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EMPRESTA-NOS O SEU MARIDO / Graham Greene
EMPRESTA-NOS O SEU MARIDO / Graham Greene

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

EMPRESTA-NOS O SEU MARIDO

 

Com este livro, Graham Greene volta ao género pelo qual nos tem oferecido as suas melhores produções: a novela. Com efeito, cada uma das novelas de EMPRESTA-NOS o SEU MARIDO5 ultrapassa a simples anotação, o episódio ou a pura fantasia para se tornar um verdadeiro romance comprimido. Como se brincasse, com uma esfuziante agilidade, o autor de «Os Comediantes» executa autênticos malabarismos, em todas as tonalidades. Salta da ironia para a comicidade e desta, por vezes, quase para o trágico. Mas, por detrás da aparência, do fulgurante virtuosismo do escritor, é necessário procurar a razão do jogo. Neste aspecto, o leitor transforma-se num colaborador de Greene. Nada é deixado, porém, ao acaso. Não apenas o malabarista vigia todos os seus gestos, como o humor com que segue as trajectórias dos objectos humanos que lança, torna a lançar e entrechoca, não é possível senão por uma enorme experiência do mundo e de viajante. Graham Greene passa do Sul da França para a Inglaterra e dali para as Caraíbas, como se estivesse sempre no seu próprio meio, já que sabe que há climas mais favoráveis à eclosão de certas paixões.

EMPRESTA-NOS o SEU MARIDO é uma obra de tal riqueza, caleidoscópica, que, ao voltarmos a sua última página, ficamos com a sensação de que acabámos de ler vários livros. «Lemos, tornamos a ler e somos presos várias vezes pela mesma história, a ponto de esquecermos que, por detrás de cada uma delas, está um autor», escreveu um grande crítico inglês.

 

*                    *                    *

 

Nunca lhe ouvi chamar senão Poopy (1), quer pelo marido, quer pelos dois homens que se tornaram seus amigos. Talvez eu estivesse de certo modo apaixonado por ela (se bem que tal coisa pareça absurda na minha idade), pois verifiquei que me penalizava quando ouvia tratá-la assim. Era em tudo descabido aplicar esse nome a uma pessoa tão nova e ingénua - demasiado ingénua mesmo. Estava na idade da confiança, tal como eu na do cinismo. «A boa e velha Poopy», até ouvi o mais velho dos dois decoradores chamar-lhe assim, muito embora ele não a conhecesse há tanto tempo como eu. A alcunha poderia ficar bem a qualquer mulher de meia-idade, desleixada, que se metesse um pouco na bebida, mas que houvesse utilidade de exibir como disfarce, e, para falar a verdade, estes dois bem necessitavam disso. Um dia perguntei à rapariga qual era o seu verdadeiro nome e ela só me respondeu que todos lhe chamavam Poopy, como se isso fosse

 

Nota 1: Em linguagem vulgar significa: traquezinho, peidinho.

 

explicação, e receei, insistindo na pergunta, mostrar-me demasiado indiscreto - talvez também demasiado idoso. No entanto, embora me repugne o nome, sempre que o escrevo, é Poopy que tenho que lhe chamar. Não há outra alternativa.

Estava em Antibes, a trabalhar numa biografia do conde de Rochester, poeta do século XVII, já havia mais de um mês, quando Poopy e o marido chegaram. Eu instalara-me, mal a estação elegante acabara, num hotel feio e pequeno, junto ao mar, não longe das muralhas, e conseguia ver daí as árvores despirem as folhas no Bulevar General Leclerc. A princípio, mesmo antes das folhas começarem a tombar, os carros estrangeiros iniciaram a sua rota de regresso. Semanas antes, contara catorze nacionalidades, incluindo marroquinos, turcos, suecos e luxemburgueses, entre o mar e a Praça De Gaulle, onde ia todos os dias buscar os meus jornais ingleses. Agora, haviam desaparecido todas as chapas de matrícula estrangeira, à excepção dos belgas e dos alemães, um ou outro ocasional inglês e, claro está, as ubíquas matrículas do Principado de Mónaco, que se vêem um pouco por toda a parte. O tempo frio viera cedo e, em Antibes, só há sol de manhã, o que é esplêndido para tomar o pequeno-almoço nos terraços, mas será mais seguro almoçar dentro de casa, se não quisermos que as sombras nos envolvam na altura do café. Havia um argelino, frio e solitário, que passava o tempo encostado às muralhas, como se procurasse qualquer coisa, quem sabe se porventura a segurança.

Era a altura do ano de que eu mais gosto, quando Juan les Pins se torna tão esquálido como um arraial com Luna Parque, já no desmanchar da feira, e os cartazes anunciam o «fecho de época» no exterior das barracas do Pam-Pam, do Maxime, do Concurso Internacional dos Amadores de Striptease, do Vieux Colombiers, preparando-se para uma nova temporada. É então que Antibes toma aspecto de pequena cidade de província, com o Auberge de Provence cheio de gente da região e os velhos se instalam bebendo cerveja ou pastis no vendedor de gelados da Praça De Gaulle. O pequeno jardim que forma rotunda nas muralhas tem um aspecto triste, com as palmeiras baixas e encorpadas a pender para o solo as suas frondes castanhas; de manhã, o Sol brilha sem esplendor e as poucas velas brancas cortam com suavidade o mar, cujo fulgor não cega.

Pode-se sempre confiar que um inglês aprecia mais o Outono que qualquer outra pessoa. Temos uma fé inquebrantável no sol do sul e surpreendemo-nos quando um vento gelado sopra sobre o Mediterrâneo. É a ocasião das renhidas disputas com os donos dos hotéis, sobre o aquecimento no terceiro andar e o frio que entra pelo telhado e nos gela os pés. Para um homem já de certa idade, que só deseja bom vinho, bom queijo e pouco trabalho, é a melhor estação do ano. Recordo como me desagradou a chegada dos dois decoradores, no momento preciso em que esperava ser o único hóspede estrangeiro, e as esperanças que alimentei de que fossem aves de arribação. Apearam-se antes do almoço de um Sprite vermelho - carro demasiado jovem para eles - e trajavam elegantes fatos desportivos, que teriam mais êxito em qualquer outro lado. O mais velho devia andar à roda dos cinquenta anos, com o cabelo já grisalho e excessivamente ondeado sobre as orelhas para que fosse natural; o mais novo já devia passar dos trinta e tinha o cabelo tão preto quanto o do outro era branco. Soube que se chamavam, o primeiro Stephen e o segundo Tony, antes de chegarem ao gabinete da recepção, pois tinham umas vozes claras e penetrantes, se bem que superficiais, tal como o olhar com que me envolveram, quando eu estava no terraço a beber um Ricard, e, verificando que não mostrava o mínimo interesse por eles, seguiram o seu caminho. Não se manifestavam arrogantes; era evidente que se preocupavam mais um com o outro, e, no entanto, talvez, como um casal já unido há um par de anos, não muito profundamente.

Pouco tempo depois já possuía muitas informações acerca deles. Dispunham de dois quartos contíguos, no meu andar, se bem que duvide que ambos com frequência albergassem os respectivos locatários, pois costumava ouvir as suas vozes num só dos quartos, a maior parte das noites, quando me ia deitar. Pareço demasiado curioso pela vida dos outros? Mas para minha própria defesa será bom dizer que os acontecimentos desta comediazinha me chamaram a atenção por insistência dos seus próprios participantes. A varanda onde trabalhava todas as manhãs na biografia de Rochester dá para o terraço, no qual os dois decoradores tomavam o café, e mesmo quando se sentavam a uma mesa que ficasse fora do meu campo de visão aquelas vozes claras e bem articuladas vinham até mim. Não os queria ouvir; precisava de silêncio para trabalhar. As relações de Rochester com uma actriz, Mrs. Barry, eram a minha preocupação do momento, mas é quase impossível num país estrangeiro não escutar quando alguém fala a nossa língua. Se fosse francês, talvez passasse como uma espécie de ruído de fundo, mas não podia deixar de ouvir o que diziam em inglês.

- Meu caro, adivinha lá quem me escreveu?

- Alec?

- Não,  Mrs. Clarenty.

- Que quer o estafermo da velha?

- Protesta contra a decoração do quarto.

- Mas, Stephen, é uma coisa deliciosa. Alec nunca fez nada tão belo. Velha tonta...

- Presumo que deseja qualquer coisa mais núbil e menos necrófilo.

- A libertina da velha!

Estes dois eram sem dúvida pessoas robustas. Todas as manhãs, por volta das onze horas, iam tomar o seu banho para uma pequena ponta rochosa que ficava a certa distância e do lado oposto do hotel - e desfrutavam o Mediterrâneo da época do Outono, tanto quanto os olhos podiam abarcar, só para eles. Quando voltavam, vinham em passo estugado, com uns biquinis elegantes, ou davam uma corrida para aquecer - eu tinha a impressão que nadavam menos por prazer do que para fazerem exercício, no fito de manterem a elegância das pernas, o ventre chato, as ancas escorridas, para mais recônditos e etruscos passatempos.

Ociosos não eram. Partiam no seu Sprite para Cagnes, Vence, St. Paul, para qualquer vila onde houvesse uma casa de antiguidades para pilhar, e voltavam com objectos de madeira de cerejeira, velhas lanternas, esculturas religiosas pintadas, que na loja me teriam parecido horríveis ou banais, mas suponho que na imaginação deles se adaptavam a qualquer decoração que fosse a antítese do lugar-comum.

Não quero dizer com isto que o seu espírito estivesse sempre ocupado com a profissão. Também descansavam.

Uma tarde encontrei-os num bar de marinheiros no velho porto de Nice. Desta vez a curiosidade fez com que os seguisse, pois vira o carro vermelho à porta do estabelecimento. Estavam acompanhados por um jovem dos seus dezoito anos, que, pela maneira como vestia, julguei ser ajudante de um barco que seguia para a Córsega e nessa ocasião se encontrava atracado ao cais. Quando entrei, ambos olharam para mim cheios de interesse, como se estivessem a pensar:

«Ter-nos-ia ele enganado?»

Bebi um copo de cerveja e saí, mas quando passei pela mesa deles o mais novo deu-me as boas-tardes. Depois disto, passámos a cumprimentar-nos no hotel sempre que nos encontrávamos. Era como se eu tivesse sido admitido na sua intimidade.

Durante uns dias o tempo correu com tanta lentidão como a biografia de Lord Rochester. Deixara-o no estabelecimento de banhos de Mrs. Fourcard, em Leather Lane, a fazer uma cura de mercúrio contra doenças venéreas, e esperava que me mandassem um pacote de notas sobre o assunto, que inadvertidamente deixara em Londres. Não podia prosseguir com o trabalho enquanto os papéis não viessem, e durante esses dias a minha única distracção foram estes dois. Quando se instalavam no carro para ir dar algum passeio, à tarde ou à noite, pela maneira como iam vestidos imaginava sempre a natureza dessa digressão. Tinham um modo cuidado de se arranjar, e a simples troca de camisola indicava-me a sua disposição; vestiam igualmente bem se iam para o bar, muito embora com mais simplicidade; quando tratavam de negócios com uma antiquária lésbica de St. Paul, os lenços que usavam davam-lhes um certo ar de masculinidade. Certa vez, deixei de lhes pôr os olhos em cima durante uma semana, mas então vira-os abalar vestindo aquilo que eu julguei serem os fatos mais cómodos que tinham. Quando regressaram, o mais velho trazia uma contusão na face direita. Disseram-me que haviam ido à Córsega.

- Gostaram? - perguntei-lhes.

- Verdadeiramente bárbaro - respondeu-me o mais novo, Tony, mas julgo que não foi por encómio.

Viu-me olhar para o rosto de Stephen e acrescentou com vivacidade:

- Tivemos um acidente na montanha.

Dois dias passados sobre isto, ao sol-pôr, chegou Poopy com o marido.

Eu estava de novo a trabalhar na biografia, sentado na varanda, com o sobretudo vestido, quando parou um táxi. Reconheci o motorista que frequentava com certa regularidade o aeroporto de Nice. A primeira coisa que me chamou a atenção, porque os passageiros ainda estavam ocultos, foram as malas, que eram de um azul-vivo e impecavelmente novas. Até mesmo as iniciais - aquele absurdo PT - brilhavam como moedas recentemente cunhadas. Havia uma mala-grande, outra pequena e uma caixa de chapéus, todas do mesmo azul cerúleo, e ainda uma respeitável mala de couro verdadeiramente imprópria para viagens de avião, daquele género de malas que se herdam do pai, com um resto de rótulos do Shepheard's Hotel ou do Vale dos Reis. Depois surgiram os passageiros e foi então que vi Poopy pela primeira vez. Lá em baixo, os decoradores também estavam atentos, bebendo um Dubonnet.

Era uma rapariga muito alta, esguia e jovem, com um vestido tão novo como as malas. Ela disse:

- Finalmente.

Ao mesmo tempo que proferiu esta palavra olhou para a incaracterística fachada do hotel com exultação - ou talvez fosse simplesmente devido ao feitio dos olhos. Quando atentei no jovem que a acompanhava, tive a certeza de que eram noivos; não me surpreenderia se lhe caíssem papelinhos de qualquer costura do fato. Pareciam uma fotografia do Tatler: sorrisos estereotipados um para o outro, em que se adivinhava um certo nervosismo latente. Tive a certeza de que acabavam de fugir ao copo-d'água e aos convidados - e que fora uma recepção elegante, depois de um digno casamento na igreja.

Formaram um par elegante quando, durante um momento, hesitaram em subir as escadas que davam para a recepção do hotel. O grande feixe luminoso do farol de la Garoupe varreu a água por detrás deles e as luzes do hotel acenderam-se no exterior, como se o gerente estivesse à espera da sua chegada para manobrar o interruptor. Os dois decoradores olhavam sem tocar nas bebidas, e reparei que o mais velho tapou a contusão do rosto com um lenço muito branco. Claro que nem um nem outro olhavam sequer para a rapariga, mas sim para o rapaz. Era uma figura muito alta, tão elegante como a jovem companheira, com um rosto que poderia servir para cunho de moeda, inteiramente belo e sem expressão, mas talvez fosse devido simplesmente ao estado de nervos. O fato, também julgo que tivesse sido comprado para a ocasião: casaco de corte desportivo com duas rachas atrás e calças cinzentas um pouco cingidas, para realçar as longas pernas. Pareceu-me que ambos eram demasiado jovens para se casarem - duvido que juntos perfizessem quarenta e cinco anos -, e senti desejos de me encostar à varanda para lhes gritar:

- Neste hotel, não. Qualquer outro que não seja este.

Talvez lhes pudesse ter dito que o aquecimento era insuficiente ou que a água quente só aparecia de vez em quando, que a comida era má, se bem que os ingleses não se interessem muito pela comida, mas, claro, não me dariam ouvidos e eu deveria parecer-lhes um velho lunático. Imagino que na carta que escrevessem para casa diriam o seguinte: «Um desses ingleses excêntricos que viajam pelo continente...» Foi a primeira vez que me apeteceu intervir, e não os conhecia de parte nenhuma. Da segunda vez já era tarde, mas julgo que para sempre lamentarei não ter deixado explodir o tal ataque de loucura...

Fora o silêncio e o estado de atenção dos outros dois, cá em baixo, que me aterrorizaram, e a mancha do lenço branco a esconder a vergonhosa contusão. Pela primeira vez ouvi o nome odioso:

- Vamos ver o quarto, Poopy, ou bebemos qualquer coisa antes?

Decidiram ir ver o quarto e os dois copos de Dubonnet tilintaram, de novo em acção.

Julgo que ela tinha mais do que ele a noção de como uma lua-de-mel devia decorrer, porque nessa noite não os tornei a ver.

 

Cheguei já tarde para tomar o pequeno-almoço no terraço, mas reparei que Stephen e Tony se demoravam mais do que habitualmente. Talvez tivessem decidido, por fim, que já estava demasiado frio para tomar banho; no entanto, pareceu-me que tinham ficado ali à espera. Nunca antes haviam sido tão simpáticos para comigo, e eu cuidei se não estariam a considerar-me uma espécie de capa, dada a minha triste e normal aparência. Nesse dia, não sei por que razão, a minha mesa fora tirada do seu lugar habitual e ficara à sombra, de modo que Stephen sugeriu que me sentasse na deles: iam já embora, era só tomarem mais uma chávena de café... Reparei que se notava muito menos a nódoa negra na cara, mas presumo que ele lhe tivesse aplicado pó-de-arroz.

- Ainda cá ficam muito tempo? - perguntei-lhes, inteiramente consciente de quanto era desastrado, ao comparar-me com a sua subtileza na conversa.

- Tínhamos pensado partir amanhã - respondeu-me Stephen -, mas ontem à noite mudámos de ideia.

- Ontem à noite?

- Não acha que esteve um dia magnífico? Eu até disse a Tony que essa pobre e sinistra Londres bem pode esperar mais uns dias.

- Os vossos clientes são assim tão pacientes?

- Meu caro, os clientes?! Em toda a sua vida, com certeza que nunca teve de enfrentar as atrocidades dos que nos saem ao caminho, em Brompton Square e em locais idênticos. É sempre assim. Aqueles que pagam para lhes decorarem a casa têm por via de regra um gosto abominável.

- No entanto, os senhores prestam um serviço à humanidade.  Pensem no que sofreríamos se não fossem vocês. Em Brompton Square...

Tony riu baixinho e acrescentou:

- Nem sei como suportaríamos isso se não tivéssemos as nossas facécias pessoais. Por exemplo, o caso de Mrs. Clarenty. Instalámos-lhe em casa aquilo a que chamamos as Latrinas de Luculo.

- E ela ficou encantada - acrescentou Stephen.

- As formas vegetais mais obscenas que possa conceber. Faziam-me lembrar as festas das colheitas.

Subitamente ficaram calados e atentos, observando alguém que devia estar atrás de mim. Voltei-me. Era Poopy, sozinha. Ficou imóvel, esperando que o criado lhe indicasse a mesa onde se devia sentar, tal como uma rapariguinha que não conhece as normas no primeiro dia de escola. Chegava até a parecer que trazia um uniforme escolar: calças apertadas, abertas no tornozelo - não lhe passara pela cabeça que o Verão acabara. Vestira-se assim, estou certo, para passar despercebida, para se ocultar, mas só havia mais duas senhoras no terraço e qualquer delas vestia uma discreta saia de fazenda. Olhou para elas com um sentimento de nostalgia, quando passou junto da nossa mesa, acompanhada pelo criado, que a levou até uma mesa mais próxima do mar. Dentro das calças, as pernas mexiam-se desajeitadamente, como se se sentissem nuas. Tony comentou:

- A jovem noiva!

- E já abandonada - notou  Stephen com extrema satisfação.

- Sabe que se chama Poopy Travis?

- Que estranha ideia a de terem escolhido tal nome. Com certeza que não foi assim que lhe chamaram na pia baptismal, a não ser que encontrassem um padre extraordinariamente benévolo.

- Ele chama-se Peter. Não tem emprego definido. Exército? Não,  não creio, e você?

- Oh! não, não me parece que pertença ao exército. Talvez qualquer coisa que esteja ligada à agricultura... Traz agarrado a si um cheiro a erva.

- Está bem informado do que lhe diz respeito - comentei eu.

- Antes do jantar passámos os olhos pela ficha de polícia.

- Tenho a impressão - disse Tony - que em Poopy não se apercebe o mínimo vestígio das suas pugnas nocturnas.

Durante um instante, olhou a jovem com uma expressão que se assemelhava singularmente a um sentimento de ódio.

- O que nos impressionou - exclamou Stephen - foi o ar inocente de Peter. Sente-se que se preocupa demasiado com cavalos.

- Confundiu o montar um cavalo com outra montada diferente.

Talvez que ao dizer isto esperasse chocar-me. No entanto, não o creio. O que me parece é que estavam num intenso estado de excitação sexual. (Na véspera à noite, no terraço, das tinham ficado pelo beicinho e eram incapazes de disfarçar os seus sentimentos. Era um pretexto para falar do objecto do seu desejo, fazendo conjecturas a tal respeito. O marinheiro não fora mais do que um passatempo, mas este era a sério. Deu-me vontade de rir. Que poderiam esperar estes dois indivíduos absurdos do jovem que acabava de casar com uma rapariga bonita, que com toda a paciência o esperava, usando a sua beleza como um velho casaco de malha que se esquecesse de despir? Mas a minha comparação é falsa, pois ela recearia vestir um velho casaco de malha, a não ser que fosse às escondidas, quando estivesse sozinha no quarto das crianças: ignorava totalmente que era uma dessas pessoas que se podem dar ao luxo de escolher o seu guarda-roupa sem se preocuparem com a moda. Os seus olhos cruzaram-se com os meus e (suponho que lhe devo ter parecido inglês) dirigiu-me um sorriso tímido. Talvez eu também fosse vítima de paixão súbita, se não tivesse trinta anos a mais e dois casamentos no meu activo.

Tony reparou no sorriso e comentou:

- Capaz de ressuscitar um morto.

O jovem marido chegou ao mesmo tempo que o meu pequeno-almoço e antes de eu ter tempo de responder. Quando passou perto da nossa mesa a tensão tornou-se perceptível.

- Cuir de Russie - disse Stephen de narina palpitante. Erro de noviço.

Ao passar, o rapaz ouviu o comentário e voltou-se surpreendido, para ver quem havia pronunciado essas palavras, e, com toda a insolência, os decoradores sorriam-lhe francamente, como se acreditassem ter na verdade poder de o chamar ao seu seio...

Foi a primeira vez que me senti inquieto.

 

No entanto, havia qualquer coisa que não corria bem: era a triste evidência. A jovem descia sempre antes do marido para o pequeno-almoço. Julgo que o rapaz levasse muito tempo a tomar banho, a fazer a barba e a perfumar-se com Cuir de Russie. Antes de se sentar à mesa, dava-lhe delicadamente um beijo fraternal, como se não tivessem passado a noite juntos na mesma cama. Nela começavam a acentuar-se as olheiras que denunciam falta de sono... porque nada me fazia acreditar que aqueles círculos roxos traduzissem «o desejo satisfeito». Às vezes, lá de cima, da minha janela, via-os regressar dos seus passeios... Nada, a não ser talvez uma parelha de cavalos, poderia ser mais belo. A gentileza com que ele a tratava não poderia deixar de tranquilizar a mãe da rapariga, mas para um homem era irritante vê-lo com tais cuidados, quando atravessavam a estrada onde não havia nenhum perigo, a abrir-lhe as portas para a deixar passar à frente e a segui-la a um passo de distância como se se tratasse de uma princesa. Já me tardava ser testemunha de uma pequena explosão de mau humor causada pela saciedade, mas nunca tinham o ar de conversar um com o outro, quando voltavam de qualquer passeio, e durante as refeições acontecia-me ouvir uma daquelas frases que trocam entre si, por pura delicadeza, os convivas reunidos em volta de uma mesa. E, no entanto, eu iria jurar que ela o amava, quanto mais não fosse pela maneira discreta como evitava vigiá-lo. Nela não havia nada, nem de faminto, nem de ávido. Lançava-lhe olhares rápidos, quando tinha a certeza de que a sua atenção estava fixada em qualquer outra parte: eram olhadelas ternas, talvez ansiosas, mas que nada reclamavam. Se lhe faziam alguma pergunta, quando ele ainda não descera para o almoço, a rapariga rejubilava só de poder pronunciar o seu nome - Peter.

- Oh! Peter esta manhã deixou-se dormir!

- Peter cortou-se, está a ver se o sangue estanca.

- Peter perdeu a gravata. Está convencido de que foi o criado de quarto que lha surripiou.

Não havia dúvida que a rapariga o amava. Dos sentimentos dele, porém, não estava eu tão certo.

E devem calcular que durante todo este tempo os outros continuavam com a sua ofensiva. Dir-se-ia o assédio de uma cidade da Idade Média: abriam os seus fossos e erguiam as defesas. A única diferença é que o sitiado não dava pelas manobras - pelo menos a rapariga não suspeitava de nada. Quanto a ele, nada posso afirmar. Desejava preveni-la, mas que poderia eu dizer sem me arriscar a chocá-la ou a que se molestasse comigo? Convenço-me, que os decoradores teriam mudado de andar, se isso os tivesse aproximado mais da fortaleza; provavelmente haviam discutido o problema, mas desistiram ao pensar como isso os denunciaria.

Como compreendiam que contra eles eu não teria o menor poder, consideravam-me quase como um aliado.

Quem sabe se um dia lhes não viria a ser útil, distraindo a rapariga, e suponho que, de todo em todo, se não enganavam; pela maneira como a olhava, perceberam quanto ela me interessava, e, sem dúvida, já haviam concluído que a certa altura os nossos interesses deviam coincidir. Nunca lhes deve ter passado pela cabeça que eu era um homem de escrúpulos. Quando na verdade temos interesse seja pelo que for, os escrúpulos, pelo menos aos olhos deles, eram inteiramente descabidos. Em St. Paul tinham visto numa loja uma moldura de tartaruga e procuravam processo de a comprar por metade do preço (creio lembrar-me de uma velha mãe que ficava à testa da loja, enquanto a filha passava os seus bocados numa boîte para mulheres de certos gostos); era lógico, portanto, pensavam eles todas as vezes que eu olhava para a rapariga, o que fazia com frequência, que eu me viesse a associar a qualquer combinação «razoável».

«... Que eu olhava para a rapariga...» Reparo agora que ainda não tentei realmente sequer descrevê-la. Quando se escreve uma biografia, claro que se pode inserir um retrato, e o problema fica resolvido: tenho na minha frente reproduções de Lady Rochester e de Mrs. Barry. Mas falando como novelista profissional (porque a biografia e as reminiscências são para mim novas formas) não se descreve uma mulher para que o leitor a veja em todos os seus paralisantes pormenores de cor e de forma (quantas vezes os minuciosos retratos de Dickens parecem ser indicações para o ilustrador que, acabado o livro, poderia ter sido dispensado), mas para partilhar uma emoção. Que seja o leitor a criar para si próprio a imagem de uma esposa, de uma amante, uma transeunte «doce e boa» (o poeta não teve necessidade de um maior poder descritivo), se na verdade o quiser fazer. Se eu quisesse descrever a rapariga (neste instante não sou capaz de escrever o nome odioso), não seria para falar na cor do cabelo, na forma da boca, mas para me referir ao prazer e à dor que sinto quando a recordo - eu, o escritor, o observador, a personagem subsidiária, o que quiserem. Mas não me tendo dado ao trabalho de o fazer para ela, para que o ia fazer para ti, hypocrite lecteur?

Com que velocidade trabalhavam de sapa aqueles dois! Cuido que deveriam talvez ter passado quatro manhãs sobre a chegada do casalinho quando, ao descer para o pequeno-almoço, descobri que haviam mudado a mesa para junto da da rapariga e que a distraíam na ausência do marido. E faziam-no bem; era a primeira vez que a via descontraída e feliz, e sentia-se feliz porque falava de Peter. Peter era agente do pai, algures no Hampshire, e tinha muitas terras para gerir. Sim, ele gostava muito de andar a cavalo, e ela também. Tudo se ia sabendo a pouco e pouco... a forma de vida que ela esperava fazer quando voltasse para casa. Stephen, de vez em quando, dizia uma palavra, com certo interesse cortês, um tanto fora de moda, para a obrigar a falar. Parece que há muito já decorara uma casa nas imediações daquela onde viviam e conhecia o nome de algumas pessoas que Peter conhecia também - julgo que um tal Winstanley -, o que deu à rapariga toda a confiança.

- É um dos melhores amigos de Peter - comentou ela, e os dois homens olharam um para o outro e bateram as pálpebras de uma maneira tão especial que me fez lembrar a língua dos lagartos.

Quando Stephen reparou que na minha mesa se ouvia o que se passava, disse-me:

- William, venha para o pé de nós. Conhece Mrs. Travis? Como poderia recusar sentar-me à sua mesa? E, no entanto, ao fazê-lo parecia que me tornava seu aliado.

- Não é William Harris? - perguntou a rapariga.

Era a frase que eu detestava, e, no entanto, ela transformava mesmo isso, com o seu ar de inocência, pois tinha a capacidade de tornar tudo novo: Antibes convertia-se numa descoberta constante e nós éramos os primeiros estrangeiros a fazê-lo. Quando me disse: «Claro que nunca li nenhum dos seus livros», pareceu-me ouvir pela primeira vez uma observação que me era mais que familiar; até mesmo me pareceu prova da sua honestidade - quase que ia a escrever da sua virginal honestidade.

- Muitas coisas deve conhecer sobre as pessoas - acrescentou ela, e de novo eu compreendi, na banalidade do comentário, um apelo não sei contra quem, contra aqueles dois ou contra o marido, que nesse momento entrava no terraço.

Tinha o mesmo ar nervoso, os mesmos círculos roxos em volta dos olhos, e, como já escrevi, para qualquer estranho poderiam passar por irmão e irmã. Hesitou ao ver-nos todos sentados à mesma mesa, e a mulher gritou-lhe:

- Vem,querido,vem conhecer estes senhores tão simpáticos.

O rapaz não dava mostras de ter ficado satisfeito, mas sentou-se, um pouco mal-encarado, e perguntou se o café ainda estaria quente.

- Vou mandar vir outro, querido. Olha, conhecem os Winstanley, e apresento-te ao célebre William Harris.

Olhou-me sem o mínimo interesse; penso que lhe passou pela cabeça que eu devia de certa maneira estar ligado ao comércio de propriedades.

- Ouvi dizer que gostava de cavalos - disse Stephen e estava a pensar se você e sua mulher não quereriam vir almoçar connosco no sábado, em Cagnes. Amanhã, não é verdade? Há lá um magnífico hipódromo.

- Não sei - respondeu o rapaz, olhando indeciso para a mulher.

- Mas, querido, claro que devemos ir. Tenho a certeza de que vais gostar.

O rosto do marido tranquilizou-se de súbito. Penso na verdade que fora um escrúpulo de natureza social que o fizera hesitar: a dúvida se durante a lua-de-mel se devem aceitar convites. Depois disse:

- É muito amável da sua parte, Mr....

- Principiemos como temos tenção de continuar. Eu sou Stephen e este é Tony.

- E eu Peter.

Com um ar evidentemente aborrecido acrescentou, apresentando a mulher:

- A Poopy.

- Tony, tu levas Poopy no Sprite, e Peter e eu vamos de autocarro.

Tive a impressão, e julgo que Tony pensou a mesma coisa, de que Stephen marcara um ponto.

- Vem connosco, Mr. Harris? - perguntou a rapariga, empregando o meu apelido como se desejasse assinalar a diferença entre eu e os outros.

- Não posso. Tenho o trabalho muito atrasado. Nessa noite, da minha janela, vi-os quando voltavam de Cagnes, e, ao ouvir como todos juntos se riam, pensei para comigo: «O inimigo já está dentro da fortaleza. É uma questão de tempo.» Na verdade, de muito tempo, pois aqueles dois procediam com todas as cautelas. Não se tratava desta vez de uma atracção como a que, suspeitava eu, dera origem àquela contusão com que voltara da Córsega.

 

Para aqueles dois, constituía agora um hábito distraírem a rapariga durante o seu solitário pequeno-almoço, enquanto o marido não descia. Nunca mais me tornei a sentar à mesa com eles, mas chegavam-me aos ouvidos pedaços de conversa, e queria-me parecer que a rapariga perdera a alegria. Até mesmo a impressão dada pela novidade desaparecera. Cheguei a ouvi-la dizer:

- Há tão pouco que fazer aqui! - o que me pareceu uma estranha observação para quem estava em lua-de-mel.

Depois, uma tarde, encontrei-a lavada em lágrimas em frente do Museu Grimaldi. Fora buscar os jornais e, tal como era meu hábito, dera a volta pela Praça Nacional, onde, em 1819, se erguera uma coluna para comemorar - notável paradoxo - a fidelidade de Antibes à monarquia e a sua resistência às «tropas estrangeiras» que procuravam restabelecer a monarquia. Depois, conforme sempre fazia, passei pelo mercado, pelo velho porto, pelo restaurante de Lou-Lou, subindo a calçada até à catedral e ao museu, e aí, na luz indecisa do entardecer, antes de se acenderem os candeeiros da rua, encontrei-a chorando, junto ao rochedo do castelo.

Se tivesse reparado no estado de espírito em que ela se encontrava, nunca teria dito:

- Boas noites, Mrs. Travis.

Ela assustou-se e ao voltar a cabeça deixou cair o lenço. Quando o apanhei verifiquei que estava ensopado em lágrimas - o que me deu a impressão de segurar um pequeno animal que morrera afogado.

- Oh,  desculpe! - exclamei, referindo-me ao tê-la assustado, mas ela compreendeu-o num sentido inteiramente diferente.

- Estou a portar-me como uma parva, é o que é respondeu. - Passa já. Todos têm as suas horas tristes, não é verdade?

- Onde está Peter?

- No museu, com Stephen e Tony, a ver os Picassos. Eu não compreendo o Picasso.

- Não é nada que a envergonhe. Há muita gente assim.

- Mas Peter também o não percebe. Sei muito bem que não.  Anda a fingir que se interessa.

- Oh! bem...

- E não é só isso. Durante certo tempo também fingi, para agradar a Stephen. Mas Peter toma esta atitude só para me fugir.

- Está a imaginar coisas que não existem.

Pontualmente, às cinco horas, o farol acendeu a sua luz, mas ainda estava demasiado claro para que se pudesse distinguir bem o feixe luminoso.

- O museu vai fechar já - informei-a.

- Venha comigo até ao hotel.

- Não quer esperar por Peter?

- Não cheiro a nada, pois não? - perguntou-me ela sentindo-se profundamente infeliz.

- Bem, eu ainda distingo um vago perfume a Arpège. Sempre gostei de Arpège.

- O senhor sabe de tudo!

- Engana-se.   Mas  a  minha primeira mulher usava Arpège.

Encaminhámo-nos para o hotel e o mistral, que nos mordia as orelhas, dava-lhe uma boa desculpa para explicar os olhos avermelhados.

- Acho que Antibes está triste e sem graça.

- Julguei que gostava de cá estar.

- Sim, talvez um dia ou dois.

- Por que não volta para casa?

- Parecia estranho, não acha?, regressar tão depressa de uma viagem de núpcias.

- Então vá para Roma, ou para qualquer outro sítio. Em Nice tem avião para quase todo o Mundo.

- Não resolvia nenhum problema - disse ela. - Não é o local que conta. Sou eu.

- Não percebo.

- Ele não se sente feliz comigo. Aí tem, em toda a sua simplicidade.

Parara em frente de uma das pequenas casas cravadas nas muralhas. Na rua de baixo havia roupa estendida nas janelas e numa gaiola um canário transido de frio.

- Você foi a própria a dizê-lo há pouco: questão de disposição...

- A   culpa não é  dele - explicou a rapariga. É minha. Julgo que lhe parecerá muito estúpido o que lhe vou dizer, mas antes de me casar nunca dormira com nenhum homem.

Olhou para o canário e engoliu um soluço.

- E Peter?

- É uma pessoa extraordinariamente sensível - afirmou ela, e acrescentou logo: - É uma boa qualidade. Eu não me teria apaixonado por ele se assim não fosse.

- Se fosse a você, convencia-o a voltar para casa... tão depressa quanto possível.

Não podia evitar que as minhas palavras tivessem um ar sinistro, mas ela mal as ouvia. Escutava as vozes que se aproximavam, vindas do lado das muralhas... e o riso alegre de Stephen.

- São pessoas tão simpáticas. Sinto-me contente por ter encontrado amigos.

Como lhe poderia eu dizer que seduziam Peter mesmo diante dos seus olhos? E, fosse como fosse, o erro não seria já irreparável? Eram estas as duas perguntas que preocupavam as áridas horas do homem solitário, ao meio da tarde, quando se acaba o trabalho, a excitação do vinho que se bebeu ao almoço já não existe e ainda não são horas para o aperitivo e o aquecimento de Inverno quase que não faz efeito. Não teria ela a mínima ideia da natureza do homem com quem casara? Teria ele casado para se servir dela como de um disfarce, ou, num último arranque, para atingir a normalidade? Não conseguia acreditar nesta última hipótese. Naquele rapaz havia uma espécie de inocência que parecia justificar o amor da mulher, e eu preferia pensar que ele ainda não estava inteiramente formado, que se casara dentro de todos os princípios honestos e só agora se via à beira de uma experiência diferente. E, no entanto, se este era o caso, a comédia seria ainda mais cruel. Teriam todas as coisas seguido normalmente, se qualquer conjunção de planetas não tivesse feito atravessar na sua viagem de núpcias aquele par de caçadores vorazes?

Tinha desejos de falar com toda a franqueza, e, no fim, consegui-o na verdade, mas sucedeu não ter sido com ela. Dirigia-me para o meu quarto quando reparei, que um dos deles estava aberto e tornei a ouvir o riso de Stephen... uma espécie de riso que, com ironia sem intenção, se chama contagioso. Perdi a cabeça: bati e entrei. Tony estava deitado em cima de uma cama de casal e Stephen arranjava o penteado segurando uma escova em cada mão e ordenando meticulosamente as ondas de cabelo branco. Em cima do toucador havia tantos boiões de creme como se se tratasse de uma mulher.

- Garantes que ele te disse isso? - perguntava Tony.

- Olha! Como está, William? Entre. O nosso jovem amigo esteve a fazer confidências a Stephen. E disse-lhe coisas na realidade fascinantes.

- Qual dos vossos jovens amigos? - perguntei eu.

- Mas, Peter, claro está. Quem poderia ser? Segredos da vida de casado.

- Julguei que tivesse sido o marinheiro.

- Mauzão! - comentou Tony. - Mas touché, evidentemente.

- Gostava que deixassem de se preocupar com Peter.

- Mas ele é que não gostaria - respondeu-me Stephen. - Você já percebeu que ele não tem gosto nenhum por esta espécie de lua-de-mel.

- E parece que você, William, gosta de mulheres - acrescentou Tony. - Por que não se encarrega da rapariga?

É uma grande oportunidade. Tal como vulgarmente se costuma dizer, anda «esfomeada».

Dos dois era sem a mínima dúvida o mais brutal. Apeteceu-me bater-lhe, mas claro que não vivemos no século desta espécie de gestos românticos, e, além disso, Tony estava estiraçado em cima da cama.

Devia ter tido o bom senso de me não expor a uma discussão com tais indivíduos e redargui sem grande convicção:

- Sucede que ela gosta dele.

- Acho que Tony tem razão, e que, consigo, ela teria mais satisfações, querido William - interrompeu Stephen, dando um último toque com a escova nas ondas do cabelo que caíam sobre a orelha direita. A contusão desaparecera quase completamente.

- Pelo que Peter me contou, acho que você faria um favor a ambos.

- Conta-me o que Peter disse, Stephen.

- Disse que desde o início havia nela uma espécie de voracidade feminina, que ele considerava medonha e repulsiva. Pobre moço... Foi na verdade apanhado na ratoeira deste negócio do casamento. O pai quer herdeiros... também cria cavalos, e depois a mãe dela... Tudo negócio de dinheiro. Eu acho que ele não fazia a mínima ideia do... que havia de acontecer.

Stephen estremeceu e ficou a olhar-se no espelho com certa satisfação.

Hoje ainda, para a minha paz de espírito, sou obrigado a acreditar que o jovem não dissera na verdade nenhuma daquelas coisas monstruosas. Creio, e espero, que lhe atribuíram tais palavras, mas sinto pouco conforto neste pensamento, pois as invenções de Stephen estavam sempre de acordo com a sua pessoa. Compreendeu mesmo o que se passava, apesar da minha indiferença para com a rapariga, e chegou à conclusão que tanto ele como Tony tinham ido demasiado longe; não convinha às suas intenções que eu fosse levado a cometer uma acção despropositada, ou que pelos seus exageros perdesse o interesse que tinha por Poopy.

- Evidentemente que estou a exagerar - obtemperou Stephen. - Está claro que o rapaz se sentia um tanto interessado antes de chegar ao momento crítico. Suponho que o pai lhe teria descrito a noiva como uma magnífica égua.

- Mas quais são as vossas intenções no que diz respeito ao rapaz? - perguntei eu. - Vocês atiram a moeda ao ar, ou um pega-lhe por um lado e outro por outro?

Tony deu uma gargalhadazinha e comentou:

- Bom e velho William! Que espírito tão cínico você tem!

- Suponham vocês - disse eu - que ia ter com a mulher e lhe contava esta nossa conversa?

- Meu caro, ela nem sequer compreenderia. É inacreditavelmente inocente.

- E ele, não é?

- Tenho certas dúvidas... conhecendo como conheço o nosso amigo Colin Winstanley. Mas o problema, por enquanto, está em ponto morto. Ele ainda se não manifestou.

- Estamos a planear pô-lo à prova, um destes dias - informou-me Stephen.

- Um passeio ao campo - esclareceu Tony.  

A tensão é demasiado evidente. Até receia dormir a sesta, com medo de tentações indesejadas.

- Vocês são susceptíveis de um mínimo de piedade?

Era uma palavra absurda e fora de moda a usar com estes dois indivíduos inteiramente sofisticados. Senti-me mais do que nunca ultrapassado.

- Vocês nem sequer pensam que podem arruinar a vida da rapariga, só para satisfação de um pequeno capricho?

- Podemos confiar em si, William - disse Tony -, para lhe dar o conforto de que ela necessita.

Stephen acrescentou:

- E não se trata de caprichos. Deve compreender que estamos a tentar salvá-lo. Pense na vida que levaria com todas aquelas gorduras desabando sobre ele. As mulheres fazem-me sempre lembrar uma salada já velha... Compreende o que quero dizer? Aqueles bocados de folhas verdes, a nadar, positivamente...

- Cada um tem os seus gostos - esclareceu Tony. Mas Peter não está destinado a esta espécie de vida. É muito sensível - afirmou, servindo-se das mesmas palavras que a rapariga.

Eu não podia dizer nem fazer mais nada.

 

Hão-de reparar que nesta comédia o papel que represento não tem nada de heróico. Suponho que o meu dever era ter procurado a rapariga para a esclarecer sobre certos aspectos da vida, começando delicadamente por lhe falar do regímen dos internatos ingleses - Peter usava uma gravata com as cores da sua antiga escola, até que um dia ao almoço Tony lhe dissera que a risca castanha era um critério errado. Talvez eu também pudesse ter procurado o rapaz para protestar contra a sua maneira de proceder, mas se Stephen tivesse dito a verdade ele estava sob uma grande tensão nervosa e a minha intervenção não facilitaria a solução do problema. Nada podia fazer. Tinha que me sentar à espera, enquanto eles tomavam as suas posições com todas as cautelas, para alcançarem o fim que traziam em vista.

Aconteceu três dias mais tarde, quando, como de costume, a rapariga estava sozinha com eles, enquanto o marido, lá em cima, se preocupava com as suas loções. Nunca aqueles dois homens haviam sido mais encantadores nem mais divertidos. Quando me sentei à mesa, faziam eles uma descrição, na verdade divertida, de uma casa em Kensington, que haviam decorado para uma velha duquesa profundamente interessada nas guerras napoleónicas. Havia um cinzeiro, ainda me lembro, feito do casco de um cavalo, que, segundo o negociante dizia e a casa Apsley garantia, fora o que Wellington montara na batalha de Waterloo. O bengaleiro era o invólucro de uma granada encontrado nos campos de Austerlitz; uma escada de salvação era uma escada de cerco que haviam trazido de Badajoz. Ao escutá-los, ela perdera parte da sua rigidez. Esquecera os pãezinhos e o café, pois Stephen absorvia toda a sua atenção. Tive vontade de lhe chamar «anjinho», e não a teria com isso insultado, tão grandes e inocentes eram os seus olhos.

Foi então que Stephen exibiu o seu plano magistral. Conseguiu verificar como a coisa se processava pela maneira como as mãos dele se apertavam contra a chávena do café, e como os olhos de Tony se baixavam sobre o croissant, no jeito de quem reza.

- Temos andado a pensar, Poopy... Empresta-nos o seu marido?

Nunca ouvi pronunciar uma frase com mais estudado à-vontade.

Ela largou a rir, porque se não apercebera de nada.

- Emprestar o meu marido?

- Há uma pequena aldeia na montanha, por detrás de Monte Carlo, que se chama Peille, e ouvi falar numa secretária antiga de uma beleza espantosa... Claro que não está à venda, mas Tony e eu temos cá os nossos processos para ganhar a partida.

Ela respondeu-lhe:

- Eu própria já reparei nisso.

Durante um instante, Stephen mostrou-se desconcertado, mas a rapariga não pusera a mínima intenção na frase, a não ser talvez de lhe dirigir um cumprimento.

- Estávamos a pensar almoçar em Peille e passar todo o dia na estrada, para podermos apreciar o panorama. A única coisa que nos estraga os cálculos é que no Sprite só cabem três pessoas, e como Peter outro dia me disse que queria ir ao cabeleireiro, nós pensámos...

Tive a impressão que estava a falar de mais para poder ser convincente, mas não havia nada com que se preocupar: a rapariga não alimentava a mínima suspeita.

- Acho que é uma ideia maravilhosa - concordou ela. - Ele precisa de umas feriazinhas... de se libertar um pouco de mim. Desde que saímos da igreja quase que ainda não teve um instante de isolamento.

A rapariga portara-se com uma sensatez extraordinária e porventura até se sentia aliviada. Pobrezinha! Talvez ela necessitasse de umas férias, também.

- Vai ser muito incómodo. Terá de viajar sentado nos joelhos de Tony.

- Julgo que não se importará.

- E, claro está, não podemos garantir a comida que encontraremos durante a viagem.

Pela primeira vez Stephen afigurou-se-me uma pessoa estúpida. Haveria nisto certa esperança?

No fim de tudo, e apesar da sua brutalidade, Tony era o mais inteligente. Antes de Stephen ter tempo para continuar com as suas considerações, afirmou com decisão:

- Óptimo! Está tudo assente e nós entregá-lo-emos são e salvo à hora do jantar.

Depois, olhando para mim com ar de desafio, disse à rapariga:

- Claro que é aborrecido termos de a deixar a almoçar sozinha, mas certamente William tomará conta de si.

- William? - perguntou ela, e eu detestei a maneira como olhou para mim, parecendo não dar pela minha existência. - Ah! Referia-se a Mr. Harris?

Convidei-a para almoçar comigo no Lou-Lou, que ficava no velho porto, e não poderia ter feito outra coisa, justamente quando o retardatário Peter entrou no terraço. Ela respondeu-me com vivacidade:

- Não quero que interrompa o seu trabalho...

- Não me interessa morrer de fome - respondi eu. O trabalho tem que ser interrompido para comer.

Peter tornara a cortar-se ao fazer a barba e trazia um grande pedaço de algodão apertado contra o queixo, o que me fez lembrar a contusão de Stephen. Tive a impressão, durante o tempo que ele ali esteve à espera que alguém lhe dirigisse a palavra, que sabia tudo acerca da conversa que houvera antes; teria sido cuidadosamente ensaiada entre os três, com os papéis distribuídos, a maneira descuidada de falar bem combinada antecipadamente, até mesmo a frase que se referia à comida... Ora havia alguém que não pegara na «deixa», de modo que eu disse:

- Convidei sua mulher para almoçar comigo no Lou-Lou.  Presumo que se não importará.

A expressão de alívio que se pintou no rosto dos três homens ter-me-ia divertido se naquela situação houvesse alguma coisa que me pudesse alegrar.

 

- E não tornou a casar depois de ela se ter ido embora?

- Nessa altura já me sentia demasiado velho para casar.

- Picasso casou-se.

- Está bem, mas eu ainda não tenho a idade de Picasso.

Esta estranha conversa, que se desenrolava contra um fundo de redes de pescadores arranjadas com cuidado sobre o papel da parede, cujos desenhos representavam garrafas de vinho... De novo a decoração de interiores. Às vezes desejava que houvesse uma casa em que a decoração fosse simplesmente o passar do tempo, tal como as rugas no rosto humano. A sopa de peixe que fumegava entre nós dois cheirava a alho. Éramos os únicos clientes. Talvez devido à solidão, talvez devido à pergunta directa que ela me fizera, quem sabe se devido ao efeito do rosé, o certo é que de súbito tive a reconfortadora sensação de que éramos íntimos amigos. Por isso respondi-lhe:

- Resta sempre o trabalho, o vinho e o bom queijo.

- Eu não poderia ter essa filosofia se perdesse Peter.

- Não é questão que se ponha, não é verdade?

- Julgo que morreria - respondeu-me ela - como uma das heroínas de Christina Rossetti.

- Julgava que as pessoas da sua geração já a não liam. Se ela tivesse mais vinte anos, talvez lhe explicasse que nada é tão mau como isso, que no termo do que se chama «vida sexual» o único amor que dura é o que tudo aceitou, todos os desapontamentos, até o triste facto de no fim não existir desejo tão profundo como o simples desejo de nos não sentirmos sós. Mas ela não me teria acreditado.

- Costumava chorar como uma fonte sempre que lia o poema «O último adeus». Também escreve coisas tristes?

- A biografia que estou a escrever agora é bastante triste. Duas pessoas ligadas uma à outra por um profundo amor e, no entanto, uma delas incapaz de ser fiel. O homem morreu velho, gasto, com menos de quarenta anos, e junto da cama onde agonizava, um padre da moda, à espreita para se lhe apoderar da alma. Nem sequer para um moribundo há intimidade: o bispo escreveu um livro a este respeito.

Um inglês que tinha uma loja de cerieiro no velho porto conversava no bar e duas velhotas da família faziam meia a um canto da casa. Um cão entrou, olhou para nós e foi-se de novo embora com a cauda enrolada.

- Quando aconteceu tudo isso?

- Há perto de trezentos anos.

- Parece dos nossos dias. Simplesmente, hoje seria o jornalista do Mirror e não o bispo.

- Foi essa a razão por que me apaixonei pelo problema. Não me interessa o passado. Não gosto de obras vestidas ao gosto da época.

Ganhar a confiança de alguém é de certa maneira usar os mesmos processos de que se servem certos homens para  seduzir as mulheres: vão fazendo o cerco, muito afastados do seu verdadeiro intento, tentam interessar e divertir, até que por fim chega o momento oportuno. Assim foi, pensei eu sem ter razão, quando pagava a conta. Ela disse:

- Gostaria de saber onde estará Peter, neste momento.

E eu perguntei logo:

- O que é que não corre bem com vocês os dois?

- Vamos embora - respondeu ela.

- Deixe-me receber o troco.

No restaurante de Lou-Lou era sempre mais fácil ser-se servido do que pagar a conta. Nesse momento, toda a gente tinha o hábito de desaparecer: a velha, que deixara o trabalho em cima da mesa, a tia, que ajudava a servir, a própria Lou-Lou e o marido, com o camisolão azul. Se o cão não se tivesse já ido embora, com certeza que também escolheria aquele momento. Eu insisti:

- Esquece-se... que me disse que ele não era feliz.

- Por favor, veja se chama alguém e vamo-nos embora.

De modo que fui desenterrar a tia de Lou-Lou lá do fundo da cozinha e paguei. Quando saímos, parecia que todos já estavam de volta, até mesmo o cão.

Na  rua  perguntei-lhe se queria voltar para o hotel.

- Ainda não... Mas estou a impedi-lo de trabalhar.

- Nunca trabalho depois de beber. Por isso gosto de começar logo de manhãzinha. Traz mais cedo a primeira bebida.

Disse-me que de Antibes só vira as muralhas, a praia e o farol, de modo que a levei para as pequenas ruas afastadas, com roupa estendida nas janelas, tal como em Nápoles, e onde se entreviam pequenos quartos cheios de filhos e netos; volutas de pedra encimavam velhas entradas do que haviam sido outrora casas nobres; os passeios estavam obstruídos pelos barris de vinho e as ruas pelas crianças que jogavam à bola. Num quarto baixo, num rés-do-chão, via-se um homem sentado a pintar as horríveis cerâmicas que mais tarde deviam ir para Vallauris, para serem vendidas no velho feudo de Picasso: rãs cor-de-rosa sarapintadas, peixes cor de malva e porcos com ranhuras para se meter moedas. Ela sugeriu:

- Voltemos para o mar.

E voltámos às muralhas, para a zona batida de sol. De novo me senti tentado a dizer-lhe o que receava, mas só de pensar que ela poderia encarar-me com o olhar vazio da ignorância, tirou-se-me toda a coragem. Sentou-se no muro e as suas longas pernas envoltas pelas calças pretas, muito justas, pendiam como se fossem meias de Natal. A certa altura a rapariga quebrou o silêncio:

- Não lamento o ter casado com Peter.

E esta frase fez-me lembrar uma canção cantada pela Edith Piaf, Je ne regrette rien. O característico dela é ser sempre cantada ou dita com ar de desafio.

Só consegui repetir:

- Devia voltar com ele para casa.

E pensava no que aconteceria se eu dissesse: «Você casou com um homem que só gosta de homens e que está agora a fazer um piquenique com os seus amiguinhos. Tenho mais trinta anos que você, mas pelo menos sempre preferi as mulheres, apaixonei-me por si e ainda poderíamos passar uns bons anos juntos, antes de chegar a altura de você me querer trocar por qualquer jovem.» Mas tudo quanto consegui dizer foi:

- Possivelmente a ele faz-lhe falta o campo e... o andar a cavalo.

- Bem gostaria que fosse essa a verdade, mas é muito pior.

Teria ela, apesar de tudo, compreendido a natureza do problema? Esperei que me explicasse o que queria dizer. Era como numa novela, quando se oscila entre a comédia e a tragédia. Se tivesse a consciência da situação, seria uma tragédia; se a ignorasse, seria uma comédia, até mesmo uma farsa: uma situação entre uma rapariga imatura, demasiado inocente para compreender, e um homem demasiado velho para ter coragem para explicar. Suponho que tenho certo pendor para a tragédia. Era o que esperava.

Ela continuou:

- Não tivemos ocasião de nos conhecer muito antes de virmos para aqui. Sabe como é: fins-de-semana,  espectáculos... e andar a cavalo, claro está.

Não compreendia até onde iriam as suas observações, mas disse:

- Essas ocasiões são sempre um esforço. As pessoas são obrigadas a deixar a sua vida quotidiana e quase como dois animais fechados numa jaula, sem antes se terem visto...

- E agora que ele me vê, não gosta de mim.

- Exagera.

Com certa ansiedade retorquiu:

- Não, não exagero. Chocá-lo-ia se lhe dissesse um certo número de coisas? É a única pessoa com quem posso falar.

- Depois dos cinquenta anos, creio que estou à prova de todos os choques.

- Só fizemos amor... como deve ser, uma única vez, desde que aqui estamos.

- Que quer dizer com esse «como deve ser»?

- Ele principia, mas não acaba. Não acontece nada.

Eu disse pouco à vontade:

- Rochester escreveu a esse respeito um poema intitulado O prazer imperfeito.

Não sei porque citei este obscuro pormenor literário; talvez, como um psicanalista, não quisesse que ela se sentisse sozinha com o seu problema.

- Pode acontecer a qualquer pessoa.

- Mas a culpa não é dele. É minha. Sei que não gosta do meu corpo.

- Claro  que é um pouco tarde para chegar a essa conclusão.

- Nunca me vira nua até chegarmos aqui - informou-me com a candura da rapariga que fala com o médico... que no fundo era o que eu representava para ela.

- Há quase sempre o nervosismo das primeiras noites. E se um homem se atormenta (deve calcular quanto isso afecta o seu orgulho) pode manter-se nesta situação durante dias... até mesmo semanas.

Comecei a contar-lhe a história de uma amante que tive. Vivemos juntos durante muito tempo e, no entanto, a princípio, durante duas semanas, não consegui dar qualquer prova da minha virilidade.

- Sentia-me excessivamente ansioso.

- Isso era diferente. Não detestava a presença dela, pois não?

- Está a dar importância demasiada a uma coisa que a não tem.

- É o que ele tenta fazer - respondeu-me ela com a súbita rudeza de uma miúda de escola, dando uma gargalhada descabida que traduzia o seu estado de angústia.

- Fomos passar uma semana fora, mudámos de ambiente, e depois tudo se passou no melhor dos mundos. Durante os primeiros dez dias fora o desastre total, mas os dez dias que se seguiram foram de verdadeira felicidade. Fomos felizes, muito felizes. Mas a preocupação pode nascer de um quarto, da cor das cortinas... até dos cabides; está nos cinzeiros que têm a marca do Pernod e sobe em fumo no ar, e basta que se olhe para a cama para a ver surgir debaixo da roupa como as biqueiras de um par de sapatos.

E repeti a única fórmula mágica que me vinha à ideia:

- Leve-o para casa.

- Não alteraria em nada a situação. Ele sente-se desapontado, é o que é.

Baixou os olhos para as compridas pernas vestidas de negro; segui a direcção dos seus olhos, porque descobria em mim quanto a desejava, quando ela disse com sincera convicção:

- Não valho nada quando estou despida.

- Isso são disparates. Nem sabe o que está a dizer.

- Oh, não! Garanto-lhe que não! Quer saber... tudo começou muito bem, mas quando ele me tocou - e nessa altura cobriu os seios com as mãos - foi um desastre. Sempre tive a consciência que não eram grande coisa. No colégio costumávamos fazer inspecções no dormitório, e era horrível. Todos cresciam, menos os meus. Garanto-lhe que não tenho parecença nenhuma com a Jayne Mansfield.

Tornou a rir sem alegria e continuou:

- Lembro-me que uma das minhas colegas me aconselhou a dormir com uma almofada em cima do peito... Dizia ela que se esforçariam para se libertar, pois o que necessitavam era de exercício. Mas claro está que não deu o mínimo resultado. Duvido que a ideia tivesse qualquer fundamento científico.

E terminou:

- Ainda recordo o calor que me fazia durante a noite.

Eu disse com certa cautela:

- Peter não me dá a ideia do homem que se entusiasmasse por uma Jayne Mansfield.

- Mas não percebe, na verdade não compreende que se ele me acha feia, eu não posso ter a mínima esperança?

Queria concordar com ela; talvez que esta razão que descobrira fosse menos desoladora que a verdade, e dentro em pouco apareceria alguém que curasse a sua desconfiança. Já verificara que muitas vezes são as mulheres mais adoráveis as que menos confiança têm no seu aspecto, mas, fosse como fosse, não podia fingir que a compreendia. Respondi-lhe:

- Deve confiar em mim. Consigo não se passa nada de mal,  e por isso é que lhe falo assim.

- É muito gentil - e o seu olhar passou sobre mim um pouco como o feixe luminoso do farol que iluminava o Museu Grimaldi, e algum tempo depois voltava para varrer indiferentemente todas as janelas da frontaria do hotel. E concluiu: - Ele disse que voltaria à hora dos aperitivos.

- Se quiser ir descansar um pouco...

Durante algum tempo estivéramos muito perto um do outro, mas de novo nos afastávamos. Se insistisse agora, talvez ela acabasse por ser feliz... A moralidade convencional exige que uma rapariga se mantenha amarrada, tal como ela estava? Haviam casado na igreja; provavelmente era boa cristã, e eu conhecia as regras eclesiásticas: neste momento da vida poderia libertar-se dele, o casamento podia ser anulado, mas dentro de um dia ou dois também era provável que as mesmas regras dissesse: «O marido portou-se como era seu dever, e estais casados para toda a vida.»

No entanto, eu não podia insistir. Não estaria a ir longe de mais? Quem sabe se não seria simplesmente uma questão de nervosismo da primeira noite; talvez que dentro em pouco os três homens voltassem, silenciosos, embaraçados, e que, desta feita, fosse Tony que trouxesse uma nódoa negra na cara. Eu ficaria profundamente contente quando a visse; o egoísmo atenua-se um pouco com as paixões que engendra, e eu ficaria satisfeito, julgo, só de a ver feliz.

Voltámos para o hotel sem travarmos grandes conversas, e ela dirigiu-se para o seu quarto e eu para o meu. Ao fim e ao cabo era uma comédia e não uma tragédia, uma farsa mesmo, e eis a razão por que dei a estas recordações um título que ficaria bem numa farsa.

 

A campainha do telefone interrompeu a minha sesta de homem de meia-idade. Durante alguns instantes, surpreendido o escuro, não consegui encontrar o interruptor. Às apalpadelas, deitei ao chão o candeeiro da mesinha-de-cabeceira... e o telefone continuava a tocar; tentei deitar a mão ao auscultador e fiz cair um copo de dentes que me servira para o uísque. O pequeno quadrante luminoso marcava oito e meia. A campainha do telefone continuava a tocar. Peguei, enfim, e desta vez foi o cinzeiro que caiu. Não conseguia encostá-lo ao ouvido, porque o cordão era curto, de modo que berrei na direcção do bocal:

- Está?

Do chão veio até mim um murmúrio que interpretei assim:

- É você, William?

Respondi com um grito:

- Não desligue.

Agora que já estava bem acordado lembrei-me que o interruptor estava por cima da minha cabeça (em Londres tinha-o em cima da mesa-de-cabeceira). Enquanto acendia a luz, continuava a ouvir uns ruídos estranhos vindos do chão e que me faziam lembrar o cri-cri de um grilo.

- Quem fala? - perguntei com voz irritada, e depois reconheci a voz de Tony.

- Que aconteceu, William?

- Nada. Onde está você?

- Mas  eu  ouvi um enorme estrondo.  Rebentou-me com o tímpano.

- Foi um cinzeiro - expliquei.

- Você tem o costume de andar assim a atirar com cinzeiros?

- Estava a dormir.

- Às oito e meia? Ai, William, William!

- Onde está você? - insisti.

- Num pequeno bar a que Mrs. Clarenty chamaria Monty.

- Vocês prometeram estar de volta à hora do jantar - disse eu.

- É justamente por isso que lhe telefono. Quero ser consciencioso. Importa-se de dizer a Poopy que chegaremos tarde? Jante com ela. Fale com ela, como só você sabe fazer. Por volta das dez estaremos aí.

- Mas houve algum acidente?

Ouvi uma das suas gargalhadinhas cínicas, antes de me dizer:

- Não me atreveria a chamar-lhe acidente.

- Por que não telefona o Peter?

- Diz que não tem disposição para isso.

- Mas que vou eu dizer à rapariga?

Tony desligara.

Saltei da cama, vesti-me e liguei para o quarto dela. Respondeu-me, mal a campainha se fez ouvir; julgo que devesse estar sentada perto do telefone. Dei-lhe o recado, pedi-lhe para se encontrar comigo no bar e desliguei antes de ter que responder a qualquer pergunta.

Verifiquei, no entanto, que não era tão difícil como eu temia ter que desempenhar o meu papel; a rapariga sentia-se aliviada por alguém ter telefonado. Desde as sete e meia que estava sentada no quarto, a imaginar todas as voltas e ravinas da Grande Corniche, e quando liguei receou que fosse da polícia ou do hospital. Só depois de ter bebido dois Martinis secos se riu dos seus receios e me perguntou:

- Por que seria que não foi Peter a telefonar?

Dei-lhe a resposta que já preparara:

- Julgo que de repente teve... de ir lá dentro.

Foi como se eu tivesse dito uma graça irresistível.

Perguntou-me:

- Acha que eles deviam estar um pouco... tocados?

- Não me espantaria muito.

- Meu querido Peter - disse ela. - Merecia bem um dia em plena liberdade.

Não pude deixar de perguntar a mim próprio em que consistira o mérito de Peter.

- Quer outro Martini?

- É melhor não. Também já me sinto um pouco tocada.

Senti-me fatigado do rosé gelado, de modo que mandei vir uma garrafa de verdadeiro vinho. Ela bebeu o seu quinhão e falou de literatura. Segundo me pareceu, tinha a nostalgia de Dornford Yates, fizera o sexto ano indo até Hugh Walpole, e agora falava com respeito de Sir Charles Snow, que, tal como evidentemente pensava, fora feito cavaleiro, como Sir Hugh, pelos serviços prestados à literatura. Eu devia estar profundamente apaixonado, se não teria achado a sua inocência quase insuportável... ou quem sabe se não estava também um pouco ébrio. Seja como for, mas para interromper a sua fluência de opiniões críticas, perguntei-lhe como se chamava na verdade, e ela respondeu-me:

- Todos me chamam Poopy.

Lembrei-me do PT marcado nas malas, mas os únicos nomes que no momento me ocorreram foram Patrícia e Prunella.

- Então vou passar apenas a tratá-la por Você - disse eu.

Depois de jantar, bebi um conhaque e ela um Kümmel.

Passava das dez e meia e os três ainda não haviam voltado, mas parecia que ela já se não preocupava. Sentara-se no chão, a meu lado, e de vez em quando o criado espreitava para dentro, a ver se podia apagar as luzes. Encostara-se a mim, com uma das mãos pousada no meu joelho, e dizia coisas deste teor:

- Deve ser maravilhoso ser escritor.

No torpor do álcool e da ternura nem sequer me afligiram. Pelo contrário, comecei a falar-lhe outra vez no conde de Rochester. Que me interessava Dornford Yates, Hugh Walpole, ou Sir Charles Snow? Senti-me até com disposição para recitar, se bem que os versos de que me lembrei não tivessem nada que ver com a situação:

Não fales de inconstância

De corações pérfidos, de juramentos não cumpridos;

Se, por milagre, eu te puder ser leal

Neste minuto eterno,

É tudo o que o Céu nos concede.

Quando o barulho - e que barulho infernal! - do Sprite que se aproximava nos fez levantar, era bem verdade que tudo o que o Céu nos concedera haviam sido aquelas horas no bar de Antibes.

Tony vinha a cantar; ouvimo-lo durante todo o tempo que levaram a subir o Bulevar General Leclerc; Stephen guiava com toda a cautela, a maior parte do tempo em segunda, e Peter, tal como o vimos quando se apeou no terraço, fizera a viagem ao colo de Tony - enroscado, seria mais exacto - e cantavam juntos o refrain. Tudo o que consegui entender foi:

Redonda e branca

Numa noite de Inverno

A esperança da Armada da Rainha.

Se nos tivessem visto à entrada do hotel, creio que teriam passado além sem darem por isso.

A rapariga disse-lhes com uma voz alegre:

- Mas vocês não vêm bons.

Tony passou-lhe um braço em volta do pescoço e levou-a a correr até ao cimo das escadas. Ela gritou-lhe:

- Cuidado! William também me embriagou.

- Bom velho William.

Stephen saiu do carro com todo o cuidado e deixou-se cair na cadeira mais próxima.

- Tudo bem? - perguntei eu sem saber a que me referia.

- As crianças portaram-se muito bem e descansaram.

- Tenho que lá ir dentro - disse Peter.

A deixa foi descabida e ele encaminhou-se para as escadas. A rapariga deu-lhe o braço e eu ouvi-o exclamar:

- Que dia magnífico.  Que magnífico cenário.  Que magnífico...

Ela voltou-se ao cimo das escadas e passou sobre nós o seu sorriso alegre, tranquilo, feliz. Tal como na primeira noite, quando eu tivera certo receio devido ao cocktail, não tornaram a aparecer. Fez-se um longo silêncio e depois Tony deu uma risadinha.

- Parece que passou um esplêndido dia - comentei eu.

- Meu caro William, fizemos uma boa acção. Nunca o viu tão détendu.

Stephen continuava calado; tive a impressão que, para ele, o dia não correra tão bem. Pode caçar-se aos pares, com lucros iguais, ou terá de haver sempre um que perde? As duas ondas de cabelo grisalho estavam tão imaculadas como sempre, não havia qualquer contusão no rosto, mas tive a impressão que o receio do futuro lançara sobre ele a sua sombra negra.

- Calculo que tiveram que o embebedar? Foi Tony quem me respondeu:

- Mas não com álcool. Não somos sedutores vulgares, não é verdade, Stephen?

Mas Stephen não respondeu.

- Então qual foi a boa acção?

- Le pauvre petit Pierre. Em que estado estava. Quase se tinha convencido, ou talvez fosse ela que o convencesse, de que era... impuissant.

- Presumo que está fazendo grandes progressos em francês.

- O termo parece mais delicado em francês.

- E com o seu auxílio chegou à conclusão que não era.

- Depois de alguns momentos de timidez virginal, ou quase virginal. O tempo que passou na escola não o deixou indiferente às emoções. Pobre Poopy! Desconhece inteiramente a maneira de resolver o problema. Meu caro, aquele rapaz possui uma soberba virilidade. Onde vais, Stephen?

- Vou deitar-me - respondeu este com secura, subindo as escadas sozinho.

Tony ficou a olhar para ele, com aquilo que julguei ser uma espécie de  amável lástima, sombra de tristeza leve e superficial.

- O reumatismo voltou-lhe esta tarde, de tal modo que até faz pena. Pobre Stephen!

Pensei que era a altura de ir para o meu quarto, antes de também passar a ser «pobre William». Nessa noite, a caridade de Tony não conhecia limites.

 

Desde há muito já era aquela a primeira manhã que tomava o primeiro almoço sozinho no terraço. As senhoras de saias de tweed já tinham partido há uns dias, e nunca, até então, reparara na ausência dos «jovens». Era fácil, portanto, enquanto esperava pelo café, especular acerca das prováveis razões. Por exemplo, o reumatismo... muito embora não conseguisse imaginar Tony no papel do amigo que se senta à beira do leito como enfermeiro dedicado. Era até remotamente possível que sentisse certo pejo e não quisesse encarar a sua vítima. Quanto à vítima, imaginava com melancolia a dolorosa revelação que a noite lhe devia ter trazido. Mais do que nunca me acusei por não ter falado a tempo. Com certeza ela teria sabido a verdade, se fosse eu a contar-lha, com muito mais gentileza do que por um incontrolado repente de um marido bêbedo. Fosse como fosse - que egoístas somos nas nossas paixões -, sentia-me feliz por estar ali sentado à espera... para lhe limpar as lágrimas... para a apertar com ternura nos meus braços, para a confortar... Oh, que maravilhoso devaneio eu tive no terraço, antes de ela descer e poder verificar que nunca tivera menos necessidade de alguém que a animasse!

Estava tal como eu a vira na primeira noite: pudica, excitada, alegre, com um longo e feliz futuro instalado no olhar. Perguntou-me:

- William, posso sentar-me à sua mesa? Importa-se?

- Claro que não.

- Foi tão compreensivo durante todo o tempo em que eu andei com as minhas ideias negras. Que série de disparates não lhe disse! Bem sei que me asseverou que eram asneiras, mas eu não o acreditava e você tinha razão.

Não a conseguiria interromper mesmo que quisesse. Era uma Vénus à proa de um barco, vogando num mar resplandecente. Depois continuou:

- Tudo  se  compôs. Tudo. A noite passada... Ele ama-me, William! Garanto-lhe que sim. Não se sente nada desapontado. Andava fatigado, contraído, nada mais. Precisava de passar um dia à vontade... détendu.

Até da expressão de Tony ela se servia, se bem que em segunda mão.

- Agora não receio nada, absolutamente nada. Não é estranha a maneira como a vida me parecia negra só há dois dias? Estou convencida que se não fosse por si, tinha desistido. Sinto-me feliz por tê-lo encontrado, a si e aos outros dois. São uns esplêndidos amigos para o Peter. Vamo-nos todos embora para  a  semana... e fizemos uma maravilhosa combinação. Tony vai ter connosco, mal voltarmos, para nos decorar a casa. Ontem, durante o passeio, tiveram uma admirável conversa a este respeito. Não conhecerá a nossa casa quando a vir... Ah, é verdade que nunca a viu ainda, pois não?! Quando estiver tudo pronto, tem que lá ir... com o Stephen.

- Stephen não vai ajudá-los? - consegui eu perguntar.

- Oh! Agora tem muito que fazer na casa de Mrs. Clarenty,  informou-nos Tony. Gosta de andar a cavalo? Tony gosta muito. Adora cavalos, mas em Londres tem poucas oportunidades. Para Peter será óptimo ter uma pessoa assim, porque a verdade é que eu não posso passar o dia a cavalo, há muito que fazer em casa, especialmente agora, enquanto não estou habituada. É maravilhoso pensar que Peter não fica sozinho. Diz que vai pôr frescos etruscos na casa de banho, se bem que eu não saiba o que quer dizer etrusco; a sala terá como cor de base o verde-casca-de-ovo e as paredes da casa de jantar vermelho-de-pompeia. Verdade seja que ontem à tarde fartaram-se de trabalhar... quero eu dizer, com a cabeça, enquanto nós andávamos para aqui com ideias soturnas. Eu disse a Peter: «Tal como as coisas estão a correr agora, era preferível pensarmos em espaço para um quarto de bebé.» Mas Peter respondeu-me que Tony dissera achar preferível ser eu a estudar esse aspecto da questão. Depois, há que pensar nas cavalariças: outrora era onde se guardavam as carruagens e Tony acha que se deve restaurar muito do seu velho carácter, e que aquela lanterna que comprou em St. Paul fica lá muito bem... Não tem conta o que há a fazer... Uns bons seis meses de trabalho, segundo calcula Tony. Felizmente pode entregar a obra de Mrs. Clarenty a Stephen e tomar conta das nossas coisas. Peter esteve a interrogá-lo acerca do jardim, mas ele não é especialista em jardins. Respondeu logo: «Cada um faz o que sabe», e ficará satisfeito se eu conseguir encontrar um homem que entenda de rosas.

«Ele também conhece Colin Winstanley, claro está, de modo que, assim, seremos um grande grupo. É pena que a casa não esteja pronta para o Natal, mas o Peter disse que vai ter umas ideias maravilhosas sobre a árvore de Natal. Peter acha...

E continuou sempre infatigável. Talvez a devesse ter interrompido nesta altura; talvez devesse ter-lhe explicado as razões que levariam o seu sonho a não durar muito. Em vez disso, fiquei calado, e depois fui para o meu quarto e fiz as malas... Ainda havia um hotel aberto na zona abandonada da feira, entre o Maxime e a barraca de striptease.

Se eu tivesse ficado... quem sabe se ele conseguiria fingir uma segunda noite? Mas eu era tão mau para ela como ele. Se ele não tinha as hormonas devidas, eu não tinha a idade necessária. Não tornei a ver qualquer deles antes de me ir embora. Ela, Peter e Tony deviam ter saído não sei para onde, levando o Sprite, e Stephen, tal como o recepcionista me informou, estava ainda na cama com o seu ataque de reumatismo.

Pensei deixar-lhe uma carta, explicando-lhe a minha partida, de maneira simples, mas quando chegou a altura de a escrever verifiquei que ainda não tinha outro nome para lhe chamar a não ser Poopy.

 

BELEZA

A mulher trazia um lenço cor de laranja tão enrolado à testa que lembrava os chapelinhos usados na década dos anos vinte, e a voz dela dominava em absoluto a dos seus dois companheiros, o ruído do jovem motociclista, lá fora na estrada, e até mesmo o barulho da loiça na cozinha do pequeno restaurante de Antibes, que estava quase vazio, agora que o Outono se instalara definitivamente. Conhecia aquele rosto de qualquer parte: tinha-o visto numa das recônditas casas, na zona das muralhas, quando dizia palavras ternas a qualquer coisa ou a alguém que estava em baixo e eu não conseguia ver. Mas não a tornara a encontrar desde que o sol estival desaparecera, e cuidava que se fora embora com os outros estrangeiros. Ouvi-a dizer:

- No Natal estarei em Viena. Gosto imenso de passar lá o Natal. Aqueles belos cavalos brancos... e os meninos cantando Bach.

Os seus companheiros eram ingleses; o homem esforçava-se para conservar a aparência de veraneante, mas, de vez em quando, estremecia com um arrepio, pois a camisa desportiva de algodão azul não o protegia. Perguntou com voz gutural:

- Então não a teremos em Londres?

A esposa, que era muito mais nova que qualquer deles, insistiu:

- Oh! Mas tem que ir.

- Há certas dificuldades - respondeu a outra. - Mas se vocês, meus queridos, quiserem estar em Veneza, na Primavera...

- Suponho que não teremos dinheiro, não é verdade, querido? Mas gostaríamos muito de lhe mostar Londres, não concordas, querido?

- Inteiramente - respondeu ele sem entusiasmo.

- Receio que seja completa e totalmente impossível, por causa de Beleza, compreendem?

Até então ainda não reparara no Beleza, tão bem ele se portava. Estava deitado no parapeito da janela, inerte como um pastel de nata na montra de uma loja. Julgo que era o pequinês mais perfeito que jamais vi... se bem que não pretenda conhecer os pontos que um júri de concurso apreciaria. Seria tão branco como leite se lhe não tivessem acrescentado um tudo-nada de café, mas isso não constituía imperfeição, pelo contrário, exaltava-lhe a beleza. Do lugar onde eu estava sentado, os seus olhos pareciam de um negro profundo, tal como o centro de uma flor, sem haver qualquer pensamento que os perturbasse. Não seria cão para se entusiasmar com a palavra «rato» ou que se excitasse se alguém lhe falasse em «rua». Só a sua imagem num espelho, pensava eu, lhe poderia despertar um mínimo de interesse. Era um cão suficientemente bem alimentado para ignorar os restos da refeição deixados pelos outros, se bem que estivesse habituado a qualquer coisa mais agradável que lagosta.

- Não o pode deixar em casa de uma pessoa amiga? - perguntou a jovem.

- Deixar o Beleza!

A pergunta não obteve resposta. A senhora correu os dedos por entre o pêlo cor de café com leite, mas o cão não fez o menor movimento com a cauda, como qualquer outro deveria ter feito. Emitiu uma espécie de grunhido, tal como um velho no seu clube, quando é perturbado pelo criado.

- Todas essas leis que dizem respeito à quarentena... Por que é que os vossos congressistas não fazem qualquer coisa a esse respeito?

- Nós chamamos-lhe membros do Parlamento - exclamou o homem com um tom de voz que eu julguei ser de aborrecimento disfarçado.

- Não me interessa nada o que lhes chamam. Vivem na Idade Média. Posso ir para Paris, Viena, Veneza... até poderia ir para Moscovo, se quisesse, mas não posso ir para Londres sem deixar o Beleza metido numa horrível prisão. E com toda a espécie de cães indesejáveis.

- Penso que ele poderá ter...

Hesitou com aquilo que eu considerei uma admirável delicadeza britânica, enquanto pesava o termo correcto, e terminou:

- ... Uma cela? um canil?... um   compartimento separado.

- Pense nas doenças que ele poderia apanhar.

Tirou o cão de cima do parapeito da janela com a facilidade com que teria tirado uma estola de peles e apertou-o estreitamente contra o seio esquerdo; o animal nem sequer rosnou. Tive a sensação de qualquer coisa totalmente possuída. Uma criança, pelo menos, ter-se-ia debatido algum tempo. Pobre pequeno! Não sei porque não tive pena do cão. Talvez por ser demasiado belo. A dona disse:

- Coitadinho, está com sede.

- Vou arranjar-lhe água - prontificou-se o homem.

- Se faz favor, meia garrafa de Evian. Não confio na água da torneira.

Foi nessa altura que me levantei e saí, porque o cinema da Praça De Gaulle começava às nove.

Já passava das onze horas quando saí e como a noite estivesse agradável, sem falar num ventinho frio que soprava dos Alpes, dei a volta desde a Praça, pois o lado das muralhas devia estar demasiado exposto, tomei pelas ruas sórdidas, longe da Praça Nacional, Rua de Sade, Rua dos Banhos... Os caixotes de lixo amontoavam-se às portas, os cães haviam-nos espalhado pelos passeios e as crianças tinham urinado nas valetas. Uma mancha branca, que a princípio tomei por um gato, movia-se silenciosamente ao longo da frontaria dos prédios, na minha frente, depois parou, e como me aproximasse ocultou-se atrás de um caixote. Admirado, observei com mais atenção. Uma réstia de luz que se filtrava das gelosias de uma janela cortava a rua com barras amareladas, e nessa altura o Beleza, deslizou para a claridade e fitou-me com os seus olhos escuros sem expressão, o focinhito em forma de amor-perfeito. Julgo que esperava que tentasse apanhá-lo, pois  arreganhou os dentes como a avisar-me.

- Olha, o Beleza! - disse eu. Emitiu o seu grunhido de velho no clube e esperou. Acautelava-se por eu saber o seu nome, ou reconheceria ele, na minha maneira de vestir e no meu cheiro, que eu pertencia à mesma classe da mulher da «touca» e não aplaudia as suas excursões nocturnas? De repente, inclinou uma orelha na direcção  das casas das muralhas; era possível que tivesse ouvido uma voz de mulher a chamá-lo. Olhou para mim com um ar interrogativo, talvez a indagar se eu ouvira também, mas como não fiz qualquer movimento considerou-se em segurança. Principiou a ondular, passeio fora, com determinada finalidade, tal como a boa de penas na cena de cabaré, quando procura um chapéu alto. Segui-o a uma discreta distância.

Foi a lembrança ou um cheiro intenso que o despertou?

De  todos os caixotes, naquela rua sórdida, só um havia perdido a tampa, e uma quantidade de vísceras escorregavam pelos  lados. O Beleza - que me ignorava agora tão completamente como teria ignorado um cão de raça inferior - levantou-se nas patas traseiras e com as mãozitas aveludadas apoiou-se na borda do caixote. Voltou a cabeça e olhou para mim, sem expressão - duas manchas de tinta em que um adivinho talvez pudesse ter lido uma infinita série de vaticínios. Deu um impulso, tal como um atleta nas barras paralelas, saltou para dentro do caixote e as patitas aveludadas - tenho a certeza que li algures que o aveludado é muito importante no julgamento da raça dos pequineses - esgatanhavam e remexiam entre velhas hortaliças, caixas vazias e todo o lixo do caixote. Excitou-se e meteu também o nariz, como um porco em busca de túberas. Depois, também as patas traseiras entraram na dança, atirando para fora tudo o que lhe não interessava - cascas de fruta, figos estragados, cabeças de peixe... Por fim conseguiu o que procurava: um longo pedaço do intestino que pertencera não sei a que animal; atirou-o ao ar, de modo a enrolá-lo em volta do pescoço de um branco lácteo. Depois afastou-se e desceu rua a baixo, como um arlequim, arrastando atrás de si o pedaço de intestino, que muito bem podia passar por uma fiada de salsichas.

Tenho que admitir que me pus inteiramente a seu favor. Claro que, fosse o que fosse, era preferível a ser abraçado contra um peito chato.

A uma esquina encontrou um canto escuro, obviamente mais propício do que os outros para roer a seu prazer, visto que estava marcado por uma enorme mancha de imundícies. Primeiro, apreciou a sujidade do chão, como membro do clube que era, tomando-lhe o cheiro, e depois rolou-se lascivamente, esfregando o pêlo cor de café com leite naquele shampoo negro, com a tripa pendurada da boca, enquanto os olhos de cetim contemplavam, imperturbáveis, o amplo céu negro do Midi.

A curiosidade fez-me voltar para casa, apesar de tudo, seguindo o caminho das muralhas, e ali, a uma varanda, estava inclinada uma mulher, segundo creio tentando distinguir o cão por entre as sombras que, em baixo, tudo envolviam.

- Beleza! - ouvi-a eu gritar, de voz já fatigada. Beleza!

E depois, com crescentes impaciências:

- Beleza! Venha para casa! Já fez o seu chichi, Beleza? Onde está, Beleza? Beleza!...

Há coisas insignificantes que obliteram o nosso sentido de compaixão, porque se não fosse aquela horrorosa «touca» cor de laranja, eu teria sentido um pouco de piedade por essa estéril coisa, empoleirada lá em cima, a bradar pela Beleza perdida.

 

LAMENTO EM TRÊS PARTES

O mês era Fevereiro, e o local Antibes. As bátegas de chuva varriam as muralhas e as macilentas estátuas do terraço do Castelo Grimaldi escorriam água. Durante os calmos e cerúleos dias de Estio, ouvia-se lá em baixo, no sopé da muralha, o chapinhar do mar, que parecia agora ausente. Ao longo de toda a costa, os restaurantes haviam fechado, mas as luzes brilhavam no Félix au Port e um Peugeot do último modelo estacionava no parque. Os mastros nus dos iates abandonados pareciam enormes palitos espetados e o último avião do serviço de Inverno descia num tremular de luzes verdes, vermelhas e amarelas, tal como bolas de uma árvore de Natal, em direcção ao aeroporto de Nice. Era esta a época que eu mais apreciava estar em Antibes, mas senti-me desapontado ao verificar que não era o único comensal no restaurante, como acontecera na maior parte das noites, durante aquela semana.

Quando atravessei a estrada, vi uma senhora de aparência séria e solene, vestida de preto, que me fixou de uma das mesas junto à janela, como se não tivesse vontade que eu entrasse, e, quando eu tomei o meu lugar noutra mesa junto da janela, olhou-me com evidente enfado. O meu impermeável estava num estado miserável, os sapatos enlameados, e, fosse lá como fosse, tratava-se de um homem. Durante o instante em que me inspeccionou dos pés à cabeça, interrompeu a conversa com a patronne, que a tratava por Madame Dejoie.

Madame Dejoie continuou o seu monólogo, num tom de profunda desaprovação: não era habitual que Madame Volet chegasse tarde, mas esperava que nada lhe tivesse acontecido na zona das muralhas. No Inverno, por ali havia sempre argelinos, acrescentou com misteriosa apreensão, como se estivesse a referir-se a lobos. No entanto, Madame Volet recusara a oferta de a ir buscar a casa.

- Dada a situação, não insisti. Pobre Madame Volet!... Deitou a mão ao enorme pimenteiro, como se se tratasse de um cacete, e imaginei Madame Volet como sendo uma velhinha fraca e tímida, também vestida de negro, até mesmo receosa da protecção dada por tão formidável amiga.

Como me enganara! Madame Volet surgiu de súbito na sala, seguida de uma rabanada de chuva, ao abrir-se a porta que ficava junto da minha mesa. Era uma mulher jovem e estranhamente bela, com umas calças pretas justas e um blusão cor de vinho, de gola alta. Fiquei satisfeito quando a vi sentar-se mesmo ao lado de Madame Dejoie, pois assim não a perdia de vista enquanto estivesse a comer.

- Cheguei tarde - disse ela. - Sei bem que venho atrasada. Há tantas coisas a fazer, quando uma pessoa está sozinha, e ainda me não habituei a viver isolada – acrescentou com um lindo e brando soluço, que me fez lembrar um frasquinho de límpido cristal de Veneza.

Descalçou as grossas luvas de Inverno com um gesto que me trouxe à ideia um lenço encharcado de lágrimas, e as mãos tomaram, de súbito, um aspecto de coisa insignificante, inútil e vulnerável.

- Pauvre cocotte - disse Madame Dejoie -, fique aqui tranquila junto de mim e esqueça tudo. Encomendei uma bouillabaisse com langouste.

- Mas eu não tenho apetite, Emmy.

- Depois me dirá. Ora aqui está o seu Porto, e mandei vir também uma garrafa de Blanc de Blancs.

- Vai pôr-me tout à fait saoule.

- Irá comer e beber, e durante um pedaço esqueceremos tudo. Compreendo muito bem o que sente, pois também perdi um marido muito amado.

- Porque morreu - comentou Madame Volet. - Faz grande diferença. A morte é inteiramente suportável.

- É mais irrevogável.

- Nada há mais irrevogável do que a minha situação. Emmy, ele ama aquela safada.

- Tudo o que sei dela é que tem um gosto lamentável... ou um cabeleireiro deplorável.

- Mas foi justamente isso que eu lhe disse.

- Fez mal. Eu podia tê-lo dito, mas você não. A mim, ele podia acreditar-me, e de qualquer modo a minha crítica não teria ferido o seu orgulho.

Madame Volet respondeu:

- Gosto dele e não consigo ser prudente.

De súbito, reparou em mim e segredou qualquer coisa à companheira, que a tranquilizou:

- Un anglais.

Eu observava-a tão disfarçadamente quanto podia - tal como a maioria dos meus confrades escritores tenho espírito de voyeur - e pensava em como os maridos podem ser estúpidos. Estava temporariamente livre e desejava profundamente dar-lhe algum conforto, mas não existia a seus olhos, agora que sabia que era inglês, nem tão-pouco aos olhos de Madame Dejoie. Era menos que um ser humano... Não passava de um excedente sem cotação no Mercado Comum.

Encomendei um rouget, meia garrafa de Pouilly e tentei interessar-me por um livro de Trollope que levava comigo. Mas a minha atenção perdia-se.

- Adorava o meu marido - continuou Madame Dejoie, e de novo a mão agarrou no pimenteiro, que, desta vez, se assemelhava menos a uma matraca.

- E ainda gosto, Emmy. Isso é o pior. Sei que se ele voltasse...

- O meu nunca mais voltará - interrompeu Madame Dejoie, tocando no canto do olho com o lenço e observando a mancha negra que ficara.

Num silêncio soturno, ambas esvaziaram os copos. Depois, Madame Dejoie disse com decisão:

- Não há que voltar atrás. Tem que aceitar as coisas tal qual elas são, e só nos resta o problema da adaptação.

- Depois de uma experiência como a que eu tive, nunca mais olharei para um homem - respondeu Madame Volet, que nessa altura me encarou.

Senti-me invisível. Meti a mão entre a luz e a parede para provar que tinha uma sombra, e essa sombra assemelhava-se a um animal com cornos.

- Nunca lhe aconselharia outro homem - afirmou Madame Dejoie. - Nunca!

- O quê,  então?

- Quando o meu marido faleceu, com uma infecção intestinal,  julguei-me inteiramente inconsolável, mas disse para comigo: «Coragem, coragem! Tens que aprender a rir outra vez!»

Madame Volet perguntou intrigada:

- A rir? A rir de quê?

Mas antes de Madame Dejoie poder responder, chegou Monsieur Félix para realizar a sua elegante operação cirúrgica no peixe para a caldeirada. Madame Dejoie observava com o maior interesse; Madame Volet, julguei eu, observava só por delicadeza, enquanto acabava o seu copo de Blanc de Blancs.

Quando a operação acabou, Madame Dejoie tornou a encher os copos e disse:

- Tive a grande sorte de encontrar une amie que me ensinou a não lamentar o passado.

Ergueu o copo e espetando um dedo, como tenho visto alguns homens fazer, acrescentou:

- Pas de mollesse.

- Pas de mollesse - repetiu Madame Volet, com a encantadora sombra de um sorriso.

Senti-me envergonhado de mim próprio: um frio observador literário das angústias humanas. Receava encontrar os olhos da pobre Madame Volet (que espécie de homem seria capaz de a tomar pela pessoa que não segue os caminhos devidos?) e tentei ocupar-me, lendo o meu Trollope, com os tristes galanteios de Mr. Crawley, quando percorria a travessa enlameada com as suas grandes botas de clérigo. No entanto, ambas as mulheres falavam em voz baixa.

Um agradável cheiro a alho chegava até mim, vindo da bouillabaisse. A garrafa de Blanc de Blancs estava quase esgotada e, apesar dos protestos de Madame Volet, Madame Dejoie mandara vir outra.

- Não há meias garrafas - dissera ela. - Podemos deixar alguma coisa no fundo, para alegrar os deuses.

Novamente as vozes desceram ao tom de um murmúrio íntimo, precisamente na altura da apaixonada corte de Mr. Crawley ser aceite (muito embora ele tivesse que fazer frente às despesas que uma grande família lhe traria, e a solução do problema só se esclarecesse no volume seguinte). Fui arrancado à minha forçada concentração por uma gargalhada: uma gargalhada musical de Madame Volet.

- Cochon! - exclamou ela.

Madame Dejoie olhava-a por cima da beira do copo (a nova garrafa já fora encetada), sob as sobrancelhas emaranhadas. Afirmava:

- Estou a dizer-lhe a verdade. Costumava cantar de galo.

- Mas que brincadeira tão estranha! Começou como brincadeira, mas a verdade é que ele passou a ter orgulho no que fazia. Après seulement deux coups...

- Jamais trois? - perguntou Madame Volet, e ao dar uma gargalhadinha entornou um pouco de vinho na gola do camisolão.

- Jamais.

- Je suis saoule.

- Moi aussi, cocotte.

Madame Volet acrescentou:

- Cantar de galo... pelo menos era uma fantaisie. Meu marido não tinha fantaisies. Era estritamente clássico.

- Pas de vices?

- Hélas, pas de vices.

- E, no entanto, sente a falta dele?

- Trabalhava muito - afirmou rindo Madame Volet. Pensar que no fim de tudo trabalhou tanto para nós dois.

- Achava-o um pouco aborrecido?

- Era um hábito... e os hábitos fazem falta. Agora acordo às cinco da manhã.

- Às cinco?

- Era a hora da sua maior actividade.

- Meu  marido era um homem muito fraquinho - informou Madame Dejoie. - Não de altura, evidentemente. Media dois metros.

- Oh, Paul é bastante alto... mas sempre o mesmo.

- Por que continua a amar esse homem? - suspirou Madame Dejoie, colocando a sua grande mão sobre o joelho de Madame Volet.

Usava um anel de sinete que talvez tivesse pertencido ao falecido marido. Madame Volet suspirou também e eu julguei que a melancolia se instalaria de novo naquela mesa, mas ouviu-se um soluço e ambas largaram a rir.

- Tu es vraiment saoule, cocotte.

- Sinto na realidade a falta de Paul, ou fazem-me falta os seus hábitos?

Nessa altura os nossos olhos encontraram-se e ela corou até à gola alta do seu camisolão manchado de vinho. Madame Dejoie repetiu, para lhe incutir confiança:

- É inglês... ou americano.

Nem se incomodou a baixar a voz.

- Sabe como a minha experiência era limitada quando o meu marido morreu? Adorava-o quando o ouvia cantar de galo. Eu sentia-me alegre e ele tão feliz. Só o queria ver feliz. Adorava-o e, no entanto, nessa época... j'ai peut-être joui trois fois par semaine. Não esperava mais. Parecia-me um limite natural.

- Quanto a mim, era três vezes por dia - informou Madame Volet, e riu outra vez. - Mais toujours d'une façon classique.

Tapou a cara com as mãos e teve um soluço. Madame Dejoie passou-lhe um braço por cima do ombro. Fez-se um longo silêncio, enquanto os restos da caldeirada eram levados para dentro.

 

Por fim, Madame Dejoie afirmou:

- Os homens são uns bichos curiosos.

Viera o café e haviam dividido um cálice de Marc pelas duas, molhando cada uma por sua vez os quadrados de açúcar, que depois metiam na boca uma da outra.

- Aos animais também falta a imaginação. Um cão não tem fantaisies.

Madame Volet dizia:

- Como eu às vezes estava aborrecida! Costumava passar o tempo sem fim a falar de política, e abria o rádio para ouvir as notícias às oito da manhã. Às oito! Que me interessa a política? Mas se eu lhe pedisse a opinião sobre qualquer assunto importante, não mostrava o mínimo interesse. Consigo posso falar do que quiser, seja o que for.

Madame Dejoie retorquiu:

- Adorava o meu marido, mas só depois da sua morte descobri a minha capacidade de amar. Foi com Pauline. Não conheceu Pauline. Ela morreu há cinco anos. Gostava mais dela do que jamais gostei de Jacques, e no entanto não senti desespero quando ela morreu. Sabia que não era o fim, porque então já conhecia a minha capacidade.

- Nunca amei uma mulher - afirmou Madame Volet.

- Chérie, então não sabe qual é o verdadeiro significado do amor. Com uma mulher não tem que se contentar com une façon classique, três vezes por dia.

- Gosto do Paul, mas ele é tão diferente de mim, sob todos os aspectos...

- Para se diferençar de Pauline, é um homem.

- Oh! Emmy, você descreve-lo tão bem. Como você compreende bem as coisas. Um homem!

- Pensando bem, na realidade, que cómico é aquele pequeno objecto. Nem merece a pena cantar de galo, pensar-se-á.

A uma risadinha, Madame Volet acrescentou:

- Cochon.

- Talvez que fumado como uma enguia uma pessoa gostasse.

- Cale-se.  Cale-se.

E balouçavam-se para a frente e para trás em frouxos de riso. Claro que estavam bêbedas, mas da maneira mais graciosa.

 

Que distante me parecia agora a ruela lamacenta de Trollope, as pesadas botifarras de Mr. Crawley e o seu orgulhoso e tímido galanteio. Num instante, percorremos um espaço tão vasto como o de qualquer astronauta. Quando olhei Madame Volet, ela encostara a cabeça ao ombro de Madame Dejoie.

- Estou cheia de sono.

- Esta noite vai dormir bem, chérie.

- Sou de tão pouca utilidade para si, não sei nada.

- Em amor aprende-se depressa.

- Mas estarei eu apaixonada? - perguntou Madame Volet, sentando-se muito direita e fixando os olhos escuros de Madame Dejoie.

- Se a resposta fosse não, não teria feito a pergunta.

- Mas eu julgava que não poderia amar outra vez.

- Outro homem, não - explicou Madame Dejoie. Chérie, está quase a dormir. Vamos!

- A conta? - perguntou Madame Volet como se ainda quisesse demorar o instante da decisão.

- Pago amanhã. Que bonito casaco... mas não é bastante quente, chérie, para o mês de Fevereiro. Precisa de alguém que tome conta de si.

- Devolveu-me a coragem que eu perdera - suspirou Madame Volet. - Quando vim para aqui, estava tão desmoralizada...

- Dentro em pouco... Prometo-lhe... rir-se-á do passado...

- Já me ri - concordou Madame Volet. - É verdade que ele cantava de galo?

- Garanto-lhe.

- Nunca mais esquecerei o que disse sobre as enguias fumadas.  Nunca mais. Se visse uma agora...

Largou a rir outra vez e Madame Dejoie amparou-a quando iam a passar a porta.

Vi-as atravessar a estrada em direcção ao parque dos carros. De repente, Madame Volet tropeçou, deu um saltinho e deitou os braços em volta do pescoço de Madame Dejoie, e o vento, soprando através da arcaria da entrada, trouxe o suave som do seu riso até ao sítio onde eu ficara sozinho no restaurante de Félix. Sentia-me contente por a saber de novo feliz. Sentia-me contente por ela estar nas mãos de Madame Dejoie, amáveis e de confiança. Que parvo havia sido Paul, considerava eu, sentindo-me também triste por tantas oportunidades que havia desperdiçado.

 

O SACO DE NOITE

O homenzinho que se aproximou do balcão das informações, no aeroporto de Nice, quando chamaram: «Henry Cooper, passageiro da BEA no voo 105 para Londres», parecia uma sombra feita pelo cintilante brilho do Sol. Vestia um fato cinzento e calçava sapatos pretos; tinha uma pele pardacenta que combinava bem com a cor do fato, e, visto que lhe era impossível mudar de pele, era possível que não tivesse outro fato.

- É Mr.  Cooper?

- Sim.

Levava na mão um saco de noite da BOAC, que colocou com todo o cuidado na beira do balcão, como se contivesse qualquer coisa preciosa e frágil, por exemplo uma máquina de barbear eléctrica.

- Tem um telegrama para si.

Ele abriu-o, leu-o duas vezes: «Bon voyage. Sinto tua falta. Serás bem-vindo a casa, querido filho. Mãe.» Rasgou o telegrama em dois bocados e deixou-os em cima do balcão, donde a rapariga de uniforme azul, depois de um discreto intervalo, os apanhou e com uma curiosidade natural juntou um ao outro. Em seguida, com os olhos, procurou o homenzinho de cinzento, que se encontrava entre os passageiros que faziam bicha junto à entrada dos turistas para se dirigirem ao «Trident». Encontrava-se entre os últimos, com a sua maleta azul onde se liam as iniciais da BOAC.

Na parte da frente do aparelho, Henry Cooper encontrou um lugar junto de uma janela e colocou o saco na coxia, a seu lado. Uma mulher grande, com umas calças azuis-claras demasiado justas para o tamanho das nádegas, sentou-se no terceiro lugar. Pousou uma enorme mala de mão ao lado do saco que já estava no assento central e colocou um grande casaco de peles em cima de ambos. Henry Cooper perguntou-lhe:

- Dá-me licença que o ponha na rede?

A mulher olhou-o com certo desdém:

- Pôr o quê?

- O seu casaco.

- Se quiser... Porquê?

- É um casaco muito pesado. Amachuca o meu saco de noite.

Era um homem tão pequeno que mal tinha de curvar a cabeça debaixo da rede. Quando se sentou, apertou o cinto de segurança sobre as duas malas, antes de cingir o dele. A mulher olhava-o desconfiada e depois comentou:

- Nunca vi ninguém fazer isso.

- Não o quero agitado - explicou ele. - Há tempestade sobre Londres.

- Não me diga que leva aí um animal, ou leva?

- Exactamente, não.

- É uma crueldade levar um animal fechado - protestou ela como se não acreditasse no que ele dissera.

Quando o «Trident» começou a deslizar, colocou a mão em cima do saco, como se quisesse tranquilizar qualquer coisa que lá estivesse dentro.

A mulher observava o saco com atenção. Se visse o mínimo movimento que denunciasse vida, chamaria logo a hospedeira. Nem que não passasse de uma tartaruga... Uma tartaruga tem necessidade de respirar, pelo menos era o que ela supunha, mesmo em estado de hibernação. Quando já iam no ar, o homem descontraiu-se e começou a ler o Nice-Matin, gastando muito tempo com cada história, como se o seu francês não fosse fácil. A mulher fez um enorme esforço para libertar a mala dela do cinto de segurança. Em honra dele, pronunciou duas vezes: «Ridículo», mas conseguiu os seus intentos, pôs uns óculos de aros de tartaruga e leu de novo uma carta que principiava por «Minha querida Tiny» e terminava com «um apertado abraço de Bertha». Passado um bocado, fatigou-se do peso da mala em cima dos joelhos e deixou-a cair sobre o saco com as iniciais da BOAC.

O homenzinho deu um salto, aflito, e disse:

- Por favor, minha senhora, por favor.

Ergueu a mala e, de mau humor, colocou-a a um canto do assento, dizendo:

- Não o quero amachucado. Traz uma coisa de respeito.

Irritada, a mulher perguntou-lhe:

- Mas, afinal, que leva aí nesse precioso saco?

- Um bebé morto - informou ele. - Julgava que já lhe tinha dito.

Através do altifalante ouvia-se a voz do piloto:

- À  esquerda do aparelho verão Montélimar. Estaremos sobre Paris dentro de...

- Está a falar a sério? - inquiriu ela.

- É isso mesmo! - retorquiu ele com voz convincente.

- Mas não pode transportar bebés mortos... assim... numa mala...  na classe turística.

- Pelo que diz respeito ao bebé, é muito mais barato do que de qualquer outra maneira. Só tem uma semana. Pesa tão pouco...

- Mas devia vir num caixãozinho e não dentro de um saco de viagem.

- Minha mulher não tem confiança nos caixões estrangeiros. Diz que utilizam materiais de pouca duração. É uma pessoa cheia de preconceitos.

- É seu filho?

Apesar da estranha situação, estava quase disposta a ser simpática.

- É o filho de minha mulher - corrigiu ele.

- Mas qual é a diferença?

Ele ripostou com amargura:

- Claro que deve haver certa diferença...

E voltou a página do Nice-Matin.

- Está a insinuar...?

Mas ele já estava interessadíssimo numa notícia que dizia respeito à reunião, em Antibes, do Lions Club, e à sugestão bastante revolucionária, feita ali por um membro de Grasse. Ela tornou a ler a carta da «Bertha que a abraçava muito», mas não conseguiu fixar a sua atenção. Continuava a olhar de soslaio para o saco. Passado um bocado perguntou:

- Mas não receia ter complicações com a Alfândega?

- Claro que tenho de o declarar - disse ele. - Vem do estrangeiro.

Quando desembarcaram, precisamente à tabela, ele disse-lhe com uma elegância que já se não usa:

- Tive muito prazer em viajar na sua companhia.

Ela procurou-o com curiosidade mórbida no edifício da Alfândega Canal 10 -, mas viu-o no Canal 12, destinado aos passageiros que traziam ligeira bagagem de mão. Ele falava com entusiasmo para o funcionário de ar importante e que de giz em punho se inclinava para o saco. Depois perdeu-o de vista e o funcionário que tratava das coisas dela insistia em passar revista ao enorme malão, onde trazia, para Bertha, uma quantidade de prendas não declaradas. Henry Cooper foi o primeiro a chegar à porta e chamou um táxi. O preço dos táxis subia de ano para ano, enquanto ele estava no estrangeiro, e a sua única extravagância era não esperar pelo autocarro. O céu pusera-se encoberto e a temperatura era pouco melhor do que quando nevava, mas o motorista seguia eufórico. Tomara um ar de camaradagem e contou a Henry Cooper que ganhara cinquenta libras nas apostas das corridas de cavalos. O aquecimento atingira o máximo e Henry Cooper abriu a janela, mas uma corrente de ar gelado, como se fosse da Escandinávia, percorreu-lhe os ombros. Tornou a fechar a janela e perguntou:

- Não se importa de desligar o aquecimento?

Estava tão quente dentro do carro como num hotel de Nova Iorque durante um dia de nevoeiro.

- Lá fora faz frio.

- Mas, sabe, eu trago um bebé morto dentro do meu saco - explicou ele.

- Um bebé morto?

- Sim.

- Ah! Está bem, mas ele não se importa com o calor, pois não? - gracejou o motorista. - Ou acha que sim? É um rapaz, não?

- Sim, é um rapaz. Estou aflito, não se vá... deteriorar.

- Duram muito - respondeu-lhe o motorista. - Até se vai admirar. Mais que as pessoas de idade. Que comeu ao almoço?

Henry Cooper manifestou-se um pouco surpreendido, mas respondeu:

- Carré d'agneau à la provençale.

- Com caril?

- Não. Com caril, não. Costeletas de carneiro com alho e ervas aromáticas. Como sobremesa uma torta de maçã.

- E não me surpreende se me disser que também bebeu.

- Meia garrafa de rosé. E um conhaque.

- Ora aí está a explicação.

- Não compreendo.

- Com tudo isso lá dentro não pode estar bem disposto.

Lâminas Gilette vinham semiocultas na névoa gelada.

O motorista esquecera-se, ou recusara-se, a baixar o aquecimento, mas ficou silencioso durante um bocado, quem sabe se a meditar no problema da vida e da morte. Por fim perguntou:

- E como morreu o pequenino?

- São tão débeis - respondeu-lhe Henry Cooper.

- Às vezes há muito de sério numa graçola - observou o motorista, mas um pouco distraído, pois tivera que guinar para evitar um carro que parara de repente, e Henry Cooper deitou a mão ao saco para o segurar.

- Perdoe - disse o motorista. - Não foi culpa minha. Seja como for, não se aflija... Depois de mortos não podem partir os ossos, pois não? Uma vez li qualquer coisa a esse respeito em As Façanhas de Sir Bernard Spilsbury, mas não me lembro exactamente do que se tratava. É esse sempre o problema da leitura.

Henry Cooper insistiu:

- Sentia-me muito mais feliz se baixasse o aquecimento.

- Não tem interesse em apanhar um resfriamento, pois não5 Eu também não. A ele, no estado em que está, já nada lhe faz mal. Com certeza que não quererá ficar no mesmo estado.  Não dentro de um saco de viagem, claro está. Nisso até é desnecessário falar.

O túnel de Knightsbridge, como habitualmente, estava fechado por causa da cheia. Seguiram para o norte através do parque. A chuva escorria das árvores sobre os bancos vazios. Os pombos sacudiam as penas cinzentas, da cor da neve suja das cidades. O motorista perguntou:

- O bebé é seu? Se não é indiscreta a pergunta.

- Meu propriamente não é.

E logo a seguir, com vivacidade e alegria, acrescentou:

- Mas acontece que é de minha mulher.

O motorista ficou absorto durante um instante e afirmou pensativo:

- Não é a mesma coisa como se fosse nosso. Tive um sobrinho que morreu. Tinha o céu da boca fendido... Claro que não morreu disso, mas tornou o desgosto mais suportável para os pais.  Agora vai ao cangalheiro?

- Pensei levá-lo para casa esta noite, e tratar de tudo isso amanhã.

- Uma coisa assim tão pequenina pode muito bem ficar no frigorífico. Não ocupa mais espaço que um frango. Só por precaução.

Entraram na vasta Praça de Bayswater, com os seus prédios caiados. As casas assemelhavam-se à parte superior dos túmulos que se encontram nos cemitérios continentais, com a diferença de que se dividiam em andares e havia carreiras e carreiras de botões de campainhas para acordar os habitantes. O motorista observou Henry Cooper a sair com a sua maleta e dirigir-se a uma entrada que tinha o nome de Stare House. Bloody orful aircraft company, disse ele mecanicamente ao ver as letras BOAC - sem querer, como se fosse um reflexo de Pavlov.

Henry Cooper subiu ao último andar e entrou. Sua mãe já estava no vestíbulo para o receber.

- Vi o carro parar, querido.

Ele pôs o saco em cima de uma cadeira para a beijar melhor.

- Não te demoraste muito. Recebeste o meu telegrama em Nice?

- Sim, mãe. Com um volume só como bagagem, passa-se bem todas as Alfândegas.

- É muito hábil da tua parte o viajares sem bagagem.

- É o resultado de nos habituarmos às camisas de lavar e pôr ao luar - respondeu Henry Cooper.

Seguiu a mãe até à sala e reparou que ela mudara a posição do seu quadro preferido: uma reprodução tirada da revista Life, de um quadro de Hieronymus Bosch.

A mãe, que lhe seguira o olhar, explicou:

- É só para o não ver do meu lugar, querido.

Os chinelos estavam ao lado da cadeira, e ele sentou-se com o ar de satisfação de quem se encontra de novo em casa. A mãe então disse:

- Agora conta-me tudo. Fizeste novos amigos?

- Oh! sim, mãe. Onde quer que fui, arranjei amigos.

O Inverno instalara-se cedo em Stare House. A maleta de viagem desaparecera na escuridão do vestíbulo, tal como um peixe azul em águas azuis.

- E aventuras? Que aventuras?

Enquanto ele falava, a mãe levantou-se e, nos bicos dos pés, foi puxar as cortinas, acender um candeeiro de leitura, e a certa altura teve um esgar de espanto:

- O quê? Um dedinho do pé? Na compota?

- Sim, mãe.

- Não era compota inglesa?

- Não, mãe. Era estrangeira.

- Ainda compreendia um dedo das mãos... Um acidente ao cortar as laranjas... Mas um dedo do pé!

Henry Cooper explicou:

- Tanto quanto sei, em certas regiões usam uma espécie de guilhotina que os camponeses accionam com os pés descalços.

- Claro que te queixaste?

- Por palavras, não. Mas coloquei o dedo, de maneira bem visível, na borda do prato.

Depois de mais uma história, eram já horas de a mãe meter o pudim no forno, Henry Cooper dirigiu-se ao vestíbulo para ir buscar o saco. Dissera para consigo:

- São horas de desfazer as malas.

Era um homem de espírito ordenado.

 

MÃO-MORTA

Para Carter, quando atingiu os quarenta e dois anos e se casou, o matrimónio parecia-lhe ser maravilhosamente seguro e tranquilo. Tinha mesmo apreciado todos os instantes da cerimónia da igreja, quando viu Josephine limpar uma lágrima, no instante em que acompanhava Julia, ao descerem a nave central. Era característico do novo tipo de relações sinceras, que Josephine ali estivesse. Não tinha segredos para Julia e várias vezes haviam conservado dos seus dez atormentados anos na companhia de Josephine, dos seus estranhos ciúmes, dos seus periódicos e pontuais ataques de histerismo.

- Tudo isto era devido à sua insegurança - replicava Julia, compreensiva e convicta que dentro em pouco lhe seria possível assentar uma amizade segura com Josephine.

- Duvido, querida.

- Porquê?, não posso deixar de ser amiga de uma pessoa que gostou de si.

- Lembra-te que era um amor assaz cruel.

- Talvez para o fim assim fosse, quando teve a noção de que te ia perder, mas, querido, vocês também tiveram anos felizes.

- Sim - mas o que lhe interessa era esquecer que amara alguém antes de Julia.

A generosidade da rapariga às vezes fazia-o vacilar. No sétimo dia da lua-de-mel, quando estavam a beber retsina num pequeno restaurante nas margens do Sunium, por acaso, tirou uma carta de Josephine de dentro do bolso. Chegara na véspera, e ele ocultara-a, com receio de magoar Julia. Era típico da maneira de ser de Josephine nem sequer o deixar sossegado durante o breve período da lua-de-mel. Agora, até detestava aquela caligrafia: muito nítida, pequena, traçada a tinta preta como a cor do seu cabelo. Julia era loira platinada. Como é que ele pudera ter achado bonito o cabelo preto? Ou desejar ardentemente ler cartas escritas a tinta preta?

- De quem é a carta, querido? Não sabia que tinha havido correio.

- Da Josephine. Veio ontem.

- Mas tu nem sequer a abriste! - exclamara ela sem qualquer intenção de censura.

- Nem nela quero pensar.

- Mas, querido, pode estar doente.

- Ela?!... Não!

- Ou ter qualquer aflição.

- Ganha mais com os desenhos de modas do que eu com os meus livros.

- Querido, sejamos gentis. Temos uma possibilidade. Sentimo-nos tão felizes!

De modo que ele abriu a carta. Era afectuosa, sem lamentos, mas apesar disso leu-a com certa aversão:

«Meu querido Philip: Não quis ser desmancha-prazeres na recepção, de modo que não tive oportunidade de me despedir de ti e desejar aos dois todas as felicidades. Acho que Julia estava de uma beleza perfeita e tão, tão jovem... Deves ter para com ela todas as atenções. Sei como tens qualidades para o poderes fazer, querido Philip. Quando a vi não pôde deixar de pensar em quais seriam as razões que te levaram a decidires deixar-me. Que Philip tão pateta! É muito menos doloroso agir com prontidão.

«Suponho que não tens interesse em saber o que faço agora, mas se por acaso te inquietaste um pouco por minha causa - sei bem como te afliges sem razão -, quero que saibas que estou a trabalhar, e a todo o vapor, para uma série inteira da... adivinha... Vogue francesa. Pagam-me uma fortuna em francos, e com toda a franqueza não Tenho tempo para pensamentos tristes. Voltei uma vez - espero que te não importes - a nossa casa (que deslize na maneira de dizer) porque perdi um desenho insubstituível. Encontrei-o no fundo da nossa gaveta comum... o banco das ideias, lembras-te? Pensava ter tirado todas as minhas coisas, mas esqueci-o lá no meio das folhas da história que começaste e nunca acabaste, naquele Verão delicioso que passámos em Nápoles. Agora cá vou andando e tudo o que na verdade desejo é que sejam ambos muito felizes. Com toda a ternura,

Josephine»

Carter estendeu a carta a Julia e comentou:

- Podia ter sido bem pior.

- Mas ela não se importará que eu leia?

- É para os dois.

De novo pensou em como é delicioso não ter segredos. Tinha havido tanta coisa oculta durante os últimos dez anos, incluindo segredos inocentes, com receio das faltas de compreensão e das fúrias ou dos silêncios de Josephine. Depois disse:

- Fui  tolo em te não mostrar a carta ontem. Não tornarei a fazê-lo.

Agora não receava coisa alguma; poderia confiar mesmo um segredo pecaminoso à simpatia e à compreensão de Julia. Tentou recordar o verso de Spenser: «... porto depois de mares encapelados.»

Quando acabou de ler a carta, Julia disse:

- Penso que é uma pessoa encantadora. Que simpático da parte dela escrever uma carta destas! Quero que saibas que às vezes, mas poucas vezes, claro está, me preocupava um tanto por causa dela. Digamos que eu não gostaria de te perder depois de dez anos.

Quando voltavam no táxi para Atenas, Julia perguntou:

- Vocês foram muito felizes em Nápoles?

- Sim, acho que sim, não me lembro, mas não era como agora.

Com as antenas que o amor dá a um homem apaixonado, sentiu que ela se desviava dele, se bem que os ombros ainda se tocassem. O sol era uma mancha viva na estrada que vinha de Sunium. A sesta cálida e ensonada já os esperava, e no entanto:

- Alguma coisa querida?

- Não... Não é nada... Achas que um dia vai dizer de Atenas a mesma coisa que disseste de Nápoles? «Não me lembro, mas não era como agora.»

- Que louca me saíste - disse ele e beijou-a.

Depois disto amaram-se no táxi que voltava para Atenas, e quando as ruas começaram a surgir ela sentou-se e arranjou o cabelo.

- Não se pode dizer que sejas um homem de sangue frio, pois não? - perguntou, e ele teve a certeza de que as coisas estavam de novo no seu lugar.

Fora culpa de Josephine o ter havido, se bem que momentaneamente, um pequeno desacordo.

Quando se levantaram da cama para ir jantar, ela disse:

- Temos que responder a Josephine.

- Oh, não!

- Querido, compreendo-te perfeitamente, mas na verdade é uma carta muito bela.

- Então mandamos-lhe um postal.

E concordaram.

 

O Outono viera de súbito e quando regressaram a Londres até já parecia Inverno, pois a chuva caía gelada, e eles tinham esquecido completamente que as luzes têm que se acender cedo. Os cartazes da BOAC pareciam mais sombrios que habitualmente: a BOAC leva-o e trá-lo.»

- Assim que chegar a casa vou ligar todo o aquecimento - disse Carter -, que não leva tempo nenhum a pôr a funcionar.

Mas quando abriram a porta viram que os radiadores já estavam acesos. Pequenos halos de lume vivo davam-lhes as boas-vindas na penumbra do entardecer, do fundo da sala de estar e do quarto de dormir.

- Passou por aqui uma fada - disse Julia.

- Qual fada, nem qual carapuça!... - exclamou Carter, que já vira o envelope sobre a pedra do fogão. Era dirigido a «Mrs.  Carter» e escrito a tinta preta.

«Querida Julia: Não se importa que a trate assim, pois não? Sinto que temos tanto em comum, tendo amado o mesmo homem! Hoje esteve um frio insuportável e eu não conseguia deixar de pensar em vocês, que vinham do sol e do calor para uma casa gelada. (Sei bem como a casa é gélida. Costumava apanhar uma constipação, todos os anos, quando voltávamos do Sul de França.) De modo que fiz uma coisa confiada. Introduzi-me em vossa casa e liguei o aquecimento, mas para vos provar que não tornarei a fazê-lo, meti a minha chave debaixo do capacho da porta da frente. Isto para o caso de o avião ficar retido em Roma ou em qualquer outra parte. Telefonarei para o aeroporto e se por qualquer improvável coincidência vocês não chegarem, voltarei e apagarei tudo como medida de segurança (e de economia! As tarifas são medonhas.) Desejando-vos um caloroso regresso ao vosso novo lar, toda a ternura da Josephine.

«P-S. - Reparei que o boião do café estava vazio, de modo que deixei na cozinha um pacote de Blue Mountain, que é o único de que Philip gosta realmente.»

Julia disse a rir:

- Ela pensa em tudo.

- Gostaria muito mais que nos deixasse em paz - protestou Carter.

- Não estaria assim tão acolhedor, e não teríamos café para o pequeno-almoço.

- Dá-me a impressão que está para aí escondida em qualquer buraco e surge de um momento para o outro no meio de nós. Exactamente no instante em que te dê um beijo.

E beijou a mulher, sem tirar os olhos da porta.

- Estás a ser um bocadinho desagradável, querido. Apesar de tudo, ela deixou a chave debaixo do capacho.

- Pode ter mandado fazer outra.

Julia fechou-lhe a boca com um beijo.

- Já  reparaste como os  aviões tornam uma pessoa erótica, depois de algumas horas de voo? - perguntou Carter.

- Suponho que seja da vibração.

- Vamos remediar o mal? - propôs ele.

- Primeiro vou ver debaixo do capacho.  Para ter a certeza de que ela estava a mentir.

Ele encontrara alegria no casamento - e de tal maneira que se censurava por o não ter feito mais cedo, esquecendo-se de que, neste caso, ter-se-ia casado com Josephine. Descobriu que Julia, que não tinha qualquer preparação profissional, era uma pessoa quase milagrosamente útil. Não havia criada que, com os seus hábitos, lhe perturbasse a vida. Como estavam sempre juntos, em cocktails, em restaurantes, em jantares sem serem de cerimónia, só tinham que olhar um para o outro... Julia dentro em pouco ganhara reputação de pessoa de saúde delicada, que se fatigava com facilidade. Sucedia com tanta frequência, que abandonavam um cocktail um quarto de hora depois de terem chegado e um jantar logo a seguir ao café.

- Oh!, querido, desculpa, mas estou com umas medonhas dores de cabeça... Que coisa estúpida. Philip, tu deves ficar!...

- Claro que não vou ficar.

Uma vez quase que foram descobertos na escada, onde não conseguiram controlar o riso, pois o dono da casa viera atrás deles para lhes pedir para porem uma carta no correio. Julia, no mesmo instante, transformou as gargalhadas no que parecia ser uma crise histérica... Várias semanas se passaram. Era na realidade um êxito, aquele casamento... De vez em quando, gostavam de discutir o resultado, atribuindo o mérito principal um ao outro.

- Quando penso que podias ter casado com Josephine! Por que não casaste com ela? - perguntou Julia.

- Possivelmente porque bem no fundo de nós próprios tínhamos a consciência de que a coisa não devia ser duradoira.

- E nós? Temos o condão de ser uma coisa duradoira?

- Se não formos, nada jamais o será.

Foi em Novembro que as bombas de relógio começaram a explodir. Sem dúvida haviam sido preparadas para rebentar mais cedo, mas Josephine não tomara em conta a temporária alteração dos seus hábitos. Algumas semanas passaram sem ele ter tido ocasião de abrir aquilo a que costumavam chamar o banco das ideias, no tempo da sua mais íntima amizade: a gaveta onde costumava haver apontamentos para histórias, frases de diálogos ouvidos e coisas semelhantes, e ela costumava meter lá uns esbocetos informes para anúncios de modas.

Mal abriu a gaveta, viu a carta. Tinha escrito em letras grandes: «Estritamente confidencial», a tinta preta, com um ponto de exclamação caprichosamente desenhado em forma de rapariga com olhos enormes (Josephine sofria de uma maneira elegante de bócio exoftálmico) que, como se fosse um génio, saía de uma garrafa. Ele leu a carta com extremo enfado:

«Querido, não esperavas encontrar-me aqui, pois não? Mas após dez anos não resisto, de vez em quando, a dizer-te «Boas-noites», desejar-te «Bons-dias», ou perguntar-te apenas «Como estás?». Deus te proteja. Muito amor (verdadeiro e sincero), tua Josephine.»

A ameaça desse «de vez em quando» era Inconfundível. Empurrou a gaveta com violência, fechou-a e disse: «Diabos a levem!», em voz tão alta que Julia apareceu a perguntar:

- Mas de que se trata, querido?

- Outra vez a Josephine.

A rapariga leu a carta e afirmou:

- Sabes, eu consigo compreender a sua maneira de sentir. Pobre Josephine! Mas para que estás a rasgar a carta, querido?

- Mas que esperavas que fizesse? Guardá-la, para poder publicar uma edição completa das cartas dela?

- Parece-me um tanto injusto.

- Pareço-te injusto para com ela? Julia, tu não fazes a mínima ideia da vida que passámos nestes últimos anos. Posso mostrar-te as cicatrizes: quando tinha fúrias, costumava apagar os cigarros onde quer que fosse.

- Sentia que estava quase a perder-te, querido, e isso desesperava-a. Sou eu na verdade a culpada de todas essas tuas cicatrizes, de todas elas.

Conseguiu ver surgir nos olhos da mulher aquele lampejo meigo, divertido e especulativo, que conduzia sempre ao mesmo fim.

Mal tinham passado dois dias, quando a outra bomba de relógio rebentou. Ao levantarem-se, Julia disse:

- Na realidade, temos de arranjar um colchão novo. Rebolamos os dois para o buraco que tem no meio.

- Ainda não tinha reparado.

- Há muita gente que volta o colchão todas as semanas.

- É verdade. Josephine fazia-o sempre. Desmancharam a cama e começaram a enrolar o colchão.

Em cima das molas estava uma carta dirigida a Julia. Carter vira-a primeiro e tentou fazê-la desaparecer, mas Julia deu por isso.

- O que é?

- A Josephine, claro está. Dentro em pouco juntaremos o número de cartas necessárias para fazer um volume. Temos de tratar de arranjar um editor para as publicar em Yale,  tal como se fez com as da George Eliot.

- Querido, essa é para mim. Que tencionavas fazer dela?

- Destruí-la em segredo.

- Pensei que estava assente que não teríamos segredos um para o outro.

- Não contei com Josephine.

Pela primeira vez, ela hesitou antes de abrir a carta.

- Na realidade é um pouco estranho colocar uma carta ali.  Achas que foi ocasional?

- Pensaria antes que foi bastante difícil.

Ela leu a carta e depois entregou-lha, suspirando aliviada:

- Explica as suas razões. É na verdade inteiramente natural.

Ele leu:

«Querida Julia:  Como desejo que esteja estendida a apanhar esse bom sol da Grécia! Não diga a Philip (oh! certamente que ainda não têm segredos um para o outro), mas a verdade é que nunca me interessou o Sul da França. Sempre aquele mistral a secar a pele. Alegra-me pensar que não lhe desagrada estar aí. Sempre fizemos projectos de ir à Grécia, logo que nos fosse possível, de modo que tenho a certeza que Philip deve estar satisfeito. Vim aqui hoje em busca de um desenho e lembrei-me que o colchão não fora voltado na última quinzena. Andávamos longe das realidades, nas últimas semanas que vivemos juntos. De qualquer forma, não posso conceber a ideia de vocês voltarem das ilhas dos lódãos e na primeira noite encontrarem um colchão cheio de altos e baixos, de modo que o voltei. Dou-lhe o conselho de o voltar todas as semanas, se não cria uma cova no meio. A propósito, pus os cortinados de Inverno e mandei limpar os de Verão em Brompton Road, 53. Lembranças, Josephine.»

- Se bem te lembras, quando me escreveu disse que a nossa estada em Nápoles fora celestial - comentou Carter. - O editor de Yale terá que fazer uma chamada.

- Tu és um bocadinho animal de sangue frio - conveio Julia.  - Querido, ela está a querer auxiliar-nos. A verdade é que eu não sei nada, nem de colchões, nem de cortinados.

- Suponho que lhe vais escrever uma longa e terna carta,  cheia de referências domésticas.

- Há semanas que ela espera uma resposta. Esta carta já é antiga.

- E eu já imagino quantas serão as cartas antigas que para aí andarão à espera de surgir de um momento para o outro. Diabos me levem se não vou revolver a casa de cima a baixo!  Do sótão à cave...

- Que, aliás, nem temos.

- Compreendes muito bem o que quero dizer.

- A única coisa que percebo é que estás a complicar as coisas de maneira despropositada. Portas-te como se tivesses medo de Josephine.

- Oh, que inferno!

Julia saiu abruptamente do quarto e ele tentou trabalhar. Mais tarde, nesse mesmo dia, as coisas não lhe correram bem, nada de sério, mas não o ajudou a modificar a má disposição. Quis encontrar o número de telefone dos telegramas telefonados para além-mar, e descobriu metida dentro de uma das listas uma sequência completa, alfabeticamente ordenada, escrita na máquina de Josephine, cujos «O» estavam sempre sujos, dos números de que mais necessitavam. John Hughes, o seu mais velho amigo, vinha a seguir a Harrods; e havia a mais próxima estação de táxis, a drogaria, o talho, o banco, a casa da limpeza a seco, o lugar de hortaliça, a peixaria, o editor, o agente, o número do estabelecimento de Elizabeth Arden e o cabeleireiro local, a que estava junto um parêntesis (para a J. dar atenção: de toda a confiança e nada caro) - era a primeira vez que reparava que tinham as mesmas iniciais.

Julia, que o vira descobrir a lista, disse:

- Aquela mulher é um anjo. Vou pendurar esta lista por cima do telefone. É na verdade completíssima.

- Depois do disparate da última carta, esperava que incluísse aqui também o número de telefone do Cartier.

- Querido, não foi um disparate. Foi a simples verificação de um facto. Se eu não tivesse algum dinheiro, nós também teríamos ido para o Sul da França.

- Suponho que pensas que casei contigo para poder ir à Grécia.

- Não sejas tonto. Não estás a ver o problema de Josephine com a clareza devida. Dás um jeitinho especial a cada uma das atitudes que ela toma por pura delicadeza para connosco.

- Delicadeza?

- Julgo que seja um sentimento de culpa.

Seguidamente, ele iniciou, na verdade, uma busca. Procurou nas caixas de cigarros, gavetas, armários. Virou todas as algibeiras dos fatos que não levara para viagem, abriu a parte de trás do aparelho de televisão, levantou a tampa do autoclismo, substituiu mesmo o rolo de papel higiénico (era mais fácil do que desenrolá-lo todo). Enquanto revistava a casa de banho, Julia pôs-se a olhar para ele, mas sem a sua habitual simpatia. Espreitou nos varões (quem sabe o que se poderia ainda descobrir, quando, na próxima vez, as cortinas fossem para limpar?) e voltou o cesto da roupa suja, não se tivessem descuidado de ver com atenção. Andou de gatas pela cozinha, para espreitar debaixo do fogão, e quando achou um bocado de papel enrolado em volta de um cano deu uma espécie de grito de triunfo, mas não era absolutamente nada: limitava-se a um bocado de papel que, como relíquia, o canalizador ali deixara. O correio da tarde caiu na caixa e Julia, que o fora buscar, exclamou ao entrar:

- Que bom! Nunca me tinhas dito que assinavas a Vogue francesa.

- E não assino.

- Desculpa, e vem uma espécie de cartão de Natal noutro envelope. A assinatura foi feita para nós por Miss Josephine Heckstall-Jones. Digo-te que da parte dela é muito amável.

- Fez para lá uma série de desenhos. Nem quero ver!

- Querido, estás a ser infantil. Esperas que ela deixe de ler os teus livros?

- A única coisa que quero é que me deixe tranquilo contigo.  Acho que não será pedir muito.

- És um bocadinho egoísta, meu querido.

Nessa noite, ele sentia-se cansado, mas um pouco aliviado de espírito. A busca fora completa. A meio do jantar, lembrou-se dos presentes de casamento que ainda estavam encaixotados por falta de espaço e insistiu em verificar, entre o prato de peixe e o prato de carne, se ainda estavam pregados - sabia que Josephine nunca utilizaria uma chave de parafusos, com receio de magoar os dedos, e que tinha o horror dos martelos. Por fim, a tranquilidade de um serão solitário desceu sobre eles: a calma deliciosa que, ambos sabiam, qualquer deles podia alterar quando quisesse, só com o contacto da mão.

- «Estou tão tranquilo esta noite como se já fosse velhinho» - citou Carter.

- Quem escreveu isso?

- Browning.

- Não conheço Browning.  Lê uma coisa qualquer.

Ele gostava de ler Browning em voz alta: tinha boa voz para ler os poetas, era o seu pequeno e inocente narcisismo.

- Gostavas de facto que lesse?

- Sim.

- Costumava ler para Josephine ouvir - avisou ele.

- E isso que me interessa? Não podemos deixar de fazer algumas das mesmas coisas, pois não, querido?

- Há uma coisa que nunca li a Josephine. Nem quando estava apaixonado por ela achei que fosse apropriado. Nós não éramos...  perduráveis.

Começou a ler:

Como sei bem o quero fazer

Quando chegam as longas e negras noites de Outono...

Carter sentia-se profundamente emocionado pela sua própria leitura. Nunca amara tanto Julia como nesse instante. Estava em sua casa... O resto não tinha passado duma espécie de acampamento.

... Agora vou falar,

Deixarei de te observar enquanto

Lês, sentada junto do lume, atenta,

E o espírito te acompanha,

Mudamente, mas o meu coração sabe como.

Quase desejava que Julia estivesse também lendo, mas, se assim fosse, claro que o não escutaria com uma tão adorável atenção.

Se juntares duas vidas, frequentemente surge uma cicatriz. São um e mais um com a sombra de um terceiro; Um perto e um demasiado longe.

Voltou a página e surgiu-lhe uma folha de papel, que ele teria descoberto imediatamente, antes de ler, se ela a tivesse metido num envelope, com a nítida caligrafia desenhada a tinta preta.

«Querido Philip, só para te dizer boa-noite entre as páginas do teu livro preferido... teu e meu. Estamos tão felizes por termos acabado da maneira como o fizemos... Com recordações em comum ficaremos para sempre um pouco em contacto. Amor da Josephine.»

Atirou com o livro e com o papel para o chão e berrou:

- Cadela! Maldita cadela!

- Não gosto de te ouvir falar assim - interrompeu Julia com surpreendente força.

Apanhou o papel do chão e leu-o.

- Mas que mal há nisto? - perguntou ela. - Detestas recordações? Que vai acontecer às nossas?

- Mas tu não vês a partida que ela nos está a pregar? Não compreendes? És idiota?!

Nessa noite, dormiram cada um no extremo do colchão, sem sequer se tocarem com os pés. Era a primeira noite, desde que haviam vindo para casa, que se não tinham entregado um ao outro. Nem ao menos haviam dormido bem. De manhã, Carter encontrou uma carta no local que era, evidentemente, o mais óbvio, mas que ele, de certo modo, desconsiderara: entre as folhas de um caderno onde sempre escrevia as suas histórias. Começava assim:

«Querido, tenho a certeza que te não importas que te trate como sempre te tratei...»

 

EM AGOSTO É MAIS BARATO

Em Agosto era barato: o sol necessário, os recifes de coral, o bar de bambu e os calipsos... tudo era a baixo preço como as cuecas ligeiramente sujas que se vendem nos saldos. Periodicamente, chegavam de Filadélfia, como se fossem excursões escolares, e iam-se embora com menos barulho, depois de uma semana exaustiva, quando o piquenique acabava. Talvez que durante umas vinte e quatro horas a piscina e o bar ficassem quase desertos, mas depois chegava outra excursão escolar, desta vez de S. Luís. Todos se conheciam uns aos outros: tinham ido no mesmo autocarro para o aeroporto, tinham voado juntos e juntos haviam passado por uma alfândega estrangeira; costumavam separar-se durante o dia e saudavam-se ruidosos e contentes ao anoitecer, trocando impressões sobre os rápidos, o Jardim Botânico, o Forte Espanhol. «Amanhã vamos nós dar essa volta.»

Mary Watson escreveu ao marido, que estava na Europa: «Vou distrair-me um pouco e em Agosto é mais barato.» Há dez anos que estavam casados e só se haviam separado três vezes. Ele escrevia-lhe todos os dias e as cartas chegavam duas vezes por semana em pequenos pacotes. Ela ordenava-as como se fossem jornais, por sequência de datas, e lia-as pela ordem devida. Eram ternas e concisas. Além dos trabalhos de investigação, das conferências e das cartas que escrevia, ainda lhe sobejava tempo para ver a Europa; insistia em chamar-lhe «a tua Europa», como se lhe quisesse assegurar que não esquecera o sacrifício que ela devia ter feito ao casar com um americano da Nova Inglaterra, professor. No entanto, às vezes, deixava escapar certas críticas à Europa «dela»: a comida era demasiado condimentada, os cigarros excessivamente caros, o vinho servido mais vezes do que o necessário e o leite muito difícil de conseguir à hora do almoço, o que parecia indicar que, apesar de tudo, ela não devia exagerar o seu sacrifício. Talvez fosse uma boa coisa se James Thomson, que era o autor que ele estudava em especial, neste momento, tivesse escrito «As Estações» na América. Era obrigada a admitir ser o Outono americano mais belo que a mesma estação em Inglaterra.

Mary Watson escrevia-lhe quase todos os dias, mas às vezes só um postal, e não sabia mesmo se em certas ocasiões não teria escrito dois postais a seguir um ao outro. Escrevia na meia luz do bar de bambu, donde podia ver todos os que passavam a caminho da piscina, e afirmava convicta: «Em Agosto é mais barato; o hotel tem menos de metade dos hóspedes habituais e o calor e a humidade são fatigantes. Mas, claro está, é mudar de ambiente.» Não tinha desejo que ele a considerasse extravagante; o salário, que a seus olhos de europeia parecera astronomicamente elevado para a categoria de professor de literatura, reduzira-se às suas verdadeiras proporções, dado o preço das saladas e dos bifes: tinha que justificar, sem grande entusiasmo, o dinheiro que gastava na ausência dele. Também lhe falava das flores do Jardim Botânico - a certa altura aventurara-se a ir até lá - e, com menos verdade, das benéficas alterações que o sol e uma vida de lazer haviam produzido na sua amiga Margaret, que da «sua» Inglaterra lhe escrevia pedindo-lhe que lhe fizesse companhia: uma Margaret admitia-o francamente para consigo, que não era visível senão para os olhares dos crentes, e Charlie era uma pessoa de boa-fé. Com a erosão feita pelo tempo, até as boas qualidades se tornam vitupério. Depois de dez anos de um casamento feliz, pensava ela, uma pessoa atribui menos valor à segurança e à tranquilidade.

Lia as cartas de Charlie com grande atenção. Desejava encontrar nelas uma ambiguidade, uma evasiva, qualquer fuga que ele tivesse dificuldade em explicar. Até uma invulgar e forte expressão de amor lhe teria agradado, pois a sua força podia de certo modo traduzir algum sentimento de culpa. Mas não se podia iludir.de modo a pensar que houvesse sombras desse sentimento de culpa nas cartas de Charlie, informativas e fluentes. Imaginava que se ele fosse um daqueles poetas que estudava agora com tanto interesse, já teria completado uma epopeia de tamanho estandardizado, durante os primeiros meses que passara na «Europa dela», e as cartas, apesar de tudo, não passavam de uma ocupação de tempo livre. Enchiam-lhe as horas livres e não lhe deixavam vagares para qualquer outra ocupação. «São dez da noite, lá fora chove, e para Agosto já está bastante fresco. Quando me despedir de ti, minha querida, irei deitar-me, sempre pensando em ti. Amanhã terei um dia muito ocupado, no museu, e à noite devo jantar com Henry Wilkinsons, que passa por aqui, no regresso de Atenas (lembras-te de Henry Wilkinsons, não é verdade).» Lembrava-se? Cismava se quando Charlie regressasse conseguiria descobrir uma pequena nota que lhe não fosse familiar nas suas relações, indicando que uma estranha se imiscuíra no seu caminho. Agora, não acreditava nessa possibilidade, e de qualquer modo a evidência chegaria demasiado tarde. De nada lhe valia poder justificar-se mais tarde. Queria uma justificação imediata. Oh, não, não era justificação para qualquer acto que tivesse cometido, mas só para a intenção, unicamente para o desejo de trair Charlie, de ter, como tantas das suas amigas, uma aventura de férias (a ideia surgira logo que a mulher do deão dissera: «Na Jamaica é tão barato em Agosto!»).

O pior é que depois de três semanas de calipsos na noite húmida, de ponches de rum (pelos quais já não conseguia disfarçar a repugnância), de Martinis quentes, dos intermináveis aperitivos, e tomate a acompanhar todos os pratos, não deparara com qualquer aventura, nem sequer sob o aspecto de uma longínqua possibilidade. Com desapontamento, descobrira a moral essencial de uma estância de férias na estação económica; não havia oportunidade para infidelidades, só para escrever postais a Charlie, com o mar e o céu muito azul. Certa vez, uma senhora de S. Luís tivera pena dela, quando estava no bar a escrever os seus postais, e convidara-a para se juntar ao grupo que ia visitar o Jardim Botânico.

- Somos um grupo muito alegre - informara sorrindo.

Mary exagerou a sua pronúncia inglesa, para melhor a afastar, e disse que não tinha grande interesse por flores. A senhora ficou tão chocada como se Mary lhe tivesse respondido que não se preocupava com a televisão. Pelo movimento das cabeças, no outro extremo do bar, como pelo tilintar dos copos de Coca-Cola, podia afirmar que as suas palavras estavam a ser repetidas. Depois, até o alegre grupo tomar o carro do aeroporto de regresso a S. Luís, teve consciência de cabeças que se voltavam à sua passagem. Era inglesa, tomara uma atitude de superioridade para com as flores e preferia Martinis a Coca-Cola, portanto aos olhos deles devia ser uma alcoólica.

Era característica comum à maioria destes grupos não incluírem qualquer homem e talvez fosse por isso que as tentativas para se tornarem atraentes eram completamente abandonadas. Enormes nádegas evidenciavam-se em todo o seu horror nos grandes e cingidos calções das Bermudas. Atavam lenços à cabeça para ocultar os rolos que só tiravam à hora do almoço e que ficavam espetados como pequenas elevações. Diariamente, observava os rabiosques, que pareciam de elefante, dirigirem-se para a água. Só à noite as mulheres trocavam os monstruosos calções por monstruosos vestidos de algodão cobertos de florinhas «mauve» ou vermelhas, para jantarem no terraço, onde, por ordem da casa, se tinha de respeitar esta formalidade, e os poucos homens que apareciam eram obrigados a vestir jaquetão e gravata, se bem que o termómetro, depois do pôr do Sol, ainda se mantivesse alto. Sendo desta natureza o mercado feminino, como se poderia esperar encontrar qualquer devastador de corações? Só se viam, às vezes, uns maridos velhos e muito usados, a serem levados para um armazém de Issa, onde se anunciavam preços baratos. Tinha-se entusiasmado, durante a primeira semana, ao ver três homens com ar de gente do mar que passaram pelo bar em direcção à piscina. Eram demasiado jovens para ela, mas, na disposição de espírito em que se encontrava, da melhor vontade aceitaria o vislumbre de outro romance. Diz-se que as situações românticas são contagiosas e, se nos serões passados à luz de velas naquele café-bar onde não imperavam as atitudes de cerimónia houvesse alguns pares de amorosos, quem poderia afirmar se os homens de idade mais madura não seriam contaminados? Mas as esperanças iam-se perdendo. Os jovens entravam e saíam sem lançar sequer um olhar para os calções das Bermudas ou para os cabelos enrolados. Por que continuavam eles ali? Eram na verdade mais belos do que qualquer das raparigas que os cercavam, e sabiam-no bem.

A maior parte das noites, por volta das nove horas, Mary ia deitar-se. Meia dúzia de noites de calipsos e de barulho de matracas, que achava odioso, tinham sido o suficiente. Para lá das janelas fechadas do anexo do hotel, as caixas de ar condicionado faziam um zumbido contínuo na noite estrelada e calma, que tinha certa semelhança com os hóspedes superalimentados. No quarto dela, o ar estava viciado e parecia-se tanto com ar fresco como um figo seco com um fruto acabado de apanhar. Quando se olhava ao espelho, para escovar o cabelo, muitas vezes lamentava a sua falta de caridade para com o alegre bando de S. Luís. Verdade seja que ela não usava calções, nem metia o cabelo em rolos, mas nem por isso o cabelo deixava de estar manchado com o calor, e o espelho reflectia com mais crueza do que acontecia em casa os seus trinta e nove anos. Se não tivesse pago adiantadamente as quatro semanas de pensão, incluídas no seu bilhete individual, com talões permutáveis para uma quantidade de excursões, teria voltado as costas a tudo e regressado. Para o ano, pensava ela, quando tiver quarenta anos, sentir-me-ei satisfeita por ter preservado o amor de um homem bom.

Era uma mulher dada a auto-análise e, talvez porque é mais fácil fazer perguntas a uma cara que se tem à frente do que ao vácuo (uma pessoa tem direito de esperar certa espécie de resposta até nos olhos que tantas vezes vê mesmo no espelho de bolso), interrogava-se directamente com ar agressivo, quando se via reflectida na superfície polida. Era uma mulher honesta e por essa razão as perguntas eram tanto mais duras. Costumava dizer para si própria que nunca dormira com outro homem a não ser com Charlie (não admitia como experiências sexuais as pequenas aventuras excitantes que tivera antes de se casar); para que andaria agora em busca de outro corpo que provavelmente lhe daria menos prazer do que aquele que já conhecia? Passara mais de um mês antes de Charlie a fazer sentir verdadeiro prazer. Aprendeu que o prazer vem com o hábito, de modo que se não era o verdadeiro prazer que ela procurava, então que era? A resposta só poderia ser: o desusado, aquilo a que não estava habituada. Tinha amigas, mesmo na respeitável escola, que a haviam admitido na sua admirável e franca maneira de viver americana, no seio das suas aventuras. Estas haviam acontecido especialmente na Europa: uma momentânea ausência do marido dava oportunidade a uma momentânea excitação, e, depois, com que suspiro de alívio se encontravam de novo em casa. No entanto, mais tarde, sentiam que haviam alargado o seu âmbito de experiência; compreendiam qualquer coisa que os maridos na realidade não entendiam... O verdadeiro carácter de um francês, de um italiano, e até, havia casos desses, de um inglês.

Mary Watson tinha a dolorosa consciência, como inglesa que era, de que a sua experiência se confinava a um americano. Na escola, todos acreditavam que era europeia, mas tudo quanto sabia se confinava a um homem, e esse era cidadão de Boston, que não sentia qualquer curiosidade pelas regiões do Oeste. De certo modo, ela era mais americana por escolha do que ele por nascimento. Talvez ela fosse menos europeia do que a mulher do professor de línguas românicas, que certa ocasião lhe confiara que uma vez... de maneira dominadora... em Antibes... lhe acontecera uma vez só, visto o ano sabático ter terminado... estando o marido em Paris, na consulta de manuscritos, antes de voltarem para casa...

Ela própria, Mary Watson, teria alguma vez pensado que também não passasse da aventura europeia que Charlie erradamente tinha domesticado? (Não podia pretender ser um tigre enjaulado, mas também se metem pequenos animais em gaiolas, tal como ratos brancos e periquitos.) E para ser leal, Charlie também era a sua aventura, a sua aventura americana, a espécie de homem que até aos vinte e sete anos nunca encontrara na suja Londres. Henry James descrevera o tipo e naquela altura da sua história andava a ler muitas obras de James: «Um homem de intelecto para quem o corpo não valia muito e a quem não importunavam, nem sentidos, nem apetites.» No entanto, durante algum tempo, ela obrigou os apetites a serem importunos.

Fora esta a sua conquista privada do continente americano, e quando a mulher do professor lhe falou do dançarino de Antibes (não, isso era uma inscrição romana... o homem era negociante de vinho) ela pensara: o amante que amo e admiro é americano e tenho orgulho nele. Mas depois admitia: americano ou da Nova Inglaterra? No entanto, para conhecer um país, uma pessoa tem de conhecer sexualmente cada uma das regiões?

É absurdo não viver satisfeita aos trinta e nove anos. Tinha o seu homem. O livro sobre James Thomson seria publicado pela imprensa da Universidade, e, mais tarde, Charlie acalentava a intenção de fazer uma incursão revolucionária na poesia romântica do século XVIII, comparativa com o aspecto americano na literatura europeia, e chamar-se-ia A Dupla Reflexão: consequência de Fenimore Cooper, no ambiente europeu. Imagem da América apresentada por Mrs. Trollope, mas os aspectos de pormenores ainda não estavam ordenados. O estudo talvez acabasse com a primeira chegada de Dylan Thomas às costas americanas: ao porto de Cunard, ou de Idlewild? Era problema para solucionar mais tarde. Tornou a ver-se ao espelho com todo o cuidado: a nova década dos quarenta enfrentava-a com inteira sinceridade de... uma inglesa que se tornara uma nova-inglesa. Apesar de tudo, não fizera uma grande viagem: viera do Kent para Connecticut. Isto não era só a inquietação física da meia-idade, argumentou ela; era o desejo universal de perscrutar um pouco o futuro, antes de se resignar à velhice e à fria certeza da morte.

 

No dia seguinte, encheu-se de coragem e foi até à piscina. Soprava um vento forte que batia as ondas, fazendo-as saltar as bordas do cais. A estação dos furacões aproximava-se. À sua volta tudo estalava: os pretensiosos madeiramentos do pobre cais, as pequenas e simples casas que davam a impressão de terem sido todas construídas ao mesmo tempo por um amador que tivesse um estojo de ferramenta, ramos de palmeira. Era um estalar contínuo, enfadonho e gasto. A própria água da piscina imitava em miniatura as ondas do cais.

Sentia-se contente por estar sozinha na piscina, pelo menos quanto aos propósitos de solidão, pois o velhote que se molhava como um elefante num charco nem sequer contava. Era um elefante solitário, que não fazia parte do bando dos hipopótamos. Deviam tê-la chamado com gritos de alegria para se juntar a eles... pois é difícil o isolamento numa piscina, que é mais comum do que uma mesa redonda de hotel. No seu ressentimento, podiam até ter-lhe metido a cabeça debaixo de água... fingindo, como as crianças, que era um jogo divertido; não havia nada de que ela não julgasse capaz aquelas coxas roliças, quer estivessem cingidas por biquinis ou por calções das Bermudas. Enquanto flutuava na piscina, os ouvidos atentos preveni-la-iam da sua aproximação. Ao primeiro aviso sairia da água, mas nesse dia talvez tivessem seguido em excursão a Tower Isle, do outro lado da ilha, ou fora na véspera que o haviam feito? Só o velho a observava, despejando água em cima da cabeça para evitar um golpe de sol. Estava sozinha, e em toda a segurança, que era a melhor coisa que lhe podia acontecer, logo a seguir à aventura que ali fora procurar. Sentou-se à beira da piscina e deixou que o vento e o sol a secassem, realizando em toda a extensão o seu isolamento. Até então só falara com os criados negros, os recepcionistas sírios, e já se haviam passado mais de duas semanas. Dentro em pouco - dizia para consigo - até sou capaz de começar a sentir a falta de Charlie - e isso seria um ignóbil fim para o que ela sonhara ser uma aventura. Uma voz que vinha da piscina disse:

- Chamo-me Hickslaughter, Henry Hickslaughter. Não se atreveria a jurar num tribunal que o nome fosse exactamente este, mas, pelo menos, nessa altura, foi o que lhe pareceu ouvir, e o homem nunca mais o repetiu. Mary olhou para baixo, para uma coroa de mogno polido rodeada de cabelo branco; talvez se parecesse mais com Neptuno do que com um elefante. Neptuno sempre fora desmedido, e quando ele se ergueu um pouco fora de água para lhe falar, ela reparou nos rolos de gordura que caíam sobre o calção azul, com uns pêlos rijos como as ervas nos fossos. Divertida, respondeu:

- E eu Watson. Mary Watson.

- É inglesa?

- Meu marido é americano - explicou já fatigada.

- Mas não está cá, pois não?

- Está em Inglaterra - acrescentou com um ligeiro suspiro,  pois a situação geográfica e nacional parecia-lhe demasiado complicada para uma explicação casual.

- Gosta disto aqui? - perguntou ele, erguendo a mão em forma de taça e espalhando a água sobre a careca.

- Assim, assim.

- Tem horas?

Mary procurou o relógio no saco e respondeu:

- Onze e um quarto.

- Já fiz os meus exercícios - e avançou pesadamente para a escada que ficava na parte mais baixa da piscina.

Uma hora mais tarde, olhando para o Martini morno com a sua grande azeitona verde nada apetecível, viu-o dirigir-se para ela do outro extremo do bar de bambu. Vestia uma camisa vulgar, aberta no peito, e um cinto de cabedal castanho; os sapatos eram de um género que se usava quando ela era criança. Pensou no que diria Charlie do seu apaixonado; não havia a mínima dúvida que o atraíra, tal como um pescador que luta com um grande peixe chega à conclusão que simplesmente apanhou uma bota. Como não era pescadora, não sabia se uma bota inutilizaria logo o anzol, mas tinha a consciência de que o seu anzol ficaria irremediavelmente estragado. Ninguém se aproximaria dela se a vissem em tal companhia. Bebeu o Martini de um trago e comeu a azeitona, para não ter qualquer desculpa para continuar no bar.

Mr.  Hickslaughter perguntou:

- Dá-me  a honra de tomar um aperitivo comigo?

A sua maneira de ser era totalmente diferente; em terra firme, parecia inseguro de si e falava à maneira antiga.

- Acabei mesmo agora de tomar um. Tenho de me ir embora.

Dentro daquele grande homem, ela julgou ver uma criança de olhos desapontados.

- Hoje almoço cedo.

Ergueu-se e acrescentou estupidamente, visto que o bar estava quase vazio:

- Pode ficar com a minha mesa.

Com certa solenidade ele respondeu:

- Não me apetece muito uma bebida. O que eu procurava era companhia.

Mary tinha a certeza que a observava quando ela seguia para o café que ficava ao lado, e pensava com uma pontinha de remorso que pelo menos devia ter tirado a bota do anzol. Recusou o cocktail de camarão com molho de tomate e insistiu, como de costume, na sua toranja seguida de peixe grelhado.

- Por favor não ponham tomate no peixe - implorou ela,  mas o criado negro é claro que a não ouviu.

Enquanto esperava, divertiu-se a imaginar uma cena entre Charlie e Mr. Hickslaughter, que, para se adaptar ao ambiente da sua história, devia vir ao colégio onde Charlie ensinava.

- Apresento-te Henry Hickslaughter, Charlie. Costumávamos tomar banho juntos, quando eu estive na Jamaica.

Charlie, que sempre vestia fatos ingleses, era muito alto, muito magro, com o peito metido para dentro. Sentia satisfação em pensar que nunca perderia o seu aspecto físico: os seus nervos e a sua extrema sensibilidade cuidariam disso. Detestava tudo o que fosse avantajado; e em As Estações não havia nada de excessos, nem sequer nos versos que se referiam à Primavera.

Ouviu passos vagarosos atrás de si e tomou-se de pânico.

- Dá-me licença que me sente à sua mesa? - perguntava Mr. Hickslaughter, que retomara a sua polidez de terra firme, mas só no que diz respeito a discursos, pois sentou-se com toda a sem-cerimónia, sem esperar pela resposta.

A cadeira era demasiado pequena para ele; as nádegas caíam como um colchão de cama de casal posto num leito para pessoa só. Começou por estudar a ementa.

Mary Watson comentou:

- Copiam a comida americana, e fica pior do que a realidade.

- Não gosta da comida americana?

- Sempre tomates, seja com o que for!

- Tomates? Oh, não gosta?! Eu adoro.

- E ananás na salada.

- Tem muitas vitaminas, o ananás.

Quase como se quisesse insistir na sua discordância, pediu um cocktail de camarão, peixe grelhado e uma salada. Claro que quando lhe serviram o que pedira, lá estavam os tomates.

- Se quiser, dou-lhe os meus - disse ela.

Mr. Hickslaughter aceitou com prazer:

- É muito amável. É muito amável da sua parte.

E estendeu-lhe o prato, tal como fazia Oliver Twist. Mary começou a sentir-se estranhamente à vontade com o velhote. Estaria muito menos a seu gosto, tinha a certeza, com a possível aventura; preocupar-se-ia com o efeito a produzir nele, enquanto naquele momento tinha a certeza de lhe dar prazer.. com a salada de tomate. Talvez ele fosse menos a velha-bota-anónima do que um sapato-velho que se calça com prazer. E era bastante curioso, apesar da maneira como se apresentara da primeira vez, e se bem que lhe corrigisse às vezes a pronúncia, não era na verdade o velho-sapato-americano de que ela se lembrava. Charlie vestia os seus fatos de corte inglês para completar o seu físico inglês, estudava a literatura inglesa do século XVIII, o seu livro seria publicado em Cambridge, mas ela tinha a impressão que ele era mais talhado como sapato-americano do que Hickslaughter. Até Charlie, cujas maneiras eram impecáveis, se se tivessem encontrado pela primeira vez, nessa altura, junto da piscina, tê-la-ia interrogado com mais pormenor. O interrogatório sempre lhe parecera a base da vida social americana... talvez herança das fogueiras dos índios: «Donde é você? Conhece fulano? Já esteve no Jardim Botânico?» Veio-lhe à ideia que Mr. Hickslaughter, se na verdade era este o seu nome, devia ser um refugo americano... não, necessariamente, com mais defeito do que o refugo que se encontra nas secções de saldos de famosas firmas.

Encontrou-se a certa altura a interrogá-lo com circunlóquios, enquanto ele saboreava os tomates.

- Nasci em Londres. Não podia ter nascido a mais de quatrocentas milhas dali, sem morrer afogada, pois não? Mas você pertence a um continente com milhares de milhas de comprimento e de largura. Onde nasceu?

Lembrou-se da personagem de um filme de aventuras do Oeste, dirigido por John Ford, que perguntava: «Donde é que você caiu, forasteiro?» A pergunta era feita com mais lealdade que a dela.

Ele respondeu:

- S.  Luís.

- Oh, então tem aqui muita gente conhecida!... Não está sozinho.

Mary sentiu um leve desapontamento ao lembrar-se que ele poderia pertencer ao grupo da gente alegre.

- Estou sozinho - informou. - Quarto 63.

Era no mesmo corredor do quarto dela, no terceiro andar do anexo. Falou com firmeza, como se quisesse dar o esclarecimento com ideia de utilidade futura:

- A cinco portas do seu.

- Oh!

- Vi-a sair no primeiro dia.

- Nunca reparei em si.

- Eu ando sozinho, a não ser que encontre alguém de quem goste.

- Não encontrou ninguém de quem gostasse no grupo das pessoas de S. Luís?

- Não gosto daquele género de gente de S. Luís, e podem muito bem dispensar a minha companhia. Não sou o menino querido.

- Vem aqui muitas vezes?

- Em Agosto. É mais barato.

O homem continuava a surpreendê-la. Primeiro, a sua falta de patriótico bairrismo, e agora esta franqueza que podia quase ser classificada como actividade antiamericana.

- Sim.

- Tenho que ir para um local razoável - disse ele, como se mostrasse o mau jogo que tinha ao parceiro.

- É reformado?

- Reformaram-me... - acrescentou. - Deve comer salada. Faz-lhe bem.

- Mesmo sem a comer sinto-me perfeitamente bem.

- Sentir-se-ia melhor se aumentasse um pouco de peso - acrescentou ele com ar de avaliador. - Só mais um pouco.

Ela teve vontade de lhe responder que para ele seria preferível perder alguns quilos. Ambos se tinham exposto um em face do outro. Ela fora levada a fazer-lhe perguntas, mas ele não lhe fizera qualquer interrogatório pessoal, desde que se haviam encontrado na piscina.

- Estava ligado a negócios?

- De certa maneira.

Mary teve a impressão que era homem completamente desinteressado da sua vida pessoal: estava portanto a descobrir uma América de que não conhecia a existência.

- Desculpe-me... - disse ela, por delicadeza.

- Não come sobremesa?

- Não, ao almoço como pouco.

- Está tudo incluído no preço. Coma fruta.

O homem encarava-a com um olhar de desapontamento, por sob as sobrancelhas brancas, que a impressionou.

- Não me interessa a fruta e preciso de ir dormir a sesta. Durmo sempre de tarde.

«No fim de contas, talvez ele esteja desapontado - pensava ela, enquanto atravessava a elegante sala de jantar - só por eu não aproveitar as vantagens do preço reduzido.»

Ao dirigir-se ao seu quarto, passou pelo dele: a porta estava aberta e uma criada enorme, de cabelo branco, fazia a cama. O quarto era exactamente como o dela: as mesmas duas camas, o mesmo guarda-roupa, o mesmo toilette, e, na mesma posição, o mesmo aparelho de ar condicionado de resfolegar profundo. Ao chegar ao quarto, procurou em vão o termo da água gelada; depois tocou a campainha e aguardou durante alguns minutos. Em Agosto não se pode esperar serviço impecável. Foi até ao corredor; a porta do quarto de Mr. Hickslaughter ainda estava aberta e ela entrou para procurar a criada. A porta da casa de banho também estava aberta e no chão encontrava-se uma toalha molhada. Como o quarto era nu! Pelo menos, ela dera-se ao cuidado de arranjar umas flores, uma fotografia e meia dúzia de livros que davam ao quarto um ar de habitado. Junto à cama, só havia um livro de resumos literários, de rosto para baixo; Mary voltou-o para ver o que ele lia nesse momento, e, tal como calculara, era um artigo sobre calorias e proteínas. Estava uma carta começada a escrever, no toilette, e, com a simples falta de escrúpulos de uma intelectual, principiou a lê-la com o ouvido atento a qualquer som que viesse do corredor. Dizia:

«Querido Joe: No mês passado, a letra foi duas semanas atrasada, porque me encontrava em sérias dificuldades. Tive de pedir o dinheiro emprestado a um sírio que tem uma loja de artigos para turistas em Curaçao e pagar-lhe juros. Deves-me cem dólares dos juros. Foi por tua culpa. A nossa mãe nunca nos ensinou a viver com o estômago vazio. Por favor, acrescenta esta letra à que há-de vir, e, se o fizeres, não precisas que eu lá vá para receber. Ficarei aqui até ao fim de Agosto. Em Agosto é mais barato e um homem fatiga-se de não encontrar outra coisa senão holandeses, holandeses, holandeses. Dá lembranças minhas à mana...»

A carta não fora acabada. De qualquer forma, ela não teria tido oportunidade para ler mais porque ouvia-se passos de alguém que se aproximava no corredor. Alcançou a porta ainda a tempo de ver Mr. Hickslaughter no patamar. Ele perguntou-lhe:

- Veio à minha procura?

- Ando à procura da criada. Ainda há um instante estava aqui.

- Entre e sente-se.

Ele olhou para a casa de banho e depois para todo o quarto. Talvez fosse o peso que tinha na consciência que a fez pensar que os olhos do homem se haviam demorado um instante mais sobre a carta por acabar.

- Ela esqueceu-se de me deixar água gelada.

- Pode levar a minha, está cheia. Agitou a garrafa-termo e entregou-lha.

- Muito obrigada.

- Depois de dormir a sua sesta...

Começou a dizer isto, mas os olhos afastaram-se. Andaria em busca da carta?

- O quê?

- Podíamos tomar qualquer coisa.

De certo modo Mary sentia-se encurralada e respondeu:

- Está bem.

- Telefone-me quando acordar.

- Sim  -  disse ela nervosamente. - Durma bem.

- Oh, eu não durmo!

Não esperou que ela saísse do quarto para se voltar, balançando aquelas enormes costas. Mary metera-se numa ratoeira, cuja isca fora uma garrafa-termo com água gelada, e no quarto bebeu a água devagarinho, como se tivesse um sabor diferente da dela.

 

Teve dificuldade em pegar no sono: o velho gordo tornara-se para ela alguém, agora que lera a carta. Não pôde deixar de comparar o estilo com o de Charlie. «Quando me despedir de ti, minha querida, irei deitar-me, sempre pensando em ti.» Na carta de Mr. Hickslaughter havia uma ambiguidade, uma suspeita de ameaça. Haveria possibilidade de o velho ser uma pessoa perigosa?

Às cinco e meia, ligou para o quarto 63. Não era nada a aventura que ela sonhara. No entanto, era uma aventura, apesar de tudo.

- Já acordei - disse ela.

- Quer vir beber qualquer coisa? - perguntou ele.

- Encontramo-nos no bar.

- No  bar,   não - corrigiu ele. - Eles pedem um dinheirão por um uísque.

Ela sentiu-se como se fosse de novo atraída à cena do crime, e teve de se encher de coragem para bater à porta.

Ele já preparara tudo: uma garrafa de Old Walker, um balde com gelo e duas garrafas de água gasosa. Tal como os livros, as bebidas podem dar a um quarto um ar habitável. Considerou-o como um homem que lutava a seu modo contra o medo da solidão.

- Sente-se, esteja à sua vontade - disse ele, como a personagem de uma fita.

Começou por servir os dois copos. Ela confessou-lhe:

- Sinto um medonho complexo de culpa. Vim aqui à procura de água gelada, mas também por curiosidade. E li a sua carta.

- Sabia que alguém lhe tinha mexido - respondeu ele.

- Desculpe.

- Que mal faz? É para o meu irmão.

- Não era da minha conta...

- Olhe, se eu entrasse no seu quarto e encontrasse uma carta assim aberta, também a leria, não acha? A diferença é que a sua carta devia ser mais interessante.

- Porquê?

- Eu não escrevo cartas de amor. Nunca o fiz e agora estou demasiado velho.

Sentou-se em cima da cama, pois ela instalara-se no único cadeirão. A barriga caía-lhe em pregas debaixo da camisa desportiva e a braguilha abria ligeiramente. Porque será que são sempre os homens gordos que andam com braguilha desabotoada? Ele afirmou:

- Este uísque é bom. Bebeu um trago e perguntou:

- Seu marido que faz?

Era a primeira pergunta pessoal desde que se haviam encontrado na piscina e ela sentiu-se apanhada de surpresa.

- Escreve sobre literatura. Poesia do século XVIII acrescentou com certa vaidade, dadas as circunstâncias.

- Oh!

- E você que fazia, quando trabalhava?

- Isto e aquilo.

- E agora?

- Observo o que se passa pelo mundo. Às vezes falo com uma pessoa como você. Bem, não é verdade. Julgo que nunca encontrei ninguém assim.

Podia parecer um cumprimento, se não tivesse acrescentado:

- Mulher de um professor.

- E você, lê o mor

Digest?

- S...i...m. Escrevem sempre uns livros tão compridos... que não tenho paciência. Poesia do século XVIII. Com que então, já nesse tempo escreviam poesia, não é verdade?

Ela respondeu: «Sim», sem ter a certeza se ele estava ou não a troçar dela.

- Quando andava na escola, havia um poema de que gostava. O único que jamais me entrou na cabeça. Penso que era de Longfellow. Já alguma vez leu Longfellow?

- Na realidade, não. Na escola já não o estudam com grande interesse.

- Era uma coisa que falava de marinheiros espanhóis barbudos, e não sei quê do mistério dos navios, e depois qualquer coisa acerca do mar. Não me lembro bem, no entanto, suponho que aprendi há uns sessenta anos, ou talvez mais.  Isso é que eram tempos!

- Os anos de 1900?

- Não, não. Refiro-me aos piratas. Kidd, Barba Azul, e todos esses tipos. Isto para aqui era terreno deles, não era? As Caraíbas! Até agonia ver essas mulheres andarem por aí de um lado para o outro vestidas de calções.

O uísque desatara-lhe a língua.

Veio-lhe à memória que nunca antes se interessara por qualquer outro ser humano; apaixonara-se por Charlie, mas este não lhe despertara curiosidade, a não ser sexual, e satisfizera-a demasiado depressa. Mary perguntou-lhe:

- Gosta muito de sua irmã?

- Claro que sim. Porquê? Como sabe que tenho uma irmã?

- E Joe?

- Acredito agora que leu a minha carta. Oh! É um tipo catita.

- Catita?

- Bem, já sabe como são os irmãos. Eu sou o mais velho. Havia um outro, mas morreu. Minha irmã é vinte anos mais nova do que eu. Joe fez fortuna e é ele que cuida dela.

- E você, não fez fortuna?

- Tive fortuna. Mas não sabia administrar aquilo que tinha.  Não estamos aqui para falar de mim.

- Tenho curiosidade. Foi por isso que li a carta.

- Você? Tem curiosidade por mim?

- Pode muito bem ser, ou acha que não?

A pergunta confundira-o e agora que ela dominava a situação, sentia que estava fora da ratoeira; sentia-se livre, podia ir e vir como muito bem lhe apetecesse, e, se decidisse ficar um pouco mais, era ela que o decidia.

- Mais um uísque? - ofereceu ele. - Mas você é inglesa, talvez prefira um de marca inglesa?

- É preferível não misturar.

- Não.

Serviu outro copo e disse:

- Pensei várias vezes... em sair daqui durante algum tempo. O que diz, se fôssemos jantar a qualquer sítio?

- Acho estúpido. Ambos temos a pensão paga aqui, não é verdade? Lá fora provavelmente teríamos o mesmo jantar: peixe e tomates.

- Não compreendo o que tem contra os tomates.

Mas não negou o bom senso do seu raciocínio económico: era o primeiro americano frustrado com quem ela tomava uma bebida. Devem andar muitos pela rua... Mas até os jovens que lá iam a casa ainda não eram pessoas malogradas. O professor de línguas românicas talvez pensasse vir a ser reitor da universidade... O êxito é relativo, mas no entanto sempre é êxito.

Ele serviu outro copo e ela disse:

- Bebo-lhe todo o seu fornecimento.

- É em defesa de uma boa causa.

Agora, ela já se sentia ligeiramente toldada... e as coisas que só pareciam relevantes... vieram-lhe à ideia. Disse:

- Aquela poesia de Longfellow. Continua... com qualquer coisa sobre «os pensamentos da juventude são longos, longos pensamentos». Devo ter lido isto em qualquer parte. Era este o estribilho, não é verdade?

- Talvez, não me lembro.

- Quando era garoto tinha o sonho de ser pirata?

Ele teve um sorriso quase feliz quando respondeu:

- E consegui. Foi o que Joe me chamou uma vez: pirata.

- Mas não tinha nenhum tesouro escondido?

Mr. Hickslaughter afirmou:

- Ele conhece-me bem para me não mandar os cem dólares. Mas tem o terror de eu voltar... e talvez me mande cinquenta. E os juros eram só vinte e cinco. Meu irmão não é uma pessoa mesquinha, mas é estúpido.

- De que maneira?

- Tinha obrigação de saber que eu não voltava. Não faria nada que pudesse magoar minha irmã.

- Faria algum mal se eu o convidasse para jantar?

- Não, não estaria certo.

Sob certos aspectos, era inteiramente conservador.

- É justamente o que disse: não merece a pena andarmos a desperdiçar dinheiro.

Quando a garrafa de uísque estava quase vazia, disse:

- É preferível você comer qualquer coisa, mesmo que seja o tal peixe com tomate.

- O seu nome é na realidade Hickslaughter?

- Pelo menos é parecido.

Desceram a escada, seguindo cuidadosamente um atrás do outro como se fossem patos. No restaurante de luxo, aberto ao calor da noite, os homens suavam no jaquetão e no aperto da gravata. Atravessaram os dois o bar de bambu e entraram no café que estava iluminado a velas, o que ainda aumentava mais o calor. Dois jovens vestidos sem preocupações sentavam-se na mesa vizinha; não eram os mesmos que ela vira antes, mas pertenciam à mesma série. Um deles afirmava: «Não nego que ele tenha um certo estilo, mas mesmo que você adore Tennessee Williams...»

- Por que lhe chamou ele pirata?

- Por chamar.

Quando chegaram à altura de escolher o jantar, pareceu-lhes não haver outra coisa a não ser peixe com tomate, e de novo ela tornou a dar-lhe o quinhão que lhe pertencia; talvez estivesse à espera que ela o fizesse, e sentiu-se acorrentada pelo hábito. Tratava-se de um velho, que não tomara qualquer atitude que com razão pudesse censurar - como é que um homem daquela idade se atreveria com uma mulher como ela? - e, no entanto, tinha a impressão de ter saltado para o salva-vidas... O futuro não estava nas suas mãos, e sentia-se ligeiramente apavorada. Mais medo ainda teria se não fosse o uísque que bebera.

- O seu uísque é muito bom - afirmou ela, para dizer qualquer coisa, o que lamentou logo a seguir. Dera-lhe uma oportunidade.

- Beberemos mais um copo, antes de nos irmos deitar.

- Julgo que já tenho a minha conta.

- Uma boa bebida não lhe fará mal. Até a ajuda a dormir bem.

- Eu durmo sempre bem.

Era mentira, aquela mentira sem importância que se diz ao marido ou ao amante, para se manter certa intimidade. O jovem que estivera a falar de Tennessee Williams levantou-se da mesa. Era muito alto e vestia um sweater preto muito cingido; as nádegas pequenas e elegantes desenhavam-se numas calças o mais apertadas possível. Era fácil imaginá-lo nu. Pensava se ele teria olhado para ela, e com certo interesse, se não estivesse ali sentada na companhia de um homem gordo e tão horrivelmente vestido? Era pouco provável; o corpo do rapazinho não parecia indicado para carícias femininas.

- Eu não.

- Você, não o quê?

- Não durmo bem.

A confissão inesperada, depois de todas as frases reticentes, foi como um choque. Fora como se tivesse estendido uma das mãos que pareciam tijolos e a puxasse para si.

Tinha-se mantido distante, evitara todas as questões pessoais, embalara-a num ambiente de segurança, mas, agora, sempre que ela abria a boca, parecia condenada a cometer um erro, a convidá-lo a aproximar-se. Até a observação inocente sobre o uísque... Disse estupidamente:

- Talvez seja da mudança de clima?

- Entre isto aqui... e...

- Curaçao? Acho que não há grande diferença. Lá também não durmo.

- Eu tenho umas pílulas muito boas - disse precipitadamente.

- Julguei que dormisse bem.

- Sempre há ocasiões. Às vezes, até pode ser uma questão de digestão.

- Sim, de digestão. Tem razão. Um uísque é o melhor que há para isso. Se já acabou de jantar...

Com os olhos, ela percorreu o café, abrangendo o bar de bambu onde o jovem de pé, déhanché, segurava um copo de hortelã-pimenta entre o rosto dele e o do companheiro, como se fosse um monóculo, exoticamente colorido.

Mr.   Hickslaughter perguntou-lhe com voz chocada:

- Não se interessa por aquele género, pois não?

- São bons conversadores.

- Ora,  conversa... Se é disso que gosta...

Era como se ela tivesse expressado o seu desagrado por caracóis e pernas de rã.

- Vamos tomar um uísque ao bar? Esta noite faz um pouco mais de fresco.

- E ouvir o que eles estão a dizer? Não, vamos lá para cima.

Afastou-se um pouco, ao jeito das velhas cortesias, foi por trás dela para afastar a cadeira. O próprio Charlie não era tão delicado, mas seria delicadeza ou a decisão de a encurralar de modo a não poder fugir para o bar?

Entraram no elevador juntos. O empregado negro tinha o rádio ligado e da pequena caixa vinha a voz do pregador, citando o «Sangue do Cordeiro». Talvez fosse domingo e isso explicava o vácuo temporário que se fizera à sua volta... entre um grupo de gente divertida e outro qualquer que apareceria. Encontraram-se num corredor vazio, como indesejáveis abandonados numa ilha deserta. O rapaz saiu atrás deles e sentou-se numa cadeira cá fora, esperando outra chamada, enquanto a voz continuava a falar do «Sangue do Cordeiro». Que receava? Mr. Hickslaughter começou a abrir a porta. Era muito mais velho que o pai dela, se este ainda fosse vivo; podia ser seu avô... A desculpa. «Que pensará o rapaz?» Era inadmissível... era até chocante, visto que a sua atitude nunca deixara de ser correcta. Podia ser velho, mas que direito tinha ela de o considerar «um porcalhão»?

- Diabos levem a chave do hotel! - exclamou ele. Não abre a porta.

Ela deu a volta ao puxador:

- Não estava fechada.

- Depois de todas estas esquisitices, que bem me vai saber um uísque.

Mas ela tinha a resposta pronta:

- Desculpe-me, mas parece-me que já bebi de mais. Tenho que ir dormir.

Apoiou a mão no braço dele e despediu-se:

- Muito obrigada por tudo... Foi um serão encantador.

Mary teve consciência de quão insultuosa fora a sua pronúncia inglesa, enquanto caminhava apressadamente pelo corredor, deixando o homem atrás de si, como uma presença escarninha, que zombasse de tudo quanto ela mais gostava nele: o seu carácter ambíguo, a recordação de Longfellow, o espírito económico.

Olhou para trás, quando chegou à porta do quarto: ele ficara parado no meio do corredor, como se não se decidisse a entrar. Recordou-lhe um velho que um dia encontrara no jardim da escola, encostado ao cabo da vassoura e no meio das folhas de Outono que ainda não varrera.

 

No quarto agarrou num livro e tentou ler. Era As Estações de Thomson. Trouxera-o para poder compreender qualquer referência ao seu trabalho, que Charlie lhe fizesse nas cartas. Era a primeira vez que o abria e não se sentiu atraída:

E agora o Sol que ascende dissipa o nevoeiro:

A dura geada branca derrete-se, perante os seus raios;

E balança-se em cada ramo, em cada folha

De relva, onde brilham miríades de gotas de orvalho.

Se ela podia ser tão cobarde, pensava, com um velho tão inofensivo, como poderia ter encarado a verdadeira decisão de uma aventura? Na sua idade, não se poderia falar em «ser desviada». Charlie provara ter tristemente razão em confiar nela, tal como ela tinha razão de confiar em Charlie. Àquela hora, dadas as diferenças horárias, devia ele estar a sair do museu, ou antes, se era domingo, como parecia indicar o «Sangue do Cordeiro», provavelmente devia ter acabado de trabalhar no quarto do hotel. Depois de um dia de trabalho que lhe corresse bem, assemelhava-se sempre ao anúncio de um novo creme para a barba: havia nele uma espécie de halo... Achou isso irritante, o viver com um resplendor. Mesmo a sua voz tinha um timbre diferente e costumava tratá-la por «minha velha», e dar-lhe um açoite com ar superior. Gostava mais dele quando o trabalho lhe não corria bem: só temporariamente, claro está, a falência de uma ideia que não resultara, o desapontamento de uma criança numa festa que não tenha correspondido à sua expectativa, não a frustração do velho... o cavername enferrujado de um barco que para sempre ficou sobre as rochas em que encalhou.

Sentiu-se ignóbil. Que possível risco poderia representar o velho, que justificasse o ter-lhe recusado meia hora de companhia? Ele não podia atacá-la, tal como o barco se não podia libertar das rochas e fazer-se ao mar em busca das ilhas Afortunadas. Imaginou-o sentado com a garrafa ao lado, procurando um estado de inconsciência. Ou estaria a acabar a mal-amanhada carta de chantagem para o irmão? Um dia, mais tarde, que história lhe daria tudo isto, pensava ela, enquanto despia o vestido com certo asco por si própria: o seu serão com um chantagista e «pirata».

Havia outra coisa que podia fazer por ele: dar-lhe o frasco dos comprimidos. Vestiu o roupão e seguiu pelo corredor até à porta do quarto número 63. Ouviu a voz dele dizer-lhe que entrasse. Abriu a porta e à luz do candeeiro da mesa-de-cabeceira viu-o sentado na borda da cama com um pijama de riscas cor de alfazema, todo amarrotado. Ela começou a dizer: «trouxe-lhe os comprimidos...» e com grande espanto viu que ele estivera a chorar. Tinha os olhos vermelhos e as maçãs-do-rosto brilhavam, como cobertas por gotas de orvalho. Só uma vez vira um homem chorar: Charlie, quando a imprensa da universidade votara contra o seu primeiro livro de ensaios.

- Julguei que fosse a criada - explicou ele. - Tinha-a chamado.

- Que queria?

- Pensei que ela quisesse acompanhar-me a beber um copo de uísque.

- Mas precisa assim tanto?... Eu acompanho-o.

A garrafa ainda estava em cima do toilette, onde a haviam deixado, junto dos dois copos. Reconheceu o dela pela marca de bâton.

- Pronto, aqui está. Beba. Ajudo-o a beber.

- Não sou um alcoólico - respondeu-lhe ele.

- Está claro que não é.

Mary sentou-se também à beira da cama e pegou-lhe na mão esquerda.

Era uma mão mal tratada, de pele seca, e a ela apeteceu-lhe cortar-lhe as peles quando se lembrou que era uma coisa que fazia a Charlie.

- Preciso de companhia.

- Já aqui estou.

- Era preferível apagar a luz da campainha, se não a criada aparece.

- Mal ela sonha que perdeu a oportunidade de beber um bom copo de Old Walker.

Quando voltou da porta, ele estava encostado às almofadas, numa posição desconfortável, torcido, e Mary pensou outra vez no barco encalhado nas rochas. Tentou agarrar-lhe os pés para os pôr em cima da cama, mas eram como pesados pedregulhos no fundo de uma pedreira.

- Deite-se - ordenou ela. - Assim nunca conseguirá dormir. Como resolve o problema das companhias em Curaçao?

- Cá me arranjo - rosnou ele.

- Já acabou o seu copo, deixe baixar a luz.

- Consigo é desnecessário fingir - lamentou-se.

- Fingir o quê?

- Tenho medo do escuro.

Ela pensou: «Mais tarde hei-de-me ir, quando me lembrar de que pessoa eu receava.» E perguntou-lhe:

- São os velhos piratas contra quem lutou que lhe aparecem?

Ele informou-a:

- No meu tempo, fiz algumas coisas que se não podem considerar boas.

- E os outros, não fizeram também?

- Nada que obrigasse a extradição - explicou, como se isso constituísse um esforço.

- Se tomar um dos meus comprimidos...

- Não se vai embora... pelo menos já?

- Não, não. Fico aqui até se deixar adormecer.

- Já há dias que andava com vontade de lhe falar.

- Ainda bem que o fez.

- Acredita-me, se lhe disser que não tinha coragem?

Se ela fechasse os olhos podia muito bem imaginar que era um jovem quem lhe falava.

- Não sabia como você era.

- Não há pessoas como eu em Curaçao?

- Não.

- Ainda não tomou o comprimido.

- Receio não acordar.

- Tem assim tanto que fazer amanhã?

- Quero dizer, não acordar nunca mais.

Estendeu a mão e pousou-lha sobre o joelho, procurando, sem sensualidade, o apoio que lhe faltava.

- Vou dizer-lhe o que não está bem. Você é uma estranha, de modo que lhe posso contar: tenho medo de morrer sem ninguém junto de mim, às escuras.

- Está doente?

- Não  sei. Nunca vou ao médico. Não gosto de médicos.

- Mas por que é que pensa...?

- Tenho mais de setenta anos. A idade bíblica. Agora pode acontecer de um instante para o outro.

- Há-de viver até aos cem anos - afirmou ela, com uma estranha convicção.

- Então terei ainda que viver muitos anos com o receio do inferno.

- Era por isso que estava a chorar?

- Não. Julguei que ia ficar aqui um bocado comigo e depois, de repente, você voltou-me as costas. Fiquei desapontado.

- Em Curaçao nunca está só?

- Pago para não estar sozinho.

- Teria pago à criada?

- S...i...m. Mais ou menos.

Era como se ela andasse pela primeira vez a descobrir o interior do continente que escolhera para viver. Até então, a América fora Charlie, a Nova Inglaterra; através dos livros e do cinema travara contacto com as maravilhas da natureza, como por exemplo aquele grande filme em cinerama com Lowell Thomas, cujas imagens mostravam o Painted Desert e o Grande Canyon de maneira acessível. De Miami às cataratas do Niagara, de Cape Cod a Pacific Palisades não subsistia qualquer mistério; serviam-se tomates com todos os pratos e Coca-Cola em todos os copos. Em toda a parte não havia ninguém que admitisse a falência ou o medo; eram como «pecados silenciados», pior que os verdadeiros pecados, que têm fulgor... Estes eram de mau gosto. Mas aqui, estendido em cima da cama, vestido com um pijama de riscas, a que Brooks Brothers teriam negado a paternidade, a falência e o receio falavam-lhe sem vergonha e com acento americano. Era como se estivesse a viver num remoto futuro, depois de Deus tomar conhecimento da catástrofe.

- Eu não estava à venda? Foi só o Old Walker que me tentou - explicou ela.

Ele ergueu a sua cabeça de velho Neptuno e disse:

- Eu não tenho receio de morrer. Não é a morte súbita. Pode acreditar-me que várias vezes a procurei. É esta certeza, sempre a ameaçar-nos, como os funcionários dos impostos...

Ela disse-lhe:

- Agora durma.

- Não posso.

- Com certeza que pode.

- Se ficasse aqui um bocadinho comigo...

- Eu fico aqui. Descanse.

Deitou-se na cama ao lado dele, em cima dos lençóis. Dentro de poucos minutos, ele dormia profundamente e ela apagou a luz. O velho resmungou várias vezes e falou uma só vez, quando disse:

- Interpretou mal as minhas intenções.

Depois, ficou um bocado como mono, numa grande imobilidade e silêncio, de modo que durante este tempo ela deixou-se dormir também. Quando acordou, percebeu pela maneira dele respirar que também acordara. Deitava-se ao lado dela, mas os corpos não se tocavam. Mary estendeu a mão e não sentiu repulsa ao verificar a sua excitação. Era como se ela tivesse passado muitas noites a seu lado, num leito a seu lado, e quando ele a possuiu silenciosa e abruptamente na escuridão, Mary deu um suspiro de satisfação. Não havia qualquer delito. Dentro de dias voltaria para Charlie, resignada e terna, para a experiente sabedoria de Charlie, e derramou algumas lágrimas, mas não seriamente, quanto à temporária natureza deste encontro.

- Mas que foi?

- Nada,  nada. Gostava de poder ficar.

- Fique um pouco mais. Fique até ser dia.

Não haveria muito a esperar. Já se distinguiam as massas cinzentas da mobília, erguendo-se à sua volta como se fossem túmulos das Caraíbas.

- Está bem.  Ficarei até ser dia. Mas não era isso que eu queria dizer.

O seu corpo começou a afastar-se dela e era como se ele lhe levasse o filho desconhecido em direcção a Curaçao. Tentou retê-lo, ao gordo e assustado velho a quem já amava.

- Nunca isto me passou pela ideia - confessou ele.

- Bem sei.  Não diga nada. Compreendo-o.

- Parece-me que no fim de tudo temos qualquer coisa em comum - notou ele, e Mary concordou para o acalmar.

Quando começou a clarear, ele dormia profundamente. Ela saiu da cama sem o acordar e foi para o seu quarto. Fechou a porta à chave e decidida começou a fazer as malas: era tempo de se ir embora, era a altura dos cursos começarem outra vez.

Mais tarde, quando pensava nele, imaginava o que seria que poderiam ter em comum, excepto o facto, claro está, de para ambos a Jamaica ser mais barata em Ago’sto.

 

UM ACIDENTE CHOCANTE

Jerome foi chamado ao gabinete do director, no intervalo entre a segunda e a terceira aula, numa quimta-feira de manhã. Não tinha receio de complicações, pois era «chefe», nome que o proprietário e director de uma luxuosa escola preparatória escolhera para atribuir aos rapazes das classes mais baixas em que confiava (de «chefe» passava-se a «guardião», e, por fim, antes de acabar o curso que lhe daria entrada em Marlborough ou em Rugby, a «cruzado»). O director, Mr. Wordsworth, estava sentado à secretária com aparente perplexidade e apreensão, e Jerome, quando entrou, teve a suspeita de ser ele a causa desse receio.

- Senta-te Jerome - ordenou Mr. Wordsworth. - Então como vão as coisas com a trigonometria? Vão bem?

- Sim,  senhor director.

- Recebi um telefonema de tua tia, Jerome. Tenho más notícias para te dar.

- Sim,  senhor director?

- Teu pai teve um acidente.

- Oh!

Mr. Wordsworth encarou-o com certa surpresa e continuou:

- Um acidente sério.

- Sim, senhor director.

Jerome adorava o pai: o verbo é exacto. Tal como o homem concebe Deus, assim Jerome concebera seu pai: de um escritor viúvo e inquieto fizera um misterioso aventureiro que se deslocava para lugares distantes, Nice, Beirute, Maiorca, até mesmo às Canárias. Isto acontecera por volta dos seus oito anos: Jerome acreditava que o pai andava metido em aventuras que envolviam tiros e riscos, ou que era membro dos Serviços Secretos Britânicos. Agora imaginava que o pai devia ter sido ferido com «uma saraivada de balas de metralhadora».

Mr. Wordsworth brincava com a régua que tinha em cima da mesa. Parecia não saber como havia de continuar. Perguntou-lhe:

- Sabias que teu pai estava em Nápoles?

- Sim, senhor director.

- Tua tia teve hoje a notícia, vinda do hospital.

- Oh!

Mr.  Wordsworth disse já desesperado:

- Foi um acidente de rua.

- Ah,  sim?!

A Jerome parecia inteiramente natural que se lhe chamasse um acidente de rua. Claro que fora a polícia a primeira a disparar; o pai não mataria um homem senão em última instância.

- Teu pai foi atingido com gravidade.

- Oh!

- Para te dizer a verdade, Jerome, morreu ontem. Sem sofrimento.

- Com um tiro no coração?

- O quê? Que disseste, Jerome?

- Perguntei se tinha sido com um tiro no coração.

- Não foi com nenhum tiro, Jerome.  Caiu-lhe um porco em cima.

Uma inexplicável convulsão abalou os nervos do rosto de Mr. Wordsworth: na verdade parecia que de um momento para o outro ia largar a rir. Fechou os olhos, compôs o rosto e disse, falando depressa como se fosse necessário acabar com a história o mais rapidamente possível:

- Teu pai seguia por uma rua, quando lhe caiu um porco em cima. Um acidente chocante. Parece que nos bairros mais pobres de Nápoles as pessoas criam porcos nas varandas. Este estava num quinto andar. Era muito gordo, a varanda deu de si e o bicho caiu em cima do teu pai.

Mr. Wordsworth ergueu-se de repente e dirigiu-se à janela, voltando as costas a Jerome. Estava abalado com a emoção.

Jerome perguntou:

- E que aconteceu ao porco?

 

Da parte de Jerome isto não significava dureza de sentimentos, tal como interpretara Mr. Wordsworth, quando comunicou o caso aos colegas. Chegou mesmo a discutir com eles o problema de Jerome estar ou não indicado para ser «chefe». O rapaz simplesmente tentava ter a visão exacta do que se passara, tão estranho era, e assim poder imaginar bem todos os pormenores. Jerome também não era uma criança que chorasse; amuava, e nunca lhe ocorreu, enquanto esteve na escola preparatória, que as circunstâncias que haviam contribuído para a morte do pai fossem cómicas... Constituíam ainda parte do mistério da vida. Mais tarde, no primeiro período da escola secundária, contou a história ao seu melhor amigo e começou a perceber como o caso afectava os outros. É claro que depois desta confidência passou a ser conhecido, e sem razão, pelo Porco.

Infelizmente, sua tia não tinha o mínimo sentido de humor. Em cima do piano havia uma ampliação do retrato do pai: um homem grande, com ar triste e fato escuro, um tanto descabido, posava em Capri, apoiado a um chapéu de sol  (para o proteger contra a violência do sol), tendo como pano de fundo as rochas Faraglione. Aos dezasseis anos, compreendia bem que o retrato se assemelhava mais ao autor dos livros Sol e Sombra, e Passeios nas Baleares, do que a um agente dos Serviços Secretos. Mas continuava a adorar igualmente a memória do pai: ainda possuía um álbum de postais ilustrados (os selos há muito que haviam sido tirados para a sua outra colecção), e angustiava-o quando a tia contava a absurda história daquela morte.

«Foi um estranho acidente...», costumava ela começar, e o interlocutor compunha as feições de modo correcto para mostrar interesse ou comiseração. Claro que qualquer das atitudes era falsa, mas o que chocava Jerome era verificar como, de súbito e a meio da história, o interesse se tornava verdadeiro. A tia costumava comentar:

- Não percebo como estas coisas podem acontecer num país civilizado. Suponho que se deve considerar a Itália um país civilizado. Quando se sai da nossa terra, uma pessoa prepara-se para enfrentar todos os problemas e meu irmão era um grande viajante. Levava sempre consigo um aparelho para filtrar a água. Era muito menos dispendioso, deve compreender, do que gastar dinheiro em águas minerais. Meu irmão sempre disse que o que poupava na água lhe dava para poder beber vinho ao jantar. Por aqui pode ver como era um homem cauteloso. Mas quem é que podia prever que, enquanto seguia pela Via Dottore Manuele Panucci, dirigindo-se para o Museu Hidrográfico, um porco lhe cairia em cima?

Era a altura em que começava o genuíno interesse.

O pai de Jerome não fora um escritor famoso, mas parece que sempre chega a altura em que, depois da morte de um autor, há alguém que considera não ser tempo perdido escrever uma carta ao suplemento literário do Times anunciando a preparação de uma biografia e pedindo para consultar quaisquer cartas ou documentos, ou receber a informação de anedotas conhecidas dos amigos do escritor. A maior parte dessas biografias, é claro, nunca aparecem... Dá que pensar se todo o interesse não passará de uma obscura forma de chantagem, e se muito escritor em potencial, de biografias ou de teses, não encontra meios, por este caminho, para acabar a educação em Kansas ou em Nottingham. No entanto, Jerome, como guarda-livros diplomado, vivia longe do mundo literário. Nem lhe passava pela cabeça como a ameaça era na realidade débil, ou que o período de perigo da obscuridade de seu pai há muito passara já. Às vezes ensaiava a maneira de contar a morte do pai de modo a reduzir o elemento cómico às suas mínimas proporções. Seria inútil recusar as informações, pois nesse caso o biógrafo sem dúvida alguma procuraria sua tia, que, sendo embora já muito idosa, vivia sem o mínimo sinal de enfraquecimento.

Para Jerome parecia haver dois métodos possíveis: o primeiro seria caminhar devagar em direcção ao acidente, de modo que, na precisa altura de ser descrito, o ouvinte estivesse de tal modo preparado que a morte surgia na verdade como um episódio contraditório. O principal perigo cómico, nesta história, era sempre a surpresa. Quando ensaiou tal método, Jerome começou com um preâmbulo enfadonho:

- Conheces Nápoles e aqueles edifícios altos? Disseram-me uma vez que um napolitano se sente tão bem em Nova Iorque como se fosse na sua própria terra natal, da mesma maneira que um homem de Turim se sente à vontade em Londres, pois os rios correm mais ou menos da mesma maneira em ambas as cidades. Onde estava eu? Ah, sim, Nápoles, claro! Surpreender-te-ia saber que coisas estranhas eles põem nas varandas dos bairros mais pobres? Não é roupa a secar, mas gado, galinhas, e até porcos. Claro que os porcos não fazem exercício, portanto, engordam mais depressa. Conseguia imaginar como nesta altura os olhos do interlocutor brilhavam de interesse.

- Eu não tenho a menor ideia, tu tens?, do tamanho de um porco. O que sei é que esses velhos edifícios necessitam de obras urgentes. Num deles, uma varanda cedeu ao peso do porco, que caiu, bateu na varanda do terceiro e fez uma espécie de ricochete para a rua. Meu pai ia a caminho do Museu Hidrográfico, quando o porco o apanhou. Despenhado da altura em que vinha, matou-o.

Esta era na realidade uma famosa tentativa para tornar um assunto interessante numa maçada tremenda.

O outro método que Jerome ensaiara tinha a virtude de ser breve.

- Meu pai foi morto por um porco.

- Isso é verdade? Na Índia?

- Não, em Itália.

- Que interessante! Não sabia que na Itália matavam os porcos à paulada. Teu pai era bom jogador de pólo?

Com o decorrer do tempo, nem demasiado cedo nem demasiado tarde, sendo bastante minucioso, dada a sua capacidade como guarda-livros, Jerome estudou as estatísticas, tirou a média e ficou noivo. A rapariga era uma moça agradável, de rosto fresco, com vinte e cinco anos, filha de um médico de Pinner. Chamava-se Sally, o seu autor preferido era ainda Hugh Walpole e adorava bebés, desde os seus cinco anos, quando lhe tinham oferecido uma boneca que abria e fechava os olhos e fazia chichi. As relações entre eles eram mais de aprazimento do que de excitação, tal como compete num problema de amor a qualquer guarda-livros; nunca se teria interessado se o problema, fosse de que modo fosse, pudesse interferir com os algarismos.

No entanto, havia uma questão que aborrecia Jerome. Agora, que dentro de um ano poderia ele próprio ser pai, aumentava o seu amor pelo falecido: pensava em quanta afeição cada um daqueles postais traduzia. Sentia o desejo de proteger a sua memória e não tinha a certeza se aquele calmo amor sobreviveria ou não, caso Sally fosse tão insensível que se risse ao ouvir a história da morte do pai. Inevitavelmente teria que a saber, quando Jerome a levasse a jantar com a tia. Várias vezes ele próprio tentara contar-lha, visto que ela estava  naturalmente ansiosa por conhecer tudo o que se relacionasse com ele.

- Eras muito novo quando teu pai morreu?

- Tinha nove anos.

- Pobrezinho - comentou ela.

- Estava na escola. Foi lá que me deram a notícia?

- Reagiste mal?

- Não me lembro.

- Nunca me contaste como isso aconteceu.

- Foi de repente. Um acidente de rua.

- Nunca hás-de guiar depressa, pois não Jim? (Começava a tratá-lo por Jim.)

Já era demasiado tarde para iniciar o segundo método... aquele que ele classificava como o porco morto à paulada.

Deviam casar-se tranquilamente no registo e depois passariam a lua-de-mel em Torquay. Evitou levá-la a visitar a tia, até uma semana antes do casamento, mas, quando essa noite chegou, não podia explicar a si próprio se as suas apreensões diziam mais respeito à memória do pai ou à segurança do seu próprio amor.

O momento surgiu demasiado cedo.

- É o pai de Jim? - perguntou Sally, pegando no retrato do homem de guarda-sol.

- Sim, querida, como adivinhou?

- Tem os olhos de Jim e o mesmo desenho de sobrancelhas, não tem?

- Jerome já lhe emprestou os livros dele?

- Não.

- Ofereço-lhe uma colecção quando casarem. Escrevia amorosamente sobre as suas viagens. O meu preferido é Ângulos e Fendas. Havia de ter um futuro brilhante. É o que torna aquele estúpido acidente ainda mais trágico.

- Sim?!

Como Jerome gostaria de desaparecer da sala e não ver aquele amado rosto vincar-se de irresistível e divertida surpresa.

- Tive tantas cartas dos seus leitores, depois do porco ter caído sobre ele.

Nunca antes fora tão abrupta.

E então aconteceu o milagre. Sally não se riu. Sally sentou-se com os olhos abertos de horror, enquanto a tia contava a história, e no fim disse:

- Que coisa horrível! Faz uma pessoa pensar, não é verdade? Acontecer uma coisa assim. Cair do azul do céu.

O coração de Jerome cantava de alegria. Era como se para sempre ela tivesse acalmado os seus receios. No táxi, quando a levava a casa, beijou-a com mais paixão que nunca e ela correspondeu. Havia bebés nas suas pupilas de um azul-pálido, bebés que rolavam os olhos e faziam chichi.

- De hoje a uma semana - disse Jerome, e ela apertou-lhe a mão. - Dou cinco tostões pelo que estás a pensar, querida.

- Estava a magicar - respondeu Sally - no que teria acontecido ao pobre porco.

- Com certeza o aproveitaram para o jantar - respondeu Jerome, e, feliz, tornou a beijar a sua amada.


OS INVISÍVEIS CAVALEIROS JAPONESES

Eram oito cavaleiros japoneses que jantavam só peixe, no Bentley's. Raramente falavam uns com os outros, na sua linguagem incompreensível, mas sempre com um sorriso de cortesia e uma ligeira vénia. Com excepção de um, todos usavam óculos. Às vezes, a rapariga que se sentava na janela próxima deles olhava-os distraída, mas o seu problema pessoal parecia-lhe demasiado sério para poder dar atenção a quem quer que fosse, excepção feita a ela própria e ao seu companheiro.

Tinha o cabelo fino e louro, o rosto bonito e pequeno, género Regência, de um oval como de miniatura, se bem que a maneira de falar fosse áspera; acento que lhe ficara da escola, possivelmente Roedean ou o Cheltenham Ladies's College, donde ainda não saíra há muito. Usava um anel de brasão de homem, como anel de noivado, e quando me sentei à mesa, ficando os cavalheiros japoneses entre nós, ela disse:

- Portanto, como vês, poderíamos casar para a semana.

- Achas?

O companheiro pareceu-me um tanto distraído. Tornou a encher os copos com Chablis e disse:

- Claro...  Mas minha mãe...

Perdi nessa altura parte da conversa, porque o mais velho dos japoneses se inclinou sobre a mesa, com um sorriso e uma pequena vénia, e proferiu toda uma frase, tal como um gorjeio que saísse de um aviário, enquanto todos se inclinavam para ele, sorriam e escutavam, e eu próprio não pudera deixar de lhe dar atenção.

O noivo da rapariga parecia-se fisicamente com ela. Conseguia imaginá-los como duas miniaturas penduradas lado a lado, sobre painéis de madeira branca. Ele podia ter sido um jovem oficial da marinha de Nelson, na época em que uma certa fraqueza e sensibilidade não eram impedimento para a promoção. Ela continuou:

- Eles dão-me um adiantamento de quinhentas libras, e já venderam os direitos para a edição popular.

A dura declaração comercial chocou-me; também me impressionou ter que considerá-la uma colega de profissão. Não podia ter mais de vinte anos e merecia melhor sorte. Ele afirmou:

- Mas meu tio...

- Sabes que te não entendes com ele. Por este processo ficaremos inteiramente independentes.

- Tu serás independente - resmungou ele.

- O comércio dos vinhos não é coisa que te convenha, pois não? Falei com o meu editor a teu respeito, e há grandes probabilidades...  se começasses a ler umas coisas...

- Mas eu não percebo nada de livros.

- De começo eu ajudar-te-ei.

- Minha mãe diz que o escrever é uma boa muleta...

- Quinhentas libras e meia de direitos por uma edição popular parece-me muleta bastante sólida - interrompeu ela.

- Este Chablis é bom, não achas?

- Bastante bom.

Comecei a modificar a opinião que fizera acerca dele... Não tinha o toque nelsoniano. Estava condenado à derrota. Ela persistia na sua ideia e perguntou sem rodeios:

- Queres saber o que disse Mr. Dwight?

- Quem é esse Dwight?

- Querido, tu não dás atenção, pois não? O meu editor. Disse-me que nos últimos dez anos nunca lera uma primeira novela que evidenciasse tais poderes de observação.

Ele respondeu com tristeza:

- Isso é esplêndido, esplêndido!

- Simplesmente quer que eu altere o título.

- Ah! sim?

- Não gosta de O Rio Que Não Cessa de Correr. Quer que eu lhe chame O Grupo de Chelsea.

- E tu o que disseste?

- Concordei. Penso que na primeira novela se deve contemporizar com o gosto do editor. Especialmente quando, na  realidade, ele nos vai pagar o casamento, não achas?

- Compreendo o que queres dizer.

Distraído, mexia o Chablis com um garfo... Talvez que antes de estar noivo só bebesse champanhe. Os cavalheiros japoneses tinham acabado o prato de peixe e, recorrendo a um inglês débil, mas com cortesia elaborada, pediam à criada, mulher de meia-idade, uma salada de fruta fresca.

A rapariga olhou para eles e depois para mim, mas convenço-me de que só via o futuro. Desejava ardentemente preveni-la contra qualquer possibilidade baseada numa novela que tivesse por título O Grupo de Chelsea. Colocava-me no lugar de sua mãe. Era um pensamento que me humilhava, mas havia todas as probabilidades de sermos pouco mais ou menos da mesma idade.

Tinha vontade de lhe perguntar: «Tem a certeza que o seu editor lhe diz a verdade? Os editores são homens e às vezes podem exagerar as virtudes das jovens bonitas. Será o seu livro ainda lido daqui a cinco anos? Está preparada para os anos de esforço, para a ”longa derrota de nada fazer de bom”? À medida que o tempo passa, escrever não se torna mais fácil, o esforço diário é mais duro de suportar, os tais ”poderes de observação” enfraquecem; e quando chegar aos quarenta anos, será julgada pelo que realizou e não com o que traz como promessa.»

- A minha próxima novela passar-se-á em St. Tropez.

- Não sabia que lá tinhas estado.

- E não estive. Uma visão nova é muito importante. Pensava que poderíamos instalar-nos lá durante seis meses.

- Nessa altura já não nos restará muito do adiantamento.

- O adiantamento não passa de adiantamento. Tenho quinze por cento, depois da venda de cinco mil exemplares, e vinte por cento depois dos dez mil. E, claro, deverá haver  outro adiantamento, quando o novo livro estiver acabado. E maior ainda se O Grupo de Chelsea se vender bem.

- Supõe que se não vende.

- Mr. Dwight diz que será um êxito. Ele deve saber.

- Meu tio, a princípio, não me dará mais de mil e duzentas libras.

- Mas, querido, assim como poderás ir para St. Tropez?

- Talvez seja preferível casarmo-nos quando tu voltares.

Ela disse com dureza:

- Talvez não volte, se o livro se vender bem.

- Oh!

Olhou para mim e para o grupo dos cavalheiros japoneses.  Acabou de beber o vinho e perguntou:

- Isto é uma zanga?

- Não.

- Já tenho título para o novo livro: O Azul Anil.

- Julguei que anil queria dizer azul.

Ela contemplou-o com desapontamento, e perguntou:

- Na realidade não estás interessado em casar com uma novelista, pois não?

- Mas tu ainda o não és.

- Tal como Mr. Dwight diz, nasci novelista. Os meus poderes de observação...

- Sim. Já mo disseste, querida, mas não poderias observar aqui mais perto, em Londres?

- Já o fiz em O Grupo de Chelsea. Não me quero repetir. A conta já há algum tempo que estava em cima da mesa.

Ele tirou a carteira para pagar, mas a rapariga afastou o papel do seu alcance e disse:

- É a minha vez: para comemorar.

- O quê?

- O Grupo de Chelsea, que havia de ser? Querido, tu és extraordinariamente decorativo... mas às vezes não estás ligado à terra.

- Eu preferia pagar... se te não importas.

- Não, querido, desta vez é comigo. E com Mr. Dwight, claro está.

Ele calou-se na altura precisa em que dois dos cavalheiros japoneses falavam ao mesmo tempo; depois pararam, abruptamente, curvaram-se um em frente do outro, como se fossem a atravessar uma porta.

Imaginara os dois jovens como duas miniaturas que se completassem, mas, de facto, era grande o contraste. O mesmo tipo de beleza podia conter fraqueza e força. O seu estilo Regência poderia dar à luz uma dúzia de filhos sem auxílio de anestésicos, enquanto ele seria vítima fácil dos primeiros olhos negros de Nápoles. Teria ela algum dia uma dúzia de livros na estante? Também têm que vir ao mundo sem anestesia. Encontrei-me a desejar que O Grupo de Chelsea fosse um desastre, e que, eventualmente, ela se dedicasse a ser modelo de fotógrafos, enquanto ele se estabelecia com solidez no comércio dos vinhos, em St. James. Não queria pensar nela como Mrs. Humphry Ward pensa da sua geração... Nem que eu durasse tanto. A velhice evita-nos muitos receios. Gostaria de saber a que firma editora pertenceria Dwight. Não me era difícil imaginar o que teria escrito para as badanas do livro sobre «os tremendos poderes de observação». Haveria uma fotografia, se ele fosse pessoa prudente, na parte de trás da capa, para as revistas, pois os editores de revistas, tal como os especialistas de publicidade, são humanos, e ela não se assemelhava nada a Mrs. Humphrey Ward.

Ainda os ouvi falar, enquanto esperavam pelos casacos, à entrada do restaurante. Ele perguntou:

- Gostava de saber o que estavam a fazer ali todos aqueles japoneses.

- Japoneses? Que japoneses, querido? - perguntou ela. - Às vezes és uma pessoa tão desconcertante, que julgo que não desejas mesmo casar comigo.

 

HORRÍVEL, QUANDO SE PENSA NISTO

Quando o bebé olhou para mim de dentro do cesto de verga e me piscou os olhos - no banco oposto, algures entre as estações de Reading e de Slough -, senti-me pouco à vontade. Foi como se tivesse descoberto os meus íntimos segredos.

É horrível, quão pouco mudamos. Frequentemente, um velho conhecimento, que já não encontramos há quarenta anos, quando ocupava a carteira cheia de falhas e de tinta ao nosso lado, faz-nos parar na rua, com as suas recordações que não são bem-vindas. Mesmo em criança, trazemos já connosco o nosso futuro. Os fatos não nos conseguem mudar, pois são o uniforme do nosso carácter, e este muda tão pouco como a forma do nariz e a expressão dos olhos.

Tem sido sempre preocupação minha, num comboio, por exemplo, visionar no rosto bebé o homem que ele virá a ser: o frequentador de bares, o ocioso, o convidado de casamentos elegantes?... Só é preciso fornecer um boné de tecido, um chapéu alto cinzento, o uniforme do triste, precioso ou hilariante futuro. Sempre senti certo desprezo pelos bebés que tenho estudado com superior prudência (mal sabem eles), e foi para mim um choque, quando a semana passada, um dos tais, não só me descobriu no acto de o observar, mas retribuiu o sinal de entendido, como se partilhasse o meu conhecimento do que os anos haviam de fazer dele.

 

A mãe deixara-o momentaneamente sozinho no banco em frente do meu. Sorrira-me com o tácito entendimento de que eu cuidaria do bebé por uns instantes. Depois, que mal lhe poderia acontecer? Talvez ela tivesse menos certeza do sexo dele do que eu. Conhecia a forma do que estava sob as fraldas, claro está, mas as formas podem enganar: há alterações, operações. Ela podia não ver o que eu vira: o perfeito chapéu de coco e o guarda-chuva debaixo do braço. (Aparentemente, não havia qualquer braço sob a coberta enfeitada com coelhos cor-de-rosa.)

Quando ela já se encontrava a uma prudente distância, inclinei-me para o cesto de verga e fiz-lhe uma pergunta. Nunca levara tão longe as minhas investigações.

- E tu, de que gostas?

Deitou cá para fora um balão de saliva, branco e espesso, castanho em volta. Não havia a mínima dúvida que me respondia:

- De uma caneca da melhor cerveja.

- Não te tenho visto ultimamente... Já sabes onde... no velho sítio - continuei eu.

Teve um sorriso disfarçado, como se não quisesse falar no caso, e depois tornou a piscar-me o olho. Não havia dúvida que me queria perguntar:

- E a outra metade?

Soprei um balão de saliva, por minha vez: falávamos a mesma linguagem.

Devagarinho, inclinou a cabeça para um lado. Não queria que ninguém ouvisse o que me ia dizer agora:

- Tens algum prognóstico? - perguntei.

Não se iludam com a pergunta. Não era informação para as corridas de cavalos que eu queria. Claro que não conseguia ver-lhe a cintura, com todas aquelas mantas com coelhos cor-de-rosa, mas sabia muito bem que ele usava um colete assertoado e não tinha nada a ver com os hipódromos. Disse muito depressa, porque a mãe podia voltar de um instante para o outro:

- Os meus corretores são Druce, Davis e Burrows. Olhou para mim com os olhos injectados e uma linha de saliva começou a formar-se-lhe ao canto da boca. Eu esclareci:

- Bem sei que não são bons, mas agora estão a aconselhar Stores.

Deu um supiro de dor, que poder-se-ia confundir com o vento, mas eu sabia melhor. No seu clube não serviam água tónica. Disse-lhe:

- Não concordo, repara.

E ele parou de choramingar e soprou outro balão, mais denso e branco, que lhe ficou pendurado do lábio. Imediatamente compreendi o que me queria dizer.

- É a minha vez - contrariei eu. - Não são horas para um simples?

Acenou com a cabeça.

- Uísque?

Sei que poucas pessoas me acreditarão, mas ele ergueu a cabeça uma polegada ou duas, e olhou sem sombra de dúvida para o meu relógio.

- É talvez um pouco cedo? - perguntei eu. - Um pink gin?

Não precisei de esperar pela resposta.

- Dois duplos - disse eu ao imaginário barman.

Cuspiu para cima de mim, de modo que acrescentei:

- Sem pink.

- Bem - disse-lhe eu. - Aqui está para ti. Feliz futuro.

E sorrimos um para o outro cheios de contentamento.

- Não sei o que me aconselharias - aventei eu -, mas parece-me que os tabacos estão tão em baixo quanto possível. Lembrar-se uma pessoa que a cotação das Imps atingiu 80 shillings nas primeiras décadas de 30 e agora as podemos apanhar por menos de 60. Esta desgraça não pode continuar assim. As pessoas também têm de ter a sua oportunidade.

À palavra oportunidade, ele piscou outra vez o olho, mirou disfarçadamente em volta, e eu calculei que talvez estivesse a seguir por mau caminho. Não era na verdade o estado da bolsa que o levava a conversar tão prontamente.

- Ontem ouvi uma com muita piada - disse eu. Um homem entrou no metropolitano e encontrou uma rapariga muito jeitosa com a meia torcida...

Bocejou e fechou os olhos.

- Desculpa - observei. - Julguei que ainda não a conhecesses. Conta-me tu uma.

E sempre lhes direi que o diabo do bebé estava pronto a fazer-me a vontade. Mas pertencia à escola que acha engraçadas as suas próprias anedotas, e, quando tentou falar, só conseguiu rir. Não cheguei a compreender a história por entre os frouxos de riso. Ria-se e piscava-me o olho, piscava-me o olho e tornava a rir-se... Que bela história devia ter sido. Devia dar-me para semanas... Os seus membros torceram-se no berço. Tentou até libertar as mãos de dentro dos coelhinhos cor-de-rosa, e então o riso desvaneceu-se. Quase o ouvi dizer:

- Contar-te-ei mais tarde, meu velho.

A mãe abriu a porta do compartimento e interveio:

- Esteve a distrair o bebé. Que amável! Gosta de crianças?

E olhou para mim de tal maneira... com rugas de amor em volta da boca e dos olhos, que tive a tentação de lhe responder com o calor e a hipocrisia necessários, mas encontrei os olhos do bebé, inquietos e duros.

- Bem, para lhe falar com franqueza, não. Na verdade, não.

Engoli saliva, perdendo todas as oportunidades perante aquele olhar azul e duro:

- Já  imagina o que é... Nunca tive nenhum... No entanto, gosto de peixes.

Suponho que obtive, de certa maneira, a minha recompensa. O bebé expeliu uma quantidade de bolhas de saliva. Estava satisfeito; a verdade é que não se deve fazer a corte à mãe de um companheiro, especialmente se se pertence ao mesmo clube... porque, de repente, adivinhei a que clube, inevitavelmente, ele devia pertencer, dentro de vinte e cinco anos. Era evidente que ele agora dizia:

- Para mim. Todos dobram a parada.

A minha única esperança é que não devo durar tanto tempo.

 

O DOUTOR CROMBIE

Uma circunstância infeliz da minha vida trouxe-me à ideia um tal doutor Crombie e as conversas que costumava ter com ele, quando era jovem. Foi médico na escola, até que a excentricidade das suas ideias se tornou conhecida em geral. Depois de ter cessado o cargo na escola, o resto da clientela ficou reduzida a uns tantos velhos, alguns deles tão excêntricos como ele próprio. Lembro-me que eram o coronel Parker, um judeu inglês, Miss Warrender, que tinha vinte e cinco gatos, e um homem chamado Horace Turner, que inventara um sistema para transformar o Débito Nacional em Crédito Nacional.

O doutor Crombie vivia sozinho, a meia milha da escola, numa vivenda de tijolo vermelho, em King's Road. Felizmente que possuía um pequeno rendimento, pois no fim da vida o seu trabalho era exclusivamente escrever para os jornais: longos artigos para o Lancet e para o British Medical Journal, que nunca eram publicados. Passou-se isto muito tempo antes da televisão, se não ter-se-ia arranjado para ele um canto em qualquer programa, e os seus pontos de vista teriam alcançado maior público do que a ocasional má-língua de Bankstead - quem sabe qual seria o resultado? -, pois ele falava com sinceridade, e, quando eu era jovem, tinha para mim o mérito da convicção.

A nossa escola, que tivera os seus começos como escola primária no tempo de Henrique VIII, conseguira introduzir-se no século XX no Public Schools Year Book. Tinha muitos externos, entre os quais eu, pois Bankstead ficava a uma hora de Londres, de comboio, e na época do velho caminho de ferro London-Midland and Scottish havia um serviço constante e rápido. Num pensionato onde os  rapazes estão isolados durante meses, tal como os presos de Dartmoor, os pontos de vista do doutor Crombie teriam levado mais tempo a ser conhecidos. Na altura em que qualquer rapaz fosse para casa passar férias, teria esquecido todos os curiosos pormenores, e os pais, espalhados por Inglaterra, em semelhante isolamento, teriam dificuldade em se juntar para confrontar as tão estranhas histórias. Em Bankstead, onde os pais faziam vida em comum, o problema era diferente, mas mesmo aqui os pontos de vida do doutor Crombie ficaram durante muito tempo no segredo dos lares.

O director da escola era um homem de mentalidade progressiva, e quando os rapazes chegavam, por volta dos treze anos, vindos da escola primária, conseguia, com autorização dos pais, falar-lhes em pequenos grupos sobre os problemas da higiene pessoal e os perigos que os esperavam. Tenho uma recordação muito vaga dessa ocasião, dos rapazes que se riam à socapa, daqueles que coravam, dos que pregavam os olhos no chão como se tivessem perdido qualquer coisa, mas lembro-me vivamente do discurso claro e simples do doutor Crombie, com o seu bigode melancólico, que se mantinha louro, graças à nicotina, muito depois da cabeça estar branca, e apesar dos seus óculos de aros de ouro e do cachimbo. Este conjunto sempre me deu a impressão de uma rectidão que eu nunca alcançarei. Compreendia muito pouco do que ele dizia, mas lembro-me de mais tarde ter perguntado a meus pais o que queria significar «brincar sozinho». Porque era filho único, estava habituado a não ter companheiros de brincadeira; era, por exemplo, o caso do meu comboio eléctrico: eu fazia ao mesmo tempo de maquinista, sinaleiro e chefe da estação, e não sentia necessidade de ajudante.

Minha mãe disse que precisava de falar à cozinheira e deixou-nos sós.

- O doutor Crombie - contei eu a meu pai - diz que causa cancro.

- Cancro! - exclamou meu pai. - Tens a certeza que ele não se referiu a loucura?

Era o grande período da loucura: perda de vitalidade que levava à debilidade nervosa, depois à melancolia e eventualmente a melancolia transformava-se em loucura. Por certas razões, dizia-se que estes efeitos vinham antes do casamento e não depois.

- Ele disse cancro, uma doença incurável - afirmei eu.

- Estranho! - comentou meu pai.

Sossegou-me quanto ao meu comboio eléctrico, e a teoria do doutor Crombie durante anos nunca mais me veio à cabeça. Creio que meu pai não referiu o caso a qualquer pessoa, com excepção talvez de minha mãe e simplesmente como graça. Durante a puberdade, o cancro e a loucura constituíam o mesmo terror, sendo o padrão de desonestidade entre os pais muito elevado. Há muito já que haviam deixado de acreditar na ameaça da loucura, mas serviam-se disso por conveniência, e só alguns anos mais tarde chegaram à conclusão de que o doutor Crombie era um homem verdadeiramente honesto.

Por essa altura, já eu tinha saído da escola, mas não entrara ainda na Universidade. Então, já a cabeça do doutor Crombie estava toda branca, muito embora o bigode se mantivesse louro. Tínhamo-nos tornado grandes amigos, porque ambos gostávamos de observar os comboios, e às vezes, num dia de Verão, arranjávamos um almoço de piquenique e sentávamo-nos na encosta verde de Bankstead Castle, donde se via a linha, e lá mais abaixo o canal com as barcas pintadas de cores vivas, puxadas por lentos cavalos em direcção a Birmingham. Bebíamos ginger-beer pelas próprias garrafas e comíamos sanduíches de presunto, enquanto o doutor Crombie estudava Bradshaw. Quando procuro uma imagem da inocência, é nessas tardes que penso.

Mas estou agora a recordar que a paz dessas tardes foi um dia perturbada. Um imenso comboio de mercadorias e de vagões de carvão passava perto de nós. Contei sessenta e três carruagens, o que se aproximava do nosso recorde, mas quando pedi a confirmação ao meu companheiro, o doutor Crombie, inexplicavelmente, esquecera-se de as contar.

- De que se trata? - perguntei-lhe eu.

- Na escola aconselharam-me a pedir a demissão - respondeu ele, ao mesmo tempo que tirava os óculos e os limpava com o lenço.

- Santo Deus! Mas porquê?

- Os segredos do consultório só têm valia para um dos lados - explicou-me ele. - O doente, muito embora isso seja totalmente interdito ao médico, tem inteira liberdade para dizer o que quiser.

Uma semana mais tarde, tive conhecimento do que mais ou menos se passara. A história espalhara-se de pais para pais, porque não era coisa que só dissesse respeito aos miúdos: referia-se a todos eles. Talvez mesmo houvesse um factor de receio no falatório: receio que o doutor Crombie tivesse razão. Inacreditável pensamento!

Um rapazinho que eu conhecia, um pouco mais novo do que eu, chamado Fred Wright, que ainda andava nas classes atrasadas, procurara o doutor Crombie, porque sentia dores nos testículos. Tivera relações com uma mulher pela primeira vez, numa rua para os lados de Leicester Square, num dia que em parte fora dedicado a uma excursão. (Havia meios dias de excursão, nesta feliz época de rivalidade entre as companhias de caminhos de ferro.) O rapaz agarrara a coragem com ambas as mãos e procurara o doutor Crombie. Receava ter apanhado aquilo a que é de uso chamar «uma doença social». O doutor Crombie tranquilizou-o: o que ele tinha era acidez e devia tomar cuidado e não comer tomates, mas continuou severa e desnecessariamente a preveni-lo, tal como o fizera connosco aos treze anos...

Fred Wright não tinha razão para se sentir envergonhado. Acidez é uma coisa que pode acontecer a qualquer, e não hesitou em comunicar aos pais os conselhos que o doutor Crombie lhe dera. Quando naquela tarde voltei para casa e interroguei meus pais, verifiquei que a história já chegara até eles, como chegara também às autoridades escolares. Pais após pais haviam verificado entre si, e mais tarde uma criança atrás da outra fora interrogada. O cancro como resultado de masturbação era uma coisa - tinha que se evitar de qualquer modo -, mas que direito tinha o doutor Crombie de dizer que o cancro era resultado de prolongadas relações sexuais, mesmo num casamento reconhecido pela Igreja e pelo Estado? (Infelizmente, o muito viril pai de Fred Wright, com completo desconhecimento do filho, já estava dominado pela aterrorizadora doença.)

Eu próprio fiquei um pouco surpreendido. Tinha grande afeição pelo doutor Crombie e grande confiança nele. Nunca brincara com o meu comboio depois dos treze anos com o mesmo prazer que anteriormente à conversa sobre a nossa higiene. E o pior de tudo era que eu me apaixonara, agora, decididamente, por uma rapariga de Castle Street, que usava o que então chamávamos cabelo à rapaz. A pequena parecia-se de maneira inocente e provinciana com duas famosas manas da sociedade, cujos retratos apareciam quase todas as semanas no Daily Mail. (Os anos parecem ter recuado, e eu vejo agora a mesma face, tal como a via então, mas, ai, com pouca ou nenhuma emoção!)

Na vez seguinte que saí com o doutor Crombie, para vermos os comboios, referi-me ao problema com certo acanhamento; ainda havia palavras que me não atrevia a usar em presença das pessoas mais velhas.

- É verdade que disse a Fred Wright que... o casamento...  é uma das causas do cancro?

- O  casamento, em si, não, meu rapaz. Qualquer forma de união ou congresso sexual.

- Congresso?

Nunca tinha ouvido tal palavra com este sentido. Pensei no Congresso de Viena.

- Fazer amor - disse o doutor Crombie mal-humorado. - Pensei que te tinha explicado tudo quando atingiste os treze anos.

- Nessa altura, pensei que se referia a brincar sozinho com o meu comboio eléctrico - respondi-lhe eu.

- Mas o que é isso de brincar com comboios eléctricos? - perguntou ele, espantado, na altura em que seguia na linha um rápido com passageiros a entrar e depois a sair na estação de Bankstead, deixando uma grande bola de vapor em cada um dos extremos da plataforma nº 2. - É o das 3.45, que vem de Newcastle. Segundo as minhas contas, vai atrasado um minuto e um quarto.

- Três quartos de minuto - disse eu.

Nunca tínhamos oportunidade de acertar os relógios. Tudo isto se passava antes da época da rádio. O doutor Crombie explicou-me:

- Adiantei-me à minha época e espero sofrer-lhe as consequências. O mais estranho é as pessoas aqui mal repararem. Há anos que vos tenho vindo a falar no assunto.

- Ninguém percebia que se referia ao casamento - disse-lhe eu.

- Acho que se deve começar pelo princípio. Nessas reuniões que eu então fazia, acho que nenhum de vocês estava em idade de casar.

- Mas há solteironas que também morrem de cancro - objectei eu.

Consultando o relógio, quando um comboio de mercadorias se dirigia para Bletchley, o doutor Crombie explicou-me:

- A definição de solteirona na linguagem comum quer dizer hímen intacto. Uma mulher pode ter tido prolongadas relações sexuais consigo própria, ou com outra, sem se desflorar.

Estava cheio de curiosidade. Um novo mundo abria-se perante os meus olhos.

 

EMPRESTA-NOS O SEU MARIDO?

- Então as raparigas também brincam sozinhas?

- Pois claro.

- Mas os jovens não morrem de cancro com grande frequência, pois não?

- Mas podem lançar as primeiras pedras com os seus excessos.  Era disso que eu vos queria salvar.

- E os santos? - perguntei eu. - Nenhum morreu de cancro?

- Sei muito pouco de santos, no entanto, quase te posso afirmar que a percentagem de morte por cancro no caso deles era bastante reduzida, mas nunca afirmei que as relações sexuais fossem a única causa de cancro: simplesmente que era a mais frequente.

- Mas nem todos os casados morrem de cancro.

- Meu rapaz, surpreender-te-á saber quão raramente os casais têm relações. Há uma explosão de entusiasmo e depois a longa retirada. O perigo é necessariamente menor em tais casos.

- Quanto mais se ama, mais risco se corre?

- Receio bem que seja uma verdade que se possa aplicar a outros perigos além do cancro.

Eu estava então profundamente apaixonado para me convencer com facilidade, mas as suas respostas tinham sido, devia admiti-lo, rápidas e prontas. Quando lhe fiz determinadas observações sobre estatísticas, logo ele me fechou esse caminho da esperança, dizendo:

- Se exigem estatísticas, tê-las-ão. No passado suspeitaram de muitas causas e basearam as suas suspeitas em estatísticas duvidosas e sujeitas a  controvérsia. Não me surpreenderia se um dia não viessem a suspeitar até deste meu pequeno conforto - acenou com o cigarro na direcção do  Canal Grand Junction -, mas poderão eles negar que sob o ponto de vista de estatísticas a minha solução vai além de todas as outras? Quase cem por cento dos que morrem de cancro tiveram relações sexuais.

Era uma afirmação impossível de negar e durante um instante fiquei calado, mas por fim perguntei-lhe:

- E o senhor, não receia?

- Sabes bem que vivo sozinho. Sou dos poucos a quem essas coisas nunca tentaram muito.

Respondi-lhe com o rosto sombrio:

- Se todos seguíssemos o seu exemplo acabava-se o mundo.

- Referes-te à raça humana. A fecundação nas flores parece não ter perigosos resultados secundários.

- E o homem só foi criado para morrer?

- Eu não acredito no Deus do Génesis, meu rapaz. Penso que o processo natural de evolução considera o problema e que um animal se extingue quando se dá um acidental desvio errado. Talvez o homem siga o dinossauro.

Olhou para o relógio e disse:

- Ora aqui está uma coisa inteiramente anormal: são quase 4.10 e o das quatro, que vem de Bletchley, ainda não foi sinalizado. Sim, podes verificar as horas, mas este atraso não se pode atribuir ao desacerto dos relógios.

Esqueci completamente a razão por que o comboio das quatro vinha tão atrasado, e até mesmo até hoje à tarde esquecera o doutor Crombie e a nossa conversa. O doutor Crombie sobreviveu durante alguns anos à sua arruinada clientela e depois morreu tranquilamente numa noite de Inverno, com uma pneumonia seguida a uma gripe. Eu casei quatro vezes, tão pouca importância liguei aos conselhos do doutor Crombie, e só hoje me recordei das suas teorias, quando o meu médico, com gravidade e prudência bastante exageradas, me informou que eu estava a sofrer de cancro de pulmão. Os meus desejos sexuais, agora com mais de sessenta anos, principiam a diminuir, e sinto-me feliz por ir seguir o dinossauro na obscuridade. Claro que os médicos atribuem a doença ao exagerado vício de fumar, mas diverte-me acreditar, apoiado na opinião do doutor Crombie, que deve ter origem em excessos de natureza mais agradável.

 

A RAIZ DE TODO O MAL

Esta história foi-me contada por meu pai, que a ouvira directamente a meu avô, irmão de um dos participantes. Se assim não fosse, não sei se a teria acreditado. Mas meu pai era homem de absoluta rectidão, e não vejo motivo para duvidar que esta virtude não seja apanágio da família.

O que vou contar aconteceu em 189... como se costumava dizer nas velhas novelas russas, na pequena cidade-mercado de B. Meu pai era de nacionalidade alemã e quando se fixou em Inglaterra foi o primeiro da família a sair além de poucos quilómetros da pátria, comuna, província ou cantão, pois não sei qual a designação dada naquela região. Era protestante e acreditava na sua fé, e ninguém tem maior propensão para crer, sem dúvidas nem escrúpulos, do que um protestante deste tipo. Nem sequer consentia que nossa mãe nos lesse histórias de fadas, e caminhava três léguas para ir à igreja, de preferência a entrar numa que tivesse bancos. Costumava dizer:

- Não temos nada a esconder: se durmo, durmo, e que O mundo saiba da fraqueza da minha carne. Podiam – continuava ele, e o pensamento impressionou de tal maneira a minha imaginação que talvez tivesse certa influência no meu futuro - jogar as cartas naqueles bancos e fossem lá dizer quem era mais ajuizado.

Esta frase está ligada no meu espírito, sem esquecer a maneira como ele contava a história. Costumava dizer:

- O pecado original deu ao homem uma propensão para ser dissimulado. Um pecado franco é só meio pecado e uma secreta inocência é só meia inocência. Quando tiveres segredos, então, mais cedo ou mais tarde pecarás. Nunca deixaria que um pedreiro-livre cruzasse os meus umbrais. Donde eu venho, as sociedades eram ilegais, e o Governo tinha razão. Pode muito bem ser que a princípio sejam inocentes, como aquele clube do Schmidt.

Parece que entre as pessoas da cidade onde meu pai vivia, existia um casal a quem continuarei a chamar Schmidt, visto que quase desconheço as leis de difamação e como limitações e atitudes semelhantes afectam os mortos. Herr Schmidt era um grande homem e forte bebedor, mas preferia beber em sua própria casa, para desgosto da mulher, que nunca tocava numa gota de álcool. Não que ela quisesse intervir nas libações do marido; tinha a ideia justa dos deveres de esposa, mas chegara a uma idade (ela mais de sessenta anos e o marido muito mais de setenta) em que sentia prazer em se sentar tranquilamente com uma amiga a fazer croché ou qualquer outra coisa para os netos, ou a falar das suas últimas doenças. Não se pode estar à vontade com um homem constantemente a passar, para ir à cave buscar outra garrafa. Há um ambiente masculino e um ambiente feminino que se não misturam, a não ser no devido lugar, debaixo dos lençóis. Muitas vezes Frau Schmidt, com os seus modos gentis, tentara convencê-lo a sair à noite, para ir até à estalagem.

- O quê? Para pagar mais por cada copo? - costumava ele responder-lhe.

Então, tentava convencê-lo de que precisava da companhia de homens e da conversa de homens.

- Não, quando estou a saborear um bom vinho - explicava ele.

Por fim, contou os seus problemas a Frau Muller, que sofria do mesmo mal que ela. Frau Muller era um tipo de mulher mais forte e dispôs-se a organizar um plano. Encontrou outras quatro mulheres sequiosas de companhia feminina e de interesses femininos, e combinaram reunir-se uma vez por semana com a sua costura, e tomarem juntas o café do serão. Entre todas, podiam somar mais de duas dúzias de netos, de modo que será fácil calcular que nunca lhes faltava assunto. Quando um dos pequenos acabava as bexigas, pelo menos logo dois começavam com o sarampo. Havia também toda a variedade de tratamentos a comparar: a teoria que aconselhava o «matar à fome uma constipação», querendo dizer que «se mata à fome uma constipação alimenta uma febre», e uma outra teoria que seguia um ponto de vista mais tradicional. Mas as suas discussões nunca eram azedas, como as que tinham com os maridos, e cada uma, segundo a escala, recebia em sua casa e fazia os bolos.

Mas, durante este tempo, que acontecia aos maridos? Podem pensar que se sentiam contentes por continuar a beber sozinhos, mas isso é que não é verdade. Beber é como ler um romance (meu pai usava o termo com desprezo, pois nunca voltara as páginas de uma novela em toda a sua vida); não é necessário conversar, mas é preciso companhia, se não começa a ter o jeito de uma tarefa a cumprir. Frau Muller pensara nisto e sugerira ao marido, muito de leve, para que ele mal percebesse, que quando as mulheres se encontravam fosse onde fosse, ele devia convidar os outros maridos, que trariam as suas próprias bebidas (sem necessidade de andar a gastar dinheiro no bar) e podiam ficar ali sentados, tão calados como gostavam, até chegar a hora de deitar. Claro que não era preciso que estivessem calados durante todo esse tempo. Sem dúvida que, de vez em quando, um deles faria a sua observação sobre um dia de chuva ou um dia de sol, outro referir-se-ia às perspectivas das colheitas, e outro diria que nunca, desde o Verão de 188... houvera um Estio tão quente. Conversas de homens que, na ausência das mulheres, nunca são entusiásticas.

Mas em toda esta combinação havia um estorvo, e foi isso que causou o desastre. Frau Muller incluiu no grupo uma sétima senhora, que ficaria viúva por razão diferente da embriaguês, devido à curiosidade do marido. Frau Puckler tinha um marido que ninguém podia suportar, e antes de se poderem reunir para passar os seus agradáveis serões, tiveram de decidir qual o destino a dar-lhe. Era um homem azedo, de olhos tortos e completamente careca, que fazia esvaziar um bar sempre que entrava. Os olhos juntavam-se e causavam o efeito de uma verruma. Conseguia estar dez minutos a falar com outro homem sem desviar os olhos da testa do interlocutor, como se esperasse que lhe começasse a sair serradura da cabeça. Infelizmente, Frau Puckler era altamente considerada.

Seria essencial que ela não compreendesse que o marido não era bem-vindo, de modo que, durante algumas semanas, houve que rejeitar a proposta de Frau Muller. Sentiam-se felicíssimos, sós em casa com o seu copo, quando o que na realidade queriam dizer era ser preferível o isolamento à companhia de Herr Puckler. Mas, durante todo este tempo, sentiam-se tão infelizes, que quando as esposas regressavam a casa encontravam os maridos metidos na cama e a dormir. Então, Herr Schmidt quebrou o seu habitual silêncio. Foi bater à porta de Herr Muller, uma noite, quando as senhoras estavam reunidas, com um jarro de vinho de quatro litros e já não havia mais de dois quando ele quebrou o silêncio. Este estar a beber isolado tem que acabar, disse ele. Dormira mais nestas últimas semanas do que durante seis meses, e estava a perder as forças.

- A cova está de boca aberta à nossa espera - acentuou, bocejando por hábito.

- Mas Puckler? - objectou Herr Muller. - É pior do que a cova.

- Temos de nos encontrar em segredo - explicou Herr Schmidt. - Braun tem uma esplêndida adega.

E foi assim que começou o segredo; e devido ao segredo, moralizava meu pai, pode-se atingir toda a casta dos pecados. Para a minha imaginação, o segredo era como uma porção de terra bolorenta que havia na cave e onde cultivávamos cogumelos, mas estes eram bons para comer. E assim cresce segredo... Sempre encontrei ambivalências nas lições de moral de meu pai.

Parece que durante algum tempo tudo se passou pelo melhor. Os homens sentiam-se felizes, bebendo na companhia uns dos outros... na ausência, claro está, de Herr Puckler; as mulheres, igualmente, mesmo Frau Puckler, pois sempre encontrava o marido na cama isposto a cenas domésticas. Este era uma pessoa demasiado orgulhosa para lhe contar dos seus inúteis passeios em busca de companhia, enquanto o relógio da cidade dava horas. Todas as noites costumava ir bater a uma casa diferente e todas as noites encontrava a porta fechada e as janelas às escuras. Uma vez, na cave de Herr Braun, os maridos ouviram a aldraba da porta ressoar lá em cima. Também costumava espreitar regularmente na taberna... e às vezes irregularmente, na esperança de os apanhar desprevenidos. Os candeeiros da rua faziam brilhar a careca, e de quando em quando um bebedor retardatário, ao recolher a casa, era enfrentado por aqueles olhos de verruma, que não acreditavam nada do que lhe diziam:

- Viu Herr Muller esta noite? Herr Schmidt, está em casa? - costumava ele perguntar a qualquer outro galhofeiro.

Procurava-os por aqui, procurava-os por ali... Dantes sentia-se contente em beber em sua própria casa, mandando a mulher à adega buscar reforços, mas agora sabia bem, agora que estava sozinho, que não havia prazer possível para um bebedor solitário. Se Herr Schmidt e Herr Muller não estava em casa, onde estavam eles? E os outros quatro, com quem nunca tivera grandes relações, onde estariam? Frau Puckler era o verdadeiro oposto do seu marido, uma mulher sem curiosidade, e Frau Muller com Frau Schmidt tinham bocas que se fechavam tal como fechos de uma mala bem feita.

Inevitavelmente, algum tempo depois, Herr Puckler foi à polícia. Recusou-se a falar com quem quer que fosse inferior ao superintendente. Os seus olhos de verruma penetravam como uma enxaqueca na cabeça do superintendente. Enquanto os olhos se fixavam num local único, as palavras saíam ambiguamente. Houvera um atentado anarquista em Schloss... (não consigo lembrar-me do nome). Havia boatos de uma tentativa contra o grão-duque. O superintendente mexia-se de um lado para o outro, no seu lugar, pois tratava-se de grandes problemas que lhe não diziam respeito, enquanto aqueles olhos tortos se fixavam, sem se desviarem, num ponto sensitivo, acima do seu nariz, exactamente onde sempre lhe começavam as dores de cabeça. Então o superintendente assoou-se com estrondo e disse:

- Os tempos vão maus - frase que se lembrava de ter ouvido no serviço de domingo.

- Conhece a lei que diz respeito a sociedades secretas?... - inquiriu Herr Puckler.

- Naturalmente.

- E mesmo aqui debaixo do nariz da polícia - e os olhos em verruma penetravam mais fundo - existe uma sociedade dessas.

- Se quisesse ser um pouco mais explícito...

E foi assim que Herr Puckler lhe deu toda uma lista de nomes, começando com Herr Schmidt.

- Reúnem-se em segredo - continuou. - Nenhum deles se encontra em casa.

- Não pertencem à classe dos homens que me levaria a acreditar que conspiram.

- Tanto mais perigosos.

- Talvez só sejam amigos.

- Então por que não se encontram em público?

- Vou encarregar um agente de tomar conta do caso - declarou o superintendente sem grande entusiasmo, de modo que à noite andavam dois agentes tentando descobrir onde tinha lugar a reunião. O polícia era um homem simples, que começou por fazer perguntas directas, mas tinha sido visto várias vezes na companhia de Puckler, de modo que os seis concluíram que ele estava a agir por conta de Puckler, e tiveram mais cuidados do que nunca para evitar que os descobrissem. Forneceram de vinho a adega de Herr Braun e tomaram as maiores precauções para que os não vissem entrar: cada um deles sacrificava uma noite de bebida para despistar Herr Puckler e a polícia. Não podiam confiar nas mulheres, receando que pudesse chegar aos ouvidos de Frau Puckler, de modo que fingiram que o estratagema não dera resultado e que de novo cada um estava sozinho a beber, isolado em sua casa. Isto queria dizer que deviam inventar uma quantidade de mentiras se não eram os primeiros a chegar a casa... e, segundo meu pai dizia, foi desta maneira que o pecado começou a entrar na história.

Uma noite, também, Herr Schmidt, que fora designado como isca, levou Herr Puckler a dar um grande passeio pelos arredores, e a certa altura, vendo uma porta aberta e uma luz com halo vermelho acesa na janela, e estando já nessa altura com a boca muito seca, na sua miséria, tomou a casa por uma calma taberna e entrou. Foi entusiasticamente recebido por uma mulher forte e introduzido numa sala onde esperava que lhe servissem vinho. Num sofá estavam sentadas três jovens em várias gradações de nudez, que receberam Herr Schmidt com risinhos e palavras entusiásticas. Herr Schmidt teve medo de sair logo, não estivesse Puckler à espreita lá fora, e enquanto ele hesitava, a mulher gorda entrou com uma garrafa de champanhe e alguns copos. Assim, só por causa da bebida, se bem que o champanhe não fosse o que preferia, teria gostado muito mais do vinho da região, ficou, e, devido ao segredo, segundo disse meu pai, veio o segundo pecado. Mas não ficou aqui restrito a mentiras e a relações ilícitas.

Quando chegou a hora de se ir embora, para não exagerar a demora, Herr Schmidt espreitou à janela e lá estava, em vez de Puckler, o polícia passeando calmamente de um lado para o outro. Devia ter seguido Puckler a certa distância e tomado o seu lugar, enquanto aquele espiolhava em busca do resto do grupo. Que fazer? Estava a ser tarde; dentro em pouco as mulheres teriam bebido a última chávena e acabado as histórias sobre os netos. Herr Schmidt apelou para a boa matrona; perguntou-lhe se não tinha uma porta para as traseiras, de modo que ele pudesse evitar o homem que estava na rua e que muito bem conhecia. Não tinha qualquer outra porta, mas era uma mulher de recursos, e num instante vestiu Herr Schmidt com uma saia larga, como a roda de um carro, tal como as que usam as camponesas nos dias de mercado, meias brancas, uma blusa larga e um enorme chapéu caído para a cara. Há muito já que as raparigas se não divertiam tanto, e distraíram-se a cobrir-lhe o rosto com rouge, negro para os olhos e bâton. Quando saiu a porta, o polícia teve tal surpresa que ficou pregado ao chão o tempo suficiente para Herr Schmidt se esgueirar pela primeira esquina e chegar a casa a tempo de lavar a cara antes da mulher entrar.

Se as coisas tivessem ficado por ali tudo seria muito bom, mas o polícia não fora enganado, e agora relatava ao superintendente que os membros da sociedade secreta se vestiam de mulher e assim disfarçados frequentavam as casas suspeitas da cidade.

- Mas para que se vestirão eles de mulher? - perguntava o superintendente, e Puckler insinuava orgias que ultrapassavam a ordem natural das coisas.

- A anarquia é a desordem completa, que até abrange as relações entre homens e mulheres.

- Não pode ser mais explícito? - perguntou-lhe o superintendente pela segunda vez; era a frase que ele preferia empregar, mas Puckler deixou os pormenores envoltos em mistério.

Foi então que o fanatismo de Puckler tomou uma forma mórbida; suspeitava de todas as mulheres de formas avantajadas que encontrava nas ruas à noite, desconfiando que eram homens disfarçados. Um dia, deu um puxão na cabeleira de uma tal Frau Hackenfurth (ninguém até então, nem mesmo o marido, sabia que ela a usava postiça), e mais tarde ele próprio vinha para a rua vestido de mulher, na convicção que um disfarce reconhecia outro com maior facilidade, e que, mais cedo ou mais tarde, se veria também incluído nas orgias secretas. Era um homem baixo e representava o seu papel melhor do que Herr Schmidt o fizera... Simplesmente os seus olhos de verruma tê-lo-iam traído à luz do dia, em presença de alguém que o conhecesse.

Os homens tinham tido alegres reuniões, já havia duas ou três semanas, na adega de Herr Braun, o polícia cansara-se de os procurar, o superintendente estava esperançado que deixara de ser um problema, quando se tomou uma decisão desastrosa. Nos velhos tempos, Frau Muller e Frau Schmidt tinham o hábito de fazer uns pastelinhos para os respectivos maridos, para acompanhar o vinho, e os dois homens começaram a sentir a falta destes petiscos, que descreviam aos companheiros com a água a crescer-lhes na boca, só de o lembrarem. Herr Braun sugeriu que arranjassem uma mulher que fosse para lá cozinhar; seria necessário uma pequena contribuição de cada um, pois ninguém levaria muito caro pelo trabalho de algumas horas no fim do serão. O seu dever seria de meia em meia hora trazer pastéis quentinhos e isto durante todo o tempo em que eles estivessem reunidos. Pôs o anúncio no jornal local e Puckler, arriscando-se muito - o anúncio referia-se a um clube masculino -, apresentou-se envergando o melhor fato da mulher. Foi recebido por Herr Braun, que era o único que não conhecia Herr Puckler, a não ser de reputação, e foi assim que Herr Puckler se viu imiscuído mesmo no âmago do mistério, com a grande oportunidade de escutar todas as conversas do grupo. A única deficiência era ele ter pouca habilidade culinária e muitas vezes, com os ouvidos colados à porta da adega, deixava queimar os pastéis. Na segunda noite, Herr Braun disse-lhe que ou o fabrico dos pastéis melhorava ou ele teria que arranjar quem o substituísse.

No entanto, Puckler não ficou perturbado com o aviso, pois já tinha todas as informações para dar ao superintendente, e sentia verdadeiro prazer em apresentar o relatório na presença do polícia, que em nada contribuía para esclarecimento do inquérito.

Puckler escrevera o diálogo tal como o ouviu, excluindo as longas pausas, o gorgolejar do vinho, e o ocasional rude tributo que a flatulência presta à virtude do vinho novo. O relatório dizia o seguinte:

«Inquérito sobre as reuniões secretas realizadas na adega da casa de Herr Braun, no nº 27 da rua... O seguinte diálogo foi escutado pelo informador:

Muller: Se não chover durante mais um mês, a vindima será melhor do que a do ano passado.

Voz não identificada: U...m.

Schmidt: Ouvi dizer que o carteiro quase que quebrou o tornozelo a semana passada. Escorregou num degrau.

Braun: Recordo-me de sessenta e uma vindimas.

Dobel: Era tempo de se comer um pastelinho.

Voz não identificada: U...m.

Muller: Chamem lá essa vaca.

Chamaram o investigador, que deixou lá uma travessa de pastéis.

Braun: Tenham cuidado que estão quentes.

Schmidt: Este está queimado como um carvão.

Dobel: Não se podem tragar.

Kastner: É melhor pô-la a andar, antes que aconteça pior.

Braun: Pagámos-lhe até ao fim da semana. Temos que aguentar até então.

Muller: Ao meio-dia, diz que estavam catorze graus.

Dobel: O relógio da câmara anda adiantado.

Schmidt: Lembras-te daquele cão que tinha o Mayor, com malhas pretas?

Voz não identificada: U...m.

Kastner: Não, porquê?

Schmidt: É que eu não me lembro.

Muller: Quando eu era pequeno, fazia-se um pudim de ameixas como nunca mais encontrei.

Dobel: Isso foi no Verão de 87.

Voz não identificada: O quê?

Muller: No ano em que morreu o major Kalnitz.

Schmidt: 88.

Muller: Houve um grande nevão.

Dobel: Não tão grande como em 86.

Braun: Esse ano foi tremendo para o vinho.

E continuava assim durante doze páginas.

- Mas para que serve isto? - perguntou o superintendente. - Se eu soubesse isso, teríamos a chave do problema. Parece-me que se trata de conversas inofensivas.

- Então para que se juntam em segredo?

O polícia disse: «U...m», também como a voz não identificada.

Puckler aventou:

- O meu pressentimento é que descobriremos do que se trata. Olhe para essas datas. Precisam de ser verificadas.

- No ano de 86 foi atirada uma bomba - informou o superintendente sem grande confiança. - Matou o melhor cavalo baio do grão-duque.

- E um ano péssimo para o vinho - informou Puckler. - Lamentaram-no. Não houve vinho. Não houve sangue real.

- A  tentativa falhou  por desencontro de horas - lembrou o superintendente.

- «O  relógio da câmara anda adiantado»  - citou Puckler.

- No entanto, não acredito.

- Isto é um código e para decifrar um código temos necessidade de mais material.

O superintendente concordou com certa relutância que as informações deviam continuar, mas mantinha-se a grande dificuldade dos pastéis.

Puckler afirmava:

- Precisamos de uma boa ajudante de cozinheira para os pastéis, e então eu poderei escutar sem ser interrompido. Eles não se importarão se eu lhes disser que não lhes sairá mais caro.

O superintendente voltou-se para o polícia e disse-lhe:

- Aqueles pastéis que comi em sua casa eram muito bons.

- O homem respondeu de mau humor:

- Foram feitos por mim.

- Então não temos ajudante.

- Porquê? - perguntou Puckler. - Se eu me posso vestir de mulher, também ele pode.

- E o bigode?

- Uma boa navalha e um bom sabão de barba encarregar-se-ão disso.

- É uma coisa desagradável a exigir de um homem.

- É em nome da lei.

E assim ficou decidido, muito embora o polícia se não sentisse nada satisfeito com o caso. Puckler, porque era um homem baixo, não tinha dificuldade em disfarçar-se com vestidos de mulher, mas o polícia não era casado. Por fim, Puckler concordou em ser ele próprio a comprar as roupas. Fê-lo já tarde, quando os caixeiros já estão com pressa de se ir embora, e portanto incapazes de reconhecer os olhos de verruma, enquanto consideravam o tamanho da saia, da blusa, das calças. Houvera mentiras e relações ilícitas: não sei em que outra alínea meu pai metia a estranha expedição das compras que, tal como se verá, não foi completamente despercebida. Escândalo... talvez fosse o terceiro grau produzido pelo segredo, pois que um freguês tardio, entrando na loja, de facto reconheceu Puckler, enquanto ele erguia as calcinhas para ver se o assento tinha largura suficiente. Podem imaginar como esta história correu célere, indo ao conhecimento de todas as mulheres, com excepção de Frau Puckler, e na reunião seguinte certa estranheza... Bem, poderia ser por deferência ou por compaixão. Todas paravam de costurar quando ela falava; ninguém a contrariava ou discutia com ela, e nunca a deixaram pegar numa bandeja nem encher uma chávena. Começou a achar-se tão inválida que resolveu ir mais cedo para casa, com o pretexto de dores de cabeça. Podia ver todas as outras acenando que sim, como se conhecessem melhor as suas dores do que ela própria, e Frau Muller ofereceu-se para a acompanhar a casa.

Claro que se apressou a regressar e a contar o que acontecera:

- Quando chegámos, Herr Puckler não estava em casa. Claro que a pobrezinha fingiu não saber onde ele estaria. Não podem imaginar como ficou enervada. Disse-me que ele estava sempre em casa, para a beijar quando entrava. Estava quase convencida em ir à esquadra e participar o seu desaparecimento. Comecei a acreditar que ela não sabia o que se passava. Pôs-se a murmurar certas frases sobre factos que se passavam na cidade, anarquistas e coisas semelhantes, e vocês acreditam? Disse que Herr Puckler lhe dissera que um polícia vira Herr Schmidt vestido de mulher.

- O porcalhão! - exclamou Frau Schmidt, claro que referindo-se a Puckler, pois Herr Schmidt, como figura, podia comparar-se a um dos seus barris de vinho. - Podem imaginar uma coisa dessas?

- É para distrair as atenções dos seus próprios vícios - explicou Frau Muller. - Agora vejam o que aconteceu a seguir: entrámos no quarto de cama e Frau Puckler encontra a porta do guarda-vestidos aberta de par em par e, olhando lá para dentro, dá pela falta do seu melhor vestido preto, o que costuma vestir ao domingo. «Apesar de tudo, há certa verdade na história», disse ela, «e Vou procurar Herr Schmidt». Mas eu observei-lhe que era necessário um homem de fraca figura para poder vestir um vestido dela.

- Ela corou?

- Estou convencida que não sabe nada do que se passa.

- Pobrezinha, infeliz mulher - lamentou Frau Dobel. - E que pensam vocês que ele faz, quando se veste assim?

E começaram todas a aventar hipóteses. Foi assim, tal como meu pai costumava dizer, que a tagarelice se juntou aos outros pecados da mentira, de relações ilícitas e de escândalo. No entanto, ainda falta, de todos, o maior pecado.

Nessa noite, Puckler e o polícia foram bater à porta de Herr Braun, mas mal eles sabiam que a história de Puckler já chegara aos ouvidos dos bebedores, pois Frau Muller contara ao marido os inusitados acontecimentos, e imediatamente ele se recordou dos estranhos olhos de verruma da cozinheira Anna, espreitando-o das sombras. Quando os homens se reuniram, Herr Braun informou que a cozinheira traria uma ajudante para a auxiliar a fritar os pastéis e, como não pedira aumento de salário, ele concordara. Podem imaginar a vozearia que rebentou daqueles homens silenciosos, quando Herr Muller contou a sua história? Qual era a intenção de Puckler? Era má, ou ele não fosse Puckler. Uma das teorias afirmava que, com auxílio dum ajundante, planeava envenenar os pastéis, como vingança de não ter sido convidado. Herr Dobel disse:

- Não está em desacordo com a sua maneira de ser. Tinham sobejas razões para suspeitar, de modo que meu pai, que era um homem recto não incluía a desconfiança injusta entre os pecados de que era causa a sociedade secreta. Começaram a preparar uma recepção a Puckler.

Puckler bateu à porta e o polícia ficou atrás dele, enorme na sua grande saia preta, as meias brancas caídas em cima das botas, porque Puckler esquecera-se de lhe comprar ligas. Depois  de baterem pela segunda vez, o bombardeamento começou das janelas superiores. Puckler e o polícia ficaram encharcados com líquidos não mencionáveis e agredidos com achas de lenha. Os olhos corriam perigo, devido aos garfos que lhes atiravam. O polícia foi o primeiro a deitar a fugir e era um estranho espectáculo ver aquela enorme mulher correndo pela rua a baixo. A blusa soltara-se da cintura e batia como a vela de um barco, enquanto o seu dono fazia o possível para evitar os projécteis... que por último até incluíam um rolo de papel higiénico, um bule partido e um retrato do grão-duque. Puckler, que fora atingido num ombro com um rolo de massa, a princípio não fugiu. Teve o seu momento, ou.de coragem, ou de surpresa. Mas quando a frigideira onde ele fazia os pastéis lhe acertou, voltou-se, mas demasiado tarde para seguir o polícia. Foi então que se lhe enfiou pela cabeça um vaso de noite, fixando-se tão ajustado como se fosse a parte superior dum elmo. Tiveram que o quebrar a martelo para lho tirar, e quando o conseguiram já ele estava mono, ou da pancada na cabeça, ou da queda, ou por haver sufocado. Ninguém o soube, muito embora a opinião geral fosse a sufocação. Claro que houve um inquérito, que durou muitos meses, devido à existência de uma conjura anarquista, e antes de ser encerrado o superintendente fez-se secretamente noivo de Frau Puckler, no que ninguém a censurou, pois era uma mulher popular, com excepção de meu pai, que condenava o segredo em que tudo se passara. (Suspeitava que o amor do superintendente por Frau Puckler tinha feito demorar o inquérito, fingindo acreditar nas acusações do marido.)

Tecnicamente, claro está, tratava-se de um assassínio - a morte resultante de uma forma ilegal de assalto -, mas os tribunais, depois de quase seis meses de audiências, absolveram os seis homens. No entanto, meu pai costumava sempre acabar esta história dizendo:

- Mas há outro tribunal maior, e nesse tribunal o pecado de assassinato nunca tem absolvição. Começa-se por um segredo - e olhava para mim como se soubesse que as minhas algibeiras estavam cheias deles, como na realidade acontecia, incluindo mesmo o bilhete que tencionava, no dia seguinte,  na escola, passar à loirinha da segunda fila de carteiras - e acaba-se na última alínea das culpas.

Para meu esclarecimento reptia:

- Mentira,   embriaguês, relações ilícitas, escândalos, assassinato, suborno da autoridade.

- Suborno da autoridade?

- Sim - respondia ele, e olhava-me com uns olhos vivos.

Julgo que tinha na sua ideia Frau Puckler e o superintendente. E depois exclamava como tendo atingido o máximo da escala:

- Homens vestidos de mulher... o terrível pecado de Sodoma.

- E o que é isso? - perguntava eu, com excitada expectativa.

Meu pai respondia-me:

- Na tua idade há coisas que se devem  conservar secretas.

 

DUAS PESSOAS GENTIS

Estavam há muito sentados num barco do Parque Monceau, sem falar um com o outro. Era um esperançoso dia do princípio do Verão, com umas nuvenzinhas brancas correndo no céu, impelidas por uma ligeira brisa; a todo o instante o vento podia desaparecer e o céu ficaria limpo, inteiramente azul, mas já era demasiado tarde... Antes disso o Sol entraria no ocaso.

Para os jovens podia ter sido um dia para um encontro de acaso, atrás da longa barreira dos carrinhos de bebés, só se avistando estes e as amas. Mas eram ambos pessoas de meia-idade e nenhum deles inclinado a alimentar a ilusão de possuir uma juventude perdida, muito embora ele tivesse melhor aspecto do que aquilo que julgava, com o bigode sedoso de outra época, como se fosse uma insígnia de bom comportamento, e ela mais bela do que o espelho lhe dizia. A modéstia e a desilusão davam aos dois qualquer coisa em comum; muito embora estivessem separados por cinco pés de metal verde, podia muito bem ser um casal que o decorrer do tempo fizesse com que se parecessem um com o outro.

Junto dos pés de ambos passeavam pombos, semelhantes a velhas bolas de ténis cinzentas, sem que ninguém desse por eles. Ocasionalmente, olhavam para o relógio, se bem que nunca voltassem os olhos um para o outro. Para ambos, este tempo de solidão e tranquilidade era limitado.

O homem era alto e magro. Tinha aquilo a que é costume chamar-se feições delicadas, e aqui ficava bem a frase feita; o rosto agradável, se bem que formoso, banal... Não havia desagradáveis surpresas quando ele falasse, pois um homem pode ser sensível sem ter imaginação. Trazia consigo um chapéu-de-chuva, o que sugeria um espírito cauteloso. No caso dela, a primeira coisa que chamava a atenção eram umas pernas longas e bem feitas, e tão pouco sensuais como as de uma mulher num retrato elegante. Pela expressão concluía-se que achava triste aquele dia de Verão, embora tivesse relutância em obedecer ao relógio e ir... para qualquer parte... para casa.

Talvez nunca tivessem falado um com o outro, se dois jovens malandretes não houvessem passado por ali, um com um rádio de goelas abertas, pendurado no ombro, e o outro dando pontapés nos pombos distraídos. Um dos pontapés acertou no alvo de acaso, e eles continuaram o seu caminho, no berreiro da música, deixando o pombo abandonado.

O homem ergueu-se, pegando no chapéu-de-chuva como se fosse um chicote, e exclamou:

- Malditos garotos, malandros!

A frase pareceu eduardiana, devido à ligeira entoação americana: Henry James com certeza que a poderia ter usado.

- Pobre bichinho! - exclamou a mulher.

O pombo estrebuchava sobre o saibro, espalhando pequenas pedras. Uma asa estava pendurada e uma das pernas devia ter sido quebrada também, pois o animal andava à roda, sem ser capaz de se levantar. Os companheiros afastavam-se, desinteressados, procurando migalhas entre as pedrinhas.

- Se quisesse olhar para outro lado, só um instante - disse o homem.

Pousou o chapéu-de-chuva e dirigiu-se para a ave com passo estugado. O animal continuava a andar à roda; levantou-o, e, rápida e eficazmente, torceu-lhe o pescoço. Era uma espécie de habilidade, que uma pessoa de certa educação não devia ter. Olhou em volta, em busca de um recipiente de lixo, e, cuidadoso, meteu lá o animal. Quando voltou, disse como que a desculpar-se:

- Não havia nada a fazer.

- Eu não teria coragem - disse a mulher, tendo o cuidado de compor a frase gramaticalmente correcta, com sotaque estrangeiro.

- Tirar vidas é privilégio nosso - respondeu ele com mais ironia do que orgulho.

Quando se tornou a sentar, a distância entre os dois diminuíra; já podiam falar à vontade sobre o tempo e no primeiro dia de Verão. A semana que passara fora estranhamente fresca e mesmo hoje... Ele admirou-se de como ela falava bem inglês e pediu desculpa por não falar francês, mas ela serenou-o. Não era nenhum talento especial. Acabara o seu curso numa escola inglesa, em Margate.

- A praia é muito bonita, não é?

- O mar parece sempre de um cinzento profundo - respondeu ela.

Por uns instantes mergulharam ambos em silêncio separados. Depois, pensando talvez no pombo, perguntou-lhe se estivera no exército.

- Não, tinha quase quarenta anos quando rebentou a guerra - explicou ele. - Estive na Índia, numa missão governamental.  Gostei muito de lá viver.

Começou a descrever-lhe Agra, Lucknow, a velha cidade de Deli, com os olhos brilhantes de recordações. De Nova Deli não gostara. Fora construída por um inglês... Lut... Lut... Lut? Não interessa o nome. Fazia-lhe lembrar Washington.

- Então não gosta de Washington?

- Para lhe dizer a verdade, não me sinto muito feliz no meu país. Eu explico: gosto de velhas coisas. Sinto-me mais à vontade,  acredita?, na Índia... Até mesmo em Inglaterra. E agora em França, também. Meu avô foi cônsul em Nice.

- Então  era a Promenade des Anglais inteiramente nova - disse ela.

- Sim, mas envelheceu. O que os americanos constróem nunca envelhece em beleza. O edifício Chrysler, os hotéis Hilton...

- É casado? - perguntou-lhe a mulher.

Ele hesitou um momento antes de responder: «Sim», como se quisesse ser preciso no que dizia. Estendeu a mão em busca do guarda-chuva e sentiu-se confiante nesta situação que o fazia conversar livremente com uma pessoa estranha.

- Não devia ter feito uma tal pergunta - acrescentou ela, ainda cuidadosa com a construção gramatical.

- Mas, por que não? - tentou ele desculpá-la, desajeitadamente.

- Estava interessada no que me estava a contar e a pergunta surgiu. Foi um imprévu - disse com um sorriso.

- É casada? - perguntou ele por sua vez, mas só para a pôr à vontade, pois via muito bem a aliança.

- Sim.

Por esta altura, parecia que já sabiam muito da vida um do outro, e ele sentiu que era grosseiro não se apresentar:

- Chamo-me Greaves. Henry C. Greaves.

- E eu Marie-Claire. Marie Claire Duval.

- Que esplêndida tarde tem estado - acrescentou o homem que se chamava Greaves.

- Mas quando o Sol se põe arrefece um bocadinho...

Com tristeza tornaram a afastar-se um do outro.

- Que bonito guarda-chuva... - disse ela, e era quase verdade: a guarnição de ouro era distinta, e mesmo a certa distância conseguia ver-se que tinha um monograma gravado, sem dúvida alguma um H, entrelaçado talvez com um B ou um P.

- Foi um presente - explicou ele sem alegria.

- Gostei tanto da atitude que tomou há pouco com o pombo. Quanto a mim, posso dizer-lhe que sou lâche.

Com amabilidade ele contrariou-a:

- Tenho a certeza que isso não é verdade.

- Oh! É, é.

- Só no sentido em que todos nós somos cobardes sob qualquer aspecto.

- Você não é - afirmou ela, lembrando-se com gratidão do pombo.

- Sou, sim - respondeu ele -, num aspecto especial da vida.

Parecia que estava à beira de revelações pessoais, e ela agarrou-lhe na aba do casaco para lha mostrar e dizer:

- Encostou-se a qualquer coisa que estava pintada de fresco.

O estratagema dera resultado; ele mostrou-se solícito acerca do vestido dela, mas examinando o banco verificaram que a origem do desastre não estava ali.

- Estiveram a pintar a minha escada - lembrou-se ele.

- Tem aqui casa?

- Não, um apartamento num quarto andar.

- Com ascenseur?

- Infelizmente não - lamentou ele com ar triste. - É uma casa muito velha no dix-septième.

A porta da sua vida desconhecida abrira-se um pouco, e ela quis dar, em troca, alguma coisa da sua própria vida, mas não muito. Estar assim à beirinha causava-lhe vertigens, de modo que disse:

- A minha casa, então, é desanimadoramente nova. É no huitième. A porta abre electricamente sem se lhe tocar. Parece um aeroporto.

Uma forte corrente de revelações levou-os por ali fora. Soube que ela comprava sempre queijo na Place de la Madeleine... Era uma verdadeira expedição do seu lado do huitième, próximo da Avenida George V, mas um dia tivera a recompensa, encontrando Tia Yvone, a mulher do general, a seu lado, a escolher um brie. Por seu turno, ele comprava os queijos na Rua de Tocqueville, mesmo à esquina da casa onde vivia.

- É você que vai às compras?

- Sim, sou eu que faço as compras - disse ele de repente,  numa voz agreste.

Ela lembrou:

- Começa a estar frio. Penso que nos devemos ir embora.

- Vem muitas vezes ao parque?

- Foi a primeira vez.

- Que estranha coincidência. Também foi a primeira vez que aqui vim, muito embora more perto.

- E eu vivo muito longe.

Olharam um para o outro com certo receio, temerosos dos mistérios da providência. Ele perguntou-lhe:

- Suponho que tem possibilidade de estar livre para jantar comigo?

A excitação fez com que ela resvalasse para o francês:

- Je suis libre, mais vous... Votre femme...?

- Janta fora, não sei onde - esclareceu ele. - E seu marido?

- Não volta antes das onze.

Ele sugeriu a Brasserie Lorraine, que ficava a poucos minutos de distância, e ela ficou contente por ele não ter escolhido qualquer outra coisa mais chique, mais vistosa. A atmosfera pesadamente burguesa da Brasserie deu-lhe confiança, e, se bem que tivesse pouco apetite, sentia-se satisfeita por ver o agradável progresso militar nas fileiras da travessa da sauerkraut. A ementa também era demasiado longa para lhes dar tempo a ajustarem-se ao princípio íntimo de jantarem juntos. Quando acabaram de escolher, ambos começaram a falar ao mesmo tempo.

- Nunca esperei...

- É engraçada a maneira como as coisas acontecem - acrescentou ele, pondo, sem intenção, uma pesada lápide sobre esta conversa.

Fale-me de seu avô, o cônsul.

- Nunca o conheci - confessou ele.

Era muito mais difícil conversar sentado no sofá do restaurante do que no banco do parque.

- Por que foi seu pai para a América?

- Talvez por espírito de aventura. E suponho que foi o mesmo espírito de aventura que me fez voltar a viver na Europa. A América não era Coca-Cola e Time-Life, na época em que meu pai era jovem.

- E encontrou a aventura? Que estupidez de pergunta! Claro que se casou aqui?

- Trouxe a minha mulher comigo. Pobre Patience.

- Pobre?

- Ela gosta de Coca-Cola.

- Aqui também há - explicou ela, mas desta vez com estupidez intencional.

- Sim.

O criado veio para servir os vinhos e ele encomendou um Sauterre.

- Se gosta...

- Percebo tão pouco de vinhos - respondeu ela.

- Pensei que todos os franceses...

- Deixamos esse encargo aos maridos - explicou ela, e por sua vez ele sentiu uma dor obscura.

Agora, um marido e uma mulher partilhavam também do sofá, e durante alguns instantes a sole meunière deu-lhes desculpa para não falarem. E, no entanto, o silêncio não era uma verdadeira fuga. Durante o tempo em que estiveram calados, os fantasmas instalar-se-iam com maior firmeza, se a mulher não tivesse encontrado coragem para falar:

- Tem filhos? - perguntou ela.

- Não. Você tem?

- Não.

- Tem pena?

- Acho que uma pessoa tem sempre pena de ter falhado em qualquer coisa na vida - explicou a mulher.

- Sinto-me satisfeito por ter ido hoje ao Parque Monceau.

- E eu também.

O silêncio que se seguiu foi um silêncio confortável: os dois fantasmas afastaram-se e eles ficaram sozinhos. Uma vez os seus dedos tocaram-se sobre o açucareiro, quando comiam os morangos. Nenhum deles estava interessado em fazer perguntas, e tinham a noção de se conhecer melhor do que conheciam qualquer outra pessoa. Parecia um casamento feliz, a fase da descoberta passara... Iam além da fase do ciúme e agora haviam entrado na calma meia-idade. O tempo e a morte eram os únicos inimigos e o café foi uma espécie de aviso da velhice. Depois disso era necessário pôr a tristeza ao largo com uma aguardente, se bem que não tivesse um êxito completo. Era como se fizessem a experiência de toda uma vida, que, como a da borboleta, se reduz a horas.

Quando o chefe dos criados passou ele disse:

- Parece um gato-pingado.

Ela concordou. Depois pagaram a conta e saíram. Era uma agonia mortal, à qual, por serem demasiado gentis, não poderiam resistir durante muito tempo. Ele perguntou-lhe:

- Posso acompanhá-la a casa?

- Preferia que não. É melhor não. Vive aqui tão perto!

- Podíamos ainda tomar uma bebida na terrase - sugeriu ele, com certa tristeza.

- Acho que já nos chega - respondeu ela. - Foi uma tarde perfeita.  Tu es vraiment gentil.

Só tarde de mais ela reparou que o tratara por tu e teve a esperança de que o francês dele fosse bastante mau para não ter notado. Não trocaram, nem moradas, nem números de telefone, porque nenhum deles se atreveu a sugeri-lo: em ambas as vidas a hora chegara demasiado tarde. Ele chamou-lhe um táxi e ela seguiu em direcção ao Arco do Triunfo e ele meteu devagar, para casa, pela Rua Jouffoy. O que a cobardia é para os jovens, a prudência é para os velhos, mas, igualmente, podemos envergonhar-nos da nossa prudência.

Marie-Claire atravessou portas que por si próprias se abriam e pensou como de costume em aeroportos e fugas. Uma pintura abstracta, em tons violentos de escarlate e amarelo, em frente da porta da entrada, considerou-a uma estranha.

Foi directa ao seu quarto, e tão de mansinho quanto possível fechou a porta à chave e sentou-se na sua cama de pessoa só. Através da parede conseguia ouvir a voz e as gargalhadas do marido. Calculou quem poderia estar com ele naquela noite: ou Toni ou François. François pintara o quadro abstracto, e Toni, que dançava no ballet, proclamava sempre, em especial em presença de estranhos, ter sido o modelo do pequeno phallus de pedra, com olhos pintados, que tinha lugar de honra na sala de estar. Começou a despir-se. Enquanto a voz na sala do lado ia tecendo a sua teia, recordou imagens do banco do Parque Monceau e da Brasseria Lorraine. Se a tivesse ouvido entrar o marido ter-se-ia entregado à acção: excitava-o saber que ela era testemunha. A voz disse: «Pierre, Pierre» em tom de censura. Para ela, Pierre era um nome novo. Abriu os dedos em cima do toillete para tirar os anéis e veio-lhe à ideia o açucareiro e os morangos, mas ao som de gritinhos e pequenas gargalhadas que ouvia na sala do lado o açucareiro foi substituído pelo phallus de olhos pintados. Deitou-se, meteu bolas de cera nos ouvidos e pensou quão diferentes poderiam ter sido as coisas, quinze anos antes, se ela se tivesse sentado num banco do Parque Monceau, observando um homem de bom coração a pôr fim à vida de um pombo.

- Cheiras a mulher à légua - disse Patience Greaves com alegria, ao sentar-se encostada a duas almofadas. A de cima estava cheia de buracos feitos pelo cigarro.

- Oh!, não. Isso é que não cheiro. É imaginação tua, querida.

- Disseste que às dez horas estavas em casa.

- Só passam vinte minutos.

- Estiveste na Rua Douai, num daqueles bares, à procura de uma fille, não estiveste?

- Estive sentado no Parque Monceau e jantei na Brasserie Lorraine. Posso dar-te as tuas gotas?

- Queres obrigar-me a dormir, para que eu não possa esperar mais nada. É isso, não é? Estás demasiado velho para poderes fazê-lo duas vezes.

Misturou as gotas com água da garrafa que estava em cima da banquinha de cabeceira, entre duas camas. Qualquer coisa que pudesse responder, quando Patience se encontrava neste estado de espírito, seria pior. Pobre Patience, pensava ele, erguendo o conta-gotas em frente do rosto corado de caracóis ruivos, como ela sente a falta da América!... Nunca se convenceria que a Coca-Cola aqui tem o mesmo gosto. Felizmente, aquela não seria uma das noites piores, porque ela tomou as gotas sem mais discussões, enquanto ele se sentou a seu lado, recordando a rua lá fora, a Brasserie, e como, por acaso, certamente, o haviam tratado por tu.

- Em que estás a pensar? - perguntou Patience. Ainda estás na Rua Douai?

- Estava só a pensar que as coisas poderiam ter sido diferentes.

Foi o protesto mais veemente que jamais se atrevera a fazer contra as contingências da vida.

 

                                                                                            Graham Greene  

 

                      

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