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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


EM MEUS SONHOS / Christina Dodd
EM MEUS SONHOS / Christina Dodd

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblio VT

 

 

 

 

Desde que era somente uma menina, Celeste teve um ardente desejo: casar com Ellery Throckmorton. Mas que oportunidade tem a filha de um jardineiro de atrair a um dos cavalheiros mais ricos da Inglaterra?

De todas as formas, sua permanência na Distinta Academia de Instrutoras lhe permite retornar a Blythe Hall com uma educação refinada que complementa a perfeição sua selvagem beleza e parece colocar seu sonho ao alcance de sua mão. Mas, quando já se comprometeu com Ellery, a tentação cobra forma humana em Garrick, o sério e misterioso irmão mais velho dos Throckmorton.

Pois apesar de que Celeste não suporta suas intromissões constantes, não pode negar que seu coração estremece cada vez que lhe sorri.

E a paixão que mantém sob um controle formidável a está conduzindo a se comportar de uma maneira imprópria de uma dama...

Uma educação refinada, impedirá que as paixões mais selvagens se façam realidade?...

 

 

 

 

Blythe Hall, Suffolk, 1843

Adorna, lady Bucknell, gostava dos homens sinceros e que falavam sem disfarces, mas precisava reconhecer que Garrick Stanley Breckinridge terceiro Throckmorton dava um novo significado à falta de diplomacia.

—Milford - disse Garrick, - me dei conta que sua filha anda um tanto abatida.

Milford, o jardineiro chefe de Blythe Hall, um circunspeto camponês da comarca com os cinquenta bem cumpridos, se limitou a fazer girar o chapéu em suas mãos calejadas enquanto observava a seu patrão.

Tudo parecia indicar que estava acostumado a que lhe falassem com aquela contundência, porque não perdeu a compostura nem se acovardou.

—Celeste ainda é jovem, senhor Throckmorton, só tem dezessete anos. Com o tempo e o homem adequado se acalmará.

Adorna apertou o leque contra os lábios para dissimular seu regozijo. O sol iluminava o velho jardim murado, fazendo mais evidente a inexpressividade do jovem Throckmorton.

Adorna não estava tão segura disso. Às vezes, quando jogava uma olhada a Garrick Stanley Breckinridge Throckmorton, parecia ver... algo mais.

—Sim. - Throckmorton estava sentado em uma das poltronas de vime que trouxe da Índia seis anos atrás. - Talvez.

Certamente Throckmorton não era tão bom moço como seu irmão Ellery. E não podia ter sido de outra maneira, porque tudo o que tinha Ellery de atraente, com seu cabelo loiro e seus olhos azuis, o moreno Garrick o tinha de feio e sombrio. Era alto, mas todos os Throckmorton o eram, e seus ossos grandes e sua desenvolvida musculatura não faziam mais que trair as origens plebeias da família.

Seu comedimento no vestir e nas maneiras despertava em Adorna ocasionais impulsos de sacudi-lo até que deixasse transparecer algum sentimento de verdade. Mas se o nascimento de seu demolidoramente sedutor irmão mais novo o afetara, isso fazia tempo que estava superado. A essas alturas, os cautelosos olhos cinza valoravam os acontecimentos e sopesavam as personalidades sem deixar transparecer nada, e tamanha prudência para Adorna parecia muito desconjurada em um homem de vinte e sete anos; a menos que dissimulasse a verdadeira profundidade de sua alma.

Mas se existia tal profundidade, sabia esconder muito bem, por isso a mulher ignorava que tesouros podia ocultar.

Garrick fez um gesto a Adorna, cujo braço se estendia pelo respaldo do canapé de dois assentos formando uma curva cheia de graça.

—Esta é lady Bucknell, a proprietária da muito respeitada Distinta Academia de Instrutoras de Londres e uma grande amiga de minha mãe. Veio de visita com seu marido e reparou em sua filha.

Lady Bucknell manifestou seu interesse em que Celeste a acompanhe em sua viagem de volta a Londres para que se forme ali como instrutora na escola de sua digna direção.

Adorna sorriu para Milford. Ao contrário do que ocorria com a maioria dos varões, o homem não se derreteu ante o desdobramento de seus encantos, mas a observou com atenção, julgando-a com o olhar. depois de tudo, o jardineiro chefe de Blythe Hall era um personagem importante; precisava ser um homem com senso comum.

—Com os devidos respeitos, milady... por que Celeste? - inquiriu o homem.

—Celeste seria uma instrutora admirável. Os meninos a obedecem, e tem uma paciência infinita. Além disso, se expressa com correção e tem uma educação esmerada, conforme acredito graças à família Throckmorton...

Milford assentiu com a cabeça.

—Por isso estou muito agradecido.

—Parece uma moça responsável, embora desorientada, sem nenhum objetivo à vista. - O qual era mentira. Celeste tinha um objetivo, e esse não era outro que não fosse o amor de Ellery Throckmorton.

O seguia a todas as partes, se dirigia a ele a menor oportunidade e o espiava.

De fato - Adorna lançou um rápido olhar para o muro atrás de Throckmorton - a jovem Celeste parecia ter desenvolvido certa afeição pela espionagem.

Ellery jamais tinha reparado em Celeste, bom, sabia como se chamava, mas não parecia ter se dado conta que a menina fracote se converteu em uma atraente jovenzinha.

Adorna planejava tirar Celeste desse meio antes que Ellery percebesse a circunstância e tomasse o que lhe oferecia sem parar para pensar.

Adorna desdobrou o leque e o moveu lentamente até o colocar diante da cara. Os ramos de um salgueiro que crescia atrás do muro se balançaram, embora nenhuma brisa agitasse outras árvores.

Levantando a voz por cima da habitual gravidade de seu tom, Adorna disse:

—Celeste fala bem o francês, conforme acredito.

Milford esboçou o que foi quase um sorriso.

—Sua mãe era francesa.

—Nossa cozinheira - acrescentou Throckmorton. - Uma perita com os molhos e com uma arte com o pescado jamais igualado por ninguém. Mesmo depois de seis anos seguimos sentindo falta dela.

A gravidade de Milford se acentuou para rebater a imprudente mesquinharia implícita na alusão a sua esposa.

—Assim é, senhor.

Com um tato que Adorna não lhe teria acreditado capaz, Throckmorton voltou a cabeça para inspecionar a sebe de rosas mais próxima, dando a Milford a oportunidade para que recuperasse a compostura.

Os arbustos estavam em plena floração, e Adorna sabia que aquela imponente explosão de aroma e cor rosa, em que ela já tinha reparado, para Throckmorton quase passara desapercebida.

—Um trabalho de primeira - felicitou a Milford.

—Obrigado, senhor. A rosa se chama Felicitei Parmentier, e tem uma floração esplêndida.

Os dois homens ficaram olhando as flores fixamente até que Adorna os resgatou do ensimesmamento.

—Em qualquer caso, Milford, uma mulher com os dotes de Celeste suporia uma incorporação muito valiosa para a Distinta Academia de Instrutoras.

—Celeste é uma cabeça de vento - disse cansativamente o pai.

O salgueiro se agitou com violência.

Throckmorton olhou, carrancudo, atrás dele. se levantou e, se aproximando com ar despreocupado, se apoiou em um ramo da árvore que pendurava até muito abaixo.

—A maioria das garotas o são aos dezessete.

Adorna o observou enquanto refletia que, com um pouco de preparação, Celeste acrescentaria brilho à reputação da Distinta Academia de Instrutoras. A maior parte da alta sociedade esperava que Adorna fracassasse para poder rir a suas custas por ter cometido a loucura de comprar semelhante negócio. Inclusive seu querido e presunçoso marido não mostrara nenhuma compreensão para seu desejo de preencher a existência com algo mais que intrigas e trabalhos de agulha. Enrugou o sobrecenho ao considerar a grossa linguagem que utilizara lorde Bucknell para descrever sua aquisição.

Demonstraria a todos que estavam equivocados, sobretudo a seu querido marido, e a jovem Celeste a ajudaria a consegui-lo.

—Quando tiver acabado com Celeste - disse Adorna, - será uma mulher refinada e independente, e ante a qual ninguém poderá se mostrar indiferente.

Milford olhou para Throckmorton.

Este lhe fez um leve gesto com a cabeça, tranquilizando a inquietação paterna.

Milford exalou um profundo suspiro e fez alarde da sabedoria que lhe permitia estar ao cargo de dúzias de jardineiros e hectares de flores e orquídeas com tanta eficiência.

—Muito bem. Sentirei muita falta, mas se ficar, acabará se metendo em problemas. Assim, milady, leve-a.

O salgueiro se balançou.

Com o cenho expressando uma intensa e violenta fúria, Throckmorton sacudiu a árvore. Em meio de uma surda confusão de saias descoloridas e tranças loiras desiguais, Celeste se precipitou ao vazio.

Throckmorton a agarrou no voo, interrompendo a queda, embora a garota aterrissasse com força sobre o vazio e esmagasse as longas e aquilinas flores e os marroios[1] amarelos. As anáguas, ao se levantar, deixaram à vista umas meias negras de lã atadas ao redor dos joelhos com uma corda. Celeste afogou um grito de dor e ficou sem fôlego.

Throckmorton a olhou estupefato.

—Celeste!

Então não sabia quem estava ali em cima, percebeu Adorna, só que alguém os estava espiando, e reagira com violência. Fascinante.

A Milford não pareceu surpreender ver sua filha. Se limitou a sacudir a cabeça com tristeza.

—Uma cabeça de vento.

Assim que Celeste recuperou a respiração, elevou a vista para Throckmorton e, com toda a paixão de sua fúria juvenil, disse:

—Não irei. Não serei refinada nem independente nem ninguém ante quem não se possa ser indiferente. Não podem me obrigar!

 

Blythe Hall, Suffolk. Quatro anos mais tarde.

—Vamos, Garrick, me diga quem é essa beleza que conheci na estação de ferrovia?

Levantando a vista da fileira de números, Garrick Throckmorton olhou fixamente para Ellery. Seu irmão mais novo - a roupa esquisitamente cortada, o cabelo loiro penteado à perfeição, um favorecedor rubor nas faces bronzeadas - estava parado na entrada do estúdio.

Throckmorton confiava em poder terminar de escrever as instruções sobre a contabilidade para seu secretário antes de fazer sua primeira aparição na recepção, mas enquanto estudava a seu super excitado e excessivamente atraente irmão mais novo, deu-se conta que não seria possível.

Sabia reconhecer um problema assim que o via, e nessa família os problemas quase sempre chegavam sob a aparência de Ellery Throckmorton.

—Uma beleza? - Throckmorton secou sua pluma. - Sua prometida, espero.

—Não, não, Hyacinth, não. - Ellery desprezou a sugestão de que se tratasse de sua futura esposa com um elegante movimento da mão. - Tenha a absoluta segurança de que não era Hyacinth.

Procedente do terraço e dos salões chegava o som dos violinos, violoncelos e trombones misturado com os murmúrios dos convidados, que chegaram essa mesma tarde para os cinco dias de celebrações organizadas com motivo dos esponsais de Ellery com lady Hyacinth Illington. Portanto, também podiam ouvir a eles, Throckmorton percebeu... Embora, claro, como ia ocorrer a Ellery uma consideração de tamanha insignificância.

—Fecha a porta - ordenou Throckmorton, que esperou até que Ellery o fizesse, - Hyacinth é uma moça muito bela.

—Não está mau. - Ellery lançou um olhar para a licoreira de cristal esculpida do aparador. - Mas esta era uma mulher... E que mulher! Não lhe?

Decidido a abortar a aventura antes que começasse, Throckmorton o interrompeu.

—Iniciar uma aventura amorosa no dia de seus esponsais é de um gosto deplorável.

—Uma aventura? - A elegante e estilizada cara de Ellery se alargou ainda mais. - Não poderia ter uma aventura com essa garota! Mas se ela é toda inocência e ternura.

Se Ellery não queria uma aventura, o que era que queria? Casar? Com uma garota que não conhecia nem o nome?

Ah, claro. Uma fantasia tão romântica por força precisava atrair Ellery. Ao atraente, frívolo e desenvolto Ellery, que nada desejava mais que seguir sendo o eterno solteirão livre e disposto sexualmente.

Throckmorton tirou os óculos e esfregou a ponte do nariz.

—Então é toda inocência e ternura. Hummm. Bom. Mas eu gostaria de particularizar que lady Hyacinth também o é... e além disso é sua prometida.

—Minha prometida, não minha esposa - Ellery se apressou a replicar com ousadia.

Maldição! Throckmorton deveria ter suspeitado da facilidade com que discorrera todo o acordo. Esperava que acontecesse uma catástrofe, e, como se chamava Throckmorton, finalmente assim fora...

E como era lógico, chegara sob a forma de uma mulher.

—Até agora não tinha se oposto jamais ao compromisso.

Ellery ficou rígido e se adiantou com ar ofendido. Apoiando as palmas das mãos sobre a escrivaninha, se inclinou para Throckmorton e o olhou ferozmente com o sobrecenho enrugado.

Só a longitude e curvatura de suas pestanas desafinavam com a ameaça de seu olhar.

—Não me opus? É obvio que me opus, mas você inseriu arbitrariamente o anúncio no Times sem me consultar.

—Ora! Podia ter destrambelhado e gritado até me fazer retirar meu oferecimento em seu nome. E não o fez. - Throckmorton tampou cuidadosamente o tinteiro, colocou a pluma na gaveta e começou a fechá-la.

Algo atraiu seu olhar, e a abriu de novo. Uma das plumas desaparecera. Duas plumas. - As meninas voltaram a brincar aqui?

—Não sei, e não tente mudar de tema! - Ellery golpeou a mesa com os nódulos.

A instrutora não podia chegar a Blythe Hall tão cedo, refletiu Throckmorton. As meninas estavam se criando como selvagens... Ou melhor dizendo.

Kiki, estava se criando como uma selvagem, e a metade das vezes arrastava Penélope atrás dela. A perda das plumas era o menor dos problemas.

—Não me opus porque nunca me deu a oportunidade de fazê-lo.

—E porque lady Hyacinth é uma mulher muito bonita, além da filha e herdeira do marquês de Longshaw. E porque sabe que é hora de que sente a cabeça.

—Refletindo amargamente sobre o destino das plumas, Throckmorton fechou a gaveta. - Um libertino provecto[2] é algo patético.

—Só tenho vinte e seis anos.

—Eu casei aos vinte e um. - Throckmorton agitou brevemente o papel para secá-lo e o colocou na caixa de madeira que havia em cima da escrivaninha. Fechou a caixa e meteu a chave no bolso.

Ellery observou todos seus movimentos.

—Papai se casou aos quarenta.

—Porque primeiro teve que amealhar sua fortuna para poder permitir-se comprar uma noiva aristocrata.

—Se mamãe o ouvisse falar assim dela, cravaria suas orelhas com tachinhas a um quadro-negro.

—É muito provável. - Throckmorton jogou a cadeira para trás. O móvel de pele lisa marrom deslizou sobre um espesso tapete oriental de tons quentes e intensos, nos que se mesclava o azul celeste com o pêssego sobre um fundo branco neve. As cortinas listradas, realçadas com toques dourados, combinavam com o azul celeste e o pêssego, igual aos vasos orientais e as flores que continham.

Cada artefato, cada detalhe, cada adorno estava colocado com gosto, e todos conferiam à sala uma sensação de tranquilidade que ocultava o caos que presidia a atividade profissional de Throckmorton.

Quanto aos toques de refinamento, devia agradecer a sua mãe. Lady Philberta Breckinridge-Wallingfork, pertencente a uma das famílias de mais antiga ascendência do Reino Unido, mal contava vinte anos quando teve que se casar obrigada pelo empobrecimento de sua família. Entretanto, fora uma esposa consciente de seus deveres para Stanley Throckmorton e uma boa mãe para os meninos.

Graças a lady Philberta e ao prestígio de sua família, os Throckmorton podiam se acotovelar com a alta sociedade, dar festas como aquela e receber em seus salões aos mais potentados de Londres.

As pessoas podiam cochichar sobre eles atrás dos leques, mas as intrigas nunca chegariam aos ouvidos dos Throckmorton porque os varões da família tinham fama de ser tão rápidos como justos em suas represálias.

—Lady Hyacinth acrescentará tanto brilho no nome dos Throckmorton como mamãe quando se casou com papai.

Ellery se voltou, se apoiou na enorme escrivaninha e, cruzando os braços, adotou o que ele considerava o ar de um homem maltratado entregue à reflexão de suas penas.

—Não vem nada mal que a família de Hyacinth possui essas plantações de chá na Índia.

Throckmorton foi ao espelho e passou os dedos pelo cabelo.

—E tampouco vem nada mal que seja o bastante bonito para que o olhem todas as garotas, embora não serei eu o que enfeie sua beleza.

Abandonando o ar meditabundo como se se tratasse de uma capa molhada, Ellery se voltou.

—O qual nos leva de novo a minha misteriosa dama.

—Me alegro que não o atraia por motivos banais.

Throckmorton deveria ter sabido que era muito esperar que Ellery desempenhasse seu papel, naqueles esponsais sem expor problemas. A seu irmão caia muito bem montar a cavalo, se encher de putas e álcool, mas nos últimos tempos seu cavalo o derrubara muitas vezes, o pegaram na cama equivocada com excessiva frequência e se embebedou de maneira surpreendentemente desagradável em muitas ocasiões.

Já era hora de fazer que se casasse e sentasse a cabeça, antes que quebrasse o pescoço... ou que alguém lhe desse um tiro.

Throckmorton estirou a gravata.

—Me fale dessa misteriosa mulher.

Ellery recitou as virtudes da jovem com entusiasmo.

—Tem o cabelo castanho claro, com algumas mechas douradas da cor do mel. Seus dentes são brancos e perfeitos e parecem uma fileira das pérolas mais preciosas. É miúda e cheia de curvas como uma Vênus de mármore.

—Ellery desenhou com as mãos as belas formas da jovem em questão. - Sua pele é como...

—O alabastro?

—Sim! - Ellery sorriu e deixou à vista sua própria dentadura de alabastro.

—É obvio. - Throckmorton baixou as mangas e voltou a fechar os punhos. - E suponho que seus mamilos são como dois botões de rosa perfeitos.

Ellery enrugou o sobrecenho; raramente compreendia as brincadeiras de Throckmorton. Ninguém ria do menino de ouro.

—Não sei nada de seus mamilos.

—Demos graças ao Senhor. Isso já é algo.

—Ainda. - A branca dentadura de Ellery reluziu em um sorriso.

Poderia ser que Ellery compreendesse mais do que Throckmorton lhe acreditava capaz. Embora não compreendia a importância de seu compromisso com Hyacinth e das plantações desta na Índia para os interesses da família - e para algo mais que os interesses familiares, - ou do contrário não estaria tagarelando sobre uma convidada desconhecida com boa dentadura e mamilos como botões de rosa.

—Há. - Ellery se dirigiu ao aparador e se serviu de uma generosa quantidade de brandy. - Reconheço essa expressão; é a expressão "eu sou o Throckmorton e tenho que dirigir tudo".

—É estranho. Estava pensando na sorte que tem para me buscar jovens formosas.

Ellery se deteve no momento de beber.

—Não seja ridículo. Essa é para mim... Embora não te viria mal voltar a casar, sabe? Desde que Joanna morreu você não foi capaz de encontrar a uma mulher digna de você, e talvez não fosse tão condenadamente desagradável se de vez em quando jogasse algum cabelo branco ao ar.

Throckmorton já ouvira isso com antecedência.

—Eu me preocuparei com meus cabelos brancos, se preocupe você dos seus.

—Mas você também se preocupa com os meus ou não teria acertado este maldito compromisso. - Ellery bebeu todo o brandy de repente.

—Você saca bastante dinheiro da empresa, então pode muito bem ganhar o sustento de algum jeito.

—Fazendo um bom casamento para cumprir com meu papel na empresa? - Ellery devia ter estado praticando aquele tom zombador em particular, porque a careta de desprezo que se desenhou em seus lábios pareceu quase sincera. - Agora há um papel no qual por fim posso ser útil para meu sublime irmão mais velho. - Então, antes que Throckmorton pudesse indagar o significado daquele comentário, Ellery perguntou: —então, averiguará como se chama por mim?

Era evidente que aquela mulher lhe sorvera o miolo.

—E por que você não pergunta?

Ellery girou a taça entre os dedos.

—Não me dirá.

Throckmorton levantou uma sobrancelha.

—Não lhe dirá?

—Encontrei com ela na estação da ferrovia. Se supunha que eu precisava ir recolher a lorde e lady Featherstonebaugh...

—A que hora foi isso?

—Pouco depois das quatro.

—Chegavam às duas.

—Isso explica por que não estavam ali. - Ellery descartou pensar em seus padrinhos com um encolhimento de ombros. - Me perdoarão isso.

Throckmorton estava de acordo. Fariam. A Ellery todos perdoavam tudo.

—Estava ali mesmo, formosa, bem formada...

—Com os dentes de alabastro.

—Ao princípio não a vi. Desceu do trem e começou a procurar com o olhar, perdida e sozinha...

—Enternecedor.

—Mas, assim que lhe perguntei se podia ajudá-la, mostrou o sorriso mais formoso do mundo e disse: "Boas, Ellery!".

Throckmorton experimentou a agitação de um desassossego em toda regra.

—O conhecia?

—É obvio. E a você também. Me perguntou por você... e eu disse que seguia igualmente aborrecido.

—Obrigado.

—Ela riu e disse: "É obvio".

—E obrigado também a ela. - Sempre era bom conhecer a reputação de alguém. É um alívio saber que a verdade ainda não tinha atravessado dois continentes até chegar ao Reino Unido.

—Me perguntou por mamãe. E por Tehuti, e quis saber como estavam os potros que havia fecundado. Me perguntou pela Gunilla, e secou umas faiscantes lagrimas das extremidades de seus olhos quando eu disse que a velha cadela morrera. - Ellery exalou um profundo suspiro, fazendo com que seus largos ombros subissem e baixassem. - Seu lenço estava debruado de renda e exalava o mais delicioso dos perfumes.

—Ellery, um entendido em questões femininas, entrecerrou os olhos e disse: - Limão, canela e acredito que ylang-ylang[3].

—Muito próprio de você saber isso. - Throckmorton deu de ombros em sua jaqueta negra de corte tradicional. - Então, se ela o conhece, como é que você não a conhece?

Ellery voltou a encher o copo.

—Juro que não me lembro de tão deliciosa criatura.

Ellery se recordava de todas as mulheres formosas que conhecera.

—Que impróprio de você.

—Exato. - Ellery deu um gole no brandy, desta vez com um pouco mais de tato. - E como pude esquecê-la? Se ela me adora?

—Me encontre a uma que não o faça - replicou Throckmorton com secura.

—Quando mencionei meu compromisso seus grandes olhos cor avelã voltaram a se encher de lágrimas faiscantes.

Quem quer que fosse a mulher, era evidente que fazia com que Ellery soasse como um instrumento delicado.

—Então a consolou.

Ellery levou a mão ao peito.

—Só um beijo fugaz na face, para fazer que aquele sorriso maravilhoso voltasse a brilhar em toda sua plenitude.

—Com aqueles anônimos dentes de alabastro.

—Conto com que sua boa memória nos ajude.

A Throckmorton deu vontade de fazer chiar seus dentes brancos e direitos.

—Então está aqui.

—A trouxe imediatamente. - Deixando a taça meio cheia sobre a bandeja de prata, Ellery se aproximou de seu irmão e beliscou o colarinho de sua camisa. - Deveria subir e deixar que seu camareiro o arrumasse.

Ellery tinha razão, mas...

—De todas as maneiras, ninguém vai se fixar em mim - disse Throckmorton . - O noivo é você.

—Não me recorde isso. - Ellery estremeceu e voltou a olhar o brandy.

Throckmorton não tinha nenhuma intenção de voltar a recordar a Ellery seu descontentamento pelas bodas com a Illington. Não, era o momento de atuar com tato e de planejar as coisas com rapidez; o tato o adquirira a base de esforço, e quanto ao de riscar planos com rapidez não havia quem lhe pusesse o pé à frente. Assim era como alcançara a posição que ocupava nesse momento como chefe do império Throckmorton... e seu status dentro do governo britânico.

Evitaria o desastre de uma maneira ou outra. Em um tom que pressagiava um anúncio importante, Ellery lhe perguntou:

—Garrick, não quererá que seja desventurado, não é?

—Trabalho incansavelmente por sua felicidade - disse Throckmorton.

Mas Ellery ignorava tudo o que Throckmorton fazia pela família, e este não o diria. Era preferível que seu irmão acreditasse um tipo elegante e anódino. Throckmorton estremeceu. Porque se Ellery, com o exigente sentido da honra e incapacidade para a dissimulação que o caracterizava, chegasse em algum momento a cheirar os verdadeiros objetivos de Throckmorton, exigiria que lhe desse a oportunidade de ajudar... O qual, sem dúvida, só poderia conduzir ao desastre.

—O que acontece? - perguntou Ellery. - Está bastante pálido.

—Estava me perguntando o que fez com sua misteriosa beleza depois de trazê-la aqui.

—A perdi! A deixei na porta, levei o coche até o estábulo...

—Quer dizer que a perdeu de vista?

—E o que queria que fizesse com os cavalos? Tinha levado meu novo casal de ruços para os acostumar a lorde Featherstonebaugh... já sabe como gosta dos cavalos!... e não queria deixá-los nas mãos de um cavalariço inexperiente. Quando voltei, a garota desaparecera.

—Que má sorte. - Do principio ao fim uma má sorte abominável.

—Nenhum dos criados sabia com quem estava falando, embora todos andavam como loucos por alguma coisa.

—Com os convidados chegando sem parar têm muitos motivos para andarem como loucos.

Ellery ignorou aquele detalhe de sabedoria.

—De quem podia se tratar?

—Possivelmente não era uma dama.

—A que se refere?

—Me refiro, irmão, a seus antecedentes na hora de tomar atrizes e mulheres de vida alegre por damas, e às que sempre termino pagando para o liberar de suas garras.

Ofendido, Ellery deu uma palmada nas suas costas.

—Ia vestida à última moda francesa, tinha uma forma de falar da mais refinada e, o que é mais importante, conhecia Blythe Hall. E nos conhecia. A você e a mim.

—Sim, já me disse isso. Mas estava sozinha, e as jovens sérias não viajam sozinhas.

—É um resmungão chapado à antiga - espetou Ellery.

—Suponho que sim. - Throckmorton tinha exposto seu ponto de vista e o regozijava deixar que Ellery queimaria os miolos pensando nisso.

—É evidente que era uma convidada a que alguém esqueceu de recolher, embora quando lhe perguntei, riu com uma risada que soava como um sino...

—De igreja ou de relógio?

—O que? - Ellery enrugou o sobrecenho, o desenrugou e deu um murro no braço de seu irmão forte o suficiente para lhe machucar. - Deixa já de me chatear.

—De acordo. - Throckmorton lhe devolveu o murro com a suficiente força para o recordar quem era o mais alto e o mais forte e quem, outrora, quando eram meninos, o fizera comer à força mais de uma daquelas desagradáveis e gordurentas barras de sabão de cozinha sentado sobre seu peito. - O farei.

Apesar de suas diferenças, os irmãos se entendiam entre si de uma maneira que estava vetada ao resto do mundo. Sorriram abertamente um ao outro, e Throckmorton pôs a mão no ombro de seu irmão.

—Andando, irmãozinho. Vamos procurar a essa deliciosa criatura.

 

Throckmorton olhou com atenção quando seu irmão estirou o pescoço, procurando por cima das cabeças da multidão que se enrodilhava, em sua tentativa de encontrar à bela donzela.

A música chegava do terraço em harmoniosas ondas que se mesclavam com o ruído crescente das conversações. O fragor das vozes masculinas, rejuvenescido pela cordialidade, servia de contraponto aos femininos gritos de prazer, que salpicavam o ar sempre que as damas encontravam as suas conhecidas ou reviam velhas amizades.

Blythe Hall estava preparado para dar festas. A planta baixa se compunha de diversos estúdios e quartos de música, salas de baile e a exuberante estufa acristalada. Trinta e dois dormitórios e vinte quartos de banho se abriam a ambos os lados dos corredores da planta superior. Os espaçosos sótãos abrigavam os criados dos convidados, enquanto o porão acolhia a adega e a cozinha maior de Suffolk.

E tudo isso metido em uma atraente estrutura de pedra calcária edificada por duzentos anos de prosperidade e erguida em meio de uns jardins que eram uma preciosidade, obra do desenhista de jardins mais importante e caro ao norte de Londres.

Tão logo se desfizera do assunto da deliciosa criatura, Throckmorton estaria encantado de se unir à noitada. Nada podia se igualar ao prazer de realizar novos contatos, pessoas às que possivelmente, algum dia, poderia lhes fazer um favor ou com quem acaso discutiria sobre algum negócio. A sociedade britânica estava mudando; ninguém sabia melhor que ele, e ninguém tirava tanto proveito a dita mudanças como ele.

—Onde está a deslumbrante dama? - perguntou.

—Não sei. - Ellery estirou o pescoço. - Acredito que ainda não chegou.

—Ou possivelmente esteja fora, no terraço.

O vozeirão autoritário de um homem proclamou:

—Aqui estão!

As cabeças se voltaram ante a exclamação.

—Nosso anfitrião e o afortunado que conquistou o coração de nossa adorável Hyacinth. - Lorde Longshaw abria caminho nesse momento entre a multidão. Multidão que se afastava precipitadamente de seu caminho.

Lorde Longshaw era um homem fraco, refinado, com aspecto de professor de Cambridge esfomeado, e que conquistou uma bem merecida reputação de animal raivoso. Além de seu patrimônio como aristocrata, passou a vida estabelecendo relações comerciais e amealhando fortunas em nome do poder... Um poder que exercia sem piedade. Só se abrandava com sua esposa e sua filha, e quando Hyacinth tinha expresso seu desejo de que Ellery fosse seu noivo, lorde Longshaw fora ver Throckmorton e selara um acordo.

Um acordo que, Throckmorton era consciente, Ellery faria bem em cumprir ou, do contrário, todos os Throckmorton acabariam jogando críquete no inferno. Garrick se moveu dissimuladamente até ficar diante de seu entretido irmão.

—Lorde Longshaw, nos pega em pleno brinde fraternal à saúde e felicidade de sua filha.

—Estupendo, estupendo! - Lorde Longshaw esfregou as enluvadas mãos com regozijo fingido, mas seu olhar se moveu rapidamente entre os dois irmãos.

—Desejando que chegue a noite de bodas, jovem Ellery?

Ellery riu nervosamente entre dentes.

—O último homem ante o que o admitiria seria o pai de lady Hyacinth, milord.

—Muito bem. - Lorde Longshaw esboçou um sorriso zombador, e ao fazê-lo deixou à vista uns dentes reluzentes e torcidos dispostos sob um despenteado bigode negro. - É sensato, jovem Ellery.

Me agrada comprovar que tem um pouco de sensatez. - Se voltando para Throckmorton, apontou através das janelas em direção ao terraço, onde se podia ver a criadagem acendendo as tochas. Um ambiente magnífico.

Nada cerimonial.

Throckmorton captou a crítica e assegurou:

—Haverá vários bailes. Estes esponsais serão os mais falados do ano. - Como o seria as bodas, embora para isso tivesse que entregar ao noivo preso em um pacote.

—Ellery, por fim o encontro, menino mau. O procurei por toda parte!

Ao som da doce voz feminina, Throckmorton voltou-se alarmado, mas quando viu que quem se aproximava era a imensa, efusiva e idosa lady Featherstonebaugh, o alívio que sentiu o fez sofrer um baque.

Sem nenhuma dúvida, aquela mulher não era a deliciosa criatura da estação de ferrovia.

—Throckmorton. Lorde Longshaw. - Lady Featherstonebaugh os saudou com a cabeça, onde uma grande pluma azul se agitava no penteado. - Ellery, onde esteve todo o dia? Estivemos esperando você mais de uma hora nessa espantosa estação. - A mulher estendeu a mão para seu afilhado.

Com absoluta aparência de normalidade, Ellery se inclinou sobre a mão da idosa e sorriu com divertimento.

—Me equivoquei de hora, senhora. Poderá me perdoar?

Houve um tempo em que lady Featherstonebaugh tinha sido uma beleza que, sendo tão alta como a maioria dos homens, olhava a estes diretamente aos olhos. Os anos já tinham afundado seus ombros, o reumatismo entorpecia o movimento e um contorno em constante expansão esticava as fitas do espartilho. Mas a franqueza com a que se expressava a convertia em uma amiga excelente.

Lady Featherstonebaugh era a autêntica velhinha adorável.

—Hoje é o dia mais feliz de minha vida. Quase perdi as esperanças de te ver comprometido, jovem Ellery. - Deu-lhe um golpe no braço com o leque e se voltou para lorde Longshaw. - Um jovem montês, milord. Nosso Ellery era um jovem montês, embora sempre tão arrumado e amável, e sempre encontrando um momento para ir nos visitar quando menos o esperávamos...

"E aproveitar para enrolá-los e lhes tirar um empréstimo", pensou Throckmorton.

E sempre disposto a levar lorde Featherstonebaugh às corridas e a falar de cavalos até que eu pensava que ia desmaiar de aborrecimento.

—Tolices, senhora, você falava de cavalos como ninguém. - Ellery lhe pôs a mão no braço.

Lady Featherstonebaugh lhe fez um gesto admonitório com o dedo.

—Não revele meus segredos, jovenzinho. Se supõe que às damas não tem que lhes interessar nem as linhas de sangue nem as corridas.

Ellery lhe sorriu no rosto.

—As mulheres vulgares e comuns que mostram semelhante afeição resultam muito pouco atraentes. Só uma dama tão encantada como você pode sair graciosa de tamanha falta de decoro.

Lady Featherstonebaugh se ruborizou de verdade e suas murchas faces adquiriram uma intensa cor vermelha.

—Veem comigo. Vamos procurar a lorde Featherstonebaugh e lhe dará os detalhes sobre esse par de ruços que acaba de comprar. Está do mais impaciente por ouvir falar deles. Cavalheiros.

—Com uma decidida saudação de cabeça se despediu de lorde Longshaw e de Throckmorton, dois dos homens mais poderosos do país, e se afastou mancando segura no braço de Ellery.

A Throckmorton não lhe escapou o alívio que Ellery sentiu ao escapar das garras de seu futuro sogro e confiou em que seu irmão permanecesse em companhia de seus padrinhos o tempo suficiente para permitir a ele escapar também. Porque se Ellery encontrasse a sua deliciosa criatura sem que Throckmorton estivesse a seu lado, resultaria impossível saber a loucura que era capaz de cometer.

Lorde Longshaw, com uma careta nos lábios, ficou olhando como se afastavam Ellery e lady Featherstonebaugh.

—Grande sedutor parece. Capaz igualmente de conquistar às idosas como às jovens. Não vale um tostão, claro, mas Hyacinth... - Recuperou a compostura quando se recordou de com quem estava falando.

—Bom, em qualquer caso terão uns meninos preciosos.

Throckmorton não estava disposto a discutir a opinião de lorde Longshaw.

—Irei atrás deles e procurarei arrancar Ellery de seus padrinhos e demais festejadores. Por seu lado, veja se pode afastar Hyacinth de sua mãe e das senhoras que esperam para se extasiar contemplando o anel. Nos encontraremos no centro e os juntaremos. - Começou a se afastar, fingindo não ter ouvido o "onde?" que lhe dirigiu lorde Longshaw.

Ellery conversava com seus padrinhos, embora só prestava uma atenção superficial a eles. Estirava o pescoço, procurando percorrer com o olhar à festiva multidão que abarrotava o maior dos salões, embora lady Featherstonebaugh o mantinha cativo pela mão enquanto seu marido lhe falava com entusiasmo. Ellery não podia escapulir. E Ellery era muitas coisas, mas nunca seria descortês com seus padrinhos.

Throckmorton sabia que tinha bom coração; se só tivesse uma boa cabeça combinando.

A distração de Ellery lhe deu a oportunidade. Escapuliu entre a multidão, saudando seus convidados e examinando todas as caras enquanto procurava à maravilhosa moça de cabelo cor mel que com tanto acerto Ellery descrevera.

A festa parecia discorrer sem complicações... Mas onde estava a dama que Ellery lhe havia descrito?, quem era a dama em questão? Throckmorton albergava uma leve esperança que a mulher se volatilizasse e não voltasse jamais. Embora isso tampouco fosse uma solução: Ellery a buscaria até encontrá-la. Não, o melhor era que aparecesse e que Throckmorton a neutralizasse.

O mais provável é que recorresse a uma importante soma em moeda para fazer que se fosse, e para mantê-la afastada nada melhor que uma ameaça que lhe pusesse os cabelos em pé.

Ao final saiu ao terraço e a viu... Tinha que ser ela.

Estava no alto das escadas que desciam até o jardim, olhando a todas partes como se estivesse procurando a alguém. Procurando Ellery.

Ellery não mentira sobre o estilo da garota.

Uma saia lisa e longa de brilhante veludo ondulante, do mesmo azul pálido intenso que o do tapete de Throckmorton, se enrodilhava em seus pés e subia até rodear uma cintura diminuta.

Ela a tinha agarrada por ambos os lados, mantendo a prega ligeiramente levantada, como se se dispusesse a sair fugindo a qualquer momento. O vestido, que lhe deixava os ombros ao ar, recolhia umas costas estreita e elegante e de uma retidão excepcional e fazia que o longo e fino pescoço parecesse ainda mais longo e fino. Umas diminutas mangas bufantes deixavam os braços à vista até a borda de umas luvas longas.

O conjunto se completava com um xale grande negro de renda de Chantilly que pendurava engenhosamente de um dos ombros. O cabelo castanho dourado, penteado em umas tranças recolhidas na nuca, não era da cor do mel, tal como afirmara Ellery. Aqueles fios eram o mais parecido a ouro velho que Throckmorton vira dos dobrões espanhóis que se exibiam em um estojo de vidro no vestíbulo principal de Blythe Hall.

Dali parecia misteriosa, parada no alto da escadaria enquanto esperava que o príncipe a reconhecesse e a reclamasse.

Mas Throckmorton não podia permitir que semelhantes tolices românticas jogassem por terra seus planos cuidadosamente riscados. Avançou com resolução para a senhorita Deliciosa Criatura com a intenção de se inteirar de seu nome e decidido a jogá-la, se era, como suspeitava, uma intrusa indesejável.

Com a firme vontade de assustá-la, parou justo atrás dela e disse:

—Acredito que não nos conhecemos, senhorita...

Ela girou provocando um alvoroço de veludos.

Throckmorton deu um salto.

—Celeste! - E, de repente, tudo se esclareceu.

A menina magrela de cara triste que abandonara Blythe Hall quatro anos atrás retornava triunfante. Ela era a deliciosa criatura de Ellery; ela não podia ser expulsa; ela era a instrutora contratada pelo próprio Throckmorton.

—Senhor Throckmorton! - A generosa boca se curvou em um sorriso que disse tudo a Throckmorton; que ela sabia que a filha do jardineiro não devia estar presente em uma celebração da alta sociedade; que era consciente que tinha a graça, as maneiras e o encanto para não desafinar em tal circunstância e que estava esperando para ver como ele reagia.

—Quanto me alegro de voltar a vê-lo.

E ele não soube como reagir. Aquele giro dos acontecimentos o deixaram estupefato, lhe sumindo na indecisão... A ele, que não hesitava nunca.

—Celeste... Não entendi que ia chegar tão cedo.

—É que já tinha a bagagem meio pronta, porque de todos os modos me dispunha a abandonar Paris. Monsieur o embaixador foi transladado a um posto nas Índias Orientais. Madame a embaixatriz me suplicou que acompanhasse a ela e a seus queridos meninos, mas não fui capaz. Queria voltar; sentia saudades de Suffolk.

—E de seu pai, não? - Um aviso nada sutil de suas origens.

Celeste alargou o sorriso.

—É obvio, de meu pai e do resto dos serviçais que ajudaram a me criar depois da morte de minha mãe. - Fez um gesto circular, chamando a atenção de Throckmorton para o geralmente inadvertido pessoal de Blythe Hall.

—Sobretudo a Esther, quem sempre se alegrava de me ver na cozinha, por mais ocupada que estivesse.

Então Celeste não renegava suas origens, embora reclamava o direito a subir de posição social. Formosa, inteligente, encantadora... e perigosa. Aquela mulher era perigosa.

Throckmorton retrocedeu e voltou a examiná-la. O simples penteado trançado deixava a descoberto os angulosos ossos de sua face, que estava desprovida de qualquer enfeite. Ele não teria dito que era deliciosa, como Ellery afirmara, embora sim especial. O queixo era longo; os lábios, generosos e a testa, limpa. As sobrancelhas se projetavam sobre uns olhos de uma cor avelã que cintilava e que, nesse momento, além de controlar a situação, não dissimulavam o regozijo que lhe estava causando.

Celeste desviou o olhar além de Throckmorton, e o controle se desvaneceu por completo. Animada, impaciente, Celeste se deixou levar por uma excitação quase selvagem.

Throckmorton se voltou para ver um Ellery com aspecto tenso.

—Está aqui! - Ellery estendeu a mão. - A procurei por toda parte.

Sem perder o generoso sorriso que lhe iluminava o rosto, Celeste lhe agarrou a mão.

—Estive te esperando.

"Muito tempo", acrescentou mentalmente Throckmorton. Em seu rosto a garota mostrava uma expressão de amor não correspondido... longo tempo reprimida. E de triunfo; finalmente chamara a atenção de Ellery.

Grande confusão, e era a Throckmorton a quem tocava desfazê-la.

 

—Eu disse ou não, Garrick? - Ellery agarrou Throckmorton pelo braço. - Verdade que é deliciosa?

—Deliciosa e mais. - Throckmorton baixou a vista para os dedos de seu irmão, que estavam enrugando a malha negra de primeiríssima qualidade de seu traje de corte tradicional, e lhe permitiu o excesso de confiança. No final, o bonito era Ellery, e ele, o sensato, e a permanente agitação que envolvia a seu irmão o convencera fazia tempo de que ser o prudente era todo um luxo.

Entretanto, foi incapaz de resistir à tentação de brincar com seu irmão. Ellery seguia sem cair na conta da personalidade e condição de sua deliciosa criatura.

—Celeste me contou que trabalhou para a família do embaixador em Paris.

—Sim, claro. Trabalhou. Em Paris - Ellery enrugou o sobrecenho ao tentar ligar a palavra "trabalhar" com sua misteriosa dama. - Celeste...

Throckmorton começara o jogo, mas Celeste se juntou ao mesmo.

—Imagine Ellery, três anos inteiros em Paris! Os bulevares, a música, a comida, os bailes...

—Sou incapaz de imaginar Ellery a olhou de cima abaixo, um pouco mais perto de se lembrar dela mas ainda incapaz de imaginar de quem podia se tratar.

—A conhece, não é? - perguntou Celeste.

—Paris? De passagem, durante minha viagem pela Europa. - Seus finos lábios perderam o sorriso. - Uma cidade majestosa, embora certamente fedorenta.

Paris não tinha nada a ver com Cachemira, nem na majestosidade nem no aroma, mas Throckmorton nunca falava do tempo que passou na Índia. Ninguém - e sem dúvida Ellery - compreendia a fascinação por aquela terra montanhosa e seus misteriosos habitantes, e ninguém sabia nada de quando vivera entre os nômades, combatendo em suas lutas e tentando impor a paz em um território onde a paz só existia como uma lenda da antiguidade.

Stanhope sabia, claro. Stanhope esteve a seu lado durante todo aquele tempo. Os laços que os uniam eram diferentes aos laços entre irmãos; uns laços que não eram de sangue, mas sim de experiências compartilhadas. Entretanto, nos últimos tempos Stanhope se mostrou inquieto, desenquadrado até um ponto que Throckmorton não compreendia. Possivelmente seu secretário necessitava uma transferência dentro da organização. Mas ainda não. Necessitava muito dele para transferi-lo já.

Em um tom coloquial que nada tinha a ver com suas sombrias reflexões, Throckmorton disse:

—Permaneci uns meses em Paris em minha viagem de volta a Grã-Bretanha. Passei muito bem, mas seguro que não se pode comparar ao fato de viver ali.

O sorriso de Celeste voltou a florescer, a transformando de formosa em esplêndida.

—Eu adorava.

—Mas já sabia o idioma.

—Minha mãe me ensinou - confirmou.

—Sua mãe era francesa? - perguntou Ellery em pleno desconcerto.

—Uma mulher encantadora, por certo - disse Throckmorton. - Me surpreende que não a recorde, Ellery.

Celeste permitiu que seus olhos cintilassem para Throckmorton.

A filha era tão fascinante como a mãe. A senhora Milford teve uma legião de admiradores entre os criados e, ocasionalmente, entre os cavalheiros que visitavam a casa.

E embora fosse fiel a Milford, se produziram incidentes...

Celeste era como sua mãe, inquebrável em sua fidelidade? Ou igual a seu pai, uma pessoa entregue ao trabalho? Ou não era mais que uma estouvada que só procurava se divertir e uma vida de folga?

Throckmorton decidiu pô-la a prova.

—Os museus de Paris são magníficos e nada têm que invejar aos de outras cidades europeias.

Se inclinando para ele, Celeste exclamou:

—Visitou o Louvre? À maioria das pessoas gostam da Mona Lisa, mas eu adorava as antiguidades egípcias. E os mármores gregos! Chegou a ver as estátuas?

Então era "capaz" de pensar. Throckmorton não soube se ficava aliviado porque seria uma mestra competente para as meninas ou frustrado porque ia resultar irresistivelmente fascinante para Ellery.

—Eu adorei as estátuas. Suponho que levaria a seus tutelados aos museus.

—Ah, claro. E às vezes ia sozinha.

—Que tutelados são esses? - perguntou Ellery.

Throckmorton o ignorou.

—Mas suponho que durante a maior parte do tempo o trabalho a teria atada ao quarto de estudos.

Celeste se voltou para ele por completo, mas sem soltar a mão de Ellery.

—Absolutamente. Ali a sociedade é muito mais livre, menos hierárquica... Uma consequência da revolução, sem dúvida. Monsieur et madame, os embaixadores me animavam a me unir a suas festas e conheci muita gente: ao Eugene Delacroix, o pintor; a monsieur Rendor, o revolucionário húngaro; a monsieur Chancot, que hipnotiza às pessoas e faz que atuem de uma maneira surpreendente... - Sorriu com uma ingenuidade enigmática.

—E ao queridíssimo conde de Rosselin.

Como um cão que queria morder um osso que se balançasse ante seus focinhos, Ellery perguntou com brutalidade:

—Quem é esse conde de Rosebud?

—De Rosselin - corrigiu Celeste com tranquilidade. - É um cavalheiro da velha escola, amável, generoso, culto. Me ensinou tantas coisas: a desfrutar da vida, a vestir corretamente, a cozinhar, a rir de mim mesma.

—O odeio - disse Ellery.

—Tem oitenta e seis anos - concluiu Celeste.

Ellery ficou olhando fixamente, depois do qual jogou a cabeça para trás e soltou uma sonora gargalhada, uma explosão de alegria entusiasta que atraiu todos os olhares.

—Você é uma desavergonhada.

Era o momento de jogar um jarro de água fria sobre a vivacidade de Ellery antes que atraísse muito a atenção. No tom mais seco de que foi capaz Throckmorton disse:

—Bem dito, Ellery. Estava pensando o mesmo. Que nossa pequena senhorita Milford se converteu em uma desavergonhada.

Os olhos de Ellery se entrecerraram pela concentração.

—Senhorita... Milford?

Celeste esperou tranquilamente até que Ellery estabelecesse a relação. Ao não fazê-lo, deteve o velho lacaio para pegar uma taça de champanhe e um morango amadurecido da fonte que levava na bandeja.

—Que alegria me dá vê-lo, Herne.

O lacaio avermelhou e lançou um olhar nervoso aos irmãos.

—Me alegro de vê-la, senhorita Celeste, e com tão bom aspecto. - E dando rédea solta à alegria, o idoso sorriu sem constrangimento. - Olhá-la é todo um prazer!

—Estive um bom momento com meu pai esta tarde. - Olhou de soslaio para Ellery e voltou a se concentrar em Herne. - Amanhã a primeira hora descerei à cozinha para saudar os outros.

A Esther e a Arwydd e a Brunilla... Frau Wieland segue sendo a mestra confeiteira?

—Pois claro. - Herne fez uma careta. - Tão ocupada como sempre.

—Londres e Paris eram maravilhosos, mas senti muitíssima falta de todos.

Ellery caiu por fim em conta e seus perfeitos traços se iluminaram.

—A filha do jardineiro - exclamou Ellery. - Meu Deus, se não é Celeste Milford!

Throckmorton teve que admitir que Celeste reagiu bem ante a consternação de Ellery, e seguiu dando goles a sua taça de champanhe enquanto esperava ouvir sua sorte.

Seria aceita ou a apressaria a que fosse se esconder nos aposentos dos criados?

Sem dúvida, até o encaprichado Ellery precisava se dar conta que ela devia ir. De acordo com a sociedade parisiense; entre a alta sociedade britânica a única relação de qualquer um com a filha do jardineiro era para lhe ordenar que arrancasse uma erva.

Com a única intenção de aumentar o desconcerto de Ellery, Throckmorton alargou deliberadamente as palavras ao falar.

—Muito bem, Ellery. Muito democrático por sua parte convidar à filha do jardineiro a sua festa de compromisso. Se não o conhecesse, acreditaria que é um norte-americano.

Um engano tático, como pôde apreciar Throckmorton imediatamente. Por sua resposta, Ellery devia estar verdadeiramente encaprichado... ou ser vítima de um genuíno ataque de rebeldia.

—Uma mulher tão formosa como Celeste não necessita da hipócrita aprovação da alta sociedade.

Herne, com a bandeja estendida, criara raízes no lugar.

—Champanhe? - perguntou Throckmorton a seu irmão. - Um morango?

Ellery o olhou com hostilidade.

—Odeio o champanhe, e os morangos me dão alergia.

—Seguem lhe saindo aquelas repugnantes manchas escamosas? - perguntou Throckmorton. - Aquelas que lhe ardem tanto?

—Me parece que não é o momento de falar disso - lhe espetou Ellery. - Bom, onde está o brandy? E o queijo? Por que estamos servindo isto?

—O champanhe e os morangos são a fraqueza de lady Hyacinth. - Enquanto falava com Ellery, Throckmorton cravou em Celeste um olhar eloquente. - Sem dúvida a recordará: é sua prometida.

—Ela deveria ter se recordado que Ellery é alérgico a elas. Eu me lembrava. - Celeste mordeu o fruto vermelho e amadurecido. - Os morangos estão fantásticos, senhor Throckmorton. São da estufa de meu pai?

Pela atenção de Ellery, Throckmorton poderia inclusive ter economizado a menção a Hyacinth. Em efeito, toda a atenção de Ellery estava concentrada na visão dos rosados lábios de Celeste ao redor do morango.

Com uma paquera encantadora, Celeste terminou de comer o fruto, colocou o talo na bandeja de Herne e apoiou a mão no braço de Ellery.

—É muito amável, Ellery. Sempre o adorei de longe, sabia?

"Saber? Se nem sequer era consciente de sua existência", pensou Throckmorton; mas aprendera a lição e manteve a boca fechada.

A costa de Ellery perdeu a rigidez enquanto olhava de cima abaixo à menina que tinha a seu lado.

—Me adorava? Essa é uma afirmação muito convincente.

—De longe. Estava acostumada a observar as festas dali... - Agitando a taça de champanhe no ar, apontou um pequeno nicho de mármore do jardim. - e o encantador e bonito que estava sempre.

Me apaixonei por você te vendo dançar, o único problema era... que não o fazia comigo.

—A esse respeito posso te ressarcir imediatamente. Senhorita Milford, quer dançar comigo? - Ellery estendeu a mão enluvada.

Impaciente por ajudá-la, Herne arrebatou a taça de Celeste. Ela o agradeceu com um sorriso e pondo a mão na de Ellery, se deixou arrastar a uma valsa.

—Champanhe, senhor Throckmorton? - perguntou Herne.

—Hmmm. Sim, acredito que seria uma boa ideia. - Aceitou a taça e deteve Herne, que estava desejando se afastar a toda pressa. - Celeste é uma mulher encantadora.

—Sim, senhor - respondeu Herne. - É tão doce e amável, e tão prestativa. E inteligente, claro! Teve um professor particular, senhor, e o cavalheiro dizia que nunca vira uma criatura, menino ou garota, tão esperta. Nos sentimos orgulhosos dela. - Fez uma reverência. - Deseja algo mais, senhor?

A informação extraída da sucinta explicação do lacaio o acautelou. Throckmorton agarrou um morango e se despediu de Herne com um gesto da mão.

Dando goles no champanhe, Throckmorton se dedicou a admirar as evoluções de Celeste, que, por desgraça, dançava com tanta suavidade e destreza como qualquer aristocrata britânica.

A voz fria de lady Philberta se ouviu justo atrás dele.

—Quem é essa?

—Mãe. - rodeando a cintura dela com o braço, a atraiu a seu lado. Era uma mulher diminuta que ia minguando à medida que se aproximava dos setenta. Seus ombros se encurvavam sob o peso do vestido de seda e das amplas anáguas, e utilizava bengala. Nunca fora uma beleza (beleza que poderia ter lhe proporcionado um marido rico e com título), mas tinha uma arrogância aristocrática e o orgulho de uma britânica.

Depois de beijar a empoeirada face, seu filho lhe disse em voz alta: - A festa está resultando maravilhosa, como sempre. - Logo, baixando a voz, acrescentou: - Sorria, mãe, todos estarão pendentes do que façamos.

Antes de soltá-la Throckmorton percebeu a tensa indignação que a engasgava. Sempre pragmática, compreendeu a necessidade de se comportar como se estivesse desfrutando da visão de Ellery dançando com uma deslumbrante moça que não era sua prometida.

—É a senhorita Milford - a informou Throckmorton.

—A filha do jardineiro? - perguntou lady Philberta em um tom absolutamente agradável.

—Exato.

Não havia melhor medida da aflição de sua mãe que quando esta utilizava a maldição favorita de seu pai.

—Raios e centelhas!

Herne se aproximou majestosamente até eles, lhes oferecendo champanhe e morangos.

Lady Philberta aceitou o champanhe, mas recusou os morangos com um gesto da mão. Assim como seu filho mais novo, lhe davam alergia.

Esperou até que Herne seguisse seu caminho antes de continuar.

—Tem que se desfazer dela. Imediatamente.

—Como?

—Mande ela embora!

—É a filha de nosso fiel jardineiro e de nossa falecida cozinheira. A contratei como instrutora das meninas.

—Fez uma pausa bastante longa para permitir que sua mãe digerisse aquela informação, ao fim da qual, acrescentou:

—Além disso, se a mandasse embora, Ellery a seguiria.

—Mas e se lorde Longshaw a vir!

—Já é um pouco tarde para isso, - Com uma leve inclinação de cabeça, Throckmorton apontou a lorde Longshaw, que estava na soleira da porta a ponto de sofrer uma apoplexia.

—Então é a filha do jardineiro. - Lady Philberta deu um gole ao champanhe e contemplou o baile com uma expressão petrificada de prazer. - No que pensa Ellery?

—A pergunta deveria ser: com o que pensa Ellery? - murmurou Throckmorton.

Lady Philberta voltou rapidamente a cabeça para olhá-lo fixamente.

—O que?

—Nada, mãe.

—Escolheu um mau momento para dar as primeiras mostras de senso de humor.

—Sim, mãe. - Throckmorton supôs que teria sido melhor guardar as observações para si. - Não é que me preocupe que a filha do jardineiro participe da festa. Não tenho pretensões aristocráticas.

Meus próprios antepassados não passariam em um exame mais detido... - Cravou o olhar em sua mãe de maneira significativa. - Por nenhuma das duas partes.

—Não irá falar de novo do salteador de estrada! Isso ocorreu faz centenas de anos, e ao menos tinha a vantagem de ser um romântico.

—Se considerar que ser pendurado pelo pescoço até morrer é romântico...

Sua mãe continuou sem parar para respirar.

—Meus antepassados não são nem muito menos tão escandalosos como os de seu pai, com esse barão escocês rebelde e o comandante do Cromwell e aqueles horríveis piratas.

Era uma discussão que manteve frequentemente com o pai de Throckmorton. Lady Philberta não a ganhara nunca, e seu marido já estava morto, mas aquilo não era motivo para que seguisse instando.

—Em todo caso, a história familiar faz que esta aventura com a senhorita Milford seja do mais desaconselhável. - Lady Philberta assinalou o que Throckmorton já sabia. - A alta sociedade poderia se recordar sem dificuldade do realmente precária que é a posição social dos Throckmorton, sobretudo se, em um espetáculo vergonhoso, a Ellery desse de recusar a sua prometida (uma das nossas) diante de todo mundo.

—Sou consciente, mãe.

—Garrick, necessitamos a relação com o Longshaw pelo bem de Sua Majestade - disse em um tom apenas audível para seu filho.

—O dinheiro tampouco nos virá mau. - Se sua família tivesse um lema, este bem poderia ter sido: "Dinheiro e Pátria". - Mas devemos trabalhar com prudência. Agora mesmo, para Ellery, a senhorita Milford representa o fruto proibido.

—Sério, estou me cansando de ter que te dar sempre a razão - murmurou sua mãe.

—No futuro tentarei te decepcionar, mãe. - Dedicou-lhe um sorriso, - mas não nesta ocasião.

—Não. Mas o que vai fazer?

O sorriso de Throckmorton se desvaneceu.

—A maneira em que a senhorita Milford dirige Ellery demonstra uma coisa: que pode ser dirigido.

Tudo o que precisava fazer era descobrir o método.

 

Celeste sonhara com aquele momento todas as noites de sua vida.

—Sonhei com este momento - Ellery sussurrou em seu ouvido.

Acabava de dizer as palavras adequadas. Estavam dançando o baile adequado. A abraçava entre seus braços varonis...

A respiração de Ellery lhe fez cócegas no pescoço.

—Dança a valsa às mil maravilhas.

A magia da música os envolvia, o ar cintilava como o mais delicioso dos champanhes; as estrelas, pictóricas de luz pareciam querer estalar, e todas e cada uma das tochas da galeria ardiam com intensidade só para ela. Estava dançando uma valsa com Ellery. Ellery, o homem que amara desde que...

—A amei no momento em que a vi - murmurou Ellery.

Celeste se afastou e levantou a vista para ele, e não pôde evitar: lhe riu nos narizes.

—A primeira vez que me viu o mais provável é que fosse um bebê chorão. A primeira vez que reparou em mim tinha onze anos.

—Me referia a...

—Se referia a que me amou ao me ver hoje. - Ellery pareceu incômodo, e a alegria de Celeste alcançou seu cume. - Não se lembra de mim aos onze anos, não é? - O querido Ellery; levara uma vida de agitação e glamour. É obvio que não se recordava. Mas não lhe importava; nada podia arruinar aquela noite perfeita.

—Me deu uma rasteira.

—Não! - protestou Ellery. - Não é possível que fosse tão pouco cavalheiresco.

—Pois foi. - Celeste mantinha um tom de voz baixo e suave, tal e como sempre lhe ensinara o conde de Rosselin. - Se era um menino!

Eu tinha onze anos e você dezesseis, e ao cair rasguei meu melhor vestido dos domingos.

Tinha Ellery Throckmorton, o crápula mais arrumado da Grã-Bretanha, perplexo e intrigado. Celeste não se envergonhava de suas origens; não lhe permitiria que fingisse que ela era alguém que não era.

A aceitaria como filha do jardineiro ou não havia nada que fazer. Se algo aprendera em Paris, era que uma jovem formosa que se tivesse em alta estima poderia ter quanto quisesse... E Celeste queria Ellery.

—Me pus a chorar e você me levantou, e depois de me abraçar, me levou ao escritório de seu pai.

Seus passos diminuíram enquanto Ellery prestava atenção.

—Eu tinha um medo de morte do velho senhor Throckmorton, mas você confessou com valentia o que fez, e antes que chegasse no domingo seguinte, tinha um vestido novo e me apaixonei pela primeira e única vez.

Ellery gostou daquilo; enrugou o sobrecenho e em sua face apareceu uma covinha.

—Se apaixonou por meu pai? - brincou.

—Todos os varões Throckmorton são irresistíveis - respondeu Celeste.

—Mas o mais irresistível sou eu, não é?

Celeste fingiu meditar. Ellery se inclinou mais sobre ela.

—Não é?

Quase a estava beijando na pista de dança, e semelhante ação seria ruinosa. Celeste sabia que as pessoas já estariam murmurando, se perguntando quem seria ela, e não estava disposta a lhes dar mais argumentos que a verdade. Assim que lhe deu a razão.

—O mais irresistível com diferença é você, Ellery.

A atraindo para ele de novo, Ellery a fez dar voltas em um grande círculo.

Celeste conseguiu ver por cima do ombro ao varão Throckmorton que era bastante resistível: a Garrick Throckmorton, quem seguia observando-os enquanto segurava um morango e falava com lady Philberta.

Bom, compensava lutar contra uns quantos dragões pelos sonhos que valiam a pena, e Garrick Throckmorton era um dragão em toda regra.

Era ele o responsável por aqueles desventurados esponsais que estiveram a ponto de arruinar os planos de Celeste. Esther lhe confessara que Garrick Throckmorton empurrara Ellery aos braços da pequena Hyacinth, uma garota cujos únicos atrativos eram uma fortuna e um título. Uma garota que, conforme recordou Celeste, era torpe e com a pele cheia de espinhas e tão encaprichada de Ellery como ela própria.

Celeste a odiava por isso.

A princípio pensou que seu sonho de se casar com Ellery fora esmagado antes de começar. Então se recordou das palavras do conde Rosselin: "Celeste, um sonho só vale a pena se estiver disposta a lutar por ele".

Assim lutaria. E utilizaria todas as armas a seu alcance. Desta vez seu sonho não se desvaneceria; não consentiria. Por Paris e o conde Rosselin e os últimos quatro anos de solidão, maturação e aprendizagem de como ser a mulher mais fascinante do continente. Nenhum cavalheiro tão obscuro e aborrecido como Garrick Throckmorton se interporia em seu caminho.

Dançando sobre as pontas dos pés para se aproximar à orelha de Ellery, murmurou:

—Eu adoraria beber um pouco de champanhe. E eu gostaria de bebê-lo no grande salão de dança, enquanto a luz da lua brilha nos pães de ouro e dançamos ao compasso longínquo da música.

Ellery se afastou surpreso.

—Ah, pequena sedutora! Também me espiava ali?

Porque o grande salão de dança, às escuras durante as noites de festa no jardim, era o lugar onde Ellery levava a aquelas outras garotas. Ali dançavam, e depois as beijava.

Celeste o observara através da janela, desejando ser a garota que estava entre seus braços.

—Ao salão de dança. - Ela escapuliu de entre seus braços no limite da pista de dança e entrou na casa como empurrada pelo vento, seus pés mal tocando o chão.

Os nobres e as damas pululavam por todas as salas iluminadas da casa. Estavam nos salões, nos corredores, na biblioteca... Dançavam e fofocavam, comiam e bebiam. Vestidas com tafetás e rendas, cheirando a perfume e a talco, riam e gritavam, e, igual a Celeste, sangravam. Ela conhecia a maioria dos presentes, embora eles não sabiam quem era. De menina os estudara, desejando ser como eles para poder estar com Ellery. Seu pai lhe havia dito que isso era impossível, que havia aristocratas, estava a classe média e finalmente os pobres, e que os limites jamais se apagavam.

Lhe dissera que a única coisa que conseguia com isso era sofrer, e era verdade, sofria. Mas em Paris transformara aquele sofrimento em possibilidade, e nem sequer a desaprovação de seu pai podia mudar aquilo.

As pessoas a olhavam ao passar, falando dela atrás dos leques, tentando situá-la entre seus conhecidos. A Celeste trazia sem cuidado. Podia suportar a fofoca se tinha o amor de Ellery para apoiá-la.

Quase podia ouvir a voz de seu pragmático pai dizendo: "Ele não a ama ainda".

Mas ela mal começara a lutar.

À medida que avançava, e depois de dobrar a esquina para o salão de dança, os candelabros começaram a diminuir em número e a distanciar uns dos outros. A família utilizava a iluminação para animar de maneira deliberada aos convidados a permanecer nas proximidades da galeria, e o corredor pouco iluminado se abria ante ela, serpenteante.

Não lhe importava. Sabia como chegar a cada canto de Blythe Hall, pois de menina percorrera cada centímetro da mansão do século XVIII. Só fazia quatorze anos que chegara ao seio da família Throckmorton, mas essa casa foi sempre seu lar.

Se deteve e olhou por uma janela para a galeria. Ellery seguia ali fora, retido em um vão. Não podia ir se reunir com ela, porque estava preso por lorde e lady Longshaw e por uma garota...

Uma garota bastante atraente, alta e bonita, embora um pouco torpe.

Celeste apoiou as mãos nos vidros.

Quem era a garota? Tinha o cabelo moreno, e as luzes das tochas arrancavam brilhos de seu cabelo. Seus lábios eram arqueados e pareciam desejar que os beijassem. Na tez branca da garota não se via nem uma só espinha. E seus olhos... Seus olhos eram violetas e grandes, e os mantinha fixos em Ellery com uma expressão de adoração servil.

De repente Celeste caiu na conta. Era lady Hyacinth, sua rival. Aquela tenra e preciosa fêmea de aspecto doce era a garota a que Celeste liberaria de um marido. Celeste inspirou apertando a mão contra o peito.

Oxalá não tivesse visto Hyacinth. Sim, melhor que não a tivesse visto. Assim não sentiria aquela onda de... bom... melhor chamá-la por seu nome. Culpabilidade. Se sentia culpada pensando em que ia ferir Hyacinth. Não sabia por que se sentia assim. A garota tinha tudo; um título, fortuna, dois pais que a adoravam... Não sabia o que era trabalhar e seguro que não precisava ficar até altas horas da madrugada refazendo a roupa que teria aceito da esposa do embaixador.

Mas havia algo em sua expressão enquanto olhava para Ellery... Como se realmente o amasse.

Celeste olhou com fúria através dos vidros. Bom, era uma lástima. Se alguém precisava sofrer, bem poderia ser a garota; não ela. Já não. Nunca mais.

Então, alguém se uniu ao pequeno grupo e o olhar de Celeste se tornou mais feroz. Garrick Throckmorton, o arquiteto de todo aquele desastre. Era ele o que merecia sofrer.

Claro que, em honra à justiça, alguém poderia dizer que Celeste não estaria ali nesse momento se não fosse porque lhe dera um emprego. Mas Celeste não se sentia inclinada a ser justa.

Garrick fez uma reverência com a cabeça, disse algo e ficou observando ao pequeno grupo com solenidade. Até onde Celeste era capaz de recordar, sempre fora o escuro, frio e distante senhor Throckmorton, escurecido pelo rotulante resplendor de Ellery. Também era equitativo em excesso; os criados se negavam a falar mal dele sem exceção, porque Throckmorton mantinha a seus idosos, cuidava deles quando estavam doentes e os tratava com o respeito devido a outro ser humano.

Pois claro que Celeste sabia muito bem o que devia ao senhor Throckmorton. Foi ele quem manifestou a conveniência de que fosse à Distinta Academia de Instrutoras para melhorar sua educação e aprender um ofício, e quem ajudara com os custos iniciais. Ela o havia devolvido com seus primeiros ganhos; Celeste não podia suportar a ideia de estar ainda mais em dívida com a família Throckmorton.

Assim quando chegou a oferta de Blythe Hall para trabalhar como instrutora das filhas de Throckmorton, pode decidir sem se sentir excessivamente pressionada.

E não era que tivesse hesitado em algum momento. Ellery residia em Blythe Hall.

O pequeno grupo de fora parecia estar em plena briga, já que lorde Longshaw se dirigia a Ellery de maneira acalorada, enquanto lady Longshaw o puxava pelo braço.

Lady Hyacinth puxava do outro ao mesmo tempo em que olhava com ansiedade a seu prometido. Ellery parecia distraído e olhava para a casa, como se desejasse estar em outra parte...

E Celeste sabia onde estava essa outra parte. Desejou que ele estivesse ali quase tanto como que acabasse com seu compromisso imediatamente.

E nisso chegou frau Wieland entre um rumor de saias e rodeada de três lacaios que transportavam grandes bandejas de prata cobertas.

Celeste ficou olhando de um lado ao outro. O velho senhor Throckmorton fora um apaixonado dos bolos e das sobremesas, e devido à fama dos strudel[4] de frau Wieland, suplicara a esta que se transladasse desde Viena a Blythe Hall em troca de um bom salário e da promessa de que desfrutaria dos melhores aposentos dos serviçais. Desde sua chegada, a frau tinha tratado despoticamente ao resto dos serviçais, e todos a odiavam. Nesse momento irrompia em plena festa da alta sociedade como se fosse a tal e se metia em meio de uma discussão entre cavalheiros, exigindo que prestasse atenção a ela. E deu a impressão que o senhor Garrick Throckmorton pensava que devia fazê-lo, porque pediu silêncio com um gesto e lhe concedeu a palavra.

E frau Wieland falou, e o fez tão alto que, se aproximando mais à janela e observando seus lábios, Celeste foi capaz de entender uma ou outra palavra.

—Uma nova e magnífica criação... digna de atenção... por parte dos convidados... o senhor Throckmorton me disse... Frustrada, Celeste apoiou a orelha contra o vidro a tempo de ouvir o bramido da frau.

—Assim apresento... o bolo de nata de moka.

Os lacaios retiraram as cobertas deixando à vista umas taças cheias de uma mistura espumosa onde se mesclavam o branco, o rosa e o marrom.

O senhor Throckmorton aceitou a primeira com uma exclamação de prazer. Conforme parecia sentia a mesma debilidade pelas sobremesas que seu pai.

Pela expressão de seus rostos, lady Philberta, lorde e lady Longshaw, Hyacinth e Ellery estavam tão ofuscados como Celeste, mas todos pegaram uma colherada, o saborearam, e assentiram com a cabeça.

Hyacinth o fez com considerável entusiasmo; Ellery, com bastante menos.

Por seus gestos, Throckmorton estava insistindo a seu irmão que comesse mais. Este, complacente, o fez o mais depressa que pôde e, dando uma palmada no ombro de Throckmorton, tentou se afastar pouco a pouco.

Throckmorton sorriu de uma maneira que fez que os braços de Celeste se arrepiassem e seguidamente olhou para a janela com uma expressão de sinistro regozijo em seus olhos cinza.

Celeste retrocedeu de um salto.

Não soube por que o fez, porque sem dúvida ele não podia vê-la. As luzes brilhavam com força no exterior e nessa parte da casa não havia nenhuma vela acesa. E, além disso, não tinha nenhum motivo para se esconder do senhor Throckmorton. Nenhum absolutamente. Mas por alguma razão não queria que ele acreditasse que os estava espiando.

Throckmorton sorriu para a janela, depois do qual moveu Hyacinth para colocá-la ao lado de Ellery.

Celeste saiu fugindo para o salão de dança.

 

Dependendo de seu humor, Aimee, a esposa do jardineiro, ora tinha amaldiçoado, ora elogiado o tamanho e a antiguidade da cozinha de Blythe Hall. Entretanto, Milford sempre tinha gostado desse lugar.

Não se podia dizer que com aquelas três mesas de trabalho ou o enorme fogão com espeto que ocupava toda uma parede ou os fornos embutidos na parede de tijolo o lugar resultasse acolhedor.

Mas quando, com motivo de uma festa, se contratava a mais pessoal e o lugar bulia de atividade culinária para dar de comer a uma centena de convidados e seus criados, bom, então era um lugar magnífico, ruidoso e alegre, que transbordava de aromas que ao jardineiro faziam recordar os dias em que sua esposa estava no comando.

Exceto, claro estava, porque por cima de todo o alvoroço ressoava a voz de Esther. Esther, a que tinha substituído Aimee como cozinheira chefe.

Não era que Milford se incomodasse que outra mulher se apoderasse dos domínios de sua esposa. Não, ele era um homem sensato que compreendia a necessidade de comer de maneira regular. O que ocorria é que Esther fora um calvário para Milford no mesmo dia em que, procedente da mansão dos Fairchild, fez sua aparição, a terceira cozinheira que chegava depois da morte da senhora Milford e a única que não partira, por mais que o jardineiro tivesse desejado ferventemente. E, para cúmulo do mau, escocesa... Ou, o que era o mesmo, um saco de ossos teimoso e de língua afiada.

Durante os últimos oito anos a mulher dirigira as rédeas da cozinha, e durante todo esse tempo Milford não desfrutara de uma só refeição em paz. À mulher levava sem atenção os gritos das criadas ao contar suas intrigas sobre tal ou qual dos cavalariços que as convidaram na noite de San Juan; nem que as gargalhadas fossem muito escandalosas e tampouco que as brincadeiras obscenas fossem em excesso.

A única coisa que lhe importava era que a comida chegasse à mesa quente e a tempo e, face aos piores augúrios de Milford, isso sempre se conseguia. Sempre.

Não importava a calamidade que ocorresse na cozinha; Esther sempre saía vitoriosa.

Mas nada daquilo irritava ao jardineiro. Não, o que verdadeiramente o tirava do gonzo era que a cozinheira sempre conseguisse arrastá-lo a alguma animada discussão; que o arrastasse a isso quando tudo o que ele queria era comer em paz e em silêncio e depois voltar para sua sujeira e a suas flores.

Nesse preciso instante, o pessoal da cozinha, tanto provisório como permanente, trabalhava em excesso se em elaborar os canapés, que circulavam com os lacaios, além do jantar formal que se serviria a meia-noite.

Então, se fez presente o forte som metálico de uma bandeja de prata ao golpear contra a longa mesa da cozinha em que Milford jantava para atrair a atenção dos presentes. Herne parou ali com os olhos cintilantes e as vísceras palpitante, e quando conseguiu que todos prestassem atenção a ele, proclamou:

—Celeste está dançando com o senhor Ellery.

Feito o anúncio, este provocou o efeito desejado. Brunilla, a chefe das donzelas do andar de cima, ficou imóvel, com o garfo no ar; Elva, a mais nova das criadas, permaneceu com a escova de esfregar levantada; Adair, o lacaio que voltara para preencher sua bandeja com canapés variados, olhou fixamente a seu superior com olhos medrosos.

Esther soltou uma sonora gargalhada que se propagou como uma epidemia entre o buliçoso pessoal da cozinha.

—Ao fim nossa pequena Celeste foi ao baile!

Todas as cabeças se voltaram, para Milford. O banco se voltou mais duro sob o traseiro, a mesa que tinha diante se moveu quando Arwydd estrelou junto a seu cotovelo uma fonte cheia de batatas; Milford baixou lentamente a cabeça para o prato. O jardineiro desejou em vão se encontrar em sua estufa. Era melhor tentar fazer crescer com paciência as cravinas que enfrentar a aquela série de intromissões e expectativas. Se produziu um silêncio tão prolongado que o homem começou a albergar a esperança de que o tivessem deixado em paz.

Então Herne falou.

—Será que não se sente orgulhoso, Milford?

Milford levantou a vista e se deu conta de que todos o observavam com os olhos reluzentes de curiosidade. Dava igual que já tivesse deixado claro o que Celeste pensava; dava o mesmo que sua filha e suas destrezas não lhes incumbissem absolutamente. A maior parte dos criados a vira crescer, e uma boa parte deles recordavam sua esposa com afeto. Assim, posto que supunham que tinham direito, importunariam até que fizesse alguma declaração.

Então a fez.

—Celeste deveria se manter em seu lugar - bramou.

—Mas se é encantadora! - protestou Herne . - Os cavalheiros não param de cochichar, tentando adivinhar de quem pode se tratar, eu asseguro, não desafina absolutamente!

Milford ignorou ao imbecil e seguiu comendo seu prato de espinafres polvilhados com vinagre e bacon.

—Juro, Milford, que quando põe essa cara de vinagre parece um cocozinho de ovelha flutuando em um ponche. - A que falou foi Esther. Quem se não.

Obrigado a falar, Milford respondeu.

—É uma teimosa.

—Me pergunto de onde o terá tirado.

—Não sei.

Alva deixou de fazer girar os coelhos trespassados no espeto para perguntar:

—Mas não gostaria que sua filha se casasse com o senhor Ellery?

—Os homens como o senhor Ellery não se casam com a filha do jardineiro - respondeu.

—Celeste é tão formosa como qualquer dessas outras garotas aristocratas - disse Esther, - e também tem umas maneiras mais doces e é mais inteligente.

—Sei muito bem o que vale minha filha - respondeu bruscamente o jardineiro.

—Pois tem uma maneira condenadamente divertida de demonstrar.

Milford raramente perdia os estribos. Tão raramente que de fato podia contar as ocasiões com os dedos das mãos e dos pés.

Mas havia algo naquela mulher e em seu petulante desdém e em seus excelentes pudins que fazia que a cor ascendesse lentamente a suas faces. Levantou a vista e a olhou de cima abaixo com ar desapaixonado.

—Suponho que isso é porque, ao contrário de todos os aqui presentes, vivo em um mundo no que o sol se levanta pelo este e se põe pelo oeste, e no que os ricos se casam com os ricos, e no que a única ocasião em que um cavalheiro repara na filha de um jardineiro é para lhe provocar uma dor de barriga que demora nove meses em curar.

Os olhos castanhos de Esther relampejaram com umas raias amarelas.

—E são as pessoas como você que destroçam os sonhos que deveriam se fazer realidade.

—Talvez sim. Talvez não. - Milford molhou o último pedaço de pão no molho, limpou a cara com o guardanapo e se levantou . - Mas me parece que não vou ser eu quem destroça os sonhos de Celeste.

A luz da lua brilhava através das janelas abertas do salão de dança reluzindo sobre os encerados chãos de madeira nobre, nos que formava tênues e longos fios, fazendo resplandecer o pão de ouro e criando o país das fadas que Celeste conhecia de sua infância. Nas noites do verão, quando a família estava fora, fora ali para fingir. Fingir que esperava Ellery, fingir que ele chegava, fingir que dançava entre seus braços, fingir que o beijava em seus generosos lábios até que ela ficava sem fôlego e o desejo varria todo seu corpo.

Mas essa noite o fingimento sucumbiria à realidade. Ellery escaparia da armadilha que o senhor Throckmorton lhe fizera; acudiria e faria realidade todos os sonhos de Celeste.

Faria, porque do contrário o senhor Throckmorton teria ganhado, e Ellery era o galhardo, o bonito, o magistral.

Bom, possivelmente magistral, não, mas é que nunca teve a oportunidade de sê-lo. O impedira a alta, sombria e afetada onipresença do senhor Throckmorton.

Mas com o fôlego necessário, que lhe daria, Ellery seria magistral a partir desse momento.

Recolheu as saias e dançou em círculos, se deixando embargar pelo prazer.

Sim, Ellery era um gênio em escapar das muitas armadilhas que lhe faziam; ela o vira fazer. Essa noite escaparia para se jogar em seus braços, e nada poderia arruinar a felicidade de ser jovem e estar apaixonada e em casa depois de quatro anos de exílio.

Ao se dar conta que estava parada em um dos longos fios de lua, olhou para as portas. Ellery ainda não chegara, então se entregou às lembranças. Tornando-se para trás, pegou carreirinha e patinou pelo chão, deslizando com suavidade até a janela graças à sola de pele de suas sapatilhas. Rindo, se lançou de novo pela pista e retornou, correndo e deslizando com um prazer um tanto masculino.

Depois de tudo, se dava a casualidade de que Ellery a visse, ela sabia bem qual era seu aspecto. Juvenil, despreocupado, encantador. O que tinha de mau ser surpreendida pulando? O aroma da cera de abelha que desprendia o chão se mesclava com o doce aroma da floração noturna do tabaco ornamental, que, subindo do jardim, enchia a sala com sua fragrância.

Mas, quando uma grande figura apareceu na entrada, obstruindo a débil luz das velas do corredor, Celeste se deteve na metade do deslizamento. Uma olhada bastou para ver que tinha as feituras de um homem, que ia embelezado com um austero terno de cavalheiro e que tinha aproximadamente o tamanho e a compleição de Ellery. Ela tinha suposto que Ellery faria sua entrada com uma risada e um beijo.

Quando o sujeito pigarreou, soube que não se tratava de Ellery; ele jamais teria pigarreado ante ela naquele tom.

Se situou frente à porta e examinou através da escuridão.

O senhor Throckmorton saiu das sombras à luz da lua com duas taças de champanhe na mão e um sorriso malicioso nos lábios.

—Estava acostumado a me deslizar por este chão justo assim - disse Throckmorton. - Embora fazia anos que não me lembrava.

Os sentimentos de Celeste oscilaram entre a incredulidade de que Ellery não aparecesse e o ceticismo de que o senhor Throckmorton se deslizou alguma vez, ao longo de toda sua sombria existência, por um feixe de luz de lua.

Se dirigiu para ela com ar despreocupado e se deteve a distância de um braço. Celeste estava parada com o queixo levantado, as costas erguidas por causa da incredulidade.

—Onde está Ellery?

—Ellery me enviou em seu lugar. - O senhor Throckmorton estendeu a taça. - Está brigando com uma pequena brotoeja.

Celeste pegou o champanhe com ar vacilante.

—Uma brotoeja?

—Tudo indica que comeu algo que não lhe assentou bem.

—Algo que comeu? - A suspeita floresceu em sua mente e seu sobrecenho foi se enrugando enquanto contemplava o senhor Throckmorton. - Ellery comeu um morango?

—Está acostumado a ser mais cuidadoso. Mas esta noite parecia ter pressa.

Pressa. É obvio. Por vê-la.

—Estava naquele...? - De repente recordou que ela não deveria saber nada sobre a ridícula sobremesa de frau Wieland e mudou de tema. - Pobre Ellery! Ficará bem?

—Sim. - O senhor Throckmorton sorriu com a taça nos lábios. - Sim, a verdade é que acredito que sim.

Celeste deu um passo para a porta.

—Não necessita?

O senhor Throckmorton lhe cortou o passo.

—Não. Não necessita nada. Agora mesmo está muito bem atendido e não deseja que ninguém o veja nesse estado.

Celeste titubeou. Não sabia como evitar ao senhor Throckmorton e suspeitava que ele estava dizendo a verdade a respeito da relutância de Ellery a que ela o visse coberto de umas antiestéticas manchas.

E, entretanto? Entretanto não desejava se ver presa no meio de sua fantasia longamente acariciada com o homem equivocado.

—Ellery me disse que dançasse comigo à luz da lua os longínquos compassos da música. - Deu um gole em seu champanhe e a observou com mais atenção. - Eu entendi bem?

—Sim-disse Celeste, atordoada pela frustração. - Entendeu bem. - O senhor Throckmorton repetira suas palavras com exatidão. Só Ellery podia ter-lhe dito, então era verdade que enviara seu irmão em seu lugar.

Deu uma olhada pelo salão de dança mal iluminado onde, só fazia um instante, os sonhos tinham vagado sem rumo. Nesse momento a música soava desafinada, o pão de ouro parecia murcho e desmedido, e a luz da lua não era mais que o reflexo da do sol? Igual ao senhor Throckmorton refletia a luz de Ellery.

O senhor Throckmorton pegou sua taça e depositou as dos dois sobre uma mesa encostada à parede. Retornou até ela e estendeu os braços.

Celeste não foi para eles. Era muito estranho pensar que precisava dançar nada menos que com o senhor Throckmorton. Era muito velho, muito solene, muito responsável. Tudo o que Ellery não era.

Mas tampouco era indeciso, porque enquanto ela hesitava, a atraiu para ele. Rodeou sua cintura com o braço, sua mão agarrou a sua e, sem lhe dar tempo para se acostumar à sensação de estar entre seus braços, a arrastou ao baile. Não deveria saber dançar a valsa; os homens de negócios não deveriam ser capazes de fazer que a música cobrasse vida com o movimento. Mas, embora o senhor Throckmorton dançasse sem floreios nem excessos, seus movimentos eram elegantes, seus passos, suaves. A levava como um homem acostumado a mandar... em qualquer situação.

Celeste não sabia o que fazer com sua mão livre. Pô-la sobre o ombro dele lhe parecia um ato de insolência, quase de intimidade. Mas embora desse voltas à ideia e se recriminava por ser tão tola, seguiu sem poder levantar a palma até ali acima e agarrasse ao senhor Throckmorton como as normas de conduta exigiam que fosse agarrado. Portanto, apoiou-lhe a mão no braço... E descobriu como a musculatura do homem se flexionava sob seus dedos.

—Isto é muito agradável. - A voz de Throckmorton tinha um timbre suave, sonoro, contido, e então Celeste caiu na conta que ele devia estar desejando voltar para a festa para dar as boas-vindas aos convidados, para fiscalizar os preparativos, consciente de que toda pessoa a que ele fizesse feliz era uma pessoa mais com a que poderia fazer negócios algum dia. - Meu irmão ficará desconsolado quando souber que perdeu isto.

Celeste mantinha o olhar fixo por cima do ombro de Throckmorton, enquanto as paredes se aproximavam e voltavam a se afastar dando voltas. Ele baixou ligeiramente a cabeça para olhá-la aos olhos e perguntou em um tom de incredulidade:

—Não estará zangada comigo pelo contratempo de Ellery?

Celeste se limitou a lhe lançar um rápido olhar.

—Não posso evitar a suspeita... - Não deveria ter dito nada, mas qual era a diferença? O senhor Throckmorton pensava que era uma desavergonhada, e além disso tinha perguntado. - Não posso evitar a suspeita de que conseguiu manipular esta conveniente brotoeja para que Ellery não pudesse vir se reunir aqui comigo.

A gargalhada retumbou por todo o corpo de Throckmorton, e Celeste notou a convulsão em todas as partes nas que se tocavam: no braço que lhe rodeava a cintura, sob as pontas dos dedos que apoiava em seu braço e - o que estranhou sobremaneira - na boca de seu próprio estômago.

—Agradeço a fé que me tem. Mas, me diga, por que teria que deixar inválido a meu irmão na festa de seu compromisso? Mesmo que meu desejo fosse te eliminar de sua órbita, não teria sentido o afastar de sua prometida... e agora está fora do alcance de lady Hyacinth. Ao primeiro vislumbre da brotoeja saiu correndo para seu quarto, e, sem dúvida alguma, neste momento está posto de molho em uma tina cheia de água e flocos de aveia.

Proporcionava-lhe aquela visão tão pouco atraente de propósito? A de um Ellery ensopado, coberto de grumos marrons.

—Não - prosseguiu o senhor Throckmorton, - se queria me liberar de você, o poderia fazer com muito menos delicadeza.

—Poderia, acaso, me pôr de quatro na rua. Throckmorton pareceu considerar a ideia em sua justa medida.

—Poderia. Isso seria o cúmulo da falta de delicadeza. - Sacudiu a cabeça. - Ellery diria que subornar vai mais com meu estilo. Poderia te oferecer mil libras anuais e uma casa numa propriedade em Paris.

Falava a sério. Estava segura de que sim!

—Mil libras! Teria que ter muita vontade de se livrar de mim para me oferecer semelhante quantia.

Throckmorton deu de ombros.

Seus músculos voltaram a se esticar sob a palma de Celeste. Em um esforço por se afastar daquela parte dele com tanto movimento, ela deslizou a mão até a colocar no ombro.

Throckmorton pareceu entender como um sinal de algum tipo de aceitação, e a aproximou dele ainda mais. Tinha-a sob seu domínio; Celeste não podia se soltar a menos que ele o permitisse, e não estava de todo segura de que ele fosse fazer.

Suas circunvoluções se apaziguaram. Com o rosto escurecido pela noite, Throckmorton baixou a vista para ela em lugar de olhar para onde se dirigiam. Entretanto, Celeste se acostumara à penumbra graças a tênue iluminação que proporcionava a lua e pôde distinguir os traços de Throckmorton e obter alguma impressão de seu semblante... O qual era bastante mais do que desejava.

—Mil libras não são tanto. Paguei mais para me desfazer das confusões de Ellery.

—Eu não sou uma confusão de Ellery. - Era insultante que a descrevesse como tal. - E não me deixarei subornar! - E não gostava de dançar tão colada, que as pernas de Throckmorton se enredassem nas suas saias, e que o peito do homem se levantasse tão perto de seu nariz que pudesse cheirar o tênue aroma a sabão e a uísque e, por debaixo de tudo isso, a masculinidade pura. Celeste se perguntou como era possível que o aroma de si mesmo tivesse escapado dessa maneira ao controle do senhor Throckmorton; não parecia o tipo de homem que permitiria um conhecimento tão íntimo à filha do jardineiro.

—Não, é obvio que não o é - disse, conseguindo aparentar surpresa. - Não te estava oferecendo mil libras ao ano e uma casa em Paris. Dizia que, ao longo dos anos, meu irmão há custado uma fortuna à família.

Esse é o motivo de que tenhamos tantas esperanças depositadas neste compromisso.

—Mas se não quer casar com lady Hyacinth, não há nada a fazer. É um homem feito, e você não pode absolutamente obrigá-lo a ir ao altar à força. - Isso é o que disse a si mesma, e a seu pai, desde que começara a se preparar para o baile.

—Uma grande verdade.

Era verdade, embora a aura de poder que emanava do senhor Throckmorton parecia quase indomável. Era estranho que ela não o tivesse considerado daquela maneira com antecedência. Sempre soubera que era o herdeiro, é obvio, mas mal se recordava de quando ele havia voltado de suas viagens. Esteve tão apaixonada por Ellery que aquele homem que percorrera o mundo fora quase como um fantasma para ela.

Nesse momento era o mesmo: calado, observador, com um grande domínio de si mesmo. Mas, ao mesmo tempo, diferente; atraente e masculino, e aquele domínio... era quase um desafio.

Celeste se surpreendeu de que durante os impressionáveis anos de sua adolescência nunca tivesse reparado nele.

—Me deu muita pena me inteirar da morte de sua esposa - ela espetou e imediatamente se envergonhou de sua áspera maneira de mudar de tema.

—Obrigado. - Throckmorton não diminuiu a firmeza com que a segurava nem pareceu aflito por lembranças desagradáveis. - Foi uma tragédia.

—Suponho que sente falta dela. - Celeste não soube por que continuava com aquela conversação.

—Sim, sinto falta dela. Era uma mulher sensata, boa companheira e uma mãe maravilhosa.

O tipo de elogio que qualquer mulher detestaria!

Celeste fez uma ideia do matrimônio: vazio, aborrecido e, sobretudo, sensato. Mas a imagem lhe veio muito bem para dissipar a impressão de virilidade que a havia feito ser tão incomodamente consciente dele.

—Quando aconteceu?

—Faz três anos, Penélope o leva... levava... bem.

Penélope! A filha de Throckmorton e a pupila de Celeste. Esta se agarrou ao tema de conversação.

—Lembro de Penélope. Tinha quatro anos quando parti, mas inclusive então era parecida com você.

O que a fizera dizer aquilo?

Um leve sorriso revoou pelos lábios de Throckmorton.

—Era aborrecida, não?

—Absolutamente. - O que levara ele a dizer aquilo? - Só que era muito tranquila e serena para uma menina tão pequena. O que ocorreu para que esteja mais afligida?

—Uma palavra: Kiki.

—Kiki?O que é Kiki?

—Não é um quê. É um quem. - Nesse momento estavam parados na metade do salão, sem dançar, só se balançando. - Kiki é sua outra pupila.

—Minha outra pupila? - Assustada, disse: - Pensei... isto é, você disse que daria aulas a duas meninas, e pensei que a outra...

—Devia ser minha? Não, Kiki não é minha. Kiki é uma força da natureza, como um ciclone do Pacífico ou um vulcão das Índias Orientais. Espero que a domestique, Celeste.

—As forças da natureza são impossíveis de domesticar.

—Tenho uma grande fé em você. Lady Bucknell afirma que faz milagres com os meninos rebeldes, e o embaixador russo e sua esposa me escreveram uma recomendação cheia de elogios.

—Throckmorton passeou o olhar pelo salão. - A música parou. Damos um passeio enquanto te explico a situação?

—Sim! - Céu santo, sim. Caminhar pelos corredores iluminados e falar de seu emprego teria que ser, por força menos íntimo que aquela escuridão, aquele contato, aquele torvelinho de música em uma sala cheia de sonhos. Sonhos de Ellery, Celeste disse a si mesma, adiados tão só por um acontecimento desventurado. Se afastando dos braços do senhor Throckmorton com um giro, Celeste se dirigiu para a porta.

Ele a agarrou antes que tivesse dado dois passos. Rodeou sua cintura com o braço e aproveitou a inércia de Celeste para, a fazendo girar, voltar a abraçá-la... Nesta ocasião, mais perto que a última vez; a apertou contra seu peito. Escandalizada, envergonhada e nervosa ante a consciência do perigo, Celeste se tornou para trás tudo o que pôde.

—Senhor... Throckmorton!

—Sempre abandona a seu casal na pista de dança? - disse com aparente severidade. - Porque não recordo que se fizesse assim em Paris e posso te assegurar que absolutamente é o que se usa na Grã-Bretanha.

Celeste avermelhou. Tinha razão, e sua reprimenda a obrigara a se mostrar intratável e ingrata. Logo ela, que se esforçara em apagar qualquer rastro de brutalidade de suas maneiras.

Entretanto, o conde de Rosselin lhe deixara claro que quando uma dama era surpreendida em uma indiscrição, seu comportamento não devia cair no mais baixo, a não ser subir até ficar à altura das circunstâncias.

—Tem razão. - Mal pôde formar as palavras de tanto como odiava pronuncia-las . - Me perdoe por minha falta de maneiras e obrigado pela valsa.

As sombras não podiam ocultar o olhar de Throckmorton nem a gravidade de seu exame. Levantando a mão até o queixo de Celeste, cavou-a ao redor e pareceu falar somente para si.

—É a mulher mais formosa e gentil que conheci em muito, muito tempo.

Sua voz ressoou por todo o corpo de Celeste, e sua fogosidade provocou nela o desejo de sair fugindo da sala. De sair fugindo de Blythe Hall. Como conseguira converter o ressentimento que sentia ela em... naquela espécie de horrível agradecimento para ele e seus elogios? Por que, de repente, reparava ela em sua altura, na largura de seus ombros, na grossura de seu pescoço e na simples contundência de seu rosto?

Então, Throckmorton sorriu, e em um tom tão suave que em nada recordava seu ardor anterior, disse:

—Obrigado, Celeste. Não recordo ter desfrutado tanto de uma dança.

Soltou-a, mas ela não se atreveu a lhe dar as costas. Lhe dera uma lição: que não teria que perder nunca de vista ao senhor Throckmorton. Uma pessoa nunca sabia o que poderia fazer.

Ele se limitou a estender o braço. Celeste apoiou a mão nele, e juntos se encaminharam despreocupadamente para o corredor em penumbra.

—Sabe, na Grã-Bretanha a valsa segue sendo bastante escandalosa - disse ele. - Se alguém, além do anfitrião... neste caso Ellery ou eu... pede que a dance, sua intenção é te faltar ao respeito.

Celeste assentiu com um lento movimento de cabeça.

—Obrigado por me dizer isso. Na França...

Throckmorton riu entre dentes.

—Sim, na França a valsa é a menor das incorreções.

Celeste não pôde reprimir um sorriso. Era verdade. Na França fora a moça encantadora que era a instrutora do embaixador; na Grã-Bretanha seguia sendo a filha do jardineiro.

Se não fosse pela nostalgia de ver seu pai e Blythe Hall e a Ellery, possivelmente não teria retornado jamais. Mas o fizera e conquistaria... tudo. Mas não essa noite.

Essa noite passearia com o senhor Throckmorton para se inteirar dos detalhes de seu emprego.

Ela tentou se dirigir para onde a luz era mais intensa e para os ruídos da festa. Throckmorton a conduziu com bastante firmeza para as profundidades da casa, onde reinava o silêncio.

—Pensei que você gostaria de ver as mudanças realizadas desde que se foi.

Com outro homem poderia ter se sentido intranquila, mas não com o senhor Throckmorton. Não havia feito nada mais alarmante que dançar a valsa com ela e alertá-la do impróprio que conduzia o fato.

Além disso, ele não desejara dançar; só o fez a pedido de Ellery. Qualquer receio que ela tivesse podido ter somente tinha sido o resultado da escuridão, do lugar e de suas expectativas.

Ignorou com decisão a vergonhosa sensação de desconforto e as suspeitas que persistiam em seus pensamentos, e com o tom de eficiência que, conforme tinha descoberto, infundia confiança em seus patronos, disse:

—Me fale de Penélope e Kiki.

—Kiki é a filha de Ellery.

 

Celeste, atônita, apertou o braço do senhor Throckmorton. Ele não pareceu se surpreender de sua agitação.

—É a filha que Ellery teve com uma formosa atriz francesa que faz cinco meses decidiu que já não desejava se encarregar de sua filha de seis anos.

Ellery teve uma filha? E deixara que fosse educada por sua mãe enquanto ele...? Celeste se sentiu bastante mal.

Mas, claro, ele teria seus motivos. Não podia se casar com a mulher. Uma atriz era ainda menos adequada que... que a filha do jardineiro.

—Que... coisa.

—Sim. Então a mulher trouxe Kiki e a abandonou. - Conduziu lentamente Celeste através da grande sala de jantar e se deteve para indicar as mudanças. - Como pode ver, minha mãe fez estucar e empapelar de novo as paredes para o banquete de clausura das celebrações. - lhe dirigindo um rápido sorriso tendencioso, disse: - Mas se as celebrações tivessem um final diferente do previsto, não tem que se preocupar.

Estou seguro que a câmara necessitava de uma reforma.

Celeste reprimiu uma pontada de remorso.

—A mesa é nova, e não sei se pode ver... - Pegou o pequeno candelabro situado na mesa de parede e o balançou para o teto infestado de querubins e deusas montadas em quadriga[5]. - Fiz que retocassem as pinturas.

Sempre gostei dessa exuberância clériga.

Com uma tranquilidade fingida, Celeste deteve seu lento perambular e olhou para cima fixamente.

—Deliciosa exuberância. - Ele não respondeu, e quando ela baixou o olhar, o surpreendeu observando concretamente seu pescoço. Sua mão subiu de maneira espontânea para se proteger embora Celeste não soube exatamente do que. Não pensaria de verdade que o senhor Throckmorton a ia estrangular, nem sequer por transtornar de maneira tão notável seus planos? E tampouco que ele fosse pôr a boca ali, não?...

—O que aconteceu com a mãe de Kiki? - perguntou.

Throckmorton pareceu se sobressaltar ligeiramente, voltou a deixar o candelabro em seu lugar e a conduziu para a sala de pinturas.

—Partiu para se casar, nada menos que com um cantor de ópera italiana.

—Os cantores de opera são românticos.

—Sim, se alguém gosta dos homens grandes que cantam a voz na garganta enquanto fingem estar morrendo. - Pela careta de desprezo que se desenhou em seus lábios estava claro que não via nada romântico na ópera.

—Não tem amor em sua alma.

—Nenhuma gota.

Era um comentário que Celeste podia ter tomado como uma advertência, mas seguia se esforçando em digerir a ideia de Ellery como pai.

—Em todo caso, Kiki foi abandonada em nossa porta, e após isso, nada foi igual. - Apontou a superfície do chão para a outra porta. - Um novo tapete persa. Minha mãe assegura que estão na moda.

Celeste assentiu com a cabeça.

—Em Paris, também.

—Se estiver na moda em Paris, então é obvio que devemos tê-la.

Throckmorton deixava transparecer um ligeiro sarcasmo, e por seu tom Celeste reconheceu um homem a quem o tenaz afã reformador de sua mãe tinha esgotado a paciência.

—E a menina? - o animou Celeste.

—Ah. Kiki. - Parecia mais inclinado a conduzir Celeste por uma extensa visita turística que a informar de suas obrigações. - Kiki é um demônio sem educação nem maneiras. Ri a gargalhadas, canta na mesa, monta um drama a três por quatro e representa uma comédia um dia sim e outro também. As babás saem fugindo em direção contrária tão depressa quanto podem.

O tom ofendido que utilizou fez que Celeste sentisse vontade de rir.

—Parece encantadora.

—Sim, é muito encantadora. Por desgraça, a menina é ilegítima e estrangeira, e para viver na Grã-Bretanha tem que se comportar com absoluta correção. Se seguir assim, arruinará sua vida antes que tenha começado.

Tinha razão, mas em Celeste nasceu imediatamente um sentimento de camaradagem para com Kiki.

—Deve sentir falta da sua mãe.

—É possível, mas de passagem quando amargura a vida de outros, também está amargurando Penélope. - E, em um tom cortante, acrescentou: - E não o permitirei.

—Não, é obvio que não. - Depois de um instante de hesitação, Celeste perguntou com delicadeza: - Não se encontra a gosto com seu pai?

Então foi o senhor Throckmorton quem hesitou.

—Ellery acha engraçado que Kiki suba à mesa ou se atire da cadeira, e lhe alvoroça o cabelo quando canta. Encontro que seus cuidados não fazem mais que piorar a situação.

Muito típico de Ellery reparar em uma menina que era uma rebelde; bem sabia Deus que não tinha reparado na silenciosa Celeste. Mas no caso de sua própria filha, poderia se dar conta do dano que lhe estava fazendo... Celeste se sentiu envergonhada imediatamente por pensar semelhante coisa.

Quando ela e o senhor Throckmorton entraram no vestíbulo, ouviram a sua esquerda um frufrú de sedas e o murmúrio de uma voz masculina. Pareciam proceder do vão que formava a ampla curva das escadas, e lhe fez um gesto para que guardasse silêncio e passasse depressa. Quando entraram na biblioteca, Throckmorton lhe disse em voz baixa:

—Parece que a aventura entre o senhor Monkhouse e lady Novell avança a passos largos.

A Celeste não escandalizou a circunstância; na França as aventuras entre casados se consideravam algo normal. Mas olhou atrás dela e logo ao senhor Throckmorton.

—Mas como soube quem...?

—Tenho uma excelente visão noturna. - E acrescentou em tom pensativo: - Como o senhor Monkhouse, acredito. - Fez um gesto ao redor. - Bom, aqui não permiti que minha mãe fizesse muitas mudanças.

Queria substituir as cadeiras por essas monstruosidades com patas em forma de garras e cabeças de leão. Me encontro a gosto nesta sala e costumo ler aqui para Penélope, e me nego a que a menina desperte de noite com pesadelos de jacarés e gatos gigantes.

Celeste sorriu abertamente. Não cabia dúvida que ao homem não gostava da desordem que rodeava as reformas.

—Para começar, se Penélope tiver um pesadelo, Kiki terá outro o dobro de terrorífico e nos veremos obrigados a suportar dias e dias de histrionismo. E em francês.

—Em francês?

—Kiki não fala inglês, embora seja uma menina inteligente e sei que nos entende. - Fez uma careta. - Você conhece bem o idioma, conhece nossa casa e nossas normas de comportamento, então dependo de você para que nos devolva a serenidade.

Se a situação era a metade do descrito pelo senhor Throckmorton, o trabalho cairia para ela.

—Farei tudo o que possa.

—Entretanto, não quero que pense que estará escravizada pelas meninas. Têm uma babá, então suas obrigações se limitarão ao quarto de estudos. E dada a grande excitação de Kiki pelas celebrações, acredito que seria inútil esperar que se encarregue de suas responsabilidades esta semana... Se é que, em efeito, chega a se encarregar em algum momento das obrigações para as que a chamei.

—Senhor, não quero que pense que não estou disposta!

—Absolutamente. - Indicou-lhe com um gesto que devia segui-lo por um corredor estreito e curto que terminava em uma porta de folha dupla. - Não me referia a seu entusiasmo, só à boa sorte de Ellery por ter a duas jovens formosas competindo por seus cuidados.

—Não estou competindo por seus cuidados - respondeu Celeste com uma firmeza fruto da indignação.

—Não, mal se pode chamar competição. Assim que desapareça sua brotoeja, estou seguro que já não terá que se resignar com o pobre substituto que é seu irmão.

Celeste não deveria ter se mostrado decepcionada pela atenção que ele teve ao dançar com ela nem deveria ter expresso suas suspeitas a respeito dos motivos de dita dança.

—Eu jamais...

—Tolices, é obvio que sim. Sei muito bem até onde posso rivalizar com Ellery. - Pôs cara de cínico. - Não foi fácil crescer com as inevitáveis comparações, embora o trabalho me compensasse.

Fora uma grosseira, embora não desejara ferir seus sentimentos. De fato, nunca imaginara que o senhor Throckmorton fosse capaz de os ter.

—Na verdade, senhor Throckmorton, em nenhum momento foi minha intenção que pensasse...

—Senhor Throckmorton? - Levantou uma sobrancelha para ela. - Costumava me chamar Garrick.

Por estranho que parecesse, seu comentário a impressionou mais que tudo o que acontecera durante aquela curiosa noitada.

—E-era... uma menina. Não era consciente de quão inadequado era meu comportamento.

—Eu gostava. Foi uma menina encantadora, com aqueles grandes olhos solenes e seu sorriso inseguro. - se deteve ante a porta dupla. - E segue sendo encantadora, embora de uma maneira muito diferente.

Seu sorriso, a confiança em si mesma, essa alegria, seu estilo... Se converteste no tipo de dama que qualquer cavalheiro se sentiria orgulhoso de levar pelo braço.

Celeste afastou o olhar a um lado e olhou ao chão, envergonhada pela maneira em que lhe estava falando. Pelo tom que utilizava.

Throckmorton se inclinou para ela e farejou. - E seu perfume. É maravilhoso... Uma mescla de limão, canela e, se não me equivoco, ylang-ylang.

Celeste ofegou. Como ele soube?

—Lamento. A estou envergonhando. - E começou a retroceder.

De maneira impulsiva, Celeste o agarrou pela mão e o olhou à cara.

—Não! Não é isso, é somente que jamais me ocorrera que pudesse... estar...

—Interessado nas mulheres?

Throckmorton sorriu, e o sorriso confirmou a Celeste que, em efeito, não havia nenhuma dúvida que estava muito interessado nas mulheres. E por estranho que parecesse, que estava interessado nela.

—Minha querida e pequena Celeste, quando a olho só penso em uma coisa - lhe disse com uma voz que acariciou sua pele como se fosse veludo negro. Então, se aproximou mais.

Celeste abriu os olhos desmesuradamente e retrocedeu para a parede.

—Acredito que te beijar seria um dos maiores prazeres de minha vida.

A certeza a paralisou; talvez o casamento do senhor Throckmorton tivesse sido uma união sensata, mas era evidente que teria posto a prova sua esposa. Celeste esmagou as costas tudo o que pôde contra a parede, mas o gesso não cedeu e não conseguiu desaparecer. Tudo que pôde fazer foi ficar olhando com uma mescla de consternação e consciência palpitante como ele se inclinava sobre ela.

Throckmorton lhe roçou os lábios com os dele, e Celeste fechou as pálpebras com um tremor. E se inundou na deslumbrante sensação de ser beijada. Pelo senhor Throckmorton. E... e não resultava repulsivo.

De fato, justamente o contrário.

Em duas ocasiões anteriores, uma na Grã-Bretanha e outra na França, um par de tolos não deixaram escapar a ocasião de agarrá-la e beijá-la. Dera a ambos sua oportunidade, e nenhum a aproveitou, e então disse a si mesma que era porque amava Ellery. Que só Ellery podia lhe dar o beijo que despertasse sua paixão.

Mas o senhor Throckmorton ameaçava demonstrar a falsidade daquele mito. Porque lhe estava proporcionando um prazer inesperado. Um prazer... muito, mais que muito... inesperado. Seu fôlego, quente, com aroma de uísque, perfumado de sensualidade, percorreu sua pele; seus lábios, suaves e firmes se apertaram contra os dela com a maior sutileza. Ele corrigiu a posição dos dois corpos, reagindo como se a resposta de Celeste o fascinasse.

Os pensamentos atravessavam a mente de Celeste fugazes e desconexos. Deveria deslizar pela parede abaixo e escapar daquele beijo. Ele era mais largo do que ela acreditara. Estava aterrada pelos dois.

Quando Throckmorton aumentou um pouco mais a pressão, ela gostou... E, ante aquele suave incremento, Celeste deixou cair a cabeça para trás contra a parede. Mon Dieu, podia ler seus pensamentos.

Ele sabia tudo; em que momento o arrepio percorreu sua pele, e no que outro lhe acelerou a respiração, e em que instante uma imprevista corrente de sangue que alagou suas veias levou a certas partes de seu corpo a adquirir uma consciência que faziam cócegas.

Suas mãos penduravam ainda nos flancos, eximidas de atividade. A torpe liberdade de suas mãos era a única maneira de que Celeste conservasse a prudência naquele momento enlouquecido de... de... bom... de paixão não. Não podia haver paixão entre ela e o grave senhor Throckmorton. Simplesmente era impossível.

Ele deixou de beijá-la.

Celeste pensou que a soltava. E não se deixou arrastar de tudo. Não, por quanto tinha conservado suficiente cabeça para não tocá-lo, como era seu desejo.

Então, o senhor Throckmorton lhe demonstrou a verdadeira debilidade de sua desculpa. A agarrando pela cintura fez que ficasse nas pontas dos pés. A agarrou pelos pulsos, subiu-lhe as mãos e fez que lhe cavasse as palmas ao redor do pescoço. Nesse momento o abraçava com tanta plenitude como ele a ela e Celeste não foi capaz - não, senhor - de retirar as mãos. Antes bem, se agarrou a ele, e seus dedos se aferraram à cerimoniosa jaqueta de Throckmorton. Este, a afastando da parede, a inclinou sobre seu braço e com seu peito esmagou seus seios, e seu corpo a envolveu com um calor desconhecido.

—Abre os lábios - ele ordenou.

—Por quê?

—Muito bem. - Os lábios de Throckmorton se moveram sobre os seus ao murmurar o elogio.

Celeste pôde provar o gosto do senhor Throckmorton. E pôde porque... porque ele deslizara a língua dentro da sua boca.

Ele a degustava como se se tratasse de um bolo feito especialmente para ele e atuava como se Celeste fosse de creme e açúcar, um luxo delicioso. Respirando ao uníssono, a saboreou e a encheu de calor, umidade e paixão.

Celeste se viu invadida por uma lassidão que a obrigou a confiar nele para que a segurasse, a guiasse e a ensinasse. Porque ele era tudo aquilo, e de maneira soberba.

Pois não faltava mais. Aquele era o senhor Throckmorton e era bem conhecido entre a servidão por sua preparação, conhecimentos e paciência... Embora Celeste nunca tivesse ouvido que alguém mencionasse sua fogosidade. Possivelmente é que não falavam disso. Acaso não sabiam. Talvez não soubesse ninguém exceto ela, porque era a única mulher que o estimulava.

Celeste tratou de sacudir a cabeça. Ali era onde morava a loucura.

Throckmorton deteve o movimento segurando seu queixo e a inclinou até lhe deixar o pescoço livre. Desceu por ele os lábios, bebendo em sua pele, acrescentando as expectativas de Celeste e seu ritmo cardíaco.

Fez-lhe coisas que ela nem sequer sabia que gostaria de fazer até que as fez. Mordiscou-lhe o lóbulo da orelha, acariciou o pulsar do pescoço, beijou a clavícula...

Ela começou a fazer pequenos ruidinhos. Não palavras, não; as palavras exigiam pensamento e a capacidade de formar sons coerentes. Aqueles ruídos eram mais como murmúrios e gemidos... pura sensação feito voz.

Throckmorton apoiou os lábios na traqueia de Celeste, como se quisesse sentir as vibrações e saborear todas as sensações. Ao final, levantou a cabeça.

Ao abrir os olhos em pleno desconcerto, Celeste só pôde ver a ele. Sob a tênue luz os olhos cinza de Throckmorton pareciam negros, embora também grandes e de uma solenidade comovedora. A observava com uma intensidade que manteve a raia a sensatez de Celeste, porque parecia ver nela um alimento precioso... ou a seu amor mais prezado. A ajudou a se manter erguida e com os pés sobre o chão com o maior dos cuidados, e, como seguia cambaleando, a segurou lhe pondo o cotovelo sob o braço e a ajudou a se apoiar contra a parede.

—Está bem? - perguntou Throckmorton.

—Sim - disse Celeste com muita dificuldade e pigarreou. - Sim. - Isso estava melhor. Mais alto. Mais normal.

—Bem. Dispus que a instale neste dormitório, mas só durante as duas primeiras noites. O quarto que ocupará junto a suas pupilas ainda não está preparado.

De algum jeito, o apaixonado galã se metamorfoseou de novo no senhor Throckmorton que ela conhecia, e Celeste não soube se aquilo era uma decepção ou um alívio.

Bom, um alívio, é obvio. Não lhe correspondia beijar ao senhor Throckmorton. E não porque fosse o patrão e ela a instrutora, mas sim porque ela amava Ellery, e sempre fora assim.

Não era tão frívola para pensar que mudara somente porque tivesse desfrutado dos beijos de seu irmão. Com sinceridade, aquela intimidade ultrapassara sua experiência, mas a sociedade considerava que um beijo não era mais que uma saudação. E assim o consideraria ela. Como uma excitante e profunda saudação.

Quando Celeste não disse nada, Throckmorton enrugou o sobrecenho com preocupação.

—Espero que perdoe o descuido.

Ela deslizou pela parede, desejosa de escapar antes de se ver impulsionada a fazer alguma tolice.

—Que descuido?

Beijá-la tinha sido um descuido?

—Que seu quarto não esteja... - O sobrecenho do responsável senhor Throckmorton, cujas previsões não conseguiram se materializar, se enrugou ainda mais. - Peço desculpas.

Não reparei em que chegaria tão logo, e com os preparativos da festa de compromisso de casamento temo que suas necessidades foram adiadas.

—Não. Quero dizer que está tudo muito bem. - Procurou tocar o trinco da porta atrás dela. - É compreensível.

—Virá pela manhã a meu escritório?

—Sim, senhor...

Ele pôs o dedo sobre os lábios dela e a olhou fixamente com reprovação.

—Insensata, me chamar senhor Throckmorton depois do que acabamos de compartilhar. Embora possivelmente é por que não desfrutou...

—Não! Sim! Foi muito formoso, muito... isto... que eu gostei...

Throckmorton sorriu com uma complacência exuberante.

—Está bem.

—Boa noite. - Celeste girou o trinco.

—A verei pela manhã.

—Ao seu dispor. - Empenhada em não chamá-lo por seu nome, havia dito o que não devia. Imóvel, aturdida pela insensatez que acabava de cometer, ficou olhando fixamente enquanto ele devolvia o olhar com a mesma intensidade. Do sorriso de Throckmorton não ficava o mínimo rastro. Com uma mecha negra e despenteada caindo sobre a testa, fez-lhe uma reverência sem afastar o olhar dela nem um momento.

Celeste se meteu a toda pressa no dormitório temerosa que pudesse fazer algo ainda mais ridículo.

 

—Querido! - Uma hora depois, lady Philberta entrou trabalhosamente no estúdio de Throckmorton seguida dos ruídos da ainda buliçosa festa. - Acabo de me inteirar do mais assombroso das intrigas.

Garrick se voltou da janela às escuras para olhar a sua mãe embalando na mão uma generosa porção de uísque.

—Que o viram passeando pelos corredores às escuras preso pelo braço de uma formosa e misteriosa garota.

Um sentimento de satisfação aliviou a agitação de sua consciência. O senhor Monkhouse tinha difundido o rumor com uma rapidez admirável.

—Como está Ellery?

—Se coçando. - Lady Philberta o escrutinou, adivinhando seu pensamento como era seu costume. - Você fez isso a ele, não foi?

—Não sei do que está falando, mãe - respondeu ele com fingida inocência.

A mente de lady Philberta chegou à conclusão mais lógica.

—Escondeu os morangos no bolo. Que truque mais mesquinho!

Throckmorton admitiu sua culpa sem remorso.

—Mas efetivo. Preferiria que passasse toda a noite se beijocando com a senhorita Milford, enquanto lady Hyacinth chorava a lágrima viva e Longshaw fazia planos para destroçar à família Throckmorton?

—Não, mas... - Lady Philberta coçou a nuca com inconsciente empatia, depois do qual baixou a mão a toda pressa. - Tem razão, é obvio. É melhor que Ellery se esconda em seu dormitório toda a noite a que arruíne nossos planos. - Se dirigiu para uma das cadeiras de respaldo reto e assento rígido situadas diante da escrivaninha e se sentou. - Se me servisse uma ratafia[6], estaria agradecida.

Throckmorton girou a cortiça de uma das garrafas do armário das bebidas e encheu uma taça.

—Ellery não suspeita de mim e seguirá assim. Para fingir meu escândalo e decepção com frau Wieland, quem estava à par de tudo, me vi obrigado a suborná-la. - Seus lábios se torceram em um meio sorriso enquanto entregava a bebida a lady Philberta. - Precisava ir antes que revelasse quem ordenara pôr morangos no bolo.

—Mas você gosta dos bolos tanto como o seu querido pai.

—Ninguém está livre de desgraças.

—Bom, o que você planejou?

Throckmorton levantou o queixo com decisão.

—Vou seduzir à garota.

O silêncio que seguiu a sua declaração foi prolongado e eloquente.

—A Celeste - esclareceu. Lady Philberta se levantou com lentidão.

—Você?

—Tem um candidato melhor?

—Então essa senhorita Milford não é mais que uma caça-fortunas...

—Asseguro que não, mãe. Isso seria muito fácil. - Se Celeste fosse uma caça-fortunas, teria se obstinado a seus cuidados como uma oportunidade que não se podia deixar passar e teria mostrado algum interesse quando lhe ofereceu uma casa em Paris e uns ganhos anuais. Mas inclusive quando a recriminou por tê-lo abandonado na pista de dança, ela se desculpara a contra gosto. A garota era sincera.

A situação não podia ser pior.

Lady Philberta se sentou em outra das cadeiras de madeira, fez uma careta e voltou a se levantar.

—Então não pode estragar à garota.

—Cortarei justo antes que a coisa chegue muito longe. Já arrumei as passagens de volta a Paris e a recompensa ao final de nossa pequena aventura. Ficará agradecida.

—Por que está tão interessada em Ellery?

—Tem a fantasia de que está apaixonada por ele.

—Não posso acreditar nisso.

—Mais ainda, acredito que a teimosia vem de longe... Embora esteja seguro de que em algum momento alguém tenha dito a ela que é igualmente fácil se casar com um rico que com um pobre.

Lady Philberta agarrou o próprio pescoço.

—Casar? Não pode estar pensando realmente no casamento!

—Tudo é possível com uma coisinha tão ingênua como a senhorita Milford.

Lady Philberta se inclinou e apoiou a mão sobre o assento rígido da cadeira encostada à parede.

—Alguém deveria ter dado uma surra em Ellery quando era jovem.

—Um pouco tarde para se dar conta. - Embora Throckmorton não podia ter estado mais de acordo. - Acabar com esta situação exigirá um ato de...

—De sacrifício. Por sua parte, claro.

—Isso temo. Se me ocorresse algum outro que pudesse interpretar o papel... - Notara a facilidade com que sua mãe se sentia inclinada a sacrificá-lo. Tinha a esperança que ele salvasse a honra de Ellery, o dela e a sua própria e o de qualquer outro que precisasse ser salvo. Voltou nervosamente para a janela que dava aos jardins. Entretanto, os jardins estavam às escuras, e tudo o que podia ver era o reflexo impreciso de si mesmo no cristal envolto em sombras.

Sua mãe se sentou na cadeira situada atrás da escrivaninha de Throckmorton e se reclinou com vontade experimental.

—Garrick, se este for o único assento cômodo desta sala!

—O desconforto estimula a produtividade - respondeu.

—É um homem muito insociável.

—Insociável, não, mãe... Muito competente. E essa é razão que seja condenadamente velho para esse tipo de tolices. - Resmungando para si, disse: - Seduzir a uma jovenzinha.

—Muito velho. E quando foi você o bastante jovem? Ao cumprir os doze anos, já tinha abandonado toda espontaneidade e começou a riscar seu lento e pesado caminho pela vida.

—Se esquece da Índia.

—Nunca me falou da Índia.

Throckmorton lançou um rápido olhar a sua mãe. Era mulher indomável, digna de toda confiança, inteligente e ardilosa. Mas era sua mãe. Ela o amava; sabia tão bem quanto sua mãe que não ia desfrutar com a contagem dos padecimentos que suportara na Índia.

—Havia uma guerra - disse de maneira cortante. - Houve traições e matei quando tive que fazê-lo. É suficiente?

A voz de lady Philberta se suavizou.

—Estava segura. Voltou... muito mudado. Mas agora não estamos falando de violência, mas sim de pagar o conveniente a uma mulher pelo bem da família.

Throckmorton se recordou do resplandecente rosto da senhorita Milford. Sabia quão escassa era aquele tipo de alegria no mundo e lamentou profundamente ter que esmagar tanta felicidade, tanta inocência como aquela.

—Quanta indiferença aparenta.

—Lamento se a senhorita Milford saia magoada, mas pensa nisso, Garrick. Temos outra rebelião florescendo na Índia... Quando estes indianos vão se dar conta que foram derrotados e se renderão?...

E como sempre, os russos fazem tudo o que está em suas mãos para alimentar qualquer conflito. - Lady Philberta deu um bom gole a ratafia. - Bastardos invejosos. Já têm seu próprio império. Por que querem o nosso?

—Porque o nosso é muito, muito rico.

—Não seja vulgar, querido.

Ele a corrigiu:

—Prático, mãe, prático. Tão prático como você.

—Lorde Longshaw nos proporcionará uma base na concha setentrional da Índia.

Throckmorton conhecia a situação na Índia ainda melhor que sua mãe. Tinha passado ali seu tempo dedicado a missões de exploração, entregue a prolongadas missões diplomáticas entre os arrogantes caudilhos e, quando todo o resto fracassava, lutando em penosos combates. Já não trabalhava em altares dos interesses da Grã-Bretanha - e dos seus próprios - fisicamente; em seu lugar, dirigia aos homens e mulheres que lutavam sobre o terreno para assegurar o domínio britânico sobre as riquezas da Ásia Central.

—Não podemos renunciar a essas plantações - disse lady Philberta.

—Não, embora renunciaremos a uma instrutora formidável.

Se dirigiu a escrivaninha e leu a carta que esteve estudando atentamente.

 

Eu era um viúvo com dois filhos, casado com uma viúva que também tinha outros dois. Quando a senhorita Celeste chegou, o quarto de estudo era um caos; meus filhos enfrentavam aos de minha esposa, e esta e eu nos víamos obrigados a tomar partido, e, em definitivo, não tínhamos um lar feliz. Então, como se se tratasse de uma fada inglesa, ela agitou sua varinha mágica sobre nossa família e fechou todas as feridas. Ofereci muito dinheiro a ela se nos acompanhasse em nossa volta a Rússia, mas ela diz que não. Quer voltar para a Grã-Bretanha. Então só fica nos despedir dela com tristeza e recomendar a você, ai, o mais privilegiado dos destinatários.

 

Throckmorton levantou o olhar para sua mãe. Lady Philberta lhe devolveu um olhar de impotência.

—Parece perfeita para conseguir que a paz volte a reinar de uma vez no terceiro andar. Foi uma boa escolha, e sei quanto odeia que seus planos se danifiquem. Se não fosse tão condenadamente bonita!

—Sua expressão se entristeceu. - Mas o é, e não falamos do mais importante dos temas, para mim ao menos. Ellery.

—O que lhe passa?

Sua mãe cravou nele seu olhar sereno e desapaixonado. O olhar de sua mãe, que tinha uma força tremenda para expressar reprovação, ansiedade, amor...

—Não falamos nisso, mas sabe muito bem a que me refiro. Sempre pensei que Ellery se endireitaria quando ficasse mais velho, mas cada vez está pior. Joga como se não tivesse nenhuma preocupação e bebe muito.

E as pessoas estão começando a murmurar. Conheceu lady Hyacinth. Pensei que gostava mais do que dizia e que talvez suas ideias melhorassem. E o que temos agora? À encantadora e proibida senhorita Milford.

—Se aproximou até ele e o olhou diretamente aos olhos. - Acredita que é capaz de enganar à senhorita Milford?

—Esta noite tive um bom começo.

—A brotoeja de Ellery só durará dois dias no máximo.

Throckmorton segurou sua mão e deu tapinhas tranquilizadoramente.

—Então, já me ocorrerá outra coisa dentro de dois dias.

Ellery avançava com passo lento e cambaleante pelos corredores às escuras; na mão, fortemente agarrada, levava a garrafa. Eram quatro da madrugada. Não podia dormir. Todo o seu corpo ardia.

Os ecos da festa se sossegaram finalmente, e os últimos convidados desapareceram de debaixo de sua janela. Sem nada que o entretivesse, tinha saído em busca de alguém com quem falar, a quem abraçar, a quem contar quão estupendo era estar coberto de manchas vermelhas e escamosas que ardiam como um demônio e lhe ardiam quando se coçava. Estava até o alto da cabeça dos banhos de flocos de aveia; queria uma mão amável e uma voz suave que lhe sussurrasse ao ouvido.

Então procurava Celeste, a doce e pequena Celeste, a filha do jardineiro. Garrick se mostrara sarcástico a respeito, pelo o fato de que fosse a filha do jardineiro, mas quando percebeu que Ellery a queria de verdade, Garrick fizera o correto. Sempre se podia contar com que Garrick fizesse o correto.

Fazia que alguém desse vontade de vomitar.

Não, não é que não gostasse de Garrick. Se deteve e, levantando o dedo, o agitou para algum caluniador invisível. O bom Garrick era seu irmão, e talvez fosse mortalmente aborrecido e o tipo para quem dançar em cima da mesa fosse algo execrável, mas Ellery considerava que Garrick era um dos melhores homens do mundo. Vá, quando a urticária começara em Ellery, Garrick se oferecera imediatamente para cuidar de Celeste! E tudo para mantê-la afastada de outros homens que poderiam ter feito a corte a ela.

Sim, o bom Garrick era o melhor irmão do mundo.

Celeste crescera vivendo junto à estufa, em um aposento que compartilhava com seu pai. Ellery não era tão tolo para procurá-la ali. Garrick esteve esperando com impaciência a chegada dessa instrutora e lhe fizera preparar uma suíte no terceiro andar, não longe do quarto das meninas.

Mas Ellery não subira ao terceiro andar desde... desde antes da chegada de sua filha. Fez uma careta, se pendurou no corrimão e ficou olhando fixamente a escada envolta em sombras.

Sua filha. Kiki. Deu um bom gole à garrafa de vinho. Exaltada, volúvel, exigente... Igual a sua mãe. Como diria Garrick... igual a Ellery. Talvez fosse assim. Possivelmente a menina saísse a ele.

Não podia acreditar que aquela atriz levara tão a sério o que lhe tinha metido dentro só por diversão. Ter uma menina quase o fazia parecer... um adulto.

Se agarrando ao corrimão, começou a subir os degraus com cautela, falhando somente em um... no último. Caiu de joelhos sobre o chão de madeira. Isso lhe doeria no dia seguinte, mas essa noite se sentia muito bem. Mas que muito bem. Se levantou e se enfiou no corredor que dava para o quarto das meninas e o aposento da instrutora.

Garrick se encarregara de procurar uma instrutora que cuidasse das meninas; assim era como devia ser. Garrick tinha uma filha. Garrick esteve casado. Garrick era um adulto. Um adulto dos de verdade, prudente e sensato. Mas Ellery, não; Ellery não era responsável. E não podia se casar. Era uma discrepância pensar que pudesse. E nada menos que com Hyacinth. Ela nem sequer era o bastante velha para saber beijar. Em uma ocasião a levara atrás de um roupeiro e apertara seus lábios contra os dela, e ficara tão nervosa que seus dentes tocavam castanholas.

Ele não podia se casar com alguém assim! Era virgem. Podia não fazê-lo bem e produzir asco a Hyacinth, e então seria um inútil ainda maior do que já era.

Não, não passaria um mau momento pensando que podia chegar a ser uma pessoa responsável. Por que teria que sê-lo? Não tinha nada pelo que se responsabilizar.

Talvez se ele... se apoiou contra a parede, jogou a cabeça para trás e deu uma risada velhaca. Nem pensar. Grande estupidez.

De repente franziu o cenho. Se encontraria com sua filha ali acima? Olhou ao redor com os olhos nublados. O abajur de noite mal Iluminava o corredor, e as portas estavam fechadas. Kiki estaria dormindo.

Igual a Celeste, mas entraria às escondidas em seu dormitório e iria até a cama... Fizera isso um montão de vezes antes com outras mulheres.

Não é que Celeste fosse como as demais. A amava de verdade e a respeitava. Não a utilizaria como se fosse uma criada. Ela se alegraria de vê-lo, o abraçaria e lhe diria o bonito que lhe parecia.

Mas ele não ia acender nenhuma luz. Não, é obvio. Porque tinha um aspecto que parecia que o açoitaram com uma alga[7]. Levou o braço até o nariz e cheirou o roupão de cetim brocado.

Mas ele não cheirava assim. Não. Ele cheirava a café da manhã. Considerou o fato um instante, e um sorriso iluminou seu rosto. Todo mundo gostava do café da manhã.

O dormitório de Celeste estava justo à frente. O delatava o intenso aroma de pintura recente e a cola de empapelar. Bem, deviam ter deixado o quarto precioso para sua preciosa garota.

Ajustou as lapelas do roupão, ergueu os ombros e bebeu o que ficava de vinho. Com um cuidado exagerado colocou a garrafa no chão e segurou o trinco da porta. Abriu a porta e entrou no quarto com confiança.

 

"Não podemos voltar a fazê-lo." Celeste pronunciou as palavras em voz alta. As pronunciou com firmeza, com tranquilidade, com resolução... para o vazio e ressoante dormitório. Fingia que estava falando com o senhor Throckmorton para que quando fosse realmente a seu estúdio não titubeasse. E precisava ir falar com ele; ordenara. Queria que falassem sobre as meninas...

Vá, mas essa não era a razão pela qual ela iria vê-lo. Iria porque a beijara. A perversidade do senhor Throckmorton a manteve acordada toda a noite e não parara de dar voltas na cama, apesar que o grande dormitório dispunha de lareira e de um aquecedor de cama sob os lençóis.

E teria gostado de saber como os criados souberam quando ela ia à cama. Como souberam quando acender a lareira e esquentar os lençóis? O senhor Throckmorton devia ser o culpado de todos aqueles horríveis atentados. De ocasionar a urticária de Ellery. De tira-la do meio. De beijá-la até... até que ela se esquecesse de suas argúcias, provocou a brotoeja de Ellery. Certamente fora ele.

Na brilhante luz da manhã a Celeste não cabia nenhuma dúvida da absoluta conveniência da erupção.

Se olhou atentamente no pequeno espelho a fim de examinar seu aspecto. Embelezada com aquele resistente vestido de sarja, dava uma impressão de esmero. Atou um generoso pedaço de fita de cor dourada claro ao redor da cintura, o atou pela frente deixando cair os extremos pelas dobras da saia e rodeou no alto a recolhida trança da cabeça com uma tira estreita da mesma fita. Usava um colarinho dourado de rendas, com a borda de festão para vestir o decote. As mangas, longas, punham em relevo a magreza de seus braços. Durante sua estadia em Paris tinha aprendido multidão de fantásticos truques para a mulher, não sendo o menor de todos o de saber como realçar o atrativo de suas feições de maneira econômica.

Entretanto, aquela imagem que a olhava escrutinadora do espelho era a de uma mulher sensata. Dera aulas a quatro meninos, vivido no estrangeiro, visitado a Itália e Espanha e veraneado na Rússia na casa de campo do embaixador. No ínterim deixara de ser uma garota insípida, tímida e tola e se converteu em uma mulher. Nada deveria chateá-la... E entretanto, o aborrecido senhor Throckmorton a envolvera na inquietação nada menos que na primeira noite. Bom, diria a ele que não podia voltar a acontecer; que nada voltaria a ocorrer entre eles dois porque amava Ellery.

Saiu com decisão ao corredor fracamente iluminado. Enquanto se dirigia para a biblioteca ia murmurando as palavras: "Não podemos voltar a fazer isso nunca mais", e, tranquilizada pelas mesmas, se sentiu tão decidida como amadurecida.

Entretanto, ao se aproximar do escritório de Throckmorton através da ensolarada sala de espera, começaram a pesar os pés. A sala fora desenhada para relaxar, e as estantes, a altura das janelas e a comodidade das cadeiras estavam pensadas para acolher a qualquer um que esperasse para falar com o senhor Throckmorton. Se aproximando nas pontas dos pés até a porta interior, que estava aberta, escutou, mas não ouviu nenhum som. Bom, por que recordava com tanta claridade o que tinha acontecido na última noite no silêncio daquele corredor? Quando lhe assaltava o pensamento de que precisava ver o senhor Throckmorton, se recordava de como sabia. Outras mulheres, nem de longe tão sofisticadas como ela, beijavam ocasionalmente aos cavalheiros sem levar um desgosto por isso.

Outras mulheres não pareciam encontrar aquele ato tão íntimo como ela, embora possivelmente se devesse a sua falta de experiência; ou talvez - abstraída, se deteve com um pé no ar, - talvez os beijos de Ellery se revelariam melhores que os de seu irmão. Sim, os beijos de Ellery apagariam a sensação que os lábios do senhor Throckmorton deixaram nos seus.

Portanto, a única coisa que precisava fazer era entrar ali com resolução e dizer: "Não podemos voltar a fazer isso nunca mais".

Em vez disso, golpeou o marco da porta com os nódulos.

—Senhor Throckmorton? - chamou. Não houve resposta.

Entrou e se deteve na metade do escritório vazio olhando para todas as partes. Haviam voltado a decora-lo. Todos e cada um dos móveis eram produto da reflexão e de um gosto delicioso, e não mostravam nem um ápice da personalidade do senhor Throckmorton... Fosse qual fosse esta. Celeste franziu o cenho. Não se tratava de que a personalidade do senhor Throckmorton lhe resultasse incompreensível.

Conhecia Garrick desde a infância; mas o homem que conhecera a noite anterior não parecia ser o mesmo. Ele sempre a intimidara, embora depois da última noite ela já não se sentia intimidada.

Nesse momento, ela estava... Bom, não sabia como estava. Decidida a não ser beijada, disso estava segura.

Se sentou na cadeira reta de madeira situada diante do grande escritório reluzente e decidiu que sua curiosidade sobre o senhor Throckmorton era normal. Em Paris descobrira a si mesmo como uma mulher simpática e cheia de vivacidade. Sem dúvida, uma personalidade absorvente como a dele não devia despertar nenhum interesse.

Sentiu que a cadeira era dura e que sua posição a obrigava a estar de costas para a porta. Mudou para a outra que estava encostada à parede lateral e se perguntou se não devia ir à cozinha para tomar o café da manhã. Entretanto, estava tão desejosa de ter aquela conversação, em que diria ao senhor Throckmorton que... Uns murmúrios breves e confundidos procedentes da sala de espera atraíram sua atenção.

Alguém, uma mulher, falava apressadamente quase entre ofegos, mostrando sua consternação e preocupação. Outra pessoa, um homem, respondia. Celeste reparou sobressaltada em que ambos estavam falando em russo, idioma que entendia.

—O inglês foi traído. A polícia o deteve no lugar de reunião e o levaram, e depois não se teve notícias dele. - A mulher falava um russo das classes baixas, igual ao dos criados do embaixador.

Assustada, Celeste se esmagou contra a parede. O que ocorrera? Quem era a russa que estava falando? E o que estava fazendo na Grã-Bretanha?

—Está segura? Viu com seus próprios olhos? - O homem utilizava uma entonação mais aristocrática, embora falava um russo tosco e incorreto.

—Por completo. Também podiam ter me pego, mas minha carruagem perdeu uma roda e cheguei tarde.

—Uma circunstância afortunada. - Não deu a impressão de que o homem pensasse realmente que fosse.

—Alguém revelou o lugar - disse apressadamente a mulher com voz gutural. - É a única explicação. Tem que dizer ao chefe, Stanhope.

Stanhope! Celeste se recordava dele. Fora o secretário do senhor Throckmorton, seu fiel companheiro dos anos na Índia, e, conforme recordava, estiveram muito unidos. Alto e refinado, o senhor Stanhope sabia combinar o ar inquieto do aventureiro com a autossuficiência do aristocrata inglês. Usava o cabelo perfeitamente cortado. Seu nariz, branco e arrebitado, estava salpicado de sardas, e o homem tinha um sorriso que seduzia por igual a homens e mulheres. Vestia bem, e em sua roupa se mesclava o estilo dos lordes da alta sociedade com a sóbria indumentária dos homens de negócios de Londres, com os que tratava frequentemente.

—Entendo, Ludmilla - respondeu Stanhope. - Direi ao chefe. Agora deve ir descansar. Fez um longo caminho e tem que partir quanto antes.

—Poderei ver o chefe antes de ir? - perguntou a mulher. - E lhe transmitirá exatamente minhas palavras?

Stanhope não se mesclava com os criados. Na cozinha todos zombavam dele pelos ares que se dava e as ordens que repartia, e, o que era ainda mais importante, o pai de Celeste nunca gostara dele.

Qualificara-o de tolo intrometido com muitas presunções. E Celeste aprendera a respeitar os julgamentos de seu pai.

Nesse mesmo momento não estava gostando nada do tom que Stanhope utilizava com a pobre e comocionada mulher.

—Não sei se o patrão tem tempo para te ver - espetou ele. - Está ocupado, e ninguém deve saber disso.

—Me dou conta, mas...

—Não está guardando nenhuma informação para você, não é? - O tom de Stanhope parecia duro.

—Não, mas eu gostaria...

—Então não tem nada a temer. Falarei com ele e contarei tudo o que me disse. Tudo irá bem.

As vozes estavam se apagando, mas Celeste podia perceber com claridade a angústia na voz da mulher.

—Mas saíram mal tantas coisas que temo por minha vida.

—Me encarregarei de tudo.

Estavam se afastando. Celeste se sentou e apoiou a cabeça contra a parede com força, tentando compreender o significado da conversação ouvida ao azar. O chefe? O senhor Throckmorton? Por que teria que receber informação sobre um inglês e sua detenção? Por que a mulher temia por sua vida? Por que...?

Ouviu que dois homens entravam na sala de espera. A porta se fechou atrás deles, e Celeste se perguntou com inquietação se devia chamar a atenção sobre sua presença.

—Não queria vê-lo. Desejava retornar imediatamente. Já sabe quão tímida é - disse Stanhope.

—Entretanto, deveria vê-la. - O senhor Throckmorton. É obvio. - Isto é sério. - Parecia sério. E ele parecia sério.

"Devem estar falando da mulher russa", Celeste pensou.

—Já se foi. Me assegurou que a captura de nosso homem foi uma mera coincidência. Simplesmente estava no lugar equivocado e na hora equivocada.

Celeste se perguntou quanto teria perdido da conversação entre o Stanhope e a mulher. Ou poderia ser... que o russo de Stanhope fosse culto, embora não fluido.

Talvez não tivesse compreendido os matizes. A porta da sala de espera se abriu.

—Envia a alguém atrás dela - ordenou o senhor Throckmorton em um tom imperativo. - Veja se pode detê-la. Quero falar com ela.

—Sim, senhor. - Se ouviu um ligeiro golpe, como se Stanhope fizesse entrechocar os calcanhares.

A porta se fechou. Tal circunstância aborreceu a Celeste, sabendo que precisava enfrentar ao senhor Throckmorton e que dava toda a impressão de ter estado escondida em seu escritório, se inteirando, sem poder evitar, de tantíssimas coisas. Mas aquilo lhe trouxe para a memória as intrigas que espreitavam a cada passo na mansão do embaixador, onde aprendera a encarar imediatamente qualquer situação e sem se sobressaltar.

Assim saiu de trás da porta e com a dignidade de uma mulher que se sabe em uma posição difícil e disse:

—Senhor Throckmorton? Senhor?

Nesse momento se dirigia a seu escritório e nem se deteve nem se sobressaltou, quase deu a impressão de que sabia que Celeste estava ali. A olhou diretamente.

—Garrick.

Celeste deveria ter sabido que ele não se esqueceria.

—Não é correto falar de maneira tão informal quando...

Ele parou justo diante dela, lhe tocando a ponta dos pés com os seus.

—Quando estamos trabalhando? Durante o dia? - se inclinou sobre ela um pouco mais sem sorrir, mas com uma boca digna de recordar. - Quando ainda não nos beijamos?

Quando aprendera a ser tão desconcertante?

—Trabalhando. E durante o dia. Se acabaram os beijos. Não podemos voltar a fazê-lo.

Throckmorton se ergueu, se afastando dela.

—Me chame Throckmorton.

—Throckmorton.

—Minha mãe é a única que se sente cômoda me chamando Garrick. Foi uma tolice pensar que pudesse ser... - suspirou - diferente.

Celeste não acreditou que sua intenção inicial fosse dizer "diferente", mas apenas se atreveu a pensar em outras opções, tais como valente ou, inclusive, compassiva... O senhor Throckmorton era um homem rico e ocupado. Não podia se sentir sozinho.

Abandonou a ideia de propósito, assim como o impulso de ternura que provocara.

—O senhor Stanhope não entendeu corretamente à mulher. - Então se deu conta de quão categóricas soaram suas palavras e tentou expressá-las de outra maneira. - Ao que me refiro é que estava aqui sentada, esperando-o, quando ouvi que o senhor Stanhope falava com a Ludmilla...

O senhor Throckmorton passou tranquilamente por seu lado, se sentou atrás da escrivaninha e cruzou as mãos. O sol brilhava através da janela que se abria a suas costas, e a contraluz não fez a não ser convertê-lo em uma figura imóvel e escura. Em um tom tão gélido como as estepes russas, Throckmorton disse:

—Stanhope falou com Ludmilla ontem à noite.

—Ah - Celeste ficou sem saber o que dizer. - Supus... Tinha dado por certo que estava se referindo à mulher russa que estava aqui faz um momento.

Se produziu um silêncio prolongado.

—Acaba de ouvir uma mulher russa falar com o Stanhope?

—Faz apenas um momento. Aí fora. - Celeste fez um gesto para a sala de espera.

O senhor Throckmorton voltou a fazer uma pausa. A olhou de cima abaixo, com um olhar tão intenso que parecia estar lhe arrancando a pele da carne.

—Que disse a mulher russa?

—Que o inglês fora traído e detido. Que ela esteve a ponto de se ver implicada também, mas que devido a um acidente chegara tarde. Queria falar com você... Isto é, desejava ver o chefe, e supus que se referia a você, mas Stanhope lhe disse que não, que você estava muito ocupado. A enviou para descansar em algum lugar.

—Se dá conta que está acusando Stanhope? - A pergunta foi feita com contundência.

—De não entender o russo.

Throckmorton se levantou de trás da escrivaninha, tampando o sol com a largura de seus ombros.

—É um idioma muito difícil. - Celeste desculpou Stanhope. - Estive na Rússia com o embaixador e sua esposa. Diante de mim se negavam a falar em outro idioma para que pudesse aprendê-lo corretamente.

Se não fosse por sua insistência, provavelmente não entenderia nenhuma palavra, porque falavam francês e inglês com fluidez.

Throckmorton se dirigiu à porta.

—Espera aqui.

Pelo tom de sua voz Celeste soube que se tratava de uma ordem.

Throckmorton percorreu a grandes passos o corredor que conduzia aos aposentos de sua mãe, enquanto sua mente analítica punha em ordem os fatos.

FEITO: Durante o último ano sua organização de inteligência cometera muitos enganos.

FEITO: Os russos aspiravam dominar a Ásia Central, e pelas mesmas razões que os britânicos: as riquezas da Índia e das terras de além mar eram inimagináveis.

FEITO: Ele precisava confiar em um intérprete, porque não sabia falar russo.

Soltou um grunhido ao considerar aquela circunstância. Era capaz de resolver os problemas matemáticos mais difíceis; estava no segredo das sutilezas da diplomacia; podia equipar a uma expedição e conduzi-la pelas passagens do Himalaia; sabia organizar uma festa, dançar a valsa e beijar Celeste até submetê-la... Mas mal era capaz de dizer umas quantas palavras em outro idioma que não fosse o seu, e ainda menos de compreendê-las. Era seu defeito. E odiava não estar à altura e odiava ainda mais a posição de dependência em que o colocava seu ponto fraco. O qual o conduziu ao seguinte feito: dependia de Stanhope para interpretar as mensagens que lhe chegavam naqueles outros idiomas. Stanhope falava russo e alemão, francês e italiano, urdu e fundi. Seu secretário tinha o talento para os idiomas que lhe faltava. Aquilo fora a primeira coisa que o atraíra em Stanhope.

FEITO: Celeste trabalhara para o embaixador russo durante três anos.

Celeste podia ser uma espiã.

Golpeou com firmeza a porta de lady Philberta. A donzela de sua mãe, Dafty, abriu a porta disposta a dar quatro gritos pela interrupção, mas se deteve ao vê-lo. Dafty não estava ao serviço de Throckmorton; trabalhava exclusivamente para sua mãe como donzela. Estava acostumada a dar recados e realizar missões que teriam feito estremecer à maioria das mulheres em somente imaginar isso.

Dafty não estremecia por nada; a guardiã inglesa demonstrava uma têmpera tão inestimável como permanente.

A mulher fez uma reverência.

—Senhor?

—Tenho que falar com a senhora em seguida.

Dafty desapareceu nas profundidades da suíte. Throckmorton a ouviu falar e, quase imediatamente, a mulher estava de volta.

—Está terminando de se arrumar, senhor, mas diz que pode entrar.

Seguiu Dafty até o vestidor, e ali viu sua mãe vestida com um robe, a cara sem maquiar e o cabelo caindo pelos ombros sem ordem, nem concerto. Nesse momento, ela aparentava toda a idade que tinha, e lhe recordou a um veleiro ancorado e sem vela que balançasse torpemente.

—Que problema é esse tão importante que não pode esperar? - Parecia tranquilamente interessada.

—Esse problema é Celeste.

A idosa arqueou as sobrancelhas de repente.

—Não pode dirigi-la?

—Não se trata disso. Afirma que Stanhope mentiu a respeito de uma mensagem que me deu hoje.

—Disse isso?

Dafty aplicou repetidamente uma borla de pós sobre as faces de lady Philberta.

Lady Philberta espirrou por causa da nuvem de talco.

—Não exatamente. Disse que Stanhope não entendia bem o russo.

—Claro, ela tem que falá-lo. - Lady Philberta assentiu com a cabeça. - Mas como ela sabe...?

—Estava em meu escritório. - Throckmorton lhe explicou a situação enquanto Dafty terminava de pentear lady Philberta. Quando acabou de falar, sua mãe tirou o bote de ruge de Dafty e lhe disse:

—Querida, teria a amabilidade de ir correndo ver se pode encontrar Ludmilla dentro da casa? Temos que falar com ela a todo custo.

Dafty fez uma reverência.

—Depressa - acrescentou lady Philberta. - E não deixe que Stanhope a veja.

Com uma competência silenciosa que emprestava solidez à fé que lady Philberta tinha nela, Dafty abandonou a habitação.

—Os russos o descobriram. Enfim, você coordenou o assunto da Ásia Central durante quatro anos. Era difícil passar desapercebido por mais tempo - disse lady Philberta filosoficamente.

—Pelo que entendi, acontece com todos. - Zangado pela importunidade, mas sabendo que teria sido igual de mal em qualquer outro momento, se mantinha muito sereno e reflexivo.

—Teremos que aumentar a vigilância ao redor da propriedade.

—As meninas. - Lady Philberta levou a mão ao coração. - Dê a eles a mínima oportunidade e os russos não hesitarão em agarrar Penélope ou Kiki e as utilizar para te tirar informação confidencial.

Throckmorton já pensara nisso, e um medo desconhecido revolveu suas vísceras.

—As meninas terão um guarda-costas a todo momento, e não só quando saírem. - Nenhuma precaução era o bastante boa, mas ele escolhera a seus homens com cuidado. Falaria com eles, se asseguraria que suas lealdades não fraquejaram, como temia que passara com a de Stanhope . - Se Dafty encontrar Ludmilla, como falaremos com ela? Teremos que mandar procurar um intérprete. Você tampouco possui o dom dos idiomas.

—Assim é, e sinto que tenha herdado isso de mim. - Lady Philberta colocou uma unha postiça perto da boca. - Se a encontrarmos, temo que teremos que convir que Stanhope nos mentiu.

—Mas por que? Porque nos mentiria? Por que...trairia tudo pelo que lutamos, tudo o que considerávamos sagrado?

—Dinheiro. - A idosa moveu a cabeça. - Querido, sei que é seu amigo, mas reflete. Quando lhe conseguiu um lugar na universidade, não teve paciência para terminar o curso que o habilitaria para atuar ante os tribunais superiores. Quando lhe entregou a administração das propriedades, demonstrou ser um incompetente para levar a contabilidade. E suas desventuras amorosas rivalizam com as de Ellery.

—Entretanto, em todos os anos que está comigo, que foram muitos, se revelou como um servidor indispensável e fiel, tanto para mim como para o império britânico. Viajou comigo aos mais terríveis postos avançados em territórios absolutamente primitivos. E nas negociações com os rajás e oficiais hostis sempre demonstrou ser de uma total confiança.

Se inclinando para o espelho, lady Philberta aplicou uns toques de ruge nas faces e o estendeu com a ponta dos dedos.

—Sim, mas conheci a outros homens que também eram grandes aventureiros e que nunca foram capazes de se adaptar à realidade da vida cotidiana. Stanhope está ficando velho, e apesar de seus prometedores começos não é mais que seu secretário.

—Subimos ao passo de Rohtang e sobrevivemos a uma avalanche. - Throckmorton passou os dedos pelo cabelo bem penteado. - Bebíamos leite de yak coalhado.

Sua mãe suspirou com impaciência.

A traição de seu amigo rompia seu coração.

—Salvou minha vida, mãe.

Os dedos de lady Philberta titubearam sobre o lápis de carvão vegetal.

—Fez isso?

—Em uma emboscada. Recebeu uma navalhada que ia destinada a mim.

—Quantos anos faz que aconteceu isso? - perguntou sua mãe, dando uma importância deliberada.

Throckmorton se voltou para a janela para debater-se com suas dúvidas.

—Seu pai era barão e sua mãe, filha de um conde, e uma das mulheres mais frias que jamais tenha conhecido. Stanhope cresceu entre a aristocracia, e se supunha que ocuparia um lugar entre o mais amadurecido da sociedade quando seu pai perdeu tudo em uma só partida de whist e atirou em si mesmo. - Lady Philberta tinha uma expressão concentrada quando entrou no vestidor e declarou: -

Você é respeitado. É rico. E tem uma família, embora é certo que seja difícil.

—Parte dela. - Throckmorton ouviu o frufrú da seda.

—Parece ter tudo. Tem inveja de você.

—Sim, mas o que na superfície parece ser perfeito, não é, e ele conhece meus segredos. Sabe as horas que trabalho. Foi pagar às amantes de Ellery obedecendo minhas ordens. - Throckmorton ofereceu a Celeste como sacrifício. - E Celeste também poderia sentir inveja pelo êxito da família. A filha do jardineiro poderia ser uma espiã russa.

—Poderia.

Throckmorton não encontrou grande consolo na viçosa e civilizada candidata que era sua subordinada.

—Mas não o acredita provável?

—Não, mas estou neste negócio a quarenta e sete anos. - Lady Philberta voltou a entrar no quarto . - Não há nada impossível.

Throckmorton beliscou a ponte do nariz. Aquela não era a resposta que fora procurar. Queria que o convencessem, mas sua mãe, uma antiga agente da rede de espionagem britânica, não estava com muita disposição para fazê-lo.

—Não deveríamos subestimar a astúcia dos russos. Homens mais sábios que você sucumbiram a uma cara bonita. Talvez confiem em montar uma armadilha para você.

Se voltou para sua mãe.

—Mas enviar Celeste, quando suas atividades durante estes últimos quatro anos foram tão notórias! Não tem sentido. Não tem sentido que voltasse para desonrar seu pai. Nem tem sentido que tratasse de conquistar Ellery quando o prêmio gordo sou eu.

O vestido de tarde, longo e folgado em crepe prateado, de lady Philberta se inflava atrás dela. Usava o cabelo branco recolhido na nuca, com prolongações que desciam para cobrir suas orelhas.

Nesse momento, se movia com a suavidade de um navio com todo o velamento.

E, como sempre, Throckmorton se maravilhou ante a transformação.

Sua mãe se deteve junto à cadeira, pegou um xale de caxemira e o jogou pelos ombros.

—Onde está agora?

—Em meu escritório, esperando a que ordene o que me agrade. - Fez uma careta de dor. Uma má escolha de palavras.

Lady Philberta teve a gentileza de as ignorar.

—Não devemos perder de vista que ela pode ter manipulado a situação para chamar sua atenção. Está em seu escritório.

—Os russos seriam uns idiotas se confiassem em sua beleza para me nublar a razão.

Sua mãe riu com indissimulado regozijo.

—É insultante para você que talvez pensassem que pudesse ser vulnerável, não é?

O dia começara mal e estava se desintegrando a passos rápidos, e Throckmorton pensou que sabia a quem podia jogar as culpas de seu desconcerto.

—Desde que apareceu ontem...

Lady Philberta manteve a gravidade da expressão com dificuldade.

—Não pode culpar à senhorita Milford de tudo.

—Isso é verdade. Também posso culpar Ellery.

—Eu diria que hoje já não sofrerá mais complicações por parte de Ellery - disse sua mãe no mais duro de seus tons.

—Vamos, mãe, não acredita que podia prever esse desastre no dormitório!

—Acredito que preveem mais do que diz.

—Não lhe aconteceu nada.

—Nada grave. - Levantou a mão para impedir qualquer outro protesto - Não importa, querido. Já está feito. Enquanto tenha Ellery controlado, podemos nos concentrar no problema de Stanhope. - Se dirigiu à porta.

—Ellery está controlado - disse Throckmorton. Em seu escritório esperava Celeste, uma mulher que, se não era a sedutora, seria a seduzida.

 

Celeste dava cabeçadas sobre um livro que tinha tirado da estante do senhor Throckmorton quando ouviu que este se aproximava. Esfregou as faces para dissipar o torpor, se levantou e se voltou para a porta aberta.

—Celeste! - Ele se aproximou dela com um andar suave e fluído.

Já não tinha aspecto severo e, embora não fosse Ellery - ela não conhecera nunca a um homem tão bonito como Ellery, - transmitia força e segurança a cada movimento.

Os comentários de Celeste a respeito das habilidades idiomáticas do senhor Stanhope provocaram uma inquietação maior do que ela percebera, mas estava segura que o senhor Throckmorton dirigiria a situação.

Era o tipo de homem que dirigia todas as situações.

Apontando o livro que Celeste tinha na mão, Throckmorton disse:

—Oliver Twist. O que te parece?

—Eu não gosto.

Na cara de Throckmorton floresceu lentamente um sorriso.

—Sério? Por que?

—Porque é confuso e lento, e o pequeno Oliver é tão mártir que se faz difícil que a alguém importe se sobrevive ou não. - Recordando que o livro era dele e que, provavelmente, fosse um de seus prediletos, acrescentou: - Mas estou segura que melhorará à medida que o leia.

—Não se preocupe. - Throckmorton o arrancou de suas mãos. - Desde o começo a considerei uma mulher de rara sensatez. Me alegra ver confirmada minha opinião.

Sua franqueza e falta de tato provocaram em Celeste o desejo de soltar uma gargalhada, mas, em certo sentido, à luz do dia as risadas compartilhadas pareciam mais perigosas que um beijo compartilhado.

Então se limitou a observá-lo com gesto grave.

—O que aconteceu a mulher? A encontrou?

Throckmorton lhe selou os lábios com o dedo.

—Esqueça dela. Já estão se ocupando do problema. De fato, preferiria que não voltasse a mencioná-la. A ninguém. Me prometa isso...

Celeste assentiu com a cabeça, mas os pensamentos se amontoaram em sua mente. Que intrigante. Conforme parecia, o senhor Throckmorton pensava que Stanhope tinha tergiversado de propósito as palavras da mulher, mas por que?

—Basta de falar disso - insistiu o senhor Throckmorton. Apertou-lhe o dedo contra os lábios com mais firmeza (parecia que gostava de lhe tocar os lábios) e o retirou. - Não tem nenhuma importância.

Falemos sobre...

—O que não podemos voltar a fazer. - A última vez que o havia dito, ele não respondera, então o encarou com o queixo levantado. - Não esteve bem. Sou consciente de que só foi uma resposta espontânea à pouca luz e à música, e nada pelo que devamos nos atormentar mas sinto que devo esclarecer minha postura.

Durante seu discurso, Throckmorton levantou as sobrancelhas e as manteve em um gesto interrogante.

—Perdão, querida, mas... sua postura a respeito do que?

—Do beijo!

As sobrancelhas baixaram. Eram umas sobrancelhas bastante bonitas, cheias e negras, que sobressaiam sobre uns olhos cinza orlados por umas pestanas negras, mas a Celeste desconcertou que ele pudesse transmitir opiniões mediante seu uso. Nesse momento estava se divertindo, então ela esperava o comentário, um tanto condescendente, de que estivesse fazendo um mundo de uma simples saudação.

Mas não foi isso o que Throckmorton disse.

—Tinha a esperança de falar sobre Ellery - disse.

—Ellery?

—Sim. Lembra de Ellery, meu irmão? Um alto... - Indicou com a mão uma altura algo inferior à sua, - bonito e muito ágil?

Throckmorton tinha uma inclinação bastante desagradável pelo sarcasmo.

—Sim, eu contava em ver o Ellery hoje.

A expressão de Throckmorton não mudava nunca.

—Como deseja, mas não gostará.

—Não me importa ver umas quantas manchas.

—Agora se trata de algo mais que umas quantas manchas. - Throckmorton pigarreou. - Ontem à noite Ellery foi vítima de uma pequena catástrofe. Acredito que todos os criados do andar de cima se inteiraram.

Consternada, Celeste ficou sem fôlego.

—Que tipo de catástrofe? Está...?

—Não sofreu feridas consideráveis. - Throckmorton parecia ter dificuldades para manter sua circunspeção. - Entrou às escuras no dormitório equivocado. Caiu em cima de uma mescla de cola e pintura velha e puxou uma escada e uns cortinados recém pendurados. A governanta enlouqueceu do susto, e as donzelas do quarto das meninas gritaram tanto que despertaram.

—Estava no quarto das meninas?

—Em um dormitório contiguo ao das meninas. Agora, além de tomar os banhos de aveia, seu camareiro tem que lhe cortar os pedaços de papel de parede aderidos a seu cabelo, está com o braço na tipoia e está coxo. Por sorte, a pintura saiu em seguida, mas fez com que as manchas de sua pele ficassem azuis.

—Azuis?

Throckmorton fez um gesto, incapaz de descrever a cor.

—Desse azul que se consegue quando na lavanderia põem por acidente um par de meias azuis com a roupa branca.

Por desgraça, Celeste teve que se esforçar por reprimir o impulso atroz de rir também.

—Ah, pobre. - Consternada, pigarreou a garganta. Rir! E de Ellery! E com o senhor Throckmorton! Isso jamais ocorreria.

—Desejo ser muito clara. - Levantou o queixo para ele e se preparou.

—Penso me casar com Ellery.

Throckmorton piscou como se a veemência de Celeste o assombrasse.

—Bom... claro. Tinha a impressão que todo este alvoroço vinha a isso. O qual me faz recordar que quero que hoje compareça ao chá ao ar livre.

—Não mude de tema. Posso conseguir que Ellery me ame e... - de repente compreendeu o que Throckmorton acabava de dizer e isso a paralisou. Os chás eram uma tradição cotidiana dos Throckmorton quando a família se encontrava na residência, e, no verão, os lanches no jardim se serviam tanto para os membros respeitáveis como para os personagens mais infames do governo e da alta sociedade.

Lady Philberta gozava de uma justa fama pela elegância, variedade e animação dos assistentes; o pai de Celeste desfrutava com a beleza do cenário. Sem dúvida, a filha do jardineiro nunca teria sido convidada antes a outra coisa que não fosse servir o chá.

—Porquê...? Foi ideia de Ellery?

Throckmorton fez um rápido e seco movimento com a sobrancelha antes de falar.

—Controlo consignações marítimas e interesses em todo mundo e tenho a meu cargo as plantações do Oriente e do continente americano. Me acredita incapaz de organizar o simples golpe de situa-la para que tome de assalto à alta sociedade?

Celeste umedeceu os lábios.

—Não caí na conta...

—De que dirijo tantos interesses?

—De que estava me situando para que tomasse de assalto à alta sociedade.

—Algo temos que fazer. Ellery me encarregou que cuidasse de você. Considerei todas as opções, e acredito que se sentiria mais cômoda conhecendo às pessoas em um lanche que em um jantar formal.

Agarrou sua mão e deu uns tapinhas. - Deve fazer o que goste, é obvio, mas que tal se me permite te aconselhar?

Celeste assentiu, e seus pensamentos voaram ao dormitório, onde estava seu armário roupeiro. O que seria apropriado para um chá britânico ao ar livre?

Throckmorton continuou.

—Em seu lugar, eu não mencionaria minha relação com Milford imediatamente.

A mente de Celeste retornou ao escritório enquanto considerava se devia se ofender.

—Senhor Throckmorton, é meu pai e o melhor jardineiro da Grã-Bretanha. Estou orgulhosa de ser sua filha.

—Como ele o está de você. Só estava sugerindo que uma vez que a alta sociedade a tenha acolhido em seu seio (e com seu estilo e inteligência, o farão), acharão muito difícil te rechaçar com qualquer desculpa.

Se se propuser isto, é por Ellery; não gostaria que o rechaçassem.

Throckmorton o expôs com uma poderosa mescla de adulações, realismo e sonhos feitos realidade, e Celeste se deu conta que estava tão excitada como assustada.

—Obrigado por seus conselhos. Tentarei fazer o que me sugere.

—Mas?

—Mas se me perguntam, reconhecerei minhas origens.

—É obvio. Não minta jamais. Logo resulta muito difícil se recordar de quem disse o que. Agora, veem. - Atirou o livro a um lado. - A levarei aos aposentos de Ellery.

A agarrou pela mão, segurando-lhe como poderia ter feito um apaixonado, e começou a caminhar levando-a a reboque. Celeste sentia um comichão na palma ali onde descansava a de Throckmorton, enquanto seus dedos se moviam como se os nervos saltassem debaixo de sua pele. Puxou um pouco para trás, querendo opor resistência a aquele ato de intimidade, mas antes que pudesse protestar, ele colocou a mão em seu braço.

O passeio pela casa esteve cheio de obstáculos, a maioria sob a aparência de uns quantos convidados que se levantaram antes do meio-dia e que perambulavam pelos corredores em busca do café da manhã. Todos pararam para saudar Throckmorton e serem apresentados a Celeste, algo que o anfitrião fez com graça e simplicidade. Quando o convidado sondava a respeito das origens de Celeste, Throckmorton se desculpava dizendo que prometeram visitar o pobre Ellery.

Celeste desconhecia que aspecto tinham ela e Throckmorton juntos; só sabia que os convidados ficavam olhando de cima abaixo. Fazendo suposições. Estava segura que não pensariam... Mas o que importava o que pensassem? Logo descobririam a verdade. Enquanto isso, veria Ellery.

Ellery, o homem ao que amava de verdade. Ellery, com quem ela declarara que se casaria. E a reação de Throckmorton fora... nada especial.

Celeste se preparara para a luta, e ele se limitou a dar de ombros e a estar de acordo. Deveria estar exultante, mas em troca se sentia receosa. Insegura. Um pouco deprimida.

Throckmorton recebera a notícia tão bem que ela não podia evitar se perguntar por que?

Atravessaram corredores, subiram escadas e, finalmente, chegaram à porta situada no extremo de um amplo corredor.

Throckmorton fez um gesto com a cabeça. Celeste golpeou com os nódulos e chamou:

—Ellery, sou eu, Celeste!

A princípio não ouviu nada. Então, o trinco girou lentamente e a porta se abriu com um chiado apenas uns centímetros.

—Celeste? - A voz de Ellery soava grave e varonil. - Querida, é você?

Celeste apertou as mãos contra a madeira.

—Ellery, vim te ver.

—Não, enquanto tenha este aspecto.

Celeste olhou para Throckmorton por algum motivo. Ele permanecia imóvel e em silêncio, com a cara absolutamente inexpressiva. Mas suas sobrancelhas deviam estar expressando de novo uma opinião, porque ela percebeu a recriminação. Muito bem; Ellery seria um presumido, mas ao menos tinha algo do que presumir. Celeste falou com a porta.

—Não se preocupe por seu aspecto.

—As manchas estão melhorando. Logo poderei te ver de novo. - Vacilou. - Talvez me corte o cabelo de uma maneira nova e original...

—Não me importa. - Celeste se absteve de comentar que Throckmorton lhe contara o motivo.

—E estou coxo.

—Só quero ver você. - Não se atreveu a admitir em voz alta, mas queria se livrar da presença permanente e espreitante do irmão de Ellery.

—Throckmorton está aí? - perguntou Ellery.

—Aqui estou - A voz de Throckmorton soou tranquilizadora.

—Está cuidando de Celeste como prometeu?

—Estou fazendo.

—Aí tem, Celeste - cantarolou Ellery. - Throckmorton prometeu cuidar de você como merece, e meu irmão sempre cumpre suas promessas. Segue suas indicações e faça o que ele te disser.

Prometo que estará a salvo com ele.

Throckmorton tocou o braço de Celeste e lhe indicou que deviam partir.

Ela apertou as mãos sobre a madeira com mais força, sentindo o peso de Ellery contra o painel, desejando sentir a realidade de Ellery sob suas palmas.

—Lamento...

—Eu também lamento, querida - disse Ellery. - Vá com Throckmorton, e a verei amanhã.

Throckmorton rodeou sua cintura com o braço e a afastou.

Celeste quis se negar a partir... Grande tolice! Pronta para exigir que lhe permitisse ficar e falar com uma porta. Para insistir em que Ellery, obviamente a contra gosto, seguisse se comunicando com ela, quando preferiria tomar um banho de aveia ou se sentar com sua perna quebrada para o alto.

—Adeus. - A voz de Celeste falhou de uma forma muito angustiosa.

—Adeus, carinho. Se cuide. - A voz de Ellery parecia cálida e sincera, mas a porta se fechou com firmeza e ele desapareceu.

Celeste deu um tropeção com o tapete do corredor. Throckmorton a segurou, agarrando por debaixo do braço.

—Já ouviu Ellery: deve se cuidar. E isso exclui que se machuque.

—Sim. - Celeste estava zangada e se sentia desconjurada. Nada acontecia como deveria. Não se esclarecia consigo mesma; não sabia se pertencia ao jardim, ao salão ou ao quarto de estudos.

Mas conhecia a opinião de seu pai a esse respeito, que era muito diferente à sua própria.

Olhou de soslaio ao homem que a segurava pelo braço.

Mas o que diria Throckmorton? Aquele homem era um mistério para ela. Aparentemente, era um aliado, entretanto... Entretanto, não era o homem que ela recordava. O homem que ela recordava recorrera à força de sua personalidade para fazer que assistisse à Distinta Academia de Instrutoras. Insistira em que ela se amoldaria, que a experiência seria benéfica, e garantira que, se depois de completar a formação, não gostasse, ele pessoalmente a acompanharia de volta a Blythe Hall.

É obvio, ele teve razão. Londres encantara Celeste, e formar parte de uma multidão de garotas iguais a ela, a encantara a aventura. Mas, nesse momento...

Bom, nesse momento estava em casa e se sentia desconjurada.

Que devia fazer? Como podia se esclarecer? Chegaram perto do patamar de onde descia a grande escadaria e a escada menor subia ao terceiro andar. Foi ali onde encontrou a resposta.

—Já vai sendo hora de que conheça as meninas - proclamou.

Dessa vez foi Throckmorton quem deu um tropeção.

—Minhas pupilas. Esse era o motivo de que tivesse que ir visita-lo esta manhã.

—Em efeito. - Throckmorton teve um instante de vacilação. - Entretanto, preferiria que se preparasse para o lanche do jardim.

—O chá não será até dentro de quatro horas.

A agarrando pelo braço, Throckmorton a conduziu até a planta baixa.

—Te escutar falar com Ellery fez que voltasse a me recordar da importância de causar uma boa impressão no chá desta tarde. Disponha das donzelas que deseje para que a ajudem a se preparar.

Celeste voltou a olhar a escada.

—E as meninas?

—Será melhor que não as apresente no momento. Ao menos, até que descubramos qual será seu verdadeiro encargo.

—Mas...

—Não posso te mentir. É possível que o lanche de hoje seja difícil. Estará infestada de dificuldades, criadas pela alta sociedade para distinguir a aqueles que pertencem à mesma dos que não.

Quando aparecer, quero que esteja descansada, tranquila, banhada e bem alimentada. - Tendo chegado ao corredor que conduzia ao quarto de Celeste, fez uma reverência.

—É obvio, sua beleza acompanha a todas as partes.

A deixou ali de pé, o olhando fixamente enquanto se afastava, desventurada e confundida.

Que estranha mosca tinha picado ao geralmente cortês senhor Throckmorton? Por que não a deixava conhecer as meninas?

—Pai, diria que Throckmorton ficou louco?

Milford levantou a vista de sua árvore para olhar a sua filha, a luz de seus dias, parada junto a ele com uma elegante bandeja nas mãos e uma expressão de ansiedade no rosto.

Bom. Então já começara tudo.

—Trago sua comida - acrescentou.

—Obrigado, filha. - Colocou o desplantador à direita da azaleia (sempre o colocava ali, porque os desplantadores costumavam desaparecer), tirou as luvas e, ficando em pé, se estirou para desentorpecer as costas.

Provavelmente fosse muito velho para palear e tirar as ervas daninhas, mas gostava de colocar as mãos na rica turfa de Suffolk. Sabia que Celeste o compreendia.

OH, ela sabia muitas coisas a respeito dele. O muito que chorara a sua mãe. O muito que se inquietara por ela. O que Celeste não conseguia compreender era a si mesma nem o lugar que ocupava no mundo, e o coração de Milford se rasgava cada vez que se recordava de quão dura seria a queda de Celeste quando tudo acabasse. Mas ninguém melhor que ele sabia que uma pessoa jovem precisava aprender as lições por si mesmo.

—Louco, diz? - Aceitou a bandeja. - Throckmorton não!

—Me disse que o chamasse assim - disse Celeste à defensiva.

—Não, me refiro... Acreditava que estava falando do senhor Ellery.

—Ah. - Celeste sacudiu as saias. - O senhor Ellery está com uma urticária por causa dos morangos.

—Não me diga? - Milford se sentou no banco de pedra que havia debaixo dos ramos pendentes do salgueiro e olhou a bandeja que sustentava nas mãos. Esther tinha lhe enviado uma fatia de pão, umas fatias de queijo Stilton, um bolo de maçãs secas e uma jarra de cerveja. Conforme parecia, a cozinheira não teve tempo de enviar o almoço habitual, apresentado de forma primorosa, a base de fatias de pão e umas flores esculpidas de queijo. Talvez o trabalho estivesse começando a transbordá-la.

—Uma doença um pouco tola.

—Arde-lhe muito!

—Certamente não deixa que o veja ninguém, não é? - Milford assentiu com a cabeça ante o bufo delator de Celeste. - É um pouco presunçoso, nosso senhor Ellery.

—E com razão.

Ali de pé, com o sol que piscava através das folhas caindo sobre ela, Celeste se parecia tanto a sua mãe que Milford teve que pigarrear para desfazer o nó que lhe fez na garganta.

—Sente-se comigo. Compartilharemos o almoço.

Celeste se sentou com um revoo de saias.

Sim, também se comportava como sua mãe. Toda feminilidade e indignação, enquanto que um homem não tinha nem ideia do que fizera. Milford arrancou um pedaço de pão e o ofereceu.

Celeste o pegou e começou a mordiscá-lo por um extremo.

—Pensei que estaria ajudando a adornar o jardim. - Celeste assinalou mais à frente da grama, para uma colina onde se podiam ver dúzias de donzelas e lacaios trabalhando em excesso nos preparativos para o chá.

—Já fiz minha parte. As flores estão em todo seu esplendor. - Não precisava olhar para ver ziguezagueante linha de sebes, caminhos e muros que subiam até o alto da colina. Ali, em algum momento do último século, algum estúpido com muito tempo e dinheiro construíra um castelo. Bom, não era um castelo de verdade, nem sequer um edifício utilizável. Se construiu para que parecesse uma ruína.

A gente rica chamava a aquele tipo de castelo uma bagatela gótica, e só pensar nela fazia que Milford sentisse vontade de soprar.

Mas depois de considerar que servia como eixo do jardim, Milford fazia o que podia com ele. A hera subia pelas pedras. Tinha plantado algumas rosas selvagens aqui e lá para que subissem e dessem cor na primavera, e madressilva que despedisse seu doce aroma. Aos ricos gostava, e subiam os degraus e se sentavam nos bancos para ter uma perspectiva dos jardins circundantes e da campina que se estendia mais à frente.

Mas eram os jardins que estavam debaixo os que faziam que o coração de Milford se inchasse de orgulho pecador. Cada um dos pequenos jardins cercados estalava em uma profusão de aromas e cores.

Os caminhos eram, todos, uma delícia, com carvalhos que proporcionavam sombra e árvores que alegravam a vista e o olfato. E no grande jardim central, onde inclusive nesse momento os trabalhadores dispunham mesas... Vá, ali estava seu talento para colocar as flores onde pudessem se estirar detrás do sol ou se aconchegar na terra bem iluminada. Sim, esse dia os ricos ocupariam todo seu jardim, os homens pisando forte com seus grandes pés de tocos e as mulheres destroçando as flores a golpes de suas amplas saias. Todos exclamariam ante aquele esplendor, e aquilo era para o que ele vivia.

Deu uma dentada e admitiu que estava tão excelente como sempre. Esther tinha preparado um pão estupendo, negro e denso, tal e como ele gostava. Ela também sabia. Esse era o problema com aquela mulher, que conhecia sua valia muito bem. Não havia necessidade de que um homem elogiasse a uma mulher assim; disso já se encarregava ela a todas as horas.

Haveria quem diria que era uma mulher bem plantada: mais ou menos da idade de Milford, alta, ossuda e generosa de carnes que se estendiam por toda parte em agradáveis proporções. Tinha um cabelo vermelho salpicado de fios brancos, e suas mãos mostravam o resultado de anos de trabalho na cozinha. Não era bonita, não, o teria discutido com qualquer que dissesse que o era. Mas, quando sorria, podia conseguir que um homem se esquecesse daquelas feições e quisesse se deleitar com sua alegria. O mau era que raramente sorria a ele dessa maneira. Milford mastigou devagar, tragou e decidiu que não lhe importava. A mão de Celeste serpenteou para pegar uma fatia de queijo, e a mente de Milford voltou para a pergunta inicial de sua filha.

—Me parece que o senhor Throckmorton é um homem sensato onde quer que vá. O que a faz pensar que está louco?

—Um montão de coisas. - Celeste entrelaçou os dedos. - Ontem à noite dançou comigo.

Milford a olhou de soslaio.

—É uma garota bonita.

—Costuma dançar com garotas bonitas?

—Costuma falar de negócios, noite e dia.

Ela assentiu com a cabeça.

—Para que veja. Me falou de danças e de Paris. E me levou a uma visita turística pela casa.

—Queria te afastar da festa e do senhor Ellery.

—Não, o fez por causa da brotoeja, e porque Ellery pediu.

Milford voltou a assentir com a cabeça.

—Isso é o que disse.

—Então acredita que de algum jeito provocou a urticária de Ellery? Isso é o que pensei também. - Celeste tragou.

Milford queria consolá-la, mas não sabia como. Já dissera a ela o que pensava a respeito de seu plano de apanhar ao senhor Ellery. Ela o escutara e não queria voltar a ouvi-lo, embora ele supunha que aquela era a razão de que ela estivesse ali nesse momento. Para ouvir dele algo mais de sensatez. De uma sensatez diferente.

—Supunha que ia conhecer as meninas esta manhã.

—É a instrutora.

—Em troca, o senhor Throckmorton decidiu que devia investir meu tempo em me preparar para o lanche ao ar livre.

Boa cerveja. Esther não podia reclamar a autoria da cerveja, e Milford apostaria o que fosse que aquilo a tirava de gonzo.

—Ah! E o que está preparando para o chá?

—Bom. - Celeste voltou a arrumar as saias. - Me convidou.

Milford deixou de comer.

—Ele? O senhor Throckmorton? Te convidou?

—Assim já vê, papai, que não é tão incrível como pensa que dançasse, comesse e estivesse com Ellery. - Sorriu-lhe com descaramento.

Mas Milford percebeu a incerteza sob seu sorriso.

—O senhor Ellery estará lá?

A expressão de Celeste se fechou.

Milford comeu um pedaço de bolo. Tudo indicava que o tráfico da cozinha não alterara a manha de Esther para com a cobertura do bolo. Odiava ter que admitir, mas fazia o melhor folhado que ele já comera.

O mau era que a mulher tinha uma língua muito afiada, e sempre andava a afiando nele. Celeste ficou olhando os jardins fixamente.

—Throckmorton parece muito mais agradável do que recordava.

Milford se deteve com a mão na metade do caminho de sua boca.

—O senhor Throckmorton?

—Também parece solitário e nostálgico.

—O irmão mais velho? - tentou esclarecer Milford.

—O único motivo que me ocorre para que não quisesse me apresentar às meninas esta manhã é precisamente o que disse; que lhe preocupa tanto que eu cause uma boa impressão no chá que quer que tome meu tempo para me preparar.

Milford tentou interrompê-la, e nunca seu falar pausado lhe serviu de tão pouco. Em pleno discurso, Celeste continuou:

—Se pensar bem, resulta bastante agradável, embora nada adulador. Posso me arrumar em menos de uma hora; tudo o que tenho a fazer é trocar de vestido. Enquanto isso, irei conhecer as meninas por minha conta e risco. Assim Throckmorton se dará conta do que pode conseguir uma mulher eficiente.

Para quando Milford conseguiu elaborar um protesto, Celeste o tinha beijado na face e retornava correndo à casa.

Sacudindo a cabeça, desejou poder suportar a dor que se aproximava no futuro de sua filha. Mas a situação não tinha remédio. Celeste tinha umas quantas cruas verdades que aprender, e ele não podia aprender por ela.

 

—Diabo! Throckmorton, ali está sentada essa preciosa jovenzinha com quem esteve percorrendo os corredores, e leva a dois anjinhos pela mão.

O comentário do coronel Halton tirou Throckmorton da entusiasta discussão sobre o potencial do alumínio (era dono de parte da refinaria) na pintura e na joalheria e o fez se voltar imediatamente para o jardim, onde estava tendo lugar o chá de sua mãe. O cascalho do caminho rangeu sob seus pés quando se voltou para ver celeste, emoldurada à maturação na pérgola resplandecente de brancas rosas trepadeiras... E tão afastada dele como era possível estar no vasto jardim principal.

Levava segura pelas mãos Penélope e Kiki.

Por Júpiter! Não fazia nem quatro horas que ordenara...

—As meninas... são delas? - perguntou lorde Ruskin.

Throckmorton ignorou a insinuação oculta atrás da pergunta. Ordenara aos criados que a senhorita Celeste estivesse pronta para o chá. Nada mais, havia dito; o lanche do jardim devia ter prioridade.

Quando lhes dera as ordens, os criados se mostraram radiantes, imaginando que ele apoiava os insensatos planos de Celeste de se casar com Ellery. Inclusive havia se sentido culpado de ter subido na consideração daqueles, quando o que pretendia na realidade era provocar que Celeste se desse mal.

Mas aqueles criados acreditavam que Celeste não podia se equivocar. A nenhum ocorreu pensar sobre o fato que ela levasse às meninas ao lanche ao ar livre.

Bom. Celeste não fizera nenhum mal às meninas, então possivelmente não fosse uma espiã.

Em troca levara a filha ilegítima de Ellery ao lanche do jardim para desfilar diante da alta sociedade, em uma tentativa evidente de arruinar o compromisso daquele.

Throckmorton não permitiria que acontecesse tal coisa. Se voltou de novo para os cavalheiros com o tipo de sorriso que assustava aos criados.

—Me desculpem. - Embora fazê-lo lhe produziu um calafrio, bateu no ombro de seu secretário, que rondava nas proximidades.

—Stanhope pode lhes pôr à par das demais maravilhas do alumínio e de minhas ideias sobre a expansão da feitoria.

Stanhope fez uma reverência aos cavalheiros congregados. Dirigia aquelas situações com aprumo, sem desafinar dos lordes nem dos homens de negócios londrinos com quem Throckmorton comercializava.

Muitíssima gente... bom, para falar a verdade toda... desfrutava mais da companhia de Stanhope que da de Throckmorton.

A gente era muito tola.

Ao examinar aquela cara tão familiar e amistosa, custava muito a Throckmorton acreditar que Stanhope fosse capaz de qualquer maldade, quanto mais... Não, era impossível.

—Stanhope é minha mão direita. Lhe perguntem o que desejarem. - Insinuando a mais breve das reverências, Throckmorton se encaminhou para Celeste abrindo caminho através dos convidados que conversavam nos atalhos. Precisava fazê-la retornar a todo custo, antes que muita gente visse as meninas.

Muito tarde. O jovem visconde Blackthorne entrou no atalho onde se encontrava Celeste. Esta sorriu e fez uma reverência; ato seguido, se inclinou sobre as meninas para lhes dizer algo.

Obedientes, as meninas fizeram a mesma reverencia; Kiki, com uma floritura que realçou seu vestido púrpura de rendas, e Penélope, a sua, com simplicidade e eficiência.

A chegada da filha ilegítima não exigia anunciar o acontecimento, então a maioria dos convidados deviam estar se perguntando a respeito da identidade de Kiki. O que Celeste estava contando sobre a menina?

Throckmorton dirigiu o olhar para lorde e lady Longshaw e Hyacinth. Estavam olhando fixamente para Celeste e às meninas. Aquele não era o momento de que descobrissem a existência de Kiki, justo quando não se sentiam muito seguros a respeito dos afetos de Ellery.

Por desgraça, todo mundo especularia sobre ambas as meninas e o motivo de sua aparição. Os meninos não assistiam aos chás ao ar livre. Esta era uma atividade para adultos, cheia de conversações de adultos e cozinha para adultos.

Procurou o auxílio de sua mãe com o olhar, mas estava sentada em meio de suas amigas e lhe dava as costas.

Celeste e as meninas deram uns poucos passos enquanto Blackthorne falava animadamente com elas.

O duas vezes viúvo conde de Arrowood saltou como uma gazela por cima de uma sebe baixa para se situar no atalho que Celeste transitava. Depois de trocar as reverências de rigor, Kiki começou a reanimar de impaciência, puxando a mão de Celeste. Penélope permanecia tranquila, embelezada com um prático vestido azul escuro e um avental liso que eram uma recriminação a todas as gazes e rendas dos circunstantes.

O pequeno grupo avançou, já com lorde Arrowood seguindo também a esteira de Celeste. Com sua beleza, o tom de sua voz e a franqueza de seu sorriso não cabia dúvida que Celeste atrairia aos cavalheiros, sobretudo em um cenário tão informal, onde eles podiam tomar a liberdade de apresentar a si mesmos.

Throckmorton, que avançava por um atalho que corria em paralelo ao de Celeste, ainda não tencionava passar de um caminho a outro saltando sebes, e não seria fácil interceptar a Celeste e às meninas antes que se metessem de cabeça na metade da festa. Mas precisava as alcançar logo, antes que ocorresse o desastre. "Que explicação estava dando Celeste a respeito de Kiki?"

Celeste levava um radiante vestido rosa que emprestava a sua tez um resplendor de vermelhidão. Um colarinho amplo e tradicional lhe descia pelo decote, e uns punhos igualmente largos rodeavam seus pulsos diminutos. A largura da saia realçava a esbeltez de sua cintura, da mesma maneira que o apertado sutiã punha em relevo a firmeza dos seios...

Throckmorton desprezou aqueles pensamentos. Não deveria estar reparando nem na tez nem na cintura nem nos seios de Celeste. Deveria estar se concentrando no que fazer ante aquele insólito giro dos acontecimentos, e deveria estar tomando nota do evidente: que Celeste tinha uns bonitos e caros vestidos que estavam fora do alcance do salário de uma instrutora. Sem dúvida, aquele era um indício de sua cumplicidade com os russos.

—Senhor... Throckmorton?

Ignorou a vacilante chamada proveniente de detrás dele e concentrou toda sua atenção em Celeste e seu cada vez mais numeroso séquito.

Uns dedos o puxaram pelo cotovelo.

—O... isto... Garrick?

—O que? - disse bruscamente com impaciência enquanto girava... E se encontrou frente a Hyacinth.

A jovem retrocedeu sobressaltada ante o tom de Throckmorton; tinha os olhos da mesma cor azul-violáceo que os jacintos.

—Ah, lady Hyacinth. - Muito frágil, pensou. Muito fácil de ferir. Vou matar a meu irmão. - Sinto muito. Tinha a cabeça em outra coisa.

—Sim, estava seguindo a essa garota - disse Hyacinth atropeladamente. - Pensei que talvez pudesse acompanhá-lo.

"Outra complicação mais em um estado de coisas já por si complicadas, pensou Throckmorton."

—Por que?

Hyacinth pareceu desconcertada.

—Bom, pensei que podia me unir a outros jovens, em lugar de ficar com meus pais.

—Claro! - Não tinha tempo para dissuadi-la do contrário. - Uma ideia estupenda. - E o mais provável era que ela precisasse se distrair das preocupações que lhe ocasionava seu compromisso. - Se agarre a meu braço!

A garota obedeceu com um sorriso.

—Obrigado. Adoro a meus pais, mas às vezes são bastante aborrecidos. Mas confiam em você, porque é... - se deteve, com os olhos abertos e horrorizados.

Throckmorton a obrigou a avançar a uma velocidade considerável.

—Quase tão aborrecido como eles - concluiu ela. Por alguma razão o julgamento da garota o incomodou, embora ignorasse a causa de que fosse assim. O orgulhava ser pragmático; não podia se queixar de que uma jovenzinha tola o considerasse tedioso.

Por diante deles, lorde Featherstonebaugh parou cambaleando frente a Celeste. O padrinho de Ellery se passava por velho libertino e se acreditava irresistível para as garotas; estas, a sua vez, o consideravam inofensivo e inclusive o animavam, enquanto lady Featherstonebaugh punha os olhos em branco e fazia comentários a respeito dos velhos ridículos.

Celeste escutou algo que lhe dizia o idoso, logo fez um gesto para as meninas e lhe deu algum tipo de explicação.

Lorde Featherstonebaugh retrocedeu com uma reverência, e em seus lábios enrugados se desenhou um sorriso afligido.

Celeste tinha seduzido a outro, inclusive enquanto se desfazia dele.

—Velhote estúpido - murmurou Throckmorton, Hyacinth ignorou o comentário com a vista fixa em Celeste.

—É tão bonita. Quem é?

—É a senhorita Celeste Milford. Acaba de voltar de Paris.

—Claro. Isso explica sua elegância. - A voz de Hyacinth se tingiu de admiração - Sua roupa não é a mais apropriada para Grã-Bretanha, mas nunca tinha visto outra garota com esse brio. - Vacilou um instante.

—Se eu pudesse ser tão atrevida, irmão... ouvi que ela goza de sua aceitação.

Throckmorton fraquejou por culpa do alívio que sentiu. Então fizera uma coisa bem. Hyacinth acreditava, em efeito, que era ele, e não Ellery, quem estava encalacrado com Celeste.

—Tal e como disse, é muito bonita - disse em um tom que não o comprometia.

Dobraram uma curva e por fim se encontraram seguindo Celeste, embora Throckmorton foi incapaz de vê-la por causa da multidão. Ela e seu grupo estavam se dirigindo ao alto da colina, para o ridículo castelo ruído que coroava a propriedade. Aquela não era a maneira em que ele planejara a apresentação de Celeste; não era assim como ele pretendera que se desenvolvessem os acontecimentos.

Imaginara que ela permaneceria a seu lado, agarrada a seu braço, calada e insegura ante o novo entorno. Pelo contrário, com toda a atenção que atraía, bem poderia ter se tratado de uma dignataria de visita. O chá bem poderia ter sido organizado em sua honra - ela, uma possível espiã e sedutora indiscutível, - e não no da pobre Hyacinth.

Throckmorton baixou o olhar para a garota que levava pelo braço.

—Está desfrutando da festa?

—Bom, eu... É estupenda, é obvio, tudo é como deveria ser, exceto Ellery...

Deus Santo, o lábio inferior da garota estava tremendo!

—Sim. Foi uma verdadeira lástima o dos morangos e outros acidentes. - Throckmorton ouviu o ofego de Hyacinth. Não era de estranhar que tivesse um pai tão protetor; era tão franca, tão honesta, tão vulnerável...

Se queria sobreviver no mundo feroz da alta sociedade, deveria aprender a se controlar e a cuidar de suas reações.

—Que outros acidente?

Os ombros de Throckmorton se retesaram, e ele pinçou os bolsos em busca do lenço, não poderia ser que Hyacinth começasse a soluçar.

—Teve um pequeno tropeço, isso é tudo.

—OH, pobre. - Hyacinth olhou para trás. - Deveria ir junto a ele.

—Não falará com você. Só através da porta. Mas... Sim, mais tarde deveria ir falar com ele. - Não sabia o que fazer com uma garota que amava Ellery e que queria se casar com ele. Bom, sabia, mas não podia seduzir Hyacinth, a ela não. - O pobre menino se sente abandonado. - De fato, Throckmorton se divertiu ao imaginar a seu irmão lutando com uma garota choramingona. Deixar que ele, em suma, limpasse um pouco de sua própria porcaria.

Hyacinth baixou a voz até convertê-la em um sussurro.

—Não... não quererá me ver?

—Mas te falará.

—Então, irei junto a ele - disse Hyacinth e a resolução animou sua voz.

—Mas depois do chá - disse Throckmorton. - Ao fim e ao cabo, isto é em sua honra.

Enquanto subiam, perdeu de vista ao pequeno grupo que rodeava Celeste. Ao dobrar uma esquina, viu que o atalho estava vazio, mas desde algum lugar próximo se ouviu um grito de alegria.

—Um balanço! - Hyacinth parecia tão excitada como Kiki. - Eu adoro os balanços.

Throckmorton caiu na conta que a garota não se afastou muito da infância. Hyacinth se separou dele e se pôs a correr pelo caminho adiante.

Situado em uma esplanada entre dois pedestais e pendurado de um resistente armação branca sob a sombra de umas árvores, o balanço formado por uma tábua e umas cordas constituía o sonho de qualquer menino.

Para Throckmorton era uma viva lembrança juvenil. A essas alturas Kiki, com seus cachos loiros, seus grandes olhos azuis e sua pele cítrica, já o requisitara.

"Que explicação dera Celeste a respeito da menina?", Throckmorton voltou a se perguntar.

Enrugou o sobrecenho ante a visão de Penélope, quem, parada a um lado do balanço com as mãos cruzadas na frente, esperava pacientemente seu turno. O cabelo castanho e liso e o olhar franco dos olhos castanhos faziam que se parecesse com ele. Mas também se parecia com sua mãe, de quem herdara a pele branca e suave e a figura esbelta e elegante. A morte de Joanna sacudira os alicerces da pequena família;

Penélope ficara desorientada e triste, e Throckmorton se esforçou em que sua filha se sentisse segura.

Se converteu em uma menina com uma desenvoltura maior da que correspondia a sua idade, e ele se alegrava de sua maturidade.

Então chegara Kiki, e a serenidade de ambos ficara em pedacinhos. De repente, Penélope começava a se mostrar revoltosa e travessa.

O olhar de Throckmorton se desviou para Celeste. Parecera tão perfeitamente idônea para a tarefa de restabelecer a paz na casa. Odiava perder aquela oportunidade; odiava ter que danificar seus planos.

Mas, embora não fosse uma espiã, seguia sendo uma sereia.

Apareceram mais homens e mulheres jovens, que passaram roçando-o por seu lado rumo ao coração da festa. Para Celeste.

Celeste se colocou atrás de Kiki e lhe deu impulso; a menina uivou de alegria ao se elevar no ar com as saias revoando ao redor de seus joelhos.

—Nunca o faça assim - proclamou Celeste, e parou à menina. Submeteu o tecido com força ao redor de Kiki. Hyacinth correu para ajudá-la, e Throckmorton viu que Celeste lhe dizia algo e que Hyacinth se punha a rir. Celeste seduzira a outra alma cândida, mas Hyacinth, não. Isso não ocorreria jamais. O que estava contando a Hyacinth a respeito de Kiki?

Throckmorton começou a se dirigir a caminho do balanço.

Hyacinth impulsionou então Kiki, e a filha de Ellery voltou a chiar. Celeste observou a cena um instante, logo pegou Penélope pela mão e começou a caminhar... para ele.

Seu olhar se encontrou com o de Throckmorton. Celeste sorriu.

Mas Throckmorton não percebeu que Celeste sabia que ele se encontrava nas proximidades. Igual ao resto dos homens, ia vestido com jaqueta e calças escuras e esteve seguindo à multidão a considerável distancia. E Celeste não tinha aparentado vê-lo em nenhum momento. Nesse instante, atuava como se tivesse sabido desde o começo. Fosse por uma consciência brilhante e natural ou pela preparação recebida de um mestre da inteligência ou por ambas as razões de uma vez, o caso é que Celeste se dava conta de que tudo aquilo girava em torno dela. Se ainda não trabalhava para os russos, Throckmorton gostaria de contratá-la. Na realidade gostaria de fazer muitas coisas ele mesmo.

—Papai! - Ao vê-lo, Penélope sorriu encantada e o agarrou pela mão.

Seu interrogatório a Celeste podia esperar um pouco. Devolveu o sorriso a sua filha e lhe apertou os dedos.

—Filha. - Olhá-la era como se olhar em um espelho.

Em um tom radiante e risonho, encaminhado a atalhar a cólera de Throckmorton, Celeste disse:

—Suponho que tem intenção de me repreender por me apresentar às meninas quando ordenara que não o fizesse. Me esquivei dos outros criados e em nenhum momento souberam o que estava fazendo, então se limite a repreender a mim. - Como se reconhecesse sua falha, Celeste lhe dedicou um aberto sorriso repleto de covinhas.

O certo é que seria uma espiã magnífica, por isso, quem rodeasse a corda em seu pescoço, teria que ser um verdugo insensível. Queria a sorte que ele tivesse sido descrito em múltiplas ocasiões como insensível.

—Por que trouxe Kiki? - perguntou.

—Não podia trazer Penélope sem Kiki.

Evasivas. Olhou Celeste com gesto sério.

—E por que trouxe Penélope?

—É uma longa história. - Celeste acariciou a face da menina com um dedo. - Parece que cheguei ao quarto das meninas bem a tempo. Sinto muito, senhor Throckmorton, vai ter que contratar uma nova babá.

Cravou o olhar em Celeste. Não parecia uma espiã nenhuma desmanchadora de esponsais. Baixou o olhar para sua filha, que esperava tranquila e em silêncio que a história de Celeste fosse ouvida.

—Uma nova... babá - disse Throckmorton.

—Quando cheguei ao quarto, estava atada a uma cadeira, enquanto as meninas pulavam corda pelos cantos.

—Atada a uma cadeira. - Ao temor de que seu secretário fosse um traidor e de que seu irmão queria romper seu compromisso, se somava o que sua filha atasse a sua babá a uma cadeira.

E quanto a Celeste... Celeste era muito formosa, vestia muito bem e era muito inteligente. - Penélope, deixou que Kiki atasse sua babá à cadeira?

—Na realidade foi minha ideia - confessou a menina sem receio. - Kiki é uma inútil fazendo nós.

Ao olhar a sua filha, Throckmorton viu um brilho de algo... O que era que a mãe do Throckmorton costumava dizer?: "Se o que buscas for a um pícaro, Ellery é o idôneo. Se o que quer é uma bobeira bem feita, acode sempre a Garrick".

Mas Penélope nunca fora assim. Levantando as calças, se ajoelhou junto a sua filha.

—Penélope Ann, nunca mais deve voltar a atar a suas babás.

—Mas, papai, não nos deixava sair porque dizia que estorvaríamos nos preparativos para o chá, e não nos deixava pular corda dentro porque dizia que lhe dava dor de cabeça.

—Penélope parecia acreditar na voz da razão - Tem que admitir que são uns motivos muito débeis para não nos permitir pular corda.

Throckmorton levantou a mão.

—Atar a alguém porque não a deixa fazer o que quer não é uma razão o bastante boa.

Penélope cruzou os braços.

—Então por que me ensinou a fazê-lo?

Throckmorton ouviu a risada dissimulada de Celeste, mas manteve a atenção em sua filha.

—Para o suposto de que viesse gente má e tentasse te levar. Mas só nesse caso, Penélope. - se levantou e fez um gesto com a cabeça a Celeste. - Pronto. Já está bem de problemas.

—Ensinou a sua filha a atar às pessoas?

—Não me ocorre como poderia lhe ensinar a bordar - respondeu com cara de pau. - Seu pai não a ensinou a atar às pessoas?

—Não, me ensinou a atar rosas a uma treliça.

—Mmm. Que estranho. - Olhou para o balanço com o cenho franzido. - Não toca a Penélope?

—Vamos, Penélope. - Celeste se pôs a correr para o balanço. - Você é a seguinte.

Throckmorton se preparou para uma explosão de cólera por parte de Kiki, mas Celeste falou com ela e desceu do balanço sem nenhum incidente. Penélope subiu de um salto e Hyacinth lhe deu impulso.

Então, Celeste conduziu Kiki até ele.

A menina balbuciava em francês, como sempre, e como sempre ignorou a saudação em inglês de seu tio. Se tão só respondesse uma vez... Mas precisava ser paciente. A menina tinha perdido a sua mãe, igual a Penélope, e sua reação consistia em se negar a aceitar as circunstâncias de sua nova vida. Throckmorton era capaz de entender isso, embora não podia aprovar que Kiki amargurasse a vida a sua filha ou a induzisse à rebeldia... nem que o ignorasse de forma tão terminante.

Kiki cabeceou para todos os lados, agitou as mãos expressivamente e falou pelos cotovelos em francês.

—Diga a ela que não deve atar a ninguém - Throckmorton ordenou a Celeste.

—Já disse.

—E o entende?

—Claro. - Celeste não necessitava dizê-lo... mas à menina trazia sem cuidado. - Quer que também ensine a ela a atar às pessoas. - Celeste parecia ter problemas para conservar a seriedade.

Throckmorton a olhou com o sobrecenho enrugado.

—Conforme parece ficou muito impressionada com a eficiência de Penélope - disse Celeste alegremente.

Throckmorton vacilou. Quis dizer que não rotundamente, que sob nenhum conceito ensinaria Kiki a fazer nós. Mas era uma oportunidade tão boa...

—Não ensino a fazer nós em francês. - Estava observando à menina e não lhe escapou o fugaz momento de compreensão. O entendia à perfeição, e ele e Celeste esperaram que Kiki se debatesse entre seus desejos e a rebeldia.

Ao final ganhou a rebeldia.

—Je ne parle pas l'anglais - disse a Celeste.

Celeste se voltou para ele.

—Diz que não fala inglês.

—Bom, pois eu não falo francês.

Kiki deu um chute no chão.

—Très stupide.

—Isso o entendeu em seguida - observou Throckmorton.

—Nenhum dos presentes é tão ignorante como pretende. - Celeste se inclinou em uma pequena reverência dirigida a ele e logo para a zangada Kiki.

Nenhum aspecto do interrogatório de Throckmorton transcorrera como deveria. Agarrou Celeste pelo braço e a separou de Kiki.

—O que esteve contando sobre a menina?

—Sobre Kiki? - Teve a desfaçatez de aparentar surpresa. - A quem?

Throckmorton fez um gesto em torno dele.

—A qualquer um.

—Nada.

—O que quer dizer com nada? - disse com brutalidade. - Algo tem que ter dito a eles sobre a menina!

Agora o compreendeu, porque Celeste adotou um gesto grave.

—Não dei nenhuma explicação sobre Kiki. Podia ser uma amiguinha de Penélope que tivesse vindo passar o dia; podia ser a filha de um de seus convidados. Podia ser uma prima... A família do pai dela é um enigma para a alta sociedade. A seus convidados traz sem cuidado quem é ela, senhor Throckmorton. Só você sabe que há um mistério.

Celeste conseguiu algo que só uns poucos conseguiram, o fez se sentir idiota.

—Asseguro, senhor Throckmorton, que nunca utilizaria a uma menina como arma.

Nesse momento se sentiu caluniador e desconfiado.

—Agradeço a tranquilidade - disse com frieza. Então, se deu conta... de que ainda tinha uma sedução pendente, e que Celeste já o via com muito menos parcialidade que a noite anterior.

Então acrescentou: - E me desculpo por meus injustificados receios.

Aceitou suas desculpas com agradecimento, mas com seriedade.

—Obrigado. Bom, este é um momento tão bom como qualquer outro para lhe dizer... que vou passar toda a noite no quarto das meninas. E que também dormirei ali.

Throckmorton não planejara as coisas daquela maneira e estava farto de que o frustrassem.

—Assistirá ao jantar desta noite.

—Que declaração tão imperativa! Para minha primeira aparição já chega com o lanche de hoje. - A Throckmorton deu a impressão que Celeste manipulara tudo de maneira deliberada, levando às meninas como distração e criando uma atmosfera informal e jovial que dissuadisse de qualquer conversação em profundidade.

O estava irritando. Aquele era o primeiro ato social oficial de Celeste em Blythe Hall; não deveria se mostrar tão desenvolvida. E não deveria dizer a ele o que era que teria que fazer.

Não lhe incumbia fazer planos.

—Escolherei a algumas das criadas para que fiquem com as meninas até que tenhamos encontrado duas novas babás com experiência.

—Pois claro, mas me parece que as novas babás quererão algum tipo de garantia sobre sua segurança. Posso prometer sem nenhum risco que Penélope e Kiki estarão melhor se eu as vigiar.

—Kiki começou a resmungar, apontando para o balanço. - Tem que compartilhá-lo - respondeu Celeste. Logo se dirigiu a Throckmorton: - por que não manda construir dois balanços?

A mandíbula de Throckmorton caiu.

—Dois? - Nunca lhe ocorrera semelhante coisa.

—Ninguém deveria ter que compartilhar um balanço - disse Celeste com seriedade. - Saber que seu prazer é limitado e que está controlado por outro empana a experiência e dá um gosto amargo ao prazer de se balançar.

Ficou olhando fixamente. Estava parada entre os ramos de um salgueiro que a emolduravam, uma pragmática sonhadora vestida de rosa. O cabelo, trançado e recolhido no alto, deixava a descoberto o pescoço, onde uns poucos brincos sacudiam a pele. Seus olhos de cor avelã, rasgados para cima, estavam vestidos com umas generosas pestanas que paqueravam sem propósito. Tinha as orelhas pequenas e delicadas, o nariz era chato e arrebitado, os lábios... Ele os beijara a noite anterior. Fazia um bom trabalho com eles, da mesma maneira que fazia um bom trabalho com todas as tarefas que realizava.

Mas não reconhecera ainda o muito que desfrutara ao fazê-lo.

Para ser uma sedutora, Celeste beijava com uma notável falta de perícia. Se esmagou contra a parede e deixara que suas mãos pendurassem aos lados, como se não soubesse o que fazer com elas.

Beijara-o com a boca fechada, e quando ele utilizou a língua, ela se sobressaltara... e gemera. Beijara-a no pescoço, mais que nada para ver se era capaz de lhe arrancar mais alguns daqueles pequenos sons.

Conseguira-o. Pequenos sons de prazer, o que mais adulava a um homem. E enquanto que a maioria das mulheres tinham sabor de pós compactados e perfumes acres, ela tinha sabor de carne fresca e limpa e a sonhos de um apaixonado. Durante um instante, tão só um, desejara tomar mais liberdades, e beijá-la na curva de seu seio e deslizar por seu braço até posar os lábios contra o pulsar de seu pulso.

O senso comum se apresentou. Com Garrick Stanley Breckinridge terceiro Throckmorton o senso comum sempre se apresentava.

Devia ter fixado seu olhar sobre ela um longo momento porque Celeste desviou o olhar, logo olhou para trás e uma cor combinando com o rosa de seu vestido resplandeceu em suas faces.

—Algo não vai... bem? - A voz de Celeste soou bastante débil, como se soubesse exatamente o que não ia bem mas se negasse a considerar a verdade.

Porque, claro estava, ela amava Ellery. O conhecimento deixou em Throckmorton um gosto amargo na boca, e então caiu na conta que era o momento perfeito para seguir com seu plano.

—Absolutamente. - Inclinou a cabeça. - Tão só contemplava sua beleza e me sentia o bastante... - parou discretamente como se fosse incapaz de formar as palavras.

Celeste avermelhou ainda mais e ficou a olhar a qualquer parte exceto a ele.

Throckmorton teria dito algo mais, mas Kiki os interrompeu com uma feroz gritaria em francês.

O alívio de Celeste foi tão intenso como a irritação de Throckmorton.

Celeste respondeu à menina em francês e depois o traduziu ao inglês.

—Já é hora que Penélope desça, mas também de que subam outras pessoas.

—Qui? - perguntou a menina.

Celeste olhou para Throckmorton e se vingou por suas suspeitas.

—O senhor Throckmorton, por exemplo.

Throckmorton ficou tenso e a olhou com hostilidade.

Kiki nem sequer teve a delicadeza de tampar a boca antes de soltar a gargalhada.

—Já me balancei quando precisava me balançar.

—Estou segura que o fez, senhor Throckmorton. - Mas os olhos de Celeste também estavam dançando. - Mas por que não sobe agora?

Ele ergueu os ombros e, adotando um ar de solenidade como se se tratasse da toga negra de um advogado, respondeu:

—Muito bem. Subirei.

 

Throckmorton se dirigiu a grandes passos para o balanço. A multidão abriu caminho. Pôde ouvir atrás dele o bate-papo em francês de Kiki, e o frufrú da saia de Celeste enquanto esta se apressava para se manter a sua altura. Ouviu uma tosse, e um grunhido, e um gritinho afogado, e a revoada de muitas saias. Quase pôde saborear o assombro dos concorrentes lhe lambendo as costas.

Observou Hyacinth, que sorria para lorde Townshend enquanto este dava impulso em Penélope. E viu Penélope, que se balançava com o bendito sorriso que tão raramente via em sua filha. Vacilou: pareceu-lhe que era uma vergonha interromper o desfrute de sua filha. Mas se não fosse ele, seria qualquer outro, e assim demonstraria a Celeste... Não deveria desejar lhe demonstrar nada, entretanto, de certa maneira, o regozijo de Celeste, sua convicção de que ele não relaxaria nunca sua solenidade o bastante para subir a um balanço... Bom, a verdade é que ela o tirava do sério.

Parando a um lado do balanço, se agarrou a um dos postes verticais e esperou, como qualquer outro jovem, a que lhe chegasse o turno. Hyacinth reparou no fato. E resultava evidente que lorde Townshend era incapaz de dissimular seu desconcerto.

Penélope arrastou as pontas dos pés pelo cascalho. Não pareceu se surpreender de todo ao vê-lo esperando ali.

—Quer subir, papai?

—Sim, sim que subirei - afirmou Throckmorton.

Penélope desceu de um salto e deu um tapinha no assento. Dedicou um sorriso a sua filha, e logo a Hyacinth, que, para satisfação de Throckmorton, pareceu bastante capaz de conter seu assombro; de fato, até lhe devolveu o sorriso.

Throckmorton olhou friamente de relance ao imóvel lorde Townshend.

—Não necessito de sua ajuda.

Townshend retrocedeu com tanta rapidez que tropeçou com um dos suportes do balanço.

Throckmorton olhou à multidão. Nunca vira tantas bocas abertas ao mesmo tempo. Inclusive a pequena, loira e embelezada Kiki de olhos azuis o olhava como se de repente o mundo tivesse se aberto sob seus pés.

Throckmorton demonstraria a todos que não era o tipo estirado e previsível que acreditavam.

Se sentou e deu impulso.

Se deu conta que Celeste não parecia assombrada. O olhava com atenção... Não, o vigiava. Se era uma espiã, era uma muito boa.

O manipulara até conseguir que fizesse o que ele nem sequer percebera que desejava fazer.

Já não se recordava do que se sentia ao se balançar. Levava anos sem pensar nisso. O suave deslizamento para trás fez que passasse os ramos e que quase as roçasse com as costas. A emocionante queda e depois a ascensão, que, se alguém se estirava o suficiente, permitia vislumbrar fugazmente por cima do monte do terreno a planície e o serpenteante rio que se estendiam por debaixo. Logo, outra queda para trás que contraía a um o estômago, antes de que a corda e a tábua o levassem de novo de costas entre os ramos. Mandaria que se construísse outro balanço justo ao lado deste.

Se balançou para cima e para trás, recostando o suficiente para fazer que os ramos lhe tocassem o cabelo, para ver o céu através das folhas.

Celeste tinha razão, ninguém deveria ter que compartilhar um balanço. É algo no que ela não pensara: era mais divertido quando eram dois os que se balançavam. Quase pôde imaginar as risadas de Celeste e a revoada de suas saias junto a ele subindo e caindo ao ritmo do balanço.

Se elevava e descendia como uma onda no mar, como um pássaro na brisa. Se impulsionava lançando os pés adiante e atrás e sentia o tumulto do cabelo em sua cara e ouvia o murmúrio das vozes como se viessem de longe. Aquilo era liberdade; dos negócios, da família, das obrigações. Desejou não parar jamais.

Não, ninguém deveria ter que compartilhar um balanço.

E quando sulcou o ar uma vez mais para frente, jogou uma olhada à multidão. E viu, perto da borda, a um de seus cavalheiros de sóbria indumentária.

O prazer se desvaneceu como se nunca tivesse existido.

O dever o chamava.

"Não era ela", pensou Throckmorton.

—Onde está ela? - Ellery perguntou em voz alta, arrastando as palavras por causa da indignação.

—Chist. - Throckmorton acomodou o peso do braço de Ellery por cima de seus ombros. - Vai despertar aos convidados.

Celeste não era a espiã, a não ser Stanhope, o homem que Throckmorton considerava seu amigo. Stanhope vendera informação sobre os movimentos das tropas britânicas no subcontinente hindu.

Certamente, não cabia dúvida que Stanhope era responsável pelas mortes de soldados ingleses como se tivesse empunhado a faca ele mesmo, seguiu ruminando Throckmorton.

—Onde está minha doce e pequena Celeste? - Ellery voltou a se deter no longo e escuro corredor do andar de baixo. Agarrando a seu irmão pelos ombros, cravou nele um olhar incrédulo e sonolento.

—Os criados me disseram que seu quarto estava aí. Então, onde está ela?

O fôlego a brandy de Ellery quase tombou Throckmorton, que agradeceu sua boa estrela por ter ficado a trabalhar em seu escritório e ter ouvido seu embriagado irmão chamando Celeste.

—Esta noite Celeste ficou dormindo no quarto das meninas para cuidar delas.

Precisava corrigir o dano causado se valendo de Stanhope... O quanto antes, decidiu com firmeza Throckmorton.

O qual só lhe deixava um plano evidente.

—Levo dias sem poder vê-la. - Ellery enrugou o sobrecenho com a angústia desmedida de quem abusou com a bebida. - Minha doce e pequena petúnia.

—Só foi um dia completo - particularizou Throckmorton. - E quem não sai de seu quarto é você.

—Estou horrível.

—É um tipo bonito, como bem sabe.

—E azul.

Throckmorton conduziu Ellery para um dos abajures de noite e o olhou entrecerrando os olhos.

—A cor parece estar desaparecendo. - O qual, em certo sentido, era uma desgraça. - De fato, está bastante ruborizado.

—O que estou é lavado. - Ellery respirou com um estremecimento. - Uma barbaridade.

—Querido amigo, a limpeza casa com a piedade. - Throckmorton jogou o braço de seu irmão pelos ombros. - Se saísse, poderia ver quem quisesse. Preferivelmente a sua prometida.

Não a Celeste. Celeste, a quem ele ia proporcionar informação falsa sobre os planos britânicos. Mais tarde, alimentaria a impressão de estar verdadeiramente apaixonado por ela. Se permitiria certas intimidades de quarto; seria indiscreto. Stanhope procuraria Celeste, e com seu estilo desumano e encantador, surrupiaria a informação. E Celeste contaria tudo, e os russos seriam enganados.

—Veio me visitar hoje.

Throckmorton o conduziu para as escadas.

—Sua doce e pequena petúnia?

—Não - Ellery respondeu asperamente. - Hyacinth.

—Ela seria sua doce e alta rosa trepadeira.

Ellery se achava muito bêbado para compreender sequer uma brincadeira tão elementar.

—Não é nenhuma coisa nem outra. - Então, com ar pensativo, acrescentou: - Embora cheire bem. Eu gosto das mulheres que cheiram bem. Você não?

Se tão só pudessem manter a conversação sobre Hyacinth, possivelmente fosse possível que Ellery recordasse seu dever. E talvez Throckmorton pudesse esquecer o seu.

—Lady Hyacinth cheira muito bem.

O tom áspero de Ellery voltou ao presente.

—Esteve cheirando a minha prometida? Porque se supõe que precisava cheirar a minha doce e pequena begônia. - Levantou a cabeça e cantarolou alegremente: - Celeste! Onde está?

—Chist. - Throckmorton afundou o cotovelo nas doloridas costelas.

Ellery, se afastando com uma careta de dor, se chocou contra o corrimão.

—A que vem isso? Quero falar com ela. Com meu pequeno e bonito cravo.

—Se tenta falar com ela a sós em seu dormitório a estas horas da noite, o pai dela arrancará seu coração com um desplantador e o enterrará sob a madressilva.

Se Milford soubesse que Throckmorton planejava utilizar Celeste, faria o mesmo com ele... E seria um bom castigo. Em outros tempos utilizara a pessoas inocentes como Celeste.

Não gostava; nunca gostara. Mas disse a si mesmo que o fim justificava os meios, que estava em jogo o futuro do império britânico e que daquele subterfúgio dependiam as vidas de muitos inocentes.

Entretanto, a ideia de deixar a Celeste a sós com Stanhope, um traidor e assassino, se arrepiou. Aquela era a razão pela qual Ellery não pudesse vê-la nunca a noite. Na porta do dormitório de Celeste —um dormitório que trocaria quando ele o ordenasse - colocara um vigilante, que permaneceria ali até que ela voltasse para Paris. O qual ocorreria quando terminassem as celebrações, uma vez que tivesse demonstrado a Celeste que jamais teria nem a Ellery nem a Throckmorton. Quando tivesse completado com sua função para a espionagem britânica.

—De verdade acredita que seria um problema que me casasse com a filha do jardineiro?

—Então vai casar com ela?

—Estou pensando nisso.

—Por que cheira bem?

—Porque é... bonita e sorri... muito.

Throckmorton sentiu vontade de atirar pelas escadas a seu condenado irmão. Uma meada de cabelo e um par de covinhas, isso era tudo o que Ellery via quando contemplava Celeste?

—Lady Hyacinth é bonita - disse Throckmorton fazendo chiar os dentes. - Lady Hyacinth sorri muito.

—Mas Celeste não... espera nada de mim. - Ellery lançou um arroto o bastante sonoro para despertar a um morto.

Throckmorton confiou em que ao menos não tivesse despertado à família de Hyacinth.

—E o que espera lady Hyacinth?

Um estremecimento convulsionou o corpo de Ellery.

—Diz que sou um bom homem, e que sou inteligente e trabalhador e que sempre sei o que terá que fazer. Diz que me respeita porque vou ser o cabeça da família e que serei um bom pai para nossos filhos.

Pode acreditar nisso? Me disse tudo isso!

Throckmorton sentiu o desejo de deixar cair a frente sobre o ombro de Ellery. Em essência, aquela tola tinha cortado pela raiz o acordo ao dizer a Ellery que já era hora de maturar.

Tão só duas horas antes, Throckmorton escutara uma mulher meio afogada balbuciar em outro idioma, enquanto vomitava a água que tragara no rio. Vira os rastros dos dedos em seu pescoço... as que Stanhope tinha posto ali. Teve que enfrentar à traição de seu amigo. E nesse momento planejava utilizar a uma donzela inocente como instrumento para corrigir uma grande injustiça.

E Ellery se aterrorizava ao enfrentar à maturidade. Ao néscio e ridículo frívolo.

Ellery soluçou.

—Nem sequer sei o que fazer com a marota que tenho agora.

—Basta que preste um pouco de atenção a ela - espetou Throckmorton. - É quanto deseja Kiki.

A expressão de Ellery se iluminou.

—Celeste saberá o que fazer com minha filha.

—Então, deixa-a no quarto das meninas para que o faça. - A irritação fez que obrigasse Ellery a avançar com bastante mais brio.

—Né! - disse Ellery com ar de exagerada tortura. Como Throckmorton não respondia, Ellery fez alarde de certo vestígio de inteligência. - Qual é seu problema, velho amigo? Está cansado? Então deveria ir à cama.

—Depois de te deixar em seu quarto. Vamos. - Throckmorton o obrigou a caminhar a seu lado. - Então lady Hyacinth foi hoje te visitar?

—Me ama - disse Ellery no mais auto-compassivo dos tons.

—Você a animou - disse Throckmorton no momento em que chegavam ao dormitório de Ellery.

—Pensava que ia me casar com ela. Porque na realidade é uma mulher bonita, sabe? Quando chega a conhecê-la é inteligente e divertida, e é muito jovem, embora chegará a ser uma dessas mulheres fascinantes a quem poderia estar escutando sempre. Hoje... - cambaleou para um lado, arrastando Throckmorton com ele - hoje disse uma infinidade de bon mots[8]. E me fez rir, vá que sim. E até deixei que me visse.

Me fez sentir... como se pudesse conquistar o mundo. Logo... - baixou a voz até convertê-la em um gemido - me disse que pensava que eu era capaz. Eu! Tem o irmão equivocado. - Deu um golpe no peito de seu irmão. - Você é quem deveria se casar com Hyacinth.

Throckmorton perdeu a paciência. Empurrou Ellery.

—Agora me escute, irmãozinho. Está muito bonito, e fará de moda seu corte de cabelo. E nossos convidados andam se perguntando onde está. Amanhã há uma caçada. Sairá de seu esconderijo e será amável com todo mundo, especialmente com lady Hyacinth e com seus pais. E deixará que me ocupe do problema de Celeste.

Ellery assentiu com a cabeça.

—Você e Celeste.

Throckmorton o agarrou pelo braço antes que entrasse cambaleando em seu quarto.

—E, sobretudo, não beba até perder o sentido.

Ellery vacilou.

—Se o fizer, perderá tudo.

—Garrick, não quero fazê-lo. - Sua voz soou rouca, como se estivesse a ponto de começar a chorar. Talvez, em alguma parte de sua lamentável consciência compreendesse as consequências de suas ações.

E quem era Throckmorton para julgar a ele e a sua consciência? Ele tinha Celeste e seu bem-estar sobre a sua.

Depois de lhe dar um rápido abraço, Throckmorton o empurrou ao interior do quarto, onde o sensato camareiro de Ellery esperava levantado. Pobre homem. Igual a todos outros, adorava Ellery, mas Throckmorton não foi capaz de imaginar quando dormia.

Se dirigiu então a grandes passos para a escada e se deteve, cedendo de repente ao impulso. Permitiu que seus passos o levassem ao andar de cima, para o quarto das meninas. Disse a si mesmo que, já que estava acordado, bem podia passar para visitar Penélope. Disse a si mesmo que sua excessiva preocupação era normal em um homem envolto em um desesperado jogo internacional de conspirações de ida e volta.

Entretanto, sabia que era Celeste quem o arrastava. Lhe demonstrara quão bem lhe davam os meninos, assim como sua determinação de realizar a tarefa para a qual a contratara.

Sim, assim que a reunião que duraria vários dias terminasse, Celeste seria enviada de volta a Paris, deteria Stanhope e, é obvio - porque os Throckmorton eram umas pessoas justas e maravilhosas —fixaria uma quantidade considerável para compensar Celeste pelas tribulações causadas e por sua ajuda. A boca de Throckmorton se torceu em uma careta de cinismo que desapareceu imediatamente.

Se identificou ante o guarda-costas ao se aproximar do quarto das meninas. A experiência o ensinara não sem rigor que semelhante precaução lhe economizaria um golpe brutal na cabeça.

O senhor Kinman - um homem grande, calado e inofensivo - lhe abriu a porta.

—Senhor.

Throckmorton entrou. O quarto de jogar resplandecia à luz de uma só vela. As meninas e Celeste dormiam no dormitório contiguo. Caminhou com cautela procurando evitar as peças do trem de madeira esparramadas em qualquer parte pelo chão do quarto, e a corda de pular, que serpenteava pelas suaves tábuas.

Durante sua estadia na Índia tinha aprendido a se mover sem fazer ruído; algo que se revelou de grande valor para sua atividade, e nesse momento benzeu tal habilidade. Levantou a vela e a levou ao dormitório, a aproximando de Penélope.

A menina dormia sem quietude, com as tranças feito uma confusão ao redor da cabeça. Tinha as mantas retorcidas e as tinha afastado, e o corpo, coberto pela camisola, se enroscava em um diminuto e trêmulo novelo. Tampou-a. Ao lhe retirar brandamente o cabelo da cara, Throckmorton experimentou essa pontada de emoção que só um pai pode compreender ao contemplar o sono de sua filha.

Queria proteger Penélope de qualquer dano; só desejava o melhor para ela. Queria que fosse feliz.

Ao calor das mantas, Penélope se tranquilizou. Era tudo o que Throckmorton podia fazer essa noite.

Foi até a cama de Kiki. A fanfarrona criatura dormia placidamente, como se no sono encontrasse a satisfação que com tanta insolência combatia durante o dia. Pobre menina. Ao vê-la daquela forma, desejou poder lhe dar o que procurava. Embora Kiki não o buscava nele; o que desejava era o afeto e o reconhecimento de seu pai, e Ellery era muito egoísta para saber como lhe dar. Então continuaria a agitação, a menos que... Apanhado por uma necessidade que não soube explicar, se dirigiu à terceira cama, a de Celeste.

Esta dormia com uma mão sob a face e o sobrecenho enrugado, como se durante o sonho lutasse contra os demônios que Throckmorton desataria sobre sua confiada cabeça.

Não seria tão mau. Celeste estaria mais a salvo ali que em qualquer outra parte da Grã-Bretanha ou do continente, e estaria ajudando a sua pátria.

Era raro vê-la sem a vivacidade da consciência. Era tão vital, gostava tanto de desfrutar da vida que Throckmorton quase podia tocar o juvenil ardor de Celeste por conhecer, por ser, por avançar e por experimentar tudo o que a juventude tem a oferecer. Teria sido uma companheira perfeita para Ellery; ambos teriam sido uma declaração viva do espírito e da graça.

Mas inclusive se saía ileso daquele acaso, acabaria ferida se descobrisse que fizera amor com ela para a afastar de Ellery.

Celeste suspirou e estirou um braço; sua mão se apoiou em cima das mantas, com a palma para cima e os dedos ligeiramente curvados. A expressão carrancuda desapareceu de seu rosto, deixando somente a satisfação do sono profundo. Throckmorton levantou a mão e a manteve no ar sobre a testa de Celeste. Desejou lhe retirar o cabelo da testa, como fizera com Penélope. Não obstante, a ternura que sentia por Celeste não continha um ápice de afeto paterno; a necessidade de acariciá-la afundava suas raízes no desejo e na sedução. Teve que fazer a pergunta: era possível que estivesse espreitando a garota?

Motivava-lhe menos o dever que a atração?

Ficou olhando fixamente como subia e baixava o peito de Celeste. A garota usava uma camisola lisa de algodão branco rematado por um colarinho pudico. O lençol também a cobria. Entretanto, sem vê-los —sem tê-los visto nunca e sem que jamais fosse se permitir vê-los, - sabia como eram os seios de Celeste. Uma pele jovem, suave e cremosa, que se levantava sobre sua caixa torácica em duas curvas perfeitas, coroadas por umas flores redondas de uma cor tão suave que mal podia lhe chamar rosa. Ele não tinha necessidade de aproximar os olhos para ver o incessante subir e descer da carne; a sua imaginação bastava com a delicadeza de seus traços e o vislumbre de pele que aparecia por cima do decote para completar todos os detalhes. Celeste era como um quadro, e ele o artista...

E isso que Throckmorton tinha inclusive menos talento para pintar que para os idiomas.

Exceto com Celeste.

O que lhe estava passando? Ellery desejava; Ellery tinha aventuras amorosas; Ellery seduzia. Ele, não. Ao menos, ao cabo de dois dias; ao menos, sem uma base de crenças e interesses comuns; ao menos, sem prudência; ao menos, de maneira apaixonada.

Embora não sempre.

Entretanto... entretanto... Que dano faria? Podia olhar e não tocar.

Se inclinou e com uma carícia afastou uma mecha de cabelo da face de Celeste.

Podia desejar, mas não possuir. Assim teria que ser, porque se despachava Celeste, não teria meio de apanhar Stanhope, e enquanto ela permanecesse em Blythe Hall, Ellery não retrocederia em seu empenho.

Assim precisava se esforçar por manter Celeste fora do alcance de seu irmão. Se Throckmorton padecia estranhos e ocasionais golpes de consciência, além daquele ridículo sentimento de ternura e o inconveniente arrebatamento de desejo... Bom, o mais provável é que não merecesse outra coisa.

 

Uma rajada de vento levantou os cachos de cabelo da testa de Celeste. A tarde nublada cheirava a chuva. Os alvos estavam dispostos em fileira no prado traseiro mais afastado.

—Aposto vinte libras que acerta no próprio centro.

—Boa tentativa, amigo, mas não foi o único que a esteve observando disparar durante toda a tarde.

Com uma mescla de satisfação e triunfo Celeste escutou por acaso o intercâmbio de palavras que o coronel Halton e lorde Arrowood mantinham atrás dela. Throckmorton tinha sugerido que procurasse uma maneira de manter em segredo sua identidade, de forma que não atingisse a posição social de Ellery. Assim Celeste fizera, e os caçadores foram chegando pouco a pouco do pântano para darem de encontro com uma competição insólita que estava se desenvolvendo. Celeste apoiou o rifle no ombro e disparou uma vez mais.

A bala impactou no centro do alvo.

Lorde Townshend, o último de seus competidores, jogou o rifle em sinal de derrota.

Seguiu uma salva de aplausos dos circunstantes e umas quantas aclamações dos cavalheiros mais jovens, a quem nada importava a destreza de Celeste com o rifle e sim muito seu ar misterioso e seus atributos físicos. Aquilo era maravilhoso. O conde de Rosselin lhe havia dito que desfrutasse da cegueira que provocava sua beleza, mas que se deixasse guiar pela cabeça. E quando ela sugeriu um concurso de tiro, acreditou que esteve muito acertada.

—Entre quem? - perguntara lady Philberta levantando as sobrancelhas.

—Entre os cavalheiros que não se preocupam com a caça... - tinha começado Celeste.

—É estupendo! - sancionara o coronel Halton.

—E aquelas senhoras que saibam disparar - concluiu Celeste.

—Muito pouco feminino - tinha grunhido lorde Arrowood.

Celeste o desarmara com uma simples carícia na manga da jaqueta e uma chamada, expressa em voz baixa, à tolerância com os espíritos jovens.

—Além disso - lhe havia dito, - nenhuma senhora tem a mínima possibilidade de ganhar contra peritos como você.

Lorde Arrowood supôs que dizia a verdade.

Para a evidente satisfação de lady Philberta, Celeste o eliminara na primeira rodada, depois do qual fizera revoar as pestanas de maneira tão encantada que o nobre acabou rindo de si mesmo, se recostou para observar a diversão e reuniu um mais que considerável montante de lucros a custa dos cansados caçadores que retornavam em grupos de dois e de três.

Nesse momento Celeste dedicava uma reverência e um sorriso cheio de covinhas a seu hábil competidor e depois à afetuosa concorrência. Era uma gente realmente encantada quando a chegava a conhecer.

Ela era uma desconhecida e a que menos possibilidades tinha, e ganhara, então lhe entregavam seus corações.

—Bravo! - elogiou Hyacinth.

Celeste perdeu o controle o suficiente para sorrir à garota. A breve relação mantida por ambas no dia anterior a perturbara. Preferia que gostasse de Hyacinth, embora antes tivesse abrigado uma aversão para a garota apoiada em conjeturas. Aquele era o problema de chegar a conhecer às pessoas; a verdade nem sempre secunda as aversões de alguém.

Sem deixar de aplaudir, lady Philberta se aproximou de Celeste.

—Uma atuação assombrosa, senhorita Milford. Tem que nos dizer onde aprendeu a disparar dessa maneira.

—Na Rússia. - Celeste aceitou o abraço de lady Philberta e se assombrou pela facilidade com que a anciã aprovava sua intrusão. Nunca teria pensado que à aristocrática lady Philberta não importasse que a filha do jardineiro perseguisse seu filho, mas esteve genial. Poderia ser que se preparou para obstáculos que nunca estiveram ali. Elevando a voz para que a ouvisse por todo o prado, Celeste disse:

—Quando viajei ali em companhia do embaixador russo e sua esposa, descobri que o país estava infestado de lobos e de outras ameaças mais humanas. - Sorrindo para minimizar a importância das ameaças de salteadores de caminhos, assassinos e ocasionais revolucionários cujas olhadas refulgiam com a força das convicções, olhou ao redor.

Um movimento atraiu sua atenção para um dos lados. Recém-chegado da caçada Throckmorton a submetia a um exame consciencioso. Tinha salpicaduras de barro das botas até as coxas. O cabelo negro e úmido estava colado à testa, e o cansaço formava círculos ao redor de seus olhos. O rictus de severidade emoldurava sua boca.

Celeste levantou as sobrancelhas para ele, se perguntando o que ela teria feito para provocar uma observação tão intensa. Quis se aproximar para lhe perguntar em que se equivocou e assegurar que fora muito discreta.

—Rússia é um país de homens loucos - acrescentou Celeste.

Outro homem saiu de entre a multidão.

—Isso, isso! - gritou o sujeito. - Bem dito, senhorita Milford, e muito bem disparado.

O assombro a emudeceu ao se dar conta que se tratava de Ellery.

Ellery, com o cabelo loiro muito mais curto, mas que apareceu incrivelmente bonito ao lado de seu cansado e sujo irmão mais velho.

—Está... bem! - exclamou Celeste.

—Um pouco coxo. - Celeste lhe dirigiu um sorriso tão radiante que todos e cada um de seus dentes poderiam ter sido uma vela acesa. Levantando a tipoia, Ellery acrescentou: - E desloquei o braço, mas acima estão remodelando um dormitório, junto ao quarto das meninas. Uma das criadas estava subindo à escada, segurando o papel de parede, e a ouvi gritar e... enfim... Se chegasse a cair teria feito muito dano.

As convidadas mais jovens revoaram a seu redor, então ninguém percebeu o gesto de ceticismo de Celeste.

—Salvou uma criada? - perguntou Hyacinth com os olhos lançando faíscas.

Ellery mal a olhou.

—Alguém precisava fazê-lo.

—Mas se feriu ao fazê-lo - exclamou outra das debutantes.

Ellery lhe prodigalizou um sorriso também.

—Só um pouco. Em uma situação assim a gente não pensa, só se limita a ir ao resgate a toda velocidade. - Voltando-se para a casa começou a caminhar, e tal era seu poder que todas caminharam com ele.

—Mas já basta de falar de mim. Que coisas interessantes ocorreram desde que me encerrei?

Hyacinth trotava a seu lado.

—Nada, Ellery. Sem você, não havia nenhuma emoção.

—Parece cansado, senhor. - Stanhope parou detrás de Throckmorton enquanto este observava Celeste se afastar com Ellery.

Throckmorton fez três profundas inspirações antes de responder.

—Por completo. Estive acordado até muito tarde.

Animado como um cão que apontasse à presa, Stanhope disse:

—Confio em que não foi por causa de seus negócios "especiais". - Olhou ao redor, se assegurando que não houvesse ninguém perto, e acrescentou em voz baixa: - Podia ter me despertado em qualquer momento.

Throckmorton se voltou para seu secretário, seu amigo... um traidor. Stanhope luzia o barro do pântano como se fosse uma divisa de honra. O chapéu de caça de lã marrom proclamava que era um cavalheiro inglês, e a tranquila inclinação do mesmo manifestava sua condição de aventureiro. Abatera a maior parte das aves, e o mais provável é que lhe doesse as costas pelas contínuas palmadas de felicitação de seus companheiros de caça. Tinha aderida a autocomplacencia ainda com mais intensidade que o barro.

Mas logo Throckmorton o despojaria de tudo; de tudo, menos do barro.

—Não acredito que pudesse me ajudar com isso. Estava com a senhorita Milford.

Não houve nada de dissimulo no assombro de Stanhope.

—Senhor?

—Ambos temos descoberto que temos... muitas coisas em comum. - Até esse momento Throckmorton não tinha reparado em quão deliberadamente Stanhope cultivava a combinação de refinamento e jovialidade.

Desde sua volta a Grã-Bretanha vivera das rendas de sua reputação como valente explorador.

—Em comum? Você e a filha do jardineiro? - A voz de Stanhope transbordou de desprezo aristocrático.

Era hora de que Stanhope maturasse e deixasse atrás suas façanhas juvenis e assumisse a responsabilidade de suas atividades. Throckmorton se asseguraria pessoalmente de que assim fosse.

—Vamos, Stanhope - disse Throckmorton, - não seria homem se não tivesse se dado conta que ela mudou desde sua volta.

—Caralho, claro que sim. - Stanhope aproveitou a ocasião para lançar um olhar lascivo às estreitas costas de Celeste.

Throckmorton sentiu o impulso de lhe esmagar a cara de suficiência contra a grama.

Então, Stanhope fez um aristocrático gesto de desprezo para Celeste.

—Mas segue sendo a filha do jardineiro.

—E sempre será.

"E alguém melhor que você", Throckmorton se absteve de esclarecer.

O coronel Halton passou a grandes passos junto a eles.

—Que magnífico espetáculo, Throckmorton! Essa garota vai ser a fofoca de Londres.

—Obrigado. Você acha? - gritou-lhe quando já os tinha ultrapassado. A maioria dos convidados se adiantaram, então Throckmorton começou a se dirigir para a casa. Não desejava que ninguém ouvisse aquela conversação, então caminhou com uma parcimônia intencionada.

Stanhope dirigiu o olhar para frente, onde Ellery e Celeste subiam nesse momento as escadas da galeria.

—Pois tem toda a pinta de seguir apaixonada pelo senhor Ellery.

—Absolutamente. - O excesso de ênfase fez que Throckmorton parecesse duvidar da fidelidade de Celeste. Esboçou um sorriso amistoso. - Retornou em busca de Ellery e, como é natural, ele sempre está disposto a permitir um devaneio inocente.

Embora a cabeça de Ellery permanecesse imóvel olhando Celeste, e seu sorrisinho de néscio se negava a abandonar seus lábios.

Throckmorton encolheu um ombro.

—O que posso te dizer, Stanhope? Procede de uma família nobre. Eu, não. O dinheiro é a única coisa que marca a diferença entre sua posição e a minha.

—Assim é. - Stanhope estava tão seguro de sua situação e de sua traição que permitiu que a amargura tingisse o tom de sua voz. - Eu não tenho nada.

Throckmorton manteve a cordialidade de sua voz.

—Me atreveria a dizer que te pago um salário justo.

—É obvio, senhor. Não era minha intenção me queixar.

—Não, claro que não. - Throckmorton esfregou o barro de sua jaqueta.

Ao que parecia Stanhope adivinhou algo nas maneiras de Throckmorton que o alertaram da conveniência de voltar para o tema inicial.

—Estava me falando da senhorita Milford.

—Ah, sim. - Throckmorton se permitiu sorrir de lado a lado. - Minha mãe provém de uma grande família, é obvio, mas a de meu pai era vulgar como a terra, assim entre a senhorita Milford e eu não há grande diferença.

—Não estou de acordo, senhor. Ela não tem nem um níquel.

Os casamentos dos aristocratas se acertavam por interesses econômicos. Havia momentos nos quais Throckmorton se sentia orgulhoso de ser um plebeu.

—Mas possui uma beleza que não tem preço. Além disso é amável, se dá bem com os meninos e beija... Perdão. Você não precisa ouvir isto. - Throckmorton deixou que Stanhope assimilasse as novidades antes de acrescentar com ar pensativo - Embora me surpreende que não esteja a par da fofoca.

—Vá... não, senhor, não ouvi nenhuma palavra.

Mentiroso, determinou Throckmorton, ou entretido, muito ensimesmado no perigoso jogo que levava entre as mãos para prestar atenção aos rumores que corriam a seu redor. Depois da confissão de

Throckmorton, Stanhope tentaria se inteirar da fofoca, e havia o suficiente para convencê-lo.

—É uma verdadeira sandice - disse Throckmorton. - Teria subido naquele balanço embora ela não tivesse me animado a isso.

—Desculpe, senhor. - Stanhope tropeçou com o primeiro degrau da casa. - Subiu... a um balanço? Se refere a... - Fez um movimento oscilante com a mão. Nesta cintilou um rubi engastado em ouro; um presente de Throckmorton pelos anos de fiel serviço.

—Sim. O que tem de estranho? - Throckmorton enrugou o sobrecenho como se estivesse desconcertado. Na realidade, estava. Sua mãe o abordara para recriminar seu "comportamento extravagante", como o denominara a idosa. Certamente, lady Philberta se dava conta que seu filho mais velho podia fazer coisas erradas ocasionalmente. Embora ele duvidasse que sua mãe tivesse empregado a frase "fazer coisas erradas" para se referir a sua madrugadora visita ao quarto das meninas. Teria se inclinado mais por... loucura.

—E beijou à filha do jardineiro? - quis esclarecer Stanhope.

—Bom, houve bastante mais que... - Throckmorton voltou a se conter, sorrindo como um homem que tivesse um segredo, e começou a subir as escadas. - Rogo que me perdoe. Faz anos que não sentia o que sinto agora. Talvez nunca o tenha sentido. - Ao menos, aquilo era verdade. Nunca antes havia sentido o desejo de estrangular seu secretário.

Stanhope não se incomodou em dissimular seu assombro.

—Sua incredulidade não me adula - Throckmorton disse secamente.

—Absolutamente, senhor, mas comparado com... - Stanhope fez um vago gesto para Ellery, que caminhava diante deles acompanhado de Celeste.

—Se refere ao fato de que não sou, nem de longe, tão bonito como o senhor Ellery. - Algo que nunca o tinha preocupado. E Throckmorton não sabia por que teria que se preocupar a essas alturas, embora o certo é que começava a estar até a tampa de que permanentemente lhe esfregasse pelos narizes os encantos de Ellery. - Mas não tenho nenhum problema em admitir. Estou encaprichado da senhorita Milford e vou ser tão implacável cortejando-a como posso sê-lo... nos negócios.

Por algum motivo que Throckmorton não pôde perceber, Celeste se desculpou com uma reverência ante Ellery e seu grupo e se afastou a toda pressa. Elery ficou olhando, mas quando Celeste dobrou a esquina voltou a se unir ao alegre grupo.

Throckmorton desviou o olhar para Hyacinth. A pobre garota não parava de tropeçar enquanto, cada vez mais atrasada, seguia à manada de jovens modernas e afetadas debutantes. Seu olhar afligido não se separava de Ellery nem um instante.

Throckmorton teria que arrumar aquela situação. Precisava arrumar todas as situações, e o esgotamento começava a lhe pesar como uma laje.

—Entendo - disse Stanhope.

—Dei ordens estritas à senhorita Milford de que não se entretivesse por aqui, por medo de que possamos nos trair.

Sem poder dissimular seu evidente ceticismo, Stanhope se queixou.

—Mas a senhorita Milford não parece seu... parece tão...

—Jovem, quer dizer? Deliciosa?

—Inadequada. Não entendo por que lhe permitiu se mesclar com os convidados. O que quero dizer é... é que compreendo que tenha suas necessidades, como as temos todos, mas me surpreende que se entretenha com a filha do jardineiro. Sei a elevadíssima opinião que tem de Milford e quão considerado foi com ele todos estes anos. Mas paquerar com sua filha me parece...

—Não entendeste nada, Stanhope! - Throckmorton quase estava se divertindo o obrigando a seguir aquele tom coloquial que planejara. - Eu não paquero com jovens inocentes. O certo é que vou bastante a sério com a senhorita Milford.

—Sério? Se refere... ao matrimônio?

—Ela me pertence. - Throckmorton experimentou uma onda de intensa satisfação ao fazer sua declaração. Mas estava se deixando levar por aquela pantomima e precisava parar.

Com um ligeiro toque no braço e um rápido gesto com a cabeça indicou a Stanhope que o seguisse ao escritório. Ali dentro, onde reinava o grave negócio da espionagem, não havia lugar para o teatro, e em menos de uma semana Throckmorton destruiria Stanhope. Sem mais preâmbulos, fechou a porta e disse:

—Tenho problemas.

O rosto de Stanhope adotou uma expressão cortês.

—Que tipo de problemas, senhor?

—Houve problemas. Nossos homens de campo se viram em apuros. - Com voz afligida, disse: - Parece que um dos nossos está vendendo informação aos russos.

Stanhope fez uma profunda inspiração.

—Não!

—Sim, e sou o principal suspeito. - Sem esperar para ver a expressão de incredulidade ou de alívio de Stanhope, Throckmorton se dirigiu a seu escritório e ficou a tamborilar com os dedos na superfície escura e brilhante. - Não preciso te dizer que não é verdade.

—É obvio que não, senhor!

—Mas não sei quem é o culpado.

—Embora tenha suas suspeitas, não é assim? - A voz de Stanhope resultou enjoativamente incitadora.

—É obvio. - Apoiando as palmas sobre a escrivaninha, Throckmorton se inclinou sobre elas e olhou para Stanhope tão fixamente que este fechou os punhos com força. Então Throckmorton declarou:

—É Winston.

—Winston? - Os dedos de Stanhope se abriram como por uma mola, e a incredulidade o fez pôr sobrecenho. - Por que Winston?

—Faz um ano começamos a cometer pequenos equívocos. Mais ou menos depois de que se unisse à equipe. - Throckmorton se sentou em uma das incômodas cadeiras colocadas diante da escrivaninha. -

Sei que o aprecia, mas nos traiu.

—Parece incrível.

—Poderia ser qualquer outro, claro. Estou aberto a qualquer sugestão.

—Embora, certamente, deve estar certo.

"E o que iria dizer, se não!", pensou Throckmorton.

—As traições começaram quando se uniu à organização... Ou pelo menos, se isso for verdade, deve ser ele.

—Exato. - A cadeira era realmente tão incômoda como dizia todo mundo. Mas Throckmorton não queria se sentar atrás da escrivaninha; queria que Stanhope o visse desprovido de confiança, de dignidade, dos símbolos de seu cargo. - A má notícia é... que embora seguirei recebendo despachos sobre os planos para os movimentos mais recentes das tropas na Índia, o escritório central de Londres me exige que os mantenha em segredo.

Stanhope se deteve no ato de ir se sentar na cadeira em frente.

—Acreditei que havia dito que você era suspeito.

Um passo em falso.

—Não necessariamente eu, a não ser um de meus homens, e isso me converte em um incompetente, não é assim? - Throckmorton mostrou um sorriso frio e radiante. Em efeito, embora ele soubesse que todos os diretores perdiam homens por causa da deslealdade, a traição de Stanhope era como uma faca enfiada em seu próprio orgulho.

—Necessitará ajuda para demonstrar a culpabilidade de Winston.

—Não me escutou? Londres me deixou muito claro que minha organização abriga ao principal suspeito. Nunca me deixariam proporcionar provas. Enviaram a seus próprios homens para me seguir e, disso estou seguro, para me vigiar. Os verá pelos jardins. - E ali estavam, é obvio, fingindo seguir Winston quando na realidade vigiavam Stanhope, tentando comprovar quem poderiam ser seus cúmplices e custodiando às meninas. - Então, até que tenhamos demonstrado a culpabilidade de Winston, não o necessito como secretário. Rogo que me perdoe esta interrupção no posto de confiança, e suplico que contorne o temporal a meu lado.

—É obvio. Farei qualquer coisa que deseje, mas... - Stanhope seguiu a ondulação de madeira do braço da cadeira com o dedo. - Me parece que alguém terá que... isto... escrever as respostas a Londres e coisas assim.

Não pode esperar fazer isso sozinho.

—E não espero - disse Throckmorton em um tom de eficiência. Minha querida Celeste me ajudará.

Stanhope o olhou com olhos saltados.

—Celeste? Essa... jovenzinha?

—Exato! Uma mulher sem mais conhecimento da grande partida que estamos jogando na Ásia Central que o que possa ter um cachorrinho de caça inglês, mas que fala francês e russo. Asseguro, Stanhope, que é um presente caído do céu, e além disso é agradável à vista. - Throckmorton riu entre dentes. - Provavelmente nunca teria pensado nisso, mas ontem à noite deixei escapar alguma informação a respeito da iminente invasão. Não entendeu nada absolutamente.

Throckmorton levou o dedo aos lábios.

—É obvio, senhor. Sim, senhor, mas... - Stanhope se moveu na dura e disforme cadeira, - pode estar seguro que Celeste é digna de confiança?

—Se refere a se poderia ser uma espiã enviada para me distrair? - Throckmorton riu com indulgência. - A verdade, homem, quem ia se atrever a pensar que um homem de minha posição poderia se apaixonar de uma encantadora e jovem cabeça de vento?

 

—Se seguir o arco do leme da Ursa Maior, encontrará uma brilhante estrela que se chama Arturo. - Celeste segurava o telescópio para que Penélope pudesse olhar. - Arturo começa igual a arco; assim poderá se lembrar de seu nome.

Kiki imitou o gesto de Celeste indicando Arturo.

—Oui, mademoiselle. Arturo.

—Arturo é a estrela mais brilhante do céu durante o verão e faz parte da constelação Bootes[9]. - Kiki não repetiu aquilo, assim Celeste acrescentou: - Bootes é uma palavra grega que significa boiadeiro.

—Bootes - disse Kiki.

Penélope seguiu olhando pelo ocular enquanto perguntava:

—Por que você fala com Kiki? Não fala inglês.

—Sim, sim que fala. Teria que ser uma menina muito tola para não falá-lo, e é muito inteligente.

As estrelas reluziam no claro céu estival; pelo levante a saída da lua era uma premonição e o muro do jardim as protegia de grande parte do resplendor das janelas, embora Celeste quase pôde ver o olhar que Penélope lançou a Kiki e a careta que esta lhe devolveu. Celeste sorriu. As meninas se esforçavam em alcançar uma espécie de acordo, e se ela ficava como instrutora, ou... ou como a mãe de alguma, gostaria de as guiar.

—Pode ver os anéis de Saturno? - perguntou a Penélope.

—Giram de um lado e são de cores diferentes. O que faz que sejam de diferentes cores?

—Pois isso ninguém sabe.

—Quando for mais velha, averiguarei - sentenciou Penélope.

Ao ouvir a enérgica determinação da menina, que tanto se parecia com a de seu pai, Celeste não duvidou de que tentaria. Contudo, a experiência a obrigou a advertir:

—Os sábios astrônomos não receberiam bem a uma colega feminina.

—Pois não deveria lhes importar que eu fosse melhor que eles averiguando coisas. - A voz de Penélope retumbou de indignação.

—Me acredite, lhes importará ainda mais se for melhor que eles averiguando coisas.

Com uma confiança cheia de indiferença, Penélope disse:

—Então são uns tolos.

Celeste se perguntou se, como instrutora de Penélope, deveria animá-la a ser menos sentenciosa e a empregar mais tato, sobretudo quando tratasse com o gênero masculino. Mas já haveria tempo de sobra para isso mais adiante, assim se limitou a responder com um simples: "Sim".

—Quem lhe deu aulas sobre as estrelas, senhorita Milford? - perguntou Penélope.

—Meu pai - respondeu com voz transbordante de afeto.

—Ah, eu gosto de seu pai. - Penélope colocou a cabeça no telescópio - Me ensinou a plantar sementes de manjericão no jardim da cozinha e cresceram!

Kiki puxou a saia de Celeste.

—Où est-elle, l´Étoile du nord?

—Já sabe onde está a Estrela Polar - disse Penélope com desdém.

É obvio que Kiki sabia, mas queria chamar a atenção, então Celeste se ajoelhou a seu lado.

—Encontramos a Estrela Polar utilizando as duas estrelas indicadoras da Ursa Maior. As cinco constelações que rodeiam a Estrela Polar são...?

—Cassiopeia, Draco, Ursa Menor, Ursa Maior, Cepheus - respondeu Kiki as citando em latim.

Celeste a olhou, viu os cachos loiros agitados pela brisa e se perguntou quando a menina acabaria por aceitar que seu destino era ficar na Grã-Bretanha. Era como se acreditasse que negando as circunstâncias de sua vida, conseguiria mudá-la. O coração de Celeste se rasgava vendo-a buscar a satisfação em uma direção tão equivocada. Com que Ellery tão somente... Mas ele não sabia o que fazer.

Sua nova esposa teria que o ensinar a ser um pai para aquela desventurada menina abandonada.

Penélope se separou do telescópio.

—Aprendi os nomes de todas as constelações do verão.

—Venha, nos diga isso. Convidou Celeste.

Kiki começou a saltar acima e abaixo pelo atalho de cascalho.

—Moi aussi!

—Toca a Penélope - disse Celeste.

—Non! - Kiki se soltou da mão repressora de Celeste, deu uns quantos passos correndo pelo atalho e gritou:

—Libra, Pegasus, Andrómeda...

—Olhe, se não entende o inglês, a pequena imbecil.

Penélope parou mais rígida que o pau de uma vassoura, cruzou os braços sobre o peito e olhou fixamente a brincalhona Kiki.

Vá Por Deus! Escurecida por sua prima, que se aproveitava de ser menor e mais bonita, Penélope tinha boas razões para abrigar semelhante sentimento; ao mesmo tempo, ela tinha muitíssimo mais que Kiki: a segurança de um pai e um lar.

—A odeio! Eu me porto bem e ninguém se fixa em mim - prosseguiu Penélope. - Em troca, ela é má e recebe toda a atenção.

Celeste rodeou com o braço à pequena figura estirada.

—Esta noite, não. Deitemos no tapete. - Quando chegaram a aquele elevado e isolado canto do jardim já era de noite, e Herne tinha colocado o telescópio e estendido um grande tapete sobre a erva.

Celeste e Penélope se sentaram sobre a manta. Ao deitar de costas, a brisa passageira inflou suas saias, mas a quem importava? Não havia ninguém à vista. Essa noite, enquanto a música chegava fracamente da casa e os afetados e ricos patrícios adultos assistiam a outra festa mais, Celeste e as meninas aprendiam uma lição de astronomia e outra a respeito de compartilhar as coisas.

Olhando o firmamento, Celeste perguntou:

—Não é formoso?

—Capricornus, Aquila, Cygnus... - uivava Kiki.

Ombro com ombro com Celeste, Penélope olhava fixamente para cima, rígida pela tensão.

—Está muito zangada comigo por dizer que a odeio?

—Ela é sua prima, e vivem juntas como se fossem irmãs. Todo mundo odeia a suas primas de vez em quando, e ainda há mais gente que odeia a suas irmãs. - Celeste deu de ombros e soube que Penélope percebeu o gesto. - O truque está em não permitir que seu ódio a faça infeliz.

Penélope começou a relaxar.

—Papai diz que quando era jovem às vezes odiava tio Ellery.

Celeste não desejava ouvir aquilo. Em só um dia se deu conta das similitudes que as filhas tinham com seus pais. Penélope se parecia uma barbaridade ao solene e responsável Throckmorton; Kiki era cravada ao despreocupado e pícaro Ellery. E ambas podiam aumentar ainda mais sua semelhança.

—E seu papai segue odiando-o?

—Bom, não sei, mas o ouvi dizer que está farto que o tio Ellery seja tão inútil.

"Ellery não é nenhum inútil". As palavras brotaram a seus lábios, mas não as pronunciou porque temia que a analítica Penélope enumerasse com exatidão quão inútil era Ellery.

—Então quando for tão velha como papai odiarei menos a Kiki?

Com uma franqueza sem malícia, Penélope agrupava a ela e a Throckmorton como adultos, e Celeste, que durante tanto tempo tinha considerado o pai da menina como alguém mais velho que ela, se sentiu desconcertada e transtornada. Como ocorrera? Quando se convertera em coetânea[10] de Throckmorton?

—Eu... Sim. Sim, inclusive a quererá a maior parte do tempo.

—Isso é o que papai diz - disse Penélope com satisfação.

Kiki seguia gritando:

—..Et... Orion...

—Kiki, essa é uma constelação de inverno - a corrigiu Celeste com a dose justa de indiferença. - Agora, olhe acima, Penélope. Todas as estrelas se movem, igual aos planetas, e a terra o faz ao redor do sol.

Se ficar aqui deitada muito quieta, quase pode ver passar o universo ante seus olhos. Sabe o que quero dizer?

—Sim. - A voz de Penélope soou intimidada. - Quase posso sentir a terra se mover debaixo de mim.

Com um ruidoso suspiro de exasperação ante a indiferença de suas duas companheiras, Kiki se deixou cair ao outro lado de Celeste.

—Recorda, Penélope, que a astronomia é algo mais que conhecimentos e um telescópio - disse Celeste. - Não perca nunca seu assombro pelo universo que Deus criou para nós.

—C'est grand - disse Kiki.

—Oui, c'est três grand - respondeu Penélope.

Celeste rodeou os ombros das meninas com os braços e as colou contra ela. Era bom estar em casa.

—Attention! - Kiki apontou os três quartos de lua que se levantavam pelo horizonte.

Como se tivesse sido impulsionada por uma mola, Penélope se levantou.

—Podemos olhar pelo telescópio?

—É muito brilhante - disse Celeste. Tanto que, de fato, as escuras manchas que eram as árvores, os arbustos e os muros começaram a adquirir dimensão e formas reconhecíveis.

—A lua é melhor olhá-la quando não chega a meio cheia.

Uma das formas reconhecíveis que estava parada junto à cancela se parecia enormemente a um homem. Celeste não o vira se aproximar, embora notara uma espetada na nuca. Forçou a vista, tentando identificar aquela forma imóvel.

—Viremos quando estiver meio cheia? - perguntou Penélope com evidente previsão.

—Sim. - Mas na realidade Celeste não estava prestando atenção. Se movendo com uma prudência inata, se sentou sem deixar de observar, incômoda pela inquietação que a embargava. Então, ele - quem quer que fosse - se moveu, e Celeste se sobressaltou como um cervo assustado. O coração lhe pulsava com força enquanto olhava fixamente e...

—Papai! - Penélope se levantou de um salto e correu até ele quando Throckmorton avançou até onde iluminava a luz da lua.

Celeste levou a mão ao peito para aquietar o tamborilar de seu coração. Não sabia o motivo de que ele a tivesse assustado daquela maneira, só que o fizera. Até então sentiu que Throckmorton estava tenso, como se estivesse disposto à luta. O... Ou, talvez, ao vê-lo naquela perfumada escuridão, ela se recordou do beijo no corredor pouco iluminado e na perícia com que ele o executara.

Sentiu o desejo de partir imediatamente, se não fizesse com que ele também recordasse o entusiasmo com que ela correspondera.

—Veio olhar pelo telescópio? - Penélope perguntou a seu pai.

—Não. - Se o apressava uma inquietação parecida com a de Celeste, a dissimulou com um ar de simpatia. - Vim porque a senhora Brown disse que era hora de que você e Kiki se deitassem.

As meninas resmungaram ao uníssono. Celeste recomendara a Throckmorton que contratasse como babá à senhora Brown; a viúva, vizinha do povoado, criara a dezenove filhos próprios, necessitava do salário e Celeste acreditou que nada do que pudessem fazer Penélope e Kiki pegaria de surpresa à senhora Brown.

Levantando da manta, Celeste começou a sacudir a saia para evitar olhá-lo.

—As levo em seguida.

—Não é necessário. - Throckmorton fez um gesto para as sombras.

Uma das figuras maiores, escuras e imóveis se moveu.

Kiki deu um pequeno grito. Penélope se sobressaltou. Celeste se adiantou com os punhos fechados.

—Estão muito nervosas. Não é mais que o senhor Kinman, meu amigo - disse Throckmorton em um tom tranquilizador. E, elevando a voz, perguntou: - saiu para fumar senhor Kinman?

—Sim, Throckmorton. - O senhor Kinman avançou arrastando os pés.

A lua iluminou uma cara chata. Celeste não foi capaz de recordar ter visto com antecedência entre os convidados aquele maltratado nariz nem aquelas sobrancelhas cheias, mas o homem vestia um traje negro e uma gravata escura, então supôs que devia ser um cavalheiro. Provavelmente acabava de chegar. Talvez devesse confiar em que Throckmorton convidava somente a pessoas refinadas. Entretanto, se deu conta que estava contemplando ao recém-chegado com o sobrecenho enrugado.

De todos os modos, Kinman fez uma elegante reverencia... e quanta fidalguia desdobrou! Quando olhou às meninas, sua voz áspera se suavizou.

—Acabo de abandonar a festa para fumar um charuto. Estive um momento fora, desfrutando da noite. Igual a estas moças. Aprenderam muito sobre as estrelas, meninas?

—Sim, senhor. - Penélope se adiantou, tão segura de si mesma que sua voz soou firme e confiada. - Vou ser astrônoma.

—Oui, monsieur, moi aussi - atravessou Kiki.

Kinman se agachou tanto que sua cara ficou à altura das meninas.

—Vocês duas farão que esses astrônomos não durmam nos louros. - Voltou a levantar sorrindo. - Quanto recordam a minhas irmãs pequenas. Sinto tanta falta da sua vivacidade.

A inquietação de Celeste desapareceu; era evidente que o senhor Kinman gostava das meninas.

Throckmorton ficou ao lado de Celeste, mas manteve a atenção no senhor Kinman, como se entre os dois houvesse uma comunicação absoluta.

—O senhor Kinman pode levar às meninas a seu quarto.

—Não, senhor Throckmorton, não é necessário. Eu posso levá-las. - Celeste não gostava que a excluíssem como se fosse uma menina a que teria que proteger ou uma mulher boba a que seduzir.

A maior abundância, a arrebentava não saber em que categoria a colocavam aqueles cavalheiros. - Estou segura de que o senhor Kinman preferiria voltar para a festa.

A lua nascente esculpiu a metade da cara de Throckmorton com golpes violentos. A luz esbranquiçada lhe adiantava o queixo com agressividade e oferecia uma versão incompleta da face e do nariz, mostrando uma concha negra iluminada pelo quase invisível brilho do olho. A outra metade permanecia em uma escuridão perturbadora.

—Desejo falar com você, Celeste. - Sob a suavidade de sua voz espreitava o tom de um homem que espera ser obedecido.

O obedeceria... mas não naquela ocasião.

—Voltarei e me encontrarei com você assim que tenha levado às meninas ao andar de cima.

O sombrio, ameaçador e enorme valentão que estava a seu lado pôs a mão no braço. Throckmorton não aplicou nenhuma pressão, mas era evidente que o faria se ela tentasse se mover.

—Falarei com você agora.

—Não me importa absolutamente, senhorita - disse o senhor Kinman em um tom apaziguador. - De todos os modos, me dirigia para ali.

O homem estendeu as mãos às meninas. Penélope começou a caminhar junto a ele e Kiki se foi saltando atrás dos dois.

Celeste observou ao grupo se afastar para a casa com as mãos nos quadris e se negou a apagar a nota de desaprovação de sua voz.

—Não deveria permitir que as meninas confiem em um estranho de maneira tão cega.

—Penélope sabe que pode confiar em quem lhe diga que confie.

—O senhor Kinman disse que tinha saído para fumar, mas não acredito.

Celeste pensou que Throckmorton a estava examinando com desaprovação, mas quando falou deu a sensação de estar ligeiramente surpreso.

—Não estava fumando? Por que diz isso?

—Não divisei o resplendor de seu charuto, e ele não cheirava a fumaça. Ignoro a razão de que estivesse ali fora, mas não confio em um homem que minta.

Ao princípio pensou que Throckmorton não acreditaria; logo, ele baixou a vista e esfregou a bota no cascalho do atalho.

—Tem-no descoberto. O certo é que se trata de um homem muito tímido e odeia as festas, então assim que tem uma oportunidade, escapole. Sempre que o busque em qualquer festa, o mais provável é que o encontre em alguma parte afastada da mesma.

—Ah, - Celeste pensou na cara tosca e pouco agraciada do senhor Kinman.

—De verdade que é um bom homem. E poria minha vida em suas mãos. - Sorriu sem nenhum humor. - Na realidade, fiz algo mais que isso: pus a de minha filha em suas mãos.

—Muito bem. - Ela possivelmente deveria entender o acanhamento do senhor Kinman. - A próxima vez que o veja tentarei tira-lo de sua concha.

Throckmorton tossiu antes de dizer com voz áspera:

—Isso seria muito amável por sua parte.

Estava rindo, e Celeste ignorava a razão. O mais provável é que houvesse dito algo que uma dama britânica não deveria dizer; possivelmente tinha tomado alguma liberdade que não devia.

Não achava graça lhe dar motivos para que ele risse dela.

Throckmorton não reparou em tal circunstância ou, pelo contrário, pensou que podia animá-la e fazer que se esquecesse de seu desgosto, porque em tom de brincadeira perguntou:

—Por que é tão desconfiada, Celeste? Será que em Paris os sequestradores e os assassinos espreitam em cada esquina?

—Na Rússia. - Celeste considerou sua resposta. - E também às vezes em Paris.

—Tem que me falar de suas viagens. Começo a suspeitar que correu aventuras fascinantes. - Segurando-a pela cintura, se deixou cair na manta e a arrastou com ele.

 

—Senhor Throckmorton! Um cavalheiro jamais deveria utilizar sua força com uma dama. - Celeste teve vontade de lhe dar um chute em suas partes íntimas, quando era garota a ensinaram que a esse respeito devia se conter.

—Tinha pensado que descansássemos sobre a erva como o estava fazendo com as meninas. Descansar, olhar as estrelas e, enquanto isso, poderia me falar da Rússia.

Parecia que suas intenções eram boas, mas se tivesse sido qualquer outro homem, e não o velho e aborrecido senhor Throckmorton, quem a tivesse atirado sobre o chão em plena noite, e com voz escura e aveludada lhe tivesse sussurrado ao ouvido que olhassem as estrelas... Bom, com qualquer outro homem teria se levantado e se posto a correr.

Inclusive com Throckmorton se sentia justamente alarmada. Duas noites antes a beijara, e embora o tivesse prevenido que não seriam bem recebidos mais cuidados no futuro e até esse momento lhe fizera caso, Celeste se deu conta de um fato até então surpreendente para ela: que Throckmorton não era simplesmente uma máquina de fazer dinheiro impulsionada pelo poder e a onipotência.

Também era um macho que compartilhava características com todos outros machos, tão racionais como irracionais.

Mas absolutamente ia mostrar seu receio, então se levantou, se apoiou nos cotovelos e, olhando para Throckmorton, demonstrou seu aprumo rindo entre dentes.

—Throckmorton, nunca suspeitei que você fosse um bon vivant.

Ele olhou o perfil de Celeste com um longo silencio, ao cabo do qual disse em tom meditabundo:

—Nem eu. Deve ser por que você tirou a energia que há em mim.

Energia era uma palavra forte mas, bom, se três dias antes alguém tivesse dito que Throckmorton estaria junto a ela, deitado de costas sobre uma manta no meio da noite, relaxado... Poderia ser que, depois de tudo, energia fosse uma descrição apropriada.

Ou uma artimanha. Seu pai lhe havia dito que Throckmorton nunca fazia nada sem um propósito. Qual poderia ser o propósito de Throckmorton nesse momento?

Celeste inclinou a cabeça e olhou ao céu. As estrelas estavam ali; sabia que estavam. Mas não era capaz de se concentrar nelas e na conversação, porque esse mesmo homem a beijara fazia só duas noites.

Então que a capacidade, para observar as estrelas - de fato, para observar o que fosse - teve que ser sacrificada em altares do discurso.

—Estava me perguntando - disse Throckmorton - por que não está dentro dançando com Ellery.

—OH. - Tinha posto o dedo em uma fonte de desgosto de forma infalível.

—A convidaria à festa, não?

—É obvio! Depois do concurso de tiro de hoje me disse que deveria ir. - E ela tentara.

—Não sei se posso mencionar um tema de certa delicadeza, mas possivelmente necessita um vestido de baile...

—Não! - A velada oferta de Throckmorton a escandalizou. - Absolutamente.

—Com o salário de uma instrutora...

Estava duvidando de sua honestidade? Celeste inclinou ainda mais a cabeça sabendo que a lua brilhava por cima de seu ombro direito e que oferecia a Throckmorton a larga e magra silhueta de seu pescoço.

Desta vez, a risada de Celeste foi autentica e divertida.

—A esposa do embaixador era muito generosa com a roupa que já não queria.

—Aaah. - Throckmorton recebeu a notícia com certo alívio. - Então, por que não está na festa?

Toda sua vida se imaginou paquerando com Ellery, sorrindo para Ellery, dançando com Ellery... Era o que desejara, com o que sonhara. Entretanto, esse dia, cada vez que tinha fantasiado com aquela fantasia, a figura alta e esbelta de uma mulher tinha revoado nas margens de sua consciência... a da prometida de Ellery, lady Hyacinth.

—Pensei que devia conhecer as meninas - disse Celeste. À medida que a lua se elevava no céu, o aroma adocicado da floração noturna do tabaco ornamental, transportado pela ligeira brisa, se fazia mais intenso.

—Ainda não deveria começar a lhes dar aula. Ao menos até que saibamos qual vai ser seu papel em suas vidas. - A desaprovação contida em sua voz pareceu sincera.

Não é que a Celeste fizesse graça que a desautorizassem, mas se alegrou muito de que um cavalheiro se envolvesse no bem-estar de sua filha. Voltou a baixar o olhar para Throckmorton.

—Eu disse às meninas que não tínhamos decidido se seguiria como instrutora. Assegurei a elas que esta semana será de prova e que o desta noite era somente um entretenimento. Acredito que o passaram bem.

—Me dá a impressão que se sente uma irresponsável por não estar trabalhando, Celeste.

Ela se sobressaltou. Desde que pôs os pés em Blythe Hall mal lhe rondara um insignificante indício de culpa... A culpa de uma mulher trabalhadora que desfrutava de um tempo livre imerecido.

Quase não reparara nisso. Mas como ele o notara?

—Asseguro, senhor, que não me prejudicou.

—Tenho a solução para seu sentimento de culpa. - Throckmorton colocou os braços debaixo da cabeça e a olhou fixamente com seriedade e franqueza. - Eu gostaria que me traduzisse algumas mensagens.

A primeira coisa que Celeste pensou foi: "Mas é que eu não gosto do senhor Stanhope”. Então, caiu na conta: "Mas passaria ainda mais tempo com você". O qual se converteu em uma perspectiva cada vez mais perigosa.

—O senhor Stanhope sempre foi seu tradutor.

—Sim, mas me demonstrou que não é tão competente como eu tinha suposto.

—E o que acontece com as meninas?

—Ainda não está trabalhando como sua instrutora.

—Os convidados se perguntariam por minhas ocupações.

—Não o diremos.

—Se darão conta.

—Querida Celeste - Throckmorton arrastou as palavras com toda a aborrecida segurança de um dandi, - o último lugar pelo que perambulam os convidados a uma festa é por um cômodo onde se está trabalhando.

Celeste se esmerou em encontrar uma desculpa e lhe ocorreu uma o bastante sólida para qualquer misógino.

—As mulheres não podem ser secretárias.

—Celeste, você será qualquer coisa que se proponha a ser.

Pôde ver o brilho dos dentes de Throckmorton; estava sorrindo.

—Não deve se preocupar de que Stanhope vá se desgostar com você por substituí-lo - continuou. - Eu disse a ele que esteve trabalhando muito e, posto que estava aqui, que tirasse esta semana de descanso.

—Muito generoso de sua parte. - Por dar tempo livre a ele e me tirar o meu e fazer mais felizes a ambos, prosseguiu mentalmente Celeste. Por incômoda e assustada que pudesse se mostrar, ficou a olhar de novo as estrelas fixamente, embora nessa ocasião não a preocupasse se Throckmorton notava a curva de seu pescoço.

—É obvio, Stanhope quererá saber que é o que está acontecendo no escritório, espero que não se importe falar com ele de vez em quando.

O certo era que a Celeste sim incomodava, e muito, falar com Stanhope. Quando estava na presença de Throckmorton, ela nunca se recordava de que a educação de seu patrão excedia em muito a sua, de que sua sagacidade fazia dele o terror da comunidade empresarial e que suas experiências no estrangeiro o colocavam em uma posição muito vantajosa.

Com o senhor Stanhope, Celeste nunca esquecia que era a filha do jardineiro e ele, o explorador aristocrata. Assim não ficou mais remédio que dizer:

—Pois claro, Throckmorton, estaria encantada de trabalhar para você como secretária e de informar ao senhor Stanhope de tudo o que deseje.

—Estupendo. Muito obrigado.

Celeste esperou, mas ele não disse nada mais.

Esteve posando para ele. Posando - sofrendo de torcicolo por algum estranho desejo feminino de exibir sua atraente figura e uma atitude despreocupada, quando na realidade não a preocupava se Throckmorton tinha reparado nela. De todas as formas, o mais provável é que não o tivesse feito. Pelas veias daquele homem corria algum tipo de refresco. Não champanhe, como pelas de Ellery.

Um tipo de refresco. Com um bufo silencioso, deitou de costas indignada... E, ao apoiar a cabeça aterrissou sobre algo. Algo quente, algo firme... Como Throckmorton conseguira tirar o braço de debaixo da cabeça e pô-lo debaixo da sua? Possivelmente lhe corresse um tipo de refresco pelas veias, mas também tinha uns reflexos excelentes.

Teria voltado a sentar, mas Throckmorton utilizou de novo aquela voz escura e aveludada.

—Nunca estive na Rússia - disse. - Me fale da Rússia.

Muito a seu pesar, Celeste relaxou. Se não fosse Throckmorton o que estava a seu lado, teria dito que aquela era uma voz que tentava seduzi-la. Mas ele era muito sensato para acreditar que por um céu estrelado e certo interesse por suas viagens acabaria levando-lhe à cama. Ao menos, quando acabava de ser tão terrivelmente manipulador.

—Bom, Rússia está muito longe. E é imensa, muito grande. - Não gostava de falar daquela viagem. A experiência fora tão descomunal que as simples palavras não conseguiam abrangê-la, e quando o tentava, as pessoas se aborreciam ou simplesmente eram incapazes de compreender a imensidão de horizontes, os contrastes de frio e calor, de pobreza e riqueza, e a própria sensação de Celeste de ter se afastado de tudo o que lhe era familiar. - Saímos de Paris em março para passar o verão em um imóvel na Ucrânia. Demoramos semanas para chegar, depois de viajar de trem, navio e limusine.

—Até uma terra onde tudo é estranho e novo.

Celeste recordou de repente que Throckmorton esteve no continente americano, na Índia e em outros lugares mais longínquos.

—A comida, inclusive aquela que eu gostava, tinha um gosto diferente - disse Celeste.

—E as roupas estão feitas com tecidos brilhantes naturais ou com peles rudimentariamente curtidas ou estão tão sujas que ninguém pode adivinhar a cor original.

—E tudo cheira a fumaça ou a suor ou a cavalos...

—Ou a algo tão exótico que nem sequer pode adivinhar sua procedência.

—Sim! - Mas se o entendia! Celeste voltou a cabeça... e o encontrou tão perto que seus narizes quase se roçaram. Throckmorton se voltou para ela, se apoiando sobre o flanco. Os lábios de ambos quase se tocaram, e o quente fôlego dele percorreu suas faces como um sussurro.

Celeste deixou de respirar, de se mover e ficou olhando fixamente. Na escuridão só podia ver o perfil dele, mas durante os últimos dias o tinha observado com muita atenção para não saber que sua expressão manteria aquela grave intensidade que tinha quando desejava beijá-la. Quando queria beijá-la.

Em tácito consentimento, os olhos de Celeste se fecharam com um estremecimento.

O braço que Throckmorton tinha sob a cabeça de Celeste a envolveu, a aproximando; com o outro, a abraçou e a atraiu para ele, para sua calidez e sua força. E lhe roçou a boca com a dele... E foi igual à primeira vez. Melhor, porque Celeste sabia a que se agarrar; a firme e cálida pressão, a doce insistência. Abriu os lábios para ele, lhe franqueando a entrada, enroscando a língua na sua no velho e complicado baile do desejo. O prazer se deslizou em espiral até o mais fundo de seu ventre, e tudo o que ela sentiu e soube e foi... era Throckmorton.

Quando Celeste cedeu, a morna paixão de Throckmorton mudou. Saboreou-a com mais gulodice, a abraçou com mais força. A abundante erva estival desprendia cada vez mais fragrância ao ser esmagada e se mesclava com o aroma dele; aroma de sabão de limão, de amido, a pele e a calidez masculina, leve mas envolvente. Celeste reconheceria o aroma de Throckmorton onde fosse, porque lhe liquidificava a boca e fazia que seu corpo se voltasse ofegante.

Finalmente, Throckmorton levantou a boca com um grunhido de impaciência, e fazendo-a rodar sobre as costas se levantou sobre ela, dominando-a com sua altura, sua largura, seu aroma e sua força.

Celeste abriu os olhos e viu sua silhueta contra as estrelas. As estrelas, que seguiam ali, mas que já não lhe eram familiares: mais brilhantes, mais limpas e, de algum jeito, diferentes.

Em lugar das constelações que tinham iluminado o céu noturno desde tempos imemoriais, as estrelas se moveram para criar formas diferentes: flores que brotavam na noite eterna, vestidos de renda de clara de ovo, amantes que se abraçavam.

Então, ele se inclinou sobre ela e as tampou. Beijou-a nos lábios com ansiedade. Throckmorton tinha sabor de céu noturno de veludo, a escuridão infinita; tinha sabor das longínquas estrelas ardentes, de uma grandiosidade que mal vislumbrada, a mundos perdidos no éter onde as emoções exóticas não paravam de oscilar, e ele podia dirigir o corpo de Celeste e todas as suas reações.

Cada carícia da língua de Throckmorton a afastava um pouco mais daquele lugar, daquele mundo, e ela se deixava levar de boa vontade sem saber por onde vagava nem por que. A beijou nas faces, inclinou sua cabeça para um lado e a beijou no pescoço, na garganta. Sua boca, aberta e úmida, viajou até a orelha de Celeste. Com seu peso a esmagava contra a manta. Throckmorton a desejava; ela se rendeu.

Mas não tinha medo. Pelo contrário, rodeou a cintura dele com os braços e sussurrou seu nome.

—Garrick, Garrick.

Sem prévio aviso, Throckmorton se soltou violentamente de seu abraço e ficou em pé de um salto.

Celeste se levantou se apoiando nos cotovelos e afastou o cabelo dos olhos.

—Garrick?

Throckmorton estava de costas a ela, com as mãos nos quadris.

—Throckmorton, o que acontece?

—Vá pôr seu melhor vestido. - A voz de veludo desaparecera, substituída pelo tom gutural de uma besta que mal tivesse chegado a dominar a capacidade de falar. - Dança com Ellery. Paquera com Ellery.

Deixa que a veja com Ellery... e descobrirá que pouco me importa que ame a ele.

Sentado em seu escritório, Throckmorton fazia repicar a pluma sem descanso contra a madeira suave e brunida e olhava fixamente à condenada garota, quem mantinha a cabeça inclinada sobre a carta que estava traduzindo. Fora, a chuva gotejava dos beirais e corria a torrentes pela caneleta fazendo que a manhã fosse escura e deprimente. As velas piscavam nos candelabros colocados a ambos os lados da escrivaninha para iluminar aquele trabalho tão necessário para a perpetuação do império britânico. E cada pequena gota de luz dançava nos fios loiros que intercalavam o cabelo castanho mel de Celeste e conferia uma pátina cremosa a suave curva de seu pescoço. Era formosa, era eficiente, e na noite anterior se atreveu a fazer exatamente o que lhe havia dito que fizesse. Vestiu um magnífico traje de baile de seda branco e se dedicou a paquerar e dançar com Ellery.

Throckmorton fez repicar a pluma mais depressa.

Aquilo não saíra como ele planejara. Bom, ele o ordenara, mas não dissera a sério. O que procurava é que ela se escondesse em seu dormitório, aquele que se encontrava entre o da surda lady Francis e o da senhora Landor, que era dura de ouvido; o dormitório que considerara mais que vantajoso para o caso de que Ellery chegasse a golpear a porta de Celeste.

A noite anterior se deu conta que o dormitório de sempre também seria uma vantagem para ele, Throckmorton. Se chegasse a penetrar dentro, as idosas de ambos os lados não chegariam jamais a se inteirar de sua presença enquanto lecionava a Celeste nas excelências do amor.

O melhor que podia fazer era a transladar ao já concluído dormitório contiguo ao quarto das meninas, porque pensamentos como aqueles podiam se revelar perigosos para sua prudência... e para a castidade de Celeste.

Como era possível que Celeste tivesse ido ao baile? Desejou que sonhasse com ele e seus beijos. Aqueles beijos que ele encontrara perturbadores, íntimos... quase incontroláveis.

Seu único objetivo era, é obvio, salvar Ellery das garras de Celeste, é obvio, e proteger a rentável união entre lorde Longshaw e os Throckmorton.

—Throckmorton? - Celeste cravou diretamente nele seus olhos cor avelã. - A ortografia desta carta é bastante irregular e me exige muita concentração. Se importaria deixar de dar esses leves golpes?

—O que? - Baixou a vista para sua mão em constante movimento. - Ah. Sim. - E parou.

Celeste teve o frescor de voltar para o trabalho sem se alterar.

Será que não se dava conta de quão irritado estava?

Países inteiros tremiam sob seu comando, e a ela parecia não importar o distrair de seu trabalho, nem perceber com que desespero desejava se levantar, rodear a mesa, elevar seu queixo e beijá-la até que não recordasse o nome de nenhum outro homem.

Beijá-la, sim. Throckmorton riu com aspereza.

Celeste deixou de escrever e o olhou com a débil expressão de alarme de uma mulher que enfrenta a um lunático.

Possivelmente acabara por se converter em um. Porque quando foi que se mostrou ofegante por uma mulher como aquela? Nesses momentos não tinha amante; e nenhum desejo de encontrar a uma quando o único pensamento que cruzava por sua mente era Celeste, Celeste e Celeste.

O certo é que queria fazer algo mais que beijá-la. Queria lhe desabotoar o sutiã, aquele sutiã que, vindo da cintura diminuta, cobria-lhe a curva dos seios e chegava até o estreito ângulo agudo que formava o colarinho do objeto. Aquele trançado era um desafio para qualquer homem que se apreciasse de tal, e o abocanhava ao tipo de tentação proibida em todos os mandamentos da afetada sociedade cristã.

Entretanto, Throckmorton não cedeu à tentação; não era desse tipo de homens.

Não, mas sim que imaginou coisas. Coisas como desfazer o nó do laço do corpete trançado para ver seus seios, com sua pele de tato sedoso e seus pálidos e suaves mamilos.

Sonhou com seu sabor e com como se franziriam quando ele os chupasse.

Se não fosse o homem que era, se se tratasse de um irresponsável e carecesse de disciplina, mostraria a ela que aqueles beijos não foram a não ser o prelúdio de outras delícias que só ele poderia lhe ensinar. Quando com suas mãos subisse pela aristocrática curva das pernas de Celeste, perceberia cada secreta e suave curva de pele. E, ao chegar à parte de cima, abriria-lhe a fresta da calça.

Começaria tocando-a com delicadeza, lhe dando tempo a que se acostumasse às carícias de seus dedos nos suaves cachos que ocultavam seu santuário íntimo.

Mas quando Celeste levantasse a vista para ele com aqueles olhos formosos e que mudavam de cor e lhe suplicasse mais... Ah, então lhe abriria as dobras e encontraria o nó mais prezado da sensualidade feminina. E quando a tivesse acariciado até que ela se retorcesse entre suspiros e sua maravilhosa e doce voz implorasse que a fizesse alcançar o êxtase, então, e só então, a penetraria com seu dedo.

Aquilo também seria um prelúdio. Ele se atrasaria em Celeste, igual a um músico se entreteria com um instrumento magnífico, e demonstraria que suas capacidades se estendiam além dos negócios e da espionagem.

Se se concedesse o prazer de satisfazê-la, apagaria da mente de Celeste qualquer nome que não fosse o seu. Seu nome seria o que ela gritaria no êxtase. Lhe ensinaria isso; ensinaria tudo.

Se o permitisse a si mesmo.

O que não ia permitir.

Precisava recordar quem era, e não podia esquecer quem era ela. Precisava ter presente que o pai de Celeste era seu fiel jardineiro, e que ele, Throckmorton, tinha previsto manda-la de volta a Paris, e que ela era virgem e que jamais desonraria a uma garota virtuosa. Nem sequer a uma garota cujo sorriso lhe proporcionava um prazer não experimentado durante muitos anos de solidão.

—Senhor Throckmorton, por favor! - Celeste o estava fulminando com o olhar.

Será que tinha lido seus pensamentos?

Não. Celeste olhava com o cenho franzido a pluma que ele sustentava na mão, a qual repicava e repicava e repicava.

—Não posso trabalhar mais depressa, e você está me distraindo. - Suspirou com chateio. - Por que não vai e pergunta a Esther o que está preparando para o espetáculo desta noite?

Tenho entendido que se trata de uma noitada musical, e estou segura que adorará ouvir as damas exibir seus dons.

O olhar de Throckmorton desceu até os seios de Celeste, embora sabia que ela não se referia a aquele tipo de dons.

—Quando voltar, prometo que terei terminado - continuou Celeste sem perceber nada.

Throckmorton colocou a pluma com cuidado sobre a escrivaninha.

—Ficarei.

Porque sob nenhuma circunstância ia se levantar e se mostrar naquele doloroso, desesperado e manifesto estado de excitação.

 

Um estalo de gargalhadas procedente da estufa fez que Celeste parasse em seco. A chuvosa manhã abrira espaço a uma chuvosa tarde, e o grupo de jovens que rodeava Ellery se estabeleceu entre as colunas de mármore, a meia dúzia de amaciados sofás e o prezado esbanjamento floral de Milford.

—É tão ocorrente como formosa, lady Napier - disse Ellery com voz suave e estudada.

Lady Napier! Celeste se permitiu uma íntima expressão de desdém. A coquete, risonha e ambiciosa beldade! A última noite se atreveu a formular algumas pergunta a respeito da repentina aparição e dos misteriosos antecedentes de Celeste.

Se Celeste fosse ainda a celeste que chegara de Paris, teria irrompido imediatamente na estufa e teria levado Ellery sem mais olhares ante os finos e aristocráticos narizes de lady Napier.

Mas aquela Celeste tinha dançado até as três da manhã, comido em excesso um sem-fim de ricos manjares e bebido muito champanhe. Certa Celeste de transição passou a manhã traduzindo documentos de um ininteligível russo a um inglês impecável para um Throckmorton inquietante e resmungão. Nesse momento, a Celeste ali parada, o resgate de Ellery lhe pareceu um esforço desonesto.

Então quando ele gritou: "vamos jogar as heranças que mal temos", Celeste se esmagou contra a parede que havia atrás do vaso de uma laranjeira anã e observou à turma de bobas ao completo sair revoando em turba a caminho de outra tarde... improdutiva.

Percebeu a leve fragrância cítrica que desprendiam as flores brancas. Umas quantas laranjas verdes penduravam dos ramos com a promessa dos frutos em florações. Celeste ficou olhando fixamente as cerosas folhas esmeraldas e apertou a testa com as pontas dos dedos. A verdade é que precisava superar aquele ataque de escrúpulos. Desejara sempre a Ellery e não compreendia sua confusão, a horrível atração que sentia para o velho e aborrecido Garrick.

E quando começara a pensar nele como Garrick?

Não acreditava que fosse mais atraente que Ellery, assim louca de tudo não estava. Mas Garrick a interessava; era um enigma, um mistério de olhares ferozes na sombra, uma sagacidade fascinante e beijos que lhe derretiam os ossos.

Foram precisamente seus beijos os que a impulsionaram a comparecer ao baile na última noite. Havia sentido a necessidade da música, o baile e a visão de Ellery para expulsar de seus sentidos a voz, o tato e a visão de Garrick.

Conseguira. Mas oxalá não tivesse aceito trabalhar com Garrick... Embora não lhe deixara muitas opções.

Espionou por um lado da laranjeira. Ellery e sua gente tinham dobrado a esquina. Quando o ruído se apagou e esteve segura que o corredor estava vazio, saiu de seu esconderijo. E quando já se dispunha a se dirigir em direção contrária... o som de um soluço contido procedente da estufa a deteve. Por um lado sabia que não devia ir ver quem estava chorando; certa força superior a alertou de que o lamentaria.

Mas, quem quer que fosse, ao primeiro soluço lhe seguiu um segundo e um terceiro, e o mais prolongado e patético resfolegar que Celeste já ouvira em sua vida.

Assim sem mais intenção que a de oferecer seu lenço, entrou na estufa.

As janelas cobriam a parede exterior e davam ao jardim e ao caminho circular onde se reuniam as carruagens para descarregar seus passageiros. Os cipós azuis, plantados em vasos de barro, subiam entre as janelas pelas grades. No inverno, quando os ventos eram frios, e os dias mais calorosos do verão, podiam correr os cortinados de veludo azul marinho, mas inclusive então, a estufa irradiava a calidez de uma sala acolhedora. Enormes vasos azuis que continham, rosas amarelas tinham sido colocados em mesas e cantos, e no centro da grande peça duas laranjeiras cresciam em descomunais vasos de barro, enchendo a atmosfera com sua fragrância rica e delicada. Os finos ramos se juntavam no alto formando um matagal verde e denso e, igual a uma avalanche dourada, a cestinha se espumava da base dos troncos e caía em cascata pelas laterais dos vasos de barro.

O sussurro de suas saias deve tê-la delatado, porque o soluço cessou de repente e alguém - uma mulher, deduziu Celeste, pela suave correria de umas bailarinas de pele e o frufrú de anáguas - se escondeu.

Celeste sentiu vontade de se dar de cabeçadas contra a coluna de mármore que tinha junto a ela. Só uma das refinadas puro sangues da reunião se sentiria tão insegura de si mesma para se esconder a chorar, e era a única garota a que Celeste deveria deixar que se arrumasse sozinha. Em seu lugar, se encontrou chamando em voz baixa:

—Lady Hyacinth? É você?

—S-sou. - A voz da garota soava apagada e resultava comovedora.

—Acontece algo?

—N-nada.

Celeste olhou ao chão e decidiu acreditar nela e escapar dali enquanto pudesse.

—De acordo. Se estiver segura.

—S-sim. Estou... estou bem. - A última e descarada mentira foi prelúdio de um estalo de pranto o bastante desesperado para derreter inclusive o coração de Throckmorton.

—OH, querida, venha, - Celeste se dirigiu à coluna onde Hyacinth estava escondida e abraçou à humilhada jovem. Um abraço torpe porque Hyacinth lhe tirava seus bons quinze centímetros, embora Celeste a embalou como se se tratasse de algum animalzinho ferido. - O que acontece?

Hyacinth não tombou a Celeste de um sopapo; bom sinal, se se tinha em conta que a noite anterior Celeste passou das onze até as três provocando a hilaridade de Ellery e o fazendo dizer coisas como:

"É tão ocorrente como formosa, senhorita Milford".

Certamente Ellery deveria idear alguma maneira diferente de repetir aquele velho estribilho.

—Se trata... de Ellery - disse Hyacinth.

É obvio que se tratava de Ellery, que outra coisa se não. A primeira vez que Celeste ouvira Ellery soltar a velha cantinela de "ocorrente e formosa" fora a lady Agatha Bilicliffe no jardim murado.

Celeste contava à maturação quatorze anos, e Ellery fora expulso de Eton. E Celeste sonhara com o dia em que Ellery a elogiasse com uma eloquência tão maravilhosa como aquela.

Hyacinth ficou olhando ao infinito e retorceu seu lenço empapado. - Não me faz nem caso.

Nenhum dos sonhos de Celeste estava resultando tão maravilhoso como tinha esperado. E, sem dúvida, jamais imaginara que se veria presa no contexto de ter que consolar à prometida de Ellery.

—Por que diz isso?

—Já o viu. Faz dois dias que não me fala. E me ignora como se lhe resultasse insuportável minha visão. Hoje nem sequer se deu conta que estava atrás dele. - Hyacinth voltou os olhos alagados em lágrimas para Celeste. - Vá, e ontem à noite inclusive esteve paquerando com você!

—Bom. Sim, isso é verdade. - Envergonhada, Celeste olhou para todas as partes exceto a Hyacinth. - Mas é que Ellery paquera com a mesma facilidade com a que respira. Isso não significa nada.

—Exceto quando paquerava com ela, sim que significava algo. Vá que sim.

—Mas comigo não o faz. - Hyacinth começou a chorar de novo, e dessa vez choramingou como um bebê, sem nenhum controle, resfolegando com grandes e entrecortados soluços.

Desejando se encontrar em qualquer parte exceto ali, Celeste conduziu Hyacinth ao sofá.

—Grande... alta... desengonçada - soluçava Hyacinth.

Celeste inferiu que Hyacinth estava falando de si mesma. Se dirigiu então até uma exótica arca de madeira, a abriu e tirou uma das mantas de ponto que havia em seu interior.

—Desajeitada... incapaz de aprender a dançar... Celeste retornou junto a Hyacinth e lhe jogou a manta pelos ombros a modo de xale.

Hyacinth se amassou no tecido entre calafrios.

—Nunca aprendi a conversar... me envergonhava... os caroços da cara... espantosa. Alarmada ante o matiz azulado que estava adquirindo sua tez, Celeste lhe ordenou:

—Respire.

Hyacinth obedeceu, fez uma longa e tremula inspiração e conseguiu dizer:

—Meu pai me comprou ao homem mais bonito da Grã-Bretanha, e amo Ellery desesperadamente e não... sou capaz... de interessá-lo. - A última palavra saiu acompanhada de um gemido.

Celeste colocou seu lenço na mão de Hyacinth.

—Estou segura que isso não é verdade - disse.

—Sabe muito bem que sim. - Hyacinth secou os olhos. - Me olhe. Sou muito grande, toda braços e pernas. O mais seguro é que Ellery se pergunte se poderia vencê-lo em boa briga.

—Bom, é obvio que pode, com um bom rifle e tempo para apontar. - Celeste provou a sorrir à assustada Hyacinth.

—Isso é outra coisa! Você pode disparar, e todos pensam que segue sendo elegante, mas se tento falar de meus estudos de grego, todos se comportam como se tivesse contraído uma enfermidade terrível.

—Hyacinth olhou para Celeste com úmido ressentimento. - Por que você pode evitar a censura e eu não?

—Porque, no mais profundo de seus corações, a maioria dos homens acreditam que se chegar o caso em que tivesse necessidade de utilizar uma arma para me defender ou atacar, meu ânimo fraquejaria.

—Celeste a convidou a se unir a seu sorriso zombador. - Encontram um pouco mais problemático se acreditarem melhores que uma mulher cuja mente seja igual ou, Deus não o queira, superior a deles.

—Ah. - Hyacinth lhe devolveu o sorriso, embora com um rictus de aflição. - Mas estou me cansando de fingir que sou tola. Será que alguma vez mais vou poder falar sobre os clássicos gregos em grego?

—Pode fazê-lo comigo, embora temo que rirá de meu acento e se aborrecerá com minhas opiniões, porque me educaram com outros serv... - Celeste se conteve. Quase havia dito muito. Esteve a ponto de revelar suas origens, e a última noite saíra muito graciosa do interrogatório para desvelar seu segredo a essas alturas. - Duvido que minha educação seja igual à sua.

—Mas isso é maravilhoso! - Os olhos de Hyacinth resplandeceram de prazer. - Me parece que vamos ser umas amigas maravilhosas, quando não irmãs.

Celeste retrocedeu com um sobressalto.

Abrindo muito os olhos, Hyacinth se cobriu a boca com a mão.

—Sinto muito. Isso foi prematuro e muito indiscreto. É somente que ontem à noite vi como Throckmorton a observava e posso assegurar que... a admira muitíssimo.

Throckmorton também a esteve observando essa manhã, escondendo sua admiração atrás de um sobrecenho enrugado e um repico constante da pluma.

—Agora devo ir...

—Espere!

A voz de pânico de Hyacinth a deteve quando tentava a retirada.

Hyacinth tinha a cabeça inclinada e beliscava o bordado do lenço. A chuva escorria a torrentes pelas grandes janelas que miravam ao sul, e a escuridão e o silêncio continham uma atmosfera de lúgubres à sala.

Celeste rezou para que algo ou alguém fosse em seu auxílio.

Mas o que se ouviu foi a voz de Hyacinth no tom apressado de alguém temendo a recusa.

—Por favor. Todos a admiram; Ellery a admira. Não me faria o favor de me ensinar a conquistá-lo de novo?

O pai de Celeste teria dito que foi pega pelos dedos e também que tinha o merecido castigo. Então, só foi capaz de ficar olhando fixamente os olhos avermelhados e a cara torcida da abatida Hyacinth e de dizer gaguejando:

—É que... eu não sei...

—Sim. Sim que sabe! - Hyacinth segurou suas mãos. - Você vem de Paris; se nota. Todos a admiram ou a invejam, sobretudo essa víbora de lady Napier. O que posso fazer para ser como você?

—Mmm, bom... tem que fingir que é feliz.

—Fingir que sou feliz. - Hyacinth começou a medir as almofadas do descomunal sofá como se estivesse procurando algo.

—O que está fazendo; - perguntou Celeste.

—Procuro minha bolsa. Levo papel dentro e posso tomar notas...

Celeste pôs as mãos em cima dela.

—Não precisa tomar notas. Pode recordar isto. Sorria.

—A verdade é que não me sinto...

—Não importa. Sorria.

Hyacinth estirou os lábios sobre os dentes.

—Assim está bem. Um sorriso falso sempre é melhor que um cenho de verdade. Se sorri, todos quererão estar com você porque é feliz e, então, se sentirá realmente feliz porque tem amigos que se sentem bem estando com você.

—Isso é tão pouco sincero.

—E não o é a sociedade?

Hyacinth riu, e pela primeira vez desde o surgimento de Celeste, relaxou.

—É esse seu segredo?

—Pense nisso. Fiz algo mais para parecer atraente?

O sorriso de Hyacinth se esfumou.

—Mas é que você é atraente.

—Igual a você. - Celeste tentou se levantar mais uma vez. Melhor que volte para a festa...

—Espere. - Hyacinth segurou sua mão e Celeste voltou a se deixar cair no sofá. - Tem que haver mais coisas que possa me contar. Me diga como posso fazer para que Ellery repare hoje mesmo em mim.

Detalhes. Hyacinth queria detalhes. Muito bem. Celeste os daria.

—A primeira coisa que tem que fazer é lhe sorrir e, depois, dar meia volta. Olhe-o com as pálpebras entrecerradas e se mova com graça e feminilidade; logo, tropece e deixe que ele a agarre. Lhe roce o braço com o seio como por acaso.

—Isso é matreiro. É... - Hyacinth respirou tremulamente - genial.

Celeste se sentiu adulada a contra gosto.

—Se pretende manter o interesse de um homem como Ellery, tem que jogar a partida melhor que ele. - Celeste fez um encolhimento de ombros tipicamente francês. - O conde de Rosselin dizia que uma mulher pode ter a um homem eternamente escravizado se souber quando se impor e quando ser magnânima.

—E esse conde dizia como se sabe disso?

—Siga seus instintos. Pratique ante o espelho. E faça que Ellery se esforce em conquistar seu amor.

—Mas eu... eu já o amo. - Os olhos de Hyacinth se alagaram em lágrimas.

A Celeste incomodava sobremaneira ver a jovem tão afligida. Lhe dando um abraço reconfortante, disse:

—Mas ele não deve sabê-lo.

—Já disse a ele.

—Você é tão jovem que poderia deixar de amar Ellery e apaixonar-se pelo arrumado lorde Townshend sem solução de continuidade.

—Mas eu não sou tão volúvel!

Celeste sorriu.

—Ellery não deve saber disso.

—Ah. - O sobrecenho de Hyacinth se enrugou enquanto refletia.

—Esta noite arrume sua caderneta de dança de maneira que dance com Ellery e a seguir com lorde Townshend. Quando Ellery a ceda a lorde Townshend, se volte para sua senhoria, sorria e diga:

"Onde esteve escondido todo este tempo?". Não o diga muito alto, só o justo para que Ellery possa ouvi-la.

—E o que lorde Townshend pensará de mim?

—Pensará que está paquerando, e a isso está acostumado. Todos os homens com fortuna e que conservam sua dentadura estão acostumados a ser cortejados.

Hyacinth assentiu com a cabeça.

—Me ajudou a empurrar o balanço.

—Então ele gosta de você. Ellery os estará observando, e você pode sorrir para lorde Townshend como se se tratasse da estrela mais brilhante do firmamento.

—Não sei como fazê-lo.

—É obvio que sim - disse Celeste. - Assim é como sorri para Ellery. É por isso que ele acredita que a tem em mãos.

Hyacinth baixou a cabeça e olhou para Celeste com os olhos entrecerrados.

—Isso é o que pensa, não é?

—Pois claro que sim. Bom, se aproxime bastante de lorde Townshend quando dançarem e lhe pergunte por seus cães.

—Por seus cães?

—Se dedica a criar spaniels de caça. Enquanto lhe fale sobre eles, a você não faltará conversação e ele não terá tempo de se perguntar o que se traz entre mãos. Quando voltar ao lado de Ellery, deixe que sua mão se atrase sobre o braço de lorde Townshend um momento considerável.

—E o que passará se Ellery não se dá conta?

—Fará, e lhe prometo que tirará as conclusões corretas... Ou, neste caso, equivocadas.

—E voltará a me querer?

—Sim... Sim, voltará a te querer. - Celeste não saía de seu assombro pela loucura que estava cometendo. Por que estava contando a sua rival como conservar Ellery, quando ela própria o queria?

Não compartilhara uns quantos conselhos, como pretendera em um princípio, mas sim se esquecera da rivalidade e lhe contara tudo o que sabia.

Mas, bom, seguro que não importava. Dizer a Hyacinth o que precisava fazer e que Hyacinth o fizesse de maneira correta eram duas coisas diferentes. Hyacinth carecia de experiência nas artes femininas; não podia fazê-lo bem, nem sequer com o estímulo de querer Ellery como o queria. E Ellery... Bom, Ellery queria a ela, a Celeste. As tentativas de Hyacinth de chamar sua atenção não influiriam nele... da mesma maneira que Throckmorton não influiria nela, Celeste. Nem com sua conversação, nem com seu interesse, nem com seus beijos...

Se beijara Throckmorton, se devia somente a que pensara... quer dizer, lhe parecera... enfim, que os beijos não tinham nenhuma importância.

A simples união dos lábios, o sabor da boca de Throckmorton, úmida e cálida... Celeste desprezou o pensamento.

—Agora tenho que ir...

—Há uma coisa mais - disse Hyacinth rapidamente, tanto que as palavras se amontoaram umas em cima das outras, dissolvidas as sílabas pela vergonha. - Não o posso perguntar a ninguém mais. Assim de simples.

Celeste lamentou até o desespero não ter se ido na primeira tentativa. Ou na segunda. Ou na terceira.

—Mamãe não deixa de me fazer insinuações sobre minhas obrigações para com meu marido, mas não sei do que está me falando e sei que não me dirá isso. - Hyacinth a olhou seriamente aos olhos.

—Por favor, se importaria de me dizer a que se referem essas insinuações?

Sem estar de todo segura de se estava sendo insultada por uma perita ou por uma idiota, Celeste afastou a mão de um puxão.

—Não sei a que se refere sua mãe. Nunca conheci a nenhum homem!

—"Conhecido" a nenhum homem - disse com surpresa Hyacinth. - Como no sentido bíblico?

—Exato, como no sentido bíblico.

—Ah, querida, querida Celeste, eu não queria dizer... Bom, nem sequer me tinha percebido de que era isso ao que minha mãe se referia. Sei que nunca esteve casada, mas é que pensava que quem ia a Paris descobria tudo sobre o mundo. Você é mais velha e mais refinada que eu, que não sou mais que uma pequena caipira rural. - Hyacinth voltou a agarrar sua mão e Celeste o consentiu.

—Lamento tanto se a ofendi. O que acontece é que Ellery me evita e não tenho a ninguém a quem poder contar. Ninguém que queira me escutar!

Celeste suspirou. Era verdade. Hyacinth era jovem, apaixonada e transparente como um cachorrinho grande e desajeitado que tentasse impressionar a sua nova mestra. Celeste a descartara como rival.

Todos nas duas famílias davam por certo que Hyacinth faria o que lhe dissesse sem pigarrear. Inclusive os criados - leais a Celeste - a ignoravam quando falava. Se ia se converter na esposa de Ellery - ou na esposa de quem fosse - era indubitável que a jovem necessitava ajuda. E, por desgraça, fazia que Celeste recordasse de si mesma nas primeiras etapas de amor de Ellery.

Certamente um pouco de apoio moral não seria nenhum problema nem interferiria com as possibilidades de Celeste com Ellery.

—De acordo, contarei o que ocorrerá em sua noite de bodas - disse Celeste. - Mas tem que me prometer que não gritará nem chorará.

Hyacinth apertou a mão de Celeste.

—Vejo que é pior do que temia. - Endireitou os ombros. - Muito bem, serei valente.

—Entre um homem e uma mulher há muita... - Celeste fez uma pausa, embora não fosse capaz de discorrer uma palavra delicada para descrever a situação - nudez.

—De quem? - perguntou Hyacinth em evidente estado de agitação.

—De ambos.

Hyacinth tragou saliva com os olhos muito abertos.

—Seu marido a tocará em... certos lugares.

Hyacinth ofegou, estremecida.

—Mas ele não quererá que eu toque a ele, não é?

Celeste considerou a informação que lhe acabavam de proporcionar.

—Não sei; nunca ouvi nada a esse respeito, embora saiba que aos homens gosta sempre que as mulheres lhes sirvam em todos os aspectos.

—Sim. Sim, tem razão. A papai gosta quando mamãe... - Hyacinth empalideceu. - OH, não quero pensar nisso!

Recordando do lance de lorde Longshaw e da gordinha lady Longshaw, Celeste disse:

—Mas seus pais são muito velhos!

—Têm quarenta e tantos anos - disse Hyacinth movendo a cabeça com solenidade. - E se o que me diz é certo, temo por sua saúde.

—Ainda não ouviu o pior. - Celeste baixou a voz. - Seu marido quererá cobri-la, como fazem os garanhões com as éguas.

Não coube nenhuma dúvida de que a notícia agitou Hyacinth.

—Se refere a que subirá em cima de mim e...? Ah! - tampou a boca com a mão.

—Sim - disse Celeste com um movimento de cabeça.

—Pôr seu... dentro de mi...?

—Isso tenho entendido.

—Mas isso é espantoso!

Celeste mordeu o lábio com indecisão. Para falar a verdade, também lhe parecia terrível, embora os fatos não pareciam corroborá-lo.

—Este é o aspecto mais assombroso da questão. Sempre que seu marido se mostrava obsequioso com ela, a senhora embaixatriz parecia ficar bastante atordoada, e pela manhã ambos pareciam estar encantados da vida! O conde de Rosselin me disse também que é coisa do homem procurar a felicidade da mulher e que se não for assim, não é homem nem é nada.

—Então Ellery deve ser um maravilhoso... um maravilhoso...

—Amante.

—Sim! Amante! - A utilização da palavra da parte de Hyacinth foi acompanhada da quase audível quebra de umas correntes virginais. - Ellery deve ser um amante maravilhoso, e daí o problema. Todas as mulheres lhe sorriem, todas lhe sussurram coisas. - Deu um murro sobre o braço do sofá. - E estou até a cabeça disso!

Levada pelo entusiasmo, Celeste sacudiu o ombro de Hyacinth.

—Então, deve ser melhor que elas E pode consegui-lo!

—Lá vou! - Hyacinth se levantou de um salto, jogando de si a manta qual Boadicea se livrando das correntes de Roma. - Farei exatamente o que me aconselhou senhorita Milford... E muitíssimo obrigado.

Você é uma pessoa muito bela!

"Não, não sou", pensou Celeste.

—Não esqueça. Quando Ellery se dê conta que está se apaixonando por lorde Townshend, tentará conquistá-la de novo com adulações e elogios. Não se deixe convencer.

—Não me deixarei?

—Não. Se necessita algo mais que uns quantos sorrisos falsos e uns elogios fáceis para comprar seu carinho. Se mostre indiferente. Acabará confundido e intrigado.

—E enquanto finjo que não me importo, roço-lhe o braço com o seio. Sim, entendo perfeitamente. - E desapareceu entre um murmúrio de saias.

Celeste se deixou cair de novo sobre as almofadas do sofá, assombrada de sua fanfarronice... e da de Hyacinth.

Mas teve um sobressalto quando a voz indolente de Throckmorton interrompeu seus pensamentos.

—Pois eu diria que não entendeu nem a metade.

 

Throckmorton saiu de trás de uma coluna estriada de mármore, se dirigiu até as portas e as fechou. Estas fizeram um ruído seco ao se fechar com a inexorabilidade de uma prisão. Ao retornar junto a Celeste, a observou de tal maneira que ela sentiu o impulso de comprovar se tinha aberto o sutiã.

—Teria que acrescentar que eu tampouco entendo. Será que lady Hyacinth era uma rival muito fácil? A aconselhou porque deseja uma competição mais dura?

—Acreditei que... merecia algo mais... que uma vida junto a um marido indiferente. - E acrescentou com valentia: - Quem quer que possa ser este.

Throckmorton não prestou muita atenção a seu desafio. Se limitou a observá-la com um desavergonhado sorriso carente de calidez que lhe enrugou as faces recém barbeadas.

—Sabe muitas coisas sobre o que acontece entre um homem e uma mulher.

Celeste ficou sem fôlego. Pois claro... ouvira. Mas quanto...?

Mas dava igual quanto tivesse ouvido, e o que; Celeste se sentia envergonhada e o rubor explodiu em suas faces, as queimando como se fosse fogo.

—Ouvi o suficiente para pensar que é uma jovenzinha muito ardilosa. - Se aproximou dela e lhe ofereceu a mão.

Celeste a agarrou porque se tratava de Garrick Throckmorton, e ele nunca perdia o autocontrole nem permitia que o fizessem suas reações.

Quando a puxou para cima, Celeste se deu conta de seu engano. Throckmorton não retrocedeu para lhe deixar espaço; tão só a puxou para ele. Soltou-lhe a mão, rodeou sua cintura com os braços e, se aproveitando do desconcerto de Celeste, a fez girar para apoiá-la contra a coluna.

—Um movimento o bastante suave para que recorde Ellery. - Parecia sarcástico, indignado, zangado inclusive, mas absolutamente o homem decididamente equânime que tinha chegado a conhecer.

—Sim, assim é. Me recorda isso, é obvio. - Celeste levantou o queixo e o olhou fixamente aos olhos. - Mas no caso de Ellery, teria ido acompanhado de algo divertido.

—Pois prova isto em troca. - Throckmorton inclinou a cabeça e a beijou.

Perda do fôlego e pressão dos lábios, o mesmo que nas vezes anteriores. Mas isso foi tudo; o cavalheiro Throckmorton desaparecera. Deixara atrás os beijos considerados que tinham posto de manifesto suas habilidades e já não mostrava nenhuma consideração para a falta de experiência de Celeste. Não, dessa vez saqueou sua boca, a abrindo para sua língua sem refinamento nem cortesia.

Celeste respondeu porque não sabia como não fazê-lo.

A esmagou contra a coluna, e as engomadas anáguas de Celeste expressaram seu protesto com um rangido. Throckmorton parecia mais pesado que sobre aquela manta sob as estrelas porque não lhe importava a comodidade de Celeste. E seu sabor... Ah, naquilo não havia nada de cortesia nem de luminosidade estelar nem de veludo. Aquelas impressões, foram véus que ele se pôs para ocultar sua verdadeira condição.

Não, nesse momento Throckmorton tinha sabor de paixões escuras e a tempestades da alma ocultas e enfebrecidas.

Assustada pela paixão e a força de Throckmorton, e por sua própria reação às trevas que aquele homem abrigava em seu interior, Celeste resistiu choramingando.

A agarrou pelos pulsos, as levantou por cima de sua cabeça, obrigando Celeste a ficar nas pontas dos pés, e a estreitou contra ele. Usava jaqueta, colete, camisa e gravata e calças, mas para o caso bem poderia ter estado nu. As capas de tecido não podiam ocultar a firmeza de seus músculos nem a superioridade de sua força. Se o que pretendia é que ela se sentisse indefesa e que soubesse o pouco que podia fazer para se salvar, conseguira de forma admirável.

Throckmorton levantou a cabeça e seus escuros olhos castanhos a olharam com ferocidade.

—A menos que eu lhe permita isso, nunca se soltará.

Uma ameaça. Uma ameaça que implicava algo mais que o que as meras palavras podiam expressar. Celeste lhe devolveu o olhar com a mesma intensidade.

—Senhor Throckmorton, está se comportando como um imbecil. E eu não beijo aos imbecis.

—Pensa fazer funcionar esse olhar e esse tom de voz? - Parecia interessado, e o que ainda era pior, intrigado.

Celeste voltou a tentar.

—Está atuando como um colegial impertinente.

—Que aterrador. Com isso consegue que os mentecaptos se encolham e saiam correndo?

Faziam-no. Quando se enfrentavam a sua severidade de instrutora os mentecaptos sempre saíam correndo.

E era uma idiotice pensar que Throckmorton fosse um mentecapto.

—Ignoro por que está zangado, mas se realmente não quer me arrancar os braços, me solte já.

Baixou-lhe os braços com muita lentidão, permitindo que voltasse a se apoiar contra a coluna. Durante um fugaz e maravilhoso instante Celeste se viu livre da poderosa autoridade que representava o torso de Throckmorton colado ao dela. Então, ele se inclinou para frente, apertando a parte inferior de seu corpo contra o amplo sino das anáguas de Celeste e voltou a abraçá-la com o corpo e as mãos, ao mesmo tempo que lhe demonstrava de maneira inequívoca que estava indefesa entre suas garras. Celeste tragou saliva e o olhou fixamente à cara procurando tolerância, senso de humor e, inclusive, a inteligência que, sabia, formavam parte do senhor Throckmorton. Mas a sombra escura da barba, a dilatação das aberturas do nariz, o sorriso, aquele que tanto se parecia com um grunhido, tudo traía ao selvagem primário que espreitava... esperando-a.

No tom brusco da besta, Throckmorton disse:

—Não sei se Hyacinth acredita realmente que é virgem, você, a sabichona...

—Falatórios!

—Mas eu sim acredito. Se fosse uma mulher experimentada, não usaria o sutiã com os laços passados pela frente.

Celeste baixou a vista confundida. Embelezada com aquele resistente vestido de algodão com listras verde claro e as fitas de cor verde escura atadas quase até o pescoço, seu aspecto era decente, mais que decente.

—A que se refere?

—Nenhuma inglesa usa o sutiã preso na frente. Isso faz que os homens pensem em desatá-lo.

—O abotoam à costas.

—Não é nem de longe tão tentador. - Com os pulsos de Celeste seguros em uma mão, deixou cair a outra até os cordões com os que estava zombando dela.

Throckmorton a acariciou justo na fenda dos seios. A respiração de Celeste se tornou rápida e superficial. Tentou se queixar com valentia, mas sua voz a traiu na última sílaba.

—Isto é absurdo.

—As costas femininas pode ser uma maravilha de beleza física, mas nada pode se comparar com os seios de uma mulher...

—Senhor Throckmorton!

Débil. Uma resposta débil, mas é que estava realmente transtornada. Não só a havia tocado, mas sim utilizara aquela palavra. "Seios." Ninguém, nem sequer em Paris, falava jamais de maneira tão aberta daquela forma feminina. Semelhante linguagem era tabu. E vulgar. E íntimo. E devido a que Throckmorton falava de seus seios como se tivesse algum direito sobre seu corpo, o coração de Celeste ficou a pulsar com força, com um batimento irregular e incômodo. Era quase como se ela tivesse estado fugindo dele a toda pressa, e ele a tivesse apanhado e fizesse com ela o que lhe parecesse.

Mas ela não esteve fugindo dele. Ou sim?

E ele, sem dúvida alguma, não fora atrás dela. Ou sim?

Sem um pingo de vergonha nem de decência, Throckmorton lhe desatou o laço do sutiã. Celeste lhe fizera um nó duplo, mas ele se revelou destro e rápido na tarefa.

Celeste arrastou os pés para um lado em uma tentativa desesperada de escapulir.

Com lentidão, como se estivesse desembrulhando um pacote longamente esperado, Throckmorton desfez o trançado puxando uma fita de cada vez.

Celeste se retorceu tentando se liberar antes que ele...

Throckmorton puxou seu vestido, lhe despindo o seio. E olhou.

O ar frio acariciou a pele nua de Celeste e fez que seus mamilos se franzissem até se converter em uns duros botões.

Um sorriso estirou a comissura da boca de Throckmorton.

—Olhe. - A acariciou brandamente com um dedo. - Mostra seu desejo.

—Isso não é desejo. - A Celeste pareceu odiosa a petulante compreensão latente na expressão de Throckmorton. - É frio!

Throckmorton fechou as pálpebras, ocultando seu inquietante olhar.

—Posso te esquentar.

Celeste sentiu que começava a se ruborizar à altura da cintura... ou talvez mais abaixo. Mais abaixo se sentia estranha, sem dúvida, com aqueles retorções no ventre e a plenitude e umidade do útero.

—Não. Me cubra. - Olhou para a porta, que, a Deus obrigado, permanecia fechada, mas sussurrou ferozmente: - Por favor, senhor Throckmorton!

—Não tem que falar tão baixo nem que se preocupar tanto. - Sua voz era profunda e rouca, transbordante de prazer e, Celeste pensou com temor, de expectativas. - Ninguém vai vir nos olhar aqui dentro.

Há uma festa e a ninguém importa onde estejamos.

—A mim sim! - E, em um inspirado estalo de rebeldia, acrescentou: - E...a Ellery também!

À menção do nome de seu irmão, Throckmorton se jogou sobre ela. Se jogou, a beijou... Celeste bem poderia ter sido um camundongo nas garras de um leão, tal foi a perícia do abraço de Throckmorton e tão meticulosos seus beijos. Quando ela tentou resistir, só teve... que segurá-la. Inclinado sobre ela, esmagando seus seios nus com seu colete, ele segurou seu queixo com os dedos. Esmagou os lábios contra os de Celeste com um lento e consciencioso balanço.

Celeste se deu conta de que lhe soltara as mãos, o agarrou pelo cabelo e puxou com fúria para apartá-lo... Mas, quando Throckmorton levantou a cabeça, ela pensou melhor.

Quem era aquele homem? Ela o acreditara civilizado; civilizado em excesso, inclusive. Mas nesse momento tinha as pupilas dilatadas tanto que seus olhos castanhos pareciam negros e demoníacos.

Sorria maliciosamente, e os dentes brancos ressaltavam no rosto moreno. Se inclinando, Throckmorton segurou seu lábio inferior entre os dentes. Não o mordeu; o roce podia inclusive se considerar erótico.

Mas era uma ameaça, e dessa vez, quando ele levantou a cabeça, o fez por própria vontade.

Celeste não podia afastar o olhar dele.

—Está me dando medo.

—Não, não é verdade. - Throckmorton deslizou a mão sobre seu esterno. - Não é o medo o que faz que seu coração pulse com força. É isto. - Cavou as mãos em seu seio e beliscou o mamilo. Quase. Igual à dentada do lábio, não foi doloroso, mas...

Os joelhos de Celeste se entrechocaram por causa do medo e... Vá, que era aquela mescla de vergonha e excitação? Throckmorton já lhe dera uma pequena prova com antecedência, mas aquilo era diferente.

Dessa vez não havia ternura, não havia controle; se tratava de um louco que tinha uma cara familiar.

—Por que me ameaça? - perguntou Celeste.

—A pergunta melhor seria o que estou ameaçando em seu corpo. - riu, e sua risada foi um som rouco que fez que um calafrio subisse pelas costas de Celeste . - Acredita que sabe, mas não é assim.

—Saber o que? - perguntou Celeste. Throckmorton falava em código, e era algo que ela detestava. Os cuidados do Throckmorton, o desconforto de Celeste... sua indesejada e ilícita expectativa.

—Vou te demonstrar por que a esposa do embaixador ficava tão tola quando seu marido se mostrava obsequioso.

—Não pode! - A ameaça de Throckmorton (porque não era outra coisa apesar das suas negativas) a impulsionou a lutar por sua liberdade. - Isto não está nada bem.

—Estou farto de fazer sempre o que está bem, e prometo que quando tiver terminado, se sentirá feliz. - E com os dentes chiando, acrescentou: - E eu não.

Soltou-a e, utilizando o impulso do corpo de Celeste para escapar, a fez girar e a jogou de costas sobre o sofá.

—Por que está zangado comigo? - Celeste lutou em uma tentativa de se sentar. Throckmorton voltou a empurra-la para baixo.

—Deixou que acreditasse que não era mais que a filha do jardineiro. Só outra garota que estava apaixonada por Ellery. - Não estava sendo brusco, mas não permitia nenhuma rebelião. - Me mentiu.

—O que lhe passa? Sou quem disse que era. Nunca menti.

—Não digo nenhuma mentira a respeito. - se sentou sobre Celeste, a apanhando entre suas coxas. - E me vou desforrar.

—Como se atreve a me julgar? Eu não cometi nenhum delito! - Celeste se retorceu de lado. - Só falei com lady Hyacinth, e lhe dava um bom conselho.

—Não me importa lady Hyacinth. É generosa, é doce. É amável inclusive com uma rival. Pertence ao tipo mais perigoso de mulher que existe. Você é a que arruinou meus planos.

—Com um cuidado delicioso lhe rasgou a camiseta de cima abaixo.

O ruído do tecido ao rasgar a horrorizou. Aquele era o senhor Throckmorton, o homem mais normal, moderado e disciplinado que conhecia e que, em um gesto fruto da reflexão, lhe rasgara a camiseta.

O mundo se tornou louco. Ele tinha se tornado louco.

Se inclinando sobre os seios de Celeste, Throckmorton lhe acariciou um com a face.

—Prometi que te ensinaria uma lição. E lhe vou dar, Celeste.

—Esta é uma lição que não tem direito a me dar.

—Bom, hoje me concedo todos os direitos que me venham na vontade. - Sua respiração era uma carícia de ar contra a pele de Celeste. - E me decidi pelo ensino. Primeira lição: seus seios são mais que apetecíveis, brancos e coroados de rosa. Também são sensíveis ao tato. - E lhe rodeou um mamilo com a língua. Surgiu o arrepio, e o sangue afluiu às veias de Celeste com força.

—Ponto provado. - A voz de Throckmorton tinha adquirido um tom espesso-E para maior comprovação... - Aprisionou-lhe o mamilo com a boca e chupou.

Celeste o empurrou pelos ombros e puxou seu cabelo. Como Throckmorton era capaz de conseguir aquilo? Como podia fazê-la arder com... com vergonha e... e desejo ao mesmo tempo? A umidade de sua língua, sua aspereza, a sensação de que chupassem seu mamilo fizeram que Celeste se arqueasse entre os braços que a aprisionavam. Ela não queria desejar aquilo e, ao mesmo tempo, uma loucura de paixão, alheia por completo a seu controle, governava seu corpo.

—Me olhe - ordenou Throckmorton levantando a cabeça.

Celeste obedeceu. Reconhecia-lhe... e, entretanto, não o reconhecia. O cabelo alvoroçado, o olhar abrasador, a ameaça, o atrevimento... Como podia ser que aquele homem com umas exigências sexuais tão torrenciais fosse Garrick Throckmorton?

Fazendo pressão entre as pernas de Celeste com o joelho, as abriu.

—Não te vou fazer nenhum dano; nem vou te possuir. Me acredite.

—Se acreditar que isso me tranquiliza, pense em outra coisa. - E deu uma bofetada na cabeça dele.

Ele agarrou seus braços e os imobilizou aos lados.

—Mas quero te ver quando te levar mais à frente do prazer. Nunca terei outra coisa, mas sei que ficarei com essa lembrança. - Parecia um juramento. Tirando a parte inferior do corpo do sofá, se ajoelhou no chão ao lado de Celeste. Levantou sua saia e deslizou a mão pela panturrilha.

Celeste voltou a se retorcer.

—Isto não está nada bem!

—Essa é uma verdade que já disse esta noite. Não está bem, mas você merece a lição. Do tato da seda - seus dedos se deslizaram pela meia de Celeste e ultrapassaram a liga - e do tato da pele nua.

Dos prazeres atenuados e dos prazeres vivos. Ao lhe acariciar a coxa, Celeste percebeu sua implacabilidade, por mais que suas palavras soassem quase poéticas. O que podia impulsionar a um homem assim à poesia?

Só aquilo, supôs; só o físico. Apanhada, rígida pela resistência que opunha, Celeste disse:

—Sigo sem compreender o motivo.

—Tem que compreender os rescaldos que você avivou.

Ela tentou chutar. Throckmorton aproveitou então seu movimento para lhe separar os calções e, ao fazê-lo, seus dedos lhe roçaram a entreperna.

O ato, aquele frágil encontro, a alagou de sensações. A faculdade de falar fugiu dela e a vista se nublou.

—Tão sensível - disse Throckmorton. - Eu também estou aprendendo. É tão sensível ao mínimo roce... Hoje arderá para mim; e juro que eu arderei para você eternamente.

—Não quero isso - gemeu Celeste. Mas o desejava. Em seu interior surgiram, batalhadoras, todas as emoções contraditórias dos últimos dias. O senhor Throckmorton era uma figura de autoridade e austeridade; Garrick era um homem apaixonado e carinhoso. Celeste era incapaz de reconciliar as duas imagens, mas o poderio do senhor Throckmorton só se acrescentava à atração que sentia por Garrick, e os desejou a ambos.

Como conseguira despertar aquela avidez por ele?

Já imobilizada pelo braço de Throckmorton, este lhe separou as coxas e a abriu para explorá-la.

—Um homem desajeitado se deixaria levar pelo atrevimento - disse com sua voz mais íntima e profunda de meia-noite.

Deslizando o polegar por baixo lhe separou as femininas dobras e a abriu a sua arte. Pretendia mergulhar dentro dela? Nunca antes tinha se aberto uma brecha assim nos muros que protegiam sua virgindade, e Celeste se preparou para rechaçar o ataque.

—Necessita tempo para se amoldar. É tímida e não está acostumada às carícias de um homem; não sabe nada do banquete dos sentidos. - E prosseguiu com sua busca.

Celeste percebia o que lhe estava fazendo, e a premonição se enroscou em suas vísceras. Como sabia ele?

Como chegara a saber daquele único lugar onde o simples roce de uma toalhinha produzia prazer? O coração lhe retumbava no peito, a respiração escapou a seu controle e tudo o que Throckmorton acariciava se inchava, quase com dor, com a plenitude do estímulo. Isso era ela, Celeste, seu corpo, ela própria. Aquilo era íntimo, e com sua perícia Throckmorton lhe escavava a inocência e lhe ensinava, em troca, a sabedoria do desejo.

Celeste tinha renunciado a discutir: quando? Deveria estar desafiando-o e, em seu lugar, esperava com agonizante expectativa que voltasse a tocar naquele lugar sensível e único...

Quando o polegar de Throckmorton a roçou ligeiramente Celeste estremeceu. Throckmorton riu entre dentes, um som carente de regozijo, se inclinou para frente e a beijou nas pálpebras.

—Fecha os olhos - sussurrou. - E sente isto; somente... sente.

Celeste não queria fazer o que ordenava, mas se economizava o fato de vê-lo, seguro que seria melhor. E o que sim era seguro é que mais não podia sentir.

Garrick respirou pesadamente sobre ela, um ruído áspero de paixão insatisfeita. Voltou a roçá-la com o polegar uma vez, e outra, aumentando a pressão a cada passo. A paixão começou a queimar nas veias de Celeste, lhe enroscava nas vísceras e cavalgava entre suas pernas. Throckmorton lhe soltou os braços; ela não lutou, mas sim se agarrou a ele, aos almofadões, a algo que pudesse conectá-la com o mundo real, enquanto aquele prazer torturante seguiu crescendo até que acreditou que se partiria pela força do êxtase.

Se ouviu choramingar, e o acanhamento a obrigou a apertar os lábios com força. Voltou a choramingar.

—Deixa que a ouça. - Throckmorton era o limite do torvelinho, o centro da paixão. - Quero saber tudo.

Celeste sacudiu a cabeça em uma tentativa de lhe negar pelo menos um triunfo.

—Não me diga que não; não, quando não posso... não quererei...

Com força e precisão, introduziu o dedo dentro de Celeste, se deslizando sem dificuldade pela umidade que provocara; depois girou a mão e apertou o polegar contra ela. A surpresa, o movimento e a precisão fizeram que Celeste alcançasse de repente um escandaloso clímax. Convulsa, sua voz se converteu no guincho e incoerente de uma menina que se fazia mulher.

Garrick Throckmorton a conduziu até o final, a abraçando enquanto se recuperava. E quando Celeste se atreveu a abrir os olhos e viu sua cara, ele, tenso e ainda com ânsias, disse-lhe:

—Não esqueça isto. E não se esqueça nunca de mim.

Stanhope retrocedeu, tropeçando ao fazê-lo com o vaso de barro que continha a ridícula laranjeira anã e provocando a queda de uns poucos frutos verdes e diminutos. Em sua pressa por se esconder os colocou debaixo do tapete, mas não precisava ter se incomodado. A filha do jardineiro passou correndo por seu lado apertando com firmeza o aberto sutiã, cegada pela vergonha e o que ficava de paixão.

A Stanhope invadiu o certeiro temor que Throckmorton o tivesse visto espreitando, assim se debateu entre sair correndo atrás de Celeste e confiar em que não fosse reconhecido, ou permanecer ali e atuar como se não tivesse visto nada, quando, na realidade, tinha visto Throckmorton proporcionando a jovem o tipo de diversão que um homem só proporciona a uma garota que deseja impressionar.

Bom, alguém sim que ficara impressionado, e esse alguém era Stanhope. Não acreditara na história que Throckmorton lhe contara a véspera. E quando teve tempo para pensar nela, decidira que tudo o que lhe contara parecia provável... Tudo, exceto a parte em que Throckmorton, o inimitável mestre de espiões e autocrata impenitente, folgava com a filha do jardineiro.

E se não acreditava naquilo, então toda a história empestava, e possivelmente fosse o momento de tirar as economias que guardava debaixo das tábuas de seu quarto e escapar.

Mas aquela cena na estufa... Aquilo era a confirmação de que podia ficar e fazer um pouco mais de dinheiro. Mas como podia tirar partido para o que acabava de presenciar?

Saiu a metade do corredor e fingiu ter se aproximado até ali casualmente dando um passeio, esperando tropeçar com o Throckmorton quando este saísse. Mas Throckmorton não saía, e Stanhope jogou uma olhada ao interior da estufa.

Throckmorton estava sentado no sofá com a cabeça entre as mãos.

Stanhope não compreendeu a razão pela qual Throckmorton se agarrava a cabeça; estaria disposto a apostar que não era a cabeça o que lhe doía. Stanhope empreendeu de novo seu caminho com um sorriso zombador nos lábios. Bom, o melhor que podia fazer era encontrar a jovem Celeste, cativá-la e lhe tirar até o último segredo que escondesse em sua cabecinha oca.

 

—Mamãe, isto não vai funcionar!

Lady Philberta elevou sobressaltada a vista do que estava escrevendo para ver seu filho mais velho irrompendo como um vendaval no salão privado.

—O que é que não funcionará?

—Não posso seguir com isto. - Garrick passou os dedos pelo cabelo, convertendo as já alvoroçadas mechas em um revelador torvelinho de loucura. - Tem que ir.

—Quem?

—Estou falando de Celeste! - A gravata pendurava a meio desfazer, tinha quebrado o fechamento do pescoço e sobre o olho luzia um pequeno arranhão ainda sangrando. - Com Ellery ou sem Ellery no meio, com espiões ou sem espiões, tem que voltar para Paris.

—Droga, filho, baixa a voz. - Lady Philberta se levantou e se dirigiu a toda pressa para a porta para fechá-la. - Agora sente e me conte o que ocorreu.

Throckmorton se deixou cair na poltrona que sua mãe lhe indicava.

—Esteve contando a lady Hyacinth como enrolar Ellery. - Ficou olhando fixamente a lady Philberta como se esperasse um escândalo.

Só obteve confusão.

—Por que faria isso? Não diz que quer Ellery?

Throckmorton se levantou de um salto e começou a caminhar de um lado a outro do escritório.

—Porque é virgem, essa é a razão.

Lady Philberta perguntava e ele respondia, mas por alguma razão as perguntas e as respostas não casavam.

—Garrick, esteve bebendo?

—Ainda não. - Agitou um dedo para ela. - É uma conspiração de virgens.

Em lady Philberta a perplexidade pugnava com a exasperação.

—Suponho que é possível que seja virgem; admitirei inclusive que é provável, mas...

—Ah, claro que é virgem, sim senhora. - Throckmorton agarrou o tinteiro, o levantou até a altura de seus olhos e olhou o líquido da garrafa com a mesma concentração que se ele fosse um joalheiro e a tinta, um diamante. - Nenhuma dúvida a respeito. Acabo de comprovar a satisfação.

Lady Philberta quase se afoga de espanto. Que Deus os assistisse, iriam terminar perdendo a seu jardineiro chefe. E não só isso... Garrick estava perdendo a razão.

—O que acaba de comprovar o que...? Garrick, a possuiu?

—Não, não a possuí! - Depositou o tinteiro com tanta força que sua mãe temeu pela garrafa. - Que tipo de homem acredita que sou? Será que pensa que sou tão descuidado e irrefletido como Ellery?

—Não, mas...

—Espero que não. Sou o irmão responsável, recorda? E, virgem ou não, não arruinaria a vida da filha de Milford, embora o que fiz foi? Mas ela me provocou.

Lady Philberta levantou as pestanas pintadas até quase a linha do cabelo.

—E o que lhe fez, se pode saber?

—Somente... é que ela... Também explicou a lady Hyacinth o que se espera de uma mulher na noite de bodas. - Throckmorton agarrou furiosamente a melhor pena de sua mãe e a agitou grosseiramente.

—O que te parece?

—Pois me parece que alguém tem que contar a essas garotas o que tem que acontecer.

—Então isso é o que pensa. Muito próprio de você. - Olhou a sua mãe com dureza - Grande mãe que parece. Se ela não tivesse vestido esse sutiã... E o amável que esteve com lady Hyacinth. Amável!

Sinceramente... essa garota... é uma prostituta intrigante que está tentando destroçar a estupenda aliança pela que tanto trabalhei... Deveria ter visto com que facilidade se abriu.

—A aliança? - perguntou com prudência lady Philberta.

—O sutiã!

Sua mãe estava começando a encontrar certa lógica naquele disparate, e não sabia o que pensar. Garrick, seu Garrick, seu ardiloso e racional filho, que carecia de sangue nas veias, se deixou levar por um arrebatamento de paixão para uma jovem dez anos mais nova que ele e de uma classe social a quilômetros de distância por debaixo da sua. E tudo porque fora amável?

—Será que o ofendeu a amabilidade de Celeste com lady Hyacinth?

—Eu gosto que minha gente permaneça fiel a si mesma. - Apontou a sua mãe com o dedo. Primeiro está Stanhope, que resulta ser um espião dos russos; depois Penélope ata a sua babá e agora Celeste se volta complacente... Tem caído na conta que tudo começou com sua chegada?

—Penélope atou a sua babá? - Lady Philberta esboçou um sorriso zombador. Sempre lhe parecera que a seriedade de sua neta era excessiva para uma menina tão pequena. - Bem por ela.

—Vê! Essa é a prova. Pois vamos ter lady Hyacinth paquerando com outro homem e esfregando os seios contra Ellery...

—Não entendo nada do que está dizendo.

—A questão, mãe, é que lhe subi a mão por debaixo da saia.

Lady Philberta começava a dominar aquela amalucada conversação.

—Até onde você subiu a mão por debaixo da saia de Celeste?

—Até o final. E ela... bom, estava horrorizada, embora ao mesmo tempo... - Seu olhar foi se extraviando, e acariciava a face com a pluma da pena - se mostrou doce e apaixonada e estava tão formosa como imaginara. A teria... Me fez zangar tanto. - Voltou a atenção para sua mãe de repente. - Por que diabos as pessoas não podem se comportar como se supõe que têm que se comportar?

—Porque se comportam como eles mesmos. - Seu filho o imperturbável havia dito realmente palavrões elevado a voz, e tudo no lapso de uns poucos minutos. Se não lhe tivesse resultado prejudicial para o lumbago, lady Philberta teria dado saltos de alegria.

—Por que nunca sei no que consiste isso? - Sua voz deixou transparecer angustia.

—Às vezes não sabemos interpretar. São ossos do ofício. - Algo não funcionara bem durante a juventude de Garrick. Ao olhar para trás, lady Philberta não foi capaz de precisar o momento em que ele começara a ocultar certos aspectos de sua personalidade. Sabia que quando, à idade de três anos, ele abandonara a aquele maltratado gato de pelúcia, seu pai se alegrou; que quando aos oito aprendeu a controlar seus arranques de fúria, ela o felicitara e que quando voltou da Índia aos vinte anos, se sentira orgulhosa do cavalheiro racional, tranquilo e moderado em que se converteu.

Só recentemente se deu conta que a disciplina de Garrick o mantinha afastado das emoções humanas. Onde Garrick escondia a paixão, o caráter e o sentimento que haviam feito dele um menino tão animado?

—Não podemos utilizar a Celeste. Vou fazer que um cavalheiro a leve a estação de ferrovia e a acompanhe até Paris. Não vai arruinar o matrimônio de Ellery e tampouco vai se ficar aqui me obrigando a fazer coisas que... Mamãe, eu gosto das mulheres.

—Isso é um consolo para uma idosa. - Todo aquele escândalo estava resultando um consolo para aquela idosa. Temera que Garrick nunca chegasse a escalar as cúpulas da paixão, mas parecia que a pequena Celeste o tinha preso até a cúspide com as fitas de seu sutiã.

—Mas não permito que as mulheres me façam sentir que não posso controlar... - se deixou cair na cadeira e pôs a cabeça entre as mãos. - Irá amanhã.

A filha do jardineiro não era a companheira que lady Philberta teria escolhido para nenhum de seus filhos. A garota era bonita e tinha uma formação muito completa, a verdade, mas era uma plebeia.

E que tipo de cerimônia seria aquela, com a criadagem ocupando uma das laterais da igreja, e a alta sociedade, a outra? A cabeça de lady Philberta doeu só de pensar nisso.

A idosa respirou fundo. A impecável reputação de Garrick sobreviveria ao escândalo, e se Celeste era capaz de sacudir aquela formidável disciplina da que ele se sentia tão orgulhoso, então lady Philberta em pessoa levaria a seu filho à pirralha atada com um laço ao dormitório.

—Querido, sei como se sente. - E sabia porque sofrera sua parte para alcançar a paixão devido a um marido muito mais velho e pouco respeitável, - mas tem que pensar em nossa missão.

Stanhope fez muito dano, e ainda não sabemos quanto.

—Celeste tem que partir.

—Celeste é nossa única possibilidade de emendar o dano.

—Amanhã. - Sua voz estava amortecida pela inclinação da cabeça. - O mais longe possível.

—Nem sequer sabemos ainda quem são os cúmplices do Stanhope. Vamos, Garrick, só ficam dois dias para que acabem as celebrações; pode suportar este assunto durante esse tempo. - Bastava um pequeno empurrãozinho de lady Philberta para que nem Garrick nem Celeste o deixassem fácil. Throckmorton estava sacudindo a cabeça, então sua mãe jogou a carta da culpabilidade, essa que está reservada para as mães.

—Querido, até que te entreguei o posto, nunca ocorrera nada parecido a este escândalo com Stanhope. - Nada que ela fosse reconhecer ante ele. - A verdade é que acredito que deveria ter percebido algum indício em seu secretário. Em última instância, é sua culpa.

Throckmorton levantou a cabeça lentamente das mãos e olhou sua mãe com hostilidade.

—Mãe, encontraremos outra maneira.

Alguém chamou com firmeza à porta, e Dafty colocou a cabeça.

—Lady Philberta. Senhor Throckmorton. Lamento interromper, mas chegou um mensageiro, e é algo grave. Houve uma explosão.

Throckmorton abriu a porta do quarto das meninas e aspirou o aroma de cânfora e camomila, de cavalinhos de balanço e lembranças infantis. Sempre o encantara aquele quarto.

Sua infância fora inesquecível, com uns pais que o adoravam, um tutor que crescia ante a provocação de um menino curioso e uma peste de irmão mais novo que sempre o seguia a todas as partes.

Não se enganava. Os acontecimentos desse dia racharam os alicerces da segurança em si mesmo. Perdera o controle da maneira mais elementar. E fizera coisas com (e a) Celeste; coisas que só imaginara em suas fantasias carnais mais secretas. E justo quando havia resolvido fazer o correto para salvá-la, e para se salvar daquela loucura que o possuía, chegara a notícia da explosão.

Dois ingleses - um, agente dele; o outro, um possível traidor - foram alcançados pela explosão de uma bomba quando se encontravam na Crimea.

Mera coincidência? É obvio que não. Um dos homens já estava enterrado em chão estrangeiro; o outro se agarrava à vida enquanto se balançava em um casco de navio de má morte de volta a Inglaterra.

Sim MacLean vivia... Bom, se vivia seria um milagre.

Assim Celeste ficaria e, em completa ignorância, cumpriria com suas obrigações para com sua pátria, e Throckmorton teria que fazer reluzir seu caráter para obter a disciplina que geralmente se impunha sem nenhum esforço.

Tinha ido até ali em busca do consolo das velhas coisas familiares do quarto de brincar. A amplitude do chão de madeira que reluzia com os raios do sol das últimas horas da tarde. As cortinas vermelhas e azuis, grossas e de estampados chamativos, pensadas para impedir as correntes de ar. A estante dos livros, alguns gastos, outros novos.

Sua filha.

A cara desta se iluminou, como ocorria sempre que o via, e parte do desconcerto e do sofrimento de Throckmorton se desvaneceu.

A cadeira de balanço rangia enquanto a senhora Brown tecia um interminável cachecol marrom. Uma mulher volumosa, vestida com simplicidade e esmero, que, ao levantar a vista e vê-lo, o saudou com um simpático movimento de cabeça. Penélope estava sentada, feito um novelo, em um canto do gasto e fofo sofá lendo o velho exemplar do Robinson Crusoé que pertencera a seu pai.

Justo na semana anterior, antes que tivessem dado começo as celebrações de vários dias e se armou o tumulto, o esteve lendo em voz alta às duas meninas. A ambas.

Um espasmo de alarme cresceu em seu interior quando procurou com o olhar pelo quarto.

—Onde está Kiki? - perguntou à senhora Brown.

—Não sei. Se escondeu, e é muito boa se escondendo. - A senhora Brown lhe piscou um olho e apontou com a cabeça para o grande armário embutido com as portas de lâminas onde se guardavam os bonecos.

Ali dentro, os velhos soldadinhos de Throckmorton desfilavam ao lado das bonecas de Penélope e as brandas pelúcias de Kiki. Um bom lugar para se esconder; ele se escondera ali muitas vezes.

Relaxou. Lamentou que as meninas tivessem que ter um guardião no exterior de seu quarto mas, por cima de tudo, se alegrava de ter descoberto a traição de Stanhope e ter tomado medidas para proteger aos seus.

Estava preocupado pelas meninas, criaturas indefesas e inocentes, por causa da cada vez maior proximidade do perigo. Os homens aos que se enfrentava naquele jogo da espionagem careciam de ética e de princípios.

Uma vez que tinham descoberto sua identidade, não parariam para pensar em agarrar às meninas e as utilizar para manipulá-lo e o obrigar a fazer o que eles desejassem.

Amava Penélope com a devoção inquebrável de um pai, e durante esses últimos dias de desilusão e confusão descobrira que Kiki se metera em seu coração.

A menina podia chegar a exasperá-lo, mas era sua sobrinha. Elevando a voz de maneira deliberada, perguntou à senhora Brown:

—A procurou?

—Sim, uma barbaridade, mas é muito esperta para mim - respondeu a senhora Brown com desafogo.

Do armário roupeiro chegou uma risada quase inaudível.

—Então teremos que esperar que saia - anunciou Throckmorton. Precisava reconhecer que estava encantado de ter tempo para estar a sós com sua filhinha. Se aproximou até ela e lhe perguntou:

—Como está, céu?

Atirando o livro a um lado, a menina correu para seu pai.

—Papai!

Grande como era a menina, Throckmorton a balançou entre seus braços e a abraçou.

—Senti sua falta. - A menina o beijou na face e se tornou para trás. - Mas acreditava que não teria ocasião de estar com você até que não terminasse esta maldita reunião social.

Throckmorton sorriu abertamente ao ouvi-la falar de uma forma tão parecida com a sua.

—Ninguém se preocupa se eu perder os jogos de cartas e o baile. Seu tio Ellery monopoliza todo o atrativo, e além disso é ele quem vai se casar.

—Te amo mais que a ninguém - disse Penélope rotundamente.

—Não! Sério? - Throckmorton pôs cara de assombro.

A menina lhe cavou as magras mãos nas faces.

—Pois claro, você é meu papai.

Throckmorton sonhara enchendo o quarto dos meninos com seus filhos, mas só tinha Penélope. E também estava Kiki, é obvio...

—Você gostaria que te lesse algo? - perguntou.

—Robinson Crusoé! - respondeu Penélope.

—Mas esse você já está lendo sozinha. - Levou-a até o sofá e se sentou com ela no colo.

—Não entendo todas as palavras. - Penélope cruzou as mãos e voltou seus olhos negros e sérios para ele. - Tenho que começar a tomar lições da senhorita Milford, papai. Sei que ela me ajudaria a ler.

Throckmorton não queria falar da senhorita Milford.

—Mas se o faz maravilhosamente bem. - Era verdade. Throckmorton pensava que sua filha era de uma inteligência insólita para a idade que tinha, e não era amor de pai absolutamente. - Mas começarei onde o deixei.

—Era consciente de Kiki, que estava escondida no armário embutido; Kiki, que fingia não entender as palavras, mas que sempre conseguia estar em meio quando ele lia. Abriu a gasta capa verde, encontrou sua marca e começou a ler, com voz alta e clara, a história do náufrago solitário.

Escondida no armário embutido Kiki espionou por entre as lâminas da porta e soprou fracamente.

Seu pai não lia para ela; seu pai não suportava olhá-la; seu pai não lhe dizia que fazia as coisas maravilhosamente bem... Nem sequer lhe falava. Só ria quando ela andava dando saltos por aí e lhe dava um tapinha antes de se afastar dela.

Kiki piscou e tragou saliva para desfazer o enorme nó que tinha na garganta. O homem que trabalhava no escritório do tio Garrick lhe havia dito tudo aquilo, e era verdade. Aquele homem lhe disse que ali na Inglaterra ninguém a queria. Também lhe havia dito que devia voltar ali de onde viera.

Voltar para a França, onde entenderia todo mundo, onde o sol brilha a todas as horas, onde sempre fazia calor.

De onde era mamam.

Mas mamam já não estava ali. Ali não havia ninguém, e antes que mamam a deixasse naquela horrível Inglaterra, lhe disse que não podia ficar em Paris porque não tinha mais lugar onde dormir que as ruas.

Kiki voltou a olhar entre as lâminas. Aquela feia, egoísta e sortuda Penélope estava aconchegada no colo de seu papai, e apoiava a cabeça no peito enquanto ele a rodeava com o braço.

Seu tio lia devagar e em voz alta. Se comportava como se desejasse estar sempre com sua filha.

Algo no peito de Kiki se inchou até que se fez doloroso.

Muitos meninos dormiam nas ruas de Paris, e eram fortes e valentes, e ela gostaria. Assim resolveu no ato que voltaria para a França. A seu lar.

E, apertando a destroçada boneca de trapo contra os lábios, afogou seu pranto.

 

—Celeste!

Celeste só desejava seguir seu caminho através da sala de música e da longa galeria, descer as escadas até a cozinha e, uma vez ali, tomar o café da manhã. Não queria falar com ninguém que fosse nobre nem que tivesse pretensões, só com a gente que compreendia... e que a compreendia. Por cima de tudo, não desejava falar com o senhor Stanhope, o secretário do poderoso fanfarrão, o senhor Garrick Throckmorton.

O senhor Stanhope voltou a chamar com mais insistência.

—Celeste!

Celeste parou em seco e se voltou para olhá-lo. Um sorriso cordial resplandecia na tez morena do secretário.

—Me alegra vê-la nesta formosa manhã.

Como foi que ela nunca vira tão de perto a jovialidade de Stanhope - uma rápida olhada ao exterior a informou que seguia chovendo - deu um passo atrás.

—Não tive oportunidade de te dar as boas-vindas desde sua volta.

Por que se mostrava tão encantador?

—Obrigado.

"Acredito", pensou Celeste.

—Grande volta triunfal você teve.

Celeste não gostava de sua altura nem suas maneiras afáveis nem sua pestilenta presunção. Não se parecia em nada a Throckmorton, e embora isso deveria ter jogado em seu favor, não o fez.

—Sim, senhor.

—Vamos, já não é uma colegial. Pode me chamar senhor Stanhope.

—Obrigado... senhor Stanhope.

"E você pode me chamar senhorita Milford", pensou Celeste. Como fazia Throckmorton quando estava aborrecido.

—Vai a...?

—A cozinha - disse cansativamente.

—Ah. - Resultou evidente que Stanhope não gostou que o recordassem as origens de Celeste.

E ela descobriu que gostava de fazer que se recordasse. Talvez se o recordasse ao Throckmorton... Mas não, este não tinha problemas para falar com a criadagem, em especial com seu pai, a quem tratava com um respeito que só mostrava com uns poucos aristocratas. Não, ela não poderia evitar Throckmorton por essa via.

—A acompanharei - disse Stanhope.

Tal e como havia predito Throckmorton, Stanhope estava interessado na informação que ela obtivera ao fazer a tradução. Celeste considerou a possibilidade de soltá-la sem mais, mas em certo sentido lhe pareceu muito fácil, e o senhor Stanhope sempre teve tudo muito fácil... Ou isso era o que seu pai havia dito. Celeste o ouvira falar com o secretário de seu serviço militar na Índia, de que se aventurou através de montanhas muito altas e de que jogou a vida lutando entre nativos traidores. Tais penúrias não eram fáceis, mas ela entendia o que seu pai queria dizer.

O senhor Stanhope era um aristocrata que tinha sido bonito com uma educação, uma família de sangue azul e um mundo de relações com o mais seleto da sociedade e, à maturação, ali em Blythe Hall, Throckmorton o convertera em um companheiro de confiança, fazendo caso omisso à vadiagem e incompetência de seu amigo por amor de certa fraternidade entre caminhantes.

Algo que era muito estranho, porque Celeste jamais teria pensado em Throckmorton como em um caminhante ou um aventureiro, embora devia tê-lo sido tanto como o senhor Stanhope. Até duas noites antes, nunca imaginara Throckmorton como um viajante, embora vira muito mais mundo que ela. E na véspera, na estufa, lhe demonstrara que estava ensinado na arte de agradar a uma mulher, inclusive a uma mal disposta a isso. OH, e não o perdoaria nunca. Mas nunca.

Sem dissimular sua irritação pelo enguiço de respostas de Celeste, Stanhope disse:

—Tinha pensado que poderíamos ter a oportunidade de nos pôr ao dia.

—Se nunca tínhamos falado até agora. - Celeste se deteve junto à janela que dava à fonte romana. A chuva seguia caindo em cinzas cortinas, embora para o este o sol de madrugada iluminava as nuvens imóveis.

—Como podemos nos pôr ao dia?

—Me acredite, se não fosse por minha desventurada ética, faríamos algo mais que falar. Desde que a vi pela primeira vez, me dei conta de sua beleza. - Então, se voltou e se apoiou no batente, a olhando com seriedade. - Mas era tão jovem. Não teria sido justo para nenhum dos dois que a embrulhasse com uma... conversação.

Igual a Throckmorton, Stanhope tinha em muito alto conceito a impressão que causavam ele e sua... conversação. Celeste o olhou de soslaio. Estava em situação de lhe garantir que sua... conversação... carecia inclusive daquelas habilidades que adornavam Throckmorton.

—É evidente que Paris te sentou bem - continuou Stanhope.

A percorreu com o olhar, e ela descobriu que era um daqueles raros homens que conseguiam elogiar com um olhar.

O senhor Throckmorton não era assim; quando olhava a uma mulher, seu escuro olhar abrasava cada curva até que a observada desejava se cobrir com as mãos para que ele não pudesse ver aqueles lugares que se supõe têm que estar ocultos.

—Throckmorton diz que fala muito bem o francês. E o russo... Que outros talentos ocultos esconde sob essa linda aparência? - Stanhope seduzia com o sorriso, e estava se comportando como se a tivesse impressionado.

Celeste conhecera homens assim no continente. Eram de uma falsidade manifesta, mas, em muitos aspectos, isso facilitava aquele encontro.

—Se os contasse, meus talentos já não seriam ocultos.

Stanhope riu entre dentes.

—Muito certo, muito certo. - Baixou a vista para seus pés, conseguindo parecer varonil ao mesmo tempo que recatado. - Imagino que Throckmorton te explicou o motivo de que você fizesse as traduções, e não eu.

—Sim.

Durante um instante fugaz a irritação real de Stanhope abriu caminho através da máscara de afabilidade.

—E o que te disse?

Celeste deu voltas à ideia de lhe contar a verdade, que sua incompetência ficara manifestada, mas fazê-lo seria uma deslealdade para Throckmorton, e além disso... Não queria que Throckmorton voltasse a se zangar. Quem sabia que tipo de atrocidade era capaz de perpetrar se ela o provocava de propósito?

—O senhor Throckmorton me disse que você esteve trabalhando muito e que tiraria a semana para se recuperar.

—Faz parecer que sou um idoso.

Celeste abriu os olhos com falsa inocência.

—Bom, não tão idoso.

Ela alcançou a ver o látego de sua irritação quando Stanhope disse bruscamente:

—É obvio, sou muito mais velho que você. Quase dez anos; quase tão velho como Throckmorton, embora você parece achar que ele é bastante jovem para...

Celeste se ergueu. Stanhope esteve mexericando sobre ela? Esteve prestando ouvidos, respirando a risos a que convidaria semelhante intriga? Não ia ficar ali para ser insultada por aquele caipira obsequioso e presunçoso.

—Para que, senhor Stanhope? - perguntou no tom mais cortante que era capaz.

Mas Stanhope percebeu seu equívoco, porque se apressou a dizer:

—Agradeço a permissão do Throckmorton e procuro aproveitar ao máximo meu tempo livre, mas sinto curiosidade pela marcha dos negócios. Você poderia me manter a par das novidades.

—Como o agrade. - O observou sem sorrir; não ia esquecer tão cedo sua insolência. Se Throckmorton se inteirava, faria açoitá-lo. Exceto... Bom, possivelmente, não, porque Throckmorton tinha apoiado sempre em qualquer empreitada ao senhor Stanhope e, por outro lado, não podia ter deixado mais claro seu desprezo para ela.

"Mon Dieu", pensou, e quis apertar os olhos com as mãos até apagar as lembranças.

—Traduziu alguma carta nova? - perguntou Stanhope.

—Só uma que dizia que se celebraria um grande encontro ao sul de Kabul.

—Kabul. - Stanhope franziu o cenho.

—Está no Afeganistão - Celeste disse amavelmente.

—Sei onde está. - Respirou e deu de ombros com estudado recato e despreocupação. - Estive em Kabul.

—Acompanhando ao senhor Throckmorton?

—Alguns diriam que era ele quem me acompanhava.

Celeste tinha procurado o irritar de maneira deliberada, e o desfrutou mais do que aconselhava o decoro. Mas queria ir à cozinha para estar com seu pai e Esther e as demais pessoas às que queria.

Assim deixou a um lado a diversão e disse:

—Um exército de comerciantes acudirá a Kabul para avaliar as oportunidades de investimento. Suponho que tantos ingleses provocarão um impacto tremendo na economia local.

Celeste tinha sua própria opinião sobre o significado da carta e, depois de falar com o senhor Stanhope, estava começando a sentir seu papel naquele triângulo formado pela carta, Stanhope e ela própria.

Tudo era um plano urdido por Throckmorton. Se se atrevesse a pensar nele, talvez chegaria a se perguntar que papel jogava Throckmorton no grande mundo além de Blythe Hall.

Mas não pensaria nele, e além disso o aroma de bacon subia da cozinha e suas vísceras começaram a fazer ruído.

—Um impacto tremendo. Em efeito. - Stanhope já esquecera dela, concentrado na tarefa que tinha pela frente. Se voltou e se afastou a toda pressa.

Mas algo fez que se recordasse dela (a necessidade de voltar a lhe surrupiar informação, supôs Celeste) e lançou um preocupado obrigado por cima do ombro.

Aliviada por ter se liberado do secretário, Celeste avançou com rapidez, em direção à cozinha com a confiança de que a aparência de estar em uma missão a protegeria de mais interrupções.

Vã esperança!

Ellery surgiu de um salto do vão de debaixo das escadas e a pegou pela mão.

—Celeste!

Ela pegou um salto e conseguiu afogar um grito pela metade.

Ellery riu e a arrastou ao interior do mal iluminado esconderijo.

—Querida. - Rodeou sua cintura com os braços e sorriu a olhando à cara. - Confiava em que passaria por aqui.

Cheirava a cerveja. Tinha a cara cheia de arranhões, bolsas debaixo dos olhos e o nariz vermelho. Apesar de tudo, seguia sendo mais bonito que Throckmorton.

Entretanto, Celeste se surpreendeu querendo retroceder, perguntar por que se escondia para que não o vissem com ela e pedir que a soltasse. Mas Ellery não era o problema; Throckmorton, sim. Assim, em seu lugar, se conformou com um sorriso manifestamente falso - um como o que aconselhara a Hyacinth que utilizasse - e um afetado:

—Ellery, me assusta.

—A assusto com minha paixão? - E lhe lançou um olhar ridiculamente lascivo.

Sabendo que era um engano. Celeste se pôs a rir e se tranquilizou. Aquele era Ellery, o Ellery do qual se apaixonou, o Ellery atraente e sofisticado. Ela não podia amar Throckmorton, com seu comportamento solene e suas paixões inesperadas.

—O que faz levantado a estas horas, Ellery? Se mal amanheceu.

E ela que tinha pensado que estaria a sós com a tristeza de seus pensamentos. Estúpido otimismo.

—Não me deitei.

—É obvio que não. - Celeste acariciou seus arranhões. - O que esteve fazendo para ganhar isto?

—Ontem à noite não estava na noitada musical, então fui te buscar e... Me enredei com uma das roseiras de seu pai.

—Perdoa, mas não o entendo. - Celeste tinha passado a noite em claro escutando a suas duas vizinhas, idosas ambas, roncar com a mesma delicadeza que umas locomotivas a vapor, e ao mesmo tempo desejara ter Throckmorton ali, para poder atá-lo aos postes da cama e torturá-lo como ele tinha torturado a ela.

Por desgraça, suas fantasias tinham maturado para uns roteiros equivocados. A última noite até se escandalizou de si mesmo.

OH, todo o mau que estava passando era por culpa de Throckmorton!

—Ouvi dizer que estava na casinha de seu pai.

Os pensamentos de Celeste se encheram com a visão de seu lar, uma pequena casa de pedra unida à estufa e coberta por rosas trepadeiras, com roseiras, com diminutas rosas de pitiminí que rodeavam os atalhos e grandes sebes que subiam para o céu.

—Fui até ali - disse Ellery - e estava escuro. Acreditava recordar que seu dormitório estava na água-furtada.

—Agora é o de meu pai - respondeu fracamente.

—Então comecei a atirar pedras à janela para despertar...

Celeste não pôde evitar e começou a rir bobamente. E ao ver a expressão de desilusão de Ellery, apoiou a cabeça no peito dele e sua risada tola se fez mais intensa.

Como era lógico, ele a soltou e retrocedeu até se apoiar em uma mesa auxiliar.

—Isto resulta incrivelmente desencorajador.

Celeste soltou uma gargalhada, soluçou e voltou a rir.

—Dedico a noite a descobrir onde está meu amor desaparecido, e a única coisa que ocorre a ela é zombar de mim.

O tom de Ellery estava tingido de ironia e autocensura, e quando Celeste o olhou, o que viu foi um sorriso e uns olhos cintilantes. Se Throckmorton se achasse em semelhante dilema, nunca teria rido de si mesmo. Não, sem nenhuma dúvida Ellery não era profundo nem complexo nem em sua alma havia zonas escuras, razão pela qual Celeste se sentia profundamente agradecida. Levada por um impulso de gratidão, disse:

—Realmente é um homem encantador.

—Um homem encantador. - E onde suas gargalhadas não tinham conseguido ofender Ellery, resultou evidente que seu comentário, sim. - Sou um libertino, um homem sofisticado, um galanteador...

Garrick sim que é um homem encantador, eu não.

"Não o conhece absolutamente", pensou Celeste. Mas se absteve de dizê-lo.

—Tenho que ir. Ainda não tomei o café da manhã.

Ellery afundou as mãos nos bolsos.

—E pelo que se vê sou um péssimo galanteador.

—A que se refere? - Celeste conseguiu escapulir do vão. - Eu o adoro, e lady Hyacinth o adora, e todas as mulheres o adoram.

—A encerrei debaixo da escada, está escuro, estamos sozinhos e tem pressa por ir! Hyacinth não para de babar por esse retardado do Townshend e até lady Featherstonebaugh preferiria se esconder pelos cantos com um lacaio antes do que falar comigo.

—Lady Hyacinth esteve dançando com lorde Townshend?

Ellery a observou com evidente desconfiança.

—Sim. E você como sabe?

—Bom, quando disse que babava por ele supus que o mais provável é que o fizesse durante o baile.

—Passou toda a noite tonteando com ele sem deixar de lhe sorrir, quando todo mundo sabe que ao Townshend a única coisa que interessa engendrar são seus cães.

—Ellery! - Celeste fingiu se escandalizar, embora na realidade o que desejava era dar uma pequena ovação a Hyacinth. Garota esperta; fazia o que lhe havia dito, e além disso com êxito.

—Mas não há nenhum problema, porque se estiver apaixonada por esse trapaceiro do Townshend, isso nos deixa o caminho livre.

—A nós? - Celeste se deu conta, não sem surpresa, que se supunha que ela não queria que Hyacinth tivesse êxito com Ellery. Celeste queria Ellery... Embora no dia anterior, na estufa, fazia uma imitação impressionante de uma mulher que quisesse Throckmorton.

A confusão envolveu-a por toda parte. Tão só desejava ir à cozinha e estar com seus amigos.

—Olhe, podemos falar disto mais tarde. - Retrocedeu para o vestíbulo, enquanto Ellery a observava com uma expressão que o pai de Celeste qualificaria de ceguinho. - É que tenho que comer algo; estou que desfaleço de fome.

—Eu também estou sofrendo pela sensação de que está me evitando. - O tom de Ellery era já definitivamente acusador.

—Absolutamente.

—Será que não sou o bastante atraente para você? Nem o bastante rico? Nem suficientemente poderoso?

Celeste sabia que Ellery esteve bebendo, mas se deu conta nesse momento que seguia bêbado, e que estava zangado com ela.

—Não se trata disso absolutamente...

—Depois de tudo, é possível que não faça o suficiente teatro. Talvez seja que realmente preferiria ter a Garrick. Eu sempre consigo a todas as garotas, mas todo o resto foge de mim. Talvez além de todos outros talentos que entesoura, a meu irmão lhe deem melhor as mulheres que a mim.

Taciturno e zangado, arremetia contra ela. Celeste odiava as cenas, e aquela mais que nenhuma outra, por que as acusações de Ellery continham algo mais que um vislumbre de verdade, e o sentimento de culpa que isso lhe conduzia acrescentava um certo desespero a suas negativas.

—Não quero ao senhor Throckmorton. Somente...

—Só me quer? - bufou Ellery à vista da expressão de Celeste, e, arrastando as palavras com sarcasmo, disse: - Você me quer, não? Pois então, me diga, minha pequena Celeste; onde está seu dormitório?

Não estará por acaso perto do de Garrick?

A surpresa a fez retroceder com um sobressalto.

—Não, senhor!

—Então, onde está? Levo noites inteiras buscando-o, assim, se de verdade me ama...

O muito jumento! Bom, ela sabia que Ellery esteve procurando seu dormitório, mas lhe pedir a informação daquela forma tão grosseira... Sem perder a calma, Celeste disse:

—Está no torreão norte, terceira porta à direita. Não há equívoco possível. - E, girando, se afastou muito ofendida, emudecendo Ellery de uma vez por todas.

Dessa vez quase conseguiu chegar à escada que descia à cozinha antes de ouvir uma voz masculina que a chamava.

—Senhorita Milford!

Celeste se voltou riscando um cambaleante círculo, apoiou a mão na parede e cravou seu acusador olhar no senhor Kinman.

—Sim, senhor?

O homem sorriu amigavelmente.

—Acabo de ver Throckmorton.

Celeste endireitou os caídos ombros lentamente. Todas outras tentativas de evitar a conversação não foram mais que um treinamento para aquele. Era a mensagem que esteve temendo.

—Quer que vá a seu escritório. - O senhor Kinman coçou a nuca como se estivesse refletindo. - Para algo relacionado com a tradução de uma carta.

Durante um instante de paixão Celeste pensou em dizer: "Não". Sem dar desculpas, sem nenhuma palavra de cortesia, simplesmente não. Mas o senso comum prevaleceu; depois de tudo, teria que voltar a ver Throckmorton algum dia, possivelmente nesse mesmo, e, sem dúvida alguma, acompanhada de uma vergonha humilhante. Iria... mas não até que tivesse tomado o café da manhã; não até que se fortalecesse com o apoio de seus amigos.

—Senhor Kinman, vai voltar a ver o senhor Throckmorton?

—Suspeito que é uma possibilidade.

—Então lhe diga que irei a seu escritório depois... Não. - Lhe ocorreu algo melhor, algo que não só atrasaria o inevitável mas sim também poria Throckmorton em seu lugar.

—Lhe diga que faça chegar a carta a meu dormitório; a traduzirei ali.

O homem pareceu desconcertado.

—Não acredito que seja essa precisamente a resposta que esteja esperando.

—Essa será a única resposta que obterá.

E, uma vez mais, se voltou para se dirigir à cozinha.

Em um tom que em nada concordava com sua anterior falta de confiança, o senhor Kinman disse:

—Senhorita Milford, ignorar ao patrão quando quer a alguém, sem dúvida não é se comportar com bom senso

Furiosa mas tranquila ao mesmo tempo, Celeste se voltou para o senhor Kinman.

—Me permite que lhe diga que você parece saber mais do que deveria? Por acaso o senhor Throckmorton esteve lhe fazendo confidências?

Kinman baixou a cabeça.

—Não, senhorita, só me limitei a observar a situação.

Celeste recordou as vezes que o vira rondar em qualquer parte durante os últimos dias. Esteve observando a situação, vá que sim, e Celeste se perguntou nesse momento pelo motivo.

Porque tinha se encaprichado dela? Kinman não parecia o tipo. Será que se tratava de um intrometido? Talvez. Por alguma razão mais sinistra...?

E Throckmorton a levara a tal extremo que agora se questionava cada frase que ouvia e cada gesto que via?

—Só diga ao senhor Throckmorton o que eu disse.

Quando Celeste desceu correndo as escadas e empurrou a porta da cozinha não olhou para trás.

 

Quando Celeste entrou na cozinha, se elevou um grito de boas-vindas.

—Olhem quem veio! - Brunella fora a chefe das donzelas do andar de cima desde que Celeste podia recordar. - Nossa francesinha, tão elegante que dá glória vê-la.

A buliçosa indignação de Celeste começou a remeter banhada por aquele bálsamo de admiração e afeto cegos.

Adorava a cozinha. Crescera ali, pendurada nas saias de sua mãe e, depois da morte desta, Esther tinha fomentado que seguisse sendo a menina mimada. Conhecia todas as criadas, tinha tirado o sarro a todos os lacaios e ali podia fofocar e perguntar sem medo de censura. Ali não importava que andasse revoando por cima de sua classe social nem que o senhor Throckmorton a tivesse envolvido em certo trambique internacional do senhor Stanhope. Ali não importava que sua vida fosse uma confusão de seu prezado amor por um homem e do indecoroso desejo que sentia por outro. Ali podia ser ela mesma; ali, inclusive sabia o que era isso.

A um gesto de Brunella, se voltou, levantando o xale negro aveludado que lhe cobria os ombros para mostrar o vestido de madrás de xadrez azul e branco que lhe chegava até os pés.

—Ulalá. - Brunella assassinou a expressão francesa todo o bem que lhe permitiu seu áspero acento de Suffolk. - Precioso. - Ato seguido, a donzela entregou uma bandeja ao camareiro de um cavalheiro e o enviou escada acima.

Esther, a cozinheira, deixou cair a concha de sopa e se equilibrou para Celeste para abraçá-la. Outro tanto fizeram duas das ajudantes da cozinha de mais idade, e Arwydd, a encarregada da destilaria, que levava fazendo conservas e licores desde que Celeste era capaz de recordar. Todos a rodearam lançando exclamações e recordando velhos tempos com ela até que Esther enviou às cozinheiras de volta ao trabalho, disse a Arwydd que necessitava geleia de framboesa para o bolo da tarde e fez um gesto para a grande mesa, que ainda corria sob o peso do café da manhã dos criados.

—Agora sente, Celeste, e lhe serviremos de comer algo como Deus manda - a convidou. - Nesta cozinha não se dão caracóis nem nada que lhe pareça!

Celeste se absteve de comentar que comera realmente escargots[11] e que gostara uma barbaridade deles.

—Obrigado. O café da manhã cheira maravilhosamente - disse em seu lugar.

Grandes bolos de arenques salpicavam as tábuas, a farinha de aveia fumegava em suas terrinas e havia coloridas jarras de cerâmica que continham nata branca. Em uma bandeja, triângulos de crocantes bolinhos marrons se amontoavam em umas pilhas enormes, enquanto sobre eles se derretiam partes de manteiga, que jorrava até a base formando um atoleiro dourado. E tal qual infame regalo escarlate, ali, no centro da mesa, descansava uma grande terrina de morangos em rodelas que esperavam para ser pulverizadas sobre os bolinhos ou a aveia.

Celeste afastou o olhar. Por lealdade ao pobre Ellery, não deveria querer nenhum... Mas queria. O senhor Throckmorton não comprava colmeias por causa dos morangos. O senhor Throckmorton era tão flexível que provavelmente nenhuma urtiga lhe provocaria urticária.

Todos os empregados que trabalhavam fora da casa estavam sentados nos bancos de uma das mesas repletas de comida: os ajudantes de estábulo e os jardineiros ajudantes, e em um extremo, o cavalariço, e no outro, o pai de Celeste, com a cara ainda úmida por estar recém lavada e o cabelo penteado para trás com água. Nos quatro últimos anos perdera um pouco mais de cabelo, e o que ficava estava mais cinza, mas em geral suas feições quietas e seu corpo tosco eram, até onde a memória de Celeste alcançava, os mesmos de sempre. Contudo, falava menos e com mais parcimônia; Celeste pensou que se sentira só durante sua ausência, e seu olhar vagou pela cozinha enquanto tentava escolher a uma mulher que tivesse a sensatez de querê-lo e a habilidade para caçá-lo.

Seu olhar se deteve em Esther. Esta, que, ao mesmo tempo que o dava um sopapo ao rapazote por fazer girar o assado com muita lentidão, dava uma surra à massa em ascensão do pão. Devia ser Esther, mas seria um obstáculo a lembrança da mãe de Celeste reinando na cozinha?

—Bom dia, pai. - Celeste se aproximou dele e o beijou na face.

—Bom dia, filha. - Com a mão sobre o braço de Celeste, a reteve junto a ele durante um instante. - Me alegro que tenha voltado.

Celeste voltou a beija-lo e deu as graças aos moços quando estes se afastaram no banco para lhe deixar um lugar junto a seu pai.

Se sentou e contemplou a buliçosa cozinha com um agradecimento nostálgico. Os criados de Blythe Hall trabalhavam muito para preparar as bandejas para os aristocratas e davam de comer à legião de primeiras donzelas e camareiros que chegaram para servi-los. Ao mesmo tempo, Esther seguia tendo que fiscalizar o café da manhã de todos os criados de Blythe Hall, além de planejar as refeições de todo o dia.

—Ei, Celeste, pega um bolinho. - O velho e desdentado Travis, quem, apesar de estar na propriedade a cinquenta anos, era um puro de Londres, pôs o prato debaixo do seu nariz.

Celeste pegou um sorrindo ao idoso. Continuando, todos os homens começaram a lhe passar fontes e, dependendo de sua idade, a observavam com afeto ou encantamento, enquanto ela enchia sua terrina com farinha de aveia e jogava morangos cortados por cima. Quando teve mais do que presumivelmente era capaz de comer, os homens a acossaram com perguntas sobre sua vida.

—Paris é tão alegre como dizem, Celeste?

—Você foi dançar todas as noites, Celeste?

—Nos fale desses estrangeiros, Celeste. Você gostava mais que nós?

Com a colher suspensa sobre sua farinha de aveia, Celeste sorriu.

—Sim, sim e não.

—Deixem à garota comer - ordenou seu pai. - Já está bastante magra.

—Mas é tão bonita - murmurou um dos ajudantes de Milford.

Celeste lhe dedicou um sorriso radiante.

Colocando a colher em sua farinha de aveia com um apetite que nunca se atreveria a mostrar no andar de cima, Celeste aplacou o mais premente de seu apetite, e, ao levantar a vista, percebeu que

Esther a observava com as mãos em seus largos quadris.

—Não há nada como uma boa refeição, não é? - disse a cozinheira com seu quente e amistoso sotaque escocês.

—O melhor que tomei em anos - respondeu Celeste.

Herne, o intrometido guarda do parque e fofoqueiro inveterado, ou ao menos isso Milford dizia dele, trocou o peso de seu corpo de um pé a outro.

—Celeste, se tiver terminado de comer, nos conte como vai o do senhor Ellery.

Celeste estremeceu e confiou em que seu pai não se deu conta.

—Está melhor. A brotoeja passou e a maior parte das contusões se curaram.

—Ontem à noite se enredou em uma roseira e agora mostra uns quantos arranhões novos. - Milford bebeu um gole de cerveja.

Celeste evitou o olhar tranquilo de seu pai.

—Mas ontem à noite não esteve na noitada musical. - Era evidente que Herne o tomara como uma infração. - Será que te tem feito insinuações indecorosas?

Esther infligiu outro murro à massa em ascensão do pão.

—É um menino muito simpático, mas se fizer tal coisa, ponho azeite de rícino na garrafa de uísque dele.

—Não, não. - Celeste se apressou a esclarecer a questão antes que seus amigos saíssem do controle. Ellery era o favorito dos criados, sobretudo do setor feminino e especialmente de Brunella, a quem ele estava acostumado a enrolar para conseguir um pão recém feito ou um banquete a meia-noite. - O senhor Ellery foi muito amável em todo momento. - Exceto esse dia, depois que esteve bebendo e fez acusações sobre ela e o senhor Throckmorton.

O senhor Throckmorton, sim, que a enviara a procurar. O senhor Throckmorton, em efeito, a quem ela desafiara. O senhor Throckmorton, em quem não estava disposta a pensar.

Mas considerando a confusão no que estava envolvida, as mesquinhas insinuações de Ellery não tinham nenhuma importância.

—Não fui à noitada musical porque tento... estar com as meninas e... E, bom, já sabem que não sei cantar nem tocar harpa, ao menos, não muito bem.

Neville, o encarregado de dar brilho à prata e que durante as refeições realizava funções de lacaio, disse: —Hod me disse que Kawdon lhe disse, ao qual, por sua vez, o havia dito Dinah, quem estava limpando o pó do escritório do senhor Garrick, que se supunha que ia trabalhar para o senhor Throckmorton se encarregando de algum de seus assuntos.

—Sério? E o que aconteceu ao senhor Stanhope? - Arwydd voltara sigilosamente da destilaria.

—Que lhe inflamou um ovo - disse Herne.

Brunella esperou que a risada generalizada se apagasse antes de perguntar:

—Bom, Celeste, que tal resulta trabalhar para o senhor Garrick?

—Magnífico. - A vontade de Celeste de seguir ali, na cozinha sumiu. A sensação de estar em casa desaparecera assim que os criados começaram a fofocar sobre Garrick. Algo que, entretanto, nunca a preocupara antes; para ela, como filha do jardineiro, como para todos os criados, as destrezas das pessoas de cima era terreno abonado para a falação. Nesse momento se sentiu dividida em suas lealdades, sem saber como responder, e de todos os modos não queria pensar em Throckmorton.

—O senhor Garrick é ainda mais rico que o senhor Ellery - disse Esther em um tom meramente especulativo.

—Por Deus, não comece outra vez com isso! - protestou Milford.

—Se lembre que lhe eu disse isso muitas vezes, Celeste; se casar com um rico é tão fácil como fazê-lo com um pobre. - Esther deu um tapinha no braço de Celeste e olhou com hostilidade para Milford, que lhe devolveu o olhar com firmeza.

Foram tão furiosas as olhadas que trocaram que Celeste renunciou a qualquer ideia de uni-los.

—Papai, não estou me entregando a nenhuma fantasia descabelada, e neste momento, Esther, sou mais consciente que nunca das dificuldades. Mas...

—Mas eu não entendo nada. - Uma das garotas do povoado, contratada para ajudar durante as celebrações, seguia com atenção o bate-papo com o cenho franzido em sua cara larga.

—Está interessada no senhor Ellery ou no senhor Garrick?

—No senhor Ellery - respondeu Celeste imediatamente.

A garota prosseguiu como se Celeste não tivesse falado.

—Porque me parece que qualquer deles seria um bom partido para a filha do jardineiro... E as bodas seria tão incrível quanto o mar se case com a margem.

Irritada e envergonhada. Celeste replicou:

—Não estou interessada em me casar com o senhor Throckmorton. Não tem ouro suficiente em suas arcas para me obrigar a querer a alguém tão frio e pouco apaixonado como ele.

Ao terminar sua ardorosa declaração, ninguém respondeu. Se produziu então um intenso silêncio só quebrado pelo rítmico girar do espeto e os assobios da gordura ao cair sobre as brasas. Esther, com os olhos muito abertos em sinal de advertência, olhou para Celeste e fez um gesto com a cabeça em direção à porta aberta. Celeste, com a sensação de uma fatalidade iminente, olhou à alta figura sombria e imóvel que estava de pé na entrada.

Garrick, cuja largura de ombros enchia a visão de Celeste, tinha os punhos apertados e os pés bem firmes sobre o chão, como um marinheiro que navegasse em águas bravias.

Fora procura-la. Pois não faltava mais nada; nunca aceitaria uma mensagem como a que Celeste enviara. O olhar de Throckmorton percorreu a cozinha com a frieza de uma bofetada de ar invernal.

Os homens que estavam sentados nos bancos se levantaram; outros criados olharam para outro lado ou começaram a se mover inquietos. Herne tossiu e tentou se aproximar sigilosamente da multidão.

Então, Garrick olhou para Celeste, e em um tom de voz tão sereno que os criados que estavam a seu redor relaxaram, disse:

—Senhorita Milford, teria a bondade de me atender, por favor?

Mas Celeste alcançou a perceber em seu olhar uma fúria que já lhe era familiar... Uma fúria colérica, transbordante daquela paixão que ela negara que ele possuísse.

Como se não houvesse força que pudesse levantá-la, Celeste se agarrou ao banco que tinha debaixo até que seus nódulos se tornaram brancos.

Ao não se levantar, Garrick acrescentou:

—Deve me atender agora mesmo - acrescentou, enfatizando a peremptoriedade da petição.

Esther fez um gesto com a cabeça a Celeste ao mesmo tempo que lhe sorria alentadoramente.

Seu pai a tocou no ombro.

—Vá, pois, filha.

Como ia se negar? Ali não podia contar a ninguém sobre a cena da estufa.

Celeste estirou os dedos e soltou o banco. Deslizou para fora e se levantou. Com lentidão, como um criminoso que enfrentasse ao cadafalso, avançou com estupidez para Garrick, com a cara ardendo, sem olhá-lo, a não ser com a vista fixa além dele.

Throckmorton se afastou para lhe dar passagem; Celeste passou por seu lado.

E, depois de fechar a porta atrás dele, Garrick a segurou pelo braço justo por cima do cotovelo, tal e como faria uma instrutora com uma menina contumaz. Celeste tentou se soltar dando um puxão.

—Se importaria de me soltar o braço?

—Sim. - A empurrou escada acima na frente dele. - Um homem tão frio e pouco apaixonado como eu não se sente inclinado a ser amável com a filha de meu jardineiro, em especial quando ela desdenha minha proposta de casamento.

—Você não me pediu em casamento.

—Sim. - Throckmorton conseguiu parecer tão assombrado como sarcástico. - Agora me parece recordar que sim.

Ao chegar ao alto da escada, Celeste lutou até que conseguiu se soltar e se voltou para aquele velho verde detestável, grosseiro e malicioso.

—Se atreve a se mostrar indignado porque não pretendi venerar seu templo? Depois de como me tratou?

O homem que Celeste estava vendo era o senhor Throckmorton que conhecera sempre, mas sob aquele verniz de refinamento reconheceu ao mesmo selvagem que, no dia anterior, na estufa, reivindicara como própria uma parte tão considerável de sua inocência.

A um porco brutal e conquistador.

Celeste avançou com ar de indignação pelo corredor vazio. Throckmorton a seguiu pisando em seus calcanhares.

—Estava mexericando sobre mim com os criados.

—Não, não estava. Eram eles os que estavam fofocando; eu somente respondia. Também estavam me fazendo sentir condenadamente incômoda. - Embora incômoda não fosse a palavra adequada, se tratava de algo mais profundo. As lágrimas foram a seus olhos de repente. - Estou presa entre dois mundos, e a única coisa que lhe interessa é sua muito valiosa e magnífica personalidade.

O desdém e a brincadeira seguiam dominando Throckmorton quando este perguntou:

—Quando decidiu que teria Ellery por qualquer meio possível, não te ocorreu que teria que decidir se estaria acima ou abaixo, no jardim, ou na casa?

É obvio que não lhe ocorrera. Em seus sonhos Celeste se movia sem problemas entre a alta sociedade e a criadagem. Obrigá-la a enfrentar cara a cara com a realidade não fez que Garrick granjeasse seu carinho.

—Quando decidi que teria Ellery não me ocorreu que teria que suportar que seu irmão me humilhasse na estufa.

—Aí está a essência da questão. Está furiosa porque... a humilhei.

Então, vencendo sua resistência, a empurrou para o mesmo vão que esteve compartilhando com Ellery fazia tão pouco tempo.

Celeste empurrou o peito de Garrick, um gesto absurdo para alguém que conhecia tão bem a firmeza daquele homem, além de sua fortaleza física.

—Me solte. Não vou voltar a fazer isso com você.

Fazendo caso omisso da resistência de Celeste, Throckmorton colocou as mãos na parede que havia atrás dela.

—Então isso foi tudo? Uma humilhação?

Celeste quis olhá-lo com dureza, mas lhe veio à memória seu descobrimento do êxtase e ficou a olhar a qualquer parte exceto a ele.

—Você sabe muito bem o que foi. Foi um ato deliberado de... se divertiu comigo com a única intenção de demonstrar que manda sobre mim.

—Isso admito. - Embora não gostasse de admiti-lo.

—E não se atreva a dizer que eu o provoquei. Nada do que ocorreu na estufa foi minha culpa.

—Assumo toda a responsabilidade.

Tampouco gostava daquilo. E tampouco fez que Celeste se sentisse melhor.

—Por quê? Quero saber por que.

—Perdi os estribos. Foi uma experiência nova para mim. E não a dirigi bem. Peço perdão pela aflição que tenha podido causar. - estava se dirigindo a ela com frases curtas, rápidas e contundentes, utilizando as palavras de arrependimento adequadas, mas em um tom de irritação tão acusado que Celeste bem poderia ter estado lhe apontando com uma pistola à cabeça.

Ela não agradeceu o sentimento.

—O gênio não é uma desculpa.

—Já sei! Acredita que não sei? Nunca consenti a ninguém que trabalhe para mim utilizar uma defesa tão fraca. A qualquer homem que tentasse se desculpar de semelhante maneira o despediria no ato.

—Se separou dela e ficou a dar voltas, permitindo que Celeste conseguisse um pouco de espaço para respirar; então, retrocedeu de novo para lhe roubar o ar.

—Mas não posso despedir a mim mesmo, assim só posso te apresentar minhas mais sinceras desculpas pela aflição que tenha podido te causar e suplicar que me perdoe.

Enfurecida por aquele simulacro de arrependimento, agitou um dedo para ele.

—Isso não é uma desculpa, é uma ordem.

As faces de Throckmorton se tingiram ligeiramente de vermelho.

—Não tenho costume de me desculpar. Então desculpe se minhas desculpas foram pouco refinadas.

—Oooh, agora me sinto muito melhor. - Celeste impregnou cada palavra no ácido do sarcasmo. - Não o compreendo. Não compreendo como foi capaz de levar a cabo uma sedução tão fria.

—Fria? - O fogo brotou em seu olhar. - Chama a isso frio?

—Sim, sim que o chamo! - Nesse momento foram as faces de Celeste as que se tingiram de rosa ao recordar de como se retorceu entre gemidos sob as carícias magistrais de Throckmorton.

—Não se envolveu em nenhum momento.

Aproximando tanto a cara que Celeste distinguiu cada uma das rugas do cenho e da careta de fúria, Throckmorton perguntou:

—De maneira que não, não é, minha querida senhorita Milford? Então, me diga por que passei toda a noite...

Uma porta se fechou de repente no andar de cima. Alguém começou a gritar.

Garrick baixou a voz.

—Dando voltas pelos corredores, agarrando mi...

—Controle sua linguagem, senhor Throckmorton! - Mas Celeste estava encantada de ouvir que esteve acordado e desesperado.

—Farei o que me agrade, senhorita Milford. - E, se inclinando sobre ela, a beijou. - E o que a agrade - sussurrou.

Celeste se agarrou a sua gravata, e seu primeiro impulso foi estrangulá-lo. Throckmorton atuava como se pudesse fazer com ela qualquer coisa que desejasse, como se uma desculpa dada a contra gosto bastasse para a aliviar de sua irritação. Queria conservar seu rancor e não se deixar cativar com tanta facilidade que ele se acreditasse excepcionalmente dotado para a sedução.

Mas a beijou como um homem sumido no desespero; a abraçou como se ela fosse sua última esperança de felicidade; aspirou seu fôlego como se sua vida estivesse nisso. Os empurrões de sua língua eram doces e lentos, e sim, Celeste devia rechaçá-lo imediatamente, mas o calor da paixão cresceu e esquentou seu sangue, e ela cedeu, derretida, e desejou voltar a se encontrar na estufa, ofegando sob o corpo dele.

Do andar de cima chegaram mais gritos, mas Celeste mal os ouviu; antes bem, arrastou as mãos pelo cabelo dele, o mantendo prisioneiro de seu desejo.

Quando se separaram para recuperar o fôlego, Celeste conseguiu articular uma recriminação que em nada se parecia com a facilidade com que seu corpo se amoldou ao de Garrick.

—Deveria se envergonhar por me mortificar de propósito.

—Sofri - assegurou Throckmorton febrilmente.

De cima chegou o ruído de umas pegadas que corriam em desordem pelos chãos de madeira.

Ele agarrou sua mão e a levou até a parte dianteira de suas calças. Celeste sabia como estava formado um homem, é obvio, porque visitara Roma, que estava infestada de estátuas decadentes.

Certamente que conhecia os rudimentos do emparelhamento, porque vivera no campo seus primeiros dezoito anos. Mas tocar realmente a um homem, descobrir o que o desejo era capaz de provocar...

Nesse momento não soube se devia ficar a explorar ou se pôr a correr pedindo socorro.

A exploração resultava atraente. Rodeou a virilidade de Garrick com os dedos e fez que a palma de sua mão subisse e baixasse, deslizando por aquela extensão. E era tão grande a extensão... que gritar e se pôr a correr também pareceu uma boa ideia.

Ela confirmou seu receio com outro movimento da mão, sem conseguir acreditar que ele realmente abrigasse tanto desejo dentro dela que estivesse desejando se introduzir dentro de seu ser.

O olhando aos olhos, Celeste sussurrou:

—É tremendo.

—Não é a envergadura da varinha mágica o que importa, é a magia que contém em seu interior - respondeu ele em outro sussurro.

—Precisava ser mágica. Não podia falhar!

—Garanto o encantamento. - Throckmorton fechou os olhos e apertou a mão de Celeste contra ele com força.

—Prometeu que não o faria.

—Não pode me exigir que o cumpra. Não pode. - A dor e a paixão estavam gravadas em suas feições, endurecidas por um ardor que Celeste não conseguia compreender de todo. - Mas tem razão.

Não o farei... Não devo... Mas temos isto. - Colocando as duas mãos de Celeste ao redor do pescoço, voltou a beijá-la e balançou os quadris contra ela.

Alguém descia correndo pelas escadas.

Como fazia aquilo? Como um beijo daquele homem podia provocar aborrecimento, euforia e sobretudo desejo? Não era justo que quando apertava os lábios contra sua boca, Celeste se esquecesse dos pecados de Throckmorton e só se recordasse da satisfação de se encontrar entre seus braços, excitada, atendida, ensinada. Quis estar raivosa e, entretanto, morria de vontade de se deitar com ele e descobrir a magia que lhe prometera.

Um mulherão passou correndo chamando com voz frenética:

—Senhor Throckmorton! Onde está? Senhor Throckmorton!

Todo ele, todo seu desejo e determinação estiveram enfrascados em Celeste. Nesse momento, seu extraordinário interesse se afastou bruscamente dela. Sem gesto ou sinal algum de arrependimento,

Throckmorton saiu do vão da escada.

—Senhora Brown! O que acontece?

A simples e inquebrável babá parecia morta de angústia.

—Viu às meninas?

A culpa e o temor deslocaram a frustração de Celeste. Se unindo a Garrick, perguntou:

—Por quê?

—Porque desapareceram. - A senhora Brown segurava uma folha de papel em que havia algo escrito com fluidez e em letras maiúsculas. - A senhorita Penélope deixou esta nota. Diz que a senhorita Kiki escapou e que vai atrás dela.

 

—Eu disse que não viesse. Por que veio?

Caminhando trabalhosamente atrás de Kiki, Penélope respondeu a sua prima em inglês, porque embora esta insistia em falar em francês, ela também podia ser teimosa.

—Porque cada vez que se mete em problemas, se converte no centro da atenção; e já estou me fartando disso.

O qual era certo, como Penélope reconheceu para si mesma com firmeza, exceto nesse preciso momento o que a estava fazendo sofrer era uma pontada (embora a mais pequena das pontadas) de preocupação por Kiki.

Não sabia por que devia se preocupar. Durante o último ano Kiki tinha amargurado sua existência. Chegara, toda bonita e afrancesada, dançando e cantando como uma artista de rua, não tinha parado de criar problemas com sua arrogância e, em geral, se converteu em uma praga asiática. Mas parecia ter algo diferente naquela manha de criança, naquele aborrecimento com profusão de movimentos bruscos de cabeça e andar contundentes.

Era provável que Kiki fizesse todo aquele desdobramento depois que Penélope a alcançasse e sem o benefício que supunha que houvesse outro espectador.

—Aonde acredita que vai? - perguntou Penélope.

Kiki deu um pisão em um atoleiro e jogou a cabeça para trás.

—Chez moi.

—Sua casa está ali.

Penélope apontou para Blythe Hall. Foram rodeando o pequeno bosque de carvalhos e álamos do prado ocidental, se dirigindo em oblíquo para o rio.

Tinha deixado de chover, mas dos ramos se desprendiam grandes gotas de água que salpicavam às meninas, e pela proximidade do bramido do trovão, Penélope deduziu que os céus iriam voltar a se abrir, e logo.

—C'est chez toi...

—Também é sua casa.

—Avec tom pere et lha nursery et lha bonne d'enfant...

—Não é minha babá, acaba de chegar esta semana.

—Et lhes livres et tom pere... - A voz do Kiki tinha ficado mais pastosa.

—Pode ler os livros, e seu papai também está em Blythe Hall. - Não estava segura, mas lhe pareceu que Kiki tinha subido o braço para limpar o nariz. - Não trouxe lenço?

—Non! Não sou tão inglesa nem tão distinguée como você. Já se encarregam todos de que me inteire bem.

Penélope estava realmente farta de ouvi-la falar somente em francês.

—Acreditava que todos se encarregavam de que eu soubesse que não era tão bonita como você.

—Seu n'é ps aussie jolie que moi!

—Eu também sou bonita! - Penélope deu um empurrão justo na metade das costas dela.

Kiki tropeçou para frente, se voltou como uma selvagem e lhe devolveu o empurrão. Era mais baixa e magra que Penélope, mas conseguiu encaixar um bom golpe e Penélope se encontrou agitando os braços para não cair de costas. O que teria ocorrido se não se estelasse contra o tronco de uma árvore.

—Crétine!

—Boba! - Todo o descontentamento do último ano aflorou em Penélope, e de boa vontade teria atacado Kiki, a teria atirado ao chão e a teria obrigado a voltar para casa, aonde pertenciam e aonde estariam a salvo.

Mas Kiki renunciou à luta, se voltou e começou a correr. Correu como o vento sem deixar de soluçar ruidosamente nem um momento.

Penélope titubeou. Não sabia como Kiki conseguira passar sem que o pobre homem que vigiava a porta do quarto de jogos se desse conta, mas ela teve que fingir que estavam brincando de esconder e o homem acreditara nela. Deveria voltar e dizer a papai, mas para então Kiki teria desaparecido. E dedurar parecia coisa de velhacos. Além disso, Kiki estava se comportando de maneira muito estranha, chorando até que o nariz começou a gotejar e ficou muito feio, e logo, em lugar de lutar, saíra fugindo. A decisão não era fácil, mas Penélope se pôs a correr atrás de sua prima.

Começou a chover de novo, mas dessa vez com mais abundância e maior intensidade que antes. Os relâmpagos cintilavam, os trovões bramavam, e Penélope seguia limpando a água dos olhos com a esperança de que Kiki tropeçasse e caísse de bruços, para ver se assim se dava por vencida.

Mas Kiki, que nunca satisfazia suas esperanças, se dirigiu para o rio, e Penélope correu tão depressa quanto pôde até que a apanhou. A agarrando pelo braço, gritou:

—Subamos ali acima. - E apontou as ruínas do castelo que se levantava na colina boscosa.

Pela primeira vez ao longo da desventurada manhã, Kiki se comportou tal como era sempre. Seus olhos se iluminaram quando a linha quebrada de um relâmpago cintilou atrás das ruínas do castelo, dando a este um aspecto melodramático e desolado.

—Oui. - E levando o dorso da mão à frente, disse em francês: - Ali posso morrer em paz.

—Eu, a única coisa que quero é poder escapar da tormenta.

—Não tem sensibilidade para o théâtre.

—Pois reconheço uma farsa assim que a vejo.

Kiki se soltou com um puxão e começou a subir a colina com ar ofendido. Ar ofendido que durou até que um novo raio caiu tão perto que seu estrondo a ensurdeceu; então, deu um grito e se pôs a correr atalho acima.

Penélope chegou antes dela ao castelo. Tinha as pernas mais longas e nunca gostara dos trovões.

As duas meninas se precipitaram ao interior de uma estreita cova formada por uma grande rocha vertical, um muro de pedra e o leito de madeira que o senhor Milford construíra para que a madressilva tivesse por onde subir. Em um dia do verão normal, Penélope não teria entrado nunca por medo das abelhas que zumbiam em torno das fragrantes flores amarelas, mas esse dia as abelhas demonstraram ter mais sensatez que as meninas; ficaram em casa.

Penélope estremeceu de frio quando se agachou junto a Kiki, sem tocá-la, só examinando os raios que caíam ao redor delas como dedos de um deus furioso, uma ideia que fez que Penélope movesse os pés com ar de culpabilidade.

—Acredita que Deus está zangado conosco?

Kiki a olhou perplexa como se tivesse perdido a razão.

—Non, o bon Dieu nous aime.

—Mas fomos más.

—Je ne sius ps lhe recheiem. Je vão chez moi. Toi, seu é lhe recheie.

—Eu não sou má! A má é você. E não pode ir a casa. Será que não entende, sou gansa? Ninguém te espera em nenhuma parte exceto aqui.

Com uma expressão de dor no rosto Kiki respondeu com voz tremula em francês:

—Aqui não há ninguém. Perdi a minha mãe. À senhorita Milford gosta mais de você. E seu pai te ama e lê para você. Meu pai não me ama. Aqui ninguém me ama. - E terminou com um pranto que parecia o de um gatinho faminto.

—Tem ideia de quão tola é? - Penélope sentiu vontade de lhe dar um sopapo. - Estou aqui, molhada, gelada e morta de medo só para que não esteja sozinha. Certamente que a amo. É uma boba.

Kiki guardou silêncio durante um bom momento, ao fim do qual disse:

—Vraiment?

—Sim, realmente é boba.

—O que se de verdade me ama? - perguntou Kiki em francês.

—Quando não é tola.

—OH, Penélope! - Kiki se equilibrou com tanta força para Penélope que a fez cair de traseiro. - Je t´aime bem aussi. Seu Et é stupide.

—Devo sê-lo. - Penélope aceitou o abraço de Kiki e a abraçou a sua vez. Kiki levava uma capa de lã que tinha repelido parte da água, e nesse momento Penélope começou a entrar em calor.

Kiki puxou uma ponta do capuz para cobrir Penélope e lhe perguntou em francês:

—Por que saiu correndo sem te pôr um casaco?

—Porque tinha medo de que se perdesse.

—Agora somos irmãs, não somos? Nos gostamos e compartilhamos tudo e...

Penélope plantou a mão na boca dela. Kiki a tirou de um empurrão.

—Não pode voltar atrás!

—Chist. - Penélope aguçou o ouvido através da chuva. O assobio do vento voltou a se desvanecer, e ouviu a voz de um homem uma vez mais.

—Nossos pais! Devem vir nos salvar. - Kiki começou a sair da cova engatinhando.

Penélope a agarrou pelo tornozelo.

—Para. Talvez não sejam nossos pais. - Falou em voz baixa. - Meu pai me disse que devia me assegurar sempre de que era ele.

Algo do alarme de Penélope deve ter afetado Kiki porque retrocedeu engatinhando com a mesma rapidez com que antes tinha avançado.

—Porque há uns homens maus aos que gostariam de me agarrar... e também a você. - Alguém as vira abandonar a casa? E se foi assim, por que não tinham saído antes para as resgatar?

Tudo aquilo preocupava Penélope, e papai lhe havia dito que confiasse em seus instintos.

—Eles vilains! - Kiki se arrastou para a pequena abertura situada na parte de trás da gruta. - Qu'est-c que nous faisons?

—Está se aproximando. - Penélope aguçou o ouvido para reconhecer a voz, mas não conseguiu. O que estava fazendo um estranho farejando pelos jardins, sobretudo ali acima? - Retornaremos por esse buraco.

Assim que saia, se arraste um trecho e logo se ponha a correr até em casa. Eu a seguirei. - A voz se aproximou ainda mais. Muito. Penélope ordenou a Kiki em um sussurro: - Depressa. Permanece agachada.

Se eu não puder sair, vá dizer a meu pai imediatamente.

—Penélope! - O medo fez que Kiki abrisse desmesuradamente os olhos.

Mas não estava tão assustada como Penélope, que teve que jogar mão de toda sua coragem para empurrar Kiki através do buraco.

—Vou atrás de você.

Depois de se assegurar que sua prima cabia pelo buraco, se voltou e olhou para fora, tomando cuidado de ocultar os contornos do buraco.

—Senhorita Penélope - chamou a voz. Era amistosa. Muito amistosa - Sei que anda por aqui. Seu pai me enviou para procurá-la.

Penélope não reconheceu a voz.

—Sou o tio Bumly - gritou o homem. - Me indique simplesmente onde está e a salvarei da tormenta.

O tio Bumly? Penélope não conhecia nenhum Bumly, e sem dúvida não era tio dela. Seu coração começou a pulsar com tanta violência, que mal podia respirar, e começou a retroceder com cuidado procurando fazer o menor ruído possível.

Então...

—Ah, está aí, carinho - gritou Bumly. - A agarrarei!

Bumly localizara Kiki, e Penélope soube que não podia deixar que a agarrasse. Então gritou como uma menina tola, gritou até que um braço comprido se introduziu na cova e a tirou de rastros.

E gritou quando Bumly disse:

—Esta é a boa.

Penélope gritou até que o homem lhe deu um tapa na cara e disse que se calasse.

Então, fez o que seu pai lhe tinha ordenado e esperou que ele fosse resgatá-la.

Chovia. O velho sabujo farejava e corria. Throckmorton mantinha a raia ao cão e... com muita dificuldade a seu gênio; as meninas desapareceram e a coincidência era suspeita.

Alguém as tinha atraído para fora, e quem quer que fosse, pagaria.

Kinman estava ao mando dos homens que procuravam pelos jardins. Os criados estavam examinando cada canto e esconderijo da casa.

Throckmorton corria atrás do cão enquanto a chuva lhe empapava o sobretudo e as botas foram se cobrindo de barro. Corria e rezava; rezava para que a chuva não arrastasse o aroma das meninas.

Ainda não. Ainda não.

Celeste desejara acompanhá-lo, mas ordenara a ela que ficasse atrás para ver se podia encontrar algum rastro das meninas. Naquele momento de dificuldade não queria ser também responsável pela segurança da garota.

Ele e o cão giraram para o rio e então retrocederam para a colina que se levantava no centro da propriedade. Para aquele estúpido castelo em ruínas. Throckmorton examinava as árvores e os arbustos em busca de algum movimento. Nada. Com aquela chuva não podia ver nada.

Penélope sabia que ele tinha posto um homem para que velasse por elas permanentemente, e lhe explicara os motivos o melhor que pôde para não assustá-la. Entretanto, Kiki se fora, e Penélope mentira para escapar.

A fúria e o medo ardiam em seu interior. Sim, alguém as tinha atraído fora da casa.

O cão pegou o atalho que conduzia ao topo da colina. O cascalho molhado escorregava sob os pés de Throckmorton. O cão puxou trela, ladrou uma vez... E procedente de cima do pendente, um pequeno projétil entrou no atalho e quase derruba Throckmorton, que estirou os braços para agarrar à menina.

Kiki. Reconheceu-a pelo tamanho, pelo frenético abraço e... por seu francês.

—Je vous em prie. Vous devez vir avec mijo tout o suit. IL l´ao Kidnappé! IL tient Penélope!

Nunca antes sua inépcia para os idiomas lhe produzira tanta frustração. Segurou Kiki pelos ombros e a sacudiu.

—O que? O que?

—Um homme! Em haut. Em haut, da cave avec a chèvrefeuille! - Kiki apontava para o topo, mas Throckmorton seguia sem entendê-la, então com um bufo de frustração, a menina gritou em inglês:

—Um homem agarrou Penélope! Vamos, na cova da madressilva! Vá salva-la!

—Sim. - Kiki cedera por fim; falara em inglês.

Já saborearia o êxito mais tarde. No momento, ele se limitou a lhe dar um forte abraço. Então, a empurrou brandamente em direção ao pé da colina e lhe ordenou:

—Volta para casa. E diga aos homens que venham armados. Corre!

—Corre você - replicou Kiki com ênfase, e começou a descer a colina pegando saltos como uma pelica.

Justo o que temera; um homem, um estranho, retinha Penélope. E a ameaçava.

E, quem quer que fosse, o mataria. Se podia, o interrogaria, mas por cima de tudo o mataria. Tocou o bolso do colete; seguia seco sobre a pistola carregada que levava.

Enrolou a trela ao redor do pulso e deu rédea solta ao cão.

Era uma estupidez ter carregada a pistola tão perto do corpo, já que esta podia disparar a qualquer momento, mas poderia necessitá-la.

O cão começou a ladrar sem cessar; latidos ásperos, profundos, que pareciam mais ameaçadores do que um sabujo estava acostumado a ser.

Amo e cão, unidos na perseguição, se puseram a correr pelo atalho acima. Chegaram ao topo.

Mas ali não havia ninguém.

Throckmorton examinou toda a zona enquanto o cão farejava em círculos, encontrando somente uma mixórdia de aromas que confundiam seu fino olfato. Então...

—Ali.

Fora do atalho, entre as árvores. Ramos quebrados... umas pegadas grandes e apressadas sobre a erva enlameada... e uma fita de cabelo vermelha, jogada para que a aguda vista de Throckmorton a visse.

Penélope. Sua filha querida.

—Aqui, menino. - Throckmorton conduziu ao cão até o lugar e levantou a fita para que a cheirasse.

O cão saltou fora do caminho, e os dois se lançaram colina abaixo, correndo em direção ao rio. Os pés de Throckmorton escorriam para os lados; quando caiu, dando uma cambalhota, se levantou e seguiu correndo sem diminuir a marcha.

O sabujo puxava a trela, seu latido se fazia cada vez mais frenético; estavam perto de sua presa.

—Papai, papai!

Penélope. Estava viva e o terror a fazia gritar com estridência. Throckmorton e o cão seguiram correndo a toda velocidade, e quando saíram de entre as árvores se detiveram após dar uma derrapagem.

Na esplanada que conduzia ao rio um homem corria a toda velocidade segurando à filha de Throckmorton, que não parava de lutar.

Throckmorton o queria ver morto. Soltou o cão. O sabujo saltou atrás de sua presa. Throckmorton tirou a pistola e gritou:

—Alto!

O homem se deteve. Se voltou e encarou Throckmorton, segurando Penélope diante dele a modo de escudo.

Throckmorton entrecerrou os olhos e reconheceu vagamente ao homem. Era um criado; devia ter chegado acompanhando a um dos convidados.

Agarrando o fino pescoço de Penélope com uma mão grande e brutal, o asqueroso sujeito o retorceu e gritou:

—Chame a seu cão ou a mato!

Romperia a coluna de Penélope.

Throckmorton chamou o cão.

O pânico afinou a voz de Penélope, quem não obstante gritou:

—Dispare nele, papai.

O criado intensificou brutalmente a pressão que exercia sobre a menina.

—A matará se o faz. Ou, se não, a matarei eu.

Throckmorton temeu que o sujeito falasse a verdade. Era um bom atirador, mas não se podia confiar nas pistolas. Ao menos, a essa distância; não com a vida de sua filha em jogo.

Começou a baixar a arma.

Então, Penélope levantou os braços para trás em uma tentativa de agarrar às cegas o que fosse. E apanhou a orelha e o cabelo do sujeito e puxou com todas as suas forças.

O homem se dobrou pela cintura, derrubando Penélope. E antes que ele voltasse a se endireitar, a empapada criatura se largou do abraço do homem.

Ele se equilibrou para ela em uma tentativa desesperada por agarrá-la.

Penélope se afastou rodando. E Throckmorton apertou o gatilho.

A bala se incrustou no peito do canalha, que cambaleou para trás e desabou.

Durante um instante, Throckmorton sentiu uma alegria aterradora e selvagem, a euforia de um ser primitivo que salvou a sua origem do perigo.

De repente, de entre as árvores saiu uma figura feminina que correu para Penélope.

Levado pelo terror, Throckmorton atirou a um lado a pistola imprestável e se equilibrou também para sua filha. Foi então quando se deu conta... que era Celeste. Transgredindo todas as suas ordens e os seguira.

Throckmorton se alegrou; ela cuidaria de sua filha. Celeste rodeou Penélope com seus braços e a abraçou soluçando. Throckmorton se desviou para o corpo imóvel convexo sobre o lodo.

O bastardo jazia de barriga para cima, morto.

 

—Deveria ter visto minha prima, senhorita Milford. - Kiki estava sentada ao lado de Penélope, na cama desta última no dormitório das meninas, e se abraçava a ela com força enquanto falava em inglês com um ligeiro acento. - Me enviou corajosamente na frente e ficou para enfrentar a esse canard[12] que pretendia nos pegar.

—Isso tenho entendido. - Celeste acendeu um fósforo na lareira e foi aproximando das velas. As duas meninas estiveram metidas em longos banhos quentes até que deixaram de tremer. Ambas estavam envoltas em suas volumosas camisolas brancas; as duas já tinham jantado. E, passadas já várias horas desde sua volta a casa, as duas seguiam tendo o olhar amplo e estupefato dos meninos que correram uma aventura e sobreviveram.

Garrick levara Penélope nos braços todo o caminho de volta a casa com a cabeça da menina enterrada em seu ombro. Ao longo da tarde e da noite Celeste consolara à menina sempre que pudera.

A senhora Brown ficaria a dormir em uma cama de armar no quarto das meninas, se por acaso estas tinham pesadelos. Mas uma vez que se tranquilizou, Penélope se limitou a se mostrar pensativa.

E quando seu pai a repreendeu por ter escapado, ficou olhando com calma e lhe disse que não teve escolha, que teve que ir atrás de sua prima.

Kiki reagiu à excitação a sua maneira: falando pelos cotovelos.

—Penélope gritou para atrair a atenção do gredin[13] enquanto eu descia a colina correndo.

—Penélope é muito valente - disse Celeste.

—Então, me encontrei com o tio Garrick e disse o que ocorrera, mas não me entendia! E como não fala francês, eu o disse em inglês, e precisava ter visto a cara de susto que pôs!

—Kiki soltou uma risada tola e apoiou a cabeça no ombro de Penélope. - Tinha um aspecto muito engraçado, não parava de mover as sobrancelhas e tinha a boca aberta.

Penélope suspirou, se enchendo de uma paciência desmesurada. Já ouvira a história ao menos uma dúzia de vezes esse mesmo dia. Mas voltou a permitir a Kiki que a contasse uma vez mais e se limitou a dizer:

—Deveria ter falado em inglês desde o começo.

—Mas é que me esqueci do inglês - admitiu Kiki.

—Suponho que nunca mais voltarei a ser tão sortuda - Penélope disse com voz lastimosa.

Celeste dissimulou um sorriso.

—Não entendo. - Kiki inclinou a cabeça.

Penélope a rodeou com um braço.

—Quero dizer que já não deixarei de te ouvir falar... e falar... porque não vai voltar a escapar.

—Non. - Kiki sacudiu a cabeça com tanta força que suas tranças loiras saíram voando. - Nunca mais. Ficarei com você para sempre, MA chère cousine.

—Muito comovedor. - A senhora Brown entrou afanosamente no quarto com os aquecedores para as camas. - Mas já tiveram suficiente agitação por hoje as duas e é hora de se deitar.

Venha, vamos, se agasalhem para que a senhorita Celeste possa descer e se unir à festa. Hoje é a última noite, sabem? e quererá dançar durante toda a noitada.

Kiki permitiu que Penélope escapasse depois de lhe dar um grande beijo na face; depois atravessou o frio chão do quarto de quatro pés e se meteu entre seus lençóis recém esquentados.

Celeste se inclinou para lhe dar um beijo de boa noite. Kiki se aconchegou debaixo das colchas.

—Vai se casar com meu papai?

Celeste não deveria ter se sobressaltado, mas o fez. Pois claro que as meninas teriam observado aos adultos e escutado as fofocas dos criados. É obvio que deviam estar surpreendidas pelos acontecimentos da semana e se perguntando por como afetariam a suas vidas.

Mas a ingênua pergunta de Kiki fez com que Celeste enfrentasse a um fato difícil, um fato que tinha sido consciente quase desde o instante de sua volta, mas que se negou a reconhecer. Que não amava Ellery.

Tinha amado a imagem superficial e brilhante que projetara sobre sua vida; amava a ideia de viver com ele, de ser a inveja das demais mulheres, de o ouvir rir sabendo que a vida a seu lado seria um torvelinho constante de frivolidade e prazer.

Mas Ellery não era o homem que o conde de Rosselin lhe aconselhara que procurasse. O conde havia dito que se conformasse, nada menos, que com sua alma gêmea, com sua metade da laranja. E Ellery não o era.

Celeste sacudiu a cabeça sorrindo para Kiki.

—Seu papai está comprometido com lady Hyacinth. E acredito que se casará com ela... Se ela o aceitar.

Porque no alvoroço que seguiu ao sequestro, se revelou a todo mundo a verdade sobre o parentesco de Kiki. Celeste recordava bem a expressão na cara de Hyacinth.

A garota já tinha suas reservas a respeito de Ellery antes disso; nesse momento devia estar pensando o pior a respeito de seu futuro com ele.

Penélope já se aconchegara sob as colchas, e quando Celeste se inclinou para lhe acariciar o cabelo, levantou o olhar e disse:

—Vai se casar com meu papai?

Celeste ficou cravada no lugar e olhou fixamente os escuros olhos de Penélope. Se casar? Com Garrick? Essa mesma manhã na cozinha rechaçara a ideia, que adornara com todo o desdém que merecia.

Nunca considerara realmente semelhante coisa. Mas nesse momento...

Throckmorton fora nesse dia tudo o que ela sonhara. Resgatara sua filha e derrotado ao mal, fora honorável, forte e digno de ser amado.

—Você gosta. - Penélope a observou com o mesmo olhar exigente que seu pai. - Mais que nenhuma. Eu asseguro. E me parece que também gosta de você.

Celeste tragou saliva. Pois claro que gostava de Garrick. Mais até, se tratava do homem que o conde insistira que ela procurasse. Era o homem de seus sonhos.

—Deveria pensar em se casar com meu pai. Eu gostaria. - E passando da sabedoria de uma idosa à queixa de uma menina em uma judiciosa cambalhota, sussurrou: - Agora terei que ser sempre amável com Kiki?

Penélope lhe removera os alicerces, então quando respondeu em outro sussurro, Celeste experimentou uma pequena e ignóbil satisfação:

—Sim.

Deixou à senhora Brown ao cargo e se retirou a seu novo dormitório, contiguo ao quarto das meninas. O fogo sussurrava na lareira, as velas titilavam nas palmatórias e a água do banho fumegava.

Se aproximou da janela e ficou olhando o céu noturno. Da tormenta não ficava nem rastro e, ao partir, deixara o negrume da noite e as estrelas que, duas noites antes, foram testemunhas de tantos beijos maravilhosos entre ela e Garrick.

Amava Garrick Throckmorton. Amava Garrick Throckmorton. O mero pensamento, ainda aconchegado em sua mente como um bebê, resultava estranho. Aquilo explicava a repreensão e a confusão dos últimos dias.

Voltara de Paris segura de si mesma, cômoda com o que era, convencida de que podia conseguir a vida que desejava para si.

Em troca, fora abordada por Garrick e seus desejos mudaram. Quando Garrick lhe demonstrou que o sonho de Ellery que ela acariciara durante tantos anos não era mais que uma quimera, se viu jogada sem leme a um oceano de incertezas.

A essas alturas se conhecia e sabia a verdade. Amava Garrick Throckmorton.

Não podia se enganar; provavelmente ele não correspondia a seu amor. Deixara claro que a luxúria que ela despertava nele era inesperada e pouco grata. Entretanto, tal conhecimento não mudara os sentimentos de Celeste.

Não tinha nenhuma dúvida a respeito. Se dirigiu ao armário e tirou o mais encantador de seus vestidos de baile, um em muito luxuoso veludo dourado que realçava os brilhos melífluos de seu cabelo, que fazia que seus olhos castanhos verdejassem... e que mostrava um sutiã muito decotado que se fechava pela frente com uns grandes botões de fácil abertura.

Como foi capaz de encontrá-lo na estufa em penumbra, era algo que Throckmorton nunca saberia. Não lhe teria ocorrido que Celeste iria buscá-lo. Sobretudo quando os músicos executavam uma valsa no salão de dança e Ellery andava desdobrando suas habituais manhas de sedução. Mas tinha ido; Garrick ouviu o sussurro das saias de Celeste quando esta entrou na sala com ar despreocupado.

Estava sentado, com uma xícara de café na mão, no sofá onde havia realizado aquela imoderada sedução. Com o olhar fixo nas janelas e na noite que se abria mais à frente, fingiu não ouvi-la.

Parecia ser o mais seguro.

Celeste levava uma bandeja que depositou em uma mesa junto à parede, mas, Deus obrigado, a luz que desprendia não era suficiente para iluminar a grande peça. Throckmorton não queria vê-la, bela e inalcançável.

Assim não se moveu nem falou até que ela parou justo atrás de seu ombro.

—O que quer, Celeste?

Ela afogou um pequeno grito, como se a voz de Garrick a tivesse surpreendido.

Sua voz, com aquele muito ligeiro acento francês que aflorava nos momentos de emoção, soou cálida e sonora.

—Como soube que era eu?

—Pelo ruído que fazem seus saltos sobre o chão de madeira. Por seu perfume. Pela forma em que mi...-Throckmorton titubeou.

E Celeste completou sua frase.

—Pela forma em que seu corpo reage quando estou perto?

Throckmorton levantou a vista para ela. Celeste fizera um coque desenvolto no alto da cabeça do qual já lhe desprenderam umas poucas mechas. Longe de parecer desalinhada, seu aspecto resultava tentador, como o de uma mulher que se dispusesse a ir à cama.

—Viveu na romântica Paris muito tempo.

—Peço perdão se estou equivocada, mas pensei que talvez fosse isso. - Celeste se sentou no sofá a seu lado, e a fragrância de seu perfume chegou fracamente até ele. - Porque meu corpo reage ante você.

Limão, canela e ylang-ylang; Throckmorton recordou os ingredientes de seu perfume, mas esquecera todo decoro.

—Não falemos disso. - E soltou uma gargalhada, um curto latido de amarga diversão. - Se lembre que ama Ellery.

—Bom. - Celeste se voltou para ele, relaxou e apoiou um braço enluvado no respaldo do sofá formando um arco cheio de graça. - Temo que hoje tive uma revelação.

—Uma revelação. - Garrick deu um gole à fumegante bebida e procurou não se fixar no vestido de Celeste. - Soa perigoso.

—Foi. Tento as evitar sempre que posso, mas temo que hoje a verdade nua me esbofeteou na cara.

—Que desconforto.

—Muito.

O vestido era amarelado; o tecido resplandecia na fraca luz da vela. Algumas tirinhas diminutas de cetim faziam as vezes de mangas, deixando os ombros ao ar... Isso, por não falar de seus seios que, ao Celeste ajustar a saia, se moveu com um suave e inconcebível tremor.

Garrick afastou a vista dela e voltou a olhar a janela. O reflexo da vela constituía o único ponto brilhante do cristal vidrado de noite. Podia se ver refletido nele. Esse dia tinha disparado a um estranho e salvo a sua filha. Em vão interrogara a convidados e criados a respeito da identidade do sequestrador, e explicara para a satisfação de Hyacinth (isso esperava) como Ellery chegara a ter uma filha de quem ninguém falara até o momento. Mas o Garrick do cristal parecia um homem sem uma distinção particular, um homem vestido cerimoniosamente exceto pelo enrugado lenço de seda que lhe pendurava, desfeito, ao redor do pescoço; um homem engolfado silenciosamente em seus pensamentos. Não um homem que atraísse às belas jovenzinhas a se sentar junto a ele quando o último e mais importante baile daquela fabulosa reunião social acontecia a escassa distância dali.

Entretanto, Celeste estava ali, e por mais que tentasse que não fosse assim, seguia lhe vendo o perfil. Celeste parecia contente por algo, porque as covinhas de sua face apareciam e desapareciam por algum motivo indiscernível. A diminuta protuberância do lóbulo de sua orelha se sobressaía de entre uma daquelas mechas soltas como uma parte do corpo que brincasse, travessa, de esconde-esconde... com ele. O pescoço de Celeste subia formando um arco elegante, e seus lábios, tão redondos e vermelhos, se franziam como se estivessem lhe lançando um beijo.

Obviamente, a frustração libidinosa arrasara a pouca inteligência que ficava depois daquela semana asquerosa e desse horrível dia. Desejava mais que nunca se aliviar e se liberar com essa mulher.

E só com essa mulher.

Voltando a cabeça de repente, Celeste olhou para a janela e surpreendeu o olhar absorto de Garrick. Ela sorriu; todo o encanto e atrativo que primeiro concentrara em Ellery, o prodigalizava nesse momento a ele.

Garrick poderia se perguntar que jogo ela levava entre mãos, mas aquela semana o convencera que ela era uma dessas criaturas raras... uma pessoa honrada e sincera. Então por que estava sorrindo?

As possibilidades despertaram nele o desejo de agarrar e possuir. A amaldiçoou; estava bombardeando a inexpugnável armação de sua disciplina até lhe remover os próprios alicerces.

—Não se supõe que deveria estar no baile? - espetou.

—E você não?

—É o último baile. Deveria assistir.

—Se você assistir.

Celeste seguiu observando atentamente o reflexo de Garrick na janela com um olhar de satisfação. Seu sorriso, longe de se desvanecer, banhava a Garrick em uma calidez contínua.

Essa tarde se viram imersos em uma voragem de terror e perseguição. Pela manhã compartilharam momentos de discussão e paixão, e na véspera Garrick a fizera alcançar o clímax contra sua vontade.

Celeste não deveria olhá-lo como se a visão dele a agradasse.

—Estou evitando a cauda da recepção e o anúncio oficial do compromisso de Ellery. Suspeito que lady Hyacinth poderia se opor.

—Teria jurado que desejava estar presente para dirigir a situação.

—Minha mãe pode se ocupar. Se lorde Longshaw tenta dar um golpe, deixará que seja Ellery quem o pare. Já é hora.

—Certamente que sim.

Celeste o sobressaltou com a tranquilidade de seu veredicto. Então a rosa de Ellery murchara de verdade. Throckmorton se ergueu e, com resolução militar, disse:

—Esta tarde desobedeceu minhas ordens.

—E que ordens eram essas?

—Se supunha que não precisava me seguir quando fui atrás de Penélope.

—Pensei que poderia necessitar ajuda.

—Como pôde ver, tinha a situação bem controlada.

Celeste sorriu e dobrou uma dobra de sua saia.

—Pareceu-me que se alegrava de me ver.

Garrick odiava admitir mas era verdade. Ali fora, em meio da chuva e do barro, se sentira incapaz de se encarregar da angústia de Penélope. Sua pragmática filha não parava de soluçar.

Lhe acariciara o cabelo, mas a menina se pendurou em Celeste. E aquilo lhe ocasionara uma mescla de dor, porque em seu sofrimento sua filha recorrera a outro, e de alivio por não ter que se encarregar daquilo sozinho.

Um homem sempre preocupado por não perder o controle, que mal sabia como se arrumar com um desafogo emocional.

—Penélope nunca vira disparar a um homem - disse Garrick.

—É de esperar.

—Deitou... às meninas?

Nesse momento se desvaneceu o encantador sorriso de Celeste, que baixou o olhar a seu colo.

—Fiz, e precisamente queria lhe falar delas.

Meu Deus. Garrick se endireitou, e o café se agitou na xícara.

—Estão aqui? Se encontram bem?

—Muito bem. - Celeste lhe pôs a mão enluvada na manga. - Sinto muito, não era minha intenção alarmá-lo. Depois da horrível prova de hoje, deve estar muito nervoso.

Irritado além do imaginável, Garrick disse:

—Minha querida senhorita Milford, eu nunca deixo me levar pelos nervos.

—É obvio que não. - Celeste baixou a vista e suas longas pestanas desceram majestosamente. - Esqueci que você nunca se implica.

Throckmorton considerou justo adverti-la.

—Sou um dos homens mais insensíveis de toda a Inglaterra.

Celeste levantou as pestanas e olhou furtivamente à frente; as covinhas de suas faces tremeram.

—Entendo.

Throckmorton imprimiu um tom gélido a sua voz.

—Parece que não.

—Para falar a verdade, me sinto responsável pelo que ocorreu hoje às meninas.

Assombrado, a olhou diretamente.

—Sério?

—Sou sua instrutora. Se as tivesse cuidado como era meu dever, Kiki não teria escapado, e Penélope teria ido a mim em lugar de sair atrás dela.

Garrick se vangloriava de conhecer a natureza humana. Todo mundo, "absolutamente todo mundo", se escondia quando chegava a hora de repartir as culpas. Mas Celeste o assombrara uma vez mais.

Não só aceitava a responsabilidade, mas sim a assumia toda para si. Um homem não sabia muito bem o que fazer com uma mulher assim... Ou melhor dizendo, ele sim que sabia, embora semelhante loucura era inaceitável.

—Fui eu quem te ordenou que assistisse a esta semana de celebrações pelo compromisso de Ellery - disse. - Isso é indiscutível.

—Sei que é assim. - Celeste empinou o queixo-E sei o que é o mais conveniente. No futuro investirei menos tempo em frivolidades e mais no cumprimento de minhas obrigações.

—Tudo o que ocorre em minha propriedade é minha responsabilidade.

Celeste se deslizou para ele. Então, percorreu sua face com os dedos. A seda das luvas se enganchou na rebarba da costeleta.

—Tem muitas responsabilidades. - A voz de Celeste soou rouca e muito, muito cálida. - Deveria permitir que aliviasse sua... inquietação.

Seus grandes olhos falaram com a mesma eloquência que sua voz. Por alguma razão que Garrick era incapaz de discernir, ela o desejava.

Mas ele era quem era, assim...

—Eu não sou homem para uma garota como você - declarou sem rodeios.

Celeste passeou o dedo pelos lábios de Garrick, deixando-o ali.

—De verdade? Entretanto, uma garota como eu sabe reconhecer a um mestre da sedução.

—Ah, isso. - Garrick tentou aparentar aborrecimento, uma questão difícil quando a estaca que pugnava sob suas calças era o bastante forte para suportar um pavilhão real. - Não tem nenhuma importância.

Seduzo a tantas mulheres que...

Celeste soltou uma gargalhada em uma reação que lhe soou a glória bendita.

—Você não seduz a ninguém, Garrick. Exceto a mim. Lembro bem seus costumes e, se não fosse assim, tenho amigos entre os criados. Têm o cacoete de fofocar, sabe?

Throckmorton a fulminou com o olhar. As luvas brancas de Celeste lhe chegavam por cima do cotovelo, criando uma ilusão de recato, mas só a ilusão, e quando as desabotoou, Garrick descobriu que a aparição da carne branca e delicada da face interior do cotovelo resultava de um erotismo insuportável.

Celeste deixou cair uma luva por trás do sofá e o outra pela frente. Seus braços nus deixaram ver uns dedos finos e destros.

—Esta manhã, sem ir mais longe, me agarrou a mão e apertou isso aqui. - lhe deslizando a palma da mão pelo peito, a baixou até a apoiar sobre seu membro. - E prometeu me encantar. Vim te cobrar.

Sem saber muito bem como, Throckmorton conseguiu conservar a suficiente sensatez para dizer:

—Não sabe o que está fazendo.

Celeste ficou olhando fixamente durante um bom momento.

—Quer dizer que me equivoquei quando disse a lady Hyacinth que o do ato era parecido ao emparelhamento dos cavalos?

Throckmorton não pôde evitar; soltou uma gargalhada explosiva mesmo que a necessidade lhe rasgasse a entreperna.

—Não, nisso... nisso esteve acertada. Mas não se dá conta das ramificações que têm as relações entre nós.

—Isso é muito simples, na verdade. - Relaxada, voltou a sorrir. - Você é Garrick Throckmorton. Eu sou a filha do jardineiro. Não espero que nos casemos, e tampouco decidi ser sua amante.

Mas sei que você sabe como dar prazer a uma mulher e quero que minha primeira vez seja com você.

—Depois do ocorrido aqui na última vez, por que quereria sequer se aproximar de mim?

Celeste o obsequiou com seu bendito sorriso repleto de alegria e de covinhas.

—Porque o amo, Garrick Throckmorton.

Se separou de Celeste de um salto, retrocedendo até ao canto do sofá qual donzela em perigo.

—Não acredito!

Ela não queria dizer isso; não sabia o que estava dizendo.

—Pode pensar o que quiser, mas não sabe o que passa por minha cabeça. - Celeste se inclinou para ele, mostrando um decote que apanhou a atenção de Throckmorton. - Sabe? O conheço de toda a vida, então não pode dizer que esteja enganada quanto a sua personalidade.

—Está. - A mão de Garrick se levantou por própria iniciativa e lhe acariciou o seio passando o decote.

—Por quê?

Sua pele era mais suave que o veludo de seu vestido e reluzia com o resplendor do sol. Apesar de tudo, Throckmorton conservou a prudência suficiente para poder responder:

—Não posso lhe dizer isso.

Celeste inspirou erguendo seu seio que encheu a mão de Garrick.

—Então, se o estiver, não tenho a quem culpar exceto a mim.

Condenada mulher! Amor! Como se atrevia a lhe manifestar seu amor? Até há poucos dias amava Ellery... Embora ele acreditasse que aquilo não era mais que uma teimosia. Tal crença lhe servira de desculpa para decidir fazê-la mudar de ideia, algo no que, a essas alturas, parecia ter tido um êxito terminante. Dizia que amava a ele; e, nesse momento, e vindo daquela mulher, semelhante declaração fez nele uma força de sedução difícil de rechaçar.

Precisava ser mais claro com o dilema que o apressava.

—Se não for agora, terei que te possuir.

Celeste o olhou fixamente com os olhos claros muito abertos.

—Entende? - perguntou Garrick - depois de como a tratei talvez mereça que me martirize até a agonia. Mas os caóticos acontecimentos do dia acabaram até com o mínimo vestígio de disciplina que ficava.

Celeste tirou os sapatos com alguns chutes.

Ele os observou voar pela estufa com a concentração de um lobo que examinasse a uma apetitosa pomba. Se o que ela pretendia era minar sua disciplina, estava fazendo um trabalho de primeira.

Amor. Por Deus bendito! Era formosa, inocente e dez anos mais nova que ele. Só porque compartilhassem experiências como as viagens ao estrangeiro (por não mencionar o passado comum em Blythe), só porque parecesse amadurecida (exceto por amar Ellery, um caso de imaturidade endêmica) e só porque ela o tivesse observado no passado e pretendesse saber em que estava se colocando...

Nada daquilo era razão suficiente para supor que Celeste compreendesse de verdade as consequências de declarar seu amor a um homem como ele.

Precisava ser ainda mais claro.

—Com a única intenção de reforçar minha prudência hoje só ingeri mantimentos tonificantes; e em lugar de licores bebi café. Mas nem a comida nem a bebida estão fortalecendo minha determinação.

Assim, a menos que queira que te tire a virgindade, deveria se levantar, ir até essa porta e me deixar sozinho.

Celeste se levantou.

Entendera; por fim acreditava.

A decepção para Garrick foi descomunal. Entretanto, não tinha direito de lamentar. Precisava se alegrar que ela tivesse o senso comum de sair correndo.

Celeste se dirigiu descalça à porta.

Garrick precisava se alegrar que o reconhecesse tal e como era, que Celeste admitisse a irrevogabilidade de se unir a ele, de que o salvasse de cair no pior dos pecados: o de despojar a uma inocente, à filha de seu jardineiro, a uma mulher, de seus princípios morais e dos sonhos remotos da adolescência.

A porta se fechou com um estalo e se ouviu o ruído do trinco.

Throckmorton recostou a cabeça no respaldo do sofá, fechou os olhos e se esforçou em se dominar. Sempre fora consciente de seu prodigioso e apaixonado apetite carnal, embora tivesse assumido também que sua força de vontade era maior que aquele. Nesse momento nada desejava mais que ir atrás de Celeste, agarrá-la em seus braços e levá-la de novo ali dentro.

Para fazê-la sua da maneira mais direta e primitiva que pudesse imaginar.

Mas não era isso o que ela queria. Merecia algo melhor.

Ouviu atrás dele o sussurro da seda; todos os músculos de seu corpo se esticaram. Sentiu que um perfume lhe fazia cócegas no nariz; limão, canela e ylang-ylang. E se perguntou sem muito convencimento se a abstinência não provocaria alucinações ou, o que era ainda pior, a loucura.

Então, as mãos de Celeste posaram em seus ombros.

—Faz amor comigo.

 

Celeste massageou os ombros tensos que estavam sob suas mãos. Observava o reflexo de Garrick na janela quando este abriu os olhos. A olhou diretamente; sua boca era uma linha reta e tinha as sobrancelhas caídas. Enquanto a olhava fixamente no cristal, a violência de sua respiração fez que seu peito subisse e baixasse. Celeste quase podia perceber a luta entre o cavalheiro ilustre e o macho primitivo.

Mas ele reconhecera seu cansaço e a debilidade de sua resistência. Podia se deitar com ele, e isso é o que faria pondo em jogo com habilidade as artimanhas femininas.

Celeste sorriu.

—Tenho que admitir que nunca o fiz antes, embora suspeite que a maioria dos homens não se mostram tão antissociais quando lhes apresenta a ocasião de se deitar com uma mulher.

Um violento estremecimento percorreu o corpo de Garrick, que voltou a fechar os olhos.

Mas só um instante. Quando os abriu, desaparecera qualquer rastro de severidade. Suas mãos cobriram as de Celeste. E lhe levantando primeiro uma e depois a outra, as levou aos lábios e as beijou nas palmas.

—Sou um homem antissocial.

Mas lhe sorriu com uma intenção tão sensual que o medo fez que Celeste desejasse retroceder. Não esperava aquilo, que se transformasse em um abrir e fechar de olhos de um cansado e precavido cavalheiro em um amante decidido e apaixonado.

—Passou o ferrolho na porta? - perguntou Garrick.

—Sim.

—Bom. - Se levantou sem lhe soltar as mãos e cruzou os braços enquanto se voltava para ela. - É o oposto a mim. Escuridão e luz. Severidade e alegria. - Rodeou o sofá e parou onde pudesse percorrê-la com o olhar dos pés a cabeça. - Veio me salvar, Celeste? Me tirará a rastros desta esterilidade e me conduzirá à força para a felicidade?

Ao alcançar aquele grau máximo de seriedade, irradiou uma sensualidade tenebrosa. E ao iniciar sua sedução, seu atrativo tingiu a luz e perfumou o ar, e amadureceu as paixões de Celeste, a envolvendo na alegria primitiva de estar com ele. E quando a tocou... e levantou as mãos de ambos entrelaçadas... ela fechou os dedos para uni-los aos dele, saboreando o prazer sensual de cada carícia das pontas e dos lóbulos das palmas.

—É isso o que sente quando me olha? - Celeste colocou as mãos de Garrick nos ombros e, colocando as suas por debaixo do colete, subiu audazmente os dedos até o peito. À medida que ia soltando os botões das casas, a voluptuosidade da tarefa a fez sorrir. - Felicidade, diz, Garrick? Será que agora se sente feliz?

Ele baixou a vista para sua camisa branca, visível já depois dos cuidados recebidos, e quando falou, Celeste teve a impressão que o estava fazendo com os dentes muito apertados.

—Antes que tome semelhantes liberdades, faz o favor de recordar quem é.

Os dedos de Celeste se detiveram no botão das calças de Garrick.

—A filha do jardineiro?

Agarrou seu queixo entre os dedos e a segurou com tanta força que Celeste não pôde afastar o olhar.

—Não volte a sugerir nunca mais que sou um classista. Para mim não é nem a filha do jardineiro nem a instrutora. Não há etiqueta nem nome o bastante grande que expresse seu ser. - Garrick empregou o tom zangado e desanimado do "senhor Throckmorton", que lhe exigia que o escutasse e compreendesse. - Para mim, é Celeste. A alegria personificada.

—OH. - Celeste, animada pelo calor que irradiava o corpo de Throckmorton e reconfortada por suas palavras, o segurou pela cintura das calças.

—Estava avisando para que tomasse cuidado com as liberdades que toma, porque embora seja todas essas coisas, também é a virgem a que desejo iniciar docemente nos mistérios do amor físico.

—Oooh.

O peito de Garrick subiu e desceu com a mesma dificuldade que um fole acartonado. Com uma mão a agarrava pelo ombro, com a outra o queixo, as duas tremendo pela tensão. E suas calças...

Com a rapidez de um raio, Celeste baixou a mão e a deslizou pela parte dianteira.

O membro de Garrick voltava a estar ali, igual a essa mesma manhã no vão da escada, e Celeste não pôde reprimir um sorriso... nem um estremecimento.

—Resulta muito aduladora - disse ela, - e ao mesmo tempo muito aterradora.

—Vou correr as cortinas. - Garrick girou sobre seus calcanhares e se afastou.

Celeste sorriu à figura que batia em retirada. O estremecimento que lhe provocavam as expectativas pugnava com o temor à intimidade, à nudez, aos movimentos desconhecidos e à dolorosa invasão.

Mas, em contraposição, era bom saber que Garrick lutava a sua vez por refrear o desejo. Aquele desespero o humanizava; o aproximava dela.

Garrick fechou as longas e pesadas cortinas de cor anil, convertendo a estufa em um santuário envolto em veludo e perfumado de flores. Depois se dirigiu aos sofás e jogou as almofadas sobre o tapete, entre as duas laranjeiras. Pulverizou almofadões sem moderação e cobriu toda a zona com xales e mantas que tirou do cofre. E, com um gesto exagerado, indicou a Celeste o ninho comum.

Cheia de coragem mais do que de a temeridade, se dirigiu para ele. Garrick a atraiu entre seus braços. Ao ser muito mais alto que ela e Celeste chegar a seu queixo, esta podia lhe apoiar a face no peito... e isso foi o que fez. Garrick a embalou contra seu peito um bom momento, durante o qual acariciou sua clavícula e enredou os dedos no cabelo. Seu fôlego era um rumor contra a testa de Celeste.

Eram duas pessoas unidas por uma prolongada relação, por uma circunstância inesperada, o amor, e antes de dar o passo definitivo, irrevogável e ardente, compartilhavam a calidez de se pertencer.

Celeste se ergueu tranquilamente.

—Não quero chegar ao final sem te despir.

—Mas é que eu quero despir a você.

Celeste negou com a cabeça.

—Esta vez toca a mim.

Garrick cavou as mãos nas suas faces e a olhou aos olhos.

—Vai me fazer pagar pelo que te fiz ontem aqui, não é isso?

—OH, é obvio. Quero me vingar.

Lhe acariciou as faces com os polegares e a olhou fixamente à cara, como querendo absorver a visão.

—Muito bem. - Garrick deu um passo atrás e abriu os braços em cruz. - Me faça sofrer tudo o que queira.

Júbilo e temor pugnavam por se impor no ânimo de Celeste. Como podia se sentir assim e não arrebentar de alegria ou passar por ridículo? Mas era melhor passar ridículo por aceitar uma ocasião ideal que fazê-lo por passar a vida desejando algo sem se atrever jamais a agarrá-lo.

Celeste deslizou as mãos sob a jaqueta, a tirou pelos ombros e a deixou cair sobre o chão de mármore. A camisa foi fácil; a puxou para tirá-la das calças e a tirou pela cabeça.

O peito nu de Garrick a sobressaltou por sua perfeição. Vestido dava a aparência de um volume e uma força extraordinários, mas exposto à luz, Garrick se revelava como uma massa de músculos grandes e lisos cobertos de pele cítrica e um arbusto de cabelo negro e encaracolado que se estendia de ombro a ombro e baixava até o ventre liso. Celeste nunca vira nada tão vivo e o tocou com assombro e curiosidade, acariciando primeiro os braços e baixando a seguir as mãos pelos flancos.

—É formoso - sussurrou Celeste.

—Os homens não são formosos.

—Você sim. - Riscou um círculo arrastando um dedo pelo abdômen e seguindo pelas costas. As costas de Garrick mostravam a mesma compleição maciça. - Não tem a constituição de um aristocrata-disse.

—Mas bem parece a de um agricultor ou a de um operário.

—Meu pai era um operário. - Garrick fez uma pausa enquanto lhe subia a mão pelo acidentado perfil da coluna. - Era uma pessoa convencida de que um homem devia saber o que era dobrar o espinhaço e trabalhar duro; passei me algum tempo trabalhando como estivador. E na Índia... - Garrick ficou imóvel quando ela se apertou contra suas costas e tentou lhe abranger o pescoço com os dedos. Depois que Celeste se afastasse, prosseguiu em um tom familiar: - Me chamuscou a pele com seus seios.

Celeste riu entre dentes e lhe acariciou os largos músculos que se estendiam dos ombros à coluna.

—Não vejo sinais de queimaduras.

Se voltou e a agarrou pelos pulsos.

—Celeste...

—Estava me contando algo sobre seu trabalho na Índia - lhe recordou com um sorriso insolente. Garrick pareceu momentaneamente desconcertado, como se não soubesse de que estava falando.

Celeste soltou as mãos e as subiu pelos braços com muita suavidade; logo, ficou nas pontas dos pés e lhe sussurrou ao ouvido:

—Estava me contando como desenvolveu uma musculatura tão maravilhosa, e o certo é que eu adoraria ouvi-lo.

—Farei que pague por isso - disse Garrick com um tom de voz descarnado.

—Conto com isso. - O fato de descobrir que o amava não a fizera perder de vista as vantagens de que fosse ele quem a iniciasse. Garrick era um perfeccionista, o homem preciso para instruí-la.

Não pararia até que gozassem os dois. Até que gozasse ela. E era aquela confiança a que lhe inspirava a audácia para fazer o quisesse enquanto Garrick a olhava luxuriosamente com os punhos fechados.

—A Índia - insistiu.

—Passei vários meses em um acampamento nômade tocando yaks.

—E o que é um yak?

—É uma besta peluda de carga que dá leite.

—E por que um homem de negócios se dedicava a tocar...?

—Porque viajava com os nômades! - Garrick parecia estar fora do sério.

Celeste apoiou a cabeça contra o ombro de Garrick para dissimular um sorriso.

—E que mais?

—Estive prisioneiro em Kabul muitos meses passando-os nas pedreiras do Caín do rajá.

—Viveu muitas aventuras.

—No momento me pareceram castigos.

—Me contará isso algum dia?

—Agora não.

—De acordo, agora não - aceitou Celeste. Ficou a procurar entre o cabelo de seu peito até dar com seus mamilos varonis e os rodeou com as pontas dos dedos. - Diferentes, embora iguais. Sente o mesmo quando o toco?

—Que quando a toco eu? - Ante o movimento afirmativo de cabeça de Celeste, ele levantou um ombro. - Não poderia dizer, embora eu gostaria. Eu gostaria muitíssimo.

Celeste lhe beliscou o mamilo brandamente, e quando Garrick grunhiu, disse:

—Sim. Me parece que a sensação deve ser muito parecida em ambos os casos. - Satisfeita pela pequena cota de vingança (e conhecimento) obtida, voltou a lhe deslizar a palma da mão sobre o vulto da calça.

Não diminuíra; justamente o contrário. Celeste tragou saliva e lhe desabotoou a braguilha com certa estupidez. Garrick a agarrou pelos ombros enquanto o fazia, e ela não soube se a intenção era segurá-la ou se segurar.

—Prometo... - começou Garrick.

Celeste se deteve.

—Já sei. - Depois de lhe soltar a cinta dos calções, deslizou as mãos pelos quadris e as desceu pelas coxas, seguindo a queda da roupa de Garrick para o chão. Enquanto se ajoelhava, ia dizendo:

—Temos que tirar estas calças... - E então foi quando percebeu... Sim, sim, de acordo, ela sabia de antemão que o membro de Garrick estava ali, e a curiosidade lhe sugerira aquele procedimento para conseguir um exame mais minucioso. Mas o membro estava nesse momento tão perto e... isto... era tão grande. Divino, mas grande. Sobretudo à altura da vista; sobretudo... Celeste se inclinou para atrás e viu a figura completa.

O cabelo do peito se estendia pelo franzido abdômen e se unia à moita de cabelo negro do púbis. Os quadris não eram estreitos, nem feitos para se meter entre as pernas de uma mulher, embora sim maciços, de ossos pesados, potentes, e com seu peso gravariam em uma mulher a exigência de seu dono. E, igual a seu membro - uma superfície de pele suave e cítrica, veias escuras e sutis gradações de cor, —a dominariam.

—Por Deus bendito! - Celeste levantou a vista para Garrick com cara de assombro.

Ele ficou olhando fixamente, com a veemência inscrita em seus olhos cinza parcialmente ocultos pelas pálpebras.

—E bem, Celeste? O que te parece?

—Me parece que quero tocá-lo.

O membro de Garrick estremeceu, e Celeste mal o ouviu dizer:

—Mas antes tem que pedir permissão.

Celeste estendeu um dedo e o tocou. Justo na ponta. A respiração de Garrick se converteu em um bufido.

Ao levantar a vista para ele, viu como a estava olhando... como se ela fosse uma torturadora que o estivesse desconjuntando no tronco de tortura. Mas não podia estar lhe fazendo mal, então aquilo devia ser como o que lhe fizera, um prazer tão grande que resultava doloroso.

Com doçura, rodeou o membro com a mão. Lhe fez estranho pensar que aquele prazer pudesse resultar quase insuportável. Estranho, também, foi descobrir que a excitação de Garrick podia excitá-la, mas assim era.

Enquanto mantinha cavada a mão ao redor dele, enquanto lhe roçava o chapeuzinho e as protuberâncias com os dedos, enquanto descobria a força da base e ouvia os profundos e débeis grunhidos que sua exploração conjurava... Foi então quando descobriu que tinha as faces acesas, que a necessidade lhe rasgava os seios e que entre suas pernas era cada vez mais patente a calidez de certa umidade.

O desejava sexualmente.

Se agarrou às coxas de Garrick e esfregou a face contra aquele cabelo áspero; se maravilhou. Fortes e maciços, como todas as partes do corpo de Garrick. Delineados e varonis, todos os músculos evocavam a força do homem.

Por cima dela a respiração de Throckmorton se tornou áspera; lhe tocou o cabelo com uma ligeira carícia. E como lhe pareceu correto, e porque pareceu ousado, Celeste se inclinou para frente e beijou o membro e, ato seguido, o percorreu em toda sua extensão com a língua.

Garrick perdeu a paciência de repente. A levantou de um puxão e começou a desabotoar seu traje com fúria.

—Garrick! - disse Celeste com voz ligeiramente gritante.

Nem sequer pareceu ouvi-la. Estava concentrado exclusivamente em despoja-la da roupa, tão concentrado que o terror e a excitação fizeram que o coração de Celeste iniciasse uma lenta e ruidosa carreira.

—Garrick. - Quando afastou as mãos para lhe tirar o vestido, Celeste estava com um meio sorriso . - A que vêm estas pressas?

Não respondeu, e tampouco aquietou seus movimentos quando a despojou do vestido, a fez dar a volta e desatou suas anáguas. Estas caíram ao chão com um sussurro ao aterrissar sobre o montão de roupa engomada.

A rodeou com os braços e a levantou para tira-la de entre aqueles objetos, que afastou a chutes em seu afã de chegar até as almofadas jogadas no chão.

Quando os corpos se encontraram, os dois ficaram imóveis. Garrick só levava postas as botas; Celeste, nada mais que uma fina camiseta branca de renda e as meias de seda.

Bem poderia não ter havido nada entre seus corpos quentes. Os franzidos mamilos de Celeste se apertavam contra o peito de Garrick; o membro deste a cravava no ventre.

Frente a frente, Garrick a olhou fixamente.

—Espartilho? - perguntou.

—Nem pensar.

Os olhos de Garrick se dilataram até que a pupila engoliu a íris cinza.

—Calças?

Celeste negou com a cabeça.

—Vinha te ver.

O mundo desabou quando, se deixando cair de costas, Garrick aterrissou sobre as almofadas para que ela pudesse fazê-lo sobre ele. Celeste nem sequer perdeu o fôlego antes que Garrick se voltasse sobre o flanco e ficasse em cima dela. Então, ela gritou, não precisamente de medo, mas sim pela surpresa e a perplexidade quando puxou sua camiseta e a tirou, subindo pela cintura. Empurrou com o joelho para lhe abrir as pernas e se colocou entre ela, a pressionando, quadris com quadris, peito com peito. O ataque, o rápido movimento, o dominante ataque despertaram nela um tardio esforço de prudência.

E tentou afastá-lo com um empurrão.

Garrick fez uma pausa para segurar suas mãos e fez que rodeasse os ombros com elas.

—Se agarre. - Deslizou a mão por debaixo do pescoço e levantou a cara para lhe dar um beijo fugaz. - Só se agarre.

A mão de Garrick desapareceu. E a tocou...abaixo. A princípio só uma suave carícia, nada mais que o roce dos dedos. Um reconhecimento, se diria, porque seu seguinte movimento foi abri-la com habilidade.

Celeste lhe espremeu os ombros e os braços. O alarme obstruiu sua garganta e fez que sua pele se acalorasse. O alarme era normal na primeira vez que uma mulher - qualquer mulher - estava com um homem - qualquer homem.

—E a primeira vez em couros...

Como podia ser que um homem com uma pressa tão abrasadora a tratasse com tanta delicadeza? O polegar de Garrick a roçou ligeiramente, mas com tanta precisão que ela voltou a gritar. Mas nesta ocasião o grito não continha nada de protesto e sim de prazer. Suas pernas... Celeste não sabia o que fazer com suas pernas; movia os pés sem quietude sobre o chão... Os dois tinham caído só parcialmente sobre as almofadas...

Garrick encontrou a entrada do corpo de Celeste, riscou um ligeiro círculo ao redor com o dedo e entrou. Não muito, só o suficiente para fazer que ela empurrasse com os pés e levantasse os quadris.

—Isso. - Garrick se afastou.

—Não siga. - Celeste se agarrou então a ele.

—É muito tarde para isso. - Mudou de posição, pôs as mãos debaixo dos quadris, a levantou e voltou a tocá-la.

Celeste sorriu.

—Isso está melhor.

Então, a pressão se fez maior e o peso de Garrick caiu sobre Celeste.

Ai, Deus santo. Estava em cima dela; estava dentro dela.

Aquilo queimava. Celeste lutou. Garrick se deteve, mas não retrocedeu. Seu cabelo liso, negro e brilhante caía sobre a testa de Celeste e a tensão cavava suas faces. Uma gota de suor lhe escorregou pela têmpora. O peito subia e baixava com a violência da respiração.

Como se atrevia a aparentar que estava sofrendo? Celeste sentiu desejos de esbofeteá-lo.

—Prometeu me encantar - disse, e a indignação ardeu em sua voz.

—Em seguida. - O sorriso de Garrick revelou a sacanagem.

—Mentiu para mim. - Tinha-o feito. E Garrick também sabia.

—Digamos... que não lhe disse... toda a verdade. - a levantou pelos quadris, ajustou os corpos de ambos e se saiu um pouco, lhe concedendo um pequeno descanso. Mas antes que Celeste pudesse sequer suspirar de alívio, Garrick se impulsionou para frente, e a pressão voltou a começar. Mesmo assim, teve a audácia de dizer:

—Paciência.

Dessa vez foi pior. Ao encontrar certa resistência interior, a ardência se fez mais intensa e fez que as lágrimas fossem aos olhos de Celeste, que agarrou Garrick pelos cabelos e puxou.

Concentrado em sua tarefa, não fez nem caso.

Assim decidiu distraí-lo e o puxou para beijá-lo, mordiscou-lhe o lábio como fizera a ela e introduziu a língua na boca. Garrick inclinou a cabeça e a beijou a sua vez, lutando com ela por recuperar o comando.

Bem fundo nela, o hímen de Celeste cedeu, embora ela não. O beijo se fez mais profundo, se inflamou, esfriou e voltou a flamejar.

E Garrick não se deteve nem um momento.

Celeste não soube quando ele começara a se impulsionar dentro e fora e a única coisa que soube foi que, quando deixou de beijá-lo para respirar, a dor se converteu em desconforto. Tudo aquilo lhe resultava estranho, entretanto... seu corpo sabia como responder. Garrick se tranquilizou, e com um movimento pausado, deslizou até o fundo, pressionando sua pélvis contra a dela, ficando justo no lugar em que Celeste mais sentia sua presença. Logo retrocedeu, um movimento deliberado que a forçou a reconhecer cada centímetro dele. Voltou a entrar com uma cadência decidida até o mais profundo dela, e então retrocedeu. Dentro e fora... dentro e fora...

Celeste se encontrou esperando o avanço de Garrick, desfrutando-o, mas, ao mesmo tempo, morria no momento no que ele se metia até o fundo, no que seu membro roçava seu útero, os dois corpos tão colados que já não podiam está-lo mais. Então, ele se saiu, e o prazer mudou, se converteu em uma impaciência só suportável pela promessa de que ia haver mais.

Celeste o observava, querendo prender na memória sua decisão e veemência. Garrick estava quente como uma estufa e lhe introduzia aquele calor com cada empurrão. Tinha-o agarrado pelo quadril com as pernas levantadas e os pés escorregavam pela face posterior das coxas de Garrick. Agarrada a ele, suas mãos vagavam por seu pescoço, seus ombros e seus braços. Com as costas arqueadas, Celeste balançava os quadris.

E enquanto Garrick mantinha aquele ritmo lento, compassado e calculado, os empurrões foram se fazendo pouco a pouco mais intensos, e a cada instante que transcorria ela ia se aproximando um pouco mais ao clímax.

Dentro e fora... Garrick era implacável. Quando o prazer se fez muito intenso, Celeste começou a se assustar. O sangue golpeava em suas veias, se deu conta de que lhe custava manter os olhos abertos e, cada vez que fechavam com um bater de asas, podia ouvir seu corpo com muito mais nitidez. Ofegava, e alguém... vá, se era ela!... começou a gemer ante o aviso do premente e intenso desejo. Quis se mover mais depressa para pôr fim a aquilo a sua maneira, mas Garrick a controlou; com as mãos nas nádegas de Celeste, fez que se balançasse para ele, a obrigando a manter seu ritmo abrindo e fechando os dedos com uma cadência que ressoava no pulso interior de Celeste.

Garrick mudou seu peso inclinando o peito contra o de Celeste, a obrigando a se afundar mais nas almofadas. Pôs a boca junto à orelha dela e falou com aquela voz aveludada e escura com inexorável lentidão:

—Celeste, me deixe te ver. Permita que a veja. Me mostre seu prazer.

Ela não soube onde encontrou a força para desafiá-lo, nem sequer por que, mas foi o que fez.

—Não - disse no que mal foi um sussurro.

Fundo nela, a pressão aumentou, embora Celeste se esforçasse em se manter abraçada a ele para evitar que Garrick a visse desprotegida, desesperada, ofegante.

—Isto é prazer puro. - Garrick diminuiu os empurrões. - Pode sentir o muito que eu gosto de estar dentro de você?

—Sim.

—E como me deslizo centímetro a centímetro em seu interior?

Celeste arqueou as costas e mentalmente viu a união dos dois corpos.

—Sim.

—Por dentro é cálida e escura. E se rodeia tanto a mim. - Garrick alargou as palavras, as convindo em um contraponto de seu avanço sobre o corpo e as emoções de Celeste, a fazendo mais consciente do movimento, do calor e da pura sexualidade daquela união.

Celeste choramingou.

—Me segure bem dentro de você. - As palavras de Garrick a acariciaram; seu corpo a afligiu. - Me segure.

Celeste tentou. Esticou aqueles músculos de seu corpo que o envolviam... E o clímax a golpeou como um maremoto, que arrasou ferventemente todos os nervos e que a levantou contra Garrick com força.

Convulsa, afogada no prazer, a agonia e o êxtase a atordoaram. E gritou. E se pendurou em Garrick com as unhas e com seu amor. E, se esquecendo dele no êxtase, o memorizou no coração.

E ao terminar, depois que a onda morresse e a deixasse exausta e ofegante, abriu os olhos e viu que Garrick a observava e que seguia segurando-a... sem deixar de se mover sobre ela.

—Eu adoro te observar - sussurrou Garrick. - Se mostre de novo para mim.

 

A maioria dos homens que, ao despertar pela manhã, se encontrassem com uma mulher formosa e nua que desce por seus corpos beijando-os não se mostrariam tão antissociais. A maioria dos homens não se sentiriam culpados depois de ter passado uma noite de felicidade nos braços de Celeste. A maioria dos homens se considerariam ditosos de se encontrar em semelhante situação.

Mas Garrick Stanley Breckinridge terceiro Throckmorton não era a maioria dos homens.

Com os olhos fechados com obstinação, jazia entre as almofadas da estufa enquanto padecia o tato da boca de Celeste sobre sua pele e considerava seu dilema.

Não havia nenhum aspecto da noite anterior de que pudesse se sentir orgulhoso; de igual maneira, nada precisava do que se arrependesse.

É isso que deveria. Maldição! Vá se deveria. Em plenas faculdades mentais, e sóbrio por completo, despojara de sua virtude a uma senhorita, a uma doce mulher, à filha de um de seus empregados, e desfrutara fazendo-o.

Sim, sim, certamente, ela afirmara saber o que se fazia. E declarara que o amava.

Garrick tragou saliva.

Por desgraça, ele queria que aquilo fosse verdade.

Era a filha do jardineiro, em efeito, mas, tal e como dissera a Celeste na noite anterior, considerava que a diferença de classe social era algo irrelevante, nada mais que o resultado da necessidade dos aristocratas de se situar por cima de outros sem mais razão que sua herança. Ele julgava às pessoas por sua personalidade, e Celeste era tudo o que ele desejava em uma mulher; inteligente, formosa, engenhosa e sincera.

Era dele.

Não a havia possuído nenhum outro homem, e o sentimento não era agradável nem era decente, mas o orgulho e o afã de posse fizeram presa nele duplamente.

Celeste lhe acariciou a caixa torácica com as palmas, seguindo as costelas para as costas. Logo, baixou e lhe apertou o punho contra o abdômen, aparentemente fascinada pela rigidez do mesmo.

Que tipo de homem era? Certamente não o que ele acreditara que era. Pensara que era um homem de negócios responsável, digno e com senso comum. Mas, pelo contrário, demonstrara que a dignidade e o senso comum o tinham difícil frente à tentação, a verdadeira tentação. Uma tentação chamada Celeste.

Ela seguiu descendo até o começo das coxas, continuou pelas laterais dos mesmos e, então, deixando deslizar as mãos com lentidão, e firmeza, chegou ao interior das coxas, onde, finalmente, apoiou a face em uma das partes interiores.

Por alguma razão parecia obcecada com as coxas de Garrick.

Por alguma razão Garrick as esticou. Vaidade, supôs. Nunca dedicara um só pensamento a seu corpo. Era grande, algo pelo que se sentia agradecido, porque em uma briga seu tamanho era uma vantagem.

Montava a cavalo, fazia esgrima e praticava o pugilismo com um boxeador aposentado; exigências, todas elas, para um homem que vivia com a ameaça do perigo. Mas, ao mesmo tempo, tinham posto a ponto seus músculos e, nesse mesmo instante, enquanto Celeste o examinava, estava encantado, porque ela observava tudo como uma menina com um brinquedo novo. Massageou suas panturrilhas, roçou ligeiramente todos os dedos dos pés e, partindo dali, deslizou as mãos pelas pernas até acima... Garrick ficou tenso, esperando, desejando...

A tentação o manteve acordado a metade da noite e o torturara com a necessidade de voltar a possuí-la. Imaginara como seria deslizar dentro dela enquanto Celeste dormia e despertá-la com seus doces empurrões; se imaginou beijando-a nos lábios enquanto lhe acariciava os seios e despertava com a excitação sexual e, uma vez, frente a frente, a possuía.

Sobretudo imaginara que abria as pernas dela e que se metia nela por cima e, uma vez mais, a obrigava a reconhecê-lo como seu mestre.

Os dedos de Celeste deslizaram sobre os ossos de seus quadris e baixaram até a esculpida concavidade de seu ventre.

Queria dominar a aquela mulher, marcá-la como se fosse de sua propriedade, se assegurar de que nunca duvidasse de que seu lugar estava junto a ele. Não havia nada de admirável em um instinto tão atávico como o seu; entretanto, a necessidade queimava suas vísceras.

Essa manhã precisava deixar de fantasiar e dar amostras de alguma condenada prudência. Acreditava com convicção que se um homem cometia um engano, devia aceitar as consequências e fazer tudo o que estivesse em suas mãos para emendar o problema. Ele, Garrick, precisava enfrentar o fato de que se tornou louco como Celeste, que violara todas as normas da sociedade e da educação e que deviam fazer as reparações pertinentes. E ele sabia no que consistiam aquelas reparações, e enfrentaria ao que teria que fazer e o faria como um homem.

Enquanto tomava suas decisões, Celeste lhe acariciou o diabólico membro. A ereção estava bem firme, como se a última noite ele não tivesse esvaziado sua semente dentro dela qual jovenzinho primário.

Na adolescência Garrick jamais teria sido capaz de aguentar como o tinha feito, porque, igual a todos os jovens, tinha pensado que o que lhe servia, serviria a ela. A essas alturas já sabia que não era assim, e a noite anterior, uma vez que se rendeu a suas necessidades mais abjetas, se decidiu mostrar a Celeste todo o prazer que podia encontrar uma mulher. Depois de tudo, do que servia cair na tentação se não se aceitava com entusiasmo?

Claro que quando Celeste se aproximou do clímax, tentara evitá-lo, igual à ele.

Aquilo não o surpreendera. Anteriormente, nessa mesma estufa, a obrigara a chegar ao clímax. Para ele fora toda uma lição sobre o mais horrível de sua natureza, e também fora uma lição para ela, que não aceitara com facilidade que seu corpo pudesse trair sua sensatez. Além disso, ele não se uniu a ela no êxtase, mas sim a obrigara a experimentá-lo sozinha.

Assim, apesar de toda sua franqueza e promessas de amor, Celeste fora prudente, e seguia sendo. De maneira instintiva, sabia que para ela se render não era a entrega do corpo, a não ser a aceitação do prazer, o abandono do eu.

Nesse momento explorava Garrick com suavidade, e colocando o escroto nas palmas das mãos, o sopesou, descobrindo as formas que continha com um sucinto:

—Me valha Deus!

À luz do dia sua curiosidade a guiava, embora não compreendia nada. Talvez pensasse que o da noite anterior tinha sido uma casualidade, ou que, em realidade, não gritara nem se convulsionou nos braços de Garrick, ou que já poderia se controlar.

Mas ele sabia a verdade. Celeste voltaria a ceder e cada vez seria mais consciente de que não lhe faria mal nem a trairia jamais. E com cada orgasmo a ensinaria a confiar nele.

Uma tarefa difícil, mas a que se aplicaria de bom grado, bom, mais com entusiasmo.

Celeste lhe lambeu um mamilo, uma, duas vezes, e o deixou. Garrick a olhou furtivamente através das pestanas e viu como, enrugando o nariz, tirava da língua um dos cachos de seu peito.

Sentiu vontade de soltar uma gargalhada. Condenada! Ele entregue a profundas reflexões sobre como devia emendar a situação, e ela fazia que se esquecesse tanto da circunspeção como dos assuntos transcendentais que se aproximavam, provocando que sentisse vontade de rir.

Celeste levantou a vista e o surpreendeu observando-a. Deixou cair o cabelo na almofada e, com o tom mais prosaico que foi capaz, perguntou-lhe:

—Como faz para evitar isto?

O sol que se filtrava através das cortinas lhe mostrou uma imagem distorcida de Celeste: o cabelo alvoroçado, os lábios inchados, arrogantemente nua. Ao se sentar sobre os calcanhares, sua pele resplandeceu com mais intensidade que as douradas rosas que floresciam nos vasos de barro.

—É um perigo permanente - admitiu Garrick.

—Só para mim - grunhiu Celeste.

Então sim soltou a gargalhada. Bendita inocência!

—Também é para mim.

—Por que? Eu não tenho cabelo no peito.

—Não. - Garrick colocou as mãos debaixo da cabeça. - No peito, não.

—Bom, em que outro lugar poderia...? OH! - tampou a boca com as mãos e ficou olhando com uns olhos enormes e consternados.

Garrick lhe sorriu com um prazer impudico. E aquela era outra das mudanças que ela fez nele; até esse momento jamais fora impudico nem nada que lhe parecesse. E o pior é que gostava.

Celeste também percebeu de que gostava, porque endireitou os finos ombros e cruzou as mãos delicadamente no colo.

—Não pode falar a sério.

Garrick se levantou e o fez com uma pausada exibição de poderio muscular que foi toda uma decidida declaração de intenções. Era maior, mais forte e tinha mais experiência que ela.

Celeste não tinha escapatória; algo no que ela reparou imediatamente.

—Não. - Sua voz continha algo mais de desespero.

Garrick a agarrou pela cintura, a levantou - era como uma pluma - e a levou até o sofá.

—Não, não, não! - Mas na realidade não estava opondo resistência. Sua resistência era mais uma combinação de surpresa e vergonha virginal, que, quando ele a sentou no sofá, a obrigou a insistir. - Não!

Garrick se fincou de joelhos ante ela e, segurando-a por um tornozelo, estirou sua perna, a levou a boca e lhe beijou os dedos dos pés.

Celeste ficou sem fôlego.

—Não. - Mas o terminante tom de rechaço desaparecera.

Lhe deslizou os lábios pelo arco do pé, subiu pelo calcanhar e chegou até a panturrilha.

—Garrick, não. - Sua voz desceu até adquirir um tom rouco de cumplicidade feminina.

Garrick se atrasou na suave pele da face posterior de seu joelho, beijando umedecendo com a língua.

Celeste lhe pôs o outro pé no ombro e empurrou, embora sem a força necessária para movê-lo.

Garrick subiu pela face interna da coxa sem deixar de beijá-la. Celeste deixou cair a cabeça sobre as almofadas e murmurou seu nome. Então, colocando a perna de Celeste no ombro, separou-lhe os lábios com ternura e delicadeza e deixou a descoberto o doce e íntimo núcleo.

Celeste fechou os olhos; sua respiração se fez muito rápida.

—Precioso. - A noite anterior a lavara com seu lenço e a água da jarra, e lhe aplicara o tecido frio para lhe aliviar a dor. Mas a escassa iluminação não o permitira ver.

Nesse momento podia e sorriu. Que preciosa que era ali, rosada e frágil, tudo tão timidamente escondido, o oposto feminino a seus descarados genitais. Incapaz de resistir, acariciou todos aqueles lugares onde esteve a noite anterior, os mesmos que visitaria esse dia.

Celeste se movia sem descanso, já com as faces acesas. Era capaz de enrolá-la, sim, mas ao mesmo tempo o fazia sentir vergonha. Teria que ver que raras eram as mulheres que permitiam a alguém as maiores intimidades, mas às que se perturbavam se deixar ver! Eram umas criaturas inescrutáveis que nunca deixavam transparecer o que sentiam nem o que pensavam. Poderia estar com Celeste anos e anos e não descobrir jamais todos seus segredos.

Mas, pelo menos um sim, descobriria. E, com extrema precisão e delicadeza, pôs a boca ali. Tinha sabor de mulher. A sua mulher. Foi encontrando todos os lugares sensíveis com carícias ardentes, doces, pausadas, e lhe colocou a língua uma e outra vez, como em um beijo, como se fosse um coito.

Celeste levantou os quadris e escorou os pés contra os ombros trêmulos de Garrick.

A desejava. E desejava estar dentro dela.

Entretanto, havia outro lugar, um que já demonstrara sua receptividade. Subiu uns dois escassos centímetros até o nó da feminilidade e, depois de conseguir metê-lo na boca, seguiu seu perfil com a língua.

Celeste emitiu um som; podia ser um protesto, possivelmente fosse um estímulo involuntário. Garrick seguiu chupando meticulosamente.

—Garrick. - Celeste dava sacudidas por debaixo dele. - Garrick!

Celeste estava a ponto quando ele se afastou. E o amaldiçoou.

—Não, amor, tenho que estar dentro de você. Quero sentir cada estremecimento, cada espasmo.

Ele mesmo, a bordo do orgasmo, ficou em pé com estupidez e de um puxão levantou celeste, que, cambaleante e insegura, piscou sem saber muito bem o que se esperava dela.

—Todo seu. - A rouquidão de sua voz talvez se devesse a que todos seus fluidos corporais se achavam em outra parte. Se deixou cair no assento de Celeste e acrescentou: - Seu turno.

Ela seguia sem compreender; provavelmente tinha recebido muitas surpresas para que compreendesse algo, mas ele a sentou sobre seu colo de um puxão, apoiando aquele delicioso traseiro sobre suas coxas nuas.

—Me olhe - ordenou e, não sem certo regozijo distante, se deu conta que seguia parecendo horrorizada.

Horrorizada, embora não confusa. Ela por fim compreendeu, e com uma curiosidade não isenta de prudência se voltou para olhá-lo. Abriu as coxas e se sentou escarranchada sobre as coxas dele.

Garrick pôs as mãos nos quadris dela e a incitou para que se levantasse sobre os joelhos.

—Tome - lhe disse.

Celeste baixou a vista para seu membro; então o olhou à cara e, no mesmo tom que uma aluna aplicada, perguntou:

—Alguém mais conhece esta postura?

Não era o momento de soltar uma gargalhada; algo impensável quando seu membro esperava às portas do paraíso. Mas o fez, soltou uma gargalhada que se quebrou na metade.

—Possivelmente não seja tão comum como a outra, mas eu não a inventei.

Celeste alargou a mão entre suas pernas, agarrou o membro de Garrick e o conduziu até a entrada de seu corpo.

—Onde a aprendeu?

Mas, bom, como era capaz de ficar a falar nesse momento? Não podia ser imune a aquela febre; não, quando ele a tinha preparado tão bem. Não, no estado de ansiedade no que se encontrava ele.

Celeste se deteve sem soltá-lo, provocando-o.

—Onde? - repetiu Celeste.

Sua voz era ligeiramente indolente, tinha as pálpebras caídas e as faces tintas. Ela sim que queria, mas lhe dera poder, e Celeste o ia exercer. Isso é o que ele queria, que ela conhecesse a liberdade do emparelhamento; mas precisava se aproveitar nesse preciso instante?

É obvio que sim; era mulher. Obrigado a dar resposta, disse:

—Na Índia.

—Ah. - Celeste baixou seu peso sobre ele.

Os testículos de Garrick doíam pela urgência. Desejava penetrar no interior de Celeste e possuí-la rapidamente, se esgotar com violência. Mas ela acabava de perder sua virgindade. A noite anterior ele tinha atuado com destreza; ainda podia lhe fazer mal.

Então permitiu que ela se movesse por toda parte, que lhe pressionasse o prepúcio enquanto aprendia a maneira de acolhê-lo em seu interior. Tinha-a excitado com a boca; estava úmida e disposta.

Entretanto, a penetração avançou com prudência, centímetro a centímetro. Só as expressões de prudência de Celeste e, mais tarde, a prazerosa surpresa fizeram suportável a tortura. Quando finalmente (por fim!) se deslizou por completo sobre ele, a expressão triunfal de Celeste o reconfortou com seu calor... quando ele já estava a ponto de se inflamar.

Vacilante, Celeste se levantou, subindo com cautela pelo eixo de Garrick quase até a ponta; já com um pouco mais de confiança, voltou a baixar. O comedido ritmo se acelerou. Quase valera a pena a agonia da espera por ver como o prazer a fazia cobrar vida.

Adorava vê-la assim, que mostrasse suas emoções em lugar de as esconder. Era de uma franqueza absoluta, o contrário dele. Quando sorria, sua encantadora boca carnuda cobrava vida de uma forma maravilhosa.

Celeste se agarrou a seus ombros para não perder o equilíbrio e se inclinou para trás e para frente experimentando com cada golpe. Seus seios firmes, pequenos, redondos, se balançavam com uma libertinagem inconsciente enquanto ela o envolvia com a seda cálida e rugosa de seu corpo. Garrick já não se recordava de suas outras relações, mas sabia que nunca desejara a nenhuma mulher como a aquela.

A agarrou pela cintura e a levantou o suficiente para apanhar o seio com a boca. Celeste ofegou e se deteve, suspensa, escandalizada. Seus mamilos se endureceram, sua respiração se agitou e começou a se mover já com uma insistência peremptória.

Garrick a beijou no ombro; ela arqueou o pescoço e ele a beijou ali antes de deslizar até a orelha e a face, para terminar lhe dando um fugaz beijo nos lábios. Próximos à culminação, o coração de Garrick começou a pulsar com violência e teve que reprimir o impulso de agarrar Celeste pelos quadris para controlar seu ritmo. Em seu lugar, acomodou seu movimento ao que ela impunha, com tanta tensão por causa do prazer que grunhia a cada golpe. Ela ia mata-lo; ia mata-lo de sexo.

Finalmente Celeste gritou, e seu corpo se convulsionou quando se entregou ao orgasmo com uma euforia primitiva.

E ele, como tolo que era, se aguentou, saboreando aquela visão e a sensação da vagem de Celeste lhe constrangendo o membro. Até que ela não se derrubou sobre seu peito, Garrick não se permitiu afundar até o fundo com violência e enchê-la com sua semente.

Durante os minutos seguintes ele foi incapaz de pensar em nada; em nada que não fosse o corpo doce e úmido que tinha entre seus braços; em nada, exceto em sua própria satisfação.

Então ah horripilante ocorrência!, começou a tramar como voltar a fazê-lo.

Esse não era ele. Não podia ser assim, apanhado por Celeste e seu corpo maravilhoso - deslizou sua mão por aquelas costas fina e suave - e obrigado a abandonar a disciplina pelos prazeres da fornicação.

Ele tinha um dever...

Vá que sim.

—Celeste. - Ela tinha a cabeça em seu ombro. Garrick lhe sussurrou ao ouvido: - Celeste, me escute.

Se voltou para ele com lentidão. Celeste sorriu, e aquele foi um sorriso tão franco e confiado, tão adulador e atraente, que reconfortou as partes pudendas de Garrick, de passagem que o informava que o melhor que podia fazer era cumprir com seu dever nesse momento ou que se esquecesse de cumpri-lo para sempre.

Desde o começo não lhe fizera graça envolver Celeste no mundo da espionagem, embora isso não fora obstáculo para que tivesse utilizado em todo momento as ferramentas que tinha a seu alcance.

E com seu conhecimento do russo, Celeste se convertera em uma ferramenta utilíssima. Logo, ao se dar conta da ameaça que ela representava para seu controle, desejou se desfazer de Celeste apesar de sua valia.

Nesse momento foi sua consciência quem lhe falou: um homem não explorava à mulher com a que fazia amor.

Celeste lhe deu um rápido beijo na face e perguntou:

—O que, querido?

—Temos que nos vestir. - Throckmorton não tinha escolha; precisava contratá-la. Stanhope já levara a primeira mensagem a Londres e a entregara a outro homem, um prestigioso comerciante inglês que abandonara o país imediatamente. Stanhope retornara, incrementara as economias que escondia debaixo das tábuas de seu dormitório e sem dúvida estaria impaciente por se inteirar do conteúdo de outra carta. Recorreria de novo a Celeste para consegui-lo.

—Temos que ir daqui.

Celeste resmungou como um menino ao que lhe negasse um capricho.

—Sério?

Garrick a beijou a modo de recompensa, um beijo que começou somente como um bicada e que acabou em uma lenta, prolongada e profunda provocação; o tipo de beijo que fez que o membro de Garrick, que deveria ser menos cabeça de vento, se movesse e tentasse se levantar. Mas não. Ele o submeteu sem contemplações.

—Já é muito tarde. Teremos sorte se não nos pegarem e começam a tirar conclusões - disse lhe acariciando o cabelo.

Celeste não mostrou o menor vislumbre da consternação que fazia ao caso.

—As conclusões corretas?

—Sem dúvida as corretas. Ambos perdemos o baile de encerramento, e temo que já devemos andar na boca de todos.

Celeste voltou a resmungar, embora esta vez começou a se levantar lentamente do colo de Garrick.

Certamente não seria tão mau; essa seria a última vez que utilizaria os conhecimentos de Celeste dessa maneira, e depois a comunicação seria enviada através de outro agente e decifrada; e as mensagens que Stanhope receberia conduziriam os russos ao desastre. Era uma garota razoável. O mais seguro é que, se conhecesse seu papel em tudo aquilo, o aceitasse com entusiasmo.

—Rogo que me perdoe por te abandonar depois de uma noite assim, mas tenho que sair a cavalo. - Estava jogando com a verdade, mas precisava estar longe da casa quando Stanhope a interrogasse. -

Ontem recebi umas cartas...

—É verdade, tinha me esquecido. - Depois de todas suas atividades da noite anterior, pareceu se sentir culpado por não ter realizado a tarefa. - Quer que as traduza agora? Ou prefere que o faça depois de me banhar e me vestir?

—Não é necessário. Já chegaram parcialmente traduzidas e, as comparando com seu trabalho anterior, consegui me fazer uma ideia bastante aproximada de seus conteúdos.

Bastante aproximada? Garrick a olhou de soslaio. Conhecia a perfeição o conteúdo das cartas; ele as escrevera em inglês e as enviara a Londres para que as traduzissem ao russo e as devolvessem.

Só que Celeste se negou a ir a seu escritório, e depois se desatou todo aquele inferno.

—Vê? - disse Celeste em um tom alentador. - Traduzir não é tão difícil, é somente uma questão de aplicar o que sabe e de interpretar o resto.

Oxalá fosse assim de simples. Se soltou dela, a levou até as almofadas e a deitou. Ali de pé, ficou olhando fixamente pensando que era um asno. Um homem sensato a levantaria e a sacudiria até que Celeste expulsasse toda sua semente; Throckmorton queria que se deitasse, que mantivesse a boa cobrança em seu útero. Estava bastante louco; era um homem que perdera o juízo. Só ficava cumprir profissionalmente, algo que essa mesma tarde teria satisfeito. Depois esclareceria coisas com Celeste e tudo se arrumaria.

Depois de formular um plano aceitável, assentiu com a cabeça e soltou as meias de Celeste do alto de uma roseira.

Ainda deitada nas almofadas, ela riu bobamente quando ele as deixou cair em cima.

—Parece ainda mais crédulo do que o normal.

Garrick tinha se agachado para recolher as anáguas do chão, mas quando se incorporou, parou em seco.

—O que quer dizer com isso de mais crédulo que o normal?

—Sempre dá a sensação de saber o que terá que fazer e de estar fazendo. - Levantou os pés, colocou as meias e se ergueu com cuidado. - Para o resto dos mortais que não temos tanta segurança, pode chegar a ser uma notável fonte de irritação.

—Não tem segurança em si mesma?

—Não sempre; às vezes faço o que não devo. - Celeste percebeu a expressão de Garrick, se aproximou e acariciou sua face. - Bom, não me refiro ao desta noite. Foi a única coisa que fiz desde minha volta de que me sinto absolutamente segura.

Garrick segurou sua mão e beijou a palma.

Celeste extraiu a camiseta de entre as mantas e a pôs.

—A quem mais irrita é a Ellery.

—A Ellery? - Ele não queria falar de Ellery nesse momento. E menos com Celeste. - E do que tem que se irritar, se pode saber?

—Pois de que não é tão perfeito como você.

—Mas se é muito bonito - disse Throckmorton exasperado. - Que mais pode pedir?

—Não sei. Acredito que está inquieto. - Pegou as anáguas que Throckmorton lhe entregava e as pôs.

—Inquieto? Poderia tentar trabalhar.

—Seja realista, jamais trabalhará em um escritório. Parece que precisa correr aventuras, como você na Índia. - O vestido estava jogado no chão, feito um bolo; o sacudiu e disse com certa tristeza:

—Não haverá quem tire estas rugas.

Throckmorton não lhe agradeceu o conselho; não o agradecia absolutamente.

—Vai se casar. Isso deveria ser suficiente aventura para ele.

Celeste começou a colocar o vestido pela cabeça com dificuldade e, enquanto estava tampada, disse:

—Teria que ser espião ou algo assim. - Conseguiu colocar os braços nas mangas e tirou a cabeça.

Ela não tinha um aspecto muito diferente, embora devesse tê-lo tido. Acabava de reavivar todas as suspeitas de Throckmorton. O que era que ela sabia?

—Assim espião. - Garrick tentou aparentar indiferença; só conseguiu parecer cauteloso.

—Ou algo assim. - Celeste abotoou o vestido com ar risonho, vetando seu corpo ao tato de Garrick, se transformando de sua amante em... Quem?. - Nunca responde ao que te pergunta.

Quer que comprove suas traduções ou não?

Ela não podia saber nada. Era impossível. Era ingênua, generosa, amável; tinha lhe entregue sua virgindade. E seu comentário sobre um espião precisava ser uma simples casualidade. E se não fosse assim...

Bom, então fora bem cautelosa durante todo aquele tempo. Se asseguraria que seguissem vigiando a ela.

—As traduções... sim. Teria que ter pedido ao Stanhope que me ajudasse, mas estava muito ocupado seduzindo às damas.

—Isso o faz muito bem - disse uma inexpressiva Celeste.

Throckmorton não gostou do comentário.

—Esteve paquerando com você?

—Stanhope paqueraria com um porco se acreditasse que poderia tirar alguma utilidade dele - disse mordazmente.

Surpreso pela assombrosa interpretação de Celeste sobre a personalidade de Stanhope, Throckmorton começou a recolher sua roupa. Celeste era realmente muito inteligente. Mas não importava; inclusive se fosse uma espiã, até se tivesse passado ao inimigo, ele não permitiria que a capturassem e a pendurassem. Não, dava igual a ele acreditasse que a justiça era para todos: não poderia suportar que essa justiça descobrisse Celeste. Ocultaria sua traição a seus colegas, se asseguraria que não voltasse a ter nunca mais a oportunidade de atuar e não a perderia de vista jamais.

Celeste interpretou mal seu silêncio.

—Sinto muito. Já sei que é seu amigo e que o aprecia. Não tinha direito...

Já tomara sua decisão, assim se sentiu o bastante bem para dizer:

—Não, não se desculpe. Temo que tenha razão. - Na Índia aprendera a se vestir depressa quando a ocasião o requeria, e lhe pareceu que aquele era o caso. Calções, calças e camisa passaram a cobri-lo sem solução de continuidade. - Entretanto, não me resulta fácil despedi-lo nem desprezar os serviços que emprestou. Sei que é pedir muito, mas se o visse poderia lhe transmitir o conteúdo da última carta?

—E por que não o conta você?

—Seu orgulho de macho o impede de me perguntar. Vou sair a montar a cavalo. E... bom, preferiria que lesse as cartas e confirmasse minha opinião a respeito dos conteúdos.

—Ah. - Deu a impressão que não tinha nada mais que dizer, o qual fez que Garrick se sentisse incômodo. Era quase como se ela se desse conta de seu engano e o julgasse por sua vilania. Mas não podia ser; o mais provável é que a magnitude de seus próprios atos, a noite anterior, começasse a afligi-la. Ou isso, ou estava confabulada de algum jeito com os russos.

"Impossível", pensou Garrick.

—As cartas estão na gaveta inferior esquerda de meu escritório. Está fechado. Toma a chave.

Celeste pegou a chave que lhe entregava e a olhou antes de levantar a vista para ele com gesto grave.

—Depois que me tenha banhado e vestido.

—Sim, é obvio. - Ele se sentou no sofá e começou o difícil processo de calçar as botas. - Acredito que falam de um encontro entre franceses, turcos e ingleses na Crimea. - Se tratava de deixar que os russos se preocupassem com uma possível ameaça a sua apreciada Crimea enquanto as tropas britânicas se moviam a seu desejo pelo Afeganistão.

—Examinarei as cartas e contarei a Stanhope tudo o que queira saber. - Encontrou as sapatilhas, as pôs e se dirigiu até as cortinas que cobriam as janelas; as agarrou pela borda.

Garrick se levantou pela metade do sofá.

—O que está?

—Depois de tantos dias de chuva, meu pai quereria que o sol banhasse as árvores.

—Espera!

Mas a advertência chegou muito tarde.

 

—Obrigado, Celeste. - Stanhope se ajeitou atrás da escrivaninha de Garrick e, apesar de sua condição de usurpador do trono do rei, encaixava à perfeição na elegância do entorno. - Facilitou muito minha tarefa.

Se desembaraçou das maneiras encantadoras que desdobrara para ela na vez anterior. Nesse momento sorria maliciosamente, e aquele sorriso fez que Celeste sentisse o impulso de esbofeteá-lo.

Acreditava saber que pretendia o secretário com aquela atitude; transmitiria sua convicção a Garrick o antes possível. Enquanto isso, permanecia de pé diante da escrivaninha sorrindo para Stanhope com frieza.

—Para mim é sempre uma satisfação ajudar a você e ao senhor Throckmorton.

Stanhope riu, e sua risada foi uma espécie de ruído gutural de regozijo condescendente.

—Sim, tem suas utilidades. Tanto para mim como para Throckmorton.

Para ele? Sim, nesse momento compreendeu perfeitamente qual era seu papel naquele jogo. Primeiro Garrick lhe contava o conteúdo das cartas, logo ela o contrastava e, mais tarde, o entregava a Stanhope.

Muito claro, muito simples, e não valia a pena se angustiar, nem sequer quando Stanhope rebuscou nas gavetas abertas de Garrick como se se tratasse de um trombadinha. Podia ter dado a ele a chave da gaveta que permanecia fechada, mas se apressou a guarda-la no bolso. Mas quais eram as utilidades que Throckmorton obtinha dela? Não cometeu o equívoco de pensar que Stanhope se referia a seu posto como instrutora. Ao menos, depois do espantoso momento no que, ao abrir as cortinas da estufa, se encontrou com os idosos lorde e lady Featherstonebaugh que esperavam enquanto os criados carregavam sua bagagem na carruagem de suas senhorias... E todos os ali presentes os tinham visto, a ela, vestida com o traje de baile, e a Garrick, no momento de calçar as botas.

Celeste e Garrick tinham infringido a primeira norma da aventura amorosa na Grã-Bretanha: a discrição por cima de tudo. Não passava nada a menos que os pegassem.

E os pegaram. E Celeste não estava disposta a escutar nenhum comentário desagradável sobre sua aventura da boca de Stanhope. Então se agachou na mais breve das reverências de cortesia e disse:

—Tenho que atender às meninas. Se me desculpar...

—Mas não se preocupe - respondeu Stanhope, - pegou Throckmorton por suas partes.

Ficou absolutamente imóvel, aturdida pela falta de vergonha de Stanhope.

—Você é um... um grosseiro!

—Está apaixonado por você.

O insensato e inconstante coração de Celeste gorjeou qual um passarinho.

—Ele... quem...? Throckmorton disse isso?

Stanhope se atreveu a pôr uma de suas botas sobre a reluzente superfície da escrivaninha primorosamente esculpida de Throckmorton.

—Pois claro. Embora pense que é tontinha.

—Ele não acredita que seja tontinha. - O olhar de Celeste relampejou.

—Uma cabeça de vento, para ser exato. - Deu a sensação que Stanhope saboreava a frase. - Se a respeitasse, não a teria tratado como o fez na estufa.

A tez de Celeste adquiriu um humilhante tom vermelho. Então Stanhope tinha tirado suas conclusões a respeito do que estiveram fazendo a noite anterior. Não deveria ter aberto aquelas cortinas, mas como havia dito a Throckmorton, quem ia pensar que um aristocrata inglês estaria acordado e preparado para partir em uma hora tão inoportuna como as oito da manhã?

Apesar de tê-la olhado com gesto grave, Throckmorton disse que não se preocupasse, que assim que voltasse de seu passeio a cavalo, arrumaria as coisas. Isso ele disse.

Stanhope não sentiu nenhuma vergonha em seguir humilhando-a.

—Throckmorton colocou a mão por debaixo das suas saias, recorda? E a iniciou na luxúria, te abrandando até o momento culminante. Os homens estiveram fazendo isso com suas Instrutoras durante milhões de anos.

A cor fugiu das faces de Celeste. Não era da última noite de que Stanhope falava; estava a par da humilhante cena de dois dias atrás. Não falava da noite de paixão, mas sim daquela outra tarde na estufa, quando Garrick Throckmorton lhe demonstrara até que ponto e com que facilidade podia manipulá-la.

Ninguém sabia aquilo.

—Como... como se inteirou disso?

Stanhope levantou desenfadadamente uma sobrancelha.

—Os homens falam, senhorita, Milford.

Um nó se formou no estômago de Celeste. Garrick contara ao Stanhope...? Nem pensar. Stanhope era um mentiroso e um traidor, e Garrick nunca seria tão grosseiro para andar com intrigas.

Não em relação a ela nem sobre aquilo.

—Não acredito em você.

—Acredite no que a agrade. - Stanhope se levantou e se dirigiu para ela com ar despreocupado . - Mas o caso é que eu sei, e asseguro que o seguinte que ocorrerá é que ele porá seu membro onde antes pôs sua mão.

Odiava a aquele homem. Como se atrevi