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DONA FLOR E SEUS DOIS MARIDOS / Jorge Amado
DONA FLOR E SEUS DOIS MARIDOS / Jorge Amado

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

DONA FLOR E SEUS DOIS MARIDOS

 

     Nem por ser desordenado dia de lamentação, tristeza e choro, nem por isso se deve deixar o velório correr em brancas nuvens. Se a Dona da casa, em soluços e em desmaio, fora de si, envolta  em dor, ou morta no caixão, se ela não puder, um parente ou pessoa amiga se encarrega então de atender à sentinela pois não se vai largar no alvéu, sem de comer nem de beber, os coitados noite adentro solidários; por vezes sendo inverno e frio.

     Para que uma sentinela se anime e realmente honre o defunto a presidi-la e lhe faça leve a primeira e confusa noite de sua morte, é necessário atendê-la com solicitude, cuidando-lhe da moral e do apetite.

    Quando e o quê oferecer?

     Pois a noite inteira, do começo ao fim. Café é indispensável e o tempo todo, café pequeno, é claro. Café completo, com leite, pão, manteiga, queijo, uns biscoitinhos, alguns bolos de aipim ou carimã, fatias de cuscuz com ovos estrelados, isso, só de manhã e para quem atravessou ali a madrugada.

    O melhor é manter a água na chaleira para não faltar café; sempre está chegando gente. Bolachas e biscoitos acompanham o cafezinho; uma vez por outra uma bandeja com salgados, podendo ser sanduíches de queijo, presunto, mortadela, coisas simples pois de consumição já basta e sobra com o defunto.

    Se o velório, porém, for de categoria, dessas sentinelas de dinheiro a rodo, então se uma xícara de chocolate à meia noite, grosso e quente, ou uma canja gorda de galinha. E, para completar, bolinhos de bacalhau, frigideira, croquetes em geral, doces variados, frutas secas.

    Para beber, em sendo casa rica, além do café, pode haver cerveja ou vinho, um copo e tão somente para acompanhar a canja e a frigideira. Jamais champanha, não se considera de bom-tom.

    Seja velório rico, seja pobre, exige-se, porém, constante e necessária, a boa cachacinha; tudo pode faltar, mesmo café, só ela é indispensável; sem seu conforto não há velório que se preze. Velório sem cachaça é desconsideração ao falecido, significa indiferença e desamor.

 

     Vadinho o primeiro marido de Dona Flor, morreu num domingo de carnaval, pela manhã, quando, fantasiado de baiana, sambava num bloco, na maior animação, no Largo Dois de Julho, não longe de sua casa. Não pertencia ao bloco, acabara de nele misturar-se, em companhia de mais quatro amigos, todos com traje de baiana, e vinham de um bar no Cabeça onde o uísque correra farto à custa de um certo Moysés Alves, fazendeiro de cacau, rico e perdulário.

     O bloco conduzia uma pequena e afinada orquestra de violões e flautas; ao cavaquinho, Carlinhos Mascarenhas, magricela celebrado nos castelos, Ah! um cavaquinho divino. Vestiam-se os rapazes de ciganos e as moças de camponesas Húngaras ou romenas; jamais, porém, húngara ou romena ou mesmo búlgara ou eslovaca rebolou como rebolavam elas, cabrochas na flor da idade e da faceirice.

     Vadinho, o mais animado de todos, ao ver o bloco despontar na esquina e ao ouvir o ponteado do esquelético Mascarenhas no cavaquinho sublime, adiantou-se rápido, postou-se ante a romena carregada na cor, uma grandona, monumental como uma igreja - e era a Igreja de São Francisco, pois se cobria com um desparrame de lantejoula doirada -, anunciou:

     - Lá vou eu, minha russa do Tororó...

     O cigano Mascarenhas, também ele gastando vidrilhos e miçangas, festivas argolas penduradas nas orelhas, apurou no cavaquinho, as flautas e os violões gemeram, Vadinho caiu no samba com aquele exemplar entusiasmo, característico de tudo quanto fazia, exceto trabalhar. Rodopiava em meio ao bloco, sapateava em frente à mulata, avançava para ela em floreios e umbigadas, quando, de súbito, soltou uma espécie de ronco surdo, vacilou nas pernas, adernou de um lado, rolou no chão, botando uma baba amarela pela boca onde o esgar da morte não conseguia apagar de todo o satisfeito sorriso do folião definitivo que ele fora.

    Os amigos ainda pensaram tratar-se de cachaça, não os uísques do fazendeiro: não seriam aquelas quatro ou cinco doses capazes de possuir bebedor da classe de Vadinho; porém toda a cachaça acumulada desde a véspera ao meio-dia quando oficialmente inauguraram o carnaval no Bar Triunfo, na Praça Municipal, subindo toda ela de uma vez e derrubando-o adormecido. Mas a mulata grandona não se deixou enganar: enfermeira de profissão estava acostumada com a morte, freqüentava-a diariamente no hospital. Não, porém, tão íntima a ponto de dar-lhe umbigadas, de pinicar-lhe o olho, de sambar com ela. Curvou-se sobre Vadinho, colocou-lhe a mão no pescoço, estremeceu, sentindo um frio no ventre e na espinha:

    - Ta morto, meu Deus!

   Outros tocaram também o corpo do moço, tomaram-lhe do pulso, suspenderam-lhe a cabeça de melenas loiras, buscaram-lhe o palpitar do coração. Nada obtiveram, era sem jeito. Vadinho desertara para sempre do Carnaval da Bahia.

 

      Foi um rebuliço no bloco e na rua, um corre-corre pelas redondezas, um deus-nos-acuda a sacudir os carnavalescos - e ainda por cima a escandalosa Anete, professorinha romântica e histérica, aproveitou a boa oportunidade para um chilique, com pequenos gritos agudos e ameaças de desmaio. Toda aquela representação em honra do dengoso Carlinhos Mascarenhas, por quem suspirava a melindrosa de faniquito fácil - dizendo-se ela própria ultra-sensível, arrepiando-se como uma gata quando ele dedilhava o cavaquinho. Cavaquinho agora silencioso, pendendo inútil das mãos do artista, como se Vadinho houvesse levado consigo para o outro mundo seus derradeiros acordes.

     Veio gente correndo de todos os lados, logo a notícia circulou pelas imediações, chegou a São Pedro, à Avenida Sete, ao Campo Grande, arrebanhando curiosos. Em torno ao cadáver reunia-se uma pequena multidão a acotovelar-se em comentários. Um médico residente em Sodré foi requisitado e um guarda de trânsito sacou de um apito e nele soprava sem parar como a advertir a cidade inteira, a todo o Carnaval,do fim de Vadinho.

      "Pois se é Vadinho, coitadinho dele !", constatou um careta, com sua mascara de meia, perdida a animação. Todos reconheciam o morto, era largamente popular, com sua alegria esfuziante, seu bigodinho recortado, sua altivez de malandro, benquisto sobretudo nos lugares onde se bebia, jogava, e farreava; e ali, tão perto de sua residência, não havia quem não o identificasse.

     Outro mascarado, este vestido de aniagem e coberto com uma cabeçorra de urso, varou o cerrado grupo, conseguiu aproximar-se e ver. Arrancou a máscara deixando exposta uma cara aflita, de bigodes caídos e crânio careca e murmurou:

     - Vadinho, meu irmãozinho, que foi que te fizeram?

     "Que foi que deu nele, de que morreu?" perguntavam-se uns aos outros, e havia quem respondesse: "foi cachaça", numa explicação por demais fácil para tão inesperada morte. Uma velha curvada parou também, deu sua olhadela, constatou:

     - Tão moderno ainda, por que morrer tão moço?

     Perguntas e respostas cruzavam-se, enquanto o médico colocava o ouvido sobre o peito de Vadinho, numa constatação final e inútil.

     "Estava sambando, numa animação retada, e sem avisar nada a ninguém, caiu de lado já todo cheio da morte" - explicou um dos quatro amigos, curado por completo da cachaça, de súbito sóbrio e comovido, meio sem jeito nas roupas femininas de baiana, as faces vermelhas de carmim, fundas olheiras negras, traçadas com cortiça queimada, sob os olhos.

     O fato de estarem fantasiados de baiana não deve levar a maliciar-se sobre os cinco rapazes, todos eles de macheza comprovada. Vestiam-se de baianas para melhor brincar, por farsa e molecagem, e não por tendência ao efeminado, a suspeitas esquisitices. Não havia chibungo entre eles, benza Deus. Vadinho, inclusive, amarrara sob a anágua branca e engomada, enorme raiz de mandioca e, a cada passo, suspendia as saias e exibia o troféu descomunal e pornográfico fazendo as mulheres esconderem nas mãos o rosto e o riso, com maliciosa vergonha. Agora a raiz pendia abandonada sobre a coxa descoberta e não fazia ninguém rir. Um dos amigos veio e a desatou da cintura de Vadinho. Mas nem assim o defunto ficou decente e recatado, era um morto de Carnaval e não exibia sequer sangue de bala ou de facada a escorrer-lhe do peito, capaz de resgatar seu ar de mascarado.

     Dona Flor, precedida, é claro, por Dona Norma a dar ordens e a abrir caminho, chegou quase ao mesmo tempo que a polícia. Quando despontou na esquina, apoiada nos braços solidários das comadres, todos adivinharam a viúva, pois vinha suspirando e gemendo, sem tentar controlar os soluços, num pranto desfeito. Ao demais, trajava o robe caseiro e bastante usado com que cuidava do asseio do lar, calçava chinelas cara de gato  e ainda estava despenteada. Mesmo assim era bonita, agradável de ver-se: pequena e rechonchuda, de uma gordura sem banhas, a cor bronzeada de cabo-verde, os lisos cabelos tão negros a ponto de parecerem azulados, olhos de requebro e os lábios grossos um tanto abertos sobre os dentes alvos. Apetitosa, como costumava classificá-la o próprio Vadinho em seus dias de ternura, raros talvez porém inesquecíveis. Quem sabe, devido às atividades culinárias da esposa, nesses idílios Vadinho dizia-lhe "meu manuê de milho verde, meu acarajé cheiroso, minha franguinha gorda", e tais comparações gastronômicas davam justa idéia de certo encanto sensual e caseiro de Dona Flor a esconder-se sob uma natureza tranqüila e dócil. Vadinho conhecia-lhe as fraquezas e as expunha ao sol, aquela ânsia controlada de tímida, aquele recatado desejo fazendo-se violência e mesmo incontinência ao libertar-se na cama. Quando Vadinho estava de veia, não existia ninguém mais encantador e nenhuma mulher sabia resistir-lhe. Dona Flor jamais conseguira recusar-se a seu fascínio nem mesmo se a tanto se dispunha cheia de indignação e de raiva recentes. Pois, em repetidas ocasiões, chegara a odiá-lo e a arrenegar o dia em que unira sua sorte à do boêmio.

     Mas andando agoniada, ao encontro da intempestiva morte de Vadinho, Dona Flor ia zonza, vazia de pensamentos, de nada se recordava, nem dos momentos de densa ternura, menos ainda dos dias cruéis, de angústia e solidão, como se ao expirar ficasse o marido despojado de todos os defeitos ou como se não os houvesse possuído em "sua breve passagem pó reste vale de lágrimas".

     "Foi breve sua passagem por esse vale de lágrimas", pronunciou o respeitável professor Epaminondas Souza Pinto afetado e afobado, tentando cumprimentar a viúva, dar-lhe os pêsames, antes mesmo dela chegar junto ao corpo do marido. Dona Gisa, também professora  e até certo ponto também respeitável, conteve o açodamento do colega e conteve o riso. Se em verdade fora breve à passagem de Vadinho pela vida – vinha de completar trinta e um anos -, para ele, Dona Gisa bem o sabia, não fora o mundo vale de lágrimas e, sim, palco de frases, engodos, embustes e pecados. Alguns deles aflitos e confusos, sem dúvida, submetendo seu coração a árduas provas, a agonias e sobressaltos: dívidas a pagar, promissórias a descontar, avalistas a convencer, compromissos assumidos, prazos improrrogáveis, protestos e cartórios, bancos e agiotas, caras amarradas, amigos esquivando-se, sem falar nos sofrimentos físicos e morais de Dona Flor. Porque, considerava Dona Gisa em seu português arrevesado - era vagamente norte-americana naturalizara-se e se sentia brasileira mas o diabo da língua Ah! não conseguia dominá-la -, se houvera lágrimas na breve passagem de Vadinho pela vida, elas tinham sido choradas por Dona Flor e foram muitas, davam de sobra para o casal.

     Diante de tão súbita morte, Dona Gisa não pensava em Vadinho senão com saudade: era-lhe simpático, apesar de tudo; possuía um lado gentil e cativante. Nem por isso, no entanto, nem por ele encontrar-se ali, no Largo Dois de Julho, morto, estendido na rua, vestido de baiana, iria ela de repente santificá-lo, torcer a realidade, inventar outro Vadinho feito de um só pedaço. Assim explicou a Dona Norma, sua vizinha e íntima, mas não obteve da parceira o esperado apoio. Dona Norma muitas vezes dissera as últimas a Vadinho, brigava com ele, pregava-lhe sermões monumentais, chegara um dia a ameaçá-lo com a polícia. Naquela hora derradeira e aflita, porém, não desejava comentar as predominantes e desagradáveis facetas do finado, queria apenas gabar seus lados bons, sua gentileza natural, sua solidariedade sempre pronta a manifestar-se, sua lealdade para com os amigos, sua indiscutível generosidade (sobretudo se a praticava com o dinheiro alheio), sua irresponsável e infinita alegria de viver. Aliás, tão ocupada em acompanhar e socorrer Dona Flor, nem tinha ouvidos para Dona Gisa com sua dura verdade. Dona Gisa era assim: a verdade acima de tudo, por vezes a ponto de fazê-la parecer áspera e inflexível; talvez numa atitude de defesa contra sua boa fé, pois era crédula ao absurdo e confiava em todo mundo. Não, não relembrava os malfeitos de Vadinho para criticá-lo ou condená-lo, gostava dele e com freqüência perdiam-se os dois em longas prosas, Dona Gisa interessada em apreender a psicologia do submundo onde Vadinho se movimentava, ele a contar-lhe casos e a espiar-lhe no decote do vestido o nascer dos seios pujantes e sardentos. Talvez Dona Gisa o entendesse melhor que Dona Norma, mas, ao contrário da outra, não lhe descontava sequer um defeito, não ia mentir só por que ele morrera. Nem a si própria Dona Gisa mentia, a não ser quando isso se fazia indispensável. E não era o caso, evidentemente.

     Dona Flor atravessava o povo no rastro de Dona Norma a abrir caminho com os cotovelos e com sua extensa popularidade:

    - Vai, arreda minha gente, deixa a pobre passar...

     Lá estava Vadinho no chão de paralelepípedos, a boca sorrindo, todo branco e loiro, todo cheio de paz e de inocência. Dona Flor ficou um instante parada, a contemplá-lo como se demorasse a reconhecer o marido ou talvez, mais provavelmente, a aceitar o fato, agora indiscutível, de sua morte. Mas foi só um instante. Com um berro arrancado do fundo das entranhas, atirou-se sobre Vadinho, agarrou-se ao corpo imóvel, a beijar-lhe os cabelos, o rosto pintado de carmim, os olhos abertos, o atrevido bigode, a boca morta, para sempre morta.

 

     Era domingo de carnaval, quem não tinha naquela noite corso de automóveis a fazer, festa onde divertir-se, programa para a madrugada? Pois bem: com tudo isso, o velório de Vadinho foi um sucesso. "Um autêntico sucesso", como orgulhosamente constatou e proclamou Dona Norma.

     Os homens do rabecão largaram o corpo em cima da cama, no quarto de dormir, só depois os vizinhos o transportaram para a sala. Os tipos do necrotério estavam apressados, seu trabalho aumentava com o carnaval. Enquanto os demais se divertiam, eles lidavam com defuntos, com as vítimas de desastres e de brigas. Arrancaram o lençol imundo a embrulhar o cadáver, entregaram o laudo à viúva.

     Vadinho ficou nu como Deus o pôs no mundo, em cima da cama de casal, uma cama de ferro com cabeceira e pés trabalhados, comprada em segunda mão por Dona Flor, num leilão de móveis, quando do casamento, seis anos antes. Dona Flor, sozinha no quarto, abriu o envelope, estudou o parecer dos médicos. Balançou a cabeça, incrédula. Quem diria? Aparentemente tão forte e são, tão moço ainda!

     Gabava-se Vadinho de jamais ter estado doente e de ser capaz de atravessar oito dias e oito noites sem dormir, jogando e bebendo ou na farra com mulheres. E por vezes não passava realmente oito dias sem aparecer em casa, deixando Dona Flor em desespero, como maluca? No entanto, ali estava o laudo dos doutores da Faculdade: era um homem condenado, fígado imprestável, rins estrompados, coração aos pandarecos. Podia morrer a qualquer momento, como morrera. Assim, de repente. A cachaça, as noites nos cassinos, a esbórnia, a correria doida à cata de dinheiro para o jogo haviam arruinado aquele organismo belo e forte, deixando-lhe apenas a aparência. Sim, porque, olhando-o só pelo lado de fora, quem o julgaria tão implacavelmente liquidado?

     Dona Flor contemplou o corpo do marido, antes de chamar os prestimosos e impacientes vizinhos para a delicada tarefa de vesti-lo. Lá estava ele, nu como gostava de ficar na cama, uma penugem doirada a cobrir-lhe braços e pernas, mata de pelos loiros no peito, a cicatriz da navalhada no ombro esquerdo. Tão belo e másculo, tão sábio no prazer! Mais uma vez as lágrimas assomaram aos olhos da jovem viúva. Tentou não pensar no que estava pensando, não era coisa para dia de velório.

     Ao vê-lo assim, porém, largado sobre o leito, inteiramente nu, não podia Dona Flor, por mais esforço que fizesse, deixar de recordá-lo como era na hora do desejo desatado: Vadinho não tolerava peça de roupa sobre os corpos, nem pudibundo lençol a cobri-los, o pudor não era seu forte. Quando a chamava para a cama, dizia-lhe: "vamos vadiar, minha filha"; era o amor, para ele, como uma festa de infinita alegria e liberdade, à qual se entregava com aquele seu reconhecido entusiasmo aliado a uma competência proclamada por múltiplas mulheres, de diferente condição e classe. Nos primeiros tempos do casamento Dona Flor ficava toda encabulada e sem jeito, pois ele a exigia nuinha por inteiro:

     - Onde já se viu vadiar de camisola? Por que tu te esconde? A vadiação é coisa santa, foi inventada por Deus no paraíso, tu não sabe?

     Não só a despia toda, como, achando pouco, tocava e brincava com os detalhes de seu corpo de curvas largas e reentrâncias profundas onde cruzavam-se sombra e luz num jogo de mistérios. Dona Flor tentava cobrir-se, Vadinho arrancava o lençol entre risos, expunha-lhe os seios rijos, a formosa bunda, o ventre quase despido de pelos. Tomava dela como de um brinquedo, um brinquedo ou um fechado botão de rosa que ele fazia desabrochar em cada noite de prazer. Dona Flor ia perdendo a timidez, entregando-se aquela festa lasciva, crescendo em violência, tornando-se amante animosa e audaz. Nunca, porém, abandonou por completo a pudicícia e a vergonha; era necessário reconquistá-la cada vez, pois, apenas desperta dessas loucas audácias e dos ais de desmaio, voltava a ser tímida e pudorosa esposa.

     Naquela hora, a sós com a morte de Vadinho, deu-se conta Dona Flor, então e completamente, de sua viuvez e de que não mais o teria, nem em seus braços voltaria a desmaiar. Porque desde o momento do trágico boato transmitido de boca em boca, até a chegada do rabecão, no fim da tarde, vivera a professora de culinária uma espécie de sonho mau e ao mesmo

tempo um tanto excitante: o impacto da notícia, a caminhada em prantos até o Largo Dois de Julho, o encontro com o corpo, à multidão a rodeá-la, a cuidar dela, a oferecer-lhe solidariedade e conforto, à volta para casa quase carregada por Dona Norma e Dona Gisa, pelo professor Epaminondas e por Mendez, o espanhol do botequim. Tudo tão rápido e confuso, não lhe deixara tempo para pensar e realizar por completo a morte de Vadinho.

     O corpo fora levado do Largo para o necrotério, mas nem assim ela teve um momento de sossego. De repente tornara-se o centro da vida não só de sua rua mas de todas as artérias adjacentes, e isso num domingo de carnaval. Até o trazerem de volta, embrulhado num lençol, o traje de baiana numa pequena trouxa colorida, Dona Flor não parou de receber pêsames, provas de amizade, gentilezas, numa contínua romaria de vizinhos, conhecidos e amigos. Dona Norma e Dona Gisa, essas abandonaram inteiramente os afazeres de suas casas, já um tanto descuidados devido ao carnaval, almoços e jantares entregues ao critério das amas apressadas. Não despregaram as duas de junto de Dona Flor, cada qual mais dedicada e consoladora.

     Lá fora era o carnaval com seus mascarados, seus blocos e ranchos, suas fantasias ricas ou divertidas. As músicas das multiplicadas orquestras, os zé-pereiras, os zabumbas, os blocos, os ranchos, afoxés com seus tamborins e atabaques. De quando em vez, Dona Norma não resistia e corria até a janela, debruçava-se, arriscava um olho, trocava facécias com um mascarado conhecido, transmitia a notícia da morte de Vadinho, aplaudia uma fantasia original ou um bloco bonito. Por vezes chamava Dona Gisa, se um rancho particularmente animado surgia na esquina. E quando o Afoxé dos Filhos do Mar, já na parte da tarde, deu entrada na rua, com sua figuração inesquecível, acompanhado por grande multidão a sambar, até Dona Flor, as lágrimas mal contidas, aproximou-se da janela e espiou o afoxé tão anunciado nos jornais, a maior beleza do carnaval baiano. Espiou mas sem se mostrar, escondida pelas largas espáduas de Dona Gisa. Dona Norma, esquecida do morto e das conveniências, batia palmas entusiásticas.

     Assim fora durante o dia inteiro, desde a hora da notícia. Até Dona Nancy, Argentina retraída, nova na rua, casada com o dono da fábrica de cerâmicas, um arrevesado Bernabó, desceu de seu sobrado rico e de sua soberbia, para oferecer condolências e préstimos a Dona Flor, revelando-se pessoa simpática e educada e trocando com Dona Gisa filosóficas considerações sobre a brevidade da vida e sua insegurança.

     Não tivera Dona Flor, como se vê, tempo de refletir em seu novo estado e nas transformações de sua existência. Só quando trouxeram Vadinho do necrotério e o deixaram nu no leito de casal onde tantas e tantas vezes tinham feito o amor, então, e somente então, encontrou-se sozinha com a morte do marido e se sentiu viúva. Jamais voltaria ele a derrubá-la na cama de ferro, arrancando-lhe vestido e combinação, e as peças mais íntimas, atirando com o lençol para cima da penteadeira, tomando de cada detalhe de seu corpo, fazendo-a delirar.

     Ah! nunca mais, pensou Dona Flor, e sentiu um nó na garganta, um tremor nas pernas, compreendeu então que tudo terminara. Ficou ali parada, sem palavras e sem lágrimas, despida de qualquer excitação, distante de toda a representação a cercar a morte. Apenas ela e o cadáver nu, ela e a definitiva ausência de Vadinho. Não ia mais ter de esperá-lo madrugada a fora, nem de esconder de suas vistas o dinheiro pago pelas alunas, nem de vigiar suas relações com as mais bonitas, nem de apanhar dele nos dias de cachaça e mau humor, nem de ouvir os ácidos comentários dos vizinhos. Nem de rolar com ele na cama, abrindo-se toda para seu desejo, despindo-se da roupa, do lençol e do recato para a festa do amor, a inesquecível festa. O nó na garganta, estrangulando; uma dor no peito, aguda punhalada.

     - Flor, não está na hora de vestir ele? - a voz de Dona Norma ressoava urgente no quarto, vinda da sala. - Não tarda chegar visitas ...

     A viúva abriu a porta, agora estava séria, calada, sem soluços, sem gemidos, fria e austera. Sozinha no mundo. Os vizinhos entraram para ajudar. Seu Vivaldo, da funerária "Paraíso em Flor", viera pessoalmente entregar o caixão barato - fizera considerável abatimento, era companheiro de Vadinho nas mesas de roleta e bacará onde jogava ataúdes e lápides - e colaborou com eficácia e experiência para fazer do boêmio um morto apresentável. Dona Flor a tudo assistiu sem uma palavra, sem uma lágrima, estava sozinha no mundo.

 

     O corpo de Vadinho foi depositado no caixão, levado para a sala de visitas onde haviam improvisado um estrado com as cadeiras. Seu Vivaldo trouxera flores, contribuição gratuita da funerária. Dona Gisa arrumou uma saudade roxa entre os dedos cruzados de Vadinho. Seu Vivaldo considerou para si mesmo o absurdo do gesto: deviam colocar entre os dedos do morto uma ficha de jogo, isso sim. Uma ficha em vez da saudade roxa, e se em lugar da música e dos risos do carnaval se elevassem por ali perto o ruído das mesas da roleta, a voz rouquenha do crupiê, o soar das fichas, as nervosas exclamações dos jogadores, era bem possível ver-se Vadinho levantar do caixão, sacudir dos ombros sua morte, como sacudia, num gesto característico, as complicações a perseguirem-no e encaminhar-se para depositar sua ficha no 17, seu número predileto. Que poderia ele fazer com uma saudade roxa, logo estaria murcha e fanada, nenhuma roleta a aceitaria.

     Seu Vivaldo não se demorou; carnavalesco obstinado, só abrira a funerária naquele domingo de festa para atender a um amigo como Vadinho. Fosse outro o defunto, e se arranjasse como pudesse, não iria ele, Vivaldo, perturbar seu carnaval.

     Muitos perturbaram seus projetos de carnaval. Foi um desfilar de gente noite a dentro, na sentinela do boêmio. Alguns vieram por ser Vadinho descendente de ramo pobre e bastardo de uma família importante, os Guimarães. Um dos seus avoengos fora senador estadual e manda chuva na política. Um tio seu, de apelido Chimbo, ocupara o posto de Delegado Auxiliar durante uns poucos meses. Esse tio, um dos raros Guimarães a reconhecer Vadinho como parente legítimo, foi quem lhe arranjou o emprego na Prefeitura: fiscal de jardins, lugar dos mais modestos, ordenado mísero, não dava para uma noite gorda no Tabaris. Não é necessário ressaltar a completa negligência do jovem funcionário municipal: jamais fiscalizara jardim de nenhuma espécie, só aparecia na repartição para receber os magros caraminguás mensais. Ou para tentar o aval impossível do chefe, para morder os colegas em vinte ou cinqüenta mil-réis. Os jardins não lhe interessavam, não tinha tempo a perder com plantas e flores, podiam desaparecer todos os jardins da cidade, não lhe fariam falta. Ave noturna, seus canteiros eram as mesas de jogo, e suas flores, como bem considerara seu Vivaldo, as fichas e os baralhos.

     Os que vieram por influencia do nome dos Guimarães podiam-se contar nos dedos, vagos e apressados parentes. Todos os demais, aquele desfilar sem conta, vinham para despedir-se de Vadinho, para fitar mais uma vez sua face, sorrir para ele numa recordação agradável, dizer-lhe adeus. Porque gostavam dele, desculpavam-lhe as loucuras, valorizavam seu lado bom.

     Um dos primeiros a chegar à noite, vestido a rigor, pois iria mais tarde levar as filhas, três moças de truz, ao baile de um grande clube, foi o comendador Celestino, português de nascimento, banqueiro e exportador. Não passara às carreiras, como quem cumpre fastidiosa obrigação. Demorara-se na sala, a conversar, recordando sucessos de Vadinho, após ter abraçado Dona Flor e ter-lhe oferecido seus préstimos. De onde vinha sua estima pelo pequeno funcionário da Prefeitura, pelo boêmio dos cabarés de segunda, pelo jogador sempre encalacrado?

     Vadinho tinha lábia, que lábia! Certa vez arrancara a assinatura do próspero lusitano numa promissória de alguns contos de réis. Não esqueceu de pagar, pois jamais esquecia as datas de vencimento dos diversos títulos por ele firmados e espalhados em Bancos e em mãos de agiotas. Não pôde pagar, o que era diferente. Em geral nunca podia pagar, e não pagava; no entanto a cada dia o número dos títulos aumentava, aumentava o número dos avalistas. Como ele o conseguia?

     Celestino não voltara a avalizar, não caía duas vezes no mesmo conto. Soltava-lhe, no entanto, pelegas de cem, duzentos e até de quinhentos mil-réis, quando Vadinho lhe aparecia desesperado, sem tostão e com a certeza de ser aquele o seu dia de estourar a banca. Outros,porém, avalizavam duas e três vezes, como se fosse Vadinho o pagador mais correto, o de melhor cadastro bancário. Todos vencidos por suas manhas, sua conversa dramática e convincente.

     O próprio Zé Sampaio, marido de Dona Norma, estabelecido com loja de sapatos na Cidade Baixa, sujeito de conversa rara, casmurrão, pouco dado a visitas, a relações e intimidades com os vizinhos, o oposto da esposa, ele próprio fora enrolado por Vadinho algumas vezes e, apesar disso, não lhe retirara nem a estima nem o crédito na loja.

     Nem mesmo quando descobriu a inacreditável sujeira: Vadinho, certa manhã, comprara fiado em seu estabelecimento vários pares de sapatos, dos mais finos e caros, e imediatamente os revendera, quase sob as vistas horrorizadas dos empregados de Sampaio, e por preço ínfimo, a uma loja rival recém instalada nas imediações. A dinheiro batido - tratava-se de um Vadinho necessitado de urgente numerário para jogar no bicho.

    O comerciante levou certamente em conta, ao pesar as responsabilidades do trapaceiro, determinadas atenuantes capazes de explicar e desculpar o deslize.

    Um Vadinho alegre e despreocupado, naquela mesma tarde, contou-lhe ter sonhado durante toda à noite com Dona Gisa, transformada em avestruz, a persegui-lo numa campina sem fim, não sabia exatamente se na intenção de vadiar com ele nos pastos verdes - era um avestruz fêmea e em seus olhos brilhava uma luz velhaca - ou se pretendia devorá-lo a bicadas, pois o perseguia com o enorme bico aberto e ameaçador. Acordava agoniado, sacudia o sonho fora, tentava dormir pensando em assunto mais ameno, e lá voltava a renitente professora a correr atrás dele com o olho libertino e o bico agressivo. Estivesse Dona Gisa em seu quotidiano invólucro carnal, e Vadinho não fugiria, enfrentaria a parada, emprenharia o diabo da gringa em cima dos matos, com todo seu acento e seus conhecimentos de psicologia. Mas com ela vestida de penas, virada num avestruz descomunal, não lhe restava alternativa, além da vergonhosa retirada. Quatro, cinco vezes repetiu-se o pesadelo, e de manhã, cansado de tanto correr, banhado em suor, viu-se Vadinho com o palpite mais certeiro e sem tostão. Vasculhou a casa, Dona Flor estava lisa, ele levara-lhe na véspera até as moedas. Saiu na esperança de morder uns conhecidos, a praça revelou-se fraquíssima, Vadinho andara abusando ultimamente de seu parco crédito. Foi quando, ao passar ante a Casa Stela, a bem sortida loja de Zé Sampaio, ocorreu-lhe a idéia luminosa e

divertida de dedicar-se por breve prazo ao honesto negócio de sapataria, única maneira de obter rapidamente uns trocados.

     Não houvesse empreendido a operação comercial, desonesta e desastrada na aparência, em verdade sutil e lucrativa, e jamais se perdoaria, pois deu o avestruz - Dona Gisa não mentia nem em sonhos – e Vadinho cobrou um dinheiro alto. Agradecido e digno, procurou em seguida Zé Sampaio na loja e, ante os empregados atônitos, pagou-lhe o valor da mercadoria comprada pela manhã, comentou a rir o golpe primoroso e o convidou para um trago comemorativo. Zé Sampaio declinou do convite mas não se zangou com Vadinho, continuou a dar-se com ele e a vender-lhe sapatos com desconto e a prazo. Abatimento de dez por cento no valor da conta, crédito limitado a um par de sapatos em cada compra e só após ter sido liquidada a fatura anterior.

     Prova ainda mais impressionante do prestígio de Vadinho foi ter Zé Sampaio comparecido à sentinela. Por breves minutos, é verdade, mas era aquele o primeiro velório do comerciante nos últimos dez anos. Tinha horror a todo e a qualquer compromisso social, sobretudo a cerimônias fúnebres, velórios, cemitérios, missas de sétimo dia, o que levava Dona Norma a gritar-lhe quando ele se recusava a acompanhá-la a um de seus vários enterros semanais:

     - Quando você morrer, Sampaio, não vai ter gente nem para carregar o caixão... Vai ser uma vergonha.

     Zé Sampaio punha-lhe um olhar turvo, não respondia, o dedo grande da mão direita metido entre os dentes, num gesto seu, habitual, de resignação ante o perpétuo alvoroço da esposa.

     Compareceram os importantes, como Celestino e Zé Sampaio, como o parente Chimbo, o arquiteto Chaves, o Dr. Barreiros, proeminente figura da Justiça, e o poeta Godofredo Filho. Chegaram incorporados os colegas da repartição, a todos eles Vadinho devia pequenas quantias. A comandá-los, oratório e solene, veio o ilustre Diretor dos Parques e Jardins, trajando terno preto. Vieram os vizinhos, os ricos e os pobres, os remediados também. E vieram todos quantos na Bahia naquele então freqüentavam os cassinos de jogo, os cabarés, as bancas de bicho, as

alegres casas de mulheres: Mirandão, Curvelo, Pé de Jegue, Waldomiro Lins e seu jovem irmão Wilson, Anacreon, Cardoso Pereba, Arigof, Pierre Verger com seu perfil de pássaro e seus mistérios de Ifá. Alguns, como o doutor Giovanni Guimarães; médico e jornalista, pertenciam aos dois grupos familiares dos grandes e dos pequenos, dos respeitáveis e dos irresponsáveis.

     Os importantes recordaram Vadinho entre risos, suas histórias cheias de picardia e de malícia, seus golpes divertidos, suas trampolinagens atrevidas, suas atrapalhações e confusões, e seu bom coração, sua gentileza, sua graça inconseqüente. Também os vizinhos assim o relembravam: boêmio sem horário e sem limites. Uns e outros ampliavam a realidade, inventavam detalhes, atribuíam-lhe casos e aventuras, a lenda de Vadinho começava a nascer ali junto de seu corpo, quase na hora mesmo de sua morte. O citado doutor Giovanni Guimarães imaginava pedaços inteiros de histórias, floreava os acontecidos, era chegado a uma mentirazinha bem apoiada em datas e locais precisos:

     - Um dia, há quatro anos passados, no mês de março, encontrei Vadinho na casa de Três Duques, jogando no 17. Estava vestido com uma capa de borracha, por baixo não tinha roupa nenhuma, nuzinho. Botara tudo no prego, empenhara calça e paletó, camisa e cueca, para poder jogar. Ramiro, aquele espanhol canguinha do Setenta e Sete, só queria aceitar a calça e o paletó, que diabo iria fazer com uma camisa de colarinho puído, uma velha cueca, uma gravata vagabunda? Mas Vadinho lhe impingiu até o par de meias, guardou apenas os sapatos. E tinha tanto mel na língua que conseguiu que Ramiro, aquela fera que vocês conhecem, lhe emprestasse uma capa de borracha quase nova pois não ia sair nu, rua a fora, em direção à casa de Três Duques...

     - E ganhou? - queria saber o jovem Artur, filho de seu Sampaio e de Dona Norma, ginasiano e admirador de Vadinho, a ouvir boquiaberto o relato do jornalista.

     Doutor Giovanni olhou o moço, fez uma pausa, sorriu com o rosto todo:

     - Qual o quê... Pela madrugada perdeu a capa do espanhol no 17 e foi trazido para casa embrulhado nas folhas de um jornal... – o sorriso transformava-se num riso sonoro, contagioso, ninguém igual a doutor Giovanni para animar uma sentinela.

     E como naquele momento entrasse na sala o inumerável Robato, o jornalista acrescentou a prova final, as palavras ainda molhadas do riso:

     - Está aí quem não me deixa mentir... Você ainda se lembra, Robato, daquela noite em que Vadinho foi nu para casa, enrolado num jornal?

     Robato não era homem de vacilar: circundou o olhar em torno, examinando o grupo acomodado num canto da sala de jantar; temeroso de ouvidos femininos e indiscretos, não fossem chegar à desolada viúva tais recordações; mas vacilar não vacilou, não era de recusar desafios, tinha o repente fácil, pegou a deixa no ar:

     - Nu, enrolado num jornal? Ora, se me recordo... - pigarreou para aclarar a voz barroca e desatar a imaginação - Pois se a gazeta era minha... Foi no castelo de Eunice Um Dente Só; além de nós dois e de Vadinho, me lembro de Carlinhos Mascarenhas, de Jenner e de Viriato Tanajura... A gente tinha bebido a noite inteira, um pifa sem medida...

     Era esse Robato um noctívago da força de Vadinho, de outra estirpe, porém. Não o tentava o jogo nem fugia ao trabalho; ao contrário, homem de sete instrumentos, tinha fama de ativo e competente. Fabricava dentaduras, consertava rádios e vitrolas, tirava retratos para carteiras, bulia em tudo quanto era máquina, cheio de hábil curiosidade. Sua roleta era a poesia, bem metrificada e bem rimada (rimas ricas), seu cassino os bares e cabarés onde atravessava as madrugadas na amena companhia de outros tenazes literatos e de raparigas simpatizantes das musas e de seus cultores, a declamar odes, cantos libertários, poemas líricos e lúbricos, sonetos de amor. Tudo de sua autoria. Ele mesmo proclamara-se "rei mundial do soneto", batera todos os recordes conhecidos, autor até aquela data de vinte mil oitocentos e sessenta e cinco sonetos, entre decassílabos e alexandrinos, de arte menor e de arte-maior, e anacíclicos. Um princípio de calva ameaçava-lhe a cabeleira morena de vate mas não lhe diminuía a simpatia radiosa.

    Tomou da palavra e novamente Vadinho atravessava a sala envolto em jornais, não mais iria esquecê-lo o jovem Artur, dele se recordaria para sempre: embrulhado nas folhas de "À Tarde", Vadinho, herói de um mundo proibido e fascinante.

     Sucediam-se as histórias enquanto Dona Norma, Dona Gisa, a casadoira Regina, outras moças e senhoras, serviam cafezinho com bolos, cálices de cachaça e de licor de frutas. A vizinhança providenciara para que nada faltasse ao velório.

    Os importantes, sentados na sala de jantar, no corredor, na porta da rua, relembravam Vadinho entre anedotas e risos. Os outros, os parceiros de jogo e de malandragem, recordavam-no em silêncio, sérios e comovidos, demoravam na sala de visitas, de pé, ao lado do corpo. Ao entrar, paravam ante Dona Flor, apertavam-lhe a mão, encabulados, como se fossem responsáveis pelos maus feitos de Vadinho. Muitos deles não a conheciam sequer, nunca a tinham visto, mas de tanto ouvirem falar nela, sabiam como por vezes Vadinho  tomava-lhe até o dinheiro das despesas para jogá-lo no Pálace, no Tabaris, no Abaixadinho, no antro de Zezé

Meningite, no de Abílio Moqueca, nas múltiplas roletas ilegais da cidade, inclusive na mal afamada casa de tavolagem do negro Paranaguá Ventura, onde por princípio só o banqueiro devia ganhar.

     Figura torva e amedrontadora essa do negro Paranaguá Ventura com suas incontáveis entradas na polícia, um rol de acusações jamais completamente provadas, sua fama de ladrão, estuprador e assassino. Por crime de morte respondera a júri e fora absolvido mais por falta de

coragem dos jurados do que por falta de provas. Diziam-no autor de dois outros assassinatos, sem falar na mulher esfaqueada na Ladeira de São Miguel, em pleno meio-dia, pois essa escapara por um triz. O covil de Paranaguá, freqüentavam-no apenas capadócios profissionais de baralhos

marcados, gatunos, batedores de carteira, vigaristas, gente sem nada mais a perder. Pois bem: até lá chegava Vadinho com seu magro dinheiro e seu riso alegre, e talvez fosse ele um dos poucos eleitos a poder gabar-se de haver ganho alguma vez nos dados viciados de Paranaguá. Segundo constava, de quando em quando, o negro permitia a um parceiro de sua afeição acertar uma bolada.

     Vieram também às alunas de Dona Flor, quase todas. Alunas e ex-alunas, unânimes no desejo de consolar a estimada e competente professora, tão boazinha, coitada! De três em três meses, sucediam-se às turmas nos cursos de culinária geral (pela manhã) e de culinária baiana (pela tarde), formavam-se em forno e fogão. Com diploma impresso e quadro de formatura exposto em loja da Avenida Sete, desde uma turma antiga, à qual pertencera Dona Oscar linda, enfermeira de categoria, funcionária do Hospital Português, esbelta e esporreteada, doida por um enredo. Exigira diploma e quadro, movimentara as colegas, fizera uma agitação dos demônios, recolhera contribuições, arranjara desenhista de graça, pintara o sete, a enxerida. Assim pressionada, Dona Flor concordou, inclusive com o desenhista, um conhecido de Dona Oscarlinda, não sem proclamar no entanto a competência de seu irmão Heitor – que desenhara o cartaz com o nome da Escola, ainda na Ladeira do Alvo - infelizmente residindo agora em Nazareth das Farinhas. De qualquer maneira, sentira-se vaidosa ao ler, no diploma e no quadro de formatura, em grossas letras tipográficas:

 

ESCOLA DE CULINÁRIA SABOR E ARTE

E, logo abaixo, em caracteres floreados:

Diretora: Florípedes Paiva Guimarães

   

     Vadinho, nos raros dias em que, acordando mais cedo, permanecia em casa, rondava as alunas, envolvendo-se nas aulas de culinária, perturbando-as. Reunidas em torno da professora, álacres e graciosas, elas anotavam as receitas, as quantidades exatas de camarão, de azeite de dendê, de côco ralado, uma pitada de pimenta do reino, aprendiam como tratar o peixe, como preparar a carne, como bater os ovos. Vadinho interrompia com uma piada sobre ovos, de duplo sentido, riam-se as descaradas.

    Umas descaradas, quase todas elas. Muita amizade e adulação com Dona Flor mas de olhos interessados no patife. Lá estava ele, com seu ar trêfego e altivo, escornado numa cadeira ou estendido num degrau da porta da cozinha, a la godaça, a medi-las de cima a baixo, demorando-se atrevido nas pernas, nos joelhos, no caminho das coxas, na altura dos seios. Elas baixavam os olhos, o não-sei-que-diga não baixava os dele.

     Dona Flor preparava os pratos salgados e os bolos, tortas e doces, nas aulas práticas. Vadinho emitia conceitos, arrotava chalaças, comia os quitutes, circulando em torno delas, puxando conversa com as mais bonitas, arriscando a mão salafrária se alguma mais árdega se aproximava.

     Dona Flor ficava nervosa, agoniada, a ponto de errar as medidas da manteiga derretida no manuê difícil, rogando a Deus fosse Vadinho para a rua, para a malandragem, para a desgraça do jogo, mas deixasse as alunas em paz.

     Agora, no velório, cercavam Dona Flor e a confortavam, mas uma delas, a pequena Ieda, com sua cara de gata arisca, mal podia conter as lágrimas e não desviava os olhos da face do morto. Dona Flor logo percebeu o exagero do sentimento, sentiu um baque no peito. Teria se passado alguma coisa entre eles? Nunca notara nada de suspeito, mas quem podia garantir não se encontrassem os dois fora da escola, fossem terminar num castelo qualquer? Vadinho, desde o caso com a sirigaita da Noêmia aparentemente deixara de pastorear as alunas. Mas era homem de

muita manha, bem podia esperar a desbriada na esquina, botar-lhe conversa, e que mulher resistia à lábia de Vadinho? Dona Flor acompanhava o olhar de Ieda, descobria o beicinho trêmulo da moça. Não lhe restava dúvidas, Ah! Vadinho mais sem jeito...

     De todos os desgostos que lhe dera o marido, nenhum comparável ao caso com a donzela Noemia, putinha de família respeitável, e noiva, um horror! Mas Dona Flor não queria recordar aquela tristeza antiga na noite da sentinela, quando, pela derradeira vez, fitava a face de Vadinho. Tudo aquilo passara, estava distante, a fulana casara, fora-se embora com o noivo, um zinho com fumaças de jornalista, talento precoce pois tão jovem e já tão corno, de nome Alberto. Ao demais, com o casamento a pedante enfeara de vez, virara um bucho sem medida.

     Quando, naquela ocasião, tudo terminara bem quase por milagre, Vadinho lhe dissera no calor do leito e da reconciliação: "Mulher permanente pra mim só mesmo tu sou capaz de suportar. O resto é tudo xixica para passar o tempo." Ali, no velório, cercada de tanta gente e de tanta afeição, Dona Flor não deseja relembrar aquela esquecida história, tampouco vigiar gestos e olhares da pequena Ieda com seu choro mal contido, seu segredo debulhado em lágrimas. Com Vadinho morto nada mais importava, para que esclarecer, tirar a limpo, acusar e lastimar-se? Ele morrera, tinha pago tudo e até com juros, pois tão jovem se finara. Dona Flor sentiu-se em paz com o marido, não tinha contas a acertar com ele.

     Curvou a cabeça, deixou de controlar os movimentos da moça. Via apenas, ao baixar os olhos, Vadinho tocando-lhe o corpo com a mão, no leito de ferro, dizendo-lhe ao ouvido: "Tudo xixica para passar o tempo, permanente só tu, Flor, minha flor de manjericão, outra nenhuma". Que diabo era xixica? - quis de repente saber Dona Flor. Uma pena, nunca lhe havia perguntado, mas coisa boa não seria. Sorriu. Tudo xixica, permanente só ela, Flor, flor de Vadinho em sua mão desfolhada.

 

    No outro dia, as dez da manhã, saiu o enterro, com grande acompanhamento. Não havia bloco nem rancho naquela manhã de segunda-feira de carnaval capaz de comparar-se em importância e animação com o funeral de Vadinho. Nem de longe.

    - Espie... pelo menos espie pela janela... - disse Dona Norma a Zé Sampaio, desistindo de arrastá-lo ao cemitério -... espie e veja o que é o enterro de um homem que sabia cultivar suas relações, não era um bicho do mato como você... Era um capadócio, um jogador, um viciado, sem eira nem beira, e, entretanto, veja... Quanta gente e quanta gente boa... E isso num dia de carnaval... Você, seu Sampaio, quando morrer não vai ter nem quem segure a alça do caixão...

    Zé Sampaio não respondeu nem olhou pela janela. Metido num pijama velho, na cama, com os jornais da véspera, apenas gemeu um fraco gemido e meteu o dedo grande na boca. Era um doente imaginário, tinha um medo desatinado da morte, horror de visitas a hospitais, de sentinelas e enterros, e naquele momento encontrava-se à beira do enfarte. Assim vinha desde a véspera, desde que a esposa lhe informara ter o coração de Vadinho estourado de repente. Passara uma noite de cão a esperar a explosão das coronárias, rolando na cama em suores frios, a mão comprimindo o peito esquerdo.

    Dona Norma, colocando sobre a cabeça de formosos cabelos castanhos um xale negro, apropriado para a ocasião, completou, impiedosa:

    - Eu, se não tiver pelo menos quinhentas pessoas em meu enterro, vou me considerar uma fracassada na vida. De quinhentas para cima...

     Partindo desse princípio, Vadinho devia considerar-se plenamente vitorioso e realizado. Pois meia Bahia viera a seu funeral e até o negro Paranaguá Ventura abandonara seu soturno covil e ali estava, o terno branco brilhando de espermacete, gravata negra e negro laço na manga esquerda, rosas vermelhas na mão. Preparava-se para segurar uma alça do caixão e, ao dar os pêsames a Dona Flor, resumiu o pensar de todos na mais breve e bela oração fúnebre de Vadinho:

     - Era um porreta!

 

INTERVALO

    BREVE NOTICIA (APARENTEMENTE DESNECESSÁRIA) DA POLEMICA TRAVADA EM TORNO DA AUTORIA DE ANÔNIMO POEMA A CIRCULAR, DE BOTEQUIM EM BOTEQUIM, NO QUAL O POETA CHORAVA A MORTE DE VADINHO - REVELANDO-SE AQUI E POR FIM A VERDADEIRA IDENTIDADE DO IGNOTO BARDO, A BASE DE PROVAS CONCRETAS

(o inumerável Robato Filho a declamar)

 

     Não, não se transformaria certamente, com o passar do tempo, em indecifrável mistério das letras, em mais um obscuro enigma da cultura universal, desafiando, séculos depois, universidades e sábios, estudiosos e biógrafos, filósofos e críticos, e convertendo-se em matéria de pesquisas, comunicações, teses a ocupar bolsistas, institutos, catedráticos, historiadores e velhacos variados em busca de existência fácil e regalada. Não seria um novo caso Shakespeare, não passaria de dúvida tão insignificante quanto o pequeno acontecimento a servir-lhe de tema e inspiração: a morte de Vadinho.

     Nos meios literários de Salvador, no entanto, elevou-se à interrogação e em torno dela nasceu à polêmica: qual dos poetas da cidade compusera - e fizera circular - a "ELEGIA A DEFINITIVA MORTE DE WALDOMIRO DOS SANTOS GUIMARÃES, VADINHO PARA AS PUTAS E OS AMIGOS"? Cresceu rápida a discussão, não tardou a azedar-se, a ser motivo de inimizades, retaliações, epigramas, e até uns tapas. Circunscritos, porém, debates e rancores, dúvidas e certezas, afirmações e negações, xingamentos e tabefes às mesas dos bares, onde, em torno de geladas bramotas, reuniam-se noite adentro os incompreendidos talentos jovens (a demolirem  e a arrasarem toda a literatura e toda a arte anteriores ao feliz aparecimento dessa nova e definitiva geração) e os sub-literatos tenazes, empedernidos, resistindo a todas as inovações, com seus trocadilhos, seus epigramas, suas frases retumbantes; empunhando uns e outros - gênios imberbes e beletristas de barba por fazer -, com a mesma violenta disposição de leitura, suas últimas produções em prosa e verso, cada uma delas e todas elas destinadas a revolucionar as letras brasileiras, se Deus quiser.

     Nem por se limitar ao âmbito do Estado da Bahia (do Estado e não somente da Capital, pois repercutiu o debate em municípios da região cacaueira. Nos anais da Academia de Letras de Ilhéus encontram-se seguras referências a um sarau dedicado ao estudo do problema); nem por não ter obtido espaço nos suplementos e revistas, desvanecendo-se em discussões orais; nem por tudo isso o curioso e por vezes ácido debate pode deixar de merecer atenção e interesse, quando se narra a história de Dona Flor e de seus dois maridos, na qual Vadinho é personagem

importante, herói situado em primeiro plano.

     Herói? Ou será ele o vilão, o bandido responsável pelos sofrimentos da mocinha, no caso Dona Flor, esposa dedicada e fiel? Esse já é outro problema, desligado da questão literária a preocupar poetas e prosadores; talvez até mais difícil e grave, e ficará a vosso cargo dar-lhe resposta, se obstinada paciência vos conduzir até o fim destas modestas páginas.

     Da elegia, sim, não havia dúvidas, era Vadinho herói indiscutível, "jamais outro virá tão íntimo das estrelas, dos dados e das putas, mágico jogral", badalavam os versos, numa louvação sem tamanho. E se o poema - a exemplo da polêmica - não obteve espaço nas folhas literárias, não foi por falta de merecimento. Um certo Odorico Tavares, poeta federal pairando acima dos disse-que-disse dos vates estaduais – ademais todos eles comendo em sua mão, de rédea curta, pois o déspota controlava dois jornais e uma estação de rádio - ao ler cópia datilografada da elegia, lastimou:

     - Pena não se poder publicar...

     - Se não fosse anônimo... - considerou outro poeta, Carlos Eduardo.

     Esse Carlos Eduardo, moço tirado a bonito, entendido em antiguidades, era sócio do Tavares num negócio, um tanto escuso, de santos antigos. Os sub-literatos mais frustrados e os gênios juvenis mais veementes, aqueles sem nenhuma esperança de estampar seus nomes no suplemento dominical de Odorico, acusavam-no e a Carlos Eduardo de receptadores de velhas imagens de santos, afanadas nas igrejas por um grupo de gatunos especializados, sob a chefia de um tipo de reputação duvidosa, um cochichado Mário Cravo, aliás amigo e companheiro de Vadinho. Magro e bigodudo, vivia o astucioso Cravo às voltas com peças de automóveis, chapas de ferro, máquinas avariadas, a entortar e a remendar toda aquela tralha, atribuindo valor artístico ao resultado, sob os aplausos dos dois poetas e de outros entendidos, unânimes em rotularem aquele ferro velho de escultura moderna e em apontarem o biltre como revelação de artista notável e revolucionário. Eis outro problema cuja discussão não cabe nessas páginas, o do valor real de mestre Cravo, não vamos aqui lhe analisar a obra. Adiantemos apenas, como matéria de informação, o fato de ter a crítica posteriormente consagrado seu trabalho, objeto, inclusive, de estudos de foliculários estrangeiros. Naquele tempo, no entanto, não era ele ainda artista conceituado, apenas começava, e se já possuía certa notoriedade, devia-a sobretudo à sua discutível atuação nas sacristias e altares.

     O próprio Vadinho, segundo consta, participara, em ocasião de extrema penúria, de sigilosa peregrinação noturna a vetusta igreja do Recôncavo, romaria organizada pelo herético Mário Cravo. O saque da igreja deu o que falar, pois uma das peças surrupiadas, um São Benedito, era atribuída a Frei Agostinho da Piedade, e os frades botaram a boca no mundo. Hoje a imagem valiosa encontra-se num museu do sul, a acreditar-se nos maldizentes sub-literatos, por obra e graça dos dois então magros sócios de musa lírica e devoto comércio.

     Naquela manhã, antes do almoço, conversavam na redação, falando de santos e de quadros, quando Carlos Eduardo tirou do bolso cópia da elegia e a deu a ler ao poeta Odorico.

     Lastimando não poder publicá-la, - "não por causa do anonimato, meteríamos um pseudônimo qualquer...", mas por causa dos palavrões - Tavares repetiu: "uma pena...", e releu em voz alta mais um verso:

"Estão de luto os jogadores e as negras da Bahia"

 

    Perguntou ao amigo:

    - Descobriste logo o autor, não?

    - Tu pensas que seja dele? Pareceu-me, porém...

     - Está na cara... Ouve: "Um momento de silêncio em todas as roletas, bandeiras a meio pau nos mastros dos castelos, bundas em desespero, a soluçar".

    - E capaz...

    - E capaz, não. E, com certeza. - riu: - Velho sem-vergonha...

     Aquela certeza não a possuíam os meios literários. A elegia foi atribuída a diversos poetas, vates conhecidos ou jovens estreantes. Deram-na como de Sosígenes Costa, de Carvalho Filho, de Alves Ribeiro, de Hélio Simões, de Eurico Alves. Muitos indicaram Robato como o mais provável autor. Não a declamava ele, entusiasmado, rolando a voz rica de modulações?

 

"Com ele partiu a madrugada cavalgando a lua"

 

      Não podiam entender como Robato recitaria versos de outro, gesto pouco habitual naqueles meios; esqueciam-se da natureza generosa do sonetista, de sua capacidade de admirar e aplaudir obra alheia.

      Pode-se inclusive marcar o início do sucesso da elegia e da polêmica por ela suscitada a partir da alegre noite no castelo de Carla, a "gorda Carla", competente profissional aportada da Itália, cuja cultura extra limitava do metier (no qual, aliás, "excelia" segundo Nestor Duarte, cidadão de renomada inteligência e viajado, um conhecedor), lida em D'Anunzzio, doida por umas rimas. "Romântica como uma vaca", assim a classificava o bigodudo Cravo, com quem ela andara metida uns tempos. Carla não podia passar sem uma paixão dramática e navegava de boêmio em boêmio, suspirando e gemendo, dilacerada de ciúmes, com seus tremendos olhos azuis, os seios de prima-dona, as coxas espantosas. Vadinho, igualmente, lhe merecera as boas graças e uns trocados, se bem ela preferisse os poetas, versejando ela própria na "doce língua de Dante com muito estro e inspiração", como adulava Robato.

      Todas as quintas-feiras à noite, Carla reunia uma espécie de salão literário em seus amplos aposentos. Compareciam poetas e artistas, boêmios, algumas figuras gradas, como o desembargador Airosa, e as raparigas do castelo prontas a aplaudir os versos e a rir das anedotas.

Serviam bebidas e docinhos.

      Carla presidia o soirée, reclinada num divã repleto de coxins e almofadas, vestindo túnica grega ou pedrarias, ateniense de figurino ou egípcia de Hollywood, recém saída de uma ópera. Os poetas declamavam, trocavam frases de espírito, epigramas, cruzavam-se trocadilhos, o desembargador sentenciava um axioma preparado durante a semana, num duro labor. O momento culminante da tertúlia e acontecia quando a Dona da casa, a grande Carla, alçava-se por entre os travesseiros, toda aquela tonelada de carne branca recoberta de pedrarias falsa, e, num fio de voz, extravagante em mulher tão monumental, declamava, em açucarados versos italianos, seu amor pelo último eleito. Enquanto isto, o artista Cravo e outros materialistas grosseiros aproveitavam-se da semi-obscuridade reinante na sala - a luz velada para assim, na meia sombra, melhor ouvir-se e sentir-se a poesia - e, sem respeitar ambiente de tão alta espiritualidade, de tão excelsos sentimentos, bolinavam descarados as raparigas, tratando de obter-lhes favores gratuitos, lesando a caixa do castelo, uns calhordas.

     Os saraus terminavam sempre decaindo da poesia para a anedota pornográfica, no fim da noite. Brilhavam então Vadinho, Giovanni, Mirandão, Carlinhos Mascarenhas, e, sobretudo Lev, arquiteto em começo de carreira, filho de imigrantes, um galalau comprido como uma girafa, dono de inesgotável repertório, bom narrador. Carregava um sobrenome russo impronunciável, as raparigas haviam-no apelidado de Lev Língua de Prata, devido talvez às anedotas. Talvez.

      Num desses "elegantes encontros da inteligência e da sensibilidade", declamou Robato, com sua voz trêmula, a elegia à morte de Vadinho, introduzindo-a com algumas palavras comovidas sobre o desaparecido, amigo de todos os freqüentadores daquele “delicioso antro do amor e da”.

poesia “. Referiu-se de passagem ao fato de ter o autor preferido” as névoas do anonimato ao sol da publicidade e da glória “. Ele, Robato, recebera cópia do poema das mãos de um oficial da Polícia Militar, capitão Crisóstomo, também fraterno amigo de Vadinho. Não soubera, no entanto, o militar dar-lhe informação precisa sobre a identidade do poeta”.

     Muitos atribuíram os versos ao próprio Robato, mas, ante sua recusa sistemática em aceitá-los, andaram apontando como autor quanto poeta versejava na cidade, especialmente aqueles de condição noturna e de boêmia conhecida. Houve, porém, quem jamais acreditasse nas negativas de Robato, levando-as à conta de modéstia, e persistiram em seu nome. Ainda hoje há quem pense serem de sua lavra as estrofes da elegia.

     O debate azedou-se a ponto de, em certa ocasião, romper os limites da literatura e da civilidade e descambar num conflito a bofetões, quando o poeta Clóvis Amorim, língua viperina solta numa boca de epigramas, a mamar permanente e fedorento charuto do Mercado Modêlo, negou ao bardo Hermes Clímaco qualquer possibilidade de ser autor dos debatidos versos, faltando-lhe para tanto gênio e gramática.

     - De Clímaco? Não diga besteira... Aquele, com muito esforço, obra uma quadrinha em sete sílabas. Um poeta endefluxado...

    Por cúmulo do azar, o poeta Clímaco surgia na porta do botequim, com seu eterno traje negro, a capa de borracha e o guarda-chuva, também eternos. Levantou o guarda- chuva e arremeteu, em cólera:

     - Endefluxado é a puta que o pariu...

    Atracaram-se, entre xingas e sopapos, com vantagens evidentes para o Amorim, melhor versejador e atleta mais robusto.

     Curioso também e digno de relato o sucedido com um fulano, autor de dois magros cadernos de versos, a quem algumas pessoas menos avisadas conferiram a autoria do poema. Primeiro ele a negou com firmeza, depois, como perseverassem, foi menos pertinaz em suas negativas e, por fim, reagia de maneira tão confusa e tímida que a negativa parecia acanhada afirmação.

     "é dele, não há dúvida", diziam, ao vê-lo esfregar as mãos, baixando os olhos, a sorrir num murmúrio:

     - Que parecem versos meus, isso parecem. Mas, não são...

     Negou sempre, mas, ao mesmo tempo, não admitiu jamais atribuíssem a outrem as discutidas estrofes. Se o faziam, desdobrava-se a provar a impossibilidade de tal hipótese. E se algum obstinado persistisse a argumentar, resmungava definitivo e misterioso:

     - Ora, quer dizer a mim?... Tenho razões para saber...

     E, quando a ouvia declamar, acompanhava atentamente o recitativo, corrigindo-o se alguma palavra era trocada, ciumento do poema, zeloso como de obra sua. Só mais tarde, com a revelação do nome do verdadeiro autor, veio ele a despir-se da glória indevida. Passou então, e imediatamente, a dizer horrores da elegia, negando-lhe qualquer mérito ou beleza - "poesia prostibular e estercorária".

     Em meio a tanta discussão, a elegia fez sua carreira, lida e decorada, dita nas mesas dos bares pela madrugada, quando a cachaça desatava os sentimentos mais nobres. Os declamadores mudavam-lhe adjetivos e verbos, por vezes baralhavam ou engoliam estrofes. Mas, correta ou deturpada, molhada de cachaça, caída no chão dos cabarés, lá ia ela fazendo o elogio de Vadinho, sua louvação.

     Quem quer que a houvesse composto refletia um sentimento geral naquele submundo onde Vadinho se movimentara desde a adolescência e do qual terminou sendo uma espécie de símbolo. A elegia foi o ponto mais alto no desparrame de louvores ao moço jogador. Se lhe fosse dado ouvir tanta palavra de elogio e de saudade, Vadinho não acreditaria. Em vida jamais fora alvo de encômios e loas, muito ao contrário: viviam a lhe martelar os ouvidos com repreensões e conselhos, sermões a propósito de sua má vida e de seus maus sentimentos.

     Aliás, a indulgência para com seus malfeitos, para com essa exibição pública de suas pretendidas qualidades, a transformarem-no em herói de poema e em figura quase lendária, durou pouco tempo. Uma semana após sua morte já as coisas começavam a ser repostas em seus lugares, a opinião das classes conservadoras, responsáveis pela moral e pela decência, passou a manifestar-se pela boca das comadres e das vizinhas, tentando sobrepor-se ao anárquico e dissolvente panegírico estabelecido pela subversiva ralé dos castelos e cassinos, na criminosa tentativa de solapar os costumes e o regime.

     Criava-se assim novo e apaixonante problema, como se já não bastasse o da lavra dos versos. De referência a este último, provas foram prometidas da verdadeira identidade do autor, por fim agora revelada e para sempre inscrita no livro de ouro das letras pátrias.

     Quando, anos depois da morte de Vadinho, o poeta Odorico recebeu seu exemplar das "Elegias Impuras" - um dos três únicos oferecidos de graça pelo poeta -, magnífica edição de luxo, tiragem reduzida a cem volumes autografados, ilustrada com xilogravuras de Calasans Neto, voltou-se para Carlos Eduardo, estendendo-lhe o livro precioso.

     Estavam os dois amigos sentados na mesma sala de redação na qual, num dia distante, juntos haviam lido e discutido a elegia. Apenas agora eram senhores gordos e respeitáveis - e ricos, muito ricos, proprietários de coleções e de imóveis.

     Odorico recordou:

     - Eu não te disse naquela ocasião? Era dele. - e concluiu com o mesmo sorriso e com as mesmas palavras de outrora; - Velho sem-vergonha...

     Também Carlos Eduardo riu seu riso cordial, de homem realizado e tranqüilo, e admirou a edição primorosa. Na capa, em letras cavadas na madeira, o nome do poeta: Godofredo Filho. Devagar, foi passando as páginas, a interrogar-se (com certa inveja): "Que ruas e ladeiras esconsas, que obscuras sendas de crepúsculo, que negras olorosas grutas, haviam juntos descoberto e amado o poeta ilustre e o pobre vagabundo, a ponto de entre eles desabrochar a rara flor da amizade?" Devagar, a refletir nesses enigmas, Carlos Eduardo tocava o papel como se acariciasse suave epiderme de mulher, quem sabe pele negra, noturno veludo? A quarta elegia, das cinco a comporem o volume, é a dedicada à morte de Vadinho, "a ficha azul esquecida no tapete".

     Resolveu-se assim um problema, como prometido fora. Outro, porém, surge e se impõe, e quem sabe será possível encontrar-lhe solução? A vossa perspicácia fica ele entregue, esse mistério de Vadinho.

     Quem era Vadinho? Qual sua verdadeira fisionomia? Quais suas exatas proporções? Era banhada de sol ou coberta de sombra sua face de homem? Quem era ele, o jogral da elegia, o porreta da frase de Paranaguá Ventura, ou o desprezível malandro, o mordedor incorrigível, o mau marido na voz da vizinhança, das amizades de Dona Flor? Quem melhor o conhecera e melhor agora o definia: as piedosas freqüentadoras da missa das seis na Igreja de Santa Tereza ou os irrecuperáveis habitués do Tabaris, “a bola girando na roleta, o baralho e os dados, a última parada"?

 

 

              DO TEMPO INICIAL DA VIUVEZ, TEMPO DO NOJO, DO LUTO FECHADO, COM AS MEMÓRIAS DE AMBIÇÕES E ENGANOS, DE NAMORO E CASAMENTO, DA VIDA MATRIMONIAL DE VADINHO E DONA FLOR, COM FICHAS E DADOS E A DURA ESPERA AGORA SEM ESPERANÇA (E A INCOMODA PRESENÇA DE DONA ROZILDA)

 (com Edgard Coco ao violino, Caymmi ao violão e o doutor Walter da Silveira com sua flauta encantada)

 

ESCOLA DE CULINÁRIA SABOR E ARTE

RECEITA DE DONA FLOR: MOQUECA DE SIRI MOLE

     Aula teórica: INGREDIENTES (para 8 pessoas):     uma xícara de leite de côco, puro, sem água; uma xícara de azeite de dendê; um quilo de siri mole. Para o molho: três dentes de alho; sal ao gosto; o suco de um limão; coentro; salsa; cebolinha verde; duas cebolas; meia xícara de azeite doce; um pimentão; meio quilo de tomates.Para depois: quatro tomates; uma cebola; um pimentão.

Aula prática: Ralem duas cebolas, amassem o alho no pilão; cebola e alho não empestam, não, senhoras, são frutos da terra, perfumados.

Piquem o coentro bem picado, a salsa, alguns tomates, a cebolinha e meio pimentão.  

 Misturem tudo em azeite doce e a parte ponham esse molho de aromas suculento.

(essas tolas acham a cebola fedorenta, que sabem elas dos odores puros? Vadinho gostava de comer cebola crua e seu beijo ardia).

 

Lavem os siris inteiros em água de limão, lavem bastante, mais um pouco ainda, para tirar o sujo sem lhes tirar porém a maresia. E agora a temperá-los: um a um no molho mergulhando, depois na frigideira colocando um a um, os siris com seu tempero. Espalhem o resto do molho por cima dos siris bem devagar que esse prato é muito delicado. (ai, era o prato preferido de Vadinho!)

Tomem de quatro tomates escolhidos, um pimentão, uma cebola, tudo por cima e em rodelas coloquem para dar um toque de beleza. No abafado por duas horas deixem a tomar gosto. Levem depois a frigideira ao fogo. (lá ele mesmo comprar o siri mole, possuía freguês antigo, no Mercado...)

Quando estiver quase cozido e só então juntem o leite de côco e no finzinho o azeite de dendê, pouco antes de tirar do fogo. (Ia provar o molho a todo instante, gosto mais apurado ninguém tinha).

 

Ai está esse prato fino, requintado, da melhor cozinha, quem o fizer pode gabar-se com razão de ser cozinheira de mão cheia. Mas, se não tiver

competência, é melhor não se meter nem todo mundo nasce artista do fogão. (Era o prato predileto de Vadinho nunca mais em minha mesa o servirei. Seus dentes mordiam o siri mole, seus lábios amarelos do dendê. Ai, nunca mais seus lábios, sua língua, nunca mais sua ardida boca de cebola crua!)

 

      Ora, na missa de sétimo dia, oficiada por Dom Clemente Nigra na Igreja de Santa Tereza, envolta a nave esplêndida numa luz matinal azulada e transparente, chegada do mar defronte, como se o templo fora um navio prestes a largar - a simpatia e a solidariedade expressas em

comentários sussurrados, dirigiam-se a Dona Flor, ajoelhada  na primeira fila ante o altar, toda em negro, mantilha de rendas emprestada por Dona Norma escondendo-lhe os cabelos e as lágrimas, um terço entre os dedos. Mas os cochichos não a lastimavam por haver perdido o marido e, sim, por tê-lo possuído. Dobrada no genuflexório, nada ouvia Dona Flor, como se ninguém mais estivesse  no santuário, apenas ela, o padre e a ausência de Vadinho.

     Um rumor de beatas, de velhas ratas de sacristia, de rançosas inimigas da graça e do riso, se elevava junto com o incenso, num murmúrio ácido:

     - Não valia nem um vintém de reza, o renegado.

     - Se ela não fosse uma santa, em vez de missa dava era uma festa Com dança e tudo...

     - Para ela foi uma carta de alforria . .

     No altar, celebrando pela alma de Vadinho, Dom Clemente, macerado de vigílias sobre livros antigos, sentia na atmosfera mágica da manhã apenas despertada certas perturbações, auras maléficas como se um demônio qualquer, Lúcifer ou Exu, mais provavelmente Exu, andasse solto pela nave. Por que não deixavam Vadinho em paz, não lhe permitiam descansar. Bem o conhecera Dom Clemente: Vadinho gostava de vir conversar no pátio do convento, sentava-se sobre a muralha, contando histórias nem sempre as mais condizentes com aquelas venerandas paredes, mas ouvidas com atenção pelo frade, curioso e solidário com toda a experiência humana.

     Havia no corredor, entre a nave e a sacristia, uma espécie de altar, e nele um anjo talhado em madeira, escultura anônima e popular talvez do século XVII, e era como se o artista houvesse tomado Vadinho de modelo; a mesma fisionomia inocente e desavergonhada, a mesma insolência, idêntica ternura. Estava ele ajoelhado ante a imagem, bem mais recente e barroca, de uma Santa Clara, e para ela estendia as mãos. Certa ocasião Dom Clemente levara Vadinho a ver o altar e o anjo, queria saber se o boêmio dar-se-ia conta da parecença. Vadinho pôs-se a rir

apenas enxergou as imagens.

    - Por quê ris assim? - perguntou-lhe o frade.

    - Que Deus me perdoe, padre... Mas não parece que o anjo está fretando a santa?

    - Está o que? Que termos são esses, Vadinho?

    - Desculpe, Dom Clemente, mas é que esse anjo tem uma cara manjada de gigolô... Nem parece anjo... Espie o olho dele... olho de frete . .

     Voltando-se no altar para dar a bênção, as mãos levantadas, o sacerdote viu as beatas a resmungarem: ali estava a perturbação, o maligno, Ah! bocas de lama e maldade, Ah! fedidas e azedas donzelices, mesquinhas e cúpidas solteironas, e a comandá-las Dona Rozilda, "Deus que as perdoe, pois infinita é sua bondade!"

     - A pobrezinha sofreu na mão dele. Comeu o pão que o diabo amassou...

     - Porque quis. Não por falta de conselho meu... Não fosse tão assanhada, tivesse me ouvido... Fiz o que estava em minhas mãos...

     Perorava assim Dona Rozilda, mãe de Dona Flor, nascida para madrasta, tentando com denodo cumprir sua vocação.

     - Mas ela estava com o bicho carpinteiro, estava de pito aceso, Deus me livre, não quis ouvir nada, se revoltou... E encontrou quem apoiasse, casa para se esconder...

     Disse e olhou para o lado onde rezava Dorita, sua irmã, ajoelhada Completou:

     - Mandar dizer missa por aquele traste é jogar dinheiro fora, é só para encher o bandulho do frade...

     Don Clemente tomou do turíbulo e lançou incenso contra o fétido hálito do demônio a respirar pela boca das beatas. Desceu do altar, parou ante Dona Flor, colocou-lhe a mão afetuosa sobre o ombro, disse para ser ouvido pelo coro sinistro das velhas peçonhentas:

     - Mesmo os anjos transviados têm seu assento ao lado de Deus, em sua glória.

     - Anjo... T'esconjuro... Era um demônio do inferno...rosnou Dona Rozilda.

     Don Clemente, o dorso um pouco curvado, atravessou a nave, a caminho da sacristia. No corredor, deteve-se  a contemplar aquela estranha imagem onde o artista desconhecido fixara a um só tempo a graça e o cinismo. Levado por que sentimentos o fizera, que espécie de mensagem desejara transmitir? Possuído pelas paixões humanas, o anjo devorava com olhos devassos a pobre santa. Olhos de frete, como dissera Vadinho em sua linguagem pitoresca, sorriso indecente, face deslavada, sem compostura. Igual a Vadinho, tanta parecença jamais se vira. Não exagerara ele, Dom Clemente, não fizera uma afirmação precipitada ao colocar Vadinho ao lado de Deus, em sua glória?

     Aproximou-se da janela rasgada na pedra, fitou o pátio do convento. Ali Vadinho costumava sentar-se sobre a muralha, a seus pés o mar cortado de saveiros. Vadinho dizia:

    - Padre, se Deus quisesse mostrar mesmo sua capacidade, fazia o 17 dar doze vezes seguidas. Isso é que era um milagre retado. Aí eu chegava e enchia essa Igreja toda de flores...

    - Deus não se mete em jogo, meu filho...

    - Então, padre, ele não sabe o que é bom e o que é ruim. Aquela agonia de ver a bolinha girando, girando na roleta, a gente arriscando a última ficha, o coração disparado...

    E num tom de confidência, num segredo só dele e do sacerdote:

    - Como Deus não vai saber, padre?

     No átrio, Dona Rozilda elevava a voz:

     - Dinheiro jogado fora... Não há missa que salve o desgraçado. Deus é justo!

     Dona Flor, o xale a esconder-lhe a dolorosa face, surgia, ao fundo, apoiava-se em Dona Gisa e em Dona Norma. Na claridade azul da manhã, a Igreja parecia um barco de pedra a navegar.

 

      Só na terça-feira de Carnaval, à noite, a notícia da morte de Vadinho alcançara Nazareth das Farinhas onde Dona Rozilda habitava em companhia do filho casado e funcionário da Estrada de Ferro, amargurando a vida da nora, escrava a seu mando ditatorial. Sem perder tempo,

transportou-se para a Bahia na quarta-feira de cinzas, um dia parecido com ela, a acreditar-se em outro genro seu, Antônio Morais: "Aquilo não é uma mulher, é uma quarta-feira de cinzas, termina com a alegria de qualquer um". O desejo de situar a maior distância possível entre sua casa e sua sogra era, sem dúvida, um dos motivos por que esse Morais residia, há vários anos, num subúrbio do Rio de Janeiro. Hábil mecânico, aceitou o convite de um amigo e fora tentar a vida no sul, onde prosperara. Recusava-se a voltar à Bahia mesmo a passeio enquanto "a megera empestasse o ambiente".

     Dona Rozilda, no entanto, não detestava Antônio Morais como não detestava tampouco a nora. Detestava, sim, a Vadinho, e jamais perdoara a Flor aquele casamento, resultado de vil conspiração contra sua autoridade e suas decisões. No casamento de Morais com Rosália, a filha

mais velha, se não fizera gosto, tampouco dificultara o namoro, não opusera objeções ao noivado. Não se dava bem com ele ou com a nora, porque a natureza de Dona Rozilda era mesmo consagrada a infernar o próximo. Quando não estava contrariando alguém, sentia-se vazia e infeliz.

     Com Vadinho era diferente: tinha-lhe aversão desde os tempos do namoro com Flor, quando descobrira a rede de logros e engodos em que a enleara o indesejável pretendente. Tomara-lhe ódio para sempre, não podia ouvir-lhe sequer o nome. "Houvesse polícia nessa terra e aquele canalha estaria na cadeia", repetia, se lhe falavam no genro, se lhe pediam notícias do valdevinos ou mandavam-lhe lembranças.

     Quando visitava Dona Flor, de raro em raro, era para infernar-lhe o dia, não tendo outro assunto senão as trampolinagens de Vadinho, sua existência libertina, sua vergonhosa crônica, escândalo quotidiano e permanente.

     Ainda da amurada do navio desatava a boca de azedumes, aos gritos para Dona Norma no cais da Bahia na a esperá-la, a pedido de Dona Flor:

    - Enfim o excomungado bateu as botas, hein!

     O paquete estava atracando, repleto de uma impaciente população de viajantes atravancados de pacotes, de cestas, de sacolas, de embrulhos os mais diversos, contendo frutas, farinha de mandioca, inhame, e aipim, carne de sol, chuchu e abóboras. Dona Rozilda desembarcava a vociferar:

    - Levou a breca, já devia ter estourado há muito tempo!

     Dona Norma sentia-se derrotada, Dona Rozilda possuía aquela capacidade de deixá-la sem ação, um desanimo completo. Amanhecera a prestativa vizinha no pequeno cais, transpirando consolação no rosto bondoso, pronta para animar uma sogra em luto e em lágrimas, para em dueto lastimarem a precariedade das coisas desse mundo: hoje se está vivo e saltitante, amanhã num caixão de defuntos. Recolheria as lamúrias de Dona Rozilda, servir-lhe-ia o lenitivo da resignação à vontade de Deus, ele sabe o que faz! juntas debateriam, a mãe e a amiga íntima, a propósito da nova condição de Dona Flor, viúva, só no mundo e ainda tão jovem. Para isso viera Dona Norma preparada: gestos, palavras, atitudes, e tudo sincero e sentido, não havia jamais em sua maneira de ser e agir a menor parcela de representação. Dona Norma sentia-se um pouco responsável por todo mundo, era a providência do bairro, uma espécie de pronto socorro das imediações. De toda a vizinhança acudiam à porta de sua casa - a melhor casa da rua, só a dos argentinos da fábrica de cerâmica, a dos Bernabós, podia com ela comparar-se, talvez um pouco mais luxuosa -, vinham por empréstimos, do sal e da pimenta à louça para almoços e jantares e a peças de vestuário para festas:

    - Dona Norma, mamãe mandou perguntar se a senhora podia emprestar uma xícara de farinha do reino que é para um bolo que ela está fazendo. Depois manda pagar...

     Era Aninha, a filha mais jovem do Dr. Ives, vizinho próximo, cuja esposa, Dona Emina, cantava canções árabes acompanhando-se ao piano.

    - Mas, menina, sua mãe não foi ao mercado ontem? Eta! mulher mais esquecida... Uma xícara basta? Diga a ela que, se quiser mais, mande buscar...

     Ou bem era o moleque da residência de Dona Amélia, com sua voz esganiçada:

    - Dona Norma, a patroa mandou pedir a gravata preta de Seu Sampaio, a de laço de borboleta, que a de seu Ruas a traça roeu...

    Quando não aparecia Dona Risoleta, dramática, com seu ar de macerada:

    - Norminha, acuda pelo amor de Deus...

    - O que é, mulher?

    - Um bêbado se plantou na porta de casa, não há jeito de sair, o que é que eu vou fazer?

    Lá ia Dona Norma, reconhecia sorridente:

    - Ora, é Bastião Cachaça, gente minha... Vam’bora, Bastião, saia daí, vá tirar uma soneca na garagem lá de casa...

    E assim o dia inteiro, bilhetes pedindo dinheiro emprestado, chamado urgente para acudir um doido, atender um enfermo, e os fregueses das injeções - Dona Norma fazia concorrência gratuita aos médicos e às farmácias, sem falar nos veterinários pois todas as gatas das cercanias vinham dar cria nos fundos de sua casa, ali não lhes faltando jamais assistência e alimento. Distribuía amostras de remédios – fornecidas pelo Dr. Ives -, cortava vestidos e moldes era diplomada em corte e costura -, escrevia cartas para o pessoal doméstico, dava conselhos, ouvia lamentações, secundava projetos matrimoniais, chocava namoros, resolvia os mais diferentes problemas, sempre alvoroçada, levando Zé Sampaio a concluir:

     - É uma caga voando, não tem paciência nem para sentar no aparelho... - e metia o dedo grande na boca, resignado.

     Preparara-se a boa vizinha para acolher uma lastimosa Dona Rozilda, em seu peito a abrigar e confortar. E a outra lhe saía com aquele contra-senso absurdo, como se a morte do genro fosse notícia festiva. Lá vinha ela descendo a escada, numa das mãos o clássico embrulho de farinha de Nazareth, bem torrada e olorosa, além de uma cesta onde se movia indócil uma corda de caranguejos adquirida a bordo; na outra a sombrinha e a maleta. Ainda bem, pensou Dona Norma, não era a mala grande indicativa de demora, era o pequeno baú de madeira das viagens rápidas, uns poucos dias e até outra. Adiantou-se para ajudá-la e para dar-lhe o cerimonioso abraço de pêsames, por nada no mundo deixaria de cumprir o triste dever das condolências.

    - Meus pêsames...

     - Pêsames? A mim? Não, minha cara, não desperdice sua civilidade. Por mim, já podia ter esticado há muito tempo, não sinto a falta. Agora posso bater no peito e dizer de novo que na minha família não tem desclassificado nenhum. E que vergonha, hein? Escolheu para morrer no

meio do carnaval, vestido de máscara... de propósito...

     Parava ante Dona Norma, descansava a maleta, a cesta e o pacote no chão para melhor examinar a outra, medi-la de alto a baixo, e dizer-lhe, num elogio velhaco:

     - Pois, sim senhora... Não é para lhe gabar mas vosmicê engordou um bocado... Está bonitona, moderna, gorda de fazer gosto benza-te Deus e te livre de mau-olhado...

     Ajeitava a cesta de onde os caranguejos tentavam fugir, persistia renitente:

     - Assim é que eu gosto: mulher que não liga para besteiras de moda

... Essas que andam por aí fazendo regime para emagrecer, termina tudo tísica... Vosmicê...

     - Não diga isso, Dona Rozilda. E eu que pensei que estava mais magra... Fique sabendo que estou gramando um regime daqueles brabos . . . Cortei o jantar, tem um mês que não sei o gosto de feijão...

    Dona Rozilda voltou a considerá-la com olho crítico:

     - Pois não parece...

     Ajudada por Dona Norma, recuperou os embrulhos; embicavam para o Elevador Lacerda, Dona Rozilda a matracar:

    - E seu Sampaio? Sempre metido na cama? Nunca vi homem mais sem graça. Parece um cachorro velho...

    Dona Norma não gostou da comparação, sorriu num protesto:

    - É o gênio dele que é assim mesmo.... Esmorecido...

    Dona Rozilda não era mulher de desculpar as fraquezas humanas:

     - T'esconjuro... Um marido enganjento como o seu deve ser um castigo. O meu... o finado Gil... Bem, não vou dizer que valesse grande coisa, não era nenhum santo... Mas, em comparação com o seu . . . Ah! minha filha, eu lhe digo: se fosse eu não tolerava não... Um homem que não sai, não vai a parte nenhuma, emburrado, dentro de casa . . .

     Dona Norma tentava repor a conversa na sua trilha lógica: afinal Dona Rozilda perdera um genro por isso viajara à Capital, sobre tão palpitante e dramático assunto deviam discorrer, para tanto estava Dona Norma preparada:

    - Flor anda muito triste e abatida. Sentiu demais...

     - Porque é uma pamonha, uma toleirona. Sempre foi, nem parece minha filha. Saiu ao pai, vosmicê não conheceu o finado Gil. Não é para me elevar, não, mas o homem da casa era eu. Ele não piava nem mugia, quem resolvia tudo era essa sua criada. Flor puxou a ele, saiu molengas, sem vontade; senão, como ia agüentar tanto tempo o tal de marido que arranjou?

     Dona Norma considerou para si mesmo que, se o finado Gil não fosse ele também um banana, um molengas sem vontade, certamente não teria suportado por muito tempo tal esposa, e lastimou a sorte do pai de Dona Flor. E a de Dona Flor, agora ameaçada de constantes visitas da mãe, capaz até - quem sabe? - de vir residir com a filha viúva, corrompendo a atmosfera cordial do Sodré e redondezas.

     No tempo de Vadinho, quando Dona Rozilda aparecia era às carreiras, em rápidas passagens, o indispensável para falar mal do genro e empreender o caminho de volta antes do maldito surgir com suas graçolas de mau gosto. Porque com Vadinho, Dona Rozilda nunca levara vantagem,

jamais o dominara, nem sequer conseguia deixá-lo nervoso e irritado. Apenas a enxergava a cochichar, era tomado de riso, demonstrando a maior satisfação, como se a sogra fosse sua visita preferida, o pulha:

     - Olhe quem está aí: minha santa sogrinha, minha segunda mãe, esse coração de ouro, essa pomba sem fel. E a linguinha, como vai, bem afiada? Sente aqui, minha santa, junto de seu genrinho querido vamos vasculhar o lixo da Bahia...

     E ria aquela sua risada sonora e alegre de homem ladino e satisfeito com a vida: se tanto título a vencer e tanta dívida espalhada, tanta apertura de dinheiro e tanta urgência de numerário para

as apostas não conseguiam entristecê-lo nem exasperá-lo, como poderia Dona Rozilda alimentar esperanças? Por isso o odiava, e pelo que ele lhe fizera nos primeiros tempos do namoro.

     Numa rabanada raivosa abandonava o campo de batalha, tangida pelo riso de Vadinho, ia vingar-se em Dona Flor, acusando-a rua a fora, em agitados comícios:

    - Nunca mais ponho os pés nessa casa, filha amaldiçoada! fique com o cachorro de seu marido, deixe que ele insulte sua mãe, esqueça o leite que mamou... Vou embora antes que ele me bata... Não sou igual a você que gosta de apanhar...

     Com a risada de Vadinho a persegui-la pelas esquinas, estourando nos becos, gaitada de mofa - Dona Rozilda perdia a cabeça. Uma vez a perdeu por completo; esquecida de sua condição de senhora viúva e recatada, deteve-se na rua cheia de gente e, voltando-se para a janela onde o genro se torcia de rir, descascou-lhe,  com o braço nu, uma penca, senão todo um cacho de bananas. Acompanhava o gesto grosseiro com pragas e insultos, a voz estrangulada:

    - Tome, seu sujo, seu indecente, tome e meta...

     Escandalizavam-se os passantes, o grave professor Epaminondas, a pulcra Dona Gisa:

    - Mulher mais sem compostura... - criticava o professor.

    - É uma histérica... - definia a professora.

     Apesar de bem conhecer Dona Rozilda, testemunha que fora daquele e de outros furores, familiar de seu caráter difícil, de seu congênito azedume, ainda assim, na fila do Elevador, tornava Dona Norma a surpreender-se.  Nunca imaginara pudesse perdurar a quizília entre a sogra e o genro mais além da morte, não concedendo Dona Rozilda ao finado sequer uma palavra de lamentação, mesmo vazia de sentimento, puramente formal, da boca para fora. Nem isso:

     - Até o ar que se respira aqui ficou mais leve depois que o desgraçado esticou a canela...

    Dona Norma não pôde conter-se:

    - Puxa! A senhora tinha mesmo raiva de Vadinho, hein?

     - Oxente! E não era para ter? Um vagabundo sem eira nem beira, pau-d'água, jogador, não valia de nada... E se meteu na minha família, virou a cabeça de minha filha, tirou a desinfeliz de casa pra viver às custas dela...

     Jogador, cachaceiro, vagabundo, mau marido, era tudo verdade, considerou, pensativa, Dona Norma. Como odiar, no entanto, mais além da morte? Não se deve, no carrego dos defuntos, varrer e enterrar os ressentimentos e as discórdias? Não era essa a opinião de Dona Rozilda:

    - Me chamava de velha xereta, nunca me respeitou, ria nas minhas bochechas... Me enganou quando me conheceu, me fez de boba, me arrastou na rua da amargura... Por que hei de me esquecer, só porque está morto no cemitério? Só por isso?

 

     Ao partir desta para melhor, o relembrado Gil, o tal molengas sem vontade, deixou a família em sérias aperturas, em precária situação. No seu caso não se tratava apenas de uma frase feita - "partiu desta para melhor" -, de um lugar-comum; e, sim da expressão da verdade. Fosse o que fosse a esperá-lo nos mistérios do além - paraíso de luz, de música e anjos luminosos; tenebroso inferno com caldeirões a ferver; o úmido limbo; as peregrinações pelos círculos siderais; ou o nada, o não ser apenas - qualquer coisa seria melhor se comparada à vida em comum com Dona Rozilda.

     Magro e silencioso, cada dia mais magro e mais silencioso, seu Gil sustentava sua tribo com modestas representações comerciais, produtos de reduzida aceitação, parco lucro apenas suficiente para as despesas: a gororoba diária, o aluguel do primeiro andar na Ladeira do Alvo, as

roupas dos meninos, os arrotos de burguesia de Dona Rozilda com seus caprichos de grandeza, a ambição de conviver com famílias importantes, de penetrar nos círculos de gente apatacada. Embirrava Dona Rozilda com a maioria dos vizinhos, desprotegidos da sorte - balconistas de lojas e armazéns, empregados de escritório, caixeiros e costureiras. Desprezava essa gentalha incapaz de esconder sua pobreza; dava-se ares, carregada de bazófia, atenciosa apenas com alguns habitantes da Ladeira, as "famílias de representação" como repetia irada ao finado Gil quando o

pegava em flagrante chupitando uma cervejinha na pouco recomendável companhia de Cazuza Funil, bicheiro e facadista, metido a filósofo e um dos mais discutíveis locatários do Alvo. Funil não era nome de família, será necessário esclarecer? Apenas significativo apoio, caracterizando-lhe a goela sempre aberta, a sede insaciável.

     Por que Gil não freqüentava o Dr. Carlos Passos, médico de clientela, o engenheiro Vale, mandachuva na Secretaria de Viação, o telegrafista Peixoto, senhor de idade, às vésperas da aposentadoria, tendo alcançado o cume da carreira postal, o jornalista Nacife, ainda moço mas arrecadando um dinheirinho apreciável com "O Lojista Moderno", publicação dedicada, a acreditar-se em seu expediente, "à intransigente defesa do comércio baiano", todos eles igualmente vizinhos na Ladeira, os "de representação"? O parvo do marido não sabia sequer escolher suas amizades; quando não estava com Funil no "Ponto Fino", na Baixa dos Sapateiros, metia-se na casa de Antenor Lima, a jogar gamão ou damas, talvez a única alegria verdadeira de sua vida. Antenor Lima, comerciante estabelecido no Taboão e um dos mais destacados fregueses de Gil, mereceria classificar-se na lista dos vizinhos representativos, não fosse sua pública e notória mancebia com a negra Juventina, inicialmente sua cozinheira. Instalada agora na janela da casa própria do lojista, com empregada para varrer e arrumar, insolente e respondona, seus bate-bocas com Dona Rozilda fizeram época na Ladeira do Alvo. Pois bem: no passeio desse rebotalho sentava-se Gil, todo cheio de salamaleques, tratando a ordinária como se ela fosse senhora casada no padre e no juiz.

     De nada adiantavam os esforços de Dona Rozilda na direção das amizades influentes: a família Costa, descendente de velho político, Dona de imensa roça no Matatu - o político virara até nome de rua e o neto Nilson era banqueiro e industrial; os Marinho Falcão, de Feira de Sant'Ana, em cujo armazém Gil fizera seu aprendizado quando jovem – fora seu João Marinho quem lhe emprestara dinheiro para iniciar-se na capital; o Dr. Luís Henrique Dias Tavares, diretor de repartição, um cabeça de ouro, assinava artigos nos jornais, nome sonoro a rolar em sua boca com um gosto de parentesco: "é meu compadre, batizou o meu Heitor".

    Ao citar tais relações de categoria, espinafrando as de Gil, interrogava dramática os interlocutores, a vizinhança, a ladeira, a cidade e o mundo: que mal fizera ela a Deus para merecer o castigo daquele esposo, incapaz de dar-lhe padrão de vida condigno, à altura de sua linhagem e de seu meio? Tudo quanto era representante comercial prosperava, ampliando freguesia e escritório, vendo crescer o montante mensal das vendas, conseguindo novas e valiosas corretagens. Muitos compravam casa própria, quando nada terreno onde mais tarde construir. Alguns davam-se até ao luxo do automóvel, como um conhecido deles, Rosalvo Medeiros, alagoano arribado de Maceió há poucos anos, as mãos uma na frente, outra atrás, ambas agora na direção de um Studebaker. Tão lorde ficara esse Rosalvo a ponto de, certo dia, indo pela rua Chile não reconhecer Dona Rozilda e quase a atropelar, quando ela, pedestre e amável, atirou-se na frente do carro na ânsia de cumprimentar o próspero colega do marido. Não só o sujeito lhe metera um susto medonho com o ruído da buzina desatada como ainda a xingara, gritando-lhe desaforos:

     - Quer morrer, piolho-de-cobra?

     Em três ou quatro anos, com produtos farmacêuticos, lábia e simpatia, esse grosseirão obtivera automóvel, era sócio do Bahiano de Tênis, íntimo de políticos e ricaços, um fidalgo, meus senhores, cheio de empáfia, o rei na barriga! Dona Rozilda rangia os dentes, e o toleirão do Gil?

    Ah! Gil vegetava a pé ou de bonde, com suas amostras de atilhos, suspensórios, colarinhos e punhos duros, especialista em produtos fora de moda, reduzido a uma pequena freguesia de lojas suburbanas, de antiquados armarinhos. Não saía disso, marcando passo a vida inteira. Ninguém acreditava em sua capacidade, nem ele próprio.

     Um dia cansou-se de tanta queixa e reclamação, de tanto se esforçar sem resultado nem alegria. Porto, cunhado de sua mulher, marido de Lita, irmã de Rozilda, dava ele também um murro safado para viver, ensinando desenho e matemática a rapazes num estabelecimento  estadual para artesãos, nas lonjuras de Paripe. De trem, todos os dias, de manhã cedinho, levantando-se com o sol, regressando ao fim da tarde. Mas aos domingos, saía pelas ruas da cidade com uma caixa de tintas e pincéis a pintar coloridos casarios e tirava daquela ocupação tanta alegria a ponto de jamais ter sido visto de mau humor ou melancólico. Também casara-se com Lita e não com Rozilda, e Lita, o oposto da irmã, era uma santa mulher, cuja boca jamais se abrira para falar mau de vivente ou criatura.

    Gil nem mesmo no jogo de damas ou de gamão obtinha progressos, e Antenor Lima só o aceitava de parceiro quando outro mais forte não aparecia; quanto a seu Zeca Serra, campeão da Ladeira, nem assim, nem para matar o tempo - não tinha graça disputar com tabuleiro tão medíocre, descuidado e desatento. E ainda por cima Dona Rozilda exigira sua definitiva ruptura com Cazuza Funil, quando o amigo - muito por baixo, recém saído do xilindró, perseguido e processado como contraventor - mais carecia de solidariedade. E ele, Gil, calhorda completo, cortava esquinas para evitá-lo, submisso às ordens da esposa.

     Concluiu de nada adiantar sua sacrificada labuta, aproveitou uns dias de inverno mais úmido para adquirir uma pneumonia barata - "nem sequer uma pneumonia dupla", ironizou Dr. Carlos Passos - e emigrou para o astral. Silenciosamente, numa tosse discreta e tímida. Fosse outro e poderia ter escapado, ter vencido a doença, pouco mais do que uma gripe. Gil, porém, estava cansado, tão cansado! não se dispunha a esperar doença séria e grave. Além do mais, não tinha ilusões: doença de qualidade, importante, moléstia da moda, cara, falada nos jornais, não chegaria para ele, o melhor era mesmo contentar-se com sua mesquinha pneumonia. Assim o fez e, sem se despedir, faltou com o corpo, descansou.

 

     De há muito Dona Rozilda controlava com mão de ferro o parco dinheiro das comissões, entregando semanalmente ao representante comercial os estritos níqueis para o bonde e para o maço de cigarros Aromáticos - um maço cada dois dias. Pois, ainda assim, o dinheiro economizado mal deu para as despesas do enterro, das roupas de luto,para os dias de nojo. Comissões a receber das últimas vendas, quase não existiam, uma ridicularia, e Dona Rozilda viu-se com o filho rapazola e ginasiano e as duas filhas mocinhas - Flor apenas adolescente - e sem

fonte de renda.

     Nem por ser ela quem era, agre e desabrida, de convivência desagradável e difícil, nem por isso devem-se negar ou esconder suas qualidades positivas, sua decisão e força de vontade, e tudo quanto fez para completar a criação dos filhos e para manter-se pelo menos na posição onde a deixara a morte do marido, sem rolar Ladeira do Alvo abaixo para os cantos de rua ou para os sórdidos quartos dos casarões do Pelourinho.

    Agarrou-se ao sobrado com toda sua violenta obstinação. Mudar-se dali para moradia mais barata significava o término de todas as suas esperanças de ascensão social. Precisava manter Heitor nos estudos até o fim do curso secundário, empregá-lo depois, e casar as meninas, casá-las

bem. Para isso era preciso não descer, não deixar-se arrastar pela pobreza sem máscara, exposta e despudorada, sem pejo nem vergonha. Ela, Dona Rozilda, sentia vergonha da pobreza, Ah! muita vergonha, como de um delito a merecer castigo.

    Tinha de permanecer no andar da Ladeira do Alvo, custasse o que custasse. Assim explicou ao cunhado quando ele viera emprestar-lhe as economias de Dona Lita (pagas depois por Dona Rozilda, tostão a tostão, diga-se em sua honra). Nem casa de preço razoável no fim do mundo da

Plataforma, nem porão habitável na Lapinha, nem quarto e sala sublocados nas Portas do Carmo; manteve-se plantada na Ladeira do Alvo, no sobrado de aluguel relativamente elevado, sobretudo para quem como ela, não dispunha de posses, nem muitas nem poucas.

     Dali, das sacadas amplas do primeiro andar, podia olhar o futuro com confiança: nem tudo estava perdido. Modificaria os planos anteriores sem desistir de suas pretensões. Se de imediato cedesse, largando a casa bem posta, mobiliada, com tapetes e cortinas, indo para um cortiço qualquer, já não lhe seriam permitidas sequer esperanças e ilusões. Veria Heitor atrás de um balcão de secos e molhados, quando muito de uma loja, caixeirinho a vida inteira; veria as meninas com idêntico destino, se não fossem terminar garçonetes de bares ou cafés, no frete dos

patrões e dos fregueses, caminho direto para a zona, para o horror das ruas de mulheres-damas.  Dali, do sobrado, podia resistir a todas essas ameaças. Abandoná-lo era como render-se sem luta.

     Por isso recusou oferta de emprego de balconista para Heitor, arranjado por Antenor Lima. Assim como não admitiu sequer discutir com Rosália, quando a filha lhe apareceu disposta a trabalhar, como uma espécie de recepcionista e secretária, na "Foto Elegante", florescente estabelecimento da Baixa dos Sapateiros, onde Andrés Gutiérrez, espanhol moreno e de bigodinho recortado, explorava a arte fotográfica em suas mais diversas modalidades: desde os instantâneos três por quatro, para carteiras de identidade e profissionais ("entrega em vinte e quatro horas"), até as "incomparáveis ampliações coloridas, verdadeiras maravilhas", passando pelos retratos dos mais diversos tamanhos e pelos flagrantes de batizados, matrimônios, primeiras

comunhões e outros festivos eventos, dignos da amarelecida eternidade dos álbuns familiares. Onde houvesse uma fotografia a fazer, lá surgia Andrés Gutiérrez com sua máquina, seu ajudante, um chinês sem idade de tão velho, encarquilhado e suspeito. Rumores circulavam - haviam chegado aos ouvidos de Dona Rozilda, sempre aguçados para esses falatórios - sobre Andrés, sua "Foto Elegante", seu ajudante e a amplitude do negócio. Diziam ser de sua produção certos postais vendidos pelo chinês em envelopes fechados, supra-sumo da arte naturalista, "nus artísticos" de garantido sucesso. Para tais fotos, segundo as comadres, posavam mocinhas pobres e fáceis, em troca de uns magros mil-réis. De passagem, usufruía delas certamente Andrés, e quem sabe? o chinês; as beatas contavam horrores a propósito do atelier de fotografia. Não é de

admirar-se ter Dona Rozilda corrido com a filha, quando ela, entusiasmada e ingênua, lhe revelou a oferta do espanhol:

    - Se me falar nisso outra vez, te arranco o couro, te dou uma surra de criar bicho...

    A Andrés ameaçou com cadeia, atirando-lhe às fuças todo seu círculo de relações de prestígio: fosse se meter com sua filha e veria o resultado, galego porco de uma figa, com suas imundícies, sua devassidão; ela, Dona Rozilda, iria à polícia...

    Andrés, também ele de cabelo na venta, espanhol de maus bofes revidara no mesmo diapasão. Começou dizendo que galego era o chifrudo pai de Dona Rozilda: então ele, condoído com a situação da família após a morte de seu Gil, homem educado e bom, merecedor de melhor esposa, vinha oferecer um emprego à moça, a quem mal conhecia, no único intuito de ajudá-la, e a paga que obtinha era essa vaca histérica a gritar nas portas de seu estabelecimento, ameaçando deus e o mundo, inventando histórias, calúnias miseráveis? Se ela não silenciasse aquela latrina

que usava como boca, que fosse se estourar nos infernos e depressa, quem chamaria as autoridades seria ele, cidadão estabelecido, cumpridor das leis, em dia com os impostos, ele, andaluz de boa cepa, e aquela bruxa a xingá-lo de galego... Indiferente à disputa o chinês limpava com um fósforo as unhas compridas como garras, unhas que, segundo as más línguas...

     Verdade ou não aquelas excitantes histórias, Dona Rozilda não criara as filhas, não as educara, prendadas e gentis, para o bico de nenhum Andrés Gutiérrez, andaluz, galego ou chinês, pouco se lhe dava . . . As filhas eram agora sua alavanca para mudar o rumo do destino, sua escada para subir, para elevar-se. Recusou outros empregos, mais bem intencionados, para Rosália e Flor, não queria as moças expostas ao público e ao perigo. Lugar de donzela é no lar, sua meta o casamento, assim pensava Dona Rozilda. Mandar as filhas para balcão de armarinho, bilheteria de cinema, sala de espera de consultório médico ou dentário, era entregar-se, confessar a pobreza, exibi-la, chaga mais repulsiva e pestilenta! Poria as meninas a trabalhar, sim, mas em casa, nas prendas domésticas por elas acumuladas, tendo em vista noivo e marido. Se antes, prendas e matrimônio eram detalhes importantes nos planos de Dona Rozilda, agora transformavam-se na peça fundamental de seus projetos.

     Enquanto Gil fora vivo, Dona Rozilda planejara formar o filho, fazer dele médico, advogado ou engenheiro, e, apoiada no canudo de doutor, no diploma da Faculdade, ascender às elites, brilhar em meio aos poderosos do mundo. O anel de grau a resplandecer no dedo de Heitor seria sua chave para abrir as portas da gente da alta, desse mundo fechado e distante da Vitória, do Canela, da Graça. Ao lado disso, e em conseqüência, os bons casamentos das meninas, com colegas do filho, doutores de linhagem e de futuro.

     A morte de Gil tornava impraticável aquele plano a longo prazo: Heitor ainda estava no ginásio, faltando-lhe dois anos para terminar o secundário - se atrasara, andara sendo reprovado nos exames. Como sustentá-lo durante cinco ou seis anos na Faculdade, estudos demorados e caros? Com esforço e sacrifício poderia mantê-lo  no colégio – cursava ele o Ginásio da Bahia, estabelecimento estadual e gratuito – até concluir o ginásio. Possuindo curso secundário completo, ser-lhe-ia possível escapar aos míseros empregos no comércio, a vida toda marcando passo, de metro na mão. Talvez conseguisse lugar num banco ou, por que não?, uma sinecura oficial, emprego público, com garantias e direitos, gratificações e aumentos, promoções, abonos e outros adicionais. Para tanto Dona Rozilda contava com suas relações influentes.

    Não contava mais no entanto, com o título de doutor - o anel de formatura a rebrilhar, esmeralda, rubi ou safira - para atingir as sonhadas alturas. Uma lástima, não tinha jeito a dar, mais uma vez o bosta do marido arruinara seus projetos com aquela morte idiota.

     Já não mais podia ele, porém, arruinar seus reformulados planos, amadurecidos nos dias de nojo. Nesses novos projetos a chave mestra, a abrir as portas do conforto e do bem estar, era o matrimônio, o de Rosália e o de Flor. Casá-las ("colocá-las", dizia Dona Rozilda) o melhor possível, com moços de nome, rebentos de famílias distintas, filhos de coronéis fazendeiros, ou com senhores do comércio – de preferência do atacadista -, estabelecidos, com dinheiro e crédito nos Bancos. Se era esta a meta a alcançar, como expor as meninas em empregos vagabundos, como exibi-las pobretonas, cuja graça e juventude mal vestidas iriam despertar nos ricos e importantes apenas os baixos instintos, os pecaminosos desejos, merecendo-lhes propostas, certamente, mas outras que não as honestas de noivado e casamento?

     Dona Rozilda queria as filhas em casa, recatadas, ajudando-a, com o trabalho e com o comportamento, a manter aquela aparência de conforto, a afivelar aquela máscara de gente senão opulenta pelo menos remediada e de boa educação. Quando as moças saíam para visitas a famílias conhecidas, para matinês dominicais, para alguma festinha em casa amiga, iam nos trinques, bem vestidas, no ilusório aspecto de herdeiras de fino trato. Dona Rozilda era econômica, contando os vinténs na tentativa de equilibrar as finanças domésticas e seguir adiante, mas não tolerava desmazelo das filhas no vestir, nem mesmo na intimidade do lar. Exigia-as impecáveis, dignas de acolher a qualquer momento o príncipe encantado quando ele de repente surgisse. Para isso Dona Rozilda não media esforço.

     Certa vez Rosália foi convidada para uma dancinha no aniversário da menina mais velha do Dr. João Falcão, um graúdo: palacete, lustres de cristal, talheres de prata, garçons a rigor. Os outros convivas, tudo gente fina, podre de rica, da melhor sociedade, uma lordeza, só vendo. Pois bem: Rosália fez sensação, era a mais bem apresentada, a mais chique, a ponto de a louvar Dona Detinha, a bondosa anfitrioa:

     - A mais linda de todas... Rosália, um mimo, uma boneca...

    Parecia, sim, a mais rica e aristocrática. No entanto, lá estavam as meninas mais afortunadas e mais nobres da nobreza local, sangue azul de bacharéis e médicos, de funcionários e banqueiros, de lojistas e comerciantes. Com sua tez mate de cabo-verde, suave e pálida, era a branca mais autêntica entre todas aquelas finíssimas brancas baianas- apuradas em todos os tons do moreno; aqui entre nós, que ninguém nos ouça mestiças da mais fina e bela mulataria!

     Ninguém, ao vê-la assim tão elegante, diria ter sido aquele vestido, o mais louvado da festa, obra dela própria e de Dona Rozilda, o vestido e tudo mais, inclusive a transformação de um velho par de sapatos numa obra-prima de cetim. Entre as prendas de Rosália, era a costura a mais destacada, cortava e cosia, bordava e tricotava.

     Sim, eram elas, as meninas, com suas prendas, sob a férrea direção de Dona Rozilda os autores daquele milagre de sobrevivência: Heitor no colégio, a concluir o ginásio, o aluguel do primeiro andar pago em dia, assim como as prestações do rádio e do novo fogão, e ainda sendo postos de parte uns miúdos para a conclusão dos enxovais, para os vestidos de casamento, os véus, as grinaldas, pois lençóis e fronhas, camisolas e combinações iam-se pouco a pouco acumulando nos baús.

     Eram elas, as meninas. Rosália na máquina a pedalar, costurando para fora, cortando vestidos, bordando blusas finas. Flor, a princípio na preparação de bandejas de salgados e doces para festinhas familiares, pequenas comemorações: aniversários, primeiras comunhões. Se era a costura o forte de Rosália, era a cozinha o fraco da menina mais moça: nascera com a ciência do ponto exato, com o dom dos temperos. Desde pequena fazia bolos e quitutes, sempre rondando o fogão, aprendendo os mistérios da arte suprema com a tia Lita, uma exigente. Tio porto não

possuía outro vício, além da pintura dominical, senão os bons pratos. Era um freqüentador de carurus e sarapatéis, perdido por uma feijoada ou um cozido de muita verdura. Das bandejas de pastéis e empadas, das encomendas de almoços, partiria Flor para receitas e aulas e, por fim, para a Escola de Culinária.

     Uma na máquina, no corte e na costura, outra na cozinha, no forno e no fogão, Dona Rozilda ao leme, iam atravessando. Modestamente, mediocremente, à espera dos cavaleiros andantes a surgirem numa festa ou num passeio, cobertos de dinheiro e títulos. O primeiro arrebatando Rosália, o segundo conduzindo Flor, ambos ao som da Marcha Nupcial, para o altar e para o mundo alegre dos poderosos. Primeiro Rosália, era a mais velha.

     Obstinada, Dona Rozilda espreitava o dobrar das esquinas, aguardando esse genro de ouro e prata, cravejado de diamantes. Por vezes um desânimo a invadia, e se não acontecesse o príncipe encantado? Era tempo dele surgir, impossível esperar a vida inteira, as moças atingiam a inquieta idade do homem. Rosália vinte anos desdobrados em suspiros na janela, fartos do pedal da máquina de costura, reclamava urgente esse duque, esse conde, esse barão, - quando se propunha ele a resgatá-la? Tão larga demora, tão cansativa espera - não se visse Rosália de súbito no fundo do barracão, solteirona, empedernida donzela, com aquele fedor a azedo das virgens encruadas, ao qual se referia sorrindo o bom tio porto a mangar dos pruridos aristocráticos da cunhada.

     De quando em quando, Rosália o antevia, ao ansiado pretendente: nas festas de dança, vasqueiras; nos passeios à casa da tia, no Rio Vermelho; em matinês de cinema ou ao volante de uma baratinha, todo de branco num domingo de regatas, acadêmico trocista ou estudioso sobraçando grossos volumes de ciência ou curvado no malabarismo de um tango argentino de todo capricho; romântico ao som de uma serenata pela noite.

     Dona Rozilda também esperava, ia crescendo em impaciência: quando, quando surgiria ele, esse anunciado genro, esse milionário, esse lorde, esse fidalgo, esse doutor de borla e de capelo, esse atacadista da Cidade Baixa, esse fazendeiro de cacau ou de tabaco, esse dono de loja ou mesmo de armarinho, em último caso esse suado gringo de armazéns de secos e molhados, quando?

 

     Tanto tempo esperaram, semanas, meses e anos, tão bem postas e arranjadas, e nenhum fidalgo apareceu; nem rapaz aristocrata da Barra ou da Graça, nem filho de coronel do cacau, nenhum senhor do alto comércio, sequer galego enriquecido no duro labor dos armazéns e padarias. Quem chegou foi Antônio Morais com sua oficina de mecânico, sua competência autodidata, seu honrado macacão negro de graxa. Chegou na hora certa e por isso foi bem recebido. Já Rosália chorava lágrimas de Vitalina condenada à solidão e à beatice, Dona Rozilda não teve forças para reagir. Não era o genro antevisto nas longas vigílias de trabalho no pedal da máquina ou no calor do fogão. Não mais podia prender, porém, em considerações e argumentos ou na ira ameaçadora, o fustigado ímpeto de Rosália, cujos vinte (e tantos) anos sadios ansiavam por marido.

     Ao demais, se Antônio Morais não era rico nem importante, pelo menos não era empregado de patrão nenhum, tinha sua pequena oficina afreguesada, ganhava com que sustentar mulher e filhos. Dona Rozilda curvou-se ante o destino, meio a pulso mas curvou-se, que jeito?

     Naquele tempo já Heitor conseguira colocação na Estrada de Ferro de Nazareth, por intermédio de seu padrinho, Dr. Luís Henrique, e fora viver na cidade do Recôncavo, vindo à Capital raramente. Tinha futuro no emprego, Dona Rozilda não precisava preocupar-se com ele. Também Flor começara a dar cursos de cozinha a moças e senhoras, ganhando dinheiro e fama de professora competente. Agora ela carregava com a maior parte das despesas da casa, mesmo porque Rosália, amedrontada com o correr do tempo, despendia seus ganhos em enfeitar-se, em vestidos e sapatos, perfumes e rendas.

     Antônio Morais reparara em Rosália na matinê do Cinema Olímpia, num dia de palco, quando, além dos dois filmes e do seriado, seu Mota, o empresário, exibia artistas de passagem na Bahia, restos de mambembes desfeitos em excursões pelo interior, famintas estrelas de embaçada luz. Enquanto "Mirabel, o sonho sensual de Varsóvia", polaca venerável, cansada de guerra, das ribaltas e dos leitos dos castelos, rebolava uma antiga bunda emurchecida para delírio da criançada ali a educar-se, António Morais divisou em cadeiras próximas Dona Rozilda e as duas filhas: Rosália na excitada espera, Flor desabrochando nos peitos e nas ancas.

     Não mais teve olhos o mecânico para o consumido bamboleio do "sonho de Varsóvia". O petulante olhar de Rosália cruzou com sua mirada súplice. Na saída, o moço acompanhou, a prudente distância, mãe e filhas, localizando a moradia burguesa da Ladeira do Alvo. Rosália apareceu por um instante na sacada, deixou um sorriso a esvoaçar.

     No outro dia, após a janta, Antônio Morais penava ladeira acima ladeira abaixo, estagiando na calçada fronteira ao sobrado. Da janela, Rosália espreitava, animadora. O mecânico subia e descia, os olhos postos na sacada alta, assoviando modinhas. Daí a pouco, Rosália, escoltada por Flor, surgiu ao pé da escada. Num passo de urubu malandro, Morais encostou.

     Dona Rozilda, sempre alerta, ainda na matinê reparara no namoro. E, ao ver Rosália esfogueada e indócil, saiu a tomar informações sobre o sujeito; Antenor Lima o conhecia, forneceu notícias concretas e favoráveis: mecânico de mão-cheia, oficina própria, nos Galés, um

monstro no trabalho. Menino de nove anos, Antônio Morais perdera pai e mãe num desastre de marinete, ficara solto nas ruas e em vez de juntar-se aos capitães da areia e sair para a aventura da vagabundagem e da má vida, metera-se na oficina de Pé de Pilão, um negro maior que a Catedral, mecânico e boa praça. Na oficina, o molecote fazia de um tudo, pau para toda obra, esperto como ele só. Sem ordenado fixo mas com o direito de ali dormir, sem falar nas gorjetas, algumas gordas. Sozinho aprendera a ler e a escrever, com Pé de Pilão aprendera o ofício, e ainda jovem começara a trabalhar por sua conta e risco, cobrando uns biscates. Tinha as mãos maneiras e a cabeça viva: os motores de automóvel não guardavam segredos para sua curiosidade. Não era nenhum doutor, certamente, nem rapaz de posses. Mas poucos mecânicos podiam competir com ele. Ganhava seu dinheiro seguro, daria um marido de primeira, que diabo a mais pretendia Rosália se não era nenhuma princesa nem possuía roça de cacau? - perguntava o malcriado Lima a enganjenta e resmungona vizinha.

     Outros conhecidos confirmaram essa extensa crônica do comerciante, e Dona Rozilda, após aconselhar-se com seu compadre, doutor Luís Henrique, um Ruy Barbosa de sabedoria - conselhos inestimáveis - e de muito pesar os prós e os contras, decidiu a favor do mecânico.

     Não era, repetia, o genro dos seus sonhos, o príncipe de sangue nobre e arcas de ouro. Sangue nobre só o herdara Morais de um ancestral distante, Obitikô, príncipe de tribo africana aportado escravo na Bahia, sangue azul a misturar-se com o sangue plebeu de degradados lusitanos e de holandeses mercenários. Resultou da mistura um pardavasco claro de sorriso fácil, simpático moreno. Quanto a arcas de ouro, o pé-de-meia com as economias do mecânico não lhe permitia sequer montar casa imediatamente. Mas Rosália trancara-se em sua babada paixão, não aceitava discutir sobre as obscuras origens, o honrado ofício e as magras poupanças do rapaz, e, ante essa Rosália espinhosa, de resposta insolente e fácil calundu, Dona Rozilda baixou a cabeça. E, assim, na quinta ou sexta aparição noturna de Morais - todo engomado em branco, o chapéu quebrado sobre o olho, os sapatos de duas cores, irresistível! -, ela o interpelou.

     Estavam os dois amorosos num enleio, olhos nos olhos, as mãos dadas, falando bobagens, quando, das sombras da escadaria, Dona Rozilda irrompeu inesperada e inquisidora, dura voz terrorista:

    - Rosália, minha filha, quer me apresentar ao cavalheiro?

    Feitas às apresentações, Rosália engrolando as palavras, Morais todo sem jeito, Dona Rozilda foi logo arremetendo, sem nenhuma cerimônia nem consideração:

     - Filha minha não namora em pé de escada nem em canto de rua, não sai sozinha para passear com namorado, não crio filha para divertimento de gaiato nenhum...

    - Mas, eu...

     - Quem quiser conversar com filha minha tem de declarar antes suas intenções.

     Antônio Morais afirmou a pureza matrimonial de suas mais recônditas intenções, não era moleque para abusar das filhas dos outros. Respondeu com presteza e modéstia ao minucioso interrogatório, Dona Rozilda comprovando informes, sobretudo os referentes aos ingressos da oficina.

     Foi o mecânico aprovado e admitida oficialmente sua presença noturna à porta do sobrado, junto à qual, a partir daquela conferência, Rosália o esperava sentada numa cadeira. Da janela, Dona Rozilda, no controle da moral familiar; filha sua não era para o desfrute de nenhum vadio. Assim, quando Morais adiantava a mão terna para a terna mão da moça, ouvia-se o repreensivo pigarro de Dona Rozilda caindo lá de cima:

    - Rosália!

     Com isso apressou o noivado, Morais ansioso de maior liberdade, de intimidade menos vigiada. Noivo, passou a freqüentar a casa, a sair com Rosália aos domingos para a matinê, levando Flor de contrapeso, com ordens terminantes de vigiar e controlar os enamorados, de impedir beijos e ternuras; Dona Rozilda exigia o máximo respeito. Mas Flor não nascera para tira de policia; compreensiva e solidária, voltava às costas para a irmã e o futuro cunhado, absorvia-se no filme, a mastigar confeitos, deixando em paz o casal e sua urgência, suas bocas e mãos atarefadas.

     Durante namoro e noivado, Dona Rozilda mostrou-se tão amável quanto lhe era possível, escondeu as saliências mais ásperas de sua natureza. Necessitava casar as filhas, Rosália chegara ao limite da idade; sobravam moças em busca de marido, minguavam rapazes dispostos ao matrimônio. Árdua batalha, essa de casar filhas, Dona Rozilda bem o sabia. Suas conhecidas, quase todas consideravam o mecânico um bom partido. Uma delas, inclusive, uma Dona Elvira, mãe de três encardidas e remelentas donzelas, destinadas ao definitivo celibato, pusera as três bruacas a cercarem o pretendente, desfeitas em sorrisos e olhares prometedores, só faltavam arrastá-lo para a cama, lambisgóias desenxabidas e audaciosas. Ao demais, era Morais  trabalhador e morigerado, não seria difícil à sogra comandá-lo, dirigi-lo à sua vontade, após o casamento. Nisso se enganou, o genro iria surpreendê-la.

     Assim, a completa verdade sobre Rozilda, o artesão só a veio conhecer depois de casado. Haviam decidido habitar todos no primeiro andar da Ladeira do Alvo, solução econômica e sentimental, pois gastariam menos e continuariam juntos, e outra coisa não demonstravam querer Morais e Dona Rozilda senão continuarem para sempre juntos. Rosália resistira a esses planos temerários, "quem casa quer casa", recordava ela, mas como fazer frente a essa lua de mel da mãe e do noivo?

    Não durou seis meses a lua-de-mel, desfez-se a combinação, pois, como informou o genro aos conhecidos: "Só Cristo agüentaria morar com Dona Rozilda e ainda assim não era certeza, precisava experimentar para ver se o Nazareno tinha bastante competência. Pois talvez nem ele suportasse".

     Mudaram-se para o fim do mundo do Cabula, quase zona rural. Morais preferia enfrentar aquele bonde comprido e lento, viagem de nunca acabar, descarrilhando a toda hora, atrasado para sempre; preferia sair pela madrugada para chegar a tempo na oficina situada nas imediações da Ladeira dos Galés; meter-se naqueles matos esconsos onde sibilavam venenosas cobras cascavéis e onde os exus dos muitos candomblés da redondeza andavam soltos pelos caminhos fazendo misérias, a tolerar o convívio quotidiano da sogra. Antes as cascavéis e os exus.

     No primeiro andar da Ladeira do Alvo ficaram apenas Flor adolescente, apurando em moça bonita - delicado rosto, seios altos e altaneiras ancas -, e Dona Rozilda, uma Dona Rozilda cada vez mais agre, limitada agora às graças e às prendas daquela filha, seus derradeiros trunfos na batalha pela ascensão social, batalha tantas vezes perdida.

     Não perdera, no entanto, sua resistência, não se abalara sua firme vontade de subir, de galgar os degraus a conduzi-la ao mundo dos ricos. Nas suas noites fatigadas de insônia (dormia pouco, ficava a ruminar projetos) decidira não entregar a caçula a nenhum outro Morais. Destinava Flor a melhor partido, a rapaz de qualidade, a branco fino, a doutor formado ou a comerciante forte. Defenderia com unhas e dentes aquela última trincheira, não se repetiria o acontecido com Rosália. Não só Flor era muito mais dócil e cordata como não receava ficar solteirona, não tinha conversa de casamento, não se levantava contra a mãe quando esta lhe proibia engraçar-se  com empregadinhos de escritório, caixeiros de armarinho, galegos de balcão de padaria. Obedecia sem resmungos, não se revoltava aos berros, não se trancava no quarto ameaçando suicídio, num calundu daqueles, como o fazia Rosália quando Dona Rozilda, zelosa de seu futuro, lhe interditava qualquer reles namorico. Resultado: casara com aquele mequetrefe do Morais, um zé-ninguém, nem sequer caixeiro, um simples artesão, um operário, que horror! Socialmente ainda menos importante do que elas. Podia ser um colosso no trabalho, podia ganhar dinheiro, ser bom marido, alegre camarada: a verdade, porém, é que a filha, em vez de subir, descera na escala social; assim, pelo menos, amargava Dona Rozilda, destinada a outras alturas. Com Flor era diferente, não iria repetir-se o equívoco.

     Enquanto Dona Rozilda forjava planos, Flor fazia-se conhecida professora de culinária, especialmente de cozinha baiana. Nascera com o dom dos temperos, desde menina às voltas com receitas e molhos, aprendendo quitutes, gastando sal e açúcar. De há muito recebia encomendas de pratos baianos, constantemente chamada a ajudar em vatapás e efós, em moquecas e xinxins, inclusive em famosos carurus de Cosme e Damião como o da casa de sua tia Lita e o de Dona Dorothy Alves, onde se reuniam dezenas de convidados e ainda sobrava comida para outros tantos. Carurus anuais, promessas feitas aos santos mabaças, aos ibejês. Com o tempo seu renome foi-se espalhando, vinham lhe pedir receitas, levavam-na à casa de gente rica para ensinar o ponto e o tempero desse e daquele prato mais difícil. Dona Detinha Falcão, Dona Lígia Oliva, Dona Laurita Tavares, Dona Ivany Silveira, outras senhoras "de representação", de cuja amizade tanto se gabava Dona Rozilda, recomendavam-na a amigas, Flor não tinha mãos a medir. Foi uma dessas senhoras esnobes e endinheiradas quem lhe deu a idéia da escola, pois, tendo-lhe pedido receitas teóricas e demonstrações práticas, fez questão, ao pagar-lhe o trabalho, de esclarecer que estava remunerando a ótima professora e boa amiga, e não gratificando uma cozinheira. Sutilezas gentis de Dona Luísa Silveira, sergipana fidalga toda cheia de astúcias e não-me-toques.

     A sério, com escola montada, Flor só começou a lecionar depois da partida de Rosália e Morais para o Rio de Janeiro. O mecânico concluiu não ser suficiente à distância entre os altos do Cabula e a Ladeira do Alvo, quis colocar entre sua casa e a sogra o próprio mar-oceano, tomara sagrada aversão a Dona Rozilda, "a megera", como dizia: "aquilo é peste, fome e guerra!"

     Logo prosperou a escola, até senhoras do Canela e do Garcia, mesmo da Barra, vieram desvendar os mistérios do azeite doce e do azeite de dendê; uma das primeiras foi Dona Magá Paternostro, ricaça cheia de relações, entusiástica propagandista dos dotes de Flor.

    O tempo foi passando, corriam os anos, Flor não tinha pressa em arranjar noivo, agora era Dona Rozilda quem começava a preocupar-se, afinal a filha caçula já não era menina. Flor encolhia os ombros, interessada apenas na escola. O irmão, numa de suas vindas de Nazareth, desenhara um cartaz com tinta de cor - elogiavam muito seu jeito para o desenho -, pendurara sob a sacada:

 

ESCOLA DE CULINÁRIA SABOR E ARTE

     Heitor lera nos jornais extenso noticiário sobre uma escola "Saber e Arte", experiência de um fulano vindo dos Estados Unidos, um tal de Anísio Teixeira. Com a mudança de uma letra no título em moda, adaptou-o aos interesses da irmã. Ao lado das letras caprichadas, colher, garfo e faca cruzados em gracioso tripé, completavam a obra do artista (se fosse hoje já podia Heitor ir pensando numa exposição individual e na venda de uns quadros a bom preço, mas era naqueles tempos, e o funcionário da Ferrovia contentou-se com os elogios da irmã, da mãe e de certa aluna de Flor, uma de olhos molhados, que atendia por Celeste).

    As aulas de culinária davam o necessário para o sustento da casa, as parcas despesas de mãe e filha, e também para guardar algum dinheiro, tendo em vista os gastos de um futuro matrimônio. Mas, sobretudo, enchiam o tempo de Flor, libertavam-na um pouco de Dona Rozilda a repetir-lhe quanto sacrifício lhe custara criar e educar os filhos, criar e educar aquela filha caçula, e de como lhe era necessário encontrar marido rico que as arrancasse dali, da Ladeira do Alvo e do

fogão, para as delícias da Barra, da Graça, da Vitória.

     Flor, porém não parecia preocupada com namoro ou noivado. Nas festinhas, dançava com uns e com outros, ouvia os galanteios, sorria agradecida, não ia além disso. Não correspondeu nem mesmo aos apaixonados apelos de um doutorando em medicina, um paraense alegre, festeiro e almofadinha. Não lhe deu corda, apesar da excitação de Dona Rozilda: finalmente um estudante, e quase doutor, aspirava à mão de sua filha.

     - Não gosto dele... - declarou Flor, peremptória. - Feio como o cão...

     Não houve conselho nem bronca de uma Dona Rozilda em fúria que a fizesse mudar de opinião. A mãe entrou em pânico: iria repetir-se o caso de Rosália, revelando-se Flor igual à irmã, obstinada, disposta a resolver por conta própria sobre noivo e casamento? Quando pensava ter na filha mais moça a repetição da natureza do finado Gil, curvada à sua vontade, lá saía ela a antipatizar com o doutorzinho às vésperas do diploma, filho de pai latifundiário no Pará, dono de navios e ilhas, de seringais, matas de castanheiros, tribos de índios selvagens e rios imensos. Recamado de ouro. Dona Rozilda partira a informar-se e, na volta, após ouvir alguns conhecidos, já se fazia na Amazônia a reinar sobre léguas de terra, a mandar e desmandar em caboclos e índios. Finalmente aparecera o príncipe encantado, não fora inútil sua espera, nem seu sacrifício mal empregado.  Num navio do rio Amazonas aportaria ela nas soberbas casas da Barra, nos trancados palacetes da Graça, os donos a cortejá-la em salamaleques e adulações.

     Flor sorria com seu delicado rosto redondo, cor de mate, sorria com as formosas covinhas das faces, com os olhos surpresos, repetia com sua voz cansada, voz de dengo e de madorna:

    - Não gosto dele... E feio como a necessidade...

     "Que diabo ela pensava?", Dona Rozilda subia a serra. Flor estava agindo como se casamento fosse questão de gostar ou não gostar, como se houvesse homem feio e bonito, como se pretendente igual a Pedro Borges andasse sobrando pela Ladeira do Alvo.

     - O amor vem com a convivência, minha condessa de titica, com os interesses em comum, com os filhos. Basta que não haja antipatia. Você tem raiva dele?

     - Eu? Não, Deus me livre. Ele é até bonzinho. Mas só caso com o homem que eu ame... Esse Pedro é um bicho de feio... Flor devorava romances da Biblioteca das Moças, apetecia-lhe rapaz pobre e bonito, atrevido e loiro.

     Espumava Dona Rozilda de raiva e excitação; a voz esganiçada cruzando a rua, transmitindo os ecos da disputa a todos os vizinhos:

     - Feio! Onde já se viu homem feio ou bonito? A beleza do homem, desgraçada, não está na cara, está é no caráter, na sua posição social, em suas posses. Onde já se viu homem rico ser feio?

     Quanto a ela, não trocava o feioso Borges (e até não era tão horrível assim, um tipo alto e forte, a cara um pouco espinhosa, é verdade) por toda essa caterva de moleques atrevidos e insolentes do Rio Vermelho, sem tostão no bolso, sem onde cair mortos, uns vagabundos. O

doutor Borges - antecipava-lhe o título - era moço de bem, via-se logo em seus modos, de família distinta do Pará, distinta e podre de rica. Ela, Dona Rozilda, tinha sabido: a residência deles em Belém era um palácio, só de criados mais de uma dúzia. Uma dúzia, ouviu, filha ruim, caprichosa e tola, fátua e absurda. Todos os pisos de mármore, de mármore as escadarias. Estendia as mãos, teatral:

    - Onde já se viu homem rico ser feio?

     Flor sorria, as covinhas do rosto eram uma lindeza, não tinha pressa em casar. Tapava a boca da mãe:

     - A senhora fala como se eu fosse mulher-dama para medir os homens pelo dinheiro... Não gosto dele, se acabou...

     A luta entre Dona Rozilda, irritada e irritante, num nervosismo de doente, e Flor, serena como se nada estivesse acontecendo, peleja da qual Pedro Borges era objetivo e prêmio, atingiu o ápice quando das festas de formatura no fim daquele ano. O doutorando as convidara para o

ato solene e para o baile.

     Para o ato solene, no salão nobre da Faculdade, Dona Rozilda vestiu-se de sogra, toda armada em tafetá, majestosa como um peru de roda, a rir até pelos babados das mangas, um pente de dançarina espanhola espetado no coque. No baile de formatura, Flor resplandecia em rendas e filós, não teve descanso. Não falhou uma só contra dança, tantos os cavalheiros a solicitarem-na. Mas, nem assim concedeu esperanças ao recém formado.

     Nem mesmo quando ele, em vésperas de partir para a Amazônia longínqua, veio visitá-las, trazendo o pai para melhor impressionar. Chamava-se Ricardo o graúdo paraense, um gigante, vozeirão de trovoada, os dedos pejados de jóias - Dona Rozilda quase desmaia ao fitar tanta pedra preciosa. Havia um carbonado sem tamanho, valia pelo menos cinqüenta contos de réis, ai, meu Deus!

     O velho falou de suas terras, dos índios mansos e da borracha, das histórias do rio Amazonas. Falou também de sua alegria ao ver o filho doutor, de canudo de médico. Só lhe faltava agora vê-lo casado, com moça direita, modesta e sincera, não fazia questão de dinheiro, dinheiro ele juntara bastante - movia os dedos, os brilhantes faiscavam, iluminando a sala. Queria nora que lhe desse netos e netas para encherem de bulha e calor aquela austera casa de mármore, em Belém, onde o velho Ricardo, viúvo, vivera solitário os anos de Faculdade de Pedro. Falava e olhava para Flor como à espera de uma palavra, de um gesto, de um sorriso: se aquilo não era introdução para um pedido de casamento, então Dona Rozilda era uma ignorante de tais coisas. Tremia ela de emoção de ânsia, chegara a hora abençoada, jamais estivera tão perto de seus objetivos, fitava a bobela da filha esperando seu acordo tímido porém firme. Mas Flor apenas disse com sua voz de madorna:

     - Não vai faltar moça bonita e direita para casar com Pedro, ele bem merece. Eu só queria que fosse aqui, na Bahia, que era para eu preparar o banquete do casamento.

     Pedro Borges recolheu sem ressentimentos a aliança de ouro já adquirida, o velho Ricardo pigarreou, mudou de assunto. Dona Rozilda sentiu-se mal, ofegante, o coração descarrilhando. Saiu da sala num repente indignado, temia ter uma coisa, desejou ver a filha morta e enterrada, a ingrata, a bestalhona, a idiota, inimiga da própria mãe, amaldiçoada! Como se atrevia ela a recusar a mão do doutor – agora realmente doutor -, do moço rico, do herdeiro das ilhas, dos rios e dos

índios, dos mármores todos, dos faiscantes anéis, ai, como se atrevia a infeliz bastarda?

     Ah! que muro de ódio e inimizade, de imperdoável incompreensão, intransponível de rancor, não se ergueria entre mãe e filha, juntas para sempre e para sempre separadas, se naquele começo de ano, logo após a partida do desprezado Borges, não houvesse surgido Vadinho! Ah!, diante dos títulos, da posição e da fortuna de Vadinho - pelo próprio Vadinho e por alguns de seus amigos fora Dona Rozilda amplamente informada – não passava o paraense de um pobretão, com todo o mármore de seu palácio e seus doze criados; de um indigente, com toda sua terra e toda sua água.

 

     Numa breve e polida curvatura, Mirandão, o rosto resplandecente de simpatia, pediu licença, sentou-se ao lado de Dona Rozilda. As cadeiras de palhinha circundavam a sala, encostadas à parede. O estudante crônico ("perseverante", corrigia ele, se lhe recordavam seus sete anos de Escola de Agronomia) estendeu as pernas, ajustou cuidadoso o vinco das calças, analisando os pares no tango argentino caprichado, figurações difíceis, passos quase acrobáticos, sorriu aprovativo: nenhum dançarino podia comparar-se a Vadinho, nenhum com sua classe, benza-te Deus e te livre do mau olhado, t'esconjuro! Mirandão era supersticioso. Mulato claro e pachola, de seus vinte e oito anos de idade, a mais popular figura dos castelos e das casas de jogo da Bahia.

     Sentindo o olhar de Dona Rozilda a acompanhar o seu, para ela voltou-se, abrindo ainda mais o cativante sorriso; a examiná-la com olho crítico e apreciador. "Bucho definitivo, sem serventia", concluiu com pesar. Não devido à idade. Há muito Mirandão inscrevera em seu código de procedimento com as mulheres um parágrafo afirmando jamais a nenhuma dever-se desprezar por madura ou velha, caso contrário podia-se cair em erros fatais. Mulheres já além dos cinqüenta ainda por vezes mantinham rara e admirável forma e juventude, capazes de surpreendentes performances, de recordes imprevisíveis.  Ele o sabia por viva experiência, e ainda agora, ao fitar as ruínas de Dona Rozilda, recordava-se do esplendor crepuscular de Célia Maria Pia dos Wanderleys e Prata, todos esses nomes para designar uma tampinha desse tamanho, senhora da alta sociedade, mulherzinha espevitada, levada da breca. Com mais de sessenta anos confessados, e a pôr florestas de chifres no marido e nos amantes, insaciável. Com netas balzaquianas e bisnetas casadoiras, e ela a fazer caridade - e que caridade! era árdega e magnânima fêmea a jovens estudantes necessitados. Mirandão semicerrou os olhos: para não ver a vizinha, carcaça sem recurso nem escapatória, e também para melhor recordar o uterino e inesquecível furor de Célia Maria Pra dos Wanderleys e Prata e as notas de cinqüenta e cem mil- réis que ela, grata, rica e esperdiçada, lhe enfiava às escondidas no bolso do paletó. Ah! bons tempos aqueles, Mirandão a iniciar-se nos estudos e nos mistérios da vida, calouro de agronomia, cascabulho da noite, e Maria Pia dos Wanderleys gastava legítimo perfume francês nas rugas do pescoço e nos baixios.

     Reabriu os olhos para a sala, a sentir nas narinas a fragrância da inolvidável tataravó; a seu lado, o xaveco com cara de bruxa argaço vil, pelancas nas bochechas, coque nos cabelos - continuava a fitá-lo com seus olhos miúdos. Era um espantalho, devia feder sob as anáguas, um

aftim de carne passada; Mirandão aspirou rápido as sobras do perfume francês na memória distante - Ah! nobre Wanderley, onde andarás agora, septuagenária? A velha na cadeira, que estrepe mais sem misericórdia!

     Educado, porém, como se honrava de ser, o permanente estudante de agronomia não deixou de sorrir para Dona Rozilda. Uma bruaca, uma catraia, resto de peixe seco e salgado, inútil para qualquer ação ou pensamento lúbrico, nem assim deixava de merecer respeito e atenção: exausta mãe de família, pelo jeito viúva; e Mirandão era, no fundo, um moralista extraviado nas casas de tavolagem. Ao demais, chegara seu momento de euforia.

     - Festinha animada, não acha? - perguntou a Dona Rozilda iniciando o histórico diálogo.

     Era sempre assim, em cada um de seus freqüentes pileques. Primeiro tinha aquela fase de esfuziante júbilo. Parecia-lhe o mundo perfeito e bom, a vida alegre e fácil, e naquela hora Mirandão tudo podia compreender e estimar, estabelecia-se entre ele e as demais criaturas um clima de comunhão total, mesmo entre ele e a fedida arraia-mijona, sua vizinha de cadeira. Ficava delicado, conversador, a imaginação extravasando, sem limites. A figura do estudante pobre, "perpétuo estudante e perpetuamente sequioso", imagem por ele criada e da qual vivia, cedia lugar ao homem moço, importante e vitorioso, promovido a engenheiro agrônomo, quando não a livre docente da Escola, enumerando vantagens, galgando cargos e conquistando  mulheres. Danava-se a contar histórias, e como as contava! Era um mestre da narrativa oral, criador de tipos e de suspense, um clássico da boa prosa.

    Se a bebedeira se prolongava, no entanto, ao fim da noite esse otimismo e essa euforia se esfumavam, e, ao término da esbórnia, envolvia-se Mirandão em lástima e lamento, a flagelar-se, lancinante, em impiedosa autocrítica, recordando a esposa vítima de sua degradação, os quatro filhos sem comida, toda a família ameaçada de despejo, e ele ali, nos antros de jogo e nos prostíbulos. "Sou um miserável, um crápula, um canalha", alardeava um Mirandão pungente, com remorsos e sem malícia, um moralista. Mas essa segunda e lamentosa fase só de raro em raro acontecia, só em ocasiões de porres monumentais.

     As vinte e três e trinta, porém, na casa em festa do major Pergentino Pimentel, aposentado da Polícia Militar do Estado, encontrava-se Mirandão contente com o mundo, disposto a cordial e

proveitoso intercâmbio de idéias com Dona Rozilda. Acabara de comer e beber a tripa forra na sala de jantar, provando todos os pratos, repetindo alguns deles. Num esperdício de comida, ali se exibiam os quitutes baianos, vatapá e efó, abará e caruru, moquecas de siri mole, de camarão, de peixe, acarajé e acaçá, galinha de xinxim e arroz de haussá, além de montes de frangos, perus assados, pernis de porco, postas de peixe frito para algum ignorante que não apreciasse o azeite de dendê (pois como considerava Mirandão de boca cheia e com desprezo, há todo tipo de bruto nesse mundo, sujeitos capazes de qualquer ignomínia). Toda essa comilança regada a aluá, a cachaça, a cerveja, a vinho português. O Major realizava sua festa há mais de dez anos, cumprindo severa obrigação de candomblé, desde quando os orixás haviam-lhe salvo a esposa ameaçada de morte com pedras nos rins. Não media despesa, juntando dinheiro o ano todo para gastá-lo satisfeito naquela noite. Mirandão se atolara, garfo respeitável e copo mais ainda. Agora, empanzinado, afrontado de tanto comer e beber, só mesmo um bom cavaco para ajudar a digestão.

     Na sala, os pares desdobravam-se no tango argentino, ao piano Joãozinho Navarro. Dizendo-se Joãozinho Navarro, para os entendedores já se disse tudo, não havia pianista mais requisitado na Bahia, e certa gente, como um juiz de nome Coqueijo muito entendido em música, ligava o rádio só para ouvi-lo a dedilhar, num programa de canções populares. E, pela madrugada, no Tabaris, não era seu piano o motivo da maior animação? Festa particular dificilmente o obtinha, não lhe sobrando tempo para tais amadorismos. Indefectível, porém, na brincadeira em casa do Major, a quem Joãozinho não podia enfonar, era-lhe devedor de gentilezas antigas.

     Mirandão olhava complacente os dançarinos, aplaudia com a cabeça a execução de Joãozinho - batuta! - sorrindo para a vizinha, constatando a absoluta ausência de qualquer outro penetra, além dele e de Vadinho. Nenhum outro herói! - penetrar na festa do Major Tiririca (como os moleques do Rio Vermelho haviam apelidado o bravo Pergentino) era proeza impossível, motivo de apostas e desafios. Mirandão considerava-se realizado: finalmente haviam conseguido, ele e Vadinho, furar a barreira estabelecida pelo Major e obter que a pesada porta de carvalho, trancada

a chave, única passagem a abrir-se para os convidados e só para os convidados - todos eles rostos familiares aos donos da casa, amizades de longa data - obter que se abrisse para ele e para Vadinho e lhes desse entrada. E não só isso; sendo os dois acolhidos aos abraços pelo Major e por Dona Aurora, sua esposa, ainda mais ciosa da qualidade e identidade dos convivas, que o marido. Lá fora, no sereno animadíssimo, os gabirus amargaram a derrota ao vê-los penetrar, após breve troca de palavras com o Major Tiririca, cruzando a intransponível soleira por entre ruidosas exclamações de Dona Aurora. Como o haviam conseguido?

     Mirandão suspirou de bucho farto, num sorriso beato. Lá ia Vadinho pela sala, a bailar, a dama linda em seus braços, morena rechonchuda, servida de carnes - e quem gosta de ossos é cachorro -, com uns olhos de azeite e uma pele cobreada, cor de chá, formosa de ancas e de seios.

     - Pedaço de descaminho, perdição de morena! - louvou Mirandão, apontando a moça a dançar com o amigo.

     O estupor pôs-se em guarda, alteou o busto seco, ganiu com voz batalhadora:

    - É minha filha...

    Mirandão nem se alterava:

     - Pois receba meus parabéns, minha senhora. Vê-se logo que é moça direita, de família. O meu amigo...

    - O moço que está dançando com ela é seu amigo?

     - Se é meu amigo? Intimo, minha senhora, fraterno...

    - E quem é ele, eu poderia saber?

     Mirandão endireitou-se na cadeira, puxou do bolso o lenço perfumado, enxugou umas gotas de suor na testa larga, cada vez mais sorridente e feliz: nada havia de que ele tanto gostasse como de armar uma patranha, uma história bem divertida.

     - Permita-me que antes eu me apresente: doutor José Rodrigues de Miranda, engenheiro agrônomo, requisitado no Gabinete do Delegado Auxiliar... - estendia a mão, cordialíssimo.

     Num último assomo de desconfiança, Dona Rozilda mediu o interlocutor com um olhar hostil. Mas a fisionomia pachola e o franco sorriso de Mirandão apagavam qualquer suspeita, rompiam qualquer resistência, desarmavam e conquistavam qualquer adversário, mesmo maligno e ranheta como Dona Rozilda.

 

PARÊNTESIS COM CHIMBO E COM RITA DE CHIMBO

     Naquele dia, ao fim da tarde, quando maior o mormaço, uma atmosfera espessa, de cimento armado, estando Vadinho e Mirandão em São Pedro, no Bar Alameda, a tomar as primeiras cachaças do dia, discutindo planos para a noite de festa no Rio Vermelho, eis que na porta do botequim viram surgir à afogueada face de Chimbo, aquele parente importante de Vadinho, na ocasião comissionado como Delegado Auxiliar, ou seja, a segunda pessoa da polícia.

     Escrivão de casamentos e filho de prestigioso político governista, sem respeito pela tradicional austeridade do pai, sem ligar para as conveniências, esse distante primo de Vadinho, Guimarães dos legítimos e ricos, era um estróina, folgazão inveterado, bom no trago, nos dados e nas putas - para tudo dizer: um porra-louca. Ultimamente um pouco retraído, forçando sua natureza espontânea, em atenção ao cargo. Cargo no qual, por isso mesmo, pouco duraria, preferindo sua liberdade às posições, não a trocava pela mercê mais alta, por título algum.

     Já anteriormente desistira do Governo de Belmonte, cidade de seu nascimento, onde fora empossado intendente pelo Pai, senador e feudal,após um simulacro de eleição. Abandonou posto e título, deveres e vantagens, era demasiado o preço a pagar. Não se contentavam os belmontenses com suas reais qualidades administrativas, exigiam de seu governador ilibados costumes, em intolerável abuso.

     Fora um zunzunzum dos diabos, um escândalo sem medida, só porque ele, audaz e progressista, importara da Bahia algumas amenas raparigas, no desejo de romper a monotonia da pequena cidade e sua solidão. Fizera vir Rita de Chimbo prestigiosa animadora da noite no Tabaris. De Chimbo apelidada devido a antigo e persistente rabicho a uni-los, xodó cantado em prosa e verso pelos boêmios. Brigavam, xingavam-se, separavam-se, para sempre e dias depois faziam as pazes, permaneciam em seu idílio, enrabichados. Por isso juntara Rita a seu nome o apelido de seu amor, assim como a noiva adota o sobrenome do noivo no ato do matrimônio. Ao

sabê-lo intendente, senhor de baraço e cutelo a exercer direito de vida e morte sobre indefesa população, exigiu, em mensagem telegráfica, compartir de sua autoridade. Que prazer no mundo se pode comparar ao do mando, ao do poder? Queria saboreá-lo a voluptuosa Rita. Chimbo

solitário nas noites de Belmonte, longas de nada por fazer, vazias de um tudo, escutou a súplica ardente, mandou buscar a rapariga.

     Chimbo intendente, rei em sua cidade, Rita de Chimbo não podia nesse império desembarcar como uma qualquer, era a favorita, a concubina real. Eis por que convidou para seu cortejo três beldades, diversas entre si mas excelentes as três: Zuleika Marrom, mulata de capricho e deboche, suas ancas de saracoteio fechavam as ruas, atropelavam os pedestres. Amália Fúentes, enigmática peruana de voz macia, com tendências místicas, e Zizi Culhudinha, uma espiga de milho, frágil e

doirada, sapeca como ela só. Essa restrita e formosa caravana, pesa dize-lo!, não teve em Belmonte a entusiástica acolhida a que fazia jus; ao contrário, foi alvo de aberta hostilidade por parte das senhoras e mesmo de cavalheiros. Se excetuarmos certos grupos sociais - os imberbes

estudantes, os escassos noctívagos, os cachaceiros em geral - e alguns indivíduos, cabe afirmar ter-se  mantido a população arredia e suspeitosa.

     Depois, Rita de Chimbo foi vista ã meia noite, na sacada da Intendência, bêbada de cair, a saudar a cidade com sua inesgotável coleção de nomes sujos. Circulavam notícias espantosas: o velho Abraão, comerciante e avô, arrastava-se ridículo aos pés de Zuleika Marrom, dilapidando o patrimônio dos netos em bacanais com a barregã. Bereco, rapaz até então direito e casto, funcionário dos Correios, presidente das Obras Pias, apaixonara-se por Amália Fúentes, descobrira suas raízes de pureza e religiosidade, oferecia-lhe aliança de noivado, levando sua preconceituosa família ao desespero. Culminou o escândalo quando a Culhudinha fez-se à bem amada de todos os colegiais, seu sonho e sua rainha, sua bandeira de luta e seu pulcro ideal. Lá ia ela toda loira nas noites de Belmonte, cercada de meninos e o poeta Sosígenes Costa dedicava-lhe sonetos. Oh! Ignomínia!

     Até o chibungo do vigário, padre arrogante de fala esganiçada, pregara contra Chimbo, catilinária veemente contra sua escandalosa incontinência. Classificara as diletas raparigas de "lixo do meretrício metropolitano", de "asseclas do demônio", coitadinhas das meninas! Sermão incendiário, a igreja repleta na missa dominical, e o reverendo a acusar Chimbo de estar transformando a pacata Belmonte em Sodoma e Gomorra, os lares arruinados, desfeitas as famílias, urbe infeliz à qual acontecera a desgraça de tão depravado Intendente, esse "Nero em ceroulas". Chimbo possuía senso de humor e riu da virulência do padre. Choraram as raparigas, Rita de Chimbo clamou vingança, e Miguel Turco, árabe exaltado e secretário da Intendência, incondicional dos Guimarães e chaleira notório, propôs-se executá-la: mandariam dois cabras de

confiança ensinar boas maneiras ao subversivo vigário, chegando-lhe a batina ao corpo.

     Chimbo enxugou as lágrimas de Rita, agradeceu a dedicação do sírio, gratificou os dois capangas, dois criminosos de morte, foragidos de Ilhéus. Sob aparente nonchalança, era Chimbo homem prudente e hábil, não lhe faltava treita política. Imagine-se a reação do velho Senador se ele entrasse em guerra com a Igreja, surrando-lhe um cura para desagravar mulheres-damas! Ao demais, o padre tinha suas razões para tamanha birra. Ao tratá-lo de "Nero em ceroulas", queria referir-se à noite em que, trajando apenas listradas cuecas, tivera o ilustre Intendente de assim atravessar a cidade pois o vigário vinha de surpreendê-lo em avançado idílio com a cândida Maricota, estimável doméstica a assegurar os serviços de cama e mesa do sacerdote, sua ovelha favorita.

     Não restou a Chimbo outro caminho senão reunir as ofendidas hóspedes, dar o braço a Rita de Chimbo, e embarcar com elas num navio da Baiana. Renunciou assim do cargo, às honrarias, e à polpuda comissão do jogo do bicho. Então ficou Belmonte de sua capacidade administrativa e

da lhaneza das beldades da capital. Da eficiente administração de Chimbo davam testemunho a restaurada ponte de desembarque, a ampliação do Grupo Escolar e os consertos no muro do cemitério; das raparigas, a fugidia visão continuou por muito tempo a perturbar o sono de Belmonte.

     Recolheu-se Chimbo ao anonimato do rendoso lugar de serventuário da justiça, onde ninguém lhe vigiava os passos. Reintegrou-se na vida noturna, do Tabaris (onde Rita de Chimbo voltara a reinar) ao Pálace, do Abaixadinho à casa de Três Duques, do castelo de Carla ao de Helena Beija Flor. Da festa da noite e do cargo polpudo e anódino - escrivão de casamentos, juramentado - retirava-o de quando em quando o pai Senador para usá-lo em suas manobras políticas, entregando-lhe posições e honrarias por outros ambicionados, não por ele, Chimbo, desejoso apenas de viver livre, a lá vontê.

     Chimbo estimava Vadinho, não só pelo distante e espúrio parentesco, como também devido às qualidades do jovem companheiro de roletas e cabarés. Assim, ouvindo certa ocasião alguém tachar Vadinho de vagabundo, sem ofício nem meio de vida, arranjou-lhe modesto emprego de fiscal de jardins da Prefeitura, pois "um Guimarães deve ter posição definida na sociedade".

    - Nenhum Guimarães é um vagabundo...

     Contradições desse simpático Chimbo, tão pouco preso a convenções e protocolos e, ao mesmo tempo, com profundo sentimento de família, zeloso da poderosa clã dos Guimarães.

     Pois, naquela tarde, Vadinho e Mirandão encontraram Chimbo em São Pedro, quando o Delegado Auxiliar dirigia-se à Chefatura de Polícia. Um Chimbo aporrinhado da vida, metido em roupa escura e quente, de cerimônia, roupa de enterro ou matrimônio - colarinho de ponta virada, plastrão, colete, polainas, bengala de castão de ouro - um Chimbo a rigor naquele dia escaldante de fevereiro, o mormaço a asfixiar, canícula mortal, as bocas ávidas por uma cerveja bem gelada.

     - Só uma bramota polar pode nos salvar a vida... – disse Vadinho, abraçando o parente e protetor.

     Chimbo arrenegou da sorte, em plástica e forte língua, dando nomes, num azedume: "merda de vida mais escrota aquela, emprego mais filho da puta aquele, obrigado a acompanhar o Governador a todos os cantos, a todas as cerimônias, a todas essas merdolências e porcarias . . ." Não o viam assim fantasiado de comendador português? Naquela noite tinha de comparecer, por força do cargo, à instalação solene de um congresso científico - Congresso Nacional de Obstetrícia -, na Faculdade de Medicina, com discursos e teses, debates e pareceres sobre partos e

abortos, paulificação monumental. Chimbo emborcava rápido seu copo de cerveja, tentando aplacar calor e raiva, seu pai com aquela eterna mania de utilizá-lo na política...

     E ainda por cima - imaginassem eles a urucubaca! - o tal Congresso decidia instalar-se logo na noite da festa do Major Pergentino, o Major Tiririca, do Rio Vermelho, certamente eles sabiam de quem se tratava. Fizera um favor ao militar, soltara um desordeiro a seu pedido, e agora o Major não o largava, querendo a todo custo obsequiá-lo, preparando-lhe grossa homenagem. A festa de Tiririca, segundo diziam, era de arromba, valia a pena, nela comia-se e bebia-se à farta. E ele, Chimbo, convidado de honra, imaginem a pagodeira !

    - Em vez disso vou ter é de ouvir médico falando em parto... Meu pai me arranja cada prebenda...

     Como convencer o Senador a deixá-lo em paz, em seu canto, se o velho era um sátrapa ante o qual até o Governador tremia? Brilharam os olhos de Vadinho, sorriu Mirandão. Chimbo acabava de abrir-lhes as portas da glória e da casa do Major.

 

     À noite, diante da residência em festa, os dois embusteiros apostaram com outros valdevinos: penetrariam no baile e nele seriam recebidos como se fossem convidados de honra. Penetraram e foram recebidos com todas as honras, tratados a velas de libra, pois Vadinho fez-se reconhecer pelo Major e por Dona Aurora como sobrinho do impedido Delegado Auxiliar enquanto empossava Mirandão no inexistente cargo de secretário particular de Chimbo.

    - Doutor Airton Guimarães, meu tio, teve de acompanhar o Governador ao Congresso de Obstetrícia. Mas, como fazia questão de não faltar ao seu convite, mandou-me a mim e ao seu Secretário, doutor Miranda, para representá-lo. Eu sou o doutor Waldomiro Guimarães...

     O Major confessou-se comovido com a gentileza do Delegado, a oferecer-lhe desculpas, a fazer-se representar. Lastimava não tê-lo na festa, seu desejo seria homenageá-lo, mas recebiam, ele e sua esposa, de braços abertos, o representante de seu estimado amigo. Estendia a mão para Vadinho quando Mirandão, em êxtase e desbragado, corrigiu e pôs todas as coisas em seus lugares:

    - Perdoe-me, Major, a intromissão: representante do Doutor Delegado Auxiliar é a minha modesta pessoa, eu doutor José Rodrigues de Miranda, livre docente da Escola de Agronomia, requisitado pelo doutor Airton... O meu amigo doutor Waldomiro, se bem sobrinho do Delegado, não o representa e, sim, ao Senhor Governador...

     - Ao Governador? - exclamou o Major, embargado com tanta honra.

     - Sim - encarrilhou Vadinho - quando o Governador ouvira o Delegado Auxiliar pedir a seu Secretário e a seu sobrinho que fossem à festa do Major, lhe ordenara (pois servia no Gabinete de Sua Excelência) abraçar "seu bom amigo Pergentino e cumprimentar sua digna esposa".

     O Major e Dona Aurora, empanzinados de vaidade, abriam passagem, faziam apresentações, mandavam encher os copos, preparar os pratos, tudo era pouco para Vadinho e Mirandão.

     Lá fora, embasbacados, os colegas de maroteira não podiam crer nos próprios olhos. Que patifaria teriam inventado os dois cínicos para serem assim recebidos? Não havia memória de penetra algum ter conseguido atravessar os batentes da porta do Major, para quem era uma questão de honra manter a festa nos limites estritos dos seus convidados, seus amigos, que lhe garantiam a decência e o renome. Jurando por seus gloriosos galões, gabava-se: "Penetra, em minha festa, só passando sobre meu cadáver!" E os penetras mais exímios da cidade, capazes de penetrar - e tendo penetrado - em festas de todo fechadas e imponentes, guardadas pela polícia, até em festas no Palácio do Governo e na casa do doutor Clemente Mariano, festas ao lado das quais a do Major era simples assustado, dancinha de pobre, forrobodó de bairro, arrasta-pé, esses

penetras famosos, todos eles, fracassaram em suas tentativas, cada ano renovadas, de penetrar na festa do Major. Nenhum alcançara transpor os defendidos umbrais.

     Nenhum, é exagero. Édio Gantois, estudante astucioso, em comparsaria com outro não menos moleque, o já anteriormente referido Lev Língua de Prata, na ocasião ainda acadêmico, conseguiram os dois, certa feita, penetrar e por meia hora, mais ou menos, manter-se na festa para serem logo depois expulsos a safanões e sopapos, o musculoso Édio em luta corporal com os convidados, o galalau do Lev trocando pontapés com o Major.

     Como triunfaram e, logo após o triunfo, tão lamentavelmente fracassaram? Se bem seja outra história, vale a pena contá-la para assim ainda mais valorizar-se o feito de Vadinho e Mirandão. Por aquele tempo havia aportado à Bahia, com muito reclame nas gazetas, para dois únicos espetáculos no Conservatório, um extravagante concertista a manejar instrumento ainda mais singular: um serrote, tão melodioso quanto o mais afinado piano. Tratava-se de um russo, de nome estrambótico, o "russo do serrote mágico", como anunciavam os cartazes de propaganda e as notícias nos jornais. Édio possuía velho serrote de carpina, e Lev, filho de russo, o nome estrambótico. Doidos os dois por uma boa molecagem, embrulharam o serrote em papel pardo, engoliram umas cachaças para animar, apresentaram-se na porta do Major como o russo do serrote e seu empresário.

     O Major Tiririca possuía um sexto sentido quando se tratava de penetras: percebia-os no ar, à distância. Bateu os olhos em Lev e édio e uma voz interior deu-lhe o alarma. Mas já os convidados, ao anúncio da presença do "russo do serrote mágico", saudavam entusiasmados a

possibilidade de ouvi-lo tocar. Em silêncio, curtido de dúvidas, o Major abriu a porta, permitindo a entrada aos dois malandrins. Ficou, porém, a vigiá-los. Encostaram eles o serrote atrás de um móvel, o Major comprovou a avidez com que se dirigiam à sala de jantar, a pressa em comer e beber. Trocando um olhar com Dona Aurora, a quem igualmente toda aquela encenação não parecia lá muito católica, exigiu então o Major, apoiado pela totalidade dos convidados ansiosos, imediata demonstração musical. Primeiro o concerto, depois a pitança. Por mais tentasse édio,

com um converse tapeativo, adiar o momento do desastre, não o conseguiu, não obteve prazo nem apelação.

     Ao demais, por qualquer estranha metamorfose, Lev sentira-se de súbito inspirado, vivia seu papel de forma tão realista a ponto de considerar-se o verdadeiro russo dos concertos. Assim, sem mais se fazer rogar, tomou do velho serrote, entre palmas e bravos. Foi tão perfeito - curvada em ângulo sua magra e comprida anatomia, a cabeleira desfeita, os olhos no astral, um autêntico maestro - que a todos enganou, fazendo vacilar mesmo o Major e Dona Aurora, enquanto  não feriu, com uma colher de café, o bojo do serrote. Mas apenas lhe aplicou o primeiro golpe e - como depois édio contaria - todos os presentes, sem exceção, compreenderam tratar-se de uma farsa. Só Lev persistia, cada vez mais autêntico e possuído, a vibrar colheradas no serrote, sem que o Major, esposa e convidados demonstrassem a menor simpatia por tanto empenho e arte.

     O Major adiantou-se, seguido por alguns amigos, os mais sensíveis a tais brincadeiras de mau gosto. A travessia do corredor, a caminho da porta da rua, foi longa e épica, verdadeiramente inesquecível, édio e Lev a recordariam vida a fora. Pescoções, pontapés, esbarros e quedas. Dona

Aurora desejava arrancar os olhos dos dois rapazes, o Major contentou-se com atirá-los à rua, em meio ao povo do sereno (e em cima dos corpos caídos jogaram o serrote cada vez menos sonoro).

     Com Vadinho e Mirandão nada disso sucedera, nem o Major nem Dona Aurora tiveram a mais leve suspeita. Comeram e beberam do bom e do melhor, Vadinho arrastando o pé de valsa pela sala, Mirandão a interrogar-se se devia ou não erguer, em nome de Chimbo, um brinde ao Major e a Dona Aurora. Sorria na cadeira, ouvindo Dona Rozilda perguntar quem era o moço dançarino, cavalheiro de sua filha. Para obter maior efeito, respondeu com outra pergunta:

     - O Major não lhe apresentou?

    - Não. Eu estava lá dentro, não vi quando ele chegou.

     - Pois, estimada senhora, tenho o prazer de lhe informar. Trata-se do doutor Waldomiro Guimarães, sobrinho do doutor Airton Guimarães, Delegado Auxiliar, neto do Senador...

     - Não me diga que é do Senador Guimarães, esse tão falado...

     - Desse mesmo, minha distinta. O mandachuva, o bamba, o bambambã, o Deus-Menino da política, esse mesmo, meu padrinho...

    - Seu padrinho?

    - De crisma. E avô de Vadinho...

    - Vadinho?

    - É o apelido dele, de menino. É o neto preferido do Senador.

     - É estudante?

     - Não já lhe disse que é doutor? Formado, minha senhora, advogado. Oficial de Gabinete do Governador, alto funcionário municipal, fiscal...

     - Fiscal do consumo? - aquela informação excedia os sonhos mais temerários de Dona Rozilda.

     - Fiscal de jogo, minha ilustríssima, - e em voz cochichada: - É a fiscalização que deixa mais, uma fortuna por mês, sem falar nos agrados, uma fichinha aqui outra acolá... E, agora, ainda por cima, encarrapitado no Gabinete do Governador...

    Sentia-se generoso:

     - A senhora não tem algum parente pobre que deseje empregar? Se tiver, é só dizer, dar o nome... - respirou fundo, contente consigo mesmo, prosseguiu indômito: - Está vendo ele ali, dançando? Pois não se admire se na próxima eleição ele sair deputado...

    - Tão novo ainda...

     - O que é que a senhora quer? Nasceu em berço de ouro, encontrou o prato feito, seu caminho é de rosas. - Mirandão sentia-se um poeta nessa noite de glória, improvisaria um discurso monumental, arrancando lágrimas à própria Dona Aurora, a fera do Rio Vermelho.

     Dona Rozilda apertou os olhos miúdos, uma chama de ambição, amarela, a brilhar em sua frente. Joãozinho Navarro arrematava o tango nuns floreios caprichados, Vadinho e Flor sorriam um para o outro. Dona Rozilda estremeceu de emoção: jamais vira assim a face da filha, e bem a

conhecia. E o rapaz - perguntava-se ela -, fora ele também atingido e para sempre marcado? Havia na face de Vadinho um ar de inocência, uma candura, tal sinceridade; Dona Rozilda sentiu-se comovida. Ah! Milagroso Senhor do Bonfim, seria aquele o genro rico e importante que os céus lhe destinaram? Ainda mais rico e importante do que o paraense Pedro Borges, com suas léguas de terra e de rio, suas dúzias de empregados. Um genro neto de Senador, íntimo do governo, ele próprio governo: "ai, minha Nossa Senhora da Capistóia, valei-me! Concedei-me, meu Senhor do Bonfim, a graça desse milagre e acompanharei descalça a procissão da lavagem, levando flores e uma quartinha de água pura."

     O Major aproximava-se, Dona Rozilda agradeceu a Mirandão, dirigiu-se ao dono da casa, apontou o grupo formado por Vadinho e Flor, Dona Lita e porto, num canto da sala. Mirandão observou a manobra da velha lambisgóia, fez um esforço, pôs-se também de pé, foi por uma

cerveja. Dona Rozilda pedia ao major:

    - Major, me apresente àquele moço...

     - Não conhece? Pois é um parente do doutor Airton Guimarães, o Delegado Auxiliar, meu amigo do peito... - sorria vaidoso, acrescentando: - Para os íntimos, Chimbo... Ele mesmo me disse: "Pergentino, trate-me de Chimbo, somos amigos ou não?" Homem sem besteira, direito... Me fez um favorzão... - falava para todos, alardeando sua amizade com o Delegado.

    Dona Rozilda apertava a mão do jovem, Flor esclarecia:

     - Minha mãe, doutor Waldomiro...

    - Vadinho para os amigos...

     - Doutor Waldomiro vive à sombra do nosso eminente chefe, o Governador. Trabalha em seu gabinete...

    - O Governador gosta muito do senhor, Major. Ainda hoje me disse: "Dê um abraço em meu amigo Pergentino, amigo do peito..."

    O Major chegava a ficar vexado de felicidade:

    - Obrigado, doutor...

     Porto, a quem tal intimidade palaciana deixava um pouco tímido, comentou:

    - Muita responsabilidade... Mas também muita importância...

    Vadinho fazia-se modesto:

    - Tolice... Nem sei se vou continuar no Palácio...

    - E por quê? - quis saber Dona Lita.

    - Meu avô - confidenciou Vadinho -, o Senador...

    - O Senador Guimarães... - rezou baixo Dona Rozilda.

    Sorriu-lhe Vadinho, uma aura de candura a circundar-lhe o rosto, sorriu melancólico para Flor, tão linda:

    - Meu avô quer que eu vá para o Rio, oferece-me um lugar...

    - E o senhor vai aceitar? - morria Flor nos olhos de azeite.

    - Nada me prende aqui... Ninguém... Sou tão sozinho...

    Suspirava Flor:

    - Tão sozinha...

     Da sala de jantar reclamavam o Major, ele não tinha momento de descanso, a atender seus convidados, perfeito anfitrião. Alguém apareceu logo depois batendo palmas, rogando silêncio, o doutor Miranda ia saudar os donos da casa. Ouviu-se o estouro de uma garrafa de champanha sendo aberta, a rolha subindo para o teto.

    Vadinho e Flor andaram sorridentes para o discurso, "discurso de Mirandão, alertou Vadinho, não é coisa que se perca". Dona Rozilda, o coração aos saltos, comentou para Dona Lita e Thales porto ao ver os jovens partindo para o definitivo idílio:

    - Não é um par perfeito? Não parecem nascidos um para o outro? Se Deus quiser...

    - Oxente, mulher! Conheceram-se hoje e vosmicê já está armando casamento? - Lita balançou a cabeça, sua irmã estava ficando mesmo doida, com aquela mania de noivo rico para a filha.

     Dona Rozilda empinou o busto seco, fitou a pessimista, com arrogância. Da sala de jantar chegava, redonda, encharcada de cerveja, a voz do orador, em seu brinde de saudação. Para lá encaminhou-se a viúva, toda coberta de esperanças. Palmas saudavam uma frase feliz de Mirandão, ele prosseguia impávido:

    - "Nas páginas imortais da História, senhoras e senhores, ficará gravado em fulgentes letras de ouro o nome honrado do Major Pergentino, cidadão de virtudes exponenciais (a voz ficava vibrando no ar ao dizer a palavra bonita), e o nome de sua nobilíssima esposa, esse ornamento da

sociedade da Boa Terra, Dona Aurora, anjo... Sim, meu senhores e minhas senhoras, anjo de impolutas (e repetia, a voz cantante, "impolutas") qualidades, esposa dedicada, virgem de bronze...

    No centro da sala, Mirandão, o penetra, o braço erguido a empunhar a taça de champanha, dominava convidados e donos da casa, todos presos à sua eloqüência. O Major sorria beato; a dedicada esposa, a virgem de bronze, baixava os olhos, comovida, jamais sua festa alcançara as

alturas daquele triunfo.

    -... "Dona Aurora, ser amorável, santa, santíssima criatura..."

    As lágrimas queimavam os olhos da santa criatura.

 

     O namoro de Flor e Vadinho desembocou direto no casamento, pois noivado não houve, como logo adiante se constatará, exibindo-se causa e razão dessa anomalia a romper os procedimentos habituais e consagrados em todas as famílias que se prezam. Namoro, aliás, dividido em duas etapas distintas, perfeitamente delimitadas, cada uma delas com suas características próprias. A primeira, plácida e risonha, toda azul e rosa, um céu aberto, verdadeira festa, a concórdia universal. A segunda, confusa e perseguida, clandestina, cor do vitríolo e do ódio, o inferno na terra, a malquerença, a repugnância, a guerra declarada. Durante a primeira fase, Dona Rozilda esteve irreconhecível de tanta gentileza e compreensão; colaborou ativa e devotada para o sucesso do idílio. Viu-se depois Dona Rozilda a espumar abominação, rancor e vingança - espetáculo talvez pitoresco mas pouco agradável -, disposta a empregar todos os recursos para impedir o matrimonio da filha com aquele tipo imundo "verme, pústula, poça de pus". Toda essa podridão - "verme, pústula,  poça de pus" - era Vadinho, antes o mais perfeito rapaz solteiro da Bahia, o pretendente ideal, belo e simpático, coração generoso, pérola de meço, impoluto caráter, adamantino.

     No ledo engano nascido da emaranhada novela posta de pé por Mirandão na festa do Major Tiririca, confirmada e desenvolvida graças a imprevistas circunstâncias, permanecera feliz Dona Rozilda cerca de dois meses, dois memoráveis meses quando calcou sob o tacão dos sapatos toda

a Ladeira do Alvo e adjacências, da negra Juventina com seus ares de senhora até o doutor Carlos Passos com a sua próspera clientela. Exibia influência, intimidade nos círculos governamentais, nas altas esferas, intimidade com o Poder, personificado em Vadinho. E exibia sobretudo o moço namorado da filha, com sua elegância cafajeste, sua lábia, sua conversa bonita, sua prosopopéia. Vadinho se lhe afigurava um Deus-Menino, era tudo para ela. E para ele tudo era pouco, Dona Rozilda agitava-se num afã de agradar, de cativar o rapaz, de amarrá-lo.

     Para manter Dona Rozilda enleada em cegueira assim completa, concorreu grandemente curioso qüiproquó. Entre as amigas de Flor, sua colega de escola, havia uma pobre Célia, além de pobre, aleijada, com uma perna defeituosa, manca. As duras penas, "roendo beira de penico” , como resumia Dona Rozilda, cursou a Escola Normal e diplomou-se professora. Candidata a um lugar no ensino primário estadual, lutava há meses para obtê-lo, sem conseguir sequer ser recebida pelo Diretor de Educação. Dona Rozilda tinha-lhe estima e a protegia. Talvez porque, sendo a moça tão infeliz e humilde, a seu lado ela e Flor pareciam umas ricaças. Atenta, escutava a manca queixar-se da vida e dos grandes do mundo, dizendo horrores dos funcionários, e revelando particulares sórdidos daqueles "vampiros da educação", como sibilava por entre os dentes escuros e podres. Ali só obtinham nomeação as oferecidas, dispostas a aceitar convites para passeios à noite em Amaralina, Pituba, Itapoã, para festinhas íntimas, umas casteleiras! Moça direita não tinha chance, mofava nas cadeiras de couro da ante-sala. De tanto nelas mofar, Célia constituíra-se picante repositório de malignas anedotas sobre funcionários, chefes de seção, sem falar no Diretor do Ensino, invisível personagem sobre o qual, no entanto, a rejeitada postulante tudo sabia: os hábitos, os bens, as preferências, a esposa, os filhos, a rapariga; nada lhe escapava. Jamais, porém, conseguira ser por ele recebida e expor seu triste caso.

      Ora, logo nos dias iniciais do namoro, certa noite, a professora em desespero - o prazo para as nomeações de novas mestras esgotava-se naquela semana - deparou com Vadinho em casa de Flor e a ele foi apresentada. Dona Rozilda gostaria de ver a moça empregada e gostaria mais ainda de afirmar perante a vizinhança o prestígio do rapaz, do pretendente a genro, dispondo de empregos e vagas, mandando na administração do Estado. Prestígio a ser utilizado por ela, Dona

Rozilda, a seu bel-prazer.

     Estava, sem dúvida, a viúva enleada numa rede de enganos sobre a personalidade do gabiru a rondar sua filha, mas não cometia erro quando, ao descrever para os conhecidos aquele caráter sem jaça, elogiava-lhe o bom coração: para Vadinho todo sofrimento era injusto e odioso. Assim,

apenas Dona Rozilda lhe contou a história de Célia, dramatizando detalhes, valorizando-lhe o aleijão ("mesmo se quisesse não podia aceitar os licenciosos convites dos canalhas da repartição, não tinha alicerces para tanto"), ampliando as injustiças, multiplicando a fome da moça e de seus cinco irmãos, da mãe reumática e do pai guarda-noturno, logo Vadinho simpatizou com a nobre causa e fez-se seu campeão. Decidido realmente a falar sobre o assunto com seus conhecidos de jogo, alguns dos quais tinham certa influencia - jurou veemente a Dona Rozilda e a Flor exigir do Diretor do Ensino no dia seguinte pela manhã, na hora do despacho com o Governador, a imediata nomeação da professora. Não passaria do dia seguinte: retornasse Célia à Diretora pela tarde e procurasse o titular, nomeação e posse eram favas contadas.

    - Pode deixar comigo...

    - Pode deixar com ele... - repetia Dona Rozilda.

     Flor nada disse, apenas sorriu, não lhe importando, se Vadinho gozava ou não de tanto prestígio, preferindo até fosse ele menos influente e por conseqüência menos ocupado. Passava dias sem aparecer, sem vir conversar ao pé da escada, e, quando vinha, trazia a face estremunhada, sonolenta, das noites em claro a despachar com o Governo.

     Tomou Vadinho nome completo da candidata e os demais dados necessários. Novamente Célia escreveu aquela fria literatura num pedaço de papel e sem esperanças: muitas vezes já o havia feito. Tantos pedidos e recomendações e nenhuma conseqüência. Por que aquele almofadinha enxerido, com um ar velhaco, de deboche, um pé-rapado certamente, por que logo ele iria lhe obter o emprego? Até o padre Barbosa lhe dera um cartão para o Diretor, e, se o padre nada conseguira, quanto mais esse tal namorado de Flor; quem perdera prestígio para esse tipo achar? Boa bisca não era ele, via-se logo na cara tresnoitada. Célia acumulara ceticismo e amargura a arrastar a perna cambaia pelas salas hostis da Diretoria de Educação. A felicidade dos outros não a enternecia, nem mesmo a daqueles raros desejosos de ajudá-la, penalizados de sua sorte. Seu coração estava seco e árido e, ao rabiscar os nomes do pai e da mãe, a data de nascimento e o ano de formatura, fazia-o certa de perder tempo e esforço, aquele biltre não ia tomar nenhuma providência, ela estava farta desses pinóias emproados: promessas fáceis e mais nada. Mas, que jeito? Dona Rozilda estava toda caída pelo gabola, doutor Waldomiro para cá doutor Waldomiro para lá, e ela, Célia, ia filar o jantar da velha fogueteira. Quanto ao sujeitinho bastava olhar para a cara dele e logo se via qual o seu desiderato: comer os tampos de Flor e quebrar no beco, sumir num adeus e nunca mais.

     Era Célia injusta com Vadinho, pois para servi-la fez o rapaz naquela noite o roteiro completo das casas de jogo, numa dupla urucubaca: perdeu quanto tinha no bolso e não deparou com um só conhecido importante a quem expusesse o pequeno drama da professora e pedisse por ela. Nem Giovanni Guimarães, nem Mirabeau Sampaio, nem seu xará Waldomiro Lins, nenhum deles apareceu, como se todas as suas relações influentes houvessem entrado em recesso, abandonando a roleta, o bacará, o grande e pequeno, a ronda, o vinte-e-um. Demorou-se Vadinho noite a fora, e a figura mais ilustre a aparecer foi Mirandão, com quem terminou indo cear um sarapatel de arromba em casa de Andreza, filha de Oxun e comadre do estudante de agronomia.

    - A Zinha é mesmo caipora... - comentou Vadinho, relatando o caso a Mirandão, a caminho do barraco da negra de Oxun. - Zambeta, mirrada, e ainda por cima, com esse azar...

     Mirandão aconselhava Vadinho a não se amofinar: há gente assim, amigada com o caiporismo, não adianta se querer acudir. Ao demais, a preocupação tira o apetite, e o sarapatel de Andreza era um monumento, louvado até pelo doutor Godofredo Filho, com toda sua autoridade. No dia

seguinte, Vadinho trataria do embeleco. Afinal a maçante já esperara tanto, não era um dia a mais ou a menos que a levaria ao suicídio. Quanto ao sarapatel de sua comadre Andreza, como foi mesmo a frase; a frase, não, o verso de mestre Godofredo?

     E quem encontraram à mesa da filha de santo senão o próprio poeta Godofredo, a fazer honra a comida de Andreza, sem regatear elogios ao tempero e à cozinheira, pedaço real de negra, palmeira imperial, brisa matutina, proa de barco. Andreza sorria com toda sua prosápia e realeza, machucava pimentas para o molho.

    - E olhe quem está aí! - saudou Mirandão - Meu imortal, meu mestre, considere-me de joelhos ante sua intelectualidade.

    - De joelhos estamos todos diante desse sarapatel divino - riu o poeta, apertando as mãos aos dois rapazes.

     Sentaram-se e Andreza logo constatou a face preocupada de Vadinho. Ele sempre tão alegre e pícaro, cheio de astúcia e trêfego, e, que lhe acontecera para assim sombrear o rosto, melancólico. Conte, meu santo, lave a alma, bote os dissabores pra fora. Andreza, de amarelo, colares nos braços e no pescoço, era a própria Oxun se desfazendo em dengue e formosura. Conte, meu branco, não fique jururu, sua negra está aqui para lhe ouvir e consolar.

     Na mesa, a toalha cheirando a patchuli, o chão perfumado de folhas de pitanga, entre o sarapatel e a pura cachaça de Santo Amaro. Vadinho desfiou o rosário de desditas da professora primária, uma infeliz. Sentada à cabeceira, a negra Andreza sentia-se comovida com o relato,

apertava com a mão o seio arfante - coitadinha da moça com seu aleijão e sua fome, com seu desejo de trabalhar e sem emprego! Será que Godô, cujo nome saía nas gazetas, ele próprio alto funcionário, não podia dar uma palavra, se mexer pela pobrezinha? Tremiam os lábios de Andreza ao suplicar, Vadinho tinha razão, como sentir-se alegre quando alguém sofria assim, tão dura vida? Por que quisera escutar essa feia história? Não poderia novamente sorrir enquanto não soubesse a moça nomeada. O poeta Godofredo prometeu interceder, quem sabe talvez obtivesse algo, quando ficara ela de voltar à Diretoria? No dia seguinte... Não, naquela mesma tarde, pois já era quase manhã, assim lhe ordenara Vadinho. Pois que ela fosse, Godofredo ia ver... Não esclareceu ser parente próximo e amigo íntimo do Diretor de Educação, pedido seu era ordem executada. Não gostava o poeta de exibir-se, mesmo seus poemas só de raro em raro os publicava. Queria apenas devolver o sorriso de Andreza, sem seu sorriso era triste à noite e o mundo deserto e frio.

     Assim, quando na tarde seguinte, Célia, pessimista porém persistente, arrastou sua perna capenga escada acima e penetrou na ante-sala do gabinete do Diretor de Educação, qual não foi sua surpresa ao ser saudada com ânsia e calor pelo secretário de Sua Excelência, antes seco e ríspido:

     - Dona Célia, eu estava esperando pela senhora. Meus parabéns, sua nomeação já saiu, já foi assinada...

    - Hein? - estremeceu a professorinha - o quê?

    Cada vez mais gentil, o secretário tornou-se confidencial:

     - O que estou lhe dizendo... A primeira coisa que o Diretor fez ao chegar... Alguém muito elevado deu ordens, certamente. Foi uma das últimas vagas e estavam todas reservadas... Quer um conselho? Vá logo se apresentar, não perca tempo.

     Apresentou-se, tomou posse, reuniu a magra família e foi ao primeiro andar do Alvo agradecer. "Alguém muito elevado", contou; e Dona Rozilda repetia as palavras rolando-as na língua, saborosa, enchia a boca com elas, tinham um gosto de poder. Vibrava de contentamento: não esperara nomeação tão rápida, resultado tão fulminante. Com aquela urgência, tão depressa, só mesmo ordens diretas do Governador. Do Governador minha filha, e não de outro, Vadinho mandava e desmandava no governo.

    A notícia fez seu curso na ladeira, e quando Vadinho apareceu à noite, na esperança de ficar a sós, com Flor, no escuro da escada, foi saudado pela vizinhança numa quase manifestação de apreço. Surpreendeu-se  com os agradecimentos, abraços e louvores, Dona Rozilda num exagero histérico. O rapaz passara o dia dormindo e quase esquecera as desventuras da inexeqüível candidata. "Oh!, disse, não é nada, nada me devem, por favor!"

     O poeta cumprira a promessa, feita mais a Andreza do que a ele, Vadinho. Mas, como explicar a verdade, desfazer o enredo? Jamais Dona Rozilda e seus vizinhos, jamais a amarga professora e sua gente mirrada e encardida, cor de sujo, ali junta para lhe agradecer, jamais compreenderiam os intrincados caminhos por onde o mundo e os homens andam, jamais acreditariam dever Célia sua nomeação a uma negra cozinheira, muito mais pobre que ela, alegre num casebre de madeira na

fímbria do mar de água de Meninos, a fornecer almoços a saveiristas e a carregadores, a negra Andreza de Oxun.

     A fama correu e os pedidos choveram. Implorando nomeação de professora primária somaram-se oito em menos de uma semana. De motorneiro de bonde a fiscal de rendas não houve cargo sem candidato a adular Dona Rozilda, sem bater palmas na porta do sobrado na Ladeira do Alvo. Até o emprego de sacristão na igreja da Conceição da Praia, a vagar segundo constava mas ainda não era certo, até esse lhe vieram pedir. Nem se Vadinho fosse ao mesmo tempo Governador e Arcebispo, nem assim daria abasto.

 

     Tocava Dona Rozilda os cimos do poder, sentia o gosto sem igual da fama; Vadinho tocava os seios rijos de Flor no escuro da escada, sentia o gosto sem igual da boca medrosa e sedenta da moça, mordia-lhe os lábios. Revelava-lhe um mundo apenas suspeitado de prazeres proibidos,

ganhando a cada noite de namoro uma parcela de sua resistência e de seu corpo, de seu pudor, de sua oculta emoção. O desejo a consumia numa fogueira de altas labaredas, ardiam brasas em seu ventre, mas Flor buscava conter-se e coibir-se. Sentindo-se,  entretanto, dia a dia menos senhora de sua própria vontade, de recusa frágil, de relutância débil, submissa escrava do rapaz audacioso, que já se apoderara de quase todo o seu corpo queimado de uma febre sem remédio, ai, sem remédio.

     Insolente Vadinho! Não lhe declarara amor, não fizera praça de sentimentos apaixonados, não lhe pedira sequer autorização para namorá-la. Em vez de frases poéticas, de termos alambicados, ela ouvia duvidosos conceitos, insinuações mal-intencionadas. Subindo a Ladeira do Alvo, na pista de Flor (cujo retorno da casa de tia Lita, no Rio Vermelho, dera-se dias após a festa de Pergentino), o petulante, ao ler o anúncio da Escola de Culinária, murmurou-lhe ao ouvido, num sussurro romântico de quem lhe fizesse inocente galanteio:

    - Escola de Culinária Sabor e Arte... - repetiu - Sabor e Arte .

. . - baixou a voz, o bigodinho roçando a orelha da moça: Ah! Quero saborear-te... - não apenas um trocadilho de mau gosto mas também franco aviso de suas intenções, deslavada plataforma, claro programa de namoro.

     Flor nunca tivera um namorado assim, tão diferente dos outros, nem imaginara namorar daquele jeito. Como não o mandou imediatamente embora?

     Não era Flor uma dessas debochadas janeleiras, de idílio escandaloso nos cantos de rua, nos pés de escada, no esconso das portas. Jamais gaiato algum fora além de tímido beijo, Pedro Borges apenas aflorou-lhe a face, ela não admitia intimidades. Bastava o atrevido estender a mão na ousadia de tocá-la, e Flor enchia-se de indignação e o expulsava, como a guardar-se por inteiro para aquele a quem realmente amasse. A esse, sim, nada recusaria, e esse era Vadinho; eis porque não o despachou como aos outros, sem grosseria nem escândalo mas firme e inflexível.

     Não o repeliu sequer da primeira vez e, no entanto, conheciam-se apenas há algumas horas, pois foi no domingo do Bando Anunciador, no dia seguinte ao da festa em casa do Major Tiririca. Em companhia de amigas, viera Flor apreciar os blocos, Vadinho apareceu e encostou. As outras afastaram-se, entre risinhos, certamente chegara a hora da indispensável declaração (declaração mais ou menos veemente e florida conforme o temperamento e a veia do pretendente; alguns mais timoratos preferiam fazê-la em carta, utilizando, quando necessário, a ajuda do "Secretário dos Amantes"). Elas vinham mesmo comentando o chamego do rapaz: não

largara Flor sozinha na festa, seu par constante. Ia agora declarar-se, era um momento grave: cabia à moça logo conceder o sim ou pedir tempo para melhor reflexão, em geral vinte e quatro horas. Flor anunciara às amigas seu propósito de deixar Vadinho padecer uns dias mas as outras

duvidaram, teria ela coragem para tanto?

     Não abriu ele a boca para fazer declaração alguma, a conversa girou divertida em torno de motivos diversos, um doidivanas esse Vadinho! Dois animados blocos carnavalescos, em desafio, juntos se encontraram no oitão da Igreja de Sant'Ana e, aproveitando-se do atropelo estabelecido

quando o povo acorreu e ali se comprimiu, Vadinho a apertou contra si, abraçando-a por detrás, cobrindo-lhe os seios com as mãos, beijando-lhe sôfrego o cangote. Ela estremeceu apenas, semicerrou os olhos, deixou-o fazer, quase morta de medo e de alegria.

     Os dias iniciais desse namoro sem declaração formal e sem formal consentimento, foram inesquecíveis. Todos os anos no verão, na oportunidade das festas do bairro, costumava Flor passar uns tempos com os tios, aos quais era muito afeiçoada. No mês de fevereiro a Escola de

Culinária não funcionava.

     Vinha para a procissão do presente a Yemanjá, a dois de fevereiro, quando os saveiros cortam as ondas carregados de flores e dádivas para Dona Janaína, mãe das águas, da tempestade, da pesca, da vida e da morte no mar. Ofertava-lhe um pente, um frasco de perfume, um anel de fantasia. Yemanjá habita no Rio Vermelho, seu peji ergue-se numa ponta de terra sobre o oceano.

     Em companhia das moças do bairro, divertia-se em intenso e festivo programa: pela manhã banho de mar; passeios à tarde no Farol da Barra e em Amaralina, por vezes iam até a Pituba; a organização e os ensaios da prancha de carnaval - alegre trabalheira; piqueniques em Itapoã, em casa do doutor Natal, médico amigo de tio porto, ou na Lagoa do Abaeté, com violas e cantigas; batalhas de confete. À noite circulavam no Largo de Sant'Ana ou na Mariquita, por entre as barracas coloridas, quando não havia dança programada em residência de família amiga ou elas próprias não invadiam e ocupavam uma sala de visitas, improvisando um assustado.

     A casa de porto, florida de trepadeiras e acácias, ficava na Ladeira do Papagaio, e aos domingos, invariável, o tio saía com outro amante da pintura, residente no Largo, um senhor sergipano, acanhado como ele só, um certo José de Dome; saíam a desenhar casarios e paisagens. Uns dois anos antes, quando da partida de Rosália e Antônio Morais para o Rio, Flor, sozinha e triste, chegara a sentir uma vaga inclinação pelo pintor, já homem maduro, de seus quarenta anos se bem aparentasse menos, caboclo rijo e seco. Propusera-lhe ele um dia, vencendo a extrema timidez, pintar-lhe o retrato e o iniciara, numa tela de ocres e amarelos lancinantes onde a cor mate de Flor ressaltava transfigurada. "Negócio de maluco, um disparate, aliás esse fulano é leso", definiu Dona Rozilda, que em matéria de arte não ia além do cromo das folhinhas, ao ver aquela explosão de tinta e luz. Nunca chegaria José de Dome a concluir o retrato, no entanto. Não houvera tempo, Flor retornara à Ladeira do Alvo, e, se bem prometesse vir pousar aos domingos, jamais o fez; tampouco ela entendia a pintura do sergipano. Simpatizava, sim, com seu sorriso e sua solidão. Mas aquele sentimento nem chegara a ser namoro, pois não se pode chamar namoro aos longos silêncios e aos breves sorrisos das horas de pose. Não passara de efêmera inclinação a durar apenas os dias de veraneio, incapaz sequer de romper o acanhamento do artista. Ao voltar ao Rio Vermelho, Flor reencontrou o amigo do tio com a mesma cordialidade, mas fora quebrado o encanto daquelas férias anteriores, era como se nada houvesse acontecido entre eles. Quanto ao retrato por acabar está até hoje na parede do atelier do pintor, no terceiro andar, de um velho sobradão, na esquina do Largo de Sant'Ana; quem quiser pode vê-lo, é só tomar coragem e subir as carunchosas escadas.

     Tão diferente com Vadinho... Como se irrefreável avalanche a arrastasse, ele a dominou e decidiu de seu destino. Flor compreendeu, ao fim daqueles perfeitos e rápidos dias do Rio Vermelho, não lhe ser mais possível viver sem a graça, a alegria, a louca presença do rapaz. Fez quanto ele lhe pediu: nas festinhas não dançou com nenhum outro, de mãos dadas com ele por entre a quermesse do Largo, desceu à praia escura para no negrume da noite melhor se beijarem, como ele sugeriu; sentindo num arrepio a mão de carícias a subir por baixo de seu vestido, acendendo-lhe as coxas e as ancas. Dona Rozilda, quem jamais poderia imaginá-la assim democrática, de tamanha liberalidade? Fechava os olhos aos evidentes abusos daquele namoro tão sem controle e desassuntado, a ponto de tia Lita, pouco afeita a carrancismos, no entanto estranhar e advertir:

     - Você não acha, Rozilda, que Flor está dando corda demais a esse moço? Saem juntos por toda à parte como se fossem noivos, nem parece que se conheceram noutro dia...

    Dona Rozilda reagia brava, em tom de briga:

     - Não sei que diabo você e o seu marido têm contra Vadinho... Só porque o rapaz é rico e ocupa posição de destaque, é um zunzunzum contra ele, não sei porque vocês tomaram esse abuso dele... Com a porcaria desse pobretão metido a pintor vocês ficaram influídos até demais, se dependesse de vocês faziam o casamento  na hora, como se eu fosse dar minha filha a esse vira-bosta. Com Vadinho vocês só pensam- maldade. Não vejo nada demais que ele namore com Flor, ela já está em tempo de casar, e quando o Senhor do Bonfim, ouvindo minhas preces, envia um partido como esse, você e porto fazem uma zoada medonha, a achar isso e aquilo ... Me deixe, mulher, se assunte...

     - Eu não acho nada, minha santa, se assunte você. Estava só falando... Porque você é toda cheia de melindres, toda não-me-toques. Basta ver qualquer moça passeando sozinha com um rapaz e logo diz que é uma perdida... E agora mudou da água pro fogo, largou a menina de mão...

    - Tu acha ela uma perdida? É isso que tu acha? Diga logo...

    - Se assunte, Rozilda, tu sabe que eu não disse isso...

    Dona Rozilda encerrava a discussão:

    - Eu sei o que estou fazendo, a filha é minha e, assim Deus ajude, ainda este ano eles se casam...

    - Possa ser, queira Deus...

    - Possa ser? Vai ser e com certeza... Não me venha com cantiga de sotaque, vocês têm é má vontade com Vadinho...

    Não, ninguém demonstrava má vontade com Vadinho, ele a todos seduziu com sua lábia e sua fantasia, primeiro aos conhecidos do Rio Vermelho, depois aos da Ladeira do Alvo. Dona Lita e porto já lhe haviam tomado amizade e bem o desejavam para marido de Flor. Quanto a Dona Rozilda, parecia viver exclusivamente para satisfazer-lhe as vontades, adivinhar-lhe os caprichos.

    Capricho mesmo, ele tinha apenas um: estar a sós com Flor, toma-la nos braços, vencer sua resistência e pudicícia, ir-se apossando dela pouco a pouco, a cada encontro. Amarrando-a nas cordas do desejo mas amarrando-se ele também, preso a esses olhos de azeite e espanto, a esse corpo fremente e arisco, ávido de vontade, contido de pudor. Preso sobretudo à mansidão de Flor, à atmosfera doméstica, ao ambiente de lar próprio da graça simples da moça, de sua quieta beleza, atmosfera a exercer poderoso fascínio sobre Vadinho.

    Jamais vivera ele vida de família, não chegara a conhecer a mãe morta de parto, e o pai cedo desaparecera de sua existência. Produto de ocasional ligação entre o primogênito de pequenos burgueses remediados e a copeira da casa, dele ocupara-se o pai, o tal parente longe dos Guimarães, enquanto solteiro. Mas, ao fazer um casamento afortunado, tratou de livrar-se do bastardo a quem sua esposa, devota ignorante, consagrava um santo horror - "filho do pecado!" Internou-o num colégio de padres onde, aos trancos e barrancos, Vadinho chegou ao último ano do curso secundário, não o tendo concluído por haver-se apaixonado, num domingo de visitas, pela mãe de um colega, distinta quarentona, mulher de comerciante da Cidade Baixa, considerada naquele tempo a mais fácil puta da alta sociedade da capital - paixão devoradora e correspondida.

     Paixão romântica, também. A preclara punha-lhe olhos langorosos, suspirava, Vadinho a rondá-la no pátio das visitas do colégio, triste como uma prisão, lúgubre prisão de meninos. Ela lhe dava chocolates e biscoitos, do embrulho trazido para o filho. Vadinho ofertou-lhe uma orquídea às escondidas, roubada à estufa do jardim dos padres. Num dia de saída (o primeiro domingo do mês e Vadinho jamais saía, ninguém o vinha buscar, não tinha para onde ir) ela levou-o a almoçar em sua casa, palacete no Largo da Graça, apresentando-o ao marido:

    - Colega de Zezito, órfão, não tem família...

     Zezito era meio debilóide, criava preás e nos domingos de saída todo seu tempo era pouco para atender, no porão da casa, aos pequenos roedores. O comerciante a roncar a sesta, Vadinho viu-se arrastado a um quarto de costura, envolto em beijos e carinhos, possuído. "Meu menino,

meu colegial, meu aluno, sou tua professora, ai, meu donzelo “e, consciente de sua condição de mestra, ela lhe ensinava - e, como ensinava! Cresceu a paixão, insaciável e brutal. Ela desfeita em ais e juras - nunca amara ninguém, repetia-lhe cínica e tranqüila, Vadinho era seu primeiro amante, e nada no mundo almejava senão partir com ele para viverem os dois aquele grande amor, ocultos num recanto qualquer. Pena estar ele interno num colégio...

     - Se eu saísse do colégio você vinha mesmo viver comigo?

    Fugiu do colégio, apareceu no princípio da noite para busca-la, para libertá-la do "bestial burguês" que tanto a fazia sofrer e a humilhava possuindo-a. Obtivera mísero quarto numa pensão de última ordem, comprara pão, mortadela (adorava mortadela), uma zurrapa  vendida como vinho e um buquê de flores. Ainda lhe sobraram alguns mil-réis, os colegas mais íntimos, a par do caso solidários, haviam-se reunido para financiar-lhe a fuga e o amor. Para eles, Vadinho era um retado.

     A prezada senhora quase morre de susto quando ele lhe invadiu o lar onde o marido na outra sala palitava os dentes e lia jornais. Vadinho endoidara com certeza - disse ela, indignada. Não era uma aventureira para largar casa, esposo e filho, seu conforto e seu conceito na sociedade, para ir viver amásia de uma criança, na miséria e na desonra. Vadinho não tinha juízo, voltasse para o colégio, talvez nem se houvessem dado conta de sua escapula, e no próximo domingo de visitas, Ah! ela lhe prometia...

    Não quis Vadinho ouvir a promessa, estava possesso de ira e de vexame, fora ludibriado. Sem levar em conta a proximidade dos cornos do comerciante, agarrou a madame pelos cabelos longos e oxigenados, aplicou-lhe uns tabefes na cara, gritou-lhe nomes, num esbregue de tamanhas proporções a ponto de reunir, em animada assistência, não apenas o esposo e os criados, mas também os vizinhos do elegante Largo da Graça. Segundo o testemunho ulterior de Vadinho, naquele dia se fizera homem, e homem para sempre escarmentado.

     Pela mão desse escândalo penetrou Vadinho na vida noturna da cidade, rapazola de dezessete anos, ao qual se afeiçoara Anacreon, batoteiro afamado, carteador de fino estilo. Ninguém melhor para revelar ao moço inexperiente as sutilezas e as finuras da ronda, do vinte-e-um, do bacará, do pôquer, para introduzi-lo na dialética das mesas de roleta e na mística dos dados, pois Anacreon não era apenas competente, era também um coração leal, de frente para a vida, um tanto quixotesco. Com o pai teve Vadinho breve encontro no qual se recusou a volver ao internato, recusando-lhe em troca o salafrário Guimarães a benção e qualquer ajuda financeira, "não tinha recursos para sustentar desordeiros". Com a riqueza da mulher ficara somítico e moralista. Aliás, nessa altura da vida, quando seu nome era citado nas colunas sociais, passara a conceber sérias dúvidas a respeito da paternidade de Vadinho. Seria mesmo seu filho? A falecida Valdete acusava-o, entre beijos, de tê-la  deflorado e engravidado. Mas será documento a merecer

crédito a palavra de uma doméstica? Jamais conhecera outro homem, além dele, segundo depunham suas amigas chorosas, junto ao corpo. Mas a palavra dessas outras amas, sem eira nem beira, pode constituir prova seja lá do que for? Tudo aquilo sucedera há tanto tempo, confusas

memórias da juventude, numa adolescência falta de responsabilidade, insensata. Talvez fosse seu filho, talvez não o fosse, quem podia vir de público prová-lo, onde estava a certeza? Certeza mesmo era ser Vadinho filho da puta e um filho da puta dos piores: ainda menino e querendo "estuprar honesta senhora, bondosa mãe de um colega, em cujo lar fera recebido como filho..." Esse pai de Vadinho era um Guimarães  da "banda podre", como o classificara Chimbo, não lhe coubera o ímpeto e a generosidade da família.

     Desde então não mais provara Vadinho o perfume de um sentimento familiar, não mais tivera um interesse complexo e profundo. Sua vida sentimental, numerosa e diversa, pois as múltiplas amantes variavam na idade, na posição social e na cor, decorrera em grande parte nos castelos e cabarés, em xodós com raparigas, amigações, além de umas poucas aventuras com mulheres casadas; sem que nenhum desses laços tivesse a força do amor. Nunca um enrabichamento o fez sentir a vida plena e luminosa, jamais uma ausência feminina, uma briga, o término de um caso, o tornou gris, vazio e suicida. Partia para outro corpo de mulher como mudava de mesa na sala de jogo quando o dezessete, seu número, fazia-lhe falseta.

    O encontro com Flor, na festa do Major, veio reacender-lhe de súbito aquela necessidade antiga de lar, de vida de família, mesa posta, cama de lençóis limpos. Ele não tinha sequer endereço estável, mudando de pensão barata a cada mês por falta de pagamento. Como esbanjar dinheiro em aluguel quando sobrava tão pouco para o jogo?

     Flor trazia um novo sabor à sua vida, uma quietude, uma placidez, um gosto de ternuras familiares:

     - Gosto de você porque você é mansa como um bichinho, meu bem...

     De tal forma seduzido por ela, a ponto de suportar-lhe a mãe, velha mais terrível e paulificante, ridícula e desfrutável. Amava a singeleza da moça, sua mansidão, sua alegria sossegada, e sua compostura. Lutando diariamente para derrubar-lhe a resistência e romper-lhe a castidade, sentia-se, no entanto contente e orgulhoso com ela ser assim recatada e séria. Porque só a ele competia domar esse recato, reduzir a prazer àquela pudicícia. Os amigos de Vadinho descobriam um brilho em seus olhos, acontecendo-lhe ficar parado ante a roleta, esquecido de

depositar a ficha, sonhador.

     E os íntimos, como Mirandão, já não se surpreenderam quando, pelo carnaval, o viram integrando a prancha dos "Alegres Gazeteiros", prancha organizada pelas famílias do Rio Vermelho, decoração do tio porto, moças e rapazes fantasiados de vendedores de jornal, mercando o "Diário da Bahia" e "À Tarde", o "Diário de Notícias" e "O Imparcial". Um carnaval

de confete e mamãe-sacode, de serpentina e canções, onde lança-perfume era para consumir nas namoradas e não para aspirar-se, um carnaval sem cachaça. O oposto dos carnavais de Vadinho, que emendavam do sábado à terça-feira num porre só. Integrando blocos de mascarados, às voltas com as raparigas, a sambar no meio da rua, a bebida a lá vontê. Caindo de bêbedo nos fins das noites num fovoco qualquer da zona; assim nos quatro dias.

     "Olhe quem vai ali, naquela prancha, de pandeiro na mão, é Vadinho saindo em prancha, quem diria!", admiravam-se passantes habituados a vê-lo em deboche completo na folia do carnaval. Lá estava Vadinho, ao lado de Flor, a cobri-la de confetes e ternura.

     Nada disso o impedia, no entanto, de chafurdar na mais baixa gandaia, de ingerir uma cachaça absurda, após ter-se despedido de Flor, à meia-noite. Saía direto para o Tabaris, o Meia-Luz, o Flozô. Na segunda-feira pretextou trabalho urgente em Palácio, foi-se as dez da noite, não podia chegar tarde ao grande baile da Gafieira do Pinguelo onde Andreza e outras reais crioulas fantasiavam-se de damas da corte de Maria Antonieta, gastando cetins e veludos, alvas cabeleiras de algodão.

     Nem mesmo no momento de paixão mais alta, de maior doçura familiar, de pensamentos mais domésticos, Vadinho imaginou sequer mudar sua vida, modificá-la, adquirir novos hábitos, regenerar-se. Mirandão ameaçava fazê-lo, de quando em vez:

    - Seu mano, vou me regenerar... De amanhã em diante... Vadinho jamais falou nisso. Apaixonado por Flor, projetando casar-se com ela, mas nem assim disposto a fugir a seus solenes compromissos, a seu quotidiano de jogo e malandragem, de bebedeiras e arruaças, de cassinos e castelos.

 

     Mar de rosas, francos horizontes, azul cerúleo, a paz do mundo e sua doçura, Flor e Vadinho enamorados. De súbito, a borrasca, o temporal, céu de chumbo, guerra sem quartel, a abominação, Flor e Vadinho proibidos.

     Um tanto encafifado por sentir-se com culpa nos acontecimentos - não fora ele quem começara a montar aquele castelo de cartas, incapaz de resistir ao sopro da menor sindicância? -, Mirandão, moralista com fumaças de filósofo, considerou:

     - Aí está... Que garantia a gente tem? Nenhuma... Até motor de caminhão, quando se conserta, tem garantia de seis meses... A gente, quando pensa que está instalado na vida, que as coisas finalmente se acertaram, aí emboceta tudo, o santo cai do andor e vira lixo...

     No opinar de Mirandão, Vadinho caíra do andor, o santo virara lixo, os restos espalhados nos monturos, e não havia remendo capaz de restaurar o conceito do demissionário oficial de gabinete ante Dona Rozilda. Conceito aliás igualmente comprometido junto a Flor, como haveria ela de ainda aceitar o potoqueiro que a engabelara? Mirandão conhecia essas pessoas mansas e suaves: quando abusadas em sua confiança, crescem em obstinado orgulho, não voltam atrás.

     - Quando empombam, empombam de vez... - concluía pessimista.

     Vil, ordinário, abjeto, infame sujeito! Dona Rozilda achava a língua pobre de expressões suficientemente varonis e vigorosas para rotular tão baixo espécime humano - ainda na véspera o pretendente ideal, santo no andor todo enfeitado de elogios. Sua filha podia casar até com um soldado de polícia, até com um criminoso de morte, de sentença passada no júri, cumprindo pena na cadeia, jamais com o miserável canalha. Recolhendo pelas imediações do Alvo essas cruas opiniões, Mirandão balançara a cabeça pesaroso e realista: se Vadinho pensava em prosseguir o namoro é porque não entendia nada de mulheres. Sempre tão ladino, agora cego pela paixão, não se dava conta da realidade: desbundara tudo. Mirandão, aflito reclamou um novo trago no Bar Triunfo: para suportar tanta comoção.

     A Vadinho pouco importava restaurar seu conceito ante Dona Rozilda, aplacar sua fúria, velha levada dos diabos, bruaca intolerável, um purgante. Não admitia, porém, romper com Flor, perder seu riso manso, sua quieta ternura, seu machucado suspiro. Ao contrário, agora decidira casar-se com ela. Afinal, em tudo aquilo, só havia de sério o carinho, a compreensão, o bem-querer, aquele amor dos dois; o resto não passava de tola brincadeira. De quem gostava Flor: dele, Vadinho, de sua pessoa, ou do cargo inventado, da posição que não exercia, do dinheiro que não tinha?

     Naquela história só uma coisa o desgostava: haver sido desmascarado por Célia, sua protegida, aquela perneta agora professora pública devido à sua interferência. Era ela a fazer todo o fuzuê, a desenrolar o novelo, a denunciá-lo a Dona Rozilda. Chegara ofegante ao primeiro andar, numa excitação tamanha a ponto de quase perder a voz. Num tal contentamento, só se vendo.

     "Alguém muito elevado"? Jamais subira o vigarista sequer as escadas do Palácio, o único palácio que ele conhecia, e a esse conhecia bem, era o Pálace, antro de jogo e perdição, assim de mulher-dama... Prestígio? Só se fosse nas ruas do meretrício mais baixo, junto as casteleiras e aos escroques... Oficial de Gabinete do Governador? Se ele se atrevesse a entrar no gabinete do Governador seria tomado preso, metido no xadrez. Sua nomeação de professora? Era melhor nem pensar nisso, quem sabe dos estrupícios e tratantadas postos em prática pelo patife?

     E como fora Célia, insignificante professora primária, descobrir toda aquela rede de enganos, pondo a claro todos os detalhes da farsa, não deixando persistir uma sombra sequer de dúvida, um pode-ser-quem-sabe ao qual se agarrasse Dona Rozilda, náufraga no mar da porca existência? Por que tamanho empenho em desmascarar e denunciar o trapaceiro, o barato sedutor?

    Vadinho se surpreendeu, magoado:

     - Logo quem... Não fiz mal nenhum a essa moça, ao contrário...

     Por isso mesmo, talvez. Quando Vadinho lhe arranjou o emprego, Célia sentiu-se ao mesmo tempo grata e ofendida. No fundo, não lhe perdoava ter-se enganado a seu respeito, não ser ele o gigolô pressentido por seu faro de azedume e maldade: a existência reles fizera-a invejosa e ruim. A cada dia, menos grata e mais ofendida aquele indivíduo não tinha jeito de prestar... Por acaso, deram-lhe uma pista e ela tanto futucara, tanto xeretara até descobrir em todas as minúcias a teia de mentiras iniciada por Mirandão em casa do Major e por cujo crescimento era mais responsável a vida do que o próprio Vadinho. Refeitos os capítulos daquele imaginoso folhetim, Célia sentiu-se realizada: não a enganavam assim facilmente, tinha olho e faro, para tapeá-la  fazia-se necessário mais do que emprego, nomeação e posse. Satisfeita, feliz com sua torpeza, nem lhe pesava a perna manca ao subir a escada do primeiro andar onde Dona Rozilda e Flor costuravam peças do enxoval. "Não passava o almofadinha de um mísero gigolô, ela Célia, jamais tivera dúvidas". Resplandecia seu encardido semblante, poucas vezes se sentira assim alegre, muita gente ia chorar naquele dia, arrenegar o diabo, ranger os dentes. E existe no mundo algo tão esplêndido e excitante, espetáculo comparável ao do sofrimento alheio? Para Célia não existia nada igual. Jamais um homem olhara para seu corpo com olhos de desejo, jamais alguém lhe sorrira com amor, e as crianças da escola tinham-lhe medo, fugiam dela.

     Dona Rozilda, em faniquito, propunha-se a matar e a morrer, gemia por um copo com água. Flor não lhe deu importância, não ouviu seus ais, ocupada com Célia:

    - Puxe daqui, sinhá cachorra, não volte mais...

    - Eu, Flor? Você está falando sério? Por quê?

      - Mesmo que ele fosse o que você diz, você não podia vir fuxicar, ele lhe empregou... Você devia era esconder o que soubesse contra ele, estava morrendo de fome e ele lhe arranjou o lugar...

      - E eu sei lá se foi ele... Quem viu ele arranjar? Pra mim, foi à carta do padre Barbosa...

      Flor quase não elevava a voz mas suas palavras cuspiam nojo e desprezo:

     - Puxe daqui antes que eu lhe ensine a não se meter na vida dos outros, cadela vagabunda...

     - Pois fique com ele, que lhe faça bom proveito, tu nasceu mesmo pra descarada...

      Baixou a escada a clamar contra a ingratidão humana.

      Guerra, sim, que outro nome, que outra designação usar?, e guerra sem misericórdia - a guerra entre Dona Rozilda e Flor teve começo ali mesmo, naquela mesma hora. Ao ruído da porta batendo na cara de Célia, Dona Rozilda recolheu seus melindres, desistiu do desmaio, clamou, pela professora, queria continuar a conversar sobre Vadinho, remexendo na ferida:

    - Célia! Célia! Não vás embora...

    Flor disse, a voz pesada:

    - Botei ela pra fora...

     - Ela veio fazer um favor e você enxota ela, em vez de agradecer.

    - Essa fuxiqueira nunca mais me põe os pés aqui...

     - Desde quando tu manda nesta casa?

    - Se ela entrar, eu saio...

     Mirandão acertara ao descrever o baixo crédito de Vadinho junto a Dona Rozilda. Errou, porém, e por completo, quanto à reação de Flor. Não ficara contente, é claro tivera um desaponto: Vadinho mais sem jeito, para que essas mentiras? Em nenhum momento, entretanto, pensou em romper com ele, em terminar o namoro. Amava-o, pouco lhe importando seu ofício

ou emprego, sua posição na sociedade, sua importância na política.

     Assim lhe disse quando, naquela noite, num desafio impudente às ordens de Dona Rozilda, foi conversar com o namorado numa esquina próxima. Ouviu e aceitou suas explicações, derramou algumas lágrimas, a chamá-lo de "maluco, sem juízo, meu doido lindo". Pela primeira vez Vadinho lhe falou de amor, de como esfomeado e sequioso a queria e desejava - e para esposa a queria e desejava. E isso para Flor valeu todo o aborrecimento, a mágoa dele lhe ter mentido e enrolado sem necessidade.

     Teriam de esperar com paciência, disse-lhe Flor. Pelo menos os dez meses que faltavam para os seus vinte-e-um anos era ainda menor, sob o mando materno, e nem pensasse Vadinho em obter o impossível consentimento de Dona Rozilda. Nunca vira a mãe tão exaltada e em fúria.

Mesmo os encontros não iam ser fáceis, tinham de estudar a melhor maneira de se avistarem sem que a velha suspeitasse. O namoro – aquele namoro com tantas facilidades, tão bem aceito e apadrinhado por Dona Rozilda - passara aos subterrâneos da ilegalidade, estava proibido em definitivo, a cotação de Vadinho na Ladeira do Alvo não valia a poeira da rua. Vadinho enxugou-lhe as lágrimas com beijos, ali mesmo na esquina, sem ligar aos passantes.

     Bufando, Dona Rozilda a aguardava de taca na mão, pedaço de couro cru para exemplar animais e filhos desobedientes. Não era usada há muito, quem dela fizera gasto fora Heitor, relapso estudante. Rosália levara suas tacadas, Flor algumas surras quando menina. Suspensa na

parede da sala de jantar, a primitiva chibata agora valia apenas como símbolo cruel da autoridade materna, caído em desuso. Quando Flor transpôs a porta, Dona Rozilda ergueu a taca, a primeira chicotada a atingiu no colo e no pescoço deixando-lhe um lanho vermelho, marca de guerra a perdurar por mais de uma semana.

     Apanhou sem chorar, defendendo o rosto com as mãos, reafirmando seu amor. "Comigo viva tu não casa com ele", rugia Dona Rozilda. No outro dia, Flor quase não pôde levantar-se, o corpo todo doído, o lapo roxo no pescoço. A Ladeira em peso comentava os acontecimentos, a negra Juventina, soberana em sua janela, a distribuir  detalhes, doutor Carlos Passos criticando os métodos educacionais de Dona Rozilda, se bem não lhe negasse razão para desgosto e zanga.

     Vadinho compareceu na hora costumeira; todo o primeiro andar mantinha-se fechado, a sacada vazia, a porta da escada de ferrolho e tranca. A janela do quarto de Flor dava sobre a rua transversal, por entre as venezianas fugiam résteas de luz. Logo houve quem contasse da surra da véspera, segundo as comadres, Flor suspirava presa no quarto, de chave passada.

     Vadinho concordou com a negra Juventina quando a amásia de Antenor Lima definiu Dona Rozilda com justeza e literatura: "uma hiena bestial, é o que ela é, seu Vadinho"; ouviu as notícias em silêncio, disse até logo, foi-se embora.

     Para volver depois de meia noite e abrir todas as janelas das redondezas, acordar a ladeira e as ruas próximas com a mais maviosa serenata, tão maviosa e apaixonada como muito poucas até hoje se fizeram nessa ou em qualquer outra cidade. Quem a escutou guarda sua lembrança imperecível nos ouvidos e no coração.

     Também, pudera! Vadinho reunira para Flor o melhor de quanto existia. Trouxera o magrelo Carlinhos Mascarenhas, o cavaquinho de ouro; fora buscá-lo no castelo de Carla, no aconchegado leito de Marianinha Pentelhuda. Ao violino, via-se a figura popular de Edgard Cocô, o non-plus-ultra, igual só no Rio de Janeiro ou nas estranjas. Soprava a flauta - e com que dignidade e maestria! - o bacharel em direito Walter da Silveira; Vadinho o arrancara de cima dos livros, pois,

recém formado, preparava-se a fundo para concurso de magistrado; em breve, escolhido meritíssimo juiz, não mais exibiria em público sua insigne flauta, privando as massas de celestial deleite. Quanto ao violão, dedilhava-o um moço querido de toda a gente por sua educação e alegria, seu jeito modesto e ao mesmo tempo fidalgo, sua competência no beber, sua finura de trato, e sua música: a qualidade única de seu violão, dele e de mais ninguém, e sua voz de mistério e picardia. Um retado. Aparecera ultimamente a tocar e a cantar no rádio, e já o sucesso o cercava. Repetia-se seu nome, Dorival Caymmi, e os íntimos exaltavam suas composições inéditas; no dia em que fossem divulgadas, o moreno ficaria célebre. De Vadinho era amigo do peito, juntos haviam tomado os primeiros tragos e varado as primeiras madrugadas. Traziam de

reserva a Jenner Augusto, pálido cantor de cabaré, e de quebra a Mirandão, já bêbado.

     Ao pé da ladeira, detiveram-se por uns minutos; o violino de Edgard Cocô soluçou os primeiros acordes, dilacerantes. Entraram a seguir o cavaquinho, a flauta, o violão - e Caymmi abriu o eco, soltou a voz em dueto com Vadinho, cujos gorjeios não valiam lá grande coisa. Grande era sua causa, sua paixão proibida: o desejo de desagravar a namorada, curar suas tristezas, apaziguar seu sono, trazer-lhe o consolo da música, prova de seu amor:

 

    "Noite alta, céu risonho a quietude é quase um sonho e o luar cai .sobre a mata qual uma chuva de prata de raríssimo esplendor... Só tu dormes, não escutas o teu cantor...”

 

     A modinha de Cândido das Neves subia a ladeira mais depressa do que eles, apareciam cabeças curiosas, demoravam-se à janela presas ao fascínio da música, à voz de Caymmi. A negra Juventina batia palmas aplaudindo, era do partido de Flor e de Vadinho e doida por serenatas. Alguns despertavam com raiva, na idéia de protestar, mas a doçura da canção os vencia, adormeciam ouvindo o chamado de amor. Doutor Carlos Passos foi um desses: saltou da cama numa sanha assassina; seu dia era trabalhoso, começava no hospital as seis da manhã e por vezes só volvia a casa as nove da noite. Mas entre o quarto e a janela foi-se aplacando  sua ira e trauteava a melodia ao debruçar-se no beiral para ouvir mais cômodo.

 

"Lua manda tua luz prateada despertar a minha amada...”

 

     Estavam parados agora em baixo da luz de um poste, bem na esquina fronteira ao sobrado. Vadinho destacara-se, um pouco do grupo para melhor situar-se sob o foco elétrico e mais facilmente ser visto por Flor. Os sons da flauta do doutor Silveira subiam pela parede os ais do

cavaquinho penetravam na sacada, o violino de Edgard Cocô abria as janelas do quarto da moça, ia arrancá-la da cama num estremecimento. "Deus do Céu, é Vadinho!" Correu para a janela, suspendeu a veneziana, lá estava ele sob a luz, os loiros cabelos, os braços estendidos para o alto:

 

"Quero matar meus desejos, sufocá-la com meus beijos..."

 

    Alguns noctívagos juntavam-se a escutar, Cazuza Funil saíra vestido num velho pijama, atraído pela música e pela possibilidade de alguma garrafa em mão dos seresteiros.

    Na sacada do primeiro andar, surgindo da escuridão, apareceu Dona Rozilda, sua cólera cortou a música e o poema:

    - Vadios! Vagabundos!

    Mais alta a canção, a voz de Caymmi subia para as estrelas:

 

"Canto... e a mulher que eu amo tanto ainda me está dormindo...

 

     Onde encontrara Flor aquela rosa de tão vermelha quase negra? Vadinho a recolhia no ar, noite romântica de namorados, no céu a lua amarela e um perfume de alecrim, toda a ladeira a cantar em coro para Flor presa em seu quarto:

 

"Lá no alto a lua esquiva está no céu tão pensativa e as estrelas tão serenas...

 

     Desembocava Dona Rozilda na porta da rua, escancarando-a, desfeito o coque, envolta numa bata enxovalhada e em ódio. Varou para o grupo, num desvario de fúria:

    - Fora, fora daqui! - gritava em desespero - Chamo a polícia, dou queixa na delegacia, cachorros!

    Tão inesperada e violenta aparição - por instantes eles perderam o aprumo, sustiveram o canto. Dona Rozilda ergueu-se vitoriosa na rua em silêncio:

    - Fora! Cambada de cachorros, fora!

     Mas foi só um instante. Logo a flauta do doutor Silveira fez ouvir um som como um riso de mofa, como o assovio de um moleque, musiquinha mais de deboche e de sotaque:

 

”Iaiá me deixe subir nessa ladeira...

 

     Então todos viram Vadinho adiantar-se em direção a sua futura sogra e diante dela, ao som da flauta, executar com perfeição e Donaire, num catado de pés e num gingo de corpo, o passo do siri-bocêta, o difícil e famoso passo do siri-bocêta. Sufocada, em pânico, sem voz, Dona Rozilda

recolheu suas últimas forças, o suficiente para correr escadas acima.

     A serenata reconquistou a noite e a rua, prosseguiu rumo à madrugada. Noctívagos mais ou menos bêbados reforçaram o coro, o guarda-noturno surgiu em sua ronda e foi ficando por ali, a escutar e aplaudir. A garrafa pressentida por Cazuza Funil apareceu, o repertório era vasto. Cantaram Vadinho e Caymmi, cantou Jenner Augusto, cantou doutor Walter com voz profunda de baixo, cantou o guarda-noturno, seu sonho era cantar na Rádio. Cantava a rua inteira na serenata de Flor. Flor reclinada em sua alta janela, vestida de babados e rendas, coberta de luar. Lá embaixo, Vadinho, galante cavalheiro na mão a rosa de tão vermelha quase negra, rosa de seu amor.

 

      No lar e no carinho de tia Lita e de seu marido Thales porto, no Rio Vermelho, procurou e obteve abrigo a perseguida Flor, quando fugiu de casa para desposar Vadinho.

      Porto ainda vacilara: não queria encrencas com Dona Rozilda, mulher de cabelo na venta e ousada; era homem de bom viver. Tranqüilo em seu canto, corri seu pequeno emprego e sua mania de pintura. A cunhada já o acusara, e a Dona Lita, de se oporem os dois ao namoro da sobrinha, isso quando, nas férias, ela enxergava em Vadinho um poço de virtudes, um deus me acuda, um Jesus-Menino, só lhe faltando, para santo de igreja, o resplendor. Uma tola metida à sabichona, enganjenta, cheia de birras e calundus: eis, Dona Rozilda; porto não queria embelêco com mulher tão confusa e petulante. Mas, que fazer, se Flor aparecera descabelada e em prantos, trazendo de escolta um Vadinho sério e solene, muito cônscio de suas responsabilidades? Vinham confessar o irremediável; ele tinha lhe tirado os tampos, comido o cabaço, necessitavam casar. Quisesse ou não Dona Rozilda, com ou sem maioridade, tinham de casar, Flor deixara de ser moça donzela e só o matrimônio lhe restituiria a honra agora no bucho de Vadinho.

     Flor, num pranto deslavado, pedia perdão aos tios. Se a tanto chegara, desprezando os rígidos princípios familiares, rompendo o medo e o pudor, entregando sua virgindade ao pertinaz fiscal de jardins, a única culpada verdadeira era Dona Rozilda, com suas artimanhas, sua intransigência, a proibir-lhe qualquer contato com o namorado, aferrolhando-a dentro de casa, como se ela, mulher feita, quase de maior pouco faltava, fosse uma criança. Até bater lhe batera, quem suportaria tanto carrancismo? Afinal Vadinho não era nenhum celerado, nenhum facínora, foragido da justiça ou cangaceiro do grupo de Lampião; nem ela Flor, tinha quinze anos, inocente de tudo, sem nada saber da vida. E as despesas da casa, não era Flor quem as assegurava, pagando aluguel e comida? A mãe pouco contribuía, sem Rosália o atelier de costura se reduzira a uma ou outra encomenda. Em compensação, desenvolvera-se a escola de culinária dela viviam mãe e filha. Por que então se arrogava Dona Rozilda o direito de resolver sozinha, de condenar sem apelação? Recusando-se a ouvir pessoas sensatas como tia Lita, seu Antenor Lima e o próprio doutor Luis Henrique, padrinho de Heitor, cuja opinião sempre acatara antes. Dessa vez repelira seus conselhos com veemência. Thales porto sacudia a cabeça: a parenta perdera de todo a tramontana.

     Nem Flor nem Vadinho podiam suportar tal situação. Para o rapaz o caso se transformara em definitiva e emocionante parada. Como na roleta ou nos dados, de frente para o azar. Um desejo de Flor o possuía por completo, da cabeça aos pés, turvando-lhe o juízo, como se não existisse outra mulher no mundo, como se ela - com seu corpo rechonchudo e suas bochechas redondas - fosse a mais bela e apetecível fêmea da Bahia, única capaz de saciar sua fome e sua sede, de conter sua solidão. "Não, nunca, jamais, enquanto eu tiver vida", repetia Dona Rozilda repelindo

as renovadas propostas de casamento de Vadinho, transmitidas por parentes e amigos.

     A própria tia Lita tinha intervindo dias antes, como lembrava Flor. A outra saíra com quatro pedras nas mãos e uma ladainha de pragas:

     - Enquanto Deus me der vida e saúde esse canalha não casa com minha filha. Não que ela mereça esse cuidado, é uma sonsa, uma ingrata, nasceu para sujeitinha. Mas eu não consinto, enquanto estiver na minha dependência. Prefiro ver ela morta do que casada com esse vagabundo. . .

     Lita quisera argumentar, convencer a irmã, romper aquela parede de ódio: o amor fazia milagres, por que não admitir a regeneração de Vadinho? Dona Rozilda rosnava acusadora:

     - Basta o desgosto que você deu à família, quando casou com porto. Depois ele consertou, mas se não consertasse? Se continuasse na descaração a vida toda? - pronunciava "descaração" com todas as letras, tornando a palavra ainda mais pesada de vício e de culpa.

     Referia-se ao passado de porto, cuja mocidade decorrera no Rio de Janeiro, no meio teatral, com excursões pelo interior do país, varando cidades, cenarista e coreógrafo de mambembes, tendo sido também, por força das circunstâncias, ator e ponto, diretor e figurinista. Depois do

casamento, assentara a cabeça, obtivera colocação na Bahia. De sua vida na ribalta restaram apenas um álbum de recortes e um punhado de anedotas. Não perdia ocasião de exibir o álbum e de contar as anedotas.

    - E não deu certo? - reagia Dona Lita, no fundo orgulhosa do passado boêmio do marido. - Você sabe de casamento mais feliz? Ademais não tenho nenhuma vergonha do trabalho dele no teatro. Não estava roubando ninguém, nem enganando, nem deflorando donzelas...

    - E como havia de deflorar, se era tudo umas meretrizes, tudo de fiofó arrombado. Onde ele ia arranjar donzelice pra comer? Vontade não havia de lhe faltar, boa bisca ele não era...

     Amigueira e bondosa, sob certos aspectos o contrário da irmã, Dona Lita não suportava, no entanto, insultos ao esposo e, se a esporeavam, subia-lhe o sangue às narinas:

    - A senhora faça o favor de meter sua língua no rabo e não falar mal de meu marido, não vim aqui para ouvir desaforo seu...

      Dona Rozilda, obediente, enfiava a língua no rabo, a resmungar desculpas. Dona Lita era a única pessoa no mundo por quem nutria estima e respeito, com ela jamais brigava.

     - Vim aqui porque quero bem a Flor, como se ela fosse minha filha . . . Por que diabo você não deixa a menina casar, ela gosta do rapaz e ele está caído por ela. Por que ele não é um todo poderoso como você se meteu na cabeça?

     - Não meti nada na cabeça, você está cansada de saber, eles abusaram de mim, os miseráveis. - A lembrança do monstruoso debique a enfurecia. - E sabe de uma coisa? É melhor a gente dar essa conversa por finda. Com aquele traste ela não casa enquanto estiver sob minha guarda. Depois dos vinte-e-um anos, se ainda quiser, pode ir embora e se desgraçar. Antes, eu não deixo e acabou-se.

    - Tu tá procurando sarna pra se coçar... Tu vai ver...

     E assim era, pois, ante o fracasso dessa derradeira embaixatriz, Flor resolveu atender à voz da razão. Ou seja: aos cochichados argumentos de Vadinho a tentar convencê-la da única solução prática, viável, possível, e, ao mesmo tempo, deliciosa, terna e doce prova de amor e confiança. Convencida, precipitou-se a atender: abriu as coxas e deixou que ele a comesse como há muito lhe pedia e suplicava. Para referir toda a verdade, sem escamotear detalhes (nem mesmo escamoteando-os na simpática intenção de manter íntegros aos olhos do público a inocência e o recato de nossa heroína, fazendo-a ingênua vítima de irresistível Don Juan), deve-se dizer que Flor estava doidinha para dar, para dar e dar-se, entregar-se por inteira, um fogo a queimar-lhe as entranhas e o pudor, desatinada labareda.

     Um amigo endinheirado, Mário Portugal, solteiro e estróina naquele tempo, emprestou a Vadinho oculta casinhola para os lados de Itapoã. A viração desatava os cabelos lisos e negros de Flor, punha-lhe o sol azulados reflexos. No marulho das ondas e no embalo do vento, Vadinho

arrancou-lhe a roupa, peça a peça, beijo a beijo. A lhe dizer, rindo enquanto a despia e dela se apoderava:

     - Não sei vadiar nem coberto de lençol quanto mais vestido com roupa. Tu tem vergonha de quê, meu bem? A gente não vai se casar, não é para isso mesmo? E mesmo que não fosse, a vadiação é coisa de Deus, foi ele quem mandou que se vadiasse. "Vão vadiar por aí, meus filhos, vão fazer neném" que ele disse e foi das coisas mais direitas que ele fez.

     - T’esconjuro, Vadinho, não seja herege... - Flor enrolava-se numa colcha vermelha. Tudo naquele quarto era excitante; quadros de mulheres nuas nas paredes, reproduções de desenhos onde faunos perseguiam e violentavam ninfas, um espelho imenso em frente ao leito, o tal Mário era um lorde, criara uma atmosfera pecaminosa, perfumes na penteadeira, bebidas no gelo. Flor sentia um frio no ventre.

    - Se ele quisesse que a gente não vadiasse, fazia logo o povo todo capado e os meninos nasciam órfãos de pai e mãe... Não seja tola, deixa essa coberta...

     Suspendeu o trapo vermelho, Flor desabrochou na brancura do lençol, Vadinho teve uma exclamação de alegre surpresa:

     - Mas tu é pelada, meu bem, quase pelada... Que coisa doida e mais linda...

    - Vadinho...

     Com o seu corpo cobriu-lhe o pudor, ela cerrou os olhos. Rompeu a aleluia sobre o mar de Itapoã, a brisa veio pelos ais de amor, e, num silêncio de peixes e sereias, a voz estrangulada de Flor em aleluia; no mar e na terra aleluia, no céu e no inferno aleluia!

     Na manhã daquele dia Flor saíra a ajudar Dona Magá Paternostro, aquela ricaça sua antiga aluna, num almoço de aniversário, regabofe para mais de cinqüenta pessoas e ainda mesas de doces e salgados pela tarde. Dali partiu para encontrar-se com Vadinho e aconteceu o que tinha de acontecer. Dona Rozilda a fazia no fogão de Dona Magá, ela estava empernada com Vadinho em Itapoã.

     Daquele dia em diante a vida de Flor foi inventar pretextos para voltar com Vadinho à casinhola da praia. Recorria à amigas e a alunas: "Se mamãe perguntar se eu saí com você, diga que sim". Diziam, todas lhe tinham afeição e muitas simpatizavam ativamente com sua causa. Após a aula, uma delas anunciava:

     - Vou levar Flor comigo à matinê, a pobre precisa esquecer...

     Parecia estar esquecendo, rejubilava-se Dona Rozilda. Nos últimos dias Flor já não mantinha a cara tão amarrada, desistira de ficar metida no quarto à espera de vê-lo surgir na rua - ao cafajeste para então assumir ostensiva a janela, em franca provocação. O não-sei-que-diga demorava-se a tirar prosa no passeio da negra Juventina. Aquela peste e outras descaradas da vizinhança serviam de espoleta para o namoro, de leva e traz, Dona Rozilda as tinha de olho, um dia lhe pagariam com juros. Flor atirava bilhetes a Vadinho, beijos com a ponta dos dedos. Até Dona Rozilda perder a cabeça e explodir em desaforos contra a filha e o tratante, o patife a rir na esquina.

     Nos últimos dias, no entanto, Dona Rozilda sentira prenúncios de mudanças. A atitude de Flor já não era a mesma, já não cantava modinhas tristes, não tinha na boca o tempo todo o asqueroso apelido do namorado, e ele deixara de mostrar-se na rua. Reaparecera o sorriso de Flor, voltara a dar bom dia e boa tarde, a responder quando Dona Rozilda lhe dirigia a palavra.

     Na Baixa dos Sapateiros a eventual amiga recomendava despedindo-se:

    - Juízo, hein! - e ria cúmplice.

     Riam-se também Flor e Vadinho, enfiavam-se num táxi - sempre o mesmo, pertencia ao Cigano, chofer de praça e velho companheiro de Vadinho -, a toda velocidade no rumo de Itapoã, as mãos agarradas, roubando-se beijos pelo caminho. Cigano ia buscá-los de volta ao crepúsculo, vinham sem pressa, à cabeça de Flor repousando no ombro de Vadinho, os negros cabelos ao sabor da brisa, e uma lassidão, uma ternura - o desejo de continuarem juntos, por que se despediam?

     Vadinho, numa exigência crescente reclamava, passar uma noite inteira com ela, não mais lhe bastando tê-la a seu lado e possuí-la; queria adormecer em sua respiração, dormir em seu sono. Também Flor desejava essa noite completa, essa posse mais além dos limites do relógio, da hora contada e cada vez menor para seu anseio.

     - Mas... - disse-lhe uma tarde quando ele novamente reclamou - . . . se eu passar a noite fora não posso mais voltar para casa...

     - E para que voltar? A gente se amarra e acabou-se. Tu é que não quis ainda botar tudo em pratos limpos... Não sei por quê.

    - E onde vou ficar até o casamento?

     Fixaram-se em tia Lita e tio porto, a casa do Rio Vermelho era um segundo lar para Flor. Tendo assim resolvido, ela, no dia seguinte, após a aula, trancou-se no quarto e arrumou seus teréns, encheu duas malas e um baú. Depois fechou a porta, pôs a chave na bolsa e saiu dizendo que ia até o Mercado de Yansã, na Baixa dos Sapateiros. Ali, Vadinho a esperava com o táxi, mais uma vez Cigano os conduziu mas, dessa vez, só na manhã seguinte retornou a buscá-los.

     A uma conhecida, vinda por novidades e costuras, Dona Rozilda contou:

     - Flor saiu para fazer compras, volta já. Felizmente não fala mais do tipo, anda menos assanhada...

    - Acaba esquecendo... É sempre assim...

    - Tem de esquecer, queira ou não queira...

     A visita demorou-se, a conversar, Dona Rozilda contando coisas de uma família recente na ladeira, uma gente de Amargosa.

     - Bem, Flor está tardando, vou embora. Lembranças para ela.

     Sozinha, Dona Rozilda à espera. Primeiro levemente em dúvida, logo inquieta, pela noite sabendo de certeza absoluta que Flor perdera o juízo e fugira de casa. Forçou com um canivete a fechadura do quarto, viu as malas feitas, o baú repleto. A fingida estivera a enganá-la, comportando-se como se houvesse rompido com o canalha, para poder sair desatinada a desgraçar-se.  Dona Rozilda ficou de luz acesa a noite toda, a taca ao alcance da mão. Ah! se ela tivesse a audácia de voltar . . .

     Quando, no outro dia, antes do almoço, a irmã e o cunhado apareceram, Porto todo cheio de dedos, ela fez uma cena daquelas, arrancando os cabelos, fora de si:

    - Não quero saber de nada... Aqui não entra mulher-dama, lugar de puta é em castelo...

    Dona Lita subiu nos azeites:

    - Faça o favor de me respeitar. Flor está em minha casa e minha casa não é castelo. Se você não se importa com a felicidade de sua filha, isso é com você. Eu e Thales se importamos e muito. Vim aqui para lhe dizer que Flor vai se casar. Se você quiser, o casamento sai daqui, tudo

direito e em ordem como deve ser. Se você não quiser, sai de minha casa e com muito gosto.

    - Rapariga não casa, se ajunta...

     - Escuta, mulher...

     De nada adiantaram a dialética de tia Lita e a silenciosa presença de tio porto. Não assistiria nem daria seu acordo ao casamento, conseguissem autorização com o juiz, se quisessem, revelando toda a bandalheira, exibindo a desonra da ingrata. Não contassem com ela para encobrir a patifaria, para tapar o rombo da descarada.

    No dia seguinte viajou para Nazareth, onde o filho a recebeu sem entusiasmo. Ele próprio, Heitor, pensava em casar-se e só não o fizera ainda por não lhe permitir o ordenado.

    Disposto a fazê-lo, no entanto, apenas fosse promovido e pudesse economizar alguns mil-réis. Já tinha noiva em vista: uma ex-aluna de Flor, aquela de olhos molhados, que atendia por Celeste.

 

     Indo correr no Sodré uma casa anunciada para alugar, Flor deparou com outra ex-aluna sua, dama de realce, esposa de comerciante da Cidade Baixa, Dona Norma Sampaio, pessoa muito alegre e novidadeira, bonitona, de cuja bondade natural e generoso coração já se deu notícia anterior. Residia ela nas vizinhanças.

     A casa estava na medida das necessidades de Flor, para morada e escola, sendo, ao demais, de aluguel relativamente barato. Pois então se considerasse desde logo inquilina, garantiu-lhe Dona Norma; o proprietário do imóvel era seu conhecido, dar-lhe-ia a preferência, com certeza. Deixasse a seu cuidado, não precisava preocupar-se.

     Foi Dona Norma de muito conforto e consolo em todo aquele transe. Apoderou-se dos diversos problemas da moça e concorreu para a solução de todos eles, a todos deu jeito.

     Para começar, levantou-lhe a moral abatida. De quanto se passara Flor lhe fez minucioso relato. Dona Norma saboreava os detalhes, não lhe viessem com história contada às carreiras, pulando pedaços. Flor sofria com a impressão que o mundo inteiro tivera conhecimento de seu mau passo ("mau passo" era a expressão usada por tia Lita, delicadamente), como se ela trouxesse o estigma da mentira estampado no rosto: mulher sem-vergonha, conhecedora de homem e a bancar moça solteira.

     - Ora, menina, deixe de ser tola... Quem é que sabe que você deu? Quatro ou cinco pessoas, meia dúzia, se muito e acabou-se... Se você quiser, pode até casar de véu e grinalda e quem é que vai reclamar? Sua mãe viajou: ela, sim, era capaz de vir fazer escândalo na porta da igreja...

     Flor não podia ocultar a vergonha, agira mal, mas não tivera outro jeito. Para Dona Norma todo aquele horror reduzia-se a nada:

     - Isso de dar um pouquinho antes de casar sucede a três por dois e com gente muito boa, minha cara...

     Desfiava vasto e curioso noticiário, consoladores exemplos. A filha do doutor Fulano, aquele da Faculdade, não dera a um amigo do noivo às vésperas do casamento, rompendo o compromisso, fugindo  com o outro, casando com ele às pressas. E atualmente não era a nata da sociedade, com o nome nos jornais: "Dona Fulana recebeu os amigos... etcetera e tal...". E aquela outra fulaninha, filha do Desembargador, não foi pegada dando ao noivo - essa pelo menos dava ao próprio noivo - por detrás do Farol da Barra? O guarda os surpreendeu em flagrante, só não levou os dois para a delegacia porque o diligente cavalheiro soltara gorjeta alta. Mas exibira a meio mundo a calcinha da sapeca, aliás uma lindeza de rendas negras. Nem por isso, com todo esse desfile de roupa íntima, ela deixou de casar de véu e grinalda, um vestido por sinal belíssimo, a fulana tinha gosto e dinheiro. E aquela outra sicrana - o pai um mata-mouros que nem Dona Rozilda, trazendo as filhas num cortado, esbregues medonhos, presas em casa - surpreendida em Ondina, nos matos, a dar a um homem casado, a um compadre de seus pais? Casara depois com

um pobre diabo e agora dava quanto podia, "quanto mais melhor" era seu lema; dava a solteiros e casados, a conhecidos e indiferentes, a ricos e pobres. "Muita gente, minha filha, só não dá antes de casar porque não sabe que é tão bom ou porque o noivo não pede. Afinal, antes ou depois, que diferença faz me diga?"

      Não apenas minimizou sua falta, devolvendo-lhe o ânimo, como a assistiu e dirigiu nas compras indispensáveis para tornar a casa habitável, móveis e utensílios. Inclusive a cama de ferro, com as cabeceiras e os pés trabalhados, adquirida em segunda mão a Jorge Tarrapp, leiloeiro com loja de antiguidades e velharias à rua Ruy Barbosa e, como não podia deixar de ser, amigo de Dona Norma. Um bom sujeito, esse Jorge, sírio alto e vermelho, quase apopléctico; ao saber do próximo casamento de Flor, ofereceu-lhe de quebra e presente meia dúzia de cálices para licor. Dona Norma concorreu com um par de toalhas de banho e de rosto, toalhas alagoanas, de primeira. E lhe cedeu, pelo preço antigo de custo ou seja quase de graça, sensacional colcha de cetim azul-hortênsia com ramos de glicínias, estampados em lilás, um monumento de chique. Dona Norma a levara em seu pomposo enxoval peça de resistência, presentão de uns tios residentes no Rio. Pois bem; o maníaco do Zé Sampaio tomara birra da colcha, segundo ele o lindo azul-hortênsia era um roxo funéreo e aquele trapo só servia para cobrir esquifes. Por causa da maldita colcha quase brigam na própria noite do casamento. Não fosse Dona Norma estar morta de curiosidade pelo que se iria passar, e teria reagido aos resmungos e as malcriações de Zé Sampaio. Não se conformara ele enquanto a coberta não foi guardada e para sempre. Nunca mais teve uso, nova em folha, na Rua Chile custava um dinheirão.

     Por falar em colcha, a contribuição única de Vadinho para o enxoval constou de colorida colcha de retalhos. Obra coletiva das raparigas do castelo de Inácia, todas elas admiradoras do noivo, a começar pela nobre Inácia, mulata de cara picada de bexiga, a mais jovem casteleira da Bahia, nem por isso menos experiente. De quando em quando Vadinho aportava em seu leito, nele em xodó se demorando dias e semanas.

     Não lhe cabia culpa de comparecer com tão pequena quota no total desses intermináveis gastos onde as economias de Flor, economias de anos de trabalho, se consumiam rápidas. Muito desejara Vadinho arcar com todas as despesas ou com a maior parte, para tanto muito esforço

despendera. Nunca os amigos o haviam visto assim nervoso e persistente nas mesas de roleta, mas o dezessete seu número - andava escasso, era como se houvesse sido retirado da numeração. Tentou igualmente no grande e no pequeno, na ronda e no bacará; a sorte estava arredia contra ele, urucubaca das miúdas. Esforçou-se a ponto de já não ter a quem morder e esfaquear,  a quem pedir empréstimo, obrigado a recorrer à própria noiva, afanando-lhe uma pelega de cem.

      - Não é possível que o azar continue hoje, meu bem. Vou amanhecer aqui com uma carroça de dinheiro, tu compra meia Bahia sem esquecer uma dúzia de champanha para o dia do casório.

     Não trouxe nem dinheiro nem champanha, estava mesmo azarado, até quando iria durar a má-sorte?

     Assim, só houve champanha no casamento civil, realizado em casa dos tios. Thales porto abriu uma garrafa e o juiz brindou com os nubentes e a família. Também o ato religioso foi simples e rápido, compareceram apenas algumas amigas íntimas de Flor e seu Antenor Lima, além de tia Lita e tio Parto (e Dona Norma, é claro). Dona Magá Paternostro, a milionária, não pôde vir mas mandou pela manhã uma bateria de cozinha, esse sim, um presente útil. De parte de Vadinho, apenas o Diretor do Departamento de Parques e Jardins da Prefeitura - a quem o relapso funcionário, aproveitando o matrimônio como pretexto, esfaqueara, assim como aos colegas -, Mirandão e esposa, senhora magra e loira, avelhantada, e Chimbo. A presença do Delegado Auxiliar levou Thales Porto a comentar para Dona Lita: nem tudo era balela na história tramada pelos capadócios para debicar de Dona Rozilda. O parentesco de Vadinho com o importante Guimarães, isso pelo menos não era invenção.

     Celebrou a cerimônia religiosa Dom Clemente, capelão de Santa Tereza, graças a um pedido de Dona Norma. Vadinho exibia sua vistosa elegância de cabaré, Flor toda em azul e em sorrisos, os olhos baixos. Dona Norma não conseguira convencê-la a ir de branco, com véu e grinalda, a boba não tivera coragem. As alianças foram as de Mirandão, emprestadas na hora. Na véspera, no Tabaris, haviam feito uma coleta e juntado o dinheiro necessário para Vadinho pagar as alianças já escolhidas na joalheria de Renot. Meia hora mais tarde Vadinho perdeu até o último tostão em casa de Três Duques. Ainda assim poderia tê-las obtido fiado, se as tivesse ido buscar. O joalheiro, se bem com fama de esperto, não conseguia resistir à lábia de Vadinho, por mais de uma vez lhe emprestara dinheiro. Tresnoitado, porém, o noivo dormira toda a manhã, saindo às carreiras para o Rio Vermelho no táxi do Cigano.

     Quando já deixavam a igreja, surgiu o banqueiro Celestino empunhando um ramalhete de violetas. Foi apresentado a Flor - Dona Flor, a partir de agora, como compete a uma senhora casada. Beijou-lhe a mão, desculpou-se pelo atraso, acabara de saber, nem tivera  tempo de comprar uma lembrança. Passou discreto uma cédula a Vadinho, os convidados, a começar por Chimbo e Dom Clemente, vinham pressurosos cumprimentar o mandachuva português.

      Os recém-casados despediram-se no pátio do convento, apenas Dona Norma os acompanhou até a nova residência em cuja fachada já fora suspensa à tabuleta da Escola de Culinária Sabor e Arte. Na porta de casa, Dona Flor convidou a vizinha:

    - Entre pra conversar um pouquinho...

    Dona Norma riu, maliciosa:

    - Só se eu fosse bronca... - apontou as nuvens escuras no mar. - Está chegando a noite, é hora de dormir...

    Vadinho concordava:

    - Falou pouco e disse tudo, vizinha. Aliás, para esse assunto eu tenho disposição a qualquer hora, com sol ou de noite, não faço diferença e não cobro extraordinário... - abraçou Dona Flor pela cintura, saiu andando com ela pelo corredor e, numa pressa, a ia desabotoando e despindo.

     No quarto, derrubou-a em cima da colcha azul-hortênsia, arrancava-lhe combinação e calça. Dona Flor nua, estendida no leito, as primeiras sombras de crepúsculo caindo-lhe sobre os seios erguidos.

     - T'esconjuro! - disse Vadinho - Essa coberta que tu arranjou, meu bem, parece mortalha de defunto. Tira isso da cama, minha peladinha, traz aquela de retalhos, em cima dela tu vai parecer ainda mais porreta. Essa, a gente guarda pra botar no prego, deve dar um dinheirão...

     Sobre a colorida colcha de retalhos, muda em seu recato, coberta apenas com a meia sombra de crepúsculo, Dona Flor finalmente casada. Dona Flor com seu marido Vadinho; ela mesma o escolhera sem dar ouvidos aos conselhos das pessoas experientes, contra a expressa vontade de sua mãe, e, mesmo antes de casar-se, a ele se entregara sabedora de quem ele era. Podia estar a fazer uma loucura, mas, se não a fizesse, não tinha motivo para viver. Um fogo a consumia, vindo da boca de Vadinho, de seu hálito, e seus dedos queimavam-lhe a carne como chamas. Agora, casados, com todo o direito ele a despia, e a seu lado, no leito de ferro, a olhava a sorrir. Seu marido bonito, penugem doirada a cobrir-lhe braços e pernas, mata de pelos loiros no peito, a cicatriz da navalhada no ombro esquerdo. Estendida junto a ele, Dona Flor parecia uma negra,

negra e pelada. Nua por dentro também, amargando de desejo, fremente, com pressa, muita pressa, como se Vadinho lhe despisse a alma. Ele dizia coisas, maluquices.

     Vadiaram até não mais poder, quando ela então puxou a colcha, se cobriu, adormeceu. Vadinho sorria e lhe catava cafuné, Vadinho seu marido. Belo e másculo, terno e bom.

     Pela madrugada Dona Flor acordou, o despertador à cabeceira marcava duas horas da manhã. Vadinho não estava na cama, Dona Flor pôs-se de pé, saiu a procurá-lo pela casa. Vadinho sumira, fora arriscar com certeza os cobres dados pelo banqueiro. Na própria noite de núpcias, era demais. Dona Flor chorou suas primeiras lágrimas  de casada, rolando no colchão, roída de desgosto, rangendo os dentes de desejo.

 

     Sete anos decorreram entre aquelas primeiras lágrimas choradas por Dona Flor na noite de núpcias e as da aflita manhã de domingo gordo quando Vadinho caiu sem vida em meio a um samba de roda, entre fantasias e máscaras. E, como bem disse Dona Gisa - senhora de bem dizer as coisas, adrede e com exato a propósito - ao ver o corpo do moço estendido nas pedras do Largo Dois de Julho, já de todo e para sempre morto: a esposa chorara naqueles sete anos por seus insignificantes pecados e pelos do marido - pesada carga de culpas e malfeitos - e ainda sobravam lágrimas. Lágrimas de vergonha e sofrimento, de dor e humilhação.

     Derramadas sobretudo à noite. Noites ermas da presença de Vadinho, noites insones de espera, longas de passar como se a aurora recuasse para os limites do inferno. Por vezes a chuva cantava seu acalanto nos telhados, o frio a pedir corpo de homem, quentura de um peito com mata de pêlos, abrigo em braços fortes. Dona Flor em vigília, impossível adormecer; o desejo de tê-lo a seu lado era uma ferida exposta. Estremecia em arrepios, num desconforto de tristeza, naquela cama cheia apenas de ânsia e de abandono.

     Com Vadinho presente - Ah! com Vadinho presente nem frio nem tristeza. Dele vinha um calor alegre a subir das pernas para o rosto de Dona Flor e a noite se abria em júbilo. Dona Flor sentia-se agasalhada e festiva, um pouco irresponsável como se houvesse bebido um copo de vinho ou um cálice de licor. A presença noturna de Vadinho a embriagava, vinho de buquê inebriante, como resistir à sedução de sua boca de palavras e língua? Eram noites de exaltado ímpeto, feéricas noites de aleluia.

     Escassas, porém, essas noites em que o tinha sem sair após o jantar, estirado no sofá, a cabeça em seu colo, a ouvir o rádio, a contar-lhe histórias, a mão indiscreta a cutucá-la, a bulir com ela,

tentando-a; e logo cedo no leito de ferro, na longa cavalgada. Aconteciam de raro em raro. Quando ele, num enjôo repentino e imprevisível,  abandonava por três quatro dias, por toda uma semana, a estroinice, a baderna, a cachaça e o jogo e permanecia em casa. Dormindo a maior parte do tempo, futucando nos armários, abusando as alunas, exigindo Dona Flor para vadiar a qualquer hora, mesmo nas mais impróprias e indiscretas. Dias curtos e cheios esses, com o doidivanas a remexer em tudo, o riso trêfego a ressoar pelo corredor, na janela em prosa com os vizinhos, ouvindo ralhos de Dona Norma, em longos bolodórios com Dona Gisa, enchendo de movimento e alegria o lar e a rua. Contadas a dedo essas noites inteiras de vertigem e euforia, de riso incontido e cócegas, cafunés, cariciosas palavras e o baque dos corpos desatados no leito de ferro. "Meu doce de côco, minha flor de manjericão, sal de minha vida, minha quirica pelada, tua xoxota é meu favo de mel", que ele dizia, ai as coisas que ele dizia, nem te conto, seu mano!

      Repetidas em infindável rosário as noites de espera, essas sim. Dona Flor dormia sobressaltada, acordando ao menor ruído; ou de todo sem dormir, encostada em ira e dor nos travesseiros até adivinhar-lhe o passo ainda distante e ouvir a chave na fechadura. Pela maneira como a porta era aberta ela sabia da altura da cachaça e do resultado do jogo. Fechava os olhos, a fingir-se adormecida.

      Por vezes ele chegava pela madrugada e ela o recolhia em sua ternura, agasalhava seu sono tardio. O rosto fatigado, um sorriso vencido, ele se enrolava como um novelo na concha de seu corpo. Dona Flor engolia as lágrimas para Vadinho não se dar conta do choro e da tristeza: ele já tinha muito com que se amofinar, os nervos rotos na emoção da batalha contra a má sorte. Quase sempre bebido, várias vezes bêbado, adormecia de imediato, não sem antes correr-lhe a mão numa carícia e murmurar: "Minha negra pelada, hoje me enterrei mas amanhã tiro a forra..." Dona Flor continuava em vigília e em desejo, sentindo o corpo de Vadinho contra o seu a estremecer no sonho, persistindo em jogar e ainda perdendo. A dormir, repetia números na

danação da roleta: "dezessete, dezoito, vinte, vinte e três", seus quatro números fatais. Ou reclamava com raiva: "deu gata". Flor seguia as variações de seu sonho, e o via a apostar na "lebre francesa", melhor dito no "grande e pequeno", o banqueiro levando as fichas de todo mundo,

pois dera gata. Ela acabara por conhecer toda a nomenclatura, a gíria, a louca matemática e a secreta sedução das arapucas do jogo. E, assim, pela madrugada, ela o protegia contra o mundo, contra as fichas e os dados, contra os crupiês, contra o azar. Cobria-o com seu corpo e o acalentava; assim dormido Vadinho era uma criança loira, um menino grande.

     Sucedia também ele não vir, prosseguindo a espera dia a fora, prolongando-se na noite seguinte, já apodrecida em humilhação. Ao vê-la silenciosa e triste, as alunas evitavam as perguntas molestas para não desatar confusas lágrimas de pejo. Entre si, comentavam em ásperas

críticas à conduta e má vida do trampolineiro. Como tinha coragem de fazer chorar tão boa esposa? Mas, bastava ele surgir com sua voz matreira, suas lérias, sua velhacaria, e elas, quase todas, se derretiam assanhadas, uma coceira no rabo e no chibiu.

     Durante o dia, Vadinho multiplicava-se em esforço e correria, por vezes em desespero, para arranjar numerário para o jogo: em mesa de roleta não tem fiado, ficha só se vende à vista. Rondava pelos Bancos, zanzando em torno aos gerentes e subgerentes, para garantir o desconto de uma promissória; cheio de astúcias ao dobrar e convencer hipotéticos avalistas para esse prometido desconto, ou para arrancar quase à força e a juros absurdos umas centenas de mil-réis das unhas somíticas de um agiota. Capaz de levar uma tarde inteira junto a um sovina qualquer,

daqueles difíceis na queda, tinha certa satisfação em vencê-los, vendo-os finalmente tomar da caneta e apor a assinatura na letra promissória, sem forças para maior resistência. Avalizar um título ou dar o dinheiro, era a mesma coisa. Aliás, alguns mais práticos, assim resolviam o assunto: Vadinho aparecia com uma letra de um conto de réis a pedir aval, a vítima soltava-lhe uma nota de cem ou de duzentos para se ver livre. Porque senão, corria o perigo de assinar e, trinta ou sessenta dias depois, encontrar-se às voltas com um título vencido e sem pagamento. Perigo sério porque Vadinho não dava sopa a ninguém. Para resistir à sua lábia era preciso mais do que avareza, era preciso ser um zarro de inabaláveis convicções ideológicas, um insensível aos dramas da vida, um fanático, um sectário sem coração. Como o italiano Guilherme Ricci, da Ladeira do Taboão, de lendária canguinhez. Impávido, levou anos resistindo a Vadinho.

     Outro a resistir com brilho foi o livreiro Deneval Chaves, naquele tempo ainda simples gerente de livraria, não o ricaço de hoje. Mas um dia Vadinho colou-se a ele pela manhã, almoçaram juntos, entraram pela tarde, a aperreá-lo seis horas seguidas, tempo controlado por Mirandão em seu autêntico relógio suíço. Tonto, os ouvidos cansados, rendeu-se o esperto Deneval:

     - Vadinho, eu lhe juro que esta é a primeira letra que eu avalizo em minha vida...

     - Pois começa bem, meu velho, não podia começar melhor. E uma estréia de primeira ordem, agora é só continuar. Aliás, quem avaliza uma vez título meu não pára mais, toma gosto...

     Saiu correndo para o Banco, deixando o gordo gerente de boca aberta, adernado sobre o balcão de livros, jururu, sem ainda entender a razão do gesto louco, de autógrafo absurdo.

     Nos tempos em que o jogo funcionava à tarde e à noite no Tabaris, Vadinho nem vinha jantar. Comia uma besteira qualquer, um acarajé, um abará, um sanduíche, indo cear alta madrugada, quando a última porta se fechava na derradeira arapuca... Os mais renitentes - ele, Giovanni, Anacreon, Mirabeau Sampaio, Meia Porção, o negro Arigof, elegante como um príncipe de romance russo - saíam em grupo para a Rampa do Mercado, as Sete Portas, a casa de Andreza, para um frege-moscas qualquer onde houvesse um caruru de folhas, um vatapá de peixe, cerveja gelada, cachaça pura.

     Quando por acaso vinha jantar, era para sair logo depois, antes das nove, sempre apressado. Frustrando as esperanças de Dona Flor de vê-lo chegar da rua como os maridos das demais chegavam do trabalho; indo pôr-se à vontade, vestir o pijama, ler os jornais, comentar os fatos,

convidá-la talvez para uma visita ou para um cinema. Quanto tempo ela passava sem ir ao cinema? Era preciso que Dona Norma a arrastasse à matinê, pois com Vadinho era tão raro e inesperado -, decorriam meses sem saírem juntos. Nunca deixou de lhe perguntar, no entanto, ao

vê-lo despir o paletó e afrouxar o nó da gravata:

    - Hoje tu não sai mais, não é?

    Vadinho sorria antes de responder:

    - Saio mas volto logo, meu bem. Não demora nada, tenho um compromisso mas é rápido... - resposta também invariável.

     Certas vezes chegava antes do jantar mas com outro objetivo. Nos dias de total derrota: quando, ao cair da tarde, nada havia obtido, fracasso absoluto em todas as tentativas; falho o palpite do bicho, insensível os gerentes dos Bancos, sumidos os avalistas, ninguém para morder. Nesses dias de caiporismo sem jeito vinha para casa azucrinado. Ele, sempre tão glutão, amando saborear os quitutes de Dona Flor, suas receitas sem igual, nessas tardes comia em silêncio, inquieto, e comia pouco, às carreiras, sem ligar à comida. Lançava olhares sorrateiros à esposa como a medir-lhe o humor, sua receptividade. Porque vinha para lhe pedir dinheiro, sempre emprestado, é claro, com formais promessas de pagamentos, todas até hoje por cumprir. E ela terminava entregando-lhe algum, por bem ou por mal; em certas ocasiões em doloroso e mesmo sórdido constrangimento. Eram os dias do pior Vadinho, quando ele se vestia de bruta irritação, quando seu encanto e graça davam lugar a uma cruel estupidez.

     Dona Flor sabia, antes mesmo dele pronunciar uma só palavra, de suas intenções malsãs. Ele chegava molesto do fracasso na rua, um surdo enfado a marcar-lhe o rosto. Naqueles anos ela aprenderá a conhecê-lo nos mínimos detalhes, desde o peso e a cadência de seu passo até o brilho matreiro de seus olhos quando os punha numa fêmea qualquer, nas rumorosas alunas, no decote de Dona Gisa, ou, indo com Dona Flor pela rua, em quantas encontrava, a despi-las mas ou .menos conforme mais ou menos elas o merecessem por bonitas ou feias.

    Distribuía-se Vadinho no correr da tarde em busca de fundos para as apostas, vinha ou não jantar, carinhoso ou brusco, e, com a noite, novamente rumava para seu torvo destino.

    Torvo? Não se aplicavam à natureza de Vadinho nem cabiam em sua realidade adjetivos assim tão solenes e lúgubres. Destino noturno, sim, mas torvo não. Em Vadinho não assentavam as sombras  e os negrumes, as angústias e os dramas tão ao sabor das virtuosas campanhas contra o

jogo. Não lhe tremiam as mãos ao depositar as fichas nem uivava de remorso pela madrugada.

     Uma agonia, sem dúvida, quando a bola girava na roleta, o coração apertado em ansiedade, mas uma agonia gostosa. Jamais lhe ocorreu o vislumbre sequer de uma idéia suicida; nunca o nobre remordimento a devorar-lhe o peito; nunca a voz trágica da consciência a acusá-lo; imune a toda essa espantosa série de horrores a infelicitar a vida dos desgraçados que se deixam jugular ao vício da batota. E uma lástima, porém, que fazer, se era assim? Impossível apresentar Vadinho sob tão simpática luz: como jogador acorrentado à sina irrevogável odiando-se a si mesmo, querendo libertar-se e sem poder, a remir-se com um tiro nas têmporas à saída do cassino.

    Era um destino tenso e rude, um destino de macho, isso certamente. Nenhum frouxo agüentaria aquela batalha a cada noite e a cada instante da noite, mas nunca Vadinho fizera do emocionante embate uma catástrofe de crimes e remorsos, infortúnio sinistro é irremediável. Sinistro? Era variado e divertido seu destino. Irremediável? Sempre havia alguém para lhe emprestar dinheiro; incrível como tanta gente se decidia a fazê-lo. Quem sabe, faziam-no para assim arriscar-se no jogo sem ir aos cassinos proibidos, às espeluncas mal-afamadas? Destino de fundas e exultantes emoções.

     Como naquela noite de agosto de início tão ruim: ele tentando afanar o dinheiro de Dona Flor, ela resistindo, era o dinheiro das despesas, e a discussão, os desaforos, as queixas, os gritos e os insultos. Soltara finalmente trinta míseros mil-réis e com eles Vadinho iniciou a gloriosa marcha. No Abaixadinho os dados rolavam na "lebre francesa". Vadinho colocou dez mil-réis no grande - só apostava no grande - e o chorrilho teve começo. Deu grande, acredite-se ou não, quatorze vezes seguidas e Vadinho mantendo as apostas, rodeado por uma nervosa aglomeração de jogadores e meretrizes, disposto a sustentar o grande até o fim dos séculos. Ao saber, Mirandão veio correndo como um doido da outra sala onde jogava ronda, e gritou-lhe:

     - Pare pelo amor de seus filhos, que a sorte vai virar.

     Vadinho não tinha filhos e não ia parar, mas Mirandão que os tinha, metera as mãos nas fichas e as retirara ele próprio, empurrando Vadinho, levando-o dali. Com razão, pois deu o pequeno e depois deu gata, novamente o pequeno e gata outra vez, enquanto Vadinho saía a contragosto e opulento.

     Naquela noite, os bolsos abarrotados, recordando Dona Flor a lhe dizer, em prantos, "você não presta mesmo, não vale nada e não gosta nem um pingo de mim", ele desejou chegar em casa ainda cedo e com um presente, mas um presente de arromba, não uma pinóia qualquer. Um colar, um anel, uma pulseira, uma jóia de valor. Onde, porém, adquiri-la, se o comércio estava fechado? Quem sabe, opinou Mirandão, conseguiria ele um troço vistoso com uma quenga da zona? Mulheres-damas por vezes recebem valiosas dádivas; quando enxodozadas com um coronel do cacau ou fazendeiro do sertão aproveitam-se para encher seu pé-de-meia, algumas até deixam de fazer a vida, estabelecendo-se com salões de beleza ou armarinhos. Mirandão conhecia duas que terminaram por se casar e deram em senhoras honestíssimas.

     Saíram a procurar, correram ceca e meca, de cabaré em cabaré, de castelo em castelo, de pensão em pensão, e aonde chegavam iam baixando cerveja, vermute e conhaque para quem quisessem beber, as despesas por conta do Vadinho. Expuseram e revolveram os pobres enfeites de dezenas de raparigas, não encontravam senão quinquilharias, metal cromado, vidro colorido, latão - e a noite a avançar.

     "Quero chegar cedo, fazer uma surpresa completa", Vadinho com pressa, vexado, antegozando a cara de Dona Flor ao vê-lo antes da meia noite, de presente na mão. Só faltava encontrar mimo de valia, de encher o olho, não aquelas bugigangas de mascate. Foram encontrá-lo finalmente na Ladeira de São Miguel, no buduar - como dizia pernóstico Mirandão - de Madame Claudette, acabada cortesã sobrevivendo à custa de mínima clientela de colegiais, que a freqüentavam devido à sua nacionalidade francesa e a propalados requintes, tudo muito parisiense e a baixo preço.

     Colar de turquesas de um azul realmente tão formoso a ponto de Vadinho e Mirandão sentirem o impacto dessa beleza ilustre e seu fascínio. Todo em ouro trabalhado; a velha marafona o apertava entre os dedos como a defendê-lo.  Era uma jóia de família, segredava, ela a

trouxera da Europa, fora usada por sua mãe e por sua avó, tinha um duplo valor. Só mesmo muito dinheiro podia levá-la a desfazer-se daquela preciosidade, recordação de um mundo perdido na Lorraine e na infância. Só por muito, muito dinheiro; "lê petit Vadinho, lê pauvre" nunca tocara quantia tão grande e, se um dia a obtivesse, não a iria gastar em adorno de mulher. Quando fizera Vadinho caso de dinheiro, Madame? Mesmo limpo, no miserê, a nenhum, sem tostão furado, nem assim dava valor ao dinheiro, e se o buscava em insensato afã era para jogá-lo fora na roleta. Arrancava num ímpeto as cédulas dos bolsos cheios. Quase ficam vazios: os olhinhos de Madame Claudette se incendiar de cobiça atrás da máscara de pó de arroz e creme, aquela múmia fremia à vista das notas de cem e de duzentos.

    O táxi do Cigano o deixou na porta de casa às onze e quarenta, antes da meia noite, como ele queria. Dona Flor apenas teve tempo de fechar os olhos e ressonar de leve e já Vadinho estava no quarto, arrancando o lençol a esconder o corpo da esposa, pondo-lhe fulgurações de turquesas

entre os seios túmidos, a rir numa gaitada:

    - E tu que não queria me emprestar dinheiro, sinhá tola... - esparzia as cédulas pela cama, ainda lhe sobrara para mais de dois contos de réis.

    Como dizer "torvo destino" para quem era assim alegre jogador, a sorrir na sorte e no azar, cheio da alegria de viver?

     Torvo destino talvez na opinião de Dona Flor, de seu ponto de vista, de seu posto de observação ou, para melhor esclarecer, de seu posto de espera. Torvo para Dona Flor, no leito a esperar.

    A espera-lo durante sete anos, uma vida. Dona Flor chorou muitas lágrimas naqueles anos, vadiou também muita vadiação; os doces momentos de ternura e posse buscando compensar as noites amargas de ausência e humilhação. Um dia, Dona Gisa com sua fumaças de psicologia, psicanálise, psicografia e outras invencionices norte-americanas, explicou-lhe ser ela, Dona Flor, casada com um excepcional – não excepcional no sentido em que Dona Flor ouvia o termo, como sinônimo de grande, de maior, de melhor de todo; nada disso. Excepcional significando diferente, fora do normal, alguém que não cabia nas medidas habituais nem se podia prender nos limites de um quotidiano medíocre e monótono. Era Dona Flor capaz de entendê-lo e de ser feliz com ele? Tretas de Dona Gisa, boa amiga sem dúvida, porém uma letrada dos seiscentos demônios, a cabeça cheia de caraminholas e a língua de aperreio.

     Dona Flor desejava ser como todo mundo, seu marido como os demais maridos. Não tinha ele um emprego na Municipalidade, obtido por seu parente rico, doutor Airton Guimarães, apelidado Chimbo? Ela o queria vindo do emprego para casa, os jornais sob o braço. um embrulho com biscoitos ou cocadas, de abarás e acarajés. Jantando na hora exata como os outros, saindo em certas noites com ela, a passeio, de braço dado, gozando a brisa e a lua. Amoroso, no leito a vadiar. A vadiar antes de dormir, ainda cedo, e nos dias certos de vadiação.

     Como era é que não podia ser: Vadinho sem hora de chegar, dormindo freqüentemente na rua, com certeza no leito das vagabundas, de antigos e renovados xodós; querendo vadiar e vadiando em horas tardias e as mais absurdas, em qualquer dia sem determinação, sem relógio nem almanaque. Não havia horário nem sistema, tampouco hábito estabelecido ou tácita convenção, um costume dos dois, nada. Era aquela anarquia sem cabimento, ele na rua todas as noites sem lhe dar notícia, ela no leito de ferro roendo a dor de cotovelo, aguda dor de corno e uma dor no peito, uma aflição. Por que todas as outras mulheres casadas faziam jus aos seus maridos, só ela não? Por que não era Vadinho como todos os demais, com a vida regulada e em ordem, sem os sobressaltos, os cochichos, os fuxicos, a infindável espera? Por quê?

     Tudo aquilo - a espera, o jogo, a cachaça, as noites fora de casa, os gritos, a violência, a vilania -, tornou- se tudo um hábito com o passar do tempo, mas Dona Flor ainda não se acostumara inteiramente e morreria sem se acostumar.

     Aliás, quem morreu foi ele, Vadinho, no carnaval. Daí por diante, Ah! daí por diante o desejo já não teve sequer direito à espera, à expectativa, à ânsia. A ausência de Vadinho adquirira outra dimensão. Também o sofrimento, outro era seu peso. Não mais adiantava a Dona Flor ficar de ouvidos atentos a cada ruído na calçada, o coração sôfrego, a latir. Agora sem espera e sem esperança, de nada servia atentar à cadência dos passos, dos passos dos bêbados sobretudo, ao barulho sutil da chave na fechadura, ao som de uma canção perdida, de uma toada na distância.

     Sim, de uma toada na distância. Porque houvera noites, durante aqueles sete anos de casamento e espera, em que Vadinho veio acordá-la em serenata, com violão e cavaquinho, violino e flauta, trompete e bandolim, a repetir aquela outra inesquecível serenata da Ladeira do

Alvo, quando ela acabara de saber da verdadeira condição de seu amor: pobre, sem vintém, funcionário chinfrim, picareta e facadista, cachaceiro, libertino e jogador.

 

     Agora, estendida no leito de ferro, Dona Flor buscava não ouvir o matraquear de Dona Rozilda na porta da rua, em animada palestra com Dona Norma, para melhor recolher na memória perdida, na distância do tempo, as vozes dos cantores, o ritmo dos instrumentos, aquela emocionante serenata da Ladeira do Alvo; para encher suas horas e conter seu coração nessas noites não mais de espera pois ele morrera, seu marido. Contava agora tão-somente com um mundo de lembranças, nele recolhida, refugiada em recordações, cinzas com que apagar a brasa do desejo vivo. Como se houvesse erguido um muro de clausura, a separá-la do cochicho e do mexerico, das conversas  e dos comentários, de quanto perturbasse sua viuvez recente, aquela nova realidade de ausência. Nos tempos iniciais do nojo, movia-se apenas na dor e na ânsia, na necessidade e na impossibilidade de tê-lo ali, a seu lado. Impossível para sempre e nunca mais.

     Abafando, sob a música e o canto recordados, a voz e o escárnio de Dona Rozilda, abrigava-se, Dona Flor nas lembranças do passado: naquela noite chegara à janela com os primeiros acordes. Doía-lhe o corpo, o couro cru fizera-lhe um lanho no pescoço, ela era um trapo, um trapo batido e aviltado. Vadinho subia a ladeira a cantar, os braços erguidos para o alto. Reconheceu os demais: a voz inconfundível e inigualável de Caymmi, Jenner Augusto mais pálido ainda sob a lua, e, a acompanhá-lo nos instrumentos e no coro, Carlinhos Mascarenhas, Edgard Cocô, doutor Walter da Silveira e Mirandão. Fora buscar correndo aquela rosa escura e rara, colhida na véspera no jardim de tia Lita. Tudo andava revolto em sua vida, numa barafunda, em completo descontrole, ela própria submetida à férrea autoridade de Dona Rozilda. A música lhe dera forças e coragem. De repente se sentiu satisfeita por não passar Vadinho de reles serventuário municipal, lotado em mísero emprego, e não lhe importava fosse ele irrecuperável jogador.

     Com a lembrança de noites assim, de luar e ternura, Dona Flor, insone, tenta aplacar a dor e o desespero de saber que nunca mais Vadinho virá tocar e acender as brasas de seu corpo. Na noite longa de espera, não voltará a ouvir na rua a sua voz desafinada, em outras serenatas.

     Acontecia quando Vadinho, tendo excedido todos os limites noites seguidas sem dormir em casa ou como naquela vez em que, ainda recém-casados, jogara o dinheiro do aluguel e nada lhe dissera, fazendo-a passar por caloteira -, queria fazer as pazes, pois Dona Flor, nessas ocasiões, deixava de se dirigir a ele, desconhecendo sua presença, como se não tivesse marido. Inquieto, Vadinho rondava suas saias, com palavras aduladoras, convites e provocações para excitá-la e conduzi-la a vadiar. Nas trincheiras da mágoa e do vexame, resistia Dona Flor.

     Vadinho apelava para as grandes cartadas: ir com ela ao cinema, acompanhá-la a pagar visita há tanto tempo devida a Dona Magá ou ao padrinho de Heitor, doutor Luís Henrique. Ou bem organizava uma serenata, vinha acalentar seu sono, deslumbrando a rua. Não mais trazia, no entanto, a Dorival Caymmi com o mistério de sua voz nem ao doutor Walter da Silveira. Caymmi emigrara para o Rio, fazia programas na rádio carioca e gravava discos, cantores de renome lançavam seus sambas, suas modinhas praieiras. Doutor Walter, nem falar: juiz no interior, a flauta encantada ninando apenas o sono dos filhos pequenos, uma coorte de meninos e meninas, um por ano quando não dois numa única barriga. Não era fácil, nesses levianos tempos de irreflexão e desatino, encontrar quem cumprisse seus deveres - todos os seus deveres sem exceção – com tamanho senso de responsabilidade quanto o zeloso e culto magistrado.

     Agora também já não viria, e nunca mais, ai nunca mais!, Vadinho. Nem sua voz, nem seu riso de deboche, nem sua mão corrida, sua mata de pelos loiros, seu atrevido bigode, nem seu sono de fichas e paradas. Dona Flor já não tinha sequer a espera dolorosa. O que não se dispunha a pagar para novamente caber-lhe o direito ao sofrimento de aguardá-lo, à agonia de escutar o silêncio noturno da rua pacata, de sentir o passo do marido, incerto no peso da cachaça!

     De nada adiantava rogasse Dona Norma a Dona Rozilda, na porta da frente, apelando para sua compreensão:

     - Quanto menos se fale em Vadinho, melhor, mais fácil ela esquecer. Flor ainda está muito sentida, para que ficar lembrando as ruindades dele, azucrinando a pobre?

     Não adiantava. Dona Rozilda tinha vindo mesmo com a intenção de azucrinar; não conhecia outra maneira de distribuir consolo. Como estancar aquelas lágrimas imerecidas, senão vomitando cobras e lagartos contra o finado? Já antes dissera e repetira: aquela não era morte para choro e, sim, para foguetório. Na conversa noturna, alardeava mais uma vez sua opinião quase aos gritos, pouco lhe importando quem a ouvisse.

     Não adiantava tampouco, porque Dona Flor, no ruído ou no silêncio, não consegue esquecer. Nem os mal- feitos, as ruindades, quanto mais e principalmente as horas boas e a gentil presença, as doidas palavras do perdido e sua força de homem a possuí-la, e sua fragilidade de homem a acolher-se em seu corpo, a proteger-se  em sua ternura.

     Sofrimento quase mórbido, doentio, amargo desinteresse pela existência. Em esforço quotidiano, no entanto, Dona Flor procurava superar o vazio interior, conter as lágrimas, ir adiante. Depois da missa de sétimo dia, reabrira a escola de culinária. As alunas retornaram, a princípio evitando as troças habituais, as piadas maliciosas, as anedotas, as gargalhadas de entremeio com as receitas, a criarem a atmosfera cordial e simpática das aulas em torno aos fogões de lenha e de carvão. Não durou mais de dois ou três dias esse cenário de luto, a alegre normalidade se impunha, e a própria Dona Flor gostava que assim fosse: distraia-se, rompia o círculo de cinzas.

     Retornaram todas, exceto a pequena Ieda com sua cara de gata arisca e seu desvendado segredo. Receio de enfrentá-la, a ela, Dona Flor, ou de enfrentar a casa órfã da graça de Vadinho, de seu riso, de suas astúcias, de sua insolência?

     No que concerne a Dona Flor, podia vir, já não lhe importa saber nem discutir, muito menos acusar. Só uma coisa tem vontade de por em pratos limpos: estaria de barriga, a fingida, prenha dele, grávida de filho seu?

     Dona Flor jamais pegara menino, mas sabia ser culpa sua e não do marido. A doutora Lourdes Burgos, sua médica, lhe explicara, e o doutor Jair havia confirmado e proposto ligeira operação capaz de torná-la fecunda, quem sabe? Medrosa, Dona Flor furtou-se à cirurgia: ao demais, doutor Jair não lhe dera certeza absoluta de sucesso. Assim, nas trampolinagens do marido o que mais a preocupava era o receio dele arranjar um filho por aí, na rua ao deus-dará.

     Dona Flor não conseguira esclarecer jamais se Vadinho o desejava ou não, a esse filho. O receio do hospital e do bisturi teria impedido uma conversa mais franca, teria contido Dona Flor em perguntas mais ou menos formais? Ela própria não sabia. Que por várias vezes o interrogara, era certo:

    - Tu não sente falta de um filho?

     Talvez porque Vadinho a soubesse estéril e temerosa da operação, talvez por isso escondesse sua vontade de uma criança em travessuras na casa, menina de loiras melenas onduladas como as dele, menino de negros cabelos e de pele cobreada como os dela. Uma vez, ouvindo-o enaltecer o

encanto de um corneta gordo e rosado, um bitelo, prêmio de robustez infantil a exibir-se no cromo de uma folhinha de ano, dispôs-se ela a enfrentar o assunto perturbador:

     - Se você tem mesmo vontade de ter um filho, eu arrisco a operação. Doutor Jair disse que é possível que dê certo. Só não pode é garantir...

     Ele escutava como distante, meio perdido num sonho, e não respondia logo, levando-a a altear a voz quase com raiva, para arrancá-lo daquele devaneio:

     - Se não der certo, paciência... Pelo menos ninguém pode dizer que tu queria um filho e eu não fiz tudo para ter... Ponho o medo de lado, é só você dizer - as últimas palavras saíam molhadas em lágrimas, mastigadas em soluços.

     Eis que ele nunca suportara vê-la chorar: acariciava-lhe a face de mágoa, sorria para alegrá-la:

     - Tola, tolona... Que mania é essa de querer bulir na bichochota? Deixa tua quiriquinha em paz, meu bem, não vou deixar que você mexa na peladinha pra de repente ela ficar toda frouxa ou torta por dentro... Deixa pra lá essa história de filho...

     E, como se quisesse apagar a conversa, envolvia-a nos braços, arrastando-a para o quarto, para a vadiação sem finalmente lhe dizer se ansiava ou não por esse filho que ela não podia lhe dar, esse filho tão fácil de fazer noutra qualquer. Com a intempestiva posse, destruía o tempo de perguntas e respostas, embaciava a presença da inexistente criança erguida entre eles, até desvanecê-la por completo.

     Gostar de meninos, Ah! como ele gostava... E a garotada o preferia a qualquer brinquedo, proclamando-lhe  o nome, correndo para ele. Junto às crianças, Vadinho era seu igual como se tivesse a sua mesma idade e infinita paciência. Mirandão lhes dera de afilhado, a ele e a Dona Flor, o mais moço de seus quatro moleques, o qual, desde pequenino, era louco pelo padrinho: apenas o via e escancarava a boca enorme, de sapo, acenando com as mãos, a arrancar-se dos braços da mãe para os de Vadinho. Brincavam os dois durante horas, Vadinho a imitar urros de

animais ferozes, a saltar feito um canguru, a rir feliz. Como não havia de desejar um filho quem era assim doido por crianças? Não o confessava jamais, no entanto; talvez para não obrigá-la ao sacrifício incerto da intervenção cirúrgica.

     Dona Flor, no leito de viúva, sente uma incômoda picada de remorso. Afinal podia ter tentado a operação apesar do visível pessimismo  do casal de médicos. Deixara-se influenciar, quem sabe?, pela opinião de Dona Gisa, compartilhada por outros vizinhos e até pelos tios, uma Dona Gisa muito culta a lhe expor teorias sobre hereditariedade para a consolar quando ela se acusava de estéril e inútil. A própria tia Lita, tão bondosa, sempre cheia de desculpas para as andanças de Vadinho, lhe dissera por mais de uma vez:

     - Há males que vêm para bem, minha filha. E se tu botasse no mundo um menino que saísse a Vadinho, assim sem conserto? Tu já pensou? Deus sabe o que faz...

    Thales porto vinha em apoio da esposa:

     - É isso mesmo, Lita tem razão. Pra viver feliz não é preciso ter filho. Veja a gente... Nunca tivemos menino...

     Realmente viviam felizes, dedicados um ao outro, porto com seus quadros domingueiros, Dona Lita com as flores de seu jardim e com seu gato curuzu, velho e gordo, rosnando em mimos e dengos de filho único.

     Tanta gente a cercá-la com o mesmo propósito confortador, nesses pareceres Dona Flor cultivava seu medo, seu medo e - por que não dize-lo? - seu egoísmo.

     No leito de ferro, entre a ácida voz de Dona Rozilda e a doce música da serenata, a viúva dá-se conta de que, em verdade, não existira somente o medo da operação. Se o desejo de um filho fosse nela tão forte como em Vadinho, certamente teria encontrado coragem para enfrentar médico e hospital. Ela, porém, Dona Flor, não vivia na ânsia de um filho, de criança a encher a casa de bulício e riso. Vivia a pensar em Vadinho, isso sim, era a sua criança, a ele queria em casa seu marido e seu filho, seu "menino grande".

     Na porta da rua, assevera Dona Norma sentenciosa e amiga:

    - Ela precisa esquecer, é tudo que ela precisa. E ainda tão moça, pode refazer sua vida...

     - Casou com esse miserável porque quis... - a voz de Dona Rozilda.

     - Se Vadinho não prestava, mais um motivo para não falar nele, para que viver bulindo no caixão do finado? A gente precisa é distrair a pobre, não deixar tempo para recordação, tem a escola mas não chega, ela precisa sair, se divertir, precisa esquecer...

     Sobre os resmungos de Dona Rozilda, a bondade de Dona Norma:

    - Se ela tivesse um filho, pelo menos...

     A frase chega aos ouvidos de Dona Flor, "se ela tivesse um filho, pelo menos...". Sim, seria bem mais fácil... Não estaria tão só, tão vazia, tão sem razão de viver. Na rua, nas vizinhanças, na missa e na bênção, no mercado e na feira, sob a batuta de Dona Rozilda, entre as amigas e as conhecidas, elevava-se o coro de maldições à memória de Vadinho, um nem sei que diga de tão ruim. Dona Flor tranca os ouvidos para não ouvir senão a antiga serenata. No leito de ferro, sozinha com a ausência para nunca mais de seu marido. Sem um filho para a consolar.

     Em meio a tudo quanto sucedera naqueles sete anos, nada tanto a assustara como a notícia de ser filho de Vadinho o menino parido por Dionísia, mulata estabelecida nas proximidades do Terreiro. Sempre temera a notícia de um filho dele, nascido de outra, capaz de levá-lo embora. Quando chegava a seu conhecimento um caso de Vadinho, xodó com visos de ligação duradoura, aventura mais além das noites dormidas nos castelos, seu coração se apertava no temor de uma gravidez, de uma criança a nascer, os braços estendidos para Vadinho.

      Das mulheres não tinha medo, apenas ciúmes: "tudo xixica para passar o tempo", que ele lhe dizia não para se desculpar mas para Dona Flor compreender e não temer. Mas, se surgisse um menino? Contra um filho seria impossível lutar, impossível qualquer esperança. Ficava como louca, inquieta e perdida, quando Dona Dinorá era quase sempre Dona Dinorá, como conseguia ela ser tão informada? - lhe trazia, entre rodeios e lamentações, o nome da cuja e os detalhes, alguns até íntimos e salafrários. Tremia no pavor de uma criança, de um menino, desse filho que ela não lhe dera por não poder e também, Ah! também, por não querer.

     Imagine-se sua agitação, o impacto recebido quando um dia Dona Dinorá se acercou para contar-lhe a "última de Vadinho". Dele, segundo a intrigante, houvera filho uma tal de Dionísia, mulata com fama de grande boniteza, ora modelo de pintores (pousara para um troca-tintas modernista, um nomeado Carybé que, com desplante e acinte à sociedade, a retratara vestida de rainha), ora capital e adorno do democrático e afreguesado castelo de Luciana Paca, na zona de maior movimento.

     Dona Dinorá vinha contar de pura bondade, não por espírito de intriga ou de fuxico, não era dessas. Cumpria pesarosa sua obrigação de amiga, para que a pobrezinha da Dona Flor, tão boa e tão distinta, não ficasse na ignorância, os demais rindo dela pelas costas...

    - Foi arranjar filho logo com uma mundana...

     Dizia "mundana" para não servir-se de substantivo mais forte. Dona Dinorá era a delicadeza em pessoa e tinha horror a magoar, a ferir quem quer que fosse, mesmo a mulher perdida e sem-vergonha, prenha de homem casado, pegando barriga com marido de outra. "Não sou dessas que adoram fuxicar, não faço mal a ninguém", afirmava Dona Dinorá e havia quem acreditasse.

     Na cama de viúva, emudecidos os últimos acordes da serenata, perdidas a voz dos cantores e a rosa negra, Dona Flor estremece ao recordar aqueles dias de tamanho susto e dura decisão. De que não era capaz para não perder Vadinho, para conservá-lo a seu lado, para tê-lo mesmo assim, jogador e mulherengo, com rapariga de casa posta, fazendo filho por aí, na rua, ao deus-dará. Do que seria capaz, ela o mostrou então.

 

    Quando as duas mulheres saíram da elegante missa das onze na Igreja de São Francisco, num domingo lavado de junho, manhã luminosa e fresca, e, em passo decidido, atravessaram o Terreiro de Jesus em direção ao labirinto das estreitas ruas antigas do Pelourinho, moleques cantavam um samba de roda batendo o ritmo em latas vazias de goiabada

 

“Ô mulher do balaio grande! O do balaio grande! –bom balaio! “

 

    Voltou-se Dona Norma para a companheira, a resmungar:

    - Esses fedelhos, por que não vão mexer com a traseira da mãe deles?...

    Talvez não passasse de simples coincidência, não houvessem os moleques em suas farturas se inspirado; mesmo assim Dona Norma, por via das dúvidas, lançou terrível olhar em direção aos ousados. Olhar que de imediato se adoçou, ao descobrir um pequenino de seus três anos, vestido

de farrapos, o rosto imundo de remela e ranho, a sambar no meio da roda:

     - Repare que gracinha, Flor, que coisa mais linda aquele sata-nazinho que está dançando...

     Dona Flor considerou a malta de crianças andrajosas. Muitas outras disseminavam-se pela praça de intensa vida popular, misturando-se aos fotógrafos de lambe-lambe, tentando roubar frutas nos cestos de laranjas, limas, tangerinas, umbus e sapotis. Aplaudiam um camelô a mercar milagrosos produtos farmacêuticos, uma cobra enrolada ao pescoço, repelente gravata. Pediam esmolas nas portas das cinco Igrejas do Largo, quase assaltando os fiéis ricos. Trocavam deboches com sonolentas rameiras, em geral muito jovens, em ronda pelo jardim na expectativa de um apressado freguês matinal. Multidão de meninos rotos e atrevidos, os filhos das mulheres da zona, sem pai e sem lar. Viviam no abandono, soltos nos becos, em breve seriam capitães da areia, conheceriam os corredores da polícia.

     Dona Flor estremeceu. Viera para levar uma daquelas crianças, uma recém-nascida, para assim garantir-se  contra ela e sua mãe. Mas, vendo os meninos soltos na Praça do Terreiro, seu coração se encheu de piedade, de um sentimento nobre e puro; naquela hora, se pudesse, adotaria todos eles, não apenas o filho de Vadinho. Aliás, o filho de Vadinho não necessitava dela para escapar àquela vida. Vadinho não o abandonaria jamais, não era de sua natureza largar uma criança ao desamparo, quanto mais rebento seu, nascido de seu sangue. Em vez de negar a paternidade, ele a proclamaria, dela fazendo praça, encantado e orgulhoso.

     Sempre o soubera Dona Flor, de ciência certa, de um saber sem dúvidas, apesar dos silêncios e das reticências do marido: um filho para Vadinho seria o maior dos acontecimentos, a verdadeira sorte grande, a parada sem exemplo, o estouro da banca. Por isso ela tanto se afligira com a notícia trazida por Dona Dinorá. Era o perigo maior, a temida ameaça. Afinal, Vadinho já lhe pertencia tão pouco. dominado pelo jogo e pela boemia, que sobras lhe restariam se um filho se erguesse entre eles, a chamá-lo de um beco esconso, de um canto de rua, do leito de uma vagabunda? Esse filho que ela não lhe dera.

     Ao ter a notícia, ficou desesperada, num padecimento tão grande a ponto da própria Dona Norma perder a cabeça. De ordinário tão executiva, encontrando solução para todos os inúmeros problemas que lhe propunham a cada momento, ela também não atinava com saída nem acerto, confusa e aflita.

     - E se tu dissesse a ele que está grávida? - nada de melhor lhe

ocorrera senão essa pobre mentira.

    - De que adianta? Vai terminar descobrindo, é pior...

     Foi Dona Gisa quem encontrou decifração para a charada, recurso não só honroso como prático, proposta capaz de resolver tudo e muito mais, quem sabe? A gringa era uma retada nesses assuntos de psicologia e outras metafísicas, até o professor Epaminondas Souza Pinto tirava-lhe o chapéu, "mulher de muita erudição", e o professor Epaminondas Souza Pinto não era um qualquer, jamais errara na colocação de um só pronome e ditava (gratuitamente) regras gramaticais no semanário de Paulo Nacife, folha de pouca circulação mas próspera em anúncios.

     Quando puseram Dona Gisa a par dos acontecimentos - Dona Flor em agonia, Dona Norma perdida -, ela logo os destrinchou e instruiu as amigas em seu português arrevesado. Se Vadinho tanto desejava um filho, a ponto de ir faze-lo na rua, em mulher-dama, pois era Dona Flor estéril, não podendo conceber; se esse filho nascido de outra podia levar Vadinho embora para sempre - então só cabia a Dona Flor um recurso para garantir o marido e o lar: trazer para casa esse filho bastardo de Vadinho e fazer-se mãe dele, criando-o como se o houvesse parido.

     E por que não? Por que gritava assim Dona Flor, praguejando igual a uma norte-americana milionária - a comparação era de Dona Gisa, espantada ante a reação da vizinha - jurando que isso jamais, jamais o filho da outra, da cachorra, da puta sem-vergonha? Por que esse escândalo, se uma das coisas mais admiráveis do Brasil era, segundo a opinião da gringa, a capacidade de compreender e conviver? Tão comum mulheres casadas criarem filhos espúrios dos maridos, ela mesma conhecia alguns casos tanto entre gente pobre como entre gente rica. Ali junto, na rua, Dona Abigail não criava a filha do esposo com uma sujeita e não o fazia com o mesmo terno amor reservado aos quatros filhos de seu ventre? Uma beleza, e que beleza!, por essas coisas Dona Gisa gostava do Brasil e se naturalizara brasileira.

     Que culpa tinha o menino que pecado cometera? Por que deixar pobre criança, sangue de Vadinho, seu marido, exposta a uma vida de privações, subalimentada, crescendo na fome e no vicio, rato dos esgotos do Pelourinho, sem direito à educação e aos bens da vida? E, ao demais, não temia Dona Flor - e com razão - ficasse Vadinho preso à mãe da criança, para estar junto do filho, de seu filho? Se ela, Dona Flor, o fosse buscar e o tomasse para criar como filho seu, que prova de amor mais convincente? Aquela criança, nascida de outra, seria o elo a ligar para sempre Vadinho e Flor, sem mais nenhum receio nem ameaça.

    E, quem sabe, quem sabe, minha prezada, com esse filho em casa, crescendo e educando-se sadio e lindo no carinho de Dona Flor, sendo para Vadinho permanente alegria mas também permanente responsabilidade, quem sabe não mudaria o malandro seu gênero de vida, largando de vez o jogo e a estroinice, tomando jeito e vergonha? Era bem possível, sobravam exemplos.

    Sobravam, sim, apoiou Dona Norma, entusiasta, "Eta gringa danada de sabida!" Dona Norma imediatamente citara nomes e endereços. Quem mais viciado no jogo e na cachaça do que doutor Cícero Araújo, um de Santo Amaro da Purificação? A pobre esposa, Dona Pequena, sofria as penas do inferno. Um dia ela pegou barriga e nem o menino nascera, já doutor Cícero virara o cidadão mais exemplar. E seu Manuel Lima, doido por uma rapariga... Bem..., esse, em verdade, não precisara de filho, endireitara com o casamento, marido mais correto não existia...

    Dona Gisa dava o conceito da charada: aquele filho, no qual Dona Flor enxergava ameaça tão violenta à estabilidade de seu lar, poderia se transformar, num passe de mágica, em sua segurança, na garantia de seu amor, e, de quebra, ainda era capaz de regenerar Vadinho. Uma pena, aliás, pensou Dona Gisa; regenerado, Vadinho ia perder todo interesse, aquele suspeito mistério, aquela graça dissoluta.

    Abriram-se os olhos de Dona Flor, entendeu. Iluminou-se de alegria, atirando-se nos braços da amiga, a agradecer. Traçaram demorados planos, detalhe por detalhe. Não era fácil, muito ao contrário. Não fosse o apoio de Dona Norma, talvez Dona Flor não tivesse reunido suficiente coragem para se dirigir à zona das mulheres perdidas, às ruas do "baixo meretrício" tão amedrontadoramente citadas nas crônicas policiais das gazetas, para se tocar, feito uma doida, em busca da tal Dionísia e lhe exigir o filho recém-nascido, toma-lo em definitivo, levá-lo para sempre, com escritura pública, estabelecida em cartório, com firmas reconhecidas e testemunhas idôneas. Dona Norma, solícita e fraternal, prontificou-se a acompanhá-la e a animou. Curiosa também, deve-se dizer; há muito desejava oportunidade para espiar uma rua de prostituição, a morada das marafonas, sua vida sórdida. Nunca encontrara antes pretexto válido para a proibida excursão.

    Como deixar a pobre Flor aventurar-se sozinha naqueles ameaçadores labirintos? - perguntou ela a Zé Sampaio; quando o marido, no assombro da notícia, ainda a tentara dissuadir.

    - Não sou mocinha tola, sou mulher de maior e de respeito, ninguém vai se atrever a tirar prosa comigo. - E revelava os amadurecidos planos a Zé Sampaio vencido, incapaz de resistir ao ímpeto vital da esposa: - A gente vai domingo de manhã. Vou como se fosse visitar meu afilhado, o neto de João Alves. Depois peço a João que acompanhe a gente à casa da fulana. E, João, você sabe, é mestre de capoeira...

     E assim o fizeram. No domingo ouviram missa na Igreja de São Francisco (Dona Flor levara uma vela enfeitada de flores, promessa para tudo correr bem), depois atravessaram o Terreiro e foram encontrar o negro João Alves em sua banca de engraxate, no passeio da Faculdade de Medicina. Estava cercado de crianças, e tanto o negrinho de carapinha, quanto os diversos mulatos mais escuros ou mais claros, assim como o loiro de cabelos de trigo, todos o tratavam de avô. Eram todos seus netos, aqueles meninos e os demais, soltos no dédalo de ruas entre o Terreiro de Jesus e a Baixa dos Sapateiros. O negro João Alves jamais tivera filhos nem com sua mulher nem com outras mas arranjava madrinhas para seus netos, comida, roupas velhas e até cartas de abc. Vivia num porão ali perto, com seus resmungos, suas mandingas, sua aparente brabeza, suas má-criações, alguns dos netos, e o porão abria sobre um vale plantado de verde, de seu buraco o negro João Alves comandava as cores e a luz da Bahia.

    - Oxente!, quem está aí, bons olhos lhe vejam, minha comadre Dona Norma... E como vai seu Zé Sampaio? Diga a ele que vou aparecer na loja um dia desses para buscar uns sapatos pros meninos...

    Os moleques cercavam as duas amigas, Dona Norma viera preparada, em sua mão surgiu um saco de caramelos. João Alves soltou um assovio, alguns meninos apareceram correndo e entre eles um cafuzo de uns quatro a cinco anos. O negro acariciou-lhe a cabeça:

     - Peça a benção a tua madrinha, seu coisa-ruim...

    Dona Norma deu-lhe a benção e um níquel de dez tostões, enquanto o negro queria saber que bons ventos haviam trazido sua comadre até ali.

    - Pois, meu compadre, é que tenho um favor a lhe pedir, coisa de muita delicadeza.

    - Coisa delicada não é pra minhas mãos, sou meio rude como vosmicê bem sabe...

    - Quero dizer: coisa muito reservada, para ficar em segredo.

     - Aí está certo, que não sou linguarudo nem mexeriqueiro. Pode desatar a língua, comadre...

    - O compadre conhece por aqui uma tal de Dionísia? Não sei bem mas ouvi dizer que mora nessas redondezas.

    - E vosmicê tem algum trato com ela?

    - Eu propriamente não, meu compadre. É essa minha amiga que tem um assunto a ver com ela...

     João Alves mediu Dona Flor de alto a baixo.

    - Ela tem um assunto a ver com Dionísia de Oxossi?

     - Capaz seja a mesma... Ouço dizer que é bonitona.

     João Alves coçou a carapinha:

    - Bonitona? Me adisculpe, minha comadre, mas dobre a língua. Bonitona qualquer branca pode ser, mas mulata da competência de Dionísia tem poucas no mundo, acho que nem meia dúzia e isso escarafunchando muito...

    - Uma que teve filho recentemente...

     - Pois então é ela mesma, tá de menino novo, nem voltou ainda a trabalhar...

    Pela primeira vez, Dona Flor abriu a boca, querendo saber:

     - Em que ela se ocupa?

     Novamente João Alves a mediu com os olhos e com certo desprezo ante ignorância tão grande:

     - Pois em trabalho de meretriz, que é o ofício dela,

     Dona moça.     Dona Norma retomou o fio da conversa:

    - E meu compadre se dá com ela, sabe onde ela mora?

     - Pois não havia de me dar, comadre? Mora aqui rente, no Maciel.

     - Meu compadre vai nos levar lá, minha amiga quer conversar com ela, resolver um assunto...

     João Alves mais uma vez considerou longamente Dona Flor, coçava a cabeça como se encontrasse tudo aquilo suspeito e duvidoso:

     - Por que ela não vai sozinha, comadre? Eu mostro a casa...

     - Meu compadre, seja cavalheiro. Vai largar duas senhoras nessas ruas, desacompanhadas? Passa um abusado, se mete com a gente...

     Ninguém apelava inutilmente para o cavalheirismo de João Alves:

    - Pois vou com vosmicês mas lhe agaranto que ninguém ia tirar graça, aqui é tudo gente respeitosa...

     Levantou-se, entregou a cadeira de engraxate ao cuidado dos netos, era um negro esguio e sólido, passado dos cinqüenta, a carapinha começando a embranquecer; trazia um colar de orixá ao pescoço, contas vermelhas e brancas de Xangô, e apenas os olhos estriados denotavam a intimidade da cachaça. Ao pôr-se de pé, quis saber:

    - Minha comadre Dona Norma e que assunto é esse que a mocinha aqui - dizia mocinha numa voz de debique - quer tratar com Dió?

    - Nada de ruim pra ela, meu compadre...

    - Mesmo porque, se fosse de malvadeza, com todo respeito que lhe sou devedor, eu não ia junto, comadre... Também não adiantava porque o santo dela é forte. - Tocava o chão com a ponta dos dedos, saudando orixá: - Oké Aro Oxóssi! Não tem despacho nem ebó que faça mal a ela, o feitiço vira contra quem mandar fazer...

    - Quando é que você me leva a uma macumba, meu compadre? Tenho uma vontade danada de assistir a um candomblé... essa era outra curiosidade antiga de Dona Norma.

    Assim praticando sobre encantados e terreiros de santo, entraram pelo meretrício adentro. Por ser manhã de domingo - a farra de sábado estendendo-se pela madrugada - quase não havia movimento nas ruas. Apenas uma ou outra mulher sentada à porta ou debruçada à janela, mais para ver o dia claro do que para fretar homem. Um silêncio e um sossego, poder-se-ia dizer uma paz dominical; Dona Norma sentiu-se lograda, precisava vir em hora de azáfama.  Nessa manhã sonolenta, não fazia diferença de um bairro familiar. Também a casa de Dionísia era logo no começo do Maciel, apenas haviam cruzado os limites da zona.

     Subiram as escadas de vacilantes degraus, um rato enorme passou por elas no escuro, em correria. Palavras e frases confundiam-se nos andares, alguém cantava modinha de tristezas com uma pequena voz. Quando atingiram o patamar do terceiro piso, o cheiro de alfazema queimada em defumadores de barro os alcançou, anunciando a existência de criança nova. Desembocaram num corredor; ao fundo, a porta do quarto da rapariga.

     João Alves bateu com o nó dos dedos.

    - Quem é? - perguntou uma voz morna e descansada.

     - É de paz, Dió... Sou eu, João Alves, e tem duas excelências comigo querendo falar com você. Uma eu conheço é minha comadre Norma, gente de bem, merecedora...

     - Pois vão entrando e desculpando o desarranjo, ainda nem tive tempo de arrumar o quarto...

     Entraram atrás do negro. Na peça estreita, uma cama de casal, um armário capenga, um lavatório de ferro com bacia e balde de esmalte, um urinol ao pé do leito, tudo muito asseado. Na parede, um espelho partido e uma estampa do Senhor do Bonfim com fitas bentas penduradas. Uma janela abrindo sobre os fundos do sobrado, por ela penetravam a claridade e a modinha triste.

     Reclinada nos travesseiros, meio coberta com um lençol, vestida com uma bata de rendas cujo decote lhe exibia os seios pejados, a mulata Dionísia de Oxóssi sorria cordial para as surpreendentes visitas. Na curva de seu braço, no calor de seu peito, o filho adormecido. Uma criança graúda, de um moreno carregado. Sob uma cadeira, um defumador queimava alfazema, perfumando peças de roupas do recém-nascido colocadas sobre a palhinha do assento. Além da cadeira, dois caixões de querosene cobertos com papel de seda faziam a vez de tamboretes. No ângulo da parede ao fundo, o peji com as armas de Oxóssi, o arco e a flecha, o erukerê, uma estampa de São Jorge a matar o dragão, uma pedra verde, fetiche talvez de Yemanjá, e um colar de contas, azul-turquesa.

    - Seu João - ordenou a mulata com sua voz descansada -, faça o favor, tire essas roupinhas da cadeira, ponha no armário, é pro neném mudar depois do banho. Dê a cadeira a essa moça... apontava Dona Norma, voltando-se depois para Dona Flor, a explicar-lhe num sorriso: - a senhora, que é mais moderna, vai desculpando, tem mesmo de sentar no caixão.

     Da cama, reclinada, presidia ela os arranjos no quarto, a movimentação do engraxate a arrastar a cadeira e os caixões, tranqüila e sorridente, nem sequer curiosa do motivo daquelas intempestivas visitas. Quem a visse assim, tão calma a ordenar, compreenderia por que o pintor

Carybé a retratara vestida de rainha, num trono de afoxé.

    Dona Norma, na dianteira do negro, arrebanhou camisola e fralda, pôs tudo no armário e, ao fazê-lo, dera balanço completo nos vestidos, nas blusas, nos sapatos e sandálias da mulata.

    - Puxe um caixão para vosmicê também, seu João, e tome assento.

    - Fico mesmo de pé, Dió, assim estou bem.

    - Maneira certa de se conversar é na maciota e sentado, seu João, de pé e com pressa não ajuda o entendimento.

    O negro, porém, preferiu encostar-se à janela, voltado para a manhã cada vez mais luminosa. Um resto de canção entrava quarto adentro, vinha morrer plangente na cama de Dionísia.

 

"Nas cadeias de teu amor, escravizada serva, meu senhor!"

 

     Sentadas Dona Norma e Dona Flor, fez-se um breve silêncio mas logo Dionísia o encheu com sua voz macia. Desenvolveu-se para o lado do dia tão bonito, queixando-se de ainda não poder sair rua a fora:

     - Não sei ficar em casa quando a chuva lava a cara do dia e ele reluz novo em folha, todo faceiro...

     Dona Norma também não; e assim foram as duas falando do sol e da chuva e das noites de luar em Itapoã, ou no Cabula, e nem se sabe como desembarcaram em Recife, onde habitava uma irmã de Dona Norma, casada com um engenheiro pernambucano, e onde Dió residira alguns meses:

     - Para mais de sete meses, fui atrás de um clandestino, um que me alumbrou a vista, um desatinado. Me largou por lá...

     Onde não chegariam as duas, a que distantes portos, nesse diálogo sem compromisso nem conseqüência - a conversa pelo prazer da conversa -, se Dona Flor, ouvindo o carrilhão de uma igreja do Terreiro anunciar a hora do meio dia, não se alarmasse, interrompendo a amável prática:

     - Norminha, assim a gente vai demorar muito...

     - Por mim não me atrapalha, é um prazer... - disse Dionísia.

     - Noutra ocasião a gente vem com mais tempo - prometeu Dona Norma. - Hoje a gente veio com um propósito...

     - Estou ouvindo...

     - Essa minha amiga, Dona Flor, não tem filho nem pode ter. E coisa mesmo de conformação, enfim...

     - Sei como é. Tem o oveiro virado, não é?

     - Mais ou menos...

     - Mas pode desvirar. Marildes, uma conhecida minha, desvirou.

     - Com Flor não tem jeito, o médico já disse.

     - Médico? - riu uma risada divertida, de pouco caso. - Médico só sabe dizer palavra bonita e ter caligrafia ruim. Se a Dona moça aí procurar Paizinho, ele dá jeito em dois tempos. Que é que acha, seu João?

    João Alves apoiou:

    - Paizinho? Faz uns passes na barriga dela, é filho todo ano.

     Dona Norma resolveu desconhecer o novo assunto, evitar o feiticeiro com toda sua fama, sua reputação de babalaó. Pousara o olhar na criancinha adormecida. Não seria melhor, primeiro, tirar a limpo, saber se era realmente filho de Vadinho? Pois, tão escura assim, não parecia. Mas Dona Flor precipitava a conversa, elevando a voz naquela obstinada decisão dos tímidos:

     - Vim aqui para falar um assunto sério, para lhe fazer uma proposta e ver se a gente chega a um acordo.

     - Pois fale, Dona moça, que de meu lado faço de meu melhor para lhe atender.

     - O menino... - disse Dona Flor e ficou sem saber como prosseguir.

    Dona Norma retomou a palavra:

    - Você teve o menino faz dias, não é?

    Dionísia olhou o filho, sorriu numa alegre confirmação.

     - Pois minha amiga veio aqui lhe conversar... Não vê que ela fez uma promessa quando esteve à morte: seu primeiro filho seria padre, se Senhor do Bonfim ajudasse e ela ficasse boa. - Dona Norma ia devagar, aquela história, armada na véspera, nunca lhe agradara inteiramente. - Pois Deus atendeu e ela sarou, coisa de milagre.

     A mulata ouvira curiosa de descobrir o elo a ligar a doença da moça e o milagre do Senhor do Bonfim ao seu menino. Dona Norma apressou o recado, tarefa mais incômoda:

    - Mas não tendo tido filho, que fazer para cumprir a promessa? Só adotando uma criança, criando como filho para botar depois no Seminário a estudar... Ela soube de seu menino, escolheu ele...

     Dionísia sorriu mansamente, não era um elogio ao seu filho? Dona Norma tomou o sorriso por acordo, esclareceu:

    - Ela quer adotar o menino mas adotar mesmo, com papel passado no cartório, tudo legal e para sempre. Para levá-lo e criá-lo como filho.

     Ficou Dionísia parada, em silêncio, olhos semicerrados. Teria entendido as palavras de Dona Norma ou escutava apenas a canção distante?

 

"Quisera em teus braços morrer, antes morrer do que viver assim..."

 

     "Antes morrer", murmurou para si mesma e quando reabriu os olhos a cordialidade anterior tinha desaparecido, uma nova atmosfera nascia de seu olhar de vidro, da linha cavada em sua boca.

     - E por quê? - perguntou sem levantar a voz. - Por que escolheu o meu menino? Por que logo o meu?

     Devia ser implacável, desumano sofrimento, pensou Dona Norma. Que mãe deseja separar-se de seu filho? Mesmo pobre, sem recursos, vivendo na miséria, mesmo assim era como rasgar o coração.

    - Alguém falou de seu menino, que era forte e bonito... E que você não tinha meios para educá-lo...

     Não fosse para o bem da criança, não se tratasse do filho de

Vadinho com todas as implicações que isso significava e Dona Norma não estaria ali, de intermediária para tal proposta, arrancando as palavras da garganta. Mas seria mesmo filho de Vadinho? Mulher de barriga suja, essa Dionísia. O menino saíra ainda mais escuro do que ela, onde os cabelos loiros de Vadinho? Dona Norma fazia novo esforço: para o menino era melhor, teria o futuro assegurado:

    - O Terreiro está cheio de meninos, as ruas por aqui, e meu compadre João Alves cheio de netos inventados, eu mesma sou madrinha de um. Tudo passando fome, tudo na imundície, pedindo esmolas, até roubando... Minha amiga não é nenhuma milionária mas tem de que viver e pode dar ao pobrezinho outro conforto, outra vida. Ele não vai passar fome nem terminar na cadeia, vai estudar pra padre e celebrar missa...

     Como se ouvisse e entendesse o sermão de Dona Norma, a criancinha acordara choramingando. Dionísia abriu a bata, libertou o seio e, acomodando o infante, deu-lhe de mamar. Escutava a visita em silêncio, como se pesasse cada um de seus argumentos. Dona Norma traçava-lhe o quadro do futuro do filho, cercado de conforto e de carinho, nada lhe faltando. Para a mãe era um sacrifício, é certo, mas só uma egoísta condenaria o filho à fome, a uma vida miserável, quando uma pessoa bondosa se dispunha... Dona Flor era boníssima, impossível encontrar criatura melhor...

     Dionísia ajeitou o seio na boca do menino quase saciado. Ao responder, voltava-se para a janela onde ficara o negro João Alves, a ele se dirigia como se as duas mulheres não merecessem diálogo:

    - Tu tá vendo, seu João, como é que tratam os pobres? Essa que está aí - com o lábio apontava Dona Flor - não sendo mulher para parir menino e querendo pagar promessa, procurou saber onde tinha nascido algum por derradeiro e soube que Dionísia de Oxóssi, quenga de muita saúde e de mais pobreza, tinha tido um. Aí disse pra amiga: vamos lá, buscar... Ela até vai agradecer, a peste ruim... Dona Norma tentou interromper:

    - Não seja injusta... Não...

     Implacável, a voz descansada da mulata, amarga de calor e gelo:

     - Mas nem teve coragem de falar ela mesma, pediu aqui para a Dona sua comadre dar o recado, vir de advogada. "Vamos lá buscar o menino de Dió, é um bitelo de grande e de bonito, vai dar um padre de categoria. A mãe tá morrendo à míngua e dá dado para toda a vida, de papel passado, e ainda fica contente de se ver livre do encargo. E se não quiser dar é porque não presta, é um traste ruim, só serve mesmo pra meretriz". Foi assim que ela falou, seu João, vosmicê ouviu. Porque ela pensa que pobre não tem sentimento, pensa que a gente, porque é rapariga e vive nessa vida atroz, perdeu até o direito de criar os filhos...

    Dona Norma ainda buscava esclarecer:

     - Não diga isso...

     O menino terminou de mamar, arrotava farto, Dionísia punha-se de pé com seu filho ao braço. Erguida em toda sua beleza e em fúria, rainha em toda sua majestade. Enquanto falava, movia-se a cuidar da criança, a limpá-la na bacia de esmalte, mudando-lhe a fralda, pondo-lhe talco e vestindo-a com a camisola perfumada de alfazema.

     - Mas erraram o endereço, sou muito mulher para criar meu filho, fazer dele homem de respeito, não preciso de esmola de ninguém. Pode não vir a ser padre de batina, pode dar até para ladrão, tudo pode suceder. Mas quem vai criar ele sou eu e como bem entender. Vai ser o bamba da zona, com ele ninguém vai tirar cantiga de sotaque, e não vou dar ele pra ricaça nenhuma que não quis ter o trabalho de parir...

     Riu para a criança e lhe falou, docemente:

    - Sem esquecer que ocê tem pai pra cuidar de ocê...

     Foi aí que Dona Flor explodiu, quase gritando, inesperada e disposta, com a força do desespero:

     - Só que o pai dele é meu marido... Não quero seu filho, quero o filho de meu marido... Você não tinha direito de ter filho com ele, se meteu com ele porque quis, direito a filho dele só quem tem sou eu...

    Dionísia vacilou como se houvesse recebido um tapa na cara:

     - Quer dizer que é casada com ele...? Casada mesmo?

     Tendo explodido e aliviado seu coração repleto de mágoa, Dona Flor retornava à sua timidez, explicando em voz baixa e sem esperança:

     - Casada há três anos... Desculpe, foi só por isso que pensei em criar o menino como se fosse meu filho, já que eu não pude dar um filho a ele... Mas agora eu vi que a senhora tem razão, quem deve criar o menino é a senhora, que é mãe dele... Depois, o que é que adiantava? Vim porque gosto demais de meu marido e tive medo dele ir embora por via do menino. Por isso vim. O resto é tudo mentira. Mas depois de lhe ver me dei conta que, com filho ou sem filho, ele não vai nunca largar à senhora...

     - Não sou senhora nenhuma, sou mulher-da-vida e mais nada. Mas juro pela saúde de meu filho que não sabia que ele era casado. Se soubesse não ia ter filho dele, nem pensar em me amigar com ele, em deixar a vida para botar casa e morar com ele como marido e mulher...

     Acabara de vestir o menino. Dona Norma recolhia a toalha, a atmosfera fizera-se menos densa. Dona Flor murmurou:

    - Juro que Vadinho é meu marido, todo mundo sabe...

     - Vadinho nunca me disse nada... - Dió recebia a camisola das mãos de Dona Norma, deitava a criança na cama para vesti-la. Por que ele não me disse? Por que enganar assim? - ficou pensativa, agora a raiva havia desaparecido e ela dirigia-se a Dona Flor com toda a cortesia, quase com respeito. - Todo mundo sabe do casamento,  foi o que a senhora me disse... Possa ser... Mas como ninguém nunca me falou? E eu que conheço a gente dele, toda, até a mãe...

    - A mãe de Vadinho? A mãe dele é morta...

    - Conheço a mãe, sim, e a avó... Conheço o irmão, Roque, um que é carpina de profissão...

     - Então não é o meu Vadinho... - riu Dona Flor e ria e ria apalermada de contentamento. - Oh! que maluquice, que coisa mais tola e mais linda... Norminha, é outro Vadinho! "tou com vontade de chorar..."

     Também Dionísia de Oxóssi largara o menino em cima da cama e saiu pelo quarto a dançar, dança de iawô em roda de orixá, arrastando o negro João Alves para com ela, ante peji, saudar e agradecer a Oxóssi - Okê, meu pai, aro okê !

     - Não é o meu Vadinho, meu Vadinho não é casado, mulher para ele só Dionísia, sua mulata Dió...

     De repente parou, olhando para Dona Flor (Dona Norma tomara do menino e o ninava em seus braços):

    - Não me diga que a senhora é a mulher do xará...

    - Que xará?

     - Meu Vadinho e ele só se tratam assim, de xará, pois são Vadinho os dois. Só que o meu é Vadinho de Valdemar e o dele nem sei de que é ... Um que é perdido pelo... - não completou a frase.

     Quem a completou foi Dona Flor:

     -...pelo jogo... Pois é esse mesmo, Vadinho de Waldomiro, o meu Vadinho...

     - E foram lhe dizer que eu tinha tido filho dele... Que gente mais ruim...

     A porta foi aberta e nela apareceu um negro maciço e jovem, um riso de dentes brancos a lhe rasgar a boca, uns olhos de domingo:

     - Para todo mundo bom dia...

     Ainda dançando veio a mulata Dionísia de Oxóssi e nele repousou de todo aquele susto, de toda aquela raiva. Estendeu os braços, Dona Norma deu-lhe a criança e ela a colocou nas mãos de seu homem, do Pai.

     - Esse é meu Vadinho, chofer de caminhão, pai de meu filho - mostrava Dona Norma e Dona Flor. - Aquela ali é comadre de seu João e a outra, tu sabe quem é?

     - E como houvera de saber?

     - Pois é a mulher do outro Vadinho, daquele...

     - Do xará?

     - Dele mesmo... Ela veio aqui pensando que o menino era filho dele, do marido dela, veio para buscar, queria criar o nosso bichinho, ia fazer dele padre de batina... - riu seu riso desatado, concluiu com a voz ainda mais descansada: - Como é mesmo o seu nome? Flor? Pois vai ser minha comadre, vai batizar meu menino... Veio buscar um filho, filho não posso dar que só tenho um, mas posso lhe dar um afilhado...

     - Minha comadre Dona Flor... - disse o chofer de caminhão.

     Tomando do menino, Dionísia o entregou a Dona Flor. Pássaros cortavam o céu, voando, iam pousar nos beirais do Arcebispado.

 

     Nos primeiros tempos de viuvez, tempos de nojo, de luto fechado, permaneceu Dona Flor em preto e em silencio, numa espécie de devaneio, nem sonho nem pesadelo, entre o crescente murmúrio das comadres e as memórias dos sete anos de casamento. As comadres eram dez, eram cem, eram mil, numa solidariedade rumorosa e constante; lá vinham elas no rastro de Dona Rozilda a cercá-la numa corte de mexericos, as vozes erguidas num coral de acusações a Vadinho, Dona Rozilda de solista, tendo como sua imediata Dona Dinorá, idênticas na língua de vitupérios.

     Dona Flor, trancada em sua aflição e anseio, fluía em meio àquele mundo de lembranças, recordando os momentos de riso e as horas de amargura, querendo reter a imagem de Vadinho, sua sombra ainda esparsa na casa, densa no quarto de dormir e vadiar.

     Finalmente, que desejavam todas elas, as inúmeras comadres? As vizinhas, as conhecidas, as alunas, as amigas, sua mãe viajando de Nazareth para fazer-lhe companhia naquele transe, e até pessoas estranhas, como uma circunspecta Dona Enaide, relação de Dona Norma? Essa digna senhora se abalara do Xame-Xame, onde morava - como se não tivesse marido e filhos, obrigações domésticas para vir, toda gentil, expor malfeitos de Vadinho, a pretexto de visita de pêsames. Que desejavam elas? Que pretendiam, ao reavivar cicatrizadas feridas, ao reacender essas extintas fogueiras de sofrimento? Por que lhe confidenciava Dona Enaide, como se lhe emprestasse solidariedade, conhecer de perto aquela fatal Noemia, hoje senhora gorda e casada (o

marido escrevia aos jornais), mas conservando ainda entre seus papéis um retrato de Vadinho?

     Dona Flor vivia com as boas e as más recordações, todas elas a ajudavam a carregar o nojo, a transpor aquele tempo gris de desespero e ausência, um deserto de cinzas. Mesmo ao rever lembranças e imagens tão detestáveis como a da ex-aluna com seu riso zombeteiro e sua cínica

impudência, mesmo ao ferir-se novamente em tais espinhos, ao rememorar aquelas humilhações sentia uma espécie de agre consolo, como se lembranças e imagens, espinhos e humilhações, tudo quanto vivera com ele fosse lenitivo para esse sofrimento, esse de agora, sem medida e sem jeito. Porque, afinal, quem saíra vitoriosa, quem vencera a parada, quem ficara com ele? Por quem se decidira Vadinho, quando Dona Flor, um dia, tendo chegado ao derradeiro limite, lhe dera um ultimatum: ou ela ou a outra? As duas, não; fosse embora com a tipa se quisesse (a imunda espalhava aos quatros cantos a notícia de seu próximo acasalamento com Vadinho), mas fosse quanto antes, decidisse logo... E o que acontecera, que decisão ele tomara?

    Noêmia viera aprender arte culinária, estava às vésperas de casar-se e o noivo exigia esposa com teoria e prática de temperos. Era um esnobe esse noivo, um janota metido a entendedor de cinema e literatura, todo cheio de si e de pretensa erudição, citando autores e arrotando críticas, um jovem gênio brilhando ao sol da glória em porta de livraria. Porque lhe parecia bem, quisera Noêmia senhora da arte do vatapá e do caruru, "quero vê-la proletarizada, essa burguesa..." Ela achou a idéia divertida e inscreveu-se na Escola Sabor e Arte.

     Filha de tradicional família da Graça, rica, elegante, achava batuta ser noiva de intelectual tão rafinê, mais batuta ainda no entanto lhe parecia Vadinho com seu ar cafajeste e seus olhos sonolentos. Quando se deram conta - a família ilustre e o talentoso pretendente -, Noêmia estava aprendendo era descaração, e da grande, com Vadinho, no castelo de Amarildes. Foi um fuzuê dos diabos, ameaçando transformar-se em magnífico escândalo. Felizmente prevaleceu a alta civilidade do noivo sobre sua momentânea vicissitude; contornou a situação com jeito e diplomacia, não ia perder, por mero preconceito, aquela boca rica, aquele baú de ouro. Não bastara, porém, sua boa vontade, sua compreensiva colaboração, pois a dita cuja não queria dar por terminada a "inconseqüente aventura", considerando-se bem servida em matéria de cama. Que se danassem noivo e família, Noêmia queria era fugir com Vadinho, arribar com ele. Vadinho é que não quis. Quando a gangorra caiu e a pagodeira se tornou assunto de maledicência pública, quando Dona Flor, num daqueles seus arrancos violentos e raros, exigiu uma decisão imediata, ou ela ou a outra, ele restituiu a moça ao noivo, esteta agora ainda mais esnobe e atraente, pois ao talento e à erudição somara os cornos, um noivo supimpa, outro assim era difícil de obter.

     "Tudo xixica para passar o tempo", lhe dissera Vadinho, quando no extremo da aflição, Dona Flor o enfrentou e exigiu se definisse de uma vez por todas. Nunca pensara em ir-se com a tal Noêmia, pura pabulagem da sapeca; além de puta, mentirosa de marca.

     Que mais queriam as comadres? Dona Rozilda, Dona Dinorá, aquela Dona Enaide a sair de seus cômodos do Xame-Xame, todas as demais, dezenas, centenas e milhares de comadres no coro infame das lamentações e dos libelos, que mais queriam? Por que recordar esse incidente como prova da infelicidade conjugal de Dona Flor, prova de que Vadinho era o pior dos maridos? Ao contrário, eis a prova mais completa de seu amor, de como ele a preferia a qualquer outra. Não tinha a tal Noêmia riqueza e elegância, palacete na Graça, talão de cheque, conta aberta no Banco - Vadinho jogara alto naquele interregno -, automóvel com chofer, curso de

ginásio e rudimentos de francês, toda nos trinques e perfumes, vestidos e sapatos vindos do Rio? Com quem ficara ele, a quem preferira quando obrigado a escolher? De nada valera o talão de cheques nem o conforto do automóvel a levá-lo e traze-lo pra cima e pra baixo, nem os vestidos do Rio, os perfumes de Paris, o requinte das expressões: mon cheri, mon petit cocó, merde, quelle merde; a lócé de parler... como se diz no francês da Bahia.

     Vadinho não levara em conta nem o cabaço comido, nem as súplicas: "você me deve minha honra", nem as ameaças: "você vai ver, meu pai vai lhe perseguir, lhe meter na cadeia", nada o fizera sequer vacilar na hora da escolha. "Como tu pôde pensar um absurdo desses, que eu havia de te largar pra viver com aquela porqueira...? Pendurou a gabola nos chifres do noivo, foi para a cama com Dona Flor, Ah! que noite de pazes e perdão!” Tudo xixica para passar o tempo, permanente só tu, Flor, minha Flor de manjericão...”“.

     Para as comadres, Vadinho fora o pior de quantos maridos ruins existiram no mundo, Dona Flor a mais infeliz das esposas. Não lhe cabia direito a chorar, a lastimar-se, devia estar dando graças a Deus que a livrara em tempo de tamanha provação. Sem dúvida Dona Flor era a bondade em pessoa, e só mesmo Dona Rozilda podia querer que ela se alegrasse, desse festa pela morte súbita de Vadinho. Ruim como tudo, ele fora, no entanto, seu marido. Mas esse exagero de sentimento, esse luto fechado, esse nojo mais além de toda aparência, mais além de todo o cerimonial obrigatório nos ritos da viuvez, essa face parada e perdida, esses olhos voltados para dentro de si ou a fitarem para lá do horizonte, a fitarem o infinito, o nada, tudo isso era inaceitável para as comadres.

     Numa única coisa estavam todas de acordo, de Dona Rozilda a Dona Norma, de Dona Dinorá a Dona Gisa, as verdadeiras amigas e as simples fuxiqueiras: Dona Flor precisava esquecer, e quanto antes, aqueles anos desgraçados, precisava apagar a imagem de Vadinho de sua vida, como se ele nunca houvesse existido. Para elas o tempo do nojo estava durando demasiado e por isso a cercavam para lhe provar - com fatos - ter sido ela beneficiária da misericórdia divina.

     A própria tia Lita, sempre disposta a desculpar Vadinho, não escondia no entanto sua surpresa:

    - Nunca pensei que ela sentisse dessa forma...

    Dona Norma também se admirava:

     - Pelo jeito não vai esquecer nunca... Quanto mais o tempo passa, mais ela sofre...

     Dona Gisa, plantada em seus conhecimentos de psicologia, discordava das pessimistas:

    - É natural... Ainda vai durar uns dias mas depois termina, ela esquece, volta a viver...

    - E isso, sim... - Dona Dinorá era da mesma opinião. - Com o tempo ela vai se dar conta que foi Deus quem olhou por ela...

     Dividiam-se, porém, quanto à forma de melhor ajudá-la. Dona Norma, forte do apoio de Dona Gisa, propunha o silêncio em torno do nome de Vadinho. As demais, sob o comando férreo de Dona Rozilda - e Dona Dinorá era o sargento dessa aguerrida tropa -, abriam a boca de intrigas, xingas e lamentos, para convencê-la de que por fim podia pensar em viver uma vida tranqüila e feliz, de paz, conforto e segurança. De qualquer maneira, no silêncio de piedade ou no ruidoso libelo, ela devia encontrar os caminhos do esquecimento. Era tão moça ainda, tinha a existência inteira em sua frente...

    - Se ela quiser, não fica viúva muito tempo... - profetizava Dona Dinorá, que, em matéria de falar da vida alheia, possuía um sexto sentido, um dom divinatório, uma espécie de vidência. Aliás, em sua casa (herança de um comendador espanhol), de robe e em transe, Dona Dinorá botava cartas e previa o futuro, consultando uma bola de cristal.

     Por que, perguntava-se Dona Flor, não vinha nenhuma delas lhe recordar jamais um bem-feito de Vadinho? Afinal, em meio às incontáveis tratantices, vez por outra prevaleciam em seus atos a graça, a generosidade, o senso de justiça, o amor. Por que então só mediam Vadinho com o metro da ruindade, só o pesavam numa balança de maldições? Sempre fora assim, aliás. Quando ele era vivo, sucediam-se as xeretas, ávidas de transmitir notícias desagradáveis, de lastimar Dona Flor, coitada! merecedora de marido direito e bom, capaz de oferecer-lhe trato e consideração. Nunca, porém, acontecera comadre às pressas, abandonando seus cômodos, seus que-fazeres e seus lazeres, para vir, sôfrega e vibrante, lhe anunciar boa ação de Vadinho:

     - Flor, repare, mas não diga que eu contei... Vadinho ganhou no bicho e deu o dinheiro todo a Norma pra ela comprar um presente de aniversário para você... O aniversário ainda está longe, eu sei, mas ele teve medo de gastar o dinheiro, quis logo garantir o presente...

     Assim sucedera certa ocasião, todas as comadres o sabiam e só Dona Norma tinha o compromisso de guardar segredo. No entanto, não fosse ela romper a jura, incapaz de tão longa mudez, mais de vinte dias, Dona Flor nunca viria a tomar conhecimento do gesto. As outras trancaram as bocas, quem se incomoda em transmitir alvissareiras novas? Para isso não há urgência nem sofreguidão, ninguém sai correndo rua a fora. Só para as más notícias. Para levá-las, sobram os arautos, não falta quem se dê aos maiores incômodos, quem largue trabalho, interrompa descanso, quem se sacrifique. Dar uma notícia ruim, coisa mais emocionante!

     Não fosse o puro acaso e Dona Flor teria ido embora naquela tarde em que Vadinho desceu ao fundo de sua ignomínia, desnudou-se em baixeza; chegara a arrumar as malas. Havia sempre um quarto à sua disposição em casa dos tios, no Rio Vermelho. Por um quase nada não se foi de vez, no definitivo rompimento. No entanto, a rua estava cheia de comadres, atraídas pelos gritos e pelo choro, e todas viram quando o Cigano chegou e todas o escutaram falar com a voz trêmula, foram testemunhas da reação de Vadinho.

     Alguma delas contou a cena a Dona Flor, repetiu-lhe as palavras de Cigano? Pois sim, que esperança! Nem uma só para remédio, como se nada houvessem visto e ouvido. Ao contrário, todas as xeretas apoiavam sua decisão, reconheciam-lhe motivos de sobra para romper de uma vez e para sempre com o canalha. Algumas até ajudavam na preparação das malas.

 

     Quando Vadinho apareceu naquela tarde, Dona Flor imaginou em seguida o motivo da inopinada presença. Quanto mais assuntava em suas maneiras, mais se convencia: nunca estivera tão discreto com as alunas, quase escondido num canto da sala, deixando-as concluir tranqüilas, na cozinha, a aula prática, um bolo de aniversário. As moças, componentes de turma nova, riam numa curiosidade sem disfarces, do desejo de conhecer o falado marido da professora, com sua fama singular: à sua maneira Vadinho era célebre. Finda a aula, quando, entre exclamações de

elogio, foram servidas fatias de bolo e cálices de licor de cacau - especialidade da casa, orgulho de Dona Flor, cuja competência em licores de ovo e de frutas corria parelha com a fama de seu tempero -, com uma ponta de jactância, um ar vaidoso, ela apresentou:

    - Vadinho, meu marido...

     Nenhuma piada, nenhuma frase de duplo sentido, nem um piscar de olhos. Vadinho mantinha-se sério e quase triste; Dona Flor conhecia o significado daquela expressão e tinha-lhe medo. Ah! se pudesse reter as alunas pela tarde e pela noite, prolongando a conversa, mesmo com o perigo do valdevinos por as mangas de fora, sair com suas ousadias. Ah! se pudesse evitar o colóquio, vis-à-vis com um Vadinho incapaz de fitá-la de frente, dobrado ao peso de suas piores intenções... Mas as alunas, moças e senhoras de intensa vida social, churupitavam o licor às

carreiras, despediam-se.

     Na véspera, Dona Lígia Oliva mandara lhe pagar - regiamente – os doces e salgados, uma encomenda enorme, para a recepção em honra de uns lordes de São Paulo. Desde o casamento, Dona Flor circunscrevera-se à lida com a Escola, recusando encomendas. Abria, no entanto, algumas exceções, para pessoas de sua estima: "de Dona Lígia sou devota", disse ao assumir empreitada de tal monta.

     Esses dinheiros extraordinários, quase sempre recebidos na ausência de Vadinho, Dona Flor os reservava para as despesas inesperadas, uma compra maior, uma doença, qualquer precisão. Acontecia-lhe, inclusive, juntar alguns contos de réis, bolo de notas oculto em esconderijos pela

casa. Economias para a aquisição de utensílios domésticos, de presentes de aniversário, para as mensalidades da máquina de costura, e consumidas, em grande parte, em empréstimos a Vadinho, aos cem e duzentos mil-réis...

     Por azar, Vadinho encontrava-se escornado na sala quando o doutor Zitelmann Oliva se deu ao incomodo (ele, tão ocupado com seus oito cargos, todos de realce e importância) de vir pessoalmente a casa deles para pagar:

    - Estou com esse dinheiro no bolso há três dias... Ligia hoje só faltou me bater quando descobriu que eu ainda não tinha efetuado o pagamento-....

     - Ora, doutor, não se preocupe... Que bobagem...

     - Então, seu Vadinho - pilheriava o figurão -, o que é que você faz para que sua mulher fique cada vez mais moça e mais bonita? – conhecia Dona Flor de menina e de há muito conhecia Vadinho, que de quando em quando, tentava mordê-lo (com parcos resultados, aliás, doutor Zitelmann era duro na queda).

     - Boa vida, doutor, a boa vida que ela leva. Casada com um marido como eu, que não dá dor de cabeça, não dá preocupações... Vive a lá godaça, descansada, feliz da vida... - ria seu riso despreocupado, tão contente!, Dona Flor ria também de tamanho descaramento do marido.

     Vadinho não lhe pedira dinheiro naquele dia. Com certeza ganhara na véspera, ainda tinha alguma reserva. Mas, quando ele apareceu de súbito na tarde seguinte, com aqueles olhos baixos, o rosto sério, quase triste, ela adivinhou de logo o motivo a traze-lo: vinha pelo dinheiro. Enquanto as alunas sorviam o licor, saboreavam o bolo, álacres, com olhares furtivos para o moço quieto, Dona Flor, em silêncio, o coração sufocado, fez uma jura a si mesma, numa resolução terminante. Não lhe daria aquele dinheiro, nem todo nem uma pequena parcela, um real sequer. Destinava-o à compra de um novo aparelho de rádio. Ouvir rádio, eis o passatempo preferido de Dona Flor, sua maior distração: doida por sambas e canções, tangos e boleros, pelos programas cômicos, e, sobretudo, pelas novelas radiofônicas. Juntas, a ouvi-las, ela, Dona Norma, Dona Dinorá e outras vizinhas, trêmulas e vibrantes com o destino da condessa apaixonada pelo engenheiro pobre. Exceção, só Dona Gisa, num desprezo de erudita por tão baixa literatura.

     O rádio, parte de sua bagagem de solteira, antiquado e gasto, só dava despesas, encrencando todos os dias, falhando nos momentos mais dramáticos, mudo na cena mais emocionante. Consertos e mais consertos, inúteis e caros. Dessa vez a decisão de Dona Flor era irrevogável: não abriria mão de suas economias, sucedesse o que sucedesse. Afinal, tinha de colocar um paradeiro àquele abuso.

     Foram-se as alunas numa revoada de risos e um tanto quanto desiludidas: era aquele sorumbático sujeito num canto a cismar, o tão falado marido da professora, com fama de perigoso, de irresistível, o do caso com Noêmia Fagundes da Silva? Francamente, não lhes parecera digno de cobiça, muito aquém da insolente legenda. Dona Flor encontrou-se a sós com Vadinho, vis-à-vis com o seu medo, a boca amarga, opresso o coração. Erguendo-se num esforço, ele dirigiu-se à mesa, encheu um cálice de licor:

    - Esse troço é gostoso mas pega que é uma beleza, dá um pileque medonho, uma ressaca horrível... Dor de cabeça maior só com licor de jenipapo...

    Queria parecer despreocupado, veio para junto dela, oferecendo-lhe uma gota de seu cálice, amável e terno:

    - Prove, meu bem...

    Mas Dona Flor recusava, como recusava-se à carícia da mão ao descer do cangote, no caminho dos seios pela abertura da blusa. “Hipocrisia, nada além de hipocrisia, carícias para romper minha resistência, impossibilitar-me à negativa, carícias para minha fraqueza de mulher. Juntou todas as forças, agravos antigos, a pequena reivindicação de um rádio novo, pôs-se de pé, vexada de desgosto”:

     - Por que não diz logo a que veio? Ou pensa que não sei?

     Sério e triste, o rosto de Vadinho; vinha porque tinha de vir, porque nada conseguira em parte alguma, mas não vinha contente, de peito aberto e riso solto, Ah! se pudesse não vir!

     Também ele sabia o destino que Dona Flor pensara dar àquele dinheiro. Seu Edgard Vitrola ainda não aparecera, pois o antigo aparelho continuava na sala como Vadinho constatou logo ao abrir a porta. Mas podia aparecer a qualquer momento com a oitava maravilha do mundo,

beleza de móvel em pau marfim e metal cromado, última palavra em maquinaria, em ondas e faixas, em quiloates e voltagens, capaz de captar as mais longínquas emissoras, as do Japão e as da Austrália, as de Addis-Abeba e as de Hong-Kong, sem esquecer os subversivos programas de

Moscou, tanto mais proibidos quanto mais procurados. Dona Flor mandara recado urgente a seu Edgard, por intermédio de Camafeu, tocador de berimbau e companheiro inseparável do Vitrola.

     Primeiro no bonde, com seu palpite e sua vergonha, depois a pé pela rua, viera Vadinho partido em dois. Um na pressa de chegar antes do vendedor de rádios, nunca um palpite o possuíra assim; o outro no desejo de chegar tarde, após seu Edgard, não mais encontrando nem o rádio velho nem os cobres pagos por Dona Lígia, dinheiro ganho por sua mulher à custa de trabalho e de suor: atravessara a noite junto ao forno, após um dia sem descanso. Partido em dois, no bonde; vindo pela rua, entrando em casa, abrindo a porta: partido em dois. Se seu Edgard não tivesse passado, que sinal mais certo da infalibilidade do palpite? Mas, se já encontrasse o novo aparelho, ficaria em casa aquela noite, ao lado de Dona Flor, estreando-o ouvindo música, rindo com as piadas. Partido em dois, dividido pelo meio, assim viera Vadinho.

     Por que seu Edgard não passara antes? Agora não tinha mais remédio.

     - Tu pensa que é só por interesse que eu te agrado?

     - Só por interesse e nada mais...

     Apenas interesse, vil interesse; retesava-se Dona Flor:

     - Por que não fala logo?

     Um muro os separava naquela hora do crepúsculo, quando a tristeza irrompe do horizonte em cinza e em vermelho, quando cada coisa e cada vivente morre um pouco no morrer do dia.

     - Já que é assim que tu quer, não vou perder mais tempo. Tu vai me emprestar nem que seja duzentos mil-réis.

     - Nem um tostão... Tu não vai ver nem um tostão... Como tu ainda tem coragem de falar em empréstimo? Quando é que tu já pagou nem que fosse um vintém? Esse dinheiro só sai de minha mão para a de seu Edgard.

     - Juro que te pago amanhã, hoje estou precisando de verdade, é caso de vida ou morte. Juro que amanhã compro eu mesmo um rádio para você e tudo mais que tu quiser... Pelo menos cem mil réis...

     - Nem um tostão...

     - Tem paciência, meu bem, só essa vez...

     - Nem um tostão... - repetia como se não soubesse dizer outra coisa.

     - Ouve...

     - Nem um tostão...

     - Toma cuidado, não brinca comigo, porque, se não for por bem, vai ser por mal...

     Disse e olhou em torno como a localizar o esconderijo. Eis que Dona Flor perdeu a cabeça e, em desespero, se atirou para o velho aparelho de rádio; junto às gastas válvulas ocultara o dinheiro. Vadinho a seguira, ela porém já segurava as cédulas, desafiando-o aos berros:

    - Esse tu não vai gastar no jogo. Só se me matar...

    Os gritos cortavam a tarde, as comadres em alerta saíam à rua:

     - É Vadinho tomando o dinheiro de Flor, coitadinha...

     - Cão mais tenebroso! Cão das trevas!

     Vadinho partiu para Dona Flor, os olhos cegos, a cabeça vazia, o ódio a cobrir-lhe o entendimento, ódio de fazer o que estava fazendo. Tomando-a pelos pulsos, bradou-lhe:

    - Larga essa merda!

     Foi ela quem bateu primeiro: arrancando-se dele e não querendo deixar-se agarrar novamente, socou-lhe o peito com os punhos fechados, com a mão aberta atingiu-lhe o rosto. "Sua puta, tu me paga!", disse Vadinho, enquanto Dona Flor gritava: "me deixa; desgraçado, não me bata, me mate logo, é melhor". Então ele a empurrou, ela caiu por cima de umas cadeiras, gritando: "assassino, miserável"; e ele a esbofeteou. Uma, duas, quatro bofetadas. O estalo dos tapas levantou, na rua, o coro de revolta e lástima das comadres. Dona Norma abriu a porta, foi entrando sem pedir licença:

    - Ou você pára com isso, Vadinho, ou eu chamo a polícia.

     Vadinho nem parecia vê-la: lá estava ele com o dinheiro na mão e um ar perdido, o cabelo revolto, olhando num espanto para onde Dona Flor jazia caída, a gemer baixinho, num choro manso. Dona Norma correu a ampará-la. Vadinho saiu porta afora, as notas apertadas  entre os dedos. As vizinhas arredaram do passeio, era como se vissem o próprio demônio dos infernos.

    Naquele mesmo instante, o táxi de Cigano freou junto à porta. Reconhecendo-o, Vadinho sorriu, porque aquela coincidência era mais uma prova da infalibilidade do palpite. Ia pela rua bem do seu quando tivera aquela certeza, mas uma certeza total e absoluta, sem perigo de engano

ou urucubaca, certeza de que nessa tarde e nessa noite ele iria estourar todas as bancas de jogo da cidade, uma por uma, começando pelas roletas do Tabaris, terminando no antro escuso de Paranaguá Ventura. Uma certeza a crescer dentro dele, a dominá-lo, exigindo ação, obrigando-o a

desdobrar-se em inútil peregrinação à cata de numerário, a partir, por fim e a contragosto, em busca do dinheiro de Dona Flor.

     Ao esbofeteá-la, porém, ficara vazio até dessa certeza, fora-se o palpite, todo ele oco por dentro, sem saber o destino a dar àquele dinheiro, como se tudo houvesse sido inútil. Mas, na rua, ante o táxi do Cigano a surgir num milagre - pois Vadinho tinha pressa de iniciar ainda

no turno vespertino a maratona do século, novamente se tranqüilizou. Mais uma prova indiscutível de força do palpite, Vadinho sentia um calor nas mãos, uma urgência de partir. Agora, apenas as mesas de roleta, a bolinha a girar, o crupiê, 0 17, as paradas, o olhar nervoso de Mirandão à sua esquerda como de hábito, as fichas, apenas o jogo existia para ele. Quis entrar no táxi mas o Cigano saltara entre as vizinhas em alvoroço. Um rastro de lágrimas nos olhos do chofer, a voz espessa:

     - Vadinho, meu irmãozinho, minha velha morreu, minha mãezinha... Eu soube na rua, estou vindo agora de casa... Não vi ela morrer, diz que ela chamou por mim quando deu a dor...

     De começo Vadinho nem prestara atenção às palavras do amigo, mas logo entendeu e apertou o braço do Cigano. Que estava ele inventando, que história mais maluca?

    - Quem morreu? Dona Agnéla? Tu está doido?

     - Nem faz três horas. Minha velha, Vadinho...

     Muitas vezes em solteiro, e mesmo depois de casado, inclusive em companhia de Dona Flor, fora ele comer a feijoada dominical de Dona

Agnéla, naquele fim de linha de Brotas. Gordíssima e cordial, ela o tratava como filho, numa fraqueza pelo moço jogador, perdoando-lhe a vida de deboches. Não era ele uma réplica, até nos cabelos loiros, do finado Aníbal Cardeal, batoteiro insigne, seu amásio e pai do Cigano?

    - Igualzinho ao outro... Dois perdidos...

     Novamente sentiu-se Vadinho sem ar e sem ação, dia mais nojento, dia mais sem jeito: primeiro Flor com aquela teimosia da desgraça, agora o Cigano a conduzir nas dobras do crepúsculo e a atirar no passeio o cadáver de Dona Agnéla...

    - Mas, como se deu? Ela estava doente?

     - Nunca vi ela doente, que me lembre. Hoje, quando saí, depois do almoço, deixei ela no tanque, lavando roupa. Cantando, contente que só vendo... Tu não vê que hoje foi o dia de pagar a última letra do carro, a gente tinha o dinheiro certinho. De manhã a gente ficou os dois,

contando, ela e eu... Ela me entregou o que tinha juntado nesse mês, tudo em nota de dez tostões, dois mil-réis. Tava alegre porque agora o carro era meu de verdade - fez uma pausa esforçando-se para não chorar

-: Diz que de repente deu uma dor lá nela, no peito. Que foi só o tempo de dizer meu nome e caiu morta... O que me dói é que eu não estava lá, estava pagando a letra do carro... Isidro, aquele do botequim, é que veio me avisar, na praça... Fui correndo... Ah!, meu irmãozinho ela estava toda fria, os olhos esbugalhados... Agora eu vim porque estou sem um vintém, o dinheiro foi todo no pagamento do carro... O meu e o dela, de minha velha...

    Sua voz quase em surdina, escutariam as comadres? Mesmo as comadres morriam um pouco na agonia do sol, esbatidas na sombra quando Vadinho entregou ao Cigano aquele sujo dinheiro de violência e seu límpido palpite de vitória.

    - É tudo que tenho...

    - Tu vem comigo? Tem muito que fazer...

     - Não houvera de ir?

     Livres da presença de Vadinho, as comadres entravam-lhe casa adentro: no quarto Dona Flor e as malas, Dona Norma tentando demovê-la. As xeretas não compreendiam as razões de Dona Norma. Razão só Dona Flor a possuía, carradas de razão. Um coro de cochichos:

    - Oh! vida mais injusta, como se pode martirizar assim...

     - Ela devia era largar ele de uma vez...

    - Atrever-se a bater... Que horror!

     Jamais Dona Flor acreditou não terem elas escutado a conversa do Cigano, seu anúncio de morte. Não fosse seu Vivaldo, o da funerária, e Dona Flor não teria sabido do falecimento de Dona Agnéla nem de como Vadinho empregara o dinheiro. Seu Vivaldo passou por acaso: aproveitando estar nas imediações, veio trazer a receita de certo prato de bacalhau, de origem catalã, delícia saboreada em pantagruélico almoço em casa dos Taboadas, em cuja mesa nunca serviram menos de oito ou dez pratos, um esbanjamento. Ao enxergar Dona Flor de olhos úmidos, comentou a triste nova: pobre Dona Agnéla. Vinha de saber, encontrara Vadinho e o Cigano, ia fornecer o esquife praticamente sem lucro. Dona Agnéla merecia: uma escrava no trabalho e sempre jovial, pessoa ótima. Seu Vivaldo fora uma vez, com Vadinho, honrar-lhe a feijoada...

     Só então Dona Dinorá e as outras comadres ligaram palavras e gestos, o dinheiro mudando de mãos nas sombras do crepúsculo. Assim o disseram, pelo menos; acredite quem quiser.

     Despediu-se seu Vivaldo com o compromisso de vir provar o prato espanhol, a receita custara-lhe esforço e propina: tivera de corromper a ama dos Taboadas, Dona Antonieta era ciosa de seus segredos culinários.

     Dona Flor conhecera Dona Agnéla naqueles inesquecíveis dias finais do namoro, às vésperas do casamento, quando passava as tardes com Vadinho na casinha clandestina de Itapoã. O estróina dono da casa, durante o dia ocupado com seus negócios de fumo, para as mulheres

reservava as noites, as horas mortas da madrugada. Sucedeu, porém, de passagem pela Bahia, uma carioca sensacional, com apenas uma tarde livre. Vadinho recebeu um recado para não utilizar naquele dia o discreto endereço.

    No táxi, discutiram aonde ir. Ela refugou o cinema, a matinê de indiscreta bolinagem; a um castelo ele não podia levar sua futura esposa. Visitar tia Lita, no Rio Vermelho? E se Dona Rozilda aparecesse por lá? Cigano propôs irem ver Dona Agnéla, que já demonstrara desejo de conhecer a noiva de Vadinho. Passaram a tarde com a gorda lavadeira, a conversar e a tomar café, Vadinho num assanhamento de beijos, Dona Flor toda acanhada. Dona Agnéla encantou-se com a moça, fez-lhe um discurso de alerta e compaixão:

     - Vai casar com esse maluco... Deus que lhe proteja e lhe dê paciência que muito vai precisar. Jogador é a pior nação do mundo, minha filha. Vivi para mais de dez anos com um, igualzinho a esse daí... De cabelo loiro como ele, branco de olho azul... Perdido pelo jogo, punha tudo fora. Até um medalhão que minha mãe me deixou, o maluco vendeu para enterrar o dinheiro no vício. Perdia tudo e ainda ficava brabo, vinha gritar comigo, me dar pancada...

     - Lhe dava pancada? - a voz tensa de Dona Flor...

     - Quando bebia demais, até bater ele me batia - . . Mas só quando bebia demais...

     - E a senhora suportava? Isso eu não admito... De nenhum homem... - Dona Flor estremecia de revoltas só ao pensar: Nunca hei de admitir.

     Dona Agnéla sorriu compreensiva e experiente; Dona Flor era ainda tão menina, nem começara a viver:

     - Que é que eu podia fazer se eu gostava dele, se era minha sina? Ia largar ele sozinho nessa vida agoniada, sem ter quem cuidar dele? Era chofer como Cigano, só que trabalhava para os outros, de comissão. Nunca juntou dinheiro para dar de entrada num carro, o desperdiçado. O que eu juntava, ele perdia, tomava nem que fosse a pulso. Morreu de desastre, tudo que deixou foi o filho pequeno para eu criar... - olhava Dona Flor com afeto e pena: - mas, vou lhe dizer uma coisa, minha filha... Se ele me aparecesse de novo eu me juntava com ele outra vez. Morreu; nunca mais eu quis saber de outro homem, e olhe que não me faltou proposta até de casamento. Eu gostava dele, que é que eu podia fazer, me diga, minha filha, se era minha sina?

     "Era minha sina, eu gostava dele..." Que é que Dona Flor podia fazer? "Me diga, Norminha, que é que eu posso fazer?" Esvaziar as malas, vestir-se de negro para ir ao velório de Dona Agnéla. "Que é que eu posso fazer se é minha sina, se eu gosto dele?"

     Dona Norma a acompanharia, sim. Era chegada Dona Norma a um bom velório. Com lágrimas, soluços, flores roxas, velas acesas, cerimoniosos abraços de pêsames, orações, histórias e lembranças, anedotas e risos, um café bem quente, uns biscoitos, um trago pela madrugada; nada igual a uma sentinela.

    - Mudo o vestido num minuto...

     "Que posso fazer, me diga, Norminha, se ele é minha sina? Largar ele por aí, sozinho, sem ter quem cuide dele? Que posso fazer, me diga, se eu sou doida por ele e sem ele não saberia viver?"

 

     Sem ele não sabe viver, não pode viver. Como acostumar-se, se outra é a luz do dia envolto em cinza, num crepúsculo metálico onde vivos e mortos se confundem nas mesmas lembranças. Tantas imagens e figuras em derredor de Vadinho, tanto riso e tanto choro, um bulício, um calor, o tilintar das fichas e a voz do crupiê. Só no fundo da memória a vida se afirma, plena, com a luz da manhã e as estrelas noturnas; afirma-se vitoriosa sobre esse crepúsculo em coma, no estertor da morte.

     Insone no leito de ferro, no abandono e na ausência, Dona Flor parte na rota do acontecido, portos de bonança, mar de tempestades. Reúne momentos esparsos, nomes, palavras, o som de uma breve melodia, refaz o calendário. Deseja romper a cintura de aço desse crepúsculo, mais além estão o dia de trabalho e a noite de descanso, a vida de viver ... Não esse viver num tempo de gris de nojo, não esse vegetar num asfixiante pântano de lama, essa sua vida sem Vadinho. Como sair desse óvulo de morte, como atravessar a porta estreita desse tempo nu? Sem ele

não sabe viver...

     Por vezes Vadinho fora tão ruim como decretavam as comadres, Dona Rozilda, Dona Dinorá, às demais carpideiras. Em outras ocasiões, porém, faziam-lhe injustiças, acusando-o sem motivo. Ela própria, Dona Flor, assim agira por mais de uma vez.

     Um dia, por exemplo, ele viajara as pressas, Dona Flor soubera no último momento e imaginou o pior, considerando-o perdido para sempre. Não acreditava fosse ele voltar do Rio de Janeiro, com suas luzes feéricas, suas avenidas fervilhantes, os cassinos, centenas de mulheres

à disposição. Quantas vezes não ouvira Vadinho proclamar: "um dia me toco para o Rio, lá é que é vida, nunca mais volto..."?

     Pura maluquice, aquela viagem. Necessitado de numerário, Mirandão inventara uma caravana de estudantes de agronomia com o fim de "visitar os centros de estudo do Rio de Janeiro" durante as férias. Percorreu o comércio em companhia de cinco colegas, tomando dinheiro de meio mundo com um Livro de Ouro. Foram mordidos banqueiros, industriais, empresários, lojistas, comerciantes os mais diversos, políticos do governo e da oposição. Ao fim de alguns dias, haviam recolhido considerável maquia e criado um problema: nas cortesias aos políticos, por três vezes, em sinceros preitos de homenagem, mudaram o nome da Embaixada. Dos três nomes ilustres, por qual agora optar? Mirandão propunha uma solução extremamente simples: dividir entre eles o dinheiro recolhido e dissolver a caravana ali mesmo, dando os centros de estudo por visitados. Mas os cinco colegas, unânimes, discordaram: queriam fazer a viagem, conhecer o Rio (dispondo-se inclusive, se houvesse ocasião propícia, a visitar a Escola de Agronomia, percorrer-lhe as dependências).

    Obtidas passagens de favor, requisitadas pela Secretaria de Agricultura do Estado - pela quarta vez a caravana mudava de nome, em honra ao generoso Secretário de Estado -, no dia do embarque, quase na hora do navio partir, houve uma defecção, um dos seis picaretas tremiam de febre palustre, o médico proibira-lhe a viagem, quando já não tinham tempo de convidar outro estudante para a vaga, nem de vender, a baixo preço, a passagem inútil.

    Vadinho acompanhara Mirandão ao cais, ouvia a discussão. Foi quando o outro lhe perguntou, de repente:

    - Por que você não vem, não aproveita a passagem?

    - Não sou estudante...

     - Ora, senhor... Por isso não, fica sendo... Só que tem de andar depressa, o navio sai daqui a duas horas...

     O tempo de correr até em casa, juntar umas cuecas e umas camisas, o terno azul de casimira, enquanto Mirandão, amigo para qualquer sacrifício, arrostava com as lágrimas de Dona Flor.

     Nunca mais ele voltaria, ela tinha certeza. Não era tão palerma a ponto de acreditar naquela história absurda de Embaixada Estudantil, de viagem de estudos. Se Vadinho não era estudante de coisa nenhuma, como fazer parte de uma caravana de universitários? O único estudo de Vadinho era o do Livro dos Palpites com completa interpretação dos sonhos e dos pesadelos, indispensável a quem quisesse ganhar no jogo do bicho. Partia sem dúvida na esteira de uma vagabunda qualquer para o abismo de depravação do Rio de Janeiro. Quanto mais jurava Mirandão, pela sagrada memória de sua Mãe, pela saúde de seus filhos, mais cética Dona Flor, aquela história não lhe merecia crédito. Por que vinha Mirandão, seu compadre, fazer tal papelão, causar-lhe tamanho desgosto, zombando de seus sentimentos, com mentira tão reles? Se não lhe dispensava consideração e estima, por que então a convidara para madrinha do menino? Se Vadinho queria abandoná-la, ir-se embora com qualquer marafona, mudar-se para o Rio, pelo menos agisse como homem, viesse em pessoa, falando a verdade, não mandasse o compadre com aquele conto da carochinha para abusar de sua amizade e lhe passar diploma de idiota. "Mas, comadre, se é verdade, a pura verdade...? Juro que daqui a um mês a gente volta". Para que essa comédia toda? Nunca mais Vadinho voltaria, ela tinha certeza.

     Voltou, no entanto, na data prevista, com a caravana - de cuja existência já se convencera Dona Flor, pois o filho mais velho de Dona Sinhá Terra, sua aluna, participava da excursão e, numa carta, referia-se a Vadinho, "um companheiro batuta". Não só voltou, como lhe trouxe um régio corte de seda, tecido estrangeiro, bonito e caro. Sinal de sorte na roleta, pensara Dona Flor, e de que Vadinho não a esquecera durante os passeios, as festas, as novidades do Rio, as noites de jogatina e farra. "Como havia de esquecer você, meu bem, se eu só fui para fazer favor aos rapazes, a embaixada não podia ficar incompleta". Chegara usando colete, muito carioca, todo bem falante. Fizera relações, citava nomes: o cantor Sílvio Caldas, Beatriz Costa, estrela de teatro.

     A Sílvio fora apresentado por Caymmi, no Cassino da Urca, onde o seresteiro cumpria contrato. Vadinho rasgava-lhe elogios à simplicidade, à modéstia. "Nem parece que é ele, de tão igual; você vai ver quando ele vier aqui. Me disse que vem em março e eu prometi que tu ia fazer um almoço pra ele, com tudo que é prato baiano. Ele é metido a entender de cozinha". Com que prazer cozinharia Dona Flor esse almoço, se um dia surgisse tão remota oportunidade; era admiradora entusiasta do cantor, escutando-o ao rádio, a voz tão brasileira!

     Envolta no corte de seda a escorregar-lhe pelos ombros, a cobri-la e descobri-la, na alegria do retorno de Vadinho, desfolhada em risos e suspiros, Dona Flor no leito com o marido a vadiar. Uma ponta de remorso a fazer mais doce aquele amor: ela o julgara mais agressiva e injusta, duvidando dele, de "seu estudante mais querido..."

     Do que jamais Dona Flor tomou conhecimento foi do esforço despendido por Mirandão para arrancar Vadinho dos braços de Josi, e pô-lo no navio, de regresso. Josi era leme de guerra da lusa Josefina, corista da Companhia Portuguesa de Revistas Beatriz Costa, perdida de paixão pelo meço baiano (e vice-versa). Conheceram-se quando a Embaixada Acadêmica, tendo obtido entradas grátis, para o Teatro República, foi aos bastidores após o espetáculo, cumprimentar Beatriz, suas artistas, suas coristas. Vadinho bateu o olho em Josi ainda em trajes de varina, Josi mediu o falso estudante de alto a baixo, riram um para o outro, meia hora depois ceavam juntos iscas de bacalhau numa tasca das vizinhanças. Josi pagou a despesa, aquela primeira e todas as demais, até ele viajar. Com o tempo dividido entre a portuguesa e os cassinos, Vadinho esqueceu por completo data do embarque, hora da partida, regresso à Bahia. Mirandão teve de usar de energia e sentimento:

     - Me bastou ver minha comadre chorando uma vez, outra não quero ver ... Se eu chegar lá sem você, o que é que minha comadre não vai dizer?

     Disso nunca teve notícias Dona Flor, como jamais soube da verdadeira origem do corte de seda francesa; não fora comprada no Rio e, sim, ganho a bordo, ao pôquer, na véspera da chegada do navio a Salvador, quando os membros da caravana, já de todo sem dinheiro, arriscavam ao baralho os presentes e as lembranças cariocas. De um dos estudantes, Vadinho ganhara a seda, de outro um par de reluzentes sapatos de verniz e uma gravata borboleta de bolinhas azuis, muito em moda. Contra essas utilidades apostara magnífica foto de Josi, grande e

colorida, com vidro e moldura doirada, onde a saloia se exibia numa cena de teatro, de calçola e porta-seio, a perna erguida, perdição de cachopa! Numa letra trabalhosa ela escrevera: "A meu baianinho adorado, sua saudosa Josi". Retrato finalmente adquirido, após longa barganha, por um outro companheiro de viagem, jovem advogado desejoso de causar inveja aos amigos, com a narração e as provas de sensacionais conquistas metropolitanas. Foi assim que Josi financiou também o desembarque de Vadinho e concorreu para a alegria de Dona Flor. Dona Flor a vadiar nos braços do marido, o corte de seda a escondê-la e a exibi-la, rolando afinal aos pés da cama.

     Como viver sem ele? Asfixiada de ausência, debatendo-se na névoa, presa em correntes, como transpor os limites do desejo impossível? Como reencontrar a luz do sol, o calor do dia a brisa matutina, a viração da tarde e as estrelas do céu, a face do povo? Não, sem ele não sabia viver e o recolhia então naquela bruma de tristezas, risos e emoções, em seu mundo sempre surpreendente.

     Podiam as comadres recordar os maus momentos, as ácidas disputas, as calhordagens em matéria de dinheiro, as noites sem vir em casa, na bebedeira, quem sabe com mulheres, a loucura do jogo. Mas por que não abriam a boca de pragas para lembrar os dias exaltantes da estada de Sílvio Caldas na Bahia, quando Dona Flor não tivera um minuto de descanso, tampouco de tristeza? Uma semana perfeita, nem um pormenor destoante, Dona Flor guarda memória de cada detalhe, uma riqueza de alegria, uma festa. Por assim dizer, naquela semana ela foi uma espécie de rainha de todo o agitado bairro; do Cabeça ao Largo Dois de Julho, do Areal de Cima ao Areal de Baixo, do Sodré a Santa Tereza, da Preguiça ao Mirante dos Aflitos. Sua casa cheia, gente importante, mas importante de verdade, batendo-lhe à porta, pedindo licença para entrar, pois apesar de hóspede do Pálace Hotel foi em casa de Vadinho que Silvio se expandiu, recebeu e conversou, como se aquele fosse seu lar, Dona Flor sua irmã mais moça. Sem falar nos conhecidos, como o banqueiro Celestino, doutor Luis Henrique e o próprio Dom Clemente Nigra, vieram à sua casa os maiores graúdos da Bahia, seja para o famoso almoço, seja em outros dias para cumprimentar o seresteiro, apertar sua mão. Visitas capazes de pôr Dona Rozilda em êxtase, no cúmulo da excitação, se ela não estivesse, felizmente, em Nazareth das Farinhas infernando a vida da nora que, segundo carta de Heitor, esperava por fim o primeiro filho.

      Desse almoço guarda Dona Flor não apenas a nítida recordação, como também recortes de notícias na imprensa. Dois jornalistas, conhecidos de Vadinho, aquele Giovanni Guimarães amigo de rir e de contar lorotas, e um tal de negro Batista, femeeiro de prestigiosa reputação nos castelos, ambos garfos de respeito, deram conta do fato em suas gazetas. Referiu-se Giovanni ao "incomparável ágape oferecido ao notável cantor pelo senhor Waldomiro Guimarães zeloso funcionário municipal, e por sua excelentíssima esposa, Dona Florípedes Paiva Guimarães, cujos méritos culinários se aliam à extrema bondade e à perfeita educação". Enquanto o negro João Batista comovia-se com a quantidade de pratos: "...finíssimo e fartíssimo repasto, de sabor inexcedível, nele se exibiam todos os principais acepipes da cozinha baiana, além de doze qualidades de sobremesa, provando a grandeza de nossa culinária e a qualidade das mãos de fada da senhora Flor Guimarães, esposa de nosso assinante Waldomiro Guimarães, funcionário da Prefeitura dos mais dedicados e eficientes". Como se vê, sentiram-se os dois glutões tão fartos e contentes a ponto de elogiarem não apenas a comida, o paladar de Dona Flor, mas de promoverem Vadinho a dedicado, eficiente e zeloso funcionário, exagero um tanto forte.

     Por que as comadres não recordam esse domingo do almoço? De tão cheia a casa, ninguém podia se mover, as mesas repletas de comida. Doutor Coqueiro, do Tribunal, e músico nas horas vagas, a pronunciar discurso, gabando a arte de Dona Flor; o poeta Hélio Simões, prometendo um soneto de louvação ao tempero da "encantadora Dona da casa, guardiã das grandes tradições, zeladora do dendê e da pimenta". No entanto as comadres estavam presentes, todas elas, num cochicheio, e a tudo assistiam; viram quando Sílvio tomou do violão e abriu o peito apaixonado e brasileiro. Juntara gente na porta da rua para ouvir; e, as cinco da tarde, ainda muitos convidados e outros quantos penetras bebiam cerveja e cachaça, reclamando novas canções ao menestrel, e ele a todos atendia.

     O melhor de tudo, porém, superior aos elogios de corpo presente e em letra de forma nas folhas, aos discursos e versos; o que Dona Flor colocava mesmo acima do canto de Sílvio Caldas, enchendo de paz e harmonia o céu e o mar, foi o comportamento de Vadinho. Não só arcara com todas as despesas do almoço (onde fora arranjar tanto dinheiro e de uma só vez? Só a lábia de Vadinho seria capaz desse milagre...), como naquele dia não se embriagou, bebeu na justa medida, fez sala aos convivas, muito dono de casa. E quando o seresteiro empunhou o violão sem se fazer de rogado, querendo mesmo tocar e cantar em casa de seus amigos, quando agradeceu o almoço chamando Dona Flor de "Florzinha, minha irmã...", Vadinho veio sentar-se ao lado da esposa e tomou-lhe da mão. As lágrimas subiram aos olhos de Dona Flor, tanta emoção era demais.

     Como viver sem ele? Sem ele, onde reencontrar a graça e a surpresa, como acostumar-se? Lera no vespertino a informação do desembarque do cantor para curta temporada no Pálace e no Tabaris. Realizaria também, a convite da Prefeitura, uma serenata no Campo Grande, dando ao povo todo ocasião de vê-lo e ouvi-lo e de cantar com ele. Fora Vadinho esperá-lo ou não tivera conhecimento da notícia?

    Ao vir do Rio, alguns meses antes, não tirava da boca o nome de Sílvio Caldas, não tinha outro assunto. Prometera-lhe até um almoço cozinhado por Dona Flor. Um absurdo... Sujeito assim famoso, manchete de jornais, capa de revistas, na Bahia por uma semana, não ia chegar nem para as encomendas, para os convites dos ricaços; mesmo se quisesse, onde conseguir tempo para comer em casa de pobre? "Uma série de homenagens estão sendo organizadas por figuras da alta sociedade para festejar a presença do grande artista entre nós", anunciava o jornal. Com satisfação, no entanto, e grande, ela assumiria a trabalheira desse almoço, disposta até a gastar suas parcas economias, escondidas numa coluna do leito de ferro, a enterrar o dinheiro do mês, a fazer dívidas se necessário, para receber em casa tal convidado e lhe dar a comer a verdadeira comida baiana. Não duvidava das cordiais relações estabelecidas no Rio; não era o cantor firme presença nas mesas de jogo? Mas daí a vir àquela celebridade à sua casa, a distância era grande.

Para Vadinho, porém, as distâncias não existiam, nem obstáculos de qualquer ordem, para ele tudo era fácil, a vida não tinha impossíveis. Numa ponta de melancolia Dona Flor comentou o assunto com Dona Norma:

    - Loucura de Vadinho... Inventa cada uma... Almoço para Sílvio Caldas, você já pensou?                                Dona Norma, porém, entusiasmava-se:

    - Quem sabe se ele não vem? Menina, ia ser de fechar o comércio...

    Dona Flor satisfazia-se com muito menos:

     - Eu me contento com ir à serenata... Assim mesmo, se tiver companhia... Senão, nem isso...

     - Por companhia não se preocupe, porque eu vou de qualquer jeito. Se Zé Sampaio não quiser ir, então que tenha paciência, vai ficar sozinho em casa. Vou com Artur...

     No programa das dezenove horas, o jornal falado da rádio anunciou a estréia do cantor, marcada para aquela mesma noite, cantando à meia noite para as famílias no salão elegante do Pálace Hotel, ao lado das salas de jogo, cantando as duas da manhã no Tabaris para os boêmios e as mulheres da vida. Recolheu-se Dona Flor, a pensar que, de todo aquele movimento em torno do cantor, só uma coisa era certa: naquela noite não adiantava esperar a chegada de Vadinho; com Sílvio Caldas na terra, era como se ela não tivesse marido. Quando pela madrugada, saíssem do cabaré, a última dobra da noite da Bahia os atendia nos mistérios do Pelourinho, nos caminhos das Sete Portas, no mar e nos saveiros da Rampa do Mercado.

     Dormiu e sonhou. Um sonho confuso onde se misturavam Mirandão, Sílvio Caldas e Vadinho, com seu irmão Heitor, sua cunhada e Dona Rozilda. Todos em Nazareth das Farinhas, onde Dona Flor ajudava a cunhada, grávida, amarrada por uma corrente ao guarda-chuva da sogra. As notícias dos jornais e do rádio e a carta do irmão reuniam-se numa barafunda, sonho mais extravagante. Dona Rozilda, furiosa, queria saber o motivo da presença de Sílvio Caldas em Nazareth. Pois, respondeu ele, para ali se deslocara na exclusiva intenção de acompanhar Vadinho numa serenata a Dona Flor. "Tenho asco a serenatas", rugiu Dona Rozilda. Mas ele empunhava o violão, a voz de pétalas e veludo a acordar o povo do Recôncavo na noite do Paraguaçu... Dona Flor sorri no sonho e no acalanto.

     Cresce a voz na rua, vai despertando Dona Flor, mas o sonho prossegue num milagre, a canção se aproxima, sonho ou realidade. Já se levanta o povo, acorre a ouvir. Dona Flor enfia um robe às pressas, chega à janela.

     Lá estão eles: Vadinho, Mirandão, Edgard Cocô, o sublime Carlinhos Mascarenhas, o pálido Jenner Augusto dos cabarés de Aracaju. E entre eles, o violão ao peito, a voz desatada, Sílvio a cantar para Dona Flor:

 

"...ao som da melodia apaixonada nas cordas do canoro violão...”

   

      Houvera a serenata, a rua em alvoroço; houvera o almoço no domingo, falado até nas gazetas; na segunda, Sílvio veio preparar o jantar, trouxe de um tudo, vestiu um avental, foi para a cozinha, e sabia mesmo cozinhar. Nos outros dias não tinha hora de aparecer, entrava e saía, juntos foram todos assistir a uma capoeira. Mas, de tudo quanto aconteceu naquela semana, nada se comparou à festa popular da terça-feira véspera da partida de Silvio para o Recife. Na norte de lua cheia, do alto do palanque no Campo Grande, ele cantou para a multidão, o povo reunido na praça.

     Dona Flor nem perguntara a Vadinho se iria: ele não largava o amigo. Apenas lhe comunicou sua decisão de também assistir, aproveitando a companhia de Dona Norma e de seu Sampaio, pois até o comerciante de sapatos se erguera de seu eterno cansaço para comparecer à seresta.

     Qual não foi, assim, a surpresa de Dona Flor quando, logo após o jantar, o táxi do Cigano desembarcou Vadinho, Sílvio e Mirandão na porta de casa, vinham buscá-la. "E a comadre?" perguntou ela a Mirandão. Fora antes com a criançada, já devia estar no largo. Enquanto Dona Flor terminava de aprontar-se, eles providenciaram uma batida de limão.

     Ficaram sentados no palanque, ela e Vadinho, em cadeiras reservadas para as autoridades. O Governador não comparecera, preso ao leito com uma gripe, mas instalaram um alto-falante nas imediações do Palácio, assim Sua Excelência e a Excelentíssima poderiam ouvir. Nas cadeiras acomodavam-se o Prefeito da Cidade e sua esposa, o Chefe de Polícia com a mãe e as irmãs, o Diretor de Educação, os Comandantes da Polícia Militar e do Corpo de Bombeiros, com seus familiares, doutor Jorge Calmon e outros fidalgos. Dona Flor, em meio a toda aquela lordeza,

sorriu para Vadinho:

    - Só tenho pena de Mamãe não ver isso... Nem havia de acreditar. Nós dois sentados com o governo...

     Vadinho riu seu riso zombeteiro, lhe disse:

    - Tua mãe é uma velha coroca, não sabe que na vida só vale o amor e a amizade. O resto é tudo pinóia, é tudo presunção, não paga a pena...

     De repente, um acorde ao violão e todo o alegre rumor extinguiu-se na praça. A voz de Sílvio Caldas, a lua cheia, as estrelas e a brisa, as árvores do parque, o silêncio do povo: Dona Flor cerrou os olhos, encostou a cabeça no ombro do marido.

     Como viver sem ele, como atravessar esse deserto, transpor esse crepúsculo, erguer-se desse pântano? Sem ele tudo é pinóia, presunção, não paga a pena viver.

 

    No leito de ferro um único pensamento esmaga Dona Flor, atira-a contra o fundo de si mesma, em frangalhos: nunca mais o teria ali, em alvoroço, ao seu Vadinho; nunca mais. Aquela certeza a penetra e rompe; lâmina de veneno, rasga-lhe o peito e lhe apodrece o coração, apagando sua ânsia de sobrevivência, sua juventude ávida de subsistir. No leito de ferro, suicida, Dona Flor. Apenas o desejo a sustenta e a memória persiste. Por que o espera, se é inútil? Por que o desejo se ergue numa labareda, fogo a queimar-lhe às entranhas, a sustentá-la viva? Se é inútil, se ele não voltará, despudorado amante, a lhe arrancar anágua ou camisola, a calça de rendas, a expor a sua nudez pelada, dizendo frases tão loucas que nem na lembrança ela se atreve a repeti-las, tão loucas e indecentes mas tão lindas, ai. Não virá tocar-lhe o colo, as ancas e o ventre, despertá-la e adormecê-la, temporal de anseios, furacão a conduzi-la cega, brisa de ternuras, zéfiro de suspiros e o desfalecer para novamente despertar. Ai, nunca mais! Só o desejo a sustenta, e a memória.

    "Como uma alma penada pela casa úmida e soturna, um túmulo". Cheiro de mofo nas paredes, nas telhas e no piso, um frio abandono à espera das aranhas e das teias. "Uma sepultura onde ela se enterrou com a lembrança de Vadinho". Dona Flor toda em negro, de nojo por dentro e por fora, apodrecida. Dona Norma sua amiga, veio e lhe disse:

    - Assim pão é possível, Flor. Não é possível. Vai completar um mês e você vive como uma alma penada, rondando dentro de casa. E sua casa que era um brinco está se enchendo de bolor; mais parece, Deus me perdoe, uma sepultura onde você se encerrou. Reaja, acabe com isso, alivie esse luto...

     As alunas perdiam-se naquela atmosfera onde risos e piadas soavam falso. Como manter o cordial quotidiano das aulas, a agradável sensação de passatempo, causa do maior sucesso da Escola de Culinária Sabor e Arte, se a professora ria por compromisso e com esforço? Nos seus

distantes tempos de aluna, Dona Magá Paternostro, a milionária, numa pose cômica de recitativo escolar, declamava, da soleira da porta no primeiro andar do Alvo, um pastiche do Estudante Alsaciano:

 

"Salve a escola risonha e franca e sua jovem professora brincalhona..."

   

      Desde então a procura de inscrições crescia, porque cada senhora, fazia espontânea publicidade, recomendava às amigas: "Ela é formidável, cozinha como ninguém, sabe ensinar e é um encanto de pessoa. As aulas são tão divertidas, são duas horas de risadas, de anedotas, de pilhérias. Para passar o tempo não há nada melhor". Por vezes era obrigada a recusar alunas tantas as candidatas às vagas trimestrais, nos dois cursos. Agora, no entanto, já três moças haviam abandonado a turma e até circulara a notícia do próximo fechamento da Escola. Onde aquela "jovem professora brincalhona?" Onde as "duas horas de anedotas e pilhérias"? No meio da aula, quando riam as moças, de súbito Dona Flor como que se ausentava, os olhos perdidos, a face ansiosa. Quem gosta de carregar defunto dos outros, dias e dias às voltas com o morto, como se

não existissem cemitérios?

     Sua comadre Dionísia de Oxóssi viera visitá-la, trouxera o capeta do afilhado, chegara toda em escuro como exigiam os ritos de gentileza, mas chegara sorrindo, pois quase um mês já era passado e, com aquela, completava um turno de três visitas. A feição da tristeza de Dona Flor a

preocupou, jururu assim a comadre ia mal.

    - Enterre o xará de uma vez, comadre... Senão ele começa a feder e a consumir tudo por aqui, até vosmicê...

    - Não sei como fazer. Só tenho descanso, quando me lembro dele...

    - Pois junte tudo quanto é lembrança do xará. junte o carrego dele e enterre no fundo do coração. Junte tudo, o bom e o ruim, enterre o carrego todo e depois deite e durma seu sono sossegada...

     Sobraçando livros, a frescata num vaporoso vestido de verão a exibir-lhe as sardas e a saúde, Dona Gisa, sua conselheira, a repreendia:

    - Que é isso? Quanto tempo vai durar essa exibição?

    - Que posso fazer? Não é que eu queira...

    - E sua força de vontade? Diga a si mesma: amanhã começo vida nova; feche a porta do passado, volte a viver.

     O coro das comadres, num cantochão:

     - Agora, sem o peste do marido, é que ela pode viver feliz... Devia dar graças a Deus...

     Dom Clemente Nigra no pátio do convento sobre o imenso mar de óleo verde-azul tocou-lhe a face triste, contemplando seu luto fechado e lancinante, magra e entregue. Dona Flor, viera encomendar a missa de mês.

     - Minha filha - sussurrou o frade de marfim -, que desespero é esse? Vadinho era tão alegre, gostava tanto de rir... Sempre que eu o via me dava conta que o pior pecado mortal é a tristeza, o único que ofende a vida. O que ele diria se lhe visse assim? Não havia de gostar, ele não gostava de nada que fosse triste. Se você quiser ser fiel à memória de Vadinho enfrente a vida com alegria.

     As carpideiras em bando pelo bairro:

     - Agora, sim, ela pode ter alegria, pois o cão foi pros infernos.

     As figuras moviam-se ao fundo do quarto como num balé: Dona Rozilda, Dona Dinorá, as beatas com seu aftim de sacristia, e Dona Norma, Dona Gisa, Dom Clemente, Dionísia de Oxóssi a sorrir com seu menino:

     - Enterre o carrego do xará no coração, comadre, e se deite e durma.

     Mas seu corpo não se conforma e o reclama. Ela raciocina, pensa, ouve as amigas, dá-lhes razão, é preciso por um cobro a esse morrer todos os dias e cada vez um pouco mais. Seu corpo, porém, não se conforma e o exige em desespero. Só a memória o devolve e ali o traz, a Vadinho, com seu atrevido bigode, seu riso de zombaria, sua insolência, as palavras feias e tão lindas, sua mata de pelos e a marca da navalha. Quer partir com ele, retomar seu braço, irritar-se com os malfeitos, e eram tantos!, gemer impudica, desfalecente, no beijo. Mas, Ah!, precisa reagir e viver, abrir sua casa e seus trancados lábios, arejar as salas e o coração, tomar do carrego de Vadinho, de todo ele e enterrá-lo fundo. Quem sabe, assim aplacará o desejo. Uma viúva, ela sempre ouvira

dizer, deve ser insensível a tais apetites, a esses pecaminosos pensamentos, deve ficar de desejo murcho, seca flor inútil. Desejo de viúva vai para a cova no caixão do finado, se enterra com ele. Só mulher muito safada, sem amor por seu marido, ainda pode pensar nessas sem-vergonhices, coisa mais feia. Por que Vadinho não levou consigo a febre a consumi-la, o desespero a intumescer-lhe os seios, a doer-lhe no ventre inconformado? E tempo de enterrar novamente seu morto e com o carrego inteiro: seus maltratos, suas ruindades, suas safadezas, sua alegria, sua graça, o generoso ímpeto; e tudo quanto ele plantou na mansidão de Dona Flor, as fogueiras que acendeu, a dolorida ânsia, aquela loucura de amor, o desejo em brasa, ai, o criminoso desejo de viúva descarada!

     Antes, porém, por uma vez ao menos, uma derradeira vez, ela o busca e o encontra e vai com ele, presa a seu braço. Vai nuns trinques de rica, como nos tempos de solteira, quando ela e Rosália, duas pobretonas, compareciam a festas em casas de burgueses opulentos e eram as mais bem vestidas, num tal capricho a sobrepujar o luxo das demais.

     Ah! noite sobre todas bela e terrível, de novidade e surpresa, de medo e exaltação, de humilhação e triunfo! Com as emoções da sala de dança e da sala de jogo, os nervos rotos, o coração em festa, noite . mais imensa!

     Por uma derradeira vez com ele, devagar. Passo a passo, a reconstruir o absurdo itinerário daquela noite sem estrelas: a saída de casa, os dois e Dona Gisa, a ceia, o tango, o espetáculo, as mulatas rebolando, as negras cantando, a roleta, o bacará, a afronta e a ternura, à volta no táxi do Cigano como nos velhos tempos, Vadinho numa impaciência tomando-lhe dos lábios ali mesmo, na vista de Dona Gisa sorridente. Num frenesi a lhe arrancar e destruir o luxo do vestido apenas entraram no quarto:

    - Não sei o que você tem hoje, meu bem, está um pedaço de mulher, e eu estou doido por você. Vamos, depressa... Tu vai ver o que é vadiar, como tu nunca vadiou. É hoje o dia, te prepara. Te dei o que tu pediu, agora tu vai pagar...

     Caída no leito de ferro, estremeceu Dona Flor. Nessa noite o fel se transformou em mel, novamente a dor abriu-se no supremo prazer; nunca fora ela égua tão em violência montada por seu fogoso garanhão, tão devassa cadela em cio e possuída, escrava submissa ao seu deboche, fêmea a percorrer todos os caminhos do desejo, campinas de flores e doçuras, florestas de sombras úmidas e proibidas veredas, até o reduto final. Noite de penetrar as portas mais estreitas e trancadas, noite de render-se o último bastião de sua pudicícia, oh! Deo gratias, aleluia! Quando o fel se transformou em mel e a dor foi o raro, o, esquisito, o divino prazer, noite de dar-se e receber.

     Foi no dia do aniversário de Dona Flor e não fazia muito tempo, acontecera no último dezembro, nas proximidades do Natal.

 

PARÊNTESIS COM O NEGRO ARIGOF E O BELO ZEQUITO MIRABEAU

     Vadinho acordou tarde, depois das onze, tinha chegado em casa, de manhãzinha, numa cachaça bruta. Ao fazer a barba, deu-se conta do silêncio inabitual, da falta das alunas do turno matutino. Por que não houvera aula naquele dia? Uma das moças, mulatinha doirada, esguia e

frágil, punha-lhe olhos cativos, a fala dengosa. Vadinho já decidira levá-la a passeio quando tivesse tempo livre e disposição: para ensinar-lhe a beleza selvagem das praias desertas e o gosto da maresia. Delicado junco de esbelteza, aquela sonsa toda, com seu Donaire e seu enleio; estava na fila, à espera de vez. No momento, Vadinho atendia às exigências sexo-sentimentais de Zilda Catunda, a mais sapeca das três espevitadas Irmãs Catunda, sentindo porém aproximar-se o término do xodó: a faceira dera em exigente, querendo mandar nele, controlar seus passos, com a mania de ter ciúmes e até de Dona Flor, a atrevida.

     Se não era dia santo, nem feriado, por que não havia aula? Ao sair do banheiro, deparou com festiva atmosfera; Dona Norma ajudando na cozinha, tia Lita a limpar os móveis, Thales porto instalado na espreguiçadeira com jornais e um cálice de licor. Havia no ar um perfume de almoço comemorativo, mas por que essa comemoração sem motivo visível?

     Um almoço farto, a casa cheia de amigos, regabofe dominical, eis um dos prazeres de Vadinho. Fossem menos vasqueiras suas finanças e com maior freqüência ele repetiria rabadas e sarapatéis, maniçobas e vatapás. Apenas lhe vinha uma aragem de sorte e já programava uma feijoada, uma carne de sol com pirão de leite, um molho pardo de conquéns, sem falar no clássico caruru de Cosme e Damião, em setembro, e na canjica e no jenipapo do São João. Mas, esse almoço flutuando no ar, sem aviso nem convite, que diabo de festa era essa? Dona Norma respondeu-lhe num esbregue:

     - Você ainda tem coragem de perguntar, Vadinho? Não se lembra que hoje é dia do aniversário de sua mulher?

    - De Flor? Que dia é hoje? Dezenove de dezembro?

    A vizinha aperrienta, a ralhar:

    - Você não toma mesmo vergonha... Vamos, diga: o que é que comprou para ela, que presente vai dar a essa santa...

     Nada, Dona Norma, não comprara nada e bem merecia o esporro, a censura pelo desleixo; mas era lá homem para recordar aniversários, escolher mimos em lojas? Uma lástima, perdera a oportunidade de fazer um bonito trazendo um presentão. Dona Flor ficaria doida de contentamento, como num outro aniversário, quando ele entregara, até com antecedência, dinheiro graúdo a Dona Norma, encarregando-a de comprar "uma lembrança batuta, sem esquecer um frasco de cheiro, de Royal Briar, do qual ela gosta muito".

     Pena ter-se descuidado, logo quando atravessava um período de sorte excepcional, ganhando firme há quatro ou cinco dias. Não só na roleta, no bacará, nos dados, mas também no jogo do bicho; iniciara a semana acertando no milhar dois dias consecutivos.

    Tão cheio de dinheiro a ponto de resgatar um título ameaçado de protesto para satisfazer compromisso de terceiro, salvando-lhe o crédito e o bom nome. E não era o salafra sequer seu amigo, um gabola bem falante, simples relação de bar e cabaré. Fora, aliás, no Tabaris que o paroara, num porre daqueles, aceitou, com ânimo generoso e raro entusiasmo, a idéia de avalizar a nota promissória assinada por Vadinho, a trinta dias de prazo.

     Pouco depois de um mês, era Vadinho convocado ao escritório do gerente do Banco onde se dera o desconto do título. Atendeu pressuroso ao convite, mantinha uma hábil política de boas relações com os gerentes e subgerentes dos estabelecimentos bancários dos quais tanto dependia.

    - Mestre Vadinho - disse o carrasco, aliás um bom camarada, seu Jorge Tarquínio - tenho aqui um papagaio seu, vencido...

     - Meu? Se eu não devo a ninguém... Só vendo...

    - Pois veja e pague... - exibia-lhe a promissória.

     Vadinho reconheceu sua firma e a do avalista:

    - Mas, seu Tarquínio, se o título tem avalista, por que o senhor vem me meter susto, dizer que eu estou devendo... É só ir ao Raimundo Reis e cobrar, o homem é podre de rico, tem fazenda de gado, engenho de açúcar, banca de rábula, vai à Europa todo ano... É ele que o senhor tem de chamar aqui .

     - É claro que fomos a ele primeiro, é o avalista... Mas ele diz que não paga de maneira nenhuma. Recusa-se...

    Vadinho ia do espanto ao escândalo ante tamanho descaro.

     - Disse que não paga, recusa-se? Mas veja o senhor, seu Tarquínio, tem de tudo nesse mundo... Que sujeito mais cínico e sem vergonha...! Fica no cabaré a arrotar riqueza, que tem léguas de terra, que mais gado e que mais açúcar, que faz e acontece, que comeu três mulheres de uma vez em Paris, um bafo de milionário. Vai daí, a gente confia, cai no conto do vigarista, aceita o aval como se o tipo fosse direito. Resultado: título vencido sem pagamento e o meu crédito abalado, o senhor me chamando aqui...

    - Mas, Vadinho, afinal foi você quem tomou o dinheiro emprestado...

     - Ora, seu Tarquínio, pelo amor de Deus... Se esse peculatário não tinha capacidade para avalizar, por que veio se oferecer? Afinal ele assumiu ou não a responsabilidade, assumiu ou não o compromisso de pagar a dívida se eu não pagasse? Assumiu e eu fiquei bem do meu, descansado ... E agora, isso... Não está direito... São sujeitos assim que deixam a gente mal junto aos Bancos... Quando o cara avaliza um título é porque está disposto a pagar, seu Tarquínio. Esse Raimundo Reis devia estar era na cadeia, caloteiro vagabundo...

     Toda aquela absurda indignação com o fim de amansá-lo, de preparar-lhe o ânimo para a reforma do título, pensou seu Tarquínio, já vencido. Qual o seu assombro quando Vadinho meteu a mão no bolso e puxou as inacreditáveis pelegas:

    - Está vendo, seu Tarquínio, o prejuízo que esse tipo está me dando? E o resultado da gente se meter com esses tratantes... E eu que sempre escolhi meus avalistas a dedo... Raimundo Reis, quem diria... É vivendo que se aprende...

    Nem sentiu o desfalque, maré de sorte sem solução de continuidade, o dinheiro entrando a rodo, em fichas coloridas, saindo em notas e moedas, semana de ceias, de muita bebida, de farras monumentais.

     Desparrame de sorte a culminar em magna apoteose, na véspera. Vadinho, tendo sonhado com seu Zé Sampaio, nem se deu ao trabalho de uma consulta ao livro de palpites, para quê? Urso, na certa, e assim foi: o urso desembestou na centena, na dezena e no grupo; lucro multiplicado depois no Tabaris, na lebre francesa e no bacará. Noite negra para os banqueiros de jogo pois Vadinho a atravessou ganhando, sem exagero mas com firme persistência, enquanto o negro Arigof, com o diabo no corpo naquela madrugada, levantara noventa e seis contos de réis em menos de dez minutos, na roleta.

     O negro surgiu no fim da noite, já perto do crupiê anunciar a bola derradeira. Vinha da espelunca de Três Duques, de rabo entre as pernas, a ronda engolira-lhe as últimas moedas. Passara no Abaixadinho e na ratoeira de Cardoso Pereba, findando ali, no Tabaris, último porto

daquela aflita navegação.

     O Tabaris era uma espécie de esquina do mundo, meio cassino, meio cabaré, explorado pelos mesmos concessionários do Pálace Hotel. Exibiam-se ali os bons artistas contratados para o Pálace e uma segunda classe onde dava de um tudo, desde velhas ruínas no término da carreira,

até meninotas apenas púberes, protegidas umas e outras de seu Tito, administrador com carta branca. Das primeiras tinha pena, nada mais melancólico e trágico do que uma velha atriz sem contrato. As outras ele as ensaiava e experimentava em seu sujo escritório; se não servissem para o tablado, trabalhariam somente como rameiras, sem acumular. No correr da noite o Tabaris ia recolhendo os freqüentadores do Pálace, gente em geral de posição e dinheiro, e a ralé das diversas tascas, do Abaixadinho, banca com pretensões a cassino, até o antro esconso de Paranaguá Ventura. Ali vinham todos terminar a noite, na última tentativa, na derradeira esperança.

     Entrou Arigof e deparou com Vadinho em glória, cercado de uma roda de curiosos a apreciar sua soberba classe ao bacará, Mirandão a seu lado esquerdo, afanando-lhe de quando em quando uma ficha, várias damas ao lado direito e, entre elas, as Irmãs Catunda. "Depressa, passe uma ficha, meu irmãozinho, rápido que já vai fechar", pediu Arigof num sussurro patético. Preso às cartas, Vadinho meteu a mão no bolso, retirou uma ficha, não viu sequer o valor. Era das pequenas, de cinco mil-réis, não exigia mais o negro. Correu para a roleta, depositou a dádiva no 26, onde a bolinha morreu: e duas vezes repetiu o número. Dez minutos depois o jogo terminava, Arigof remia noventa e seis contos, Vadinho doze, sem falar no conto e trezentos no bolso solidário de Mirandão.

     Foi nessa noite magnificente que o negro Arigof, com sua elegância britânica e seus modos de grão-duque, encomendou e pagou adiantado o tecido e o feitio de seis ternos do melhor linho branco inglês. Devia ele de longa data sessenta mil-réis a Aristides Pitanga, alfaiate doido pelas mesas de roleta e temeroso de jogar. A sovinice não lhe permitia mais de uma ou duas paradas por noite, modestas, rondava as mesas vibrando com as apostas dos outros, sugerindo palpites, peruando em comentários sobre sorte e azar.

     Há muito rezara o alfaiate pela alma daquele resto de conta, mas, ante a performance espetacular do freguês exigente e caloteiro, perdeu a serenidade e a ética, desenterrou o débito da coluna de perdas e lucros, fez a cobrança ali mesmo, na vista dos parceiros e das mulheres-damas,

uma desfeita. Não se alterou o negro:

     - Sessenta mil-réis? Daquela roupa...? E, me diga, Pitanga, quanto você está cobrando hoje por um traje de linho branco?

     - Linho comum?

     - Inglês, S 120, casca de ovo. Do melhor que houver na praça.

     - Por aí... por volta de uns trezentos mil réis...

     Meteu Arigof a mão no bolso, extraindo pelegas de quinhentos:

     - Pois aí estão dois contos... Faça seis ternos novos pra mim. Subtraia seus sessenta mil-réis e fique com o troco de gorjeta pelo trabalho de vir cobrar conta de freguês em mesa de jogo...

     Atirou o dinheiro na cara do alfaiate, deu-lhe as costas, enquanto o outro, apalermado, recolhia as notas pelo chão, por entre a vaia das mulheres.

     Era um fidalgo esse Arigof, de roupas e maneiras, e como bom fidalgo outra coisa não fizera na vida senão jogar; pobre como Jó, negro retinto, mestre capoeirista, de entrada proibida no Pálace Hotel, onde certa feita dera alteração das maiores, quando um gracioso filhinho de papai de uísque racista, ao ver o negro Arigof impecável, todo de branco, riu para sua roda e disse: "Olha o macaco que fugiu do circo". Ficou o salão em pandarecos e o sacana farrombeiro exibe até hoje uma flor aberta na face a traço de navalha.

     O sucesso dos dois amigos foi motivo de ceia comemorativa, sob a presidência ilustre de Chimbo. Compuseram a mesa Mirandão, Robato, Anacreon, Pé de Jegue, o arquiteto Lev Língua de Prata, os jornalistas Curvelo e João Batista, o bacharel Tibúrcio Barreiros, além dos anfitriões e de um distinto ramalhete de mundanas e, digamos, de artistas, satisfazendo assim à vontade das Irmãs Catunda, ciosas de sua arte e escol da brilhante sociedade reunida no castelo da gorda Carla. Essas Irmãs Catunda, "artistas de talento polimorfo", segundo escreveu em "O Imparcial" o foliculário Batista, eram três espoletas, filhas da mesma mãe Jacinta Apanha-o-Bago e de pais diferentes. A mais velha quase negra, a mais nova quase branca, a do meio um amor de mulatinha, de comum só possuíam a progenitora e a desafinação. Fracas no gorjeio mas ótimas na cama, onde realmente polimorfas, segundo depoimento do mesmo João Batista, cujo salário no jornal e uns cobres cavados aqui e ali eram gastos com as empreendedoras irmãs; conhecendo o trio, uma a uma, ainda não decidira o redator qual a mais perita e politécnica. A do meio, Zilda, tinha um fraco por Vadinho.

     Lev Língua de Prata e o advogado haviam querido levar The Honolulu's Sisters para abrilhantar ainda mais a ceia. Sem resultado. Essas "sisters" não eram irmãs sequer de mãe, não vinham tampouco de Honolulu; duas negras norte-americanas, foscas na cor mas de plástica perfeita: frágil corça e meiga Jô, destra pantera a musculosa Mô. De comum, além dos corpos sem jaça, tinham a voz agradável e o estranho comportamento: não aceitavam convites para passeios, jantares, serenatas, banhos de mar em Itapoã, luar na Lagoa do Abaeté, nem para sentar e beber em mesa de freguês algum. Nem o banqueiro Fernando Goes, alto, bonito, elegante, solteirão, farto de dinheiro, as mulheres rojando-se a seus pés, nem ele as obteve; no entanto fora ao Pálace só para vê-las e estourara champanha francesa. Jô e Mô cantavam spirituals e música de jazz, dançavam com seios e bundas à mostra mas permaneciam juntas e sozinhas até a hora de entrar em cena, semi escondidas numa discreta mesa de canto, de mãos dadas, sorvendo drinques no mesmo cálice. Depois do número subiam para o quarto, não queriam conversa com ninguém.

     Foi grandiosa a ceia, com vinhos e champanha, as Irmãs Catunda no máximo de seus dotes artísticos, uma euforia geral, à exceção do jovem bacharel Barreiros ainda aporrinhado com a recusa das americanas, "machonas mais escrotas", bebendo com raiva, indiferente aos gorjeios da

gorda Carla a lhe propor consolo e poesia. Na hora da conta, Arigof quase briga com Vadinho ao negar-lhe direito a contribuir, mesmo com parcela meramente simbólica, para o pagamento da despesa. O negro, ainda com o demônio no corpo, declarou considerar grave insulto à sua honra

qualquer proposta de cooperação financeira.

     Caiu o aniversário de Dona Flor em semana de tanta pompa e fortuna, Vadinho bem forrado, a ponto de exibir e cumprir louvável intenção de fornecer algum numerário para as despesas da casa, acontecimento raro e fausto. Dona Norma persistia em saber, ranheta:

     - O que é que você vai oferecer a sua mulher?

     Vadinho sorriu para a vizinha, dando-lhe o troco:

     - O que vou dar a Flor? Pois vou dar o que ela me pedir, seja lá o quê for... O que ela quiser...

     Dona Norma foi em busca da aniversariante: "minha filha, escolha o que quiser"; Dona Flor veio da cozinha enxugando as mãos no avental:

     - E de verdade, Vadinho, que você me dá o que eu quiser? Você não está mangando comigo?

     - Pode dizer...

     - Não vai dar para trás? Posso pedir?

     - Quando eu prometo, você sabe que cumpro, meu bem...

     - Pois o presente que eu quero é ir jantar no Pálace com você.

     Dizia quase a tremer, pois ele jamais a admitira misturada àquele seu mundo, e, de toda a gente do jogo, ela só tinha relações de amizade com Mirandão, seu compadre, único a freqüentar-lhe a casa amiúde. Alguns ela conhecia de tê-los visto uma vez ou outra, dos demais apenas ouvira os nomes rebarbativos. Mesmo Anacreon, tão da estima de Vadinho, aparecera no máximo umas cinco ou seis vezes naqueles sete anos e quanto a Arigof viera apenas um domingo filar o almoço. O mundo de Dona Flor era o da rua, o do bairro, o de suas alunas e ex-alunas, estendendo-se pelo Rio Vermelho, pela Ladeira do Alvo, por Brotas, relações com gente bem; nada tinha a ver com a vida irregular do marido. Vadinho não admitiu jamais Dona Flor nas suspeitas plagas do jogo, naquelas terras da roleta e dos dados, esposa era para o lar, que diabo viria fazer em tais ambientes?

      - De mal falado basta e sobra comigo. Tu não é para esse meio.

      Não adiantava ela argumentar com o fato notório de ser o Pálace Hotel um centro elegante, local de encontro da mais alta sociedade. Cear em seu aparatoso salão, dançando ao ritmo da melhor orquestra do Estado; assistir à exibição de astros do rádio e do teatro, procedentes do Rio e de São Paulo, era programa de muito bom-tom. Ali as senhoras da Graça e da Barra exibiam os últimos modelos e algumas delas, as mais evoluídas, num requinte de desenvoltura, arriscavam fichas na roleta. A sala de jogo era como uma continuação do salão de dança; larga passagem em arco estabelecia inexistente e ruinosa fronteira.

     Por que tão obstinada recusa? Por que, Vadinho? Dona Flor ia do rogo à exigência, das súplicas às broncas:

     - Você não me leva para eu não descobrir suas raparigas...

     - Não quero lhe ver nesses lugares...

     Dona Norma não fora ao Pálace, por mais de uma vez, com seu Sampaio, quando de alguma atração sensacional? Os argentinos da cerâmica, esses não faltavam um único sábado, apesar do Bernabó ser inimigo de qualquer espécie de jogo. Iam comer, dançar, aplaudir os artistas. Mas Vadinho nunca se deixara convencer e, quando sem argumentos, fugia numa vaga promessa:

     - Não há de faltar ocasião...

     Eis que surgira finalmente essa ocasião tão recusada. Dona Flor nem quis acreditar, quando ele, pegado de surpresa e sem recurso para desdizer-se, concordou ainda a contragosto:

     - Se é isso que você deseja... Um dia tinha de ser...

     E, tendo decidido, logo desdobrou o projeto, ampliando o convite aos tios, a Dona Norma - e por seu intermédio a Zé Sampaio -, a Dona Gisa. Tia Lita agradeceu e recusou: vontade não lhe faltava, mas onde os vestidos de noite, as toaletes à altura do Pálace? Mais morta de vontade ainda Dona Norma, uma noitada no Pálace era o supra-sumo, mas seu Sampaio foi inflexível: vizinha excelente Dona Flor, pessoa de sua estima, e o próprio Vadinho lhe era simpático. Agradecia o convite, mas, tivessem paciência, não podia aceitar. Nos dias de semana, seu Sampaio, as nove da noite, já estava recolhido, punha-se de pé as seis da manhã para a labuta em sua loja de sapatos. Fosse soirée de sábado ou vesperal de domingo, de acordo e com prazer. Quanto a Dona Norma ir ao Pálace sem ser em sua companhia, como aventava Dona Flor, desculpassem: hipótese absurda, fora de cogitações. A freqüência de ambientes como aquele, de jogo e bebidas, caracterizava-se pela mistura do melhor e do pior, numa promiscuidade onde se introduziam estróinas e libertinos sem noção de respeito às famílias.

     Uma das poucas vezes em que lá estivera, arrastado por Dona Norma, ansiosa de ouvir um chibungo francês (Seu Sampaio nunca vira cabra mais adamado e, no entanto, as mulheres suspiravam por ele), sucedera desagradável incidente. Bastou seu Sampaio deixar a mesa por um momento, premido pela urgência de ir ao mictório, e logo um ousado apareceu a querer tirar prosa com Dona Norma, convidando-a para a pista de dança, a lhe gabar toalete e olheiras, como se ela fosse uma qualquer. Seu Sampaio só não exemplou o salafrário porque lhe conhecia a família, sua mãe, Dona Belinha, e as duas irmãs gente da maior distinção, ótimas freguesas de sua loja, como aliás o próprio biltre, um habitué do jogo e da boemia, Zequito Mirabeau, também conhecido entre as mulheres- damas como o "belo Mirabeau".

     Reduziram-se assim os acompanhantes à professora Gisa, feliz com o convite: pela oportunidade de ouvir The Honolulu's Sisters e de poder perscrutar com seu olho sociológico e psicanalista o denegrido mundo da jogatina, estabelecendo-lhe a definitiva metafísica.

     Dona Flor passou o resto do dia numa azáfama: a decidir, com a ajuda de Dona Norma e de Dona Gisa, sobre vestido e estola, luvas e chapéu, a escolher sapatos e bolsa. Naquela noite, nos salões do Pálace, tinha de ser a mais bela de todas, a mais elegante, sem que nenhuma outra pudesse com ela se medir e comparar, nem senhora fidalga da Graça, com vestidos do Rio, nem rapariga de banqueiro ou fazendeiro de cacau, com enfeites de Paris. Naquela noite ia finalmente transpor a vedada porta.

 

     Quando Dona Flor, tremula, ao braço de Vadinho, cruzou a porta do salão do Pálace Hotel, numa singular coincidência a orquestra executava o mesmo antigo e nunca envelhecido tango por eles dançado naquele primeiro encontro em casa do Major Tiririca, ao som do piano de Joãozinho Navarro, durante as festas do Rio Vermelho, na semana da procissão de Yemanjá. Sentindo o coração pulsar mais forte, Dona Flor sorriu para o marido:

     - Você se lembra?

     Diante deles estava a sala numa meia sombra de luzes camufladas, um abajur de papel colorido sobre cada lâmpada, perfeição de mau gosto; Dona Flor achando tudo lindo, a semi-obscuridade, as mesas com flores de papel crepom e o abajur, que amor, meu Deus! Vadinho olhou em torno sem localizar lembrança alguma, tudo lhe era familiar e intimo, mas nada daquilo se referia a Dona Flor.

     - De que, meu bem?

     - Da música que está tocando. E a mesma que a gente dançou no dia que se conheceu... Na festa do Major, se lembra?

     Vadinho sorriu: "é mesmo...", enquanto ocupavam a mesa reservada, mesa de pista bem em frente à passagem a unir os salões, o de dança e o de jogo. Dali, sentadas, Dona Flor, e Dona Gisa podiam apreciar todo o movimento, evoluções de dançarinos, agitação de jogadores. Ainda de pé, Vadinho examinou a pista ocupada apenas por dois pares mas dois pares de tão eméritos tanguistas a ponto de mais ninguém se atrever a competir com eles. As damas eram duas das irmãs Catunda.

     A mais velha e negra tinha de cavalheiro a um tipo alto e romântico, roupa na última moda, jeito de galã sul-americano de cinema, ar de gigolô. Vadinho soube depois, ao ser-lhe apresentado, tratar-se de paulista a passeio na Bahia, Barros Martins de nome, honesto editor de livros e, como é óbvio, em se tratando de um editor, riquíssimo. Um retado no tango, com modos e competência de profissional, traçando letras, como se diz, numa execução impecável de laboriosos passos.

     A mais nova e branca, nos braços de Zequito Mirabeau, o mesmo "belo Mirabeau" das marafonas e da encrenca com seu Zé Sampaio. De olhos voltados para o alto, mordendo o lábio, levando de quando em vez a mão nervosa à cabeleira esvoaçante, não fazia por menos o baiano,

desdobrando seu tango na maior maciota, a chuetar do paulista em floreios e requintes; um tango barroco.

     Vadinho observou a cena e, ainda a sorrir, estendeu a mão a Dona Flor e lhe propôs, ajudando-a a levantar-se da cadeira:

     - Meu bem, vamos dar um quinau nesses coiós? Vamos ensinar a eles como é que se dança tango?

     - Será que ainda sei? Faz tanto tempo que não danço, estou com as juntas emperradas...

     Dançara pela última vez há mais de seis meses, quando Vadinho, por qualquer milagre, fora com ela a um assustado em casa de Dona Emina, brincadeira de aniversário. Vadinho era exímio pé de valsa, e Dona Flor dançava bem e gostava de dançar. Um de seus motivos de permanente

desgosto residia no fato de quase nunca dançarem os dois, devido a muito de raro em raro acompanhá-la Vadinho às festinhas em residências amigas. E, sem o marido, reduzida à animação dos comentários, dos fuxicos, das mesas de doce, não lhe passava sequer pela cabeça a idéia subversiva de dançar com outro cavalheiro, coisa que mulher casada só pode fazer com expresso consentimento e na presença de seu senhor esposo. Vadinho, sim, espalhava-se à farta, sem controle, por esse mundo a fora, em cabarés e gafieiras, em forrobodós e fovocos, no Pálace, no Tabaris, no Flozô, com quengas e bruacas.

     Em casa dos vizinhos tinham feito uma verdadeira exibição de sambas e foxes de rancheiras e marchas. Doutor Ives e Dona Emina quiseram acompanhá-los - pretensão e água benta todo mundo tem -, logo desistiram. Arrastavam os pés direitinho, mas para competir com Dona Flor e Vadinho eram acanhados demais.

     Uma coisa dançar em festinha de aniversário, muito outra sair pelo salão do Pálace nos apuros de um tango arrabalero, e logo aquele! Tudo começara quando, há sete anos atrás, ele a tirou para dançar aquele mesmo tango em casa do Major Pergentino. Saberia ainda dançá-lo tanto tempo depois e, ao demais, nessa noite quase mágica quando vem ao Pálace pela primeira vez? Sem adivinhar que essa primeira vez seria a última, primeira sem segunda, noite sem retorno.

     Só agora, na solidão da memória e do desejo, ela se dá conta da importância de cada detalhe, por mais ínfimo, dessa noite de quimera: desde a entrada no salão de dança até o derradeiro minuto de prazer infinito, de desbragada impudicícia no leito de ferro, com ele a lhe cobrar, na raiz de seu corpo, o presente de aniversário: a ida ao Pálace.

     Dois gestos de Vadinho, ambos igualmente ternos e imperiosos, marcam para Dona Flor o início e o fim daquela noite de sortilégio. O primeiro, na hora do convite para o tango, quando, a sorrir, ele lhe estendeu a mão e assim a conduziu à pista de dança. O outro foi no leito em desalinho e tempestade: ele a volteou pelos ombros... Mas já o recordará, a esse tremendo gesto, quando a ele chegar em seu devido momento, nessa caminhada com Vadinho através à noite de seu aniversário. Vai devagar, passo a passo, detalhe a detalhe, demorando nas escalas; arribará a cada parto de alegria, de medo ou de luxuria.

     Na pista de dança o braço de Vadinho a envolve e ela sente seu corpo leve na cadência da música. Busca então dentro de si aquela mocinha em férias no Rio Vermelho, caladona, sem namorado, tímida no quadro do pintor sergipano, a colher flores no jardim de tia Lita e a desabrochar de súbito nas noites de quermesse quando a mão de Vadinho lhe acendeu seios e coxas e sua boca a queimou para sempre.

     No salão do Pálace iam os dois a dançar, num tango de doçura e de volúpia, tão de jovens inocentes namorados e tão de lúbricos amantes. Era como se houvessem retornado ao fascínio da casa do Major, ao impacto do primeiro encontro, do primeiro olhar, do riso inicial, do enleio;

sendo também os maduros amantes de sete anos depois, um tempo longo de padecer e amar. Casta donzela, Dona Flor, mocinha cândida; desabrochada mulher e ardente fêmea, Dona Flor, nas mãos de Vadinho, seu marido. Tango igual a esse jamais fora dançado, assim transparente de ternura, assim obscuro de sensualidade. Até da sala de jogo veio gente apreciar.

     O paulista dos livros, com sua experiência dos cabarés de São Paulo, Rio e Buenos Aires, e Zequito Mirabeau com todo seu convencimento, deram-se por vencidos e abandonaram a pista toda inteira livre para Dona Flor e Vadinho em sua noite de paixão.

    Quem era a dama de Vadinho? - perguntavam-se os habitués. Alguns sabiam, a informação se espalhou célere: "é a esposa dele, é a primeira vez que vem aqui..." A mais graciosa das irmãs Catunda, a do meio, fez um muxoxo de pouco caso, mordida de ciúme.

    Após o tango, ao voltarem à mesa, onde Vadinho, tendo encomendado ceia e bebidas, atendia às perguntas de Dona Gisa, com informações sobre coisas e pessoas, persistiu a curiosidade em torno a Dona Flor. Flutuava no ar, como se um halo de furtivos olhares e mastigados cochichos a cercasse, como se ela não coubesse na atmosfera da sala, feita à medida das senhoras da nata social, baronesas da Graça, não-me-toques da Barra, e das cortesãs mais caras e de ofício menos evidente.

    Dona Flor sente uma espécie de distante vertigem ali sentada no salão. Um pouco zonza, indo do contentamento ao medo, incerta sobre a significação desses olhares de relance, desses gestos esquivos; eram de simpatia ou de mofa esses sorrisos? Mal escuta os informes de Vadinho:

      - Tem para mais de setenta anos... Só joga bacará e só aposta ficha de cinco contos. Já teve noite de perder mais de duzentos... Uma vez os filhos vieram - dois ordinários e uma catraia acompanhada do marido - e quiseram levar ele a pulso, pintaram o diabo. O pior de todos era a filha, uma cobra a atiçar os irmãos e o chifrudo do marido... Agora estão fazendo um processo para provar que o velho está broco, de miolo mole, não presta mais pra governar o dinheiro dele...

     Dona Gisa estende o pescoço para melhor espiar o ancião de finos cabelos brancos, quase pele e osso, mas firme nas pernas, apoiado a uma bengala, o rosto tenso, uma última luz cúpida nos olhos, como se apenas a inspiração do jogo o sustentasse vivo.

     - Afinal quem trabalhou e ganhou o dinheirão todo, não foi ele? - pergunta Vadinho, numa revolta contra a família do velho. O que foi que os filhos fizeram, além de gastar? São uns boas-vidas, nunca prestaram pra nada. E agora querem dar diploma de demente ao próprio pai, trancar

o infeliz em casa ou no hospício... Eu metia essa canalha toda na cadeia, a começar pela vaca da filha, mandava dar uma surra de facão em cada um...

     Dona Gisa discordou: esse negócio de dinheiro tinha implicâncias sérias. O velho, em sua opinião, não era assim tão dono de delapidar no jogo a sua fortuna, pois a família possuía direitos legais...

     Interrompeu-se a lição de economia política de Dona Gisa, porque o paulista fez questão de vir cumprimentar Vadinho e Dona Flor.

     - Vadinho, o meu amigo aqui quer lhe conhecer, ouviu falar muito de você e lhe viu dançar... E um graúdo de São Paulo...Zequito Mirabeau fazia as apresentações, voltava-se para o forasteiro - Vadinho, você já sabe, é... - a presença de Dona Flor continha-lhe a língua. -...Bem, é um amigão...

    Vadinho, a voz quase solene, introduzia as senhoras:

- Minha esposa e uma amiga, Dona Gisa. Americana, um poço de saber...

    Dona Flor estendeu a ponta dos dedos, de repente igual a uma tabaroa qualquer. O paulista curvou-se, beijou-lhe a mão:

     - José de Barros Martins, um seu criado. Parabéns, minha senhora, raramente vi um tango tão bem dançado... Admirável!

     Beijava em seguida a mão de Dona Gisa e, como a orquestra iniciasse um samba de sucesso, lhe perguntou:

     - Dança o samba? Ou, sendo americana, prefere esperar um blues...?

     Vadinho punha a perder toda a finura do paulista:

     - Qual o quê!... Essa gringa rebola que é uma beleza . .

     - Vadinho, que é isso, se assunte... - Dona Flor ralhando a sorrir.

     Dona Gisa nem ligava; em vez de ficar escabreada, saía pelo braço do industrial, requebrando a bunda magra, a confirmar as palavras do abusado. Nisso, a face de Vadinho se ensombreceu, Dona Flor logo descobriu a causa: uma das três mulatas da mesa de Zequito Mirabeau, bonitinha de fazer gosto, também se aproximara, rondando ali perto. Media Dona Flor de alto a baixo como em desafio, enquanto interpelava Mirabeau, muito melosa e oferecida:

     - Como é, querido, e nosso samba? Estou esperando, venha logo... .

     Mirada de desdém a Dona Flor, uma de fúria para o lado de Vadinho, o sorriso mais angelical e tentador para Zequito:

     - Vamos, negrinho...

     Dona Flor evitou olhar para Vadinho. Silêncio incômodo a separá-los, ela voltada para a pista de dança, os olhos apertados, ele fitando a sala de jogo. Por que ela quisera vir? perguntava-se Vadinho. Por essas e outras, ele sempre se opusera. E agora, logo em festa de aniversário, em vez de estar alegre, a pobre mordia os lábios para não chorar. A burra da Zilda lhe pagaria caro. Vadinho aproximou a cadeira, tomando da mão de Dona Flor, e lhe disse ao ouvido, numa ternura que ela sentiu verdadeira:

     - Meu bem, não fique assim. Você quis vir, aqui não é lugar pra você, meu bicho tolo. Será que agora tu vai ligar para essas vagabundas daqui, vai se importar com elas? Tu veio pra ficar alegre comigo, faz de conta que aqui só tem nós dois e mais ninguém... Larga pra lá essa pinóia, não tenho nada a ver com ela...

     Dona Flor deixava-se enganar fácil, queria ser convencida, as lágrimas rebentando, a voz lamurienta:

     - É mesmo que tu não tem nada com ela?

     - É ela que anda atrás de mim, você não vê? Deixa isso pra lá, meu bem, essa noite é de nós dois, tu vai ver quando a gente chegar em casa... Não vou nem jogar hoje, só pra ficar junto de você...

     A mulatinha passava a rebolar-se, agarrada ao belo Mirabeau, e ele quase em transe, mordendo o lábio, os olhos no teto. Dona Flor pediu:

     - Vamos dançar também?

     Dançaram o samba, depois um passo-doble. Ela quis então conhecer a sala de jogo. Vadinho a conduziu, disposto a lhe satisfazer todos os caprichos. Dona Gisa foi junto, saltitante, a querer saber de um tudo, um inferno! Nem o valor das cartas ela conhecia e nunca vira um dado em

sua vida.

     Dona Flor ia contrita numa mudez de quem se insinua em templo secreto, defeso aos não iniciados. Finalmente conseguira atingir e penetrar o misterioso território onde Vadinho era milionário e mendigo, rei e escravo. Bem sabia ter chegado apenas a uma nesga desse chão noturno, à orla desse mar de chumbo. Ali começava um tempo de sonho e de aflição; as salas do Pálace eram a rica e luminosa capital desse mundo, dessa seita, dessa casta. Para mais além, nos caminhos da noite da cidade, aquele território de farras e agonias, de fichas ,e mulheres, de álcool e entorpecentes (cocaína, morfina, heroína, ópio, maconha, Dona Flor arrepiava-se só de recordar os nomes),  prosseguia nos cabarés, nas casas de tavolagem, nos castelos, nas pensões de mulheres, nos antros ilegais, na zona imunda e pululante como um mosqueiro, nos sombrios esconderijos dos fumadores de maconha. Por esses atalhos Vadinho se movia indômito, Dona Flor, ante a mesa de roleta, tocava humilde a fímbria desse mundo.

     Para mais além do Pálace, com sua categoria "estritamente familiar", como diziam os anúncios, com suas luzes e suas sombras, um abajur sobre cada mesa -, os lustres de cristal, a orquestra de primeira, as senhoras da alta sociedade, as raparigas de luxo, as teúdas e manteúdas e as escoteiras, os coronéis do cacau, do gado, do açúcar, os ricaços da cidade, os moços boêmios e os vigaristas, para mais além do Pálace, nas encruzilhadas da noite pobre e despida de ouropéis,

estendia-se o mistério de Vadinho, sua última verdade.

     Num trânsito rápido Dona Flor auscultou essa louca geografia, oceano de suas lágrimas, vales e montanhas de sua dura espera, de seu sofrido amor. Dona Gisa ao contrário: vagarosa, fascinada pelos rostos dos jogadores, por seus gestos. Um deles falava sozinho, evidentemente furioso consigo mesmo. Fosse por seu gosto, a professora não iria mais embora. Mas o garçom, numa deferência a Vadinho, seu liga, vinha lhe avisar estar servida a ceia e próxima a hora das atrações.

     Voltaram à sala de dança e deram com Mirandão, recém-chegado. Que milagre era aquele, sua comadre no Pálace, viera disposta a estourar a banca? Seu aniversário? Meu Deus do céu, como pudera esquecer? Nu dia seguinte mandaria a patroa com o afilhado e uma lembrança. "Basta com a comadre e o menino", disse Dona Flor, para desobrigá-lo do compromisso e porque já ganhara naquele aniversário o seu presente, não queria mais nenhum: ali estava com Vadinho, não queria mais nada.

     A comida não era lá essas coisas, arroz sem sal, carne sem gosto, mas que delicado Vadinho a servi-la, a lhe dar na boca os melhores pedaços de seu frango! Dona Flor já não sentia medo nem acanhamento.

    As luzes se apagaram por completo para imediatamente de novo se acenderem, e então Júlio Moreno, o cabaretiê, anunciou as atrações. Primeiro as Irmãs Catunda, uma lástima de voz, sábia exibição de seios e ancas:

   

"Vão dançar a noite inteira, Rancheira... Rancheira...”

   

    A petulante era a mais bem feita e mimosa das três, Dona Flor não podia desconhecer, negar aquela verdade quase nua. Mas Vadinho nem ligava para as mulatas, mais interessado em saborear a sobremesa. Agora era Dona Flor quem olhava com desdém; tomou da mão de seu marido, ficaram os dois conversando e sorrindo, enquanto as gentis irmãs se desdobravam por entre o jogo de luzes, seios em azul, ancas em vermelho.

     Vieram depois The Honolulu's Sisters com um canto poderoso e triste, gemido de negros em correntes, reza de escravos, dor e revolta de homens humilhados. Até o sexo era triste, até os corpos tão belos, pensou Dona Flor. As mulatinhas Catunda, desafinadas e modestas, pareciam um soar de guizos, um trinado de pássaros, um raio de sol, corpos de viço e saúde em comparação a Jô e Mô com seu lamento sem esperança. As Catundas dançavam em preceito aos orixás, aos alegres e íntimos deuses negros, vindos da África e na Bahia cada vez mais vivos. As negras americanas dirigiam sua súplica aos austeros e distantes deuses brancos dos senhores, impostos aos escravos no lanho das chibatas. Umas eram o riso salto, as outras o pranto desolado.

     - Reparem nelas... São amantes... - informou Vadinho.

     Dona Flor já ouvira falar na existência de mulheres assim mas não acreditara; e ainda ali pensa ser burla de Vadinho, invenções absurdas, molecagem.

     - Não há homem chibungo, meu bem? Pois há mulher que só gosta de mulher...

     - Uma pena - disse Mirandão. - Dois peixões desses e não querem saber de conversa com homem...

     Dona Gisa confirmava: "tais casos eram até bastante comuns nos países mais civilizados". "Vai ver e são somente moças sérias..." ainda defendeu Dona Flor. Queria ouvir o canto puro e doloroso, sem misturar à sua grandeza a tara das mulheres, sua doentia condição, sua sina. Música

de sangue derramado, látego de fogo.

     - Meu bem, vou ali e volto já, é um minuto...

     Vadinho atravessou rápido para a sala de jogo, deixando Dona Flor sozinha com o dilacerante canto dos escravos.

     As luzes se acenderam, soaram aplausos, Dona Flor viu quando Mô deu a mão a Jô e juntas se retiraram para seu amor de maldição. O paulista voltou a dançar, Zequito Mirabeau reunira-se aos jogadores.

     Bem gostaria Mirandão de acompanhar Vadinho e Mirabeau: mas o compadre o deixara ali, fazendo companhia às senhoras, não podia abandoná-las. E essa professora com suas perguntas mais idiotas: como diabo ia ele saber se o jogo era ou não fator de importância sexual?

Minha cara senhora, ouça: Mirandão nascera praticamente em mesa de jogo e tudo quanto podia garantir é que ele era homem e muito homem; nunca ouvira falar que jogo afrouxasse ninguém.

     Dona Flor enxergava Vadinho na outra sala, movendo-se ante a mesa da roleta, apostando, cercado de homens e mulheres. A mulatinha viera colocar-se-lhe ao lado e, em certo momento, descansou a mão em seu ombro e ali a manteve enquanto Vadinho seguia, tenso, o rodopio da bola na hora solene e decisiva. Dona Flor chegou a semi levantar-se na cadeira, numa indignação, sentindo-se naquela noite capaz de tudo, de escândalo e violência, de agir, se necessário, como a mais reles e perdida mulher-dama de esquina. Mas logo sorriu porque Vadinho, após o crupiê cantar o número fatal, deu-se conta do gesto insolente de Zilda Catunda, desviou o ombro e algo de ríspido lhe disse pois a atrevida sumiu num repelão de calundu.

     Vadinho, após olhar Dona Flor, veio vindo em sua direção, as mãos cheias de fichas. Na mesa, Mirandão, enroscado nas perguntas sócio-econômico-sexuais de Dona Gisa, consolava-se de sua ignorância com restos de vermute doce, um asco!

     Vadinho curvou-se num segredo, a boca à altura do ouvido de Dona Flor:

     - Ouça, meu bem, só mais duas ou três paradas e a gente vai embora. Não demora nada, já mandei recado para o Cigano esperar com o carro. Te prepara que hoje vou te dar uma surra de cama... - e, acercando ainda mais a boca, mordeu-lhe a orelha e a lambeu, brisa e labareda.

     Dona Flor, o corpo em úmido arrepio, abriu-se num suspiro. .Ah! Vadinho mais doido, e se alguém visse, que não havia de dizer? Vadinho mais tirano, Vadinho mais sem jeito!

     - Não demore...

     As mãos prendendo as fichas, ele reassume seu lugar em frente ao crupiê na mesa de roleta. Um pouco curvado, os cabelos loiros, o atrevido bigode, a insolência do sorriso. Porreta.

     Dona Flor o fitou longamente, ao seu Vadinho. Depois foi juntando cada detalhe daquela noite e cada instante de sua vida com ele, do começo ao fim, sem faltar nenhum: na dor e a alegria.

     Da roleta, Vadinho fez um sinal, era a última parada, o táxi do Cigano à espera, uns minutos apenas. "Não, meu querido, não mais irei contigo para a festa dessa noite quando a gota de fel rompeu-se em mel, mar imenso de dar e receber". Dona Flor fitou Vadinho para sempre ante a mesa de jogo, a ficha lançada no 17. Reunindo então o seu carrego todo inteiro, ela o enterrou no coração. Virou de bruços no leito de ferro, cerrou os olhos, dormiu seu sono sossegado.

 

     Ao completar-se um mês da morte de Vadinho, após assistir a missa, Dona Flor dirigiu-se ao Mercadinho das Flores, no Cabeça. Pela segunda vez saía de casa desde aquele singular domingo, quando a morte golpeou, no Carnaval. A primeira, fora para a missa de sétimo dia.

     Veio andando da Igreja por entre a curiosidade do povo. Do balcão do bar, Mendez a cumprimentou, e seu Moreira, o português do restaurante, com um berro, advertiu a mulher, ocupada na cozinha: "depressa, Maria, vem ver a viúva". Na rua, três ou quatro homens, entre os quais o janota argentino, seu Bernabó, tiraram-lhe o chapéu.

     Na esquina do açougue, a negra Vitorina se pôs de pé, atrás de seu tabuleiro de abarás e acarajés: "Salve minha iaiá, atôtô, atôtô!" Na porta da Drogaria Científica, doutor Teodoro Madureira, o farmacêutico, inclinou-se em grave reverência, na exata medida do pesar e da aflição. O professor Epaminondas Souza Pinto, afobado e aéreo como sempre, livros e cadernos sob o suor do sovaco, estendeu-lhe a mão:

    - Minha cara senhora... A vida... O inevitável...

     Os bêbados do botequim, no aperitivo matinal, os fregueses do armazém, o fazendeiro Moysés Alves a escolher especiarias para seus insignes almoços, saíram a vê-la, inclinavam-se em silêncio. O santeiro Alfredo, amigo do tio Thales, estabelecido ali perto com sua porta de imagens, abandonando a madeira onde esculpia, colocou-se à sua disposição:

    - Bom dia, Flor. Posso lhe ser útil?

     Acorreram os vendedores com a mercadoria. Ela comprou rosas e cravos, palmas e violetas, dálias e saudades.

     Um negro alto e magro, perfil agudo, face enigmática, ainda relativamente jovem, ouvido com atenção e respeito por mecânicos e choferes do ponto de táxis, - ao saber a identidade de Dona Flor e o motivo dessa compra de flores, dela se aproximou a lhe solicitar algumas de empréstimo e por um momento apenas. Um pouco surpresa, Dona Flor o satisfez, estendendo-lhe o colorido ramalhete onde ele próprio escolheu, num cuidado ritual, três cravos amarelos e quatro saudades roxas; quem seria esse homem e por que tomava dessas poucas flores?

     Do bolso do paletó extraiu um fio trançado de palha da costa, um mokan, com ele amarrando cravos e saudades num pequeno buquê e dando um nó.

     - Desamarre quando arriar na cova de Vadinho. E para o egun dele se aquietar - e disse em nagô, diminuindo a voz: - Aku abó!

     Eis que o negro era o babalaó Didi, zelador da casa de Ossain, mago de Ifá; e só passado muito tempo Dona Flor aprenderia seu nome e seus poderes, sua fama de adivinho, seu posto de Korikoê Ulukótum no terreiro dos eguns, na Amoreira.

     Vestia-se Dona Flor toda em negro, da cabeça aos pés, luto fechado pois apenas um mês decorrera desde a morte do esposo. Mas o pequeno véu sobre os retintos cabelos quase azuis não lhe cobria o rosto e aquela expressão de angústia suicida já não lhe marcava a face. Triste ainda, mas nem desesperada nem vazia.

     Cercada pela leveza do ar nessa manhã transparente, tão formosa de luz e tão à medida do homem que era um privilégio vive-la, Dona Flor, levantando a vista do chão, voltou a olhar e a ver o espetáculo da rua e a cor do dia.

     Por entre cabeças se descobrindo ou se inclinando, a recolher gestos e palavras de conforto e simpatia, em meio ao bulício da cidade, gente a passar, a conversar, a rir, Dona Flor caminhou com seu buquê de flores destinadas à campa de Vadinho. Ia em direção ao cemitério mas era na vida que de novo penetrava; hei-la de retorno, convalescente ainda.

    Não a mesma Dona Flor de antes, com certeza; enterrara algumas emoções e certos sentimentos, o desejo, o amor, assuntos de cama e coração pois era viúva e respeitável.. Viva, porém, capaz de sentir a luz do sol e a doce aragem, capaz de riso e de alegria, conformada.

 

 

DO TEMPO DO LUTO ALIVIADO, DA INTIMIDADE DA VIÚVA EM SEU RECATO E EM SUA VIGÍLIA DE MULHER MOÇA E CARENTE; E DE COMO CHEGOU, HONRADA E MANSA, AO SEU SEGUNDO MATRIMÔNIO QUANDO O CARREGO DO DEFUNTO JÁ LHE PESAVA SOBRE OS OMBROS

 (com Dona Dinorá na bola de cristal)

 

ESCOLA DE CULINÁRIA SABOR E ARTE

 

CÁGADO GUISADO E OUTROS PRATOS INCOMUNS

     Alguém há dias perguntou, penso ter sido Dona Nair Carvalho pois ela gosta de servir do bom e do melhor, o que oferecer a um hóspede de requinte, de paladar esnobe, todo exigente, um artista, enfim, reclamando papa fina, quitutes incomuns, nada a...

     Pois recomendo servir uma delícia: cágado guisado - e lhes forneço uma receita que me foi ensinada por minha mestra de molhos e temperos, Dona Carmem Dias, receita mantida em segredo até agora. Podem copiá-la do caderno. E, se bem recordo, cágado é c orixá em candomblé, tendo me dito minha comadre Dionísia, filha de Oxóssi, ser o cágado o prato predileto de Xangô.

     Além de cágado, recomendo caças em geral e, em particular, um ensopado de teiú, carne tenra nos perfumes do coentro e do alecrim. Se lhes for possível, apresentem, envolto em folhas aromáticas, um caitetú assado inteiro, Ah! o rei dos grandes pratos, sabor de selva e liberdade.

     Mas, se vosso hóspede quer ainda caça mais supimpa e fina, se busca o non plus ultra, o xispeteó, o supra-sumo, o prazer dos deuses, porque então não lhe servir uma viúva, bonita e moça, cozinhada em suas lágrimas de nojo e solidão, no molho de seu re nos ais de sua carência,

no fogo de seu desejo proibido, que lhe dá gosto de culpa e de pecado?

     Ai, eu sei de uma viúva assim, de malagueta e mel, em fogo lento cada noite cozinhada, no ponto exato para ser servida.

 

CÁGADO GUISADO

  (receita de Dona Carmem Dias, tal como ela forneceu a Dona Flor, tendo esta permitido a suas alunas cópia e prova)

 

         "Toma-se um cágado, depois de morto pelo processo (bárbaro) de serragem pelos lados, devendo a cuia não sofrer danos. Pendura-se o bicho pelas patas traseiras, corte-se-lhe a cabeça, e que ele assim permaneça, durante uma hora, para que o sangue  animal de ventre para cima, deve-se decepar seus pés, com o cuidado de deixar as pernas (ou botas), afastando-se a pele grossa que as recobre. Retira-se então a carne, os miúdos (fígado e coração) e ovos (se os houver), jogando-se fora as tripas, operação que requer cuidados especiais, cada trabalho feito em separado. Lava-se tudo, carne e vísceras, que, maceradas nos seguintes temperos, deverão ir a fogo brando até atingir coloração de ouro escuro e aroma específico; - sal, limão, alho, cebola, tomate, pimenta, e azeite, azeite doce à vontade. Este prato deve ser servido com batatas do reino cozidas em água sem sal, ou farofa branca recoberta de coentro."

 

     Ao cumprir seis meses de viúva, Dona Flor aliviou o luto até então fechado em novembro, obrigando-a na rua ou em casa, a negros vestidos sem decote. Única nuance nessa negritude: as meias cor de fumo.

     Por isso, naquela manhã, as alunas (turma nova, numerosa e simpática), ao vê-la de blusa alva estampada com guirlandas escuras, um colar de pérolas falsas ao pescoço e leve traço de batom nos lábios, prorromperam em entusiásticos aplausos à alegre professora. Ainda devia ela esperar outros seis meses para o verde e o rosa, o amarelo e o azul, o vermelho e o havana; e para as novas e sensacionais cores da moda: azul- rei, azul-pervanche, hortênsia, verde-mar.

     A "alegre professora", sim. Como no verso de Dona Magá Paternostro, a rica. Porque, em verdade, Dona Flor aliviara o luto interior, despira os véus da morte, quando, na véspera da missa de mês, enterrou dentro de si o carrego do falecido. Manteve, em respeito aos costumes e aos vizinhos, o rigor do preto, retomando, no entanto, seu riso manso, sua atenta cordialidade, seu interesse pelas circunstâncias diárias, seu capricho de Dona de casa. Ainda com uma sombra de melancolia a fazê-la vez por outra pensativa e a dar à sua formosura doméstica uma nova qualidade, certo encanto nostálgico; curiosa, porém, da vida em derredor, imprimindo vigoroso alento à Escola de Culinária, de cujo renome descuidara naquele primeiro mês.

     Cerrou a boca ao nome do finado, parecendo tê-lo esquecido por completo, como se, após a crise e a obsessão, viesse a concordar com Dona Dinorá e suas comparsas, no fato de ter sido a morte do ordinário uma carta de alforria, encontrando-se por fim de acordo a viúva e as beatas. Em aparência, pelo menos.

     Naquela ocasião da missa de mês, ao volver da visita à campa onde depusera as flores e o preceito do adivinho, o mokan de Ossain, abriu as janelas da sala de visitas permitindo finalmente à luz do sol iluminar a casa, varrendo sombras e espectros. Tomou da vassoura, do espanador, de

trapos e escovas, e atirou-se ao trabalho.

     Dona Rozilda propôs-se a ajudá-la, mas, em limpeza tão completa, também ela se foi de volta a Nazareth das Farinhas, quando filho e nora começavam a alimentar as clássicas esperanças de melhores dias. Afinal, quem mais necessitada da permanente companhia, do afeto e da assistência

da mãe, senão Dona Flor, recém- viúva e inconsolável? Dona Flor sozinha, e indefesa, exposta aos múltiplos perigos de seu ingrato estado – era justo fosse Dona Rozilda, mãe experiente e intrépida, residir com a filha desprotegida, ajudando-a no trato da casa e na solução dos inúmeros problemas. Quem sabe maravilhoso milagre sucedera, vendo-se enfim o casal e a cidade de Nazareth livres da mãe e sogra, tão mais sogra do que mãe? Celeste, nora e serva, fizera promessa de valia a Nossa Senhora da Aflição.

      Suas preces não obtiveram eco; mais forte o santo de Dona Flor, defendida, sem sequer o saber, nos axés e pejis dos candomblés, por força do rei de Ketu, Oxóssi, orixá de sua comadre Dionísia (Okê!). Assim, foi a viúva quem se livrou de Dona Rozilda que, aliás, não se fora antes de pura má-criação, de rabugice, de pirraça aos vizinhos. Pois apeteceu aos vizinhos tiranizá-la, impor-lhe condições de convivência.

     Ali, na capital, vivia em desconforto, casa pequena, sem um quarto só para ela, dormindo em cama de vento na sala onde Dona Flor lecionava as aulas teóricas, sem armário próprio para seus teréns, enquanto tão ampla a casa do filho, com sobras de cômodos. Em Nazareth, ao demais e sobretudo, ela, Dona Rozilda, era alguém. Não se impunha apenas como mãe de seu Heitor - funcionário de categoria da Estrada de Ferro, segundo secretário do Clube Social Farinhense, um dos melhores tabuleiros de gamão e dama da cidade (eclodindo nele a frustrada vocação de seu Gil), um zarro no desenho: copiava a fisionomia de qualquer vivente e reproduzia a lápis cromos de folhinha -, era ela própria ornamento e evidência da melhor sociedade nazarena, onde exibia suas relações metropolitanas, a família Marinho Falcão, Dr. Zitelmann Oliva e Dona Lígia, o jornalista Nacife, Dona Magá, o industrial Nilson Costa e sua chácara no Matatu, e antes de tudo seu compadre doutor Luís Henrique, o "cabecinha de ouro", orgulho da terra.

     Na capital, nem mesmo no mundo daquela pequena burguesia apenas remediada, circunscrito a umas poucas ruas entre o Largo Dois de Julho e Santa Tereza, nem mesmo ali lhe davam atenção e importância; ao contrário, haviam-lhe tomado birra. As amigas mais íntimas de sua filha, Dona Norma, Dona Gisa, Dona Emina, Dona Amélia Ruas, Dona Jacy, não tiveram pejo em responsabilizá-la pelo estado desalentador da viúva, pondo a culpa em seus maus bofes, nas recriminações e nos insultos, na absurda quizília com o morto. Ou bem mudasse de atitude, largando o falatório e as maldições à memória do genro, ou fosse embora. Um ultimatum.

     Por isso mesmo, em reação a tão inominável acinte, Dona Rozilda prolongou a visita apesar do desconforto da casa e das restrições da vizinhança. (Dona Jacy até arranjara ama para Dona Flor: uma encardida Sofia, sua afilhada). Apressou-se a viajar, no entanto, após a missa de mês, ao ter notícias, através do compadre doutor, de sua designação pelo reverendo Walfrido Moraes para o alto cargo de tesoureira da Campanha em Benefício das Novas Obras da Catedral de Nazareth, em cujo Conselho Diretor esplendiam a esposa do Juiz de Direito (Presidenta), do Prefeito (Primeira Vice), do Delegado (Segunda) e outras eminências sociais da terra. Há muito almejava Dona Rozilda pertencer ao rol das diretoras, mesmo como última vogal da lista; de repente saía tesoureira, nada menos. O Divino Espírito Santo iluminara o padre Walfrido, antes tão reticente às suas investidas.

    Ao sacerdote custara vacilações e dúvidas tal despacho, mas o influente conterrâneo a quem recorrera para obter o pagamento de substanciosas verbas estaduais, condicionou sua decisiva ajuda à posse de Dona Rozilda num cargo de inveja na pia congregação das beatas. Chantagem miserável, pensou o vigário, curvando-se a ela, no entanto, pois tinha urgência da bolada e, sem a intervenção do doutor Luís Henrique, como apressar a máquina burocrática?

     Nas antevésperas, Dona Gisela, com quem por vezes o doutor discutia sobre os destinos do mundo e as imperfeições do ser humano, informara-lhe:

     - Se Dona Rozilda não for embora, a pobre Flor não terá descanso nem para esquecer... E ela precisa esquecer, está complexada, é um curioso caso de morbidez, caro doutor, que só a psicanálise pode explicar. Aliás, Freud cita um exemplo...

    Dona Norma, que com ela viera, interrompia em tempo:

     - É uma caridade que o senhor faz, doutor... Bote essa peste longe daqui, mande pra Nazareth, que ninguém agüenta mais...

     "Pobre Heitor, pobre Celeste, pobres crianças...", lastimou o doutor e padrinho. Mas, entre Dona Flor, viúva e freudiana, e o casal já na cangalha de Dona Rozilda há anos, não lhe coube vacilação: sacrificou o afilhado e a gentil esposa, em cuja casa almoçava e sempre bem em suas constantes idas ao Recôncavo.

     Cada qual com sua cruz, decidiu ele; a dela, Dona Flor a carregara sete anos a fio: aquele marido, pesado lenho. Não era justo agora, na esteira da viuvez, empurrar-lhe Dona Rozilda, um calvário completo: cruz, coroa de espinhos, vinagre e fel.

     Sem Dona Rozilda, só de raro em raro as xeretas da vizinhança traziam à baila o nome do maldito, em respeito às exigências de Dona Norma e de Dona Gisa, e também porque Dona Flor retomara o curso normal da vida, após atravessar as infindas areias da ausência. Não a vida de

antes e, sim, um calmo viver, pois sem a presença do esposo, sem suas implicações: os sustos, os desgostos, os aperreios, o desespero. Tudo isso acabara, Dona Flor habituou-se a dormir a noite toda, de um sono só. Deitava-se relativamente cedo, após a prosa habitual com Dona Norma

no círculo das amigas, as cadeiras na calçada, comentando acontecimentos, programas radiofônicos e filmes. Ia ao cinema com Dona Norma e seu Sampaio, com Dona Amélia e seu Ruas, com Dona Emina e doutor Ives, apreciador entusiasta de películas de faroeste. Aos domingos almoçava no Rio Vermelho, em casa dos tios; tio porto com a eterna mania das paisagens; tia Lita começando a envelhecer, mantendo, porém, seu jardim e seus gatos em esplendor.

     Não quisera Dona Flor aderir à animadíssima roda de bisca e três-setes em casa de Dona Amélia; até Dona Enaide vinha do xame-xame para à tarde no carteado. As fanáticas da bisca, as devotas do três-setes fizeram o possível para conquistá-la, sem obter resultado, como se o falecido houvesse gasto toda a quota de jogo da família, não restando nada para ela. Pior inimigo da jogatina só mesmo o portenho da cerâmica, seu Bernabó; Dona Nancy, doida por uma mãozinha de bisca, e o déspota irredutível: no máximo e por favor, os solitários jogos de

paciência, nada além.

     Decorria assim tranqüila a vida de Dona Flor, entre as aulas de culinária, as duas turmas cada vez mais numerosas, e as atividades sociais permitidas a seu prudente estado. Não eram pequenos compromissos como pode parecer à primeira vista; enchiam-lhe o tempo inteiro, não lhe sobrando ócio para pensamentos tristes. Sem falar nas encomendas de recusa impossível para almoço de festa, fino jantar, banquete ou recepção: já de madrugada entregue à trabalheira na cozinha. Sendo muito exigente em relação à qualidade de seus pratos, ao cansaço somava a preocupação.

     Vinha ajudá-la uma garota, menina moça de seus dezesseis anos, filha de outra viúva, Dona Maria do Carmo, herdeira de roças de cacau, morando no Areal de Cima desde logo depois do carnaval e de imediato incorporada à roda de Dona Norma. A mocinha, Marilda e morena, uma esperança nos molhos e temperos, tomara amizade a Dona Flor e não a largava, aprendendo pratos e bolos nas folgas de seu curso pedagógico. Dona Flor sorria ao vê-la em trânsito pela casa cantarolando, os cabelos em alvoroço, o rosto de adolescente tropical desmaiado em quebranto e dengue, uma pintura de tão bela; se o velhaco fosse vivo, todo cuidado seria pouco, ele não mantinha preconceitos de idade.

     Como se constata e vê, não faltava o que fazer em sua vida de viúva, o tempo curto, por vezes nem dava conta dos compromissos. Tantos que fazeres, um mundo de coisas, o dia afanoso: por vezes, à noite, ao despir-se e estender-se no leito de dormir, sentia-se realmente fatigada, necessitando de sono repousante. Dormia de imediato, apenas pousava a cabeça no travesseiro.

    Se era assim tão repleta sua vida, como explicar a constante sensação de vazio, como se tudo aquilo, toda aquela atividade que a toma, domina e movimenta, fosse inútil e vã? Se em sua modéstia e parcimônia, tinha o suficiente para viver com decência e ainda esconder, num hábito antigo, algumas sobras, se tranqüila sua vida, e mesmo alegre, por que então vazia e vã?

 

     Nas ruas em torno sobravam as mexeriqueiras, velhas e jovens, pois para exercer tal oficio não se exige documento de idade. Dona Dinorá era a primeira dessas xeretas; em sua atividade tamanhos sucessos obteve a ponto de ser-lhe atribuída fama de vidente.

     Já foi nesta crônica Dona Dinorá vista em ação, em lamúrias, em denúncias, em enredos, sem que, no entanto, dela própria se tratasse mais longamente, permanecendo até agora quase anônima, como se fosse tão só uma intrigante comum na roda das beatas. Talvez porque a insólita presença de Dona Rozilda, por fim e felizmente em exílio no Recôncavo, não desse vez às concorrentes. Mas sempre é tempo de corrigir um erro, de reparar uma injustiça.

    Para muitos, passava Dona Dinorá por viúva do comendador Pedro Ortega, rico comerciante espanhol desencarnado uns dez anos antes. Em verdade, nunca fora casada, e donzela o fora pouco tempo;  apenas púbere, arribara de casa para dar início à movida e de certa maneira brilhante existência, crônica picante. No entanto benza Deus! - ninguém mais moralista e ciosa dos bons costumes desde o feliz encontro com o galego, quando, tendo passado dos quarenta e cinco, Dona Dinorá olhava o futuro com apreensão: um medo pânico da pobreza e o hábito do

conforto.

     Sem ter sido jamais realmente bonita, certa graça feminina, responsável por seu sucesso junto aos homens, diluía-se com os anos e as rugas. Dera então a incrível sorte do comendador, "bilhete premiado com o prêmio gordo", como Dona Dinorá confidenciara às amigas, na época. O espanhol oferecera-lhe respeitabilidade e garantias, sem falar na casinha das vizinhanças do Largo Dois de Julho onde a instalou.

     Quem sabe devido ao medo de ver-se velha e pobre, à ameaça da prostituição de porta aberta, Dona Dinorá, ao amparo do comerciante, converteu-se rápida no oposto do que havia sido: em respeitável matrona, em guardiã da moral. Tendência a acentuar-se após a morte de Pedro Ortega e cada vez mais. Quando ele partiu, entre discursos e coroas mortuárias, a antiga mundana passava dos cinqüenta anos - cinqüenta e três para ser exato - e, nos oito de amancebamento, criara apego à virtude e à vida familiar.

     O probo baluarte das classes conservadoras, grato à amante pela fidelidade e pela revelação de um mundo de ignorados prazeres (que besta fora!, perdera os melhores anos de sua vida ao balcão da pastelaria e no corpo chocho e ignorante da santa e agre esposa), deixou-lhe em

testamento - além da casa própria, ninho dos pecaminosos amores – ações e obrigações do Estado, renda módica, bastante, porém, para assegurar-lhe velhice sem sustos, por inteiro a serviço da difamação e da intriga.

     Eis Dona Dinorá já além dos sessenta: voz estridente, enervante gargalhada, constante agitação. Em aparência, a mais solidária e compreensiva velhota; em verdade, "um frasco de veneno, cascavel enfeitada com penas de pássaros", na frase quase poética de Mirandão, eterna vítima dessa categoria de comadres. Frase dita ao jornalista Giovanni Guimarães, ao ver a sessentona passar, muito viúva e sustentáculo da moral, por ocasião do almoço em casa de Dona Flor, quando da visita de Sílvio Caldas. Completara, filósofo moralista:

    - Quanto mais puta em jovem mais séria na velhice. Ficou donzela e bucho...

    - Aquele estrepe? Quem é?

    - Não é de nosso tempo, mas já teve nome e apelido. Quem fala muito nela é Anacreon, andou bebendo nessa moringa. Você já ouviu falar, na certa. Atendia por Dinorá Sublime Cu.

    Quase mudo, Giovanni, em espanto e assombro:

    - Isso aí? O Sublime Cu tão recordado? Meu Deus!

    Prova da vaidade das coisas terrenas, consideraram humildemente os dois, ante tal exibição de virtude e o triste físico da leva e traz: atarracada, tronco forte, pernas curtas, oveiro baixo, cabeçorra, champruda. Vestida de luto, como viúva verdadeira, medalhão ao pescoço com a fotografia do comendador, de quem falava como se houvesse sido realmente sua esposa e ele o único homem de sua casta vida. Tipos como Anacreon, vergonha do gênero humano, era como se nem existissem; ela os desconhecia, simplesmente.

     Ladina, não ia direta aos assuntos, em acusações frontais; ao contrário, infernava os demais na maciota, parecendo tudo compreender e desculpar, elogiando uns e lastimando outros. Daí sua fama de bondosa e simpática, os louvores semeados em seu caminho de mexericos: "Criatura boa vai ali..." Quando, por um azar, pega em flagrante de intriga, dava-se por vítima: quisera fazer um benefício, em paga recebia a negra ingratidão.

     Seu Zé Sampaio, homem pacato, cedo na cama com seus imaginários achaques, as gazetas do dia e revistas velhas (adorava ler revistas velhas e almanaques antigos), ao ouvir o vozeirão de Dona Dinorá, punha as mãos sobre os ouvidos, em pânico, dizendo a Dona Norma, com voz

vencida mas não resignada, de quem já não tinha jeito a dar nas aporrinhações:

     - Essa mulher é uma filha da puta, a maior filha da puta que tem por aqui...

     - Assim também é má vontade demais... Ela até que é boazinha...

     Por aí se vê quão hábil Dona Dinorá: conseguira superar aquela história do filho de Dionísia, quando seu prestígio caíra a zero, voltando a obter o favor de Dona Norma. Não, porém o de seu Sampaio:

     - Boa filha da puta... Veja se consegue, por favor, que ela não meta o nariz aqui, no quarto. Diga que estou dormindo, estou descansando... Diga que eu morri...

     Quem era Dona Norma para impedir Dona Dinorá de enfiar o nariz onde quisesse? Ia entrando, íntima da casa, de todas as casas de gente de consideração e dinheiro - para os pobres, bondosa, mas de uma bondade altiva e distante, muito protetora dos desprotegidos, mantendo-os, entretanto, no lugar (inferior) que lhes competia, sem lhes dar asa. Ia

enfiando pelo corredor, pelo quarto:

     - Dá licença, seu Sampaio? - Zé Sampaio odiava aquela cabeçorra oxigenada, "cabeça de elefante, a maior da Bahia", a dentadura de cavalo, a voz e os cuidados: - Sempre doentinho, seu Sampaio? Eu vivo dizendo: "Seu Sampaio, com todo aquele corpo, tem a saúde muito delicada. Qualquer coisinha, e está tremendo na cama, cercado de remédios". Digo e repito: "Se seu Sampaio não tomar cuidado, um dia desses bate a bota..."

     Impressionável, Zé Sampaio gostaria de expulsá-la a pontapés:

     - Tenho uma saúde de ferro, Dona Dinorá...

     - E por que fica assim na cama, seu Sampaio, por que não vem ilustrar a gente com sua prosa? Homem tão letrado, todo mundo diz que o senhor só não se formou porque... Bem, o senhor sabe, o povo fala tanta coisa... Se a gente for dar atenção... Eu não ligo, vão falando, entra por um ouvido, sai por outro...

     Zé Sampaio sabia onde ela desejava chegar: à sua dissoluta mocidade de filhinho de papai dissipador e malandro. O pai, desgostoso, cortou-lhe a mesada e, retirando-o dos estudos, o pôs na loja a trabalhar de caixeiro.

     - Deixe o povo falar, Dona Dinorá, não se importe...

     - O senhor também acha que a gente não deve se importar com o que falam de nós? Não deve mesmo? - abria os olhos graúdos, de boi, muito atenta, como se Zé Sampaio fosse um oráculo dos novos tempos.

     - Eu, pelo menos... - e, enchendo-se de vez: - Quer saber de uma coisa, Dona Dinorá? Eu quero é paz, é descanso... E, para ter um pouquinho de paz, vivo dando razão a quem não tem. E nem assim consigo... Vêm me aporrinhar até aqui... Com sua licença...

     Tomando do jornal ou da revista, virava as costas à visita "Zé Sampaio é mais bruto do que uma cavalgadura" - Dona Norma sentia-se envergonhada - "e logo com Dona Dinorá, tão boazinha..."

     Rispidez, ao demais inútil, pois Dona Dinorá não se dava por expulsa, persistindo solerte:

    - O senhor já soube o que se passou com seu Vivaldo?

     Ah! mulher mais diabólica, desgraçada! Pois não é que conseguia lhe despertar o interesse? Zé Sampaio largava o jornal, vencido:

     - Com Vivaldo? Não sei não, o que foi?

     - Pois eu lhe conto... Seu Vivaldo, homem direito, bonitão, hein! Parece um gringo, todo rosado...

     Era sempre assim: após os elogios vinha a intriga, a maledicência, a denúncia de um trago a mais, da escapula de um marido, um nome de mulher, quase sempre de mulher-dama.

     Seu Vivaldo da funerária, segundo ela, num desrespeito às lápides, e aos esquifes, reunia, nas tardes dos sábados, por detrás das cortinas roxas com enfeites cor de prata, um grupo de hereges em arrenegado pôquer de apostas altas e vasto dispêndio de conhaque e genebra:

    - Uma falta de respeito, o senhor não acha? Podia arranjar outro lugar para o vício... - ligeira pausa: - O senhor não pensa, seu Sampaio, que o jogo é o pior dos vícios?

     Zé Sampaio não pensava nada nem queria pensar, queria apenas um pouco de sossego mas Dona Dinorá disparara de tramela solta: seu Vivaldo, sem dúvida honesto contribuinte, esposo excelente, ótimo pai de família, punha tudo isso em perigo, pois jogador mais dia menos dia perde o controle e aposta até mulher e filhos. E, quando não os aposta, deixa-os ao deus-dará, ao abandono, em cruel desprezo. Que melhor exemplo senão Dona Flor? Enquanto vivo o mísero marido, escravo da jogatina, curtira as penas do inferno; maltratada, ao léu, sofrendo horrores... Vejam, hoje, a diferença: enfim liberta, pode gozar da vida sem sobressaltos, sem agonias.

     Falando em Dona Flor, que acha o senhor, seu Sampaio, e você, Norminha, meu bem, o que é que acha? Assim moderna e bonitona, não era uma injustiça continuar viúva, e de defunto tão pouco recomendável? Não era mesmo? Por que Norminha, amiga do peito, não lhe dava uns conselhos? Enquanto isso, ela, Dona Dinorá, estudaria o caso na conjunção dos astros, com a bola de cristal e com os naipes de seus baralhos de cartomante amadora.

    Amadora só por não cobrar dinheiro, lendo o futuro de graça e por camaradagem, para atender pedidos, pois raras profissionais possuíam competência de adivinha igual à sua. Pelo menos para descobrir salafrarices de qualquer espécie tinha uma intuição, um sexto sentido, um faro único. Um dom divinatório, atingindo o requinte da profecia.

    Não foi ela quem prognosticou, com mais de um ano de antecipação, o escândalo medonho da família Leite, gente de muito dinheiro e maior orgulho, trancada atrás dos muros de nobre mansão sobre o mar, na Ladeira da Preguiça? Lera nos sebosos baralhos, olhara na bola de falso

cristal, ou tão somente seu sádico instinto a advertira?

    Apenas a angelical Astrud, com o ar cândido de interna do Sacre Coeur, chegou do Rio para habitar com a irmã, e logo Dona Dinorá, sem nenhuma razão aparente, previu o drama:

    - Isso vai acabar mal...

     Assim profetizara ao ver a moça no automóvel com o cunhado, doutor Francolino Leite, - o "sátiro Franco", para seu restrito círculo de íntimos - advogado de grandes firmas nacionais e estrangeiras, bebedor de uísque, fazendeiro no sertão e membro de Conselhos Diretores de prósperas empresas, senhor da maior fidalguia e arrogância. No volante do grande carro esporte americano, de piteira e cachecol, o causídico nem enxergava o bulício da gente simples do Sodré, do Areal, da rua da Fôrca, do Cabeça, do Largo Dois de Julho. Mas Dona Dinorá o enxergava, ao advogado, não o perdia de vista: a par dos menores detalhes da vida na mansão senhorial, íntima de cozinheiras, copeiras, babás, do jardineiro e do chofer, brechando cunhado e cunhada com olhos de pressentimento:

    - Vai acabar mal, ora se vai... Pólvora perto de fogo...

    Sem se comover com a postura inocente da estudante:

    - Moça de olho baixo é descarada esperando ocasião...

    Tão injusta e absurda parecia, a ponto de ter sido destratada, com palavras ásperas e gestos de repulsa, por um rapaz vizinho, Carlos Bastos, pouco amigo de disse-que-disse e talvez um tanto seduzido pela doce Astrud:

    - Não conspurque a pureza da moça com a baba da calúnia...

    Quando o escândalo explodiu, quase dois anos depois - Astrud, com seu ar ingênuo e a barriga prenha de cinco meses, sendo expulsa do teto familiar pela irmã em fúria, o sátiro Franco de bucho farto, - prato suculento servido a toda a cidade, Dona Dinorá vingou-se do romântico Carlos Bastos (talvez ainda enamorado):

    - Viu, bobalhão? A mim, ninguém me engana... Baba de calúnia não faz filho em moça, o que faz menino é descaração...

    Tinha olhos de ver e de prever, um faro de perdigueiro, ninguém escapava aos seus sentidos vigilantes. Aliás, os próprios vizinhos vinham lhe contar seus particulares mais íntimos, para lhe pedir consultas aos naipes de adivinha, à cristalina bola de evidências. Para ela, passado, presente e futuro eram cartas abertas, de leitura fácil.

     Possuindo ou não reais e profundos conhecimentos da magia, pífia diletante sem maior intimidade com os astros, ou mestra das ciências ocultas do Oriente, manda a verdade proclamar ter sido ela quem primeiro anunciou o novo casamento de Dona Flor, quando apenas a viúva aliviara o luto e retomara vida normal, sem sobressaltos nem problemas, recatada existência, distante de qualquer idéia ou pensamento relativo a matrimônio.

     Anunciou as bodas e distinguiu a face do noivo muito antes de se falar em noivado, antes certamente de se perceber qualquer sentimento ou interesse. E, se existia de parte do fulano remota inclinação por Dona Flor, jamais alguém o soube, talvez nem a si próprio ele o confessasse. Pois bem, acredite-se ou não, Dona Dinorá em detalhe o descreveu: senhor moreno, já de meia-idade, alto, robusto, distinto, soberbo quarentão, de modos sérios e afáveis, levando na mão direita, pela haste erguida, um botão de rosa cor de vinho. Assim ela o enxergou na bola de cristal. As damas e os reis, os valetes, os ases de espada, paus e copas confirmariam-lhe os traços fisionômicos e a honesta disposição de casamento, acrescentando-lhe o às de ouro bens de dinheiro, estabilidade econômica e o título de doutor.

 

     Ora, apesar de moreno, o Príncipe não era de meia-idade, muito menos senhor robusto, alto, soberbo quarentão. A seu modo distinto e bonito rapaz, mas muito a seu modo extravagante. Difícil, por conseqüência, emoldurá-lo, mesmo com extrema boa vontade, no retrato do futuro noivo antevisto por Dona Dinorá na bola de cristal e por ela revelado às massas populares do Largo Dois de Julho, levando ao auge da excitação, quase da subversão, o combativo sindicato das fuxiqueiras.

     Delicado, pálido, dessa palidez dos poetas românticos e dos gigolô, cabelos negros e lisos, brilhantina e perfume a lá vontê, sorriso entre melancólico e persuasivo, sugerindo um mundo de sonhos, elegante de corpo e roupas, grandes olhos súplices, as boas palavras para descrever o Príncipe seriam condoreiras: "marmóreo", "lívido", "meditabundo", "pulcro", "a fronte de alabastro e os olhos de ônix". Maior de trinta anos, aparentava pouco mais de vinte e a tristeza a

sombrear-lhe o rosto fazia parte de seus instrumentos de trabalho, assim como a palavra fácil e o olhar sub-reptício, profissional competente e de sucesso em sua curiosa e rara especialização. Pois de logo informe-se que em viúvas se especializara, possuindo curso completo e longa prática.

     Geralmente conhecido por Príncipe nos meios da vigarice e nos meios policiais (e onde estão os limites, se é que existem, a separar esses dois mundos na aparência opostos, na realidade idênticos?), o apelido ele o merecera por seus bons modos, sua lhaneza de trato, sua prosápia. Na intimidade afetuosa dos castelos, em círculos restritos  de mulheres dama, tratavam-no, porém pelo místico apelido de Senhor dos Passos, alusão à sua face macerada e à sua magreza. Chamava-se realmente Eduardo, e era um dos mais eficazes e simpáticos malandros da cidade, exímio passador do conto do vigário. Quanto ao sobrenome, não vai aqui contado por inútil e desnecessário à boa marcha da história de Dona Flor e de seus dois maridos, a seu enredo e desenredo.

     O Príncipe o escondia, a esse sobrenome, a polícia não o divulgou quando levada a trato mais direto com o bizarro moço, e os jornais, ao promovê-lo em suas colunas, noticiando-lhe a passagem (em geral rápida) pelo xadrez, tampouco lhe compunham o patronímico, substituindo-o pela vaga expressão "de tal":

     "Foi preso ontem, na Praça da Sé, sob a acusação de haver ilaqueado a boa fé da viúva Julieta Fillol, com residência no Barbalho, ludibriando-a com noivado e promessas de casamento, para freqüentar-lhe a casa e dar sumiço às jóias e a dois contos de reis da crédula apaixonada, o marginal Eduardo de tal, conhecido no submundo do crime pela alcunha de Príncipe".

      Todos assim prudentes em homenagem à família do gatuno, gente de tradição e prestígio em Feira de Sant'Ana. Se dessa maneira agiam as autoridades, a imprensa falada e escrita e o próprio papa resto de defunto, por que fazer destas discretas letras exceção sensacionalista, atirando ao desprezo público e aos cães do mexerico e do escândalo honra e nome da egrégia clã a merecer dos demais tanto respeito? Imagine-se o horror, se Dona Dinorá e seu exército de beatas tomassem conhecimento da parentela do vigarista; nem os bisnetos conseguiriam limpar o nome dos avós para sempre "envolto em lama, afundado no pântano da infâmia" (como diria enfático o professor Epaminondas Souza Pinto). Beatas, no entanto, todas elas cativas das maneiras do Príncipe e de sua languidez. A própria Dona Dinorá não tentara, em certo momento, modificar os termos de sua profecia para aproximá-las das características físicas do trapaceiro. As demais mergulharam unânimes na tristeza, quando Mirandão, tendo aparecido com a esposa e dois ou três filhos, para visitar sua comadre Dona Flor, deu a ficha completa do indivíduo: "aquilo de gente só tem o rastro...

     Toda essa história do Príncipe em patrulha por aquelas bandas, com sua elegante patifaria, foi, desde o começo e até o fim, confusa e atrapalhada. Esse, aliás, seu clima habitual, sua atmosfera preferida, onde mover-se  e agir.

     Futricavam amigas e xeretas em riso e excitamento com a descrição do futuro noivo feita por Dona Dinorá em transe, e logo transmitida de boca em boca entre o indócil comadrio, quando o Príncipe surgiu pelas calçadas em passos e suspiros de enamorado.

     Riam-se em pilhérias Dona Norma, Dona Gisa, Dona Amélia Ruas e Dona Emina; em fuxicos as beatas, procurando infatigáveis o galã descrito. Manda aliás a verdade se diga não terem sido somente as comadres a se entregarem à infrutífera busca. A própria Dona Gisa lançou seu olhar psicológico sobre a humanidade masculina das redondezas, a cata do "soberbo quarentão"; quanto a Dona Norma, nem se fala, depois de bom velório seguido de enterro de primeira, nada prezava tanto como um folhetim de noivado e casamento. Não tinha conta o número de moças e rapazes cujo matrimônio ela chocara, conduzindo-os  ao juiz e ao padre,

vencendo dificuldades, superando escolhos e desentendimentos, brabas oposições de família. Só fracassara mesmo com Valdeloir Rêgo, um indeciso sem igual, e com uma gentil vizinha, Maria, por demais esmorecida. Mas nem assim perdera a esperança de colocar Maria, talvez, quem sabe?, com o próprio Valdeloir.

     Beatas e amigas buscavam afanosas o oculto pretendente, de posse de ampla descrição de suas virtudes físicas e morais, pois não era Dona Dinorá vidente avara, de incompletas profecias. Se havia de descrever futuro noivo, não lhe sonegava pormenor; prazenteira e profusa, traçava-lhe vasto panorama de qualidades e traços fisionômicos. Talvez, por isso mesmo, por ser tão completo e fiel o retrato do cavalheiro, difícil situá-lo e descobri-lo. A quem atribuir tão numeroso conjunto de detalhes?

     Iam as beatas de cidadão em cidadão, pelas redondezas e mais além, sem encontrar quem coincidisse com todos os termos da incógnita. Uns eram formados e possuíam algum dinheiro, mas não a idade precisa e requerida. Outros a tinham, mas lhes faltava a cor morena e o anel de grau, além de detalhes secundários. Mesmo assim, apareceram numerosos candidatos, cada comadre apresentando o seu, quando não trazendo mais de um, por garantia.

     Dona Flor mangava de tolice tão grande, sorrindo mansa: só mesmo na cabeça de Dona Dinorá, sem ter em que gastar o tempo só em sua cabeça passariam essas tontas idéias de noivado e casamento. Não na de Dona Flor, quando mais não fosse por não haver decorrido sequer um ano do falecimento do marido, prazo mínimo para a viúva carpir e honrar sua memória e sua ausência.

     Ao demais, se alguma decisão firme tomara, ao atingir os oito meses de luto, fora a de não se casar novamente. Para quê, se tinha o necessário, se ganhava seu de comer e seu de vestir com as aulas de culinária; se as amigas, tantas e tão boas, lhe traziam o conforto de seu trato fino e de sua grata convivência; se não sentia falta de calor de homem, para tais coisas mortas e para sempre, por que casar-se?

     Com o riso um tanto triste e com a segurança desse irremovível propósito, enfrentava as cordiais provocações, as investidas de Dona Norma e de Dona Gisa, a lhe apresentarem, elas também, na bandeja da amizade, as cabeças de possíveis candidatos.

     O de Dona Gisa era o culto professor Epaminondas Souza Pinto, solteirão encruado, mestre de meninos em ginásios particulares e historiador nas horas vagas. Sempre com pressa e suarento, mal-ajambrado em terno branco com colete e polainas, andando pelos sessenta anos, um tanto aéreo e vago, Dona Flor o conhecia e estimava, mas se houvesse de romper sua firme resolução de viúva não seria certamente para dar a mão de esposa ao professor, por demais castiço e oratório para seu gosto simples (sem falar, por discrição e elegância, no desengonço do gramático). Dona Flor ria, a gracejar: mesmo viúva e pobre, não estava ainda tão deteriorada.

     Riam as amigas: Dona Norma, indecisa entre diversos, conhecia meio mundo; Dona Amélia, às voltas com outros tantos; Dona Emina, em luta por Mamede, um compatriota sírio, colega em viuvez e antiquário, vizinho de presença pouco constante, demorando-se pelo interior do Estado a comprar santos carunchosos, cadeiras capengas, cristais partidos e até pencos velhos. Mamede? Feio como a necessidade, ainda pior do que o professor Epaminondas, segundo Dona Flor.

    Até Dona Enaide veio do Xame-Xame, de pretendente em punho; um cunhado, notário nos cafundós do rio São Francisco, moreno de quarenta e cinco anos, careca e um tanto narigudo, porém alegre e divertido, com um dinheirinho junto, um partidão de nome Aluísio. De todos, o mais semelhante ao descrito por Dona Dinorá, pelo menos a acreditar-se na palavra de Dona Enaide. Quase possuía inclusive título de doutor, pois fora rábula de clientela, antes de meter-se na desgraça da política.

     Um único defeito: só era solteiro no religioso, no civil era casado. Dera-se mal com a esposa, dela se separara há mais de dez anos. Quando moço, maçom e anticlerical, desdenhou do matrimônio na Igreja, mas agora se dispunha a aceitá-lo, se a noiva fizesse questão. Por que não se daria por satisfeita Dona Flor com o casamento no padre, para muita gente, aliás, o único válido, por contar com a bênção de Deus, não passando o ato civil de simples contrato firmado ante o juiz, quase um negócio? Dona Enaide até já escrevera ao parente carta cheia de loas à beleza e à bondade de Dona Flor. "Mulher maluca se eu não quero casar menos hei de querer me amigar com ou sem a bênção de Deus." E ainda por cima para viver nos confins do Judas, nas margens do rio São Francisco e da maleita “. Fingia-se Dona Flor de indignada: afinal Dona Enaide, dizendo-se sua amiga, vinha do Xame-Xame lhe propor a vergonha e o degredo. Um pagode tudo aquilo, para rir e nada mais”.

     Cada candidato tinha algumas características a aparentá-lo com o modelo de Dona Dinorá. O Príncipe, porém, era de todos o menos parecido: nem dinheiro nem título de doutor, nem a idade, nem robustez e altura. Quando se materializou na rua, a medir com seu trêfego andar o passeio do sobrado do argentino, em face às janelas da Escola de Culinária Sabor e Arte, Dona Flor atribuiu a poética aparição a namoro de aluna jovem ou a arranjo de casada salafrária.

     Era comum uma das moças chegar de namorado em punho, retornando o suspirante à esquina antes do fim da aula, para conduzir de volta a melindrosa. Outras, casadas, serviam-se da Escola como cobertura para a descaração, para atarraxar um par de chifres na testa dos maridos,

utilizando o cômodo horário da classe em melhor folguedo. Compareciam a uma aula, gazeavam a seguinte ou bem assistiam apenas o começo das lições, quando Dona Flor ditava e elas transcreviam em cadernos os ingredientes dos quitutes, com isso fazendo em casa prova de freqüência e aplicação. Em verdade, meia hora na Escola, hora e meia no castelo.

     Assim, ao vê-lo langoroso junto ao poste, fumando sem cessar, à espera, Dona Flor o imaginou xodó de qualquer das moças, de uma das mais jovens com certeza, pois ele próprio tinha cara de garoto.

     Com o correr dos dias, não o tendo surpreendido em companhia de nenhuma aluna e vendo-o sempre ali, em horas as mais diversas e até pela noite, a fitar suas janelas, concluiu, ante tais horários absurdos, nada de comum existir entre a persistência do coió e as estudantes de forno e

fogão. Não lhe ditando os passos discípula da Escola, então qual o alvo de seus olhares e suspiros?

     Marilda, certamente; outra não podia ser a causa da aflita presença. Vivendo a moça mais tempo em casa da professora do que na sua própria, o fulano a imaginara irmã ou sobrinha de Dona Flor: exibiam as duas a mesma doce cor de pele, morena sem termo de comparação, um tom de rosa chá, de mate e de finura, resultante de ter-se misturado sangue indígena ao negro e ao branco para criar esse primor de mestiçagem.

     Marilda dava corda ao suspirante ou o desprezo lhe dava? Chegara a preciosa à idade do namoro; com mais dois anos concluiria o curso pedagógico, apta para noivado e casamento. Já se dera conta, aliás, do interesse do indivíduo, mas atribuindo a responsabilidade à outra qualquer; à escabreada Maria, às bonitas filhas do doutor Ives, à professorinha Balbina quem sabe? Mas, se nenhuma delas vivia em frente ao poste, não se avistando dali suas janelas e, sim, as da sala de visitas de Dona Flor, onde só Marilda se demorava a ouvir rádio e a ler romances da "Coleção Menina-e-Moça", havia de ser por ela a vigília e a melancólica postura do mané teimoso.

     Pela fresta da janela, brecharam o camarada: "é lindo", suspirou Marilda, inconstante coração já disposto a sacrificar o namorico com Mecenas, colega do pedagógico, frangote de sua mesma idade. Concordava Dona Flor: "uma galanteza de rapaz", bem jovem ainda, não teria mais de vinte e três ou vinte e quatro anos, na medida exata para a futura mestra. Era preciso tomar informações, saber se exercia profissão liberal e rendosa, ou se possuía bom emprego em Banco ou escritório. Talvez fosse rico, e assim o demonstrava, pois não tinha horário para exibir-se na rua, escorando o poste defronte à casa de Dona Flor.

     Gastou Marilda inutilmente seus sorrisos, não foi correspondida. Saía porta a fora em direção ao Largo ou bem para sentar-se cismarenta na balaustrada do pátio da Igreja de Santa Tereza- sítio tão ideal para declaração e juras de amor jamais existiu nem existirá, assim idílico; com o céu tão próximo e azul, o mar lá embaixo verde escuro, as paredes seculares do templo e ainda, com certeza, a compreensiva benção de dom Clemente para qualquer esquivo beijo herético.

     Não a seguira no entanto o Príncipe, nem para o tumulto do Largo, nem para a paz e o silêncio do mirante sobre as águas. Não abandonava o poste, como se estivesse a ele acorrentado, os olhos fixos nas venezianas da Escola. Ora, se tampouco era Marilda o alvo de seus suspiros a quem atribuí-los senão à própria Dona Flor?

    Assim concluíram comadres e amigas e até Marilda, apesar de sua pouca idade e experiência:

    - Eu acho que ele está de olho é em você, Flor.

    - Em mim? Tu está doida?...

    Dias depois, indo ela de compras com Dona Norma pelas lojas da rua Chile, ele as acompanhara, tomando o mesmo bonde, a fumar cigarro sobre cigarro e a sorrir tão terno e precisado de carinho. Dona Norma até quase se zanga ao dar-se conta, imaginando Dona Flor com segredos para ela.

    - Muito bonito... A senhora de pretendente e não me disse nada...

    - Nem sei quem é... Vive plantado faz uns dias em frente lá de casa, nunca vi mais gordo antes, pensei que fosse com alguma aluna, mas vi que não. E com Marilda, que eu disse e parecia, mas também não era. Até a pobrezinha ficou triste. Não sei que diga...

     Na maior das excitações, Dona Norma examinou o janota erguer longos e ostensivos olhares, que ela pensava discretíssimas miradas de relance:

     - Bonito pra burro... Só que parece um tanto moderno demais... – e após novos olhares, retificando: - Não é tão moderno como aparenta e, para dizer a verdade, é bonito demais para meu gosto...

    - Bonito ou feio, não me interessa...

     Saltaram do bonde, o tipo atrás. Num átimo, Dona Norma traçara complicado itinerário capaz de pôr a limpo se o desmilingüido vinha ou não no rastro delas. Logo ficou patente e claro. Sem tentar aproximar-se nem lhes dirigir a palavra mantendo-se a prudente distância com seu sorriso coquete e o olhar súplice, não as perdera de vista um só instante. Se entravam numa loja, ele na porta punha-se à espera; se dobravam uma esquina, ele as seguia; se paravam ante uma vitrine, da

vitrine imediata ele as observava. Como duvidar ainda?

     As comadres vinham sozinhas ou em grupo espiá-lo ao pé do poste. Como era lindo e parecia infeliz, suplicando ternura a graça de um olhar, de um sorriso, de uma esperança, formavam todas de seu lado, a seu favor, tentando inclusive adaptá-lo à visão do noivo revelada na bola de cristal. Não era ele moreno e distinto, talvez doutor e com dinheiro? Quanto à idade e outros atributos físicos, talvez o desencontro se devesse à miopia de Dona Dinorá, enxergando maturidade onde devera ver juventude, forte tronco onde existia peito fraco, saúde de ferro em lugar de pálida languidez. O melhor, na opinião de todas as comadres, era a vidente consultar de novo o cristal e os baralhos, pondo fim àquelas obscuras contradições.

     Assim o fez Dona Dinorá ante a expectativa do bairro em polvorosa, uma onda crescente de simpatia e solidariedade a cercar Eduardo, o Príncipe das Viúvas, ancorado ao poste de eletricidade, fitando o lar de Dona Flor, sua próxima escala, porto de aguada e a abastecimento.                                                                                                                                                                                                                                                   Aconteceu, porém, ter-se repetido na bola de cristal e na leitura dos baralhos o perfil enérgico do quarentão soberbo com seu anel de grau e sua rosa cor de vinho. Estando a visão envolta em fumaça, - como sucede sempre no mistério das revelações -, não podia Dona Dinorá precisar a qualidade da pedra no anel de doutor, esclarecendo-lhe de vez a profissão. Mas podia, com absoluta certeza e alguma pena do moço pálido a suspirar na esquina, garantir nada ter de comum com ele o verdadeiro pretendente, o futuro noivo ainda a aparecer.

     Por mais se esforçasse ela, curvada sobre o límpido cristal ou sobre os vistosos naipes, concentrando-se nos eflúvios hindus do Ganges, nas secretas legendas dos templos do Tibet, nada obteve: as forças ocultas da magia oriental persistiam na firme decisão de negar passagem ao Príncipe Eduardo (de Tal). Também nos ebós dos candomblés, em sacrifícios de conquéns e pombos, de galos e de um bode negro, despachos encomendados por Dionísia de Oxóssi para defender sua comadre Dona Flor dos malefícios e dos malvados, Exu fechava seus caminhos, trancava suas encruzilhadas para o galante sedutor, especialista sem rival em consolar viúvas, roubando-lhes os solitários corações e, de passagem, haveres e economias, cobres e pratas, anéis e jóias.

 

     Aqueles oito meses de viuvez transcorridos após o primeiro tão aflito, Dona Flor os atravessara num redemoinho de que fazeres e de inocentes passatempos. Até aliviar o luto pouco saíra - visitas aos tios no Rio Vermelho, a algumas amigas mais intimas -, enchendo o tempo em casa, com a Escola, as encomendas, a vizinhança. Em junho cozinhou seus tachos de canjica, suas bandejas de pamonha, seus manuês, filtrou seus licores de frutas, seu famoso licor de jenipapo. Com apenas três meses de luto, não abriu suas salas nem nas noites de Santo Antonio e São João, nem mesmo na de São Pedro, patrono das viúvas. Os meninos do bairro acenderam uma fogueira em sua porta e vieram comer canjica; com eles, Dona Norma, Dona Gisa, três ou quatro amigas, na intimidade, sem nenhuma festa. Todos aqueles pratos de canjicas, as bandejas de pamonha, as garrafas de licor, foram de presente para os tios, os amigos, as alunas, nos ritos de junho, mês das festas do milho.

     Depois do sexto mês até o aparecimento do Príncipe, em dezembro, suas atividades sociais cresceram muito. Aliviara o luto em setembro, às vésperas do primeiro domingo, data sagrada do caruru anual de Cosme e Damião, os Dois-Dois, devoção do finado; com ele vivo, os festejos começavam de manhãzinha, com alvorada de foguetório, indo terminar noite alta, forrobodó de arromba, a casa aberta tanto a amigos como a estranhos. Mantendo o preceito dos Ibejes, Dona Flor cozinhou o caruru e o serviu discretamente a alguns vizinhos e amigos, cumprindo assim a

obrigação do falecido. Mirandão veio com a esposa e os filhos; Dionísia de Oxóssi só com o menino, pois o xará comia poeira nas estradas, transportando carga para Aracaju, Penedo e Maceió.

     As amigas a arrastavam a compras e passeios a cinemas e visitas; assistira a dois espetáculos de Procópio, quando o ator ocupara com sua Companhia o Teatro Guarani. Com Dona Norma e seu Sampaio fora ao primeiro, com doutor Ives e Dona Emina ao segundo, rindo num e noutro sem parar.

     Por vezes permanecia em casa, recusando insistentes convites, pois tantas solicitações a fatigavam; e essa fadiga era responsável a seu ver, por certa e desagradável sensação difícil de definir: como se movimento, trabalho e riso não bastassem para encher a sua vida, de súbito desanimada, como se tudo aquilo fosse extremamente cansativo. Não um cansaço físico, sempre útil e benfazejo, pois a fazia dormir a noite inteira num sono pesado de repouso, sem sonhos. Um esgotamento interior, uma insatisfação.

     Nenhuma amargura no entanto, nem mesmo permanente melancolia; sua vida era alegre e agradável como jamais o fora. Saía, passeava, em mil e uma coisas ocupada, sem esquecer a Escola, divertida responsabilidade; sendo aquele desânimo, de quando em vez a dominá-la passageira nuvem em seus dias claros de jovial agitação. Tinha as amigas, os tios queridos, a constante companhia de Marilda, espécie de irmã mais moça, quase uma filha, a lhe confiar seus sonhos, seu desejo de cantar na Rádio. Tinha os passeios e o rádio, músicas e novelas, programas humorísticos, os romances para senhoritas em cuja leitura a normalista a viciara, os disse-que-disse das comadres, as previsões de Dona Dinorá, candidatos à sua mão aos montes, na voz e no

desejo das vizinhas. Que diriam os pseudo-pretendentes se tivessem conhecimento desse novo mercado de escravos, dessa farsa risonha, quando eram oferecidos à escolha de Dona Flor, numa exibição ruidosa e numa análise pertinaz de virtudes e defeitos, entre comentários e pilhérias, frouxos de riso? Candidatos sem que o soubessem e desejassem e, ao demais, sistematicamente recusados:

     - Seu Raimundo de Oliveira, qual? Aquele ajudante de santeiro que trabalha com seu Alfredo? Tenha paciência, Jacy, ele é boa pessoa mas com aquela cara triste e aquela mania de viver na Igreja ... Arranje outro, por favor...

     Os outros não satisfaziam tampouco; quando reuniam dotes de beleza masculina às qualidades de cidadão, Ah! esses eram todos casados, nem um só livre para remédio: o professor Henrique Oswald, da Escola de Belas Artes, parente de família do Areal; o arquiteto Chaves, com obra ali

perto, um almofadinha; seu Carlitos Maia com sua precária agência de turismo; o espanhol Mendez, seu Vivaldo da funerária; e aquele por quem

suspiravam as moças às escondidas, pois Dona Nair não admitia chamegos com seu marido nem em pensamento, Genaro de Carvalho, mais bonito do que qualquer artista de cinema a acreditar-se na opinião do mulherio.

     Dona Flor levava aquela história de novo casamento em tal deboche, que aos poucos a brincadeira foi-se reduzindo, projetos e candidatos em abandono.

    Assim calma e ao mesmo tempo cheia de interesse, decorria sua vida, quando, com a chegada do verão, num cálido dezembro, chegou  também o Príncipe, plantando-se ao pé do poste elétrico como se ali houvesse criado raízes.

     A partir do dia das compras com Dona Norma, rua Chile acima e abaixo, nenhuma dúvida perdurou a respeito da musa a inspirar ao pálido moço fundos suspiros e olhares lânguidos. Dona Flor sentiu-se queimar em rubor, como se aquele interesse envolvesse grave ofensa ao seu estado ou significasse não ter ela sabido manter-se nas fronteiras da modéstia e da prudência exigidas a uma viúva. Seria viúva tão risonha e tão saída, a ponto de qualquer ousado permitir-se o direito de rondar sua porta, de brechar suas janelas? Um insulto e uma vergonha, e com que intenções?

     Com as piores, certamente, gemia Dona Flor, trancando portas e janelas, enquanto Dona Norma a aconselhava a não agir com precipitação. Ela, Dona Norma, não simpatizara com u dito cujo, é bem verdade, parecendo-lhe suspeitas a boniteza lívida, a cara de menino e o jeito de finório. Mas, quem garantiria não estivessem enganadas as duas e fossem os melhores e os mais puros os propósitos do tipo, sendo ele próprio homem de bem, correto, merecedor de apreço e até da mão de Dona Flor e de seu carinho?

     Merecedor ou não, não tendo a viúva, contente de sua vida, intenções de casar-se de novo, muito menos se dispunha a manter coió sob suas janelas, a cortejá-la como se ela fosse uma dessas levianas a cobrir de vergonha a sepultura do marido, despindo seu luto nos quartos dos castelos.

     Dona Norma buscava acalmá-la, por que essa violenta reação, esse rancor contra o moço até agora pelo menos respeitoso, situando-se nos limites dos olhares e do acompanhamento à distância? Afinal não era Dona Flor menina ingênua para imaginar-se à margem dos galanteios, das cogitações, dos desígnios, honestos ou frascários, dos homens. Moça, bonita, sozinha, por que não haviam de desejá-la e tentar obter suas graças. De certa maneira, homenagem à sua formosura, prova de seus dotes e encantos. Irredutível Dona Flor em sua decisão de manter-se viúva, muito bem; Dona Norma não estava de acordo com tamanha idiotice mas não ia discuti-la agora. Mas por que motivo maltratar quem a ela chegasse com respeitáveis idéias de matrimônio. Por que não uma recusa gentil: "Sinto-me honrada, porém sou uma cretina, minha xoxota não tem mais uso, só serve para fazer pipi, não quero saber de casamento!"

     Ria-se Dona Flor da língua solta da amiga, mas, no primeiro ímpeto de indignação, no regresso das compras com o suplicante sempre em seu rastro, já lhe batera com as janelas na cara. Em vexame e desconsolo,

após uns momentos indecisos, a olhar para um e outro lado, o rapaz iniciou a retirada.

    Através das frestas das janelas as comadres assistiam à cena, todas em desacordo com o gesto de Dona Flor. Inclusive Dona Gisa, testemunha do acontecido; Dona Gisa, tão sabida da leitura dos livros, do estudo dos textos, tão ingênua e mesmo tola no contato com as pessoas. "Oh!",

murmurou repreensiva, ao ver as atitudes de Dona Flor no gesto rude e sua exclamação foi bálsamo para a injúria do Don Juan. "Pobre moço, vítima de hábito feudal, de preconceito e atraso".

     O pobre moço não queria outra coisa; ali mesmo, na rua, em lacrimosa e veemente confidência, abriu seu coração e depositou em mãos da gringa suas honestas pretensões, seu arrebatado amor e sua terrível pena. Apresentou-se: Otoniel Lopes, seu criado às ordens, comerciante em Itabuna, com loja de fazendas e crédito nos Bancos, plantando uma rocinha de cacau, de complemento. Solteiro mas desejoso de casar, afinal já completara trinta anos. Vindo à capital mais a passeio que a negócios, por acaso avistara Dona Flor e não mais tivera descanso e paz de espírito; louco, em desvario, tão apaixonado a ponto de parecer-lhe a vida inútil se ela não escutasse suas súplicas. Sabia-a viúva e séria, era quanto lhe bastava: o mais não tinha importância. Se fosse pobre, ainda melhor: os bens dele, Otoniel, davam e sobravam para os dois

viverem confortavelmente.

     Dona Gisa embarcou encantada no conto-de-vigário. O Príncipe era maneiroso, cheiro de tretas: ia provocando, Dona Gisa se abriu em informações. Pobre, em termos, Dona Flor: não era nenhuma milionária, mas tampouco mísera mendiga. Com a Escola e sem o marido para lhe afanar os ganhos, tinha seu pé-de-meia, algum dinheiro junto, que ela – como sucedia com tantos paroaras preferia ter em casa em vez de empregar ou de pôr no Banco a juros. Gente de mentalidade atrasada, definiu Dona Gisa, incapaz de esconder seu pensamento e de conter sua crítica a erros e absurdos. "Um dia um ladrão tem notícia do dinheiro, vem e rouba e é bem feito".

     Só asqueroso canalha pensaria em roubar Dona Flor, retrucou o Príncipe, considerando o modo de agir da viúva prova de seu bom caráter, de seu desinteresse pelos bens materiais, de sua desambição. Para esposa e companheira ele buscava exatamente mulher assim, direita e simples.

Pouco a pouco, ao sabor da prosa, Dona Gisa forneceu ao gatuno a ficha completa de Dona Flor, as poucas jóias inclusive; o colar de turquesas, europeu, os brincos de ouro com brilhantes verdadeiros, peça antiga, único bem de tia Lita, além dos gatos, do jardim, das aguarelas do marido. Como jamais os punha, e em herança à sobrinha os destinara, em suas mãos os depusera, pedindo que os guardasse ela; assim Dona Flor os podia usar quando melhor lhe apetecesse. Não os ofertava de logo e de uma vez, por serem aqueles brincos a única garantia dos dois velhos num

caso de necessidade: uma doença longa, com hospital e cirurgia, incêndio em casa, um desastre enfim, quem no mundo está livre de inesperada precisão?

     Terminou Dona Gisa de procuradora a advogada do farsante. Se empenharia junto a Dona Flor para que ela recebesse e ouvisse o pseudo-itabunense, mesmo se o fizesse apenas para lhe opor rotunda negativa às propostas de noivado e matrimônio. O Príncipe não queria senão ser recebido: tinha total confiança em sua bazófia, em sua experiência de lisonja, na alta categoria de sua lambança. Jamais falhara; se conseguia fazer-se  ouvir, eram favas contadas o noivado, era seu o dinheiro da viúva, nenhuma capaz de resistir à sua eloqüência.

     Naquele começo de noite, após as aulas, Marilda acendeu a luz da sala de visitas em casa de Dona Flor, ligando em seguida o rádio, abrindo a janela: não viu ao lado do poste o indefectível galã. Chamando a amiga, mostrou-lhe a paisagem vazia de pretendentes.

     Dona Flor descreveu-lhe os últimos sucessos: fora-se o tipo, expulso, levara com a janela nas ventas. Contando, Dona Flor relanceava a vista pela rua. No fundo, um tanto desiludida: bem frágil o interesse do rapaz, rompendo-se ao primeiro empecilho. Coisas muito piores fizera Dona Flor com Pedro Borges, em seus tempos de solteira. O paraense amargara em suas mãos, cartas devolvidas, presentes recusados, verdadeiros desaforos, e ele firme, de aliança em punho. Aquilo, sim, era paixão e verdadeira. Esse de agora ia-se ao simples bater de uma janela...

     Como quem não quer nada, no correr das horas, três ou quatro vezes veio Dona Flor à janela, constatando o efeito positivo de seu gesto: o indivíduo sumira de vez.

     Ao deitar-se, Dona Flor suspendeu os ombros, num sinal de indiferença: antes assim. Se não desejava realmente novo casamento, por que então preocupar-se com a frágil persistência do coió, com a debilidade de seus sentimentos? Vaidade imprópria a seu estado de viúva.

     Pela primeira vez, naqueles meses todos, não adormeceu de imediato, num sono reparador, Ficou de olhos abertos, a pensar. Em verdade, seria tão forte como imaginara, essa sua decisão de não casar-se, de viver sua vida em sossego, sem sair para nova aventura matrimonial? Tinha decidido, e pronto: acabou-se. Não quis sequer prolongar aquela discussão consigo mesma, não tendo aliás dúvida ou divergência a esclarecer. Tão disposta a cumprir sua resolução a ponto de rir livremente com as amigas, de pilheriar com as comadres quando umas e outras lhe traziam candidatos ou quando Dona Dinorá traçava o perfil do soberbo quarentão. Como então perder o sono devido à simples presença de um bocó de esquina?

     No dia seguinte, bem cedo ainda, Dona Gisa entrou-lhe casa adentro, repleta de novidades, relatando com detalhes e entusiasmo a conversa com o pseudo-comerciante grapiúna. Impossível vir na véspera como de seu desejo; mesmo a noite tinha alunos de inglês, três vezes por semana, num curso intensivo, uma canseira.

     Mal dormida, com dor de cabeça, Dona Flor escutou o relato.

Recebê-lo, ouvir suas propostas? Mas não tinha sentido: se resolvida a não casar-se, por que perder tempo com pretendentes? Dona Gisa desdobrou-se em argumentos e apelos, obtendo por fim o adiamento da negativa. Em atenção à amiga, Dona Flor prometeu refletir na resposta, não despachando o fulano com um recado brusco. Quase no fim da conversa, Dona Norma surgiu em busca de fermento para um bolo e entrou de cheio na conspiração. Comerciante rico em Itabuna? Vejam só como a gente se engana... Dona Norma sem dar nada pelo amarelo e ele revelando-se sério, estabelecido, abastado, um partido de primeira. Também com aquela cara cor de merda...

     - Desculpe, Flor, se lhe ofendi... Mas não parece? Merda de menino pequeno...

     À tarde o Príncipe retomou firme seu posto de atalaia, sorridente, os olhos nas janelas. Por duas ou três vezes avistou Dona Flor de coquete laço nos cabelos, um bom indício. Naquele dia as alunas estranharam certo nervosismo da professora, de hábito risonha e calma. Tivera uma noite ruim, com insônia, dor de cabeça, palpitações, enxaquecas das piores. Interveio com malícia Dona Dagmar, bonita aluna, turbulenta, sem papas na língua, boquirrota:

     - Minha cara, enxaqueca de viúva é falta de homem na hora de dormir. Tem remédio fácil, compra-se com o casamento...

     - Casamento? Deus me livre e guarde...

     - Também não é obrigatório... Pode tomar o remédio sem casar, o que não falta por aí é homem, minha cara - e ria tagarela.

     Ria-se o curso inteiro, Dona Flor sentiu no rosto o mesmo rubor da véspera, como ladra presa em flagrante ou mentirosa desmascarada. Será que, pensando-se em decente recato de viúva, exibia ânsia de homem, pressa de noivo, rueira, fogueteira e oferecida? Por que brincava, rindo com as comadres, em pilhérias sobre candidatos, vidências, cochicheios, a imaginariam doida por meter-se na cama com marido ou com amante? Uma injustiça, viúva mais honesta não existia, isenta de culpa por completo.

     Passou um dia inquieto, evitando aproximar-se das janelas onde já não se debruçava à vontade para gritar por Dona Norma ou por Marilda, pois agora sabia ser ela própria o motivo da presença do indivíduo, e também porque jamais se sentira de tal forma atraída pelas janelas como

se de súbito estivesse a rua cheia de novidades excitantes. Uma confusão.

     Assim, quando Dona Amélia veio convidá-la para ir com ela e com seu Ruas assistir a um filme francês muito picante e realista, por isso mesmo de polêmico sucesso, aceitou em alvoroço, temerosa de outra longa noite de insônia. Regressava sempre do cinema a cair de sono, cochilando no bonde. Os bons vizinhos não podiam ter escolhido melhor ocasião para o convite, sem falar no filme, objeto de controvérsia e comentário nos jornais e na vizinhança. Dona Emina adorara, doutor Ives detestara - pura pornografia! Dona Norma estalava a língua recordando trechos: “...tem umas cenas, menina, junto de um lago, em que ele arranca o vestido dela e bota de fora os peitos da bichinha e os dois se agarram e fazem tudo por assim dizer na vista da gente. Eles lá enroscados, ela sem roupa, os peitinhos duros e a molecada gritando cada coisa..." Marilda, doente por não lhe permitir a censura (nem Dona Maria do Carmo) ver o filme, interdito a menores de dezoito anos. Violência fascista contra a juventude.

     Como sempre sucedia quando iam a qualquer parte com seu Ruas, chegaram no maior atraso: já começara a projeção do noticiário, a sala às escuras e lotada. A muito custo conseguiram acomodar-se, sentando-se os três em filas diferentes e distantes. Dona Flor bem ao fundo do cinema, numa cadeira de ponta, ao lado de um casal talvez de noivos, pois de mãos trançadas e cabeças juntas. A gritaria dos estudantes começou logo às primeiras cenas do filme francês, de ação localizada num cabaré de Pigale repleto de mulheres seminuas. Dona Flor, tentando desconhecer os beijos, os suspiros, a esfregação do casal vizinho, esforçava-se por acompanhar o complexo enredo do filme.

     De repente sentiu o calor de um hálito de homem em seu pescoço e uma voz feita de delicadeza, a afirmar-se sobre os gritos, doce murmúrio em seu ouvido, dizendo-lhe frases como versos, aquelas declarações de amor que ela não tivera quando namorada, elogios a seus olhos, a seus cabelos, à sua formosura. Não precisou voltar-se para saber de quem a voz cariciosa, os lindos galanteios. No seu cangote, a respiração do homem era uma cócega, morno alento. Ao ouvido, a voz em elogio e súplica, terno acalanto.

     Dona Flor adiantou-se na cadeira querendo colocar distância entre ela e a fila onde o Príncipe obtivera assento; conseguiu apenas perturbar os namorados: o tipo também avançara o busto, persistindo em sua ardente declaração. Dona Flor não o queria ouvir, tampouco queria ver o lascivo espetáculo do casal indiferente ao público em redor, desejosa somente de acompanhar a ação do filme, entender a história, difícil entrecho de sexo e violência.

     O público gritava cada vez mais pois tivera início a excitante cena do lago: a estrela sensual e quase nua, os seios à mostra, e o ator, um gigante com cara de tarado, sobre ela, numa fúria de bode, numa descaração quase tão grande quanto à do casal vizinho a Dona Flor; casal mais sem decência nem vergonha ela nunca vira.

     E a voz do tipo atrás a lhe dizer amor, a lhe propor noivado, a suplicar-lhe a graça de uma só visita onde lhe expusesse seus haveres, suas qualidades, seus propósitos, atirando-lhe aos pequeninos e adorados pés a sortida loja itabunense e um coração leal consumindo-se em fogo de

paixão.

     O hálito morno do homem em seu pescoço, e sua voz em murmúrio, as frases parecendo estrofes de poema, carícias de palavras. Ah! Filme impossível, o público a berrar, os artistas na descaração, na descaração e em gozo casal ali agarradinho, e aquela invisível presença perturbadora em suas espaldas, Dona Flor num cerco, tonta, sem saída. Ai, era uma viúva decente e recatada.

     Mal o enxergou na porta, a espiá-la súplice. De cabeça baixa, Dona Flor veio acompanhando os Ruas, Dona Amélia indignada com o filme, o marido apoiando as críticas meio sem convicção, furioso mesmo e apenas com a molequeira desses moços estudantes, uns cafajestes. Qual o parecer de Dona Flor? Antes não tivesse vindo, os gritos e as risadas a entonteceram, deixando-a quase enferma, mal acompanhando o filme, e, ao demais, dois sem-vergonhas ao lado uma velhota e um rapazola, vira-os ao acender-se a luz - na maior patifaria...

     Cansada do cinema e da noite da véspera, insone e longa, Dona Flor tomou um calmante para adormecer. Mas nem assim se viu, em seu dormir, liberta do galã, de seu hálito, de sua voz e seu convite, dos problemas de homem e casamento, sonhando a noite inteira. Sonho mais esdrúxulo,

sem pé e sem cabeça.

 

     Viu-se Dona Flor no centro de uma roda, em plena praça pública, como no jogo infantil da ciranda-cirandinha,  mas a roda era formada por marmanjos, os múltiplos candidatos das amigas e comadres à sua mão de esposa. Todos eles: do suarento e castiço professor Epaminondas Souza Pinto ao árabe Mamede das antiguidades; do santeiro Raimundo Oliveira ao rábula Aluisio, cunhado de Dona Enaide, este com dupla face; ora um tipão bem posto, ora broco tabaréu. No primeiro plano, o tal comerciante de Itabuna, o abastado Otoniel Lopes, ou seja o nosso caro Príncipe de Tal, Eduardo das Viúvas, abrindo infatigável, como se vê, seu caminho para o solitário coração de Dona Flor e para a maçaroca de dinheiro (ele a enxergava grossa e recoberta de jóias), dinheiro que ela em boa hora, inspirada em louvável prudência, preferira guardar em casa e em segurança,  em vez de tê-lo perigosamente a render juros em Empresa ou Banco.

     Tudo isso decorria dentro de uma gigantesca bola de cristal; do lado de fora, ostentando dentadura e óculos, Dona Dinorá, a observar a cena, dirigindo o espetáculo. Lentamente girava a roda, marcando-lhe o ritmo os próprios candidatos, em canto e dança em torno a Dona Flor:

 

“Ai Florzinha Ai Florzinha Entraras na roda E ficarás sozinha...”

 

     Partindo do centro da ciranda, a examinar os pretendentes, um a um, Dona Flor respondia:

 

“Sozinha eu não fico Nem hei de ficar Pois já tenho o professor Para ser meu par...”

 

    Com forte umbigada tirou o professor Epaminondas Souza Pinto para seu parceiro e ele muito sem jeito e escabreado saiu dançando em frente a ela, no meio da roda, a cantar sem voz:

 

     Seus bens ele lhe ofereceu de dote: uma gramática expositiva, um exemplar de "Os Lusíadas" com anotações a lápis, o Dois de Julho e a Batalha do Riachuelo. Afora isso ainda possuía de reserva alguns feriados nacionais, um general com pouco uso e um navio dentro de uma garrafa ("nele vamos partir a navegar, senhora Dona Flor"). Tropeçou, porém, nas próprias polainas cor de gelo e levaram a breca sua elegância de bailarino e seu chapéu de chuva; Dona Flor se mijando de tanto rir ao vê-lo cai não cai. Também era por demais ridículo, só mesmo a gringa sem noção de tato, do respeito devido ao grave e solene professor, era capaz de propô-lo candidato.

     Quanto a Dona Flor, nem parecia à mesma; ria sem controle nem piedade do velho gaiteiro aos tropeços pela roda da ciranda, tentando ainda assim roubar-lhe, do véu de noiva, as flores virginais da laranjeira. Bela morena no maior deboche, Dona Flor com outra umbigada terminou de vez e para sempre com as pretensões do professor ao seu cabaço.

     Pois retornara Dona Flor à virgindade, perdendo, porém ao mesmo tempo, o recato e a pudicícia. Toda em branco e em rendas, filós e tafetás, na pureza do véu e da grinalda - com a saia longa e esvoaçante do vestido nupcial envolvia a ciranda inteira, a prender os candidatos em seu rastro de ofertante, em seu odor de donzelice.

     Com ânsia e pressa, Dona Flor se propunha em casamento, a todos eles e a cada um se exibindo, como se fosse donzelona já nas vascas da agonia, sem esperança de casório. Ia de marmanjo em marmanjo, convidando-os a dançar com ela na roda da ciranda, na cirandinha a cirandar em desafio e repto: qual deles capaz de lhe arrebatar as flores de laranja e a virgindade, desfolhando a grinalda e Dona Flor? Com papéis de casamento, é claro, moça donzela não vai dando os três-vinténs assim, sem mais nem menos.

     Reptava-os com seu canto de convite e os retava com sua dança de frete, a rebolar as ancas, os quadris e o busto, em meneios lascivos de rameira, trazendo-os, um a um, ao centro da roda com umbigadas como a mais oferecida das mulheres fáceis. Cínica, debochada, oferecida, tão oferecida puta de dar nojo e pena.

     Na pança de Mamede esfregando umbigo e bunda, ela o conduziu de par e cavalheiro e ele dançava num saracoteio muito de saído e inesperado em senhor tão sério. Numa das mãos um velho candelabro, na outra um penico de louça de Macau com paisagem azul de campo inglês e apenas uma invisível rachadura, peça perfeita, assim como de prata verdadeira o candelabro. Barganhava as duas pela virgindade à venda, exigindo pequena volta tão-somente, alguns mil-réis, uns quatrocentos e cinqüenta. Como alcançar, porém, as flores, se tinha as mãos ocupadas com seus bens antigos? Dona Flor dançava em torno dele, se achegando, roçando-lhe a barriga de antiquário, levantando-lhe a poeira secular, Dona Flor perdida em riso e zombaria.

     Seu Raimundo de Oliveira até era maneiro e jeitoso para a dança. Seu dote: um cortejo de profetas, a Bíblia, santos velhos e modernos, além de animais sagrados, o jumento e os peixes; e, como bonificação, as onze mil virgens com o desfalque apenas de umas três ou quatro dadas de

presente a seu Alfredo, santeiro no Cabeça, e seu patrão. As demais, todas intactas e perfeitas, seu Raimundo recusara por elas altas ofertas em metal sonante, de Mário Cravo, do arquiteto Lev, do engenheiro Adauto Lima, todos em busca de boas secretárias. Se possuía seu Raimundo tantas

virgens, por que diabo mais uma procurava? Apetite desmedido ou interesse escuso? É assim tão grande seu castelo, com tamanha freguesia? “Meu castelo é o céu, oh! Dona Flor, e só quero um ósculo depositar em vossa boca de pitanga, sou um pecador antigo, venho do Velho Testamento”.

e vou direto para o Apocalipse “. Pois vá correndo, lhe disse Dona Flor.

     Veio seu Aluísio, bem composto tabaréu do interior, honrado homem do sertão, muito correto em sua dança e em sua eloqüência, um finório a lhe pedir a mão com modos, quase alcançando grinalda e flores, quase colhendo de Dona Flor a flor agreste. Mas Dona Flor, não sendo besta, muito ao contrário sabidíssima malandra, não se deixou engazopar e envolver pela conversa do rábula e notário, conversa de argúcia e de mesura.

     - Vamos à Igreja, senhora minha, tenho tudo preparado, os banhos e a bênção episcopal, até já me sujeitei à confissão e fui absolvido dos pecados.

     - Meu senhor, não me engabele, se quiser comer a peladinha venha de juiz e padre.

     - Será que não chega só com o padre, a bênção de Deus e da religião? De que vale a lei do homem quando temos a de Deus ao nosso alcance?

    - Guarde, seu doutor, sua bênção, seu padre e sua confissão. Sem a licença do juiz, vá vosmicê me desculpando, sem ela não me come a peladinha, não desfolha a flor da viuvinha.

     "Minha viuvinha, minha viuvinha", assim ciciando galanteios entrou para o centro da roda o rapaz bonito, pálido e esguio, lânguido e suplicante, seu alento morno a envolvê-la, sua cantiga de amor a entontecê-la:

"Tira tira o seu pezinho Bota aqui ao pé do meu e depois não vá dizer Que você se arrependeu ".

     Dançava que nem artista de cabaré, uma dança conhecida; qual seria ela? Em volta de Dona Flor, sua voz de sedução: "Aproveita bela viúva Que uma noite não é nada Se não dormir agora

Dormirá de madrugada"

     De madrugada, virgem ou viúva. De súbito eis Dona Flor sem véu de noiva, sem vestes brancas de donzela casta e casadoira, sem as flores virginais da laranjeira. Vestida agora de viúva, de luto fechado, meias cor de fumo, o resto cor de nojo, véu cobrindo a face, mantilha na cabeça, tristeza e cinzas. Uma flor apenas, rosa de tão vermelha quase negra.

    Tanto quisera seu vestido branco, seu traje de noiva - não o usara no devido tempo, não tendo mais cabaço quando subscrevera papéis de casamento, flor desfolhada na viração de Itapoã.

     Com os candidatos das amigas e comadres, com as visões de Dona Dinorá, podia dar-se a brincadeiras, a pilhérias, dizendo-se virgem sem mácula, sem ranço sem marca, sem toque de homem, não passava tudo aquilo de pagode para rir.

     Mas não com o galante moço da esquina, um príncipe, um fidalgo, parecendo tão menino e já tão rico, tanta moça a gemer e a suspirar por ele e ele gemendo e suspirando por Dona Flor viúva e pobre. Com o próspero comerciante de Itabuna, bom partido para qualquer donzela quanto mais para viúva, não era possível dar-se a mofas e gracejos: sua respiração ardente penetrou-lhe a carne, cobrindo-lhe de calor a indiferença, dissolvendo-lhe o gelo, revivendo quem morta se encontrava para tais coisas e para sempre, seu hálito refloriu o desejo murcho e seco, perdida a paz de Dona Flor.

     Dele não podia rir nem podia desconhecer sua presença: não sendo candidato de galhofa como os demais, ficção de amigas, fuxico de comadres, e, sim, realidade plantada ao pé do poste, varando sua sala com os olhos - um passo em frente e hei-lo instalado em casa da viúva e nos seus braços. Atrás dela tua a fora; no cinema a queimar-lhe, com o hálito e as palavras, a resolução mais firme, acendendo a brasa do desejo.

     Dona Flor agora sabe porque, apesar de tanta agitação, trabalho e passatempo, sente-se inútil e vazia, esmorecida. Em torno dela dança o pretendente, "dormirás de madrugada". Uma dança muito sua familiar, dança de baile e cabaré e não de ingênua roda de ciranda-cirandinha. Mas que dança essa, meu Deus, de onde a conhece Dona Flor?

     Não importa qual seja nem a música nem a dança, nem a hora nem o lugar: num ímpeto Dona Flor arranca o véu do rosto, estende a mão ao noivo, rompe-se a bola de cristal: "Bela morena, não ficarei sozinha, vem, moço pálido, casemos logo, logo, meu fidalgo, meu príncipe encantado".

     E, de súbito, se recorda e sabe: aquela música é o tango arrabalero que ela dançou mocinha em casa do Major e sete anos depois no Pálace Hotel e quem está diante dela não é um rapaz pálido, um suplicante, um pretendente. Esse esvaiu-se no ar, desapareceu junto com a bola de cristal e com Dona Dinorá. Quem está diante dela é o finado cuja memória ela não está sabendo honrar. Diante dela, de pé, o seu marido: levanta a mão indignado, e a esbofeteia. Dona Flor cai sobre o leito de ferro e ele lhe arranca a roupa de viúva e lhe desfolha grinalda e véu de noiva, o finado seu marido. Ele a quer nuinha, em pêlo, a peladinha, onde já se viu vadiar vestida? Ah! tirano mais tirano, tirano mais sem jeito...

     Num esforço de desespero, Dona Flor acorda, à noite em torno e ela em pânico. Miados de gatos em cio nos tetos e quintais, ai sonho mais sem pé e sem cabeça, ai sua paz perdida!

 

     A noite inteira a pensar: pesos e medidas, solidão e risos, o sumo do desejo e uma lágrima ao nascer o dia. Muito cedo ainda, com a aurora rompendo os contrafortes da dúvida, sentou-se Dona Flor ante o espelho para se vestir e pentear. Foi em busca de perfumes, trouxe os brincos de tia Lita e os colocou, experimentando enfeites, blusas e saias, novamente faceira como nos tempos da Ladeira do Alvo quando saía nuns trinques de ricaça. Tão de manhãzinha e já na estica, a melindrosa: acontecera por mais de uma vez o pálido rapaz aparecer antes do almoço. Ao demais, era domingo, dia de missa com sermão de Dom Clemente.

     Quem apareceu antes do almoço e ficou para almoçar foi Mirandão, visita rara. Viera com a esposa e com os filhos, um dos quais, o afilhado de Dona Flor, lhe ofertava sapotis e cajás, além de uma gola de crochê, trabalho fino da comadre. Por que aquilo, por que tanto presente? Ora, comadre, se assunte, não vá dizer que não se lembra, não estamos a 19 de dezembro, dia de seu aniversário? Pois, compadres, quanta bondade e gentileza, ela esquecera a data, já não tinha gosto

para aniversários. A esposa de Mirandão não queria crer:

     - Não se lembrou? Mas, por que então a comadre está tão chique, vestida de festa desde de manhã...

    Mirandão recordava num toque de saudade:

     - Lembra, comadre? Faz um ano daquela noite no Pálace, nunca mais hei de esquecer seu aniversário...

     Fazia um ano, um ano justo. Ali estava Dona Flor toda elegante, penteada, laço de fita nos cabelos, brincos de diamante nas orelhas e um perfume com odor picante sobre o seio, sem poder sequer atribuir tanto capricho ao aniversário, pois dele se esquecera. Mas os tios não o esqueceram, nem Dona Norma, Dona Gisa, Dona Amélia, Dona Emina, Dona Jacy, Dona Maria do Carmo; foram chegando com presentes, caixas de sabonete, vidros de água-de-colônia, sandálias, um corte de fazenda.

     - Você está uma beleza, Flor, que elegância! - comentou Dona Amélia.

     - No ano passado é que ela estava linda... - disse Dona Norma, recordando ela também a ida ao Pálace. - Ganhou um presente e tanto...

    - Este ano também está ganhando um bom presente... a voz bisbilhoteira de Dona Maria do Carmo.

    - Que presente? - quis saber a esposa de Mirandão.

     Entre risos, Dona Emina e Dona Amélia lhe cochicharam o segredo.

    - Não diga...

    - Um homem direito - sentenciou Dona Gisa. - Homem de bem.

     Mirandão fora até o bar do Cabeça onde se reunia uma roda dominical de ilheenses ricos a beber uísque, sob o comando do fazendeiro Moysés Alves. Na sala, as amigas rindo a comentar, enquanto, com a ajuda de Marilda, Dona Flor na cozinha, de avental sobre a elegância, reforçava o almoço.

     Só no começo da tarde, o Príncipe veio colher os frutos da extensa semeadura da véspera - intervenção de Dona Gisa, declaração no escuro do cinema. Num esplendor de roupas e de palidez, de paixão incontida e de impaciente esperança, jamais tão semelhante ao Senhor dos Passos em seu martírio. Naquela noite disse a Lu, xodó recente em cuja companhia tola e graciosa despendera os últimos níqueis da viúva anterior, Dona Ambrosina Arruda, mastodonte histérico:

     - Mimosa, hoje eu invado a fortaleza, entro na sala, não demoro a estar na cama com a viúva.

    Ajeitou-se Lu no peito tísico do Senhor dos Passos:

     - Ela é tão feia como a outra?... Ou é bonita?

     Ciumenta, sem entender o rígido código, a ética do Príncipe, não se encontrava à altura de conviver com profissional tão competente e estrito em seus princípios:

- Feia ou bonita, já te disse, ó besta, é a mesma coisa. Tu não vê que é um negócio, uma operação financeira e nada mais? O que interessa não é o rabo da viúva, minha burra, é que ela tenha um dinheiro e alguns berloques...

     Foi Dona Emina quem primeiro o viu ao poste. Correu a avisar, espocando em riso:

    - Já chegou...

     Tanto ruído, tanta excitação e correria das mulheres perturbaram Mirandão em feliz madorna após o almoço farto, com frigideira e galinha de parida. Despertando, dirigiu-se ele também às janelas, onde as vizinhas sucediam-se num corre-corre. Enxergou, no outro lado da rua, ao pé do poste, no passeio do sobrado de seu Bernabó, em lânguida postura o velhaco Eduardo de Tal, o Príncipe, a limpar as unhas com um palito de fósforo e a sorrir galante.

    - O que é que o Senhor dos Passos está fazendo por aqui?

    - Quem é Senhor dos Passos? - Dona Norma, curiosa.

     - Quero dizer o Príncipe, velho vigarista, gatuno e meio...

Ia acrescentar: "o rei das viúvas", mas fitando as amigas e as comadres em silêncio pesado, tudo compreendeu. Como se nada houvesse percebido, no entanto, com aquela sua delicadeza de baiano, prosseguiu risonho:

    - Esse tratante é um passador do conto-de-vigário, vive de enganar os bobos com essas histórias de bilhete premiado, de dinheiro para entregar a um hospital, esses golpes que saem sempre nas folhas...

    - Esse sujeito nunca me enganou... Bastou eu ver a cara dele... - disse Dona Norma.

    - Deve estar querendo roubar alguém por aqui, pode ser o argentino ou outro qualquer - concluiu Mirandão.

     - O argentino, com certeza, já vi os dois conversando... Dona Norma mentia calorosa, tão baiana ela também, com a maior finura de compreensão e sentimentos.

     Deixando-as a remoer as desilusões da vida, Dona Flor posta em silêncio, uma lágrima oculta, uma única, não valendo mais aquela humilhação e porcaria, Mirandão, como quem não quer nada, atravessou a rua em direção ao vigarista. Pelas frestas das janelas fechadas com violência, às comadres viram-no a conversar com o calhorda. Em nenhum momento deixou o Príncipe de sorrir, mesmo quando perdido em explicações confusas. Mirandão fez um gesto enérgico apontando-lhe a ladeira a descer para a cidade baixa. Rápida cena de cinema mudo para as comadres na brecha das janelas.

     O Príncipe sabia aceitar uma derrota, não era de perder a cabeça e de, cretino, persistir correndo o risco de cadeia ou surra. Urucubaca dos demônios: fora logo meter-se com comadre de mestre Mirandão, feliz ainda de escafeder-se com a pele inteira, incólume. Era sincero ao afirmar sua ignorância; se fosse sabedor dessa amizade, evitaria até a rua, quanto mais...

     Sem erguer sequer os olhos para a casa de Dona Flor, mudando a rota, embicou para o mar largo, desceu rápido a Ladeira da Preguiça. Nem chegara à cidade baixa quando divisou ao longe, indo devota para a Conceição da Praia, toda em preto e em véus, uma viúva. Acelerou o passo, no rumo do novo porto à vista, sorriso lânguido, súplice olhar, o Príncipe de Tal em seu ofício trabalhoso.

 

     Na esteira do Príncipe, nunca mais visto por aquelas bandas, foram-se os comentários, os cochichos, as risotas, os candidatos da vidência e do mexerico, a folia e a troça em torno de novas bodas de Dona Flor. Se antes ela zombara de tudo aquilo, em alegre burla, recusava-se agora a qualquer conversa sobre o assunto, não escondendo seu desgosto e desprazer ao ouvir a mais ligeira referência à viuvez e casamento, tomando-a por insulto e grosseria.

     Como se as amigas e comadres houvessem firmado tácito protocolo, durante certo tempo não se tocou nessa matéria, parecendo todos de acordo com a viúva em seu terminante veto a noivo e a matrimônio. Quando alguma velhota mais xereta sentia cócegas na língua, no desejo de debater

o grande tema, a lembrança do Príncipe ao pé do poste lhe punha na boca um cadeado: como se o vigarista ali permanecesse a rir da rua inteira. Sem falar na violenta proibição imposta por Dona Norma, presidenta vitalícia do bairro, governo em geral liberal e democrata, mas, quando necessário, ditadura sem entranhas.

    As semanas seguintes àquele confuso aniversário foram talvez as mais movidas de sua existência: Dona Flor não teve um segundo de descanso. Sucediam-se os convites, todos querendo encher seu tempo, ser gentil com ela. Enfiou sessões de cinema uma atrás da outra, fez visitas a meio mundo, correu o comércio, em compras com as amigas. Findo o horário das aulas vespertinas, ela mesma buscava compromisso:

     - Norminha, minha negra, para onde se toca assim tão chique? Por que vai saindo de mansinho, sem dizer nada?

     - Um enterrinho inesperado, minha santa. Chegou o aviso agorinha mesmo, com um atraso medonho: seu Lucas de Almeida, um conhecido, vem a ser ainda parente de Sampaio, bateu as botas, faleceu do coração. Sampaio não vai mesmo, você sabe, é uma vergonha. Não lhe chamei porque você não conhecia o falecido. Mas, se quiser, vale a pena ir... Vai ser um enterro e tanto, dos bons...

     Com Dona Norma foi a sentinelas e enterros, a aniversários e batismos. Na tristeza e na alegria, a amiga mantinha a mesma eficácia e animação, assegurando o êxito de qualquer festa ou funeral onde aportasse. Assumia o leme, traçava a rota, comandante dos risos e das lágrimas: consolando, ajudando, conversando, comendo com vontade, bebendo com gosto (e com mesura), rindo quase sempre, chorando se preciso. Para reuniões de qualquer tipo, até para as caceteações das conferências, ninguém igual à Dona Norma, eclética e disposta. "E um colosso", dizia dela Dona Enaide; "um monumento", segundo Mirandão, seu admirador; "uma santa", na voz de Dona Amélia; "a melhor amiga", para Dona Emina e para muitas outras.

     - Um furacão... - gemia Zé Sampaio, avesso àquele movimento.

     - O senhor casou com a melhor mulher do mundo, seu Sampaio;

Norminha é a mãe da rua... - replicava Dona Flor.

     - Mas eu não agüento tanto filho, Dona Flor, e tantas aporrinhações ... - um pessimista, seu Sampaio.

     Escoltando Dona Gisa, freqüentou, no Campo Grande, o Templo Presbiteriano - a gringa a cantar hinos em inglês, com a mesma enfática convicção com que lia Freud e Adier, discutia problemas sócio-econômicos e dançava o samba -, sendo repreendida por Dom Clemente, em afetuoso carão:

     - Disseram-me que você virou crente, Flor, será verdade?

    - Crente? Que absurdo! Apenas acompanhara a amiga duas ou três vezes, por simples curiosidade e para matar o tempo; longo e vazio é o tempo das viúvas, padre-mestre.

     Em divertida viagem de trem, excursionou com os Ruas, passando um fim de semana em Alagoinhas, de onde procediam os vizinhos. Assistiu a uma aula de ioga com Dona Dagmar, ministrada por graciosa mulherzinha, frágil bibelô a contorcer o corpo como se fosse a mulher rã, do Circo. Devido ao horário coincidente com o da Escola de Culinária, não pôde Dona Flor, como tanto quis e desejou, inscrever-se no curso e aprender os difíceis exercícios que, segundo sedutora propaganda impressa, mantinham o "corpo ágil e elegante e a mente limpa e sã", proporcionando "exato equilíbrio físico e mental, perfeito acordo entre a matéria e o espírito". Equilíbrio e acordo sem os quais não passava a vida de "sujo poço de excrementos",  como dizia a literatura do folheto e como vinha ultimamente constatando Dona Flor: com o espírito e a matéria em luta, a vida se convertia "num dantesco inferno".

     Com Dona Maria do Carmo, acompanhou Marilda, candidata inscrita em segredo no programa de calouros "Buscam-se Novos Talentos", onde, aos domingos, durante três meses, podiam moças e rapazes concorrer ao titulo de "Revelação da Rádio Sociedade" e a um contrato. A bela normalista cantou com muito sentimento e má pronúncia uma guarania paraguaia, saindo-se aliás bastante bem, num segundo lugar reconfortante e promissor. Ambicionava a estudante fazer carreira como intérprete de música popular, sonhando com um programa seu e retratos nas revistas. O diabo era Dona Maria do Carmo de nariz torcido a tais projetos, a estúdios e auditórios radiofônicos. Só a muito rogo e custo consentira naquela apresentação e ainda assim porque conhecia o doutor Cláudio Tuiuti, mandachuva na Emissora. Não fora fácil convencê-la, vencer-lhe arraigados preconceitos contra os quais de nada valiam os lógicos argumentos de Dona Gisa nem as razões sentimentais de Dona Flor. Ao ver, porém, a filha ao microfone, tão graciosa, e sua voz no ar sobre a cidade, rendeu-se em lágrimas de orgulho e de emoção. Exaltou-se contra o julgamento, quase agredindo o animador do popular programa, o locutor Sílvio Lamenha ou Silvinho simplesmente, pois, a seu ver, Marilda merecera o primeiro lugar, por injusta proteção atribuído a um tal de João Gilberto, desafinado sem categoria.

     Com sua comadre Dionísia acertara Dona Flor comparecer à festa de Oxóssi no candomblé do Axê Opô Afonjá, levando com ela Dona Norma e a gringa (curiosíssima) e só não o fazendo por causa de forte resfriado e de algum receio (receio que transformou o resfriado em perigosa gripe). Nesses mistérios de macumba e candomblé é melhor não se mexer, as ruas vivem cheias de feitiços e despachos, ebós de forte fundamento, mandingas perigosas, coisa-feita; quem quiser acreditar que acredite, quem não quiser não acredite, Dona Flor prefere não tirar a limpo. Dionísia lhe dissera um dia:

     - Minha comadre, seu anjo-da-guarda é Oxum, eu mandei um eluô olhar nos búzios.

    - E como é Oxum, comadre Dionísia?

     - Pois eu lhe digo que é o orixá dos rios; é upia senhora de semblante muito calmo e vive em sua casa retirada parecendo à própria mansidão. Mas vai se reparar, é uma faceira, cheia de melindre e dengue; por fora água parada, por dentro um pé-de-vento. Basta lhe dizer, minha comadre, que essa enganadeira foi casada com Oxóssi e com Xangô e, sendo das águas, vive consumida em fogo.

     Tanta correria, tanto movimento, porque com o Príncipe se fora também sua paz, sua tranqüilidade, aquela vida amena, sem problemas, aquele dormir sem sonhos cada noite, de um sono só, reparador.

     Desde o absurdo sonho na roda da ciranda, seu sossego terminara. Aos poucos, dia a dia, a inquietação de Dona Flor foi aumentando  até tornar-se angústia permanente: ao correr do tempo de viúva, num crescendo.

     Não mais, porém, a partir daquela noite de cinema e sonho, retornou de todo à calma indiferença, à íntegra sensação de vida plácida, talvez vazia mas serena: Dona Flor quieta em seu canto e em seu trabalho. Mesmo sendo em aparência pacata e agradável sua vida - uma água parada -, não tivera mais um dia completo de repouso: seu peito em fogo consumido.

     Recatada viúva mas coagida a defender o seu recato. Não contra a insolência de uma proposta indecorosa; quem, conhecendo-a, ousaria sequer um galanteio? Quanto aos estranhos, atrevidos postulantes, coiós de esquina, esses em geral emudeciam ao vê-la tão discreta e séria. Mas se ainda assim alguma piada arriscavam ao seu passar, elogios a seu porte ("que bunda rebolosa!") e a detalhes de seu corpo, ("ai, os peitinhos tão durinhos!") ou descarados convites ("vamos fazer menino, minha bela?"), perdiam a inspiração, a graça ou a indecência, e o tempo: ia em frente Dona Flor como se fosse cega, surda e muda, em sua modéstia e em seu orgulho de viúva, coagida a defender o seu recato contra ela própria: contra os errantes pensamentos, sonhos ruins, contra o desperto e árdego desejo, aguilhão em sua carne. Perdera o "perfeito equilíbrio entre a mente e o corpo", necessário a uma vida sadia, no erudito dizer da brochura ioga, "o justo acordo entre o espírito e a matéria". Matéria e espírito em guerra sem quartel: por fora, viúva exemplar em sua honra; por dentro em fogo a arder e a consumir-se.

     A princípio, apenas de quando em vez e só pela noite, sonho de lascivas imagens a levava para um mundo interdito às virgens e às viúvas, a sacudi-la em seus alicerces de mulher, a lhe despertar instinto e ânsia. Acordava num esforço, punha a mão no peito, a boca seca. Tinha medo de dormir.

     Durante o dia, nas tarefas da Escola, na leitura de romances, à escuta no rádio, distraindo-se com tanta ocupação, era mais ou menos fácil manter-se à parte de qualquer mau pensamento, abafar os latidos de seu peito. Mas como conter-se e comedir-se nas noites sem defesa, ao sabor dos sonhos sem controle?

     Com o correr do tempo, porém, mesmo durante o dia começou Dona Flor, a entregar-se a estranhos devaneios, cismarenta e melancólica, em ais de desconsolo. O perigo era ficar a sós; logo invadida por uma coorte de lembranças; inclusive as mais líricas e inocentes a conduziam ao leito de ferro e fogo, em anseio e oferta. E seu recato de viúva?

     Ultimamente dera para imaginar cenas inteiras, misturando pedaços de romances com fatos lidos nos jornais ou com as histórias das comadres, com recordações de sua vida de casada. No hálito do Príncipe queimando seu cangote no cinema, entrara-lhe corpo adentro o sopro do desejo; entrara-lhe pelo sangue e a expunha às penas do impossível pior que as do "dantesco inferno" da literatice ioga.

     A partir de certo momento teve de abandonar, por excitante, a leitura dos tolos romances para moças, alimento espiritual da jovem Marilda a suspirar com condessas e duques, no langor tropical da espreguiçadeira. Pois bem: Dona Flor descobria malícia nas páginas mais ingênuas, e força de sexo naquele barato e baixo sentimentalismo, dando outra dimensão aos insossos relambórios. Poluía o enredo, a transformar dramalhão e personagens, a virgem das campinas em lúbrica marafona; os adamados mancebos, quase eunucos, cresciam em garanhões brutais. Em vez de "Coleção Menina e Moça" para adolescentes, romances pornográficos, leitura para alcova.

     O mesmo se passava com a excitante crônica da cidade, no comentário das comadres, nas páginas das gazetas. Em cadeiras na calçada, compunha-se a roda noturna das amigas no relato e no debate do último crime apaixonante: a mucama deflorada pelo patrão, ela com quinze anos e onze irmãos; ele com cinqüenta e três de idade e cinco filhos, dois doutores e três moças já casadas, sem falar na esposa e nos vários netos; o pai carpina, de arma em punho para vingar sua honra; três tiros no coração do baluarte da sociedade, do esteio do civismo e da moral, do líder dos conservadores; ferimento de morte e o criminoso preso, metido na enxovia, após uma surra para acalmar-lhe os nervos; honra lavada a sangue e o povo a exigir justiça, liberdade para o vingador. Amigas e comadres davam razão ao pai, louco e cego ao ver a filha prenha, sua honra comida com champanha. Todas, menos Dona Dinorá, sempre a favor dos ricos: "essas negrinhas se metem na cama dos patrões para depois fazer chantagem". Quanto a Dona Flor, só guardava memória dos detalhes escabrosos, só retinha em seu peito e em seu degradado pensamento à visão da meninota nos braços do calhorda, a gemer de gozo, satisfeita. O resto, aquele extenso panorama de horrores, era-lhe no fundo indiferente, por mais se declarasse solidária com a cólera das comadres.

     Foi-se reduzindo assim seu tempo de recato interior. No entanto, quem a visse movimentando-se nas aulas, ao fogão, ou com as amigas de um lado para outro, em compras, em visitas (jamais indo, porém, a festas defensas a seu estado de viúva), não imaginaria a batalha a travar-se no seu íntimo, a louca bacanal de suas noites, sua consumissão. Porque ninguém mais respeitável e honesta, em sua boca jamais se ouviu nome de homem pronunciado com interesse, sequer em referência casual a seus atributos e virtudes. E, se antes zombara de pretensos candidatos, em galhofa com as comadres, agora nem tolerava ouvir seus nomes, morta de verdade para novo matrimônio. Viúva assim tão discreta e recatada, nem naquele bairro nem na cidade toda, e, se no mundo houvesse alguma não seria mais composta e honesta; exemplo das viúvas, Dona Flor.

     Por fora, o recato em pessoa. Calma de semblante e retirada, parecendo à própria mansidão; por dentro, ardendo de desejo, "em fogo consumida", como Oxum, seu orixá. Ah! Dionisia, se soubesses como o fogo de Oxum queima as noites de tua comadre e o seu corpo moreno, seu pelado ventre, lhe mandarias dar um banho de folhas, ou um marido.

    Cada vez mais inquieta, Dona Flor, suas noites em sonho ou em solidão. Quando conseguia dormir tranqüila uma noite inteira, Ah! Era uma bênção de Deus! Quase sempre não durava seu repouso, senão um começo de sono sossegado. Logo os sonhos se erguiam e a levavam para seu

degredo de obscenidades, Dona Flor rolando no colchão, opresso o peito, doído o ventre. Cada vez menor seu tempo de dormir e descansar crescendo a cada noite o de sonhar e desejar, o de ranger os dentes. "A matéria predominando sobre o espírito", segundo lhe ensinou a culta propaganda ioga.

     Impudica, devassa, onde nos sonhos seu recato de viúva? Nunca fora assim: mesmo casada, na cama com o marido, jamais se entregara fácil, sendo preciso cada vez ele vencer-lhe a pudicícia, romper o desterro de sua casta natureza. Pois agora, nos sonhos, ela saía a se oferecer a uns e outros; e, por vezes, nem viúva era, e sim mulher da vida a vender-se por dinheiro. Quanta vergonha, ai: já lhe acontecera acordar no meio da noite e pôr-se em pranto sobre as ruínas de seu ser antigo, aquela Dona Flor pudica, envolta em seu pejo e em seu lençol. Em luxúria envolta

agora, na desfaçatez do sonho, voraz e cínica rameira, loba uivante, gata em cio, puta.

     Por vezes, de tão cansada do dia fatigante, adormecia no cinema, cochilava na conversa com as amigas, morta de sono. Bastava-lhe, porém, por a camisola e estender-se no leito para perder toda à vontade de dormir: ia-se o sono e seu pensamento vagabundo não se continha nos limites da decência e do quotidiano, detalhes das aulas, uma compra, um passeio, a enfermidade de vizinho ou conhecido, a asma de tia Lita, por exemplo, a lhe causar tanto vexame. Também a boa velha atravessava noites sem pregar olho, ameaçada de asfixia pela moléstia impiedosa. A asfixiada Dona Flor, roída de desejo. Não lhe obedecia mais seu pensamento: voltava-se para os problemas de Marilda, seu empenho em cantar na Radio, os intransponíveis obstáculos - e de súbito via em sua frente o lívido Príncipe a lhe repetir aquelas frases redondas como versos, palavras de amor no escuro do cinema. Onde Marilda e seu problema, seu defeso canto, sua voz de passarinho?

     Soubera Dona Flor da fama do galã no meretrício. Dionísia, inocente da ridícula aventura, pensando sua comadre ter sabido do vigarista através do noticiário dos jornais, divertira-se a lhe contar histórias do lânguido Senhor dos Passos. Quando Dionísia labutara de rameira, o capadócios gozava de grande prestigio entre as mundanas. Pela boniteza pálida, pela voz romântica, pelos olhos langorosos, e por sua notável atuação na cama, um zarro de verdade, um xispeteó daqueles de arreliar, no dizer das apreciadoras. Despertava paixões dramáticas, e por ele,

certa feita, duas fulanas se atracaram a tapa e a dente, indo uma para o hospital, aberta de navalha, a outra para o xadrez sob a acusação de ferimentos leves.

     No sonho, Dona Flor era a segunda, bêbada e agressiva, de navalha erguida contra Dionísia, em chalaça grossa: "Venha se é mulher, siá imunda, para eu te lascar cara e chibiu". Mas Dionísia ria num deboche, as marafonas todas riam de Dona Flor, viúva e tola. Não lhe disseram ser o belo moço o Príncipe das Viúvas, delas tomando apenas o dinheiro e as jóias. Nem casamento nem descaração na cama. Sabendo disso, por que ainda vinha Dona Flor em brasa, incontida, incontinente, lhe oferecer desnuda seu pelado corpo? Uma vergonha, onde seu pejo de viúva?

      Recorreu a pílulas soporíferas, capazes de lhe garantir o sono à noite inteira. Na Drogaria Científica, na esquina do Cabeça, consultou o farmacêutico, doutor Teodoro Madureira. No dizer de Dona Amélia, com geral apoio, sendo apenas farmacêutico, doutor Teodoro podia dar quinau

em muito médico; competente em seu ofício, para achaques corriqueiros ninguém melhor, receita sua era tiro e queda, cura garantida.

     Insônia, nervosismo, mau dormir? Excesso certamente de afazeres, nada sério, diagnosticou amável o droguista, aconselhando o uso de certas drágeas ótimas para combater os efeitos da fadiga; davam descanso ao cérebro, equilíbrio aos nervos, calma ao sono. Podia Dona Flor tomá-las sem receio, se não lhe fizessem bem, mal não lhe fariam, não continham entorpecentes nem excitantes como algumas drogas caras e modernas, muito em moda. "Perigosíssimas, minha senhora, tanto quanto a morfina e a cocaína, se não o forem mais". Uma enciclopédia o farmacêutico, e atento, um tanto cerimonioso, traçando gentil salamaleque ao despedir-se. Sobretudo não esquecesse Dona Flor de lhe comunicar o resultado.

     Nenhum resultado, seu doutor Teodoro. Dormiu de uma estirada a noite inteira, é bem verdade, só acordando quando a ama em susto lhe bateu à porta, na hora quase de começar a aula do turno matutino. Um longo sono, sim, mas igual aos outros, a mesma obsessão, o sensual

delírio, a noturna febre, a orgia desmedida; pior que os outros, pois não conseguiu interrompê-lo e acordar, nele se crucificando a noite inteira, nesse sonhar sem fim, seu ventre em fome e sede, ferida dolorosa, chaga exposta - pela manhã, Dona Flor caindo  aos pedaços de cansaço. Com pílulas, ou sem pílulas o sono lhe acendia as fogueiras do desejo. Obsedada, obcecada.

     Obcecada, Dona Flor, a debater-se em danação. Durante o dia, com o tempo cheio, era cega e surda ao apelo do sexo solto na cidade: aos ditos, aos olhares pesados de convite, às frases de galanteria ou de indecência, ao cúpido desejo do macho a despi-la com o olhar e a come-la num suspiro no cruzar da rua. Viúva honesta, exemplo das viúvas, em seu trabalho, em seu passeio, em seu recato. Durante a noite recolhia pelo chão e pelo lixo a voz dos homens, o olhar de posse, o suspiro cínico, o indecoroso ciciar, o assovio de chacota, o torpe palavrão, o convite para a cama. Quando não era ela a convidar, a se oferecer despudorada aos machos, vagando na zona de mulheres-damas, a mais dama e puta, a mais barata e fácil. Sujo poço de excrementos. Nenhum macho, porém, a alcançou e a teve. Quando em vias de obtê-la, já na fímbria de seu ventre em brasa, então o repelia Dona Flor, de súbito acordando em ânsia e desespero. Viúva decente e recatada em sua noite de angústia e solitude.

     Ninguém se dava conta de sua consumissão maldita. Todos julgavam calma sua vida, sem problemas, cheia de interesse, mesmo alegre. Antes muito sofrera do marido, um mau sujeito, um jogador. Agora uma viúva conforme em seu estado, contente em sua vida, com a maior indiferença por novo matrimonio, com o maior desprezo pelos homens. Tão tranqüila a ponto de causar admiração e comentário. Quando despontava no Cabeça, altiva e séria, no bar os homens discutiam a seu respeito:

     - Viúva direita aquela ali. Sendo bonita e moça, nunca levantou a vista para homem...

    - Honesta até demais. Talvez nem seja por virtude...

     - Então, por quê?

     - Honesta por natureza por ser de natureza fria. Fria como gelo, imune ao desejo. Há mulheres assim, belas estátuas, para elas o desejo não existe. Não há virtude em sua castidade e, sim; frieza. São icebergs. Ela é uma dessas, certamente.

     - Será ou não, quem sabe? De qualquer maneira, por virtude ou pelo que seja, é a viúva mais direita da cidade... O outro persistia, cético e declamatório, sub-literato atroz:

    - Fria como iceberg, pode ter certeza. Marmórea, álgida, glacial.

     Dona Flor em prudente passo, vestida com elegância e discrição, simples e modesta formosura, sem desviar os olhos para os lados, correspondendo ao alegre aceno do santeiro Alfredo, ao sonoro boa tarde de Mendez, o espanhol, ao respeitoso saudar do farmacêutico, ao riso acolhedor da negra Vitorina com seu tabuleiro de abarás e acarajés. Custava-lhe esforço aquela decência tranqüila, aquela face calma - nervosa, no cansaço da noite mal dormida, da luta inglória contra o desejo em brasa de seu ventre. Por fora água parada, por dentro uma fogueira acesa.

 

     - Você foi rude demais... Foi grosseira... - disse-lhe Dona Norma, sincera. - Enaide está zangada e com razão...

     Na manhã de domingo, de sol e preguiça, a seguir-se à tumultuosa e festiva noite de sábado e de aniversário de seu Zé Sampaio, as amigas cercavam Dona Flor, ainda a ressumar uns restos de irritação.

    - Não tolero ousadias...

     - Ele estava apenas brincando... Você tomou a mal... Dona Amélia não vira maldade em doutor Aluísio.

    - Brincadeira de mau gosto...

    Enérgica, Dona Norma refletia o pensamento das amigas: - Flor, desculpe que eu lhe diga, mas você está uma não-me-toques. Por qualquer coisa se zanga, se magoa... Você nunca foi assim,

enganjenta... Eu não estava presente, mas mesmo que ele tenha exagerado um pouco, era uma pilhéria, você não precisava se exaltar...

     Dona Gisa desenvolvia toda uma tese científica para explicar a figura e as atitudes do notário de Pilão Arcado:

     - Seu Aluísio é um típico homem do sertão, patriarcal, acostumado a tratar as mulheres como sua propriedade, uma coisa, um animal, uma vaca ...

     - Isso mesmo... - aproveitava Dona Flor - Uma vaca... Para ele todas as mulheres não passam disso... E ele é um cavalo...

     - Você, Flor, não está me entendendo e tampouco entende seu Aluísio. E preciso observá-lo em função do meio em que vive. Meio agropecuário... Quanto a ele, é um senhor feudal...

     - Um descarado é o que ele é... De mão maneira... Vai segurando a da gente e fazendo cócegas...

     - Norma tem razão, Flor, você está uma sensitiva. Doutor Aluísio só fez pegar em sua mão... - opinou Dona Jacy.

     - Para ler a sorte... - Dona Maria do Carmo constatava: Por que é que todo sujeito malandro vem com essa história de ler mão?

    - Você também acha que ele é um sem-vergonha?

     - Esse tal de seu... de doutor Aluísio? Ora, se é... - e, colocando outro problema: - Afinal, ele é doutor ou não?

     Seu Aluísio ou Doutor Aluísio? Dona Maria do Carmo, sem o querer punha em debate um sério problema de tratamento e protocolo. Na região do São Francisco, de Juazeiro a Januária, de Lapa a Remanso e Sento Sé - zona onde exercera a advocacia, rábula provisionado, orador de júri dos mais retóricos - era doutor para todos os efeitos. Na capital, no entanto, sem o curso universitário, subtraíam-lhe o título indevido. No desejo de manter este relato eqüidistante da cidade e do sertão, aqui serão usados indiferentemente os dois tratamentos, atendendo-se assim aos formalistas rígidos e aos nonchalantes liberais. Quanto às amigas reunidas na sala de Dona Flor, não se interessaram pelo problema:

     - Doutor ou não, é uma patativa, sabe falar, tem mel na língua... um finório... - resumia Dona Emina, até então calada. Comentavam os acontecimentos, quase um pequeno escândalo, da noite de aniversário de seu Sampaio. Sendo o comerciante de sapatos avesso a festas e comemorações, restringiu-se Dona Norma, a contragosto, a um farto jantar para o qual convidara amigos e vizinhos. Glutão, porém parcimonioso, seu Sampaio discutira (como fazia todos os anos), propondo à esposa nada preparar em casa, saindo para comer, com ele e o filho, num restaurante:

comeriam bem e muito em conta, sem barulho e sem confusão, sem maiores despesas. Como também o fazia todos os anos, desde o casamento, Dona Norma reagiu ao prudente e parco alvitre: um jantar americano era o mínimo que podiam oferecer sem desdouro a seu vasto círculo de relações.

    Na cama, o dedo grande enfiado na boca, seu Zé Sampaio gastara os últimos argumentos numa exposição a seu ver irrespondível:

     - Sou contra por várias razões e, todas elas válidas.

    - Diga lá suas razões, mas não me venha com a velha história que a venda de sapatos está baixando, porque eu vi as estatísticas...

     - Não é nada disso... Ouça, sem me interromper. Primeiro eu não gosto desse negócio de jantar americano, todo mundo em pé. Gosto de comer sentado na mesa. Nesse troço americano que vocês inventaram agora, fica todo mundo cercando a mesa, e eu, que sou encabulado, acabo comendo as sobras; quando vou me servir já comeram toda a frigideira; só tem asa de peru, o peito já se foi. Terceiro: ainda pior sendo aqui em casa. Como dono da casa tenho de me servir por último e aí não encontro nada, fico na mão. Como pouco e mal... Quarto: no restaurante, não. A gente senta, escolhe os pratos - e, como é dia de aniversário, cada um pode comer dois pratos... - esses dois pratos eram sua comovente concessão à família e à gula.

    Dona Norma mal agüentava ouvir até o fim:

     - Zé Sampaio, faça o favor, não seja ridículo. Primeiro: somos convidados para tudo quanto é aniversário...

    - Mas eu nunca vou...

     - Vai pouco mas às vezes vai... E quando vai, come por cinco... Segundo: não me venha com essa conversa que em jantar americano você se serve pouco, que é encabulado. No aniversário de seu Bernabó, a que você foi só porque o homem é estrangeiro, você botou em seu prato quase metade do suflê de camarão, sem falar nas empanadas... Uma esganação...

     - Ah! - gemeu seu Sampaio - a comida de Dona Nancy é uma beleza...

  - A minha também... Não fica a dever nada... Terceiro: aqui em casa você nunca se serviu por último, é o primeiro a se servir, uma má educação, nunca vi igual. Uma feiúra, o dono da casa... Quarto: em jantar meu não falta comida, benza Deus. Quinto: comida de restaurante ...

     - Basta... - suplicou o comerciante, envolvendo-se todo nos lençóis. - Eu não posso discutir, estou com a pressão alta...

     Jantar de Dona Norma era banquete; se convidava vinte, fazia comida para cinqüenta; com razão, pois toda a pobreza em redor vinha limpar os fundos das panelas, beber as sobras das garrafas. Naquele ano, o aniversário de seu Sampaio trouxe toda a vizinhança  à sua casa; inclusive os Bernabós, Dona Nancy buscando entrosar-se na roda das amigas, seu Hector a falar de negócios e a alardear o progresso da Argentina.

     Terrível patriota portenho, esse senhor Bernabó, a estabelecer permanente paralelo entre a Argentina e o Brasil, e sempre, é claro, com vantagem para sua pátria; a salientar em conversas e discussões o desenvolvimento argentino, as riquezas, o clima - com as quatro estações bem definidas, não esse calorão daqui o ano todo -, as estradas de ferro exemplares - não essa bagunça daqui, os trens sem horário -, as frutas finas, européias, o vinho, o pão de trigo puro, a carne farta e macia, de gado de raça. Dona Nancy em pânico quando o marido desembestava em civismo, saía de seu silêncio para contê-lo:

    - Pero, Bobô, acá tanbien hay cosas buenas... Mira los ananazes, por ejemplo... Buenísimos... - doida por abacaxis e temerosa  de ver o marido num conflito, às voltas e aos tapas com um patriota brasileiro dos brabos, um militante do me-ufanismo nacional.

     Assim, aliás, quase acontecera e por mais de uma vez. Certa ocasião, num desses debates geo econômicos,  seu Chalub, do Mercado (filho de sírios, brasileiro de primeira geração e, por isso mesmo, chauvinista exaltado), perdeu as estribeiras e, rebaixando a fábrica de cerâmica a olaria de telhas e tijolos, lançou no rosto do iracundo Bernabó a pergunta incivil:

     - Se a indústria de lá é tão melhor, se a vida é tão formidável, porque então você veio montar aqui sua olaria?

     Também o pintor Carybé (o tal que fizera o retrato de Dionísia de Oxóssi vestida de rainha, empunhando o ofá e o erukerê), tendo ido estudar com o argentino a possibilidade de queimar em seu forno umas peças folclóricas, viu-se envolvido numa polêmica sobre tango e samba, e findou por explodir:

     - Coisa nenhuma... Uma terra onde não tem mulatas, tudo umas brancarronas, isso é lugar onde ninguém more... Faça-me o favor!

     No aniversário de seu Sampaio, porém, o intimerato defensor da grandeza Argentina esteve cordialíssimo. Se exaltou sua terra, não o fez em detrimento das coisas brasileiras. Ao contrário, teceu verdadeiro hino ao povo da Bahia, à sua maneira de ser, sua gentileza, sua bondade. Foi assim o aniversário do lojista um sucesso social, apenas toldado pelo incidente (aliás, sem repercussão fora do círculo das amigas e comadres) entre Dona Flor e seu Aluísio.

     Dona Flor tivera dúvidas sobre se podia ou não comparecer às comemorações. Sendo jantar de tantos convidados, não adquiria caráter de festa, incompatível com seu estado de luto? Não completara ainda um ano da morte do marido; em verdade faltavam apenas uns poucos dias, mas uma viúva deve ser rígida em seus princípios, pois a ideologia da viuvez é sectária e dogmática. O menor desvio lança aos calcanhares da enxerida a alcatéia das comadres, em condenação e repulsa.

     Dona Norma riu de seus escrúpulos: desde quando um jantar, simples jantar de aniversário, era defeso às viúvas? Não se tratava de baile, nem mesmo de assustado; e se Artur e seus amigos, rapazes e moças estudantes, pusessem um disco na vitrola e arrastassem um samba, pura brincadeira de jovens, não ia o passatempo inocente interferir com o rigor dos prazos na etiqueta do luto, no cerimonial da viuvez, não ia escandalizar o defunto em sua cova. Ao demais, Dona Flor passara o dia praticamente em função do aniversário de seu Sampaio: em sua cozinha, e com a ajuda de Marilda, preparou o vatapá - um caldeirão - e a moqueca de peixe, uma delícia, enquanto Dona Norma se ocupava com os demais quitutes. Assim, convencida, Dona Flor compareceu. Antes não houvesse ido, teria evitado aborrecimentos.

     Quando já estava à casa cheia, as mesas sendo servidas, Dona Enaide chegou do Xame-Xame, trazendo uma bandeja de quindins, uma gravata para seu Sampaio e as desculpas do marido, que, aos sábados à noite, infalível parceiro em sua roda de pôquer, recusava-se a qualquer outro compromisso. Em compensação, em sua companhia veio seu Aluísio, para muitos doutor Aluísio, o comentado rábula e notário das margens do rio São Francisco, o tal solteiro pela metade, por sua parenta proposto candidato à mão de Dona Flor. Metido em fatiota nova em folha, de mescla escura e quente todo pimpão, nariz adunco e forte, reluzente calva, olhos vivos e perscrutadores, envolto em água de colônia e em talco, manequim. Dona Enaide caprichou nas apresentações, orgulhosa do cunhado influente no sertão:

     - Aluísio, quero lhe apresentar Dona Flor Guimarães, a viúva mais bonita da Bahia...

    - Enaide, não brinque...

     Curvava-se doutor Aluísio para beijar-lhe a mão, uma onda de perfume evolando-se no ar, envolvendo Dona Flor:

     - Minha senhora, este é um momento emocional em minha vida. Minha cunhada já me falara em carta a seu respeito, contando maravilhas... Vejo, no entanto, que ela ficou muito aquém do modelo; só um poeta para descrevê-la, senhora...

     Ao mesmo tempo, despia Dona Flor com o olhar demorado e ávido, arrancando-lhe vestido e combinação, corpinho e calçola. Nunca se sentiu tão nua Dona Flor, aquela mirada a medir-lhe a curva da bunda, a rigidez dos seios, a rosa do ventre. De apreciativo, tornou-se o olhar aprovador, e o amável sorriso de cortesia abriu-se em satisfeito riso.

     Tudo isso sem lhe largar a mão, tendo-a presa na sua enquanto a desvestia e julgava.

      Sim, porque lhe avaliava ao mesmo tempo corpo e espírito, concluindo estar diante de presa fácil e segura. Com sua experiência de Don Juan do interior, classificou Dona Flor de fingida e bem fingida. Conhecia essas mulheres de aparência mansa: quase todas umas impostoras, umas enganadeiras; quando na cama, diabos soltos, desembestados.

     Nas pequenas cidades sertanejas, onde a mulher não tinha nenhum direito, serva circunscrita à vontade do marido, seu senhor, e aos limites do lar, seu Aluísio surpreendera por mais de uma vez, no fundo de uns olhos baixos e no escondido de uma discreta postura, ardente resposta a seu impudico convite.

     Ah! essas águas mansas escondem tempestades; sob o aparente decoro e a reserva do luto, em que tormenta interior não se debateria Dona Flor, mulher jovem e sã? Doutor Aluísio conhecera outras assim de modesta aparência, no esconso das casas, nas malhas de um código de honra, medieval. No entanto, surgindo ocasião propícia, contornavam com incomparável engenho óbices e temores, revelando-se peritas na tarefa de plantar chifres nos terríveis ferrabrases; de quando em vez um esposo traído impunha a lei com uns tiros ou umas punhaladas.

     Em suas horas de ócio - a maior parte de seu tempo, pois o cartório pouco o exigia - o notário dedicava-se às mulheres, ao seu estudo e conhecimento (se possível, íntimo), levando o juiz de direito de Pilão Arcado, doutor Dival Pitombo, a classificá-lo como "emérito psicólogo, arguto confidente da alma feminina e erudito leitor das letras clássicas". As letras clássicas reduziam-se a traduções nacionais ou portuguesas da mitologia grega, e de aspectos, em geral frascários, da vida no Império Romano. Quanto às mulheres, tinha o olho clínico, o que lhe rendera algumas aventuras e vasta fama de terror dos maridos, de sedutor irresistível. Apesar da careca e do narigão, algumas mulheres por ele enfrentaram o pecado, o código feudal, as leis da vingança.

     Pois bem: esse olhar de lince do Casanova do rio São Francisco vasculhara de entrada o íntimo de Dona Flor, varando-lhe o pensamento, apossando-se de seus segredos, após tê-la despido de roupas e adornos. Tão deslavado olhar não tinha outro sentido: seu Aluísio a desnudava por fora e por dentro e, em conclusão, achando-a a seu gosto, achava-a também desfrutável e até fácil. Para ele, Dona Flor não era a viúva mais direita e honesta da Bahia, aquela eleita pelos bebedores no bar do Cabeça, aquela por quem até a mais maldosa das comadres botava a mão no fogo na certeza de retirá-la ilesa.

     E por falar em mão, o rábula mantinha a que Dona Flor lhe estendera, presa entre as suas, apertando-a ligeiramente numa carícia quase insensível. Dona Flor deu-se conta ao mesmo tempo de como a despia o tipo, do conceito em que a classificava, e da mão tomada como um penhor de posse. Tabaréu atrevido, cheio de empáfia  e confiança: se Dona Flor não reagisse logo, não lhe cortasse as asas em seguida, seria ele capaz mais adiante de qualquer intolerável ousadia. Brusca, fechando o rosto, retirou a mão. Não se deu por achado o sedutor das caatingas:

     - Permita-me uma confissão, minha estimada... Tendo interesses a discutir na capital, referentes à repartição que dirijo, e parentes a visitar, foi antes de tudo o desejo de conhecê-la que me trouxe a Salvador... Enaide, em suas cartas...

     Mas Dona Flor, vendo aparecer na sala Dona Dagmar, sua aluna e amiga dos Sampaios, plantou ali mestre Aluísio:

     - Com sua licença... Tenho de falar com aquela amiga... Dona Dagmar, desinibida e boquirrota, foi logo lhe perguntando:

    - Quem é aquele papagaio pelado? Um pretendente?...

     - Me deixe em paz, mulher... Aquele é o cunhado de Enaide, o tal de doutor Aluísio, chefe político não sei onde...

    - Ah! é esse... Já ouvi falar nele... Dizem que manda um bocado no São Francisco... Menina, deixa eu comer qualquer coisa...

    Na sala de jantar, as mesas eram assaltadas pelos convivas num ruído de pratos e talheres, travessas de comida chegando cheias, voltando vazias para a cozinha. Um sucesso, o jantar de aniversário de seu Sampaio. A casa entupida: gente do comercio, colegas do Clube dos Lojistas, parentes, vizinhos, amigas de Dona Norma, formando grupos nas salas e na varanda. Repleta também a cozinha de afilhados e comadres de Dona Norma, a pobreza dos arredores. Num canto da sala de jantar, próximo à mesa principal, o aniversariante, seu Zé Sampaio, comia com avidez e pressa, lançando olhares de soslaio para a mesa, no temor absurdo de acabar a comida antes dele repetir o prato.

     Meio escondido para que não viessem puxar conversa, perturbando-o. Mas o argentino Bernabó, os lábios amarelos do dendê, em arrotos fartos, dava os parabéns ao dono da casa:

    - Macanudo, amigo. La comida, deliciosa...

     Dona Flor ajudara por algum tempo Dona Norma e as empregadas (todas as empregadas da vizinhança), mas, ao diminuir o movimento, obtivera uma cadeira num canto da varanda, dali acompanhando a agitação do jantar: seu Vivaldo, da funerária, ia pelo quarto prato; doutor Ives

empanturrava-se de sobremesas.

     Seu Aluísio, de palito na boca, veio se aproximando, como quem não quer nada, até encostar-se no muro da varanda ao lado de Dona Flor:

    - Festim romano... - sentenciou ele.

     Dona Flor por um instante decidiu não responder, mas afinal o fez; não tinha motivos para tanta desconsideração ao tabaréu.

     - Norminha, quando dá um jantar, não mede a comida...

     Seu Aluísio olhava para os lados, deixando a conversa morrer, sem continuidade; Dona Flor, voltada para o movimento da sala. Foi quando ela ouviu o cicio da voz do notário, em surdina:

    - Beleza, me diga uma coisa...

     - O quê? - assustou-se ela.

     - O que é que você achava da gente cair fora daqui, ir ver o luar na Lagoa do Abaeté? Você vai saindo, me espera no Largo...

     Dona Flor já estava de pé, a voz estrangulada:

    - O que está pensando de mim?

     Doutor Aluísio ria mansinho, como se ele bem soubesse do pouco valor daquela indignação, acostumado a essas primeiras e bruscas reações.

    - Um passeio, nada mais...

Dona Flor não pôde sequer responder, uma agonia a queimar-lhe a face, a oprimir-lhe o peito. Estavam assim tão estampados em seu rosto à ânsia de homem e o desatinado desejo? Quase correndo, dirigiu-se à sala.

    - Que é que você tem, Flor? - perguntou-lhe Marilda, ao vê-la assim nervosa, as mãos trêmulas.

    - Não sei, tive uma palpitação... Não é nada...

     - Sente aqui... Vou lhe buscar um copo d'água...

     - Não precisa... Vou sentar ali com sua mãe...

     No círculo das amigas em mofa e comentários sobre a gulodice de alguns convivas, Dona Flor restabeleceu-se do choque, do sorriso de motejo, das palavras de escárnio do atrevido. Um cínico a convidá-la para ver o luar em noite negra como aquela, um breu. Aos poucos foi participando da conversa, divertindo-se com as observações de Dona Amélia e de Dona Emina. Dona Maria do Carmo nunca vira antes seu Sampaio em ação num almoço ou num jantar: ficara aparvalhada.

     Quando a conversa ia mais ruidosa e alegre, eis que o persistente galã sanfranciscano surge outra vez, de braço com sua cunhada Dona Enaide, a perguntar, enxerido:

    - Tem lugar para dois? Ou a conversa é proibida para homens?

     - Vão se abancando...

     Dona Flor não tomou conhecimento da presença do notário, o qual, no entanto, pouco depois, já estava a ler a mão de Dona Amélia, fazendo-as rir com suas pilhérias. Era espirituoso o tipo, a própria Dona Flor sorriu uma ou duas vezes de suas graças. Anunciou viagens e riquezas

para Dona Amélia. Depois foi a vez de Dona Emina. Muito grave, ele lhe prometeu mais um filho, para breve.

     - t’esconjuro... Não bastou com Aninha, tão fora de tempo?... Vá azarar outro...

     - Dessa vez vai ser menino... Não erro nunca...

     Após a leitura da mão de Dona Emina, pôs os olhos em Dona Flor, como se nada houvesse ocorrido antes; olhos a despi-la novamente, passando ao mesmo tempo a ponta da língua nos lábios, num gesto tão descarado que ela sentiu seu coração parar; até onde pensava ir aquele

tipo? Felizmente as demais não se deram conta. Estendendo a mão para segurar a de Dona Flor, ele disse:

    - Chegou a sua vez...

    - Não quero saber disso. Tudo tolice...

     Mas as demais exigiram, entre gargalhadas. Que iriam pensar se ela persistisse em sua recusa? Seria pior. Numa decisão, concordou. Sorriu vitorioso doutor Aluísio, o especialista da alma feminina: nunca se enganava.

     Colocou sobre a sua a mão esquerda de Dona Flor, com a palma voltada para cima. Com o dedo de unha bem tratada ia marcando as linhas reveladoras, numa cócega distante e sutil, Dona Flor rígida e tensa.

     - Excelente linha da vida... Vai viver mais de oitenta anos... - ficava um segundo em silêncio, como a examinar atentamente a mão da viúva. - Vejo grandes novidades...

    - Novidades? Quais? - as amigas, excitadas.

     - Na linha do amor... Vejo um novo amor... Um caso, uma paixão ...

    - Com licença... - disse Dona Flor, querendo libertar a mão. Mas seu Aluísio a retinha entre as suas:

     - Espere... Não acabei... Ouça o resto... Um senhor do interior ...

     Abrupta, Dona Flor se ergueu, arrancando sua mão de entre as do rábula numa violência.

    - Não lhe dei ousadia para tanto...

     Saiu da sala numa rabanada, deixando as amigas em espanto, e Dona Enaide na maior das ofensas:

    - Que manteiga derretida... Me digam: Aluísio fez alguma coisa de mais? Foi grosseiro? Uma pilhéria para rir... Não tolero gente assim, metida a besta... Afinal, ela pensa que é o quê? Alguma princesa? Só o notário persistia calmo, a desculpar Dona Flor:

    - Coitada... Conheço isso, esse nervosismo... É o mal de toda viúva moça que não encontra novo casamento. O caminho da histeria... As cidades pequenas estão cheias de casos assim... Solteironas e viúvas, por tudo se ofendem, choram, a vida delas é chilique e calundu. Na velhice, dão em doidas mansas...

    Dona Maria do Carmo o interrompeu:

    - Olhe que eu também sou viúva, doutor, e termino me ofendendo... - o rábula a considerou com o olhar entendido: mulata ainda boa de cascos, bem feita, corpo rijo, agüentava uns trancos. Doutor Aluísio não era homem de perder tempo; deixando Dona Flor pra trás, disse:

    - Mostre-me sua mão esquerda, por favor: quero tirar uma coisa a limpo...

    Tomou a mão de Dona Maria do Carmo entre as suas, olhou-a nos olhos com aquele seu olhar de frete grosso:

    - Posso dizer a verdade ou devo mentir?

     Dona Flor saíra porta a fora; Marilda e Dona Norma foram encontrá-la em casa, lavada em lágrimas, num tal estado de nervosismo, que Dona Norma lhe disse, repetindo mestre Aluísio de Pilão Arcado:

    - Que é isso, Flor, está ficando histérica?

 

APELO DE DONA FLOR EM AULA E EM DEVANEIO

    Me deixem em paz com meu luto e minha solidão. Não me falem dessas coisas, respeitem meu estado de viúva.

    Vamos ao fogão: prato de capricho e esmero é o vatapá de peixe (ou de galinha), o mais famoso de toda a culinária da Bahia.

     Não me digam que sou jovem, sou viúva: morta estou para essas coisas.

    Vatapá para servir a dez pessoas (e para sobrar como é devido).

     Tragam duas cabeças de garoupa fresca _ pode ser de outro peixe mas não é tão bom. Tomem do sal, do coentro, do alho e da cebola, alguns tomates e o suco de um limão.

     Quatro colheres das de sopa, cheias com o melhor azeite doce, tanto serve português como espanhol; ouvi dizer que o grego ainda é melhor, não sei. Jamais usei por não encontrá-lo à venda.

     Se encontrar um noivo, que farei? Alguém que retome meu desejo morto, enterrado no carrego do defunto? Que sabem vocês, meninas, da intimidade das viúvas? Desejo de viúva é desejo de deboche e de pecado, viúva séria não fala nessas coisas, não pensa nessas coisas, não

conversa sobre isso. Me deixem em paz, no meu fogão.

    Refoguem o peixe nesses temperos todos e ponham a cozinhar. Num bocadinho d'água, num bocadinho só, um quase nada. Depois é só coar o molho, deixá-lo à parte, e vamos adiante.

     Se meu leito é triste cama de dormir, apenas, sem outra serventia, que importa? Tudo no mundo tem compensações. Nada melhor do que viver tranqüila, sem sonhos, sem desejos, sem se consumir em labaredas com o ventre aceso em fogo. Vida melhor não pode haver que a de viúva séria e recatada, vida pacata, liberta da ambição e do desejo. Mas, e se não for meu leito cama de dormir e, sim, deserto a atravessar, escaldante areia do desejo sem porta de saída? Que sabem vocês da intimidade das viúvas, de seu leito solitário, de seu carrego de defunto? Aqui vieram para aprender a cozinhar e não para saber o preço da renúncia, o preço que se paga em ânsia e solidão para ser viúva honesta e recatada. Continuemos a lição. Tomem do ralo e de dois cocos escolhidos - e ralem. Ralem com vontade, vamos, ralem; nunca fez mal a ninguém um pouco de exercício (dizem que o exercício evita os pensamentos maus: não creio). Juntem a

branca massa bem ralada e a aqueçam antes de espremê-la: assim sairá mais fácil o leite grosso, o puro leite de côco sem mistura. À parte o deixem.

     Tirado esse primeiro leite, o grosso, não joguem a massa fora, não sejam esperdiçadas, que os tempos não estão de desperdício. Peguem a mesma massa e a escaldem na fervura de um litro d'água. Depois a espremam para obter o leite ralo. O que sobrar da massa joguem fora,

pois agora é só bagaço.

     Viúva é só bagaço, limitação e hipocrisia. Em que nação enterram a viúva na cova do marido? Em que país tocam fogo no seu corpo junto com o corpo do defunto? Antes assim, de uma vez queimada e em cinza, em lugar de consumir-se em fogo lento e proibido, de queimar-se por dentro em ânsia e em desejo; por fora hipocrisia, um recato de fazendas negras, os véus cobrindo uma aflita geografia de medo e de pecado. Viúva é só bagaço e aflição.

     Descasquem o pão dormido e descascado o ponham nesse leite ralo para amolecer. Na máquina de moer carne (bem lavada) moam o pão assim amolecido em côco, e moam amendoins, camarões secos, castanhas de caju, gengibre, sem esquecer a pimenta malagueta ao gosto do freguês (uns gostam de vatapá ardendo na pimenta, outros querem uma pitada apenas,

uma sombra de picante).

     Moídos e misturados, esses temperos juntem ao apurado molho da garoupa, somando tempero com tempero, o gengibre com o côco, o sal com a pimenta, o alho com a castanha, e levem tudo ao fogo só para engrossar o caldo.

     Se o vatapá, forte de gengibre, pimenta, amendoim, não age sobre a gente dando calor aos sonhos, devassos condimentos? Que sei eu de tais necessidades? Jamais necessitei de gengibre e amendoim; eram a mão, a língua, a palavra, o lábio, seu perfil, sua graça, era ele quem me despia do lençol e do pudor para a louca astronomia de seu beijo, para me acender em estrelas, em seu mel noturno. Quem me despe hoje dos véus da pudicícia em meus sonhos de viúva no leito solitária? De onde vem esse desejo a me queimar o peito e o ventre, se nem a mão nem o lábio, nem o perfil de lua, nem o riso agreste, se ele não está? Por que esse desejo nascendo de mim mesma? Por que tanta pergunta, por que esse interesse de saber o que se passa no intimo da viúva? Por que não me deixam os negros véus do luto sobre o rosto, véus do preconceito, cobrindo minha face dividida, em recato e em anseio dividida. Sou uma viúva, nem falar de tais coisas fica bem ao meu estado. Viúva no fogão a cozinhar o vatapá, pesando o gengibre, o amendoim, a malagueta, e tão somente.

     A seguir agreguem leite de côco, o grosso e puro, e finalmente o azeite de dendê, duas xícaras bem medidas: flor de dendê, da cor de ouro velho, a cor do vatapá. Deixem cozinhar por longo tempo em fogo baixo; com a colher de pau não parem de mexer, sempre para o mesmo lado: não

parem de mexer senão embola o vatapá. Mexam, remexam, vamos, sem parar; até chegar ao ponto justo e exatamente.

     Em fogo lento meus sonhos me consomem, não me cabe culpa, sou apenas uma viúva dividida ao meio, de um lado viúva honesta e recatada, de outro viúva debochada, quase histérica, desfeita em chilique e calundu. Esse manto de recato me asfixia, de noite corro as ruas em busca de marido. De marido a quem servir o vatapá doirado e meu cobreado corpo de gengibre e mel.

     Chegou o vatapá ao ponto, vejam que beleza! Para servi-lo falta apenas derramar um pouco de azeite de dendê por cima, azeite cru. Acompanhado de acaçá o sirvam, e noivos e maridos lamberão os beiços.

     E por falar em noivo, avisem a todos para que todos saibam: existe uma viúva jovem, com certa graça mansa e formosura, cor de mate, feita de ouro e cobre, cozinheira de mão cheia, tão trabalhadora, honesta e bem falada como igual não há na cidade inteira e no Recôncavo, uma viúva de primeira com um leito de ferro, um pudor de virgem e um fogo a lhe queimar o ventre.

     Se souberem de alguém com interesse, enviem-no correndo, a qualquer hora, de manhã, de tarde, à meia noite, pela madrugada, com sol, com chuva, mandem logo, mandem com o juiz e o padre, com papéis de matrimônio, mandem com urgência, com a maior urgência.

     Lanço este apelo aos quatro ventos, ao sabor das correntes submarinas, das fases da lua e da maré, no rastro de qualquer navegação ou cabotagem, pois sou porto de difícil descoberta, recôndito golfo, ancoradouro de naufrágios. Quem souber de solteiro em busca de viúva e casamento, diga-lhe que aqui se encontra Dona Flor à beira do fogão, junto ao vatapá de peixe, consumida em fogo e em maldição.

 

     Um dia não pôde mais e se abriu com Dona Norma: "por fora honesta continência, por dentro poço de excrementos". O desejo nascia dela, de seu peito, do silêncio, do devaneio, da solidão, do sonho. Sem motivo, sem ponto de partida, sem semente nem raiz. Nascendo dela - "de minha ruindade mesmo, Norminha", de seu corpo em febre, crescendo naquela carne estrumada de ausência, de penúrias, de maldições; ânsia plantada no esterco de sua danação:

    - Estou danada, Norminha; não quero pensar e penso; não quero ver, e vejo; não quero sonhar, e sonho a noite inteira. Tudo contra a minha vontade, contra meu querer. Meu corpo não me obedece, Norminha, o excomungado.

     A brochura ioga, lida e relida, já lhe explicara tratar-se da "crucial batalha entre a matéria imunda e o puro espírito", travando-se em seu íntimo, coisa medonha. A maldita matéria de seu corpo partindo em fúria e em danação contra o recato de seu espírito, rompendo a placidez de sua vida, seu equilíbrio. Deixara de existir qualquer acordo entre sua vontade e seus instintos. Tudo confuso: de um lado uma viúva, exemplo de dignidade, do outro uma fêmea jovem e necessitada. Caso grave, exigindo, na receita do folheto, "forte concentração de pensamento e exercícios diários".

     Nada resolveram a mística literatura e os penosos exercícios, ainda mais penosos para Dona Flor, gordota de corpo e rechonchuda. Para ver se obtinha o elegíaco equilíbrio prometido, sujeitara-se, durante umas duas

semanas, às contorções mais absurdas. Dona Dagmar, a seu pedido, repetira-lhe várias aulas e Dona Flor submeteu-se com paciência e esperança. Dona Dagmar não regateava elogios ao método ioga, formidáveis!, ela já emagrecera quatro quilos. Com Dona Flor, total fracasso: nem sequer emagreceu. Em vez de calma e de equilíbrio, obteve apenas cansaço, corpo dolorido e nem por isso menos ávido e audaz em sua urgente precisão.

Tampouco a satisfizeram as brilhantes análises científicas de Dona Gisa, com a boca cheia de nomes ininteligíveis, bolodório para doutor de faculdade: complexos, libido, subconsciente, recalques, tabu:

    - Para você, Flor, viúva cheia de recalques e complexos, o sexo é tabu.

     Tabu ou não tabu, consciente, inconsciente ou subconsciente, por efeito de recalque e de complexo, ou por simples desejo de mulher, era aquele desespero noite adentro, sonhos eróticos a arrastá-la em bacanal, não lhe sendo a conversa da gringa da menor utilidade. Pois, se fosse atrás de seu latim, sairia rua a fora a fornicar com o primeiro macho que encontrasse, destruindo a bruta recalques e complexos, estrangulando numa cama de castelo o mísero tabu, para sempre desonradas, ela e a memória do defunto.

     Dona Norma era a boa sabedoria popular, a experiência vivida, a compreensão humana. Ia direta ao assunto:

    - Isso é falta de homem, minha santa. Você é moça, não sofre de doença grave, não é capada que eu saiba, que é que está querendo? Mesmo as freiras se casam para suportar a castidade, se casam com Cristo, e ainda assim tem umas que botam chifres em Jesus - e, sorrindo ao recordar:

- Você se lembra daquela freira do Desterro que emprenhou do padeiro e terminou artista de teatro? Faz tempo, não se lembra? Não se falava noutra coisa...

     Nem sequer a imagem da freira num palco de teatro divertia Dona Flor, dramática e persistente em seu assunto, sem ligar à digressão da amiga:

    - Mas, Norminha, eu sou uma viúva...

     - E daí? Ou você acha que viúva não é mulher? Viúva, que eu saiba, pensa em homem, sonha com homem, olha pra homem... Ora essa... - Você bem sabe que não sou dessas que vivem atrás de casamento. Uma vez você até me criticou, me chamando de grosseira...

     - Pois foi. Sei que você não é nenhuma sirigaita... Mas, vou lhe falar franco: você é uma viúva metida a sebo, e está ficando intolerável. Já fez um ano de viúva e em vez de melhorar, piorou, como se tivesse enviuvado ontem. Antes você ainda ria, se a gente falava de noivado e casamento. Depois não quis mais nem ouvir pilhéria, deu de se zangar...

    - Você bem sabe porque... Até vigarista apareceu...

     - E só porque o tal de Duque - Duque ou Príncipe? - andou rondando aí, você ficou pior que freira! Se ele deu pra seu lado foi porque lhe achou um bom bocado. Agora, só porque seu Aluísio fez uma investida, coisa à toa,  você se trancou em casa, quase não sai, não encara homem, como se homem fosse bicho feroz... Afinal, seu Aluísio só queria...

    - Eu sei o que ele queria...

     - Queria dormir com você, querida... Mas, é claro... Muitos hão de querer, estão por aí roendo tampa de penico. Você é uma viúva supimpa, tem muito gabiru de olho aceso...

     - Será que tenho cara de sem-vergonha para esses atrevidos ousarem ...

     - E quem disse que eles precisam que a mulher seja descarada para querer dormir com ela? Apesar de sua cara de carrasco...

     - Mas, Norminha, o que é que eu posso fazer?

     - Você precisa apagar esse fogo, mulher... Se você não dorme direito, se não descansa, se não tem sossego, é porque está com um fogo desgraçado lhe queimando o rabo...

    - Oxente, Norminha, t’esconjuro...

    - Mas não é isso mesmo? Não é verdade?

     - E o que você quer que eu faça? Que eu me desgrace e vire descarada? Não sou nenhuma sem- vergonha, não nasci para ter amante, essas coisas para mim só com meu marido... Só porque sonho com essas besteiras, tenho vontade de morrer... Será que pareço mulher-da-vida pra você dizer isso...

    - Não seja tola, o que foi que eu disse que lhe ofendesse?

     - Você não disse...

    - Disse e repito que você está com um fogo queimando o rabo, ou, como dizia a filha de uma amiga minha para a mãe: "Mamãe, minha xoxota virou fogareiro, está pegando fogo". Você está mais ou menos assim. Mas isso não quer dizer que você não é séria... Ao contrário... Séria você

é e muito, senão, com esse fogo todo, já tinha aberto as coxas... É séria e parece ainda mais, parece um ferrabrás... Nem se dá conta da cara que põe quando um homem olha para você...

     - Hei de me rir, de dizer: "venha dormir comigo..." Prefiro morrer. Só fui para a cama com meu marido...

    - E só deve ir com seu marido...

    - Meu marido morreu...

         - Morreu o primeiro... Nada impede que você tenha outro. Você é moça, Flor, nem chegou aos trinta...

    - Vou completar no fim do ano...

     - Menina ainda... Para o que você tem, que não é doença nem maluquice, só existem dois remédios, minha filha: casamento ou descaração. Ou então entrar de freira num convento. Nesse caso tome cuidado com os padeiros, leiteiros e jardineiros, e com padres, para não cornear Deus Nosso Senhor.

- Não brinque, Norminha...

     - Não estou brincando Flor. Se você fosse descarada, podia continuar viúva, vestida de preto: ia dando por ai, a um e a outro, se divertindo, se desapertando. Mas, como você não é nada disso, é séria mesmo, então tem de casar, não tem outra coisa a fazer...

     Desejo de viúva, Norminha, vai no carrego do defunto, viúva não tem direito nem a memórias de cama, a recordar noites de vadiação, quanto mais a ilusões de noivado e casamento, de outro marido. Tudo isso não passa de insulto à memória e à honra do finado.

     Desejo de viúva é tão vivo quanto o de donzela ou o de casada, se não for mais, sua tola; assim lhe respondia enérgica Dona Norma. Novo casamento não é nenhum insulto à honra do defunto; qualquer mulher pode prezar a memória do marido morto, e ser feliz, ao mesmo tempo, em companhia de um segundo esposo. Sobretudo ela, Dona Flor, cujo primeiro casamento fora tão insólito e nem sempre alegre, para não dizer pior.

     Conversa longa e benéfica, as duas amigas a sós, numa intimidade de estima verdadeira, duas irmãs não se entenderiam tanto, Dona Flor finalmente convencida. Talvez já estivesse antes, no cruel debate consigo mesma; não o confessaria jamais, no entanto, se Dona Norma não  lhe arrancasse os véus do preconceito, de um falso luto apodrecido no desejo.

     - Mas, Norminha, de que adianta eu ficar de acordo? Quem vai me querer de noiva? Ninguém quer sobejo de defunto, eu não vou sair me oferecendo... Vou morrer nessa consumição.

    - Arranque a tabuleta e eu não dou seis meses...

     - Que tabuleta?

    - Essa que você leva no rosto; "Sou viúva para sempre, morri para a vida e para o casamento". Arranque, volte a rir, a ser igual a todo mundo e aposto que em menos de seis meses...

     Essa conversa teve lugar uns poucos dias depois do carnaval, que naquele ano caíra muito tarde, já em março, mais ou menos um mês após o primeiro aniversário da viuvez de Dona Flor.

Na manhã daquele fúnebre aniversário, Dona Flor dirigiu-se ao cemitério. com lágrimas e flores, demorando-se junto à campa longo tempo, como se ali encontrasse alívio e calma. Foi um de seus dias mais tranqüilos em todo o confuso tempo de viuvez, sentindo-se ela apenas triste, com saudade do falecido. Uma saudade funda e confortante.

     Já os dias de carnaval lhe foram mais penosos. Nas músicas e nas canções, muitas das quais as mesmas do carnaval anterior, vinham-lhe as lembranças do terrível domingo. Ao debruçar-se na janela para assistir à passagem de um bloco ou de um rancho, de um zé-pereira, de um zabumba ou de um afoxé, recordava o morto no chão do Largo Dois de Julho, entre serpentinas e confetes, vestido de baiana.

     Quando o afoxé dos Filhos do Mar, em toda a grandeza de sua comparsaria, parou em frente à Escola de Culinária Sabor e Arte, obedecendo ao apito de Camafeu, e a negra Andreza de Oxum, empunhando o estandarte da rainha das águas, dançou um passo deslumbrante - as

janelas cheias, a rua entupida, as palmas entusiásticas -, Dona Flor desmamou-se em pranto e toda a dor e toda a ausência caíram de vez sobre ela. Há um ano, com o corpo do finado estendido no leito de ferro, ainda tivera ânimo de espiar a passagem do Afoxé por sobre os ombros de Dona Norma e Dona Gisa, vida e morte dentro de seu peito. De tão recente e brusca, a morte ainda continha um laivo de vida. Somente com o decorrer do tempo Dona Flor se daria perfeita conta do vazio definitivo, da definitiva ausência. No carnaval anterior, com o morto presente, pudera espiar o afoxé, de relance ao menos. No entanto, nesse outro carnaval, foi-lhe insuportável a gloriosa visão dos Filhos do Mar na cadência dos atabaques. Mesmo ignorando a homenagem contida naquele apito, naquela interrupção da caminhada, naquela dança, nos requebros de Andreza qual um barco sobre as ondas, homenagem do afoxé ao sempre recordado sócio e amigo há um ano falecido, mesmo assim Dona Flor não pôde conter-se na janela; via somente o corpo nu e exangue, morto para sempre. Difícil aquele carnaval, cada vez mais difícil sua vida. O defunto aproveitou a ruidosa alegria para misturar- se à angústia do desejo

insatisfeito, cresceu o sofrimento, tanto e tamanho, que Dona Flor não mais pôde suportá-lo em silêncio e em solidão. Não lhe foi possível conter por mais tempo seu segredo, o peito roto, a cabeça zonza e o cansaço. Um destroço, Dona Flor. Abriu-se com Dona Norma.

     Dona Norma lhe garantiu noivado e casamento em prazo rápido, se a tanto se dispusesse, sem máscara nem tabuleta. Procuraram confirmação em Dona Gisa, mas a gringa pouca importância dava a noivado e casamento, ridículas exigências legais e anti-humanas; andara lendo o Príncipe

Kropotkine e dera de misturar anarquismo com psicanálise. Com matrimonio ou sem matrimônio, na opinião da professora de inglês, tinha Dona Flor um "complexo de culpa" a torturá-la, do qual só se libertaria quando, rompendo com os tabus, "se realizasse de qualquer maneira". Conselho mais maluco: um conúbio em amor livre, amigação, xodó, uma aventura enfim, porém imediata. Só se Dona Flor fosse louca de hospício ou a mais cínica e fogueteira de todas as viúvas.

     Dona Norma, sim, era de ajuda e de consolação; deixasse Dona Flor de confundir recato com ódio ao mundo, honestidade com carrancismo e Dona Norma era capaz de apostar dinheiro como em menos de seis meses teriam a viúva de aliança ao dedo, pelo menos noiva.

     Dona Gisa não apostou: por que havia Dona Flor de esperar seis meses a curtir horrores? Para que essa tolice, com tanto homem solto pelo mundo? Também, se apostasse perderia; quase sempre entre o saber do livro e o saber da vida quem acerta é a vida. Fosse por ter Dona Flor se humanizado, levando mais além da seca urbanidade suas relações de cortesia, volvendo a sorrir e a conversar com um e outro, discreta sempre porém gentil e atenta, ou fosse por simples casualidade (como era mais provável), já um mês depois dessa conversa com Dona Norma e da discussão com Dona Gisa, tornaram-se evidentes, e fizeram-se objeto de público debate, o probo interesse e as honestas intenções do doutor Teodoro Madureira, sócio da Drogaria Científica, na esquina do Cabeça. Vibrante e vitoriosa, Dona Dinorá exigia alvíssaras:

    - Adivinhei há muitos meses, vi na bola de cristal e disse a todo mundo: um senhor distinto, homem de bem, doutor e com dinheiro. Não foi verdade? Minhas alvíssaras, senhora Dona Flor!

    - Um partido e tanto, que sorte a dela! - o coro das amigas e comadres num delírio de fuxicos, em acordo unânime.

 

Quando tivera início o interesse do farmacêutico, ninguém sabe; não é fácil determinar hora e minuto exatos para o começo do amor, sobretudo daquele que é o definitivo amor de um homem, o amor de sua vida, dilacerante e fatal, independente do relógio e do almanaque. Em dia de confidências, tempos depois, doutor Teodoro confessou a Dona Flor, com certo acanhamento risonho, admirá-la de há muito, de antes da viuvez; do pequeno laboratório nos fundos da farmácia ele a via cruzar o Largo, seguindo seus passos pelo Cabeça, com absorta mirada. "Se alguma vez me decidir, só casarei com uma mulher assim, bonita e séria", monologava junto aos tubos de ensaio, aos frascos de drogas. Sentimento puro e platônico, é claro, não era homem de influir-se por mulher casada e de envolvê-la em pensamentos menos nobres, pondo-lhe olhos de gula ou melhor (para repetir a própria expressão do boticário, precisa e elegante, enfeitando com suas galas estas letras vulgares e populacheras) "culposos olhos de concupiscência".

    Quem primeiro notou a inclinação do farmacêutico foi Dona Emina, senhora, aliás, de pouco se preocupar com a vida alheia: mexericava apenas o estritamente necessário para não ficar em atraso  com os sucessos em seu redor. Ao lado das outras, ávidas de qualquer fuxico, Dona Emina era discreta e timorata.

     Foi no dia do trote nos calouros das Faculdades, nos começos de abril, quando os estudantes atravessam as principais ruas e avenidas, comemorando o início do ano letivo. Numa longa procissão, sob a batuta dos veteranos, os novatos - de cabeça raspada a navalha, envoltos em

lençóis, amarrados uns aos outros por uma corda como fieira de escravos - conduziam cartazes de crítica ao governo e à administração, com piadas sobre a vida cara e a incapacidade dos políticos.

     Vindo da Faculdade de Medicina, no Terreiro de Jesus, o desfile cruzou a cidade em direção à Barra, parando em certos locais como a Praça Castro Alves, São Pedro, Piedade, Campo Grande. Nesses pontos de maior concentração de curiosos, os veteranos faziam as delícias dos assistentes, com bestialógicos recitados do alto dos jegues.

     Os moradores das adjacências do Largo Dois de Julho e do Cabeça movimentaram-se para São Pedro apenas ouviram as cornetas e os clarins anunciadores, na Ladeira de São Bento. Num grupo álacre iam Dona Norma, Dona Amélia, Dona Maria do Carmo, Dona Gisela, Dona Emina, Dona Flor.

     Segundo a informação de Dona Emina, precisa e concreta, o doutor Teodoro encontrava-se bem do seu junto ao balcão da farmácia, indiferente aos clarins, aos asnos fantasiados de professores e de homens públicos, ao trote, conversando com o empregado e a moça da caixa, quando as enxergou. Tão nervoso ficara que Dona Emina, estranhando os modos do doutor, o manteve de olho, podendo assim seguir passo a passo suas suspeitas andanças. O farmacêutico, senhor de ânimo pacato e maneiras comedidas, apenas viu as amigas, abandonou às pressas a posição cômoda, a atitude pachola, afastando-se do balcão, erguendo-se numa postura quase rígida para cumprimentá-las, bom dia sonoro e cordial. Detalhe importante: extraindo um pente do bolso do colete, com ele ajeitou os cabelos negros, aliás sem necessidade, pois o penteado resplandecia integro sob camadas de brilhantina. Desaparecera o ânimo pacato, o droguista em agitação de adolescente. "Eu vi a hora dele vestir o paletó só para nos cumprimentar", disse Dona Emina a perguntar-se a causa de tanto afã e zelo. De imaculada camisa branca e colete cinza, grossa corrente de ouro de bolso a bolso numa curva de efeito, a prender respeitável patacão

também de ouro, herança paterna, as calças de perfeito vinco, os sapatos no capricho do lustre, o anel de grau, um tipão, alto e simpático. Curvou-se para saudar o grupo.

     Amáveis, as amigas responderam, era o farmacêutico personalidade de vulto nas redondezas, bem visto e benquisto. Segundo ainda o depoimento de Dona Emina - rico em minúcias, como se constata - os olhos de doutor Teodoro enxergavam apenas Dona Flor, cegos para as demais; olhar, se não de concupiscência, pelo menos de cobiça. "Te devorava com os olhos, te comia", eis como a hábil observadora definiu para Dona Flor a expressão precisa daquele olhar.

     Quando não mais as viu de dentro do balcão, passou à frente; depois veio para a calçada do estabelecimento, e por fim, após breve indecisão e uma advertência aos empregados, partira rua a fora no rastro da festiva companhia.

     Situou-se próximo às amigas, nas imediações do grande relógio de São Pedro, a marombar. Puxando a corrente de ouro, sorriu satisfeito da precisão suíça de seu cronômetro. Dona Norma e Dona Amélia, para não perder detalhe do trote, subiram sobre um banco do pequeno jardim; as

demais ficaram em redor, nas pontas dos pés. De onde estava, meio escondido pela base do relógio, doutor Teodoro seguia devoto cada movimento de Dona Flor.

     Mantendo-o sob controle, Dona Emina constatou quase nada ter visto o farmacêutico do divertido trote: os calouros pintados de zarcão, dançando uma dança macabra, os veteranos exigindo cerveja e gasosa nos bares e armazéns. Se o doutor Teodoro sorria, era em apoio ao riso de Dona Flor, seus aplausos eram réplica aos da viúva, a mirá-la embevecido. Dona Emina puxou a saia de Dona Norma, a aplaudir em cima do banco disparates de um estudante montado num jegue (o animal aproveitava a parada para mastigar restos de lixo na sujeira da rua). A princípio Dona Norma não entendeu a palpitante mensagem dos olhos e dos dedos da amiga. Finalmente, localizando o farmacêutico em mangas de camisa e em êxtase, acompanhou-lhe, pasma, o alvoroço.

    - Menina... - disse ela. - Que coisa...

     Dona Amélia e Dona Maria do Carmo logo tomaram conhecimento da surpreendente atitude do doutor Teodoro: meio escondido por trás do relógio, brechando Dona Flor. Só Dona Gisa manteve-se distante, entregue à leitura dos cartazes do trote; segundo ela, as manifestações estudantis continham precioso material para o estudo da alma coletiva. Dona Gisa não perdia ocasião para estudar, nascera com a sina de tudo saber e de tudo explicar (através da ciência mais moderna). Para as outras, no entanto, material mais precioso e elucidativo eram os estranhos modos do boticário.

    - Meninas... Só vendo para crer...

     O desfile prosseguiu para a Piedade, elas o acompanharam. Mas, pretextando a necessidade de transmitir um recado, Dona Norma encompridou o caminho, dando volta por uma rua detrás: "vamos botar isso em pratos limpos e agorinha mesmo". Por um minuto, doutor Teodoro permaneceu indeciso, à sombra do relógio monumental,  terminando, porém, por acompanhá-las num passo nonchalante de quem vai sem pressa e por acaso, a locé.

     Dona Norma e as demais amigas prendiam o riso, menos Dona Flor, de tudo inocente, e Dona Gisa, a discorrer sobre a "vocação dos jovens para a causa pública". De repente pararam, indo Dona Norma dar o tal recado, na porta de uma casa de família. Tomado de surpresa, a poucos metros de distância, doutor Teodoro foi obrigado a prosseguir caminho. Passou junto às amigas evitando fitá-las, fingindo não vê-las e era tão pouco experiente nessas coisas que dava pena: todo escabreado, a adivinhar sorrisos e olhares de mofa, sem saber onde pôr as mãos, um desastre. Encafifou, enveredou pela esquina quase correndo. A sua passagem, Dona Maria do Carmo não se conteve, deixando escapar um frouxo de riso.

    - Psiu... - recomendava Dona Norma.

     - Para onde vai doutor Teodoro, tão apressado? - quis saber Dona Flor, ao vê-lo sumir no beco.

     - Quer dizer que você não sabe, minha sonsa? Que negócio é esse? Vai manter segredo ou vai contar às suas amigas? ou não tem confiança?

     - O quê, mulher? Vocês vivem inventando coisas... Dessa vez, o que é?

    - Não venha dizer que ainda não percebeu...

     - O que, pelo amor de Deus?

    - Que o doutor Teodoro está caidinho por você...

     - Quem? O farmacêutico? Vocês estão de miolo mole, são uma cambada de malucas... Onde já se viu...  Logo doutor Teodoro, homem mais cerimonioso... É um debique...

     - Debique? Ele perdeu a cerimônia, minha cara, anda espevitado...

     Nesse pagode, chalaceando e rindo, foram atrás do desfile dos cascabulhos, a pobre Dona Flor numa roda viva. Mas, quando, de volta a casa, Dona Norma se viu a sós com a viúva, lhe falou a sério. Reparara nos modos do farmacêutico, pessoa, como dizia com razão Dona Flor, toda cheia de etiquetas, de formalidades; nunca se ouvira dizer que ele lançasse olhares às clientes e muito menos houvesse seguido alguma rua a fora, em mangas de camisa, a passar pente pelo cabelo, embuçando-se atrás do relógio público, em sobressaltos de adolescente. De olho fixo em Dona Flor, não desgrudava. Não era conversa fiada de comadres, nem invenção, Dona Norma até se mantivera à parte das caçoadas, pois, sendo doutor Teodoro homem de bem e circunspecto, não valia a pena tratar levianamente assunto tão sério, em chalaças e galhofas. Partido igual, filha minha, só muito de raro em raro: cidadão maduro, na boa idade para Dona Flor, feito na vida, doutor de grau e anel, dono da farmácia, ressumando saúde, se o tivessem inventado não fariam melhor.

     - Você acha mesmo, Norminha, que ele está com algum interesse? Está coisa nenhuma: quem quer comer pão adormecido, carne moída, sobejo de defunto? Ninguém há de querer...

    Dona Norma mediu a amiga de alto a baixo:

    - Benza-te Deus... - disse, num muxoxo aprovativo. Porque Dona Flor, numa certa excitação devida à notícia, entre curiosa e encafifada, nada tinha de pão dormido, pão de véspera com gosto de bolor, menos ainda de carne com aftim de podre; muito ao contrário: tez suave de cabo-verde num cobre antigo e definitivo, assente em face louçã e fresca, carne perfumada e jovem, aroma de pitanga, um pedaço retado de mulher. Sobejo, sem dúvida; tivera marido, deitara com ele em leito de ferro a barrunchar; porém mais apetitosa que muita donzela de alfenim, pois o cabaço não é tudo nem muito menos, se bem goze de tanto apreço e fama. No fundo é um quase nada, frágil película, gota de sangue, um ai e sobretudo velho preconceito, e se alcança tão alto custo é porque se beneficia de milenar publicidade, conta com o exército e o clero, a

polícia e o meretrício, todos a fazer dos tampos da mulher o rei do mundo. Mas o que é uma donzela, tola e ignorante em seu desejo, se comparada a uma viúva, cujo anseio é feito de conhecimento e de ausência, de contenção e de penúria, de fome e de jejum, é lúcido e insolente? "Ora, me deixe, Flor, por sobejo assim suspiram não só doutor Teodoro mas, certamente, além dele, muitos outros de que não se tem notícia". O que Dona Norma queria saber era outra coisa:

     - E tu, que é que dizes? Que te parece ele? Serás capaz de amá-lo?

     Primeiro ela não quis sequer considerar o problema de seus sentimentos antes de ter certeza de existir inclinação do farmacêutico, de não ser tudo aquilo burla ou equívoco, não estando disposta a novos logros e a humilhar-se, como já sucedera antes com aquela história do Príncipe e com os saimentos de seu Aluísio. Mas, ante a pressão de Dona Norma a exigir pronta resposta, numa impertinência amigável, Dona Flor confessou não lhe ser indiferente o boticário. Cavalheiro de fino trato, um primor de distinção, e homem vistoso, de encher o olho. Lembrava-lhe artista de cinema muito em voga. Parecença ligeira mas bastante para marcá-lo em sua simpatia; enfim, se fosse realmente verdade, era possível e mesmo provável viesse Dona Flor a sentir por ele...  O que sentira pelo finado? Isso não, era diferente... Ela própria era outra, não a mesma de quando, há mais de oito anos, quase nove, conhecera o doidivanas na festa do Major e, de súbito, sem pesar nem refletir, lhe dera seu coração (e, em seguida, alegremente, seus seios e suas coxas, na balbúrdia do Largo, no escuro da praia). Doida por ele, perdida a ponto de entregar-se, de se dar inteira e grátis quando ele pediu, esfregando os arrombados três vinténs na cara de Dona Rozilda, que se fizera inimiga do namoro e proibira o casamento. Agora era uma viúva pousada e refletida, incapaz de incontinência, de sentimentos e ações precipitadas, perdoáveis em mocinha na idade do namoro, inadmissíveis em senhora na casa dos trinta e nos véus de luto (mesmo queimando um fogaréu por dentro). Se algo houvesse, já veriam com o tempo se um sentimento de amor desabrocharia, na tranqüila medida da ternura e da compreensão, sem as violências juvenis do delírio nos cantos escusos, nos pés de escada. Talvez um sentimento assim, amor maduro e bonançoso nascesse num chão de discreto idílio. Dona Flor achava até possível, pois, como já dissera, não sendo o doutor Teodoro antipático e feio, não lhe tinha aversão, achando-o atraente, como agora se dava conta. E eis Dona Norma realizando já noivado e casamento, antevendo Dona Flor feliz como sempre merecera e nunca o fora.

    - Ah! minha santa, que beleza que vai ser! Agora não seja tola, não se tranque em casa, não amarre a cara...

     Porque Dona Flor, se bem confessando interesse pelo boticário, logo acrescentava sua decisão de não sair a demonstrá-lo, a se oferecer, rebolando-se frente à Drogaria, exibindo suas necessidades, seus olhos fundos de quaresma, de abstinência dura, de jejum forçado. Isso jamais,

Norminha.

- E eu não vou admitir que você desperdice uma ocasião como essa...

     Longo tempo Dona Norma levou a persuadir a viúva: não fosse tola nem bancasse a indiferente. Quem estava como Dona Flor, ardendo em brasa, necessitada de casar e casar logo para não terminar histérica ou doida mansa, ou bem para não sair dando por aí a qualquer um, em vida de castelo, de viúva fácil a encher de chifres a caveira do defunto, agreste e viçosa plantação de galhos em sua cova honrada; Ah! assim tão confessadamente ávida de calor de homem, de um balance de cama, não podia bancar a viúva fiel até a morte, de luto eterno e obstruída greta, chibiu enterrado no carrego do falecido, murcha flor aos pés do morto, inútil e fanada:

    - Só tendo serventia pra fazer pipi...

     Melhor se resolver de vez e aceitar marido, viver com ele vida decente e honesta, renovando-se em amor e em alegria, mantendo honrada, limpa e tranqüila em sua tumba a memória e a carcaça do primeiro. Sem muito nele falar para não ofender o sucessor. Aliás, nos últimos meses

Dona Flor como que esquecera nome e apelido do finado. Porque as comadres o arrenegavam e cobriam de insultos sua lembrança, Dona Flor, polêmica, o trouxera na boca o dia inteiro. Depois o trancou dentro de si, como jóia preciosa e rara, quando as amigas e vizinhas o deixaram em paz em seu jazigo: se ainda alguém o recordava, não o dizia. Pois então era só continuar assim, retirando naturalmente da sala o retrato do perdido com seu riso cínico de desfaçatez (e também, por que negar?, com sua graça irresistível), guardando-o no fundo de um baú e no coração. Na parede da sala (e na xoxota) a presença do segundo, e que segundo, minha filha!, beleza de homem na força da idade e que distinto!

     Casar e logo, ter seu marido, viver com ele vida decente e honesta, como era de sua natureza e de sua obrigação, em vez de arder em sonhos, solitária, a morder os lábios, a ranger os dentes, contendo-se somente por medo e preconceito. Ela, Dona Norma, não permitiria perdesse Dona Flor tão magnífica oportunidade, oportunidade única, outra melhor era impossível, e a perdesse por falso recato, por tolice, por estupidez. Não, três vezes não.

     Assim, após a aula vespertina, na qual Dona Flor ensinou às alunas a receita de um doce de gelatina e côco apelidado "creme do homem", nome a provocar piadas, - "ai, creme mais saboroso!" Dona Norma veio buscá-la e a arrastou ao Cabeça, a pretexto de comprar flores. Compra mais difícil, dúzia de angélicas de escolha trabalhosa. Não se dispunha Dona Norma a compor o buquê, sempre insatisfeita ante o espanto do vendedor, o velho negro Cosme de Omolu, pois doutor Teodoro, sumido nas profundezas da farmácia, não se fazia visível. Depois das flores, foram aos acarajés de Vitorina e nada do farmacêutico aparecer ao balcão. Mas Dona Norma não era de dar-se por vencida: embarafustou sem aviso, farmácia adentro, arrastando Dona Flor em crise, a pedir ao caixeiro um pacote de algodão. Queria Dona Flor enfiar-se terra adentro, Dona Norma num vozerio, numa saliência, onde já se viu tanta presepada?

     Ao fundo, no pequeno laboratório, por detrás de grandes frascos azuis e vermelhos, como uma gravura de livro de alquimia, viram doutor Teodoro moendo sais e venenos num pilão de pedra. Tinha posto os óculos e, muito atento, após moer, pesava, em pequena balança de brinquedo, quantidades mínimas de pó e sais. Concentrado no mistério do fabrico da receita, não se deu conta da presença das senhoras no estabelecimento, como se até ele não chegasse a voz de Dona Norma a repetir um caso saído nas gazetas.

     Deixando a balança, o boticário punha num tubo de ensaios o pó resultante dos minerais moídos, em ínfimas quantidades, juntando-lhes vinte exatas gotas de um líquido incolor, e logo tudo foi uma fumaceira avermelhada a circundar de ciência e de magia a cabeça morena e forte do doutor.

     Dona Norma não perdeu a deixa, sua voz ressoou, aduladora:

     - Repare, Flor, minha querida, doutor Teodoro até parece um bruxo todo cercado de enxofre... T'esconjuro!

     Estremeceu o doutor ao ouvir o nome, não o seu, mas o de Dona Flor: erguendo os olhos sobre os óculos (úteis apenas para enxergar de perto), constatou a presença da poesia entre os remédios, vacilou em suas bases mais recônditas, um frio no baixo ventre. Quis erguer-se, ficou atarantado e zonzo, e lá se foi pro chão o tubo de ensaio em mil cacos e o remédio quase pronto (mezinha para alívio da tosse crônica de Dona Zezé Pedreira, uma velhinha de cristal, da rua da Fôrca) virou mancha escura no chão, enquanto a fumaça de sangue persistia em torno ao austero rosto do doutor.

    - Ai, meu Deus... - disse Dona Flor.

     E nada mais foi dito nem aconteceu, apenas Dona Norma riu-se pagando a conta do algodão, pois era cômica a figura do droguista, semi erguido na cadeira, a mão no ar, como se ainda sustentasse o tubo de vidro, os óculos resvalando pelo nariz, mudo e estupefacto.

     De todo encabulada, morta de sem jeito, saiu Dona Flor porta a fora, enquanto Dona Norma estendia um olhar cúmplice ao romântico boticário, como uma corda a um náufrago. Doutor Teodoro tentou articular uma palavra, não pôde.

     Dona Norma alcançou Dona Flor na esquina: ainda mantinha alguma dúvida sobre a influência do farmacêutico? Ou queria por acaso, numa exigência absurda para viúva roída de desejo, gemendo no alvéu do luto, candidato de melhor estirpe, classe e compleição? Impossível melhor partido, minha santa: doutor de diploma e anel de ametista verdadeira, proprietário estabelecido, bonitão, todo composto  de colete e ouro, forte de saúde, morigerado de hábitos, um senhor de bem, soberbo quarentão.

 

     Soberbo quarentão: tudo quanto à bola de cristal e as sebentas cartas revelaram a Dona Dinorá na tarde de profecia, amigas e comadres foram descobrindo em doutor Teodoro, ponto por ponto, sem faltar minúcia. O dinheirinho e o título universitário, a compleição, o talhe, a figura, o porte digno, os modos elevados, tudo; e, no entanto, naqueles tempos em que buscaram pelas ruas e praças, num afã de gargalhadas, face correspondente ao retrato da vidência, ninguém pensou no farmacêutico. Como explicar tamanho absurdo se estava na cara,bastando olhar e ver? Cegueira de todas as comadres e amigas ou engano desta detalhada narrativa, erro fatal para gáudio da crítica adversa? Nem erro nem engano e, sim, uma espécie de obtusidade coletiva impedindo que comadres e amigas o descobrissem no fundo discreto da farmácia, os óculos sobre o nariz, o correntão de ouro, curvado sobre drogas, a misturar venenos para transformá-los em remédios, distribuidor de saúde a domicílio e a preços módicos.

     O cronista dos matrimônios de Dona Flor, de suas alegrias e aflições, foi apenas fiel à verdade não colocando doutor Teodoro na lista dos pretendentes cujas candidaturas às comadres propuseram, pois nenhuma delas se lembrou do boticário, não vindo seu nome à baila naqueles saborosos cavacos em torno da viuvez de Dona Flor, quando todas queriam distraí-la. Aliás, pouco perdeu o doutor com tal esquecimento; quando muito, teria participado do sonho em que Dona Flor se viu em roda de ciranda circundada de babaquaras, aspirantes à sua mão. Melhor para ele: nem em sonhos apareceu em papel ridículo, não se desgastando na estima da viúva.

     Mas, por que tal cegueira, por que o esqueceram, não o descortinaram ao balcão da farmácia, junto aos vidros azuis e vermelhos, cercado por aquele odor de medicinas, com a agulha de injeção pronta para picar braços e nádegas de todas as velhotas, suas clientes? Se tanto o viam e com ele tratavam, por que não o enxergaram?

     Por sabê-lo impedido para casamento e sem remédio; por isso, ao contarem solteiros pela rua, na relação não inscreviam o boticário, como se fosse casado, com mulher e filhos. Nem mesmo Dona Norma, em sua meticulosa busca de noivo para a esmorecida Maria, sua vizinha e afilhada, em nenhum momento dele se lembrara. Doutor Teodoro? Esse não casou nem casará, não vale a pena nele se deter, perda de tempo; mesmo se quisesse construir um lar, não o poderia, uma lástima, coitado!

    Verdade tão sabida e assente, por isso não foi ele alvo de burla e mexerico como os demais celibatários conhecidos, em toda essa história da viuvez de Dona Flor.

     Dona Dinorá, imperatriz das xeretas e adivinha, transitava diariamente em frente à Drogaria Científica; duas vezes por semana descobria a bunda flácida (Ah! o transitório da vaidade e da grandeza humanas: aquela mesma bunda chocha fora cantada em versos de rimas satânicas por mestre Robato, quando adolescente vate da escola demoníaca, custando sua visão e toque cheques e boladas a senhores ricos do comércio) frente ao farmacêutico para a dolorosa injeção

anti-reumática, e nem assim seus olhos de vidente, capazes de antever o futuro, divisaram no moreno senhor a segurar-lhe a pelanca o soberbo quarentão da profecia. Porque sabia, e melhor que ninguém, como lhe era impossível tomar esposa.

     Não por chibungo, por impotente ou por donzelo com quizila de mulher. Por Deus, que nem em pensamento surja suspeita dessa espécie, pois doutor Teodoro, homem pacifico, amável, de bom viver, era muito capaz de afastar-se de seu habitual comedimento e exibir sobejas provas de sua masculinidade, partindo as ventas do canalha capaz de injuriá-lo ao pôr em dúvida sua inteireza de homem.

     De homem com muita serventia de macho, se bem discreto. Se alguém exigir sobre o assunto depoimento preciso e incontestável, basta entrevistar no Beco do Sapoti a pujante e asseada pardavasca Otaviana das Dores ou Tavinha Manemolência, rompendo-lhe com uns cobres a reserva devida à sua seleta freguesia: dois desembargadores, três comerciantes da Cidade Baixa, um padre secular, um professor de medicina e o nosso excelente farmacêutico.

     Por suas manifestas qualidades de limpeza, de discrição e de seriedade - mais bem uma senhora recebendo em sua casa tão acolhedora -, Otaviana merecera a escolha e a frequentação do doutor Teodoro, infalível às quintas-feiras após o jantar. Os fregueses de Tavinha, elite preclara e sigilosa, eram de dia certo (ou noite certa), cada um com seus hábitos e gostos, suas preferências - às vezes bem esquisitas como as do desembargador Lameira, quase coprófilo -, e a todos, competente e cômoda, ela atendia, dando-lhes completa satisfação. Aos varões normais e sem problemas, como doutor Teodoro e aos velhos sátiros, pururucas, come-bronhas, chupa-umbigos, deixando regalados e contentes uns e outros.

     Às vinte horas em ponto, cada quinta-feira, doutor Teodoro atravessava o batente da porta, sendo recebido com especial estima e cortesia. Aboletado em cadeira de balanço, com Otaviana em sua frente a tricotar sapatinhos de nenê, bebericando um licor de frutas, especialidade das freiras do convento da Lapa, mantinham doutor Teodoro e a mundana proveitoso diálogo, passando em revista os acontecimentos da semana, o noticiário dos jornais. Na convivência de senhores ilustrados, adquirira Tavinha um verniz erudito, era de conversa agradável, uma intelectual, e no Beco do Sapoti consultavam-na a qualquer propósito. Ao demais de muita moralidade, a criticar os costumes atuais, esse disparate que vai pelo mundo, devassa e incrédula juventude.

     Assim fazia o farmacêutico hora e digestão, ouvindo e aceitando os conceitos edificantes da mulata, "esse mundo está perdido, seu doutor, não tem santo que dê jeito". Iam depois para o quarto recendendo a folhas aromáticas, e em Otaviana punha-se o doutor Teodoro, em cama de

lençóis alvíssimos, com direito a bis. E como duvidar ainda de sua macheza, se quase sempre ele usava do direito e galhardo repetia o bom folguedo?

     Sem acréscimo de preço, vale dizer, pois Tavinha Manemolência não cobrava por vez e sim por noite, recebendo pela noite inteira, mesmo quando o freguês, limitado em sua liberdade pelo controle familiar, saía às pressas, utilizando apenas o pequeno tempo de uma mentira. Preço salgado, tabela alta, prazer caro; mas tanto requinte de trato, tanta gentileza e a competência valiam o esbanjamento.

     Doutor Teodoro permanecia até a meia noite, por vezes tirando uma soneca na cama de colchão de barriguda, macio e quente, com a gentil Otaviana a lhe velar o sono. Antes de ir-se, ainda ela lhe trazia um mungunzá, um arroz-doce, uma canjica, e novo cálice de licor para "lhe restaurar as forças", como, num sorriso de dengo, murmurava a parda e digna marafona.

     Não o inscreviam as comadres em listas nem o envolviam em pilhérias matrimoniais por saberem-no dedicado à mãe, velhinha paralítica, para quem o filho era tudo. Quando ela sofrera o derrame, doutor Teodoro, recém formado, prometera-lhe manter-se solteiro enquanto ela vivesse. Era o menos que podia fazer para lhe provar sua gratidão.

     O pai faltara-lhe quando ele, aos dezoito anos, preparava-se para o exame vestibular na Faculdade de Medicina. Quis interromper os estudos, fixar-se para sempre na cidade de Jequié onde residiam, assumindo o balcão da pequena loja de fazendas, único bem legado pelo pai, além de dívidas aos montes e larga fama de bondade. Mas a viúva, mulher aparentemente frágil porém disposta, não admitiu o sacrifício: a única ambição do falecido tinha sido formar o filho, e o jovem Teodoro revelara-se ótimo estudante, os professores prognosticavam-lhe grandes êxitos. Fizesse ele seus exames e seguisse o curso, a Mãe se encarregaria do armarinho. Houve apenas uma troca; em lugar de medicina, ele cursou farmácia, de currículo três anos menor.

     Sozinha, trabalhando noite e dia, numa estafa contínua, a viúva administrou casa e negócio, pagando as dívidas e garantindo a mesada do filho acadêmico. Por mais de uma vez ele tentou empregar-se mas a mãe se opunha: seu tempo era sagrado para os estudos, ficando o trabalho para depois da formatura.

     Quando o viu doutor, de anel e diploma, envolto em beca preta na solenidade da colação de grau, não suportou tanta alegria: na mesma noite, de regresso ao hotel, teve o derrame. Salvou-se por milagre mas ficou para sempre paralítica.

    Ao vê-la à morte, o jovem farmacêutico, num gesto de herói de dramalhão, no entanto sincero, jurou-lhe permanente companhia, manter-se solteiro enquanto ela vivesse. No dia seguinte, na primeira folga, devolveu a palavra a Violeta Sá, sua prometida, e nunca mais voltou a ter outra namorada. De alegria e diversão restou-lhe apenas o fagote, instrumento que aprendera ainda ginasiano, na Lira Municipal.

     Tendo vendido a loja em Jequié, associara-se a decadente farmácia em Itapagipe, propriedade de um médico de triste fim: numa senilidade precoce cometera os maiores desatinos, obrigando a família a interná-lo.Doutor Teodoro alugou casa por ali perto e viveu exclusivamente para o trabalho e para a Mãe entrevada, inútil numa cadeira de rodas, o olhar de espanto, a voz rouca e difícil, ciumenta do filho. Sentando-se ao seu lado, à noite, ensaiava ele solos de fagote, para suavizar a terrível solidão da enferma.

     Durante anos e anos pouco saiu do bairro, onde se fez popular e estimado. Tendo conhecido o músico Agenor Gomes, ingressou com seu fagote na orquestra de amadores que, em torno ao competente maestro, reunia médicos, engenheiros, advogados, um juiz, um balconista, dois lojistas. Aos domingos, ora na casa de um ora na de outro, juntavam-se a tocar, felizes com seus instrumentos e suas composições.

     Sob a direção do jovem titular, retornou a farmácia à sua antiga prosperidade e a fama de homem correto e bom do doutor Teodoro se impôs e só fez crescer com o tempo.

     Muitas pretendentes surgiram a rondar o fagote do moço farmacêutico, mas ele, sério e incapaz de roubar tempo à moça casadoira, a nenhuma deu trela ou esperança. Finuras de namorados reservava-as todas para a paralítica: flores, caixas de chocolate, lembranças delicadas e uma sonata composta pelo maestro em homenagem àquela devoção de filho e mãe: "Tardes de Itapagipe com o amor materno".

     O médico insano morreu sem recuperar-se, doutor Teodoro tratou do inventário, resolvendo os diversos problemas como se cuidasse de bens de gente sua. Talvez por isso a viúva imaginou casá-lo com a filha mais moça, uma catraia assustadora. Por sorte, a promessa impedia doutor Teodoro, porque se assim não fosse era capaz de ver-se de súbito esposo do mostrengo, de tal forma era impositiva a viúva. Já o tratava como sogra, dispondo sobre sua vida. Num alarme, doutor Teodoro só teve um recurso: passar adiante sua parte na sociedade, retirando-se da farmácia e da ameaça de noivado.

     Quando se interrogava sobre o que fazer com o dinheiro recebido, um seu conhecido (seu e nosso, pois já em outra ocasião o vimos, ao volante, na rua Chile, quase atropelando Dona Rozilda e ainda lhe dizendo régios desaforos, aquele esperto representante de drogas e laboratórios, Rosalvo Medeiros) deu-lhe uma deixa de primeira: a Drogaria Cientifica, estabelecimento próspero, num ponto formidável, estava sendo objeto de uma dessas sórdidas lutas de herdeiros num inventário litigioso, torpe briga de família. Ótima oportunidade para alguém com dinheiro; podia fazer um negócio e tanto.

     Assim o fez doutor Teodoro, adquirindo as partes de dois dos cinco herdeiros, a vista e a prazo. Metia-se em empresa de vulto, comprava um patrimônio. Atravessou uns tempos ruins, ao começo, resgatando promissórias a juros altos. Foi-lhe de valia naquelas aperturas o banqueiro Celestino a quem o recomendara outro membro da orquestra de amadores, doutor Venceslau Pires da Veiga, quase tão bom no violino quanto no bisturi famoso. O português sentiu logo o homem sério: tinha olho e olfato, não se enganava nunca. Abriu para doutor Teodoro a possibilidade de reforma de títulos, facilitando-lhe a vida.

     Homem de módicas despesas (seus luxos resumiam-se em enfermeira competente para a Mãe, no fagote e na hebdomadária visita a Tavinha Manemolência), com o apoio do banqueiro, transpôs o farmacêutico sem maiores riscos aqueles primeiros tempos do Cabeça, ainda endividado. Um ano antes de engraçar-se por Dona Flor, pagara, com um suspiro de alívio, a última letra.

     Era agora sócio não mais de pequena farmácia de Itapagipe e, sim, de drogaria no centro da cidade. E, se bem sócio menor, possuindo apenas duas quintas partes do capital, mandava e desmandava no negócio, pois os três irmãos não se entendiam e raramente punham os pés na Científica (a não ser para pedir avanço sobre a retirada). Ao demais, farmacêutico a dar título ao estabelecimento, cabia-lhe por isso e pelo seu trabalho diário uma participação maior nos lucros.

Tranqüilo, à espera de mais cedo ou mais tarde comprar as outras quotas quando os irmãos, caterva de preguiçosos e inúteis, acabassem de pôr fora, na boa vida, os demais bens da herança, doutor Teodoro ganhara o respeito e a estima do bairro, inclusive das comadres.

     Quando surgira no Cabeça, irrepreensível em sua roupa escura, sério e competente, solteirão andando para os quarenta, as comadres, apenas o viram, puseram-se em ação. Logo vasculharam sua intimidade, pesaram sua ciência - "que mão mais delicada na agulha da injeção", "receita melhor do que muito médico" -, passando a pente fino os detalhes de sua vida: dos estudos pagos com o trabalho da mãe à frente do armarinho em Jequié até os solos de fagote, arte e prazer do celibatário, com lágrimas no capítulo dramático do derrame quando doutor Teodoro jurara não amar mulher alguma para melhor atender à paralítica.

     Dona Dinorá, escrupulosa e exata, pertinaz em busca de minúcias, estendeu seu campo de pesquisas até Itapagipe, onde entrevistou a própria enfermeira a conduzir a velhota no carrinho de aleijada. Aquela dedicação de filho a merecer sonata, melodia e poema, impôs-se à maledicência das comadres, que deixaram o boticário em paz com seus hábitos austeros e sua mãe enferma.

     Tão acostumadas com o solene compromisso filial, nem se deram conta da profunda mudança qualitativa ocorrida meses antes, quando a mãe do doutor Teodoro finou-se em sua cadeira de rodas, na qual vivera por mais de vinte anos: livre o filho da fatal promessa, apto para o casamento. Mas para as comadres o farmacêutico não existia como motivo de fuxicos e cochichos. Futricavam de todo mundo menos dele, "homem direito é doutor Teodoro".

Qual o espanto, pois, qual o assombro, o fim de mundo, quando estourou a notícia do interesse do droguista pela professora de culinária. Ah! traidor! As comadres, em formação de batalha, ocuparam todas as posições estratégicas entre a Drogaria Científica e a Escola de Culinária Sabor e Arte. Por entre olhares e sorrisos doutor Teodoro teve de atravessar, com seu passo medido, seu jaquetão cinzento ou azul, sua austera compostura, cruzando ante a janela onde Dona Flor respondia com um sorriso breve e gentil ao respeitoso porém apaixonado cumprimento do pretendente. Ah, traidor, sorna e fingido! - diziam olhares e gestos das xeretas.

      Permanecendo na mesma distante casa de Itapagipe, já não se apressava ele, no entanto, a tomar o bonde e o elevador apenas cerradas as portas da Drogaria: não mais o esperava em nervosa impaciência a mãe entrevada. Deu de almoçar e jantar no restaurante do português Moreira, rondando pelo Cabeça, pelo Maciel, pelo Sodré, como se não pudesse abandonar as redondezas da viúva. Fazia-lhe a corte de longe, sem lhe impor a presença, discreto. Mas como manter-se em discrição, nos limites da reserva, com o comadrio em torno, tropeçando a cada passo numa das beatas, ouvindo insinuações de Dona Dinorá.

     Doutor Teodoro, homem de atitudes francas, inimigo de fraudes e embaçamentos, sentia-se incômodo; a situação foi-se tornando para ele insuportável. Dona Norma deu-se conta:

    - Até faz pena...

    Dona Flor sorria com simpatia:

    - Pobrezinho...

     - Isso não pode continuar assim... Vou dar um jeito...

     Dona Norma dispôs-se a uma explicação sincera com o apaixonado farmacêutico, para decidir aquilo de uma vez. A própria Dona Flor já não escondia estar também interessada, falando dele com afeição, firme na janela na hora do doutor cruzar a rua.

    - Vou falar com ele...

     - Está louca, criatura? Ele vai pensar que eu mandei, que sou uma

reles, uma oferecida...

    - Não seja tola... Deixe comigo...

     Mas não chegou Dona Norma a tomar a iniciativa, porque, naquela mesma tarde, Dona Flor invadiu-lhe a casa, quase sem fôlego, na mão as folhas de uma carta e o envelope. Papel azul com bordas de ouro e perfume de sândalo, um primor. Declaração em regra, frases de galanteio

em escorreito português, relação de bens e de qualidades postos uns e outros aos pés da dama, honestas intenções, palavras nobres, e o sopro de uma paixão verdadeira a transbordar dos retilíneos limites da prudência, fazendo com que aquele documento de um caráter fosse também

requisitório de amor, fremente e vivo.

     - Supimpa... - disse Dona Norma, lendo ávida e entusiasta. – Um colosso.

 

     Se o primeiro casamento de Dona Flor realizou-se às carreiras, em acanhada e restrita cerimônia, no segundo tudo aconteceu como devido, reinando ordem e certo brilho. O primeiro não teve noivado, indo direto do namoro (impudico) ao matrimônio, passando antes pela cama (antes da hora). Celebrou-se naquelas desagradáveis condições de urgência e embaraço resultantes da necessidade de tapar com o aval do Estado e da Igreja os três vinténs da moça comidos pelo namorado, antecipadamente, restaurando-se assim, se não o cabaço, pelo menos o bom nome da família.

    O segundo foi puxado a convite impresso, com notícia na coluna de "Sociais" de "À Tarde", elogiosa referência ao doutor Teodoro - "nosso prezado e conspícuo assinante" -, música, flores e luzes, e gente, muita gente na Igreja de São Bento, onde o celebrante, Dom Jerônimo, sapecou sermão dos mais eloqüentes; enquanto na cerimônia civil, o juiz, doutor Pinho Pedreira, com aquela sua elegância de conceitos, em breve e amável oração, previu uma vida de paz e entendimento para o novel casal, "sob o signo da música, voz dos deuses". Era o descarnado e preclaro juiz colega do noivo na orquestra de amadores reunida sob a batuta do maestro Agenor Gomes, onde o magistrado se distinguia na clarineta.

     Teve assim o segundo casamento de Dona Flor quanto faltou ao primeiro; regido, a rogo dos noivos, por Dona Norma, com proficiência e escrúpulo, viu-se cada coisa em seu lugar, na devida hora, tudo de boa qualidade e por preço acessível, tendo ela contado para tal sucesso com a ajuda entusiasta da vizinhança em peso.

     O que não obteria Dona Norma? Obteve inclusive a presença de Dona Rozilda, sua completa reconciliação com a filha. Vieram também de Nazareth o irmão e a cunhada de Dona Flor; ausentes apenas Rosália e Antônio Morais, mantendo o mecânico sua decisão de só voltar à Bahia

quando a sogra "houvesse tomado férias permanentes no inferno".

     Dessa vez Dona Rozilda não tivera críticas a fazer: casamento a seu gosto, tanto as cerimônias como o genro. Afinal um genro seu se aproximava do modelo sonhado nos distantes idos da Ladeira do Alvo: não exatamente, é claro, não o príncipe perfeito, ideal quase alcançado com o estudante Pedro Borges. Mas, enfim, um doutor, de recursos, sócio de farmácia bem sortida e situada. Homem probo e de trato, alguém na vida, não um pé-rapado a ganhar o pão rastejando sob os automóveis dos outros, imundo de graxa, como o marido de Rosália; muito menos um reles vagabundo, um capadócio como o primeiro esposo de Florípedes. Esse doutor Teodoro ela podia exibi-lo sem constrangimento às suas relações de elite, figura de prol, genro de substância, apatacado.

     No segundo casamento só não houve namoro, e com razão, pois não fica bem a uma viúva namorar, numa esquina ou no esconso de uma porta em deboche e agarramentos: beijinhos, abracinhos, pega aqui, pega acolá, mão nos peitos, correndo pelas coxas. Descarações e sem-vergonhices toleráveis em namoro de donzela se são sérias as intenções do namorado, dando-lhe direito a alguns avanços; mas insuportáveis e desmoralizantes em se tratando de viúva.

     Fiz porque, quando da declaração de doutor Teodoro, através da nobre epístola, ficou resolvido entre as partes - com o conselho e a aprovação de parentes e amigos - um respeitoso e parco noivado,  durante o qual poderiam Dona Flor e doutor Teodoro melhor se conhecerem e assim pesarem qualidades e defeitos, determinando se realmente cabia casamento. Possuindo Dona Flor amarga experiência - dissera seu Sampaio, embaixador plenipotenciário - não se dispunha a passo tão sério sem amplas garantias de sucesso.

     Passo tão sério: nem mesmo Dona Norma, com toda sua disposição e não menor capacidade, se animou à sozinha aconselhar a amiga sobre o teor da resposta às folhas azul e ouro, recendendo a perfume de sândalo e a paixão. Para ela, íntima e fraterna de Dona Flor, a par de seus segredos, de sua necessitada condição de jovem fêmea presa nas grades da viuvez, não havia dúvidas: aquele casamento era a boa solução para todos os problemas da amiga. Mas uma resposta à ardente e cortês declaração não podia resumir-se a uma palavra:    "aceito". E depois?

     Necessário aproveitar a ocasião para botar tudo em pratos limpos, definindo-se atitudes, termos e prazos, de tal forma não caísse Dona Flor na boca do mundo, nem se prolongasse tampouco à ridícula situação em que se atolara o inexperiente farmacêutico, homem de condição e respeito, de súbito promovido a palhaço e a motivo de galhofa pelas comadres a seguirem-no rua a fora, a contarem seus olhares e suspiros, a se divertirem às suas custas.

     Eis porque Dona Norma convocou não só Dona Gisa, letrada e sabichona, amiga do peito, como também quis ouvir seu Zé Sampaio e nele se apoiar. Pensara de começo em tia Lita e tio porto, encontrando-se em Nazareth das Farinhas ou no Rio e mãe e os demais parentes de Dona Flor. Mas convieram, ela e a viúva, na inutilidade da presença dos bons velhos nos debates preliminares do caso. Se chegassem ao momento solene do noivado, ai sim, convocariam tia Lita em seu jardim, tio porto em suas paisagens coloridas para ouvirem do pretendente as intenções e o pedido.

     Noite atrapalhada: para garantir a reunião teve Dona Norma de obter que Dona Amélia a substituísse à cabeceira de uma prima sua, em quinto ou sexto grau, recém parida:

     - Essa Norminha não tinha nada de se oferecer de acompanhante, a moça cheia de parentes... Se ofereceu de enxerida, mulher mais esperta... - reclamava Dona Amélia no caminho do hospital, a contragosto.

     Também Dona Gisa desfez um compromisso: reunião musical em casa de uns amigos alemães onde, à meia sombra, ouviam discos de Beethoven e Wagner, em devoto silêncio, churupitando uma bebidinha. Quanto a seu Sampaio, veio de má vontade, a pulso: não era de seus hábitos envolver-se na vida alheia, muito menos com palpites em assunto tão pessoal quanto casamento. Em se tratando, porém, de Dona Flor, criatura de sua real estima, viúva e honrada - e um peixão, uma uva!, seu Sampaio não podia conter o pensamento safardana, decidiu-se a sair de seus lazeres e princípios para servi-la.

     Com nova leitura da carta, feita em voz alta e com comentários por seu Sampaio, iniciou-se essa histórica conferência de cúpula (como diria a imprensa de hoje):

      - Homem de sentimentos elevados, gostei, - concluiu o lojista de sapatos.

    Houve depois o tímido assentimento de Dona Flor:

     - Sim, penso que sim... Por que não? Acho ele simpático...

     - Simpático? Um homem e tanto, um zarro. - Protestou Dona Gisa, metida a usar gíria baiana em sua meiga língua de gringa.

      Acordaram finalmente, por sugestão de Dona Norma, delegar poderes a seu Zé Sampaio para, em nome da viúva, entreter-se com o farmacêutico sobre todos os trâmites, anunciando-lhe o sim com exigências: término imediato àquelas demonstrações públicas, assanhamento grotesco, pouco condizente com qualquer dos dois interessados, passando-se a noivado discreto, precedido de um encontro com os tios de Dona Flor onde se oficializasse o compromisso.

     Assim feito, poderia doutor Teodoro freqüentar a casa da prometida três vezes por semana, as quartas, aos sábados e aos domingos. As quartas e aos sábados chegando após o jantar e permanecendo até as dez da noite; encontros esses, é evidente, sempre em presença de terceiros para não se poder argüir o menor rumor contra a respeitabilidade da viúva. Aos domingos, o regime era mais brando, começando com almoço no Rio Vermelho em casa dos tios, terminando com o cinema, em companhia dos Sampaios ou dos Ruas.

     Não se deve encerrar a ata dessa memorável reunião sem nela inscrever-se o desagrado e o desacordo de Dona Gisa para com tais limitações. Discordara com ênfase da maior parte de exigências tão ridículas e tolas, em sua opinião carrancismos da Idade Média, feudais e tristes. Mas o próprio Zé Sampaio, homem experiente, as entendia necessárias para precaver-se sem mácula o bom nome da vizinha.

     Tudo indicando ser doutor Teodoro homem de honra - o comportamento anterior e os termos altaneiros de sua carta -, ainda assim deviam garantir a viúva contra qualquer abuso. Imagine-se o boticário, após meter-se dia e noite em casa da indefesa Dona Flor, após exibi-la para cima e para baixo, em passeios e excursões, por aí além, ninguém sabe onde, os dois sozinhos, imagine-se o patife dando o fora de repente, como tantas vezes sucedera em casos idênticos; onde iriam parar a honra e o límpido conceito da vizinha? De viúva exemplar pela seriedade e compostura, passaria Dona Flor a penico de defunto, onde qualquer um chega, faz pipi e vai-se embora. Podia Dona Gisa, em sua sapiência, até rir desses costumes mas ele, José Sampaio, zeloso da saúde moral de Dona Flor, era de opinião que...

     Idade Media, feudalismo, Santa Inquisição - onde já se viu mulher de trinta anos, viúva, Dona de seu nariz, Dona de seu dinheiro ganho em trabalho idôneo, necessitar de testemunha ao receber a visita do noivo, cavalheiro já adiante dos quarenta. Só no Brasil ainda era possível tal atraso... Nos Estados Unidos, seria o riso universal...

    Seu Sampaio ouviu a gringa em silêncio, a fitá-la, dando-lhe razão no mais recôndito de seu pensamento: uma besteira e das maiores todas essas precauções e testemunhas, afinal quem dá o que é seu, dá a quem quer e quando melhor lhe parecer... E que bom seria se a gringa, tão cheia de farofa e futurismos, se resolvesse a lhe dar um pouquinho para pôr em prática suas teses, seu desprezo por essas convenções, por essas ninharias... Mas, que nada! Tanta palavra e indignação, tanta ciência e tantas letras, e era um rochedo; pelo menos até prova em contrário. Se dava era em sigilo e que sigilo mais absoluto! Ninguém, nem mesmo Dona Dinorá, jamais tirara qualquer suspeita a limpo, jamais um fato, sequer um pretendente comprovado. Muito falatório, sim, mas tudo em vão, tudo se dissolvendo em coisa alguma. A gringa sorridente, feliz da vida, com todos os sintomas físicos e morais de pança farta, de bem servida, e as comadres no maior alvéu, sem descobrir birosca por mais fuçassem.

     Vai-se ver, talvez nem desse, fosse séria de verdade... - o que afinal era um consolo, concluía melancólico seu Sampaio, encerrando também a conferência.

     No dia seguinte, contrariando mais uma vez seus hábitos, demorou-se seu Sampaio a sair para a loja de sapatos: fazia hora para encontrar doutor Teodoro na drogaria, desobrigando-se logo da prebenda.

     Foi conversa cordial, se bem de início seu tanto difícil, cheia "de dedos e de reticências", seu Sampaio sem saber como introduzir o assunto, doutor Teodoro estreante naqueles embelecos. Entenderam-se, porém, em mútua boa vontade: o lojista pleno de simpatia pela causa, o farmacêutico disposto a qualquer acordo desde que nele se incluísse o casamento com a viúva, numa paixão definitiva de homem maduro.

     Deu-se o encontro no laboratório, nos fundos da botica, em aparência ao abrigo de olhares e ouvidos indiscretos. Em aparência apenas, pois mesmo naquela hora matinal Dona Dinorá, em permanente vigilância, observou a cautelosa abordagem de seu Sampaio, sua demora suspeita no recesso do laboratório (nem tratamento de sífilis tardava tanto), e meteu a cara a pretexto de sua injeção contra reumatismo (em verdade só devia tomá-la no dia seguinte e no horário vespertino).

     O susto dos conspiradores ao ver a face da insolente seria confissão bastante, não tivesse ela ouvido pedaço de conversa, assertiva reveladora do comerciante em calçados:

    - É o caso, meu caro doutor, de parabéns às duas partes, ao senhor e a ela... Ambos merecedores...

     Logo esteve a notícia em todas as bocas, circulando nas ruas em redor, Dona Flor recebendo felicitações mesmo antes de saber do sucesso da missão com tanto brilho levada a cabo por seu Zé Sampaio (aliás escolhido para padrinho no ato religioso, em agradecimento).

    Na noite de sábado, na expectativa do encontro do pretendente com a viúva, reuniu-se pequeno e animado sereno ante a casa de Dona Flor: as comadres postaram-se desavergonhadas no passeio do argentino, fechando a sala de visitas da Escola de Culinária.

      Dona Flor aguardava sorridente e calma a visita excitante; encontrando-se, como devido, cercada por seus parentes próximos, no caso os tios, e por seus amigos mais íntimos (inclusive Dona Dinorá, que ameaçara guerra sem quartel, se não fosse convidada), três ou quatro casais, Dona Maria do Carmo e a moça Marilda (tão nervosa como se fosse o pedido de sua mão) e, na melhor cadeira, o doutor Luís Henrique, personalidade da administração pública e das letras pátrias, amigo da família, uma espécie de parente rico. Lá fora o sereno crescia em gente e em saliência.

     Doutor Teodoro surgiu na hora exata, na precisão de seu cronômetro suíço, numa lordeza que só vendo, flor à botoeira, um figurão esplêndido, a estremecer todas as comadres. Recebido com certa cerimônia por tia Lita, após cumprimentar todos os presentes, dirigiu-se ao lugar qu