das pinturas até as esculturas, compro sempre o que eu gosto.

«Compro o que eu gosto.» Havia-o dito já duas vezes, e Vivian não sabia muito bem como interpretá-lo, se na realidade tinha algum significado oculto. Entretanto, sentia um quente formigamento em seu interior, como se ele tivesse alcançado essa parte dela que raramente mostrava a alguém. Uma sensação estranha era certa. Adulava-a que ele a tivesse distinto entre outros, primeiro conhecendo seu nome e depois com essa decisão súbita de comprar as flores só dela. Entretanto, era essa voz grave e rouca que a ameaçava derretendo e convertendo-a em uma mulher disposta a cumprir até o mais mínimo de seus desejos.

Durante uns instantes, enquanto ambos davam conta dos refrigérios, na biblioteca reinou um silêncio que por um lado resultava incômodo e, pelo outro, um mar agradável. Por fim, uma vez que terminou o café, o duque deixou a taça e o pires sobre a mesa e se reclinou sobre o respaldo de couro para olhá-la de maneira especulativa.

- Imagino que esta visita não se deve pelo seu desejo de discutir comigo sobre flores, não é verdade, Sra. Rael-Lamont?

Era uma forma bastante educada de lhe perguntar o que queria dele, embora o fato da conversação retornasse ao motivo de sua visita a incomodasse um pouco depois da agradável conversa que acabavam de compartilhar.

- Na realidade, não. – limpou a garganta e deixou a xícara e o prato sobre a mesinha que tinha ao lado. Alisou as saias, enlaçou as mãos no colo e esboçou o que esperava ser um sorriso encantador - É interessante que tenhamos falado sobre obras artísticas, excelência, já que vim para lhe fazer uma proposta. De um colecionador a outro.

- Claro - replicou ele - Nesse caso, devo supor que você também coleciona obras de arte.

Vivian não soube como interpretar a expressão anódina de seu rosto.

- Espero que minha inesperada visita não seja de modo algum inoportuna - acrescentou como era de rigor.

Ele franziu o cenho e entrecerrou os olhos.

- Não me sinto importunado – ele apressou-se a replicar em tom apagado - Não recebo muitas visitas, assim que a senhora supõe uma mudança mais agradável.

Tinha-lhe incomodado que a conversação recuperasse o tom formal. Vivian soube por instinto. Talvez se devesse às palavras que tinha utilizado, ou possivelmente ao longínquo som do oceano, mas sentiu um pingo da solidão que ele devia experimentar cada dia, depois de ter sido acusado de assassinato e ver-se obrigado a viver isolado da boa sociedade. Vivian sabia muito bem o que era isso. Entretanto, não conhecia absolutamente a esse homem arrumado e enigmático que estava sentado na frente dela. Era possível que desfrutasse da solidão que se havia imposto.

Contudo, não lhe servia de nada especular sobre os problemas do duque. Deixou essas idéias de lado para concentrar-se no motivo de sua visita, por mais desagradável que fora.

- Verá excelência - começou enquanto tentava não retorcer as mãos com muita força - recentemente recebi certa informação que me sinto obrigada a explorar a fundo.

As sobrancelhas escuras masculinas se arquearam um pouco.

-Informação?

Vivian decidiu seguir adiante; quanto antes chegasse ao motivo de sua presença ali, menos tempo teria o pânico para apoderar-se dela e deixá-la desconcertada.

- Chegou a meus ouvidos, milorde, que o senhor é possuidor de um singular documento shakespeariano… um soneto, conforme acredito. Estou extremamente interessada em adquiri-lo.

Durante um dos minutos mais compridos de sua vida, o duque se limitou a observá-la, sem mover-se ou responder de forma alguma. Continuando, seus lábios se franziram uma única vez. Vivian tratou de passar por cima do que percebia ser uma reação negativa e continuou antes que o homem a jogasse dali como caixas destemperadas.

- Sei que deve parecer algo bastante… repentino, mas eu gostaria de sugerir que talvez possamos chegar a um acordo satisfatório para ambos se o senhor se mostrar disposto a me vender essa valiosa peça histórica - deteve-se um momento e jogou uma rápida olhada às mãos antes de voltar a fitá-lo no rosto - Estou muito interessada nessa obra e acredito que poderia pagar seu preço, seja qual for.

Deu-se conta imediatamente do ridículo que devia parecer isso nos lábios de uma mulher que trabalhava para ganhar a vida, dirigido a um duque de indisputável fortuna. Entretanto, ele não o mencionou. Limitou-se a permanecer quieto e em silêncio, a olhá-la tão fixamente que, apesar da brisa de verão cálida e úmida que penetrava pelas janelas abertas, Vivian começou a sentir frio. Não sabia muito bem como continuar sem receber uma resposta, de modo que aguardou.

E também ele, ao que parecia.

- Excelência? - murmurou por fim.

- Importar-lhe-ia me dizer como se inteirou da existência de semelhante tesouro, Sra. Rael-Lamont?

Sua voz se tornou fria, e Vivian compreendeu imediatamente que suspeitava que o motivo de sua visita não fosse muito honesto.

- Na realidade, inteirei-me por acaso.

- Por acaso. Claro… - replicou ele, que tinha se apoiado sobre o cotovelo direito para acomodar seu enorme corpo no sofá. Entretanto, não apartou o olhar dela.

- Sim, a verdade - comentou numa tentativa de parecer amável e simpática apesar do medo que lhe tinha obstinado no estômago - É que compro alguma obra de arte de vez em quando, não estou disposta a revelar minhas fontes. - Arqueou as sobrancelhas em um gesto malicioso, quase desafiante -. Estou segura de que entenderá.

- Certamente que sim - disse ele com um leve gesto afirmativo da cabeça - Mas um manuscrito não é exatamente uma obra de arte, não lhe parece?

Vivian respirou fundo e soltou o ar com rapidez.

- Não, não exatamente. Mas pode converter-se em uma peça histórica de colecionador. - inclinou-se para diante e adicionou -: Também me considero uma grande admiradora do teatro. Uma obra como essa me agradaria em mais de um sentido. Cuidaria muito bem dela, excelência, isso posso assegurar-lhe.

Durante um comprido e tenso momento, Vivian enfrentou seu olhar sem reservas e se fixou que a cor da íris dos olhos dele tomava uma tonalidade mais intensa, quase de um verde bosque, graças aos raios de sol que se filtravam pelas janelas. Era o mais impactante, e em qualquer outro momento teria pensado em…

- Que idade tem Sra. Rael-Lamont? - perguntou o duque em voz muito baixa, ao mesmo tempo em que esfregava o queixo com a gema dos dedos.

Perplexa, Vivian ergueu os ombros imediatamente.

- Como…? Como disse milorde?

O duque inclinou para frente, apoiou os cotovelos nos joelhos e entrelaçou as mãos.

- Que idade tem? - voltou a lhe perguntar sem rodeios.

- Sou uma mulher de meia idade; e suponho que o mesmo poderia dizer do senhor.

- Ah. - O homem esboçou um sorriso -. Não é uma pergunta adequada para uma dama, não é verdade?

Desassossegada, Vivian não podia deixar de cruzar e descruzar os tornozelos sob as saias.

- Sabe o senhor muito bem que não, milorde - respondeu.

Tinha tratado de lhe dar um toque travesso à resposta com a esperança de que ele não se precavesse da farsa. Sabia que suas bochechas se ruborizaram de novo devido ao incômodo que sentia tanto na casa como em sua presença; mas, Deus, ele atribuiria o rubor à vergonha, e não ao medo de ficar ao ser descoberta.

- Trinta e tantos?

Pelos pregos de Cristo, que importância tinha isso? Deixou escapar um suspiro.

- Farei trinta e cinco em novembro, excelência - revelou com certo ar aborrecido.

Ele assentiu sem deixar de observá-la, como se tentasse resolver um quebra-cabeça.

Vivian precisava retornar ao motivo de sua visita.

- Quantos anos têm o senhor, milorde? -. Fechou os olhos por um momento assim que essas palavras saíram de seus lábios.

Não podia acreditar que lhe tivesse perguntado isso. Que demônios lhe ocorria?

Ele levantou a cabeça de repente, claramente surpreso.

- Temos muito em comum, Sra. Rael-Lamont - respondeu, arrastando as palavras - Completei os trinta e cinco faz mais ou menos dois meses.

Muito em comum? Decidiu passar por cima o comentário.

- Excelência…

- E seu marido?

- Eu… - Deu um pulo ao sentir uma penetrante e aguda sensação de perplexidade. Pela segunda vez em menos de uma semana, o homem com o que se casou saía a reluzir em uma conversação, e isso a estremecia da cabeça aos pés - Meu marido? - murmurou com voz rouca.

Grande parte do bom humor do duque se esfumou enquanto lhe percorria o rosto com o olhar.

- O que lhe ocorreu, senhora? - esclareceu com voz calma e controlada.

Vivian se removeu em seu assento.

- Morreu.

Ele arqueou as sobrancelhas uma vez mais.

- Sim, isso era de imaginar se a senhora for viúva.

- Sou viúva, excelência. - E sobressaltada acrescentou - Entretanto não sei muito bem o que têm haver meus antecedentes pessoais com o motivo de minha visita.

- Eu tampouco sei. Mas a encontro fascinante.

Vivian afogou uma exclamação. De repente sentiu os batimentos do coração acelerados no peito e abriu os olhos devagar. Ele se limitava a olhá-la, e estava seguro do muito que a tinha escandalizado uma observação de caráter tão pessoal. Talvez não tivesse sido as palavras em si, a não ser sua forma de expressá-las, o que tinha feito que se sentisse cheia de energia. Tinha passado muitos anos desde a última vez que um cavalheiro se mostrasse tão audaz com ela, de modo que não teria recordado o que devia dizer em uma situação como aquela nem que sua vida dependesse disso.

O duque voltou a reclinar-se com ar despreocupado sobre o respaldo do sofá.

- Gostaria de vê-lo?

Vivian engoliu seco.

- Excelência?

A comissura direita do duque se curvou em um sorriso malicioso.

- O manuscrito, senhora. Gostaria de vê-lo?

Vivian repreendeu a si mesma.

- Aqui? Agora?

Ele encolheu os ombros.

- É obvio. Suponho que sente curiosidade, e que melhor lugar que a biblioteca para guardar um documento de semelhante valor?

Seu primeiro impulso foi lhe responder que em um caixa forte. Mas em vez disso, esboçou um novo sorriso e tratou de recuperar a compostura.

- Nenhum, certamente.

O duque ficou em pé imediatamente e lhe ofereceu a mão para ajudá-la a fazer o mesmo.

A idéia de tocá-lo fisicamente, mesmo que fora para algo tão insignificante como isso, produziu-lhe um medo do mais peculiar. Vivian decidiu não ter em conta essa sensação e apoiou sua palma na dele.

Tinha a pele suave e quente, e sua mão era grande e firme. No momento em que ficou em pé ao seu lado, percebeu o calor que desprendia do corpo masculino, mesmo que seus dedos quase não roçavam os dela. Apartou-se imediatamente ao dar-se conta de que esse homem parecia muito humano, muito real…, absolutamente um assassino.

O duque esboçou um sorriso zombador, como se lhe tivesse lido os pensamentos e a desafiasse a fazer um comentário.

Em seguida, de repente, inclinou a cabeça um pouco para assinalar a zona que se encontrava a sua esquerda.

Vivian esteve a ponto de se chocar com ele. Evitou-o na medida do possível, tal e como ele parecia esperar, embora não pôde evitar perceber o tênue aroma de sua colônia.

Com os nervos a flor da pele, apertou sua pequena bolsa contra a cintura e deixou que ele a guiasse com pernadas rápidas e decididas para a estante de vidro situada no canto noroeste da biblioteca. Era o mais afastado das janelas, e Vivian supôs que a brisa marinha não era a mais adequada para a conservação dos livros, em especial dos valiosos tomos antigos.

Ao aproximar-se, Vivian se deu conta de que um dos lados da estante tinha fechadura; o mais provável era que a obra de valor incalculável que procurava estivesse ali. Não era exatamente um caixa forte, mas gozava da proteção adequada.

O duque meteu a mão no bolso do casaco e tirou uma chave. Inseriu-a na fechadura, girou-a e abriu o painel de cristal.

A prateleira estava repleta de livros, entre os que se incluía uma velha Bíblia familiar a que o homem se dirigiu sem vacilar. Com muito cuidado, tirou o tomo encadernado em couro negro da estante e o apoiou sobre o braço estendido.

Vivian se sentiu embargada por uma estranha mescla de medo e excitação quando o viu separar a rígida coberta e escutou o rangido das páginas frágeis e gastas. Aproximou-se um pouco mais; dessa forma, as saias de seu vestido roçavam as pernas dele, mas se queria situá-lo bastante perto para dar uma olhada no soneto que poderia arruiná-la socialmente, não tinha outro remédio.

- Não há lugar mais seguro que este Sra. Rael-Lamont - assegurou o duque com voz grave e séria - O livro em si tem mais de cem anos.

- Assombroso - respondeu ela, que elevou a vista para observar o rosto que se encontrava a escassos centímetros do dele - Uma relíquia familiar, verdade?

O olhar do duque permaneceu fixo uns segundos em seus lábios.

- Assim é.

Uma mecha escura de cabelo lhe caía entre as sobrancelhas enquanto ele, com os olhos entrecerrados e um olhar concentrado, passava as delicadas páginas em busca do manuscrito.

Deteve-se por fim diante do que parecia ser um pedaço de tecido transparente. Com muito cuidado, desdobrou o tecido até que o manuscrito ficou por fim à vista.

Vivian o olhou fixamente. Quase não podia decifrar as palavras rabiscadas à mão do soneto, já que o tempo tinha passado para o fragmento de pergaminho, mas a assinatura era sem dúvida alguma era a de William Shakespeare.

- Incrível… - murmurou.

- Sim - replicou ele, cujo fôlego lhe roçou a orelha e a bochecha. Vivian estremeceu apesar do calor que fazia na estadia.

- Posso lhe perguntar algo, Sra. Rael-Lamont?

Ela cruzou os braços à altura do peito e seguiu contemplando o soneto, já que se sentia incapaz de lhe olhar nos olhos.

- É obvio.

- Por que está aqui na realidade?

Ela levantou a vista de repente. Ao fixar-se nos penetrantes olhos de cor avelã, o primeiro que lhe veio à cabeça, por absurdo que parecesse, foi a forma educada que ele mostrou ao formular uma pergunta que deixava claro que estava por dentro de seus enganos. Isso a deixou completamente despreparada e, por um instante, ficou muda de assombro.

Ele continuou como se de fato não esperasse uma resposta.

- Perdoe que seja tão direto - disse com uma gargalhada, ao mesmo tempo em que meneava a cabeça - mas me custa muito acreditar que colecione documentos estranhos, que disponha dos meios econômicos necessários para pagar o que eu pediria por este e que se inteirou da existência de um soneto de valor incalculável por mera casualidade. - deteve-se um momento antes de acrescentar com voz rouca -: Tão só nove ou dez pessoas em toda Grã-Bretanha sabem que ainda existe o manuscrito original e, delas, apenas cinco ou seis sabem que está em meu poder. - Observou-a com atenção - Assim, entenderá por que me intriga tanto que uma viúva de meia idade que vende flores em Penzance tenha chegado a inteirar-se da existência de algo único.

Vivian não sabia se começava a rir ou a gritar, mas por dentro sentia vontade de render-se, de confessar tudo e mandar ao inferno tanto o decoro como esse futuro de tranqüilidade e segurança relativas que se forjou. Entretanto, algo dentro dela lhe dizia que não superaria a perda de sua dignidade. Tinha conseguido levar uma vida cômoda na segurança de Cornwall, e ninguém, e muito menos um ator de baixo estofo com pretensões de ladrão, a arrebataria sem lutar.

Contudo, não podia lutar contra o duque de Trent. Disso estava segura. Embora sim pudesse seguir jogando.

- As coisas são tal e como as contei, excelência, embora agora compreenda por que não necessita um caixa forte - admitiu, tentando que seu tom soasse íntimo e provocador - E mesmo assim, dadas as circunstâncias, parece-me estranho que me tenha mostrado isso sem reservas. Por quê?

Ele piscou atônito ante sua audácia e a sutil evasiva. Depois esboçou um sorriso lento, deixando-a hipnotizada com esse singelo gesto de sua maravilhosa boca.

- Porque - murmurou com voz suave e olhando-a aos olhos - parece à senhora muito reservada, e, além disso, cheira a flores. E eu gosto disso.

Vivian tomou uma profunda baforada de ar. Notou que o sangue lhe acumulava no rosto, lhe ruborizando sem dúvida as bochechas para revelar o muito que a tinha perturbado essa… confissão? Não tinha nem idéia do que dizer. O homem tinha conseguido deixá-la sem fala uma vez mais. E, pelo amor de Deus, quantas vezes se ruborizou já nesse dia?

Contudo o duque evitou que se envergonhasse ainda mais, pois virou para concentrar-se de repente no manuscrito e o deixou em seu lugar. Depois fechou a Bíblia e a deixou de novo na estante antes de fechar a porta e girar a chave.

Virou-se para ela com as mãos nas costas.

- Refletirei sobre os motivos de sua visita, senhora. Agora, se me desculpar, tenho assuntos para atender. Wilson a acompanhará até a saída. - Inclinou a cabeça a modo de despedida - Tenha um bom dia, Sra. Rael-Lamont.

Jamais a tinham despedido de uma maneira tão rápida em toda sua vida. A um simples passo de distância da distinguida figura masculina, com as saias ainda em contato com suas largas e musculosas pernas - coisa que ele não parecia notar-, Vivian não pôde fazer mais que retirar-se.

Depois de lhe fazer uma reverência, apertou a bolsa contra o ventre.

-Como desejar, excelência.

O duque arqueou as sobrancelhas, mas não disse nada.

Vivian deu a volta e se aproximou das portas.

- Obrigado por me conceder parte de seu tempo, milorde - resmungou com a mão no trinco.

Ele assentiu com secura.

- Até a próxima vez, senhora.

Ela sentiu um novo calafrio e, enquanto se apressava a sair da propriedade, teve a impressão de que os inteligentes olhos do duque de Trent estavam cravados em suas costas, sempre vigilantes.

 

Vivian se encontrava em sua sala de jantar. Apoiou as mãos nos quadris e estudou o acerto floral que havia sobre a reluzente mesa de madeira de pinheiro: um arranjo de orquídeas em tons rosa e branco colocado em um vaso azul. Acabava de terminá-lo para as bodas dos Finley, que teria lugar essa mesma tarde. Depois de quarenta e cinco minutos de trabalho, por fim tinha alcançado a perfeição que se exigia em suas obras, e esse acerto seria exposto junto ao altar da igreja, frente a algumas das melhores famílias de Cornwall. Tinha ficado precioso, por mais relutante que estivesse em reconhecê-lo.

Absorta em seu projeto, quase não percebeu as leves batidas na porta principal, mas, segundos depois, a comoção de seu escasso pessoal de serviço a trouxe de volta à realidade quando uma de suas duas criadas entrou apressada na sala de jantar para dirigir-se para a cozinha fazendo ruído com o roce das saias.

Produziu-se um alvoroço no vestíbulo, e embora mal se distinguisse as vozes, estava claro que eram tão femininas como masculinas.

Vivian considerou a idéia de chamar Harriet, mas pensou melhor. Em troca, alisou as saias de cor marrom avermelhada e aparou o cabelo trançado com as mãos antes de caminhar com ar crédulo para a parte dianteira de sua casa.

Quando dobrou a esquina do vestíbulo, deteve-se tão depressa que o vestido balançou diante dela, fazendo que os aros se chocassem contra seus joelhos. Os joelhos dele.

Mãe de Deus! Exclamou para si mesma.

Ficou boquiaberta, pelo assombro que lhe causava dele se aventurar até o povoado em pessoa, pelo horror que lhe produzia que se encontrasse em sua desordenada casa ou pelo fato de que estivesse tão incrivelmente arrumado com esse traje informal, constituído de uma camisa de seda branca e umas modestas calças marrons. Nesse momento não se parecia com nenhum dos aristocratas que tinha conhecido. Assemelhava-se mais a um homem de classe média preparado para dar um passeio por seu pequeno jardim privado.

O que estava fazendo ali? Quase não tinha passado um dia desde que ela foi a sua propriedade para lhe fazer sua proposta. Vivian notou que o coração acelerava ao considerar as possibilidades.

-Vejo que a deixei sem fala uma vez mais, Sra. Rael-Lamont - disse arrastando as palavras.

Esse comentário a tirou de seu devaneio e lhe fez fechar a boca.

- Isso é indubitável - conveio sem discutir, ao mesmo tempo em que esboçava um sorriso despreocupado. Não dou as boas-vindas freqüentemente a pessoas de seu… prestígio, excelência.

Lamentou havê-lo dito assim que as palavras saíram de sua boca.

-Alegra-me muito sabê-lo, senhora - replicou ele muito devagar, sem rastro de duplas intenções.

O rubor tingiu suas bochechas. Depois de limpar a garganta, Vivian recordou que Harriet se encontrava ainda detrás dela, esperando suas ordens e escutando tudo.

Fez um esforço por recuperar a compostura e se virou para a governanta.

- Sua excelência, o duque de Trent e eu discutiremos alguns assuntos na sala de estar, Harriet. Por favor, nos sirva alguns refrescos ali assim que lhe seja possível.

Incapaz de ocultar seu assombro e com os olhos arregalados, Harriet realizou a reverência de rigor, em primeiro lugar ao duque e depois a sua patroa, e em seguida se encaminhou para o vestíbulo para fazer o que lhe tinham ordenado.

Vivian se virou de novo para seu inesperado convidado, respirou fundo e enlaçou as mãos sobre o colo.

- Bem. Venha comigo por aqui, por favor, milorde.

Antes que ele pudesse dizer algo, Vivian passou ao seu lado com o queixo erguido e numas pernadas seguras que não refletiam absolutamente como se sentia, para guiá-lo até a pequena sala de estar, a única estadia de sua casa que estava decorada de maneira apropriada para as poucas visitas que tinha.

- Gosta das flores, não é assim? - inquiriu o duque.

Não estava segura de que tinha perguntado em brincadeira ou de maneira sarcástica, embora soubesse que não esperava uma resposta, assim não se sentiu obrigada a lhe dar nenhuma. A sala de estar era a única habitação de sua casa em que compartilhava com outros sua perspectiva de beleza, e estava notoriamente adornada com todos os ramos imagináveis de flores secas. Tanto o singelo papel rosado das paredes como os móveis de cerejeira estavam limpos e com acertos de vários tipos de rosas de cultivo, orquídeas e cravos, assim como papoulas silvestres, margaridas e lavanda, em todos os tons que se davam naqueles climas meridionais. As rosas secas adornavam o espelho retangular situado sobre o suporte da chaminé, e enchiam os enormes vasos de cristal que havia sobre o tapete oriental e a mesinha de chá, colocados de maneira estratégica entre um canapé estofado em brocado de cor rosa e duas cadeiras em jogo que havia na frente. A sala de estar era uma habitação pela qual se sentia bastante orgulhosa, e em que acomodava aos possíveis compradores quando estes iam a sua casa por assuntos de negócios.

- As flores são algo mais que um passatempo para mim, excelência - explicou para lhe deixar que contemplasse a estadia - É meu meio de vida.

- Sem dúvida - O duque se deteve frente ao enorme vaso que havia em meio da mesinha de chá - Como consegue que tenham esse aspecto? Não ficam murchas?

Vivian dissimulou um sorriso satisfeito ao dar-se conta de que ele sentia verdadeira curiosidade por saber como conseguia secar as flores sem que estas se dobrassem.

- Pendurando-as de cabeça para baixo quando ainda estão frescas. Pelo geral penduro as minhas numa corda na estufa, ao sol, mas depende do clima. Podem pendurar quase em qualquer lugar, sempre e quando permanecerem secas e sem que nada as toque durante vários dias.

Sentiu-se um pouco envergonhada ao compreender que tinha dado mais explicações das que ele tinha solicitado. Durante um incômodo momento, olharam-se um ao outro desde ambos os lados da mesinha de chá sem dizer nada. Depois, ele fez um gesto com a mão aberta para assinalar o canapé.

- Posso?

- É obvio, por favor - respondeu ela, ao mesmo tempo em que se sentava com elegância na poltrona que havia em frente. Por desgraça, o vestido que levava esse dia, embora de sutiã ajustado, tinha uns aros muito amplos que ficaram encaixados entre as patas da mesinha e as da poltrona. Tentou solucionar o problema, mas sem êxito. Por fim, optou por dar a causa por perdida e decidiu não mover a poltrona e enlaçar as mãos sobre o regaço em lugar de sentar-se com as costas erguidas.

Nesse instante, a governanta entrou na estadia com uma bandeja branca de porcelana em que trazia o chá, as xícaras e os pires, e a depositou na mesa diante de Vivian.

- Eu o servirei, Harriet. Pode retirar-se.

- Sim, senhora - murmurou a mulher, que realizou uma nova reverência sem apartar os olhos do homem que ambas tinham diante.

Logo que os rápidos passos da criada se desvaneceram, Vivian estendeu a mão para o bule e serviu o chá com dedos firmes apesar da opressão que sentia no estômago. Somente havia uma razão possível para que ele estivesse ali.

Como se lhe tivesse lido o pensamento, o duque falou nesse preciso instante.

- Considerei a proposta que me fez com respeito ao manuscrito, Sra. Rael-Lamont - disse com o cenho franzido, enquanto que acariciava com os dedos o elegante veludo que debruava uma das almofadas.

Vivian depositou a xícara de chá frente a ele com muita brutalidade.

- Levou-lhe menos de um dia, excelência? - apressou-se a perguntar, passando por cima o ligeiro nó de sua garganta.

O duque de Trent estirou as largas pernas sob a mesa e apoiou um de seus fortes braços sobre o respaldo do canapé.

- Sou muito rápido quando algo me interessa. E muito meticuloso.

Vivian piscou com incredulidade, sem saber muito bem como devia interpretar esse direto comentário.

- Seriamente? - replicou com um sorriso forçado, enquanto deixava o bule na bandeja para pegar o de açúcar.

Colocou duas colheradas e começou a remover o chá muito devagar. A xícara do duque permanecia intacta, e não precisava olhar para saber que ele tinha os olhos cravados nela. O ignorou o quanto foi possível, e levou a xícara aos lábios.

- Não deixarei que me enganem senhora.

Pronunciou as palavras frias e suavemente, e Vivian quase deixou cair à xícara das mãos. Seu coração acelerou de novo e decidiu não dar o gole que tinha pensado. O chá estava muito quente e era provável que, nervosa como estava, o cuspisse de todas as formas. Muito devagar, baixou a xícara e a deixou com cuidado sobre a mesa. Obrigou-se a olhá-lo por fim.

Seus olhos, que a observavam sem rodeios, eram frios e diretos, e estavam carregados com uma advertência evidente que ele não se esforçava em ocultar. Se havia algo que sabia sobre esse homem era que ninguém podia aproveitar-se dele e sair ileso.

- Diga-me como se inteirou da existência do manuscrito - insistiu sem deixar de observá-la.

Vivian engoliu saliva com força, mas não recuou.

- Já o disse, excelência. Escutei um rumor que afirmava que estava em sua posse.

O duque entrecerrou os olhos e apertou a mandíbula.

- Quero a verdade, Vivian.

Se não tivesse parecido tão concentrado, tão sereno, possivelmente ela teria desmaiado diante dessa forma tão masculina de pronunciar seu nome. Por estranho que parecesse, estava impaciente por ouvi-lo dizer de novo.

- Disse-lhe que…

- Refresque-me a memória - interrompeu-a com um sussurro grave e áspero.

Esse homem era intimidador, inclusive sentado em um sofá rosa e dentro daquela sala cheia de flores. Vivian compreendeu nesse instante por que as pessoas davam por feito que era culpado de assassinato, e soube também que ele saberia se mentisse de novo. E sendo tão poderoso como era, poderia lhe fazer a vida extremamente difícil, talvez mais que o desprezível ator que conhecia seus segredos. Contudo, não podia arriscar-se. Jamais em toda sua vida havia se sentido apanhada daquele modo, entre duas possibilidades tão horríveis.

- Não posso dizer-lhe excelência, e essa é a verdade - disse com os dentes apertados. Respirou fundo, soltou o ar e adicionou com suavidade - Por favor, deixe as coisas como estão.

Talvez se devesse à certeza de que ele não a obrigaria a revelar os fatos tal e como os conhecia, mas viu um sinal de… «Algo» nos sombrios traços de seu rosto.

Transcorridos vários e incômodos instantes, o olhar do duque descendeu muito devagar até sua boca e, momentos depois, até seus peitos.

Vivian não se moveu, embora o calor que alagava seu ventre era difícil de dissimular.

- Parece que nos encontramos em um beco sem saída - ele murmurou com voz rouca e indignada, ao mesmo tempo em que voltava a olhá-la nos olhos.

Ela não soube o que responder.

De repente, o duque se inclinou para diante, apoiou os cotovelos nos joelhos e enlaçou as mãos na frente.

- Não acredita nem por um instante que vou entregar lhe uma obra assinada por William Shakespeare, a menos que me dê algo igualmente valioso em troca.

Vivian começou a tremer por dentro; as lágrimas de frustração e um súbito terror ameaçaram lhe alagando os olhos quando começou a assimilar o significado de suas palavras.

- O que é que deseja excelência? - inquiriu com descaramento, tratando de ocultar a raiva que sentia - Tenho poucas coisas de valor para lhe oferecer.

Ao que parecia lhe custou bastante tempo escolher as palavras adequadas. Uma vez escolhidas, cravou nela um olhar penetrante.

-Você, senhora – sussurrou - possui um valor excepcional para mim.

Não gritaria. Não podia fazê-lo.

- Suponho que se refere a minha pessoa - assinalou com uma voz que soou alheia e distante até para seus próprios ouvidos.

Ele seguiu observando-a com atenção.

- Sim. Vivi durante muito tempo sem a companhia de uma mulher formosa.

Vivian ficou sem fôlego, embora, por alguma razão que desconhecia, não pôde obrigar-se a esbofeteá-lo e a expulsá-lo de sua casa. Apesar de tudo, da fúria e da incerteza que a consumiam, esse homem a intrigava.

- E em troca de minha… companhia - continuou com as unhas cravadas nas palmas – O senhor me entregaria o manuscrito.

O duque inspirou profundamente e sustentou seu olhar com tal intensidade que ela quase pôde percebê-la.

- Assim será - respondeu em um sussurro.

O relógio do avô de Vivian, que estava no vestíbulo, bateu às quatro horas. Ela deu um salto, ficou em pé de repente e esteve a ponto de perder o equilíbrio quando as saias se moveram para um lado de maneira brusca.

O duque se aproximou dela imediatamente e a conteve antes que caísse sobre a mesinha de chá. Não obstante, em lugar de sentir-se torpe ou envergonhada, sentiu uma súbita quebra de onda de desejo tão forte como incompreensível quando ele a agarrou por debaixo dos braços e apoiou as mãos com firmeza de ambos os lados de seus peitos.

Surpreendida, levantou a cabeça para olhá-lo e descobriu tal assombro nos ardentes olhos masculinos, que teria podido rivalizar com o seu próprio. As mãos do duque lhe abrasaram a pele dessa zona durante alguns segundos, até que ela se endireitou e ele deixou cair os braços à contra gosto para liberá-la.

Vivian se colocou de lado com rapidez e virou para colocar os aros das saias de maneira que estas caíssem com suavidade sobre as anáguas; depois cruzou os braços sobre o estômago e se afastou do duque para que não percebesse o rubor de suas bochechas, seu desejo e sua confusão. Fechou os olhos durante um instante e levou uma mão ao pescoço enquanto se perguntava absurdamente por que tinha a palma tão fria.

Isto não pode estar ocorrendo, pensou.

Durante um momento ninguém disse nada. Ninguém se moveu. Depois ouviu seus passos afastando do canapé para dirigir-se para ela.

- Estarei ocupado durante o resto da semana, mas eu gostaria de vê-la no sábado, Sra. Rael-Lamont - disse com voz grave desde algum lugar situado as suas costas - Para um almoço ao meio-dia em minha casa.

Ela assentiu muito devagar.

O homem passou junto a ela e se deteve na entrada da sala de estar.

- Se lhe servir de algo - acrescentou girando a cabeça - sempre desejei manter uma relação deste tipo com a senhora.

E, depois de dizer isso, partiu.

 

O duque de Trent detestava ir ao povoado à luz do dia, e aborrecia as multidões com toda sua alma. Alternar com os distintos membros da sociedade lhe punha os cabelos em pé, e essa era a razão que não tinha em conta o julgamento público e a absolvição a que tão somente uns quantos davam crédito - por isso vivia em Penzance a maior parte do ano. Antes de fazer sua surpreendente aparição essa tarde, perguntou-se se sua presença desconcertaria aos vizinhos, mas nesse momento tinha a certeza de que assim tinha sido, já que muita gente o tinha visto chegar e depois partir. Importava-lhe muito pouco a sua reputação, certamente, dado que tinha sido arruinada muito tempo atrás, mas estava seguro de que à viúva Rael-Lamont não lhe ocorria o mesmo. Seu negócio estava em jogo, embora isso não lhe tivesse impedido de ir a ele com essa estúpida proposta. Teria que ter imaginado que ele procuraria mais informação. E de verdade tinha acreditado que era tão insociável que jamais se aventurava para fora de sua casa?

Apoiou-se no encosto do assento da carruagem enquanto o chofer o dirigia pelo caminho cheio de curvas que conduzia até sua mansão. Tinha solicitado uma carruagem singela, modesta e sem brasões, a fim de passar despercebido no povoado, mas com isso também tinha renunciado ao luxo. Aquela carruagem estralava em excesso, e isso não ajudava para nada a melhorar seu estado de nervos.

Por Deus, que formosa era essa mulher. Tinha uma pele clara e suave, um rosto oval ainda livre de rugas, uns olhos de cor azul cinzenta e um cabelo escuro e sedoso… Estaria disposto a pagar um milhar de libras para ver esse cabelo solto sobre seus pálidos ombros e sobre suas costas. Fechou os olhos para imaginar-lhe e pensou em quão excitante tinha sido colocar as mãos, embora fora uns segundos, junto a seus peitos. Ao notar a suave curva através do tecido, lhe tinha invadido uma luxúria que não tinha sentido em anos. Ambos tinham ficado perplexos, e ela também se deu conta. Existia uma espécie de conexão entre eles; uma conexão indefinida, mas havia uma conexão com certeza. Tinha sido evidente no momento em que se olharam nos olhos na biblioteca, no dia anterior e, de alguma estranha maneira, parecia-lhe um milagre que tivesse ido vê-lo com tão estranha proposta.

Com respeito a isso, estava claro que havia muitos mais motivos para sua visita dos que ela tinha revelado. Tinha a certeza de que a tinham obrigado, inclusive chantageado, para que o fizesse. Mas quem? E por quê? Uma das razões pelas que tinha querido surpreendê-la em seu lar esse dia era poder dar uma boa olhada, ou ao menos uma simples olhada, no seu modo de vida, seu sentido de estilo e a classe social a que pertencia. Era evidente imediato que procedia de boa família. Tratava a seu pessoal de serviço de modo distante e respeitoso, e sua sala de estar conservava um aspecto do mais formal, apesar do quanto pequena que era. Utilizava o idioma com perfeição e suas maneiras eram impecáveis. Caso não soubesse disso, teria jurado que pertencia à nobreza, ou ao menos que era de bom berço. Estava claro que sabia comportar-se.

Contudo, o que mais lhe fascinava era a atração que sentia por ele apesar de suas possíveis suspeitas de que tinha matado Elizabeth. Quase todo mundo no lugar conhecia o depravado duque de Trent, temia-lhe, acreditava-lhe culpado do assassinato e de ter comprado seu próprio julgamento, e lhe consideravam um canalha merecedor da forca… exceto Vivian Rael-Lamont. Por que não se acovardava ao vê-lo nem se encolhia de medo em sua presença? Por todos os diabos, inclusive tinha ido visitá-lo, deixando de lado quais fossem suas intenções. Em muitos anos, nada o tinha surpreendido tanto como vê-la subir os degraus que conduziam a sua porta principal no dia anterior com esse aspecto deslumbrante e encantador, enquanto o sol iluminava seus ombros e fazia brilhar seu resplandecente e bem penteado cabelo.

Entretanto, na realidade tudo isso era irrelevante, ao menos no momento. O que importava nesses instantes era descobrir que demônios lhe acontecia e como tinha chegado a inteirar-se da existência de seu prezado manuscrito, quando havia tão poucas pessoas no país que a conheciam. Era todo um quebra-cabeça que precisava que alguém resolvesse, e ele tinha toda a intenção de fazê-lo, com ou sem sua ajuda, embora pretendesse vê-la freqüentemente.

Desejava-a, disso tinha certeza depois de vê-la de novo essa tarde. E seu instinto lhe dizia que ela também o desejava. Não era nenhuma jovenzinha inexperiente. Tinha passado muito, muito tempo desde a última vez que uma mulher o tinha desejado, e Will tinha visto isso em seus olhos. Estar com ela seria algo abrasador, um momento perfeito. Embriagava-o como um exótico e delicioso vinho.

Cravou o olhar nas suaves luzes distantes de seu lar e sentiu uma emoção maravilhosa e profunda que tinha sentido falta durante anos. Somente desejava não ver-se obrigado a esperar até na sábado para vê-la de novo, para reviver esse desejo uma vez mais. Mas tinha muitas coisas que fazer. Devia pôr em andamento um plano.

 

O amanhecer tinha levado a chuva até Penzance, mas no momento em que Vivian subiu as escadas de Morning House, o céu se limpou e o brilho do sol iluminava as gotas de chuva depositadas nos arbustos dos arredores e arrancava brilhos às pedras do caminho.

Não desejava estar ali… mas estava. Por mais estranho que parecesse, queria vê-lo de novo, em especial depois da visita inesperada que lhe tinha feito no princípio da semana. E devia admitir que sentia mais que um mero interesse por ele, já que a intimidava tanto como a intrigava. O homem era toda uma contradição: sem dúvida era um cavalheiro, mas ocultava segredos que somente se intuíam em seus olhos frios e escuros, e em sua voz grave e extraordinariamente suave. Além de tudo isso, Vivian não podia evitar perguntar-se como tinha sido como marido. Viu-se impulsionado a matar a uma mulher que odiava? Ou estava louco apesar dessa aparência fria?

Descartou essa idéia em seguida. Se havia algo que sabia por instinto sobre o duque de Trent era que era controlado. Era possível que um homem tão arrumado, misterioso e intrigante tivesse matado a outro ser humano?

Vivian descartou semelhantes pensamentos enquanto se aproximava das desagradáveis levas negras da mansão. A diferença do que ocorria com as estadias interiores, o exterior do edifício não lhe teria seria tão mal se o aspecto fosse mais acolhedor. Contudo, sabia tão bem como qualquer um que o duque quase não recebia visitas.

Esse dia os lacaios estavam ali para ajudá-la, de modo que era óbvio que esperavam sua chegada. Assim que se aproximou deles, fizeram-lhe uma reverência e abriram a porta, lhe permitindo entrar sem necessidade de diminuir o passo.

O nervosismo a invadiu uma vez mais. Não temia voltar a encontrar-se com o presumido assassino, mas albergava certa incerteza com respeito ao que ocorreria nessa tarde.

O mordomo se aproximou dela no vestíbulo, onde a esperava.

- Bom dia, Wilson - disse.

- Bom dia, Sra. Rael-Lamont. Siga-me, por favor.

Acompanhou-a até a mesma biblioteca em que se reuniu na vez anterior com o duque. Quando o homem lhe abriu as portas, Vivian entrou na estadia e imediatamente sentiu no rosto a refrescante brisa do sul que penetrava através das janelas da estufa.

- Fique á vontade, por favor, senhora. Sua excelência chegará num momento.

- Obrigado, Wilson - respondeu ao mesmo tempo em que o homem fechava as portas detrás de si.

Vivian tirou o chapéu e o deixou sobre o encosto da poltrona que tinha ocupado em sua última visita. Justo nesse instante, o duque de Trent entrou na sala através da estufa, embelezado com calças azul marinho e uma camisa informal de linho bege com as mangas enroladas até os cotovelos, o que deixava descoberto o pêlo escuro de seus musculosos braços e as mãos carentes de jóias.

Por um momento, nenhum deles disse nada. Vivian cravou o olhar nos olhos dele, e sua incerteza ficou oculta sob uma súbita quebra de onda de timidez.

-Vivian - disse ele com voz grave.

Estou lutando por minha vida, disse a si mesma.

Engoliu seco com força e se obrigou a esboçar um sorriso enquanto fazia todo o possível para relaxar.

- Excelência.

Por um instante, teve a impressão de que o duque evitava franzir o cenho. Ela tinha vacilado antes de responder, já que semelhante intimidade a desconcertava mais do que teria podido imaginar.

Ele se aproximou um passo mais e entrelaçou as mãos atrás das costas, muito devagar.

- Faz um dia precioso.

- Sim. -Não se moveu.

- Pensei que poderíamos almoçar no terraço. As paisagens são excelentes.

- É obvio - respondeu ao mesmo tempo em que voltava para pegar o chapéu.

- Deixe-o - pediu-lhe ele - Não o necessitará.

Vivian não discutiu.

- Como desejar, excelência.

- Will.

Parecia-lhe o mais inapropriado chamar um nobre com um título tão elevado por seu nome de batismo. Contudo, não podia negar em fazê-lo na sua presença, e muito menos quando estavam a sós.

Inclinou a cabeça para ele uma única vez.

- William.

Ele baixou a voz e a observou com intensidade.

-William não. Will.

Vivian cruzou os braços, adotando uma espécie de gesto defensivo, já que não tinha a menor idéia de que diferença havia. De fato, William era mais formal.

- Muito bem, Will - repetiu, enfatizando o nome tal e como ele o tinha feito.

Quando ele colocou a palma da mão sobre seu antebraço, sentiu o calor da pele coberta por um suave pêlo. Era a primeira vez que tocava a pele nua de um homem - se não tinha em conta a da mão ou a da bochecha, quando dava um beijo - nos últimos dez anos. Sentir o calor da força do duque lhe produziu uma quebra de onda de pensamentos estimulantes, todos eles os mais excitantes e indesejados nesse momento tão delicado.

Não falaram enquanto ele a conduzia através das portas do fundo da biblioteca até a estufa, uma extensão de vidro da casa, cheia de essência de um montão de botões e flores, todas elas bem cuidadas. Havia duas ou três janelas entreabertas para deixar entrar a brisa fresca e evitar que o lugar se convertesse em um forno. Entretanto, as paisagens que abrangiam os jardins privados, a arenosa borda da praia e o oceano eram realmente espetaculares.

- É um lugar precioso - assinalou Vivian com satisfação enquanto percorria com o olhar a zona que tinha adiante, a extraordinária cortina de fundo da propriedade, que resplandecia graças à chuva que caíra pouco antes.

- Supus que gostaria - disse ele depois de um momento de silêncio.

Ocorreu-lhe que ainda seguia obstinada em seu braço. Jogou uma rápida olhada em seu rosto e se deu conta do próximo que estava de um homem que somente uma semana antes tinha considerado uma mera fantasia, um rumor sombrio e um mistério. Naquele instante, ao tocá-lo, parecia-lhe muito, muito real.

Devia ter ruborizado porque o duque esboçou um sorriso irônico.

- Você é muito bonita - disse em voz baixa, quase com ar pensativo.

Vivian abriu os olhos devagar e ficou sem fôlego, mas o pior de tudo foi que não pôde dissimular essa reação espontânea. E o homem notou seu súbito nervosismo.

- Matou sua esposa, milorde?

Os músculos dele se contraíram sob seus dedos; o duque ficou imóvel imediatamente e o relampejo de… algo, talvez consternação, atravessou seu semblante antes que os lábios formassem uma linha dura e reta em seu rosto. Vivian havia mexido numa área muito sensível, e ele se limitou a olhá-la, sem saber o que responder.

Ela não afastou o olhar de seus olhos. Depois, fazendo um tic com a bochecha, o homem murmurou:

- Caso lhe dissesse que não o fiz, acreditar-me-ia?

Havia uma espécie de honestidade nele que a intrigava e que aprofundava nos confusos sentimentos que lhe provocava a impossibilidade de trocar seu próprio passado. Sentia a boca seca, mas devia lhe dar uma resposta. Ele a esperava.

- Não, provavelmente não - respondeu com a mesma sinceridade -. Não teria nenhuma prova.

Depois de um momento de pausa, ele assentiu com a cabeça.

- Claro. Somos sempre culpados até que se prove o contrário. Uma consideração bastante justa - Baixou a voz - E se lhe dissesse que sim, que o fiz?

Uma ligeira rajada de vento atravessou a janela que havia diante deles e lhe alvoroçou o cabelo, que caiu sobre sua testa e suas têmporas. Nesse momento, enquanto aguardava sua resposta, parecia um homem muito mais jovem e vulnerável.

Vivian respirou fundo e se obrigou a virar-se para contemplar o oceano.

- Tampouco tenho provas disso - murmurou com certa aspereza - E acredito que as necessito antes de condená-lo por um ato tão desprezível.

- Um pecado, senhora?

Ela elevou o queixo.

- Um pecado incomensurável.

- Suponho que a senhora foi muito valente - disse ele em um tom carregado de sarcasmo - ao vir à casa de um homem acusado de assassinato.

Ela suspirou.

- Ou muito estúpida.

- Quem sabe o que poderia lhe fazer… - acrescentou o duque com um pingo de amargura.

Vivian sabia que podia interpretar esse comentário de muitas e variadas formas, mas decidiu decantar-se pela mais óbvia.

- Tolice. Com todos os serventes perambulando por aí? Além disso, poderia haver muita gente no povoado que soubesse onde estou. Não sabe se o contei aos vizinhos.

- Acredito que se fosse um homem dado aos jogos de azar, apostaria toda minha fortuna de que não disse a ninguém, Vivian.

Disse-o com tanta serenidade, em um tom tão enigmático, que Vivian estremeceu por dentro e virou a olhá-lo no rosto.

Seus olhos brilhavam com uma peculiar mescla de intriga, de cepticismo e de um vazio ocasionado pelos muitos anos de solidão. Pensar nos pecados passados desse homem a colocou em uma posição de desvantagem… e isso fez que desejasse compreendê-lo melhor.

Ao ver que ela não respondia imediatamente, o duque elevou a mão e lhe acariciou os dedos, que ainda seguiam obstinados em seu antebraço.

- Por que não conversamos sobre a estupidez durante o almoço?

Vivian relaxou e apertou os lábios para não dizer “obrigado” por isso. Nunca havia sentido mais aliviada pelo simples fato de trocar de tema.

Recolheu as saias com a mão livre e em seguida, sem afastar a mão do calor de seu braço, caminharam um junto ao outro para o extremo oposto da estufa, onde os aguardava o almoço.

- Considerei que o suflê de salmão seria apropriado - comentou em tom formal.

Vivian não sabia para que fosse apropriado, mas decidiu não perguntar-lhe Em lugar disso, limitou-se a murmurar:

- Parece delicioso.

Falaram pouco durante o almoço, e não comentaram nada em relação à estupidez nem à razão pela qual se encontrava ali, embora Vivian fosse consciente de que ele a estudava com atenção. Cada vez que levantava a vista o descobria observando-a, ou com o olhar cravado em alguma parte de sua anatomia: uma mão, o cabelo, os lábios… Em uma ocasião o pegou lhe olhando os peitos, algo que, por mais estranho que parecesse, não a incomodou. Estar em sua companhia era mais do que excitante, e não pôde evitar perguntar-se se ele também sentia essa estranha sensação.

Para ser sincera, tinha pensado nele durante toda a noite, e quase não tinha conseguido dormir; tinha dado voltas e mais voltas imaginando tudo o que ele poderia lhe fazer levado pela paixão. E esses pensamentos, embora escandalosos, estremeciam-na tanto como a assustavam. Tinha passado tanto tempo da última vez que…

- No que está pensando?

A inocente pergunta adquiria um significado mais complexo quando se emparelhava com um tom fascinado e um pingo de vacilação.

Vivian esteve a ponto de sorrir. A sua maneira, resultava encantador.

- Quer saber a verdade? Estava pensando em nós, excelência.

Isso o deixou perplexo durante um segundo; Vivian soube pela rapidez com a que arqueou as sobrancelhas e por sua maneira de endireitar os ombros. Essa reação lhe produziu um formigamento interno e seus lábios se curvaram em um sorriso que não pôde seguir contendo.

- Sei que um dia foi uma mulher casada, Sra. Rael-Lamont, mas não tinha nem a mais mínima idéia de que seus pensamentos se perdiam em assuntos sensuais durante o almoço.

Vivian sentiu um nó no estômago ao escutar tão audazes palavras. Estava claro que aquele homem não sabia muito a respeito das mulheres, ou possivelmente considerava que podia as envergonhar diante dos criados. Ou talvez nem sequer lhe importasse.

- O que lhe faz pensar que meus pensamentos seguiam semelhantes roteiros?

Ele a olhou sem dissimulações e se reclinou um pouco em seu assento antes de deixar o garfo sobre o prato.

- Só era uma hipótese.

Vivian tomou um momento e começou a brincar sem dar-se conta com o guardanapo de linho que tinha no colo.

- Diga-me uma coisa, excelência: esta é sua única casa ou possui alguma outra? -perguntou após decidir que era melhor desviar a conversa para um pouco mais formal e muito mais apropriado.

- Tenho uma casinha em Toscana a que não vou com a devida freqüência e uma casa em Londres que me vejo obrigado a visitar todos os anos.

- Obrigado?

- Por responsabilidades parlamentares e assuntos tanto oficiais como pessoais - respondeu depois de um momento em voz mais baixa. Afastou o olhar e entrecerrou os olhos para contemplar o oceano através das janelas - Detesto o fedor da cidade… e assistir a corte.

Havia-o dito como se tratasse de algo que tinha pensado no último momento, e ela não tinha nada claro para responder, de modo que tomou outro bocado do que tinha resultado ser um maravilhoso suflê: cremoso, ligeiro e delicioso. Entretanto, sabia como ele devia sentir-se. Em muitas ocasiões, as responsabilidades dos membros da classe alta resultavam cansativas por causa de sua trivialidade, e em outras muitas, exasperantes devido a sua extrema importância. Vivian se alegrava muito do fato de que viver no remoto e sulino povoado de Penzance lhe permitisse não ter que preocupar-se com essas coisas. E era provável que ele sentisse um pouco parecido.

Não obstante, possivelmente o julgamento de assassinato tivesse algo haver com seu ódio pela corte. Em especial porque quase todo mundo seguia acreditando que era culpado do crime, inclusive depois de cinco anos.

Vivian deixou o garfo no prato e deu uns golpezinhos nos lábios com o guardanapo. O duque virou para concentrar sua atenção nela e a estudou durante um instante com a cabeça inclinada para um lado e os olhos entrecerrados.

- Há dito que estava pensando em nós?

O coração de Vivian acelerou de novo. Acaso não tinha deixado para trás esse assunto?

- É o senhor muito tenaz - apressou-se a responder, ao mesmo tempo em que se sentava tão erguida como lhe era possível, com as mãos entrelaçadas sobre o colo.

- Muito - admitiu-o. Esfregou o queixo recém barbeado com a gema dos dedos - Entretanto, põe-lhe nervosa estar aqui a sós comigo, não é certo?

- Não estou nervosa absolutamente, excelência - replicou com tanta calma como conseguiu reunir - Fizemos um trato. Estou aqui para me interar dele.

A expressão masculina não se alterou nem um ápice, embora o homem abaixasse a mão até o colo. O sino de um navio pesqueiro ressonou à distância e a brisa agitou as folhas da vegetação que os rodeava; entretanto, ele não pareceu notar nada disso, tão concentrado como estava nela. Incômoda, Vivian moveu em seu assento.

- Excelência…

- Daria um passeio comigo pelo jardim, Sra. Rael-Lamont?

Ela piscou com rapidez ante essa mudança inesperada da conversa e seus lábios se separaram um pouco. O comportamento formal do duque não sugeria que lhe estivesse pedindo uma espécie de encontro, embora ambos soubessem que assim tinha sido. De repente se sentiu um tanto confundida.

- Não quer sobremesa, milorde?

O duque esboçou um meio sorriso.

- Tinha pensado tomar framboesas com nata, mas mudei de opinião.

Vivian engoliu seco e sorriu abertamente.

- Seriamente?

Depois de deixar o guardanapo ao lado do prato, ele se levantou e rodeou a pequena mesa para ficar ao seu lado.

- Passeie comigo - insistiu com amabilidade lhe oferecendo uma mão.

Vivian não teve mais remédio a não ser agradá-lo e aceitar sua mão. Um dos criados se colocou imediatamente atrás dela para lhe retirar a cadeira enquanto se levantava com elegância. Ao ver que o duque não lhe soltava a mão, alisou as saias com a outra.

- Indique-me o caminho, milorde.

Os olhos dele percorreram seu rosto e por um instante Vivian acreditou ver de novo um sorriso em seu semblante.

- A senhora é muito complacente, Sra. Rael-Lamont – murmurou -. Acredito que desfrutarei muito de sua companhia, muito mais do que acreditava possível.

Vivian sentiu que lhe ruborizava pela vergonha. Não obstante, havia algo que pudesse considerar-se excessivo quando um cavalheiro se dirigia a uma mulher a que queria converter em sua amante? Não tinha a menor idéia. Contudo, fervia por dentro ao saber que os criados mexericariam escada abaixo e que as pessoas do povoado não demorariam em inteirar-se de que ela se mostrava «muito complacente» com o duque de Trent. E ele também devia sabê-lo.

Irritada, tentou apartar a mão da do duque. Ele a conteve durante um par de segundos, mas depois, como se tivesse percebido sua mortificação, soltou-a de repente sem pigarrear.

Indicou-lhe com um gesto silencioso que o seguisse para o fundo da estufa, onde, situada detrás de uma fileira de vasos de barro, encontrava-se a porta de vidro e uma escada de ferro forjado que conduzia diretamente para o jardim inferior.

O duque se adiantou um pouco, abriu a porta e se afastou para o lado para permitir que ela saísse antes dele.

Vivian recolheu as saias, mas o duque, em lugar de colocar a mão sob seu cotovelo, acariciou a parte baixa de suas costas e colocou a palma contra o espartilho para impedir que perdesse o equilíbrio. Ou talvez somente para desfrutar de um contato mais íntimo. Vivian não sabia. Por sorte, entretanto, nesse extremo da residência e dado o ângulo de descida da escada para o jardim, ninguém poderia vê-los.

Detiveram-se ao lado do alpendre de tijolo que parecia estender-se ao longo de toda a parede sul da casa. Diante dela, em um jardim perfeitamente cuidado, havia rosas e flores de todas as cores e variedades imagináveis, plantas verdes e palmeiras, todas podadas o bastante para que pudesse apreciar o resplandecente oceano azul cinzento que havia além da arenosa costa.

- É assustador - disse com assombro e uma inconfundível inveja -. Sem dúvida é o jardim mais exuberante que vi em toda minha vida.

- É-o. - Guardou silêncio um momento e adicionou-: E se mantém assim para minha satisfação.

- Tal e como se espera para alguém de sua posição social, excelência.

- Um título é um direito de nascimento, Vivian. O que eu faço em minha propriedade provém do desejo humano que há em mim de me deleitar com a tranqüilidade e a contemplação da beleza.

Ela elevou a cabeça para olhá-lo no rosto quando disse isso. O homem entrecerrava os olhos para proteger-se da luz do sol enquanto contemplava as águas; o vento açoitava de novo seu suave cabelo e ele o afastou de lado com a gema dos dedos, do mesmo modo que o tinha feito com antecedência.

Momentos antes, Vivian tinha se surpreendido de sobremaneira que parecesse tão jovem quando o fazia, mas nesses instantes reafirmou essa idéia. Na realidade não se tratava que parecesse ter menos de trinta e cinco anos, nem mais juvenil, mas sim que tinha um aspecto muito mais «humano», uma palavra repetida freqüentemente em sua forma negativa («desumano») quando o qualificavam de assassino nos periódicos do país e, até depois de cinco anos, nos salões de toda Penzance. Era muito… estranho que nesse momento não lhe temesse nem um pouco, apesar de que estavam a sós em um formoso âmbito natural.

Ele baixou a vista e descobriu que o observava. Desconcertada, Vivian esboçou um pequeno sorriso e concentrou sua atenção no jardim.

- Passeamos? - perguntou em tom amável.

- Como desejar - respondeu ele com voz séria.

Vivian via dois caminhos distintos a escolher, e suspeitava que houvesse mais entre eles. Antes que pudesse dar um passo para algum deles, ele estirou um braço e lhe cobriu a mão com muita doçura para lhe acariciar os nódulos com o polegar. Esse contato a surpreendeu, mas tentou não demonstrá-lo enquanto seguiam adiante, para o caminho da esquerda.

- Fale-me de seu marido, Vivian.

Ela se deteve a meio passo, mas, embora sem dúvida se desse conta, o duque não lhe soltou a mão. Depois de uns segundos de indecisão, Vivian tomou uma profunda baforada de ar salgado que arrastava a brisa do mar, impregnado do perfume das flores, e tratou de relaxar. Ele não conhecia nada sobre seu passado, de modo que somente sentia curiosidade.

- Era meu primo - revelou, ao tempo que começava a caminhar de novo a seu lado.

- Ah… Um matrimônio arranjado, então?

- Sim.

Ao ver que ela não acrescentava nada mais, o duque perguntou:

- Foram felizes?

Como podia responder a isso? Já lhe estava custando um tremendo esforço manter a calma enquanto passeava junto a ele.

- Passei muito bem o dia de minhas bodas, mas quase todas as mulheres o fazem, excelência. Do desventurado falecimento de meu marido, aprendi a construir uma vida confortável e sou feliz de novo.

Esperava que essa resposta vaga lhe bastasse. Ao que parecia foi assim, já que ele não replicou imediatamente.

Uma súbita rajada de vento agitou umas mechas de cabelos soltos contra seu rosto, e Vivian fechou os olhos um instante para desfrutar da sensação.

- Eu adoro Penzance, o clima da costa - disse sem pensar.

De repente, o duque se deteve e, sem lhe soltar a mão, virou-se para ela.

Vivian contemplou os escuros olhos que a observavam e notou que seu coração se acelerava devido à proximidade dele, ao doce e contínuo contato de sua pele e ao fato de saber que as palmeiras os ocultavam com perfeição dos olhos da casa.

- Como morreu?

O tom sério da pergunta a desconcertou tanto como a súbita intensidade de seu olhar. Durante um instante, foi incapaz de falar.

Ele aguardou sem deixar de observá-la e de lhe acariciar os nódulos dessa maneira tão peculiar que lhe punha nervosa e lhe acelerava a respiração.

- Eu… Meu marido não estava bem do coração, excelência.

Ele franziu o cenho de uma forma quase imperceptível.

- Não estava bem do coração?

- Não é nenhuma raridade - apressou-se a murmurar a modo de resposta-. Tinha quase quarenta anos.

O duque assentiu pensativo.

Ela se sentia cada vez mais nervosa e preocupada com essas perguntas inquisitivas quase tanto como pelo repentino isolamento. Mas não podia mover-se, nem apartar o olhar. Sentiu-se embargada por uma quebra de onda de desassossego.

E então ocorreu. Muito devagar, amparado pela resplandecente e cálida luz do sol e a fragrância do ar, o duque se inclinou para diante e encostou seus lábios sobre os dela, deixando-os ali sem realizar nenhum outro movimento.

Atônita, Vivian não reagiu imediatamente. Ficou sem fôlego, presa de um estremecimento de desejo que fez que lhe tremessem as pernas e que suas vísceras se retorcessem pela maravilhosa antecipação do desconhecido.

Ele ficou imóvel, obstinado a sua mão e sem separar os lábios dos seus, sem tentar ir mais à frente. Passados uns instantes, emitiu um leve gemido e se afastou dela.

Vivian começou a tremer, embora não tinha nem idéia do por que, e levou a mão livre até a boca para cobri-la com os dedos. O duque fechou os olhos durante um momento enquanto ela o contemplava sem saber o que dizer, ou sem saber sequer se ele esperava que dissesse algo.

- É tão quente… - sussurrou o homem por fim.

Vivian pensou que ardia por dentro, mas o certo era que não compreendia de tudo o que tinha querido dizer.

Nervosa, tratou de soltar a mão que tinha apanhado, mas ele não permitiu. Sujeitou-a com força e abriu os olhos para olhá-la.

Vivian ficou petrificada ante o olhar de puro desejo que viu em seus olhos durante esses segundos de intimidade e de contato silencioso…, e que foi muito mais íntimo do que o tinha sido o beijo.

«É tão quente…»

Foi nesse momento quando o entendeu. Era a essência da conexão entre homens e mulheres. A primitiva necessidade humana de sentir-se desejado e querido, de sentir-se aceito sem processamentos. Sem desprezo, sem medo. Tinha-lhe dado uma pincelada de compaixão sem repugnância, e ele tinha desfrutado de sua simplicidade.

Vivian afastou os dedos de sua boca e lhe dedicou um suave sorriso. O duque respirou fundo antes de lhe soltar a mão e afastar-se um pouco mais dela.

-Vivian - disse com uma voz controlada e grave - É muito mais do que tinha imaginado.

- Imaginado?

- Não há nada em ti que não tenha imaginado - reconheceu imediatamente e sem reservas.

O sorriso de Vivian se esfumou de seu rosto quando a confusão e o nervosismo se apropriaram uma vez mais dela.

- Excelência?

Para seu mais completo assombro, ele fez um gesto negativo com a cabeça e estalou a língua.

- Caso não comece a me chamar «Will», Vivian, não voltarei a te beijar.

Foi a vez de Vivian de dar um passo para trás.

- E acredita que quero que o faça? -desafiou-o.

Ele jogou uma breve olhada a sua direita antes de colocar os olhos nela de novo.

- Acredito.

- Sua lógica me desconcerta por completo - apressou-se a replicar.

- O mesmo tem feito esse beijo perfeito comigo, minha senhora.

Vivian ruborizou uma vez mais, mas não disse nada. Não sabia o que dizer depois desse comentário, já que ele transformava tudo o que saía de sua boca em algo íntimo.

O duque inclinou a cabeça para estudá-la, embora seu semblante não perdesse o bom humor. Naquele momento, com esse aspecto despreocupado no meio do colorido jardim, pareceu-lhe mais arrumado que qualquer outro homem que tivesse conhecido em sua vida, e lhe custou um verdadeiro esforço não dizer-lhe.

- Eu adoraria que sorrisse com mais freqüência - confessou ela com ar pensativo.

Ele endireitou a cabeça em um gesto de surpresa.

- Seriamente? Por quê?

De verdade era tão torpe? Não, era mais provável que não estivesse acostumado à companhia feminina.

Vivian suspirou e cruzou os braços à altura do peito.

- Chamá-lo-ei por seu nome de batismo, excelência, se o senhor aceitar sorrir para me agradar.

Ele enlaçou as mãos às costas e esboçou um irônico sorriso de satisfação.

- Acredito que depois de provar a doçura de seus lábios estaria disposto a fazer qualquer coisa para te agradar, querida.

Vivian afogou uma exclamação e se afastou um pouco por causa do assombro, algo que fez com que ele voltasse a rir entre dentes.

- Sabe que quer que te beije de novo – sussurrou com voz rouca.

O desafio a derreteu por dentro, mas se negou a contradizê-lo.

- E você sabe que esta conversação não tem sentido.

O duque deu um passo para aproximar-se dela e sua cabeça bloqueou a luz do sol.

- Tem muito sentido, Vivian, se pensar no muito que desfrutou do nosso primeiro e efêmero contato.

Ela não o teria definido como efêmero, já que a leve pressão de seus lábios tinha parecido alargar-se durante vários minutos. Não obstante, talvez tivesse sido coisa de sua imaginação. Nesse momento não pensava com claridade.

- Você o desfrutou? - perguntou em um tom sarcástico, embora soubesse por instinto e com toda certeza que assim tinha sido. Era a vaidade que a fazia desejar ouvi-lo de seus lábios.

Ele baixou a vista até seus peitos antes de voltar a olhá-la aos olhos.

- Sabe que sim.

Por mais que o duque se deleitasse com suas engenhosas respostas, estava claro que a estava colocando em uma posição muito difícil, e parecia desfrutar também disso. É obvio que queria beijá-lo de novo, e ele parecia ser mais consciente disso que ela mesma. Absurdo.

Inclinou a cabeça e baixou os braços até os quadris antes de admiti-lo.

- Está bem, Will. Aceitarei a suas ridículas exigências.

Durante um fugaz instante, teria jurado ver certo alívio em seus olhos, ou possivelmente um relampejo de desejo. Depois, William se endireitou e assentiu com a cabeça uma vez.

- Nesse caso, esperarei com impaciência sua próxima visita.

- E quando terá lugar dita visita? - inquiriu ela com certa inapetência.

Ele arqueou as sobrancelhas.

- Na próxima quarta-feira, para jantar.

Vivian franziu o cenho.

- Na próxima quarta-feira?

Isso esteve a ponto de lhe fazer sorrir de novo.

-Não é bastante logo para você?

De repente irrompeu em sua cabeça o recente acordo que tinham chegado, mas mencionar o manuscrito nesse momento quebraria a deliciosa atmosfera que se estabeleceu entre eles. De repente, esse momento íntimo, embora um tanto irracional, importava-lhe muito mais.

- Estou as suas ordens, milorde - respondeu em tom apagado. O medo lhe tinha provocado um nó na boca do estômago, mas não ficava outro remédio que insistir -. Embora deva lhe perguntar quando poderei adquirir o manuscrito.

O sorriso dele se desvaneceu assim que a olhou nos olhos. Enfrentou seu olhar durante um longo momento antes de levantar a mão para lhe acariciar a bochecha com os dedos, surpreendendo-a com sua doçura. Entretanto, antes que Vivian pudesse reagir, ele afastou a mão.

- No seu devido tempo. Esperarei com impaciência na quarta-feira, Vivian.

Estava-a despedindo sem lhe dar respostas satisfatórias e não ficava outra escolha que partir.

- Obrigado pelo delicioso almoço, Will.

Ele inclinou a cabeça com toda formalidade e enlaçou as mãos às costas uma vez mais.

- Wilson lhe acompanhará até a saída.

- É obvio. - Fez-lhe uma reverência antes de se apartar dele e se obrigou a controlar a necessidade de acariciar a pele da bochecha, onde ainda podia sentir seus dedos. Devia admitir que a desanimava bastante abandonar sua companhia.

 

Clement Hastings era um tipo baixo e corpulento com cerca de cinqüenta anos a quem Will só podia descrever como «atarracado». Tinha um nariz bastante largo e olhos pequenos e saltados, estava calvo e sempre levava uma roupa da mais excêntrica. Não podia evitar perguntar-se como conseguia esse homem ganhar a vida como investigador, embora parecesse certo que os ricos e os aristocratas necessitavam freqüentemente algum tipo de indulgência pela que estavam dispostos a pagar generosamente. Não obstante, possivelmente «indulgência» não fora a palavra adequada. Hastings não era absolutamente indulgente. O homem possuía um intelecto do mais agudo, e muitos o consideravam o melhor investigador de Cornwall. Will tinha utilizado seus serviços de vez em quando, embora sobre tudo antes do julgamento que tinha tido lugar quase seis anos antes.

Ao entrar na biblioteca, descobriu o homem observando uma das prateleiras de livros que havia perto do suporte da chaminé. Hastings seguia admirado, usando outra de suas estranhas indumentárias: uma camisa de seda branca com raias douradas embutida em umas calças quadriculadas de verde e branco, todo enfeitado com um colete verde lima que lhe rodeava o abdômen como se tratasse de um espartilho. Talvez essa fora a moda da cidade - isso Will sabia - mas tinha certeza que ele não usaria algo como aquilo nem morto. Contudo, era possível que fora a esposa do homem quem lhe escolhia a roupa e que seu aspecto não fora culpa dela.

- Descobriu algo, Hastings? -perguntou-lhe enquanto se dirigia à mesa com a esperança de que o homem lhe contasse algo novo nesse dia. Somente levava investigando esse assunto desde a semana anterior, assim Will sabia que as possibilidades de que tivesse informação importante eram bem escassas. Mesmo assim, queria que lhe mantivesse a par de seus descobrimentos a cada dois dias, e até esse momento Hastings o tinha agradado.

O investigador concentrou sua atenção nele e fez uma reverência ao mesmo tempo em que esboçava um leve sorriso.

- Bom dia, excelência - saudou educadamente-. Para falar a verdade, sim, tenho descoberto algo. Não é muito, mas suponho que é um começo.

Will assinalou a cadeira que tinha em frente.

- Por favor.

Hastings fez um gesto afirmativo com a cabeça e se aproximou dele para localizar sua gordinha figura na cadeira. Estirou as pernas para diante enquanto procurava suas notas no bolso do colete.

- Bom - começou ao mesmo tempo em que jogava uma olhada pelas folhas de papel -, os homens que trabalham para mim em Londres não têm feito mais que começar com as investigações sobre o passado da Sra. Rael-Lamont, e sobre isso não tenho notícia alguma. – limpou a garganta - Com as discretas perguntas que eu mesmo tenho feito no povoado tenho descoberto que vive em sua casa de Penzance, sem mais companhia que a de um pequeno número de criados, quatro, e que conforme parece se mudou ali depois da morte de seu marido. Não há nada que sugira que ele viesse a Cornwall enquanto seguia com vida, embora acredite… - Hastings franziu o cenho e lhe deu a volta ao papel -. Ah, sim. A propriedade, entendi, está em nome de seu defunto marido, mas isso ainda tenho que verificá-lo. Parece que ele comprou a casa sem vê-la sequer, embora isso não resulte muito estranho se tinha pensado em passar as férias aqui e morreu de forma inesperada. - Elevou a vista para olhar a Will e compôs uma expressão de aprumo serena e relaxada - Conseguirei mais informação esta mesma semana, excelência, logo que receba notícias da cidade. É evidente que a mulher deve ter um negócio ali de que recebe benefícios.

Will se reclinou na cadeira e deslizou os dedos sobre a escrivaninha enquanto lhe dava voltas na cabeça às possibilidades que até esse momento não tinham reportado nada substancial. Salvo que ela também conseguia dinheiro vendendo novelo e fazendo acertos florais. E que tinha uns lábios deliciosos.

- Alguma outra informação a respeito de seu marido?

Hastings negou com a cabeça.

- Sobre isso, nada, milorde; não obstante, terei mais informação no fim de semana.

- Muito bem. - Will fez gesto de ficar em pé, mas o investigador agarrou outra parte de papel.

-Uma última coisa, excelência, embora talvez não tenha tanta importância.

O duque permaneceu sentado e observou ao investigador com olhos inquisitivos.

- Sim?

Hastings franziu o cenho, e nessa ocasião se formaram profundas rugas em sua frente.

- Pediu-me que averiguasse com que gente se encontrou ultimamente, e tenho descoberto que uma de suas visitas resulta bastante estranha, muito distinta às demais.

Will não disse nada e se limitou a esperar.

Hastings levantou a vista uma vez mais.

- Parece que vai muito bem vendendo flores e acertos aos ricos do povoado, e pelo geral a maioria deles lhe pedem que visite seus lares para assessorá-los ou a visitam para lhe pedir uma entrevista.

Isso parecia bastante trivial, mas Will decidiu não comentar nada. Supôs que o trabalho do homem também consistia em tomar nota do ordinário.

- Ao que parece - continuou Hastings -, segundo uma das criadas da cozinha de um vizinho, no princípio da semana passada a senhora Rael-Lamont recebeu a visita de um homem que não esperava e que na aparência pertencia a uma classe social tão baixa que lhe fizeram rodear a casa para reunir-se com ela no viveiro. Não esteve ali mais que cinco minutos, e quando partiu, ela fechou imediatamente a casa e se negou a receber qualquer tipo de visitas, tanto comerciais como sociais, apesar de que tem muitas amigas na vizinhança. Isso foi um dia antes que viesse vê-lo, excelência.

Will se inclinou para diante em seu assento e apoiou um cotovelo sobre o braço da cadeira de balanço, cada vez mais intrigado.

- E sabe quem era esse homem que a visitou?

Hastings arranhou o queixo com seus curtos e rechonchudos dedos.

- Bom…, é algo bastante estranho, milorde. Conforme parece, tratava-se de um ator.

Will sentiu um tombo no coração ao escutá-lo.

- Um ator?

O investigador riu entre dentes e sacudiu a cabeça enquanto repassava suas notas de novo.

- Realmente, milorde, é muito estranho. Mas a verdade é que o tipo era um ator da companhia shakespeariana; o ator principal, conforme acredito. Seu nome é Gilbert Montague, mas por agora isso é tudo o que sei dele. Estou trabalhando para conseguir mais informação.

Will passou os dedos pelo cabelo de maneira brusca e ficou em pé para aproximar-se rapidamente às janelas da estufa. Não conhecia nenhum ator, e pelo que podia recordar, jamais tinha estado em companhia de um em toda sua vida. Mas Hastings tinha razão; esse encontro da viúva com um ator em sua casa era muito estranho e circunstancial para passá-lo por alto, em especial quando um ator da companhia shakespeariana poderia estar bem informado sobre certas obras do Shakespeare desconhecidas para o público geral.

- Quero que investigue a fundo a esse homem - disse-lhe enquanto contemplava a costa através da janela - Pode dedicar-se a isto imediatamente?

Ouviu o roce da roupa detrás dele e teve a certeza de que Hastings trabalhava em excesso por endireitar-se dentro de seu espartilho masculino. O objeto era do mais incômodo, mas o peculiar gosto em questão de moda do homem não era assunto dele.

- Posso começar esta mesma tarde, excelência. Retornarei dentro de dois dias. À mesma hora?

Will se virou para olhar ao detetive uma vez mais.

-Sim, e antes se descobrir alguma informação importante.

-Entendido, milorde - conveio o investigador com um gesto da cabeça-. Alguma coisa mais?

-Não, isso é tudo por hoje.

Hastings recolheu o chapéu que tinha deixado na prateleira da livraria e inclinou a cabeça uma vez mais em direção a Will.

- Tenha um bom dia, excelência.

- Igualmente, Hastings.

 

O bar foi enchendo com a chegada da escuridão. A maioria dos rostos essa noite pertenciam aos freqüentadores habituais, mas de vez em quando um par de pessoas entrava no The Jolly Knights para evitar a mulher que tinham em casa ou o cansativo calor do verão. Ele ia ali sempre que podia para escapar do teatro e dos estúpidos atores, com todas suas dúvidas deploráveis e seus problemas ridículos.

Gilbert se reclinou na pequena cadeira que tinha colocado no canto mais afastado da escura e viciada estadia. Levava quase duas horas sentado nessa incômoda cadeira que estava muito pequena para sua enorme figura, perguntando-se se deveria pedir à garçonete loira outra excursão até a suja cama de cima para aliviar seu aborrecimento. Permitiu-se o luxo - se podia dizer assim - de acudir ali todas as sextas-feiras a noite durante os dois últimos meses, já que não estava atuando em Londres e tinha de repente um montão de dinheiro. Pôs-se a rir ao recordar seu brilhante e impecável plano.

- Obrigado, Vivian Rael-Lamont - disse em voz alta com um irônico brinde, enquanto levava o copo aos lábios para dar uns quantos goles da aceitável cerveja. Já estava quase bêbado, mas se sentia tão bem essa noite, que queria cair na inconsciência. Além disso, não teria que atuar de novo até dois dias depois. A quem demônios lhe importava se dormia em um banco?

Seu humor piorou de repente quando baixou o copo quase vazio para olhar o rosto da encarnação de seus problemas. Estava ali com ar despreocupado, apenas a meio metro de distância, e lhe sorria com uma expressão intransigente em seus bonitos olhos azul. Gilbert esteve a ponto de engasgar-se.

- Ah, mas se for Gilbert Montague… - ronronou ela.

- Maldita seja, Elinor - disse ele com voz afogada - que diabos está fazendo aqui? Como me encontraste?

Ela arqueou as sobrancelhas.

- Como te encontrei? É um bar. Além disso, não sou tão frágil e indefesa como pareço - acrescentou com os lábios franzidos em um sorriso sarcástico.

- Alguém poderia verte aqui, estúpida - espetou-lhe Gilbert sem deixar de olhar com nervosismo ao seu redor. Estirou uma mão para agarrá-la do braço - Sente-se.

Com deliberada lentidão, a mulher afastou a cadeira que havia frente a ele e, depois de uns quantos e complicados ajustes de seu volumoso vestido de seda, sentou-se com elegância sobre o duro assento de madeira.

- Tranqüilize-te - sussurrou depois de um exagerado suspiro - Estou coberta da cabeça aos pés com estes miseráveis farrapos, como muito bem poderá comprovar, e ninguém com exceção de Wayne sabe que estou aqui.

Farrapos. Para a rainha, possivelmente. Gilbert tomou outro longo gole de cerveja e se fixou no muito que se parecia com a filha de um nobre, sobre tudo naquele lugar. Caso ficasse muito tempo ali atrairia a atenção e então deixariam de passar despercebidos, e os dois sabiam que isso seria o mais prejudicial, dadas as circunstâncias.

- Onde deixou Wayne a carruagem? - perguntou com um grunhido.

- E como vou saber? - replicou ela antes de jogar uma olhada a seu redor - Traga-me um xerez.

- Não seja estúpida; em lugares como este não se serve xerez. Além disso - acrescentou com voz grave - não ficará aqui o tempo suficiente para tomar algo.

- Não fique tão nervoso - espetou-lhe com um sussurro furioso - O que ocorre é que não sabia onde mais te buscar.

- Sempre pode me encontrar no teatro.

Elinor o olhou fixamente, atônita.

- Isso não seria apropriado absolutamente. - ajustou as mangas a fim de encontrar algo que fazer com as mãos-. Além disso, sabe que nunca me atreveria a me aventurar tão ao sul.

Gilbert a observou com o cenho franzido. Uma desculpa ridícula, mas não pensava permitir que Elinor arruinasse tudo nesse momento, deixando-se ver com ele ali.

- Diga-me que diabos quer, e fale pressa.

Ela sorriu e se inclinou sobre a mesa, embora com muito cuidado em não tocá-lo.

- Mais dinheiro - murmurou.

Deveria ter adivinhado. Isso era o que Elinor sempre queria dele, ou de qualquer outro.

- Quanto?

- Quanto pode me dar um ator teatral de segunda como você sem que o leve a prisão de devedores, querido Gilbert?

- Quanto crie que necessita antes que lhe tirem de sua casa e ponham a pontapés na rua, querida Elinor? - contra-atacou em tom, irônico, farto de seus joguinhos.

O sorriso da mulher se endureceu imediatamente, mas decidiu não seguir com as réplicas.

- Dois mil…

- Vá para o inferno - disse Gilbert, ao mesmo tempo em que elevava o copo para apurar seu conteúdo.

Elinor o olhou com um sorriso avesso, enquanto elevava a mão para lhe colocar o mindinho a escassos centímetros do nariz.

- Acaso não recorda que depende de mim? - perguntou com voz gélida.

Gilbert desejou estender o braço por cima da mesa e lhe romper seu pequeno pescoço. Em lugar disso, esboçou um sorriso bastante agradável e cravou os olhos nos seus, deixando que o ator que havia nele saísse a reluzir por fim.

- Sabia que Steven retorna para casa?

O comportamento de Elinor trocou imediatamente, e sua juvenil figura se afundou na cadeira quando assimilou o significado dessa informação; Para Gilbert custou um tremendo esforço para não rir a gargalhadas. Aguardou sem acrescentar nada, até que ela engoliu seco e respirou fundo após aceitar as notícias.

- Quando? - sussurrou com os olhos totalmente abertos, devido a uma preocupação que não podia ocultar, nem sequer na penumbra do bar.

Gilbert desfrutou de do momento.

-Logo - respondeu em voz muito baixa e com toda intenção - Pelo que entendi seu irmão sente a sua falta.

A atmosfera que compartilhavam trocou de repente quando ela recuperou a compostura, endireitou as costas e elevou o queixo em um gesto de desafio, ruborizada por causa de uma nova quebra de onda de fúria.

- Isso não é nada bom. Que tipo de plano está tramando o grande Gilbert Montague e o malvado Steven Chester?

Gilbert se pôs a rir de novo e omitiu a pergunta.

- Elinor, querida, o que lhe parecem quinhentas agora… - disse ao mesmo tempo em que se inclinava para ela e convertia a voz em um mero sussurro - E dois mil mais quando conseguir o resto? Isso faz um total de dois mil e quinhentas.

Ela o observou com perspicácia durante um momento e Gilbert se deu conta de que tentava averiguar se ocultava algo. Devolveu-lhe um olhar inocente e esboçou um sorriso irônico, desafiando-a a enfrentar a ele uma vez mais.

A mulher vacilou, e sem dúvida mordeu a língua para não soltar uma réplica mordaz. Por fim decidiu calar-se e reclinou-se com despreocupação sobre o encosto da cadeira e cruzou os braços sobre o colo.

- Quando esperas conseguir o resto?

Ele encolheu os ombros e cravou o olhar na garçonete loira, que se pôs a rir quando um homem fornido de mãos enormes a sujeitou por detrás e lhe deu um empurrão.

- Não sei - respondeu em um tom aborrecido - Disse a essa mulher que lhe daria uma semana ou duas.

- O que? - gritou Elinor, que ficou em pé imediatamente e fez cair a cadeira sobre o chão de madeira, fazendo o ruído suficiente para que muitos dos canalhas que havia por ali girassem a cabeça em sua direção.

- Sente-se - ordenou-lhe Gilbert com os dentes apertados.

Elinor ficou como estava, observando-o com uma expressão assassina.

- Disse que seria rápido, que teria o manuscrito de novo em minhas mãos e que esse desprezível filho da p…

- Tome cuidado, querida - interrompeu-a ele, sorrindo enquanto entregava o copo à garçonete e lhe indicava que lhe trouxesse outra cerveja - Essa não é a linguagem própria de uma dama.

Arrebatou-lhe o copo das mãos de um tapa. Surpreso, Gilbert virou para olhá-la nos olhos, que nesses instantes estavam carregados de fúria e de desprezo.

- Quer que lhe pendurem? - espetou-lhe Elinor empregando um tom grave e desafiante - Eu sou o cérebro de toda esta farsa.

Gilbert fez caso omisso da pergunta e ficou em pé muito devagar para dominar com sua estatura a essa mulher cuja beleza física quase não conseguia mascarar sua sórdida personalidade.

- Equivoca-te de novo, querida Elinor. Eu sou o ator de segunda categoria. Não importo a ninguém. Você é quem tem a perder aqui. Não esqueça.

Elinor se aplacou um pouco ao escutar aquela ameaça velada, tal e como ele o supunha. A mulher se endireitou e deu um passo para trás.

- Mantenha-me informada - advertiu-lhe enquanto tirava as luvas da bolsa e tratava de colocar os a toda pressa - Esperarei em Fowey. - Um momento depois, inclinou-se uma vez mais para ele com expressão colérica e acrescentou -: E recorda que se trata de meu manuscrito.

Gilbert ignorou o comentário e baixou os braços para apoiar as mãos na mesa.

-Não deve vir a me procurar alguma vez mais, entendido? -advertiu-lhe - Farei que lhe enviem o dinheiro dentro de uns dias. Agora vá de uma vez daqui, antes que alguém nos veja juntos.

Sem pigarrear e com a cabeça bem alta, Elinor lhe deu as costas e saiu despreocupadamente para entrar na noite.

 

Pelo mero feito de estar ao seu lado, sabia que Vivian esperava que lhe falasse de si mesmo e de seu passado, de Elizabeth, de sua morte e do julgamento por assassinato. Sentia curiosidade, mas não a dos fofoqueiros do povo; ao que parecia, desejava descobrir se era possível que ele não fora tão malvado como acreditava a sociedade e julgar os fatos por si mesmo. Não obstante, mesmo que isso o comovesse, resultava-lhe difícil falar desse assunto. Jamais teve intimidade bastante com ninguém para tirar a luz as acusações e o julgamento em uma conversação informal, e lhe tinha suposto o maior desafio emocional de toda sua vida tratar de deixar essa parte de seu passado para trás e esquecer o que tinha ocorrido. Apesar de tudo, seu desejo de esquecer jamais tinha chegado a cumprir-se. Estranho era o dia em que não rememorava alguma cena do horrível julgamento. Seu pesadelo. Assim, no momento, preferia saber mais sobre ela, sobre sua vida e seu passado, que conversar sobre suas tribulações pessoais.

Nesse instante, enquanto permanecia sentado frente a ela durante o jantar e observava os brilhos que arrancavam a luz das velas da sua pele pálida e suave, lhe ocorreu que apesar de que conhecesse a viúva Rael-Lamont fazia vários anos, não sabia nada absolutamente sobre sua personalidade. Também era bastante possível que a informação que proporcionava a seus amigos e conhecidos fora de tudo falsa, algo que, como devia admitir, não tinha considerado até esse momento. Naturalmente, ao vê-la sentada a enorme mesa do refeitório ao que apenas lhe dava uso e tomando a sopa com tanto refinamento, resultava-lhe fato difícil imaginá-la como a simples proprietária de um vulgar negócio de flores. Não, Vivian Rael-Lamont era toda brio e energia, uma complexa mescla de inteligência, beleza e mistério. Uma dama elegante por fora, com um estilo que logo que deixava vislumbrar a mulher apaixonada que morava em seu interior.

Will tratou de concentrar-se na comida. Tinha ordenado a Wilson que se assegurasse de que o cozinheiro preparava a melhor janta que se serviu em sua casa em muitos anos, e até esse momento a comida tinha sido extraordinária. Essa noite estavam jantando uma sopa de camarões-rosa, a que seguiriam filés assados com molho de manteiga e brócolis com amêndoas; e de sobremesa, pudim gelado, rodelas de laranja e mingau ao brandy. Uns mantimentos deliciosos que viriam acompanhados por um beijo ainda mais delicioso no jardim, à luz da lua.

O primeiro prato tinha transcorrido de maneira tranqüila; tinham conversado sobre temas gerais enquanto os criados serviam os entrantes e se situavam depois junto à mesa auxiliar. Will se deu conta de que lhe resultava difícil passar por cima da presença dos serventes, assim aceitou a sua tácita solicitude de manter os temas pessoais de lado. Ao menos até que estivessem a sós. E ao contemplar seu sorriso e o modo como movia as mãos enquanto falava de algo intrascendente no que ele sozinho fingia sentir-se interessado, não pôde evitar recordar o leve roce de seus lábios, a acalorada resposta que ele mesmo tinha mostrado ante um contato tão singelo e o suave rubor que tinha tingido as bochechas dela quando ele se afastou. Isso tinha ocorrido fazia uns dias, e esperar tanto tempo para voltar a tocá-la tinha sido uma autêntica tortura.

Nesse momento estava sentada justo diante dele, no centro da larga mesa de carvalho, tão perto que em ocasiões podia perceber seu perfume, observar a subida e descida de seus seios com cada respiração e espionar o relampejo da luz das velas em seus olhos quando o olhava. Levava um vestido singelo embora elegante de seda cor Borgonha, com o sutiã ajustado, as mangas curtas e inchadas, e um decote surpreendentemente baixo. Penteou o cabelo em um recolhido coque alto e frouxo que tinha trancado com um par de fileiras de pérolas. Levava brincos singelos, mas o que cativava sua atenção era a pérola que pendurava de uma cadeia justo em meio dos peitos. Fascinante…

-Excelência?

Will piscou ao dar-se conta de que se ficou olhando-a outra vez e se perguntou se, de alguma estranha maneira erótica, ela achava estimulante saber o muito que admirava seu busto.

-Sinto muito - replicou o duque endireitando-se na cadeira e agarrando o garfo para cortar um pedaço de vitela-. O que estava dizendo?

Ela esboçou um sorriso irônico e pegou sua taça de vinho.

-Perguntava-lhe se inteirou que os novos impostos que pagam este ano os navios estrangeiros que entram no porto. A meu parecer, são exagerados - adicionou, antes de tomar um sorvo.

Os impostos das mercadorias. Ele não podia pensar mais que em como conseguiria colocá-la nua em sua cama, enredar os dedos em seu formoso e comprido cabelo e observar como se fechavam suas pálpebras por causa do desejo enquanto dava as boas vindas com os braços abertos… E ela falava de impostos. Incrível.

-De fato - continuou uma vez que tomou o vinho e começou a cortar com delicadeza um pedaço de brócolis, resulta-me muito mais difícil conseguir bulbos a um preço decente.

-Quer que tente trocar as coisas apresentando uma nova moção de lei no Parlamento? -Perguntou arrastando as palavras, antes de esboçar um sorriso-. Eu não gostaria que seu negócio se prejudicasse.

Ela chegou para trás de repente, com os olhos abertos, arregalados.

-Nem sequer tinha-me ocorrido isso excelência, respondeu ao ponto, surpreendida e ruborizada, sem dar-se conta de que lhe estava tirando o sarro-. Quero dizer…, bom, jamais foi minha intenção me aproveitar de sua posição.

Will se apoiou no respaldo da cadeira e a contemplou sem olhares enquanto girava sua taça entre os dedos.

-Aproveitar-se de minha posição? -Repetiu em voz baixa-. Isso soa o mais intrigante, sem dúvida.

Suas bochechas se tingiram de cor, e aquela maldita pérola resplandeceu entre seus peitos quando ela se moveu com desconforto em seu assento. A fim de ocultar seu aparente nervosismo, tomou um gole de vinho. Apoiado no braço da cadeira, William avaliou sua reação e começou a arranhar o queixo muito devagar; estava desfrutando do lindo.

Depois de limpá-los lábios dando uns golpes com o guardanapo e de sorrir com educação ao criado que lhe tinha retirado o prato e lhe tinha devotado mais vinho, Vivian seguiu adiante como se ele não houvesse dito nada.

-Só me dava conta do muito que tinham subido os impostos graças ao Padre James, que mencionou em seu sermão do domingo as dificuldades às que se vê submetida à classe trabalhadora. Não estava segura de o senhor se teria informado…

-Não vou à igreja - interveio ele de repente com voz mais séria.

Ela enrugou a frente e inclinou a cabeça um pouco.

-por que não? -perguntou com absoluta sinceridade.

Era óbvio que Vivian não o tinha previsto, e isso fez que Will se sentisse ainda mais incômodo. Inclinou-se para diante e enlaçou as mãos sobre a beira da mesa.

-Porque meus pecados vão além de toda redenção, recorda-o? Por que ia à igreja se já estou condenado?

Ela esteve a ponto de soltar uma exclamação. Will pôde apreciar a comoção em seus olhos, dois lagos escuros que refletiam a luz das velas que havia ao redor. O silêncio reinou na estadia durante um alguns segundos, até que um dos criados que se encontrava ás suas costas limpou garganta para lhes recordar - ou ao menos a ela - que não estavam sozinhos.

Não obstante, e para sua mais absoluta incredulidade, em lugar de acovardar-se ou lhe pedir que partisse como teria feito qualquer outra dama, ela se endireitou na cadeira de repente e pegou a taça de vinho uma vez mais.

-Tolices - replicou olhando-o aos olhos-. Não estou de acordo absolutamente. Acredito que o melhor seria que não escutasse as fofocas das pessoas, excelência. É precisamente você quem deve dar amostras de sua inocência, e não esconder-se da sociedade como se fora culpado. Apartar-se da igreja só lhe faz parecer mais aterrador. Assistir a missa faria pensar a todo aquele que estivesse ali que é inocente além de toda dúvida. O fato de que cometeu o delito ou não é irrelevante. Isso fica entre você e o Criador. -Depois disso, tomou um último gole de vinho, alisou as saias e murmurou com um sorriso-: Acredito que já estou preparada para a sobremesa.

Não lhe tinham jogado uma reprimenda semelhante fazia muitos anos, e para falar a verdade encontrava um tanto desconcertante que ela falasse com semelhante descaramento a um membro da aristocracia. Entretanto, o mais destacável era que lhe estava custando um enorme esforço de digerir semelhante declaração, e a muitos níveis diferentes, assim deixou as brincadeiras e as réplicas engenhosas de lado enquanto refletia sobre o que ela havia dito.

Em todos os anos que tinham passado do julgamento, jamais lhe tinha ocorrido contemplar sua absolvição dessa perspectiva. Não obstante, supôs que ela tinha razão. Ocultar-se da sociedade só conseguiria perpetuar os rumores a respeito de sua culpabilidade. Contudo, era um indivíduo retraído por natureza. Não se imaginava alternando com a elite, sem ter em conta se o consideravam culpado e o condenavam pelo assassinato ou não.

Entretanto, o que mais lhe tinha surpreendido era Vivian, essa mulher que estava sentada tão perto dele: seu aspecto, seu aroma, seu comportamento. Era como uma deusa formosa, arrogante e distinguida, com uma língua afiada que não lhe irritava, mas sim bem lhe excitava. Will tinha perdido a vontade de tomar sobremesa.

Depois de inspirar profundamente, afastou sua cadeira da mesa e ficou de pé atrás dela, perguntando-se se Vivian se precaveria do fato de que tinha uma ereção e que as calças quase não conseguiam ocultar.

-Gostaria de passear comigo, Vivian? -perguntou com sutil apresso.

Ela levantou a vista para olhá-lo no rosto com expressão confundida.

-Agora?

Por desgraça, parecia não havê-lo notado. Não importava. Demoraria pouco em apreciar sem problemas o muito que a desejava.

-Agora - repetiu ele.

Um dos criados se aproximou imediatamente para ajudá-la a ficar em pé, algo que ela fez sem mais comentários. Will caminhou para o extremo da mesa e a aguardou ali com o braço em alto até que ela terminou de alisar as saias e se aproximou dele com as costas rígidas. Depois de colocar a quente mão feminina sobre o antebraço, observou-a durante uns momentos e se fixou em quão adorável parecia seu rosto à luz das velas e no brilho de incerteza que havia em seus olhos. Até apesar da ameaçadora nuvem de chantagens e enigmas que pendia sobre eles, reconfortava-lhe tê-la ali, e jamais tinha experimentado essa sensação na presença de uma mulher.

Conduziu-a fora do refeitório sem trocar palavra e atravessou a sala de música para dirigir-se por volta das portas para os trilhos do jardim onde a tinha beijado uns dias atrás.

-Sabe o que é o que me parece mais estranho, minha senhora? -perguntou enquanto caminhavam juntos pelo atalho pavimentado, longe da casa principal.

-Consta-me que nem sequer poderia chegar a imaginá-lo - respondeu com suavidade, ao mesmo tempo em que elevava o rosto e fechava os olhos para desfrutar da fresca brisa noturna.

Will se deteve um momento, absorto.

-Parece-me muito estranho que jamais tenha tornado a casar-se - murmurou.

Notou uma débil vacilação em seu passo firme, mas não lhe ofereceu nenhuma explicação. E ele queria uma explicação.

-Resulta-me muito difícil acreditar que não tenha pretendentes. -Tratou de repensar a questão para obter uma resposta.

Vivian suspirou e se deteve por fim para contemplar o vasto oceano que não conseguia ver bem na escuridão da noite.

-Nunca desejei ter nenhum pretendente - admitiu afinal.

Will se virou para olhar seu rosto, mas sua expressão ficava escondida entre as sombras criadas pelas luzes da casa.

-É uma resposta bastante ambígua.

Ela afastou a mão de seu braço e, sem dar-se conta, começou a retorcer a pérola que se afundava em seu decote com o polegar e o indicador.

-Suponho que sim.

Will conteve sua irritação e colocou as mãos nos quadris, por debaixo do casaco.

-Alguma vez sentiu falta do tipo de relação física que vai ligada ao matrimônio? Como é possível?

Era evidente que se sentia incômoda ante um tema tão delicado.

- Estive muito ocupada - respondeu com um encolhimento de ombros.

Essa resposta não o agradou. Era muito evasiva, e ela sabia muito bem.

-Muito ocupada para desfrutar dos prazeres que somente um homem pode lhe proporcionar? -inquiriu de maneira mais direta.

Ela retrocedeu um passo e cruzou os braços à altura de peito.

-Excelência, não acredito que…

- Por que te nega a me chamar Will?

Não conseguiu ocultar a irritação de seu tom, mas a essas alturas já não queria fazê-lo.

Vivian levou uma mão à frente; a outra, entretanto, seguia brincando com a pérola que jazia entre seus erguidos peitos. Não podia fazer a mínima idéia do que esse ato irrefletido estava fazendo com ele. Will teve que abrir mão de toda sua força de vontade para resistir o impulso de agarrá-la e estreitá-la entre seus braços.

- Não acredito que seja apropriado fazê-lo - ela admitiu em voz baixa, passado um momento.

Will meneou a cabeça ao escutar uma resposta tão absurda.

-Não crie que seja apropriado apesar de que lhe pedi isso e de que estamos aqui a sós?

Ela o olhou, embora Will não pudesse interpretar a expressão de seus traços, já que as luzes da casa deixavam às escuras seu rosto.

-Você é um duque - afirmou, como se ele tivesse esquecido esse fato.

Will passou os dedos pelo cabelo em um gesto de impaciência.

-Também sou um homem, Vivian.

Ela soltou um suspiro antes de responder.

-Sou muito consciente disso.

-Seriamente?

A mulher permaneceu imóvel, olhando-o.

Will escolheu esse instante para tocá-la. Com muito cuidado, elevou uma mão e a colocou sobre os dedos femininos que cobriam a pérola, e de passagem apoiou a palma sobre a pele cálida de seu decote. Deleitou-se com a tormenta de sensações que o atravessaram quando sentiu os batimentos alucinados do coração dela e o ritmo rápido de sua respiração.

-Sabe que vou fazer-te amor - disse com voz grave e rouca.

Ela aspirou o ar entre dentes, mas não se afastou algo que Will achou gratificante.

-Sim - ela admitiu em um sussurro.

Sem apartar o olhar de seu rosto em sombras, deslizou o polegar sobre sua pele quente e o introduziu com suavidade sob a borda do vestido para lhe acariciar o seio perto do mamilo.

-Não somente - adicionou, sentindo que sua respiração começava a ficar irregular também-, resultar-me-ia do mais triste e incômodo que gritasse meu título e não meu nome enquanto te faço amor.

Nesse instante ela pôs-se a tremer, e Will pôde notar o estremecimento que sacudiu seu corpo. Já bastava de preliminares. Tinha deixado bem claro seu objetivo.

Sem deixar de lhe aferrar a mão que tinha sobre os peitos, inclinou-se para diante e se apoderou de sua boca de uma maneira muito mais apaixonada que a primeira vez. Vivian deixou escapar um suave som gutural ante o primeiro contato, mas não se afastou.

A timidez sem resistência e a ternura subjacente ao nervosismo que mostrava fizeram que as vísceras do Will cobrassem vida. Tinha resultado muito duro conter-se, negar o impulso de sentir, e a partir desse momento desfrutaria do prazer de estar com uma mulher que o desejava além de toda dúvida, apesar de seu passado.

A sós no jardim, envoltos pela suave brisa do mar e o doce perfume das flores, pressionou-a em busca de mais, desejando que ela se abrisse a ele e aceitasse os prelúdios do êxtase que estava por chegar. Estirou o braço por detrás de suas costas e estendeu sua enorme mão sobre sua coluna para empurrá-la para ele.

Provocou-a com a boca sem forçá-la e ela seguiu sua iniciativa, rendendo-se progressivamente ante as sutis tentativas. Will gemeu quando lhe percorreu o lábio superior com a ponta da língua, e conteve o impulso de agarrá-la pelos braços, pelo cabelo e tudo, para levá-la até a cama de sua habitação ou para o atalho que baixava até a areia da praia.

De repente, sentiu que Vivian lhe rodeava o pescoço com o braço a fim de entregar-se ainda mais ao momento. Procurou a língua dela com a sua e a sugou levemente enquanto ela gemia e se apertava contra a mão que jazia sobre seu peito.

Ela o necessitava já, desejava-o por inteiro. Mal consciente de que Vivian lhe tinha enredado os dedos no cabelo, deslizou a mão sobre o vestido para lhe cobrir o peito, apertar-lhe brandamente e acariciar esse mamilo que não podia sentir, mas que se imaginava ereto e sensível em todo seu esplendor.

A respiração de Vivian começou a voltar-se tão irregular como a sua; a forma em que devorava sua boca fez que sua ereção crescesse até tal ponto que desejou afundar-se nela imediatamente. Estreitou-a contra si quanto foi possível, amaldiçoando todas as camadas de tecidos que lhe impediam de notar o calor de sua pele. Ela não rechaçou as carícias, e começou a devorar seus lábios com um desejo que já não conseguia controlar.

Will deslizou a gema do polegar uma e outra vez sobre o mamilo coberto de tecido, obtendo que ela ofegasse com suavidade contra sua boca enquanto se estremecia entre seus braços e se apertava contra ele com crescente ardor. Não obstante, quando sentiu de novo sua língua no lábio, soube que não poderia agüentar mais sem chegar até o final. Tinha passado muito tempo.

Com um grunhido que refletia a mescla de paixão e frustração que sentia, afastou a boca dela pouco a pouco para lhe dar tempo de entender que estava pondo fim ao beijo, que tentava dominar o fogo que ardia em seu interior antes que o consumisse e reduzira a cinzas o pouco autocontrole que ficava.

Vivian não queria apartar-se dele, e durante uns segundos William se viu obrigado a retroceder enquanto ela seguia depositando diminutos beijos sobre sua boca, seu queixo e sua bochecha.

-Vivian… - suspirou ao mesmo tempo em que a sujeitava pelos ombros, alarmado pela espontaneidade de suas doces carícias.

Ela não pareceu ouvi-lo a princípio, mas pouco depois baixou a cabeça de repente, deu um passo vacilante para trás e levantou a mão para cobrir boca.

Mantiveram-se afastados uns minutos, enquanto suas respirações se regularizavam e recuperavam a prudência o suficiente para escutar o sussurro da fresca brisa noturna entre as folhas das árvores que os rodeavam. Will não sabia muito bem o que dizer, mas se negava a deixá-la partir sem falar com ela.

- Quando? - murmurou Vivian finalmente, sem tirar dedos da boca.

Will compreendeu a que se referia, embora lhe surpreendesse que ela tivesse falado em primeiro lugar. Apesar de que nunca antes lhe tinha importado, com essa mulher era essencial escolher o momento oportuno.

Usou toda sua força de vontade para dominar o desejo que ainda o embargava.

- Quando estiver preparado.

Ela elevou a cabeça imediatamente para estudar seu rosto.

- Quando… quando estiver preparado? - repetiu com voz confundida.

Will aspirou com surpreendente calma, e a seguir adicionou com segurança:

-Quando aceitei entregar-te o manuscrito em troca de sua companhia, Vivian, falava muito sério. Senti falta durante anos de ter uma mulher em minha vida. - Agradou-lhe em extremo ver que ela não se afastava quando estirou o braço para lhe acariciar a bochecha com os dedos - Espero que não acredite que procurava um simples encontro. Significa muito mais para mim que a efêmera diversão de uma noite na cama.

A sinceridade do comentário lhe arrancou uma exclamação afogada, e em seguida sacudiu a cabeça ligeiramente, como se tratasse de assimilar a profundidade das implicações. Por fim, levou as mãos ao ventre e se afastou um passo dele.

Will deixou cair as mãos pelo corpo e sentiu que o desespero começava a apropriar-se de suas vísceras enquanto aguardava que ela o rechaçasse.

Por fim, Vivian girou a cabeça para contemplar o oceano.

- Quando você gostaria que eu voltasse?

O alívio que experimentou nesse momento foi evidente.

- Enviar-te-ei uma mensagem - respondeu, contendo um sorriso.

Ela demorou uns segundos para fazer um gesto de assentimento, e pouco depois baixou os braços para endireitar-se com elegância uma vez mais.

- faz-se tarde, milorde.

- Muito certo - replicou ele sem inflexões de voz -. Farei que meu chofer te leve a casa.

Esperava que ela desse a volta e se afastasse dele nesse mesmo instante, mas não o fez. Em lugar disso, avançou um par de passos em sua direção e se deteve frente a ele antes de lhe colocar a palma da mão sobre o bolso da camisa, sobre o coração.

Elevou a vista para olhá-lo aos olhos.

- Will… - sussurrou.

E então recolheu as saias e partiu dali, deixando-o atônito em seu enorme e escuro jardim.

 

- Clement Hastings está aqui, excelência. Diz que é importante.

Will estava sentado atrás da escrivaninha durante o que lhe tinha parecido horas e essa interrupção inesperada chegou num momento muito oportuno. Necessitava de descanso. E posto que tivesse passado uma semana sem receber notícias, de repente se sentiu impaciente.

- Tragá-lo aqui imediatamente, Wilson - ordenou ao tempo que apoiava as costas no respaldo da cadeira para estirar-se. Em seguida ficou em pé para receber seu convidado.

O investigador não demorou em aparecer diante dele com umas calças a raias de cor ameixa e Borgonha e, algo do mais estranho nele, uma singela camisa de seda branca. Também tinha posto um colete quadriculado escocês de um desafortunado tom verde. Will tratou de passar por cima disso. O homem tinha um gosto do mais pitoresco. Se a gente podia chamá-lo «gosto».

-Boa tarde, excelência - saudou-o Hastings antes de esboçar um sorriso educado e de realizar uma reverência formal.

-Hastings. - Will lhe fez um gesto para que tomasse assento na cadeira que estava acostumado a escolher e o homem o fez. O duque optou por permanecer de pé, já que se sentia um tanto afogado e bastante inquieto, dadas as circunstâncias. Tinha passado uma semana desde que Vivian jantou com ele e o beijou com seus deliciosos lábios, e desde esse dia não tinha recebido nenhuma informação importante por parte do investigador. Nesse momento estava mais que disposto a avançar e desejava saber algo mais com respeito às intenções da dama antes de seguir adiante com a sedução.

Hastings ajustou o colete e levou a mão ao bolso para tirar suas notas: uma magra caderneta de capa preta que tinha o tamanho da palma de sua mão. Depois de abri-lo, começou sem mais cerimônias.

-Além de seu trabalho nos cenários, Gilbert Montague é um personagem bastante aborrecido… e não pretendo fazer nenhum trocadilho, é obvio. - riu de sua própria brincadeira e ajustou suas grosas pernas debaixo da mesinha de chá antes de continuar-. Durante vários anos trabalhou como ator no continente, e a maioria das pessoas o considerava bastante talentoso. As obras nas que tomou parte aqui em Penzance, e antes em Truro, conseguiram uma boa arrecadação, e sua companhia de atores, apesar de sua… índole foi bem recebido. Ainda devo recolher bastante informação com respeito a seu passado, como onde se criou seus contatos, seus amigos ou algum companheiro de colégio de sua juventude, mas tenho dois homens do escritório de Londres trabalhando nisso. É muito possível que trocou de nome em algum momento, algo que eu considero provável, já que Montague, segundo a pouca informação que conseguimos até agora, apareceu de um nada no círculo de atores faz uns sete anos.

Hastings se deteve um momento, ao que parecia, com a intenção de lhe dar tempo para assimilar as recentes notícias. Will observou o chão enquanto lutava contra o impulso de ficar a caminhar de um lado a outro e apoiou o quadril contra o escritório uma vez que decidiu que não devia apressar-se a tirar conclusões.

O investigador limpou garganta de maneira forçada e arranhou a parte posterior da cabeça.

-Há algo mais, excelência.

Will elevou as sobrancelhas e olhou ao homem, quem de repente parecia vacilante.

-Continue então - ordenou-lhe.

Hastings franziu os lábios e assentiu.

-Uma das coisas que tenho descoberto e que, embora considere bastante estranha, pode ser que não tenha nenhuma importância, milorde, é o fato de que esse tipo partiu para o continente apenas cinco dias antes da final de seu… bom… de seu julgamento, e que retornou faz um ano, momento no que se apressou a ingressar nos círculos de representantes que somente faziam excursões em Cornwall. Os cenários de Londres teriam sido uma escolha muito mais apropriada para um ator tão respeitado, diria eu, e isso faz que o momento escolhido e seu mais que questionável emprego pareçam bastante suspeitos, quase surpreendentes. Contudo, é provável que não tenha relação com o senhor, embora de todos os modos acreditei que devia sabê-lo.

Will sentiu um gélido estremecimento que lhe percorria o corpo diante da menção do julgamento, cujas lembranças lutava por manter a raia em cada instante que permanecia acordado. Escutar que esse ator, Vivian e o manuscrito podiam ter alguma conexão com seu passado, mesmo que fora remota, avivou a sensação de desprezo que tanto tinha lutado por reprimir e ressuscitou o horror desses dias terríveis e dessas noites geladas que nesse instante pareciam tão longínquas no tempo.

Por Deus, o que teria dado para poder livrar-se de tudo aquilo…

- Excelência?

Will elevou a cabeça de repente e observou o investigador, quando se deu conta de que perdeu algo.

- Sinto muito, Hastings. - esfregou o rosto com a palma da mão, ergueu as costas, ficou tenso e começou a caminhar com os braços ao redor do corpo para as estantes que havia a sua esquerda-. O que estava dizendo?

- Dizia-lhe - repetiu o homem - que tinha reservado as melhores notícias para o final.

- As melhores notícias? - Will franziu o cenho e virou a fixar a vista em seu convidado. Não tinha acabado já esse maldito pesadelo?

- Sim, milorde, há uma coisa mais a destacar - respondeu Hastings em tom sério, como se lhe tivesse lido os pensamentos-. Fiz que seguissem a esse homem todas as noites ao sair do teatro, e cada uma dessas noites, estes últimos dias, seu itinerário foi mais ou menos o mesmo. Está acostumado a freqüentar um bar de New Street, próximo do porto, chamado The Jolly Knights, «Os alegres cavalheiros», onde ao que parece sacia seu apetite de comida, bebida e em ocasiões… de mulheres, depois do qual se retira à habitação que alugou no hotel Regent. Ontem à noite, entretanto, fez algo diferente.

Will entrecerrou os olhos.

-reuniu-se com alguém.

Hastings arqueou as sobrancelhas, como se não acreditasse que o duque pudesse chegar por si só a essa conclusão.

-Para falar a verdade, assim foi. Essa é a razão principal pela que vim hoje a visitá-lo, milorde. Não estava ali para vê-lo, é obvio, mas meu agente acredita que esse encontro foi muito incomum.

Will começou a caminhar muito devagar para a cadeira que havia no lado oposto.

-Incomum? Por quê?

Hastings tomou um momento para passar a página de sua caderneta.

-Montague se sentou no lugar que escolhe sempre, mais ou menos no fundo da estadia, durante aproximadamente… quarenta e cinco minutos, momento no qual foi abordado por uma dama.

-Uma dama? Não se tratava de uma mulher normal?

-Não, milorde; conforme acreditam, tratava-se de uma dama de certa fortuna, bastante baixa e loira, que foi ao lugar expressamente a vê-lo. Levava um casaco negro debruado em pele com capuz, de boa confecção e de uma malha da melhor qualidade. E se movia com certo ar de arrogante e majestoso.

Will se deixou cair na cadeira de balanço e notou que o couro se adaptava com facilidade a seu peso. Isso sim que era uma notícia.

-Tem descoberto quem era ela?

Hastings sacudiu a cabeça, e sua testa se encheu de umas profundas rugas que punham clara sua idade.

-Não, ainda não. Quero solicitar certa informação sobre ela para proporcionar-lhe, mas ainda não temos nada. Meu agente não conseguiu segui-la quando partiu do lugar, embora conforme parece tinha levado sua própria carruagem. -Esboçou um sorriso irônico antes de acrescentar - Entretanto, a breve conversação que manteve com o ator e a reação que manifestou ele ao vê-la parecem muito interessantes. Acreditei que, embora não conhecêssemos sua identidade, você quereria sabê-lo.

Fascinado, Will se inclinou para diante e apoiou os cotovelos nos joelhos.

-Do que falaram?

-Bom, não sabemos com exatidão, excelência. Falaram em sussurros a maior parte do tempo e ninguém pôde aproximar-se o bastante para ouvi-los, mas conversavam como se conhecessem muito bem e, por estranho que pareça, durante só cinco minutos. Em certo momento, Montague disse ou fez algo que a ela pareceu não gostar e a mulher ficou em pé de repente, bastante irritada para lançar a cadeira para trás uns trinta centímetros. Falaram um momento mais e depois ela partiu.

-Conseguiu seu homem vê-la bem?

Hastings se esfregou o queixo enquanto meneava a cabeça em um gesto negativo.

-Por desgraça, não. Quase não pôde lhe ver o rosto, embora lhe parecesse atrativa e bastante jovem, provavelmente menos de trinta anos. O mais intrigante, é obvio, é que resultava evidente que a mulher estava desconjurada em um lugar como The Jolly Knights, e isso significa, a meu parecer, que é uma dama de bom berço. Arriscou-se muito entrando em um bar sozinha para reunir-se com alguém, o que faz que o encontro pareça ainda mais significativo.

Isso sem dúvida pensou Will.

-Isso é tudo?

-De momento sim, excelência.

Will permaneceu sentado em silencio durante um bom momento, refletindo sobre essas novas peças do quebra-cabeça que menos de duas semanas antes tinha alterado o que até então tinha sido sua insípida e rotineira vida. Um quebra-cabeça que tinha levado até ele à formosa viúva Rael-Lamont.

Ficou em pé de novo, incapaz de resistir ao desejo de caminhar. Nesse momento mais que nunca desejava chegar ao fundo da questão, já que cada vez mais se sentia inquieto e desassossegado. Além disso, começava a preocupar-se, e isso não gostava. As coisas estavam acontecendo muito rápido para seu gosto. Virou-se para o Hastings, que como sempre permanecia sentado em silencio em sua cadeira, à espera de suas instruções, e contemplou o chão com ar pensativo.

- Quantos homens têm trabalhando nisto? -perguntou sem apartar o olhar do grosso tapete que tinha sob os pés.

- Quatro excelência.

- Recompensar-lhe-ia com acréscimo se dobrasse esse número - assinalou olhando a Hastings nos olhos.

-Poderia fazê-lo, milorde, mas para falar a verdade eu não gostaria de assustar a esse homem. Parece-me que já sabe que o estão vigiando…

- O que lhe faz pensar isso? - interrompeu-o Will em tom preocupado.

Hastings suspirou e se afundou no interior de seu colorido colete antes de fechar a caderneta e voltar a guardar-lhe no bolso.

- Não sei com exatidão. Na realidade se trata de um pressentimento. O tipo não está nervoso e não trocou seus costumes diários no mínimo. Entretanto, acredito que em muitos aspectos… o espera. - Inclinou a cabeça e adotou uma expressão ardilosa -. Quase me dá a impressão de que quer chamar a atenção, de que está esperando que algo ocorra. O mais interessante de tudo foi sua reação ante a mulher. Ao vê-la, olhou a seu redor com nervosismo, como se lhe preocupasse que alguém pudesse vê-los conversando. -Deixou escapar um longo suspiro antes de concluir-. Suponho que seria razoável assumir que trabalham juntos, embora disso se trata, ela se comporta de maneira estúpida e Montague sabe. Não acredito que os vejamos juntos de novo.

Will assentiu para mostrar seu acordo.

-É possível que ela o esteja utilizando, ou lhe pagando, para conseguir o manuscrito.

-É possível, sim.

-Nesse caso, Hastings, a chave é a mulher. Talvez nos dê mais respostas que o ator, suponho de que consiga encontrá-la. Quero que contrate quatro homens mais para que comecem a investigá-la hoje mesmo.

-Certamente, excelência. Parece-me uma boa linha de atuação, e começaremos por seu casaco. Tinha um aspecto bastante incomum e parecia de muito boa qualidade. Cara. Há muito poucos alfaiates que recebam pedidos como esse. Acredito que descobriremos que essa mulher é alguém com uma grande fortuna, talvez inclusive se trate de um membro da nobreza…, embora não posso imaginar o que poderia ter em comum um membro dessa classe social com um ator de baixo calão - Hastings ficou em pé e puxou para baixo do colete -. Por-me-ei em contato com o senhor logo que tenha algo que lhe informar excelência.

Will assentiu a modo de resposta, e o investigador lhe fez a reverência de rigor e caminhou para a porta. O homem se deteve ali e virou a vista atrás.

-Permitir-me-ia fazer um comentário atrevido, milorde?

Will cravou o olhar nele, surpreso.

-Certamente. Do que se trata?

Hastings vacilou.

-Excelência, esse homem é muito inteligente, e a meu parecer se dá excepcionalmente bem traçar planos e estratagemas. Não acredito que até agora se deu conta de que o estamos vigiando, mas eu não me apressaria a afirmar que Montague não tenha considerado a possibilidade de que o senhor pudesse contratar a alguém para fazê-lo. Por ser assim, é muito possível que nos esteja guiando para falsas conclusões. Eu andaria com cuidado, por estar em seu lugar, milorde, e recorde uma última coisa: esse homem ganha a vida fingindo.

«Ganha a vida fingindo.»

-Obrigado, Hastings. Mantenha-me informado.

Depois disso, o investigador partiu.

Absorto em seus pensamentos, Will se aproximou da janela e contemplou o oceano com o olhar perdido.

Cada vez que alguém mencionava a uma mulher baixa e loira se via afligido por imagens de Elizabeth que lhe provocavam um nó no peito e o afundavam no desespero. Esperava que algum dia pudesse recordar sua trágica morte sem o gosto amargo das mentiras. Esperava poder seguir adiante com sua vida algum dia.

De repente, a imagem da beleza amadurecida e serena de Vivian lhe veio à cabeça, e esboçou um sorriso.

Algum dia…

 

Face à umidade do ambiente, Vivian tomou assento com tanta delicadeza como foi possível no duro banco de madeira da igreja de Saint Mary e recolheu as saias para permitir que outros paroquianos pudessem sentar-se junto a ela. Essa manhã não tinha muita vontade de estar ali, e não se devia precisamente pelo calor. O sermão desse dia seria longo e tedioso, ao menos para ela, porque por desgraça lhe resultava em extremo difícil concentrar-se em outra coisa que não fossem o sabor e a suavidade dos lábios do Will Raleigh sobre os seus. E devia ser um pecado mortal pensar em algo assim na igreja. Mas isso não parecia detê-la. Segura de que Deus compreendia as debilidades da natureza humana. O organista começou a interpretar alguma peça solene que desconhecia e Vivian fechou os olhos, fingindo que estava imersa em uma prece ou desfrutando da beleza da música. Uma simples olhada às mãos que tinha enlaçadas no colo lhe teria permitido ver qualquer que estava tensa, e presa em escuros pensamentos.

Não desejava ir à igreja essa manhã, mas tinha se obrigado a fazê-lo porque devia reunir-se com o pároco James e com sua esposa essa mesma tarde a fim de solucionar o assunto dos acertos florais que teria que fazer para as bodas de sua filha, que se celebraria ao mês seguinte. Dada a situação, não podia ficar doente para uma coisa e não para a outra.

Justo no momento em que o coro começou a última toada antes da missa, escutou-se um murmúrio a seu redor, um murmúrio que foi crescendo com cada segundo que acontecia. Vivian abriu os olhos. O ritmo da melodia aumentou, até que a senhora Trister, a organista, pressionou a tecla inadequada e afogou uma exclamação. A música deixou de sonar. De repente, todo mundo virou o pescoço para o fundo da igreja e ficou boquiaberto, momento no qual Vivian compreendeu que o duque de Trent tinha ido à missa matutina do domingo.

Ela não deu a volta, e sem dúvida foi um engano, já que todos outros paroquianos que abarrotavam a igreja o tinham feito. E não demorou em dar-se conta de que ele trataria de sentar-se tão próximo dela como o fora possível. Jogou uma rápida olhada para o banco no que estava sentada, o quarto começando por diante, e observou que por sorte estava muito cheio para que alguém se sentasse com comodidade junto a ela, em especial um homem tão grande. Entretanto, tratava-se de um duque. Podia sentar-se aonde tivesse vontade, e o mais normal era que o fizesse no banco dianteiro. Contudo, e por alguma razão que não acertava compreender, Vivian sabia que não o faria.

Os murmúrios da multidão se acrescentaram e ela não pôde seguir reprimindo sua curiosidade. Precisava dar uma olhada.

Endireitou as costas em busca de aprumo e deu a volta para observar a entrada da igreja. Seu aspecto a deixou sem fôlego.

Estava erguido em toda sua estatura no meio do corredor central, frente ao pároco e os meninos do coro, com seu formoso rosto bem barbeado e o cabelo penteado para trás, longe desses preciosos olhos cor avelã que irradiavam confiança e uma fortaleza interna quase desafiante. Vestido de azul marinho, salvo pela camisa cor mel, com um traje caro de seda de um corte impecável que se adaptava extraordinariamente a sua enorme figura.

Com as mãos enlaçadas às costas, saudou o padre James com uma leve inclinação de cabeça e depois se enfrentou à atônita congregação antes de seguir avançando pelo corredor central em busca do assento apropriado.

Vivian se virou com rapidez para o altar, sem saber muito bem se desejava que ele se sentasse junto a ela ou não. Para falar a verdade, era ela quem o tinha animado a assistir à igreja, se «animar» era a palavra correta. Mas não queria que todos seus conhecidos a observassem se ele decidia falar com ela. Os rumores se estenderiam como a pólvora!

Escutou seus passos sobre o chão de madeira por cima da música do órgão, que tinha retomado sua melodia de uma maneira errática e desconjurada. De repente soube, sem a necessidade de olhar, que o duque se encontrava justo detrás dela. Não se moveu.

Quando ouviu o súbito sussurro de saias e corpos, teve a certeza de que se sentaria detrás, embora sem dúvida fosse a única que sabia que ele o fazia a propósito. Era o lugar idôneo para vigiar todos seus movimentos sem que ela pudesse passar por cima de sua presença.

O duque se ajoelhou para rezar, ou talvez somente para chateá-la com sua proximidade, e Vivian percebeu o aroma de sua colônia e sentiu o calor de seu fôlego sobre a pele nua do pescoço, que lhe punha arrepiada cada vez que respirava. Depois, em um sussurro apenas audível, escutou junto a sua orelha:

-De ter sabido o que eu estava perdendo…

Vivian desejou esconder-se debaixo do banco, já que todo mundo, absolutamente todo mundo, seguia olhando-o e fingindo que não o fazia. Notou que o calor subia às bochechas e que as palmas de suas mãos começavam a umedecer-se enquanto aferrava com força o leque que tinha no colo e rogava a Deus que ninguém mais o tivesse ouvido nem notado o quão perto ele estava da pele de seu pescoço. Mas se negou a responder e a olhá-lo por cima do ombro.

A música adotou um tom mais sombrio quando começou o hino, e o pároco e os meninos do coro caminharam muito devagar pelo corredor em direção ao altar para começar a missa. Logo que o padre James passou de comprimento, o duque se sentou em seu assento e Vivian se obrigou a não mostrar seu alívio com uma queda de ombros ou afundando-se no banco.

A música não deixou de soar até que todo mundo esteve sentado e o pároco se colocou no pódio. Tão escandalizada como todos outros, a senhora Trister tocava com veemência em uma tentativa por impressionar em certa medida o tão destacado membro da nobreza.

Por fim, o pároco limpou a garganta e reconheceu a presença do célebre convidado com uma inclinação de cabeça.

-Seja bem-vindo esta manhã, excelência.

Ouviram-se vagos murmúrios procedentes da congregação, mas o duque não disse nada.

Durante três quartos de hora, o padre James falou sem cessar sobre o pecado e a redenção, um tema de tudo inapropriado dadas as circunstâncias do ilustre assistente nobre. O pároco era consciente disso, já que gaguejou um par de vezes e suas bochechas permaneceram ruborizadas durante a maior parte do sermão.

Vivian teve sérias dificuldades para emprestar atenção, e o coro, que pelo geral não apresentava mal, parecia ter os mesmos problemas na hora de entoar. Estava claro que era um momento crucial na história recente da comunidade de Penzance, e todo mundo sabia.

Por fim escutou a última canção, deram-se as admoestações, pronunciaram-se as orações finais e a congregação pôde partir. Vivian não tinha nem idéia do que fazer.

 

Will contemplou o espetáculo com certa diversão. Sabia, é obvio, qual seria a reação das pessoas do povoado quando se dessem conta de quem era ele. Não lhe importava absolutamente. Seu único interesse era desconcertar Vivian, embora não estava seguro do por que queria fazê-lo. Simplesmente desejava.

Entretanto, devia admitir que estava nervoso e que o tinha estado no momento em que despertou essa manhã com a idéia de acudir nada menos que à igreja. Mas, isso lhe proporcionaria a oportunidade perfeita de observar à viúva Rael-Lamont em ação, por dizê-lo de algum jeito, e isso significava que desejava ver como se comportava dentro de seus círculos sociais. Ou talvez somente que desejava olhá-la.

Também encontrava bastante gracioso que ela o tivesse ignorado, já que era o único membro da congregação que não se virou para comer-lhe com os olhos quando apareceu. Por alguma razão desconhecida, havia-se sentido atraído para o lugar onde estava sentada. E esperava que ela tivesse desfrutado de sua proximidade tanto como ele da sua.

Reunia-se com o padre James de vez em quando, certamente, mas sempre em sua casa, nunca no povo. O fato de que o pároco tivesse tanto trabalho para pronunciar o sermão esse dia se devia a sua presença entre os assistentes e a que o sermão girava em torno do pecado. O comum tema parecia dirigido por volta dele em particular esse dia, e a todo mundo tinha resultado óbvio. Algo do mais inoportuno.

Entretanto, Will tinha aprendido a modificar sua maneira de pensar segundo a forma em que o aceitassem outros. Para os ali presentes era um assassino, e não havia nada que pudesse fazer nenhum indulto que pudesse conseguir, para lhes provar sua inocência.

Entretanto, Vivian tinha ido vê-lo, lutando contra seus medos, se é que de verdade o temia, e Will tinha desfrutado de sua companhia mais que a de qualquer outra mulher em muitos anos. Essa manhã tinha ido ali por ela, e não pelo pároco, a sensação de culpa ou de arrependimento…, e muito menos pelo sermão. Ir à igreja era algo assim como exibir-se, e o detestava. Entretanto, tinha conseguido sentar-se detrás dela durante quase uma hora e observar seus mais leves movimentos, tomar nota da forma de seu pescoço e de seus ombros, e inclusive perceber um parte do aroma que a caracterizava: uma mescla de calor, perfume e mulher. As sensações do momento não tinham feito mais que excitá-lo, e seguro que excitar-se na igreja era um pecado pior que algo que tivesse podido lhe fazer a sua esposa.

Depois do que pareceram várias horas, o coro entoou o hino final e as pessoas ficaram em pé para partir. Posto que tivesse vestido e se tomou o cansaço de acudir ali, Will se negava a desperdiçar a oportunidade.

Quando se afastou do banco, as pessoas se apressaram em apartar-se dele. Caso era devido a seu título ou ao desagrado que lhes inspirava, não sabia, mas por sorte isso lhe permitiu interpor-se entre Vivian e o caminho mais curto para a saída, em caso de que tentasse escapar dele.

Ela se virou por fim e Will pôde lhe ver o rosto. Pela primeira vez essa manhã, viu-se obrigado a reprimir um sorriso de satisfação.

A julgar por sua expressão, era evidente que sua presença ali a tinha desconcertado. Tinha as bochechas vermelhas e o cabelo recolhido em um coque de cachos, com algumas mechas soltas à testa e o pescoço a causa do sufocante calor. Mas seus olhos se cravaram nele com uma expressão muito peculiar. Atrevidos, intimidantes e intimidados por um tempo, deixaram-no fascinado.

Will pôde ver a fúria, a surpresa e inclusive certa alegria em seu semblante. E se havia algo que o divertia de verdade era incomodar Vivian.

-Senhora - murmurou ao mesmo tempo em que levantava um braço em sua direção.

Um par de damas que havia a seu lado deixaram escapar uma exclamação afogada; Vivian se limitou a abrir os olhos um pouco mais quando se precaveu de que ele desejava que tomasse seu braço e abandonasse a igreja em sua companhia. E dados sua situação e sua posição na comunidade, ela não podia negar-se. E não o faria.

Vivian Rael-Lamont caminhou junto a ele, presa a seu braço, entre o montão de corpos que se dirigiam para a entrada da igreja. Estava tensa e era evidente não o fazia nenhuma graça que a tivesse obrigado a adotar essa posição, embora se esforçasse por sorrir às pessoas que tinha ao redor como se não ocorresse nada incomum. Devia admitir que a admirava por isso.

A brilhante luz do sol os açoitou totalmente assim que se detiveram nos degraus principais da igreja. Ao fim, Will pôde inclinar-se para ela para lhe sussurrar ao ouvido:

-Obrigado por tudo.

Vivian inclinou a cabeça de repente para olhá-lo no rosto, e a irritação que se lia em seus olhos foi substituída rapidamente pela compaixão. Will não necessitava compaixão, e tampouco a tinha esperado, mas fez de tudo o que estava em sua mão para passá-la despercebido.

- Ah, senhora Rael-Lamont, alegro-me muito de vê-la nesta encantadora manhã de domingo.

Ambos se voltaram para uníssono ante semelhante intromissão. Evelyn Stevens lhes impedia o caminho para um degrau mais abaixo e os observava com interesse e um pingo de malícia em seus olhos azul claro.

Vivian afastou a mão de seu braço com tanta rapidez como se a tivessem golpeado.

-Senhora Stevens, é um prazer vê-la - comentou com afabilidade, como se estar junto a um dos mais célebres acusados de assassinato da década fora algo de tudo irrelevante.

Will se limitou a observar, e depois de uns instantes, muitas outras mulheres se situaram a seu redor, como galinhas atraídas pelo trigo que lhes arrojava.

Todas realizaram a reverência de rigor sem deixar de observá-lo com distintas expressões de assombro, preocupação e curiosidade. Entretanto, a intriga que despertava sua amizade com a viúva Rael-Lamont quase os fazia morder as unhas.

Will grunhiu para si mesmo, mas não disse nada; limitou-se a lhes devolver a saudação com a formalidade apropriada.

Vivian recuperou a confiança em si mesma quando as mulheres começaram a tagarelar entre elas, enquanto que seus maridos, que se mantinham a distância conversando com outros ou o observavam com as mãos nos bolsos e certo ar de desconforto, tratavam em vão de levar a suas mulheres longe dali. Entretanto, nenhum se dignou falar com ele, e Will aceitou isso como o que era.

-Soube que as rosas que havia no altar esta manhã eram enormes. Eram suas, senhora Rael-Lamont?

-Sim, a verdade é que as cultivei senhora Stevens - respondeu ela com um agradável sorriso - e o senhor e a senhora Weston as compraram para a missa de hoje. Acredito que pensaram que eram mais apropriadas para uma manhã ensolarada de verão.

-Certamente - conveio Evelyn Stevens com um sorriso afetado nos lábios-. É óbvio que tem você um gosto excelente.

-É sua… forma de ganhar vida, Evelyn - interveio a gordinha Elizabeth Boseley, que tinha conseguido ocupar dois dos degraus com sua corpulenta figura e suas saias volumosas.

Ninguém disse nada a respeito, embora todos se deram conta de que um comentário semelhante sobre uma mulher e seu trabalho pretendia ser cortante.

-Resulta-me o mais prazeroso trabalhar com flores e novelo, senhora Boseley - replicou Vivian com voz suave e encantadora-. É vivificante estar ao ar livre, trabalhar com as próprias mãos e conseguir que as pessoas de sua comunidade apreciem seus esforços.

Quase todos assentiram para mostrar seu acordo, sobre tudo, supôs Will, porque as pessoas deviam comportar-se com amabilidade ao sair da igreja.

Graces Tildair teve certos problemas para abrir seu guarda-sol, e todas a observaram como se o encontrassem fascinante, embora em realidade o que desejavam era evitar olhar para ele. Para Will importava um mais um cominho, é obvio. Quão único parecia notar nesse momento era o aroma do perfume de Vivian que arrastava a brisa. E posto que não pudesse tocá-la como desejava, esse aroma o estava matando.

Alguém pigarreou.

-Parece estar bastante… bem, excelência.

Will arqueou uma sobrancelha e olhou nos olhos da mulher a quem nem sequer reconhecia.

-Obrigado - disse sem mais.

Os murmúrios que os rodeavam começaram a dissipar-se à medida que os assistentes da missa se afastavam das escadas, a caminho de suas casas para o almoço dominical. Vivian, as damas que os rodeavam e ele, entretanto, ficaram onde estavam, como se a curiosidade que tinha levantado sua presença não lhes permitisse mover-se.

Por fim, a senhora Tildair conseguiu abrir seu ditoso guarda-sol e o olhou no rosto uma vez mais com um enorme e falso sorriso em seus envelhecidos lábios.

-Assim está melhor - disse.

Todas cravaram a vista nela.

-E como conheceu à viúva Rael-Lamont, excelência, espero não ser indiscrição perguntá-lo? -perguntou sem olhares.

Will notou que Vivian ficava tensa ao seu lado. Respirou fundo e entrelaçou as mãos às costas.

-Ela me vende as flores que adornam minha propriedade, é obvio.

-Ah, claro - murmurou alguém.

A senhora Boseley riu entre dentes.

-Que valente é você, senhora Rael-Lamont.

Uma das mulheres ofegou ao escutar o comentário, carente de todo tato. O ambiente se tornou gélido até apesar de que o sol de verão lhes açoitava a pele.

Will não sabia se a mulher o havia dito com malícia ou não, embora suspeitasse que sim. Acostumou-se às grosserias ao longo dos anos, mas não o fazia mais mínima graça as escutar na presença de Vivian. Desde que não estivesse tão interessado em descobrir qual seria a reação dela ao vê-lo em público, como conversar com seus conhecidos, não teria aparecido em um lugar tão concorrido. Nesse momento se deu conta de que tinha cometido um engano colossal. Não deveria ter assistido a missa nesse dia.

- Sinto muito, senhora Boseley - desculpou-se Vivian com absoluta sinceridade - mas não entendo o que quer dizer. Por que me considera valente?

Essa réplica desconcertou a todos os presentes, e também ao duque. O guarda-sol da senhora Tildair caiu para trás e ela se viu obrigada a fazer um enorme esforço para encaminhá-lo de novo; Evelyn Stevens deu um passo a um lado e baixou a vista para o chão, como se tivesse perdido algo; a mulher a quem não reconhecia tossiu e cobriu a boca com as mãos; o marido de outra delas deu uns golpezinhos no ombro a sua esposa.

- Estou faminto, querida - disse.

A dama em questão afastou a mão do ombro sem olhá-lo, absorta na conversação.

Reinou o silêncio durante um bom momento, e Will se limitou a observar Vivian; em sua cabeça se mesclavam as imagens de seu delicioso corpo e a admiração que lhe provocava sua ingenuidade. Fixou-se em que seu brilhante cabelo de cor mogno, pulcramente penteado, que resplandecia sob o sol, e não pôde evitar perguntar-se no que estaria pensando ela. Dava igual o que dissesse ou fizesse; estava claro que essa mulher gostava dele.

A senhora Boseley, ao dar-se conta de que tinha metido os pés pelas mãos, pôs-se a rir com evidente desconforto e levou uma de suas gordas mãos cheias de anéis ao peito em um gesto defensivo.

-Não pretendia ser desagradável, certamente - declarou com afetada veemência-. O que ocorre é que não vi a sua excelência em nenhum ato social há anos, e aqui está hoje, acompanhando-a.

Vivian pareceu de acordo com a débil explicação da mulher.

-Ah, isso são bobagens, senhora Boseley. Eu já o conhecia, posto que lhe levo flores a sua casa, e ele não tem feito mais que sentar-se detrás de mim em uma igreja abarrotada. Isso é tudo.

Will encontrou mais desconcertante ainda que falassem dele como se não estivesse ali. E não tinha a menor intenção de interromper. A coisa estava se pondo mais divertida, embora estranhamente incômoda.

-Entretanto, com todos meus respeitos, senhora Rael-Lamont - continuou a mulher-, o sermão que deu o padre hoje do púlpito parecia… o mais apropriado dado às circunstâncias.

Vivian se deu um passo para trás e sacudiu a cabeça muito devagar.

-A que circunstâncias se refere?

A senhora Boseley teve a delicadeza de ruborizar-se.

-Consta-me que não faz falta lhe dizer que o pároco falou sobre o pecado, senhora Rael-Lamont. Não estava escutando?

-Todos pecamos - replicou Vivian imediatamente, em um tom carregado de desdém-. Atrever-se-ia a senhora a lançar a primeira pedra, senhora?

A senhora Boseley afogou uma exclamação e abriu a boca de par em par enquanto se aferrava o pescoço em um gesto dramático. As demais damas se limitaram a contemplar a Vivian com os olhos abertos arregalados, atônitas ante sua ousadia e incapazes de mover-se ou de falar.

Finalmente, Will decidiu que tinha chegado o momento de intervir para lhes recordar a todas que o pecador se encontrava ali.

Pigarreou um pouco e esfregou o pescoço a fim de livrar do suor causado pelo calor, cada vez mais cansativo.

-Não é certo, minhas senhoras -começou muito devagar -, que se Deus não nos tivesse dado a capacidade de cometer um pecado com liberdade nós não poderíamos saber o que é pecar e, portanto jamais aprenderíamos a não fazê-lo?

Foi como se de repente tivesse aparecido um fantasma em meio da Sociedade Feminina para a Melhor Interpretação das Sagradas Escrituras, ou em qualquer outra reunião bem-intencionada de fêmeas. Todas levantaram a vista para observá-lo em silêncio, com diferentes graus de horror.

Will sorriu com satisfação.

-Seria justo então dizer que um filho do universo aprende o que é aproximar-se de Deus formando parte do pecado e sendo o bastante afortunado para observar como pecam outros? Somente conseguimos nos redimir quando reconhecemos o pecado em nós mesmos e rogamos o perdão. Assim, acredito que o pecado é um produto natural do universo, criado por Nosso Senhor com a intenção de nos ensinar.

Isso fechou a boca a todas, incluída Vivian, que nesse momento parecia olhá-lo com tanto desconcerto como o resto. Will esteve a ponto de soltar uma gargalhada.

Vivian foi primeira a recuperar-se. Depois de endireitar as costas e aferrar o leque com ambas as mãos, levantou a vista e o olhou nos olhos com ar pensativo, enquanto movia a cabeça muito devagar em um gesto negativo.

-Não tinha nem a mais remota idéia de que fora você um filósofo, milorde.

As demais damas a olharam boquiabertas.

Will assentiu com a cabeça.

-Tenho poucas coisas que fazer além de ler, senhora Rael-Lamont.

-Pois faria bem em ler as Sagradas Escrituras, excelência - repreendeu-o a senhora Boseley.

Ele arqueou as sobrancelhas.

-E quem diz que não o tenho feito já, senhora?

O grupo completo pareceu retorcer-se dentro dos espartilhos, depois do comentário.

Will virou para concentrar-se em Vivian. Um sorriso lânguido se desenhou nos lábios dela.

-Bem dito, milorde - afirmou ela com amabilidade-. Seria tão amável de me acompanhar até a porta de minha casa? Vivo à volta da esquina e eu adoraria escutar alguma de suas interpretações filosóficas sobre nossa Sagrada Bíblia.

O tinha pedido educadamente, mas havia um brilho desafiante em seus olhos. Will não sabia o que sentia ela nesse momento, e decidiu não arriscar-se.

-Será um prazer, senhora Rael-Lamont.

-Estupendo. -virou-se para as mulheres que conhecia e as saudou com uma inclinação de cabeça-. Vê-las-ei todas na terça-feira, na reunião de chá da senhora Safford.

Uma por uma, todas lhe fizeram uma reverência, mas nenhuma disse nada, provavelmente porque se ficaram sem fala. Para ele, depois de todos os anos de solidão, esse momento não teve preço.

-Que tenham um bom dia, senhoras - disse; em seguida ofereceu o braço a Vivian uma vez mais, e ela o aceitou sem reservas.

Começaram a caminhar rua abaixo juntos, o que conseguiu que mais de um girasse a cabeça com uma expressão de assombro ao ver que a viúva local, que ganhava a vida vendendo flores, ia do braço do duque de Trent. Para Will foi uma sensação maravilhosa, uma sensação de liberdade que não tinha experimentado em anos.

Passearam em silencio até que dobraram a esquina para continuar pela Rua Pilhar. Nesse ponto, quando ao fim estiveram longe dos olhares curiosos, Vivian acelerou um pouco, soltou seu braço e correu para sua casa.

Will ficou desconcertado ante tamanha mudança de comportamento, mas entrou no alpendre de sua casa, que de maneira intencionada ocultava a porta principal com trepadeiras e vasos de barro de ornamentos de flores.

De repente, Vivian se virou para ele; em seus olhos brilhava uma ira que Will jamais tinha visto antes.

Isso o deteve em seco.

-Suponho que está zangada comigo.

Os lábios dela se converteram em uma magra linha enquanto entrecerrava os olhos.

-É obvio que estou zangada com você! -Exclamou em um sussurro-. Quando lhe sugeri que assistisse à missa na igreja como uma forma de redimir seu bom nome não me referia que viesse a me buscar de propósito este domingo precisamente. -Fechou os olhos e colocou a palma da mão na testa em um intento de serenar-se-. Tem idéia que pode custar a minha posição social em Penzance a atenção que me emprestou esta manhã? Meu bem-estar depende dessa posição, milorde. Por Deus, imagino o que devem ter pensado.

Esse comentário foi como um murro no estômago. Sua mente ficou paralisada e lhe gelou o sangue. Ao ver que não respondia, ela abriu os olhos uma vez mais e notou imediatamente que suas palavras o tinham ferido. Seus lábios se entreabriram ligeiramente e deixou cair os ombros.

- Excelência… - Sua voz se apagou enquanto o contemplava, e a confusão que refletiam as rugas de sua frente se mesclou com o leve tom de pena e arrependimento de sua voz.

- Não sei muito bem por que te busquei esta manhã - declarou Will, que não esperava uma resposta.

Ela seguiu olhando-o fixamente, consternada.

Will tencionou a mandíbula e uniu as mãos às costas.

-E em nenhum momento perdi a esperança de poder te beijar. Conformar-me-ei procurando a meu chofer. Que tenha um bom dia, senhora Rael-Lamont.

Deu a volta e se afastou dali.

 

Já estava farta de que a utilizassem. Vivian se sentou com desinteresse no canapé e cruzou as mãos no colo enquanto contemplava o teto de sua sala de estar e o papel que cobria as paredes: pequenos e gordinhos querubins, pergaminhos dourados, trepadeiras entrelaçadas e rosas rosa. Possivelmente fosse um pouco floreado, e alguém poderia tachá-lo de exagerado, mas se tratava de sua sala de estar, de sua casa e de sua vida, e podia escolher o estilo que lhe tivesse vontade. O tinha demonstrado em numerosas ocasiões aos amigos e a aqueles que a queriam. Não obstante, no curso de três semanas seu mundo seguro veio abaixo; primeira graças a um maquiavélico ator, e depois graças a «ele».

Vivian fechou os olhos e se estremeceu ao recordar com claridade o contato de suas enormes mãos sobre as costas, de seus lábios sobre os dela, o rouco sussurro que deixou escapar quando a estreitou com força entre seus braços. Era um homem que a desejava, e era provável que a necessitasse para algo mais que o sexo, mas havia muitas mais coisas em jogo, muitos enigmas que resolver. Muitos segredos.

- Acaba de chegar isto para a senhora, Sra. Rael-Lamont.

Vivian abriu os olhos e se ergueu a toda pressa para atender a sua governanta, que acabava de entrar na estadia para lhe entregar uma nota.

-Obrigado, Harriet - disse ao mesmo tempo em que tomava o singelo papel branco da mão estendida da mulher.

Harriet inclinou a cabeça uma vez antes de dar meia volta para abandonar a sala.

Não havia indicação alguma de quem era o remetente no selo púrpura que havia ao dorso, de modo que Vivian o separou com um dedo. Ficou gelada imediatamente.

«Parto-me no sábado para Truro. Sobram seis dias. “GM»

Gilbert Montague… Um homem que destruiria sua vida com tanta efetividade como se lhe cravasse uma adaga no coração com a destreza de um caçador.

E ao imaginar essa vívida imagem aconteceu algo do mais surpreendente. Junto à aguda sensação de traição, de desamparo e de fúria, também notou uma inesperada corrente de forças renovadas que borbulhou em seu interior e a obrigou a conter uma absurda gargalhada. Segundos depois, sentiu que os olhos lhe enchiam de lágrimas devido à risada histérica que não pôde seguir contendo, e se tampou a boca com a palma da mão para que Harriet não acreditasse que se tornou louca.

Entretanto, tudo aquilo era muito súbito e intenso para assimilá-lo. Pelo amor de Deus, como era possível que a vida normal e corrente que levava se complicou tanto? Como tinha permitido que dois homens totalmente diferentes controlassem seu destino? Por que se encontrava a sua mercê? Jamais tinha sido das que se encolhiam diante das dificuldades, mas sim das que se enfrentavam com dignidade. Nesse instante chegou à conclusão de que não eram esses dois homens poderosos tão diametralmente opostos os que lhe tinham causado os problemas que se enfrentava, a não ser sua reação covarde ao permitir que a utilizassem. De repente ficou evidente o que devia fazer.

Com as mãos unidas diante da cara em posição de oração e a singela nota entre as palmas, Vivian fechou os olhos durante um momento e tratou de acalmar-se. Depois, com absoluta determinação, espremeu a nota em um punho e a jogou no cesto de papéis que havia junto sua escrivaninha enquanto ia de caminho para a porta da sala de estar.

Já bastava de auto-piedade. Tinha chegado o momento de atuar.

 

Will estava sentado frente a sua escrivaninha, tratando de concentrar-se na correspondência que tinha diante. Por mais que o tentava, não encontrava comparação possível entre o ajuste dos impostos da propriedade e a lembrança dos deliciosos lábios do Vivian, que pareciam rubis úmidos. Por Deus, tinha sido maravilhoso senti-los sobre os seus…

- Excelência, a senhora Rael-Lamont veio a vê-lo.

A interrupção do Wilson o sobressaltou, e Will se ergueu imediatamente no assento.

-Faz-la passar.

-Imediatamente, milorde.

Enterrou os dedos de ambas as mãos em seu cabelo e fechou os olhos, desejando com todas suas forças que lhe baixasse a ereção, ao menos nesse momento. Tinha muitas coisas que falar com Vivian, e supôs que ela quereria lhe oferecer uma desculpa pela fúria que lhe tinha mostrado essa manhã, um motivo muito plausível para ir vê-lo apenas horas depois de que a deixasse na porta de sua casa.

Soltou um grunhido e ficou em pé para recebê-la; estava um pouco nervoso, e isso era ruim dada às circunstâncias.

Virou-se para a porta quando ouviu seus passos sobre o chão de mármore, apoiou o quadril na beirada da escrivaninha e cruzou os braços à altura do peito. Não conseguiu decidir se a tratava de numa postura defensiva ou não. Tinha-o adotado quase sem pensar.

Pouco depois, e pela segunda vez esse dia, encontrou-se frente à formosa viúva, que nesse momento parecia muito mais serena em sua presença. Já não ia embelezada com seu traje formal; tinha posto um vestido singelo embora decente de musselina cor pêssego, com um decote bastante baixo, mas de sutiã um pouco folgado. Embora o calor da tarde, parecia fresca e descansada; deslumbrante, na realidade. Sua pele marfim resplandecia e o cabelo recolhido para cima parecia lhe suplicar que afundasse os dedos nele.

Aproximou-se dele com uma expressão indecifrável e cravou o olhar em seus olhos com um brilho quase desafiante. Will sabia que ainda estava furiosa, embora suspeitasse que nesse momento fosse ele quem estivesse mais zangado dos dois. Não ficou a imaginar por que tinha ido depois da discussão que tinham mantido essa manhã. Assim, decidiu lhe ceder o controle do encontro… no momento.

-Isso é tudo, Wilson - disse ao mordomo, que fechou as portas ao sair.

Olharam-se o um ao outro durante uns segundos com inquietante intensidade.

-Excelência - disse ela com secura.

-Surpreende-me vê-la de novo tão logo, minha senhora.

As sobrancelhas de Vivian se arquearam levemente.

-Sim?

Era uma afirmação mais que uma pergunta.

-Pois sim. Deve estar acalorada pela caminhada.

Ela apertou os lábios.

-Na realidade, isso carece de importância.

-Seriamente?

Que conversação tão estúpida.

-por que está aqui, Vivian? -perguntou em voz calma, embora tivesse o corpo tenso.

Ela respirou fundo sem apartar o olhar.

-Perguntava-me quando vou receber o manuscrito - admitiu sem reservas.

Semelhante franqueza lhe fez vacilar. E devia admitir que a mudança de colocação o tivesse desconcertado.

-Quando estiver disposto a lhe dar isso suponho - respondeu.

Vivian elevou um pouco o queixo.

-Disse que me daria isso em troca de minha companhia, e começo a me perguntar por que não… se aproveitou dela já.

Will notou os batimentos do coração nas têmporas, umas palpitações incessantes que se incrementavam com cada segundo que acontecia. Manteve a compostura e tentou conservar uma aparência serena para que ela não percebesse a reação que lhe tinha provocado essa ideia de aproveitar-se dela. Por mais fria e reservada que parecesse nesse momento.

-Acreditei que isso tinha feito até agora - disse sem rodeios-, desfrutar de sua companhia.

Isso a confundiu um instante, e sua testa se encheu de pequenas rugas enquanto o contemplava. Depois se rodeou com os braços e reconheceu com valentia:

-Mas ainda não me tomou.

Will respirou com calma, muito devagar, porque sabia que ela devia perguntar-se se seus comentários lhe afetavam de algum modo. Vivian só teria que jogar uma olhada para baixo para comprovar o quanto a desejava. Embora soubesse por instinto que ela mantinha o olhar em seus olhos porque a assustava o que poderia chegar a descobrir. Viúva ou não, entendia da atração que sentia por ela, e o mais assombroso de tudo era que não voltava atrás. Destemido, plantou-se ante ele com a vontade de uma mulher que sabia o que era fazer amor e que desejava fazê-lo de novo. Custou-lhe um supremo esforço de vontade não dar dois passos a diante para lhe rodear a cintura, lhe levantar as saias e afundar-se nela até o fundo.

-Isso é… o que deseja, não é assim? – inquiriu Vivian.

Essas palavras inseguras pronunciadas em voz baixa o tiraram de suas reflexões. Deus, se ela soubesse…

-Acreditei que isso já o tinha deixado claro, Vivian.

Em lugar de vacilar, ela endireitou as costas e entrecerrou os olhos.

- Ainda está zangado.

Will se surpreendeu olhando-a boquiaberto.

- Não entendo a que te refere.

- Claro claro… - Afastou o olhar por fim e utilizou a palma de uma mão para aparar o cabelo recolhido à altura da nuca. Desesperada adicionou-: Eu tampouco entenderei jamais aos homens.

Isso lhe fez graça. Separou os braços para apoiar as palmas sobre a mesa que tinha às costas e estirou as pernas, cruzando uma sobre a outra.

-Não estou seguro de qual de meus atos é tão difícil de entender - contra-atacou-. Talvez possa explicar isso.

- Explicar-lhe - Elevou os braços para o céu e lhe deu as costas-. Sou eu a que está desconcertada.

Will estava chegando a um ponto no que quase não recordava do que estavam falando.

-Vivian…

- O que está esperando, Will? -afastou-se dele para dirigir-se ao canapé-. Eu necessito o manuscrito e você me necessita.

Do outro lado das janelas, uma repentina rajada de vento fez sussurrar as folhas das árvores; a sirene do nevoeiro soou longe, na costa. Nenhum deles se deu conta.

- Diga-me para que necessita de meu prezado manuscrito, Vivian - insistiu ele em voz baixa-. E por que o necessita já. Hoje. Essa é a razão para que esteja aqui, verdade? Não é que morra por te deitar comigo.

Não replicou a esse descarado comentário, já que ambos sabiam que não fazia falta. Em lugar disso, ficou meio de lado e levou ambas as mãos no rosto para tapar a boca. Com esse mero gesto, Will pôde adivinhar a ansiedade e a frustração que a embargavam.

Depois de um momento de tenso silêncio, ela o olhou de esguelha e o estudou com o cenho franzido.

-Necessito o manuscrito. Já me ofereci para comprá-lo.

-Não está à venda.

-E eu sim?

Essa resposta mordaz fez que lhe fervesse o sangue, e Will converteu as mãos em punhos sobre a escrivaninha.

-Pedi desde o princípio que me dissesse a verdade. Negou-me a vantagem de saber por que tinha vindo para ver-me com tão ridícula proposta. E agora está se desesperada. Por quê?

Ela deixou cair as mãos e se virou para enfrentar a ele com as bochechas rosadas e os lábios apertados em um gesto de determinação.

-Não estou desesperada.

-Sim, está-o.

Isso a pôs furiosa de novo. Will percebeu na forma em que apertava a mandíbula, na rigidez de suas costas e em sua maneira de fulminá-lo com aqueles adoráveis olhos. Sim, havia tocado num ponto sensível. Estava produzindo um problema entre eles, e alguns segredos pareciam a ponto de sair à luz.

Will ficou em pé de novo e começou a caminhar muito devagar para ela.

-Foi você quem veio para mim em primeiro lugar, Vivian, com suas verdades pela metade e suas adivinhações. E agora quero algumas respostas. Quero saber o que é o que te assusta, quem te assusta tanto.

Ela abriu a boca devagar.

-Não estou assustada.

Will arqueou uma sobrancelha enquanto se aproximava dela.

-Não? Então por que está disposta a passar o tempo com alguém a quem acusaram de assassinato? Está claro que há algo que te assusta mais que eu.

Ela não tinha resposta para isso, embora parecia preparada para esbofeteá-lo. Instantes mais tarde, Will estava frente a ela, impressionado de que se mantivera em seu lugar sem tornar-se a chorar.

-Não lhe ocorreu pensar, milorde - perguntou com voz vacilante, quase em um sussurro-, que poderia desejar algo mais do senhor que seu valioso manuscrito? Que este poderia não ser mais que uma desculpa? Que possivelmente somente lhe deseje como homem?

Pela primeira vez em toda sua vida adulta, William Raleigh, duque de Trent, esteve a ponto de prostrar-se de joelhos frente a uma mulher. Desconcertado e incapaz de impedir que sua expressão o refletisse, estudou o formoso rosto feminino, essa pele suave e coberta por uma fina capa de suor provocada pela combinação do calor e a raiva.

Vivian esboçou um sorriso desdenhoso ao dar-se conta de que o tinha deixado perplexo, lhe mostrando quão orgulhosa estava disso.

E foi então quando Will compreendeu tudo por fim. Estava-o utilizando, a ele - um homem com instintos puramente animais - como todas as mulheres utilizavam aos de seu gênero: apelando a suas necessidades e a seus desejos básicos. Vá, devia lhe haver parecido muito desesperado quando apareceu pela primeira vez em sua porta três semanas atrás.

Enfurecido, Will estendeu um braço e lhe rodeou o pescoço com a palma da mão. Vivian abriu os olhos devagar e retrocedeu um pouco, mas ele a sujeitou com força para lhe fazer saber sem rodeios quem estava no comando.

-Esperas que acredite que inventaste toda esta farsa porque me deseja fisicamente? -murmurou com palavras que destilavam fúria.

Ela tentou livrar-se dele uma vez mais, embora em vão.

-Isso não é o que hei dito.

-Não, é o que não há dito minha querida Vivian. Devo te parecer estúpido. E arrogante. Como um cavalheiro carente de cavalheirismo. Um homem que assassinou a sua esposa, desprezado pela sociedade e sem a sorte de desfrutar dos encantos de uma dama. -Depois disso, adicionou com os dentes apertados-: Miúdo desafio.

Ela começou a tremer. Will tomou como um signo de culpabilidade e de ira, mas não de medo. Se havia algo que sabia com certeza era que essa mulher não lhe tinha nenhum medo.

-Desejo-lhe como homem - espetou-lhe ao mesmo tempo em que passeava o olhar entre a porta e ele-. Por que não acredita em mim?

-Porque embora seja muitas coisas - replicou apesar da amargura que lhe corroia as vísceras-, não sou estúpido.

Vivian engoliu seco e o olhou com um brilho especial nos olhos.

-Apesar de tudo o que hei dito - contra-atacou-, nunca pretendi insinuar que fora estúpido.

Will deslizou o polegar pela linha de sua mandíbula e baixou então até o pescoço para sentir seus rápidos batimentos do coração sob a pele.

-Se te sentes tão atraída por mim como o estaria uma amante, minha senhora Rael-Lamont, por que segue sem utilizar meu nome de batismo?

Ela levantou uma mão e lhe aferrou o antebraço, embora não tratou de soltar-se nem de afastá-lo. Limitou-se a sujeitá-lo, como se não soubesse muito bem o que fazer a seguir. Por alguma estranha razão, Will encontrou essa batalha de vontades incrivelmente excitante.

- Porque - disse com os lábios apertados - não esperava que chegássemos a intimar tão emocionalmente.

Will esteve a ponto de tornar-se a rir.

- depois… do intercâmbio do manuscrito?

- Nem antes, nem depois.

- Que ridícula.

Vivian abriu os olhos um pouco, como se acabasse de ocorrer uma idéia.

-Possivelmente - disse um momento depois, ao mesmo tempo em que levantava o queixo e a separava de seu polegar -. Mas a coisa é milorde, que temos um trato.

Isso fez que lhe fervesse o sangue.

-Um trato? Isso pensa que é? De verdade acredita que eu gosto que me utilizem?

Ela vacilou ao escutá-lo e piscou com rapidez antes de voltar-se para a porta uma vez mais.

-Não estou lhe utilizando…

- Por que o arrisca tudo para estar comigo, Vivian? -interrompeu-a com voz rouca e tensa-. Parecia muito zangada quando me viu aparecer hoje na igreja, em seu ordenado mundo; dava a impressão de que te dava vergonha me saudar diante de seus amigos. E foi você quem veio até mim. É você a que está aqui agora. -inclinou-se para ela até que quase estiveram nariz com nariz, e a sujeitou pela nuca para impedir que se movesse-. Diga-me por que está aqui.

Viu a incerteza que alagava nos olhos dela e se deu conta de que Vivian estava refletindo sobre se devia lhe dizer a verdade e lhe explicar o motivo de seus medos ou se devia seguir com esse jogo de enganos. A Will custou um esforço tremendo reprimir o impulso de agarrá-la pelos braços e sacudi-la… ou lhe fazer o amor como um louco.

Como se lhe tivesse lido o pensamento, ela relaxou de repente e baixou as pálpebras, emitindo de uma vez com um suave suspiro.

- Sinto muito.

Essas palavras tão brandamente pronunciadas o frearam em seco.

- Por favor, Will… - sussurrou antes de lhe beijar a palma que tinha sobre sua bochecha com esses lábios suaves como pétalas de rosa.

Will supôs que, com o tempo, sentar-se-ia e ficaria a pensar nesse dia, na primeira vez que a tinha tomado, nas razões que desencadearam seu encontro inicial e que lhe levaram a tomar a decisão de estar com ela, a lhe entregar tanto de si mesmo quando lhe oferecia tão pouco. Mas compreendeu que já não podia seguir demorando algo que ambos desejavam, sem ter em conta os motivos que havia por trás.

No momento, Vivian tinha ganhado. E ela já sabia que seria assim, posto que ele fosse um homem.

Presa de uma maré de esmagadora luxúria - uma luxúria alimentada pela fúria que lhe provocava todo aquele absurdo - o duque sujeitou a mandíbula com força e baixou os lábios até os dela, ao mesmo tempo em que a rodeava com o braço livre para estreitá-la em um forte abraço.

Ela ofegou ante o primeiro contato, mas se rendeu com um gemido assim que Will intensificou o beijo e invadiu sua boca com a língua.

Vivian levantou os braços para agarrar-se com força a seus ombros e puxá-lo a fim de aproximá-lo um pouco mais, de provocá-lo apertando os peitos contra seu torso.

Por um breve instante, Will foi consciente de que Vivian pôs um vestido sem aros, algo que resultava o mais conveniente para ambos. Mas depois ela começou a lhe acariciar o pescoço, a enredar os dedos no cabelo de sua nuca, a derreter-se contra ele enquanto lhe percorria com a língua a parte interna do lábio superior e o beijava com uma paixão que nenhuma mulher lhe tinha demonstrado em muitos anos… e Will abandonou todo pensamento coerente.

Com um grunhido, rodeou sua cintura com mais força e introduziu os dedos da outra mão em seu cabelo. Um segundo depois, a respiração de Vivian era tão rápida como a sua, e Will notou que o coração lhe saía do peito quando ela começou a lhe cravar as unhas na camisa.

Necessitava-o. Desejava-o. Apenas esperava que ela tivesse sonhado tanto com esse momento como ele.

Com um suspiro, Vivian afastou a boca de seus lábios e começou a lhe dar diminutos beijos na mandíbula e na bochecha, pressionando-o com o peso de seu corpo. Will percorreu seu pescoço com os lábios e começou a lhe acariciar as costas no ritmo de sua respiração. Não temia que os interrompessem; seu pessoal de serviço tinha ordens estritas de não incomodar quando estava a sós com ela…, um fato que para Vivian parecia lhe preocupar bastante, já que olhou uma terceira vez em direção à porta.

- Vivian… não se preocupe - murmurou quando encontrou o lóbulo de sua orelha e começou a estimulá-lo com a língua.

Ela deixou escapar um suspiro e ele notou como se relaxava por fim entre seus braços. Sentia seu quente fôlego no pescoço, seus dedos enredados no cabelo lhe sujeitando a cabeça e seus tórridos lábios sobre a pele.

Deus, como a desejava… A desejava fazia muito mais tempo do que ela supunha. E, entretanto, controlar-se nesse momento… Nunca em sua vida havia sentido tão tentado de deixar-se arrastar pelo desejo.

Will a levou para o sofá de couro negro de forma suave embora premente. Vivian se deixou levar, e as saias do vestido se estenderam a seu redor quando se tendeu e apoiou a cabeça sobre o grosso braço acolchoado do sofá. Logo começou a lhe tirar a camisa, insistindo em silêncio a que se unisse a ela. Will não sabia muito bem se situar em cima dela, já que as saias eram volumosas e o sutiã ajustado. Sabia sem necessidade de comprová-lo.

Em vez disso, ajoelhou-se a seu lado sobre o tapete oriental enquanto empurrava a mesinha de chá a fim de ter um pouco mais de espaço. Procurou seus lábios de novo e lhe deu um beijo puxador para evitar que dissesse algo.

Ela não o fez. Gemeu brandamente quando ele deslizou a mão por cima da saia para lhe acariciar a perna muito devagar, em direção ao tornozelo. Começou a respirar de maneira irregular e aferrou a suas costas com as mãos, apertando-o contra seu corpo. Will pôde notar como ascendiam e descendiam seus peitos com cada fôlego, como começava a mover os quadris sem dar-se conta à medida que a paixão se incrementava. Esfregou seu volumoso membro contra o sofá a fim de aliviar um pouco o desejo, já que lhe preocupava chegar ao orgasmo com o simples feito de ouvir e sentir o muito que ela o desejava. Foi o único que lhe ocorreu para demorar esse momento.

Soltou um grunhido para ouvir que ela pronunciava seu nome em um sussurro apenas audível, e começou a deslizar a mão para cima sob as saias, acariciando as delicadas meias de seda que lhe cobriam as pernas.

Devorou sua boca entre gemidos apesar do incessante vaivém de seus quadris e dos apressados batimentos de seu próprio coração. Brincou com seus lábios e introduziu a língua nessas cálidas e insondáveis profundidades que pareciam chamá-lo. Vivian se aferrou com força a suas costas e espremeu a camisa entre as mãos enquanto lhe massageava os músculos e esfregava os peitos contra seu torso. A mão indagadora que subia por sua perna encontrou por fim o centro do desejo feminino, oculto depois de uma fascinante coberta de delicado cetim.

Vivian aspirou com brutalidade quando a tocou de maneira íntima, e jogou a cabeça para trás.

- Por favor - suplicou entre gemidos, com palavras que apenas se ouviam.

Will gemeu contra sua boca e deslizou os lábios por sua mandíbula e por seu delicioso pescoço antes de baixar ainda mais.

- Deus… Vivian… - sussurrou - Deixe-me te dar o que necessita…

Ela gemeu uma vez mais e deslizou as mãos para cima para afundar os dedos em seu cabelo. Parecia não ter ouvido nem compreendido o que lhe havia dito perdida como estava naquele maravilhoso assalto de seu corpo.

Com meticuloso cuidado, Will começou a esfregar acima e abaixo com a gema dos dedos a magra capa de seda que cobria a suavidade feminina. Em questão de segundos, ela captou o ritmo e começou a mover os quadris para diante e para trás contra sua mão.

Will percorreu com os lábios os perfeitamente definidos contornos de sua clavícula e inalou o aroma de lavanda de sua pele antes de percorrer o encaixe que lhe cobria os peitos em busca das sensíveis pontas rosadas, cobertas ainda pelo tecido. Posto que não era o momento mais apropriado, não pôde senti-la de verdade: não pôde saborear os mamilos duros e excitados nem a suave e íntima entrada de seu corpo; não pôde comprovar quão úmida a tinham deixado suas carícias nem como reagia seu corpo nu. Mas teria que conformar-se no momento. Desejava levá-la até o mais alto.

Percorreu com o queixo o vale situado entre seus adoráveis peitos, procurou um dos mamilos eretos com a boca e o mordiscou através do tecido enquanto acelerava o ritmo dos dedos que se moviam entre suas coxas. Vivian chegou à beira do orgasmo quase imediatamente.

Will levantou a cabeça para contemplar seu rosto e emprestou atenção a cada um de seus traços sem deixar de escutar aqueles gemidos suaves e femininos. Concentrou-se na paixão que despertava com cada carícia, nas investidas dos quadris contra sua mão. Vivian ainda estava obstinada a sua cabeça, mas se encontrava em outro mundo, desfrutando do que lhe entregava com os olhos fechados. Respirava de maneira rápida e irregular, e tinha a testa enrugada por causa da intensidade do prazer que se aglomerava em seu interior.

E nesse momento abriu os olhos.

Estava a ponto de chegar.

Will baixou a mão esquerda para tocar-se por cima das calças. De repente, sem necessidade de carícias, alcançou o ponto sem retorno.

Pelo amor de Deus, ia gozar e não tinha feito mais que tocá-la, olhá-la e escutá-la…

Nesse extraordinário instante, ela o olhou aos olhos e sussurrou:

- Sim… OH, sim…

Will se deixou arrastar.

Com um grunhido gutural, apoderou-se de sua boca justo quando ela gritava e lhe cravava os dedos no couro cabeludo, imersa nos estremecimentos do êxtase. Ele balançou os quadris contra sua própria palma, apertada contra o sofá. Com uma mão sentia o calor do sexo feminino, enquanto com a outra sentia a explosão de seu próprio prazer.

Jamais tinha experimentado um orgasmo tão intenso em um momento tão doce.

Jamais tinha sido como aquilo.

-Vivian… - sussurrou, ao tempo que ocultava o rosto em seu pescoço para pousar os lábios sobre sua pele e diminuía o ritmo dos movimentos que fazia com ela e para ela.

O que me tem feito…, pensou.

- Tome… - Vivian afogou uma rouca exclamação - Tome a mim, Will. Por favor.

Custou-lhe alguns segundos para dar-se conta de que ela não sabia que já era muito tarde para isso.

Por Deus!

- Vivian - murmurou um instante depois, sem saber muito bem o que dizer. Não estava preparado para apartar-se dela ainda, para olhá-la nos olhos e deixar claras as coisas. Ainda não -. Não quero que nossa primeira vez… -adicionou em um sussurro suave - seja assim.

Depois de uma pausa agonizantemente larga para Will pareceu que ela assentia que o queixo feminino roçava sua têmpora de maneira quase imperceptível. Vivian não deixou de tremer até que sua respiração se normalizou de novo, mas não disse nada mais.

O tempo se deteve para eles e permaneceram assim vários minutos enquanto a chuva vespertina começava a molhar o telhado e agitava a vegetação da estufa. Will notou que seu pulso alcançava um nível normal e constante enquanto escutava sem pensar o tamborilar da chuva e o ritmo regular do coração do Vivian sob sua bochecha.

As coisas ficariam complicadas e muito a partir desse momento. Exigir-lhe-ia o manuscrito e ele não o entregaria; não tinha nenhuma intenção de dar-lhe já que na realidade e não tinham consumado ainda sua relação. E logo sairia a reluzir essa ligeira diferença. A menos, pensou com uma estranha sensação de calor, que ela o desejasse de novo e mais intimamente. No momento, aguardaria sua reação.

Vivian se retorceu por fim sob seu peito e elevou as mãos até seus ombros para empurrá-lo com suavidade. Will levantou a cabeça à contra gosto e se incorporou um pouco para contemplar seu rosto rosado e satisfeito.

Ela tinha os olhos fechados, e as largas e escuras meias luas de suas pestanas contrastavam de maneira surpreendente com o pálido rubor de suas bochechas.

Deus era uma mulher muito formosa, com uma personalidade vibrante, carinhosa, efusiva e inteligente. E com um físico que o fazia ferver o sangue e avivava seu desejo cada vez que ela o olhava com um simples sorriso.

Will levantou uma mão e percorreu delicadamente sua testa com o dedo indicador. A pele se contraiu imediatamente, embora ela seguisse sem olhá-lo. Quase imediatamente, Vivian se virou para um lado, apoiou as palmas das mãos sobre o braço do sofá e se sentou.

Will se incorporou por completo e se sentou junto a ela com as mãos entrelaçadas e os pés apoiados no chão. Detestava ter que deixar claro o que pensava e se sentia bastante nervoso. Ela não disse nada durante um momento; limitou-se a observar a mesinha de chá que tinha diante. Depois, com a elegância própria de uma dama pertencente à aristocracia, ficou em pé e alisou as saias, e tomou um instante para arrumar o cabelo e voltar a colocar as mechas soltas em seu lugar. Nem sequer o olhou.

Incômodo, Will ficou em pé para ficar ao seu lado.

-Vivian…

Ela o interrompeu imediatamente lhe colocando uma mão sobre o peito e movendo ligeiramente a cabeça. Depois, com uma sutil elevação do queixo, jogou os ombros para trás e saiu da biblioteca.

 

Clement Hastings tomou assento na cadeira de costume frente à escrivaninha de Will e levou uma mão ao bolso de sua jaqueta em busca de sua pequena caderneta de notas. Tinha notícias novas e tinha enviado uma mensagem repentina essa mesma manhã cedo para solicitar uns minutos de audiência com o duque a fim de poder lhe revelar a importante informação que acabava de conseguir. Ainda nervoso Will não tinha sido capaz de pensar em outra coisa que não fora o encontro íntimo que tinha mantido com Vivian na tarde anterior, de modo que essa distração supunha um bem-vindo alívio. Apesar do fato de que toda a relação entre eles estava apoiada nesse ditoso manuscrito e em quem tratava de consegui-lo, teria se concentrado unicamente nela e em levá-la até a loucura. Tal como estavam as coisas, resultava-lhe cada vez mais difícil pensar em qualquer outro assunto.

- Obrigado, Hastings - disse lhe fazendo um gesto com a cabeça a modo de saudação e acomodando-se na cadeira de balanço-. O que tem esta manhã?

-Bom - começou Hastings enquanto cruzava suas gordinhas pernas, cobertas com uma calça quadriculada púrpura e amarela -, meus homens e eu averiguamos algo bastante desconcertante sobre o passado de Montague.

Will se inclinou muito devagar para frente em seu assento.

- Continue - insistiu-o ao ver que fazia uma pausa de vários segundos para passar um par de folhas de notas.

- Seu verdadeiro nome é Gilbert Herman. É o bisneto de um judeu de Boêmia que chegou como imigrante a Inglaterra a começos da guerra dos Sete Anos, em 1756. Seu bisavô e sua bisavó, que naquela época estava grávida de seu avô, chegaram aqui em busca de trabalho e ao final puseram em marcha um pequeno negócio mercantil na parte leste de Londres, perto do rio, conforme acreditam. Em qualquer caso, o nome de seu bisavô era… isto… Isaac, sim, Isaac Herman.

Will viu que Hastings se estirava um pouco em um intento de ficar um pouco mais cômodo na cadeira. Herman… jamais tinha escutado esse sobrenome com antecedência.

-Chamaram a seu filho David, que também foi o nome do pai do Gilbert - adicionou Hastings em tom sério-. David Herman Filho, o pai de Gilbert, foi ao que parecia um homem incrivelmente inteligente e um personagem do mais interessante. Fez-se cargo do negócio mercantil de seu avô aos vinte e dois anos, quando seu pai deixou de levá-lo, e o converteu rapidamente em uma sólida companhia naval…

-Como se chamava essa companhia? -interrompeu-o Will. Estava quase seguro de que de não lhe soaria de nada, mas lhe parecia um bom ponto de partida.

Hastings franziu o cenho e se encolheu de ombros para lhe subtrair importância.

-Não sabemos excelência. Vendeu a companhia três anos depois de adquiri-la. Fez dinheiro rápido e, pelo visto, partiu a toda pressa. Aos vinte e sete anos se casou com uma mulher chamada Mary Elizabeth Creswald, uma criatura bastante insípida procedente de Northampton, cujo pai era dono de um pequeno banco. Com o dinheiro que tinha conseguido e um sogro com influências nos bancos, o tipo se converteu anos depois em um banqueiro bastante endinheirado de Londres.

-Quando nasceu Gilbert?

- Ah… deixe-me ver… ah, sim, em 1822, dois anos depois de que seu pai se casasse com a senhorita Creswald. - Hastings franziu o cenho e observou suas notas com curiosidade-. Foi filho único, já que ao que parece sua mãe teve problemas durante o parto e lhe disseram que jamais poderia ter mais meninos. A mulher morreu por causa de uma enfermidade pulmonar tão só dois anos depois. O pai criou a Gilbert com a intenção de que lhe sucedesse no negócio, mas em algum momento de sua juventude ficou claro que não tinha talento algum para os números e que jamais conseguiria abrir caminho nos bancos. Suponho que foi então quando decidiu pela profissão de ator. O resto já o conhece senhor.

Will se reclinou na poltrona e entrecerrou os olhos com desconcerto enquanto tamborilava com o polegar sobre a mesa.

Hastings também relaxou, fechou sua caderneta e aguardou as perguntas e as novas instruções, como sempre. Que demônios tinha em comum o filho de um banqueiro judeu com Vivian? E como se inteirou da existência de seu prezado manuscrito?

-Vive ainda algum David Herman, já seja o pai ou o filho? -perguntou, embora já estivesse especulando sobre a resposta.

O investigador fez um gesto negativo com a cabeça.

-Não, excelência. David Herman pai morreu por causas naturais faz alguns anos; David Herman filho morreu em um incêndio que se produziu em seu lar.

-Já entendi… - Will inspirou profundamente- Morreu antes que seu filho partisse para continente?

-Sim, excelência. O banqueiro morreu faz nove anos. Deixou a Gilbert uma fortuna considerável, embora não ficou nada. O ator não tem dinheiro, a menos que o guarde em algum esconderijo. Não encontramos o menor rastro de dinheiro em seu nome, nem no de seu pai.

- assim - refletiu Will em voz alta, enquanto ficava em pé muito devagar a fim de poder passear pelo tapete oriental-, dois imigrantes judeus chegam a este país, montam um negócio, têm um filho e um neto, quem, por sua vez, vende o negócio a muito cedo. O neto se casa com uma mulher normal e corrente cujo pai é dono de um banco. Com as influências do banqueiro, e de seu dinheiro, o neto monta seu próprio negócio e consegue uma fortuna considerável. Sua mulher morre e seu único filho, meio judeu, converte-se em um ator shakespeariano que apresenta de repente no Cornwall, mantém uma conversação bastante inquietante com uma florista viúva da localidade, e esta, por sua vez, tenta conseguir que eu lhe entregue um valioso manuscrito.

-Isso é mais ou menos o resumo do que sabemos até agora, excelência.

Will deixou de passear na frente da chaminé e observou com atenção os dois delicados vasos chineses que, de ter querido vendê-los, lhe teriam reportado muito mais dinheiro do que o manuscrito valeria jamais no mercado livre. Para o homem de pé, o soneto não tinha nenhum valor.

-por que Vivian? -perguntou-se em voz alta-. Que papel joga ela em tudo isto?

-Não tenho nem a mais remota idéia - respondeu Hastings com sinceridade. Ato seguido limpou a garganta-. Mas acredito que é verossímil que um ator shakespeariano, venha de onde venha, queira dar emano a um manuscrito assinado pelo próprio professor.

Will assentiu, meteu as mãos nos bolsos e se virou para olhar ao detetive.

-Certo. Mas por que utilizar à senhora Rael-Lamont?

E por que arriscou ela seu bom nome, seu trabalho e seu futuro vindo para ver-me? Perguntou-se o duque para seu próprio.

Hastings estalou os dedos.

-Suspeito excelência - disse muito devagar, como se escolhesse com muito cuidado suas palavras-, que o tipo tem certo poder sobre ela. E nem sequer sabemos ainda quais são suas intenções. A mudança de sobrenome de Herman para Montague talvez não tenha nenhum tipo de conotação malévola. Poderia dever-se a seu trabalho nos cenários, ou possivelmente que Herman é um sobrenome judeu.

Will sabia muito bem o papel que o anti-semitismo podia jogar na corrida de um, tanto na cidade como fora dela, mas mesmo assim, a mudança de sobrenome do Gilbert parecia mais do que conveniente. O instinto lhe dizia que havia muitas mais coisas em jogo. Havia muitas perguntas.

-Isto eu não gosto, Hastings - disse, olhando ao chão-. Cheiro que há algo mais, e quero conhecer essa conexão.

-Encontrá-la-emos, senhor - assegurou-lhe o investigador com certeza.

De repente, Will se lembrou de algo e levantou a cabeça.

-O que sabe da mulher do bar? -perguntou.

Hastings suspirou.

-até agora, nada. Provamos com o casaco, mas no momento essa mulher segue sendo um enigma.

Todo esse mistério lhe desconcertava, e isso por sua vez o punha furioso. Se havia algo que não podia suportar era que tomassem por tolo.

-O que têm em comum uma mulher loira e atrativa, o filho de um banqueiro que se converteu em ator e uma insignificante viúva que ganha a vida sem problemas no sul do Cornwall? -perguntou-se em voz alta sem esperar uma resposta. Não obstante, deveria ter suposto que Clement Hastings, todo um professor de boas maneiras, ver-se-ia obrigado a responder.

-Bom, milorde, sigo acreditando que a resposta reside em Gilbert Montague, ou Herman, como queira. Tudo começou com ele. Ainda não tenho informação que confirme que a senhora Rael-Lamont seja outra coisa que o que diz ser, embora dois de meus homens estão investigando seu passado e o de seu defunto marido. Se oculta algo, descobriremos.

-Muito bem - murmurou Will.

Hastings ficou em pé, como se tivesse deduzido que aquele era o comentário de despedida.

-Far-lhe-ei saber qualquer notícia que tenhamos excelência, em especial se descobrirmos algo sobre a mulher, ou sobre a senhora Rael-Lamont.

-Sim, obrigado, Hastings. Isso é tudo.

O investigador fez uma reverência e partiu.

Will ficou ali uns minutos, observando o chão e o intrincado tecido muito caro do tapete oriental que havia sob seus pés. Às vezes a vida era muito estranha, porque, embora pudesse permitir-se luxos como aquele qualquer luxo que desejava na realidade, nesse momento não se sentia importante, não se sentia como um homem digno e possuidor de uma imensa fortuna. Sentia falta de Vivian, as disputas verbais com ela que tanto o tinham entretido, os momentos de paixão que pareciam apoderar-se deles sempre que estavam juntos. Tinha a sensação de que não havia ninguém no mundo em quem pudesse confiar, e se sentia bastante sozinho.

 

Quem dera a intimidade de sua vida matrimonial tivesse sido tão absolutamente incrível, pensou Vivian com amargura, ao mesmo tempo em que tentava não deixar as lembranças do passado lhe enchessem os olhos de lágrimas. Quem dera seu marido a tivesse desejado fisicamente. Quem dera lhe tivesse feito amor com uma paixão que os tivesse satisfeito a ambos. Quem dera Quem dera…

Pelo amor de Deus, por que seguia pensando nisso?

Com uma irritação nascida de uma teimosia que segundo seu pai só lhe traria problemas, Vivian escavou no enorme vaso de barro de terra com ambas as mãos sem lhe importar o mínimo que a sujeira ficasse presa em seus braços e no avental de trabalho. Para falar a verdade, estava mais furiosa que triste, e muito mais decidida que confusa.

Quem dera tivesse feito amor…

-Puf! - exclamou com os dentes apertados, removendo a terra com tanta força que a maior parte se derramou sobre a beira do vaso de barro. Tinha-o feito de propósito, é obvio. Nesse momento tinha vontade de sujar tudo, assim, por que não? Era tarde, quase a hora tomar seu banho e deitar-se. Seria um prazer sujar-se, e que os homens fossem ao diabo.

Afundou as mãos no vaso de barro, fechou os punhos com deleite e tirou dois enormes punhados de terra que jogou no ar por cima dela.

-Olá, Vivian.

Soltou um grito abafado e se virou imediatamente em direção ao som da voz enquanto a terra fina caía a seu redor. Ficou imóvel e com os olhos abertos arregalados ao ver a aposta e varonil figura do duque de Trent a menos de um metro de distância dela, iluminada pelas tochas do pátio traseiro.

Olhou-o boquiaberta um instante, incapaz de falar, e se sentiu consumida pela vergonha ao pensar no aspecto que devia ter.

Levou-se as mãos sujas às bochechas.

-E… excelência.

Ele suspirou e deu um passo para ela.

-Está… suja.

Vivian teve que fazer um verdadeiro esforço para não rir. Apertou os lábios e deixou cair as mãos ao lado do corpo antes de ficar em pé.

-Estava trabalhando.

Ele arqueou as sobrancelhas enquanto percorria seu corpo de cima abaixo com o olhar.

-Trabalhando?

Ela não respondeu, embora morria de calor ter que recebê-lo com seu velho vestido de musselina marrom. O duque, em troca, estava espantoso com aquele aspecto informal e os três botões superiores da camisa de linho desabotoados. Jamais o tinha visto tão depravado com antecedência, tão diferente a alguém de sua posição.

-É um trabalho bastante sujo, conforme parece - acrescentou ele rapidamente -. Terá que te banhar freqüentemente.

Vivian limpou a garganta e tirou um pouco de terra que lhe tinha ficado presa no rosto.

-Banho-me todos os dias.

Muito devagar começou a desenhar um sorriso na boca do duque, que a observou abertamente do rosto até a cintura, antes de voltar a olhá-la nos olhos.

-É bom sabê-lo.

Ela não pôde evitar perguntar-se se estava gozando dela, tratando de fazer tempo com uma discussão sem sentido que nada tinha haver com a razão pela que estava ali, ou talvez a imaginando no banheiro… Uma idéia lhe impactou que lhe produziu um estremecimento de desejo. De repente recordou que a última vez que se viram lhe tinha feito…

-O que está fazendo exatamente aqui fora tão tarde, Vivian?

Ela engoliu seco com a esperança de que estivesse muito escuro para que ele notasse o muito que se ruborizou.

-Estava trabalhando.

O duque não perdeu o sorriso e se aproximou um passo mais.

-Isso já o há dito.

- Na realidade, estava plantando bulbos - explicou como se tivesse alguma importância.

-Ah.

Durante uns segundos, Vivian não soube o que fazer. Por fim, decidiu-se por ir direto ao assunto.

-por que está aqui, Will?

Ele esboçou um sorriso sarcástico e estirou um braço para acariciar o vaso de barro de barro com o polegar.

-Acreditei que devíamos conversar. Falar de verdade. - Olhou a seu redor e adicionou-: Pensei que possivelmente em um lugar isolado e informal como este, longe de olhos e ouvidos curiosos, conseguiria que fosse sincera comigo.

Vivian enlaçou as mãos, negando-se a deixar que visse o muito que a tinha afetado esse comentário tão franco; negando-se a voltar atrás.

-Já falamos. Nosso problema não são nossas conversas.

Ele permaneceu em silêncio um momento.

-Hei dito a seu pessoal que não nos incomode.

Vivian riu baixo ao escutar aquilo.

-Meu pessoal está formado por dois criados, excelência.

-E nos deixarão a sós se querem seguir trabalhando em Penzance.

Com um sorriso, Vivian cruzou os braços à altura do peito.

-Por Deus, isso soou que o mais arrogante.

Ele encolheu os ombros e a olhou nos olhos uma vez mais.

-Sou um duque. Levo-o no sangue.

Vivian inclinou a cabeça um pouco.

-Uma das vantagens do título, possivelmente?

-Possivelmente.

-Não teria esperado menos de ti, Will.

O duque se aproximou dela até que apenas os separaram uns centímetros e contemplou seu rosto ruborizado e sujo de barro.

- Sempre serei honesto contigo - sussurrou com voz rouca.

Vivian deu um pulo ante a brusca mudança de humor e não soube muito bem o que responder. Tinha-lhe estado tirando sarro um pouco, e sem prévio aviso, aproximou-se dela com uma expressão tão séria como seu tom.

- chegou o momento de falar de verdade, Vivian - repetiu.

Nervosa, ela jogou uma olhada a sua direita, para uma das esquinas da casa.

-Estamos sozinhos - acrescentou Will ao notar sua vacilação.

Ela se esfregou os braços com as palmas das mãos. Resultava-lhe muito estranho estar tão perto dele nesse momento, a sós em seu humilde quintal. Sem serventes, longe dos olhares maus da sociedade, sem a pompa e a formalidade de rigor. Somente eles dois no viveiro, amparados pela luz das tochas que mantinha a raia a crescente escuridão. Qualquer outra noite, com qualquer outro homem, isso teria parecido… romântico. Somente ficava uma coisa que a inquietava.

-Viu-te alguém chegar?

-Isso te importaria? -contra-atacou ele.

Vivian tomou um momento para meditá-lo.

-Se for sincera, não - murmurou ao final.

Notou que os ombros dele relaxavam um pouco, igual a seu semblante, e que deixava escapar um comprido suspiro.

-Tenho que te confessar algo, Vivian - admitiu-o em voz fria, ao mesmo tempo em que estendia uma mão para percorrer com o indicador o espaço existente entre dois dos botões de seu vestido.

Vivian sentiu que seu ventre se tencionava diante da intimidade da carícia. Essa noite o duque parecia diferente, embora não teria sabido dizer por que.

-Talvez devesse tomar uns minutos para me assear a fim de que possamos manter uma conversação civilizada na sala de estar…

-Não - interrompeu-a ele -. Se tivesse desejado isso, te teria feito uma visita formal.

Muito certo, disse a si mesma.

-Bem, do que quer falar?

Will respirou fundo; Vivian estava tão perto dele que podia notar o calor que desprendia seu corpo no tranqüilo ambiente do cair da tarde.

-Quero que sejamos totalmente honestos o um com o outro - afirmou ele com voz suave e precavida.

Vivian observou seus formosos olhos castanhos, que nesse momento pareciam esconder certos segredos e emoções ocultas. Teve que lutar consigo mesma para não alargar um braço e lhe acariciar o rosto com ternura.

-Acredito que sempre fomos bastantes honestos um com o outro - resmungou; sentia a boca cada vez mais seca à medida que a conversação ia voltando mais pessoal.

Ele franziu os lábios.

-Bastante honestos? A senhora não foi sincera comigo, minha querida Vivian, e o admitiste.

O comentário a incomodou, embora também a comoveu em certo modo. «Minha querida Vivian…»

Elevou o queixo e, por estranho que parecesse, começou a fixar-se em quão tranqüila estava a noite: não fazia vento, nem chovia, nem havia insetos zumbindo ao redor das tochas. E não se escutava som algum na casa.

-É certo que te disse que não podia te contar toda a verdade, mas é imperativo que eu…

Will estendeu um braço e lhe colocou os dedos nos lábios a fim de silenciá-la.

- Deixe-me te ajudar - murmurou enfatizando cada palavra.

Pela primeira vez em sua vida, Vivian acreditou que desmoronaria ante uma simples exigência de sinceridade, embora tinha sido pronunciada com grande intensidade e veemência, e em um momento de sua vida que lhe parecia não haver ninguém no mundo que pudesse compreendê-la.

Fechou os olhos e beijou as gemas dos dedos que estavam sobre seus lábios. Ele aspirou com força.

- Vivian…

-Façamos amor, Will - suplicou-lhe em um sussurro-. Faça amor comigo e lhe contarei isso tudo. Por favor.

Aguardou sua resposta durante um longo e agonizante momento, perguntando-se o que pensaria ele, por que tinha ido vê-la essa noite.

-Já sabe o muito que te desejo - disse Will por fim.

Vivian notou que lhe ruborizavam as bochechas e que lhe fraquejavam as pernas. Inclinou a cabeça em um gesto afirmativo quase imperceptível.

-Mas também sabe que uma vez que me deite contigo será o fim - adicionou com voz seca-. E ainda não estou preparado para que isto se acabe.

«O fim.» Não tinha pensado nisso. Se ele consumava sua «relação» se veria obrigado a cumprir seu acordo; e jamais tinha duvidado de que o faria. De repente o entendeu tudo.

-Por isso ontem não fez amor comigo.

De todas as reações possíveis, quão última esperava era que ele pusesse a rir.

Abriu os olhos e o contemplou à luz das tochas. Fixou-se em seu arrumado rosto, em seu abundante cabelo escuro, nas linhas duras e varonis que se agrupavam em traços impecáveis e que encaixavam com perfeição com seu imprevisível senso de humor.

-Asseguro-te que eu não vejo nenhuma graça - assinalou com um sotaque cortante.

Will se inclinou para ela, afligindo-a com sua altura.

-Não fiz amor contigo - confessou em um sussurro - porque eu gosto tanto, senhora Rael-Lamont, que quando me pediu isso já era muito tarde.

Essa explicação a deixou perplexa um instante.

Quando por fim entendeu o significado, ruborizou-se até as orelhas, já que nem por um momento teria acreditado que ele pudesse confessar algo tão… pessoal. Olhou-o fixamente, cada vez mais acalorada. Preocupava-lhe que ele se desse conta de que, embora compreendia bastante bem o que tinha querido dizer, impressionava-lhe muito mais que o tivesse admitido sem o menor rastro de desconforto.

Por desgraça, foram seus olhos os que a enfeitiçaram. Sempre esses olhos tão descarados… esses olhos que mostravam às claras o intenso desejo masculino, que revelavam abertamente seus desejos e suas preocupações. Uns olhos sempre sinceros.

Vivian levantou as mãos e apanhou seus dedos entre as palmas para lhe acariciar a pele com os polegares. Confrontou seu olhar com valentia e sussurrou:

- Isto somente acabará se você o deseja.

O sorriso de Will vacilou, e a estudou com o cenho franzido. No momento, baixou a cabeça e a beijou. Acariciou-lhe os lábios com a boca e os percorreu com a língua antes de entrar na suavidade do interior.

A paixão não demorou em consumi-los. Will se livrou de suas mãos e estirou o braço por detrás dela para introduzir os dedos em seu cabelo e lhe desfazer a trança a fim de deixá-lo solto sobre as costas.

Ela se afastou um pouco.

- Will… - ofegou -. Aqui não…

- Aqui - insistiu ele com um grunhido, antes de apoderar-se de sua boca uma vez mais. Procurou sua língua e começou a sugá-la.

Vivian gemeu quando ele levantou uma mão para lhe massagear um peito por cima do vestido de trabalho e brincou com o mamilo até convertê-lo em uma ponta endurecida.

Apenas consciente do que havia a seu redor, rodeou-lhe o pescoço com os braços enquanto ele a afastava da mesa de trabalho para guiá-la para um lado do viveiro, onde um banco de ferro forjado com almofadas jazia à espera deles no canto mais escuro.

Sob um dossel de folhas e à luz das estrelas, Will insistiu com doçura para que subisse em cima dele. Enquanto suas respirações se mesclavam, o ritmo de seus corações se aceleravam e suas mãos se acariciavam, Vivian subiu as saias e as deixou cair ao redor de ambos para acomodar-se sobre seu colo, rodeando seus quadris com a parte interna das coxas.

Notou sua ereção assim que se sentou sobre ele, e essa grossa rigidez a assustou a princípio… até que começou a desfrutar do desejo que inspirava nele e a desejar o contato de sua pele.

Will gemeu quando ela se situou agachada sobre ele, mas não deixou de beijá-la nem de lhe massagear suavemente os peitos com ambas as mãos.

Mas isso não era suficiente para ela.

Vivian levou as mãos no pescoço e começou a desabotoar o vestido de cima para baixo, até que o afrouxou o bastante para deixar exposta a regata de algodão.

Presa de uma necessidade cada vez maior, ele seguiu beijando-a e começou a retirar com os dedos a regata até que os seios ficaram livres do tecido. Quase imediatamente, baixou a cabeça e se pôs um dos endurecidos mamilos na sua boca.

Vivian esteve a ponto de gritar. Introduziu os dedos na suavidade de seu cabelo e abraçou sua cabeça enquanto jogava a sua para trás e fechava os olhos para desfrutar daquele maravilhoso assalto. Beijou-lhe o mamilo, sugou-o e o apertou com os dentes, detendo-se tão somente para deslocar-se até o outro e lhe fazer idênticas carícias.

Atormentou-a com a boca durante o que para Vivian pareceu uma eternidade. Will respirava com dificuldade enquanto sugava e beijava seus mamilos, e lhe sujeitou com força as costas quando ela começou a gemer. Por fim, seu corpo começou a balançar-se contra ele como se tivesse vida própria para sentir a dureza da ereção tão intimamente como o permitiam as roupas. Ele captou o ritmo imediatamente e a conteve pela cintura com ambas as mãos para apertá-la contra seu membro enquanto riscava círculos com a língua ao redor dos mamilos.

-Will… - sussurrou Vivian sem pensar, temendo estar perdendo a prudência. Estava tão perto… Gemia de maneira incoerente, preparada para alcançar a cúpula da paixão e afundar-se nessa deliciosa maré de prazer.

Justo quando estava a ponto de chegar, Will baixou as mãos até seus quadris e a obrigou a deter-se.

- Ainda não - disse-lhe entre ofegos -. Espere-me…

Vivian fechou os olhos com força e tratou de acalmar a tormenta que percorria seu corpo.

Pouco depois sentiu os dedos dele sob as saias, lutando com as calças, roçando sua parte mais íntima sem querer enquanto tratava de liberar-se.

Deus ia ocorrer…

E estou preparada, disse-se.

Levantou os quadris um pouco para lhe facilitar o acesso. Will lhe deu vários beijos rápidos nos lábios enquanto lutava por baixar as calças. De repente, Vivian sentiu uma vez mais os dedos dele entre suas pernas, e gemeu quando ele encontrou a diminuta ranhura da roupa interior e a separou tanto como foi possível.

Levantou as pálpebras e o olhou aos olhos. Will a estava observando; o rosto, oculto parcialmente pelas sombras, estava concentrado na expressão de prazer dela, no que lhe estava fazendo.

E então notou que Will acariciava o centro úmido e ardente de seu prazer, e não pôde evitar pronunciar seu nome.

Will se estremeceu debaixo dela.

- Úmida, suave, perfeita - sussurrou com voz rouca sem apartar o olhar de seus olhos-. Saberia que seria assim…

Vivian acreditou que exploraria quando ele começou a acariciá-la. Tomou fôlego, fechou os olhos uma vez mais e começou a mover os quadris de novo contra seus dedos.

Era tão maravilhoso, tão maravilhoso…

- Sente-se sobre mim - murmurou ele ao mesmo tempo em que voltava a colocar as mãos sobre seus quadris.

Ela o agradou, descendo até que tocou a quente dureza de seu membro rígido e cobrindo-o com a umidade de seu sexo.

- Não te mova - ordenou-lhe ele de maneira apenas audível, aferrando-a com força para mantê-la imóvel-. Gozarei se o faz.

Vivian jamais tinha ouvido ninguém falar com tanta claridade sobre o que estavam fazendo nesse momento. Mas em lugar de envergonhar-se, virou-se louca de desejo.

- Quero me mover - murmurou, apertando as coxas em seus quadris.

Will aspirou com força e lhe deu um beijo em um mamilo.

-Sei, sei meu amor - respondeu enquanto rodeava o extremo do peito com os lábios-. Dê-me um minuto.

Vivian enterrou os dedos em seu cabelo enquanto sentia os rápidos batimentos de seu coração, a rápida respiração dele e a dureza do membro que tinha entre as pernas.

De repente, Will acariciou com os dedos a pequena protuberância carnuda que albergava o núcleo de seu prazer, e Vivian deixou escapar um gemido de deleite.

- Eleva-te um pouco, Vivian.

Ela fez o que lhe pedia.

Will levantou os quadris para começar a afundar-se dentro dela.

Nesse momento ambos ofegavam presas de uma febre entristecedora, alheios a tudo o que os rodeava. Estavam concentrados um no outro, na intensidade do êxtase que crescia. No fato de saber que iam converter em um somente para encontrar juntos a satisfação.

Will introduziu um pouco seu membro entre as cálidas paredes de seu interior. Vivian fechou os olhos e apertou seus ombros para preparar-se.

- Mmm - murmurou ele com os olhos fechados, enquanto colocava as mãos nos quadris dela para guiá-la -. Está tão úmida, tão… tensa.

Vivian apertou as coxas e sentiu que ficava sem respiração. Tinha um pouco de medo, mas esteve a ponto de chegar ao clímax assim que ele começou a mover os quadris para cima.

Will meteu um de seus mamilos na boca e Vivian soltou uma exclamação, tentando conter-se por todos os meios. Doía-lhe um pouco mais do que tinha esperado, e por uns instantes acreditou que seu membro não caberia dentro dela. Ele pressionou mais, com mais força, afundando-se mais profundamente com cada investida, até que o desconforto se transformou em uma deliciosa sensação de plenitude.

Will diminuiu o ritmo dos movimentos quando seu corpo o aceitou por inteiro e seguiu com a boca presa em seus peitos, lhe massageando a carne com as mãos enquanto acariciava os mamilos com a língua.

Vivian não podia respirar, embora se sentisse a ponto de explodir. Nesse momento, o impulso de mover-se converteu em uma necessidade entristecedora.

Muito devagar, começou a balançar-se para frente e para trás sobre ele, riscando pequenos círculos quando encontrava o ritmo que desejava. Ele a seguiu sem problemas, e deixou que lhe fizesse amor.

- Sim - murmurou Will, quase sem fôlego - Deus, que bem o faz, Vivian.

Ela choramingou e se aferrou a seus ombros enquanto acelerava o ritmo, aproximando-se cada vez mais ao topo com cada diminuta rotação.

- Venha para mim, meu amor…

Vivian abriu os olhos para observá-lo. Ele levantou as mãos até os peitos para apertá-los com suavidade, e a olhou nos olhos enquanto acariciava os mamilos com os polegares. O fato de que estivesse tão concentrado em lhe proporcionar agrado levou Vivian a beira da loucura.

- Sim, Will… - sussurrou, movendo-se mais rápido e fincando os dedos em seus ombros -. Sim… sim…

Afogou um grito quando a explorou, e sentiu cada uma das pulsações de delicioso prazer que a percorreram por dentro enquanto se contraía ritmicamente ao redor de sua ereção.

- Deus, estou-te sentindo… - disse ele com voz rouca, ao tempo que jogava a cabeça para trás e fechava os olhos -. Não pares. Não pares…

Investiu com os quadris uma, duas vezes mais, enquanto ela se apertava contra ele com mais força, mais rápido, desejando que experimentasse cada sensação com ela, graças a ela.

- Vou gozar Vivian… - murmurou segundos Will mais tarde.

Ela gemeu ao escutá-lo e meneou os quadris sem cessar contra ele. De repente, Will se inclinou para diante e a rodeou com os braços para estreitá-la com força; ocultou o rosto em seus peitos, soltou um grito e se sacudiu dentro dela.

Vivian notou umas pequenas pulsações em seu interior, e soube que ele tinha ejaculado dentro dela. Em muitos aspectos, pensaria mais tarde, na idéia de que se arriscou tanto por estar com ela, e a tinha excitado mais como nunca fora antes.

Derrubou-se contra ele, com sua bochecha apoiada no peito e seu quente fôlego lhe acariciando o mamilo com cada exalação. Abraçou-o com força enquanto escutava sua própria respiração irregular e se fixou em que ambos estavam suando.

O lugar permanecia tranqüilo, em silêncio, e lhe deu a impressão de que eles eram as únicas pessoas vivas no mundo. Vivian apoiou a bochecha sobre sua cabeça e contemplou as fileiras de tulipas de brilhantes cores que havia à esquerda, iluminada fracamente pela luz das tochas. A brisa noturna cheirava a plantas e a terra - da que ainda tinha restos na pele e no cabelo -, embora possivelmente arrastava também o leve aroma da chuva que se aproximava, e o dele: essa sedutora essência almiscarada tão viril, tão característica dele. Vivian soube nesse instante que a reconheceria em qualquer parte.

Permaneceram abraçados um bom momento sem dizer qualquer palavra. Por fim, Vivian notou que seu membro saía dela, dando por terminado o ato que os tinha unido tão intimamente. Não obstante, Will seguiu abraçando-a em silêncio, como se temesse que se desvanecesse.

Vivian resolveu nesse momento que aquele homem a necessitava. Jamais havia sentido um pouco parecido com antecedência. Ao longo dos anos, muitos homens a tinham desejado e tinham tentado deitar-se com ela, utilizá-la para melhorar sua posição, cercar amizade com ela ou escravizá-la - ou ao menos isso tinha parecido -, mas nunca antes tinha percebido essa necessidade insaciável em nenhum homem mais à frente do plano físico. Nesse preciso instante, no pequeno jardim do pátio, sentiu que Will a necessitava muito mais do que ele acreditava. E isso a assustou. Se havia algo que sabia com certeza era que não poderiam manter uma relação duradoura. Aproximava-se muito dele emocionalmente, acabaria por apaixonar-se.

Começou a separar-se dele muito devagar.

- Estou como que grudada em ti - sussurrou.

Ele esfregou a cara contra seus peitos uma última vez.

- Mmm… É uma sensação maravilhosa.

Com as pernas tremendo, Vivian se apoiou no encosto do banco para ajudar-se a ficar em pé e deixou que o vestido caísse para baixo e a cobrisse como era devido. Ao ver que Will começava a pentear-se com os dedos, deu a volta a fim de vestir a regata e lhe permitir a intimidade necessária para que ele fizesse o mesmo com as calças.

- Devo te confessar algo - disse Vivian depois de um momento, enquanto jogava uma nova olhada à casa e notava com alívio que permanecia fechada e às escuras.

Notou que ele ficava em pé e se alisava a roupa, assim que se aproximou da mesa de trabalho, iluminada pelas tochas, e começou a limpar a terra que tinha arrojado antes.

- Estou impaciente por ouvi-lo - assinalou ele, que ficou de pé onde estava.

Vivian fez uma pequena pausa ao escutar seu tom ensimesmado e logo virou para empurrar a terra esparramada com uma mão para a palma da outra.

-Deixa de trabalhar, Vivian, e me olhe.

Seu coração começou a pulsar a toda pressa de novo, embora nessa ocasião se devesse mais ao nervosismo. Não obstante, fez o que lhe tinha pedido e se virou para enfrentá-lo.

Will seguia oculto nas sombras, e embora soubesse que tinha cruzado os braços à altura do peito, não podia ver sua expressão. Supôs que deveria alegrar-se por isso.

-Não… não sei muito bem o que dizer.

Ele respirou fundo.

-Está pronta para me contar isso tudo – murmurou - para deixar que te ajude e para confessar quem é Gilbert Montague e que tipo de informação possui sobre ti que pode te obrigar a vender sua alma ao diabo.

Vivian esteve a ponto de soprar.

-Isso é um pouco melodramático.

-Seriamente?

De repente se sentiu afligida pela preocupação. Não esperava que ele se mostrasse tão… reservado. Ou que o parecesse, ao menos.

-O que acontece? -perguntou com evidente vacilação, ao tempo que entrelaçava as mãos à altura do colo. Em seguida notou uma súbita quebra de onda de calor - Não o fiz…? Não…?

-Esteve magnífica - replicou ele com voz rouca.

Isso a deixou maravilhada. Em qualquer outro instante lhe teria sorrido e o teria abraçado. Mas o ambiente tinha trocado sutilmente.

- Será sincera comigo? - perguntou Will.

Vivian engoliu saliva.

- Tão sincera como me é possível.

Ele inclinou a cabeça com ar pensativo e virou a olhá-la.

- Vivian, estive com muitas mulheres.

Sentiu-se desconcertada.

- Esperas que me sinta assombrada ante semelhante confissão?

Ou ciumenta, talvez? Pensou.

Will passou por cima da pergunta e começou a caminhar em sua direção.

- De todas elas, sei com certeza que só duas eram virgens. Uma delas era a mulher com a que me casei; e a outra é você.

Ai, Meu deus…

Esteve a ponto de desmaiar. Deixou escapar um pequeno grito de terror enquanto se levava a mão à garganta.

Ele se deteve justo diante dela e a olhou fixamente com expressão séria.

- Importar-te-ia me explicar isso meu amor?

Vivian se sentia incapaz de falar, mas quando conseguiu fazê-lo, ignorou por completo quanto ele acabava de dizer. Negava-se a discutir sobre aquilo.

- Tenho uma proposta para lhe fazer - murmurou com a boca seca e tremendo por dentro.

Uma expressão surpreendida atravessou o rosto de Will.

-Uma proposta?

Vivian se obrigou a sorrir.

- Trabalhemos juntos. Conseguiremos uma boa cópia do manuscrito e…

- Vivian, de que demônios está falando?

Ela piscou.

- Acabo de me dar conta de que não vai me dar o original.

Will meneou a cabeça muito devagar.

- O manuscrito me importa pouco agora. Diga-me por que, como é possível que fosse virgem.

- Não sou virgem - replicou ela em tom mais desafiante de que pretendia. Não estava disposta a falar do assunto, e ele devia compreendê-lo.

Will riu baixo e esfregou a cara com uma mão.

- Está claro que já não o é.

Vivian sentiu uma nova rajada de calor ao recordar a hora perfeita que tinha estado com ele. Quem dera, ele pudesse concentrar-se nisso.

- Jamais manteve relações íntimas com seu marido, verdade? -insistiu uma vez mais.

- Meu passado é irrelevante - respondeu e respirou fundo.

- Não, não o é - replicou ele aproximando-se com outro passo-. Já não.

Vivian arqueou as sobrancelhas.

- O teu sim.

A insolência do comentário o deteve em seco.

- Não jogue comigo, senhora Rael-Lamont - murmurou com voz fria e penetrante.

Ela confrontou seu olhar durante um comprido e tenso momento, desejando que as coisas fossem diferentes entre eles. Mas se negou a ter em conta a dor.

- Por favor, não me faça falar disso, Will - murmurou por fim - Não posso fazê-lo.

Vivian se fixou na corrente de emoções que atravessaram seu rosto: incredulidade, fúria, e inclusive dor. Um instante depois, Will retrocedeu um passo, deixou cair os braços ao lado do corpo e entrecerrou os olhos com desprezo.

- Suponho que então não há nada mais que dizer. Boa noite, senhora.

Deu-lhe as costas e saiu pela porta lateral.

Vivian permaneceu onde estava um bom momento, contemplando o lugar no que tinham feito amor sem escutar nada, sem sentir nada. Foi à cama só quando começou a chover.

 

Wilson lhe havia dito que encontraria o duque na praia, e não tinha feito mais que deixar o atalho do jardim e espionar a extensa e turbulenta massa do oceano quando o viu sentado em uma zona de erva ao lado da borda. Levava um traje informal de um tom um pouco mais escuro que o da areia e as mangas da camisa enroladas por cima dos cotovelos, que tinha apoiado sobre os joelhos dobrados.

Vivian se deteve uns metros de distância para estudá-lo de longe. As lembranças do que tinha ocorrido duas noites atrás lhe resultavam muito vividos, muito eróticos, e quase não tinha podido concentrar-se em outra coisa que não fora ele desde que a deixou sozinha no pátio. Isso tinha conseguido que a reunião de chá da senhora Safford no dia anterior tivesse sido bastante incômoda, em especial pelas perguntas agressivas e mal intencionadas que lhe tinham formulado com respeito à derrota ocorrida no último domingo na igreja do Saint Mary.

Se não andava com cuidado, os rumores a respeito de que o duque de Trent e ela mantinham uma relação inapropriada, inclusive íntima, estender-se-iam como a pólvora por todo o povo. Não podia permiti-lo estando sua posição social e seu meio de vida em jogo. Contudo, ali estava visitando sua casa de novo e encontrando-se com ele em privado. Ao menos nessa ocasião estavam mais ou menos ao ar livre e podiam vê-los da casa. Deviam falar, falar de verdade, e tinha jurado a si mesma antes de abandonar os limites de sua casa que faria tudo que estivesse em sua mão para manter a raia a atração física que sentiam um pelo outro. Ao menos tempo suficiente para deixar claras algumas coisas.

- Vais aproximar-te ou pensa ficar aí atrás?

Vivian sorriu ante a secura forçada do tom e começou a caminhar para ele.

-Estava pensando.

Ele agarrou uma fibra de erva e a girou entre os dedos.

-Bom, pois espero que não pense em assassinato.

Vivian supôs que poderia ofender-se por isso, mas sabia por instinto que essa forma de brincar com palavras provocadoras encerrava possivelmente um pequeno grau de auto-piedade. Não obstante, o fato de que o comentário parecesse tão pessoal a comoveu imediatamente. Ao que parecia, ele sempre conseguia arrumar-lhe para consegui-lo.

Baixou muito devagar o pendente de erva e se deteve às suas costas; rodeou a cintura com os braços para proteger-se da brisa fresca da tarde e contemplou o mar cinza e encrespado.

- Nem me ocorreria te matar nestes momentos - replicou com voz serena -. Pode ser que o faça algum dia, mas não agora.

- Nesse caso não te darei uma cópia do manuscrito até que tenha contratado a proteção suficiente.

- Ah. Bom, ninguém mataria por uma cópia, excelência, mas possivelmente sim pelo original.

Ele riu entre dentes e a olhou de esguelha.

- Sente-se, minha senhora, e me diga por que vieste para ver-me neste lúgubre dia.

Vivian fez o que lhe pedia, é obvio, e estendeu as saias do vestido a seu redor, o que lhe permitiu acomodar-se a uma distância adequada à esquerda do duque.

Não começou a falar imediatamente, já que o fato de estar perto dele lhe provocava uma estranha sensação de consolo a que não estava disposta a renunciar ainda por uma discussão. E tinham muitas coisas das quais falar que poderiam conduzir a uma discussão, embora sua intenção era fazer todo o possível por evitar que isso ocorresse.

- Faz um dia bastante lúgubre, verdade? - Conveio por fim, um tempo que contemplava as ondas, incolores à exceção das cristas brancas, e a extensão do mar livre de veleiros e de pescadores -. Por que está aqui se não há muito interessante que ver?

Ele suspirou.

- Eu também estava pensando.

- Imaginava que um homem de sua posição teria coisas muito mais importantes que fazer - disse ela ao ver que ele não acrescentava nada mais.

- Sim - replicou ele, assentindo com a cabeça- mas minha posição também me permite organizar o tempo como tenho vontade. Seguiremos com nossas vidas independentemente do que eu faça ou onde o faça.

Vivian não pôde reprimir uma gargalhada.

-A gente?

Ele encolheu os ombros e lhe jogou um olhar rápido.

-Não conhece as pessoas, Vivian?

- Diga-me uma coisa, rogo-lhe isso, de que estamos falando?

- Das pessoas que vivem de fofoca e que formam opiniões sem apoiarem-se no menor rastro de evidências.

Vivian deixou de sorrir e se tornou para trás um pouco para apoiar os cotovelos na erva suave que havia as suas costas.

- Durante os últimos quinze anos, tratei de viver minha vida tão privadamente como me foi possível e evitei compartilhar certas coisas sobre mim num intento de escapar dos rumores.

- E mesmo assim - ele assinalou -, saltam sobre ti quando menos espera e lhe impõem sua desagradável e desinformada presença para que todo mundo o veja e se sinta atraído se há remédio para ela, como as pequenas formigas para um maravilhoso almoço no campo.

Vivian se perguntou por um instante como desejava ele que ela interpretasse isso, mas decidiu que se referia às conversações sociais que giravam em torno deles dois e não só a ele.

- Refere ao que ocorreu no domingo fora da igreja de Saint Mary? -perguntou.

Will curvou para cima uma das comissuras de sua boca.

- Exato. Por sorte para ti, minha doce Vivian, a maior parte das pessoas de nosso pitoresco povoado estão fartos de mexericar a respeito de quem matou a sua pobre e atormentada esposa.

«Pobre e atormentada esposa.»

Vivian exalou muito devagar; preocupava-lhe dizer algo inapropriado quando na realidade entendia seus sentimentos com perfeição, muito mais do que ele imaginava.

- aprendi a tirar minhas próprias conclusões com respeito aos outros, Will - murmurou por fim -. E a maioria das pessoas que valem à pena faz o mesmo.

Ele se virou para olhá-la e percorreu seu rosto com os olhos, notando seus traços com tanta intensidade que Vivian ruborizou um pouco.

-Nesse caso, quais são suas conclusões a respeito de mim?

O fato de que formulasse uma pergunta tão importante de uma forma tão brusca a fez vacilar. Mentir-lhe nesse momento seria um bom seguro desastroso, já que tinha a firme convicção de que ele conhecia suas razões e pensamentos quase tão bem como ela. Se o enganava, dar-se-ia conta em seguida.

- Não acredito que assassinou a sua esposa – afirmou, e para falar a verdade, somente ficava uma minúscula dúvida que cuidou muito bem de ocultar.

Ele a olhou nos olhos um bom momento com as pálpebras entrecerradas, estudando-a. Vivian se negou a apartar o olhar, a retroceder, embora durante alguns segundos sentisse certa angústia interna ao dar-se conta de por que esse homem tinha tão má reputação: era muito masculino, muito retraído, muito sério. Mas por mais estranho que parecesse, eram também essas mesmas qualidades ou raridades de sua personalidade as que ela achava fascinantes em extremo.

Por fim, com um semblante desprovido de toda emoção, ele baixou o olhar até seus lábios e logo estirou o braço para acariciar-lhe com ternura. Vivian não se retraiu; em lugar disso, beijou-lhe as gemas dos dedos muito suavemente.

Will engoliu saliva com força, perplexo ao parecer ante semelhante resposta, e depois deixou cair a mão e virou a vista para o tumultuoso oceano.

- Eu não a matei. Minha esposa tinha uma… enfermidade, Vivian. Chamava-se Elizabeth, e era a segunda filha do conde do Stanwynn. Quando me casei com ela era uma mulher formosa e lhe faltavam semanas para cumprir os dezoito anos, e estava muito apaixonada por mim, algo que naquela época eu encontrava muito curioso, já que nosso matrimônio tinha sido acertado por nossos pais quase doze anos antes.

Como poderia não estar apaixonada por ti? Perguntou-se Vivian.

- E o que sentia você por ela? -perguntou com indiferença, procurando que suas próprias inseguranças não saíssem a reluzir em seu tom de voz.

-Amava-a - respondeu ele imediatamente -. Era uma coisinha tão delicada, tão doce e considerada, loira e formosa… Tinha muitas esperanças de que nosso matrimônio saísse bem, de ter filhos e uma companheira quando fora velho. Mas somente demorei dois meses para me dar conta de que na realidade não a conhecia absolutamente… ou ao menos não conhecia sua verdadeira personalidade.

Vivian se obrigou a não dizer nada, já que não desejava interromper as confidências que durante tanto tempo tinha esperado. Uma rajada de vento soprou a seu redor e sentiu um calafrio, mas se negou a render-se às baixas temperaturas; quando Will se mostrava de repente tão revelador. Sentou-se e cruzou os braços na frente, esfregando-lhe com as palmas para aliviar um pouco do frio procedente do mar.

Ele arrancou outra fibra de erva, uma bastante larga, e começou a brincar com ela tentando sem êxito fazer um nó.

-O primeiro ano foi difícil, mas acreditava que todos os casais atravessavam certas dificuldades no princípio, até que se acostumassem um ao outro e sua nova relação. Mas ela se mostrava freqüentemente mais irracional. Eu não sabia como agir...

Vivian abriu a boca devagar.

-Irracional?

Will pegou outro caule de erva.

-Em ocasiões estava tão… cheia de energia, tão feliz e exultante, tão contente com a vida, Vivian, que dava trabalho para dormir ou inclusive sentar-se para comer; resultava-lhe difícil concentrar-se até nas tarefas mais singelas. Sua mente parecia passar rapidamente de uma idéia a outra sobre como utilizar sua posição como minha esposa na boa sociedade. Durante essas ocasiões nas que estava entusiasmada, fazia grandes planos para seu futuro e gastava meu dinheiro sem limitações nem reparos. Uma vez comprou uns brincos de rubis a todas e cada uma das mulheres que faziam parte do meu pessoal de serviço na casa de Londres.

-Deve estar brincando…

Ele fez um gesto negativo com a cabeça.

-Jamais na vida esquecerei a cara de incredulidade dessas mulheres quando receberam um presente semelhante. Por Deus, Vivian, não necessitavam rubis, e Elizabeth sabia muito bem. Onde demônios acreditava que iam usá-los mesmo que quisessem fazê-lo? Deixando de lado o fato de que lhes pagava bem, porque sempre paguei bem ao meu pessoal, essas mulheres tinham nascido e se criaram em um mundo no qual se trabalha a fim de conseguir o dinheiro necessário para comprar mantimentos e pagar as coisas essenciais. Consta-me que todas elas venderam os brincos na rua por uma miséria em comparação com o que custaram, graças a duquesa de Trent que lhes tinha dado a oportunidade de entesourar um pouco de dinheiro, vestir a seus filhos à nova moda e servir uma inusitada porção de vitela na mesa.

Vivian entendia muito bem sua preocupação, já que sabia o que era viver com meios modestos; não diferente, compreendia o que esse absurdo comportamento lhe teria parecido a tudo aquele que soubesse o que tinha feito a condessa.

-Esse incidente te incomodou muito?

-Quer saber se me zanguei? É obvio que sim. -Inclinou a cabeça um pouco e a olhou com franqueza-. Não me incomodava que minha esposa se preocupasse com outros e que desejasse agradá-los acima de tudo. O que me incomodava era que fizesse essas coisas tão absurdas e… espontâneas, sem me consultar sequer. -esfregou-se o rosto com a palma de uma mão-. Uma coisa era que, como esposa de um aristocrata, ajudasse aos necessitados doando as roupas velhas, visitando os doentes e aos pobres e enchendo terrinas de sopa. Mas outra muito distinta é acreditar que é tão importante que pode acabar com os males do mundo. Elizabeth estava segura de que ela sozinha poderia salvar o mundo.

Uma gaivota pousou na areia diante deles, bicou o chão umas várias vezes e remontou o vôo por cima da água, em direção sul.

- Como morreu? - perguntou Vivian quando por fim reuniu a coragem necessária para fazê-lo.

Will vacilou uns momentos e respirou fundo enquanto se concentrava em atar as duas fibras de erva.

-Havia outras ocasiões, ocasiões horripilantes, nas que não era ela mesma - adicionou em um tom tenso e grave-. Nessas ocasiões, Vivian, era como se ela… ficasse doente; deixava de concentrar-se em si mesma e em sua capacidade para evitar o mal e se comportava como uma criatura temerosa, instigada e afligida pelo desespero que não deixava de chorar até que não ficavam lágrimas; mais tarde, zangava-se e se voltava cruel comigo. Jogava-me livros, candelabros, xícaras de chá…, algo que estivesse disponível e ao alcance da mão, quando eu não fazia ou dizia o que ela acreditava razoável e apropriado. Utilizava uma linguagem que nenhuma dama consideraria decente e tratava os criados que tinham estado a meu serviço durante anos com tal maledicência que chegaram a ter verdadeiro medo de aproximar-se dela quando entrava nesse estado de humor, como eles o chamavam. Que Deus me perdoe, mas jamais cheguei a entendê-lo. Seu médico disse que era normal que as damas ficassem um pouco alteradas durante a menstruação, mas aquilo era… não sei muito acentuado. Extremo. E não estava sempre relacionado com o ciclo feminino. Algumas vezes se passava meses inteiros nesse estado de energia inesgotável e depois se afundava no desespero durante semanas, nas que apenas se levantava da cama. - penteou o cabelo com os dedos de maneira brusca e logo jogou as ervas atadas à areia, frente a ele-. Passado um tempo, posto que não soubesse o que outra coisa podia fazer, apartei-me tanto física como emocionalmente dela. E isso foi o princípio do fim.

Vivian observou como o vento arrastava as fibras atadas pela areia até a borda. Permaneceu imóvel, sem fala, e lhe achou extremamente difícil resistir o impulso de esticar a mão para lhe acariciar o rosto e estreitá-lo em um forte abraço.

-A noite antes de sua morte tivemos uma discussão terrível - continuou perdido nas lembranças-. Ela tinha chegado à conclusão de que já não a queria, sem que lhe importasse o que eu dissesse para demonstrar o contrário. Levava duas semanas sem querer sair da cama. Sua irmã nos tinha feito uma curta visita e tinha acusado de não dedicar a Elizabeth a atenção suficiente, algo que eu acreditava que tinha o nocivo efeito de lhe colocar idéias estranhas na cabeça. Suponho que a essas alturas sentia indefeso, assim que me neguei a falar com nenhuma delas. Sua irmã partiu um sábado, e à manhã seguinte, um quente, ensolarado e formoso domingo, encontraram o corpo da Elizabeth flutuando em um lago próximo. O fim da semana seguinte, seus parentes me acusaram de assassinato. - Apertou as mãos até as converter em punhos - A única razão pela qual não estou morto ou na prisão nestes momentos é que alguns aristocratas amigos meus atestaram a meu favor e que não havia nenhuma prova sólida de que eu lhe tivesse feito nada. Presa de um desespero que não podia dominar, minha esposa se afogou. Para as pessoas, entretanto, as suspeitas não acabaram, e nunca o farão. Cometi o pecado mais grave, assim jamais me perdoarão. - Baixou a vista ao chão, com o olhar perdido -. Se houver algo que aprendi é que a vida não só é difícil; às vezes resulta insuportável, e outras, muito injusta. Caso não fosse os débeis raios de sol e esperança que espionamos no topo de cada montanha que escalamos, acredito que todos nos renderíamos.

Quando Will acabou sua revelação, permaneceram sentados e em silêncio um bom momento, escutando o rugido das ondas que chocavam umas contra outras em seu caminho até a borda, o ocasional chiado das gaivotas e o assobio do vento.

-Quais são esses amigos que foram em sua defesa? - Perguntou Vivian um pouco mais tarde.

-Um deles é Samson Carlisle, o duque de Durham - apressou-se a responder -; outro é Colin Ramsey, o duque de Newark. Nossas famílias têm um parentesco longínquo, mas nós três somos como irmãos desde pequenos.

-Conheci sua excelência o duque de Durham faz uns anos - confessou ela depois de um instante de vacilação-, na velada ao ar livre de Lady Clarice Suffington. -Embora não estava segura de se seria prudente admiti-lo, Vivian decidiu que o encontro tinha sido tão breve que carecia de importância-. Lembro que era muito arrumado e muito alto, bastante distinto e com um ar melancólico, embora não acredito que ele se lembre de nosso breve encontro. O homem parecia soberanamente entediado… e isso sim que o recordo bem.

Will a olhou de soslaio com um sorriso irônico.

-Suponho que é uma boa descrição de Sam. - Percorreu seu rosto com o olhar-. Por que estava ali?

Vivian abriu os olhos devagar.

- Na velada de Lady Clarice?

- Sim.

Vamos, pensa em algo, disse a si mesma.

-Estava na biblioteca retocando um dos arranjos florais com a mãe de Lady Clarice quando ele entrou para desfrutar de um momento de paz, acho que foi isso.

Não era uma resposta direta, mas esperava que bastasse. Olhou para o chão para evitar o meticuloso escrutínio que a estava submetendo e arrancou da raiz um punhado de erva alta antes de jogá-lo no vento. Para falar a verdade, tinha sido uma das convidadas à festa; tinha ido à biblioteca com a condessa para lhe dar algum conselho sobre os ramos que poderia utilizar para as bodas previstas de sua filha maior, e tinha sido então quando conheceu o duque. Entretanto, não queria dar a Will informação que lhe induzira a fazer mais pergunta que ainda não estava preparada para responder. Assim, manteve o tema de conversação centrado em seu amigo.

-Recordo que parecia cansado por estar ali, e bastante absorto - prosseguiu Vivian.

Depois de um instante, arriscou-se a jogar uma olhada a seu rosto.

Ele a estudou com atenção durante um momento.

- Sam é um tipo calado, e detesta as festas - explicou depois.

Ela assentiu com um leve sorriso.

- E esse outro teu amigo, o duque de Newark?

Will seguiu observando-a uns momentos. Em seguida, afastou da testa as mechas que tinha despenteado o vento e virou para concentrar sua atenção nas agitadas ondas.

- Colin é totalmente oposto a Sam: seguro de si mesmo, sociável e viciado no flerte. Colin é… divertido.

- E as mulheres o adoram, não? -perguntou, já que conhecia muito bem a esse tipo de homens.

A boca dele se curvou em uma careta irônica.

- Isso sempre acontecia. Inclusive quando era um menino, havia multidão de meninas a seu redor que riam sem parar de tudo o que fazia e dizia. Sam e eu nunca deixamos de nos assombrar ao ver tanta estupidez. Colin, entretanto, absorvia-a do mesmo modo que as torradas absorvem a manteiga. E ainda o faz. -Soltou um bufo-. Necessita atenção feminina constante para alimentar sua incrível vaidade.

- O que passa é que está ciumento - afirmou ela com uma gargalhada.

- É provável que sim. - Olhou-a aos olhos-. Mas agora não.

Isso lhe provocou um estremecimento de afeto que a percorreu de dentro fora. Encontrava fascinantes as diferenças entre os três amigos da infância, cujas personalidades tinham permanecido intactas ao longo dos anos. Supôs que deve ter sido impactante para aqueles que o presenciaram ver o duque de Newark e o duque de Durham, dois distinguidos cavalheiros de tão nobre extirpe, defendendo o caráter de um homem no tribunal frente ao juiz e ao jurado. Suspeitava que o futuro de Will, o destino de sua vida, tinha estado naquele tempo nas mãos deles.

- Salvaram-lhe a vida - disse em voz baixa.

- Sim - conveio ele depois de respirar fundo -. Sem eles e seus irrevogáveis testemunhos é muito provável que me tivessem enforcado.

Vivian sentiu que a compaixão alagava seu coração e fez um considerável esforço por não vir abaixo diante dele. Sua vida devia ter sido horrível; não só pelo fato de estar casado com alguém a quem não conseguia entender e com quem não combinava emocionalmente, mas também por ter tido que experimentar a humilhação de um julgamento público e por esses últimos cinco anos nos que a sociedade o tinha considerado um ser perverso privado de toda redenção. Perguntou se esse era o motivo pelo que se transladou a Cornwall e pelo que gastava seu dinheiro em objetos estranhos e bonitos para decorar uma propriedade da qual quase não saía, uma casa maravilhosa que não compartilhava com ninguém mais que com uns muitos criados leais. Começava a compreender sua maneira de pensar e de atuar, a confusão que lhe produziam os anos de sofrimento que passou sua esposa antes de tirar a vida de um modo tão terrível e a tortura que devia lhe haver ocasionado não poder ajudá-la em nada. A frustração e o sofrimento deviam ter sido tão grandes como a sensação de culpabilidade. Não era de sentir estranhar que tivesse permanecido encerrado até hoje. Não era de sentir estranhar que parecesse tão sozinho.

Sem pensar duas vezes, Vivian estendeu um braço, colocou a mão sobre a dele e a apertou com força para evitar que tentasse apartá-la. Em vez disso, Will começou a lhe acariciar os nódulos com o polegar, com uma tranqüilidade da qual parecia desfrutar.

Transcorrido um bom momento, Vivian tirou sua mão e lhe deu um beijo suave no pulso.

- Talvez te resulte incrível, Will, mas meu marido se parecia muito com sua esposa. Não no que se refere ao desequilíbrio emocional, a não ser o fato de que tinha um vício tão forte que destruiu sua personalidade e a maior parte de sua vida.

Deteve-se um momento enquanto ele seguia lhe acariciando o dorso da mão sem dizer nada, esperando que ela continuasse quando se sentisse preparada para fazê-lo. Vivian sabia de algum modo que lhe intrigava tanto história pessoal dele como a sua. E isso a reconfortava de uma maneira estranha.

Por fim, depois de jogar a cautela ao vento úmido e salgado do mar que os encerrava em um mundo de confidências mútuas, reuniu seus medos e começou a lhe revelar esse passado que tanto se esforçou por ocultar da pessoa em que de repente confiava mais que em nenhuma outra.

- Meu marido era um homem com uma fortuna considerável - começou em voz baixa e sem reserva -. Disse a todo mundo que era meu primo para evitar perguntas indesejadas, mas não o era. Era um bom amigo da família e me apaixonei por ele no mesmo instante em que o vi. Mas não só era muito jovem quando o conheci, também era incrivelmente ingênua. Casei-me com ele justo antes de fazer vinte anos, e ao igual a você, imaginava com entusiasmo e esperança um futuro cheio de alegria, companheirismo e filhos. Por desgraça, a noite de núpcias meu mundo deu um tombo para o reino do inimaginável.

Fechou os olhos e elevou o rosto para o céu ao notar a familiar tensão interna que aparecia sempre que recordava sua vida anterior. Uma vida sobre a que não tinha conversado com ninguém em mais de dez anos.

- Meu marido, Leopold, era viciado em ópio, Will. Fumava diariamente e o ocultava de todo mundo. Converteu-se para ele em uma sinistra obsessão que destruiu pouco a pouco sua razão para viver e estragou tudo o que era. -Abriu os olhos e cravou o olhar no céu cinza de princípios da tarde-. Em nossa noite de núpcias me vesti para agradá-lo e me preparei para a consumação do matrimônio que me arrebataria a virgindade e me faria dele. Amava-o, e desejava que ele me amasse também.

Tomou uma tremente baforada de ar. Sabia que ele tinha os olhos cravados nela, mas se negava a olhá-lo, incapaz de lhe revelar até que ponto se encheu de raiva o coração e a mente que tão tenros fossem em outra época. Mesmo assim, não lhe soltou a mão, o vínculo que os unia no passado e no destino. Nesse instante precisava tocá-lo mais que nenhuma outra coisa no mundo.

- Era muito ingênua e muito jovem, como já disse; tinha vivido uma infância super protegida e me resultava impossível acreditar que alguém que gozava do prestígio que tinha meu marido na sociedade, um homem com dinheiro e educação, um nobre com uma reputação irrepreensível, pudesse chegar a ser tão viciado em uma substância que conseguia que tudo o importante na vida carecesse de sentido para ele. Vivia cada dia, da manhã até a noite, para o que ele convenientemente denominava «sua medicina».

Will levou a mão de Vivian à boca e lhe beijou os nódulos com suavidade, embora não a interrompeu. Por fim, Vivian se virou e lhe dedicou um pequeno sorriso. Ele a olhava com os olhos entrecerrados e com uma seriedade que parecia lhe transpassar a pele.

- Perguntou-me por que era virgem. -Tinha baixado a voz até convertê-la em um sussurro que mal se escutava por cima do vento-. O certo é que meu marido não podia manter uma ereção. Tentava-o, certamente, mas quando… quando não podia… responder fisicamente, nem sequer as minhas carícias, culpava-me de sua incapacidade.

Vivian estudou sua reação com atenção e viu que franzia o cenho com aparente confusão.

-Seu vício era tão intenso que o convertia em impotente e jogava a culpa a ti?

Vivian se sentiu sufocada, mas confrontou seu olhar com valentia.

- Sua própria esposa não conseguia satisfazê-lo, e isso supunha um terrível golpe para seu orgulho, tanto em sua condição de homem como de marido. A princípio não culpava a ninguém; mais tarde, à medida que a frustração por sua incapacidade física crescia, começou a me atirar a culpa… embora acredite que era porque não queria culpar a si mesmo. Além disso, era muito mais fácil que culpar ao ópio, algo que a essas alturas já necessitava para sobreviver. Não podia deitar-se comigo, e passado isso tempo começou a obcecá-lo. Logo deixou de lhe importar.

Will se limitou a olhá-la enquanto assimilava a informação, mas o que pensava a respeito de sua confissão quase podia ler-se em seus arrumados e esculpidos rasgos. Por estranho que parecesse, Vivian não sentiu nem vergonha nem repulsão ao revelar esses assuntos íntimos pela primeira vez em dez anos. O que sentiu foi alívio, se podia chamá-lo assim.

Por fim, Will estirou as pernas sobre o tapete de erva com ar despreocupado e, sem lhe soltar em nenhum momento a mão, cruzou um tornozelo sobre o outro enquanto inclinava o corpo em sua direção.

- Como se sentiu então? - perguntou com voz calma.

Vivian abriu um pouco a boca por causa da surpresa. Embora fosse certo que muito poucas pessoas conheciam suas desgraças matrimoniais, ninguém lhe tinha perguntado nunca o que sentia a respeito.

- Suponho… Suponho que a princípio estava desconcertada. Quero dizer que… na realidade não entendia. Mais tarde me senti ferida, em especial quando tratei de ser uma boa esposa, me voltar o mais atrativa possível a seus olhos, e mesmo assim não consegui que respondesse. - Suspirou e cravou a vista na água uma vez mais -. Por fim me pus furiosa. Gostava do ópio muito mais que eu e preferia passar o tempo em antros sórdidos nos que podia fazer bom uso de seu dinheiro e compartilhar seu hábito com outras pessoas dispostas a desperdiçar sua vida. Nunca lhe importou que outros me olhassem com lástima. Não só estava casada com um homem viciado, mas sim tampouco ficava grávida, e todo mundo assumia que a culpa disso era minha. Aos olhos da sociedade, um filho teria permitido me manter ocupada e ignorar a faceta vulgar e sinistra da personalidade de meu marido. - engoliu saliva com força e conteve as lágrimas que lhe enchiam os olhos-. Não contei a ninguém que não podia manter uma ereção. Nem sequer sabia como falar disso.

Will deixou escapar um forte suspiro.

- Considerou em algum momento pedir a anulação? Ao menos, isso te teria dado a oportunidade de começar de novo…

- Sugeri-o em uma ocasião, seis meses depois de nosso casamento - interrompeu-o ela; seus olhos brilhavam com uma amargura impossível de ocultar-. Esbofeteou-me com tal força que bati a cabeça contra a parede e tive hematomas na mandíbula durante duas semanas. Era minha palavra contra a dele, conforme me disse, e ele não permitiria que o humilhasse socialmente nem que arruinasse sua profissão com semelhante acusação. Jamais voltei a mencioná-lo. Cinco anos depois, Leopold deixou de formar parte de minha vida e eu me desloquei a Penzance para esquecer o pesadelo de meu suposto matrimônio.

A expressão de Will se escureceu de forma considerável; uma bochecha começou a contrair-se e os lábios se apertaram em uma linha muito fina.

-Bastardo… - murmurou enquanto contemplava o mar.

Ela olhou também as ondas cinza.

-Sim - conveio em um sussurro.

Entre eles se instaurou uma espécie de tranqüilidade, um casulo suave e cômodo no que ambos compartilhavam as preocupações mútuas e os sonhos quebrados. Vivian estreitou sua mão e começou a pensar que necessitava a esse homem mais que o ar e a luz do sol; acariciou-lhe os dedos com o polegar em um movimento sensual de absoluto deleite. Durante esse dia ao menos, eles dois eram as únicas pessoas que importava no mundo.

Permaneceram sentados juntos um bom momento, satisfeitos com o agradável silêncio. Vivian viu ao longe um solitário bote pesqueiro lutando contra as enormes e agitadas ondas de um oceano violento que parecia querer destruir suas esperanças de alcançar o porto são e salvo. Igual lhe ocorria com as preocupações que a embargavam nesse momento.

- Quem está te chantageando, Vivian? -perguntou ele em um sussurro rouco.

- Gilbert Montague - respondeu ela sem pensar duas vezes-, um afamado ator shakespeariano que trabalha na cidade esta temporada. Tem em sua posse uma cópia de uma nota que enviei a meu advogado em Londres faz anos; uma nota em que pedia informação sobre meu extraviado marido. Era bastante detalhada. Montague conhece meu segredo e ameaça revelando-o a qualquer que esteja interessado em fofocar sobre a respeitada viúva Rael-Lamont. - Apertou a mandíbula com fúria e deixou escapar o ar entre os dentes -. Resumindo pode me arruinar a vida.

Will lhe soltou a mão e se inclinou para diante uma vez mais, com os cotovelos apoiados nos joelhos.

- consideraste a idéia de ir a um magistrado?

Vivian soprou.

- É obvio. -sentou-se como era devido, enlaçou as mãos no regaço e acrescentou-: Mas o que conseguiria com isso? Não tenho prova alguma da chantagem, e ele conseguiu evidências que poderiam arruinar sem remédio minha reputação. Trabalhei muito para conseguir uma posição sólida nesta comunidade, e não quero ver como se vem abaixo graças a esse canalha.

Will pareceu refletir sobre o tema uns instantes.

- Posso fazer com que o prendam.

Ela fez um gesto negativo com a cabeça.

- Isso não serviria de nada. Preciso recuperar a nota de meu advogado. - Logo, em um tom carregado de repugnância, acrescentou-: Não quero nem imaginar como a conseguiu.

- Com dinheiro e persuasão se pode conseguir alguma coisa - respondeu Will de um modo prático.

- O que não tem sentido, posto que o senhor Montague não é mais que um atorzinho qualquer.

Will a olhou, e um sorriso apareceu em seus lábios.

- Muito ardilosa, minha senhora.

Vivian arrancou um punhado de erva e jogou nele.

Ele se pôs a rir e levantou a mão para proteger do ataque.

- E isso significa que ou está utilizando os recursos de outra pessoa ou não é quem diz ser - comentou quando lhe vieram à mente outras possibilidades.

- Sabe quanto desejo te fazer o amor, senhora Rael-Lamont? - Disse ele em voz muito baixa, ao mesmo tempo em que se tornava para trás para apoiar-se de novo sobre um cotovelo-. O simples feito de te olhar e de falar contigo me excita de uma maneira insuportável.

Vivian esteve a ponto de soltar uma gargalhada ante essa tentativa tão masculina de trocar o assunto de conversa e torná-lo mais íntimo. Fascinava-lhe a facilidade com a que Will lhe revelava seus desejos, a maneira em que suas palavras e a inflexão de sua voz lhe aceleravam o coração e lhe provocavam um comichão de desejo que ia contra seu bom julgamento. Compreendeu nesse mesmo instante que o duque de Trent tinha um diabólico modo de excitá-la com sensações de absoluto prazer.

Ele a olhou sorrindo de lado.

- Se não levasse a crinolina, tomaria agora mesmo.

Vivian não pôde evitar sorrir.

- E causar um escândalo ainda maior? Tolices. Além disso, aqui podem nos ver da casa, excelência.

- Wilson é terrivelmente mal da vista.

- E o resto de seu pessoal é cego, sem dúvida.

Will se encolheu de ombros em um gesto despreocupado.

-Sê-los-ão se eu lhes digo que o sejam.

O sorriso do Vivian se desvaneceu.

- Sabe com quanto desespero desejo te sentir dentro de mim, Will?

Os olhos dele se entrecerraram para estudá-la.

- Não é que tenha muita importância, mas falas a sério ou está brincando, Vivian? Jamais em toda minha vida ouvi uma dama me dizer isso.

Vivian pareceu detectar certa preocupação em seu tom de voz.

Estendeu um braço e lhe acariciou os lábios com o polegar.

-Isso terá que descobri-lo da próxima vez.

Beijou-lhe o dedo com doçura.

Vivian se afastou sorrindo… até que lhe sujeitou o pulso e lhe colocou a palma sobre suas calças, ali onde podia notar seu membro, grande e inchado contra o tecido.

- Faz que me ferva o sangue, Vivian - admitiu em voz baixa -. Tenha a certeza de que sempre te desejarei.

Isso lhe produziu um súbito estremecimento de desejo que a deixou sem fôlego. Esfregou-o suavemente, mas com a pressão suficiente para que ele notasse o movimento leve embora intencionado.

Os olhos de Will adquiriram um brilho insaciável.

- Sim… - sussurrou.

Vivian se estendeu no monte de erva o melhor que o permitiram os aros e se situou a uns centímetros de distância dele, com a cabeça apoiada em uma mão e o cotovelo no chão. Will sustentou seu olhar enquanto ela começava a acariciá-lo por cima da roupa.

- Eu gosto de te tocar - murmurou ela, sentindo que a dor surda que sentia entre as pernas aumentava - Eu gosto de como me olha…

Will respirou fundo, e sem deixar de olhá-la, apoiou a cabeça sobre uma mão enquanto lhe acariciava o peito com a outra.

- Um dia faremos isto em um lugar onde possa te ver nua - murmurou com voz rouca, ao mesmo tempo em que seu polegar procurava o mamilo através do fino tecido de musselina.

Vivian sentiu que todo seu corpo recobrava vida e desejou desesperadamente ficar em cima dele.

- Sim…

Will permitiu que ela o tocasse a seu ritmo e permaneceu imóvel enquanto o acariciava de cima abaixo com as gemas dos dedos, com as unhas ou com a palma da mão.

- Está molhada já, Vivian? -perguntou com voz rouca e com os olhos obscurecidos pelo crescente desejo.

- Sim.

- Um dia penso saborear essa parte de seu corpo.

Ela aspirou com força entre dentes.

- Você gosta assim?

- É perfeito - respondeu ele sussurrando, enquanto lhe beliscava com delicadeza o mamilo através do vestido.

- Will…

- Se continuar - ele interrompeu, respirando entre ofegos - chegarei ao orgasmo.

Vivian engoliu saliva ao observar a paixão que revelava sua voz, a rigidez de seu semblante, a tensão de sua mandíbula e dos músculos do pescoço; estava lutando por conter-se.

- Quero que o faça - disse com um descaramento que surpreendeu inclusive a ela; contudo, não deixou de mover a mão sobre sua ereção -. Não tem a menor idéia do quanto me excita isto. Quero te olhar.

- Deus, Vivian… - de repente, fechou os olhos e empurrou contra sua mão -. Faz que goze meu amor.

Nesse momento apertou seu peito com mais força, e Vivian se deu conta de que estava a ponto de alcançar o clímax. Ela, por sua vez, desfrutava do momento, das sensações; deleitava-se com a idéia de saber que eram as duas únicas pessoas sobre a terra que sabiam intimamente que estavam se acariciando nesse instante.

Inclinou-se para frente e roçou sua boca com os lábios. Nesse tris de imprudência e do mais puro abandono, em um momento no que não pensava com claridade, sussurrou:

- Goze em minha mão, Will…

Desconcertado, ele abriu os olhos devagar, e então, com um grunhido, sacudiu os quadris contra ela duas ou três vezes e apertou os dentes enquanto se inclinava para diante para apoiar a cabeça em seu peito. Vivian seguiu acariciando-o por cima das calças, até que lhe sujeitou a mão para detê-la.

Jazeram juntos durante vários minutos, até que a respiração dele se normalizou e ambos recuperaram a prudência. Will seguia lhe apertando a mão entre suas pernas, de modo que ela pôde notar como seu membro ia perdendo rigidez. De certo modo, sentia-se satisfeita e livre de toda reserva ao saber que se havia alguém estava observando-os pensaria que eram duas pessoas completamente vestidas e relaxadas frente ao oceano, e bastante perto para manter uma conversação. Ninguém adivinharia que acabavam de deixar-se arrastar pela paixão, que ela havia dito todas aquelas coisas…

Com uma súbita sensação de timidez, Vivian se afastou e se incorporou um pouco antes de desviar o olhar para a casa.

-Não… não quero que pense que sou…

Ele sujeitou o queixo com a mão para lhe girar a cabeça e poder olhá-la aos olhos.

-Acho que é linda.

Ela esboçou um pequeno sorriso e relaxou um pouco.

-Não queria te escandalizar.

- Escandalizar-me? - Perguntou com o cenho franzido -. Vivian, o que acaba de fazer, tudo o que me há dito, converteu neste instante no mais satisfatório e romântico de todos os interlúdios que vivi. Se te pareci surpreso foi porque não podia imaginar quão incrível seria esta experiência completamente vestido. - Esboçou um sorriso diabólico - Quem dera não te tivesse posto esses malditos aros.

Vivian lhe deu um ligeiro golpe no peito, embora soubesse que lhe tinham ruborizado pela intensa satisfação que lhe tinha produzido essa confissão.

- Mesmo assim, resulta-me embaraçoso. Estava embargada por… por…

- A paixão que te inspiro?

- Sim - respondeu em um sussurro.

O sorriso dele se apagou um pouco.

- Sempre que ambos o desfrutemos nada do que façamos em privado estará mau. Entendido?

Ela assentiu.

- Dar-me-á o manuscrito agora?

Ele afastou a mão de seu queixo e soltou uma gargalhada enquanto se derrubava de costas com os dedos entrelaçados sobre o abdômen.

- Você sabe como ferir um homem, minha querida Vivian - disse olhando-a com malícia.

Ela apertou os lábios a fim de conter o ataque de risada nervosa.

Will suspirou de maneira exagerada.

- Primeiro me tirares sarro, depois me tortura com prazer e a seguir exige. Diga-me uma coisa, rogo-lhe isso: o que crie que deveria fazer contigo?

Vivian se inclinou para ele e colocou o rosto a poucos centímetros do seu.

- Ajudar-me-á? -perguntou em voz muito baixa.

Ele adotou uma expressão pensativa, enquanto lhe percorria o rosto com o olhar.

- Com todas minhas forças e até meu último fôlego.

Vivian ficou petrificada por dentro tratando de assimilar aquela resposta. Não podia mover-se nem pronunciar uma só palavra, mas lutou por conter as lágrimas. Nenhum homem lhe havia dito nunca algo assim. Nenhum homem lhe tinha falado tão a sério.

Deslizou os dedos ao longo de sua bochecha.

- Vamos pelo Gilbert, meu querido Will.

 

Lady Elinor Chester inspirou profundamente e depois caminhou com sensualidade por volta do espelho de corpo inteiro que havia junto à janela de seu dormitório para estudar-se com atenção pela primeira vez em muitos anos.

Para falar a verdade, tinha bom aspecto para ser uma mulher com quase vinte e seis anos. Recolheu- o sedoso cabelo loiro na nuca, deixando que uns cachos lhe emoldurassem o rosto. Seus olhos azuis claro estavam debruados por umas pestanas mal visíveis, mas Elinor, é obvio, era uma perita na arte de dissimular os pequenos defeitos. Deu-se uns pequenos toques de pós negros nas pestanas para obscurecê-las e se aplicou carmesim com mestria nas bochechas e nos lábios a fim de lhes dar cor. Muito a seu pesar, Elinor tinha certa tendência que lhe aparecessem manchas na pele, de modo que em ocasiões se aplicava pós no rosto para absorver o excesso de gordura.

De qualquer forma, todo mundo a considerava bastante bonita, e jamais tinha tido problemas para atrair aos homens. De fato, tinha-lhe resultado bastante fácil até fazia pouco, quando tinha começado a notar que muitos dos solteiros disponíveis se casavam com outras mulheres. Isso a incomodava, porque acabava de dar-se conta de que se estava ficando velha. Não velha no sentido estrito da palavra, mas sim velha para o matrimônio, e se negava terminante a morrer solteira. Nos últimos meses tinha chegado pouco a pouco à conclusão de que estava muito próxima de ser indesejável em termos matrimoniais, mas como, unido ao feito de que estava ficando sem dinheiro, deixava-lhe muito poucas opções aceitáveis. Menos mal que tinha um plano.

Elinor contemplou seu reflexo. De um ponto de vista crítico, o único defeito que possuía era sua figura. Parecia um moço: muito magra, sem curvas destacadas e, o pior de tudo, com uns peitos imperdoavelmente pequenos. À maioria dos homens com que tinha estado não lhes tinha importado muito, já que se apresentava em sociedade diante dos cavalheiros com uma sensualidade que compensava com acréscimo sua silhueta pouco feminina. Sim, Elinor Chester sabia muito bem como agradar um homem na cama, e isso já valia seu peso em ouro.

A porta batendo no andar inferior a tirou de suas reflexões, e compreendeu que Steven tinha retornado a casa por fim. Tinha recebido sua nota no dia anterior em que lhe informava que chegaria antes do meio-dia, e embora tivessem passado anos desde a última vez que seu irmão tinha pisado nas terras da propriedade que compartilhavam, estava preparada, muito preparada, para enfrentá-lo.

-Elinor! -gritou ele do vestíbulo de entrada.

Ela suspirou e pôs os olhos em branco antes de elevar as saias para dirigir-se abaixo passos determinados escada abaixo. Sabia com certeza que a estaria esperando no estúdio de seu defunto pai. Ali seu irmão se sentia importante e superior.

-Assim já está aqui, irmãzinha - disse-lhe com um meio sorriso.

Elinor se deteve de repente na entrada e ficou olhando-o boquiaberta, atônita pelas mudanças que se produziram no homem.

- Jamais te teria reconhecido Steven - comentou com certo assombro enquanto contemplava cada um dos traços de seu rosto-. Está muito diferente.

As sobrancelhas castanhas avermelhadas de seu irmão se arquearam em um gesto indiferente.

- passou muito tempo desde a última vez que pus o pé nesta pocilga - replicou ele com um riso de desprezo. Deixou-se cair na poltrona e se fixou no tom descolorido da tapeçaria de couro cinza, que rangeu sob suas pernas - Já não temos móveis decentes, Elinor? Aonde demônios foi parar o dinheiro…?

-Não tem nenhum direito de criticar nada, pedaço de porco - interrompeu-o, cada vez mais alterada-. Fugiu daqui para partir para Deus sabe aonde, gastou quanto teve vontade, e tem a audácia de retornar anos depois e perguntar aonde foi a parar o dinheiro… Por que não me dá um pouco do que o grande Gilbert Montague e você conseguiram?

Ele se limitou a soltar uma gargalhada e a afundar-se mais na poltrona, antes de estirar as pernas por diante e as cruzar à altura dos tornozelos.

Elinor sentiu que a raiva lhe borbulhava sob a pele ao ver que Steven voltava a formar parte de sua vida como se não tivesse ocorrido nada, mas posto que seu irmão tinha o controle da situação e, o mais importante, do dinheiro e do manuscrito, não tinha a mais mínima intenção de tirar do sério. Não muito, ao menos. Em lugar de lhe dizer o que estava pensando, sorriu com doçura, sentou-se no sofá que havia frente ele e encolheu as pernas sob as saias do vestido.

-Bom, Steven, quanto tempo ficará desta vez?

-Estamos a ponto de recuperar o manuscrito - sussurrou olhando-a de relance; a que tudo indicava, o sorriso de diversão se transformou em um de ironia.

Elinor entrecerrou os olhos.

-«Estamos»?

-Não acreditaria que era unicamente teu, não é verdade?

Confundida, Elinor o observou fixamente sem dizer nada, enquanto tratava de assimilar o significado de suas palavras. De repente, viu tudo claro e abriu os olhos como a causa do horror.

-Não pode vendê-lo - disse com voz afogada.

Ele se pôs a rir baixo, debochando dela.

Elinor sentiu um nó no estômago, mas se negava lhe deixar ver quão preocupada estava.

-Só trata de me enfurecer. Muito típico de ti - disse-lhe, antes de lhe recordar com muita cautela-: Mas o manuscrito é meu, Steven.

Ele passou por cima a advertência e concentrou a atenção em suas próprias mãos.

-Esse manuscrito pertencia a Elizabeth. E está morta.

Elinor sentiu que lhe gelava o sangue.

-Essa é a questão, querido irmão - espetou-lhe- Agora me pertence e quero recuperá-lo.

-Com que propósito?

Essa singela pergunta a deixou despreparada. Enfurecida, retorceu as mãos sobre o regaço e observou sem disfarces seu irmão, atônita ante o fato de que parecia não ter envelhecido nos últimos cinco anos. Tampouco tinha mudado. Seguia tão desprezível como sempre.

-Isso não é de sua incumbência.

Steven se pôs a rir de novo, embora nessa ocasião sua gargalhada pareceu falsa, forçada.

-Sempre foi de minha incumbência - assinalou em tom despreocupado, enquanto tirava uma penugem imaginária da camisa -. Gilbert no comando…

-Gilbert pode apodrecer no inferno! -exclamou ela, presa da raiva-, e bem deveria sabê-lo. Eu sou quem leva as rédeas aqui, Steven.

Ele levantou a vista imediatamente para olhá-la com um brilho de fúria em seus olhos negros que não se incomodou em dissimular.

-Vamos, vamos, essa não é linguagem própria de uma dama como você, irmãzinha - repôs com voz suave e séria.

Elinor se viu sacudida por um repentino estremecimento de cólera e de terror, embora permanecesse sentada sem perder a compostura, pensando a toda velocidade. Não deveria haver dito isso. Não lhe faria nenhum bem que seu irmão partisse nesse momento. Jamais voltaria a vê-lo… e tampouco o manuscrito. E por terrível que fora, necessitava a ambos.

-Se tão interessado está, acredito que deve saber que o conde de Demming coleciona objetos caros e ensaios…

Seu irmão a interrompeu com uma genuína gargalhada.

-O que te resulta tão divertido? -perguntou-lhe ela com as bochechas ruborizadas.

-Pelo amor de Deus, Elinor, esse homem deve ter pelo menos noventa anos.

Ela apertou os lábios.

-Têm pouco mais de cinqüenta, querido irmão, e o certo é que isso não é importante. -sentou-se erguida no sofá e entrelaçou as mãos no colo-. Tem uma fortuna imensa e necessita uma esposa.

Steven compôs uma expressão desconcertada e divertida a um tempo.

-Não necessita uma esposa, e duvido muito que queira uma, já que esse homem, digamo-lo assim, caça ao outro lado do prado.

-Pergunto-me como averiguaste isso exatamente, Steven - comentou com descaramento.

Seu irmão entrecerrou os olhos até convertê-los em meras frestas.

-Não jogue comigo.

Ela passou por cima da ameaça.

-A questão é que se casará comigo se lhe oferecer o manuscrito em troca da promessa matrimonial. E então viveremos comodamente durante o resto de nossas vidas.

Para falar a verdade, a Elinor não importava que Steven desaparecesse de sua vida para sempre, e o mesmo podia dizer do Gilbert. Mas desejava assegurar uma vida dada de presente, e esse era um modo quase seguro de consegui-la. Aplacar o desejo de riquezas e de uma existência cômoda de seu irmão parecia uma maneira bastante boa de garantir ao menos certa cooperação por sua parte.

De repente, Steven encolheu as pernas e se inclinou para ela, e a seguir enlaçou as mãos e apoiou os cotovelos sobre os joelhos.

- Pelo que parece, há uma coisa que não entende Elinor. A verdadeira questão é que não sabe com segurança se o conde de Demming se casará contigo; não sabe se há alguém disposto a te oferecer matrimônio em troca de um soneto assinado por Shakespeare. Como sempre, se adianta aos acontecimentos. - bufou e sacudiu uma mão diante de sua cara -. Nem sequer recuperamos o manuscrito ainda.

Apesar de sua arrogância, Steven sempre soube como rebater seus argumentos para devolvê-la à realidade. E ela detestava que fizesse isso.

Elinor se rendeu com um suspiro.

-Bom então o que propõe que façamos? Por que está aqui?

Ele sorriu de novo.

-Nosso amigo Gilbert já pôs em marcha um plano brilhante, e este é inclusive melhor que o primeiro.

Então fez uma pausa, como se quisesse atormentá-la com seu silêncio. Elinor não fez nenhuma graça. Aborrecia a Steven.

- Ah, estupendo, outro de seus grandes planos - repôs com sarcasmo-. Suponho que quer matar a essa mulher e depois fugir com todo o dinheiro que conseguiu com as flores.

Steven arqueou as sobrancelhas burlando de sua apreciação.

-Muito esperta Elinor. Mas na realidade ela é bastante rica por direito próprio. Deus sabe por que se dedica a brincar com a terra - disse antes de baixar a voz - E, conforme parece, Will Raleigh está bastante envolvido com ela.

Elinor o observou com atenção, alarmada diante das possíveis implicações.

-Como te inteiraste disso?

Seu irmão esboçou um sorriso desdenhoso.

-Sei de tudo.

Elinor se negava a discutir esse comentário, posto que o conhecia bastante bem para saber que ele já tinha dado uma contra-réplica espetacular. Não lhe daria a satisfação de fazê-la ficar como uma estúpida.

Deu-se conta de que ele não tinha negado o assassinato, e esse horrível pensamento fez que descartasse qualquer outra consideração.

-Ela não sabe nada, e nunca saberá Steven - advertiu-lhe com voz calma, ao tempo que se inclinava para frente e o observava fixamente-. Recupera o manuscrito e deixa-a em paz.

Seu irmão se levou uma mão ao peito.

-Pelos pregos de Cristo, Elinor…, aflige-me tanta preocupação.

Senhor, como odiava a esse homem…

-Bem, qual é o plano, querido irmão?

Pela primeira vez desde que chegou, observou uma expressão séria em seus fortes traços.

-Enviou uma nota ao teatro ontem solicitando um encontro no sábado pela tarde para entregar o manuscrito em troca da carta original que consegui do advogado. Gilbert, é obvio, mostrou-se de acordo e escolheu seu bar favorito, The Jolly Knights, para realizar a troca, já que isso… lhe outorgaria à dama a segurança de estar em um lugar público.

Depois de estudar a seu irmão, Elinor entrecerrou os olhos com perspicácia.

-Gilbert e você, você e Gilbert…

Steven relaxou na poltrona uma vez mais.

-Ele e eu trabalhamos em equipe muito melhor do que você e eu o fizemos um dia.

Elinor passou por cima do comentário.

-Nesse caso, não entendo a necessidade de violência. Uma vez que recuperemos o manuscrito, ela poderá partir e seguir plantando flores sem inteirar-se de nada mais.

Steven se limitou a olhá-la durante um bom momento. Logo franziu os lábios em uma careta de desprezo e meneou a cabeça muito devagar.

-É uma maldita estúpida, Elinor.

Ela ficou furiosa imediatamente.

-Como te atreve a me insultar! -exclamou, apertando a mandíbula e os punhos em um intento por reprimir o impulso de equilibrar-se sobre ele-. Foi minha idéia tirar o manuscrito desse homem odioso que assassinou nossa irmã…

Em questão de um segundo, Steven se incorporou na poltrona e estralou suas enormes mãos sobre a alhada mesinha de chá que os separava, interrompendo-a.

-Os planos mudaram - murmurou arrastando as palavras, com o rosto a escassos centímetros do dele-. E as idéias nem sempre são perfeitas. Você melhor que ninguém deveria saber que o duque de Trent jamais renunciaria ao manuscrito em troca de qualquer coisa, e que não necessita do dinheiro que conseguiria se o vendesse. O que nos oferecerá através da adorável Vivian Rael-Lamont será uma magnífica falsificação. - ficou em pé em um piscar de olhos, e tirou o seu elegante colete enquanto esboçava um sorriso de puro desprezo-. Mas gosta das mulheres, Elinor, e pagará por ela.

Só levou um instante compreender as intenções de seu irmão.

-Não é necessário que morra ninguém, Steven - insistiu em voz baixa, aterrorizada pela mulher, por todos eles e pelo que estava em jogo.

A expressão de seu irmão se tornou distante enquanto enlaçava as mãos às costas. Era muito estranho que nesse preciso momento tivesse o aspecto do cavalheiro que devia ter sido por nascimento e que em muito estranhas ocasiões se dignava ser.

- Escute-me bem, irmãzinha, porque só lhe direi isso uma vez - advertiu-lhe com voz grave e precavida, sem afastar o olhar dela-. Já não jogamos segundo suas regras. A partir deste momento, eu estou no comando.

Elinor não disse nada, mas tampouco desviou o olhar. Como era de esperar, ele tomou seu silêncio como uma amostra de aceitação.

- Mantenha-se longe disto – continuou -, afinal teremos mais dinheiro de que possa imaginar. -Deu um passo para ela e a assinalou com o dedo indicador para enfatizar suas palavras-. Se fizer o que te digo, o ano que vem por estas datas estará desfrutando do sol na costa do país que escolha e com o homem que eleger. - Percorreu-a com o olhar de cima abaixo e sorriu com desdém uma vez mais-. É obvio, pode tentar te casar e te deitar com o primoroso conde de Demming. Francamente, isso pouco me importa. A única coisa tem que fazer é nos deixar em paz e permitir que Gilbert Montague faça o que é melhor.

Dito aquilo, passou por cima de suas saias para dirigir-se à porta do escritório. Deteve-se ali um momento e lhe dedicou um sorriso encantador e sincero.

-É agradável estar em casa. Diga a Wayne que se encarregue de meu cavalo, sim? Necessito desesperadamente um descanso.

Elinor permaneceu sentada no sofá durante um momento, com o olhar perdido na chaminé vazia, beliscando a tapeçaria com as unhas até que começaram a sair as plumas.

 

Depois de estirar-se nos frescos lençóis de algodão, Will contemplou o teto de seu dormitório, pintado em tons verde escuro e marrom que combinavam com o das folhas do papel das paredes. Por estranho que parecesse, nesse momento lhe ocorreu pensar que se Elizabeth seguisse com vida jamais teria aprovado um teto tão escuro, mas Vivian com certeza sim. Não lhe cabia a menor duvida a respeito, embora, dado que ela nunca tinha posto um pé nos aposentos que ocupava em Morning House, não sabia muito bem de onde procedia a semelhante certeza. Saber por instinto algo assim sobre outra pessoa era uma das coisas estranhas da vida, supôs. E de um tempo para cá tinha começado a dar-se conta de que sabia muitas coisas, coisas íntimas, sobre a viúva Rael-Lamont.

Aquela manhã despertou com uma forte ereção, pensando nela e na maneira sensual em que o tinha acariciado três dias atrás. Para falar a verdade, quase não tinha pensado em outra coisa desde aquela tarde na praia. Aquela manhã, entretanto, tinha sonhado que suas mãos lhe acariciavam a pele da mesma forma e o excitavam levando-o a limite da prudência, levando-o ao clímax. Minutos antes, ao despertar no dormitório vazio alagado pela resplandecente luz do sol, havia se sentido desiludido. Desejava que ela estivesse ali, com ele, e por mais chocante que parecesse, isso lhe tinha feito perguntar-se como seria despertar com ela a seu lado todas as manhãs. Nem sequer conseguia imaginar esse tipo de satisfação depois de tantos anos de solidão, mas ao ver como ela tinha reagido ante ele e o desejo que sentia ele por ela uns dias atrás, começava a acreditar que tampouco lhe desagradaria a companhia. E não lhe importaria que o teto fora escuro.

Deitou-se de barriga para baixo lançando um grunhido e colocou os braços sob o travesseiro. Os ponteiros do relógio da chaminé marcavam oito e meia. Não tinha dormido até tão tarde em muitos anos, mas sonhar com ela e com seu corpo nu o tinha mantido consumido no reino das fantasias. Contudo, Hastings se apresentaria em sua casa em menos de uma hora, e devia lavar-se, vestir-se e pôr as idéias em ordem antes de reunir-se com o detetive. Um mensageiro havia lhe trazido uma nota na noite anterior em que lhe informava que o investigador o visitaria as nove dessa manhã. Assim, embora seus pensamentos estivessem centrados nos peitos e mamilos rosados e perfeitos de Vivian, sabia que devia concentrar-se em assuntos mais importantes.

Virou para ficar de costas, sentou-se no colchão e passou os dedos pelo cabelo.

Tinha chegado à conclusão de que não era justo comparar a Elizabeth com Vivian, já que eram diferentes em todos os sentidos imagináveis. Mesmo assim, resultava-lhe difícil não fazê-lo. Eram as únicas amantes que tinha tido em sua vida que lhe interessavam para algo mais que para um rápido e satisfatório encontro.

Elizabeth tinha sido doce e jovem, sensível e inocente, formosa, incrivelmente feminina e temperamental. Vivian era uma mulher madura, vibrante e sensual, e embora também fosse a extremo feminina, parecia possuir uma inteligência interior, uma sabedoria que somente proporcionavam os anos. Comportava-se com elegante dignidade e mostrava uma enorme paixão em tudo o que fazia: da rotineira semeia de flores até as carícias íntimas que lhe tinha causado pela mera excitação que lhe produzia ver como ele reagia… Elizabeth tinha sido uma dama elegante e de bom berço, mas Vivian era a personificação do encanto e a sedução. Amar a Elizabeth, ao menos no princípio, tinha sido um prazer, uma sensação de afeto avivada por sua doçura, uma busca de descobrimentos, um sentimento que não precisava esforços. Mas amar a Vivian…

Com uma sensação de desassossego nascida da confusão, Will baixou as pernas por um lado da cama e esfregou a cara bruscamente com a palma da mão antes de abrir os olhos e contemplar o anódino chão de madeira de carvalho.

Por Deus, se amava a Vivian e lhe devolvia esse amor, suas vidas se encheriam de risadas. Poderia chegar a ser o último intento para ambos, o encantamento final, a maior das façanhas. Não uma alegria, a não ser «a» alegria. Por que lhe parecia esse amor muito melhor que o que uma vez tinha sentido por sua esposa? Ao considerá-lo nesse momento se deu conta de que, em certo estranho sentido, amar a Elizabeth tinha sido o começo do que deveria ter sido uma viagem deliciosa; amar a Vivian seria… como chegar a casa, no final da viagem. E não havia nada mais reconfortante, mais satisfatório nem mais maravilhoso que isso. Sempre que ele a amasse… e ela o amasse também.

 

Clement Hastings já estava sentado na biblioteca quando Will chegou barbeado, banhado e vestido com um traje de amanhã azul marinho. Hastings, em troca, pôs-se um traje de tons ameixa e tangerina muito típico dele, em especial porque combinava com um colete formal quadriculado e roxo. Will decidiu que já não merecia a pena lhe dar mais voltas sobre o assunto. Estava claro que o investigador tinha um gosto do mais estranho, ou possivelmente um ajuda de câmara muito peculiar.

Essa manhã optou por não sentar-se frente à escrivaninha, mas sim escolheu relaxar-se no sofá, onde poderia servir uma xícara de chá. Deu-se conta de que Hastings já havia tomado uma xícara e de que permanecia sentado com ar inquieto na beira da cadeira, com uma parte de papel na mão.

O detetive limpou a garganta e começou a falar antes inclusive de que pedisse.

-Excelência – disse -, tenho algumas notícias.

Will já sabia, é obvio, mas não disse nada.

-Sim - disse sem mais, enquanto acrescentava uma nuvem de leite ao chá.

- Na realidade - adicionou Hastings -, são notícias procedentes de duas frentes. Começarei por Gilbert Herman.

Will tomou um gole do chá fumegante e recém preparado, tão delicioso como sempre.

-Continue.

Hastings acomodou seu enorme corpo na cadeira e baixou o olhar até as notas. Esse homem tomava meticulosas notas de tudo.

- Seguindo suas ordens, milorde, fiz que seguissem a Herman durante as duas últimas semanas - começou a fim de aprofundar no assunto que se traziam entre mãos - Como já sabe, segue uma rotina bastante singela, mas esta última semana esteve trabalhando no teatro até muito tarde todas as noites para preparar umas quantas cenografias antes que o teatro feche e a companhia tome uma pausa durante a temporada de inverno.

Will assentiu e reclinou sobre o brando respaldo do sofá, levantando uma perna para apoiar o tornozelo sobre o joelho da outra. Todo isso era bastante previsível.

- Continue - insistiu antes de dar outro gole ao chá.

-Bom milorde, tal e como me pediu, vigiei à senhora Rael-Lamont depois da representação da obra Como gostam faz três noites, quando se reuniu com o Herman (ou o senhor Montague, como ela acredita) para lhe informar de que lhe entregaria o manuscrito. Parecia um pouco alterada, algo que era de esperar, e ele tinha o aspecto calmo e arrogante de sempre. Falaram apenas uns instantes, e depois ela se foi.

-Abandonou o teatro?

-Sim, excelência. Partiu dali e se foi sozinha a sua casa, onde passou o resto da noite.

-Já vejo - replicou Will com tranqüilidade.

-Bem, milorde, um de meus homens se encarregou de seguir à senhora Rael-Lamont enquanto eu vigiava ao senhor Herman. O ator ficou no teatro até cerca da uma da madrugada, momento no que se dirigiu ao The Jolly Knights. Ali se reuniu com a garçonete de costume, tomou um par de jarras de cerveja e a seguiu escada acima.

-E não é isso o que está acostumado a fazer? -perguntou Will.

O detetive assentiu.

-Sim, milorde, embora pelo geral não chegasse tão tarde.

Will franziu o cenho e se inclinou para frente, apoiando ambos os pés no tapete. Com os cotovelos sobre os joelhos, sustentou a xícara e o pires frente a ele e contemplou o que ficava de chá.

-Não estou muito seguro de compreender a importância de tudo isto, Hastings.

-Já esclarecerei milorde.

O homem estudou suas notas durante uns segundos. Depois, de forma inesperada e para o assombro do Will, dobrou-as e as guardou no bolso da jaqueta. Depois de tornar-se para diante para ficar cara a cara, Hastings seguiu seu exemplo e apoiou os cotovelos nos joelhos e enlaçou as mãos.

-Excelência - disse com seriedade - há duas coisas que devo lhe dizer e que pode ser que o senhor ache um tanto preocupantes.

O detetive o olhou nos olhos com o cenho franzido pela preocupação, aguardando uma resposta para poder continuar. Will sentiu um súbito formigamento de desassossego na boca de seu estômago vazio.

Pouco a pouco, tornou-se para frente e deixou a xícara de chá na mesa que havia entre eles.

- Conte-me tudo.

O investigador assentiu e baixou a vista um instante para estudar o grosso tapete que tinha aos pés; logo levantou a cabeça com um brilho de concentração nos olhos e um gesto de determinação em seu rosto.

-Um de meus homens e eu nos encontrávamos no The Jolly Knights, vigiando as interações entre Herman e outros… paroquianos. O bar estava lotado, sem dúvida, mas eu não fui negligente em minhas obrigações em modo algum…

-O que ocorreu? -interveio Will, cuja preocupação tingia cada uma de suas palavras. Jamais tinha visto o detetive tão intranqüilo com antecedência.

Hastings pigarreou de novo.

-Bom… Verá, milorde, ao que parece Gilbert Herman desapareceu ante nossos narizes, embora por pouco tempo.

Will entrecerrou os olhos muito devagar.

-O que quer dizer com isso «por pouco tempo»? Acho que não lhe entendo.

Hastings começou a tamborilar os dedos ante ele.

-Justo quinze minutos depois de sua chegada e de haver-se tomado as cervejas, Gilbert Herman levou a garçonete escada acima e não voltou a descer. A princípio não lhe demos importância, mas depois começamos a nos perguntar o que lhe estava levando tanto tempo, se me permitir à vulgaridade. Por fim, depois de mais de uma hora, o homem que me acompanhava subiu acima para averiguar o que ocorria e descobriu que o ator não estava ali. Não havia janelas, só duas habitações mais nas que as mulheres atendem a seus convidados, também vazias e sem janelas. Timmons, meu agente, encontrou à garçonete dormindo em uma cama de armar, e quando lhe perguntou a respeito, a empregada lhe respondeu com grosseria que Herman não tinha estado com ela mais que um quarto de hora.

Hastings fez uma pausa para tomar fôlego e o olhou aos olhos uma vez mais.

-Como já disse ontem à noite o bar estava abarrotado, milorde, mas o fato é que esse homem não tinha forma alguma de passar junto a nós no andar debaixo sem que nos déssemos conta…, mas isso foi exatamente o que fez. Deve ter saído dali sem que nos inteirássemos, diante de nossos narizes - concluiu com ênfase -. Simplesmente, desvaneceu-se.

- É um ator - disse Will, que não pensava com claridade.

- Sim, é - apressou-se a afirmar Hastings - e o mais estranho de tudo, excelência, é que no dia seguinte retornou ao teatro para a representação. - arranhou as costeletas com ar pensativo - Se me permitir o atrevimento, milorde, eu sugeriria que esse homem trabalha com alguém mais e que um deles, talvez ambos, levavam disfarces. Devem ter planejado esta chantagem durante meses, possivelmente mais de um ano, e o têm feito muito, muito bem.

Fez-se o silêncio durante um bom momento. Depois, Will apoiou as mãos nas coxas e ficou em pé para começar a andar frente à chaminé.

-O que você sugere Hastings, é que esse tal Herman pagou de propósito à garçonete para que ficasse em cima durante um tempo com a intenção de enganá-lo, que depois trocou de roupa (e talvez também de aparência) e que partiu um momento para que? - virou-se para o detetive e deixou de andar.

-Não sei… Para reunir-se com seu cúmplice? Porque sabia que o estávamos seguindo e queria nos confundir? Seja qual for a resposta, tenho a certeza de que estamos sendo manipulados, seja por pura diversão ou por alguma outra razão mais sinistra.

-Entendo. Em qualquer caso, isto é uma prova de que sabe que o vigiamos.

Hastings assentiu.

- Acredito nisso. Tal e como temia milorde. O tipo está jogando conosco.

«Jogando conosco.»

Will meteu as mãos nos bolsos e começou a passear-se de novo com a cabeça encurvada.

- Está se divertindo.

-Acredito que sim, na verdade.

-Seu cúmplice poderia ser a mulher loira? -perguntou momentos depois.

Hastings se reclinou em seu assento.

-considerei essa possibilidade, mas não acredito que o seja. Quando os vimos juntos pela primeira vez no bar, ele estava claramente irritado por sua presença. -Negou com a cabeça-. Não, pode ser que ela esteja envolvida, mas se trata de um estratagema complexo tramado por homens, e provavelmente por homens que não querem que ela fale. Acredito que se a coisa ficar feia, ela será um estorvo.

-E o mesmo poderia dizer-se da senhora Rael-Lamont - murmurou Will.

O detetive vacilou antes de falar.

-Sim, excelência, o mesmo poderia dizer-se da viúva Rael-Lamont - afirmou com convicção.

Will deixou de passear-se imediatamente e observou ao homem com uma sensação de formigamento na nuca.

- você acredita que ela corre perigo? -inquiriu em voz baixa e controlada.

-Sim - respondeu o investigador sem rodeios-. Não um perigo iminente, já que ainda não produziu uma troca, nem de objetos e nem de informação. Ela não é mais que o meio que ele escolheu para conseguir seu objetivo, para apropriar-se de algo que deseja ou necessita, e ainda não recebeu. -Hastings assentiu de novo muito lentamente-. Mas no final sim. Ela será um obstáculo em seu caminho.

De repente, Will sentiu que sua mente se debatia em uma espécie de névoa em que se mesclavam a confusão e a certeza, as teorias e os fatos; uma névoa em que nada levava a nenhum lugar e tudo sumia na escuridão, muito perto da beira do abismo.

-Não esqueça que agora mesmo é ele quem tem a as cartas na manga, excelência. É um tipo preparado; sabe que o estamos seguindo e que não podemos acusá-lo de nada porque não há provas de que tenha feito nada, nem sequer um pouco socialmente impróprio, e muito menos ilegal. Sabe que o estamos seguindo e não só não lhe importa, mas sim se burla de nós. Isso é algo do mais imprudente, e, entretanto não posso evitar pensar que ele também sabe e que se trata de algo que quer nos deixar claro. Mostra-nos a propósito um comportamento extremamente temerário e exasperante. -Estendeu uma das pernas e assinalou com o dedo para enfatizar o que queria dizer-. O que terá que recordar excelência, é que está muito seguro de si mesmo. Se procedermos com cautela e planejarmos nossos movimentos de agora em diante tão bem como o ele tem feito, no final cometerá um engano. Sempre o fazem. E quando tropeçar, estaremos aí para apanhá-lo.

Essa excessiva amostra de certeza parecia um tanto arbitrária e não lhe brindava um verdadeiro consolo, pensou Will, que nesse momento contemplava o céu azul através das janelas da estufa. Mas se havia uma coisa da que podiam estar completamente seguros era que Herman não tinha nem a mais remota idéia de até que ponto tinham descoberto seu plano. Will só esperava que não tivessem acontecido nada por fora. Hastings era o melhor em seu trabalho, mas inclusive ele tinha sido enganado por aquele homem que utilizava o engano como meio de vida.

Respirou fundo e fechou os olhos um instante antes de voltar-se de novo para o detetive.

-Assumiremos que ele suspeita que vá entregar lhe uma falsificação - disse.

Hastings entrecerrou os olhos com perspicácia.

- Sim, milorde. É imperativo que tratemos de pensar tal e como ele o faria, e suspeitar o que ele suspeitaria. Não conhecemos seus motivos nem suas intenções, mas também somos inteligentes, excelência. -Esboçou um sorriso malicioso-. Também somos inteligentes.

- Quero estar presente quando a senhora Rael-Lamont entregue o documento.

O sorriso do Hastings se desvaneceu em um piscar de olhos.

- Não acredito que seja uma boa idéia.

- por quê?

-Desconhecemos quais são suas verdadeiras intenções. - Deu umas batidinhas com os dedos no braço da cadeira-. Até onde sabemos, poderia esperar algo assim e estar preparado para isso.

Will sentiu uma tensão crescente nos ombros.

- Com que propósito?

- Essa é precisamente a questão, milorde, não conhecemos com detalhe como funciona sua mente, nem a mente de seus parceiros. Minha experiência me diz que terá que seguir interpretando com muita cautela o papel que nos atribuiu e tomar nota de cada detalhe até que o tipo cometa um engano…

- E se não o comete?

- Cometê-lo-á - assinalou Hastings com absoluta convicção. -Até então, vigiaremos todos seus movimentos e protegeremos à senhora Rael-Lamont. Esse é nosso objetivo principal.

Will refletiu sobre isso um instante e depois negou com a cabeça.

- Eu não gosto - murmurou.

- Farei com que meus homens sigam vigiando-o, milorde. Asseguro-lhe que se em algum momento troca sua rotina antes de seu encontro com a senhora Rael-Lamont, o senhor será o primeiro, a saber.

Will supôs que isso era o melhor que se podia fazer.

-Muito bem - concluiu e assentiu com a cabeça. Endireitou-se e entrelaçou as mãos às costas-. Obrigado, Hastings.

Apesar de clara que tinha sido a despedida, o investigador vacilou na hora de levantar-se. Durante uns segundos se esfregou o queixo com os dedos da mão esquerda, e então continuou falando.

-Há uma coisa mais, milorde. A respeito da viúva Rael-Lamont.

-Sim? -perguntou Will com secura.

Hastings se removeu um pouco no assento.

-Já lhe mencionei antes que havia duas coisas inquietantes que devia lhe comentar.

Ao Will não gostava de como soava isso.

-Continue.

O detetive fez um evidente esforço por arranhar a parte posterior do pescoço.

Está fazendo rodeios…, pensou Will.

-O que ocorre, Hastings? -perguntou com a devida educação, embora a impaciência e a autoridade de seu título foram mais que evidentes em seu tom.

As bochechas gordinhas do homem adquiriram um tom vermelho azulado muito pouco favorecedor se comparava com os tons ameixa e tangerina de seu traje. Entretanto, aquilo foi o mais revelador.

-Rogo-lhe que me desculpe excelência, mas… Sou consciente de que o senhor… se afeiçoou bastante com a viúva Rael-Lamont.

Will não disse nada, mas sentiu que lhe ruborizavam as bochechas e teve um mau pressentimento.

Hastings esfregou as palmas das mãos nas calças.

-Verá, milorde, como já lhe hei dito antes e tal e como senhor me pediu, pus a alguns de meus homens para trabalhar em Londres para averiguar todo o possível sobre a família da senhora Rael-Lamont.

-Sim - murmurou Will tentando apaziguar os batimentos do coração de seu coração.

-até agora não conseguimos conhecer seu passado além de seu matrimônio com o Leopold Rael-Lamont, um aristocrata francês com o título de barão, segundo nossa informação.

Vivian se casou com um aristocrata francês, pensou Will.

Hastings suspirou.

- Pelo que parece, excelência, seu marido era um conhecido viciado em ópio que vivia na costa com substancial fortuna que recebeu de dote da mulher…

- De dote! -repetiu Will, claramente desconcertado. Sentia-se cada vez mais intrigado.

O detetive puxou seu colete para baixo com ambas as mãos.

-Sim, milorde. Embora sua família não procedesse de Londres, e segue sendo um mistério que ainda não conseguimos resolver acreditam que a viúva procede de um lar com abundantes meios econômicos.

Will começou a caminhar para a mesinha de chá uma vez mais, ao sentir que lhe fraquejavam as pernas. Havia algo que não encaixava em tudo aquilo.

-E por que vive de uma maneira tão… frugal aqui? -perguntou-se em voz alta.

-Excelência - explicou Hastings empregando um tom sério e tranqüilo-, temos descoberto em nossa investigação que a mulher não só vive de suas próprias rendas e não das de seu marido, mas sim, além disso, afirma que este morreu faz uns dez anos.

Will se deteve com escassa distância do sofá. Contemplou a esse homem baixo e gordinho que tão incômodo parecia com o ridículo traje de jaqueta e o estreito colete. Tinha a testa cheia de suor e a papada lhe pendurava por cima do pescoço da camisa e da apertada gravata. Não deixava de mover-se na cadeira e parecia bastante nervoso.

-Seu marido morreu mais tarde?

Hastings se esclareceu garganta.

-Não, milorde, na realidade, mas bem justamente o contrário. -A sensação de terror que tinha experimentado momentos antes ressurgiu em todo seu esplendor e o deixou petrificado.

-Vá ao ponto - exigiu com brutalidade.

Desconcertado ante uma ordem tão contundente, Hastings abriu os olhos de devagar e umedeceu os lábios antes de explicar-se.

-Temos razões para acreditar que seu marido segue ainda com vida, milorde, e que vive na França. Não há registro algum de sua morte. A senhora Rael-Lamont ainda está casada.

Para Will pareceu que essa informação tinha demorado horas para atravessar o grosso muro de tijolos formado por sua teimosia e seu cepticismo. Ao final, completamente chocado, estirou ambos os braços e cravou os dedos com força no respaldo do sofá.

-Ainda está casada… - repetiu, notando que lhe secava a boca por causa da incredulidade.

-Sim - insistiu Hastings sem apartar o olhar.

Pelo amor de Deus…

-Não o entendo.

O detetive ficou por fim em pé, com bastante estupidez, dadas as circunstâncias, e ambos estiveram de novo mais ou menos à mesma altura, com o sofá e a mesinha de chá entre eles.

-Em poucas palavras, excelência, depois de uma meticulosa investigação chegamos à conclusão de que o senhor Rael-Lamont não morreu, embora sua esposa e ele fizeram um pacto com respeito a sua separação. Conforme isso, ambos teriam assinado um acordo legal de separação segundo o qual ela tem direito a todo o dinheiro que contribuiu no matrimônio. -Fez uma pausa para deixar que Will assimilasse a informação, e depois acrescentou-: Não tenho nem a menor idéia de por que esse homem foi para a França, deixando até de lado o fato de que cresceu ali. Entretanto, essa situação explica por que a senhora Rael-Lamont se apresentou como viúva e vive em Cornwall. Não sei o senhor entende muito sobre acordos de separação, mas estão sujeitos à lei. Imagino que ela pode viver como uma pessoa divorciada, a cargo de seus recursos econômicos e sem arruinar por completo sua posição social, mas jamais poderá voltar a casar-se.

«Jamais poderá voltar a casar-se…»

Tinham passado muitos anos desde a última vez que Will sentisse um golpe emocional tão devastador e inesperado. Ao recordá-lo nesse momento se deu conta de que nem sequer em seu dia lhe tinha surpreendido muito descobrir que sua esposa tirou a vida. Contudo, e embora sua mente parecesse estar paralisada, devia admitir que a recente situação não tivesse nada que ver com ele. Não tinha nada que ver com seus privilégios como duque, com sua sensibilidade como homem ou com seu mérito como amante de Vivian. Estava relacionada com um segredo longamente guardado, com um engano descomunal perpetrado por uma mulher pela que albergava um crescente afeto.

«Jamais poderá voltar a casar-se.»

Sem separar as mãos do respaldo do sofá, Will apertou a mandíbula e cravou o olhar perdido no assento de couro. O investigador permanecia frente a ele, à espera.

Na realidade não tinha considerado a idéia de casar-se com ela. Não exatamente, ao menos. Entretanto, isso tinha deixado de ser uma possibilidade, e lhe produziu uma amarga decepção saber que essa ilusão de uma vida de sonhos pacíficos e agradável companhia jamais chegaria a cumprir-se. E ela sempre tinha sabido que nunca poderiam estar juntos como marido e mulher… em cada beijo, em cada tenra carícia, em cada olhar de seus formosos olhos. Tinha-lhe mentido por não lhe contar toda a verdade. E isso era o que mais lhe doía.

Endireitou-se de repente e entrelaçou as mãos às costas uma vez mais para adotar uma pose senhorial.

-Acredita que essa é a informação que está utilizando Gilbert Herman para chantageá-la? - perguntou com voz apagada.

Hastings franziu o cenho e assentiu com a cabeça.

-Sim, milorde. Ou tem contatos importantes ou obteve de alguma forma uma cópia do acordo de separação. É difícil de conseguir, mas nada é impossível com a persuasão e os meios econômicos adequados.

- Entendo. - Will se obrigou a respirar com calma, a permitir que seu coração acelerado se apaziguasse, para pensar de maneira racional. Ao final, disse a modo de despedida-: Obrigado por seu exaustivo trabalho, senhor Hastings. Estou seguro de que não faz falta que lhe recorde que a senhora Rael-Lamont merece sua intimidade, e que essa estranha informação que tem descoberto não interessa a ninguém no povoado.

Hastings fez uma pequena reverência.

-É obvio excelência. Estou a seu serviço, e isso não sairá desta habitação.

-Estupendo.

Uns golpes na porta da biblioteca surpreenderam a ambos.

-Adiante - disse Will, quase gritou.

Wilson entrou com um semblante tão prosaico como de costume, e Will recordou que nada tinha trocado no mundo exterior na última meia hora.

-Rogo-lhe que me desculpe excelência - disse o mordomo-, mas sua excelência o duque do Newark está aqui.

Will esteve a ponto de rir de puro alívio ao saber que Colin Ramsey, um de seus melhores amigos, tinha chegado por fim… e com ele, seu falsificador.

 

-Sua excelência, o duque de Trent, veio vê-la, senhora.

Vivian se levantou da cadeira que havia frente à escrivaninha, onde tinha passado a maior parte da tarde despachando a correspondência atrasada e examinando as contas. Menos mal que já tinha chegado. Não tinha sido capaz de concentrar-se em nada, pois sabia que Will tinha uma cópia do manuscrito preparada e que a essa mesma hora do dia seguinte todo esse pesadelo teria terminado.

- Obrigado, Harriet. Faça-o entrar - pediu-lhe com uma inclinação de cabeça, desejando ter tido um momento para polir-se antes que ele entrasse. O mais que pôde fazer foi alisar as saias de seda e voltar a colocar as mechas frisadas que se soltaram de suas tranças enroladas ao redor das orelhas.

Instantes depois ouviu seus passos no corredor, seguidos da presença de sua magnífica silhueta no vão da porta. Sempre ficava sem fôlego ao vê-lo. Essa tarde levava um traje informal de cor cinza de uma deliciosa confecção a medida, que se ajustava à perfeição a sua enorme figura, juntado com um colete de seda branca e um lenço ao estilo Byron de cor negra. Penteou o cabelo para trás de uma forma que conferia um toque de distinção adicional aos rasgos esculpidos e perfeitos de seu rosto e a seus olhos de cor avelã.

Vivian esboçou um débil sorriso.

-Excelência.

Ele assentiu com formalidade e entrou na sala de estar.

-Senhora Rael-Lamont.

Vivian jogou uma rápida olhada à governanta, que ia atrás dele.

-Isso é tudo, Harriet.

A mulher lhe fez uma reverência.

-Sim, senhora. -Fechou a porta ao sair para deixá-los a sós.

Nenhum dos dois falou durante um momento. O primeiro impulso do Vivian foi jogar-se em seus braços, beijá-lo, abraçá-lo e amá-lo. Mas houve algo que a impediu. Foi consciente imediatamente de uma mudança nele que se revelava tanto na linha de sua boca como na sutil expressão distante de seus olhos. Esse giro inesperado lhe produziu uma leve sensação de desassossego.

-Eu… O senhor gostaria de sentar? - perguntou ao mesmo tempo em que estendia uma mão para uma cadeira que havia frente ao canapé rosa.

Ele inspirou profundamente.

-Obrigado.

Vivian engoliu saliva. De repente, enquanto observava com atenção que Will dava a volta e rodeava o canapé, sentiu-se insuportavelmente nervosa. Depois de tomar assento na cadeira, ele jogou uma espécie de pasta branca sobre a mesinha de chá.

Vivian cravou a vista nela e compreendeu imediatamente que se tratava de uma cópia do manuscrito assinado por Shakespeare. Desejava com desespero abri-lo, mas o peculiar comportamento do duque a deteve. O que mais a surpreendia era que lhe importava muito mais ele, o que sentia nesse momento, do que a oportunidade de limpar seu bom nome. E isso era perigoso.

-Não sei muito bem o que dizer - comentou estudando cada um dos traços de seu rosto.

Ele se inclinou com ar despreocupado sobre o braço da cadeira e apoiou o queixo em um punho enquanto a observava sem disfarces.

-Devo te confessar algo, Vivian.

Ela abriu os olhos um pouco mais.

-Confessar?

-por que não se senta?

Não gostava dessa mudança, absolutamente.

-O que acontece, Will? -perguntou em voz baixa.

Ele pareceu refletir antes de falar.

-Sente-se, Vivian.

Seu coração começou a pulsar a toda pressa. Não lhe ocorria nada pelo que ele pudesse haver-se zangado com ela, embora não parecia zangado exatamente. Somente… distante. Formal.

Depois de endireitar os ombros, Vivian rodeou a mesinha de chá e fez o que lhe pedia, e a seguir se arrumou as saias e entrelaçou as mãos no regaço.

-vou dizer-te algumas coisas que talvez você não goste - assinalou com o olhar cravado em seus olhos -. Quando terminar, quero que me explique alguns assuntos.

Ela franziu o cenho, confundida.

-te explicar alguns assuntos? Ocorreu algo?

Will baixou o punho, descansou os cotovelos sobre os braços do assento e apoiou as mãos no abdômen.

-Consta-me que entenderá que do momento que chegou a minha casa faz umas semanas com essa estranha… proposta, por chamá-la de algum jeito, vi-me na obrigação de me proteger.

- te proteger?

-De qualquer ameaça potencial… para meu bom nome, minhas finanças e minha propriedade.

Vivian começou a negar com a cabeça, totalmente desconcertada.

-Não estou segura de te compreender.

Ele esboçou um sorriso irônico.

-Contratei a um investigador privado.

Vivian demorou uns instantes em assimilar o que havia dito, e quando o fez, arregalou os olhos por causa da incredulidade.

-Fez que investigassem a Gilbert Montague?

Will entrecerrou os olhos até convertê-los em meras frestas, mas não afastou o olhar dela.

-Sim. E a ti.

«E a ti.»

Vivian notou que seu coração se detinha e que seu rosto se tornava lívido.

- O que…? O que? - sussurrou aturdida.

-Fiz que lhe investigassem, senhora Rael-Lamont - repetiu ele com malícia.

Isso a deixou sem fôlego.

Ai, Meu deus…, pensou.

Piscou com rapidez e olhou a seu redor ao mesmo tempo em que cravava os dedos no assento do canapé, aterrada pela possibilidade de deprimir-se ou vomitar ali mesmo. A habitação começou a dar voltas e o calor começou a lhe resultar cansativo, mas ele seguia sentado com toda tranqüilidade frente a ela, observando-a.

Não entende…, disse-se.

Apesar de que lhe tremiam as pernas, tratou de ficar em pé, embora não sabia aonde ir nem o que dizer. Era incapaz de pensar.

Ele sabe, pensou.

Cobriu a boca com a palma da mão e as lágrimas lhe alagaram os olhos. Umas lágrimas que tinham aparecido porque estava começando a apaixonar-se por ele. Mas ele o tinha descoberto.

Tudo tinha terminado.

- por que não me disse isso? -perguntou ele em um rouco sussurro.

Tremendo, Vivian caminhou ao redor do canapé com uma mão sobre sua boca e a outra obstinada à malha do vestido que lhe cobria o ventre. Tomou um minuto para tentar acalmar-se, para concentrar-se no que Will lhe havia dito, para evitar olhá-lo até que esse momento de absurda debilidade passasse e pudesse pensar nas possíveis implicações de maneira racional.

Deu-lhe as costas, sentou-se no braço do sofá e se rodeou com os braços, como se necessitasse amparo.

-O que tem descoberto? -perguntou por fim em um tom rouco e grave, enquanto contemplava as diminutas flores rosadas do papel da parede.

Notou que ele se acomodava no assento, mas não deu a volta. Ainda não estava preparada para estar cara a cara.

-Descobri que ainda segue casada.

Ela fechou os olhos.

-Suponho que é certo.

Will soltou um grunhido.

-Supõe que é certo? Acaso não tem idéia do que significa isso?

Como podia me perguntar isso?

-É obvio que sei o que significa Will. Sou muito consciente de todas as implicações. Mas é muito possível que não entenda as circunstâncias.

-explica-me isso - exigiu com secura.

Vivian abriu os olhos, embargada por uma súbita irritação. Deu a volta e cravou o olhar nele.

-Não te atreva a pensar que pode vir a minha casa para te comportar como o todo-poderoso duque de Trent e me ordenar que te explique coisas que, para falar a verdade, não são de sua incumbência. Dir-te-ei apenas o que queira te dizer.

Will deu um passo para trás o suficiente para que ela se desse conta de que lhe tinha surpreendido com aquela declaração tão veemente e tão imprópria de uma dama.

-Tem razão, querida Vivian - assinalou com mordacidade, e muito, muito devagar-. Não posso te ordenar nada, verdade? Não sou seu marido.

A idéia de que Will Raleigh fora seu marido a deixou desconcertada… e lhe produziu um formigamento de desejo insatisfeito por todo o corpo. Deus, Quem dera o fora…

Levou uma mão tremente à frente e fechou os olhos de novo.

-Você melhor que ninguém deveria saber que jamais estive casada no sentido completo da palavra…

-Maldita seja, Vivian, isso não é importante! -levantou-se da cadeira como uma exalação e caminhou a toda pressa para a janela para contemplar as petúnias que havia juntado à porta da senhora Henry.

-Tem muita importância - replicou ela furiosa-, e deveria sabê-lo, já que te contei as terríveis circunstâncias da relação com meu marido. Tudo que te disse era verdade.

Will se virou para olhá-la uma vez mais, com os braços cruzados à altura do peito.

-O fato é que está casada, senhora Rael-Lamont, não viúva, e isso não me disse - sussurrou-. E sabia quando deixou que te fizesse amor.

Vivian abriu a boca devagar e apertou os punhos no ar.

-Quando te deixei que me fizesse o amor? Acaso não participou por própria vontade?

Lançou-lhe um olhar assassino.

-Eu não participei por própria vontade em um adultério.

-Para mim, excelência, nunca foi um adultério; e tampouco foi segundo a lei - replicou empregando um tom grave e desafiante, fervendo de fúria-. Tenho um acordo de separação assinado por Leopold. E sabe que é tão válido como um divórcio.

Ele meneou a cabeça com incredulidade.

-Um divórcio… Ninguém se divorcia!

A fúria de sua voz e sua evidente falta de compreensão lhe encheram os olhos de lágrimas, mas se manteve firme em sua presença, sem apartar o olhar dele.

-Não, ninguém o faz. Em nosso mundo não, Will. Mas ele me utilizou para conseguir dinheiro, casou-se comigo por meu sobrenome e não me proporcionou nem companhia, nem filhos, além de negar-se a me conceder a anulação por medo do que diriam dele. -Respirou profundamente antes de acrescentar em um sussurro-: Quão único tenho é o acordo de separação. Sem ele, não teria tido uma vida que merecesse a pena viver, Will… e desejava essa vida mais que nenhuma outra coisa no mundo.

Ele se limitou a olhá-la, apanhado em uma tormenta de emoções. Se algo sabia sobre a vida era que teria que vivê-la. Tinha estado a ponto de perder a sua por causas alheias a ele e tinha jurado que, nos anos que ficavam, lutaria por sua sobrevivência sempre que o atacassem. Ao ver Vivian expressar seu próprio desejo de justiça, não pôde evitar sentir-se fascinado por sua paixão, por sua elegante beleza e por essa força de vontade que lhe tinha permitido estabelecer-se como uma mulher independente e encantadora quando sua única alternativa eram o aborrecimento, a ira e finalmente o suicídio, já fora real ou emocional. Identificava-se com cada uma das palavras que havia dito e, por mais furioso que estivesse com ela nesse momento, soube que tinha começado a apaixonar-se.

Incômodo, passou o peso de seu corpo de um pé a outro, preocupado pela possibilidade de que ela notasse sua reação.

-Mas não poderá voltar a te casar nunca - murmurou com voz tensa.

Vivian se pôs a rir enquanto limpava a solitária lágrima que caía por sua bochecha com o dorso da mão.

-Voltar a me casar? E que demônios te faz acreditar que quereria fazê-lo?

Will tentou por todos os meios que isso não lhe incomodasse.

-O amor, possivelmente?

Ela o encarou com os braços cruzados sobre o peito, o queixo elevado e uma expressão nos olhos que refletia seu pesar e sua determinação.

- Do mesmo modo que ninguém se divorcia ninguém se casa sozinho por amor, Will - repôs com suavidade-. O amor é algo ilusório, com ou sem os documentos legais.

Sentiu-se humilhado da cabeça aos pés, embora por fora mantivesse a compostura.

-Alguma vez te apaixonaste? -inquiriu em voz baixa.

Ela deu um passo para trás, posou o olhar no chão e negou com a cabeça.

-Não posso falar disto agora - disse ao mesmo tempo em que se levava uma mão à garganta.

-Não pode falar disso? Por quê?

-Por favor… - suplicou-a com um fio de voz-. Não tem importância. Não ponha as coisas mais difíceis, Will.

Por Deus, essa mulher o tirava do sério! Depois de passar os dedos pelo cabelo de maneira brusca, deu-lhe as costas e começou a olhar uma vez mais pela janela sem ver nada na realidade. Vivian não podia casar-se mesmo que desejasse fazê-lo, e não lhe revelaria seus sentimentos. Estavam em um atoleiro.

Durante uns minutos, o silêncio reinou nessa sala de estar cheia de flores rosa. Por fim, Will recebeu o roce de suas saias e compreendeu que ela havia tornado a sentar-se no canapé.

-me diga uma coisa mais - disse sem olhá-la.

-Se puder, fá-lo-ei - respondeu ela segundos mais tarde.

Will o meditou bem e escolheu suas palavras com muito cuidado.

-Disse que se casou contigo por seu sobrenome e por seu dinheiro; não obstante, é um aristocrata francês, e se supõe que deveria ter ambas as coisas por direito próprio. A que te referia então quando disse isso?

Vivian levou tanto tempo para responder, ficou tão calada, que Will se viu obrigado a voltar-se para comprovar se ainda estava na habitação, que ainda respirava. Entretanto, assim que posou seus olhos sobre sua adorável figura embelezada com um vestido de seda e encaixe tecido à mão, quando viu que mantinha as formas, sua postura régia, sua dignidade e sua distinguida beleza apesar da angústia, esteve a ponto de sorrir e se sentiu atravessado por um estremecimento de incredulidade.

-Quem é na realidade? - perguntou-lhe em um tom preocupado que lhe implorava que revelasse aquilo que tanto se esforçou por ocultar a todo mundo.

Sem mover um músculo, sem apartar os olhos do floreiro cheio de margaridas secas que tinha diante, Vivian respondeu:

- Nasci em Northumberland e sou a filha mais velha do conde de Werrick.

Foi então quando Will compreendeu tudo.

- Lady Vivian - disse suspirando.

Ela fechou os olhos.

- Sempre…

Will supôs que devia ser horrível fingir durante anos ser algo que não era ou, no caso do Vivian, ser um membro da nobreza e não poder comportar-se como tal. A escura frieza de Northumberland estava muito longe do sol e das flores de Cornwall, mas em todo o resto, a vida dessa mulher era quase paralela à sua. Tinha sido criada e educada pelos melhores tutores e poderia subir no escalão social e celebrar um bom matrimônio. Entretanto, no caso do Vivian, celebrar um matrimônio vantajoso se converteu em seu pior pesadelo. Igual para ele.

-por que vive aqui? -inquiriu com voz rouca, esperando que suas confusas emoções seguissem despercebidas.

Depois de pensar-lhe um momento, ela levantou a cabeça e elevou seu olhar ao teto.

-Você melhor que ninguém deveria compreender o que se sente quando lhe rechaçam, quando todos seus semelhantes lhe dão as costas.

Isso o feriu no mais fundo, mas guardou silêncio.

Vivian engoliu saliva com considerável esforço, e sua testa se enrugou por causa da dor.

-Tenho duas irmãs, Will, e nenhum irmão. Como sou a mais velha esperava-se que alcançasse a excelência, que fosse um bom exemplo, de modo que meu pai arranjou um magnífico matrimônio para mim com lorde Stanley Maitland, visconde, de Shereport. Por desgraça para meu pai, não fazia nenhuma ilusão me casar com o velho viúvo lorde Stanley e me encarregar de seus quatro filhos, apesar de que sua propriedade limitava com Werrick e ao final teria formado parte das terras de nossa família. -Abaixou a cabeça para olhar as mãos, que se retorcia com força no colo.

«Conheci Leopold em um baile de máscaras antes das bodas e me apaixonei por ele imediatamente. Era francês, sim, mas também um homem exótico, arrumado e em extremo encantado. - Sorriu com amargura ao mesmo tempo em que sacudia a cabeça-. Pergunta-me se me apaixonei alguma vez? Pois bem, uma vez estive apaixonada por Leopold Rael-Lamont, Will, e ele em troca se apaixonou por meu dote e de tudo que podia comprar com ele, incluídas certas viagens a Nice com prostitutas, vinhos deliciosos, habitações caras e, é obvio seu ópio, isso não podia faltar. Fui enganada por um perito, e o mais difícil foi ter que admitir no final ante meu pai que tinha razão. Deveria me haver casado com lorde Stanley. Pode ser que não tivesse recebido amor, mas sim me haveria sentido necessitada. Leopold nem sequer me necessitava.

Sua voz tinha começado a tremer antes de terminar aquela revelação sobre enganos passados e lembranças difíceis. Comovido e fascinado, Will absorveu cada uma de suas palavras e se perguntou por que o espírito humano precisava sentir-se livre e valioso mais que qualquer outra coisa no mundo. Vivian tinha encontrado essa liberdade, essa valia, ao deixar um marido que a tinha abandonado em sua noite de núpcias. Mas a que preço?

-Acredito que é muito valente - murmurou com voz rouca; desejava abraçá-la, mas se conteve porque sabia por instinto que ela o consideraria um gesto de consolo. Vivian não era, e jamais seria do tipo de mulheres que se deixam consolar.

Uma vez recuperada, ergueu-se e esboçou um pequeno sorriso.

-É muito amável por dizer isso, mas acredito que bem, sou justamente o contrário.

Will começou a caminhar para ela, embora se detivesse junto à poltrona que tinha em frente e colocou as mãos sobre o respaldo.

-Imagino que no final seu pai tampouco deu sua aprovação para a separação.

Ela se levantou com elegância para não ter que olhá-lo de baixo.

-Acredito que já conhece a resposta, Will - disse com suavidade. Vacilou antes de continuar-. Meu pai não faria nada que pudesse arruinar a minha família. Tenho duas irmãs. Estavam bem casadas, mas o escândalo teria acabado com seus matrimônios. Decidi me transladar para Cornwall como a acomodada viúva do senhor Rael-Lamont e lhe dizer a minha família, que seguia no Northumberland, que vivia em companhia de nobres com a família de meu marido no continente.

-E seu marido? -quis saber, embora a pergunta lhe produzisse um nó de tensão no peito.

Ela enlaçou as mãos às costas.

-Paguei-lhe generosamente para que assinasse o acordo de separação. Não soube nada dele há mais de dez anos, embora haja rumores que desfruta de meu dinheiro na ensolarada costa do sul da França.

Will meneou a cabeça em um gesto de incredulidade.

-Foi a ti a quem lhe ocorreu o acordo ou lhe mencionou isso outra pessoa?

- Ocorreu-me.

- E ambos saíram ganhando.

- Sim, poder-se-ia dizer assim.

- Poder-se-ia dizer assim - repetiu ele.

Vivian elevou o queixo um pouco mais.

-Ainda mantenho o contato com minhas irmãs, somente por correio. Desfruto de minha liberdade aqui, Will, de minha posição social e de meu negócio, pelo que trabalhei com entusiasmo durante todos estes anos, e suponho que faria algo para conservá-los.

De repente, essas palavras cuidadosamente escolhidas, que resumiam a razão pela qual se conheceram, fizeram pedacinhos do interlúdio que tinham compartilhado.

Depois de estudá-la um momento, Will rodeou a poltrona e avançou para ela. Vivian não retrocedeu essa vez; permaneceu onde estava com uma expressão decidida e a postura firme.

Quando esteve a escassos centímetros dela, contemplou seu formoso rosto e viu a determinação que revelava seu semblante. Cobriu-lhe as bochechas com as mãos e a observou até que sentiu como se estremecia.

-Sempre guardarei seu segredo, Vivian.

Ela baixou as pálpebras, e Will os beijou um por um.

-Will…

Beijou-a com delicadeza durante uns segundos antes de apartar-se.

Maldita seja! Exclamou para si próprio.

-A falsificação está na pasta - murmurou contra sua frente - A que hora é a reunião?

Ela levantou as mãos para lhe apoiar as palmas no peito.

-As sete em ponto nesta tarde, em um bar de Canal Street situado atrás do teatro.

Ele franziu o cenho.

-The Jolly Knights.

Vivian se afastou um pouco.

-Conhece-o?

-Sim - afirmou Will sem mais explicações, antes de acrescentar-: foi muito inteligente por sua parte escolher um lugar público para o encontro.

Ela assentiu.

-Haverá gente perto. Não terei que estar a sós com ele em nenhum momento.

Will não estava seguro disso, mas tomaria algumas precauções que decidiu não mencionar a ela.

Inspirou de maneira entrecortada.

-Estarei vigiando; o investigador que contratei e seus homens também o farão. – afastou-se um pouco para lhe segurar o queixo-. Mas o mais importante é que tome cuidado. Não quero te perder agora. Não tenho mais floristas.

Ela o olhou nos olhos uma última vez e compôs um débil sorriso, embora seus olhos refletissem uma angústia que lhe derreteu o coração.

- Não irei à parte nenhuma, Lady Vivian.

O olhar dela se encheu de ternura.

- Obrigado… por tudo.

Will sorriu para lhe infundir os ânimos e lhe deu um apertão suave no queixo. Depois de beijá-la nos lábios, deu meia volta e saiu da estadia.

 

Will permaneceu no alpendre durante um bom momento com as mãos metidas nos bolsos, observando como a garoa começava a molhar os grossos paralelepípedos de pedra do atalho que conduzia até a rua e distorcia as cores do formoso jardinzinho dianteiro para convertê-lo em uma imprecisa pintura de aquarelas. Tudo parecia limpo e tranqüilo. Mas não era mais que uma ilusão, disse-se com amargura. Começava a sentir-se mal humorado e suas emoções se converteram em um confuso redemoinho quando a fúria emergiu até a superfície.

Por que demônios lhe preocupava mais o que Vivian sentia por ele e essa relação que parecia não ter esperança alguma, do que o fato de que ela estivesse a salvo? Não obstante, ao pensar de uma maneira racional, deu-se conta de que não era certo. Não acreditava haver-se preocupado nunca tanto com outro ser humano, e tinham acontecido muitos anos desde última vez que havia se sentido tão desarmado ante uma situação. Possivelmente a verdade residisse nos fatos que se sobrepunham uns aos outros: os desejos do Vivian de seguir adiante mesclados com seus próprios desejos de fazê-la sua; seu desejo de protegê-la quando ambos sabiam que não tinha direito legal para fazê-lo; a atração que sentiam um pelo outro e que provavelmente não desapareceria jamais, embora seguissem vivendo na mesma comunidade dia após dia, ano após ano.

Esfregou os olhos para aliviar a ardência e desejou ter levado um guarda-chuva consigo, embora para falar a verdade pouco lhe importava molhar-se. Se mantivesse os planos - e pensava fazê-lo - acabaria empapado de todas as formas. Vivian se reuniria com Montague em menos de duas horas. O que ela não sabia, o que nem sequer o detetive sabia, era que ele se negava a ser um peão e a ficar em sua casa e esperar notícias, como tinha sugerido Hastings. Estaria ali se por acaso ela o necessitava a protegeria a qualquer preço. Todo o resto carecia de importância. Acompanhado de seus amigos, Samson Carlisle e Colin Ramsey, assegurar-se-ia de que Vivian estivesse a salvo e de prender o ator. De uns tempos para cá, não confiava em ninguém mais.

Jogou uma olhada à escuridão do céu e depois endireitou as costas para enfrentar por fim a constante garoa sem dar atenção às inclemências do clima. Apesar da chuva que molhava o rosto e as roupas, não sentia mais que uma estranha sensação de frio interno, um mau pressentimento que não se parecia com nenhum outro que tivesse experimentado com antecedência.

O ato final daquela sórdida obra estava a ponto de começar.

 

Vivian detestava não ter nada para fazer. Como ia ficar de braços cruzados antes de entrar na boca do lobo? Em pouco mais de uma hora teria que entrar em um bar que sem dúvida cheiraria a suor rançoso, cerveja derramada e carne podre. Somente tinha estado em um lugar como aquele uma vez que foi em busca de seu marido e o encontrou em uma minúscula estadia sem janelas da planta superior, com uma prostituta meio nua que estava fumando ópio com ele. Leopold tinha ido a esse lugar em busca de uma vida que ela não podia lhe proporcionar, e agora se veria obrigada a ir a outro bar para tentar salvar a sua. Se tudo aquilo não fora tão absurdo, teria rido.

Depois de retorcer as mãos durante vários minutos e meditar sobre as abominações que estava a ponto de suportar, Vivian começou a passear por sua sala de estar enquanto escutava o tamborilar da chuva sobre o telhado, presa da inquietação; de repente sua casa lhe parecia muito pequena e abarrotada. Ao recordar a pasta que continha a falsificação, jogou uma olhada a mesinha de chá e sentiu de repente um insuportável desejo de contemplar a obra de artesanato que havia no interior.

Estendeu um braço para ela sem perder um instante, levantou a tampa e tirou o maltratado documento com muito cuidado, somente o suficiente para ver a assinatura que havia na parte inferior.

É incrível…, disse-se enquanto observava a magnífica cópia. Esteve a ponto de esboçar um sorriso ao pensar nos contatos que devia ter o duque de Trent para conhecer alguém com o talento suficiente para criar uma obra como aquela. Para falar a verdade, somente tinha visto o original uma vez, mas se a memória não lhe falhava, aquela era uma cópia quase perfeita.

-Desculpe a intromissão, senhora Rael-Lamont, mas veio um cavalheiro vê-la.

Vivian deu a volta para atender à governanta e apertou a pasta e o manuscrito contra o peito em um ato instintivo.

Harriet ficou no vão da porta com uma expressão envergonhada e as bochechas ruborizadas.

- Sinto muito. Não pretendia assustá-la, mas disse que era de suma importância vê-la o quanto antes.

Uma vez recuperada, Vivian endireitou as costas e virou a colocar o documento na pasta com muito cuidado.

-De quem se trata? -perguntou com ar despreocupado.

-É um cavalheiro procedente de Truro - respondeu Harriet sem vacilar-. Quer comprar umas orquídeas para entregar a sua esposa no dia de seu aniversário de bodas. Uma mulher afortunada, se me permite dizê-lo, já que é um homem muito arrumado. Hei-lhe dito que esperasse, mas estava chovendo muito e disse que não queria encher o chão de barro. Muito amável por sua parte, para falar a verdade.

Vivian se sentiu terrivelmente irritada. Sua governanta não fazia mais que falar de negócios, como se em sua vida não houvesse outra coisa com que preocupar-se. Fechou os olhos um momento e esfregou a fronte com a palma da mão.

-Mas por que hoje…

-Sei que foi muito repentino - assegurou-lhe Harriet em um tom de voz um pouco mais suave que demonstrava seu desconcerto -, mas veio para procurar orquídeas e percorreu o trajeto em pessoa só para vê-la.

Suas famosas orquídeas. Vinha-lhe muito bem nessas vendas, e sua governanta sabia. Negava-se a recebê-lo, e Harriet suspeitaria de algo; inclusive chegaria a preocupar-se. Não tinha mais remedeio que vender a esse homem as flores e livrar-se dele o quanto antes.

Com um suspiro, virou para deixar a pasta sobre a mesinha de chá e afastou das bochechas mechas de cabelo que lhe tinham soltado.

-É obvio que o atenderei. Deu-lhe algum cartão?

-Sim, senhora. -Harriet estendeu uma mão e lhe mostrou uma pequena bandeja de prata.

Vivian observou a elegante letra impressa: «Sr. G. Herman».

Nunca tinha ouvido falar dele. Não obstante, havia dito que era de Truro.

- Se vier alguém mais, lhe diga que não estou em casa, Harriet.

- Sim, senhora.

Vivian jogou os ombros para trás e recolheu as saias antes de passar junto a sua governanta para abandonar a sala de estar em direção ao viveiro.

Não conseguiu ver o homem quando saiu pela porta traseira e entrou na área de trabalho. Os beirais e a abundante hera protegiam as mesas da estufa da chuva direta, embora recebessem algum e outro borrifo, e o ruído da chuva sobre o telhado era quase ensurdecedor.

-Faz um dia espantoso, não lhe parece, senhora Rael-Lamont?

Vivian ficou paralisada ao escutar essa voz as suas costas. Ao que parecia, o tipo se encontrava detrás da arcada que havia do lado esquerdo e invisível da casa.

- Ocorreu-me que talvez este fora um lugar de encontro um pouco mais… cômodo - acrescentou com frivolidade.

Apesar do terror que a embargava, Vivian reuniu forças e se virou para olhar a Gilbert Montague. Ficou boquiaberta ao descobrir que tinha a aparência de um cavalheiro. Bem barbeado e com o cabelo curto, levava um traje cinza escuro e um elegante casaco cinza… Todo de uma qualidade magnífica. Não era de se estranhar que Harriet não o tivesse reconhecido.

- O que…? O que está fazendo aqui? - conseguiu murmurar com voz grave e trêmula.

Ele sorriu.

- Vim vê-la.

Vivian retrocedeu um passo para afastar-se dele, e a chuva começou a lhe molhar o rosto e o cabelo.

-Vá embora - disse entre dentes - ou começarei a gritar.

- Caso grite, romper-lhe-ei esse pescoço pálido e delicado - replicou muito devagar e com incrível frieza.

Vivian sentiu a bílis na garganta; as pernas tremiam tanto que temeu cair no chão.

- O que acontece com o manuscrito? -foi o único que lhe ocorreu dizer.

Ele riu pelo baixo sem deixar de olhá-la nos olhos com expressão calculadora.

-Vamos, Vivian, de verdade é tão ingênua que não imagina o que é tudo isto na realidade?

Aturdida e cada vez mais assustada, retrocedeu um pouco mais. Sentiu que lhe punha desesperada quando a chuva começou a transpassar o tecido do vestido.

O homem começou a caminhar para ela, embora tão devagar a princípio que ela mal se deu conta.

Com a intenção de fingir um aprumo que não sentia, de reagir de maneira desafiante, Vivian elevou o queixo.

- Não tenho a menor idéia do que é ou o que pensa você sobre tudo isto, senhor Montague, mas eu tenho feito tudo que estava em minha mão para cumprir com suas exigências. Apenas quero é recuperar a cópia do acordo de separação que se encontra em seu poder. Depois disso, espero não voltar a vê-lo nunca.

Então ele pôs-se a rir de boa vontade, como se o que dizia lhe parecesse muito divertido.

-O certo é que meu sobrenome é Herman, e embora o fato careça de importância, devo lhe dizer que não é você muito boa atriz.

Vivian piscou por causa da surpresa, e a expressão dele se tornou fria e distante de novo.

-Vamos dar um passeio, Vivian. Sairemos daqui juntos e depois subiremos em minha carruagem para fazer uma viajem.

O mundo do Vivian começou a girar. Deu um novo passo para trás, mas desta vez deu um golpe no quadril com a esquina de uma de suas mesas de trabalho.

Montague esboçou um sorriso desdenhoso e depois, com uma rapidez da qual jamais lhe teria acreditado capaz, agarrou-a pelo braço e se inclinou para ela.

-Virá comigo agora mesmo, senhora Rael-Lamont - enunciou em um rouco sussurro; tinha falado tão baixo que Vivian quase se viu obrigada a lhe ler os lábios.

A neblina de terror que a embargava começou a tomar uma forma sólida enquanto lutava contra o impulso de fugir para escapar. Ele devia ler os seus pensamentos, já que nesse momento a atraiu contra seu corpo e Vivian notou o fio inconfundível de uma folha de aço na cintura.

A Vivian jamais lhe tinha ocorrido pensar que aconteceria algo parecido, e a Will tampouco.

Meu deus, Will… Se soubesse quanto preciso de você, pensou.

Enquanto Gilbert lhe rodeava os ombros para obrigá-la a cruzar o viveiro para a porta lateral da grade, ela olhou a seu redor tratando de pensar em algo. Algo…

Ele a sujeitou com mais força.

-Se grita ou tentar escapar, Vivian, morrerá aqui mesmo, entre suas preciosas plantinhas. Agora sou eu quem tem a ganhar. Não esqueça.

-Meus criados…

-Nem sequer se darão conta de que se foi até dentro de meia hora, mais ou menos - interrompeu-a sem olhares - Isso nos deixa tempo mais que de sobra para sair do povoado.

Presa nos tremores, Vivian levantou a vista para contemplar aquele rosto suave, arrumado e enganoso.

- Bastardo… - disse apertando os dentes.

O homem sorriu de novo, orgulhoso, e num estranho gesto de cavalheirismo utilizou a mão livre para lhe cobrir os ombros com seu casaco e a estreitou contra seu corpo para protegê-la da chuva.

-Sim, sou um bastardo - repôs enquanto a guiava através da porta da grade para a carruagem que os aguardava - E nem sequer me faz falta atuar.

Sem perder a esperança de que a resgatassem, Vivian entrou a contra gosto no escuro interior do veículo. Não sabia se poderia lutar contra ele, nem se a faca que levava poderia feri-la com gravidade; o que sabia com certeza era que ele não duvidaria em utilizá-lo.

Enquanto abandonavam o povoado na direção oeste sem deter-se e sem despertar o menor interesse dos transeuntes, Vivian compreendeu que nesse momento dependia por completo de si mesma.

 

A escuridão da noite tinha demorado muitíssimo em aparecer. Depois da bica de água que tinha caído essa tarde, o sol tinha aparecido depois das nuvens do horizonte justo quando começava a ficar sobre o oceano. Will o contemplou imperturbável das portas de vidro da sala de música, que dava a oeste, e notou com certo interesse que o dourado brilhante adquiria um estranho tom esverdeado quando a esfera resplandecente começou a afundar-se por fim no esquecimento.

Aquela era a habitação predileta da Elizabeth. Sua finada esposa tocava muito bem o piano, e em algumas ocasiões, durante esses últimos anos, tinha-lhe parecido escutar os tons distantes e melódicos de um minueto de Bach nos escuros e silenciosos corredores de Morning House. Às vezes essa eufonia lhe parecia tão real que o assustava, e fechava os olhos, desejando voltar para a época em que a risada de uma mulher e as canções alegres enriquecia sua vida. Mas a música sempre desaparecia. Igual desaparecia o dia nesse momento.

Baixou o olhar para o turbulento oceano, fechou as pálpebras e apoiou a testa contra o cristal da porta. Estava muito frio, e criaria um duro obstáculo no caso de que queria escapar do isolamento vazio de um lar que tinha chegado a converter-se no centro de sua vida.

Um lar sem calor, sem risadas. Sem amor.

-Desculpe a intromissão, excelência, mas tenho notícias urgentes.

Hastings. Por Deus, era o último que o fazia falta nesse momento.

Will sentiu que todo seu corpo ficava tenso, e se aferrou com tanta força às finas travessas de madeira que havia entre os retângulos de cristal que as unhas lhe puseram brancas. Nunca em seus trinta e cinco anos de vida tinha detestado mais seu título que nesse instante.

Mas como sempre, a nobreza obriga, e a natureza do título que tinha adquirido ao nascer prevaleceu.

Depois de erguer-se em toda sua estatura, abriu os olhos e se virou para atender ao investigador.

-Sim, Hastings, do que se trata?

Por um momento o homem pareceu perplexo, e olhou a seu redor como se acabasse de dar-se conta de que o tinham levado a uma habitação distinta, a uma sala que apenas se utilizava.

-Eu… Importa-lhe que me sente, excelência? Estou sem fôlego.

Will assinalou com um gesto o sofá de brocado amarelo que havia no centro da estadia.

-Por favor. -Não se incomodou em apartar-se da porta; separou um pouco as pernas e cruzou os braços à altura do peito.

Hastings se deixou cair sobre o sofá, embora ao parecer não estivesse muito cômodo, já que devia pôr as costas o mais retas possível para aliviar a estreiteza habitual de seu colete, que, para variar, era de um tom marrom apagado. Não obstante, o que a Will mais chamou a atenção foi que, pela primeira vez, o detetive não meteu a mão no bolso para procurar suas notas.

-Excelência, consta-me que a estas alturas já deve supor que Gilbert Herman nos enganou no bar - começou com seriedade.

Will teria jurado que uma mão invisível acabava de lhe cravar uma adaga no peito.

- Sim, já o tinha imaginado - disse com frieza.

Hastings se removeu com inquietação uns instantes e sua testa gordinha se encheu de rugas.

- Tenho notícias importantes para lhe comunicar.

- Continue - insistiu Will imediatamente.

- Sim, milorde. Bom… - O homem limpou a garganta - Deveria ter encontrado esta informação antes, de modo que se sentir a necessidade de me negar o pagamento por meus serviços, compreendê-lo-ei perfeitamente…

-Hastings, por favor, vá direto ao assunto - pediu-lhe Will em um vão intento por manter a raia a exasperação que lhe produzia que se andasse pelos ramos.

O investigador levou uma mão ao bolso do peito e tirou suas notas. Will esteve a ponto de tornar a rir. Algumas coisas não mudavam nunca.

-Durante a investigação do passado de Gilbert Herman, nunca julguei necessário (não até recentemente, ao menos) averiguar que tipo de relações comerciais mantinha seu pai como financista - prosseguiu o detetive em um tom de voz que parecia mais entusiasmado agora que tinha suas notas-. A semana passada pedi a dois de meus homens que o investigassem, milorde, e descobriram algo bastante desconcertante.

Will o olhou fixamente enquanto assimilava as notícias sem realizar o mais mínimo movimento.

Hastings se afrouxou o nó da gravata com dois de seus rechonchudos dedos.

-Conforme parece, David Herman era um banqueiro bastante ardiloso e, dado que vivia na cidade, conseguiu sem problemas uma lista de clientes, a maioria deles pertencentes à nobreza. Quando nos concentramos neste aspecto da investigação, descobrimos um sobrenome em particular que acreditamos que lhe resultaria interessante.

-E qual era esse sobrenome? -perguntou Will, que quase não sentia curiosidade.

O investigador esboçou um sorriso irônico.

-Chester.

Foi como se as portas do terraço houvessem totalmente aberto e o vento gélido do inverno lhe tivesse esbofeteado a cara. De repente compreendeu tudo.

As coisas tinham cobrado um sentido surpreendente. David Herman era o banqueiro do pai de Elizabeth.

Alheio ao súbito desassossego do homem que o tinha contratado, Hastings continuou lhe explicando o que tinha averiguado.

-Descobrimos que Richard Chester tinha depositado uma grande quantia de dinheiro na instituição de Herman em troca de alguns favores, como fazer desaparecer pequenas dívidas de jogo, inteirar-se antes que ninguém das variações nos tipo de juro e esse tipo de coisas. - assinalou rapidamente, com as bochechas ruborizadas de entusiasmo diante de semelhante descobrimento-. Na realidade eram bastante amigos, e mantiveram esse tipo de relação durante anos. -Fez uma pausa para impressionar, e então sussurrou-: E o mesmo ocorre com seus filhos.

Era estranho que num momento de discernimento como esse Will parasse para considerar o fato de que Hastings não tivesse olhado suas notas nenhuma só vez.

Durante uns segundos reinou um silêncio ensurdecedor.

-Excelência? -disse o homem por fim.

Com toda tranqüilidade, Will respirou fundo e explicou, embora somente fora para esclarecer a ele mesmo.

-De modo que, conforme entendi, os filhos também se conheciam muito bem, e a mulher loira que reuniu com Gilbert no bar não era outra que Elinor Chester, a irmã de minha finada esposa.

-Assim é, milorde. - Hastings enrugou a testa um pouco confuso, já que ao que parecia esperava uma reação mais espetacular que um simples reconhecimento. Depois de coçar a grossa nuca, adicionou-: Gilbert Herman e Steven Chester foram muito bons amigos desde meninos, e acredito que a qualquer um deles poderia haver lhe ocorrido a idéia da chantagem em primeiro lugar. Em minha opinião, milorde, uma vez considerada esta idéia, ambos traçaram um plano meticuloso, talvez justo depois da prematura morte de sua esposa. - Fez uma nova pausa antes de continuar-. Pelo que não estou seguro, entretanto, é de como se inteiraram da existência do manuscrito. É possível que sua esposa mencionasse a sua irmã que você possuía esse documento?

Will sorriu a contra gosto.

-Todos sabiam que o tinha. O manuscrito era de Elizabeth. Foi seu presente de bodas.

E um presente maravilhoso, devia admitir.

Elizabeth tinha falado daquele tesouro familiar antes inclusive de que estivessem comprometidos, mas o fato de que o desse de presente tinha sido uma surpresa. Naquela época, ela o amava.

- Entendo - disse Hastings em voz baixa.

- É evidente que Elinor Chester e seu irmão Steven desejam recuperá-lo.

-Isso parece, milorde. - O detetive dobrou as notas e virou para guardar no bolso -, Mas não teria sido mais fácil pedir-lhe sem mais ou lhe fazer uma oferta de compra? Parecem opções muito mais razoáveis que uma chantagem.

Will riu.

-Sim, mas eu jamais o teria entregado a nenhum deles. Aborreço a família de minha esposa.

Sabia que o investigador não lhe pediria que lhe esclarecesse esse ponto. Uma pergunta semelhante seria do mais improcedente, e não precisava saber mais sobre o tema para completar sua missão.

Will esfregou o rosto com a palma de uma mão.

- De maneira que este é um plano intrincado e bem organizado. E posto que sei com certeza que os Chester são pouco mais que indigentes (segundo seu próprio critério, é obvio), devem considerar que fazer com uma obra de incalculável valor como esta é um caminho direto para a riqueza, assumindo que possam encontrar um comprador que mantenha a boca fechada.

- Suponho que sim, milorde - conveio Hastings.

Will sabia que estava divagando, dizendo por alto tudo o que lhe passava pela cabeça. Mas lhe pareceu irrelevante a essas alturas.

Com uma impaciência que já não podia controlar, meteu as mãos nos bolsos do paletó e começou a passear lentamente, dando voltas ao redor do piano de cauda coberto com sua capa.

Por fim tudo encaixava com perfeição. Que outra pessoa o conheceria tão bem? Quem mais conheceria seus pontos débeis? Elinor Chester era muito ardilosa, e Will sentiu vontades de dar-se bofetadas por não ter visto antes a conexão. Quando o conheceu, Steven Chester jamais teria se rebaixado a falar, e muito menos a associar-se, com alguém tão vulgar como um ator, mas não havia tornado a falar com Steven desde aquele humilhante julgamento. O que mais o enfurecia era que depois de acusá-lo de assassinato apesar de que a família conhecia a perfeição a natureza instável da Elizabeth, esse tipo havia seguido tentando utilizá-lo para seus próprios e egoístas fins. O que mais lhe doía, o que o fazia desejar destroçar objetos de um valor incalculável, era que todos lhe tinham destruído o coração para conseguir seu objetivo. Jamais tinha odiado tanto a ninguém como nesse momento.

Deixou de passear e se virou para olhar ao detetive por cima da tampa do piano.

- Agradeço-lhe muito a informação, Hastings. Agora preciso refletir sobre tudo o que tenho descoberto esta noite, assim pode partir - disse-lhe inclinando a cabeça-. Enviar-lhe-ei o dinheiro combinado.

- O que houve a senhora Rael-Lamont?

O mero feito de ouvir seu nome lhe deixou sem fôlego. Engoliu seco com força ao recordar a dor que tinha sentido ao descobrir seu engano, ao dar-se conta de que, apesar de tudo o que tinham compartilhado, de tudo o que lhe tinha entregado, não tinha previsto aquele desenlace.

Estava sozinho.

-Estou seguro de que Lady Vivian poderá arrumar-se sem ajuda a partir de agora - respondeu em um tom gélido e com a mandíbula apertada - Boa noite, Hastings.

Era a despedida mais brusca e lacônica que tinha utilizado em muito, muito tempo. Mas não tinha podido evitar que a amargura que sentia impregnasse suas palavras.

Hastings ecoou da indireta sem ressentimento algum e ficou em pé imediatamente para lhe fazer uma reverência.

-boa noite, excelência. Enviar-lhe-ei uma mensagem se descobrir algo novo que possa lhe interessar.

Will assentiu sem interesse e em seguida virou para as portas do terraço uma vez mais. Contemplou a crescente escuridão sem ver nada em realidade.

 

-Que demônios passou com a luz?

Will deu um pulo ao ouvir o grito que Colin Ramsey, um de seus melhores amigos, deu da porta.

-Que horas são? -perguntou a contra gosto à escura figura que se movia pela sala de música em busca de um abajur.

-Quase meia-noite.

Por Deus, quanto tempo tinha estado ali?

- Ah…

Colin riu entre dentes.

-«Ah»? Isso é tudo que tem que dizer?

Irritado pelo bom humor que mostrava seu amigo em tão difíceis circunstâncias, Will soltou um bufo.

-Wilson te deixou passar?

-E por que não ia fazê-lo? - apressou-se a responder Colin -. Suponho que o despertei, e não parecia muito contente com a interrupção.

-Não me cabe a menor duvida.

Colin esteve a ponto de atirar ao chão um vaso vazio enquanto procurava provas o abajur que havia no extremo da mesa.

- Maldito seja… - Will procurou o interruptor, acionou-o e pôs em pé o vaso que havia ao lado.

A luz o obrigou a entrecerrar os olhos e sentiu uma dor surda na cabeça. Necessitava um gole.

- Gostaria de tomar um brandy? - perguntou a seu amigo com secura enquanto se voltava para a mesa auxiliar.

- claro que sim… Por todos os Santos! Tem um aspecto terrível.

Will não disse nada a respeito enquanto observava como seu amigo se acomodava no sofá, o mesmo lugar que Hastings tinha ocupado apenas uma hora antes. Ou tinham acontecido já há duas horas? Não teria sabido dizê-lo.

-Vamos, responde as minhas perguntas - insistiu Colin-. Por que está aqui somente às escuras, e o que passou com essa misteriosa mulher que anda perseguindo?

A mulher a que ando perseguindo, pelo amor de Deus…

Colin tirou o colete, jogou-o sobre o encosto do sofá e arregaçou a camisa de linho.

-E onde está Sam? Acreditei que já estaria aqui contigo.

Will girou a chave da desnecessária fechadura da licoreira e abriu o móvel para pegar uma garrafa de líquido ambarino escuro e duas pequenas taças de cristal. Depois de soprar sobre elas para retirar o pó que pudesse haver no interior, serviu as duas taças: a de Colin até a metade e a seu quase até a beirada. Essa noite necessitava mais que qualquer coisa.

-Sam foi atrás dela, sem dúvida - respondeu com amargura enquanto deixava a garrafa sobre uma toalha de mesa bordada -. E o mais provável é que se perdeu.

-Como que foi atrás dela? -Colin tomou a taça que lhe oferecia, mas não afastou os olhos de seu amigo-. O que ocorreu?

Will encolheu os ombros e tomou um gole do caro uísque.

-Não é brandy. Sinto muito.

-O que ocorreu? -repetiu Colin, que tinha ficado mais sério ao dar-se conta de que havia algo que não ia bem.

Will passou os dedos pelo cabelo e se deixou cair na cadeira de balanço estofada de amarelo que havia frente ao sofá.

- Tenho descoberto quão estúpido sou isso é o que ocorreu. E que todas as mulheres pelas que sinto… um pouco de afeto, por dizê-lo de algum jeito, acabam me enganando com mentiras sobre o amor imperecível.

Colin entrecerrou os olhos enquanto bebia um gole da taça.

-As mulheres habitualmente fazem essas coisas, e essa é a razão pela qual não quero me envolver… emocionalmente com nenhuma. Pelo geral, claro está.

Will começou a balançar-se sem pensar enquanto agitava a bebida e contemplava o conteúdo, que dava voltas na taça.

-Tudo era uma montagem, sabe? -disse em voz muito baixa.

-O que era uma montagem? -quis saber seu amigo.

Ele meneou a cabeça em um gesto negativo.

-Tudo. Todo o acontecido desde o dia que ela apareceu em minha vida.

Exasperado, Colin deixou o uísque na mesinha que tinha diante.

-Não te entendo. De que diabos está falando?

Will levantou a taça e tomou dois grandes goles que a deixaram na metade. A bebida lhe abrasou a boca e a garganta, mas essa sensação lhe resultou estranhamente reconfortante nesse momento.

-Da boa senhora Rael-Lamont ou, embora ela o guarda em segredo, Lady Vivian, casada, mas bem disposta.

-Isso é uma canalhice de sua parte, não te parece? - assinalou Colin com secura -. Acreditei que essa mulher gostava de você.

Eu gosto de seus olhos, sua sensualidade, sua risada, como pensa…, refletiu Will.

-O certo é que tem um dom para as flores - repôs com ar indiferente, esperando que essa direta resposta fora suficiente.

Colin apoiou os cotovelos nos joelhos e começou a bater os dedos de ambas as mãos.

-Somos amigos há anos, Will, e jamais te tinha visto assim, tão… abatido. Ou como é. Não me deste nenhuma explicação de por que me pediu que a vigiasse e que a protegesse sem que se desse conta, e agora chego aqui e descubro que de repente já não você gosta dessa mulher. Tem isto algo haver com o fato de que ela não estava no bar onde eu a esperava esta noite?

Sem saber muito bem por onde começar a explicação, e subitamente envergonhado por ter comprometido seus dois amigos naquele estratagema em que o tinham enganado, Will se levantou de um salto da cadeira de balanço e estirou o pescoço em ambas as direções antes de aproximar-se de novo até as portas do terraço e cruzar os braços à altura do peito.

-Tudo é questão de dinheiro - disse pouco depois enquanto olhava através dos cristais com as pernas separadas.

Colin soltou um grunhido.

-Não é sempre se houver mulheres de no meio?

Will riu ao escutar aquilo, mas não fez nada por negá-lo.

Depois de uns segundos de silêncio, Colin acrescentou:

-Bom… pensa me explicar tudo isto ou estamos esperando que nos sirvam algo de comer antes de nos deitar?

Will não encontrou gracioso aquele intento de seu amigo por aliviar o tom da conversação. Fechou os olhos e apertou a mandíbula com força antes de falar.

-Devo decidir se quero acusá-la de um crime.

Colin soltou o ar de maneira larga e pausada.

Will demorou um momento em digerir essa idéia, apesar de que tinha sido ele quem a tinha exposto. Para falar a verdade, parecia uma possibilidade mais real quando se expressava verbalmente; notou que suas mãos se convertiam em punhos sob seus braços por iniciativa própria e que essa sensação interna de inquietação o estava deixando intumescido.

Antes que Colin pudesse dizer algo, ouviu que batiam na porta. Will não deu a volta. Sabia quem era.

-Excelência…

-Que demônios está acontecendo aqui? - foi a pergunta exasperada e furiosa do Samson Carlisle, que já se adiantou ao mordomo-. Estive sentado em um corrimão de ferro observando um edifício às escuras três malditas horas.

-Posso me retirar por esta noite, excelência? -perguntou Wilson sem rodeios.

-Sim, obrigado, Wilson - respondeu Will de maneira despreocupada, como se fora o mais normal do mundo que três dos nobres mais enriquecidos da Inglaterra se reunissem para discutir a meia-noite em uma sala de música que apenas se utilizava.

Virou-se para seus amigos justamente no momento em que Wilson saía da biblioteca e fechava com uma terminante portada.

- Bom isto é estupendo - disse com voz cínica-. Uma festa com toda regra, não lhes parece?

Sam lhe lançou um olhar assassino. Já tinha tirado o casaco e afrouxou a gravata, que pendurava ao redor de seu pescoço; nesse momento enfrentou a ele com uma expressão mais desagradável nos olhos, no rosto e nas mãos.

- Que tipo de encargo absurdo foi este? Apenas vi em toda a noite foi a uma prostituta que me ofereceu fogo.

-É provável que tenha sido a melhor proposta que alguém lhe fez esta semana - interveio Colin - E ainda por cima nem sequer fuma. Uma lástima.

Sam ignorou por completo o comentário e seguiu olhando para Will.

-E agora envia a alguém para me buscar. Para que? Já aconteceu a maldita meia-noite.

Sua voz revelava certo matiz de dureza que os outros dois homens reconheceram e compreenderam. Sam era um homem muito sério, e tudo devido a um passado do que nem sequer seus mais íntimos amigos estavam inteirados. Em muito raras ocasiões se mostrava paciente com as frivolidades; não estava acostumado a ficar de braços cruzados, e muito menos em uma situação como aquela, em que Will lhe tinha pedido sua ajuda e lhe tinha obrigado a suportar várias horas de aborrecimento.

- Acredito que não aceitou o oferecimento da mulher, verdade? -perguntou Will sem muito interesse, ao mesmo tempo em que se aproximava da mesinha, onde tinha deixado a taça quase vazia - Não teria sido um ponto final muito excitante para uma noite.

As sobrancelhas escuras de Sam se uniram em um gesto de perplexidade.

- Que oferecimento?

- Ofereceu-te fogo, não?

- Que demônios está acontecendo aqui? - insistiu Sam, embora dessa vez com mais veemência.

-Pergunto-me quantas vezes surgiu essa mesma pergunta nos últimos dez minutos - interveio Colin, que estava sentado no sofá, terminando-se seu uísque-. Eu, ao menos, estou farto de repeti-la.

- Gostaria de um gole, Sam? -ofereceu Will.

-Não. -Olhou-o com atenção uns instantes antes de perguntar sem rodeios-: Quem diabos é Vivian Rael-Lamont, e por que me pediste que vigiasse um teatro às escuras se era improvável que ela aparecesse?

Will levou a taça vazia até a licoreira e tirou a garrafa para servir-se outro uísque.

-Está bebendo uísque em uma taça tão pequena?

Will lhe jogou uma olhada por cima do ombro.

-Como sabe que é uísque?

Por fim, Sam entrou mais na estadia.

-Pela cor. Por que me fez vir?

Will franziu o cenho e levantou a garrafa para examinar o líquido à luz.

-Isso, explique-nos - adicionou Colin, que elevou a mão em um gesto indiferente antes de acomodar-se de novo no sofá e apoiar o tornozelo de uma perna sobre o joelho da outra.

Will serviu a taça.

- Parece-me brandy…

-Pelos pregos de Cristo, Will! Tenho a bunda dolorida de me sentar em uma barra de metal, estou cansado e faminto, e sigo sem ter nem idéia de por que estou com você… - Fixou-se no que lhe rodeava pela primeira vez -. É esta a sala de música?

-foi o piano o que te deu a pista? -inquiriu Colin, que alargou uma mão em busca de sua taça antes de dar-se conta de que já a tinha acabado.

Sam baixou a vista, como se o visse pela primeira vez.

-Muito engraçado.

Colin sorriu.

-Esta conversação não nos leva a nenhuma parte. Estava a ponto de começar a jogar…

-Sente-se de uma vez, pelo amor de Deus - ordenou-lhe Will, enquanto elevava a taça meio cheia com uma mão e desabotoava o pescoço da camisa com a outra-. Ainda estou tentando adivinhar como é possível que essa mulher me enganasse em tudo. Quando averiguar a resposta, serão os primeiros a entender.

Em lugar de sentar-se no sofá junto ao Colin, Sam olhou a sua esquerda e se aproximou do piano, tirou a capa do banco e se sentou escarranchando sobre ele, de frente para seus dois amigos. Apoiou as mãos sobre os joelhos e esperou.

-Que comodidade… - disse Colin com um bocejo - Bom, por que não começa desde o começo?

Will lembrou-se de várias coisas, do primeiro encontro na biblioteca no qual ela se ofereceu para comprar o manuscrito mesmo sabendo que não estava em venda, até o primitivo contato, o primeiro beijo e o primeiro encontro íntimo. Pensar que tudo aquilo não tinha sido mais que uma atuação o enchia de cólera, embora isso não impedisse que a luxúria corresse por suas veias cada vez que pensava nela.

Deixou-se cair como chumbo sobre a cadeira de balanço uma vez mais, fazendo que as pernas de madeira rangessem ao mover-se sobre o chão de mármore.

-A senhora Rael-Lamont veio para ver-me faz umas semanas para me fazer uma proposta. Queria comprar o soneto.

-Santo Deus! -exclamou Colin, que elevou de repente a cabeça com uma expressão incrédula-. Por isso necessitava a cópia?

-Sim, por isso.

-Para que o queria? -perguntou Sam, soltando um pouco parecido até bufo-. O mais provável é que não pudesse vendê-lo.

-Embora eu tenha lhe feito a mesma pergunta - respondeu Will, ao mesmo tempo em que negava com a cabeça-, jamais recebi uma resposta que tivesse sentido. Mas naquele momento a encontrava tão… intrigante que tampouco me importou muito.

-Ah…

A exclamação procedia de Colin. Will a ignorou.

-E? -insistiu-o Sam.

-E lhe disse que para que eu aceitasse sua proposta ela devia converter-se em minha acompanhante…

-Mãe de Deus… - murmurou Sam muito devagar.

Colin estalou em gargalhadas e ficou em pé com a taça vazia na mão.

-Tentarei pô-lo em prática algum dia, de verdade que sim - disse entre risadas, enquanto rodeava o sofá para dirigir-se a licoreira-. É um maldito gênio.

Will jurou e se inclinou para frente para assentar os pés no chão e apoiar a fronte nas mãos.

-Não é o que está pensando.

-Claro que não… - disse Sam com sarcasmo-. Conhecendo seu gosto em questão de mulheres, estou seguro de que é bastante feia…

-Eu pensei o mesmo - interveio Colin, elevando a taça que acabava de preencher-. E se ela quiser «meu» soneto, exigir-lhe-ei sem mais que o leia sentadinha entre meus…

-Só queria sua companhia - recalcou Will uma vez mais, enquanto levantava a cabeça para olhar a seus amigos-. E, se por acaso querem sabê-lo, é preciosa, embora isso não tenha importância.

Sam reprimiu um sorriso.

-Certamente…

-Claro que não tem importância… - conveio Colin categoricamente -. Deixaste-me completamente desconcertado. -Tomou um gole de uísque e retornou ao sofá, onde se esparramou sobre as almofadas com as pernas estiradas sob a mesa e um braço estendido sobre o encosto-. Bem, por que não nos contas exatamente o que ocorreu?

Will sentiu desejos de lhe dar um murro para lhe apagar o sorriso de satisfação do rosto.

-A senhora Rael-Lamont é também Lady Vivian, a filha mais velha do conde de Werrick, um fato que manteve oculto à sociedade durante os dez anos que leva vivendo aqui.

Colin deixou escapar um longo assobio.

-Fascinante, embora deva admitir que esperasse algo um pouco mais picante.

Sam fez caso omisso do comentário e perguntou imediatamente:

-por que vive sozinha em uma pequena casa de Penzance?

Will notou que a tensão retornava.

-Seu marido era viciado em ópio. Seu matrimônio jamais se consumou, embora ele se negasse a lhe conceder a anulação por medo de que as pessoas se inteirassem de seu… padecimento... Chamemos assim. Suponho que era a palavra de Vivian contra a sua, de modo que ela tratou de arranjar o melhor acordo de separação possível, dadas as circunstâncias. O tipo retornou a França, o país onde tinha nascido, e ela decidiu empreender uma nova vida aqui, longe de seu lar, para evitar que sua família caísse em desgraça.

Pela primeira vez desde que chegaram ambos os homens o olharam com uma expressão vazia.

-Parece bastante seguro desses fatos - assinalou Sam ao final-. Como sabe que ela não mentiu?

-Porque fui eu quem lhe arrebatou a virgindade.

Ambos ficaram boquiabertos. Durante um bom momento ninguém disse uma palavra, e Will lhe ocorreu que tinha passado muitíssimo tempo desde que visse Colin sem fala por última vez.

Reclinou-se sobre o respaldo amarelo uma vez mais e começou a balançar-se.

Sam se recuperou primeiro, e seus traços, inexpressivos, revelaram seu desconcerto enquanto esfregava as Palmas das mãos nas coxas.

-Para nos esclarecer - conjeturou em voz alta-: a filha de um conde se faz passar por uma viúva qualquer quando em realidade é… o que? Uma dama legalmente casada e separada embora… virgem?

-Suponho que esse seria um resumo bastante adequado - conveio Will antes de dar outro gole rápido ao uísque.

-Não de tudo - corrigiu Colin-. Tecnicamente já não é uma donzela, embora não acredito que isso seja ilegal.

Will saiu disparado da cadeira de balanço uma vez mais, preso de um súbito desassossego. Caminhou por detrás do sofá com a cabeça encurvada e começou a andar com os braços atrás das costas.

- Tudo isso não tem nada haver com o maldito centro da questão.

Sam inspirou profundamente e deixou escapar o ar muito devagar, enquanto apoiava os cotovelos nos joelhos e entrelaçava os dedos das mãos.

-Nesse caso, qual é a questão? -perguntou com atitude serena e pensativa-. Explique-nos por que nos mandou chamar e por que bebe o uísque como se fora chá gelado em pleno mês de julho.

Will sentiu que o coração martelava no peito quando a lembrança do desengano que tinha sentido ao vê-la sair de sua casa essa mesma tarde veio à superfície para lhe provocar ainda mais fúria e desconcerto. Como podia explicar com palavras essa sensação de desencanto? Nem Colin nem Sam se afeiçoaram tanto com uma mulher como ele a Vivian. Disso estava seguro.

Depois de dissimular o melhor possível as confusas e complexas emoções que o embargavam, deixou de andar e se deteve a um dos extremos do sofá para contemplar o intrincado desenho da base de narcisistas e hera do papel da parede.

- depois de que Vivian e eu… - começou a explicar em voz baixa.

-Confraternizaram?

-Acaba já com isso, Colin - pediu-lhe Sam irritado.

-… ficamos íntimos - continuou Will depois de jogar uma rápida olhada de advertência a seus amigos-, disse-me que necessitava o manuscrito porque a estava sendo chantageada por um homem chamado Gilbert Montague, um ator shakespeariano bastante famoso.

Sam se pôs a rir pela primeira vez em toda a noite.

- Como há dito?

- Um ator famoso? - repetiu Colin perplexo. Will esfregou os olhos com os dedos de uma mão e se virou de novo para enfrentá-los.

-Sei. Parece incrível.

-Como uma representação péssima - corrigiu-o Colin antes de tomar um novo gole de uísque.

-Vamos, segue - animou-o Sam com um rápido gesto do braço-. O que poderia utilizar um ator para obrigá-la a participar nada menos que em uma chantagem?

Inquieto, Will começou a andar de novo ao redor do sofá para dirigir-se à cadeira de balanço. Uma vez que pegou sua taça e bebeu o pouco que ficava, aproximou-se das portas do terraço e massageou os músculos contraídos do pescoço com os dedos de uma mão. A noite tinha adquirido uma cor preta sinistra, e a névoa baixa e persistente o tornava tudo inclusive pior.

Desesperado por tomar outro gole, baixou a vista para contemplar o delicado cristal que tinha na mão, mas decidiu que já tinha bebido o bastante. No que lhe pareceu um ato de rebeldia infantil, afastou-se da escuridão da noite e deixou a taça em cima do piano, sabendo de que se Elizabeth seguisse com vida lhe teria repreendido com as piores palavras imagináveis por esse pequeno descuido. Nesse momento o fez com toda deliberação, desfrutando do fato de que aquele era seu lar, seu piano, sua taça e, por último, seu maior desejo.

- Já lhes hei dito que Vivian está separada de seu marido - conseguiu responder por fim, olhando a seus amigos por cima do piano-. Conseguiu a separação pela via legal através de um procurador de Londres e tem um documento que o prova. Segundo ela, esse ator conseguiu de algum modo uma cópia da sentença assinada de separação e a ameaçou fazendo pública se não fazer o que lhe pede.

-Cópias, cópias por toda parte - interveio Colin, enquanto apertava a testa com os dedos-. Quem fez o trabalho?

- Como demônios vou sabê-lo?

-Viu alguma vez essa cópia? -perguntou Sam com expressão pensativa.

Will negou com a cabeça.

-Não, mas acreditei no que me disse.

- por quê?

Isso lhe pôs um pouco nervoso.

-Porque não tinha sentido que houvesse planejado sozinha semelhante artimanha. Não tinha nada que ganhar mentindo sobre seu matrimônio, e, além disso, viveu em Penzance durante anos. Aqui desfruta de uma nova vida, vários conhecidos, um negócio…

-Um negócio? -interrompeu-o Sam.

Will se inclinou para diante, apoiou os antebraços sobre o tampo de madeira do piano e juntou as mãos.

-É uma florista, e vende plantas e flores à comunidade.

Colin sorriu de orelha a orelha.

-Uma aristocrata fingindo ser uma vendedora de flores? Incrível.

-Não disse que vende cravos pela rua em troca de umas míseras moedas - replicou de mau humor -. Leva um negócio e é muito respeitada por todas as pessoas do povoado; cultiva algumas das melhores orquídeas de Cornwall, embora em minha opinião as vende por um preço ridículo.

-Disse…? Perdoa, mas disse «orquídeas»? -perguntou Sam com expressão atônita.

-Sim, tanto as variedades comuns como as raras. E algumas delas são de fato bastante raras. -Sentiu que ruborizava de repente e apertou os lábios para dissimular o desconforto que sentia-. Comprei-lhe arranjos florais freqüentemente há quase um ano. É muito boa em seu trabalho.

Seus amigos o olharam como se tivesse afirmado que ia pintar os estábulos de cor rosa.

Irritado, Will se moveu com desconforto e aceitou por fim que devia admitir ante seus amigos o que provavelmente eles já sabiam.

-Bem, importa-me um rabanete as flores. Sempre me importaram muito pouco. Tinha-a visto de longe várias de vezes, e me parecia atrativa. Comprar o que vendia foi um ato… prático. -Deixou escapar um suspiro-. E a única maneira que me ocorreu de conhecê-la sem levantar suspeitas.

-Pelo amor de Deus… - disse Colin-. Está apaixonado.

Will lhe lançou um olhar assassino que somente conseguiu que Sam soltasse um resmungo num intento de conter a risada.

-Assim lhes parece muito divertido, não é assim, cavalheiros?

-Uma comédia de enredo de três ao quarto – conveio Colin, que tratava em vão de conter a hilaridade pelo bem de seu amigo.

Will fechou os olhos e enterrou o rosto entre as mãos. Eles não o entendiam, e por alguma razão estranha, a facilidade com que se explicou os fatos durante as últimas horas o tinha abandonado. Decidiu tragar o orgulho e lhes contar as coisas tal e como eram.

-Pedi a Sam que a esperasse no teatro se por acaso se dava o caso improvável de que a levassem ali contra sua vontade; e a ti, Colin, que a vigiasse quando chegasse ao bar. Ela não lhes conhece, e tampouco ninguém de Penzance; ao menos ninguém lhes reconheceria de longe e nesse ambiente vulgar. Nenhum dos dois parecem policiais nem detetives, assim poderiam passar despercebidos melhor que os homens do Hastings. -Levantou a cabeça e os olhou com franqueza-. Pedi-lhes que o fizessem não porque não confiasse nela, mas sim porque acreditei que poderia… não sei… delatar-se quando entregasse a falsificação do manuscrito e precisar um amparo extra. Pareceu-me uma boa idéia, e sabia que vós dois me ajudariam sem fazer perguntas que eu não estava preparado para responder. E isso é o que estou fazendo agora.

Ficou em pé, cruzou os braços sobre o peito e começou a caminhar muito devagar ao redor do piano.

-Umas duas horas antes da entrevista prevista com Gilbert Montague no bar, eu estava em sua casa, lhe entregando a cópia do soneto. Tudo parecia ir bem, salvo pelo fato de que ela se mostrava mais disposta a me revelar sua identidade, algo que fez depois de pressioná-la um pouco. Suponho que esses segredos que tão bem tinha guardado me deixaram um pouco desconcertado. Não vi nada que me fizesse suspeitar a traição que se fazia quando parti dali a fim de deixar que se preparasse para sua entrevista. De fato, parecia bastante assustada pelo fato de ter que reunir-se com ele.

-Com o ator - esclareceu Colin.

-Sim - respondeu Will antes de continuar. Suas idéias começaram a adquirir coerência pela primeira vez em toda a noite, à medida que explicava os detalhes para seus amigos-. Minha intenção era vigiar sua casa e segui-la quando partisse para bar. Não lhe disse que estaria perto porque não queria que ela revelasse minha presença me buscando com o olhar ou mostrando muito aprumo durante a entrevista. Devia parecer nervosa, inclusive assustada, para que tudo saísse bem. Eu sabia que ela me necessitava, mas não queria perder a oportunidade de prender o homem.

Ao dizê-lo, sentiu um peso no estômago e uma queimação no peito. Jamais deveria ter tomado essa segunda taça.

-Muito nobre de sua parte - comentou Sam, cujo tom sugeria que falava muito a sério.

Will seguiu passeando muito devagar, com os ombros tensos e um nó na garganta.

-Sim, mas pelo que vi, ela não me necessitava absolutamente.

- Ah! - interveio Colin - Parece que por fim chegamos a esse ponto da conversação que nos dirá o que ocorreu de verdade esta noite e por que parece tão doído.

Will fez caso omisso do comentário. Depois de respirar fundo, deteve-se perto de Sam, que permanecia sentado na banqueta que havia perto do teclado do piano.

- Deus! Sou um estúpido! - sussurrou com voz rouca, ao tempo que fechava os olhos com força em um intento de apagar de sua mente a imagem deles dois subindo a uma anódina carruagem, de Vivian amontoada sob seu casaco e ele rindo com vontade de algo que ela havia dito olhando-o nos olhos.

- Esperei tal e como tinha planejado - prosseguiu, embora tivesse a mandíbula tão tensa por causa da fúria que quase não podia movê-la-. Mas logo descobri que ela jamais tinha tido a intenção de ir ao bar para a entrevista que tinha às sete. Logo que escondi meu ensopado corpo entre um poço de pedra e uma sebe que havia do outro lado da rua, Vivian e um dos atores principais desta desprezível farsa saíram do viveiro, e lhe rodeava a cintura com o braço e lhe protegia os ombros com seu casaco. -Engoliu saliva-. Foi então quando por fim o compreendi tudo. Tinham tramado todo esse estratagema para ficar com o manuscrito, e ao dar-se conta de que não funcionaria, ao descobrir que não lhes entregaria mais que uma falsificação, mudaram seus planos.

-Trocaram seus planos… para fazer o que? -perguntou Colin, claramente confundido.

De repente, Will sentiu vontades de destroçar algo.

- Seqüestrá-la - respondeu com os dentes apertados.

- O que?

- Isto ficando muito complicado para mim - afirmou Sam com um grunhido.

Furioso, Will exalou profundamente pelo nariz e levou uma mão ao bolso para tirar um pequeno cartão de apresentação de cor lavanda. Estava escrito a mão por um dos lados, e o leu em alto.

-«Temos à Lady Vivian. Dentro de três dias nos poremos em contato com você a fim de lhe dar as instruções sobre o pagamento pertinentes para que possa recuperá-la sã e salva. “Não diga a ninguém, ou lhe cortarei seu bonito pescoço com supremo prazer.»

Sam estirou um braço e lhe arrebatou o cartão das mãos.

Colin estava boquiaberto.

-Do que vai tudo isto?

Will esmagou a palma da mão contra a tampa do piano com tal força que as cordas do interior vibraram.

-Não é mais que um plano ideado para tentar me tirar dinheiro!

A ira de sua voz era inconfundível e a tensão que se formava redemoinhos em seu interior parecia a ponto de explorar. Colin e Sam cravaram a vista nele, completamente atônitos. Jamais tinha sofrido semelhante arrebatamento de fúria diante deles. Diante de ninguém.

Passaram vários minutos de tenso silêncio.

-Quando recebeu isto? -murmurou então Sam.

A preocupação de seu amigo era evidente em suas palavras, e Will lamentou aquele arranque emocional tão desconjurado.

-Sinto muito…

-Não te desculpe pelo amor de Deus. Somente responde a maldita pergunta.

Will se esfregou a testa com a palma de uma mão.

-Estava aqui quando retornei do povoado.

-Quem o entregou?

-Chegou por correio.

-Assim que alguém sabia que os havia visto juntos - conjecturou Colin -, e sabia com o tempo suficiente para enviar isto.

-Não necessariamente - repôs, embora não lhe ocorreu nada que acrescentar. Não tinha pensado nisso de maneira racional, já que seus sentimentos estavam muito envolvidos.

Sam golpeou o cartão com a ponta dos dedos sem deixar de olhá-la.

-Viu-te alguém?

Will era incapaz de permanecer quieto um segundo mais, de modo que começou a passear de novo ao redor da cadeira de balanço e elevou a vista para o retrato de sua avó - uma mulher de expressão séria e decidida, embelezada com um vestido de seda amarela-, que estava pendurado na parede norte.

-Não sei – respondeu -. Embora se lhes sou sincero, duvido-o. Estava chovendo muito, e nunca disse a Vivian que a esperaria muito próximo.

- Mas quando os viu sair de sua casa - assinalou Colin -, ela não olhou em sua direção nem te fez nenhum tipo de sinal, verdade?

Will esboçou um sorriso amargo.

-Não. Olhou ao seu redor durante uns instantes e logo se endireitou para olhar ao homem no rosto.

-Ah… Olhou ao seu redor… em busca de algo?

-Ou talvez somente para ver se a estava vigiando - defendeu-se.

-Mas há dito que não acredita que te visse e que não tinha nem idéia de que estava ali - repetiu Colin, como se desejasse recalcar esse fato.

Will franziu o cenho e se virou para enfrentar de novo a seus amigos.

A expressão precavida e serena do Colin o surpreendeu. Sempre era ele quem brincava, era quem animava as reuniões entre os três com algum comentário sarcástico, e nenhum deles esperava outra coisa dele. Colin era o que se livrava sempre das situações mais solenes; Sam, o pensador; e Will o que sempre tinha problemas… pelo menos nos últimos anos. Entretanto, Colin tinha sido seu apoio mais forte durante o julgamento por assassinato, já que o vivo engenho de seu amigo tinha impedido que se afundasse em uma depressão que teria rivalizado com as que padeciam Elizabeth antes de sua morte.

Entretanto, nesse momento Colin parecia pensativo, um tanto incomum nele, e se inclinou para diante no sofá uma vez mais, enquanto contemplava a mesinha de chá e a golpeava suavemente com o dedo indicador de ambas as mãos.

-No que pensa? -perguntou-lhe Will.

-Eu estava perguntando o mesmo - assinalou Sam, que deixou de sentar-se escarranchado no banquinho para colocar-se de frente a eles e apoiar os cotovelos na tampa do teclado.

Colin permaneceu em silencio durante um momento.

-Pensava que tudo isto parece muito brilhante, muito… rebuscado. E as atuações, muito boas.

-Não te sigo - admitiu Sam antes de cruzar as pernas.

Colin cravou a vista nas portas do terraço e ficou em pé de repente. Coçou um pouco a têmpora, e a seguir uniu as mãos às costas e caminhou para a licoreira. Entretanto, não se serviu de uma taça, mas sim se limitou a observá-la com atenção.

-Em primeiro lugar, ela não sabia que estava ali. Não podia estar segura disso. - Expôs suas idéias como se estivesse solucionando um quebra-cabeça.

-Devia saber que não andaria muito longe. - sustentou Will, que apoiou o quadril no encosto do sofá e cruzou os braços à altura do peito.

-Mas não sabia quando nem como… Não sabia se acudiria como um valente cavalheiro em seu resgate ou se a observaria das sombras. -Colin levantou a cabeça para olhá-lo nos olhos-. E não tinha maneira de saber o que faria ao vê-los sair juntos.

Will se viu obrigado a admitir que não tinha pensado bem nisso até esse preciso instante.

-Mas pareciam amantes… - disse quase à defensiva.

Sam inclinou a cabeça para um lado.

-Acaba de dizer que foi você quem lhe arrebatou a virgindade. Você foi seu primeiro amante depois de todos esses anos de matrimônio e separação, e agora, de repente, em questão de… quanto (Dias? Semanas?), tem um segundo amante. De verdade te parece possível? É absurdo.

Pela primeira vez em muitas horas, Will sentiu uma leve incerteza.

-Talvez não sejam amantes, mas sim… cúmplices. Acabo de dizer que suas ações lhe pareciam muito rebuscadas.

-As ações do homem, Will, não as dela – corrigiu-o Colin com o cenho franzido-. Ela vende flores e viveu em Penzance durante anos, segundo suas próprias palavras. É ele quem apareceu em sua vida de repente.

Durante mais da metade da noite, desde a última vez que a viu até a chegada de seus amigos fazia apenas trinta minutos, tinha permanecido naquela escura sala de música preso com uma sensação de traição que não podia explicar com palavras, consumido por um ciúme que não se parecia com nada que tivesse experimentado em sua vida. Não podia pensar em outra coisa que não fossem eles dois juntos, no braço que rodeava os ombros do Vivian, no sorriso do tipo e no… que? Naquele momento lhe tinha parecido uma brincadeira íntima entre ambos, mas depois de analisá-lo, já não estava tão seguro.

-O certo é que ela não parecia muito assustada - disse com certa cautela.

-Bom, nos explique com exatidão o que viu e o que não viu. -Sam limpou a garganta-. Parece-me que viu Vivian amontoada contra o homem e coberta em parte com seu casaco. Estou certo?

Will sentiu um vazio no estômago; estava tão concentrado em seu amigo que era incapaz de mover-se.

Sam esfregou o queixo com a palma de uma mão e olhou fixamente ao chão enquanto continuava com essa linha de pensamento.

-Sujeitava-a muito perto dele e depois subiram à carruagem. Não os encontrou na cama juntos, nem se beijando, nem compartilhando palavras de amor. De longe, viu como saíam da parte traseira de sua casa e subiam a uma carruagem. Isso é tudo. -Levantou a cabeça-. E não esqueçamos que estava chovendo e que você se encontrava do outro lado da rua. Com quanta claridade pôde vê-los?

«Com quanta claridade pôde vê-los…»

Uma escura e desgraçada sensação gélida começou a descender sobre ele, envolvendo-o e lhe apertando o peito mais e mais com cada segundo que acontecia. A intranqüilidade que o tinha invadido momentos antes começou a transformar-se em pânico, um medo tão profundo e aterrador que lhe fraquejaram as pernas. Sacudido pelos tremores, Will se agarrou ao respaldo da cadeira de balanço e segurou a madeira com ambas as mãos.

- Diga-me uma coisa - pediu-lhe Colin um minuto depois, atravessando o silêncio com sua voz de barítono -. Por que uma dama de bom berço que se interessou por ti, um duque rico e poderoso, tanto do ponto de vista romântico como sexual, ia mostrar o menor interesse por um ator? O que ganharia com essa relação? Onde teriam se reunido para planejar a chantagem? E o mais importante: por que te teria entregado sua virgindade depois de esperar tantos anos se lhe importasse o mínimo? - Colin sacudiu a cabeça e o olhou com franqueza-. Não tento menosprezar o que viu, mas, se for sincero, essas perguntas fazem que sua suposta participação nesta infame artimanha pareça uma possibilidade ridícula.

-Estou de acordo - apressou-se a dizer Sam.

Will permaneceu imóvel, incapaz de respirar. O único som que rompia o silêncio da noite era o estrondo produzido pelos batimentos do coração loucos de seu coração. Fechou os olhos durante um bom momento e tratou de visualizar Vivian tal e como a conhecia. Tal e como na realidade a conhecia.

Havia sido honesta com ele a princípio e tinha ido vê-lo unicamente porque necessitava de sua ajuda para manter na sombra os segredos de seu passado, e depois havia se amontoado sob o casaco de um homem atraente para subir em sua carruagem porque estava com medo ou porque a tinham ameaçado, ou lhe havia mentido durante semanas e tinha atuado tão bem que ele não tinha detectado o menor rastro de falsidade por sua parte. Sua mente se encheu imediatamente com uma visão dela em toda sua formosura, sentada com ele na praia, lhe permitindo que lhe fizesse o amor, lhe sussurrando ao ouvido «Eu gosto de lhe tocar… Eu gosto de como me olha…». E da primeira noite que estiveram juntos. «Isto só acabará se você o deseja…»

Aquilo não tinha sido uma atuação. De repente viu tudo muito claro, e começou a tremer.

-Não entendem bem a situação - disse com voz entrecortada, abrindo os olhos e esfregando-a cara com as mãos em um intento por acalmar-se-. O detetive veio me informar esta tarde que esse tal Gilbert Montague, cujo verdadeiro sobrenome é Herman, era um amigo de infância de Elizabeth.

-Santo Deus! -exclamou Sam-. Por que não nos há dito isso antes?

Will parecia a ponto de explodir.

-Porque não vi conexão até agora!

Nessa ocasião, o estalo de ira não lhes surpreendeu no mínimo.

Colin se apoiou sobre o móvel da licoreira e colocou ambas as palmas sobre sua superfície.

-Bem, e qual é essa maldita conexão?

-Pelo amor de Deus… - sussurrou Will, cada vez mais consciente do incrível perigo que tinha passado por cima.

-Will - repetiu Sam, enquanto se aproximava dele muito devagar-, qual é essa conexão?

Tinha-lhe gelado o sangue e seus tremores se fizeram evidentes quando olhou a seus amigos.

-Vivian subiu a essa carruagem com Steven Chester.

O assombro reinou na sala de música se converteu em um ponto quase evidente. Durante o que pareceram anos, nenhum deles moveu um músculo, nenhum deles mediu palavra.

-O que? -perguntou por fim Sam.

Colin, que estava paralisado, não disse nada.

Will sentiu que lhe falhavam as pernas e virou para sentar-se na cadeira de balanço.

-Vi-os juntos e não podia acreditar - explicou com secura enquanto observava o chão com o olhar perdido e retorcia as mãos. A neblina que entorpecia sua mente ia dissipando pouco a pouco-. No instante em que os vi juntos tinha certeza que tinham me enganado para me tirar dinheiro. Além disso, o manuscrito de Elizabeth, Steven e Elinor quiseram sempre de mim. Assim, quando fiquei sob a chuva e observei como Vivian saía da parte posterior de sua casa e entrava no jardim dianteiro coberta nos braços do arrumado e nobre irmão de Elizabeth, assumi que eram amantes, porque nesse momento tudo parecia encaixar e ter sentido, como se tudo tivesse sido planejado desde o princípio.

Embora se sentisse gelado por dentro, viu-se obrigado a enxugar as gotas de suor que lhe cobriam o lábio superior com o dorso da mão.

-Mas Steven, Elinor e Gilbert Herman utilizaram Vivian para chegar até mim, algo que agora me parece muito mais lógico. Ela não foi mais que um peão inocente. - Fez uma pausa para voltar a olhar a seus amigos-. Escolheram-na para me chantagear, mas quando nos convertemos em amantes e ela me contou isso tudo, arruinou seus planos de recuperar o manuscrito. Foi então quando se deram do quanto eu me importava com ela e decidiram alterar sua bem riscada conspiração. E eu fiquei aqui sem fazer nada durante quase seis horas… - O pânico o assaltou com tanta força que não pôde continuar.

- Mãe de Deus… - sussurrou Sam com um fio de voz.

Colin se aproximou dele.

- Não deve esperar que entrem em contato contigo - disse convencido em tom grave.

- Não - murmurou Will com uma fera determinação que transformou o medo em cólera. Depois ficou em pé de repente e se virou para encará-los. - Não acredito que Elinor seja perigosa, mas Steven matará Vivian se considerar necessário. Nunca estive tão seguro de algo.

-E isso significa…

-Está sozinha, assim não tem nenhuma possibilidade. Tenho que trazê-la de volta.

Na sala reinou novamente um silêncio ensurdecedor. Olharam-se do lugar em que se encontravam.

- Ajudar-lhe-emos a recuperá-la. Não pode fazer isto sozinho - disse Sam.

Colin soltou um grunhido e levantou o olhar para o teto.

-Sabia que diria isso.

A fúria de Will era evidente na forma em que se abriam as narinas, na forma em que comprimia os lábios. Apertou os punhos com força e tratou de não pensar no quanto Vivian o necessitava, no perto que tinha estado de trair a confiança que ela tinha depositado nele. Devia estar muito assustada.

Engoliu seco com força num intento de não desmoronar-se.

-Não desperdicemos mais tempo. Saiamos daqui.

-E aonde vamos? -perguntou Colin enquanto todos se dirigiam para a porta.

-Esta noite cavalgaremos até o Truro - respondeu Will por cima do ombro.

 

Bateu na enorme porta da casa principal da propriedade Chester bem antes do amanhecer. Colin e Sam permaneciam à sua esquerda, um pouco atrás dele, sob uma grade quebrada e pisando nas más ervas que tinham serpenteado pelos degraus de pedra até o patamar. Sabia que os Chester necessitavam de dinheiro, mas foi somente ao chegar à propriedade que compreendeu por que estavam tão se desesperados por conseguir o manuscrito e por que uma família, que um dia foi decente, havia recorrido ao seqüestro para obter um resgate, ao dar-se conta de que não ia recuperar o soneto.

Presa da impaciência, Will jogou uma olhada à parte leste do céu, ainda escura. Tinham cavalgado rapidamente em direção noroeste desde Penzance, mas a névoa densa tinha diminuído seu passo em certos lugares que deveriam ser atravessado em menos tempo. Entretanto, os caminhos tinham estado relativamente vazios durante toda a viagem, de modo que não tinham podido falar com ninguém.

Apesar de tudo, esse tempo de silêncio tinha permitido a Will refletir sobre as últimas e apaixonadas semanas, e preocupar-se com o futuro; e quanto mais se aproximava de Elinor e seu inesquecível passado, mais indignado se sentia por tudo o que essa mulher e sua família lhe tinha feito passar durante tantos anos, não somente a ele, mas a todos aqueles que lhe importavam. Nesse momento tinham em seu poder a doce e formosa Vivian, a única pessoa inocente em tudo aquilo; tinham-na levado como se não fora mais que um colar de diamantes e a mantinham cativa em algum lugar ao sul da Inglaterra. Vivian precisava dele como não tinha necessitado a ninguém em toda sua vida.

Bateu na porta de novo, mas nessa ocasião utilizou o punho em lugar da aldrava. Poderia tê-la derrubado, mas havia duas coisas que o impediam: em primeiro lugar, a porta era grosa e sólida; e em segundo, não podia permitir-se quebrar o tornozelo quando havia tantas coisas em jogo.

Por sorte, não teve que tentá-lo. Instantes depois ouviu o estalo do fecho e, quase imediatamente, Will utilizou o peso de seu corpo para empurrar a porta e abri-la até o interior do vestíbulo às escuras. Ali estava o mordomo dos Chester, Stockard, embelezado com uma camisola e observando-o com olhos sonolentos.

-Desperte Lady Elinor - ordenou-lhe em um tom grave, frio e muito mais ameaçador.

O ancião deu um passo para trás e se encolheu por causa da surpresa.

-Excelência…

-Agora mesmo – insistiu - ou eu mesmo subirei e a tirarei da cama.

Colin e Sam o seguiram para interior e se situaram atrás dele. Sam fechou a porta com suavidade para deixar claro que aquela não era uma visita de cortesia e que não partiriam logo.

O mordomo lhes jogou uma rápida olhada e compôs uma careta de desagrado antes de assentir com a cabeça.

- irei ver se está em casa.

Will esteve a ponto de rir. O protocolo impunha inclusive nas altas horas daquela maldita noite.

- Se estivesse em seu lugar, encarregar-me-ia disso o quanto antes possível - pressionou-o com evidente exasperação.

Não tiveram que esperar, logo que Stockard se virou para a escada que conduzia aos dormitórios da planta superior, Elinor apareceu no último degrau, embelezada com uma camisola rosa cheia de babados e abotoada do pescoço aos tornozelos. Olhou-os aos três e esboçou um diminuto sorriso sarcástico.

-Ah, chegou muito cedo, excelência - ronronou com fingida doçura -. E tem tão bom aspecto… como era de se esperar.

O simples fato de escutar o som daquela voz esganiçada depois de tantos anos lhe produziu um formigamento na pele, e seu coração começou a pulsar com força por causa da cólera e o ódio. Não havia tornado a ver Elinor desde que acabou o julgamento, mas a repugnância que sentiu tantos anos atrás o alagou de novo em tumultuosas quebras de onda.

-Onde está? - sussurrou Will com uma suavidade letal. Tinha os punhos apertados e uma expressão decidida e intimidante.

Depois de apoiar uma mão no corrimão, Elinor começou a baixar os degraus muito devagar. Em seu rosto se apreciava um leve desdém que qualquer um teria podido relacionar com o que uma rainha majestosa e corrupta mostraria ao olhar a seus desprezíveis súditos.

- Vejo que também trouxe seus amigos - comentou com ar casual, passando por cima da pergunta como de sua fúria -. Que pitoresco… Não obstante, chegou um pouco cedo para o café da manhã, não acha?

Will não se deixou enganar por aquela fachada sarcástica.

-Onde está à senhora Rael-Lamont? -perguntou de novo com uma voz que congelou o ambiente rançoso que os rodeava-. Ou me diz isso agora mesmo, ou arrancarei de desses lábios mentirosos seus asquerosos segredos.

O mordomo ofegou indignado, e passeou o olhar entre uns e outros sem saber muito bem o que fazer.

Sam o assinalou com um dedo sem vacilar.

- Não se meta nisto.

Stockard não respondeu à advertência, e permaneceu em silêncio desconcertado.

Elinor titubeou ao pisar no chão do vestíbulo, embora mantivesse o queixo altivo.

- Ah, excelência - disse com ironia-. Agora se dedica a ameaçar a mim e a meus criados? Não é de estranhar que seu bom nome se sujou tanto. Suponho que desfrutaria matando a mim também…

Will cortou a distância que os separava e agarrou com uma mão seu cabelo trançado e o enrolou ao redor do punho para lhe dar a cabeça para trás e poder olhá-la na cara, enquanto lhe colocava a outra mão na garganta, preparada para apertar.

-A única mulher a quem desejei matar é você, Elinor - admitiu em um sussurro -. Por cada mentira premeditada, por cada uma das perversas patranhas que me custaram uma parte de minha vida. E agora está aqui, ainda com vida. - Fez uma pausa e franziu os lábios em uma careta de desprezo -. Mas está a minha mercê, entre minhas fortes mãos.

Ela abriu os olhos devagar, absolutamente desconcertada por esse comportamento que jamais teria esperado dele. Will desfrutou ao vê-lo.

Elinor tratou de recuperar a compostura e lhe cuspiu na cara; Will a ignorou e apertou a mão ao redor de seu pescoço, obrigando-a a apoiar-se com força contra o corrimão da escada para que não pudesse mover-se a menos que ele o permitisse.

- Diga-me onde está - exigiu em tom ameaçador.

-Você matou a Elizabeth - vaiou ela, enquanto colocava as mãos no peito dele em um vão intento de apartá-lo.

Will fez um gesto negativo com a cabeça e lhe apertou o pescoço um pouco mais.

-Isto não tem nada que ver com a Elizabeth.

-Assassino! - exclamou ela com voz afogada; seu rosto se ruborizou por causa da ira e do um medo que já não conseguia ocultar.

-Só foi um assassinato para ti, já que jamais quis confrontar a vergonha e o escândalo de seu suicídio. O que de verdade me repugna é que seu irmão e você preferem mentir no tribunal, a seus amigos e a Deus, e ver um homem inocente apodrecer-se na prisão, que admitir a verdade sobre a enfermidade de Elizabeth. - Colocou o rosto muito próximo do dela -. Mas tudo isso passou, e vou acabar contigo.

O desprezo de sua voz era inconfundível. De repente, Elinor desviou o olhar para os homens que aguardavam certa distância e começou a arranhar a mão que apertava sua garganta cada vez com mais força.

- Ajudem-me! -suplicou com muita dificuldade-. Está louco!

Eles não fizeram mais que olhá-la de longe. Colin cruzou os braços à altura do peito com indiferença.

Will lhe apertou o pescoço um pouco mais, puxou a trança e aproximou o rosto a escassos centímetros de seu rosto.

- Onde está? -sussurrou.

Elinor teve pânico. Começou a ofegar em busca de ar e a engolir saliva, mas somente conseguiu que lhe dessem arcadas. Seus olhos se encheram de lágrimas enquanto lutava contra ele com todas suas forças e lhe arranhava a pele dos dedos.

- Stockard…

A crueldade inata e o terror que leu nos olhos de Elinor não o intimidaram. Utilizou seu peso para estreitá-la com força contra o corrimão e lhe gritou à cara.

- Diga-me onde está!

O estalo foi de tal magnitude que ressonou nos enormes muros e surpreendeu a todo mundo, inclusive ele. Entretanto, não a liberou nem afastou o olhar.

A mulher começou a tremer. As lágrimas formavam estrias em suas bochechas.

-Com… com o Steven - respondeu por fim em um rouco sussurro de derrota.

- Onde? -perguntou, sacudindo-a de novo.

- Em Li… Lizard.

Will deixou de apertá-la só o suficiente para que pudesse respirar, mas não a soltou.

-Tem uma casinha… - acrescentou Elinor antes de engolir saliva-, ao… ao oeste da península.

Will a liberou imediatamente. Os joelhos de Elinor falharam e caiu no chão, com as mãos em volta do pescoço e sem deixar de tossir. Afastou-se dele ofegando em busca de fôlego e tratou de levantar-se com ajuda da mão livre.

- Bastardo… - balbuciou sem olhá-lo.

Ele baixou a vista para ela.

- Se Vivian tiver sofrido algum dano - sussurrou com uma veemência feroz -, Apodrecer-te-á na prisão durante o resto de sua desprezível vida.

Dito aquilo, deu meia volta e se encaminhou para a porta.

Colin limpou a garganta e se dirigiu pela primeira vez ao estupefato mordomo, que parecia ter criado raízes no chão e tinha o rosto pálido.

- Consta que não recordará nada do que aconteceu aqui esta manhã - comentou quase em tom alegre.

Will viu que o mordomo assentia tremulamente. Tinha captado a advertência.

Depressa e em silêncio, os três saíram da casa e entraram no ambiente afresco e úmido da manhã, para, em seguida, subir em suas montarias e cavalgar na direção sul.

 

Vivian jazia em cima de uma pequena cama de armar e contemplava o pedaço de parede que tinha diante. Não havia janelas, de modo que a única luz procedia da pequena e estreita greta que havia sob a porta que conduzia ao salão principal da casinha, onde o contínuo silêncio resultava quase insuportável.

Levava ali muitas horas, embora não tinha plena consciência do tempo, já que se achava encerrada quase às escuras. Estavam próximo do oceano, mas como no dia anterior tinham chegado de noite, não tinha a certeza de que distância se encontravam da península de Lizard. Entretanto, lhe havia dito que ali era aonde se dirigiam, e Vivian não acreditava que tivesse razão alguma para lhe mentir a respeito de seu destino. Gilbert, ou Steven, se não tinha mentido sobre sua verdadeira identidade, tinha falado sem reparos durante a viagem. Ela se sentia nervosa muito assustada e bastante incômoda, com frio e náuseas, mas o tipo parecia bastante depravado e satisfeito nessas circunstâncias, e esperava uma completa submissão de sua parte. Vivian não tinha dado motivo algum de queixa. Recordou-se uma e outra vez que não devia atuar sem pensar e tentar escapar, já que sabia que, ao menos nesse momento, ele não a mataria se não lhe dava um motivo para fazê-lo. E não o daria, não só porque tinha alta estima, mas também porque se negava a lhe dar a satisfação de lhe demonstrar que podia matá-la.

A princípio havia se sentido bastante confusa ao descobrir que Gilbert Montague era na realidade Steven Chester, o cunhado de Will, e que esse homem e sua irmã tinham planejado aquela conspiração contra ele durante mais de dois anos. Steven tinha se mostrado bastante revelador durante a viagem para o sul e lhe tinha falado de como sua irmã Elinor e ele tinham acusado o duque de Trent do assassinato de Elizabeth, depois que ele se negou a ajudá-los economicamente quando cobraram a herança da irmã. Quando absolveram Will, por causa do testemunho de seus respeitados amigos aristocratas, Elinor tinha encolerizou-se pelo que considerava ser uma tremenda injustiça. Com o tempo, tinha utilizado seu cérebro, seu talento e todos seus esforços para recuperar ao menos a única propriedade que tinha pertencido a Elizabeth; uma peça que tinha um valor físico, emocional e econômico para eles. Dado que essa idéia tinha fracassado, ocorreu a Steven seqüestrá-la para pedir um resgate.

Desde que chegaram à casinha na noite anterior, não lhe tinha dado de comer mais que uma sopa fria de batatas com bacon defumado. Para Vivian parecia um purê de manteiga, mas o tinha comido, sabendo que precisava conservar as forças a fim de manter todos seus sentidos alerta e seu corpo preparado para a ação. Tinham-na deixado nessa pequena habitação desde a chegada, e os únicos objetos a seu dispor eram a velha cama de armar que havia em um canto e o urinol que se encontrava no outro. Entretanto, o que mais a irritava era a falta de luz. Dava-lhe a impressão de que se tornaria louca por não saber que momento do dia era e por não ter a ninguém com quem falar escutando somente o uivo do vento contra os muros de pedra a todo o momento.

A princípio tinha gritado, mas Steven acabou com suas tentativas, o que a obrigou a aceitar que estavam isolados em algum lugar da costa e que ninguém trataria de resgatá-la ao ouvir seus pedidos de ajuda. A partir desse momento, obrigou-se a conservar as forças. Apenas tinha era tempo e só Deus sabia se isso seria uma vantagem.

Will nunca abandonava seus pensamentos. Pensar nele lhe permitia concentrar-se em todo o bom de sua vida, no homem que sem dúvida a resgataria. Ao menos essa era sua maior esperança. Não tinha a ninguém mais. Steven parecia bastante convencido de que o duque de Trent pagaria o resgate exigido, e ao que parecia estava esperando uma mensagem que o confirmasse. Até esse momento, o homem não a havia tocado com intenções lascivas, mas não podia confiar em que não fora fazê-lo. Assim, até que recebessem algum tipo de comunicado por parte de Will, encontrava-se a mercê de Steven, e Vivian rogava para que Chester bebesse até ficar inconsciente e esquecesse que ela se encontrava a escassos metros de distância, encerrada na escuridão e fazendo o possível por não perder a noção do tempo.

De repente, viu o movimento de uma sombra através da minúscula greta sob a porta e ouviu o som apagado de uma cadeira que era arrastada pelo chão. Ficou em pé imediatamente e se esforçou por escutar até o mais mínimo sussurro do vento, cada rangido da madeira do chão. Em seguida se deu conta de que Steven ia procurá-la, e ficou paralisada por uma terrível sensação de medo.

O homem levou uns segundos para tirar o ferrolho e abrir a porta devagar; depois se aproximou dela, agarrou-a pelo pulso e a tirou da cama de armar de um puxão. Retorceu-lhe o braço até colocar-lhe detrás das costas e lhe pôs a folha afiada de uma faca contra a garganta.

- Se mantiver a boca fechada, Vivian, talvez consiga sair com vida de tudo isto - sussurrou enquanto a empurrava para a porta -. Seu duque chegou.

 

Will golpeou a grossa porta de madeira da casinha com um chute. A pequena luz que tinha visto na janela quando se aproximava se apagou de repente, assim estava claro que sabiam que estava ali. Não importava. Havia visto muitas casas de campo e podia fazer uma idéia bastante boa do traçado daquela, de modo que se colocava Colin, que era o mais rápido e ágil, na porta traseira, ninguém poderia escapar sem brigar. Estava bastante seguro de que dentro somente estavam eles dois, e o fato de surpreendê-los carecia de importância, já que sabia que Steven não a mataria até que tivesse o dinheiro em suas sujas e avarentas mãos, até assegurar-se de que seu adversário contemplava o assassinato cheio do horror. Sabia muito bem como funcionava a mente desse homem.

Com a pistola preparada na mão direita, Will fez um gesto para Sam, que se encontrava do outro lado da porta; em seguida, depois de pensar bem, deu dois chutes rápidos e fortes na fechadura com o salto da bota. A porta cedeu imediatamente e ambos penetraram dentro imediatamente, embora se agachassem para escapar da luz do exterior que entrava através do vão e aproveitar a escuridão até que seus olhos se adaptassem. Não foi necessário esperar. Steven acendeu um abajur para iluminar a estadia.

Erguido e alerta, Will se fixou primeiro em Vivian, e uma simples olhada à expressão aterrorizada de seus olhos e de seu rosto bastou para que estivesse a ponto de disparar no homem que a sujeitava sem intercambiar nenhuma palavra com ele. Não obstante, Vivian estava muito perto de Steven, quase diante dele, protegendo-o com suas amplas saias enquanto o tipo sujeitava uma faca de trinta centímetros contra seu pescoço suave e pálido. Para Will custou um enorme esforço ficar onde estava e aguardar o momento apropriado.

- Bom, excelência, começava a duvidar de sua habilidade para nos encontrar - comentou Steven com fingida jovialidade-. Por que demoraste tanto?

-É o medo o que te faz suar? -perguntou Will em um sussurro gélido e letal.

-Suar? -repetiu Steven, rindo -. Resulta patético tão previsível que é. Levo horas te esperando.

Will meneou a cabeça com determinação.

-É um ator muito mau, Steven. Não nos esperava absolutamente.

O tipo entrecerrou os olhos.

-Esperava que me pagasse. O lugar onde se leva a cabo a transação carece de importância.

Will apertou a mandíbula enquanto apontava a pistola com ambas as mãos.

-Tomei um momento para visitar sua envelhecida e perversa irmã, para pôr fim ao poder e ao prestígio que pudesse ficar a sua família. Tenha por certeza que o passado já está no seu fim, e que quando acabar contigo hoje, Elinor e você estarão para sempre na ruína e no escândalo. -Franziu o lábio superior em uma careta de desprezo-. Tinha que me assegurar disso, por isso demorei tanto.

Os olhos do Steven vacilaram um instante antes que ele sorrisse com desdém.

-Acreditei que esta mulher significava mais para ti que a reputação de minha família.

-Ela não significa nada para mim - respondeu em tom firme, apesar de que o coração estava a ponto de sair-se o do peito-. Mas suponho que nunca duvidou que a resgatasse de suas garras.

-Entretanto, deste-me tempo de sobra para jogar com ela - acrescentou Steven.

A boca de Will secou e teve sérios problemas para controlar a fúria. Não obstante, olhou ao homem sem alterar-se.

-Não tente me irritar com idiotices e táticas inúteis. Não funcionará. O que tenha feito é irrelevante agora. O resultado deste enfrentamento não mudará.

Sam permaneceu em silencio durante a conversação enquanto caminhava lentamente com o passar da parede de trás da casa de campo, com as mãos às costas, até deter-se perto da pequena cozinha. Steven não lhe olhava, pois tinha os olhos fixos em Will enquanto sujeitava a Vivian com força; ambos estavam apoiados na pequena chaminé de pedra, o que lhes dava uma visão limpa da outra parte, bastante nua da habitação.

-É evidente que tem um dom para o drama, milorde - disse Steven com voz seca e expressão colérica-. Deveria ter sido ator.

Sem olhá-la diretamente, Will se deu conta de que Vivian estava tremendo; Steven a obrigava a permanecer diante dele lhe pondo a faca no pescoço e lhe retorcendo o braço às costas. Sem dúvida lhe atravessaria a pele ao menor movimento em falso que fizesse. Entretanto, seus olhos permaneciam abertos e alerta, lhe rogando que a ajudasse. Mesmo assim, Will não se atreveu a olhá-la. Era possível que se o fazia vacilasse e perdesse o controle, e nesse caso ela morreria.

-Já que falamos de atores… - comentou com tanta indiferença como foi possível-, o que lhe ocorreu ao verdadeiro Gilbert Herman?

-Matou-o, milorde.

Will entrecerrou os olhos para ocultar sua confusão.

-Jamais matei a um homem, Steven, mas farei uma exceção contigo.

O tipo pôs-se a rir de novo.

-É um verdadeiro estúpido - repôs-. É obvio que não o matou diretamente. Viveste todo estes anos isolado e te compadecendo, absorto pela morte de sua esposa e ignorando todo o resto. -Imediatamente sua expressão se encheu do ódio que tinha decidido não seguir ocultando-. Mas se me tivesse pagado o que devia o que nós merecíamos nem a morte de Gilbert, nem a de Elizabeth, nem nada disto teria acontecido.

- O que lhes mereciam? -inquiriu Will estupefato. Steven se ruborizou.

- Elizabeth se casou contigo por seu maldito dinheiro! -gritou.

O alarido fez tremer os vidros da única janela da estadia. Will ficou imóvel, com o pulso acelerado, enquanto dava voltas na cabeça às lembranças, em um intento por compreender. E de repente entendeu tudo.

Tinha sido Steven quem arranjou o matrimônio entre Elizabeth e ele. Era certo que se falou de uma união entre suas famílias desde que Elizabeth não era mais que uma menina, mas tinha sido Steven quem tinha tomado a iniciativa de começar o cortejo depois da morte de seus pais. Steven o tinha pressionado e Will tinha aceitado somente quando soube que tinha chegado o momento de sentar cabeça e engendrar um herdeiro. Elizabeth era a opção mais lógica e conveniente em muitos sentidos, e ambos se gostavam o bastante. Mas nesse momento se deu conta de que tudo tinha sido planejado.

-Vejo que não sabia - disse Steven, que tinha recuperado a jovialidade rapidamente-. É uma lástima que alguém com seu título e sua riqueza tenha estado tão cego. Olhe as desgraças que te trouxe a avareza…

Will manteve a raia a fúria que fervia em seu interior o melhor que pôde. Negava-se a atuar até receber as respostas que procurava.

- O problema nunca foi à avareza. Pode ser que me tenha utilizado Steven, mas eu jamais estive cego - murmurou com a mandíbula tensa e um olhar ameaçador -. Se não tivesse suspeitado de suas enganosas intenções, sua irmã e você viveriam na opulência até o dia de hoje. E, entretanto quase não têm onde cair mortos.

Steven pareceu vacilar pela primeira vez, como se não lhe tivesse ocorrido pensar algo assim. Trocou de posição sutilmente e sua testa se cobriu de suor.

-Bem, o que fez com o Herman? - perguntou Will com tranqüilidade, embora já tivesse começado a encaixar as peças do quebra-cabeça.

Chester esboçou um sorriso irônico.

-Fatiei-lhe o cangote e o enterrei. Sou muito bom com as facas.

Estreitou a Vivian contra seu corpo uma vez mais e ela soltou um gemido, já por causa da dor ou do pânico. Will sujeitou a arma com mais força e tentou respirar fundo.

- Por quê? - sussurrou preso no medo.

Steven inclinou a cabeça um pouco.

- Porque Elizabeth e ele estavam há anos apaixonados. Não podia permitir que ela se casasse com um trabalhador sem título, um ator judeu, nada menos. O escândalo teria sido maiúsculo. Não teria podido aparecer em público nunca mais.

Essas palavras lhe causaram uma dor física que lhe atravessou o peito e o feriu em muitos sentidos. Sabia sem lugar a dúvidas que Elizabeth tinha sentido carinho por ele, que tinha tratado de ser uma boa esposa e que, no geral, tinha-o conseguido. Mas escutar que estava apaixonada por outro, que tinha entesourado o amor de outro durante o escasso tempo que tinham vivido juntos não só era razoável, mas sim também dava sentido a muito do ocorrido. Tinha acreditado que eram as exageradas mudanças de humor o que lhe impediam de desfrutar ao máximo da vida de casada. Nesse momento, depois de tão impactante revelação, deu-se conta de que além de sua particular aflição, a depressão também procedia do fato de saber que jamais poderia estar com o homem que amava. Seu próprio irmão se encarregou disso.

Acreditava no que havia dito Steven, e embora lhe doesse saber que sua esposa tinha amado a outro enquanto esteve com ele, respeitava-a profundamente por ter sido capaz de não mencioná-lo nunca. Em seu favor devia dizer que Elizabeth jamais tinha utilizado seu afeto por Gilbert como uma arma.

- Devia te odiar por lhe negar a possibilidade de ser feliz - afirmou Will com desprezo.

Steven fingiu um suspiro.

- Por desgraça, ele também. -Seus olhos se tornaram negros e sua expressão dura quando acrescentou com toda intenção-: Elizabeth tirou a vida porque não podia vivê-la com ele. Sabia senhor duque? Pois eu sim. E também Herman.

«Também Herman…»

-E que sentido tinha matar a Gilbert Herman depois que ela morrera? - perguntou com voz grave, enquanto a neblina de sua mente começava a limpar-se.

Steven piscou e apertou os lábios.

- Queria depor em seu julgamento porque sabia que minha querida e finada irmã havia se suicidado porque o amava e não podia suportar a vida sem ele. - pôs-se a rir entre dentes-. A mentalidade feminina é absurda, mas eu não podia permitir que isso ocorresse, como entenderá. Não só porque sua morte teria sido conveniente em todos os sentidos, mas sim porque não podia deixar que seu suicídio se mencionasse nos círculos cristãos da boa sociedade. Um assassinato sim, e também um acidente. Mas nunca um suicídio. Já sabe o que teria pensado as pessoas…

Will engoliu saliva e sacudiu a cabeça muito devagar, presa de uma incredulidade e de um ódio que nunca tinham sido tão intensos como nesse momento.

-É um doente filho da puta - disse Sam do outro canto da habitação.

Steven pareceu menos surpreso pela interrupção que o próprio Will. Mas este se manteve firme, e ao notar que o momento de atacar chegaria logo, preparou-se para isso. Os tremores de Vivian já eram evidentes; tinha fechado os olhos. Will morria de vontades de abraçá-la e não soltá-la jamais; seu corpo desejava destroçar ao homem que tinha alterado o curso de suas bem ordenadas vidas. Contudo, ainda tinha uma pergunta que lhe fazer.

- por que incomodar-se em trocar as identidades?

- por que não? - replicou Steven imediatamente -. Tive a oportunidade de partir para o continente depois de sua injustificada absolvição. Gilbert Herman e eu… convertemo-nos em um só homem enquanto viajava para ali, e ao final cheguei a ser o grande ator shakespeariano Gilbert Montague, uma nova identidade que ninguém associaria com nenhum dos dois. Eu resultei sendo muito melhor ator que ele, não tive problema algum para ficar no estrangeiro durante um tempo antes de retomar as atuações aqui na Inglaterra, uma vez que o assunto de seu julgamento perdeu interesse e que as autoridades já não podiam recuperar o cadáver de Herman, ou ao menos identificá-lo. -Sorriu com arrogância-. E, é obvio, Steven Chester estava viajando pelo estrangeiro. Somente teriam que perguntar a sua irmã.

Will sentiu que lhe gelava o sangue.

Com uma audácia que seguramente surpreendeu a todos, Steven se inclinou adiante e deu um beijo em Vivian na bochecha. Ela se encolheu, e Will uniu todas suas forças para não apertar o gatilho.

-Anos depois - continuou Steven, olhando-o nos olhos uma vez mais-, comecei a considerar as possíveis conseqüências de meus atos, e um dia me dava conta de que era sem dúvida o mais inteligente que tinha feito. Por desgraça, agora terei que abandonar o país e me estabelecer em outra parte. Você se encarregará disso. Mas não importa, o Mediterrâneo é fantástico em qualquer época do ano. - Baixou a voz para perguntar sombriamente -: Onde está meu dinheiro?

Will tomou boa nota da súbita mudança de humor de seu rival.

-Assim sua irmã e você planejaram isso durante algum tempo -disse empregando também um tom lôbrego- e depois se introduziram em minha vida de novo utilizando a uma mulher inocente para chegar até mim.

Steven o olhou com olhos assassinos.

-E ela o fez muito bem, milorde, em todos os sentidos possíveis. -Baixou a voz até convertê-la em um sussurro para insistir-: Onde está meu dinheiro?

-O que te faz pensar que vou pagar-te por algo que me pertence? -replicou Will com uma estranha sensação de satisfação.

A Steven custou um pouco assimilar o que tinha querido dizer. Quando o fez, seu rosto ficou vermelho e seus olhos se abriram devagar. A fúria o fazia tremer de tal forma que a lâmina que sujeitava contra o pescoço do Vivian lhe atravessou a pele e lhe arrancou um par de gotas de sangue.

-Nunca saberá o preço que terá que pagar por sua estupidez - assegurou-lhe Steven com voz rouca e tensa.

Will não afastou o olhar dele. O músculo de sua bochecha começou a contrair-se ligeiramente antes de responder.

-E você, Steven, jamais saberá o que foi o que te golpeou. Solta-a já! - gritou de repente.

Quase imediatamente, a porta traseira se abriu de uma vez. Colin entrou na carreira, atirou-se no chão e pôs-se a rodar. O inesperado ruído e os movimentos surpreenderam Steven, que soltou ao Vivian o suficiente para permitir que ela reagisse. Com uma força assombrosa e decidida a escapar de suas garras, a mulher jogou o pé para trás para lhe dar um chute na rótula. Steven rugiu de dor e a agarrou pelo cabelo para jogá-la contra a parede de pedra. Will disparou sua arma nesse preciso instante e acertou o homem justo na têmpora. Por um fugaz momento, a expressão do Steven mostrou a perplexidade que sentia; depois, a faca caiu de seus dedos sem vida e seu corpo se desabou no chão.

 

Vivian ainda não tinha recuperado a consciência, e Will se aterrorizava ao pensar que podia morrer. Levava-a no colo o melhor que podia enquanto cavalgava a toda velocidade para Penzance, sob o frio e a umidade da ligeira chuva que caía. Todos guardavam silêncio e não falariam mais que o estritamente necessário. Para ele, foi à viagem mais longa de sua vida.

Aproximou-se dela imediatamente depois de matar Steven para descobrir que o sangue emanava rapidamente de uma ferida profunda que tinha na frente do cabelo, onde tinha golpeado na esquina da parede. Tinha rasgado um pedaço da camisa de Steven e a tinha enrolado ao redor da cabeça antes de agarrá-la nos braços e apressar-se a pô-la a salvo. Detiveram-se brevemente no caminho, já que ela tinha gemido uma vez e tinha esvaziado o conteúdo de seu estômago antes de cair de novo na inconsciência. Depois, tinham cavalgado ainda mais depressa. Will a sujeitava com firmeza, utilizando toda sua força de vontade para concentrar-se tão somente no desejo de chegar a casa para atender a essa valente mulher que não tinha feito nada para merecer aquele terrível castigo.

Tomaram por fim o caminho de entrada a Morning House, já que Will tinha suposto que Vivian estaria muito melhor ali. Logo que se deteve frente à porta principal, Colin e Sam desembarcaram dos cavalos e a agarraram nos braços para que ele pudesse desmontar. Uma vez no chão, virou para tomá-la novamente e subiu os degraus, uma vez que lançava um brusco olhar a Wilson, que o observava atônito enquanto mantinha a porta aberta para lhe permitir a entrada.

- Envia uma mensagem ao médico agora mesmo; diga-lhe que é uma emergência - ordenou-lhe enquanto atravessava o vestíbulo em direção à escada-. Quero que preparem um banho em minha habitação imediatamente.

- É obvio excelência - respondeu Wilson com veemência - Imediatamente.

Will respirava com dificuldade quando alcançou o patamar superior e se dirigiu a seu dormitório, ao outro lado do corredor. Uma vez dentro, deixou a Vivian sobre a grossa colcha com muita delicadeza e lhe apoiou a cabeça sobre o travesseiro.

Reprimiu suas emoções quanto foi possível, dada a gravidade da ferida, e tratou de pensar sozinho em questões práticas: terei que asseá-la, fazer que a atendesse o doutor, pô-la cômoda e ajudá-la a recuperar-se como fora.

Contudo, parecia um anjo morto, débil e cheio de sujeira em seu eterno descanso. Respirava lenta e profundamente, e o vaivém de seu peito com cada fôlego era o único movimento que realizava.

Embora lhe parecesse uma eternidade, somente teve que esperar a seu lado uns instantes antes que batessem na porta. Entraram quatro serventes: dois conduziam uma banheira de metal, outro levava dois grandes e fumegantes cubos de água, e o último, as toalhas e o sabão.

-Trarão mais água de um momento a outro, excelência. Necessita algo mais? - perguntou uma das jovens detrás antes de lhe fazer uma pequena reverência.

-Não. Chamar-lhes-ei quando tiver terminado - replicou ele com voz autoritária, sem preocupar-se do que pudessem pensar sobre o fato de que ia banhar a uma dama em seus aposentos. Sabia que a situação já tinha transpassado todos os limites do decoro e que era muito mais importante que qualquer norma protocolar.

Outras duas donzelas entraram segundos depois com mais cubos de água, e em questão de momentos, a banheira estava cheia.

-Partam - grunhiu-. E não quero interrupções até que chegue o doutor.

-Sim, excelência.

Depois das reverências de rigor, ficaram a sós uma vez mais no dormitório.

Will tirou primeiro a camisa suja e depois, com o torso descoberto, dispôs-se a ajudar Vivian. Em primeiro lugar lhe desatou e lhe tirou os sapatos; depois a girou para um lado e lhe desabotoou o vestido do pescoço até a cintura antes de retirá-lo cuidadosamente junto com as anáguas, que deixou no chão ao lado da cama. A seguir lhe baixou as meias até deixar suas pernas nuas, e virou para colocá-la de lado para lhe desabotoar o espartilho. Com muito tato e mãos trêmulas, tirou os broches para soltá-los até que conseguiu lhe tirar o objeto.

Contemplou seu corpo nu sabendo que aquela formosa visão ficaria gravada a fogo em sua mente para sempre. Entretanto, foi a vendagem improvisada suja de sangue, e não sua preciosa e feminina silhueta, o que lhe encheu os olhos de lágrimas e lhe formou um nó na garganta, algo que não lhe ocorria fazia muitos anos.

Fechou as pálpebras com força com intenção de recuperar o controle e depois esfregou os olhos com a ponta dos dedos enquanto respirava fundo, preso num súbito e inescapável esgotamento, tanto físico como mental. Poderia ter se deixado cair de boa vontade junto a ela e haveria se amontoado contra sua serena figura para dormir durante dias à proteção de seu calor e sua força. Mas semelhantes pensamentos não tinham nada de prático. Precisava recuperar a perspectiva. Devia conseguir que ela se sentisse melhor.

Depois de dedicar uns instantes a controlar seus pensamentos, Will passou as mãos pela cara e pelo cabelo, ainda úmido, e depois começou seu trabalho. Colocou-lhe um braço sob os joelhos e outro sob o pescoço para levantá-la uma vez mais. Levou-a até a banheira e, depois de comprovar a temperatura com os dedos, introduziu seu corpo com muito cuidado na água.

Acomodou-a na banheira, e sem apartar o braço que lhe sujeitava o pescoço, estirou a outra mão para agarrar um pano. Molhou-o, e primeiro limpou o rosto retirando a sujeira e o sangue da bochecha, que nesse momento parecia pálida e fria ao tato. Derramou água morna em seu pescoço para limpar a ferida que lhe tinha deixado a faca, embora graças a Deus não fosse mais que um arranhão. Depois ensaboou o pano e o passou pelos peitos e as pernas, as mãos e os pés, e somente muito suavemente pela delicada zona entre suas pernas. Por último, desatou com cuidado o tecido que tinha enrolado na cabeça e o afrouxou o suficiente para assegurar-se de que a ferida tinha deixado de sangrar. Depois de certificar-se de que assim era, tirou-lhe a vendagem improvisada e o jogou no chão.

Decidiu não lhe lavar o cabelo para não piorar a ferida, embora escorresse o pano e lhe deu uns ligeiros toques na raiz do cabelo para poder examiná-la melhor.

Notou que a perfuração se fechou, mas por debaixo havia um inchaço de mais de dois centímetros de altura e de um tamanho similar ao do punho de uma mulher. Tinham-na empurrado com muita força e com letal intenção, e Will sentiu de repente um entristecedor desejo de voltar a matar Steven.

Entretanto, não podia deixar-se levar pela fúria e a indignação nascida do horror que lhes tinham feito passar. A família de sua finada esposa não se merecia nem um minuto mais de seu tempo. Permitia que seus pensamentos, sua cólera e seu ressentimento se entretivessem nas injustiças que tinha padecido durante anos, eles teriam êxito em seu objetivo de lhe arruinar a vida. E se negava a permitir que ganhassem. Tudo tinha acabado.

Vivian não tinha emitido nem um som, não tinha feito nenhum movimento desde que a tinha levado para sua casa. Tinha a cabeça e o pescoço apoiados em seu braço, mas Will se deu conta de que a tinha asseado o melhor que podia. Somente tinha que esperar o médico.

Utilizou a mão livre para pegar uma toalha e a estendeu sobre seus ombros. Depois apoiou as pernas de um lado da banheira e a pegou nos braços uma vez mais, descansando o corpo úmido contra seu torso enquanto a levava de novo até a cama.

Virou para deixá-la com muito cuidado sobre a colcha e procedeu a secá-la rápido embora delicadamente. Quando acabou, tirou a colcha de debaixo de seu corpo, cobriu-a com ela até o pescoço e lhe afastou o cabelo do rosto com os dedos.

Com a toalha na mão, sentou-se a seus pés no colchão e observou como descansava serena e tranqüila.

-Sinto muito - sussurrou com um fio de voz-. Sinto-o muitíssimo.

Permaneceu ali sentado um momento, imóvel naquele dormitório no que não se ouvia outro ruído que o tamborilar constante e incansável da chuva nas janelas.

Por fim o cansaço extenuou. Ficou em pé e se dirigiu ao armário para agarrar uma camisa limpa e umas calças secas. Trocou de roupa e depois aproximou da cama sua cadeira de balanço favorita, que estava junto à chaminé. Deixou-se cair no assento e se inclinou para diante para apoiar a cabeça nos braços, cruzados perto do peito de Vivian.

O ritmo regular de sua respiração resultava relaxante, e passado um tempo dormiu.

 

Despertou ao ouvir um forte golpe na porta. Moveu-se de repente, sem saber muito bem onde estava nem que hora era. Os golpes voltaram a soar.

-Adiante - respondeu detrás pentear o cabelo com os dedos.

Levantou-se da cadeira de balanço com o corpo rígido e os músculos doloridos. Antes que pudesse dar um passo, Wilson entrou na habitação, jogou uma breve olhada para Vivian e logo cravou a vista nele com um rosto inexpressivo. Por estranho que parecesse, Will se deu conta nesse preciso instante de que seu mordomo era um magnífico criado. Leal, dos que não emitiam julgamentos.

-O doutor Braithwaite chegou excelência - declarou Wilson, que permanecia erguido e com as mãos às costas.

Will esfregou o rosto com a palma de uma mão.

-Envie-o aqui imediatamente.

-É obvio milorde.

-E quero que acendam o fogo da chaminé e que levem a banheira - adicionou ao dar-se conta da fria umidade do ar e de que a incessante chuva lhe dava um aspecto lôbrego e cinza ao quarto.

- Imediatamente, excelência - respondeu o mordomo-. Alguma coisa mais?

De repente recordou que não tinha retornado para casa sozinho.

- Onde estão Colin e Sam? -perguntou com os braços caídos.

Embora Will tivesse utilizado o nome de batismo de seus amigos durante anos, Wilson respondeu à pergunta com estrito decoro.

- Sua excelência o duque do Newark se retirou à habitação azul, e sua excelência o duque do Durham se retirou ao salão verde. Ambos almoçaram abundantemente, e é presumível que estejam descansando.

Will assentiu com a cabeça.

- Bem. Que horas são?

- Quase onze e meia, excelência.

Pelo amor de Deus, quanto tempo tinha dormido?

- Obrigado, Wilson, isso é tudo.

O mordomo lhe fez uma reverência e partiu da habitação.

Will contemplou Vivian, que jazia tendida na mesma posição em que a tinha deixado depois do banho. Entretanto, como um raio de esperança, descobriu que ainda respirava de maneira profunda e regular, e que tinha melhor cor. Ao menos lhe parecia.

Momentos mais tarde chamaram outra vez à porta.

-Adiante - ordenou de novo.

Wilson entrou em primeiro lugar e anunciou ao médico antes de dirigir-se para a chaminé para acender o fogo.

O doutor Gilmore Braithwaite o seguiu imediatamente, embora sua corpulenta figura logo que passava pela porta. Sempre Luzia um esplêndido sorriso naquele rosto de uns cinqüenta anos, mas a maioria mal a via, já que o longo e curvado bigode encerado apanhava toda a atenção.

Esse dia ia vestido com roupa informal, embora isso dissesses muito pouco de um indivíduo que passava a maior parte de seus dias relaxando com sua esposa e seus sete filhos em Penzance. O homem levava um negócio bastante rotineiro e uma vida caseira da mais singela, mas todo mundo o considerava o melhor cirurgião de Cornwall.

-bom dia, excelência - disse Braithwaite com jovialidade logo que Wilson se retirou e fechou a porta-. Ouvi que necessita minha ajuda.

-Assim é, doutor; tenho uma paciente para você, a senhora Rael-Lamont. Tem uma ferida na cabeça. Ela… - Gaguejou ao tentar pronunciar as palavras e sentiu uma opressão no peito-. Ela sofreu um acidente…

-Quanto tempo leva inconsciente? -interrompeu o doutor com voz séria; franzia tanto o cenho que o bigode veio abaixo enquanto se dirigia à cama com a bolsa de couro marrom que continha os instrumentos médicos.

Will se afastou um pouco quando o homem se aproximou para observá-la.

- Mais ou menos… Não estou seguro, na verdade. Pode ser que dezoito horas.

O médico deixou a bolsa sobre a colcha.

- vomitou? - perguntou enquanto lhe tocava o rosto com o dorso da mão.

Assustado pela seriedade da voz de Braithwaite, Will se cruzou de braços e tentou manter a compostura.

-Sim, uma vez.

O doutor se inclinou sobre ela e lhe levantou uma das pálpebras.

-Que idade tem?

Will o pensou um instante, confundido.

- Por volta de trinta e cinco anos - murmurou por fim.

-Mmm…

Fez-se o silêncio durante um momento enquanto o doutor examinava sua paciente e abria a bolsa para utilizar um artefato ou outro. Nervoso, Will se negou a olhar e lhes deu as costas para dirigir-se à chaminé, onde o fogo começava já a estalar. O dormitório seguia frio, mas o calor que sentia no rosto enquanto contemplava as brasas com o olhar perdido resultava reconfortante de certo modo.

Por fim, ouviu o ruído dos instrumentos médicos que indicava que o doutor tinha terminado seu exame. Deu a volta e observou como Braithwaite voltava a guardar as coisas na bolsa de couro e o fechava com irritação.

Will entrelaçou as mãos às costas e se ergueu quanto foi possível.

-Não pode morrer - afirmou em tom autoritário, embora sua voz soasse débil e à beira do desespero.

O médico respirou fundo e abaixou as mangas da camisa de linho.

- Posso ser sincero, milorde?

Will sentiu vontade de gritar até fazer cair às vigas e de derrubar as paredes com suas próprias mãos. Mas em lugar disso respondeu com toda a tranqüilidade que pôde reunir.

- Não esperaria outra coisa do senhor, doutor.

Braithwaite limpou a garganta e recolheu a bolsa, que estreitou com ambas as mãos diante dele.

- Excelência, esta mulher tem uma ferida muito feia que poderia lhe haver ocasionado algum dano no cérebro. Essas coisas… - Fez um gesto negativo com a cabeça-. Essas coisas são imprevisíveis.

Will tencionou a mandíbula; ardiam-lhe os olhos por causa da fúria e o esgotamento.

-Está dizendo que não há nada que um médico de sua categoria possa fazer por ela?

-O que estou dizendo - repôs o doutor sem ofender-se e nem ficar na defensiva- é que a cura será obra de seu próprio corpo. É fisicamente forte, e em todo o resto parece sã. Isso joga a seu favor. Mas vou dizer lhe uma coisa: tanto acordada ou não, não há nada que o senhor ou eu possamos fazer para trocar as conseqüências. Se recuperar a consciência, fá-lo-á nas próximas horas. Se não, morrerá de fome lentamente nos próximos dias. Nesse caso, não há nada que você possa fazer, salvo procurar que esteja cômoda e mantê-la abrigada.

Will engoliu com força ao sentir que lhe rasgava o coração.

- Entendo.

Braithwaite inclinou a cabeça para um lado e o observou com atenção.

-Sinto não poder fazer mais, excelência, mas a recuperação do cérebro é um processo delicado e temo que vai além de meus conhecimentos. Se houver algo bom de dizer é que tem um galo de um bom tamanho. Isso significa que o inchaço está por fora, assim haverá menos pressão no interior. Se acordada, recomendo-lhe que não lhe dê mais que caldo, chá e torradas durante vários dias. Talvez não os queira, mas a ajudarão a recuperar as forças. É provável também que sofra muitas dores durante uns dias. Sugiro-lhe que lhe dê láudano para essas moléstias, mas não muito, ou a deixará inconsciente de novo. Deve dormir para recuperar-se, mas não tão profundamente que não possa despertar.

-Como dorme agora - disse Will.

-Sim.

Depois de uns instantes de silêncio, Will aspirou com força e inclinou a cabeça no modo de saudação.

-Obrigado por ser tão franco, doutor.

Braithwaite esteve a ponto de sorrir. Levantou uma mão para esfregar um dos extremos do bigode.

-Estarei em casa, se me necessitar.

-Obrigado.

O médico bateu os saltos para despedir-se e depois caminhou para a porta com a bolsa na mão. Antes de sair, olhou-o por cima do ombro.

-Desejo-lhe o melhor, excelência.

O médico abandonou o dormitório sem aguardar resposta e fechou a porta sem fazer ruído.

Will contemplou o tapete oriental que tinha aos pés durante o que lhe pareceram horas, e não saiu do lugar que ocupava frente ao fogo. Não sentia nada emocionalmente falando: nem esperança, nem alegria, nem nada bom. Aquilo era muito. Tudo tinha acontecido muito rápido.

De repente se virou para contemplar Vivian, que jazia indefesa na cama, completamente a sua mercê e curando-se pela graça de Deus, e sentiu uma vulnerabilidade que jamais tinha experimentado com antecedência. Uma sensação que lhe encolheu o coração e fez que lhe girasse a cabeça.

Quase sem fôlego, virou para aproximar-se dela e se deixou cair na cadeira de balanço. Podia escutar o som rítmico e lento de sua respiração por cima da chuva e dos estalos do fogo. Todo o resto permanecia em silêncio, e dava a impressão de que não havia ninguém mais sobre a terra. Nenhuma outra realidade que aquela. Ninguém salvo eles dois.

Formou-lhe um nó na garganta e aspirou de maneira entrecortada. Estendeu um braço para tirar uma das mãos dela de debaixo da colcha e lhe acariciou os nódulos com o polegar, maravilhado ante a beleza daquela pele pálida e suave. Logo encerrou essa pequena mão entre suas palmas e se inclinou para frente para apoiar a testa na cama e fechar os olhos.

-Não morra Vivian - sussurrou sacudindo a cabeça-. Por favor, não morra. Necessito-te. Necessito-te…

Tempo depois, girou a cabeça para um lado e virou a apoiá-la sem lhe soltar a mão. Deve ter dormido, porque um momento mais tarde despertou de repente.

Já era de noite, e tinha deixado de chover. Sentou-se imediatamente e teve um mau pressentimento que não tinha sentido antes de dormir. Estremeceu ao jogar uma olhada à chaminé e notar que o fogo ainda seguia aceso e que a habitação tinha calor suficiente. Continuando, olhou a Vivian sem lhe soltar a mão.

O fato de vê-la observando-o com olhos frágeis lhe deu um susto de morte. O pânico se apoderou dele uns segundos, pois acreditava que estava morta. Mas logo a viu piscar e se sentiu afligido pelas emoções.

Estremecido, apertou-lhe a mão com suavidade.

- Perdoa que tenha duvidado de ti, minha querida Vivian - murmurou enquanto contemplava sua figura imóvel-. Por favor, me perdoe… perdoe-me…

- Amo-te, Will… - sussurrou ela com um fio de voz.

Não pôde conter a emoção e a alegria que alagaram seu coração. Queria chorar e rir ao mesmo tempo, mas quando Vivian fechou os olhos de novo uma lágrima deslizou por seu rosto refletiu o fogo que havia atrás e foi parar na têmpora dela.

Inclinou-se para frente para lhe beijar as pálpebras e ficou ali, saboreando sua doce umidade com os lábios.

- Eu também te amo…

 

Vivian tinha a impressão de estar vivendo em meio uma confusão. Em um momento dado despertava para descobrir que Will estava inclinado sobre ela e lhe dizia palavras doces que não chegava a compreender, e no seguinte ele tratava de lhe colocar uma colherada de algo na boca. Tinha ânsias, mas engolia; quase não conseguia saboreá-lo, mas lhe parecia que podia ser caldo de vitela. Em algumas ocasiões escutava vozes de outras pessoas na habitação, vozes muito suaves, e de maneira ocasional alguma dessas pessoas lhe dava láudano, que ela aceitava de boa vontade para livrar da espantosa dor de cabeça. Então voltava a dormir, somente para despertar e descobrir que tudo estava em silêncio e às escuras, salvo pelo fogo que ardia na chaminé. Mas Will sempre estava ao seu lado, e isso a aturdia inclusive nesse estado, já que era o mais reconfortante e maravilhoso que tinha experimentado em sua vida.

Estava quase segura de que recordava vagamente tudo o que tinha ocorrido depois de que Steven a tirou do viveiro: tinha-a mantido cativa na casa, Will e outros dois homens tinham ido a seu resgate, Steven lhe tinha apertado uma faca contra a garganta e depois a tinha jogado de cabeça contra o muro de pedra. Depois disso, tudo se voltava confuso em sua mente. Não recordava absolutamente ter cavalgado de volta a Morning House ou como tinha acabado nua na enorme cama de Will. Recordava com total claridade e com uma sensação de euforia e felicidade o que tinha acontecido quando lhe viu pela primeira vez ao recuperar a consciência. Como tinha se aproximado dela com uma expressão de esgotamento e preocupação, e lhe tinha apagado as lágrimas com um beijo antes de lhe dizer que a amava.

Jamais esqueceria esse momento, em que se deu conta de que a tortura que os tinha levado a conhecer-se acabou por fim. A partir de então, tinha dormido de maneira intermitente, bebeu o chá quando assim o ordenavam e tinha tentado não mover-se muito ou muito rápido para evitar as dores de cabeça. Uma jovem criada tinha entrado em duas ocasiões para ajudá-la a utilizar o urinol que havia sob a cama. Com o passar do tempo, a desorientação se dissipou pouco a pouco e a dor começou a remeter, assim que cada vez conseguia permanecer mais tempo acordada.

Naquele momento, Vivian jazia de costas na cama, embelezada com uma de suas próprias camisolas. Esse dia era o primeiro que se havia sentido capaz de solicitar um banho e de lavar os dentes, e só um instante antes tinha entrado uma criada, uma mulher mais velha, para lhe assegurar que suas petições se atenderiam imediatamente. Tinha retornado pouco depois com três garotas jovens que conduziam uma banheira, cubos de água, sabão, toalhas, uma escova de dente e se pôs para limpá-los. Tinha-lhes levado quase quarenta e cinco minutos ajudá-la a banhar-se e a ficar a camisola de novo, e a façanha tinha deixado esgotada a Vivian. Não obstante, sentia-se maravilhada quando a deixaram na cama uma vez mais para que o calor das brasas da chaminé lhe secassem o cabelo, e lhe deram sua dose de láudano para lhe ajudar a aliviar a dor de cabeça durante a noite. Uma vez sozinha, deu-se conta de que se fecharam as portinhas, o que anunciava a chegada da noite, e de que a única luz que iluminava a estadia procedia do fogo. Foi então quando pôde dedicar-se a estudar o dormitório de Will pela primeira vez.

Realçada pelos intrincados relevos de mogno, o quarto se encaixava com ele com perfeição. Tudo parecia espaçoso, da cama com plataforma e os aparadores estofados em veludo Borgonha, até os elevados tetos pintados quadriculados de cor marrom esverdeada e castanha. O papel das paredes tinha um desenho de folhas que fazia jogo com o da colcha, e a cor verde clara dos dois ou três tapetes orientais que tinha espalhados pela habitação ressaltava o matiz escuro do chão de madeira. Tinha poucos móveis além da velha cadeira de balanço que estava junto à cama, uma penteadeira e um armário, que se encontravam muito perto do quarto de vestir, e o espelho de corpo inteiro com marco de mogno que estava situado no canto junto à chaminé. O suporte da chaminé, embora também fosse de madeira de mogno, permanecia desocupada, igual à parede que havia em cima. Vivian notou com certo desconcerto que o papel que a cobria estava um pouco descolorido, como se tivessem tirado dali um quadro grande ou um retrato.

Supôs que a habitação era bastante acolhedora, e sem dúvida masculina, mas tinha a impressão de que lhe faltava algo, certo… toque pessoal. Bem pensado, toda a casa parecia decorada com um estranho e indefinido estilo. Salvo a biblioteca. No momento em que pôs o pé na habitação que dava à estufa soube que era o único lugar de Morning House no qual Will gostava de passar algum tempo a sozinho.

Antes que pudesse pensar nessa interessante idéia, a porta da habitação se abriu suavemente e Will entrou por fim, captando sua atenção imediatamente com sua formidável estatura. Vivian deixou escapar um suspiro e esboçou um sorriso torcido. Para falar a verdade, apaixonou-se por um homem impressionante.

Ele sorriu com cautela ao ver que o olhava.

-Como está? -perguntou, enquanto fechava a porta.

-Melhor. Embora ainda me doa a cabeça - respondeu ela com voz débil.

Aproximou-se para ela muito devagar, sentou-se aos pés da cama e esfregou as mãos com a colcha que tinha sob as pernas.

-Quer que te traga algo?

Vivian sorriu de orelha a orelha.

-Comporta-te como uma babá.

Ele encolheu os ombros em um gesto afetuoso.

-Faria qualquer coisa para que se recuperasse minha querida Lady Vivian.

Ao vê-lo de perto, Vivian se fixou em sua pele limpa e suave, que refletia a luz do fogo, na forma em que o cabelo lhe cobria a frente, quase até as sobrancelhas.

- Há quanto tempo estou aqui? -perguntou com suavidade.

-Quase cinco dias.

-Não deveria estar em seu dormitório – repreendeu-lhe depois de um momento-. Não deveria estar em sua cama.

Sem mudar o olhar, Will respirou fundo e se deitou para trás para apoiar-se nos cotovelos.

-O certo é que não poderia estar num lugar mais apropriado que minha cama.

Isso há pôs um pouco nervosa.

- As pessoas começaram a falar, e quanto mais tempo permaneça aqui…

-Ninguém além do médico e do pessoal sabe que está em minha cama, e tenho a certeza de que nenhum deles comentará por aí. Lhes pago muito bem. As pessoas acreditam que está em minha casa como convidada, ao igual sua governanta, que faz alguns dias lhe trouxe a roupa que lhe pedi.

Virou-se para um lado e apoiou o rosto na palma de uma mão enquanto acariciava a colcha com a gema dos dedos da outra e a olhava de forma especulativa.

-Quando estiver bem… bem de tudo… discutiremos o que devemos fazer a partir de agora.

«O que devemos fazer a partir de agora…»

Vivian sentiu um nó no estômago, e não tinha certeza que fora de fome. Estava casada; sempre estaria casada com um homem mesquinho e egoísta, e o escândalo a arruinaria. Entretanto, desejava evitar qualquer tipo de discussão séria até que pudesse pensar e refletir corretamente.

-Foi você quem me vestiu? -perguntou para trocar de tema.

Ele esboçou um sorriso malicioso.

-Não - murmurou-, mas sim quem te despiu.

Vivian notou que ruborizava pela vergonha. Mas, a verdade era que tinham sido amantes e nunca a havia visto nua; na realidade, nenhum homem a tinha visto nua fazia anos.

- E como foi? -perguntou um pouco à defensiva.

Will riu.

-Ainda segue aqui, e eu também. Assim o mais provável é que não me tenha escandalizado nem decepcionado.

Ela tirou os braços de debaixo do travesseiro e enlaçou as mãos sobre o ventre enquanto contemplava o teto.

-Então imagino que você gostou do que viu - disse com certo descaramento.

De improviso, ele subiu para situar-se a seu lado por cima das mantas, passou uma perna por cima das suas, rodeou-a com um braço e enterrou a cara em seu pescoço. Logo começou a mordiscar os suspensórios da camisola.

-Eu gostei de muito - sussurrou contra sua mandíbula, enquanto fazia cócegas com o nariz.

Vivian soltou uma risadinha, mas imediatamente levou uma mão à frente.

-Dói-me quando me movo muito.

Will se aproximou dela tanto como lhe era possível sem cobrir seu corpo por completo.

-Dorme - ordenou-lhe com ternura-. Quero que te recupere para poder verte nua de novo. A espera está me deixando louco.

Vivian se amontoou contra ele e apoiou uma mão em suas costelas para lhe acariciar por cima da camisa com os dedos. Ele não fez a menor tentativa de afastar-se dela, assim fechou os olhos para desfrutar da tranqüilidade e o consolo que supunha o ter por perto, e escutou o ritmo regular de sua respiração até que voltou a adormecer.

 

-Necessito-te…

Will escutou sua voz e viu seu formoso rosto como se estivesse imerso em uma espécie de névoa; inclusive chegou a perceber certo aroma de rosas enquanto sua mente se esforçava por diferenciar a realidade do que não o era. Pouco depois sentiu o calor de uns lábios sobre sua boca e abriu os olhos muito devagar.

-Vivian?

Sorriu-lhe, deixando que seu longo e sedoso cabelo lhe roçasse o pescoço e as bochechas.

-Esperava outra pessoa? -sussurrou com voz rouca.

Will piscou um tanto confundido, mas ela o beijou de novo de uma maneira mais persuasiva, entretendo-se com seus lábios.

Compreendeu que dormiu ao seu lado, embora recordasse que tirou a camisa e se colocou sob as mantas para poder estar mais próximo dela. Devia ser ainda de madrugada, porque a habitação estava às escuras, embora a luz do fogo ainda iluminasse o suficiente para poder vê-la tendida junto a ele.

- Acreditei que não foi real - sussurrou Will contra sua boca, enquanto estendia os braços para lhe sujeitar a cabeça entre as mãos.

-Eu também pensei que foi um sonho quando despertei - repôs Vivian antes de estender as palmas sobre seu peito nu. Depois de olhá-lo nos olhos um momento, acrescentou com timidez-: Nunca te disse obrigado como é devido por me haver salvado a vida.

Will sentiu um novo golpe de culpa por havê-la deixado nas mãos de um louco, por ter duvidado de suas intenções.

-Vivian, não me agradeça isso. Sinto tanto…

- Sshh. - Colocou dois dedos nos lábios para silenciá-lo-. Esteve maravilhoso - sussurrou-. Necessitava-te, e lá estava você para me ajudar. Jamais duvidei que fosse o homem mais extraordinário que conheci em minha vida, meu querido Will.

Ele contemplou seus fascinantes olhos com um nó de emoção na garganta e lhe rodeou a cintura com os braços para estreitá-la contra seu peito.

-Tocou-te? -perguntou quase sem fôlego.

Ela deixou escapar um pequeno suspiro, embora não afastou o olhar.

-Importaria que o tivesse feito?

Meditou-o enquanto lhe observava, e o cenho franzido que Luzia sua testa mostrava a ansiedade que sentia.

-Nada do que ocorresse naquele lugar trocará o que sinto por ti, Vivian - afirmou Will com convicção, enquanto enredava os dedos em seu cabelo para mantê-la imóvel-. É a mulher mais valente que conheci. Mas não quero te causar dano se ele…

Ela o beijou de novo para interrompê-lo.

-Não me tocou - disse contra sua boca em um tom grave e tranqüilizador, enquanto lhe acariciava o peito com a ponta dos dedos.

A sensação de alívio, sua proximidade, suas tenras carícias e seu tentador calor começaram a minar sua resolução.

-Vivian, precisa descansar.

Ela riu e se incorporou um pouco para olhá-lo nos olhos uma vez mais.

-Levo cinco dias descansando. O que mais necessito agora é você.

Will soltou um grunhido.

-E sua cabeça?

-Dói-me um pouco - respondeu com franqueza-. Mas o desejo dói mais.

Will não pôde acreditar que ela houvesse dito isso em voz alta, mas sua ereção também começou a resultar dolorosa.

-Suponho que não posso te rechaçar - admitiu-o brincando.

Ela se sentou sorrindo e começou a desabotoar o pescoço da camisola.

-Você gostaria me ver nua outra vez?

Isso lhe devolveu a seriedade imediatamente.

-Quero te sentir nua, meu amor.

Os olhos dela brilharam de surpresa ante sua sinceridade, diante da veemência de sua voz. Logo, Vivian tomou ar com dificuldade e disse com voz rouca:

-E eu quero te sentir muito dentro de mim.

Will contemplou seu adorável rosto à luz do fogo e se deleitou com sua expressão sincera. Acariciou-lhe o rosto e os lábios com o polegar, e a seguir tocou com cuidado o inchaço que ainda tinha na testa. Depois lhe jogou a cabeça para trás com suavidade para tê-la a seu lado.

Beijou-a com delicadeza, e seus corpos permaneceram imóveis enquanto ambos se abraçavam. Ela começou a responder a suas carícias e deslizou as palmas no peito dele até o pescoço, para brincar com o pêlo antes de separar os lábios e aumentar a intensidade do beijo.

Will introduziu a língua o calor de sua boca a manteve em seu interior até que lhe devolveu as carícias. Com crescente abandono, Vivian se aproximou ainda mais dele e apertou os peitos contra seu torso, ao mesmo tempo em que lhe passava uma perna por cima dos quadris para esfregar a forte ereção que lhe avultava as calças. Tinha chegado o momento de despir-se.

Will lhe pôs as mãos na cintura para elevá-la com muito cuidado e a colocou de costas sobre o colchão enquanto seguia explorando sua boca. Logo deslizou a língua por seu lábio superior e pelo inferior para depois apanhar a sua e sugá-la. Vivian apoiou as mãos nos ombros de Will enquanto este desatava os laços da camisola com tal rapidez que os peitos estiveram a ponto de saltar sobre o decote; depois, uma vez que lhe subiu o objeto de algodão das pernas até os quadris, ajudou-o a tirar-lhe pela cabeça.

Sem deixar de olhá-la nos olhos, Will levou as mãos à braguilha, desabotoou todos os botões, tirou o resto da roupa passando pelos quadris e pernas abaixo, e a empurrou para o chão.

Quando por fim ambos estavam nus, inclinou-se sobre ela e abrasou seus lábios com um novo beijo, excitando-a sem tocar seu corpo, fazendo desejar o que estava por vir. Por fim, ao perceber o desejo do corpo feminino, afastou os lábios dela e se sentou para observar com atenção sua encantadora figura iluminada pela luz tênue do fogo.

O cabelo estendido sobre os travesseiros parecia flutuar em grossas mechas onduladas que emolduravam esses magníficos olhos que o olhavam com uma expressão lânguida e sensual. Tinha umas pernas largas e elegantes que se uniam em um suave triângulo de cachos escuros. Seu ventre permanecia reto, como o de uma mulher que jamais deu a luz um filho, e seus seios arredondados tinham a forma perfeita, com os mamilos rosados endurecidos pelo desejo.

- Deus, como é linda - murmurou com voz densa enquanto deslizava os dedos por sua coxa em uma lenta carícia.

Vivian esboçou um sorriso travesso.

-A mulher mais linda que viu em sua vida?

Will se inclinou para diante e lhe deu um beijo em um dos mamilos, lhe arrancando uma exclamação de surpresa.

-Não recordo a nenhuma outra mulher - assegurou-lhe com voz rouca, olhando-a aos olhos uma vez mais-. Houve outras mulheres?

Vivian se pôs a rir, até que ele se meteu um dos mamilos na boca e começou a sugá-lo. Ela arqueou as costas como resposta.

-Faz que me estremeça da cabeça aos pés…

Depois de dedicar uns segundos com tão deliciosa tortura, Will se esticou e a olhou no rosto.

-Me alegro, porque você me estremece até a ponta de… - sorriu quando ela abriu os olhos devagar -… dos dedos dos pés.

Ela o contemplou com expressão divertida durante uns momentos, mas depois ficou séria de novo. Estirou uma das mãos e lhe passou os dedos pela mandíbula.

-Obrigado por fazer com que sempre me sinta apreciada - sussurrou com ternura.

Will engoliu com força ao escutar essas palavras que, embora singelas, estavam carregadas de gratidão e adoração. Em lugar de responder, decidiu lhe mostrar o que sentia e tomou sua mão para levar-lhe aos lábios e percorrer a parte interna do pulso com deliberada lentidão. Ela emitiu um ofego entrecortado quando deslizou a língua pela palma de sua mão e se introduziu a ponta de um dedo na boca para chupá-lo com suavidade.

Vivian deixou escapar um gemido de prazer e fechou os olhos com força à medida que a paixão se acrescentava.

-Meu coração só pulsa por ti, Vivian - disse ele, levando-se sua mão ao peito.

Antes que ela pudesse responder, apoderou-se de seus lábios uma vez mais e a beijou com ternura enquanto se tendia junto a ela. Acariciou-lhe a nuca com a mão livre, jogou os quadris para diante e colocou uma coxa sobre suas pernas.

Começou a lhe acariciar a pele com a ponta dos dedos. Passou pela cintura até a zona que ficava por debaixo do braço, e notou que ela ficava lânguida. Respirando cada vez com mais dificuldade, Will brincou com sua língua enquanto elevava a mão para lhe cobrir o peito e massageá-lo brandamente.

Vivian aspirou com força quando lhe acariciou o mamilo com o polegar e soltou um gemido gutural ante a deliciosa tortura. Will desejava afundar-se dentro dela, mas queria aumentar esse momento, a primeira vez que estavam juntos de verdade, até que não pudesse suportá-lo mais. Ela arqueou as costas lhe pedindo mais, e ele a agradou. Separou a boca de seus lábios e contemplou um instante seus olhos carregados de paixão antes de riscar um atalho descendente de beijos. Percorreu a linha da mandíbula, o pescoço e o lugar onde mais se apreciavam os frenéticos batimentos do coração de seu coração. Com absoluta satisfação, continuou descendendo para lhe beijar a zona do decote e, quando acreditou que ela não agüentaria mais, fechou a boca ao redor de seu peito antes de começar a sugá-lo e a tamborilar o mamilo rapidamente com a língua.

Vivian gemeu com força e começou ofegar enquanto se aferrava a seus ombros com os dedos. Will afastou a mão esquerda de seu cabelo para lhe dedicar as mesmas carícias ao outro seio, e se maravilhou ante os gemidos de deleite que escapavam dos lábios dela à medida que a aproximava mais ao prazer final que com tanto desespero desejava.

Parecia não poder fartar-se dela; sabia tão bem e se mostrava tão suave e doce que de repente sentiu a premente necessidade de afundar-se no calor de seu interior e deixar-se levar. Colocou as mãos pelo ventre lhe dando suaves carícias e afastou a boca de seu peito para rodear somente o mamilo com a língua, enquanto introduzia as mãos por debaixo dela com a intenção de puxá-la.

Ficaram cara a cara, respirando entrecortadamente. Will ainda tinha uma mão debaixo dela e brincava com seu cabelo enquanto deslizava a outra para cima por seu quadril para chegar de novo até o peito. Esfregou-lhe o mamilo com a palma para endurecê-lo ainda mais. Em seguida depositou pequenos beijos por todo seu rosto, desde as ruborizadas bochechas até os lábios, quentes e suaves. Percorria-lhe as costas de cima abaixo com as mãos, mas colocou uma delas sobre o peito quando Will se apoderou de sua boca e começou a beijá-la de maneira apaixonada.

Vivian passou a mão com suavidade pelo pêlo encaracolado que havia entre os mamilos e lhe acariciou a pele com dedos suaves como plumas, e então ele a sujeitou pelo traseiro para apertá-la com força contra sua ereção.

Observou-a para ver como reagia, desejando que se sentisse cômoda em sua cama, ardente de desejo. Ela aspirou o ar com os dentes apertados.

-Sim… - sussurrou.

Will esteve a ponto de acabar nesse mesmo instante.

Tentou ficar quieto, recuperar um pouco o controle antes de continuar, mas Vivian colocou uma perna em cima da sua e se balançou contra ele a fim de esfregar-se contra seu membro.

Will a segurou pelos quadris para deter o movimento.

-Se fizer isso, não agüentarei - murmurou com voz tensa.

Ela abriu os olhos uma vez mais, deixando que a luz do fogo iluminasse a paixão que os alagava. Por um segundo, Will acreditou ter espionado um sorriso satisfeito em seu rosto, mas ela baixou as pálpebras de novo e ficou imóvel, à espera.

-Alegra-me saber que o estou ficando boa nisso - disse com um fio de voz.

Beijou-lhe o nariz.

- Está ficando cada vez melhor - replicou com voz trêmula-. Nem imagina o que sinto quando te esfrega contra mim dessa maneira e me umedece com o desejo que te alaga.

-E você não imagina quão maravilhoso é sentir quão duro está por mim. Faz que deseje me perder dentro de ti - ronronou ela sem abrir os olhos.

Will tragou saliva com força ao ver seu rosto ruborizado e escutar seus rápidos ofegos, sabendo do muito que devia lhe haver doído não sentir esse desejo em seu marido.

-Jamais desejei a uma mulher tanto como te desejo nestes momentos, Vivian - resmungou com voz rouca.

Ela elevou as pálpebras uns instantes para deixar descobertos os olhos cheios de lágrimas e uma expressão de puro amor. Will soube que guardaria esse momento para sempre, que recordaria esse olhar enquanto vivesse.

Não havia nada mais que dizer.

Empurrou-a com ternura para estendê-la de costas na cama e começou a semear beijos sobre seu corpo. Beijou-lhe os mamilos e em seguida os beliscou com os lábios e os rodeou com a língua. Vivian tornou a gemer uma vez mais assim que desceu mais abaixo. Fechou os olhos, massageou-lhe os ombros com as mãos e enredou os dedos no cabelo dele de uma vez que começava a mover a cabeça de um lado a outro sobre o travesseiro. Will lhe beijou o ventre e o umbigo enquanto deslizava a mão livre por sua perna, em direção os cachos que havia mais acima.

Inclinou-se sobre ela para lhe beijar a coxa, desejando que lhe permitisse seguir adiante. O aroma doce e almiscarado que emanava de seu sexo lhe produziu uma urgente necessidade de saboreá-la, de acariciar essa incrível suavidade com os lábios. Ajoelhou-se entre suas pernas e lhe separou as coxas com delicadeza.

Percorreu com os lábios a pele sensível da parte interna das coxas e se deteve para depositar um beijo aqui e lá antes de deslizar a língua com deliberada lentidão ao longo da fenda que dava entrada a seu corpo.

Vivian ofegou com mais força e elevou os quadris para sair a seu encontro. Ele relaxou e a saboreou com ferocidade, desejando poder enterrar a cabeça nesse lugar cada uma das noites do resto de sua vida. Seu sabor e seu aroma eram uma espécie de ambrósia, e Will se deleitou o quanto pôde com eles.

Os gemidos dela se incrementaram e Vivian se aferrou a sua cabeça com dedos rígidos. Gemeu, balançou-se contra ele e pronunciou seu nome em um sussurro apenas audível.

E depois gritou. Will lhe rodeou as coxas com os braços e a sujeitou com firmeza quando alcançou o orgasmo, sentindo cada pequena contração, cada um de seus rítmicos movimentos.

Com rapidez, antes que ela se recuperasse de tudo, elevou-se sobre seu corpo e apoiou as palmas sobre o travesseiro para estudar o rubor de seu rosto, a força com que apertava as pálpebras e a dificuldade com que respirava.

-É linda… - sussurrou.

Ela abriu os olhos, embriagada pelo desejo, e o olhou enquanto se lambia os lábios com incrível sensualidade. Ainda ofegando, deixou de lhe massagear os ombros para lhe esfregar os mamilos com os dedos, e Will acreditou que explodiria nesse preciso instante.

Aspirou com força com os dentes apertados, levantou-lhe um pouco as pernas para colocar-se frente à entrada de seu corpo e, sem deixar de olhá-la, começou a afundar-se em seu interior.

Deixou escapar um gemido gutural ao deslizar-se entre as cálidas paredes femininas e tratou de perceber todos e cada um dos matizes de seu corpo, de sentir cada um dos relevos que a faziam única. Embora estivesse completamente molhada, os músculos estavam tensos a seu redor; não obstante, segundos mais tarde começou a relaxar-se e lhe permitiu afundar-se até o fundo nela, com o que seus quadris entraram por fim em contato.

Vivian deixou escapar um gemido afogado e fechou os olhos uma vez mais.

-É tão… maravilhoso te ter dentro…

Will tentou apaziguar um pouco os batimentos de seu coração. Respirou fundo e apertou as pálpebras, negando-se a retirar-se ou a beijá-la até ter recuperado o controle necessário.

-Não te mova - disse-lhe com uma voz trêmula e tensa-. Por Deus, isto é o paraíso…

De repente sentiu que lhe acariciava as têmporas e o rosto com a ponta dos dedos. Mas não desejava sua ternura, ao menos não ainda. Queria que delirasse de novo e ter a melhor lembrança possível dessa noite.

Decidido, inclinou-se para frente e capturou sua boca enquanto levantava um pouco os quadris a fim de introduzir os dedos entre ambos os corpos e acariciá-la entre as pernas. Deu-lhe um beijo longo e profundo e deixou que seu torso lhe roçasse os mamilos, que ficaram duros imediatamente.

-Vivian… - sussurrou contra seus lábios.

Rodeou-lhe o pescoço com as mãos e se aferrou a ele enquanto Will acariciava a pequena protuberância que albergava o núcleo de seu prazer até encontrar o ritmo que mais gostava. Vivian gemeu de novo e balançou os quadris contra seus dedos.

Will se sentiu arrastado para esse ponto no qual não havia volta. Mas desejava satisfazê-la primeiro, sentir seu orgasmo ao redor dele, perceber essas contrações que o levariam ao abismo. Concentrou-se no rubor de seu rosto e se retirou um pouco antes de ficar quieto para acariciá-la cada vez mais rápido.

De maneira instintiva, ela baixou uma das mãos para lhe colocar os dedos um pouco mais abaixo.

-Sim… - ele a incentivou com um suave sussurro-. Diga-me onde você gosta…

Girou-lhe os dedos um pouco e ofegou de novo. Quando Will trocou o ritmo, jogou a cabeça para trás e apertou as pálpebras com força.

Ele moveu os quadris a fim de lhe dar acesso enquanto lhe segurava o pulso para guiá-lo. A intensa pressão de luxúria crescia dentro dele; tremiam-lhe as pernas e tinha o corpo coberto de suor. Dedicou-se a desfrutar desse maravilhoso calor, da extraordinária tensão que sentia no ventre, pronta para explorar.

- Ah, sim… - murmurou ela.

- Apresse-se para mim, amor - sussurrou ele -. Não posso agüentar mais…

De repente, Vivian se apertou contra ele e lhe rodeou as pernas enquanto emitia um fraco soluço.

Will percebeu imediatamente e desfrutou das sensações; era fabuloso notar como aqueles músculos internos, quentes e úmidos, contraíam-se ritmicamente em torno de sua ereção enquanto ela alcançava o ápice e chegava ao orgasmo uma segunda vez. E tal como tinha suspeitado, essa sensação o levou além dos limites da prudência.

Com um estremecimento, investiu uma vez mais, duas, enquanto lhe sujeitava a cabeça com ambas as mãos para poder beijá-lo na boca. E nesse momento Will estalou dentro dela e pôde sentir cada uma das deliciosas pulsações enquanto se derramava em seu interior. Beijou-a enquanto pôde, mas depois teve que afastar-se para tomar ar. Desabou-se sobre ela com um grunhido e permaneceu imóvel, unido a ela naquele delicioso esgotamento, ofegando com força.

 

Vivian rodeou o homem que jazia a seu lado com braços e pernas. Resultava-lhe assombroso que o que tinha ocorrido entre eles tivesse acontecido tão somente umas horas antes, e de fato tinha ficado com s pensamentos girando uma e outra vez, incapaz de dormir. Ao contrário dele, conforme parecia. Ela se sentia inquieta; ele, em troca, não se tinha movido absolutamente desde que dormiu, ainda dentro dela. Esboçou um sorriso ao pensar em quão diferentes eram os homens e as mulheres. Diferentes, sim, mas ao mesmo tempo complementares.

Supôs que jamais tinha imaginado que fazer amor pudesse ser tão… incrível, tão íntimo. Sorriu para si mesma ao pensar em quão estranho era que um homem como Will a fizesse reagir de forma que jamais tinha acreditado possível.

-No que está pensando?

Vivian levantou a vista para contemplar seus adoráveis olhos, que ainda pareciam sonolentos.

-Pensava no quanto estive protegida durante minha infância - respondeu, enquanto lhe acariciava as costas nua com os dedos.

Ele respirou fundo e acomodou a cabeça sobre o travesseiro de plumas.

-Infância? -perguntou grunhindo-. Esperava algo mais.

Ela sorriu.

-Recordava senhor duque, quando era jovem uma de minhas acompanhantes me disse que o acoplamento durante o matrimônio era um ato repulsivo que teria de suportar, e consistia em agüentar durante dez espantosos minutos cada noite a um marido suarento e ofegante que me «esmurraria» com seu membro. Durante anos, jamais quis me casar porque tinha pânico que alguém me «esmurrasse» com algo. - Deu-lhe um pequeno beijo no nariz-. Agora pensava no quanto feliz que me sinto de haver-me arriscado a fazê-lo.

Ele a olhou com expressão incrédula. Depois se riu e se deitou de costas, enquanto esfregava os olhos com o polegar e o indicador.

-Deus, é incrível o que contam às mulheres.

-Imagino que a sua esposa ocorreria um pouco parecido - repôs sem vacilar.

Ele assentiu.

-Demorei duas horas para conseguir levá-la à cama em nossa noite de núpcias. E ela não soltava as malditas tesouras de costura e me ameaçava me cortando a… - Jogou-lhe uma rápida olhada de relance-. Já sabe.

Vivian riu com os olhos abertos como pratos.

-Está de brincadeira.

-Verdade.

-Me alegro muito, muitíssimo, de que ainda conserve suas… partes íntimas, excelência - admitiu, ao tempo que meneava a cabeça.

Will a contemplou um instante, e de repente se inclinou para ela para abraçá-la com força.

-Eu também, e por razões óbvias. -Fez uma breve pausa antes de perguntar sussurrando-: O que pensa desta noite?

Vivian encolheu o coração ao notar a preocupação que encerravam nessas palavras.

-Acredito - respondeu enquanto lhe rodeava o pescoço com os braços - que é um homem com muito talento, milorde.

Ele sorriu de orelha a orelha e Vivian pôs os olhos quase em branco ao contemplar tão evidente expressão de orgulho. Típico de um homem.

-O que pensa você de mim? -inquiriu com timidez.

Will soltou um grunhido e se virou para frente para lhe plantar um beijo na boca.

-Não tem rival - sussurrou.

Ela soltou uma risadinha.

-Espero haver te agradado, ao menos.

- Agradar-me? -murmurou ele contra seus lábios-. Estou extasiado.

- Extasiado? Pelo amor de Deus, Will…

Acariciou-lhe o pescoço com a boca.

- Extasiado, encantado e completamente viciado em seu aroma.

Ela jogou a cabeça para o lado para que estivesse cômodo.

- Mmm… Por meu aroma? Por que cheiro?

- Pelo teu - murmurou ele-. Pela mulher única. Rosas. Raios de sol. O cheiro da expressão do amor.

De algum jeito um tanto estranho, essas palavras lhe pareceram encantadoras. Deixou escapar um suspiro.

- Não quero abandonar esta cama jamais.

Ele deixou de lhe beijar o pescoço um instante e depois se levantou um pouco para olhá-la nos olhos.

- Então não o faça - disse com certa gravidade.

Vivian lhe passou os dedos pelo cabelo. Deus, como desejava poder ficar com ele, estar com ele. Casar-se com ele.

Engoliu seco tentando controlar suas emoções e elevou a cabeça para beijá-lo apaixonadamente a fim de lhe demonstrar o que as palavras não podiam explicar.

Will respondeu imediatamente, tal e como ela sabia que o faria: primeiro com ternura, depois com crescente ardor. De repente, rodeou-lhe a cintura com os braços e a colocou em cima de seu corpo enquanto se deitava de costas sobre a cama.

Sorriu-lhe nessa posição, deixando que seu cabelo se estendesse sobre os ombros dele e que seus peitos se esmagassem contra seu torso. Teria entregado de boa vontade tudo que possuía para poder ficar assim sempre. Rindo com ele, amando-o…

Esboçou um sorriso travesso.

-E agora no que pensa?

Will soltou uma gargalhada e lhe percorreu as costas com a ponta dos dedos.

-Estou pensando em fazer amor outra vez.

Vivian abriu os olhos devagar enquanto afogava uma fingida exclamação de surpresa.

-Agora? É insaciável.

Colocou-lhe as mãos sobre o traseiro e começou a massageá-lo com suavidade.

-Certo. Mas prometo que não te «esmurrarei» com nada - acrescentou, antes de levantar a cabeça para lhe dar um beijo no queixo.

Vivian notou que o membro masculino se endurecia sob seu corpo e se deu conta de que essa singela reação bastava para deixá-la sem forças, tão por dentro como por fora.

-Consegue que te deseje com desespero - murmurou enquanto baixava a cabeça para apoiá-la sobre o travesseiro, ao lado da sua.

-Pelos pregos de Cristo, Vivian, tem idéia do que me faz sentir quando diz uma coisa como essa?

Suas palavras eram sinceras, mas o contraste com a maneira de pronunciá-las a deixou um tanto confusa.

-Sente-se bem?

Ele riu de novo.

-Sim, muito bem. E muito excitado.

-Disso já me dou conta - brincou, enquanto esfregava os quadris contra os seus. De repente quis vê-lo por inteiro. Havia menos luz na habitação do que quando tinham feito amor na vez anterior, já que o fogo se apagou com a chegada da alvorada. Mesmo assim, era uma oportunidade que não podia desperdiçar, já que sentia uma entristecedora curiosidade.

Acariciou-lhe o lóbulo da orelha com o nariz e, sem dizer uma palavra mais, sentou-se junto a ele e retirou as mantas para poder apreciar aquele corpo grande e forte.

-Você gosta do que vê? - perguntou Will arrastando as palavras.

Ela emitiu um exagerado suspiro a modo de resposta e depois sorriu com malícia ao mesmo tempo em que se inclinava para lhe dar um beijo na coxa.

-Ainda estou aqui, e você também. Não devo estar muito decepcionada.

Ele soprou, e Vivian riu.

Depois, com o que lhe pareceu uma agonizante lentidão, arrastou as unhas para cima dos joelhos para deter-se justo antes de roçar sua ereção.

-Posso te beijar aqui? -inquiriu com voz rouca.

-Não, a menos que queira que te viole em agradecimento - respondeu ele imediatamente, com uma voz tensa carregada de excitação.

Vivian não disse nada. Em lugar disso, inclinou-se para frente e roçou a pele acetinada de seu membro com os lábios e a percorreu de cima abaixo, do extremo até a base. Ele aspirou com força e enredou seus dedos no cabelo que lhe caía sobre o ventre e as coxas.

- Deixa-me louco - murmurou.

Vivian se sentiu enormemente satisfeita ao ver como tinha reagido ante suas palavras e ante essa insignificante carícia com os lábios. Entusiasmada, deslizou a ponta da língua pelo extremo de seu membro. Ele a agarrou pelo braço e a tirou dali imediatamente para situá-la em cima de seu corpo e beijá-la com ardor enquanto lhe cobria os peitos, que quase se esmagavam contra seu torso.

Vivian notou que a invadia o desejo ao sentir como brincava com seus mamilos e os fazia rodar lentamente entre o dedo indicador e o polegar. O calor do corpo de Will lhe abrasava a pele e seu aroma lhe enlouquecia os sentidos.

- Sente-se em cima de mim, Vivian… - sussurrou contra seus lábios.

Ela gemeu como resposta e o agradou imediatamente.

Sentou-se agachada sobre seus quadris e se apoiou nos joelhos para não esmagá-lo. Inclinou-se para diante para beijá-lo enquanto ele baixava a mão e introduzia os dedos entre os cachos de suas pernas para começar a acariciá-la muito devagar, levando-a a beira do orgasmo.

Beijou-a com frenesi e brincou com sua língua enquanto sua respiração irregular se mesclava com cada uma das exalações dela. Vivian choramingou e balançou os quadris de maneira instintiva contra seus dedos, enquanto tentava conter o clímax que a ameaçava, embora descobrisse que a espera lhe resultava insuportável. Por fim, ao dar-se conta de que estava a ponto de chegar, Will lhe colocou as mãos nos quadris e a guiou para colocá-la em cima dele.

Vivian ficou rígida um instante quando ele entrou em seu interior, e fechou os olhos para desfrutar da sensação de tê-lo dentro dela. Entretanto, não desperdiçou um momento mais e começou a mover-se acima e abaixo para acariciá-lo em toda sua longitude.

Will gemia com cada uma de suas investidas. Voltou a lhe cobrir os peitos com as palmas e a lhe acariciar os mamilos.

Vivian apoiou as mãos sobre seus ombros e contemplou os traços tensos de seu rosto antes de olhá-lo nos olhos.

E de repente sentiu que chegava. Empurrou até o fundo e começou a rodar em diminutos círculos até que notou o começo do orgasmo.

-Will…

-Sim… - sussurrou ele, incentivando-a a seguir.

Vivian abriu os olhos e gemeu com força.

-meu deus…

O rosto dele ficou ainda mais tenso.

- Se entregue Vivian - disse com voz rouca-. Faz–me gozar…

Ela gritou quando notou a explosão e seguiu movendo os quadris contra ele ao mesmo tempo em que fechava os olhos e jogava a cabeça para trás. Will investiu durante uns segundos mais antes de sentar-se e lhe rodear a cintura para estreitá-la contra ele enquanto alcançava o clímax; com um último gemido, estremeceu-se e ejaculou em seu interior.

Permaneceram sentados durante um bom momento, obstinados um no outro, com a respiração agitada e empapados em suor. Vivian se sentia em sintonia com os rápidos batimentos de seu coração, com sua força e com a maravilhosa e masculina essência que emanava de sua pele quente. Will enterrou o rosto em seu pescoço para acariciá-la com o nariz e depositou pequenos beijos em seu ombro. Ela seguiu rodeando-o com os braços e enredou os dedos de uma mão em seu cabelo enquanto o beijava na têmpora.

-Estou esgotado - disse ele após soltar um suspiro.

-Eu também - assegurou-lhe Vivian, que respirou fundo em um intento de aplacar os batimentos loucos do coração.

Ele soltou uma gargalhada e Vivian sentiu as vibrações em todo seu corpo. Foi uma sensação que recordaria sempre.

-Está rindo de mim? - repreendeu-o lhe esfregando a bochecha com o nariz e sorrindo.

Will tomou uma baforada de ar larga e profunda e se afastou dela para poder olhá-la nos olhos.

-Onde há risada, há felicidade - sussurrou, enquanto lhe percorria os lábios com a ponta do polegar-. E onde há felicidade, há amor, minha querida Vivian.

Essas encantadoras palavras destilavam uma ternura e um desejo que a comoveram profundamente. Foi nesse momento quando soube que Will não compreendia, ou se negava a compreender que jamais voltariam a estar juntos dessa maneira. Aquela idéia lhe provocou um nó na garganta e turvou suas emoções em múltiplos sentidos que nem sequer podia identificar. Mas se negava a permitir que ele a visse chorar.

Mordeu os lábios e o beijou muito devagar, abraçando-o até que seu membro se deslizou para fora dela. Então, sem dizer uma palavra, empurrou-o com suavidade para que se deitasse a seu lado uma vez mais e amontoou as costas contra o calor de seu corpo enquanto contemplava as brasas moribundas da chaminé.

 

Vivian se situou na frente do espelho de corpo inteiro e examinou o aspecto que tinha embelezado com um vestido de amanhã rosa claro. Já estava preparada para reunir-se Will na estufa, onde lhe haviam dito que a aguardava para tomar o café da manhã as nove em ponto. Supôs que tinha bom aspecto, tendo em conta que a ferida, que já tinha seis dias, ainda seguia visível em forma de um arranhão e um pequeno galo à altura da raiz do cabelo.

Tinha-a despertado apenas uma hora antes a acompanhante que lhe trazia o chá e os utensílios necessários para seu asseio. Tinha notado que o lado da cama de Will estava frio, o que significava que partiu fazia tempo; o mais provável era que a tivesse deixado à alvorada para evitar especulações desnecessárias por parte do pessoal de serviço. Era óbvio que tinha uma das habitações de hóspedes preparada para seu uso durante o tempo que ela estivesse ali, embora não lhe tinha comentado nada a respeito. Entretanto, na noite anterior tinha sido a única que dormiu ao menos que ela recordasse. E curta noite tinha sido.

Depois de um suspiro contente, Vivian agradeceu à empregada que lhe tivesse emprestado sua ajuda para vestir-se e para lhe recolher o cabelo à altura da nuca em duas apertadas tranças. Depois seguiu à mulher para fora da habitação em direção à biblioteca.

Percorreu o corredor e entrou única na estadia. A biblioteca estava vazia, mas Will tinha aberto as janelas que davam à estufa. Estava claro que a esperava sentado à mesa que tinham compartilhado durante seu primeiro almoço juntos.

Com uma resolução inquebrável, Vivian se encaminhou para a parte traseira da estadia e saiu à zona jardinada. Um sopro matinal da brisa procedente do oceano sacudiu as folhas dos brotos e a envolveu com seu embriagador aroma, lhe dando ânimos e fazendo-a sorrir apesar do fato de que logo manteria uma conversa crucial e dilaceradora, uma conversa que temia mais que nenhuma das que tivesse mantido em sua vida.

Viu-o imediatamente assim que virou a esquina que conduzia ao extremo oeste da estufa. Como sempre, tinha um aspecto magnífico. Ia vestido de maneira informal e estava apoiado contra o marco da janela, enquanto contemplava o oceano. A brisa alvoroçava as mechas de cabelo que lhe caíam sobre a testa.

Como se tivesse percebido sua presença, Will jogou uma olhada em sua direção e esboçou um pequeno sorriso enquanto a percorria de cima abaixo com o olhar.

-bom dia - disse arrastando as palavras, antes de dar a volta para ficar cara a cara. Apoiou o quadril no batente e cruzou os braços sobre o peito.

-bom dia, excelência - respondeu ela com uma inclinação de cabeça.

-Está radiante - acrescentou ele em voz baixa e com um matiz travesso.

Vivian notou que se ruborizava enquanto aproximava dele com as mãos unidas às costas.

-Você também está estupendo.

Ele riu.

- Hoje tudo me parece excelente Lady Vivian.

-Ah, sinto-me adulada - sussurrou com malícia, enquanto lhe dava uma ligeira cotovelada no braço.

Os olhos de Will expressavam sua diversão, mas o sorriso se desvaneceu assim que fixou o olhar em sua testa.

-Ainda te nota a ferida, embora tenha melhor aspecto. Isso é bom.

Ela levou os dedos à cabeça e acariciou com suavidade a cicatriz.

-Já quase não dói. Para falar a verdade, agora só me incomoda quando a toco.

Will voltou a sorrir.

-Então não o faça.

Ela agitou as pestanas paquerando-o.

-Obrigado por tão sábio conselho, senhor duque.

- eu adoro que flerte comigo - sussurrou ele tomando o queixo com os dedos.

Vivian sorriu de orelha a orelha.

-Acreditei que eu te encantasse, fizesse o que fizesse.

Passou-lhe o polegar pelos lábios muito devagar, de uma maneira muito sensual.

-Adoro-te de todas as maneiras possíveis… sempre.

De repente, o ambiente se tornou sério ante a consciência das dificuldades e adversidades que estavam por vir. Vivian o olhou nos olhos e percebeu a preocupação, o carinho e o desespero que ela mesma sentia a flor de pele. Mas não queria saber nada de lamentações. Isso nunca.

Beijou-lhe o polegar com ternura sem afastar o olhar.

-Temos que falar - assinalou Will em voz baixa e empregando um tom que refletia a importância da conversa que se iniciava.

Vivian respirou fundo, animada pelo aroma do mar, das flores e dos brotos, e o de sua colônia especial.

-por que não damos um passeio por aqui fora? Teríamos mais intimidade.

Will franziu o cenho.

-Como preferir. Quer comer primeiro?

Ela negou com a cabeça.

-Acredito que não. Não tenho fome. - E não a teria durante um tempo, com certeza. Não depois da discussão que iriam ter.

Com os nervos a flor da pele, Vivian aceitou o braço que lhe oferecia e caminhou junto a ele para a escada que conduzia ao jardim inferior. Will se manteve ao seu lado a cada passo, com a mão apoiada na parte baixa de suas costas em um gesto tão protetor que lhe deu vontade de dar a volta para abraçá-lo e não soltá-lo nunca.

Por desgraça, isso não ia acontecer, e seu dever era convencê-lo disso.

-Sei que as coisas entre nós serão difíceis - começou Will antes de encaminhar-se para o atalho que se afastava da casa-. Mas não… incontroláveis.

Vivian esboçou um sorriso, enlaçou um braço com o dele e elevou o rosto para o céu para desfrutar do calor do sol.

-Incontroláveis?

Will respirou fundo e a atraiu para seu corpo.

- Sei que não posso me casar contigo - admitiu, e tanto sua voz como seus movimentos revelavam que tinha refletido sobre essa idéia com detalhes -. Mas isso não significa…

Ela o interrompeu quando se deteve em seco e girou a cabeça em sua direção.

-O que é o que não significa?

Will a olhou aos olhos com expressão preocupada, como se esperasse que ela tomasse a palavra e explicasse como deviam resolver essas dificuldades que considerava «controláveis» de algum modo.

-Não significa que não possamos estar juntos - adicionou sem mais explicações.

Vivian soltou seu braço e se afastou um passo dele para situar-se sob uma palmeira cujas folhas protegeriam seus olhos do brilho do sol. Ele não se moveu, embora entrelaçasse as mãos às costas adotando uma postura defensiva.

Notava no nariz a ardência das lágrimas que se ocultavam justo sob a superfície, à espera de liberar-se e empapar suas bochechas. Não obstante, mantê-las-ia a raia no momento. Já haveria tempo de sobra para chorar depois.

-Não podemos estar juntos, Will, sob nenhuma circunstância, e acredito que você sabe.

Durante uns segundos, ele se limitou a olhá-la sem realizar o mais mínimo movimento, embora tivesse um pequeno tem no lábio superior. Em seguida entrecerrou os olhos e apertou a mandíbula.

-Amo-te, e a quero ao meu lado. Apenas sei que deveríamos estar juntos, e o resto do mundo pode ir para o inferno.

Pela primeira vez em sua vida, Vivian soube o que era vacilar depois de ter tomado uma resolução. De repente se sentia mais fraca do que podia explicar com aquelas palavras, tremendo devido a um horrível frio interior que nada tinha que ver com o calor da manhã, e engoliu saliva com força tentando não perder a concentração, para manter o assunto da conversa dentro de limites racionais.

Cruzou os braços à altura do seio em um gesto de auto proteção e respondeu em um tom pesaroso:

-E você sabe que eu quero o mesmo você, mas devemos confrontar a realidade. A vida não é tão fácil.

- O que não é tão fácil? -Deu um passo para diante e a conteve nos braços-. A vida nunca é fácil, Vivian, mas temos a oportunidade de ser felizes, de fazer algo com nossas vidas, de conseguir uns anos de felicidade juntos. Apenas o que temos que fazer é encontrar uma maneira, e acredito que podemos fazê-lo.

-Como? -Vivian cravou seus olhos cheios de lágrimas nele e adicionou-: Estou casada, mas como, senhor duque, é a única coisa que importa em qualquer tipo de relação que possa haver entre nós.

-Não está casada, e tem um documento legal que prova a avaliação dada pela Igreja da Inglaterra – recalcou Will sem amedrontar-se-. Não está fazendo nada ilegal por estar comigo.

-Não se trata de legalidades - replicou ela movendo uma mão-, mas sim de viver. Dia após dia, ano após ano. Há circunstâncias ao nosso redor que afetam a ambos, amigos e pessoas que…

-O que? Mexericos? Que se vão para inferno… - grunhiu ele furioso.

Por que ele não entendia? Vivian levou uma mão à testa e fechou os olhos um instante.

- Deixa de ser tão ingênuo, Will - repreendeu-o - e começa a considerar nossa situação de um ponto de vista prático.

-Prático… - repetiu ele.

-Sim, prático. – Abraçou a si mesma e o olhou no rosto-. Não quero deixar meu trabalho, meu lar e perder a reputação que ganho, e não vejo outra maneira de estarmos juntos. O divórcio me arruinaria, e se sou sincera, seria tão catastrófico para sua posição como se tivesse matado de verdade a sua esposa.

Will refletiu sobre essa idéia um momento, mas a intensa fúria que lhe produzia sua teimosia era evidente na rigidez de seu corpo, na tensão de sua mandíbula e na ferocidade de seu olhar.

Vivian se manteve em sua posição, sem afastar o olhar dele.

-O que fazemos juntos não é indecoroso - assinalou ao cabo de um momento, com voz grave e autoritária -. Sou o duque de Trent…

- Sim, é o duque, não é verdade? - interrompeu Vivian -, e tem tanto poder que sempre consegue o que quer. Bem, pois eu sou a singela senhora Vivian Rael-Lamont, apesar do lugar onde nasci e de minha suposta viuvez. Vivo em uma pequena comunidade em que tenho muitos amigos e conhecidos. Sou uma mulher normal que cultiva flores caras que se expõem todas as semanas na igreja, nas núpcias e nos lares. Vivo uma vida modesta, porém a mais decorosa…

- Quero que vivas essa vida comigo - ele adicionou com suavidade e inclinou a cabeça para um lado.

Essa mudança de comportamento a surpreendeu. De algum modo, tornava-se muito mais fácil repreendê-lo quando estava zangado.

Depois de conter as lágrimas, Vivian passou a mão pela bochecha.

-Isso diz, mas ainda não me explicaste como. Como seria isso possível? Teria que me converter em sua amante? Viveria aqui em segredo, suportando os comentários dos criados? Ou pensa me visitar pelas noites para desfrutar de encontros amorosos clandestinos?

Vivian notou que a lógica de seus raciocínios tinha feito trinca nele. Parecia ferido: tinha o rosto pálido, os olhos totalmente abertos e uma expressão vulnerável. Teve que abrir mão de todas suas forças para não jogar-se em seus braços e enterrar todas as dúvidas em sua bondade, sem importar quão irracional fora.

-Podemos ser discretos - disse ele, procurando alguma solução-. As pessoas não se inteirarão.

Ela fez um gesto negativo com a cabeça, assombrada por sua teimosia.

-Do que não se inteirarão? De que te visito para fazer amor e não para te entregar orquídeas com as quais vais adornar o salão principal? Ou de que vem a minha casa de noite para um rápido interlúdio no banco de meu viveiro? - Com o coração acelerado e um nó nas vísceras, acrescentou-: Asseguro-te que se inteirarão se fico grávida. E depois de tudo o que passamos Will, os rumores chegariam a todos os cantos e me veria condenada ao ostracismo. Todo mundo em Penzance saberia que o filho é teu.

Estava claro que isso não lhe tinha ocorrido. Abriu a boca um pouco enquanto baixava a vista até sua cintura, nesse momento ainda magra e rodeada pelo espartilho. Vivian manteve as mãos nos quadris e passou por cima o rubor que tingia suas bochechas.

De repente, Will se aproximou dela e a obrigou a retroceder até o tronco da palmeira; estava tão perto que suas pernas se apertavam contra as saias do vestido. Sujeitou-lhe o queixo com dedos rígidos para fazê-la olhar em seus olhos.

- E se já está grávida de meu filho? -inquiriu em um sussurro colérico -. O que faria dentro de três meses, senhora Rael-Lamont? Fugir para evitar o escândalo, como já fez em seu dia? Deslocar a Bath ou a Brighton e explicar que te ficou viúva de uma forma menos polêmica? Atrever-te-ia, minha senhora, a criar meu filho em uma mentira?

Essas perguntas, formuladas de uma forma tão insolente, deixaram-na consternada. Morria de vontade de esbofeteá-lo por semelhante atrevimento, por acreditar que podia lhe devolver o ataque com seus próprios argumentos, mas não se atreveu a fazê-lo, já que tudo o que havia dito era certo. Não tinha pensado na possibilidade de uma gravidez até esse momento, já que se considerava muito velha para ter filhos. Entretanto, em seu esforço por lhe fazer aceitar o inevitável, havia tocado em um assunto muito espinhoso para ambos, e não de tudo impossível.

- Se ficasse aqui - respondeu com voz trêmula por causa das intensas emoções-, fossem quais fossem as circunstâncias, ver-me-ia obrigada a criar a um bastardo. Quereria isso para seu filho, Will?

-A diferença de ti, eu não gozo do benefício da aceitação geral.

Em um gesto de desafio, Vivian se negou a afastar o olhar e apertou os punhos para conter as lágrimas.

Por um instante acreditou que Will a separaria de um empurrão, que mandaria embora dali de uma vez por todas e não quereria falar com ela nunca mais. Seus olhos brilharam com uma estranha mescla de fúria, confusão e desprezo quando por fim aceitou que para eles era impossível estar legalmente juntos. Por pior que se sentisse por havê-lo obrigado a raciocinar, a considerar todo o assunto desde seu ponto de vista, Vivian também notou certo alívio ao saber que, embora fosse possível que Will não a compreendesse, tinha começado a olhar a situação desde sua perspectiva.

- Sinto muito, Will - sussurrou com uma expressão mais tranqüila-. Sinto muito.

Ele a estreitou contra seu corpo sem avisar e a rodeou com os braços para compartilhar com ela sua força e seu calor. Sujeitou-lhe com uma mão a parte posterior da cabeça enquanto lhe acariciava suavemente o cabelo com o polegar. Vivian fechou os olhos com força e apoiou o rosto em seu peito.

-Encontraremos uma forma, já faremos algo - insistiu ele em um tom tranqüilizador embora carregado de emoções-. Não penso renunciar a ti agora.

- Não crie que já pensei em todas as possibilidades? Não há nada que possamos fazer - sussurrou Vivian.

-Mas te casaria comigo se lhe pedisse isso e fora legalmente possível, não é verdade? - perguntou ele momentos depois.

Havia-o dito como uma declaração, totalmente convencido. Vivian encolheu o coração ao pensar na solidão que teria que suportar.

- Não pense nisso, Will. O que poderia ou deveria ter sido agora não é importante.

Ele não disse nada e com certa frustração, Vivian não conseguiu decidir se sentia contente ou não. Permaneceram em silencio durante longo momento, afligidos pela pena, reconfortados pela proximidade do outro, temerosos pela partida. Vivian fechou os olhos e inalou seu aroma com cada fôlego enquanto escutava os firmes batimentos de seu coração contra a orelha. Massageou-lhe o pescoço com doçura e depositou pequenos beijos sobre sua cabeça ao mesmo tempo em que lhe percorria a bochecha com o polegar.

Por fim, ela se afastou um pouco. Tomou uma de suas mãos e a levou aos lábios.

-Tenho que ir.

Apertou-lhe os dedos.

-Fica para tomar o café da manhã.

Vivian fechou os olhos um momento e meneou a cabeça.

-Não posso.

Will suspirou com força.

-O que tem que fazer que seja tão premente?

Com um sorriso de desolação nos lábios, Vivian deteve a vista em seus formosos olhos.

-Tenho que ver como está minha casa, excelência; regar os brotos que desatendi durante uma semana, responder a correspondência que se empilhou na escrivaninha…

Ele a interrompeu com um beijo doce e inesperado. Vivian o devolveu. Deixou que seus lábios a acariciassem durante minutos e lhe transmitissem toda a paixão, a frustração e o desejo que ele não podia manifestar de outra maneira e que tão desesperadamente precisava mostrar. Ao final, afastou-se para pôr fim à tortura.

- Não te deixarei partir - murmurou Will com a testa apoiada sobre a dela.

- Não temos outra escolha.

Vivian não se atreveu a olhá-lo quando se afastou para o lado. Em seguida, depois de lhe dar um último beijo nos dedos, sussurrou:

- Sempre recordarei o tempo que passamos juntos. E jamais amarei a ninguém como amo a ti, Will.

- Isto não acabou - afirmou ele de uma maneira quase convincente.

Temerosa de indagar mais na profundidade de seus olhos por medo e reconhecer essa esperança, afastou-se dele sem dizer uma palavra. Depois recolheu as saias e caminhou com a cabeça alta de volta para a estufa. Deixou-o ali sozinho, com a brisa que agitava seu magnífico jardim.

 

O dia tinha sido do mais irritante até esse momento. Depois de despertar com uma fastidiosa dor de cabeça, Vivian tinha reunido com Ida Bledsoe, uma dama arrevesada e insuportável, para falar sobre os acertos florais das bodas de sua filha. Nada do que lhe tinha sugerido era apropriado para sua filha, segundo a senhora Bledsoe. Vivian deveria ter esperado uma oposição semelhante de alguém que era bem conhecida na comunidade por ser difícil de agradar.

Ao meio-dia derramou o chá no tecido de seda de seu melhor vestido de tarde, e isso tinha suposto um problema, já que tinha pensado em se trocar depois do encontro com a senhora Bledsoe e não o tinha feito porque estava muito furiosa para fazer. Ao notar que a dor de cabeça retornava, tinha decidido trabalhar um pouco no viveiro e pôs um vestido de trabalho marrom cuja bainha não tinha demorado em rasgar-se. Depois das frustrações desse dia, era um milagre que tivesse vontade de plantar. Embora ao menos assim pudesse descarregar sua agressividade com a terra.

Nesse momento estava de costas para o quente sol da meia tarde, concentrada em plantar bulbos de tulipas. A primavera tinha chegado por fim a Penzance depois de um inverno extraordinariamente frio e lúgubre. A Vivian ao menos lhe tinha feito eterno, já que estava sozinha de novo e tinha retomado sua rotina diária depois das emoções do verão anterior.

Não havia tornado a ver Will fazia cinco meses, e cada dia seu coração sentia sua falta, tanto pelo consolo que lhe brindava como por sua inteligência e seu bom humor. Tinha saudades de seu sorriso, a forma como fazia amor, ver como se preocupava com ela de corpo e alma. Seu único consolo, supunha, era saber que ele devia sentir sua falta tanto como ela dele. Uma das coisas que tinha compreendido, entretanto, era que o amor que tinham compartilhado estava cimentado no respeito mútuo. Vivian jamais tinha admirado a um homem tanto como a William Raleigh, duque de Trent, e ficava furiosa quando escutava os outros qualificarem-no como retraído; seguiam falando dele como se tratasse de algum mistério, e ela não podia corrigir suas equivocadas e grosseiras insinuações.

Não obstante, desde então se falou também de outras coisas. A morte do Steven Chester tinha originado um pequeno escândalo. Entretanto, não tinham descoberto nenhum tipo de provas ou possíveis motivos. Elinor Chester não se atrevia a ficar em interdição dizendo à polícia da tentativa de chantagem e do seqüestro, e ninguém salvo os amigos de Will o tinha visto próximo da casa da península Lizard nem se inteirou de seu resgate. Em reconhecimento de Elinor teria que dizer que se fez de tola e não tinha proporcionado nenhuma pista para solucionar a estranha e inexplicável morte de seu irmão. Por fim, a morte de Steven Chester se arquivou sem resolver e jamais se mencionou o nome de Vivian. Para as pessoas de Penzance seguia sendo a viúva Rael-Lamont, livre de escândalo algum; e Will, por sua relação política com o homem, converteu-se no enigmático foco de todos os rumores. Depois do calvário de que tinha saído relativamente ileso, tudo seguia igual em seu pequeno mundo… salvo seu coração, e não podia falar disso com ninguém.

Notou que começava a lhe doer a cabeça uma vez mais ao pensar nisso. Escavou na terra com os dedos e a revolveu um pouco para colocar um dos delicados bulbos no centro e cobri-lo de novo. A luz direta do sol, embora na realidade não lhe desse calor, produzia-lhe um incômodo filete de suor, assim Vivian esfregou a testa com o dorso da mão antes de voltar a trabalhar com as flores. Ao terminar, pegou o último dos seis vasos com a intenção de transladá-los tudo à prateleira de madeira que havia perto da parte de trás, onde poderiam desfrutar de mais horas de luz e regar-se com facilidade durante os dias seguintes. Uma vez cumprida à tarefa, dar-se-ia um longo banho morno, tomaria um pouco de sopa e iria para cama cedo. Queria dar por terminado esse dia o quanto antes.

Foi então quando o viu. O vaso de barro que tinha nas mãos se converteu em um milhar de pedacinhos de barro e um montão de terra que lhe sujou a saia e cobriu o custoso bulbo. Entretanto, Vivian só podia olhar boquiaberta a figura masculina.

Estava perto da entrada lateral, vestido com um traje informal e com o cabelo alvoroçado, como se tivesse chegado a cavalo. Observou-a levando uma mão à boca e mostrando um brilho divertido nos olhos.

Vivian piscou estupefata, e seus olhos se encheram de lágrimas de alegria pelo simples fato de vê-lo de novo. Pôs-se a rir.

Desconcertado, Will franziu o cenho com curiosidade.

-Está rindo de mim, minha senhora?

Ela cobriu a boca com a palma da mão por um momento.

-Deixei cair o vaso de barro ao te ver e a primeira coisa que me veio à cabeça é que este dia não podia ter sido pior.

-Parece um desastre - brincou ele.

Vivian baixou a mão muito lentamente quando sua risada se apagou.

-E você está aqui de verdade.

-Sim.

Acelerou-lhe o pulso ao ver que ele se aproximava.

- Por quê? -perguntou em voz baixa.

Will enlaçou as mãos detrás das costas e baixou o olhar até o chão.

-surgiu um assunto importante e queria que fosse primeira em inteirar-se.

Vivian engoliu seco para desfazer do enorme nó de pânico e dor que lhe tinha formado na garganta.

- Vai… vai-se de Penzance?

- Se me vou embora de Penzance? -perguntou Will detrás inclinar um pouco a cabeça -. Não, não tenho a menor intenção de partir de Cornwall, Vivian.

O simples fato de ouvi-lo pronunciar seu nome dessa maneira ao mesmo tempo formal e íntimo fez que lhe fraquejassem os joelhos. Ainda não tinha se movido, mas quando ele se aproximou um pouco mais, Vivian estirou um braço para trás a fim de agarrar-se à mesa de trabalho para sujeitar-se.

- Na realidade, vim vê-la… com uma proposta - revelou em voz baixa, observando-a com atenção para ver sua reação-. Mas antes de chegar a isso quero te fazer uma pergunta: Sentiste a minha falta?

Vivian inclinou a cabeça para um lado e deixou cair os ombros.

-Will…

-Responde à pergunta.

Jamais tinha mentido para ele, antes mesmo com respeito ao que sentia e se negava a fazê-lo nesse momento, permitindo que os sentimentos que com tanto trabalho sufocara emergissem até a superfície.

- Sinto sua falta todos os dias - sussurrou.

O semblante dele adotou uma expressão tranqüila. Estava muito perto dela e Vivian estava achando uma tortura ficar quieta enquanto ele estudava seu rosto, seu cabelo, a terra que a cobria e o vestido esmigalhado. Tinha um aspecto desastroso e se sentiu muito incômoda sob seu escrutínio.

Will notou seu desassossego. Depois de sorrir de novo, alargou um braço e lhe acariciou o rosto com o polegar.

-Está muito linda.

Essa voz rouca e grave, junto com a carícia, provocou-lhe um formigamento,