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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


DOMINGO NEGRO / Thomas Harris
DOMINGO NEGRO / Thomas Harris

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

DOMINGO NEGRO

 

A noite caía à medida que o táxi do aeroporto chocalhava ao longo da estrada marginal, em direcção a Beirute. No banco traseiro, Dahlia Lyad olhava a rebentação do Mediterrâneo, que passava de branca a cinzenta, sob os últimos raios de luz. Pensava no americano. Teria de responder a muitas perguntas sobre ele.

 

O táxi virou para a Rue Verdun e seguiu em direcção ao centro da cidade, ao bairro de Sabra, onde se concentravam muitos dos refugiados da Palestina. O motorista não precisava de instruções. Olhou atentamente pelo espelho retrovisor, desligou as luzes e virou para um pequeno pátio, próximo da Rue Jeb el-Nakhel. O pátio estava escuro como breu. Dahlia podia ouvir os ruídos longínquos do trânsito e os estalidos do motor a arrefecer. Passou um minuto.

 

O táxi oscilou quando foram escancaradas as quatro portas e uma lanterna potente cegou o condutor. Dahlia sentiu o cheiro do óleo da pistola empunhada a poucos centímetros dos seus olhos.

 

O homem da lanterna aproximou-se da porta traseira do táxi e a pistola foi recolhida.

 

- Djinniy - disse ela, baixinho.

 

- Sai e acompanha-me. - Pronunciou as palavras em árabe com o sotaque do Jabal.

 

Naquele quarto sossegado, em Beirute, havia um tribunal rigoroso à espera de Dahlia lyad. Hafez Najeer, chefe da unidade de elite de informações de campo da al Fatah, a Jihaz al-Rasd (RASD), estava sentado à secretária com a cabeça encostada à parede. Era um homem alto com uma cabeça pequena. Os seus subordinados chamavam-lhe, em segredo, "A Manta Que Reza". Ser alvo de toda a sua atenção implicava sentir medo e náuseas.

 

Najeer era o comandante do Setembro Negro e não acreditava no conceito de uma "situação no Médio Oriente". A devolução da Palestina aos Árabes não o entusiasmava. Tal como Dahlia lyad, acreditava no holocausto, no fogo que purifica.

 

O mesmo acontecia com os dois outros homens que se encontravam na sala: Abu Ali, que controlava os esquadrões da morte do Setembro Negro em Itália e em França, e Muhammad Fasil, perito em artilharia e arquitecto do ataque à Aldeia Olímpica, em Munique. Ambos eram membros da RASD, o cérebro do Setembro Negro. A sua posição não era reconhecida pelo mais amplo movimento de guerrilha palestina, porque o Setembro Negro vive dentro da Al Fatah tal como o desejo vive no corpo.

 

Eram esses três homens que tinham decidido que o Setembro Negro atacaria nos Estados Unidos. Haviam sido concebidos e abandonados mais de 50 planos. Entretanto, as munições norte-americanas continuavam a entrar nas docas israelitas, em Haifa.

 

De súbito, surgira uma solução e, agora, caso Najeer desse a aprovação final, a missão ficaria nas mãos daquela jovem.

 

Atirou a sua djdlaba para cima de uma cadeira e virou-se para eles.

 

- Boa noite, camaradas.

 

- Bem-vinda, camarada Dahlia - retorquiu Nasser. Não se levantara aquando da entrada dela, nem os restantes o tinham feito. Durante o ano que passara nos Estados Unidos, o aspecto de Dahlia mudara. Estava elegante no seu fato com calças e um pouco desconcertante.

 

- O americano está pronto - disse. - Tenho a certeza de que vai em frente com o projecto. Vive para ele.

 

- Até que ponto é estável? - Najeer parecia estar a olhar-lhe para dentro do crânio.

 

- O suficiente. Apoio-o. Confia em mim.

 

- Já tinha percebido isso através dos teus relatórios, mas o código é um entrave. Alguma pergunta, Ali?

 

Abu Ali olhou cuidadosamente para Dahlia. Esta lembrava-se dele das suas conferências sobre psicologia, na Universidade Americana de Beirute.

 

- O americano parece sempre racional? - inquiriu.

 

- Sim.

 

- Mas pensas que ele é louco?

 

- A sanidade mental e a racionalidade aparente não são o mesmo, camarada.

 

- A confiança que tem em ti está a aumentar? Tem períodos de hostilidade para contigo?

 

- Por vezes, é hostil, mas não com tanta frequência.

 

- É impotente?

 

- Diz que foi impotente desde a altura em que foi libertado, no Vietname do Norte, até há cerca de dois meses. - Dahlia observou Ali.

 

Com os seus gestos curtos e suaves e os olhos húmidos fazia-lhe lembrar um gato almiscarado.

 

- Consideras que o facto de ter vencido a impotência é mérito teu?

 

- Não é uma questão de mérito, camarada. É uma questão de controlo. O meu corpo tem utilidade para a manutenção desse controlo. Se uma arma funcionasse melhor, utilizaria uma arma.

 

Najeer abanou a cabeça, em sinal de aprovação. Sabia que ela estava a dizer a verdade. Dahlia ajudara a treinar os três japoneses que tinham atacado o Aeroporto de Lod, em Telavive, disparando à toa. Originalmente, eram quatro terroristas japoneses. Um deles acobardara-se no treino e, sob o olhar dos outros três, Dahlia estoirara-lhe os miolos com uma pistola-metralhadora Schmeisser.

 

- Como podes ter a certeza de que não terá um rebate de consciência, entregando-te aos Americanos? - insistiu Ali.

 

- Que é que eles apanhariam, se o fizesse? - respondeu Dahlia.

- Sou peixe miúdo. Ficavam com os explosivos, mas os Americanos já têm uma enorme quantidade de plastique, como temos boas razões para saber. - Esta observação era dirigida a Najeer, e viu-o lançar-lhe um olhar penetrante.

 

Os terroristas israelitas utilizavam invariavelmente explosivo plástico americano C-4. Najeer lembrava-se de ter retirado o corpo do seu irmão de um apartamento em ruínas, em Bhandoun, e, depois, de ter voltado a entrar para procurar as pernas.

 

- O americano veio ter connosco porque precisava de explosivos. Sabes isso, camarada - afirmou Dahlia. - Vai continuar a precisar de mim para outras coisas. Não vamos contra as suas ideias políticas, porque não as tem. E o termo "consciência" também não se aplica a ele de acordo com o sentido habitual. Não vai denunciar-me.

 

- Vamos examiná-lo de novo - disse Najeer. - Camarada Dahlia, estudaste este homem num cenário. Permite-me que to mostre em circunstâncias completamente diferentes. Ali?

 

Abu Ali colocou um projector de filmes de 16 mm em cima da mesa e apagou as luzes.

 

- Recebemos isto, muito recentemente, de uma fonte no Vietname do Norte, camarada Dahlia. Foi mostrado, em tempos, na televisão americana, mas isso foi antes de tu teres estado na Casa da Guerra. Duvido que o tenhas visto.

 

O segmento inicial do filme, com números, surgiu desfocado na parede e um som distorcido emergiu do altifalante. À medida que o filme adquiria velocidade, o som foi-se compondo até se transformar no hino da República Democrática do Vietname e o quadrado de luz na parede transformou-se numa sala caiada de branco. Duas dúzias de prisioneiros de guerra norte-americanos encontravam-se sentados no chão. Seguiu-se um plano de uma estante com um microfone. Um homem alto e macilento aproximou-se da estante, andando devagar. Vestia o uniforme largo dos prisioneiros de guerra, meias e sandálias com correias de couro. Uma das mãos manteve-se nas pregas do uniforme, a outra estava colocada contra a coxa, quando se inclinou para os oficiais que se encontravam na parte da frente da sala. Virou-se para o microfone e falou devagar.

 

- Sou Michael J. Lander, capitão-de-corveta da Marinha dos Estados Unidos, capturado em 10 de Fevereiro de 1967, ao lançar bombas incendiárias sobre um hospital civil, perto de Ninh Binh... perto de Ninh Binh. Apesar de serem óbvias as provas dos meus crimes de guerra, a República Democrática do Vietname não me castigou, limitando-se a mostrar-me o sofrimento resultante dos crimes de guerra norte-americanos, como os meus e outros... e outros. Estou arrependido por termos morto crianças. Peço a todo o povo norte-americano que ponha fim a esta guerra. A República Democrática do Vietname não tem... não tem animosidade em relação ao povo norte-americano, mas sim em relação aos fautores da guerra que detêm o poder. Fico envergonhado por causa do que fiz.

 

A câmara girou, em movimento panorâmico, por cima dos outros prisioneiros, sentados como alunos atentos, com as faces cuidadosamente inexpressivas. O filme terminava com o hino.

 

- Bastante tosco - disse Ali, cujo inglês era quase perfeito.

 

- A mão devia estar amarrada à coxa. - Durante a projecção do filme, observara atentamente Dahlia. Por um segundo, os olhos dela tinham-se aberto, aquando do grande plano do rosto macilento. Tirando isso, permanecera impassível.

 

- Bombas incendiárias contra um hospital - comentou Ali.

 

- Então, tem experiência neste tipo de coisas.

 

- Foi capturado quando pilotava um helicóptero de socorro. Estava a tentar recuperar a tripulação de um Phantom abatido - disse Dahlia. - Viram o meu relatório.

 

- Vimos o que ele te contou - retorquiu Najeer.

 

- Ele conta-me a verdade. Não mente - retrucou. - Vivi com ele durante dois meses. Eu sei.

 

- De qualquer modo, é um ponto sem grande importância

 

- disse Ali. - Há coisas muito mais interessantes acerca dele.

 

Durante a meia hora seguinte, Ali fez-lhe perguntas acerca dos pormenores mais íntimos do comportamento do americano. Quando terminou, Dahlia teve a impressão de que havia um determinado cheiro na sala. Verdadeiro ou imaginado, levou-a de volta para o campo de refugiados palestinos em Tiro, quando tinha 8 anos, a dobrar o colchão molhado onde a sua mãe e o homem que trazia a comida tinham gemido juntos na escuridão.

 

Fasil prosseguiu com o interrogatório. Tinha as mãos grossas e capazes de um técnico e havia calos nas pontas dos seus dedos. Inclinou-se para a frente, na cadeira, com a sua malinha no chão, ao lado.

 

- O americano já lidou com explosivos?

 

- Apenas com munições militares acondicionadas. Mas planeou com cuidado e com os mínimos pormenores. O plano parece razoável - respondeu Dahlia.

 

- Parece-te razoável a ti, camarada. Talvez porque estás envolvida tão intimamente com ele. Vamos ver até que ponto é razoável.

 

Nessa altura, desejou ter ali o americano, desejou que aqueles homens pudessem ouvir a sua voz pausada enquanto reduzia, passo a passo, o seu projecto terrível a uma série de problemas claramente definidos, cada um deles com uma solução.

 

Inspirou fundo e começou a falar nos problemas técnicos implicados no assassínio de 80 000 pessoas, de uma vez só, incluindo o novo Presidente dos Estados Unidos, com toda a nação a assistir.

 

- A limitação é o peso - disse Dahlia. - Estamos limitados a

600 kg de plastique. Por favor, dêem-me um cigarro, uma caneta e um papel. - Inclinando-se sobre a secretária, desenhou uma curva que parecia um corte de uma taça. Dentro dela e ligeiramente acima, desenhou outra curva mais pequena nos mesmos parâmetros. - Este é o alvo - disse, apontando para a curva maior. A caneta mexeu-se até à curva mais pequena. - O princípio da carga adaptada...

 

- Sim, sim - interrompeu Fasil. - Como uma grande mina Daymore. Simples. A densidade da multidão?

 

- Sentada ombro a ombro, completamente exposta neste ângulo, da pélvis para cima. Preciso de saber se o plastique...

 

- O camarada Najeer dir-te-á o que precisas de saber - disse Fasil, com arrogância.

 

Dahlia continuou, sem se desconcertar:

 

- Preciso de saber se o explosivo que o camarada Najeer decidir dar-me é plastique antipessoal pré-embalado com bolas de aço, como o que se encontra numa Daymore. O peso exigido é de plastique apenas. Os contentores e esse tipo de metralha não teriam utilidade.

 

- Porquê?

 

- Peso, é claro. - Estava farta de Fasil.

 

- E se não tiveres metralha? Que acontece, camarada? Se estás a contar com a concussão, permite-me que te diga...

 

- Permite-me que te diga a ti, camarada. Preciso da tua ajuda e vou tê-la. Não ponho em causa a tua perícia. Não estamos a competir, tu e eu. Os ciúmes não têm qualquer lugar na Revolução.

 

- Diz-lhe o que pretende saber. - A voz de Najeer era dura. De imediato, Fasil disse:

 

- O plastique não está embalado com metralha. Qual vais usar?

 

- O exterior da carga moldada será coberto com dardos de espingarda de calibre 177. O americano pensa que vão dispersar a mais de 150 graus na vertical ao longo de um arco horizontal de 260 graus. Equivale a uma média de 3,5 projécteis por pessoa na zona mortal.

 

Os olhos de Fasil abriram-se. Vira uma mina Daymore americana, que não era maior do que um livro escolar, abrir um caminho de sangue numa coluna de soldados que avançavam e ceifar a erva numa gadanhada à volta deles. O que ela propunha era como que um milhar de Daymores a rebentarem ao mesmo tempo.

 

- Detonação?

 

- Detonador eléctrico accionado por um sistema de 12 volts já instalado no dirigível. Há um sistema de reserva idêntico com uma bateria separada. E também um fusível.

 

- É tudo - disse o técnico. - Terminei.

 

Dahlia olhou-o. Estava a sorrir - se de satisfação, se de medo de Hafez Najeer, era algo que ela não conseguia dizer. Perguntava-se se Fasil saberia que a curva grande representava o Tulane Stadium, onde, a 12 de Janeiro, iriam ser jogados os primeiros vinte e um minutos do jogo da Supertaça.

 

Dahlia esperou, durante uma hora, no quarto ao fundo do vestíbulo. Quando foi chamada de novo ao gabinete de Najeer, encontrou sozinho o comandante do Setembro Negro. Agora, ia saber.

 

A sala estava às escuras, exceptuando a área iluminada pelo candeeiro de secretária. Najeer, reclinado contra a parede, ocultava-se na sombra. As suas mãos encontravam-se na luz e brincavam com uma faca de comando preta. Quando falou, a sua voz era muito suave.

 

- Fá-lo, Dahlia. Mata todos os que puderes. Abruptamente, inclinou-se para a luz e sorriu, como que aliviado, com os dentes a brilhar no rosto escuro. Parecia quase jovial quando abriu a mala do técnico e retirou uma pequena estátua. Era uma figura da Virgem, como as que se encontram nas montras das lojas de artigos religiosos, com uma pintura brilhante e executada à pressa.

 

- Examina-a - disse.

 

Ela girou a figura entre as mãos. Pesava cerca de meio quilo e não tinha o tacto do gesso. Havia uma ligeira rebarba ao longo dos lados da figura como se tivesse sido moldada por pressão e não por fundição. No fundo, havia as palavras "Made in Taiwan".

 

- Plastique - disse Najeer. - Semelhante ao C-4 norte-americano, mas fabricado mais a leste. Tem algumas vantagens em relação ao C-4. Por um lado, é mais potente, embora com algumas perdas em termos de estabilidade, e é muito maleável quando aquecido acima de 50 graus Centígrados.

 

- De amanhã a duas semanas, vão chegar 1200 figuras dessas a Nova Iorque, a bordo do cargueiro Leticia. O manifesto dirá que foram transbordadas de Taiwan. O importador, Muzi, vai buscá-las ao porto. Depois, certifica-te do seu silêncio.

 

Najeer levantou-se e espreguiçou-se.

 

- Fizeste um bom trabalho, camarada Dahlia, e vieste de muito longe. Agora, vais descansar comigo.

 

Najeer tinha um apartamento parcamente mobilado num andar alto do nº 18 da Rue Verdun, semelhante aos alojamentos de que Fasil e Ali dispunham noutros andares do mesmo edifício.

 

Dahlia estava sentada ao lado da cama de Najeer, com um pequeno gravador no colo. Ele pedira-lhe que gravasse uma fita que seria utilizada pela Rádio Beirute, depois da realização do ataque.

 

Estava nua e Najeer, ao vê-la do sofá, apercebeu-se de que estava a ficar visivelmente excitada enquanto falava ao microfone.

 

- Cidadãos da América - disse -, hoje, os combatentes pela liberdade palestina desfecharam um grande golpe no coração do vosso país. Este horror foi-vos imposto pelos mercadores da morte do vosso próprio país, que apoiam os carniceiros de Israel. Os vossos dirigentes fizeram orelhas moucas aos gritos dos que não têm casa. Os vossos dirigentes ignoraram as devastações dos Judeus na Palestina e cometeram os seus próprios crimes no Sudeste asiático. Canhões, bombardeiros e centenas de milhões de dólares passaram do vosso país para as mãos dos negociantes da guerra, enquanto milhões dos vossos compatriotas morrem à fome. O povo não será renegado.

 

"Ouve isto, povo da América. Queremos ser vossos irmãos. São vocês que têm de derrubar o lixo que vos governa. Doravante, por cada árabe que morra às mãos dos Israelitas, morrerá um americano às mãos dos Árabes. Cada lugar santo muçulmano, cada lugar santo cristão destruído pelos criminosos israelitas será vingado por meio da destruição de uma propriedade na América. - O rosto de Dahlia estava corado e os seus mamilos erectos, ao continuar: - Esperamos que esta crueldade não vá mais longe. A escolha é vossa. Esperamos nunca mais começar um novo ano com um banho de sangue e sofrimento. Sctlaam aleikum.

 

Najeer estava de pé, à sua frente, e ela dirigiu-se a ele, enquanto o roupão caía ao chão.

 

A cerca de 4 km do quarto onde Dahlia e Najeer se encontravam fechados, no meio dos lençóis revoltos, uma pequena lancha lança-mísseis israelita cortava silenciosamente o Mediterrâneo.

 

A lancha parou a 1000 m a sul da Grotte aux Pigeons e uma jangada foi deitada pela borda. Doze homens armados desceram para ela. Vestiam fatos de passeio e gravatas de alfaiates russos, árabes e franceses.

 

Todos calçavam sapatos de sola de borracha e nenhum deles levava documentos de identificação. Os seus rostos eram duros. Não era a sua primeira visita ao Líbano.

 

A água estava cinzento-fumo sob a lua em quarto e o mar era agitado por uma brisa quente que soprava de terra. Oito dos homens remavam, esforçando-se por fazer os mais amplos movimentos possíveis para percorrerem os 400 m que os separavam da praia arenosa da Rue Verdun. Eram 4.11 h da manhã, vinte e três minutos antes do nascer do Sol e dezassete minutos antes de o primeiro clarão azul do dia se espalhar sobre a cidade. Em silêncio, arrastaram a jangada para a areia, cobriram-na com uma lona cor de areia e subiram rapidamente pela praia até à Rue Ramlet el-Baida, onde quatro homens e quatro carros os esperavam, recortados em silhueta contra o brilho dos hotéis de turismo, a norte.

 

Estavam apenas a poucos metros dos carros quando um Land Rover castanho e branco travou, ruidosamente, 30 m mais à frente, na Rue Ramlet, com os máximos a incidir no pequeno comboio. Dois homens com uniformes de caqui saltaram do jipe, com as armas prontas a disparar.

 

- Fiquem onde estão. Identifiquem-se.

 

Ouviu-se um barulho semelhante ao das pipocas e o pó soltou-se dos uniformes dos militares libaneses ao caírem na rua, atingidos pelas balas de 9 mm das Parabellum com silenciador dos atacantes.

 

Um terceiro militar, que se encontrava ao volante do jipe, tentou arrancar. Uma bala estilhaçou-lhe o pára-brisas e a testa. O jipe foi chocar com uma palmeira, na berma, e o polícia foi atirado para a frente, contra a buzina. Dois homens correram para o veículo e afastaram o morto da buzina, mas as luzes estavam a acender-se em alguns dos apartamentos da praia.

 

Abriu-se uma janela e ouviu-se um grito zangado, em árabe:

 

- Que raio de merda é essa? Chamem a polícia.

 

O chefe do grupo, que estava de pé junto ao jipe, respondeu gritando em árabe, com um tom rasca e avinhado:

 

- Onde está a Fátima? Vamo-nos embora se ela não vier aqui rapidamente.

 

- Bêbedos de um raio, saiam daqui ou eu mesmo chamo a polícia.

 

- Aleikum salaam, vizinho. Vou-me embora - respondeu, da rua, a voz avinhada. A luz do apartamento apagou-se.

 

Em menos de dois minutos, o mar fechou-se sobre o jipe e os corpos que continha.

 

Dois dos carros dirigiram-se para sul, pela Rue Ramlet, enquanto os outros dois viravam para a Corniche Rãs Beyrouth, percorrendo dois quarteirões, virando de novo para norte, na Rue Verdun...

 

O nº 18 da Rue Verdun era guardado dia e noite. Uma sentinela estava colocada no vestíbulo e outra, armada com uma metralhadora, vigiava do telhado do edifício que se encontrava do outro lado da rua. Agora, a sentinela do telhado estava deitada numa postura curiosa, atrás da arma, com a garganta aberta num sorriso molhado sob o luar. A sentinela do vestíbulo jazia fora da porta, onde fora averiguar quem era o bêbedo que cantava canções de embalar.

 

Najeer adormecera, quando Dahlia se libertara suavemente dele e se dirigira à casa de banho. Ficou sob o duche durante muito tempo, gozando as picadas da água. Najeer não era um amante excepcional. Sorriu, enquanto se ensaboava. Estava a pensar no americano e não ouviu os passos no hall.

 

Najeer semiergueu-se na cama quando a porta do quarto foi aberta com violência e uma lanterna o cegou.

 

- Camarada Najeer! - disse o homem, apressadamente.

 

- Aiwa.

 

A metralhadora relampejou e o sangue espirrou de Najeer quando as balas o empurraram contra a parede. O assassino varreu tudo o que se encontrava em cima da secretária de Najeer para um saco, enquanto uma explosão noutra parte do edifício abalava o quarto.

 

A rapariga nua, à porta da casa de banho, parecia petrificada de terror. O assassino apontou-lhe a metralhadora ao peito molhado e o seu dedo crispou-se no gatilho. Era um peito magnífico. A mira da metralhadora mexeu-se.

 

- Veste umas roupas, puta árabe - disse, e recuou para fora do quarto.

 

A explosão, dois andares abaixo, que rebentou com a parede do apartamento de Abu Ali, matou Ali e a mulher instantaneamente. Os atacantes, tossindo no meio do pó, tinham começado a correr em direcção às escadas, quando um homem magro, de pijama, saiu do apartamento do final do patamar, tentando engatilhar uma pistola-metralhadora. Ainda estava a tentar fazê-lo quando uma rajada de balas o atravessou, atirando pedaços do seu pijama contra a sua carne e por todo o patamar.

 

Os atacantes correram para a rua e os seus carros já roncavam em direcção ao Sul e ao mar quando se ouviram as primeiras sirenes da polícia.

 

Dahlia, envergando o roupão de banho de Najeer e apertando a mala contra si, encontrou-se na rua ao fim de alguns segundos, misturando-se com a multidão que saíra dos edifícios daquele quarteirão. Tentava desesperadamente pensar, quando sentiu uma mão forte agarrar-lhe o braço. Era Muhammad Fasil. Uma bala fizera-lhe um corte sangrento na face. Tinha a gravata enrolada na mão e comprimida contra a ferida.

 

- Najeer? - perguntou.

 

- Morto.

 

- Ali também, penso. A janela rebentou no preciso momento em que dei a volta à esquina. Alvejei-os do automóvel, mas... Ouve com atenção. Najeer deu a ordem. A tua missão tem de ser levada a cabo. Os explosivos não estão comprometidos, vão chegar a tempo. As armas automáticas também... a tua Schmeisser e uma AK-47, embaladas em separado com peças para bicicleta.

 

Dahlia olhou-o, com os olhos avermelhados pelo fumo.

 

- Vão pagar - disse. - Vão pagar 10 000 por um.

 

Fasil levou-a para uma casa segura, em Sabra, onde passou o dia. Depois de escurecer, levou-a ao aeroporto no seu calhambeque Citroen. O vestido que lhe tinham emprestado era dois números acima do seu, mas estava demasiado cansada para se preocupar com isso.

 

Às 10.30 h da noite, o 707 da Pan Am roncava por cima do Mediterrâneo e, antes de as luzes árabes terem desaparecido pela asa de estibordo, Dahlia caiu num sono de exaustão.

 

Nesse momento, Michael Lander estava a fazer a única coisa de que gostava. Estava a voar no dirigível da Aldrich, suspenso a 800 pés acima do Orange Bowl, em Miami, proporcionando uma plataforma estável à equipa de televisão que se encontrava na barquinha, atrás dele. Lá em baixo, no estádio apinhado, os campeões mundiais, os Miami Dolphins, estavam a esmagar os Pittsburgh Steelers.

 

O rugido da multidão quase afogava o rádio crepitante, por cima da cabeça de Lander. Nos dias quentes, por cima do estádio, tinha a sensação de conseguir cheirar a multidão e o dirigível parecia suspenso numa poderosa corrente ascendente de gritos insanos e calor corporal. Lander tinha a sensação de que essa corrente era suja. Preferia as viagens entre as cidades. Nessa altura, o dirigível estava limpo e silencioso.

 

Lander só muito raramente olhava para o estádio. Observava a orla do estádio e a linha de mira que traçara entre o cimo de um mastro de bandeira e a linha do horizonte para se manter exactamente a 800 pés de altitude.

 

Lander era um piloto excepcional num campo difícil. Não é fácil voar com um dirigível. O seu poder de flutuação quase neutro e a enorme superfície deixam-no à mercê do vento, caso não seja tripulado com mestria. Lander tinha um instinto de marinheiro para o vento e possuía o dom que é apanágio dos melhores pilotos - capacidade de previsão. Os movimentos de um dirigível são cíclicos e Lander estava antecipado dois movimentos, mantendo a grande baleia cinzenta no vento tal como um peixe se orienta pela corrente acima, enfiando ligeiramente o nariz nas rajadas e levantando-o aquando das calmarias, lançando a sua sombra sobre metade da zona alvo. Durante os intervalos da acção no solo, muitos dos espectadores olhavam para ele e alguns acenavam. Um tal vulto, uma forma tão comprida suspensa no ar, fascinava-os.

 

Lander tinha um piloto automático dentro da cabeça. Enquanto este comandava os ajustes constantes, mínimos, que mantinham firme o dirigível, pensava em Dahlia. A mancha de penugem nos seus rins e a sensação que tinha quando a acariciava. Os seus dentes afiados. O sabor a mel e a sal.

 

Olhou para o relógio. A esta altura, Dahlia já deveria estar a uma hora de distância de Beirute, na viagem de regresso.

 

Lander conseguia pensar calmamente em duas coisas: Dahlia e voar.

 

A sua mão com cicatrizes empurrou ligeiramente os controlos do acelerador e da inclinação das hélices e rodou para trás a grande roda de elevação, ao lado do seu assento. A grande aeronave subiu rapidamente, enquanto Lander falava ao microfone.

 

- Nora 0-1 abandonando o estádio para um passeio a 1200 pés.

 

- Recebido e entendido, Nora 0-1 - respondeu alegremente a torre de controlo de Miami.

 

Os controladores aéreos e os operadores de rádio da torre gostavam sempre de falar com o dirigível e muitos já tinham uma piada pronta, quando sabiam que ele vinha. As pessoas tinham por ele a mesma simpatia que por um panda. Para milhares de americanos que o viam em acontecimentos desportivos e em feiras, o dirigível era um amigo enorme e amável que se deslocava lentamente pelo céu. As metáforas aplicadas ao dirigível são, quase sempre, "elefante" e "baleia". Nunca ninguém diz bomba.

 

Por fim, o jogo acabou e a sombra de quase 100 m do dirigível passou sobre os carros, que, em filas de quilómetros, abandonavam o estádio. O operador de câmara da televisão e o seu assistente tinham embalado o equipamento e estavam a comer sanduíches. Lander trabalhara amiúde com eles.

 

O sol-poente estendia uma faixa dourada e avermelhada por Biscayne Bay enquanto o dirigível se encontrava por cima da água.

 

Depois, Lander virou para norte e navegou a cerca de 50 m da praia de Miami, enquanto a equipa de televisão e o mecânico de voo assestavam os seus binóculos nas raparigas de biquini. Alguns dos banhistas acenaram.

 

- Ei, Mike, a Aldrich fabrica camisas-de-vénus? - Person, o operador de câmara, estava a gritar, com a boca cheia de sanduíche.

 

- Sim - respondeu Lander, por sobre o ombro. - Camisas-de-vénus, pneus, equipamentos antigelo, escovas de limpa-pára-brisas, brinquedos para a banheira, balões para crianças e sacos para corpos.

 

- Nesse trabalho, tens camisas-de-vénus de borla?

 

- Claro. Tenho uma posta.

 

- Que é um saco para corpos?

 

- É um grande saco de borracha. Tamanho único - retorquiu Lander. - Por dentro, são escuros. O Tio Sam utiliza-os como camisas-de-vénus.

 

Se vires alguns, sabes que andou a fazer das suas. - Não seria difícil premir o botão contra Pearson; não seria difícil premir o botão contra qualquer deles.

 

O dirigível não voava com frequência durante o Inverno. Passava o Inverno perto de Miami, num grande hangar que tornava minúsculos os restantes edifícios junto ao campo de aviação. Todas as Primaveras, dirigia-se para norte, a uma velocidade entre 35 e 60 nós, dependendo do vento, aparecendo em feiras estaduais e jogos de basebol. A empresa Aldrich dava a Lander um apartamento perto do Aeroporto de Miami, durante o Inverno, mas, neste dia, mal a grande aeronave ficou amarrada, ele apanhou o voo da National para Newark e dirigiu-se para sua casa, perto da base do dirigível no Norte, em Lakehurst, Nova Jérsia.

 

Quando a mulher de Lander o abandonara, deixara-lhe a casa. Hoje, as luzes ficaram acesas até tarde na garagem-oficina, enquanto Lander trabalhava e esperava por Dahlia. Estava junto à bancada, a mexer uma lata de resina epoxídea, cujo cheiro forte enchia a garagem. No chão, a seu lado, encontrava-se um objecto curioso com mais de 5 m. Era um molde que Lander fizera a partir do casco de um pequeno barco à vela. Invertera o casco e dividira-o ao longo da quilha. As metades estavam a 50 centímetros de distância e ficavam ligadas por meio de um arco vulgar, grande. Visto de cima, o molde parecia uma grande ferradura aerodinâmica. A construção do molde tomara-lhe os tempos livres, durante semanas. Agora, estava coberto de gordura e pronto.

 

Lander, assobiando baixo, aplicava camadas de tecido de fibra de vidro e resina no molde, alisando as arestas com precisão. Quando a concha de fibra de vidro endurecesse e a retirasse do molde, teria uma barquinha leve e polida que se inseriria perfeitamente sob a gôndola do dirigível da Aldrich. A abertura no centro adaptar-se-ia ao único trem de aterragem do dirigível e à antena do seu emissor de sinais. A estrutura de transporte de carga que ficaria dentro da barquinha estava dependurada de um prego, na parede da garagem. Era muito leve e muito forte, com quilhas duplas de tubagem cromada Reynolds 5130 e costilhas do mesmo material.

 

Lander transformara a garagem dupla numa oficina enquanto estivera casado e fizera lá grande parte das suas mobílias, nos anos anteriores à sua ida para o Vietname. As coisas que a mulher não quisera levar ainda estavam arrumadas por cima dos caibros do telhado - um cadeirão, uma mesa dobravel de campismo, mobiliário de jardim em vime. A luz fluorescente era crua e Lander usava um boné de basebol enquanto girava em redor do molde, assobiando baixo.

 

Pouco depois das 4 h da manhã, o telefone tocou. Lander atendeu na extensão da garagem.

 

- Michael?

 

A entoação britânica da fala dela surpreendia-o sempre e imaginava-a com o telefone enterrado no cabelo escuro.

 

- Quem havia de ser?

 

- A avó está óptima. Estou no aeroporto e vou para aí mais tarde. Não fiques à minha espera.

 

- Quê...

 

- Michael, estou doida para te ver. - O telefone desligou-se. O Sol estava quase a nascer quando Dahlia virou para o caminho de acesso da casa de Lander. As janelas estavam às escuras. Sentia-se apreensiva, mas não tanto como antes do seu primeiro encontro nessa altura, sentira que estava no quarto com uma cobra que não conseguia ver. Depois de ter vindo viver com ele, separara a parte mortífera de Michael Lander da restante parte dele. Agora, quando estava com ele, sentia que estavam ambos no quarto com a cobra, e conseguia perceber onde estava e se estaria a dormir.

 

Fez mais barulho do que seria necessário ao entrar em casa e cantou o nome dele, baixinho, para combater o silêncio, enquanto subia as escadas. Não pretendia sobressaltá-lo. O quarto de dormir estava escuro como breu.

 

Da entrada da porta, conseguia ver o brilho do seu cigarro, como um minúsculo olho vermelho.

 

- Olá - disse.

 

- Vem cá.

 

Atravessou a escuridão, dirigindo-se para o brilho. O seu pé tocou na carabina de canos serrados, colocada em segurança no chão, ao lado da cama. Estava tudo bem. A cobra encontrava-se a dormir.

 

Lander estava a sonhar com baleias e tinha relutância em sair do sono. No seu sonho, a grande sombra do dirigível da Marinha movia-se por cima do gelo lá de baixo, enquanto voava ao longo de um dia sem fim. Estava-se em 1965 e voava por cima do Pólo.

 

As baleias estavam a aquecer-se ao sol do Árctico e só viam o dirigível quando este se encontrava quase sobre elas. Então, mergulhavam, com os lobos da cauda levantados sob um candelabro de borrifos enquanto deslizavam sob uma crista de gelo azul debaixo do oceano Glacial Árctico. Olhando para baixo, da gôndola, Lander ainda conseguia ver as baleias suspensas sob a crista. Num espaço frio e azul onde não havia ruídos.

 

Depois, estava sobre o Pólo e a bússola magnética enlouquecera. A actividade solar interferia com o omnidireccional e, com Fletcher na roda do elevador, ele guiou-se pelo Sol enquanto a bandeira, com o seu mastro pesado, descia desfraldada em direcção ao gelo.

 

- A bússola - disse, caminhando pela casa. - A bússola.

 

- O feixe omnidireccional de Spitsbergen, Michael - asseverou Dahlia, pondo-lhe a mão no rosto. - Está aqui o teu pequeno-almoço.

 

Conhecia o sonho. Esperava que ele sonhasse frequentemente com as baleias. Nessas alturas, era mais fácil.

 

Lander tinha à sua frente um dia difícil e não podia ficar com ele. Abriu as cortinas e a luz do Sol invadiu o quarto.

 

- Quem me dera que não tivesses de sair.

 

- Vou dizer-te outra vez - retorquiu Lander. - Quando tens licença de pilotagem és controlado cuidadosamente. Se não apareceres, enviam um funcionário da Repartição dos Ex-Combatentes com um questionário. Têm um impresso. É assim... "A. Repare no estado da casa. B. O indivíduo parece deprimido?" Desta forma. E nunca mais acaba.

 

- Consegues resolver isso.

 

- Um telefonema para a Direcção-Geral da Aeronáutica, uma insinuação velada de que posso estar abalado e já está. Fico em terra. E se o funcionário for espreitar a garagem? - Bebeu o sumo de laranja.

- Ademais, quero ver outra vez os funcionários.

 

Dahlia estava de pé, junto à janela, sentindo o calor do Sol nas faces e no pescoço.

 

- Como te sentes?

 

- Queres saber se hoje estou maluco? Não, por acaso não estou.

 

- Não era isso que queria dizer.

 

- Uma merda que não querias. Vou apenas para um gabinetezinho com um deles, fechamos a porta e ele vai contar-me as coisas novas que o Governo vai fazer por mim. - Havia algo a debater-se por detrás do olhar de Lander.

 

- Muito bem, estás maluco hoje? Vais estragar tudo? Vais deitar a mão a um funcionário da Repartição dos Ex-Combatentes e matá-lo e deixar que os outros te agarrem? Depois, podes ficar sentado numa cela, a cantar e a masturbar-te. Deus Abençoe a América e Nixon.

 

Utilizara dois detonadores ao mesmo tempo. Antes, tentara utilizá-los separadamente e agora observava, para ver como funcionavam juntos.

 

A memória de Lander era intensa. As recordações, quando acordado, podiam fazê-lo estremecer. Enquanto dormia, faziam-no gritar, por vezes.

 

Masturbação: aguarda norte-vietnamita a apanhá-lo em acção na cela e a obrigá-lo a fazê-lo em frente aos outros.

 

Deus Abençoe a América e Nixon: o cartaz manuscrito que o oficial da Força Aérea encostara à janela do C-141, na Base Aérea de Clark, nas Filipinas, quando os prisioneiros voltavam para casa. Lander, que estava sentado do outro lado da cabina, lera-o invertido, com o sol a brilhar através do papel.

 

Agora, os seus olhos estavam semicerrados, enquanto olhava para Dahlia. A boca abriu-se ligeiramente e o seu rosto estava relaxado. Era o momento perigoso. Manteve-se durante uns segundos vagarosos enquanto os grãos de poeira fervilhavam ao sol, fervilhavam em redor de Dahlia e da pequena e feia caçadeira de canos serrados, ao lado da cama.

 

- Não precisas de fazer as duas coisas ao mesmo tempo, Michael - disse ela, suavemente. - E quanto à outra, nem sequer é preciso que sejas tu a fazê-la. Eu quero fazê-la por ti. Adoro fazê-lo.

 

Estava a dizer a verdade. Lander sabia sempre. Os seus olhos abriram-se de novo e, daí a pouco, já não conseguia ouvir o seu coração.

 

Corredores sem janelas. Michael Lander a caminhar através do ar morto do edifício da repartição, ao longo dos enormes soalhos onde a enceradora andara de cá para lá, em arcos brilhantes. Guardas com o uniforme azul da segurança verificavam embrulhos. Lander não tinha embrulhos.

 

A recepcionista estava a ler um romance chamado Uma Enfermeira para Casar.

 

- Chamo-me Michael Lander.

 

- Tirou um número?

 

- Não.

 

- Tire um número.

 

Ele retirou um disco numerado de um tabuleiro que se encontrava ao lado da secretária.

 

- Qual é o seu número?

 

- O 36.

 

- Qual é o seu nome?

 

- Michael Lander.

 

- Invalidez?

 

- Não. Estão à minha espera hoje. - Estendeu-lhe a carta da Repartição de Ex-Combatentes.

 

- Sente-se, por favor. - Virou-se para o microfone, a seu lado.

 

- 17.

 

O 17, um jovem abatido com um blusão de vinilo, passou a correr junto de Lander e desapareceu no emaranhado de corredores por detrás da secretária.

 

Cerca de metade das cadeiras da sala de espera estavam ocupadas. Os homens eram, na sua maioria, jovens, antigos soldados de infantaria, que pareciam tão desmazelados vestidos à civil como quando usavam uniforme. Lander conseguia imaginá-los a jogar nas máquinas, num terminal rodoviário, com o uniforme de passeio todo amarrotado.

 

À frente de Lander estava sentado um homem com uma cicatriz brilhante por cima da têmpora. Tentara encobri-la com o cabelo. A cada dois minutos, tirava o lenço do bolso e assoava-se. Tinha um lenço em cada bolso.

 

O homem ao lado de Lander estava sentado muito quieto, com as mãos agarradas às coxas. Só os seus olhos se mexiam. Nunca descansavam, seguindo todas as pessoas que atravessavam a sala. Amiúde, tinha de se esforçar para virar suficientemente os olhos, dado que não virava a cabeça.

 

Num pequeno gabinete, no labirinto por detrás da secretária, Harold Pugh estava à espera de Lander. Pugh era um funcionário de escalão elevado e ainda estava em progressão na carreira. Considerava a sua nomeação para a secção especial de prisioneiros de guerra "uma distinção".

 

As novas funções de Pugh tinham acarretado uma quantidade considerável de leituras. Entre as resmas de comunicações, havia uma do médico psiquiatra-chefe da Força Aérea, que dizia: "Não é possível que um homem exposto a fortes graus de violência, isolamento e carência não desenvolva uma depressão provocada pela raiva extrema reprimida durante um longo período de tempo. Trata-se apenas de saber quando e como essa reacção depressiva virá à superfície e se manifestará."

 

Pugh tencionava ler as comunicações logo que conseguisse arranjar tempo para o fazer. A folha de serviço militar que se encontrava em cima da mesa de Pugh era impressionante. Enquanto esperava por Lander, tornou a folheá-la.

 

Lander, Michael L., 0214278603. Coreia 1951, Academia Naval. Classificações muito elevadas. Treino com objectos voadores mais leves do que o ar em Lakehurst, N. J., 1954. Classificação excepcional. Recomendado para a pesquisa sobre a congelação nos aviões. Expedição polar da Marinha

  1. Transferido para a Administração quando a Marinha começou a extinguir por fases o seu programa de dirigíveis em J 964. OJereceu-se como voluntário para os helicópteros 1964. Vietname. Duas comissões. Abatido perto de Dong Hoi 10 de Fevereiro de 1967. Prisioneiro de guerra durante seis anos.

 

Pugh achava estranho que um oficial com a folha de Lander tivesse saído da tropa. Havia ali qualquer coisa que não batia muito certo. Pugh lembrou-se dos interrogatórios à porta fechada depois do regresso dos prisioneiros de guerra. Talvez fosse melhor não perguntar a Lander por que razão se demitira.

 

Olhou para o relógio. 3.40 h. O tipo estava atrasado. Carregou no botão do telefone que tinha em cima da secretária e a recepcionista atendeu.

 

- O Sr. Lander já chegou?

 

- Quem, Sr. Pugh?

 

- Lander. Lander. É um dos especiais. Tem instruções para o trazer cá, imediatamente, quando chegar.

 

- Sim, Sr. Pugh. Assim farei.

 

A recepcionista voltou para o romance. Às 3.50 h, porque precisava de uma marca, pegou na carta de Lander. O nome chamou-lhe a atenção.

 

- 36. 36. - Ligou para o escritório de Pugh. - O Sr. Lander já chegou.

 

Pugh ficou ligeiramente surpreendido com o aspecto de Lander, que parecia elegante com o seu uniforme de piloto civil. Movimentava-se com brusquidão e o seu olhar era directo. Pugh imaginara-se a lidar com homens de olhar vazio.

 

O aspecto de Pugh não surpreendeu Lander. Durante toda a vida odiara funcionários.

 

- Está com bom aspecto, capitão. Recuperou muito bem, diria mesmo.

 

- Muito bem.

 

- É bom estar de novo com a família, estou certo. Lander sorriu, mas os olhos não tomavam parte no sorriso.

 

- A família está bem, penso.

 

- Não está consigo? Pensava que era casado, diz aqui, vejamos, sim. Dois filhos?

 

- Sim, tenho dois filhos. Sou divorciado.

 

- Desculpe. A pessoa que se ocupava do seu caso antes de mim, Gorman, deixou muito poucas anotações, receio. - Gorman fora promovido por incompetência.

 

Lander olhava firmemente para Pugh, com um ténue sorriso nos lábios.

 

- Quando se divorciou, capitão Lander? Tenho de actualizar isto.

 

Pugh era como uma vaca doméstica a pastar placidamente à beira de um pântano sem se aperceber daquilo que se encontrava, mais abaixo, na sombra negra, a observá-la.

 

De súbito, Lander estava a falar acerca de coisas em que nunca podia pensar. Nunca pensava.

 

- A primeira vez em que ela meteu os papéis foi dois meses antes da minha libertação. Enquanto as conversações de Paris estavam em banho-maria por causa das eleições, julgo. Mas não foi avante com isso, na altura. Mudou-se um ano depois de eu ter regressado. Por favor, não se sinta incomodado, Pugh, o Governo fez tudo o que podia.

 

- Tenho a certeza, mas deve...

 

- Um oficial de marinha apareceu várias vezes lá em casa, depois de eu ter sido capturado, e tomou chá com Margaret e deu-lhe conselhos. Há um procedimento-padrão para preparar as mulheres dos prisioneiros de guerra, como estou certo de que sabe.

 

- Penso que por vezes...

 

- Ele explicou-lhe que há uma cada vez maior incidência de homossexualidade entre os prisioneiros de guerra libertados. Assim, ela ficava a saber o que a esperava, percebe? - Lander queria parar. Tinha de parar.

 

- É melhor deixar...

 

- Disse-lhe que a esperança de vida de um prisioneiro de guerra libertado é de cerca de metade da média. - Agora, Lander exibia um enorme sorriso.

 

- Capitão, certamente que houve outros factores.

 

- Oh, é claro, ela já tinha um garanhão em vista, se é que me faço entender. - Lander riu, com o velho espinho a atravessá-lo e a pressão a subir por detrás dos seus olhos. Não precisas de as fazer ao mesmo tempo, Michael. Senta-te na cela e canta e masturba-te.

 

Lander fechou os olhos para não ver a pulsação na garganta de Pugh.

 

O reflexo de Pugh foi rir com Lander, para se desculpar, mas sentia-se ofendido, numa atitude bastante própria de um baptista, com as referências ordinárias e fluentes ao sexo. Parou de rir mesmo a tempo. Esse acto salvou-lhe a vida.

 

Pugh pegou de novo no processo.

 

- Foi acompanhado nesse transe? Agora, Lander estava mais calmo.

 

- Oh, sim. Um psiquiatra do Hospital Naval de Santo. Alban discutiu o assunto comigo. Estava a beber uma coisa qualquer.

 

- Se sentir necessidade de mais ajuda posso tratar disso. Lander pestanejou.

 

- Olhe, Sr. Pugh. O senhor é um homem vivido e eu também. Estas coisas acontecem. A razão pela qual quero falar consigo é ver se consigo uma indemnização por causa desta barbatana. - Estendeu a mão defeituosa.

 

Agora, Pugh estava em terreno familiar. Retirou do processo o formulário 214 de Lander.

 

- Dado que, obviamente, não está deficiente, temos de encontrar uma maneira, mas... - Piscou os olhos a Lander. - Vamos cuidar de si.

 

Eram 4.30 h da tarde e o engarrafamento do final do dia já começara quando Lander saiu do edifício da Repartição dos Ex-Combatentes e deparou com a tarde soalheira de Manhattan. Sentia um suor frio nas costas enquanto estava de pé nos degraus a observar as multidões dos bairros periféricos precipitando-se para a estação do metro da Rua 23. Não podia ir para lá com eles e ser empurrado para o comboio.

 

Muito do pessoal da repartição estava a ir-se embora mais cedo do emprego. Uma torrente deles precipitou-se pelas portas do edifício e atirou-o contra a parede. Queria lutar. Margaret veio ter com ele a correr e conseguiu cheirá-la e senti-la. A falar disso junto a uma secretária de contraplacado. Tinha de pensar em alguma coisa. No apito da chaleira. Nisso não, pelo amor de Deus. Agora, sentia uma dor aguda no cólon e procurou um comprimido de Lomotil. Era demasiado tarde para o Lomotil. Tinha de encontrar uma casa de banho. Rapidamente. Regressou à sala de espera, sentindo o ar viciado como teias de aranha no seu rosto. Estava pálido e tinha a testa perlada de suor quando entrou na pequena casa de banho. A única retrete estava ocupada e havia outro homem à espera fora dela. Lander deu meia volta e percorreu de novo a sala de espera. Colite espástica, dizia a sua ficha clínica. Não fora receitada medicação. Descobrira sozinho o Lomotil.

 

Por que razão não o tomei antes?

 

O homem com os olhos que se mexiam seguiu Lander enquanto pôde, sem virar a cabeça. A dor nos intestinos de Lander chegava agora em ondas, fazendo-lhe pele de galinha nos braços, e sentia náuseas.

 

O porteiro gordo procurou entre as suas chaves e abriu a porta da casa de banho dos funcionários para Lander. Enquanto esperava cá fora, o porteiro não podia ouvir os sons desagradáveis. Por fim, Lander virou a cara para o tecto envernizado. As ânsias de vómito tinham-lhe marejado os olhos de lágrimas, que lhe escorriam pelas faces.

 

Durante alguns segundos, estava agachado à beira do caminho, com os guardas a olharem, na marcha forçada para Hanói.

 

Era igual, igual. O assobio da chaleira voltou.

 

- Cabrões - grunhiu Lander. - Cabrões.

 

Limpou a cara com a mão defeituosa.

 

Dahlia, que passara um dia atarefado com os cartões de crédito de Lander, estava no cais quando ele saiu do comboio suburbano.

 

Viu-o descer cuidadosamente os degraus e compreendeu que estava a tentar não sacudir as entranhas.

 

Encheu um copo de papel com água do chafariz e tirou um frasquinho da mala. A água tornou-se leitosa quando lhe misturou o elixir paregórico.

 

Só a viu quando já estava a seu lado, estendendo-lhe o copo.

 

Sabia a alcaçuz amargo e deixava uma ligeira dormência nos lábios e na língua. Antes de terem chegado ao carro, o ópio estava a aplacar a dor, que desapareceu ao fim de cinco minutos. Quando chegaram a casa, ele atirou-se para cima da cama e dormiu durante três horas.

 

Lander acordou confuso e anormalmente desperto. As suas defesas estavam a funcionar e a sua mente afastou-se das imagens dolorosas com a velocidade de uma bala. Os seus pensamentos deslizaram por sobre imagens agradáveis. Não estragara tudo, hoje, podia estar descansado.

 

A chaleira - o seu pescoço ficou rígido. Parecia-lhe ter comichão algures entre os ombros e o córtex, num local onde não conseguia chegar. Os pés não paravam quietos.

 

A casa estava completamente às escuras, com os fantasmas logo atrás da luz da lareira da sua vontade. Então, da cama, viu uma luz tremeluzente que subia as escadas. Dahlia trazia uma lamparina e a sua sombra enorme projectava-se na parede. Trazia um vestido escuro que chegava até ao chão e a cobria completamente e os seus pés descalços não faziam barulho. Agora, estava de pé a seu lado e a candeia parecia um minúsculo ponto nos seus olhos escuros e grandes. Estendeu-lhe a mão.

 

- Vem, Michael. Vem comigo.

 

Recuando devagar ao longo do vestíbulo escuro, conduziu-o, olhando-o no rosto. Tinha o cabelo preto espalhado pelos ombros.

 

A recuar, com os seus pés brancos a espreitarem sob a bainha. Recuaram até ao que fora o quarto de brinquedos e que se encontrava vazio havia sete meses. Agora, à luz da candeia, Lander podia ver que havia uma cama enorme à espera deles, no fundo do quarto, e que as paredes estavam cobertas com pesadas cortinas. O incenso tocou-lhe no rosto e a pequena chama azulada de uma lamparina de álcool tremelicava numa mesa perto da cama. Já não era o quarto onde Margaret... não, não, não.

 

Dahlia colocou a sua candeia junto à lamparina e, com gestos suaves, despiu o casaco do pijama a Lander. Desfez-lhe o nó do cinto e ajoelhou para lhe retirar as calças pelos pés, com os seus cabelos a roçarem-lhe na coxa.

 

- Hoje, foste tão forte.

 

Empurrou-o suavemente para a cama. Debaixo dele, a seda estava fria e o ar era um desejo frio nos seus órgãos genitais.

 

Ficou deitado, olhando-a enquanto acendia dois círios nuns castiçais que estavam pendurados nas paredes. Ela estendeu-lhe o esguio cachimbo de haxixe e ficou de pé, aos pés da cama, com as sombras das velas a mexerem-se atrás de si.

 

Lander sentiu que estava a cair naqueles olhos sem fundo. Lembrava-se da sua infância, quando se deitava na relva, nas noites claras de Verão, a olhar para os céus que, de súbito, adquiriam dimensões e profundidade. A olhar para cima até que deixava de haver cimo e estava a cair nas estrelas.

 

Dahlia deixou cair o vestido e ficou de pé, à sua frente.

 

A sua imagem penetrou-o como acontecera na primeira vez e a sua respiração ficou retida na garganta. Os seios de Dahlia eram grandes e as suas curvas não eram as de um navio, mas sim as de uma cúpula, e formavam um rego, mesmo quando estavam soltos. Os mamilos escureciam à medida que ficavam erectos. Era opulenta, mas não demasiado, com as suas curvas e concavidades banhadas pela luz das velas.

 

Lander sentiu um choque suave quando ela se voltou para retirar o vaso de óleo aromático de cima da lamparina de álcool e a luz dançou no seu corpo. Ajoelhando por cima dele, esfregou-lhe o óleo quente no peito e na barriga, com os seios a balançarem ligeiramente enquanto o fazia.

 

Ao inclinar-se para a frente, a sua barriga arredondava-se ligeiramente e cavava-se de novo em direcção ao triângulo escuro, que crescia espesso e suave pela sua barriga acima, uma explosão negra irradiando em tufos como se estivesse a tentar trepar. Sentia-o tocar-lhe no umbigo e, ao olhar para baixo, viu suspensas nos caracóis, como pérolas à luz da vela, as primeiras gotas do fluido essencial que emanava dela.

 

Sabia que iria banhá-lo e que seria quente, no seu escroto, e saberia a bananas e a sal.

 

Dahlia encheu a boca com o óleo doce e quente e manteve-o lá, abanando gentilmente a cabeça, ao ritmo profundo do sangue dele, com o cabelo a derramar calor sobre ele.

 

E, durante todo esse tempo, os seus olhos, afastados como os de uma puma e cheios como a Lua, nunca se afastaram do seu rosto.

 

Um som semelhante ao ribombar lento de um trovão agitou o ar do quarto de cama e as luzes das velas tremeram, mas Dahlia e Lander, presos um ao outro, não reparam. Era um som habitual - o último voo de ligação entre Nova Iorque e Washington. O Boeing 727 estava

6000 pés acima de Lakehurst e continuava a subir.

 

Nessa noite, transportava o caçador. Era um homem de ombros largos, com um fato castanho-claro, e estava sentado na coxia, mesmo atrás da asa. A hospedeira andava a cobrar os bilhetes. Estendeu-lhe uma nota nova de 50 dólares. Ela franziu o rosto ao vê-la.

 

- Não tem uma nota mais pequena?

 

- Para dois bilhetes - disse, apontando para o homem grande que dormia a seu lado. - Para o dele e para o meu.

 

Tinha um sotaque que a hospedeira não conseguiu identificar. Partiu do princípio de que era alemão ou holandês. Estava enganada.

 

Era o major David Kabakov, do Mossad Aliyah Beth, os serviços secretos israelitas, e esperava que os três homens que se encontravam sentados do outro lado da coxia, atrás dele, tivessem notas mais pequenas para pagarem os seus bilhetes. Caso contrário, a hospedeira poderia lembrar-se deles. Devia ter tratado disso em Telavive, pensou. A ligação no Aeroporto Kennedy fora demasiado apertada para lhe permitir arranjar trocos. Era um pequeno erro, mas aborrecia-o. O major Kabakov sobrevivera até aos 37 anos porque não cometia muitos erros.

 

A seu lado, o sargento Robert Moshevsky ressonava calmamente, com a cabeça para trás. No longo voo de Telavive, nem Kabakov nem Moshevsky tinham feito qualquer sinal de reconhecimento aos três homens que se encontravam atrás, embora já os conhecessem havia anos. Os três eram homens corpulentos, com rostos marcados pelo tempo, e vestiam fatos sóbrios e desmazelados. Constituíam aquilo a que o Mossad chamava uma "equipa de incursão táctica". Na América, chamar-lhe-iam um pelotão de ataque.

 

Nos três dias que haviam decorrido desde que matara Hafez Najeer, em Beirute, Kabakov pouco dormira e sabia que tinha de dar instruções pormenorizadas mal chegasse à capital norte-americana. O Mossad, ao analisar o material trazido da incursão contra as chefias do Setembro Negro, actuara de imediato depois de passada a gravação. Houvera uma conferência apressada na embaixada americana e Kabakov recebera guia de marcha.

 

Ficara perfeitamente entendido na reunião de Telavive, entre os Americanos e os serviços secretos israelitas, que Kabakov era enviado para os Estados Unidos para ajudar os Americanos a descobrir se havia uma ameaça real e para ajudar a identificar os terroristas, caso pudessem ser localizados. As suas ordens oficiais eram claras.

 

Mas o alto-comando do Mossad dera-lhe uma directiva adicional, que era simples e inequívoca. Tinha de deter os árabes utilizando todos os meios que fossem necessários.

 

As negociações para a venda de mais jactos Phantom e Skyhawk a Israel estavam numa fase crítica e a pressão dos Árabes contra a venda era intensificada pela escassez de petróleo no Ocidente. Israel tinha de conseguir aqueles aviões. No primeiro dia em que os Phantom não brilhassem por cima do deserto, os tanques árabes pôr-se-iam em marcha.

 

Uma grande atrocidade dentro dos Estados Unidos iria fazer pender o equilíbrio do poder para o lado dos isolacionistas americanos. Para os Americanos, ajudar Israel não deveria ter um preço demasiado elevado.

 

Nem o Ministério dos Negócios Estrangeiros israelita nem o americano sabiam dos três homens que se encontravam sentados atrás de Kabakov. Iriam instalar-se num apartamento perto do Aeroporto Nacional e aguardariam que os chamasse. Kabakov esperava que isso não fosse necessário. Preferiria tratar do assunto ele mesmo, sem alarido.

 

Kabakov esperava que os diplomatas não se metessem no seu trabalho. Não tinha confiança nem em diplomatas nem em políticos. A sua atitude e abordagem tinham reflexo nas suas feições eslavas - brutas mas inteligentes.

 

Kabakov acreditava que os judeus descuidados morrem novos e que os fracos acabam atrás de arame farpado. Fora um dos filhos da guerra, que fugira da Letónia, com a família, pouco antes da invasão alemã e, mais tarde, fugira aos Russos. O pai morrera em Treblinka. A mãe levara Kabakov e a irmã para Itália, numa viagem que a matara. Enquanto avançava penosamente para Trieste, sentia um fogo dentro de si que lhe dava força e, ao mesmo tempo, lhe consumia a carne.

 

Quando Kabakov se lembrava, a uma distância de 30 anos, da estrada para Trieste, via-a com o braço da sua mãe a atravessar-se, na diagonal, no seu campo de visão, enquanto ela seguia em frente, de mão dada com ele, e com o cotovelo, nodoso no braço magro, a aparecer por entre os andrajos. E lembrava-se do seu rosto, quase incandescente, quando acordava os filhos antes de os primeiros raios de luz atingirem a vala onde estavam a dormir.

 

Em Trieste, entregara os filhos à resistência sionista e morrera num portal, do outro lado da rua.

 

David Kabakov e a irmã chegaram à Palestina em 1946 e pararam de correr. Aos 10 anos, ele era correio do Palmach e lutava na defesa da estrada Telavive-Jerusalém.

 

Após 27 anos de guerra, Kabakov conhecia melhor do que muitos homens qual era o valor da paz. Não odiava o povo árabe., mas acreditava que tentar negociar com a Al Fatah era uma grande merda. Era essa a expressão que utilizava quando era consultado sobre isso pelos seus superiores, o que não acontecia amiúde.

 

O Mossad considerava Kabakov um bom oficial de informações, mas a sua folha de combate era notável e tinha demasiado êxito em campo para ser posto atrás de uma secretária. Em campo, corria o risco de ser capturado e, por isso, era excluído necessariamente dos órgãos dirigentes do Mossad. Continuava no braço executivo dos serviços secretos, atacando sem cessar os bastiões da Al Fatah no Líbano e na Jordânia. A cúpula do Mossad chamava-lhe "A Solução Final".

 

Nunca ninguém lhe dissera isso na cara.

 

As luzes de Washington giraram sob a asa, quando o avião virou para a rota de aterragem no Aeroporto Nacional. Kabakov reparou no Capitólio, de uma brancura alva sob os projectores. Perguntou-se se o Capitólio seria o alvo.

 

Os dois homens que esperavam na pequena sala de reuniões da embaixada de Israel olharam atentamente para Kabakov quando este entrou com o embaixador Yoachim Tell. Ao olhar para o major israelita Sam Corley, do Federal Bureau of Investigation, lembrou-se de um capitão dos Rangers, vinte anos antes, o seu comandante em Fort Benning.

 

Fowler, da Centrak Intelligence Agency, nunca fizera o serviço militar. Kabakov lembrava-lhe um buldogue de luta. Ambos os homens tinham estudado apressadamente os dossiers existentes sobre o israelita, mas estes relacionavam-se, na sua maioria, com a Guerra dos Seis Dias e a Guerra de Outubro e eram formados por velhas fotocópias da secção do Médio Oriente da CIA. Recortes. "Kabakov, o Tigre do Desfiladeiro de Mitla" -jornalismo.

 

O embaixador Tell, que ainda envergava o traje de cerimónia com que comparecera numa recepção de embaixada, fez umas breves apresentações.

 

A sala ficou em silêncio e Kabakov premiu o botão do seu pequeno gravador. A voz de Dahlia lyad encheu o silêncio: "Cidadãos da América..."

 

Quando a fita terminou, Kabakov falou devagar e cuidadosamente, pesando as palavras.

 

- Pensamos que a Ailul ai Aswad (Setembro Negro) está a preparar-se para atacar aqui. Desta vez, não estão interessados em reféns ou negociações ou em teatralidades revolucionárias. Pretendem um máximo de baixas... querem que vocês fiquem enojados. Julgamos que o plano já está muito avançado e que esta mulher é uma das peças principais. - Fez uma pausa. - Achamos que é provável que agora se encontre neste país.

 

- Então, deve ter informações que complementem esta gravação

 

- disse Fowler.

 

- É complementada pelo facto de sabermos que querem atacar aqui e quais as circunstâncias em que a fita foi encontrada. Já tentaram antes - retorquiu Kabakov.

 

- Trouxe a fita do apartamento de Najeer, depois de o ter morto?

 

- Sim.

 

- Não o interrogou primeiro?

 

- Interrogar Najeer teria sido inútil.

 

Sam Corley viu a raiva no rosto de Fowler. Corley olhou para o processo que tinha à frente.

 

- Porque pensa que foi a mulher que viu no quarto que fez a gravação?

 

- Porque Najeer não teve tempo para a pôr em lugar seguro - respondeu Kabakov. - Não era um homem descuidado.

 

- Não era suficientemente cuidadoso para o impedir de o matar - disse Fowler.

 

- Najeer durou muito - retrucou Kabakov. - O tempo suficiente para acontecerem Munique, o Aeroporto de Lod, demasiado tempo. Agora, se não tiverem cuidado, vão voar braços e pernas americanos.

 

- Por que razão pensa que o plano irá em frente, agora que Najeer está morto?

 

Corley levantou os olhos do dip que estava a examinar e respondeu ele próprio a Fowler:

 

- Porque a fita era perigosa. Fazê-la seria quase o último passo. As ordens estariam dadas. Tenho razão, major?

 

Kabakov sabia reconhecer um perito em interrogatórios quando deparava com um. Corley estava a ser o advogado.

 

- Precisamente - retorquiu.

 

- Uma operação podia ser montada noutro país e transferida para aqui no último minuto - disse Corley. - Por que pensa que essa mulher está colocada cá?

 

- O apartamento de Najeer estivera a ser vigiado durante algum tempo - explicou Kabakov. - Não foi vista em Beirute antes ou depois da noite da incursão. Dois linguistas do Mossad analisaram a fita separadamente e chegaram à mesma conclusão: aprendeu inglês, em criança, com um inglês, mas tem estado sob influência do inglês americano no último ano ou nos últimos dois anos. No quarto, foram encontradas roupas de fabrico americano.

 

- Talvez fosse apenas um correio, a receber as últimas instruções de Najeer - disse Fowler. - As instruções podiam ser dadas em qualquer lado.

 

- Se ela fosse apenas um correio, nunca teria visto o rosto de Najeer - retrucou Kabakov. - O Setembro Negro é compartimentado como um ninho de vespas. A maioria dos seus agentes apenas conhece mais um ou dois membros da organização.

 

- Por que não matou também a mulher, major? - Fowler não estava a olhar para Kabakov quando fez esta pergunta. Caso estivesse, não o teria feito durante muito tempo.

 

O embaixador falou, pela primeira vez:

 

- Porque, na altura, não havia razão para o fazer, Sr. Fowler. Espero que não venha a desejar que ele o tivesse feito.

 

Kabakov piscou os olhos. Aqueles homens não compreendiam o perigo. Não seriam prevenidos. Atrás dos seus olhos, Kabakov via a coraça árabe a avançar com estrépito pelo Sinai e para as cidades, dizimando civis judeus. Porque não havia aviões. Porque os Americanos tinham ficado enojados. Porque ele poupara a mulher. As suas 100 vitórias eram cinzas na sua boca. O facto de não haver a menor possibilidade de saber que a mulher era importante não o desculpava nada a seus olhos. A missão a Beirute não fora perfeita.

 

Kabakov olhou fixamente para o rosto bochechudo de Fowler.

 

- Têm um dossier sobre Hafez Najeer?

 

- Aparece nos nossos arquivos numa lista de oficiais da Al Fatah.

 

- Há um dossier completo sobre ele incluído no meu relatório. Olhe para as fotografias, Sr. Fowler. Foram tiradas depois de alguns projectos anteriores de Najeer.

 

- Já vi muitas atrocidades.

 

- Como estas nunca viu. - A voz do israelita estava a subir de tom. - Hafez Najeer está morto, major Kabakov.

 

- E o seguro morreu de velho, Fowler. Se essa mulher não for encontrada, o Setembro Negro vai esfregar-vos o nariz em tripas.

 

Fowler olhou de relance para o embaixador como se esperasse a sua intervenção, mas os olhos pequenos e astutos de Yoachim Tell eram duros. Apoiava Kabakov.

 

Quando o major falou de novo, a sua voz estava quase demasiado calma:

 

- Tem de acreditar, Sr. Fowler.

 

- Reconhecia-a, se voltasse a vê-la, major? - perguntou Corley.

 

- Sim.

 

- Se estava instalada aqui, por que razão iria a Beirute?

 

- Precisava de uma coisa que não podia obter aqui. Precisava de algo que só Najeer lhe poderia arranjar e tinha de o informar pessoalmente para obter o que pretendia. - Kabakov sabia que isto parecia vago e não estava contente com o facto. Também estava descontente consigo por ter utilizado expressões indeterminadas como "uma coisa" e "algo".

 

Fowler abriu a boca, mas Corley interrompeu-o.

 

- Não eram armas.

 

- Trazer armas para aqui seria o mesmo que levar bananas para a Madeira - disse Fowler, num tom lúgubre.

 

- Tanto poderia ser equipamento como acesso a outra célula ou a um agente altamente colocado - continuou Corley. - Duvido de que precisasse de acesso a um agente. Até onde sei, os serviços secretos da República Árabe Unida, neste país, são uma miséria.

 

- Sim - retorquiu o embaixador. - O empregado da limpeza da nossa embaixada vende-lhes o conteúdo do meu cesto de papéis e também compramos, ao empregado de limpeza deles, o conteúdo do deles. Abastecemos o nosso com correio sem valor e correspondência fictícia. O deles está sobretudo pejado de insistências de pagamento por parte dos credores e de anúncios de produtos de borracha pouco vulgares.

 

A reunião continuou durante mais trinta minutos, até que os americanos se levantaram para ir embora.

 

- Vou tentar agendar isto para amanhã de manhã, em Langley - disse Corley.

 

- Se quiser, eu podia... Fowler interrompeu Kabakov:

 

- O seu relatório e a gravação são suficientes, major.

 

Já passava das 3 h da manhã quando os americanos abandonaram a embaixada.

 

- Ei, vêm aí os árabes - disse Fowler a Corley, enquanto se dirigiam para os carros.

 

- Que achas?

 

- Penso que não invejo o facto de teres de tomar o tempo do Bennett "Olhos Azuis" com essa treta, amanhã - retorquiu Fowler.

 

- Se houver alguns tarados aqui, a Agência não tem nada a ver com isso, meu caro. Não temos de meter o nariz nos Estados Unidos da América. - A CIA continuava a pagar as favas por Watergate. - Se a secção do Médio Oriente descobrir alguma coisa, comunicamo-vos.

 

- Por que é que estavas tão chateado lá dentro?

 

- Estou farto disto - disse Fowler. - Trabalhei com os Israelitas em Roma, em Londres, Paris e, uma vez, até em Tóquio. Descobrimos um árabe, contamos-lhes, e que acontece? Tentam apanhá-lo? Não. Vigiam-no? Sim. O tempo suficiente para descobrir quem são os seus amigos. Depois, ha uma grande bernarda. Os árabes desaparecem e tu ficas com as calças na mão.

 

- Não eram obrigados a mandar o Kabakov - afirmou Corley.

 

- Claro que eram. Reparaste que o adido militar, Weisman, não estava lá? Ambos sabemos que tem funções de recolha de informações, mas está a coordenar a venda dos Phantoms. Não querem que as duas coisas sejam, de forma alguma, ligadas oficialmente.

 

- Vais a Langley, amanhã?

 

- Claro que vou. Não deixes que Kabakov te entale.

 

Todas as quintas-feiras, pela manhã, todos os serviços de informações norte-americanos se reúnem numa sala sem janelas, protegida a chumbo, no quartel-general da Central Intelligence Agency, em Langley, na Virgínia. Estão representados a CIA, o FBI, a Agência Nacional de Segurança, os Serviços Secretos, o Gabinete Nacional de Reconhecimento e os conselheiros de informações militares da Junta de Chefes de Estado-Maior. Quando necessário, são convocados especialistas. A agenda tem catorze pontos, há muitos temas a discutir e o tempo é estritamente limitado.

 

Corley falou durante dez minutos, Fowler durante cinco e o representante da secção de subversão do Serviço de Imigração e Naturalização teve direito a menos tempo ainda.

 

Kabakov estava à espera no pequeno gabinete de Corley, no quartel-general do FBI, quando ele voltou da reunião.

 

- Pedem-me que lhe agradeça por ter vindo - disse Corley.

 

- O Departamento de Estado vai agradecer ao embaixador. O nosso embaixador em Telavive vai agradecer ao Yigall Allon.

 

- De nada, mas que vão fazer?

 

- Muito pouco - retorquiu Corley, acendendo o cachimbo.

 

- Fowler trouxe uma pilha de gravações das emissões da Rádio Cairo e da Rádio Beirute. Disse que eram todas ameaças de vários tipos que não tinham dado em nada. A Agência está a comparar a vossa gravação com as outras.

 

- Esta gravação não é uma ameaça. Foi feita para utilização posterior.

 

- A Agência está a informar-se junto das suas fontes no Líbano.

 

- No Líbano, a CIA compra a mesma merda que nós e, em grande parte, às mesmas pessoas - contrapôs Kabakov. - O tipo de material que tem duas horas de avanço em relação aos jornais.

 

- Por vezes, nem chega a duas horas - disse Corley. - Entretanto, pode ver fotografias. Temos registados cerca de 100 simpatizantes conhecidos da Al Fatah, pessoas que pensamos que, aqui, pertencem ao movimento 5 de Julho. Os Serviços de Imigração e Naturalização não o dizem em público, mas têm um ficheiro de árabes suspeitos. Terá de ir a Nova Iorque para o consultar.

 

- Tem autoridade para pôr de prevenção as alfândegas?

 

- Já o fiz. É a nossa melhor hipótese. Para um trabalho grande, é possível que tivessem de trazer de fora a bomba, isto é, se for uma bomba - retorquiu Corley. - Nos útimos dois anos, houve três pequenas explosões ligadas com o movimento 5 de Julho, todas elas em escritórios israelitas em Nova Iorque. A partir de então...

 

- Numa vez utilizaram plástico, nas outras duas, dinamite - interrompeu Kabakov.

 

- Precisamente. Mantém-se actualizado, não é? Segundo parece, não há muito plástico disponível por cá porque, se o houvesse, não andariam a carregar o dinamite por aí e a explodir ao tentarem fabricar nitroglicerina.

 

- O movimento 5 de Julho está cheio de amadores - disse Kabakov. - Najeer não lhes teria confiado isto. Os explosivos são independentes. Caso ainda se não encontrem cá, serão enviados. - O israelita levantou-se e dirigiu-se à janela. - Então, o seu Governo está a pôr os seus arquivos à minha disposição e a dizer às alfândegas que procurem tipos com bombas, e nada mais?

 

- Sinto muito, major, mas não sei que mais poderemos fazer com as informações de que dispomos.

 

- Os Estados Unidos poderiam pedir aos seus novos aliados egípcios que pressionassem Khadafy, na Líbia. É ele que financia o Setembro Negro. O filho da mãe deu-lhes 5 milhões de dólares do Tesouro Público líbio como recompensa pelos assassínios de Munique. Talvez pudesse recuar se o Egipto o pressionasse suficientemente.

 

O coronel Muhammar Khadafy, chefe do Conselho da Revolução líbio, estava a namorar de novo o Egipto, numa tentativa de formar uma sólida base de apoio. De momento, talvez reagisse a pressões por parte do Egipto.

 

- O Departamento de Estado não está metido na jogada - disse Corley.

 

- Os serviços secretos norte-americanos não acreditam que eles vão atacar aqui, pois não, Corley?

 

- Não - respondeu Corley, com desalento. - Pensam que os Árabes não se atreveriam.

 

Nesse momento, o cargueiro Leticia estava a cruzar o 21° meridiano na sua rota para os Açores e Nova Iorque. No mais profundo porão da proa, num compartimento fechado, encontravam-se 600 kg de plastique embalados em caixotes cinzentos.

 

Ao lado dos caixotes, na escuridão total do porão, jazia semiconsciente Ali Hassan. Uma grande ratazana encontrava-se em cima da sua barriga e dirigia-se-lhe para o rosto. Havia três dias que Hassan jazia ali, atingido na barriga por um tiro do capitão Kemal Larmoso.

 

A ratazana estava com fome, mas não esfomeada. Inicialmente, os grunhidos de Hassan tinham-na assustado, mas agora apenas ouvia a respiração pouco profunda e glótica. Encontrava-se sobre a crosta, na barriga inchada, e cheirava a ferida; em seguida, continuou em direcção ao tronco.

 

Hassan sentia as garras, através da camisa. Tinha de esperar. Na mão esquerda de Hassan encontrava-se o pequeno pé-de-cabra que o capitão Larmoso deixara cair quando o surpreendera junto aos caixotes. Na direita, empunhava a pistola automática Wdther PPK, que sacara tarde de mais. Agora, não ia disparar a arma, porque alguém poderia ouvir. O traidor Larmoso tinha de julgar que estava morto, quando voltasse ao porão.

 

O nariz da ratazana estava quase a tocar no queixo de Hassan. A respiração difícil do homem agitava os bigodes do animal.

 

Com toda a sua força, Hassan fez um movimento lateral com o pé-de-cabra por cima do peito e sentiu-o enterrar-se no flanco da ratazana. As garras enterraram-se quando a ratazana saltou de cima dele e ouviu-as raspar o tombadilho de metal durante a corrida.

 

Os minutos passaram. Depois, Hassan apercebeu-se de uma ligeira agitação. Achava que provinha de dentro da perna da sua calça. Não sentia nada abaixo da cintura e estava grato por ser assim.

 

Agora, sentia permanentemente a tentação de se matar. Tinha força suficiente para encostar a Walther à cabeça e fá-lo-ia, disse de si para consigo, logo que chegasse Mauhammad Fasil. Até lá, ficaria a guardar as caixas.

 

Hassan não sabia há quanto tempo jazia na escuridão. Sabia que, desta vez, o seu cérebro só ficaria lúcido durante alguns minutos e tentou pensar. O Leticia estava a pouco mais de três dias dos Açores quando ele surpreendera Larmoso a bisbilhotar junto das caixas. Quando Muhammad Fasil não recebesse o telegrama previsto de Hassan, dos Açores, a 2 de Novembro, disporia de dois dias para agir antes de o Leticia se fazer de novo ao mar - e os Açores eram a última paragem antes de Nova Iorque.

 

Fasil vai actuar, pensou Hassan. Não vou deixá-lo ficar mal.

 

Cada pancada do velho motor diesel do Leticia fazia vibrar as placas do tombadilho, sob a sua cabeça. As ondas vermelhas estendiam-se por detrás dos seus olhos. Esforçou-se por ouvir o motor e pensou que era o pulsar de Deus.

 

18 m acima do porão onde jazia Hassan, o capitão Kermal Larmoso estava a descansar no seu camarote, bebendo uma garrafa de cerveja Saporo enquanto ouvia as notícias. O exército libanês e as guerrilhas estavam de novo em luta. Óptimo, pensou. Merda para ambos.

 

Os Libaneses ameaçavam os seus documentos e os movimentos de guerrilha ameaçavam a sua vida. Quando acostava em Beirute ou Tiro ou Tobruk, tinha de pagar a ambos, não tanto aos movimentos de guerrilha como à merda da alfândega libanesa.

 

Agora, tinha os movimentos de guerrilha à perna. Sabia que estava tramado, a partir do momento em que Hassan o encontrara junto aos caixotes. Fasil e os outros estariam atrás dele, quando regressasse a Beirute. Talvez os Libaneses tivessem aprendido com o rei Hussein e expulsassem os movimentos de guerrilha. Então, só seria necessário pagar a uma facção. Estava farto daquilo. "Leva-o ali." "Traz as armas." "Não digas nada." Sei como é não dizer nada, pensou Larmoso. Não fiquei com a orelha assim por me ter barbeado à pressa. Uma vez, encontrara uma mina de contacto presa à quilha suja do Leticia, com o detonador pronto para ser accionado caso se recusasse a cumprir o que os movimentos de guerrilha exigiam.

 

Larmoso era um homem grande e cabeludo, cujo odor corporal fazia chorar até a sua tripulação, e o seu peso fazia que o beliche descesse até metade da distância que o separava do chão. Abriu uma nova garrafa de Saporo com os dentes e ficou a cismar enquanto a bebia, com os olhinhos fixos num póster de uma revista italiana que mostrava uma orgia heterossexual e que estava preso com fita gomada à cabeceira do beliche.

 

Depois, levantou a pequena imagem da Virgem, que se encontrava no chão, ao lado do beliche, e pô-la de pé em cima do peito. Tinha marcas no lugar onde a sondara com a faca, antes de perceber o que era.

 

Larmoso conhecia três lugares onde poderia converter explosivos em dinheiro. Havia um exilado cubano, em Miami, que tinha mais dinheiro do que bom senso. Na República Dominicana, havia um homem que pagava em cruzeiros brasileiros qualquer coisa que disparasse ou explodisse. O terceiro cliente possível era o Governo dos Estados Unidos da América.

 

É claro que haveria uma recompensa, mas Larmoso sabia que haveria também outras vantagens num negócio com os Americanos. Poderiam ser esquecidos alguns preconceitos que a Alfândega dos Estados Unidos tinha em relação a ele.

 

Larmoso abrira os caixotes porque queria fazer pressão sobre o importador, Benjamin Muzi, para receber um pagamento invulgarmente grande e precisava de saber qual era o contrabando para calcular quanto poderia pedir. Larmoso nunca se imiscuíra até então nos carregamentos de Muzi, mas havia rumores persistentes de que Muzi ia deixar de fazer negócios com o Médio Oriente e, se isso acontecesse, o rendimento ilícito de Larmoso cairia a pique. Este podia muito bem ser o último carregamento de Muzi, e Larmoso queria ganhar o máximo possível.

 

Esperara encontrar um carregamento colossal de haxixe, uma mercadoria que Muzi comprava amiúde a fontes da Al Fatah. Em vez disso, deparara com plastique e, depois, Hassan estava lá, precipitando-se para a sua pistola como um louco. O plastique era um negócio perigoso, em nada semelhante aos negócios de drogas vulgares em que os amigos podiam dar apertos uns aos outros.

 

Larmoso esperava que Muzi pudesse resolver o problema com os movimentos de guerrilha e ainda obter lucro com o plastique. Mas Muzi ficaria furioso com ele por ter andado a meter o nariz nos caixotes.

 

Caso Muzi não quisesse colaborar, se se recusasse a pagar a Larmoso ou a interceder por ele junto dos movimentos de guerrilha, então, Larmoso tencionava ficar com o plastique e vendê-lo algures. Era melhor ser um fugitivo rico do que pobre.

 

Mas, primeiro, tinha de fazer um inventário do que tinha para vender e livrar-se de um determinado lixo que tinha no porão.

 

Larmoso sabia que atingira em cheio Hassan, e dera-lhe muito tempo para morrer. Tomou a decisão de meter Hassan dentro de um saco, de lhe atar um peso no porto de Ponta Delgada, quando apenas havia um vigia de turno a bordo, e atirá-lo borda fora em águas profundas, depois de ter zarpado dos Açores.

 

Muhammad Fazil dirigiu-se ao posto de telégrafos de Beirute, de hora a hora, durante todo o dia. De início, desejou que o telegrama enviado dos Açores por Hassan estivesse apenas atrasado. Antes, os telegramas tinham chegado sempre até ao meio-dia. Houvera três - de Benghazi, Túnis e Lisboa - à medida que o velho cargueiro se arrastava para ocidente. As frases eram diferentes em cada um deles, mas todas tinham o mesmo significado - os explosivos não tinham sido tocados. O próximo deveria ser "A mãe melhorou muito hoje" e deveria ser assinado por José. Às 6 h da tarde, quando o telegrama ainda não tinha chegado, Fasil dirigiu-se ao aeroporto. Levava as credenciais de um fotógrafo argelino e uma câmara rápida estripada que continha um revólver 357 Magnum. Por precaução, Fasil fizera a reserva duas semanas antes. Sabia que poderia estar em Ponta Delgada às 4 h da tarde do dia seguinte.

 

O capitão Larmoso substituiu o imediato no leme quando o Leticia avistou os picos de Santa Maria, no início da manhã de 2 de Novembro. Contornou por sudoeste a pequena ilha e, depois, virou para norte para São Miguel e o porto de Ponta Delgada.

 

A cidade açoriana estava linda sob o sol do Inverno, com os seus edifícios brancos de telhados com telhas vermelhas e árvores de folha persistente entre eles que cresciam quase até à altura do campanário. Por detrás da cidade, havia encostas suaves de montanha, cortadas por campos cultivados.

 

O Leticia parecia mais sujo do que nunca, amarrado no porto, com a sua linha de flutuação desmaiada a sair da água enquanto a tripulação descarregava um carregamento de equipamento agrícola ligeiro reformado e descendo de novo enquanto eram carregadas grades de água mineral.

 

Larmoso não estava preocupado. As operações de carga e descarga realizavam-se apenas no porão de ré. O pequeno compartimento fechado no porão da proa não seria perturbado.

 

A maior parte do trabalho ficou feita na tarde do segundo dia e deixou que a tripulação fosse a terra, tendo o comissário distribuído a cada homem apenas o dinheiro suficiente para uma noite nos bordéis e nos bares.

 

A tripulação marchou ao longo do cais, com o passo ligeiro, já a pensar na noite, e o marinheiro da frente tinha uma bolha de creme de barbear sob a orelha. Não reparam no homem magro, debaixo das colunas do Banco Nacional Ultramarino, que os contou enquanto passavam.

 

Agora, o navio estava envolto em silêncio, exceptuando os passos do capitão Larmoso, que descia para a oficina da sala das máquinas, um pequeno compartimento vagamente iluminado por uma lâmpada suspensa de um fio eléctrico. Remexendo no meio de uma pilha de peças de sucata, escolheu uma biela, com o conjunto de pinos de êmbolo, que ficara danificada quando o motor do Leticia colara, ao largo de Tobruk, na Primavera anterior. A biela parecia um grande osso de metal, enquanto lhe tomava o peso. Ciente de que era suficientemente pesada para arrastar para baixo o corpo de Hassan, no longo deslizar até ao fundo do Atlântico, Larmoso levou a biela para a popa e guardou-a num armário, perto do leme, juntamente com um cabo comprido.

 

Depois, retirou da cozinha um dos grandes sacos de lixo de sarapilheira e levou-o consigo, em direcção à proa, através da sala de oficiais, até à escada do tombadilho da proa. Enrolou o saco em volta dos ombros como um poncho e assobiou por entre os dentes, fazendo ressoar os seus passos no corredor. Então, ouviu um ligeiro som atrás de si. Larmoso parou, à escuta. O barulho era, provavelmente, apenas o velho de vigia à âncora a andar no convés superior. Larmoso passou pela escotilha da sala de oficiais para a escada do tombadilho e desceu os degraus de metal até ao nível do porão da frente. Mas em vez de entrar no porão bateu com força com a escotilha e encostou-se à antepara, aos pés da escada, olhando ao longo do varão de metal para a escotilha que se encontrava ao cimo dos degraus escuros. O Smith Wesson Airweight, de cinco tiros, parecia uma pistola de criança no seu pulso enorme.

 

Enquanto estava à espreita, a escotilha da sala de oficiais abriu-se e, tão devagar como uma cobra a investigar, apareceu a cabeça pequena e bem feita de Muhammad Fasil.

 

Larmoso disparou, uma incrível explosão entre as paredes de metal e a bala a guinchar no corrimão. Mergulhou no porão, fechando a escotilha atrás de si. Agora, estava a transpirar, e o odor repelente que se desprendia dele misturava-se com os odores a ferrugem e a óleo frio, enquanto esperava na escuridão.

 

Os passos que desciam a escada do tombadilho eram lentos e com intervalos regulares. Larmoso sabia que Fasil estava a agarrar o corrimão com uma mão e mantinha a arma apontada para a escotilha fechada com a outra. Larmoso meteu-se atrás de um caixote, a cerca de 4 m da escotilha por onde Fasil iria entrar. O tempo estava a seu favor. Mais tarde ou mais cedo, a tripulação começaria a aparecer. Pensou nas propostas e desculpas que poderia apresentar a Fasil. Nada iria resultar. Ainda lhe restavam quatro balas. Mataria Fasil quando ele entrasse pela escotilha. Estava decidido.

 

A escada do tombadilho ficou em silêncio, durante um segundo. Depois, a Magnum de Fasil ribombou, a bala rebentou a escotilha lançando fragmentos de metal a voar pelo porão. Larmoso ripostou contra a escotilha fechada, com a bala do 38 especial a amolgar apenas o metal, e disparou uma e outra vez enquanto a escotilha se abria e a sombra escura entrava.

 

Quando estava a disparar o último tiro, Larmoso viu, pelo clarão do cano, que estivera a disparar contra a almofada de um cadeirão da sala de oficiais. Agora, estava a correr, tropeçando e praguejando, através do porão escuro, em direcção ao compartimento da proa.

 

Ia apanhar a pistola de Hassan. Mataria Fasil com ela.

 

Larmoso mexia-se bem para um homem grande e conhecia a planta do porão. Em menos de trinta segundos, estava junto à escotilha do compartimento, procurando a chave. O fedor que o envolveu quando abriu a escotilha nauseou-o quando mergulhou nele. Não queria mostrar uma luz e rastejou pelo tombadilho do compartimento negro, apalpando em busca de Hassan e murmurando baixinho, de si para consigo. Deu uma marrada nos caixotes e rastejou, contornando-os. A sua mão tocou num sapato. Larmoso foi apalpando a perna e a barriga. A arma não estava no cinto. Apalpou de ambos os lados do corpo. Encontrou a arma, sentiu-a mexer-se, mas só a encontrou quando lhe explodiu na cara.

 

Os ouvidos de Fasil estavam a zunir e passaram vários minutos até conseguir ouvir o murmúrio rouco proveniente do compartimento da proa.

 

- Fasil. Fasil.

 

O guerrilheiro dirigiu a sua pequena lanterna para o compartimento e viu uns pezinhos diminutos que fugiam do feixe de luz. Fasil fez incidir a luz sobre a máscara vermelha de Larmoso, que jazia morto, de costas, e, em seguida, entrou.

 

Ajoelhando-se, pegou no rosto destroçado pelas ratazanas de Hassan. Os lábios mexeram-se.

 

- Fasil.

 

- Fizeste bem, Hassan. Vou chamar um médico.

 

Fasil podia ver que era inútil. Hassan, inchado pela peritonite, já não podia ser ajudado. Mas Fasil podia raptar um médico meia hora antes de o Leticia zarpar e obrigá-lo a seguir viagem. Podia matar o médico, no mar alto, antes de o barco chegar a Nova Iorque. Hassan não merecia menos. Era o que seria humano fazer.

 

- Hassan, volto daqui a cinco minutos com o estojo médico. Deixo a luz aqui.

 

Um ténue suspiro.

 

- Cumpri o meu dever?

 

- Sim, cumpriste. Aguenta, velho amigo, agora, vou trazer morfina e, depois, o médico.

 

Fasil estava a apalpar o caminho em direcção à popa, no porão escuro, quando a pistola de Hassan se disparou, atrás de si. Parou, encostou a cabeça ao metal frio do navio.

 

- Vais pagar por isto - murmurou. Estava a falar com uma pessoa que nunca vira.

 

O velho que se encontrava de vigia à âncora ainda estava inconsciente, com um inchaço na parte detrás da cabeça, onde Fasil lhe batera. Fasil arrastou-o para o camarote do imediato e deitou-o no beliche; depois, sentou-se a pensar.

 

Originalmente, o plano era os caixotes serem levantados na doca de Brooklyn pelo importador, Benjamin Muzi. Não havia forma de saber se Larmoso contactara Muzi e obtivera a sua colaboração nesta traição. De qualquer forma, teriam de se encarregar de Muzi, porque sabia de mais. A alfândega ficaria curiosa com a ausência de Larmoso. Seriam feitas perguntas. Parecia improvável que houvesse mais gente no barco que soubesse o que continham os caixotes. As chaves de Larmoso ainda estavam a balançar na fechadura do compartimento da proa, quando o capitão fora morto. Agora, estavam no bolso de Fasil. Estava claro que o plastique não devia ir para o porto de Nova Iorque.

 

O imediato, Mustapha Fawzi, era um homem razoável e nada corajoso. À meia-noite, quando regressou ao navio, Fasil teve uma breve conversa com ele. Numa mão, Fasil empunhava um grande revólver negro. Na outra, 2000 dólares. Perguntou pela saúde da mãe e da irmã de Fawzi, que se encontravam em Beirute, e, em seguida, insinuou que a manutenção da saúde delas dependia, em grande medida, da cooperação de Fawzi. As coisas resolveram-se rapidamente.

 

Eram 7 h da noite na costa leste quando tocou o telefone em casa de Michael Lander. Estava a.trabalhar na garagem e atendeu na extensão. Dahlia estava a misturar uma lata de tinta.

 

Atendendo à quantidade de barulho que havia na linha, Lander concluiu que o telefonema vinha de longe. Ouviu uma voz agradável, com uma toada inglesa, semelhante à de Dahlia, que perguntou pela "dona da casa".

 

Dahlia veio de imediato ao telefone e começou uma conversa bastante aborrecida, em inglês, sobre parentes e propriedades. Depois, a conversa foi interrompida por vinte segundos em rajada de calão árabe.

 

Dahlia virou-se para trás, tapando o bocal com a mão.

 

- Michael, temos de recolher o plastique no mar. Consegues arranjar um barco?

 

O cérebro de Lander trabalhou furiosamente.

 

- Sim. Certifica-te do ponto de encontro. 40 milhas a oeste do farol de Barnegat, meia hora antes do pôr do Sol. Entramos em contacto visual com a última luz do dia e aproximamo-nos depois de escurecer. Se os ventos forem fortes, adiem-no para as 24 horas em ponto. Diz-lhe que o embale em unidades que possam ser levantadas por um homem.

 

Dahlia falou rapidamente ao telefone e, depois, desligou.

 

- Terça-feira, dia 12 - disse. Olhava-o com curiosidade. - Michael, pensaste nisso muito rapidamente.

 

- Não, não pensei - retorquiu Lander.

 

Dahlia aprendera muito cedo a nunca mentir a Lander. Isso seria tão estúpido como programar um computador com semiverdades e esperar respostas correctas. Ademais, ele sabia sempre quando ela sentia sequer a tentação de mentir. Agora, estava contente por lhe ter confidenciado, desde o início, o que fora combinado quanto à importação do plastique.

 

Ele ouviu-a calmamente enquanto lhe contava o que acontecera no navio.

 

- Pensas que Muzi pôs Larmoso a par do que se passava? - perguntou.

 

- Fasil não sabe. Não teve a menor hipótese de interrogar Larmoso. Temos de presumir que Muzi o pôs ao corrente. Não podemos dar-nos o luxo de fazer de outro modo, pois não, Michael? Se Muzi se atreveu a interferir no carregamento, se planeava ficar com o pagamento adiantado que fizemos e vender o plastique algures, então vendeu-nos às autoridades deste país. Teria de o fazer para sua própria protecção. Mesmo que não nos tenha traído, teríamos de nos encarregar dele. Sabe de mais e viu-te. Poderia identificar-te.

 

- Pensaram sempre em matá-lo?

 

- Sim. Não é um dos nossos e está num ramo de negócio perigoso. Caso as autoridades o ameaçassem por qualquer outra razão, quem sabe o que poderia contar-lhes? - Dahlia compreendeu que estava a ser demasiado agressiva. - Não podia suportar a ideia de ele constituir sempre uma ameaça para ti, Michael - acrescentou, com uma voz mais suave. - Também não confiavas nele, pois não, Michael? Tinhas, de antemão, uma recolha preparada no mar, para o que desse e viesse, não é? É espantoso.

 

- Sim, espantoso - ripostou Lander. - Uma coisa. Não acontece nada a Muzi enquanto não tivermos o plástico. Se ele contactou as autoridades, para gozar de imunidade em qualquer outra questão ou no que quer que seja, a armadilha vai ser montada nas docas. Enquanto pensarem que vamos para lá, é menos provável que enviem um esquadrão de assalto ao navio. Se Muzi for abatido antes de o navio chegar, ficam a saber que já não vamos à doca. Estarão à nossa espera quando formos ter com o navio. - De súbito, Lander estava furioso e os seus lábios ficaram brancos. - Então, o Muzi era a melhor coisa de que o teu grande cérebro de bosta de camelo se conseguiu lembrar.

 

Dahlia não vacilou. Não referiu que fora Lander o primeiro a contactar Muzi. Sabia que essa raiva iria desaparecer e acrescer ao fundo geral de ira à medida que, irresistivelmente, o cérebro dele se fosse desviando para o problema.

 

Lander fechou os olhos, durante um momento.

 

- Vais ter de ir às compras - disse. - Dá-me um lápis.

 

Agora que Hafez Najeer e Abu Ali tinham morrido, só Dahlia e Muhammad Fasil conheciam a identidade de Lander, mas Benjamin Muzi vira-o várias vezes, visto que Muzi fora o primeiro elemento de ligação de Lander com o Setembro Negro e o plástico.

 

Desde o princípio, o grande problema fora a obtenção de explosivos. Na grande agitação inicial da sua revelação divina, quando soube o que iria fazer, Lander não se lembrou de que iria precisar de ajuda. A estética do acto exigia que fosse relizado sem ajuda. Mas, à medida que o plano florescia na sua mente, e enquanto olhava repetidamente para as multidões lá em baixo, chegou à conclusão de que mereciam mais do que as poucas caixas de dinamite que conseguisse comprar ou roubar. Seriam alvo de uma atenção maior do que os destroços aleatórios de uma gôndola estilhaçada e alguns quilos de pregos e correntes.

 

Por vezes, enquanto se encontrava deitado e sem conseguir dormir, os rostos voltados para cima da multidão enchiam o seu tecto, com as bocas abertas, balançando como um campo de flores ao vento. Muitos dos rostos transformavam-se no de Margaret. Depois, a grande bola de fogo desprendia-se do calor do seu rosto e erguia-se até eles, girando como a nebulosa do Caranguejo, crestando-os até se transformarem em carvão e fazendo-o resvalar para o sono.

 

Tinha de obter plástico.

 

Lander percorreu duas vezes o país à procura de plástico. Foi a três paióis do exército para avaliar as possibilidades de roubo e descobriu que era inútil. Foi a uma fábrica de uma grande firma que produz óleo para bebé e napalm, colas industriais e explosivos plásticos, e descobriu que a segurança daquela fábrica era tão apertada como a dos militares e consideravelmente mais imaginativa. A instabilidade da nitroglicerina excluía a hipótese de tentar extraí-la da dinamite.

 

Lander consultou avidamente os jornais, em busca de histórias sobre terrorismo, explosões, bombas. A pilha de recortes, no seu quarto de cama, foi crescendo. Teria ficado ofendido ao saber que esse era um comportamento-padrão, ao saber em quantos quartos homens loucos iam acumulando recortes, à espera de que chegasse o seu dia. Muitos dos recortes de Lander eram de notícias provenientes do estrangeiro

- Roma, Helsínquia, Damasco, Haia, Beirute.

 

A meados de Julho, num hotel de Cincinnati, a ideia surgiu-lhe. Nesse dia, andara a sobrevoar uma feira e estava a embebedar-se moderadamente, no bar do motel. Era tarde. Havia um televisor suspenso do tecto, por cima da extremidade do balcão. Lander estava sentado quase por debaixo dele, a olhar para a sua bebida. A maioria dos clientes estava voltada para ele, com as cadeiras viradas, e a luz exangue da televisão dançava nos seus rostos erguidos.

 

Lander olhou-os e ficou alerta. Havia algo na expressão dos rostos dos clientes que estavam a ver televisão. Apreensão. Raiva. Não era propriamente medo, porque estavam bastante seguros, mas tinham o aspecto de um homem que estivesse a observar os lobos através da janela da sua cabana. Lander pegou na sua bebida e deslocou-se ao longo do balcão até conseguir ver o ecrã. Havia um Boeing 747 parado no deserto com o ar quente a bruxulear em seu redor. A extremidade da proa da fuselagem explodiu, depois, a secção central, e o avião desapareceu num jorro de chamas e fumo. O programa era uma repetição de uma reportagem especial sobre o terrorismo árabe.

 

Novo plano, de Munique, O horror na Aldeia Olímpica. O helicóptero no aeroporto. Tiros abafados lá dentro enquanto os atletas israelitas eram abatidos. A embaixada de Cartum, onde os diplomatas americanos e belgas foram chacinados. O líder da Al Fatah, Yasser Arafat, a negar a responsabilidade.

 

Yasser Arafat de novo, numa conferência de imprensa, em Beirute, a acusar iradamente a Inglaterra e os Estados Unidos de ajudarem as incursões terroristas de Israel contra os guerrilheiros. "Quando chegar a nossa vingança, será grande", dizia Arafat, com os olhos a reflectirem luas duplas, por causa dos projectores da televisão.

 

Uma declaração de apoio do coronel Khadafy, estudioso de Napoleão e apoiante e financiador constante da Al Fatah: "Os Estados Unidos merecem uma bofetada forte na cara." Mais um comentário de Khadafy: "Deus amaldiçoe a América."

 

- Monte de merda - disse um homem, que envergava um blusão de bowling e estava sentado ao lado de Lander. - Cambada de merdas.

 

Lander riu alto. Alguns dos circunstantes voltaram-se para ele.

 

- Achas isso engraçado, Zezinho?

 

- Não. Posso garantir-lhe, meu caro senhor, que não tem graça nenhuma. Seu monte de merda.

 

Lander pôs o dinheiro em cima do balcão e saiu, deixando atrás de si os homens a gritar.

 

Lander não conhecia árabes. Começou a ler reportagens acerca dos grupos árabo-americanos que apoiavam a causa dos Árabes da Palestina, mas uma reunião a que compareceu, no Brooklyn, convenceu-o de que os comités de cidadãos árabo-americanos eram demasiaso legalistas para ele. Discutiam assuntos como "justiça" e "direitos individuais" e incentivavam a que se escrevesse aos membros do Congresso. Se fizesse insinuações acerca de militantes, suspeitava, com toda a razão, de que em breve seria abordado por um polícia infiltrado com um transmissor Kel preso à perna.

 

As manifestações em Manhattan sobre a questão palestina não eram melhores. Na United Nations Plaza e em Union Square, encontrou menos de vinte jovens árabes rodeados por um mar de judeus.

 

Não, precisava de um patife competente e ganancioso com bons contactos no Médio Oriente. E encontrou-o. Lander conseguiu o nome de Benjamin Muzi através de um piloto de carreira que conhecia e que trazia embrulhos interessantes do Médio Oriente, no seu estojo de barbear, e os entregava ao importador.

 

O escritório de Muzi era suficientemente lúgubre, situado nas traseiras de um armazém em mau estado, na Sedgwick Street, no Brooklyn. Lander foi acompanhado até ao escritório por um grego muito grande e perfumado, cuja cabeça calva reflectia a pálida luz proveniente do tecto, enquanto circulavam entre um labirinto de caixotes.

 

Só a porta do escritório era cara. Era de aço, com dois ferrolhos e uma fechadura de segurança. A abertura para o correio ficava à altura da barriga, com uma peça de metal com dobradiças, do lado de dentro, que podia ser fechada.

 

Muzi era muito gordo e grunhiu enquanto tirava uma pilha de facturas de cima de uma cadeira e fazia sinal a Lander para se sentar.

 

- Posso oferecer-lhe alguma coisa? Uma bebida?

 

- Não.

 

Muzi esvaziou a sua garrafa de água Perrier e pescou uma garrafa fresca no frigorífico. Deitou-lhe dois comprimidos de aspirina e engoliu uma boa parte.

 

- Ao telefone, disse que pretendia falar-me de um assunto da maior confidencialidade. Uma vez que não me disse o seu nome, tem qualquer objecção a que lhe chame Hopkins?

 

- Nenhuma.

 

- Excelente. Sr. Hopkins, quando as pessoas falam em "confidencialidade" querem geralmente dizer que se trata de uma infracção à lei. Se for esse o caso vertente, então, não quero ter nada que ver consigo, percebe?

 

Lander tirou um maço de notas do bolso e pousou-o em cima da secretária de Muzi. Muzi não tocou no dinheiro nem olhou para ele. Lander pegou no maço e dirigiu-se para a porta.

 

- Um momento, Sr. Hopkins.

 

Muzi fez um gesto ao grego, que avançou e revistou Lander cuidadosamente. Depois, olhou para Muzi e abanou a cabeça.

 

- Sente-se, por favor. Obrigado, Salop. Espera lá fora. O homenzarrão fechou a porta atrás de si.

 

- É um nome nojento - disse Lander.

 

- Sim, mas ele não sabe - respondeu Muzi, limpando o rosto com um lenço. Apoiou o queixo nos dedos estendidos e ficou à espera.

 

- Ouvi dizer que é um homem de grande influência - começou Lander.

 

- Sou, sem sombra de dúvida, um grande homem de influência.

 

- Há quem diga...

 

- Ao contrário daquilo que possa julgar, Sr. Hopkins, não é necessário recorrer a infindáveis circunlóquios árabes quando se está a falar com um árabe, sobretudo porque, na sua maioria, os americanos são desprovidos da subtileza necessária para os tornar interessantes. Este escritório não tem microfones de escuta. O senhor também não. Diga-me o que pretende.

 

- Quero que entreguem uma carta ao chefe da secção de informações da Al Fatah.

 

- E quem seria ele?

 

- Não sei. Pode descobrir. Disseram-me que pode fazer quase tudo em Beirute. A carta será fechada de várias formas engenhosas e deverá chegar lá sem ser aberta.

 

- Sim, espero que deva. - Os olhos de Muzi pareciam tapados por uma segunda pálpebra, como os de uma tartaruga.

 

- Está a pensar numa carta armadilhada - disse Lander. - Não é. Pode ver-me colocar o conteúdo no sobrescrito, a uma distância de 3 m. Pode lamber a cola e, depois, eu ponho os restantes selos.

 

- Negoceio com homens que estão interessados em dinheiro. As pessoas com ideias políticas não pagam muitas vezes as suas contas, ou matam-nos por inaptidão. Não penso...

 

- 2000 dólares agora e mais 2000 se a mensagem chegar lá em boas condições. - Lander voltou a pousar o dinheiro na secretária.

- Outra coisa, aconselhava-o a abrir uma conta numerada em Haia.

 

- Com que finalidade?

 

- Para depositar lá uma boa quantidade de divisas líbias, caso decida reformar-se.

 

Seguiu-se um silêncio prolongado. Finalmente, Lander quebrou-o.

 

- Tem de compreender que isto tem de chegar às mãos do homem certo, à primeira. Não pode andar de mão em mão.

 

- Uma vez que não sei o que quer, estou a trabalhar às cegas. Podiam fazer-se algumas averiguações, mas até mesmo as averiguações são perigosas. Está ciente de que a Al Fatah está fragmentada, cheia de divisões internas.

 

- Entregue isso ao Setembro Negro - disse Lander.

 

- Não por 4000 dólares.

 

- Quanto?

 

- As averiguações vão ser difíceis e caras e, mesmo assim, nunca se pode ter a certeza...

 

- Quanto?

 

- Por 8000, pagáveis imediatamente, faria o melhor que pudesse.

 

- 4000 agora e 4000 depois.

 

- 8000 agora, Sr. Hopkins. Depois, eu não o conhecerei e o senhor nunca mais voltará cá.

 

- De acordo.

 

- Vou para Beirute dentro de uma semana. Só quero que me dê a sua carta imediatamente antes da minha partida. Pode trazê-la cá na noite do dia 7. Será fechada na minha presença. Acredite, não quero ler o que está escrito nela.

 

A carta continha o verdadeiro nome e endereço de Lander e dizia que ele podia prestar um grande serviço à causa palestina. Pedia para se encontrar com um representante do Setembro Negro, em qualquer lugar, no Hemisfério Ocidental. Incluía uma ordem de pagamento de

1500 dólares para cobrir quaisquer despesas.

 

Muzi aceitou a carta e os 8000 dólares com uma gravidade que tocava a cerimónia. Uma das suas particularidades era que, quando pagavam o seu preço, cumpria o prometido.

 

Uma semana mais tarde, Lander recebeu um postal ilustrado de Beirute. Não trazia nada escrito. Perguntou-se se Muzi teria aberto a carta e lido o seu nome e morada.

 

Passou uma terceira semana. Teve de voar quatro vezes para fora de Lakehurst. Duas vezes, nessa semana, julgou que estava a ser seguido quando se dirigia para o aeroporto, mas não pudera ter a certeza. Na quinta-feira, 15 de Agosto, realizou um voo publicitário nocturno sobre Atlantic City, com as mensagens publicitárias a brilharem nos painéis de luzes, controlados por computador, nos enormes lados do dirigível.

 

Quando regressou a Lakehurst e entrou no carro, reparou num cartão que se encontrava preso por debaixo do limpa-pára-brisas. Aborrecido, saiu e puxou-o para fora, esperando que fosse um anúncio. Era um vale que podia ser trocado por uma entrada no Maxies Swim Club, perto de Lakehurst. Nas costas, estava escrito "amanhã 3 h da tarde acenda e apague as luzes uma vez agora para sim".

 

Olhou em seu redor para o parque de estacionamento do aeroporto, envolto na escuridão. Não viu ninguém. Acendeu os máximos uma vez e, depois, foi para casa.

 

Há muitos clubes privados de natação em Nova Jérsia, bem mantidos e bastante caros e que oferecem uma enorme variedade de políticas exclusivas. O Maxie tinha uma clientela predominantemente judia, mas, ao contrário de alguns dos proprietários de clubes, Maxie admitia alguns negros e porto-riquenhos, quando os conhecia. Lander chegou à piscina às 2.45 h e vestiu o fato de banho num vestiário de blocos cinzentos com poças no chão. O sol e o forte cheiro a cloro e as crianças barulhentas faziam-lhe lembrar outros tempos, quando nadava no clube dos oficiais com Margaret e as filhas. Depois, uma bebida à beira da piscina, com Margaret a agarrar na haste dos óculos com os dedos franzidos por causa da água, a rir e a atirar para trás o cabelo negro, sabendo que os jovens tenentes a estavam a observar.

 

Agora, Lander sentia-se muito sozinho e envergonhado por causa do seu corpo branco e da mão deformada, enquanto caminhava em cima do betão escaldante. Pôs os valores no cesto de arame e entregou-o ao empregado, enfiando a ficha de plástico no bolso do fato de banho. A piscina tinha um azul pouco natural e a luz dançava nela, ferindo-lhe os olhos.

 

Havia uma data de vantagens numa piscina, pensou. Ninguém pode trazer uma arma ou um gravador, não se podem tirar as impressões digitais a ninguém às escondidas.

 

Nadou preguiçosamente, para lá e para cá, durante meia hora. Havia pelo menos quinze crianças na piscina, com uma enorme variedade de cavalos marinhos insufláveis e bóias. Vários casais jovens estavam a jogar com uma bola de praia às riscas e um jovem musculoso untava-se com óleo de bronzear, à borda da piscina.

 

Lander virou-se de costas e começou a nadar vagarosamente para trás, atravessando a extremidade mais profunda, fora do alcance dos que mergulhavam. Estava a observar uma nuvenzinha que deslizava quando colidiu com uma nadadora, numa confusão de braços e pernas, uma rapariga com óculos e respirador que andara a agitar as pernas para cá e para lá, ao que parecia a olhar para o fundo em vez de ver por onde ia.

 

- Desculpe - disse ela, agitando as pernas para se manter à tona da água.

 

Lander soprou água pelo nariz e continuou a nadar, sem nada dizer. Ficou na piscina durante mais meia hora e, depois, decidiu ir-se embora. Estava prestes a subir a escada para sair quando a rapariga com os óculos e o respirador emergiu à sua frente, tirou os óculos e sorriu:

 

- Deixou cair isto? Encontrei-a no fundo da piscina. - Tinha na mão a ficha de plástico.

 

Lander olhou para baixo e reparou que o bolso do seu fato de banho estava revirado para fora.

 

- É melhor ir dar uma olhadela à sua carteira, para ver se está lá tudo - disse ela, mergulhando de novo.

 

Dentro da carteira estava a ordem de pagamento que enviara para Beirute. Devolveu o cesto ao empregado e juntou-se à rapariga, dentro da piscina. Ela estava a travar uma luta aquática com dois rapazinhos, que se queixaram em voz alta quando os deixou. Tinha um aspecto esplêndido dentro de água e Lander, sentindo-se gelado e mirrado nos seus calções de banho, estava furioso com o que via.

 

- Vamos falar dentro da piscina, Sr. Lander - asseverou ela, nadando até uma profundidade em que a água ficava mesmo abaixo dos seus seios.

 

- Que espera que faça, que comece a dar à língua e vomite toda a operação aqui mesmo?

 

Ela olhou-o com firmeza, com pontinhos multicolores a dançarem-lhe nos olhos. De súbito, ele pôs-lhe a mão aleijada no braço, fitando-lhe a face, à espera que pestanejasse. Um sorriso simpático foi a única reacção que observou. A reacção que não viu estava a ocorrrer abaixo da superfície da água. A mão esquerda da rapariga virou-se lentamente para cima, com os dedos cerrados, pronta para atacar, caso fosse necessário.

 

- Posso chamar-lhe Michael? Sou Dahlia lyad. É um bom local para falarmos.

 

- Ficou contente com tudo o que encontrou na minha carteira?

 

- Deveria ficar contente por eu a ter revistado. Não penso que fosse negociar com uma inconsciente.

 

- Que sabe a meu respeito?

 

- Sei como ganha a vida. Sei que foi prisioneiro de guerra. Vive sozinho, lê à noite, até muito tarde, e fuma uma marijuana de bastante má qualidade. Sei que o seu telefone não está sob escuta, pelo menos através do terminal que se encontra na sua cave ou do poste do lado de fora. Não tenho bem a certeza do que pretende.

 

Mais cedo ou mais tarde ia ter de o dizer. Para além da desconfiança em relação àquela mulher, era difícil dizê-lo, tão difícil como abrir-se em frente a um psicanalista. Muito bem.

 

- Quero detonar 600 kg de explosivo plástico na Supertaça.

 

A rapariga olhou-o como se tivesse confessado, dolorosamente, uma aberração sexual de que ela gostasse especialmente. Compaixão calma e delicada, sem excitação. Bem-vindo a casa.

 

- Não tem plástico, pois não, Michael?

 

- Não. - Afastou o olhar enquanto fazia a pergunta. - Pode arranjá-lo?

 

- É uma grande quantidade. Depende.

 

A água passou-lhe por cima da cabeça, enquanto dava uma volta para a encarar.

 

- Não quero ouvir isso. Não é isso que quero ouvir. Fale sem rodeios.

 

- Se ficar convencida de que pode fazê-lo, se conseguir convencer o meu comandante de que você pode e vai fazê-lo, então, sim, posso arranjar o plástico. Arranjo-o.

 

- Está bem. É justo.

 

- Quero ver tudo. Quero ir para casa consigo.

 

- Porque não?

 

Não foram directamente para casa de Lander. Ele estava escalado para um voo publicitário nocturno e levou Dahlia consigo. Não era prática comum levar passageiros em voos publicitários nocturnos, dado que a maioria dos assentos era retirada da gôndola para arranjar espaço para o computador que, a bordo, controlava as 8000 lâmpadas, ao longo das ilhargas do dirigível. Mas, embora apertados, havia espaço. Farley, o co-piloto, incomodara toda a gente, duas vezes, trazendo a namorada que tinha na Florida e não estava em posição de protestar por ter de ceder o seu lugar àquela jovem. Ele e o operador do computador ficaram a lamber os beiços a olhar para Dahlia e divertiam-se a fazer pantomimas lúbricas, na traseira da gôndola, quando ela e Lander não estavam a ver.

 

Manhattan brilhava na noite como um grande navio de diamante enquanto a sobrevoavam a 2500 pés. Baixaram em direcção à coroa brilhante do Estádio Shea, onde os Mets estavam a disputar um jogo nocturno, e os lados do dirigível transformaram-se em enormes painéis faiscantes, com as letras a correrem. "Não se esqueçam, contratem o Veterano", foi a primeira mensagem. "Winston sabe div..." esta mensagem foi interrompida enquanto o técnico praguejava e manuseava, com nervosismo, a fita perfurada.

 

Depois, Dahlia e Lander ficaram a ver enquanto o pessoal de terra, em Lakehurst, prendia o dirigível, bem iluminado, para passar a noite. Observaram sobretudo a gôndola, enquanto os homens, de fato-macaco, retiravam o computador e montavam de novo as cadeiras.

 

Lander apontou para o forte corrimão que rodeava a base da cabina. Conduziu-a até à traseira da gôndola para assistir à retirada do gerador de turbina que fornecia energia para as lâmpadas. O gerador era uma unidade polida e pesada, com a forma de um peixe de boca grande, e tinha uma junção de três pontos que seria muito útil.

 

Farley aproximou-se deles, com a sua papeleta.

 

- Ei, vocês não vão ficar aqui toda a noite. Dahlia sorriu-lhe, estupidamente.

 

- É tudo tão excitante.

 

- Pois. - Farley riu-se e deixou-os, com uma piscadela de olho.

 

O rosto de Dahlia estava corado e os olhos brilhantes durante a viagem entre o aeroporto e a casa.

 

Logo desde o início, deixou claro que, dentro de casa, não esperava qualquer tipo de desempenho de Lander e teve o cuidado de não demonstrar também qualquer desagrado em relação a ele.

 

A sua atitude parecia dizer que o seu corpo estava ali, que o trouxera porque era conveniente fazê-lo. Tinha uma deferência física para com Lander de uma forma tão subtil que não há qualquer palavra na nossa língua para a exprimir. E era muito, muito delicada.

 

Em questões sérias, era completamente diferente. Lander descobriu rapidamente que não conseguia intimidá-la com os seus conhecimentos técnicos superiores. Tinha de explicar o seu plano em pormenor, definindo os termos à medida que avançava. Quando Dahlia discordava, era normalmente em relação a métodos para lidar com as pessoas e descobriu que ela era sagaz a avaliar as pessoas e tinha grande experiência do comportamento de homens assustados, sob pressão. Mesmo quando era inflexível na crítica, nunca sublinhava uma opinião com um movimento corporal ou uma expressão facial que reflectisse algo mais do que concentração.

 

Dado que os problemas técnicos estavam resolvidos, pelo menos em teoria, Dahlia podia ver que o maior perigo para o projecto era a instabilidade de Lander. Era uma máquina esplêndida com uma criança homicida a controlá-la. O seu papel era, cada vez mais, dar-lhe apoio. Nessa área, nem sempre conseguia calcular e era obrigada a sentir.

 

Com o passar dos dias, ele começou a contar-lhe coisas acerca de si próprio - coisas inócuas que não lhe provocavam dor. Por vezes, à noite, um pouco embriagado, carpia incessantemente as injustiças da Marinha, até que, por fim, ela ia para o seu quarto, depois da meia-noite, deixando-o a praguejar em frente à televisão. E então, uma noite, quando estava sentada ao lado da cama dele, trouxera-lhe uma história, como se fosse um presente. Contou-lhe quando fora a primeira vez que vira um dirigível.

 

Era um miúdo de 8 anos, com impetigo nos joelhos, e estava de pé no recreio nu e argiloso de uma escola de província quando olhou para cima e viu o dirigível. Prateado, lutando para vencer a força do vento, flutuava por cima do pátio, espalhando pelo ar, atrás de si, pequenos objectos que flutuavam e caíam - chocolates Bay Ruth presos a pequenos pára-quedas. Correndo atrás dele, Michael conseguiu ficar na sua sombra até ao final do recreio, com as outras crianças a correrem com ele, saltando para apanhar os chocolates. Depois, chegaram ao campo lavrado, no final do pátio, e a sombra afastou-se, ondeando sobre os regos. Lander, que vestia calções, caíra no campo e arrancara as crostas dos joelhos. Ergueu-se de novo e ficou a olhar o dirigível a desaparecer, com ribeiros de sangue a escorrerem-lhe pelas canelas e uma tablete e um pára-quedas fechados na mão.

 

Enquanto estava perdido nesta história, Dahlia estendeu-se a seu lado, na cama, a ouvi-lo. E ele veio ter com ela, saído do recreio, com a magia e a luz daquele dia ainda patentes no rosto.

 

Depois disso, perdeu a vergonha. Ela ouvira o seu terrível desejo e aceitara-o como se fosse seu. Recebera-o com o seu corpo. Não com expectativas devastadoras, mas com uma graça abundante. Não via fealdade nele. Agora, sentia que podia dizer-lhe tudo e deixou jorrar tudo - as coisas que nunca tinha podido dizer antes, inclusive a Margaret. Sobretudo a Margaret.

 

Dahlia ouvia-o com compreensão e um interesse que denotava preocupação. Nunca mostrou sinais de desagradado, embora tenha aprendido a estar em guarda em relação a ele quando falava de determinadas coisas, porque podia ficar subitamente zangado com ela devido a ofensas que outros lhe tinham feito. Dahlia precisava de conhecer muito bem Lander e ficou a conhecê-lo muito bem, melhor do que qualquer outra pessoa viria a conhecê-lo - incluindo a comissão de pessoas altamente qualificadas que investigou o seu último acto. Os investigadores tinham de basear-se nas suas pilhas de documentos e fotografias, com a sua testemunha muito tesa na cadeira. Dahlia soubera-o da boca do monstro.

 

É verdade que estudou Lander para o utilizar, mas quem é que vai alguma vez ouvir sem esperar nada em troca? Podia ter feito muito por ele se o seu objectivo não fosse o assassínio.

 

A franqueza total que ele tinha e as suas próprias inferências forneceram-lhe muitas janelas para o passado de Lander. Através delas, via a sua arma a ser forjada...

 

Wilktt-Lorance Consolidated School, uma escola rural entre Willett e Lorance, Carolina do Sul, 2 de Fevereiro de 1941:

 

- Michael, Michael Lander, vem cá e lê o teu trabalho. Quero que prestes muita atenção, Buddy Ives. E tu também, Júnior Atkins. Vocês os dois têm estado a tocar lira enquanto Roma arde. Nos testes de avaliação, vamos separar o trigo do joio, nesta turma.

 

Michael tem de ser chamado mais duas vezes. É surpreendentemente pequeno enquanto avança pela coxia. A escola Willett-Lorance não tem um programa acelerado para crianças excepcionais. Em vez disso, Michael tem sido "empurrado" para a frente. Tem 8 anos e está na quarta classe.

 

Buddy Ives e Júnior Atkins, ambos com 12, passaram o intervalo anterior a mergulhar a cabeça de um miúdo da segunda classe na sanita. Agora, estão a prestar muita atenção. A Michael. Não ao trabalho dele.

 

Michael sabe que tem de pagar. De pé, em frente à turma, com os seus calções andrajosos, o único par da aula, lendo com uma voz que mal se ouve, sabe que vai ter de pagar. Deseja que tudo aconteça no recreio. Preferia que lhe batessem a que lhe mergulhassem a cabeça.

 

O pai de Michael é pastor e a mãe é uma das dirigentes da Associação de Pais e Professores. Ele não é uma criança engraçada e apelativa. Pensa que tem algo que está profundamente errado. Até onde se lembra, teve sempre sentimentos horríveis que não compreende. Ainda não consegue identificar a raiva e o ódio a si mesmo. Vê-se constantemente como um rapazinho efeminado vestido de calções e odeia isso. Por vezes, observa os outros rapazes de 8 anos a brincarem aos cowboys entre os arbustos. Tentou brincar algumas vezes, gritando "pum pum" e esticando o dedo. Sente-se parvo a fazer isso. Os outros podem dizer que ele não é um verdadeiro cowboy, que não acredita na brincadeira.

 

Pensa nos seus colegas de classe, os que têm 11 e 12 anos. Estão a escolher as equipas para o jogo de futebol. Está no grupo e espera. Não é muito mau ser o último a ser escolhido, desde que se seja escolhido. Está sozinho entre os dois lados. Não é escolhido. Repara em qual foi a última equipa a escolher e dirige-se à outra equipa. Pode ver-se a caminhar em direcção a eles. Consegue ver os seus joelhos cheios de protuberâncias surgindo de baixo dos calções, sabe que estão a falar dele no agrupamento para combinarem as tácticas. Viram-lhe as costas. Não pode suplicar que o deixem jogar. Afasta-se, com o rosto em brasa. Não há lugar algum, em todo o campo de argila vermelha, onde esteja longe dos olhares.

 

Como sulista, Michael está profundamente marcado pelo "código". Um homem luta quando é provocado. Um homem é duro, directo, honrado e forte. Pode jogar futebol, gosta de caçar e não permite conversas porcas junto das senhoras, embora as discuta com termos lúbricos quando está com os companheiros.

 

Quando se é criança, o Código sem o equipamento dá cabo de nós.

 

Michael aprendeu a não lutar com os de 12 anos, se o puder evitar. Dizem-lhe que é um cobarde. Acredita nisso. É franco e ainda não aprendeu a escondê-lo. Dizem-lhe que é um maricas. Acredita que isso pode ser verdade.

 

Agora, acabou de ler o trabalho em frente à turma. Sabe a que cheirará o hálito de Júnior Atkins no seu rosto. A professora diz a Michael que ele é um "bom cidadão da turma" e não compreende por que razão o rapaz vira o rosto para o lado contrário.

 

10 de Setembro de 1947, no campo de futebol por detrás da Willett-Lorance Consolidated:

 

Michael Lander vai sair para jogar futebol. Está no décimo ano e vai sair sem que os seus pais saibam. Sente que tem de o fazer. Quer experimentar o bom sentimento que os seus colegas têm em relação ao desporto. Está curioso acerca de si próprio. O uniforme torna-o maravilhosamente anónimo. Não consegue ver-se quando o tem vestido. O décimo ano já é tarde para um rapaz começar a jogar futebol e tem muito que aprender. Para sua surpresa, os outros são tolerantes com ele. Após alguns dias de cautelas e cuidados, descobriram que, embora ele seja ignorante a respeito do jogo, vai bater e quer aprender com eles. É uma boa época para ele. Dura uma semana. Os pais ficam a saber que ele sai para jogar futebol. Odeiam o treinador, um homem de Deus que, segundo consta, tem bebidas alcoólicas em casa. Agora, o reverendo Lander pertence ao conselho directivo da escola. Os Lander vão até ao campo de treinos no seu Kaiser. Michael só o vê quando ouve chamar o seu nome. A sua mãe aproxima-se pela linha lateral, caminhando rigidamente pela relva. O reverendo Lander fica à espera no carro.

 

- Tira esse uniforme.

 

Michael finge não ouvir. Está a jogar à defesa com os jogadores na melée. Ocupa a sua posição. Cada folha de relva é diferente aos seus olhos. O jogador que se encontra à sua frente tem um arranhão vermelho na barriga da perna.

 

Agora, a mãe está a andar junto à linha lateral. Agora, está a atravessá-la. Vem aí. 100 kg de fúria ponderada.

 

- Disse-te para tirares esse uniforme e ires para o carro.

 

Nesse momento, Michael poderia ter-se salvo. Podia ter gritado na cara da mãe. O treinador poderia tê-lo salvo, caso tivesse sido mais rápido e menos receoso em relação ao seu emprego. Michael não pode deixar que os outros vejam mais. Depois disto, não pode estar com eles. Agora, eles entreolham-se com expressões que não consegue aguentar. Corre em direcção ao edifício pré-fabricado que utilizam como vestiário. Ouvem-se risadinhas atrás dele.

 

O treinador tem de falar duas vezes aos rapazes para recomeçarem os treinos.

 

- De qualquer forma, não precisamos de meninos da mamã - diz.

 

Michael movimenta-se muito vagarosamente pelo vestiário, deixando o seu equipamento numa pilha ordenada com a chave do armário em cima. Sente apenas um peso apático dentro de si, sem raiva à superfície.

 

No regresso a casa, no Kaiser, ouve uma torrente de insultos. Responde que, sim, compreende quanto envergonhou os seus pais, que deveria ter pensado nos outros. Acena solenemente com a cabeça quando lhe dizem que tem de poupar as mãos para o piano.

 

18 de Julho de 1948:

 

Michael Lander está sentado no alpendre das traseiras da sua casa, um presbitério miserável ao lado da igreja baptista de Willett. Está a arranjar um cortador de relva. Ganha algum dinheiro a arranjar cortadores de relva e outros pequenos utensílios. Olhando através do guardavento, consegue ver o pai, deitado na cama, com as mãos atrás da cabeça, a ouvir rádio. Quando pensa no pai, Michael vê as mãos dele, brancas e inábeis, com o anel da Cumberland-Macon Divinity School largo por detrás do nó do seu dedo anelar. No Sul, tal como em muitos outros lugares, a igreja é uma instituição de, para e constituída por mulheres. Os homens toleram-na por causa da paz familiar. Os homens da comunidade não têm respeito pelo reverendo Lander porque nunca poderia fazer uma sementeira, nunca poderia fazer nada prático. Os seus sermões são enfadonhos e desconexos, alinhavados enquanto o coro canta o hino do ofertório. O reverendo Lander gasta a maior parte do seu tempo a escrever cartas para uma rapariga que conheceu nos seus tempos de liceu. Nunca as põe no correio e fecha-as numa caixa de lata que tem no escritório. O cadeado de segredo é puerilmente simples. Há anos que Michael lê as cartas. Para se rir.

 

A puberdade fez muito por Michael Lander. Aos 15 anos, é alto e magro. Graças a um esforço considerável, aprendeu a fazer trabalhos escolares convincentemente medíocres. Contra todas as expectativas, adquiriu o que parece ser uma personalidade afável. Conhece a anedota do papagaio careca e conta-a bem.

 

Uma rapariga borbulhenta, dois anos mais velha, ajudou Michael a descobrir que é um homem. É um tremendo alívio para ele, depois de lhe terem dito, ao longo de tantos anos, que era maricas, sem provas que lhe permitissem julgar se o era ou não.

 

Mas, no florescimento de Michael Lander, uma parte dele pôs-se de lado, fria e atenta. Era a parte dele que reconhecia a ignorância da turma, que lhe mostra constantemente pequenas imagens da escola primária que fazem estremecer o novo rosto, que, em momentos de tensão, faz surgir à sua frente o retrato do pequeno aluno sem encantos e que pode abrir sob ele um vazio temido quando a sua nova imagem é ameaçada.

 

O pequeno aluno está à frente de uma legião de ódio e sabe sempre a resposta e o seu credo é Deus Vos Amaldiçoe a Todos. Aos 15 anos, Lander funciona muito bem. Um observador sapiente poderia detectar nele algumas coisas que dão a entender os seus sentimentos, mas estes não são, em si mesmos, suspeitos. Não consegue suportar a competição pessoal. Nunca experimentou as diferentes gradações da agressão controlada, que permitem que a maior parte de nós sobreviva. Nem sequer consegue aguentar jogos de tabuleiro, nunca consegue jogar. Lander compreende objectivamente a agressão limitada, mas não consegue associar-se a ela. Em termos emocionais, para ele não há meio termo entre uma atmosfera agradável e sem competição e a guerra total até à morte com os cadáveres alinhados e queimados. Por isso, não tem saída e engoliu o seu veneno durante muito mais tempo do que a maioria conseguiria fazê-lo.

 

Embora diga a si próprio que odeia a igreja, Michael reza amiúde durante o dia. Está convencido que algumas posições que toma ajudam as suas orações. Tocar com a testa nos joelhos é uma das mais eficazes. Quando precisa de fazer isso em lugares públicos, tem de pensar num artifício para não ser notado. Deixar cair alguma coisa para debaixo da cadeira e dobrar-se para a apanhar é um truque útil. Reza com frequência pelas pessoas que aparecem nos rápidos lampejos de memória que o cauterizam muitas vezes ao dia. Sem querer, apesar dos seus esforços para parar, mantém amiúde diálogos interiores, durante as horas que passa acordado. Agora, está a manter um:

 

- Há a velha Miss Phelps que trabalha na sala dos professores. Pergunto-me quando se reformará. Está há muito tempo na escola.

 

- Querias que ela estivesse roída pelo cancro?

 

- Não.' Que Deus me perdoe, não quero que ela esteja roída pelo cancro. Antes queria que eu estivesse roído pelo cancro. - Dá uma pancada na madeira. - Meu Deus, deixa que primeiro fique eu roído pelo cancro, meu Pai.

 

- Gostavas de pegar na tua caçadeira e rebentar-lhe com as suas tripas velhas e ignorantes?

 

- Não.' Não.' Pai do Céu, não quero. Quero que ela esteja em segurança e seja feliz. Não tem culpa do que é. É uma senhora simpática e boa. Ela é boa. Perdoai-me por dizer Deus amaldiçoado.

 

- Gostavas de lhe enfiar o rosto no cortador de relva?

 

- Não gostava, não gostava, Cristo, ajuda-me a parar de pensar nisso.

 

- Que se foda o Espírito Santo.

 

- Não.' Não posso pensar nisso, não vou pensar nisso, é um pecado mortal. Não posso ser perdoado. Não vou pensar foda-se o Espírito Santo. Oh, voltei a pensar.

 

Michael inclina-se para trás para tocar no fecho da porta do guarda-vento. Toca com a testa no joelho. Depois, concentra-se fortemente no cortador de relva. Está ansioso por o acabar. Está a poupar dinheiro para uma lição de pilotagem.

 

Desde o início que Lander se sentira atraído pela maquinaria e tinha um dom para trabalhar com máquinas. Isso só se tornou uma paixão quando descobriu máquinas que o envolviam, que se transformavam no seu corpo. Quando estava dentro delas, via os seus actos como se fossem os da máquina, nunca via o pequeno aluno.

 

A primeira foi um Piper Cub, num campo de aviação relvado. Enquanto o pilotava não via nada de Lander, mas via o aviãozinho em inclinação lateral, a perder altura, a mergulhar, e a forma dele era a sua e a graciosidade e a força dele eram suas e podia sentir o vento a embater no avião e era livre.

 

Lander alistou-se na Marinha aos 16 anos e nunca mais voltou a casa. Não foi aceite na escola de pilotagem da primeira vez que concorreu e, durante a guerra da Coreia, foi artilheiro no porta-aviões Coral Sea. Uma fotografia do seu álbum mostra-o de pé, em frente de um Corsaír, com pessoal de terra e um cavalete com bombas de fragmentação. Os restantes membros da tripulação estão a sorrir e têm os braços por cima dos ombros uns dos outros. Lander não está a sorrir e tem um detonador na mão.

 

A 1 de Junho de 1953, Lander acordou na camarata dos alistados, em Lakehurst, N. J., pouco depois do amanhecer. Chegara ao seu novo quartel a meio da noite e precisava de um duche frio para acordar. Depois, vestiu-se com esmero. A Marinha fora boa para Lander. Gostava do uniforme, gostava do aspecto que lhe dava e do anonimato que lhe conferia. Era competente e aceitavam-no. Hoje, assumiria as suas novas funções, manuseando detonadores de cargas de profundidade accionados por pressão que estavam a ser preparados para experiências em guerra anti-submarinos. Era bom no que respeitava a explosivos. Tal como muitos homens com inseguranças profundas, adorava a nomenclatura das armas.

 

Na manhã fria, caminhou até ao complexo de paióis, olhando em redor, com curiosidade, para tudo o que não vira quando chegara, na escuridão. Havia os hangares gigantes que continham aeronaves. As portas do que ficava mais perto foram abertas com um som ribombante. Lander viu as horas e, depois, parou no passeio, a observar. O nariz surgiu, devagar, e em seguida o enorme comprimento. Tratava-se de um ZPG-1 com uma capacidade de um milhão de pés cúbicos de hélio. Até então, Lander nunca estivera tão perto de um. 324 pés de aeroplano prateado, que o sol-nascente pintava cor de fogo. A tripulação de terra pululava sob ele. Um dos motores rugia e uma baforada de fumo azul estava suspensa no ar, atrás dele.

 

Lander não queria armar aviões com cargas de profundidade. Não queria trabalhar neles ou trazê-los para dentro e para fora dos hangares. Só via os controlos.

 

Conseguiu ser facilmente aceite no próximo concurso para a academia de oficiais. 280 militares fizeram o exame numa tarde quente de Julho, em 1953. Lander ficou em primeiro lugar. A sua classificação permitiu-lhe escolher a colocação. Foi para os aviões.

 

A extensão do sentido cinestético no controlo de máquinas que se movimentam nunca foi explicada de forma satisfatória. Em relação a algumas pessoas, diz-se que é "inata", mas a expressão não é correcta. Era inata em Mike Hailwood, o grande corredor de motos, e também em Betty Skelton, como poderia testemunhar quem quer que o tivesse visto fazer um oito cubano exterior, com o seu pequeno biplano. Era inata em Lander. Sentado aos controlos de uma aeronave, liberto de si mesmo, era seguro e decidido, à prova de pressão. E, enquanto voava, uma parte do seu cérebro ficava livre para correr à frente, pesando as probabilidades, calculando o próximo problema e o que se lhe seguia.

 

Em 1955, Lander era um dos mais proficientes pilotos de aeronaves de todo o mundo. Em Dezembro desse ano, foi segundo-oficial numa série de voos perigosos a partir da Base Aérea Naval de South Weymouth, no Massachusetts, para testar os efeitos da acumulação de gelo durante o mau tempo. Os voos fizeram que a tripulação ganhasse o Trofeu Harmond desse ano.

 

E havia Margaret. Conheceu-a em Janeiro, no clube dos oficiais, em Lakehurst, onde estava a ser exibido como trofeu, depois dos voos de South Weymouth. Foi o início do melhor ano da sua vida.

 

Ela tinha 20 anos, era bonita e acabara de chegar de West Virgínia. O leão Lander, com o seu uniforme impecável, fê-la perder a cabeça. Por estranho que pareça, ele era o primeiro homem na sua vida e, embora ensiná-la tenha sido para ele uma grande satisfação, a recordação desse facto tornou-lhe as coisas muito mais difíceis, mais tarde, quando começou a pensar que Margaret tinha outros.

 

Casaram na capela de Lakehurst, com a sua placa feita de destroços da aeronave Akron.

 

Lander passou a definir-se em termos de Margaret e da sua profissão. Voava com a aeronave maior, mais comprida e mais polida de todo o mundo. Achava Margaret a mulher mais bonita do mundo.

 

Como Margaret era diferente da sua mãe! Por vezes, quando acordava depois de ter sonhado com a mãe, olhava durante muito tempo para Margaret, admirando-a enquanto verificava as diferenças físicas.

 

Tiveram duas filhas, iam para a praia de Jersey no Verão, com o seu barco. Passaram bons tempos. Margaret não era uma pessoa com muita percepção, mas, com o tempo, acabara por compreender que Lander não era exactamente o que pensara. Precisava de um nível razoavelmente constante de apoio, mas ele oscilava entre extremos, na forma como a tratava. Por vezes, era espalhafatosamente solícito. Quando era contrariado, no trabalho ou em casa, ficava frio e retraído. Por vezes, mostrava lampejos de crueldade que a aterrorizavam.

 

Não podiam discutir os seus problemas. Ela adoptava uma atitude pedante e aborrecida ou recusava-se sequer a falar. Era-lhes negada a catarse de uma briga ocasional.

 

No início da década de 60, ele estava fora durante a maior parte do tempo, a voar no gigantesco ZPG-3W. Com 403 pés, era a maior aeronave não rígida jamais construída. A antena de radar, com 40 pés, rodando no interior do seu enorme envólucro, constituía um elo-chave do primeiro sistema de alerta do país. Lander estava feliz e o seu comportamento, enquanto estava em casa, era correspondentemente bom. Mas a extensão da Distant Early Warning Line (linha de alerta prévio distante), a "DEW Line" de instalações permanentes de radar, estava a retirar papel aos meios aéreos no que respeitava à defesa e, em 1964, as funções de Lander como piloto de aeronaves da Marinha chegaram ao fim. O seu grupo foi desmantelado, as aeronaves foram desmanteladas e ficou em terra. Foi transferido para a Administração.

 

O seu comportamento em relação a Margaret deteriorava-se. Silêncios escaldantes marcavam as horas que passavam juntos. À noite, contra-interrogava-a acerca das suas actividades diárias. Eram bastante inocentes, recusava-se a acreditar. Começou a ficar fisicamente indiferente para com ela. No final de 1964, as suas actividades durante o dia já não eram inocentes. Mas mais do que sexo, ela procurava ternura e compreensão.

 

Lander ofereceu-se como voluntário para os helicópteros durante a expansão do conflito do Vietname e foi prontamente aceite. Agora, andava distraído com os treinos. Estava a voar de novo. Dava presentes caros a Margaret. Ela sentia-se desconfortável e pouco à vontade por causa deles, mas isso era melhor do que a forma como Lander se comportava antes.

 

Na sua última licença antes de embarcar para o Vietname, foram para as Bermudas, passar umas boas férias. Embora a conversa de Lander estivesse cansativamente recheada de problemas técnicos das aeronaves de asas rotativas, pelo menos, estava atento e, por vezes, carinhoso. Margaret correspondeu. Lander pensou que nunca a amara tanto.

 

A 10 de Fevereiro de 1967, Lander levantou voo, do porta-aviões Ticonderoga, no Sul do mar da China, para a sua décima quarta missão de salvamento ar-mar. Meia hora depois do pôr da Lua, pairava por cima do oceano negro, ao largo de Dong Hoi. Estava numa posição de rectaguarda, a 15 milhas da costa, à espera de alguns F-4 e Skyraiáers que regressavam de um raid. Um dos Phantoms foi atingido. O piloto comunicou que o motor de estibordo deixara de funcionar e as luzes indicavam que estava a arder. Iria tentar chegar ao mar antes de ele e o co-piloto se ejectarem.

 

Lander, no cockpit chocalhante do seu helicóptero, mantinha-se permanentemente a falar com o piloto e o Vietname era uma massa escura à sua esquerda.

 

- Ding 0-1, quando estiver bem em cima da água dê-me umas luzes, se as tiver. - Lander podia encontrar a tripulação do Phantom, na água, através do seu sinal de localização, mas pretendia encurtar o tempo o mais possível. - Sr. Dillon - disse, dirigindo-se ao atirador da porta -, vamos descer com o senhor voltado para terra. As operações confirmam que não há navios amigos nas imediações. Qualquer barco que se intrometa não é nosso.

 

A voz do piloto do Phantom soava alto nos seus auscultadores:

 

- Mixmaster, tenho uma segunda luz de incêndio e estou a ficar cheio de fumo. Vamos saltar. - Gritou as coordenadas e, antes de Lander ter tido possibilidade de as repetir para confirmação, desapareceu.

 

Lander sabia o que estava a acontecer - os dois homens da tripulação a descerem as viseiras, a carlinga a estilhaçar-se, os aviadores a saltarem para o ar frio, a ligarem os seus ejectores, os bancos a caírem e, depois, a vibração e a descida rápida e fria, através da escuridão, em direcção à selva.

 

Dirigiu o grande helicóptero para terra, com as pás da hélice a agitar o pesado ar marinho. Agora, tinha de escolher. Podia esperar pela cobertura aérea, manter-se no ar enquanto tentava contactar os homens pelo rádio, à espera de protecção, ou podia avançar.

 

- Está ali, senhor. - O co-piloto estava a apontar.

 

Lander podia ver uma chuva de fogo, à distância de uma milha da costa, enquanto o Phantom rebentava no ar. Estava por cima da praia quando recebeu o sinal de localização. Pediu cobertura aérea, mas não esperou por ela. O helicóptero, com as luzes apagadas, deslizou rente à floresta densa.

 

O sinal de luz piscou, vindo da estrada estreita e sulcada. Os dois homens que se encontravam em terra tiveram o bom senso de marcar um campo de aterragem para ele. Havia espaço suficiente para o rotor entre as fileiras de árvores que ladeavam a estrada. Aterrar seria mais rápido do que içá-los, um a um, com o guincho. Desceu, afundando-se entre as fileiras de árvores, acamando as ervas que se encontravam nas margens da estrada e, de súbito, a noite encheu-se de clarões alaranjados e a carlinga rasgou-se em seu redor. Salpicado pelo sangue do co-piloto, caindo, girando loucamente, no meio do cheiro a borracha queimada.

 

A jaula de bambu não era suficientemente comprida para Lander se esticar lá dentro. A sua mão fora esmagada por uma bala e a dor era constante e terrível. Durante parte do tempo, delirava. Os seus captores não tinham nada com que o tratar, exceptuando um pouco de pó de sulfamidas proveniente de um velho estojo médico francês. Retiraram uma tábua fina de um caixote e ataram-lhe a mão, espalmada, contra ela. A ferida latejava constantemente. Ao fim de três dias na jaula, Lander foi obrigado a marchar para norte, em direcção a Hanói, espicaçado pelos homens pequenos e infatigáveis, que estavam vestidos com pijamas pretos enlameados e empunhavam metralhadoras AK-47 muito limpas.

 

Durante o primeiro mês do seu cativeiro em Hanói, Lander esteve meio doido devido às dores da mão. Encontrava-se numa cela com um navegador da Força Aérea, um diligente ex-professor de Zoologia chamado Jergens. Jergens punha compressas molhadas na mão estropiada e tentava confortar Lander o melhor que podia, mas Jergens estava preso havia muito e também se encontrava muito abalado. 37 dias depois da chegada de Lander, Jergens atingiu o ponto em que não conseguia deixar de gritar na cela e levaram-no embora. Depois de ele partir, Lander chorou.

 

Numa tarde da quinta semana, entrou na cela um jovem médico vietnamita que trazia uma malinha preta. Lander encolheu-se, afastando-se dele. Foi agarrado por dois guardas e mantido quieto enquanto o médico lhe injectava um poderoso anestésico local na mão. O alívio foi como água fria a correr sobre ele. Na hora seguinte, enquanto podia pensar, foi-lhe feita uma proposta.

 

Foi-lhe explicado que as instalações hospitalares da República Democrática do Vietname eram terrivelmente inadequadas, inclusive para tratarem os seus próprios feridos. Mas arranjariam um cirurgião para lhe recuperar a mão e dar-lhe-iam medicamentos para aliviar as dores - caso assinasse uma confissão dos seus crimes de guerra. Era claro para Lander que se a carne estropiada do final do seu braço não fosse reparada, perderia a mão e, talvez, todo o braço. Nunca mais voaria. Não acreditava que uma confissão assinada naquelas circunstâncias fosse tomada a sério nos Estados Unidos. Mesmo que o fosse, preferia a mão à admiração de quem quer que fosse. O anestésico estava a desaparecer e a dor recomeçava a percorrer-lhe o braço. Concordou.

 

Não estava peparado para o que veio a seguir. Quando viu a estante, a sala cheia de prisioneiros sentados como se estivessem numa aula, quando lhe disseram que tinha de lhes ler essa confissão, sentiu-se gelar.

 

Foi levado precipitadamente para uma antecâmara. Uma mão forte que cheirava a peixe agarrou-se à sua boca enquanto um guarda lhe torcia os metacarpos. Estava quase a desmaiar. Acenou freneticamente com a cabeça, tentando resistir à mão que se comprimia contra o seu rosto. Deram-lhe outra injecção, enquanto lhe atavam a mão, para não ser vista, debaixo do casaco.

 

Leu, pestanejando por causa das luzes, enquanto a câmara de filmar rolava.

 

Sentado na fila da frente estava um homem com cabeça curtida e cheia de cicatrizes de um falcão depenado. Era o coronel Ralph Dejong, o oficial americano de patente mais alta no campo-prisão da plantação. Ao longo dos seus quatro anos de cativeiro, o coronel Dejong passara 258 dias na cela de isolamento. Quando Lander estava a terminar a sua confissão, o coronel Dejong falou subitamente e a sua voz ouviu-se em toda a sala:

 

- É mentira.

 

Dois guardas caíram de imediato em cima de Dejong e arrastaram-no para fora da sala. Lander teve de ler novamente a confissão. Dejong passou 100 dias na cela de isolamento, com ração reduzida.

 

Os norte-vietnamitas repararam a mão de Lander num hospital dos arredores de Hanói, um edifício forte e caiado por dentro, com guarda-ventos de vime a tapar as aberturas onde as janelas tinham saltado. Não fizeram um trabalho bonito. O cirurgião de olhos injectados que operou Lander não tinha conhecimentos de cirurgia estética para aplicar na aranha vermelha que estava presa à sua mesa e dispunha de poucos remédios. Mas tinha fio de aço e ligaduras e paciência e, no final, a mão voltou a funcionar. O médico falava inglês e praticava-o com Lander em conversas enfurecedoramente aborrecidas, enquanto trabalhava.

 

Lander, que procurava com desespero alguma distracção, olhando para todo o lado menos para a mão enquanto o trabalho prosseguia, viu um velho aparelho de ressuscitação, de fabrico francês, obviamente não utilizado, ao canto da sala de operações. Trabalhava com um motor de corrente directa com um volante excêntrico para bombear os foles. Ofegante, fez algumas perguntas a respeito dele.

 

- O motor estava queimado - disse o médico. - Ninguém sabia arranjá-lo.

 

Desviando a atenção para qualquer lugar onde pudesse fugir à dor, Lander falou de induzidos e da forma como podem ser rebobinados. Viam-se-lhe gotas de suor no rosto.

 

- Podia arranjá-lo? - A testa do médico estava franzida. Estava a atar um nó minúsculo. O nó não era maior do que a cabeça de uma formiga, nem do que a cova de um dente, maior do que o Sol brilhante.

 

- Sim. - Lander falou em fio de cobre e bobinas e metade das palavras foram cortadas a meio.

 

- Aí está - disse o médico. - Por agora, é tudo.

 

A maioria dos prisioneiros de guerra americanos comportou-se de forma admirável aos olhos do exército do seu país. Aguentaram durante anos para poderem regressar ao seu país com uma continência firme enviesada por cima dos seus olhares abatidos. Eram homens decididos, com egos fortes e resistentes. Eram homens para quem era possível acreditar em algo.

 

O coronel Dejong era um deles. Quando saiu da cela de isolamento para reassumir o comando dos prisioneiros de guerra pesava menos de 70 kg. Encovados no seu rosto, os olhos tinham um brilho avermelhado, como os olhos de um mártir a reflectirem o fogo. Não decretara qualquer sanção para Lander, até que o viu, na cela, com uma bobina de fio de cobre, a rebobinar o induzido de um motor norte-vietnamita, tendo a seu lado algumas espinhas de peixe, dentro de um prato.

 

O coronel Dejong passou a palavra e Lander recebeu o Silêncio na prisão. Tornou-se um renegado.

 

Lander nunca fora capaz de pôr o seu nível habitual de perícia ao serviço do pouco sólido sistema de defesas que lhe permitia sobreviver. O seu descrédito perante os outros prisioneiros, o isolamento que veio depois, tudo isso constituía um regresso a tempos antigos e desagradáveis. Jergens era o único que falava com ele e Jergens estava com frequência no isolamento. Era levado sempre que não conseguia parar de gritar.

 

Enfraquecido pela ferida, avermelhado pela malária, Lander foi reduzido às suas duas partes que não se coadunavam - a criança, odiada e cheia de ódio, e o homem que ele criara à imagem daquilo que queria ser. Recomeçaram os velhos diálogos dentro da sua cabeça, mas a voz do homem, a voz da sanidade continuava a ser a mais forte. Aguentou-se nesse estado durante seis anos. Era preciso mais do que a prisão para Lander desistir e deixar que a criança ensinasse o homem a matar.

 

No último Natal que passou em cativeiro, deram-lhe uma carta de Margaret. Arranjara um emprego, dizia. As miúdas estavam óptimas. Vinha juntamente uma fotografia, de Margaret e das filhas em frente à casa. As miúdas estavam mais altas. Margaret aumentara de peso. A sombra da pessoa que tirara a fotografia estendia-se em primeiro plano. A sombra era grande. Caía-lhe sobre as pernas. Lander perguntou-se quem teria tirado a fotografia. Olhou mais para a sombra do que para a mulher e as filhas.

 

A 15 de Fevereiro de 1973, Lander foi conduzido a bordo de um C-141 da Força Aérea, em Hanói. Uma ordenança atou-lhe o cinto de segurança. Não olhou pela janela.

 

O coronel Dejong também se encontrava no avião, embora fosse difícil reconhecê-lo. Durante os últimos dois anos, tinham-lhe partido o nariz e rebentado os dentes a pontapé, enquanto dava aos seus homens um exemplo de não colaboração. Agora, dava um exemplo ignorando Lander. Se Lander reparou, não o deu a entender. Estava macilento e amarelado e tinha constantes arrepios de malária. O médico da Força Aérea que se encontrava a bordo mantinha-o sob estrita vigilância. Um carrinho de bebidas percorria sem cessar a coxia.

 

Tinham sido embarcados vários oficiais no avião para conversarem com os prisioneiros de guerra, caso estes quisessem fazê-lo. Um desses homens estava sentado ao lado de Lander. Lander não queria falar. O oficial chamou-lhe a atenção para o carrinho das comidas. Lander tirou uma sanduíche e deu-lhe uma dentada. Mastigou várias vezes e, depois, cuspiu o que mastigara para dentro do seu saco de vomitar. Pôs a sanduíche no bolso. Depois, pôs mais uma sanduíche no bolso.

 

O oficial que se encontrava a seu lado começou a garantir-lhe que havia muitas sanduíches e, depois, decidiu não continuar. Deu umas pancadinhas no braço de Lander. Não obteve resposta.

 

Base Aérea de Clark, nas Filipinas. Estavam lá uma banda e o comandante da base prontos para saudar os homens. As câmaras de televisão esperavam. O coronel Dejong deveria ser o primeiro a sair do avião. Caminhava ao longo da coxia em direcção à porta, viu Lander e parou. Durante um segundo, houve ódio no rosto de Dejong. Lander olhou para ele e desviou rapidamente o olhar. Estava a tremer. Dejong abriu a boca e, em seguida, a sua expressão suavizou-se um milímetro e continuou a andar, em direcção aos aplausos, em direcção à luz do Sol.

 

Lander foi levado para o Hospital Naval de Santo Alban, em Queens. Aí, começou um diário, um projecto que não iria manter durante muito tempo. Escrevia muito devagar e cuidadosamente. Tinha medo de que, se fosse mais depressa, a caneta pudesse fugir-lhe e escrever algo que não queria ver.

 

Estas são as quatro primeiras entradas:

 

Hospital de Santo Alban, 2 de Março.

 

Estou livre. Margaret veio ver-me todos os dias durante os primeiros oito dias. Esta semana, veio três vezes. Nos outros dias tinha de conduzir os colegas. Margaret está com bom aspecto, mas não da forma como eu pensava quando estava lá. Parece estar sempre muito satisfeita. Trouxe as miúdas duas vezes. Estiveram cá hoje. Limitaram-se a ficar sentadas, a olhar para mim e para o quarto. Mantive a minha mão debaixo do lençol. Não têm grande coisa para fazer no hospital. Podem ir lá abaixo à cantina e beber uma Coca-Cola. Tenho de me lembrar de arranjar trocos. Margaret deve dar-lhes as moedas. Julgo que sou um estranho para elas. Margaret é muito boa e paciente e elas obedecem-lhe. Sonhei novamente com o Fuinha, na noite passada, e hoje estava absorto enquanto falava com elas. Margaret faz a despesa da conversa.

 

Hospital de Santo Alban, 12 de Março.

 

Os médicos dizem que tenho malária por Jalciparum e é por isso que o ciclo de arrepios é irregular. Estão a dar-me cloroquina, mas não actua de imediato. Hoje, tive um ataque de arrepios enquanto Margaret se encontrava cá. Agora, usa o cabelo cortado curto. Não parece muito ela, mas cheira bem. Agarrou-me enquanto tremia. Estava quente, mas afastou o rosto. Espero não cheirar mal. Talvez sejam as minhas gengivas. Tenho medo de que Margaret venha a ouvir alguma coisa. Espero que nunca tenha visto o filme.

 

Boas notícias. Os médicos pensam que a minha mão só tem uma deficiência de 10%. Não deverá afectar a minha aptidão para voar. Margaret e as miúdas vão ter de a ver, mais cedo ou mais tarde.

 

Hospital de Santo Alban, 20 de Março.

 

Jergens está ao fundo do corredor. Espera voltar a ensinar, mas está em mau estado. Fomos companheiros de cela exactamente durante dois anos, creio eu. Ele diz que foram 745 dias. Também está a sonhar. Por vezes, o Fuinha. Tem de ter a porta do quarto aberta. Foi todo aquele isolamento perto do final que o deitou abaixo. Não acreditavam que não estivesse a gritar deliberadamente na cela, durante a noite. O Fuinha gritou com ele e chamou o general Esmegma. O verdadeiro nome do Esmegma era capitão Lebron Nhu, tenho de me lembrar disso. Meio francês, meio vietnamita. Encostaram-no à parede e esbofetearam-no e isto foi o que Jergens disse: "Várias espécies de plantas e animais têm dentro de si factores letais que, quando homozigóticos, param o desenvolvimento numa determinada fase e o indivíduo morre. Um caso notório é o da raça amarela do rato doméstico, mus musculus, que nunca se reproduz de verdade. Isto deveria interessar-te, Esmegma. Foi nesta altura que começaram a tentar arrastá-lo para fora da cela. Se um rato amarelo for cruzado com um não amarelo, metade das crias são amarelas e a outra metade não amarelas [nessa altura, Jergens estava agarrado às barras e o Fuinha foi pelo lado de fora dar-lhe pontapés nos dedos], uma proporção que será de esperar no cruzamento de um animal heterozigótico, amarelo, com um homozigótico recessivo, qualquer não amarelo como o raguti, um pequeno roedor voraz, de pernas finas, que parece um coelho mas tem orelhas mais pequenas. Se se acasalarem dois amarelos, as crias são, em média, duas amarelas e uma não amarela, embora a proporção esperada entre as crias fosse de entre um amarelo puro e dois amarelos heterozigóticos para um não amarelo. [As suas mãos estavam a sangrar e eles arrastavam-no ao longo do corredor, ainda a gritar.] Mas, o "amarelo homozigótico" morre em embrião. És tu, Esmegma. A "galinha trepadora" com pernas curtas e arqueadas comporta-se, geneticamente, como o rato amarelo."

 

Jergens passou seis meses em isolamento por causa disto e perdeu os dentes devido à dieta. Tinha aquela história do rato amarelo garatujada nas tábuas do beliche e, depois de se ter ido embora, eu costumava lê-la.

 

Não vou pensar nisso nunca mais. Sim, vou. Posso repeti-lo para mim mesmo durante as outras coisas. Tenho de levantar este colchão e ver se alguém, no hospital, rabiscou nas traves.

 

Hospital de Santo Alban, 1 de Abril de 1973.

 

Dentro de quatro dias posso ir para casa. Disse-o a Margaret. Ela vai trocar os dias em que dá boleias aos outros para poder vir buscar-me. Tenho de ter cuidado com o meu génio, agora que estou mais forte. Fui aos arames hoje, quando Margaret me disse que tinha arranjado maneira de trocar de carro. Disse-me que encomendara a carrinha em Dezembro e, por isso, já está feito. Devia ter esperado. Eu podia ter conseguido um negócio melhor. Disse que o representante lhe estava a fazer condições muito especiais. Parecia cheia de presunção.

 

Se tivesse um transferidor, um nível, mapas de navegação e um fio podia calcular a data sem um calendário. Durante uma hora, recebo a luz do Sol directamente através da minha janela. As tiras de madeira dos caixilhos formam uma cruz na parede. Sei as horas e conheço a latitude e a longitude do hospital. Isso e o ângulo do Sol dar-me-iam a data. Podia medi-la na parede.

 

O regresso de Lander foi difícil para Margaret, que começara a construir uma vida diferente com pessoas diferentes, durante a sua ausência, e interrompeu essa vida para o trazer para casa. Era provável que o tivesse deixado, caso ele tivesse regressado a casa depois da última comissão, em 1968, mas não iria entrar com uma acção de divórcio enquanto estivesse prisioneiro. Tentava ser justa e não podia suportar a ideia de o deixar, estando ele doente.

 

O primeiro mês foi horrível. Lander estava muito nervoso e os comprimidos nem sempre o ajudavam. Não aguentava que as portas estivessem fechadas à chave, inclusive de noite, e vagueava pela casa, depois da meia-noite, para se certificar de que estavam abertas. Ia ao frigorífico vinte vezes por dia para ter a certeza de que estava cheio de comida. As miúdas eram delicadas para ele, mas as suas conversas eram sobre pessoas que não conhecia.

 

Recuperava as forças a bom ritmo e falava em voltar para o serviço activo. Os registos do Hospital de Santo Alban mostravam um ganho ponderai de 9 kg nos primeiros dois meses.

 

Os registos do procurador-geral de Justiça do Ministério da Marinha mostram que Lander foi convocado para um inquérito à porta fechada, a 24 de Maio, para responder às acusações de colaboração com o inimigo com base na denúncia apresentada pelo coronel Ralph Dejong.

 

A transcrição da audiência refere que a prova 7, um fragmento de um filme de propaganda norte-vietnamita, foi exibida na audiência e que, imediatamente a seguir, a audiência foi suspensa durante quinze minutos, enquanto o réu se desculpava. Depois, foram ouvidos os depoimentos do réu e do coronel Dejong.

 

A transcrição regista, duas vezes, que o réu se dirigiu à comissão de inquérito como "Minha Senhora". Muito mais tarde, essas citações foram consideradas, pela comissão de altas patentes, erros tipográficos da transcrição.

 

Tendo em vista a folha de serviços exemplar do acusado antes da captura e a sua condecoração por ter ido em busca da tripulação abatida, a acção que conduziu à sua captura, os oficiais que conduziram o inquérito estavam dispostos a ser lenientes.

 

Um memorando assinado pelo coronel De Jong está apenso à transcrição. Afirma que, tendo em vista o desejo expresso do Ministério da Defesa de evitar publicidade adversa em relação a falhas de conduta dos prisioneiros de guerra, está disposto a retirar a queixa, "tendo em vista o bem maior do exército", se Lander apresentar a demissão.

 

A alternativa para o pedido de demissão era o conselho de guerra. Lander não pensava ser capaz de ver outra vez o filme.

 

Uma cópia do seu pedido de demissão está apensa à transcrição.

 

Lander estava entorpecido quando deixou a sala de audiências. Sentia-se como se lhe tivessem arrancado um dos membros. Em breve teria de dizer a Margaret. Embora nunca tivesse feito qualquer referência ao filme, saberia qual era a razão por que se demitira. Caminhou sem destino por Washington, uma figura solitária num lindo dia de Primavera, elegante dentro do uniforme que nunca mais poderia vestir. O filme continuava a passar dentro da sua cabeça. Estavam lá todos os pormenores, exceptuando o facto de, por qualquer razão, o seu uniforme de prisioneiro de guerra ter sido substituído por uns calções curtos. Sentou-se num banco de jardim perto da Ellipse. Não era assim tão longe até à ponte para Arlington, não tão longe até ao rio. Perguntou-se se o cangalheiro lhe cruzaria as mãos sobre o peito. Perguntou-se se poderia escrever um bilhete pedindo que pusessem a mão boa por cima. Perguntou-se se o bilhete se dissolveria no seu bolso. Estava a olhar fixamente para o monumento a Washington sem o ver verdadeiramente. Via-o com a visão em túnel de um suicida, o monumento erguendo-se no círculo brilhante como o retículo de um poste numa vista telescópica. Algo entrou no seu campo de visão, atravessando o círculo brilhante, acima e atrás do retículo pontiagudo.

 

Era a aeronave prateada da sua infância, o dirigível da Aldrich. Por detrás do ponto imóvel do monumento, podia vê-lo vogando suavemente com vento pela proa e agarrou na extremidade do seu banco, como se se tratasse da roda do elevador. A aeronave estava a virar, agora com mais velocidade ao apanhar o vento por estibordo, fazendo uma pequena declinação enquanto zumbia por cima dele. A esperança desceu sobre Lander através do ar puro da Primavera.

 

A Companhia Aldrich ficou contente por ficar com Michael Lander. Se os funcionários da empresa estavam cientes de que, durante 98 segundos, o seu rosto aparecera nas redes de televisão a denunciar o seu país, nunca o referiram. Descobriram que ele conseguia voar de forma soberba e isso bastava.

 

Tremeu durante metade da noite que antecedeu o seu teste de voo. Margaret tinha grandes apreensões enquanto o conduzia ao aeroporto, que ficava apenas a 8 km da sua casa. Não precisava de se ter preocupado. Ele ficou completamente diferente mal começou a dirigir-se para a aeronave. Um antigo sentimento invadiu-o e revigorou-o, deixando-lhe a mente calma e as mãos firmes.

 

Voar parecia ser uma maravilhosa terapia para ele e assim era para uma parte dele. Mas a mente de Lander estava ligada como um mangual e, à medida que recuperava a confiança, metade do seu espírito mantida firme por essa confiança proporcionava força para os golpes da outra metade. A sua humilhação em Hanói e Washington crescera cada vez mais na sua mente durante o Outono e o Inverno de 1973. O contraste entre a sua auto-imagem e a forma como fora tratado tornou-se maior e mais obsceno.

 

A sua confiança não lhe serviu de apoio durante as horas de escuridão. Suava, sonhava, continuava impotente. Era de noite que a criança que se encontrava dentro dele, cheia de ódio, alimentada pelo seu sofrimento, murmurava para o homem.

 

- Que mais custos teve para ti? Que mais? Margaret agita-se no sono, não é? Pensas que ela escabreou um pouco enquanto estavas fora?

 

- Não.

 

- Parvo. Pergunta-lhe.

 

- Não tenho de lhe perguntar.

 

- Estúpido picha-mole.

 

- Cala-te.

 

- Enquanto estavas a berrar numa cela, ela andava a abrir as pernas.

 

- Não. Não. Não. Não. Não. Não.

 

- Pergunta-lhe.

 

Perguntou-lhe, numa noite fria perto do final de Outubro. Os olhos dela encheram-se de lágrimas e saiu do quarto. Culpada ou não?

 

Ficou obcecado com o pensamento de que ela lhe fora infiel. Perguntou ao farmacêutico se a receita que ela tinha de pílulas anticoncepcionais fora renovada regularmente durante os últimos dois anos e foi-lhe dito que não tinha nada que ver com isso. Deitado a seu lado, depois de mais um fracasso, era atormentado por cenas gráficas de Margaret a ter relações com outros homens. Por vezes, os homens eram Buddy Ives e Júnior Atkins, um deles em cima de Margaret e o outro à espera da sua vez.

 

Aprendeu a evitá-la quando estava zangado e desconfiado e passava a maior parte das noites às voltas na oficina da garagem. Outras passava-as a tentar fazer conversa leve com ela, fingindo interessar-se pelos pormenores da sua rotina diária, pela forma como corria a escolaridade das filhas.

 

Margaret era enganada pela sua recuperação física e pelo seu êxito no trabalho. Pensava que estava praticamente curado. Garantiu-lhe que a impotência passaria. Disse-lhe que o psiquiatra da Marinha já lhe falara nisso, antes de ele vir para casa. Utilizou a palavra impotência.

 

A primeira digressão da Primavera do dirigível, em 1974, ficou limitada ao Nordeste e, por isso, Lander podia ficar em casa. A segunda deveria ser uma descida da costa leste da Florida. Ia ficar fora durante três semanas. Alguns dos amigos de Margaret deram uma festa na noite que antecedeu a sua partida e os Lander foram convidados. Lander estava de bom humor e insistiu em que comparecessem.

 

Foi uma reunião agradável de oito casais. Houve comida e dançou-se. Lander não dançou. Falando rapidamente, com uma película de suor na testa, falou com um grupo de maridos apanhados contra vontade sobre os sistemas do balonete e dos amortecedores das aeronaves. Margaret interrompeu-lhe o discurso para lhe mostrar o pátio. Quando regressou, a conversa tinha mudado para o futebol profissional. Ocupou o seu lugar e recomeçou a prelecção no preciso ponto em que a interrompera.

 

Margaret dançou com o anfitrião. Na segunda vez, este agarrou-lhe a mão, durante um instante, depois de a música ter parado. Lander observou-os. Estavam a falar em voz baixa. Sabia que estavam a falar dele. Explicou tudo sobre cortinas catenárias, enquanto os ouvintes olhavam fixamente para as suas bebidas. Margaret estava a ser muito cuidadosa, pensou, mas podia vê-la a absorver a atenção dos homens. Aspirava-a através da pele.

 

No caminho para casa, estava mudo, branco de raiva.

 

Por fim, na cozinha de casa deles, Margaret já não conseguia aguentar o silêncio.

 

- Por que razão não começas a gritar e deitas tudo cá para fora?

- disse. - Vá lá, diz aquilo em que estás a pensar.

 

O gato dela entrou na cozinha e esfregou-se na perna de Lander. Margaret agarrou-o, temendo que ele lhe desse um pontapé.

 

- Diz-me o que fiz, Michael. Estávamos a divertir-nos, não estávamos?

 

Era tão bonita. Estava ali, condenada pelo seu encanto. Aproximou-se dela, rapidamente, olhando-lhe para o rosto. Ela não recuou.

 

Nunca lhe batera, nunca poderia bater-lhe. Agarrou no gatinho e foi até ao lava-louças. Quando Margaret se apercebeu do que ele estava a fazer, o gato já estava dentro do triturador de lixo. Correu para o lava-louças e agarrou-lhe nos braços, enquanto ele o ligava. Ouviu o gatinho enquanto as lâminas do triturador lhe cortaram as extremidades, até chegarem aos órgãos vitais. Durante todo esse tempo, Lander olhava-lhe fixamente para o rosto.

 

Os gritos dela acordaram as filhas. Dormiu no quarto das miúdas e ouviu-o sair, pouco depois de amanhecer.

 

Michael enviou-lhe flores de Norfolk. Tentou telefonar-lhe de Atlanta. Ela não atendeu o telefone. Queria dizer-lhe que percebera que as suas suspeitas eram desprovidas de fundamento, produto de uma imaginação doentia. Escreveu-lhe uma longa carta de Jacksonville, dizendo-lhe que estava arrependido, que sabia que fora cruel e injusto e louco e que nunca mais voltaria a comportar-se daquela forma.

 

No décimo dia da digressão de três semanas prevista, o co-piloto estava a trazer o dirigível para o mastro de aterragem quando uma rajada de vento inesperada o apanhou e atirou contra o camião de manutenção, rasgando o tecido do envólucro.

 

A aeronave iria ficar em terra durante um dia e uma noite, enquanto era reparada. Lander não conseguia encarar a ideia de ficar num quarto de motel durante um dia e uma noite sem notícias de Margaret.

 

Apanhou um avião para Newark. Numa loja de animais de Newark, comprou um lindo gatinho persa. Chegou a casa ao meio-dia. A casa estava silenciosa, as filhas encontravam-se num acampamento. O carro de Margaret estava estacionado no caminho de acesso e a chaleira aquecia em lume brando. Iria dar-lhe o gatinho e dizer-lhe que estava arrependido e poderiam abraçar-se e ela perdoar-lhe-ia. Tirou o gatinho do cesto e endireitou-lhe a fita que tinha ao pescoço. Subiu as escadas.

 

O estranho estava reclinado no sofá-cama, com Margaret escarranchada em cima dele, subindo e descendo, com os seios a balançar. Não viram Lander até ele gritar. Foi uma luta curta. Lander ainda não recuperara toda a sua força e o estranho era grande, rápido e estava assustado. Deu duas pancadas fortes na têmpora de Lander e ele e Margaret fugiram.

 

Lander ficou sentado no chão do quarto dos brinquedos, com as costas encostadas à parede. Tinha a boca aberta e a sangrar e os olhos perdidos no vazio. O assobio da chaleira ouviu-se durante meia hora. Não se mexeu e, quando a água se evaporou, a casa encheu-se com o cheiro a metal derretido.

 

Quando a dor e a raiva atingem níveis que estão muito além da capacidade que o espírito tem de os aguentar, é possível um alívio curioso, mas exige uma morte parcial.

 

Lander fez um sorriso horrível, um ricto sangrento e sorridente, quando sentiu morrer a sua vontade. Julgou que lhe saía pela boca e narinas num fumo fino transportado por um suspiro. Então, o alívio chegou até ele. Acabara. Oh, acabara. Para metade dele.

 

O que restava do homem Lander sentiria alguma dor, iria debater-se galvanicamente como pernas de rã numa frigideira, gritaria por ajuda. Mas nunca mais voltaria a mergulhar os dentes no coração pulsante da raiva. A raiva nunca mais voltaria a cortar-lhe o coração e a esfregá-lo, palpitante, no seu rosto.

 

O que sobrava podia viver com raiva porque era feito de raiva e a raiva era o seu elemento e sentia-se bem nela como um mamífero se sente bem com o ar.

 

Levantou-se e lavou a cara e, quando deixou a casa, quando regressou à Florida, estava firme de novo. O seu cérebro ficou tão frio como o sangue de uma cobra. Já não havia diálogos na sua cabeça. Agora, havia apenas uma voz. O homem funcionava perfeitamente porque a criança precisava dele, precisava do seu cérebro rápido e dos seus dedos habilidosos. Para encontrar o seu próprio alívio. Matando e matando e matando e matando. E morrendo.

 

Ainda não sabia o que faria, mas, à medida que ficava suspenso em cima de estádios apinhados, semana após semana, iria descobrindo.

 

E quando soube o que tinha de fazer, procurou os meios e, antes dos meios, veio Dahlia. E Dahlia ouviu algumas destas coisas e inferiu grande parte do restante.

 

Estava embriagado quando lhe contou que encontrara Margaret e o amante em casa e, depois, tornou-se violento. Ela apanhou-o por detrás da orelha com a aresta da mão, deixando-o inconsciente. Na manhã seguinte, não se lembrava de que ela lhe batera.

 

Passaram dois meses antes de Dahlia ter confiança nele, dois meses a ouvi-lo, a vê-lo construir e planear e voar, a ficar deitada a seu lado, durante a noite.

 

Quando teve a certeza, contou tudo isso a Hafez Najeer e Najeer achou bem.

 

Agora, com os explosivos no mar, dirigindo-se para os Estados Unidos a uma velocidade firme de 12 nós, no cargueiro Leticia, todo o projecto estava ameaçado pela traição do capitão Larmoso e, talvez, pela traição do próprio Benjamin Muzi. Larmoso teria violado os caixotes por ordem de Muzi? Talvez Muzi tivesse decidido guardar o pagamento antecipado, vender Lander e Dahlia às autoridades e traficar o plástico algures. Se fosse assim, não podiam arriscar-se a ir buscar os explosivos ao cais de Nova Iorque. Tinham de recolher o plástico no mar.

 

O barco tinha um aspecto bastante vulgar - um barco de pesca de recreio, fino, com 38 pés de comprimento -, uma "bomba" do tipo utilizado por homens com muito dinheiro e não muito tempo. Em todos os fins-de-semana, durante a estação alta, muitos deles roncam para leste, cortando as ondas, transportando homens barrigudos, com bermudas, até às fossas súbitas, ao largo da costa de Nova Jérsia, onde os grandes peixes se alimentam.

 

Mas numa época de barcos de fibra de vidro e de alumínio este era feito de madeira - um casco duplo de mogno das Filipinas. Era de construção bela e resistente e custara bastante. Até mesmo a superstrutura era de madeira, mas isso não se notava, porque a maior parte do envernizado fora pintado por cima. A madeira é um mau reflector de radar.

 

Dois enormes motores a diesel turbinados atravancavam a casa das máquinas e muito do espaço utilizado, nos barcos vulgares, para as refeições e o descanso fora sacrificado para arranjar mais espaço para combustível e água. Durante a maior parte do Verão, o proprietário utilizava-o nas Caraíbas, trazendo haxixe e marijuana da Jamaica para Miami, na calada da noite. No Inverno, vinha para norte e alugava o barco, mas não a pescadores. O preço era de 2000 dólares por dia, sem fazer perguntas, mais um depósito assombroso. Michael hipotecara a casa para arranjar dinheiro para o depósito.

 

Encontrava-se num hangar de barcos, no final de uma fila de cais desertos, em Toms River, ao lado de Barnegat Bay, atestado de combustível, à espera.

 

Às 10 h da manhã de 12 de Novembro, Lander e Dahlia chegaram ao cais, numa furgoneta alugada. Caía uma chuva fria e morrinhenta e os cais encontravam-se desertos. Lander abriu as portas duplas do lado de terra do hangar e entrou, de marcha atrás, com a carrinha, até esta ficar a cerca de 2 m da popa do grande barco desportivo. Dahlia soltou uma exclamação ao ver o barco, mas Lander estava atarefado a verificar o equipamento e não lhe prestou atenção. Durante os vinte minutos seguintes, carregaram material para bordo: rolos extra de cabos, um mastro fino, duas carabinas de grande calibre, uma caçadeira de canos serrados a um comprimento de 45 centímetros, uma espingarda de alta potência, uma pequena plataforma presa a quatro flutuadores ocos, cartas náuticas para reforçar o já bem equipado stock de cartas e vários pacotes bem feitos, que incluíam um almoço.

 

Lander atou cada um dos objectos de forma tão segura que, mesmo que o barco fosse virado de quilha para cima e agitado, nada cairia do lugar.

 

Ligou um interruptor na parede do hangar de barcos e a porta grande, do lado da água, subiu rangendo, deixando entrar a luz cinzenta do Inverno. Trepou para a ponte de comando. Primeiro, o díesel rugiu e depois surgiu, por estibordo, um fumo azul que se elevou no hangar escuro. Os seus olhos saltaram de manómetro para manómetro enquanto os motores aqueciam.

 

A um sinal de Lander, Dahlia retirou as amarras de popa e juntou-se a ele na ponte de comando. Michael empurrou os manipules para a frente, a água a ondear como um músculo à popa, as saídas de escape atirando água e borbulhando, e o barco saiu devagar em direcção à chuva.

 

Depois de saírem de Toms River, Lander e Dahlia mudaram-se para os comandos de baixo, dentro da cabina aquecida, para descerem a baía até Barnegat Inlet e o mar aberto. O vento soprava de norte, levantando um ligeiro encapelamento. Cortaram-no com facilidade, com os limpa-pára-brisas a afastarem lentamente as pequenas gotas de chuva. Até onde podiam ver, não havia mais barcos ao largo.

 

O comprido banco de areia que protegia a baía avistava-se na neblina, fora do porto, e, do outro lado, conseguiam divisar uma chaminé na foz de Oyster Creek.

 

Em menos de uma hora chegaram a Barnegat Inlet. O vento rondara para noroeste e as ondas de fundo estavam a crescer no estreito. Lander riu quando encontraram a primeira das grandes vagas atlânticas, que rebentou borrifando-os pela proa. Tinham subido de novo para os comandos exteriores para transporem o estreito e o jacto frio batia-lhes nas faces.

 

- As ondas não vão ser tão grandes lá fora, miúda - disse Lander, enquanto Dahlia limpava o rosto com as costas da mão.

 

Podia ver que ele estava a divertir-se. Adorava sentir o barco debaixo dele. A flutuação exercia um enorme fascínio sobre Lander. A força fluida, dando, empurrando com apoio fiável como um rochedo. Girava o volante devagar, de um lado para o outro, alterando ligeiramente o ângulo em que o barco enfrentava o mar, estendendo o seu sentido cinestésico para sentir as forças em mudança no casco. Agora, a terra estava a desaparecer dos dois lados, e o Farol de Barnegat brilhava a estibordo.

 

Saíram dos chuviscos para um sol invernal e aquoso quando deixaram de ver a costa e, ao olhar para trás, Dahlia viu as gaivotas às voltas, muito brancas contra as nuvens cinzentas suspensas por detrás delas. Andando às voltas, como costumavam fazer por cima da praia de Tiro, quando ela era uma criança, de pé, na areia quente, com os seus pés pequenos e castanhos por debaixo da bainha esfarrapada. Seguira demasiados corredores estranhos, na mente de Michael Lander, durante demasiado tempo. Perguntava-se como iria a presença de Muhammad Fasil alterar a química entre eles, caso Fasil ainda estivesse vivo e à espera, com os explosivos, lá fora, além da curva das 90 braças. Teria de falar com Fasil rapidamente. Havia coisas que Fasil tinha de saber, antes de cometer um erro fatal.

 

Quando se voltou para olhar para o mar, Lander estava a observá-la do banco do timoneiro, com uma mão no volante. O ar do mar trouxera cor às maçãs do rosto dela e os olhos estavam brilhantes. A gola do seu casaco de pele de borrego estava virada em redor do rosto e as Levis retesavam-se nas suas coxas enquanto se balançava para manter o equilíbrio no barco em movimento. Lander, com dois grandes ateseis sob a mão, a fazer uma coisa que fazia bem, atirou a cabeça para trás e riu e tornou a rir. Era uma verdadeira gargalhada e surpreendeu-a. Não a ouvira muitas vezes.

 

- És uma mulher explosiva, sabias? - disse, limpando os olhos com o punho.

 

Ela olhou para o tombadilho e, depois, ergueu de novo a cabeça, sorrindo, olhando para ele.

 

- Vamos buscar algum plástico.

 

- Sim - respondeu Lander, abanando a cabeça. - Todo o plástico do mundo.

 

Manteve uma rota de 110 graus magnéticos, ligeiramente a norte do leste com a variação da bússola, e depois alterou a mais 5 graus para norte, quando as bóias de sino e apito ao largo de Barnegat lhe mostraram mais precisamente o efeito do vento. As ondas batiam na proa a bombordo, agora mais moderadas, e só uns ligeiros salpicos é que sopravam para trás quando o barco as cortava. Algures para lá do horizonte, o cargueiro estava à espera, cavalgando o mar de Inverno.

 

Pararam a meio da tarde, enquanto Lander fixava a sua posição com o indicador de direcção via rádio. Fez isso cedo para evitar a distorção que iria surgir ao pôr do Sol e fê-lo muito cuidadosamente, delineando três rumos e marcando-os na sua carta, anotando tempos e distâncias em pequenos números meticulosos.

 

Enquanto trotavam para leste em direcção ao X marcado na carta, Dahlia fez café na cozinha para acompanhar as sanduíches que trouxera e, em seguida, limpou o balcão. Com pequenos bocados de fita adesiva, prendeu ao topo do balcão um par de tesouras cirúrgicas, compressas, três pequenas seringas descartáveis com morfina e uma única seringa com Ritalin. Colocou um conjunto de talas ao longo do corrimão da orla do balcão e prendeu-as com um pedaço de adesivo.

 

Atingiram o ponto de encontro aproximado, muito para além da rota marítima, em direcção ao Norte, Barnegat-Ambrose, uma hora antes do pôr do Sol. Lander verificou a sua posição no RDF e corrigiu-a ligeiramente para norte.

 

Primeiro, viram o fumo, uma mancha no horizonte, para leste. Depois, dois pontos sob o fumo à medida que aparecia a superstrutura do cargueiro. Em breve se via todo o casco, avançando devagar. O Sol estava baixo a sudoeste, por detrás de Lander, enquanto ele corria em direcção ao navio. Era como planeara. Ele sairia do sol para os vigiar e qualquer atirador no navio com uma mira telescópica ficaria encandeado pela luz.

 

Desacelerado, o barco de desporto deslizou para junto do cargueiro miserável, enquanto Lander os estudava com os seus binóculos. Enquanto estava a olhar, duas bandeiras de sinalização subiram pela adriça de bombordo. Conseguiu distinguir um X branco num campo azul e, por baixo, um diamante vermelho num campo branco.

 

- M. F - leu Lander.

 

- É ele. Muhammad Fasil.

 

Restavam quarenta minutos de luz solar. Lander decidiu aproveitá-los. Sem mais navios à vista, era melhor correr o risco de fazer o transbordo com a luz do dia do que o de ser alvo de algum ataque traiçoeiro vindo do navio, na escuridão. Enquanto ainda havia luz, ele e Dahlia podiam manter vigiado o corrimão do cargueiro.

 

Dahlia içou o galhardete delta. O barco avançou cada vez mais, com o escape a burbulhar. Dahlia e Lander puseram máscaras feitas de meias.

 

- Grande carabina - disse Lander.

 

Ela pôs-lha na mão. Ele abriu o pára-brisas à sua frente e colocou a carabina sobre o painel de instrumentos, com a ponta no convés de proa. Era uma Remington calibre 12 automática com cano longo e afinamento total e estava carregada com chumbo zero. Lander sabia que seria impossível disparar uma arma com precisão a partir de um barco em movimento. Ele e Dahlia tinham debatido isso várias vezes. Caso Fasil tivesse perdido o controlo do barco e disparassem contra eles, Lander ripostaria, viraria a popa e fugiria para o sol, enquanto Dahlia esvaziaria a outra caçadeira de canos compridos contra o cargueiro. Mudaria para a carabina quando a distância aumentasse.

 

- Não tenhas a preocupação de tentar atingir alguém com o barco aos saltos - dissera-lhe. - Faz estourar suficiente chumbo em redor das orelhas deles e verás que suspendem o fogo. - Depois, lembrou-se de que Dahlia tinha mais experiência com armas pequenas do que ele.

 

O cargueiro virou devagar e meteu-se da capa com as ondas quase pelo través. À distância de 300 m, Lander só conseguia ver três homens na coberta e um único vigia no alto da ponte. Um dos homens correu para a adriça dos sinais e agitou as bandeiras uma vez, dando a entender que vira o delta de Lancer a adejar. Teria sido mais fácil utilizar o rádio, mas Fasil não podia estar no convés e no posto de rádio ao mesmo tempo.

 

- É ele, é Fasil aquele que tem o boné azul - disse Dahlia, baixando os binóculos.

 

Quando Lander estava a menos de 100 m, Fasil falou com os dois homens que se encontravam a seu lado. Atiraram um turco de salva-vidas por cima da borda e, depois, ficaram de pé com as mãos à vista, sobre o corrimão.

 

Lander parou os motores e correu para a proa para armar uma tábua de defesa no lado de estibordo; depois, subiu para a ponte de comando, levando a caçadeira pequena.

 

Fasil parecia ter o controlo do navio. Lander conseguia ver-lhe o revólver no cinto. Devia ter mandado evacuar o tombadilho, com excepção do imediato e de um tripulante. As faixas de ferrugem no flanco do cargueiro brilhavam alaranjadas com o sol-poente, enquanto Lander para sotavento dele e Dahlia atirava um cabo ao marinheiro. O tripulante correu para o atar a um cunho do convés, mas Dahlia abanou a cabeça e acenou. Então, ele compreendeu e passou o cabo em redor do cunho e devolveu a ponta.

 

Ela e Lander tinham ensaiado isto cuidadosamente e ela fez rapidamente um laço que poderia ser desfeito instantaneamente a partir do barco mais pequeno. Com o leme para cima, os motores mantinham a popa do barco contra o cargueiro.

 

Fasil embalara de novo o explosivo plástico em sacos de 12 kg. Havia 48 empilhados no tombadilho, a seu lado. A tábua de defesa raspava contra o flanco do cargueiro, enquanto a lancha subia e descia nas ondas abafadas a sotavento do navio. Uma escada foi atirada pela borda do Leticia.

 

Fasil gritou para Lander:

 

- O imediato vai descer. Não está armado. Pode ajudar a arrumar os sacos.

 

Lander abanou a cabeça e o homem desceu rapidamente. Era óbvio que tentava não olhar para Dahlia ou Lander, que pareciam sinistros com as suas máscaras. Usando o turco como uma miniatura de pau de carga, Fasil e o tripulante baixaram a rede de carga que continha os primeiros seis sacos e as armas automáticas num embrulho de lona. Era um negócio arriscado no barco em movimento calcular o momento preciso para soltar a carga do gancho e, uma vez, Lander e o imediato caíram para trás.

 

Com doze sacos na carlinga, a operação de carga foi interrompida enquanto os três que se encontravam no barco empurravam os sacos para a proa, guardando-os na cabina da proa. Era tudo o que Lander podia fazer para evitar abrir um dos sacos e olhar para o material. Parecia electricidade nas suas mãos. Depois, vieram os outros doze sacos e os seguintes. Os três que estavam a trabalhar no barco estavam encharcados em suor, apesar do frio.

 

O grito do vigia da ponte quase foi arrastado para longe pelo vento. Fasil deu meia volta e colocou as mãos atrás das orelhas. O homem acenava as mãos e apontava. Fasil inclinou-se no corrimão e gritou para baixo:

 

- Vem lá qualquer coisa, daquele lado... leste. Vou ver.

 

Em menos de quinze segundos estava na ponte, a tirar os binóculos das mãos do vigia assustado. Regressou ao convés num instante, lutando com a rede de carga, gritando borda fora:

 

- É branco com uma lista junto da proa.

 

- Guarda Costeira - disse Lander. - Qual é a posição... a que distância?

 

- Cerca de 8 km, vem depressa.

 

- Desça-a, caramba.

 

Fasil deu uma bofetada na cara do tripulante que se encontrava a seu lado e pôs as mãos do homem na talha de elevação. A rede de carga arredondada com os últimos doze sacos de plástico balançou por cima do mar e desceu rapidamente, com as cordas a guincharem nas roldanas. Caiu na carlinga com um som pesado e foi rapidamente esvaziada.

 

No tombadilho do cargueiro, Muhammad Fasil voltou-se para o tripulante, que transpirava:

 

- Fica de pé junto ao corrimão, com as mãos à vista.

 

O homem pôs os olhos fixos no horizonte e parecia conter a respiração enquanto Fasil transpunha a borda.

 

O imediato, de pé na carlinga, não conseguia desviar o olhar de Fasil. O árabe estendeu ao homem um rolo de notas e tirou o revólver, tocando com a ponta no lábio superior do homem:

 

- Fizeste um bom trabalho. Silêncio e saúde são a mesma coisa. Percebes o que quero dizer?

 

O homem queria assentir com a cabeça, mas era impedido pela pistola que se encontrava sob o seu nariz.

 

- Vai em paz.

 

O homem subiu a escada tão rapidamente como um macaco. Dahlia estava a desmanchar o nó.

 

Enquanto isto acontecia, Lander parecia quase pensativo. Pedira ao seu cérebro que lhe fizesse uma projecção das possibilidades, baseada em tudo o que sabia.

 

O barco de patrulha, que se aproximava pelo outro lado do navio, ainda não podia vê-lo. Provavelmente fora o avistarem o cargueiro de capa que despertara a curiosidade da Guarda Costeira, caso não tivesse havido uma denúncia. Barco de patrulha. Seis nestas águas, todos com 82 pés, dois diesels, 1600 cavalos por eixo, o bastante para 20 nós. Radar Sperry-Rand SPB-5, tripulação de oito. Uma metralhadora de calibre 50 e um morteiro de 81 mm. Num relâmpago, Lander pensou em incendiar o cargueiro, forçando o guarda-costas a parar para prestar socorros. Não, o imediato gritaria que se tratava de pirataria e a barulheira aumentaria. Chegariam aviões de reconhecimento, alguns deles com equipamento de infravermelhos que detectaria o calor dos motores. A escuridão a chegar. Nada de lua durante cinco horas. Era melhor uma perseguição.

 

Lander regressou ao presente. As suas decisões tinham demorado cinco segundos.

 

- Dahlia, arma o reflector.

 

Abriu os aceleradores com uma pancada e girou o grande barco numa curva de espuma para longe do cargueiro. Dirigiu-se para terra, a 40 milhas de distância, com os motores a rugirem a toda a aceleração e a espuma a voar para trás à medida que passavam pela ondulação moderada. Mesmo bastante carregado, o barco potente estava a fazer perto de 19 nós. A guarda costeira tinha uma ligeira vantagem em termos de velocidade. Manteria o cargueiro entre eles durante o máximo de tempo possível. Gritou para Fasil, que se encontrava na carlinga.

 

- Faz escuta nos 2182 quilociclos. - Era a frequência do International Radio-Telephone Distress e uma "frequência de chamada" utilizada em contactos iniciais entre navios.

 

O cargueiro estava bem à popa, agora, mas, enquanto o olhavam, apareceu o guarda-costas, ainda para lá do cargueiro, mas avançando rapidamente, lançando uma grande onda de proa. Enquanto Lander olhava por cima do ombro, viu a proa do guarda-costas mover-se ligeiramente até apontar directamente para ele.

 

Fasil subiu rapidamente a escada até ter a cabeça acima do nível da ponte de comando:

 

- Está a mandar-nos parar.

 

- Que se foda. Sintoniza a frequência da Guarda Costeira. Está assinalada no marcador. Vamos ver se pede ajuda.

 

Com as luzes apagadas, o barco corria em direcção ao último clarão, a oeste. Atrás deles, com uma graciosa proa branca e uma onda de proa a brilhar na derradeira luz, o guarda-costas carregava como um terrier.

 

Dahlia acabara de prender o reflector de radar passivo ao corrimão da ponte. Era um conjunto com o formato de um papagaio feito de vergas de metal, que comprara numa loja de artigos navais por 12 dólares, e tremia enquanto o barco mergulhava nas ondas.

 

Lander mandou-a ir lá abaixo para verificar as amarras. Não queria que nada se soltasse na agitação que o barco ia sofrer.

 

Primeiro, verificou a carlinga e, depois, avançou para a cabina onde Fasil franzia o sobrolho, em frente ao rádio.

 

- Ainda nada - disse ele, em árabe. - Porquê o reflector de radar?

 

- A Guarda Costeira iria ver-nos, de qualquer forma - retorquiu Dahlia. Tinha de lhe gritar ao ouvido para ser escutada no barco que saltava. - Quando o capitão da Guarda Costeira vir que a perseguição continua na escuridão, mandará o seu operador de radar isolar-nos e seguir-nos enquanto ainda nos pode acompanhar com a vista... depois, não terá problemas para identificar o blip que fazemos no seu ecrã, depois de a luz se ter ido embora. - Lander explicara-lhe isto com uma extensão cansativa. - Com aquele reflector, é um blip grande e gordo, distinto da interferência das ondas. Como a imagem de um barco de metal.

 

- Ouve - disse, alvoroçada, olhando para cima, em direcção à ponte, por cima das suas cabeças. - Não podes ter quaisquer familiaridades comigo, ou tocar-me, percebes? Quando ele estiver presente, deves falar sempre em inglês. Em casa dele, nunca subas ao primeiro andar. A bem da missão.

 

O rosto de Fasil era iluminado pelos mostradores do rádio e os olhos brilhavam no seu rosto encovado.

 

- Seja, para bem da missão, camarada Dahlia. Enquanto ele cumprir as suas funções, farei como quer.

 

Dahlia assentiu com a cabeça.

 

- Se não fizeres como quer, podes descobrir quão bem desempenha as suas funções - retorquiu, mas as suas palavras perderam-se no vento, enquanto trepava para a proa.

 

Agora, estava escuro. Havia apenas a luz ténue da bitácula da ponte, visível somente para Lander. Conseguia ver claramente os faróis de localização, verdes e vermelhos, do guarda-costas e o seu potente holofote a rasgar a escuridão. Calculava que o barco das autoridades tivesse uma vantagem de meio nó e a distância entre ambos era de cerca de 4,5 milhas.

 

- Comunicou com a alfândega a propósito do Leticia. Diz que vai encarregar-se pessoalmente de nos apanhar.

 

- Diz a Dahlia que está quase na hora.

 

Agora, saltavam em direcção às rotas marítimas. Lander sabia que os homens do guarda-costas não o podiam ver e, no entanto, o navio acompanhava todas as ligeiras alterações de rota que fazia. Quase conseguia sentir os dedos do radar nas suas costas. Seria melhor se houvesse alguns barcos... Sim! Ao largo da proa, a bombordo, viam-se as luzes brancas de um navio e, com o passar dos minutos, distinguiu as suas luzes de presença. Um cargueiro que rumava ao Norte e se deslocava a boa velocidade. Alterou ligeiramente a rota para lhe passar por debaixo da proa o mais perto possível. Na sua mente, Lander via o ecrã do radar do barco de patrulha, a sua luz verde a brilhar no rosto do operador que observava a grande imagem do cargueiro e a mais pequena, do barco a motor, a convergirem, com os blips a evidenciarem um brilho claro de cada vez que o feixe girava.

 

- Prepara-te - gritou, dirigindo-se a Dahlia.

 

- Vamos - disse esta a Fasil, que não fez quaisquer perguntas. Juntos, libertaram a pequena plataforma com flutuadores dos explosivos carregados para bordo. Cada flutuador era feito com um tambor de cinco galões e cada um deles tinha um orifício no topo e uma torneira vulgar na face ventral. Dahlia trouxe o mastro da cabina e o reflector de radar da ponte. Prenderam o reflector no topo do mastro e enfiaram-no num encaixe da plataforma. Com a ajuda de Fasil, prendeu um cabo de 2 m ao lado inferior da plataforma e prendeu a outra ponta a um grande peso de chumbo. Levantaram os olhos do trabalho para verem as luzes do cargueiro suspensas quase por cima deles, com a proa a parecer uma falésia. Num relâmpago, passaram para o outro lado.

 

Lander, virando para norte, olhava para trás, pela popa, para manter o cargueiro entre ele e o barco de patrulha. Agora, os blips do radar tinham-se fundido, porque a maior altura do cargueiro escudava o barco de Lander dos impulsos do radar.

 

Calculou a distância que o separava do guarda-costas.

 

- Meia abertura das torneiras. - Um momento mais tarde, parou os motores. - Lancem-na à água.

 

Dahlia e Fasil deixaram cair de lado a plataforma, com o mastro a balançar freneticamente até que o peso, suspenso por debaixo da plataforma, a estabilizou, como se fosse uma quilha, mantendo o reflector de radar muito acima da água. O dispositivo balançou de novo, quando Lander empurrou de novo os aceleradores e rumou directamente para sul, no barco às escuras.

 

- O operador de radar não pode ter a certeza de que a imagem do reflector seja nossa ou alguma coisa nova, ou se estamos a deslocar-nos ao longo do outro lado do cargueiro - disse Fasil.

 

- Durante quanto tempo vai manter-se a flutuar?

 

- Quinze minutos, com as torneiras semiabertas - respondeu Dahlia. - Quando o guarda-costas lá chegar, já terá desaparecido.

 

- Então, vai seguir o barco, em direcção ao norte, para ver se estamos ao lado?

 

- Talvez.

 

- Neste momento, quanto é que consegue ver de nós?

 

- Um barco de madeira a esta distância, quase nada. Até mesmo a tinta não é à base de chumbo. Vai haver alguma interferência de esteira do navio. O ruído do motor dele também vai ajudar-nos, caso ele pare para ouvir. Mas ainda não sabemos se mordeu o anzol.

 

Da ponte, Lander observava as luzes do barco de patrulha. Conseguia ver duas luzes brancas e altas de presença e a luz vermelha de bombordo. Caso o barco se virasse na sua direcção, veria aparecer a luz verde de estibordo.

 

Agora, Dahlia encontrava-se a seu lado e, juntos, observaram as luzes do guarda-costas. Viram apenas a vermelha e, à medida que a distância aumentou, distinguiram apenas as luzes brancas de localização e, em seguida, nada mais do que um feixe ocasional do holofote, erguido por uma onda, sondando a escuridão vazia.

 

Lander teve consciência de uma terceira presença na ponte.

 

- Um belo trabalho - disse Muhammad Fasil. Lander não lhe respondeu.

 

Os olhos do major Kabakov estavam vermelhos e sentia-se irritado. Os funcionários da delegação de Nova Iorque do Serviço de Imigração e Naturalização tinham aprendido a circular silenciosamente em seu redor, enquanto estava sentado, dia após dia, a estudar fotografias tremidas de árabes que viviam nos Estados Unidos.

 

Os enormes livros que se empilhavam de ambos os lados da mesa comprida continham, no total, 137 000 fotografias e descrições. Estava decidido a vê-las todas. Caso a mulher estivesse em missão no país, deveria ter começado por criar um disfarce, estava certo. O dossier de árabes suspeitos, mantido na clandestinidade pela Imigração, tinha poucas mulheres e nenhuma delas se parecia com a que encontrara no quarto de Hafez Najeer. A Imigração e Naturalização calculava que havia cerca de 85 000 árabes na costa leste que tinham entrado no país clandestinamente, ao longo dos anos, e não figuravam em ficheiro algum. A maioria trabalhava pacificamente em empregos inconspícuos, não aborrecia ninguém e raramente chamava a atenção das autoridades. Incomodava-o a possibilidade de a mulher se encontrar nesse grupo.

 

Cansado, virou mais uma página. Uma mulher. Katherine Ghalib. Trabalhava com crianças deficientes mentais, em Fénix. 50 anos e aspecto disso.

 

Um funcionário chegou junto dele:

 

- Major, há uma chamada para si no gabinete.

 

- Muito bem. Não toquem nesses malditos livros. Fico perdido. A chamada era de Sam Corley, de Washington.

 

- Como vão as coisas?

 

- Ainda nada. Ainda me falta ver cerca de 80 000 árabes.

 

- Recebi um relatório da Guarda Costeira. Pode não ser nada, mas um dos guarda-costas deles detectou um barco a motor perto de um cargueiro libanês, ao largo da costa de Jérsia, ontem à tarde. O barco fugiu deles, quando quiseram inspeccioná-lo.

 

- Ontem?

 

- Sim, tinham estado ocupados com um barco a arder mais ao largo e vinham de regresso. O cargueiro provinha de Beirute.

 

- Onde está o navio, agora?

 

- Apreendido no Brooklyn. O comandante desapareceu. Ainda não conheço os pormenores.

 

- E quanto ao outro barco?

 

- Escapuliu-se na escuridão. Kabakov praguejou fortemente:

 

- Por que demoraram tanto tempo para nos dizer?

 

- Macacos me mordam se sei, mas foi assim. Vou falar para lá, para a Alfândega, e eles fazem-lhe um resumo.

 

O imediato do Leticia e comandante em exercício, Mustapha Fawzi, falou com os funcionários da Alfândega, durante uma hora, no seu pequeno camarote, agitando os braços no ar espesso devido ao fumo dos seus cigarros turcos.

 

Sim, o barco aproximara-se do navio, disse-lhes Fawzi. O barco tinha pouco combustível e pedira ajuda. De acordo com o direito marítimo, ajudara-os. A sua descrição do barco e dos seus ocupantes era vaga. Isso acontecera em águas internacionais, sublinhou. Não, não iria autorizar voluntariamente que fizessem uma busca ao navio. O navio, de acordo com o direito internacional, era território líbio e estava sob a sua responsabilidade depois da infelicíssima queda, borda fora, do capitão Larmoso.

 

A Alfândega não queria um incidente com o Governo líbio, sobretudo agora que o Médio Oriente estava inflamado. O que a Guarda Costeira vira não constituiria matéria provável suficiente para que fosse emitido um mandado de busca. Fawzi prometeu depor a respeito do acidente de Larmoso e os funcionários da Alfândega abandonaram o navio para procurarem instruções junto dos Ministérios da Justiça e dos Negócios Estrangeiros.

 

Fawzi bebeu uma garrafa de cerveja do falecido comandante e caiu num sono profundo, pela primeira vez nos últimos dias.

 

Uma voz parecia estar a chamar Fawzi, de muito longe. O seu

nome foi repetido por uma voz profunda e algo lhe feria os olhos. Fawzi acordou e levantou as mãos para proteger os olhos da luz de uma pilha, que o cegava.

 

- Boa noite, Mustapha Fawzi - disse Kabakov. - Por favor, mantém as mãos em cima do lençol.

 

O sargento Moshevsky, com o seu enorme corpanzil por detrás de Kabakov, acendeu as luzes. Fawzi sentou-se na cama e chamou por Deus.

 

- Quieto - disse Moshevsky, encostando uma faca por debaixo da orelha de Fawzi.

 

Kabakov pegou numa cadeira e sentou-se ao lado da cama. Acendeu um cigarro.

 

- Agora, gostaria de conversar calmamente contigo. Vais ficar calmo?

 

Fawzi assentiu com a cabeça e Kabakov mandou Moshevsky afastar-se.

 

- Agora, Mustapha Fawzi, vou explicar-te como podes ajudar-me sem correres qualquer risco. Estás a ver, não hesitarei em te matar caso não cooperes, mas não tenho qualquer razão para te matar se fores útil. É muito importante que percebas isto.

 

Moshevsky mexia-se, impaciente, e deu a sua deixa:

 

- Primeiro, deixe-me cortar...

 

- Não, não - disse Kabakov, levantando a mão. - Estás a ver, Fawzi, com homens menos inteligentes do que tu, muitas vezes é preciso deixar claro, desde o início, que irás sofrer dores terríveis e mutilações se me desagradares e, em segundo lugar, que receberás uma recompensa magnífica se fores útil. Ambos sabemos o que costuma ser a recompensa. - Kabakov sacudiu a cinza do cigarro com a ponta do dedo mínimo. - De um modo geral, deixaria o meu amigo quebrar-te os braços antes de falarmos. Mas, estás a ver, Fawzi, não tens nada a perder se me contares o que aconteceu aqui. A tua falta de colaboração com as alfândegas fica registada. A tua cooperação comigo será um segredo entre nós. - Atirou o seu bilhete de identidade israelita para cima da cama. - Vais ajudar-me?

 

Fawzi olhou para o cartão e engoliu em seco. Não disse nada. Kabakov levantou-se e suspirou.

 

- Sargento, vou sair para tomar ar. Talvez Mustapha Fawzi queira tomar alguma coisa. Chamem-me logo que ele termine de comer os testículos. - Virou-se em direcção à porta do camarote.

 

- Tenho parentes em Beirute.

 

Fawzi estava a ter dificuldades para controlar a voz. Kabakov conseguia ver o coração a bater no seu corpo magro, sentado, seminu, no beliche.

 

- Claro que tens - retorquiu Kabakov. - E foram ameaçados, tenho a certeza. Mente quanto quiseres à Alfândega, mas não me mintas a mim, Fawzi. Não existe um local onde estejas em segurança em relação a mim. Nem aqui, nem no teu país, nem em porto algum deste mundo. Respeito os teus parentes. Compreendo essas coisas e encubro-te.

 

- O libanês matou Larmoso, nos Açores - começou Fawzi. Moshevsky não gostava de tortura. Sabia que Kabakov também a detestava. Moshevsky teve de fazer um grande esforço para não sorrir enquanto revistava o camarote. De cada vez que a narrativa de Fawzi claudicava, Moshevsky interrompia o seu trabalho e olhava-o fixamente, tentando dar a ideia que estava desiludido por não o poder cortar.

 

- Descreve o libanês.

 

- Magro, de altura média. Tinha um golpe no rosto, com crosta.

 

- Que estava nos sacos?

 

- Não sei. Alá é minha testemunha. O libanês encheu-os com material que retirou dos caixotes do porão da proa. Não permitiu que ninguém se aproximasse deles.

 

- Quantos estavam no barco?

 

- Dois.

 

- Descreve-os.

 

- Um alto e magro, o outro mais pequeno. Tinham máscaras. Estava com medo, não olhei.

 

- Que falavam?

 

- O mais alto falou inglês com o libanês.

 

- E o mais pequeno?

 

- O mais pequeno não disse nada.

 

- O mais pequeno poderia ser uma mulher?

 

O árabe corou. Não queria reconhecer que fora assustado por uma mulher. Era impensável.

 

- Com o libanês a empunhar uma arma, com os teus parentes ameaçados... foram esses pensamentos que te fizeram colaborar, Fawzi

- disse Kabakov, suavemente.

 

- O mais pequeno poderia ser uma mulher - afirmou Fawzi, finalmente.

 

- Viste-lhe as mãos, ao pegar nos sacos?

 

- Usava luvas. Mas havia um alto na parte detrás da máscara que podia ser o cabelo dela. E há ainda o caso das nádegas.

 

- O caso das nádegas?

 

- Roliças, sabe? Maiores do que as de um homem. Talvez fosse um rapazinho bem torneado?

 

Moshevsky, a remexer no frigorífico, serviu-se de uma garrafa de cerveja. Havia alguma coisa atrás da garrafa. Retirou-a e estendeu-a a Kabakov.

 

- A religião do capitão Larmoso obrigava-o a manter artigos religiosos no frigorífico? - perguntou Kabakov, empunhando a Nossa Senhora raspada à faca perto do rosto de Fawzi.

 

Fawzi olhou para ela com um desconhecimento genuíno e o desagrado que os Muçulmanos sentem em relação a estatuária religiosa. Kabakov, imerso em pensamentos, cheirou a estátua e escavou-a com a unha. Plástico. Larmoso soubera do que se tratava, mas não conhecia muito bem as suas propriedades, reflectiu. O capitão pensara que seria mais seguro manter aquela coisa fria, tal como os restantes explosivos estavam frios dentro do porão. Não precisava de se ter preocupado, pensou Karbakov. Girou a estátua nas suas mãos. Se se tinham dado a todo esse trabalho para disfarçar o plástico, então, originalmente, tinham planeado fazê-lo passar pela Alfândega.

 

- Traz-me os registos do barco - ordenou Kabakov.

 

Fawzi encontrou o manifesto com a carta de porte ao fim de um breve instante. Água mineral, inúmeras peles, louça rasa... ali estava. Três caixotes de estatuetas religiosas. Made in Taiwan. Destinatário: Benjamin Muzi.

 

Muzi estava de vigia em Brooklyn Heights quando o Leticia manobrou para entrar no porto de Nova Iorque, escoltado pelo barco da Guarda Costeira. Praguejou em várias línguas. Que fizera Larmoso? Muzi dirigiu-se a alta velocidade para uma cabina telefónica, a cerca de

4 km por hora. Deslocava-se com a dignidade de um elefante e, tal como um elefante, tinha uma elegância surpreendente nas extremidades e adorava progressões ordenadas. Este caso estava muito desordenado.

 

O seu tamanho impediu-o de entrar na cabina, mas conseguiu chegar lá dentro e discar. Ligou para a Secção de Busca e Salvamento da Guarda Costeira, identificando-se como repórter de El Diario-La Prema. O jovem solícito do centro de comunicações da Guarda Costeira deu-lhe os pormenores que podiam respingar-se do tráfego de chamadas de rádio respeitantes ao Leticia, ao desaparecimento do seu comandante e à perseguição do barco rápido.

 

Muzi conduziu ao longo da via rápida Brooklyn-Queens, donde se avistava a doca de Brooklyn. No cais, junto ao Leticia, podia ver tanto a polícia marítima como a da Alfândega. Ficou aliviado por ver que nem o cargueiro nem o guarda-costas ostentavam a flâmula vermelha em cauda de andorinha que significa que há carga perigosa a bordo. Ou as autoridades ainda não tinham encontrado os explosivos ou a lancha rápida retirara o plástico do navio. Caso a lancha rápida tivesse retirado o plástico, o que era muito provável, então ainda tinha alguns dias à sua frente, no que se referia a problemas legais. As autoridades levariam alguns dias a fazer o inventário da carga do Leticia e a descobrir que desaparecera carga. Era muito provável que ainda não estivesse debaixo de mira da lei. Mas já ia ter problemas, sentia-o.

 

Havia algo terrivelmente errado. Não importava de quem era a culpa, visto que recairia sobre ele. Tinha um quarto de milhão de dólares de dinheiro dos Árabes num banco holandês e os seus patrões não iriam aceitar desculpa alguma. Se tinham retirado o plástico no alto mar, então acreditavam que ele estava pronto a traí-los, que os traíra.

 

Que fizera aquele maluco do Larmoso? Fosse o que fosse, Muzi sabia que nunca teria a menor hipótese de explicar que estava inocente. O Setembro Negro iria matá-lo na primeira oportunidade. Estava claro que tinha de providenciar uma reforma antecipada.

 

Do cofre que tinha num banco da baixa de Manhattan, Muzi retirou um maço grosso de notas e algumas cadernetas de depósitos. Uma delas tinha o nome do mais antigo e prestigiado banco de investimentos da Holanda e apresentava um saldo de 250 000 dólares depositado numa única vez e à sua exclusiva ordem.

 

Muzi suspirou. Teria sido tão agradável receber os segundos

250 000 dólares, quando o plástico fosse entregue. Agora, tinha a certeza de que os guerrilheiros iriam vigiar o banco, na Holanda, durante uns tempos. Deixá-los. Transferiria a conta e levantaria o dinheiro algures.

 

O que o preocupava mais não se encontrava no cofre. Os seus passaportes. Durante anos, guardara-os no cofre, mas, depois da sua última viagem ao Médio Oriente, deixara-os, sem que nada o justificasse, em sua casa. Agora, teria de ir buscá-los. Depois, voaria de Newark para Chicago, depois para Seattle e, finalmente, para Londres, pela rota polar. Onde fora que Farouk jantara em Londres? Muzi, que admirava muito o gosto e a classe de Farouk, decidiu que iria descobrir.

 

Muzi não fazia tenções de regressar ao escritório. Eles que interrogassem o grego. A sua ignorância iria deixá-los surpreendidos. Havia fortes probabilidades de os guerrilheiros também estarem a vigiar a sua casa, mas não iriam fazê-lo durante muito tempo. Com os explosivos na mão, iriam ter mais coisas para fazer. Seria estúpido correr imediatamente para casa. Eles que pensassem que já fugira.

 

Registou-se num motel no West Side, assinando o livro como Chesterfield Pardue. Pôs a gelar doze garrafas de Perrier no lavatório da casa de banho. Durante um momento, sentiu um frio nervoso. Teve uma vontade súbita de se sentar dentro da banheira com a cortina corrida, mas temeu que o seu enorme traseiro ficasse preso na banheira, como lhe acontecera uma vez em Atlantic City.

 

O frio passou e deitou-se na cama, com as mãos cruzadas sobre o seu ventre enorme, a olhar de sobrolho carregado para o tecto. Como fora louco em se meter com aqueles guerrilheiros miseráveis. Uns tipos magricelas e aparvalhados, todos eles, que apenas gostavam de política. Beirute já antes lhe trouxera problemas, aquando da falência do Intra Bank, em 1967. A falência do banco dera-lhe cabo do fundo de reforma. Se não tivesse acontecido, já se teria reformado.

 

Estivera prestes a ressarcir-se quando apareceu a oferta dos Árabes. O prémio astronómico por importar o plástico iria fazê-lo vir à tona. Por essa razão, decidira correr o risco. Bom, metade do dinheiro dos guerrilheiros ainda teria esse efeito.

 

Reforma. Na sua vivenda requintada perto de Nápoles, sem degraus difíceis de subir. Fora uma grande caminhada.

 

Começara como moço de camarotes no cargueiro Ali Bey. Aos 16 anos, a sua corpulência já transformava numa provação as subidas das escadas de tombadilho. Quando o Ali Bey chegou a Nova Iorque, em

1938, Muzi deu uma volta pela cidade e abandonou imediatamente o navio. Fluente em quatro línguas e com dedos ágeis, em breve arranjou emprego no cais de Brooklyn, como conferente de armazém de um turco chamado Jahal Bezir, um homem de uma astúcia quase satânica que enriqueceu com o mercado negro, durante a Segunda Guerra Mundial.

 

Bezir ficou muito impressionado com Muzi porque nunca o conseguiu apanhar a roubar. Em 1947, Muzi era o guarda-livros de Bezir e o velho cada vez confiava mais nele.

 

A mente do velho turco continuava lúcida e activa, mas ele cada vez se refugiava mais no turco da sua infância, ditando a correspondência nessa língua e deixando a tradução para Muzi. Bezir fazia um grande estardalhaço quanto a ler as traduções, mas, caso houvesse várias cartas, por vezes não tinha consciência de qual delas tinha na mão. Isso intrigava Muzi: a vista do velho estava boa, estava longe da senilidade e era fluente em inglês. Com alguns testes cuidadosos, Muzi confirmou que Bezir já não conseguia ler. Uma visita à biblioteca pública disse muito a Muzi acerca da afasia. O velhote estava bem apanhado. Muzi reflectiu durante muito tempo sobre essa descoberta. Depois, começou a fazer especulações cambiais modestas com as moedas estrangeiras, tirando partido do crédito do turco, sem o seu conhecimento ou autorização.

 

As flutuações cambiais do pós-guerra foram boas para Muzi. A excepção quase única foi um terrível período de três dias, em que um cartel de especuladores se atirou a uma emissão de títulos da dívida militar de Muscat, sendo Muzi detentor de 10 000 certificados a 27 por libra esterlina, e o turco ressonava pacificamente no andar de cima. Isso custou-lhe 3000 dólares do seu próprio bolso, mas, nessa altura, já podia arcar com o prejuízo.

 

Entretanto, deliciara Bezir ao conceber cabos de amarra ocos para a importação de haxixe. Quando o turco morreu, apareceram uns parentes afastados que tomaram conta do negócio e o levaram à ruína. Muzi foi deixado com 65 000 dólares que fizera nas especulações cambiais e algumas ligações excelentes no mundo do contrabando. Era'tudo o que necessitava para se tornar negociante de tudo e nada que desse dinheiro, com excepção das drogas duras. O lucro potencial astronómico da heroína tentava-o, mas Muzi tinha uma visão que transcendia o lucro fácil. Não queria ficar marcado até ao fim dos seus dias. Não queria ter de dormir dentro de uma caixa forte, todas as noites.

 

Não queria os riscos e não gostava das pessoas que negociavam com a heroína. O haxixe era uma coisa completamente diferente.

 

Por volta de 1972, a secção Jihaz al-Rasd, da Al Fatah, estava fortemente envolvida no comércio do haxixe. Muitos dos sacos de meio quilo que Muzi comprava no Líbano estavam decorados com a sua marca registada - um fedayne empunhando uma metralhadora. Fora através dos seus contactos do haxixe que Muzi entregara a carta do americano e fora por meio deles que fora abordado para contrabandear o plástico.

 

Nos últimos meses, Muzi começara a retirar-se do comércio do haxixe e a fechar sistematicamente todos os seus restantes interesses no Médio Oriente. Pretendia fazê-lo gradualmente e não deixar ninguém pendurado. Não queria fazer inimigos que pudessem interferir com uma reforma pacífica e uma sucessão interminável de jantares ao fresco, no seu terraço com vista para a baía de Nápoles. Agora, este caso do Leticia ameaçava tudo isso. Talvez os guerrilheiros estivessem desconfiados por ele estar a abandonar o Médio Oriente. O próprio Larmoso também devia ter ouvido uns zunzuns acerca das suas liquidações e ficado de pé atrás, pronto para aproveitar uma oportunidade de entrar nos negócios. Fosse o que fosse que Larmoso fizera, assustara muito os Árabes.

 

Muzi sabia que se iria sair muito bem em Itália. Tinha de correr um risco bastante grande aqui, em Nova Iorque, e, depois, estava livre. Deitado na sua cama de motel, à espera de fazer a sua jogada, com o estômago a remoer, Muzi fazia de conta de que estava a jantar no Lutèce.

 

Kabakov estava sentado numa mangueira de jardim enrolada, tremendo. Um vento gelado soprava pela casa de ferramentas, no cimo do armazém, e havia gelo nas paredes, mas a casa proporcionava isolamento e uma boa vista da casa de Muzi, do outro lado da rua. O homem ensonado que espreitava pela janela lateral da cabana desembrulhou uma tablete de chocolate e começou a mastigá-la com o chocolate frio a quebrar-se fazendo pequenos estalidos. Ele e os outros dois membros da equipa de incursão táctica tinham vindo de Washington, numa furgoneta alugada, depois de terem recebido o telefonema de Kabakov.

 

A dura viagem de cinco horas pela auto-estrada fora necessária porque a bagagem da equipa teria despertado muito interesse sob o fluoroscópio de um aeroporto - metralhadoras, espingardas de precisão, granadas. Outro membro da equipa estava num telhado, ao fundo do quarteirão, do lado oposto da rua. O terceiro estava com Moshevsky, no escritório de Muzi.

 

O israelita sonolento ofereceu um pouco de chocolate a Kabakov. Este abanou a cabeça e continuou a observar a casa através dos binóculos, espreitando por uma fenda na porta da barraca, que se encontrava parcialmente aberta. Kabakov perguntava-se se teria sido correcto não ter contado a Corley e às outras autoridades americanas o que quer que fosse acerca de Muzi e da Nossa Senhora. Bufou pelo nariz. Claro que fora correcto. Na melhor das hipóteses, os americanos ter-lhe-iam permitido que conversasse com Muzi, num gabinete de uma esquadra qualquer, na presença de um advogado. Desta forma, falaria com Muzi em circunstâncias mais favoráveis - isto, se os Árabes ainda o não tivessem assassinado.

 

Muzi vivia numa rua agradável, orlada de árvores, na zona de Cobble Hill, no Brooklyn. O seu prédio, uma casa com fachada de pedra, tinha quatro apartamentos e o seu era o maior do rés-do-chão. A única entrada ficava na frente e Kabakov tinha a certeza de que ele a usaria, se viesse. Muzi era demasiado gordo para entrar por uma janela, a fazer fé nas roupas que tinha no armário.

 

Kabakov esperava resolver os seus assuntos muito rapidamente, caso Muzi lhe desse uma boa pista em relação aos explosivos. Diria a Corley quando tudo tivesse terminado. Olhou para o relógio, com olhos raiados de vermelho: 7.30 h da manhã. Caso Muzi não aparecesse durante o dia, ver-se-ia obrigado a montar guardas alternadas, para os seus homens poderem dormir. Kabakov repetia de si para consigo que Muzi viria. Os passaportes do importador - três, com nomes variados estavam no bolso interior do casaco de Kabakov. Encontrara-os durante uma busca rápida no quarto de Muzi. Teria preferido esperar no apartamento, mas sabia que o período de grande risco para Muzi seria na rua e queria estar em posição de lhe dar cobertura.

 

Observou, uma vez mais, as janelas do outro lado da rua. Num prédio de apartamentos, à esquerda, ergueu-se uma persiana. Kabakov ficou tenso. Uma mulher ficou de pé, junto à janela, em combinação. Quando se afastou, ele conseguiu ver uma criança atrás dela, sentada à mesa da cozinha.

 

Algumas pessoas que iam apanhar os primeiros comboios suburbanos encontravam-se agora nos passeios, ainda pálidas de sono e correndo para a paragem de autocarro da Pacific Street, a um quarteirão de distância. Kabakov abriu os passaportes e estudou o rosto de Muzi pela quinquagésima vez. Sentia cãibras nas pernas e levantou-se para as desentorpecer. O walkie-talkie que tinha ao lado deu alguns estalidos.

 

- Jerry Dimples, na porta da frente do teu posto, um homem com chaves.

 

- Recebido e entendido, Dimples - disse Kabakov, ao microfone. Com alguma sorte, era alguém que vinha render o segurança que ressonara, durante toda a noite, no rés-do-chão do armazém. Pouco depois, o rádio ouviu-se de novo e o israelita que se encontrava no telhado, ao fundo da rua, confirmou que o guarda da noite estava a abandonar o edifício. O guarda atravessou a rua, penetrando no campo de visão de Kabakov, e caminhou até à paragem do autocarro.

 

Kabakov recomeçou a observar as janelas e, quando olhou novamente para a paragem do autocarro, estava lá o grande autocarro verde da cidade, a descarregar um cacho de mulheres da limpeza. Começaram a percorrer o quarteirão, mulheres de meia-idade, pesadas, com sacos de compras. Muitas delas tinham feições eslavas semelhantes às de Kabakov e pareciam-se bastante com as vizinhas que tivera na infância. Acompanhou-as com os binóculos. O grupo foi-se reduzindo à medida que as mulheres, uma a uma, foram entrando nos prédios onde trabalhavam. Nesse momento, estavam a passar em frente ao prédio onde morava Muzi, e uma gorda, do centro do grupo, virou-se em direcção à porta de entrada, com o guarda-chuva debaixo do braço e um saco de compras em cada mão. Kabakov focou os binóculos nela. Uma coisa estranha - os sapatos. Eram umas sandálias grandes e uma das enormes barrigas das pernas por cima delas tinha um corte recente de navalha de barba.

 

- Dimples Jerry - disse Kabakov, no walkie-talkie. - Penso que a mulher gorda é Muzi. Vou entrar. Cubram a rua. - Pousou a espingarda e pegou numa marreta que se encontrava a um canto da barraca.

- Cobre a rua - repetiu, dirigindo-se ao homem que se encontrava a seu lado. Depois, galgou a escada, sem se importar com o facto de o guarda o ouvir. Uma breve olhadela ao exterior, uma corrida até ao outro lado da rua, empunhando a marreta.

 

A entrada do edifício estava aberta. Ficou de pé junto à porta de Muzi, tentando ouvir. Depois, balançou a marreta, com toda a sua força, e atingiu em cheio a fechadura.

 

A porta abriu-se com fragor, projectando parte do umbral, e Kabakov já estava lá dentro ainda antes de os fragmentos atingirem o solo, apontando uma grande pistola ao homem gordo que envergava um vestido.

 

Muzi estava de pé, à porta do seu quarto, com as mãos cheias de papéis. As suas papadas tremiam e tinha um olhar doente e baço, enquanto observava Karbakov.

 

- Juro que não...

 

- Vire-se e ponha as mãos na parede. - Kabakov revistou Muzi cuidadosamente e retirou-lhe da mala de mão uma pequena pistola automática. Depois, fechou a porta rebentada e encostou-lhe uma cadeira.

 

Muzi dominara-se com a velocidade do pensamento.

 

- Importa-se que tire a cabeleira? Faz-me comichão, sabe?

 

- Não. Sente-se. - Kabakov falou para o rádio. - Dimples Jerry. Chamem Moshevsky. Digam-lhe que traga o camião. - Retirou os passaportes do bolso. - Muzi, quer viver?

 

- Uma pergunta académica, por certo. Posso perguntar-lhe quem é? Não me mostrou um mandato nem me matou. Essas seriam as únicas credenciais que reconheceria de imediato.

 

Kabakov estendeu a sua identificação a Muzi. A expressão do gordo não se alterou, mas dentro da sua cabeça os mecanismos de reflexão funcionavam a todo o vapor, porque via uma hipótese de sobreviver. Muzi cruzou as mãos sobre o avental e esperou.

 

- Já lhe pagaram, não é verdade?

 

Muzi hesitou. A pistola de Kabakov deu um solavanco, o silenciador zumbiu, e uma bala esmagou-se nas costas da cadeira, ao lado do pescoço de Muzi.

 

- Muzi, se não me ajudar, é um homem morto. Não vão deixá-lo viver. Se ficar aqui, vai para a cadeia. Deveria ser óbvio para si que sou a sua única esperança. Só vou fazer esta proposta uma vez. Conte-me tudo e ponho-o a bordo de um avião no Aeroporto Kennedy. Eu e os meus homens somos os únicos que conseguem metê-lo vivo num avião.

 

- Conheço-o de nome, major Kabakov. Sei o que faz e acho bastante improvável que me deixasse vivo.

 

- Cumpre a sua palavra nos negócios?

 

- Frequentemente.

 

- Também eu. Já tem o dinheiro deles, ou uma boa parte, presumo. Conte-me e vá gastá-lo.

 

- Na Islândia?

 

- Isso é um problema seu.

 

- Muito bem - disse Muzi, pesarosamente. - Vou contar-lhe, mas quero voar esta noite.

 

- Se a informação conferir, de acordo.

 

- Não sei onde se encontra o plástico, é a verdade. Fui contactado duas vezes, uma aqui e outra em Beirute. - Muzi limpou o rosto com o avental. - Importa-se de que eu vá buscar uma Perríer? Esta conversa faz-me sede.

 

- Sabe que a casa está cercada.

 

- Acredite, major, não pretendo fugir.

 

A sala só era separada da cozinha por um balcão de serviço. Kabakov podia vê-lo durante todo o tempo. Assentiu com a cabeça.

 

- Primeiro, foi o americano - disse Muzi, junto ao frigorífico.

 

- O americano?

 

Muzi abriu a porta do frigorífico e viu o dispositivo, durante um instante, antes de a explosão o atirar, em pedaços, através da parede da cozinha. A sala balançou, com Karbakov a girar no ar, espirrando sangue pelo nariz, caindo, com a mobília em pedaços a dançar em seu redor. Escuridão. Um silêncio gritante e, depois, o crepitar das chamas.

 

O primeiro alarme foi transmitido às 8.05 horas. O controlador dos bombeiros chamou-lhe "um prédio de tijolo com quatro apartamentos, 75 por 125, totalmente incendiado, motobomba 124, escada 118 e Serviço de Emergência a responderem".

 

As teleimpressoras da polícia batiam nas esquadras, imprimindo esta mensagem:

 

VERBETE 12 0820 HORAS 76. A ESQUADRA COMUNICA EXPLOSÃO SUSPEITA SEGUIDA DE INCÊNDIO NO 382 VINCENT ST. DOIS MORTOS INSTANTÂNEOS

LEVADOS PARA KINGS COUNTY HOSP SOP 24 ZZZ

 

O tractor de papel avançou dois pontos, a cabeça de impressão voltou ao início da linha e surgiu esta mensagem:

 

VERBETE 13 0820 HORAS CORR VERBETE 12 UM MORTO INSTANTÂNEO UM FERIDO TRANSE LONG ISLAND COLLEGE HOSP SOP 24 ZZZ

 

Os repórteres do Daily News, do The New York Times e da AP estavam à espera no corredor do Long Island College Hospital quando o comandante dos bombeiros saiu da sala, corado e furioso. A seu lado, encontravam-se Sam Corley e um subchefe. O comandante dos bombeiros pigarreou.

 

- Penso que houve uma explosão de gás na cozinha - disse o comandante dos bombeiros, afastando os olhos das câmaras. - Estamos a confirmar isso.

 

- Identificações?

 

- Apenas do morto. - Consultou uma folha de papel, que tinha na mão. - Benjamin Muzi, ou talvez vocês digam "Muzzy". As relações públicas irão dar-vos mais pormenores. - Avançou a passo acelerado em direcção aos repórteres e saiu. A parte de trás do seu pescoço estava muito vermelha.

 

A bomba que matou Benjamin Muzi na quinta-feira de manhã fora colocada no frigorífico vinte e oito horas antes por Muhammad Fasil e quase lhe custara a mão antes mesmo de o detonador ter sido introduzido no plástico. Porque Fasil cometera um erro, não com o explosivo, mas com Lander.

 

Era perto da meia-noite de terça-feira quando Lander, Fasil e Dahlia amarraram o barco e eram quase 2 h da manhã quando chegaram a casa de Lander com o plástico.

 

Dahlia ainda sentia o barco a mexer-se debaixo de si enquanto caminhava em direcção a casa. Preparou uma refeição quente rápida e Fasil devorou-a na mesa da cozinha, com o rosto cinzento de fadiga. Ela teve de levar a comida de Lander para a garagem, dado que este não pretendia deixar o plástico. Abrira um saco e alinhara seis Virgens Marias na bancada de trabalho. Como se fosse um guaxinim com uma amêijoa, girava uma na mão e cheirava-a e provava-a. Devia tratar-se de hexogen, de fabrico chinês ou russo, misturado com TNT ou kamnikite e um tipo qualquer de elemento de ligação de borracha, foi a sua conclusão. A substância branco-azulada tinha um ténue odor que atingia a parte detrás das fossas nasais, como o odor de uma mangueira de jardim deixada ao sol, o odor de um saco para cadáveres. Lander sabia que tinha de se apressar para conseguir fazer tudo nas seis semanas que faltavam para a Supertaça. Pousou a estatueta e obrigou-se a sorver a sopa até as suas mãos estarem firmes. Mal olhou para Dahlia e Fasil quando vieram até à garagem. Fasil meteu na boca um comprimido de anfetamina e dirigiu-se à bancada e à fila de Nossas Senhoras, mas Dahlia deteve-o, tocando-lhe no braço.

 

- Michael, preciso de meio quilo de plástico, por favor - disse.

- Para aquilo de que falámos. - Dirigiu-se-lhe como uma mulher se dirige ao amante, deixando as coisas semiditas na presença de terceiros.

98

 

- Por que razão não dão um tiro ao Muzi?

 

Fasil estivera sob grande pressão durante uma semana, guardando aquele plástico no navio, e os seus olhos injectados estreitaram-se com o tom de indiferença de Lander.

 

- Por que razão não dão um tiro ao Muzi? - imitou. - Não tem de fazer nada, limite-se a dar-me o plástico.

 

O árabe dirigiu-se à bancada. O braço de Lander ficou desfocado, devido à velocidade, quando retirou a serra eléctrica da prateleira de baixo e accionou o gatilho, com a lâmina que guinchava a 1 centímetro da mão estendida de Fasil.

 

Fasil ficou muito quieto.

 

- Desculpe, Sr. Lander. Não pretendia faltar-lhe ao respeito. - Cuidado, cuidado. - Podemos não acertar com o tiro. Quero cobrir todas as eventualidades. O seu projecto não pode ser interrompido.

 

- Muito bem - retorquiu Lander. Falou tão baixo que Dahlia não o conseguiu ouvir devido ao som da serra. Soltou o gatilho e a lâmina rangeu até parar, ficando visíveis todos os dentes pretos. Lander cortou uma imagem ao meio, com uma faca. - Tem detonador e fio?

 

- Sim, obrigado.

 

- Vai precisar de uma bateria? Tenho várias.

 

- Não, obrigado.

 

Lander voltou ao trabalho e não ergueu os olhos quando Dahlia e Fasil se foram embora no seu carro, dirigindo-se para norte, em direcção ao Brooklyn, para prepararem a morte de Muzi.

 

A WCBS Newsradio 88 emitiu o primeiro boletim sobre a explosão às 8.30 h da manhã de quinta-feira e confirmou a identidade de Muzi às 9.45 h. Agora, o trabalho estava feito. Fora cortada a única ligação possível entre ele e o plástico. A quinta-feira estava a começar auspiciosamente. Lander ouviu Dahlia entrar na oficina, trazendo-lhe uma chávena de café.

 

- Boas notícias - disse Lander.

 

Ela ouviu com atenção enquanto a notícia era corrigida. Estava a comer um pêssego.

 

- Gostava de que identificassem o ferido. Há boas hipóteses de ser o grego.

 

- O grego não me preocupa - retrucou Lander. - Só me viu uma vez e não ouviu o que dissemos. Muzi não aparentava ter o menor respeito por ele. Duvido que confiasse nele.

 

Lander interrompeu o seu trabalho para a observar, encostada à parede, a comer o pêssego. Dahlia adorava fruta. Gostava de a ver absorvida num prazer simples. Dando mostras de ter apetite. Fazia-o sentir que ela não era complicada, que não constituía uma ameaça, que ele se deslocava à sua volta sem ser visto. Era o urso manso a observar o campista a descarregar as coisas junto à fogueira. Quando ela viera ter consigo, voltara-se várias vezes para ela, de repente, para a observar esperando ver malícia ou manha ou desagrado. Mas era sempre igual - insolência na sua postura e acolhimento no rosto.

 

Dahlia tinha consciência de tudo isso. Parecia estar a olhar com interesse enquanto ele regressava ao arnês de fio que estava a construir, mas, na verdade, preocupava-se.

 

Fasil dormira durante a maior parte do dia anterior e dessa manhã, mas em breve acordaria. Ficaria exultante com o êxito do seu dispositivo e deveria ser impedido de o mostrar. Dahlia tinha pena por Fasil ter concluído o seu treino antes de 1969, quando os instrutores chineses chegaram ao Líbano. Podiam ter-lhe ensinado muito acerca de auto-apagamento, algo que ele nunca aprendera no treino no Vietname do Norte e, certamente, muito menos na Alemanha Oriental. Observou os dedos compridos de Lander a movimentarem com destreza o ferro de soldar. Fasil cometera um erro quase fatal com Lander e ela tinha de certificar-se de que tal não voltaria a acontecer. Tinha de fazer que Fazil compreendesse que, caso não fosse muito cuidadoso, o projecto poderia ter um final sangrento, em casa de Lander. O projecto precisava do cérebro rápido e selvagem de Fasil, e os seus músculos e poder de fogo seriam essenciais no penúltimo momento, quando o explosivo estivesse a ser atado ao dirigível. Mas tinha de o manter na linha.

 

Nominalmente, Fasil era seu superior na organização terrorista, mas esta missão fora declarada sua pelo próprio Hafez Najeer. Ademais, ela era a chave para Lander, e Lander era insubstituível. Por outro lado, Hafez Najeer estava morto e Fasil já não temia a sua ira. E Fasil não era muito progressista nos seus pontos de vista em relação às mulheres. Seria tão mais fácil se todos falassem francês. Essa pequena diferença seria inestimável, pensou.

 

Tal como muitos árabes cultos, Fasil tinha dois conjuntos de comportamentos sociais. Em situações sociais de tipo ocidental, ao falar francês, a forma como tratava as mulheres era tão delicada e equalitária quanto seria de desejar. Quando regressava ao convívio com árabes tradicionais, o seu chauvinismo sexual entranhado reafirmava-se fortemente. Uma mulher era um vaso, uma criada, um animal de carga que não controlava os seus desejos sexuais, uma porca permanentemente em cio.

 

Fasil podia ser cosmopolita nas suas maneiras e radical nas suas políticas, mas Dahlia conseguia aperceber-se de que no fulcro das suas emoções não estava muito longe do tempo do seu avô, o tempo da circuncisão feminina, clitoridectomia e infibulação, os ritos sangrentos que garantiam que as crianças do sexo feminino não iriam trazer desonra às suas casas. Detectava sempre um certo desdém na sua voz quando ele lhe chamava camarada.

 

- Dahlia. - A voz de Lander desviou-lhe de novo a atenção para ele, mas a mudança não teve qualquer repercussão no seu rosto. Era uma habilidade sua. - Passa-me o alicate de ponta fina. - A sua voz era calma e as mãos firmes. Bons presságios para o que poderia vir a ser um dia difícil. Estava decidida a que não houvesse questiúnculas inúteis. Dahlia tinha confiança na inteligência e dedicação básicas de Fasil, embora não na sua atitude. Tinha confiança na força da sua própria vontade. Acreditava no conhecimento e no afecto genuínos que partilhava com Lander e acreditava nos 50 mg de cloropromazina que lhe dissolvera no café.

 

Kabakov lutava para recuperar a consciência como um mergulhador desesperado a tentar subir em direcção ao ar. Sentia fogo no peito e tentou levar as mãos à garganta, que ardia, mas os seus pulsos foram agarrados por uma mão tão forte como o aço. Compreendeu que estava no hospital. Sentia o lençol ressequido do hospital sob si e a presença de alguém que se encontrava ao lado da cama. Não queria abrir os olhos que picavam e a sua vontade controlava o corpo. Iria relaxar. Não iria lutar e sangrar. Não era a primeira vez que recuperava a consciência num hospital.

 

Moshevsky, debruçado sobre a cama, abrandou a força que estava a fazer nos pulsos de Kabakov e voltou-se para uma ordenança que se encontrava à porta do quarto. Usou o seu grunhido mais suave:

 

- Está a voltar a si. Diz ao médico que venha cá. Mexe-te!

 

Kabakov abriu e fechou uma mão e, em seguida, a outra. Mexeu a perna direita e, depois, a esquerda. Moshevsky quase sorriu de alívio. Sabia o que Kabakov estava a fazer. Estava a fazer o inventário. O próprio Moshevsky já o fizera várias vezes.

 

Os minutos passavam enquanto Kabakov vagueava, para lá e para cá, entre a escuridão e o quarto de hospital. Moshevsky, praguejando baixinho, correra para a porta quando o médico surgiu, com uma enfermeira atrás. O médico era um jovem franzino com suíças.

 

Olhou para o gráfico enquanto a enfermeira abria a tenda de oxigénio e puxava para trás o lençol de cima, suspenso, como uma tenda, de uma armação de metal, para evitar que tocasse no paciente. O médico ligou uma lanterna de bolsa e fez incidir a luz em cada um dos olhos de Kabakov. Os olhos estavam vermelhos e as lágrimas jorraram quando os abriu. A enfermeira aplicou umas gotas oculares e agitou um termómetro, enquanto o médico ouvia a respiração de Kabakov.

 

A pele arrepiou-se debaixo do estetoscópio frio e o médico era estorvado pelo adesivo que cobria o lado esquerdo do tórax. No banco, tinham feito um trabalho perfeito. O médico olhou, com alguma curiosidade profissional, para as velhas cicatrizes que se encontravam espalhadas pelo corpo de Kabakov.

 

- Importa-se de sair da luz? - disse, dirigindo-se a Moshevsky.

 

Moshevsky oscilava de um pé para o outro. Por fim, numa posição que parecia a de descanso em formatura, ficou a olhar fixamente para fora da janela, até o exame estar terminado. Acompanhou o médico quando este saiu.

 

Sam Corley estava à espera no corredor:

 

- Então?

 

O médico, ainda jovem, ergueu as sobrancelhas e pareceu aborrecido:

 

- Oh, sim. É do FBI. - Parecia estar a identificar uma planta.

- Tem um traumatismo craniano ligeiro. As radiografias parecem boas. Três costelas fracturadas. Queimaduras de segundo grau na coxa esquerda. O fumo inalado provocou-lhe uma grande irritação na garganta e nos pulmões. Tem um seio nasal roto que poderá exigir um dreno. Um ORL vem cá, esta tarde. Os olhos e ouvidos parecem estar bem, mas julgo que deve ter zumbidos. Não é raro.

 

- O administrador do hospital falou consigo a respeito de o incluirmos na lista dos doentes em estado crítico?

 

- O administrador pode incluí-lo onde muito bem quiser. Eu diria que o seu estado é razoável ou até bom. Tem um corpo notavelmente resistente, mas tem-lhe dado bastante pancada.

 

- Mas vai...

 

- Sr. Corley, pela parte que me toca, o administrador pode até dizer que ele está grávido. Não vou desmenti-lo. Como é que isto aconteceu, se é que posso perguntar?

 

- Penso que foi um fogão que explodiu.

 

- Sim, tenho a certeza de que assim foi. - O médico fungou e afastou-se pelo corredor.

 

- O que é um ORL? - perguntou Moshevsky a Corley.

 

- Um médico especialista em ouvidos, nariz e garganta. A propósito, pensava que você não falava inglês...

 

- Muito pouco, quase nada - retorquiu Moshevsky, entrando rapidamente no quarto com Corley a olhá-lo com raiva.

 

Kabakov dormiu durante a maior parte da tarde. À medida que o sedativo se esgotava, os seus olhos começaram a agitar-se sob as pálpebras e sonhou, sendo as cores dos seus sonhos brilhantes por efeito das drogas. Estava no seu apartamento de Telavive e o telefone vermelho tocava. Não conseguia chegar a ele. Estava preso sob uma pilha de roupa, no chão, e a roupa fedia a cordite.

 

As mãos de Kabakov enclavinharam-se no lençol do hospital. Moshevsky ouviu o tecido a rasgar-se e levantou-se da sua cadeira com a velocidade de um búfalo do Cabo. Abriu os punhos cerrados de Kabakov e pô-los de novo a seu lado, aliviado por ver que apenas o lençol, e não a ligadura, estava rasgado.

 

Kabakov acordou lembrando-se. Os acontecimentos de casa de Muzi não lhe vinham à ideia por ordem e era de enlouquecer ter de reordenar os fragmentos, à medida que lhe ocorriam à memória. Ao fim da tarde, a tenda de oxigénio fora retirada e os apitos nos ouvidos tinham diminuído o suficiente para lhe permitir ouvir, enquanto Moshevsky o informava do que acontecera após a explosão - a ambulância, os operadores de câmara, a imprensa enganada temporariamente, mas desconfiada.

 

E Kabakov não teve qualquer dificuldade em ouvir Corley, quando este entrou no quarto.

 

- Que se passou com Muzi? - Corley estava pálido de raiva. Kabakov não queria falar. Falar fazia-o tossir e a tosse agravava o ardor que sentia no peito. Fez um aceno de cabeça a Moshevsky:

 

- Conta-lhe - crucitou.

 

O sotaque de Moshevsky apresentou uma enorme melhoria:

 

- Muzi era um importador...

 

- Meu Deus, eu sei isso tudo. Recebi a informação a respeito dele. Conte-me o que viu e ouviu.

 

Moshevsky desviou o olhar para Kabakov e recebeu um ligeiro sinal de assentimento. Começou com o interrogatório de Fawzi, a descoberta da Nossa Senhora e o exame dos documentos do navio. Kabakov relatou a cena no apartamento de Muzi. Quando terminaram, Corley pegou no telefone que se encontrava à cabeceira de Kabakov e transmitiu uma série de ordens - mandatos para o Leticia e tripulação, uma equipa de laboratório para o navio. Kabakov interrompeu-o uma vez.

 

- Diga-lhes para serem violentos com Fawzi em frente à tripulação.

 

- O quê? - A mão de Corley estava a tapar o bocal.

 

- Digam que está a ser preso por não colaborar. Dêem-lhe alguns safanões. Devo-lhe um favor. Tem parentes em Beirute.

 

- Se ele se queixar, nós é que nos lixamos.

 

- Não se queixa.

 

Corley destapou o bocal e continuou a dar instruções, durante alguns minutos:

 

- ... sim, Pearson, e chamem a Fawzi...

 

- Canibal ranhoso comedor de porco - interrompeu Moshevsky.

 

- ... sim, foi isso que disse que lhe chamassem - disse Corley, finalmente. - Quando lhe lerem os direitos, sim. Não faças perguntas, Pearson, faz o que te mandam. - Pousou o auscultador.

 

- Okay, Kabakov. Foi retirado daquela casa por dois tipos com sacos de golfe que, por acaso, passaram por ali, segundo diz o relatório dos bombeiros. Uns golfistas. - Corley estava de pé, no meio do quarto, com o seu fato amarrotado, sacudindo as chaves. - Acontece que esses tipos abandonaram o local numa carrinha fechada mal a ambulância chegou. Que carrinha era essa... Um transporte privativo de algum clube de golfe onde todos falam de uma maneira esquisita? Estou a citar o relatório da polícia: "Ambos falavam de uma maneira esquisita." Tal como vocês falam de uma maneira esquisita. Que está a fazer aqui, Kabakov? Vai lixar-me, ou quê?

 

- Dir-lhe-ia mal soubesse qualquer coisa. - O gemido fraco de Kabakov não tinha nada de desculpa.

 

- Mandar-me-ia um postal da porra de Telavive. "Desculpe a cratera e o maremoto." - Corley ficou a olhar pela janela durante um bom minuto. Quando se voltou de novo para a cama, a ira desaparecera. Derrotara a fúria e estava pronto para continuar. Era uma capacidade que Kabakov admirava. - Um americano - murmurou Corley.

- Muzi falou num americano. A propósito, Muzi estava bastante limpo. A ficha da polícia só registava uma detenção. Injúrias e ofensas corporais e conduta desordeira num restaurante francês. A queixa foi retirada.

 

"Não conseguimos grande coisa na casa. A bomba era de plástico, pouco mais de uma libra. Pensamos que estivesse ligada ao casquilho da lâmpada, no interior do frigorífico. Alguém retirou a ficha do frigorífico, ligou a bomba, fechou a porta do frigorífico e meteu de novo a ficha na tomada. Invulgar.

 

- Já ouvi essa história, uma vez - disse Kabakov, calmamente, muito calmamente.

 

- Amanhã, logo de manhã, mando transferi-lo para o Hospital Naval de Bethesda. Lá, podemos montar um esquema de segurança adequado.

 

- Não vou ficar...

 

- Claro que vai. - Corley tirou do bolso do casaco a última edição do New York Post e estendeu-a. A fotografia de Kabakov estava na página 3. Fora tirada por cima do ombro de um maqueiro, quando Kabakov estava a ser levado para o serviço de urgência. O rosto estava manchado pelo fumo, mas as feições eram nítidas. - O seu nome consta como "Kabov", sem morada nem profissão. Conseguimos calar os serviços de relações públicas da polícia antes de terem comunicado a sua identidade. Washington está a apertar-me. O director pensa que os árabes poderiam reconhecer esta fotografia e vir atrás de si.

 

- Esplêndido. Podemos apanhar um vivo e discutir o caso com ele.

 

- Oh, não, pelo menos neste hospital. Primeiro, tínhamos de evacuar a ala toda. Ademais, podiam ser bem sucedidos. Morto, você não me serve para nada. Não queremos que se transforme noutro Yosef Alon.

 

O coronel Alon, o adido aeronáutico israelita em Washington, fora abatido a tiro no caminho de acesso a sua casa, em Chevy Chase, Maryland, por assassinos guerrilheiros, em 1973. Kabakov conhecia e gostava de Alon, e estivera ao lado de Moshe Dayan, no Aeroporto de Lod, quando o seu corpo fora retirado do avião, com o vento a enfunar a bandeira que lhe cobria o caixão.

 

- Era possível que enviassem os mesmos tipos que mataram o coronel Alon - disse Moshevsky com o sorriso de um crocodilo.

 

Corley abanou a cabeça, cansado:

 

- Iriam mandar sicários, e vocês sabem-no. Não. Não vamos correr o risco de rebentarem com um hospital. Mais tarde, se quiser, pode fazer um discurso nos degraus da missão da República Árabe Unida, com um fato de treino vermelho, que fico na mesma. Tenho ordens para o manter vivo. Os médicos dizem que tem de ficar de papo para o ar durante uma semana, no mínimo. De manhã, arrume o penico. Vai ser transferido para Bethesda. Será dito à imprensa que vai ser transferido para a unidade de queimados do Brooke Army em San António.

 

Kabakov fechou os olhos durante vários segundos. Se estivesse em Bethesda, ficaria nas mãos dos burocratas. Iriam fazê-lo olhar para fotografias de padeiros árabes suspeitos durante os próximos seis meses.

 

Mas não tinha qualquer intenção de ir para Bethesda. Precisava de um pouco de cuidados médicos, de privacidade total e de um lugar para descansar durante um ou dois dias, sem ninguém lhe dar ordens a propósito da sua convalescença. E sabia onde poderia obter tudo isso.

 

- Corley, posso arranjar coisa melhor para mim. Eles falaram-lhe especificamente em Bethesda?

 

- Disseram que eu tinha a responsabilidade de velar pela sua segurança. Vai ficar em segurança. - A ameaça tácita estava lá. Caso Kabakov não colaborasse, o Departamento de Estado encarregar-se-ia de fazer de forma a ser enviado de volta para Israel.

 

- Muito bem, olhe. De manhã, tenho tudo arranjado. Pode verificar até ficar satisfeito.

 

- Não prometo nada.

 

- Mas vai ter abertura de espírito? - Kabakov odiava persuadir.

 

- Veremos. Entretanto, tenho cinco homens neste andar. Você fica mesmo lixado por perder uma parada, não é verdade?

 

Kabakov olhou-o e, de súbito, Corley lembrou-se de um texugo que capturara, em criança, no Michigan. O texugo viera até ele, arrastando a armadilha, com a extremidade partida do fémur a sulcar o pó. Os seus olhos pareciam os de Kabakov.

 

Mal o agente do FBI deixou o quarto, Kabakov tentou sentar-se e, em seguida, caiu para trás, estonteado pelo esforço.

 

- Moshevsky, telefona a Rachel Bauman - disse.

 

Bauman, Rachel, Dra,, constava da lista telefónica classificada de Manhattan. Moshevsky discou o número com o seu dedo mínimo, o único que entrava nos buracos, e responderam-lhe de um serviço de atendimento. A Doutora Bauman iria estar fora durante três dias.

 

Encontrou "Bauman, R." na lista de assinantes de Manhattan. Respondeu-lhe a mesma telefonista do serviço de atendimento. Sim, disse, a Doutora Bauman poderia ligar-lhe, mas não tinha a certeza de que o fizesse. Tinha um número onde a Doutora Bauman pudesse ser encontrada? Sentia muito, mas não podia dar essa informação.

 

Moshevsky pediu a um dos agentes federais que estavam de guarda no corredor para falar para o serviço de atendimento. Esperaram enquanto a telefonista confirmava a sua identificação e lhes telefonava.

 

- A Doutora Bauman está em Mt. Murray Lodge, nas montanhas Pocono - disse, finalmente, o agente. - Disse ao serviço de atendimento que, mais tarde, lhes comunicaria o número do quarto. Isso foi ontem. Ainda não telefonou. Se tencionava ligar-lhes a dar o número do quarto, é porque sabia que não iria registar-se com o seu nome.

 

- Sim, sim - grunhiu Kabakov.

 

- Um arranjinho, talvez. - O homem não se calava.

 

Muito bem, pensou Kabakov, que é que se pode esperar quando não se telefona a uma pessoa durante sete anos?

 

- A que distância fica esse lugar?

 

- Cerca de três horas.

 

- Moshevsky, vai buscá-la.

 

A cerca de 100 km do hospital, em Lakehurst, N. J., Michael Lander afadigava-se com os controlos do seu televisor. Tinha uma imagem excelente - todos os seus electrodomésticos funcionavam sem falhas -, mas nunca estava satisfeito. Dahlia e Fasil não davam qualquer sinal de impaciência. O noticiário das 6 h da tarde já ia adiantado quando Lander deixou o televisor, finalmente, em paz.

 

- Uma explosão, no Brooklyn, às primeiras horas de hoje, custou a vida ao importador Benjamin Muzi. Um segundo homem ficou em estado crítico - dizia o jornalista. - A reportagem do local, por Frank Frizzell.

 

O jornalista olhou para a câmara, durante um momento de constrangimento, antes de o filme começar a rolar. Lá estava Frank Frizzell, de pé, num emaranhado de mangueiras, no passeio em frente à casa de Muzi.

 

- ... rebentou a parede da cozinha e causou prejuízos pouco avultados na casa ao lado. 35 bombeiros com seis viaturas combateram o incêndio durante mais de meia hora, até o conseguirem controlar. Seis bombeiros receberam tratamento por terem inalado fumo.

 

A cena mudou para o lado da casa, com o seu buraco escancarado. Lander inclinou-se para a frente, ávido, tentando avaliar a força da explosão. Fasil olhava como se estivesse hipnotizado.

 

Os bombeiros estavam a retirar as mangueiras. Era óbvio que a equipa de televisão chegara quando a operação estava quase terminada. Agora, era a filmagem da rampa exterior do hospital. Algum burocrata inteligente da televisão, sabendo que o Long Island College Hospital era o hospital que recebia as vítimas de desastres na área da 76.a Esquadra, deve ter enviado a equipa de filmagem directamente para o hospital, logo a seguir ao alerta. Os jornalistas chegaram imediatamente antes da ambulância. Lá estava a equipa da ambulância a retirar uma maca, dois homens a empurrarem-na e um terceiro a segurar num frasco de solução intravenosa. A imagem tremeu quando o operador de câmara foi empurrado pela multidão. Agora, a imagem saltitava, enquanto o operador corria ao lado da maca. Uma pausa, quando chegaram à rampa do serviço de urgência. Um grande plano do rosto enegrecido pelo fumo.

 

- David Kabov, sem residência, ficou no Long Island College Hospital, sendo o seu estado descrito como crítico.

 

- Kabakov! - gritou Fasil. O seu lábio afastou-se dos dentes e começou a desfiar um rosário de juras, em árabe. Agora, Dahlia também estava a falar árabe. Estava pálida, lembrando-se do quarto, em Beirute, o cano negro da metralhadora a virar-se na sua direcção, Najeer colado à parede esburacada.

 

- Falem inglês. - Lander teve de o dizer duas vezes, antes de o ouvirem. - Quem é esse?

 

- Não tenho bem a certeza - retorquiu Dahlia, respirando profundamente.

 

- Eu tenho. - Fasil agarrou a ponta do seu nariz entre o polegar e o indicador. - Um cobarde israelita nojento que surge de noite para matar e matar, mulheres, crianças... não se importa. O filho da puta do judeu matou o nosso chefe, matou muitos outros, quase matou Dahlia. - Inconscientemente, a mão de Fasil deslocara-se para a marca de bala na sua face, que sofrera no raid de Beirute.

 

A mola mestra de Lander era o ódio, mas o seu ódio provinha dos ferimentos e da loucura. Aqui, era o ódio condicionado e, embora Lander não fosse capaz de discernir a diferença, não estivesse conscientemente ciente da diferença, fazia-o sentir desconforto.

 

- Talvez ele morra - disse.

 

- Oh, sim - retorquiu Fasil. - Vai morrer.

 

Kabakov ficou acordado durante horas, a meio da noite, depois de o ruído do hospital ter ficado reduzido ao roçar dos uniformes de nylon, ao guincho dos sapatos de sola de borracha em soalhos encerados, ao grito desdentado de um velho paciente, ao fundo do corredor, que chamava por Jesus. Estava a controlar-se a si próprio, tal como antes, deitado, acordado, ouvindo o movimento no corredor do hospital. Os hospitais ameaçam-nos a todos com os velhos desastres da infância, o intestino não controlado, a necessidade de chorar.

 

Kabakov não pensava em termos de valentia e covardia. Quando pensava em tudo isso, era um behaviorista. Os seus louvores atribuíam-lhe várias virtudes e pensava que algumas delas eram inexistentes. O facto de os seus homens terem uma espécie de terror dele era útil para os chefiar, mas não era uma fonte de orgulho para ele. A seu lado, já haviam morrido demasiados.

 

Vira coragem. Poderia defini-la como fazer o que era necessário, de qualquer maneira. Mas a palavra-chave era "necessário" e não "de qualquer maneira". Conhecera dois ou três homens que eram virtualmente desprovidos de medo. Eram todos psicóticos. O medo podia ser controlado e canalizado. Era o segredo de um soldado bem sucedido.

 

Kabakov teria rido caso sugerissem que era um idealista, mas havia dentro dele uma dicotomia que se aproximava do cerne daquilo a que chamavam judiaria. Podia ser perfeitamente pragmático na forma como via o comportamento humano e, no entanto, sentir no âmago do seu coração a impressão digital branca e quente de Deus.

 

Kabakov não era um homem religioso no sentido em que o mundo considera religiosos os homens. Não era versado nos ritos do judaísmo, mas soubera que era judeu durante todos os dias que vivera. Acreditava em Israel. Faria o seu melhor e deixaria o resto para os rabis.

 

Sentia comichão por debaixo do adesivo das costelas. Descobriu que, mexendo-se um pouco, conseguia que o adesivo puxasse a parte onde tinha comichão. Não era uma forma satisfatória de se coçar, mas ajudava. O médico, o jovem qualquer coisa, fizera uma data de perguntas acerca das suas cicatrizes antigas. Kabakov riu, de si para consigo, ao lembrar-se de como a curiosidade do médico ofendera Moshevsky, que dissera ao homem que Kabakov era um corredor profissional de motos. Não falou ao médico na luta pelo desfiladeiro de Mitla, em 1956, ou nos bunkers sírios, em Rafid, em 1967, ou noutros campos de batalha, menos convencionais, que tinham marcado Kabakov: um telhado de hotel em Tripoli, as docas de Creta com as balas a ricochetearem nas chapas - todos os locais onde os terroristas árabes se haviam instalado.

 

Fora a pergunta do médico acerca dos ferimentos antigos que pusera Kabakov a pensar em Rachel. Agora, deitado na escuridão, pensava em como tudo começara com ela.

 

9 de Junho de 1967: Ele e Moshevsky, deitados em macas, no exterior de um hospital de campanha, na Galileia, com o vento a soprar areia contra as paredes de lona, com um som sibilino, e o ruído do gerador a sobrepor-se aos gemidos dos feridos. Uma figura de médico, alta como um íbis no meio das macas, levava a cabo a horrível tarefa da triagem. Kabakov e Moshevsky, ambos atingidos com fogo de armas ligeiras ao tomarem de assalto os montes Sírios, na escuridão, foram transportados para dentro do hospital de campanha, para a luz, onde as lanternas de emergência balançavam ao lado das lâmpadas de sala de operações. A sonolência a espalhar-se da seringa, a máscara do médico debruçada sobre ele. Kabakov, observando como um estranho, sem olhar para si mesmo, ficou ligeiramente surpreendido ao ver que as mãos do médico, esticadas para receberem umas novas luvas esterilizadas, eram as mãos de uma mulher. A Doutora Rachel Bauman, interna de psiquiatria no Hospital Monte Sinai, em Nova Iorque, transformada em cirurgião voluntário no campo de batalha, retirou a bala que se cravara na clavícula de Kabakov.

 

Ele estava em convalescença num hospital de Telavive, quando a médica entrara na enfermaria numa ronda de exames pós-operatórios. Era uma mulher atraente de cerca de 26 anos, com cabelo escuro atado em carrapito. Os olhos de Kabakov nunca a largaram depois de ter começado a ronda, com um médico mais velho e uma enfermeira.

 

A enfermeira puxou o lençol para baixo. A Doutora Bauman não falou com Kabakov. Estava entretida com a ferida, calcando a pele à sua volta com os dedos. O médico examinou-a depois.

 

- Um óptimo trabalho, Doutora Bauman - disse.

 

- Obrigado, doutor. Deram-me os mais fáceis.

 

- Fez isto? - inquiriu Kabakov.

 

Ela olhou-o como se só então se tivesse apercebido da sua presença.

 

- Sim.

 

- Tem um sotaque americano.

 

- Sim, sou americana.

 

- Obrigado por ter vindo.

 

Uma pausa, um piscar de olhos, ela corou.

 

- Obrigada por respirar - respondeu, e afastou-se na enfermaria. O rosto de Kabakov mostrou a sua surpresa.

 

- Parvo - disse o médico idoso. - Será que você gostaria que um judeu lhe dissesse "Obrigado por ter agido como um judeu durante todo este dia"? - Deu uma palmadinha no braço de Kabakov, quando se afastou da cama.

 

Uma semana mais tarde, ao deixar o hospital, fardado, viu-a nos degraus da entrada.

 

- Doutora Bauman.

 

- Major Kabakov. Fico contente por o ver. - Não sorriu. O vento comprimia-lhe uma farripa de cabelo contra o rosto.

 

- Venha jantar comigo.

 

- Não tenho tempo, obrigada. Tenho de ir. - Desapareceu no hospital.

 

Kabakov esteve fora de Telavive durante as duas semanas seguintes, restabelecendo contactos com fontes de informação ao longo da frente síria. Levou a cabo uma incursão do outro lado da linha de cessar-fogo, dirigindo-se, numa noite sem lua, a uma posição de lança-morteiros síria que continuava a violar o cessar-fogo, apesar da vigilância das Nações Unidas. Os morteiros de fabrico russo rebentaram todos simultaneamente nas suas prateleiras de armazenagem, deixando uma cratera na encosta.

 

Quando recebeu ordens para regressar à cidade, procurou algumas das mulheres que conhecia e descobriu que estavam tão satisfatórias como sempre. E insistiu nos seus convites a Rachel Bauman. Agora, estava a ajudar na sala de operações e a trabalhar com casos de ferimentos na cabeça durante dezasseis horas por dia. Por fim, cansada, começou a encontrar-se com Kabakov, perto do hospital, para refeições apressadas. Era uma mulher reservada e protegia-se, protegia a direcção da sua vida. Por vezes, após a última cirurgia da noite, sentavam-se num banco de jardim e bebericavam brandy, de um frasco de bolso. Estava demasiado cansada para conversar muito, mas sentia conforto ao sentar-se ao lado do vulto grande e escuro de Kabakov. Não ia ao apartamento dele.

 

Este estado de coisas acabou subitamente. Estavam no parque e, embora Kabakov se não pudesse aperceber disso por causa da escuridão, ela estava quase a chorar. Uma operação desesperada de quatro horas falhara, um caso de lesões cerebrais. Dado que era perita em traumatismos da cabeça, fora chamada para auxiliar no diagnóstico, confirmara os sinais de hematoma subdural no soldado árabe de 17 anos A elevada pressão do líquido cérebro-espinal e a presença de sangue no líquido não deixavam margem para dúvidas. Ajudara o neurocirurgião. Houvera uma hemorragia intracerebral inevitável e o jovem morrera. Perdera-o enquanto lhe contemplava o rosto.

 

Kabakov, rindo e sem se dar conta, contou-lhe uma história de um condutor de tanques com um escorpião na roupa interior que arrasara uma cabana de Quonset. Ela não respondeu.

 

- Pensativa? - disse.

 

Uma coluna de blindados de transporte de pessoal troava na rua por detrás deles e ela teve de falar alto para ser ouvida:

 

- Estou a pensar que, em algum hospital do Cairo, estão a trabalhar com o mesmo afinco para limpar as porcarias que você faz. Você faz isso inclusive em tempo de paz, não é verdade? Você e os fedayines.

 

- Não há tempo de paz.

 

- Há zunzuns no hospital. Você é uma espécie de supercomando, não é? - Agora, não conseguia parar e a sua voz era aguda. - Sabe uma coisa? Ia a passar pelo salão do hotel, a caminho do meu quarto, quando ouvi o seu nome. Um homenzinho gordo, um segundo-secretário de uma das missões estrangeiras, estava a beber com uns oficiais israelitas. Estava a dizer que, se houver uma paz verdadeira, terão de o gasear, como se de um cão de guerra se tratasse.

 

Nada. Kabakov estava imóvel e o seu perfil não se diferençava contra as árvores escuras.

 

De súbito, a raiva abandonou-a, deixando-a sem energia, doente por o ter atacado. Falar constituía um esforço, mas devia-lhe o resto da história:

 

- Os oficiais levantaram-se. Um deles esbofeteou o rosto do gordo e afastaram-se, deixando as bebidas em cima da mesa - concluiu, tristemente.

 

Kabakov estava de pé, à sua frente.

 

- Vá dormir, Doutora Bauman - disse, e desapareceu.

 

Os deveres de Kabakov retiveram-no no mês seguinte - trabalho de secretária. Fora transferido de volta para o Mossad, que estava a trabalhar furiosamente para determinar a totalidade dos danos causados aos inimigos que rodeavam Israel pela Guerra dos Seis Dias e para calcular o seu potencial para um segundo ataque. Havia interrogatórios exaustivos de pilotos, comandantes de unidades e soldados individuais. Kabakov conduziu muitos dos interrogatórios, cotejando o material com informações fornecidas por fontes dentro dos Estados árabes e reduzindo os resultados e memorandos sucintos que eram estudados pelos seus chefes. Era um trabalho cansativo e monótono e Rachel Bauman só ocasionalmente se imiscuía nos seus pensamentos. Nunca a viu nem lhe telefonou. Em vez disso, limitou as suas atenções a uma sabra madura, com o posto de sargento e uma blusa farta, que podia ter montado um boi Brama sem se agarrar à corda. A sua sabra em breve foi transferida e ficou de novo só, voluntariamente só, entorpecido pela rotina do seu trabalho, até que uma festa o levou a sair.

 

A festa era a sua primeira comemoração verdadeira desde o final da guerra. Fora organizada por duas dúzias dos homens que pertenciam à secção de pára-quedistas de Kabakov e assistiu a ela um grupo louco e amigo de 50 - homens e mulheres, todos soldados. Todos tinham olhos vermelhos e estavam queimados e, na sua maioria, eram mais novos do que Kabakov. A Guerra dos Seis Dias levara-lhes a juventude dos rostos e agora, indomável como uma seara resistente, estava a regressar de novo. As mulheres estavam contentes por vestirem saias e sandálias e blusas garridas em vez do uniforme e era bom olhar para elas. Pouco se falava da guerra e não se mencionavam os homens que tinham perdido. Fora dito o Kaddish e seria dito de novo.

 

O grupo ocupara um café nos arredores de Telavive, junto à estrada para Haifa, um edifício isolado que ficava branco-azulado à luz da Lua. Kabakov ouviu a festa a 300 m de distância, enquanto se aproximava no seu jipe. Parecia um tumulto com acompanhamento musical. Os pares dançavam dentro do café e debaixo de um caramanchão, no terraço. Um frémito de atenção percorreu a sala quando Kabakov entrou, abrindo caminho entre os dançarinos, agradecendo uma dúzia de cumprimentos gritados acima da música demolidora. Alguns dos soldados mais novos apontavam-no aos seus companheiros, com um olhar e um aceno de cabeça. Kabakov tinha uma consciência agradável do facto, embora fizesse um grande esforço para o não mostrar. Sabia que era errado fazerem algo especial para ele. Cada homem corria os seus riscos. Aquelas pessoas eram suficientemente novas para quererem deleitar-se naquela merda, pensou. Desejava que Rachel lá estivesse, que tivesse vindo com ele, e acreditava inocentemente que o desejo não tinha nada que ver com as suas boas-vindas. Maldita Rachel!

 

Dirigiu-se a uma grande mesa, no final do terraço, onde Moshevsky estava sentado com algumas raparigas animadas. Moshevsky tinha um sortido de garrafas à sua frente e estava a contar anedotas porcas tão depressa quanto se lembrava. Kabakov sentia-se bem e o vinho fê-lo sentir-se melhor. Os homens que se encontravam na festa eram de todas as patentes, no activo e na reserva, e ninguém acharia estranho que um major e um sargento confraternizassem lado a lado. A disciplina que levara os israelitas a atravessar o Sinai nascera do respeito mútuo e era mantida pelo esprit, sendo semelhante a uma cota de malha que, em ocasiões como aquela, podia ser dependurada junto à porta. Era uma boa festa: as pessoas compreendiam-se umas às outras, o vinho era israelita e as danças eram as danças do kibbutz.

 

Pouco antes da meia-noite, entre os dançarinos que rodopiavam, Kabakov descobriu Rachel, que hesitava no limiar da luz. Dirigiu-se ao caramanchão onde os pares dançavam, batendo palmas e cantando.

 

O ar tocava-lhe suavemente nos braços e acariciava-lhe as pernas sob o vestido curto de algodão, o ar que cheirava a vinho, tabaco forte e flores quentes. Avistou Kabakov, inclinado para trás, como Nero, na sua mesa grande. Alguém lhe pusera uma flor atrás da orelha e um charuto entre os dentes. Uma rapariga inclinava-se sobre ele, a conversar.

 

Timidamente, Rachel aproximou-se da mesa, entre os dançarinos e a música. Um tenente muito jovem agarrou-a e fê-la rodopiar na dança e, quando a sala parou de girar, Kabakov estava de pé à sua frente, com os olhos brilhantes por causa do vinho. Esquecera-se de quão grande ele era.

 

- David, - disse ela, olhando-lhe para o rosto -, quero dizer-te que...

 

- Que precisas de uma bebida - retorquiu Kabakov, estendendo-lhe um copo.

 

- Regresso a casa amanhã... disseram-me que estavas aqui e não podia ir-me embora sem...

 

- Sem dançares comigo? Claro que não.

 

Rachel dançara durante o Verão que passara no kibbutz, alguns anos antes, e agora recordava os passos. Kabakov tinha uma habilidade notável para dançar com um copo na mão, sendo reabastecido em pleno movimento, e bebiam alternadamente por ele.

 

Com a outra mão, retirou-lhe os ganchos do cabelo, que se desmoronou numa massa vermelho-escura pelas suas costas e em redor do rosto, mais cabelo do que Kabakov julgara ser possível. O vinho aqueceu Rachel, que deu por si a rir enquanto dançava. O resto, a dor e a mutilação em que parecia ter estado mergulhada, parecia distante.

 

De súbito, era tarde. O barulho diminuíra e muitos dos foliões tinham-se ido embora sem que Kabakov ou Rachel se apercebessem. Debaixo do caramanchão, apenas dançavam alguns pares. Os músicos estavam a dormir, com as cabeças apoiadas numa mesa junto ao palco da banda. Os dançarinos estavam muito juntos, mexendo-se ao som de uma canção antiga de Edith Piaf, tocada por uma jukebox, junto ao bar. O terraço estava coberto de flores esmagadas e pontas de charuto e salpicado com vinho. Um soldado muito jovem, com um pé engessado esticado em cima de uma cadeira, cantava ao som do disco, com uma garrafa a seu lado. Era tarde, tarde, a hora em que a lua desaparece e os objectos endurecem na meia luz que virá a adquirir o peso do dia. Kabakov e Rachel mal se moviam ao ritmo da música. Pararam completamente, quentes um contra o outro. Kabakov secou com um beijo uma gota de suor num dos lados do pescoço dela, saboreou o suor, uma gota do mar em movimento. O ar que ela aquecera e perfumara com rosas para acariciar os seus olhos e a sua garganta. Ela inclinou-se, um pequeno passo para o lado para manter o equilíbrio, a sua coxa a deslizar sobre a dele, em volta da sua, agarrando, lembrando-se absurdamente da primeira vez que pousara a sua face no flanco quente e duro do pescoço de um cavalo.

 

Afastaram-se lentamente num V cavado que deixava que a luz penetrasse entre eles e saíram, sob a alvorada silenciosa; Kabakov apanhou uma garrafa de brandy em cima de uma mesa, quando passou por ela. A relva orvalhada molhou os tornozelos de Rachel quando subiram o carreiro da encosta e viram os pormenores das rochas e das moitas com a clareza irreal de visão que se segue a uma noite de insónia.

 

Sentados com as costas encostadas à rocha, contemplaram o nascer do Sol. Sob a luz daquele dia claro, Kabakov conseguia ver as ligeiras falhas da sua pele, as sardas, as rugas de fadiga sob os seus olhos, as boas maçãs do rosto. Desejava-a muito e o tempo esgotara-se.

 

Beijou-a durante minutos, com a sua mão quente sob o cabelo dela. Um casal desceu o carreiro, vindo dos arbustos que ficavam mais acima, acanhado sob a luz, sacudindo as folhas da roupa. Tropeçaram nos pés de Kabakov e Rachel, que estavam sentados ao lado do carreiro, e continuaram, sem serem vistos.

 

- David, estou abalada - disse, por fim, Rachel, arrancando uma folha de relva. - Não queria que isto começasse, sabes?

 

- Abalada?

 

- Perturbada, preocupada.

 

- Bem, eu... - Kabakov tentou pensar numa frase agradável e, depois, fungou. Gostava dela. Palavras não eram nada. Malditas palavras. Falou. - Não há nada pior do que arrependimentos. Vem comigo para Haifa. Posso pedir uma licença de uma semana. Quero que venhas comigo. Falamos das tuas responsabilidades na próxima semana.

 

- Na próxima semana... Na próxima semana posso já não ter o menor sentido. Tenho obrigações em Nova Iorque. Que mudaria na próxima semana?

 

- Estalar as ripas de uma cama e ficar estendido ao sol e olharmos um para o outro mudaria muito as coisas.

 

Ela virou-se rapidamente.

 

- Não fiques chateada, também.

 

- Não estou chateada - respondeu.

 

- Então, pára de dizer coisas como chateada. Parece que o estás. Kabakov estava a sorrir e ela sorriu também. Um silêncio desconfortável.

 

- Voltas? - inquiriu Kabakov.

 

- Não tão depressa. Tenho de acabar o internato. A não ser que a guerra rebente de novo. Mas não parou para ti, nem por um breve instante, não é, David? Nunca termina para ti.

 

Ele não disse nada.

 

- É engraçado, David. Espera-se que as mulheres tenham vidinhas activas e flexíveis, os homens têm O Seu Dever. O que faço é verdadeiro e valioso e importante. E se eu disser que é o meu dever, porque quero que seja o meu dever, então é tão real como o teu uniforme. Não vamos "falar acerca disso na próxima semana".

 

- Óptimo - disse Kabakov. - Vai cumprir o teu dever.

 

- Também não fiques chateado.

 

- Não estou chateado.

 

- Ei, David, obrigado por me teres convidado. Se pudesse, convidava-te. Para irmos para Haifa. Ou para outro lado qualquer. E para quebrarmos as ripas de uma cama. - Uma pausa e, depois, rapidamente. - Adeus, major David Kabakov. Vou lembrar-me de ti.

 

E, em seguida, corria pelo carreiro abaixo. Só se apercebeu de que estava a chorar quando o seu jipe ganhou velocidade e o vento lhe espalhou as lágrimas, em manchas frias, pelo rosto. Lágrimas que o vento secara, sete anos antes, em Israel.

 

Uma enfermeira entrou no quarto de Kabakov, interrompendo-lhe os pensamentos, e as paredes do hospital fecharam-se de novo sobre ele. A enfermeira trazia um comprimido num copo de papel.

 

- Vou-me embora agora, Sr. Kabov - disse. - Vemo-nos amanhã à tarde.

 

Kabakov olhou para o relógio. Agora, Moshevsky já devia ter telefonado da cabana, era quase meia-noite.

 

Dentro de um carro estacionado do outro lado da rua, Dahlia lyad observava um grupo de enfermeiras do último turno que entravam pela porta principal do hospital. Também ela tomou nota da hora. Depois, arrancou.

 

Enquanto Kabakov tomava a sua pílula, Moshevsky estava de pé mesmo junto à porta, dentro do Boom-Boom Room, clube nocturno de Mt. Murray Lodge. Olhava para a multidão, com o cenho carregado. Fora uma viagem cansativa de três horas através das Pocono Mountains sob um ligeiro nevão e sentia-se desapontado. Tal como esperava, não se encontrava qualquer registo em nome de Rachel Bauman. Não a vira entre a multidão que jantava, no andar de baixo, embora a sua vigilância tivesse, por três vezes, atraído a atenção do chefe de mesas, que lhe oferecera, pouco à vontade, uma mesa. O conjunto que tocava no Boom-Boom Room era barulhento, mas não mau, e o "director de actividades" era o mestre-de-cerimónias. Um holofote móvel deslocava-se por cima das mesas, detendo-se em cada uma delas. Amiúde, os clientes acenavam quando a luz os atingia.

 

Rachel Bauman, sentada com o namorado actual e um casal que tinham conhecido na cabana, não acenou sob a luz do holofote. Pensava que era uma cabana feia, sem vista. Achava que as Poconos eram umas montanhazinhas estúpidas. Achava que a multidão era desleixada. Inúmeros anéis de noivado e casamento com gravações artísticas faziam que a sala faiscasse como uma constelação lamacenta. Isso deprimia-a porque lhe lembrava que, de certa forma, concordara em casar com o jovem advogado, bem apessoado e chato, que estava a seu lado. Pertencia ao tipo de pessoa que não iria interferir na sua vida.

 

Ademais, o quarto que ocupavam era vulgar, custava 60 dólares por dia e tinha cabelos na banheira. O mobiliário era oriental do Brooklyn e os cabelos que se encontravam na banheira eram inegavelmente púbicos. O seu namorado, mais ou menos, usava plastrão com o roupão e relógio na cama. Meu Deus, olha para mim, pensava Rachel. Tenho aneizinhos de esmalte nos dedos.

 

Moshevsky apareceu ao lado da mesa, como uma baleia a espreitar para dentro de um barco a remos. Ensaiara o que ia dizer. Começaria com humor.

 

- Doutora Bauman, encontro-a sempre em festas. Lembra-se de mim: Moshevsky, Israel, 1967. Podia dar-lhe uma palavrinha?

 

- Desculpe?

 

Aquilo fora tudo o que Moshevsky preparara como apresentação. Hesitou e, em seguida, recompôs-se e inclinou-se como se estivesse a mostrar o rosto a um dermatologista pequeno.

 

- Robert Moshevsky, Israel, 1967. Com o major Kabakov? No hospital e na festa?

 

- É claro! Sargento Moshevsky! Não o reconheci desfardado. Moshevsky ficou perplexo. Pensou que ela dissera "desfraldado", uma expressão que compreendia. Olhou rapidamente para baixo. Nenhum problema, por esse lado. O namorado de Rachel e o outro casal estavam agora a olhar para ele.

 

- Marc Taubman, apresento-te Robert Moshevsky, um bom amigo meu - disse Rachel ao seu acompanhante. - Sente-se, por favor, sargento.

 

- Sente-se, por favor - acrescentou Taubman, com ar de dúvida.

 

- Que raio... - O rosto de Rachel mudou subitamente. - David está bem?

 

- Quase. -Já chegava de conversa social. As suas instruções não incluíam sentar-se e conversar. Que diria Kabakov? Inclinou-se para a orelha dela. - Tenho de falar consigo em privado, por favor - murmurou. - É muito urgente.

 

- Dão-nos licença? - Apoiou a mão no ombro de Taubman quando este começou a levantar-se. - Não demoro nada, Marc. Está tudo bem.

 

Ao fim de cinco minutos, Rachel regressou à mesa para pedir a Marc Taubman que fosse lá fora. Dez minutos mais tarde, estava sentado sozinho no bar, com o queixo apoiado na mão. Rachel e Moshevsky dirigiam-se a toda a velocidade para Nova Iorque, com a neve a bater no pára-brisas como balas tracejantes.

 

Mais a sul, a neve transformara-se em saraiva que rufava no tejadilho e no pára-brisas da carrinha de Lander que Dahlia lyad conduzia ao longo da Garden State Parkway. A via rápida fora coberta de areia, mas a Estrada 70 estava escorregadia quando ela virou para oeste, em direcção a Lakehurst. Eram 3 h da manhã quando chegou à casa de Lander e correu para dentro. Este estava a fazer uma chávena de café. Colocou a edição de grande qualidade do Daily News em cima do balcão da cozinha e abriu-a na secção de fotografias da página central. O rosto do homem que se encontrava na maca era nítido. Era mesmo Kabakov. Gotas frias de água escorregavam-lhe pelo crânio, enquanto a saraiva se derretia no cabelo.

 

- É Kabakov, e depois? - inquiriu Lander.

 

- Tem razão, e depois? - disse Fasil, saindo do seu quarto. - Teve hipóteses de falar com Muzi e pode ter a sua descrição. Deve ter encontrado Muzi através do barco e, no barco, também lhe podem ter dado a minha descrição. Talvez ainda não tenha conseguido determinar a minha identidade, mas sabe que existo. Vai lembrar-se. Viu Dahlia. Tem de desaparecer.

 

Lander pousou a chávena com um estalido.

 

- Não me venha com merdas. Fasil. Se as autoridades soubessem alguma coisa, a esta hora já estavam cá. Você só quer matá-lo por vingança. Abateu o seu chefe, não foi? Entrou por ali dentro e limpou-lhe o sebo, quando estava a dormir, à socapa.

 

- Quando ele estava a dormir, ele esgueirou-se...

 

- Vocês irritam-me. É por isso que os Israelitas os derrotam com tanta regularidade, estão sempre a pensar em vingança, tentando apanhá-los por causa do que aconteceu na semana anterior. E está disposto a arriscar tudo isto apenas por vingança.

 

- Kabakov tem de morrer - disse Fasil, com a voz a subir de tom.

 

- Por outro lado, não é apenas vingança. Tem medo de que, se o não apanhar enquanto está ferido, ele venha, mais cedo ou mais tarde, visitá-lo a si, a meio da noite.

 

A palavra "medo" ficou suspensa no ar, entre eles. Fasil estava a fazer um esforço extraordinário para controlar o seu génio. Era mais fácil para um árabe engolir um sapo do que um insulto. Dahlia dirigiu-se silenciosamente à cafeteira, interrompendo o contacto visual entre eles. Encheu uma chávena e ficou encostada ao balcão, com o rabo firmemente apoiado na gaveta que continha as facas de talho.

 

Quando Fasil falou, parecia ter a garganta muito seca:

 

- Kabakov é o melhor que têm. Se morrer, será substituído, é verdade, mas não será a mesma coisa. Deixe-me salientar, Sr. Lander, que Muzi foi destruído porque o vira a si. Vira o seu rosto e a sua... - a língua árabe de Fasil podia ser capciosa, quando o pretendia. Hesitou o tempo suficiente para Lander pensar na palavra "mão" e, em seguida, alterou a frase com o que parecia ser tacto - ... sua maneira de falar era conhecida dele. Ademais, não estamos todos marcados pelas nossas feridas? - Deu uma pancadinha na cicatriz que tinha no rosto. Lander não disse nada e, por isso, Fasil continuou. - Agora, temos um homem que conhece Dahlia de vista. Há locais onde pode encontrar a fotografia dela.

 

- Onde?

 

- O meu retrato está no registo de estrangeiros. Estava bem disfarçada nesse - asseverou Dahlia. - Mas nos anuários da Universidade Americana de Beirute...

 

- Anuários de Universidade? Vá lá, ele nunca...

 

- Já o fizeram, Michael. Sabem que somos muitas vezes recrutados lá e na Universidade do Cairo. Muitas vezes, as fotografias são tiradas e os anuários publicados antes de uma pessoa se envolver com o movimento. Ele vai procurar.

 

- Se Dahlia for identificaf

da, vão distribuir a sua fotografia pelas esquadras - acrescentou Fasil. - Quando chegar a altura de você atacar, haverá agentes secretos por todo o lado... caso o Presidente vá assistir.

 

- Vai assistir, vai assistir. Ele disse que o faria.

 

- Então, é provável que os serviços secretos vão ao aeroporto. Podem ter visto a fotografia de Dahlia, talvez uma fotografia minha e, provavelmente uma descrição sua - disse Fasil. - Tudo por causa de Kabakov... se permitirmos que fique vivo.

 

- Não vou arriscar-me a que você ou Dahlia sejam capturados disse Lander, com brusquidão. - Seria estúpido ir eu próprio.

 

- Não é necessário - disse Dahlia. - Podemos fazê-lo por controlo remoto. - Estava a mentir.

 

No Long Island College Hospital, Rachel teve de mostrar a sua identificação em dois postos de controlo do FBI antes de poder acompanhar Moshevsky até ao andar de Kabakov.

 

Kabakov acordou com o leve som da porta a abrir-se. Ela atravessou o quarto escuro e pôs-lhe a mão no rosto, sentiu as pestanas a roçarem-lhe na mão e ficou a saber que estava acordado.

 

- David, estou aqui - disse.

 

Seis horas mais tarde, Corley regressou ao hospital. A hora das visitas começara e os parentes dos doentes traziam flores pelos corredores e concentravam-se em grupos preocupados do lado de fora das portas onde havia avisos dizendo: "Proibidas as visitas. Não fumar, oxigénio a ser utilizado."

 

Corley encontrou Moshevsky sentado num banco, do lado de fora do quarto de Kabakov, a comer um hamburger Big Mac. A seu lado, numa cadeira de rodas, encontrava-se uma rapariga com cerca de 8 anos, que também estava a comer um Big Mac.

 

- Kabakov está a dormir?

 

- A tomar banho - retorquiu Moshevsky, com a boca cheia.

 

- Bom dia - disse a criança.

 

- Bom dia. Quando é que acabará o banho, Moshevsky?

 

- Quando a enfermeira acabar de o esfregar - respondeu a criança. - Faz cócegas. Uma enfermeira já lhe deu banho?

 

- Não. Moshevsky, diga-lhe que se despache. Tenho de...

 

- Quer dar uma dentada no hamburger? - perguntou a criança.

- O Sr. Moshevsky e eu mandámos comprá-los. Aqui, a comida é pavorosa. O Sr. Moshevsky não deixa o Sr. Kabakov comer um hamburger. O Sr. Kabakov disse algumas palavras muito feias por causa disso.

 

- Estou a ver - disse Corley, mordendo a unha do polegar.

 

- Tenho uma queimadura como a do Sr. Kabakov.

 

- Sinto muito.

 

A criança inclinou-se alegremente para o lado, na cadeira de rodas, para tirar algumas batatas fritas de um saco que Moshevsky tinha no colo. Corley abriu a porta, enfiou a cabeça lá dentro, falou brevemente com a enfermeira e recuou de novo.

 

- Falta uma perna - murmurou. - Falta uma perna.

 

- Estava a cozinhar e derramei uma panela de água quente por cima de mim - disse a criança.

 

- Desculpa?

 

- Disse que estava a cozinhar e me queimei com água quente.

 

- Oh, sinto muito.

 

- Estava a dizer ao Sr. Kabakov, aconteceu o mesmo com ele, sabe? Estava a dizer-lhe que a maioria dos acidentes domésticos acontece na cozinha.

 

- Estiveste a falar com o Sr. Kabakov?

 

- Claro. Assistimos, desta janela, ao jogo de bola no recinto de jogos, do outro lado da rua. Jogam antes de irem para a escola, todas as manhãs. Da janela do meu quarto, só vejo uma parede de tijolos. Ele sabe umas anedotas muito boas. Quer ouvir uma?

 

- Não, obrigado. Já me contou algumas.

 

- Eu também tenho uma daquelas camas com tenda, e...

 

A enfermeira saiu para o corredor, trazendo uma bacia com água.

 

- Já podem entrar, agora.

 

- Óptimo - disse a criança.

 

- Espera Dotty - resmungou Moshevsky. - Fica comigo. Ainda não acabámos estas batatas fritas.

 

- Aos palitos - acrescentou ela.

 

Corley encontrou Kabakov erguido na cama.

 

- Agora, que já está limpo, vou-lhe contar o que temos. Temos mandados para o Leticia. Três elementos da tripulação viram o barco. Ninguém se lembra da matrícula, mas, de qualquer forma, seria falsa. Temos um pouco de tinta no local onde roçaram no flanco do navio. Está a ser analisada.

 

Kabakov fez um pequeno gesto de impaciência. Corley ignorou-o e continuou:

 

- O pessoal da electrónica falou com o operador de radar do barco da Guarda Costeira. Pensam que o barco era de madeira. Sabemos que era rápido. Julgamos que tivesse motores turbo-diesel segundo a descrição do som. Parece ser um barco de contrabandista. Mais cedo ou mais tarde, encontramo-lo. Teve de ser construído em alguma parte, num estaleiro muito bom.

 

- E quanto ao americano?

 

- Nada. Este país está a abarrotar deles. Temos os tripulantes do Leticia a trabalhar com um Identikit, tentando fazer um retrato-robô do homem que veio no navio. No entanto, temos de trabalhar com recurso a um intérprete. É uma coisa lenta. "Olhos semelhantes ao cu de um porco", dizem eles. Descrições deste tipo. Vou arranjar-lhe um Identikit e pode fazer um da mulher. O laboratório está a trabalhar na Nossa Senhora.

 

Kabakov acenou com a cabeça.

 

- Muito bem, tenho um avião-maca preparado para as 11.30 h. Saímos daqui às 11 h, dirigimo-nos ao terminal aéreo da Marinha em La Guardiã...

 

- Posso falar consigo, Sr. Corley? - Rachel falou da entrada da porta. Trazia as radiografias de Kabakov e vestia o seu casaco branco mais apertado.

 

Meia hora depois, Corley falou com o administrador do hospital, que falou com o relações públicas do hospital, que estava a tentar sair mais cedo, naquela sexta-feira. O relações públicas colou um memorando para a imprensa debaixo do telefone e não se preocupou com enviar o relatório do estado do paciente.

 

As estações de televisão, ao prepararem o noticiário das 6 h, telefonavam a meio da tarde para se informarem acerca das vítimas dos vários desastres. De acordo com o memorando, o funcionário disse-lhes que o "Sr. Kabov" fora transferido para o Brooke Army Hospital. Foi um dia cheio de notícias. Nenhuma delas utilizou a história.

 

The New York Times, exaustivo como sempre, preparou uma breve notícia sobre a transferência do Sr. Kabov. A chamada do Times foi a última e o memorando foi atirado para o lixo. A primeira edição do Times só aparece na rua às 10.30 h da noite. Nessa altura, era demasiado tarde. Dahlia ia a caminho.

 

O comboio suburbano expresso rolou sob o East River e parou na estação de Boro Hall, perto do Long Island College Hospital. Onze enfermeiras, que deviam apresentar-se ao serviço às 11.30 h, para o turno da noite, saíram do comboio. Quando acabaram de subir as escadas e chegaram à rua, já eram uma dúzia perfeita. As mulheres deslocaram-se num grupo cerrado ao longo do passeio escuro do Brooklyn, virando apenas ligeiramente as cabeças para observarem as sombras com os desenvolvidos instintos de sobrevivência das mulheres da cidade. Um ébrio era a única outra pessoa visível. Cambaleou em direcção a elas. As enfermeiras já o tinham visto a 25 m e, mudando os livros para os braços do lado de dentro, evitaram-no e passaram, deixando no ar um cheiro agradável a pasta de dentes e laca, que ele não pôde apreciar por ter o nariz tapado. A maior parte das janelas do hospital estava apagada. Uma sirene de ambulância uivou, e tornou a uivar, mais alto, desta vez.

 

- Estão a tocar a nossa música - disse uma voz resignada. Um vigilante que bocejava abriu as portas de vidro:

 

- Cartões de identificação, minhas senhoras, mostrem-nos lá. Resmungando, as mulheres remexeram nas malas e estenderam a identificação - livre-trânsitos da casa para as enfermeiras residentes, cartões de identidade verde-claros da Universidade do Estado de Nova Iorque para as enfermeiras particulares. Era a única medida especial de segurança que viriam a encontrar.

 

O guarda olhou para os cartões que lhe eram exibidos como se estivesse a fazer a chamada de uma turma. Mandou avançar as enfermeiras, com um gesto, e elas espalharam-se em direcção aos seus postos, no edifício maior. Uma delas entrou na casa de banho das senhoras em frente ao banco do elevador, no rés-do-chão. A divisão estava escura, como previra.

 

Ligou a luz e olhou-se ao espelho. A peruca loura estava colocada sem falhas e o efeito provocado pela descoloração das sobrancelhas valera o esforço despendido. Com bolas de algodão a arredondarem-lhe as maçãs do rosto e os óculos com uma armação elegante a alterarem-lhe as proporções da face era difícil reconhecer Dahlia lyad.

 

Pendurou o casaco dentro da divisória da sanita e retirou uma pequena bandeja do bolso interior. Colocou nela dois frascos, um termómetro, uma espátula de plástico para comprimir a língua e um copo de papel para comprimidos e cobriu-os com um pano. A bandeja era um engodo. A parte importante do equipamento encontrava-se no bolso do seu uniforme. Era uma seringa hipodérmica cheia de cloreto de potássio, suficiente para provocar uma paragem cardíaca a um boi potente.

 

Colocou a touca rígida de enfermeira na cabeça e prendeu-a cuidadosamente com ganchos de cabelo. Fez uma verificação final do seu aspecto, ao espelho. O uniforme de enfermeira, largueirão, não fazia justiça à sua silhueta, mas disfarçava a pistola Beretta, chata, que tinha metida no cós dos collants. Ficou satisfeita.

 

O rés-do-chão onde se situavam os serviços administrativos estava escuro e deserto, com a luz reduzida ao mínimo para poupar energia. Foi olhando para as tabuletas enquanto percorria o corredor. Contabilidade, Registos... lá estava - Informações sobre Pacientes. O guiché, com a sua abertura redonda, estava às escuras.

 

A porta tinha apenas uma fechadura de mola. Trinta segundos de trabalho com a espátula fizeram recuar o trinco e a porta abriu-se. Pensara bastante na próxima jogada e, embora fosse contra o seu desejo instintivo de estar escondida, acendeu as luzes do gabinete, em vez de usar uma lanterna. Um a um, os conjuntos de lâmpadas fluorescentes zumbiram e acenderam-se.

 

Dirigiu-se ao enorme livro de registos que se encontrava no balcão de informações e abriu-o. K. Nada de Kabakov. Agora teria de ir de porta em porta, verificando nos postos de trabalho das enfermeiras, prestando atenção aos guardas, arriscando-se a ser descoberta. Alto. O noticiário da televisão chamara-lhe Kabov. Os jornais tinham escrito Kabov. No final da página, lá estava. Kabov, D. Nenhuma morada. Todas as perguntas deverão ser canalizadas para o administrador, segurança do hospital e para o Federal Bureau of Investigation, LÊ 5-7700. Estava no quarto 327.

 

Dahlia respirou fundo e fechou o livro.

 

- Como entrou aqui?

 

Dahlia, num reflexo duplo, quase saltou, não saltou, olhou para cima calmamente, para o guarda de segurança que se inclinava para ela através do guiché.

 

- Ei, se quer ser útil - disse -, pode levar este livro lá acima ao administrador da noite e eu não vou ter de voltar a subir as escadas. Pesa mais de 5 kg.

 

- Como entrou?

 

- Com a chave do administrador da noite. - Caso ele pedisse para ver a chave, matá-lo-ia.

 

- Ninguém deve vir aqui durante a noite.

 

- Olhe, se quiser falar lá para cima e dizer-lhes que têm de lhe pedir autorização, para mim está bem. Limitaram-se a dizer-me para vir cá buscar isto, mais nada. - Se ele tentasse telefonar, matá-lo-ia.

- Quer dizer que devia ter falado consigo quando me mandaram cá abaixo? Tê-lo-ia feito, mas não sabia.

 

- Sou responsável por isto, está a ver? Tenho de saber quem está aqui. Vejo esta luz, não sei quem está cá. Tenho de abandonar a porta para descobrir. E se alguém estiver à espera, ali em frente, para entrar? Então, ficam furiosos comigo, porque não estou à porta, está a ver? Previna-me quando vier aqui, está bem?

 

- Está bem, claro. Desculpe.

 

- Tenha o cuidado de fechar isto e apagar a luz, está bem?

 

- Claro.

 

Ele acenou com a cabeça e afastou-se lentamente pelo corredor.

 

O quarto 327 estava silencioso e escuro. Só as luzes da rua entravam, de lá de baixo, pelas persianas, projectando ténues barras de luz no tecto. Olhos acostumados à escuridão podiam distinguir a cama, com a sua estrutura de alumínio destinada a manter as roupas longe do doente. Na cama, Dotty Hirschburg dormia o sono profundo da infância, com a ponta do polegar a tocar no céu da boca e os dedos abertos na almofada. Durante toda a tarde, observara o campo de jogos da janela do seu novo quarto e cansara-se até mais não. Agora, já estava acostumada às entradas e saídas das enfermeiras da noite e não se mexeu quando a porta se abriu lentamente. Uma coluna de luz alargou-se na parede oposta, foi obscurecida por uma sombra e, em seguida, estreitou-se de novo quando a porta se fechou silenciosamente.

 

Dahlia lyad ficou de pé, com as costas encostadas à porta, à espera de que as suas pupilas se dilatassem. A luz do corredor mostrara-lhe que o quarto se encontrava vazio, para além do paciente, com as almofadas do cadeirão ainda profundamente abatidas pela vigília de Moshevsky. Dahlia abriu a boca e a garganta para tornar silenciosa a sua respiração. Na escuridão, conseguiu ouvir outra respiração. Passos de enfermeira "no corredor, atrás dela, parando, entrando no quarto do outro lado do corredor.

 

Dahlia caminhou silenciosamente até aos pés da cama semelhante a uma tenda. Pousou o tabuleiro na mesa-de-cabeceira com rodas e tirou a seringa do bolso. Retirou a protecção da agulha comprida e premiu o êmbolo até conseguir sentir uma pequena gota do fluido na ponta da agulha.

 

Qualquer sítio servia. A carótida, portanto. Muito rápido. Movimentou-se ao lado da cama, na escuridão, e apalpou suavemente o pescoço, tocou no cabelo e, em seguida, a pele. Era suave. Onde estava a pulsação? Ali. Demasiado suave. Apalpou o pescoço com o polegar e os dedos. Demasiado pequeno. O cabelo suave de mais, a pele suave de mais, o pescoço pequeno de mais. Colocou a seringa no bolso e ligou a lanterna.

 

- Olá - disse Dotty Hirschburg, pestanejando por causa da luz. Os dedos de Dahlia estavam calmamente pousados no seu pescoço.

 

- Olá - retorquiu Dahlia.

 

- A luz magoa-me os olhos. Vou ter de levar uma injecção? Olhou com ansiedade para o rosto de Dahlia, iluminado por baixo. A mão moveu-se para a sua face.

 

- Não. Não, não precisas de levar uma injecção. Estás bem? Queres alguma coisa?

 

- Anda por aí a ver se estão todos a dormir?

 

- Sim.

 

- Então, por que é que os acorda?

 

- Para ter a certeza de que estão bem. Agora, vê se voltas a dormir.

 

- Parece-me muito tonto. Acordar as pessoas para ver se estão a dormir.

 

- Quando mudaste para aqui?

 

- Hoje. Este quarto era do Sr. Kabakov A minha mãe pediu-o para eu poder ver o campo de jogos.

 

- Onde está o Sr. Kabakov?

 

- Foi-se embora.

 

- Estava muito doente, levaram-no coberto?

 

- Quer dizer, morto? Claro que não, mas raparam um local na cabeça dele. Ontem, vimos juntos o jogo de futebol. A médica levou-o embora. Talvez tenha ido para casa.

 

Dahlia hesitou no corredor. Sabia que não deveria abusar agora. Tinha de sair do hospital. Falharia. Abusou. Passou alguns minutos na máquina de gelo, por detrás do local de trabalho das enfermeiras, a encher um balde com cubos. A enfermeira-chefe, toda ela goma e óculos e cabelo cinzento-ferro, estava a falar com uma auxiliar de enfermagem numa dessas conversas ociosas que se arrastam ao longo da noite sem princípio nem fim. Por fim, a enfermeira-chefe levantou-se e dirigiu-se ao fundo do corredor, em resposta ao chamamento de uma das enfermeiras.

 

Dahlia chegou à mesa dela num instante, folheando o índice alfabético. Nada de Kabakov. Nada de Kabov. A auxiliar de enfermagem observava-a. Dahlia virou-se para a mulher.

 

- Que aconteceu ao doente do 327?

 

- Quem?

 

- O homem do 327.

 

- Não posso saber de todos. Nunca a vi antes, pois não?

 

- Não, estive no St. Vincent. - Era verdade, ela roubara as suas credenciais no Hospital St. Vincent, em Manhattan, durante a mudança de turno da tarde. Dahlia tinha de se despachar, mesmo que levantasse suspeitas a mulher. - Se foi transferido, deve haver um registo, não é verdade?

 

- Deveria estar fechado lá em baixo. Se não consta do ficheiro, não está neste andar e, se não está neste andar, é bem provável que não esteja no hospital.

 

- As raparigas estavam a dizer que houve uma tal balbúrdia quando ele entrou.

 

- Há sempre balbúrdia, querida. Uma médica chegou aqui ontem, por volta das 3 h da manhã, e queria ver as radiografias dele. Tive de ir lá acima abrir a radiologia. Devem tê-lo transferido durante o dia, depois de eu ter saído.

 

- Quem era a médica?

 

- Não sei. Não valia a pena, mas ela queria ficar com aquelas radiografias.

 

- Ela assinou quando as retirou?

 

- Lá em cima, na radiologia, teve de assinar para as retirar, como acontece a toda a gente.

 

A enfermeira-chefe estava de volta. Agora, era preciso ser rápida:

 

- A radiologia é no quarto?

 

- No quinto.

 

A enfermeira-chefe e a auxiliar estavam a conversar quando Dahlia entrou no elevador. As portas fecharam-se e ela não viu a auxiliar acenar com a cabeça em direcção ao elevador, não viu a expressão da enfermeira-chefe mudar ao lembrar-se das instruções recebidas na noite anterior, não a viu pegar rapidamente no telefone de emergência.

 

Na sala de emergências, o bíp que o guarda John Sullivan trazia à cintura apitou.

 

- Agora, cala o bico! - gritou para o bêbedo ensanguentado que praguejava, agarrado pelo seu colega de patrulha. Sullivan pegou no walkie-talkie e respondeu à chamada.

 

- Há uma queixa da enfermeira-chefe do terceiro andar, Ema Ryan, sobre uma pessoa suspeita, branca, do sexo feminino, loura, com cerca de 1,80 m, fardada de enfermeira, possivelmente na radiologia, no quinto andar - disse a Sullivan o operador de rádio da esquadra. - O segurança encontra-se contigo junto aos elevadores. O carro 71 vai a caminho.

 

- 10-4 - disse Sullivan, desligando. -Jack, algema este filho da mãe ao corrimão e vigia as escadas até o 71 cá chegar. Vou subir.

 

O segurança estava à espera com uma molhada de chaves.

 

- Tranque todos os elevadores, menos o primeiro - disse Sullivan. - Vamos.

 

Dahlia não teve dificuldades com a fechadura do laboratório de radiologia. Fechou a porta atrás de si. Em pouco tempo, transpôs o volume da mesa de raios X, a lâmina vertical do fluoroscópio. Arrastou um dos pesados biombos de chumbo contra a porta de vidro fosco e ligou a sua lâmpada de bolso. O pequeno feixe percorreu a mangueira enrolada de bário, os óculos de protecção e as luvas que se encontravam pendurados ao lado do fluoroscópio. Uma sirene que mal se ouvia. Uma ambulância? A polícia? Olhou em volta rapidamente. Esta porta - uma câmara escura. Um quartinho cheio de grandes armários de arquivo. A gaveta abriu-se, deixando ver rolos pesados - radiografias dentro de sobrescritos. Aqui, um pequeno gabinete, uma secretária e um livro. Passos no corredor. Um círculo de luz a incidir sobre as páginas. Vira, vira. A data do dia anterior. Uma página de assinaturas e números de processo. Tinha de ser um nome de mulher. Consulta da hora na coluna da esquerda - 4 h da manhã, número de processo, sem nome de doente, radiografia levantada pela Doutora Rachel Bauman. Não assinara a devolução.

 

Os passos pararam junto à porta. Um tilintar de chaves. A primeira não serviu. Atirou a cabeleira para detrás do armário, juntamente com os óculos. A porta a bater contra o biombo de chumbo. Um polícia corpulento e um segurança a entrarem.

 

Dahlia lyad estava de pé em frente de um vidro iluminado para observação de radiografias. Havia uma radiografia de tórax presa no ecrã iluminado e as costelas projectavam listas de luz e sombra no seu uniforme. As sombras dos ossos moveram-se no seu rosto quando virou a cabeça em direcção aos homens. O polícia empunhava a pistola.

 

- Sim, Sr. Guarda? - Fingiu só então se aperceber da arma.

 

- Meu Deus, passa-se alguma coisa?

 

- Não se mexa, minha senhora.

 

Com a mão que tinha livre, Sullivan procurou às apalpadelas o interruptor e encontrou-o. A sala ficou iluminada e Dahlia viu pormenores do gabinete de que se não apercebera na escuridão. O polícia percorreu a divisão com os olhos, fazendo movimentos rápidos com a cabeça.

 

- Que está a fazer aqui?

 

- A ver uma radiografia, como é óbvio.

 

- Está aqui mais alguém?

 

- Agora, não. Há alguns minutos, estava uma enfermeira.

 

- Loura, mais ou menos da sua altura?

 

- Sim, penso que sim.

 

- Para onde foi?

 

- Não faço a menor ideia. Que está a passar-se?

 

- Estamos a tentar descobrir.

 

O segurança espreitou para as outras salas adjacentes ao laboratório de radiologia e regressou, abanando a cabeça. O polícia olhou fixamente para Dahlia. Havia algo nela que lhe não parecia completamente certo, mas não conseguia dizer o quê. Devia revistá-la e levá-la lá abaixo, a quem apresentara a queixa. Devia fechar o andar. Devia comunicar pelo rádio com o colega. As enfermeiras espalham pureza à sua volta. Não queria pôr as mãos naquele uniforme branco. Não queria insultar uma enfermeira. Não queria parecer louco, algemando uma enfermeira.

 

- Vai ter de me acompanhar durante alguns minutos, minha senhora. Temos de lhe fazer umas perguntas.

 

Ela acenou com a cabeça. Sullivan guardou a pistola, mas não fechou a fita de segurança. Disse ao segurança que verificasse as outras portas ao longo do corredor e retirou o rádio do cinto.

 

- 6-5, 6-5.

 

- Sim, John - foi a resposta.

 

- Uma mulher no laboratório. Diz que a suspeita esteve aqui e se foi embora.

 

- As traseiras e a frente estão vigiadas. Queres que suba? Neste momento, estou no patamar do terceiro andar.

 

- Eu levo-a até ao terceiro. Pede à queixosa para estar por perto.

 

- John, a queixosa diz que, a esta hora, não devia estar ninguém no laboratório.

 

- Vou levá-la para baixo. Fica aí.

 

- Quem disse isso? - perguntou Dahlia, furiosa. - Ela... francamente.

 

- Vamos. - Caminhou atrás dela até ao elevador, vigiando-a, com o polegar enfiado no coldre. No elevador, Dahlia ficou de pé junto ao painel de botões. As portas fecharam-se.

 

- Terceiro? - perguntou.

 

- Eu faço. - Sullivan estendeu a mão da arma para os botões.

 

A mão de Dahlia projectou-se como uma cobra para o interruptor da luz. Escuridão no elevador. O som de pés agitados, o raspar de um coldre, um grunhido de dor, uma praga, batidelas de pés, um esforço sibilante para respirar, as luzes indicadoras a piscarem sucessivamente no elevador às escuras.

 

No terceiro andar, o companheiro de ronda do guarda Sullivan olhava para as luzes que piscavam por cima da porta do poço do elevador. Terceiro. Esperou. Não parou. Segundo. Parou.

 

Intrigado, carregou no botão de subida e esperou enquanto o elevador recomeçava a marcha ascendente. Estava de pé em frente às portas, que se abriram.

 

- John? Meu Deus, John!

 

O guarda John Sullivan estava sentado contra a parede do fundo do elevador, com a boca aberta, os olhos arregalados e a seringa hipodérmica dependurada do pescoço, como uma bandarilha.

 

Agora, Dahlia corria, com o longo corredor do segundo andar a balançar à sua frente, as luzes a dançarem-lhe sobre a cabeça; passou por um empregado espantado e, ao virar da esquina, entrou numa sala de rouparia. Enfiou uma bata verde-clara de cirurgia, escondeu os cabelos dentro de uma touca e dependurou a máscara de tecido ao pescoço. Desceu as escadas até ao serviço de urgência, que ficava nas traseiras do rés-do-chão. Agora, caminhava devagar, ao ver os polícias, três, que olhavam em volta como cães de caça. Havia parentes preocupados sentados nas cadeiras. Os berros de um bêbedo que fora apunhalado. Vítimas de lutas sem grande gravidade que aguardavam tratamento.

 

Uma mulherzinha porto-riquenha estava sentada num banco, soluçando com as mãos no rosto. Dahlia dirigiu-se-lhe, sentou-se a seu lado e envolveu com o braço a mulherzinha roliça.

 

- No tenga miedo - disse.

 

A mulher olhou para cima, com um dente de ouro na sua face acastanhada.

 

- Júlio?

 

- Vai ficar bom. Venha, venha comigo. Vamos dar uma volta e apanhar ar, vai sentir-se melhor.

 

- Mas...

 

- Shiu, agora faça o que lhe digo.

 

Já levantara a mulher, que parecia uma criança debaixo do seu braço protector, com a barriga estragada e inchada e os sapatos esfarrapados.

 

- Eu disse-le. Dez vecez, eu disse-le...

 

- Não se preocupe agora.

 

Caminharam em direcção à saída lateral do serviço de urgência. Estava um polícia em frente à porta, um homem muito alto, que suava dentro do seu casaco azul.

 

- Por que não vem para casa para mim? Por que é sempre para lutar?

 

- Está bem. Quer rezar um terço?

 

Os lábios da mulher moveram-se. O polícia não se mexeu. Dahlia olhou-o.

 

- Sr. Guarda, esta senhora precisa de ar. Pode passeá-la lá fora durante alguns minutos?

 

A cabeça da mulher estava inclinada e os seus lábios mexiam-se. Os rádios dos cintos faziam barulho do outro lado da sala. O alarme deveria ser dado a qualquer momento. Polícia morto.

 

- Não posso sair da porta, minha senhora. De momento, esta saída está fechada.

 

- Posso passeá-la eu durante alguns minutos? Tenho medo de que desmaie cá dentro.

 

A mulher murmurava, com as contas entre os dedos grossos e castanhos. O polícia esfregou a parte detrás do pescoço. Tinha um rosto grande, marcado. A mulher balançou contra Dahlia.

 

- Hum, como se chama?

 

- Doutora Vizzini.

 

- Muito bem, doutora.

 

Encostou o seu peso à porta. O ar frio bateu-lhes nos rostos. O passeio e a rua estavam iluminados a vermelho pelas luzes dos carros-patrulha. Nada de corridas, a polícia estava por perto.

 

- Respire fundo - disse Dahlia.

 

A mulher sacudiu a cabeça. Um táxi parou e um interno saiu dele. Dahlia fez um sinal ao motorista e mandou parar o interno.

 

- Vai entrar, não é?

 

- Sim.

 

- Importa-se de levar esta senhora para dentro? Obrigada. Agora, estava a alguns quarteirões de distância, na Gowanus

 

Parkway. Inclinando-se para trás no táxi, arqueando o pescoço contra o banco, com os olhos fechados, falava de si para consigo. "Preocupo-me mesmo com ela, sabes."

 

O guarda John Sullivan não era um polícia morto, ainda, mas estava perto da morte. Ajoelhado no elevador, com o ouvido encostado ao peito de Sullivan, o companheiro conseguia ouvir um murmúrio confuso sob as costelas. Puxou Sullivan e estendeu-o, deitado no chão do elevador. A porta estava a tentar fechar-se e o polícia bloqueou-a com a bota. Ema Ryan não era enfermeira-chefe impunemente. A sua mão com manchas de fígado comprimiu o botão de paragem e gritou uma vez para chamar a equipa de traumatismos. Depois, ajoelhou-se por cima de Sullivan, com os seus olhos cinzentos a percorrerem-no de cima abaixo e as suas costas redondas a subir e a descer enquanto lhe fazia uma massagem cardíaca externa. O guarda, junto à cabeça de Sullivan, fazia-lhe respiração boca a boca. A auxiliar de enfermagem tomou o lugar do guarda para ele poder lançar o alerta pelo rádio, mas já se tinham perdido segundos preciosos.

 

Chegou uma enfermeira com uma maca com rodas e colocaram nela o corpo pesado, içando-o Ema Ryan com uma força surpreendente. Retirou a seringa hipodérmica do pescoço de Sullivan e entregou-a a uma enfermeira. A agulha perfurara a pele, deixando dois buracos vermelhos, como a mordedura de uma cobra. Parte da dose esguichara para a parede do elevador, depois de a ponta da agulha ter saído. Escorrera e formara um pequeno charco no chão.

 

- Procure o Dr. Field, dê-lhe a agulha - disse Ryan, rispidamente, à enfermeira. E, dirigindo-se a outra: - Recolha a amostra de sangue enquanto estamos a andar, vamos.

 

Em menos de um minuto, Sullivan estava ligado a um coração-pulmão artificial, na unidade de cuidados intensivos, com o Dr. Field a seu lado. Munido dos resultados da análise de sangue e de urina e com um tabuleiro de antídotos junto ao cotovelo, Field esforçava-se para salvar Sullivan. Ia sobreviver. Iam fazê-lo sobreviver.

 

Tentar matar um polícia da cidade de Nova Iorque é como tocar com um cigarro aceso numa anaconda. Os melhores de Nova Iorque têm uma ira súbita e terrível. Nunca param de perseguir o assassino de um polícia, nunca esquecem, nunca perdoam. Uma tentativa bem sucedida contra Kabakov - com o burburinho diplomático consequente e com a pressão do Departamento de Justiça - poderia ter tido como resultado conferências de imprensa do presidente da câmara e do comandante de polícia, arengas e exortações do comando da zona do Brooklyn e os esforços a tempo inteiro de vinte a trinta detectives. Porque uma agulha fora espetada no guarda John Sullivan, mais de 30 000 polícias nas cinco zonas estavam prontos para tomar conta do assunto.

 

Kabakov, apesar das objecções de Rachel, deixou a cama de hospital que ela montara no seu quarto de hóspedes e foi para junto da cama de Sullivan, ao meio-dia do dia seguinte. Havia ultrapassado a ira e controlara o desespero. Sullivan estava suficientemente forte para utilizar um Identikit e vira a mulher, tanto de frente como de perfil, sob uma boa luz. Em conjunto, com o Identikit e um desenhador da polícia, Kabakov, Sullivan e o guarda de segurança do hospital elaboraram um retrato-robô com fortes semelhanças com Dahlia lyad. Quando houve a rendição dos polícias, às 3 h da tarde, todos os polícias de giro e detectives tinham uma cópia desse retrato. A primeira edição do Daily News publicava-o na página 2.

 

Seis polícias da Divisão de Identificação e quatro funcionários da Imigração e Naturalização, cada um com uma cópia do retrato, vasculharam o arquivo de árabes estrangeiros.

 

A ligação entre o incidente no hospital e Kabakov só era do conhecimento da enfermeira-chefe, Ema Ryan, dos agentes do FBI que trabalhavam no caso e do escalão mais alto do Departamento de Polícia de Nova Iorque. Ema Ryan sabia manter-se calada.

 

Washington não queria uma fobia terrorista e os departamentos policiais também não. Não queriam que os meios de comunicação social lhes estivessem a morder os calcanhares num caso que poderia terminar tão mal quanto aquele. A polícia referiu publicamente que o hospital continha tanto narcóticos como elementos radioactivos valiosos e que a intrusa poderia ter ido à procura deles. Isso não era completamente satisfatório para a imprensa, mas dada a enorme carga de trabalho que a cobertura noticiosa de Nova Iorque implica, os jornalistas esquecem facilmente as histórias do dia anterior. As autoridades esperavam que, dentro de dias, o interesse dos meios de comunicação social esmorecesse.

 

E Dahlia esperava que, dentro de poucos dias, a ira de Lander desaparecesse. Ficara furioso ao ver a semelhança que a fotografia do jornal tinha com ela e ao saber o que ela fizera. Por um momento, temeu que a matasse. Concordou submissamente com a cabeça quando ele proibiu qualquer novo atentado contra Kabakov. Fasil ficou no quarto durante dois dias.

 

A convalescença de Kabakov no apartamento da Doutora Rachel Bauman foi, para ela, um tempo estranho e quase surrealista. O seu lar era luminoso e opressivamente ordenado e ele entrou nele como um lince cinzento que regressa de uma luta à chuva. Os tamanhos e proporções dos seus quartos e móveis pareciam todos alterados, a Rachel, com Kabakov e Moshevsky lá dentro. Considerando que eram homens grandes, não faziam muito barulho. Inicialmente, isso fora um alívio para Rachel e, depois, começou a perturbá-la um pouco. Tamanho e silêncio são uma combinação sinistra por natureza. São as ferramentas da destruição.

 

Moshevsky fazia o melhor que podia para ser obsequioso. Depois de a ter assustado várias vezes, aparecendo subitamente na cozinha com um tabuleiro, passara a pigarrear para anunciar os seus movimentos. Os amigos de Rachel que viviam do outro lado do patamar estavam nas Baamas e tinham-lhe deixado as chaves. Instalou Moshevsky nesse apartamento depois de o seu ressonar no sofá se ter tornado insuportável. Kabakov ouvia respeitosamente as suas instruções quanto ao tratamento e seguia-as, com a irada excepção da viagem até à cabeceira da cama de Sullivan. Inicialmente, ela e Kabakov não falavam muito. Não conversavam nada. Ele parecia distraído e Rachel não perturbava os seus pensamentos.

 

Rachel mudara desde a Guerra dos Seis Dias, mas a mudança fora apenas de grau. Tornara-se mais intensamente o que fora antes. Tinha um consultório cheio, uma vida ordenada. Um homem, dois homens ao longo dos anos. Dois noivados. Jantares em locais elegantes e ocos, onde os chefes de cozinha põem tímidas assinaturas de enfeite em pratos falhos de inspiração - locais escolhidos pelos seus acompanhantes. Nenhuma das suas experiências lhe deixara eco na memória. Recusara os homens que a poderiam ter incendiado. O seu único ponto alto era o melhor - trabalhar bem - e isso mantinha-a. Fazia muito trabalho voluntário, sessões de terapia com ex-toxicodependentes, presos em liberdade condicional, crianças perturbadas. Durante a guerra de Outubro de 1973, fez turnos duplos no Hospital Monte Sinai, em Nova Iorque, de modo que um dos médicos internos com experiência cirúrgica mais recente pudesse ir para Israel.

 

Externamente, ela moldava-se rapidamente. Bloomingdale e Bonwitt Teller, Lord & Taylor e Saks eram as pedras-de-toque das suas compras de sábado. Teria o aspecto de uma matrona judia bem conservada, vestindo coisas caras e ligeiramente atrasada em relação às tendências da moda, se não tivesse estragado o efeito com alguns toques de desafio, uma sugestão da rua. Durante um tempo parecera uma mulher a lutar contra os 30 anos com os acessórios da filha. Depois, deixara de se importar com o que vestia e passara para um vestuário discreto porque não tinha de pensar nele. As suas horas de trabalho aumentaram e o seu apartamento tornou-se mais limpo e mais estéril. Pagava uma soma exorbitante por uma mulher-a-dias que conseguia lembrar-se de repor as coisas nos sítios precisos onde se encontravam.

 

E agora, ali estava Kabakov, bisbilhotando as suas prateleiras de livros e mascando um pedaço de salame. Parecia deleitar-se a examinar as coisas e a não as pôr de novo no lugar onde as encontrara. Não calçara os chinelos e não abotoara o casaco do pijama. Não iria olhar para ele.

 

Rachel já não estava tão preocupada com a concussão e ele parecia não se preocupar nada com ela. À medida que os seus períodos de tonturas foram diminuindo, até desaparecerem completamente, o seu relacionamento mudou. A atitude impessoal médico-paciente que tentara manter começou a suavizar-se.

 

Kabakov achava revigorante a companhia de Rachel. Sentia uma agradável necessidade de pensar quando falava com ela e deu consigo a dizer coisas que nunca descobrira que sentia ou sabia. Gostava de a contemplar: tinha pernas compridas e assumia posições angulares e continuava muito bem parecida. Kabakov decidira contar-lhe qual era a sua missão e, porque gostava dela, descobriu que isso era difícil de fazer. Durante anos, tivera cuidado com o que dizia. Sabia que era sensível em relação às mulheres, que a solidão da sua profissão o tentava a falar dos seus problemas. Rachel ajudara-o quando ele precisara, de imediato e sem perguntas desnecessárias. Agora, estava implicada e poderia correr perigo - Kabakov não esquecia qual fora a razão da visita do assassino ao laboratório de radiologia.

 

Mesmo assim, não era o seu sentido de justiça que o levava a contar-lhe, nem um sentimento de que ela tinha o direito de saber. As suas razões eram de índole mais prática. Rachel tinha um cérebro de primeira água e precisava dele. Era provável que um dos estrategos fosse Abu Ali - um psicólogo. Rachel era psiquiatra. Um dos terroristas era uma mulher. Rachel era mulher. O seu conhecimento dos matizes do comportamento humano e o facto de, com esse conhecimento, ser um produto da cultura americana, poderiam permitir-lhe algumas análises úteis. Kabakov julgava que conseguia pensar como um árabe, mas conseguiria pensar como um americano? Haveria alguma forma de pensar como um americano? Achara-os inconsequentes. Pensava que, depois de os americanos cá terem estado durante mais uns tempos, talvez adquirissem uma forma de pensar.

 

Sentado junto a uma janela banhada pelo sol, explicara-lhe a situação, enquanto ela lhe tratava a queimadura da perna. Começara com o facto de haver uma célula do Setembro Negro, escondida no Northeast, pronta para atacar algures com uma grande quantidade de explosivo plástico, provavelmente meia tonelada ou mais. Explicou, do ponto de vista de Israel, a necessidade absoluta de os deterem e apressou-se a acrescentar as considerações humanitárias. Ela terminou o curativo e sentou-se, de pernas cruzadas, no tapete. De vez em quando, levantava os olhos para ele e fazia uma pergunta. Durante o resto do tempo, só conseguia ver-lhe o alto da cabeça inclinada, parte do cabelo. Perguntava-se como estaria ela a aceitar tudo aquilo. Não podia dizer em que estaria a pensar, agora que a luta mortal que testemunhara no Médio Oriente viera até este lugar seguro.

 

Na verdade, Rachel sentia-se aliviada em relação ao próprio Kabakov. Sempre quisera saber coisas específicas, precisamente o que fora feito e dito - sobretudo pouco antes da explosão em casa de Muzi. Estava contente por ver que as suas respostas eram imediatas e consistentes. Quando, no hospital, lhe haviam sido feitas perguntas acerca das suas recordações mais recentes, dera respostas vagas ao médico e Rachel não conseguira ter a certeza de se tratarem de uma evasão deliberada ou de serem resultantes do traumatismo craniano. A sua avaliação do ferimento de Kabakov fora prejudicada pela relutância que tinha em lhe fazer perguntas específicas. Agora, o seu questionário rápido tinha duas funções: precisava da informação, caso fosse ajudá-lo, e queria testar a sua resposta emocional. Estava alerta para a irritabilidade durante os questionários que revela a síndroma de Korsakoff, ou amnésico-confabulatória, que se segue frequentemente a uma concussão.

 

Satisfeita com a sua paciência, agradada com a sua clareza, concentrou-se na informação. Ele era mais do que um doente e ela era mais como que uma sócia à medida que a história se aproximava do final.

 

Kabakov terminou com as perguntas que o roíam: quem era o americano? Onde iriam atacar os terroristas? Quando acabou de falar, sentiu-se vagamente envergonhado, como se ela o tivesse visto chorar.

 

- Que idade tinha Muzi? - perguntou ela, calmamente.

 

- 56.

 

- E as suas últimas palavras foram: "Primeiro, foi o americano"?

 

- Foi o que disse. - Kabakov não estava a ver aonde isso iria levar. Por agora, já tinham falado o suficiente.

 

- Queres uma opinião? Assentiu.

 

- Penso que há uma grande probabilidade de o teu americano ser um caucasiano não semita, do sexo masculino e, provavelmente, com mais de 25 anos.

 

- Como sabes?

 

- Não sei, calculo. Mas Muzi era um homem de meia-idade. A pessoa que descrevi é aquilo a que muitos homens da sua idade chamam um "americano". É muito provável que, se o americano que viu fosse preto, o tivesse referido. Teria utilizado uma designação rácica. Falaram sempre em inglês?

 

- Sim.

 

- Caso o americano fosse uma mulher, é muito provável que tivesse dito "a mulher" ou "a americana". Um homem com a idade e os antecedentes étnicos de Muzi não pensaria num americano de origem árabe ou judaica como "o americano". Em todos os casos, preto, mulher, semita ou latino a palavra "americano" é um adjectivo. Só é um substantivo para caucasianos do sexo masculino não pertencentes a minorias. Talvez pareça pedante, mas é verdade.

 

Kabakov, numa conversa telefónica com Corley, transmitiu ao agente do FBI o que Rachel lhe dissera.

 

- Isso limita o nosso campo a cerca de 40 milhões de pessoas retorquiu Corley. - Não, ouça, tudo isso ajuda, pelo amor de Deus.

 

O relatório de Corley a respeito da tentativa para encontrar o barco não era animador. Os agentes das alfândegas e a polícia de Nova Iorque tinham inspeccionado todos os estaleiros em City Island. As polícias de Nassau e Suffolk tinham verificado todas as marinas de Long Island. A polícia do Estado de Nova Jérsia tinha interrogado todos os donos de estaleiros que se encontravam nas suas costas. Os agentes do FBI tinham ido aos melhores estaleiros - a fabricantes lendários como Rybovich, Trumpy e Huckins - e aos estaleiros menos conhecidos, onde os artífices constróem belos barcos de madeira. Nenhum dos estaleiros foi capaz de identificar o barco fugitivo.

 

- Barcos, barcos, barcos - disse Rachel, de si para consigo. Kabakov olhava fixamente para a neve que caía do lado de fora da janela, enquanto Rachel preparava o jantar. Estava a tentar lembrar-se de uma coisa, indo até ela indirectamente, da mesma forma como utilizaria a visão periférica para ver na escuridão. A técnica utilizada para rebentar com Muzi intrigava continuamente Kabakov. Onde acontecera antes? Um entre os milhares de relatórios que haviam passado pela sua secretária nos últimos cinco ou seis anos mencionava uma bomba num frigorífico. Lembrava-se de que o relatório tinha uma capa antiga, em papel pardo, cosida ao longo da lombada. Isso significava que o vira antes de 1972, quando o Mossad mudara as encadernações para facilitar a microfilmagem. Teve outro lampejo. Um memorando sobre técnicas de armadilhas enviado para as unidades de comandos, por ordem sua, alguns anos antes. O memorando explicava os interruptores de mercúrio, que à data estavam na moda entre os fedayines, com um apêndice sobre electrodomésticos.

 

Estava a redigir um telegrama para o quartel-general do Mossad com os fragmentos de informação de que se lembrava quando, de súbito, se recordou. Síria, 1971. Um agente do Mossad morrera numa explosão numa casa de Damasco. A carga não fora pesada, mas o frigorífico ficara em estilhaços. Uma coincidência? Kabakov ligou para o consulado de Israel e ditou o telegrama. O telegrafista referiu que eram 4 h da manhã em Telavive.

 

- São 2 h TMG em todo o mundo, meu amigo - respondeu Kabakov. - Nunca fechamos. Mande o telegrama.

 

Um vento frio de Dezembro cortava o rosto e o pescoço de Moshevsky, que esperava à esquina para chamar um táxi. Deixou passar três Dodges e, finalmente, avistou o que procurava, um grande Checker que se arrastava no engarrafamento matinal. Queria que houvesse espaço suficiente para Kabakov não ter de dobrar a perna ferida. Moshevsky disse ao motorista que parasse em frente ao prédio de Rachel, a meio do quarteirão. Kabakov saiu a coxear e instalou-se a seu lado. Deu o endereço do consulado de Israel.

 

Kabakov descansara, como Rachel receitara, mas, agora, tinha de se mexer. Poderia ter telefonado, do apartamento, ao embaixador Tell, mas este assunto exigia um telefone de alta segurança - um telefone equipado com um misturador. Decidira pedir a Telavive que sugerisse que o Departamento de Estado norte-americano abordasse os Russos, para obter ajuda. O pedido de Kabakov tinha de ser enviado através de Tell. Recorrer aos Russos não era um pensamento agradável, do ponto de vista do seu orgulho profissional. De momento, Kabakov não podia dar-se ao luxo de orgulho profissional. Sabia-o e aceitava-o, mas não gostava.

 

Desde a Primavera de 1971 que o Komitet Gosudarstvennoy Bezopastveny soviético, o infame KGB, tinha uma secção especial que prestava assistência técnica ao Setembro Negro, através dos serviços de informação de campanha da Al Fatah. Era essa a fonte que Kabakov pretendia sondar.

 

Sabia que os Russos nunca auxiliariam Israel, mas, à luz do novo desanuviamento Leste-Oeste, pensava que talvez cooperassem com os Estados Unidos. O pedido a Moscovo teria de proceder dos Americanos, mas Kabakov não podia sugerir a jogada sem a aprovação de Telavive. Precisamente porque odiava tanto pedir, assinaria ele mesmo a mensagem para Telavive, em vez de pôr a responsabilidade primária sobre os ombros de Tell.

 

Kabakov decidiu jurar que o plástico era russo, independentemente de o ser ou não. Talvez os Americanos dissessem o mesmo. Isso atiraria com o ónus para cima dos Russos.

 

Por que razão uma tão grande quantidade de explosivos? Tal quantidade quereria dizer que se tratava de uma oportunidade especial que os Árabes tinham nesse país? Nesse ponto, o KGB poderia dar uma ajuda.

 

A célula do Setembro Negro na América iria agora ficar isolada, mesmo em relação aos chefes da guerrilha, em Beirute. Iria ser o diabo para a encontrar. O calor do retrato da mulher iria empurrar os terroristas mais para o fundo da sua toca. Tinham de estar perto - haviam reagido demasiado depressa, depois da explosão. Maldito Corley, por não ter isolado o hospital. Maldito fosse aquele filho da puta do cachimbo.

 

Que fora planeado no quartel-general do Setembro Negro, em Beirute, e quem participara? Najeer. Najeer estava morto. A mulher. Estava escondida. Abu Ali? Ali estava morto. Não havia forma de saber ao certo se Ali estivera ligado à conjura, mas era muito provável, porque era um dos poucos homens no mundo em que Najeer confiava. Ali era psicólogo. Mas, por outro lado, Ali era muitas coisas. Para que precisariam de um psicólogo? Ali nunca o poderia dizer a quem quer que fosse.

 

Quem era o americano? Quem era o libanês que trouxera os explosivos? Quem rebentara com Muzi? Fora a mulher que vira em Beirute

- a mulher que fora ao hospital para o matar?

 

O motorista do táxi puxava o carro até ao limite permitido pelo piso molhado, fazendo bater as tampas de esgotos e afocinhando ao travar no primeiro sinal vermelho. Moshevsky, com uma expressão resignada, ergueu-se e esticou-se para o banco da frente, ao lado do motorista.

 

- Vá devagar. Nada de saltos nem de sacudidelas - disse.

 

- Porquê? - perguntou o motorista. - Tempo é dinheiro, pá. Moshevsky inclinou-se para ele, em tom de confidência:

 

- A razão é impedir-me de te partir a porra do pescoço, é essa a razão.

 

Kabakov olhava absorto para as multidões que corriam pelos passeios. Estavam a meio da tarde e a luz já começara a desaparecer Que lugar. Um lugar com mais judeus do que Telavive. Perguntava-se como se teriam sentido os imigrantes judeus, nos navios apinhados, conduzidos, como gado, para Ellis Island, tendo inclusive alguns deles perdido os nomes quando funcionários da imigração, semianalfabetos garatujavam "Smith" e "Jones" nos papéis de entrada. Atirados de Ellis Island para uma tarde gelada nesse rochedo frio onde nada era grátis para além do que podiam dar uns aos outros. Famílias desfeitas homens sós.

 

Então, que acontecia aqui a um homem só que morria antes de conseguir uma situação e mandar vir a família? Um homem só? Quem sentava a shivah - os vizinhos?

 

Uma Nossa Senhora de plástico, no tablier do táxi, atraiu a atenção de Kabakov e os seus pensamentos regressaram, culposamente, ao problema que o afligia. Fechando os olhos para não ver a tarde fria, reviu tudo desde o início, desde a missão a Beirute, que acabara por o trazer até aqui.

 

Kabakov recebera instruções minuciosas antes do raide. Os Israelitas sabiam que Najeer e Abu Ali iriam estar no edifício de apartamentos e que poderiam estar presentes outros oficiais do Setembro Negro. Kabakov estudara os dossiers sobre os líderes da guerrilha que se sabia que estavam no Líbano até saber de cor o seu conteúdo. Agora, conseguia ver os processos, ordenados por ordem alfabética, em cima da sua secretária.

 

Primeiro, Abu Ali. Abu Ali, morto no raid de Beirute, não tinha parentes, não tinha família, para além da mulher, e ela também estava morta. Ele - um homem, só! Antes de ter terminado este pensamento, Kabakov arranhou o escudo de plástico que o separava do motorista. Moshevsky abriu a portinhola de comunicação.

 

- Diz-lhe que meta a pata a fundo.

 

- Então, agora querem que meta a pata a fundo? - disse o motorista, por cima do ombro.

 

Moshevsky mostrou os dentes ao homem.

 

- Por isso, estou a meter - disse o motorista.

 

O consulado de Israel e a missão junto das Nações Unidas partilham um edifício de tijolo branco no 800 da Second Avenue, em Manhattan. O sistema de segurança é bem concebido e completo. Kabakov aguardou na sala de espera e, depois, dirigiu-se rapidamente ao centro de comunicações.

 

O seu telegrama cifrado para Telavive, a respeito de Abu Ali, foi recebido em menos de um minuto e pôs em marcha uma maquinaria delicada. Ao fim de quinze minutos, um jovem atarracado deixou o quartel-general do Mossad e dirigiu-se ao Aeroporto de Lod. Iria voar para Nicosia, em Chipre, trocar de passaporte e apanhar o próximo voo para Beirute. A sua primeira actividade na capital libanesa seria tomar uma chávena de café num pequeno café com uma vista excelente para a esquadra central de polícia de Beirute, onde, esperava, existia uma caixa de cartão numerada que continha os pertences de Abu Ali e que aguardava que se esgotasse o tempo regulamentar, numa sala da esquadra. Agora, havia alguém que iria reclamá-la.

 

Kabakov esteve junto ao misturador, com Tell, durante meia hora. O embaixador não exprimiu qualquer surpresa perante o pedido de Kabakov de ajuda indirecta dos Russos. Kabakov tinha a sensação de que Yoachim Tell nunca se surpreendera em toda a sua vida. Julgou ter detectado um pouco de compreensão suplementar na voz do embaixador, à despedida. Que é a compreensão? Kabakov corou e dirigiu-se para a porta do centro de comunicações. O telex, no canto, matraqueava e a voz do funcionário parou-o na soleira da porta. Estava a chegar uma resposta à sua pergunta sobre a bomba síria, em 1971.

 

O atentado ocorrera em 15 de Agosto, dizia o telex. Ocorrera durante o grande esforço de recrutamento da Al Fatah, nesse ano, em Damasco. Sabia-se que, à data, estavam três organizadores na cidade:

 

- Fakhri al-Amari, que chefiara a equipa que assassinara o primeiro-ministro jordano, Wasfi el-Tel, e bebera o seu sangue. Julgava-se que, actualmente, Amari se encontrava na Argélia. Estavam a fazer-se averiguações;

 

- Abdel Kadir, que, uma vez, disparara uma bazuca contra um autocarro escolar israelita; morto quando a sua fábrica de bombas, perto de Cheikh Saad, explodira em 1973. O telex acrescentava que, sem dúvida, Kabakov não necessitaria de que lhe refrescassem a memória a respeito da morte de Kadir, dado que estivera presente na ocasião;

 

- Muhammad Fasil, aliás Yusuf Halef, aliás Sammar Tufiq. Suspeito de ser o arquitecto do massacre de Munique e um dos homens mais cobiçados pelo Mossad. Os últimos relatórios diziam que estava a operar na Síria. O Mossad pensava que se encontrava em Damasco na altura do raide de Kabakov a Beirute, mas relatórios recentes, ainda não confirmados, colocavam-no em Beirute nas últimas três semanas. Os serviços secretos israelitas estavam a inquirir do paradeiro de Fasil junto de fontes em Beirute e noutros locais.

 

As fotografias de el-Amari e de Fasil estavam a ser transmitidas via satélite para a embaixada israelita em Washington, para serem enviadas a Kabakov. Os negativos viriam depois. Kabakov estremeceu ao ler isso. Se estavam a enviar os negativos, as fotografias deviam ser más

 

- demasiado más para terem utilidade quando transmitidas por via electrónica. Mesmo assim, era alguma coisa. Desejava ter esperado para pedir aquilo dos Russos.

 

- Muhammad Fasil - murmurou Kabakov. - Sim. É o teu tipo de espectáculo. Espero que, desta vez, tenhas vindo pessoalmente.

 

Voltou à chuva para a viagem até Brooklyn. Moshevsky e o trio de israelitas que se encontrava sob as suas ordens espiolhavam os bares de Cobble Hill e os restaurantes rápidos e as salas de jogos em busca de vestígios do assistente grego de Muzi. Talvez o grego tivesse visto o americano. Kabakov sabia que o FBI batera aquele terreno, mas os seus homens não pareciam polícias, inseriam-se melhor na mistura étnica das redondezas e podiam escutar em várias línguas. Kabakov instalou-se no escritório de Muzi, examinando o incrível ninho de ratos de papéis que o importador deixara, na esperança de conseguir encontrar um pedaço de informação acerca do americano ou dos contactos de Muzi no Médio Oriente. Um nome, um local, qualquer coisa. Se houvesse uma pessoa entre Istambul e o golfo de Adem que soubesse a natureza da missão do Setembro Negro nos Estados Unidos, e Kabakov conseguisse descobrir o seu nome, raptaria essa pessoa ou morreria a tentar fazê-lo. A meio da noite, descobrira que Muzi tinha, pelo menos, três contabilidades, mas ficara a saber pouco mais. Cansadamente, regressou ao apartamento de Rachel.

 

Rachel estava à sua espera. Parecia um pouco diferente e, ao olhar para ela, já não se sentia cansado. A sua separação durante o dia tornara uma coisa clara para ambos.

 

Tornaram-se amantes muito docemente e os seus amplexos, de aí em diante, começaram e terminaram com grande delicadeza, como se temessem poder rasgar a frágil tenda que os seus sentimentos tinham construído no ar, em redor da sua cama.

 

- Sou tonta - disse ela, uma vez, enquanto descansava. - Não me importo de ser tonta.

 

- Eu tenho a certeza de que me não importo de que sejas tonta - respondeu Kabakov. - Queres um charuto?

 

O telefonema do embaixador Tell chegou às 7 h da manhã, enquanto Kabakov estava a tomar duche. Rachel abriu a porta da casa de banho e gritou o nome dele para o vapor. Kabakov saiu rapidamente, enquanto Rachel ainda estava na ombreira da porta. Enrolou uma toalha à sua volta e dirigiu-se ao telefone. Rachel começou a arranjar as unhas.

 

Kabakov sentia-se desconfortável. Se o embaixador tivesse uma resposta dos Russos, não teria utilizado aquele telefone. A voz de Tell era calma e muito normal.

 

- Major, temos um pedido de informações a seu respeito do The New York Times e também algumas perguntas desconfortáveis acerca do incidente a bordo do Leticia. Gostaria que viesse até cá. Vou estar disponível um pouco depois das 3 h, se estiver bem para si.

 

- Estarei aí.

 

Kabakov encontrou o Times no tapete, à porta de Rachel. Página 1: MINISTRO DOS NEGÓCIOS ESTRANGEIROS ISRAELITA EM WASHINGTON PARA CONVERSAÇÕES SOBRE O MÉDIO ORIENTE. Para ler mais tarde. CUSTO DE VIDA. A GM CANCELA CAMIÕES. Página 2. Oh, diabos. Aqui está: ÁRABE TORTURADO CÁ POR AGENTES ISRAELITAS, AFIRMA CÔNSUL, por Margaret Leeds Finch

 

Um marinheiro libanês foi interrogado sob tortura por agentes israelitas a bordo de um navio mercante líbio, no porto de Nova Iorque, na última semana, antes de ter sido preso por funcionários da Alfândega dos Estados Unidos sob a acusação de contrabando, afirmou o cônsul libanês, na noite de terça-feira.

 

Num protesto duro apresentado ao Departamento de Estado dos Estados Unidos, o cônsul Yusuf el-Amedi disse que o imediato Mustapha Fawzi, do cargueiro Leticia, foi espancado e submetido a choques eléctricos por dois homens que se identificaram como israelitas. Disse que não sabia o que os agentes procuravam e recusou-se a comentar as acusações de contrabando que impendem sobre Fawzi.

 

Um porta-voz israelita negou categoricamente as acusações, dizendo que se tratava de "uma tentativa desajeitada para despertar sentimentos anti-israelitas".

 

O médico dos Serviços Prisionais, Cari Gillette, afirmou que examinara Fawzi na Casa de Detenção Federal, na West Street, e não encontrara vestígios do espancamento.

 

O cônsul Amedi disse que Fawzi fora atacado pelo major David Kabakov, das Forças Armadas israelitas, e por outro homem não identificado. Kabakov está como adido na embaixada israelita, em Washington.

 

O Leticia foi apreendido [...]

 

Kabakov passou os olhos pelo resto do artigo. As autoridades alfandegárias tinham mantido a boca fechada a respeito da investigação que estava a decorrer no Leticia e os jornais ainda não dispunham da ligação a Muzi, graças a Deus.

 

- Oficialmente, vai ser recambiado para casa - disse o embaixador Tell.

 

Kabakov torceu a boca. Sentia-se como se lhe tivessem dado um pontapé no estômago.

 

Tell mexeu nos papéis, que se encontravam em cima da sua secretária, com a ponta da caneta.

 

- A detenção de Mustapha Fawzi foi participada, por mera rotina, ao cônsul libanês, dado que Fawzi é cidadão libanês. O consulado arranjou-lhe um advogado. Segundo parece, o advogado está a agir de acordo com ordens de Beirute e está a tocar Fawzi como se de um órgão a vapor se tratasse. Os Líbios foram informados, uma vez que o barco está registado na Líbia. Mal o seu nome veio à baila, não tenho a menor dúvida de que a Al Fatah foi alertada, juntamente com o coronel Khadafy, o iluminado estadista líbio. Não vi o depoimento de pretensa autoria de Fawzi, mas julgo que é muito colorido. Muito gráfico, em termos anatómicos. Magoou-o?

 

- Não tive necessidade de o fazer.

 

- Os Libaneses e os Líbios vão continuar a protestar até você ser retirado. É provável que se lhes juntem os Sírios. Khadafy é dono de mais do que um diplomata árabe e duvido de que qualquer deles conheça a verdadeira razão para a sua presença aqui, exceptuando talvez Khadafy.

 

- Que diz o Departamento de Estado norte-americano? Kabakov sentia-se revoltado por dentro.

 

- Não querem protestos diplomáticos por causa disto. Querem abafar tudo. Oficialmente, já não é bem-vindo neste país como representante de Israel.

 

- Grandes idiotas! Merecem... - Kabakov calou-se de súbito.

 

- Como sabe, major, as Nações Unidas vão votar esta semana a moção de censura contra Israel, proposta pela República Árabe Unida, por causa da acção levada a cabo contra os acampamentos dos Fedayines, na Síria, no mês passado. Neste momento, essa questão não deveria ser exacerbada por outra perturbação.

 

- E se eu renunciar ao meu cargo e obtiver um passaporte vulgar? Nessa altura, Telavive podia negar ter conhecimento das minhas actividades, caso fosse necessário.

 

O embaixador Tell não estava a ouvir.

 

- É tentador pensar que, se os Árabes fossem bem sucedidos neste projecto, que Deus o não permita, os Americanos ficariam furiosos e redobrariam o seu apoio a Israel - disse. - Tanto você como eu sabemos que isso não acontecerá. O facto relevante será que tal atrocidade aconteceu porque os Estados Unidos ajudaram Israel. Porque se envolveram noutra guerrinha suja. A Indochina deixou-os fartos de envolvimentos, tal como fizera aos Franceses, e isso é compreensível. Não ficaria surpreendido se visse a Al Fatah a atacar em Paris, caso os Franceses nos vendam Mirages.

 

"De qualquer forma, se acontecer aqui, os governos árabes denunciarão a Al Fatah pela quadricentésima vez e Khadafy dará alguns milhões de dólares à Al Fatah. Os Estados Unidos não podem permitir-se estar zangados com os Árabes durante muito tempo. Parece horrível, mas os Estados Unidos acharão que é conveniente culpar apenas a Al Fatah. Este país consome demasiado petróleo para que as coisas se possam passar de outro modo.

 

"Se os Árabes forem bem sucedidos e tivermos tentado detê-los, então as coisas não estarão assim tão mal para nós. Se suspendermos a ajuda, mesmo a pedido do Departamento de Estado, então continuamos em falta."

 

- A propósito, os Americanos não vão pedir quaisquer informações aos Russos em relação ao Médio Oriente. O Departamento de Estado deu-nos a notícia de que o Médio Oriente é uma "esfera de tensão Leste-Oeste contínua" e de que não é possível fazer tal pedido. Não querem admitir perante os Russos que a CIA não consegue, por si só, obter as informações. De qualquer forma, David, foi acertado tentar.

 

"E agora há isto - Tell estendeu a Kabakov um telegrama do quartel-general do Mossad. - A informação foi também transmitida para Nova Iorque, ao seu cuidado.

 

O telegrama participava que Muhammad Fasil fora visto em Birute no dia a seguir ao raide de Kabakov. Tinha uma ferida no rosto, semelhante à descrita por Mustapha Fawzi, o imediato do Leticia.

 

- Muhammad Fasil - disse Tell, suavemente. - O pior de todos eles.

 

- Não vou...

 

- Espere, espere, David. A situação exige uma franqueza total. Existe alguém que conheça, no Mossad ou noutro local qualquer, que pudesse estar mais habilitado do que você para tratar deste assunto?

 

- Não, senhor.

 

Kabakov queria dizer que, se não tivesse apanhado a gravação em Beirute, se não tivesse interrogado Fawzi, se não tivesse revistado o camarote do navio, verificado os registos do barco, apanhado Muzi em desvantagem, não saberiam nada de nada. Tudo o que disse foi: "Não, senhor."

 

- Foi esse também o consenso a que chegámos. - O telefone de Tell tocou. - Sim? Cinco minutos, muito bem. - Virou-se para Kabakov. - Major, faz o favor de se apresentar na sala de reuniões do

segundo andar? E pode apertar a gravata.

 

O colarinho de Kabakov estava a enterrar-se-lhe no pescoço. Sentia-se prestes a sufocar e parou do lado de fora da sala de reuniões para se recompor. Talvez o adido militar lhe fosse ler as suas ordens para regressar a casa. Não iria conseguir coisa alguma gritando com o homem. De que é que Tell falara, afinal, de que consenso? Se tinha de voltar para Israel, por Deus que iria e os guerrilheiros na Síria e no Líbano iriam desejar o mais possível que ele regressasse aos Estados Unidos.

 

Kabakov abriu a porta. O homem magro, que se encontrava junto à janela, voltou-se.

 

- Entre, major Kabakov - disse o Ministro dos Negócios Estrangeiros de Israel.

 

Ao fim de quinze minutos, Kabakov estava de novo no corredor, tentando reprimir um sorriso. Um carro da embaixada levou-o para o Aeroporto Nacional. Chegou ao terminal da El Al, no Aeroporto Internacional Kennedy, vinte minutos antes da hora de partida do voo

601 para Telavive. Margaret Leeds Finch, do Times, estava de plantão junto ao balcão. Fez-lhe perguntas enquanto despachava a mala e enquanto passava pelo detector de metais. Respondeu com monossílabos corteses. Seguiu-o até à porta de embarque, agitando o seu livre-trânsito de jornalista para os funcionários da companhia de aviação, e acompanhou-o mesmo ao longo da manga até ao avião, onde foi delicada mas firmemente detida pelos seguranças da El Al.

 

Kabakov passou pela primeira classe, pela turística, até à cozinha, onde os jantares quentes estavam a ser carregados a bordo. Sorrindo para a hospedeira, saiu pela porta aberta para a plataforma elevatória do camião do fornecedor. A plataforma rangeu enquanto descia e o camião regressou à garagem. Kabakov saiu e entrou num carro onde o esperavam Corley e Moshevsky.

 

Kabakov fora retirado oficialmente dos Estados Unidos. Não oficialmente, regressara.

 

Agora, tinha de ser muito cuidadoso. Se falhasse, seria um enorme embaraço para o seu país. Kabakov perguntava-se o que teria sido dito durante o almoço do Ministro dos Negócios Estrangeiros com o Secretário de Estado. Nunca viria a saber os pormenores, mas era claro que a situação fora discutida com alguma profundidade. As suas instruções eram iguais às anteriores: deter os Árabes. A sua equipa estava a ser retirada, exceptuando Moshevsky. Kabakov seria um consultor por inerência do cargo para os Americanos. Tinha a certeza de que a última parte das suas instruções não fora discutida durante o almoço; era necessário fazer mais do que aconselhar, não deveria deixar testemunhas hostis.

 

Havia um silêncio tenso no carro, durante a viagem de regresso a Manhattan. Finalmente, Corley quebrou-o.

 

- Tenho muita pena de que isto tenha acontecido, velho amigo.

 

- Não sou o seu velho amigo, velho amigo - retorquiu Kabakov, calmamente.

 

- Os tipos da Alfândega viram aquele pedaço de plástico e começaram a gritar que iam rebentar com aqueles gajos. Tivemos de rebentar com eles.

 

- Deixe lá, Corley. Agora estou aqui para o ajudar, velho amigo. Tome, olhe para isto. - Kabakov estendeu-lhe uma das fotografias que lhe tinham sido dadas ao sair da embaixada. Ainda estava molhada após ter saído da câmara escura.

 

- Quem é?

 

- Muhammad Fasil. Tome, leia a pasta. Corley assobiou.

 

- Munique! Até que ponto pode ter a certeza de que é ele? A tripulação do Leticia não vai identificá-lo. Se quer um conselho, não pode apostar nisso.

 

- Não precisam de o identificar. Continue a ler. Fasil estava em Beirute no dia a seguir ao nosso raid. Devíamos tê-lo apanhado com os outros, mas não esperávamos que lá estivesse. Ficou com uma marca de bala no rosto. O libanês que se encontrava no barco tinha um gilvaz na face. Foi o que disse Fawzi.

 

A fotografia fora tirada num café de Damasco, com pouca luz, e estava tremida.

 

- Se tiver o negativo, poderemos melhorá-la, com o computador da NASA - disse Corley. - Da mesma forma como melhoram a qualidade das fotografias do projecto Mariner. - Corley fez uma pausa.

 

- Alguém do Departamento de Estado falou consigo?

 

- Não.

 

- Mas a sua gente falou.

 

- Corley, "a minha gente" fala sempre comigo.

 

- Acerca de trabalhar por nosso intermédio. Deixaram bem claro que você vai ajudar-nos a pensar e que o trabalho fica para nós, certo?

 

- Certo. Podes ter a certeza, velho amigo.

 

O carro deixou Kabakov e Moshevsky na missão de Israel. Esperaram até ele desaparecer e apanharam um táxi para casa de Rachel.

 

- De qualquer modo, Corley sabe onde estamos, não é verdade?

 

- inquiriu Moshevsky.

 

- Sim, mas não quero que o filho da mãe pense que pode deixar-me de fora sempre que lhe apetecer - retorquiu Kabakov. Enquanto falava, não estava a pensar em Corley ou sequer no apartamento de Rachel. Estava a pensar em Fasil, Fasil, Fasil.

 

Muhammad Fasil também estava imerso em pensamentos, deitado na sua cama, no quarto de hóspedes do rés-do-chão da casa de Lander. Fasil tinha uma paixão por chocolates suíços e, agora, estava a comer um. No campo, comia a ração grosseira dos fedayines, mas, em privado, gostava de rolar chocolates suíços entre os dedos até se derreterem. Depois, lambia o chocolate dos dedos. Fasil tinha inúmeros pequenos prazeres privados deste tipo.

 

Tinha uma determinada quantidade de paixão superficial e uma gama de emoção visível que era ampla, mas não profunda. Mas era mesmo profundo e frio e essas profundidades frias encerravam coisas cegas e selvagens que se roçavam e mordiam entre si, na escuridão. Aprendera a conhecer-se muito cedo. Ao mesmo tempo, ensinara aos seus colegas de escola como era e, depois, fora deixado só. Fasil tinha reflexos esplêndidos e uma força férrea. Não tinha medo nem piedade, mas tinha maldade. Fasil era a prova viva de que a fisiognomia é uma falsa ciência. Era magro e bastante belo. Era um monstro.

 

Era curioso como só apenas os mais primitivos e os mais habilidosos o descobriam. Os fedayines admiravam-no à distância e louvavam o seu comportamento debaixo de fogo, sem reconhecerem que a sua frieza era algo diferente de coragem. Mas não podia dar-se o luxo de se misturar com os mais analfabetos e ignorantes de entre eles, os que mascavam borrego e devoravam grão-de-bico em redor da fogueira. Esses homens supersticiosos não tinham os sentimentos embotados. Em breve ficavam pouco à vontade junto dele e, tão depressa quanto as boas maneiras lhes permitiam, iam-se embora. Caso, um dia, viesse a liderá-los a todos, nessa altura teria de resolver esse problema.

 

Abu Ali, também. Aquele homenzinho esperto, um psicólogo que fizera uma viagem longa e tortuosa através do seu próprio espírito, reconhecera Fasil. Uma vez, enquanto tomavam café, Ali descrevera uma das suas primeiras recordações - um borrego que passeava pela casa. Depois, perguntara a Fasil qual era a sua recordação mais antiga. Fasil respondera que se lembrava da sua mãe a matar uma galinha, pondo-lhe a cabeça no fogo. Depois de Fasil ter falado, compreendera que se não tratava de uma conversa ociosa. Felizmente, Abu Ali não fora capaz de prejudicar Fasil aos olhos de Hafez Najeer, porque o próprio Najeer era bastante estranho.

 

As mortes de Najeer e Ali tinham deixado um vazio na liderança do Setembro Negro que Fasil pretendia preencher. Por essa razão, estava ansioso por regressar ao Líbano. No matadouro mortífero da política dos fedayines, um rival poderia tornar-se forte de mais durante a ausência de Fasil. Gozara de um prestígio considerável no movimento, depois do massacre de Munique. O próprio Presidente Khadafy não beijara Fasil quando os guerrilheiros sobreviventes chegaram a Tripoli para serem recebidos como heróis? Fasil pensava que o dirigente da Líbia beijara os homens que realmente haviam estado em Munique com um pouco mais de fervor do que ao beijar Fasil, que planeara a missão, mas Khadafy ficara perfeitamente impressionado. E Khadafy não dera 5 milhões de dólares à Al Fatah, como recompensa por Munique? Esse era outro resultado dos seus esforços. Se o ataque da Supertaça fosse bem sucedido, se Fasil reivindicasse os louros, seria o guerrilheiro mais prestigiado de todo o mundo, ainda mais conhecido do que o idealista Guevara. Fasil acreditava que, então, poderia contar com o apoio de Khadafy - e do Tesouro líbio - para ficar à frente do Setembro Negro e, mais tarde, talvez pudesse substituir Yasser Arafat como líder máximo da Al Fatah. Fasil tinha plena consciência de que todos os que tinham tentado substituir Arafat estavam mortos. Precisava de tempo de liderança para preparar uma base segura porque, quando fizesse a sua jogada para assumir o poder, os assassinos de Arafat viriam.

 

Nenhum dos seus objectivos seria atingido se se deixasse matar em Nova Orleães. Originalmente, não tencionara tomar parte na acção, tal como acontecera em Munique. Não tinha medo de o fazer, mas estava obcecado com o pensamento do que poderia vir a ser, caso sobrevivesse. Se não tivesse ocorrido o problema no Leticia, ainda estaria no Líbano.

 

Fasil podia ver que as probabilidades de sair limpo de Nova Orleães não eram boas, de acordo com o plano actual. A sua missão era fornecer força e fogo de cobertura no Aeroporto Lakefront, em Nova Orleães, enquanto a bomba estava a ser amarrada ao dirigível. Não era possível prender a barquinha ao balão em qualquer outro local - o pessoal de terra e o mastro de amarração eram necessários porque a aeronave devia ser mantida firme enquanto se realizava o trabalho.

 

Lander podia conseguir enganar o pessoal de terra durante alguns segundos vitais afirmando que a barquinha continha alguma peça esotérica de equipamento para a televisão, mas a patranha não iria durar muito. Haveria violência e, depois da descolagem, Fasil seria deixado em campo aberto, no aeródromo, possivelmente no meio de um anel convergente de polícias. Fasil não considerava o seu papel digno das suas capacidades. Ali Hassan teria desempenhado essa função, se não tivesse sido morto no cargueiro. De certeza que não era um trabalho que justificasse a perda de Muhammad Fasil.

 

Caso não fosse encurralado no local de descolagem, a melhor possibilidade de fuga era um desvio de um avião para um país amigo. Mas, no Aeroporto de Lakefront, um campo privado nas margens do lago Pontchartrain, não havia voos comerciais de longo curso. Podia apoderar-se de um avião particular com autonomia suficiente para chegar a Cuba, mas não serviria de nada. Não podia ter a certeza de que Cuba o protegesse. Fidel Castro era duro em relação aos piratas aéreos e, perante uma América enraivecida, poderia entregar Fasil. Ademais, não teria a vantagem de uma carrada de reféns e nenhum avião particular teria velocidade suficiente para fugir dos caças americanos a gritarem em direcção aos ares, a partir de meia dúzia de bases costeiras.

 

Não, não tinha o menor desejo de cair no golfo do México num cockpit cheio de fumo, sabendo que acabara tudo enquanto a água subia para o esmagar. Isso seria estúpido. Fasil era suficientemente fanático para morrer alegremente se isso fosse necessário para a sua missão, mas não desejava morrer estupidamente.

 

Mesmo que conseguisse escapar-se pela cidade até ao Aeroporto Internacional de Nova Orleães, não havia voos comerciais com autonomia suficiente para chegarem à Líbia sem reabastecimento e as probabilidades de fazer uma escala de reabastecimento com sucesso eram baixas.

 

A Casa da Guerra ficaria com uma fúria como nunca tivera desde Pearl Harbor. Fasil lembrou-se das palavras do almirante japonês, após o ataque a Pearl: "Temo que tenhamos acordado um gigante enchendo-o com uma determinação terrível."

 

Iriam apanhá-lo quando parasse para reabastecer - se alguma vez saísse do chão. Era muito provável que o tráfego aéreo fosse suspenso poucos minutos após a explosão.

 

Estava claro para Fasil que o seu lugar era em Beirute, liderando o novo exército de lutadores da frente que se juntariam a ele depois dessa vitória. Seria um mau serviço para a causa morrer em Nova Orleães.

 

Muito bem. Era claro que Lander tinha as qualificações para levar a cabo o lado técnico. Depois de o ter visto, Fasil tinha a certeza de que desejava fazê-lo. Dahlia parecia controlá-lo. Restava apenas o problema da força de último minuto, no aeroporto. Se Fasil conseguisse arranjá-la, então, não haveria necessidade da sua presença. Poderia estar à espera em Beirute, com um microfone na mão. Uma ligação via satélite para Nova Iorque colocaria a sua imagem e a sua declaração nas televisões de todo o mundo, em minutos. Poderia dar uma conferência de imprensa. Seria, de uma penada, o árabe mais formidável de todo o mundo.

 

Tudo o que seria necessário, no Aeroporto de Nova Orleães, era um par de atiradores com perícia, importados no último momento, sob o comando de Dahlia e ignorando a sua missão até pouco antes de entrarem em acção. Isso podia ser feito. Fasil já tomara uma decisão. Assistiria às últimas fases da construção da barquinha e assegurar-se-ia de que chegava a Nova Orleães. Depois, ir-se-ia embora.

 

Para Fasil, os progressos de Lander no fabrico da enorme bomba eram loucamente lentos. Lander pedira a quantidade máxima de explosivos que o dirigível podia transportar, com metralha, em condições ideais. Na verdade, não esperara receber tudo o que pedira. Agora, que cá estava, tencionava aproveitar plenamente esse facto. O problema era peso e condições climatéricas - o estado do tempo a 12 de Janeiro, em Nova Orleães. O dirigível podia voar em quaisquer condições em que se pudesse disputar uma partida de futebol, mas a chuva significava peso extra e Nova Orleães tivera muita chuva no ano anterior, muito mais do que a média nacional. Até mesmo o orvalho a cobrir a grande pele do dirigível pesava 350 kg e retirava isso mesmo ao seu poder de elevação. Lander calculara a elevação com muito cuidado e iria esticar o dirigível ao máximo quando subisse ao céu, transportando o seu ovo mortal. Num dia claro, com o sol a brilhar, podia contar com alguma ajuda do efeito de "calor suplementar", um aumento de elevação que se obtinha quando o hélio, dentro do saco, estava mais quente do que o ar exterior. Mas, caso não estivesse preparado, a chuva poderia estragar tudo. Quando estivesse pronto para descolar, algum do pessoal de terra já teria certamente sido abatido e não poderia haver atrasos no embarque. O dirigível tinha de voar e de voar de imediato. Para compensar a possibilidade de chuva, dividira a barquinha, de forma a poder abandonar parte dela, se houvesse mau tempo. Era uma pena que a Aldrich não utilizasse um dirigível comprado em segunda mão à Marinha, em vez daquele, mais pequeno, pensara Lander. Voara em dirigíveis da Marinha, quando carregavam 6 toneladas de gelo, em grandes folhas que escorregavam pelos lados e caíam numa cascata brilhante e barulhenta quando o dirigível chegava a ares mais quentes. Mas aquelas aeronaves, extintas havia muito, eram oito vezes maiores do que o dirigível da Aldrich.

 

O equilíbrio tinha de ser quase perfeito, tanto com a barquinha inteira como com três quartos dela. Isso implicava que houvesse pontos de montagem opcionais na estrutura. Essas alterações tinham levado tempo, mas não tanto como Lander receara. Ainda faltava um pouco mais de um mês para a Supertaça. Nesse mês, iria perder a maior parte das duas últimas semanas a voar em jogos de futebol. Isso deixava-lhe cerca de dezassete dias de trabalho. Estava na altura de mais uma afinação.

 

Colocou na bancada uma folha espessa de fibra de vidro com

12,5 centímetros por 17,5 centímetros e 4 centímetros de espessura. A folha estava reforçada com uma rede de metal e curvada em dois planos, como se fosse a secção de uma casca de melancia. Aqueceu um pouco de explosivo plástico e enrolou-o até formar uma lâmina do mesmo tamanho, aumentando cuidadosamente a espessura do plástico do centro em direcção às extremidades.

 

Lander prendeu a lâmina de plástico ao lado convexo da folha de fibra de vidro. Agora, o dispositivo parecia um livro torcido com capa apenas num dos lados. Alisadas por cima do explosivo plástico encontravam-se três camadas de folha de borracha, cortada da cobertura de um colchão de hospital. Em cima delas, foi colocado um pedaço de lona leve eriçada com dardos de espingarda de calibre 177. Os dardos estavam apoiados nos seus fundos chatos, colados à lona mais perto uns dos outros do que os pregos da cama de um faquir. Quando a lona eriçada de dardos foi esticada sobre a superfície convexa do dispositivo, as pontas afiadas dos dardos divergiram ligeiramente. Essa divergência era o que se pretendia com a curva do dispositivo. Era necessária para os dardos se espalharem em voo, segundo um padrão predeterminado. Lander estudara a balística com muito cuidado. A forma dos dardos iria estabilizá-los durante o voo, como acontecia com as pequenas flechas de aço utilizadas no Vietname.

 

Depois, colocou mais três camadas de lona coberta de dardos. No conjunto, as quatro camadas continham 944 dardos. Num raio de

60 m, segundo os cálculos de Lander, crivariam uma área de l m2, com um dardo a cravar-se por cada 10,7 centímetros 2, com a velocidade de uma bala de espingarda de alta potência. Nada poderia sobreviver nessa zona de ataque. E este era apenas um modelo pequeno para testes. O verdadeiro, o que iria dependurado sob o dirigível, era 317 vezes maior em área e peso e transportava uma média de 3,5 dardos para cada uma das 80 985 pessoas que constituíam a lotação do Tulane Stadium.

 

Fasil entrou na oficina quando Lander estava a fixar a cobertura exterior, uma folha de fibra de vidro com a mesma espessura do revestimento da barquinha.

 

Lander não lhe falou.

 

Fasil pareceu prestar pouca atenção ao objecto que se encontrava na bancada, mas reconheceu o que era e ficou aterrorizado. O árabe olhou em redor durante alguns minutos, tomando o cuidado de não tocar em nada. Dado que era um técnico, formado na Alemanha e no Vietname do Norte, Fasil não podia deixar de admirar a perfeição e a economia com que a barquinha grande estava construída.

 

- Este material é difícil de soldar - disse, batendo no tubo de liga Reynolds. - Não vejo equipamento de solda, mandou fazer o trabalho fora?

 

- Trouxe equipamento da companhia, durante o fim de semana.

 

- A moldura também está livre de tensão. Pois bem, Sr. Lander, isso é um achado. - Fasil pretendia que esta afirmação fosse um louvor brincalhão à habilidade de Lander. Decidira que era seu dever dar-se bem com o americano.

 

- Caso a estrutura se deformasse e rachasse a casca de fibra de vidro, alguém podia ver os dardos quando a retirássemos do camião respondeu Lander, num tom monótono.

 

- Pensei que, agora, já estivesse a introduzir o plástico, dado que só nos resta um mês.

 

- Ainda não está pronto. Primeiro, tenho de testar uma coisa.

 

- Talvez possa ajudá-lo.

 

- Sabe qual é o índice explosivo deste material?

 

Fasil abanou a cabeça pesarosamente:

 

- É muito recente.

 

- Viu alguma vez a detonação de algum pedaço?

 

- Não. Disseram-me que é mais potente do que o C-4. Viu o que fez no apartamento de Muzi.

 

- Vi um buraco na parede e isso não me diz muito. O erro mais comum quando se faz um dispositivo antipessoal é colocar a metralha demasiado perto da carga, de forma que os fragmentos perdem integridade na explosão. Pense nisso, Fasil. Se não sabe isso, devia sabê-lo. Leia este manual de campo e ficará a saber tudo a esse respeito. Posso traduzir as palavras difíceis para si. Não quero que estes dardos se fragmentem na explosão. Não estou interessado em encher apenas 75 instituições para surdos. Não sei qual a quantidade de amortecimento que é necessária entre os dardos e o plástico, para os proteger.

 

- Mas veja qual é quantidade num engenho tipo daymore...

 

- Não é uma indicação. Estou a tratar com alcances maiores e muitíssimo mais explosivo. Até hoje, nunca ninguém construiu nenhuma com este tamanho. Uma daymore tem as dimensões de um livro escolar. Esta é do tamanho de um salva-vidas.

 

- Qual será a posição da barquinha, quando for detonada?

 

- Por cima da linha dos 50 m, a uma altitude de precisamente 100 pés, alinhada com o campo no sentido do comprimento. Pode ver como a curva da barquinha se harmoniza com a curva do estádio.

 

- Assim...

 

- Assim, Fasil, tenho de ter também a certeza de que os dardos irão dispersar-se segundo o arco correcto, em vez de partirem em grandes molhos. Tenho alguma liberdade de movimentos sob o revestimento. Posso exagerar as curvas, caso seja necessário. Vou saber o que se passa com o amortecimento e com a dispersão quando detonarmos isto - disse Lander, dando umas pancadinhas no dispositivo que se encontrava sobre a bancada.

 

- Tem, pelo menos, meio quilo de plástico.

 

- Sim.

 

- Não consegue detoná-lo sem atrair as autoridades.

 

- Posso, sim, senhor.

 

- Não teria tempo para examinar os resultados, antes da chegada das autoridades.

 

- Vou ter, sim.

 

- Isto é... - Quase disse "uma loucura", mas parou a tempo.

- Isto é muito precipitado.

 

- Não se preocupe com isso, árabe.

 

- Posso verificar os seus cálculos? - Fasil esperava poder encontrar uma forma de suspender a experiência.

 

- À vontade. Lembre-se, isto não é um modelo à escala do lado da barquinha. Contém apenas as duas curvas compostas utilizadas para a dispersão da metralha.

 

- Lembrar-me-ei, Sr. Lander.

 

Fasil falou em particular com Dahlia, enquanto esta carregava o lixo lá para fora.

 

- Fala com ele - disse ele, em árabe. - Sabemos que a coisa funciona como está. Esta coisa do teste é um risco inaceitável. Vai perder tudo.

 

- Poderia não funcionar perfeitamente - respondeu ela, em inglês. - Não pode ter falhas.

 

- Não tem de ser tão perfeito.

 

- Para ele, sim. Para mim, também.

 

- Tendo em conta a finalidade da nossa missão, aquilo que nos propusemos fazer, vai funcionar adequadamente tal como está.

 

- Camarada Fasil, carregar no botão, naquela gôndola, a 12 de Janeiro, vai ser o último acto da vida de Michael Lander. Não vai ver o que vem a seguir. E eu também não, se precisar de que voe com ele. Temos de saber o que vem a seguir, compreende isso?

 

- Compreendo que está cada vez mais a parecer-se com ele do que com um lutador de primeira linha.

 

- Então, a sua inteligência é limitada.

 

- No Líbano, matá-la-ia por isso.

 

- Estamos muito longe do Líbano, camarada Fasil. Se ambos voltarmos a ver o Líbano, pode tentar quando lhe for conveniente.

 

A Doutora Rachel Bauman estava sentada atrás de uma secretária na Halfway House, no South Bronx, à espera. O centro de reabilitação de toxicodependentes trazia-lhe muitas recordações. Olhou em redor, para a salinha clara com a sua pintura amadora e mobiliário recolhido nas ruas e pensou em alguns dos espíritos destruídos e desesperados em que tentara penetrar, nas coisas que ouvira, no seu trabalho voluntário naquele lugar. Fora por causa das recordações que aquela sala lhe trazia que escolhera esse local para se encontrar com Eddie Stiles.

 

Houve um ligeiro raspar na porta e Stiles entrou, um homem franzino e calvo que olhava em seu redor com rapidez. Barbeara-se para o encontro. Havia um pedaço de tecido colado num corte no queixo. Stiles sorriu pouco à vontade e remexeu no boné.

 

- Senta-te, Eddie. Estás com bom aspecto.

 

- Nunca estive melhor, Doutora Bauman.

 

- Como vai o negócio dos rebocadores?

 

- Para lhe dizer a verdade, monótono. Mas gosto, gosto, percebe?

- acrescentou rapidamente. - Fez-me um grande favor quando me arranjou aquele emprego.

 

- Não te arranjei o emprego, Eddie. Limitei-me a pedir ao homem que te recebesse.

 

- Sim, bem, de outro modo, nunca o teria conseguido. Como está? Parece um pouco diferente, isto é, como se sentisse bem. Mas, que estou para aqui a dizer, a senhora é que é médica. - Riu-se, envergonhado.

 

Rachel podia ver que ele engordara. Quando o conhecera, três anos antes, acabara de ser preso por contrabandear cigarros de Norfolk, numa traineira de 12 m, para tentar alimentar um hábito diário de 75 dólares de heroína. Eddie passara muitos meses em Halway House, muitas horas a conversar com Rachel. Trabalhara com ele quando gritava.

 

- Por que razão queria ver-me, Doutora Bauman? Quer dizer, estou contente por a ver e isso tudo e se estava a perguntar-se se eu continuaria limpo...

 

- Sei que estás limpo, Eddie. Quero pedir-te um conselho.

 

Até então, Rachel nunca se aproveitara de uma relação profissional e perturbava-a fazê-lo agora. Stiles apercebeu-se disso instantaneamente. A sua prudência inata lutava com o respeito e carinho que sentia por ela.

 

- Não tem nada que ver contigo - disse a médica. - Deixa-me expor-te o caso e ver o que pensas.

 

Stiles distendeu-se um pouco. Não lhe estavam a pedir que se comprometesse imediatamente com o que quer que fosse.

 

- Preciso de encontrar um barco, Eddie. Um determinado barco. Um barco que faz negócios escuros.

 

O rosto dele nada revelou.

 

- Disse-lhe que ia rebocar e, de momento, é só isso que faço, como sabe.

 

- Sei isso. Mas conheces uma data de pessoas, Eddie. Eu não conheço ninguém que se dedique a negócios escuros com barcos. Preciso da tua ajuda.

 

- Vamos ser francos um com o outro, sempre o fomos, não é?

 

- Sim.

 

- Nunca badalou nada daquilo que lhe contei quando estava no divã, não é?

 

- Nunca.

 

- Muito bem, conte-me o problema e quem quer saber. Rachel hesitou. A verdade era a verdade. Nada mais serviria.

 

Contou-lhe.

 

- Os chuis já me tinham perguntado - disse Stiles, quando ela terminou. - O tal gajo veio mesmo a bordo, em frente de toda a gente, para me perguntar, coisa que não aprecio grandemente. Sei que perguntaram a outros... tipos que conheço.

 

- E disseste-lhes para não se descoserem. Stiles sorriu e corou:

 

- Não sei nada que lhes possa contar, sabe? Para dizer a verdade, não me concentrei muito. Acho que os restantes também não e, pelo que ouvi, ainda andam por aí a fazer perguntas.

 

Rachel esperou, não o pressionou. O homenzinho puxou pela gola, bateu no queixo e voltou a pousar deliberadamente as mãos no colo.

 

- Quer falar com o gajo que é dono desse barco? Não quero dizer pessoalmente, não seria isso... quero dizer, os seus amigos é que querem.

 

- Isso mesmo.

 

- Só falar?

 

- Só falar.

 

- Há dinheiro? Quero dizer, não é para mim, Dr.a Bauman. Não pense nisso, pelo amor de Deus, já lhe devo bastante. Mas o que quero dizer é que, se eu viesse a conhecer um gajo qualquer, há muito poucas coisas grátis. Tenho algumas centenas, estão ao seu dispor, mas pode...

 

- Não te preocupes com o dinheiro - respondeu ela.

 

- Conte-me outra vez a partir do ponto em que a Guarda Costeira viu pela primeira vez o barco e quem fez o quê.

 

Stiles ouviu, acenando com a cabeça e, de vez em quando, fazendo uma pergunta.

 

- Francamente, talvez não possa ajudá-la em nada, Doutora Bauman

- disse, por fim. - Mas lembrei-me de umas coisas. Vou ouvir o que se diz.

 

- Com muito cuidado.

 

- Já sabe...

 

Harry Logan conduziu a sua velha carrinha em redor do perímetro do parque de maquinaria pesada da United Coal Company na sua ronda horária de guarda, espreitando pelas filas de bulldozers e carros de escória. Esperava-se que procurasse ladrões e sabotadores ecologistas, mas nunca aparecera nenhum. Num raio de quilómetros daquele local não existia ninguém. Estava tudo bem, podia escapar-se.

 

Virou para um carreiro de escória que acompanhava a cicatriz gigantesca que a mina de superfície abrira nas montanhas da Pensilvânia, com o pó vermelho erguendo-se atrás da carrinha. A cicatriz tinha quase 14 km de comprimento e 4 km de largura e estava a aumentar à medida que. as máquinas de remoção de terras comiam as colinas. Vinte e quatro horas por dia, seis dias por semana, duas das maiores máquinas de remoção de terra de todo o mundo batiam com as suas mandíbulas nas vertentes, como hienas a rasgarem uma barriga. Só paravam ao Sabbath, dado que o presidente da United Coal era um homem muito religioso.

 

Era domingo, e só os arbustos arrancados se moviam na terra nua. Era o dia em que Harry Logan fazia algum dinheiro extra. Era sucateiro e trabalhava na zona condenada que em breve seria escavada pela mina. Todos os domingos, Logan deixava o seu posto no parque de máquinas e dirigia-se à aldeia abandonada, numa encosta, no caminho das máquinas de remoção de terras.

 

As casas em ruínas estavam vazias e cheiravam a urina deixada pelos vândalos que tinham rebentado as janelas. Os proprietários tinham levado tudo o que pensavam que tinha valor, quando partiram, mas o seu olho para a sucata vendível não era tão aguçado como o de Logan, que era um sucateiro nato. Nos algerozes antiquados e nas canalizações podia encontrar-se bom chumbo. Os interruptores eléctricos podiam ser retirados das paredes e havia os chuveiros e o fio de cobre.

 

Vendia essas coisas ao ferro-velho do genro. Logan estava ansioso por fazer uma boa colheita naquele domingo, porque só restavam 200 m de bosques entre a aldeia e a mina de superfície. Dentro de duas semanas, a aldeia seria devorada.

 

Recuou a carrinha para dentro de uma garagem, ao lado de uma casa. Estava tudo silencioso quando desligou o motor. Havia apenas o vento, assobiando através das casas arruinadas e sem janelas. Logan estava a carregar um bocado de revestimento de madeira para paredes na carrinha quando ouviu o avião.

 

O Cessna vermelho, de quatro lugares, fez duas passagens a baixa altitude sobre a aldeia. Olhando para o sopé das colinas, por entre as árvores, Logan viu-o dirigir-se à estrada de escória, na mina de superfície. Se Logan gostasse dessas coisas, teria gostado de ver uma soberba aterragem com vento lateral; um deslizar lateral, um toque, e o pequeno avião a rolar suavemente com o pó a soprar para um dos lados.

 

Coçou a cabeça e o traseiro. Que raio quereriam aqueles? Talvez fossem inspectores da companhia. Podia dizer que estava a fazer uma ronda na aldeia. O avião ficara fora de vista, por detrás de um mato espesso. Logan desceu cuidadosamente através das árvores. Quando tornou a ver o avião, estava vazio e as rodas estavam calçadas. Ouviu vozes entre as árvores à sua esquerda e caminhou silenciosamente nessa direcção. Havia lá um grande celeiro vazio com um pasto de 3 acres ao seu lado. Logan sabia muito bem que não continha nada que valesse a pena roubar. Observando da orla do bosque, conseguia ver dois homens e uma mulher no pasto, no meio do trigo de Inverno, verde-claro, que lhes chegava ao tornozelo. Um dos homens era alto e usava óculos de sol e um blusão de esqui. O outro era mais escuro e tinha uma marca no rosto. Os homens desenrolaram um grande pedaço de corda e mediram uma distância da parede lateral do celeiro até ao pasto. A mulher instalou um telescópio de observação e o homem alto espeitou por ele, enquanto o escuro fazia marcas na parede do celeiro, com tinta. Os três reuniram-se em torno de uma prancheta de apontamentos, gesticulando com os braços. O moreno foi o primeiro a vê-lo e disse algo que Logan não conseguiu ouvir.

 

- Que estão vocemecês a fazer aqui?

 

- Olá - disse a mulher, sorrindo.

 

- Têm algum cartão de identificação da companhia?

 

- Não pertencemos à companhia - respondeu o mais alto.

 

- Isto é uma propriedade particular. Não podem estar aqui. É para isso que cá estou, para manter as pessoas lá fora.

 

- Só queríamos fazer umas fotografias - retorquiu o mais alto.

 

- Aqui não há nada para fotografar - disse Logan, com desconfiança.

 

- Há, sim - contrapôs a mulher. - Eu. - Passou a língua pelos lábios.

 

- Estamos a fotografar a capa daquilo a que poderia chamar uma revista de tipo privado, sabe, uma revista de tipo ousado?

 

- Estão a falar de um álbum de gajas nuas?

 

- Preferimos chamar-lhe uma publicação naturista - respondeu o alto. - Não podemos fazer esse tipo de coisas em qualquer lado.

 

- Podia ser presa - continuou a mulher, rindo. Era mesmo uma brasa.

 

- Está frio de mais para isso - respondeu Logan.

 

- Vamos chamar à fotografia "Rotundidades arrepiadas". Entretanto, o moreno estava a desenrolar um carretel de fio entre o tripé e as árvores.

 

- Não estejam a enganar-me com isso. Do escritório não me disseram nada quanto a deixar que as pessoas aqui viessem. É melhor voltarem para o local donde vieram.

 

- Quer ganhar 50 dólares a ajudar-nos? Só vai demorar meia hora e, depois, vamos embora - disse o alto.

 

Logan pensou durante alguns instantes:

 

- Bem, não tiro a roupa.

 

- Não é preciso. Há mais alguém por aí?

 

- Não. Não há ninguém num raio de quilómetros.

 

- Então, vai correr tudo bem. - O homem estava a estender-lhe 50 dólares. - A minha mão choca-o?

 

- Não, não.

 

- Então, por que olha tão fixamente para ela?

 

A mulher mudou-se rapidamente para junto do homem alto.

 

- Não pretendia fazê-lo - retorquiu Logan, que podia ver o seu reflexo nos óculos do homem.

 

- Vocês os dois tragam a câmara grande do avião e este senhor e eu preparamos as coisas.

 

O homem moreno e a mulher desapareceram no bosque.

 

- Como se chama?

 

- Logan.

 

- Muito bem, Sr. Logan, por favor, arranje-me uma ou duas tábuas e coloque-as sobre a relva aqui mesmo, no centro da parede do celeiro, para a senhora se colocar em cima delas.

 

- Faço o quê?

 

- Ponha umas tábuas ali, mesmo no centro. O chão é frio e queremos que os pés dela fiquem fora da relva, num sítio em que se vejam. Algumas pessoas gostam de pés.

 

Enquanto Logan procurava as tábuas, o homem alto tirou os binóculos e prendeu um estranho objecto curvo no tripé. Virou-se e gritou a Logan:

 

- Não, não. Uma tábua em cima da outra. - Fez uma moldura com as mãos e espreitou pelo meio dela. - Agora, ponha-se aí de pé e deixe-me ver se está bem. Mantenha-se aí, não se mexa, aí vêm eles com o visor.

 

O homem alto desapareceu em direcção às árvores.

 

Logan esticou a mão para coçar a cabeça. Num breve instante, o seu cérebro registou o relâmpago que o cegou, mas nunca ouviu o estrondo. Vinte dardos trespassaram-no e a explosão atirou-o para trás, contra a parede do celeiro.

 

Lander, Fasil e Dahlia vieram a correr entre o fumo.

 

- Em cheio - disse Fasil.

 

Viraram o corpo inerte e examinaram-lhe as costas. Rapidamente, tiraram fotografias à parede do celeiro. Estava arqueada e parecia um coador gigante. Lander entrou no celeiro. Centenas de pequenos furos na parede deixavam entrar pontos de luz que o sarapintavam, enquanto a sua câmara disparava em série.

 

- Um grande êxito - disse Fasil.

 

Arrastaram o corpo para dentro do celeiro, espalharam gasolina em cima dele e em cima da madeira seca que o rodeava e fizeram um carreiro de gasolina até à distância de 20 m da porta. O fogo relampejou no interior e incendiou as poças de gasolina com um "FFFUUUHHH" que sentiram nos rostos.

 

O fumo negro erguia-se do celeiro enquanto o Cessna subia até desaparecer de vista.

 

- Como encontrou aquele lugar? - perguntou Fasil, inclinando-se para a frente, do banco traseiro, para se fazer ouvir acima do barulho do motor.

 

- Andei à caça de dinamite, no Verão passado - respondeu Lander.

 

- Acha que as autoridades vão aparecer dentro de pouco tempo?

 

- Duvido, passam a vida a fazer rebentamentos ali.

 

Eddie Stiles estava sentado junto à janela do bar do Aquário da Cidade de Nova Iorque, preocupado. Da sua mesa, podia ver Rachel Bauman, lá em baixo e a 40 m de distância, junto à vedação do cercado dos pinguins. Não era Rachel Bauman que o perturbava, eram os dois homens que estavam de pé a seu lado. Stiles não gostava mesmo nada do seu aspecto. O que se encontrava à esquerda parecia uma montanha. O outro era um pouco menor, mas pior. Tinha aqueles movimentos fáceis e económicos e o equilíbrio que Eddie aprendera a temer. Os predadores do mundo de Eddie tinham-se movido assim. Os caros. Muito diferentes dos gorilas que os usurários utilizavam, os duros quadrados com o peso nos calcanhares.

 

Eddie não gostava da forma como os olhos daquele homem varriam os lugares altos, o telhado da casa dos tubarões, as divisórias nas dunas entre o Aquário e o passeio de Coney Island. Um olhar lento e, depois, o homem percorria o terreno, observando-o com minúcia, à moda da infantaria, de perto para longe e, durante todo esse tempo, agitava o dedo por cima da cabeça de um pinguim interessado.

 

Eddie estava arrependido de ter escolhido aquele local para o encontro. Num dia de semana, a multidão não era suficientemente grande para lhe dar aquele sentimento de conforto, de anonimato. Tinha a palavra da Doutora Bauman de que não seria implicado. Ela nunca lhe mentira. A sua vida, a vida que estava a tentar construir, baseava-se no que aprendera acerca de si mesmo com a ajuda da Doutora Bauman. Se isso não fosse verdade, então, nada era verdade. Bebeu a sua chávena de café e desceu rapidamente as escadas e virou para o tanque da baleia. Antes de lá chegar, já conseguia ouvir o assobio do cetáceo. Era uma orca fêmea com 12 m, elegante com as suas marcas brilhantes, negras e brancas. Estava a realizar-se um espectáculo. Um jovem encontrava-se numa plataforma por cima da água, segurando um peixe que brilhava sob o pálido sol de Inverno. A superfície da água arqueou-se numa linha que atravessava a piscina, enquanto, debaixo da superfície, a orca se movia como uma locomotiva preta. Disparou na vertical para fora de água e o seu grande comprimento pareceu suspenso no ar, enquanto apanhava o peixe com os seus dentes triangulares. Eddie ouviu os aplausos atrás de si enquanto descia os degraus que conduziam à galeria subterrânea, com as suas grandes janelas de vidro laminado. A sala era escura e húmida, iluminada pelo sol que brilhava através da água verde-azulada do tanque das baleias. Eddie olhou para dentro do tanque. A orca mexia-se sobre o fundo ligeiramente pintalgado, rolando continuamente, mastigando. Três famílias desceram a escada e juntaram-se-lhe. Todas tinham crianças barulhentas.

 

- Papá, não consigo ver.

 

O pai colocou o rapazinho sobre os ombros, bateu-lhe com a cabeça no tecto e, depois, levou-o lá para fora, a berrar.

 

- Olá, Eddie - disse Rachel.

 

Os seus dois companheiros estavam do lado oposto, longe de Eddie. Isso era educado, pensou este. Os rufiões ter-se-iam colocado um de cada lado. E os polícias também.

 

- Olá, Doutora Bauman. - Os seus olhos passaram rapidamente por cima do ombro dela.

 

- Eddie, este é o David e este é o Robert.

 

- Muito gosto em conhecê-los. - Eddie apertou-lhes as mãos. O grandalhão tinha uma pistola debaixo do braço esquerdo, não havia a menor dúvida. O outro talvez também tivesse uma, mas o casaco assentava melhor. O tal David. Nós grossos nos dois primeiros dedos e o gume da mão semelhante a uma grosa de madeira. Não ficara assim a aprender ioiô. A Doutora Bauman era uma mulher muito sensata e compreensiva, mas havia algumas coisas acerca das quais nada sabia, pensou Eddie. - Doutora Bauman, gostava de falar consigo durante um segundo, hum, em particular, se não se importarem.

 

Na outra extremidade da sala, falou-lhe perto do ouvido. Os gritos das crianças abafavam a sua voz:

 

- Doutora. Quero saber, conhece mesmo aqueles gajos? Sei que pensa que sim, mas o que quero dizer é se os conhece? Doutora Bauman, aqueles gajos são gajos muito duros. Como sabe, há gajos duros e gajos duros. Isso é uma coisa em que sou perito. Aqueles pertencem ao tipo mais duro dos gajos duros, ainda mais do que os assaltantes, se me faço entender. Estes não me parecem ser gente para brincadeiras. Não consigo vê-la a andar com este tipo de gajos. Sabe, a não ser que sejam seus parentes ou uma coisa semelhante em relação à qual não pode fazer nada.

 

Rachel pousou-lhe a mão no braço.

 

- Obrigada, Eddie. Sei o que estás a dizer, mas conheço aqueles dois há muito tempo. São meus amigos.

 

Tinham colocado um golfinho no tanque da orca, para lhe fazer companhia. O golfinho afadigava-se a meter pedaços de peixe no cano, enquanto a orca era distraída pelo treinador. A orca deslizou pela janela submersa, demorando uns bons dez segundos a passar, com o seu olhinho a espreitar através do vidro para as pessoas que falavam do outro lado.

 

- Este gajo de que ouvi falar, Jerry Sapp, fez um trabalho em Cuba, há um par de anos - contou Stiles a Kabakov. - Cuba! Entrou, escapando ao radar costeiro, até perto de Puerta Cabanas, com uns cubanos de Miami. - Stiles moveu o olhar de Kabakov para Rachel e de novo para Kabakov. - Tinham uma coisa qualquer para fazer em terra, sabem, passaram a rebentação num daqueles barcos pneumáticos, tipo Avon ou Zodiac, e regressaram com a tal caixa.

 

"Não sei que raio tinha lá dentro, mas o gajo não regressou à Florida. Deu de caras com um barco de patrulha cubano ao largo da Bahia Honda e atravessou a direito para o lucatão. Tinha um grande depósito suplementar no tombadilho da proa.

 

Kabakov ouvia, tamborilando com os dedos no corrimão. Agora, a orca estava quieta, a descansar à superfície. A sua grande cauda estava arqueada para baixo, deixando pender os lobos 3 m abaixo da superfície.

 

- Aqueles putos estão a pôr-me choné - disse Eddie. - Vamos embora.

 

Ficaram no corredor escuro da casa dos tubarões, olhando as compridas formas cinzentas que rodavam incessantemente, com pequenos peixes brilhantes a escapulirem-se entre elas.

 

- De qualquer modo, sempre me intrigou como é que aquele gajo se aproximou de Cuba. Desde a Baía dos Porcos que têm um radar inacreditável. Disse que o seu gajo escapou ao radar da Guarda Costeira. A mesma coisa. Por isso, fiz algumas perguntas por aí, sabe, a respeito desse Sapp. Esteve no Sweeney, em Asbury Park, há cerca de duas semanas. Mas, de então para cá, mais ninguém o viu. O barco dele é um barco de pesca desportiva, com 12 m, um trabalho da Shing Lu. São construídos em Hong-Kong, e quero mesmo dizer construídos. Este é todo em madeira.

 

- Onde guarda o barco? - perguntou Kabakov.

 

- Não sei. Ninguém parecia saber. Isto é, não se podem fazer perguntas muito directas, não é? Mas, olhe, o empregado do bar no Sweeney recebe recados para o gajo, penso que ele o contactaria. Se se tratasse de um negócio.

 

- Que tipo de negócio é que ele toparia?

 

- Depende. Tem de saber que andam atrás dele. Se foi pessoalmente neste trabalho que vos interessa, é claro que sabe que andam atrás dele. Se foi um trabalho de contrato, se alugou o barco, então esteve a ouvir durante todo o tempo a frequência da Guarda Costeira. Não fazia o mesmo?

 

- Para onde fugiria, se fosse esse homem?

 

- Teria vigiado o barco durante um dia, depois de ter voltado, para ter a certeza de que não estava sob vigilância. Depois, se tivesse um lugar onde pudesse trabalhar, pintava-o, repunha a matrícula legal e alterava-o... mudava-lhe a ponte. Juntava-me a um grupo de ricaços que fossem para o Sul, para a Florida, ao longo da costa, e mantinha-me colado a eles... um grupo de iates a descer a Rota Intercostal explicou Eddie. - Esses ricaços gostam de ir à molhada.

 

- Diga-me qual seria uma mercadoria de alto lucro para importar que o fizesse sair do buraco - pediu Kabakov. - Uma coisa que exigisse um barco.

 

- Cavalo - respondeu Eddie, com um olhar culpado em direcção a Rachel. - Heroína. Do México para, digamos, Corpus Christi ou Aransas Pass, na costa do Texas. Podia embarcar nessa. No entanto, teria de haver algum dinheiro à cabeça e ele teria de ser contactado com muito cuidado. Assusta-se facilmente.

 

- Pense no contacto, Eddie. E obrigado - disse Kabakov.

 

- Fi-lo pela doutora. - Os tubarões mexiam-se silenciosamente no tanque iluminado. - Olhe, vou pirar-me agora, não quero olhar mais para essas coisas.

 

- Encontro-me de novo contigo na cidade, David - disse Rachel. Kabakov ficou surpreendido por ver uma espécie de desagrado nos olhos dela, quando o fixaram. Ela e Eddie afastaram-se lado a lado, com as cabeças inclinadas, a conversar. O braço de Rachel envolvia os ombros do homenzinho.

 

Kabakov teria preferido manter Corley fora do assunto. Até agora, o agente do FBI não sabia nada de Jerry Sapp e do seu barco. Kabakov queria apanhá-lo sozinho. Precisava de falar com Sapp antes de o homem se embrulhar na Constituição.

 

Kabakov não se importava de violar os direitos de um homem, a sua dignidade ou a sua pessoa se a violação trouxesse benefícios imediatos. O facto de o fazer não o incomodava, mas a semente que existia dentro de si e que se alimentava do êxito dessas tácticas deixava-o pouco à vontade.

 

Sentia que estava a adquirir atitudes de desprezo em relação à teia de salvaguardas entre o cidadão e a rapidez de investigação. Não tentava racionalizar os seus actos com chavões como "o maior bem" porque não era um homem de reflexão. Embora Kabakov julgasse que as suas acções eram necessárias - sabia que funcionavam -, temia que a mentalidade que um homem adquiria com a sua prática fosse uma coisa feia e perigosa e, para ele, tinha um rosto. O rosto de Hitler.

 

Kabakov reconhecia que as coisas que fazia marcavam o seu espírito com tanta certeza como marcavam o seu corpo. Queria pensar que a sua cada vez maior impaciência em relação aos constrangimentos da lei era apenas o resultado da sua experiência, que sentia raiva em relação a esses obstáculos tal como sentia rigidez nas feridas antigas, nas manhãs de Inverno.

 

Mas isso não era totalmente verdade. A semente das suas atitudes estava na sua natureza, uma coisa que descobrira, havia anos, perto de Tiberíades, na Galileia.

 

Estava numa viagem de inspecção a algumas posições na fronteira com a Síria quando parou o jipe perto de um poço, numa encosta. Um moinho de vento, um velho American Aeromotor, bombeava a água fria da rocha. O moinho de vento dava estalidos a intervalos regulares, enquanto as lâminas giravam lentamente, um som solitário num dia brilhante e calmo. Encostado ao jipe, sentindo ainda a frescura da água no rosto, Kabakov olhava para um rebanho de ovelhas que pastava mais acima, na encosta. Um sentimento de solidão comprimia-se à sua volta e tornava-o consciente da forma e posição do seu corpo nesses grandes espaços inclinados. E, então, viu uma águia, lá no alto, voando numa corrente de ar quente, com as penas das pontas das asas esticadas como dedos, deslizando lateralmente por cima da encosta da montanha, enquanto a sua sombra deslizava veloz por cima das rochas. A águia não estava a caçar ovelhas, porque era Inverno e não havia cordeiros no rebanho, mas estava por cima das ovelhas, e estas viam-na e baliam. Kabakov ficou tonto a observar a ave, com a sua referência horizontal distorcida por causa da encosta da montanha. Deu por si agarrado ao jipe para manter o equilíbrio.

 

E, então, compreendeu que gostava mais da águia do que das ovelhas e que sempre o faria e que, por causa disso, nunca poderia ser perfeito aos olhos de Deus.

 

Kabakov estava contente por nunca vir a ter verdadeiro poder.

 

Agora, num apartamento de Manhattan, Kabakov pensava em como o isco poderia ser apresentado a Jerry Sapp. Se fosse perseguir Sapp sozinho, então Eddie Stiles teria de fazer o contacto. Era a única pessoa que Kabakov conhecia que tinha acesso aos círculos marginais das docas. Sem ele, Kabakov teria de utilizar os recursos de Corley. Stiles faria isso por Rachel.

 

- Não - disse Rachel, ao pequeno-almoço.

 

- Ele fazia-o, se lhe pedisses. Podíamos protegê-lo durante todo o tempo...

 

- Não vai fazê-lo, por isso, esquece.

 

Era difícil de acreditar que, vinte minutos antes, ela estava tão terna e amantíssima em cima dele, e o seu cabelo era um pêndulo delicado que lhe varria o rosto e o peito.

 

- Sei que não gostas de o usar, mas, caramba...

 

- Não gosto de o usar, não gosto de que me uses. Também estou a usar-te, de uma maneira diferente que ainda não identifiquei. Está bem, usamo-nos um ao outro. Temos mais alguma coisa para além disso e é bom. Mas acabou o Eddie.

 

Estava mesmo esplêndida, pensou Kabakov, com o rubor a sair das rendas e a subir-lhe pelo pescoço.

 

- Não posso fazê-lo. Não o farei - disse. - Queres sumo de laranja?

 

- Obrigado.

 

Relutantemente, Kabakov foi ter com Corley e deu-lhe a informação sobre Jerry Sapp. Não revelou a fonte.

 

Corley trabalhou no isco durante dois dias, com o Departamento de Narcóticos e Drogas Perigosas. Passou uma hora a telefonar para a Cidade do México. Depois, encontrou-se com Kabakov no escritório do FBI, em Manhattan.

 

- Alguma coisa em relação ao grego?

 

- Nada, ainda - retorquiu Kabakov. - Moshevsky continua a percorrer os bares. Fale-me do Sapp.

 

- O Bureau não tem um cadastro de Jerry Sapp - disse Corley.

- Seja quem for, com esse nome está limpo. Também não consta do registo da Guarda Costeira. Os ficheiros deles não têm referências cruzadas de tipos de barcos com o pormenor de que necessitamos. A tinta que temos serve para uma comparação positiva, mas descobrir a sua origem é outra questão. Não é tinta para barcos. É uma marca comercial de verniz sobre um vedante pesado, que se vende em todo o lado.

 

- Fale-me da droga.

 

- Já lá vou. Cá vai. Por acaso acompanhou o caso Krapf-Mendoza, em Chihuahua? Bem, eu também não conheço os pormenores. Entre

1970 e 1973, meteram quase 60 kg de heroína neste país. Ia para Boston. Um método inteligente. Para cada carregamento, utilizavam um pretexto para contratar um cidadão americano para ir para o México. Por vezes, era um homem, outras, uma mulher, mas sempre um solitário que não tinha parentes próximos. O palerma ia até lá com um visto de turista e, ao fim de alguns dias, falecia. O corpo era recambiado para cá com a barriga cheia de heroína. Eram donos de uma agência funerária, cá deste lado. A propósito, o seu cabelo está a crescer muito bem.

 

- Continue, continue.

 

- Este caso deu-nos duas coisas. O tipo da massa, de Boston, ainda tem uma boa reputação junto do crime organizado. Ajuda-nos porque está a tentar protelar uma condenação de 40 anos de prisão efectiva. As autoridades mexicanas deixaram na rua um homem de Cozumel. É melhor não perguntar o que é que ele está a tentar protelar.

 

- Então, se o seu homem mandar um recado até ao destino de que está à procura de um bom homem com um barco para trazer o produto de Cozumel para o Texas, isso pareceria razoável, dado que o método antigo acabou - disse Kabakov. - E se Sapp telefonar ao nosso homem, ele pode apresentar referências no México e em Boston.

 

- Sim. Esse Sapp iria confirmar antes de se mostrar. O mero facto de lhe darem o recado deve implicar alguns atalhos. É isso que me preocupa, se o apanharmos não temos quase nada contra ele. Podíamos apanhá-lo com base nalguma acusação de merda de tentativa que implicasse a utilização do barco, mas isso levava tempo a elaborar. Não temos nada com que possamos ameaçá-lo.

 

Oh, isso é que temos, pensou Kabakov, de si para consigo.

 

A meio da tarde, Corley pedira ao Tribunal Distrital de Newark autorização para pôr sob escuta os dois telefones do Sweeney's Bar e Grill, em Asbury Park. Às 4 h da tarde, o pedido fora recusado. Corley não tinha qualquer prova de qualquer crime cometido no Sweeney e estava a agir com base em acusações anónimas pouco substanciais, explicou o magistrado, que afirmou estar desolado.

 

Às 10 h da manhã seguinte, uma carrinha azul entrou no parque de estacionamento do supermercado, ao lado do Sweeney. Ao volante, encontrava-se uma senhora idosa. O parque estava cheio e ela foi conduzindo devagar, aparentando procurar um lugar. Havia um homem a dormitar num carro estacionado ao lado do poste telefónico, a 9 m das traseiras do Sweeneys Bar.

 

- Meu Deus, está a dormir - disse a senhora idosa, falando aparentemente para os seus seios.

 

O homem que dormia dentro-do carro acordou quando o rádio que tinha ao lado estalou iradamente. Com uma expressão ovina, abandonou o local de estacionamento. A carrinha recuou para o lugar. Alguns compradores empurravam carrinhos ao longo da pista. O homem que deixara vago o lugar de estacionamento saiu do carro.

 

- Minha senhora, penso que tem um furo.

 

- Sim?

 

O homem dirigiu-se à roda traseira da carrinha, mesmo ao lado do poste. Dois fios finos, castanhos contra o poste castanho, ligavam a linha telefónica ao chão e terminavam com uma ficha de dois pólos. O homem ligou a ficha numa tomada no pára-choques da carrinha.

 

- Não, o pneu só está baixo. Pode conduzir assim. - Entrou no carro e afastou-se.

 

Nas traseiras da carrinha, Kabakov encostou-se para trás com as mãos atrás da cabeça. Usava auscultadores e fumava um charuto.

 

- Não tem de estar sempre a ouvir - disse o jovem calvo que estava junto à central telefónica em miniatura. - Quero dizer que não precisa de estar sempre com eles. Quando tocar ou quando levantarem o auscultador deste lado, verá esta luz e ouvirá o besouro. Quer café? Tome. - Inclinou-se em direcção à divisória atrás da cabina. - Ei, mãe. Quer café?

 

- Não - respondeu a voz do banco da frente. - E deixa as bolachas no saco. Sabes bem que te fazem gases. - A mãe de Bernie Biner mudara do banco do condutor para o do lado. Estava a tricotar uma colcha. Como mãe de um dos melhores montadores de escutas independentes que havia no mercado, era sua missão conduzir, parecer inocente e estar alerta em relação à polícia.

 

- Cobra-me 11 dólares e 40 cêntimos por hora e está a supervisionar a minha dieta - disse Biner a Kabakov.

 

Ouviu-se o besouro. Os dedos rápidos de Bernie ligaram o gravador. Ele e Kabakov puseram os auscultadores. Podiam ouvir o telefone a tocar no bar.

 

- Está. Fala do Sweeney.

 

- Freddy? - Uma voz de mulher. - Ouve, querido, não posso ir hoje.

 

- Merda, Francês, que é isto, duas vezes em duas semanas?

 

- Freddy, desculpa, tenho umas cãibras que não podes calcular.

 

- Tens cãibras todas as semanas? É melhor ires a um médico, miúda. E a Arlene?

 

- Já falei para casa dela, não está lá.

 

- Bem, arranja alguém para vir para cá, que não vou servir às mesas e estar atrás do balcão.

 

- Vou tentar, Freddy.

 

Ouviram o empregado do bar desligar e uma gargalhada feminina antes de o auscultador ser pousado do outro lado. Kabakov fez uma rodela de fumo e disse de si para consigo que tinha de ser paciente. O isco de Corley entregara uma mensagem urgente para Sapp, quando o Sweeney abrira, meia hora antes, e dera 50 dólares ao empregado do bar para a enviar depressa. Era um recado simples dizendo que havia um negócio à espera e pedindo a Sapp que ligasse para um número de Manhattan para falar de negócios ou pedir referências. O número deveria ser dado apenas a Sapp. Caso Sapp falasse, Corley iria tentar atraí-lo a uma reunião. Kabakov não estava contente. Fora por isso que contratara Biner, que já recebia uma avença semanal para verificar se os telefones da missão israelitas estavam sob escuta. Kabakov não consultara Corley sobre esse assunto.

 

Uma luz na central telefónica de Biner indicou que o segundo telefone do bar fora levantado. Através dos auscultadores, ouviram discar dez algarismos. Depois, um telefone a tocar. Ninguém respondeu.

 

Bernie Biner rebobinou a gravação do número a ser marcado e depois ouviu-a a uma velocidade menor, contando os estalidos.

 

- 3-0-5, código interurbano. É a Florida. Cá vai o número. 8-4-4-6-0-6-9. Um momento. - Consultou uma espessa tabela de prefixos. - É algures na área de West Palm Beach.

 

Passou-se meia hora antes de a central telefónica da carrinha assinalar que estava a ser feita nova chamada do bar. De novo, dez dígitos.

 

- Glamareef Lounge.

 

- Sim, quero falar com o Sr. Sapp. Ele disse que podia deixar-lhe um recado nesse número, se fosse preciso.

 

- Quem fala?

 

- Freddy Hodges, do Sweeney. O Sr. Sapp sabe quem sou.

 

- Muito bem. Qual é o recado?

 

- Quero que me telefone.

 

- Não sei se consigo apanhá-lo. Disse Freddy Hodges?

 

- Sim. Ele sabe o número. É importante, diga-lhe. São negócios.

 

- Hum, olhe, é possível que venha cá perto das 5 h ou das 6 h. Por vezes, aparece. Se o vir, digo-lhe.

 

- Diga-lhe que é importante. Que Freddy Hodges telefonou.

 

- Sim, sim, eu digo-lhe. - Um estalido.

 

Bernie Biner ligou para as informações de West Palm Beach e confirmou que aquele número pertencia ao Glamareef Lounge.

 

O morrão do charuto de Kabakov tinha 5 centímetros de comprimento. Estava exultante. Esperara que Sapp utilizasse um intermediário telefónico, uma pessoa que não conhecesse a sua identidade e a quem ligasse com um nome de código para receber recados. Em vez disso, tratava-se de uma mera caixa de correio num bar. Agora, não seria necessário recorrer ao processo intrincado de combinar uma reunião com Sapp. Podia encontrá-lo no bar.

 

- Bernie, quero que a escuta seja mantida até Sapp ligar para o Sweeney. Quando isso acontecer, previne-me no preciso instante em que tiveres a certeza de que é ele.

 

- Onde estará?

 

- Na Florida. Dou-te o número quando lá chegar. - Kabakov olhou para o relógio. Tencionava estar no Glamareef às 5 h da tarde. Tinha seis horas.

 

O Glamareef, em West Palm Beach, é um edifício de blocos cinzentos num conjunto cor de areia. Tal como muitos bares meridionais construídos depois de o ar condicionado se ter tornado popular, não tem janelas. Originalmente, era uma cervejaria com bilhares ejukebox, chamada Shangala, com um ar condicionado barulhento e um bloco de gelo no urinol. Agora procurava uma clientela mais selecta. As suas cabinas de napa e o bar escuro atraíam pessoas de dois mundos - os playboys assalariados e os iatistas ricos que gostavam de se misturar com os bas-fonds. O Glamareef, outrora Shangala, era um bom local para procurar mulheres jovens com problemas maritais. Era um bom local para uma mulher mais velha e abastada encontrar um jovem musculoso que nunca fizera aquilo em lençóis de seda.

 

Kabakov sentou-se no final do bar, a beber cerveja. Ele e Moshevsky tinham alugado um carro no aeroporto e a sua visita apressada às quatro marinas das redondezas fora desencorajadora. Havia uma pequena cidade de barcos em West Palm Beach, muitos deles barcos de pesca desportiva. Primeiro, tinham de encontrar o homem e, depois, o barco.

 

Estava à espera havia uma hora quando um homem robusto, a meio dos 30 anos, entrou no bar. Kabakov pediu outra cerveja e alguns trocos. Estudou o recém-chegado no painel frontal espelhado da máquina de cigarros. Tinha um peso mediano e estava muito bronzeado e via-se-lhe uma musculatura poderosa debaixo da camiseta. O empregado do bar pôs-lhe uma bebida à frente e, com ela, um bilhete.

 

O homem robusto terminou a bebida com alguns goles compridos e dirigiu-se à cabina telefónica, a um canto. Kabakov fazia garatujas no guardanapo. Podia ver a boca do homem a mover-se, na cabina telefónica.

 

O telefone do bar tocou duas vezes antes de o empregado o atender. Pôs a mão em cima do bocal.

 

- Está aqui uma Shirley Tatum? - perguntou, em voz alta, olhando em redor. - Não, desculpe. - Desligou.

 

Era Moshevsky, que estava a ligar de uma cabina pública no exterior, para transmitir o sinal que recebera de Bernie Biner, de Ansbury Park. O homem que Kabakov estava a observar na cabina telefónica falava com o Sweeneys Bar, em Asbury Park, com Bernie a ouvir. Era Jerry Sapp.

 

Kabakov fez uma escolha de moedas trocadas numa cabina telefónica, à beira da estrada, meia hora antes de escurecer.

 

Ligou o número de Rachel.

 

- Está.

 

- Rachel, não esperes por mim para jantar. Estou na Florida.

 

- Encontraste o barco.

 

- Sim. Primeiro, encontrei Sapp e segui-o até ao barco. Ainda não o examinei. Também não falei com Sapp. Ouve. Amanhã, quero que ligues a Corley. Diz-lhe que Sapp e o barco estão na marina de Clear Springs, perto de West Palm Beach. Anotaste? Agora, o barco é verde. Matrícula FL 4040 AL. Telefona-lhe cerca das 10 h da manhã, não antes.

 

- Vais a bordo esta noite e, de manhã, se ainda estiveres vivo, estás a planear telefonar-me a dizer que mudaste de ideias quanto a contar a Corley, não é verdade?

 

- Sim. - Houve um grande silêncio. Kabakov tinha de o quebrar. - É uma marina privada, muito exclusiva. Lucky Luciano costumava ter cá um barco, há alguns anos. E o mesmo acontecia com outros arquicriminosos. Foi o homem da loja que vende isco que me contou. Tive de comprar um balde de camarões para ficar a saber isso.

 

- Por que razão não vais lá com Corley e um mandado?

 

- Não deixam entrar judeus.

 

- Vais levar o Moshevsky contigo, não vais?

 

- Claro. Vai estar por perto.

 

- David?

 

- Sim.

 

- Amo-te, numa certa medida.

 

- Obrigado, Rachel. - Desligou.

 

Não lhe disse que a marina era isolada, que o lado de terra era rodeado por' uma vedação antifuracões com quase 5 m, perfeitamente iluminada. Ou que dois homens altos com caçadeiras de canos serrados guarneciam o portão e patrulhavam os cais.

 

Kabakov conduziu durante 800 m pelo carreiro sinuoso, através dos arbustos, com o barco alugado a balouçar no reboque, atrás dele. Parou o carro num pequeno bosque e subiu para um outeiro onde Moshevsky se encontrava deitado com dois pares de binóculos.

 

- Continua a bordo - disse o grandalhão. - Há pulgas nesta maldita areia.

 

Com os binóculos, Kabakov observou os três cais compridos que se projectavam no lago Worth. Havia um guarda no cais mais afastado, a caminhar devagar, com o chapéu atirado para trás. Toda a marina tinha um aspecto sinistro, de dinheiro rápido. Kabakov podia imaginar o que aconteceria se apresentassem um mandado ao portão. Seria dado o alarme e tudo o que estivesse ilegal em qualquer barco iria borda fora. Tinha de haver alguma pista a bordo do barco de Sapp. Ou na cabeça de Sapp. Uma coisa que o iria conduzir aos Árabes.

 

- Está a sair - disse Moshevsky.

 

Kabakov focou o barco verde atracado, de popa, na fila de barcos do cais central. Sapp saiu pela escotilha do convés de proa e fechou-a atrás de si. Estava vestido para jantar. Saltou da proa para um coco e afastou-se bem do seu barco até um lugar vago e, depois, subiu para o cais.

 

- Por que razão não se limitou a percorrer o barco e a pular para o cais? - murmurou Moshevsky, baixando os binóculos e esfregando os olhos.

 

- Porque a maldita engenhoca está armadilhada - respondeu Kabakov, desanimado. - Vamos buscar o nosso barco.

 

Kabakov nadava devagar na escuridão, sob o cais, tacteando à frente em busca das estacas. As teias de aranha que pendiam das tábuas que se encontravam por cima passavam-lhe pelo rosto e, a julgar pelo cheiro, devia haver um peixe morto por perto. Parou, abraçado a uma estaca que não conseguia ver, os pés agarrando-se aos limos ásperos que revestiam a estaca debaixo de água. Entrava alguma luz sob as bordas do cais comprido e conseguia ver as formas escuras e quadradas dos iates a motor atracados de proa contra ele.

 

Contara sete do lado direito. Faltavam-lhe seis. Cerca de 50 centímetros mais acima, a face inferior do cais estava crivada de pontas de pregos onde as tábuas haviam sido pregadas. A maré cheia devia ser tramada para a sua cabeça. Uma aranha correu-lhe pelo pescoço e mergulhou para a afogar. A água sabia a gasóleo.

 

Kabakov ouviu uma gargalhada de mulher e o tilintar do gelo num copo. Puxou o seu saco de equipamento mais para cima, nas costas, e continuou a nadar. Devia ser ali. Contornou um emaranhado de cabos ferrugentos e parou mesmo por debaixo da beira do cais, com a popa do barco erguendo-se, negra, acima dele.

 

Aqui, o ar não era tão abafado e respirou fundo enquanto olhava para o mostrador luminoso do seu relógio. Haviam passado quinze minutos desde que Moshevsky passara com o barco a motor pela extremidade da marina, do lado do mar, e ele se deixara escorregar pelo lado. Esperava que Sapp demorasse a comer a sobremesa.

 

O homem tinha uma espécie de sistema de alarme. Ou um revestimento sensível à pressão na carlinga aberta da popa ou algo mais sofisticado. Kabakov nadou ao longo da popa até encontrar o cabo que levava a corrente de 110 volts de terra para o barco. Desligou o cabo da ficha da proa. Se o alarme utilizava energia de terra, agora estava inoperante. Ouviu pegadas e deslizou novamente para debaixo do cais. O andar pesado passou sobre a sua cabeça, deixando-lhe cair uma chuvada de saibro no rosto.

 

Não, decidiu, se havia um sistema de alarme seria independente da energia de terra. Não iria entrar pela popa. Entraria da mesma forma que Sapp saíra.

 

Kabakov nadou ao longo do casco até à escuridão sob a proa curvada para fora. Dois cabos de amarração, bambos para se adaptarem à maré, estendiam-se da proa para as estacas de ambos os lados do barco. Kabakov içou-se a pulso, até conseguir fechar os braços em redor do pontalete que suportava o corrimão de proa. Podia espreitar para dentro da cabina do iate do lado. Um homem e uma mulher estavam sentados num sofá, vendo-se-lhes a parte detrás das cabeças. Estavam na marmelada. A cabeça da mulher desapareceu. Kabakov subiu para o convés de proa e deitou-se contra o pára-brisas, com a cabina a encobri-lo em relação ao cais. O pára-brisas estava preso com ganchos e perfeitamente fechado. Lá estava a escotilha.

 

Com uma chave de parafusos, retirou a janela de plástico grosso que ficava no centro. O buraco tinha largura suficiente para o seu braço.

 

Esticando-o para dentro, girou a fechadura e apalpou as arestas da escotilha até encontrar os contactos do sensor de alarme anti-roubo. O seu cérebro estava a ver as ligações eléctricas enquanto os seus dedos procuravam os fios no tecto almofadado. O interruptor ficava no rebordo e era mantido aberto por um magneto colocado na escotilha. - Solta o magneto e mantém-no no lugar, no interruptor. Não o deixes cair! Abre a escotilha devagar. Não toques, não toques, não toques.

 

Deixou-se cair na escuridão da cabina de proa e fechou a escotilha, repondo a janela e o magneto.

 

Kabakov sentia-se bem. Perdera algum do travo azedo deixado pela derrota em casa de Muzi. Com a lanterna, descobriu a caixa de circuito do alarme e desligou-a do seu cacho de pilhas secas. Sapp fazia ligações impecáveis. Um temporizador permitia-lhe ir-se embora sem ligar o alarme e um interruptor magneto-sensível contra o revestimento do barco permitia-lhe entrar.

 

Agora, Kabakov podia mexer-se por ali. Uma busca rápida na cabina de proa não revelou nada fora de vulgar, exceptuando uma onça de cocaína cristalizada de alta qualidade e uma colher de coca para snifar.

 

Desligou a lanterna e abriu a escotilha que conduzia à cabina principal. As luzes da doca que brilhavam através das vigias proporcionavam alguma iluminação. De súbito, a Parabellum de Kabakov estava empunhada e armada, com o gatilho apertado quase até ao ponto de disparo.

 

Havia algo a mexer-se na cabina. Viu-o de novo, um movimento pequeno e repetitivo e, de novo, uma escuridão bruxuleante contra a vigia. Kabakov estendeu-se na escada de tombadilho para o movimento realçar contra a luz. Sorriu. Era a pequena surpresa de Sapp para o intruso que viesse a bordo da doca, um scanner electrónico de um tipo novo e caro. Varria constantemente a carlinga, pronto para fazer soar o alarme. Kabakov aproximou-se por detrás e desligou o interruptor.

 

Durante uma hora, revistou o barco. Num compartimento escondido, perto da roda de leme, encontrou uma metralhadora FN belga e um revólver. Mas não havia nada que provasse que Sapp ou o barco de Sapp tivessem estado implicados no transporte do explosivo plástico. Foi na estante das cartas que encontrou o que procurava. Uma batida na proa interrompeu-o. O coco. Sapp estava de volta. Kabakov deslizou para a cabina da proa e espremeu-se para dentro da ponta estreita. A escotilha abriu-se, acima dele. Apareceram uns pés e, em seguida, umas pernas. A cabeça de Sapp ainda estava fora da escotilha quando o calcanhar de Kabakov lhe bateu no diafragma.

 

Sapp recuperou a consciência para dar consigo amarrado de pés e mãos, num dos dois beliches, com uma meia enfiada na boca. Uma lanterna dependurada do tecto produzia uma luz amarela e um forte cheiro a petróleo. Kabakov estava sentado no beliche oposto fumando um cigarro e limpando as unhas com o picador de gelo de Sapp.

 

- Boa noite, Sr. Sapp. Tem as ideias claras ou tenho de lhe atirar com alguma água para cima? Tudo bem? A 12 de Novembro, trouxe um carregamento de explosivo plástico de um cargueiro, ao largo da costa de Nova Jérsia. Quero saber quem estava consigo e onde está o plástico. Não tenho mais nenhum interesse por si.

 

"Se me disser, não lhe acontece nada de mal. Se o não fizer, vou deixá-lo pior do que morto. Vou deixá-lo cego, mudo e aleijado. Tenho de o magoar agora para demonstrar que estou a falar a sério? Penso que não. Agora, vou retirar esta meia da sua boca. Se gritar, dou-lhe uma razão para gritar, percebe?

 

Sapp assentiu com a cabeça. Cuspiu uns fios:

 

- Quem é você?

 

- Isso não lhe diz respeito. Fale-me do plástico.

 

- Não sei nada disso. Não tem nada contra mim.

 

- Não pense em termos legalistas, Sr. Sapp. A lei não o protege de mim. A propósito, as pessoas para quem trabalhou não têm ligações com o crime organizado. Não tem de as proteger por essa razão.

 

Sapp não disse nada.

 

- O FBI anda à sua procura por causa de contrabando. Em breve irão acrescentar à lista o assassínio em massa. É uma data de plástico, Sapp. Vai matar uma data de gente se me não disser onde se encontra. Olhe para mim enquanto falo consigo.

 

- Vá levar na peida.

 

Kabakov levantou-se e enfiou de novo a meia na boca de Sapp. Agarrou-o pelo cabelo e empurrou-lhe a cabeça contra a cabeceira do beliche de madeira. A ponta do picador de gelo estava encostada suavemente ao canto do olho em movimento de Sapp. Um grunhido saiu do peito de Kabakov enquanto ele fez recuar o picador e atacou, pregando a orelha de Sapp ao beliche. A cor desaparecera do rosto de Sapp e havia um odor desagradável na cabina.

 

- Tem mesmo de olhar para mim quando estou a falar consigo

- disse Kabakov. - Está disposto a cooperar? Pisque os olhos, se for sim. Morra, se for não.

 

Sapp piscou os olhos e Kabakov retirou a meia.

 

- Não fui. Não sabia que era plástico.

 

Kabakov acreditava que isso podia ser verdade. Sapp era mais baixo do que o homem descrito pelo imediato do Leticia.

 

- Mas o seu barco foi.

 

- Sim. Não sei quem o levou. Não! Sinceramente, não sei. Olhe, o meu negócio é não saber. Não queria saber.

 

- Como foi contactado?

 

- Um homem telefonou-me, na última semana de Outubro. Queria o barco pronto, às ordens, durante a semana de 8 de Novembro. Não disse quem era e não perguntei. - Sapp fez uma careta de dor.

- Queria saber algumas coisas sobre o barco, não muitas. Horas de utilização dos motores, se tinha electrónica recente.

 

- Electrónica recente?

 

- Sim, disse-lhe que o sistema de localização de radar e rádio não funcionava... Pelo amor de Deus, tire-me esta coisa da orelha.

 

- Muito bem. Espeto-lha na outra se o apanhar numa mentira. Esse homem que lhe telefonou já conhecia o barco?

 

- Ufa! - Sapp virou a cabeça de um lado para o outro e levantou os olhos bem para cima, como se pudesse ver a orelha. - Julgo que conhecia o barco, falava como se assim fosse. Estava disposto a pagar 1000 se estivesse disponível, como sinal. Recebi os 1000 dólares pelo correio, no Sweeney, em Asbury Park, dois dias mais tarde.

 

- Tem o sobrescrito?

 

- Não, era um sobrescrito vulgar, carimbo de Nova Iorque.

 

- Telefonou-lhe de novo.

 

- Sim, perto de 10 de Novembro. Queria o barco para 12, uma terça-feira. O dinheiro foi entregue no Sweeney, nessa noite.

 

- Quanto?

 

- 2000 pelo barco, 65 000 de depósito. Tudo em contado.

 

- Como foi entregue?

 

- Um táxi trouxe um cesto de piquenique. A comida vinha por cima. Uns minutos mais tarde, o telefone tocou de novo. Era o gajo. Disse-lhe onde podia ir buscar o barco.

 

- Nunca o viu ir buscar ou devolver o barco?

 

- Não. - Sapp descreveu o hangar no Toms River.

 

Kabakov tinha a fotografia de Fasil e o retrato-robô da rapariga dentro de uma luva de borracha, no saco. Retirou-os. Sapp abanou a cabeça perante as duas fotografias.

 

- Se pensa que fui no barco, tenho um álibi para esse dia. Um dentista de Asbury Park arranjou-me os dentes. Tenho um recibo.

 

- Espero que sim - retorquiu Kabakov. - Há quanto tempo tem o barco?

 

- Há muito. Oito anos.

 

- Alguns donos anteriores?

 

- Mandei-o construir.

 

- Como devolveu o depósito?

 

- Deixei-o no mesmo cesto na mala do meu carro, junto a um supermercado, e pus a chave da mala debaixo do tapete do carro. Alguém o foi buscar.

 

A carta da costa de Nova Jérsia que Kabakov encontrara na estante de cartas de Sapp tinha a rota para o local de encontro marcada com uma linha preta nítida, hora de partida e anotações do tempo de viagem rabiscadas ao lado. As coordenadas de dois pontos de orientação de rádio também estavam escritas a lápis. Três coordenadas para cada ponto.

 

Kabakov segurou na carta pelas bordas, sob a lanterna, num local onde era visível para Sapp.

 

- Fez estas marcas na carta?

 

- Não. Não sabia que estava no barco, senão tinha-me visto livre dela.

 

Kabakov tirou outra carta da estante, uma carta da Florida.

 

- Traçou a rota nesta?

 

- Sim.

 

Comparou as duas cartas. A caligrafia de Sapp era diferente. Usara apenas duas coordenadas para um ponto RDF As horas de Sapp estavam escritas na hora da costa leste. A hora do encontro com o Leticia, rabiscada na carta de Nova Jérsia, era 21.15. Isso intrigava Kabakov. Sabia que o barco da Guarda Costeira avistara a lancha rápida perto do cargueiro às 17 h, hora da costa leste. O barco já lá devia estar há alguns minutos, carregando o plástico, e, por isso, o encontro era cerca das 16.15 h ou 16.30 h. No entanto, estava marcado na carta para cinco horas depois. Porquê?

 

A hora de partida de Toms River e as verificações do tempo de viagem também estavam anotadas cerca de cinco horas mais tarde do que tinham acontecido. Não fazia sentido. E, de repente, fazia sentido - o homem que Kabakov procurava não utilizara a hora da costa leste, utilizara o tempo médio de Greenwich - a hora dos pilotos!

 

- Que aviadores conhece? - perguntou Kabakov. - Pilotos profissionais.

 

- Não conheço nenhuns pilotos profissionais de que me consiga lembrar - retorquiu Sapp.

 

- Pense bem.

 

- Talvez um tipo na Jamaica, que tinha um brevet comercial. Mas tem estado de cana lá em baixo desde que os bófias aspiraram o compartimento de bagagem dele. É o único piloto profissional que conheço. Tenho a certeza.

 

- Não conhece pilotos, não sabe quem lhe alugou o barco. Sabe muito pouco, Sr. Sapp.

 

- Não conheço. Não me consigo lembrar de nenhum piloto. Olhe, pode rebentar comigo, é provável que o faça, mas continuarei a não saber.

 

Kabakov pensou em torturar Sapp. A ideia repugnava-lhe, mas fá-lo-ia se pensasse que os resultados compensariam. Não. Sapp não era parte activa na conspiração. Ameaçado de procedimento criminal, temendo que pudesse ser cúmplice numa atrocidade importante envolvendo explosivos, tentaria cooperar. Tentaria lembrar-se de qualquer pequeno pormenor que pudesse identificar o homem que lhe alugara o barco. Era melhor não o magoar muito por agora.

 

O passo seguinte seria um interrogatório intensivo a Sapp acerca das suas actividades e sócios e uma análise laboratorial exaustiva da carta. O FBI estava melhor equipado para fazer essas coisas. Kabakov fizera uma grande viagem para pouca coisa.

 

Telefonou a Corley de uma cabina telefónica do cais.

 

Sapp não mentira conscientemente a Kabakov, mas estava enganado ao afirmar que não conhecia pilotos profissionais. Era um lapso de memória compreensível - haviam passado anos desde a última vez em que vira Michael Lander ou pensara no dia temível e aborrecido do seu primeiro encontro.

 

Sapp estava na sua migração sazonal para norte quando um tronco flutuante lhe estropiara as duas hélices ao largo de Manasquan, N. J., obrigando-o a parar. Sapp era forte e capaz, mas não conseguia mudar uma hélice empenada e torcida em mar aberto e com correntes. O barco derivava devagar em direcção à costa, arrastando a âncora à frente de um vento que soprava incansavelmente. Não podia chamar a Guarda Costeira, porque iriam cheirar o mesmo fedor que o nauseava enquanto descia para ir buscar a sua âncora de tempestades - o cheiro de peles de aligátor, no valor de 5500 dólares, que comprara a um caçador furtivo da Florida e que se destinavam ao mercado negro, em Nova Iorque. Quando Sapp regressou ao convés, viu um barco que se aproximava.

 

Michael Lander, que saíra com a família num pequeno cruzeiro, atirou um cabo a Sapp e rebocou-o até uma enseada abrigada. Sapp, que não pretendia ficar retido numa marina com um barco avariado carregado de peles ilegais, pediu a Lander que o ajudasse. Utilizando máscaras, respiradores e barbatanas, trabalharam debaixo do barco e a sua força combinada foi suficiente para retirar uma hélice do eixo e montar a sobresselente. Sapp podia ir a manquejar para casa.

 

- Desculpe o cheiro - dissera Sapp, pouco à vontade, enquanto estavam sentados à popa, a descansar. Dado que Lander estivera lá em baixo, no decurso do trabalho, não pudera deixar de ver as peles.

 

- Não tenho nada que ver com isso - respondera Lander.

 

O incidente deu início a uma amizade casual que terminou quando Lander regressou ao Vietname, para a sua segunda comissão. A amizade de Sapp com Margaret Lander continuara, no entanto, durante alguns meses depois disso. Nas raras ocasiões em que pensava nos Lander, era a mulher que Sapp recordava mais claramente, e não o piloto.

capítulo dezassete

 

A 1 de Dezembro, o Presidente informou o seu chefe de gabinete de que iria mesmo assistir à Supertaça, em Nova Orleães, quer os Washington Redskins jogassem, quer não.

 

- Raios - disse Earl Biggs, agente especial encarregado do destacamento dos Serviços Secretos da Casa Branca. Disse isso baixinho e quando se encontrava só. Não estava surpreendido - o Presidente dissera anteriormente que era provável que assistisse -, mas Biggs tivera esperanças de que a viagem fosse cancelada.

 

Já deveria saber que não valia a pena ter esperanças, pensou Biggs. A lua-de-mel entre o homem e a nação acabara e ele começara a escorregar um pouco nas sondagens, mas teria a certeza de receber uma ovação de pé no Sul Profundo, com todo o mundo a assistir.

 

Biggs discou o número da Secção de Pequisa de Protecção dos Serviços Secretos:

 

- 12 de Janeiro. Nova Orleães - disse. - Ponham-se ao trabalho.

 

A Secção de Pesquisa de Protecção tem três níveis de arquivos. O maior contém todas as ameaças que foram feitas a um Presidente pelo telefone e pelo correio ou afirmações registadas nos últimos 40 anos. Pessoas que fizeram ameaças repetidas ou que são consideradas potencialmente perigosas constam do "ficheiro vivo".

 

Os ficheiros vivos são verificados de seis em seis meses. Mudanças de endereço e de situação profissional e viagens internacionais são anotadas. De momento, existem 840 nomes no ficheiro vivo.

 

Desses, 325, considerados muito graves, encontram-se inseridos também num "ficheiro de viagem", organizado geograficamente. Antes de cada viagem presidencial, as pessoas registadas na área implicada são investigadas.

 

Com 43 dias de antecedência, os funcionários da Pesquisa de Protecção e os agentes em campo tinham muito tempo para verificar Nova Orleães.

 

Lee Harvey Oswald nunca constou do ficheiro de viagem dos Serviços Secretos. Nem Michael Lander.

 

A 3 de Dezembro, três agentes do destacamento dos Serviços Secretos da Casa Branca foram enviados para Nova Orleães, para se encarregarem dos preparativos de segurança. Quarenta dias de antecedência e uma equipa de três homens são o procedimento-padrão desde

  1. A 7 de Dezembro, Jack Renfro, chefe do destacamento de três homens, mandou um relatório preliminar para a Casa Branca, dirigido a Earl Biggs.

 

Renfro não gostava do Tulane Stadium. Sempre que o Presidente aparecia em público, Renfro sentia a possibilidade do perigo a rastejar-lhe pela pele. O estádio, sede da Tulane's Green Wave, do Sugar Bowl Classic e dos New Orleans Saints, é o maior estádio de aço do mundo. É cinzento ferrugento e castanho e a zona sob as bancadas é uma selva de vigas mestras e traves, onde uma busca se torna um pesadelo. Renfro e os outros dois agentes dos Serviços Secretos passaram dois dias a trepar pelo estádio. Quando Renfro saiu para o campo, cada um dos 80 985 lugares sentados era uma ameaça para ele. O camarote envidraçado para os VIP, no topo do lado oeste do estádio, no final da galeria da imprensa, era inútil. Sabia que o Presidente nunca aceitaria utilizá-lo, mesmo que o tempo estivesse agreste. Ninguém o veria, se ali estivesse. Utilizaria o camarote VIP, à frente da bancada oeste, na linha dos 50 m. Renfro ficou sentado no camarote durante horas. Colocou lá um membro do departamento de polícia de Nova Orleães durante um dia inteiro, enquanto ele e os outros dois agentes verificavam os ângulos de visão de várias posições nas bancadas. Inspeccionou pessoalmente a nata da Brigada de Acontecimentos Especiais do departamento de polícia de Nova Orleães - os agentes que seriam enviados para o estádio.

 

Experimentou percursos do Aeroporto Internacional de Nova Orleães até ao estádio pela U. S. 61, a Auto-Estrada Estadual 3046, e a U. S. 90 e uma combinação da Interestadual 10 e a secção da Avenida Claiborne que fazia parte da U. S. 90. Todos os percursos pareciam intermináveis, sobretudo tendo em vista os conhecidos problemas de trânsito na zona do estádio.

 

A avaliação preliminar que Renfro mandou ao agente especial Biggs, da Casa Branca, dizia, entre outras coisas:

 

Sugiro que recomendemos, veementemente, que o Presidente seja transportado de helicóptero entre o Aeroporto Internacional de Nova Orleães e o estádio, de acordo com o seguinte procedimento:

 

  1. Será organizado um cortejo automóvel que ficará no aeroporto, mas que será usado por membros menos importantes da comitiva;

 

  1. Não será desenhada qualquer zona de aterragem de helicóptero no estádio enquanto o helicóptero do Presidente não tiver levantado voo do Aeroporto Internacional de Nova Orleães. Nessa altura, um marcador de aterragem portátil, em tecido, será colocado na extremidade sul do campo, na pista exterior, ao lado do canto noroeste do estádio. (Ver o diagrama anexo A-1.) A pista não tem fios suspensos e constitui uma área limpa para aterragem no campo, mas tem três grandes holofotes de cada lado. Esses holofotes não aparecem no mapa de secção e de terminais VFR de Nova Orleães. A sua presença deve ser realçada durante as instruções dadas ao piloto;

 

  1. Do local de aterragem até ao portão 19 vão 100 passos. (Ver a fotografia anexa A-2.) Pedi que fosse retirado o caixote de lixo inestético indicado junto à parede do estádio. Sugiro que os agentes em campo verifiquem os arbustos da orla do estádio à hora Zero menos um minuto.

 

A área de aterragem pode ser vigiada dos andares superiores recuados de cinco casas de Audubon Boulevard. São os números 49, 55, 65, 71 e 73. A verificação preliminar indica que são todas ocupadas por cidadãos considerados ameaça zero. No entanto, os telhados e janelas deveriam ser observados durante a chegada.

 

Caso haja uma multidão nas bilheteiras do portão 19 aquando da chegada do Presidente, deverão ser utilizados o portão 18 e a bilheteira 18-A, mas são consideravelmente menos desejáveis, porque implicariam uma pequena passagem por debaixo das bancadas.

 

A partir do portão 19, o Presidente ficaria exposto em relação à zona debaixo das bancadas durante 75 passos, até atingir a linha lateral, junto à linha das balizas.

 

O presidente vai utilizar o camarote 40, um camarote duplo na linha de 50 m. (Ver o diagrama anexo A-3.) De notar que os parapeitos permitem acesso pela frente e por trás. De notar também que a traseira do camarote é elevada 15 centímetros por meio de um degrau. Os agentes altos sentados atrás do Presidente no camarote 40 proporcionariam uma protecção considerável a partir de trás. Os camarotes dos Serviços Secretos serão os números 14 e 13, em frente ao camarote presidencial, à esquerda e à direita. Deveria haver pelo menos um agente em cada um dos camarotes 71, 70, 69 e 68, atrás.

 

O parapeito do camarote 40 é feito de tubo de ferro. As extremidades estão tapadas. Deverão ser destapadas e o interior dos canos examinado imediatamente antes da chegada do Presidente.

 

O camarote dispõe de uma caixa de terminal telefónico. Vou comunicar os pormenores ao Corpo de Transmissões. (Memorando para as Transmissões em anexo.) O diagrama A-4, vista do estádio e planta das bancadas, mostra a colocação e áreas de responsabilidade de cada agente.

 

A nossa frequência de rádio está livre.

 

Os pormenores da saída estão sujeitos a modificação, dependendo da nossa observação do fluxo da multidão no jogo da Supertaça, em 31 de Dezembro.

 

Jack Renfro era um homem cuidadoso e consciencioso, perito na sua profissão. Conhecia o estádio de cor. Mas ao catalogar os seus perigos nem uma vez olhara para o céu.

 

Lander terminou a bomba dois dias depois do Natal. O seu revestimento lustroso, azul-escuro e com a insígnia do National Broadcasting System, reflectia a luz crua da garagem enquanto se encontrava pousado no seu carrinho de carga. Os ganchos que a iriam prender à gôndola do dirigível pendiam da orla superior como mãos abertas e as ligações eléctricas e o detonador de reserva estavam presos em bobinas limpas, em cima. Dentro do revestimento, os mais de 650 kg de explosivo plástico estavam colocados em duas grandes lajes de espessura perfeita, curvadas por detrás das camadas de dardos perfurantes. Os detonadores estavam guardados à parte, prontos para serem inseridos nos seus lugares.

 

Lander estava sentado a olhar fixamente para a grande bomba. Conseguia ver-se reflectido no seu flanco. Pensou que, agora, gostaria de se sentar em cima dela e ligar os detonadores e segurar os fios como se fossem rédeas, encostá-los à bateria e cavalgar a poderosa explosão até ao rosto de Deus. Ainda faltavam dezasseis dias.

 

O telefone estava a tocar havia algum tempo quando o atendeu. Dahlia estava a ligar de Nova Orleães.

 

- Acabei - disse Lander.

 

- Michael, fizeste um belo trabalho. É um privilégio observar-te.

 

- Arranjaste a garagem?

 

- Sim. Fica perto do cais da Galvez Street. A vinte minutos do Aeroporto de Lakefront, em Nova Orleães. Já fiz o percurso duas vezes.

 

- Tens a certeza de que é suficientemente grande?

 

- É suficientemente grande. É uma secção, dividida por uma parede, de um armazém. Comprei os cadeados e instalei-os. Agora, posso voltar para junto de ti, Michael?

 

- Estás contente?

 

- Estou contente.

 

- Inclusive com o aeroporto?

 

- Sim. Não tive qualquer dificuldade para entrar. Quando chegar a altura, vou conseguir fazê-lo com o camião.

 

- Vem para casa.

 

- Vejo-te ainda hoje, mais tarde.

 

Fez bem, pensou Lander, enquanto desligava o telefone. No entanto, teria preferido fazer ele próprio os preparativos em Nova Orleães. Não houvera tempo. Ainda tinha de sobrevoar o jogo de desempate da National Football Conference e a Sugar Bowl, em Nova Orleães, antes da Supertaça. O seu tempo estava tomado.

 

O problema de levar a barquinha para Nova Orleães preocupara-o e a solução que encontrara era quase ideal. Alugara um camião de

2,5 toneladas, que agora se encontrava no caminho de acesso a sua casa, e contratara dois motoristas profissionais de camião para o conduzirem até Nova Orleães. Partiriam no dia seguinte. A parte traseira do camião estaria selada e, mesmo que os motoristas vissem o dispositivo, não saberiam do que se tratava.

 

De qualquer forma, pôr a bomba nas mãos de estranhos causava um certo desconforto a Lander. Mas não havia forma de o evitar. Fasil e Dahlia não podiam conduzir o camião. Lander tinha a certeza de que as autoridades tinham transmitido as suas descrições no Nordeste. Era inevitável que a carta de condução internacional falsificada de Fasil atraísse as atenções, caso fosse mandado parar pela polícia. Dahlia seria muito conspícua ao volante de um grande camião. Seria comida com os olhos a cada instante. Ademais, Lander queria que Dahlia estivesse com ele.

 

Se pudesse ter confiado em Fasil para ir a Nova Orleães, Dahlia estaria ali nesse momento, pensou Lander, amargamente. Não tinha confiança em Fasil desde que o árabe anunciara que não iria estar presente no golpe. Lander adorara o desprezo por Fasil que brilhara no olhar de Dahlia. Fasil saíra pretensamente para procurar forças para serem utilizadas no aeroporto - Dahlia fizera de maneira a que ele e Lander não ficassem juntos em casa.

 

Da lista de materiais de Lander ainda constava um artigo - um encerado para ser atado por cima da barquinha. Eram 4.45 h da tarde. A loja de ferramentas ainda estava aberta. Tinha tempo para lá chegar.

 

Vinte minutos mais tarde, Margaret Feldman, ex-Margaret Lander, parou a sua carrinha Dart ao lado do grande camião, no caminho de acesso à casa de Lander. Ficou sentada durante um momento, a olhar para a casa.

 

Era a primeira vez que a via desde o seu divórcio e segundo casamento. Margaret sentira algumas reservas quanto a vir, mas o berço de vime e o carrinho de bebé eram seus por direito próprio, iria precisar deles dentro de alguns meses e tencionava ficar com eles. Telefonara antes para se assegurar de que Michael não estava em casa. Não queria vê-lo a gritar com ela. Antes de se ter ido abaixo, fora um homem forte e orgulhoso e, à sua maneira, ainda tinha um grande afecto pela recordação desse homem. Tentara esquecer o seu comportamento doente no final. Ainda sonhava com o gatinho, ainda o ouvia durante o sono.

 

Margaret olhou pensativamente para o seu espelho compacto, ajeitando o cabelo louro e verificando se tinha bâton nos dentes, antes de sair do carro. Fazia tanto parte da sua rotina como girar a chave de ignição. Esperava não se sujar ao carregar o berço de vime e o carrinho no automóvel. Na verdade, Roger devia ter vindo com ela, mas ele não achava correcto ir a casa de Lander quando este lá não estava.

 

Roger nem sempre pensara assim, pensou, com secura. Por que razão Michael tentara lutar? De qualquer forma, acabara.

 

Enquanto calcava a fina camada de neve do caminho de acesso, Margaret descobriu que a fechadura da garagem fora substituída por uma nova e mais forte. Decidiu percorrer a casa e abri-la do interior. A sua chave antiga ainda abria a porta da frente. Tencionara ir directamente até à garagem, mas, quando se viu dentro de casa, a sua curiosidade despertou.

 

Olhou em volta. Havia a nódoa familiar em frente à televisão, um resíduo dos inúmeros derramamentos do refresco que as crianças bebiam. Nunca conseguira limpá-la, mas a sala estava limpa, o mesmo acontecendo com a cozinha. Margaret esperara um monte de latas de cerveja e tabuleiros de jantar. Estava um pouco intrigada com a limpeza da casa.

 

Há uma excitação culposa em estar-se só na casa de outra pessoa, sobretudo em casa de uma pessoa que nos é familiar. Pode descobrir-se muito através da arrumação dos pertences de alguém e, quanto mais íntimos forem esses pertences, melhor. Margaret subiu as escadas.

 

O seu antigo quarto de cama disse-lhe pouco. Os sapatos de Lander encontravam-se alinhados dentro do armário, a mobília tinha pó. Ficou de pé a olhar para a cama e sorriu intimamente. Roger ficaria zangado se soubesse em que é que ela estava a pensar, em que pensava por vezes, mesmo com ele.

 

O quarto de banho. Duas escovas de dentes. Uma ruga ténue apareceu entre os olhos de Margaret. Uma touca de duche. Cremes para o rosto, loção corporal, banho de espuma. Ora, ora. Agora, sentia-se feliz por ter violado a privacidade de Lander. Perguntava-se qual seria o aspecto da mulher. Queria ver o resto das coisas dela.

 

Experimentou o outro quarto de cama e, depois, abriu a porta do quarto de brinquedos. Margaret ficou de olhos esbugalhados, fixos na lamparina de álcool, nas cortinas da parede, nos candelabros e na grande cama. Dirigiu-se ao leito e tocou na almofada. Ora, olarilolél, disse de si para consigo.

 

- Olá, Margaret - cumprimentou Lander.

 

Ela virou-se, sobressaltada. Lander estava de pé, na soleira da porta, com uma mão na maçaneta e a outra no bolso. Estava pálido.

 

- Estava apenas...

 

- Tens bom aspecto.

 

Era verdade. Estava esplêndida. Já a vira dentro daquele quarto, no seu espírito. Gritando por ele como Dahlia, tocando-o como Dahlia. Lander sentiu uma dor cava dentro de si. Desejava que Dahlia ali estivesse. Ao olhar para a ex-mulher, tentava ver Dahlia, precisava de ver Dahlia. Via Margaret. Em seu redor, o ar ficava mais brilhante.

 

- Pareces estar bem... isto é, estás com bom aspecto, também, Michael. Eu... devo dizer que não esperava isto. - A sua mão fez um gesto em redor do quarto.

 

- Que esperavas? - O seu rosto estava coberto de suor. Oh, as coisas que redescobrira naquele quarto não importavam a Margaret.

 

- Michael, preciso das coisas de bebé. Do berço e do carrinho.

 

- Estou a ver que o Roger te emprenhou. Estou a dar-te o benefício da dúvida, é claro.

 

Ela sorriu, irreflectidamente, apesar do insulto, tentando deixar passar o momento, tentando escapar. Para Lander, aquele sorriso queria dizer que ela achava que a infidelidade era engraçada, uma piada com que ambos podiam rir. Trespassou Lander como um atiçador em brasa.

 

- Posso ir buscar as coisas à garagem. - Dirigiu-se para a porta.

 

- Já lá foste procurá-las? - Mostra-lhe. Mostra-lhe e mata-a.

 

- Não, ia agora mesmo...

 

- O berço e o carrinho não estão aqui. Pu-los num armazém. Os pardais entram na garagem e sujam tudo. Mando entregar-tos. - Não.' Leva-a à garagem e mostra-lhe. E mata-a.

 

- Obrigada, Michael. Isso seria simpático.

 

- Como estão as miúdas? - A sua voz parecia-lhe estranha.

 

- Óptimas. Passaram um bom Natal.

 

- Gostam do Roger?

 

- Sim, ele é bom para elas. Gostavam de te ver, de vez em quando. Perguntam por ti. Vais mudar-te? Vi o camião no caminho de acesso e pensei...

 

- A do Roger é maior do que a minha?

 

- O quê?

 

Agora, não podia parar.

 

- Maldita puta. - Dirigiu-se a ela. Tenho de parar.

 

- Adeus, Michael. - Ela desviou-se para o lado, em direcção à porta.

 

A pistola que tinha no bolso queimava-lhe a mão. Tenho de parar. Estarei perdido. Dahlia disse é um privilégio observar-te. Dahlia disse Michael foste tão forte hoje. Dahlia disse Michael adoro fazer isto para ti. Fui o teu primeiro, Margaret. Não. As marcas vermelhas de elástico à esquerda nas tuas ancas. Não penses. Dahlia em breve estará em casa, em breve em casa, em breve em casa. Não posso... Clique.

 

- Desculpa ter dito isso, Margaret. Não o devia ter feito. Não é verdade, e estou arrependido.

 

Ela continuava assustada. Queria ir-se embora. Podia aguentar mais um segundo.

 

- Margaret, há uma coisa que tenho andado a pensar em enviar-te. Para ti e para o Roger. Espera, espera. Agi mal. É importante para mim que não estejas zangada. Ficarei preocupado se estiveres zangada.

 

- Não estou zangada, Michael. Tenho de me ir embora. Tens ido ao médico?

 

- Sim, sim. Estou bem, foi apenas um choque, ver-te. - As suas próximas palavras sufocavam-no, mas obrigou-as a sair. - Tive saudades tuas e fiquei apenas perturbado. É tudo. Espera um instante. - Dirigiu-se rapidamente à secretária do seu quarto e, quando saiu, Margaret estava a descer as escadas. - Toma, quero que fiques com eles. Leva-os e diverte-te e não fiques zangada.

 

- Está bem, Michael. Adeus. - Pegou no sobrescrito.

 

Parou junto à porta e virou-se de novo para ele. Sentia vontade de lhe contar, embora não tivesse bem a certeza porquê. Ele tinha de saber.

 

- Michael, tive pena quando soube o que aconteceu ao teu amigo Jergens.

 

- Que aconteceu ao Jergens?

 

- É aquele que costumava acordar-nos telefonando-te a meio da noite, não é?

 

- Que lhe aconteceu?

 

- Matou-se. Não leste o jornal? O primeiro suicídio de um prisioneiro de guerra, disseram. Tomou uns comprimidos e enfiou um saco de plástico na cabeça - disse. - Tive pena. Lembrei-me de como falavas com ele ao telefone quando não conseguia dormir. Adeus, Michael.

 

Os olhos dela pareciam cabeças de pregos e sentia-se mais leve, sem saber porquê.

 

Quando estava a três quarteirões de distância, parada num semáforo, abriu o sobrescrito que Michael lhe dera. Continha dois bilhetes para a Supertaça.

 

Mal Margaret saiu, Lander correu para a garagem. Estava fora de si. Começou a trabalhar rapidamente, tentando ficar acima dos pensamentos que se levantavam como água negra na sua mente. Avançou com o empilhador alugado, enfiando o garfo debaixo do carrinho que continha a barquinha. Desligou o empilhador e deixou o assento. Estava a concentrar-se em empilhadores. Pensou em todos os empilhadores que vira em armazéns e docas. Pensou nos princípios dos macacos hidráulicos. Saiu e baixou a portinhola traseira do camião. Prendeu a rampa inclinada à traseira do camião. Pensou nas lanchas de desembarque que vira e no modo como se articulavam as suas rampas. Pensou desesperadamente em rampas de carga. Observou a rua. Ninguém estava a ver. De qualquer forma, não tinha importância. Saltou de novo para o empilhador e levantou a barquinha do chão. Com cuidado, desta vez. Era um trabalho delicado. Tinha de pensar nele. Tinha de ser muito cuidadoso. Conduziu o empilhador devagar, subindo a rampa de carga e entrando nas traseiras do camião. As molas do camião rangeram quando recebeu a carga. Baixou o gancho que carregava a barquinha, trancou o travão, calçou firmemente as rodas e imobilizou o empilhador e a barquinha com uma corda forte. Pensou em nós. Conseguia fazer doze nós diferentes. Tinha de se lembrar de colocar uma faca afiada nas traseiras do camião. Quando chegasse a hora, Dahlia poderia cortar as cordas. Não teria tempo para perder com nós. Oh, Dahlia. Vem para casa, estou a afundar-me. Colocou a rampa de carga e o saco que continha o armamento ligeiro dentro do camião e trancou a porta traseira. Estava feito.

 

Vomitou na garagem. Não posso pensar. Dirigiu-se ao armário das bebidas e retirou uma garrafa de vodka. O seu estômago vomitou a bebida. Da segunda vez, ficou lá. Tirou a pistola do bolso e atirou-a para trás do fogão da cozinha, onde não conseguia chegar. A garrafa, uma e outra vez. Já desaparecera metade dela e escorria-lhe pelo peito da camisa, ao longo do pescoço. A garrafa, uma e outra vez. A sua cabeça estava a nadar. Não devo vomitar. Mantém-no em baixo. Estava a chorar. Agora, a vodca estava a atingi-lo. Mais duas semanas e estarei morto. Oh, graças a Deus estarei morto. Todos os outros estarão também. Onde tudo é calmo. E nada o é. Oh, meu Deus, foi tanto tempo. Jergens, tinhas razão em te matar. Jergens! Agora, estava a gritar. Levantou-se e cambaleou até à porta. A chuva fria soprava-lhe no rosto enquanto gritava no pátio. Jergens, tinhas razão! E os degraus das traseiras erguiam-se na sua direcção e rolou para cima da relva morta e da neve e ficou de rosto voltado para cima, à chuva. Um último pensamento, enquanto a consciência se apagava. A água é um bom condutor do calor. Assim o provam 1 milhão de motores e o meu coração frio sobre o solo.

 

Era bastante tarde quando Dahlia pousou a mala na saleta e chamou o seu nome. Procurou-o na garagem e, depois, subiu as escadas.

 

- Michael. - As luzes estavam acesas e a casa fria. Sentiu-se desconfortável. - Michael. - Foi até à cozinha.

 

A porta das traseiras estava aberta. Correu para ela. Quando o viu, pensou que estivesse morto. O rosto estava branco com um tom azulado e o cabelo colado e liso devido à chuva fria. Ajoelhou-se a seu lado e apalpou-lhe o peito através da camisa ensopada. O coração batia. Atirou fora os sapatos de salto alto e arrastou-o em direcção à porta. Podia sentir o solo gelado através das meias. Gemendo com o esforço, arrastou-o pelos degraus acima e para dentro da cozinha. Retirou os cobertores do quarto dos hóspedes e espalhou-os no chão ao lado dele, despiu-lhe as roupas ensopadas e enrolou-o nos cobertores. Esfregou-o com uma toalha áspera e foi sentada a seu lado na ambulância, a caminho do hospital. Ao nascer do dia, a sua temperatura era de mais de

40 graus centígrados. Tinha uma pneumonia viral.

 

O avião da Delta aproximou-se de Nova Orleães sobre o lago Pontchartrain, mantendo uma altitude considerável acima da água e, depois, mergulhou em direcção ao Aeroporto Internacional de Nova Orleães. O mergulho levantou desagradavelmente o estômago de Muhammad Fasil, que praguejou em surdina.

 

Pneumonia! O animalzinho de estimação da mulher embebedara-se e caíra à chuva! O louco estava semidelirante e fraco como um gatinho, a mulher sentada ao lado da sua cama, no hospital, balbuciando expressões de piedade. Pelo menos, encarregar-se-ia de lhe manter a boca fechada em relação à missão. As hipóteses de Lander ser capaz de voar, na Supertaça, daí a quinze dias, eram praticamente nulas, pensava Fasil. Quando aquela mulher teimosa se convencesse finalmente disso, quando visse que Lander nada mais poderia fazer do que vomitar-lhe na mão, matá-lo-ia e juntar-se-ia a Fasil em Nova Orleães. Fasil tinha a sua palavra quanto a isso.

 

Fasil estava desesperado. O camião que transportava a bomba dirigia-se para Nova Orleães de acordo com o plano. Agora, tinha uma bomba, mas não tinha sistema de detonação. Precisava de elaborar um plano alternativo e o local para o fazer era ali, onde o ataque se realizaria. Hafez Najeer cometera um grave erro ao permitir que Dahlia lyad controlasse aquela missão, disse Fasil, de si para consigo, pela centésima vez. Pois bem, já não a controlava. O novo plano seria dele.

 

O aeroporto estava entupido com a multidão que chegava para a Sugar Bowl, o jogo universitário que se realizaria no Tulane Stadium, dentro de três dias. Fasil telefonou para oito hotéis. Estavam todos cheios. Teve de ficar com um quarto na YMCA.

 

O quartinho acanhado era uma despromoção depois do Plaza de Nova Iorque, onde passara a noite anterior - o Plaza, com as bandeiras nacionais dos dignitários estrangeiros penduradas nas fachadas e uma central telefónica habituada a chamadas internacionais. As bandeiras da Arábia Saudita, do Irão e da Turquia tremulavam entre as outras durante a sessão actual das Nações Unidas e as chamadas para o Médio Oriente eram vulgares. Fasil podia ter mantido uma conversa agradável com Beirute, combinando que os pistoleiros se apresentassem em Nova Orleães. Tinha acabado de cifrar a mensagem e estava pronto para fazer a chamada quando foi interrompido por um telefonema de Dahlia, contando-lhe a estúpida derrocada de Lander. Furioso, Fasil rasgara a mensagem para Beirute e deitara-a para a sanita elegante do Plaza.

 

Agora, estava enfiado naquela cela miserável, com o plano a marcar passo. Chegara a altura de estudar o terreno. Fasil nunca vira o Tulane Stadium. Em relação a tudo isso, confiara em Lander. Amargamente, saiu e fez sinal a um táxi.

 

Como podia atacar? Teria o camião. Ainda podia mandar vir um par de pistoleiros. Teria os serviços de Dahlia lyad, mesmo que o infiel dela estivesse de fora. Embora Fasil fosse ateu, pensava em Lander como um infiel, e cuspiu quando murmurou o seu nome.

 

O táxi subiu a via rápida da U. S. 90, por cima da baixa de Nova Orleães, e dirigiu-se para sudoeste, sob o sol da tarde. O motorista mantinha um monólogo constante num dialecto que Fasil mal compreendia.

 

- Estes preguiçosos agora não querem trabalhar. Querem coisas de graça - dizia o motorista. - O miúdo da minha irmã costumava trabalhar comigo quando eu era canalizador, antes de ter rebentado as costas. Na maior parte do tempo não conseguia encontrá-lo. Não se podem fazer canalizações sozinho. Tem de se sair de debaixo da casa demasiadas vezes, não se tem ninguém para nos dar o material. Foi por isso que as minhas costas foram à vida, por estar sempre a rastejar lá de baixo e a sair.

 

Fasil desejava que o homem se calassse. Não se calou.

 

- Aquilo ali é o Superdome, que penso que nunca vão acabar. Primeiro, pensaram que ia custar 168 milhões de dólares e agora são

200 milhões. Todos dizem que Howard Hughes o comprou. Que confusão. Os trabalhadores da laminagem de metal começaram por dar uma volta, e depois...

 

Fasil olhou para o grande bojo do estádio coberto. Estavam a trabalhar nele, embora fosse feriado. Via figuras minúsculas a deslocarem-se nele. Nas fases iniciais da missão temera-se que o Superdome ficasse pronto a tempo para a Supertaça, tornando inútil o dirigível. Mas ainda havia grandes falhas visíveis no telhado. Não que isso agora tivesse a menor importância, pensou Fasil, iradamente.

 

Tomou nota mentalmente para investigar a possibilidade de utilizar gás tóxico em estádios fechados. Poderia ser uma técnica útil, no futuro.

 

O táxi deslocou-se para a faixa de alta velocidade, com o motorista a falar por cima do ombro:

 

- Sabe, iam realizar lá a Supertaça, foi o que pensaram durante algum tempo. Agora, têm um excesso de custos terrível porque a cidade pensa que parece mal, é constrangedor, percebe, não o acabar. Estão a pagar duas vezes e meio para trabalharem aos feriados, sabia? Prepararam um espectáculo depressa para o terem acabado na Primavera. Não me importava de receber uma parte daquelas horas extraordinárias.

 

Fasil ia começar a dizer ao homem que se calasse, mas, depois, mudou de ideias. Se fosse rude, o homem lembrar-se-ia dele.

 

- Sabe o que aconteceu em Houston com o Astrodome. Armaram-se em espertos com os Oilers e agora eles jogam no Rice Stadium. Estes gajos não querem que isso aconteça. Têm de ter os Saints, sabe? Querem que toda gente veja que estão a acabá-lo, a Liga Nacional de Futebol e os outros, e por isso trabalham também aos feriados. Pensa que eu não trabalhava no Natal e no Ano Novo se me pagassem duas vezes e meia? Ha. A velhota podia pôr o sapatinho na chaminé sozinha.

 

O táxi acompanhou a curva da U. S. 90, virando para noroeste, e o motorista ajustou a sua pala. Agora, estavam a aproximar-se da Universidade de Tulane.

 

- Ali, à esquerda, fica o Ursuline College. Que lado do estádio quer, Willow Street?

 

- Sim.

 

A visão do estádio castanho e cinzento, em mau estado, excitou Fasil. Os filmes de Munique passavam na sua mente.

 

Era grande. Fasil lembrou-se da primeira vez em que vira de perto um porta-aviões. Era altíssimo. Fasil saiu do táxi, com a sua máquina fotográfica a bater contra a porta.

 

O portão de sudeste estava aberto. Os empregados de manutenção entravam e saíam na última corrida antes do jogo da Sugar Bowl. Fasil tinha o seu cartão de jornalista preparado e as mesmas credenciais que trouxera no seu voo para os Açores, mas não o mandaram parar. Olhou para os espaços amplos e sombrios sob as bancadas, atravancados de ferros e, depois, foi até ao campo.

 

Era tão grande! O seu tamanho alvoroçou-o. O relvado artificial era novo e os números luziam, brancos, contra o verde. Saltou sobre o relvado e quase recuou. Parecia carne debaixo dos pés. Fasil atravessou o campo, sentindo a presença de filas infindas de lugares. É difícil andar pela área focal de um estádio, mesmo de um estádio vazio, sem se sentir observado. Correu para o lado oeste do campo e subiu as bancadas em direcção aos camarotes da imprensa.

 

Bem acima do campo, a olhar para a curvatura das bancadas, Fasil lembrou-se das curvas condizentes da carga moldada e, a contragosto, sentiu-se impressionado com o génio de Michael Lander.

 

O estádio estendia os seus lados abertos em direcção ao céu, labial, passivo, à espera. O pensamento daquelas bancadas cheias com 80 985 pessoas, mexendo-se nos assentos, as bancadas fervilhantes de vida, encheu Fasil com uma emoção que se aproximava muito da luxúria. Era a abertura suave da Casa da Guerra. Em breve, aqueles lados abertos estariam a abarrotar de pessoas, cheios e à espera.

 

- Quss ummak - murmurou Fasil. É um antigo insulto árabe, que significa "a vulva da tua mãe".

 

Pensou nas diferentes possibilidades. Qualquer explosão dentro ou perto do estádio garantiria títulos de caixa alta em todo o mundo. Os portões não eram verdadeiramente fortes. O camião tinha possibilidades de rebentar com uma das quatro entradas e chegar ao campo antes de a carga explodir. Haveria certamente muitas baixas, mas a maior parte da explosão seria desperdiçada a abrir uma grande cratera no solo. Havia também o problema do trânsito nas ruas pequenas e apertadas que conduziam ao estádio. E se houvesse veículos de socorro estacionados nas entradas? Se o Presidente lá estava, haveria certamente homens armados junto aos portões. E se o motorista fosse abatido antes de conseguir detonar a carga? Quem conduziria o camião? Por certo que não seria ele. Dahlia, então. Tinha coragem para o fazer, isso ninguém punha em dúvida. Depois, elogiá-la-ia postumamente, na sua conferência de imprensa, no Líbano.

 

Talvez um veículo de socorro, uma ambulância, tivesse melhores hipóteses. Podia entrar rapidamente em campo, com a sirene a apitar.

 

Mas a barquinha era demasiado grande para entrar numa ambulância vulgar e o camião que a transportava agora não se parecia nada com um veículo de socorro. Mas parecia-se com um camião de equipamento de televisão. Mesmo assim, um veículo de socorro era melhor. Um camião fechado, nesse caso. Podia pintá-lo de branco com uma cruz vermelha. Fizesse o que fizesse, tinha de se despachar. Faltavam catorze dias.

 

O céu vazio esmagava Fasil enquanto se encontrava no cimo das bancadas, com o vento a agitar a gola do casaco. O céu aberto e fácil garantia um acesso perfeito, pensou, com amargura. Colocar a barquinha num avião e, depois, desviá-lo seria quase impossível. Caso pudesse ser feito, recorrendo ao artifício de embarcar a barquinha como carga aérea, não tinha a certeza de que Dahlia conseguisse obrigar o piloto a mergulhar até suficientemente perto do estádio, mesmo com uma arma encostada à cabeça.

 

Fasil contemplou o panorama de Nova Orleães, para nordeste; o Superdome, a cerca de 4 km, o Marriott Hotel, o International Trade Mart. Para além do que avistava, a uns meros 12 km, situava-se o Aeroporto Lakefront de Nova Orleães. O dirigível gordo e inofensivo percorreria essa distância até à Supertaça, a 12 de Janeiro, enquanto ele lutava como uma formiga, no solo. Maldito Lander e todos os seus pútridos descendentes, até à décima geração.

 

Fasil teve uma visão de como seria o ataque. O dirigível cinzento brilhante a descer, sem que a multidão se apercebesse desde logo, por estar concentrada no jogo. Depois, cada vez mais espectadores a olharem para cima, enquanto ele se aproximava, cada vez maior, de um tamanho impossível, suspenso sobre eles, a sombra comprida a escurecer o campo e alguns deles a olharem directamente para a barquinha brilhante enquanto esta detonava com um relâmpago semelhante à explosão do Sol, as bancadas a ondularem e a caírem, talvez, carregadas com 6000 toneladas de carne rasgada. E o rugido e a onda de choque a rolar através dos apartamentos, ensurdecendo, fazendo saltar as janelas das casas a mais de 30 km de distância, os barcos a balouçarem como durante a monção. O vento provocado por ela a gritar em redor das torres da Casa da Guerra, a gritar

 

         Fasiiil!

 

Teria sido incrivelmente bonito. Foi obrigado a sentar-se. Estava a tremer. Forçou a sua mente a pensar de novo nas alternativas. Tentou diminuir as perdas. Quando estava novamente calmo, sentiu orgulho na sua força de carácter, na sua determinação perante o infortúnio. Era Fasil. Iria fazer o melhor que pudesse.

 

Os pensamentos de Fasil concentravam-se em camiões e tinta quando regressou à baixa de Nova Orleães. Nem tudo estava perdido, disse de si para consigo. Talvez fosse melhor assim. A utilização do americano conspurcara desde sempre a operação. Agora, o ataque era todo seu. Talvez não fosse tão espectacular, nem uma explosão aérea de eficiência máxima, mas ganharia mesmo assim um enorme prestígio - e o movimento de guerrilha seria aumentado, acrescentou, por reflexão tardia.

 

Lá estava o estádio coberto, desta vez, à direita. O sol brilhava no tecto de metal. E que era aquilo que se erguia por detrás dele? Um helicóptero de tipo "grua". Estava a içar alguma coisa, uma máquina. Agora deslocava-se por cima do telhado. Um grupo de operários estava à espera ao lado de uma das aberturas do telhado. A sombra do helicóptero deslizou sobre a cúpula e cobriu-os. Devagar, com suavidade, o helicóptero baixou o objecto pesado pela abertura do telhado. O chapéu de um dos operários caiu, uma pequena mancha a saltitar pela cúpula e no espaço, levada pelo vento. O helicóptero subiu de novo, liberto da sua carga, e mergulhou para fora de vista, por detrás do Superdome inacabado.

 

Fasil deixou de pensar em camiões. Podia sempre arranjar um camião. Tinha o rosto perlado de suor. Perguntava-se se o helicóptero trabalharia aos domingos. Fez sinal ao motorista e mandou-o seguir para o Superdome.

 

Duas horas mais tarde, Fasil estava na biblioteca pública a estudar uma entrada na obra Jane's AU the World's Aircraft. Da biblioteca, dirigiu-se ao Monteleone Hotel, onde copiou o número do telefone de uma cabina do átrio. Copiou outro número de uma cabina paga no terminal da Union Passenger e, depois, dirigiu-se ao escritório da Western Union. Num impresso de telegrama, redigiu cuidadosamente uma mensagem, olhando amiúde para um cartão com números de código que estava colado dentro do estojo da sua câmara fotográfica. Ao fim de alguns minutos, seguindo o cabo comprido por debaixo do mar, a curta mensagem pessoal voava em direcção a Benghazi, na Líbia.

 

Fasil regressou ao terminal de passageiros às 9 h da manhã seguinte. Retirou um autocolante amarelo, a dizer avariado, do telefone que se encontrava perto da entrada e colocou-o no telefone que escolhera, uma cabina no final da fila. Olhou para o relógio. Faltava meia hora. Sentou-se, com um jornal, num banco perto do telefone.

 

Fasil nunca antes se atrevera a utilizar as ligações líbias de Najeer. Nem se atreveria a fazê-lo agora, se Najeer ainda fosse vivo. Fasil só recolhera o explosivo plástico em Benghazi depois de Najeer ter combinado tudo, mas o nome de código "Sofia", atribuído por Najeer à missão, abrira a Fasil as portas necessárias, em Benghazi. Incluíra-o no seu telegrama e esperava que funcionasse de novo.

 

Às 9.35 h, o telefone tocou. Fasil atendeu ao segundo toque.

 

- Está?

 

- Sim, desejava falar com a Senhora Yusuf. - Apesar dos barulhos da ligação, Fasil reconheceu a voz do funcionário líbio encarregado da ligação com a Al Fatah.

 

- Então, está a falar para Sofia Yusuf. Continue.

 

Fasil falou rapidamente. Sabia que o líbio não ficaria muito tempo ao telefone.

 

- Preciso de um piloto capaz de voar com um helicóptero de carga Sikorsky 5-58. A prioridade é absoluta. Tenho de o ter em Nova Orleães dentro de seis dias. Tem de ser sacrificável. - Fasil sabia que estava a pedir algo extremamente difícil. Sabia também que havia grandes recursos ao dispor da Al Fatah em Benghazi e Tripoli. Continuou rapidamente, antes de o funcionário conseguir objectar. - É semelhante às máquinas russas utilizadas na barragem de Assuão. Apresente o pedido ao mais alto nível. A altíssimo nível. Tenho a autoridade do Onze. - O "Onze" era Hafez Najeer.

 

A voz do outro lado era suave, como se o homem estivesse a tentar sussurrar ao telefone:

 

- Pode não haver um tal homem. Isso é muito difícil. Seis dias não são nada.

 

- Se não pudermos contar com ele nesse prazo, será inútil. Perder-se-á muito. Tenho de o ter. Ligue-me, dentro de vinte e quatro horas, para o número alternativo. A prioridade é absoluta.

 

- Estou a ver - respondeu a voz a mais de 10 000 quilómetros de distância. O telefone desligou-se.

 

Fasil abandonou o telefone e saiu do terminal com um passo acelerado. Era terrivelmente perigoso comunicar directamente com o Médio Oriente, mas a escassez de tempo exigia que se corresse o risco. O pedido de um piloto era muito ousado. Não havia nenhum nas fileiras dos fedayines. Pilotar um helicóptero de carga com um objecto pesado suspenso por debaixo dele é uma arte delicada e os pilotos capazes de o fazerem não são vulgares. Mas os Líbios já antes haviam auxiliado o Setembro Negro. Não ajudara o coronel Khadafy no ataque a Cartum? As armas utilizadas para abater os diplomatas americanos foram contrabandeadas para dentro do país na mala diplomática líbia. Por ano, 30 milhões de dólares são entregues à Al Fatah pelo Tesouro líbio. Quanto poderia valer um piloto? Fasil tinha todas as razões para ter esperanças. Desde que conseguissem encontrar um, e depressa.

 

O limite de seis dias em que Fasil insistira não era estritamente verdadeiro, dado que ainda faltavam duas semanas para a Supertaça. Mas seria necessário modificar a bomba para se adaptar a uma aeronave diferente e precisava de tempo de avanço e da ajuda de perito do piloto.

 

Fasil calculara as probabilidades contra a disponibilidade de um piloto e os riscos implicados pelo facto de pedir um, tendo em consideração o esplêndido resultado se conseguisse localizá-lo. Achou que valia a pena correr o risco.

 

E se o seu telegrama, apesar de parecer inocente, fosse examinado pelas autoridades norte-americanas? E se o código de números para os telefones fosse do conhecimento do judeu Kabakov? Era dificilmente provável, Fazil sabia-o, mas, mesmo assim, sentia algum desconforto. Era certo que as autoridades andavam à procura do plástico, mas não podiam saber qual era a natureza da missão. Não havia nada que apontasse para Nova Orleães.

 

Perguntou-se se Lander estaria a delirar. Disparate. Agora, as pessoas já não deliravam com a febre. Mas as pessoas loucas por vezes deliram, com febre ou sem ela. Caso ele estivesse prestes a falar, Dahlia matá-lo-ia.

 

Em Israel, nesse momento, estava a ocorrer uma sequência de acontecimentos que iria ter mais consequências para o pedido de Fasil do que qualquer influência do falecido Hafez Najeer. Num campo de aviação perto de Jaffa, catorze aviadores israelitas estavam a subir para os cockpits de sete caças-bombardeiros Phantom F-4. Taxiaram até à pista, com o calor a distorcer o ar atrás deles como se se tratasse de vidro enrugado. Percorreram o asfalto em grupos de dois e ergueramse no céu numa curva longa e ascendente que os levou por cima do Mediterrâneo, para oeste, em direcção a Tobruk, na Líbia, a duas vezes a velocidade do som.

 

Estavam a fazer um ataque de retaliação. Em Rosh Pina, ainda estavam a fumegar os destroços de um prédio de apartamentos atingido por morteiros Katyusha, de fabrico russo, fornecidos aosfedayines pela Líbia. Desta vez, a resposta não seria contra bases dos fedayines no Líbano e na Síria. Desta vez, o fornecedor iria sofrer.

 

Trinta e nove minutos depois da descolagem, o chefe de esquadrilha avistou o cargueiro líbio. Estava precisamente onde o Mossad dissera que se encontraria, a 18 milhas ao largo de Tobruk e dirigindo-se para leste, com uma enorme carga de armamento para os guerrilheiros. Mas tinham de ter a certeza. Quatro Phantoms ficaram em altitude para proporcionarem protecção contra aviões árabes. Os outros três desceram. O avião da frente, que abrandara para 200 nós, passou sobre o navio a uma altitude de 60 pés. Não havia engano. Então, os três mergulharam num voo de bombardeio e voltaram a subir, arrastando 3,5 G quando se ergueram de novo no céu. Não houve gritos de vitória nos cockpits enquanto o navio se transformava numa bola de fogo. No caminho de regresso a casa, os israelitas observavam o céu, cheios de esperança. Sentír-se-iam melhor se os Migs aparecessem.

 

A ira varreu o Conselho de Comando da Revolução da Líbia depois do ataque israelita. Quem é que no Conselho sabia do ataque da Al Fatah nos Estados Unidos nunca será determinado. Mas algures nos corredores irados de Benghazi uma engrenagem moveu-se.

 

Os Israelitas tinham atacado com aviões que lhes haviam sido dados pelos Americanos.

 

Tinham sido os próprios Israelitas a dizer: "Os fornecedores sofrerão."

 

Assim seja.

 

- Disse-lhe para se ir deitar, mas respondeu-me que recebeu ordens para entregar a caixa nas suas mãos - disse o coronel Weisman, o adido militar, a Kabakov, enquanto se dirigiam para a sala de reuniões da embaixada israelita.

 

O jovem capitão cabeceava numa cadeira quando Kabakov abriu a porta e pôs-se de pé com um salto.

 

- Major Kabakov, sou o capitão Reik. A encomenda de Beirute, meu major.

 

Kabakov conteve o desejo imperioso de apanhar a caixa e abri-la. Reik viera de muito longe.

 

- Lembro-me de si, capitão. Comandava a bateria de obuses em Qanaabe. - Apertaram as mãos e era óbvio que o homem mais novo estava contente.

 

Kabakov virou-se para a caixa de cartão que se encontrava sobre a mesa. Era um quadrado de 60 centímetros por 30 centímetros, atado com cordel. Na tampa estava garatujado em árabe: "Objectos pessoais de Abu Ali, Rue Verdun, n° 18, falecido. Processo 186047. Reter até 23 de Fevereiro." Havia um buraco no canto da caixa. Um furo de bala.

 

- Os serviços secretos vistoriaram-na em Israel - afirmou Reik.

 

- Havia pó nos nós. Pensam que não era aberta havia muito.

 

Kabakov retirou a tampa e espalhou o conteúdo sobre a mesa. Um despertador com o vidro estilhaçado. Dois frascos de comprimidos. Uma caderneta bancária. Um carregador de uma metralhadora Llama

 

- Kabakov tinha a certeza de que a arma fora roubada -, uma caixa de botões de punho sem os botões de punho, um par de óculos torcidos e alguns jornais. Sem dúvida que todos os objectos de valor tinham sido tirados pelos polícias e que o restante fora observado minuciosa e cuidadosamente pela Al Fatah. Kabakov estava muito desapontado. Esperara que, pelo menos desta vez, o secretismo obsessivo do Setembro Negro trabalhasse contra a organização terrorista, que a pessoa encarregada de "sanear" os pertences de Abu Ali não soubesse o que era inofensivo e o que o não era e que, por isso, pudesse ter deixado passar alguma pista útil. Olhou para Reik.

 

- Quanto custou?

 

- Yoffee recebeu um ferimento na carne da coxa. Mandou-lhe uma mensagem, meu major. Ele... - O capitão gaguejou.

 

- Continue.

 

- Disse que lhe deve uma garrafa de Remy Martin e... e não o mijo de cabra que distribuiu em Kuneitra, meu major.

 

- Compreendo. - Kabakov riu, embora o não pretendesse. Pelo menos, a caixa de lixo não custara vidas.

 

- Yoffee entrou - contou Reik. - Tinha umas credenciais falsas de uma firma de advogados saudita. Decidira tentar fazer tudo numa só jogada em vez de começar por subornar o funcionário... de modo a que não tivessem tempo para mexer na caixa e a que o funcionário lhe não vendesse uma caixa de lixo. Deu três libras libanesas ao funcionário do arquivo da esquadra e pediu para ver a caixa. O funcionário foi buscá-la, mas pousou-a atrás do balcão e disse que tinha de obter autorização do oficial de serviço. Normalmente, isso significaria apenas mais um suborno, mas Yoffee não tinha muita confiança nas suas credenciais. Limpou o funcionário e agarrou na caixa. Tinha um Mini-Cooper estacionado lá fora e tudo correu bem até dois carros-patrulha bloquearem a Mazraa, à frente dele, na Rue Unesco. É claro que os contornou pelo passeio, mas eles dispararam um par de rajadas contra o carro. Tinha um avanço de cinco quarteirões enquanto descia a Ramlet el Baida. Jacoby estava a voar no Huey, para o ir buscar. Yoffee empoleirou-se no tecto de correr do carro enquanto este ainda estava em movimento e apanhámo-lo. Regressámos a cerca de 100 pés, na escuridão. O helicóptero tem o novo sistema de piloto automático de acompanhamento de terreno e limitamos a deixar-nos ir.

 

- Estava no helicóptero?

 

- Sim, meu major. Yoffee deve-me dinheiro.

 

Kabakov conseguia imaginar a corrida sacudida e agitada na escuridão, enquanto o helicóptero negro serpenteava sobre as colinas.

 

- Estou surpreendido por terem raio de acção.

 

- Tivemos de descer em Gesher Haziv.

 

- Os Libaneses fizeram levantar alguns aviões?

 

- Sim, senhor, finalmente. Vinte e quatro minutos depois de a polícia ter visto o helicóptero estávamos de novo em Israel.

 

Kabakov não iria mostrar o seu desapontamento em relação ao conteúdo da caixa, sobretudo depois de três homens terem arriscado as suas vidas para a trazerem. Em Telavive deviam achá-lo louco.

 

- Obrigado, capitão Reik, por um trabalho notável. Diga a Yoffee e Jacoby o mesmo, da minha parte. E, agora, vá deitar-se. É uma ordem.

 

Kabakov e Weisman sentaram-se à mesa com os pertences de Abu Ali entre si. Weisman manteve um silêncio educado. Não havia papéis pessoais de nenhuma espécie, nem sequer um exemplar de Luta Política e Armada, o omnipresente manual da Fatah. Tinham escolhido bem os pertences de Ali. Dois exemplares do Al-Tali'ah, o mensário egípcio. Havia algo sublinhado numa entrevista: "... o boato acerca da força dos Serviços Secretos israelitas é um mito. Israel não está particularmente evoluído no que respeita a serviços de informações enquanto tais." Kabakov bufou. Abu Ali estava a troçar dele, mesmo depois de morto.

 

Havia também alguns números antigos do jornal de Beirute Al-Hawadess. O Paris-Match. Um exemplar do Sports Ilustrated, datado de 21 de Janeiro de 1974. Kabakov franziu o sobrolho ao vê-lo e pegou nele. Era a única publicação em inglês que se encontrava na caixa. A capa tinha uma mancha, provavelmente de café. Folheou-a uma vez e repetiu o gesto. Tratava sobretudo de futebol americano. Os Árabes gostam do futebol convencional, mas o principal artigo era sobre... - o cérebro de Kabakov estava a correr. Fasil. Munique. Desporto. A gravação dizia: "começar um novo ano com um banho de sangue".

 

Weisman levantou os olhos rapidamente ao ouvir o som da voz de Kabakov:

 

- Coronel Weisman, que sabe acerca desta Supertaça?

 

O director do FBI, John Baker, tirou os óculos e esfregou a arcada do nariz.

 

- Trata-se de Uma hipótese de dimensões consideráveis, meus senhores.

 

Corley mexeu-se na cadeira.

 

Kabakov estava farto de falar para o rosto inexpressivo de Baker, cansado do cuidado com que Corley elaborava as observações que fazia ao chefe.

 

- É mais do que uma hipótese. Veja os factos...

 

- Eu sei, eu sei, major. Deixou tudo muito claro. Pensa que o alvo é a Supertaça porque esse homem... Fasil, não é?... organizou o ataque do Setembro Negro à Aldeia Olímpica; porque a gravação de que se apoderou em Beirute fala num ataque no início do ano e porque o Presidente tenciona assistir ao jogo. - Parecia estar a enumerar fragmentos de um discurso.

 

- E porque iria ser transmitido em directo pela televisão, com o máximo de impacte de choque - disse Corley.

 

- Mas toda esta linha de raciocínio provém do facto de esse homem, Ali, ter um exemplar do Sports Ilustrated e nem sequer têm a certeza de que Ali estivesse envolvido na conspiração. - Baker olhou pela janela para a tarde cinzenta, em Washington, como se pudesse encontrar a resposta na rua.

 

Baker tinha sobre a mesa o ficheiro 302 de Corley - a informação básica sobre o caso. Kabakov perguntava-se por que razão o teriam chamado e, depois, percebeu que Baker, paranóico em termos profissionais, queria vê-lo. Queria submeter a fonte ao seu instinto de polícia. Kabakov podia ver uma expressão teimosa no rosto de Baker. Sabe que vamos ter de fazer alguma coisa, pensou Kabakov. Mas precisa de que eu discuta com ele. Não gosta de que lhe digam o que deve fazer, mas quer ver dizerem-lho. Agora, tem de fazer alguma coisa. Deixá-lo remoer. É a jogada dele.

 

- Obrigado pelo tempo que nos dispensou, Sr. Baker - disse Kabakov, levantando-se.

 

- Espere um pouco, major, se não se importa. Dado que já viu este tipo de coisas, acha que eles levariam a cabo a acção? Esconderiam o plástico no estádio e depois, quando chegasse a multidão, ameaçariam explodi-lo caso não fossem satisfeitas algumas exigências... liberdade para Sirhan Sirhan, suspensão da ajuda a Israel, esse tipo de coisas?

 

- Não vão pedir nada. Vão rebentar com ele e com a multidão que se encontrar à volta.

 

- Por que pensa isso?

 

- Que poderiam dar-lhes? A maior parte dos terroristas capturados em desvios de aviões já está em liberdade. Os de Munique foram soltos para salvar reféns de um desvio subsequente de um avião. Lelia Khaled foi libertada da mesma forma. Os guerrilheiros que mataram os vossos diplomatas em Cartum foram entregues ao seu povo pelo Governo sudanês. Estão todos em liberdade, Sr. Baker.

 

"Suspender a ajuda a Israel? Mesmo que a promessa fosse feita, não há garantias possíveis. Para começar, a promessa nunca seria feita e, de qualquer forma, nunca seria cumprida, caso fosse feita sob coacção. Ademais, para utilizarem reféns tem de ser possível contê-los. Num estádio, isso nunca seria possível. Haveria pânico e a multidão correria para os portões, esmagando alguns milhares pelo caminho. Não, vão mesmo rebentar com ele.

 

- Como?

 

- Não sei. Com meia tonelada de plástico podiam derrubar ambos os lados das bancadas, mas, para terem a certeza de o fazer, seria necessário que colocassem cargas em vários locais e as detonassem em simultâneo. Isso não seria fácil. Há demasiadas transmissões de rádio num acontecimento desses para utilizar um sinal remoto para a detonação e as localizações múltiplas aumentam as hipóteses de descoberta.

 

- Podemos assegurar-nos de que o estádio se encontra limpo

- disse Corley. - Vai ser uma busca filha da puta, mas podemos fazê-la.

 

- Julgo que os Serviços Secretos se vão querer encarregar pessoalmente dessa tarefa, mas vão pedir alguma mão-de-obra - afirmou Baker.

 

- Podemos investigar todo o pessoal envolvido na Supertaça, inspeccionar os carrinhos de cachorros-quentes, as arcas de bebidas frias, podemos proibir que sejam levados quaisquer pacotes para dentro do estádio - continuou Corley. - Podemos utilizar cães e detectores electrónicos. Ainda temos tempo de treinar os cães com aquele bocado de plástico do navio.

 

- E quanto ao céu? - perguntou Kabakov.

 

- Está a pensar naquelas anotações de piloto na carta, é claro retorquiu o director do FBI. - Penso que deveríamos interromper o tráfego de aviões particulares sobre Nova Orleães durante o tempo de jogo. Vamos falar com a Direcção de Aeronáutica Civil. Esta tarde, vou convocar os departamentos implicados. Depois disso, saberemos mais.

 

Duvido, pensou Kabakov.

 

O som dos passos incessantes de Abdel Awad estava a começar a aborrecer o guarda que se encontrava no corredor. O guarda abriu o postigo da porta da cela e amaldiçoou Awad através da grade. Depois de o ter feito, sentiu-se um pouco envergonhado. O homem tinha o direito de andar. Levantou o postigo de novo e ofereceu um cigarro a Awad, prevenindo-o para o apagar e esconder se ouvisse passos a aproximarem-se.

 

Awad estivera à escuta de passos, era verdade. A dado momento

- esta noite, amanhã, no dia a seguir - eles viriam. Para lhe cortar as mãos.

 

Ex-oficial da Força Aérea líbia, fora condenado por roubo e tráfico de estupefacientes. A sua sentença de morte fora comutada para amputação dupla, tendo em vista os serviços anteriormente prestados à pátria. Esse tipo de sentença, prescrito pelo Corão, caíra em desuso até o coronel Khadafy ter assumido o poder, restabelecendo-o. No entanto, tem de se dizer que, de acordo com a sua política de modernização, Khadafy substituiu o machado na praça do mercado pelo bisturi do cirurgião e as condições assépticas de um hospital de Benghazi.

 

Awad tentara escrever os seus pensamentos, tentara escrever ao pai a pedir desculpa pela vergonha que trouxera à família, mas tinha dificuldade em encontrar palavras. Tinha medo de apenas ter a carta semiacabada quando eles viessem e de ser obrigado a mandá-la assim. Ou a acabá-la com a caneta entre os dentes.

 

Perguntava-se se a sentença permitia anestesia.

 

Perguntava-se se poderia prender uma perna das suas calças na dobradiça da porta e atar a outra em redor do pescoço e enforcar-se, sentando-se. Na semana que decorrera desde a condenação que acalentara esses pensamentos. Seria mais fácil se lhe dissessem quando. Talvez não saber fizesse parte da sentença.

 

O postigo abriu-se:

 

- Apaga-o. Apaga-o - sussurrou o guarda.

 

Entorpecido, Awad pisou o cigarro e atirou-o, com um pontapé, para debaixo do catre. Ouviu os ferrolhos a abrirem-se. Virou-se para a porta, com as mãos atrás das costas e as unhas enterradas nas palmas.

 

Sou um homem e um bom oficial, pensou Awad. Não puderam negar isso, nem sequer no julgamento. Não vou envergonhar-me, agora.

 

Um homenzinho com um elegante fato civil entrou na cela. O homem estava a dizer qualquer coisa, a boca movia-se sob o bigodinho:

 

- ... Ouviu-me, tenente Awad? Ainda não chegou a hora ... ainda não chegou a hora do seu castigo. Mas chegou a altura para uma conversa séria. Fale inglês, por favor. Sente-se na cadeira. Eu fico no beliche. - A voz do homenzinho era suave e os seus olhos mantinham-se fixos no rosto de Awad, enquanto falava.

 

Awad tinha mãos muito sensíveis, as mãos de um piloto. Quando lhe ofereceram a possibilidade de as conservar, de ser reintegrado plenamente, concordou rapidamente com as condições.

 

Awad foi transferido da prisão de Benghazi para a guarnição de Ajdabujah, onde, sob apertada segurança, foi colocado aos comandos de um helicóptero MÍL-6, de fabrico russo, o modelo pesado que tem o nome de código "Hook", atribuído pela NATO. É um dos três de que dispõem as forças armadas líbias. Awad estava familiarizado com o tipo, embora a sua experiência tivesse sido sobretudo com aparelhos mais pequenos. Saiu-se bem. O MÍL-6 não era precisamente igual ao Sikorsky S-58, mas era suficientemente parecido. De noite, estudava um manual de voo dos Sikorsky s, arrranjado no Egipto. Com uma mão cuidadosa nos controlos da manete de gasolina e de inclinação e um olhar vigilante sobre a pressão de tubulação, iria conseguir, quando chegasse a altura.

 

O regime do Presidente Khadafy é fortemente moralista, apoiado em penas terríveis e, em consequência disso, alguns crimes foram duramente reprimidos na Líbia. A arte civilizada da falsificação não floresce lá e foi necessário contactar um falsário de Nicósia para fabricar os documentos de Awad.

 

Awad deveria ser completamente desinfectado - não deveria restar qualquer vestígio da sua origem na sua pessoa. Na verdade, tudo o que era necessário era a documentação suficiente para o fazer entrar nos Estados Unidos. Não iria regressar, dado que se volatilizaria na explosão. Awad não estava ciente desta última realidade. Na verdade, apenas lhe tinham dito para se apresentar a Muhammad Fasil e obedecer às ordens. Tinham-lhe garantido que se iria sair bem de tudo. Para preservar a sua ilusão, era necessário fornecer-lhe um plano de fuga e documentos adequados.

 

A 31 de Dezembro, o dia a seguir à libertação de Awad da prisão, o seu passaporte líbio, várias fotografias recentes e amostras da sua caligrafia foram entregues numa pequena tipografia de Nicósia.

 

O conceito de fornecer um "cenário" completo - um conjunto de documentos que se validam entre si, como passaporte, carta de condução, correspondência recente adequadamente carimbada e recibos é algo relativamente recente entre os falsários ocidentais, que só se tornou prática alargada depois de o comércio dos estupefacientes ser capaz de pagar esse serviço elaborado. Os falsários do Médio Oriente criam "cenários" para os seus clientes há gerações.

 

O falsário que a Al Fatah utilizava em Nicósia fazia um trabalho maravilhoso. Fornecia também passaportes libaneses em branco aos Israelitas, que se encarregavam de os preencher. E vendia informações ao Mossad.

 

Os Líbios queriam um trabalho caro - dois passaportes, um italiano com um carimbo de entrada nos Estados Unidos e um português. Não regatearam o preço. O que é valioso para um lado é, amiúde, valioso para outro, pensou o falsário, enquanto vestia o casaco.

 

Ao fim de uma hora, o quartel-general do Mossad, em Telavive, sabia quem era Awad e em quem se tornaria. O julgamento de Awad recebera uma atenção considerável em Benghazi. Um agente do Mossad que lá fosse só tinha de olhar para os relatos públicos para descobrir a habilidade especial de Awad.

 

Em Telavive, juntaram todas as peças. Awad era um piloto de helicópteros que ia para os Estados Unidos por um lado e voltava por outro. A longa linha até Washington zumbiu durante quarenta e cinco minutos.

 

Na tarde de 30 de Dezembro, começou uma busca exaustiva no Tulane Stadium, em Nova Orleães, como preparação para o Sugar Bowl Classic, que seria jogado na véspera do Ano Novo. Estavam previstas buscas semelhantes para 31 de Dezembro em estádios em Miami, Dallas, Houston, Pasadena - todas as cidades onde se realizava um grande jogo de futebol universitário no dia de Ano Novo.

 

Kabakov estava contente por os Americanos se terem finalmente decidido a mobilizar os seus grandes recursos contra os terroristas, mas estava divertido com o processo que os punha à disposição. Era típico da burocracia. O director do FBI, John Baker, convocara uma reunião de alto nível de pesssoal do FBI, da Agência Nacional de Segurança e dos Serviços Secretos, na tarde anterior, logo após a sua conversa com Kabakov e Corley. Kabakov, sentado na fila da frente, sentira muitos olhares penetrantes enquanto os funcionários reunidos realçavam a debilidade das provas que indiciavam o alvo - uma única revista, não sublinhada, que continha um artigo sobre a Supertaça.

 

Cada um dos tipos importantes do FBI e da Agência Nacional de Segurança parecia determinado a não deixar que outro fosse mais céptico do que ele enquanto Corley expunha a teoria de um ataque contra o jogo da Supertaça, em Nova Orleães.

 

Só os representantes dos Serviços Secretos, Earl Biggs e Jack Renfro, permaneciam em silêncio. Kabakov pensou que os agentes dos Serviços Secretos eram os mais desprovidos de humor que alguma vez encontrara. Era compreensível, concluiu. Tinham muitas razões para não estarem divertidos.

 

Kabakov sabia que os homens presentes na reunião não eram estúpidos. Cada um deles teria sido mais receptivo a uma ideia invulgar se lhe tivesse sido apresentada em particular. Quando rodeada pelos seus pares, a maioria dos homens tem dois conjuntos de reacções - as verdadeiras e as que se destinam a ser avaliadas pelos seus colegas. O cepticismo fora considerado a atitude adequada, no início da reunião, e, uma vez aceite, prevaleceu durante toda a exposição de Corley.

 

Mas o princípio da manada também funcionava noutra direcção. Enquanto Kabakov contava as manobras do Setembro Negro antes do ataque de Munique e a tentativa abortada contra os jogos do Campeonato Mundial de Futebol, seis meses antes, a semente do perigo foi lançada. Perante isso, um ataque contra a Supertaça seria menos plausível do que um ataque contra a Aldeia Olímpica?, perguntou Kabakov.

 

"Não há nenhuma equipa judia em jogo", foi uma réplica imediata. Não deu para rir. Enquanto os funcionários ouviam Kabakov, o terror estava presente na sala, comunicado subtilmente de um ouvinte para o outro por meio de pequenos movimentos corporais, uma certa inquietação. As mãos moviam-se nervosamente, as mãos esfregavam os rostos. Kabakov podia ver os homens sentados à sua frente a mudarem. Até onde lhe era dado lembrar-se, Kabakov perturbara os polícias, inclusive os polícias israelitas. Atribuía esse facto à sua própria impaciência para com eles, mas era mais do que isso. Havia algo nele que afectava os polícias do mesmo modo que um vestígio de almíscar carregado pelo vento excita os cães e os leva a aproximarem-se mais do fogo. Diz-lhes que, ali, há qualquer coisa que não gosta de fogo; está à espreita e não tem medo.

 

A prova da revista, suplementada pelo registo da carreira de Fasil, começou a ganhar corpo e foi extrapolada pelos homens presentes na sala de reuniões. Uma vez admitida a possibilidade de perigo, nenhum funcionário pediria medidas menos apertadas do que o seguinte: por que razão a Supertaça seria o único alvo possível? A revista mostrava um estádio apinhado - por que não qualquer estádio apinhado? Meu Deus, a Sugar Bowl é na véspera do fim do ano - depois de amanhã - e há jogos por todo o país no dia de Ano Novo. Façam uma busca em todos.

 

Com a apreensão veio a hostilidade. De súbito, Kabakov teve uma percepção aguda de que era um estrangeiro e, ainda por cima, judeu. Kabakov apercebeu-se de imediato que inúmeros homens, naquela sala, estavam a pensar no facto de ele ser judeu. Esperara isso. Não ficou surpreendido quando, nas mentes daqueles homens com o cabelo cortado em escova e anéis de formatura em Direito, ele foi identificado com o problema e não com a solução. A ameaça provinha de um bando de estrangeiros, e ele também o era. A atitude não foi verbalizada, mas estava lá.

 

- Obrigado, meus amigos - disse Kabakov, ao sentar-se.

 

Não sabem nada acerca de estrangeiros, meus amigos, pensou. Mas podem vir a descobrir a 12 de Janeiro.

 

Kabakov não achava razoável que, dado que o Setembro Negro tinha capacidade para atacar um estádio, preferisse atacar um onde o Presidente não estivesse em vez de um onde estivesse. Manteve-se fiel à Supertaça.

 

Na tarde de 30 de Dezembro chegou a Nova Orleães. A busca já estava a ser realizada no Tulane Stadium, como preparação para a Sugar Bowl. A força no Tulane Stadium era composta por 50 homens

- membros do FBI e da secção de minas e armadilhas da polícia, detectives da polícia, dois tratadores de cães da Direcção de Aeronáutica Civil com cães treinados para detectar explosivos e um "farejador" electrónico, calibrado utilizando a Nossa Senhora encontrada no Leticia.

 

Nova Orleães era única devido ao facto de o pessoal dos Serviços Secretos ajudar na busca e à necessidade de o trabalho ser feito duas vezes - nesse dia, para a Sugar Bowl, e a 11 de Janeiro, véspera da Supertaça. Os homens realizavam o seu trabalho silenciosamente, ignorados em grande medida pelo pessoal de manutenção que dava os últimos retoques no estádio.

 

A busca não interessava muito a Kabakov. Não esperava que fosse encontrada alguma coisa. Limitava-se a olhar fixamente para os rostos de todos os empregados do Tulane Stadium. Lembrava-se de como Fasil mandara os seus guerrilheiros arranjarem trabalho na Aldeia Olímpica, com seis semanas de antecedência. Sabia que a polícia de Nova Orleães estava a verificar os antecedentes dos empregados do estádio, mas, mesmo assim, olhava-lhes fixamente para os rostos como se esperasse ter uma reacção instintiva, visceral, caso visse um terrorista. Não sentiu nada ao olhar para os empregados. A verificação dos antecedentes revelou um bígamo, que foi detido para extradição para Coahoma County, Mississipi.

 

Na véspera do fim do ano, os Tigers da Universidade Estadual da Louisiana perderam por 13-7 contra o Nebraska, no Sugar Bowl Classic. Kabakov assistiu.

 

Nunca vira antes um jogo de futebol americano e não viu muito daquele. Ele e Moshevsky passaram a maior parte do tempo a espreitar por debaixo das bancadas e junto aos portões, ignorados pelos inúmeros agentes do FBI e polícias que se encontravam no estádio. Kabakov estava interessado sobretudo na forma como estavam guarnecidos os portões e qual o acesso permitido através deles depois de o estádio estar cheio.

 

Considerava aborrecida a maior parte dos espectáculos públicos e este, com os pompons e as insígnias e as grandes bandas, era especialmente ofensivo. O único momento agradável da tarde foi quando, ao intervalo, os Blue Angels da Marinha sobrevoaram o estádio, um belo diamante de jactos brilhando ao sol durante um lindo rolamento lento, muito acima do dirigível que pairava, zunindo, em redor do estádio. Kabakov sabia que também havia outros aviões - interceptadores da Força Aérea colocados em pistas próximas para a hipótese pouco provável de um avião desconhecido se aproximar da área de Nova Orleães enquanto o jogo estava a decorrer.

 

As sombras estendiam-se pelo estádio quando saiu o resto da multidão. Kabakov sentia-se entorpecido devido às horas de barulho. Tinha dificuldade em compreender o inglês das pessoas que ouvia a conversar e isso agravara-se em termos gerais. Courley encontrou-o de pé, à beira da pista, do lado de fora do estádio.

 

- Bem, não houve estouro - disse Corley.

 

Kabakov olhou para ele rapidamente, em busca de um sorriso pretencioso, mas Corley apenas parecia cansado. Kabakov pensava que a expressão "caça aos gambozinos" estava a ser muito utilizada nos estádios de outras cidades, onde homens cansados procuravam explosivos antes dos jogos do dia de Ano Novo. Achava que deviam estar a dizer muitas coisas ali, longe dos seus ouvidos. Nunca afirmara que o alvo era um jogo da taça universitária, mas quem se lembrava disso? De qualquer modo, não tinha importância. Ele e Corley atravessaram o estádio juntos, em direcção ao parque de estacionamento. Rachel deveria estar à espera no Royal Orleans.

 

- Major Kabakov.

 

Olhou em volta, durante um instante, antes de perceber que a voz provinha do rádio que tinha no bolso.

 

- Aqui Kabakov, continue.

 

- Uma chamada para si, no posto de comando.

 

- Certo.

 

O posto de comando do FBI estava instalado no gabinete de relações públicas de Tulane, debaixo das bancadas. Um agente, em mangas de camisa, estendeu o telefone a Kabakov.

 

Weisman estava a telefonar da embaixada de Israel. Corley tentou deduzir a natureza da conversa através das respostas breves que Kabakov dava.

 

- Vamos lá para fora - disse Kabakov, enquanto devolvia o telefone. Não gostava do modo como os agentes que se encontravam no gabinete evitavam nitidamente olhar para ele depois daquele dia de esforço extra.

 

De pé na linha lateral, Kabakov olhou para as bandeiras que adejavam ao vento, no cimo do estádio.

 

- Mandaram vir um piloto de helicóptero. Não sabemos se é para este trabalho, mas sabemos que vem. Da Líbia. E estão com uma pressa dos diabos.

 

Houve um breve silêncio, enquanto Corley digeria a informação.

 

- Que sabem sobre ele?

 

- Os passaportes, uma fotografia, tudo. A embaixada vai entregar o nosso dossier no seu escritório de Washington. Fazem chegar o material aqui dentro de meia hora. Provavelmente, vai receber um telefonema dentro de um minuto.

 

- Onde está ele?

 

- Ainda se encontra do outro lado, não sabemos onde. Mas os documentos serão levantados em Nicósia, amanhã.

 

- Não interferirão...

 

- Claro que não. Desse lado, vamos deixar a operação estritamente isolada. Em Nicósia, estamos a vigiar o local onde vão buscar os documentos e o aeroporto. Mais nada.

 

- Um ataque aéreo! Aqui ou algures. Foi isso que sempre tiveram em mente.

 

- Talvez - retorquiu Kabakov. - Fasil pode estar a montar uma diversão. Depende de quanto ele sabe que sabemos. Se estiver a vigiar este estádio, ou qualquer estádio, sabe que sabemos bastante.

 

No escritório de Nova Orleães do FBI, Corley e Kabakov estudaram o relatório sobre o piloto da Líbia. Corley bateu na folha amarela de telex.

 

- Vai entrar com o passaporte português e sair com o italiano, que já tem o carimbo de entrada nos Estados Unidos. Se apresentar esse passaporte português em qualquer ponto de entrada, seja onde for, sabê-lo-emos dentro de dez minutos. Se ele fizer parte deste projecto, apanhámo-los, David. Vai conduzir-nos até à bomba e a Fasil e à mulher.

 

- Talvez.

 

- Mas onde planeavam arranjar um helicóptero para ele? Se o alvo é a Supertaça, uma das pessoas que aqui estão tem-no preparado.

 

- Sim. E nas proximidades. Não têm um grande raio. - Kabakov abriu um grande sobrescrito de papel pardo. Continha 100 fotografias de Fasil a três quartos de perfil e 100 impressões do retrato-robô da mulher. Cada um dos agentes que se encontravam no estádio trazia as fotografias. - A NASA fez um bom trabalho nestas disse Kabakov. As fotografias de Fasil estavam notavelmente nítidas e um desenhador da polícia acrescentara-lhe o gilvaz da bala na maçã do rosto.

 

- Vamos distribuí-las pelas empresas de serviços aéreos, pela estação naval, por todos os locais onde há helicópteros - asseverou Corley.

- Que se passa consigo?

 

- Por que razão arranjaram o piloto tão tarde? Tudo encaixa perfeitamente, menos isso. Uma grande bomba, um ataque aéreo. Mas por que razão tão tarde, em relação ao piloto? Foi a carta do barco que sugeriu pela primeira vez que podia haver um piloto envolvido, mas se foi um piloto que marcou a carta, já cá estava.

 

- As cartas náuticas podem comprar-se em qualquer parte do mundo, David. Podia ter sido marcada no outro lado, no Médio Oriente. Um factor de segurança. Um encontro de emergência no mar, para o que desse e viesse. A carta poderia ter vindo com a mulher. E, como veio a verificar-se, precisaram do encontro quando pensaram que não podiam confiar em Muzi.

 

- Mas a corrida de última hora para obterem os documentos não encaixa. Se soubessem com antecedência que iriam utilizar o líbio, já teriam os passaportes prontos há muito tempo.

 

- Quanto mais tarde fosse enviado, menos riscos teria de ser descoberto.

 

- Não - retorquiu Kabakov, abanando a cabeça. - Correr para conseguir os documentos não é a maneira de proceder de Fasil. Sabe com quanta antecedência fez os preparativos para Munique.

 

- De qualquer forma, é uma oportunidade. Amanhã, logo de manhã, mando as forças para os aeroportos com estas fotografias disse Corley. - Muitos dos serviços aéreos estão fechados durante o Ano Novo. Podemos demorar um par de dias a falar com todos eles.

 

Kabakov subiu no elevador do Royal Orleans com dois casais, que riam alto, e as mulheres ostentavam uns penteados elegantíssimos em forma de colmeia. Tentou perceber o que diziam e chegou à conclusão de que a conversa não faria sentido, caso a tivesse percebido.

 

Descobriu o número e bateu à porta. À porta, os quartos de hotel parecem sempre vazios. Não admitem que há pessoas que amamos por detrás delas. Rachel estava mesmo lá e abraçou Kabakov durante vários segundos sem dizer nada.

 

- Estou contente por os chuis te terem dado o meu recado, no estádio. Podias ter-me convidado para vir ter contigo aqui abaixo, sabias?

 

- Ia esperar até ter acabado tudo.

 

- Sentes como um robô - retorquiu ela, soltando-o. - Que tens debaixo do casaco?

 

- Uma metralhadora.

 

- Muito bem, tira-a e toma uma bebida.

 

- Como conseguiste um quarto destes de um dia para o outro? Corley teve de ir para casa de um dos agentes locais do FBI.

 

- Conheço alguém no Plaza, em Nova Iorque, e este hotel é das mesmas pessoas. Gostas?

 

- Sim.

 

Era uma pequena suite, muito luxuosa.

 

- Tenho pena de não poder albergar o Moshevsky.

 

- Fica bem do lado de fora da porta. Pode dormir no sofá... Não, estou a brincar. Está bem no consulado.

 

- Encomendei comida. Kabakov não estava a ouvir.

 

- Disse que vem aí comida. Um Chateaubriand.

 

- Penso que mandaram vir um piloto. - Contou-lhe os pormenores.

 

- Se o piloto te conduzir aos restantes, está feito - disse ela.

 

- Se apanharmos o plástico e conseguirmos apanhá-los a todos, sim.

 

Rachel ia começar a fazer outra pergunta, mas calou-se.

 

- Durante quanto tempo podes ficar? - perguntou Kabakov.

 

- Quatro ou cinco dias. Mais tempo, se puder ajudar-te. Pensei que podia voltar a Nova Iorque, dar algumas consultas e, depois, regressar, por exemplo, a 10 ou 11... se quiseres.

 

- Claro que quero. Quando tudo terminar, vamos ver mesmo Nova Orleães. Parece uma boa cidade.

 

- Oh, David, vais ver que cidade magnífica é.

 

- Uma coisa. Não quero que vás à Supertaça. Vem a Nova Orleães, muito bem, mas não te quero perto do estádio.

 

- Se não é seguro para mim, não é seguro para ninguém. Nesse caso, as pessoas deveriam ser prevenidas.

 

- Foi o que o Presidente disse ao FBI e aos Serviços Secretos. Se houver Supertaça, ele vem.

 

- Pode ser cancelada?

 

- Ele chamou Baker e Biggs e disse que se a multidão presente na Supertaça não puder ser protegida adequadamente, incluindo ele próprio, cancelará o jogo e anunciará a razão. Baker disse-lhe que o FBI podia assegurar a protecção.

 

- Que disseram os Serviços Secretos?

 

- Biggs não faz promessas loucas. Está à espera para ver o que acontece com este piloto. Não está a convidar ninguém para a Supertaça e eu também não. Jura-me que não vais ao estádio.

 

- Está bem, David. Ele sorriu:

 

- Agora, fala-me de Nova Orleães.

 

O jantar foi esplêndido. Comeram junto à janela e Kabakov distendeu-se, pela primeira vez em dias. Lá fora, Nova Orleães brilhava na grande curva do rio e, lá dentro, estava Rachel, terna, do outro lado das velas, contando como viera a Nova Orleães, em criança, com o pai, e como se sentira uma grande dama quando o pai a levara ao Antoine's, onde um empregado colocara discretamente uma almofada na sua cadeira, ao vê-la chegar.

 

Ela e Kabakov planearam um opíparo jantar, no Antoine's, para a noite de 12 ou para quando os seus assuntos estivessem resolvidos. E, cheios de Beaujolais e de planos, foram felizes" os dois na cama grande. Rachel adormeceu sorrindo.

 

Acordou uma vez, depois da meia-noite, e viu Kabakov encostado à cabeceira. Quando se virou, ele deu-lhe uma palmadinha, distraído, e ela soube que estava a pensar noutra coisa.

 

O camião que transportava a bomba entrou em Nova Orleães às

11 h da noite de 31 de Dezembro. O motorista seguiu pela U. S. 10, passando pelo Superdome, até ao cruzamento da U. S. 90, virou para sul e parou perto do cais da Thalia Street, sob a Mississipi River Bridge, uma área deserta àquela hora da noite.

 

- Foi este o local que ele disse - afirmou o homem que se encontrava ao volante, dirigindo-se ao seu companheiro. - Macacos me mordam se vejo alguém. Todo o cais está fechado.

 

Uma voz, junto ao ouvido, assustou o motorista:

 

- Sim, o local é este - disse Fasil, subindo para o estribo. - Estão aqui os documentos. Assinei o recibo.

 

Enquanto o motorista examinava os documentos com a sua lanterna, Fasil inspeccionou os selos na porta traseira do camião. Estavam intactos.

 

- Amigo, pode dar-nos uma boleia até ao aeroporto? Há um voo nocturno para Newark que estamos a tentar apanhar.

 

- Sinto muito, mas não posso - retorquiu Fasil. - Deixo-os num sítio onde possam apanhar um táxi.

 

- Meu Deus, vai custar-nos 10 dólares até ao aeroporto.

 

Fasil não queria discutir. Deu 10 dólares ao homem e deixou os motoristas a um quarteirão da praça de táxis. Sorriu e assobiou silenciosamente entre os dentes enquanto conduzia o camião para a garagem. Estivera a sorrir durante todo o dia, desde que a voz, na cabina telefónica do Monteleone Hotel, lhe dissera que o piloto vinha. O seu cérebro fervilhava de planos e teve de se obrigar a concentrar-se na condução.

 

Em primeiro lugar, precisava de adquirir um controlo total sobre aquele homem, Awad. Awad tinha de o temer e respeitar. Fasil conseguia fazer isso. Depois, tinha de dar instruções completas a Awad e incluir uma história convincente sobre o modo como iriam fugir depois do ataque.

 

O plano de Fasil para o ataque em si baseava-se grandemente no que aprendera no Superdome. O helicóptero Sikorsky 5-58 que atraíra a sua atenção era uma máquina vetusta, vendida em segunda mão pelo exército da Alemanha Ocidental. Com a sua capacidade de elevação de 2500 kg, não podia comparar-se com os novos Skycranes, mas era mais do que adequado para os fins de Fasil.

 

Para elevar qualquer coisa, são necessárias três pessoas - o piloto, o "homem do bojo" e o chefe de carga - como Fasil aprendera a observar a operação no Superdome. O piloto fica a pairar por cima da carga. É guiado pelo homem do bojo, que está deitado no chão, na fuselagem, espreitando para baixo, na vertical, para a carga e falando com o piloto por meio de um transmissor.

 

O chefe de carga está no solo. Prende o gancho de carga ao que se pretende elevar. Os homens que se encontram a bordo não podem fechar o gancho por controlo remoto. Isso tem de ser feito no solo. Numa emergência, o piloto pode deixar cair a carga instantaneamente premindo um botão vermelho que se encontra na alavanca de controlo. Fasil ficou a saber isso conversando com o piloto, durante um breve intervalo nos trabalhos. O piloto fora bastante simpático - um negro com olhos claros e muito separados por detrás dos óculos escuros. Era possível que aquele homem, apresentado a um colega piloto, permitisse que Awad fosse com ele numa manobra de carga. Uma óptima oportunidade para Awad se familiarizar mais com o cockpit. Fasil esperava que Awad fosse bem apessoado.

 

No domingo da Supertaça, mataria o piloto imediatamente e qualquer dos elementos do pessoal de terra que se intrometesse no seu caminho. Awad e Dahlia constituiriam a guarnição do helicóptero com Fasil no solo a servir de chefe de carga. Dahlia encarregar-se-ia de fazer que o helicóptero ficasse posicionado correctamente sobre o estádio e, enquanto Awad ainda continuava à espera de ordem para deixar cair a barquinha, ela rebentava pura e simplesmente com o engenho sob o helicóptero. Fasil não tinha a menor dúvida de que Dahlia o faria.

 

No entanto, estava preocupado com o botão vermelho de largada. Teria de ser deixado inoperacional. Se Awad, por nervosismo, deixasse mesmo cair o engenho, o efeito seria destruído. Nunca fora desenhado para ser lançado. Uma amarra no gancho de carga seria o suficiente. O gancho devia ser amarrado no último segundo antes de a carga ser içada, quando Awad não podia ver o que estava a acontecer debaixo do helicóptero. Fasil não podia confiar num guerrilheiro importado para se encarregar desse pormenor. Por isso, tinha de ser ele o chefe de carga.

 

O risco era aceitável. Teria muito mais protecção do que no Aeroporto de Lakefront, com o dirigível. Iria defrontar-se com trabalhadores da construção civil desarmados e não com a polícia do aeroporto. Quando ocorresse o grande estouro, Fasil tencionava estar no seu automóvel, a caminho dos limites da cidade, em direcção a Houston e a um avião para a Cidade do México.

 

Awad acreditaria até ao fim que Fasil estava à sua espera, no carro, em Audubon Park, por detrás do estádio.

 

A garagem era ali, recuada em relação à rua, tal como Dahlia descrevera. Uma vez lá dentro, com a porta fechada, Fasil abriu a traseira do camião. Estava tudo em ordem. Experimentou-o motor do empiIhador. Arrancou de imediato. Bem e bom. Mal Awad chegasse e todos os preparativos estivessem feitos, seria a altura de telefonar a Dahlia, dizer-lhe para matar o americano e vir para Nova Orleães.

 

Lander gemeu uma vez e mexeu-se na cama de hospital. Dahlia lyad pôs de lado a planta das ruas de Nova Orleães que estivera a estudar e levantou-se com dificuldade. Tinha o pé dormente. Coxeou até junto à cama e pôs a mão na testa de Lander. A pele estava quente. Humedeceu-lhe as fontes e as faces com um pano frio e, quando a respiração estabilizou num assobio e farfalheira constantes, regressou à cadeira, sob o candeeiro de leitura.

 

De cada vez que se dirigia à cama, operava-se uma mudança em Dahlia. Sentada na sua cadeira com a planta, a pensar em Nova Orleães, conseguia observar Lander com o olhar firme e frio de um gato, um olhar onde havia muitas possibilidades, todas elas governadas exclusivamente pelas suas necessidades. Junto à cama, o seu rosto era carinhoso e cheio de preocupação. Ambas as expressões eram genuínas. Nunca um homem tivera uma enfermeira mais delicada e mais mortífera do que Dahlia lyad.

 

Dormira num divã no hospital de Nova Jérsia durante quatro noites. Não podia deixá-lo, porque temia que delirasse sobre a missão. E ele delirara, mas fora sobre o Vietname e pessoas que ela não conhecia. E sobre Margaret. Durante toda uma noite repetira "Jergens, tinhas razão".

 

Não sabia se perdera o juízo. Sabia que faltavam doze dias para o ataque. Se conseguisse salvá-lo, fá-lo-ia. Se não... bem, de todas as formas ele morreria. Um dia não era pior do que outro.

 

Sabia que Fasil tinha pressa. Mas ter pressa é perigoso. Se Lander não pudesse voar e os preparativos alternativos de Fasil não lhe conviessem, eliminaria Fasil, decidiu. A bomba era demasiado valiosa para ser perdida numa operação preparada à pressa. Era muito mais valiosa do que Fasil. Nunca lhe perdoaria tentar pôr-se de fora da verdadeira operação, em Nova Orleães. O fugir com o rabo à seringa não fora o resultado de uma falta de coragem, como acontecera com o japonês que ela abatera antes do ataque ao Aeroporto de Lod. Era consequência de ambição pessoal, e isso era muito pior.

 

- Tenta, Michael - sussurrou. - Tenta muito.

 

No dia 1 de Janeiro, de manhã cedo, agentes federais e polícias locais bateram os aeroportos em redor de Nova Orleães - Houma, Thibodaux, Slidell, Hammond, Greater St. Tammany, Gulfport, Stennis International e Bogalusa. Ao longo de toda a manhã foram chegando os seus relatórios: ninguém vira Fasil ou a mulher.

 

Corley, Kabakov e Moshevsky bateram o Aeroporto Internacional e o de Lakefront, em Nova Orleães, sem êxito. O regresso à cidade foi taciturno. Corley, confirmando pelo rádio, soube que todos os relatórios da Alfândega em pontos de entrada por todo o país e todos os relatórios da Interpol eram negativos. Não houvera sinais do piloto líbio.

 

- O filho da mãe podia ir para qualquer lugar - disse Corley, enquanto acelerava para a via rápida.

 

Kabakov olhava pela janela num silêncio amargo. Só Moshevsky não tinha preocupações. Como, na véspera, assistira ao último espectáculo do Hotsy-Totsy Club, na Bourbon Street, em vez de se ir deitar, estava a dormir no banco de trás.

 

Tinham virado em Poydras em direcção ao edifício federal quando, tal como um grande pássaro a erguer-se do esconderijo, o helicóptero se ergueu acima dos edifícios circundantes para ficar a pairar sobre o Superdome, com um objecto quadrado e pesado suspenso sob a sua barriga.

 

- Ei. Ei. Ei, David - disse Corley.

 

Inclinou-se sobre o volante para espreitar pelo pára-brisas e carregou a fundo nos travões. O carro que vinha atrás buzinou furiosamente e ultrapassou-os pela direita, vendo-se a boca do condutor a mexer por detrás da janela.

 

O coração de Kabakov saltou quando viu o aparelho e continuou a saltar. Sabia que era demasiado cedo para o ataque, podia ver agora que o objecto que pendia debaixo do grande helicóptero era um pedaço de maquinaria, mas a imagem adequava-se bem de mais à impressão existente no seu espírito.

 

O campo de aterragem era do outro lado do Superdome. Corley parou o carro a 100 m de distância, ao lado de um monte de vigas.

 

- Se Fasil estiver a vigiar este local, é melhor que não o reconheça

- afirmou Corley. - Vou buscar uns capacetes. - Desapareceu no estaleiro de construção e regressou, ao fim de alguns minutos, com três capacetes amarelos com óculos de protecção.

 

- Pega nos binóculos e vai até à cúpula, até àquela abertura que tem vista para o campo de aterragem - disse Kabakov a Moshevsky. - Mantém-te afastado da luz do Sol e vigia as janelas do outro lado da rua, qualquer local alto e o perímetro da área de carga daqui.

 

Moshevsky já estava em movimento quando ele disse a última palavra.

 

O pessoal de terra rolou outra carga para o local de aterragem e o helicóptero, balançando suavemente, começou a sua descida para a apanhar. Kabakov dirigiu-se ao barracão que ficava no final do campo e observou através da janela. O chefe de carga estava a proteger os olhos do sol com a mão e a falar para um rádio, quando Corley se aproximou dele.

 

- Por favor, peça ao helicóptero para descer - disse Corley. Mostrou o distintivo dentro da palma da mão, de modo que só o chefe de carga o pudesse ver. Este olhou de relance para o distintivo e, em seguida, para o rosto de Corley.

 

- Que se passa?

 

- Pode pedir-lhe que desça?

 

O chefe de carga falou pelo rádio e gritou ao pessoal de terra. Eles retiraram a grande bomba de refrigeração do campo de aterragem e viraram os rostos para escaparem ao vento levantado enquanto o aparelho descia cuidadosamente. O chefe de carga fez um movimento de corte com a mão ao longo do pulso e acenou. O grande rotor abrandou e começou a descair.

 

O piloto torceu-se para sair e saltou para o chão num único movimento. Trazia um fato de voo da Marinha, gasto até quase ficar branco nos joelhos e cotovelos:

 

- Que se passa, Maginty?

 

- Este tipo quer falar contigo - retorquiu o chefe de carga.

 

O piloto olhou para a identificação de Corley. Kabakov não detectou qualquer expressão no seu rosto castanho-escuro.

 

- Podemos ir até ao barracão? O senhor também, Sr. Maginty disse Corley.

 

- Sim - respondeu o chefe de carga. - Mas, ouça, este batedor de ovos custa à companhia 500 dólares por hora, podemos a modos que apressar as coisas?

 

No barracão sujo, Corley tirou para fora o retrato de Fasil.

 

- Por acaso...

 

- Por que não começam por se apresentar? - interrompeu o piloto. - É educado e só vai custar 12 dólares, em termos de tempo, aqui ao Maginty.

 

- Sam Corley.

 

- David Kabakov.

 

- Chamo-me Lamar Jackson. - Apertou-lhes as mãos solenemente.

 

- É uma questão de segurança nacional - disse Corley. Kabakov julgou detectar um lampejo de divertimento nos olhos do piloto devido ao tom de Corley. - Viram este homem?

 

As sobrancelhas de Jackson ergueram-se enquanto olhava para a fotografia.

 

- Sim, há uns três ou quatro dias, enquanto tu estavas a atar a linga daquele guincho de elevador, Maginty. De qualquer modo, quem é ele?

 

- Um fugitivo. Queremos apanhá-lo.

 

- Pois bem, fiquem por aqui. Ele disse que voltava.

 

- Disse?

 

- Sim. Como sabiam que deviam procurar aqui?

 

- Vocês têm aquilo que ele quer - respondeu Corley. - Um helicóptero.

 

- Para quê?

 

- Para ferir muita gente com ele. Quando é que ele volta?

 

- Não disse. Para dizer a verdade, não lhe prestei muita atenção. Era um tipo meio repelente, sabem, a fazer-se simpático. Que fez ele? Isto é, vocês dizem que ele é perigoso...

 

- É um psicopata e um assassino, um fanático político - retorquiu Kabakov. - Cometeu inúmeros assassínios. Quando chegasse a altura, ia matá-lo e apoderar-se do seu helicóptero. Conte-nos o que aconteceu.

 

- Oh, meu Deus - disse Maginty, secando o rosto com um lenço.

- Não gosto disto. - Olhou rapidamente para a porta do barracão, como se esperasse o maníaco a qualquer momento.

 

Jackson abanou a cabeça como um homem a certificar-se de que está mesmo acordado, mas, quando falou, a sua voz era calma:

 

- Estava de pé junto ao campo de aterragem quando me dirigi para aqui para tomar uma chávena de café. Não reparei especialmente nele, porque há muita gente que gosta de observar esta coisa, sabem? Então, ele começou a fazer-me perguntas sobre tudo, como se içam coisas e tudo isso, qual era a designação do modelo. Perguntou-me se podia espreitar lá para dentro. Disse-lhe que podia espreitar através da porta lateral da fuselagem, mas que não devia tocar em nada.

 

- E ele olhou?

 

- Sim e, deixe-me ver, perguntou-me como se vai e vem do porão de carga para o cockpit. Disse-lhe que é difícil, que se tem de levantar um dos assentos do cockpit. Lembro-me de ter pensado que era uma pergunta engraçada. Normalmente, as pessoas fazem perguntas do tipo quanto levanta e se não tenho medo de que caia. Depois, disse-me que tinha um irmão que pilota helicópteros e que esse irmão iria gostar muito de ver este.

 

- Perguntou-lhe se trabalha aos domingos?

 

- Já lá ia chegar. Esse gajo perguntou-me três vezes se íamos trabalhar durante os feriados restantes e eu fartei-me de lhe dizer que sim, que sim. Tinha de voltar ao trabalho e ele insistiu em apertar-me a mão e tudo isso.

 

- Perguntou-lhe como se chamava? - inquiriu Kabakov.

 

- Sim.

 

- E onde vive?

 

- Precisamente.

 

Kabakov gostava instintivamente de Jackson. Parecia um homem com bons nervos. Também parecia poder ser muito duro, quando necessário.

 

- Foi piloto da Marinha? - perguntou Kabakov.

 

- Certo.

 

- Vietname?

 

- Trinta e oito missões. Depois fui um pouco atingido e fiquei "reformado" até ao final da comissão de serviço.

 

- Sr. Jackson, precisamos da sua ajuda.

 

- Para apanhar este gajo?

 

- Sim - respondeu Kabakov. - Queremos que o siga quando ele se for embora, depois da próxima visita. Ele vai limitar-se a aparecer, juntamente com o pseudo-irmão, e dar uma vista de olhos. Enquanto aqui estiver, não deve ser assustado. Temos de o seguir durante uns tempos, antes de o apanharmos. Por isso, precisamos da sua cooperação.

 

- Hum-hum. Bem, acontece que também preciso da vossa cooperação. Deixe-me ver as suas credenciais, Sr. FBI. - Estava a olhar para Kabakov, mas Corley estendeu a sua identificação. O piloto agarrou no telefone.

 

- O número é...

 

- Eu descubro o número, Sr. Corley.

 

- Pode pedir para falar com...

 

- Posso pedir para falar com o chefe dos detectives - retorquiu Jackson.

 

O gabinete do FBI em Nova Orleães confirmou a identidade de Corley.

 

- Agora - disse Jackson, desligando o telefone -, queriam saber se o tarado me perguntou onde vivia. Se não estou enganado isso significa que ele pretende localizar a minha família. Para me coagir.

 

- Podia ocorrer-lhe, sim. Se fosse necessário - respondeu Kabakov.

 

- Bem, digo-vos isto. Querem que os ajude fazendo tudo como deve ser da próxima vez que o homem aparecer?

 

- Vai ser protegido durante o tempo todo. Apenas queremos segui-lo, quando ele se for embora - asseverou Corley

 

- Como sabem que, na próxima visita, não haverá merda?

 

- Porque ele vai trazer o seu piloto para ver o helicóptero com antecedência. Sabemos qual é o dia em que tenciona atacar.

 

- Hum-hum. Faço isso. Mas, dentro de cinco minutos, vou telefonar à minha mulher, para Orlando. Quero que ela me diga que há um carro oficial parado em frente à porta com os quatro gajos piores que ela alguma vez viu. Estão a perceber?

 

- Deixe-me usar o seu telefone - foi a resposta de Corley.

 

A vigilância constante do helioporto estendeu-se durante dias. Corley, Kabakov e Moshevsky estavam lá durante as horas de trabalho. Uma equipa de três homens do FBI substituía-os quando o helicóptero era parado, durante a noite. Fasil não apareceu.

 

Todos os dias, Jackson chegava alegre e pronto para trabalhar, embora se queixasse do par de agentes federais que o acompanhava durante as horas de folga. Dizia que lhe davam cabo da imagem.

 

Numa noite, fora beber um copo com Kabakov e Rachel no Royal Orleans, com os dois guarda-costas sentados na mesa do lado, a seco e lúgubres. Jackson estivera numa data de lugares e vira uma data de coisas e Kabakov gostava mais dele do que da maioria dos americanos que conhecera.

 

Maginty era outra questão. Kabakov desejava que tivesse sido possível manter Maginty afastado de tudo aquilo. A pressão estava a ser demasiada para o chefe de carga, que ficara assustadiço e irritável.

 

Na manhã de 4 de Janeiro, a chuva atrasou os trabalhos e Jackson dirigiu-se ao barracão para beber um café.

 

- Que arma é essa que tem aí? - perguntou a Moshevsky.

 

- Uma Galil. - Moshevsky pedira a Israel o novo modelo de metralhadora de assalto, com a conivência de Kabakov. Retirou o carregador e a bala da câmara e passou-a a Jackson. Moshevsky apontou para o abridor de garrafas incorporado no bipé, uma característica que achava especialmente interessante.

 

- Costumávamos trazer uma AK-47 no helicóptero, no Vietname

- disse Jackson. - Alguém a tirou a um vietcong. Gostava mais dela do que da M-16.

 

Maginty entrou no barracão, viu a arma e tornou a sair. Kabakov decidiu dizer a Moshevsky para manter a arma fora de vistas. Não havia necessidade de assustar Maginty ainda mais.

 

- Mas, para lhe dizer a verdade, não gosto de nenhuma dessas coisas - continuou Jackson. - Vocês conhecem uma data de gajos que brincam com armas... não me estou a referir a vocês, é a vossa profissão... mas mostrem-me um homem que goste de armas e eu...

 

O rádio de Corley interrompeu Jackson.

 

- Jay 7, Jay 7.

 

- Jay 7, continue.

 

- Nova Iorque informa de que o suspeito Mayfly passou pela alfândega do JFK às 9.40 h, hora da costa leste. Tem reserva no Delta 704 para Nova Orleães, que chega às 12.30 h, hora local. - Mayfly era o nome de código atribuído a Abdel Awad.

 

- Recebido e entendido, Jay 7 desliga. Filho da mãe, Kabakov, ele vem aí! Vai conduzir-nos a Fasil e ao plástico e à mulher.

 

Kabakov soltou um suspiro de alívio. Era a primeira prova consistente de que estava na pista certa, de que a Supertaça era o alvo.

 

- Espero que possamos separá-los do plástico, antes de os apanharmos. Caso contrário, vai haver um grande barulho.

 

- Logo, hoje é o dia - disse Jackson. Não havia pânico na sua voz. Era firme.

 

- Não sei - retrucou Kabakov. - Talvez hoje, talvez amanhã. Amanhã é domingo e ele vai querer vê-lo a trabalhar ao domingo. Veremos.

 

Três horas e quarenta e cinco minutos mais tarde, Abdel Awad saiu do avião da Delta, no Aeroporto Internacional de Nova Orleães. Trazia uma pequena mala. Na fila de passageiros, atrás dele, encontrava-se um homem grande, de meia-idade, com um fato completo cinzento. Durante um instante, o olhar do homem de cinzento cruzou-se com o de Corley, que estava à espera do outro lado do corredor. O homem grande olhou brevemente para as costas de Awad e, depois, desviou o olhar.

 

Corley, transportando uma mala, seguiu os passageiros que desembarcavam em direcção ao átrio. Não estava a vigiar Awad, olhava para a multidão que esperava para acolher os recém-chegados. Estava à procura de Fasil, à procura da mulher.

 

Mas era claro que Awad não andava à procura de ninguém. Desceu a escada rolante e saiu, hesitando junto à fila de passageiros que aguardavam limusinas.

 

Corley esgueirou-se para dentro do carro onde se encontravam Kabakov e Moshevsky. Kabakov parecia estar a ler um jornal. Fora combinado que não ficaria visível, não fosse dar-se o caso de Awad ter visto o seu retrato ao receber instruções.

 

- Aquele grandalhão é Howard - disse Corley. - Howard vai segui-lo, caso apanhe a limusina. Se apanhar um táxi, Howard aponta-o aos tipos que estão nos carros com rádio.

 

Awad apanhou um táxi. Howard colocou-se atrás dele e parou para se assoar.

 

Era um prazer observar a operação de perseguição. Foram utilizados três carros e uma carrinha, sem que nenhum deles estivesse imediatamente atrás do táxi durante mais do que uns poucos minutos, na longa viagem até à cidade. Quando se tornou claro que o táxi ia parar no Marriott Hotel, um dos carros que o seguiam arrancou para a entrada lateral e um agente estava perto da recepção antes de Awad chegar, dizendo que tinha uma reserva.

 

O agente que se encontrava junto ao balcão dirigiu-se rapidamente aos elevadores. "611", disse, ao passar pelo homem que estava de pé junto ao vaso da palmeira. O agente que se encontrava debaixo da árvore entrou no elevador. Encontrava-se no sexto andar quando Awad foi atrás do bagageiro até ao quarto.

 

Dentro de meia hora, o FBI ocupava o quarto ao lado e colocara um agente na central telefónica. Awad não recebeu chamadas e não desceu. Às 8 h da noite, pediu que lhe levassem um bife ao quarto. Um agente foi entregá-lo e recebeu, de gorjeta, uma moeda de 25 cêntimos, que segurou pelas bordas até chegar lá abaixo, onde foram examinadas as impressões digitais da moeda. A vigilância continuou durante toda a noite.

 

A manhã de domingo, 5 de Janeiro, estava fria e nublada. Moshevsky encheu duas chávenas de café forte, passando uma a Kabakov e outra a Corley. Através das paredes finas do barracão podiam ouvir as lâminas do rotor do grande helicóptero a agitarem o ar, enquanto fazia mais uma subida.

 

Fora contra os instintos de Kabakov deixar o hotel onde Awad estava instalado, mas o senso comum dizia-lhe que aquele era o melhor lugar para esperar. Não podia realizar uma vigilância apertada sem correr o risco de ser visto por Awad, ou por Fasil, quando aparecesse. A vigilância do hotel, sob controlo directo do chefe da delegação de Nova Orleães, era das melhores que Kabakov já vira. Não havia a menor dúvida no espírito de Kabakov de que viriam até ao helicóptero antes de irem ver a bomba. Awad podia alterar a carga para se adaptar ao helicóptero, mas não podia alterar o helicóptero para se adaptar à carga - tinha de ver o helicóptero primeiro.

 

Aquele era o local mais perigoso. Os árabes estariam apeados nesse enorme emaranhado de materiais de construção e teriam pela frente civis, dois dos quais sabiam que eram perigosos. Pelo menos, Maginty não estava lá e isso era uma bênção, pensou Kabakov. Nos seis dias de vigilância, Maginty estivera de baixa duas vezes e chegara atrasado em dois outros dias.

 

O rádio de Corley rosnou e ele mexeu no botão de som.

 

- Unidade 1, Unidade 4. - Era a equipa do sexto andar do Marriott a chamar o chefe de operações.