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ECOS DO PASSADO / Danielle Steel
ECOS DO PASSADO / Danielle Steel

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

ECOS DO PASSADO

 

A pesada tarde de Verão desenrolava-se, ociosa, enquanto Beata Wittgenstein passeava junto às margens do lago de Genebra na companhia dos pais. O sol estava abrasador, o ar parado e ela seguia, pensativa, atrás deles, ao som do canto estridente das aves, a que se misturava o zunido dos insectos. Beata e a sua irmã mais nova, Brigitte, tinham vindo passar o Verão a Genebra com a mãe. Beata acabara de fazer vinte anos e a irmã tinha menos três.

A Primeira Guerra Mundial começara há treze meses, no Verão anterior, e este ano o pai quisera que passassem as férias fora da Alemanha. Corria o fim de Agosto de 1915 e ele acabara de passar um mês com a família. Os dois irmãos de Beata estavam no exército, mas haviam conseguido uma semana de licença. Horst tinha vinte e três anos e era tenente no quartel-general de Munique. Ulm era capitão do 105.° Regimento de Infantaria, da 13.a Divisão, ligada ao 4.° Exército. Festejara os seus vinte e sete anos durante a semana que passou com eles em Genebra.

Ter reunido toda a família quase se assemelhava a um milagre. Com a guerra, que dizimava todos os jovens alemães, Beata, tal como a mãe, andava sempre preocupada com os irmãos. O pai repetia-lhe constantemente que tudo acabaria em breve, mas era bem diferente o que chegava aos ouvidos de Beata, sempre que ouvia a conversa do pai com os irmãos. Os homens estavam muito mais conscientes do que as mulheres relativamente aos problemas do futuro. A mãe nunca lhe falava da guerra, e Brigitte preocupava-se muito mais por quase não haver jovens bonitos com quem namorar. Desde pequena que as conversas de Brigitte giravam todas à volta de se casar. Apaixonara-se recentemente por um dos amigos de Horst da universidade, e Beata nutria uma forte suspeita de que a sua bonita irmã mais nova ficaria noiva nesse Inverno.

Beata não tinha interesses ou intenções semelhantes. Sempre fora a mais tranquila, a mais estudiosa e a mais séria.
Para ela, estudar era muito mais importante do que encontrar um noivo. O pai dizia sempre que ela era a filha perfeita. O único momento em que haviam discutido fora quando ela insistira em que queria frequentar a universidade, como os irmãos. O pai tinha considerado a ideia ridícula. Embora ele próprio fosse um homem aberto e culto, não achava que uma mulher necessitasse desse nível educacional. Respondeu-lhe que tinha a certeza de que, dentro em pouco, ela estaria casada e a cuidar do marido e dos filhos. Não precisava de ir para a universidade e não lho permitira.

Os irmãos de Beata e os amigos formavam um grupo animado; quanto à sua irmã, era bonita e gostava de namoriscar. Beata sempre se sentira diferente deles, distante devido ao seu temperamento calmo e à paixão pelos estudos. Num mundo perfeito, teria adorado ser professora, mas quando o afirmava, os irmãos troçavam invariavelmente dela. Brigitte dizia que só as raparigas pobres se tornavam professoras ou governantas, e os irmãos acrescentavam que só as que eram feias pensavam em tal coisa. Adoravam arreliá-la, embora Beata não fosse pobre, nem feia. O pai era dono de um dos bancos mais importantes de Colónia, onde viviam. Possuíam uma grande e bonita casa no bairro de Fitzengraben e Monika, a sua mãe, era admirada não só pela beleza como pelas roupas elegantes e jóias que usava. Tal como Beata, também ela era uma mulher terna. Monika casara com Jacob Wittgenstein aos dezassete anos e, nos vinte e oito anos seguintes, fora feliz ao seu lado.

O casamento havia sido arranjado pelas respectivas famílias e resultara. Na altura, a união de ambos representara a fusão de duas fortunas consideráveis e Jacob aumentara imensamente a deles, desde então. Dirigia o banco com pulso de ferro e era quase um vidente no que se referia ao negócio bancário. Tanto o futuro deles como o dos herdeiros estava garantido. Nada nos Wittgenstein era deixado ao acaso. Actualmente, a única fonte de incerteza e inquietação era a mesma de toda a gente, na altura. A guerra constituía uma grande preocupação para eles, sobretudo para Monika, com dois filhos no exército. Aqueles dias que haviam partilhado na Suíça fora uma pausa reconfortante, tanto para os pais como para os filhos.

Os Wittgenstein costumavam passar o Verão na Alemanha, junto ao mar, mas, este ano, Jacob quisera afastá-los a todos do país, durante Julho e Agosto. Chegou mesmo a falar com um dos generais no comando, que conhecia bem, e pediu-lhe o enorme favor de conceder licença aos seus dois filhos para que pudessem juntar-se-lhes. O general tomara todas as disposições para aceder ao seu pedido.

Os Wittgenstein tinham a particularidade excepcional de ser uma família judaica que desfrutava não só de uma grande fortuna como de um imenso poder. Beata estava consciente desta realidade, mas prestava pouca atenção à importância da família. Interessava-se muito mais pelos seus estudos. E, embora Brigitte, por vezes, se aborrecesse com as restrições que a ortodoxia deles lhes impunha, Beata, à sua maneira calma, era profundamente religiosa, o que muito agradava ao pai. Quando era novo, ele escandalizara a família ao anunciar que queria ser rabino. O pai chamara-o à razão e, na devida altura, ele entrara no negócio bancário da família, tal como o pai, irmãos, tios e o avô, antes dele. Tratava-se de uma família de profundas tradições e, embora o pai de Jacob sentisse um grande respeito pela vida dos rabinos, não fazia a mínima tenção de sacrificar-lhe o filho. Na sua qualidade de filho obediente, Jacob foi trabalhar no banco e casou pouco depois. Tinha agora cinquenta anos, mais cinco do que a mulher.

A família inteira concordou que a decisão de passar o Verão na Suíça fora acertada. Os Wittgenstein tinham muitos amigos ali e Jacob e Monika foram a uma série de festas acompanhados dos filhos. Jacob conhecia toda a gente na comunidade bancária suíça e deslocaram-se a Lausana e Zurique a fim de visitarem amigos nestas cidades. Sempre que possível levavam as filhas. Enquanto Horst e Ulm estiveram de licença, desfrutaram ao máximo da companhia deles. Ulm partiria para a Frente e Horst regressaria à sua guarnição em
Munique, o que parecia agradar-lhe. Apesar de ter recebido uma educação rígida, Horst era um verdadeiro playboy. Ele e Brigitte possuíam muito mais em comum um com o outro do que qualquer deles com Beata.

Quando se deixou ficar para trás dos outros, caminhando devagar junto ao lago, Ulm abrandou o passo e veio pôr-se ao lado dela. Tratava-a sempre com um espírito protector, talvez por ser sete anos mais velho. Beata sabia que ele respeitava a sua natureza delicada e sensível.

Em que pensas, Bea? Estás com um ar terrivelmente sério, para aí a caminhares sozinha. Porque é que não te juntas a nós?

Nessa altura, a mãe e a irmã iam muito mais à frente a conversar sobre moda e sobre os homens que Brigitte achara elegantes nas festas da semana anterior. Os homens da família falavam dos únicos assuntos que lhes interessavam os quais, à época, eram a guerra e os negócios.

No final do conflito, Ulm regressaria ao cargo que ocupava no banco há quatro anos. O pai afirmava que Horst teria de deixar as diversões e tornar-se mais sério para se lhes juntar. Horst tinha apenas vinte e dois anos quando a guerra fora declarada no ano anterior, mas prometera ao pai que, no final da guerra, entraria na linha.

E, recentemente, Jacob dissera por várias vezes que já era tempo de Ulm se casar. A única coisa que Jacob esperava dos filhos, ou, na verdade, de todos os do seu círculo mais próximo, era que lhe obedecessem. Esperou o mesmo da mulher e ela nunca o desiludira. Tão-pouco os filhos, à excepção de Horst, que andara a protelar a ida para o trabalho, quando ingressou no exército. Nesse momento, a última coisa que ele tinha em mente era casar-se.

De facto, a única que ligara importância ao assunto fora Brigitte. Beata ainda não conhecera um homem por quem se apaixonasse. Embora achasse que muitos dos filhos dos amigos dos seus pais eram elegantes, os mais novos pareciam-lhe imaturos e os mais velhos assustavam-na um pouco, parecendo, frequentemente, demasiado sérios. Não sentia pressa em casar-se Beata dizia muitas vezes que, se alguma vez casasse, esperava que fosse com um professor e não necessariamente com um banqueiro. Tornava-se impensável fazer uma declaração dessas ao pai, embora o tivesse confessado com frequência à mãe e à irmã. A posição de Brigitte diferia por completo. O elegante e jovem amigo de Horst, em que andava de olho, era tão superficial como ela e proveniente de uma família bancária de igual importância. Jacob tencionava encontrar-se com o pai do rapaz em Setembro para discutir o assunto, embora Brigitte não o soubesse

Contudo, até a data, ainda não aparecera um pretendente para Beata, nem ela, na realidade, o desejava. Só raras vezes conversava com alguém nas festas Acompanhava obedientemente os pais, vestida com a roupa que a mãe lhe escolhia. Era sempre delicada para com os anfitriões, mas ficava muito aliviada quando chegava a hora de regressar a casa. Contrariamente a Brigitte, que tinha de ser arrastada, queixando-se de que ainda era demasiado cedo para abandonar a festa e porque é que a família tinha de ser tão soturna e aborrecida? Horst concordava em absoluto com a irmã, e sempre fora assim. Beata e Ulm eram os sérios

Divertiste-te em Genebra? perguntou Ulm a Beata, num tom meigo

Ele era o único que se esforçava a sério por conversar com ela e conhecer-lhe o pensamento. Horst e Brigitte estavam demasiado ocupados com brincadeiras e diversões para perderem tempo a falar de assuntos mais eruditos com a irmã

Diverti respondeu Beata com um sorriso tímido, erguendo o rosto na sua direcção

Embora se tratasse do irmão, Beata deslumbrava-se sempre ante a sua beleza e bondade. Era um homem afável e parecia-se muito com o pai. Ulm era alto, louro e atlético, como Jacob o fora na juventude. Com os seus grandes olhos azuis, não parecia judeu. Todos sabiam, obviamente, que o era e, no mundo social de Colónia, os Wittgenstem eram aceites mesmo nas esferas mais altas da aristocracia. Vários membros das famílias Hohenlohe, Thurn e Thaxi eram, aliás, amigos de infância de Jacob.

Os Wittgenstein tinham uma situação tão sólida e eram tão respeitados que todas as portas se lhes abriam. Contudo, Jacob também vincara a todos os seus filhos que, quando chegasse a altura de se casarem, os cônjuges que trouxessem para casa teriam de ser judeus. Não estava em causa qualquer discussão a esse respeito, nem qualquer deles pensaria sequer em fazê-lo. Eram aceites pelo que eram e havia muitos jovens interessantes dos dois sexos no seu círculo, que proporcionavam uma boa oportunidade de escolha aos Wittgenstein juniores. Quando chegasse a altura de se casarem, casariam com um deles.

Quem observasse Ulm e Beata no seu passeio junto ao lago, não lhes encontraria qualquer parecença familiar. Os irmãos e a irmã eram a cópia do pai, todos louros, altos, de olhos azuis e traços delicados. Beata saíra à mãe, contrastando totalmente com eles.

Beata Wittgenstein era uma morena magra, de aspecto frágil e delicado, cabelo preto, asa de corvo, e a pele com um tom de porcelana. O único traço que partilhava com os outros residia nos enormes olhos azuis, embora os tivesse mais escuros do que os dos irmãos ou de Brigitte. Os olhos da mãe eram castanho-escuros, mas, à excepção desta pequena diferença, Beata era igualzinha à mãe, o que secretamente deliciava o pai. Ainda continuava tão apaixonado pela mulher depois de quase vinte e nove anos, que, só de ver o sorriso de Beata, se recordava de quando a mãe dela tinha a mesma idade nos primeiros anos do casamento, e a semelhança emocionava-o sempre. Por conseguinte, tinha um enorme fraco por Beata, e Brigitte queixava-se frequentemente de que Beata era a sua favorita. Deixava-a fazer tudo o que ela desejava. Contudo, o que Beata desejava era inofensivo. Os planos de Brigitte eram significativamente mais ousados do que os da irmã mais velha. Beata contentava-se em ficar em casa a ler ou a estudar, na verdade, até preferia. A única vez em que o pai se aborreceu a sério com ela foi ao encontrá-la a ler uma versão da Bíblia, de King James.

O que é isto? inquiriu com uma expressão severa ao ver o que ela estava a ler. Na altura, tinha dezasseis anos e sentia-se fascinada com a leitura. Já lera, antes, muita coisa do Velho Testamento.

É interessante, papá. As histórias são maravilhosas e tem muitas coisas que são exactamente aquilo em que acreditamos respondeu.

O pai não achara graça nenhuma e tirara-lhe o livro.

Jacob não queria que a filha lesse uma Bíblia cristã, queixara-se à mulher, sugerindo-lhe que estivesse mais atenta às leituras dela. De facto, Beata lia tudo a que podia deitar a mão, incluindo Aristóteles e Platão. Era uma leitora voraz e adorava os filósofos gregos. O próprio pai via-se obrigado a concordar que, se ela fosse um homem, teria dado um excelente erudito. Agora, o que ele queria para ela, tal como para Ulm e mesmo para os outros dois dentro em breve, era que se casasse. Tinha umas ideias que pretendia explorar nesse sentido durante o Inverno, mas a guerra estragara tudo. Muitos dos jovens que conheciam haviam sido mortos no ano anterior. A incerteza do futuro era profundamente inquietante.

Jacob achava que Beata se daria bem com um homem mais velho do que ela. Desejava um homem maduro para Beata, um homem capaz de apreciar a inteligência e partilhar os interesses da filha. Também não se opunha a essa ideia para Brigitte, que bem precisava de uma mão forte que a controlasse. Embora adorasse todos os filhos, sentia um orgulho enorme pela filha mais velha. Considerava-se um homem de sabedoria e generoso. Era o tipo de pessoa a que os outros nunca hesitavam em recorrer. Beata nutria um profundo amor e respeito por ele, como também pela mãe, embora admitisse em segredo aos outros que a mãe era mais acessível e a intimidava menos do que o pai. O pai tinha a mesma seriedade de Beata e desaprovava frequentemente a frivolidade da sua filha mais nova.

Gostava tanto que não tivesses de voltar para a guerra declarou Beata tristemente, conversando com Ulm enquanto prosseguiam o passeio.

Os outros haviam retrocedido e agora, ela e Ulm, iam muito mais à frente, em vez de se deixarem ficar para trás.

Também detesto a ideia de voltar, mas acho que a guerra acabará em breve sorriu-lhe, tranquilo, sem acreditar nas palavras, só que era o tipo de coisa que se dizia às mulheres. Ou, pelo menos, ele dizia. Vou conseguir novamente licença no Natal.

Beata assentiu com a cabeça, pensando que o Natal parecia estar a uma eternidade de distância, incapaz de suportar a ideia de como seria terrível, caso lhe acontecesse alguma coisa. Adorava-o para lá do que lhe expressava por palavras. Também gostava muito de Horst, mas ele mais parecia o estúpido de um irmão mais novo do que um irmão mais velho. Adorava arreliá-la e punha-a sempre a rir. O que ela e Ulm partilhavam era diferente. Os dois continuaram a conversar agradavelmente durante todo o caminho de regresso ao hotel e, nessa noite, partilharam um último jantar, antes de os rapazes se irem embora no dia seguinte. Como era hábito, Horst divertiu-os imenso com as suas imitações de todos os que haviam conhecido e com as suas escandalosas histórias sobre os amigos.

Os três homens partiram no dia seguinte; as três mulheres ficaram, a fim de passarem as três últimas semanas de férias em Genebra. Jacob queria que elas permanecessem na Suíça o máximo de tempo possível, embora Brigitte começasse a ficar aborrecida. Contudo, Beata e a mãe sentiam-se muito bem ali.

Uma tarde, Brigitte e Monika foram às compras. Beata disse que ficaria no hotel, pois tinha uma dor de cabeça. Era, de facto, mentira, mas achava cansativo ir às compras com as duas. Brigitte experimentava tudo nas lojas, mandando vir vestidos, chapéus e sapatos. Impressionada pelo seu bom gosto e arguto sentido da moda, a mãe cedia sempre. Depois de esgotarem as modistas, as sapatarias e as luvarias requintadas, faziam a ronda pelas joalharias. Beata sabia que não regressariam antes do jantar e sentiu-se contente por ficar sentada no jardim, a ler, ao sol.

Depois do almoço, foi até ao lago e iniciou o mesmo percurso que efectuavam diariamente desde que ali estavam. Fazia um pouco mais de frio do que na véspera; ela levava um vestido de seda branca, um chapéu para a proteger do sol e um xaile azul, da cor dos olhos, enrolado à volta dos ombros. Cantarolava baixinho enquanto caminhava. A maioria dos hóspedes do hotel estava a almoçar, ou na cidade, e ela tinha o caminho todo para si, enquanto seguia de cabeça baixa, pensando nos irmãos.

De súbito, ouviu um barulho atrás dela, ergueu os olhos e sobressaltou-se ao deparar com um homem alto e jovem, que a ultrapassou bruscamente no caminho, sorrindo-lhe ao fazê-lo. Ele seguia na mesma direcção e Beata ficou tão surpreendida que deu um passo para o lado, desequilibrou-se e torceu o tornozelo. Sentiu um leve ardor nada de grave, segundo lhe pareceu no preciso instante em que o homem estendeu rapidamente uma das mãos, impedindo-a de cair.

Lamento. Não queria assustá-la e nem por sombras deitá-la ao chão desculpou-se de imediato com uma expressão preocupada.

Beata notou que ele era extremamente bonito. Alto, louro, com os olhos da cor dos dela, uns braços compridos e fortes e ombros atléticos. Agarrava-a com firmeza pelo braço, enquanto lhe falava, e ela apercebeu-se de que tinha o chapéu um pouco de lado, devido ao choque. Endireitou-o, ao mesmo tempo que o examinava discretamente. Parecia um pouco mais velho do que o seu irmão mais velho. Vestia umas calças brancas com um blazer azul-escuro, uma gravata azul-marinho e um bonito chapéu de palha que lhe dava um ar desenvolto.

Obrigada. Estou bem. Foi parvoíce minha. Não o ouvi a tempo de afastar-me do seu caminho.

Receio ser o único responsável. Sente-se bem? E o seu tornozelo? interessou-se, parecendo simpático e bondoso.

Segurou-me, antes que o torcesse a sério respondeu.

Ele falara-lhe em francês e ela respondeu na mesma língua. Aprendera francês no liceu e aperfeiçoara-o desde essa altura. Jacob também insistira para que os filhos aprendessem inglês e achou que deviam igualmente falar italiano e espanhol. Beata estudara ambos, mas nunca aperfeiçoara qualquer dos idiomas. O seu inglês era sofrível, mas falava um francês fluente.

Quer sentar-se um momento? sugeriu ele, apontando para um banco próximo, com uma vista tranquila do lago, parecendo relutante em soltá-la. Comportava-se como se temesse que ela caísse, se ele afrouxasse o firme aperto do braço.

A sério que estou bem garantiu Beata com um sorriso.

Contudo, a perspectiva de ficar sentada um momento ao lado dele agradava-lhe. Não era o género de coisa que costumasse fazer, na verdade nunca fizera algo semelhante, mas ele mostrava-se tão simpático e delicado e parecia tão cheio de remorsos por causa do quase-acidente, que sentiu pena dele. Parecia inofensivo sentar-se e conversar com ele um minuto, antes de prosseguir o seu passeio. Não tinha pressa em regressar ao hotel, pois sabia que a mãe e a irmã estariam ausentes durante horas. Deixou-se conduzir até ao banco e ele sentou-se ao lado dela, mantendo uma distância respeitosa entre ambos.

Está mesmo bem? insistiu ele, baixando os olhos para o tornozelo, aliviado ao verificar que não parecia inchado.

Mesmo garantiu Beata, sorrindo.

A minha intenção era apenas passar por si, sem a perturbar. Devia ter dito algo, ou avisá-la, mas estava a milhões de quilómetros de distância, a pensar nesta maldita guerra. É uma coisa horrível.

Parecia perturbado quando pronunciou as palavras e se recostou nas costas do banco, enquanto ela o observava. Nunca conhecera ninguém que se parecesse um mínimo com ele. Era como um belo príncipe saído de um conto de fadas e extremamente simpático. Não tinha um ar arrogante ou pretensioso. Assemelhava-se a um dos amigos de Ulm, embora fosse muito mais bem-parecido.

Não é, então, suíço? perguntou, interessada.

- Sou francês limitou-se a responder e quando o fez, ela franziu o sobrolho e manteve-se silenciosa. É assim tão mau? prosseguiu. Na verdade, o meu avô materno é suíço. É essa a razão da minha presença aqui. Ele morreu há duas semanas e tive de vir ajudar a resolver o assunto da herança com o meu irmão e os meus pais. Deram-me uma licença para poder fazê-lo.

Parecia muito franco e directo, sem nada de presunçoso ou inadequadamente familiar, muito educado e aristocrata e de uma extrema delicadeza.

Não, nada disso respondeu com honestidade, ao mesmo tempo que o fitava nos olhos. Sou alemã acrescentou, quase à espera de que ele saltasse do banco e lhe dissesse que odiava os alemães. Afinal, eram inimigos de guerra e não fazia ideia de como ele reagiria à sua confissão.

Está à espera de que a culpe por causa da guerra? retorquiu ele meigamente, sorrindo-lhe.

Ela era jovem e extremamente bonita. E, ao falar-lhe, sentiu-se tocado pelo seu ar constrangido. Parecia uma rapariga diferente de todas as que conhecia e, de súbito, ficou contente por quase a haver derrubado.

Causou tudo isto? É culpada por esta guerra horrível, mademoiselle? Devo irritar-me consigo? inquiriu, soltando uma gargalhada, que ela imitou.

Espero que não sorriu Beata. Está no exército? acrescentou, lembrando-se que ele mencionara encontrar-se de licença.

Na cavalaria. Frequentei a academia equestre de Saumur.

Beata sabia que era onde todos os nobres se tornavam oficiais de cavalaria e que constituía uma prestigiada instituição.

Deve ser interessante comentou. Gostava de cavalos e, em pequena, andara muito a cavalo. Adorava montar com os irmãos, sobretudo com Ulm. Horst entusiasmava-se invariavelmente e enlouquecia o cavalo, que, por sua vez, assustava o dela. Os meus irmãos também estão no exército acrescentou.

O companheiro fitou-a demoradamente com um ar pensativo, perdido no azul dos seus olhos, que eram mais escuros do que os dele. Nunca tinha visto um cabelo tão escuro em contraste com uma pele tão branca. Assemelhava-se a uma pintura, sentada ali no banco.

Não seria fantástico que todos os conflitos entre as nações pudessem resolver-se assim tão simplesmente, com duas pessoas sentadas num banco, numa tarde de Verão, a contemplar um lago? Podíamos falar das coisas e entrar num acordo, em vez desta realidade, na qual jovens morrem em campos de batalha sugeriu, por fim.

Estas palavras fizeram-na voltar a franzir o sobrolho, pois recordaram-lhe a vulnerabilidade dos irmãos. Respondeu:

Seria mesmo. O meu irmão mais velho acha que tudo estará acabado dentro em pouco.

Gostaria de poder concordar retorquiu ele, delicadamente. Mas temo que, quando se colocam armas na mão dos homens, eles não as largam facilmente. Penso que esta guerra pode durar anos.

Espero que esteja errado discordou ela num tom calmo.

Também eu desejou e logo pareceu de novo embaraçado. Mas que indelicadeza da minha parte! Sou Antoine de Vallerand apresentou-se, fazendo uma vénia, e voltando a sentar-se.

Sou Beata Wittgenstein sorriu ela, pronunciando o W como um V.

Como é que fala um francês tão perfeito? surpreendeu-se ele. Exprime-se perfeitamente, sem qualquer sotaque. Quase poderia confundir-se com uma parisiense.

Antoine jamais teria adivinhado que ela era alemã. Estava fascinado com a sua beleza e nunca lhe ocorreu, mesmo depois de ouvir o nome, que ela fosse judia. Contrariamente à maioria das pessoas da sua classe e condição, não lhe fazia qualquer diferença. Nem sequer pensou no assunto. Tudo o que via na frente era uma jovem mulher, bonita e inteligente.

Aprendi francês no liceu explicou Beata com um sorriso.

Não, não aprendeu, ou se é esse o caso, é muito mais esperta do que eu. Estudei inglês no liceu, ou pelo menos assim o dizem, mas não falo uma palavra. E o meu alemão é uma vergonha. Não tenho o seu dom. A maioria dos franceses não o têm. Falamos francês e pouco mais. Partimos do princípio de que todo o mundo aprenderá francês para poder comunicar connosco; ainda bem que o fez. Também fala inglês?

Algo lhe segredava que sim. Embora não se conhecessem e a timidez dela não lhe passasse despercebida, parecia uma rapariga muito inteligente e espantosamente à vontade. Ela própria se surpreendia por se sentir tão bem na companhia dele. Embora se tratasse de um estranho, inspirava-lhe segurança.

Falo inglês anuiu, embora não tão bem como francês.

Continua a estudar? quis saber, pois ela parecia-lhe jovem.

Antoine tinha trinta e dois anos, mais doze do que Beata.

Não. Já não. Acabei os estudos respondeu a jovem, timidamente. Contudo, leio muito. Gostaria de ter ido para a universidade, mas o meu pai não me deixou.

Porque não? reagiu ele, após o que se reteve com um sorriso. Percebo. Acha que deve casar-se e ter filhos. Não precisa de ir para a universidade. Estou certo?

Sim, totalmente anuiu com os olhos a brilhar.

E não quer casar?

Cada vez ele lhe recordava mais Ulm. Beata sentia-se como se ela e Antoine fossem velhos amigos e ele também parecia estar à vontade ao seu lado. Sentia-se capaz de lhe falar com a maior honestidade, o que era raro em si, pois mostrava-se, por regra, extremamente tímida com os homens.

Só quero casar se me apaixonar por alguém limitou-se a responder. Ele assentiu com a cabeça.

Parece-me sensato. Os seus pais concordam com essa ideia?

Não estou muito segura. O casamento deles foi combinado e eles acham bem. Também querem que os meus irmãos se casem.

Que idade têm os seus irmãos?

Vinte e três e vinte e sete anos. Um deles é bastante sério e o outro só quer divertir-se e é um pouco rebelde respondeu, com um pequeno sorriso.

Dir-se-ia o meu irmão e eu.

Que idade tem ele?

É cinco anos mais novo. Tem vinte e sete, como o seu irmão mais velho e eu sou um velhote de trinta e dois anos. Os meus pais consideram-me uma causa perdida.

Também ele até àquele momento pensara o mesmo.

Qual deles é você?

Como assim? repetiu, parecendo à toa por um momento, mas em seguida, compreendeu. Ah, claro! Ele é o rebelde. Eu sou o aborrecido acrescentou, arrependendo-se de imediato. Desculpe, não pretendi sugerir que o seu irmão mais velho é aborrecido. Apenas sério, suponho. Sempre fui eu o responsável e o meu irmão simplesmente não o é. Anda demasiado ocupado a divertir-se para pensar sequer em ser responsável. Talvez tenha razão. Eu sou muito mais calmo do que ele.

E não é casado? interessou-se Beata.

Aquele era o mais estranho dos encontros. Estavam a perguntar um ao outro coisas que jamais teriam ousado inquirir num salão de baile, numa sala de estar ou num jantar. Contudo, ali sentada no banco, a contemplar o lago, parecia-lhe perfeitamente correcto perguntar-lhe tudo o que quisesse. Ele emanava algo de encantador e decente, embora fosse um homem de uma extrema beleza. Tanto quanto podia imaginar, era ele o rebelde e estava a mentir-lhe, mas não lhe parecia que assim fosse. Acreditava em cada uma das suas palavras e tinha a sensação de que ele sentia o mesmo no que lhe dizia respeito.

Não, não sou casado respondeu, com um brilho divertido no olhar. Pensei nisso uma ou duas vezes, mas nunca achei que fosse a atitude certa, apesar de uma grande pressão por parte da minha família, porque sou o mais velho. Mas prefiro estar só, em vez de cometer o erro de casar com a pessoa errada.

Concordo replicou, assentindo com a cabeça e parecendo espantosamente determinada.

Por alguns momentos, achou-a quase infantil, mas noutros, em que lhe dirigiu a palavra, era óbvio que se tratava de uma jovem com ideias muito definidas, como sobre o casamento e a ida para a universidade.

O que estudaria, se a tivessem deixado ir para a universidade? perguntou, curioso, reparando na expressão sonhadora que se reflectiu no rosto dela.

Filosofia. Os antigos gregos, acho. Religião talvez, ou a filosofia das religiões. Uma vez, li a Bíblia do princípio ao fim.

Antoine parecia impressionado. Ela era obviamente uma jovem inteligente, e, além disso, bonita e muito agradável.

E o que achou? Não posso afirmar que a li, exceptuando uns extractos, na sua maioria em casamentos e funerais. Passo a maior parte do tempo a ocupar-me dos cavalos e ajudo o meu pai a gerir a nossa propriedade. A terra é o meu grande amor.

Gostaria de transmitir-lhe até que ponto se sentia ligado à terra. Corria-lhe no sangue.

Acho que é o caso de muitos homens retorquiu Beata, pausadamente. Onde é a propriedade da sua família? acrescentou, gostando da conversa que se desenrolava entre eles e sem querer terminá-la.

Em Dordogne. É uma região onde se encontram muitos cavalos. Fica próximo de Péngord e a pouca distância de Bordéus, se é que lhe diz alguma coisa explicou com um brilho nos olhos que a fez compreender o que isto significava para ele.

Nunca estive lá, mas deve ser bonita, já que a ama tanto.

É mesmo confirmou Antoine. E em que parte da Alemanha vive?

Em Colónia.

Já estive lá recordou, parecendo agradado. Também gosto muito da Baviera. E passei momentos fantásticos em Berlim.

É precisamente em Berlim que o meu irmão Horst desejaria viver. Claro que é impossível. Depois da guerra, tem de voltar a Colónia e ir trabalhar para o meu pai. Ele acha horrível, mas não lhe resta outra escolha. O meu avô e o meu pai e os seus irmãos, e o meu irmão Ulm, todos trabalham lá, no banco. Suponho que não é muito divertido, mas todos parecem gostar bastante. Deve ser interessante declarou, e ele sorriu-lhe.

Beata transbordava de ideias e de interesse pelo mundo. Ao olhá-la e ao escutá-la, Antoine estava certo de que se ela tivesse podido ir para a universidade ou trabalhado no banco, se sairia na perfeição. Continuava impressionado por ela ter lido a Bíblia, tão nova.

O que gosta de fazer? perguntou, curioso.

Gosto de ler e de aprender coisas respondeu com simplicidade. Também gostaria de vir a ser uma escritora, mas isso é obviamente impossível.

Nenhum homem com quem casasse iria tolerar que ela fizesse algo do género, pois teria de cuidar dele e dos filhos.

Talvez o seja, um dia. Suponho que tudo depende de com quem casar ou se o fizer. Também tem irmãs, ou apenas irmãos?

Tenho uma irmã mais nova, Brigitte, com dezassete anos. Adora ir a festas, dançar, arranjar-se e mal consegue esperar pelo casamento. Está sempre a dizer-me que sou um tédio respondeu Beata com um sorriso malicioso que o levou a desejar abraçá-la, embora ainda não tivessem sido devidamente apresentados. Sentiu-se de repente tão satisfeito por quase a ter derrubado! A situação começava a parecer-lhe um rasgo de sorte e achava que Beata pensava o mesmo.

O meu irmão considera-me muito aborrecido. Mas devo dizer-lhe que a acho tudo menos aborrecida, Beata. Adoro falar consigo.

Também gosto de falar consigo confessou ela, timidamente.

Interrogava-se sobre se deveria regressar ao hotel. Há muito tempo que estavam sentados no banco. Talvez mais do que deveriam. Permaneceram em silêncio durante mais um longo momento, admirando o lago, depois Antoine virou-se de novo para ela.

Quer que a acompanhe ao hotel? perguntou. A sua família pode estar preocupada por sua causa.

A minha mãe levou a minha irmã às compras. Não acredito que voltem antes do jantar, mas talvez eu deva regressar anuiu, responsável, embora lhe desagradasse ir-se embora.

Levantaram-se, ambos relutantes e ele quis saber se o tornozelo lhe doía. Ficou satisfeito ao ouvir que estava tudo bem e ofereceu-lhe o braço, enquanto regressavam, devagar, ao hotel. Beata enfiou a mão no braço dele e durante o percurso continuaram a conversar sobre uma série de assuntos.

Ambos concordaram que, por regra, detestavam festas, mas adoravam dançar. Antoine ficou encantado ao ouvi-la dizer que gostava de cavalos e já participara em caçadas. Os dois gostavam de barcos e partilhavam uma paixão pelo mar. Beata garantiu que nunca enjoava, o que ele só dificilmente acreditou. Todavia, ela confessou que tinha medo de cães, pois fora mordida em criança. E os dois adoravam Itália, embora ele dissesse que também gostava muito da Alemanha, o que era algo impossível de admitir publicamente naquela altura. A guerra e o facto de os seus respectivos países serem actualmente inimigos não lhes parecia importante, à medida que se iam conhecendo. Antoine tinha uma expressão de sério desapontamento quando regressaram ao hotel. Detestava deixá-la, embora tivesse planos para jantar com a família. Gostaria de ter passado muito mais horas na companhia dela e estava visivelmente a retardar a despedida, quando chegaram diante do hotel e ficaram a olhar-se.

Apetece-lhe um chá? sugeriu ele e os olhos dela brilharam de imediato.

Seria uma óptima ideia, obrigada.

Antoine conduziu-a até ao terraço onde serviam chá. Mulheres elegantes estavam sentadas a conversar umas com as outras, às mesas, e viam-se casais com um ar abastado que comiam pequenas sanduíches e sussurravam em francês, alemão, italiano e inglês.

Partilharam um chá e, por fim, incapaz de prolongar mais o momento, ele acompanhou-a até à entrada do hotel e deteve-se a olhá-la. Parecia-lhe pequena e frágil, mas, na verdade, após terem conversado durante horas, sabia, agora, que era determinada e capaz de defender as suas ideias. Tinha opiniões sólidas sobre muitas coisas e, até ao momento, estavam de acordo na sua maioria. E aquelas com que ele não concordava, divertiam-no. Nada tinha de monótono. Achava-a, pelo contrário, extremamente interessante e de uma beleza que cortava a respiração. Apenas sabia que tinha de voltar a vê-la.

Acha que a sua mãe a deixaria almoçar comigo, amanhã? inquiriu, esperançado e ansiando por lhe tocar na mão, mas sem se atrever. Gostaria mesmo de tocar-lhe na face. Ela tinha uma pele deliciosa.

Não sei muito bem respondeu Beata, honestamente.

Seria difícil explicar como se tinham conhecido e também o facto de terem passado tanto tempo juntos a conversar, sem uma dama de companhia. Contudo, nada de especial acontecera; ele era indiscutivelmente delicado e, sem dúvida, de boas famílias. Os pais não poderiam levantar qualquer objecção, exceptuando o facto de ser francês, o que, naquele momento, se revelava, na verdade, inoportuno. Mas, afinal, estavam na Suíça. Tudo era diferente, aqui! E só porque os países de ambos eram inimigos, tal não significava que ele fosse malformado. Não estava, porém, muito segura de que a mãe visse as coisas por esse prisma; na verdade, tinha quase a certeza de que não seria o caso, pois os seus irmãos batiam-se contra os franceses e podiam ser mortos por estes a qualquer momento. Os seus pais eram patriotas de alma e coração, mas não propriamente famosos pelos seus espíritos abertos, como ela bem sabia e Antoine receava. Beata também estava consciente de que se ele se apresentasse como um pretendente, a família o rejeitaria, porque não era, obviamente, judeu. Contudo, tais preocupações pareciam prematuras.

Talvez a sua mãe e a sua irmã se nos queiram juntar ao almoço? sugeriu, esperançado

Não fazia tenção de baixar os braços. Nesta altura, uma guerra parecia-lhe um obstáculo demasiado insignificante para que deixasse escapar uma jovem mulher tão maravilhosa e encantadora.

Vou perguntar-lhes prometeu Beata num tom calmo. Contudo, sabia que faria mais do que perguntar. Estava

pronta a lutar como um tigre para o ver de novo e receava que isso fosse necessário. Sabia que aos olhos da mãe, ele teria duas características em desfavor, a sua nacionalidade e a sua fé.

Devo telefonar à sua mãe e ser eu a pedir-lhe? retorquiu com uma expressão preocupada.

Não. Eu peço decidiu Beata, abanando a cabeça Os dois estavam doravante ligados por um pacto secreto,

a continuação da sua amizade, ou o que quer que isto fosse Beata não achava que ele estivesse a cortejá-la e só esperava que pudessem ser amigos Não se atrevia a imaginar mais.

Posso telefonar-lhe esta noite? inquiriu, parecendo nervoso. Ela deu-lhe o número do quarto que partilhava com Brigitte

Esta noite jantamos no hotel

Também nós surpreendeu-se ele. Talvez nos vejamos e eu possa apresentar-me à sua mãe e à sua irmã? Como vamos dizer que nos conhecemos.

De súbito, pareceu preocupado. O seu encontro havia sido fortuito, mas não inteiramente correcto. Além disso, a sua longa conversa fora, no mínimo, invulgar.

Direi apenas que me deitou ao chão e, em seguida, me ajudou a levantar riu-se Beata.

Tenho a certeza de que a sua mãe ficará impressionada. Vai contar-lhe que a empurrei para a lama, ou apenas que a atirei ao lago, para ter o prazer de a ajudar depois?

Beata riu-se como uma criança ante aquelas sugestões. Antoine há anos que não se sentia tão feliz.

Podia, pelo menos, dizer-lhe que lhe agarrei no braço e a impedi de cair, embora tivesse, de facto, tentado derrubá-la quando a ultrapassei com tanta pressa. Contudo, já não lamentava aquele pequeno incidente que se virara a seu favor. E podia ter a decência de contar à sua mãe que me apresentei devidamente.

Talvez o faça.

Por um momento, Beata pareceu verdadeiramente preocupada, olhando-o um pouco embaraçada ao sugerir:

Acha que seria horrível dizer-lhe que é suíço? Antoine hesitou, depois assentiu com a cabeça. Percebia

que a sua nacionalidade constituía um problema para a jovem ou que esta receava que o fosse para a mãe. Contudo, o problema maior residia em que ele era um aristocrata francês e não um judeu, mas Beata nunca lho diria. Acalentava a ilusão de que, dado serem apenas amigos, a mãe não atribuiria muita importância ao facto. Que mal tinha em fazer amizade com um cristão? Vários dos amigos do pai eram-no. Tratava-se de um argumento que tencionava usar, caso a mãe levantasse objecções a que almoçassem juntos.

No fundo, tenho um quarto de sangue suíço. Apenas terei de lembrar-me de não contar em frente da sua mãe, ou corro o risco de dizer soixante-dix, em vez de septante. Seria um deslize. Mas não me importo, se for mais fácil para si dizer que sou suíço. É vergonhoso que isso tenha de constituir uma saída para nós nos tempos que correm.

Na verdade, a sua própria família ficaria horrorizada que ele fizesse amizade com uma rapariga alemã e, pior ainda, que se sentisse totalmente atraído por ela. Naqueles dias, os alemães e os franceses não se perdiam de amores. Contudo, não percebia porque é que ele e Beata haviam de pagar um preço por isso.

Não se preocupe, arranjaremos uma solução acrescentou num tom meigo, enquanto ela o fitava com os enormes olhos azuis. Está tudo bem, Beata, garanto. Seja como for, ver-nos-emos amanhã.

Não permitiria que algo se erguesse entre ambos e ela sentiu-se totalmente protegida ao fitá-lo. Eram quase estranhos um para o outro e, no entanto, Beata sabia que já confiava em Antoine. Algo fantástico e maravilhoso acontecera entre eles, nessa tarde.

Telefono-lhe esta noite prometeu Antoine num tom meigo, quando ela entrou no elevador e se virou na sua direcção, no momento em que o ascensorista fechou as portas.

Permaneceu no mesmo sítio, fitando-a, até ela desaparecer, e Beata teve consciência de que numa única tarde toda a sua vida mudara. Quanto a Antoine, saiu do hotel, sorrindo intimamente.

Para sua grande mágoa, Beata não estava preparada para a reacção da mãe, quando, ao chegarem a casa, lhe mencionou casualmente o almoço com Antoine. Explicou-lhe que se tinham conhecido no hotel à hora do chá, conversado um pouco e que Antoine sugerira que almoçassem todos no dia seguinte. Não teve coragem de falar num almoço a sós com Antoine. A mãe já parecia suficientemente horrorizada assim.

Almoçar com um perfeito desconhecido? Enlouqueceste, Beata? Não conheces esse homem. O que é que fizeste para que ele te convidasse para almoçar?

A mãe parecia muitíssimo desconfiada. Apenas deixara Beata sozinha durante umas horas, e não era usual da parte dela pôr-se a conversar com um estranho. Tratava-se, obviamente, de um sedutor qualquer que rondava o hotel, escolhendo as suas presas entre as jovens de boas famílias. Monika Wittgenstein não era tão inocente como a filha; sentia-se furiosa por este homem se ter insinuado junto desta e, pior ainda, por Beata parecer considerá-lo atraente. A situação apenas servia para provar à mãe que ela era de uma enorme ingenuidade e ainda uma criança. Quanto a esse Antoine, imaginava o pior.

Só estava a tomar chá no terraço defendeu-se Beata, parecendo desgostosa. A situação não se desenrolava da melhor maneira e ignorava o que dizer a Antoine. Começámos a falar sobre nada de especial. Ele foi muito delicado.

Que idade tem ele? E o que está a fazer aqui em vez de estar na guerra?

Ele é suíço respondeu Beata com um ar formal. Pronto, já lhe dissera! Nunca mentia à mãe, embora Brigitte o fizesse com frequência, mas esta era a sua primeira vez. Contudo, a perspectiva de ver Antoine valia qualquer risco que tomasse ou qualquer consequência que isso implicasse. Numa única tarde, ele conseguira conquistar não só a sua lealdade como o seu coração.

Porque é que não estava a trabalhar? O que fazia a passear-se por um hotel? prosseguiu Monika, para quem todos os homens respeitáveis deviam trabalhar. Não tinham tempo para parar nos hotéis à hora do chá, de olho nas jovenzinhas.

Está de passagem, tal como nós. Veio ver a família, porque o avô acabou de morrer.

Lamento que assim seja replicou Monika num tom sóbrio e talvez se trate de um homem perfeitamente decente, mas é um completo estranho. Não lhe fomos devidamente apresentadas por alguém que nos conheça, ou a ele, e não iremos almoçar juntos.

E, como que numa reflexão tardia, inquiriu uns minutos depois:

Como é o nome dele?

Antoine de Vallerand.

Os olhos da mãe procuraram os dela e não os largaram durante um longo momento. Interrogou-se sobre se Beata o conhecera antes, mas não notou nada de falso. Ela era apenas jovem, inconsciente e ingénua.

É um nobre pronunciou Monika num tom pausado, mas de pesada crítica.

Nessa condição, não era um pretendente apropriado para qualquer das filhas. Havia algumas linhas que não se pisavam, e esta era uma delas. Beata sabia o que a mãe estava a pensar. Não precisava de expressá-lo por palavras. Eles eram judeus. Antoine não era.

E é crime ser nobre? retorquiu Beata num tom um pouco mordaz, mas fitando a mãe com um olhar triste, o que a preocupou ainda mais.

Já te tinhas encontrado com este homem antes?

Como resposta, Beata abanou a cabeça no momento exacto em que Brigitte se precipitou pelo quarto adentro, com os braços cheios de compras. Passara umas horas fantásticas nas lojas, embora achasse que as de Colónia eram melhores. Mas, pelo menos, aqui na Suíça não sofriam nenhum dos racionamentos da guerra. Era um alívio fazer um intervalo nessas coisas.

Como é ele? perguntou Brigitte, exibindo uma nova mala de camurça preta e um bonito par de luvas brancas compridas. É bonito?

Não é isso o que está em causa ripostou Beata, dirigindo-se a ambas. Parece apenas um homem muito simpático e convidou-nos às três para almoçar, o que foi muito delicado e generoso.

E porque achas que o fez? inquiriu a mãe, com um olhar de censura. Porque morre de desejo por me conhecer e à Brigitte? Claro que não. Deseja, obviamente, passar tempo contigo. Que idade tem esse homem? acrescentou, com todos os sentidos alerta.

Não sei. Talvez mais ou menos a de Ulm.

Na verdade, tanto quanto sabia, ele tinha mais cinco anos do que o irmão. Era a terceira mentira que contara para o proteger e à amizade que desabrochava entre ambos. Passar tempo com Antoine parecia-lhe valer a pena. Queria vê-lo novamente, mesmo que fosse na presença da mãe e da irmã, se nada mais pudesse fazer. Apenas queria passar um pouco mais de tempo com ele. Quem sabia quando se voltariam a encontrar.

Tem demasiada idade para ti decidiu a mãe, quando, na verdade, as suas objecções quanto a ele eram de índole totalmente diferente. Mas não queria expressá-las a Beata.

A mãe não queria atribuir importância bastante ao convite deste homem para que declarasse quais eram as suas verdadeiras objecções, mas Beata conhecia-as perfeitamente. Além de se tratar de um total estranho, Antoine não era judeu. Monika não tencionava expor as filhas a belos e elegantes jovens de fé cristã. Jacob não lhe perdoaria, e ela concordava inteiramente com o marido. Era inútil permitir que este novo conhecimento de Beata avançasse mais. Nada faria para encorajar um nobre suíço cristão a cortejar uma das suas filhas. Só a ideia era uma loucura. Algumas das suas próprias amigas eram, de facto, cristãs, mas nunca teria apresentado os seus filhos às filhas delas. Não valia a pena prejudicar as jovens, ou tentá-las com algo que nunca teriam. Por mais bonitas que fossem as suas filhas, nenhuma das suas amigas cristãs alguma vez sugerira apresentá-las aos seus filhos. Neste caso, como em todos os outros, os adultos eram melhores juizes. E Monika manteve-se firme e intransigente. Jacob tê-la-ia morto e com razão, se assim não fosse.

Não compreendo o que achas que pode acontecer ao almoço. Afinal, ele não é um assassino objectou Beata, queixosa.

Como é que sabes? inquiriu a mãe num tom severo.

A situação não estava a agradar-lhe mesmo nada, sobretudo porque Beata nunca reagia assim, embora por vezes lutasse por algo em que acreditava e queria muito. Isto era apenas uma questão de teimosia por parte da filha, pois nem sequer conhecia o homem. E, enquanto Monika estivesse ali, tal nunca aconteceria. Era melhor pôr termo a esta história, antes mesmo que começasse. Sabia muito bem o que Jacob esperava dela como mãe. O que isso significava, porém, era que chegara a altura de encontrar marido para Beata. Se, de repente, jovens nobres começassem a rodeá-la como abutres, era a altura de ela assentar, antes que acontecesse qualquer coisa desagradável.

Beata era demasiado liberal nas suas ideias, embora, por norma, se mostrasse obediente, bem-comportada e fosse motivo de orgulho para os pais. Monika decidiu, pois, falar com Jacob sobre o assunto, quando regressassem. Sabia que o marido tinha vários partidos respeitáveis e ricos em mente, incluindo o dono de um banco rival. Tinha praticamente idade para ser pai de Beata, mas Monika concordava com o marido, como em tudo o mais, que um homem mais velho, inteligente e rico lhe serviria na perfeição.

Embora ainda nova, Beata era uma rapariga muito grave, por isso um jovem não lhe conviria tanto. Contudo, o que quer que pudesse ter mais a favor dele, o factor mais importante, aos olhos dos pais, residia em que devia professar a mesma fé. Qualquer outra possibilidade estava fora de questão. E o jovem nobre que as convidara para almoçar enquadrava-se nesse âmbito. Era obviamente cristão e, com mais probabilidade, católico, dado o nome de Antoine de Vallerand. Pelo menos era suíço e não francês. No ano anterior, Monika desenvolvera um ódio pelos franceses, desde que a guerra fora declarada. Os franceses estavam nas trincheiras a tentar matar os seus filhos.

Beata deixou de argumentar e não pronunciou nem mais uma palavra, enquanto ela e Brigitte se vestiam para jantar.

Então, o que é que se passou mesmo com esse homem, hoje? perguntou Brigitte, parecendo provocante, vestida com a roupa interior cor de pêssego e rendas beje, que a mãe lhe comprara nesse dia. Monika achara-a um pouco ousada, mas não havia qualquer mal em fazer-lhe a vontade. De qualquer maneira, ninguém a veria, excepto a irmã e a mãe. Ele beijou-te?

Estás louca? retorquiu Beata, com um ar irritado e consternado. Por quem me tomas? Além disso, ele é um cavalheiro. Fica a saber que me agarrou no braço para impedir que eu caísse, quando foi de encontro a mim.

Foi assim que se conheceram? inquiriu Brigitte, parecendo maravilhada com a ideia. Que romântico! Porque é que não contaste isso à mamã? Talvez ela se sentisse grata por ele te ter impedido de caíres e de te magoares.

Não me parece replicou Beata, calmamente. Conhecia melhor a mãe e avaliava-a melhor do que Brigitte, que ainda era dada a acessos de fúria e birras, o que não fazia o estilo de Beata, para dizer o mínimo. Achei que daria um ar mais respeitável explicar que nos conhecemos a tomar chá.

Talvez tenhas razão. Sujaste-te ao cair? Teria sido embaraçoso comentou Brigitte, ao mesmo tempo que enfiava um vestido branco de linho e penteava os longos caracóis dourados, sob o olhar invejoso de Beata.

Brigitte era tão bonita, que quase parecia um anjo. Beata sentia-se sempre um rato ao lado dela e detestava o seu cabelo escuro. Não queria mal a Brigitte por isso, só desejava parecer-se mais com a irmã, que tinha umas formas muito mais voluptuosas do que Beata. Junto à irmã mais nova, ela parecia uma miúda. E Brigitte sabia aparentemente muito mais sobre os homens. Falava-lhes mais vezes do que Beata e adorava troçar deles e enlouquecê-los. Beata sentia-se muito melhor e mais à vontade na companhia de mulheres. Brigitte flartava ousadamente, sendo perita em torturar os homens.

Não me sujei explicou Beata. Já te contei que ele me impediu de cair.

Foi simpático da parte dele. E que mais te fez?

Nada. Apenas conversámos respondeu Beata, enquanto punha um vestido de seda vermelho que acentuava o marcado contraste entre o seu cabelo e a pele.

Estava de mau humor. Teria de dizer a Antoine que não podia vê-lo, quando ele telefonasse. Sabia, com plena certeza, que não havia forma de convencer a mãe a almoçarem todos e muito menos apenas os dois.

De que é que falaram?

De filosofia, da Bíblia, da propriedade dele, da universidade, nada de importante. Ele é muito simpático.

Oh meu Deus, Beata! exclamou Brigitte, fitando-a com o incontrolável entusiasmo dos dezassete anos. Estás apaixonada?

Claro que não. Nem sequer o conheço. Apenas gostei de conversar com ele.

Não devias falar com os homens sobre essas coisas. Eles não gostam. Acharão que és estranha observou com a melhor das intenções à irmã mais velha, o que ainda deprimiu mais Beata.

Acho que sou estranha. Não me interesso por... Procurava as palavras exactas, a fim de não ofender Brigitte. Não me interesso por coisas mais ”ligeiras”. Gosto de assuntos sérios, como os antigos gregos.

Devias falar sobre outras coisas. Como festas, moda e jóias. É o que os homens querem ouvir. Caso contrário, pensarão que és mais inteligente do que eles e assustam-se.

Brigitte era sabida para a sua idade, com base no instinto, se não na experiência.

- É provavelmente o que farei anuiu, sem estar muito certa de que lhe interessasse.

A maioria dos jovens que conhecia nas festas parecia-lhe ridícula. Beata adorava, por exemplo, o irmão, mas preferia morrer a casar-se com um homem como Horst. Teria tolerado um homem como Ulm, mas a perspectiva de se casar com alguém do seu meio não lhe agradava muito, ou mesmo nada. Todos lhe pareciam horríveis, monótonos e frequentemente imaturos e superficiais. Antoine era diferente. Mais sério e profundo do que a maioria dos homens que conhecia, protector e sincero. Nunca sentira por ninguém, passadas umas horas, o mesmo que sentia por ele. Não que isso a levasse a algum lado. E não fazia ideia do que ele sentia a seu respeito. Não possuía os instintos de Brigitte nem a sua sabedoria a lidar com os homens. Brigitte poderia ter-lhe dito, sem hesitar, que Antoine estava louco por ela, mas não os vira juntos. Embora lhe tivesse parecido bem-intencionado. O convite para almoçar era um sinal de que existia algum interesse ali, mas não disse nada a Beata. A irmã mais velha não estava visivelmente na disposição de continuar a discutir o assunto.

Beata conservou-se silenciosa enquanto desceram no elevador até ao piso inferior para jantarem e, como estava uma noite quente, a mãe pediu uma mesa no terraço. Monika exibia um vestido de seda muito elegante, azul-marinho, com um colar de safiras e sapatos e mala no mesmo tom do vestido. Pusera brincos de safiras e diamantes a condizer com o colar.

Eram três mulheres muito bonitas que o chefe sentou à mesa. Beata continuou muito quieta depois de terem encomendado o jantar, enquanto Brigitte e a mãe falavam das compras que haviam feito nessa tarde. A mãe contou-lhe que tinham visto alguns vestidos que lhe ficariam bem, mas a jovem não se mostrou interessada.

É uma pena que não possas vestir-te com livros troçou Brigitte. Irias divertir-te muito mais nas lojas.

Prefiro ser eu própria a fazer a minha roupa respondeu Beata com simplicidade, enquanto a irmã arregalava os olhos.

Para quê ter esse trabalho quando se pode comprá-la nas lojas?

Porque assim posso ter exactamente o que quero.

E, na verdade, fora ela a costurar o bonito vestido vermelho que usava e se lhe adequava na perfeição, moldando o corpo elegante em linhas simples.

Beata era uma costureira dotada e adorava coser desde criança. A governanta ensinara-a, embora Monika lhe dissesse que não precisava de fazê-lo. Contudo, Beata preferia assim. Também fizera alguns dos seus vestidos de noite, copiando-os de revistas e desenhos que via de colecções parisienses, as quais, agora, já não tinham à disposição. Gostava de modificá-los e simplificá-los de forma a ficarem ao seu gosto.

Uma vez, fizera um belo vestido de noite de cetim verde como presente de aniversário para a mãe, e Monika mostrara-se surpreendida com a perfeição. Teria feito outro para Brigitte, mas a irmã dizia sempre que detestava roupas feitas em casa. Pareciam-lhe patéticas. Em vez disso, Beata costurou, por vezes, para a irmã a roupa interior de cetim e enfeites que ela adorava, num arco-íris colorido.

As três mulheres tinham acabado de comer a sopa, quando Beata notou que a mãe erguia o rosto e olhava para lá do ombro da filha mais velha com uma expressão desconcertada. Beata não fazia ideia do que acontecera e, ao virar-se, deparou com Antoine de pé, atrás dela, com um caloroso sorriso que abrangia todo o grupo.

Madame Wittgenstein? perguntou delicadamente, ignorando as suas duas filhas, incluindo a que o cativara nessa tarde. Parecia hipnotizado pela mãe. Peço que me desculpe a interrupção, mas queria apresentar-me e também pedir desculpa por ter convidado a sua filha para tomar chá esta tarde, sem uma dama de companhia. Ela tropeçou num caminho junto ao lago e julgo que lhe doía o tornozelo. Achei que um chá lhe faria bem. Por favor, desculpe-me.

Não, eu... claro... que amabilidade a sua... balbuciou, Monika, fixando Beata de relance.

Antoine esboçou uma vénia delicada e beijou-lhe a mão. Não repetira, correctamente, o gesto em relação a Beata, pois esta era solteira, e o beijo na mão era uma cortesia reservada às mulheres casadas. Beata apenas recebera uma vénia, como era apropriado. Na Alemanha, os jovens como ele e os seus irmãos esboçavam uma vénia, tal como fizera, e batiam os calcanhares. Contudo, tão-pouco os suíços ou os franceses o faziam agora, nem ele o fez.

Não me apercebi que ela se magoara acrescentou Monika, momentaneamente confusa.

Antoine virou-se, então, para Beata e quase soltou uma exclamação ao vê-la com o vestido vermelho. Um pouco antes, o rosto iluminara-se-lhe, ao avistá-la do outro lado da sala, e desculpara-se ante a sua mãe para vir apresentar-se à dela.

Antoine não fez qualquer tentativa para apresentar as duas mães por saber que criaria problemas, dado Beata desejar que ele reivindicasse a sua nacionalidade suíça. Não podia, assim, apresentar Monika à sua mãe, contentando-se em ir ter com aquela e com a encantadora Brigitte, que o fitava incrédula. Ele mal a olhou, tratando-a como a criança que ela era e não como a mulher que ansiava por ser, o que conquistou a aprovação de Monika. Antoine tinha uns modos impecáveis e era, sem dúvida, um homem educado e não um conquistador barato, como receara.

Como está o seu tornozelo, mademoiselle? inquiriu, preocupado.

Está muito bem, obrigada, monsieur. Foi muito gentil respondeu Beata, corando.

De nada. C’était la moindre dês choses... era o mínimo que podia fazer.

Voltou em seguida a prestar atenção à mãe das jovens e reiterou o convite para almoço, o que, na verdade, perturbou a mãe. Ele era tão delicado, tão apropriadamente solícito, tão caloroso e amável, que a própria Monika não teve coragem para o repelir, acabando involuntariamente por aceitar. Combinaram encontrar-se no terraço à uma hora da tarde do dia seguinte para almoçarem. Mal foi tomada esta disposição, ele fez mais uma vénia, beijou novamente a mão da senhora Wittgenstein e foi juntar-se outra vez à família, sem um único olhar para Beata. Mostrou-se totalmente correcto e simpático. E, quando ele se afastou, Monika fitou a filha com uma surpresa consternada.

Percebo porque é que gostas dele declarou. Faz-me lembrar o Ulm acrescentou, o que vindo dela era um enorme elogio.

Também a mim.

”Só que muito mais bonito”, pensou sem o dizer, enquanto cortava calmamente a carne e rezava para que ninguém lhe ouvisse o bater acelerado do coração.

Antoine portara-se na perfeição, não que tal interessasse. O que quer que sentiam um pelo outro não os levaria a lado nenhum, mas, pelo menos, podia vê-lo. De qualquer maneira, uma vez mais. Seria uma bela recordação que levaria consigo. O elegante e jovem homem que conhecera em Genebra. Beata tinha a certeza de que todos os que conhecesse depois ficariam a perder por comparação com ele, durante anos. Já se resignara à situação e imaginou-se como solteira para o resto da vida, enquanto jantava. O seu pecado mais imperdoável residia no facto de não ser judeu. Para já nem falar no facto de que também não era suíço. Tratava-se de um beco sem saída.

Porque é que não me contaste que magoaste o tornozelo, esta tarde? inquiriu a mãe, parecendo preocupada, depois de ele se afastar.

Não teve importância. Ele foi de encontro a mim, quando me dirigia ao terraço à hora do chá, depois do meu passeio junto ao lago. Acho que teve pena de mim. Só o torci um pouco.

Nesse caso, foi simpático em convidar-te para tomar chá. E a nós para almoçarmos, amanhã.

Beata apercebeu-se de que a mãe também ficara momentaneamente encantada com ele. Tornava-se difícil que assim não fosse. Antoine era tão elegante e tão simpático para todos, e Beata sentiu-se intimamente satisfeita por ele ter ignorado Brigitte. Todos os outros homens que Beata conhecia quase desmaiavam aos pés da irmã. Contudo, ele não pareceu impressionado. Estava encantado com Beata, embora também não o tivesse mostrado. Actuara de uma forma perfeitamente normal e amistosa, tal como Ulm, e fora por esse motivo que Monika aceitara o seu convite para almoçar. Não era decididamente um conquistador barato como temera, mas respeitável e agradável. Beata não falou mais no assunto, enquanto as três acabavam de jantar. Nem sequer olhou na direcção dele, quando saíram do terraço, e ele não fez mais nenhuma tentativa de lhes falar. Não era, de forma alguma, o que Monika havia suspeitado ou temido. O próprio Jacob não podia desaprovar. O encontro casual fora obviamente inofensivo.

Apenas Brigite se mostrou mais esperta do que qualquer delas, quando as duas irmãs chegaram ao quarto, depois de desejarem boa-noite à mãe.

Oh, Deus do céu, Beata! Ele é um espanto! sussurrou à irmã mais velha, de olhos arregalados. E está doido por ti. Vocês os dois enganaram completamente a mamã!

Brigitte achava tudo fantástico e já imaginava encontros clandestinos de amantes sob o luar.

Não sejas parva ralhou Beata, enquanto tirava o vestido vermelho e o atirava para cima de uma cadeira, desejando agora ter levado algo mais atraente. Ao pensar nele, o vestido parecia-lhe demasiado vulgar. E pensava o mesmo de si. Ele não está doido por mim. Nem sequer me conhece. E não enganámos a mamã. Ele convidou-nos para almoçar e ela aceitou. É tudo. Apenas um almoço, por favor. Está apenas a ser simpático.

És tu que estás a ser parva. Homens daqueles só te convidam para almoçar se estiverem doidos por ti. Ele nem sequer te olhou quando se aproximou da mesa, ou muito pouco, e isso diz tudo.

O que estás para aí a dizer? replicou Beata, divertida.

Ora, Beata! riu-se a irmã. Não percebes absolutamente nada de homens. Quando eles se comportam como se não significasses nada para eles, quer dizer que estão loucamente apaixonados por ti. Mas quando se mostram arrebatados e parecem loucos de amor, estão, por hábito, a mentir.

Beata riu-se ante a sábia e mundana análise da situação feita pela irmã. Contudo, esta era muito mais sofisticada em relação ao mundo e aos homens do que Beata. Tinha um bom instinto. Melhor do que a sua tímida e séria irmã.

Isso é ridículo! exclamou Beata, rindo, mas sentindo-se no íntimo satisfeita. Estás, portanto, a dizer-me que todos os homens que me ignoram, como todos os que estavam naquele restaurante esta noite, estão, afinal, loucamente apaixonados por mim? Que maravilha! E terei, sem dúvida, que me acautelar com os que parecem amar-me, se estão a mentir. Que confusão, céus!

É mesmo, mas também é assim que geralmente funciona reconheceu Brigitte. Aqueles que denotam um grande entusiasmo estão apenas a divertir-se. Os outros, como o Antoine, são os sinceros.

Sinceros como? replicou Beata, fitando a irmã mais nova, elegantemente deitada em cima da cama com a roupa interior de cetim, parecendo uma jovem muito atraente.

A nível de sentimentos. Tenho a certeza de que ele se apaixonou por ti.

-Bom, não lhe valerá de muito. Voltaremos a Colónia dentro de três semanas retorquiu Beata num tom despreocupado, enquanto tirava a roupa interior e vestia a camisa de noite, o que a fazia parecer uma criança, comparada com a irmã. Costurava sempre camisas de noite brancas, de algodão, que eram as mesmas que usava desde criança. Davam-lhe conforto e gostava delas.

Pode acontecer muita coisa em três semanas pronunciou Brigitte num tom misterioso, enquanto Beata abanava a cabeça e se punha novamente séria.

Não, Brigitte vincou. Ele não é judeu. Apenas podemos ser amigos.

A frase acalmou a irmã, enquanto ambas pensavam no pai.

É verdade anuiu Brigitte num tom triste. Mas, pelo menos, podes flartar com ele. Precisas de praticar.

Sim declarou Beata pensativa, dirigindo-se à casa de banho para lavar a cara e escovar os dentes. Suponho que sim.

Nessa noite, nenhuma delas voltou a mencionar Antoine, mas enquanto Beata se mantinha deitada, pensando nele durante horas a fio antes de adormecer, achava uma ironia do destino que o primeiro homem por quem se havia sentido completamente atraída não fosse judeu. E, além disso, era francês. Nada resultaria daquela ligação, mas, pelo menos, podia desfrutar da companhia dele durante as próximas três semanas. Eram quase quatro horas da manhã quando, por fim, adormeceu.

 

No dia seguinte, o almoço com Antoine foi absolutamente perfeito e conforme às expectativas de Beata. Delicado, agradável, cordial, totalmente respeitável. Deu provas de grande cortesia para com a mãe, tratou Brigitte como uma jovenzinha e fê-las rir a todas quando troçou dela. Era inteligente, encantador, generoso, divertido e uma companhia maravilhosa. Para já não mencionar o facto de ser deslumbrante.

Contou-lhes histórias engraçadas sobre a sua família e descreveu a propriedade da família como sendo um pesadelo a nível de dirigir e manter, embora fosse óbvio que a adorava. Nunca deixou escapar que se situava em França e não na Suíça. No final do almoço, Monika adorava-o e não viu nada de mal em que fosse dar um passeio com Beata. Ele não fizera quaisquer avanços românticos durante a refeição e nada tinha de falso ou misterioso. Na opinião da mãe de Beata, era apenas uma pessoa muito simpática, desfrutando a companhia de três novas amigas. A mãe de Beata não tinha quaisquer reservas ou preocupações a seu respeito.

Antoine e Beata sentiram um enorme alívio quando, por fim, se viram sós e caminharam quilómetros junto ao lago. Desta vez, quando pararam, sentaram-se numa estreita faixa da praia, em cima da areia e com os pés dentro de água, conversando sobre milhares de coisas. Partilhavam, aparentemente, gostos e opiniões semelhantes sobre quase tudo.

Obrigada por nos ter levado a almoçar. Foi muito simpático para com a minha mãe e a Brigitte.

Por favor! Elas trataram-me da melhor maneira, embora tenha a certeza de que a sua irmã irá despedaçar o coração de muitos homens. Espero que a casem depressa.

Assim farão garantiu Beata com um sorriso calmo. Agradara-lhe sobretudo a maneira como ele reagira a Brigitte. Mantivera a devida distância, tratara-a como a criança que ela era, sem demonstrar qualquer interesse de ordem sentimental.

Sentiu-se um pouco maldosa por isso, mas estava contente. Ela está mais ou menos apaixonada por um dos amigos do Horst, e o meu pai vai falar brevemente com o pai dele. Estou certa de que ficará noiva antes do fim do ano.

E quanto a si? perguntou Antoine, parecendo preocupado, o que Beata não notou. Vão arranjar alguém que lhe convenha?

Espero que não. Não o farei. Acho que nunca casarei respondeu tranquilamente e as palavras saíram-lhe num tom convicto.

Porque não?

Porque não consigo imaginar-me a desejar alguém que escolherem para mim. Só essa ideia põe-me doente. Não quero um marido que não ame, não conheça, nem queira. Prefiro ficar só para sempre.

Beata pronunciou as palavras com verdadeira veemência. Antoine observou-a, sentindo-se ao mesmo tempo aliviado e triste por ela.

Para sempre é muito tempo, Beata. Vai querer ter filhos e assim deve ser. Talvez um dia conheça alguém por quem se apaixone. Tem apenas vinte anos e toda uma vida pela frente.

Parecia triste ao dizê-lo e, quando ela o fitou, os olhos de ambos cruzaram-se por um longo momento antes de ela responder:

Também é o seu caso.

Eu tenho uma guerra em que lutar. Quem sabe quais de nós irão sobreviver? Os homens caem como moscas nos campos de batalha. No preciso momento em que disse a frase pensou nos irmãos dela e lamentou tê-lo feito. Estou certo de que acabaremos por sair dela, mas é difícil pensar no futuro. Também sempre achei que ficaria solteiro. Acho que nunca me apaixonei declarou honestamente, fitando-a, mas as palavras seguintes surpreenderam-na quase tanto a ela quanto a ele... até a conhecer.

Seguiu-se um silêncio depois de ele falar, e Beata não fazia ideia do que responder. Apenas sabia que também estava apaixonada por ele. apesar de terem acabado de se conhecer. O que Antoine dissera era uma loucura, o que sentiam também, mas era a verdade e nada podiam fazer a esse respeito. Era impossível, e ambos o sabiam, mas, de qualquer maneira, ele dissera-o.

Sou judia explodiu Beata. Nunca poderei casar consigo acrescentou com os olhos cheios de lágrimas. Ele agarrou-lhe na mão.

Não seríamos os primeiros, Beata. As pessoas casam independentemente da sua fé.

Durante o dia inteiro, Antoine fantasiara casar com ela. Era um sonho louco para ambos, mas não podia negar o que sentia. Levara trinta e dois anos a encontrá-la e ainda não queria perdê-la. Ou nunca, se pudesse evitá-lo. Contudo, erguiam-se, sem dúvida, obstáculos no caminho deles. Seria, na melhor das hipóteses, difícil. A sua própria família ficaria escandalizada. Ele era Comte de Vallerand, um conde, e ainda nem sequer lho dissera. Estava certo de que não teria importância para ela. O que os atraíra um ao outro era muito mais profundo do que a fé, títulos, posição ou nascimento. Antoine amava tudo nela, o que dizia e o que sentia, a forma como encarava o mundo e era assim que também ela o amava. Sentiam-se atraídos um pelo outro pelos motivos certos, mas a fé e as nacionalidades de ambos, as crenças e as famílias iriam conspirar para que se mantivessem separados. O segredo consistia em não permitir que ganhassem, se lhes fosse possível. Era o que se veria.

A minha família nunca o permitiria. O meu pai matava-me. Deserdar-me-iam retorquiu Beata como resposta ao seu comentário sobre pessoas que se casavam, independentemente da fé. Na sua família, nunca se ouvira falar de tal coisa.

Talvez não, se um dia lhes explicarmos. Também a minha família ficará consternada e precisará de tempo para se acostumar à ideia. Mas, primeiro, há uma guerra pela frente. Se decidirmos casar, temos um longo caminho a percorrer. Isto é apenas o começo, mas quero que saiba que a amo. Nunca disse isto a ninguém.

Beata assentiu com a cabeça, fitando-o com os olhos cheios de lágrimas. Ficaram sentados lado a lado, na praia, de mãos dadas; quando voltou a falar, fê-lo num fio de voz:

Também o amo.

Antoine virou-se na sua direcção, sorriu-lhe e, sem pronunciar uma palavra, inclinou-se, beijou-a e abraçou-a durante longos momentos. Não fizeram nada que não devessem fazer; ele sentia-se feliz apenas com a sua companhia.

Quero que saibas que te amo, caso me aconteça alguma coisa, quando voltar. Quero que saibas que este homem te ama e te amará até ao dia em que morrer.

Era uma declaração importante para alguém que só a conhecia há dois dias, mas estava a ser sincero e Beata sabia-o.

Espero que seja daqui a muito tempo desejou ela, num tom solene, referindo-se a ”amá-la até ao dia em que morresse”.

Será garantiu ele.

Conservaram-se sentados mais uma hora e ele voltou a beijá-la, antes de regressarem. Não queria fazer nada que a prejudicasse ou a magoasse. Apenas desejava protegê-la e amá-la, mas o mero facto de se amarem, colocava-os a ambos numa situação delicada. Não tinham um caminho fácil pela frente, mas os dois encaravam-no como um destino. Era o que sentiam, quando percorreram de volta o caminho para o hotel, de mãos dadas.

Engendraram um plano para se verem mais tarde, nessa noite. Beata disse-lhe que Brigitte dormia como uma pedra e não daria pela sua saída. Encontrar-se-iam no jardim, à meia-noite, só para falarem. Era arriscado, se a mãe descobrisse, mas Beata garantiu que, se a mãe ou Brigitte ainda estivessem a pé, não apareceria. Ele suplicou-lhe que fosse prudente e sensata, embora o que estavam a fazer fosse tudo menos isso. Por um qualquer milagre, Beata conseguiu esgueirar-se nessa noite e em todas as que se lhe seguiram.

Durante três semanas deram longos passeios, tomaram chá e encontravam-se quando a noite ia adiantada. Quando ele partiu de Genebra, pouco antes dela, estavam profundamente apaixonados e haviam jurado passar o resto da vida juntos. Falariam às respectivas famílias depois da guerra, quando quer que isso fosse. Entretanto, ele escrever-lhe-ia. Tinha um primo em Genebra, a quem enviaria as cartas pelo correio e ele encarregar-se-ia de as mandar a Beata, para Colónia. Pensara em todos os pormenores, pois, caso contrário, seria impossível fazer entrar cartas na Alemanha, vindas de França.

A sua última noite juntos foi uma tortura e ele abraçou-a durante horas. Estava quase a nascer o dia quando Beata regressou, com o rosto banhado de lágrimas, mas sabendo que, se o destino conspirasse para os ajudar, um dia ficariam juntos. Supostamente, ele obteria uma licença no Natal, mas tinha de ir a casa, em Dordogne. Enquanto a guerra durasse, não poderia ir vê-la à Alemanha. A família dela não tinha planos para regressar novamente à Suíça. Teriam de esperar. Contudo, não pairava a mínima dúvida no espírito de ambos. O que haviam descoberto acontecia uma vez na vida e valia a pena esperar. Os dois estavam totalmente seguros do que sentiam um pelo outro.

Nunca te esqueças que te amo sussurrou-lhe Antoine, quando a jovem o deixou no jardim. Pensarei em ti cada momento até te ver outra vez.

Também te amo respondeu ela no mesmo tom e entre soluços, após o que se afastou e se meteu na cama do quarto que partilhava com Brigitte.

Duas horas mais tarde, ainda acordada, viu uma carta a deslizar por baixo da porta. Levantou-se para lhe pegar, mas quando abriu cautelosamente a porta, ele já se fora embora. A carta dizia-lhe o que já sabia, quanto a amava e que um dia seria dele. Dobrou-a com todo o cuidado e meteu-a na gaveta onde guardava as luvas. Não teve coragem de destruí-la, embora soubesse que o deveria fazer por uma questão de segurança. Contudo, dado ser muito mais alta do que a irmã mais velha, Brigitte nunca calçava as luvas de Beata, portanto sabia que a carta estaria a salvo. Beata não fazia ideia do que iria acontecer agora. Apenas sabia que o amava e tudo o que estava ao seu alcance naquele momento era rezar para que ele se mantivesse vivo. O seu coração pertencia-lhe.

Por um qualquer milagre, Beata tinha conseguido ocultar de Brigitte tudo o que acontecera, insistindo em que ela e Antoine eram apenas amigos. Brigitte ficou desiludida com a notícia e, de início, desconfiou, mas acabou por acreditar na irmã. Beata não mostrou qualquer sinal do amor ou da paixão que sentia por Antoine e nada lhe confessou. Havia coisas demasiadas em jogo. Não podia confiar em ninguém quanto ao seu futuro, à excepção do próprio Antoine, tal como ele confiava nela. A mãe achava simpático que ela tivesse feito um amigo e disse que esperava voltar a vê-lo, quando algum dia regressassem. Sabia que, enquanto houvesse guerra, Jacob desejaria voltar de novo à Suíça, para ter alguma paz.

O regresso a Colónia, em Setembro, foi desgastante. A guerra continuava a devastar tudo e tornava-se deprimente ouvir falar da morte dos filhos, maridos e irmãos de pessoas conhecidas. Já tinham morrido demasiados e Monika estava constantemente preocupada em relação aos filhos, tal como Jacob, mas este também se preocupava com as filhas. Cumpriu a promessa que fizera à mulher. Em Outubro, falou com o pai do amigo de Horst em Berlim, o jovem que Brigitte achava tão atraente e, quando lhe contou, ela ficou nas nuvens. O jovem concordara e a família dele achava que um casamento entre as duas famílias era uma excelente ideia. Jacob concedeu um enorme dote à sua filha mais nova e prometeu comprar-lhes uma bonita casa em Berlim. Tal como Beata tinha previsto, Brigitte ficou noiva no final do ano, quando fez dezoito anos.

Em tempo de paz, os pais teriam organizado um enorme baile para festejar o noivado, mas, com a guerra, estava fora de questão. O noivado foi anunciado e Jacob e Monika deram um grande jantar em honra dos pais dos noivos e de uma série de amigos. Vários generais estiveram presentes, os jovens que estavam disponíveis e de licença apareceram fardados, e Ulm conseguiu vir, embora Horst não tivesse obtido licença.

Contudo, foi um evento importante. A união de duas grandes famílias e de dois belos jovens.

Brigitte apenas conseguia pensar no casamento e no vestido de noiva. Devia casar em Junho, o que lhe parecia uma espera interminável. Era tudo o que Brigitte tinha sonhado desde criança. Queria um marido, filhos, festas, belos vestidos e jóias e ia ter tudo isso. Para sua felicidade, o noivo ficou colocado em Berlim. Não corria perigo iminente, o pai conseguira-lhe o posto de auxiliar de um general, tendo-lhe sido assegurado que o filho não seria enviado para a frente, portanto Brigitte nada tinha a recear. O seu casamento e o seu futuro estavam em segurança.

Beata encarava a situação com grande tranquilidade e sentia-se encantada por ver a irmã tão feliz. Prometera fazer toda a roupa interior para o enxoval dela e sentava-se frequentemente a coser bocados de cetim claro e a arrastar enfeites de rendas por todo o lado. Não parecia nada incomodada pelo facto de a irmã mais nova casar e ela não. Estava muito mais interessada na guerra. Uma vez por semana, recebia uma carta de Antoine, através do seu primo suíço, o que lhe garantia que ele estava vivo e bem. Antoine estava próximo de Verdun. Beata pensava constantemente nele enquanto costurava e relia as cartas dele milhares de vezes. A mãe reparara numa ou duas cartas quando haviam chegado pelo correio, mas, geralmente, Beata recebia a correspondência antes de todos os outros e ninguém se apercebeu de quantas cartas lhe tinham escrito ou com que frequência chegavam. Os dois jovens continuavam tão apaixonados como sempre, preparados para esperar por uma vida juntos, até depois da guerra. Beata já havia jurado a si própria, e também a ele, que, se alguma coisa lhe acontecesse, não casaria com mais ninguém. Não imaginava amar outra pessoa como o amava a ele.

Nos últimos meses, o pai reparara na tranquilidade de Beata, interpretando-a como uma grande tristeza da sua parte frente à alegria de Brigitte. O facto de a julgar infeliz despedaçava-lhe o coração. Foi mesmo ao ponto de falar com vários homens que conhecia bem e, em Março, sabia que tinha encontrado o indivíduo certo. Este não seria a sua primeira escolha, mas, ao proceder a uma análise mais cuidada, concluiu que o homem que escolhera era o marido ideal para a filha. Tratava-se de um viúvo, sem filhos, de uma excelente família e uma enorme fortuna pessoal.

Jacob desejara alguém mais velho e mais estável para Beata do que o elegante e bonito jovem que arranjara para Briggite, que podia revelar-se inconstante, pois ainda era imaturo e irresponsável, decididamente mimado, embora Jacob simpatizasse com ele. Contudo, Brigitte adorava-o. O marido que Jacob escolhera para a sua filha mais velha era um homem ponderado e muito inteligente. Sem ser bonito, também não era feio, embora começasse a ficar calvo. Era alto e corpulento, tinha quarenta e dois anos, mas Jacob sabia que ele a respeitaria. O homem em questão respondeu que seria uma honra ficar noivo de uma jovem tão bonita. A mulher morrera há cinco anos, vítima de uma doença prolongada, e ele não pensara em voltar a casar-se. Era uma pessoa calma, que detestava a vida social da mesma maneira que Beata, desejando apenas um lar tranquilo.

Jacob e Monika convidaram-no para um jantar em casa deles e insistiram para que Beata estivesse presente. Ela não queria, pois Brigitte estava em casa dos futuros sogros para ir a uma série de festas em Berlim e Beata não queria participar num jantar sem ela. Contudo, sabia que teria de aprender a ir a festas sem a irmã, depois de Brigitte se mudar para Berlim com o marido, em Junho.

Os pais insistiram em que ela se lhes juntasse, mas ocultaram-lhe o motivo de um tal desejo. Beata apareceu na sala de estar, muito elegante, com um vestido de noite de veludo azul, um bonito colar de pérolas no pescoço e pequenos diamantes nas orelhas. Não prestou atenção ao homem com quem eles esperavam que casasse, pois nunca o vira antes, e pareceu alheada da sua presença. Quando lhe foi apresentada, apertou-lhe delicadamente a mão, mas afastou-se uns momentos depois, julgando que ele era alguém do banco do pai. Sentou-se calmamente ao lado dele durante o jantar, respondeu cortesmente às suas perguntas, mas tinha a mente absorta com a última carta de Antoine que recebera nessa tarde. Não conseguia pensar em mais nada, por isso ignorou o seu companheiro de jantar durante a maior parte do tempo. Não ouviu uma única das suas palavras, o que ele interpretou como timidez e achou encantador. O pretendente ficou extremamente atraído por Beata, que mal reparou nele, não fazendo a mais pequena ideia de que ele fora convidado por sua causa. Achou que estava sentada ao seu lado por casualidade e não de propósito.

Nessa noite sentira-se preocupada com Antoine; há dias que não tinha notícias dele, até receber a carta que mencionava o ataque das forças alemãs às francesas, em Verdun. Mal conseguia pensar noutra coisa durante todo o jantar; por fim, declarou que tinha uma dor de cabeça e abandonou a sala depois da sobremesa, sem se despedir. Achou mais discreto desaparecer pura e simplesmente. Em seguida, o futuro noivo perguntou a Jacob quando tencionavam dizer-lhe e este prometeu que o faria dentro de dias. Queria que ela fosse tão feliz quanto Brigitte, e este era, sem dúvida, o homem que lhe convinha. O futuro marido da filha até partilhava a sua paixão pelos filósofos gregos, tendo tentado discuti-los com ela ao jantar, mas Beata mostrara-se distraída e distante, limitando-se a assentir com a cabeça ante o que ele dizia. Não escutara uma única palavra dele desde a sopa à sobremesa. Era como se pairasse algures no espaço, incapaz de descer à terra. O seu futuro noivo achou-a uma jovem modesta e encantadoramente discreta.

Beata estava de muito melhor humor quando o pai se cruzou com ela no corredor, no dia seguinte. Acabara de receber outra carta de Antoine, que voltara a garantir-lhe estar bem e loucamente apaixonado por ela, como sempre. Tinham passado uns dias infernais próximo de Verdun, mas estava vivo e bem, embora exausto e faminto. As condições que descrevia eram de pesadelo, mas o mero facto de saber que ele estava vivo chegou para lhe elevar imensamente o moral, e o pai ficou encantado ao vê-la tão feliz, quando lhe pediu que fosse à biblioteca falar-lhe. Perguntou-lhe se gostara do jantar da noite anterior e a filha respondeu delicadamente que a apreciara muito. O pai questionou-a sobre a companhia do jantar, mas ela mal pareceu recordá-lo; depois respondeu que era um homem muito simpático e um conversador agradável, sendo óbvio que não fazia ideia do que lhe reservavam.

Quando o pai entrou em explicações, Beata empalideceu. Ele declarou que o homem, que se sentara ao lado dela, em que ela mal reparara e por quem não se sentia minimamente atraída, estava disposto a desposá-la. Na verdade, não via qualquer razão para protelar o assunto. Preferia casar com ela mais cedo do que mais tarde e o pai achava que um casamento discreto, logo a seguir ao de Brigitte, talvez em Julho, seria sensato. Ou mesmo antes, se ela quisesse, visto ser a mais velha, talvez em Maio. Não havia necessidade de esperar. Naqueles tempos de guerra, as pessoas casavam-se rapidamente.

Beata mantinha-se sentada, fitando o pai com uma expressão de surpresa e horror e, de início, Jacob não se apercebeu da repulsa da filha. Esta levantou-se de um salto, começou a andar pela sala, parecendo ansiosa e atemorizada, e expressou-se com uma tal violência e raiva, que Jacob a olhou, incrédulo. Não era esta a reacção que esperava dela, nem a que desejava. Garantira ao pretendente viúvo que o casamento deles era uma certeza e já discutira o dote com ele. Seria muito embaraçoso, se Beata recusasse casar-se com ele. Sempre se mostrara uma filha dócil e obediente e Jacob tinha a certeza de que não o desiludiria.

Nem sequer conheço esse homem, papá declarou com as lágrimas a correrem-lhe pelo rosto. Tem idade suficiente para ser meu pai e não quero casar com ele prosseguiu, desesperada. Não quero ser dada a um desconhecido, como qualquer escrava. Se espera que partilhe a mesma cama com ele, prefiro morrer solteira.

O pai pareceu chocado ante esta descrição excessivamente gráfica das suas expectativas e resolveu que seria a mãe a falar com ela. Fez mais uma tentativa para chamar a filha à razão. Esperara que ela ficasse satisfeita e não furiosa.

Tens de confiar no meu poder de apreciação, Beata - disse. Ele é o homem certo para ti. As jovens da tua idade fazem uma ideia romântica do amor, que não corresponde à realidade. O que precisas é de um companheiro para a vida, que partilhe os teus interesses, seja responsável e te respeite. O resto virá a seu tempo, Beata. Garanto-te. És muito mais sensata do que a tua irmã e precisas de um homem que seja tão sensato e prático como tu. Não precisas de um jovem tonto com uma cara bonita. Precisas de um homem que te proteja e zele pela tua sobrevivência e a dos teus filhos, um homem com quem possas contar e conversar. É isso o casamento, Beata, e não o romance e as festas. Não queres, nem precisas dessas coisas. Prefiro um homem destes para ti concluiu quase severamente, enquanto ela lhe deitava um olhar furibundo, do outro lado da sala.

Então, durma o papá com ele. Não deixarei que me toque. Não amo este homem e não casarei com ele, só porque o diz. Não serei vendida como escrava a um estranho, qual cabeça de gado, papá. Não pode fazer-me isto.

Não tolero que me fales nesses termos ripostou Jacob, tremendo de raiva. O que querias que fizesse? Deixar que vivesses aqui como uma velha solteirona para o resto da vida? O que te acontecerá quando a tua mãe e eu morrermos e ficares desprotegida? Este homem cuidará de ti, Beata. É do que precisas. Não podes ficar aí sentada à espera que um belo príncipe te descubra e te leve com ele, um príncipe que seja tão intelectual como tu, tão sério e tão fascinado pelos livros e os estudos como tu. Talvez preferisses um professor universitário, mas esse não estaria em condições de dar-te a vida a que estás habituada e mereces. Este homem tem meios idênticos àqueles em que foste criada. Deves aos teus futuros filhos casares-te com alguém como ele, Beata, não com um artista ou um escritor famintos que te deixarão a morrer tuberculosa em qualquer mansarda. Deves ser realista e casar com o homem que escolhi para ti. A tua mãe e eu sabemos o que estamos a fazer. Tu és jovem, tonta e idealista. A realidade não está nos livros que lês. A realidade é aqui e farás como eu disser.

Prefiro morrer retorquiu ela, sem desfitar o pai e dando a sensação de que nunca falara tão a sério.

Jacob nunca a vira tão furiosa e determinada e, ao examiná-la, uma dúvida atravessou-lhe a mente. Ao fazer-lhe uma única pergunta, a voz tremia-lhe e, pela primeira vez na vida, receou o que pudesse ouvir:

Estás apaixonada por alguém?

Jacob não conseguia imaginar tal coisa, pois a filha nunca saía de casa, mas o olhar dela indicou-lhe que precisava perguntar-lhe; ela hesitou antes de responder. Sabia que tinha de contar-lhe a verdade. Não havia outra alternativa.

Sim disse, pronunciando a palavra com uma postura calma e rígida.

Porque é que não me contaste? Jacob estava triste e pálido em simultâneo e, mais do que isso, parecia atraiçoado. A filha permitira-lhe que avançasse com esta charada, só por nunca lhe ter dito que havia alguém por quem se interessava profundamente. O suficiente para prejudicar a escolha que ele fizera para ela, a escolha perfeita. Quem é ele? Conheço-o? acrescentou, sentindo um arrepio a percorrer-lhe todo o corpo, como se alguém tivesse pisado a sua sepultura.

Não, não conhece respondeu Beata, abanando a cabeça e falando ternamente. Conheci-o na Suíça, no Verão passado.

Beata decidira ser honesta com o pai. Sentia que não lhe restava outra escolha. Este momento chegara mais depressa do que desejara ou esperara e apenas podia rezar para que o pai se mostrasse razoável e justo com ela.

Porque é que não me contaste? A tua mãe está ao corrente?

Não. Ninguém sabe. A mamã e a Brigitte conheceram-no, mas, nessa altura, ele era apenas um amigo. Quero casar-me com ele quando a guerra acabar, papá. Ele quer vir até cá e conhecê-lo.

Então que venha.

O pai estava furioso, mas, mesmo assim, disposto a encarar a questão de uma forma honrosa e a ser sensato com a filha, embora se sentisse profundamente triste com ela devido a esta confissão de amor à última hora.

Ele não pode vir falar consigo, papá. Está na Frente.

Os teus irmãos conhecem-no? Ela abanou novamente a cabeça e manteve-se silenciosa. O que é que estás a ocultar-me sobre ele, Beata? Sinto que há mais alguma coisa além do que me dizes.

O pai tinha razão, como em tantas outras vezes. Beata sentiu que todo o corpo lhe tremia de medo, quando lhe respondeu:

- É de uma boa família, dona de uma vasta propriedade. É culto e inteligente. Ele ama-me, papá, e eu amo-o! As lágrimas corriam-lhe pelo rosto.

Então, porque é que mantiveste tudo isto em segredo, Beata? O que estás a esconder-me? rugiu com uma tal força que Monika o ouviu no andar de cima.

Ele é católico e francês sussurrou Beata, ao mesmo tempo que o pai emitia um som semelhante ao de um leão ferido.

Foi tão horrível, que ela recuou vários passos, enquanto o pai avançava na sua direcção, sem pensar. Só parou quando chegou junto dela e lhe agarrou no frágil corpo com as duas mãos. Sacudiu-a com tal força pelos ombros que os dentes bateram uns contra os outros, quando lhe gritou em pleno rosto:

Como te atreves? Como te atreves a fazer-nos uma coisa destas?! Não casarás com um cristão, Beata. Nunca! Antes quero ver-te morta. Se o fizeres, terás morrido para nós. Escreverei o teu nome no livro dos mortos da família. Não voltarás a ver esse homem, compreendes? E casarás com Rolf Hoffman no dia em que te disser. Vou informá-lo de que o acordo está concluído. Vais dizer ao teu francês católico que não voltarás a vê-lo nem a falar-lhe. Entendido?

Não pode fazer-me isso, papá ripostou ela, soluçando e sentindo o ar a faltar-lhe.

Não podia desistir de Antoine, nem casar com o homem que o pai escolhera. Pouco importava o que ele lhe fizesse.

Posso e farei. Casarás com Hoffman daqui a um mês.

Não, papá! exclamou, caindo de joelhos, desfeita em soluços, enquanto o pai saía de rompante da biblioteca e subia ao andar de cima.

Beata manteve-se ajoelhada durante muito tempo, num pranto, até que, por fim, a mãe apareceu, também ela a chorar. Ajoelhou-se ao lado da filha, com o coração despedaçado ante o que acabara de ouvir.

Como pudeste fazer isto, Beata? Tens de esquecê-lo... Sei que é um bom homem, mas não podes casar-te com um francês, sobretudo com esta terrível guerra entre os nossos povos. E muito menos casar com um católico. O teu pai escreverá o teu nome no livro dos mortos da família pronunciou Monika, desesperada ante a expressão do rosto da filha.

De qualquer maneira, morrerei, se não casar com ele, mamã. Amo-o. Não posso casar com aquele homem horrível.

Sabia que ele não era horrível, mas era velho aos seus olhos e não era Antoine.

Vou dizer ao teu pai que o informe. Mas nunca poderás casar com Antoine.

Prometemos casar um com o outro depois da guerra.

Tens de dizer-lhe que é impossível. Não podes negar tudo o que és.

Ele ama-me como sou.

Vocês são dois jovens inconscientes. A família dele também o deserdará. Como viveriam?

Posso costurar... Podia ser modista, professora, o que tiver de ser. O papá não tem o direito de fazer-me isto.

Contudo, ambas sabiam que o faria. Ele podia fazer o que quisesse e dissera-lhe que, se casasse com um cristão, morreria para eles. Monika acreditava no marido e não conseguia suportar a ideia de não voltar a ver Beata. Era um preço demasiado elevado a pagar por uma simples história de amor.

Peço-te que não o faças suplicou à filha. Obedece ao teu pai.

Nunca recusou, soluçando nos braços da mãe. Jacob não era estúpido. Nessa tarde, informou Rolf

Hoffman que Beata era jovem, inocente e parecia recear as... obrigações físicas... do casamento e não estava seguro que a filha estivesse pronta para casar com alguém. Não queria iludir o homem, nem contar-lhe toda a verdade. Disse-lhe que, talvez, após um prolongado namoro e de se conhecerem um ao outro, ela se sentisse mais à vontade com tudo o que o casamento acarretava.

Hoffman ficou desapontado, mas respondeu que esperaria o tempo que fosse necessário. Não tinha pressa e compreendia que ela era uma jovem inocente. Apercebera-se da sua timidez na noite em que se conheceram. E até mesmo uma filha obediente merecia a oportunidade de se familiarizar com o homem que ia desposá-la e levá-la para a sua cama. No final da conversa, Jacob agradeceu-lhe a paciência e garantiu-lhe que Beata acederia a devido tempo.

Nessa noite, Beata não desceu para jantar e Jacob não a viu durante vários dias. Segundo a mãe, a filha não saíra da cama. Beata escrevera uma carta a Antoine, contando-lhe o sucedido. Disse que o pai jamais concordaria com o casamento deles, mas ela estava disposta a casar com ele, quer depois da guerra ou antes, o que ele achasse melhor. Contudo, deixara de sentir-se à vontade na sua casa em Colónia. Sabia que o pai continuaria a tentar obrigá-la a casar com Rolf. Também sabia que decorreriam algumas semanas antes de receber uma resposta de Antoine, mas estava preparada para esperar.

Não teve notícias dele durante dois meses. Corria o mês de Maio quando, por fim, recebeu uma carta dele. Durante todo esse tempo, vivera no terror de que tivesse sido ferido ou morto ou que, ao saber da raiva do pai dela, decidisse recuar e não voltar a escrever-lhe. A primeira hipótese era a correcta. Antoine fora ferido há um mês e estava num hospital em Yvetot, na costa da Normandia. Quase perdera um braço, mas garantia que em breve estaria bem. Acrescentava que quando ela recebesse a carta, já estaria em casa, em Dordogne, e falaria à sua família sobre o casamento deles. Não regressaria à Frente, nem tão-pouco à guerra. Contudo, repetia várias vezes que estava bem e a amava muito, muito.

Beata apressou-se a responder e mandou a carta, como sempre, através do primo dele na Suíça. Agora, só lhe restava aguardar. Antoine dissera-lhe na carta que esperava que a família a acolhesse no seu seio e que casariam e viveriam na sua propriedade, em Dordogne. Embora, na actual situação, ou mesmo depois da guerra, não fosse fácil levar uma alemã para a França. Sem mencionar as diferenças religiosas entre ambos, o que perturbaria tanto a sua família como a dela. O casamento de um conde com uma judia em França seria tão horrível aos olhos deles, como o casamento dela com um católico francês aos olhos da sua comunidade, em Colónia. Não era um caminho fácil para nenhum deles.

Depois de lhe ter escrito, Beata passava os dias tranquilamente em casa a ajudar a mãe, mantendo-se longe do pai. Este fizera repetidas tentativas para convencê-la a passar algum tempo com Rolf, mas Beata recusara sempre. Declarou que nunca se casaria com ele, nem mesmo o queria ver. Empalidecera tanto que parecia um fantasma; ao vê-la naquele estado, a mãe sentia o coração despedaçado. Implorava-lhe a toda a hora que obedecesse ao pai. Nenhum deles teria paz, enquanto assim não fosse. Devido ao peso do desgosto que ela trouxera para a casa, esta assemelhava-se a uma morgue.

Os dois irmãos tinham-lhe falado, sem resultado, quando vieram a casa de licença. E Brigitte ficou tão furiosa, que deixou de falar-lhe. Tornara-se insuportavelmente senhora do seu nariz com a excitação do casamento iminente.

Como pudeste ser tão estúpida e contares ao papá, Beata?

Não queria mentir-lhe respondeu simplesmente. Contudo, desde essa altura, Jacob ficara furioso com todos. Responsabilizava-os pela estupidez e traição de Beata. Além disso, sentia que a filha o atraiçoara, como se ela tivesse decidido apaixonar-se por um católico francês só para o humilhar. Aos olhos dele, ela não podia ter feito nada de pior. Levaria anos a ultrapassar a questão, mesmo que Beata concordasse em desistir de Antoine, o que, até essa altura, não fizera.

Tu não o amas a sério declarou Brigitte com a presunção de uma jovem de dezoito anos prestes a casar com o seu príncipe encantado. Brigitte tinha o mundo a seus pés e sentia pena da estúpida da irmã. Achava ridículo. O que lhe parecera romântico, durante uns dias em Genebra, deixara de fazer sentido. Não se joga uma vida, nem se põe a família em risco, por alguém de um outro mundo. Estava totalmente encantada com o casamento que o pai lhe arranjara e que lhe convinha em absoluto. Nem sequer o conheces censurou-a.

Nessa altura não, mas agora sim. Haviam posto a alma a nu em seis meses de cartas e, mesmo em Genebra, passadas três semanas, ambos tinham tido a certeza. Pode não fazer sentido para ti, mas sei que a minha atitude está certa.

Mesmo que o papá escreva o teu nome no livro dos mortos?

Esta ideia, que não a abandonara nos últimos dois meses, fazia com que Beata se sentisse doente.

Espero que ele não me faça tal coisa respondeu com a voz estrangulada.

A ideia de nunca mais ver a mãe, os irmãos, o pai e até mesmo Brigitte era inconcebível, mas também o era abdicar do homem que amava. Não podia fazê-lo. E, mesmo que o pai a banisse no início, esperava que algum dia cedesse. Não acreditava que pudesse perder a família, ao passo que, se perdesse Antoine, seria para sempre.

E se o papá levar a dele por diante e nos proibir de te vermos? insistiu Brigitte, que queria forçar Beata a tomar consciência do risco que corria. O que farias?

Esperava até que ele mudasse de opinião respondeu Beata num tom triste.

Isso nunca acontecerá, se casares com um cristão. Talvez acabe por perdoar-te se não casares com Rolf, mas não se casares com o teu francês. Ele não é digno desse sacrifício, Beata. Ninguém o é. Brigitte sentia-se feliz por contar com a aprovação dos pais e jamais teria tido a coragem e a audácia de agir como a irmã. Só te peço que não faças nada que possa perturbar a família antes do meu casamento concluiu, na falta de mais argumentos

Prometido declarou Beata, assentindo com a cabeça

Na semana antes do casamento recebeu notícias de Antoine. A família dele reagira da mesma maneira que a sua. A sentença fora a de que, se ele casasse com uma judia alemã, teria de partir. O pai declarara que Antoine nada levaria consigo. Segundo a lei francesa, o pai não podia deserdá-lo nem privá-lo do direito ao título quando ele morresse, mas garantira-lhe que se Antoine casasse com Beata, ninguém da família queria voltar a vê-lo

Antoine ficara tão indignado com esta reacção, que já estava na Suíça à espera dela, quando lhe escreveu. Propunha-lhe que ficassem lá até ao final da guerra caso Beata ainda quisesse casar com ele, sabendo o que o afastamento das famílias significaria para ambos. O primo dissera-lhe que podiam ficar na casa dele e ajudá-lo e à mulher na herdade. Antoine não lhe escondeu que não ia ser fácil, pois, uma vez separados das famílias, ficariam sem dinheiro. Os primos tinham muito pouco de seu e os dois viveriam da caridade deles e trabalhariam para pagar a subsistência

Antoine sentia-se preparado, mas acrescentava que compreenderia e não ficaria a querer-lhe mal se ela decidisse que deixar a família por ele era algo por demais difícil. Escrevia ainda que continuaria a amá-la, independentemente da sua decisão. Sabia que a jovem estaria a sacrificar tudo o que amava, tudo o que lhe era importante e familiar, caso decidisse casar com ele. A decisão final pertencia-lhe

O que emocionou Beata foi Antoine já ter feito o mesmo sacrifício por ela. Abandonara a família em Dordogne, com a proibição de nunca mais voltar. Encontrava-se ferido e sozinho na herdade do primo, na Suíça. E fizera tudo isto por ela. Os países de ambos continuavam em guerra, embora, para Antoine, esta tivesse terminado.

Por outro lado, se o pai autorizasse, ela desejaria um dia voltar à Alemanha. Contudo, de momento, não parecia restar-lhes outra solução, senão a de esperar o fim da guerra na Suíça, pensariam no resto, mais tarde. Talvez, nessa altura, a família de Antoine tivesse amansado, embora, na carta, ele declarasse que não havia esperança de reparar os danos. A sua partida e a violenta disputa que a antecedera haviam sido decisivas e amargas. Até mesmo o seu irmão, Nicholas, de quem era tão chegado, não lhe dirigira a palavra quando ele partira, o que sentira bastante.

Na semana anterior ao casamento da irmã, Beata, consciente da gravidade da decisão que devia tomar, pareceu ausente e atormentada. No dia do casamento, participou no evento como num sonho. E, por ironia do destino, Brigitte e o marido, seguindo os conselhos de Jacob que achava tratar-se do lugar mais seguro do mundo, partiriam em lua-de-mel para a Suíça. Passariam três semanas nos Alpes, sobre Genebra, a pouca distância de onde Antoine a esperava, caso ela decidisse juntar-se-lhe. Beata assim o desejava, mas prometera à irmã que não faria qualquer escândalo antes do casamento e cumpriu a palavra.

O drama ocorreu dois dias após a cerimónia, quando o pai pediu a Beata que lhe garantisse que Antoine desaparecera da sua vida para sempre. Os irmãos já haviam regressado às respectivas companhias e Brigitte partira em lua-de-mel. Sabendo que Antoine a esperava na Suíça, Beata recusou fazer essa promessa ao pai. Monika tentou acalmá-los, mas em vão. Por fim, Jacob declarou-lhe que se não renunciasse ao ”seu” católico, devia ir juntar-se-lhe, mas consciente de que jamais poderia voltar. Ele e a mãe fariam o shiva por ela a vigília destinada aos mortos pois, no que lhes dizia respeito, a filha estaria morta após deixar a casa. Acrescentou que jamais deveria contactá-los. Mostrou-se tão intransigente e furioso com ela, que Beata tomou uma decisão.

Após ter batalhado durante horas com o pai e de lhe haver suplicado que fosse mais sensato e aceitasse conhecer Antoine, regressou ao quarto, vencida. Encheu duas pequenas malas com tudo o que achava poder ser-lhe útil na herdade da Suíça, bem como fotografias da família. Depois, fechou as malas, lavada em lágrimas, e pousou-as na entrada, onde a mãe a esperava, soluçando.

Não faças isso, Beata., ele nunca mais te deixará voltar. Vais lamentar isto para o resto da vida. Era a primeira vez que via o marido tão enraivecido. Não queria perder a filha, mas, aparentemente, nada podia fazer para impedir esta tragédia. Vais arrepender-te a vida inteira.

Eu sei, mas nunca amarei outro homem senão Antoine. Não quero perdê-lo respondeu Beata num tom grave, pensando que também não queria perder a família. Vais escrever-me, mamã?

Monika abraçou-a com força e as lágrimas de ambas misturaram-se quando se abraçaram. Nos seus braços, Beata sentia-se uma criança. Contudo, o silêncio da mãe era uma resposta à sua pergunta. Quando o pai a tivesse banido e declarado morta para todos, a mãe teria de obedecer-lhe. Nem mesmo pela filha ultrapassaria os limites que o marido impunha a todos. A palavra dele era uma lei aos seus olhos, como para toda a família.

Mas eu escrevo-te retomou Beata, meigamente, agarrando-se à mãe como a criança que ainda era em muitos aspectos. Festejara os seus vinte e um anos na Primavera.

Ele não vai deixar-me ler as tuas cartas replicou Monika, esforçando-se por abraçar Beata o máximo de tempo possível. Oh, minha querida!... Sê feliz com esse homem... Espero que ele cuide bem de ti... Espero também que te mereça. Oh, minha querida. Nunca mais te verei!

Beata fechou os olhos, sem largar a mãe, enquanto o pai as observava do alto das escadas.

Decidiste, então, ires-te embora? inquiriu num tom severo.

Foi a primeira vez que Beata o achou velho. Até essa altura, tinha-o encarado como alguém jovem, o que já não era o caso. Jacob estava prestes a perder a sua querida filha, aquela de quem se sentia mais orgulhoso, e a última que ainda estava em casa.

Sim respondeu Beata, num fio de voz. Amo-o, papá acrescentou, desejando apertá-lo com força nos braços, mas dissuadida pelo olhar dele.

A tua mãe e eu faremos o shiva por ti esta noite. Que Deus te perdoe pelo teu acto.

Beata não se atreveu, mas gostaria de dizer-lhe o mesmo. Beijou a mãe uma última vez, pegou nas malas e desceu as escadas, sob o olhar de ambos. Ouviu os soluços da mãe durante todo o percurso e quando abriu a porta da frente. Do pai, nenhum som.

Amo-vos! declarou, virando-se.

Contudo, não obteve qualquer resposta, exceptuando os soluços da mãe. Pegando nas malas, fechou a porta atrás de si.

Caminhou até avistar um táxi, carregada com as duas pesadas malas. Depois de ter pedido ao motorista que a levasse à estação de caminho-de-ferro, sentou-se no banco de trás e desfez-se em lágrimas. O homem não lhe fez perguntas, quando Beata pagou a corrida. Toda a gente vivia tragédias naquela altura e ele não queria importuná-la. Havia dores impossíveis de partilhar.

Esperou três horas pelo comboio para Lausana. Teria mais do que tempo para voltar atrás na sua decisão, mas estava convencida, no mais fundo de si, que o seu futuro era com Antoine. Este renunciara a tudo por ela e, embora ignorasse o que o futuro lhes reservava, sabia, desde o primeiro dia, que ele era o seu destino. Desde Setembro que não o via, mas Antoine fazia parte dela; pertencia-lhe, tal como os pais pertenciam um ao outro ou Brigitte pertencia ao homem que acabava de desposar. Todos deviam seguir o seu destino e, talvez um dia, com sorte, ela voltasse a vê-los. De momento, era este o seu caminho. Achava inconcebível que o pai se mantivesse eternamente agarrado à sua posição. Acabaria por ceder qualquer dia.

Beata estava tranquila quando subiu para o comboio, nessa tarde. Não cessou de chorar durante uma grande parte da viagem, até acabar por adormecer. A senhora de idade que partilhava a sua carruagem, sabendo que ela devia descer em Lausana, acordou-a quando o comboio parou e Beata agradeceu-lhe. Contudo, ao ver-se sozinha no cais, sentiu-se órfã.

Enviara um telegrama a Antoine da estação, em Colónia. De súbito, avistou-o, a avançar ao seu encontro. Tinha o braço ao peito, fixo por uma écharpe, mas mal chegou ao seu lado, agarrou-a com o outro braço e apertou-a com tanta força, que mal a deixava respirar.

Não tinha a certeza de que virias. Receei que... Era pedir-te tanto...

As lágrimas corriam pelas faces de ambos, à medida que Antoine lhe dizia quanto a amava. Ela fitou-o com um misto de temor e de respeito. Doravante, Antoine era o seu marido, o seu presente e o seu futuro, o pai dos filhos que teriam em comum. Era tudo para ela, e ela para ele, e pouco importava o que teriam de enfrentar, desde que se conservassem juntos. Por mais doloroso que fosse ter abandonado a família, sabia que tomara a decisão certa.

Permaneceram demoradamente no cais, saboreando o momento, abraçados um ao outro. Depois, Antoine pegou numa das malas, Beata agarrou na outra e dirigiram-se à saída, ao encontro do primo e da mulher, que os esperavam. Antoine tinha uma expressão radiosa quando saiu da gare e Beata sorriu-lhe.

Enquanto o primo arrumava as malas no porta-bagagens do carro, Antoine apertou Beata de encontro ao corpo. Não se atrevera a pensar que ela viria. Contudo, ela abandonara tudo. Instalaram-se no banco de trás do carro e Antoine rodeou-lhe os ombros com o braço válido, voltando a beijá-la. Não tinha palavras para expressar o que a jovem representava aos seus olhos. Enquanto percorriam lentamente o trajecto para lá de Lausana, manteve-se agarrada a ele. Doravante, não podia olhar para trás, apenas para a frente. Nessa manhã, em Colónia, o pai escrevera o seu nome no livro dos mortos. Monika e ele haviam feito a vigília de shiva por ela. Para a família, estava morta.

A herdade dos primos de Antoine primava pela modéstia, mas os terrenos à volta eram magníficos e a casa acolhedora e sem pretensões. Havia dois quartinhos contíguos, num dos quais tinham criado os três filhos. Há muito que estes tinham partido para a cidade, pois nenhum quisera ficar a trabalhar na herdade. Havia também uma grande cozinha confortável e uma sala de estar reservada aos domingos, mas que ninguém utilizava.

Era tudo muito diferente da casa de Beata, em Colónia. Tratava-se de primos afastados, pelo lado materno de Antoine, e sentiam-se encantados por poderem ajudar o jovem casal e também agradecidos pela ajuda na herdade. Dois rapazes, que viviam numa casinha próxima, também os ajudavam na lavoura, na colheita e com as vacas. Nas montanhas por cima de Lausana, tornava-se difícil imaginar que o mundo estava mergulhado no caos. A herdade estava tão afastada da guerra quanto possível.

Os primos de Antoine, Maria e Walther Zuber, eram pessoas encantadoras, bem-dispostas e calorosas. Embora instruídos, tinham pouco dinheiro e haviam optado por levar uma vida modesta que os satisfazia. O resto da família vivia em Genebra e Lausana, exceptuando os filhos que tinham emigrado para Itália e França.

Beata calculou que rondassem mais ou menos a idade dos pais, embora quando lhes falou percebesse que eram, na realidade, mais velhos. A vida de dura labuta, mas saudável, que tinham levado fizera-lhes bem E, naqueles tempos difíceis, o porto de abrigo que haviam oferecido ao jovem casal assemelhava-se a uma dádiva do céu. Antoine estava disposto a fazer tudo o que pudesse para ajudá-los, em troca da sua hospitalidade, mas estava limitado devido ao braço ferido.

Na tarde em que chegaram, ao massajar o braço de Antoine, antes de mudar-lhe o penso, Beata ficara chocada com a gravidade das lesões. Os estilhaços tinham-lhe danificado os músculos e os nervos do braço esquerdo e a ferida ainda não cicatrizara. Os médicos haviam dito a Antoine que, eventualmente, ele poderia voltar a usá-lo, mas não até que ponto. E, visivelmente, nunca seria como dantes. Nada mudava o que Beata sentia por ele, que, por sorte, era dextro.

Antoine oferecera-se para ajudar Walther com os cavalos, um domínio onde era excelente, e tentaria fazer tudo o que pudesse com um único braço válido. Beata e os dois rapazes ocupar-se-iam do restante.

Ao almoço, enquanto comiam a sopa e salsichas na cozinha, Beata propôs cozinhar e tudo o mais que eles quisessem. Maria respondeu que lhe ensinaria a mungir as vacas; Beata arregalou os olhos. Era a primeira vez que punha os pés numa herdade e sabia que tinha muito que aprender. Ao juntar-se a Antoine, não só abandonara a família e a casa onde nascera, mas também a única vida que conhecia. Renunciara a tudo por ele, como ele o fizera por ela. Tratava-se de um novo ponto de partida para ambos e, sem os Zuber, não teriam sítio para onde ir, nem qualquer meio de subsistência. Beata agradeceu-lhes vivamente e depois foi ajudar Maria a lavar a louça. Era a sua primeira refeição não kosher e, embora não estivesse acostumada, sabia que não lhe restava outra alternativa. A sua vida mudara num abrir e fechar de olhos.

Quando é que vão casar? perguntou Maria com um ar maternal e interessado.

Maria preocupara-se com Beata desde que Antoine lhes escrevera a perguntar se lhes dariam abrigo em casa deles. Walther e ela tinham-se mostrado hospitaleiros, generosos e acedido rapidamente. Além disso, agora que os filhos tinham emigrado, eles podiam ajudá-los.

Não sei respondeu Beata.

Antoine e ela ainda não tinham tido tempo de discutir o assunto. Era tudo uma novidade e precisavam de decidir tanta coisa! Ainda se encontrava sob o choque dos seus últimos dias em Colónia.

Nessa noite, o casal falou dos seus projectos até tarde. Antoine improvisara uma cama para si no sofá da sala de estar e dera o quartinho a Beata. Maria aprovara esta solução. Antoine garantira aos primos que ele e Beata casariam em breve. Maria não queria, tal como Walther, que o jovem casal vivesse em pecado sob o seu tecto. Era algo fora de questão. Beata e Antoine também queriam casar-se.

Antoine informara-se, mal haviam chegado, e descobrira que, na qualidade de estrangeiros, precisavam de uma autorização especial para se casarem na Suíça. No dia seguinte, a fim de arranjar os documentos de que precisavam, pediu emprestada a furgoneta de Walther e dirigiu-se com Beata à aldeia vizinha. Precisavam de passaportes, um documento que lhes permitiria casar pelo civil e dois cidadãos suíços que se responsabilizassem por eles e fossem testemunhas. O facto de o avô materno de Antoine ser suíço de nada servia, pois a mãe, tal como ele, era francesa. O funcionário que se ocupou do dossiê deles declarou que teriam os documentos dali a duas semanas.

Vão casar-se pelo civil ou pela igreja? perguntou o funcionário como mera rotina e Antoine virou-se para Beata, com um ar desconcertado.

Esta questão não lhes ocorrera. Antoine pensara simplesmente numa breve cerimónia na maire. Sem outra família à excepção dos Zuber, e, dadas as circunstâncias, o seu casamento seria apenas um acto oficial que lhes permitiria legitimar a sua união para viverem juntos e em paz. Não haveria qualquer cerimónia religiosa, nem recepção, nem festa depois. Tratava-se apenas de uma formalidade para que se tornassem marido e mulher. Como e onde se casariam e quem o faria eram perguntas que nem sequer lhes haviam cruzado a mente. Quando o funcionário lhes dirigiu a pergunta, Antoine fitou hesitante a sua futura mulher E, ao saírem para o sol de Verão, Antoine estreitou a cintura de Beata com o braço direito e beijou-a meigamente. A jovem fitou-o com um sorriso nos lábios e uma expressão muito calma.

Dentro de quinze dias estaremos casados pronunciou com ternura Não era, obviamente, o casamento que imaginara em miúda, mas em todos os outros aspectos correspondia à realização de um sonho. Antoine e ela tinham-se conhecido há dez meses e apaixonado de imediato, agora, tudo o que desejava era passar o resto da vida ao seu lado. Ainda não sabiam onde iriam viver depois da guerra, nem se as famílias voltariam a acolhê-los no seu seio. Contudo, de momento, tudo o que sabia e desejava era estar com Antoine.

Quem queres que nos case? perguntou ele.

O funcionário fizera uma pergunta legítima. Antoine não sabia se Beata desejava que um rabino celebrasse o casamento, embora se visse obrigado a admitir que essa ideia o incomodava. Podiam casar-se no registo civil, se o desejassem, mas, ao reflectir no assunto, Antoine concluiu que preferia ser casado por um padre.

Não tinha pensado no assunto. Não podemos ser casados por um rabino, pois, para isso, terias de converter-te. Terias de estudar as Escrituras Sagradas, o que poderia levar anos respondeu Beata, sensata.

Duas semanas de espera já lhes parecia uma eternidade. Nenhum deles estava disposto a aguardar anos para se casarem, sobretudo agora que viviam juntos e sob o mesmo tecto. Antoine ficara acordado quase toda a noite, incapaz de dormir, sabendo que ela estava ao lado, na cama que ambos iriam partilhar. Depois de tudo por que haviam passado juntos, ansiava por torná-la sua.

O que achavas se fosses casada por um padre? perguntou Antoine, honestamente, sem qualquer ideia de forçá-la, embora fosse essa a sua preferência.

Não sei. Nunca pensei no assunto. Ser apenas casada pelo registo parece-me um pouco triste, mas não tenho a certeza da importância de sermos casados por um rabino ou por um padre. Sempre achei que apenas existia um Deus e não me parece que haja muita diferença entre uma igreja e uma sinagoga.

Aos olhos de Antoine, parecia uma ideia inovadora. Contrariamente à sua família, Beata mostrava-se muito liberal na sua maneira de pensar.

Durante o trajecto para casa falaram no assunto, bem como na hipótese de ela se converter ao catolicismo. A jovem possuía uma espantosa abertura de espírito e afirmou que o faria se fosse essa a vontade dele. Acreditava na sua fé, mas amava Antoine acima de tudo. Se o facto de converter-se ao catolicismo permitisse que casassem mais depressa, aceitava dar esse passo

Enquanto discutiam, Antoine parou diante de uma igrejinha por trás da qual se erguia um presbitério. Desceu do carro, subiu os antigos degraus e bateu à porta. Uma placa indicava que o edifício, de pedra velha e desgastada, datava do século x. Um padre de uma certa idade, em sotaina, veio abrir e sorriu-lhe. Trocaram umas palavras enquanto Beata esperava, depois Antoine acenou-lhe. A jovem saiu do carro e aproximou-se timidamente, nunca tinha falado com um padre nem sequer vira algum de perto, apenas se cruzara com eles na rua, mas este tinha um rosto e um olhar bondosos

O seu noivo disse-me que querem casar-se declarou, enquanto os três se mantinham sob o sol da manhã e o ar fresco da montanha

Havia um campo de margaridas mesmo por trás deles, bem como um velho cemitério, onde as pessoas ainda eram enterradas. Também havia uma pequena capela nas traseiras da igreja e um poço que datava do século iv

Sim, queremos confirmou Beata, tentando não pensar no que os pais teriam dito se a vissem a falar com um padre

Quase esperava que um raio a fulminasse, mas sentia ao mesmo tempo uma serenidade e um bem-estar inesperados

Não é católica, segundo o que me pareceu compreender. Nesse caso, precisará de alguma instrução religiosa, pois presumo que queira converter-se

Beata sentiu um nó na garganta. Era estranho ouvi-lo pronunciar aquela palavra. Nunca pensara que algum dia fosse outra coisa que não judia, mas também nunca julgara vir a casar com um homem como Antoine E os seus anteriores estudos religiosos haviam-lhe aberto a mente a outros dogmas. Supunha que, com o tempo e a ajuda de Antoine, o seu coração cederia. Estava disposta a converter-se por ele.

Podíamos colocá-la nas aulas de catequese com as crianças da região continuou o padre, mas o último grupo acabou de fazer a sua primeira comunhão e as aulas só recomeçarão no final do Verão. Ora, julgo saber que querem casar-se dentro de duas semanas.

O padre olhou de relance para o braço ferido de Antoine e reparou na inocência que o rosto de Beata revelava.

Antoine explicara-lhe que era francês e Beata alemã, que ele fora ferido na guerra e que não tinham família, exceptuando os primos em cuja casa moravam. Vincara ainda que Beata chegara da Alemanha no dia anterior e desejavam regularizar a situação para não terem de viver em pecado. Pedira ao padre que os ajudasse, e este acedera. Faria tudo o que pudesse. Pareciam honestos e tinham claramente boas intenções, caso contrário não viriam ao seu encontro.

Porque é que não entram e falamos lá dentro? sugeriu.

Antoine e Beata seguiram-no até ao interior de uma salinha sombria. Havia um enorme crucifixo na parede e a luz provinha das velas. Num canto via-se um nicho com uma estátua da Virgem Maria. O padre sentou-se a uma pequena secretária usada e Antoine puxou duas cadeiras. Mau grado o ambiente soturno, a presença daquele padre sorridente descontraiu-os.

Seria possível vir ver-me uma hora, todas as tardes, Beata?

Ela esboçou um aceno de cabeça prudente, pois ainda ignorava a quantidade de trabalho que lhe exigiriam na quinta, ou se Antoine teria tempo de vir trazê-la de carro à igreja. Caso contrário, precisaria percorrer um longo caminho a pé, mas estava disposta a tudo por amor.

Sim acabou por responder, um pouco intimidada, sem saber verdadeiramente o que o padre pretendia dela.

Então, penso que poderemos estudar tudo o que é necessário para a sua conversão. Por regra, prefiro que isso dure muitos meses, a fim de ter a certeza de que tudo foi bem compreendido antes do baptismo. Contudo, neste caso, acho que podemos andar mais rapidamente. Por seu lado, estudará e eu ensinar-lhe-ei tudo o que precisa de saber. Trata-se de um passo importante na sua vida, mais importante ainda do que o casamento. É algo maravilhoso abraçar a fé de Cristo!

Sim. Eu sei sussurrou Beata.! Os olhos da jovem ressaltavam no rosto muito branco e, ao observá-la, Antoine achou que ela nunca lhe parecera tão bonita.

E se eu não me sentir preparada? Quero dizer, para o baptismo? acrescentou, pronunciando a palavra com dificuldade.

Nesse caso, terá de esperar até se sentir respondeu o padre, num tom bondoso. Só pode casar-se com um católico, se se converter.

Nem sequer mencionou uma possível conversão de Antoine ao judaísmo, nem de um casamento civil em vez de um religioso. Aos olhos do padre, só um casamento celebrado numa igreja católica era válido. E, pelo pouco que ele lhe dissera nessa manhã, Beata sabia que Antoine partilhava a mesma opinião. Converter-se era mais um passo enorme que dava por ele, mais um sacrifício que tinha de fazer. De qualquer maneira segundo os dois haviam concluído não era prático para ele converter-se ao judaísmo. Os estudos necessários levariam anos e, mesmo que estivesse nessa disposição, não havia um rabino por perto. Por todos estes motivos de ordem prática e outros, tal conversão não faria sentido.

Além disso, Beata achava que seria demasiado pedir-lhe isso. Sentia que só lhe restava converter-se para casar com Antoine e ver a sua união abençoada aos olhos de uma religião, neste caso a dele. Enquanto escutava o padre, sentiu que era esse o seu desejo. A Bíblia sempre a intrigara. Gostava das histórias que falavam de Jesus e os santos fascinavam-na. Talvez fosse um sinal. E, embora não conhecesse outra religião, Beata nunca tivera a certeza de estar profundamente ligada ao judaísmo. Sentia-se disposta a renunciar à sua fé por Antoine e a abraçar a religião católica. Achava que era seu dever como mulher dele. Desde o início que o amor dos dois lhes exigia sacrifícios e a sua conversão era mais um. Conversaram uma meia hora com o padre e Beata prometeu voltar na tarde seguinte. Ele assegurara-lhe que dentro de duas semanas estaria pronta para a conversão e o casamento. Acompanhou-os à porta e ficou a acenar-lhes, enquanto se afastavam. Antoine conduzia facilmente com a mão direita, mantendo os dedos da esquerda pousados no volante.

Então, o que achas? perguntou Antoine. Parecia preocupado e convencido de que estava a pedir-lhe demasiado. Se Beata recusasse converter-se, ele entenderia e contentar-se-ia com um casamento civil. Não queria, de forma alguma, que ela fizesse algo que fosse contra a sua crença. Não fazia ideia da importância que a religião tinha aos olhos de Beata, nem a que ponto cumpria as tradições judaicas. Sabia apenas que a família era judia ortodoxa, o que explicava por que é que lhes parecia tão impensável que a filha casasse fora da sua fé. Contudo, ignorava até que ponto Beata era crente e que desgosto poderia sentir ao renunciar à sua fé por ele.

Acho-o um homem simpático e será interessante estudar com ele respondeu Beata, delicadamente.

Antoine sentiu-se aliviado ao constatar que a jovem não parecia angustiada. Mostrava-se inacreditavelmente calma ante a decisão tomada, como sempre que uma mudança ocorria na sua vida.

O que sentes ante a ideia de te converteres? Ninguém te obriga, Beata. Podemos casar simplesmente na mairie. Já renunciaste a demasiado por minha causa replicou Antoine, que sentia um profundo respeito pela jovem.

Também tu assinalou ela, honestamente, após o que se calou um longo momento, fitando a paisagem através da janela. Creio que prefiro casar-me pela igreja, em especial se significa muito para ti retomou, virando-se para ele, com um brilho no olhar.

É muito generoso da tua parte retorquiu Antoine, desejando poder tirar a mão do volante e abraçá-la, o que, obviamente, era impossível. Amo-te, sabes? E os nossos filhos? Queres que sejam judeus ou católicos?

Caso tudo se tivesse passado normalmente, teriam colocado este tipo de questões ao longo dos meses, mas, dadas as circunstâncias em que se encontravam e a distância que os separara, nunca lhes restara tempo ou oportunidade de falar nelas. Beata reflectiu demoradamente e, em seguida, fitou-o com uma expressão muito séria. Levara muito a peito a discussão dessa manhã. Tratava-se de uma decisão importantíssima.

Se eu vou tornar-me católica, e tu já o és, os nossos filhos também devem sê-lo, não achas?

Era o que parecia mais lógico a Beata, que nunca se sentira tão profundamente ligada à religião judaica como os pais. Frequentava a sinagoga para lhes agradar e porque era essa a tradição. Pelo contrário, sempre se sentira intrigada e fascinada pela Bíblia e estava convencida de que, após o casamento com Antoine, desenvolveria, a seu tempo, um elo com o catolicismo. Assim o esperava.

Antoine assentiu com a cabeça, reconhecido. Compreendia, agora, o motivo da violenta oposição dos pais de Beata ao casamento deles. A simples ideia de terem netos católicos devia surgir-lhes como um verdadeiro pesadelo.

Tornar-se-ia muito complicado se os pais tivessem religiões diferentes retomou Beata, embora, pelo que li, não ache que as nossas crenças divirjam assim tanto.

Antoine estava de acordo. Ao aproximarem-se da herdade, sentiram que os invadia paz e unidade. Logo que saiu do carro, ele rodeou-lhe a cintura com um braço e foram almoçar com os Zuber.

Falaram a Walther e Maria sobre o encontro com o padre, a visita ao registo civil e as lições de catequese de Beata durante as próximas duas semanas. Ela desculpou-se por ter de se ausentar todas as tardes, mas Maria achou que as notícias eram maravilhosas. Interrogara-se sobre o que iriam fazer, quando Antoine lhes explicara que Beata era judia. Aos seus olhos, a conversão de Beata constituía uma magnífica prova de amor, o que se apressou a comunicar à jovem, quando ficaram a arrumar a cozinha e os homens se levantaram da mesa.

Tudo isto deve parecer-lhe muito estranho declarou Maria, num tom de compaixão.

Tratava-se de uma mulher maternal, com um físico generoso, sem qualquer experiência ou interesses mundanos. Viera para a herdade quando casara com Walther, aos dezanove anos. Ele comprara a terra dois anos antes e esforçara-se muito. Depois, Maria tivera os filhos, trabalhara, amava o marido e ia à igreja. Embora fosse inteligente e lesse muito, levava uma vida muito simples, a anos-luz da grande e elegante casa onde Beata crescera e das roupas e jóias usadas pela mãe e por Brigitte. Na verdade, imaginá-las aqui era impossível, e Beata não conseguiu reprimir um sorriso ao pensar como a sua vida de casada e a da irmã seriam diferentes.

Antoine e ela não planeavam ficar eternamente na Suíça, antes desejavam regressar a França ou à Alemanha, dependendo de qual das duas famílias cedesse e onde estivessem as melhores oportunidades. Se não voltasse a gerir as suas propriedades em Dordogne, Antoine ignorava o que faria. Contudo, depois da guerra, e com todas as inevitáveis mudanças dela resultantes, muitos outros estariam em situações idênticas, obrigados a reconstruir uma nova vida noutros lugares. Era um novo começo para eles e Beata sentia-se contente por estar ali.

Não, não é estranho respondeu Beata, num tom calmo. É apenas diferente. Não estou habituada a estar longe da minha família.

Sentia uma falta terrível da mãe, sem esquecer que ela e a irmã sempre haviam sido inseparáveis, mas com o casamento de Brigitte e a mudança dela para Berlim, tudo teria sido diferente de qualquer maneira. O que mais a desgostava eram as circunstâncias dramáticas em que se apartara da família.

Para Beata, isso ainda constituía uma ferida aberta, e Maria não tinha dificuldade em imaginar que assim se manteria por muito tempo. Esperava que as duas famílias acabassem por recuperar a sensatez e lhes perdoassem as escolhas feitas. Antoine e Beata eram dois jovens encantadores, mas Maria sabia que sofreriam no futuro, caso as famílias não os aceitassem. Entretanto, Walther e ela sentiam-se encantados com o seu papel de substitutos dos pais. Além de que tê-los ali era igualmente uma bênção.

Tencionam ter filhos em breve? inquiriu Maria, curiosa.

Beata corou, sem saber o que responder. Ignorava se era possível controlar este tipo de assunto e sempre achara que uma criança nascia quando Deus o decidia. Ignorava também se havia algum meio de impedir ou controlar as gravidezes além de que não conhecia Maria o suficiente para lhe perguntar.

Acho que sim acabou por dizer, com um ar envergonhado, guardando os pratos lavados no armário. Que seja o que Deus quiser!

Ao pronunciar as palavras, interrogou-se sobre se Brigitte também teria filhos em breve. Não imaginava a irmã com filhos. Ela ainda era tão criança, mesmo com dezoito anos! Aos vinte e um, nem ela própria se sentia pronta para as responsabilidades da maternidade e do casamento. Tinha consciência de que, com a idade de Brigitte, não seria capaz de enfrentar tudo isso. Contudo, naquele momento, sentia-se à altura da tarefa.

Será uma maravilha ter um bebé aqui! exclamou Maria, alegremente, enquanto servia uma chávena de chá a cada uma.

Era raro ver os netos, pois viviam longe e tanto ela como Walther não podiam dar-se ao luxo de abandonar a herdade. A ideia de um bebé por perto se eles ainda estivessem a morar ali quando esse nascesse alegrava-lhe o coração e os olhos ganharam brilho. Pelo seu lado, Beata tinha dificuldade em conceber essa realidade. De momento, só pensava em receber as suas aulas de catequese e no seu casamento dentro de quinze dias. Além disso, ignorava o que pensar ou esperar. A sua única certeza residia no amor que tinha por Antoine e não lamentava nada do que fizera e do que abandonara por ele.

Maria e Walther respeitavam-na profundamente por esta lealdade. A determinação e o encanto da jovem agradavam-lhes. Maria sentia-se cada vez mais próxima dela, de dia para dia. O casal sempre tinha gostado muito de Antoine, embora pouco o tivesse visto nos últimos anos, mas não lhes custara decidir quando lhes perguntara se podiam ir para a herdade.

Maria apenas lamentava que, dadas as suas nacionalidades, não pudessem ficar para sempre. Mais cedo ou mais tarde, depois do final da guerra, o governo suíço pediria que saíssem. A Suíça era um país de asilo, mas quando os países de cada um estivessem em paz e com as fronteiras abertas, teriam de regressar à terra natal. Contudo, dada a situação após dois anos de conflito, quem sabia quando tal aconteceria? De momento, ao abrigo das montanhas, o jovem casal estava a salvo e em segurança.

Beata achou as aulas com o padre André absolutamente fascinantes. Faziam-lhe lembrar o que estudara sozinha da Bíblia, embora o que ele lhe ensinava se centrasse mais no catolicismo. Falou-lhe do calvário, da Virgem Maria, da Santíssima Trindade, ensinou-lhe as orações e a recitar o rosário. Explicou-lhe os sacramentos e a importância da comunhão. Beata fazia-lhe constantes perguntas, que provavam ao padre como ela havia reflectido no assunto. As ideias e conceitos cristãos nunca pareceram chocá-la ou perturbá-la e assinalava-lhe, muitas vezes, intrigantes semelhanças com a sua própria religião.

Era uma jovem com um espírito arguto, de um profundo apreço pela religião e pela filosofia e um coração bom e generoso.

Durante as duas semanas que passaram juntos a estudar a religião, o padre André criou uma enorme amizade pela jovem. Todos os dias, ela trazia-lhe qualquer coisa da herdade, juntamente com os cumprimentos dos Zuber. Até o fez rir quando lhe contou como fora aprender a mungir uma vaca. Beata ria, aliás, todas as manhãs, pensando em Brigitte a tentar uma experiência semelhante. A única coisa que a entristecia profundamente era a saudade da mãe. E o pai também lhe faltava, apesar da sua posição inflexível face ao seu casamento. Preocupava-se também com os irmãos. O facto de se encontrar longe de casa e de ter partido sob a raiva do pai, não punha em causa o seu amor por eles. Nem sequer lhes tinha raiva; sentia-lhes simplesmente a falta. Confiara a questão ao padre André e este ficara impressionado com a sua bondade e capacidade de perdão. Beata parecia não estar ressentida, apesar de, no fundo, eles a terem expulso. Uma tarde, o padre fez-lhe o mais belo cumprimento ao dizer-lhe que, se ela não tivesse nascido numa outra religião e não estivesse à beira de casar, daria uma freira fantástica. Antoine não se sentiu tão emocionado como ela pelo elogio, quando Beata lho repetiu nessa noite.

Deus do céu! Espero que não esteja a tentar recrutar-te! Tenho outros planos para ti retorquiu, dando súbita mostra de uma enorme possessividade.

Também o espero, mas foi, mesmo assim, gentil da parte dele disse Beata, lisonjeada com as palavras do velho padre e Maria concordou.

Pouco me interessa que seja ou não delicado prosseguiu Antoine no mesmo tom desaprovador e parecendo nervoso. Não quero freiras na minha família. Sempre achei que levavam uma vida triste. As pessoas foram feitas para casar e ter filhos.

Talvez nem todas. Algumas pessoas não são feitas para o casamento ou para terem filhos discordou Beata, francamente.

Ainda bem que tu és replicou Antoine, inclinando-se para a beijar, o que provocou um sorriso em Maria.

Antoine trabalhava duramente na herdade com Walther e, nessa noite, quando lhe substituiu o penso, antes do jantar, Beata reparou que a ferida melhorara, embora o braço continuasse rígido e sem a capacidade desejada. Contudo, Antoine estava a sair-se muito bem, mesmo com um único braço válido. Aos olhos de Beata tinha a beleza de sempre. A jovem respondeu ao beijo com um sorriso, um pouco embaraçada, como de cada vez que ele falava em ter filhos e lhe recordava as novas descobertas do futuro.

Na manhã do baptismo, Maria, Antoine e Beata, a caminho da igreja, pararam na maire. Um funcionário, com uma expressão mal-humorada, realizou a breve cerimónia civil que constituía o preâmbulo legal ao casamento religioso previsto para o dia seguinte. Para Beata foi uma sensação maravilhosa, a de sair da mairíe, sabendo que, aos olhos da lei, já era mulher de Antoine, tal como se tornaria aos de Deus, no dia seguinte.

Só Maria e Antoine acompanharam Beata à igreja para o seu baptismo. Walther tinha demasiado trabalho na herdade. Foi uma cerimónia breve e simples. Beata professou a sua fé e a sua lealdade à Igreja Católica, na presença de Antoine e Maria, o seu padrinho e a sua madrinha, que juraram em seu nome renunciar ao diabo e ajudarem-na a viver a sua fé no futuro.

Depois do baptismo, Beata, em lágrimas, recebeu a comunhão pela primeira vez. Tudo isto representava muito mais para ela do que esperara e ultrapassava tudo o que experimentara no judaísmo até esse momento. Sempre se aborrecera imensamente na sinagoga. Eram obrigados a ficar sentados durante horas seguidas, e a segregação entre homens e mulheres sempre lhe desagradara. O facto de não existirem mulheres rabinos também lhe parecia muito injusto. O pai irritava-se sempre que ela expressava esta opinião e respondia severamente que era mesmo assim. Ficara também desiludida ao saber que não havia mulheres sacerdotes, mas, pelo menos, havia freiras.

Também Brigitte considerava o judaísmo ortodoxo demasiado severo e declarara que, quando se mudasse para Berlim com Heinrich, deixaria de seguir as estritas regras alimentares ortodoxas, pois o futuro marido e a sua família também não as observavam. Contudo, nunca se atrevera a fazer esta confissão aos pais. Embora não chegasse ao ponto de considerar estas regras ridículas, como Brigitte, havia certos aspectos do judaísmo que Beata sempre desaprovara.

E verificou, surpreendida, que a ideia de ser católica a encantava. Era uma outra forma de estar mais próxima e mais em harmonia com Antoine. Achava mesmo fácil acreditar em milagres, como o da Virgem Maria e o nascimento de Jesus. Ao sair da igreja, sentia-se diferente, mais leve, como que transformada, brindando Antoine com um rosto radioso e um enorme sorriso. Entre a cerimónia do casamento civil e o baptismo, fora um dia extraordinário.

Continuo a lamentar que não queira ser freira zombou o padre André. Acho que, com um pouco mais de estudo e sobretudo tempo para descobrir a sua vocação, teria sido fantástica acrescentou.

Então, fico satisfeito por apenas a ter tido duas semanas retorquiu Antoine, nervoso.

A ideia de perder a jovem esposa por quem tanto lutara para o convento horrorizava-o, apesar de saber que o padre não era mal-intencionado.

Ao saírem da igreja, prometeram voltar no dia seguinte, para o casamento. Tinham os documentos em ordem. O casamento civil permitia-lhes que casassem igualmente pela igreja. À noite, depois de ter festejado o seu baptismo com um bom jantar, Beata retirou-se cedo para o quarto. Era a última noite que passaria só na cama e, nessa noite, ainda tinha de trabalhar num projecto secreto.

Quando partira da Alemanha, não trouxera nada que pudesse servir-lhe de vestido de casamento. Apenas trouxera] roupa prática, adequada ao trabalho na herdade. Contudo, Maria oferecera-lhe duas lindíssimas toalhas de renda, um pouco gastas pelo tempo, que lhe tinham sido dadas pela avó. Beata não se importou nada e, sempre que não estava a estudar o seu catecismo, a mungir vacas ou a ajudar Maria a preparar as refeições, passava o tempo no quarto, a coser a toda a pressa.

O vestido de casamento que fizera com as duas toalhas estava quase acabado. Conseguira cortá-las de maneira a que a renda lhe tapasse o peito, os ombros e os braços e só lhe restava tecido bastante para um chapelinho com um véu. Além disso, como era baixa, conseguira acrescentar uma pequena cauda. O vestido era plissado no peito, ajustava-se perfeitamente à sua cintura fina e alargava em baixo, sendo embelezado pela renda. Cortara todos os pedaços usados e fizera uma verdadeira obra-prima.

Maria, que ainda não o vira, esperava algo simples e talvez um tanto desajeitado, pois, na sua opinião, pouco podia fazer-se com duas toalhas antigas. Não fazia ideia do talento de Beata, nem da sua habilidade com a agulha.

Antoine concordara apresentar-se na igreja uma hora antes da cerimónia, a fim de não se cruzar com Beata. Ela queria surpreendê-lo, quando percorresse a nave da velha igreja de pedra para se lhe juntar no altar.

Antoine ignorava porque é que ela recolhia tão cedo ao quarto todas as noites e achava que se sentia simplesmente exausta pelo rigor dos trabalhos da herdade. A própria Maria ignorava que Beata passara mais do que uma noite a coser até de manhã e, mesmo assim, cumprira as suas obrigações no dia seguinte, sem ter dormido, a fim de poder terminar o vestido a tempo. O vestido de casamento era o mais bonito que ela alguma vez costurara, digno de uma colecção parisiense; se o tivesse feito de cetim e seda em vez de renda fina, estaria à altura de um casamento importante, como considerava que o seu era. Apesar da fragilidade do fino tecido de linho, era um vestido divino, mais adaptado a esta igreja simples na montanha, do que o seria um mais elaborado.

Meu Deus! exclamou Maria, sustendo a respiração, ao vê-la sair do quarto. Onde arranjou esse vestido? Antoine levou-a a Lausana?

Claro que não riu-se Beata, encantada com o efeito produzido na madrinha, que começara a chorar de emoção.

Fi-lo com as toalhas que me deu. Há duas semanas que ando a costurá-lo todas as noites.

Incrível! Eu nem com dois anos de trabalho conseguiria fazer algo assim! retorquiu Maria, que nunca vira nada que pudesse comparar-se àquele vestido. Beata assemelhava-se a uma princesa de um conto de fadas. Estava uma noiva lindíssima. Quem lhe ensinou a costurar assim? quis saber.

Ninguém. Dá-me prazer. Costurava muito para a minha mãe e para a minha irmã e sempre preferi fazer os meus] próprios vestidos, em vez de comprá-los.

Mesmo assim! Um vestido destes! elogiou Maria, obrigando Beata a rodar sobre si própria para que pudesse admirar o véu e a cauda. Espere até que Antoine a veja! Vai desmaiar na igreja!

Espero que não desejou Beata, sentindo-se no sétimo céu.

Também Walther ficou estupefacto ao vê-la. Ajudou a mulher a dispor cuidadosamente o vestido e a cauda em redor de Beata, nas traseiras do carro, e eles subiram para o banco da frente. Beata sentia-se um pouco culpada por ter obrigado Antoine a ir a pé até à igreja, mas não quisera que a visse antes e mantivera-se no quarto durante toda a manhã,! até ele sair. Pensava que se não a visse, lhes traria sorte. Ainda lhe custava acreditar que chegara o dia do casamento e desfizera-se em lágrimas enquanto se vestia, sentindo enormemente a falta da mãe. Nunca lhe ocorrera que, um dia, se casaria sem ela ao lado, nem o pai para a conduzir ao altar.!

Os Zuber também haviam fornecido as alianças. Eram simples e usadas. Walther dera a Antoine a aliança do pai, que tinha guardado numa caixa e que cabia perfeitamente no anelar da mão esquerda de Antoine. Walther pusera-a no bolso, juntamente com a aliança da bisavó de Maria, um fino anel em ouro, guarnecido de pequenos diamantes e tão pequena que nenhuma mulher da família conseguira pô-lo. Servia a Beata como se tivesse sido feito por medida. No interior da aliança estavam gravadas as palavras Mon coeur à toi, o meu coração é teu.

Por fim, num gesto de grande generosidade, Walther e Maria dormiriam em casa de amigos nessa noite, a fim de deixarem a casa aos jovens recém-casados. Walther pusera no frigorífico uma garrafa de champanhe que guardara durante anos, desde o casamento do filho, e Maria preparara-lhes um verdadeiro festim. Achava que era o mínimo que podia fazer por eles e agira ternamente. Queria mimá-los ao máximo, pois sabia que não era este o casamento que nenhum deles teria, caso tivessem permanecido com as suas famílias, nos seus mundos. Apesar de tudo o que tinham perdido, ambos sabiam que haviam ganho muito e eram um do outro. Para Antoine e Beata, isso valia todas as riquezas do mundo, embora fosse difícil sobretudo num dia como este deixar de pensar no que ficara para trás.

Os habitantes da aldeia iam a sair da missa, quando Beata e os Zuber chegaram. Antoine esperava na sacristia, como Beata lhe pedira. Ao vê-la, as pessoas ficaram extasiadas ante a beleza da noiva e do vestido. Com os cabelos escuros debaixo do chapelinho de renda, a pele muito branca, e os imensos olhos azuis, Beata parecia uma princesa de conto de fadas. Nunca tinham visto uma noiva tão bonita. O próprio padre André ficou boquiaberto e teve de concordar que ela dava uma noiva muito mais bonita do que uma freira. Também nunca vira uma noiva tão encantadora.

Alguns momentos mais tarde, os olhos do velho padre brilhavam de malícia, quando conduziu Antoine ao altar, dizendo-lhe que se preparasse para uma surpresa. Antoine não fazia a mínima ideia do significado das palavras do padre, até o organista começar a tocar a música que escolhera com Beata e a ver franquear a ombreira da porta pelo braço de Walther.

Beata caminhava com a graciosidade de uma jovem rainha e os pés mal pareciam tocar no chão. Calçava o único par de sapatos de noite que trouxera, de cetim bege com fivelas de marfim. Contudo, Antoine não esperava um vestido daqueles. Interrogara-se sobre o que ela levaria e agora, ao vê-la, julgou que tivesse trazido o vestido consigo, de Colónia. Parecia ter sido feito em Paris, antes da guerra. Uma vez passado o efeito surpresa, apenas conseguia ver Beata. Mergulhou os olhos bem fundo nos dela, enquanto as lágrimas lhe corriam pelas faces. Depois, Maria levantou o véu de fina renda, revelando o rosto de Beata, banhado de lágrimas de ternura e de alegria. Nem ela nem ninguém presente na igreja alguma vez haviam visto uma jovem mulher tão bonita.

Beata voltou a chorar quando trocaram os votos; as mãos tremiam-lhe quando Antoine lhe colocou a aliança e ela também lhe pôs a aliança no anular esquerdo, de forma a não o magoar. Quando o padre os declarou marido e mulher e Antoine a atraiu a si para a beijar, soube que nunca se sentira tão feliz. Antoine só a soltou relutantemente, a fim de poderem sair da igreja para o sol de Verão. Habitantes das herdades vizinhas tinham ficado depois da missa para os aguardar no exterior da igreja e rever a bonita noiva. Ninguém esqueceria a beleza de Beata nesse dia e muito menos Antoine.

Os Zuber e o padre André foram almoçar com eles e, à tarde, Maria e Walther foram levar o velho padre à igreja, antes de partirem para casa dos amigos. Antoine e Beata mantiveram-se na ombreira da porta a vê-los afastar-se. Depois, viraram-se um para o outro; estavam, finalmente, sós. A viverem tão de perto com Walther e Maria, não lhes acontecia muitas vezes, mas, pelo menos, partilhariam doravante o mesmo quarto.

De momento, tinham a casa para eles, o que era um magnífico presente que o velho casal lhes oferecera. Esta noite de intimidade, na pequena herdade, no coração dos Alpes, seria a sua única lua-de-mel, mas era tudo o que desejavam. Apenas queriam estar juntos e sabiam que a magia desse dia jamais se apagaria da sua memória. À luz daquele final de tarde, Antoine fitou Beata com amor. Esta ainda não tirara o vestido de casamento, e ele desejou que pudesse usá-lo eternamente. A jovem passara um tempo imenso a costurar para o pôr apenas umas horas, mas era assim com todas as noivas. Por outro lado, poucas delas seriam capazes de criar um vestido daqueles. Sem deixar de admirar a maneira como lhe moldava a elegante figura, Antoine seguiu a mulher até dentro de casa.

Sentaram-se na sala de estar e falaram tranquilamente durante algum tempo, após o que Antoine encheu duas taças de champanhe. Havia muito tempo que Beata não bebia excepto o pouco que levara aos lábios durante o casamento da irmã, há umas semanas, por isso sentiu a cabeça à roda ao primeiro gole. Ainda lhe era difícil acreditar que a vida deles mudara em tão pouco tempo. Há um mês jamais teria imaginado que viveria numa herdade na Suíça, casada com Antoine. Era um sonho tornado realidade para ambos, mesmo que tivessem sido obrigados a atravessar momentos terríveis para chegar ali. Contudo, os sofrimentos passados já pareciam desvanecer-se e dar lugar ao mais importante: partilhar a vida com Antoine.

Passaram a tarde a falar, de mãos dadas. Não tinham pressa de consumar o casamento e Antoine não queria assustá-la. Sabia que era um grande passo na sua vida e desejava que tudo se passasse pelo melhor. Não havia pressa, contudo nenhum deles tinha fome. Ao pôr do Sol, estavam sentados na sala a beijarem-se, enquanto o champanhe começava a produzir efeito e tanto Antoine como Beata deixaram de conseguir resistir. Há onze meses que aguardavam este momento, desde que se tinham conhecido em Agosto do ano anterior. O incidente junto ao lago parecia-lhes muito distante. Agora, estavam casados. Era tudo o que tinham sonhado e desejado desde o primeiro dia.

Apesar do braço ferido, Antoine conseguiu erguê-la e transportá-la meigamente até ao quarto. Pousou-a depois com suavidade em cima da cama e começou a despi-la lentamente. Ignorava se ela queria que a visse nua, mas a jovem não pareceu mostrar receio ante o procedimento. Uns momentos mais tarde, Antoine colocou cuidadosamente o vestido em cima da única cadeira do quarto, antes de lhe tirar devagar a delicada roupa interior de cetim e renda que Beata confeccionara uns meses antes e trouxera consigo. Enquanto o marido a observava, ela susteve a respiração. Assemelhava-se a uma boneca de porcelana quando Antoine começou a beijá-la suavemente.

Com as mãos trémulas, ela pôs-se, pelo seu lado, a despi-lo. Ignorava o que estava a fazer ou o que Antoine esperava dela. As vagas noções sobre o acto amoroso vinham de Brigitte, que sempre se interessara mais do que ela sobre o que se passava, ou era suposto passar-se, entre os sexos. Beata aproximou-se simplesmente dele com a sua inocência e amor e, quando Antoine a tomou nos braços e começou a fazer amor, terno e atento, ela descobriu uma paixão e plenitude com que nunca sonhara. Depois de fazer amor, ele deitou-se ao seu lado e tomou-a nos braços, traçando meigamente com os dedos os contornos do seu corpo. Nessa noite falaram durante horas, voltaram a fazer amor e, desta vez, foi ainda melhor.

Por fim, à meia-noite, famintos, devoraram a refeição preparada por Maria. Antoine disse que nunca sentira tanta fome em toda a vida e Beata, vestida com a camisa de noite que Maria lhe dera como presente de casamento, desatou a rir. Estavam sentados à mesa da cozinha, quando Antoine começou a beijá-la apaixonadamente. Continuando a cobri-la de beijos, fez-lhe deslizar a camisa de noite dos ombros e admirou-lhe a beleza, não ousando acreditar numa tal felicidade. Tão-pouco Beata. Nada na sua noite de casamento fora uma desilusão.

Achas que fizemos um bebé, esta noite? perguntou Beata, enquanto roía alegremente um osso de galinha. Imagino que é assim, excepto se não me tiveres mostrado tudo.

Sentia-se repentinamente adulta, após todos os mistérios que descobrira.

É possível respondeu Antoine com um sorriso. É o que queres, Beata? Não seria demasiado cedo?

E se for? quis saber ela, intrigada.

Se quiseres esperar, há coisas que podemos fazer, depois desta noite, para impedir que isso aconteça demasiado cedo.

Pelo seu lado, Antoine não se importaria nada se fosse o caso, mas não queria pressioná-la. Se ela não quisesse engravidar já, estava disposto a esperar, pois a única coisa que contava aos seus olhos era torná-la feliz para o resto da vida.

Não quero esperar declarou Beata, docemente, inclinando-se para o beijar. O meu único desejo agora é ter um filho teu.

Então, vejamos o que podemos fazer para te contentar reagiu Antoine.

Levantaram a mesa, lavaram a louça, arrumaram-na e depois beberam uma última taça de champanhe. Nessa altura, já tinham praticamente despejado a garrafa. Em seguida, ele levou-a outra vez para a cama e voltaram a fazer amor. Foi a noite de casamento perfeita para ambos. Quando o Sol se ergueu por cima dos Alpes, Beata soltou um suspiro de satisfação, antes de adormecer nos braços dele, mais apaixonada do que alguma vez sonhara.

 

O casamento de Antoine e Beata permaneceu uma recordação maravilhosa não só para eles, mas para todos os que os tinham visto nesse dia. Na aldeia, o vestido de casamento foi motivo de conversa durante meses. Maria ajudou Beata a guardá-lo cuidadosamente numa caixa forrada de seda, para o proteger, onde deixou secar algumas das flores do buqué. Após pensar no assunto durante uns dias, resolveu escrever à mãe e à irmã. Sabia que, nessa altura, Brigitte estaria em Berlim e desejava contar-lhe como fora o seu casamento e dizer-lhe que continuava a amá-la. Queria dizer à mãe que estava bem, que lamentava as terríveis circunstâncias do dia em que se viera embora e também quanto ela lhe faltara no dia do casamento.

Duas semanas mais tarde, as cartas foram-lhe devolvidas por abrir. A de Brigitte não trazia nenhuma inscrição especial, apenas o carimbo ”morada desconhecida”. Indicava-lhe que a irmã, ainda que em Berlim, não se atrevia a desobedecer ao pai. E a carta da mãe foi devolvida com a indicação de ”devolvida ao remetente” com a caligrafia cuidadosa do pai. Nenhum dos dois queria qualquer contacto com ela. Ocultou as lágrimas a Antoine durante dois dias antes de lhe contar o que acontecera.

Ainda é muito recente retorquiu ele num tom meigo. Dá-lhes tempo. Podes voltar a escrever-lhes daqui a uns meses. Até lá, as coisas terão acalmado.

Ele próprio não escrevera aos pais. Ainda continuava furioso ante a posição que tinham tomado e não sentia qualquer desejo de contactar com o irmão. Contudo, era mais velho do que Beata e muito mais ressentido do que ela.

Não conheces o meu pai replicou Beata, tristemente. Jamais me perdoará. Disse-me que ele e a mamã fariam o shiva por mim.

Explicou que tal significava a vigília pelos mortos, e Antoine ficou profundamente chocado. Em seguida, acrescentou:

Só queria dar à mamã e a Brigitte a novidade do casamento e dizer-lhes que as amo.

Beata nunca se atreveria a escrever ao pai; mesmo assim, escrever às mulheres da família também não a conduzira a parte alguma. Elas respeitavam-no e temiam-no demasiado para se atreverem a desafiá-lo. Só ela o fizera e sabia que o pai nunca lhe perdoaria, mas esperava que as outras o fizessem.

Antoine reconfortou-a o melhor que pôde. Como todos os recém-casados, faziam amor todas as noites. Esforçavam-se por serem discretos e não incomodarem os Zuber, mas viviam muito próximo, tanto que Maria, uma manhã, ouviu Beata a vomitar na casa de banho, seis semanas após o casamento.

Está bem? inquiriu, preocupada, através da porta. Os homens tinham partido ao romper da aurora e as duas mulheres estavam sozinhas. Beata preparava-se para ir mungir as vacas quando sentira os enjoos ao entrar na cozinha. Dez minutos depois, a pele tinha um tom esverdeado.

Lamento desculpou-se, sentando-se. Deve ter sido qualquer coisa que comi. Ontem, o Antoine trouxe-me todas aquelas amoras e já de noite me senti mal. Mas não lhe disse nada para não o magoar.

Tem a certeza de que são as amoras? replicou bondosamente Maria, que não estava nada surpreendida com a má disposição de Beata.

Sim. Acho que sim.

Em seguida, Maria fez-lhe algumas perguntas pertinentes e riu-se ante as respostas inocentes da jovem mulher.

Se a memória não me falha, minha querida, acho que está grávida.

A sério? retorquiu Beata, surpreendida, o que provocou um largo sorriso em Maria.

Sim, mas espere até ter a certeza antes de dizer ao seu marido.

Maria achava que não valia a pena preocupar Antoine inutilmente ou dar-lhe falsas esperanças. Sabia que os homens tinham reacções estranhas a este género de notícia e mais valia dizer-lhes depois de se ter a certeza

E quando será isso?

Daqui a uma ou duas semanas, se não acontecer nada e continuar a sentir-se enjoada

Beata saiu, de sorriso nos lábios, para mungir as vacas, mas à tarde estava tão cansada que regressou a casa, após cumprir as suas tarefas, e dormiu duas horas antes do jantar

A Beata está bem? perguntou Antoine a Maria, com um ar preocupado, ao chegar

A mulher costumava mostrar-se sempre tão animada, mas nos últimos tempos só queria dormir. Interrogava-se sobre se seria porque a mantinha acordada até tarde a fazer amor durante a noite, mas não conseguia ficar deitado ao lado dela sem lhe tocar

Está óptima. Só apanhou um pouco de sol, pois andou todo o dia lá fora a colher fruta para mim respondeu Maria, discreta quanto às náuseas e as sestas de Beata, mas considerando-a mesmo assim uma trabalhadora incansável e uma ajuda preciosa

Ao cabo de duas semanas, Beata teve a certeza de que estava grávida. Nada acontecera que lhe provasse o contrário e já não conseguia abotoar a saia na cintura, para nem mencionar os constantes enjoos. Um domingo à tarde, quando andava a passear com Antoine, ergueu o rosto na sua direcção e sorriu-lhe misteriosamente. Ele devolveu-lhe o sorriso, interrogando-se sobre em que é que a mulher estaria a pensar. A vida ao lado dela era um permanente mistério, mas deliciosa

Tens o ar de uma mulher com um segredo replicou, fitando-a com orgulho, feliz por estar casado com ela e pensando no futuro que os esperava

Tenciono partilhá-lo contigo respondeu num tom meigo, enfiando a mão no braço de Antoine. Estava um dia fantástico e decidiram ir a pé até à igreja, em vez de levarem o carro. Corria o final de Agosto e, segundo os seus cálculos, engravidara na noite de núpcias, mas Antoine não suspeitava de nada. Vamos ter um bebé acrescentou, fitando-o com olhos maravilhados.

Estás a falar a sério? Mas como é que isso aconteceu? perguntou, estacando de imediato. Beata desatou a rir.

Quando regressarmos a casa, explico-te, ou talvez deva mostrar-te como fizemos para que te recordes troçou, sempre a rir.

Não era o que queria dizer replicou, troçando da sua própria patetice, embora me sinta encantado com a ideia de me refrescar a memória, Madame de Vallerand. Adorava pronunciar o seu novo nome e ela também achava que lhe ficava bem. Apenas queria saber quando e como o soubeste? Tens a certeza? Quando é que vai nascer?

De súbito, o rosto ensombrou-se e acrescentou, preocupado:

Achas que não te faz mal andar?

Queres levar-me ao colo até casa? retorquiu Beata, troçando dele meigamente. Sinto-me bem, à excepção de uns enjoos nos últimos tempos, mas a Maria diz que é normal. Recordo-me de ouvir falar de raparigas que conheço, que ficaram terrivelmente doentes durante meses e incapazes de sair do quarto.

Contudo, tinha a certeza de que, com o ambiente saudável que os rodeava e a vida calma que levavam, os enjoos passariam rapidamente. Já se sentia um pouco melhor. As primeiras semanas haviam sido terríveis, mas, agora, estava tão excitada com o que se passava, que nem pensava nisso.

Julgo que aconteceu na noite do nosso casamento prosseguiu. O que significa que devemos ter um bonito bebé no começo de Abril. Talvez mesmo a tempo da Páscoa.

Segundo a fé católica, era o momento da ressurreição e do renascimento, o que parecia perfeito a Beata; além disso, poderia aproveitar o Verão para passear o bebé, o que achava muito mais agradável do que conservá-lo todo embrulhado em roupa e metido em casa, se nascesse no Inverno. Aos seus olhos, a altura do nascimento era maravilhosa. Antoine estava doido de alegria. Obrigou-a a abrandar o passo e a caminhar mais lentamente. Se dependesse dele, levá-la-ia aos ombros até casa. E Beata percebeu que ele estava um tanto inquieto quando lhe perguntou se era aconselhável que continuasse a fazer amor com ela, pois não queria magoá-la. Beata garantiu que tudo estava bem e podiam continuar a vida normalmente. Contudo, nos meses que se seguiram, Antoine vigiava-a constantemente. Passava sempre que possível por casa, a fim de certificar-se de que tudo corria bem, e substituía-a na maioria das tarefas, embora ela insistisse em que não havia necessidade.

Não és obrigado a isso, Antoine disse-lhe, um dia. Estou bem e preciso de fazer exercício e manter-me activa.

- O que é que percebes do assunto? Por fim, levou-a a um médico de Lausana, apenas para se certificar de que tudo estava bem. O médico sossegou a ambos, afirmando que tudo se desenrolava normalmente. Muitas vezes, Beata lamentava não poder partilhar a notícia com a mãe. Enviara-lhe mais uma carta, mas esta ainda fora devolvida mais rapidamente. Estava, por completo, apartada dos seus. Antoine e os Zuber e, dentro de uns meses o bebé,! eram, doravante, a sua única família.

No Natal, com quase seis meses de gravidez, Beata estava enorme; o contraste da barriga com a sua frágil figura acentuava-lhe a gravidez. No final de Janeiro, dir-se-ia que estava prestes a dar à luz e Antoine quase não a deixava sair de casa. Receava que ela escorregasse no gelo ou na neve e abortasse. À noite, gostava de deitar-se ao lado dela e sentir o bebé aos pontapés. Embora não se importasse com o sexo da criança, Antoine achava que era um rapaz e Beata assim o esperava devido à volumosa barriga da mulher.

Embora estivesse de boa saúde, Beata mal se mexia agora. Ao longo dos meses, confeccionara roupas adaptadas à sua nova silhueta e Maria ficava estupefacta com a sua habilidade para a costura. A jovem fizera roupa a partir de bocados vêlhos de tecido espalhados pela casa e até mesmo um casaquinho muito elegante de uma manta escocesa que Walther lhe oferecera. A futura mamã parecia jovem, bonita e saudável. Quando ia ao domingo à igreja, o padre André ficava sempre feliz ao vê-la.

A maior preocupação de Antoine residia no parto. Pensara em levar Beata para um hospital de Genebra ou de Lausana, mas não tinha dinheiro. Havia um médico a uns cinquenta quilómetros, contudo não tinha telefone e os Zuber também não. E quando chegasse a altura, seria impossível contactá-lo. Ir buscá-lo de carro, levaria provavelmente demasiado tempo.

Beata garantia-lhe que não estava nervosa. Maria dera à luz três filhos na sua casa, fora a França para estar com uma das filhas quando ela tivera o bebé e ajudara muitas amigas. Embora não fosse diplomada, era uma parteira experiente e as duas mulheres saberiam como agir ou, pelo menos, era o que Beata dizia. Não queria inquietar Antoine, mas confessou várias vezes a Maria que tinha um medo horrível. Nada sabia de partos e quanto mais a barriga lhe crescia, mais angustiada se sentia.

O bebé só nascerá quando estiver preparada garantiu-lhe, um dia, Maria num tom confiante. Os bebés sabem esse tipo de coisas. Não nascem, se estiver fatigada, doente ou desgostosa, mas esperam até estar pronta a acolhê-los.

Embora a afirmação lhe parecesse muito optimista, Beata, que conhecia a calma e a sensatez de Maria, resolveu dar-lhe o benefício da dúvida e acreditar nela. Nos últimos dias de Março, Beata verificou, surpreendida, que a sua energia renascera. Uma manhã, até foi mungir as vacas. Quando Antoine soube, ao regressar a casa, repreendeu-a severamente.

Como pudeste ser tão inconsciente! exclamou. E se uma delas te tivesse dado um coice e atingido o bebé? Quero que fiques em casa e descanses.

Sentia-se profundamente preocupado por não poder proporcionar a Beata um ambiente seguro e confortável, sabendo que nada do que fizesse lhe facilitaria as coisas, pois Beata não era uma camponesa, embora entrasse no jogo. Fora educada no luxo e, tanto quanto sabia, nunca apanhara uma constipação sem que fosse imediatamente vista por um médico. Agora, ele pedia-lhe que desse à luz o filho deles numa pequena herdade dos Alpes, sem a ajuda de uma enfermeira ou de um médico.

Escreveu a um amigo em Genebra e pediu-lhe que lhe mandasse um livro sobre pediatria. Começou a lê-lo às escondidas todas as noites, depois de Beata adormecer, com a esperança de aprender algo que pudesse ajudá-la. Todavia, à medida que o fim da gravidez se aproximava, Antoine ficou cada vez mais nervoso, sobretudo em pânico com a ideia de que o bebé fosse demasiado grande para a frágil estrutura de Beata. Um dos capítulos do livro falava de cesariana, uma operação que só um médico podia praticar, mas, mesmo nesse caso, as vidas da mãe e da criança corriam risco. O livro referia, aliás, que a maior parte desses nascimentos acabavam mal. Antoine não podia imaginar nada pior do que perder Beata e também não queria perder o filho de ambos. Contudo, não conseguia imaginar que um bebé do tamanho daquele que ela transportava pudesse sair com êxito de uma mãe tão pequena. Quanto mais o bebé crescia, mais pequena parecia Beata.

Na noite de 31 de Março, Antoine dormia um sono agitado quando ouviu Beata ir à casa de banho. Ficara tão grande, que passara a usar as enormes camisas de noite de Maria, as únicas com tamanho suficiente para ela e o bebé. Veio deitar-se novamente uns minutos mais tarde, bocejando.

Estás bem? sussurrou Antoine, preocupado, sem querer acordar os Zuber.

Sim. Muito bem.

Dirigiu-lhe um sorriso sonolento e voltou a deitar-se de lado, pois já não conseguia dormir de costas. O bebé estava tão pesado que ela tinha a impressão de sufocar. Antoine pôs-lhe o braço por cima e pousou delicadamente a mão no ventre arredondado. Como era hábito, o bebé deu um pontapé.

Nessa noite, Antoine não conseguiu voltar a adormecer, nem tão-pouco Beata. Depois de ter mudado de posição várias vezes, virou-se finalmente para Antoine, que a beijou.

Amo-te sussurrou ele.

Também te amo respondeu Beata com uma expressão radiosa, os cabelos negros espalhados na almofada.

Em seguida, voltou-se, confessando que lhe doíam as costas, pedindo que lhe desse uma massagem, o que ele fez de bom grado. Maravilhou-se, como sempre, ante a elegância daquele corpo, cuja única parte desproporcionada era o enorme ventre. Enquanto a massajava, ouviu-a gemer, o que não era o seu género.

Magoei-te? perguntou, num tom meigo.

Não... Estou bem... não é nada.

Beata não queria dizer-lhe que estava com dores desde a véspera. Primeiro, não ligara importância, pensando que se tratava de uma indigestão, mas agora as costas doíam-lhe horrivelmente. Quando Antoine se levantou uma hora mais tarde, ele e Walther tinham muito trabalho nesse dia e haviam planeado começar cedo, Beata acabara de adormecer. Ainda passava pelo sono quando Antoine saiu de casa, enquanto Maria se afadigava na cozinha.

Por fim, ao sair do quarto duas horas mais tarde, Beata parecia assustada e foi ter com Maria à cozinha.

Acho que se passa alguma coisa murmurou.

Passa mesmo anuiu Maria com um sorriso alegre. Faz hoje nove meses! Acho que alguém aqui vai ter um bebé!

Não me sinto nada bem confessou Beata.

As costas doíam-lhe terrivelmente, tinha muitas náuseas e algo no seu ventre exercia uma enorme pressão para baixo. Continuava com as mesmas dores lancinantes nas costas e no baixo ventre, o que em nada se parecia com uma indigestão.

O que vai acontecer? perguntou, com um ar de criança aflita, enquanto a mulher mais velha lhe rodeava a cintura com um braço, a fim de a reconduzir ao quarto.

Vai pôr no mundo um bebé magnífico, Beata, é isso o que acontecerá. Agora, quero que se deite e pense nisso.

Mal a jovem se deitara o olhar traía toda a ansiedade e medo que lhe iam na alma, Maria foi buscar toalhas e lençóis velhos que pusera de lado para o parto, juntamente com algumas panelas e bacias.

Não me deixe gritou Beata.

Vou só buscar uma coisa ao armário. Volto já.

Onde está Antoine?

Quando a primeira contracção séria lhe rasgou o ventre, Beata começou a entrar em pânico. A dor apanhara-a inteiramente desprevenida, ninguém lhe dissera que seria assim. Era como se um talhante estivesse a abrir-lhe o ventre de lado a lado e sentia o estômago tão duro como pedra. Maria agarrava-a para a ajudar a controlar a respiração.

Está tudo bem, Beata. Tudo bem. Volto num segundo. Maria correu até à cozinha, pegou numa das panelas e começou a aquecer água. Agarrou, em seguida, nas toalhas e lençóis e precipitou-se até à cama onde Beata estava deitada, com uma expressão confundida. A segunda contracção produziu-se no momento em que Maria atravessava a ombreira da porta e, desta vez, Beata uivou aterrorizada, ao mesmo tempo que estendia os braços para a mulher mais velha. Esta agarrou-lhe nas mãos e disse-lhe que não fizesse força demasiado cedo; ainda tinham um longo caminho a percorrer, antes de o bebé estar pronto. Se Beata fizesse força demasiado cedo, iria fatigar-se rapidamente.

Beata deixou que Maria a examinasse, mas o bebé ainda não estava visível. As contracções da véspera haviam iniciado o processo, mas ainda restava o verdadeiro trabalho. Maria calculou que faltavam várias horas, antes que Beata pudesse segurar o bebé nos braços. Esperava apenas que fosse fácil para a jovem. Por vezes, quando o parto era rápido, a dor podia ser pior, mas, pelo menos, não durava. Contudo, no caso de Beata, dado tratar-se da primeira gravidez e o bebé ser grande, Maria desconfiava que iria prolongar-se.

Com a contracção seguinte, as águas de Beata rebentaram, encharcando as toalhas que Maria lhe pusera por baixo e à volta. Trouxe-as para a cozinha e substituiu-as por outras

Tal como esperava, uma vez rebentadas as águas, as contracções aumentaram de intensidade. Durante uma hora, a jovem viveu um verdadeiro suplício, assaltada pelas vagas dolorosas, que apenas lhe concediam uns segundos para recuperar o fôlego.

Quando Antoine regressou para almoçar, ouviu-lhe os gritos antes mesmo de abrir a porta e aproximou-se a correr.

Como é que é ela está? perguntou a Maria, com uma expressão aterrorizada.

Está bem respondeu esta, num tom calmo.

Não achava que ele devesse estar presente, mas Antoine entrara imediatamente no quarto e envolvera a mulher num terno abraço.

Minha pobre querida... o que posso fazer para ajudar-te?

Ao vê-lo, Beata começou a chorar. A jovem estava em pânico, mas Maria tomara a firme decisão de não dar mostras da sua própria inquietação. Apenas sabia que o bebé era grande, mas a força das contracções talvez as ajudasse. Todavia, embora Beata sofresse como a maioria das mulheres prestes a dar à luz, não havia sinal do bebé.

Antoine... Não posso... não posso... Tenho tantas dores. gemeu Beata, tentando recuperar o fôlego entre duas contracções.

Vá almoçar com o Walther sugeriu Maria, mas Antoine não se mexeu.

Não. Eu fico retorquiu ele num tom firme.

Era o responsável por toda aquela situação e recusava deixar que ela a enfrentasse sozinha. Tratava-se de uma reacção invulgar aos olhos de Maria, mas Beata parecia um pouco mais calma por tê-lo a seu lado. Quando as contracções regressaram, ela esforçou-se por não gritar, enquanto Antoine observava o ventre retesado ao máximo. Ao tocar-lhe, verificou que estava duro como uma pedra. Maria ausentou-se uns instantes para ir ter com Walther à cozinha. Antoine pediu-lhe que o prevenisse de que ficaria junto de Beata até ao nascimento do bebé. Maria regressou rapidamente com uma toalha húmida. Contudo, não serviu de nada, pois as contracções continuaram a dilacerar Beata.

O trabalho de parto prolongou-se durante horas, ao som dos gritos infindos de Beata. Por fim, ao cair da noite, Maria soltou uma exclamação vitoriosa, pois avistara finalmente a cabeça do bebé. A partir desse momento, ele saía mais a cada contracção. Maria e Antoine encorajavam Beata, mas esta deixara de os ouvir, sentindo-se à beira da morte. Continuou a gritar, mal parando para tomar fôlego.

Maria pediu-lhe que empurrasse com todas as forças; o rosto de Beata contorceu-se de dor, adquirindo um tom arroxeado, enquanto fazia força sem resultado. Antoine estava tão perturbado com a cena, que prometeu secretamente que nunca mais lhe faria um filho. Jamais a obrigaria a passar por isto, se tivesse sabido. O trabalho de parto durara o dia inteiro e, às sete da noite, Antoine sentia-se desesperado. Beata recusava continuar a fazer força, limitando-se a estar para ali deitada, chorando e dizendo que era incapaz.

Tem de empurrar! gritou Maria, habitualmente tão meiga. Faça força! Vá lá! Força!

Expressava-se num tom tão firme que Beata lhe obedeceu. Maria via a cabeça do bebé a sair e entrar a cada contracção e sabia que, se demorassem muito, iriam perdê-lo.

Pediu a Antoine que agarrasse a mulher pelos ombros e disse a Beata que se apoiasse contra os pés da cama. Ao cabo de esforços sobre-humanos e gritos dilacerantes, metade da cabeça do bebé apareceu finalmente e Maria ordenou a Beata que continuasse a fazer força. De súbito, um vagido encheu o quarto. Beata continuava a gritar, mas fitou Antoine estupefacta, ao ouvir o bebé. Maria disse-lhe que fizesse ainda mais força; desta vez, apareceram os ombros e, por fim, todo o bebé, coberto de sangue e chorando a plenos pulmões. Era uma menina.

Os lençóis à volta de Beata estavam encharcados em sangue. Maria percebeu que ela perdera muito sangue, mas não o suficiente para que entrasse em pânico. O bebé era enorme, como haviam suspeitado. Beata e Antoine observaram Maria a cortar o cordão umbilical com mão experiente. Depois, limpou rapidamente o bebé, embrulhou-o num lençol e estendeu-o à mãe. Com as lágrimas a rolarem-lhe pelas faces, Antoine debruçou-se sobre as duas. Nunca vira algo mais bonito do que a sua mulher e a filhinha juntas.

Lamento disse-lhe com um ar aflito. Lamento que tenha sido tão doloroso para ti acrescentou, enquanto ela apertava o bebé de encontro ao peito.

Valeu a pena respondeu Beata com um sorriso e uma expressão radiosa, apesar da fadiga que o rosto expressava. Ela é tão bonita!

Antoine tinha dificuldade em acreditar que se tratava da mesma mulher que gritara e sofrera desde manhã, a tal ponto Beata parecia feliz e serena.

Também tu! exclamou, por fim, acariciando-lhe meigamente a face e depois a do bebé que parecia fitá-los, como que impaciente por conhecê-los.

Sem largar a filha, Beata deixou-se cair na almofada, esgotada. Ninguém lhe dissera o que a esperava. Não estava de forma alguma preparada para as dores do parto. Não compreendia porque é que ninguém a prevenira. Agora sabia porque é que as mulheres falavam sempre deste assunto em voz baixa. Por outro lado, se lhe tivessem falado com honestidade, talvez lhe faltasse a coragem

Mantinham-se deitados lado a lado a falar com a sua pequena filha. Foi então que Maria sugeriu a Antoine que fosse jantar qualquer coisa e beber um brande. Já eram nove horas e ela queria estar à vontade para limpar Beata, o bebé, a cama e o quarto. Quando o convidou a voltar uma hora depois, Antoine ficou surpreendido com a paz que reinava na divisão. Beata repousava em lençóis lavados, com os cabelos escovados, o rosto lavado, e a menina dormia nos seus braços. A cena de terror a que assistira durante toda a tarde havia desaparecido completamente. Dirigiu um sorriso de gratidão a Maria.

É uma mulher extraordinária elogiou, abraçando-a.

Vocês é que são. Os dois replicou Maria. Tenho muito orgulho em si, Antoine. A vossa filha pesa quase cinco quilos.

Maria anunciou o facto com tanto orgulho como se ela própria tivesse posto a criança no mundo o que, para seu alívio, não era o caso, pois nunca vira uma mãe, sobretudo com a constituição física de Beata, dar à luz um bebé tão grande. Tinha havido, sem dúvida, um ou dois momentos em que sentira receio de perdê-los, mas absteve-se de falar no assunto.

Como vão chamar-lhe? acrescentou Maria, que nunca vira uns pais tão orgulhosos. Quanto a Walther espreitou da ombreira da porta e sorriu ao jovem casal com o bebé nos braços.

Beata e Antoine trocaram olhares. Há meses que andavam a discutir nomes próprios, mas não tinham conseguido decidir-se quanto a um feminino. Contudo, ao vê-la, Beata soube que tinham encontrado um, logo nas primeiras sugestões.

O que te parece Amadea? perguntou a Antoine. Ele reflectiu um momento. De início, pensara em Françoise, o nome próprio da mãe, mas devido à maneira detestável como esta reagira ao seu casamento com Beata, deixara de querer chamar-lhe assim. Ambos sabiam que Amadea significava ”Amada por Deus”, e Antoine tinha a certeza de que assim era.

Gosto e acho que lhe fica bem. É uma bela menina, merece usar um nome especial. Amadea de Vallerand respondeu, experimentando dizê-lo. Beata sorriu.

No momento em que Antoine pronunciou o nome, o bebé mexeu-se e emitiu um som entre um suspiro e um vagido, o que lhe provocou o riso.

Acho que ela está de acordo concluiu Beata que parecera ter recuperado as cores e estar pronta a valsar pelo quarto. Amadea! pronunciou, fitando a filha recém-nascida e depois o marido, com um sorriso nos lábios.

Nessa noite, deitado ao lado de Beata, Antoine pensou em tudo o que haviam vivido nesse dia. E, enquanto Beata se deixava levar pelo sono, com a bebé ao lado dentro de um cesto, Antoine rezou uma oração de agradecimento pelo milagre que haviam partilhado. Amadea. Amada por Deus. Antoine esperava que o fosse eternamente.

Amadea de Vallerand tinha dezanove meses e dez dias quando o final da guerra foi proclamado, em 1918. Era uma menina loura, de olhos azuis, alta para a idade, que fazia as delícias dos pais e dos Zuber. Maria sabia que, mal a guerra acabasse, a jovem família, que vivera com eles durante dois anos, se iria embora e teria pena quando tal acontecesse. Contudo, eles não podiam ficar eternamente na Suíça. Mal os respectivos países se pusessem de pé, a Suíça deixaria de oferecer-lhes asilo.

No Natal de 1918, Antoine e Beata já haviam tido discussões intermináveis sobre se voltarem para a França ou a Alemanha. A família de Antoine mostrava-se mais firme do que nunca de que não acolheria em Dordogne a sua mulher judia e a filha semijudia. Haviam sido de uma cruel brutalidade e pouco lhes interessava que Beata se tivesse convertido ao catolicismo. Aos olhos deles, mantinha-se judia, e as portas estavam fechadas para Antoine.

Pelo seu lado, Beata não fora mais bem-sucedida. As cartas que enviara aos pais haviam sido devolvidas, como as primeiras. E obteve o mesmo resultado quando escreveu a Brigitte. Por vezes, interrogava-se sobre se também ela tivera um filho. Quanto a si, nada tinha contra o facto de voltar a ser mãe, e o casal não tomava qualquer precaução. Estava, aliás, surpreendida por não se encontrar grávida, depois de o ter ficado tão rapidamente quanto a Amadea. Contudo, de momento, sentiam-se felizes com Amadea. Esta cirandava por todo o lado, tagarelando na sua linguagem. Os Zuber gostavam dela como se fosse sua neta e sabiam até que ponto lhe sentiriam a falta.

Em Fevereiro, Antoine recebeu uma carta que serviu para decidir para que país iriam. Um dos seus amigos de Saumur, a academia equestre onde ele se treinara para o exército, escreveu-lhe a anunciar que comprara um palácio fantástico na Alemanha, por uma quantia irrisória, e que o mesmo possuía estábulos fantásticos, embora em ruínas.

O amigo chamava-se Gérard Daubigny e queria restaurar o castelo. Sabia que Antoine era um exímio cavaleiro e um conhecedor de cavalos. Por isso, desejava que este se encarregasse dos estábulos, fizesse o que achava necessário para os reconstruir, enchendo-os com os cavalos das melhores castas, e, ainda, contratasse treinadores e moços de estrebaria. Gérard ouvira falar do seu braço magoado, mas Antoine garantira-lhe que isso não seria problema. Embora não pudesse servir-se do braço esquerdo, adequadamente, tornara-se mais hábil com o direito o suficiente para compensar a incapacidade do primeiro.

Por coincidência, o palácio de Gérard situava-se próximo de Colónia, e, embora a família de Beata não tivesse mudado de opinião, Antoine achava possível que, se vivessem próximo, eles acabassem por amolecer. Talvez, a seu tempo, se conseguisse uma aproximação das duas famílias. Contudo, não foi a proximidade dos Wittgenstein que influenciou Antoine. O salário que Daubigny lhe oferecia era irrecusável, e tratava-se de um emprego que constituía a sua paixão. Por outro lado, teriam uma bela casa na propriedade, onde caberiam os três e talvez mais filhos.

No final de Fevereiro, Antoine aceitou a proposta e combinou com Gérard que chegaria ao castelo no início de Abril. Dava-lhe tempo para acabar o que tinha em curso na herdade e ajudar Walther o máximo possível antes da sua partida. O lar que os Zuber lhes haviam oferecido, durante mais de dois anos, tinham-lhes salvo a vida. Sem eles, Antoine e Beata não sobreviveriam à guerra, pelo menos juntos, não casariam tão rapidamente, nem forneceriam um tecto à filha. E agora, este trabalho na Alemanha iria salvá-los.

Antes de partirem, Beata passou muitas noites a ensinar alemão a Antoine. Embora os Daubigny fossem franceses, os treinadores e os rapazes de estrebaria, bem como os operários que iam contratar, seriam todos alemães e ele precisava de saber a língua. Embora não muito especializado, Antoine falava] quase correntemente o alemão, quando chegou a data da partida. Contudo, tinham concordado há muito que cada um fàlaria a Amadea na sua língua materna, pois queriam que a filha fosse bilingue. Mais tarde, Beata estava decidida a que também aprendesse inglês. Se tivessem meios depois de estarem na Alemanha, contrataria uma ama inglesa para que Amadea fosse fluente em inglês. Ambos pensavam que era importante falar várias línguas.

A sua situação financeira estava longe de se encontrar garantida, embora o salário proposto a Antoine fosse considerável. Além disso, ia fazer um trabalho que adorava e de que tinha experiência. A oportunidade que lhes surgira era uma” bênção. Pelo seu lado, Beata pensava oferecer os seus serviços de costura a algumas das mulheres elegantes que conhecera, esperando que tal lhe permitisse aproximar-se da mãe.

Antoine mencionou também que Madame DaubignyJ tinha uma enorme fortuna, sendo provavelmente com o dinheiro dela que Gérard estava a restaurar o palácio, pois ele provinha de uma antiga família aristocrática que já era pobre mesmo antes da guerra. A família de Véronique era muito rica e Gérard prometera a Antoine que ele poderia comprar todos os cavalos que quisesse. Iam começar uma nova vida.

Os Daubigny não conheciam Beata e não faziam ideia da sua proveniência. Antoine e Beata discutiram o assunto, decidindo que seria mais simples não lhes dizer que ela era judia. Tratava-se de uma parte da sua história e da de ambos que queriam guardar para si, tal como as dificuldades familiares que haviam passado antes de casarem. Sem a presença dos Wittgenstein na sua vida, tornava-se desnecessário explicar que Beata nascera judia, além de que ela não parecia sê-lo. Nem tão-pouco Amadea. Era uma menina loura, de olhos azuis, de traços perfeitos, iguais aos da mãe. A rejeição da família ainda era uma fonte de vergonha e de tristeza para Beata, e ela não queria que ninguém o soubesse.

Os cinco choraram no dia em que os Vallerand se despediram dos Zuber. A própria Amadea choramingou e estendeu os braços a Maria. Os Zuber acompanharam-nos até à estação de caminho-de-ferro de Lausana. Ao abraçá-los, os soluços de Beata redobraram, pois a cena recordou-lhe a saída de casa dos pais, há três anos.

Antoine e Beata chegaram a Colónia no dia em que Amadea fez dois anos. Quando se instalaram no castelo, embora tivesse ficado contente por rever o seu velho amigo, Antoine confessou a Beata que tinha muito trabalho para fazer ali.

O castelo fora deixado ao abandono e encontrava-se em ruínas. A família a que pertencera durante séculos há muito que ficara sem dinheiro, e o lugar deixara de ser habitado antes da guerra, encontrando-se, portanto, num estado de extrema degradação. O pior eram os estábulos. Seriam precisos meses, ou mesmo anos, para restaurá-los. Contudo, ao fim de um ou dois meses, Antoine reconheceu que achava o trabalho excitante e que ansiava por comprar os primeiros cavalos. Beata adorava ouvi-lo falar dos seus projectos, quando os discutiam, à noite.

Por fim, os progressos revelaram-se mais rápidos do que o previsto. No Natal, um exército de carpinteiros, pintores, arquitectos, operários, pedreiros, jardineiros e vidraceiros afadigava-se à volta do castelo. Véronique e Gérard mostravam-se intransigentes. Segundo Antoine, Véronique estava a construir um verdadeiro palácio e, para sua grande alegria, não olhava a despesas quanto aos estábulos. Estes eram aquecidos, limpos, modernos e com espaço para acolher até sessenta cavalos.

Na Primavera seguinte, Antoine já estava a comprar cavalos, a preços fabulosos, por toda a Europa. Fez numerosas viagens a Inglaterra, Escócia e Irlanda, acompanhado de Beata. Foi ainda várias vezes a França, onde adquiriu três magníficos cavalos de caça em Dordogne, a quinze quilómetros do castelo onde crescera. Ao passarem diante da propriedade, a caminho de um leilão em Périgord, Beata apercebeu-se até que ponto a Situação o afectava. Viu-o fitar os portões tristemente. Era como se a família de ambos tivesse morrido.

Ela vivera a mesma experiência quando regressaram a Colónia. Um dia, incapaz de resistir, apanhara um táxi e parando diante da sua antiga casa Pusera-se a chorar, sabendo que os que amava continuavam a morar ali, mas não queriam vê-la. Beata escrevera-lhes, de novo, quando haviam voltado a Colónia, mas, como habitualmente, as cartas foram-lhe devolvidas. O pai não cedia. Era algo com que ela e Antoine tinham aprendido a viver, contudo a ferida ainda não havia cicatrizado. Felizmente que ainda tinha Antoine e Amadea, embora se sentisse desapontada com a falta de mais um bebé. A filha já tinha três anos e, mau grado os seus esforços, Beata ainda não engravidara. Porém, levavam aqui uma vida mais agitada do que na Suíça e, por vezes, ela interrogava-se sobre se seria esse o problema. Mas, fosse qual fosse o motivo, Beata começara a habituar-se à ideia de não ter mais filhos. Sentia-se feliz com Antoine e Amadea, tinha uma bela casa, e os Daubigny não só eram pessoas simpáticas, como grandes amigos

Antoine levou mais um ano a encher os estábulos que, agora, contavam com oitenta e oito puros-sangues, incluindo alguns cavalos árabes. Quando Amadea fez cinco anos, ele comprou-lhe um pónei. Apesar da sua tenra idade, a menina era uma excelente cavaleira. E muitas vezes, os pais, que lhe prodigalizavam todo o seu amor e atenção, levavam-na a dar longos passeios a cavalo pelo campo. Além disso, Amadea lidava facilmente com as línguas, tal como Beata esperara, e falava correntemente francês, alemão e inglês. Quando fez seis anos, ingressou na escola local com os filhos dos Daubigny

Véronique e Beata não passavam muito tempo juntas, pois andavam sempre ocupadas, mas entendiam-se perfeitamente. Beata fazia vestidos de noite para ela e as amigas, a preços razoáveis. Antoine e ela não eram ricos, mas viviam bem, num ambiente agradável, graças, igualmente, à bonita e confortável casa que os Daubigny lhes tinham dado. Antoine gostava do que fazia e Beata sentia-se feliz por ele.

Contudo, de vez em quando, o passado ressuscitava e entristecia-a. Um dia em que fora à cidade comprar tecido, avistara a irmã acompanhada do marido e de duas crianças pequenas, uma das quais era da mesma idade e parecida com Amadea. Interrogara-se sobre se viveriam em Colónia. Ao vê-la, Beata estacou, e sem um momento de reflexão, chamou a irmã e aproximou-se. Brigitte parou um instante, fitou-a de frente e depois girou sobre os calcanhares, dizendo umas palavras ao marido. Em seguida, subiu rapidamente para uma limusina que a esperava, enquanto o marido instalava os filhos ao lado dela. A viatura arrancou um momento depois e afastaram-se sem lhe terem dado o mínimo sinal de reconhecimento. Devastada, Beata nem sequer teve forças para ir a loja de tecidos, apanhou directamente o comboio para o castelo, lavada em lágrimas. Nessa noite, contou o episódio a Antoine, que sentiu pena dela. Nenhuma das famílias cedera naqueles sete anos, desde que se haviam casado. Eram implacáveis

Depois disso, verificara-se outro incidente, desta vez quando Beata vira os irmãos a saírem de um restaurante com duas mulheres, que supôs serem as suas esposas. O seu olhar cruzara-se com o de Ulm, que a reconhecera de imediato, mas passara ao seu lado, ignorando-a. Quanto a Horst, virara as costas e metera-se num táxi. Chorara durante toda a noite, mas de raiva. Com que direito agiam daquela maneira? Contudo, mais do que raiva, sentia tristeza e a mesma perda que a invadira quando abandonara a casa do pai para casar com Antoine. Era uma ferida que, sabia, nunca cicatrizaria por completo

Porém, o pior de tudo tinha sido no dia em que vira a mãe, há dois anos, antes do seu encontro fortuito com Brigitte. Tendo ido à cidade fazer uma compra com Amadea, não conseguira deixar de parar uns momentos diante da sua antiga casa. Amadea perguntara-lhe o que estavam a fazer ali

Nada, querida Só quero ver uma coisa

Conheces as pessoas que vivem naquela casa?

Fazia frio e Amadea estava com fome, mas Beata não se mexera, fixando com uma expressão infeliz a janela do seu antigo quarto e depois a do da mãe. De súbito, vira-a à janela.

Sem reflectir, Beata acenara-lhe e Monika tinha-a visto. A filha observava-a, surpreendida. Todavia, a mãe baixara a cabeça, desgostosa, e fechara os reposteiros, sem corresponder. Para Beata, esta foi a prova de que não lhe restava esperança e jamais voltaria a ver a mãe. Nem sequer a presença de Amadea ao seu lado conseguira enternecer o coração da mãe, nem dar-lhe coragem para enfrentar o marido. Para eles, Beata já não existia. Foi com um sentimento de solidão e um vazio enorme que levou Amadea a almoçar, apanhando, depois, o comboio de volta a casa

Quem era a senhora a quem disseste adeus? perguntara-lhe a filha que notara a expressão desesperada da mãe sem saber o que significava, excepto que esta ficara triste.

Uma velha amiga. Mas acho que não me reconheceu respondeu Beata, desejando explicar que se tratava da sua mãe, mas sem se atrever.

Talvez não te tivesse visto, mamã sugerira Amadea num tom meigo e a mãe assentira, tristemente, com a cabeça.

Levara algum tempo, antes de conseguir falar do assunto a Antoine. Ele também não tivera melhor sorte com os pais e o irmão, embora, por lei, viesse um dia a herdar o título e as terras do pai, bem como a fortuna da família. Contudo, para Antoine e Beata o passado deixara de existir. Só contava o presente e o futuro que teriam juntos.

Exceptuando a perda das respectivas famílias, os Vallerand levavam uma vida agradável. Antoine e Gérard davam-se bem e os estábulos prosperavam. De vez em quando, Antoine comprava novos cavalos para o amigo, organizava caçadas, treinava cinco dos melhores cavalos para as corridas e ocupava-se dos garanhões. Em breve, os estábulos Daubigny tornaram-se famosos em toda a Europa, em grande parte devido a Antoine que percebia muito mais de cavalos do que Gérard.

Tudo estava a correr muito bem, mas uma tarde, Beata, que fora ter com Véronique para que esta experimentasse um vestido de noite, desmaiou quando estavam no meio de uma agradável conversa. Véronique, muito preocupada, obrigou-a a deitar-se numa chaise longue no seu quarto e, depois, acompanhou-a a casa.


Ao passarem diante dos estábulos, Antoine, que dava uma lição de equitação a Amadea, notou a extrema palidez de Beata e o seu andar inseguro. Pediu a um dos moços de estrebaria que vigiasse a filha e saiu a correr. Véronique não conseguia ocultar a inquietação que a tomava, mas Beata tinha-a obrigado a prometer que não falaria do seu desmaio, a fim de poupar Antoine. Disse que provavelmente apanhara uma gripe ou estava com uma enxaqueca embora fossem raras nela

Sentes-te bem? inquiriu Antoine, parecendo preocupado e fitando Véronique, que cumpriu a promessa, apesar de se sentir inquieta.

Acho que estou a chocar algo... nada mais respondeu, omitindo-lhe que tinha desmaiado no quarto de vestir de Véronique, durante a prova de um vestido. Que tal a lição de Amadea? acrescentou para mudar de assunto. Devias obrigá-la a ser mais prudente.

Aos sete anos, a filha era uma cavaleira intrépida, que adorava saltar por cima de ribeiros e sebes, o que muito assustava a mãe.

Acho que não consigo obrigá-la ao que quer que seja respondeu Antoine com um sorriso resignado. Parece ter ideias próprias sobre uma série de assuntos.

Amadea herdara o espírito perspicaz e curioso da mãe, mas também tinha uma faceta ousada que inquietava os pais. Nada parecia assustá-la ou estar fora do seu alcance, o que, aos olhos deles, constituía, em simultâneo, algo bom e mau. Beata tinha um medo permanente de que lhe acontecesse alguma coisa. E como filha única, davam-lhe toda a atenção e todo o amor ”talvez demasiado”, dizia às vezes para si própria. Ao cabo de sete anos, parecia óbvio que Amadea não teria irmãos ou irmãs, o que os pais lamentavam.

Queres que te acompanhe a casa? retomou Antoine, ainda preocupado e sem se ter deixado distrair.

Por norma, Beata tinha uma pele muito branca e, quando se sentia mal, ficava quase transparente. Enquanto Antoine lhe falava, Véronique notou que ela empalidecia e parecia prestes a desmaiar de novo.

Não. Estou bem. Vou só deitar-me uns minutos. Vai ocupar-te da nossa pequena fera.

Beata deu-lhe um beijo rápido e percorreu a curta distância que a separava de casa, com Véronique ao lado. Uns minutos mais tarde, esta ajudou-a a deitar-se e foi-se embora.

Nessa noite, ao regressar, Antoine ficou aliviado ao constatar que a mulher estava com melhor aspecto. Contudo, no dia seguinte, o estado de Beata agravara-se consideravelmente, deixando-o novamente preocupado. Tinha um tom esverdeado, enquanto preparava Amadea para a escola, e custara-lhe muito sair da cama. Voltou à hora do almoço para ver como ela estava.

Que tal estás? inquiriu com um franzir de sobrolho, lembrando-se de que, no Inverno anterior, tinha havido uma epidemia de gripe mortal na região.

Antoine detestava ver Beata doente. A mulher e a filha eram tudo o que possuía neste mundo e só elas lhe interessavam na vida.

Sinto-me melhor respondeu a jovem mulher, tentando parecer animada.

Contudo, sabia que não estava a contar-lhe toda a verdade, e ele sabia-o.

Quero que vás ao médico declarou num tom firme.

Um médico não vai remediar nada. Esta tarde, faço uma sesta, antes que a Amadea volte da escola, e à noite já estarei bem.

Beata insistiu em preparar-lhe o almoço, colocou-o diante dele e sentou-se a fazer-lhe companhia, mas ele notou que a mulher não comia nada. Na verdade, Beata só queria uma coisa: que ele voltasse para os estábulos para ela poder deitar-se.

Uma semana depois, Antoine continuava preocupado Embora a mulher insistisse que estava bem, ele via que não era assim e sentia-se em pânico.

Se não fores ao médico, sou eu que te levo. Por amor de Deus, Beata! Irás consultá-lo? Não compreendo de que é que tens medo.


Contudo, a jovem mulher sabia perfeitamente de que é que tinha medo: de ficar desiludida. Começava a suspeitar do que se passava com ela e queria ter a certeza, antes de falar a Antoine. Por fim, acabou por ceder a ir consultar o médico. Este confirmou as suas suspeitas e, quando Antoine regressou, à noite, ela recebeu-o com um sorriso, embora se sentisse terrivelmente mal.

O que disse o médico? perguntou ele, ansioso, depois de Amadea ter subido ao andar de cima para vestir a camisa de noite.

Disse que estou em plena forma... e que te amo... respondeu Beata, tão feliz que mal conseguia dissimular o seu entusiasmo.

Ele disse que tu me amavas? retorquiu Antoine com uma gargalhada. Bom. É simpático da parte dele, mas isso já eu sabia. Que explicação deu para que te tenhas sentido tão mal nos últimos dias?

Beata parecia de muito bom humor e brincalhona, quase frívola.

Nada que o tempo não cure respondeu, evasiva.

Achou que se tratava de uma ligeira gripe? Se assim for, minha querida, precisas de ter cuidado avisou, preocupado, pois conheciam uma série de pessoas que tinham morrido de gripe no Inverno anterior e era algo para levar a sério.

Não, nem pensar tranquilizou-o Beata. Na verdade, trata-se de um caso muito concreto de gravidez. Vamos ter um bebé rematou, de olhos brilhantes.

Finalmente era verdade! Beata rezara tanto para que tal acontecesse! Quando o bebé nascesse faria oito anos de diferença da irmã

Vamos? Antoine, tal como a mulher, há muito perdera a esperança de ver aumentar a família, pois, embora ela tivesse engravidado rapidamente da primeira vez, tal nunca mais se verificara. Mas que maravilhoso, minha querida! exclamou, tão feliz como ela.

O que é que é maravilhoso? quis saber Amadea, que acabava de aparecer em camisa de noite. O que aconteceu?

Amadea era uma rapariguinha muito inteligente, determinada, que gostava de participar em tudo e adorava os pais. Por um momento, Antoine receou que ela ficasse com ciúmes. Consultou Beata com o olhar e esta assentiu com a cabeça, dando-lhe luz verde.

A tua mãe deu-me uma excelente notícia respondeu, orgulhoso e contentíssimo. Vais ter um irmão ou uma irmã.

A sério? retorquiu Amadea com um ar desconcertado, fitando primeiro o pai e depois a mãe. Quando?

Antoine e Beata recearam subitamente que ela encarasse mal a situação. A filha fora o centro de todas as atenções durante tanto tempo, que podia não se sentir encantada com a ideia de outra criança, embora tivesse mostrado muitas vezes o desejo de que tal acontecesse.

No próximo ano, duas semanas depois do teu aniversário. Terás oito anos nessa altura respondeu a mãe.

Mas porque é que temos de esperar tanto tempo? comentou, parecendo desapontada. Não podemos tê-lo, mais cedo? Pergunta ao médico, mamã.;

Receio que não seja possível apressar esse género de coisas sorriu Beata à filha, que imaginava que os bebés se encomendavam no médico.

Pelo seu lado, Beata pouco se importava por ter de esperar; apenas se sentia feliz por irem ter um filho. Teria trinta anos quando o bebé nascesse e Antoine fizera quarenta e dois, nesse Verão. No entanto, e mais do que tudo, Beata estava aliviada por ver a mesma felicidade na filha.

Pediste um rapaz ou uma rapariga? inquiriu a miúda com um ar sério.,.

Não se escolhe. Teremos o que Deus nos enviar. Embora eu espere que seja um rapaz por causa do teu papá especificou Beata, ternamente. Para que é que o papá ia precisar de um rapaz? As raparigas são muito melhores. Quero uma irmã.

Veremos, então.

Antoine e Beata entreolharam-se com ternura, depois sorriram à filha. A Antoine pouco lhe interessava que fosse rapaz ou rapariga, desde que o bebé nascesse de boa saúde.

Será uma rapariga decretou Amadea e será o meu bebé. Farei tudo por ela. De acordo?

Será maravilhoso, se ajudares a tua mamã anuiu Antoine.

Como vamos chamar-lhe? questionou Amadea, encarando tudo de uma forma prática.

Teremos de pensar respondeu a mãe, cansada mas feliz. Sonhara tanto com isto e agora acontecera finalmente quando já não esperava. Teremos de escolher vários nomes de meninos e de meninas.

Não. Só nomes de menina objectou Amadea. E acho uma estupidez termos de esperar tanto tempo.

Beata estava grávida de quase três meses e o bebé deveria nascer a meio de Abril. Era muito tempo para uma criança de sete anos.

A segunda gravidez de Beata revelou-se mais difícil do que a anterior, mas, como o médico lhe assinalou, ela tinha agora mais oito anos. Sentiu-se mal frequentemente e, por várias vezes, nos dois últimos meses, julgou que daria à luz. O médico pediu-lhe que fosse muito prudente. Antoine ocupou-se dela, como era previsível, passando o máximo de tempo possível com Amadea, a fim de aliviar a carga. Mãe e filha tricotaram juntas pequenas toucas, cueiros e mantas e Beata costurou roupa adaptada aos dois sexos, embora Amadea continuasse a insistir em que queria uma irmã. A miúda estava fascinada por descobrir que um pequeno ser crescia dentro da barriga da mãe, o que dantes nunca compreendera devidamente, pois nenhuma mulher das que conhecia havia engravidado. Já tinha visto mulheres naquele estado, mas julgara que eram apenas gordas; agora, passara a imaginar que todas as mulheres um pouco fortes com que se cruzava na rua estavam grávidas, e a mãe dizia-lhe frequentemente que não perguntasse se era verdade.

Beata passou o último mês de gravidez em casa. Desejou que também agora Maria estivesse ao seu lado, mas, desta vez, seriam um médico e uma parteira a ajudá-la. Antoine ficou aliviado, enquanto Beata lhe confessou que se sentia desapontada. Além disso, o médico já a prevenira de que Antoine não podia assistir. Corria o risco de se distrair, e não era assim que exercia a profissão. Beata preferiria ter Maria e Antoine ao lado dela, como na pequena herdade.

Escuta, meu amor. Prefiro saber-te em boas mãos. Não quero que voltes a passar pela tortura da última vez observou Antoine. Talvez o médico conheça alguma maneira de apressar um pouco mais as coisas.

Se a mulher esquecera o pior do parto, não era o caso de Antoine, que ainda estremecia ante a recordação dos incessantes gritos.

O médico avisara Beata que o parto poderia ser demorado. Em oito anos, o corpo esquecera o nascimento anterior e, na sua opinião, as mulheres que tinham gravidezes muito espaçadas viviam, por vezes, partos tão longos, ou ainda mais, do que da primeira vez. Tudo isto pouco contribuía para a reconfortar, para já nem falar que não gostara da parteira, quando a conheceu. Na verdade, apenas tinha um desejo: meter-se no primeiro comboio com Antoine e partir ao encontro de Maria. As duas mulheres tinham-se mantido em contacto ao longo dos anos e, ao ser informada da gravidez, Maria escreveu a dizer quanto se sentia contente. Os Vallerand haviam feito inúmeros planos para visitarem os Zuber, mas Antoine nunca podia afastar-se dos estábulos e tinha, sempre muito trabalho.

Ao final de uma tarde, Beata regressou de um passeio com Amadea. Há semanas que não se sentia tão bem, com mais energia do que nunca. Fez bolos com a ajuda de Amadea, depois preparou um jantar mais elaborado do que era hábito, a fim de fazer uma surpresa a Antoine. Ia a subir para se mudar para o jantar, quando sentiu uma dor familiar no baixo ventre; há semanas que andava com estas dores, embora não tão fortes como esta, e resolveu ignorá-la. Mudou de roupa, penteou-se, pôs batom e voltou a descer à cozinha, a fim de se certificar de que a comida não se queimava.

Quando Antoine regressou a casa, encontrou a mulher de muito bom humor, embora parecesse bastante agitada ao jantar. Beata continuara a sentir dores durante toda a noite, mas não as achara suficientemente fortes para chamar o médico, nem preocupar Antoine. À mesa, Amadea queixou-se do tempo que o bebé demorava a chegar; os pais riram-se e disseram-lhe que tivesse paciência. Foi só depois de ter ido aconchegar a roupa à filha, lá acima, e de descer novamente ao encontro de Antoine, que as dores aumentaram de intensidade.

Estás bem? inquiriu, ansioso. Servira-se de um copo de brande e agradecera-lhe o excelente jantar. Mal te sentaste a noite toda.

Passo o dia sentada! Acho, aliás, que descanso demasiado. Desde ontem que me sinto muito melhor e cheia de energia.

Óptimo. Então, aproveita, mas sem te fatigares. O bebé não tardará a nascer.

A pobre Amadea está farta de esperar replicou, ao mesmo tempo que sentia uma dor aguda, mas sem querer mencioná-la ao marido.

Antoine parecia estar a apreciar este momento de descontracção, pois andava extremamente ocupado nos estábulos, desde que tinham comprado quatro novos garanhões. Sentado num sofá, com o copo de brande na mão, admirava a mulher. Achava-a lindíssima, apesar da enorme barriga. De súbito, e sem que percebesse porquê, Beata dobrou-se em duas, tamanha foi a dor. Em seguida, a contracção desapareceu com a mesma rapidez com que a atacara.

O que se passa, Beata? Estás bem? Talvez seja melhor chamar o médico.

Contudo, ambos sabiam que o nascimento ia demorar. Isto era apenas o começo. Beata lembrou-se de que, da primeira vez, estivera assim durante horas; o trabalho de parto só começara ao romper do dia, e Amadea só nascera quinze horas depois. O médico tinha-a avisado que, agora, ainda podia levar mais tempo, e ela desejava ficar o máximo de tempo possível com Antoine, antes da chegada do médico e da parteira.

Vou deitar-me uns minutos declarou. De qualquer maneira, o bebé não nascerá provavelmente antes de amanhã de manhã.

Eram dez da noite. Beata subiu lentamente a escada, seguida de Antoine. Desatou a rir quando o marido se ofereceu para levá-la ao colo, mas interrompeu-se bruscamente ao entrar no quarto, fulminada por uma dor que lhe atacou os rins e o baixo ventre. Enquanto ela ofegava de dor, Antoine deitou-a suavemente em cima da cama, interrogando-se como é que a mulher podia ter esquecido. Contudo, ela agora lembrava-se de tudo. Com as primeiras contracções, a recordação daquilo por que passara reavivou-se.

Antoine observava a mulher, que lhe suplicou para que esperasse mais um pouco, pelo menos uns minutos, antes de chamar o médico.

Eles não querem que fiques comigo justificou, num tom angustiado.

Estarei no quarto ao lado, prometo. Tal como Maria o fizera há oito anos, Beata pusera de lado uma pilha de lençóis velhos e toalhas. Receava que Amadea ouvisse do seu quarto os sons horríveis que acompanhavam o parto. Esperava que, com um pouco de sorte, a filha estivesse na escola quando o bebé nascesse, o momento mais doloroso. Sentiu de novo duas violentas contracções, cuja intensidade lhe pareceu diferente, desta vez; era como se um camião a tivesse trespassado de lado a lado. Ante a contracção seguinte, deitou um olhar assustado a Antoine.

Oh, meu Deus! O bebé vai nascer...

Sei muito bem que o bebé vai nascer respondeu ele, com um ar calmo, descontraído pela bebida. Reconhecia os sinais de que a mulher estava em trabalho de parto, mas desta vez sabia o que esperar e não se sentia preocupado. Vou telefonar ao médico. Onde está o número?

Não... não estás a perceber... ofegou ela, agarrando-se-lhe. Não consigo... não posso... o bebé vai nascer!

De súbito, sem qualquer aviso, Beata soltou um enorme gemido, ficou muito branca e depois afogueada. Estava a fazer força. Não conseguia controlar-se. O bebé ia nascer.

Deixa de fazer força. Vais fatigar-te disse Antoine, lembrando-se das recomendações que Maria fizera há oito anos.

Embora faltassem horas, achava melhor chamar já o médico. Contudo, Beata agarrava-lhe a mão e não queria largá-lo. E Antoine percebeu o que estava a acontecer. A mulher não se encontrava apenas em trabalho de parto, estava, literalmente, a ter o filho. Não era o que esperava. Sentia-se um pouco tonto devido ao brande, quando olhou entre as pernas dela e avistou a cabeça do bebé a sair. Ignorava que o trabalho de parto não começara há cinco minutos, como julgara, mas no início da tarde e que Beata se recusara a admiti-lo.

Deita-te declarou num tom firme, mas sem ter a mínima ideia do que havia de fazer.

Tudo o que se recordava era do que vira Maria fazer durante as horas infindas que haviam antecedido o nascimento de Amadea. Não se atrevia a deixá-la só para ir procurar o número de telefone do médico e não havia ninguém que os ajudasse. Pensou em chamar Véronique, mas receava que esta ainda soubesse menos do que ele. Tentou afastar-se um pouco para pegar na agenda de moradas, mas Beata não o largou.

Não, Antoine... Preciso de ti... Suplico-te... Antoine... oh, não!... Deus do céu! Que alguém me ajude!

Tem calma, querida... Tudo correrá bem... Estou aqui... Não vou deixar-te... garantiu, embora não soubesse o que fazer, além de manter-se ao lado dela.

Vai buscar toalhas! gritou Beata.

Antoine correu para a casa de banho e regressou com os braços cheios de toalhas, que começou a pôr por baixo e à volta dela. Ao ver que Beata tinha o rosto distorcido pela dor, agarrou-lhe nos ombros como fizera da primeira vez, só que agora ela não teve de esforçar-se, pois o bebé encarregou-se de tudo.

Beata soltou um grito e, segundos depois, um pequeno rosto surgiu, de boca aberta e emitindo um vagido. Os dois pareceram chocados ao ouvi-lo. Antoine nunca assistira a nada de tão surpreendente. Enquanto os ombros e depois o resto do corpo saiu, continuou a falar a Beata. Em breve, uma menina soltou os seus primeiros gritos. Antoine pegou-lhe, pousou-a meigamente numa toalha e estendeu-a à mãe. Inclinou-se e beijou as duas, enquanto Beata ria por entre as lágrimas. Todo o processo demorara menos de meia hora! Antoine ainda estava debaixo do choque quando telefonou ao médico. Este pediu-lhe que não cortasse o cordão e esperasse a sua chegada; morava a menos de cinco minutos do castelo e conhecia a casa deles. Antoine sentou-se de novo junto de Beata e beijou a mãe e a filha.

Amo-te, Beata, mas não voltes a fazer-me isto... Não sabia como te ajudar... Porque é que não me deixaste chamar o médico?

Pensei que o bebé só nasceria daqui a umas horas e queria estar contigo... Desculpa. Não quis assustar-te...

Também ela sentira medo. Tudo acontecera tão rápidamente! Nunca julgara que o bebé nascesse sem qualquer aviso. E, exceptuando algumas contracções, tudo se desenrolara com uma facilidade surpreendente.

O médico chegou uns momentos depois, cortou o cordão umbilical e, depois de as ter examinado, declarou que a mãe e filha estavam em excelentes condições de saúde.

Como vê, meu caro, não precisou de mim. Acho que” o próximo nascerá ainda mais depressa.

Sim, mas será no hospital retorquiu Antoine, ainda abalado, enquanto agradecia ao médico.

O médico chamou a parteira para que se ocupasse da mãe e da filha e, à meia-noite, as duas repousavam tranquilamente na cama. Este bebé em nada se assemelhava a Amadea. Era muito mais pequeno, o que explicava a facilidade e a rapidez do parto. Também era mais manerinnha, parecendo ter herdado a delicada constituição óssea da mãe, contrariamente a Amadea, alta e elegante como o pai. O bebé também tinha o cabelo preto de Beata, mas ainda era demasiado cedo para saber a cor dos olhos. Parecia muito calmo e descontraído nos braços da mãe.

De manhã, ao entrar no quarto dos pais, Amadea soltou um grito de alegria. Não ouvira nada durante a noite, e Beata deu graças pelo sono de chumbo da filha.

Ela chegou! Ela chegou! exclamou Amadea, dançando pelo quarto, antes de vir observar a irmã de perto. Que nome vamos dar-lhe? Posso pegar nela?

Na véspera, antes de adormecerem, Antoine e Beata tinham falado de alguns nomes, mas queriam esperar até consultarem Amadea.

Que tal Daphne? sugeriu Beata.

Amadea fitou o bebé com um ar sério, reflectiu um longo momento e, por fim, assentiu com a cabeça.

Sim, gosto.

Os pais descontraíram-se, aliviados. A filha trepou para cima da cama, ao lado da mãe, e Beata pôs-lhe suavemente o bebé nos braços. Os olhos encheram-se-lhe de lágrimas, ao fitá-las. Não tivera, realmente, o filho que desejara dar a Antoine, mas sentia o coração transbordante de alegria ante as filhas, uma loura, a outra morena. Ao erguer o rosto, Beata deparou com Antoine que as observava da ombreira da porta, com um sorriso nos lábios. Entreolharam-se, saboreando o momento por que esperavam há oito anos.

Amo-te articulou em silêncio, mais apaixonada do que nunca pelo marido.

Ele esboçou um aceno de cabeça, com os olhos cheios de lágrimas. Pouco importava o que haviam perdido no passado, ambos tinham agora tudo o que desejavam.

 

Quando Daphne fez dois anos, Amadea tinha dez e não havia dúvida de que o bebé era dela. Ocupava-se da menina o tempo todo e levava-a para todo o lado. Era como uma boneca com quem nunca parava de brincar; e Amadea era muito eficiente como mãe. Quando ela estava presente, Beata não precisava de preocupar-se. Amadea só deixava a irmã quando ia para a escola ou ao visitar o pai nos estábulos.

Aos dez anos, Amadea era uma excelente cavaleira. Já conquistara vários prémios e sabia muito sobre cavalos. Antoine orgulhava-se dela com razão. Adorava Beata e as suas duas filhas. Era um pai e um marido extraordinário. Beata sabia que era, indubitavelmente, uma mulher de sorte.

Numa tarde de Junho, dois meses depois de as filhas terem festejado os seus aniversários, Antoine recebeu um telegrama, seguido de uma carta. O pai morrera subitamente, sem nunca ter voltado a falar-lhe, nem perdoado pelo crime que, aos seus olhos, ele cometera. Apesar da raiva que o pai sentira contra ele, Antoine, na qualidade de filho mais velho, herdara o título, as terras e a fortuna. Regressou tarde a casa, com o telegrama na mão, e uma expressão inquieta.

Passa-se alguma coisa? perguntou Beata, que o conhecia bem.

Acabas de tornar-te condessa.

Beata demorou um momento a compreender. Sabia como Antoine tinha sofrido por estar separado do pai. E, agora, nada mudaria a situação. Para Antoine, era uma imensa perda.

Lamento replicou ela, meigamente. Aproximou-se do marido e abraçou-o. Antoine apertou-a longamente de encontro ao corpo, depois suspirou e sentou-se. O telegrama, enviado pelo notário do pai, informava que o funeral ocorrera na semana anterior. Nem sequer os haviam prevenido.

Quero ver o meu irmão declarou, com uma expressão ausente. Tudo isto já durou tempo de mais e preciso de resolver esta história. Tenho de ir a Dordogne falar com os advogados.

Doravante, tinha decisões a tomar, terras a administrar, não podia manter-se ausente. Herdara o castelo, bem como uma fortuna substancial de que uma pequena parte iria para o seu irmão Nicholas. Contudo, naqueles momentos após saber a notícia, Antoine decidira que queria que o irmão recebesse metade. O título e a propriedade eram de Antoine, mas, contrariamente à tradição, achava que o dinheiro devia ser repartido em partes iguais. Além disso, agora tinha o suficiente para poder mostrar-se generoso.

Amanhã terei de falar ao Gérard. Preciso de ir a França nas próximas semanas e ignoro quanto tempo vou ficar.

Ambos sabiam que a sua vida no castelo dos Daubigny chegara ao fim. Haviam passado ali oito anos maravilhosos, mas, como conde de Vallerand, Antoine tinha novas responsabilidades. Após haver sido banido durante onze anos, chegara a altura de o filho pródigo regressar a casa. De um dia para o outro, Beata tornara-se condessa. Eram muitas mudanças, e Antoine sabia que lhe cabia explicar tudo a Amadea.

Antes do mais, Antoine falou com Gérard. Os dois homens tiveram uma longa conversa ao pequeno-almoço, na manhã seguinte. Antoine aceitou ficar mais umas semanas e, depois de ter contactado com os advogados em França, prometeu regressar à Alemanha, no mínimo um mês, para contratar e treinar um substituto. Sugeriu vários nomes que pareceram agradar a Gérard, que, no entanto, se sentia devastado com o facto de perdê-lo. Há anos que eram amigos e Antoine fizera milagres com os estábulos os Daubigny tinham a criação de cavalos mais importante da Europa, entre os quais, campeões de renome.

Dois dias mais tarde, sabendo que em breve iriam separar-se, Antoine propôs a Gérard que fossem experimentar juntos dois novos garanhões, de forte personalidade e particularmente elegantes, que ele acabava de comprar num leilão. Amadea ficou a vê-los afastarem-se, lamentando não poder acompanhá-los, mas o pai proibira-a. Em vez disso, regressou a casa para junto da irmã. Mais tarde, estava a brincar com ela no quarto, quando ouviu soar a campainha da porta e ouviu a mãe mandar entrar alguém.

Contudo, Amadea não prestou atenção e continuou a brincar às bonecas com Daphne. Só mais tarde, quando desceu para ir buscar um biscoito à irmã, é que viu Gérard e um dos treinadores do pai sentados na sala, com a mãe. Beata tinha o olhar vidrado e pareceu surpreendida ao avistar Amadea.

Volta lá para cima ordenou num tom severo, que nunca usava.

Amadea ficou tão sobressaltada que obedeceu imediatamente, dando meia volta. Mas uma vez no quarto, com a irmã, o medo invadiu-a. A garota sentiu que algo de terrível se passara.

Parecia-lhe que haviam passado horas quando, por fim, a mãe subiu ao andar de cima, desfeita em lágrimas. Mal conseguia falar, quando a abraçou e lhe disse que o pai fora atirado ao chão pelo novo cavalo.

Está ferido? perguntou Amadea, em pânico. Ainda que só dispusesse de um braço válido, o pai era um cavaleiro fora de série. Beata só conseguiu abanar a cabeça, soluçando e necessitando de uma eternidade antes de encontrar força para pronunciar as palavras:

O papá morreu, Amadea... O papá...

As palavras estrangularam-se-lhe na garganta e Amadea desatou a chorar nos braços da mãe. Um pouco mais tarde, Véronique apareceu para se ocupar das miúdas, enquanto Beata foi ver Antoine aos estábulos. Ele quebrara o pescoço e tivera morte imediata. O homem por quem teria dado a vida estava morto. Era uma dor quase insuportável.

O funeral foi um suplício. A igreja abarrotava de gente. Todos os que conheciam ou tinham trabalhado com Antoine gostavam dele. Gérard pronunciou um eloquente discurso fúnebre e Véronique, sentada ao lado de Beata, rodeava-lhe os ombros com um braço. Seguiu-se uma recepção no castelo. Vestida de luto e de mão dada com as filhas, Beata parecia um fantasma.

Além disso, tinha tanta coisa em que pensar. Este homem que tanto amara e por quem desistira da família, que a amara e nunca a atraiçoara, já não estava ao seu lado. Não fazia ideia para onde ir, o que fazer, ou para quem se virar. Gérard ajudou-a o máximo que pôde e Véronique não a deixou um único instante. A fim de que solucionasse as intermináveis formalidades da sucessão, Gérard ofereceu-lhe a ajuda dos seus próprios advogados em França. A fortuna que Antoine recebera do pai há umas semanas pertencia-lhe, agora. Ele já decidira legar metade ao seu irmão Nicolas, mas o restante era mais do que suficiente para assegurar o futuro de Beata e o das filhas. Não se permitiriam grandes luxos, mas poderia comprar uma casa e garantir a sua subsistência e a das filhas até ao fim da sua vida. De um ponto de vista financeiro, não tinha com que se preocupar. Contudo, perdera Antoine e ficara viúva aos trinta e dois anos.

Amadea sabia que jamais esqueceria o dia da morte do pai. E, em breve, teriam de abandonar a casa onde ela crescera. A vida delas estava prestes a sofrer mudanças radicais que apenas a pequena Daphne, pequena de mais, ainda não podia entender, contrariamente à mãe e à irmã que as entendiam bastante bem. Beata tinha a sensação de que a sua vida terminara.

O título de conde passou para Nicolas, bem como as terras que lhe estavam ligadas. Agora, o castelo pertencia-lhe. O conde Nicolas de Vallerand era, doravante, um homem rico, como Antoine o seria, caso tivesse vivido o suficiente sobrevivera menos de quinze dias ao pai. Contudo, pouco importava a Beata perder o que nunca tivera. Só lhe interessava a perda de Antoine.

Passado algum tempo, um homem com quem Antoine trabalhara e de quem gostava, sucedeu-lhe nas estrebarias. Com a ajuda de Gérard e de Véronique, Beata encontrou uma casa em Colónia, para onde se mudou com as filhas durante o Verão. Recebeu uma carta fria e delicada do cunhado a apresentar-lhe condolências, mas sem expressar o mínimo desejo de a conhecer ou ver as filhas de Antoine. Beata detestava-o por ter feito sofrer Antoine; tal como a sua própria família, também Nicolas os tratara com crueldade. Durante todo o tempo do casamento, Beata e Antoine haviam sido párias, tendo os Daubigny como únicos amigos. Era demasiado tarde para que ela desejasse conhecer o cunhado e, aliás, ele não fez tal proposta. Parecia visivelmente desejoso de manter as coisas como estavam. Sobretudo agora que Antoine desaparecera. E Beata sentia nitidamente que o irmão de Antoine a culpava pelo afastamento de ambos, embora tivesse tido a decência e a delicadeza de dirigir a carta a ”Senhora Condessa”, o que ela continuava a ser. Mas para a jovem viúva, um título jamais substituiria o defunto marido.: Beata nunca respondeu à carta do cunhado, nem explicou a Amadea os motivos da sua cólera contra o irmão do seu pai. Não via qualquer interesse em fazê-lo.

Durante o ano seguinte, Beata viveu na nova casa como um fantasma, sentindo-se agradecida a Amadea por ela se ocupar a tempo inteiro da irmãzinha. Dava-lhe banho, vestia-a, brincava com ela e passava com Daphne todo o tempo em que não estava na escola. Amadea era para Daphne a mãe que Beata já não poderia ser. Era como se Antoine, ao morrer, a tivesse levado também; sem ele, Beata perdera o desejo de viver. Por vezes, Amadea afligia-se ao ver que a mãe se tornara profundamente religiosa. Passava a maior parte do tempo na igreja e, frequentemente, ao voltar da escola, Amadea encontrava Daphne sozinha com a governanta, que se limitava a abanar a cabeça quando ela lhe perguntava pela mãe.

A menina tinha apenas onze anos, mas, de um dia para o outro, tornara-se o único membro responsável da família. Sem saber o que mais fazer, passava algumas vezes horas na igreja, em silêncio, ao lado da mãe, apenas para ficar com ela, era ali que Beata queria estar, era ali que se sentia em paz. Todavia, em vez de criar horror pela igreja, Amadea ligou-se-lhe. Adorava ir até lá com a mãe. A sua melhor amiga pertencia a uma grande família católica e, quando Amadea fez treze anos, a irmã mais velha dessa amiga tornou-se freira, o que ela achou simultaneamente misterioso e intrigante. As duas rapariguinhas falavam muitas vezes desta vocação religiosa, e Amadea interrogava-se como é que se obteria. Parecia-lhe algo de bom.

Foi nesse momento que o comportamento da mãe começou a surpreender Amadea. Não só ia todos os dias à igreja, como, algumas vezes, frequentava uma grande e imponente sinagoga, cheia de pessoas com um ar distinto. Um dia, a mãe levou-a para o que designou de Yom Kippur. Embora fascinada, Amadea sentiu-se também um pouco assustada, ao ver que a mãe se sentara de olhos fixos numa mulher de idade, que pareceu não reparar nela. Nessa mesma noite, Amadea foi encontrar a mãe a examinar um monte de velhas fotografias, amarelecidas pelo tempo.

Quem são essas pessoas, mamã? perguntou Amadea num tom meigo.

Amava profundamente a mãe, mas há três anos que tinha a sensação de a ter perdido; de uma certa forma, a mãe que conhecera e tanto amara tinha desaparecido ao mesmo tempo que o pai. Desde que este morrera que não se ouviam risos na casa, excepto quando Amadea brincava com Daphne.

São os meus pais, com os meus irmãos e a minha irmã respondeu simplesmente Beata.

Até então, Amadea nunca ouvira uma palavra a respeito deles. O pai apenas lhe tinha dito que a mãe e ele eram órfãos, quando se conheceram. Adorava que os pais lhe contassem o dia em que se tinham conhecido, como se haviam apaixonado e como a mãe parecera bonita no dia do casamento. Sabia que se tinham conhecido na Suíça e haviam vivido com os primos do pai até ela fazer dois anos, mudando-se depois para a casa onde crescera.

De vez em quando, Amadea ainda ia até aos estábulos, mas montar a cavalo entristecia-a e recordava-lhe a falta do Pai. Há muito que a mãe vendera o seu pónei. Gérard e Véronique recebiam-na sempre alegremente, mas ela sentia que a mãe não gostava de vê-la por lá; receava que lhe acontecesse qualquer coisa, como ao pai. Por conseguinte, Amadea pusera termo a estas visitas, embora sentisse saudades de montar.

Estão todos mortos? insistiu Amadea, fitando as fotografias.

Não respondeu a mãe, deitando-lhe um olhar estranho. Sou eu que estou morta.

Beata não acrescentou mais nada e, ao cabo de um momento, Amadea voltou para junto de Daphne. Aos cinco anos, esta era uma miúda muito alegre que só tinha olhos para a irmã. Amadea era como uma mãe para ela.

Depois daquela primeira vez em que levou Amadea consigo, Beata regressava, uma vez por ano, à sinagoga na altura do Yom Kippur, o dia do perdão e da expiação dos pecados, o dia do julgamento de Deus. Beata educara as filhas segundo a religião católica e acreditava profundamente no que lhes ensinava. Mas, se continuava a ir à sinagoga uma vez por ano, era para ver a sua família. Eles estavam lá, todos os anos, as mulheres de um lado, os homens do outro. E levava Amadea na sua companhia. Contudo, nunca lhe explicou o motivo, sentindo que, depois de todo este tempo, era demasiado complicado. Antoine e ela sempre lhe haviam dito que as respectivas famílias estavam mortas, e Beata não queria admitir que mentira perante as filhas, nem que a mãe delas era judia.

Porque é que queres sempre ir à sinagoga? inquiriu, um dia, Amadea, curiosa.

Acho que é interessante. Tu não?

Foi a única explicação que Amadea recebeu; quando fez quinze anos, confiou à sua melhor amiga que a atitude da mãe a arrepiava Todavia, Amadea não tinha dúvidas de que, desde a morte do pai há cinco anos, a mãe nunca mais ficara normal. Era como se o choque tivesse sido demasiado para ela, e Amadea sentia, justificadamente, que a mãe só aspirava a juntar-se-lhe. Aos trinta e oito anos, Beata ainda era uma mulher bonita, mas apenas esperava a morte. Amadea sabia-o.

 

Quando Amadea tinha dezasseis anos Daphne apenas oito, prometera levar a irmã à sua aula de ballet no dia do ano em que a mãe ia à sinagoga, no Yom Kippur. Sentia-se aliviada por ter uma desculpa, pois, sem saber porquê, aquela visita anual deprimia-a sempre. Preferia, sem dúvida, acompanhar a mãe à igreja e, nos últimos tempos, começara a rezar para saber se tinha vocação religiosa, como a irmã da sua amiga. Começara a achar que sim, embora não tivesse dito uma palavra a ninguém.

Beata foi, portanto, sozinha à sinagoga, como sempre fazia, com o rosto tapado por um véu. E, como todos os anos, viu-os. Sabia que podia ter ido noutras alturas, mas o Yom Kippur parecia-lhe o melhor dia para pedir perdão por ela e pela família. Avistou a mãe, que lhe pareceu mais debilitada do que nos anos anteriores. Como por milagre, viu-se sentada mesmo atrás dela. Se se atrevesse, podia estender a mão e tocar-lhe

De súbito, como se tivesse sentido o olhar penetrante de Beata nas suas costas, Monika virou-se e fixou a mulher sentada atrás dela. Apenas lhe distinguia o chapéu e o véu, mas Monika sentiu que havia algo de familiar na figura. Antes que pudesse voltar-se de novo para a frente, Beata ergueu o véu

Mãe e filha entreolharam-se por um longo momento, após o que Monika assentiu com a cabeça, antes de se virar, com um ar petrificado. Estava sentada sozinha, no meio das mulheres. Quando saíram da sinagoga, Beata acertou o passo com o dela. Foi a primeira vez que não sentiu qualquer reticência da parte da mãe. Monika ficara perturbada com a imensa tristeza que lera nos olhos da filha. Quando as duas mulheres saíram da sinagoga lado a lado, as mãos tocaram-se. Beata agarrou meigamente na mão da mãe e apertou-a, sem que Monika se opusesse. Depois, sem uma palavra, a mãe foi ao encontro do pai. Este ainda tinha um porte orgulhoso, apesar de estar muito mais velho contava agora sessenta e oito anos e a mãe sessenta e três. Beata ficou a vê-los afastarem-se da sinagoga e depois regressou a casa, de táxi.

Como é que foi? interessou-se Amadea nessa noite, ao jantar.

Como foi o quê? retorquiu Beata, desconcertada. Era raro falar à mesa e, nessa noite, parecia especialmente distraída. Continuava a pensar na mãe. Há dezassete anos que não se falavam e tanta coisa acontecera desde essa altura, o nascimento das filhas, a morte do marido, o seu título de condessa um título que nada significava aos seus olhos, mas que, decerto, teria impressionado a irmã. Muitas coisas haviam mudado na sua vida.

Não era hoje o dia da tua visita anual à sinagoga? Porque é que o fazes, mamã?

Amadea sabia que a mãe era uma intelectual e que sempre se sentira fascinada pela religião. Talvez fosse a curiosidade religiosa ou uma atitude de respeito por outros povos, o que a levava à sinagoga. Conhecia a profunda devoção da mãe pela fé católica.

Porque gosto.

Beata não queria confessar à filha mais velha que ia até lá para ver a mãe e que, naquele dia, chegara a tocar-lhe na mão. Embora Monika e ela não tivessem trocado uma só palavra, o simples gesto de agarrar na mão da mãe, reavivara-a. Desde a morte de Antoine que sabia, no mais íntimo de si, que precisava de ver a mãe. Esta constituía o elo entre o passado e o futuro, tal como Beata o era entre Monika e as suas filhas.

Acho revoltante que os judeus já não tenham o direito de estarem ligados à imprensa ou possuírem terras. E também que alguns deles sejam enviados para campos de trabalho comentou espontaneamente Amadea, com uma expressão indignada.

Hitler fora nomeado chanceler em Janeiro e, desde essa época, que tinham sido promulgadas leis contra os judeus. Beata achava a situação degradante, como a maioria das pessoas, mas ninguém podia fazer nada para impedi-lo. Contudo, e por uma série de motivos, a corrente anti-semita do momento inquietava-a muito.

 

E o que sabes a esse respeito? retorquiu Beata.

Muita coisa, na verdade. Assisti a várias conferências dadas por uma mulher chamada Edith Stem. Ela afirma que as mulheres deviam desempenhar um papel na política, na sua comunidade e na nação. Escreveu ao Papa a condenar o anti-semitismo. Li o seu livro A Vida de Uma Família Judia. É de origem judia, mas tornou-se recentemente freira. Há onze anos que se converteu ao catolicismo, mas os nazis ainda a consideram judia e proibiram-na de ensinar e de dar conferências. Vive actualmente num convento de Carmelitas de Colónia. É uma mulher muito famosa.

Eu sei. Li vários artigos sobre ela. Acho-a interessante.

Era a primeira vez que mãe e filha se falavam como adultas, a primeira conversa séria que tinham desde há anos. Encorajada por esta aproximação, Amadea resolveu abrir o coração à mãe. Sentia-se impressionada pelo facto dela também conhecer Edith Stem.

Por vezes, penso que também eu gostava de ser freira. Uma vez falei do assunto a um padre e ele respondeu que achava bem.

Beata observou a filha, perturbada, compreendendo, pela primeira vez desde há seis anos, até que ponto havia negligenciado Amadea e como ela devia sentir-se só. Além das amigas da escola, a sua única companhia em casa era uma criança com metade da sua idade. Para Beata, este foi o alerta de que devia prestar mais atenção à filha. Há seis anos que Antoine desaparecera e Beata sentia-se como se tivesse partido com ele.

O teu pai não teria gostado que fosses freira. Beata recordava-se do que ele dissera quando o padre André, que os casara, tinha comentado que ela devia tornar-se freira. Antoine desaprovara vigorosamente esta ideia, não só porque ia casar com ela, mas porque achava que era um desperdício para as mulheres. Na sua opinião, as mulheres deviam casar e ter filhos. Mais tarde devias casar e ter filhos acrescentou.

Beata tentava fazer eco das palavras de Antoine, como se tivesse podido falar no lugar dele o que sentia, aliás, ser seu dever, uma vez que ele já não podia fazê-lo.

Talvez nem toda a gente seja feita para ter filhos. A irmã da Gretchen foi para freira há três anos e sente-se feliz. Pronunciou os votos no ano passado.

Ao escutar Amadea, Beata tomou consciência de até que ponto se encontrava longe da filha, que parecia disposta a entrar no convento mais próximo. Apercebeu-se de que devia prestar-lhe mais atenção e falar-lhe, não só para que levasse Daphne ao balé, ou a deixasse na escola, mas para saber o que lhe interessava e conhecê-la melhor. Esperava que não fosse demasiado tarde para estabelecer esse laço entre as duas. Compreendeu, de uma forma brusca, que, desde a morte de Antoine, deixara que as coisas acontecessem e, cada dia, se afastara mais das filhas. O seu corpo estava presente, mas não o seu espírito.

Não quero que vás a conferências como as de Edith Stein, Amadea, nem que te juntes a organizações radicais, se é o que tens andado a fazer. E presta atenção quando falares contra a política de Hitler, excepto aqui.

Concordas com ele, mamã? - replicou Amadea, com uma expressão chocada.

Não, de modo algum. Só que é perigoso ser contestatária. Mesmo na tua idade, podes chamar as atenções e colocares-te em risco.

Beata sentiu como se o espírito finalmente se lhe desanuviasse e conversou com Amadea de uma forma instrutiva. A filha era uma jovem extremamente inteligente. Fazia-lhe lembrar as questões que colocara quando tinha a idade dela, bem como a sua paixão pela filosofia e a política. Passara horas a discutir com os irmãos e os amigos deles, contrariamente a Amadea que não tinha ninguém com quem falar destas coisas. À excepção dela. Amadea percebeu que a mãe estava a falar a sério e acrescentou que se sentira revoltada com a queima de livros do mês de Maio. Não lhe agradava nada o que via e ouvia, nem tão-pouco à mãe.

Porque é que eles queimaram livros? interferiu Daphne, parecendo confusa.

Porque tentam assustar as pessoas e intimidá-las respondeu Amadea. E enviam gente para campos de trabalho por serem judeus. Este ano, no dia do meu aniversário, os nazis disseram mesmo às pessoas que não fossem a lojas de judeus.

Por tua causa? replicou Daphne, estupefacta com o que a irmã acabava de dizer-lhe.

Não. Foi só uma coincidência sorriu Amadea. Mas, de qualquer maneira, uma acção maldosa.

Os judeus têm um ar diferente dos outros? interessou-se a miúda, curiosa, e Amadea pareceu escandalizada.

Claro que não. Porque é que dizes uma coisa dessas?

A minha professora diz que os judeus têm caudas respondeu Daphne com um ar inocente, enquanto a mãe e a irmã a fitavam, horrorizadas.

É falso retorquiu Beata, interrogando-se sobre se não teria chegado a altura de dizer-lhes que era judia.

Todavia, não se atreveu a fazê-lo. Há tantos anos que se tornara católica! E algumas pessoas diziam que os nazis só atacavam judeus pobres, sem abrigo e criminosos, não pessoas como ela e a sua família. Diziam que os nazis apenas queriam livrar a Alemanha dos criminosos. Tinha a certeza de que eles jamais perseguiriam judeus respeitáveis, mas não a suficiente para confessar a verdade às filhas.

Nessa noite, a conversa à mesa foi interessante e o jantar prolongou-se por mais tempo do que o habitual. Beata nunca se tinha apercebido do quanto Amadea se interessava pela política, nem até que ponto ela era independente. Também não se dera conta de que a filha se esforçava por saber se tinha vocação religiosa, o que Beata achava mais inquietante do que as suas tendências políticas radicais. Receava que Amadea tivesse sido influenciada pelas conferências e os escritos de Edith Stein. Ou, pior ainda, pelo facto de esta se haver tornado carmelita. Este tipo de coisas podia influenciar extremamente uma jovem, para nem falar da irmã mais velha da sua melhor amiga.

E Beata não queria nada disso para a filha. Contudo, tinha consciência de que, durante todos estes anos, em nada contribuíra para fazer pender o prato da balança para o outro lado. Não tinha vida social nem amigos e não visitava ninguém, excepto os Daubigny e, mesmo estes, raramente. Durante onze anos, enquanto Antoine fora vivo, dedicara toda a sua vida ao marido e às filhas. Desde a morte dele que vivia como uma reclusa e não via forma de mudar as coisas, nem tão-pouco o desejava. Contudo, podia, pelo menos, prestar mais atenção ao que acontecia no mundo. A filha parecia estar muito mais informada do que ela. Beata sentia-se, porém, inquieta com as suas posições relativas ao anti-semitismo e esperava que ela não as expressasse na escola. No dia seguinte, quando a filha saiu para as aulas, recomendou-lhe que tivesse cuidado: criticar os nazis era perigoso, em qualquer idade.

Na semana seguinte, Beata voltou à sinagoga. Não queria esperar mais um ano para ver novamente a mãe. Desta vez, sentou-se de propósito atrás dela e não precisou de erguer o véu. A mãe reconheceu-a assim que a viu. No fim do serviço religioso, Beata meteu-lhe na mão um pedaço de papel com a sua morada e o número de telefone. Mal a mãe fechou a mão, Beata desapareceu no meio da multidão e foi-se embora, sem esperar para ver o pai. De momento, apenas podia rezar para que a mãe tivesse a coragem de telefonar-lhe. Queria tanto vê-la, abraçá-la e falar-lhe! E, mais do que tudo, queria que ela conhecesse as suas filhas.

Seguiram-se dois dias de uma espera angustiante; por fim, o telefone tocou. Quis o destino que fosse Amadea a atender. Iam a levantar-se da mesa depois do jantar e Beata acabara de propor um jogo a Daphne. Amadea tinha notado que, há uns dias, a mãe parecia muito melhor, fazendo esforços para participar na conversa delas e sair do longo marasmo em que se encontrava desde a morte de Antoine.

É para ti anunciou ela.

Quem é? perguntou Beata, momentaneamente esquecida do telefonema que aguardava e julgando tratar-se de Véronique.

Há meses que andava a pedir a Beata que lhe fizesse um vestido para a festa de Natal, certa de que a costura seria uma boa terapia. Mas Beata andava a evitá-la. Desde a morte de Antoine que não tinha tocado numa agulha, excepto, de vez em quando, para fazer algo simples para as filhas. Deixara de ter interesse em fazer trajos de noite ou vestidos elaborados. Além disso, já não precisava dessa ajuda financeira.

Não disse respondeu Amadea, pegando na mão de Daphne e subindo com ela ao andar de cima, enquanto Beata se dirigia ao telefone.

Está? disse Beata e sentiu um nó na garganta ao escutar a voz. Não havia mudado.

Beata? murmurou a mãe, receosa de que alguém pudesse ouvi-la.

Jacob saíra, mas todos sabiam que ela não tinha permissão de falar com a filha; esta estava morta.

Oh, mamã! Obrigada por ter telefonado. Estava tão bonita na sinagoga. Não mudou nada.

Decorridos dezassete anos, ambas sabiam que tal era impossível, mas aos olhos de Beata, a mãe permanecia a mesma.

Tinhas um ar tão triste. Sentes-te bem? Estás doente?

O Antoine morreu.

Lamento muito retorquiu Monika num tom sincero. A filha parecia devastada e fora por esse motivo que tinha telefonado. Não podia continuar a voltar-lhe as costas, independentemente do que Jacob dissesse. Quando?

Há seis anos. Tenho duas filhas. Amadea e Daphne.

Parecem-se contigo? inquiriu a mãe, com um sorriso.

A mais pequena, sim. A mais velha parece-se com o pai. Quer conhecê-las, mamã?

Seguiu-se um silêncio interminável. Monika sentia-se cansada e a vida não estava fácil naquela altura.

Sim respondeu finalmente.

Fico tão feliz! exclamou Beata, que parecia uma criança. Quando gostaria de vir?

Que achas amanhã à tarde, para o chá? Suponho que as meninas já terão voltado da escola a essa hora.

Estaremos as três à espera.

Lágrimas rolavam pelas faces de Beata. Há anos que rezava para que isto acontecesse. O perdão. A absolvição. Poder tocar novamente na mãe. Só uma vez. Apertá-la nos seus braços. Um momento apenas.

O que vais dizer-lhes?

Não sei. Vou pensar no assunto esta noite.

Elas vão odiar-me, se lhes contares a verdade observou Monika Wittgenstein, tristemente.

Contudo, desejava muito voltar a ver a filha, tal como Beata a mãe. A comunidade judaica vivia tempos difíceis. Jacob receava que também qualquer dia lhes acontecesse algo terrível, embora Horst e Ulm garantissem que tal era impossível. Eram cidadãos alemães e não vulgares judeus errantes. Afirmavam que os nazis perseguiam os criminosos e não pessoas conceituadas como eles, mas Jacob discordava. E os dois estavam a envelhecer. Ela precisava de voltar a ver a filha. Visceralmente. Como se o seu coração reclamasse a parte que lhe fora arrancada.

Elas não precisam de saber a verdade. Basta-nos deitar as culpas sobre o papá acrescentou com um sorriso.

Ambas sabiam que Jacob nunca cederia e não existia a mínima hipótese de que Amadea e Daphne viessem a conhecê-lo algum dia.

Não se preocupe. Encontrarei qualquer maneira. Ficarão excitadíssimas com a ideia de a ver. E, mamã... hesitou, com um nó na garganta... desejo tanto vê-la.

Também eu respondeu Monika, parecendo tão impaciente como a filha.

Jacob não tinha o direito de impor-lhe esta situação por mais tempo, nem ela de aceitá-la ou impô-la à filha.

Beata reflectiu a noite toda e, ao pequeno-almoço do dia seguinte, anunciou às filhas que alguém desejava conhecê-las e apareceria nessa tarde.

Quem é? perguntou Amadea com um vago interesse. Tinha um teste nesse dia e sentia-se cansada porque ficara acordada até tarde a estudar.

A vossa avó respondeu Beata após uma breve hesitação. As filhas abriram muito os olhos.

Julguei que estava morta observou Amadea com um ar céptico, sem saber qual das versões era a verdadeira.

Menti confessou Beata. Quando casei com o vosso pai, a França e a Alemanha estavam em guerra e as pessoas sentiam muito o facto, as nossas duas famílias inclusive. O papá e eu conhecemo-nos na Suíça, onde passávamos férias com os nossos pais. E o meu pai queria que eu casasse com outro homem, alguém que eu nem sequer conhecia.

Era muito difícil explicar tudo aquilo às filhas, nesta altura. A vida tornara-se tão diferente! Contudo, elas tinham os olhos postos nela. Não era fácil encontrar as palavras exactas ou explicar o que acontecera há tanto tempo.

Nenhuma das nossas famílias queria que casássemos prosseguiu, pois o papá era francês e eu alemã. Sabíamos que tínhamos de esperar pelo final da guerra e, mesmo assim, não era provável que eles aprovassem. Éramos jovens e loucos; então, disse ao meu pai que casaria com o papá, quer ele o quisesse ou não. Ele respondeu que, se o fizesse, nunca mais queria ver-me. O vosso pai foi ferido na guerra e decidiu esperar por mim na Suíça, em casa dos primos. Estes disseram que podíamos ficar a morar lá e casar. Então, parti, o que foi uma decisão muito difícil de tomar, mas eu sabia que tinha razão. Sabia que o vosso pai era um homem bom e nunca lamentei tê-lo feito. Contudo, o meu pai nunca mais voltou a ver-me e obrigou a minha mãe, a minha irmã e os meus irmãos a fazerem outro tanto. Todas as minhas cartas foram devolvidas por abrir e nunca permitiu que a minha mãe me visse ou me falasse. Cruzei-me com ela no outro dia.

Beata não lhes confessou que fora na sinagoga, julgando inútil acrescentar mais uma complicação, revelando que elas eram, em parte, judias. Apenas serviria para as confundir ou talvez pô-las em risco, dado o ódio de Hitler em relação aos judeus.

Dei-lhe, então, a nossa morada e o nosso número de telefone rematou. Foi ela que ligou, ontem à noite. Quer conhecer-vos, por isso convidei-a para vir tomar chá esta tarde.

Tudo correra com mais simplicidade do que pensara. As filhas fitavam-na com um ar incrédulo.

Como é que o teu pai pôde ser tão mau? inquiriu Amadea, revoltada. E a família do papá também fez o mesmo?

Sim. A família dele odiava tanto os alemães, como a minha os franceses.

Que coisa ridícula e cruel! exclamou Amadea, sentindo uma súbita pena da mãe. Serias capaz de fazer-nos o mesmo?

Não. Mas tudo isto se passou há muito tempo, e foi uma guerra horrível.

Então, porque é que o teu pai não quis ver-te depois?

interferiu Daphne com lógica. Tal como a irmã, era uma criança inteligente.

Porque é um velho teimoso retorquiu Amadea, num tom cheio de raiva.

Beata perdoara-lhe há muito tempo e aceitara a situação, embora tivesse passado por vários anos de tormentos, antes de o conseguir.

E os teus irmãos e a tua irmã? prosseguiu Amadea, ainda sob o choque do que tinha ouvido. Porque é que não querem ver-te?

Não querem desobedecer ao meu pai respondeu simplesmente Beata, sem especificar que o pai a considerava morta e enterrada.

Deve ser um homem horrível para que toda a gente o receie a esse ponto concluiu Amadea, sensatamente, sem imaginar como era possível tratar as pessoas daquela forma.,

E a família do papá também acrescentou.

A tua mãe deve ser corajosa, se decidiu ver-nos. Achas que o teu pai vai bater-lhe quando ela regressar a casa? inquiriu Daphne, preocupada.

Claro que não sorriu Beata. Na verdade, não lhe dirá que veio aqui. Ficaria muito transtornado. Agora está velho e a minha mãe também. Se soubessem como me sinto feliz por ela vir visitar-nos confessou Beata, com as lágrimas nos olhos, o que emocionou as filhas. Tem-me feito tanta falta. Sobretudo desde que o papá morreu.

Amadea interrogou-se subitamente sobre se as visitas anuais da mãe à sinagoga estariam relacionadas com tudo isto. Contudo, não ousou fazer a pergunta. A mãe já havia sofrido demasiado.

Só queria que soubessem a verdade, antes dela aparecer concluiu Beata.

A conversa ensinara-lhes muito sobre a mãe e, a caminho da escola, as duas jovens ainda se encontravam sob o choque destas revelações extraordinárias. Era uma impressão estranha saberem que tinham uma avó e que nunca a haviam conhecido. E não só uma avó, mas também um avô, uma tia e dois tios.

Sinto-me contente pela mamã com a visita da mãe dela declarou Amadea num tom pausado. Contudo, acho que passou por uma coisa horrível. Imagina se a mamã nos fizesse o mesmo...

Sentia uma imensa pena e compaixão pela mãe. Que perda insuportável deveria ter sido para ela renunciar a todos os que amava por um homem. No entanto, compreendeu subitamente que, sem esta decisão, ela e Daphne jamais teriam visto a luz do dia.

Acho que chorava muito respondeu Daphne, impressionada.

Sim. Também eu anuiu Amadea com um sorriso e pegando na mão da irmã. E acho bem que nunca faças nada de estúpido como deixares de falar-me, se não vais ter de te haver comigo!

Prometido disse Daphne com uma gargalhada. As duas irmãs prosseguiram o caminho, de mãos dadas, mergulhadas nos seus pensamentos. Amadea já esquecera a hipótese de os seus avós poderem ser judeus. Se a mãe era católica, os pais dela também o seriam.

 

Quando a campainha da entrada soou às quatro da tarde, Beata ficou imóvel pelo espaço de um segundo, após o que alisou o vestido e passou as mãos pelos cabelos. Optara por um vestido preto, muito simples, e um colar de pérolas que Antoine lhe tinha oferecido no décimo aniversário de casamento. Estava muito pálida e com um ar sério quando abriu a porta e quase lhe faltou a respiração ao deparar com a mãe.

Monika estava elegante, como sempre, com um vestido cor de púrpura debaixo de um casaco preto e um colar de pérolas. Calçava sapatos de camurça preta com uma bolsa a condizer. As luvas, igualmente de camurça preta, tinham sido feitas por medida. Mergulhou o olhar no da filha e, sem uma palavra, lançaram-se nos braços uma da outra.

Beata sentiu-se repentinamente uma jovenzinha que tivesse perdido a mãe e voltasse a encontrá-la. Apenas desejava apertar-se de encontro a ela, apalpar-lhe o rosto e a textura sedosa dos cabelos. A mãe continuava a usar o perfume de sempre. E, como se tivesse sido no dia anterior, lembrou-se do horror do dia em que partira.

No entanto, tudo isso acabara agora. Voltavam a encontrar-se, e os anos passados eram uma mera recordação. Beata conduziu a mãe até à sala de estar, e sentaram-se no sofá, lado a lado, com os rostos inundados de lágrimas. Beata levou algum tempo, antes de conseguir falar.

Obrigada por ter vindo, mamã pronunciou finalmente. Tive tantas saudades...

Mais do que conseguiria dizer ou imaginar. Veio-lhe tudo à memória, todos os momentos em que tanto desejara que a mãe estivesse ao seu lado: no dia do casamento, quando Amadea nascera... e Daphne... durante as férias e os aniversários... e quando Antoine morrera. Em todos os pequenos momentos do quotidiano. Contudo, a mãe estava ali, agora. Não sentia raiva por todos estes anos perdidos, apenas desgosto. E, agora, finalmente, conforto.

Se soubesses o calvário que vivi confessou Monika, com o rosto banhado de lágrimas. Prometi ao teu pai que nunca mais te veria. Receava desobedecer-lhe, mas senti tanto a tua falta, todos os dias.

Monika jamais se recompusera do desgosto. Fora igualmente como uma morte para ela.

Devolveram-me todas as cartas declarou Beata, assoando-se.

Nunca soube que tinhas escrito. O papá deve tê-las devolvido sem me dizer nada.

Foi o que pensei replicou Beata num tom triste ao recordar a caligrafia do pai nos envelopes. Também recebi de volta as que escrevi a Brigitte. Um dia, cruzei-me com ela na rua, mas fez de conta que não me viu. E Ulm e Horst também.

Tínhamos feito o shiva por ti explicou Monika, tristemente, lembrando-se que esse fora o pior momento da sua vida. Jacob proibiu-nos de pronunciarmos o teu nome. Relativamente a Brigitte, acho que ela receia perturbar-me, por isso, prefere calar-se.

É feliz?

Divorciou-se e quer voltar a casar respondeu a mãe, abanando a cabeça. Contudo, o papá não aprova a escolha dela. As tuas filhas são judias? inquiriu Monika, esperançada.

Não elucidou a filha, abanando a cabeça. Beata não disse à mãe que se havia convertido, quando

casara com Antoine. Já lhe bastava saber que Amadea e Daphne não eram judias. Contudo, Monika surpreendeu-a com as palavras seguintes. Supôs correctamente que Beata se convertera ao casar com Antoine:

Talvez seja melhor assim, com o que está a passar-se. Os nazis estão a fazer coisas horríveis aos judeus. O papá afirma que não nos atingirão, mas nunca se sabe. Nunca digas a ninguém que és judia. Se agora és cristã, mantém-te assim, Beata. Ficarás mais segura. O que é que contaste às tuas filhas a meu respeito? inquiriu, fitando a filha com um ar preocupado.

Que a amo, que o papá não quis que casasse com Antoine porque ele era francês e estávamos em guerra Disse que a família dele reagiu da mesma maneira a meu respeito. As miúdas ficaram chocadas, mas acho que compreenderam.

Pelo menos, na medida do possível. Era muita coisa para assimilarem de uma só vez, mas confiava nas filhas.

Conheceste a família dele? Beata abanou a cabeça.

Como é que ele morreu?

Um acidente de cavalo. O pai tinha morrido há duas semanas. E agora sou condessa acrescentou, com um sorriso.

Sinto-me impressionada retomou a mãe, com um brilho malicioso nos olhos.

Nesse momento, Amadea e Daphne regressaram a casa e entraram, cautelosamente, na sala. Fitaram a mulher que sabiam ser sua avó e notaram o sorriso que iluminava o rosto da mãe. Beata apresentou primeiro Amadea e depois Daphne, enquanto a mãe se conservava sentada a observá-las, com o rosto banhado em lágrimas.

Por favor, desculpem o meu comportamento estúpido pediu, estendendo-lhes as mãos. Sinto-me tão feliz por conhecê-las e são as duas tão bonitas!

Levou um lenço de renda aos olhos e as miúdas aproximaram-se devagar. Daphne achava-a bonita. Amadea ardia de curiosidade por lhe perguntar porque é que deixara que o marido tivesse sido tão mau para a mãe, mas não se atrevia. A avó parecia-lhe muito boa pessoa.

Enquanto tomavam chá e conversavam, Amadea e Daphne acharam que Monika lhes recordava muito a mãe, pois tinha a mesma maneira de falar. Depois de passarem um delicioso momento juntas, Monika levantou-se e Daphne fitou-a, curiosa.

Como devemos chamar-lhe? quis saber.

Era uma pergunta sensata para uma garota de oito anos, mas também Amadea se interrogara a este respeito.

Que tal ”avozinha”? propôs Monika, num tom hesitante, fitando-as. Gostaria muito que me chamassem assim.

Amadea e Daphne assentiram com a cabeça e Monika abraçou-as antes de se ir embora. Depois, abraçou Beata e fitou-a com uma expressão terna.

Vai voltar? inquiriu Beata, ternamente, junto à porta.

Claro respondeu a mãe. Quando quiseres. Telefono-te dentro de dias. Prometo-te.

Beata sabia que ela manteria a palavra, pois sempre o fizera.

Obrigada, mamã agradeceu Beata, abraçando-a mais uma vez.

Amo-te, Beata sussurrou-lhe a mãe ao ouvido. Depois, beijou-a na face e foi-se embora.

Fora uma tarde fantástica para as quatro. Após a partida da avó, Amadea veio ao encontro da mãe, que estava sentada na sala, perdida nos seus pensamentos.

Mamã?

Sim, querida? respondeu Beata, erguendo o rosto com um sorriso. O que achaste?

Acho que é triste que ela tenha ficado tanto tempo afastada de nós. Vê-se que te ama muito.

Também eu a amo. Sinto-me feliz por ela ter voltado e vos ter conhecido.

Odeio o teu pai pelo que ele te fez declarou Amadea num tom gelado.

Beata assentiu com a cabeça. A filha tinha razão, mas ela não o odiava. Aliás, nunca o odiara, embora ele lhe tivesse causado um profundo desgosto, bem como à mãe. A sua decisão de a banir da família afectara-os a todos, talvez a ele também, embora nunca viesse a admiti-lo. Aos seus olhos, Beata cometera a traição suprema. Contudo, ela jamais pensara que o seu exílio se prolongasse para o resto da vida deles. Todavia, mesmo que o tivesse sabido, casaria de qualquer maneira com Antoine.

Não odeies ninguém aconselhou Beata, num tom calmo. O ódio exige demasiada energia e apenas serve para envenenar o coração. Há muito que aprendi isso.

Amadea assentiu com a cabeça, pressentindo que a mãe dizia a verdade. E admirou-a ainda mais por não odiar aquele pai que, no seu lugar, ela teria odiado.

Amadea sentou-se no sofá onde a avó estivera e tomou a mãe nos braços, tal como Beata fizera com a sua própria mãe.

Amo-te, mamã murmurou Amadea, como Beata murmurara à sua mãe.

Era como que uma infinda cadeia de elos que ecoavam uns atrás dos outros. Apesar do tempo, do espaço e das diferenças, tratava-se de um elo inquebrável. A mãe provara-lho nessa tarde.

 

Durante os dois anos seguintes, Monika foi visitá-las todas as semanas. Tornou-se uma tradição e um ritual com que Beata passou a contar e um momento precioso para cada uma delas. Beata e Monika aprenderam a conhecer-se como nunca o tinham feito quando ela era jovem. Era agora uma mulher adulta e uma mãe, também com filhos, e as duas haviam sofrido e reflectido muito. Monika tentara mesmo que Jacob voltasse atrás na sua decisão dissera-lhe que tinha visto a filha na rua com duas meninas, mas ele deitara-lhe de imediato um olhar glacial.

”Não sei de que estás a falar, Monika. A nossa filha morreu em 1916”, respondera. E a questão ficara encerrada.

O marido tinha um coração de pedra. Monika não se atrevera a trazer de novo o assunto à baila, contentando-se com as visitas à filha. E Beata também. Perdera toda a esperança de rever algum dia os outros membros da família, mas bastava-lhe ter a mãe de volta à sua vida. Sentia-se agradecida.

Monika trouxe-lhe fotografias. Brigitte continuava bonita e estava a viver novamente em casa com os filhos. A mãe mostrou-se preocupada com ela. Brigitte ia a demasiadas festas, ficava na cama o dia inteiro, bebia em excesso e não se interessava pelos filhos. Tudo o que desejava era outro marido, mas a maioria dos homens com quem saía já eram casados.

Horst e Ulm estavam bem, embora uma das filhas de Ulm fosse uma menina frágil, que adoecia com frequência e tinha problemas cardíacos. Monika preocupava-se com ela. Durante aquelas visitas, ligou-se cada vez mais às netas. Amadea achava que a avó era interessante e inteligente, mas nunca lhe perdoou ter deixado que Jacob banisse a mãe. Achava uma crueldade e distanciou-se um pouco dela por esse motivo. Contudo, Daphne era demasiado jovem para colocar esse tipo de questão e amava incondicionalmente a avó. Como não se lembrava do pai, o seu universo era, na totalidade, feminino; sentia-se encantada por ter uma avó e, além disso, uma mãe e uma irmã.

Passava-se o mesmo com Beata. Desde a morte de Antoine e embora continuasse bonita nunca mais olhara para outro homem. Dizia que as recordações dos anos que vivera ao lado dele lhe bastavam para a acompanhar até ao final da vida e não desejava mais ninguém. Em 1935, dois anos após o início das visitas de Monika, ela fez quarenta anos e a mãe sessenta e cinco. Tinham-se tornado um conforto uma para a outra. O mundo começara a tornar-se um lugar assustador, embora ainda não tivessem sido afectadas. Ainda.

Amadea indignava-se com frequência ante a crescente onda de anti-semitismo na Alemanha. Os judeus haviam sido banidos da Frente de Trabalho Alemã e do exército, já não tinham direito a assistência social, nem podiam exercer a advocacia. Para Beata, todos estes indícios deixavam antever o pior. Os próprios artistas e actores tiveram de unir-se em sindicatos especiais e raramente encontravam trabalho. Os tempos que viviam eram cada vez mais assustadores.

Uma tarde em que se encontravam sós, Monika teve uma conversa com Beata, antes que as meninas voltassem da escola. Mostrou-se preocupada com os documentos de Beata e com os das netas. Embora soubesse que, agora, a filha era católica, pois há dezanove anos se tinha convertido ao cristianismo, nascera judia e as jovens eram metade judias. Receava que surgissem problemas, caso a situação piorasse.

Há dois anos que os judeus mais pobres, e aqueles sem poder ou conhecimentos, tinham sido enviados para campos de trabalho. Jacob continuava a insistir em que uma coisa daquelas nunca lhes aconteceria: os nazis apenas deportavam os ”marginais”, pelo menos os que consideravam como tal, a saber, condenados, criminosos, vagabundos, ciganos, desempregados, agitadores, comunistas, radicais e todos os que não tinham meios de subsistência.

Todavia, agora, de vez em quando, algumas pessoas que conheciam vagamente eram levadas no lote. Monika tinha uma empregada doméstica cujo irmão fora enviado para o campo de Dachau, com toda a família, mas tratava-se de um activista político, que mandara imprimir panfletos contra os nazis e atraíra, portanto, a infelicidade sobre si e a sua família. Mesmo assim, Monika andava muitíssimo preocupada. Os judeus estavam a ser progressivamente excluídos da sociedade activa, isolados e incomodados nas suas actividades. Se a situação piorasse, não queria que nada acontecesse a Beata nem às netas. E Beata também fizera as mesmas reflexões. Caso surgissem problemas não tinham ninguém que as protegesse, nem onde se refugiarem.

Não me parece que os nazis causem problemas a pessoas como nós, mamã declarou Beata num tom calmo.

Beata sabia que Monika também se preocupava com a sua extrema magreza. Sempre fora delgada, mas, nos últimos anos, quase se tornara um fantasma; sem maquilhagem, o rosto denotava uma palidez impressionante. Desde a morte de Antoine que só se vestia de preto e, de um dia para o outro, envelhecera muito. Fechara as portas ao mundo; tudo o que agora tinha na vida eram as filhas e a mãe, neste momento.

E os documentos das meninas? inquiriu, Monika, ansiosa.

De facto, não os têm. Só possuem os cartões de estudante com o nome de ”Vallerand”. Nasceram católicas, eu sou católica e a nossa paróquia conhece-nos bem. Acho que ninguém duvidará que nasci católica. Além disso, como viemos da Suíça, julgo que algumas pessoas nos consideram suíÇas. Até mesmo a minha certidão de casamento com Antoine indica que éramos ambos católicos, quando nos casámos. Há anos que o meu passaporte caducou e as meninas nunca tiveram nenhum. Amadea era um bebé quando regressámos à Alemanha e foi inscrita no meu. Ninguém prestará atenção a uma viúva com duas filhas, com um título da velha nobreza francesa. Sou conhecida em todo o lado como a condessa de Vallerand e penso que estaremos em segurança, desde que não chamemos a atenção sobre nós. Na verdade, preocupo-me mais contigo e a família.

Todos em Colónia conheciam os Wittgenstem e sabiam que eles eram judeus. O facto de terem banido e declarado Beata como morta há duas décadas podia, de certa forma, protegê-la. Foi a primeira vez que a mãe se sentiu reconhecida a Jacob. O resto da família encontrava-se muito mais exposta, o que era, em simultâneo, bom e mau

Os Wittgenstem achavam que os nazis não perseguiriam uma família tão respeitável como a deles. À semelhança de muitos, estavam convencidos de que eles só atacavam a arraia-miúda, os elos frágeis da sociedade, como dizia Jacob. Contudo, o anti-semitismo estava na ordem do dia e os filhos haviam-se mostrado preocupados. Horst e Ulm trabalhavam no banco do pai que, aos setenta anos, pensava reformar-se. Nas fotografias que a mãe lhe trouxera, parecia um homem distinto mas fatigado, e Beata receava que a desilusão que lhe causara tivesse acentuado este envelhecimento prematuro. Contrariamente à mãe, o pai parecia mais velho do que a sua idade real. Pelo seu lado, Amadea recusava olhar sequer para as fotografias do avô e Daphne achava-o assustador Ao contrário da avó

Monika trazia-lhes sempre pequenos presentes, o que as deliciava. Ao longo dos anos, oferecera a Beata várias das suas jóias, mas nada de importante com medo de que Jacob se apercebesse. Fingia tê-las perdido e Jacob troçava dela pela sua negligência. Contudo, como também ele estava a ficar cada vez mais distraído, deixara de repreendê-la tanto. Estavam ambos a envelhecer

A única coisa que preocupava Beata quanto às suas origens judias era o desejo de Amadea de entrar na universidade. A filha ansiava por estudar filosofia, psicologia e literatura, como ela própria o desejara, antes que o pai a proibisse. Agora, eram os nazis que o proibiam a Amadea

Beata sabia que, se a filha tentasse entrar na universidade, os nazis descobririam que ela era semijudia, o que representava um risco excessivo aos seus olhos. Amadea teria de apresentar não só a certidão de nascimento o que não representava qualquer perigo, pois indicava que os pais eram católicos na altura do seu nascimento na Suíça, mas também os documentos quanto às origens raciais dos pais.

Antoine não constituía qualquer problema, mas as origens judias de Beata podiam vir à superfície, facto que ela não podia deixar que acontecesse. Mostrou-se, pois, intransigente e proibiu a Amadea que ingressasse na universidade, sem nunca lhe explicar o motivo. A situação era demasiado perigosa para as três e não queria correr qualquer risco. De facto, mesmo sendo apenas metade judia, Amadea ficaria exposta a graves problemas.

Beata optou por dizer a Amadea que, em tempos conturbados, a universidade não era um lugar seguro, sobretudo para uma mulher, pois transbordava de radicais e comunistas, de todo o tipo de pessoas que criavam problemas e eram enviadas para campos de trabalho pelos nazis. Podia ser mesmo apanhada num motim, e a mãe não queria que tal acontecesse.

É ridículo, mamã! Não sou comunista. Quero apenas estudar. Ninguém vai mandar-me para um campo de trabalho!

Não acreditava que a mãe pudesse ser tão estúpida. A sua atitude recordava-lhe a do avô.

Claro que não. Eu sei replicou Beata, num tom firme. Contudo, não quero que te mistures com esse tipo de gente. Se queres mesmo ir para a universidade, podes esperar uns anos, até as coisas se acalmarem. De momento, a Alemanha está demasiado agitada e não quero que corras qualquer risco, nem mesmo indirectamente

Beata não queria falar às filhas das suas origens; era algo que não dizia respeito a ninguém, nem mesmo a elas. Amadea e Daphne não precisavam de saber que eram semijudias. Beata achava que quanto menos pessoas estivessem ao corrente, mais elas estariam em segurança. Ninguém no seu meio sabia que Beata nascera judia, e o isolamento em que Mantivera a família tinha-lhe permitido guardar o segredo

Além disso, ela e as filhas não tinham nenhum dos traços clássicos que as pessoas atribuíam aos judeus, muito menos Amadea, com os seus cabelos louros e os olhos azuis. Até mesmo Beata e Daphne, apesar dos seus cabelos pretos, correspondiam à ideia que se fazia dos cristãos, devido aos olhos azuis e aos traços finos e delicados

Há meses que Amadea andava a discutir a questão da universidade com a mãe. Contudo, Beata mantinha-se firme para grande alívio de Monika, que já tinha demasiadas preocupações com os seus outros filhos judeus, aos olhos de todos para se ver sobrecarregada com Beata e as filhas. Sem Antoine, Beata e as meninas não tinham ninguém que as protegesse e tomasse conta delas. Há muitos anos que Beata e Antoine tinham cortado todos os laços familiares e, com a morte deste último, ela passara a viver como uma reclusa. Não tinha qualquer laço, à excepção das filhas e dos Daubigny, que via raramente. Levava uma vida muito solitária, por isso o conflito que a opunha a Amadea, devido à universidade, revestia-se de uma considerável importância. Mãe e filha travavam uma batalha em que se opunham com violência, mas Beata não cedia e Amadea não tinha forma de desobedecer-lhe, pois era a mãe que financiava os seus estudos.

Beata tinha-lhe proposto que estudasse em casa, até que as coisas se acalmassem. Amadea acabaria o liceu em Junho, dois meses após fazer dezoito anos. A pequena Daphne, ainda tinha vários anos de escolaridade pela frente. Ia festejar dez anos e tanto a mãe como a irmã ainda a consideravam um bebé. Daphne detestava quando Amadea e a mãe discutiam, queixando-se muitas vezes à sua avó adorada. A neta achava-a muito bonita, adorava as suas jóias e roupas elegantes. Monika deixava-a sempre mexer na mala e brincar com os tesouros que Daphne descobria lá dentro, como pó de arroz e batom. Deixava-a pôr as jóias dela, enquanto estava de visita, e experimentar os chapéus. Monika apresentava a elegância de sempre. Beata já não se importava com a aparência e Daphne detestava os seus eternos vestidos pretos. Eram tão tristes!

O aniversário de Amadea aproximava-se quando Monika deixou de aparecer duas semanas seguidas. Da primeira vez, ligou a prevenir Beata que não se sentia bem, mas, da segunda, não se manifestou. Por fim, louca de inquietação, Beata resolveu-se a telefonar. Uma voz desconhecida atendeu: era uma das empregadas. Depois de ter ido informar-se, anunciou que a senhora Wittgenstein estava demasiado doente para vir ao telefone.

Beata passou uma semana num tormento e ficou muito aliviada quando a mãe voltou a aparecer na semana seguinte. Contudo, Monika parecia muito doente. Denotava um tom de pele acinzentado e uma palidez cadavérica; caminhava com dificuldade e tinha dificuldade em respirar. Beata deu-lhe o braço para a conduzir à sala e ajudou-a a sentar-se. Por um momento, Monika perdeu o fôlego, mas sentiu-se melhor depois de uma chávena de chá.

O que se passa, mamã? O que diz o médico? inquiriu Beata, profundamente inquieta.

Não é nada respondeu Monika, esforçando-se por sorrir. Tive o mesmo há uns anos e acabou por passar. É o meu coração, acho. Sem dúvida, a velhice. A máquina está gasta.

Beata não achava que sessenta e cinco anos fosse uma idade avançada; contudo, a mãe estava lívida e parecia doente. Numa outra situação teria falado ao pai. Monika disse-lhe que também ele andava inquieto e que ela iria no dia seguinte ao médico para fazer mais exames. Confessou-lhe que não estava preocupada, mas apenas aborrecida.

Desta vez, quando a mãe se foi embora, Beata acompanhou-a pela rua, a fim de se certificar que ela não cairia e fez sinal a um táxi. Quando vinha visitá-la, Monika apanhava sempre um táxi, para que o motorista deles não dissesse a Jacob onde ela estivera. Não confiava o seu segredo a ninguém com medo que o marido a impedisse de voltar, caso descobrisse a verdade. Jacob teria ficado enfurecido com ela; proibira-lhe que voltasse a ver Beata e esperava que a mulher e os filhos lhe obedecessem.

Mamã, prometa-me que irá ao médico amanhã Pediu Beata ansiosa, antes de a mãe entrar no táxi. Não cometa sobretudo a idiotice de anular a consulta acrescentou, pois conhecia a mãe.

Claro que não sorriu Monika.

Beata sentiu-se aliviada ao ver que a mãe tinha menos dificuldade em respirar do que quando chegara. Antes de a avó se ir embora, Daphne dera-lhe um beijo enorme e Amadea um abraço de fugida. Monika fitou longamente a filha, antes de subir para o táxi.

Amo-te, Beata. Sê prudente e cuida de ti. Preocupo-me tanto por vossa causa disse, com os olhos cheios de lágrimas.

Sentia-se revoltada por Beata haver sido banida há dezanove anos, qual criminosa que era necessário punir por crimes imperdoáveis. Aos olhos de Monika, amar significava perdoar. E Beata parecia sempre demasiado triste. Nunca se recompusera da morte de Antoine.

Não se preocupe connosco, mamã. Tudo correrá bem. Preocupe-se consigo disse, voltando a abraçá-la. E lembre-se de que a amo muito. Obrigada por ter vindo.

Beata sentia-se sempre reconhecida à mãe pelas suas visitas, dada a sua saúde debilitada.

Amo-te repetiu Monika e meteu-lhe algo na mão. A mãe subiu para o táxi, antes que ela pudesse ver do que se tratava. Beata fechou a porta e ficou a acenar-lhe, enquanto o veículo se afastava. Não desviou o olhar até o táxi desaparecer no meio do trânsito e, em seguida, abriu a mão. Monika dera-lhe o pequeno anel de diamantes que a mãe dela usara toda a vida e que, na sua família, fora transmitido de mãe para filha ao longo das gerações. Quando pensava nas mãos da mãe, Beata via sempre este anel. Sentiu-se profundamente emocionada ao colocá-lo no dedo, junto à aliança. No entanto, um súbito calafrio percorreu-lhe o corpo. Porque é que a mãe lhe dera este anel? Estaria mais doente do que ela pensara? Talvez se sentisse apenas preocupada. Dissera-lhe que já tivera o mesmo problema antes e que passara. Contudo, Beata passou a noite toda angustiada.

Ao levantar-se na manhã do dia seguinte, decidiu, por impulso, telefonar à mãe para se certificar de que estava bem e iria à consulta. Não confiava nela, pois sabia o quanto detestava os médicos. Custava-lhe sempre telefonar para casa dos pais e Beata só o fizera algumas vezes nos últimos anos, mas sabia que o pai estaria no escritório. Além disso, passados dezanove anos, nenhum dos empregados lhe conhecia a voz

Marcou o número nervosamente e reparou que as mãos lhe tremiam. Sentia-se sempre angustiada quando ligava para lá e, desta vez, foi uma voz de homem a atendê-la. Presumiu que se tratasse do mordomo e perguntou pela mãe num tom profissional. Fez-se um prolongado silêncio do outro lado da linha e, depois, ele perguntou-lhe quem estava a telefonar. Sem saber como reagir, indicou o nome de Amadea, como o fizera antes

Lamento informá-la, madame, mas a senhora Wittgenstem está no hospital. Desmaiou a noite passada

Oh, meu Deus! Como está ela? Para onde a levaram? quis saber Beata, angustiada e perdendo o tom profissional

O mordomo indicou-lhe o nome do hospital, mas apenas porque ela parecia muito emocionada e pensou que quereria mandar-lhe flores

A senhora só recebe visitas da família respondeu, todavia, para a dissuadir de ir ao hospital

Obviamente retorquiu Beata, assentindo com a cabeça

Um momento depois desligou e manteve-se sentada junto do telefone, com o olhar perdido no vazio. Ignorava como fazê-lo, mas sabia que tinha de ver a mãe, fosse como fosse. E se ela morresse? O pai não poderia impedi-la de ver a mãe quando ela estava às portas da morte. Era impossível. Nem sequer se deu ao cuidado de vestir-se devidamente. Enfiou o casaco preto por cima do vestido preto que usava, pôs um chapéu e agarrou na mala, antes de se precipitar para o exterior. Minutos depois, estava dentro de um táxi, a caminho do hospital, para ver a mãe. Durante todo o trajecto, não largou o anel que a mãe lhe oferecera no dia anterior, agradecendo a Deus por tê-la visto e rezando para que ela se restabelecesse.

Quando chegou ao hospital, uma enfermeira da recepção indicou-lhe o piso e o quarto de Monika. A mãe estava no melhor hospital de Colónia e havia enfermeiras, médicos e gente distinta por todo o lado. Beata tomou consciência de que as suas roupas estavam longe de serem elegantes, mas não se importou.

Apenas queria ver a mãe e estar ao lado dela. Ao sair do elevador, seguiu pelo primeiro corredor e foi lá que avistou os dois irmãos, a irmã e o pai, todos, em pé, diante da porta. Estavam acompanhados por duas mulheres que não conhecia e que presumiu tratar-se das suas cunhadas. Aproximou-se deles com o coração a saltar-lhe do peito. Encontrava-se a menos de um metro quando Brigitte se virou, fitando-a, estupefacta. A irmã não pronunciou uma palavra, mas os outros repararam na sua expressão e viraram-se, um a um, na sua direcção. Jacob fitou-a directamente, sem dizer uma palavra, nem esboçar um gesto.

Vim ver a mamã declarou no tom aterrorizado de uma criança.

Desejava estender os braços e que o pai a abraçasse de encontro ao peito. Desejava mesmo pedir-lhe perdão. Contudo, o pai assemelhava-se a uma estátua de mármore. O resto da família mantinha-se em silêncio, a observá-la.

Estás morta, Beata. E a tua mãe está a morrer declarou com lágrimas nos olhos, não pela filha, mas sim pela mulher.

Quero vê-la.

Os mortos não visitam os moribundos. Todos fizemos o shiva por ti.

Lamento. Lamento muito. Contudo, não pode impedir-me de vê-la declarou com a voz estrangulada na garganta.

Posso e vou fazê-lo. O choque de te ver irá matá-la. Beata tomou consciência de como devia parecer patética

com o seu velho vestido e casaco, e o chapéu de lado.

Apenas pensara em chegar o mais rapidamente possível ao hospital e não nas aparências. Lia a piedade nos rostos dos irmãos e da irmã, e mesmo no das duas mulheres que os acompanhavam. Assemelhava-se àquilo em que se tornara: uma marginal, uma pária. Jacob não lhe perguntou como é que sabia que a mãe se encontrava no hospital. Não lhe interessava. Para ele, a que fora sua filha estava morta, e a pessoa que se encontrava na sua frente era uma mera estranha que não lhe interessava.

Não tem esse direito, papá. Quero vê-la retorquiu, lavada em lágrimas, mas o rosto do pai manteve a mesma frieza que tivera no dia em que ela saíra de casa.

Devias ter pensado nisso há dezanove anos. Se não te fores embora, dou ordens para que te expulsem. Não queremos nada de ti. Nem a tua mãe. Não tens o direito de estares aqui.

É a minha mãe replicou Beata, a soluçar.

Era a tua mãe. Hoje, não és nada para ela.

Pelo menos, Beata sabia que não era verdade. Os seus dois anos de visitas semanais constituíam a prova. Dava graças ao céu por estes momentos terem acontecido e a mãe haver conhecido e amado as suas filhas e elas a avó.

Está a agir muito mal, papá. A mamã nunca lhe perdoará. Nem eu.

Desta vez, Beata sabia que o perdão era impossível, pois o pai dava mostras de uma crueldade inaceitável.

Foste tu que agiste mal. Nunca te perdoei retorquiu ele, sem sombra de remorso.

Amo-o articulou ela, meigamente. Em seguida, fitou os outros. Nenhum deles se havia mexido nem pronunciado uma única palavra. Ulm virara as costas e Brigitte chorava em silêncio, mas nenhum lhe estendeu a mão. E nenhum tentou convencer o pai a deixar que Beata visse a mãe. Tinham demasiado medo.

Amo a mamã como vos amo acrescentou. Nunca deixei de vos amar. E a mamã também me ama, como eu a ela declarou Beata com veemência.

Vai-te embora! ordenou o pai, cuspindo as palavras, como se a odiasse do fundo do coração. Desaparece! gritou-lhe, apontando o dedo na direcção de onde ela viera. Para nós estás morta e sempre estarás.

Beata ficou um longo momento a olhar o pai, tremendo da cabeça aos pés, mas desafiando-o, como antes. Da primeira vez, fizera-o por Antoine e agora fazia-o pela mãe. Sabia que era a única a ter uma tal ousadia, embora com consciência de que o pai jamais a autorizaria a entrar no quarto da mãe. De momento, só lhe restava ir-se embora, antes que o pai a expulsasse. Lançou um último olhar ao pai, depois deu meia volta e percorreu lentamente o corredor, de cabeça baixa. Ao fundo, virou-se para os fitar uma última vez, mas eles haviam desaparecido. Tinham entrado no quarto da mãe, sem ela.

Chorou quando desceu no elevador e durante todo o caminho até casa. Telefonou para o hospital de hora a hora para se informar do estado de saúde da mãe e, às quatro da tarde, disseram-lhe que ela morrera. Beata desligou, com os olhos perdidos no vazio. Acabara. O seu último elo com a família rompera-se. A mãe, que tanto amava, partira. Ainda sentia o som da voz dela nos seus ouvidos:

”Amo-te, Beata”, dissera-lhe na véspera.

Beata apertara-a com força nos braços murmurando ”Também a amo, mamã”. E sabia que sempre a amaria.

 

No dia seguinte, Beata assistiu ao funeral da mãe, à distância. Levava um casaco de peles, um elegante vestido preto e um bonito chapéu preto que Antoine lhe oferecera pouco antes de morrer. Sabia que a mãe se teria orgulhado dela. No dedo usava o anel de diamantes, que nunca mais voltaria a tirar.

Beata conservava-se imóvel, escutando as orações e rezando. Segundo a tradição judaica, Monika tinha de ser enterrada um dia depois da morte e assim foi. Beata seguiu-os até ao cemitério, mantendo a distância. Ninguém sabia que ela estava ali; era como um fantasma, observando cada um a deitar um punhado de terra sobre o caixão, enquanto o desciam. Depois de eles se terem afastado, foi ajoelhar-se junto à sepultura e colocou uma pequena pedra ao lado, em sinal de respeito, segundo a tradição. Recolheu-se e, de súbito, ouviu a sua própria voz a recitar o pai-nosso; sabia, porém, que a mãe não se teria importado. Ficou ainda um longo momento, depois regressou a casa, sentindo-se morta por dentro. Tão morta como o pai declarara que ela o estava.

Quando Beata entrou em casa, Amadea fitou-a tristemente e abraçou-a.

Lamento muito, mamã disse, apertando-a com força de encontro ao peito.

Beata dera a notícia às filhas na véspera e elas tinham chorado muito. Cada uma delas, à sua maneira, amara muito a avó, embora nutrissem sentimentos contraditórios, particularmente Amadea, quanto à forma como os avós haviam tratado a mãe por ela casar com o pai. Beata dava-lhes razão, mas, apesar de tudo, amava a mãe. E até mesmo o pai. Eram e continuariam a ser os seus pais.

Nessa noite, deitou-se cedo. Estendida em cima da cama, reflectiu em todos os acontecimentos da sua vida e nos primeiros anos com Antoine. Passara-se muita coisa, mas valera a pena, apesar do elevado preço que pagara pelo amor.

A perda da mãe lembrava-lhe que agora não tinha mais ninguém no mundo, excepto as filhas. O pai fora muito claro a esse respeito. Amadea e Daphne eram o que lhe restava. Foi um mês mais tarde, em Junho, que Amadea lhe deu a notícia que lhe despedaçou o coração. Ia perder a filha, como perdera a mãe, só que, pelo menos, Amadea continuaria viva.

Vou entrar para o convento, mamã anunciou a jovem calmamente, na manhã do seu último dia de aulas.

Nada preparara Beata para a comunicação da sua filha mais velha. Fitou-a, estupefacta, mas Amadea mostrava-se tranquila e composta. Há meses que esperava para dar a conhecer a sua decisão à mãe e a sua certeza reforçara-se de dia para dia. Aquela opção nada tinha de apressado ou frívolo.

Não, não entrarás retorquiu Beata num tom que não deixava dúvidas. Não permitirei que o faças.

Teve a impressão de estar a escutar o próprio pai, mas não podia permitir que uma coisa destas acontecesse. Até mesmo Antoine, que era um católico fervoroso, não aprovaria.

Não podes impedir-me replicou a jovem.

Pela primeira vez, a voz de Amadea era a de uma adulta, firme e segura. Pusera demasiadas questões a si própria, antes de tomar a decisão, para que agora a assaltasse qualquer dúvida. Estava absolutamente certa de que tinha a vocação e ninguém abalaria a sua fé, nem mesmo a mãe, que amava. Já não se tratava da querela ligada à universidade. Estava em causa uma mulher adulta que sabia o que queria e o que faria. Beata sentiu-se amedrontada com o tom de voz de Amadea e com o brilho dos olhos.

O teu pai não o desejaria argumentou, esperando influenciar Amadea com a menção do nome do pai, o que não resultou.

Não sabes. E lembro-te que abandonaste tudo para casar com ele, porque acreditavas no que estavas a fazer. Eu acredito na minha vocação.

Amadea expressava-se como se falasse do Santo Graal. Na verdade, encontrara o que procurava. Depois de falar meses a fio com o seu padre, não lhe restavam dúvidas, e isso lia-se-lhe no rosto.

Oh, meu Deus, Amadea! exclamou Beata, sentando-se pesadamente numa cadeira e fitando a filha. És demasiado nova para uma tal certeza. Andas aborrecida e esta ideia parece-te romântica.

Beata também sabia que Edith Stein se tornara o seu modelo de vida e que também esta estava há dois anos num convento.

Não sabes do que estás a falar declarou Amadea, calmamente. Vou entrar para o convento das Carmelitas. Já falei com as freiras. Não podes impedir-me, mamã.

A filha repetia o que já dissera, mas não se tratava do discurso de uma criança caprichosa, mas o de uma mulher com um objectivo sagrado.

É uma ordem de clausura. Viverás como uma reclusa até ao fim da tua vida, isolada do mundo. És uma bonita rapariga, Amadea. Podias casar e ter filhos.

Quero ser freira insistiu ela.

Beata sentiu um calafrio a percorrer-lhe o corpo. Por sorte, Daphne estava em casa de uma amiga e não assistia à discussão.

Estás a querer imitar Edith Stein, mas ela tinha quarenta e dois anos quando ingressou na ordem. Vivera uma vida e sabia o que fazia. Tu, não. És demasiado nova para tomares uma decisão destas.

Terei muito tempo para reflectir declarou Amadea, sensatamente. São oito anos até se pronunciarem os votos definitivos. É a vida que escolhi, mamã concluiu sem desviar os olhos e com uma calma determinação, que assustou a mãe.

Porquê? Porquê? gemeu Beata, com o rosto banhado em lágrimas. És jovem e bonita e tens toda uma vida pela frente. Porque é que queres fazer isto?

Quero servir a Deus e esta é a melhor forma que conheço. Creio que é o que Ele quer. Quero unir-me a Cristo como tu te uniste ao papá. É a Ele que quero. Tu és crente, mamã. Frequentas a Igreja. Porque é que não compreendes? Amadea parecia magoada por a mãe se mostrar tão infeliz, e algo nos seus olhos recordou a Beata a sua própria mãe, quando lhe falara de Antoine. Monika sentira-se atraiçoada pela filha, tal como ela neste momento. Beata teve a impressão de se ter tornado tão rígida e implacável como o pai, mas, embora não quisesse ser como ele, também não queria que a filha entrasse para o convento. Aos seus olhos, era uma aberração.

Admiro a tua devoção replicou num tom calmo. No entanto, é uma vida dura. Quero algo melhor do que isso: um marido que tome conta de ti, filhos que te amem. Que será de mim e da tua irmã sem ti? acrescentou, pensando subitamente em Daphne.

Rezarei por vós. É muito mais do que poderia fazer, se ficasse aqui. Serei muito mais útil a rezar pelo mundo do que a assistir aos actos horríveis que as pessoas cometem para se destruírem umas às outras e à inacreditável maldade do Homem para com o próximo.

Desde o início que Amadea se sentia profundamente consternada pelas injustiças contra os judeus. Tal ia contra tudo aquilo em que acreditava e às suas fortes convicções. Beata amava-a e admirava-a por isso, mas não aceitava este terrível desperdício da filha se tornar freira, fechada num convento, como uma prisioneira.

Vais ao menos reflectir nisso, mamã? prosseguiu Amadea. Por favor. É tudo o que quero... Não poderás impedir-me, mas quero que me dês a tua bênção.

Beata recordava-se de ter pedido o mesmo aos pais, antes de se casar com Antoine. Agora, Amadea pedia-lhe a bênção para seguir Cristo. Tratava-se de uma decisão muito difícil de tomar.

Amo-te acrescentou Amadea, meigamente, abraçando a mãe.

Como é que isto aconteceu? Quando é que tomaste esta decisão? suspirou Beata por entre as lágrimas.

Falei com a irmã de Ella, antes de pronunciar os votos. Sempre achei que tinha vocação, mas não estava certa. Discuti igualmente o assunto com o nosso padre durante meses. Agora, sei que é o melhor para mim, mamã. Tenho a certeza.

Amadea emanava uma grande beleza enquanto falava, o que fez com que o coração de Beata se apertasse ainda mais.

Como podes estar tão segura?

Estou e pronto.

Ao fitá-la, a mãe deparou com uns olhos serenos, como os de uma santa, mas não conseguia sentir-se feliz por ela. Aos seus olhos, tudo isto constituía um terrível e trágico desperdício. Para Amadea era, pelo contrário, uma dádiva. A única que desejava, juntamente com a bênção da mãe.

Quando pensas entrar para o convento? perguntou Beata, que esperava ter tempo de dissuadi-la. Um ano, talvez.

Na próxima semana. Não há motivo para que aguarde mais tempo. Acabei o liceu.

A Daphne está ao corrente? inquiriu Beata, sabendo que as suas filhas eram muito chegadas, embora Daphne só tivesse dez anos.

Queria que fosses a primeira a saber respondeu Amadea, abanando a cabeça. Esperava que ficasses feliz, depois de te habituares à ideia.

A cena recordava a Beata exactamente o que vivera com os pais, quando optara por seguir Antoine. As próprias palavras que Amadea usava eram semelhantes às suas, com a única diferença de que, ao contrário do pai, ela não estava a ameaçar a filha. Tal como Beata fizera na altura, Amadea pedia à mãe que reflectisse. Outrora, os pais tinham achado que o caminho que ela escolhera era demasiado duro, e era essa exactamente a sua opinião quanto à escolha de Amadea. Era novamente o eco do passado. A história repetia-se, como um elo interminável.

Beata manteve-se acordada toda a noite, deitada na cama, assaltada pelos ecos do passado, revivendo as terríveis discussões com os pais, em seguida o dia atroz da sua partida para a Suíça, quando saíra de casa, e, por fim, o momento da chegada, só então tudo fora maravilhoso. Maravilhoso para si. Era esse o argumento essencial, o único correcto o de que cada indivíduo vivesse o seu destino, fosse ele qual fosse. Para ela, tinha sido Antoine. Talvez para Amadea fosse a Igreja E por que terrível intuição lhe haviam dado aquele nome? ”Amada por Deus. Beata desejava que Ele não a amasse tanto, a ponto de chamá-la Mas talvez Ele o tivesse feito. Quem era ela para o saber? Quem era ela para julgar? Que direito tinha de tentar mudar o destino da filha e tomar decisões em seu lugar? Não tinha mais direito do que o pai, na altura. Talvez que amar significasse aceitar sacrificar os sonhos que se tinha para os filhos, a fim de que seguissem os seus.

De manhã, Beata compreendeu que não tinha o direito de impedir Amadea de fazer o que desejava E se a filha se enganasse, ela própria o descobriria sozinha. Pelo menos, tinha oito anos pela frente. Podia mudar de opinião, embora Beata soubesse que não seria o caso. Os pais também deviam ter pensado que ela acabaria por deixar Antoine, mas eles haviam sido felizes juntos. Antoine fora o seu destino, tal como a Igreja era o de Amadea. Nunca julgara vir a ter uma filha freira, nem tão-pouco Antoine. Contudo, pressentia que, tal como ela, também não a impediria. Que direito tinham de agir de outra maneira?

Tinha uma expressão devastada quando entrou no quarto de Amadea, antes do pequeno-almoço. Antes mesmo que a mãe falasse, compreendeu que tinha ganho a partida e susteve a respiração

Não me oporei à tua decisão, porque quero que sejas feliz declarou Beata com o coração despedaçado, mas os olhos transbordando de amor pela filha. Não quero fazer-te o que os meus pais me fizeram. Tens a minha bênção, Amadea, porque te amo e quero a tua felicidade, seja ela qual for

Para Beata representava a maior dádiva e o maior sacrifício, mas compreendia agora que ter filhos implicava precisamente isso. As decisões mais importantes nunca eram as mais fáceis, e a importância residia nesse facto.

Obrigada, mamã... Obrigada.. Obrigada!

Os olhos de Amadea brilhavam enquanto apertava a mãe com força nos braços. Mãe e filha nunca haviam estado tão próximas, independentemente de quanto ou quão profundamente se amavam

Foi mais difícil dar a notícia a Daphne, que se desfez em lágrimas. Não queria que Amadea as deixasse.

Nunca mais te veremos chorou Daphne, sentida. A Ella nunca vê a irmã. Não a deixam. E nem sequer pode tocar-lhe ou beijá-la.

Beata sentiu um aperto no coração ante a perspectiva.

Verás, sim garantiu Amadea. Podes ir visitar-me duas vezes por ano e posso tocar-te através de uma pequena janela. Além disso, podemos abraçar-nos muito agora e recordar-nos-emos disso durante muito tempo.

Amadea sentia pena da irmã, mas a sua decisão manteve-se irrevogável. Daphne mostrou-se inconsolável durante toda a semana seguinte. Embora estivesse triste por deixá-las, Amadea parecia cada dia mais feliz, à medida que a data de entrada no convento se aproximava.

Com a esperança de minorar o desgosto de Daphne, Beata pediu à filha que aguardasse mais umas semanas, mas Amadea recusou.

Só vai piorar a situação, mamã disse, abanando a cabeça. Daphne vai habituar-se E depois, tem-te a ti.

”Contudo, está longe de ser a mesma coisa”, pensou Beata. Amadea era a alegria e a razão de vida de Daphne, tal como da sua. Desde a morte do marido que se sentia triste e deprimida, vivendo a maior parte do tempo recolhida sobre si própria

Também te fará bem a ti, mamã prosseguiu Amadea. Podes fazer coisas com ela, ir ao cinema, ao parque ou ao museu. Precisas de apanhar ar.

Amadea fizera tudo isto com a irmã durante anos a fio. Beata estava demasiado deprimida para ocupar-se dela e passava a maior parte do tempo no quarto. Ignorava se estaria à altura da tarefa que a esperava. Contudo, alguém teria de fazê-lo. Antoine morrera e a mãe também. Agora, era Amadea que as deixava. Beata tinha a triste impressão de que a filha estaria como morta, dado que nem Daphne nem ela poderiam continuar a vê-la todos os dias, ou abraçá-la.

Poderás escrever-nos? perguntou Beata, em pânico.

Claro que sim, embora haja o risco de eu estar ocupada. Mas prometo escrever-vos o mais que puder.

Era como se Amadea partisse em viagem para o resto dos seus dias. Como se fosse para o Paraíso ou, pelo menos, a primeira etapa rumo ao mesmo. Beata não conseguia acreditar e, aliás, não queria que assim fosse. Tornara-se católica praticante, mas não conseguia imaginar-se a entrar num convento. Tratava-se de uma vida terrivelmente restrita, no entanto, a filha ardia de impaciência por iniciá-la.

No dia da partida, Beata e Daphne transportaram-na ao convento de carro. Amadea levava um vestido simples, azul-escuro, e o chapéu que usava para ir à igreja. Estava um dia soalheiro, mas Beata raramente se sentira tão triste. Daphne chorou durante todo o trajecto, enquanto Amadea lhe segurava na mão. Quando desceram do carro, Beata contemplou demoradamente a filha, bebendo-a com o olhar, como que para gravar a sua imagem no coração. Quando voltasse a vê-la, estaria e seria uma pessoa diferente.

Nunca te esqueças que te amo, quanto significas para mim e que me sinto orgulhosa de ti declarou, por fim. És a minha dádiva de Deus. Sê feliz e vive em paz, Amadea. E se não te adaptares, tens todo o direito de mudar de opinião. Ninguém vai censurar-te.

No íntimo, Beata esperava que isso acontecesse

Obrigada, mamã agradeceu Amadea num tom meigo.

A jovem tinha a certeza de que jamais mudaria de opinião. Sabia, no mais profundo da alma, que estava a fazer a escolha certa e não lhe restava a menor dúvida. Abraçou a mãe e apertou-a com força de encontro ao peito. Fê-lo como uma adulta, com certezas e sem arrependimento. Tal como Beata fizera no dia em que deixara a mãe para ir ao encontro de Antoine.

Que Deus te acompanhe murmurou ainda Amadea, num prolongar do abraço. As lágrimas corriam pelo rosto de Beata, ao mesmo tempo que assentia com a cabeça. Dir-se-ia que era a filha a pessoa adulta e não ela.

E a ti também murmurou, enquanto Amadea apertava a irmã nos braços e lhe sorria.

A filha parecia triste por deixá-las, mas emanava um poderoso sentimento de alegria e de serenidade.

Amadea não trouxera mala. Viera apenas com a roupa que trazia no corpo e que as carmelitas dariam aos pobres, mal as despisse. Não podia levar nada e pronunciaria, eventualmente, votos de pobreza, castidade e obediência, o que aceitava na totalidade. Longe de sentir-se assustada, Amadea nunca estivera mais feliz na sua vida e tinha esta felicidade estampada no rosto. Era a mesma expressão que Beata ostentava quando se encontrara com Antoine na estação de caminho-de-ferro de Lausana e a vida de ambos começara. Para Amadea também era um começo e não um fim, como a mãe receara.

A jovem estava pronta. Abraçou mais uma vez a mãe e a irmã e depois tocou à porta do convento. Uma jovem religiosa abriu uma pequena vigia e depois a porta, sem se mostrar. Amadea transpôs a ombreira e desapareceu num momento. Beata e Daphne ficaram sozinhas no passeio. Mãe e filha entreolharam-se e depois lançaram-se nos braços uma da outra. Só restavam as duas: uma viúva e uma rapariguinha. Doravante, Amadea viveria a sua própria vida, uma vida que seria longe, muito longe delas.

 

Mal passou a porta do convento, Amadea foi conduzida directamente ao vestiário pela jovem religiosa que lhe abrira a porta. Não pronunciou uma palavra, mas o sorriso tranquilo e o olhar caloroso assemelhavam-se a uma recepção. Amadea compreendeu. Havia algo de profundamente apaziguador no facto de não ter de falar. Sentiu-se desde logo protegida e soube que estava no lugar certo.

A freira examinou-a, avaliou a sua silhueta delgada e elegante e estendeu-lhe um hábito todo negro que lhe chegava aos tornozelos, bem como um véu curto de algodão branco que lhe taparia os cabelos. Não era o hábito da ordem, mas Amadea sabia que apenas teria o direito de usá-lo dentro de seis meses e somente se as freiras achassem que o merecia. Poderia levar um pouco mais de tempo, como a madre superiora lhe explicara antes de ela ingressar, e as freiras mais velhas teriam de votar. Entretanto, a roupa que usasse permitiria identificá-la como postulante. Quanto ao véu negro da ordem, não o receberia sem ter pronunciado os votos perpétuos, decorridos oito anos.

A religiosa deixou-a só para lhe permitir que trocasse toda a roupa, inclusive a anterior. Deixara-lhe também um par de sandálias grosseiras, o único calçado que lhe seria autorizado a partir dessa altura, com os pés nus. A ordem das Carmelitas não usava sapatos, em sinal de pobreza.

Amadea vestiu-se com uma sensação de intensa alegria, como se estivesse a enfiar o vestido de noiva. Sentia o mesmo do que a mãe na altura do casamento, quando levara o vestido de linho branco feito das rendas de umas toalhas de mesa. Era o começo de uma nova vida para Amadea, de uma certa forma, assemelhava-se a desposar Cristo, mas os preparativos do casamento durariam oito anos. Mal conseguia esperar.

A religiosa voltou a aparecer uns minutos depois e tudo o que Amadea trouxera vestido desapareceu dentro de um cesto para os pobres, incluindo os sapatos. A mãe dissera-lhe que guardaria todas as suas coisas para a eventualidade de ela mudar de ideias. Contudo, mais do que isso, guardava-as como se faz com a roupa e as coisas de um filho morto, por uma questão de sentimentalismo e incapacidade de separar-se delas. Para Amadea, elas nada significavam. A sua vida era aqui.

Depois de vestida, foi conduzida à capela para rezar na companhia das outras religiosas. Seguiu-se um prolongado silêncio em que as freiras, à semelhança de todos os outros dias, fizeram o seu exame de consciência, arrependendo-se dos pecados que tinham cometido, dos pensamentos pouco caridosos, das pequenas invejas, da ânsia de comida, da família ou do conforto todas essas coisas outrora consideradas importantes e de que tinham aprendido a desligar-se. Era um bom início para Amadea que se censurou por estar mais ligada à mãe e à irmã do que a Cristo. Ninguém precisou explicar-lhe o objectivo deste silêncio, pois já se informara antes a esse respeito e aproveitou-o bem.

Enquanto as outras freiras almoçavam, Amadea foi conduzida ao gabinete da madre superiora. Nessa noite, apenas comeria ao jantar, o que constituía o seu primeiro sacrifício. Tal como a madre superiora que dispusera daquele tempo para lhe falar.

Está tudo bem, minha filha? perguntou num tom bondoso, após a ter saudado com as palavras ”Paz de Cristo”, que Amadea repetiu antes de responder:

Sim, obrigada, madre.

Estamos felizes com a sua presença entre nós.

A comunidade aumentara recentemente, segundo a madre superiora explicou a Amadea. As vocações não faltavam, e o facto de Edith Stein se lhes ter juntado há dois anos também não as prejudicara. Falara-se mais no assunto do que lhe agradava, mas servira para despertar vocações. Edith Stein tornara-se Teresa Benedita da Cruz no ano anterior e Amadea iria eventualmente cruzar-se com ela, embora fosse proibido demonstrar o mínimo fascínio ou admiração pessoal.

Eram uma comunidade de irmãs e não individualidades com personalidades distintas e ideias próprias. Estavam ali para servir Cristo e orar pelo mundo, nada mais, nada menos, segundo a madre superiora lhe lembrou, e Amadea respondeu que compreendia

- Partilhará uma cela com mais três irmãs prosseguiu a madre. Seguimos um silêncio total, excepto às refeições e no recreio, onde pode falar de assuntos da comunidade e mais nenhuns. Não terá amigas pessoais. Somos todas amigas de Cristo

Amadea assentiu com a cabeça, intimidada. A madre superiora era uma mulher alta e magra, de olhar penetrante e um rosto bondoso. Era impossível adivinhar-lhe a idade e teria sido impertinente fazê-lo. Explicou ainda a Amadea que ela era a mãe que as guiava e guardava, e a quem deviam a mesma obediência do que a Deus, que as conduzira até ali. Ao entrar no Carmelo, Amadea entrara também numa nova família. Doravante, mais nenhuma deveria existir para ela. Fora emprestada durante dezoito anos a Beata, ao seu pai e a Daphne. O seu tempo com eles terminara e os laços deviam desaparecer, salvo através da oração e de cartas pontuais, por caridade para com elas Podia escrever-lhes uma vez por semana o que ela prometera à mãe, mas o trabalho e as tarefas diárias deviam estar em primeiro lugar

Foi-lhe destinada a lavandaria e, no tempo livre, ajudaria a esfregar as cozinhas. Se ainda lhe restasse algum tempo, trabalharia no jardim, o que era considerado um privilégio e uma honra. A madre superiora recordou-lhe as palavras de Santa Teresa de Ávila, segundo as quais Deus apenas se revela no isolamento. Deveria trabalhar sozinha o máximo de tempo possível, orar constantemente e falar apenas durante as refeições. O centro do seu eu e da sua vida seria o sacrifício da missa

Lembre-se que Santa Teresa nos ensinou que a essência da oração não está em pensar muito, mas em amar muito. Está aqui para amar as suas irmãs e o mundo E se for abençoada com a vocação, tornar-se-á esposa de Cristo.

Era uma responsabilidade e uma honra para lá de tudo o que Amadea pudesse imaginar e o motivo da presença dela ali. Por seu lado, a jovem já pensara no nome que desejava adoptar: irmã Teresa do Carmelo. Todavia, naquele tempo de espera, como simples postulante, seria a irmã Amadea. A madre informou-a de que lhe indicariam a cela nessa noite, depois do jantar. Amadea já sabia que uma das regras da ordem era a proibição de comer carne, salvo em caso de doença, quando um médico o julgasse necessário. Era, porém, um sacrifício de que a jovem se sentia capaz, como a maioria das Carmelitas que, além disso, jejuavam de 14 de Setembro até ao dia de Páscoa. De qualquer forma, a comida nunca fora importante para Amadea.

O almoço e o recreio tinham acabado quando a madre Teresa Maria Mater Domini terminou a sua conversa com ela. Amadea foi juntar-se às outras irmãs para a litania da Virgem Maria e esforçou-se por se concentrar na oração e não nas palavras da madre superiora. Teria de assimilar muitas coisas. Seguiu-se um tempo para a leitura, depois mandaram-na para as cozinhas, antes do jantar. Passou a maior parte da tarde, de joelhos, a esfregar o chão, enquanto rezava, antes de ir ajudar a preparar a refeição da noite.

As irmãs estavam constantemente ocupadas a trabalhar e a rezar e, por isso, o silêncio se tornava tão importante. À hora das vésperas sentia-se esgotada, mas transbordante de felicidade, enquanto todas rezavam em silêncio. Por fim, o Ângelus anunciou o jantar.

Amadea ainda não comera nada desde o pequeno-almoço, no qual mal tocara, tal a sua excitação. Comeram batatas e legumes, bem como fruta do jardim, enquanto conversavam tranquilamente. Havia uma série de jovens com a idade de Amadea, muitas delas com vestes de postulante, outras já com os hábitos de noviças. Algumas pareciam ainda mais novas do que ela. As religiosas, que usavam o véu negro da ordem, pareciam-lhe verdadeiras santas de rostos angelicais, expressões calmas e um olhar caloroso e tranquilo. Amadea nunca se sentira tão feliz. Muitas delas falaram-lhe delicadamente durante o jantar. Reparou que várias das mais jovens se ocupavam das mais idosas. Algumas tinham sido trazidas para a mesa em cadeiras de rodas e conversavam, à semelhança de avós ladeadas pelas jovens ajudantes.

Depois do jantar e de uma breve meia hora de recreio em que compararam os seus tricôs e as vestes sacerdotais que confeccionavam, rezaram juntas durante meia hora, em seguida em silêncio durante duas horas, antes de procederem a uma oração comum e se irem deitar. Deviam levantar-se às cinco e meia e estar na igreja às seis. Rezariam, então, durante duas horas antes da missa às oito, a que se seguia o pequeno-almoço. Em seguida, dedicavam-se às respectivas tarefas até ao exame de consciência diário, seguindo-se o almoço. Os dias eram preenchidos com orações e um duro labor, mas este ritmo não desmoralizava Amadea. Sabia o que a esperava e era o que ela queria. ”Os seus dias e a sua vida estariam sempre preenchidos”, dizia de si para si ”e viveria de coração alegre, no seio do Carmelo.”

Nessa noite, quando entrou na sua cela às dez horas, conheceu as religiosas com quem a partilharia, duas noviças e uma postulante como ela. Acenaram com as cabeças e sorriram umas às outras, após o que apagaram a luz para vestir as camisas de noite. Estas eram feitas de uma lã grosseira que, apesar de haver sido lavada vezes sem conta, ainda arranhava. As celas não eram aquecidas, as camisas provocavam uma enorme comichão, mas era um sacrifício que faziam voluntariamente. Iam tornar-se as esposas do Cristo crucificado, que morrera por elas na Cruz. Era o mínimo que podiam fazer por Ele.

Amadea tinha a certeza de que, com o tempo, se habituaria. Por um momento, pensou nas delicadas camisas de noite em seda e algodão que a mãe desde sempre lhe fizera, mas logo se lembrou com a mesma rapidez de que teria de arrepender-se por este pensamento no dia seguinte, durante o exame de consciência. Não havia lugar para estas recordações no convento e, sempre que lhe ocorressem, deveria arrepender-se e afastá-las de imediato. Não tinha tempo a perder com lamentações sobre o conforto perdido da sua antiga vida.

Nessa noite rezou demoradamente pela mãe e por Daphne, para que Deus tomasse conta delas e as mantivesse felizes e de boa saúde. Por um breve instante, sentiu que as lágrimas lhe subiam aos olhos, mas lembrou-se imediatamente de que também teria de fazer penitência por isso. Esta era, doravante, o guia da sua própria consciência e a guardiã das portas do seu pensamento. Apenas podia permitir a entrada aos pensamentos relativos a Cristo, como lhe explicara a madre superiora. Enquanto se deixava arrastar lentamente pelo sono, rezando pela mãe e pela irmã, Amadea pronunciou também uma oração pela avó que morrera há dois meses e agora se encontrava no Paraíso.

Estendida na cama, com Daphne ao lado, que adormecera a chorar, também Beata pensava em Monika e na filha que acabara de oferecer a Deus. Tal como Amadea, rezou para que Ele velasse pela filha e a livrasse de todo o mal. Depois, sem qualquer razão especial, rezou igualmente pelos judeus.

 

Os dias passaram rapidamente para Amadea, cheios de preces e de trabalho. Na maior parte do tempo foi enviada para a cozinha e a lavandaria, embora tivesse tido a oportunidade de trabalhar uma vez no jardim com Edith Stem. Tinham jardinado lado a lado em silêncio e Amadea sorrira-lhe, feliz por estar junto dela. Mais tarde, nessa manhã, ao fazer o exame de consciência, ocorrera-lhe, todavia, que não devia ter qualquer interesse pessoal por ninguém. Desde então, passou, por conseguinte, a evitá-la, a fim de criar distância e deixar de pensar na admiração que sentira por ela. A irmã Teresa Benedita da Cruz era, doravante, mais uma das irmãs e não devia representar mais nada aos seus olhos.

Amadea recebia com regularidade cartas da mãe e de Daphne, o que lhe permitia estar a par do que se passava no mundo. Em Setembro, as leis raciais de Nuremberga haviam sido promulgadas, leis antijudaicas, que dificultavam ainda mais a vida dos judeus. Para Amadea, constituía mais um motivo para rezar. No Natal, a mãe enviara laranjas para todo o convento, o que foi um presente muito apreciado. Em Janeiro, Amadea começou o seu noviciado e pôde, finalmente, vestir o sagrado hábito da ordem do Carmelo, tendo sido para ela o dia mais importante da sua vida. Depois, concederam-lhe autorização para receber uma breve visita da mãe e de Daphne. Acolheu-as com um sorriso radioso através da pequena grelha, mas a mãe desfez-se em lágrimas ao vê-la de hábito, enquanto Daphne observava atentamente a irmã.

Não pareces tu comentou a menina com um ar solene, quase assustado.

Beata apercebeu-se imediatamente da felicidade da filha, o que lhe despedaçou o coração.

É porque não sou ”eu”. Sou uma freira respondeu Amadea com um sorriso. Vocês estão com um ar óptimo.

Tu também retorquiu Beata, fitando-a e abraçando-a com o olhar.

 

As três haviam passado os dedos através da pequena grelha para tentarem tocar-se, mas revelara-se mais frustrante do que satisfatório. Beata ansiava por ter a filha nos braços e sabia que tal seria impossível.

Vais voltar em breve para casa? inquiriu Daphne com a voz e os olhos cheios de esperança.

Aqui, estou em casa, minha querida sorriu Amadea. Como vai a escola?

Bem disse a irmã com um ar acabrunhado.

A vida não era a mesma sem a irmã e, embora a mãe se esforçasse por passar mais tempo com ela, ambas andavam tristes. Sem Amadea, reinava um silêncio de morte na casa, como se lhe faltasse vida. Aquela que era a sua razão de vida e lhes tornava os dias radiosos encontrava-se agora dentro destas paredes.

A visita acabou rapidamente e só voltaram a ver-se muito mais tarde, nesse ano. Daphne tinha, então, onze anos e meio. Nesse Verão, Beata levara-a a assistir aos Jogos Olímpicos e a miúda apaixonara-se, sobretudo, pelas provas de natação. Escrevera à irmã a descrever tudo. Quando a visitaram outra vez, ela tornara-se a irmã Teresa do Carmelo. Amadea de Vallerand deixara de existir.

No Verão seguinte, a irmã Teresa do Carmelo pediu para levar a cabo a sua profissão temporária, que a ligaria à ordem através dos votos de pobreza, castidade e obediência. E o capítulo concedeu a autorização. Faltavam-lhe seis anos para os votos perpétuos. Contudo, decorridos apenas dois anos, a jovem já tinha a impressão de haver sido religiosa toda a vida. Foi em 1937.

Nesse ano, as notícias do mundo tornaram-se inquietantes. Os judeus tinham sido banidos de inúmeras profissões, como as de professor, dentista e contabilista. Era como se o regime de Hitler tentasse expulsá-los gradualmente da sociedade, proibindo-lhes todas as profissões. Tudo isto deu às irmãs do Carmelo razões para orar.

Em Março do ano seguinte, 1938, as tropas nazis invadiram a Áustria e anexaram-na à Alemanha. As SS ficaram à frente dos negócios judeus e ordenaram a cem mil judeus de Viena que abandonassem o país.

Em Abril, todos os judeus da Alemanha tiveram de declarar os bens e Beata interrogou-se em que medida tal afectaria o pai e os irmãos. Tanto quanto sabia, eles ainda continuavam a dirigir o banco da família

A situação piorou marcadamente no Verão, pouco depois de Amadea ter renovado os votos. Segundo as cartas que enviava à mãe, trabalhava agora no jardim e à noite costurava vestes sacerdotais. Em Julho, todos os judeus com mais de quinze anos receberam ordem para pedirem um bilhete de identidade na polícia, que deveriam apresentar a pedido de qualquer agente. Segundo as mesmas regras impostas aos dentistas no ano anterior, os médicos judeus foram proibidos de exercer, embora a Alemanha se encontrasse quase sem médicos e dentistas. Um número incalculável de judeus, que exerciam elevados cargos, perdeu o emprego.

Beata parecia preocupada quando, no Outono, ela e Daphne visitaram Amadea. Esta ficou estupefacta ao ver como Daphne crescera. A jovem tinha treze anos e estava mais bonita de ano para ano. Herdara a beleza delicada da mãe, contrariamente à irmã mais velha, muito mais alta, que lhe sorriu, orgulhosa, através da grelha e lhe aflorou a face com um beijo.

Amadea meteu-se com a irmã a propósito dos rapazes, o que levou Daphne a corar. Numa carta, a mãe tinha-lhe contado que Daphne tinha um fraco por um rapaz do mesmo colégio e que ele também gostava dela. Daphne era uma jovem encantadora e emanava uma inocência que tocava o coração de Amadea. Graças à correspondência trocada, tinham conseguido que Amadea continuasse a fazer parte da sua vida, mas custava-lhes a acreditar que ela já se encontrava há três anos no convento.

Beata sentia que a filha se fora embora há séculos, contudo, outras vezes, era como se apenas tivessem passado alguns meses. Continuavam a sentir-lhe terrivelmente a falta, mas com todos os horrores que aconteciam naquela época, Beata estava, ao mesmo tempo, aliviada por sabê-la em segurança. Ela própria não passara por qualquer problema, nem pensava vir a passar. Aos olhos do mundo, ela e Daphne eram católicas. Ela era uma viúva inofensiva com uma filha pequena, que não precisava nada de oficial, não atraía as atenções e até agora escapara às autoridades. Contudo, o mesmo não acontecia em relação aos Wittgenstein, que eram publicamente judeus. Beata lia diariamente os jornais em busca de informações sobre a sua família ou o banco, a fim de saber se os nazis o haviam confiscado. Mas até agora não vira nada.

Em Outubro de 1938, dezassete mil judeus alemães de origem polaca foram presos e reenviados para a Polónia. Seguiu-se a Noite de Cristal, de 9 para 10 de Novembro, e o mundo mudou. Joseph Goebbels organizou uma noite de terror, em que o anti-semitismo que germinava há cinco anos explodiu subitamente e se tornou incontrolável. Por toda a Alemanha, mil sinagogas foram incendiadas e setenta e seis destruídas. Sete mil negócios e lares judeus foram pilhados e devastados, cem judeus foram assassinados e outros trinta mil presos e deportados para campos de concentração.

Os comerciantes judeus receberam ordem para depositarem os seus negócios nas mãos dos arianos. Num só dia, todos os alunos judeus foram expulsos das escolas públicas. E, para culminar o acto, o regime hitleriano indicou à comunidade judia que teria de pagar os estragos produzidos durante a Noite de Cristal. O ódio abrasava a Alemanha. Ao saber as notícias após esta noite de terror, Beata teve de sentar-se, em estado de choque.

Com a agitação que reinava nas ruas, permaneceu dois dias em casa, sem se atrever a sair. Apanhou um táxi e mandou-o passar diante da casa dos pais e do banco. Este estava rodeado de cordões policiais, o que significava que tinha havido problemas; quanto à casa, todos os vidros das janelas estavam partidos. Os dois edifícios pareciam desertos. Não fazia ideia para onde fora a família e não ousou perguntar aos vizinhos. O simples facto de se interessar pelo destino de judeus teria chamado a atenção sobre si e colocá-la-ia e a Daphne em risco.

Foi só uma semana mais tarde que mencionou o assunto casualmente no seu banco, cujo pessoal se compunha apenas de arianos. Declarou que se sentia contente por ter levantado há uns anos todo o seu dinheiro do banco dos Wittgenstem, dado o que acabava de passar-se e a situação em que devia encontrar-se de momento.

Estão fechados informou o funcionário num tom brusco.

Beata interrogava-se sobre o que teria acontecido aos fundos dos clientes, caso os nazis houvessem confiscado o dinheiro, dado a maior parte dos clientes serem judeus

Não me surpreende. E o que pensa que lhes aconteceu? prosseguiu, tentando parecer uma mera dona de casa curiosa a querer saber um pouco mais sobre a Noite de Cristal, de que todos falavam.

O meu patrão conhecia essa família confiou o funcionário num murmúrio. Foram deportados na quinta-feira passada.

”A véspera antes da Noite de Cristal”, pensou Beata.

Que tristeza! comentou Beata, sentindo-se à beira do desmaio, mas resolvida a não o demonstrar.

Sim, sem dúvida. Mas, afinal, são judeus. Merecem-no. De qualquer maneira, a maioria são criminosos. Provavelmente, estes tentaram roubar os clientes.

Beata assentiu com a cabeça e depois perguntou:

Levaram-nos a todos?

Acho que sim. É o que fazem, agora Dantes não, mas creio que acabaram por compreender que as mulheres eram tão perigosas como os homens. Cheira-se de longe.

Era gente importante replicou Beata, sentindo-se nauseada e pegando no seu dinheiro.

Viera levantar um cheque, apenas para saber informações e obtivera-as: toda a sua família tinha sido deportada.

Regozije-se por ter tirado o dinheiro do banco deles. Tê-la-iam despojado de tudo.

Beata sorriu, agradeceu ao funcionário e saiu, sentindo o corpo rígido e interrogando-se sobre como poderia descobrir para onde a família fora enviada, sem se expor; qualquer pessoa que fizesse perguntas colocava-se em risco. Numa última tentativa, pediu ao motorista de táxi que voltasse a passar diante da casa dos pais. O edifício sombrio e esburacado fora saqueado. Havia móveis no passeio, peças antigas de que a sua mãe tanto gostava...Tudo isto acontecera, obviamente, na Noite de Cristal e já não havia ninguém. Beata reflectiu sobre se teriam tido tempo de se esconder ou fugir. Desesperada, parou na igreja, no caminho de regresso a casa, e falou com o padre. Explicou-lhe que conhecera uma família judia há anos e que receava que lhe tivesse acontecido algo durante a Noite de Cristal.

É mais do que provável, julgo declarou o padre, com uma expressão lúgubre. Temos de rezar por eles acrescentou, consciente de que também a sua comunidade não estava a salvo de Hitler, que não mostrava muito respeito pela Igreja Católica.

Estava a pensar.. Acha que há qualquer maneira de saber o que lhes aconteceu? Disseram-me que foram deportados, mas é impossível que tenham sido todos, pelo menos as mulheres e as crianças talvez não.

Nunca se sabe replicou o padre. Vivemos uma época terrível

Desculpe tê-lo incomodado disse Beata. Só que tive pena quando ouvi a notícia no banco. Se souber qualquer coisa, informe-me.

Qual era o nome deles?

Wittgenstem. Do banco.

O padre assentiu com a cabeça. Toda a gente em Colónia conhecia este nome... A deportação desta família tinha um peso enorme, mas tudo agora era possível. A Noite de Cristal abrira as portas do inferno e libertara demónios que ultrapassavam os piores receios das pessoas. Era a desumanidade do Homem sob a sua forma mais abominável.

Mantê-la-ei ao corrente. Conheço um padre na paróquia deles. Talvez tenha ouvido alguma coisa, embora se trate de judeus. Esse tipo de notícia circula rapidamente. As pessoas têm olhos, embora sintam medo de falar. Seja prudente acrescentou, enquanto Beata se preparava para sair. Não vá até lá sozinha.

O padre sabia que esta viúva era generosa e tinha uma filha pequena. Não queria que ela tomasse qualquer atitude insensata. Além disso, era mãe de uma carmelita e, por este motivo, ocupava um lugar especial no seu coração.

Na última semana de Novembro, o padre fez sinal a Beata à saída da missa. Daphne estava distraída a falar com uma amiga e não sabia de nada; quanto a Amadea, Beata nada lhe escrevera sobre as suas preocupações.

Tinha razão declarou o padre em voz baixa, acertando o passo com o dela. Levaram-nos a todos.

Quem? inquiriu, parecendo distraída. Lembrava-se de ter-lhe perguntado, mas ele estava a mostrar-se tão misterioso, que ignorava se lhe respondia ou falava de outra coisa.

A família que referiu. Levaram-nos a todos no dia seguinte. Toda a família. Parece que o homem que dirigia o banco tinha uma filha e dois filhos, e uma filha que morreu há anos. O meu amigo conhecia-o bem. Via-o a passear frequentemente no bairro e paravam a conversar. Era um homem simpático. Um viúvo. Levaram-nos a todos: o viúvo, os filhos e até mesmo os netos. Ele acha que foram enviados para Dachau, mas não há nenhum meio de saber. De qualquer maneira, já não estão lá. A casa vai provavelmente ser dada a um oficial do Reich. Vou dizer uma oração por eles concluiu, afastando-se.

Havia actualmente muitas histórias do género. Beata sentia-se em estado de choque e não pronunciou uma palavra a Daphne durante todo o caminho de regresso a casa.

Estás bem, mamã? perguntou Daphne, num tom meigo.

Há uns dias que a mãe parecia nervosa, mas toda a gente andava assim. Na escola, várias alunas tinham sido expulsas e todos haviam chorado. A professora repreendera-as, dizendo tratar-se de judeus que não mereciam andar na escola, o que Daphne achara horrível. Toda a gente merecia andar na escola. Pelo menos, era o que a mãe lhe dizia.

Sim, sim respondeu Beata, bruscamente, aliviada pelo que o padre lhe dissera sobre a morte de uma das filhas dos Wittgenstein.

Com um pouco de sorte, toda a gente continuaria a pensar que ela estava morta. Doravante, era apenas uma viúva católica com uma filha adolescente e uma outra que era freira. Louvado fosse Antoine!

Só que acabo de ouvir uma história triste sobre uma família que conhecia e que foi deportada depois da Noite de Cristal acrescentou em voz baixa.

Toda a sua família tinha desaparecido: o pai, os irmãos, a irmã e os filhos, as cunhadas. Todos. Era inacreditável. Só Deus sabia onde se encontravam e se sobreviveriam. Circulavam histórias monstruosas sobre os campos, que, supostamente, eram campos de trabalho, mas onde muitos morriam.

Aos setenta e três anos, o pai já não era novo. A mãe teria tido sessenta e oito anos e Beata sentiu-se repentinamente grata a Deus por tê-la poupado a isto. Pelo menos, morrera em paz, embora Beata não estivesse ao seu lado. Contudo, não queria mal ao pai. O que acabava de acontecer-lhe e aos seus era bem pior do que tudo o que pudessem ter-lhe feito sofrer. Ninguém merecia tal coisa. Beata tinha medo, mas, de momento, estava convencida de que ela e Daphne se encontravam a salvo.

Que horror! exclamou Daphne, baixinho, pensando no que a mãe acabava de contar.

Não fales disto a ninguém ordenou a mãe, ríspida. Se mostrares simpatia para com os judeus, os nazis fazem-te mal rematou ao entrarem na intimidade do lar.

A casa estava quente e confortável e elas encontravam-se a salvo. Era o mais importante. Não conseguia apagar a imagem da fachada destruída da sua antiga casa, os vidros das janelas estilhaçados e os móveis espalhados em cima do passeio.

Mas tu tens pena dos judeus, não tens, mamã? perguntou Daphne, fitando-a com uns olhos inocentes.

Sim respondeu Beata com sinceridade, mas nos tempos que correm é perigoso afirmá-lo. Olha o que acaba de passar-se. As pessoas estão enfurecidas e confusas e já não sabem o que fazem. Mais vale estar calado. Lembra-te disso, Daphne.

Beata fixou-a severamente e Daphne aquiesceu com um aceno de cabeça.

Prometo respondeu.

No entanto, tudo aquilo parecia-lhe cruel e terrível. Não conseguia deixar de pensar como devia ser horrível ser judeu, perder a casa, ser levado para longe dos pais por desconhecidos, até mesmo perdê-los. Estremeceu só de pensar nisso. Felizmente que ela e a mãe estavam em segurança, embora não houvesse um pai que as protegesse. Mas ninguém iria fazer-lhes mal.

Passaram a noite em silêncio, cada uma delas imersa nos seus pensamentos. Ao entrar no quarto da mãe, Daphne ficou surpreendida ao encontrá-la de joelhos, a rezar. Observou-a durante um minuto e depois saiu, interrogando-se sobre se a mãe diria uma oração pela família de que lhe falara à tarde. Desconfiou que assim era. Tinha razão, mas ignorava o que a mãe estava realmente a fazer. Beata fazia o que nunca tinha feito antes, mas que ouvira ao pai: o que eles haviam feito por ela, o que nenhuma mulher ortodoxa alguma vez fizera. Estava a recitar o Kaddish, a oração dos mortos

Esperava que a sua família ainda estivesse viva, mas, se não fosse esse o caso, alguém tinha de rezar por ela. Disse todas as palavras de que conseguia lembrar-se e depois manteve-se ajoelhada junto da cama, com o rosto banhado em lágrimas. Tinham-lhe fechado as portas e o coração há anos, declarando-a morta, mas ela continuara a amá-los. E, de súbito, todos haviam desaparecido: Brigitte, Ulm, Horst, o seu pai. As pessoas com quem crescera e que nunca deixara de amar. Nessa noite, Beata rezou o shwa por eles, tal como todos o tinham feito por ela, há muito tempo.

 

Na primeira semana de Dezembro, Beata telefonou à madre superiora e pediu para visitar a filha, mencionando que era importante. A religiosa respondeu-lhe delicadamente que teria de esperar. As freiras andavam muito ocupadas nessa altura e precisavam de resolver uma questão interna. Marcou uma visita a Beata para 15 de Dezembro, esperando que tudo estivesse mais calmo, então.

Até essa data, Beata viveu num estado de agitação indescritível. Ignorava porquê, mas sentia-se impelida a contar a Amadea o que se passara. Os recentes acontecimentos não as afectavam verdadeiramente, mas a situação podia mudar. Amadea devia saber. Tinha esse direito. Desejava igualmente contar a Daphne, mas esta podia deixar escapar algo no liceu; além disso, ainda não fizera catorze anos e era demasiado jovem para transportar o fardo de um enorme segredo. Especialmente um segredo que podia custar vidas, inclusive a sua.

Mas, pelo menos, Amadea estava a salvo no convento e a mãe dava valor aos seus conselhos. Beata não queria tomar estas decisões sozinha. Pensara em partir para a Suíça, mas há muito que os primos de Antoine tinham morrido. Não tinha outro sítio onde se alojar. Teria de alugar uma casa lá, mas precisaria de abandonar tudo... Para quê tomar uma decisão sob a influência do pânico? Afinal, não tinha motivo para sentir medo. Contudo, sentia. Um medo profundo.

Amadea percebeu logo que se passava algo, quando a viu. A mãe tinha vindo sozinha. Daphne estava nas aulas e Beata detestava privá-la de uma visita e de uma ocasião de ver a irmã, mas não lhe restava outra escolha. Sabia que não estava a pensar com clareza. Afinal, elas eram alemãs e ela professava o catolicismo. Ninguém sabia quem ela era e ninguém lhe criara problemas. Mas como ter certezas naqueles tempos? Também o pai se devia ter julgado a salvo. Não sabia por onde começar.

Paz de Cristo saudou Amadea, meigamente, sorrindo à mãe

A semana anterior fora triste para as freiras. A irmã Teresa Benedita da Cruz, Edith Stem, deixara-as há três dias, a fim de ir para um convento na Holanda. Uma das suas amigas ajudara-a a passar a fronteira, com a sua irmã Rosa, que também ficaria no convento. Receara prejudicar as outras freiras. De origem judia, pedira à madre superiora que a mandasse para longe, a fim de preservar a segurança das outras. Todas tinham ficado tristes ao vê-la partir. Não era o que queriam, mas sabiam que não restava outra solução, para o bem de todas. Haviam chorado muito quando ela se fora embora e rezavam, todos os dias, por ela. O convento nem parecia o mesmo sem o seu rosto sorridente.

Está tudo bem, mamã? perguntou em seguida. Onde está a Daphne?

No liceu. queria falar-te a sós apressou-se a continuar, pois sabia que não tinham muito tempo e havia tanto que dizer à filha. A minha família foi deportada, Amadea.

Que família? inquiriu a filha, surpreendida, fitando-a. Referes-te à família da avó?

As vozes de ambas eram murmúrios e agarravam as mãos através da grade.

Todos respondeu Beata, assentindo com a cabeça. O meu pai, a minha irmã, os meus dois irmãos, os filhos e as minhas cunhadas prosseguiu com os olhos cheios de lágrimas.

Lamento muito replicou Amadea, confusa Mas porquê?

Porque são judeus respondeu Beata, após uma funda inspiração. Ou melhor, eram, pois provavelmente já estão mortos neste momento. Eu sou judia. Converti-me para casar com o teu pai.

Não sabia disse Amadea, fitando-a compassivamente, sem aparentar qualquer receio nem parecer entender o que tal significava, ou podia significar para todos.

Nunca te contei, porque o teu pai e eu não achámos que fosse importante. Mas agora é. Muito importante. Talvez tivesse medo... ou vergonha, não sei. Ninguém nos incomodou ou disse o que quer que fosse e todos os meus documentos indicam que sou católica. De facto, não tenho documentos, à excepção de um bilhete de identidade, desde a morte do teu pai. Não há qualquer prova do meu nascimento e a tua certidão de nascimento menciona que o teu pai e eu éramos católicos, o que corresponde à verdade. Até mesmo a nossa certidão de casamento indica que sou católica. Contudo, sei que a prova de que sou judia existe algures. O meu pai disse a toda a gente que eu tinha morrido e escreveu o meu nome no livro dos mortos. A pessoa que eu era já não existe. Renasci ao casar com o teu pai, como cristã, como católica. Contudo, na verdade, tu és meia judia e Daphne também. E, na opinião dos nazis, eu sou completamente judia. Se alguma vez o descobrirem, vocês correrão perigo. Precisava de dizer-te. Quero que estejas ao corrente para poderes proteger-te.

”E às outras”, pensou imediatamente Amadea, reflectindo no que Edith Stein acabara de fazer para protegê-las a todas. Contudo, Edith Stein era uma verdadeira judia, reconhecida como tal e Amadea não. Ninguém sabia quem ela era, nem se preocupava consigo. A própria mãe afirmava que não existiam provas das suas origens. De qualquer maneira, sentia-se contente por estar a par.

Obrigada por me ter dito. Mas não estou preocupada retorquiu Amadea num tom calmo, fitando a mãe e beijando-lhe os dedos. E a Daphne, mamã? quis saber, pensando subitamente no que Edith Stein, a irmã Teresa Benedita da Cruz dissera sobre os riscos que os outros podiam correr.

Está em segurança comigo. Além de que é apenas uma criança.

”Mas as crianças também eram deportadas para os campos”, pensou Beata. Com a diferença de que eram totalmente judias e Daphne não. O risco era pouco, havia que reconhecer. E desde que ninguém viesse criar-lhes problemas ou desenterrar o passado, tudo correria bem E que probabilidade havia de que o fizessem? De momento, a ideia de ir para a Suíça pareceu-lhe extravagante. Não tinham qualquer motivo para fugir. Ela apenas ficara perturbada por saber o que acontecera aos outros.

Antes de partir, a irmã Teresa Benedita disse-nos uma coisa importante. Os ingleses puseram um comboio à disposição das crianças judias para evitar que fossem deportadas para os campos. O primeiro partiu da Alemanha a 1 de Dezembro, mas haverá outros. Estão a mandar crianças alemãs para Inglaterra, até que toda esta loucura termine. Mas apenas crianças com menos de dezassete anos. Os nazis não se opuseram. É legal. Eles só não querem crianças judias no território deles E que tal mandar a Daphne para ter a certeza de que fica a salvo? Ela pode sempre voltar mais tarde.

Contudo, Beata abanou imediatamente a cabeça. Não queria que a filha se fosse embora. Não havia necessidade de a afastar. Deixá-la ficar com estrangeiros em Inglaterra também poderia revelar-se perigoso.

Ela não é judia, Amadea arguiu. Apenas metade e ninguém o sabe. Não vou enviá-la desprotegida para um país estrangeiro, sabe Deus com quem e para ficar sabe Deus onde. É demasiado perigoso para ela, que não passa de uma criança.

Também as outras, mamã. Pessoas generosas vão acolhê-las em suas casas e ocupar-se delas replicou Amadea, meigamente.

A solução parecia-lhe razoável, mas a mãe não partilhava da mesma opinião.

Sabes lá tu! - ripostou.

- Daphne podia perfeitamente ser violada por um desconhecido. Tudo pode acontecer E se essas crianças caem nas mãos erradas? - É aqui que se encontram nas mãos erradas suspirou Amadea.

Contudo, talvez a mãe tivesse razão. De momento, elas não corriam um perigo real e podiam esperar para ver a evolução das coisas. E, se algo acontecesse, estariam sempre a tempo de mandar Daphne para o estrangeiro mais tarde. Talvez a mãe tivesse razão, talvez fosse melhor manterem-se discretas e aguardarem que passasse a tempestade. Mais cedo ou mais tarde, tudo acabaria por passar.

Não sei bem... retorquiu Beata, parecendo preocupada.

Era difícil saber o que fazer, que atitude tomar. O sangue corria na Alemanha, mas, de momento, não era o delas. Apenas quisera prevenir Amadea, para que estivesse a par dos riscos. A filha estava em segurança no convento, e a história de Edith Stein era muito diferente. Esta era judia, reconhecida como tal, e ainda há bem pouco tempo fora uma radical e uma activista. Exactamente o tipo de pessoa que os nazis procuravam: uma agitadora, o que não era, de forma alguma, o caso de Amadea. Enquanto mãe e filha se fitavam, absortas nos seus pensamentos, uma religiosa bateu à porta para lhes indicar que o tempo da visita acabara.

Tenho de ir, mamã.

O próximo encontro só ocorreria dali a meses.

Não escrevas à Daphne que estive aqui pediu Beata. Ficaria infelicíssima por não ter vindo comigo. Mas precisava de falar-te a sós.

Compreendo anuiu Amadea, beijando os dedos da mãe. A jovem tinha vinte e um anos, mas parecia muito mais velha. Beata dava-se agora conta de que a filha amadurecera muito durante estes três anos e meio passados no convento.

- Amo-te, mamã. Tem cuidado. Não faças nada de insensato avisou-a.

Também eu, minha querida. Gostava que ainda estivesses em casa connosco admitiu com um sorriso triste nos lábios.

Sou feliz aqui tranquilizou-a Amadea, ao mesmo tempo que sentia um aperto no coração.

Por vezes, a mãe e a irmã faltavam-lhe, mas continuava persuadida de que tinha a vocação. Dali a quatro anos e meio, pronunciaria os votos perpétuos, disso não tinha dúvida. Aliás, nunca a assaltara uma só dúvida, desde que entrara para o convento.

Feliz Natal, mamã desejou ainda, levantando-se.

Feliz Natal também para ti respondeu meigamente a mãe, antes de sair da pequena cela reservada às visitas

Pouco depois, Amadea regressou ao trabalho e, durante o tempo dedicado ao exame de consciência, reflectiu na conversa que tivera com a mãe. Muitas coisas haviam sido ditas, mas Amadea já sabia o que tinha de fazer. Logo a seguir ao almoço, dirigiu-se ao gabinete da madre superiora, durante a hora do recreio, e ficou aliviada por verificar que a madre Teresa Maria Mater Dommi estava a trabalhar. A religiosa ergueu a cabeça no momento em que Amadea hesitava. Estava a redigir uma carta de agradecimento à madre superiora do convento na Holanda que correspondera ao seu pedido e acolhera a irmã Teresa Benedita da Cruz.

Sim, irmã. O que se passa?

Paz de Cristo, madre. Posso falar consigo?

A religiosa fez-lhe sinal para que entrasse e se sentasse. Amadea fechou a porta atrás de si.

Passou um momento agradável com a sua mãe, irmã? inquiriu a madre, percebendo logo que a jovem parecia preocupada e perturbada.

Sim, obrigada, madre. Tenho algo a dizer-lhe que ignorava quando entrei para o convento.

A madre superiora ficou a aguardar, dando-se conta de que se tratava de algo grave.

Nunca soube que a minha mãe não era de origem católica começou Amadea. Disse-me, hoje, que se converteu ao catolicismo para casar com o meu pai. Era judia. A família dela foi deportada após a Noite de Cristal. Nunca os conheci, porque renegaram a minha mãe quando ela casou com o meu pai e não voltaram a vê-la. Acabámos por conhecer a minha avó dois anos antes de eu entrar para o convento, mas o meu avô nunca permitiu que a minha mãe se encontrasse com o resto da família. Declararam-na como morta.

Ergueu os olhos para a madre superiora e respirou fundo antes de continuar:

A minha mãe diz que ninguém aparentemente possui pistas da sua história. Nunca se registou e não tem passaporte. Os meus pais viveram três anos na Suíça, antes de regressarem à Alemanha. Eu nasci lá. A sua certidão de casamento indica que ela é católica e a minha certidão de nascimento indica que ambos o eram. Contudo, sou meia judia, madre, mas nunca o soube. Agora receio que, se ficar aqui, possa ameaçar as vossas vidas.

Era exactamente esse o motivo por que a irmã Teresa Benedita se fora embora.

As nossas vidas não estão ameaçadas, minha filha, nem a sua. Pelo que me diz, ninguém conhece a história da sua mãe. Ela faz tenção de ir à polícia e declarar que é judia?

Não respondeu Amadea, abanando a cabeça. Ela leva uma vida calma e não há motivo para que alguém o saiba.

Esconder a verdade não era honesto, mas era prático, existindo vidas em jogo: as de Daphne, as da mãe e a dela. Talvez mesmo a das outras religiosas. A madre superiora aparentemente não desaprovava o silêncio.

A situação da irmã Teresa Benedita era totalmente diferente da sua. Ela nasceu judia, sendo conhecida como professora e activista, antes de entrar aqui. Atraíra muito as atenções, antes de se tornar carmelita. É uma convertida, o que não é o seu caso, que foi criada na fé católica. Com um pouco de sorte, ninguém descobrirá o passado da sua mãe. Se ela se mantiver discreta, ninguém saberá nada. E se acontecer qualquer coisa, tenho a certeza de que nos informará. Nesse caso, poderemos enviá-la discretamente para qualquer lado. Não me agradou que todas entrassem em pânico por causa da irmã Benedita. Não há qualquer razão para alarme no seu caso. Quando entrou no convento era uma jovem inocente, não uma mulher famosa, convertida e conhecida pelo seu passado. Na situação dela, impunha-se que se fosse embora. Na sua, impõe-se que fique. Ou seja, se quiser ficar especificou a madre superiora, fitando-a com uma expressão interrogativa.

Sim, é o que quero respondeu Amadea, parecendo aliviada. Contudo, temia que me mandasse embora. E é o que farei, se alguma vez o desejar.

Seria o seu sacrifício máximo pelo bem da comunidade. O de Santa Teresa fora a abnegação total de si própria ao serviço do Senhor.

Não, não o desejo. E irmã... prosseguiu a madre com um olhar severo, idêntico ao de uma mãe que admoestasse uma filha é essencial que não discuta este assunto com ninguém. Com ninguém. Manteremos isto entre nós as duas. Sabe o que aconteceu à família da sua mãe? acrescentou, erguendo o rosto com um olhar preocupado. Ela soube alguma coisa?

Acha que foram enviados para Dachau.

A madre superiora premiu os lábios, sem pronunciar uma palavra. Detestava o que acontecia aos judeus, tal como todas as outras religiosas.

Quando lhe escrever, diga-lhe, por favor, que lamento muito. Mas de uma forma discreta pediu, e Amadea assentiu com a cabeça, reconhecida pela sua bondade.

Não quero ir-me embora, madre. Quero pronunciar os meus votos perpétuos.

Se for essa a vontade de Deus, assim será. Contudo, ambas sabiam que faltavam quatro anos e

meio. Isto parecia uma eternidade a Amadea, decidida a transpor a meta sem que nada se atravessasse no seu caminho. Acabava, aliás, de superar um obstáculo significativo na última meia hora.

Mas não confunda a sua situação com a da irmã Teresa Benedita aconselhou ainda a madre. É algo muito diferente.

”E muito mais grave, com elevados riscos para todas as pessoas implicadas”, pensou a madre. O que, segundo julgava, não era o caso de Amadea.

Obrigada, madre agradeceu a jovem, antes de sair. A madre superiora permaneceu sentada à secretária durante um longo momento, interrogando-se sobre quantos casos semelhantes existiriam no convento; talvez houvesse outras religiosas na mesma situação e não fizessem a mínima ideia disso, como Amadea. Mais valia não saber.

Amadea sentiu-se extremamente aliviada durante o resto do dia, embora continuasse preocupada por causa da mãe e da irmã. Contudo, talvez a mãe estivesse certa, e a verdade sobre as suas origens nunca se desvendasse; de qualquer maneira, não havia qualquer motivo para tal. Nessa noite, rezou pelos membros da sua família que haviam sido deportados, talvez mesmo mortos, e que ela nunca conhecera. Lembrou-se da época em que a mãe a levara à sinagoga, sem que ela compreendesse o motivo. Acabara por esquecer, mas agora, que voltava a pensar no assunto, tomou consciência de que tinha, de certo modo, aflorado uma parte do seu passado.

 

Como era previsível, a perseguição aos judeus prosseguiu no ano seguinte. Em Janeiro de 1939, Hitler pronunciou um discurso, ameaçando-os e vincando claramente o ódio que lhes votava. Deixavam de ser cidadãos bem-vindos no seu próprio país, pois Hitler jurou piorar as coisas para eles e já começara. No mês seguinte, os judeus receberam ordens para entregarem às autoridades todos os seus bens em ouro e em prata. Em Abril, foram expulsos das suas casas e obrigados a morar em bairros exclusivamente judeus, com a proibição de viverem ao lado de arianos.

A situação incitou os judeus a tentarem emigrar, o que estava longe de ser fácil. Em muitos casos, os países para onde desejavam emigrar, não os aceitavam. Precisavam de ter família ou conhecer alguém que se responsabilizasse por eles no estrangeiro e, frequentemente, não era o caso. Deviam ter um emprego no país de destino, obter a autorização do governo alemão e do país para onde queriam ir, mas os seus pedidos eram, muitas vezes, recusados por um ou os dois países. Por fim, deviam ter dinheiro para pagar o processo e muitos não o tinham.

Só muito poucos conseguiram preencher, com sucesso, todos os requisitos no prazo concedido. No entanto, bastantes judeus alemães ainda insistiam e acreditavam que tudo viria a acalmar-se, a tal ponto a realidade lhes parecia inconcebível e insensata. Eles eram cidadãos alemães. Nada de mau podia acontecer-lhes. Todavia, muitos já tinham sido deportados e enviados para campos de trabalho, e os boatos que lhes chegavam eram cada vez mais alarmantes. Pessoas morriam sob os maus tratos, má nutrição, fadiga e de doença; outras desapareciam simplesmente, sem deixar rasto. Os que avaliavam a gravidade da situação, estavam em pânico. Mas deixar a Alemanha era quase impossível.

Durante todo o ano, os comboios de que Amadea falara à mãe continuaram a transferir crianças para Inglaterra. Os ingleses, com a ajuda dos quakers, organizavam a saída de crianças da Alemanha, da Áustria e da Checoslováquia. Algumas delas eram cristãs, mas a maioria era judia. O governo britânico concordara em acolhê-las sem passaporte, na condição de terem menos de dezassete anos, a fim de não colocarem em risco os empregos ingleses.

Os nazis não se opunham à operação, desde que as crianças não levassem objectos de valor, mas apenas uma pequena mala. Vê-las partir das estações de caminho-de-ferro, com os pais a abraçá-las pela última vez, era de partir o coração, mas também a única garantia para estes últimos de que os filhos estariam a salvo e longe do destino que os nazis reservavam aos judeus. Os pais garantiam aos filhos que em breve iriam juntar-se-lhes e, tanto uns como os outros, rezavam para que fosse verdade. Alguns deles suplicavam aos filhos que lhes arranjassem trabalho ao chegarem a Inglaterra, uma tarefa impossível para crianças que não tinham qualquer forma de ajudá-los, mas que, ao mesmo tempo, sabiam que a sobrevivência dos pais dependia delas. Apenas alguns bafejados pela sorte o conseguiram.

Ao chegarem a Inglaterra, as crianças eram aceites por famílias de acolhimento, encarregadas de recebê-los até que a situação se tornasse menos perigosa para elas no seu país de origem, mas ninguém sabia quando é que tal aconteceria. Em alguns casos, chegaram mesmo bebés

Num gesto surpreendente de caridade e humanidade, um membro da família Rothschild acolheu vinte e oito refugiados e disponibilizou-lhes uma casa. Embora outros não tivessem meios para serem tão generosos, deram o seu melhor para garantirem o acolhimento e o bem-estar das crianças; os que não encontraram pais adoptivos foram colocados em campos e centros de acolhimento.

Do ponto de vista militar, as notícias, algumas das quais conseguiram infiltrar-se no convento, sobretudo quando recebiam entregas do mundo exterior, continuaram a ser inquietantes. Em Março, os nazis invadiram a Checoslováquia e, no Verão, estavam aparentemente de olho na Polónia.

Amadea renovou os seus votos temporários pela segunda vez, e a mãe e a irmã visitaram-na pouco tempo depois. Não haviam tido problemas. Ninguém lhes pedira os documentos, e Amadea sentiu-se aliviada. Daphne tinha catorze anos, mas ainda não suspeitava do segredo da mãe.

Amadea ficou feliz ao constatar que a mãe estava com bom aspecto e parecia calma. Contudo, ela informou-a de que o ambiente estava tenso, com muitos judeus sem emprego, inclusive os que desempenhavam profissões respeitáveis, e muitos tinham sido enviados para os campos de trabalho. A expulsão dos judeus não parara e eram inúmeros homens, mulheres e crianças os que esperavam em campos de triagem, fora da cidade, para serem deportados.

Beata também ouvira falar dos comboios de crianças e das operações de salvamento, mas, para ela, continuava fora de questão enviar Daphne, pois insistia em que não havia motivo para tal. Amadea e a mãe nunca falavam do assunto diante de Daphne, excepto para louvar o trabalho dos ingleses.

Duas das antigas amigas de Daphne já tinham partido para a Grã-Bretanha e ela ouvira dizer que outras também partiriam muito em breve: só estavam à espera das autorizações. A jovem disse que achava uma tristeza que partissem sem os pais, só que, como todos concordavam, ficar na Alemanha teria sido bem pior.

Beata sentiu-se feliz por ver Amadea com tão bom aspecto; só este pensamento lhe permitia aceitar a escolha da filha. A visita chegou rapidamente ao fim, como era hábito. Antes de partir, disse à filha que vira os Daubigny e que eles estavam bem.

Duas semanas mais tarde, os nazis invadiram a Polónia e, nesse mesmo dia, os judeus da Alemanha viram-se submetidos a um recolher obrigatório, impondo-lhes que estivessem em casa às vinte e uma horas, e às vinte no Inverno. Dois dias depois, a França e a Grã-Bretanha declararam guerra à Alemanha. Nessa manhã, o último comboio de crianças partiu de Berlim, pois, com a declaração de guerra, os ingleses já não podiam fazer sair crianças judias do país. A operação durara nove meses e dois dias e permitira-lhes a evacuação de dez mil crianças. Um milagre. Enquanto as últimas crianças abandonavam a Europa, rumo a Inglaterra, os polacos bateram-se corajosamente contra os nazis, mas sem resultado, tendo-se rendido ao cabo de quatro semanas. Os olhos de Beata encheram-se de lágrimas ao ouvir as notícias de Varsóvia.

Um mês depois, os judeus de Viena receberam ordem de evacuação da cidade e todos os judeus polacos, dos catorze aos sessenta anos, foram enviados para trabalhos forçados. O horror prosseguia e parecia infindável.

Nesse ano, dadas as circunstâncias, o Natal foi triste, mesmo no convento, apesar da correspondência tranquilizadora que a irmã Teresa Benedita enviara da Holanda. A sua irmã Rosa continuava junto dela, no convento, e as duas sentiam-se a salvo ali, embora a irmã Teresa Benedita confessasse que tinha saudades das irmãs de Colónia, rezando diariamente por elas, como elas o faziam por si.

Em Abril de 1940, Amadea fez vinte e três anos e a mãe e a irmã foram visitá-la. Daphne tinha agora quinze anos, o que até mesmo Amadea sentia dificuldade em acreditar. Era muito bonita, praticamente a imagem da mãe quando tinha a mesma idade.

Contudo, e para horror de todos, uma semana mais tarde os nazis invadiram a Dinamarca e a Noruega e um mês depois, em Maio, conquistaram a Holanda, para surpresa geral, o que pôs novamente em perigo a irmã Teresa Benedita.

Era, doravante, impossível prever a sequência dos acontecimentos. Hitler parecia querer conquistar toda a Europa. A França foi invadida em Junho. Amadea voltara a renovar os seus votos temporários. Faltavam-lhe três anos para pronunciar os votos definitivos que a ligariam para sempre à ordem. Decorridos cinco anos, continuava segura da sua fé e não conseguia imaginar uma outra vida.

Em Outubro, os nazis invadiram a Roménia. Daphne retomara as aulas pouco tempo antes. E, em Novembro, o gueto de Cracóvia foi selado com setenta mil judeus no interior, bem como o de Varsóvia com os seus quatrocentos mil judeus. O que estava a acontecer era inacreditável. Contudo, apesar do que ocorria e da política de eliminação sistemática a todos os níveis da sociedade, Beata garantiu a Amadea, quando a visitou no Natal, que não tivera problemas. Ninguém lhe fizera perguntas nem lhe pedira identificação. Aparentemente, ninguém se interessava por ela. Era apenas uma viúva católica, que vivia sozinha com a filha e se ocupava da sua vida. Numa palavra, ignoravam-na, o que Amadea ficava sempre aliviada por saber.

Foi na Primavera de 1941, pouco depois dos dezasseis anos de Daphne e dos vinte e quatro de Amadea, que Beata viu, junto ao guiché de um banco, uma mulher cujo rosto lhe pareceu familiar. Observou-a demoradamente, mas sem conseguir localizá-la. Nesse dia, Beata fora levantar uma quantia elevada de dinheiro, o que raras vezes fazia, mas ocorrera-lhe, durante um sonho que tivera recentemente, que podia ser uma boa ideia.

Falara do assunto com Gérard Daubigny, que se mostrara de acordo. Ela queria deixar na posse dele algum dinheiro para as filhas, na eventualidade de acontecer-lhe alguma coisa. Gérard não compreendia porque é que ela não queria deixar tudo no banco, mas se isso fazia com que se sentisse melhor, não via qualquer inconveniente. Alegrava-se por poder ajudar a mulher do seu velho amigo. Tinha-se dado conta, tal como Véronique, de que ela nunca se recompusera da morte de Antoine. Os últimos anos haviam deixado marcas e, aos quarenta e seis anos, parecia ter mais dez.

Estava a planear ir ao castelo nessa tarde, a fim de entregar a Gérard o dinheiro que queria confiar-lhe. Não era muito, mas permitiria que as filhas superassem qualquer eventual dificuldade. Escrevera a Amadea, informando-a de que Gérard Daubigny teria dinheiro dela, se lhe acontecesse algo. A jovem não gostava que a mãe se mostrasse pessimista, mas sabia que, há anos, ela se preocupava com o que lhes aconteceria se ficasse doente ou pior, sobretudo porque Daphne ainda era muito jovem. Com toda a insegurança que reinava no país, as pessoas andavam mais ansiosas, além disso, Amadea sabia até que ponto os nazis e a evolução da guerra inquietavam a mãe.

A mulher que Beata estivera a observar abandonou o guiché ao mesmo tempo do que ela; as duas mulheres dirigiram-se para a saída, quase lado a lado. Foi, então, que Beata quase desmaiou ao ouvi-la dizer: ”Miss Wittgenstein!” Sentindo que as pernas lhe falhavam, Beata não deu qualquer sinal de reconhecimento, saindo do edifício com um passo rápido. Queria afastar-se dali o mais rapidamente possível, por isso fez sinal a um táxi. Contudo, a mulher chegara junto dela e esboçava-lhe um enorme sorriso. Foi só então que a memória se reavivou e Beata soube de quem se tratava, apesar dos estragos causados pelo tempo. Tratava-se de uma jovem checa que trabalhara como criada em casa dos pais, há trinta anos. Ainda lá estava, quando Beata saíra de casa.

Sabia que era a senhora! declarou num tom vitorioso. Julguei que estava a ver um fantasma. O seu pai disse-nos que tinha morrido na Suíça!

Desculpe... Não faço ideia... Eu... respondeu Beata como se estivesse a ser confundida.

Contudo, a mulher insistiu, convencida de a ter identificado.

Ignoro do que está a falar retorquiu friamente Beata, tremendo dos pés à cabeça, ante a ideia de que alguém tivesse ouvido a mulher chamá-la pelo seu nome de solteira.

Tratava-se de um nome que Beata não podia reconhecer, pois, se o fizesse, estaria a colocar a vida em risco.

Não se recorda de mim? Mina... Trabalhei para os seus pais.

Beata recordava-se, agora, de que Mina casara com o motorista do seu pai, há uns trinta anos. Ocorreu-lhe tudo, numa vaga de pânico, consciente do significado que este encontro poderia ter.

Desculpe... declarou Beata com um vago sorriso, tentando mostrar-se delicada, mas ansiosa por escapar, no momento em que um táxi parou milagrosamente diante dela.

Sei quem a senhora é prosseguiu Mina com um ar obstinado, mas Beata meteu-se no táxi, virando-lhe as costas

Tudo o que podia esperar era que Mina acreditasse que se tinha enganado. Com um pouco de sorte, esqueceria o encontro. A mulher não tinha qualquer motivo para vir atrás dela, apenas quisera mostrar-se simpática. Beata recordava-se de que ela era uma jovem meiga e perdidamente apaixonada pelo motorista; quando saíra de casa, eles tinham acabado de casar e Mina estava grávida. Devia ter ficado surpreendida ao vê-la, dado o pai haver comunicado a morte dela a todo o pessoal. Contudo, estava bem viva e talvez fosse esse o motivo por que Mina se mostrara tão insistente. Contudo, nos tempos que corriam, Beata não podia permitir-se ser identificada como uma Wittgenstem, mesmo com o risco de parecer grosseira à sua antiga criada.

No interior do táxi, Beata ficou surpreendida ao dar-se conta de que estava toda a tremer. Fora, afinal, um daqueles encontros sem importância, mas ouvir alguém tratá-la pelo nome de solteira no hall do banco fora arriscado. Era um nome que não podia admitir ter-lhe pertencido. Restava-lhe esperar que Mina esquecesse o encontro. Beata acabava de viver um momento de pânico, mas o incidente estava encerrado, pois não admitira a sua identidade e mantivera-se calma, apesar do pânico interior. Com um pouco de sorte, não voltaria a ver Mina. A caminho do castelo de Gérard e de Véronique, esforçou-se por não pensar mais no assunto, recusando deixar-se invadir pelo pânico.

Apesar da guerra, os Daubigny tinham tido a sorte de conservar a propriedade intacta. Há alguns anos, Gérard fora perspicaz e, tal como Véronique, naturalizara-se alemão, embora, devido a conversas que haviam tido, Beata soubesse que ele deplorava as acções de Hitler contra os judeus. Gérard nunca lhe perguntou porque é que ela desejava confiar-lhe as suas economias. Estava convencido de que se tratava de uma excentricidade causada pela ansiedade. Ela era uma mulher só, infeliz, com uma filha, e o seu nervosismo compreendia-se. Com a guerra e a Europa a ferro e fogo, o mundo tornara-se um lugar instável e assustador. Suspeitava que Beata receasse que os bancos abrissem falência; era a única explicação para que lhe confiasse aquela quantia. Nessa tarde, ela entregara-lhe um envelope com o equivalente a vinte mil dólares, o que, segundo afirmou, permitiria que as filhas se aguentassem por uns tempos, caso lhe acontecesse algo, pelo menos até poderem levantar o restante. Gérard garantiu-lhe que tomaria cuidado e colocaria o dinheiro no cofre. Depois, ofereceu-lhe um chá, pois Véronique saíra.

Beata observou que os estábulos continuavam bonitos, mas ele confiou-lhe que tinha muito menos cavalos do que quando Antoine era vivo. Nunca encontrara ninguém que lhe chegasse aos calcanhares, embora já tivessem passado catorze anos desde que ele morrera. Recordaram o passado durante uns momentos, depois ele chamou um táxi para a levar de volta à cidade.

Quando chegou, Daphne já estava em casa e muito entusiasmada com a entrada de um novo aluno no seu liceu. O pai estava no exército na Áustria, e Daphne confessou à mãe, com os olhos brilhantes, que o achava bonito, fazendo-a rir. Nessa noite, jantaram as duas calmamente, quando Daphne disse que gostaria de fazer uma visita a Amadea dentro em breve. Há meses que não iam ao Carmelo. Amadea estava quase a renovar os seus votos temporários pela quarta vez. Daphne acabara por aceitar a opção da irmã de ser carmelita, contrariamente a Beata, que continuava a esperar que ela viesse a mudar de opinião. Corria a Primavera de 1941 e faltavam mais dois anos para que Amadea pronunciasse os votos perpétuos.

Na semana seguinte, Beata voltou ao banco, a fim de levantar dinheiro para pequenas despesas. Queria comprar tecido para fazer alguns vestidos de Verão para Daphne, e era mais fácil pagar em dinheiro do que em cheque. Havia muito menos lojas de tecidos do que dantes: as duas em que costumava fornecer-se eram geridas por judeus e há muito que estavam fechadas. Beata reflectia no que precisava, quando o funcionário lhe devolveu o cheque.

Lamento muito, madame declarou num tom frio. Este cheque não pode ser pago.

Desculpe? retorquiu, convencida de que havia indubitavelmente qualquer engano. Claro que pode. Tenho mais do que o necessário nessa conta para cobrir o cheque acrescentou com um sorriso e pedindo-lhe que voltasse a verificar.

Contudo, o funcionário devolveu-lhe o cheque, sem fazer qualquer verificação. Lera correctamente a nota de serviço. Não havia nenhum erro. Fora o próprio gerente que redigira a nota, e ele não fazia tenção de o enfrentar.

A sua conta foi cancelada limitou-se a declarar.

Mas isso é ridículo. Por quem?

Sentia-se aborrecida com o engano e dispunha-se a pedir para falar com o gerente, quando algo nos olhos do indivíduo a dissuadiu.

Pelo Terceiro Reich respondeu o funcionário num tom brusco, enquanto ela o fitava, abrindo a boca e voltando a fechá-la.

Beata meteu o cheque dentro da mala de mão, girou sobre os calcanhares e dirigiu-se à saída o mais depressa que conseguiu. Sabia perfeitamente o que aquilo significava: alguém a denunciara. Só conseguiu pensar em Mina, a antiga criada dos pais. Era a única que sabia. Ou talvez a tivessem ouvido chamar-lhe ”Miss Wittgenstem” e fossem verificar. De qualquer maneira, tinham-lhe cancelado a conta, obviamente porque alguém sabia que ela era judia. Nenhum outro motivo justificava o fecho de uma conta. Só Mina sabia, embora Beata não o tivesse admitido.

Saiu rapidamente do banco, acenou a um táxi e chegou a casa cinco minutos depois. Não tinha ideia do que devia fazer- se esperar ou partir imediatamente Mas se partissem, para onde iriam? Beata pensou nos Daubigny, mas não queria colocá-los em risco, apesar da simpatia de Gérard pelos judeus. Uma coisa era sentir pena, outra totalmente diferente era escondê-los. Contudo, talvez pudessem passar lá a noite e aconselharem-se com Gérard. Não tinha passaporte, por isso sabia que ela e Daphne jamais passariam a fronteira. Além disso, já não tinha dinheiro, além do que deixara com Gérard, o qual não queria usar, pois talvez as filhas viessem a precisar dele mais tarde.

Beata tentou controlar o pânico, enquanto pegava em duas malas, começando a encher uma delas com as suas jóias e algumas roupas. Depois, dirigiu-se ao quarto de Daphne. Estava a meter coisas na outra mala, quando a filha regressou das aulas. Mal deparou com o rosto da mãe, soube de imediato que algo de terrível se passava.

O que estás a fazer, mamã? perguntou, assustada. Daphne nunca vira a mãe naquele estado. Tinha o terror estampado no rosto. Beata sempre receara este dia e agora tinha chegado.

Vamos partir. Dá-me tudo o que quiseres levar e que caiba nesta mala respondeu, continuando a fazer as malas, com mãos trémulas.

Porquê? O que aconteceu? Mamã... Por favor... disse Daphne, começando a chorar sem saber porquê.

Beata virou-se e o seu olhar espelhou, de súbito, vinte e cinco anos de sofrimento.

Nasci judia explicou. Converti-me para casar com o teu pai. Guardei segredo durante todos estes anos. Não tinha essa intenção, mas quando começaram a perseguir os judeus, tornou-se necessário. Na semana passada, vi uma mulher no banco que me conheceu quando eu era jovem. Tratou-me pelo meu nome de solteira em pleno hall do banco. Quando hoje voltei lá, tinham cancelado a minha conta. Temos de partir imediatamente. Acho que vêm prender-nos...

Oh, mamã... Eles não podem fazer isso... exclamou Daphne com os olhos cheios de lágrimas e de terror.

Podem, sim. Despacha-te. Faz as malas. Quero partir esta tarde ordenou Beata desesperada, enquanto Daphne acusava o choque da notícia.

Para onde iremos? perguntou a jovem, enxugando os olhos e tentando mostrar-se corajosa.

Não sei. Ainda não pensei nisso. Talvez possamos passar uma noite em casa dos Daubigny, se eles nos deixarem. Mas depois teremos de encontrar outra solução.

Talvez passassem os próximos anos em fuga, mas era preferível a serem apanhadas.

E porque não o convento? Não podemos ir para lá?

inquiriu Daphne, de olhos muito abertos, enquanto pegava em coisas ao acaso e as metia na mala.

Nada disto fazia sentido. Era demasiado de uma vez só para uma jovem de dezasseis anos ou, aliás, para qualquer pessoa. Preparavam-se para abandonar a casa, sem dúvida para sempre, o único lar que Daphne conhecera. Vivia ali desde os dois anos.

Não quero pôr em risco Amadea nem as outras freiras

respondeu Beata.

Ela sabe? De ti, quero dizer.

Contei-lhe tudo depois da Noite de Cristal. A minha família acabava de ser deportada e achei que ela devia saber.

Porque é que não me contaste?

Pensei que eras demasiado jovem. Na altura, só tinhas treze anos

Nessa altura, bateram à porta. As duas entreolharam-se, aterrorizadas, depois Beata fitou a filha com uma força inesperada.

Amo-te Não te esqueças. Só isso interessa. Aconteça o que acontecer, temo-nos uma à outra.

Desejava dizer-lhe que se escondesse, mas não tinha a certeza de que fosse a atitude indicada. Voltaram a bater com força. Daphne não se mexia e chorava. Era o pior dia da sua vida.

Beata tentou recompor-se e dirigiu-se à entrada. Quando abriu, viu-se diante de dois soldados e de um oficial das SS. Era o que sempre havia temido. Agora, queria dizer à filha que se escondesse, mas era demasiado tarde. Aquela observava a cena da porta do quarto.

Estão sob prisão declarou o oficial num tom terrível. As duas acrescentou, indicando Daphne. Como judias. O vosso banco denunciou-as. Sigam-nos.

Beata tremia da cabeça aos pés e Daphne soltou um grito.

Não, Daphne! Tudo correrá bem. Virou-se para o oficial e perguntou:

Podemos levar alguma coisa connosco?

Podem levar uma mala cada uma. Vão ser deportadas.

Beata já fizera as malas. Foi buscar a dela e disse a Daphne que trouxesse a que haviam acabado de arrumar no quarto dela. Mas a jovem parecia totalmente em pânico. A mãe tomou-a nos braços e apertou-a com força de encontro ao peito.

Não temos escolha. Sê corajosa pediu. E recorda-te do que te disse. Amo-te. Temo-nos uma à outra.

Tenho tanto medo, mamã.

Basta! rugiu o oficial, ao mesmo tempo que mandava os dois soldados agarrá-las.

Instantes depois, Daphne e Beata saíram sob escolta, com as malas na mão, para um destino e uma sorte desconhecidos.

 

Dois dias mais tarde, o padre da paróquia de Beata foi ao convento falar com a madre superiora. Soubera a notícia pela criada de Beata, que fora ter com ele lavada em lágrimas. Ela tinha saído nessa altura, mas os vizinhos contaram-lhe tudo. O padre achou que Amadea devia ser informada de que a mãe e a irmã haviam sido levadas, embora desconhecesse o motivo. Antes da visita, fizera a sua investigação e, segundo as suas fontes, Beata e a filha tinham sido enviadas para a gare de triagem, no exterior da cidade. Por norma, as pessoas ficavam ali durante semanas, até mesmo meses, mas saíra um comboio de Colónia para o campo de mulheres de Ravensbríick e meteram-nas nele. Elas já tinham partido.

A madre superiora escutou o padre sem uma palavra e depois explicou-lhe a importância do silêncio dele. Contudo, sabia que, dentro de muito pouco tempo, outros ficariam ao corrente. Alguns paroquianos sabiam que Amadea estava no Carmelo há seis anos. Tinha plena consciência de que se tratava de uma situação muito grave e, depois de o padre se ter ido embora, abriu uma gaveta de onde tirou uma carta e fez uma chamada telefónica. Meses antes, Beata tinha-lhe enviado uma carta com um nome e um número de telefone, na eventualidade de lhe acontecer algo. Sem ceder a um pânico excessivo ou à histeria, Beata previra o pior. E agora o pior acontecera. Era difícil acreditar que haviam sido felizes durante tanto tempo. Ou tão infelizes agora.

Depois de ter desligado, a madre superiora baixou a cabeça em oração e mandou chamar Amadea que estava a trabalhar no jardim.

Sim, reverenda madre? inquiriu Amadea, com um ar surpreendido e sem ter tido tempo de se arranjar.

Sente-se, por favor, irmã Teresa convidou a madre superiora, respirando fundo e pedindo a Deus que a ajudasse a encontrar as palavras exactas. Como sabe, estamos todos a atravessar tempos difíceis. E Deus faz algumas escolhas que nem sempre compreendemos. Devemos simplesmente seguir o caminho que Ele nos mostra, sem questionar as Suas decisões.

Fiz algo de errado? retorquiu Amadea, fitando-a com um ar preocupado.

De forma alguma respondeu a religiosa, estendendo o braço para prender a mão da jovem entre as suas. Tenho muito más notícias para si. Alguém denunciou a sua mãe. Ela e a sua irmã foram presas há dois dias e enviadas ontem para Ravensbrúck. É tudo o que sei. Estavam bem da última vez que foram vistas.

Contudo, ambas sabiam que essa situação não duraria muito. Ravensbrúck era um campo onde faziam trabalhar as mulheres até caírem mortas como moscas. Ninguém voltava de lá. Amadea mal conseguia respirar, ao ouvir a notícia. Abriu a boca, mas foi incapaz de falar.

Lamento. Lamento muito disse a madre. Porém, agora, temos de decidir o que fazer consigo. Quem quer que tenha denunciado a sua mãe, conhece a sua existência. E, mesmo que não seja o caso, alguém se recordará de si. Não quero que corra esse risco aqui.

Amadea assentiu com a cabeça e pensou imediatamente nas outras religiosas. Mas naquele momento pensava sobretudo na mãe e na irmã, no horror por que deviam ter passado e em como estariam assustadas. Daphne tinha apenas dezasseis anos.

As lágrimas corriam-lhe em silêncio pelas faces, enquanto agarrava as mãos da madre superiora. Esta levantou-se, deu a volta à secretária e tomou-a nos braços. Amadea rompeu em soluços. Não conseguia imaginar uma coisa daquelas. Era por demais horrível.

Neste momento, elas estão nas mãos de Deus sussurrou a mulher mais velha. Só nos resta rezar por elas.

Não voltarei a vê-las. Oh, madre... Não consigo suportar... soluçou Amadea.

Muitos sobrevivem.

Contudo, ambas sabiam que a maior parte não sobrevivia. E não havia nenhuma forma de saber se Beata e Daphne conseguiriam escapar. Daphne era tão bonita! Só Deus sabia o que podiam fazer-lhe.

De momento, a madre superiora pensava em Amadea. Era responsável por ela. Enviá-la para o mesmo convento holandês onde estava a irmã Teresa Benedita era impossível. A Holanda estava ocupada, e a presença desta última no convento já colocava as freiras em grande risco. Estava fora de questão um risco suplementar. Além disso, Amadea nunca conseguiria passar a fronteira. A irmã Teresa Benedita partira para a Holanda antes da guerra, mas a situação já não era a mesma. Não havia qualquer maneira de fazer sair Amadea do país. Fora esse o motivo que a levara a telefonar Não lhe restava outra escolha. O homem concordara em aparecer de imediato.

Vou fazer-lhe um pedido muito difícil retomou a madre superiora num tom triste. É para o seu bem e para o nosso. Não tenho outra escolha.

Amadea ainda se encontrava demasiado acabrunhada pelo que acabara de ouvir sobre a mãe e a irmã para poder aguentar mais. Contudo, assentiu com a cabeça e virou os olhos tristes na direcção da religiosa mais velha.

Vou pedir-lhe que nos deixe explicou esta. Temporariamente. Se ficar aqui, poderá colocar todo o convento em risco. Quando tudo estiver acabado, quando a vida regressar ao normal, voltará. Sei que sim. Nunca duvidei um único segundo da sua vocação. É por esse motivo que lhe peço que parta, porque, mesmo lá fora, onde quer que esteja, será sempre uma das nossas. Nada mudará.

Amadea já renovara quatro vezes os seus votos temporários e deveria voltar a fazê-lo dali a dois meses. Dentro de dois anos pronunciaria os votos perpétuos. Porém, o destino pregava-lhe mais um golpe. Perdera a mãe e a irmã, talvez para sempre, e via-se afastada do convento. Mas, para lá de toda a dor, sabia que era esta a melhor solução. Era um sacrifício que podia fazer pelas suas companheiras e, como afirmava a madre superiora, não lhe restava outra escolha. Aquiesceu com um aceno de cabeça.

- Para onde irei? perguntou Amadea num fio de voz. Há seis anos que não saía do convento e não tinha nenhum sítio para onde ir.

Há uns meses, a sua mãe mandou-me uma carta com o nome de um amigo. Telefonei-lhe há minutos. Disse-me que virá imediatamente.

Tão depressa?

Amadea não precisou de perguntar para saber de quem se tratava. Era o único amigo da mãe: Gérard Daubigny. Ela também lhe dissera que o contactasse se acontecesse qualquer coisa. Especificara mesmo que Gérard tinha dinheiro para ela. Contudo, também não queria pô-los em risco. Amadea era uma ameaça para todos.

Posso despedir-me das outras?

Após um momento de hesitação, a madre superiora assentiu com a cabeça. Impedi-la teria sido demasiado cruel, para ela e para a comunidade. Tocou, então, o sino. Tal significava que algo de importante acontecera e que todas deviam reunir-se no refeitório. Quando Amadea e a madre entraram, estavam presentes todas as freiras com quem a jovem trabalhara e vivera durante tanto tempo e que tinha amado. As mais novas e as mais velhas, até mesmo as que se encontravam em cadeiras de rodas. A perspectiva de deixá-las parecia insuportável.

No entanto, a madre superiora tinha razão. Não lhe restava outra escolha. Fosse qual fosse o lugar ou o convento em que se refugiasse, representava um perigo para as outras. Amava-as demasiado para lhes infligir isto. Tinha de partir. E, como a madre superiora dissera, sabia que um dia voltaria. O Carmelo era a sua vida e o seu lar. Estava certa de que nascera para tornar-se carmelita e para servir a Deus.

A madre Teresa Maria Mater Domini não deu qualquer explicação às religiosas. O simples facto de conhecerem as circunstâncias da partida de Amadea teria constituído um perigo. Se a polícia aparecesse, elas nada sabiam. Além de que o afastamento de Amadea ilibava o convento e, se alguém devesse pagar, seria ela, a madre superiora, e mais ninguém.

Amadea circulou pelas fileiras, beijou todas e murmurou ”Deus a abençoe, irmã”. Não lhes disse mais nada, mas todas sabiam que ela ia partir, como o haviam sabido no caso da irmã Teresa Benedita, há três anos.

Levou meia hora a despedir-se e, no momento da partida, não voltou à cela para ir buscar as suas coisas. Viera para o Carmelo sem nada e partia da mesma forma. Chegara a hora de regressar a um mundo que já não compreendia e há muito não via. Um mundo onde a mãe e a irmã já não viviam, um mundo onde ela já não tinha casa, nem bens, nem elos. Só lhe restava o amigo do pai. Aguardava no escritório da madre superiora quando Gérard chegou, com uma expressão grave, e a abraçou.

Lamento muito, Amadea murmurou.

Gérard tinha dificuldade em acreditar que Beata e Daphne haviam sido presas. Dado o que ouvira dizer sobre os campos, eram poucas as hipóteses de que sobrevivessem, mas não lhe disse nada.

O que vai ser de mim? retorquiu a jovem, enquanto ele a fitava.

Gérard esquecera o quanto ela era bonita, e ainda o era mais neste momento. Apesar da tristeza, o olhar emanava algo de luminoso e intenso. Parecia iluminada por dentro, e ele compreendeu a profundidade e a força da sua fé. Para ela, abandonar o convento era uma tragédia e uma grande perda, juntamente com todas as outras que aguentara. Não fazia ideia de como se adaptaria de novo ao mundo, após tantos anos. A madre superiora partilhava a mesma inquietação. Amadea parecia em estado de choque.

Falaremos disso esta noite respondeu Gérard num tom calmo.

Tinham-lhe aberto os portões do convento e estacionara o carro no recinto do Carmelo. Para que ninguém a visse partir, quis que Amadea se deitasse no chão do carro, tapada com um cobertor. Assim, ninguém desconfiaria de que se afastava do convento com uma das freiras. E, se a polícia viesse procurá-la, a madre superiora podia responder que ela se fora embora. Não lhes devia mais nenhuma explicação, nem a daria. A partir de então, nem ela saberia onde Amadea estava. Enquanto aguardava o seu regresso, a comunidade rezaria por ela.

Agora, tem de vestir-se recordou a madre superiora.

Amadea desapareceu no vestiário num abrir e fechar de olhos. Ao despir o hábito, sentiu como se estivesse a despojar-se da pele. Sozinha na divisão, fitou-o demoradamente, dobrado com cuidado em cima da mesa. Tinham-lhe deixado um casaco, sapatos, um vestido, um pequeno e horrível chapéu e roupa interior.

Nada lhe servia, mas pouco lhe interessava. A mãe e Daphne tinham desaparecido onde quer que estivessem, encontravam-se agora nas mãos do Senhor e ela estava prestes a deixar o local onde procurara refúgio há seis anos, o lugar onde tinha vivido, trabalhado e crescido.

Assemelhava-se a deixar o ventre materno. Abotoou o vestido que era demasiado curto para ela e calçou os sapatos, demasiado apertados. Depois de ter usado sandálias durante seis anos, ter sapatos nos pés parecia-lhe estranho. Ficou surpreendida ao constatar como estava magra; não tivera consciência disso com o hábito vestido. Sentia-se um monstro naqueles preparos, depois da beleza simples do hábito. Ansiava por voltar a vesti-lo e interrogou-se sobre quanto tempo teria de ficar longe da comunidade. Apenas podia rezar para que fosse pouco. Não tinha o mínimo desejo de regressar ao mundo. Na verdade, faria tudo para o evitar.

Gérard esperava-a no pátio, junto ao carro, impaciente por voltar ao castelo. Veronique aprovara a sua decisão de levar Amadea para casa deles; era algo que deviam a velhos amigos como Antoine e Beata, mesmo que tal ultrapassasse os limites da amizade. Estava em jogo bem mais do que isso. Tratava-se do que era justo, e há muito que poucas coisas o eram.

As freiras haviam-regressado ao trabalho e Gérard conversava tranquilamente com a madre superiora. Ninguém viu Amadea deslizar para o banco traseiro do carro e deitar-se no chão, enquanto Gérard a tapava com uma manta de cavalo que cheirava a estábulos uma recordação agradável para ela. Antes de se esconder, fitou a madre superiora uma última vez.

Deus a abençoe, minha querida disse esta. Não se preocupe. Em breve regressará. Estaremos à sua espera

Deus a abençoe, madre... Amo-a...

Também eu murmurou esta última, no momento em que Gérard a tapava com a manta.

Ele agradeceu à religiosa e, depois, saiu devagar do pátio do convento. Seguiu sem parar até ao castelo, olhando frequentemente pelo retrovisor. Conduzia a uma velocidade normal, como se nada fizesse de especial. As freiras tinham-lhe dado um cesto cheio de fruta e legumes, a fim de justificar a sua visita ao convento, mas ninguém o seguiu. As autoridades não iam certamente dar-se ao trabalho de procurar uma jovem noviça e, mesmo que a polícia aparecesse para fazer perguntas, não se interessaria muito por ela, pois não representava qualquer perigo.

Beata e Daphne também não representavam, só que uma vez denunciadas, a Gestapo via-se obrigada a actuar. No caso de Beata, havia uma casa e dinheiro a confiscar, mas Amadea não possuía nada à excepção da roupa que usava no corpo e do rosário que a madre superiora lhe dera no momento da partida.

Ao chegar ao castelo, Gérard atravessou o pátio do castelo e estacionou nas traseiras. Era a hora do almoço e não se via ninguém. Toda a gente estava a comer ou ocupada, quando acompanhou Amadea ao seu quarto, onde Véronique os esperava. Ao reverem-se, as duas mulheres caíram nos braços uma da outra, chorando por todos os que haviam perdido e por todo o horror que acontecera.

Gérard fechou silenciosamente a porta atrás das costas. Já prevenira o pessoal de que a mulher estava com uma enxaqueca e não deviam incomodá-la. Os três tinham muito que falar e soluções a encontrar.

Contudo, de momento, Amadea precisava recompor-se dos choques que havia sofrido nessa manhã. Perdera tudo. A mãe. A irmã. E o convento. Perdera a única existência que conhecia há seis anos, bem como todas as pessoas e referências de infância. Chorou, com o coração despedaçado, nos braços de Véronique Daubigny.

 

Gérard, Véronique e Amadea conversaram pela noite dentro. Esperaram até o pessoal doméstico ter recolhido aos quartos e desceram à cozinha, onde Véronique preparou um jantar a Amadea. Ela mal conseguiu tocar na comida. Há seis anos que não comia carne, assim invadiu-a um total desespero diante dos ovos com salsichas que Véronique lhe serviu. Além disso, sentia-se despida sem o hábito. Continuava a usar as roupas que lhe haviam dado no convento. Contudo, esse era o menor dos seus problemas.

Gérard reflectira toda a noite na situação dela. Estava plenamente de acordo com Véronique em que, embora não pudessem dar-lhe abrigo indefinidamente, desejavam ocultá-la o máximo de tempo possível. Numa das torres havia uma casa de arrumações com uma pequena janela e uma casa de banho minúscula. Gérard estava convencido de que ninguém a procuraria ali. Amadea poderia descer à noite até aos aposentos deles, a fim de desentorpecer as pernas e apanhar ar.

Mas o que vos acontecerá, se me encontrarem?

Ninguém te encontrará limitou-se a responder Gérard.

De momento, não tinham um plano melhor, e ela sentia-se agradecida pela ajuda.

Nessa noite, Amadea tomou banho na casa de banho de Véronique e ficou sobressaltada ao contemplar a sua imagem. Há seis anos que não se olhava ao espelho, por isso ficou surpreendida ao constatar até que ponto se transformara: tornara-se uma mulher Os cabelos louros estavam curtos. Ela própria os cortava todos os meses, sem olhar o que se via, mas pouco lhe interessava. Na sua opinião, a aparência face ao mundo exterior não tinha qualquer importância. Sabia, de alma e coração, que pertencia ao convento. Partir para as proteger, era a dádiva que oferecia às freiras, e um pequeno preço a pagar em troca da segurança delas, o qual lhe parecia mínimo, comparado com o que os Daubigny estavam a fazer por ela.

Véronique procurara no armário alguma roupa com que vestir Amadea e encontrara uma saia azul comprida, uma blusa branca e um pullover. Como eram quase da mesma altura, arranjou-lhe igualmente alguma roupa interior e umas sandálias vermelhas. Amadea sentiu-se culpada por usar aquela roupa que lhe parecia tão bonita, mas lembrou-se que devia obedecer à madre superiora: viver no exterior, à espera de poder voltar, sem pôr em risco a vida das companheiras. Tinha, porém, um peso no coração quando subiu à torre na companhia de Gérard. Este retirara um colchão de uma outra divisão e pusera-o no chão, com uma almofada e uma pilha de cobertores.

Até amanhã despediu-se ele num tom suave, fechando a porta à chave atrás de si.

Véronique e Gérard estavam a ser muito bons para ela, pensou, estendendo-se no colchão. Ficou acordada durante toda a noite, a rezar pela mãe e pela irmã. Passou o dia seguinte a rezar, como o faria no convento. Gérard foi vê-la uma vez, para lhe levar comida e água. À noite, abriu a porta para a levar ao quarto deles, onde ela voltou a tomar um banho. Véronique preparara-lhe de novo o jantar.

Foi este o ritual durante todo o Verão. Em Setembro, os cabelos de Amadea chegavam-lhe aos ombros. Voltara a parecer a adolescente que entrara para o convento, mas um pouco mais madura. Continuava sem ter notícias da mãe ou de Daphne. Sabia que os deportados conseguiam, por vezes, enviar uma mensagem às famílias e aos mais próximos para os tranquilizar, mas nenhuma delas lhe mandara o que quer que fosse. Gérard perguntara no convento, mas não chegara qualquer correspondência para Amadea. Por sorte, não havia sido procurada pela polícia. Desaparecera, pura e simplesmente, e todos a haviam esquecido.

Nesse Verão, os nazis tinham invadido a Rússia. Massacres de judeus haviam ocorrido nos países ocupados e novos campos de concentração estavam a ser construídos e abertos. Durante uma das suas longas conversas nocturnas, Gérard informou Amadea de que todos os judeus da Alemanha haviam recebido ordem para usar braçadeiras com uma estrela amarela e que, em Setembro, ocorrera uma deportação em massa para os campos de concentração.

Há cinco meses que os Daubigny ocultavam Amadea, mas a vida no castelo seguia o seu curso normal. Gérard e Véronique não viam qualquer motivo para não continuar a escondê-la, embora os três soubessem que, se fossem apanhados, seriam fuzilados ou deportados. Quando Amadea lhes propôs ir-se embora, insistiram para que ficasse. Era um risco que optavam correr por ela e em memória dos seus pais.

Amadea sabia que devia haver mais judeus escondidos noutros lugares e declarou que, se fosse preciso, os encontraria. Ambos insistiram em que tal se encontrava fora de questão À falta de outra solução, ela concordou em ficar com eles, pois não tinha nenhum lugar para onde ir.

Passaram-se vários meses. Amadea ficou chocada, quando, uma noite, Gérard lhe abriu a porta e a pôs ao corrente do ataque a Pearl Harbour. Os EUA declararam guerra ao Japão e, quatro dias depois, a Hitler, como resposta à sua própria declaração de guerra. Nessa altura, há oito meses que Amadea não saía do castelo e era-lhe difícil acreditar que o Natal estava à porta. Nesse ano, nada tinha a festejar, à excepção da generosidade dos Daubigny por a deixarem ficar na casa deles.

Dois dias antes do Natal, Gérard parecia muito perturbado quando veio abrir-lhe a porta e Amadea compreendeu que algo se passara. Ouvira barulho lá fora durante todo o dia e também a agitação dos cavalos. Ele informou-a de que a Gestapo confiscara os estábulos e a maioria dos cavalos e que receava viessem a fazer o mesmo com o castelo. O Kommandant avisara que efectuaria uma visita completa ao local depois do Natal.

De momento estavam demasiado ocupados. Contudo, os três concordaram que Amadea deixara de estar em segurança no castelo, sendo necessário encontrar-lhe outro refúgio, antes que os alemães começassem a revistar todos os cantos. Gérard informara-se discretamente e ouvira falar de uma herdade próxima, onde havia judeus escondidos, num túnel. Contudo, levar Amadea para lá não seria tarefa fácil. Até então haviam tido muita sorte, mas, com o exército alemão à perna, ela encontrava-se de novo em grande risco.

Vocês foram tão bons para mim disse-lhes na véspera de Natal, enquanto comiam peru na cozinha.

Todos os pensamentos de Amadea estavam, porém, centrados na mãe e na irmã e interrogava-se sobre se ainda estariam vivas. Não recebera qualquer mensagem delas desde que haviam sido levadas para Ravensbriick, em Abril. Por vezes, ao chegarem aos campos, os deportados tinham permissão de enviarem um postal, e Beata, se pudesse, teria escrito aos Daubigny para que lhe transmitissem a mensagem, mas nada chegara.

No dia seguinte ao Natal, antes do alvorecer, Gérard abriu a porta, com uma expressão sombria. Na véspera, o Kommandant anunciara-lhe que fariam uma inspecção completa ao local nessa mesma manhã. Gérard estava convencido de que ele não suspeitava de nada, mas, de manhã, todas as portas, desde as caves ao alto das torres, estariam abertas. A Gestapo já confiscara uma dúzia de caixas de vinho e dois barris de aguardente.

Gérard conseguira as informações de que Amadea precisava. Sabia onde ficava a herdade e o túnel e disse-lhe que estariam à espera dela. Estendeu-lhe um pequeno mapa e explicou-lhe o caminho.

Como vou encontrá-los? inquiriu com uma expressão preocupada, de novo consciente da sorte que a protegera aqui, desde Abril.

Agora, teria de arriscar. A herdade situava-se a cerca de vinte e cinco quilómetros, mas tinha de atravessar o campo. Se fosse bem-sucedida, ocultá-la-iam. Porém, primeiro, precisaria de escapar aos soldados que guardavam os estábulos. Gérard declarou que era demasiado perigoso levá-la de carro.

Chamaria a atenção para a herdade se a conduzisse até lá, o que era preciso evitar a qualquer custo.

Deixei-te um cavalo no barracão disse ele num tom calmo. Dirige-te para norte. Tens as indicações no mapa. Esperam-te. Quando lá chegares, poderás soltar o cavalo.

Gérard queria que ela partisse antes do nascer do Sol. Ficaram os três a discutir na penumbra, em voz baixa, no quarto de Véronique e Gérard, para evitar que os soldados vissem as luzes acesas. Meia hora mais tarde, acompanharam Amadea à porta e abraçaram-na uma última vez. Véronique aconchegara-a de encontro ao peito e beijara-a como a uma filha.

Obrigada agradeceu Amadea, correspondendo ao abraço.

Vai o mais rapidamente que puderes pediu Gérard, abraçando-a também. O cavalo que te deixei é seguro.

Era também um dos mais rápidos que tinha. Depois, os Daubigny abriram a porta e Amadea saiu para o escuro. Há oito meses que não saía do castelo e teve de enfrentar o frio e o ar gélido que lhe cortou a respiração. Dirigiu-se a passo rápido para o barracão, abriu a porta e acariciou o cavalo, ao mesmo tempo que ajustava a sela, com o mapa dentro do bolso.

Conduziu o cavalo até cá fora. As narinas do animal fumegavam ante o ar frio. Não havia qualquer sentinela de guarda e Gérard dissera-lhe que todos os soldados estavam a dormir. Não receava nada, quando deixou o castelo. Bastava-lhe percorrer os vinte e cinco quilómetros que a separavam da herdade, antes do nascer do Sol. Subiu facilmente para a sela, recordando-se do tempo em que montava com o pai. Como nessa altura, partiu a galope. Embora desse uma grande volta ao castelo, os cavalos pressentiram-na e ouviu-os mexerem-se nos estábulos; por sorte, nenhum dos homens pareceu dar pela sua presença. Foi uma fuga fácil e sentiu prazer em galopar, tirando partido do seu primeiro contacto com a liberdade.

Meia hora mais tarde, consultou o mapa. Conseguiu lê-lo facilmente ao luar e detectou o primeiro ponto de referência. A herdade encontrava-se agora a poucos quilómetros. O céu denotava um cinzento-pálido, mas sabia que ainda teria tempo de chegar antes do romper do dia.

Faltava-lhe apenas um quilómetro quando avistou subitamente luzes, à esquerda. Apercebeu-se que era um carro dissimulado no meio dos arbustos e ouviu um tiro. Por momentos, hesitou entre continuar ou dar meia volta, mas depois, sem reflectir, esporeou o cavalo e lançou-se na direcção da herdade, perseguida pelo carro. Estava quase a chegar, quando se apercebeu da consequência do seu gesto. Dispunha-se a conduzir a Gestapo directamente à herdade e não tinha hipótese de despistá-la. De repente, um camião surgiu diante dela, ao mesmo tempo que o carro que a perseguia, a bloqueava por trás. Tinham-na apanhado.

Alto! rugiram dois homens, enquanto o cavalo batia com os cascos no chão sob o ar frio da noite e lançava vapor pelas narinas. Quem está aí?

Amadea manteve-se silenciosa, direita na sela, ao mesmo tempo que o cavalo continuava a manifestar sinais de nervosismo.

Os homens iluminaram-na com uma luz forte e ficaram surpreendidos ao verificar que se tratava de uma mulher. Ela cavalgara como um homem, galopando a toda a brida num terreno acidentado. Um dos homens aproximou-se. Sentiu vontade de fugir. Todavia, disparariam certamente contra o cavalo, ou contra ela. Compreendeu, então, que nunca chegaria à herdade e que Gérard seria informado de manhã. O pior de tudo residia em que, pelo ferro do cavalo, saberiam que ele provinha das estrebarias Daubigny. Acontecesse o que acontecesse não queria de forma alguma implicar Gérard e Véronique.

Documentos! gritou-lhe o soldado, estendendo uma das mãos, enquanto lhe apontava a arma com a outra. Documentos!

Não tenho.

Não precisara deles no convento, e não os obtivera depois de se vir embora. Vivera afastada do mundo durante seis anos.

Quem é você?

Pensou inventar um nome, mas de que lhe serviria? Mais valia dizer a verdade.

Amadea de Vallerand respondeu num tom claro

A quem pertence esse cavalo? inquiriram os soldados, continuando a apontar-lhe as armas, na eventualidade de ela tentar fugir.

O cavalo era fogoso, além de nervoso, e os homens tinham-se apercebido de que era uma excelente cavaleira. Mesmo depois de tantos anos, não tivera qualquer problema em dominar um dos melhores cavalos de Gérard. O seu pai fora um bom professor.

Roubei-o respondeu, destemida, mas tremendo ante a ideia do que podiam fazer-lhe. O meu pai trabalhava nos estábulos Daubigny. Roubei-o.

Sabia que lhe cabia proteger Gérard e Véronique a qualquer preço. Os soldados não podiam, de forma alguma, saber que os Daubigny lho tinham dado

Para onde vai?

Visitar amigos.

Era óbvio que eles não acreditavam numa palavra da sua história e não havia nenhum motivo para tal. Apenas rezava para que não descobrissem o mapa da herdade, mas não esboçou qualquer movimento para o tirar do bolso.

Desmonte ordenaram os soldados.

Amadea saltou lestamente para o chão; um dos soldados tirou-lhe as rédeas e segurou no cavalo, enquanto o outro lhe apontava a arma. De pé, diante dele, interrogou-se sobre se iria matá-la e ficou surpreendida com a própria calma. Não tinha nada a perder, à excepção da vida e essa pertencia ao Senhor. Se Ele quisesse chamá-la, assim faria.

Os dois soldados empurraram-na bruscamente para as traseiras do carro e, enquanto o veículo se afastava, Amadea viu que um soldado montava o cavalo de Gérard e se afastava, tomando a direcção dos estábulos.

Quantos cavalos roubou? inquiriu o soldado que conduzia. Um outro aparecera e seguia ao lado dele.

Apenas este limitou-se a responder.

Amadea não tinha ar de uma ladra de cavalos, mas todos os homens haviam notado que ela era uma cavaleira excepcional e uma bela e jovem mulher.

Conduziram-na para uma casa nas proximidades e deixaram-na sozinha numa pequena divisão. Ela aproveitou o momento para rasgar o mapa e esconder os pequenos pedaços pelos cantos e debaixo do tapete. Os soldados regressaram duas horas mais tarde, depois de pedirem informações para Colónia. Tinham o dossiê dela, mas, mais importante, o da mãe, agora trazido às claras desde o incidente do banco.

A tua mãe era judia cuspiram-lhe em pleno rosto. Ela e a tua irmã foram presas em Abril.

Amadea assentiu com a cabeça. Tinha a pose e a graciosidade de uma mulher que se sabe protegida. Mantinha-se de pé, fitando-os e imaginando que tinha o hábito vestido. Emanava algo de sublime que os próprios soldados sentiram.

Nessa tarde, levaram-na de volta a Colónia e conduziram-na directamente ao armazém onde os judeus aguardavam para serem deportados. Nunca vira nem imaginara algo do género. Centenas de pessoas comprimiam-se umas contra as outras como animais. Algumas choravam, gritavam, empurradas contra as paredes e entre si. Várias haviam desmaiado, mas não havia sítio para onde as levar e deixavam-nas ficar onde estavam.

Os soldados empurraram-na para o meio da multidão; continuava com as velhas botas de montar de Véronique e as roupas que enfiara de manhã. Interrogou-se sobre se estaria a viver o mesmo do que a mãe e Daphne, quando as tinham prendido e levado para a estação de triagem e, em seguida, metido no comboio para Ravensbriick.

Amadea limitou-se a ficar ali de pé, rezando e interrogando-se sobre para onde a levariam. Ninguém lhe dissera uma palavra e, ao entrar no armazém, tornara-se um corpo entre outros, mais uma judia para ser deportada.

Conservaram-na no armazém durante dois dias, no meio do frio glacial e do fedor dos corpos. O lugar cheirava a vomitado, urina, suor e excrementos. Só lhe restava rezar. Por fim, obrigaram-nos a subir para um comboio, sem lhes indicarem o destino. Deixara de interessar. Eles eram meros corpos. Enquanto os soldados os empurravam para o interior, as pessoas inundavam-nos de perguntas. Amadea mantinha-se calada e rezava. Tentou ajudar uma mulher, que segurava um bebé ao colo, e um homem, tão doente, que parecia moribundo. Ao olhá-los, compreendeu o motivo da sua presença ali. Independentemente do destino que o Senhor lhe reservava, havia sido enviada até ali para partilhar o destas pessoas e talvez ajudá-las, nem que fosse apenas pela oração.

Lembrou-se das palavras da madre superiora no dia em que ela chegara ao convento: quando pronunciasse os votos perpétuos, tornar-se-ia esposa do Cristo crucificado. Estava ali, agora, para partilhar a Sua crucificação e a deles. Quando o comboio saiu, finalmente, da estação, após dois dias, ela estava morta de fome e de cansaço, mas na sua cabeça ressoava o eco da voz da mãe e da madre superiora a dizerem-lhe que a amavam.

O homem que ia ao seu lado morreu ao terceiro dia, seguido do bebé da mulher. O comboio transbordava de crianças, de velhos, de homens e de mulheres, de mortos no meio dos vivos. E, de vez em quando, paravam, abriam as portas, e empurravam mais pessoas para o interior. Em seguida, o comboio retomava a sua marcha lenta através da Alemanha, rumo ao Leste. Amadea ignorava para onde iam e tão-pouco lhe interessava. Ninguém conhecia qual era o destino e isso deixara de ser importante. Tinham-nos despojado da sua humanidade, os homens e as mulheres que haviam sido já não existiam. Iam no comboio para o inferno.

 

A 3 de Janeiro de 1942, cinco dias após terem partido de Colónia, o comboio parou a uns sessenta quilómetros a norte de Praga, na Checoslováquia. Amadea não fazia ideia de quantos se encontravam a bordo com ela, mas, quando as portas se abriram, as pessoas caíram literalmente no chão, incapazes de caminharem. Ela conseguira encontrar um pequeno espaço, onde, por vezes, se agachava, mas teve dificuldade em dobrar os joelhos, ao descer do vagão.

Olhou uma única vez para trás e avistou os corpos inertes de velhos e de crianças que haviam ficado no comboio. Recordou-se de que uma das mulheres, que ia ao seu lado, conservara o bebé morto nos braços durante dois dias. Alguns dos mais velhos ficavam para trás, enquanto os guardas lhes gritavam que avançassem.

Amadea notou que as tabuletas mais próximas estavam escritas em checo, a única indicação do local onde se encontravam. A viagem fora interminável. Algumas pessoas continuavam agarradas às malas, enquanto formavam longas filas em obediência às ordens dos soldados. Quando não as executavam com a rapidez exigida, eles empurravam-nas brutalmente com as armas. Ao ver agora, atrás de si, as filas que pareciam estender-se ao longo de quilómetros, Amadea tomou consciência de que deveria haver vários milhares de pessoas no comboio.

A jovem encontrava-se ao lado de duas mulheres e de um homem novo. Fitaram-se sem uma palavra e, quando começaram a andar, Amadea começou a rezar, pensando na mãe e na irmã que haviam vivido tudo isto. Se tinham aguentado, também ela o conseguiria. Pensou no Cristo crucificado e nas irmãs no convento, afastando o pensamento do que ia acontecer-lhe e aos que a rodeavam. De momento, ainda estavam vivos. O seu destino, fosse ele qual fosse, só ficaria selado quando chegassem ao que os esperava. Rezou em silêncio, como o fazia há dias, por Gérard e Véronique, esperando que não tivessem sofrido represálias. Não existiam provas de que a tinham escondido e esperava que tudo lhes corresse pelo melhor. Contudo, parecia-lhe estarem a uma distância de anos-luz.

Dá-me isso! gritou um soldado, atrás dela. Queria arrancar a um homem um relógio em ouro que escapara à busca em Colónia. Amadea e o homem ao seu lado entreolharam-se, depois desviaram a vista.

Caminharam durante uma hora. Amadea continuava com as botas de montar de Véronique e sentiu-se feliz por estar bem calçada. Algumas mulheres haviam perdido os sapatos no comboio e eram obrigadas a caminhar sobre a terra gelada, com os pés em carne viva, chorando de dor.

Dá-te por feliz! gritou um soldado, num tom de desprezo, a uma mulher de idade que deixou de conseguir andar ao fim de dez minutos. Vais para uma cidade modelo É mais do que mereces!

Ao ver que ela tropeçava, os dois homens que ladeavam Amadea agarraram-na cada um deles pelo braço. Ela agradeceu-lhes e, durante os dois quilómetros seguintes, Amadea rezou pela mulher e por todos, inclusive por si.

Chegaram quase uma hora depois a uma antiga fortaleza que fora construída pelos austríacos há duzentos anos. Uma tabuleta de letras deslavadas indicava TEREZIN em checo, mas numa outra, por baixo, lia-se THERESIENSTADT, em alemão. Franquearam as portas da cidade murada e receberam ordem para se colocarem em fila para a ”selecção”.

As pessoas à volta deles pareciam deslocar-se livremente pelas estreitas ruas calcetadas da cidade, que mais parecia um gueto do que uma prisão. Havia filas intermináveis de pessoas com tigelas em ferro e utensílios de cozinha nas mãos. Atrás deles encontrava-se um prédio com a indicação de CAFÉ, o que a jovem achou muito estranho. Havia edifícios em construção por todo o lado, homens que martelavam, serravam e construíam.

Amadea apercebeu-se logo de que as pessoas não usavam fardas de presos, mas a sua própria roupa. Theresienstadt era uma espécie de campo-modelo de prisioneiros, onde se deixava que os judeus vivessem e se desembaraçassem. Havia duzentas casas de um andar e catorze barracas enormes em pedra, construídas inicialmente para acolher três mil pessoas. Contudo, havia mais de setenta mil judeus a viverem lá. Na sua maioria, pareciam famintos, esgotados e sem roupas suficientemente quentes para os proteger do frio. E para os que causavam problemas, havia uma pequena fortaleza, a menos de um quilómetro, que era considerada uma prisão.

Amadea esperou sete horas antes de ser ”seleccionada” e, durante todo esse tempo, apenas tivera direito a uma tigela de flocos de aveia. Há cinco dias que não comia. No comboio, tinham distribuído pão e água, mas ela dera o pão às crianças e, como a água punha toda a gente doente, também não lhe tocara. De qualquer maneira, tivera disenteria.

As pessoas que via a caminhar pelas ruas de Theresienstadt formavam uma mistura curiosa. Várias, como soube mais tarde, tratavam-se de idosos a quem se dissera que Theresienstadt era uma aldeia para reformados judeus e a quem haviam mostrado catálogos para que viessem como voluntários. Mas havia também jovens olheirentos que faziam parte das equipas que construíam as casas. Via-se um número considerável de crianças. Theresienstadt mais parecia um gueto do que um campo de trabalho; o seu aspecto de cidade fortificada conferia-lhe a atmosfera de uma aldeia. Todavia, à excepção dos soldados e dos guardas, os habitantes pareciam extremamente fatigados. Todos tinham um olhar vazio e os rostos cansados de pessoas que haviam sido maltratadas depois e mesmo antes de chegarem aqui.

Quando, por fim, chegou a sua vez, Amadea foi enviada para uma das barracas com uma dúzia de outras mulheres. Havia números por cima das portas e homens e mulheres no interior. Ela foi parar a uma área que fora, de início, construída para acolher cinquenta soldados, abrigando agora quinhentas pessoas. Não havia privacidade, nem espaço, calor, comida ou roupas quentes.

Os próprios prisioneiros haviam construído beliches de três andares, suficientemente próximos para que bastasse estender um braço para tocar no vizinho. Os casais, que tinham tido a sorte de não serem separados, partilhavam a mesma cama. As crianças encontravam-se num outro edifício, sob o controlo de guardas e de outros prisioneiros E, no último andar, onde a maioria das janelas não tinha vidros, encontravam-se os doentes. Uma mulher sussurrou a Amadea que morriam diariamente de doença e de frio. Os velhos e os doentes formavam fila, como toda a gente, durante seis horas, a fim de conseguirem a sua ração diária, que consistia de uma sopa aquosa e batatas podres. E havia uma casa de banho para mil pessoas.

Amadea não pronunciara uma palavra quando lhe tinham indicado a sua cama. Era jovem e robusta e tinham-lhe destinado a de cima. As pessoas mais idosas e mais fracas haviam recebido as de baixo. Tinham-lhe tirado as botas e usava, agora, tamancos de madeira que lhe deram juntamente com os documentos de identidade do campo. Também lhe haviam ordenado que tirasse o casaco de cabedal, vincando que não precisava dele, apesar do frio glacial.

O acolhimento resumia-se a terror, privação e humilhação. Amadea repetiu, mais uma vez, intimamente, que era noiva do Cristo crucificado, devendo existir, decerto, uma razão para a sua presença aqui. Por outro lado, duvidava que a mãe e a irmã pudessem ter aguentado uma existência destas e sobrevivido. Forçava-se a não pensar no assunto, enquanto olhava as pessoas à sua volta. Era noite e todos haviam regressado do trabalho, embora ainda se vissem muitos na fila, à espera do jantar. As cozinhas funcionavam a tempo inteiro, contudo, parecia não haver comida bastante para alimentar todos.

Chegaste no comboio de Colónia? perguntou-lhe uma mulher magra, com uma tosse persistente e um número tatuado no braço. Tinha o rosto e os cabelos sujos, as unhas partidas. Usava apenas um vestido de algodão e tamancos e estava roxa de frio os barracões eram gelados.

Sim respondeu Amadea, esforçando-se por se sentir uma carmelita e não uma mulher. Tratava-se da única forma de se aguentar e proteger-se.

A mulher interrogou-a sobre várias pessoas que poderiam encontrar-se no comboio, mas Amadea não sabia nomes, nem conseguiu reconhecê-las, apesar das descrições que ela lhe fez as pessoas tornavam-se irreconhecíveis em circunstâncias do género. Alguém que entrou, perguntou à mulher se ela consultara um médico. Muitos dos médicos e dentistas que haviam sido proibidos de exercer estavam aqui e faziam o possível por ajudar os companheiros, mesmo sem remédios nem equipamento.

O campo abrira apenas há dois meses e já reinava a febre tifóide, como alguém a avisou. Aconselharam-na a que bebesse só a sopa e não a água. Como era inevitável, dado o número excessivo de pessoas, quase não havia instalações sanitárias e, mesmo com o frio glacial, o fedor da divisão era insuportável.

Amadea ajudou uma mulher de idade a deitar-se e viu que havia mais três mulheres nas camas ao lado. No barracão para onde a tinham mandado só se viam mulheres e crianças com menos de doze anos. Os rapazes com mais de doze anos encontravam-se noutro lado, com os homens. Alguns dos mais novos, em particular aqueles cujas mães tinham sido mandadas para outros campos, ou mortas, encontravam-se noutro local qualquer. Não existia qualquer intimidade, calor ou conforto.

Contudo, havia sempre alguém disposto a dizer uma graça e, ao longe, Amadea ouviu música. De vez em quando, os guardas passavam pelo meio deles, aplicando violentos pontapés a alguns, sacudindo outros, sempre de armas em riste. Estavam constantemente à procura de contrabando ou de objectos roubados. Alguém dissera a Amadea que roubar uma batata era punível por morte. Se alguém desobedecesse ao regulamento era severamente espancado. O essencial residia em não irritar os guardas, a fim de evitar a inevitável represália que daí resultaria.

Já comeste hoje? perguntou a mulher, que tossia. Amadea assentiu com a cabeça e quis saber:

E tu?

A jovem sentiu-se repentinamente agradecida ao Carmelo por ter imposto o jejum como regra de vida. Contudo, o jejum do convento incluía uma alimentação saudável, legumes e fruta do jardim, enquanto aqui as pessoas morriam literalmente de fome. Amadea notou que algumas delas não tinham um número tatuado no braço e interrogou-se sobre qual era a diferença entre uns e outros. Hesitava, porém, em perguntar-lhes. Eles já sofriam o bastante para que os incomodasse com as suas questões.

Levei quatro horas para conseguir o jantar respondeu a mulher, especificando que a distribuição das rações começava de manhã. E, quando chegou a minha vez, já não tinham batatas, apenas sopa, se é que se pode chamar-se-lhe assim. Mas pouco interessa, pois, de qualquer maneira, tenho disenteria. A comida daqui põe-nos rapidamente doentes. Se já não estivermos. Já viste o estado alarmante das casas de banho? Chamo-me Rosa. E tu?

Teresa respondeu Amadea, sem pensar. Era o nome que melhor lhe correspondia. Mesmo depois dos meses passados com Gérard e Véronique, o seu antigo nome próprio continuava a parecer-lhe estranho.

És muito bonita comentou Rosa, observando-a. Que idade tens?

Vinte e quatro anos respondeu Amadea, que faria vinte e cinco em Abril.

Como eu - retorquiu Rosa, ao mesmo tempo que Amadea tentava evitar-lhe o olhar, pois a jovem mulher parecia ter quarenta. Mataram o meu marido na Noite de Cristal. Estive num outro campo antes Este é melhor

Amadea não se atreveu a perguntar-lhe se tinha filhos. Para a maioria era uma questão dolorosa, sobretudo se as crianças tivessem sido enviadas para outro campo, ou pior, se tivessem sido mortas antes ou depois de terem sido levadas. Os nazis só queriam as crianças que pudessem trabalhar. As mais jovens eram inúteis.

És casada? inquiriu Rosa, estendendo as pernas magras no colchão. Tinha um pedaço de tecido que lhe servia de manta, mas a maioria não tinha nada.

Não, não sou respondeu Amadea, com um sorriso. Sou carmelita.

És freira? retorquiu Rosa, primeiro impressionada, depois chocada e revoltada. - Foram buscar-te ao convento?

Não. Saí do convento em Abril. Desde essa altura que estava com amigos.

És judia?

A minha mãe era. Converteu-se... Eu nunca soube... Rosa assentiu com a cabeça.

Levaram-na? inquiriu Rosa, suavemente.

Amadea esboçou um aceno, mas não conseguiu responder de imediato. Agora, sabia o que a mãe e Daphne haviam passado. Teria feito o impossível para lhes poupar essa situação, sofrido no lugar delas. Não lhe restavam dúvidas de que estava aqui para ajudar o próximo, pouco lhe importando dar a vida por eles. Esperava que a mãe e Daphne ainda estivessem vivas e pudesse revê-las, qualquer dia. Contudo, antes de partir, Gérard admitira-lhe que o silêncio da mãe e da irmã, desde Abril, não era bom sinal. Nunca haviam recebido um postal, uma mensagem, qualquer palavra.

Lamento pela tua mãe sussurrou Rosa. Disseram-te para onde ias trabalhar?

Tenho de apresentar-me amanhã para a distribuição de tarefas.

Amadea interrogou-se sobre se seria nesse momento que lhe fariam a tatuagem. Encheu-se de coragem e acabou por fazer a pergunta a Rosa, quando estavam deitadas, lado a lado, com a proximidade bastante para falarem em sussurro e ouvirem-se uma à outra. O barulho na divisão murada era imenso.

Tatuaram-me na gare de triagem, antes de vir para cá. Fazem-no, supostamente, quando se chega aqui, mas somos tantos e o campo é tão recente, que dizem às pessoas para regressarem quando eles tiverem mais pessoal. É provável que te tatuem amanhã, quando te atribuírem o trabalho.

Amadea não gostava da ideia de ser tatuada, mas também tinha a certeza de que Jesus não quisera ser crucificado. Era mais um pequeno sacrifício que teria de fazer por Deus

Depois disso, calaram-se. A maioria estava por demais debilitada, cansada e doente para falar, embora muitos dos mais novos se encontrassem relativamente em forma, apesar do rude dia de trabalho e da falta de comida. Mais tarde, nessa noite, depois da maior parte dos presos ter ido deitar-se, fez-se ouvir o som de uma harmónica. O músico tocava algumas árias vienenses e velhas canções alemãs que fizeram subir as lágrimas aos olhos dos que escutavam

Amadea já ouvira dizer que havia uma companhia de ópera no campo e vários músicos que tocavam no café, pois muitos dos detidos haviam sido músicos, cantores ou actores antes de serem deportados. Apesar das dificuldades, tinham tentado subir o moral uns aos outros, mas o maior terror era o de serem deportados para outro sítio, constava que os outros campos eram muito piores e que muitas pessoas morriam lá

Theresienstadt era, para os nazis, um campo-modelo que servia de imagem para provar ao mundo que, apesar de desejarem os judeus excluídos da sociedade e isolados, os tratavam com humanidade. Contudo, as pernas em chaga, as frieiras e a disenteria, os rostos pálidos, os espancamentos ao acaso, e as pessoas que morriam devido a estas condições de vida indicavam um cenário muito diferente. Uma tabuleta à entrada do campo dizia ”O trabalho dá a liberdade” Mas aqui era a morte que dava a liberdade

Deitada na cama, Amadea rezou ao som da harmónica e, tal como no convento, acordaram-nos às cinco da manhã. Já havia fila para a água quente e as papas de aveia, mas a espera era tão demorada que a maioria dos presos ia trabalhar de estômago vazio. Amadea regressou ao centro de triagem da véspera para que lhe distribuíssem um trabalho, mas também teve de aguardar na fila, durante horas. Um guarda preveniu-a de que seria castigada se se fosse embora e apontou-lhe uma arma ao pescoço, para vincar bem as palavras. Permaneceu um longo momento a observá-la, antes de passar ao preso seguinte. Pouco tempo depois, Amadea avistou três guardas a espancarem com cacetetes um homem novo.

Ele estava a fumar murmurou um velho que se encontrava na fila atrás dela, abanando a cabeça.

Fumar era um crime punido com espancamento; no entanto, encontrar uma beata era considerado pelos detidos como um tesouro que se ocultava cuidadosamente, como a comida roubada.

Quando Amadea chegou finalmente diante do oficial encarregado da distribuição de tarefas, este parecia-lhe ter tido um dia de cão. Ergueu os olhos, observou-a, assentiu com a cabeça e estendeu a mão para um monte de papéis. Ao lado dele havia vários funcionários às secretárias, ocupados a colocar selos e carimbos oficiais em tudo. Amadea estendeu-lhe os documentos de identificação que lhe tinham dado na véspera, esforçando-se por parecer mais calma do que se sentia. Embora estivesse pronta a sacrificar-se pelo Deus que servia, encontrar-se diante de um oficial nazi num campo de trabalho era uma prova terrível.

O que sabes fazer? inquiriu o homem num tom brusco.

Cabia-lhe separar os médicos, as enfermeiras, os dentistas e as pessoas ligadas ao ramo da construção e da carpintaria, pois ser-lhes-iam úteis. Também precisavam de engenheiros, pedreiros, cozinheiros, técnicos de laboratório e milhares de pessoas para servirem de escravos.

Sei jardinar, cozinhar e costurar. Também posso prestar alguns cuidados de enfermagem, embora não tenha muita prática, mas o jardim talvez seja o meu ponto forte especificou.

Amadea ajudara frequentemente as religiosas idosas e doentes no convento. A mãe ensinara-a a costurar, mas as freiras com quem trabalhara no jardim diziam que ela conseguia fazer crescer qualquer tipo de planta.

Darias uma bela esposa troçou o oficial, voltando a examiná-la. Se não fosses judia.

Achava Amadea mais bonita do que a maioria das presas que examinara. A jovem parecia forte e robusta, embora fosse alta e magra.

Sou freira retorquiu Amadea, calmamente.

Ante aquelas palavras, ele voltou a observá-la; em seguida, verificou de novo os seus documentos onde constava que a mãe era judia. Reparou, porém, que ela tinha um nome francês.

A que ordem pertences? perguntou com um ar circunspecto, interrogando-se sobre se haveria outras freiras no campo.

Sou carmelita informou com um sorriso, e ele detectou-lhe no olhar o mesmo brilho em que outros haviam reparado. Também Rosa o detectara na noite anterior.

Aqui não há tempo para essas parvoíces declarou, num tom calmo, enquanto escrevia algo no dossiê dela. Bom. Podes trabalhar no jardim. Mas se roubares o que quer que seja, serás fuzilada acrescentou secamente e com uma expressão ameaçadora. Apresenta-te lá às quatro da manhã, amanhã. Trabalharás até às sete da tarde.

Tratava-se de um dia de quinze horas, mas Amadea não se importava. As pessoas à sua volta eram enviadas para outros locais, outros edifícios, outros barracões. Interrogou-se sobre se iriam tatuá-los, mas parecia terem-se esquecido no seu caso. Tinha a nítida impressão de que o facto de ela ser freira o perturbara; talvez até mesmo os nazis tivessem uma consciência, embora o que vira até aqui tornasse improvável esta hipótese.

À tarde, pôs-se na fila para comer e recebeu uma batata meia podre e uma crosta de pão. Há horas que a sopa se esgotara; a mulher antes dela tivera direito a uma cenoura. Contudo, sentiu-se reconhecida pelo que lhe deram. Comeu à volta da parte apodrecida da batata e engoliu avidamente o pedaço de pão. De regresso à barraca pensou nisso e censurou-se pela sua gula e voracidade. Estava faminta, mas todos o estavam.

Quando entrou na barraca, Rosa já se encontrava lá, deitada no colchão. A sua tosse piorara. Fazia um frio glacial naquele dia.

Então? Deram-te um número?

Acho que se esqueceram respondeu Amadea, abanando a cabeça. Julgo que o oficial ficou nervoso quando lhe disse que era freira acrescentou com um sorriso malicioso que a fez parecer novamente uma jovenzinha. Eram todos demasiado graves e velhos à sua volta. Devias consultar um médico por causa dessa tosse rematou, preocupada.

Amadea enfiou os pés gelados debaixo do colchão. Só dispunha de tamancos de madeira para os proteger e tinha as pernas nuas sob as calças de montar, que pareciam de papel, sob a atmosfera gelada. Há mais de uma semana que usava as mesmas calças sujas. Nessa tarde, fizera tenção de ir à lavandaria e tentar trocar a roupa por outra lavada, mas não lhe restara tempo.

Os médicos não podem fazer nada por mim replicou Rosa. Não têm medicamentos acrescentou com um encolher de ombros e fitando Amadea com um ar cúmplice. Vê só murmurou, tirando qualquer coisa do bolso.

Tratava-se de um pedacinho de maçã que parecia ter sido pisado por milhares de pessoas, o que talvez correspondesse à realidade.

Onde arranjaste isso? sussurrou Amadea, hesitando em aceitar o pedaço que Rosa lhe estendia, mas sentindo a saliva a formar-se na boca.

Só havia o suficiente para duas dentadas no máximo, ou mesmo uma.

Deu-me um guarda respondeu Rosa, ao mesmo tempo que a dividia ao meio e fazia deslizar metade para a mão de Amadea, que sabia que o roubo de comida era punível com a morte.

As duas meteram o pedaço de maçã na boca e fecharam os olhos, à semelhança de duas crianças saboreando um bombom.

Calaram-se durante uns minutos e, em seguida, algumas das outras presas entraram. Pareciam exaustas e olharam-nas de relance, mas ninguém disse nada.

Desde que chegara ao campo, nenhum dos homens das equipas de construção tinha importunado Amadea. Contudo, nas longas filas de espera da tarde, ouvira algumas mulheres dizerem que haviam sido violadas. Embora os nazis considerassem os judeus como a escumalha da raça humana, tal não os impedia de violarem as mulheres, sempre que o desejavam.

As outras mulheres tinham-lhe recomendado prudência. Ela era demasiado bonita e chamava as atenções, além de que era loura e de olhos azuis, como eles. Aconselharam-na a que se mantivesse suja, cheirasse o pior possível e se conservasse longe dos soldados. Era o único meio de defesa, embora nem sempre funcionasse, sobretudo à noite, quando os guardas estavam embriagados, o que era frequente. Eles eram novos, queriam mulheres, e havia muitos no campo. Nem mesmo os mais velhos eram dignos de confiança

Nessa noite, Amadea deitou-se cedo para estar em forma no dia seguinte. Contudo, era difícil adormecer com tanta gente à volta. Por vezes, nem sequer conseguia rezar. Tentava manter a rotina do convento, como o fizera no castelo dos Daubigny, mas lá fora mais fácil. Pelo menos, reinava a calma quando se levantou às três e meia. Dormira vestida e, excepcionalmente, só havia trinta pessoas na fila para a casa de banho. Podia ir lá, antes do trabalho.

Em seguida, dirigiu-se para onde lhe disseram que se situavam os jardins. Quando lá chegou, já havia uma centena de detidos, na sua maioria rapazes e também algumas raparigas e mulheres mais velhas. O ar da noite era glacial e a terra estava gelada. Todos se interrogavam sobre o que iriam fazer, quando os guardas lhes estenderam pás. Tinham de plantar batatas. Milhares de batatas. Era uma tarefa dura. Trabalharam oito horas seguidas até ao meio dia Ficaram com as mãos geladas e cheias de bolhas à força de escavarem a terra dura, enquanto os guardas circulavam pelo meio deles, espetando-lhes os canos das armas nas costas.

Concederam-lhes, então, meia hora para comerem pão e sopa. Como habitualmente, a sopa era rala e o pão bafiento, mas as rações um pouco maiores. Depois, regressaram ao trabalho durante sete horas. Nessa noite, foram revistados antes de saírem dos jardins. Roubar nos jardins era punido com espancamento ou a morte, dependendo do humor dos guardas e da resistência do ladrão. Um guarda revistou a roupa de Amadea, apalpou-a de alto a baixo e mandou-a abrir a boca. Aproveitou a ocasião para lhe agarrar nos seios, mas a jovem manteve-se calada, olhando em frente. À noite, não contou nada a Rosa, persuadida de que esta suportara bem pior.

Na semana seguinte, Rosa foi transferida para outro barracão. Um guarda apanhara-as várias vezes a conversar e a rir e denunciara-as, dizendo que eram agitadoras e que tinham de ser separadas. Amadea deixou de ver Rosa durante vários meses e quando se cruzaram de novo, Rosa não tinha dentes. Fora apanhada a roubar um bocado de pão e um guarda partira-lhe os dentes todos e a cana do nariz. A vida parecia tê-la abandonado. Morreu de uma pneumonia nessa Primavera.

Amadea trabalhava duramente no jardim, fazendo o que podia, mas tornava-se difícil obter resultados naquelas condições. Nem ela conseguia fazer milagres com um solo gelado e ferramentas quebradas. Contudo, plantava diariamente fileiras de batatas. E, quando chegou a Primavera, plantou cenouras e nabos. Ansiava por plantar tomates, alface e outros legumes, como fizera no convento, mas eram alimentos delicados de mais para as necessidades do campo. Havia dias em que só lhe davam um nabo e, mais do que uma vez, sentiu vontade de roubar uma batata, mas, em vez de fazê-lo, rezou.

Contudo, no conjunto, não encontrara dificuldades especiais e os guardas deixaram-na em paz. Mostrava-lhes respeito, mantinha-se discreta, fazia o seu trabalho e ajudava os outros presos. À noite, começara a visitar os doentes e as pessoas de idade e, quando a chuva não permitia que trabalhasse no jardim, ocupava-se das crianças, o que servia sempre para elevar-lhe o moral, embora muitas delas estivessem doentes. Eram todas tão meigas e tão corajosas que estar com elas fazia com que se sentisse útil.

Entretanto, verificaram-se algumas tragédias Em Fevereiro, um comboio cheio de crianças tinha partido com destino a Chelmno. As mães haviam-se agrupado junto aos camiões que lhes levavam os filhos para o comboio, e algumas das que os abraçaram tempo de mais ou tentaram lutar com os guardas foram abatidas. Todos os dias havia histórias de atrocidades cometidas.

Em Abril, Amadea fez vinte e cinco anos. O tempo estava melhor e transferiram-na para outro barracão, mais perto dos jardins. Com os dias maiores, trabalhava-se mais tempo e, às vezes, só regressava para se deitar às nove da noite. Devido às rações insuficientes e à constante disenteria, Amadea emagrecera bastante, mas estava robusta, em virtude do seu trabalho no jardim.

E, como algumas outras do campo, tivera a sorte de nunca ser marcada. Haviam-se simplesmente esquecido. Os soldados pediam constantemente para ver os seus documentos, mas nunca o número e ela tinha o cuidado de usar camisas de mangas compridas. Os cabelos, ainda mais louros devido ao sol, estavam mais compridos, por isso trazia-os entrançados

Todos os que a conheciam, sabiam que ela era freira; os detidos tratavam-na com bondade e respeito, o que nem sempre acontecia com outros. As pessoas do campo sentiam-se doentes, infelizes, e assistiam a constantes tragédias, os guardas aterrorizavam-nas permanentemente, espancavam-nas e, por vezes, obrigavam-nas mesmo a lutarem entre si por uma cenoura, ou um pedaço de pão bolorento Mas na maior parte do tempo, as pessoas mostravam-se compreensivas umas para as outras e, de vez em quando, os próprios guardas tratavam-nas decentemente.

Em Maio, um jovem soldado foi destacado para a vigilância do jardim e ficou fascinado com Amadea. Uma tarde, parou ao lado dela, confessou-lhe que era natural de Munique e detestava Theresienstadt, que achava um lugar sujo e deprimente. Desde que chegara ao campo que andava a pedir uma transferência para Berlim.

Porque é que tens sempre um ar tão feliz enquanto trabalhas? perguntou-lhe, acendendo um cigarro.

Algumas mulheres deitaram um olhar invejoso ao cigarro, mas ele só ofereceu uma passa a Amadea, que recusou. Nessa tarde, o seu comandante fora-se embora mais cedo para assistir a uma reunião e os jovens soldados aproveitaram para descontrair um pouco. Há semanas que este esperava uma oportunidade para falar com Amadea.

Ah, tenho? replicou ela num tom amável, continuando a trabalhar. Nesse dia tinham recebido ordem para plantar mais cenouras, pois as que haviam plantado estavam a crescer bem.

Sim. Dás sempre a impressão de que escondes um segredo. Tens namorado? perguntou de chofre.

Alguns dos detidos mais jovens haviam-se envolvido entre si. Era um raio de sol neste lugar sinistro. Um último vestígio de esperança.

Não, não tenho respondeu Amadea e virou as costas. Não queria encorajá-lo, lembrando-se dos avisos que as outras mulheres lhe haviam feito. Era um homem novo, alto e simpático, com feições delicadas, olhos azuis e cabelo escuro que lhe fazia lembrar a cor do da mãe. O jovem soldado era bastante mais alto do que Amadea e achava-a bonita com aquele cabelo louro e os grandes olhos azuis. Suspeitava, com razão, de que ela devia ser muito bonita, depois de cuidada. Mesmo aqui, apesar das roupas e dos cabelos sujos, muitas mulheres continuavam bonitas, sobretudo as mais jovens, e Amadea era, sem dúvida, uma delas.

Tinhas um namorado, antes? insistiu ele, acendendo mais um cigarro.

A mãe mandava-lhos de Munique e todos os do seu barracão o invejavam. Trocava-os muitas vezes por favores.

Não respondeu Amadea, fechando-se mentalmente, desagradada com o rumo da conversa.

Porquê?

A jovem colocou-se diante dele e fixou-o sem desviar os olhos, sem medo.

Sou freira explicou simplesmente, como a dizer-lhe que não era uma mulher e, portanto, a salvo das suas atenções.

Para a maioria das pessoas tratava-se de um estatuto sagrado, e o olhar de Amadea denotava a esperança que ele a respeitasse, mesmo aqui.

Não é possível! exclamou, surpreendido, pois nunca vira uma religiosa tão bonita. Na generalidade, eram mulheres vulgares.

Mas sou. Sou a irmã Teresa do Carmelo confirmou, orgulhosa, enquanto ele abanava a cabeça.

Que desperdício! Nunca te arrependeste?... Quero dizer, antes de estares aqui?

Suspeitava, e com razão, de que alguém da sua família devia ser judeu para que estivesse aqui, pois ela não parecia cigana, nem comunista, nem criminosa. Devia forçosamente ter sangue judeu.

Não. É uma vida maravilhosa. Um dia, regressarei ao convento.

Devias encontrar um marido e ter filhos replicou o soldado num tom firme, como se Amadea fosse uma irmã mais nova a quem repreendesse por qualquer parvoíce. Desta vez, ela riu-se.

Tenho um marido. Deus é meu marido. E todas estas pessoas são meus filhos e Dele ripostou, abrangendo todo o jardim com um gesto. Por momentos, ele interrogou-se sobre se a rapariga seria louca. Mas depressa compreendeu que não, que falava a sério e tinha uma fé inabalável.

É uma vida estúpida resmungou entre dentes, antes de se afastar para ir vigiar os outros detidos.

Amadea viu-o novamente ao fim do dia e rezou para que não fosse ele a revistá-la. Desagradava-lhe a forma como a olhava.

No dia seguinte, ele voltou e, sem dizer uma palavra, passou junto dela fingindo ignorá-la, mas fazendo deslizar um pedaço de chocolate para o seu bolso. Era um favor incrível, mas, em simultâneo, muito mau sinal, podendo revelar-se perigoso. Amadea não sabia o que fazer. Seria executada se os guardas descobrissem o chocolate, mas achava uma tremenda injustiça comê-lo, enquanto os outros morriam de fome. Esperou até que o soldado passasse novamente a seu lado e disse-lhe que apreciava o gesto dele, mas que devia antes oferecê-lo a uma das crianças. Devolveu-lho, quando ninguém estava a olhar.

Porque fizeste isso? perguntou, parecendo magoado.

Porque não está certo. Não há motivo para que eu seja tratada melhor do que os demais. Há outros que precisam mais do que eu. Uma criança, uma pessoa de idade ou um doente.

Então, dá-lho tu replicou num tom severo, ao mesmo tempo que voltava a meter-lhe o chocolate na mão e se afastava.

Ambos sabiam que o chocolate ia derreter-se no bolso e que teria problemas quando a revistassem. Então, sem saber que mais fazer, ela comeu-o e sentiu-se culpada durante o resto da tarde, implorando a Deus que lhe perdoasse por ser gulosa e desonesta. Contudo, o gosto delicioso do chocolate perseguiu-a o dia inteiro e não conseguiu pensar em mais nada até se ir embora. Quando o fez, ele sorriu-lhe e Amadea devolveu-lhe involuntariamente o sorriso. Dir-se-ia um rapazinho malicioso, embora fosse da sua idade.

Na tarde seguinte, ele veio falar-lhe novamente e anunciou que iam nomeá-la chefe de um grupo, dada a qualidade do seu trabalho. Contudo, Amadea teve a impressão de que ele fazia aquilo para obter os seus favores e colocá-la em dívida, o que se tornava muito perigoso. Era fácil adivinhar o que o soldado pretendia e, durante as semanas seguintes, fez o possível para evitá-lo. O tempo começava a aquecer, quando ele voltou a parar junto dela e lhe falou. Amadea acabava de comer a sopa e o pão e apressava-se a regressar ao trabalho.

Tens medo de falar comigo, não tens? perguntou-lhe num tom meigo, seguindo-a até ao sítio onde ela deixara a enxada.

Sou uma prisioneira e você um guarda respondeu, virando-se para ele. É uma situação difícil acrescentou com franqueza, escolhendo cuidadosamente as palavras para não o ofender.

Talvez não seja tão difícil como pensas. Eu podia facilitar-te a vida, se me deixasses. Podíamos ser amigos.

Não aqui observou Amadea num tom triste. Desejava acreditar que ele era boa pessoa, mas neste sítio, quem podia sabê-lo? Na véspera, partira mais um carregamento de presos. Amadea conhecia uma das pessoas que redigiam as listas. Até ao momento, o seu nome ainda nunca aparecera, mas tal podia acontecer a qualquer momento. Theresienstadt parecia ser um portão de passagem para outros campos, na sua maioria piores: Auschwitz, Bergen-Belsen ou Chelmno. Tudo nomes que faziam gelar o coração, até mesmo o dela.

Quero ser teu amigo insistiu ele. Dera-lhe chocolate em mais duas ocasiões, mas a jovem sabia que os favores eram perigosos. Contudo, também não queria rejeitá-lo, o que podia revelar-se igualmente perigoso. Não tinha a mínima experiência com homens. Vivera no convento, isolada do mundo, desde a adolescência. Aos vinte e cinco anos era mais inocente do que as raparigas de quinze.

Tenho uma irmã da tua idade prosseguiu num tom calmo. Às vezes, penso nela ao olhar para ti. É casada e tem três filhos. Também tu, um dia, podias ter filhos.

As freiras não têm filhos respondeu, com um sorriso.

Os olhos do soldado reflectiam um brilho de tristeza. Amadea desconfiava que ele devia ter saudades do país, como a maioria dos outros militares. Todos se embebedavam à noite para não pensarem nisso, ou talvez para esquecerem os horrores a que assistiam diariamente; deviam sentir-se tocados, pelo menos, alguns. Este parecia sensível.

Quando a guerra acabar, regressarei à minha ordem para fazer os votos perpétuos acrescentou, convicta.

Ah! Então, ainda não és freira! retorquiu ele, esperançado.

Claro que sou. Há seis anos que estou no convento. Fazia um ano que partira. Se tudo se tivesse processado normalmente e não se visse obrigada a abandoná-lo, estaria a um ano dos seus votos perpétuos.

Podes repensar o assunto ripostou ele com uma expressão feliz, como se Amadea lhe tivesse dado um presente. Em que grau és judia? quis saber. Ela teve a impressão de que a interrogava como se fosse sua noiva, e essa mera ideia punha-a doente.

Metade.

Não pareces.

Parecia mais ariana do que a maioria das mulheres que o rodeavam, inclusive a sua mãe, que tinha os cabelos negros. O pai era alto, magro e louro como Amadea, e a irmã também. Ele herdara o cabelo escuro da mãe e os olhos claros do pai. Contudo, Amadea não lhe parecia, de forma alguma, judia, nem pareceria a ninguém, depois de tudo isto acabar. Sentia um desejo enorme de protegê-la e mantê-la viva.

Amadea regressou ao trabalho e ele não voltou a dirigir-lhe a palavra. Contudo, todos os dias, parava para conversar e metia-lhe sempre qualquer coisa no bolso: um chocolate, um lenço, um pedacinho de carne seca, um bombom, algo que lhe provasse as suas boas intenções. Queria que confiasse nele, que soubesse que não era como os outros. Não iria arrastá-la para uma vereda escura ou para trás de um arbusto para violá-la. Queria que ela o desejasse. ”Nada havia de estranho nisso”, pensava. Ajovem era bonita, visivelmente inteligente e completamente pura, pois passara a sua vida adulta no convento. Desejava-a como nunca desejara uma outra mulher. Tinha vinte e seis anos e, se pudesse, levá-la-ia dali imediatamente.

Contudo, ambos precisavam de ser cautelosos. Ele arriscaria tantos sarilhos como ela, ao tornar-se seu amigo. Talvez ninguém desaprovasse que a violasse e sabia que alguns homens até achariam divertido, pois a maioria já o fizera a outras prisioneiras. Mas apaixonar-se era outra história. Arriscava-se a ser morto ou deportado. Era um risco de que tinha consciência, tal como ela. Amadea tinha, aliás, mais a perder. Pensava nisso diariamente, sempre que ele passava ao seu lado e lhe metia pequenos presentes no bolso. Se alguém os surpreendesse, seria fuzilada. Tratava-se de presentes extremamente perigosos

Tem de parar com isto repreendeu-o uma tarde. Nesse dia, ele metera-lhe vários bombons no bolso e, por muito que lhe custasse admitir, davam-lhe energia. Nem sequer ousava partilhá-los com as crianças que visitava, com medo de ser punida por roubo e que também elas o fossem. Os miúdos ficariam tão excitados com os bombons que acabariam por dar com a língua nos dentes e todos ficariam em maus lençóis. Por conseguinte, comia-os e não dizia a ninguém. O soldado chamava-se Wilhelm.

Gostava de dar-te mais coisas disse ele com uma expressão grave. Um casaco bem quente, sapatos bons... e uma cama quente.

Estou bem assim respondeu Amadea e estava a ser sincera.

A jovem começava a habituar-se aos rigores do campo, como se habituara aos do convento. Eram apenas sacrifícios que fazia pelo Cristo crucificado e mais fáceis de aguentar desta maneira. Não conseguia, porém, acostumar-se a ver morrer as pessoas. E havia muitas a morrerem, de doença e de violência, também.

Constava que Theresienstadt era o menos violento dos campos, contrariamente a Auschwitz que todos receavam; era um campo de recreio por comparação e, supostamente, aqui morria menos gente. Os nazis falavam mesmo em trazer autoridades até aqui para lhes mostrar este campo-modelo e provar que os judeus eram bem tratados. Afinal, até havia um Kqffeehaus e uma companhia de ópera. De que mais precisavam? ”De medicamentos e comida”, pensava Amadea e Wilhelm também o sabia.

Não devias estar aqui declarou o jovem num tom triste.

Amadea concordava, mas nenhum deles podia fazer o que quer que fosse.

Tens família em algum lado? Família cristã? prosseguiu o jovem soldado. Ela abanou a cabeça.

O meu pai morreu quando eu tinha dez anos. Era francês, mas nunca conheci a sua família.

Então, Wilhelm baixou o tom de voz e pôs-se a falar quase num sussurro:

Há guerrilheiros checos nos montes. Estamos sempre a ouvir falar deles. Podiam ajudar-te a escapar.

Amadea perscrutou-o, interrogando-se sobre se seria uma armadilha. Estaria a convencê-la a fugir para que a matassem quando o tentasse? Tratava-se de um teste? Enlouquecera? Como era possível que acreditasse que ela conseguiria escapar?

É impossível respondeu no mesmo tom, atraída pela ideia, mas mesmo assim desconfiada.

Não, não é. Ao fim da noite, muitas vezes não há sentinelas no portão sul. Trancam simplesmente as portas. Se encontrares as chaves, basta abrir a porta e fugir.

E ser fuzilada rematou ela com uma expressão grave.

Não necessariamente. Eu podia juntar-me a ti. Odeio este sítio.

Amadea fitou-o boquiaberta sem saber o que responder. O que faria, se conseguisse escapar? Para onde iria? Não conhecia ninguém na Checoslováquia e era impossível regressar à Alemanha. Toda a Europa estava ocupada pelos nazis. Era uma ideia tentadora, mas impossível de concretizar.

Podia ir contigo acrescentou Wilhelm.

Para onde?

Os dois arriscavam-se a ver-se diante de um pelotão de fuzilamento, se alguém os ouvisse.

Tenho de reflectir no assunto murmurou ele. Nesse momento, o comandante apareceu e chamou-o.

Amadea sentiu um medo horrível de que ele se metesse em sarilhos por falar consigo. Contudo, o comandante mostrou-lhe uns documentos e desatou à gargalhada, enquanto Wilhelm sorria. Obviamente, estava tudo bem.

No entanto, não conseguia esquecer as palavras dele. Ouvira falar de homens que se tinham evadido, mas nunca de mulheres. Há algum tempo, um grupo fizera-se passar por um conjunto de operários enviado a uma prisão vizinha. Pensando que tinham recebido autorização para trabalhar no exterior, as sentinelas não prestaram atenção e o grupo saíra tranquilamente do campo. A maioria fora apanhada e fuzilada, mas alguns, nas palavras de Wilhelm, tinham conseguido escapar para os montes

Amadea achava a ideia fantástica, mas implicava partir com Wilhelm, o que lhe levantava outro problema. Não fazia tenção de tornar-se sua amante, ou sua mulher, mesmo que a ajudasse a fugir. E, se a denunciasse, arriscava-se a ser deportada para Auschwitz ou a ser fuzilada ali mesmo. Não podia confiar em ninguém, nem mesmo nele, embora lhe parecesse um homem decente e estivesse, obviamente, apaixonado por ela. Até aí, nunca imaginara que pudesse exercer poder sobre os homens apenas pelo seu físico.

Contudo, Wilhelm via bem mais do que isso em Amadea. Não só a achava bonita, mas também inteligente e de uma enorme bondade. Era o tipo de mulher que procurara toda a sua vida e encontrara-a aqui. Uma meia judia no campo de concentração de Theresienstadt e, para cúmulo, uma freira.

Nessa noite, deitada no colchão, Amadea só conseguia pensar na fuga. Mas o que faria depois de transpor os portões? Era um plano condenado ao fracasso. Wilhelm falara de guerrilheiros checos nos montes, mas como iriam encontrá-los? Agitando uma bandeira branca na noite? Não fazia sentido.

Contudo, a ideia não a abandonou nos dias seguintes. Wilhelm mostrava-se cada vez mais bondoso e cada vez passava mais tempo com ela. Fazia-lhe a corte, mas aquele não era o local apropriado, nem ela era a mulher indicada. Porém, deixara de lho repetir; talvez, afinal, pudessem fugir juntos, como amigos. Era uma perspectiva fantástica, embora também tivesse consciência de que não estariam a salvo em parte alguma do mundo. Era judia e ele seria um desertor. Juntos, corriam um duplo risco.

No fim de Maio, começaram a correr boatos no campo. De início, os presos ignoravam do que se tratava, mas os guardas falavam em voz baixa. A 27 de Maio, dois patriotas checos, treinados pelo exército britânico, tinham sido lançados de pára-quedas nos campos, próximo de Praga, e tentado assassinar o Grippenfuhrer Reinhard Heydrich, chefe do protectorado da Boémia-Morávia. Ferido de morte, Heydrich falecera a 4 de Junho. As represálias nazis tinham sido terríveis: no prazo de dias, 3188 checos foram presos, dos quais 1357 fuzilados. Mais 657 morreram durante o interrogatório. Dia após dia, no campo, esperavam-se os acontecimentos.

Na tarde de 9 de Junho, Wilhelm veio ao jardim, passou perto de Amadea sem a fitar e pronunciou duas palavras:

Esta noite.

Ela virou-se e fitou-o. Era impossível que estivesse a falar a sério. Talvez se tratasse de uma proposta. Mas quando estava prestes a terminar o trabalho, ele deteve-se junto dela, como que a examinar o resultado e murmurou:

Esta noite, vão ocupar a cidade de Lidice. Fica a uns trinta quilómetros daqui e vão precisar dos nossos homens. Vão deportar todas as mulheres, matar todos os homens e, em seguida, incendiar a cidade inteira, como um exemplo para os outros. Dois terços dos nossos homens partirão às oito da noite, no máximo às nove, com os carros e os camiões. Espera-me na entrada sul, à meia-noite. Encarrego-me da chave.

Se alguém me vir fugir, abatem-me.

Não haverá ninguém para te abater. Segue junto aos barracões e ninguém te verá. Se te mandarem parar, diz que vais ver os doentes.

Wilhelm dirigiu-lhe um olhar cúmplice, depois assentiu com a cabeça como que aprovando o trabalho dela e afastou-se.

O que ele acabara de dizer era uma loucura, um plano insensato, mas se alguma vez existira uma oportunidade, sabia que era nessa noite. Mas o que fariam depois? O que é que ela faria? Pouco interessava. Tinha de tentar a sorte.

Ao regressar ao barracão, Amadea pensava no destino que aguardava os habitantes de Lidice. Iam matar os homens, deportar as mulheres e as crianças, incendiar a cidade. Era horrível. Contudo, também o era para ela ficar em Theresienstadt até ao fim da guerra, ou ser transferida para outro campo.

Há cinco meses que se encontrava ali e tivera muita sorte. Nunca ficara tão doente como a maioria e não fora tatuada; com a permanente chegada de novos detidos e as construções em curso, os nazis tinham demasiado que fazer, e ela escapara pelos buracos da rede. Agora, estava prestes a escapar pelo portão do campo. Se fossem apanhados, seria morta ou deportada para Auschwitz e ele provavelmente fuzilado. Tinha muito a perder, mas talvez tivesse mais em ficar ali, onde, de qualquer maneira, se arriscava a ser deportada para Auschwitz. Sabia que devia tentar a sorte, mesmo que a matassem. Não podia continuar em Theresienstadt e jamais se lhes apresentaria uma oportunidade igual. Era o momento ideal.

Nessa noite, Amadea ouviu os carros e os camiões a abandonarem o campo. Outros também se aperceberam do facto Até mesmo os guardas que patrulhavam os barracões eram escassos. Quase não havia soldados, mas, afinal, Theresienstadt era um campo tranquilo, povoado de ”bons” judeus, obedientes e trabalhadores, que construíam o que lhes ordenavam e cumpriam as suas tarefas. Judeus que tocavam música e obedeciam aos guardas.

A noite estava calma e, à meia-noite, Amadea levantou-se do colchão, toda vestida. Quase todos dormiam assim. Se se tirasse a roupa, esta desaparecia. Explicou ao guarda que ia à casa de banho e, em seguida, visitar uma amiga doente no andar de cima, no sótão, onde se encontravam os mais doentes.

O homem sorriu e afastou-se para a deixar passar. A jovem nunca causara problemas e ele sabia que não era agora que ia começar; sabia também que ela era freira e estava sempre disposta a tratar de alguém entre os idosos, as crianças ou os doentes do campo, que eram aos milhares. Todos os detidos sofriam de algo.

Boa noite cumprimentou o guarda e prosseguiu a ronda para o barracão seguinte.

A noite ia ser calma. Ali só havia judeus tranquilos. A melhoria do tempo punha os presos e os guardas de bom humor. O Inverno fora rigoroso, mas o Verão anunciava-se agradável e quente. Alguém tocava harmónica, quando Amadea saiu. Parou primeiro na casa de banho, depois afastou-se do aquartelamento.

Não se via ninguém; bastava-lhe percorrer uma curta distância para chegar à entrada sul. Era inacreditável. Não havia um único soldado por perto e a própria praça estava deserta. Wilhelm estava lá, à sua espera. Tinha a chave na mão e mostrou-lha com um sorriso. Com um gesto rápido, introduziu a enorme chave na fechadura, a mesma que a cidade usava há duzentos anos. O portão entreabriu-se com um rangido, o suficiente para que passassem. Ele voltou a fechá-lo, trancou-o e deitou fora a chave.

Se alguém a encontrasse, os nazis pensariam que uma sentinela a deixara cair inadvertidamente e ficariam aliviados por ninguém a ter descoberto e aberto a porta. Wilhelm e Amadea desataram a correr como loucos. Ela ignorava que conseguia correr tão depressa. A cada instante, a cada segundo, esperava ouvir tiros, sentir a lâmina de uma faca nas costas. Mas nada disso aconteceu. Apenas ouvia a sua respiração e a de Wilhelm. Correram até à floresta próxima de Theresienstadt, onde se refugiaram como duas crianças perdidas e sem fôlego. Tinham conseguido! Estavam a salvo! Ela estava livre!

Oh, meu Deus! sussurrou, ao luar. Oh, meu Deus, Wilhelm! Conseguimos!

Irradiava alegria ao fitá-lo e Wilhelm sorriu-lhe. Amadea nunca vira tanto amor nos olhos de um homem.

Amo-te, minha querida murmurou ele, abraçando-a.

Amadea interrogou-se subitamente sobre se ele fizera tudo aquilo para a violar. Contudo, era impossível. Arriscara-se tanto como ela! Mas podia levá-la de volta depois de a ter violado, dizendo que ela escapara e ele a agarrara. Amadea não confiava em ninguém, por isso olhou-o com uma expressão desconfiada. Wilhelm beijou-a na boca.

Wilhelm, não... Por favor... pediu, repelindo-o, ainda ofegante devido à corrida.

Não sejas idiota retorquiu ele, irritado. Não arrisquei a minha vida para te ver brincar às freiras. Casarei contigo, quando voltarmos à Alemanha. Ou antes disso. Amo-te.

Amadea sabia que não era o momento indicado para lhe destruir as ilusões ou falar-lhe nos votos.

Também o amo por ter-me ajudado, mas não como pensa respondeu com franqueza, ao mesmo tempo que ele a apertava de encontro ao peito, acariciando-lhe os seios. Pare, Wilhelm!

Quis afastar-se, mas o soldado agarrou-a com firmeza e tentou obrigá-la a deitar-se. Enquanto o empurrava com todas as forças, ele perdeu o equilíbrio, ao tropeçar na raiz de uma árvore, e caiu para trás. Soltou, então, um grito, com uma expressão de surpresa no rosto, enquanto batia com a cabeça no chão com um barulho surdo e estranho.

Amadea ajoelhou-se ao seu lado, chocada e horrorizada; havia sangue por todo o lado. Não quisera feri-lo, apenas empurrá-lo, aterrorizada com o seu ímpeto. Agora, ele tinha os olhos abertos, sem vida, e o coração deixara de bater. Estava morto. Amadea baixou a cabeça, acabrunhada pelo que acabara de fazer. Matara um homem. O homem que a ajudara a fugir. Doravante, teria a morte dele a pesar-lhe na consciência. Observou-o um momento, fechou-lhe os olhos e benzeu-se.

Em seguida, agarrou cautelosamente na arma dele, bem como no cantil de água que ele trouxera. Encontrou também no corpo dinheiro quase nenhum, bombons e balas, mas não sabia o que fazer-lhes. Supunha que a arma estava carregada, mas não sabia como usá-la. Por fim, a jovem endireitou-se.

Obrigada articulou baixinho e mergulhou na floresta.

Ignorava para onde se dirigia e o que ia encontrar. Apenas lhe restava continuar a andar pela floresta e rezar para que os guerrilheiros acabassem por encontrá-la. Contudo, sabia que estes tinham muito que fazer nessa noite. Lidice já estava a arder, quando ela se afastou, abandonando o corpo do soldado morto sob as árvores. Nunca saberia o que ele, de facto, planeara fazer, se tinha intenção de violá-la, se a amava verdadeiramente, se era bom ou mau. Apenas sabia que tinha morto um homem e que, pelo menos de momento, estava livre.

 

Amadea permaneceu sozinha na floresta durante dois dias. Caminhava de dia e dormia umas horas, à noite. O ar estava fresco, mas a certa altura pareceu-lhe sentir o cheiro a fogo. Porém, a floresta estava escura e, mesmo em pleno dia, cheia de sombras. Não fazia ideia de para onde ia, nem se a encontrariam antes que morresse de fome, cansaço e de sede. Já não havia água no cantil de Wilhelm. Por sorte, no segundo dia, encontrou um riacho e, embora não soubesse se a água era potável, bebeu, segura de que não podia ser pior do que a de Theresienstadt, estagnada em barris, cheia de micróbios. Pelo menos, a do riacho sabia bem.

A floresta estava calma. Apenas se ouvia o som dos seus passos e o canto dos pássaros nas árvores, sobre a sua cabeça. Avistou um coelho e depois um esquilo. Dir-se-ia uma floresta encantada, e a magia residia no facto de ela estar livre. Contudo, matara um homem para chegar ali e sabia que nunca se perdoaria a si própria. Fora um acidente, mas devia arrepender-se diante de Deus. Gostaria de poder falar com a madre superiora, de estar novamente no convento com as irmãs.

Escondera os documentos dentro de um buraco que tapara com terra e agora não tinha identificação. Era apenas uma alma errante, perdida na floresta. E, como não tinha um número tatuado no braço, podia dizer o que quisesse, quando a encontrassem. Mas seria fácil adivinhar de onde vinha, pois assemelhava-se a todos os do campo magra, subalimentada e suja, com os sapatos no fio.

Na noite do segundo dia estendeu-se e pensou em comer folhas, interrogando-se sobre se seriam venenosas. Colhera amoras-silvestres que lhe tinham provocado cólicas horríveis e mais disenteria. Sentia-se fraca, exausta e doente. Quando a luz já desaparecia na floresta, deitou-se na terra macia para dormir. Se os nazis a encontrassem, talvez a matassem ali mesmo e ela achava que era um bom lugar para morrer. Em dois dias não vira ninguém. Ignorava se a procuravam, ou se tinham dado pela sua falta. Ela era apenas mais uma judia. Quanto aos guerrilheiros, era óbvio que não se encontravam por perto.

Estava só na floresta e, antes de adormecer, lembrou-se de fazer as suas orações. Rezou pela alma de Wilhelm. Pensou na tristeza da mãe e da irmã quando fossem informadas da sua morte; depois pensou na sua própria mãe e em Daphne. Interrogou-se sobre onde estariam e se continuariam vivas. ”Talvez também tivessem conseguido fugir?” Sorriu ante esta ideia e depois adormeceu.

Na manhã seguinte, um grupo de homens descobriu-a à luz que se filtrava através das árvores. Depois de se aproximarem com passos silenciosos e gestos entre si, um deles manteve-a no chão, enquanto outro lhe tapava a boca para a impedir de gritar. Amadea acordou sobressaltada e com uma expressão de terror, ante os seis homens armados que a rodeavam.

A arma de Wilhelm estava no chão, ao lado dela, mas não conseguia chegar-lhe e, de qualquer maneira, não sabia usá-la. Um dos homens fez-lhe sinal para que não gritasse e ela esboçou um ligeiro aceno de cabeça. Não tinha forma de saber quem eles eram. Observaram-na um momento, depois largaram-na, enquanto cinco dos homens lhe apontavam as armas e um outro lhe revistava os bolsos. Só encontraram o único bombom que lhe restava. Era um doce alemão, por isso fitaram-na com desconfiança.

Os homens trocaram impressões sussurradas em checo, que Amadea reconheceu por tê-lo ouvido falar no campo entre os detidos checos. Ignorava se eles eram bons ou não, se se tratava dos guerrilheiros que procurava; mesmo que fosse o caso, podiam perfeitamente violá-la. Ignorava o que esperar da parte deles. Obrigaram-na a levantar-se e fizeram-lhe sinal para que os seguisse. Rodeavam-na de perto e um deles pegou na arma de Wilhelm. O grupo avançava a passo rápido. Fatigada e fraca, Amadea tropeçava muitas vezes e, sempre que isso acontecia, deixavam que se levantasse sozinha, para o caso de ser um truque.

Caminharam durante várias horas e quase não lhe dirigiram a palavra. Por fim, Amadea avistou um acampamento na floresta. Havia cerca de vinte homens. Dois deles empurraram-na bruscamente até um bosquedo, onde um grupo de homens armados se sentavam a falar. Todos levantaram a cabeça à sua chegada. Os que a tinham trazido afastaram-se e seguiu-se um longo silêncio. Por fim, um dos homens tomou a palavra e dirigiu-se em checo a Amadea. Amadea abanou a cabeça, em sinal de incompreensão, depois, ele falou-lhe em alemão.

De onde vens? perguntou-lhe num alemão correcto, embora com um forte sotaque, enquanto a observava demoradamente.

Amadea estava suja e magra, tinha cortes e arranhões por todo o corpo, os sapatos no fio e as solas dos pés em sangue.

Theresienstadt respondeu, fitando-o nos olhos e num tom suave. Se fossem guerrilheiros, devia dizer-lhes a verdade, caso contrário não poderiam ajudá-la, o que talvez, de qualquer maneira, não o fizessem.

Estavas detida? Fugiste?

Sim anuiu Amadea e assentiu com a cabeça.

Mas não tens um número retorquiu o homem, desconfiado.

De estatura elevada e cabelo louro, Amadea mais parecia uma agente alemã. Apesar de suja e cansada, era bonita e estava visivelmente assustada. Todavia, era corajosa e ele admirou-a por isso.

Eles nunca me tatuaram. Esqueceram-se respondeu com um leve sorriso.

O homem não correspondeu. O caso era grave, pois estava muita coisa em jogo. Para todos.

És judia?

Metade. A minha mãe era uma judia alemã. O meu pai era francês e católico. A minha mãe converteu-se.

Onde está ela? Em Theresienstadt, também?

Mandaram-na há um ano para Ravensbruck respondeu Amadea, ao mesmo tempo que se lhe ensombrava o olhar.

Quanto tempo estiveste em Terezin? perguntou o homem, designando a cidade pelo nome checo.

Desde Janeiro.

O homem assentiu com a cabeça e quis saber:

Falas francês?

Ela esboçou um aceno afirmativo.

Como?

Fluentemente.

Tens sotaque? Podes passar tanto por uma alemã como por uma francesa?

Sentiu-se fraquejar ao perceber que eles iam ajudá-la ou, pelo menos, tentar. As perguntas eram breves, concisas e, apesar do seu ar de camponês, o indivíduo era, na realidade, o chefe dos guerrilheiros desta zona. Seria ele a decidir se a ajudariam ou não.

Sim respondeu Amadea. Mas com o seu físico de ariana, ela parecia alemã e os dois sabiam que isso era uma ferramenta. O que vai fazer comigo? Para onde vou? atreveu-se a acrescentar, fitando-o.

Não sei declarou o indivíduo, abanando a cabeça. Se és judia não podes regressar à Alemanha, ou, pelo menos, não podes ficar. Podíamos fazer-te passar a fronteira com documentos falsos, mas seria arriscado. Acabavam por encontrar-te. Também não podes ficar aqui. Todas as alemãs regressaram. As mulheres dos oficiais aparecem, por vezes, de visita. Veremos.

Dirigiu algumas palavras a um dos seus homens e, passados uns minutos, trouxeram-lhe comida. Mas Amadea tinha tanta fome que se sentia doente e mal lhe tocou. Há seis meses que não comia uma refeição a sério.

Terás de ficar aqui algum tempo decidiu. Há demasiada agitação por aí.

O que aconteceu em Lidice? inquiriu num fio de voz.

Os olhos do homem brilharam de ódio, ao responder:

Todos os homens e os rapazes foram mortos. As mulheres foram deportadas. A cidade foi arrasada.

Lamento retorquiu.

O homem desviou o olhar, sem lhe revelar que o seu irmão e a família tinham vivido no local.

Não podemos tirar-te daqui durante semanas. Talvez meses. Leva tempo a arranjar documentos.

Obrigada agradeceu, sem lhe importar quanto tempo a manteriam ali. Era melhor do que de onde vinha. Em circunstâncias normais, tê-la-iam levado para uma casa segura, em Praga, mas, assim, era impossível.

Amadea viveu com eles na floresta até ao início de Agosto. Nessa altura reinava um pouco mais de calma. Passava a maior parte do tempo a rezar ou a passear numa pequena área à volta do acampamento. Outros homens chegaram e partiram e, uma vez, viu uma mulher. Ninguém lhe falava, por isso aproveitava os seus momentos de solidão para rezar. A floresta estava tão calma que, às vezes, se tornava difícil acreditar que havia uma guerra.

Uma noite, semanas após a sua chegada, como soubessem que ela era de Colónia, disseram-lhe que a cidade fora bombardeada pelos ingleses e ficara completamente destruída. Em Theresienstadt não tinham sabido de nada. O que os guerrilheiros diziam era impressionante; os nazis haviam sofrido um profundo revés. Esperava que não tivesse acontecido nada aos Daubigny; por sorte, o castelo deles ficava bastante longe da cidade e talvez o houvessem poupado.

Quase dois meses depois da chegada de Amadea ao acampamento, o chefe dos guerrilheiros sentou-se ao lado dela para explicar o que se seguiria. Não havia qualquer eco da sua evasão e achava que, para os nazis, uma judia a mais ou a menos, pouca importância tinha. Não podia, obviamente, saber se as autoridades do campo haviam relacionado o seu desaparecimento e o de Wilhelm na mesma noite, ou se se preocupavam com isso. Ela interrogou-se sobre se o teriam encontrado. Os guerrilheiros não tinham querido ir procurar o corpo e enterrá-lo noutro sítio, pois estava demasiado próximo do campo.

Os guerrilheiros tinham mandado fazer documentos para ela, em Praga, que pareciam autênticos. Passara a chamar-se Frieda Oberhoff e era uma jovem mulher de vinte e cinco anos, natural de Munique, que viera visitar o marido, aquartelado em Praga. Ele era Kommandant de uma pequena circunscrição da cidade e regressava com ela a Munique, de licença. Daí, seguiriam directamente para Paris para umas curtas férias, antes que ela voltasse a Munique e ele a Praga. Os bilhetes de comboio pareciam verdadeiros. Uma jovem trouxe-lhe roupas e uma mala e ajudou Amadea a vestir-se. Depois, tiraram-lhe uma fotografia para o passaporte. Tudo estava em ordem.

Viajaria acompanhada por um jovem alemão, que já trabalhara com eles e atravessara inúmeras vezes as fronteiras checa e polaca. Seria esta a segunda missão do género que efectuava em França. Amadea ia encontrar-se com ele no dia seguinte, numa casa segura, em Praga.

Quando chegou a hora da partida, a jovem não sabia como agradecer ao chefe do grupo. Limitou-se a olhá-lo, dizendo que rezaria por ele. Tinham-lhe salvo a vida e ofereciam-lhe uma outra. O plano residia em que ela se juntasse a uma célula de resistentes perto de Paris, mas primeiro tinha de atravessar a Alemanha, fazendo-se passar pela mulher do Kommandant. No dia em que partiu, com um vestido azul-claro de Verão e um chapéu branco, enquadrava-se perfeitamente no papel. Levava mesmo luvas e sapatos de salto alto.

Virou-se para os olhar uma última vez antes de entrar no carro com dois homens que a levariam à cidade. Eram ambos checoslovacos, trabalhavam para os alemães e situavam-se acima de qualquer suspeita. Ninguém os mandou parar nem lhes pediu identificação e, menos de uma hora após a sua partida do acampamento, Amadea estava escondida numa cave, em Praga. À meia-noite, chegou o homem com quem iria viajar. Alto, louro e bem-parecido, vestia o uniforme das SS e assemelhava-se em tudo a um oficial do Reich. Tratava-se, na realidade, de um checo que crescera na Alemanha, falando, portanto, um alemão impecável.

Partiriam num comboio às nove da manhã. Sabiam que o comboio iria a transbordar e os soldados na estação estariam ocupados com a multidão. Estes últimos verificariam os documentos de relance e nunca suspeitariam do elegante oficial das SS, que viajava com a sua bela e jovem mulher. Um dos homens deixou-os na estação; os dois avançaram pelo cais, fingindo uma conversa normal, ao mesmo tempo que ele lhe ordenava em voz baixa que sorrisse.

Amadea sentia-se estranha por se ver novamente com roupas modernas de mulher o que não lhe acontecia desde os dezoito anos bem como por viajar na companhia de um homem. Aterrorizava-a a ideia de que alguém se apercebesse que os seus documentos eram falsos, mas nem o controlador, nem o soldado que observava as pessoas a subir para o comboio os interrogaram, contentando-se em indicar-lhes o caminho, sem os fitar. Amadea e o seu companheiro de viagem incarnavam o sonho hitleriano da raça superior: altos, bonitos e louros, de olhos azuis. Instalaram-se numa carruagem de primeira classe, enquanto Amadea fitava o seu pseudo marido, de olhos muito abertos.

Conseguimos murmurou.

Ele assentiu com a cabeça e levou um dedo aos lábios. Nunca se sabia quem podia estar à escuta. O segredo do sucesso do plano residia em cumpri-lo rigorosamente até ao final. Começaram a falar em alemão, discutindo os seus projectos de férias e o que Amadea desejava ver em Paris. Ele descreveu-lhe o hotel onde ficariam e falou-lhe da mãe, que vivia em Munique.

Quando o comboio saiu da estação, Amadea observou Praga que se afastava lentamente. Só conseguia pensar no dia em que chegara aqui no vagão de transporte de gado, no sofrimento e no suplício que havia suportado, nos baldes cheios de excrementos, nas pessoas que choravam e morriam à volta dela. Ficara de pé durante dias a fio, mas agora encontrava-se sentada numa carruagem de primeira classe, com um chapéu e luvas brancas, na companhia de um guerrilheiro vestido com o uniforme das SS. Restava-lhe concluir que, por qualquer motivo, o Deus que ela amava tão profundamente quisera que ela sobrevivesse.

A viagem até Munique demorou apenas cinco horas e decorreu sem incidentes. Amadea dormiu durante uma parte do trajecto, mas acordou sobressaltada ao ver um soldado alemão passar junto deles. Wolff, o homem com quem viajava

- ou, pelo menos, o nome de que se servia desatou a rir e sorriu ao soldado, enquanto lhe ordenava por entre dentes que sorrisse também. Em seguida, a jovem voltou a adormecer, chegando a apoiar a cabeça no ombro do homem, que a acordou ao chegarem à estação central de Munique.

Tinham duas horas de espera antes da correspondência de comboios. Wolff propôs a Amadea que jantassem num restaurante da estação, pois não tinham infelizmente tempo para irem à cidade. O casal declarou-se impaciente por chegar a França. Com a ocupação, Paris tornara-se um destino procurado pelos alemães. À mesa, Wolff falou-lhe com entusiasmo das férias, mas Amadea notou que ele se mantinha vigilante. Embora conversasse com ela descontraidamente, conservava-se de olho em tudo e em todos.

Amadea só se descontraiu quando entrou no comboio para Paris, de novo numa carruagem de primeira classe. Tinha tanto medo que algo de terrível acontecesse e pudessem prendê-los, que mal tocara no jantar.

Acabará por se habituar disse-lhe Wolff entre dentes, enquanto subiam para o comboio.

Contudo, Amadea pensou que, com um pouco de sorte, não seria necessário. Não fazia ideia de como os guerrilheiros a esconderiam, mas viajar no meio de oficiais alemães, fingindo ser a mulher de um deles, quase a fazia desmaiar de medo. Era quase tão assustador como na noite em que fugira de Theresienstadt. Na altura precisara de coragem, a situação presente exigia-lhe sangue-frio. Manteve-se rigidamente sentada até o comboio partir. Desta vez, viajaram de noite.

Um funcionário veio abrir-lhes as camas. Quando ele se foi embora, Wolff disse-lhe que vestisse a camisa de noite. Amadea fitou-o, com uma expressão chocada.

Sou o seu marido riu-se ele. Podia, ao menos, tirar o chapéu e as luvas!

Até ela se riu com o comentário. Depois, virou-lhe as costas e enfiou a camisa de noite, fazendo deslizar o vestido por baixo. Quando se voltou, Wolff estava de pijama. Era um homem extremamente elegante.

Nunca fiz isto antes declarou Amadea tão atrapalhada, que Wolff lhe sorriu.

Esperava que ele não levasse o embuste demasiado longe, mas não lhe parecia esse tipo de homem.

Deduzo que não é casada? inquiriu ele num tom suave, a coberto do barulho do comboio que lhes abafava a conversa.

De facto, não. Sou carmelita respondeu Amadea com um sorriso e, durante um minuto, Wolff ficou paralisado de surpresa.

Bom. Nunca tinha passado a noite com uma freira declarou finalmente. Suponho que há sempre uma primeira vez para tudo.

Ajudou Amadea a meter-se na cama e, em seguida, sentou-se no estreito banco em frente e observou-a: religiosa ou não, era muito bonita.

Como é que foi parar a Praga? acrescentou.

Amadea hesitou um momento antes de responder. Deixara de haver explicações simples. Tudo se tornara complicado

Theresienstadt pronunciou, especificando tudo com uma só palavra. É casado? perguntou depois, também curiosa a respeito dele.

Wolff assentiu com a cabeça, mas ela detectou-lhe a tristeza do olhar

Fui. A minha mulher e os meus dois filhos foram mortos na Holanda durante as represálias. Ela era judia. Nem se deram ao trabalho de deportá-los. Abateram-nos no local. Depois, regressei a Praga. Há dois anos que estava de volta à Checoslováquia, fazendo tudo para bloquear a engrenagem alemã. O que fará quando chegar a Paris? acrescentou, enquanto atravessavam a Alemanha. Chegariam a Paris de manhã.

Não faço a mínima ideia.

Era a primeira vez que vinha a França. Esperava conseguir chegar a Dordogne, a terra do seu pai, e talvez avistar de relance o castelo da família. Contudo, sabia que não poderia mover-se em liberdade. Os guerrilheiros checos tinham-lhe garantido que seria escondida pela Resistência francesa, onde esta achasse que seria mais seguro para ela, provavelmente nos arredores de Paris. Ambos sabiam que teria de esperar, até ver o que os outros lhe diriam quando chegasse.

Espero que tenhamos ocasião de viajar juntos novamente declarou WolfF com um bocejo.

Tendo em conta os perigos da situação, ela achava-o de uma calma notável, mas há dois anos que efectuava este género de missão e estava habituado.

Não tenciono sair de França disse ela. Amadea não concebia a ideia de regressar à Alemanha, enquanto houvesse guerra. Na sua situação, viver em França seria difícil, mas na Alemanha era impossível. Preferia morrer a ser deportada, novamente, para um lugar sem dúvida pior do que da primeira vez. Theresienstadt chegara-lhe. Não conseguia deixar de pensar em todos os que ainda lá estavam e no que lhes aconteceria. Ter escapado e encontrar-se neste comboio era um milagre.

Regressará ao convento depois da guerra? perguntou Wolff curioso.

Claro respondeu Amadea com um sorriso.

Nunca teve dúvidas sobre a sua decisão?

Nem uma única vez. Soube desde o primeiro dia que era o meu destino.

E agora? Depois de tudo o que viu? Continua a pensar que deve estar isolada do mundo? Há tanta coisa que pode fazer pelas pessoas, aqui.

Oh, não é assim! exclamou a jovem com um olhar surpreendido. Nós rezamos por muita gente e há tanto que fazer!

Wolff sorriu ante estas palavras. Não tinha tenção de discutir com a jovem, mas interrogou-se, mesmo assim, sobre se ela regressaria mesmo ao convento algum dia. Era muito bonita e tinha muito que descobrir e aprender. Sentia-se estranho a viajar com uma religiosa e, para ele, não parecia sê-lo. Era, pelo contrário, muito humana e apetecível, embora parecesse não ter consciência disso, o que fazia exactamente parte do seu encanto. Era uma mulher muito atraente e de um tipo muito especial.

Passou a noite deitado no seu beliche, de ouvido à escuta. O comboio podia ser parado e revistado a qualquer momento, e ele queria estar acordado se tal acontecesse. Levantou-se uma ou duas vezes e verificou que Amadea dormia profundamente.

De manhã, acordou-a para que tivesse tempo de vestir-se, antes de chegarem à estação. Também se vestiu e aguardou fora do compartimento que ela tivesse lavado a cara, escovado os dentes e mudado de roupa. Uns minutos depois, acompanhou-a à casa de banho e também lá, ficou à espera. Amadea parecia muito calma quando regressaram ao compartimento da carruagem onde colocou o chapéu e calçou as luvas. Guardava o passaporte e os bilhetes na bolsa de mão.

Enquanto o comboio entrava na Gare de l’Est, a jovem observava fascinada toda a actividade no cais.

Não ponha um ar assustado sussurrou-lhe Wolf antes de saírem. Imagine-se uma turista feliz e encantada por estar aqui com o marido para umas férias românticas.

Ignoro como isso se passa respondeu no mesmo tom, com um leve sorriso.

Finja que não é uma freira.

Isso é impossível retorquiu, sem abandonar o sorriso.

Desceram do comboio com o ar de um jovem casal feliz, cada um com a sua mala e Amadea de braço enfiado no dele. Ninguém os mandou parar nem interrogou. Eram dois belos arianos a caminho de umas férias em Paris. E, fora da estação, Wolff fez sinal a um táxi.

Indicou ao motorista um café na margem esquerda, onde deviam encontrar-se com amigos, antes de se dirigirem ao hotel. Contudo, o homem era taciturno e, aparentemente, não compreendia alemão. Amadea falou-lhe em francês. Embora parecesse alemã, o homem ficou surpreendido ao ver que ela se expressava como uma francesa.

WolfF deixou uma gorjeta mais que generosa ao motorista que lhe agradeceu profusamente e se afastou. Sabia que não era aconselhável mostrar-se rude para com os alemães, sobretudo os oficiais das SS. Um dos seus amigos fora abatido por um, há seis meses, só por lhe ter chamado ”sale boche”.

Wolff e Amadea mandaram vir cafés pelo menos o que passava por café naquela altura e o empregado trouxe-lhes um cesto com croissants. Dez minutos mais tarde, juntou-se-lhes um amigo de WolfF, que lhe deu uma palmada no ombro, visivelmente satisfeito por o ver.

Os dois homens disseram que se conheciam desde os bancos da escola. Na verdade, era aquela a primeira vez que se viam, mas desempenharam bem o seu papel. Amadea observava-os com um sorriso tímido. Wolff apresentou-a como sua mulher e os três conversaram uns minutos, após o que o amigo de WolfF se ofereceu para levá-los ao hotel.

Meteram-se no carro dele com as bagagens, sem que ninguém lhes prestasse atenção. Uma vez nos arredores da capital, WolfF trocou a roupa que trazia pela que o companheiro lhe trouxera, e o uniforme das SS desapareceu numa mala de fundo falso. Enquanto se mudava, WolfF parecia conversar com o condutor em código, declarando que regressaria nessa noite.

O carro parou numa pequena casa nos arredores de Paris, em Val-de-Marne. Era o tipo de habitação onde se vai visitar uma avó ou uma tia viúva. Um casal de idade e com um ar simpático estava sentado na cozinha, tomando o pequeno-almoço e lendo o jornal.

O motorista, que se chamava Pierre, olhou-os de relance, murmurando um breve ”Bonjour, mamie, bonjour papi” e dirigiu-se imediatamente a um armário por trás deles. Abriu uma porta secreta no fundo do armário e desceu por uma escada escura até à cave, seguido de WolfF e Amadea. Levou-os até à adega onde permaneceu uns momentos sem abrir a luz, em seguida, empurrou uma porta disfarçada que revelou uma divisão em plena actividade. Uma dúzia de homens e duas mulheres sentavam-se à volta de uma mesa fabricada à mão e um outro homem estava diante de um aparelho de rádio. A divisão era pequena, com papéis e caixas por todo o lado, uma máquina fotográfica e malas. Dava a sensação que estavam ali há vários dias.

Saluti dirigiu-se Pierre a um dos homens Os outros esboçaram um aceno de cabeça.

Salut, Pierre! ouviu-se na sala e um deles perguntou se ele trouxera a encomenda.

Pierre fez um aceno de cabeça na direcção de Amadea; era ela a encomenda que esperavam.

Bem-vinda a Paris saudou uma das mulheres, estendendo-lhe a mão e sorrindo. Fez boa viagem? Falara-lhe em alemão, mas Amadea respondeu-lhe num francês impecável. Ignorávamos que sabia francês exclamou, surpreendida.

Ainda não sabiam muita coisa a respeito dela, à excepção de que escapara de um campo e recebera a ajuda de guerrilheiros checos, próximo de Praga. Estes haviam-lhes comunicado que ela precisava de refúgio em França e que podia ser-lhes útil, sem explicarem porquê. Agora, o motivo parecia-lhes óbvio a jovem parecia alemã e dominava igualmente o alemão e o francês.

WolfF sentou-se a um canto com dois homens e fez-lhes o relatório sobre os últimos acontecimentos em Praga e os movimentos nazis por aqueles lados. Falavam em voz baixa, o que não permitia a Amadea apanhar uma só palavra

O homem que parecia liderar o grupo observou atentamente Amadea. Nunca tinha visto uma jovem com uma aparência tão tipicamente ariana que se expressasse facilmente em alemão e francês.

Estávamos a pensar mandá-la para uma herdade, no Sul. Tem o físico de uma ariana pura. É judia?

A minha mãe era.

E o seu número? interessou-se o homem, de olhos fixos no seu braço, pois sabia que ela vinha de um campo.

Amadea abanou a cabeça. Para ele, a jovem era uma pérola rara e detestava mandá-la embora dali. Precisavam dela em Paris.

Tem nervos de aço? acrescentou com um sorriso, observando-a com um ar pensativo.

Portou-se à altura no comboio interferiu Wolff, que os ouvira.

Em seguida, deitou um olhar afectuoso à sua companheira de viagem e disse ainda:

Ela é uma freira. Carmelita.

Interessante! comentou o chefe da célula, fitando Amadea. A ponderação não constitui um dos requisitos para se ser carmelita? E um bom equilíbrio nervoso, se bem me lembro?

Como sabe isso? replicou Amadea, rindo. Mas é verdade, sim. São ambos necessários, além de uma boa saúde.

A minha irmã entrou para uma ordem religiosa, em Touraine. As freiras deviam estar loucas para a aceitarem. Ela é insensata e descontrolada. Ficou dois anos e depois saiu para casar. Tenho a certeza de que se sentiram aliviadas com a saída dela. Hoje, tem seis filhos.

O homem sorriu-lhe e Amadea sentiu-se próxima dele. Ninguém os apresentara, mas tinha ouvido alguém tratá-lo por Serge.

Tenho um irmão que é padre declarou ainda.

Não especificou a Amadea que este último era igualmente chefe de uma célula de resistentes em Marselha, onde fazia o mesmo do que o padre Jacques, que escondia crianças judias no colégio de que era director, em Avon. Além do irmão, conhecia inúmeros padres por toda a França que seguiam este exemplo, por vezes, de moto próprio. Contudo, não fazia tenção de usar esta jovem alemã como freira. Podia ser-lhes muito mais útil de outras formas. Passava facilmente por uma alemã, mas precisava de saber se tinha nervos para tal.

Vamos mantê-la aqui umas semanas prosseguiu. Ficará na cave, até os seus documentos estarem em ordem e, depois, pode viver com os meus avós, na casa. Será a minha prima de Chartres.

Ante a evocação dos avós, Amadea compreendeu que Pierre e Serge eram irmãos. Reinava uma grande actividade na cave. Imprimiam-se panfletos com o objectivo de fazer com que os franceses saíssem do seu torpor e soubessem a verdade sobre a guerra.

Uma das mulheres tirou uma fotografia a Amadea para os seus documentos de identidade francesa e, um pouco mais tarde, a outra foi ao andar de cima buscar comida para Wolff e para Amadea. Depois do que vivera em Theresienstadt, a comida agora parecia-lhe abundante em todo o lado. E enquanto Serge continuava a interrogá-la, verificou, surpreendida, que estava faminta. Umas horas depois, Wolff foi-se embora. Regressava a Praga.

Antes de partir, despediu-se dela.

Boa sorte, irmã desejou, com um sorriso. Talvez algum dia voltemos a ver-nos.

Obrigada agradeceu, triste por vê-lo ir-se embora, considerando-o um amigo. Que Deus o abençoe e o proteja.

Tenho a certeza de que o fará replicou ele, confiante.

WolfF trocou mais umas palavras com Serge e, em seguida, partiu na companhia de Pierre. Vestiria de novo o uniforme das SS no carro, a caminho da estação. Amadea achava-os a todos temerários e sentia um grande respeito por eles. Constituíam um fantástico exemplo da coragem francesa. Embora a França se tivesse rendido aos alemães em três semanas, havia células de resistência como esta, que lutavam por libertar os franceses, salvar os judeus e recuperar a honra do país. Mas, acima de tudo, salvavam vidas e faziam o seu melhor para ajudar os Aliados, colaborando estreitamente com os ingleses.

Nessa noite, Amadea dormiu na cave, numa cama de campanha, enquanto os homens conversaram até altas horas. Os seus documentos ficaram prontos no dia seguinte. Achou-os ainda melhores do que os alemães, que Serge disse que guardaria. Não queria que os tivesse com ela, quando partisse em missão. Haviam falado a respeito dela durante toda a noite e, por fim, tomara a decisão de enviá-la para Melun. A cidade situava-se a cinquenta quilómetros a leste de Paris, e ele achava que, ali, a jovem estaria em maior segurança. Além disso, precisavam dela no local. Os ingleses andavam a lançar provisões e homens de pára-quedas. Seria uma missão delicada.

Desta vez, os documentos mencionavam que ela era solteira, natural de uma cidade próxima de Melun. Chamava-se Amélie Dumas. A data de nascimento era a correcta, mas nascera em Lyon. Se a interrogassem, diria que estudara literatura e arte na Sorbonne, antes da guerra. Serge perguntou-lhe que nome de código desejava e ela respondeu ”Teresa”, sem hesitar. Sabia que este nome lhe daria coragem. Ignorava o que esperavam dela, mas estava pronta a fazer o que quer que fosse. Devia a vida a esta gente.

Nessa noite, Amadea e as duas resistentes seguiram de carro rumo a Melun. Eram apenas três mulheres que tinham vindo passar uns dias a Paris e regressavam às suas herdades. Mandaram-nas parar uma única vez. Os soldados alemães examinaram os documentos, gracejaram um pouco com elas num mau francês, piscando-lhes o olho e tentando-as com chocolate e cigarros, antes de as deixarem partir. Não se mostraram agressivos, apenas desejavam flartar com bonitas francesas.

A noite já tinha caído quando chegaram à herdade. O fazendeiro e a mulher pareceram surpreendidos por ver Amadea. As outras duas mulheres apresentaram-na e a fazendeira conduziu-a a um quartinho por trás da cozinha. Ela deveria colaborar nos trabalhos da herdade e nas tarefas domésticas, pois a mulher sofria muito de artrite e já não podia ajudar o marido. Amadea teria de fazer tudo o que eles pedissem e à noite trabalharia para a Resistência local. Estava, aliás, previsto que ela se encontrasse com um outro resistente no dia seguinte

Os fazendeiros pareciam um casal de velhos inofensivos, mas não era o caso. Eram extremamente corajosos e davam-se com todos os operacionais da região. As roupas que a mulher emprestou a Amadea davam-lhe o ar de uma rapariga do campo. Apesar da sua magreza, a jovem era robusta e respirava saúde, como convinha à sua personagem.

Passou a noite em mais uma cama desconhecida, mas deu graças ao céu por ter uma. Na manhã seguinte, as duas mulheres da célula parisiense regressaram, desejando-lhe boa sorte. Como sempre lhe acontecia agora em relação a todos, interrogou-se sobre se alguma vez as veria de novo. Tudo na sua vida parecia transitório e imprevisível. As pessoas desapareciam da vida umas das outras num abrir e fechar de olhos. E quando se pronunciava uma despedida podia ser para sempre, o que era frequentemente o caso. Contudo, toda esta gente desempenhava um trabalho perigoso e Amadea sentia-se ansiosa por ajudá-los. Devia-lhes muito e queria começar a pagar a sua dívida

Nessa manhã, ajudou em pequenos trabalhos na quinta. Mungiu as poucas vacas que ainda restavam, transportou também madeira, trabalhou no jardim, ajudou a cozinhar o almoço e lavou a louça. Trabalhava tão incansável e seriamente como o fazia no convento, e a mulher de idade estava-lhe reconhecida. Há anos que ninguém a ajudava tanto.

À noite, depois do jantar, o sobrinho veio visitá-los. Chamava-se Jean-Yves. Era um rapaz alto e desengonçado, com olhos e cabelo preto, emanando uma certa tristeza. Só tinha mais dois anos do que Amadea, mas dava a sensação de carregar o peso do mundo sobre os ombros. O tio serviu-lhe um copo de vinho feito por ele e ofereceu outro a Amadea, que recusou, preferindo beber um copo de leite da vaca que mungira de manhã.

Sentou-se tranquilamente à mesa, enquanto os dois homens falavam. Pouco depois, Jean-Yves perguntou-lhe se queria dar uma volta. Amadea percebeu que ele era o membro da Resistência com quem devia colaborar. Saíram, pois, para o ar quente da noite como dois jovens desejosos de se conhecerem.

Pareceu-me compreender que tinha feito uma longa viagem disse ele, olhando-a desconfiado.

Amadea assentiu com a cabeça. Ainda lhe era difícil acreditar onde se encontrava. Deixara Praga há uns dias e o seu refúgio na floresta pouco tempo antes, para já nem falar do stresse da viagem através da Europa com um guerrilheiro vestido com o uniforme de oficial das SS e documentação falsa. Contudo, agora, ela era Amélie Dumas. Jean-Yves era bretão e fora pescador antes de vir para Melun. O casal de fazendeiros era, porém, sua família verdadeira. Amadea sentia a cabeça andar à roda com tanta informação em simultâneo: falsas identidades, missões verdadeiras, agentes secretos da Resistência, e todos eles a tentarem libertar França.

Tenho sorte em estar aqui limitou-se a responder. Sentia-se reconhecida a todos pelo que faziam por ela e esperava poder retribuir-lhes a ajuda. Era melhor do que esconder-se num túnel, algures, rezando para que os nazis não a encontrassem.

Precisamos de si aqui. Recebemos um carregamento amanhã.

De Inglaterra? perguntou em voz baixa, embora não houvesse ninguém por perto que pudesse ouvi-los.

Jean-Yves assentiu com a cabeça.

Onde aterrarão?

Nos campos, depois de cair a noite. Previnem-nos primeiro pela rádio e vamos ao encontro deles com lanternas. Quando aterram, só podem permanecer no solo durante quatro minutos. Às vezes, lançam os pacotes de pára-quedas, sem aterrarem. Depende do que trazem.

Era um trabalho perigoso, mas estavam ansiosos por efectuá-lo. Jean-Yves era um dos líderes da célula local. Só havia uma pessoa acima dele, mas ele era um dos melhores e o mais temerário. Fora um verdadeiro diabo nos tempos de juventude. Enquanto caminhavam através dos pomares, Amadea não conseguiu deixar de se interrogar de onde lhe viria aquele ar triste e melancólico

Sabe usar um rádio de ondas curtas? inquiriu, mas ela abanou a cabeça.

Vou ensinar-lhe É bastante simples. E uma arma? Amadea abanou novamente a cabeça

O que é que fazia antes? retorquiu ele com uma gargalhada. Era manequim, actriz ou apenas uma menina mimada?

A beleza dela levava-o a supor que devia ter acertado, mas desta vez foi ela a rir-se.

Carmelita respondeu Mas se isso era supostamente um cumprimento, agradeço-lhe muito.

Duvidava que ser chamada de actriz fosse um cumprimento a mãe certamente não o acharia

Deixou o convento antes da guerra? inquiriu ele, boquiaberto.

Não. Só quando a minha mãe e a minha irmã foram deportadas. Parti para não pôr em risco o resto da congregação. Era a única atitude a tomar.

Amadea ainda o ignorava, mas a irmã Teresa Benedita da Cruz Edith Stem e a sua irmã Rosa tinham sido deportadas para Auschwitz há alguns dias. Enquanto passeava nos pomares de Melun com Jean-Yves, Edith Stem fora gaseada e morrera

E regressará ao convento depois da guerra?

Sim respondeu Amadea, convicta, pois era a única coisa que a fazia andar em frente.

Que desperdício! exclamou, fitando-a

De forma alguma. É uma vida fantástica.

Como pode dizer uma coisa dessas? replicou ele. Viver em reclusão assim. Além disso, não parece uma freira.

Pareço sim insistiu num tom calmo E levamos uma vida muito activa. Trabalhamos muito e rezamos por todos vós.

- Agora continua a rezar?

Obviamente. Motivos para rezar não faltam nestes tempos.

”Sobretudo pelo homem cuja morte causara ao evadir-se”, pensou. Ainda não esquecera o rosto de Wilhelm e o sangue a escorrer da cabeça fendida. Sabia que se sentiria eternamente responsável e teria de arrepender-se toda a vida.

Rezará pelos meus irmãos? perguntou repentinamente Jean-Yves, parando.

Parecia muito mais jovem do que ela se sentia, embora, na realidade, fosse mais velho. Depois de tudo o que vivera, sentia-se envelhecida.

Sim. Onde estão? interessou-se, comovida pelo pedido e decidida a rezar por eles nessa noite.

Foram mortos há duas semanas pelos nazis, em Lyon, ao quererem proteger Moulin. Estavam com ele.

Serge falara-lhe deste herói da Resistência.

Lamento muito. Tem outros irmãos e irmãs? interrogou num tom suave, esperando que fosse o caso, mas ele abanou a cabeça.

Os meus pais estão mortos respondeu. O meu pai morreu num acidente de pesca, quando eu era miúdo, e a minha mãe morreu no ano passado. Teve uma pneumonia, mas não tínhamos medicamentos para a tratar.

A morte recente dos irmãos explicava a sua tristeza. Tal como ela, perdera toda a família, à excepção do tio e da tia de Melun.

A minha família também morreu disse Amadea. Ou pode ter morrido. A minha mãe e a minha irmã foram deportadas em Junho do ano passado. Não se soube mais nada sobre elas. O meu pai morreu, tinha eu dez anos. Toda a família da minha mãe foi deportada depois da Noite de Cristal. Eram judeus. A família do meu pai renegou-o quando eles casaram, pois a minha mãe era alemã e judia. Ele era católico e francês. Foi na Primeira Guerra Mundial. As pessoas fazem coisas tão estúpidas! Nenhuma das duas famílias chegou a perdoar aos meus pais.

Foram felizes juntos? quis saber Jean-Yves.

Amadea sentiu-se emocionada com o seu interesse. Eram dois jovens prestes a iniciar uma amizade em plena guerra.

Sim, muito. Amavam-se profundamente.

Acha que eles lamentaram ter desafiado as famílias?

Não, não acho. Na verdade, a minha mãe sofreu muito, quando ele morreu. Nunca mais voltou a ser a mesma. A minha irmã tinha apenas dois anos nessa altura. Fui sempre eu que tomei conta dela contou Amadea com os olhos cheios de lágrimas. Há muito tempo que não falava de Daphne e sentiu repentinamente uma imensa saudade da irmã e também da mãe. Penso que existe muita gente como nós, gente que já não tem família.

Os meus irmãos eram gémeos especificou Jean-Yves, como se isso fosse importante, mas para ele era

Rezarei por eles esta noite. E por si também.

Obrigado agradeceu ele, enquanto regressavam devagar à herdade.

Jean-Yves gostava da jovem mulher, que achava muito ponderada. Também ela sofrera muito. Ainda lhe custava, porém, a acreditar que era freira e não compreendia as suas motivações. Mas o facto parecia conferir-lhe algo de muito profundo e tranquilo que ele apreciava. A sua presença reconfortava-o e sentia-se em segurança ao seu lado.

Virei buscá-la amanhã à noite. Vista roupa escura. Vamos enegrecer os rostos quando lá chegarmos. Eu trago-lhe graxa.

Obrigada agradeceu Amadea, com um sorriso.

Gostei de falar consigo, Amélie. É boa pessoa.

Também o é, Jean-Yves.

Acompanhou-a até à casa da herdade e depois, enquanto regressava à quinta onde vivia, sentiu-se contente em saber que ela estaria a rezar por ele. Algo nela dava-lhe a impressão de que Deus a escutava.

 

Jean-Yves veio buscá-la às dez horas, na noite seguinte. Conduzia uma camioneta velha com os faróis apagados e estava acompanhado de outro homem, um jovem camponês, robusto, de cabelo ruivo. Jean-Yves apresentou-o a Amélie, dizendo que se chamava Georges.

Amadea trabalhara no duro na herdade durante todo o dia, dando uma grande ajuda à tia de Jean-Yves. Esta sentia-se agradecida e já estava na cama com o marido, quando eles saíram de casa. Não tinham feito qualquer pergunta. Conheciam a rotina. O casal de idade não aludira ao que Amadea faria nessa noite, subindo ao andar de cima, após se terem despedido. Uns minutos depois, Amadea afastou-se com Jean-Yves. Vestira roupa escura, como ele lhe pedira. Tomaram a direcção dos campos, avançando sem pronunciarem uma palavra.

Quando lá chegaram, já havia mais duas camionetas estacionadas num bosquedo. Eram, ao todo, oito homens e Amadea. Não trocaram uma palavra. Jean-Yves estendeu à jovem um pequeno boião de graxa com que ela escureceu o rosto. Se fossem apanhados, os rostos camuflados iriam traí-los, mas tratava-se de uma precaução necessária.

Um ruído de motor rasgou o céu e os homens dispersaram-se, a correr. Minutos depois, acenderam as lanternas para fazerem sinais ao avião, e Amadea avistou um pára-quedas iniciando uma lenta descida para o solo. Não transportava nenhum homem, apenas um pacote enorme. Então, os homens apagaram as lanternas e o avião afastou-se. Era tudo.

Quando o pára-quedas aterrou perto das árvores, precipitaram-se todos na sua direcção. Soltaram o pacote e um deles enterrou o pára-quedas no solo o mais rapidamente possível. Os outros ocuparam-se da carga. O pacote estava cheio de armas e munições que eles puseram nas camionetas. Decorridos vinte minutos, separaram-se. Amadea e os seus dois companheiros retomaram o caminho da herdade, já sem camuflagem no rosto.

É assim que se passa declarou Jean-Yves que lhe estendera um lenço com que se limpar.

Amadea sentira-se impressionada com a eficácia da operação. Tudo se desenrolara com uma enorme precisão e, ao vê-los, dir-se-ia fácil. Contudo, sabia que nem sempre era assim e que, por vezes, se davam incidentes. Além de que, se os alemães os apanhassem, seriam fuzilados, como um exemplo para a cidade. Este tipo de incidentes acontecia por toda a França e fora, aliás, o que se passara com os irmãos de Jean-Yves, por quem ela rezara na véspera, como prometera.

Eles costumam aterrar, ou largam sempre as cargas? inquiriu calmamente Amadea, que queria saber mais sobre o seu trabalho e o que esperavam dela.

Depende. Por vezes, lançam homens de pára-quedas. Contudo, em caso de aterragem, têm de voltar a descolar em menos de cinco minutos e é muito arriscado.

Não lhe era difícil imaginar

O que fazem com os homens?

Também depende. Por vezes, escondemo-los, mas, regra geral, partem directamente em missões para os ingleses. É mais difícil conseguir que saiam. Às vezes acontece ficarem feridos.

Depois, Jean-Yves calou-se até chegarem à herdade. Georges observava os dois companheiros em silêncio. Meteu-se com Jean-Yves a propósito de Amadea, quando esta desceu da camioneta. Há muito tempo que os dois se conheciam e tinham passado por muita coisa juntos; confiavam plenamente um no outro.

Gostas dela, confessa declarou Georges, com um leve sorriso.

Não sejas parvo. Ela é freira resmungou Jean-Yves entre dentes.

Ah, sim, retorquiu Georges, surpreendido Não parece nada.

É porque não usa o hábito.

Georges assentiu com a cabeça, impressionado, e inquiriu:

Vai regressar ao convento?

Achava que seria uma pena se o fizesse e Jean-Yves era da mesma opinião.

Pelo menos, é o que diz respondeu ele, estacionando na herdade vizinha, onde os dois habitavam e trabalhavam como ajudantes.

Talvez possas fazê-la mudar de opinião sugeriu Georges, sorrindo, ao descerem da camioneta.

Jean-Yves não lhe respondeu. Também pensara o mesmo.

Nesse momento, o objecto da conversa de ambos encontrava-se ajoelhada, dando graças a Deus pela missão ter sido bem-sucedida. Por um momento, Amadea interrogou-se sobre se estaria certo agradecer a Deus por tê-los ajudado a receber armas destinadas a matar, mas, na medida em que não parecia haver outra opção, esperava que Ele compreendesse. Permaneceu, assim, um longo momento a fazer o seu exame de consciência, como no convento, e em seguida deitou-se.

Levantou-se antes das seis para ir mungir as vacas e, quando os seus anfitriões se levantaram, o pequeno-almoço estava pronto. Compunha-se simplesmente de fruta, cereais e uma espécie de café, mas para Amadea era um festim, comparado com o que tinha por hábito comer no início do ano. Continuava a agradecer a Deus, de manhã e à noite, por ter-lhe permitido chegar a França sã e salva. Sentada à mesa, nessa manhã, a jovem reflectia na missão em que participara na véspera.

Nas semanas seguintes, houve duas outras missões do mesmo género e três em Setembro, com homens. O avião só aterrou num desses casos; nos outros dois, lançaram-nos de pára-quedas. Um dos homens fez um grave entorse no tornozelo ao tocar no solo, e tiveram de escondê-lo na herdade, onde Amadea o tratou até se encontrar em condições de partir.

Em Outubro, receberam a visita de soldados alemães. Andavam a controlar as herdades e os documentos de identificação. Quando examinaram os de Amadea, o coração da jovem quase parou, mas eles devolveram-lhos sem qualquer comentário e prosseguiram caminho, levando alguma fruta. Era óbvio que a tia de Jean-Yves sofria de artrite e precisava de uma rapariga que ajudasse na herdade. E o marido também era velho Não acharam nada fora do normal

Amadea falou nisso a Jean-Yves, quando iam a caminho de uma outra missão. Nessa noite, recolheram mais armas e munições, bem como rádios.

Hoje, tive um medo de morte confessou-lhe.

Também me acontece por vezes replicou Jean-Yves com franqueza. Ninguém quer ser abatido

Contudo, preferia que me matassem a voltar para o sítio de onde vim disse Amadea.

És muito corajosa elogiou ele, fitando-a sob o luar.

Jean-Yves gostava de trabalhar com Amadea e, sobretudo, de conversar com ela. Por vezes, aparecia na herdade apenas para conversar, pois sentia-se só desde a morte dos irmãos. A jovem era uma companhia agradável e tinha bom coração. Gostava de tudo nela, mas nunca lhe disse nada. Não queria ofendê-la nem afugentá-la. Amadea falava muito do convento; era a única vida que conhecera e de que sentia falta. Jean-Yves gostava da sua inocência e da sua força. Ela nunca fugia às responsabilidades e não temia correr riscos. Era igualmente tão corajosa como qualquer dos seus homens. Todos lhe reconheciam o valor e a respeitavam.

Amadea participou em todas as missões ao longo do Outono e até ao Inverno. Jean-Yves ensinou-a a servir-se de um rádio e a carregar uma arma. Ensinou-a também a disparar no campo do tio, tendo ficado surpreendido ao constatar que ela era dotada Não tremia e tinha bons reflexos. Além disso, possuía um coração de ouro.

Dois dias antes do Natal, ajudou-o a transportar quatro rapazinhos judeus até Lyon. O padre Jacques prometera recebê-los, mas, por fim, não conseguiu manter a palavra dada com receio de pôr em risco a vida das outras crianças. Amadea e Jean-Yves arranjaram forma de os levar a Jean Moulin, depois regressaram sozinhos. Um dos miúdos adoecera e ela cuidara dele.

És uma mulher maravilhosa, Amélie elogiou Jean-Yves, no regresso a Melun.

Um pouco mais tarde, foram detidos por soldados que lhes examinaram os documentos; um deles olhou fixamente para Amadea.

É a minha namorada esclareceu Jean-Yves num tom despreocupado.

Sortudo! retorquiu o soldado com um sorriso, antes de fazer-lhes sinal para que avançassem. Feliz Natal.

Sale boche murmurou Jean-Yves quando se afastaram. Quem me dera que fosse verdade acrescentou depois, fitando Amadea.

Contudo, a jovem não o escutava. Pensava no rapazinho doente e esperava que ele recuperasse rapidamente. A criança passara três meses escondida num subterrâneo e apanhara bronquite; tinha sorte por ainda estar vivo.

O quê?

Disse que desejava que fosses realmente minha namorada.

Não. Não sejas ridículo replicou, perturbada. Assumira o tom de uma mãe a falar com o filho e, ao sorrir, Jean-Yves mais parecia um miúdo do que um homem que arriscava constantemente a vida pela França.

Mas é verdade. E nada tem de ridículo. Ridículo é o facto de ires fechar-te num convento até ao fim dos teus dias. Isso sim, é uma estupidez.

Não, não é. É a vida que desejo.

Mas porquê? De que é que tens medo? De que te escondes? O que há de tão terrível cá fora? replicou quase aos gritos, pois há meses que estava apaixonado por ela e sentia-se frustrado. Dir-se-iam duas crianças a brigar, enquanto regressavam a casa.

Não fujo de nada. Acredito, pelo contrário, no que faço. Adoro o convento e adoro ser freira.

Amadea quase parecia amuada, quando cruzou os braços, como que enfiando as mãos no hábito. Este ainda lhe faltava e sentia-se despida sem ele.

Esta noite observei-te com as crianças, sobretudo com o miúdo doente. Precisas de ter filhos. As mulheres são feitas para isso. Não podes renegar esse direito.

Posso sim. Tenho outras coisas a fazer.

Como, por exemplo? Nada tens ali, excepto o sacrifício, a solidão e as preces.

Nunca me senti só no convento, Jean-Yves replicou Amadea num tom calmo, suspirando em seguida. Às vezes, sinto-me muito mais só aqui.

E era verdade. Faltava-lhe a vida no convento, bem como as irmãs e a madre superiora. Mas também a sua mãe e Daphne. Na verdade, faltavam-lhe muitas coisas, embora se sentisse reconhecida a Deus por se encontrar em Melun.

Também eu me sinto só confessou Jean-Yves num tom triste, virando-se para ela.

Parou ao detectar lágrimas no rosto dela.

Ma pauvre petite disse, parando a camioneta. Desculpa. Não queria magoar-te.

Tudo bem respondeu Amadea, mas desfez-se em pranto.

Jean-Yves tomou-a nos braços, contudo a jovem não conseguia parar de soluçar. Tudo lhe parecia mais difícil ante a proximidade do Natal. Já fora o mesmo no ano anterior.

Sinto tanto a sua falta... Não consigo acreditar que partiram para sempre... a minha irmã era tão bonita... e a minha pobre mãe, sempre disposta a tudo por nós. Nunca pensava nela... Não consigo deixar de pensar no que lhes aconteceu... Sei que não voltarei a vê-las... Oh, Jean-Yves...

Amadea soluçou durante muito tempo nos seus braços. Era a primeira vez que se deixava abater daquela forma. Por norma, proibia-se de pensar no que podia ter-lhes acontecido. Ouvira contar histórias horríveis sobre Ravensbriick. Era impensável que elas tivessem desaparecido para sempre, mas, no íntimo, sabia que era essa a realidade.

Eu sei... eu sei... Também penso em todas essas coisas... Sinto saudades dos meus irmãos... Todos perdemos entes queridos. Não há ninguém que não tenha perdido uma pessoa chegada.

Em seguida e, sem reflectir, beijou-a e ela correspondeu. Há meses que andava a conter-se, há meses que se esforçava por respeitar os votos dela e a sua opção de vida, bem como o seu desejo de regressar ao convento. Contudo, não queria que ela se fosse embora. Queria passar o resto da vida ao seu lado, cuidar dela e ter filhos com ela. Apenas se tinham um ao outro. Todos aqueles de quem gostavam tinham desaparecido. Assemelhavam-se a dois sobreviventes, à deriva num barco, num mar tempestuoso. Subitamente abraçaram-se.

Sem compreender o que lhe acontecia, Amadea viu-se submersa numa tal onda de desespero e de paixão tão incontrolável, que não conseguia parar de o beijar e abraçar. E, antes que qualquer deles pudesse parar ou reflectir no que se passava, fizeram amor na camioneta. Era tudo o que ela desejava. Era como se se tivesse transformado numa pessoa completamente diferente do que fora durante todos estes anos.

A guerra podia ter efeitos estranhos sobre as pessoas e transformá-las, o que era o seu caso. Amadea esquecera os votos, as irmãs, o convento e mesmo o seu amor por Deus. Tudo o que desejava e precisava neste momento era de Jean-Yves e o mesmo se passava com ele. Tinham atravessado muitas provas, sobrevivido a muitas perdas e assistido a demasiados horrores.

Nessa noite deixaram cair a máscara. Jean-Yves conservou Amadea nos seus braços, chorando entre os seus cabelos louros, e tudo o que a jovem desejava era consolá-lo. Era o filho que ela não tinha e nunca teria, o único homem que alguma vez desejara ou amara. Censurara-se muitas vezes por este pensamento enquanto rezava no seu quarto, mas de momento apenas desejava pertencer-lhe. Depois do amor, entreolharam-se como duas crianças perdidas. Ele parecia angustiado.

Detestas-me?

Não a tomara pela força. Os dois queriam-se um ao outro e Amadea oferecera-se e desejara-o. Precisavam um do outro, muito mais do que teriam imaginado. Haviam simplesmente sofrido em demasia e, quer ou não o reconhecessem, os acontecimentos tinham-nos afectado em excesso.

Não. Jamais poderia detestar-te. Amo-te, Jean-Yves declarou Amadea meigamente, ao mesmo tempo que uma ínfima parte dela compreendia o que haviam feito e perdoava aos dois.

Também eu te amo. Oh, céus! Se soubesses como te amo! O que vamos fazer agora?

Ele sabia até que ponto a jovem estava segura da sua vocação, mas sempre lhe parecera que se enganava. Era uma mulher demasiado bonita e encantadora para se esconder num convento até ao fim dos seus dias. Contudo, era a vida que ela lhe dissera desejar, desde que se tinham conhecido.

Precisamos de decidir isso já? Ignoro se acabei de cometer um pecado horrível, ou se era o que estava predestinado. Talvez fosse o que Deus queria para mim! Esperemos um pouco e rezemos arguiu com sensatez, enquanto Jean-Yves a apertava de encontro ao peito.

Amadea ignorava onde Deus queria conduzi-la, mas tinha a sensação de que devia explorar este novo caminho. Sentia que era o certo.

Se te acontecer alguma coisa, Amélie, morrerei.

Não digas parvoíces. Esperar-te-ei no paraíso e viveremos momentos maravilhosos, quando vieres ter comigo.

Amadea tinha os olhos cheios de lágrimas, mas sentia-se feliz ao lado dele. Jamais conhecera uma tal felicidade. O seu amor por Jean-Yves era diferente do que sentia pelo convento, e era essa sensação que lhe provocava uma alegria desconhecida. Era a primeira vez que se sentia jovem e leve. A vida à sua volta não parecia tão sombria, nem as tragédias tão horríveis. Era tudo o que ambos precisavam para esquecer a realidade, pelo menos de momento.

- Deus, como te amo! exclamou Jean-Yves com um largo sorriso, ao mesmo tempo que ajeitavam a roupa e riam como dois adolescentes.

Gostaria de pedir-lhe que o desposasse, mas a jovem acabava de dar um passo enorme e não queria pressioná-la. Talvez ela tivesse razão. Era preciso deixar que tudo seguisse o seu curso. Não tinham de decidir tudo numa noite. Só desejava uma coisa, que Amadea se tornasse sua mulher e a mãe dos seus filhos. Esperava que Deus estivesse de acordo e ela abandonasse a sua intenção de regressar ao convento. Contudo, de momento, era demasiado cedo; ambos estavam ainda sob o choque do que se havia passado.

Conversaram tranquilamente durante o caminho de volta. Quando chegaram à herdade, ele tomou Amadea nos braços e beijou-a, antes que descesse da camioneta.

Amo-te. Não te esqueças disse, com uma expressão grave. Esta noite foi só o início. Não foi um erro, nem um pecado. E prometo-te ir mais vezes à missa acrescentou, sorrindo.

Desde a morte dos irmãos que não voltara à igreja por estar demasiado irritado com Deus.

Talvez seja por isso que Ele me enviou ao teu encontro, para te trazer de volta à igreja.

No entanto, fosse qual fosse o motivo, Amadea estava tão feliz como ele. Verificou, surpreendida, que não se sentia em falta, mas, pelo contrário, feliz e apaixonada. Sabia que precisariam de tempo para encontrar uma solução. Era essa uma das consequências da guerra.

Nessa noite, deitada na cama, Amadea constatou que não tinha nenhuma crise de consciência nem sequer de arrependimento. Por estranho que parecesse, achava que estava certa. Interrogou-se sobre se não seria isto, afinal, o que Deus queria para ela. Mergulhada nestes pensamentos, adormeceu sem se dar conta.

Na manhã seguinte, encontrou um raminho de flores junto ao celeiro, que Jean-Yves colhera para ela antes de ir trabalhar. Deixara um pequeno bilhete com as palavras: ”Amo-te, J.Y”. Meteu-o no bolso com um sorriso e foi mungir as vacas que a esperavam.

Pela primeira vez na vida, sentiu-se mulher uma impressão desconhecida sob todos os pontos de vista. Descobria, de súbito, tudo o que sempre rejeitara e planeara rejeitar eternamente. A sua vida acabara de sofrer uma reviravolta e era impossível saber qual o bom caminho: aquele, ao lado de Jean-Yves, o mais atraente, ou o que tanto significara aos seus olhos durante muitos anos? Esperava simplesmente que, com o tempo, as respostas chegassem e o véu se erguesse.

 

Durante todo o Inverno, Amadea prosseguiu as suas missões com Jean-Yves. Os ingleses continuaram a lançar regularmente provisões e soldados de pára-quedas. Uma noite, estiveram a aguardar um oficial inglês que, depois de o ajudarem a enterrar o pára-quedas, partiu rapidamente para uma missão, vestido com a farda das SS. Jean-Yves perguntou a Amadea se nunca ouvira falar dele. Tratava-se de Lorde Rupert Montgomery; um dos homens que tinham organizado os comboios, graças aos quais dez mil crianças haviam saído da Europa antes da guerra.

Pedi à minha mãe que mandasse a minha irmã a bordo de um deles respondeu Amadea, tristemente. Mas ela estava convencida de que nunca teríamos problemas e receava o que pudesse acontecer a Daphne, uma vez na Grã-Bretanha. Nessa altura, a minha irmã tinha treze anos e foi deportada aos dezasseis. É admirável o que esse homem fez por muitas crianças.

- É um bom homem. Tive a sorte de conhecê-lo no ano passado observou Jean-Yves, sorrindo.

Desde o Natal que a ligação deles se mantinha. Jean-Yves abordara a questão do casamento, mas Amadea ainda não estava bem certa se Deus queria que ela regressasse ao convento. Todavia, esta perspectiva parecia-lhe agora cada vez mais improvável. Matara um homem, embora por acidente, e estava perdidamente apaixonada por outro. Faziam amor, sempre que podiam. Jean-Yves não conseguia afastar-se dela e jurou a si próprio que jamais a deixaria voltar ao convento depois da guerra, convicto de que não era essa, certamente, a vontade de Deus. Na sua opinião, tratava-se de uma vida contra a natureza e, além disso, estava muito apaixonado pela jovem.

Na Primavera de 1943, Serge veio fazer-lhes uma visita e adivinhou imediatamente o que acontecera entre Jean-Yves e Amadea, sem que eles precisassem de contar-lhe. Ao regressar a Paris, comentou, trocista, ao seu irmão Pierre que o Carmelo acabava, sem dúvida, de perder uma bonita e jovem freira. Contudo, ficou igualmente muito impressionado pelo trabalho de Amadea com Jean-Yves. Desde a chegada da jovem que todas as suas missões haviam sido coroadas de sucesso e, segundo dizia Jean-Yves, ela era corajosa, mas tinha sempre o cuidado de evitar riscos desnecessários aos restantes membros da célula.

Serge e Jean-Yves tinham falado em fazer explodir um depósito de munições alemão nos arredores de Melun, nas próximas semanas. Contudo, Jean-Yves insistira para que Amadea não participasse na missão. Serge achava que cabia à jovem decidir, embora compreendesse os motivos de Jean-Yves, apaixonado por ela. Na verdade, precisavam de Amadea, que era rápida e eficaz. Serge quase confiava mais nela do que nos outros membros de Melun, à excepção de Jean-Yves.

Ainda continuavam a debater a questão quando Serge se foi embora. Amadea mostrou-se de acordo com ele. Queria participar na missão com Jean-Yves. A guerra começara a assumir novos contornos desde a rendição dos alemães em Estalinegrado, em Fevereiro a primeira derrota do exército hitleriano e eles, os resistentes, deviam fazer tudo para que o mesmo também acontecesse em França A explosão deste arsenal seria, sem dúvida, um duro golpe para os alemães.

Planearam a operação, cuidadosamente, durante várias semanas. Amadea acabou por convencer Jean-Yves que aceitou que ela os acompanhasse, mau grado o seu desejo de protegê-la. Na sua qualidade de líder de célula, pertencia-lhe a decisão final. Na verdade, faltavam-lhes dois homens dois dos melhores elementos estavam doentes

A noite ia adiantada quando Jean-Yves, Amadea, duas mulheres, Georges e um outro homem se puseram a caminho do depósito de munições. Levavam duas camionetas. Amadea viajava com Jean-Yves com toneladas de explosivos escondidas nas traseiras de cada um dos veículos.

Chegados ao local, Georges e o outro homem saltaram das camionetas e degolaram as sentinelas.

Era a missão mais perigosa que alguma vez tinham efectuado. Dispuseram cuidadosamente os explosivos à volta do depósito de munições e depois, como previsto, todos, menos Jean-Yves e Georges, regressaram a correr às camionetas. Os dois homens sabiam que dispunham apenas de uns minutos para pegar fogo às mechas e fugirem. Os explosivos que usavam eram rudimentares, mas não tinham encontrado outros. Georges e Jean-Yves ainda não haviam reaparecido, quando Amadea ouviu uma violenta explosão e avistou um enorme fogo de artifício que iluminava o céu. Todos se entreolharam: não havia o mínimo sinal de Georges ou Jean-Yves.

Arranca! Arranca! gritou o homem a Amadea. A jovem estava ao volante de uma das camionetas, mas recusava abandonar Georges e Jean-Yves. Todas as forças militares locais chegariam a qualquer momento e, se os encontrassem, não hesitariam em abatê-los. As duas outras mulheres esperavam Georges no segundo veículo.

Não vou partir! decidiu ela de dentes cerrados, mas, quando olhou para trás, avistou uma enorme bola de fogo enquanto a segunda camioneta arrancava.

Não podemos esperar implorou o homem que estava ao seu lado, consciente, tão bem como ela, que seriam apanhados.

- É preciso esperar replicou, ao mesmo tempo que uma série de explosões se verificavam atrás deles e a camioneta abanava.

O incêndio propagava-se, quando as sirenes se fizeram ouvir e, sem esperar mais, também Amadea abandonou o local. Os dois veículos atravessaram os campos e estacionaram, finalmente, na quinta. Amadea tremia da cabeça aos pés. Haviam escapado por milagre; sabia que tinha esperado demasiado, pondo em risco a vida do grupo para salvar o homem que amava.

Os quatro que haviam escapado mantiveram-se sentados em silêncio no escuro, ouvindo o ruído das explosões e chorando baixinho. Apenas lhes restava rezarem para que os dois companheiros estivessem salvos, mas Amadea não conseguia ver como. Os explosivos tinham disparado muito mais rapidamente do que o previsto, e era mais que provável que os dois homens tivessem ficado gravemente feridos ou morrido na explosão

Lamento disse aos outros, com voz trémula. Devíamos ter arrancado mais cedo

Todos assentiram com a cabeça, sabendo que era verdade, mas também eles não tinham querido, de forma alguma, abandonar os dois companheiros. A decisão dela quase lhes custara a vida, mas estavam sãos e salvos.

Nessa noite, Amadea regressou à sua herdade ao som das explosões e fitando o céu iluminado. Deitada na cama, rezou durante horas por Jean-Yves. Na manhã seguinte, toda a região falava do atentado, e o exército andava por todo o lado em busca de provas. Contudo, estas não existiam. Os fazendeiros dedicavam-se calmamente às suas tarefas, como era hábito. Os alemães tinham descoberto os corpos carbonizados de dois homens impossíveis de identificar, os próprios documentos ficaram reduzidos a cinzas. Na ausência de culpados, haviam levado quatro rapazes de uma quinta vizinha e tinham-nos abatido como represália.

Amadea passou o dia inteiro fechada no quarto, doente de desgosto e em choque. Não só Jean-Yves estava morto, como quatro jovens tinham sido executados por sua culpa. Era um elevado preço a pagar pela liberdade e pela destruição das armas que os alemães usariam para matar muitos outros

Contudo, o homem que amava morrera e sentia-se responsável pela morte de oito pessoas Georges e Jean-Yves, quatro jovens trabalhadores da herdade e até mesmo as duas sentinelas alemãs que haviam degolado. Era um peso demasiado na consciência de uma mulher que outrora desejara tornar-se esposa de Deus. E, pela primeira vez, enquanto chorava a morte do único homem que amara, soube que, depois da guerra, voltaria ao convento. Precisaria de toda uma vida de orações para expiar os seus pecados.

 

Serge esperou três semanas antes de se deslocar de Paris a Melun. Ouvira as notícias e estava muito satisfeito com o resultado da missão: os danos causados pela explosão haviam prejudicado em muito os alemães. Contudo, ficara devastado ao saber da morte de Jean-Yves. Era um dos seus melhores homens. Além disso, queria falar com Amadea o mais rapidamente possível.

Encontrou-a no quarto, silenciosa e aniquilada pelo desgosto. Os ingleses tinham continuado a lançar homens e provisões de pára-quedas, mas a jovem não participara em mais nenhuma missão depois do atentado.

Serge sentou-se e falou com ela. Disse-lhe que, doravante, lhes faltavam demasiados efectivos para poder garantir a segurança das missões.

Não consigo disse Amadea, fitando-o com um olhar angustiado e abanando a cabeça.

Consegues sim. Jean-Yves continuaria se tivesses sido tu a ficar no depósito. Tens de fazê-lo por ele. Pela França.

Pouco me interessa! Tenho demasiado sangue nas mãos.

Não está nas tuas mãos, mas nas deles. E, se não continuares o teu trabalho, em breve será o nosso sangue.

Eles mataram quatro jovens! exclamou Amadea, com uma expressão de repulsa, pois a morte destes torturava-a tanto como a de Jean-Yves.

E matarão muitos mais, se não os detivermos. É o nosso único meio de acção e os ingleses contam connosco. Está prevista uma missão para breve, mas não temos tempo de treinar mais homens. E preciso de ti para algo urgente.

O quê? perguntou ela.

Serge fitou-a e Amadea empalideceu. Ele tinha consciência de que precisava de a pressionar para obrigá-la a lutar novamente.

Fazia um trabalho bom de mais para que desistisse de tudo; além disso, a jovem estava de tal forma devastada pela dor que ele receava que entrasse em depressão profunda.

Preciso que leves um rapazinho judeu e a irmã a Dordogne. Temos uma casa segura para eles à espera.

Que idade têm? inquiriu, num tom despreocupado.

Quatro e seis anos.

O que é que ainda estão a fazer aqui? replicou, surpreendida. A maioria das crianças judias fora deportada no ano anterior e as que restavam viviam escondidas.

A avó escondia-as, mas morreu na semana passada. Temos de tirá-los daqui. Estarão mais seguros em Dordogne.

E como é suposto que os leve até lá? questionou, desesperada e completamente esgotada.

Temos documentos para eles. Os miúdos parecem-se contigo. São os dois louros e de olhos azuis. Só a mãe era judia. Ela foi deportada e mataram o pai

Amadea ia a responder-lhe que não o faria, mas, ao olhá-lo, lembrou-se dos seus votos e pensou na mãe, em Daphne e em Jean-Yves. E, de súbito, sentiu que lhes devia isto, talvez em reparação das vidas perdidas por sua culpa. Tinha a sensação de que voltara a ser freira. Jean-Yves levara consigo a mulher que ela fora e que jamais voltaria a ser. Contudo, a irmã Teresa do Carmelo não podia recusar esta missão. Amadea assentiu lentamente com a cabeça. Não lhe restava outra alternativa.

Aceito declarou

Serge ficou encantado. Empenhara-se nesta missão muito especial tanto por ela como pelos miúdos, pois ficara preocupado com o seu estado de espírito como Jean-Yves teria ficado. De certa maneira, Serge fazia isto por ambos, mas também pelas duas crianças judias órfãs.

Vamos trazê-las amanhã até aqui, com os documentos delas e os teus. Terás de esconder os de Amélie no fundo falso da mala. Os teus novos documentos provarão que és sua mãe e vieste ver a família a Besse.

A localidade situava-se no coração de Dordogne, a região natal do pai, onde sempre sonhara ir. Interrogou-se sobre se veria o castelo, embora tivesse consciência de que a esperavam coisas mais importantes a fazer.

Levarás o carro da herdade especificou Serge, sabendo que tal não levantaria problemas ao velho casal.

Depois de ter feito os trabalhos domésticos, Amadea passou o resto do dia a rezar no quarto. Nas últimas semanas, mal comera e tinha emagrecido. No dia seguinte, escondeu os seus documentos de Amélie Dumas no fundo falso da mala. Sabia que lhe dariam os outros nessa noite.

As crianças chegaram depois do jantar, acompanhadas por uma mulher da célula parisiense. Eram miúdos adoráveis, mas pareciam aterrorizados. ”Nada de admirar”, pensou Amadea, ”depois de terem passado dois anos escondidos numa cave e de a única parente que lhes restava no mundo estar morta.”

Serge tinha razão: pareciam-se com ela. Ao vê-los, interrogou-se como seriam os seus filhos, caso os tivesse tido com Jean-Yves. Não era, porém, o momento de pensar no assunto. Sentou-se para falar um pouco com eles. Em seguida, deram-lhes de comer e Amadea meteu-os na cama. Ela dormiria no chão, ao lado deles. O rapazinho agarrou na mão da irmã durante toda a noite. Ambos haviam entendido o que lhes cabia fazer. Deviam fingir que ela era a sua mãe e tratá-la por ”mamã”, mesmo que soldados maus os interrogassem. Prometeu-lhes que nada de mal lhes aconteceria e, nessa noite, rezou durante muito tempo para que assim fosse.

Na manhã seguinte, partiram logo a seguir ao pequeno-almoço no carro do tio de Jean-Yves. Amadea sabia que podia fazer a viagem em seis ou sete horas. Levava provisões para não ter de parar durante o trajecto. Teve de apresentar os documentos numa única barragem. Os soldados fitaram-nos, devolveram-lhes os documentos e fizeram sinal para que prosseguisse.

Era a missão mais fácil que desempenhara até então e, com as crianças a dormir, podia reflectir tranquilamente. Há muito tempo que não se sentia assim, por isso estava feliz por ter aceite aquela missão. As crianças eram adoráveis e faziam-lhe pena. Devia levá-las até junto de um membro da Resistência, em Dordogne, que as conduziria até um esconderijo. O homem em questão dissera que Amadea podia passar a noite no local, para descansar da longa viagem.

Eram quatro da tarde quando chegaram a Dordogne. O campo apresentava-se verde e esplendoroso, como se não houvesse guerra. Descobriu facilmente a morada que lhe tinham indicado. Um jovem esperava-a. Era louro e de olhos azuis, como ela e as crianças. Poderia ser o pai delas, como ela poderia ser a mãe. Agradeceu-lhe por tê-las trazido

Deseja acompanhar-nos ou ficar aqui? perguntou em seguida.

As duas crianças pareciam aterrorizadas com a ideia de a deixarem. Era a única pessoa que conheciam, embora há pouco tempo. Contudo, ela tratara-os muito bem. Tentou acalmá-los, mas os dois começaram a chorar, e ela olhou para o homem que se apresentou como Armand.

Vou também decidiu.

O indivíduo meteu-se no carro com eles e indicou-lhes o caminho. Decorridos cinco minutos, passaram diante de um imponente castelo e Armand pediu-lhe que entrasse no pátio.

Aqui? inquiriu Amadea, surpreendida. É aqui o vosso esconderijo? Tratava-se de uma mansão maravilhosa, rodeada de anexos, estrebarias e um enorme pátio. A quem pertence esta casa? acrescentou, curiosa.

Sabia que a casa de família do pai se encontrava nas redondezas, embora não tivesse certezas quanto à localização.

A mim respondeu Armand, que desatou a rir ao ver como ela o fitava. Pelo menos, um dia acrescentou Entretanto, é do meu pai

Ela sorriu, com uma visível admiração, olhando em redor. Desceram do carro, enquanto as crianças observavam o castelo, maravilhadas; após dois anos numa cave dos arredores de Paris, tinham a sensação de estarem no paraíso. Amadea sabia que eles tinham documentos atestando a sua descendência aristocrata. Eram supostamente parentes afastados do dono do castelo.

Uma velha governanta levou-os para jantarem, enquanto um cavalheiro idoso e de porte distinto apareceu no cimo das escadas. Amadea pressupôs tratar-se do pai de Armand. O cavalheiro de ar distinto apertou-lhe a mão com uma enorme simpatia, enquanto o filho procedia às apresentações. Tudo o que Armand conhecia a seu respeito era o nome indicado nos seus últimos documentos, Philippine de Villiers. E foi com esta identidade que a apresentou ao pai.

Philippine, permite que lhe apresente o meu pai? declarou Armand, delicadamente. Conde Nicolas de Vallerand.

Amadea observou-o e detectou imediatamente a semelhança, embora o conde fosse mais velho do que o pai a última vez que o vira. Ele tinha quarenta e quatro anos quando morrera e teria agora sessenta. Embora se sentisse chocada, não pronunciou palavra. Contudo, ele apercebeu-se que algo perturbara muito a jovem. O conde convidou Amadea a passar à sala de jantar, onde uma refeição a esperava. Ela observou a divisão sem pronunciar uma palavra, mas o conde notou a sua tristeza.

É uma propriedade fantástica que data do século xvi e foi reconstruída dois séculos mais tarde explicou. Receio que esteja a precisar de grandes reparações. Mas não haverá ninguém que o faça antes do final da guerra. O telhado está um verdadeiro passador acrescentou com um sorriso.

Armand fitava-a como se o rosto dela lhe fosse vagamente familiar, e ela adivinhou o motivo: era o retrato personificado do pai. Interrogou-se sobre qual seria a sua reacção se lhe contasse a verdade. Mas as coisas deviam ter mudado. Afinal, estavam a ocultar crianças judias. Parecia-lhe o cúmulo da ironia, dado o pai ter sido banido e jamais sido visto por qualquer deles, em virtude da sua mulher ser judia.

Quando acabaram de jantar, o conde convidou-a a passear nos jardins que, segundo lhe explicou, tinham sido concebidos pelo mesmo arquitecto que desenhara os jardins de Versalhes. Amadea sentiu uma impressão estranha ao atravessar os corredores e as divisões onde o seu pai crescera e, ao saírem, os olhos encheram-se-lhe de lágrimas. Todas estas divisões deviam ter outrora ressoado com o som da sua voz, os risos de criança e de adolescente. Transbordavam de ecos do passado, que partilhava neste instante com estes dois homens, embora o ignorassem

Sente-se bem? perguntou Armand, ao perceber que ela estava profundamente emocionada com algo.

O pai dele já os esperava nos jardins. Amadea abanou a cabeça e foram ao seu encontro.

- É muito corajosa por ter trazido estas crianças sozinha até aqui elogiou. Se tivesse uma filha, ignoro se a deixaria fazê-lo. Na verdade, acho que não. Fitou Armand e, em seguida, baixou a voz, franzindo as sobrancelhas. Também me preocupo com o meu filho acrescentou. Mas que escolha temos nos tempos que correm?

Havia, de facto, outras escolhas, escolhas diferentes das deles e que vários haviam feito. Contudo, Amadea sentia-se orgulhosa da sua e da deles.

Durante o seu passeio pelos jardins, outrora esplendorosos, o conde não lhe fez nenhuma pergunta pessoal. Viviam uma época em que todos desconfiavam uns dos outros, em que era preferível saber e dizer o menos possível. Contudo, quando Amadea se sentou num dos velhos bancos em mármore, gastos pelo tempo e pelos elementos, e ergueu na sua direcção os olhos cheios de tristeza, o conde não conseguiu conter-se.

Não sei porquê declarou suavemente, mas tenho a sensação de que a conheço e já a vi em qualquer lado. Estou errado?

Não havia ninguém por perto, à excepção de Armand. O conde estava na casa dos cinquenta e muitos, mas não demasiado velho para estar senil. Porém, parecia confuso, como se na sua cabeça ecoassem vozes de outros tempos e não tivesse certezas sobre o que ouvia ou via.

Já nos conhecemos? insistiu.

Achava que, provavelmente, não era o caso, mas podia ter-se esquecido. Além disso, sentada ali na sua frente, ela parecia-se incrivelmente com Armand.

Conheceu o meu pai respondeu docemente Amadea, sem o desfitar.

A sério? Como era o nome dele?

Antoine de Vallerand pronunciou calmamente.

Nicolas era irmão do seu pai e tio dela e Armand seu primo em primeiro grau. Seguiu-se um longo silêncio, depois, sem uma palavra, ele abraçou-a com as lágrimas a correrem-lhe pelas faces.

Oh, minha querida... minha querida... replicou, sem conseguir dizer outra coisa durante longos minutos, invadido pelas recordações que lhe trouxera. Já o sabias quando vieste? acrescentou, interrogando-se sobre se seria esse o motivo que a levara a aceitar a missão.

Não. Só quando chegámos aqui e Armand disse o seu nome. Foi um choque, como deve imaginar confessou, rindo e chorando ao mesmo tempo. Queria dizer algo ao jantar, mas receei que me mandasse embora. Apetecia-me saborear o momento. O meu pai falava muitas vezes deste lugar e da sua infância aqui.

Nunca perdoei a atitude do meu pai. Detestei-o por isso e também me detestei por não ter tido coragem de fazer-lhe frente. Depois disso, o meu irmão e eu tornámo-nos estranhos. Quando o nosso pai morreu, desejei pedir a Antoine que regressasse a casa e nos perdoasse. Contudo, ele morreu duas semanas depois. E, no ano seguinte, perdi a minha mulher. Quis escrever à tua mãe a dar-lhe conta das minhas emoções, mas não a conhecia e tinha a certeza de que ela nos odiava a todos.

Em vez disso, limitara-se a enviar uma carta de condolências.

A mamã não vos odiava garantiu Amadea. A sua própria família tratou-a bem pior. Escreveram o nome dela no livro dos mortos e não a deixaram ver a mãe quando esta morreu, nem assistir ao funeral. A minha avó retomara o contacto connosco há dois anos e passámos a conhecê-la. Mas nunca me encontrei com os outros membros da família.

Onde estão eles, agora? questionou o conde, preocupado.

Amadea respirou fundo antes de responder, com um enorme sofrimento estampado nos olhos:

Toda a família foi deportada depois da Noite de Cristal. Alguns pensam que foram enviados para Dachau, mas ninguém sabe ao certo. A minha mãe e a minha irmã foram deportadas para Ravensbruck há dois anos. Desde então, nunca mais soube nada delas.

E vieste até aqui? retorquiu, confuso e horrorizado ante o que ouvira.

Armand observou atentamente esta prima que achava uma mulher extraordinária. Filho único, nunca tivera uma irmã, mas gostaria de ter tido uma assim. Apenas lhe restava o pai. Ambos haviam tomado a decisão conjunta de aderirem à Resistência. Nada mais tinham, à excepção deste castelo arruinado.

Passei cinco meses em Theresienstadt. Amigos esconderam-me, depois de a minha mãe ser deportada. Antes disso, vivi seis anos num convento carmelita.

Eras freira? retorquiu Armand, chocado.

Acho que ainda o sou. Atravessara um período de dúvida, mas desde a morte de Jean-Yves reencontrara a vocação, embora nunca a tivesse perdido. Face a circunstâncias invulgares, somente a assaltara uma leve dúvida. Sou a irmã Teresa do Carmelo. Depois da guerra, regressarei ao convento. Tive de partir para não colocar em risco a vida da congregação.

És fantástica! elogiou o tio, rodeando-lhe os ombros com o braço. O teu pai sentir-se-ia muito orgulhoso de ti, se ainda vivesse. Eu sinto-me, embora mal te conheça. Podes ficar algum tempo connosco? acrescentou com uma certa melancolia.

Tinham toda uma vida a recuperar e queria que Amadea lhe falasse de todos os anos que ele não vivera com o irmão. Havia mil coisas que queria saber.

Não me parece aconselhável retorquiu Amadea, mas com a sua permissão, gostaria de voltar.

Ficaria tristíssimo se não o fizesses retorquiu, seguro de que a sobrinha tivera uma educação esmerada.

Os três regressaram ao castelo e passaram o resto da noite a conversar. Contudo, antes de partir, Amadea descansou umas horas.

No momento de partir, beijou as crianças que começaram a chorar. E tanto ela, como Armand e Nicholas fizeram o mesmo. A jovem prometera voltar e o tio suplicara-lhe que fosse prudente e tivesse cuidado. Quando se afastou, fitou-os uma última vez pelo retrovisor e acenou-lhes. Passara uma das mais belas noites da sua vida; só desejou que Jean-Yves e o pai pudessem ter estado ali. Curiosamente, no regresso a Melun, sentiu-os próximo dela, juntamente com a mãe e Daphne. Todos faziam parte de uma cadeia interminável, ligando o passado, o presente e o futuro.

 

O trajecto de volta a Melun decorreu sem novidade. Amadea só foi controlada uma vez pelos soldados e, embora a admirassem e tivessem conversado uns minutos com ela, deixaram-na seguir rapidamente. O seu encanto funcionara e eles mal tinham olhado para os documentos. Um deles acenou-lhe, com um enorme sorriso, quando ela se afastou.

Chegou à herdade ao fim da tarde e, na semana seguinte, retomou as suas actividades clandestinas com os outros, recuperando as cargas que os ingleses continuavam a lançar de pára-quedas. Receberam, assim, dois novos rádios de ondas curtas, que esconderam nas quintas dos arredores.

No fim de Setembro, Serge fez-lhes mais uma visita. Gostava de contactar com os homens e mulheres que trabalhavam consigo, sempre que podia. queria conhecê-los melhor, ter a certeza de que não faziam correr riscos inúteis aos outros e se eram tão leais quanto os julgava. Possuía um sexto sentido neste aspecto.

Desta vez desejava igualmente conversar com Amadea. Tinham-lhe dito que a jovem andava deprimida desde a morte de Jean-Yves, continuando a censurar-se não só pela morte dele e a de Georges, mas também pela dos quatro jovens. Pior ainda, achava que Jean-Yves morrera como expiação dos pecados dela.

Ao longo das missões que lhe confiara, Serge criara-lhe afecto e sentia um profundo respeito pela sua capacidade de apreciação, coragem e sangue-frio. Queria certificar-se de que ela estava bem e queria também falar-lhe de uma missão especial. Como sempre que se tratava de um assunto delicado, desejava falar-lhe pessoalmente; assim, enviara-lhe uma mensagem para que se encontrassem numa herdade vizinha.

Mal a viu, Serge reparou nas suas feições cansadas e no ar abatido. Parecia atormentada pelas mortes de que se considerava responsável e voltou a falar repetidamente sobre a sua ansiedade de regressar ao convento, após o final da guerra. Jantaram juntos e, durante a refeição, ela referiu-lhe as últimas cargas recebidas e falou-lhe dos novos recrutas. Em seguida, foram passear.

Quero falar-te de uma coisa disse Serge, passados uns minutos. Preciso de um agente em Paris para uma missão especial. Ignoro se aceitarás, mas acho que serias a escolha ideal.

Serge fora contactado pelos Serviços Secretos ingleses no sentido de encontrar alguém com qualidades específicas, e ela preenchia todos os requisitos. Precisavam de uma pessoa que falasse alemão correctamente e pudesse passar por uma distinta e sofisticada aristocrata alemã. Amadea não só tinha o aspecto físico, como o era realmente. E tanto podia passar por alemã como por francesa.

Queriam que desempenhasse o papel da mulher ou da amante de um importante oficial das SS, de visita a Paris. O oficial em questão seria um agente dos Serviços Secretos britânicos, também ele meio alemão e fluente em francês. Precisavam do par ideal, e Amadea correspondia exactamente ao requisito, caso aceitasse. Como sempre, seria ela a decidir.

Serge explicou-lhe a missão enquanto avançavam no escuro. Amadea escutava-o em silêncio. Demorou muito a responder, mas ele não a pressionou.

Quando precisas de saber? inquiriu ela, finalmente. Amadea queria reflectir e rezar. Sentia-se feliz no campo, a trabalhar para a Resistência. Contudo, ir até Paris e pavonear-se diante das SS era muito mais perigoso. Não receava ser morta pelos alemães posicionados em Melun, durante uma missão nocturna. A única coisa que não queria e a aterrorizava era ser novamente deportada para um campo. Estava acima das suas forças. Sentia-se incapaz de correr esse risco. Sabia que não teria uma segunda oportunidade de se evadir, como em Theresienstadt; tanto quanto sabia, ninguém fugira de Auschwitz nem da maioria de outros campos.

Amadea tivera uma sorte incrível, a noite das represálias em Lidice, para conseguir evadir-se do ”campo-modelo” dos nazis que, nessa altura, se preparavam para exibir a sua ”Cidade para os Judeus” à Cruz Vermelha A deportação para qualquer campo, ou mesmo para esse, constituía, doravante, sinónimo de uma morte garantida, depois de torturas inimagináveis. A proposta de Serge de deslocar-se a Paris no papel de mulher de um oficial das SS parecia-lhe arriscada. Demasiado arriscada.

Não temos muito tempo e tu és a nossa única oportunidade respondeu Serge, honestamente. O agente que dirige a missão chega no final da semana. De qualquer maneira, era minha intenção falar-te no assunto esta noite. Ele vem com três homens.

Amadea assistira frequentemente a estas aterragens nocturnas com Jean-Yves e Georges; um pequeno Lysander pousava menos de cinco minutos no campo e os homens saíam do aparelho e dispersavam-se rapidamente, enquanto o avião voltava a descolar. Eram os mesmos aviões que lhes lançavam as munições e, às vezes, homens de pára-quedas, mas as aterragens eram muito mais difíceis. Os aparelhos voavam de luzes apagadas, confiando apenas nos resistentes para que os guiassem com lanternas e os protegessem. Desde a sua chegada que Amadea nunca assistira a qualquer acidente, embora em várias ocasiões tivessem estado muito perto.

Deve ser alguém importante observou ela, pensativamente, ao mesmo tempo que se interrogava sobre que agente seria e se já ouvira falar dele.

Agora, a jovem já conhecia os nomes da maior parte dos seus colaboradores britânicos. Ouvia-lhes os nomes de código no rádio, quando o manejava, o que acontecia de vez em quando, pois aperfeiçoara-se. Jean-Yves fora um bom professor. E amara-a naquele breve momento que haviam partilhado.

Sim, muito importante admitiu Serge. Pode encarregar-se sozinho da missão, se tiver de ser, mas uma ”mulher” ajudaria muito. És tu a única que pode fazê-lo acrescentou com franqueza.

Nenhuma das outras agentes falava alemão tão bem como ela, nem podia fazer-se passar por alemã. Embora algumas dominassem a língua na perfeição, eram obviamente francesas. Amadea parecia germânica. Não só alemã, mas ariana. Tal como o oficial britânico que, como ela, era meio alemão, mas não judeu. A mãe era uma princesa prussiana, famosa pela sua beleza na juventude.

Como se chama esse homem? inquiriu Amadea, curiosa e intrigada pela missão.

O seu nome de código é Apoio.

Amadea sabia que já ouvira este nome e achava mesmo que o encontrara uma vez, mas não conseguia dar um rosto ao nome. De súbito, recordou-se. Ele já fora largado de pára-quedas e vira-o com Jean-Yves. Era Rupert Montgomery, um dos que haviam organizado os comboios de crianças.

Sim. Já o conheci.

Serge assentiu com a cabeça, pois estava ao corrente.

Ele também se recorda. Foi ele que pensou em ti. És a parceira ideal para esta missão.

”E a personalidade ideal também”, pensou Serge. Em época de crise, embora a jovem não desse pelo facto, tinha nervos de aço e sabia como reagir. Todos os que haviam trabalhado com ela, eram dessa opinião. Retomaram o caminho de volta em silêncio. O ar refrescara e o Inverno vinha a caminho. Quando chegaram ao portão da sebe, Amadea fitou-o com um suspiro. Devia-lhes esta missão. Talvez fosse essa a única razão por que fora poupada tantas vezes. Para servir o Senhor sem medo do perigo.

De acordo respondeu calmamente. Quando é que ele chega?

Mando-te uma mensagem.

Era segunda-feira e Serge dissera que não seria antes do final da semana. Amadea fitou-o com uma expressão atormentada. Serge sabia que estava a pedir-lhe muito, talvez demasiado, mas a jovem estava disposta a participar. A vitória e a liberdade não tinham preço, mesmo que fosse para salvarem uma única vida.

Ficarei à espera retorquiu.

Serge assentiu com a cabeça. Ela causara boa impressão ao coronel Montgomery que se lembrava do seu nome de código: Teresa Era o que usavam nas mensagens e nas ondas curtas. Deveria, portanto, aguardar uma mensagem que lhe fosse dirigida.

Obrigado agradeceu Serge. Ele é um homem prudente. Sabe o que faz.

Amadea aceitara a missão por causa do que Montgomery fizera pelas crianças judias. Desejava ajudá-lo.

Serge apertou-a de encontro ao peito e, em seguida, dirigiu-se ao celeiro onde estava alojado, enquanto Amadea regressava sozinha. O campo não a atemorizava. Apesar do que ali faziam, sentia-se em segurança E os alemães mostravam-se bastante complacentes na região, salvo em caso de represálias.

Vai com Deus disse-lhe antes de o deixar; ele assentiu com a cabeça.

Dois dias mais tarde, Amadea ouviu a mensagem que lhe era destinada: ”Teresa. Samedi”, o que significava, de facto, sexta-feira, pois as suas operações realizavam-se sempre na véspera da data indicada. Começariam a vigiar e espreitar a chegada do pequeno avião a partir da meia-noite e, como sempre, deveriam agir rapidamente.

Na noite de sexta-feira, Amadea estava em campo com mais sete resistentes. Tinham-se dividido em dois grupos de quatro segurando lanternas. Pouco depois, ouviram o motor abafado do pequeno Lysander. Dispersaram-se e acenderam as lanternas.

Após uma descida rápida, o avião pousou no solo e, em seguida, rolou uns metros Antes de parar, quatro homens desceram, vestidos com roupas de fazendeiros e gorros de lã. Menos de três minutos depois, o avião estava de novo no ar. Tudo fora perfeito Em menos de dois minutos, os resistentes haviam-se dispersado e regressado às suas herdades, acompanhados dos três homens que tinham chegado com o coronel Montgomery. Estavam encarregados de outras missões e partiriam para o Sul de França nessa mesma noite; não voltariam a ver Montgomery antes de regressarem a Inglaterra.

Na maior parte das vezes, o coronel trabalhava só. Desta vez, teria Amadea ao seu lado. Esta conduziu-o à herdade sem uma palavra, na direcção de um antigo estábulo, nas traseiras da herdade. Ali, mostrou-lhe um alçapão onde se esconder, se ouvisse algum barulho. Havia lençóis e um jarro de água. Teriam de partir no dia seguinte para os arredores de Paris, onde se encontrariam com Serge.

Amadea manteve-se silenciosa face ao homem conhecido como Apoio. Contentou-se em fitá-lo e em assentir com a cabeça, enquanto o observava. Quando se dispôs a partir, ele murmurou: ”Obrigado”. Referia-se não só ao alojamento e aos cobertores quentes, mas ao facto de ter aceite a missão, pois conhecia a sua história e tinha consciência do risco que tal representava para ela. A única coisa que ignorava era Jean-Yves, o que nada tinha a ver com a missão. Sabia também que, na sua vida passada, fora religiosa o que o intrigara. E que deixara o convento para salvar a congregação.

Amadea contentou-se em assentir com a cabeça e, em seguida, voltou ao seu quarto nas traseiras da cozinha. De manhã, levou-lhe o pequeno-almoço. Tinha vestida a mesma roupa grosseira da véspera, mas lavara-se e fizera a barba. A jovem sentiu-se impressionada com o resultado. Era também tão alto como o pai dela e fora louro, só que agora começava a ficar grisalho. Parecia andar pelos quarenta anos, mais ou menos a idade do pai dela quando morrera, e havia uma vaga semelhança, embora o pai fosse francês e não inglês. Percebia agora que podia passar facilmente por alemão, pois era um perfeito exemplo da raça ariana. Ser-lhe-ia difícil passar desapercebido em qualquer lado, excepto no meio de alemães. Nada tinha de um francês. Quando lhe levou o pequeno-almoço, ele dirigiu-se-lhe em alemão, que falava com tanta fluência como o francês. Amadea respondeu em alemão estava menos à vontade em inglês e quis saber se dormira bem.

Sim, obrigado replicou, mergulhando o olhar no dela como se procurasse algo.

 

Na verdade, precisava de conhecê-la melhor, saber a sua maneira de reagir. Se iam passar por marido e mulher, devia conhecê-la a fundo e compreendê-la intuitivamente, para lá das palavras.

Partimos esta tarde às quatro anunciou ela, evitando o olhar penetrante.

Não faça isso corrigiu-a.. Conhece-me. Ama-me. Não me receia. Olhe-me de frente. Sente-se à vontade comigo. Somos casados há cinco anos. Tivemos filhos acrescentou, desejando que ela aprendesse o papel, que o vivesse, até se tornar uma parte integrante de si própria.

Quantos filhos? quis saber Amadea, fitando-o de novo, como ele indicara.

O que ele acabara de dizer fazia todo o sentido e a jovem compreendeu o pretendido. Nada tinha a ver consigo. Tratava-se somente de um papel que deviam desempenhar. E convictamente, caso quisessem permanecer vivos O mínimo erro da sua parte ou da dele podia custar a vida. Tudo era muito mais difícil e perigoso do que recolherem munições largadas de pára-quedas por um avião, num campo, à meia-noite.

Dois rapazes. De dois e três anos. É a primeira vez que se afasta deles, desde que nasceram.

- é o nosso aniversário de casamento. Eu tinha trabalho a fazer para o Reich e decidiu vir ter comigo. Vivemos em Berlim. Conhece esta cidade? inquiriu, preocupado

Se não fosse o caso, teria de ensinar-lhe tudo: restaurantes, lojas, museus, ruas, parques, habitantes, cinemas, com o apoio de fotografias e de mapas.

Bastante bem. A irmã da minha mãe mudou-se para lá quando casou. Não a conheci. Mas visitei a cidade em criança.

Montgomery pareceu aliviado. Era um bom começo. Sabia que ela provinha de Colónia. Conhecia mesmo o seu nome de solteira. E o nome da irmã dela, bem como da data da sua deportação. Sabia ainda que escola frequentara, antes de entrar para o convento. Havia muito pouca coisa que desconhecesse sobre Amadea, contrariamente a esta, que apenas sabia o nome dele e o seu papel na organização dos comboios de crianças. Contudo, não fez qualquer alusão ao assunto. Não estavam ali para ser amigos, mas apenas para desempenharem um papel.

Seguiram para Paris num carro que lhes tinham emprestado e, durante todo o trajecto, falaram do que Amadea precisava de saber. Os documentos de Montgomery eram perfeitos, tal como o seu francês. Indicavam que ele era natural de Aries, onde leccionava. Amadea era a sua namorada. O único soldado que os deteve fez-lhes rapidamente sinal para que avançassem. Pareciam um casal respeitável.

A menos de um quilómetro da casa de Serge, abandonaram o carro e percorreram o resto do caminho a pé, sem deixarem de falar. Amadea dispunha de três dias para aprender o papel e vestir a pele da personagem, mas Montgomery não estava preocupado. Ela correspondia a todos os requisitos. Aos olhos dele, só não era feita para o convento.

O que a levou a ir para o convento? inquiriu a meio caminho. Teve um desgosto de amor?

Amadea sorriu ante a pergunta. As pessoas tinham ideias tão estranhas sobre o que levava alguém a ingressar num convento! Era muito menos dramático do que pensavam, sobretudo para ela que entrara tão jovem. Tinha agora vinte e seis anos, ele quarenta e dois.

Nada disso. Fi-lo por amor a Deus. Senti a vocação. Não havia qualquer razão para que ele fizesse a pergunta, mas ficara curioso, pois achava-a uma jovem mulher muito interessante.

É casado? perguntou Amadea, enquanto caminhavam e lhe dava o braço de uma forma natural, como se ele lhe tivesse pedido que o fizesse. Era um gesto a que devia habituar-se.

Montgomery intimidava-a um pouco, mas tal como dissera, devia aprender a sentir-se à vontade com ele. Contudo, a tarefa não era fácil, pois, apesar das roupas grosseiras, emanava um grande carisma e Amadea sabia de quem se tratava. Mais ou menos.

Fui respondeu, ao aproximarem-se da casa de Serge. Avançavam num passo concertado, o que lhe agradava. Sempre se irritara com as mulheres que davam passinhos. De uma impaciência natural, tinha por hábito agir bem e depressa e achava que o resto do mundo não era suficientemente rápido para ele. Amadea, sim. A minha mulher foi vítima de um bombardeamento aéreo, com os meus dois filhos. No início da guerra.

Lamento disse Amadea, notando como ele ficara rígido ante a menção do assunto.

Todos haviam assistido ao desaparecimento de entes queridos. Tal como ela, também ele nada tinha a perder. Seria por esse motivo que não hesitava em arriscar a vida? Fazia-o pelo seu país e Amadea por todas as vidas que talvez pudesse salvar, bem como pelo Cristo que, um dia, viria a desposar, quando fizesse os votos perpétuos. Sem a guerra, deveria tê-los pronunciado nesse Verão. Há dois anos e meio que abandonara o convento e, todos os anos, nessa altura, renovava os seus votos espiritualmente.

Chegaram, por fim, à casa da avó de Serge, onde, há catorze meses, Amadea chegara de Praga com WolfF. Parecia-lhe que decorrera uma eternidade. Agora, voltava a colocar a vida em risco, com este homem.

Pararam para cumprimentar os avós de Serge e, momentos depois, desceram as escadas dissimuladas no fundo do roupeiro. Segundos mais tarde, viram-se na sala plena de actividade onde Amadea estivera há um ano e que agora lhe pareceu acolhedora e familiar. Reconheceu alguns rostos, mas havia muitos novos. Um homem estava ocupado com o rádio, uma mulher imprimia panfletos, e outros sentavam-se à volta da mesa, a conversar. Serge ergueu a cabeça, quando eles entraram.

Algum problema? perguntou, satisfeito por vê-los. Amadea e Montgomery abanaram a cabeça ao mesmo tempo e riram-se. Não tinham tido muito tempo para gracejos, nem conversas, excepto o que ele quisera saber sobre o convento e ela sobre a sua mulher. Todas as palavras trocadas relacionavam-se com a missão.

Pouco tempo depois trouxeram-lhes um espesso guisado de coelho, uma fatia de pão para cada um e uma chávena do café amargo que toda a gente bebia. Além de nutritiva, a refeição aqueceu-os, pois o tempo arrefecera muito. Montgomery parecia faminto, e até mesmo Amadea comeu de bom grado o delicioso guisado.

Depois, tiraram fotos um do outro. Isso completaria o trabalho fantástico que se efectuava sobre os seus passaportes e documentos, autorizando-os a viajar. Os resistentes pareciam capazes de fabricar qualquer documento.

Serge e o coronel Montgomery conversaram demoradamente num canto da divisão, enquanto uma das mulheres tirava as medidas a Amadea para o guarda-roupa de que ela precisaria. Ignorava como, mas os resistentes conseguiam sempre arranjar vestidos, fatos e roupas elegantes que haviam escondido algures, antes da guerra. Todas as pessoas tinham pais que outrora se vestiam bem e muitos ainda conservavam velhas arcas cheias de tesouros. Possuíam mesmo algumas jóias e peles.

Dois dias mais tarde, chegou uma bonita mala de cabedal recheada de tudo o que era necessário, juntamente com os passaportes e documentos, bem como o equipamento completo de oficial das SS para Apoio. Este ficava muito elegante com a farda que já usara muitas vezes. Fizeram as últimas provas e tudo assentava na perfeição. Formavam um casal muito atraente.

Amadea pusera um elegante vestido de lã cinzenta que lhe lembrava um da mãe, com um belo colar de pérolas. O vestido, Mainbocher, parecia novo, tal como o casaco de peles e o chapéu preto muito chique. Até haviam conseguido encontrar-lhe sapatos alemães. A mala de crocodilo preto era da marca Hermes, e as luvas pretas, de camurça, à sua medida. Assim vestida, constituía a imagem perfeita da mulher distinta e requintada de um homem influente, que o oficial encarnado por Montgomery era suposto representar. O verdadeiro oficial de quem tirara o nome tinha morrido há dois anos num acidente de barco, quando estava de licença. Era um indivíduo apagado, que nunca fora a Paris, por isso tinham a certeza de que ninguém o conheceria, e se assim fosse, o mais provável era o par sair-se bem com o embuste nos dois dias que precisavam

O coronel Montgomery devia obter informações durante as reuniões do Reich e eventos sociais em Paris. Amadea devia ajudá-lo e reunir, por seu lado, informações, conversando com as mulheres dos oficiais e dançando com os oficiais nas festas. O coronel Montgomery reservara um quarto no Crillon, pois era supostamente o aniversário do seu casamento, e encomendado champanhe e rosas para ela. Além disso, oferecera-lhe um bonito relógio Cartier em ouro e diamantes que Amadea exibiria. Tinham pensado em tudo ao pormenor

É muito generoso comentou Amadea, admirando o relógio

Acha que sim? respondeu com uma fleuma britânica, apesar do seu uniforme das SS. Na minha opinião, é um presente bem pobrezinho. Acho francamente que merece um alfinete em diamantes ou um colar de safiras por me ter aguentado durante cinco anos. É muito fácil de contentar

- é que este género de coisas não se vê no convento replicou ela, sorrindo

Amadea pendurou cuidadosamente num cabide o vestido de lã cinzenta e as peles que lhe recordavam a mãe. A mãe nunca tivera peles antes da morte do pai, antes da herança dele, que chegara um pouco tarde, o pai nunca pudera dar-se ao luxo de lhas oferecer. Depois, ela apenas comprara um único casaco de peles e nada mais E um casaco comprido para as filhas, quando chegaram à idade própria. Há anos que Amadea não via peles

Talvez devesse ter-lhe oferecido um rosário? espicaçou-a o coronel

Ficaria encantada reagiu Amadea com uma gargalhada. Pensou subitamente numa coisa que gostaria mesmo de fazer, se tivessem tempo. Podemos ir a Notre-Dame? pediu-lhe como se estivessem realmente casados, o que lhe agradou

Penso que se arranja.

Montgomery queria levá-la a fazer compras nas lojas famosas ou, pelo menos, dar essa ideia. A rede ia dar-lhe uma elevada soma de dinheiro alemão que lhes permitiria viver, durante dois dias, à altura de um homem da sua posição, casado com uma jovem e bonita mulher.

Sabe dançar? acrescentou subitamente, dando-se conta de que se esquecera de interrogá-la a este respeito. Ela era tão jovem quando entrara para o convento, que talvez nunca tivesse aprendido.

Dantes, sabia respondeu Amadea com um sorriso tímido.

Então, não dançaremos mais do que o necessário. A minha mulher sempre me disse que eu dançava pessimamente. Tenho a certeza de que a pisaria e estragaria os seus belos sapatos.

Durante os três dias seguintes, continuaram a afinar as respectivas personagens. Serge e o coronel tiveram longas reuniões. Montgomery tinha por missão obter informações sobre as novas bombas que os nazis estavam a construir. Devia tentar conhecer os planos da fábrica, o número de efectivos, o lugar onde seriam armazenadas depois de prontas e quem seria responsável pelo projecto. Ainda se encontravam numa primeira fase, mas os ingleses já sabiam que isso teria um impacto decisivo no curso da guerra. Naqueles dois dias, a missão de Montgomery constituía em estabelecer contactos. Era arriscado. Se alguém o reconhecesse, isso colocaria em perigo missões futuras. Contudo, era o único homem que podiam mandar.

Um táxi veio buscá-los e seguiram para o hotel Crillon com duas elegantes malas cheias de tudo o que precisariam. Os documentos encontravam-se em ordem. Amadea estava soberbamente maquilhada e penteada. Apanhara os compridos cabelos louros num rolo e estava elegantíssima com a sua roupa da moda. Faziam um par fantástico quando entraram no hotel.

Ao entrarem no quarto uns minutos mais tarde, Amadea arregalou os olhos, bateu palmas com um ar deliciado e beijou o marido, como se tudo aquilo fosse natural. Contudo, tinha lágrimas nos olhos quando o empregado do hotel saiu. Nunca vira nada do género desde que entrara no convento há oito anos e meio e tudo isto lhe recordava a mãe.

Nada disso dirigiu-se-lhe ele em alemão.

Foram a Notre-Dame, depois à Cartier, que estava a fazer um próspero negócio com as vendas a todos estes oficiais alemães e às suas amantes. Levou-a, depois, a almoçar ao Maxim’s e, à noite, foram a uma recepção na sede do quartel-general alemão.

Amadea ofuscou-os com um vestido de noite de cetim branco, luvas compridas brancas, sandálias elegantíssimas e um belo colar de diamantes. O marido parecia extremamente orgulhoso dela, enquanto ela revoluteava na pista de dança com a maioria dos jovens oficiais; ele próprio discutia os novos projectos de armamento e os prazos que teria de cumprir. Obteve todas as informações que desejava.

Na segunda noite, foram convidados para um jantar mais privado em casa do Kommandant. Um pouco embriagada, a mulher deste último, que se tornara muito amiga de Amadea em pouco tempo, tornou-se extremamente indiscreta e contou-lhe tudo sobre as actividades do marido pelo menos, o que sabia, obrigando a jovem a prometer que voltaria em breve a Paris. No fim da refeição, o casal tornara-se a vedeta da festa. Quando regressaram ao Crillon para a última noite, Amadea sugeriu-lhe que regressassem a casa de Serge, mas Montgomery respondeu-lhe que tinham de levar o jogo até ao fim e esperar até à manhã seguinte.

Como na noite anterior, dormiram na mesma cama, ela, com uma camisa de noite de cetim cor de pêssego e rendas beges, ele, num pijama de seda que lhe ficava demasiado apertado só que Amadea era a única a sabê-lo.

Deitados um ao lado do outro, discutiram em voz baixa o que haviam sabido durante a noite e ela fez-lhe o relatório. Reunira informações preciosas que muito o satisfizeram. Estavam na cama, mas poderiam estar igualmente num gabinete, pois a camisa de noite e o pijama não tinham qualquer significado para ambos. Eram dois agentes em missão, executando o seu trabalho e nada mais. Mal dormiram nessa noite, sobretudo Amadea que estava ansiosa por deixar Paris. Estivera sempre consciente dos riscos que corriam e, por mais luxuosas que fossem as acomodações, tinha um único desejo: regressar à herdade, em Melun.

Não mostre tanta impaciência avisou-a, sempre em alemão. É o nosso aniversário de casamento. Estamos em Paris e não tem vontade de se ir embora. Adora estar aqui comigo, longe das crianças. É uma mãe maravilhosa, mas uma mulher ainda melhor.

”E, sobretudo, uma óptima agente”, pensou. Durante estes dois dias, a sua colaboração fora preciosa e esperava voltar a trabalhar com a jovem. Era muito mais dotada do que alguma vez imaginara.

A propósito, mentiu-me disse ele, enquanto tomavam o pequeno-almoço no quarto.

Nessa altura, já estavam vestidos e com a bagagem pronta. Um pouco antes, ele amarrotara os lençóis, enquanto Amadea o fitava com um olhar interrogativo. ”Tivemos uma noite de paixão”, explicara-lhe pelo canto da boca, com um sorriso. Ele e Amadea haviam dormido tão distantes, quase sem se mexerem, que os lençóis pareciam impecáveis. Quando acabou, a cama assemelhava-se a um verdadeiro campo de batalha e ela riu-se.

Em que é que lhe menti? replicou, desconcertada. Gostava de falar alemão com ele. Há dois anos que não voltara a falar a língua e era um pouco como se estivesse em casa.

Dança maravilhosamente. Vi-a a revolutear na pista, flartando com os seus pares. Fiquei com imensos ciúmes gracejou.

Flartei? repetiu, horrorizada, pois a sua única intenção fora mostrar-se encantadora e simpática.

Sim, mas apenas o necessário. Senão, teria sido obrigado a fazer uma cena de ciúmes a que, felizmente, me poupou. Portanto, está perdoada. E pela mentira, também.

Observara-a na pista de dança uma ou duas vezes e notara a graciosidade e ligeireza com que se movia. Sobretudo para uma carmelita.

Deixaram o hotel e seguiram de táxi para a gare. Ali, apanharam um outro táxi, que os levou de volta a casa de Serge e, menos de uma hora depois da saída do Crillon, estavam na cave da casa. Mal entraram na divisão do fundo, Amadea tirou o chapéu e sentou-se com um profundo suspiro. A tensão dos últimos dois dias esgotara-a. Sentira-se aterrorizada, embora sem dar a entendê-lo, salvo nos poucos minutos de descontracção vividos ao lado dele Sobretudo em Notre-Dame.

O coronel Montgomery disse a Serge que fora a missão mais bem-sucedida que havia realizado e que ela era fantástica. Acrescentou que Amadea desempenhara na perfeição o seu papel de mulher de um oficial das SS e que, além disso, reunira uma quantidade significativa de informações. E, tal como o coronel, Serge ficou encantado

Quando regressamos? perguntou Amadea ao coronel, com um sorriso cansado, após ter trocado as belas roupas pelas suas.

A jovem sentia-se um pouco como Cinderela à meia-noite, depois do baile. Fora divertido usar os vestidos elegantes e ficar no Crillon, mas tinha quase sempre em mente o risco de ser deportada. A sua vida em Melun também comportava riscos, mas o que acabara de correr era muito maior.

Enquanto ela se mudava, também o coronel despira o uniforme das SS, tendo ambos devolvido os documentos a Serge. Os mesmos podiam voltar a servir com outras fotografias e alguns retoques. Serge devolveu-lhes os deles em nome de Amélie Dumas e do professor de Aries. Os três sabiam que estavam a jogar um jogo perigoso, mas eram especialistas no mesmo.

Tem fome? perguntou o coronel a Amadea em voz baixa.

Amadea sorriu. Tinham-se tratado como marido e mulher naqueles dois dias e a situação tornara-se um hábito.

Não. Comerei quando chegarmos. Quando é que partimos?

Primeiro, ele quis enviar informações codificadas para Inglaterra. Abandonaram discretamente a casa de Serge e percorreram, em sentido inverso, a estrada de Melun, no mesmo carro emprestado. A única diferença residia em que, agora, se sentiam perfeitamente à vontade um com o outro, como um verdadeiro casal. Haviam partilhado a mesma cama durante duas noites, embora como se fossem irmãos. Ainda a recordava com a camisa de noite de cetim cor de pêssego; quanto a Amadea lembrava-o com o pijama idiota demasiado pequeno, pois era um homem alto e tinha dificuldade em encontrar roupas à sua medida.

Fez um bom trabalho elogiou-a, quando seguiam no carro. Um excelente trabalho.

Obrigada, coronel respondeu Amadea, nada intimidada.

Pode chamar-me Rupert. Tinham recomeçado a falar francês desde o regresso, a fim de não cometerem o erro de usarem o alemão, caso houvesse um controlo. Sabe que fala alemão durante o sono? acrescentou, com um sorriso. Significa que é muito boa agente. Até mesmo no sono, fala na língua da sua missão!

Gostei muito de falar alemão consigo confessou Amadea, ainda um pouco desestabilizada pela passagem para o francês. Sei que é horrível dizê-lo, dadas as circunstâncias, mas esta língua recorda-me a infância. Há muito que não a falava.

O seu francês é fantástico. Tal como o seu inglês observou, num tom admirativo.

Também o seu.

Ambos tinham mães alemãs, portanto nada havia de surpreendente em que o alemão fosse a sua língua materna. A diferença residia em que ele crescera em Inglaterra, com um pai inglês, e ela, na Alemanha, com um pai francês.

Gostaria de voltar a trabalhar consigo declarou ele com a maior simplicidade.

Não sei se tenho nervos indicados para este tipo de trabalho. Pelo menos, a este nível. Estava sempre à espera de que a Gestapo batesse à porta e me deportasse.

Teria sido desagradável! retorquiu ele, com uma expressão grave. Sinto-me contente por isso não ter acontecido.

Também eu. Sabe, sempre quis dizer-lhe quanto o admiro pelo que fez relativamente aos comboios de crianças. Foi fantástico!

Sim, foi fantástico. Ainda bem que conseguimos tirar tantas crianças dali. Eu próprio tenho doze em casa.

Anunciou o facto, como se proporcionar um lar a doze pequenos emigrados não fosse nada de excepcional. Todos eles tinham pais ou, pelo menos, haviam tido no momento em que saíram da Alemanha. Aqueles, cujos pais tivessem sobrevivido depois da guerra, partiriam, um dia, ao seu encontro.

O coronel informou-a que já decidira adoptar os que ficassem sem família. Era um homem excepcional. Amadea apercebera-se disso em Paris, onde, apesar da extrema tensão em que também ele se encontrava, sempre se mantivera delicado, amável, respeitoso e atencioso. Tal como ela, correra o risco de ser desmascarado, preso e sido provavelmente fuzilado, se fosse descoberto.

Deve ser uma aventura ter doze crianças em casa!

É bastante divertido admitiu, com um sorriso.

O facto atenuava a perda da mulher e dos filhos. Embora não fosse o mesmo, a presença das crianças voltava a aquecer-lhe o coração.

São crianças maravilhosas prosseguiu. Também falo alemão com elas Tenho oito rapazes e quatro raparigas, dos cinco aos quinze anos A mais novinha tinha apenas seis meses quando a meteram no comboio; a irmã estava com ela. Dois dos mais velhos são gémeos. Algumas famílias de acolhimento só aceitavam uma ou duas crianças de uma mesma família e fizemos o possível para que os irmãos e irmãs não ficassem separados. várias delas tiveram de ser recolocadas, mas a maioria das colocações foi bem-sucedida. Por vezes, os meus miúdos têm saudades dos pais, excepto a mais nova, obviamente, pois não se lembra da família; para ela as outras crianças e eu são a única que conheceu. É ruiva e com sardas; dir-se-ia uma raposinha rematou com um sorriso.

Amadea notou-lhe no olhar todo o amor que tinha àquelas crianças. Também fora certamente um bom pai para os filhos.

Chegaram a Melun pouco antes do cair da noite. A tia de Jean-Yves preparou-lhes o jantar sem fazer perguntas, e eles também não aludiram à sua estada em Paris. Contudo, era óbvio que ela sabia que este estrangeiro era um agente, e um agente importante. Jantaram calmamente, falaram da herdade e do tempo. Depois, Amadea e Rupert sentaram-se no celeiro a conversar até chegar a hora de ele se ir embora.

Parece estranho, mas passei um belo tempo na sua companhia. Sente a falta do convento? perguntou, sempre curioso a este respeito e intrigado sobre a personalidade da jovem.

Amadea era tantas coisas em simultâneo: inocente, bonita, humilde, corajosa, tímida, inteligente e desprovida de qualquer pretensão. De uma certa forma, percebia a razão por que é que ela daria uma boa religiosa, embora continuasse a achar que seria um terrível desperdício. Ainda a recordava, exuberante no seu vestido de noite branco e, depois, na camisa de cetim. Contudo, nunca se estabeleciam relações amorosas entre agentes. Teria complicado tudo. Isto era trabalho e não diversão. Havia vidas em risco.

Sim, claro respondeu Amadea com uma expressão séria. Sempre. Regressarei quando tudo isto acabar pronunciou com uma certeza que não lhe deixou a mínima dúvida.

Reserve-me uma dança antes gracejou ele. Podia ensinar-me um ou dois passos.

Por volta das vinte e três horas saíram ao encontro dos outros, no campo. O avião chegou à hora prevista, um pouco depois da meia-noite. O coronel partia sozinho, pois os três homens que o acompanhavam à chegada ainda estavam em missão. O Lysander acabava de aterrar, quando ele se virou para Amadea e lhe agradeceu uma vez mais.

Que Deus o abençoe gritou ela acima do ruído dos motores. Tenha cuidado.

Você também retorquiu, tocando-lhe no braço.

Em seguida, saudou-a e saltou para o aparelho, no momento em que este tocava no solo. Voltaram a descolar em menos de três minutos. Amadea ficou a olhar o pequeno avião que se afastava pelo céu. Pareceu-lhe ver o coronel a acenar-lhe. Depois virou costas e percorreu o caminho de regresso à herdade.

 

Amadea só teve notícias de Serge duas semanas antes do Natal, quando a veio visitar. Desde o regresso de Paris que ela retomara as missões habituais. Por duas vezes, tivera de socorrer homens ingleses que se haviam ferido durante a descida em pára-quedas. Um deles ficara preso numa árvore e Amadea subira lá acima para o soltar; depois cuidara dele durante várias semanas. Toda a gente em Melun conhecia o seu heroísmo e a sua abnegação. O homem que tirara da árvore tinha jurado voltar para a ver no final da guerra, convencido de que ela era um anjo que lhe salvara a vida.

Invadia-a uma profunda tristeza devido às recordações do Natal anterior, passado ao lado de Jean-Yves. Mas, de momento, sentia que a sua vocação religiosa era mais forte do que nunca; interrogava-se sobre se seria esse o motivo por que ele tinha entrado na sua vida. Sabia que as respostas chegariam com o tempo.

Serge vinha propor-lhe uma nova missão, a pedido do coronel Montgomery em pessoa. Amadea era obviamente livre de aceitar, mas ele hesitava.

A fábrica que devia produzir bombas na Alemanha avançara rapidamente, mais rapidamente do que os ingleses tinham previsto. Montgomery precisava das informações técnicas que não obtivera em Paris. Desejava que Amadea voltasse a desempenhar o papel de sua mulher. Quanto a ele, seria um outro oficial. Desta vez, o risco principal da missão residia em que se passaria na Alemanha. Teriam de entrar e sair do país sãos e salvos, o que não seria fácil. Os dois podiam facilmente ser mortos e, no caso de Amadea, mesmo que não a fuzilassem, seria certamente deportada.

Para ser honesto contigo, não me parece que devas aceitar declarou Serge para a desencorajar. Desejaria não ter de falar-lhe desta missão, mas tinha de transmitir-lhe a mensagem. Amadea tinha dois dias para tomar uma decisão.

A jovem não tinha o mínimo desejo de aceitar, mas nos dois dias seguintes, não conseguiu pregar olho. Só conseguia pensar nos rostos das pessoas que conhecera em Theresienstadt. Interrogava-se sobre quantos deles ainda estariam vivos. A mãe e a irmã em Ravensbruck. A família da mãe em Dachau. Se ninguém aceitasse estas missões, eles ficariam lá para sempre e todos os judeus da Alemanha e dos outros países ocupados acabariam por morrer. Lembrou-se de algo que um dos presos de Theresienstadt lhe dissera, um velho que morrera um mês antes de ela fugir: ”Aquele que salva uma vida, salva a Humanidade inteira.” Era uma frase retirada do Talmude e ela nunca a esquecera. Como poderia virar as costas a todas estas pessoas, quando lhe era dada a oportunidade de mudar as coisas, mesmo que isso significasse ser deportada? Era a sua oportunidade de lutar por eles. Que outra alternativa lhe restava? Que escolha tivera Cristo ao ser crucificado?

Nessa noite, Amadea enviou uma mensagem pelo rádio a Serge, dizendo apenas: ”Sim. Teresa.” Sabia que ele ia compreender e passaria a mensagem ao coronel. Recebeu as instruções no dia seguinte. Ele seria lançado de pára-quedas nos arredores de Nancy, e ela teria de deslocar-se até à célula do local. Os documentos e as roupas necessárias ser-lhe-iam fornecidos lá. Desta vez, era Inverno e não teriam ”um fím-de-semana de aniversário”, em Paris, no Crillon. Apenas um vestuário vulgar.

Amadea partiu a coberto do escuro da noite e chegou a Nancy de manhã. O coronel Montgomery fora largado de pára-quedas e aterrara num campo durante a noite.

Olá, irmã. Como tem passado? cumprimentou-a com um enorme sorriso, mal a viu.

Muito bem, obrigada, coronel. Encantada por voltar a vê-lo.

Tinham-se saudado de uma forma respeitosa e simpática, como se fossem velhos amigos. Ele ficara impressionado pelo facto de Amadea ter aceite a missão, sobretudo sabendo o perigo que correria. Tivera alguns escrúpulos em requisitar a sua colaboração, mas precisava dela e a Inglaterra também. Sentia-se satisfeito por tê-la a seu lado.

Receberam os novos documentos e ele passou toda a noite a fornecer-lhe instruções. Desta vez, era mais complicado. Amadea teria de recolher informações e tirar fotografias. Para esse efeito, deu-lhe uma pequena máquina fotográfica que ela escondeu num compartimento da mala de mão. Montgomery voltara a pôr o uniforme das SS, pois tomariam o comboio para a Alemanha, logo de manhã. Como já acontecera, ele dirigiu-se-lhe em alemão, para não cometerem qualquer erro durante a missão; só podiam falar esta língua, como o haviam feito em Paris. Amadea sentiu o mesmo prazer em conversar com ele, mas os dois tinham consciência de que esta missão se anunciava bem mais delicada do que a anterior.

Quando subiram para o comboio, estavam ambos pálidos e fatigados, tal como acontecia a muita gente neste Inverno. Conversaram, porém, bem-dispostos, até o comboio sair da estação e, em seguida, Amadea adormeceu, extenuada, com a cabeça apoiada no ombro do coronel. Este último leu enquanto ela dormia e, ao acordar, a jovem parecia revigorada.

Desceram na Turíngia, hospedando-se num hotel, onde se encontravam outros oficiais com as respectivas mulheres. Nada tinha a ver com o Crillon, mas o quarto era simpático. O empregado da recepção desculpou-se por terem duas camas em vez de uma cama de casal, mas o hotel estava cheio com as mulheres dos oficiais a visitá-los na época do Natal.

Rupert respondeu que não havia problema, pois não estavam em lua-de-mel, o que fez rir aos três. Contudo, Amadea só ficou verdadeiramente aliviada, quando se viram sós, no quarto. Para esta missão, os agentes da célula haviam providenciado uma quente camisa de noite de flanela; contrariamente à vez anterior, estavam no Inverno e a missão era muito menos romântica e infinitamente mais perigosa. Rupert vestia a pele de um oficial das SS que nunca existira. O seu nome e documentos eram totalmente falsos, tal como os dela. Haviam acordado em que ela dissesse que era natural de Colónia, pois a maioria dos arquivos fora destruído na altura do bombardeamento de 1942, no ano anterior. Amadea reduzia assim as hipóteses de cometer qualquer erro; a sua conversa com outros oficiais e as suas mulheres seria mais fácil e natural.

Assistiram a dois jantares oficiais da Gestapo. Rupert passou o resto do tempo a trabalhar. Amadea acompanhou-o uma única vez para uma visita à fábrica que produzia bombas. Os nazis sentiam-se muito orgulhosos com o trabalho que efectuavam. Amadea memorizou cada pormenor e à noite passou tudo ao papel.

A viagem desenrolou-se num estado de tensão permanente, mas, no quarto dia, quando se deitaram, Rupert anunciou que o trabalho estava concluído; partiriam de manhã, tudo correra bem. Contudo, Amadea passou a noite acordada, angustiada sem saber porquê. E esta sensação manteve-se quando subiram para o comboio, no dia seguinte. Não falou durante toda a viagem através da Alemanha. Era como se tivesse um mau pressentimento, mas não o mencionou a Rupert; não havia motivo para o preocupar. Haviam concluído algo espantosamente audacioso e corajoso e tinham consciência disso.

Até à fronteira, os controlos foram frequentes e, na última estação, dois jovens soldados demoraram um tempo imenso a verificar os documentos. A fronteira estava próxima, e ela tinha a certeza de que algo aconteceria. Contudo, devolveram-lhes os documentos mais uma vez e o comboio prosseguiu a sua marcha.

Rupert sorriu-lhe, enquanto se afastavam. De manhã, estavam de volta a França. Iam primeiro a Paris, daí regressariam a Melun. Segundo os documentos de Rupert, ele encontrava-se posicionado no quartel-general de Paris. Parariam em casa de Serge, de onde Rupert enviaria as informações por rádio para Inglaterra. Seguiriam depois para Melun, de onde ele viajaria para o seu país. Faltava uma semana para o Natal.

Iam a sair apressadamente da gare em Paris, quando um oficial das SS agarrou no braço de Rupert, chamando-o pelo nome que ele usava há três meses e não pelo actual. Amadea começou a tremer da cabeça aos pés ante a ideia das consequências que isso poderia acarretar. Contudo, os dois homens limitaram-se a trocar votos de boas-festas, e ela e Rupert dirigiram-se calmamente à saída. Fizeram sinal a um táxi que os deixou diante de um pequeno café, de onde seguiriam a pé até casa de Serge. Quando se sentaram e pediram um café, Amadea estava pálida de morte.

Está tudo bem disse Rupert num tom calmo, fitando-a. Voltara a falar-lhe em francês. Era um milagre que tivessem saído sãos e salvos desta missão.

Não sou decididamente talhada para isto replicou Amadea em voz baixa, como para se desculpar.

Desde manhã que se sentia nauseada e o próprio Rupert parecia esgotado. A viagem pusera-lhes os nervos à prova, mas a missão resultara em pleno.

É muito melhor do que pensa. Talvez demasiado replicou ele.

Amadea mostrara-se tão convincente no seu papel de mulher de um oficial das SS, que Rupert começava a recear que a jovem fizesse mais trabalho deste género. Achava desaconselhável, pois não podia arriscar-se a sua vida indefinidamente. Sempre dissera que tinha, pelo menos, dez vidas, contudo, Amadea era demasiado jovem para morrer. Aos quarenta e dois anos, sentia-se como se já tivesse vivido muito. Sem a mulher e os filhos, não faria falta a ninguém se morresse, excepto aos seus Kinder. Só desempenhava tudo aquilo para fazer com que os alemães pagassem a morte da sua família e para servir o seu rei.

Depois do café, seguiram a pé até à casa de Serge, fizeram o relatório e trocaram de documentos. Rupert usou o rádio durante várias horas, tendo o cuidado de mudar de frequência de quinze em quinze minutos, para impedir que os alemães os localizassem e escutassem as suas comunicações. Antes de partir, asseguraram-se de que tudo estava em ordem. Amadea admitiu que o seu mau pressentimento fora um absurdo. A missão não podia ter corrido melhor.

Nessa noite, regressaram a Melun e não chegaram muito tarde à herdade. Como da outra vez, sentaram-se a conversar no celeiro, até à meia-noite, depois dirigiram-se para o campo. Fazia tanto frio que o solo estava gelado e caíam ligeiros flocos de neve. Amadea agarrou-lhe no braço para não escorregar e ele amparou-a várias vezes; havia uma certa intimidade nos gestos de ambos, como se fossem realmente marido e mulher, ou, pelo menos, familiares. Enquanto aguardavam a chegada do avião num bosquedo, Amadea mal conseguia acreditar que na noite anterior tinham estado na Alemanha e passado lá quase uma semana. Pouco lhe interessava que fosse Natal. Estavam vivos e era tudo o que interessava.

O Lysander chegou mais tarde do que o habitual, por volta da uma da manhã. Fora uma longa espera sob o frio glacial. A jovem não sentia as mãos, quando apertou as de Rupert e lhe desejou uma boa viagem e um feliz Natal. Pela primeira vez, ele inclinou-se e deu-lhe um beijo na face.

Foi fantástica, como sempre... Espero que passe um bom Natal.

Sem dúvida. Ainda estamos vivos e não fui deportada para Auschwitz respondeu com um sorriso. Aproveite bem o Natal com os seus Kinder. Era assim que as crianças do transporte de comboio eram chamadas pelos pais adoptivos ingleses e por todos que as conheciam.

Ele deu-lhe uma pequena palmada no ombro, enquanto Amadea observava os homens a pilotar o avião. Nessa noite, não era necessária. Apenas tinha vindo acompanhar Rupert, como uma boa esposa acompanha o marido ao aeroporto. A coberto das árvores, ficou a vê-lo correr para o Lysander, quando um disparo ecoou subitamente. Ele dobrou-se por um instante, em seguida retomou a corrida, agarrando o ombro. Ouviram-se mais disparos. Viu dois homens caírem de lanternas na mão, com os feixes de luz apontados para o céu.

Amadea mergulhou nos arbustos. Não podia fazer nada por eles. Nem sequer estava armada. Contudo, tivera tempo de ver que Rupert fora atingido. Segundos depois, foi puxado para o avião e a porta fechou-se atrás dele, ao mesmo tempo que o aparelho levantava voo. Os outros membros da célula tinham fugido pelos campos, arrastando atrás deles os corpos dos dois companheiros. Instantes depois, surgiram de todos os lados soldados alemães. Amadea apercebeu-se de que as quintas das vizinhanças seriam revistadas. Talvez houvesse represálias ou não, pois nenhum alemão tinha sido morto ou ferido.

Os soldados lançaram-se na perseguição dos resistentes, enquanto Amadea corria o mais rapidamente que as pernas lhe permitiam até à herdade. Quando lá chegou, arrancou as roupas do corpo e meteu-se dentro da cama em camisa de noite, esfregando as mãos e o rosto para tentar aquecê-los. De qualquer forma, o quarto estava gelado.

Para sua grande surpresa, os soldados nunca chegaram a aparecer. Não conseguia deixar de pensar na sorte que haviam tido, ela e Rupert, de poderem cumprir a missão e voltar a sair da Alemanha. Recordou-se também do pressentimento que tivera na última noite na Alemanha e resolveu que, doravante, passaria a confiar no seu instinto.

Os dois jovens resistentes estavam mortos; eram ambos velhos amigos de Jean-Yves. No dia seguinte, Serge recebeu uma mensagem dos ingleses no seu rádio de ondas curtas: o Apoio aterrara com um arranhão na asa, mas nada de grave, e transmitia os seus agradecimentos a Teresa. Serge passou a mensagem a Amadea. Para grande alívio de todos, o Natal decorreu calmamente.

 

Durante o Inverno de 1943, a exterminação sistemática dos judeus prosseguiu por toda a Europa. Em Auschwitz, perto de cinco mil pessoas tinham sido gaseadas. Em Agosto, oitocentos e cinquenta mil foram mortos em Treblinka e, em Outubro, duzentas e cinquenta mil em Sobibor. Em Novembro, quarenta e dois mil judeus polacos haviam sido executados e, em Dezembro, os judeus de Viena foram deportados para Auschwitz. Verificavam-se, agora, deportações em massa de Theresienstadt para Auschwitz. Todos os guetos da Europa foram arrasados.

Em Março de 1944, os nazis tinham detido setecentos e vinte e cinco mil judeus húngaros. Em Abril, fizeram incursões em lares franceses, em busca de crianças judias. No ano anterior, Jean Moulin, um dos chefes da Resistência, fora preso em Lyon.

Na Primavera de 1944, Serge e os restantes membros da Resistência estavam a par da chegada iminente dos Aliados. A questão residia quando e com que brevidade. Os alemães não deixavam os resistentes em paz, enquanto o plano destes era dificultar-lhes ao máximo a vida, para que não pudessem deter os ingleses, quando estes chegassem.

Amadea interrogou-se sobre se Rupert estava metido no plano, mas estava certa de que sim. Há quatro meses que não tinha notícias dele, desde a missão de ambos na Alemanha, em Dezembro. De vez em quando, pensava nele, bem como nas suas Kinder, esperando que todas as crianças estivessem sãs e salvas.

Em Março, participou em mais missões do que o habitual. Com a chegada do bom tempo, os movimentos eram mais fáceis do que no Inverno. Fora nomeada chefe do seu grupo e tomava muitas das decisões da sua célula.

Com o objectivo de pôr entraves às actividades nazis, ela e vários outros tinham resolvido fazer explodir um comboio. As tentativas anteriores haviam-se revelado desastrosas e ocasionado sangrentas represálias, mas as instruções de Paris eram claras: deviam abrandar a marcha dos comboios alemães de todas as formas possíveis. Fazer explodir o comboio e os carris a leste de Orleães pareceu-lhes boa ideia, embora perigosa para todos.

Por pura coincidência, a operação foi marcada para a noite em que Amadea faria vinte e sete anos. Ninguém do seu círculo sabia e ela também não ligava nenhuma importância ao facto. Dada a situação, os aniversários e festas haviam perdido todo o significado, além de que a deixavam triste. Sentia-se muito mais feliz em tornar-se útil, sobretudo se fosse para prejudicar os alemães.

Vinte pessoas deviam participar na operação, doze homens e oito mulheres. Alguns eram resistentes locais, outros tinham vindo de células mais distantes. Um dos homens trabalhara para Jean Moulin e abandonara Lyon quando este fora preso. Não era de admirar que Amadea o achasse fantasticamente treinado.

Nessa noite, deitada por terra, a fim de vigiar a passagem das sentinelas, custava-lhe acreditar que fora religiosa. Passava o tempo a preparar armas, montar explosivos, sabotar edifícios e a fazer o possível para desorganizar e até mesmo destruir o inimigo que ocupava a França. Continuava a pensar em regressar ao convento, mas, por vezes, interrogava-se sobre se as irmãs e o Deus que amava alguma vez lhe perdoariam o que fizera. Contudo, estava mais decidida do que nunca a prosseguir o seu trabalho. Até a guerra acabar, sabia que não lhe restava outra escolha.

Foi a própria Amadea que, nessa noite, colocou os explosivos perto das linhas férreas. Não era a primeira vez que o fazia e sabia que quantidade utilizar. Como sempre, em momentos semelhantes, pensou em Jean-Yves, e, quando acenderam a mecha, dispunha-se a fugir, no preciso momento em que uma sentinela alemã passava vagarosamente. Sabia que o soldado ficaria reduzido a pó no espaço de segundos, mas que, se não se mexesse, a esperava o mesmo destino. Em vez de avançar na direcção do sítio onde alguns dos outros se escondiam, viu-se obrigada a recuar. Começara a correr, quando se ouviu uma primeira explosão. A sentinela teve morte imediata e Amadea foi atirada pelos ares como uma boneca de trapos, caindo de costas, próximo dos carris. Ficou surpreendida ao perceber que estava consciente, mas incapaz de se mexer. O impacto na coluna vertebral fora terrível.

Um dos homens do grupo, que assistira à cena, precipitou-se para o local onde ela jazia, carregou-a aos ombros e correu para junto dos outros no preciso momento em que a segunda bomba explodiu. Esta segunda explosão foi mais violenta do que a primeira e decerto a teria morto, como acontecera a Jean-Yves.

Em seguida, Amadea lembrava-se de ter sido transportada por alguém durante muito tempo, sem sentir nada. Lembrava-se também de ter sido levada num camião, com o ruído de explosões ao longe e fogo por todo o lado. Depois disso, perdera os sentidos. Acordara dois dias mais tarde numa quinta, no meio de pessoas desconhecidas. Haviam-na levado para uma aldeia vizinha e ali ficara escondida.

Durante a semana seguinte, oscilou entre a consciência e a inconsciência. Dois homens da sua célula vieram visitá-la. Pareciam preocupados e disseram que os alemães a procuravam por todo o lado. Tinham passado pela herdade, mas os tios de Jean-Yves afirmaram não saber onde ela se encontrava e foram milagrosamente poupados. Mas não podia regressar. Serge enviara-lhes uma mensagem pelo rádio de Paris, pedindo-lhes que a tirassem de lá.

Contudo, além de ter os alemães à perna, Amadea defrontava um outro grave problema Não conseguia mexer-se, nem sequer sentar-se. Lesionara a coluna vertebral ao cair. Sabia que, a partir de agora, se tornara um empecilho para eles

Serge quer que te tiremos daqui disse-lhe suavemente um dos homens com quem ela trabalhava há um ano e meio.

Abstiveram-se de lhe dar a entender, mas ela parecia à beira da morte. Nos últimos dias delirara e sofrera alucinações.

Não só fizera uma lesão da coluna, como tinha queimaduras graves nas costas. Contudo, não sentia nada, nem mesmo a dor.

Para onde? inquiriu, tentando concentrar-se. Amadea sentia-se tão cansada que tinha dificuldade em manter os olhos abertos e havia momentos em que perdia a consciência, enquanto lhe falavam. Aproveitaram um dos seus breves instantes de lucidez para lhe explicarem o que estava previsto.

Um avião vem buscar-te esta noite disseram.

Não me mandem de volta para o campo... suplicou. Farei tudo o que quiserem. Vou levantar-me.

Mas todos sabiam que era impossível. O médico que viera observá-la tinha dito que ela ficaria paralisada para toda a vida. Se os alemães a descobrissem, nem sequer se dariam ao trabalho de a mandar para um campo. Matá-la-iam ali mesmo. Não lhes servia para nada, nem sequer de escrava.

Além disso, tornara-se um risco demasiado para eles continuarem a escondê-la. Um jovem dera com a língua nos dentes e os alemães sabiam que Amadea dirigia uma célula, ou, pelo menos, trabalhava para a Resistência. Todos sabiam que Serge tinha razão. Só lhe restava ir-se embora, se conseguissem tirá-la dali, o que parecia duvidoso.

Um dos Lysander viria buscá-la nessa noite, se conseguissem metê-la lá dentro. E se ela sobrevivesse. Uma das mulheres embrulhara-a num cobertor, ocultando-lhe o rosto. Amadea gemeu frequentemente quando a transportaram, mas não voltou a recuperar os sentidos.

Quando o avião apareceu no céu, um jovem, que a conhecia desde que ela chegara a França, atravessou o campo a correr para se despedir, enquanto os outros acendiam as lanternas. Mais parecia um funeral do que uma missão de salvamento. Um dos homens fora mesmo ao ponto de chorar, garantindo que ela morreria antes de chegar ao seu destino. E os outros suspeitavam que tivesse razão.

A porta do Lysander abriu-se no segundo em que tocou no solo e Amadea foi literalmente atirada para o interior do aparelho, embrulhada no cobertor. Havia dois homens lá dentro e um deles puxou-a, antes de fechar a porta. O piloto voltou a descolar imediatamente, evitando as árvores. Em seguida, descreveu uma curva para Oeste, na direcção de Inglaterra. Entretanto, o outro homem destapou-lhe suavemente o rosto. Ambos sabiam que tinham vindo evacuar um membro da Resistência francesa, mas não lhes haviam dito mais Nem sequer sabiam como ela se chamava. Serge dera pelo rádio as informações necessárias aos ingleses, mas os pilotos só precisavam de saber que iam buscar alguém Mais nada.

Acho que a abanámos de mais comentou o homem sentado no chão ao lado dela, ao mesmo tempo que lhe descobria o rosto. Não me parece que aguente.

Amadea mal respirava e quase não tinha pulsação. O piloto manteve-se em silêncio e prosseguiu o voo.

À chegada, os dois homens ficaram surpreendidos ao constatar que a jovem mulher ainda estava viva. Uma ambulância esperava-a para a conduzir ao hospital, mas quando foi observada, percebeu-se que precisava mais do que uma simples cama. Além da lesão da coluna, tinha uma queimadura de terceiro grau nas costas. ”É pouco provável”, escreveu o cirurgião no relatório, depois de terem feito todo o possível por ela ”que a jovem possa voltar a andar.”

Amadea fora hospitalizada com o nome indicado nos documentos franceses, Amélie Dumas. Contudo, pouco tempo depois, um funcionário dos Serviços Secretos britânicos tinha contactado o hospital e identificado Amadea sob o seu nome de código, Teresa

Achas que é uma agente britânica? perguntou uma das enfermeiras à colega, ao consultar o seu dossiê.

O pessoal sabia que fora evacuada de França, mas ignorava porquê e por quem.

Talvez respondeu a outra. Não pronunciou uma palavra desde que aqui chegou. Nem mesmo sei que língua fala. Examinou depois atentamente o dossiê de Amadea Este género de coisa era difícil de saber nos tempos que corriam. A jovem não fazia, obviamente, parte do exército britânico e estava em péssimas condições físicas. Podia ser uma das nossas.

Quem quer que seja, passou tempos difíceis rematou a outra enfermeira.

Amadea só retomou a consciência três dias depois e por um breve instante. Ergueu um olhar inexpressivo para a enfermeira ao seu lado e, com um ar sofredor, pronunciou uma única frase em francês: ”Sou a esposa de Cristo.” Em seguida, desmaiou novamente.

 

A 6 de Junho, os Aliados desembarcaram, na Normandia. Amadea não conseguiu reter as lágrimas ao ouvir a notícia; de todos os que estavam no hospital fora ela quem mais rezara e se debatera por este dia. Teve de esperar pelo meio de Junho para conseguir ir até ao jardim do hospital em cadeira de rodas.

Os médicos tinham-lhe dito que era pouco provável que voltasse a andar um dia, embora não fosse uma certeza. Mas era ”altamente improvável”, segundo as suas palavras. Amadea achava que a perda do andar era o seu contributo, um pequeno sacrifício para ganhar a guerra e salvar vidas humanas. Havia milhões que não voltariam a viver, nem mesmo numa cadeira de rodas.

Enquanto estava sentada ao sol, com uma manta a tapar-lhe as pernas, tomou súbita consciência de que seria uma daquelas freiras idosas de que as mais jovens tomavam conta. Na verdade, mesmo que tivesse de rastejar, pensava regressar ao convento, mal os médicos lhe dessem alta. Havia um convento carmelita em Londres, em Notting Hill, e ela planeava visitá-lo, mal pudesse sair. Contudo, segundo o seu médico, não chegara a altura. As queimaduras ainda não haviam cicatrizado, e ela precisava de fazer fisioterapia por causa das costas e das pernas. Não queria ser um fardo para as outras freiras.

Estava sentada no jardim, de olhos fechados e com o rosto virado para o sol, quando ouviu uma voz familiar ao seu lado. Não conseguiu localizá-la de imediato, pois escutara-a numa outra língua. Assemelhava-se a um eco do passado distante:

Muito bem, irmã! Desta vez, fez um trabalho extraordinário!

Abriu os olhos e avistou Rupert de pé, junto dela, com o uniforme de oficial britânico. Pareceu-lhe estranho não o ver com o uniforme das SS. Compreendeu, subitamente, que o som diferente da voz se devia ao facto de ele falar inglês e não alemão ou francês. Ergueu o rosto na sua direcção e sorriu-lhe.

Constou-me que tentou destruir sozinha todo o caminho-de-ferro francês e metade do exército alemão prosseguiu. Algo espantoso, disseram-me!

Obrigada, coronel agradeceu. O olhar de Amadea iluminara-se, pois ele era o único amigo que via desde que fora hospitalizada. Além de que, nos últimos tempos, tinha pesadelos horríveis sobre Theresienstadt. Piores do que alguma vez. Então, como vai o seu ombro?

Há seis meses que não se viam, desde a última missão que tinham efectuado juntos na Alemanha, quando ele fora ferido ao sair de França.

Dói-me um bocado com as mudanças de tempo, mas acabará por passar.

Na verdade, a bala fizera estragos, mas os médicos tinham-no tratado bem. De qualquer maneira, saíra-se melhor do que ela. O cirurgião com quem tinha falado, antes de a visitar, dissera-lhe que não havia praticamente qualquer esperança de que ela voltasse a andar, mas não queriam dar-lhe a notícia de chofre. Acrescentara que, de momento, a jovem parecia resignada à sua sorte. Fora um milagre ter sobrevivido.

Recebi a sua mensagem quando regressou. Obrigada. Sentia-me preocupada consigo declarou Amadea num tom sincero, enquanto ele se sentava no banco em frente dela.

Não tanto, como eu fiquei consigo replicou Rupert com uma expressão grave. Ouvi dizer que fez um voo de respeito.

Nunca fui boa com explosivos observou Amadea, no mesmo tom que algumas mulheres usam quando dizem que não são boas a fazer tartes ou suflês.

Nesse caso, talvez fosse aconselhável não insistir sugeriu Rupert pragmático, com um brilho malicioso no olhar.

Veio pedir-me que volte à Alemanha para desempenhar o papel de sua mulher? retorquiu ela, maliciosa.

Por mais angustiante que tivesse sido, gostara de trabalhar com Rupert. Tanto como ele com ela.

Talvez pudesse passar por sua avó, agora que estou numa cadeira de rodas acrescentou com um ar um tanto embaraçado.

Que disparate! Estará de pé dentro de pouco tempo. Disseram-me que vai sair no próximo mês.

Tal como prometera a Serge, mantivera-se ao corrente do seu estado de saúde, mas esperara que ficasse melhor para a visitar. Ela passara uns dois meses muito difíceis.

Faço tenção de ir para o convento de Notting Hill quando tiver alta. Não quero ser um fardo para as irmãs, mas sei que ainda posso ter utilidade. Vou tentar melhorar a costura declarou Amadea num tom humilde, parecendo, por um momento, uma freira.

Só que Rupert conhecia-a mais profundamente.

Mais vale. Não me parece que elas gostassem que lhes fizesse explodir o jardim. Acho que ficariam perturbadas gracejou com um sorriso.

Estava encantado por vê-la. Apesar do que havia vivido, estava com bom aspecto e bonita como sempre. Os longos cabelos louros caíam-lhe pelas costas e brilhavam ao sol.

Na verdade, tenho uma proposta a fazer-lhe continuou. Confesso que não é nada de tão excitante como uma missão na Alemanha, mas quase, e porá os seus nervos à prova.

Amadea estava surpreendida com aquele discurso. Era-lhe difícil acreditar que, no estado em que se encontrava, os Serviços Secretos britânicos pudessem querer enviá-la numa missão com ele. Os seus dias de combate na Resistência tinham acabado. Tal como a guerra, assim o esperava. Ela lutara com todas as suas forças durante muito tempo mais do que a maioria.

Para lhe falar verdade, preciso que me ajude a ocupar-me dos meus Kinder esclareceu Rupert. Há cinco anos que estão comigo. Os pequenos já não são assim tão pequenos e começaram a fazer disparates. Quanto aos grandes, agora são quase adultos e causam-me todo o tipo de problemas. Passo a maior parte do tempo em Londres e, para ser franco, preciso mesmo de alguém que os vigie até que tudo regresse à normalidade. E, neste momento, também preciso de alguém que me ajude a encontrar-lhes os pais, se ainda estiverem vivos. Não é tarefa fácil para um homem sozinho ter doze filhos concluiu num tom queixoso que fez rir Amadea, desconfiada de que ele estava apenas a ser caridoso, mas também bondoso, como era típico da sua personalidade.

Não está a falar a sério, pois não? retorquiu, com uma expressão estranha, sentindo que a amizade por ele se reavivava

Tinham arriscado a vida juntos e haviam-se protegido mutuamente. Embora não se conhecessem bem, criara-se um forte elo entre ambos. E sentia-se orgulhosa do trabalho que haviam feito.

Confesso que sim. Adoro os meus Kinder, Amadea, mas, para lhe ser honesto, eles estão a dar com a minha governanta em doida. A pobre tem setenta e seis anos. Cuidou de mim quando eu era pequeno e depois dos meus filhos. Estas crianças precisam de alguém mais jovem que as entretenha e conserve na linha.

Receio não poder fazer nenhuma dessas coisas hoje em dia replicou a jovem, com um olhar para a cadeira de rodas, antes de o fitar novamente. Eles podiam atirar-me do alto de uma rocha, se não gostassem do que lhes dissesse.

São uns miúdos adoráveis redarguiu Rupert, desta vez num tom sério.

Amadea viu que ele estava a ser sincero. Era óbvio que os amava, mas tinha razão: uma governanta de setenta e seis anos não era indicada para ter mão em doze crianças entregues a si próprias. Rupert passava a maior parte do tempo fora, em missão ou em Londres, e só regressava a Sussex no fim-de-semana. Por outro lado, Amadea sentia-se ansiosa por voltar para o convento. A sua estada no exterior já fora demasiadamente longa e cumprira a tarefa. Chegara a altura de regressar e tentou explicar-lho suavemente

- Não acha que as irmãs podiam dispensá-la mais uns meses? insistiu, esperançado. Afinal, isto também faz parte do esforço da guerra. Estas crianças são vítimas dos nazis, tal como você. Será duro para elas, depois da guerra, quando descobrirem o que aconteceu aos pais

Amadea sentiu um aperto no coração e fitou-o com um ar hesitante; o destino parecia conspirar para mantê-la afastada do convento. Gostaria de perguntar a Deus o que esperava dela, mas ao ver a expressão dos olhos de Rupert, obteve a resposta. Devia ocupar-se das suas crianças. Talvez fosse esse o motivo por que Deus lhe enviara Rupert. O seu exílio não acabava Contudo, depois de três anos fora do convento, achava que podia esperar um pouco mais. Começava a pensar que teria noventa anos quando pronunciasse os votos perpétuos, mas sabia que esse dia acabaria por chegar. Tinha a certeza.

Na verdade, ainda não escrevi à madre superiora respondeu, fitando Rupert. Ia fazê-lo esta semana. Acha mesmo que posso ajudá-lo? Sinto-me inútil nesta cadeira

Por vezes, e apesar dos seus esforços, não conseguia reprimir uma certa auto-compaixão Mas, se era esta a vontade de Deus, aceitaria. A vida já a poupara muitas vezes e de muitas maneiras.

Fico muito satisfeito por saber que ainda não tomou providências. Temia chegar tarde de mais. E, claro, que é muito útil tal como está. Só terá de gritar-lhes e vou dar-lhe uma vara enorme de que pode servir-se, se quiser gracejou, fazendo-a rir.

Quando quer que eu vá? perguntou-lhe, já entusiasmada e cheia de esperança

Amadea sentia-se impaciente por conhecer as crianças. Ocupar-se delas daria um novo sentido à sua vida, sobretudo devido às frequentes ausências de Rupert. Enquanto discutiam o assunto, quase voltou a sentir-se casada com ele, como lhe acontecera em Paris e na viagem à Alemanha, em Dezembro. Tinham uma relação muito fora do comum. Em alguns aspectos, eram dois estranhos entre si, noutros, os melhores amigos.

Sentia-se feliz por poder ajudá-lo com os seus Kinder. O convento podia esperar mais um pouco. A guerra acabaria dentro em breve e assim que as crianças tivessem encontrado os pais e partido... O seu raciocínio funcionava a cem à hora, enquanto falava com ele. De súbito, endireitou-se na cadeira. Queria que escrevesse o nome de todos numa folha de papel, antes de se ir embora, e Rupert prometeu que o faria.

Sabia que conseguira elevar-lhe o moral e passou toda a tarde ao seu lado, falando das crianças, da sua propriedade, dos dois dias que tinham passado em Paris e dos cinco na Alemanha. Pareciam ter muita coisa a dizer um ao outro, e Amadea ria-se, parecendo feliz e jovem, quando ele lhe empurrou a cadeira de rodas de volta ao quarto. Tinham combinado que ela viajaria directamente para Sussex dali a quatro semanas, mal os médicos lhe dessem alta. Contudo, prometeu que, antes disso, viria vê-la várias vezes. Queria ter a certeza de que ela estava bem, além de que a sua companhia lhe agradava.

À despedida, beijou-a na face. Depois de ele se ir embora, a jovem rezou pelos seus Kinder e por ele.

 

A viagem do hospital até à propriedade de Rupert foi difícil para Amadea. Continuava a ter picadas na parte inferior da coluna vertebral e nas pernas, quando ficava muito tempo na mesma posição. Mas não controlava os membros inferiores. Ao sair do carro, quando o motorista a instalou na cadeira de rodas, sentiu-se paralisada da cintura para baixo. Rupert esperava-a. Chegara na véspera para falar com as crianças e pedir-lhes que fossem delicadas e obedientes com ela. Contara-lhes como fora corajosa e que passara cinco meses num campo de concentração, há dois anos.

Ela conheceu a minha mamã? perguntou, curiosa, uma miúda sardenta, a quem faltavam os dentes da frente.

Não me parece disse meigamente, enquanto os gémeos atiravam bolinhas de pão um ao outro. Vocês os dois têm de portar-se melhor quando ela estiver aqui resmungou, tentando parecer zangado.

Contudo, os dois miúdos conheciam-no e, aparentemente, não ficaram impressionados. Quando estava presente, todos andavam à volta dele, como cachorrinhos. E Rebekka, a ruivinha, queria constantemente que ele a pusesse no colo e lhe lesse uma história. Só tinha seis meses quando chegara estava agora com seis anos e falava apenas inglês; não sabia uma palavra de alemão. Pelo contrário, os mais velhos ainda falavam alemão.

Rupert pedira a Amadea que, de vez em quando, lhes falasse na sua língua materna, a fim de que pudessem comunicar com os pais quando estes viessem buscá-los se viessem. Achava que seria bom que continuassem a praticar o alemão. Ele chegara a tentar, mas distraía-se e acabava por se lhes dirigir em inglês, embora o seu alemão fosse tão perfeito como o de Amadea.

Ela é encantadora e muito bonita acrescentou, orgulhoso. Vão adorá-la.

Vais casar com ela, papá Rupert? perguntou Marta, uma miúda loura de doze anos, magra e desengonçada.

Não respondeu. Na verdade, antes da guerra, ela era freira e regressará ao convento, mal o conflito acabe.

Rupert sabia que só a reteria temporariamente com as suas Kinder. Precisava mesmo da sua ajuda; não imaginava nada mais agradável do que regressar no fim-de-semana, sabendo que Amadea e os miúdos o esperavam em casa.

Ela era freira? questionou Friedrich, um rapazinho de dez anos, fitando-o, preocupado. Vai usar um daqueles vestidos enormes com um chapéu estranho?

Não, porque neste momento não o é. Era antes da guerra e voltará a sê-lo depois.

Rupert continuava a pensar que era um desperdício, mas respeitava a escolha de Amadea e esperava que as crianças fizessem o mesmo.

Conta-me outra vez como é que ela partiu as costas pediu Rebekka, franzindo o sobrolho. Esqueci-me.

Fez explodir um comboio disse, como se se tratasse de algo que as pessoas faziam todos os dias, como pôr o lixo fora de casa ou ir passear o cão.

Deve ser muito corajosa pronunciou-se Hermann, o mais velho, que acabara de fazer dezasseis anos e começara a parecer um homenzinho.

É mesmo. Combateu na Resistência francesa durante os últimos dois anos.

Todos sabiam o que tal significava e assentiram com a cabeça.

Ela vai trazer uma arma? inquiriu, curioso, Ernst, um rapazinho de oito anos, com ar de estudioso, que tinha um fascínio por armas de fogo e que Rupert já levara várias vezes à caça.

Espero bem que não! exclamou com uma risada ante esta ideia.

Minutos depois, Amadea chegou. Rupert avançou ao seu encontro e acolheu-a calorosamente, beijando-a ao de leve na face. Amadea olhou à sua volta, impressionada. A mansão e a propriedade lembravam-lhe o castelo da família do seu pai, em Dordogne. Era menos imponente do que julgara, mas de qualquer maneira grandiosa.

Rupert empurrou a cadeira até ao salão, onde as crianças a esperavam com as suas melhores roupas. Mrs. Hascombs pusera uma mesa enorme na biblioteca para servir o chá. Desde a época anterior à guerra que Amadea não via nada tão bonito. Quanto às crianças, eram todas encantadoras. Estavam um pouco assustadas e algumas fitaram a cadeira de rodas com preocupação.

Vamos lá ver, então... sorriu-lhes, voltando a sentir-se uma freira.

Era, por vezes, a única maneira de ficar à vontade. Imaginava que continuava vestida com o hábito e o véu e deixava de sentir-se assaz vulnerável e exposta aos olhares. As crianças estavam a examiná-la e a julgá-la, mas até ali gostavam do que viam. O papá Rupert tinha razão. Ela era muito bonita e nada velha. Acharam-na mesmo muito jovem e sentiram pena por causa da cadeira de rodas e das pernas.

Tu deves ser Rebekka... prosseguiu Amadea. Tu és Marta... Fnednch... Ernst... Hermann... Josef. Gretchen... Berta... Johann... Hans... Maximilian... e Claus.

Indicara todos os nomes correctamente e só fizera um erro muito compreensível aos olhos deles quando confundira Johann e Josef, os gémeos, mas não era só ela; toda a gente se enganava, até mesmo Rupert. Todos se sentiram impressionados por ela já saber os nomes.

Também eu, por vezes, os confundo disse Rebekka, ao mesmo tempo que, sem qualquer aviso, saltava para o colo de Amadea.

Rupert teve um momento de pânico ante a ideia de que a criança pudesse magoá-la, mas a jovem quase nem sentira.

Estamos muito contentes por tê-la connosco exclamou Mrs. Hascombs num tom caloroso, avançando ao seu encontro, de mão estendida.

Na verdade, a velha governanta sentia-se imensamente aliviada. Via-se em palpos de aranha com doze crianças cheias de vida. Elas sabiam-no e tiravam partido da situação. Amadea não estava certa de que conseguiria controlá-las, mas ia tentar. Achava-as adoráveis e apaixonou-se por elas à primeira vista.

Fale-nos do comboio que fez explodir pediu Rebekka entusiasmada, enquanto comiam scones e bebiam chá.

Rupert pareceu ligeiramente desconcertado, mas Amadea sorriu. Era óbvio que lhes falara dela e lhes dissera, indubitavelmente, que era freira, o que também achava apropriado.

Bom. Não é o género de coisa que se faça numa época normal respondeu com um ar sério, mas tratava-se de alemães, portanto era autorizado. Mas já não o será depois da guerra. Estas coisas só podem fazer-se em tempo de guerra.

Rupert concordou, assentindo com a cabeça.

Os alemães passam o tempo a bombardear-nos e não faz mal nenhum matá-los retorquiu Maximilian num tom violento.

O miúdo tinha treze anos e soubera por familiares que os pais tinham morrido. Por vezes, molhava a cama e tinha pesadelos. Rupert contara isto a Amadea. O coronel desejara que ela soubesse tudo sobre as crianças. Acreditava na franqueza, e também queria evitar-lhe surpresas desagradáveis. Por vezes, aquela miudagem dava-lhe vontade de arrancar os cabelos. Doze crianças era muito, por mais encantadoras ou bem-comportadas que fossem.

As pernas doem-lhe? perguntou Marta, suavemente.

Parecia a mais meiga de todos. Gretchen era a mais bonita e Berta a mais tímida. Os rapazes pareciam plenos de energia e não se mantinham quietos, ansiosos por irem lá para fora jogar à bola, mas Rupert dissera-lhes que tinham de esperar até toda a gente haver terminado.

Não, não doem respondeu Amadea com sinceridade. Por vezes, não as sinto, outras vezes, apenas um pouco.

Por outro lado, as costas provocavam-lhe dores insuportáveis, mas não falou do assunto, nem das terríveis cicatrizes deixadas pelas queimaduras.

Acha que voltará a andar um dia? atreveu-se Berta a perguntar.

Não sei respondeu Amadea, sorrindo com um ar tão despreocupado que Rupert sentiu um aperto no coração. Tinha esperança que ela recuperasse o andar. Veremos acrescentou com optimismo, encarando o destino de uma forma filosófica.

Em seguida, sugeriu que fossem todos passear no parque antes que caísse a noite. Os rapazes ficaram encantados e precipitaram-se lá para fora, a fim de jogarem à bola.

É fantástica com eles comentou Rupert num tom de admiração. Mas eu tinha a certeza. Você é exactamente o que eles precisam. Precisam de uma mãe. Nenhum deles a tem há cinco anos e correm o risco de nunca mais a ter. Mrs. Hascombs é mais uma avó para eles.

Em alguns casos, de facto na maioria, Amadea era demasiado jovem para ser mãe deles. Adequava-se mais ao papel de uma irmã mais velha, mas era também disso que eles precisavam. Recordou-se de quando Daphne era jovem e como gostara de ser a sua irmã mais velha. Também a si lhe faria bem.

Nessa noite, ao jantar, os miúdos falaram-lhe não só da guerra, mas também dos seus amigos, da escola e do que gostavam de fazer. E Rebekka encontrou o nome perfeito ao chamar-lhe ”Mamadea”. Rupert e ela passaram a ser oficialmente ”papá Rupert” e ”Mamadea”.

Depois, os dias escoaram-se rapidamente. Rupert partia para Londres na segunda-feira de manhã e regressava na sexta à tarde. Sempre que voltava, mostrava-se impressionado com os resultados que Amadea obtinha com as crianças. Sentiu-se emocionado com o que ela fizera na sexta-feira que se seguira à sua chegada a casa deles. Preparara-lhes o sabat com o pão challah. Acendera as velas e recitara a oração. Fora um momento profundamente comovedor, o primeiro sabat que celebravam desde há cinco anos. Rupert tinha os olhos cheios de lágrimas e as crianças pareciam absortas nas recordações de tempos felizes.

Nunca pensei em tal coisa. Como sabia o que fazer?

Arranjei um livro respondeu Amadea com um sorriso.

 

A cerimónia também a emocionara. Algures na sua própria história, antes de ela nascer, também haviam existido cerimónias como esta.

Sim. Imagino que não faça parte dos hábitos do convento replicou Rupert.

Amadea riu-se. Gostava da companhia dele e sentiam-se bem juntos. Ela já se apercebera de que assim era, quando estavam em Paris. Um dia, abordaram o assunto e Rupert evocou nostalgicamente a camisa de noite cor de pêssego. Adorava espicaçá-la.

Se tivesse continuado a afastar-se de mim na cama, acabaria por levitar! acrescentou.

O que achei mais engraçado foi quando se pôs a desmanchar a cama no dia seguinte para não despertar suspeitas comentou Amadea a rir.

Tinha de preservar a minha reputação replicou ele, com um ar pomposo.

O Verão decorreu tranquilamente, sem que Amadea pensasse uma única vez no convento. Estava demasiado ocupada a coser, ler histórias, a brincar, a ralhar com os garotos e a secar-lhes as lágrimas. Falava alemão aos que o desejavam e ensinava-o aos outros. Também lhes ensinava francês, dizendo que lhes seria útil. As crianças evoluíram sob a sua protecção, e Rupert sentia-se feliz quando regressava a casa nos fins-de-semana.

É pena que ela seja freira lamentou-se Marta a Rupert com um ar melancólico, numa manhã, quando estavam a tomar o pequeno-almoço.

Era domingo e Amadea fora pescar com os rapazes no lago da propriedade a que os miúdos chamavam o ”lago Papá”.

Também acho concordou Rupert, sinceramente. Sabia, porém, quanto ela estava determinada a regressar ao convento. Ainda que só muito raramente falassem no caso, Amadea mantinha-se fiel à sua vocação.

Por vezes, esqueço-me admitiu Marta.

Também eu.

Achas que conseguias fazê-la mudar de opinião? inquiriu a garota, esperançada.

As crianças discutiam frequentemente este assunto entre si. Gostariam que Amadea ficasse o máximo de tempo possível.

Duvido. É um assunto muito sério. Foi freira durante seis anos. Não me ficaria bem tentar dissuadi-la.

Marta ficou com a sensação de que ele falava mais para si próprio do que para ela.

Acho que devias tentar.

Rupert sorriu, mas não respondeu. Também pensava assim algumas vezes. Contudo, não se atrevia, pois tinha medo de que Amadea se zangasse e partisse. Alguns assuntos eram sagrados. E respeitava-a muito, embora não aprovasse o caminho que ela escolhera. Mas estava no seu direito, quer lhe agradasse ou não. Por outro lado, Rupert não sabia como abordar a questão. Sabia como Amadea podia mostrar-se teimosa, sobretudo quando se tratava das suas convicções. Era uma pessoa de personalidade vincada, que, por vezes, lhe recordava a própria mulher, embora fossem muito diferentes.

Ao ver Amadea com os miúdos e a estranha família que formavam, lamentava, por vezes, a falta de uma mulher ao seu lado. Mas, de uma certa forma, a sua vida com Amadea aproximava-se muito deste quadro. Tinham passado um Verão fantástico juntos. Antes do regresso às aulas, decidiram fazer uma excursão a Brighton. Rupert empurrava a cadeira de Amadea pelo caminho à beira-mar, enquanto os miúdos corriam pela areia e brincavam. Amadea fitou tristemente a praia, mas Rupert não podia empurrar a cadeira pela areia.

Às vezes, tenho pena de não poder andar disse ela num tom triste.

O coração de Rupert apertou-se. No entanto, ela deslocava-se rapidamente na cadeira de rodas e não tinha qualquer problema em lidar com as crianças.

Talvez um destes dias devêssemos regressar ao hospital e falar com o médico sugeriu ele.

Há três meses que Amadea não voltara a ver o cirurgião. Quando saíra do hospital, o médico dissera que não podia fazer mais nada por ela. Talvez viesse a sentir novamente as pernas, mas não era uma certeza e, até ao momento, não se verificara qualquer mudança ou sinal de melhoras. Amadea só raramente abordava o assunto; era a primeira vez que a ouvia queixar-se.

Não me parece que o médico possa fazer algo. Além de que quase não penso nisso. As crianças não me deixam tempo para isso replicou, dirigindo-lhe aquele olhar meigo que sempre o fazia lamentar que as coisas não fossem diferentes. Obrigada por me ter pedido que me ocupasse dos seus Kinder, Rupert.

Amadea nunca se sentira tão feliz, à excepção dos seus primeiros anos no convento. Adorava ser a ”Mamadea”, quase tanto como gostara de ser a irmã Teresa. Mas sabia que isto não duraria eternamente, pois a maioria das crianças acabaria por encontrar o seu próprio lar, o que era o melhor para elas. Precisavam dos seus pais. Rupert e ela eram apenas uns bons substitutos. Achava que ele era maravilhoso com as crianças e imaginava como devia sentir a falta dos seus próprios filhos. Havia fotografias deles por toda a casa. lan e James. E da sua mulher, Gwyneth, escocesa de nascimento.

Não sei o que faríamos sem si. Nem sequer consigo lembrar-me como era antes da sua chegada replicou Rupert com sinceridade, enquanto se sentava num banco, de onde podiam vigiar as crianças.

Amadea fez rolar a cadeira até junto dele. Parecia feliz e descontraída, com os compridos cabelos louros esvoaçando ao vento. Usava-os frequentemente soltos como uma das crianças, a que adorava escovar o cabelo, tal como a mãe lhe fizera e a Daphne, quando eram pequenas. Era estranho como a história se repetia constantemente de geração para geração.

Parto em missão na próxima quinta-feira anunciou Rupert, subitamente, expelindo o ar dos pulmões.

Oh, não! protestou ela, apanhada completamente desprevenida.

Sim. É verdade.

Rupert também não parecia nada entusiasmado. Gostava de passar os fins-de-semana em casa com Amadea e os miúdos. Mas ainda havia uma guerra a ganhar.

Para a Alemanha? sussurrou ela, aterrorizada. Ambos sabiam o perigo que isso representava. E Amadea já não conseguia imaginar a vida sem ele.

Algo do género.

Amadea sabia que ele não podia mencionar-lhe o local para onde ia. Era top secret. Interrogou-se sobre se iam mandá-lo para a Alemanha, França, ou, pior ainda, para Leste. Tomava agora consciência da sorte que tivera durante a sua estada em França; tanta gente fora morta, mas ela não, embora tivesse estado próximo muitas vezes.

Gostaria de ir também desejou, quase se esquecendo da cadeira de rodas.

Era, porém, impossível. Doravante, seria apenas um fardo e não uma ferramenta.

Eu não gostava que fosse retorquiu ele, bruscamente. Rupert não queria que a jovem arriscasse mais a vida. Já

fizera o suficiente. E tivera sorte. Embora numa cadeira de rodas, era fantástico estar viva.

Vou ficar preocupada garantiu Amadea, parecendo muito inquieta. Quanto tempo estará ausente?

Algum.

A resposta era vaga, mas Rupert não podia revelar-lhe mais. Contudo, ela tinha a sensação de que seria por muito tempo. Manteve-se silenciosa durante um longo momento, e depois ergueu os olhos na sua direcção. Havia tanto para dizerem, mas era difícil para os dois.

No trajecto de volta, as crianças repararam no silêncio de Amadea e Berta perguntou-lhe se ela estava doente.

Não, minha querida. Estou apenas cansada por causa do ar do mar

Todavia, Rupert e ela sabiam que o motivo era outro.

Nessa noite, deitada na cama, Amadea reflectiu demoradamente sobre a missão e sobre Rupert. No outro extremo do corredor, Rupert fazia o mesmo. Quando chegara, ela ficara encantada com a casa e Rupert instalara-a no mais bonito dos quartos de hóspedes. Embora a jovem lhe tivesse pedido um quarto de criada, não quisera ouvi-la. Amadea merecia aquele quarto e ponto final

Na manhã seguinte, e como sempre o fazia no início da semana, Rupert regressou a Londres. Contrariamente a Amadea, as crianças nada sabiam sobre a sua viagem iminente em missão, nem sobre a eventualidade de que jamais regressasse

Pedira licença para voltar a Sussex na quarta-feira, a véspera da partida. Nesse espaço de tempo, Amadea mostrou-se extremamente nervosa, preocupada e de mau humor, a ponto de ter repreendido um dos miúdos, quando este partira um vidro com uma bola de críquete. Pediu desculpa, mas o miúdo respondeu que estava tudo bem, que a sua mãe verdadeira gritava muito mais, o que a fez rir

Na quarta-feira, sentiu um imenso alívio quando Rupert regressou, apressando-se a dar-lhe um beijo na face e a abraçá-lo calorosamente. Sabia que não podia fazer-lhe perguntas. Apenas podia rezar por ele, quando se fosse embora, e esperar que voltasse. Rupert nada mais podia fazer do que tranquilizá-la. Evitaram, pois, falar no assunto e jantaram com as crianças na casa de jantar que era geralmente reservada para as ocasiões festivas. As crianças adivinharam logo que algo se passava

O papá Rupert vai partir de viagem anunciou Amadea, alegremente, mas os miúdos leram-lhe o medo no olhar

Para matar alemães? inquiriu Hermann, parecendo encantado.

- Claro que não respondeu Amadea.

Quando vais voltar? quis saber Berta com uma expressão inquieta.

Não sei. Vocês têm de tomar conta uns dos outros e da Mamadea também. Em breve estarei de volta prometeu.

Todos o beijaram antes de irem para a cama, pois dissera-lhes que já teria partido quando se levantassem.

Rupert e Amadea discutiram um pouco de tudo e de nada pela noite fora, reconfortando-se um ao outro. Era quase dia quando, finalmente, Rupert a transportou para o andar de cima e voltou a sentá-la na cadeira de rodas no patamar dos respectivos quartos. Quando ele não estava, eram os mais velhos que a ajudavam.

Já terei partido quando se levantar disse ele, tentando ocultar a tristeza que lhe provocava a ideia de a deixar.

Não, não terá replicou ela, sorrindo. Levantar-me-ei para me despedir.

Não é obrigada.

Eu sei, mas quero.

Rupert conhecia-a o suficiente para saber que de nada servia discutir com ela. Beijou-a na face, e ela fez rolar a cadeira até ao quarto, sem se voltar. Nas duas horas seguintes, Rupert manteve-se deitado no quarto, desejando possuir a coragem e a audácia bastantes para ir ter com ela ao quarto e tomá-la nos braços. Contudo, não o fez. Sentia um medo enorme de que, se agisse assim, ela se tivesse ido embora, quando regressasse. Havia laços entre ambos que sabia deverem ser respeitados.