Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites
Série “Lobo Wyndham”
D R I F T W O O D
Burke Wolftauer, Clam Cop, limpou as mãos em seu short e observou o SUV arrancar na Praia Chapin durante a maré baixa. Apinhado com humanos meio embriagados, suados e seminus, o Lexus rugiu praia abaixo, por pouco fazendo desaparecer um pulante golden retriever. Rugiu até deter-se na espuma de areia e lama, e quatro portas se abriram para deixar cair à humanidade bêbada na praia (antes) tranqüila.
Tudo o que não significava nada para ele, porque a lua cheia estava só a meia hora de distância.
Burke desenterrou um mexilhão para o jantar, o abriu com suas unhas e o engoliu ruidosamente olhando para os macacos. Bem... Nada amável. Nem politicamente correto. O Homem-Chefe não o aprovaria (embora a Senhora do Chefe provavelmente não se preocupasse). Mas ele nunca se pareceu com seus primos evolutivos ainda mais quando havia bebido. Homo sapiens bêbados. Eles virtualmente arranhavam suas axilas e tiravam lêndeas de sua pele. Um pacote de seis Buds e um recipiente térmico de Cosmos e de repente todos imitavam o sexo e bebiam como Koko, o macaco.
Tudo o que não significava nada para ele, porque a lua cheia estava só a meia hora de distância.
Agora veja: não é que um deles tivesse idade suficiente para beber, e nem que estivesse sóbrio. Estacionaram muito longe da praia para essa altura do dia, e é claro que não deixaram sair o ar de seus pneus. Eles estavam na praia a trinta segundos e Burke contou uma ofensa arrastada, duas multas, e uma por excesso de velocidade.
Ele lambeu a salmoura de ambas as metades da concha de mexilhão, saboreando o gosto salgado, “o mar que se fez carne”, como Pat Conroy escreveu um dia. Um cara esperto esse Conroy. Bom senso de humor. Talvez fosse divertido andar com ele. Provavelmente não muito simiesco quando bebia umas quantas. O cara provavelmente poderia cozinhar como um filho da puta, também.
Burke fez o mexilhão arrebentar em sua boca e agora vazia fez a concha rachar. Cálcio: bom para os ossos. E na sua idade (cerca de trinta e oito anos) necessitava de toda ajuda que pudesse conseguir.
Então ele se levantou, limpou a areia de seu short, e caminhou para o Lexus agora abandonado. Podia ver os adolescentes correndo adiante, fazendo cócegas e gritando. E nenhum deles olhou para trás, é claro.
Ajoelhou-se pela roda traseira esquerda, arrepiando-se de desaprovação à vista dos pneus... Pneus que despedaçariam a praia em pouco tempo. Ele se inclinou e deu-lhe uma mordida. Houve um softfffwwaaaaaaahhhh quando o pneu imediatamente desinflou e o SUV inclinou-se para o lado esquerdo. Burke mascou pensativamente. “Hummm... Michelins...”
Fez o mesmo aos outros três, sem preocupar-se com testemunhas... Nesta época do ano e de dia, a praia estava quase abandonada, e além disso, quem esperaria que ele fizesse o que acabara de fazer?
Caminhou de volta até a praia para recuperar o balde e o ancinho, usando uma velha navalha de barbear para remover a borracha de seus dentes. Arrotou contra o dorso de sua mão e recordou que já não era uma criança... Meio que esperava uma noite de indigestão.
Valia a pena. Sim.
Serena Crull ouviu que alguém se aproximava de seu buraco e ficou imóvel e silenciosa como... Bem, uma tumba.
Isso era uma melhora sobre o que ela havia dito doze horas antes, quando caiu de bunda na frente do buraco de dezoito metros de profundidade: “filho da puuuuuuuu... Ooommpph!”
Isso foi seguido de: “Merda!”
E: “Filho da puta!”
E: “Ai”.
Que seguiu por quase doze horas de carrancudo silêncio. Tentou escalar: nada bom. Acabou por derrubar mais areia escorregadia em cima dela. Não se incomodou em saltar: não era uma maldita rã. Saltou para baixo uma vez, mas essa era só uma história ou algo assim e, francamente, doeu uma barbaridade. Sem mencionar que não aguentou a aterrissagem. Saltar para cima? Talvez em outros cinqüenta anos.
Então o sol subiu, e ela realmente ficou fodida. Brincou de correr a uma esquina (ou o que alguém chame rincão em um buraco que serve de refúgio), jogou um pouco de areia sobre si mesma, e esperou que o sol assassino caísse no oceano uma vez mais. Que faria depois disso, não tinha nem idéia.
E morria de fome.
Ela morreu e estava morrendo de fome.
Bem: Estava morta e morria de fome.
De cima:
— Olá.
Ela não disse nada.
— Olá. Aí embaixo. — Pausa. — No buraco.
Ela não pôde resistir, não pôde impedir fisicamente que sua mandíbula se abrisse e a voz resmungona estalasse, era simplesmente tão exquisitamente estúpida, aquela pergunta:
— O que, no buraco? Onde mais poderia ser? Idiota de merda.
Pausa mais longa.
— Eu vou para conseguir ajuda.
— Não faça isso. Estarei bem.
— Alguém terá uma corda em seu caminhão.
— Por que não tem corda em seu caminhão? — não pôde resistir e perguntou.
— Não preciso.
Foi surpreendente: o homem (voz agradável... Profunda, tranqüila, quase aborrecida) parecia tão indiferente como um... Um... Não pôde pensar o quê.
— Eu também não.
— Também o quê?
Voz agradável: não muito brilhante.
— Você precisa de uma corda. Eu não preciso de uma corda. Nenhuma corda! — Não, agora! Uma ajuda neste momento seria desastroso. Ela poderia imaginá-lo com uma clareza terrível: pxar e puxar, e aí estava, graças a Deus a salvo, e que demônios? Ela estava... Ela foi chamada de prostituta!
Tal como seu herói, Homer Simpson, diria:
— Ah, não!
— Como você caiu lá dentro? — perguntou seu pretenso a salvador.
— É impossível que haja um buraco profundo na praia. A areia o encheria.
— Não sou um biólogo marinho, ok? — ele a agarrou.
— Geólogo, — disse ele. — Não é um geólogo.
Foi incrível: ela passou o dia sozinha, em horas de silêncio, aterrorizada com a luz solar, esperando não ter que confrontar uma morte terrível, e agora queria que seu salvador se perdesse no inferno.
— Vá para o inferno.
Pausa.
— Você bateu a cabeça quando caiu?
— O que?
— Parece, — acrescentou —, um pouco desagradável.
— Estou em um buraco.
— Bem. Não posso deixá-la.
— Oh, sim, você pode, — animou-o.— Só... Siga a qualquer lugar que ia.
— Eu realmente não tenho que ir a nenhum lugar.
— Oh, buuu fodido buuu. Esta é a parte onde estou toda coberta de orvalho entre minhas pernas e lhe conto em segredo quão só estou, também, e o que suporia para mim, caindo de traseiro e você me arrastando? E então o que fazemos?
— Alguém te empurrou aqui para baixo?
— Cale-se e desapareça. Estou bem.
— Talvez o corpo de bombeiros? — ele refletiu em voz alta.
— Não. Não, não, não, não, não, não, não.
—Bem. Precisamente, não pode me deter.
Ela ofegou.
— Não se atreveria.
— Mesmo se você estiver louca. Simplesmente não posso deixar de ajudá-la.
— Vá embora, Garoto Escoteiro.
— Simplesmente não posso esperar mais.
— Grande. Ótimo. Divirta-se, onde quer que vá. Vá logo.
— Tenho um problema.
— Está bemmm! — Ela disse alegremente, deixando sair o seu Minnesotan interior, que era uma melhora de seu canibal interior, que quis estrangular e comer esse homem misterioso, rasgando em pedaços a carne de seus ossos e estrangulá-lo com elas, então fazer um buraco em sua jugular e bebê-lo de um gole só, como um Slushee Pup de framboesa azul. — Tchau então!
— Mas talvez eu pudesse fazer-lhe companhia até que seja o momento de... Que eu vá. — Outra pausa, então, em voz baixa —: Embora isso pode não funcionar.
— Ah!, não, — ela quase gemeu. — você vem para cacarejar no meu buraco, e depois partir?
— Sim, você está certa. Isso não vai funcionar.
— E por mais razões do que você pode imaginar, Garoto Escoteiro.
— Não tenho celular, esse é o problema.
— Eu também não. Ah!, isso é tão doce, olhe quanto temos em comum; o que machuca é que não estamos fazendo sexo neste segundo.
Pausa.
— Siga retirando o sexo.
— Sim, bem. Foi um dia fodidamente comprido.
— Fodido?
— Cale-se, Garoto Escoteiro.
—Simplesmente não precisa se preocupar.
— Tira-me uma enorme carga da minha mente, Garoto Escoteiro.
— Porque acontece que não posso... Não tenho... Eu só não me sinto atraído por você para nada.
Ela agarrou a cabeça.
— Isto... Não... Está... Acontecendo.
— Não quero ferir seus sentimentos.
Insano, isso ele era.
— Ei! Para todos aí de cima saberem, sou uma loira anoréxica com seios enormes, pele cor de leite e um caso feroz de ninfomania.
Outras dessas pausas enlouquecedoras.
— De qualquer forma, isso não é realmente o problema. O problema...
— Caralho. Eu não preico que me diga qual é o problema. Por favor, vá embora.
De repente ela ouviu uma inspiração profunda, como se ele tivesse tomado uma rápida e difícil decisão, e logo houve um assobio e um estrondo, e ele estava de pé a seu lado.
Cinco minutos mais tarde ela ainda gritava. Na frente dele. O buraco era só de aproximadamente noventa centímetros de diâmetro. Estavam peito a peito. E ela era estridente. Realmente estridente.
— ...Você deixou seus miolos lá encima, Garoto Escoteiro, uma vez que não foram pesados no departamento de inteligência em primeiro lugar!
— Simplesmente pareceu uma boa idéia, isso é tudo.
— Pareceu uma boa idéia?
— Uau. Você é realmente estridente. Enquanto grita farei uma ponte e vou te atirar.
— Fará uma o quê e a mim o quê?
— Fazer uma ponte com minhas mãos. Assim. — inclinou-se para frente para mostrar, e imediatamente chocaram seus crânios.
— Ai!
Ele podia sentir que ficava vermelho.
— Desculpe. — E ficar vermelho não era quão único estava conseguindo. No que tinha pensado? Ela tinha razão: tinha deixado seus miolos lá encima com a merda de gaivota.
— Esta era sua solução? — Repreendeu-o, esfregando a testa — ...Sem telefone celular, sem corda, e agora ambos estamos aqui?
— Realmente é pequeno aqui embaixo, — disse ele tentando não soar tenso. — Não parecia tão pequeno lá de cima.
— É um buraco, Garoto Escoteiro. Não uma toca subterrânea cavernosa.
Ele arranhou o braço, e quando seu cotovelo atingiu contra o lado do buraco, caiu areia, causando-lhe mais coceira.
— Pode respirar bem? — Ele tratou de não ofegar. — Há bastante ar aqui embaixo? Acredito que não há bastante ar aqui embaixo.
— Oh Deus, oh céus. Não acredito. Realmente você fez uma terrível situação agravar-se, piorou-a, então a piorou mais. Está bem?
— É só que não há nada de ar aqui embaixo. — agarrou-se a cabeça. — Nada de nada.
— É claustrofóbico e pulou em um poço?
Ele gemeu.
— Não fale sobre isso.
— Mas por que, Garoto Escoteiro?
— Simplesmente não podia te deixar aqui. Mas você não está realmente aqui.
— Cheirou com força. Seu cabelo era uma boina perfeita de cachos escuros (ele pensou; não havia muita luz aí abaixo) e em circunstâncias normais o encontraria muito bonito. Cheirou sua cabeça outra vez. — Não acredito que esteja aqui absolutamente.
— Garoto Escoteiro, você perdeu o pouco notável miolo que tinha em primeiro lugar. — Ela conseguiu dobrar seus braços sobre seu peito (e ele pensou) que o fulminava com o olhar. — Se isto é alguma estratagema para me impressionar é complicado de fazer sexo...
— Eu não posso fazer sexo com você. Você não está aqui. — Ofegou outra vez. — Não posso respirar. Como você pode respirar?
— Bem, aparentemente eu não estou aqui, — disse ela secamente. — E não comece com por que não começar com a coisa toda de oxigênio não é um problema para mim. Eu... O que você está fazendo?
Ele tropeçou em volta e escavou as paredes arenosas, cavando para tentar sair e sem conseguir nada além de jogar uma chuva de areia entre eles.
— Garoto Escoteiro, controle-se! — Ela tossiu e cuspiu alguns grãos de areia em suas costas. — Só vai piorar as coisas!
Ela choramingava detrás dele e não a ouvia, não podia ouvi-la, a areia estava em toda parte, em sua boca, em seus ouvidos, em seus olhos, e estava tão perto, não era um buraco, era uma tumba e se enchia, encheria-se com ele dentro.
Arranhou a parede, arrancou, balizou, escavou, tentou subir, e podia ouvir a mulher gritando, chiando, sentir seus golpes em seus ombros e eles eram tão pesados como moscas aterrissando.
E a lua esteva lá. A lua veio para ele na sepultura e trouxe-o para fora, e levou-o, e foi capaz de sair do túmulo com dois saltos desajeitados e logo estava gritando, gritando para a lua, uivando à lua, e ela já não gritava, a cova estava cheia e ela estava calma, por fim ela estava calada e ele correu, correu, correu com a lua e seu último pensamento como um homem foi, “Que fiz eu?”
— Ela está aqui, — disse Burke tão envergonhado que não podia levantar a vista da areia.
— Por aqui? —Jeannie Wyndham, a fêmea Alpha de sua Matilha, cavando nas pequenas dunas com o pé em seus chinelos — Isso é bastante vago para um cara com um nariz como o seu. Este é o local ou não?
— Eu... Eu acho que é. É difícil dizer. Não posso cheirá-la absolutamente. Só posso cheirar a mim mesmo. E estou em todo lugar. Depois de que saí do ho... Buraco, só corri.
Michael, o líder da matilha, se agachou e equilibrou-se em seus calcanhares enquanto seus olhos amarelos varriam a área. Ele não disse nada, então Burke ficou profundamente grato. Não suportaria sofrer uma repreensão, mas merecia.
— Burke, nos dê uma pausa, —disse Jeannie, soando (não era exatamente raro) exasperada. — Tropeçou com uma mulher que precisava de ajuda...
— E a deixei para morrer.
— ... E fez o que podia. Vocês meninos são... Cada homem-lobo que conheci apresentou algum distúrbio que é um transtornado claustrofóbico que deveria estar controlado, mas você saltou dentro de um buraco para tentar salvá-la antes de sua mudança. Ela tinha uma merda de chance mesmo.
Burke poderia pensar em várias possibilidades que a pobre mulher morta poderia ter tido, mas não era prudente corrigir a Jeannie, então ficou em silêncio.
— Não, acredito, —disse Michael. Havia uma depressão profunda na areia, uma confusão de rastros... E rastros de lobo, afastando-se. — Você está certo, Burke. Eu posso te sentir por toda a areia, e as outras pessoas — turistas que só saíram no dia, gente que apenas passaram por aqui — e isso é tudo. Certamente não há nenhum cheiro de uma mulher que tivesse esteve presa no fundo de um buraco por mais de vinte horas.
— Bem, se não poder cheirá-la, e Burke não a pode cheirar... — Jeannie fez uma pausa, depois disse rangendo os dentes —, precisam de uma namorada.
— Não faço.
— Claro que não, —Michael disse com um olhar severo sobre sua esposa. Ela mostrou a língua, e ele continuou. — Mas houve, ah, inquietações. Você morava sozinho a maior parte de sua vida. Ninguém o vê. O único momento em que qualquer de nós v-loê é se você nos chamar... Deus sabe que não faço isso a menos que seja uma verdadeira emergência, ou encontrar um novo bebê...
Burke não disse nada, mas sabia aonde ia Michael. Os homens lobo não eram criaturas solitárias. Eles foram concebidos para acasalar jovens e terem muitos filhotes. Os patifes —até mesmo os malandros — o faziam sentir-se particularmente nervoso. Agora, eles pensavam que o esforço de nunca ter filhos havia levado-o ao limite. Se não estivesse tão miseravelmente envergonhado, teria rido.
— Pelo menos ontem foi a última noite de lua cheia, — disse Jeannie, protegendo os olhos enquanto observava o sol afundar no oceano. — Ou não estaria falando com nenhum de vocês em cinco minutos.
— Voltarei para a mansão logo que puder, —Burke explicou. — Quando acordei esta manhã, estava em Vermon. — Foi uma surpresa. Ele correu e correu e correu, mas não conseguiu deixar sua vergonha, sua culpa e horror para trás.
— Bem, não há ninguém ao redor. Por que não cavamos um pouco e vemos no que dá com isso, sabe? —Jeannie perguntou com falsa vivacidade.
Burke sabia, ao igual a Michael, que apesar da penumbra que se fazia mais profunda havia gente ao redor, mas ninguém tão perto. E em qualquer caso, cavar buracos na praia não era exatamente um comportamento suspeito. Diabos, as pessoas pagavam dinheiro por licenças para pescar mexilhões só para cavar na praia.
Ele caiu de quatro e começou a tirar grandes punhados de areia com suas mãos, ignorando as pás que Jeannie trouxera.
— Anime-se, —disse Jeannie, trocando seu peso incomodamente de um pé para outro. — Ali provavelmente não há ninguém... Quero dizer, podemos não encontrar nada.
— E se encontrarmos algo, não foi culpa sua.
— Desculpe, —Burke disse educadamente —, mas foi totalmente minha culpa. Obrigado por terem vindo comigo.
— Como vamos deixá-lo cavar sozinho no escuro, pensando que pode tropeçar com um cadáver? Bhá!, Burke! Além disso, é engraçado. Você não só é o homem-lobo mais agradável, mais também é o mais aprazível e calado. Você não poderia matar a uma mulher mais do que eu romperia o braço da Lara.
— Não, ela não poderia fazer esse tais coisas, — disse Michael brevemente; ele conservava seu fôlego para cavar.
Burke grunhiu e seguiu cavando. Conhecia Lara, uma criatura encantadora e a futura líder da matilha, e francamente, perguntou-se como Jeannie impediu que a espirituosa moça quebrasse o braço. A lobinha não era nem uma adolescente ainda, e algumas de suas façanhas já eram lendárias, como a vez que saltou do teto da mansão e usando seu edredom como um pára-quedas; mas não saiu completamente da forma em que havia planejado e ela caiu como uma pedra, rompendo um tornozelo e assustando como a Santa merda a seus pais.
Eh. Isso foi um dia daqueles.
— Quanto tempo... Devemos ... Continuar a cavar... Antes de decidirmos... Que Burke não é um assassino? — Jeannie ofegou.
— Até que encontremos o... — Burke congelou, chegou mais fundo e sentiu seus dedos se fecharem ao redor de... Um antebraço. Inclinou-se para trás e puchou, as lágrimas picavam seus olhos pela areia. Sim, a areia e pensar que a pobre mulher morreu sozinha, morrendo na escuridão, morrendo enquanto a areia enchia suas narinas e pulmões e finalmente parou seu coração.
Morreu sozinha.
— Oh meu Deus! — Jeannie gritou num sussurro quando ele ficou de pé, tirando o corpo livre da areia até que ficou pendurando de seu forte aperto como uma marionete cujos fios foram cortados.
— Burke! Oh meu Deus!
— Você... Acho que deveríamos encontrar a sua família, —disse Michael, recuperando-se rapidamente, motivo pelo qual ele era o chefe e Burke era Clamp Cop.
— Se não podermos, daremos a ela um apropriado...
—Oh não! — O corpo disse bruscamente, balançando-se no ar e chutando Burke na canela. — Não me desenterrou só para bum!, me colocar em outra tumba. E você — grunhiu, quando a areia que polvilhava seus cabelos e rosto caiu de seus ombros e sua roupa e presas... Presas? E atingiu a praia. — Estou morrendo de fome e é... Tudo... Sua culpa! —Assim dizendo, carregada, grudou nos ombros de Burke como um marisco, e afundou seus dentes ao lado de seu pescoço.
Levou a força combinada de Jeannie e Michael, além de muito puxar e de gritos e ameaças, antes que a mulher morta fosse arrancada. Todos estavam arranhados e sangrando antes que terminasse.
— Não fale, — disse a mulher morta, limpando o sangue de seu queixo e retrocedendo ante eles. — Não fale, não me olhe, não me enterre.
— Mas... Você... —Jeannie procurando as palavras e terminou por agitar seus braços no ar como uma animadora de torcida que esqueceu sua rotina —. Você não pode... Você...
Michael pigarreou.
— Senhora, você está morta. Não tem cheiro, não tem pulso. Você, isso, deveria deitar-se e estar morta.
— Arggg!, feche o maldito bico. — Ela girou e apontou com um dedo sujo para Burke, quem estava tentando entender se estava apavorado ou aliviado. — E você! O número de suas grandes ofensas contra mim crescem por hora! Meia hora! Agora me deixem. A mim. Sozinha!
Ela girou e se afastou a pernadas, com os punhos apertados quando os ouviu apressar-se atrás dela.
Voltou-se para trás.
— Me deixem. Sozinha. Algo não está claro? Algum de vocês não fala inglês bem?
— Já entendi! — Jeannie gritou com o humor histérico de um competidor Jeopardy — É uma vampira!
— Não, não é, — Burke e Michael disseram em uníssono.
O corpo pisou forte, e os três recuaram.
— É claro que sou uma vampira, idiotas! O que mais poderia ser? Um Sasquatch? Nessie?
— Não existem vampiros, — disse Michael brandamente.
— Acredito que deve ter entrado em choque quando foi sepultada e isso te protegeu até que pudéssemos te resgatar...
— Me resgatar?
— E a coisa toda foi demais para seu organismo e agora pensa...
— Ah, merda. Eu não preciso respirar, logo, não me asfixiei, e não podia sair do buraco durante o dia. Logo, não estava enterrada viva. Está me dizendo honestamente que os homens lobo não acreditam em vampiros?
—A existência de um não prova a do outro, —disse Michael rigidamente. — Acredito em bruxas, mas isso não quer dizer que acredito em duendes.
— Como sabia que eles eram homens-lobo? —Jeannie perguntou, examinando o arranhão em seu cotovelo esquerdo.
— Porque o Garoto Escoteiro perdeu todo os seus poucos neurônios, deu-lhe um ataque de gritos digno de um fã dos Beatles, converteu-se em um lobo, e saltou de um buraco de 4 metros. Me chame de louca.
— Louca, — Jeannie disse alegremente.
Burke tocou a marca da mordida em seu pescoço, que era uma crosta. Isso explicaria muito: a sua relativa calma estando em tal situação, sua completa falta de odor, e, naturalmente, seu caminhar e conversação depois de estar enterrada viva durante mais de vinte e quatro horas.
Toda sua vida, tinham-lhe contado lendas de lobos, fadas e bruxos de água , e um beta cinza que disse uma vez ter visto um demônio, mas nunca ouviu falar de um vampiro, ou mesmo visto um.
Até, obviamente, agora.
— Você está viva, — disse ele e era impossível esconder o alívio em sua voz, embora tentasse. Apesar de seus esforços, tanto Jeannie como Michael viraram-se e o olharam de forma estranha.
— Notícias de última hora, Garoto Escoteiro: eu estive morta durante quarenta anos. Lamento do... Você sabe... — Gesticulou vagamente em sua direção: os três estavam arranhados, mordidos, despenteados, arenosos. — Estava com fome e a sede fugiu um pouco das mãos. Agora, tenho que ir. Comeria um rato só pela possibilidade de tomar banho.
Sem outra palavra, virou-se e partiu pelas dunas.
Burke olhou para seus líderes de matilha.
— Adeus, — disse simplesmente.
Michael estendeu sua mão e a deram.
—Suspeito que não o veremos por um tempo. Se você sempre faz.
— O que? — Jeannie perguntou.
— Não sei, — respondeu francamente.
— Acho que dependerá de... de... nem sei o nome dela.
— Cuidaremos da sua casa para você. Tudo o que é seu estará sempre aqui a sua disposição.
— O que? — Jeannie perguntou outra vez.
— Obrigado, Michael. Agradeço sua ajuda esta noite. Tenho sua permissão para ir?
— Tem minha permissão, irmão, e boa caça e muitos filhotes, —respondeu, o adeus formal de um líder de matilha que libera um macho beta de seu cuidado.
— Você vai atrás dela? Já decidiu que vão ser companheiros e viver felizes para sempre apesar dela estar morta e nem sequer sabe seu nome?
— Adeus, Jeannie.
— Burke! — ela uivou, mas ele a ignorou e cortou em meio a escuridão, um verdadeiro rebelde, agora.
De alguma forma, o Garoto Escoteiro a seguiu, porque ele a esperava no estacionamento, as luzes de néon refletiam em seu cabelo negro, fazendo-o parecer muito similar à cor do sangue.
— Tenho um banheiro, — disse a modo de saudação.
— A um lado, Garoto Escoteiro. O tenho visto todo hoje.
— E uma casa. Você poderia ficar lá e... E descansar durante o dia e fazer suas coisas à noite.
Humm. Tentador. Os cartões de crédito podiam ser rastreados, um hotel decente não aceitaria dinheiro vivo, e não queria ninguém vendo as suas idas e vindas. Ficar com um estranho por uma noite ou duas era... Espera. Ele teria enlouquecido? Porque estava realmente pensando. A oferta de um cara louco. Como se ele não a tivesse deixado no maior dilema de sua vida apenas na noite passada.
Bom. O segundo maior.
Apesar do seu lado mais suave argumentar que ele tentou ajudá-la. Mau, mas o esforço contava algo, certo?
— Por favor, — disse ele, e isso surtiu efeito. Ficou desfeita; não foi o “por favor”, foi a maneira que a olhou quando pediu: miserável e esperançado de uma vez só.
— Ah, está bem, — murmurou. — Talvez à noite. Espero que um desses carros seja o seu.
— Não. Mas minha casa está um pouco além das dunas, além do Motel Beachside. —Ele apontou para uma linha de luzes na distância e ela suspirou interiormente. Foram duas noites duras, e não estava à altura de uma excursão, a força, não-morta ou não.
Ela abriu a boca para amaldiçoar, apenas para sentir-se levantada do chão quente em seus braços.
— Não é longe, — prometeu-lhe, e pôs-se a correr pelo terreno e para as dunas.
— Garoto Escoteiro, você vai arrombar sua fodida costas! — gritou em silêncio, encantada. Quando foi a última vez em que foi carregada e levada como uma noiva sobre a soleira? Sua mãe morreu quando ela era criança; seu pai estava muito ocupado trabalhando em dois empregos para carregá-la; o câncer o levou em seu primeiro ano na U do M. Depois disso... — peso uma tonelada!
— Dificilmente, — disse, e o ardiloso filho da puta nem sequer estava sem fôlego. Correu com ela através da areia, em frente do motel, uma pequena colina coberta de arbustos grossos, sem podar, e depois à esquerda, a deixou num alpendre coberto de areia. Ela virou-se e olhou, e mal conseguiu distinguir as luzes do estacionamento. O Garoto Escoteiro podia se mover. Mas então, ela só viu evidências disso na noite anterior.
Ele abriu a porta e fez um gesto raro... Meia onda, meio arco.
Ela entrou na casa.
— Sem fechaduras, não é?! Amamos Cape.
— Ninguém ousaria, — disse simplesmente.
— As luzes farão mal a seus olhos? Podemos deixá-las apagadas se preferir.
—Não, as luzes fazem bem.
Click.
Os dois piscaram em sua sala de estar, ambos conseguindo seu primeiro bom olhar um do outro e ambos muito satisfeitos com o que viram.
Por sua vez, ela viu um homem alto, esbelto, de cabelo negro com olhos cinzas... Os únicos olhos cinzas que viu na vida, uma verdadeira cor cinza, a cor do céu quando estava prestes de haver uma tormenta. Vestia short sujo, sem camisa e descalço, e tão curtido como um velho sapato. Rugas de risada — exceto ele nunca riu, ou sorriu — ao redor daqueles olhos incríveis, tempestade de cores. Suas pernas eram fortes como os músculos e seus braços pareciam os de um nadador: magros e fortes. A aparência de suas mãos eram de serem grandes e de capazes. Sua boca era um permanente arco curvado para baixo; inclusive quando tentava sorrir, parecia triste. Gostou disso, estando ela mesma geralmente de mau-humor; às vezes era agradável estar longe de perpétuos sorrisos, e Minnesota tinha mais do que seu quinhão suportaria.
Burke viu uma alta mulher (ela descalça chegava até a altura do seu queixo) com um belo rosto clássico, o nariz afilado, testa alta, queixo pontudo. Olhos negros, pele da cor do café expresso. Membros largos e esbeltos. Os ombros largos quase faziam desaparecer seus seios. Os dedos e as unhas sem pintar; calça de linho suja e uma camiseta tão imunda que não tinha nem idéia de qual era a cor original. E se ele fechasse os olhos não podia vê-la: ela não exalava nenhum odor próprio, apenas de areia e mar. Ela era como um camaleão para o seu nariz; adquiria os aromas ao seu redor, os aromas que ele amava. Pensou que seu sotaque era da mesma maneira: não soava semelhante a nada. Não deixava cair o R como os aldeãos, não tinha o som vibrante do Centro-Oeste, ou o sotaque sulista. Não soava semelhante a nada. Ou, melhor dizendo, parecia apenas com ela mesma, e era precisamente perfeito.
E lá estava ele: a sensação do correto a respeito deles, o sentimento de que ela era para ele e ele era para ela. Embora só um deles soubesse.
Isso era bom. Ele era um homem paciente.
Ela confundiu seu silêncio com algo mais e olhou a si mesma, foi a primeira vez que ele a viu contida:
— Ugh, olhe para mim. Devo cheirar tão mal como me vejo.
— Você é linda.
— Ugh, pare agora mesmo.
— Mas você é, —disse ele, perplexo.
Seus olhos castanhos se estreitaram enquanto o estudava.
— Garoto Escoteiro, tire esses pensamentos de sua cabeça agora mesmo.
— Qualquer pensamento de que você é linda?
— Uh-hum. Não sou linda; é a mística vampiro. É como... Como um hormônio que emito. Faz mais fácil para mim te morder. Qualquer vampiro pode fazê-lo.
— Você não tem cheiro algum; como é possível emitir um hormônio?
— Porque você confia em mim, não sou linda. Tenho um nariz grande e pés grandes e seios pequenos e meu cabelo nunca cresce assim sempre pareço uma ovelha tosquiada.
Ele se sentiu enjoado com a injustiça de sua auto-percepção.
— Ei?!
—Isto nunca vai funcionar. Nem em mil anos.
— Ei?!
— Olhe para nós.
Ele sorriu.
— Não, olhe de verdade.
— Não me preocupa que você seja uma vampira.
— Nem sequer sabe o que é uma vampira, ou o que ela faz.
— E? Você me mostrará isso.
— E a diferença de idade?
Ele deu de ombros.
— Garoto Escoteiro, tenho pelo menos cinqüenta anos a mais que você! Tinha trinta anos quando morri!
— Então chame um lar de anciões.
— E...
— E?
— Você é branco.
Ele esperou pelo resto da explicação, e ela teve que resistir o impulso de dar um soco em sua tv.
— Sou negra, você é branco. Ouviu?
— Quer dizer... Você é racista?
— Não sou! Todos os outros, sim! E nem se atreva a dizer quão moderno é ser negro ou ter uma noiva negra porque as tendências são cíclicas, são sim, e um dia você vai acordar e não estarei mais na moda e então o que vamos ser?
— Senhorita, — disse com paciência —, vai ao chuveiro ou não?
— Garoto Escoteiro, você não ouviu nada do que eu disse, não é?
— Tem olhos como o chocolate, — disse como se estivesse sonhando.
— Nem sequer sabe meu nome.
— Ah. Bem. O meu é Burke Wolftaur.
— É claro. Grande disfarce, a propósito, homem-lobo. Correr de um lado a outro na praia justo antes de uma lua cheia, tendo a palavra lobo em seu maldito sobrenome, é verdadeiramente brilhante.
Ele deu de ombros.
— Estava retornando para a minha casa; teria feito com tempo de sobra se não tivesse conhecido você.
— Ah, então é minha culpa você ser um estúpido?
— Sim. E os nomes de todas as matilhas voltam para as mesmas raízes. Há centenas de Wolfs, Wolftons, Wolfbauers, Wolfertons, aqui mesmo em Cape.
— Repito: grande disfarce, estúpido. Sou Serena Crull, a propósito.
— Cruel? — ele perguntou.
— C-R-U-L-L.
— Ah.
— Bem, ao menos meu nome não é Serena Vampireton, maldito idiota.
— O banheiro fica no corredor à sua esquerda. Vou procurar algumas roupas limpas.
— Tem muitas amigas que ficam para passar a noite, hein?
— Não, você terá que se arrumar com minhas roupas.
— Oh, que comece o desfile de modas!
— Ficará linda, — afirmou categoricamente, como se afirmasse um fato: choverá esta noite. Estava muito nublado para ver as estrelas. Será satisfeita.
— Garoto Escoteiro, você é um moço branco raro, alguém já lhe disse isso?
— Nunca na minha cara, — respondeu, e foi pegar algo para ela vestir.
Burke fechou o refrigerador e se virou, então quase deixou cair a caixa de leite no pé. Serena estava parada lá e não tinha ouvido nada.
— Isto é desconcertante.
— Obrigado, Garoto Escoteiro. Se isso é para mim, não se incomode. Não bebo... Leite.
— É para mim, na verdade. Ainda posso sentir a areia de ontem à noite. — serviu-se de um copo grande e bebeu de uma vez, como se fosse cerveja. Não cairia mal uma cerveja, mas não havia uma gota na casa. Olhou carrancudo o recipiente, em seguida, serviu-se mais. — Como se sente? — perguntou.
— Estava prestes a te perguntar o mesmo. — Ela agarrou um guardanapo da pequena pilha na mesa da cozinha, deu um passo adiante, e limpou seu lábio inferior.
— Eu mal posso ver onde te mordi.
— Saro rápido. Metabolismo rápido. Querida, diga-me. — Ela retrocedeu muito rápido, ele pensou, como se tivesse medo. Não, que ele pudesse dizer com precisão... Era enloquecedor não ser capaz de cheirar suas emoções. E tentador. Mas sobretudo enloquecedor.
— Então? — Ele girou em um pequeno círculo.
— Como estou? Está preparado para chamar à revista Vogue?
— Está com bom aspecto, — disse, o que era uma flagrante subestimação. Ela usava uma de suas camisetas branca sem mangas, o que só acentuava seus pequenos e firmes seios e a doce suavidade de sua pele escura. Francamente, a camiseta enfatizava seus seios que eram todos mamilo, o que o fez querer tirá-lo para vê-lo, o que o fez desejar...
— Bem, — repetiu, processando sua mente de volta ao tema. Tentando, de toda forma. — Está com bom aspecto.
— Bem, a calça esportiva nunca ia funcionar, então encontrei um short seu. — Em todo caso, chegavam aos seus joelhos e a faziam vê-la irresistivelmente bela; ela balançou seus pés descalços e ele sorriu. Ainda estava úmida do banho; a água brilhava em sua cabeça com pequenos cachos negros.
Apressadamente bebeu mais leite. Pena que não era pelo que ele estava sedento.
— Bom, agradeço a roupa e o banho e o lanche noturno... —Ela tocou-lhe a garganta à maneira de dar-lhe uma explicação e ele concordou. — Mas é melhor eu me por a caminho, como diziam no velho Oeste, pouco antes que matem todos os índios. Desculpa: Nativos Americanos.
— Espere. Quero ajudar.
— Me ajudar com estes shorts, talvez, — brincou, e ele rapidamente desviou o olhar para que não percebesse o quão próximo ela estava da verdade.
— Não, acho que nos irritamos o suficiente por uma noite... Bom, duas noites. Você?
— Você não pode fazer por si mesma.
— O quê?
— Seja o que for que você veio fazer aqui. Não é uma nativa, e não é uma turista. Algo te trouxe ao Cape. Quero te ajudar com isso.
— Por que?
Porque você é linda. Porque fui um covarde. Porque sabe o que sou e não tem medo. Porque sei o que é e não tenho medo. Porque. Porque.
— Sinto-me mau, — disse ele com cuidado —, por ontem à noite.
Ela apartou sua covardia com uma mão de unhas mordidas.
— Isso? Esqueça.
— Nunca.
Ela ergueu as sobrancelhas ante seu tom.
— Estou falando sério. Fiz um escândalo, mas não foi para tanto. Foi doce — embora idiota — que saltasse em qualquer caso. Não podia controlar sua natureza, mais do que eu poderia evitar morder às pessoas no pescoço. E deixei de pedir perdão por isso faz quase trinta anos.
— Mesmo assim, é uma vagabunda. Como eu.
— Vagabunda?
— Lá fora. Sozinha. Não tem uma matilha para ajudá-la. Mas eu vou ajudar.
— Garoto Escoteiro, realmente não acredito que o faça.
— Você tem a minha palavra como ex-membro da Matilha Wyndham, eu vou.
— Garoto Escoteiro, você não quer nada disto, confie em mim.
— Abandonei-a uma vez e isso quase a matou.
Ela bufou.
— Muito menos isso.
— Não posso te deixar outra vez. Pelo menos... —Tentou uma forma de aliviar o momento, fazer uma piada. O que diria uma pessoa real? — Pelo menos não até que consigamos um pouco de roupa decente para você.
— Você é um doce, mas não deve se oferecer para se lançar em algo quando não sabe o que é.
Com paciência, avaliou-a novamente.
— Eu não me importo com o que seja. Quero ajudar. Francamente, não a vejo deixando esta casa sem mim logo atrás de você. Sou um excelente rastreador. — Era uma fraude, com sua falta de cheiro, ele poderia perdê-la provavelmente em meia hora.
Ela franziu o cenho, logo deu de ombros.
— Como quiser, Garoto Escoteiro. Você tocou as cerejas: não sou uma turista. Estou aqui por uma razão. Na verdade, estou aqui para encontrar um vampiro e matá-lo. Que tal?
— Oh, assassinato? — Guardou o leite. — Para mim, tudo bem. — Para sua diversão, ela ficou tão impressionada que se sentou.
— Olhe, a coisa é...
— Está bem, Serena.
— Mas olhe, é como...
— Quer ir agora? Ou precisa, não sei, descansar?
— Ouça. ... Nós... Tenho que encontrar o vampiro que...
— Quem lhe gerou?
Ela fez uma careta, seu nariz escuro se franziu como se algo cheirasse mal. Já que não tirou o lixo durante um dia ou dois, era totalmente possível. Possivelmente não deveriam ter essa reunião na cozinha. Possivelmente em outro local. Como o quarto. Oh, o...
— Garoto Escoteiro, não está me ouvindo. Ninguém diz “gerado”; um vampiro te faz um deles ou te mata. Na verdade, muitos de nós dizem que fomos assassinados, até se fomos feitos. Você... Foi um bocejo?
— Estava dormindo.
— Foi um bocejo! O que, te aborreço?
— Simplesmente não estou interessado nos detalhes.
— Os detalhes de como e quem vamos matar.
— Segundo você, — disse com tranqüilidade —, nossa vítima já está morta.
Isso deu-lhe alguma coisa para pensar, podia ver; ela se recostou-se na cadeira da cozinha e olhou fixamente o teto por um minuto. Finalmente esfregou sua orelha — um gesto de macaco encantador — e disse: — Ok, ok. Tecnicamente, o tipo que vamos estacar não respira e não tem pulso, ou não muito de um, e foi correndo de um lado a outro morto há pelo menos sessenta anos. Mas ainda assim. É algo muito sério.
Burke conseguiu ocultar outro bocejo.
— Não posso acreditar — disse ela, sacudindo sua cabeça —, que não quer pelo menos os detalhes.
— Ah, com certeza, eu quero. Quem, quando, e como, eu acho. Ele provavelmente vai ser difícil de matar. — Sorriu e Serena se recostou em sua cadeira. — Você sem dúvida foi.
— Bem, em primeiro lugar, quando sorri assim, tem aproximadamente um milhão de dentes. Em segundo lugar, quem é o vampiro que me fez, sim. Quando é assim que encontre o filho de puta, e o como... Temos que estacá-lo no coração ou lançá-lo em uma cama de bronzeamento ou algo assim.
— Cruzes? Água benta?
— Vai doer, mas provavelmente não o matará. E não agite nenhuma dessas coisas ao meu redor, Garoto Escoteiro.
— A estaca tem que ser feita de...
— Qualquer tipo de madeira. E deve ser no coração. Em outros lugares, vai se recuperar em pouco tempo e continuará vivendo. — Acrescentou amargamente —, não me pergunte como sei.
Burke apertou os dentes.
—Machucou você?
—Ei?! Não. Quero dizer... Não fisicamente.
—Mas o quer morto por te fazer uma morta.
—Não. Por fazer da minha amiga uma morta. Quero-o morto por mentir. Ele mentiu. Não me disse a verdade. Quero dizer toda a verdade. Deixou-me acreditar que a quem quer que mordia seria um vampiro. Não me disse que... Não fez... — cobriu-se seu rosto com suas mãos e ficou em silêncio.
Depois de um momento, Burke disse,
— Mordeu-a.
— Sim.
— E você voltou.
— Sim.
— Estava sozinha.
As mãos de Serena cairam; seus olhos estavam totalmente abertos pela surpresa.
— Sim. Uma vez que a fome de ser novo, — a loucura de ser uma vampira — uma vez que me deixou, encontrei a minha amiga. Minha melhor e maior amiga, Maggie Dunn.
— Ela sentiu sua falta.
— Estava tão feliz de que eu estivesse viva. Em certo modo viva. Já sabe. E...
— Falou com sua amiga. E Maggie te perguntou. Não importa.
— Sim, — ela engasgou. — Não importa.
— Você pensou, ou ela pensou, que ser uma vampira seria algo bom. Amigas para sempre. E seu pai — o que te fez — te fez um favor. Não te disse... O que? Não realizou todos os rituais? Fez algo errado por maldade, ou para limitar o número de sua matilha?
— Ele nunca me disse, e só mais tarde descobri que ser um vampiro... é como o sarampo. É algo que você pega. Ou não pega. Você poderia ser mordido pelo mesmo vampiro umas cem vezes, e noventa e nove dessas vezes não acontecer nada. Ou ele beberia muito e você morreria. Mas desta vez, essa centésima vez, retornaria. Pensei... Eu não soube que era um vírus de merda. Não sabia que era um maldito resfriado. E ele não me disse isso. Não nos advertiu.
— Sua amiga não voltou.
— Minha amiga. — Tomou um estremecedor fôlego e obviamente não estava acostumada, porque quase se inclinou de sua cadeira e caiu ao chão. — Minha amiga morreu gritando. E eu deixei-a ir.
— E isso foi...
— Mil novecentos e sessenta e cinco. — Sorriu. Era um sorriso trêmulo, mas estava lá —. Amor livre, você sabe.
— Por que... Agora?
— Por fim o encontrei, por isso agora. Há um novo regime no lugar, e o rei me ajudou a localizá-lo.
Ele piscou, processando.
— O rei.
— O Rei Sinclair. O rei dos vampiros. Ele se tornou um bibliotecário de Minneapolis para localizar Peter para mim.
— Peter?
— Um nome inofensivo para um chupador filho da puta não? Enfim, o antigo chefe não deu amínima para problemas como o meu. Eu sabia que não devia perguntar... Apenas nos mantínhamos fora de seu caminho. Foi uma época ruim para a maioria de nós. Mas então...
— As coisas mudaram.
— Ouvi dizer que o novo rei e rainha...
— Houve um golpe pelo poder? O velho líder perdeu? Foi assassinado?
— Sim. Então deixei as coisas se acalmarem um pouco e logo fui ao St. Paul e... Não importa tudo isso, o ponto é que consegui uma direção, inclusive consegui o nome do restaurante que dirige.
— Seus líderes... Eles sabem o que fará quando encontre ao Peter?
Ela mordiscou o lábio inferior.
— O rei sim. Ele entende este tipo de coisa. Tenho o palpite... Acho que ele mantém à rainha separada de muitas coisas sangrentas, sabe? Ela é nova neste tipo de jogo.
— Ah. — Ele sabia sobre novos companheiros de equipe, depois de ter visto (de longe) Jeannie se esforça para enquadrar-se na nova matilha. Não culpava em nada a este cara Sinclair por manter a sua esposa longe dos aborrecidos detalhes sangrentos.
— Só isso? “Ah”?
— Não há mais nada, certo?
— Sim, mas... Isso é tudo? Não entendeu nada?
— Sabe o que minha mãe me dizia todas as noites antes de antes de eu ir para a cama?
— Uh... Pare de ser tão estúpido?
— Não. Ela repetia o lema da família: Matar ou ser comido.
— Fenomenal.
— Não é essa a sua situação, como uma vampira?
Ela mexeu-se na cadeira.
— Eu, eu não acho que é o mesmo, quero dizer, não acredito ter matado alguém. É um mito que os vampiros têm que matar para se alimentarem. Meia pinta e estamos bem para a noite. Claro, estamos um pouco loucos no início... Um novo vampiro é muito louco por alguns anos. Mas você começa a se controlar. Mais que tudo... Tenta.
Ele tocou o próprio pescoço que estava completamente curado e lhe sorriu.
—É bom saber.
—Mas parece que ser um homem-lobo é muito, muito estressante. Não me admira que vivam longe de tudo..
— Não é por isso que vivo longe de tudo, — ele disse, e se levantou para deixar o leite em seu lugar, e ambos sabiam que a discussão tinha terminado.
Antes que ela percebesse, a noite tinha desaparecido e a alvorada assassina estava à espreita à volta da esquina. Serena custou a acreditar. Eles passaram a noite toda na cozinha, conspirando.
Nascido e criado em Cape, Burke conhecia a geografia local e armadilhas turísticas, e reconheceu o nome do restaurante de Pete, Eat Me Raw. Ele disse que estava “Up-cape” no “P-town”, o que diabos ele quis dizer. Não pela primeira vez, pensou que não era tão louco, associar-se com o Garoto Escoteiro.
— Poderíamos conduzir até lá agora, — disse, olhando-a sem estar convencido —, mas teria que viajar no porta-malas. E ficar lá até que o sol se ponha.
— Oferta tentadora, mas não, obrigado. Só vamos ficar aqui e vamos monitorar a primeira coisa hoje à noite. Você tem um dia inteiro, — ela provocou —, para recuperar o julgamento.
Sem uma palavra, ele se levantou e a acompanhou ao porão de sua pequena casa agradavelmente desarrumada. Era um porão terminado, fresco e escuro, em parcialmente utilizado para armazenamento. Parte do porão foi transformado em quarto, com uma pequena janela que dava ao sul, que ele o que ele efetivamente cobriu com uma toalha de praia escura.
— Tudo bem então, — disse ela, olhando a cama de casal bem feita. O quarto gritou “quarto de hóspedes”; não tinha personalidade absolutamente. Na verdade, toda a casa de Burke (bem, as partes que ela tinha visto) tinha muito pouca personalidade, como se fosse ocupada por um fantasma, ou alguém que não se preocupasse muito de uma forma ou outra. — Boa noite.
— Boa noite. — Ele ficou muito perto dela durante um momento e logo (ela pensou... Esperançada?) afastou-se a contra gosto. — Chame-me se precisar de alguma coisa.
— Ah sim. Você também. — Ele amaldiçoou seu Minnesotaisms, que surgia em momentos de tensão.
A porta se fechou. Estava sozinha no estéril quarto de hóspedes. Isso era muito ruim, porque não havia fodido em vinte anos (a sede tendia a apropriar-se de tudo, inclusive do apetite sexual e a necessidade de manicure) e Burke seria obviamente um...
Mas isso não era forma de pensar. Isso conduziria a problemas, pura e simplesmente. Tinha uma missão a cumprir e quando Pete estivesse morto, quando sua mentirosa cabeça fosse cortada e ela a tivesse chutado para o oceano, quando Maggie fosse por fim vingada, então... Então...
Bom. Não sabia. Mas isso era para depois. No momento, meteu-se entre os lençóis limpos e, quando o sol subiu (ela não podia vê-lo, mas é certo que podia sentir, sentir da maneira que os morcegos o sentiam, do modo que os vermes cegos na terra o sentiam), dormiu.
E sonhou.
Foi lindo, já que não acontecia freqüentemente. Ela não sabia que os vampiros podiam sonhar absolutamente até que isso começou a acontecer cerca de cinco anos atrás.
No seu sonho (um maravilhoso sonho, sonho lindo) ela e Maggie (Maggie!) andavam ao redor de Dinky Town, a poucos quarteirões de distância do apartamento que compartilhavam como estudantes universitárias. Eram os anos cinqüenta, e ambas usavam capris pretas e camisas masculinas brancas amarradas ao redor de seus estômagos de vinte anos. Maggie usava sapatilhas de bailarinas em seus pequenos e delicados pés (ah, como invejava os pés de Maggie) e Serena usava mocasins, que ficavam um pouco apertados, mas quem se importava? O sol brilhava e ah, era bom ser jovem, estar viva, comer casquinhas de sorvete e dar boas-vindas aos olhares de admiração dos homens na calçada em junho, em Minnesota, no verão, na vida.
— O lugar tem vinte sabores de sorvete caseiro, gloriosos sorvetes feitos a manivela como a avó fazia, e sempre escolhe baunilha. — Serena deu outra mordida ao coco chip e tratou de não olhar complacente.
— Não importam minhas escolhas, vamos falar das suas. Abandonou a felicidade por quantas décadas, e para quê? Me vingar? Para quê? Por que se sente culpada?
O sorvete de repente tinha o gosto de cinzas, e Serena teve que lutar contra o impulso de cuspir o pedaço.
— Eu não vou falar sobre isso agora. Supõe-se que este é um maldito sonho agradável.
— Cabeça dura, estúpida. — Maggie encontrou seus olhos de repente e Serena notou as marcas desiguais, marcas de mordida, todas ao redor do pescoço de sua amiga. Havia algo nela, e não foi agradável, tampouco. — Conseguiu tropeçar literalmente com um pouco de felicidade, e o que? Saltou sobre ele e tentou fazer um bebê?
— Não posso ter...
— Ou o arrastou a sua velha merda doentia?
— Maggie, ele tem que pagar!
Ambas sabiam quem era o “ele” de quem Serena falava.
— Claro que sim. Mas e você?
— Não sei o que...
— Nunca fez, querida. Por isso sou a estudante com beca, e você corre por aí morta em Cape Cod. Sem amante, nem casa, nem nada. Só seu ser velho e mau. E para que?
— Maggie, posso te ouvir gritando em meu sonho. Os vampiros nem sequer sonham e a maior parte do tempo sonho com isto.
— É por você, querida. — Sua amiga a olhou com terrível carinho, a baunilha derretendo em seu punho, o sangue escorrendo na frente da sua blusa.
— Não quis passar a eternidade sozinha; quer? Assim aqui estamos, ambas as mortas. Mas agora tem outra oportunidade... E a está arruinando, também. A primeira vez foi por fodida ignorância. Não por sua culpa. Mas agora? Intencionadamente.
— Não é...
— Bem, sempre foi a obstinada. — Seu amiga sorriu, com todos os dentes, gengiva e sangue.— E eu era a bonita.
—Maggie...
—Vejo-a por aí, querida.
Maggie desapareceu. As lojas desapareceram. Os antigos (ao menos, para seus olhos de princípios do século vinte) os carros desapareceram. Clientes na calçada desapareceram. Estava só ela e sua estúpida casquinha de coco chip, e seus mocasins muito apertados, E...
— O quarto de hóspedes.
Era de noite outra vez e tinha sede; sentia sua boca como pó, sua boca se sentia morta. Morta. Como Maggie, muita terra e ossos em sua tumba solitária. A tumba em que Serena ajudou a colocá-la. A levou a isso.
Jogou para trás seu lençol e levantou-se, subiu a escada e se dirigiu para a porta. Tinha que beber antes que pudesse pensar, e sem dúvida não ia morder Burke outra vez, coitado. Tinha bastante culpa sobre seus ombros, sem...
— Aonde vai?
— Não se aproxime sigilosamente de mim, Garoto Escoteiro, —disse ela sem girar.— É um mau hábito.
— Mas aonde vai?
— Tomar o café da manhã. Bem, o jantar. Não posso te dizer quando estarei de volta.
Ela não o ouviu cruzar o quarto, mas de repente seu braço se fechou sobre seu cotovelo.
— Regras da casa, — disse simplesmente, olhando-a para baixo com seus olhos cor tormenta. — Tem que comer o que o anfitrião serve. — Puxou o pescoço de sua camiseta para baixo, expondo seu jugular —. Eu.
Em um mundo ideal, ela teria raciocinado com lógica sobre o motivo de não ser apropriado morder o menino, menino... Cristo, que idade ele tinha?
Em um mundo ideal, ela teria usado sua força de superior vampiro para livrar-se dele, teria descido por sua varanda e à praia, escolhido a algum turista bêbado e apagado sua sede, logo voltaria e com tranqüilidade discutiriam o assassinato próximo de Pete.
Nem ela e nem Burke viviam em um mundo ideal; atiraram-se o um para o outro ao mesmo tempo (um mexilhão entre eles seria quebrado), procurando suas bocas, suas línguas explorando, e logo ela inclinou-se para trás como a besta que era e o mordeu, perfurou a veia com seus dentes e chupou.
E quase cambaleou; seu sangue foi o mais delicioso, a bebida mais satisfatória que ela já havia provado em todos seus anos de não-morta. Em todos seus anos, e ponto. Ele tinha o sabor como o do salmão lutando rio acima, como de coelhos fodendo sob a lua, como de lobos assolando o gado.
Cambalearam ao redor de sua sala de estar em um baile rígido, cavando os dedos nos ombros, e ele tirou de um puxão (a ela, realmente) sua camiseta com um rasgão nas costas. Para não ser superada por um mortal, ela fez o mesmo. Esperou que tivesse um contrabando de camisetas tipo Clark Gable em algum lugar, porque agora tinha duas a menos.
Tropeçaram e colidiram com o sofá, Burke abaixo, e ela se liberou e gemeu ao teto. Uma má idéia com a boca cheia; ela pegou um rastro de sangue com seu polegar, em seguida, sugou.
— Bom? —perguntou.
— Burke. Oh céus. Sinceramente não sei.
— É minha dieta rica em gordura, — disse seriamente, contemplando seus seios.— Hum. Todo mamilo. Venha aqui.
— Sua dieta rica em gordura inclui mamilos?
— Shhh. — Seu braço a rodeou e a derrubou, chupando avidamente, inclusive mordendo-a suavemente, e ela rebolou contra ele, empurrando seu short, puxando-o.
Ela beijou-lhe o alto da cabeça e pressionou seus seios mais eretos em seu rosto, deleitando-se com a sensação da boca dele em sua carne.
— Oh, Burke. — Ela suspirou.
— Huuumm.
— Não quero te pressionar. Mas Reagan estava na Casa Branca a última vez que fiz sexo.
Seu mamilo deslizou da sua boca com um pop e ele respondeu:
— Isso é o oposto de pressionar. Já faz tanto tempo que provavelmente não lembra o quão bom é o sexo.
— Vamos! — queixou-se encantada. — É como andar em bicicleta.
— Dificilmente, — ele grunhiu, agarrando-a pelas coxas e empurrando sobre sua boca. Ela se agarrou à costas do sofá para manter seu equilíbrio e rapidamente se tornou louca quando sua língua procurou, percorreu, apunhalou. Não podia imaginar a força na parte superior do corpo que ele tinha, como ele podia sem esforço sustentar todo seu peso justo em cima de sua boca. Era todo física... Estava pensando na física?
Concentre-se no jogo ou o perderá. Bom conselho. Para não mencionar, que podia sentir sua língua por toda parte, não só onde... Onde realmente estava. Huumm. Ela se estremeceu por toda parte e empurrou contra seu rosto, não mais capaz de deter seus movimentos do que ela poderia ter deixado o sangue. E seu orgasmo a inundou com uma pressa inimaginável, levantando-se do nada e assustando-a como uma merda.... Nunca foi em menos de cinco minutos, muito menos em cinco segundos.
Ela perdeu sua aderência mas ele não, e o ímpeto os fez cair ao chão, quebrando a mesa de centro em três pedaços pelo caminho. Nenhum deles estavam particularmente preocupados. Tinham um objetivo, e era a penetração de Serena: uma mesa de centro destroçada não poderia ser mais irrelevante.
Burke esmagou seus lábios em sua boca e separou-lhe as pernas com seu joelho; ela entrelaçou seus tornozelos atrás de suas costas quando ele entrou nela sem sutileza nem desculpas... Apenas o que ela desejava, necessitava, exigia em silêncio. Seus ventres golpeavam mais rápido e mais rápido, e eles arranharam e morderam a caminho do orgasmo mútuo.
— Oh céus, —disse ela quando pôde falar.
— Silêncio.
— Eu cairia, se houvesse onde cair.
— Sabia que arruinaria falando.
— Ah, cale a boca.
Tirou-lhe alguns fios de seu cabelo.
— Você me deve um móvel.
— Ja! depois disto, você me deve cem dólares.
—Esse é o preço nestes dias?
—Não tenho nem idéia, — confessou. — Só o disse para soar dura. — ficou em silêncio, considerando.— Não tenho nem idéia por que acabo de dizê-lo, tampouco.
— Bem. Você é difícil. — Brandamente se soltou de suas extremidades, recolheu-a como um pulso e a pôs sobre o sofá. Pareceu pesaroso quando examinou as diversas tiras de tecido que foram duas camisas apenas a cinco minutos atrás, então disse: — Estou pronto para um hambúrguer ou um bife ou algo assim. Está... — Tocou a ferida de mordida em seu pescoço.
— Cheia? Claro. Como disse antes, é preciso apenas de um pouco. Mas possivelmente não deveria estar dando saltos assim, — advertiu, levantando-se para pôr uma mão em seu braço... Muito tarde, ele já tinha entrado como uma flecha na cozinha. — Olha às vezes... As pessoas estão um pouco tontas depois de que eu...
Ele bufou com a cabeça no interior do refrigerador.
— Ovos seriam egal. Ovos com ovos. E um hambúrguer. Dois hambúrgueres.
— Posso ouvir como sobe seu colesterol, só te escutando. — assombrou-se de quão ativo era. Homem-lobo, recordou-se. O tempo todo, não só durante a lua cheia.
Sobre uma tigela rapidamente quebrou uma dúzia de ovos nela, encontrou um garfo, e começou a bater.
Ela se aproximou e contemplou os ovos.
— Você sente falta de alimento sólido? —perguntou.
— Não. O cheiro me faz mal. Eu não posso acreditar que você vai comer metade da comida da casa.
Ele arqueou uma sobrancelha escura.
— Metade?
— Foi bom que tirássemos o sexo do meio, — ela disse quando se apressavam por volta do Eat Me Raw. — Agora podemos nos concentrar em... Você sabe.
— O assassinato?
— Certo. — Ela ficou um pouco desconcertada a facilidade com que ele disse, como se fosse um fato da vida, algo desagradável, mas inevitável, como impostos.
— A coisa sexual só te teria distraído.
— Isso é provavelmente certo, —disse ele alegremente.
— Mas sabe, — sentiu-se obrigada a adicionar, já que se via obrigada a arruinar todas as coisas boas em sua vida/morte —, não há nada para nós. Quero dizer, não há futuro.
Ele estava em silêncio, concentrado no caminho.
— Não é como se pudesse dar-lhe uma família. Meus ovários deixaram de funcionar no mesmo dia em que tudo deixou de funcionar. Não, que eu alguma vez quisesse uma família, —acrescentou em um murmúrio. — Odeio crianças.
— Eu, também.
— Mentiroso!
Ele piscou.
—Está bem. Não odeio. Não odeio nada. Mas devo admitir, esses insetos me deixam louco.
—A mim, também! Quero dizer, sei que tivemos que passar por isso, e os meninos têm que aprender, blá, blá, blá, mas têm que aprender justo ao meu lado? Não se pode ir a um restaurante em nenhuma parte e tomar uma boa taça de vinho sem algum menino te atirando Saltines em seu cabelo.
— E os pais... — ele apontou.
—Oh, céus, são os piores! Sempre obcecados sobre quando seu filho tem uma merda, ou não toma uma merda, ou é lento para falar, ou fala muito, e lhe mostram garranchos sem sentido a lápis e lhe fala uma e outra vez sobre que gênios são seu pequeno Tommy ou Jenny. Puf!
— Tente ser de uma matilha, e saber que o bebê que vomita todos seus sapatos está destinado a ser seu chefe algum dia.
O horror completo da idéia a consumiu por um momento.
— Bem, — ela disse por fim —, isso é mau.
—Ser agradável com uma menina que te encurrala em uma esquina, porque vai ser o líder da matilha um dia.
— Céus!
— E os pais, que são seus chefes agora mesmo, pensam que é fenomenal quando o menino rompe uma janela lançando a seu irmãozinho por ela. Assim há vidros quebrados por toda parte, o bebê ri e caga, a menina ri, e os pais todo “ela não é um gênio”? e “ele não é um homenzinho valente?”
— Não sei como suporta!
— Por isso vivo sozinho. Vivia sozinho. — corrigiu-se.
Ela deixou passar.
— É estranho para um homem-lobo não gostar de crianças?
— Muitíssimo. É como uma perversão. Supõe-se que estamos casados quando podemos beber legalmente, e ter dois ou três filhotes quando temos vinte e cinco anos.
Ela riu disimuladamente de “filhotes”.
— Mas, eu gosto de minha privacidade. Eu gosto da praia. Eu gosto de poder dormir até tarde os sábados e assistir filmes sujos no HBO sempre que quiser. — O fez corar.
Ela se recostou em seu assento e desfrutou do passeio. Ele tinha uma velha caminhonete, desmantelada, azul com pneus novos e estofado com molas. A tinha, disse-lhe, há quinze anos.
Logo pensou: estou montada em um caminhão azul com um quase desconhecido para matar o Pete, e estou... Feliz?
Felicidade pós coital, decidiu. Estritamente hormonal. Ela estava acostumada a conseguir o mesmo sentimento ao comer chocolate.
— Então, qual é o plano?
Ele piscou outra vez.
— Está me perguntando?
— Muito bem. Vamos ao restaurante. Encontramos o Pete. Nós o levamos de volta e o matamos?
— Com a estaca que temos a mão em seu... Bolso?
Ela o fulminou com o olhar. Estava vestida, outra vez, com seu short de ginástica e uma camiseta, uma tão velha que já não era negra, a não ser cinza. Com os pés descalços. Ele tinha um aspecto ligeiramente mais respeitável em jeans descoloridos, soltos, e uma camiseta laranja da cor de um cone de trânsito.
— É um restaurante, — assinalou ela, fingindo uma confiança que não sentia. — Encontraremos uma grande faca afiada e cortaremos sua mentirosa cabeça com ele.
Burke se encolheu de ombros.
— Você realmente não tem nenhum problema com isso?
— Ele matou você e a sua amiga e quem sabe quantas moças mais? Comerei seu coração e terei espaço para um café da manhã enorme.
Ela abriu sua boca, e imediatamente a fechou. Outras moças? Um horrível pensamento! É claro que Pete não se deteve com Maggie. E isso fazia anos. Décadas. Quantas...
— E não tem que as matar, —disse ela em voz alta, a amargura queimando como ácido em sua língua. — Um não tem que matá-los. As pessoas dão mais sangue à Cruz Vermelha.
— Sim, Serena.
— Ele não precisa! Eu haveria... eu o teria perdoado pelo que me fez, mas não tinha que matar a Maggie, também. — Ela soluçou secamente em suas mãos, assombrou-lhe que depois de todo esse tempo, ainda pudesse chorar pela Maggie. Por si mesma. Sentiu a mão de Burke no ombro, firme, quando a puxou através do assento e a seu lado.
— Tem razão, Serena. A besta não tem que matar para alimentar-se. Você não é um animal como eu.
Aquele pensamento a sacudiu... Ela nunca pensou no Burke como um animal. Nenhuma vez. Ela era a má. Ele era... Ele era Burke.
Descansou sua cabeça em seu ombro e olhou como seu confiável Ford azul comia as milhas.
— A cidade está em festa, — comentou ela, olhando à multidão de pessoas, as dúzias de carros lotados com os faróis acesos ao longo das ruas.
— Sim, — Burke disse, estacionando ilegalmente a caminhonete. — Será assim até o Dia do Trabalho.
— Provincetown. P-town?
— Isso. Você parece uma local.
— Não me mudarei para cá... Depois. Não posso suportar o acento.
— Yah, com certeza, não faria, — brincou. — Como não tem o irritante acento nasal de Minnesota. Parece como um extra do Fargo.
— Cale-se. Odeio esse filme. E podemos nos concentrar, por favor? — Abriu a porta e saltou da caminhonete, mas ele já estava fora e rodeando a frente. Ele tomou sua mão em um apertão firme e a conduziu à porta principal do Eat Me Raw.
— Espera! Não devíamos nós... Isto... Ser sutis?
— Estamos aqui para matar à besta, —disse ele.— É melhor fazê-lo.
— Então só entraremos ali e perguntamos por ele?
— Era o plano, certo?
—E se não estiver aí?
— Se ele for como a maioria dos donos de restaurante, está aqui sete dias à semana, dois terços da partes de cada dia. Noite, quero dizer. É um bom lugar para pescar vítimas. E aqui? — Ele gesticulou para as a abundante multidão, os bares, as luzes altas, o caos. Uma terça-feira de noite, nada menos. — Quem notaria a um vampiro aqui? Ou a uma garota perdida em seguida?
— Ninguém sentiu minha falta — confessou ela. — Eu não tinha família, e ninguém acreditou na Maggie. A polícia supôs que fui embora. Maggie não acreditou e finalmente me puseram em uma lista como desaparecida.
Ele franziu o cenho.
— Isso fede. Eu teria derrubado casas para encontrar você. Trespassado a homens por suas bolas.
Emocionada, ela disse:
— Isso é tão doce, Burke.
Ele abriu de um empurrão a porta do restaurante e entrou. Ela sentiu como se realmente a apertassem contra o ruído do bar. Era um típico bar em Nova Inglaterra... Luzes brilhantes, madeira escura e turistas tagarelando. Burke abriu caminho por eles a pssos largosse e se aproximou do lugar da anfitriã.
— Sinto muito, — a anfitriã virtualmente gritou —, mas há cerca de noventa minutos de espera!
— Nós gostaríamos de ver o proprietário! — Burke gritou em resposta. Sua voz subiu facilmente sobre o alvoroço e várias mulheres (e muitos homens) giraram para olhá-lo. — Diga- lhe que um velho amigo de Minnesota está aqui!
— Grite um pouco mais alto, por que não? — murmurou, sabendo que seu ouvido de homem-lobo o recolheria. — Estou segura que a polícia nunca será capaz de encontrar uma testemunha ou dez.
Quando a anfitriã gritou em um daqueles trastes de telefones celular/walkie-talkie, ele girou e respondeu:
— Estamos aqui para matar um morto. Um caso difícil para a polícia resolver. Sua data de nascimento, admitindo que possam identificá-lo quando terminarmos, poderá ter expirado. Legalmente, provavelmente não existe.
— Ele não deveria sequer existir - ela sussurrou.
— Desculpe! — a anfitriã gritou. — Não está no bar nesse momento!
— Ela stá mentindo — disse ele. — Eu posso sentir o cheiro.
— Bem, vamos...
— Ok, Annie, — disse um estranho, materializando-se ao lado da anfitriã. — Não há necessidade de me cobrir desta vez. Ficarei feliz em falar com estas pessoas.
Serena sentiu Burke saltar, e soube porquê: ele não possuía nenhum cheiro. Ela olhou para Pete e ficou um pouco surpresa. O bicho-papão, o monstro, a coisa que assombrou seus sonhos e roubava seu descanso era um homem parcialmente calvo a princípios de seus quarenta. Bem. Parecia que estava em seus quarenta anos. O pouco de cabelo que ficara era cinza. Seus olhos eram um leve barro marrom, e seu nariz era muito pequeno para seu rosto. Estava muito bem vestido com um terno escuro da cor de seu cabelo. Parecia um tubarão de enfermeira: inofensivo, com dentes.
Ele sorriu. Assustou-se ao ver que a reconhecia imediatamente.
— Lamento por sua amiga.
Ela tentou falar. Não podia. E sabia — sabia — por que ele sorria. Pensava que estava a salvo. Seu território, sua cidade. Toda essa gente. Pensou que não o tocariam. E era velho. Para os vampiros, a idade significava força. Ele pensava que se o pior passava a terrível, que poderia matá-los.
— Vamos sair — Burke disse, e agarrou o braço de Pete.
— Acho que não — o velho monstro disse em voz alta. — Precisam de mim aqui. Eu... ouça! — Eles lutaram por um momento, e logo Burke o arrastou literalmente para a parte posterior do restaurante. Serena podia ver o choque lutar com a dignidade no rosto do Pete: faria um escândalo e pediria ajuda? Ou agüentaria e trataria de se livrar deles lá fora?
Podia vê-lo tratar de cravar seus pés, e ver seu assombro quando Burke o dominou outra vez, quase facilmente. Também podia ver o modo em que Burke comprimia a mandíbula, o pulso palpitante em sua têmpora. Não era só a força de homem-lobo; Burke dominava o monstro com uma enorme raiva.
— Assassinou moças — Burke murmurava, quando a axila do terno de Pete se rasgou. Apertou-o mais forte. — Assassinou moças. Assassinou moças!
Poucas pessoas os contemplaram. Mas era P-town e ninguém interferiu. Os habitantes da Nova a Inglaterra eram famosos por meter-se em seus próprios assuntos.
— Quem diabos é? — Pete gritou de volta. — Não é um vampiro!
— Sou pior — Burke disse entre dentes. Estavam na cozinha agora, o aroma de asas de frango fritando-se fez a Serena querer vomitar. — Tenho que matar para comer.
Antes que alguém do pessoal pudesse reagir — inclusive perceber, tão duro como trabalhavam — Serena lhes apressou. Supôs que poderia contribuir também para o crime de seqüestro de alguma maneira, assim lhes abriu a porta de trás. Burke puxou Pete, além do mau-cheiro dos contêineres de lixo, adiante dos carros ilegalmente estacionados, mais à frente do calçadão, à praia. Serena se inclinou e recolheu um pedaço de madeira flutuante, de quase um 30 cm de comprimento e curiosamente, com a forma de lança. Pôde sentir as lascas quando a sustentou em sua mão; era aproximadamente 5 cm de diâmetro.
Pete se balançou e golpeou Burke; o golpe foi impressionante, ele cambaleou mas não o soltou de seus braços.
— Seu líder da matilha não autorizou isto, — disse ele. — Começará uma guerra.
Ah, o monstro sabia sobre os homens-lobos... isso era interessante. Claro, fazia sentido... Pete quereria saber com quem compartilhava o campo da morte.
— Serena é a minha matilha. E todos vocês são rebeldes. Não finja que está na Europa. Ninguém sentirá saudades.
— Ninguém sentiu saudades — Pete a olhou de esguelha.
— Não até então. Mas agora, sim. — Ela levantou a madeira flutuante, então hesitou, odiando-se por isso, mas incapaz de resistir.
— Por quê? Por que eu, e por que Maggie?
— Nós não fazemos isso, - disse ela, dirigindo-se e chutou no -. Nós fazemos isso! Nós não temos a! Você fez porque quis! - Cada grito foi interrompido por um golpe, e Pete Burke derrapou e caiu na areia. O mar rodou seus tornozelos. Ele teve que gritar para ser ouvido sobre as ondas. Ele era bom. Eu queria gritar. Eu estava literalmente em uma fúria assassina -. Você quis! Ela nunca fez
— E Cathie e Jenny e Barbie e Kirsten e Connie e Carrie e Yvonne e Renee e Lynn e tantas que perdi a conta. Por quê? Será que você possui sérias dúvidas? Por quê? Porque é isso que fazemos, estúpida. Você tem... O quê? Cinqüenta e tantos anos e não sabe?
— Nós não fazemos isso, — ela replicou, e lhe deu um chute por si mesma — Não fazemos isso! Não temos que fazer! Você fez porque quis! — Cada grito foi pontuado por outro golpe; Burke e Pete patinavam e se deslizavam na areia. O mar rodeou seus tornozelos. Teve que gritar para ser ouvida sobre as ondas. Era bom. Tinha vontade de gritar. Estava, literalmente, em uma fúria assassina.— Você quis fazr! Ela nunca te fez de nada mau e você quis fazer!
— É o que fazemos, — disse Pete outra vez, o sangue negro escorrendo de sua boca, do seu nariz. — O rei não agüentará isto.
— Quem você acha que me enviou, desgraçado? Ele está se livrando de cada um de vocês, ditadores mesquinhos. Ele não agüentará sua merda e eu tampouco!
— Então por que, — disse Pete, e cuspiu dois dentes —, por que continua falando?
Boa pergunta. Chutou-o nas bolas, enquanto pensava em uma resposta. Ela tinha a estaca. Tinha a raiva. Até tinha um ajudante. Então, por que o monstro ainda estava vivo?
— Não fazemos isso, — disse por fim, e deixou cair a estaca. Ela sabia que estava condenando possivelmente a quantas mulheres mais à tortura e a morte... Maggie contava com ela, em qualquer lugar que estivesse, E... E... — Não fazemos isso e eu não faço isso.
— Ja, — Pete disse, e sorriu através de seus dentes quebrados. — Todo o caminho de Minnesota. Uma longa viaje para nada.
— Não para nada, — Burke disse. — Ela veio até a mim. Ela só não sabia. — Então quebrou o pescoço do Pete, um estalo seco tragado pelas ondas. A boca de Pete se abria e se fechava como um peixe numa tigela, e em seguida — Serena não podia acreditar — e em seguida Burke literalmente arrancou a cabeça do monstro e a jogou longe, como uma bola de praia. O som que fez se pareceu a uma perna de frango tirada de uma coxa. Mil vezes.
Girou-se afastando-se de seu pequeno grupo do mal e tratou de devolver na areia, mas não podia vomitar. O som — e o olhar no rosto do Pete quando seu pescoço se rompeu — e o som...
Burke rapidamente lavou as mãos nas ondas e se ajoelhou ao seu lado. Ela se apoiou contra ele e lavou a boca.
— Eu sabia que não podia, — ele sussurrou em seu ouvido. — disse-lhe isso: eu sou a besta, não você.
— Eu só... Não pude. Ele sorria irônicamente e sabia que eu não poderia e ele só... Eu só... — Fechou seus olhos e ouviu o estalo do pescoço de Pete rompendo-se outra vez. Esta vez não a fez sentir-se mal. Esta vez a fez... Não exatamente feliz. Mas bem... Em paz? — OH, Burke. E se você não tivesse vindo? E se eu não tivesse te encontrado?
— Mas fiz. E você fez. E Maggie pode descansar. Não haverá mais pesadelos.
— Como sabia que eu...?
Ele a beijou na têmpora.
— Como poderia não conhecer a minha própria companheira?
Agarrou-se a ele, fazendo pouco caso do fluxo que molhava suas pernas, seus joelhos.
— Sua companheira? Ainda quer...?
— Desde que estava na buraco e me disse para ir embora. Eu não podia abandonar você então. Como poderia te deixar agora? Você é para mim e eu sou para você.
— Assim e não mais?
Ele se encolheu de ombros.
— Assim e não mais, — respondeu. Os acontecimentos dos dois últimos dias cintilaram por sua mente: tudo o que ele fez. Por ela. Nunca ninguém havia...? Quem mais poderia ter feito tanto por ela, a não ser o homem com quem estava destinada a estar?
— Sobreviverei, — disse-lhe chorosa.
— E bem, não posso te engrvidar.
— Nada de crianças — disse ela, animando-se.
Ele a beijou outra vez.
— Nada de crianças.
Levantaram-se como um só e se dirigiram à caminhonete, sem olhar para trás quando o fluxo cobriu o corpo do Pete — ambos os pedaços — e o levou.
Como predisse, ninguém sentiu saudades, exceto o representante de licores, e ele rapidamente encontrou um novo cliente.
Ninguém no bar que viu Burke e Serena, nunca esqueceram deles e ninguém no bar jamais os voltou a ver. Vagabundos, dentro e fora de P-town, um dos vários milhares de turistas que chegavam a Cape Code cada verão. Nada especial sobre eles.
Não, nada de nada.
Mary Davidson
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