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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


EM NOME DE SUA MAJESTADE / Ivan Sant'Anna
EM NOME DE SUA MAJESTADE / Ivan Sant'Anna

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

Biblio VT

 

 

 

 

Londres, início dos anos 1950. Tempos difíceis, de austeridade, escassez e racionamento, que se seguiram à Segunda Guerra Mundial. Minha família mudou-se do Brasil para lá. Ao contrário dos ingleses, nós, os Sant'Annas, pai, mãe e três filhos (dois meninos e uma menina), tínhamos vida farta. Morávamos num ótimo bairro (South Kensington) e comíamos em bons restaurantes — o dólar era uma moeda valorizadíssima e meu pai ganhava em dólares.
Quando chegamos à Inglaterra, eu tinha 12 anos. Meu irmão, Sérgio, 11. Em janeiro de 1953, fomos matriculados no St. Anthony's School, um colégio católico particular, no bairro de Hampstead, norte de Londres. Nosso uniforme se compunha de calça de lã cinzenta, blazer azul-marinho, camisa de mangas compridas, gravata e um boné com o emblema da escola.
Talvez por causa do racionamento, o almoço servido aos alunos e professores era ruim e enjoativo: quase sempre carneiro ensopado, repolho e batatas cozidas. Como sobremesa, uma intragável torta de ruibarbo. Como éramos obrigados a esvaziar o prato, nós dois, acostumados ao bife com fritas e arroz com feijão, guardávamos, às escondidas, parte da refeição no bolso do paletó, para jogar fora mais tarde.
Seguir o ritmo dos outros alunos nos estudos era dificílimo. Além de nosso inglês precário, fomos obrigados a mudar de caligrafia. E tivemos de aprender a fazer contas em uma moeda que não obedecia o sistema decimal. Uma libra valia 20 shillings; um shilling, 12 pence (plural de penny). Como se não bastasse, um guinéu equivalia a uma libra e um shilling. Imaginem somar duas libras, três guinéus e 20 pence numa aula de matemática.
Nossa vida melhorou quando veio o primeiro treino de futebol. Os coleguinhas ingleses vestiam chuteiras com cano longo, espécie de botas com travas. Sérgio e eu surgimos com nossas chuteiras rasas, brasileiras. Fomos objetos de chacota. Até a bola rolar, bem entendido. Porque desequilibramos o jogo e isso nos trouxe grande prestígio.
— Com os Silvas (nosso último sobrenome, que eles pronunciavam Silver), não perderemos para ninguém — arrotou um dos colegas, se babando de admiração. Admiração essa que não perdi tempo em estimular.
— Nós jogamos no estilo brasileiro — carteei, mascarado.
Após algum tempo de treinamento, fomos jogar contra o time de outro colégio. E, para nossa desgraça, perdemos de goleada. Nem me lembro do placar, e se lembrasse não diria aqui. Pior, depois do jogo fomos obrigados a tomar chá com os adversários.
Se antes já não gostávamos, passamos a detestar o colégio. Na primavera (de 1953), quando eu já tinha 13 anos, terminou a temporada de futebol e começou a de críquete. Certa ocasião, como nós, os Silver, não tínhamos o menor interesse pelo novo esporte, começamos a avacalhar o jogo, atirando pedrinhas nos companheiros de time. O diretor do colégio (headmaster), Mr. Patton, limitou-se a um olhar severo. Mas não disse nada.
No dia seguinte, com todos os alunos reunidos no principal saguão da escola, após as orações da manhã, Mr. Patton chamou os dois bagunceiros lá na frente. Fomos obrigados a estender a mão direita. E ele nos castigou com uma palmatória.
Após a humilhação dupla (goleada no futebol e sessão de palmatória) desistimos do colégio. Desistimos por nossa conta, que isso fique bem claro, sem consultar nossos pais. Simplesmente resolvemos não ir mais. Como éramos semi-internos, continuamos a sair de casa todas as manhãs. Entrávamos no metrô e permanecíamos lá o dia todo, até o horário de encerramento das aulas. Aí voltávamos para casa. Claro que o headmaster iria notar, e ligar para meu pai, mas isso não foi obstáculo para o nosso espírito de aventura. Temeridade não era o fraco dos irmãos Sant'Anna, ou melhor, dos irmãos Silver.
Passamos cinco dias, de segunda a sexta, do amanhecer ao anoitecer, no metrô. Naturalmente que não ficávamos parados na estação de South Kensington. Engravatados no uniforme do St. Anthony's, rodávamos a cidade inteira. Adquirimos um tremendo know-how das linhas, das conexões, que antes já conhecíamos bem. Aprendemos a viajar sem pagar. Ou melhor, pagando apenas a tarifa mínima, de South Kensington para Gloucester Road, que era a estação mais próxima. O dinheiro que sobrava (recebíamos de meu pai para ir até Hampstead e voltar), jogávamos em um caça-níqueis da estação de Baker Street, cujos prêmios eram pequenos brindes.
Sabíamos quais linhas eram próximas da superfície (Circle, Metropolitan e District), quais eram profundas (Picadilly, Northern, Bakerloo etc.) - Nestas últimas, sobrava menos de um palmo de espaço entre o trem e as paredes e o teto arredondado dos túneis. Recitávamos o mapa do underground (nome oficial do metrô londrino) ou tube (nome popular), estação por estação.
Conhecíamos, de cor e salteado, o trecho no qual cada linha emergia para fora da terra. Apostávamos quem chegava mais rápido, de uma estação a outra distante, usando trajetos diferentes. Às vezes chegávamos tão longe que a paisagem que víamos do lado de fora da janela do vagão era um bucólico cenário rural: vacas pastando, lavouras, silos, estábulos, celeiros e estradinhas vicinais.
Começamos a ousar, pondo obstáculos nas portas dos vagões, impedindo-as de se fecharem, atrasando os trens, achincalhando a pontualidade britânica. Certa vez danificamos, com uma pequena pazinha de aço, que ganhei no tal caça-níqueis, os degraus (na época, de madeira) da escada rolante de Baker Street. A escadinha começou a cuspir lascas para todos os lados. Não fomos presos por milagre.
Finalmente, na sexta-feira, Mr. Patton telefonou para nossa casa e perguntou a minha mãe se havíamos desistido do colégio. À noite, ao chegarmos de nossas expedições, não tivemos outra alternativa a não ser confessar tudo.
A festa dos Silver acabou. Meu pai passou a nos levar até o colégio, todas as manhãs, e a nos buscar no final da tarde.
Cinquenta e quatro anos depois. Novembro de 2006. O mesmo underground. Sessentão, cabeça inteiramente grisalha, estou sentado num banco lateral do segundo vagão de um trem da Northern Line. De 1953 para cá, são mais semelhanças do que diferenças. O trem, por exemplo, é quase igual. Continua sendo o tube espremido no túnel. As poltronas no interior do vagão têm a mesma disposição e o mesmo tipo de estofamento, sendo apenas o design do estampado mais moderno.
O que mudou bastante foi o perfil dos passageiros. Em vez de ingleses de terno escuro e chapéu coco, estudando os prognósticos da Bolsa no The Times e fumando cigarros Abdulah ou Dunhill, e inglesas de chapéu florido, lendo a última novela de Graham Greene, vejo pessoas de diversas raças, cada qual usando um tipo de traje e falando uma língua diferente. Londres tornou-se uma Babel.
Meu trem procede de Morden, extremo sul da Northern Line e da região metropolitana. Estamos parados na estação de Stockwell. A minha frente, um pouco à esquerda, a porta dupla encontra-se aberta. Posso ver a boca do corredor que liga o final da escada rolante à plataforma Sentido Norte (Northbound Platform).
Exatamente neste ponto, há 491 dias, na manhã de sexta-feira dia 22 de julho de 2005, o eletricista brasileiro Jean Charles de Menezes, de 27 anos, foi morto em circunstâncias que este livro revelará.
Minha única semelhança com o garotinho de 1953 é a roupa engravatada. Não estou mais interessado em brincadeiras. Desta vez, minha missão é séria. Talvez a mais séria a qual já me propus. Mesmo assim não consigo evitar um sorriso, do qual imediatamente me arrependo, ao lembrar que, logo após a Segunda Guerra, os dois pequenos Silver, com suas travessuras infantis, foram os primeiros e os últimos brasileiros a fazer terrorismo no metrô de Londres.

 


 


1 — Manhã de sexta-feira

Apesar de ser pleno verão, os termômetros do Aeroporto Internacional de Heathrow marcavam apenas 17 graus no início da manhã de sexta-feira, 22 de julho de 2005. Trinta quilômetros a leste de Heathrow, em Scotia Road, pacata rua de Tulse Hill, área residencial no sul de Londres, um homem vestindo roupas comuns vigiava, de uma distância de aproximadamente 15 metros, a entrada do número 21, um prédio simples de dois andares e apenas nove apartamentos.

Scotia Road não é uma rua no sentido convencional, com início, meio e fim. Trata-se de uma travessa em curva, da qual sai um apêndice em forma de "T", como se fosse a cabeça de um tubarão-martelo. Mesmo sendo dia útil, o movimento naquela manhã era mínimo. Do interior de qualquer um dos prédios, alguém que estivesse olhando pela janela poderia ver que, a cada morador que saía do 21, situado na ponta nordeste do "T", o homem à paisana, plantado na junção do apêndice com o lombo da curva, o filmava com uma minúscula câmera.

 

O que o morador curioso não saberia é que as imagens eram imediatamente transmitidas via celular para o Gold Command (Comando Dourado) da Polícia Metropolitana de Londres, mundialmente conhecida como Scotland Yard. Esse comando, chefiado naquele período por uma mulher, era responsável pelas operações de contraterrorismo na capital inglesa.

Havia mais de três horas, o observador encontrava-se de vigília. Chegara minutos depois das seis da manhã. Embora soubesse que o suspeito que procurava tinha aparência somali ou etíope (sem ter muita noção do que isso significava), ele filmava todas as pessoas do sexo masculino que saíam do prédio. Após registrar cada indivíduo, o cinegrafista desligava a máquina para poupar as pilhas.

Perto dali, em Upper Tulse Hill, uma rua de maior movimento, outros três agentes, em permanente contato com o Comando Dourado, acompanhavam o que acontecia em Scotia Road. Todos, o observador cinegrafista, os agentes e o Comando aguardavam que um morador específico do número 21 saísse do prédio.

Também atentos aos fatos, mais 11 homens se espalhavam por diversas ruas do bairro de Lambeth, onde fica Tulse Hill. Estavam todos à paisana, alguns com trajes de operário ou usando uniformes de empresas concessionárias de serviços públicos. Outros vestiam roupas comuns, inclusive agasalhos de ginástica. Agiam com naturalidade e nem de leve pareciam policiais em serviço.

O vigilante em Scotia Road sentia vontade de urinar havia mais de meia hora. Agora, com o relógio marcando 9h30, sua bexiga parecia prestes a explodir. Olhou em torno e viu uma cerca viva, de uns 80 centímetros de altura, na ponta sudoeste do "T", afastada uns 35 metros da porta de entrada do 21. Decidiu ir até lá para resolver seu problema mais imediato.

Exatamente às 9h33, quando o espião se aliviava abaixadinho atrás da cerca, um homem jovem e moreno saiu do prédio. Naquela posição, o agente cinegrafista não teve como filmar o recém-chegado à rua. Como este se afastou rapidamente, o vigia apressou o fim de sua função, fechou o zíper da braguilha e ergueu-se. Em seguida, falando em código, comunicou-se com o Comando.

— Registrei um "U", sexo masculino, Cl, 1,75 de altura, cabelos escuros, sem barba, jaqueta azul, calça jeans e tênis. Ele acaba de sair do número 21. Caminha para o sul. Não está carregando nada e, neste momento, não posso confirmar se é ou não o suspeito. Mas vale a pena ser observado.

— Com essas palavras, o vigilante encerrou sua missão.

O Comando Dourado não perdeu tempo em passar os dados aos três agentes de vigília em Upper Tulse Hill, resumindo tudo.

— Possível suspeito indo na direção de vocês. Interceptem e sigam-no.

 

O homem moreno foi se afastando de Scotia Road, passando por Romanfield Road e Marnfield Crescent, também travessas em curva. Já em Upper Tulse Hill, seguiu na direção leste. Passou pelo 74º Destacamento de Cadetes da Polícia Real Militar do Exército. Logo adiante, entrou no supermercado Joes. Saiu lá de dentro alguns minutos depois. Em momento algum percebeu que estava sendo seguido.

Quando chegou à esquina de Upper Tulse Hill com Tulse Hill Road, o homem virou à esquerda. Caminhou 40 metros, para o norte, até um ponto de ônibus. Não precisou esperar muito tempo. Logo surgiu um dos tradicionais ônibus londrinos, vermelho, de dois andares, da linha 2, tendo como destino final Baker Street. Ele embarcou no coletivo. Seus perseguidores também. Um deles ligou para o Comando Dourado.

— Suspeito corresponde à descrição de somali ou etíope — informou, pelo rádio. — Tem olhos mongólicos.

Sete minutos mais tarde, depois de parar em quatro pontos, o ônibus 2 chegou a Brixton Station, terminal sul da Victoria Line, linha azul do underground. Durante o trajeto, o ônibus foi atentamente observado pelos agentes à paisana espalhados pelas calçadas dos conjuntos habitacionais que se sucedem ao longo de Tulse Hill.

Em Brixton, o rapaz moreno saltou do coletivo, seguido pelos três perseguidores. Eram 9h47 da manhã.

Para surpresa dos agentes, após atravessar a rua e caminhar uns 40 metros em direção à estação, um prédio envidraçado de três andares, o homem subitamente mudou de ideia e voltou para o ônibus. Este partiu às 9h49. Nesse momento, por pouco a vigilância não foi interrompida. Mas, arriscando-se a serem detectados pelo suspeito, os três homens também correram em meio ao tráfego, contornaram a frente do ônibus de Baker Street, impedindo-o de arrancar, e galgaram afobadamente os degraus de sua porta dianteira.

O "etíope" não notou a agitação.

— Ele desceu do ônibus, mas voltou em seguida — disse um dos perseguidores, para o Comando, pelo rádio. — Nós quase o perdemos — concluiu, agora convicto de que o suspeito, ao sair e voltar para o ônibus, fazia isso para se certificar se alguém o seguia.

 

* * *

 

No quartel-general da Scotland Yard, a chefe do Golden Command disparou uma série de ordens pelo rádio. Imediatamente, diversas viaturas policiais, sem nenhuma identificação, espalhadas pelo sul de Londres, cada uma delas conduzindo dois agentes armados, seguiram em direção à rota da linha 2, trecho entre a estação de Brixton e a ponte Vauxhall, sobre o Tâmisa.

Do interior do ônibus 2, o pretenso "somali de olhos mongólicos" pegou seu celular e falou com alguém. Os agentes que o seguiam não estavam perto o suficiente para escutar suas palavras. Mas, mesmo que fosse esse o caso, não teriam conseguido identificar a língua que o suspeito falava. Ou, quem sabe, até identificá-la como sendo parecida com somali ou etíope, já que não conheciam nem uma nem outra. A ligação durou menos de um minuto.

Um dos perseguidores voltou a falar com o Comando Dourado.

— A descrição do suspeito corresponde à do homem que procuramos — insistiu. Isso bastou para que, na Central, a chefe da operação instruísse os agentes armados que convergiam para a rota do ônibus 2 para que adotassem um procedimento que ela chamou de "código vermelho".

 

Depois de mais duas paradas, em Brixton Road e Stockwell Road, o ônibus de Baker Street, levando o suspeito e seus três perseguidores, chegou à estação de metrô de Stockwell. O percurso desde o ponto em Tulse Hill Road levara 15 minutos.

O rapaz moreno desceu pela porta traseira às 10h02, caminhou 50 metros pela Stockwell Road, atravessou uma faixa de pedestres e, em Clapham Road, chegou à entrada da Stockwell Station, uma construção de tijolinhos, de dois andares, na esquina de Clapham com Binfield. Ele entrou na estação sem ter a menor ideia de que, ao longo dos últimos 29 minutos, tornara-se a atenção prioritária da polícia de Londres. Os três agentes entraram logo atrás. Desapareceram todos no interior do prédio.

Alguns segundos depois, um Audi sedã cinza-escuro parou bruscamente na mesma esquina, cantando pneus com estardalhaço e já com as portas se abrindo. Dois homens usando calças jeans, camisas folgadas e bonés azul-marinho com a inscrição "Police" desceram do carro e entraram em disparada na estação. Cada um deles empunhava um rifle alemão Heckler-Koch, de cano serrado.

Seguiu-se mais meio minuto. Então, do lado de fora da Stockwell Station, foi possível ouvir nove tiros. Logo pessoas saíram correndo, apavoradas, do prédio. Policiais fardados, usando coletes amarelos, que tinham acabado de chegar ao local, estimularam essas pessoas em pânico a correr para longe, ao mesmo tempo em que impediam que outras se aproximassem da estação.

Lá embaixo, nas profundezas do tube, do interior do segundo vagão de um trem da Northern Line, parado na plataforma número 4, um homem se limitou a comunicar pelo rádio:

— Homem ao chão (man down).


2 — Quatro cidadãos britânicos

 

 

Os tiros disparados em Stockwell tiveram origem quase quatro anos antes, no estado de ânimo que se apossou da população e dos órgãos de segurança ocidentais após os ataques de 11 de setembro de 2001 no World Trade Center, em Nova York, seguidos de diversos atentados em outros lugares do mundo.

 

Uma coluna de fumaça ainda se erguia da montanha de destroços das torres gêmeas quando ocorreu a primeira represália, tão absurda quanto injusta.

Nascido em 1949 na região do Punjab, noroeste da Índia, Balbir Singh Sodhi era seguidor da religião sique. Esta nada tem a ver com o hinduísmo ou com o islamismo, também praticados na Índia. Os siques do sexo masculino são facilmente identificáveis, por causa das longas barbas e dos turbantes sob os quais escondem os cabelos compridos, cuidadosamente enrolados e presos em coque.

 

Em 1989, aos 40 anos de idade, já casado e pai de três filhos, Sodhi emigrou para os Estados Unidos. Tornou-se motorista de táxi, primeiro em Los Angeles, depois em São Francisco. Trabalhando 16 horas por dia, sete dias por semana, conseguiu fazer uma boa poupança. Comprou um posto de gasolina na cidade de Mesa, no estado do Arizona, e mudou-se para lá.

No 11 de setembro, Balbir Sodhi ficou revoltado com os ataques terroristas. Mas não tanto quanto Frank Roque, um americano de 44 anos, que resolveu "fazer justiça" com as próprias mãos. Roque era daqueles ocidentais que achavam, e continuam achando, que os oriundos de algumas regiões do Oriente Médio, da Ásia Central e do Norte da África são todos a mesma coisa: árabes, indianos, paquistaneses, afegãos, persas, líbios, muçulmanos, sunitas, xiitas, hindus, uzbeques, berberes, beduínos, tuaregues, siques... tudo fanático, tudo terrorista, tudo farinha do mesmo saco.

Quatro dias após a destruição das torres gêmeas, Sodhi trabalhava tranquilamente em seu posto, em Mesa, quando Frank Roque chegou ao local em sua picape. Roque desceu do veículo, se aproximou do sique e, sem fazer perguntas, matou-o com cinco tiros.

Dois anos depois, em setembro de 2003, Frank Roque foi condenado à morte por homicídio de primeiro grau. Em 2006, a Corte Suprema do Estado do Arizona comutou sua pena em prisão perpétua. Ele agora terá todo o tempo de sua vida para aplacar ou, quem sabe, incrementar seu ódio contra os "inimigos" da América.

 

* * *

 

Se o saudita Osama bin Laden, ao comandar o 11 de setembro, queria iniciar um conflito "fiéis-infiéis", "cruzados-islâmicos", "Oriente-Ocidente", acertou na mosca. Desde então, a convivência entre os povos, as raças e religiões tornou-se muito mais difícil, principalmente nos países com grande quantidade de imigrantes do Oriente Médio. Iniciou-se um círculo vicioso e cruel. A cada ataque terrorista, cresce o preconceito contra os muçulmanos. A cada manifestação de preconceito, aumenta, entre os muçulmanos, o ódio ao Ocidente. E os atentados se sucedem nos quatro cantos da Terra.

Às 23h05 do dia 12 de outubro de 2002, um homem-bomba com uma mochila nas costas chegou à área turística de Kuta, na ilha indonésia de Bali. De um lado da rua, havia o nightclub Paddy's Bar. Do outro, o Sari Club. O terrorista se explodiu bem no meio.

Como seria de se esperar, os frequentadores das duas boates, tomados de pânico, saíram correndo para a rua, onde uma van Mitsubishi estava estacionada. No interior do veículo, havia uma carga de ANFO (nitrato de amônia e óleo diesel), explosivo altamente letal e de fácil preparo. A multidão na rua foi surpreendida por uma segunda, e muito maior, explosão, traiçoeiramente detonada por controle remoto. Nos dois ataques morreram 202 pessoas, sendo 164 turistas estrangeiros, entre eles 88 australianos e um brasileiro, o sargento Marco Antônio de Farias. Duzentas e nove pessoas ficaram feridas.

 

Um ano e meio após os atentados de Bali, na manhã de quinta-feira 11 de março de 2004, uma série de dez explosões quase simultâneas abalou o sistema ferroviário urbano e suburbano de Madri, envolvendo quatro trens que trafegavam entre as estações de Alcalá de Henares e Atocha. Era hora do rush matinal. Cento e noventa e uma pessoas morreram e 1.700 ficaram feridas. Entre os mortos, cidadãos de 13 países diferentes.

Três semanas depois dos ataques, a polícia espanhola invadiu um apartamento em Leganés, ao sul de Madri, corretamente identificado como base de operação dos atentados. Encurralados, os suspeitos Jamal Zougam, Serhane Abdel-maji (O Tunisiano) e Jamal Ahmidan (O Chinês), todos marroquinos ou de origem marroquina, se suicidaram acionando explosivos e matando, junto com eles, um dos policiais.

Nos atos terroristas dos trens de Madri foi usado o explosivo Goma-2, fabricado na Espanha, detonado, no interior de mochilas, por controle remoto. Os suspeitos haviam sido identificados pelos circuitos internos de tevê das estações.

 

Em 2005, era esse clima pesado de ódio e preconceito que regia o comportamento de boa parte dos integrantes das comunidades islâmicas da Grã-Bretanha.

Se havia clima, havia também bucha de canhão. À farta. Antes dos atentados de 11 de setembro, mais de 3 mil britânicos, ou pessoas residentes na Grã-Bretanha, treinaram nos campos da Al-Qaeda nas planícies e montanhas do Afeganistão. No regresso ao Ocidente, esses pioneiros puderam formar outros candidatos ao martírio e à luta armada.

 

Ninguém precisava se esconder. No Speakers' Corner, trecho do Hyde Park, em Londres, no qual a liberdade de expressão é quase total (só não se pode falar mal da rainha, nem pregar um golpe contra o governo), não raro se via um clérigo islâmico, quase sempre de nacionalidade britânica, trepado em um caixote, convocando, com palavras raivosas e inflamadas, companheiros muçulmanos a lutar pela extinção da cultura ocidental.

Por outro lado, era, e é, quase impossível um homem barbado, usando trajes típicos islâmicos, se apresentar num guichê de imigração dos aeroportos de Heathrow ou Gatwick, em Londres, identificar-se como Mohamed Mohamed e não ser recebido, pelo funcionário de serviço, com olhares hostis e desconfiados.

 

Nesse cenário viviam, no Reino Unido, Mohamed Sidique Khan, Shehzad Tanweer, Hasib Hussain e Germaine Maurice Lindsay, todos os quatro cidadãos britânicos.

Mohamed Sidique Khan nasceu no hospital da Universidade St. James, em Leeds, no Centro-Norte da Inglaterra, em 1974, filho de um metalúrgico paquistanês. Fez o curso secundário na South Leeds High School e o superior na Universidade Metropolitana de Leeds. Lá, conheceu Hasina, descendente de indianos islâmicos, com a qual se casou em 2001. Tiveram uma filha, Maryam, em maio de 2004.

Admirador da jihad (guerra santa) contra o Ocidente, Mohamed Khan frequentava a mesquita de Stratford Street, em Leeds. Envolveu-se em diversos movimentos comunitários islâmicos. Foi professor primário de filhos de imigrantes e trabalhou no Centro de Desenvolvimento de Jovens, onde conheceu Tanweer e Hussain. Passou a catequizá-los para a luta terrorista.

 

Filho de um casal de comerciantes paquistaneses, Shehzad Tanweer era natural de Bradford, a leste de Leeds, onde nasceu em dezembro de 1982. Cursou o secundário na Wortley High School. Mais tarde, foi estudar Ciência dos Esportes na Universidade Metropolitana de Leeds.

Em 2004, Tanweer viajou com Mohamed Khan para o Paquistão. Lá, os dois se matricularam num curso religioso em uma madrasa — escola de estudos islâmicos. De volta a Leeds, Tanweer passou a trabalhar ocasionalmente numa lanchonete —fish and chips — do pai. Mas seu grande interesse era a jihad. Idolatrava Osama bin Laden e dizia aos amigos que seu maior desejo era morrer como um "guerreiro sagrado".

Numa das mesquitas que frequentava, Tanweer conheceu Hasib Hussain.

 

Hasib Mir Hussain nasceu em Leeds, em 1986, caçula de Maniza, intérprete em um hospital, e Mahmood, capataz de fábrica. O menino fez o primeiro grau na Ingram Road Primary School, em Holbeck.

Hussain se considerava um bom súdito britânico, até acontecer um incidente. Quando frequentava o segundo grau, na South Leeds High School, foi excluído pelos professores dos exames para obtenção do GCSE (Certificado Geral de Educação Secundária).

 

Esse fato pode ter contribuído para Hussain tornar-se um extremista religioso. Após visitar o Paquistão, em 2003, passou a vestir trajes tradicionais muçulmanos e deixou crescer a barba. Fez sua peregrinação a Meca (haji) e, na volta, começou a se relacionar com Shehzad Tanweer e Mohamed Khan. Os três frequentavam a mesquita de Stratford Street, em Beeston, 100 quilômetros ao sul de Leeds.

 

Num encontro religioso, Mohamed Khan, Shehzad Tanweer e Hasib Hussain conheceram Germaine Maurice Lindsay, um jovem de 19 anos, nascido na Jamaica, que chegara a Inglaterra com apenas 5 meses de idade.

Filho de pais cristãos evangélicos, Lindsay se converteu ao islamismo aos 15 anos de idade. Mudou seu círculo de amizades e passou a se relacionar somente com devotos da nova religião. Aprendeu o ofício de colocador de tapetes e casou-se com Samantha, natural de Aylesbury, pequena cidade à noroeste de Londres. Lindsay mudou-se para lá.

Aos 19 anos, Lindsay já tinha um bebê com Samantha quando ela ficou grávida novamente.

 

Mohamed Sidique Khan conseguiu convencer seus amigos Tanweer, Hussain e Lindsay a se tornarem soldados do Islã, a morrerem como mártires na luta contra os Cruzados. Os quatro aprenderam a fabricar e lidar com explosivos. Os atentados contra os trens em Madri, em 2004, lhes serviram de inspiração. Resolveram atacar nada menos do que o metrô de Londres. Objetivo: matar o maior número possível de pessoas.

 

Tal como é praxe entre os aspirantes ao martírio, fizeram declarações gravadas em vídeo.

— Os não-muçulmanos da Grã-Bretanha merecem esses ataques — disse Tanweer, entre outras coisas.

— Renunciamos a tudo por aquilo em que acreditamos. ... Estamos em guerra e eu sou um soldado — proclamou Khan.

 

Não pesou na decisão de Lindsay o fato de sua mulher estar no sétimo mês de gravidez, nem já terem um filho pequeno para criar. Ele, quem sabe, optou por trocar seu novo bebê pelas 72 virgens que, segundo algumas interpretações do Alcorão, os mártires recebem como prêmio ao chegar ao Paraíso.

 

Na Grã-Bretanha, o estado de espírito naqueles dias de verão transmudava uma certa dose de otimismo. No sábado 2 de julho de 2005, no Hyde Park, em Londres, aconteceu um dos shows do Live 8 Concert. Na quarta-feira, dia 6, iniciou-se na Escócia o 31º Encontro do G8. Nessa mesma quarta, o Comitê Olímpico Internacional escolheu Londres como sede das Olimpíadas de 2012, decisão recebida com grande euforia na cidade.

 

Naquele mesmo sábado, em Leeds, 280 quilômetros ao norte de Londres, mãos britânicas, nervosas e suarentas, manipulavam, numa banheira, garrafas plásticas, pregos, detonadores, cabos elétricos, acetona, água oxigenada, ácido sulfúrico e diversos outros ingredientes químicos. O resultado seriam artefatos de peróxido de acetona, TATP, transformados em "nail bombs" (bombas de prego).

Os pregos eram pacientemente fixados na parte externa das garrafas, com as pontas agudas viradas para fora. Quando o TATP explodisse, eles seriam projetados em alta velocidade, para todos os lados, penetrando os tecidos humanos em sua trajetória, com poder tão letal quanto as bombas militares de fragmentação.


3 — Os ataques de 7 de julho

 

 

Faltavam 10 minutos para as nove da manha de quinta-feira, dia 7 de julho de 2005. Jeff Porter, maquinista do underground havia 18 anos, conduzia um trem da Circle Line entre as estações de Paddington e Edgware Road. Porter já podia enxergar, 90 metros à sua frente, do lado esquerdo dos trilhos, a plataforma 3, direção leste (Eastbound Platform), de Edgware Road. Outro trem da Circle Line, que acabara de sair da estação, vinha em sentido contrário.

Um segundo após as duas cabines de comando se cruzarem, cada qual tendo a outra à sua direita (por causa da mão inglesa), Jeff Porter teve sua visão ofuscada por um clarão vermelho-amarelado que saiu do segundo vagão do outro trem. Porter não ouviu ruído nenhum, a não ser depois que estilhaços vieram em sua direção e espatifaram seu pára-brisa. Num ato de puro reflexo, o maquinista protegeu-se com uma das mãos e virou-se para trás para não ter o rosto atingido pelos fragmentos de vidro.

 

* * *

Quase cinco horas antes, um minúsculo cupê Nissan Micra vermelho, alugado na terça-feira, percorria o anel rodoviário ao sul da cidade de Leeds. No interior do carro se espremiam Mohamed Sidique Khan, Hasib Hussain e Shehzad Tanweer, este com os cabelos e as sobrancelhas tingidos de castanho-claro.

Quando o Micra abandonou o anel e entrou na rodovia M1, sentido sul, o sol de verão já avermelhava o horizonte, a leste, na direção da costa do mar do Norte. O carro parecia uma joaninha e seus faróis acesos, os olhos do inseto.

Após uma jornada de quase 300 quilômetros, o Micra chegou à cidade de Luton, ao norte da Grande Londres, pouco depois das sete da manhã. Foi direto para a estação ferroviária do Thameslink, parte do sistema integrado de trens intermunicipais e suburbanos que serve a capital inglesa. No estacionamento da estação já se encontrava o jamaicano Germaine Maurice Lindsay, quarto integrante da missão sem volta programada para aquele dia. Lindsay chegara ali um pouco antes, também num carro alugado, vindo de sua casa na cidade vizinha de Aylesbury.

Khan, Hussain e Tanweer, que desembarcaram do Micra com quatro mochilas, entregaram uma delas ao jamaicano. Cada mochila escondia quatro quilos e meio de peróxido de acetona (TATP), sob a forma de pequenos cristais brancos.

 

Exatamente às 7h21min54s, uma das câmeras do circuito interno (CCTV) da estação de Luton registrou os quatro terroristas percorrendo uma calçada com corrimão, passando por uma cabine telefônica e entrando no prédio através de uma porta lateral. Todos trajavam calças folgadas, tênis e bonés. Germaine Lindsay já vestira sua mochila e carregava também um saco plástico.

 

Eles pegaram o trem do Thameslink, destino Londres, 27 minutos mais tarde. Chegaram ao terminal de King's Cross St. Pancras, no coração da metrópole, às 8h20. O sistema de CCTV filmou os jihadistas enquanto atravessavam o enorme saguão.

Eles trocaram adeuses e desceram para o underground, onde se separaram em meio à multidão de usuários do rush matinal. Cada um foi para a linha que lhe correspondia.

 

Shehzad Tanweer desceu um lance de escadas para a plataforma leste (eastbound), subsuperfície, que atende simultaneamente as linhas Circle, Metropolitan e Hammersmith City. O primeiro trem a chegar foi o de número 204, da Circle. Tanweer embarcou no terceiro vagão.

O 204, viajando no sentido horário da linha circular, passou pelas estações de Farringdon, Barbican, Moorgate e Liverpool Street. Minutos depois de sair de Liverpool Street, quando o trem se encontrava a meio caminho entre Liverpool e Aldgate, Shehzad Tanweer detonou a carga mortífera de sua mochila.

Na terrível explosão que se seguiu, além do próprio Tanweer, sete pessoas morreram e quase cem ficaram feridas. Entre os mortos, Carrie Taylor, uma jovem de 24 anos, de singular beleza, que vinha escrevendo um romance em segredo, e Richard Ellery, de 21, vendedor de loja em Ipswich que raramente viajava para Londres. Morreu também Benedetta Ciaccia, uma analista de negócios italiana de 30 anos, que tinha casamento marcado para setembro, em Roma.

 

* * *

 

Quase ao mesmo tempo em que Shehzad Tanweer embarcou para leste, sentido horário, Mohamed Sidique Khan, o mais velho dos terroristas, pegou, na plataforma oeste (westbound) de King's Cross, outro trem da Circle, de n° 216, na direção contrária. Khan entrou no segundo vagão.

Após passar por quatro estações (Euston Square, Great Portland Street, Baker Street e Edgware Road), o 216 deixou a plataforma 4 de Edgware segundos antes das 8h50. Mohamed Khan se explodiu 90 metros adiante, quando seu trem, indo no sentido oeste (anti-horário), para Paddington, cruzava com aquele dirigido pelo veterano Jeff Porter, o maquinista cujo para-brisa foi estilhaçado pelos fragmentos da explosão.

Mohamed Sidique Khan levou consigo para a morte outras cinco pessoas. Dezenas se feriram.

 

Os primeiros ataques haviam acontecido em linhas subsuperfície, nas quais os túneis, com linhas paralelas nos dois sentidos, são amplos o suficiente para as ondas de choque se expandirem, diminuindo a letalidade da explosão.

A Picadilly Line é, ao contrário, profunda e apertada: são tubos cilíndricos de metal, no interior dos quais os trens correm como balas no cano de um canhão. Foi essa a linha escolhida por Germaine Maurice Lindsay.

 

Tal como fazia todas as manhãs, Rachel North, uma inglesa bonita e sorridente, de cabelos castanhos soltos e aparados à altura do ombro, entrou no trem 311, da Picadilly, em Finsbury Park. Eram 8h40 e a composição estava superlotada. Ela pegou o primeiro carro e ficou de pé, imprensada contra uma das portas, próxima à cabine do maquinista. Duas estações depois, em King's Cross St. Pancras, em meio ao entra-e-sai do rush, o terrorista Germaine Lindsay embarcou na porta traseira do mesmo vagão.

Entre King's Cross e Russel Square, alguns passageiros devem ter estranhado um cheiro ácido e forte de vinagre. Era a reação química iniciada pelo jamaicano Lindsay em sua mochila, início do processo de detonação do TATP. Segundos depois, Rachel ouviu um violento bang lá no fundo do carro, mas não o identificou imediatamente como sendo uma explosão.

Houve então um silêncio mortal, que durou dois ou três segundos e foi seguido por um grito de terror. Sem ter para onde se expandir, o terrível deslocamento de ar provocado pela detonação do TATP ficou confinado ao interior do apertado tube da Picadilly, potencializando seu poder destrutivo. Além do terrorista, 26 passageiros do trem 311 morreram ou viriam a morrer nas horas seguintes.

Mihaela Otto, uma protética romena de 37 anos, formada em Los Angeles, e que acabara de chegar de uma semana de férias em Veneza, foi uma das pessoas que sofreram morte instantânea. Seu corpo ficou tão despedaçado que seus restos mortais só iriam ser entregues à família um mês depois.

Na frente do vagão, Rachel North não sabia se estava morrendo ou se já morrera. Então algum ar começou a fluir pelo vidro quebrado da porta e as luzes de emergência se acenderam. Assim Rachel pôde respirar direito e ver o cenário de destruição.

Só 20 minutos após a explosão, os sobreviventes puderam deixar o trem. Saíram pela porta da cabine de comando. Seguiram, em fila indiana, em direção à estação de Warren Street, tomando cuidado para não esbarrar na rede de eletrificação paralela aos trilhos, que poderia estar ligada. A jornada durou meia hora.

Quando chegou em Warren Street, e subiu na plataforma sul da estação, Rachel North notou que havia um corte tão profundo em seu pulso que ela podia ver o osso. Não sentira nenhuma dor, nem percebera o sangue escorrendo.

 

Se o caos imperava nos três trens atingidos, nos centros de comando do underground a confusão não era menor. Informações desencontradas chegavam de todos os lados. Umas diziam ter havido um pique de voltagem nas linhas de transmissão de energia. Outras falavam em descarrilamentos simultâneos. As duas coisas realmente haviam ocorrido, só que provocadas por um fato muito mais grave e ainda desconhecido do comando: as explosões.

Às 9h20, meia hora após o início dos ataques, um alerta Âmbar foi proclamado pela direção do metrô. Os procedimentos previstos para a situação Âmbar determinavam que todos os trens deveriam desembarcar seus passageiros na estação mais próxima e se dirigir, vazios, para os terminais, garagens e pátios de estacionamento.

O serviço de underground da cidade de Londres foi totalmente paralisado.

 

Quatro terroristas, três explosões. Alguma coisa, quem sabe coragem, deve ter faltado na última hora a Hasib Hussain. Sem ter acionado o artefato de sua mochila, ele saiu dos porões do metrô. Devia estar na estação de King's Cross quando as três explosões ocorreram, porque uma câmera do CCTV o registrou, alguns minutos antes das nove horas, vagueando erraticamente pelo interior de uma loja de sapatos localizada numa galeria da estação.

Depois que o sistema do tube foi fechado, Hussain, mesmo que recuperasse a coragem, não poderia mais cumprir sua missão. Inteiramente perdido, ele pegou um ônibus de dois andares, da linha 30, destino Marble Arch, a sudoeste de King's Cross, e subiu para o segundo andar do coletivo.

Em Marble Arch, o ônibus 30 fazia a volta e regressava para Hackney Wick, a outra extremidade da linha. Eram 9h35 quando o motorista mudou o destino no letreiro e iniciou o retorno. Hasib Hussain permaneceu no ônibus.

 

Após as três explosões no metrô, ambulâncias, carros do Corpo de Bombeiros e viaturas policiais disparavam em todas as direções, sirenes e luzes de alerta ligadas, num cenário de ficção hollywoodiana. Barreiras foram colocadas, interditando o trânsito em vários pontos da cidade.

O trajeto do ônibus 30, no qual Hasib Hussain viajava, teve de ser alterado, por causa do fechamento da área de King's Cross. Pela confusão do lado de fora, que incluía uma multidão de pessoas saindo do metrô e pegando os ônibus, Hussain deve ter percebido que seus companheiros tinham levado a missão até o fim.

Hasib Hussain sabia que era uma questão de tempo até que a polícia o descobrisse. Antes de seguir para o martírio, nenhum deles se preocupara em apagar rastros. Havia vestígios de explosivos numa casa ligada a eles em Leeds, assim como diversas pistas do complô abandonadas no cupê Nissan Micra parado no estacionamento da estação de Luton.

 

Eram 9h47, quase uma hora depois das explosões no metrô. O ônibus 30, trafegando fora de sua rota, passava por Tavistock Square, na junção com Woburn Place. Foi nesse momento que Hasib Hussain se explodiu, na parte traseira do segundo andar do coletivo. O teto do ônibus se arreganhou para cima, como a tampa aberta de uma lata de sardinhas. Treze pessoas morreram e muitas outras ficaram feridas.

Entre os que morreram em Tavistock Square, Anthony Fatayi-Williams, 26 anos, de origem nigeriana, filho de mãe católica e pai muçulmano, Shahara Islam, uma bancária muçulmana de apenas 20 anos e Sam Ly, budista vietnamita de 28 anos, naturalizado australiano, eram uma boa amostra do caldo de raças, religiões e culturas de Londres.

 

Além dos quatro terroristas, 52 pessoas, de 17 nacionalidades diferentes, perderam a vida nos atentados de 7 de julho. O número total de feridos chegou a setecentos. O sistema de transporte de Londres foi seriamente afetado. A central de emergência da polícia recebeu mais de 43 mil ligações. Nas profundezas do tube da Picadilly Line, entre King's Cross e Russel Square, em meio a uma temperatura de 60 graus centígrados, ratazanas disputavam com peritos policiais os corpos das vítimas.

 

Na cidade de Gonzaga, leste de Minas, 105 quilômetros a oeste de Governador Valadares, a campainha do telefone soou na casa de Giovani da Silva, 33 anos. Giovani atendeu. Era seu irmão mais moço, falando de Londres.

— Você não tem ideia da merda que aconteceu aqui — disse Jean Charles de Menezes.


4 — Córrego dos Ratos

 

 

Maria e Matozinho Otone da Silva perceberam desde cedo que seu filho Jean Charles, mais do que simplesmente esperto e curioso, era um garoto superdotado. Jean tinha apenas 8 anos, e iniciava o primeiro grau numa escola pública, quando a energia da Cemig chegou a Córrego dos Ratos. Isso aconteceu em 1986. Imediatamente o menino ficou hipnotizado pela magia da eletricidade. Como a distribuição da rede pelas propriedades não aconteceu de imediato, Jean Charles resolveu se antecipar à concessionária e instalar a luz elétrica da casa de seus pais por conta própria.

Matozinho ajudou o filho a cortar e aplainar as toras de madeira, fazer e fincar os postes. Para montar a fiação, Jean usou os fios de cobre enrolados na bobina do dínamo dos faróis de uma bicicleta. E o sítio da família foi o primeiro a ter uma lâmpada acesa, para admiração e inveja dos vizinhos.

Um ano depois, Jean Charles já era capaz de fabricar um interfone rudimentar, utilizando duas caixas de fósforo, duas pilhas pequenas comuns e alguns metros de fio de cobre. Nessa época, ele já dizia para todos, com grande convicção:

— Quando eu crescer, vou ser eletricista.

 

Na zona rural do município de Gonzaga, leste de Minas, os povoados costumam ser conhecidos pelos nomes dos riachos banhados por eles. Há assim, entre diversos outros, o Córrego dos Tatus, o Córrego da Brejaúva, o Córrego dos Menezes e o Córrego dos Ratos, onde Jean Charles nasceu em 7 de janeiro de 1978, tal como seu pai, Matozinho, havia nascido 39 anos antes.

A sede do município de Gonzaga fica a apenas 15 quilômetros de distância de Córrego dos Ratos. Mas até hoje, na época das chuvas, não raro os moradores ficam isolados ao longo de semanas e mais semanas. Imagine antes, quando praticamente não havia estradas e as pessoas se locomoviam a pé ou em lombo de burro. E às vezes o lamaçal era tanto que nem isso era possível. Talvez por essa razão, os habitantes dos córregos se relacionavam e namoravam entre si. Casamentos entre primos eram muito comuns.

Mesmo Matozinho, que era muito namorador, e arrastava asas em outras redondezas, casou-se com uma moça local: Maria Ambrosia de Menezes, nascida e criada no Córrego dos Menezes. Depois do casamento, ela passou a se chamar Maria Otone da Silva.

Nos córregos, quase todos são donos dos sítios onde moram. Vivem da agricultura e da pecuária de subsistência. As propriedades têm em geral 2 ou 3 alqueires, nos quais as famílias criam galinhas, porcos e algumas vacas leiteiras. Toda casa tem sua horta, seus pés de milho, feijão, mandioca e suas árvores frutíferas. Ninguém é rico, ninguém passa fome. Não há riqueza nem miséria.

Jean Charles de Menezes foi o caçula de Maria e Matozinho. Sete anos antes dele, em 1971, nasceu Giovani. E, antes de Giovani, Maria Otone sofreu dois abortos espontâneos.

 

No início dos anos 1990, Jean Charles resolveu estudar eletrônica por correspondência, através de uma escola do Rio Grande do Sul. Ao final do curso, recebeu de Porto Alegre um rádio totalmente desmontado. Ele juntou os componentes sem maiores dificuldades.

Certa ocasião, quando Jean já cursava o segundo grau em Gonzaga, houve um curto-circuito seguido de incêndio na rede elétrica, justamente na noite de um velório na Zona Rural. Mais uma vez, o garoto se antecipou à Cemig. Refez as conexões, soldou os cabos derretidos, recuperou um transformador, trocou alguns fusíveis e disjuntores e a luz voltou.

 

Aos 17 anos, Jean Charles de Menezes já consertava rádios, televisores e tudo quanto fosse aparelho eletrodoméstico para boa parte do município. Foi quando decidiu deixar o córrego natal e se mudar para São Paulo. Queria aprimorar seus conhecimentos.


5 — Londres — Após os ataques

 

 

Algumas horas depois dos ataques de 7 de julho de 2005, o comissário da Polícia Metropolitana de Londres, sir Ian Blair (sem nenhum parentesco com o primeiro-ministro Tony Blair), declarou que indícios de explosivos foram encontrados nos locais, mas não quis especular sobre possíveis organizações terroristas envolvidas nos atentados.

— As explosões quase simultâneas no metrô — disse o chefe da Scotland Yard — mostram que tudo foi cuidadosamente planejado.

Dois dos passageiros feridos na explosão do ônibus da linha 30, em Tavistock Square, ao serem socorridos no hospital, disseram à polícia ter visto o terrorista no momento em que ele se preparava para acionar sua bomba. Descreveram-no como um jovem de aparência paquistanesa, usando bigode, barba, um pequeno cavanhaque e cabelos cortados rente. Aparentava ter vinte e poucos anos.

A carteira de motorista de Hasib Hussain, o jovem suicida, e seus cartões de crédito foram encontrados em meio aos destroços do ônibus. Às 22h20 do próprio dia 7, os pais de Hussain, em Leeds, entraram em contato com a linha de auxílio (helpline) da Scotland Yard, informando que seu filho viajara para Londres com alguns amigos e não dera notícias depois disso. O celular de Hussain, segundo eles, não respondia às chamadas.

Mohamed Sidique Khan e Shehzad Tanweer, terroristas que se explodiram nas duas estações da Circle Line, também foram identificados por seus documentos. O pai de Tanweer informara à polícia que seu filho desaparecera de casa.

Restava descobrir o autor da explosão nas profundezas da Picadilly Line, entre King's Cross St. Pancras e Russel Square.

A polícia iniciou uma grande busca nos registros de circuitos internos de tevê em Londres e nos arredores da capital. Duas mil e quinhentas fitas foram examinadas. A primeira descoberta aconteceu na noite de segunda-feira, dia 11 de julho, quando os detetives, ao examinarem uma fita da estação de King's Cross, viram imagens, captadas 20 minutos antes das explosões, de quatro homens, carregando mochilas nas costas, que pareciam ser os homens-bomba. Em outra fita, foram encontrados registros da movimentação de Hasib Hussain, captados na loja de sapatos do saguão de King's Cross após os três primeiros ataques.

O último e maior achado foi a fita da estação de Luton, com imagens dos quatro terroristas entrando no prédio, uma hora e meia antes dos ataques. No estacionamento da estação, foram localizados os carros dos homens-bomba. Indícios encontrados no interior dos dois veículos levaram os policiais até a "fábrica de explosivos" em Leeds.

Só após o exame das fitas, e as investigações em Leeds, a polícia descobriu a identidade do quarto terrorista: Germaine Maurice Lindsay, 19 anos, casado, nascido na Jamaica e residente em Aylesbury. Seu corpo só seria identificado mais tarde, através de exames de DNA.

 

Revelados os nomes dos homens-bomba, a opinião pública ficou perplexa e indignada ao saber que os quatro eram cidadãos britânicos, criados e educados no país. Seguiu-se um clima de grande incerteza em Londres e nas principais cidades do Reino Unido.

 

A partir de 7 de julho, agentes armados da polícia passaram a seguir pessoas em atitude suspeita, seja na aparência, no vestuário ou no comportamento. As ordens eram simples e diretas: se algo sugerisse que alguém estivesse carregando uma bomba em local público, os policiais, após terem recebido autorização de um dos chefes da polícia (chief police officer), deviam atirar para matar.

Essas diretrizes constavam de um plano secreto, chamado Operação Kratos, concebido pelo SO13, braço antiterrorismo da Polícia Metropolitana de Londres, seis meses após os ataques terroristas de 11 de setembro em Nova York. Esse plano jamais foi aprovado pelo Parlamento, que nem mesmo chegou a ser notificado de seus termos.

Agora, com os ataques no metrô, a Operação Kratos seria posta em prática pela primeira vez, ameaçando indivíduos que a Scotland Yard, em seu próprio juízo, considerasse suspeitos de serem homens-bomba.

 

Além dos milhões de ingleses de origem asiática, africana e caribenha, Londres tem uma enorme população de imigrantes, legais e ilegais, vinda de outros cantos do planeta. Entre esses imigrantes, mais de 100 mil brasileiros.


6 — Os aventureiros

 

 

Tancredo Neves costumava dizer que os brasileiros em geral criam uma imagem estereotipada dos mineiros como sendo austeros, conservadores, poupadores clássicos, pouco dados a aventuras. Embora, ainda segundo Tancredo, esse mineiro-clichê realmente exista (herdeiro dos pecuaristas que, nos tempos da colonização, ocuparam grandes extensões de terras devolutas no Estado), há outros tipos de pessoas nascidas em Minas Gerais, entre elas os descendentes dos faiscadores, garimpeiros de ouro e de pedras preciosas, gente aventureira, apaixonada pelo risco.

No leste de Minas e no Vale do Rio Doce em geral, boa parte da população, movida por esse espírito de aventura, é atavicamente nômade. Muitos jovens emigram para São Paulo e para outros países. Costuma-se dizer em Governador Valadares, não sem uma certa dose de exagero, que, se fosse possível, não ficava um. O mesmo instinto prevalece em Teófilo Otoni, Caratinga, Santa Rita de Minas, Guanhães c Gonzaga, terra natal de Jean Charles de Menezes. Os jovens vão embora assim que podem e o dinheiro que remetem regularmente para suas famílias representa um naco importante da economia local.

 

Quando chegou à cidade de São Paulo, em 1995, aos 17 anos, Jean Charles foi morar com um tio. Seguindo suas inclinações de infância, começou fazendo biscates de eletricista. Pensou em entrar para o Exército, mas desistiu. Em vez disso, fez um curso profissionalizante, do qual saiu com um diploma de técnico em eletrônica.

Naquela época, para muitos imigrantes do leste de Minas que pretendiam se mudar para os Estados Unidos, a capital paulista era uma espécie de aclimatação aos grandes centros urbanos. Os motoboys, por exemplo, após trabalharem no ziguezague infernal do tráfego paulistano (guiando-se por mapinhas precariamente estendidos sobre os tanques das motos), estavam aptos a exercer a profissão em Nova York, Boston, Los Angeles, São Francisco ou qualquer lugar do mundo.

Jean Charles de Menezes também deve ter encarado São Paulo como local de passagem. Pois, assim que recebeu seu diploma, tentou emigrar para os Estados Unidos. Tirou passaporte e foi ao consulado americano. Mas, para sua desolação, não obteve visto de entrada. Além de ser natural da região de Governador Valadares, o que provocava desconfiança imediata das autoridades consulares, após o 11 de setembro as exigências para concessão de visto haviam se tornado muito maiores.

Como o irmão de sua namorada paulista morava em Londres, Jean Charles, na impossibilidade de ir para a América, decidiu tentar a sorte na capital inglesa. Só havia um inconveniente. Quem queria ir para os Estados Unidos precisava obter um visto, ou seja, ficava sabendo aqui mesmo no Brasil se podia viajar ou não. Já na Grã-Bretanha, que não exige visto de entrada para brasileiros, o viajante só sabe se pode entrar no país na hora do desembarque, ao ser interrogado pelo oficial de Imigração.

É comum um brasileiro chegar no aeroporto de Londres, ter sua entrada negada e ser obrigado a pegar o primeiro voo de volta para casa, perdendo, além da esperança de uma vida melhor, o dinheiro gasto no bilhete aéreo.

 

Na terça-feira 13 de março de 2002, Jean Charles embarcou tenso em seu primeiro voo para fora do Brasil. Pousou no aeroporto de Heathrow na manhã seguinte, temendo ser barrado. Afinal de contas, arranhava mal e porcamente algumas poucas palavras em inglês. Mas, para seu alívio, o agente de Imigração que o atendeu carimbou em seu passaporte um visto válido por seis meses. Seis meses! Foi como tirar a sorte grande.

Algum tempo depois, tendo se matriculado num curso intensivo de inglês, Jean obteve um visto de estudante. Nessa época, ele trabalhava lavando pratos em uma lanchonete. Até que um dia o estabelecimento precisou de um eletricista. Jean Charles, mais do que depressa, fez o serviço. Logo conseguia biscates noutros lugares, revelando-se um ótimo profissional. Aprendeu a língua rapidamente. Especializou-se na instalação de fios terra em construções novas e em reformas e, trabalhando muito, passou a remeter mensalmente dinheiro para os pais em Gonzaga.

Um ano após sua chegada, Jean voltou ao Brasil, de férias. Ficou um mês em São Paulo e em Córrego dos Ratos.

 

Certo dia, quando Maria Otone perguntou ao filho como era a vida na Inglaterra, ele resumiu o país:

— E um lugar limpo, mamãe. As pessoas são educadas. Não há violência. Ninguém anda armado, nem mesmo a polícia.

 

Terminadas as férias, Jean regressou a Londres. Passou novamente pela entrevista estressante em Heathrow. Mas, nessa segunda chegada, as coisas foram bem mais fáceis. Além de falar inglês, Jean Charles pôde provar, no guichê da Imigração, que estava matriculado num curso e frequentava as aulas.

Jean Charles agora tinha um ótimo entrosamento na colônia brasileira, na qual havia diversos primos, diversos gonzaguenses, diversos valadarenses, diversos mineiros. Entre eles, os motoboys, profissão preferida entre os mais jovens, que trabalhavam, e continuam trabalhando, 14, 16 horas por dia, em serviços de entrega os mais variados.

Nos poucos momentos de folga, Jean saía com os amigos. Gostava de coisas simples, como um churrasco no quintal da casa de um deles. Em volta de uma grelha elétrica com linguiça e um isopor com gelo e latas de cerveja, trocavam informações sobre coisas úteis do cotidiano de um imigrante: qual o melhor cambista para remeter dinheiro para casa; em que restaurante brasileiro o bufê era mais farto e barato. As mulheres davam dicas, umas às outras, sobre onde comprar pão de queijo, comida em "quentinhas" (marmitex) ou o melhor local para se fazer depilação, prática incomum entre as inglesas.

Às vezes um grupo ia à churrascaria Rodízio Ricco, em Bayswater, no lado oeste da cidade, muito frequentada por brasileiros e por ingleses que conhecem o Brasil. Ganhando bem em seu ofício de eletricista, Jean era assíduo na Ricco. Sentado a uma mesa, com um copo de caipirinha à mão, continha seu sorriso tímido. Em outras ocasiões, Jean Charles ia para Dollis Hill, onde seu amigo Gésio César D'Avila morava com a família.

Jean e Gésio eram sócios. Gésio, com um círculo mais amplo de relações na cidade, e maior desenvoltura para fazer negócios, empreitava os serviços de eletricidade e eletrônica e fazia os orçamentos. Depois ajudava Jean Charles na execução do trabalho contratado.

 

No final de 2004, Jean Charles de Menezes resolveu passar alguns meses com os pais. Voou para o Brasil, pela TAP, via Lisboa, na noite de réveillon. Ficou algumas semanas em São Paulo. Lá, comprou uma picape novinha e levou-a para Gonzaga.

Jean promoveu diversas melhorias no sítio de Córrego dos Ratos. Expandiu a casa, trocou algumas cercas, melhorou os cercadinhos dos porcos, construiu novas porteiras e mata-burros. Só quando seu dinheiro acabou, ele decidiu voltar para seus biscates na Inglaterra.

Em abril de 2005, Jean Charles de Menezes desembarcou em Londres pela última vez. A Imigração o deixou entrar sem obstáculos. Ele recebeu novo visto de permanência, válido por seis meses.

Jean agora morava num apartamento do ne 21 de Scotia Road, em Tulse Hill, no bairro de Lambeth, ao sul da cidade. Com ele viviam duas primas, Patrícia Armani e Vivian Rodrigues, que exerciam o ofício de faxineira. Os três primos compartilhavam, na sala de estar, o mesmo televisor, ligado à maioria dos canais a cabo, e um computador no qual falavam com o Brasil pela internet.

Aconteceram então os quatro atentados de 7 de julho. Jean Charles ficou revoltado. Disse isso para seu irmão, Giovani, ao telefonar para Gonzaga naquela noite.

 

Um dos sonhos de Jean Charles de Menezes era ficar cinco anos na Inglaterra e conseguir a nacionalidade britânica. Depois, voltaria para Córrego dos Ratos. Queria ser proprietário de alguns alqueires de terra, abrir uma loja de eletricidade em Gonzaga e comprar um trator.

— Com um tratorzinho — dizia Jean aos primos e amigos em Londres —, não vai faltar serviço pra mim.

Se um dia fosse cidadão britânico, Jean Charles poderia viajar para a Europa e para os Estados Unidos, sempre que quisesse, sem precisar de vistos, entrevistas incertas, nem de outras burocracias.

De vez em quando, Jean mudava de ideia. Em vez de pretender voltar ao Brasil, pensava em se mudar para a Austrália. Jean Charles de Menezes ficava no meio-termo entre os dois tipos de mineiro definidos por Tancredo Neves. Mas ia aos poucos, com certeza, se tornando um cidadão do mundo.


7 — Os atentados de 21 de julho

 

 

Em seguida aos ataques terroristas de 7 de julho, um sentimento de revolta tomou conta da Grã-Bretanha, com exceção de uma minoria de extremistas muçulmanos, que comemoraram a barbárie como uma vitória do Islã sobre os cães infiéis.

Quatro desses fanáticos, Muktar Said Ibrahim, de 27 anos, Osman Hussein, também de 27, Ramzi Mohamed, de 23, e Yasin Hassan Omar, 24, não se limitaram a comemorar a chacina. Pretendiam repeti-la, inclusive nos detalhes.

Graças a um auxílio moradia pago pelo governo, Muktar Ibrahim e Ramzi Mohamed, naturalizados havia muito tempo, compartilhavam um apartamento em Ladderswood Way, New Southgate, no norte de Londres. Ibrahim, nascido na Eritréia, e Mohamed, na Somália, viviam em função da religião. Ibrahim passava a maior parte de seu tempo na mesquita. Mohamed gostava de futebol. Mas tinha a mania de ler, em voz alta, trechos de livros religiosos islâmicos nos intervalos dos jogos.

 

Omar, o terceiro conspirador, também nascido na Somália, entrara na Grã-Bretanha como exilado político. Era vizinho de Ibrahim e Mohamed. O quarto homem, Osman Hussein, um negro de rosto ovalado, lábios grossos e olhos grandes, etíope de nascimento, morava no outro lado da cidade.

O apartamento de Osman Hussein ficava no número 21 de Scotia Road, o mesmo prédio modesto de dois andares, na área de Tulse Hill, no bairro de Lambeth, onde o eletricista brasileiro Jean Charles de Menezes vivia com suas primas, Vivian e Patrícia.

 

Uma vez decididos a repetir os ataques, Omar, Ibrahim, Mohamed e Hussein passaram a trabalhar no projeto. O apartamento de Yasin Omar serviu como laboratório de fabricação das bombas. Escolheram como explosivo o HMTD — hexametilenotriperoxidodiamina — cujos componentes, urotropina (princípio ativo de um medicamento para os rins) e peróxido de hidrogênio, eram fáceis de se encontrar no comércio sem provocar suspeitas.

O que os quatro terroristas não sabiam, ou preferiram ignorar, é que o HMTD, embora muito poderoso, é extremamente instável e seu armazenamento, inseguro. O explosivo precisa ser mantido em refrigeração até quase o momento do uso. Caso contrário, não funciona.

 

Até na escolha dos alvos, e na cronologia dos ataques, os quatro homens procuraram copiar o 7 de julho. Escolheram três trens do underground e um ônibus, sendo que este deveria explodir uma hora depois dos trens, quando Londres já tivesse se transformado num pandemônio, tal como ocorrera duas semanas antes.

 

Carregando suas mochilas explosivas, Osman Hussein pegou um trem subsuperfície da Hammersmith City Line. Ramzi Mohamed e Yasin Hassan Omar mergulharam nas profundezas da Northern e da Victoria Line. O ônibus escolhido como alvo por Muktar Said Ibrahim foi o da linha 26, sentido nordeste, de Waterloo para Hackney Wick.

 

A segunda onda de atentados se transformou em tragicomédia. Somente as cápsulas de percussão foram detonadas, provocando um ruído semelhante ao de fogos de artifício de baixa potência. Antes disso, um cheiro forte de pólvora e de borracha queimada e uma fumaça escura e ácida começaram a exalar das mochilas dos homens-bomba que, afobadamente, tão logo perceberam o imprevisto trataram de abandoná-las no chão dos vagões.

Sentindo aquele odor estranho, tendo o 7 de julho ainda fresco na memória e temendo uma explosão a qualquer segundo, passageiros em pânico passaram para os carros vizinhos, enquanto o trem continuava se movendo no interior do túnel. Mas nada de mais sério aconteceu. As cargas de HMTD, sem refrigeração havia algumas horas, simplesmente não explodiram.

Alertados pelos sistemas de alarme, cada maquinista conduziu seu trem até a estação mais próxima: Shepherd's Bush (Hammersmith City Line), às 12h26; Oval (Northern), às 12h30; Warren Street (Victoria), às 12h45. Em Oval, Ramzi Mohamed quase foi linchado por uma multidão enfurecida, mas conseguiu escapar. Os outros três terroristas também fugiram ilesos.

 

* * *

 

As câmeras do ITCC registraram o trajeto dos quatro terroristas no dia 21 de julho.

 

 

Sem saber dos fracassos dos companheiros, Muktar Said Ibrahim tentou explodir-se no ônibus 26 às 13h30, quando o veículo se encontrava na esquina de Hackney Road e Columbia Road, em Bethnal Green. Repetiu-se o fiasco: fumaça, cheiro acre, seguido de uma pequena e inofensiva explosão. Ibrahim conseguiu fugir em meio ao tumulto.

 

Temendo ser descoberto pela polícia e preso, Osman Hussein, autor do ataque abortado em Shepherd's Bush, em vez de ir para seu apartamento no número 21 de Scotia Road, foi direto para a Victoria Station, onde embarcou em um trem (Gatwick Express) para o aeroporto de Gatwick. Como tinha um irmão morando em Roma, pegou o primeiro avião para a capital italiana.


8 — Licença para matar

 

 

O SO13, setor da Polícia Metropolitana de Londres especializado em antiterrorismo, levou muito a sério os atentados da quinta-feira, 21 de julho, mesmo tendo eles fracassado. A descoberta das mochilas explosivas e a constatação da presença do HMTD assustou os peritos. Estes deduziram que, se as bombas tivessem explodido, o número de mortos e feridos poderia ter sido igual ou até maior do que o do dia 7.

Como nenhum dos homens-bomba foi preso, os ataques poderiam se repetir a qualquer momento. Por isso, o alerta em toda a cidade foi levado ao máximo, e diversas linhas do metrô foram fechadas por razões de segurança.

 

A polícia sabia que pelo menos quatro terroristas estavam envolvidos nos atentados. Uma caçada humana de proporções inéditas tomou conta das ruas de Londres na tarde e na noite do dia 21 de julho.

Todas as unidades do CO19, nome oficial dos esquadrões armados da Scotland Yard, foram mobilizadas. Viaturas policiais, sem nenhuma identificação, com sirenes e luzes de alerta escondidas, e compartimentos secretos nos porta-malas (onde armas de fogo de vários tipos e calibres ficavam guardadas), percorriam os quatro cantos da cidade. No interior de alguns dos carros, agentes SFOs (Specialist Firearms Officers), à paisana, só esperavam ordens para agir.

A Operação Kratos foi posta em prática. De acordo com seus termos, se um suspeito de estar prestes a detonar uma bomba fosse localizado e não obedecesse às ordens de parar ou de se render, ele deveria ser executado com, no mínimo, cinco tiros na cabeça — quantidade que as forças de segurança de Israel, que haviam treinado os agentes do CO19 britânico, calculavam necessária para que se pudesse ter certeza da neutralização completa de um homem-bomba. Esses cinco tiros impossibilitariam o terrorista de acionar um eventual colete ou cinturão recheado de explosivos antes de morrer. Sendo a cabeça o alvo, isso impediria também que os projéteis disparados pelos policiais atingissem os explosivos presos ao corpo do terrorista.

Antes de abrir fogo, o agente armado teria de obter, pelo rádio, a autorização de um dos chefes da polícia.

 

Se as unidades de combate não descansaram naquele dia, o ritmo de trabalho dos órgãos de Inteligência não foi menor. Homens e mulheres das operações Arco-íris e Relâmpago, todos policiais especializados em examinar fitas de circuitos internos de tevê, viram e reviram imagens gravadas em diversas áreas de Londres naquela manhã, antes e depois dos atentados.

Após algumas horas de trabalho exaustivo, os quatro terroristas, Muktar Said Ibrahim, Ramzi Mohamed, Yasin Hassan Omar e Osman Hussein foram pinçados. Todos conduziam mochilas nas costas antes dos ataques e estavam sem elas após as tentativas de explosão. Mohamed, inclusive, foi captado por uma câmera do CCTV na plataforma da estação de Oval, ao fugir do alcance dos passageiros enraivecidos que o perseguiam.

Enquanto isso, os investigadores policiais continuavam trabalhando nas cenas dos crimes. Uma das quatro mochilas-bomba foi detectada e recolhida na estação do underground de Shepherd's Bush, no piso do vagão da Hammersmith City Line. Dentro da mochila, os peritos encontraram a carteira de uma academia de ginástica com o nome e a foto de Osman Hussein, um homem negro de feições marcantes.

Minutos depois, já na academia, agentes ficaram sabendo que o suspeito tinha 27 anos, nascera na Etiópia mas era cidadão britânico. Morava no nº 21 de Scotia Road, em Lambeth, no sul da cidade.

Sabendo o endereço de Hussein, e conhecendo seu rosto e os detalhes de sua complexão física, a Scotland Yard tinha boas cartas na mão. Se o terrorista tivesse cometido a asneira de voltar para casa, poderia ser interceptado e preso. O único perigo era ele se explodir, no ato da prisão, matando os policiais encarregados da tarefa, além de eventuais pessoas inocentes.

Identificar e prender Hussein era uma missão delicada, que teria de ser feita com extrema cautela. Por isso, o SRR, Special Reconnaissance Regiment (Regimento Especial de Reconhecimento), uma unidade supostamente de elite das Forças Armadas Britânicas, foi acionado.

 

A experiência do SRR era praticamente nenhuma. O regimento fora criado em 5 de abril de 2005, portanto apenas três meses antes dos atentados de 7 de julho. A missão de seus oficiais e soldados seria a de operar no exterior, principalmente em áreas de conflito como o Iraque e o Afeganistão. Mas, em meio ao clima de extrema tensão que se seguiu aos ataques terroristas em Londres, alguém julgou que eles teriam mais facilidade do que um policial comum em reconhecer um etíope, no caso Osman Hussein, o morador do nº 21 de Scotia Road. E, realmente, tendo a foto e todas as características do suspeito, não seria uma missão muito difícil, mesmo para um soldado inexperiente.

O Regimento Especial de Reconhecimento era ligado ao M15, agência de Segurança e Contrainteligência da Grã-Bretanha, entidade quase desconhecida do grande público até 1953, quando o escritor Ian Fleming criou o imortal personagem James Bond, o Agente 007.

Bond, James Bond, assim como os SFOs, tinha "licença para matar". E o fazia, com a maior frieza, em nome de Sua Majestade.


9 — Semana de verão

 

 

Costuma-se dizer, em tom de brincadeira, que o verão londrino é tão curto que, uma vez passada a estação, é possível se determinar a semana em que ela aconteceu. Em 2005, com certeza, o domingo 17 de julho caiu na tal semana de verão.

Na tarde desse dia particularmente ensolarado, Gésio César D'Avila e sua mulher Selma receberam, num quintalzinho nos fundos de sua casa em Dollis Hill, um grupo de amigos brasileiros para um churrasco. Sobre uma mesa de armar, havia pequenas travessas com linguiça, picanha fatiada e coração de galinha, acompanhados de molho de azeite com tomate, cebola e pimentão cortados em pedacinhos. As pessoas se espalhavam ao redor da mesa, bebendo cerveja ou refrigerante, protegidas por um guarda-sol listrado em azul e branco.

Um dos homens, sentado numa confortável cadeira de lona, estava sem camisa, prova inequívoca, tal como o guarda-sol, do calor daquele dia. À sua direita, Jean Charles de Menezes, sócio e amigo de Gésio, usava uma camiseta cinzenta, sem mangas, calça jeans e tênis. Equilibrava-se no cocuruto de um tamborete de metal, apoiando as plantas dos pés num dos aros cromados da armação do móvel.

Alguém começou a tirar fotos. Depois de posar no tamborete, Jean desceu para o chão e escarrapachou-se sorridente em meio aos amigos.

O assunto principal das conversas, como não podia deixar de ser, eram os atentados de 7 de julho, ocorridos dez dias antes, que haviam traumatizado a cidade inteira.

— Sabe de uma coisa? — disse Jean Charles. — Estou pensando seriamente em comprar uma moto. Assim eu não terei mais que andar o dia todo de metrô.

 

Os primeiros quatro dias da semana que se seguiu ao churrasco foram de rotina para Jean e Gésio: visita a clientes em potencial, execução de serviços contratados. Na quarta-feira, 20 de julho, Jean Charles tirou folga. No dia seguinte, 21, os dois sócios fizeram o orçamento do conserto de um sistema de alarme de incêndio num estabelecimento comercial de Kilburn, duas estações da Jubilee Line ao sul de Dollis Hill. Eles deram o preço, o cliente aceitou e o serviço foi marcado para começar às 10h30 da manhã de sexta-feira, dia 22 de julho de 2005.

Na própria quinta, houve a segunda leva de quatro atentados, aqueles nos quais as bombas não explodiram. Ninguém morreu, nem ficou ferido, mas os londrinos passaram do trauma à paranoia. Ao saber dos acontecimentos, Jean ficou assustado. A ideia de comprar a moto ganhou força. Ele disse isso para Gésio, mas nenhum dos dois pensou em mudar os planos de trabalho para o dia seguinte. Afinal de contas, era o ganha-pão deles.

Como Jean Charles iria cobrir, até a meia-noite de quinta para sexta, a ausência de um amigo, porteiro de um hotel em Charing Cross, no Centro da cidade, ele deixou seu saco de ferramentas com Gésio D'Avila. Na sexta, ao chegar em Kilburn, Jean ligaria para Gésio, em Dollis Hill. Em 10 minutos, estariam juntos para iniciar o serviço.

 

À zero hora e 35 minutos, tendo encerrado seu turno no hotel, Jean Charles pegou no ponto de Charing Cross um ônibus noturno da linha N2. Este seguiu primeiro para oeste até a estação Victoria. Então dobrou à esquerda, foi para o sul e atravessou o Tâmisa na Ponte Vauxhall. Após passar pelas estações de metrô de Stockwell e Brixton, Jean desceu do ônibus em Tulse Hill. Chegou em casa, em Scotia Road, à 1h15 da madrugada de sexta-feira, dia 22.

Jean Charles de Menezes se deitou, quem sabe pensando na moto, ou na viagem que faria no domingo, com seus primos Patrícia e Alessandro, até o balneário de Brighton, no Canal da Mancha, 75 quilômetros ao sul de Londres. No verão, ir à praia e aos parques de diversão de Brighton é um programa popular e barato, muito apreciado pelos imigrantes brasileiros.

 

Enquanto Jean Charles dormia, no comando da Scotland Yard a atividade era febril. Os chefes traçavam o planejamento para o dia seguinte, a partir das cinco horas da manhã, quando os trens do metrô começassem a rodar. Nessa hora, todas as viaturas do CO19, transportando agentes armados, estariam percorrendo as proximidades das 274 estações do tube, principalmente as subterrâneas.

 

Nas redondezas de Scotia Road, onde morava o terrorista etíope Osman Hussein (que, por sinal, já desembarcara no aeroporto Leonardo da Vinci, em Roma), previa-se um esquema especial. Policiais desarmados, à paisana, estariam atentos aos acontecimentos.

Para vigiar o apêndice, em forma de "T", onde ficava o número 21 da rua, foi designado um militar do SRR. Codinome: Tango 10. Especialidade: identificação de pessoas. Missão: apontar Hussein, negro, 27 anos, para a polícia, tão logo ele saísse de casa.


10 — Sábado, 23 de julho

 

 

Tal como acontece com qualquer pequeno proprietário rural do planeta, todos os dias Maria Otone e Matozinho acordam antes do nascer do sol e trabalham até o dia se pôr em seu sítio de Córrego dos Ratos. E preciso ordenhar as vacas, dar ração aos porcos, colher os ovos das galinhas, debulhar milho e cuidar da horta e das plantações de legumes.

Como se isso tudo não bastasse, Maria faz o café da manhã, o almoço, a janta, arruma a casa, lava e passa a roupa. Matozinho tem sempre um conserto para fazer numa cerca de arame farpado, numa porteira, num telheiro ou num cocho. Essa rotina vai de segunda a domingo.

Nada indicava que o sábado, dia 23 de julho, em pleno auge da estação das secas de 2005, pudesse ser diferente.

Na véspera, os dois souberam à noite, vendo o Jornal Nacional, que um terrorista havia sido morto pela polícia inglesa no metrô de Londres. Mas não viram na notícia nenhum motivo para grandes preocupações. Entretanto, no sábado, pouco depois do almoço a tevê informou que se tratava de um brasileiro.

 

Embora sem entrar em pânico, Matozinho e Maria começaram a prestar mais atenção aos telejornais. A televisão permaneceu ligada o dia todo. Não podiam telefonar para Jean Charles, em Londres, porque em Córrego dos Ratos não há linhas telefônicas, além do local ficar fora da área de alcance de aparelhos celulares.

 

Começava a escurecer quando uma coluna de pó fino, típico dessa época de estiagem, se elevou da estradinha. Um carro veio se aproximando e parou bem na entrada do sítio. Depois que a poeira assentou, um homem desceu e abriu a porteira. O carro, após dobrar à esquerda, percorreu lentamente a alameda de acesso à casa de Matozinho. Já no pátio, Júlio Maria de Souza, prefeito de Gonzaga, saltou do veículo. Com ele estava a médica encarregada da medicina domiciliar gratuita na Zona Rural do município.

Ser visitado pela doutora era coisa comum de acontecer. Mas não acompanhada do prefeito. Muito menos num fim de tarde de sábado.

Se Maria Otone e Matozinho pressentiram algo ruim, isso começou a se confirmar quando a médica, sem maiores preliminares, verificou a pressão arterial de cada um e lhes aplicou uma injeção que já trouxera pronta.

— Nós temos uma notícia ruim, muito ruim — disse ela, pausadamente, medindo as palavras e observando atentamente a reação do casal.

— É de morte? — perguntou Matozinho.

— É de parente? — completou Maria Otone.

— É a respeito da Inglaterra. A respeito de seu filho — quem respondeu foi o prefeito.

 

Júlio Maria respirou fundo, para tomar coragem, e concluiu à queima-roupa:

— Ele foi assassinado em Londres. Matozinho e Maria Otone se entreolharam, cada qual sentindo um soco potente em suas entranhas. Um soco que veio de dentro para fora. A secura da estiagem ficou insuportável e a salivação acabou. Não houve um grito. Apenas gemidos agonientos.

Antes que as primeiras lágrimas brotassem, a noite chegou de repente e o chão de terra batida de Córrego dos Ratos, onde Jean Charles nasceu e foi criado, onde ele instalou a energia, onde construiu seu interfone com duas caixas de fósforo, faltou aos pés de seus pais.


11 — Um corpo em Greenwich

 

 

Gésio César D'Avila e Jean Charles de Menezes tinham um serviço tratado em Kilburn às 10h30 de sexta-feira, 22 de julho. O combinado era Jean ligar quando estivesse chegando. Gésio morava a apenas duas estações ao norte de Kilburn.

Às 9h50, Gésio D'Avila recebeu um telefonema de Jean Charles, que chamava do celular:

— Estou falando do ônibus — disse Jean. — Acho que vou me atrasar um pouco. A estação de Brixton está fechada. Deve ser por causa dessa confusão de ontem. Vou pegar o tube em Stockwell.

Às 10h02, Jean Charles voltou a ligar para Gésio.

— Já estou em Stockwell, entrando na estação. Lá perto de Kilburn, eu ligo pra você.

Por volta das 11 horas, Gésio D'Ávila começou a achar estranho o sócio não ter dado mais notícias. Já era para ter chegado ao destino. Resolveu ligar para ele. Chamou, chamou e ninguém atendeu. Gésio então enviou um torpedo para a caixa de mensagens de Jean Charles.

 

Os minutos e as horas se passaram. Gésio, cada vez mais preocupado, continuou tentando falar com Jean, sempre sem sucesso. Acumulou torpedos, um atrás do outro, agora convicto de que algo mais sério havia acontecido. Talvez Jean Charles estivesse preso. Por causa dos atentados da véspera, a Scotland Yard revistava e detinha suspeitos em toda a cidade. Jean poderia ter sido tomado por um deles. Em Londres, os imigrantes viviam sofrendo esse tipo de constrangimento.

 

Após um dia inteiro de angustiante espera, às 00h45 de sábado Gésio D'Ávila deitou-se para dormir. Manteve o celular ao seu lado na cama, colado no corpo. Pouco depois, o aparelho começou a vibrar. Gésio atendeu ao primeiro toque.

Agentes da Scotland Yard haviam entrado na memória do celular de Jean Charles e encontrado o número de Gésio D'Avila.

— Nós temos uma coisa importante para falar com você — disse um detetive, após se identificar. — Confirme seu endereço. Estamos indo para aí.

Os agentes que chegaram à casa em Dollis Hill metraIharam Gésio com perguntas. Este informou que ele e Jean trabalhavam juntos em instalações e consertos de aparelhos elétricos e eletrônicos. Explicou também que, após ter telefonado de Stockwell, Jean não apareceu para fazer um serviço combinado em Kilburn e não deu mais notícias.

— Seu amigo pode ter-se envolvido com terrorismo — disse laconicamente um dos detetives.

 

Só no início da tarde de sábado, sem ter tido mais nenhuma informação, Gésio, cada vez mais angustiado, decidiu ligar para os celulares de Vivian e Patrícia, as primas de Jean que moravam com ele em Scotia Road. Disse a elas que algo muito estranho havia acontecido.

— A polícia veio aqui em casa esta madrugada. Sabe o que eles disseram? Que o Jean... Que o Jean se meteu com terrorismo.

Aquela altura dos acontecimentos, como não tivera notícias de Jean Charles desde a véspera, Patrícia torcia para que ele estivesse mesmo preso, por causa de algum tipo de engano. Vivian, também preocupadíssima, após falar com Gésio ligou para seu primo Alessandro.

Todos sabiam que um homem fora morto pela polícia na estação de Stockwell na sexta-feira. A televisão não falava em outra coisa. Mas, segundo os telejornais, o morto estava vinculado aos atentados fracassados do dia anterior. E dizer que Jean Charles de Menezes era um terrorista soava tão absurdo quanto dizer que ele trabalhava para a máfia russa.

Embora não conseguisse acreditar no que ouviu de Vivian, Alessandro ligou para seu irmão Alex.

— Escuta, o Jean não dormiu em casa esta noite. Tem alguma merda acontecendo. A polícia tá dizendo que ele foi preso, suspeito de terrorismo. O Gésio ligou pra Patrícia e pra Vivian. Elas estão apavoradas.

— O quê? Terrorismo? Preso? Não pode ser — Alex ficou perplexo. — Eles só podem estar de sacanagem. Vai pra casa delas, que eu encontro você lá. No caminho, liga pra tudo quanto é conhecido. Pergunta pelo Jean. Eu não posso fazer isso, porque o crédito do meu celular está esgotado.

Alex, que trabalhava como entregador de uma cadeia de comida chinesa, pulou em sua moto e voou para Scotia Road. Encontrou lá o Gésio, que viera de Dollis Hill acompanhado de Valentin, um veterano brasileiro de Londres e amigo comum a todos eles.

— Os caras da polícia me deram um número de telefone — Gésio, nervoso, disse para Alex.

— Pô, então liga pra eles.

O número era o de um distrito policial. Alex pôde ouvir o atendente do outro lado da linha dizendo maquinalmente "Brixton Police Station". Resoluto como era, não pensou duas vezes. Resolveu ir imediatamente para lá, na moto. Gésio também foi, só que em seu carro, levando Valentin.

Alex já chegou ao distrito interrogando, como se fosse ele a autoridade. Uma dupla de policiais (um homem e uma mulher) à paisana, surpresa com a determinação do jovem, o chamou para conversar numa das salas, cuja porta era de vidro. Os agentes estavam desconcertados, humildes o tempo todo, agindo na defensiva.

— Nós temos a foto de uma pessoa — disse a mulher — e gostaríamos que você a reconhecesse.

Quando os policiais mostraram a carteira de motorista de Jean Charles de Menezes, Alex intuiu imediatamente que o primo estava morto. Uma onda de choque tomou conta de seu corpo.

— Quantas pessoas da família tem aqui em Londres? — perguntou um dos agentes, sem confirmar a morte de Jean Charles. Mas sua voz, sua cabeça baixa e seus olhos diziam isso.

— Com ele — Alex apontou com mordacidade para a foto de Jean —, nós somos cinco.

— E onde é que os outros estão? — quis saber o policial.

— Neste momento, já devem estar todos na casa de Jean. —Alex voltou a apontar para a foto. Sua voz tinha um nítido tom acusatório. — Eu quero sair desta sala.

 

Como os policiais hesitassem, Alex concluiu:

— Se vocês não abrirem a porta, eu quebro o vidro.

A agente feminina contemporizou.

— Calma, você não está preso. Pode sair a hora que quiser. Mas peço-lhe que fique aqui no distrito. Nós vamos numa viatura pegar os seus primos. — Ela pensou mais um pouco e completou, hesitante: — Nós... Nós precisamos de vocês.

 

Os policiais saíram em uma van azul sem nenhuma identificação. Foram até Scotia Road. Retornaram ao distrito quase meia hora depois, trazendo Patrícia, Vivian e Alessandro. Gésio, Alex e Valentin os aguardavam do lado de fora, sob a marquise do prédio.

Com toda a família reunida, a polícia confirmou oficialmente a notícia: Jean Charles de Menezes estava morto.

Patrícia e Vivian entraram em desespero. Alex, fazendo das tripas coração para se controlar, decidiu dar um telefonema para o Brasil. Era preciso avisar a família. Pensou rapidamente e achou melhor falar com Júlio Maria de Souza, prefeito de Gonzaga, seu amigo e amigo dos pais de Jean.

Foi uma decisão acertada. Júlio se comprometeu a pegar um médico e, junto com ele, ir até Córrego dos Ratos para dar a notícia.

 

Depois de explicar que o corpo de Jean Charles ainda não estava preparado para ser reconhecido, os policiais levaram, na mesma van azul, os quatro primos e Gésio para um hotel em Kingston, um subúrbio do sudoeste de Londres. Durante o trajeto, Alex descompôs violentamente os agentes, misturando palavras em português e inglês:

— Vocês são jumentos, incompetentes. Mataram ele por trás, não foi?

Se não entenderam todas as palavras, os policiais perceberam bem seu sentido. Não deram nenhuma resposta.

 

De algum modo, a imprensa descobriu o número do celular de Alex. No caminho para o hotel, o aparelho começou a tocar. Os jornalistas queriam saber se, na véspera, Jean Charles de Menezes usava um casaco volumoso. Se estava ilegal na Grã-Bretanha, se havia corrido, se pulara as catracas de acesso à estação de Stockwell. Um dos que ligou foi João Pedro Paes Leme, correspondente da Rede Globo em Londres, que falou longamente com Alex.

 

Após terem feito o check-in no hotel, Gésio e os quatro primos de Jean foram conduzidos, sempre na van, para o necrotério de Greenwich, no extremo sudeste da cidade. Chegando ao local, depois de algum tempo de sofrida espera, eles foram levados para um corredor, de onde puderam ver, através de uma parede de vidro, o corpo de Jean Charles.

Jean estava estirado numa maca, com o rosto descoberto. Um lençol branco encobria o resto do corpo.

Alex não se conformou em ver o primo a distância. Percebendo que havia uma porta de acesso à sala onde haviam posto o cadáver, correu até ela e viu que não estava trancada. Antes que os policiais se dessem conta do que acontecia, ele entrou na sala e pôde se aproximar da maca. Havia um pano envolvendo as laterais da cabeça e o couro cabeludo, mas o rosto, embora com a boca torcida, estava quase intacto. Alex puxou o lençol. No peito de Jean não havia nenhum ferimento.

Quando um policial tentou retirar Alex, este se limitou a dizer, revelando o desprezo que sentia:

— Agora eu posso sair. Já tenho minha resposta. Vocês são mesmo covardes. Mataram ele por trás.

No corredor, o clima era de desespero. Vivian, transtornada, xingava os policiais. Patrícia desmaiou. Um dos agentes jogou água em seu rosto, para ela se recuperar. Gésio entrou em estado de choque.

 

Da central de jornalismo da Rede Globo, a apresentadora Sandra Annenberg, do Jornal Hoje, ligou para Alex. Este, ainda no necrotério, em entrevista transmitida em tempo real para todo o Brasil, acusou a Scotland Yard de ter assassinado seu primo, Jean Charles.

 

Na volta para Kingston, Alex exigiu que os agentes o deixassem pegar sua motocicleta no distrito de Brixton. Eles concordaram. Já de posse da moto, ele tentou ir até Scotia Road, mas a polícia interditara todos os acessos. Alex então resolveu se reunir aos primos, no hotel em Kingston.

 

Alegando que a medida era apenas para evitar que a imprensa os importunasse, a polícia manteve Gésio e os primos de Jean Charles sob vigilância no hotel. Os telefones dos quartos foram desligados. Nenhum deles pôde contar para os jornalistas o que haviam visto, muito menos falar com seus parentes no Brasil. Ficaram incomunicáveis.


A cidade de Gonzaga parou para enterrar Jean Charles.

12 — No alto da colina

 

 

Na própria tarde de sexta-feira, 22 de julho, o comissário da Polícia Metropolitana de Londres, sir Ian Blair, convocou uma coletiva de imprensa. Nela, o chefe da Scotland Yard disse que o homem abatido pela polícia na estação de Stockwell era um terrorista ligado aos atentados da véspera.

Com o passar das horas, a polícia viu que essa versão era insustentável. Os peritos que examinaram o corpo de Jean Charles logo após sua morte verificaram que não havia qualquer explosivo com ele. Ao examinarem a carteira de motorista encontrada num dos bolsos de Jean, descobriram sua nacionalidade brasileira.

Não havia como ligar o morto a um movimento extremista islâmico. Restava explicar à imprensa e ao grande público por que razão um homem inocente tinha sido executado pela polícia. Só na noite de sábado, ou seja, mais de trinta horas após a morte de Jean Charles de Menezes, seu nome foi revelado pela autoridades. Estas admitiram, constrangidas, que o eletricista brasileiro não carregava explosivos, muito menos tinha qualquer ligação com os atentados de 7 ou de 21 de julho.

O secretário do Interior, Charles Clarke, descreveu o incidente como lamentável.

Enquanto as autoridades se sucediam em explicações encabuladas e conflitantes, os parentes e amigos de Jean Charles de Menezes punham a boca no mundo.

No domingo, dia 24, houve uma manifestação de brasileiros em frente ao Parlamento. Nessa ocasião, Fausto, um dos melhores amigos de Jean, disse ao jornal The Guardian:

— Se antes estávamos aterrorizados por causa das bombas, agora temos medo da polícia também.

Alex, primo de Jean Charles, que já saíra do hotel em Kingston, falou aos jornalistas junto a um cordão de isolamento posto pela polícia em frente ao número 21 de Scotia Road.

— O que a polícia fez foi uma estupidez. Eles mataram a primeira pessoa que viram. Se fizeram isso com meu primo, poderiam ter feito com qualquer um.

 

O corpo de Jean Charles de Menezes incomodava as autoridades britânicas. Os primos de Jean Charles de Menezes incomodavam as autoridades britânicas. Tudo que se referia a Jean Charles incomodava as autoridades britânicas. Quanto mais cedo o corpo, os parentes e os vestígios da tragédia de Stockwell viajassem para o Brasil, melhor para elas.

A burocracia dos laudos de necropsia e das certidões do Consulado Brasileiro foi apressada e na quarta-feira 27 de julho, o caixão foi posto no porão de um jato da Varig. Este decolou do aeroporto de Heathrow às 22 horas. A bordo da aeronave embarcaram também Patrícia, Vivian e Alex.

Em Guarulhos, o caixão e os primos de Jean foram transferidos para um avião da FAB, que os transportou para Governador Valadares. Um carro fúnebre levou Jean Charles em sua última viagem, entre Valadares e Gonzaga, de onde ele saíra dez anos antes e onde agora praticamente a população toda o aguardava.

Além do povo da cidade e da Zona Rural, repórteres brasileiros e britânicos, de jornais, revistas e emissoras de rádio e televisão, registravam cada detalhe do evento. Depois de morto, o jovem eletricista de Córrego dos Ratos tornara-se uma celebridade. Um diplomata da embaixada da Grã-Bretanha em Brasília se movia constrangido no meio da multidão, com a ingrata e inglória missão de apresentar suas condolências, e as de seu país, à família.

Tom Phillips, enviado especial do The Guardian, entrevistou Maria Otoni.

— Estou pedindo que a polícia (de Londres) seja punida. Não é justo matar um trabalhador inocente — disse a mãe de Jean. — Eu nasci para ser uma pessoa feliz — ela prosseguiu. — Mas, agora, não sei. Acho que nunca mais em minha vida ficarei alegre de novo.

Ao longo da noite de quinta para sexta, o corpo de Jean Charles foi velado na sóbria e elegante igreja matriz de Gonzaga, pintada de amarelo. Como não cabia todo mundo lá dentro, fez-se uma fogueira do lado de fora, na Praça João XXIII. As achas de lenha ainda soltavam fumaça quando, às seis da manhã, Matozinho, que praticamente não dormia havia uma semana, chegou para passar suas últimas horas ao lado de Jean. As peles de pai e filho (cujo rosto podia ser visto através de uma janela de vidro do caixão) estavam igualmente sem cor.

 

Na manhã de sexta-feira, dia 29 de julho, o sol pelejava para romper a neblina que escondia a cidade quando, após missa de corpo presente, o cortejo, acompanhado por centenas de pessoas, saiu lentamente pelas ruas de calçamento poliédrico. Como o percurso da igreja ao cemitério é longo, e o povo do interior tem o costume de levar seus mortos a pé, os homens se revezaram nas alças do caixão.

Jean Charles de Menezes foi conduzido através do sinuoso caminho que leva até o alto da colina do cemitério, oito dias depois de ter saído de casa para pegar o metrô e ir trabalhar, num dia de verão londrino que tinha tudo para ser normal.

Um dia ele sonhou ser cidadão britânico. Agora seu corpo era baixado, numa cova rasa aberta no solo vermelho de Gonzaga, em um caixão inglês.


13 — Especulações

 

 

Quando Jean Charles de Menezes foi enterrado em Gonzaga, a Polícia Metropolitana já havia prendido, em Londres e nos arredores da capital, três dos terroristas de 21 de julho: Muktar Said Ibrahim, Yasin Hassan Omar e Ramzi Mohamed. O etíope Osman Hussein, vizinho de Jean Charles no número 21 de Scotia Road, e autor do atentado na Hammersmith City Line em Shepherd's Bush, foi detido em Roma, no dia 29, pela polícia italiana.

A Scotland Yard divulgou com estardalhaço cada uma dessas prisões. E, muito provavelmente para desviar a atenção dos jornais da morte do brasileiro, liberou, para a ABC News, imagens chocantes, e até então inéditas, colhidas pelos circuitos internos de televisão durante os quatro atentados de 7 de julho.

Na opinião pública inglesa, a morte de Jean Charles provocava reações controversas. Embora alguns considerassem o caso como um exemplo de truculência policial, a maioria das pessoas via o incidente apenas como um dano colateral da guerra suja contra o terrorismo.

 

Dania Gorodi, por exemplo, uma psicóloga de 48 anos, cuja irmã, Michelle Otto, foi morta num dos atentados do dia 7, pediu o fim das críticas ao comissário sir Ian Blair.

— Isso está mudando o foco da mídia, afastando-o dos atentados — ela comentou. — As pessoas estão perdendo a visão do panorama mais amplo. Precisamos apoiar a polícia neste momento, e não crucificá-la.

Baseada nas informações de testemunhas presentes na estação de Stockwell na hora da morte de Jean Charles, boa parte da imprensa especulou que o jovem brasileiro usava um traje pesado num dia quente. Isso teria levado a polícia a suspeitar que ele estivesse escondendo explosivo sob as roupas.

Alguns jornalistas veteranos, mais céticos e independentes, não se deixaram levar pelo clima de apoio irrestrito à polícia. Continuaram cobrando informações mais detalhadas sobre a morte de um inocente.

Em resposta, sir Ian Blair, numa entrevista à televisão, saiu em defesa de seus subordinados. Embora reconhecendo que tudo não passou de uma terrível fatalidade, ele atribuiu a erros cometidos por Jean Charles os equívocos da polícia.

Um dia após a fala de Blair, as autoridades de Imigração da Grã-Bretanha informaram que o visto de Jean Charles de Menezes estava vencido. Era uma clara insinuação de que Jean, por estar ilegal no país, poderia ter fugido dos agentes policiais. Por causa desse comportamento suspeito, eles o confundiram com o homem-bomba procurado.

Segundo jornalistas que investigaram mais tarde o caso, nos dias que se seguiram a imprensa continuou a ser municiada com declarações e comunicados oficiais, seguidos de "vazamentos" de informação plantados na hora certa junto aos jornalistas certos. Foi assim que o mundo todo e os ingleses em particular conheceram e passaram a aceitar a versão oficial sobre a morte do eletricista.


14 — A versão oficial

 

 

Segundo a versão oficial, amplamente divulgada, dos acontecimentos da sexta-feira, dia 22 de julho, minutos depois das seis da manhã um agente chegou a Scotia Road para vigiar a entrada do número 21. Sua função era simples: identificar o terrorista Osman Hussein. O nome, a foto e o endereço de Hussein, responsável pelo atentado fracassado contra o metrô em Shepherd's Bush, tinham sido obtidos através da carteira da academia de ginástica e de fotos de Hussein recuperadas de fitas dos circuitos internos (CCTV) do sistema de transporte de Londres, selecionadas na véspera.

Equipado de um celular com minicâmera, cabia ao vigilante filmar todos os homens que saíam do prédio. As imagens eram imediatamente enviadas para o comando da polícia, ao qual caberia confirmar, ou não, a identificação de Hussein.

Às 9h30, o homem que vigiava afastou-se para urinar atrás de uma cerca viva. Estava lá quando, às 9h33, Jean Charles de Menezes, usando calça jeans e um blusão acolchoado que não combinava com o dia de verão, saiu do prédio. Longe, e com as mãos ocupadas, o agente não pôde filmá-lo. Mas julgou-o de aparência somali ou etíope, tipo étnico correspondente a Osman Hussein. Passou essa informação adiante, pelo celular, para os policiais que se espalhavam pelos arredores.

— Vale a pena dar uma olhada — disse.

Saindo de Scotia Road, Jean Charles percorreu as ruas Romanfield Road e Marnfield Crescent, até chegar a Upper Tulse Hill, bem mais movimentada, onde tomou a direção leste. Agora, três agentes da Scotland Yard à paisana o seguiam. A 100 metros dali, o olheiro da minicâmera havia dado por encerrada sua missão de reconhecimento.

Após atravessar a rua e parar no supermercado Joes, Jean Charles voltou para a calçada original. Seguiu até a esquina de Upper Tulse Hill com Tulse Hill Road. Lá, virou à esquerda e caminhou para o abrigo do ponto de ônibus, sempre seguido pelos três policiais. Minutos depois, veio um ônibus vermelho de dois andares da linha 2, destino final Baker Street. Jean embarcou no coletivo. Os agentes também. Um deles se comunicou com o Comando Dourado, no quartel-general da Polícia Metropolitana de Londres — o Comando era responsável pelas operações antiterrorismo.

— Estamos no ônibus 2, em Tulse Hill Road, rumo norte, acompanhando o suspeito. Ele tem olhos mongólicos.

— Positivo — respondeu o Comando. — Suspeito com olhos mongólicos no ônibus 2, seguindo rumo norte pela Tulse Hill Road. Aguardamos novas informações.

 

* * *


Cressida Dick, chefe do Comando Dourado.

 

No escritório central da Scotland Yard, em Westminster, no lado norte do rio Tâmisa, as notícias eram imediatamente repassadas a uma policial veterana, Cressida Dick, de 45 anos, que chefiava os homens e mulheres do Comando Dourado.

Quando o ônibus parou em Brixton Road, no ponto correspondente à estação de metrô de Brixton, Jean Charles desceu. Os três agentes que o seguiam desceram atrás. Mas, para surpresa dos policiais, Jean voltou para o ônibus. E os três também.

A atitude do homem de Scotia Road foi considerada altamente suspeita. Ele parecia estar tentando despistar seus seguidores. A desconfiança aumentou quando Jean começou a falar baixinho em seu celular.

— Creio que estamos seguindo o homem certo — disse um dos agentes para o Comando.

No Comando Dourado, a atividade agora era frenética.

— Estou autorizando uma tática de "código vermelho" — informou Cressida, pelo sistema de rádio. Isso significava passar de uma atitude de vigilância para uma operação armada.

— Quando ele saltar do ônibus — continuou Cressida Dick, falando com os homens que seguiam Jean Charles —, não deixem que entre numa estação de metrô. Detenham-no. Repito, não deixem ele entrar no metrô.

Nesse instante, todos os carros com agentes armados que circulavam no bairro de Lambeth e arredores convergiram para a rota do ônibus 2.

 

Às10h02, 15 minutos depois de ter saído do ponto em Tulse Hill, o ônibus chegou à Stockwell Station, em Clapham Road. Aconteceu o que a polícia temia. Jean Charles voltou a descer e se encaminhou para a entrada da estação. Os policiais desarmados desembarcaram atrás e tentaram impedir que ele entrasse no underground.

— Polícia! Pare! — gritou um deles.

Ao invés de parar, Jean Charles de Menezes correu para o interior da estação de Stockwell. Os três agentes entraram também. Jean partiu em direção a uma das portinholas eletrônicas de entrada e saltou por cima dela, apoiando-se agilmente na lateral metálica onde ficam as máquinas processadoras de bilhetes e os leitores dos cartões eletrônicos (Oyster cards). Superado o obstáculo, projetou-se em direção às escadas rolantes.

Como supunham que se tratava de um homem-bomba, disposto a se explodir a qualquer momento, os agentes hesitaram. Mas resolveram ir em frente. Jean Charles, que se precipitava escada rolante abaixo, percebeu que um trem estava parado na plataforma norte da Northern Line. No final da escada, Jean pegou o primeiro corredor à esquerda e correu para o trem. Os policiais, que também haviam pulado as catracas de entrada, seguiram atrás do suspeito.

Assim que todos, caça e caçadores, sumiram dentro do prédio, o primeiro carro do CO19 chegou a Stockwell. Dois policiais à paisana, armados de fuzis de cano serrado, correram para o interior da estação.

 

Se Jean Charles teve esperanças de que o trem partisse imediatamente, frustrou-se. Houve tempo suficiente para que os agentes policiais desarmados entrassem também. Pior: um deles, percebendo que os homens do CO19 haviam acabado de chegar à plataforma, pôs o pé esquerdo no trilho de uma das portas, impedindo-a de se fechar, e gritou para os recém- chegados :

— Ele está aqui — e apontou o dedo para o rapaz da jaqueta acolchoada.

Ao entrar no vagão, os policiais do CO19 advertiram o suspeito:

— Polícia!

 

Quando viu os homens armados vindo em sua direção, Jean Charles resolveu enfrentá-los. Mas um dos agentes que o seguia desde Upper Tulse Hill conseguiu imobilizar seus braços, por trás das costas, permitindo que os colegas do CO19 disparassem uma série de balaços de fuzil contra a cabeça do brasileiro.


15 — Arquivo morto

 

 

Em sua concorrida entrevista coletiva, sir Ian Blair reafirmou que os policiais que mataram Jean Charles de Menezes o advertiram primeiro. Só então, atiraram no suspeito. Como nem todos acreditaram nessa versão, diversas autoridades saíram em socorro do chefe da Scotland Yard.

O prefeito de Londres, Ken Livingstone, por exemplo, descreveu o comportamento da polícia no incidente como heroico. Essa declaração aconteceu antes mesmo que as primeiras investigações sobre a morte de Jean Charles tivessem início.

Charles Clarke, ministro britânico do Interior, manifestou seu apoio irrestrito ao comissário Blair.

— Estou contente — declarou Clarke — com o comportamento não só de Ian Blair como com o de toda a Polícia Metropolitana.

A imprensa continuou localizando e entrevistando outras testemunhas de Stockwell.

Christopher Wells, de 29 anos, gerente de uma loja de revelação de fotos, disse:

 

— Eu estava passando pelas roletas quando vi um homem correndo estação adentro. Diversos policiais iam atrás dele. O fugitivo pulou sobre as roletas e seguiu escada rolante abaixo.

Um assistente social, de nome Anthony Larkin, também presente à cena, declarou à BBC:

— O homem que a polícia perseguia parecia ter um cinturão-bomba, com fios aparecendo. "Bomb belt with wires coming out", foram suas exatas palavras.

Outra testemunha declarou que Jean Charles, antes de ser morto, tentou alcançar, com uma das mãos, o bolso esquerdo de sua calça, como se estivesse querendo sacar uma arma.

No próprio dia da morte de Jean, a BBC News e a agência Reuters haviam se esmerado em detalhes. Informaram que o suspeito pulou dentro do vagão do trem da Northern Line no momento em que as portas iam se fechar. Mark Whitby, um inspetor de higiene de 47 anos, disse à Reuters que Jean Charles parecia deslocado (" looked out of place") em suas roupas pesadas.

 

Se na Grã-Bretanha a maior parte da opinião pública se punha ao lado da polícia, no Brasil, com exceção do povo de Gonzaga, as manifestações em contrário foram tímidas. Em Brasília e em São Paulo, alguns gatos pingados protestaram em frente à embaixada e ao consulado britânicos.

No dia 27 de julho, o ministro brasileiro das Relações Exteriores, Celso Amorim, desembarcou em Londres para um encontro das Nações Unidas agendado antes da morte de Jean Charles. Amorim aproveitou a ocasião para solicitar a seu colega britânico, chanceler Jack Straw, uma entrevista para cobrar explicações sobre a morte de Jean. Straw só atendeu ao pedido no dia 1o de agosto. Mas, na entrevista coletiva que se seguiu à reunião, surpreendeu os repórteres ao admitir que Jean Charles de Menezes estava em situação legal na Grã-Bretanha.

 

Em vez de mandar os diplomatas da embaixada brasileira em Londres cuidar do assunto, o governo brasileiro optou pelo envio de uma missão especial à Grã-Bretanha. E lá se foram, recebendo as devidas diárias, um subprocurador-geral da República e um representante do Ministério da Justiça. Desembarcaram no aeroporto Heathrow em 22 de agosto, exatamente um mês após a morte de Jean Charles.

A missão foi recebida pelo Serviço de Promotoria da Coroa (Crown Prosecution Service) e pela IPCC (Independent Police Complaints Commission), corregedoria da Scotland Yard. Apenas quatro dias após sua chegada, os representantes brasileiros convocaram uma coletiva de imprensa na qual disseram estar convictos de que a polícia de Londres nada fez para acobertar os fatos que cercaram a morte de Jean Charles de Menezes.

Como se não bastasse o fato dos enviados aceitarem as explicações da polícia britânica, o jornal The Independent ironizou o envio da delegação, sugerindo que os brasileiros deveriam primeiro tentar pôr ordem na própria casa. Tom Gibb, correspondente da BBC no Brasil, escrevera antes que Jean Charles morou algum tempo numa região de favelas de São Paulo. Isso, segundo Gibb, poderia explicar porque ele correu da polícia.

 

O colunista Bruce Anderson, também do The Independent, decidiu que o eletricista brasileiro, ao fugir da polícia, foi o autor de sua própria desgraça.

 

No Brasil, as pessoas comentavam abertamente:

— Por que esse cara foi correr da polícia? Poxa, só podia mesmo ser coisa de brasileiro.

Os jornais de Londres comparavam a Scotland Yard com as polícias do Rio de Janeiro e de São Paulo.

"Só em 2003, revelou um tabloide, 2.110 pessoas foram mortas por agentes policiais nas duas principais cidades brasileiras."

 

Tudo indicava que Jean Charles de Menezes era assunto morto, destinado a um arquivo, também morto, no escaninho empoeirado de uma repartição policial. Com um pouco de empenho das autoridades, movendo as peças certas nas horas certas, e uma boa dose de complacência da mídia, o grande público jamais saberia o que realmente aconteceu na manhã de 22 de julho.


16 — Sir Ian Blair

 

 

Os peritos que, na manhã de sexta-feira, 22 de julho, examinaram o corpo de Jean Charles de Menezes, no vagão da Northern Line parado na estação de Stockwell, descobriram, com grande constrangimento, que o morto, além de não ser terrorista, era brasileiro, como mostrava a carteira de habilitação encontrada em seu bolso. Não tinha armas, muito menos explosivos presos ao corpo. Apenas o documento, algumas notas de libras, moedas, o cartão do metrô e um aparelho telefônico celular.

Sir Ian Blair, Comissário da Polícia Metropolitana, só foi notificado desses detalhes no dia seguinte. Não gostou nem um pouco. Até aquele momento pensava que seus comandados haviam eliminado um homem-bomba.

— Isso é terrível! Que diabos vamos fazer? — agoniou-se o comissário.

 

* * *

 


Sir Ian Blair, comissário da Polícia Metropolitana de Londres.

 

Ian Warwick Blair, de 52 anos, servia na polícia desde 1974, ano em que começou sua carreira policiando as ruas do Soho, uma área boêmia do Centro de Londres. Em seus 31 anos de ofício, Blair galgou, um a um, os degraus da escada de promoções da corporação. No caminho, recebeu, em 2003, da rainha Elizabeth, o título de Cavaleiro (Sir). Estava no posto máximo de Comissário da Polícia Metropolitana havia apenas cinco meses quando Jean Charles de Menezes foi morto.

Agora, sabendo de tudo, sir Blair tinha duas opções: apontar os responsáveis e puni-los ou culpar a vítima. Blair escolheu a segunda alternativa.

 

Escrever uma história que não aconteceu é muito mais difícil do que relatar fatos reais. Mesmo assim, a instituição Scotland Yard, com as bênçãos do chefe, enveredou pelo caminho obscuro da dissimulação. Uma das primeiras providências foi recolher todas as fitas de vídeo das nove câmeras do circuito interno de tevê da estação de Stockwell. Ao mesmo tempo, o Comissário tentou evitar que a IPCC, órgão corregedor da instituição, participasse das investigações sobre o incidente:

"O tiroteio que acaba de ocorrer em Stockwell", escreveu Blair ao secretário do Interior, Charles Clarke, "nada tem a ver com a IPCC. Por questões de segurança, queremos deixá-los fora disso. Não pretendemos permitir que tenham acesso à cena, muito menos revelar-lhes as táticas e informações que usamos na luta contra o terrorismo".

 

E assim, por vários dias, os investigadores da IPCC não puderam entrar em Stockwell, muito menos ouvir os agentes e testemunhas envolvidos no tiroteio. Mas alguns tabloides ingleses começaram a levantar a hipótese de que a história da morte do eletricista poderia estar mal contada.

No Parlamento, diversos integrantes da oposição conservadora cobraram explicações. Então, sentindo-se pressionado, o secretário Clarke, para decepção de Blair, determinou que a Scotland Yard enviasse cópias de todas as investigações aos corregedores e que estes passassem a trabalhar paralelamente no caso.

 

Na prática, sir Ian Blair e seus comandados não precisavam temer tanto a IPCC. Embora seja um órgão com status de independente, a comissão é formada por dezenas de investigadores (82 na época) oriundos da própria Scotland Yard. O corporativismo sempre foi a regra. Com exceção de casos isolados e individuais, onde um ou outro policial especialmente corrupto ou violento acaba sendo punido, a IPCC raramente critica decisões da cúpula da Polícia Metropolitana.

 

Talvez o comissário Blair tenha tido algum tipo de pressentimento quando tentou excluir a IPCC do caso Jean Charles de Menezes. Pressentimento esse que se revelou acertado.

Lana Vandenberghe, uma canadense de 43 anos de idade, trabalhava como secretária da Corregedoria havia pouco mais de um ano. Caberia a ela revelar o que realmente aconteceu na manhã de sexta-feira, dia 22 de julho de 2005, entre o número 21 da bucólica e assimétrica Scotia Road e as profundezas do túnel da Northern Line na estação de Stockwell.


Lana revelou a Louise (foto inferior) a verdade

17 — Lana e Louise

 

 

Lana Vandenberghe nasceu em Alberta, uma província do Oeste do Canadá, em 1962. Sua avó, uma mulher decidida que sempre dizia o que pensava, exerceu grande influência em sua formação. O mesmo não se pode dizer de seus pais, que faziam questão de esconder sentimentos e emoções. Tanto é assim que, para Lana, foi uma surpresa quando a mãe deixou a família para viver com outro homem.

Aos 18 anos, Lana tornou-se mãe solteira de uma menina. E procurou educá-la à moda da avó. Quando a filha se tornou adulta, Lana mudou-se para a Grã-Bretanha, atraída pela possibilidade de melhores salários.

Já em Londres, ela foi trabalhar no Departamento de Saúde. De lá, saiu para a IPCC, onde conseguiu uma colocação como secretária. Estava no novo emprego havia mais de um ano quando Jean Charles de Menezes foi morto pela polícia.

Assim que o relatório, altamente sigiloso, sobre as circunstâncias reais da morte do eletricista chegou à IPCC, os documentos e fotos passaram pelas mãos e olhos atentos da canadense. Era sexta-feira, 29 de julho, exatamente uma semana após a morte de Jean.

Nas próprias palavras de Lana Vandenberghe, "aquilo partiu meu coração" (it broke my heart).

 

Ainda sob efeito de profunda angústia, no final da tarde do dia seguinte, sábado, Lana foi com uma amiga, Louise McGing, a um churrasco no bairro de Acton, no extremo oeste de Londres.

Durante o trajeto no metrô, a caminho da festa, Lana soprou no ouvido de Louise que a versão das autoridades policiais sobre a morte do brasileiro era mentirosa. Mas pediu:

— Por favor, não diga nada para o Neil.

Neil Garrett, namorado de Louise, era um produtor de notícias da emissora de televisão ITN (Independent Television News).

— Eu não quero perder meu emprego — justificou-se Lana.

— Tudo bem, se é assim que você quer — Louise aceitou as condições da amiga. Mas não conseguiu evitar um pensamento: "Puxa vida, seria um tremendo scoop (furo de reportagem)."

 

Na casa onde aconteceu o churrasco, os convidados se espalhavam pela sala de estar, cozinha e um jardinzinho nos fundos. Em quase todas as rodas, a conversa girava em torno do homem executado pela polícia, em Stockwell, oito dias antes. Para quem sabia a verdade, caso de Lana, e agora de Louise, era aflitivo ouvir, sem contestar, as pessoas comentando a temeridade do brasileiro, ao se negar a obedecer as ordens de parar da polícia.

Louise chamou Lana num canto e comentou:

— Você está ouvindo o que as pessoas aqui estão dizendo sobre o caso. Tem certeza que não quer que eu conte tudo ao Neil?

— Eu tenho medo.

Só que a indignação tornou-se maior do que o medo. Lana então cedeu:-

— Pode contar, pode contar para ele.

Louise McGing se afastou para um canto e, usando o celular, ligou para o namorado.

 

Eram 20 horas, dia ainda claro no verão londrino. Em seu apartamento em Barnabas Road, no outro lado da cidade, Neil Garrett acabara de tomar banho e se vestia para sair. Dali a pouco, ele iniciaria sua jornada no plantão noturno dos estúdios da ITN, em Camden, no Centro de Londres. O telefone tocou. Era Louise.

 

— É sim, Neil, ela é secretária da IPCC. Viu todos os documentos. — Louise acabara de repetir a história contada por Lana Vandenberghe. — Foi isso que aconteceu no tube.

 

Só um jornalista sabe o que Neil Garrett viveu naquele momento. Se aquilo fosse verdade, ele pensou, sentindo o coração bater acelerado, o sangue correr mais rápido sob a pele e o estômago se contrair, seria o grande scoop de sua carreira e um dos maiores da televisão inglesa nos últimos tempos.


Neil Garrett, jornalista da ITV.

18 — Neil Garrett

 

 

Depois do churrasco, Lana Vandenberghe foi dormir na casa de Louise McGing. No apartamento recém-construído, em Canary Wharf, com vista magnífica para o Tâmisa, a conversa das duas entrou pela noite adentro. Enquanto isso, o produtor e jornalista Neil Garrett, namorado de Louise, agora conhecendo a nova versão sobre a morte do brasileiro Jean Charles de Menezes, seguiu para seu plantão na ITN, em Grays Inn Road.

Embora fosse muito difícil conter a ansiedade, Garrett passou a noite toda na redação sem nada dizer aos colegas. Mas relatou tudo a seu editor-chefe, David Mannion. Este determinou a Garrett que, no dia seguinte, entrasse em contato com Lana. A notícia era seriíssima e não podia ir ao ar sem haver antes uma investigação minuciosa dos fatos.

No domingo, dia 31 de julho, pela manhã, Neil Garrett ligou para Lana Vandenberghe, na casa de Louise. A secretária da IPCC passou ao jornalista novos dados a respeito do incidente em Stockwell e sobre as manobras da Scotland Yard para acobertar os eventos do dia 22.

 

* * *

 

Durante duas semanas, nas quais Garret falou outras vezes ao telefone com Lana, a equipe de repórteres da ITN saiu em campo para checar cada informação vazada pela secretária da IPCC. Só quando as dezenas de peças do quebra-cabeça começaram a se encaixar umas nas outras, Neil Garrett e Lana Vandenberghe tiveram seu primeiro tête-à-tête.

Uma das condições impostas por Lana a Neil Garrett era a de que ela permanecesse anônima. Lana Vandenberghe não tinha a menor intenção de perder seu emprego na IPCC.

No encontro, a canadense passou às mãos do jornalista cópias dos relatórios sigilosos sobre o assunto, inclusive fotos tiradas pela perícia e depoimentos de testemunhas presentes no vagão da Northern Line. Cada documento foi reproduzido diretamente dos computadores da corregedoria. Ao tirá-los na impressora, Lana Vandenberghe, sem que ela se desse conta disso, teve seu nome e senha registrados no sistema de controle de segurança.

 

Havia grande ansiedade entre os chefes e colegas de Garrett que acompanhavam a evolução das investigações. O medo de que fossem "furados" por algum concorrente pairava no ar da redação.

Na terça-feira 16 de agosto, a direção da ITV julgou que já possuía provas e elementos suficientes para confirmar a nova versão e levar a matéria ao ar. O telejornal escolhido para exibi-la foi o ITV Evening News daquele mesmo dia, em pleno horário nobre. A telerreportagem, elaborada com extremo cuidado e profissionalismo, iria reconstituir, passo a passo, minuto a minuto, tudo o que aconteceu na manhã de sexta-feira, dia 22 de julho, entre Scotia Road e a estação de Stockwell. O scoop dominaria toda a meia hora de duração do programa.

 

Por maiores que tenham sido suas expectativas, Neil Garrett jamais calculou a dimensão do impacto na opinião pública da reportagem iniciada por uma conversa, surgida praticamente ao acaso, entre sua namorada, Louise McGing, e a canadense Lana Vandenberghe.

Terminado o programa, os telefones da redação da ITN não pararam de tocar. Eram telespectadores indignados, dirigentes de emissoras concorrentes e jornalistas os mais diversos. Uma perplexidade total os unia.

Agora a Grã-Bretanha inteira sabia por que e como foi morto o eletricista brasileiro Jean Charles de Menezes. E isso seria a manchete de todos os jornais no dia seguinte.


19 — Cerco

 

 

Eis o que o ITV Evening News mostrou na noite de 16 de agosto:

 

No início da noite de 21 de julho, a Scotland Yard já havia localizado, nas fitas de CCTV do sistema de transporte de Londres, as imagens dos terroristas envolvidos nos quatro atentados fracassados daquela manhã. Sobre um dos homens-bomba, o etíope Osman Hussein, a polícia sabia até seu endereço: o número 21 de Scotia Road.

Ao amanhecer de sexta-feira, dia 22, a Polícia Metropolitana pôs em ação 18 operações diferentes, envolvendo praticamente todo o seu efetivo. A este se juntaram 6 mil homens das Forças Armadas. Um deles, codinome Tango 10, pertencente ao Special Recconnaissance Regiment, SRR, recebeu a missão específica de vigiar a entrada do prédio de dois andares e nove apartamentos onde moravam Osman Hussein (naquele momento já refugiado em Roma, onde desembarcara usando o nome falso de Hamdi Issac) e, desgraçadamente, o eletricista brasileiro Jean Charles de Menezes.

 

Tango 10 era o homem errado no lugar errado. Além da pouca experiência, ele usava um equipamento diferente do da polícia e se comunicava em uma linguagem em código desconhecida pela Scotland Yard.

Eram 6h04, o sol de verão nascera havia pouco menos de uma hora quando Tango 10, à paisana e desarmado, chegou ao cul-de-sac em forma de "T" de Scotia Road. O número 21 ficava na ponta nordeste, e sem saída, da rua. O militar se plantou no vértice do "T" e ficou observando o prédio onde morava o suspeito.

A missão de Tango 10, em retrospecto, foi mal planejada, desprovida de bom senso e da lógica mais elementar. Em vez de memorizar o rosto e as particularidades físicas de Osman Hussein (um homem alto, pele e olhos negros e rosto ovalado), para confrontar os dados desse suspeito com as pessoas que saíssem do prédio (tarefa das mais simples, principalmente em se tratando de um "especialista" em identificação), cabia ao militar filmá-las com a minicâmera de seu celular, enviar a imagem para o Comando Dourado da Scotland Yard e aguardar uma resposta para saber se se tratava do suspeito ou não.

Por volta das nove e meia da manhã, estando ali havia mais de três horas, Tango 10 sentiu necessidade de urinar. Para encontrar um banheiro público, ele teria de abandonar seu posto em Scotia Road, ir até Upper Tulse Hill e, portanto, deixar o prédio do suspeito sem vigilância. Tango 10 olhou em torno e viu uma cerca viva, na extremidade do braço esquerdo do "T". Dirigiu-se para lá.

 

Exatamente às 9h33min30s, Jean Charles de Menezes, usando calça e jaqueta jeans, camisa azul e um par de tênis branco (roupa adequada para a temperatura de aproximadamente 17 graus que fazia naquele momento), surgiu na entrada do número 21. Jean tinha um encontro em Kilburn, no norte de Londres, com seu sócio Gésio César D'Avila para consertar um sistema de alarme de incêndio.

Tango 10 encontrava-se a uns 25 metros de Jean Charles. Meio agachado atrás da cerca, o militar não pôde filmar o recém-chegado à rua. Mas achou que ele tinha aparência somali ou etíope, que era como o SRR, preocupado em não usar termos politicamente incorretos, ou que poderiam ter conotação racista, tais como "preto" ou "negro", descrevia o terrorista Osman Hussein.

Bastaria que Tango 10 telefonasse para o Comando Dourado e dissesse que um homem branco, ou moreno, acabava de sair do nº 21 e esta história não estaria sendo contada.

O militar realmente fez a ligação, mas usou a linguagem-código do SRR:

— Um "U" (código para "não-identificado") do sexo masculino, Cl (código para "branco"), cinco pés e oito polegadas (1,75m), cabelos escuros, barba escanhoada, jaqueta de jeans azul, calça jeans e tênis acaba de sair do prédio. Não está carregando nada e, neste momento, não posso confirmar se ele é ou não o suspeito.

Os códigos da Polícia Metropolitana de Londres e do SRR nada têm a ver um com o outro. Na linguagem cifrada da Scotland Yard, e de seu Comando Dourado, "U" e "Cl" não significavam absolutamente nada. Mesmo assim, ninguém se preocupou em pedir a Tango 10 uma explicação sobre sua terminologia ou uma descrição do homem usando palavras normais. A possibilidade de estarem no rastro do suspeito deixou o pessoal do Comando em alerta. Os predadores sentiram o cheiro excitante da caça. Cressida Dick, de 45 anos, uma veterana da corporação, que coordenava as operações conjuntas da polícia e do SRR naquela manhã, foi imediatamente notificada do fato.

Cressida acionou os policiais à paisana posicionados na área de Tulse Hill, em Lambeth. Entre eles, Hotel 1, Hotel 3 e Hotel 9, nas proximidades de Scotia Road. Os três se dirigiram a passos largos para a esquina de Marnfield Crescent com Upper Tulse Hill, por onde qualquer um que saísse de Scotia Road forçosamente teria de passar.

A ideia de que estavam na cola de um perigoso terrorista começou a se apossar da polícia de Londres. Ninguém se lembrou de pedir a Hotel 1, Hotel 3 e Hotel 9 uma descrição do homem, tão logo o vissem. Os três "Hotéis" receberam apenas ordens de seguir o suspeito.

 

Sem saber que era objeto da atenção seja lá de quem quer que fosse, Jean Charles de Menezes caminhou sem pressa até a esquina de Scotia Road com Romanfield Road, onde dobrou à esquerda. E novamente à esquerda em Marnfield Crescent. Menos de 5 minutos depois de ter saído de casa, Jean chegou a Upper Tulse Hill. Dobrou à esquerda pela terceira vez. Os "Hotéis" passaram a segui-lo, sentido leste.

Em vez de continuar em frente até Tulse Hill, onde iria pegar o ônibus 2, Jean Charles atravessou a rua e entrou no supermercado Joes. Era lá que fazia as compras de casa e também onde adquiria o Oyster Card, cartão eletrônico pré- pago utilizável tanto no underground como nos ônibus de Londres.

Jean ficou pouquíssimo tempo no interior do mercado. Do lado de fora, Hotel 1, Hotel 3 e Hotel 9 o aguardaram. Quando Jean voltou à rua, a perseguição recomeçou.

 

Na esquina de Upper Tulse Hill com Tulse Hill, Jean Charles virou à esquerda, andou 40 metros e parou no ponto de ônibus. Se fosse um terrorista, um pequeno infrator da lei, ou mesmo uma pessoa um pouquinho mais desconfiada, talvez tivesse notado que três homens com jeito de policial se plantaram no ponto ao seu lado.

Quando o ônibus vermelho de dois andares da linha 2, destino final Baker Street, parou no ponto, Jean Charles de Menezes e seus seguidores, além de alguns outros passageiros, subiram os degraus da porta dianteira do coletivo. Jean passou seu Oyster Card pelo leitor ótico ao lado da cabine do motorista e sentou-se despreocupadamente em um dos assentos do andar inferior.

Para ir até Kilburn, local do serviço no alarme, Jean Charles iria saltar do ônibus na estação de metrô de Brixton, terminal sul da Victoria Line. Lá, pegaria um trem da Victoria até Green Park, onde faria uma baldeação para a Jubilee Line. Seriam, no total, 12 estações até o destino.

No trânsito pesado do rush matinal, o ônibus desceu lentamente, rumo norte, em direção ao vale do Tâmisa. Passou primeiro por vários conjuntos habitacionais populares e depois pelo movimentado centro comercial de Brixton. No trajeto, que durou pouco menos de 10 minutos, parou nos pontos de Effra Road, St. Matthew's Road, Brixton Hill, Brixton Road e Brixton Station. Neste último ponto, Jean Charles, usando a porta traseira, desceu para pegar o tube. Hotel 1, Hotel 3 e Hotel 9 desceram atrás. Eram 9h47.

Brixton Station é um lugar movimentado, por onde passam sete linhas de ônibus. Jean caminhou uns 40 metros em meio ao denso tráfego de pedestres. Já ia atravessar a rua para entrar na estação quando viu que ela estava fechada, conforme dizeres de um cartaz preso num cavalete na entrada do prédio envidraçado. A interdição fora motivada pelos atentados da véspera.

Para não perder tempo, Jean Charles de Menezes regressou rapidamente ao ônibus da linha 2 no qual viera, ainda parado no ponto. Os agentes que o perseguiam não perceberam que a estação estava fechada. Mas viram, é claro, o suspeito dar meia-volta e subir no ônibus. Interpretaram isso como sendo uma manobra de despiste. Apressaram-se em também voltar ao ônibus. Jean Charles continuou alheio à movimentação dos três homens.

De novo no ônibus, Jean reviu sua estratégia de percurso até Kilburn. Desceria em Stockwell, três pontos adiante, e pegaria um trem da Northern Line para Waterloo, onde faria a conexão para a Jubilee.

Se antes suspeitaram, agora os "Hotéis" tinham quase certeza de que o homem que perseguiam era o terrorista procurado pelo atentado da véspera na Hammersmith City Line em Shepherd's Bush. Do interior do ônibus 2, Hotel 1 chamou pelo rádio o Comando Dourado.

— Creio que estamos seguindo o homem certo — informou.

 

Vinte minutos já haviam se passado desde o instante em que Tango 10, atrás da moita, viu Jean Charles sair de casa. E, durante todo esse tempo, não ocorreu a ninguém, nem ao militar do SRR, nem aos três "Hotéis", nem à chefe Cressida Dick, nem aos seus subordinados no Comando, trocar informações sobre a descrição do homem que perseguiam nas ruas de Lambeth. A polícia procurava Osman Hussein, um negro de olhos negros e rosto seco e ovalado e, obtusamente, seguia Jean Charles de Menezes, branco, de olhos castanhos e bochechas infladas.

Sem saber das ameaças que cresciam à sua volta, Jean Charles telefonou para o sócio, Gésio, em Dollis Hill.

— Acho que vou me atrasar um pouco — disse. — A estação de Brixton está fechada.

 

No quartel-general do Comando Dourado, Cressida Dick mudou o status operacional para Código Vermelho e acionou as unidades armadas do CO19, que reuniam os homens da Scotland Yard com "licença para matar". Ela também determinou que as viaturas próximas a Lambeth se deslocassem para a rota do ônibus 2, sentido Baker Street, ao norte da estação de Brixton.

— O suspeito está no ônibus — explicou Cressida. — Três dos nossos homens de vigilância estão com ele. Não podemos deixar o suspeito, repito, não podemos deixar o suspeito entrar no sistema de underground.

Em vários pontos do sul de Londres, agentes armados à paisana puseram sirenes e luzes de alerta no teto de suas viaturas até aquele instante sem identificação, transformando-as oficialmente em carros policiais. Os motoristas pisaram fundo, numa corrida contra o tempo. Convergiram para a área ao norte de Brixton Road.

Só que as intenções da chefe não se transformaram em fatos. O ônibus 2 chegou a Stockwell antes que qualquer viatura do CO19 pudesse interceptá-lo.

Exatamente às 10h03, Jean Charles de Menezes desceu do coletivo pela segunda vez. Desceu e caminhou 50 metros pela Stockwell Road. Já na Clapham Road, esquina de Binfield, atravessou a faixa de pedestres, passou por um quiosque de frutas e entrou na estação.

Já que supunham que o suspeito poderia ser um perigoso homem-bomba, Hotel 1, Hotel 3 e Hotel 9, que desceram atrás de Jean Charles, deveriam tê-lo agarrado antes que entrasse no prédio do metrô e, por conseguinte, ainda no contexto dessa suposição falsa, pusesse muito mais vidas em perigo. Ao revistá-lo, os 'Hotéis' trapalhões descobririam o engano cometido ao longo da última meia hora e tudo não teria passado de um incidente sem maiores consequências, do qual quase ninguém tomaria conhecimento.


20 — Execução em Stockwell

 

 

Até o momento em que o telenoticiário ITV Evening News, da ITN, revelou a verdade sobre a morte de Jean Charles de Menezes, todos acreditavam que o jovem eletricista brasileiro, antes de entrar na estação de Stockwell, fora advertido pela polícia para parar. Essa advertência, segundo a versão oficial amplamente divulgada nos dias que se seguiram à morte de Jean, teria sido dada pelos agentes que o perseguiam desde Scotia Road.

Nada disso aconteceu.

A fita de uma das câmeras do circuito interno de tevê instaladas no saguão de entrada de Stockwell mostra nitidamente Jean Charles, com sua leve jaqueta jeans, entrando calmamente no prédio da estação. Essa fita foi recuperada pela Scotland Yard e, mais tarde, repassada à IPCC, onde a secretária canadense Lana Vandenberghe tomou conhecimento de seus detalhes e os passou para o jornalista Neil Garrett, namorado de sua amiga Louise.

 

* * *

 

Jean Charles chegou ao saguão. Tinha à sua esquerda os guichês e as máquinas automáticas de venda de bilhetes. Não precisou usar nem uma coisa nem outra, pois portava o Oyster Card. Antes de passar pelas portinholas automáticas de entrada logo à sua frente, Jean pegou, num escaninho à direita, um exemplar do Metro, jornal matutino de distribuição diária gratuita nas estações do underground.

Dos sete conjuntos de portinholas duplas, três dão acesso ao interior da estação e quatro são de saída. Jean passou seu cartão pré-pago pelo leitor óptico de uma dessas passagens e um par de portas se abriu ruidosa e bruscamente para a frente, liberando sua entrada. Ele não olhou para trás e continuou sem ter a menor ideia da presença de Hotel 1, Hotel 3 e Hotel 9, que entraram no saguão alguns segundos depois do brasileiro.

Após passar pelas portinholas, Jean virou 120 graus à esquerda e começou a descer pela comprida escada rolante que dá acesso às profundas plataformas direção norte das linhas Victoria (interditada naquele trecho naquela manhã) e Northern. Jean Charles não correu, não avançou um passo sequer. Desceu na velocidade da escada, parado o tempo todo na metade direita de seu degrau, como fazem os passageiros que não estão com pressa.

Ao final da escada rolante, outro saguão, com três corredores de acesso à Victoria Line do lado direito e três à Northern, do esquerdo. Jean pegou o primeiro destes últimos, chegou à plataforma da Northern e caminhou na direção norte.

Se Jean Charles tivesse corrido pelas escadas rolantes e pelo corredor, e se lançado no interior de um trem com as portas prestes a fechar, conforme a versão da Scotland Yard, ele teria entrado na segunda porta do terceiro vagão, correspondente à boca do primeiro corredor. As fitas de CCTV revelaram que ele não fez nada disso. Mesmo porque não havia trem na estação. As fitas mostraram também os "Hotéis" chegando cautelosamente à plataforma logo atrás do brasileiro.

Pouco depois do trem sair da estação anterior, Clapham North, uma corrente de vento — provocada pela compressão do ar à frente do vagão locomotiva, tal como num tubo pneumático — soprou em Stockwell, do sul para o norte. Veio acompanhada do ruído ascendente da composição se aproximando e da trepidação do choque das rodas de aço com as junções dos trilhos.

 

Lá em cima, em Clapham Road, um Audi sedã cinza-escuro do CO19, com um conjunto de luzes giratórias de alerta e uma sirene móvel ligada a todo volume, ambos os equipamentos presos por um ímã ao teto, parou com estardalhaço junto à entrada da estação. O motorista permaneceu ao volante. Dois outros homens desceram, um do banco do carona, outro do traseiro. Abriram o porta-malas, tiraram lá de dentro dois rifles de repetição de cano serrado, marca Heckler-Koch, com adaptações para serem usados como armas de assalto.

 

O tube parou na plataforma Norte. Jean Charles de Menezes, sem se apressar em nenhum momento, entrou no segundo vagão usando as portas duplas do meio. Hotel 1, Hotel 3 e Hotel 9 entraram também, só que pela porta simples da extremidade sul do carro, não sem antes virarem os pescoços para a direita e para trás, olhando aflitivamente para o corredor de acesso à plataforma. Os "Hotéis" esperavam, a qualquer momento, a chegada do reforço armado, que sabiam estar a caminho.

No hall do nível térreo da estação, os dois agentes do CO19 eram captados pelas câmeras do circuito interno no momento em que pulavam as portinholas de entrada, apoiando-se nos parapeitos dos processadores de bilhetes e dos leitores eletrônicos do Oyster Card. A ultrapassagem do obstáculo foi dificultada pelos rifles que carregavam.

 

Jean Charles sentou-se em um dos conjuntos de poltronas laterais, estofadas, de frente para a plataforma, portanto do lado oposto ao das portas abertas. Tinha um painel de vidro à sua direita. Entre ele e o painel, apenas um lugar. Às suas costas, como pano de fundo para a cena, a parede azul da estação e o símbolo do underground com o nome Stockwell.

Sem que Jean Charles de Menezes percebesse o cerco se apertando, Hotel 3 sentou-se à sua esquerda, mantendo uma distância de dois assentos entre ele e o brasileiro. Hotel 1 ficou perto de uma das portas simples. Hotel 9 guarneceu um dos conjuntos de portas duplas.

Quando as portas já iam se fechar, para que o trem pudesse partir em direção à próxima parada, Oval Station (cenário de um dos quatro atentados da véspera), Hotel 1 viu dois homens armados de rifles curtos chegando à plataforma. Imediatamente percebeu que se tratava dos colegas do CO19. Mais do que depressa, Hotel 1 pôs seu pé direito no trilho da porta, bloqueando-a, e gritou para os recém-chegados.

— Ele está aqui.

Neste exato momento, Hotel 3, que acompanhara toda a movimentação dentro e fora do trem, moveu-se com a rapidez e a habilidade de um felino. Deu um bote e saltou por cima dos dois assentos que o separavam do suspeito. Suas mãos, como se fossem as garras de um alicate, prenderam os braços de Jean Charles, pelas costas, na altura dos rins.

Apesar de toda a incompetência policial, ao perseguir um homem que não tinha a menor semelhança com o terrorista procurado, o episódio teve mais uma chance de terminar ali. E, principalmente, mais uma chance de terminar sem maiores consequências. Totalmente imobilizado, o suspeito, fosse ele Jean Charles de Menezes, Osman Hussein ou até mesmo Osama bin Laden em seus tempos de guerreiro mujahedin, não poderia usar as mãos para acionar uma carga explosiva nem sacar de uma arma.

Só que os homens do CO19, no cumprimento de seus estritos deveres para com Sua Majestade, não só têm autorização para matar como já chegam com a intenção de fazê-lo. Essa é a sua função. O seu ofício. Para isso o esquadrão da morte da Scotland Yard é treinado.

Hotel 1 gritando "Ele está aqui", Hotel 9 apontando Jean Charles para os agentes armados e Hotel 3 imobilizando o brasileiro, tudo isso funcionou para Jean como o beijo de Judas Iscariotes em Jesus Cristo. Nesse momento, e só nesse momento, ele deve ter percebido que estava sendo caçado e que sua vida corria perigo.

Jean Charles tentou levantar-se. O melhor que conseguiu foi retesar seu corpo. Os braços, entretanto, continuaram imobilizados. Hotel 3 empurrou-o, com violência, de volta para a poltrona. O corpo de Jean ficou tão torcido que seu rosto se voltou para o vidro da janela e para a parede azul atrás da fileira de assentos.

Mais tarde, Mark Whitby, um inspetor sanitário que estava no vagão, disse à BBC:

— Dava pra ver seu terror. Parecia um coelho encurralado.

 

 

 

Apoiando as coronhas dos rifles nos ombros, para se proteger dos coices das armas, os dois executores dispararam à queima-roupa. Foram 11 tiros de balas explosivas, do tipo conhecido como dundum (com ogivas chatas ou em forma de cruz), contra um Jean Charles de Menezes inerte, indefeso. Sete penetraram na têmpora direita de Jean e uma acertou seu ombro. Dois disparos mascaram (não detonaram) e um errou o alvo. A prova de que o brasileiro tinha os braços imobilizados é que ele não se protegeu levando as mãos à frente do rosto, como faz, instintivamente, a maioria das pessoas na hora de levar um tiro. Nenhum projétil atingiu suas mãos.

Justamente por serem balas dundum (proibidas pela Convenção de Haia), nenhuma delas varou totalmente a cabeça de Jean Charles. Após romperem a crosta da caixa craniana, desintegraram-se no interior do cérebro, espalhando centenas de fragmentos e estilhaços.

Nem Hotel 3 esperava tanta fúria. Depois de ouvir um tiro muito próximo de seu ouvido, o agente foi derrubado pelos homens do CO19. Mal se levantou, foi posto para fora do trem, assim como todos os passageiros. Se tivessem ficado, e assistido à cena completa, teriam visto que os primeiros tiros atingiram Jean Charles quando este ainda estava no assento. E que os últimos foram disparados quando ele já caíra no chão do vagão.

No cenário do crime, um rastro de sangue e de massa encefálica se espalhara pelo banco onde Jean se sentara, pelo teto do vagão, pelos assentos do lado oposto e pelo assoalho do tube. As fotos desse rastro mostram claramente a trajetória curva, no sentido anti-horário, do corpo de Jean Charles ao ser atingido pelos projéteis que deram cabo de sua vida.

 

* * *

 

Um homem inocente fora morto por policiais à paisana. Sem receber voz de prisão. Sem nenhuma advertência. Sem esboçar um gesto de defesa. Sem saber por que faziam aquilo com ele.


21 — Represálias

 

 

Assim que o telejornal ITV Evening News encerrou a exibição do furo de reportagem, revelando as circunstâncias reais da morte de Jean Charles de Menezes, boa parte dos chefes de redação de jornais, revistas e emissoras de televisão e rádio de Londres ligou para David Mannion, chefão da ITN, dando-lhe os parabéns. O tom dos comentários era um misto de inveja e admiração.

Mannion soube cavalgar o sucesso caído de paraquedas em seu colo. Ao longo de uma semana, dando prosseguimento ao assunto, a ITV liderou a audiência no segmento de noticiários. Seis a 7 milhões de telespectadores passaram a assisti-los, em lugar dos 4 ou 5 milhões habituais.

 

Assediada pela mídia, a Polícia Metropolitana se recusou a comentar a nova versão, alegando que a IPCC ainda investigava o assunto. Entretanto, uma veterana fonte policial, sob condições de anonimato, confirmou para um tablóide a autenticidade da matéria levada ao ar pela ITV.


A Scotland Yard não conseguiu explicar como foi possível confundir o brasileiro Jean Charles, à esquerda, com o etíope Osman Hussein, à direita.

 

 

Não foi difícil para a cúpula da polícia descobrir onde houve o vazamento. Nos documentos apresentados no Evening News, foi possível reconhecer identificações, códigos e siglas só usados na IPCC.

Na corregedoria, as pistas apontaram para a secretária Lana Vandenberghe. Ela imprimira diversos laudos e relatórios confidenciais a respeito da morte de Jean Charles.

Lana foi questionada por seus superiores. Embora não tenha confirmado sua participação na inconfidência, foi imediatamente suspensa de suas funções. No mesmo dia, quando chegou ao apartamento que dividia com uma colega da Scotland Yard, proprietária do imóvel, a canadense não pôde entrar porque a fechadura havia sido trocada.

Sentindo a pressão, Lana Vandenberghe demitiu-se da IPCC. E foi morar em Hainault, no extremo nordeste da cidade. Mas, quando conseguiu um novo emprego, por estar ainda em processo de mudança deu como local de residência o apartamento de Louise.

 

Embora nada mais pudesse fazer para ocultar a verdade, a Scotland Yard podia adotar represálias contra os responsáveis pelas informações. E foi justamente essa a decisão da cúpula.

As seis da manhã de quarta-feira, dia 21 de setembro, de posse de um mandado de prisão contra Lana Vandenberghe, a polícia foi ao apartamento de Louise McGing, em Canary Wharf. Após passarem, sem a menor dificuldade, pelos sofisticados obstáculos eletrônicos do prédio, os agentes, todos à paisana, bateram com força na porta de Louise, que acordou assustada.

 

Apesar do mandado ser contra Lana, e talvez para não perder a viagem, os policiais, sem a menor cerimônia, vasculharam o apartamento de Louise durante três horas. Interrogada por eles, ela disse que conhecia Lana apenas superficialmente. Não foi uma boa resposta. Ao examinar os computadores, as memórias dos celulares e as contas de telefone de Louise McGing, os agentes deduziram que as duas eram amigas íntimas, tal a frequência com a qual se comunicavam.

 

Três dias depois, no sábado, 24, pouco antes das sete horas da manhã, a polícia invadiu o apartamento de Lana Vandenberghe, em Hainault, e a prendeu. Apesar de se tratar de uma ex-colega, os agentes a humilharam desde o início. Não deixaram que tomasse banho, nem que fizesse sua higiene pessoal, muito menos que se alimentasse antes de a levarem presa. Permitiram apenas que trocasse o pijama por uma roupa. Em lugar de sapatos, Lana só teve tempo de vestir um par de sandálias de dedo.

Após um trajeto de 45 minutos, durante o qual ninguém disse a ela para onde iam, Lana chegou a um distrito policial. Esperou durante um longo tempo, sem receber nenhuma satisfação, até sua entrada ser oficialmente registrada. Sempre tratando-a com aspereza, os agentes colheram amostras para um exame de DNA e tiraram suas impressões digitais. Isso indignou a canadense, pois ela sabia que, na Grã-Bretanha, esses dados jamais são apagados dos arquivos, seja o preso mais tarde considerado inocente ou não. Fichou uma vez, é para sempre.

Lana Vandenberghe foi interrogada durante mais de seis horas. Para assustá-la bem, os agentes lhe disseram que poderia pegar até vinte anos de prisão. Após a sessão de perguntas e ameaças, confiscaram suas sandálias e a colocaram, descalça, numa cela.

O cubículo era sujo, gelado e fedido. Uma câmera de televisão vigiava Lana o tempo todo. Pior: a câmera filmava também o vaso sanitário da cela. Não havia papel higiênico disponível. Como sentia muito frio, principalmente nos pés nus, Lana pediu um agasalho. Foi prontamente atendida. Trouxeram-lhe um cobertor infestado de piolhos.

Após horas de confinamento, Lana recebeu um copo de chá quente. Mas, embora tenha explicado aos carcereiros que era diabética, o chá veio com açúcar. E ela não pôde bebê-lo. Somente às quatro da tarde surgiu uma refeição. Nessa hora ela pôde conversar com sua advogada, que estava no distrito, acompanhada de uma sócia, desde o meio-dia.

Só às 23h, quando Lana Vandenberghe sofria uma forte crise de enxaqueca, é que ela foi solta. Não trouxera dinheiro de casa, e a polícia não lhe forneceu condução. Ela precisou chamar a advogada para levá-la.

 

Louise McGing, que intermediara o contato entre Lana e o jornalista Neil Garrett, namorado de Louise, foi o alvo seguinte.

Na quarta-feira, 5 de outubro, mais uma vez os agentes da Polícia Metropolitana driblaram os aparelhos de vigilância eletrônica do prédio de Canary Wharf. Os sistemas exigiam a digitação de duas senhas, uma na entrada, no térreo, outra na porta do apartamento. Isso não foi empecilho.

Eram seis e meia da manhã. Nenhum dos vizinhos de Louise McGing percebeu a invasão de dez policiais da Unidade de Crimes Sérios da jurisdição de Leicestershire. Louise ainda dormia e tomou um susto tremendo quando dois dos agentes, um homem e uma mulher, irromperam em seu quarto. Sem que tivesse tempo de se recuperar, ela recebeu uma saraivada de ordens:

— Vista-se!

— Não use o telefone!

— Desconecte o telefone!

O grupo de policiais se espalhou pelo apartamento. Logo apreenderam o laptop e o celular de Louise. Um dos homens passou a examiná-los. Outro encontrou uma foto de Louise com Neil Garrett, também apreendida. Todos sabiam que Garrett era o responsável pelo scoop.

Às sete da manhã, Louise McGing chegou ao distrito policial de Bishops Gate, nas proximidades da estação de Liverpool. Escoltada pelos agentes, ela entrou no prédio por uma porta nos fundos.

Embora Louise estivesse grávida de três semanas, e tivesse informado isso aos policiais desde a hora em que foi despertada a gritos, no distrito eles foram tão rudes com ela como haviam sido com Lana Vandenberghe.

— Você está mentindo — disse um deles, a respeito da gravidez.

Louise foi levada até a mesa de recepção da delegacia, situada num plano bem superior ao assoalho do saguão de entrada, como que para lembrar ao prisioneiro de sua insignificância em relação à lei. Sentados à mesa, lá em cima, os policiais encarregados podiam ver, através de pequenos monitores de tevê, imagens de todas as celas. Um quadro de avisos, branco, exibia o nome e o sexo de cada prisioneiro. Louise recebeu autorização para dar um telefonema. Escolheu Neil.

— Acho que você vai ser o próximo — ela previu.

 

A própria polícia se encarregou de telefonar para o advogado escolhido por Louise. Enquanto isso, ela foi posta de molho numa cela de espera, com paredes de vidro.

Passados 20 minutos, nos quais diversos policiais a foram intimidar, lembrando-a da severa sentença de prisão a qual estaria sujeita — por cumplicidade em roubo de documentos do governo —, Louise foi levada, por uma carcereira à paisana, para uma nova cela, com temperatura muito baixa e um odor acre, misto de urina envelhecida e desinfetante barato.

Antes de deixar a prisioneira, a policial a revistou. Levou embora seu casaco, seu par de tênis (Louise estava sem meias) e seu relógio de pulso.

Sozinha, Louise examinou em redor, sob um pálido feixe de luz que descia de uma janelinha com o vidro embaçado, situada quase na altura do teto. O chão e as paredes eram de azulejo branco; a cama, um banco estreito, de PVC, tendo sobre ele um colchonete azul-escuro repleto de manchas pegajosas. Logo Louise sentiu frio. Informou isso à carcereira, que lhe trouxe o tradicional cobertor com piolhos.

Tal como acontecera com Lana Vandenberghe, o que mais agoniou Louise McGing foi o vaso sanitário. A privada era de metal, sem tampa, desprovida de papel higiênico e com uma câmera de vídeo, no teto, apontando para ela. Louise não conseguiu se conformar com o fato de que, toda vez que usasse o vaso, os policiais lá da recepção a estariam vendo em seus monitores.

Deixada na cela por um tempo que lhe pareceu uma eternidade, Louise, sem relógio, logo perdeu o senso das horas. Finalmente, o advogado surgiu. Sua entrevista com a cliente foi gravada e filmada. Por isso, Louise se recusou a discutir qualquer aspecto do caso com ele. Limitou-se a dizer:

— Sem comentários.

Louise McGing só foi libertada do distrito policial de Bishops Gate após oito horas de detenção.

 

Lana Vandenberghe, ex-funcionária da corregedoria da polícia, fora presa e humilhada. Louise McGing, grávida, fora presa e humilhada. Restava Neil Garrett, jornalista de uma emissora de tevê de grande prestígio. Com ele o tratamento deveria ser mais brando.

Errado.

Garrett foi preso, por suspeita de furto de documentos oficiais, no mesmo dia que Louise, só que mais tarde. Desde o início da manhã, alertado pela namorada, ele aguardou a chegada da polícia. Mas os agentes só chegaram em sua casa às 13h30. Já no distrito de Bishops Gate, ele foi posto numa cela próxima à de Louise. Embora Neil estivesse preocupadíssimo com ela, por causa da gravidez, os dois não puderam se ver nem se comunicar.

Passado algum tempo, Garrett foi transferido para outro distrito, onde um detetive da Unidade de Crimes Sérios o interrogou.

— Você já viu isso antes? — perguntou o agente, exibindo papéis cujas cópias foram entregues por Lana Vandenberghe ao repórter. Eram declarações prestadas por policiais e por testemunhas da morte de Jean Charles.

— Nenhum comentário — Neil Garrett limitou-se a responder.

— Alguém, em algum momento, passou isso para você? — insistiu o agente.

— Nenhum comentário.

Garrett já vira os papéis antes. E o detetive sabia disso. Sabia também que o jornalista sabia que ele sabia.

A cada resposta, o policial emitia um gemido falso de decepção, produzia outro papel e o processo continuava.

— Já viu isso antes?

— Nenhum comentário.

Dois agentes passaram a se revezar no interrogatório, praticando um jogo de morde-e-assopra, tática que eles chamam de "good cop/bad cop". Um sugeria que Garrett nada fizera de errado, e portanto nada tinha a temer. Outro, ao contrário, dizia que o jornalista era cúmplice de um crime muito sério. Os dois perguntaram sobre as ligações entre Louise McGing e Lana Vandenberghe.

— Nenhum comentário.

Neil Garrett ficou preso durante toda a tarde e início da noite. Seu advogado, ao chegar à delegacia, teve de esperar duas horas até poder falar com o cliente.

Quando, finalmente, foi liberado, o jornalista voltou para casa e encontrou um caos. Agentes policiais haviam retirado tudo dos armários e gavetas, jogado roupas e objetos no chão, se apoderado do aparelho celular, do laptop e retirado o HD da torre de seu computador fixo. As contas de telefone foram apreendidas. Fixaram uma cópia do mandado de busca e apreensão na porta da geladeira.

Estranhamente, uma cadeira do quarto de dormir foi deixada no centro do banheiro, sob a luminária. Isso fez Neil Garrett suspeitar que a polícia poderia ter plantado microfones ocultos, coisa que o deixou paranoico. Precisou comprar, numa loja de equipamentos eletrônicos, um detector de aparelhos de escuta e varrer todo o apartamento para se tranquilizar.

Sabendo que sua linha telefônica podia estar grampeada e certo de que seus e-mails se encontravam em poder da polícia, Garrett desconfiou de uma van branca parada por vários dias do outro lado da rua, em frente ao seu prédio.

 

Foram essas as represálias vingativas da Polícia Metropolitana de Londres, a prestigiosa Scotland Yard, contra três cidadãos de bem: Lana Vandenberghe, Louise McGing e Neil Garrett, cada um deles querendo reparar a injustiça cometida em Stockwell. Cada um deles dizendo e reproduzindo a verdade sobre a morte de Jean Charles de Menezes.

 

Nos oitos meses que se seguiram, os três voltaram às delegacias outras vezes e pagaram quatro fianças. Mesmo com a barriga de Louise McGing crescendo a olhos vistos, ela foi posta em uma cela por várias horas em cada uma de suas visitas aos distritos policiais. Numa das ocasiões, permaneceu por mais de cinco horas sem água. Temeu pela vida de seu bebê. Temeu também que ele nascesse com problemas.

 

Depois de longos meses, o Serviço de Promotoria da Coroa (Crown Prosecution Service) concluiu que não havia prova de que os três indiciados haviam desviado documentos e que eles eram, portanto, inocentes.


22 — Justiça e injustiça

 

 

Alguns casos anteriores à morte de Jean Charles de Menezes são exemplos significativos da diferença de tratamento que boa parte da sociedade britânica (incluindo Governo, Judiciário, Casas do Parlamento, IPCC, imprensa e opinião pública) dá aos crimes cometidos pela polícia e, no outro prato da balança, dá àqueles episódios nos quais as vítimas são agentes da Scotland Yard.

 

Dizer que Derek William Bentley teve uma infância difícil é simplificar o relato de sua vida breve e trágica. Bentley praticamente não teve infância. Nascido em 30 de junho de 1933, tinha 6 anos quando estourou a Segunda Guerra.

Num dos bombardeios de Londres, o menino Bentley foi seriamente ferido pelos estilhaços de uma bomba voadora alemã. À sua inteligência já extremamente limitada — não conseguira aprender a ler nem escrever, muito menos fazer as contas elementares — juntaram-se frequentes crises de epilepsia. Sua idade mental estacionou em 11 anos.

 

O mesmo não acontecia com Christopher Craig, um delinquente juvenil que exercia grande influência sobre Bentley. Aliás, qualquer pessoa exercia influência sobre Bentley.

No domingo 2 de novembro de 1952, Craig, então com 16 anos, resolveu arrombar um armazém em Croydon, condado de Surrey, ao sul de Londres, e convidou Bentley, agora com 19, para ser seu parceiro no crime. Craig levava um revólver Colt .455, de cano serrado, e uma faca. Bentley o acompanhou desarmado. Os dois foram vistos por uma testemunha quando, através da escada de uma caixa-d'água, subiam para o telhado do armazém. A Scotland Yard foi chamada.

Quando os policiais chegaram, os dois assaltantes se protegeram atrás de uma chaminé. Lá de cima, Craig atirou no detetive Frederick Fairfax, atingindo-o de raspão no ombro. Isso não impediu que Fairfax subisse pela escada e prendesse o aturdido Bentley. Mas Christopher Craig continuou atirando. Um de seus projéteis acertou a cabeça de outro policial, Sidney Miles, matando-o na hora.

Esgotada sua munição, Craig pulou do telhado, de uma altura de 10 metros. Fraturou a espinha e foi preso também.

 

O caso foi julgado pela Corte de Old Bailey. Sendo um assassinato com sérios agravantes — a vítima era um policial desarmado —, a pena era óbvia: forca. Mas havia um obstáculo: Craig não podia ser condenado à morte por ser menor de 18 anos.

Sem levar em conta que Derek Bentley, além de já estar preso na hora do disparo que matou Miles, era um deficiente mental, vítima da guerra, o júri decidiu por sua execução.

 

Craig foi posto "à disposição de Sua Majestade" (seria solto dez anos mais tarde).

David Maxwell Fyfe, secretário do Interior, recusou-se a usar de seus atributos legais e pedir clemência para Bentley. Mesmo procedimento da rainha Elizabeth II, que lavou suas jovens mãos (tinha 26 anos à época) a propósito do caso, apesar de um abaixo-assinado de duzentos integrantes do Parlamento e de clamores na Inglaterra e em todo o mundo, encabeçados pelo papa Pio XII, contra a sentença.

Justa ou injusta, não se pode culpar a Justiça britânica de lentidão. No dia 28 de janeiro de 1953, apenas 87 dias após a morte do policial Miles, Bentley foi enforcado pelo carrasco Albert Pierrepoint na prisão de Wandsworth.

 

Quarenta anos depois do enforcamento, em 29 de julho de 1993, as mãos flácidas e enrugadas de Elizabeth II, agora com 67 anos, agraciaram Bentley com um perdão real. Em 30 de julho de 1998, a Corte de Apelação anulou a sentença proferida contra Derek William Bentley, eximindo-o de qualquer culpa no assassinato do policial Sidney Miles.

Só faltou lançarem uma cópia da anulação no interior da cova de Bentley, no cemitério de Croydon.

 

Uma moeda, duas faces, no reino de Sua Majestade. Quando o Estado atirou em pessoas inocentes, as consequências foram outras.

 

Em 1983, a Scotland Yard procurava David Martin, fugitivo de uma prisão. Durante as buscas, dois agentes armados, John Jardine e Peter Finch, encontraram Sue Stephens, que supunham ser namorada de Martin, em Pembroke Road, Earls Court, Zona Oeste de Londres. Sue estava num carro dirigido por seu verdadeiro namorado, Stephen Waldorf, um editor de filmes de 26 anos. Acreditando que Waldorf era Martin, os policiais não pensaram duas vezes. Dispararam contra o veículo e feriram o editor seriamente na cabeça e no peito.

Julgados por tentativa de homicídio e lesões corporais, Jardine e Finch foram absolvidos das duas acusações e reincorporados à força policial, embora impedidos de usar armas. Stephen Waldorf, por sua vez, se recuperou dos ferimentos e recebeu, da Scotland Yard, uma indenização de 150 mil libras.

 

James Ashley, pele amendoada, 39 anos, talvez não fosse um cidadão exemplar. Já cumprira uma sentença de dois anos por homicídio culposo. Diversas pessoas o acusavam de traficar maconha e heroína.

No dia 15 de janeiro de 1998, policiais armados de Sussex, em busca de drogas, invadiram a casa em St. Leonards onde Ashley morava. Quando os agentes arrombaram a porta do quarto do suspeito, ele estava completamente nu, acompanhado de uma namorada. Acabara de acordar. Os homens da lei o mataram a balaços.

Alegando que, na penumbra, não viram que Ashley estava nu, e portanto desarmado, os quatro agentes foram absolvidos. Continuaram servindo na polícia.

 

* * *

 

Quarta-feira, 22 de setembro de 1999. Harry Stanley, um escocês de 46 anos, saiu de casa no bairro de Hackney, leste de Londres. Levava uma peça de madeira debaixo do braço, embrulhada em um saco de plástico.

Stanley parou em um pub próximo. Quando saiu do bar, minutos depois, sempre com o saco, alguém julgou o pacote suspeito e supôs que ele poderia ser um terrorista armado do IRA. Mais do que depressa, o observador chamou a polícia.

Carros do CO19, com atiradores de elite, se dirigiram ao local. Já na calçada, dois agentes à paisana se aproximaram de Stanley, pelas costas.

— Pare! Polícia armada! — advertiu um deles, dedo no gatilho.

Numa reação instintiva, Harry Stanley virou-se para os policiais, girando o embrulho no movimento. E possível que nem tenha tido tempo de perceber o que acontecia. Foi imediatamente morto.

O escocês era um cidadão pacato, sem antecedentes criminais. A peça de madeira, apenas um pé de mesa que levava para conserto. Sua morte causou enorme revolta. Liderados por Irene, mulher de Stanley, seus parentes e amigos iniciaram uma campanha para que os matadores fossem julgados. Os dois agentes foram suspensos de suas funções. Em resposta, seus colegas do CO19 iniciaram uma greve branca, informal.

Na véspera do Natal de 2000, o Serviço de Promotoria da Coroa anunciou que os dois atiradores de elite não seriam acusados de nenhum crime. Manteve-se a tradição de impunidade policial, isso num país onde tradição tem força de lei.


23 — Visita de Estado

 

 

Sete de março de 2006. Menos de um ano após a execução em Stockwell. Sua Excelência o presidente Luiz Inácio Lula da Silva desembarcou em Londres para uma visita oficial a Sua Majestade, Elizabeth II.

Sob uma garoa fina, e obedecendo a um cerimonial rigidamente organizado e cronometrado, a rainha, segurando um guarda-chuva, chegou ao pavilhão erguido junto ao Palácio da Guarda Montada Real (Horse Guards), meio minuto antes do presidente Lula. Este surgiu numa imponente limusine negra, acompanhado da primeira-dama brasileira, Marisa Letícia. A rainha, por sua vez, trouxera a reboque o príncipe consorte Philip, duque de Edimburgo.

Até algum tempo atrás, Elizabeth II costumava receber os chefes de Estado estrangeiros na estação de Victoria, onde eles desembarcavam de um trem especial vindo do aeroporto. Mais tarde, por razões de segurança, a visita passou a ter início oficial no pavilhão dos Horse Guards, na extremidade nordeste do The Mall, a célebre e elegante avenida, pavimentada com asfalto vermelho, que vai de Whitehall até o Palácio de Buckingham.

Para receber Lula, a rainha vestia um tailleur pêssego. O presidente, um terno azul-marinho de corte impecável. No pavilhão estavam também perfilados o primeiro-ministro Tony Blair, sua mulher, Cherie, e integrantes do Gabinete. Após os cumprimentos de praxe, Lula e o príncipe Philip se destacaram do grupo e passaram em revista uma guarda de honra. Ao mesmo tempo, próximo dali, o Regimento Real de Artilharia disparava uma salva de tiros de canhão.

Executados os hinos nacionais da Grã-Bretanha e do Brasil, Lula e a rainha subiram numa carruagem negra, puxada por cavalos emplumados. Outra carruagem acomodou Philip e Marisa Letícia. Iniciou-se o cortejo até o palácio, onde o presidente Lula e a primeira-dama ficariam hospedados.

Nos postes do The Mall, bandeiras britânicas e brasileiras se alternavam. Apesar da chuva, muita gente, em sua maioria turistas, assistia à parada. Soldados da Guarda Real se perfilavam ao longo do caminho. Policiais fardados, de costas para o cortejo, vigiavam atentamente os espectadores.

Durante o trajeto, Lula, Elizabeth, Philip e Marisa Letícia, em seus respectivos carros, limitaram-se a trocar sorrisos — já que um casal não fala a língua do outro — e acenar para o povo. Quando chegaram à extremidade sudoeste do The Mall, as duas carruagens contornaram o memorial da rainha Vitória e entraram no palácio, sob o soar de trombetas e tambores. Os portões foram imediatamente fechados e a multidão se dispersou.

Digna de nota, a ausência de faixas de protesto contra a morte de Jean Charles de Menezes.

* * *

 

Não é comum a rainha hospedar dignitários estrangeiros em sua própria residência. Essa deferência especial acontece apenas duas ou três vezes por ano. Lula e sua mulher foram acomodados em uma ala com nove aposentos, uma piscina aquecida, 11 criados da corte à disposição e serviço de quarto dia e noite.

O primeiro compromisso do casal brasileiro foi um almoço íntimo, com a rainha e o príncipe consorte, no próprio palácio. À tarde, Lula e Marisa Letícia compareceram separadamente a vários eventos. O dia se encerrou com um banquete de gala no grande salão de jantar de Estado (State Dining Room), estando presentes o príncipe de Gales, sua mulher, Camilla Parker Bowles, outros integrantes da família real, Cherie e Tony Blair, membros das casas dos Lordes e dos Comuns, representantes do Corpo Diplomático, além de nobres da Corte de Saint James, celebridades as mais diversas e inúmeros outros convidados.

 

Embora todos os detalhes sobre as circunstâncias da morte de Jean Charles já tivessem sido revelados na ocasião, em momento algum dos três dias de visita oficial a rainha mencionou o fato ao colega brasileiro. Esse assunto só foi discutido no encontro entre Lula e o primeiro-ministro Tony Blair, no terceiro e último dia.

Após conversarem sobre comércio internacional, protecionismo, e sobre a possibilidade de o Brasil se tornar membro permanente do Conselho de Segurança da ONU, os dois chefes de governo falaram da tragédia de Stockwell. E depois concederam uma coletiva à imprensa. Então Blair expressou seu pesar (mas não pediu desculpas formais) pela morte do brasileiro. E fez questão de reiterar total apoio ao comissário da Polícia Metropolitana de Londres, sir Ian Blair.

Em resposta, Lula disse que o povo britânico foi "muito compreensivo" com o incidente.

 

Durante sua visita oficial a Londres, Lula encontrou-se com os familiares de Jean Charles de Menezes residentes na cidade. Mas a reunião só se deu ao final do terceiro e último dia de viagem, numa sala especial do aeroporto de Heathrow, quando o presidente se preparava para embarcar de volta à Brasília e já não tinha mais ocasião nem tempo de transmitir às autoridades inglesas as queixas da família.

Apesar disso, Lula encantou os parentes de Jean Charles.

— Ele é uma pessoa simples como nós — disse Alex, primo de Jean, em depoimento para este livro.

Como Alex voava naquele mesmo dia para o Brasil, Lula ofereceu-lhe uma carona no avião presidencial. Alex aceitou. Mas o convite durou pouco tempo. Minutos depois, Lula retirou a oferta, alegando que o embarque seria feito numa ala especial de segurança e que um passageiro extra seria impossível.

 

A bordo do luxuoso ACJ — Airbus Corporate Jetliner — da Força Aérea Brasileira, Lula, ex-torneiro mecânico, decolou do aeroporto Heathrow para o Brasil, 226 dias depois do eletricista Jean Charles de Menezes ter partido, do mesmo local, só que no porão de bagagens de um jato de passageiros.


24 — Serviço de má qualidade

 

 

Dezessete de julho de 2006, quase um ano após a execução de Jean Charles de Menezes: o CPS, Crown Prosecution Service — Serviço de Promotoria da Coroa — anunciou que nenhum agente policial ou integrante das Forças Armadas seria processado por assassinato ou qualquer outra ofensa criminal relacionada à morte de Jean. A decisão foi duramente criticada pela Anistia Internacional, pela ONG Justiça Global, por diversas outras organizações de defesa dos Direitos Humanos e recebida com revolta pela família Menezes.

 

Doze de setembro de 2006: Cressida Dick, mulher que, em 22 de julho de 2005, chefiou a desastrada operação policial em Scotia Road, Tulse Hill, Brixton e Stockwell, foi promovida a vice-comissária.

Cinco meses mais tarde, a mesma Cressida seria elevada ao quarto posto mais alto da hierarquia policial inglesa, o que a tornou responsável, entre outras coisas, pela proteção do corpo diplomático e da família real.

 

Dezenove de setembro de 2006: a própria Scotland Yard se declara isenta de qualquer culpa pela morte do brasileiro.

 

Dois de novembro de 2006: o jornal The Guardian informou, e a Scotland Yard assumiu, que um dos dois homens do CO19 que atiraram em Jean Charles de Menezes estava agora envolvido na morte a tiros de um suspeito de assalto a banco na cidade de New Romney, no Sudeste da Inglaterra. Sim. Depois de afastados do serviço ativo por algum tempo, os clones de James Bond haviam voltado. Em grande estilo, com licença para matar, sempre.

 

Onze de maio de 2007: a Corregedoria da Polícia Metropolitana (IPCC) decidiu que 11 dos 15 policiais envolvidos na morte de Jean Charles não sofrerão punições disciplinares. Essa decisão não satisfez totalmente a Scotland Yard, que exige uma conclusão rápida do inquérito que investiga os procedimentos dos outros três.

 

As instituições se mantiveram em seu curso normal e obtuso. Numa espécie de prêmio de consolação aos familiares de Jean, a Promotoria decidiu que a Polícia Metropolitana de Londres seria processada por infrações contra as seções 3 e 33 da legislação de Saúde e Segurança no Trabalho — Health and Safety at Work Act, de 1974 (como acontece, por exemplo, com um restaurante que vende comida estragada).

Se for considerada culpada, a Scotland Yard poderá ter de pagar uma indenização à família. O caso não irá a julgamento antes de outubro de 2007.

Segundo a acusação meticulosamente elaborada pelo promotor Mark Carroll, do CPS, "as forças [da Polícia Metropolitana] falharam na condução de sua operação de investigação, vigilância, perseguição e detenção de um suspeito de ser um homem-bomba. Com essa falha, Jean Charles de Menezes foi exposto a riscos a sua saúde e segurança".

Como se lhe tivessem servido um fish and chips deteriorado.

 

Desde a morte de Jean Charles de Menezes em Stockwell, seu nome tem sido indevidamente explorado por diversas entidades e movimentos políticos e religiosos, inclusive grupos de ativistas islâmicos e opositores da Guerra do Iraque e do governo de Tony Blair.

Na ânsia de se aproveitar da ocasião, nenhuma dessas instituições se preocupou em saber, e revelar ao grande público, quem era o verdadeiro Jean Charles: eletricista trabalhador, apolítico, rapaz que queria ser cidadão britânico para poder circular livremente pelo mundo. Jovem que temia e criticava abertamente o terrorismo, tanto que pretendia comprar uma motocicleta para se ver livre de possíveis atentados no underground.

Logo a imprensa de Londres percebeu essa manipulação e mostrou, em fotos publicadas nos jornais e exibidas na televisão, que várias pessoas que participavam de passeatas contra a Scotland Yard, por causa da morte de Jean Charles, podiam também ser vistas em manifestações contra a aliança Grã-Bretanha/Estados Unidos no Iraque e no Afeganistão. Essa generalização enfraqueceu a causa pró-Jean Charles de Menezes perante a opinião pública inglesa.

 

Apesar das distorções em seu contexto, provocadas pelos aproveitadores de plantão, a história real da morte de Jean Charles, e das arbitrariedades e injustiças cometidas após sua execução, é mais conhecida na Inglaterra do que no Brasil. Os ingleses sabem que Jean foi abatido por incompetência da polícia, e que a Scotland Yard fez de tudo para encobrir o crime de seus agentes.

 

Hoje em dia, quando se chega à estação de Stockwell, logo à esquerda da entrada principal há um memorial dedicado a Jean Charles, uma espécie de santuário. Foi feito sem autorização da prefeitura. Mas nenhuma autoridade ainda ousou mandar retirá-lo. Tudo ali foi posto por parentes e amigos de Jean, pela colônia brasileira em Londres e por pessoas, muitas das quais inglesas, que até hoje se indignam com as circunstâncias de sua morte.

Há jarros de flores, fotos de Jean, criança e adulto, poemas escritos em sua homenagem, orações e diversos recortes de jornais e revistas. Estes mostram, entre outras coisas, retratos do comissário da Polícia Metropolitana, sir Ian Blair, e da chefe do Comando Dourado em 22 de julho de 2005, Cressida Dick.

Para aumentar o constrangimento da Scotland Yard, há duas fotos, exibidas lado a lado, de Jean Charles de Menezes e Osman Hussein, o etíope que a polícia supunha vigiar naquela manhã trágica.


O memorial em homenagem a Jean Charles fica ao lado da

entrada da estação de metrô de Stockwell.

 

Vê-se claramente que não há nenhuma semelhança entre os dois homens. Nada a confundir. Nada a desculpar. Simples estupidez.

Diariamente pessoas anônimas chegam ao memorial, põem novas flores e trocam a água dos vasos, numa liturgia que vem se renovando desde o verão de 2005.


25 — Investigação em Londres

 

 

A rotina de trabalho investigativo para elaboração deste livro foi simples e objetiva. Após quase seis meses de pesquisas, consultas a jornais e revistas online, inúmeras conversas telefônicas e trocas de e-mails com Londres, viajei para a capital britânica no final de novembro de 2006.

Ao longo de dez dias, visitei os locais dos oito atentados de 7 e 21 de julho de 2005, ouvi depoimentos necessários ao esclarecimento da execução em Stockwell e refiz os trajetos de Jean Charles de Menezes no dia de sua morte.

Estive em Scotia Road, Romanfield Road, Marnfield Crescent, Upper Tulse Hill, Tulse Hill e Brixton. Esquadrinhei cada palmo da estação de Stockwell, onde Jean foi executado pelos homens do CO19. Anotei a posição das câmeras do circuito interno de tevê do underground, subi e desci várias vezes as escadas rolantes, medi tempo e distância nos saguões, corredores e plataformas. Cronometrei o tempo de parada dos trens da Northern Line no horário do rush matinal. Acompanhei atentamente o fluxo de pessoas entrando e saindo dos vagões.

 

Mais do que pesquisas de campo, precisei de testemunhos, de ouvir as pessoas envolvidas nos episódios, de saber exatamente como cada coisa aconteceu. E isso só pode ser feito num contato pessoal.

Jantei com Lana Vandenberghe, a canadense da IPCC que revelou a farsa da Scotland Yard. Estive na casa de Louise McGing e Neil Garrett (agora casados e pais de Joni, uma garotinha de 5 meses de idade), responsáveis diretos pelo furo de reportagem do telejornal ITV Evening News. Acompanhado de Saskia Wirth, chefe de publicidade da rede ITN, o casal contou detalhes da perseguição movida contra eles pela polícia.

Visitei, em Norbury, um subúrbio residencial ao sul de Londres, a casa onde mora o motoboy Alex Pereira, primo de Jean Charles. Conversamos ao longo de toda uma manhã de domingo. Almoçamos em um restaurante popular indiano. Nessas duas oportunidades, Alex me falou da rotina de trabalho e de lazer de Jean. Fez o relato dos acontecimentos do sábado 23 de julho de 2005, dia em que ele e os outros primos ficaram sabendo da tragédia e foram levados pela polícia para reconhecer o corpo no necrotério em Greenwich.

Também em um almoço, em Camden Town, Harriet Wistrich, uma das advogadas inglesas da família Menezes, me pôs a par do andamento dos processos sobre o caso Jean Charles na Justiça inglesa. Wistrich trabalha na firma de advocacia Birnberg Peirce Partners, especializada em causas que envolvem violações dos Direitos Humanos.

 

Alex Bellos, jornalista do The Guardian, ex-correspondente desse jornal no Rio de Janeiro e meu conhecido há muitos anos, me apresentou a um cineasta, Kevin Toolis, da Manyriversfilms, empresa que já produziu diversos filmes sobre terrorismo. Num almoço que tivemos num clube londrino, Toolis, que agora está fazendo um documentário sobre Jean Charles, me explicou, entre outras coisas, o método de operações do CO19.

Antes de viajar para Londres, conversei no Rio de Janeiro com Vicente Lou, proprietário e editor da revista Leros, publicada em português na capital inglesa e dirigida à colônia brasileira na cidade. Vicente, então de férias no Rio, me falou, entre outras coisas, das matérias que escreveu para sua revista nos dias que se seguiram à morte de Jean.

 

Evidentemente este relato não seria imparcial se eu ao menos não tentasse ouvir a atual versão da Scotland Yard e da IPCC sobre os fatos aqui narrados. Por isso troquei alguns e-mails com Nick Hardwick, comissário da corregedoria atualmente encarregado do caso.

Numa mensagem extremamente polida, Hardwick me disse que a IPCC só poderá se pronunciar sobre o assunto após o julgamento do caso na Justiça (as tais infrações contra a Segurança no Trabalho). "É improvável", escreveu ele, "que isso aconteça antes de outubro de 2007".

Hardwick não esperou tanto tempo. No dia 11 de maio de 2006, quando este livro já estava em fase de produção final, a IPCC, como já foi explicado, absolveu de qualquer culpa 11 policiais envolvidos na morte de Jean.

 

* * *

 

Tentei também entrar em contato com o Ministério das Relações Exteriores, em Brasília. Enviei-lhes um e-mail dando detalhes de meu projeto, mas jamais recebi uma resposta.


26 — Epílogo

 

 

Quando regressei de Londres, permaneci no Rio de Janeiro não mais do que uma noite. No dia seguinte ao de minha chegada, peguei meu carro e subi a BR-116 até Governador Valadares, 600 quilômetros ao norte do Rio. De lá, no domingo 3 de dezembro de 2006, fui para Gonzaga, seguindo o carro-reportagem de uma equipe do jornal Diário do Rio Doce, de Valadares. Eles queriam ver "Como nasce um livro", tema de uma matéria, sugerida por mim, que publicaram dias depois.

 

Na entrada da cidade, um portal cobrindo toda a estrada, anuncia: "Bem-vindo a Gonzaga, terra de Jean Charles, vítima do terrorismo inglês." Mais uma ou duas curvas, e outras tantas esquinas, e chega-se ao centro urbano, com seu calçamento de pedras. Em meio às motos e picapes novinhas, compradas com dinheiro que os emigrantes gonzaguenses trazem ou remetem de fora, as ferraduras dos cavalos em trote rápido soltam faíscas no contato com o piso.

Visitei, na praça principal, a austera igreja onde foi rezada, 15 meses antes, a missa de corpo presente de Jean. Subi a colina do cemitério. Sobre a sepultura de mármore, que se destaca de todos os outros túmulos, uma lápide tem a seguinte inscrição: "Jean Charles de Menezes 07.01.1978†22.07.2005 — Saudades de seus pais, irmãos, parentes e amigos."

Da cidade, fomos até a fazenda do prefeito municipal, Júlio Maria de Souza, no Córrego da Brejaúva. Ele me concedeu uma entrevista contando como foi a missão de dar aos pais de Jean a notícia da morte do filho. Depois nos explicou como chegar ao sítio de Maria Otone e Matozinho, em Córrego dos Ratos.

 

Como Córrego dos Ratos estava quase ilhado pelas chuvas torrenciais que haviam caído no leste de Minas no final de novembro, e as estradas vicinais da região são extremamente precárias, eu nem sabia se os carros chegariam lá. Mas eu chegaria, com certeza. Nem que fosse de trator, a cavalo, a pé ou chafurdando na lama. Felizmente, nada disso foi necessário. Deu para passar, apesar de diversos atoleiros e de alguns mata-burros destruídos pelas correntezas.

O risco maior era não encontrar os pais de Jean Charles. Como o sítio não tem telefone, era impossível saber se eles estariam em casa. Poderiam estar em alguma roça distante, ou visitando um parente em outro córrego. Não faziam a menor ideia de que eu iria procurá-los. Muito menos de quem eu era. Podiam também estar cansados de dar entrevistas: a Globo já esteve lá, assim como a BBC, o The Guardian, o Independent etc.

Eu conhecia o rosto de Matozinho apenas pela foto no memorial de Stockwell. Mas, assim que o vi, encostado na estaca da porteira de entrada do sítio, num sóbrio e elegante traje domingueiro, como se adivinhasse a chegada de visitas, o identifiquei imediatamente. Desci do carro, apertei sua mão e fui direto ao assunto. Disse-lhe que estava escrevendo a história de seu filho. Ele me recebeu muito bem desde o primeiro instante.

A equipe do jornal acompanhou o início da entrevista, tirou algumas fotos e voltou para Governador Valadares. Continuei conversando, durante várias horas, na sala de estar da casa, com a família reunida: Matozinho, Maria Otone e Giovani, irmão mais velho de Jean Charles. Só então conheci verdadeiramente meu personagem. Soube de sua infância na roça, de sua passagem por São Paulo, de seus sonhos e ambições, ouvi a história do garotinho superdotado que queria ser eletricista quando crescesse.

Em determinado momento, Matozinho me levou para conhecer sua criação de porcos e galinhas e o pasto onde ficam algumas reses. Mostrou benfeitorias feitas na propriedade com dinheiro que Jean trouxe de Londres. Subimos parte do morro atrás da casa e chegamos até um ponto de onde pudemos ter uma visão panorâmica de Córrego dos Ratos.

Cheguei então ao final de meu trabalho de pesquisas. Precisava voltar para Gonzaga antes do pôr do sol, para não ficar preso num dos inúmeros lamaçais do caminho.

Maria Otone me deu um abraço afetuoso. Giovani me acompanhou até o carro. Enquanto isso, Matozinho foi depressa abrir a porteira. Ficou lá parado, esperando eu passar.

Antes de dobrar a primeira curva da estrada, olhei para trás, pelo espelho retrovisor, e vi seu braço erguido em despedida. Fiquei imaginando se ele não fez a mesma coisa quando, em abril de 2005, viu seu filho caçula, Jean Charles, saindo de casa pela última vez.

 

 

                                                                  Ivan Sant’Anna

 

 

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