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Poesia & Contos Infantis

 

 

 


Encantos ocultos / Adele Ashworth
Encantos ocultos / Adele Ashworth

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

Encantos ocultos

 

Aborrecida de pretendentes pomposos, a senhorita Natalie Haislett deseja viver uma história de amor e aventuras. Suspira pelo misterioso Cavalheiro Negro: um ladrão inglês que lhe roubou o coração a distancia com suas legendárias proezas. Para lhe conhecer, Natalie deve recorrer, embora a contra gosto, à única pessoa que conhece famoso cavalheiro: Jonathan Drake, um don juán exímio que a cortejou anos atrás.

Jonathan aceita acompanhá-la a França, onde corre rumores que se esconde o Cavalheiro Negro. Para limpar toda sombra de dúvida, viajam como se fossem um casal casado, compartilhando intimidades que desembocam na amizade, e beijos que despertam uma fome insaciável... Quando começam a produzir-se roubos a seu redor, Natalie já está apanhada na rede de desejo tecida pelo homem de seus sonhos.

 

Prólogo

Inglaterra, 1842

—Esmeraldas.

Ela piscou.

—Dizia algo?

O homem esboçou um débil sorriso.

—Estava pensando, senhorita Haislett, que nesta esta pista de baile, sob a luz de milhares de velas, seus olhos cintilam como esmeraldas.

Ela tragou saliva com nervosismo e lhe olhou fixamente aos olhos. A voz do homem era tão profunda e sonora, quase acariciadora, que de repente sentiu um arrebatamento de intenso acanhamento, um sentimento que a senhorita Natalie Haislett, de Sherborne, não tinha experimentado nunca antes em presença de ninguém.

—Obrigado — sussurrou ela, e baixando o olhar a cravou nos botões de marfim da camisa do homem.

Ele continuou sorrindo, mas não disse nada mais enquanto a fazia girar rapidamente pela pista ao compasso da valsa. Natalie não era capaz de entender a causa da inquietação que sentia, pois, em resumidas contas, aquele era o baile de disfarces de seu pai, e o cavalheiro em questão, nada mais que um hóspede convidado que lhe tinha pedido gentilmente que bailasse com ele. Tinha-o visto antes em diversas ocasiões, embora nunca se dirigissem a palavra. Mas nesta ocasião o homem parecia ter reparado especialmente nela, e a tinha observado com atenção, diria-se que com excessivo interesse, e o interesse de um homem tão atrativo a tinha deixado sem fôlego.

—Eu gostaria de vê-la sem a máscara.

As palavras, ditas com voz rouca e suave ao mesmo tempo, sobressaltaram-na até fazer que levantasse o olhar uma vez mais. Com aquele espesso arbusto cabelo quase negro, um corpo alto e duro e uns olhos de um cinza azulado do mais cativantes, o homem resultava irresistivelmente atrativo.

Natalie ficou olhando o de marco em marco durante vários segundos, ao cabo dos quais respondeu em voz baixa:

—Eu gostaria de vê-lo sem a sua. — E depois de jogar uma prudente olhada ao redor, inclinou-se para ele e sussurrou audazmente. — Reúna-se comigo fora, no jardim de flores, debaixo da galeria sul, dentro de quinze minutos.

O homem inclinou ligeiramente a cabeça e entrecerrou os olhos depois da seda negra.

—Fala a sério, Natalie?

A inesperada utilização sem permissão de seu nome de batismo fez que ela recordasse, dito no sentido mais estrito da expressão, sua delicada situação.

—Se... acaba-me de ocorrer que seria um bom lugar para falar em privado.

—Entendo.

Durante um instante o homem manteve o olhar fixo na cara parcialmente oculta dela, e justo quando esta começava a sentir um tanto envergonhada por seu descarado comportamento, ele se inclinou sobre ela para lhe sussurrar:

—Espero impaciente... nossa conversação.

O quente fôlego do homem em sua bochecha fez que Natalie estremecesse, e então a valsa cessou com muita rapidez. Ele se deteve e, lhe fixando os olhos com o olhar, roçou com a boca o dorso da mão dela. Ato seguido deu meia volta e se afastou.

Natalie o observou um instante enquanto desaparecia entre a multidão heterogênea e risonha, tentando sacudi-las estranhas sensações que tinha despertado nela. Não devia lhe haver pedido que se reunisse com ela no jardim sem carabina, sabia, mas em seu foro íntimo algo a tinha impulsionado a fazê-lo.

Reunir-se ia com ele. O homem a atraía.

Abriu-se caminho lentamente até a parte posterior do salão de baile, detendo-se de vez em quando para conversar com aparente desenvoltura com diversos membros da alta burguesia. Demorou quase quinze minutos em chegar à galeria, e então, escapulindo-se sem ser vista, baixou correndo sem dissimulação as escadas e saiu ao jardim.

O frio ar noturno lhe roçou a pele, mas o vivo resplendor da lua e a ansiedade de seus pensamentos a esquentaram por dentro.

Depois de olhar cuidadosamente em redor, percorreu o caminho nas pontas dos pés com a esperança de não ser vista nem ouvida por ninguém. A bom seguro que sua mãe morreria do susto, se soubesse onde estava e o que estava fazendo sua filha nesse instante, e a esta entristeceu saber que não poderia permanecer muito tempo na presença do desconhecido sem que algum dos presentes no salão de baile advertisse sua ausência.

—Realmente não pensei que viria.

Natalie voltou-se para o som da voz, que procedia de uma zona de sombras a escassos metros de onde se encontrava.

—Sobretudo — continuou ele aproximando-se—, posto que ninguém mais parecesse desejoso de passear pelo jardim nesta perfeita noite outonal. Conforme parece, estamos sozinhos.

—Sim — admitiu fracamente Natalie. As expectativas que se abriam pelo fato de estarem sozinhos aceleraram seu pulso. Ele se tinha tirado a máscara, e tudo o que ela pôde ver de sua cara sob o pálido resplendor da lua foi uma vaga expressão meditabunda.

—Tire-lhe — ordenou ele.

—Como diz?

—Sua máscara, Natalie. Quero lhe ver a cara, recorda?

Ele se tinha movido até deter-se justo diante dela, mas nesse momento ela estava de cara ao claro de lua, de maneira que, uma vez mais, as sombras lhe ocultavam os rasgos do homem. Incapaz de apartar-se, Natalie pôde perceber seu calor e sentir o penetrante olhar. Timidamente, levou-se as mãos à parte posterior da cabeça e se desatou a máscara, baixando-a para segurá-la junto ao flanco, sua timidez e o temor de olhar ao homem começaram a aumentar gradualmente. Entretanto, elevando a palma da mão para lhe agarrar suavemente o queixo e lhe levantando a cabeça no processo, ele a obrigou a olhá-lo.

O homem guardou silêncio, contemplando-a com intensidade, o que provocou que os batimentos do coração dela aumentassem por momentos até terminar convertidos em um estrondo.

—Preciosa... —sussurrou o homem.

Então, deslizou-lhe o polegar pelos lábios, e Natalie se aconchegou ao toque, fechando os olhos e inclinando a cabeça para trás em resposta, enquanto a máscara caía das mãos ao chão sem dar-se conta. Durante um momento ela não soube o que fazer nem o que dizer, e de repente sentiu a cálida boca do homem na sua enquanto a atraía entre seus braços.

Não tinha esperado realmente que a beijassem. Ou sim? Talvez isso fora o que ela tinha estado desejando desde que o visse pela primeira vez fazia meses, afogar-se na magnificência daquele corpo robusto, na força que emanava dele. A língua do homem, inquieta, brincalhona, separou-lhe os lábios provocativamente, invadindo-lhe a boca e procurar a sua. Deus bendito, que sensação tão maravilhosa! Era quente, incitante, extremamente masculino. Muito mais do que ela teria imaginado jamais.

Natalie apoiou o corpo no do homem de maneira instintiva, à medida que o beijo se foi fazendo mais e mais exigente. Ficou nas pontas dos pés e lhe rodeou o pescoço com os braços para poder brincar com o cabelo de sua nuca com os dedos. Ela choramingou de puro e selvagem prazer enquanto umas sensações que jamais tinha experimentado se fundiam em suas vísceras.

Com um grunhido profundo, ele colocou uma das mãos no traseiro e empurrou audazmente os quadris dela para ele, apertando-a ali suavemente, enquanto lhe deslizava a mão livre pela bochecha até o pescoço, que acariciou com os dedos.

Natalie era absolutamente consciente da tensão e dureza em todos e cada um dos pontos do homem, assim como da paixão selvagem que ia crescendo entre eles, mas não era capaz de deter-se. Ainda não. Só queria estar sob o claro de lua, em um jardim fragrante, e permanecer assim com ele toda uma eternidade: beijando-se, tocando-se, sentindo, desejando... A quebra de onda de emoções era perfeita, maravilhosa, e qualquer insidiosa duvida sobre o que estava fazendo se desvaneceu de seus pensamentos quando os lábios dele continuaram lhe torturando a boca com um prazer irresistível.

Ela se ouviu ofegar ligeiramente quando, sem prévio aviso, o homem lhe baixou a mão sobre o vestido para lhe colocar o polegar contra o mamilo, roçando-lhe com doçura, acariciando-lhe provocando o ansioso ápice através da fina capa de seda de Florência. Abandonada ao impulso, Natalie começou a mover os quadris contra os dele, lhe roçando docemente com o ventre.

A ação fez que o homem revivesse com entusiasmo. Agarrou então o peito em toda sua plenitude com a mão quente, enquanto que com a outra que apertava o traseiro dela e sem que Natalie fora totalmente consciente do fato, começou a lhe levantar a saia.

Com uma rapidez de perito que ela nem sequer pôde começar a compreender, o homem lhe colocou a palma na perna, e seja por insegurança, seja pelo mero instinto, o certo é que Natalie ficou tensa imediatamente.

Aparentemente, ele também o notou, porque sua boca afrouxou o beijo e começou a mover as mãos por toda parte para lhe acariciar a face interior das coxas.

—Que está fazendo? — murmurou ela, jogando a cabeça para trás.

—O que ambos levamos sonhando durante semanas — respondeu ele com voz áspera, enquanto seus lábios começavam a traçar um caminho de beijos leves como plumas pela garganta dela.

O homem baixou ainda mais a cabeça, e mais, até que sua boca lhe roçou a parte superior dos peitos justo por cima do decote do vestido. Ela começou a relaxar-se de novo, fechando os olhos às luxuriosas sensações que ele criava com perícia, até que lhe sentiu mover a mão para lhe acariciar intimamente aquela zona sensível entre suas pernas.

Aquilo a devolveu à realidade de repente.

—Não. —Natalie ofegou, lhe empurrando pelos ombros, tremendamente envergonhada e afligida imediatamente pela culpa.

Ele retirou lentamente as mãos e se ergueu para olhá-la fixamente, e sua respiração se fez rápida e ofegante pelo repentino muito par. Embora Natalie soubesse que ele estava tão afetado quanto ela pela força da atração mútua, não foi capaz de lhe ler os pensamentos na cara através das sombras.

O homem permaneceu ali quieto por extenso momento antes que a dureza de sua voz penetrasse o frio ar noturno.

—Por que me pediu que me reunisse com você, senhorita Haislett?

Ela não podia pensar com claridade. Respirava com dificuldade, e todo o corpo tremia.

—Eu... eu sozinho queria falar.

O homem permaneceu em silencio durante um ou dois segundos, ao cabo dos quais exalou um longo e lento suspiro.

—Alguma vez tem feito isto, não é assim?

Natalie agarrou os cotovelos com as palmas das mãos em uma tímida atitude defensiva, mas nem se moveu nem apartou a vista da expressão oculta do homem.

—Beijaram-me com antecedência, se for a isso ao que se refere, mas...

—Mas que?

Natalie baixou a vista para estudar o que podia ver de suas bailarinas de cetim azul.

—Durou três segundos e foi em minha bochecha direita.

Durante uma fração de segundo ela pensou que realmente era possível que ele pusesse-se a rir. Mas não o fez. Em seu lugar, moveu-se para tornar a plantar-se diretamente diante dela, lhe colocando a mão debaixo do queixo para lhe levantar a cara para ele. Fechou os olhos com força para evitar o olhar do homem, afligida de repente de uma aguda e inquietante sensação de vergonha.

—Me olhe — lhe exigiu com uma voz profunda e aveludada.

Ela tomou ar rapidamente e abriu os olhos.

—Sinto-o — disse ela em um sussurro. — De verdade que não queria...

—Quantos anos tem?

Ela fez uma pausa, querendo parecer mais velha e independente, mas ao final decidiu que o melhor era ser sincera.

—Dezessete. Cumpro dezoito dentro de um mês.

—Entendo...

O homem começou a lhe esfregar o perfil do queixo com o polegar, atrás e adiante, atrás e adiante, e ela fechou os olhos perante aquela sensação, sucumbindo uma vez mais a sua habilidade.

Ao final, lhe jogou o braço por detrás, atraiu-a contra seu peito e a abraçou com força contra ele, com uma mão na cabeça e a outra nas costas, enquanto lhe percorria a coluna vertebral com os nódulos.

Natalie podia ouvir o batimento regular de seu coração sob a bochecha, podia sentir sua respiração lenta e uniforme, e soube que estava voltando a perder-se naquele abraço. Estar entre seus braços, estar fazendo exatamente, como ele havia dito, o que ela tinha estado sonhando fazendo durante semanas, era uma sensação perfeita.

—Assim só queria falar — repetiu ele com calma, pensativamente.

—Em realidade, creio que queria que me beijassem — admitiu ela timidamente, aconchegando-se ainda com mais força contra o peito dele. — Eu gosto da maneira que tem de beijar.

O homem soltou um suave grunhido e negou com a cabeça.

—Sem dúvida alguma é você a coisinha mais doce com a que me cruzei em anos, senhorita Natalie Haislett.

Ela levantou o queixo, lhe olhando fixamente à cara.

—Gostou-lhe?

O homem baixou o olhar bruscamente.

—Beijá-la?

Ela assentiu com a cabeça.

—Gostou-me mais do que provavelmente deveria haver eu gostado.

Aquilo a reconfortou sobremaneira.

—Acredita que poderíamos voltar a nos beijar outra vez?

O corpo do homem ficou tenso enquanto olhava uma vez mais para o jardim em penumbra.

—Não acredito que fosse uma boa idéia.

Sentindo-se incômoda, cravou o olhar no peito do homem.

Ele tornou a olhá-la.

—Do que queria falar quando me pediu que viesse aqui?

Natalie não tendo sido nunca das que controlam seus sentimentos, não foi capaz de pensar em nada que dizer exceto a verdade, que confessou em voz baixa.

—Penso que é você o homem mais encantador que conheci em minha vida, e eu... — Sentiu que lhe ardiam as bochechas ao ruborizar-se. Tentou soltar do abraço do homem com naturalidade, mas ele não a soltou.

—Você o que Natalie?

Sua voz foi extremamente aveludada, e o nome dela deslizou de sua boca carregado de intimidade e desejo. Ela não pôde agüentar mais.

—Se o digo, promete-me não rir?

—Não, a menos que seja divertido.

Ela suspirou com determinação, fechou os olhos e levantou a cara ao claro de lua.

—Acredito que o amo.

Ele não disse nada. Mas tampouco riu, nem a soltou, e graças por isso Natalie sentiu um tremendo alívio. Embora não foi capaz de abrir os olhos; não podia, simplesmente. Não, até que ele dissesse algo.

Durante um longo minuto Natalie não ouviu nada, exceto o tranqüilo ar noturno carregado da música e as risadas longínquas procedentes do salão de baile situado por cima deles. Então sentiu que os lábios do homem voltavam a tocar suavemente os seus, roçando-os, sem paixão, mas com uma doce ternura. Ela queria mais dele, mas assim que o homem percebeu que ela começava a corresponder, apartou-se.

—Deveria entrar antes que alguém saia a lhe procurar - sussurrou ele sobre sua boca.

Ela não sabia o que sentir. De algum modo sabia que ele estava sendo bastante razoável, e que provavelmente não lhe diria que a amava em contrapartida, mas, não obstante, viu-se invadida por uma quebra de onda de tristeza.

Separou-se dele quando a soltou. Então, sem lhe olhar à cara sequer, recolheu sua máscara, deu-se meia volta e fugiu pelo jardim.

 

Capítulo 1

Londres, 1847

—Esmeraldas.

—Esmeraldas? —repetiu ele, surpreso.

—Uma estranha e inestimável mescla de ouro e muito valioso verde.

Jonathan William Rayburn Drake, segundo filho do defunto e muito respeitado conde de Beckford, soprou com força e se recostou contra a suave pele de sua poltrona Luis XIII para contemplar pensativamente a seu convidado. Roubar esmeraldas se estava convertendo em um pesadelo.

—Quanto valem? —perguntou com prudência.

Sir Guy Phillips, um homem muito loiro, cujo rosto de meia idade só podia ser descrito como comum, arranhou-se as espessas e largas costeletas e se encolheu de ombros.

—Neste momento não poderia pôr uma cifra a seu valor.

—Mmm. Conheçamos a história, pois.

Phillips fez uma pausa para ordenar suas idéias, e começou pelo começo.

—Em um princípio pertenceram ao rico duque de Westridge, que as comprou legalmente de um austríaco, provavelmente ao Carlos VI, fazia o final da década de 1720. Depois, o duque as deu de presente a sua esposa, Elizabeth, como presente de bodas, e ela as teve em seu poder durante quase sessenta anos, até sua morte no inverno de 1781. Embora Westridge tivesse um filho, este era um menino doentio e morreu em 1740, aos doze anos de idade, deixando ao duque sem um herdeiro que reclamasse sua imensa fortuna. Acredita-se que a encantada Elizabeth, que morreu quinze anos depois que seu marido, legou todas suas posses pessoais a sua prima Matilda, uma solteirona que, casualidades da vida, tinha uma remota relação de parentesco com o rei Jorge.

Phillips deu uns tapinhas nos volantes de sua camisa de seda branca e se levantou, com a taça de brandy na mão, e começou a dar voltas pela habitação.

—Ninguém sabe com certeza onde estiveram guardadas as jóias nem quem tinha realmente direito a elas depois que Matilda morrera aos noventa e dois anos, mas corre o rumor de que o rei entrou em posse delas em algum momento com antecedência a que o idiota de seu filho fora renomado regente em 1811. Prinny herdou as esmeraldas, e para ajudar a pagar suas horríveis dívidas quando foi coroado rei em 1820, vendeu-as ao duque de Newark por uma não revelada, embora houvesse quem diz que indecente quantia. E aí permaneceram, em poder do duque, durante mais de vinte e cinco anos, a boa cobrança em uma câmara de segurança em sua propriedade, até faz três meses, quando sua esposa descobriu que tinham desaparecido...

—Roubadas por uns profissionais, portanto — cortou Jonathan enquanto se levava sua taça aos lábios.

Sir Guy deixou de dar voltas para olhá-lo diretamente.

— Temos razões para acreditar que as esmeraldas se encontram atualmente na França, roubadas, depois de meses de minucioso planejamento, por sicários dos altos funcionários que desejam desesperadamente derrotar ao atual governo da França.

Jonathan se deixou cair em sua poltrona e proferiu um lento assobio.

—E como demônios poderia saber eu que os franceses estão envoltos, Phillips?

O homem loiro riu entre dentes.

—Sempre parecem está-lo, não é verdade?

—Continua — insistiu Jonathan.

Phillips suspirou.

—Bom, corre o rumor de que as jóias chegaram á mãos dos legitimistas franceses que, é obvio, consideram o Enrique como o verdadeiro rei e querem voltar a vê-lo sentado no trono. —Negou com a cabeça, e sua expressão se tornou grave quando baixou a voz: — A corte do Luis Felipe se desmorona, Jonny. O país inteiro ainda tem que encontrar a estabilidade. Os legitimistas querem ao Enrique; o povo, sempre insatisfeito, fala de outra revolução...

Depois de uma prolongada pausa, Jonathan perguntou pensativamente:

—Assim, por que roubar essas jóias, além do fato de ser tão valiosas? Qualquer que as surrupie se arrisca uma barbaridade vindo aqui a fazê-lo.

O homem mais velho soprou e começou a dar voltas de novo.

—Porque (e isto é sozinho uma hipótese) os implicados em seu desaparecimento acreditam que as esmeraldas pertencem legitimamente ao povo francês. Um roubo justificado.

—Justificado?

Sir Guy tamborilou com os dedos sobre sua taça.

—Conforme parece, os legitimistas chegaram a seu próprio convencimento de que as esmeraldas não foram compradas dos austríacos, e sim confiscadas ilegalmente. Roubadas, vamos. Acreditam que as jóias jamais pertenceram aos britânicos, porque em realidade se supunha que tinham que ter passado do Carlos a Maria Teresa, e desta a sua filha Maria Antonieta, e que, no momento do desgraçado falecimento desta última, as jóias deveriam ter passado a ser propriedade do povo francês.

—Que conveniente para os franceses.

—Sim, bastante.

Jonathan esvaziou o conteúdo de sua taça, colocou-a na pequena mesa situada junto a sua poltrona e estirou as pernas por diante dele.

—Só me resta concluir que recentemente recebeste informação relativa ao paradeiro do colar, equivoco-me?

Phillips assentiu com a cabeça enquanto se aproximava de uma licoreira para tornar a encher a taça até o bordo.

—Faz duas semanas um de nossos contatos em Paris assistiu a uma cerimônia de ornamento cujo único propósito era arrecadar dinheiro para a causa legitimista. Em dita recepção, o mesmo contato ouviu ao azar uma conversação insolitamente sincera em relação com as jóias que tinham sido roubadas recentemente nos muito mesmos «narizes desses altivos ingleses». Depois de um hábil interrogatório, nosso contato se inteirou de que as esmeraldas estão em Marselha á boa cobrança até o momento em que seja necessário derrocar ao Luis Felipe.

Phillips voltou para sua poltrona, colocou a taça na mesa e se meteu a mão no bolso da camisa para tirar um pequeno pedaço de papel. O entregou ao Jonathan.

—Lamento-o muitíssimo pelo duque de Newark e sua encantadora esposa, que perderam seu colar de esmeraldas às mãos dos ladrões franceses — prosseguiu em tom sombrio. — Mas o motivo de que envie a França e ponha em perigo sua vida, Jonny, é o de ajudar, se pudermos, a que Luis Felipe conserve unido seu governo. Se as esmeraldas são desmontadas e vendidas, os legitimistas poderiam perceber uma soma descomunal que utilizariam para promover sua causa. Agora mesmo a Inglaterra não anda necessitada de outra guerra. Não há nenhuma necessidade de que voltem a morrer nossos meninos por culpa da arrogância francesa.

Jonathan jogou uma olhada ao papel. A letra era cuidada e meticulosa.

Madeleine DuMais, rua da Fleur, 5. Vinte e sete de junho, 10 da manhã.

Sir Guy esvaziou rapidamente sua taça pela segunda vez, colocou-a na mesa, e se levantou para recuperar seu casaco do cabide que havia próximo à porta.

—Creio que já conhece a encantadora senhorita DuMais.

—Mmm... Em realidade só a vi uma vez.

—Bem. Quando chegar, ter-te-á uma nova identidade preparada e pode que alguma pista. Quando pode partir?

Jonathan também se levantou, esfregando-os olhos cansados com as gemas dos dedos.

—Confio em poder embarcar na sexta-feira. Isto me daria tempo suficiente para consertar o encontro.

—Estaremos esperando notícias. — Phillips abriu a porta principal e retornou para Jonathan sorrindo. — É consciente de que, posto que esteja na França, perder-te-á a recepção de lady Carlisle.

O baile de lady Sibyl Carlisle era o acontecimento mais aterrador da temporada para os solteiros cotados. Junto com as quatro harpias de suas filhas, a dama se empenhava em que a festa não tivesse mais objetivo que o de converter-se em uma reunião de casamenteiras. Ter uma desculpa para não assistir era uma bênção considerável.

Jonathan sorriu burlonamente.

—Que coincidência mais desventurada, sem dúvida. Terá que saudá-la, a ela e a suas encantadoras filhas, de minha parte.

Phillips negou cansativamente com a cabeça.

—É obvio. Acredito que este ano terei que voltar a aparecer. Ao menos, a dama não repara em gastos no referente à boa comida e a boa bebida.

—Isso, reconheço-o, sim que o sentirei falta.

—Falando de boa comida — acrescentou Phillips, — o jantar estava excelente. Lhe diga ao Gerty que esta vez o assado estava perfeito.

—Adorará saber que comeste até a última parte.

Com uma leve inclinação de cabeça e uma sapatada, Phillips se deu meia volta, baixou os degraus dianteiros e desapareceu na névoa noturna.

Jonathan permaneceu na entrada vários minutos, respirando o úmido ar noturno até que o frio começou a lhe impregnar os ossos. Fechou a porta com lentidão, embora não jogou o ferrolho, posto que Marissa chegasse antes de uma hora para passar outra noite pulando entre os lençóis. Ela era a única amante que tinha tido, quão única tinha conhecido, que preferisse encontrar-se com seus amigos cavalheiros nas casas destes, sempre e quando, é obvio, seus amigos cavalheiros fossem solteiros. Para falar a verdade, não lhe importava. Jonathan não tinha que ocultar suas correrias sexuais a nenhuma esposa intrometida, nem a ninguém, em realidade, e se Marissa queria desfrutar de suas relações em sua casa, em lugar de na dela, pois por ele, perfeito.

Entretanto, essa noite Jonathan se sentia inquieto, e realmente não o fazia nenhuma graça a visita da Marissa. Até fazia muito pouco tempo ela tinha sido capaz de satisfazer todas suas necessidades, mas, à maturação, e por mais que ele odiasse admiti-lo, estava-se cansando dela. Bom, Marissa era uma mulher de uma beleza nada corrente e era inquestionavelmente perita na utilização de seu corpo. Mas, de repente, e para seu desconcerto, Jonathan se encontrou desejando mais; mais da vida e mais de uma mulher. Ela era a querida de qualquer disposto a lhe dar o melhor, as bagatelas mais bonitas, e Jonathan não tinha nenhum reparo em lhe dar bagatelas. Era boa no que fazia. Mas aí, por estranho que parecesse, radicava o problema, porque pela primeira vez em anos, em toda sua vida em realidade, Jonathan queria lhe dar mais importância ao sexo que a mulher com a que se deitava.

Com um brusco puxão para afrouxar o lenço de seda, Jonathan se dirigiu de volta ao estúdio, pegou a garrafa meio vazia de brandy e as taças, e as levou a cozinha, situada na parte posterior de sua casa da cidade.

Como sempre, Gerty tinha deixado o lugar imaculado antes de partir para ir dormir a sua casa, assim que quão único ficava sobre a bancada era os pratos do jantar dos dois cavalheiros. Jonathan colocou o que levava a lado do resto das coisas para lavar, desabotoou-se os três botões superiores da camisa, baixou a intensidade do abajur da mesa da cozinha e voltou para seu estúdio para sentar-se a pensar diante da pequena chaminé.

Tinha que admitir que cada vez mais estivesse cansado e aborrecido. Cansado das mulheres que conhecia, e aborrecido de todo o resto. A seus vinte e nove anos de idade tinha feito muitas coisas, mas nesse momento se surpreendeu invejando a aqueles homens que nunca tinha pensado que invejaria. Durante os últimos meses tinha dedicado realmente seu tempo a considerar onde estava e o que estava fazendo, e de repente tinha descoberto que sentia falta de, inclusive que desejava a estabilidade. Nunca teria imaginado que um dia quereria ter uma família. Até datas muito recentes, tinha considerado risível semelhante idéia. Tinha conhecido a muitos homens, inclusive amigos, que eram inegavelmente desventurados em seus matrimônios, e durante muito tempo tinha assumido que todos os matrimônios teriam que ser assim, dificultosos até no detalhe mais mínimo e absolutamente merecedores do esforço. Mas, depois de pensá-lo atentamente, deu-se conta de que, embora o matrimônio fosse um verdadeiro problema, resultava que para muitos era mais enriquecedor que qualquer outra união. Tinha-o visto no matrimônio de seus pais, e no de seu irmão, e, embora quase da noite para o dia, queria-o também para si. O que mais lhe incomodava era saber que jamais poderia fazê-lo compatível com seu trabalho. Teria que escolher entre os dois.

Recostando-se na poltrona, cruzou as mãos sobre o ventre, estirou as pernas e ficou olhando fixamente o baile da tilintando luz no escuro teto.

Desfazer-se de Marissa não seria realmente um problema. Ela passaria simplesmente ao seguinte membro rico da alta sociedade que pudesse mantê-la confortavelmente alojada e adornada. Tanto ele como ela sabiam que o que obtinham um do outro era puramente físico e o faziam de comum acordo, e desde o começo ele tinha deixado claras suas intenções quanto à natureza de sua relação. Ela estava acostumada a isso, porque tinha aceitado a muitos homens antes que a ele, e os que seguiriam seriam exatamente iguais. Tecnicamente, o trabalho da mulher era lhe dar agradar na cama em troca de uma vida elegante, e sem dúvida alguma ela era toda uma perita em seu campo de estúdio.

Entretanto, a pergunta que Jonathan se esteve fazendo uma e outra vez nos últimos tempos não tinha nada que ver com sua querida, e sim como se poderia viver sem a emoção de seu trabalho, se tomava uma esposa. Tinha estado atuado por toda a Europa durante seis anos, e aqueles que utilizavam seus serviços estavam disso não cabia dúvida, em dívida com ele e desejavam de maneira se desesperada que seguisse com o que estava fazendo; e pelo que fazia, pagavam-lhe bem. Mas que muito bem. Entretanto, deixando a um lado o dinheiro, não estava seguro de que pudesse renunciar a tudo, ao menos não absolutamente, e se não o fazia, não estava seguro de que pudesse casar-se. Nenhuma dama quereria um marido que não estivesse perto para lhe satisfazer os caprichos ou acompanhá-la às reuniões sociais, e nenhuma mulher que ele tivesse conhecido tinha sido capaz de igualar seu sentido da aventura e seu desejo de experimentar o melhor da vida.

Jonathan fechou os olhos. Talvez acabasse convertendo-se em um velho solteirão carrancudo. Só ele e seu cachorro. Bonito casal que fariam os dois!

—Querido?

A voz rouca de Marissa o tirou de repente de seus pensamentos. Voltou-se em direção à porta sorrindo fracamente para lhe dar um ar menos grave a seu estado de ânimo.

—Não a ouvi entrar.

Fazendo deslizar o xale de lã branca por seu corpo com uns dedos perfeitamente cuidados, aproximou-se dele com despreocupação.

—Por que há tão pouca luz aqui? — sussurrou ela com picardia. — Estava esperando a me fazer o amor diante da chaminé?

Jonathan sorriu burlonamente, percorrendo acima e abaixo o longo e grácil corpo da mulher com o olhar. Sem dúvida ia sentir-lhe falta.

—Temos que falar Marissa.

Ela se deteve em seco e lhe dedicou uma careta.

—Meu deus! Parece sério.

Jonathan a observou durante um instante. Depois, respirando fundo para armar-se de valor e com a sensação de que estava fazendo o correto, disse em voz baixa:

—Isto não tem nada que ver contigo, carinho, mas acredito que chegou o momento...

—Não vás acreditar que não pensei em que chegaria este dia, Jonathan — lhe interrompeu alegremente, arrojando o xale sobre o banco com respaldo de madeira nobre que tinha a sua esquerda. — Dei conta de algumas mudanças em ti ultimamente, e os vi antes.

Marissa aproximou de seu lado, lhe olhando fixamente aos olhos e sorrindo enquanto pousava seu traseiro no braço da poltrona de Jonathan.

—Pode acreditar isso ou não — prosseguiu ela pensativamente, entrelaçando os dedos no espesso arbusto cabelo de Jonathan. — Eu também estive pensando que provavelmente era hora de seguir em frente, e não vais acreditar quem está me perseguindo, querido, nada menos que o rico e generoso visconde Willmont.

Jonathan levantou as sobrancelhas em sinal de surpresa.

—O velho Chester?

Ela assentiu com a cabeça.

—Ainda... Pode caminhar?

—Ciumento querido?

Jonathan tornou a sorrir burlonamente, colocando a palma de sua mão em uma coxa que conhecia muito bem e aspirando ao familiar aroma do perfume de Marissa.

—Muito.

Ela soltou uma suave gargalhada e lhe agarrou o queixo com o índice e o polegar, com sua cara a escassos centímetros da dele.

—Ninguém poderá comparar-se a ti jamais, nem dentro nem fora da cama, e invejo á mulher que acabe lhe roubando o coração.

Jonathan lhe rodeou a cintura e a empurrou para sentar-lhe no regaço.

—Estou seguro de que ainda podemos aproveitar esta noite — a provocou com voz rouca. — De todas as maneiras, é provável que Chester já tenha tomado seu leite quente e se foi a dormir até amanhã.

Marissa baixou o braço, envolveu-o total e descaradamente com a mão e, inclinando-se sobre ele, sussurrou-lhe junto à boca:

—Vamos para cima.

 

Capítulo 2

Natalie Haislett assumiu o risco enquanto se atava o capuz da capa, olhou a ambos os lados com discrição e descendeu em silêncio os degraus da casa de seu pai em Londres, para dirigir-se ao final da rua, onde lhe esperava seu veículo.

Sabia que estava sendo impetuosa, talvez inclusive irracional, mas por fim tinha chegado o momento de que desse o passo, e não era capaz de discorrer outra maneira. Estava preparada para encontrar-se com o homem de seus sonhos, que a tiraria de sua existência engravatada e banal. E nunca se havia sentido mais desejosa de algo na vida.

Inclusive através da espessa névoa matinal descobriu o carro de aluguel que lhe tinha pedido sua sempre impagável donzela, e caminhou rapidamente para ele. E antes que o sol começasse a esquentar o dia, Natalie se dirigiu à casa dele, louca de contente e morto de medo.

Jonathan Drake era o último homem na terra ao que queria ver, o último homem com cuja ajuda queria contar. Mas ele era tudo o que tinha; era sua única pista. O irmão maior de Jonathan, lorde Simon, décimo segundo conde de Beckford, estava casado com a melhor amiga de Natalie, Vivian, e esta lhe tinha prometido sem indício de dúvida que Jonathan conhecia pessoalmente ao infausto Cavalheiro Negro, o homem que ela sabia, desde fazia já quase dois anos, era com quem estava destinada a casar-se.

Drake, independente e rico por direito próprio, era uma espécie de espírito livre, um viajante, embora gozasse da consideração geral de ser um dos solteiros mais cobiçados da Inglaterra. Dedicava-se ao comércio de artigos refinados, a compra/venda de antiguidades e artefatos insólitos por mera satisfação pessoal, o qual, para o Natalie, significava que não era mais que outro nobre com muito dinheiro e, tempo que esbanjar. Mas isso era assunto dele. O interesse de Natalie pelo Drake se centrava exclusivamente no conhecimento que este tinha o paradeiro do ladrão mais famoso da Europa.

De acordo com a Vivian, parecia ser que Jonathan Drake tinha conhecido e mantido relação com o Cavalheiro Negro tanto em razão de suas viagens como de seus negócios. Embora o Cavalheiro Negro fosse uma lenda viva, aquilo não resultava tão difícil de acreditar para Natalie, porque o homem seguia sendo de carne e osso e por força teria amigos que conhecessem sua identidade. Não era mais que uma extraordinária coincidência que o homem com o que ela pretendia casar-se conhecesse o Drake, o único homem na terra pelo que teria dado a vida para evitá-lo.

Recostando-se nas almofadas, Natalie fechou os olhos em um intento de substituir a ansiedade que lhe provocava ver o Jonathan pela esperança e a excitação de reunir-se por fim com seu futuro marido.

O Cavalheiro Negro era um mistério em toda a Europa. Natalie tinha seguido suas aventuras na Inglaterra e o continente durante mais de dois anos, seguindo o rastro de seu paradeiro pelos artigos das gazetas e, sim, embora lhe desse vergonha admiti-lo, pelas intrigas. Lhe atribuíam muitos nomes — o Cavalheiro Negro, o Ladrão da Europa, o Cavalheiro das Sombras —, a maioria deles devidos, supunha ela, ao fato de que só trabalhava na escuridão, em operações clandestinas. Embora a maioria da gente pensasse que não era mais que um patife indecente e um saqueador de mulheres, Natalie estava bastante segura de que a maior parte de tudo o que tinha ouvido estava adornado ou inventado por aqueles que simplesmente sentiam inveja de suas habilidades.

A primeira vez que Natalie tinha ouvido falar dele foi quando lhe atribuiu o roubo de uma delicada coleção de vasos do Sévres a uma importante família alemã. Que dita coleção tivesse sido roubada inicialmente a um aristocrata francês durante a Revolução de 1792 ficou em certa maneira iludido pelo fato de que o ladrão fora o infame Cavalheiro Negro. Natalie não estava segura, mas os rumores de que os vasos tinham acabado finalmente em mãos de seus legítimos donos, que se tinham estabelecido de novo perto do Orange, e que o ladrão só tinha atuado por dinheiro, fazendo um trabalho que aqueles que estavam investidos de autoridade não eram capazes de realizar por razões de decoro e discutíveis legalidades.

Depois disso tinha ouvido mencionar de passada seu nome várias vezes, mas só no último mês de janeiro Londres inteiro se converteu de novo em um fervedouro de especulações quando lorde Henry Alton foi detido e acusado de tentar vender os pendentes de rubis roubados à condessa do Belmarle. Quando se procedeu ao registro da propriedade de lorde Henry, as autoridades não só encontraram em cima do suporte da chaminé uma caixa de rapé com o anel e o colar a jogo, e também provas evidentes de que o homem dirigia um lucrativo negócio de contrabando de uísque. Os rumores se desataram, mas se disse que o Cavalheiro Negro era o que lhe tinha vendido lorde Alton aqueles primeiros rubis que acabaram com sua detenção.

Outros poderiam burlar-se, mas Natalie, por ingênua que fora, sabia no fundo de seu coração que o famoso Cavalheiro das Sombras trabalhava para o governo, e que se fazia coisas de duvidosa legalidade era para apanhar aos criminosos e reparar os danos que não se podiam emendar mediante os procedimentos convencionais. E assim tinha que ser, porque, que ladrão acostumado devolveria os objetos roubados a seus legítimos donos? Entretanto, tudo relacionado com ele não eram mais que rumores, dos exemplos citados até a falsificação de obras de arte e o roubo de ouro, passando pela própria identidade do homem. O único seguro era que existia.

Assim, durante os últimos meses, Natalie se tinha dedicado com grande interesse a aprender quanto tinha podido, e exceto pelo aspecto físico, do que só tinha conseguido uma idéia geral, sabia tudo o que teria que saber, incluindo o fato evidente de que era o homem destinado a ela. Fascinante e inteligente tinha estado em todos os sítios aos que ela queria ir, e tinha feito todas as coisas notáveis que ela admirava. Mas, por cima de tudo, não era um sujeito estirado, como todos esses engomados cavalheiros ingleses que a obsequiavam com doces e flores, e a levavam a dar passeios anódinos pelo St. James Park enquanto falavam das pistolas de bolso com percussor de sílex que colecionava o nobre fulano de tal ou da caça com todo luxo de detalhes sanguinários. Se casasse com esta classe de homem, a classe de homem que seus pais queriam para ela, sua vida (e, é obvio suas nádegas) converter-se ia a uma enorme e improdutiva parte de graxa. Merecia-se mais da vida, e posto que estivesse a ponto de cumprir os vinte e três anos e ainda não tinha escolhido marido, o qual, por si só, estava a ponto de conseguir semear o pânico em seu pai e sua mãe, por fim se sentia preparada para procurar o homem que o destino tinha escolhido para ela. Que Deus a pilhasse confessada quando seus pais se inteirassem, mas ia se casar com o Ladrão da Europa. E Jonathan Drake a ia ajudar a encontrá-lo.

Quando o chofer se deteve por fim diante da moradia deste último, Natalie se subiu o capuz da capa e o ajustou ao rosto; não gostava do frio nem a idéia de que alguém pudesse vê-la entrar na casa de Drake sem carabina, por remota que pudesse ser esta última possibilidade.

Pagou com urgência ao chofer para que a esperasse, subiu os degraus e golpeou brandamente, mas sem vacilação a aldrava da porta principal. Era inconcebível estar chamando uma hora tão indecorosa, quando provavelmente não fossem nem ás seis da manhã, mas realmente não tinha eleição. Devia vê-lo cedo, para poder voltar para sua cama antes que sua mãe despertasse e lhe entrasse o pânico por seu desaparecimento.

Depois de esperar um bom momento e de chegar à conclusão de que os serventes do homem estavam desatendendo gravemente suas obrigações, e de que ele, evidentemente, estaria dormindo como um leito, Natalie provou a girar o puxador da porta. Para sua absoluta surpresa e satisfação, a porta sem fecho se abriu lentamente com um chiado ao ser empurrada com suavidade.

Sem fazer ruído, nervosa e entusiasmada diante as perspectivas, entrou no vestíbulo em sombras, lhe dando a seus olhos só um segundo para que se acostumassem à penumbra, e avançou rapidamente em direção ao que ela supôs era o salão de Drake. Em seu lugar, encontrou-se com o estúdio, e que maravilha de habitação que era o tal estúdio, porque sob o resplendor dos primeiros raios de sol, que entravam em torrentes através da abertura entre as cortinas de gaze,  Natalie se viu repentinamente surpreendida pela coleção mais soberba de estranhos tesouros que nunca tivesse visto.

Quadros, grandes e pequenos, de todos os portos, cidades e paisagens imagináveis, adornavam as paredes cobertas de madeira de carvalho. Esculturas de bronze e vasos orientais de todas as cores, tamanhos e estilos repousavam em arcas de carvalho, mesas de mogno e pedestais,  assim como na espetacular escrivaninha Sheraton de Drake, coberta nesse momento de papéis,  penas, um tinteiro de cristal e um abre-cartas com  cabo de marfim. Um magnífico retrato de veludo espanhol em azuis, dourado, vermelho e negro de grande vivacidade pendurava sobre a chaminé, do alto do teto até o suporte. O lustroso chão de carvalho estava coberto de delicados e excelentes tapetes orientais bordados, e sobre a parede mais afastada pendurava um minucioso e exótico sortimento de artefatos de matar.

Natalie levantou a mão para afogar uma gargalhada, mas realmente isso era o que eram.

Drake tinha facas e espadas de todos os tipos, alguns com as bordas dentados, outros lisos, pistolas com culatras de diferentes forma e tamanhos cobertas de marfim, jade e estranhos caracteres que ela não tinha visto jamais. E pendurando precariamente do teto por diante da parede, pendia uma enorme espada curva com umas marcas negras que se entrecruzavam por toda a superfície da cara da folha.

Não podia conter-se. Tinha que tocá-la.

Ao passar os dedos pelo frio bordo metálico, Natalie considerou curioso que Vivian não lhe tivesse comentado jamais que seu cunhado fora um cavalheiro tão extremamente estranho.

Com a cabeça posta em outra coisa, Natalie não reparou no ruído de passos detrás dela. Até que um grunhido feroz rasgou o silêncio.

Tão repentino e inesperado foi o ruído que girou em redondo sobre seus talões para lhe fazer frente, cortando-se com a ponta da espada.

Durante um aterrador segundo Natalie olhou fixamente aos olhos a um enorme pastor alemão que estava quieto a só um metro dela. Foi então quando sentiu a calidez do sangue que lhe emanava da mão e gotejava sobre sua capa de viagem azul escura; imediatamente, sentiu-se afligida pela dor e completamente indignada, a partes iguais.

Depois de respirar profundamente várias vezes para sufocar o grito que brotou de seu interior, Natalie se olhou a palma da mão. O corte era superficial, embora medisse quase oito centímetros de comprimento, e se estendia do dedo indicador até o pulso. Sem perda de tempo se envolveu a mão na capa para deter a hemorragia, feito o qual começou a mover-se para a porta.

Ao ver isso, o animal deu início a uma amostra interminável de latidos, enquanto a abandonava sob a espada.

—Te cale, fera! —sussurrou nervosamente Natalie, tentando apartar ao cão com sua mão sã.

Não serviu de nada. O animal voltou a grunhir, assustando-a sobremaneira quando, sem prévio aviso, enterrou o focinho em seu vestido, nada menos que entre as pernas, e a empurrou de costas contra a parede.

— O que está fazendo aqui, Natalie?

Aludida-a ficou quieta, com os olhos brilhantes e as bochechas rosadas pela vergonha enquanto voltava atenção à porta do estúdio.

Ali estava ele, com um aspecto absolutamente esplêndido, como Natalie sabia que teria mais atrativo do que podia recordar vestido sozinho com umas calças negras rodeadas que moldavam indecentemente a estreiteza de seus quadris e pernas.

—Despertei-lhe? —perguntou ela com doçura, a falta de algo melhor que dizer. — A porta estava aberta, e eu... —As palavras lhe falharam então porque seu nervosismo ia aumentando, sentindo-se cada vez mais impotente pelo lento discorrer dos segundos e porque aquela fera de animal se negava a apartar seu proeminente focinho de entre suas coxas.

E ele estava observando ao cão. Natalie quis gritar.

Indiferente ao que acontecia, Drake apoiou seu corpo durou e elegante contra o marco da porta e cruzou os braços à altura do peito, saboreando, disso esteve segura, o insólito e extremamente entretido apuro no que se encontrava.

—Senhor? —rogou ela, empurrando em vão a cabeça do pastor alemão com a mão ilesa.

Drake sorriu prazenteiro.

Natalie não era capaz de discorrer nada adequado que dizer, assim que se limitou a permanecer em seu sítio mantendo valorosamente o olhar de Drake. As bochechas lhe ardiam, mas não estava segura de que era por causa da profunda humilhação ou do desconforto que sempre sentia em presença daquele homem.

Finalmente, Natalie já não pôde suportar por mais tempo o embaraçoso do momento.

—O que... casa tão pitoresca tem — reconheceu em tom agradável, arriscando-se a jogar uma olhada pela habitação.

—Obrigado.

—Decorou-a você mesmo O...?

—Natalie, o que está fazendo em minha casa às seis da manhã?

         Quase pegou um coice por causa da brutalidade do tom empregado pelo Drake enquanto voltava a lhe olhar à cara. Ele não tinha movido o corpo, mas o sorriso se ficou em sua boca.

—A porta estava aberta — respondeu com total naturalidade, como se isso o explicasse tudo —, e pensei que possivelmente poderíamos falar.

—Entrou-te para conversar?

Ela assentiu com a cabeça e lhe dedicou o mais doce de seus sorrisos.

—Mas o tempo das relações sociais não começa até dentro de várias horas, senhorita Haislett. O que pretendia fazer comigo até então?

A formal e, na aparência, inocente pergunta provocou que Natalie começasse a notar calor debaixo das anáguas e, presa de um evidente e crescente desconcerto, agarrou-se a mão ferida com a outra.

—O... Importar-lhe-ia muitíssimo se nos sentarmos? — murmurou Natalie ao fim.

Jonathan continuou olhando há fixamente durante um instante, grunhiu e se esfregou os olhos com os dedos.

—O café já estará preparado a estas alturas.

—O café é asqueroso — respondeu ela sem pensar.

Drake voltou a olhá-la com dureza e lhe dedicou um sorriso cínico.

—Ou café ou nada.

—O café estará riquíssimo — respondeu Natalie com muita rapidez, não desejando arriscar-se a ser jogada de sua casa por um comportamento descortês.

—Espinho. — Drake indicou com a mão o rincão da habitação, para onde se dirigiu o cão rapidamente para deitar-se com os olhos fechados, como se não pensasse em outra coisa neste mundo que na necessidade urgente de dormir.

—É um animal muito grande, sem dúvida — disse Natalie em tom agradável.

A comissura direita da boca de Drake se elevou de maneira quase imperceptível enquanto continuava observando-a sem rodeios. Isso não fez mais que aumentar a já insuportável tensão.

—O café, senhor?

—Acredito que nos conhecemos o bastante bem o um ao outro para que me chame Jonathan — disse, arrastando as palavras.

Natalie não soube o que dizer a isso, e realmente estava começando a sentir-se não só nervosa, a não ser extremamente incômoda. No que estava pensando para entrar em casa daquele homem como se vivesse ali, sem carabina e ao amanhecer, nada menos? De repente, desejou fervorosamente estar colocada debaixo de seu sedoso edredom, ou inclusive avançando pelo corredor do St. George para casar-se com o aborrecido Geoffrey Blythe. Qualquer existência banal seria melhor que aquilo.

Ele observou o temor de Natalie, os pensamentos de sair correndo que se transpareceu em seu rosto, porque nesse momento se relaxou.       

—Não passa nada, Natalie — disse em tom tranqüilizador, fazendo um gesto com a cabeça para que o seguisse. — Falemos na cozinha.

Por estranho que parecesse, Natalie se aproximou dele sem nenhum pensamento do contrário, agarrando-se ainda sua já ardente palma com a capa, confiando em que a dor remetesse e pudesse conseguir resolver seus assuntos sem revelar o incidente. Não queria que ele pensasse que era uma idiota por tocar uma espada sem considerar as conseqüências.

Não se fixou muito aonde se dirigiam, tendo dificuldades para apartar o olhar das  costas nuas de Drake enquanto caminhava diante dela. Tinha um corpo firme, maravilhosamente musculoso, e observar a mera elegância de seu corpo e a tensão de suas costas fez que Natalie sentisse ainda mais calor sob sua roupa. De repente, o absurdo da situação lhe arrancou uma leve risada.

Drake parou em seco, voltando-se na direção do inesperado som, e o movimento provocou que Natalie se desse de cara contra seu peito. Agarrando-a pela cintura, atraiu-a para ele para evitar que caísse, supôs Natalie; e nesse momento o regozijo desta se desvaneceu, ao tempo que aumentavam os batimentos de seu coração de maneira drástica a causa tão só do quente tato do homem.

—O que lhe faz tanta graça? —perguntou ele, divertido.

—Eu... —O nervosismo voltou a apoderar-se dela quando o olhou atentamente aos olhos, dando-se conta com estremada lentidão de que nesse momento seu peito estava esmagado contra o dele.

Natalie endireitou-se o melhor que pôde.

—É que me ocorreu que minha mãe morreria de susto se soubesse que não leva você algo em cima.

—Sua mãe morreria se soubesse que está aqui, Natalie — a corrigiu com voz pastosa, intensificando seu abraço sobre as costas do Natalie ao tempo que adiantava a mão que tinha livre para lhe tirar o capuz da capa da cabeça. Antes que ela pudesse voltar a pôr uma distância razoável entre eles, Drake alargou a mão até sua nuca e lhe tirou a larga juba de debaixo da lã suave, permitindo que lhe caísse livremente pelas costas.

Natalie abriu os olhos como pratos. O gesto era muito íntimo, e lhe entraram vontades de dar-se de cabeçadas contra a parede por não haver-se tomado a moléstia de sujeitar com prendedores aqueles cachos ingovernáveis. Sem pensá-lo, pôs-lhe as mãos no peito e lhe empurrou para soltar-se.

O olhar de Drake se endureceu, e a soltou, dando a volta bruscamente para seguir caminhando para a parte posterior da casa. Entretanto, logo que deu uns quantos passos, deteve-se uma vez mais e girou sobre seus talões para olhá-la.

Sua expressão se tornou seria quando a agarrou pelos pulsos e lhe levantou as palmas da mão.

—Quando se tem feito isto?

Natalie piscou, aturdida, porque quase lhe estava gritando. Tentou largar-se de um puxão, mas ele não a soltou.

—Me responda Natalie — exigiu.

—Sinto-o — lhe soltou, não muito segura de que outra coisa dizer, enquanto se dava conta de, que ao lhe tocar o peito, tinha-lhe manchado de sangre sem dar-se conta. — Seu cachorro me assustou, e deslizei a mão...

A voz dela se foi apagando, enquanto seu rosto ia adquirindo uma palidez evidente.

—Não me dói nada — lhe sussurrou.

—Com qual? —perguntou Drake em voz muito baixa.

—Como diz?

—Que com qual se cortou?

Natalie esteve a ponto de sorrir pela demonstração de preocupação de Drake.

—Grande que está pendurada do teto. Lamento-o muito.

Depois de um violento silêncio, acrescentou timidamente:

-- Sei que lhe tocar o peito nu seria um tanto atrevido, mas, se quiser, o limparei por você.

Ele continuou olhando-a fixamente aos olhos durante um segundo ou dois, depois dos quais lhe soltou os pulsos sem responder, agarrou-a pelo cotovelo e a conduziu ao interior da cozinha.

—É provável que isto lhe vá doer um pouco — advertiu Jonathan, levando-a diretamente a pia da cozinha.

Antes que ela tivesse tempo de pensar no que ele estava fazendo, Drake lhe agarrou a mão ferida, a pôs com a palma para cima e lhe verteu brandy de uma garrafa sobre o corte.

Uma dor abrasadora a atendeu, e se mordeu o lábio inferior para sufocar o grito. Respirou fundo e tragou saliva, e de maneira instintiva tentou liberar a mão das garras do Jonathan. Ele não a soltou; antes ao contrário, esperava sua reação, o que fez que Natalie se zangasse.

—Era necessário? —disse com voz afogada Natalie, apertando os dentes em atitude desafiante.

—Sim, era-o — respondeu ele tranqüilamente, sem deixar de olhá-la nem um instante.

Essa foi á gota que encheu o copo.

—Por que diabos me olha com tanta insistência, senhor?

Natalie acreditou perceber um vislumbre de sorriso em Drake ao ouvir isso. Então, sem dúvida decidido a ignorar a pergunta, ele se voltou para um lado, colocou a mão em uma gaveta, tirou um pequeno trapo de cozinha e procedeu a lhe envolver a mão com ele.

—Por que não se senta à mesa e sirvo o café? Mantenha isto bem firme contra a ferida.

Ela fez o que lhe dizia, agradecida porque Drake voltasse sua atenção a qualquer outro lugar e não seguisse observando-a mais. No silêncio momentâneo que seguiu, tranqüilizou-se um pouco, enquanto lhe observava mover-se com soltura pela cozinha. Tinha cheirado o agradável aroma do café ao entrar na peça, mas o que lhe chamou a atenção foi que, conforme parecia, tinha-o feito ele.

—Não tem serventes, senhor? —perguntou ao fim.

Drake lhe lançou um rápido olhar.

—Tenho um mordomo, Charles Lawson, que foi a passar fora a semana para cuidar de sua mãe, que está delicada de saúde. E tenho uma cozinheira e ama de chaves externa Gerty Matthews, que não chega até as onze. —deu-se a volta para ela. — Não estou muito na cidade, como sem dúvida já sabe.

—Pois sem dúvida não sabia — repôs com muita rapidez, admirando-o sem recato. Nunca antes tinha visto um homem com uma compleição tão magnífica, tão atrativo dos pés a cabeça, tão... masculino.

—Por que me olha com tanta insistência, Natalie?

Ela piscou, ruborizando-se até a raiz do cabelo. Com valentia, e felicitando-se pela rapidez de sua resposta, admitiu:

—Nunca tinha visto um homem com o peito nu, e se você não se exibisse de maneira tão indecente, não o olharia fixamente.

—Arrumado que o faria — refutou ele com brutalidade, girando todo o corpo para dar volta para ela. Recostou-se então contra a bancada, cruzou os braços diante dele e olhou de forma insinuante.

Natalie teve o convencimento de que aquele momento era um dos mais incômodos de sua vida. E começou a desfiar os miolos, não sabendo exatamente o que lhe responder. Possivelmente deveria sair correndo.

 —Por que não me explica exatamente a razão de que esteja aqui?

Drake teve que receber por força o sinal de evidente alívio que cruzou a face do Natalie ante a brusca mudança de tema.

—Uma maravilhosa sugestão — conveio ela, erguendo-se em seu assento enquanto recuperava o valor. — Necessito que me ajude a encontrar a alguém.

—A sério — afirmou mais que perguntou. — E eu conheço a essa pessoa?

—Acredito que a conhece, sim.

Jonathan voltou-se uma vez mais para a bancada, serviu duas taças de café, colocou-as em uma bandeja de prata e o levou tudo à mesa.

—Tomou café alguma vez, Natalie? — perguntou, sentando-se na cadeira contígua a dela e lhe entregando uma taça.

Ela negou com a cabeça.

—Minha mãe afirma que é uma bebida de pagãos.

A boca de Drake torceu em um sorriso.

—Isso me surpreende.

Ela observou o líquido negro e espesso e teve um calafrio.

—Pelas manhãs estou acostumada a preferir chocolate. É um de meus desejos mais insaciável. Adoro o chocolate.

Jonathan se levou a taça aos lábios.

—E quais são alguns de seus outros desejos insaciáveis?

Natalie abriu os olhos desmesuradamente, enquanto seu pulso começava a acelerar-se. Por cima de tudo devia ter presente á reputação de Drake, ignorar e passar por cima sem alterar-se com qualquer insinuação indecente que saísse de sua boca.           

Recuperando sua voz, ela proclamou sem paixão:

— Pagar lhe ei por me ajudar a localizar...

—Jonathan?

A amável interrupção proveio da porta da cozinha. Natalie olhou a sua esquerda para ver entrar na cozinha a uma mulher de cabelos escuros e surpreendente beleza que não tinha posto nada mais que uma chinela de veludo azul e um salto de cama de seda oriental branco, atado à cintura por uma fina faixa de seda, que quase não lhe cobria nada do corpo, e o que menos o contorno de sua figura, crescida, ágil e elegantemente sinuosa.

Natalie jamais se ficou tão atônita, e conforme parecia tampouco á mulher, porque ambas ficaram olhando mutuamente sem rodeios durante um momento comprido e extremamente violento.

Então Jonathan grunhiu, e ambas se voltaram para olhá-lo.

Drake fechou os olhos, apertou-se a ponte do nariz com os dedos, e se afundou na cadeira.

—A senhorita Natalie Haislett, a senhorita Marissa Jenkins — disse a modo de apresentação.

Natalie perguntou-se fugazmente se a mulher merecia o tratamento, e decidiu que isso não vinha ao caso. Emudecida de repente, chegou lentamente à conclusão de que a criatura de aspecto exótico que estava parada diante deles era a querida do homem. Natalie era, é obvio uma dama de esmerada educação, mas tinha ouvido rumores e sabia que muitos cavalheiros as tinham. Portanto, não se escandalizaria. Mas no transcurso de vários compridos e silenciosos segundos o pobre homem sentado junto a ela sucedeu em um estado de tão adorável desconcerto que Natalie logo que pôde evitar tornar-se a rir. Decididamente, devia aproveitar o instante no que valia.

Recuperando-se com rapidez, tirou-se a capa para permitir que se visse completamente seu vestido de musselina cor pêssego, provido de um amplo decote que mostrava a suave curva de seu peito generoso. Em um princípio, não tinha tido intenção de tirar-se sua vestimenta exterior, mas aquela situação exigia que se fizesse uma exceção. Nesse momento, sentiu-se mais que contente de haver vestido algo um pouquinho atrevido.

E com uma pequena dose de sutileza, deixou cair em cascata seu espesso arbusto de cabelos por diante dos ombros, depois do qual dedicou aos outro dois um sorriso encantador.

—Assim que você deve ser a amante do Jonathan.

Drake levantou a cabeça com um sobressalto imediatamente, os olhos como pratos, transbordantes de assombro, sem dúvida atônito por ouvir semelhante vulgaridade de boca de uma dama solteira de sua condição.

Marissa caiu em conta com rapidez.

—Fui seu amante, senhorita Haislett, até esta noite, em que me despediu. —A mulher caminhou com garbo até o outro extremo da mesa e se sentou. — Tomou café alguma vez? Está bastante bom com um pouco de nata e açúcar.

—Acredito que o provarei como diz, obrigada — respondeu docemente Natalie, ignorando ao homem que estava a seu lado e alargando a mão para a bandeja. Serve-se uma quantidade generosa de nata da jarra e uma grande colherada de açúcar. — E por que a despediu, Marissa?

A mulher suspirou.

—Bom, acredito que Jonathan está preparado para encontrar a alguém que o esquente a cama de maneira mais permanente.

—O pobre homem não se pode permitir umas mantas? —perguntou Natalie com fingida preocupação.

Marissa apoiou um cotovelo na mesa e o queixo na palma da mão.

—Tenho a entristecedora certeza de que está pensando em alguém mais vivo e mais excitante que as mantas.

—Então, talvez devesse dormir com seu enorme e carinhoso cachorrão...

—Esta conversação é a mais absurda que ouvi em toda minha vida — acabou por atravessar Jonathan, exasperado, levando-a taça aos lábios para evitar as olhar.

Mas as duas mulheres se voltaram para ele, como se tivessem reparado em sua presença pela primeira vez.

—É ela a escolhida? —perguntou Marissa com ar calculador.

Natalie saiu em sua própria defesa com rapidez.

—Asseguro-lhe, senhorita Jenkins, que não esquentarei outra cama que não seja a minha.

—É obvio que não — murmurou a mulher muito lentamente, lhe devolvendo o olhar com curiosidade. Depois de uma incômoda pausa, levantou-se para partir.

-- Bom, acredito que me vestirei e seguirei meu caminho. Se trocar de opinião, senhorita Haislett, saiba que prefere o lado esquerdo.

—O lado esquerdo?

—Da cama.

—Ah! Estou segura de que esse não é meu assunto, Marissa. Mas posso dizer que o homem tem, sem dúvida, um gosto para a beleza...

—Não me posso acreditar que isto esteja acontecendo em minha cozinha — atravessou Jonathan com crescente assombro, inclinando de novo a taça para seus lábios e bebendo o líquido de dois largos goles.

As duas mulheres o olharam com inocência, e Marissa se aproximou para lhe dar um beijo na bochecha.

—Adeus, querido.

Drake grunhiu, mas não disse nada enquanto mantinha o olhar fixo na mesa.

Marissa caminhou até a porta, lançou a ambos um sorriso divertido e saiu rapidamente da cozinha que ficou afundada em um silêncio sepulcral.

Natalie baixou a vista a seu regaço, agarrando o trapo com sua mão palpitante, enquanto que com a outra ficou a brincar atentamente com o tecido de seu vestido. Sabia que ele tinha movido seu olhar para observá-la, mas simplesmente não pôde olhá-lo, tão absorta como estava na qualidade da delicada musselina cor damasco.

—Peço-lhe desculpas por isso — resmungou ao fim Jonathan.

Natalie encolheu de ombros, mas não disse nada.

—Natalie, me olhe.

Ela elevou o olhar para lhe olhar aos olhos, e lhe custou Deus e ajuda manter a expressão neutra.

—Não há nenhum problema. O que faça em sua casa é assunto seu senhor.

—Deixe de ser tão formal — lhe ordenou, zangado de repente.

Ela ignorou seu arrebatamento e voltou a concentrar-se em seu vestido.

—Só me perguntava por que diabos estava ela aqui esta manhã, quando se desfez dela ontem à noite.

Natalie não esperava que ele pusesse-se a rir, e o repentino da reação lhe fez levantar a vista bruscamente. Drake a olhou de marco em marco com um amplo sorriso na boca, e se inclinou até ficar muito perto da cara de Natalie.

—Confiava em que a estivesse esperando, meu amorzinho?

A pergunta a alarmou, e claramente não soube como lhe responder. Embora não podia deixá-lo plantado porque paquerasse com ela, dado que estava em jogo um pouco mais importante. Isso é o que tinha que recordar. Estava ali com um propósito e tinha que voltar para motivo de sua inoportuna visita.

Mantendo uma expressão de absoluta indiferença, Natalie sussurrou:

—Eu não sou seu amorzinho.

Jonathan entrecerrou os olhos entre divertido e malicioso.

—Ainda não.

Natalie teve um calafrio. Seu coração começou a pulsar furiosamente de repente, mas, para sua absoluta frustração, não encontrou forças para mover-se. Estava sentado tão perto dela que Natalie podia sentir o calor de seu corpo, podia ver cada nervura azul de seus olhos intensamente cinzas, podia perceber o aroma almiscarado do sândalo e a voluptuosa masculinidade.

—Não serei a querida de ninguém — lhe assegurou ela com certo tom de desafio.

—Tem um cabelo precioso, Natalie — sussurrou ele com ar sedutor, levantando a mão para lhe roçar as pontas com os dedos. — Nem muito vermelho, nem muito loiro e tão abundante e sinuoso como seu...

—Acredita que poderia tomar mais café? —soltou Natalie, ficando fora de seu alcance com uma sacudida, consciente, não sem irritação, de que Drake inferiria que a pergunta não era mais que uma simples evasiva, posto que só tivesse tomado quatro ou cinco sorvos.

Ele não se moveu durante um instante. E finalmente, com um exagerado suspiro de derrota, levantou-se com as duas taças na mão e voltou para a bancada.

—Bom, voltemos para motivo de sua visita.

Essa era a razão de que aquele homem tivesse semelhante reputação, refletiu Natalie. Tinha capacidade, se assim o decidia, de seduzir a uma dama com umas quantas palavras e um sorriso, e então, reduzia a intensidade como de tal coisa e levava a conversação para algo corriqueiro em um abrir e fechar de olhos. Dada sua inclinação natural ao flerte, Natalie necessitaria uma dose extraordinária de cautela se Jonathan Drake andava por perto. Se o considerava com total franqueza, a atração que sentia para ele era notavelmente poderosa, e a deixava estupefata inclusive a ela, porque sempre tinha sido uma garota de uma acusada sensibilidade. E sabia no mais profundo de sua alma que aquele homem lhe romperia o coração sem nenhuma dificuldade e difundiria a notícia de sua conquista sem o menor rastro de outra emoção que não fora a indiferença. E ela jamais poderia permitir que isso acontecesse.

Desejosa de avançar e de voltar para casa, à segurança de seu dormitório, Natalie mostrou sua conformidade com um movimento de sua sensata cabeça.

—Sim, é obvio. O motivo de minha visita. —E com todo o valor de que pôde fazer provisão, disse—: Necessito que me ajude a encontrar ao Cavalheiro Negro.

Jonathan voltou-se bruscamente para ela e ficou olhando-a de uma maneira estranha.

—Ao Cavalheiro Negro?

Natalie endireitou-se.

—Sim, ao Cavalheiro Negro.

         Voltando para a mesa lentamente para sentar-se de novo, Drake lhe pôs a taça diante.

—O que lhe faz pensar que sei onde está?

Natalie se sentiu ligeiramente desconcertada. Tinha esperado que o homem se surpreendesse ou que mostrasse sua incredulidade, mas, pelo contrário, só parecia sentir uma ligeira curiosidade.

—Vivian me disse que você o conhecia pessoalmente. Como é natural, não acreditei...

—Conheço-lhe — admitiu ele.

Os olhos de Natalie cintilaram de excitação.

—Sim? De verdade conhece esse homem?

—O que é exatamente o que quer dele, Natalie? — perguntou Drake com prudência.

Natalie fez uma pausa para beber já a grandes goles seu café quase abrasador, pensando com denodo. Deu-se conta de que tinha que desvelar pelo menos alguns de seus desejos, até a risco de que Drake a jogasse de sua casa entre gargalhadas por estar completamente desequilibrada.

Natalie umedeceu os lábios e se ergueu completamente na cadeira.

—Tenho intenção de me casar com ele.

Depois de um instante eterno de olhá-la sem compreender, Drake se recostou em sua cadeira e estirou as pernas por diante dele.

—E o que lhe faz pensar que ele quererá casar-se com você?

Ela jamais teria esperado aquela saída. A estupefação a consumiu em um silêncio dócil, o qual, a sua vez, provocou o sorriso cúmplice e diabólico do Jonathan.

—É você inegavelmente encantadora, Natalie, embora, por alguma razão, tem que existir algo mais que a atração para casar-se, você não acredita nisto? — Drake baixou a voz. — Possivelmente ele sozinho queira que o esquente a cama. Está preparada para conformar-se só com isso?

Ela sentiu que voltava a ruborizar-se.

—Já lhe disse que não serei a querida de ninguém, mas a verdade é que isso não é assunto seu. Só quero que me ajude a encontrá-lo.

—Mmm...

—Que significa isso?

—Nada.

Ela lançou um suspiro.

—Irá levar-me até ele?

Jonathan a observou fixamente pensativamente.

—Por favor — suplicou ela.

Finalmente, ele se inclinou para diante sobre a mesa, colocou os braços na superfície de madeira e ficou olhando de marco em marco sua taça de café enquanto lhe dava voltas entre as mãos.

—E o que pensa fazer com relação a nós?

Devia reconhecer que tinha uma idéia bastante aproximada a respeito do que Drake queria dizer com isso, mas, ao final, decidiu fazer-se de parva.

—A respeito de nós?

Drake franziu os lábios, mas não apartou o olhar da taça.

—A respeito de você e de mim, Natalie. Ambos nos sentimos poderosamente atraídos um pelo outro, e não sei se poderíamos estar juntos todos os dias sem que surgisse o mútuo desejo físico.

Perante tão descarada considerações, o coração dela começou de repente a pulsar com fúria, e não lhe coube nenhuma dúvida de que Jonathan podia ouvir como lhe golpeava no peito. Recuperando a compostura, sussurrou:

—Isso é absurdo.

Drake a olhou por fim, levantando uma sobrancelha burlonamente.

—Estou bastante seguro de que pensou nisso, assim, não acredita que deveria ser um pouco mais honrada com seus sentimentos?

Natalie não se podia acreditar que ele estivesse falando com tanta intimidade dos dois, como se sua relação fora além de um mero e superficial conhecimento, e o único que pôde discorrer para tomar o controle da situação foi ignorar simplesmente o que ele havia dito.

—Necessito que me ajude a localizar ao Cavalheiro Negro insistiu—, e isso é quão único quero de você, senhor. Além disso, não há nada entre nós.

Com parcimônia, com ar meditabundo, Drake começou a traçar círculos com o dedo indicador ao redor do bordo de sua taça.

—Creio que você me quer por muitas coisas, amorzinho, e para entender algumas delas opino que talvez seja muito inocente.

Ela se levantou com rigidez.

—Nem sou agora, nem nunca serei seu amorzinho. —E fazendo uma inspiração muito profunda, perguntou com surpreendente desenvoltura: — Me ajudará ou não me ajudará a encontrar ao Cavalheiro Negro?

—A ajudarei.

A rapidez de sua resposta a deixou perplexa.

Drake levantou com rapidez e se deteve ao lado dela com uma expressão de total naturalidade.

—Embarco por volta de sexta-feira para Marselha, Natalie, e estarei encantado de que venha comigo com uma condição.

Ela adotou um ar reflexivo durante um instante, preparando-se para a discussão.

—E de que se trata?

—Que faça exatamente tudo o que eu diga. Que siga todas as instruções que lhe dê que seja discreta e que sob nenhum conceito questione minha autoridade. Entendido?

Ela cruzou os braços à altura do peito.

—Isso é mais que uma condição.

—Ou toma ou o deixa — replicou ele, cruzando também os braços sobre o peito.

—E o Cavalheiro Negro está em Marselha?    

—Estará quando chegarmos ali.

—Sabe você isso?

—Sim.

—E nos apresentará?

—Sim.

—E como se chama? —perguntou Natalie em um repentino arrebatamento de excitação.

Drake guardou silêncio durante um ou dois segundos e enrugou o sobrecenho de maneira quase imperceptível.         

—Creio que seria melhor que primeiro falasse com ele, antes de divulgar alguma coisa sobre sua pessoa.         

A Natalie lhe caiu á alma aos pés. Pois claro que assim teria que ser, mas isso era tudo o que tinha.

—Aceito suas condições, senhor...

—Também deve começar a me chamar Jonathan.

—Bom — concedeu ela de maneira insossa. — Algo mais?

Ele se encolheu de ombros.

—E o que tem que seus pais?

Natalie tirou importância ao tema com um gesto da mão.

—Partem para Itália dentro de dois dias a passar ali a temporada, comprar obras de arte e tomar banhos de sol. —Alargou a mão para agarrar a capa. — Jamais saberão nada.

—Me permita.

O repentino cavalheirismo do Jonathan a surpreendeu, enquanto lhe tirava a capa da mão ilesa e a jogava sobre os ombros. Fazendo-a girar para ficar frente a ele, começou a abotoar-lhe.

—Por que lhe intriga tanto esse homem, Natalie? — perguntou ele pensativamente.

Ela considerou durante um instante até onde responder aquela pergunta tão direta.

—Porque é livre — confessou ao fim. E lhe dedicando um leve sorriso perante sua cara de perplexidade, explicou: — O único que quero dizer é que não está constrangido pelas convenções sociais. É fascinante, viaja e... vive para a aventura. —Inclinou-se ainda mais para ele com os olhos brilhantes e baixou a voz até convertê-la quase em um sussurro: — Sei que parece um pouco estranho, mas penso que ele também me está procurando.

Jonathan titubeou, observando-a com tanta intensidade que pareceu que seus olhos perfurassem os dela. Levantou a palma da mão até a face dela e começou a lhe passar lentamente a gema do polegar pela bochecha até chegar ao pescoço coberto pela lã, detendo-o finalmente sobre o retumbante pulso de debaixo do queixo. O desassossego de Natalie retornou em poucos segundos com toda sua força enquanto permanecia tão perto dele, olhando-se mutuamente aos olhos, que seus corpos quase se tocavam.

Mas foi Jonathan o primeiro em quebrar o feitiço. Deixou cair á mão com rapidez e voltou sua atenção à mesa, colocando tudo na bandeja para levar para a bancada.

            —Não me deixa dúvida de que terá ouvido que esse homem é um contumaz donjuán - Drake afirmou com brutalidade.

—Estou segura de que há muito exagero em tudo isso — replicou ela.

Jonathan esboçou um sorriso de suficiência, mas não disse nada mais, enquanto colocava as taças vazias na pia da cozinha.

         —E o é?— cravou-lhe ela.

—E se for o que?

Ela soltou um suspiro de exasperação.

—Um donjuán.

—Estou seguro de que há muito exagero nisso.

Aquilo lhe fez soltar uma gargalhada.

—E o que é que lhe faz tanta graça agora? — perguntou ele, divertido, voltando-se de novo para olhá-la.

Ela negou com a cabeça.

—Desde que você e eu nos conhecemos senhor, não tivemos mais que conversações absurdas.

—Jonathan.

Natalie se rendeu.

—Jonathan.

Ele lhe lançou um sorriso cheia de encanto e avançou para ela.

—Isso se deve a que é você á mulher mais estranha que jamais conheci, Natalie Haislett.

—E deve ter conhecido muitas, disso estou segura — insistiu ela sem pensar.

O sorriso do Jonathan se fez mais amplo quando se deteve justo diante dela, encurralando-a e apanhando-a contra a mesa ao colocar os braços a ambos os lados de sua cintura para apoiar as palmas sobre a superfície de madeira.

—Estou seguro de que há muito exagero nisso — lhe sussurrou ele com voz rouca.

Ela tragou com dificuldade, e em um sussurrou lhe respondeu:

—Vivian me disse que tem uma reputação bem merecida.

—Vivian mente.

Natalie se estirou tanto para evitar tocá-lo que a ponto esteve de cair sobre a mesa.

—Sabe o que mais eu gosto de você, Natalie?

Podia sentir como o calor do corpo de Drake lhe penetrava a roupa, podia perceber a dureza de seu peito nu junto ao dele e a força dos braços que a rodeavam e, entretanto, foi incapaz de apartar o olhar.

—É evidente que não sei.

Sem prévio aviso, inclinou-se sobre ela e lhe roçou a boca com a sua, movendo a de um lado a outro, uma, duas vezes, docemente. De maneira instintiva e já sem fôlego, Natalie fechou os olhos e sucumbiu a aquele tato, enquanto Drake deslizava os lábios pela bochecha vermelha.

—Eu gosto como beija.

Ela abriu os olhos com força.

—E desde aquela primeira vez — lhe sussurrou ele ao ouvido, — não deixei de sonhar em voltar a fazê-lo.

Natalie estava ao bordo de desmaiar. As mais das vezes quão único pedia em suas orações era que ele esquecesse por completo o beijo que tinham compartilhado fazia anos naquele baile de disfarces ou que ao menos fora o bastante cavalheiro para não tirá-lo jamais a colação. Que noite tão espantosa aquela do jardim; como desejava que não tivesse acontecido jamais.

            —Tenho que ir — disse ela com voz tremente, fazendo pressão com a mão boa entre os peitos em contato de ambos.

Indiferente ao desconforto dela, Jonathan se foi jogando para trás pouco a pouco.

            —Primeiro me deixe ver o corte.

            Ela se apartou rapidamente dele, tirou o trapo e levantou a palma da mão para expô-la à vista de Drake.

            —Está bem — disse ela alegremente. — A que hora devemos nos encontrar na sexta-feira?

—Venha aqui.

Ela negou com a cabeça.

—Não vou a violar Natalie, só quero lhe ver a mão.

Antes que ela pudesse responder, Jonathan aproximou dois passos, alargou a mão para agarrá-la, e a atraiu para ele.

Com a palma ferida dela em sua mão, examinou-a com atenção.

—Deve fechar sem deixar cicatriz, mas lhe doerá o bastante. Eu a manteria limpa e coberta durante dois ou três dias.

            Ela assentiu com a cabeça e escapou.

—Sinto que tenha ocorrido isto — disse Natalie.

            Jonathan franziu o cenho.

            —Poderia ter morrido aí dentro. Deveria ser eu quem o sentisse.

            —Me faz difícil imaginar que um pequeno corte como este tivesse acabado comigo, senhor.

Ele passou os dedos pelo cabelo negro e abundante, ficou as mãos nos quadris e a olhou fixamente aos olhos.

—Vários das facas que penduram de minha parede procedem de países dos que você provavelmente não ouviu nem sequer falar, Natalie, e alguns deles estiveram em seu dia cheios de venenos que não sempre desaparecem com uma simples lavagem. Essas armas foram fabricadas com a intenção de causar a morte mediante um simples arranhão na pele. Quase me caio do susto quando vi a ferida de sua mão, porque jamais quereria ter que lhe explicar a sua dominante mãe como exatamente encontrou você a morte em minha casa às seis da manhã.

Ela cobriu a boca com o dorso da mão para reprimir uma risada tola.

—A maioria das damas bem educadas se teriam desacordado para ouvir tais explicações — disse ele com assombro.

Ela sorriu maliciosamente.

—Não é a idéia da morte... e sim a de ser descoberta. —E com os olhos brilhantes, ergueu-se para lhe sussurrar: — Minha mãe também é meu maior temor.

Lhe dedicou um amplo e encantador sorriso.

—Mandar-lhe-ei recado sobre o da sexta-feira...

—Pela Amy, minha donzela — lhe interrompeu ela. — Leva dois anos me ajudando a planejar esta aventura.

Drake arqueou as sobrancelhas.

—Dois anos?

Ela calou de repente. Seu entusiasmo se estava transbordando, e tinha que controlá-lo.

—Bom, quero dizer que estivemos planejando o que dizer aos serventes e aos amigos, para que ninguém sinta saudades de minha ausência. Assim que meus pais saiam para o continente, serei totalmente livre.

—Ah...! Bom. — Jonathan se arranhou a barba de um dia. — Nesse caso, enviar-lhe-ei o recado depois de amanhã pela Amy. Teremos que viajar com pouca bagagem, assim não conte levando... muitas coisas.

—Obrigado — sussurrou ela, lhe tocando o braço com as gemas dos dedos. — Isto o representa tudo para mim.

 Deu a volta e se dirigiu à entrada. Detendo-se diante da porta, jogou uma olhada mais para ele e lhe obsequiou um sorriso maravilhoso.

—O café estava delicioso – disse com doçura. E com um gesto da mão de despedida, partiu.                                                                           

 

Capítulo 3

Natalie estava na parte de estibordo do vapor Bartholomew Redding ao ar úmido do crepúsculo, embrulhada em sua capa de viagem verde escuro como se fora uma acolhedora manta, quando voltou a cara para o sol que se ocultava nesse momento afundando-se por debaixo da linha do horizonte. Tinham abandonado já o canal da Mancha, depois de deixar atrás as ilhas Sorlingas, e se dirigiam em mar aberto para o sul; e as expectativas, assaltando á disparada, provocaram-lhe um estremecimento.

Jonathan estava de pé a seu lado, alto e poderoso, vestido de maneira informal com uma calça castanha escura e uma camisa de linho cor crua desabotoada no pescoço, seu único amparo contra o frio vento marinho, o qual não parecia lhe importar. Em realidade não fazia frio, e em um ou dois dias, teriam bastante calor. Natalie tinha tido isso em conta na hora de fazer a bagagem para a aventura, e levava com ela sozinho cinco baús, em lugar dos habituais oito ou dez. Jonathan tinha posto cara de incredulidade, ou possivelmente de aborrecimento, quando se tinham encontrado no porto, mas o que esperava? Ela era uma dama, e havia algumas coisas sem as que quais uma não podia passar, assim de singelo. Só cinco baús para uma viagem de duração indefinida pela Europa era algo incrível desde qualquer ponto de vista.

Esse mesmo dia, pela manhã cedo, justo depois de pôr pé no navio, Jonathan a tinha acompanhado até seu camarote sem lhe dirigir mais que umas quantas palavras. A peça era quadrada e pequena, mas bonita em realidade, com um olho de boi ao fundo o bastante grande para permitir que entrasse abundante luz, protegido com umas cortinas brancas de gaze que conferiam à estadia um aspecto mais que decente. À direita da porta havia uma cadeira de respaldo reto feita de mogno brilhante e estofada em veludo rugoso cor bordô, uma mesa de noite pequena e um abajur e, junto a isto, uma cama do tamanho adequado, o bastante larga para que a gente pudesse dormir com comodidade e coberta com uma colcha grosa bordada em rosa. À esquerda, estendendo-se em paralelo à parede e atarraxado ao chão, levantava-se um biombo de seda oriental que fechava discretamente uma zona de asseio e vestuário. O camarote era perfeito para ela, e em seguida se encontrou cômoda, tomando-se seu tempo para desfazer a bagagem e instalar-se para a viagem, porque Jonathan, depois de conduzi-la a seu interior, deixou-a sozinha durante quase três horas, e só tinha retornado fazia um momento com um jantar frio de mousse de salmão, queijo, pão e fruta, da que tinham dado boa conta no camarote de Natalie.

Daí em diante ela teria que satisfazer todas suas necessidades, posto que não a acompanhasse nenhuma donzela. Viajar sem uma era uma indecência, ao menos nessa situação, embora Natalie rezasse para que ninguém perguntasse por que tinha abandonado a Inglaterra sozinha, solteira e sem acompanhante. Valer-se-ia por si mesmo até que chegassem à França, que, de todas as maneiras, era o que Jonathan lhe tinha pedido.

Mas nesse momento, instalada comodamente ao fim e entusiasmada pela aventura que se abria diante ela, conseguiu que seus pensamentos se desviassem para seu mais atrativo companheiro de viagem, à maturação quieto e em silencio a seu lado sobre a coberta enquanto esquadrinhava também o mar aberto, sem tocá-la de tudo, mas ali. Natalie era claramente consciente da presença de Drake, e provavelmente ele tivesse plena consciência da circunstância.

Embora o que agradava a Natalie era a crescente segurança de que ele seria um maravilhoso protetor de sua inocência enquanto durasse sua pequena viagem. O homem era corpulento e imponente, provavelmente temível e intimidante quando decidisse a sê-lo, mas ao mesmo tempo cavalheiresco e elegante. Tal fato tinha demonstrado bem de manhã esse mesmo dia, quando ela tinha chegado ao mole, e ele a tinha saudado cortesmente com a cabeça, indicando aonde deviam levar os pertences dela, lhe oferecendo o braço e ajudando-a a subir a bordo, lhe sujeitando apenas os dedos com a palma da mão.

Natalie pensava que lhe tinha pagado a passagem, posto que ela ainda não lhe tivesse dado o dinheiro. Mas o faria. Levava economizando até o último péni de sua atribuição desde fazia dois anos, e tinha muito, repartido prudentemente entre os baús, a bolsa de viagem e a bolsa de brocado. Inclusive tinha escondido parte embaixo das vestes e os saltos ocos de um número selecionado de seus sete pares de sapatos, onde era sabido que seu avô e depois sua mãe tinham levado dinheiro em casos de emergência. Ela ignorava quem tinha sido o primeiro em pensar o de meter-se dinheiro sob os pés, mas supôs que se alguém ia cruzar o oceano ou terras estranhas e expuser-se a ser vítima de piratas ou ciganos, o esconderijo serviria a seus propósitos de maneira excelente.

Sentiu que Jonathan trocava de posição, aproximando-se ligeiramente, e se precaveu com acanhamento de que nesse momento observava com atenção o perfil de sua cara, e o calor que irradiava era tão agudo como o ar salobro.

—É hora de que discutamos algumas costure.

Sabia que Drake acabaria sugerindo que tivessem uma conversação séria. Embora não havia necessidade de chamar a atenção a respeito.

—Discutir? —repetiu ela com fingida timidez. — Estivemos falando todo o dia.

—Onde acreditam todos que está? — interrompeu-a, ignorando sua evasiva ao ir diretamente ao grão.

Natalie olhou para todas as partes com nervosismo. A coberta se limpou de gente ao anoitecer, embora em algum lugar distante ouvisse risadas, a risada desordeira de uma mulher, seguida do vozeirão de um homem, umas palavras que não compreendeu. Foi então quando se precaveu de que Jonathan Drake era quão único a unia a sua pátria. Nesse momento eram uma equipe, gostassem ou não, e teriam que confiar um no outro, embora, não ficava mais remédio que admiti-lo, mais ela que ele. Também teria que ser um pouco mais comunicativa.

—Natalie?

Irritada, voltou-se para ficar em frente a ele. Jonathan a estava observando, divertido, petulante, e lhe entraram vontades de esbofeteá-lo. Cada vez que pronunciava seu nome, parecia-lhe muito que a palavra era uma carícia suave como a seda, e desejava realmente que deixasse de fazê-lo. Mas deixar de fazer o que? De lhe falar? Isso era uma tolice.

Natalie cruzou os braços à altura do peito; um gesto inútil, porque sabia que sua capa de viagem, bem abotoada em torno de sua figura, realmente não fazia mais que destacar-lhe.

Varias vezes já ao longo desse dia, os olhos do Jonathan se desviou para ali, entretendo-se em seu busto de maneira inadequada.

—Todos acreditam que estou visitando minha tia avó Regina em Newburn — revelou finalmente.

Ele levantou uma sobrancelha e apoiou o quadril no corrimão.

—Não acredita que suas mentiras acabarão sendo descobertas?

—Não. A tia Regina tem setenta e sete anos, e não lhe funciona muito bem a cabeça. Jamais recordará se tiver estado ou não ali. E meus pais acreditarão com convicção quando lhes contar, de sua volta da viagem á Itália, que fui ali uma temporada para meditar e decidir com quem deveria me casar.

—Planejou-o tudo muito bem — a elogiou, depois de refletir durante um instante.

Ela sorriu com satisfação.

—Penso que sim.

Jonathan baixou a voz.

—E o está?

—Se estiver o que?

—Meditando sobre alguém real para casar— lhe esclareceu.

Ela o olhou fixamente com um deliberada olhar de confusão.

—Refere-se a alguém distinto ao Cavalheiro Negro?

—Sabe exatamente ao que me refiro.

Ela se rodeou com os braços para combater a fria brisa marinha.

—Se se referir a um inglês convencional, não. —E com uma risada pícara acrescentou: — Mas meus pais acreditarão, e isso é o que importa. Estão desesperados por me casar, posto que, a ponto de cumprir os vinte e três anos, estou acostumada a ser um tema freqüente de conversação nas festas. Rechacei a quatro respeitáveis cavalheiros no transcurso de igual número de anos. E muita gente o encontra um pouco estranho, por não dizer divertido.

Jonathan tornou á esperar alguns segundos sem deixar de observá-la com atenção.

—E o que tem lorde Richard Mydell ou de Geoffrey Blythe de Guildford?

Ela apanhou um cacho rebelde que se agitava por sua bochecha e o sujeitou detrás da orelha.

—Richard é um vagabundo, e o pobre Geoffrey, embora possa que seja uma gracinha, tem a personalidade de uma tachinha... — Sua voz se foi apagando, enquanto voltava a lhe olhar à cara. Jonathan tinha pronunciado o nome dos cavalheiros quase com desagrado, mas o que a surpreendeu foi que soubesse que tanto Richard como Geoffrey a tinham pedido em matrimônio.

—Como sabia...?

—Eu sei muitas coisas — insinuou ele, deixando que sua voz diminuíra até converter-se em um sussurro de indiferença. Estendeu a mão para o pescoço de sua capa e começou a acariciá-lo com o polegar. — Mas o que não sou capaz de imaginar é a nenhum dos dois... beijando-a com satisfação, Natalie.

Esta começou a sufocar-se de repente, incômoda por semelhante rabugice. Sobretudo, provindo dele.

—Mas, claro, os dois são ricos — continuou Jonathan com naturalidade. — O pequeno Richard incluso tem título, e essas duas coisas revistam ser o que mais procura uma mulher no matrimônio.

Ela separou-se dele com firmeza, e Jonathan deixou cair á mão.

—Richard é uns bons quinze centímetros mais alto que você. Não tem nada de pequeno.

Ele sorriu diabolicamente.

—Mas é enfermiçamente magro. Um homem que, a não duvidar, poderia morrer tísico ou de febres a uma idade precoce, deixando-a você com todo o dinheiro...

—Não me importa nada a riqueza em um marido — lhe cortou ela, esfregando a fronte com a palma da mão por causa da irritação e sem saber muito bem a santo do que sentia a necessidade de defender-se.

—Pois claro — afirmou ele sem nenhum convencimento. — Então, o que procura em um marido, Natalie, minha vida? O que tem o legendário Cavalheiro Negro que possa querer você?

Estava á provocando, e ela logo que era capaz de mostrar-se desagradável com ele, dada a forma quase delicada com que Jonathan tinha abordado o tema. Mas Natalie não estava disposta a que se alargasse com aquela conversação durante toda a viagem ao estrangeiro; seus pais já lhe davam bastante chatice a respeito.

Drake permaneceu em silencio a seu lado, esperando uma explicação, e posto que estivessem sozinhos na coberta, ela ordenou suas idéias e decidiu confiar nele e tirá-lo tudo à luz de uma vez, a fim de que pudessem passar a outra coisa.

—Faz coisa de um par de anos — começou ela com um suspiro — cheguei à conclusão de que se vivia a vida que minha mãe queria para mim, converter-me ia a ser uma velha gorda e aborrecida que iria a chás, comeria bolos e bombons e passaria o momento mexericando ociosamente com outras damas sobre coisas como quem levaria que espantoso tom de vermelho a segundo que baile e que filha precisaria casar-se a toda pressa antes de um mês para lhe economizar a vergonha a sua família.

Ela lhe lançou um olhar rápido para ver como tinha reagido para ouvir suas palavras, mas Jonathan seguiu calado, com expressão neutra, lhe dedicando já toda sua atenção no silêncio do crescente crepúsculo.

—Já que se empenha em sabê-lo, Jonathan — continuou pensativamente —, não me dá nada bem nem o bordado nem a jardinagem nem a eleição da sobremesa adequada para uma comida nem nenhuma das pequenas tolices que se presume que uma dama bem educada tem que fazer corretamente ou, quando menos, de maneira eficiente. Essa é a razão de que minha mãe e eu estejamos em permanente desacordo há tanto tempo. O que meus pais querem é que sente a cabeça e tenha filhos com alguém entediante que espere que eu faça as coisas aborrecidas que detesto. — Ela soprou de indignação. — Minha mãe «adora» ao Geoffrey Blythe.

—Prossiga — a apressou Jonathan com voz rouca.

Natalie elevou os olhos reluzentes para ele, aproximando-se tanto ao Jonathan que o calor de seu corpo a roçou.

Ela sussurrou com ardor:

—Quero viver, Jonathan, viajar e ver mundo. Nego-me a me casar com um inglês anódino que não me valore, que espere que eu fale sozinho quando for apropriado, e que receba convidados quando for necessário e ignore seus devaneios conjugais. Não sou um troféu que tenha que ganhar ninguém para ser colocado convenientemente em uma prateleira.  

Sua voz se fez mais intensa, ao tempo que subia os punhos à altura do peito para fazer insistência em suas palavras.

—Quero estar apaixonada e sentir a paixão como uma... Como uma princesa de conto de fadas que conhece um príncipe bonito e extraordinário e é enrolada por uma quebra de onda de poderosas emoções. Quero envelhecer com alguém que me queira como mulher, como pessoa, e não como uma esposa consciente de seus deveres.

Ela se ergueu, recuperou a compostura e acrescentou com decisão:

—O dinheiro não pode comprar a vida, Jonathan, e me nego a desperdiçar a minha desejando os caros obséquios que me proporcione meu marido para que ignore seus variados caprichos infantis. Embora me convertesse em uma mendiga não me conformarei com menos de um romance com amizade e um matrimônio cheio de felicidade.

À medida que sua voz se foi apagando até silenciar-se, com a cara brilhante de emoção, ou possivelmente de vergonha pela enorme sinceridade de seu reconhecimento — ele não esteve seguro por qual dos dois sentimentos—, a Jonathan lhe ocorreu que Natalie ia ser uma autêntica fonte de problemas, vá que sim. De fato, já se tinha dado conta disso assim que ela se apresentou diante ele no porto aquela manhã cedo, com um sorriso deslumbrante lhe separando os lábios e sua deliciosa figura envolta em uma capa a jogo com seus olhos brilhantes.

Era uma mulher fascinante, a verdade, com uma pele reluzente e sedosa, uma cabeleira abundante e ondulada da cor de um pôr-do-sol estival. E Jonathan sabia que ela tentava se não ocultar sua figura, ao menos atenuá-la com a utilização de uma roupa singela, embora fracassasse estrepitosamente em seu intento. Natalie Haislett possuía uma beleza manifesta e absoluta, tinha uma mente travessa e um caráter encantador e adorável, debruado de inocência. E que diabos pensava ele que estava fazendo ao levá-la consigo a França, para reunir-se com o mítico Cavalheiro Negro?

Nesse momento se precaveu de que o tinha cativado em sua casa da cidade ao aparecer sem prévio aviso, desarmando-o porquê tornou a fazer o que ninguém se esperava e pilhando-o despreparado, como já tinha feito fazia quase cinco anos no jardim de seu pai. As duas vezes Natalie lhe tinha feito atuar de maneira irracional com só umas quantas palavras ditas com doçura e um olhar de pura inocência, embora sincera, de seus preciosos olhos cor avelã.

Mas a oportunidade não podia ser mais perfeita. Ele poderia utilizá-la, decidiu, embora «utilizar» não era realmente uma palavra que gostasse para descrever seu comportamento para uma mulher, nem sequer mediando á ignorância dela. «Ajudá-lo» seria talvez uma maneira melhor de contemplar a questão, porque, no mesmo momento de irracionalidade em sua casa da cidade, lhe tinha ocorrido que, de fazer-se necessário, as esmeraldas cuja recuperação lhe tinha encomendado podiam esconder-se com facilidade na bagagem de Natalie, quando voltassem para a Inglaterra, sem que ela soubesse. Bem sabia Deus que transportava uma boa quantidade de pertences. E sem dúvida alguma, as esmeraldas pendurariam de maneira soberba, em todo seu incalculável esplendor, do pescoço delicadamente esculpido dela, se é que ele optava por permitir-lhe.

Jonathan soltou um leve grunhido e se passou os dedos pelo cabelo, enquanto se obrigava a desviar o olhar por volta do mar aberto, frustrado consigo mesmo e com sua debilidade — sobretudo com sua debilidade — pelo sexo feminino.

Natalie se endireitou a seu lado e arrumou os cachos agitados pelo vento, sujeitando-lhe no recolhido que levava na parte posterior da cabeça.

—Estou segura de que acredita que minhas idéias são ridículas, senhor, mas lhe asseguro...

—Não acredito que sejam ridículas — lhe interrompeu em voz baixa, limpando a cara com a palma da mão em um estado de ligeira inquietação. — É sozinho que... — interrompeu-se durante um instante e voltou a tentar. — De verdade acredita que o Cavalheiro Negro vai lhe satisfazer todas essas necessidades de idealismo? E se você não gosta; e se não gosta de você? O que vai fazer quando o conhecer e descubra que é mesquinho O... de uma fealdade grotesca? E se for um vagabundo como Mydell ou tão entediante como Blythe? — Jonathan tornou a olhá-la aos olhos. — Está pondo em perigo todo seu futuro por uma fantasia.

Ela negou com a cabeça.

—Isso é impossível.

—O que é impossível? — replicou ele com brutalidade.

Com os lábios franzidos, ela disse com profundidade:

—Levo dois anos estudando a esse homem e suas aventuras, Jonathan. Sei que é reservado, sofisticado, encantador, inteligente, atrativo e que faz coisas boas para ajudar às pessoas. Também corre o rumor de que tem os olhos azuis, o qual, para que saiba, é o que mais eu gosto em um homem. — ela baixou as pestanas, como se de repente se desse conta de que estava revelando muito.

—Tem umas idéias bonitas e românticas — murmurou Jonathan com voz espessa depois de vários segundos em silêncio. — Mas a aventura e a cor dos olhos não são razões para arriscar...

—Não tenho dito que me casaria com ele «porque» tivesse os olhos azuis — lhe interrompeu ela, voltando a olhá-lo à cara.

Jonathan sabia que a estava tirando de gonzo, mas se negava a suavizar seu ponto de vista só para contemporizar com sua sensibilidade feminina. Era necessário dizer essas coisas já.

—Não o entende — recalcou ele. — Estou falando de sua reputação, Natalie. Se tirar o chapéu que se foi ao continente comigo, acabará destruída socialmente, e por vida. Há pensando nisso?

Aquelas palavras ficaram flutuando no ar como unas negros e ameaçadores nuvens. Jonathan seguiu olhando-a fixamente da escassa distância que os separava, tomando nota da ruga de reflexão e perplexidade de seu cenho; de seu cabelo brilhante; de suas pestanas castanhas, largas e sedosas; de seus lábios, rosas e suaves, perfeitamente delineados e deliciosamente sedutores, que mantinha ligeiramente separados. Era evidente que aquele dia ela tinha chegado a uma conclusão quanto à natureza da relação de ambos nessa viagem, porque não encontrava ao Jonathan nem ameaçador nem tedioso, mas sim, mas bem como um companheiro. Quase fraternal. Entretanto, apresentar-se como o irmão dela não teria convencido a ninguém, e sabê-lo fez que Jonathan se desfrutasse em seu foro interno. Desfrutaria da hora seguinte, inclusive do resto da noite, uma barbaridade. Estava a ponto de esclarecer à perfeição, sem o menor indício de dúvida, no que ia consistir a relação entre ambos. E ele tinha que fazê-lo antes que Natalie insistisse em que a deixasse e se fora ao camarote que ele realmente não tinha.

—Então deveremos ter o maior cuidado — sussurrou Natalie com secura, interrompendo os pensamentos do Jonathan. — Alguém com sua reputação...

Sua voz se foi apagando sob o claro céu noturno, como se lhe tivesse ocorrido gradualmente que não estava com seu irmão, e sim com um homem que muito bem poderia querer mais que sua mera companhia.

—E que sabe de minha reputação, senhorita Haislett? — perguntou ele com seriedade, aproximando-se mais no instante que Natalie se aferrava ao corrimão que tinha a seu lado em busca de mais apóio.

Com toda a indiferença da que foi capaz, ela reconheceu o que era evidente para ela.

—Sei que adora ás mulheres, e que, pelo general, elas o adoram por sua vez. Sei que troca de querida com a mesma naturalidade que troca de botas. Sei que acredita que nenhuma mulher viva é capaz de resistir-lhe – Natalie sorriu com picardia. — Entretanto, eu sou a exceção, e o serei o resto de nossa viagem. Sei que você se dedica a comercializar com mercadorias valiosas, seja o que seja que signifique tal coisa, e que isso o converteu em um homem rico... honestamente rico, o qual é bom. Sei que desfruta repartindo essa riqueza com as mulheres que... recebe. Sei que procede de uma família respeitável, e que seus integrantes o passam muito bem com você e que gostam defalar muito de suas aventuras.

Jonathan piscou, reprimindo o impulso de soltar uma gargalhada para ouvir as absurdas generalizações dela, mas sentindo ao mesmo tempo um entusiasmo comovedor intercalado em um pouco parecido ao triunfo quando ela admitiu sem rodeios tudo o que sabia dele e de seus assuntos pessoais.

—Conforme parece me estudou em certa profundidade — respondeu ele com uma delicadeza encantadora.

Natalie olhou para o horizonte, como se de repente sentisse um repentino e vivo interesse no oceano quase negro e ligeiramente agitado.

—Não com intenção, o asseguro, embora, de vez em quando, tanto você como outros cavalheiros solteiros surgem nas conversações de sociedade. Como é natural, tais conversações não são fáceis de evitar.

—Naturalmente — conveio ele.

—A esposa de seu irmão também é minha melhor amiga — emendou ela para procurar uma via de escapamento adicional. —Me resultaria impossível não ouvir o menos algumas costure.

Uma resposta do mais engenhosa, como ambos sabiam.

—Ah! —foi á única resposta dele.

Transcorreram uns segundos de violento silêncio. Então, prevendo com acuidade a linha que estava a ponto de transpor, Jonathan levantou a mão, cavou a palma na bochecha dela e fez que esta voltasse a cara para ele, olhando-a fixamente aos olhos, muito abertos pela foto instantânea desconforto.

—Mas há uma imprecisão que me vejo obrigado a corrigir — disse ele com suavidade.

Natalie não se apartou, mas sim agitou as pestanas com fingida inocência.

—Uma imprecisão? Em que parte?

—Na parte da resistência.

Ela enrugou a fronte com delicadeza, como se tentasse recordar com exatidão o que havia dito.

—Que nenhuma mulher lhe pode resistir? Apenas me posso acreditar...

—Você não pode resistir a mim, Natalie, meu amor.

E de repente a estava beijando, suavizando qualquer vislumbre de negativa com os lábios, pressionando com ternura ao princípio, sem nenhum indício real de movimento, só um toque. Não a atraiu para ele, mas sim permaneceu ali, envolto nas sombras do anoitecer, com o som das ondas a romper contra o navio por debaixo deles, lhe acariciando com suavidade a bochecha com a palma da mão, enquanto seu corpo revivia com entusiasmo nada mais que pelo calor da boca que beijava.

Ela ficou tão aniquilada que não pôde reagir imediatamente. Só tinham estado brincando entre si amigavelmente, como velhos amigos, sem que mediasse provocação alguma para que ele tivesse feito o inconcebível.

De maneira instintiva, após vários segundos de comoção pela ousadia de Jonathan, Natalie se apartou. Foi então quando ele a rodeou pela cintura e a atraiu contra ele, abraçando-a sem rodeios com um braço de uma força incontestável. O primeiro pensamento racional dela foi que aquele não era um beijo como o que lhe tinha dado em sua casa da cidade só fazia uns dias, aquele suave roce de seus lábios quentes. Não, o desse momento era um beijo de doce desejo, contido e intenso, e o repentino gosto que lhe deixou foi tão capitalista que a invadiram as lembranças do primeiro e íntimo encontro de ambos cinco anos antes, pelo que lhe tinha feito então, tanto física como emocionalmente. E com tanta paixão.

Tremendo, Natalie subiu a mão e empurrou fracamente os ombros de Jonathan em um desejo desesperado por soltar-se, porque sabia que não demoraria muito á sucumbir. E estava no certo. Já não foi capaz de pensar com claridade quando a abraçou firmemente contra ele, lhe acariciando as costas com uma mão e a bochecha com a outra, interpretando a música perfeita da beleza contra sua boca.

Pouco a pouco Natalie foi se apoiando nele, deixando que os dedos subissem pela camisa de Jonathan, desfrutando com o tato da pele quente sob o linho frio, da dura e impecável massa de músculos contra as palmas de suas mãos. Fechou os olhos com força, expulsando de sua mente tudo exceto o poderoso abraço do Jonathan, separando os lábios um pouco ante a insistência deste. Custava-lhe respirar, o coração pulsava com força no peito, o sangue corria violentamente pelas veias ressonando em seus ouvidos, enquanto se esforçava em conseguir mais dele, enquanto se aferrava a seu pescoço e entrelaçava os dedos no sedoso cabelo de sua nuca.

Jonathan explorou com um fogo interior quase incontrolável ao sentir que ela se relaxava e se amoldava a seu corpo, tão rápida e ansiosa em sua resposta. O certo é que tinha esperado que ficasse tensa por causa da indignação, inclusive que o esbofeteasse, a reação habitual de qualquer com sua educação. Mas ele deveria havê-lo sabido. O desejo mútuo era entristecedor, indescritível, e tinha estado ali do mesmo instante em que se juntaram pela primeira vez na pista de baile, fazia anos.

Mas não foi a paixão o que tanto lhe surpreendeu. Foi o dar-se conta de que jamais em sua vida se havia sentido atraído com tanta força por uma mulher; por sua suavidade, seu sorriso e seus olhos, por suas curvas delicadas, seu aroma de sabão, a flores e a mulher. E aquele beijo aparentemente inocente sobre a coberta do Redding, sob um céu de estrelas reluzentes e um tênue claro de lua, era o princípio de algo que temia reconhecer. Tinha crédulo que um beijo pusesse fim a sua necessidade, mas não foi assim, nem o seria, e se encontrou em um apuro.

Passou a ponta da língua pelos lábios separados dela e lhe massageou a nuca com os dedos da mão direita, enquanto abria a esquerda sobre a parte inferior de suas costas, sujeitando-a com firmeza contra seu corpo rígido. Ela gemeu suavemente entre seus braços, e impaciente como estava Jonathan por intensificar a magia, por tocá-la com mais plenitude, mais possessivamente, em alguma parte de seu foro interno lhe fez dolorosamente claro que devia deter o encontro antes que chegasse muito longe. Esse não era o momento nem o lugar para aquilo, e Natalie nunca daria por finalizado o beijo por si mesmo. Jonathan sabia.

Com uma dificuldade desmesurada, a respiração agitada enquanto tentava esclarecer a mente liberando-a do apresso que a dominava, Jonathan fez o que não tinha feito em toda sua vida: ser o primeiro em sufocar a paixão.

—Natalie... — sussurrou-lhe junto à boca, arrastando as mãos para lhe colocar as palmas nas bochechas.

Não lhe ouviu, não respondeu imediatamente, e, com muito pesar, Jonathan apartou os lábios dos dela.

—Natalie — repetiu com voz áspera, levantando e apartando a cara. Antes de deixar cair á fronte e apoiá-la na de Natalie, depositou-lhe um ou dois beijos ali, lhe cavando as mãos nas bochechas com firmeza, sujeitando-a para impedir que saísse correndo, respirando fundo para dominar seus nervos inflamados.

Não queria dizer nada até que ela se tranqüilizasse, até que sua respiração se compassasse e recuperasse o controle. Provavelmente estaria envergonhada, e Jonathan não estava muito seguro de como dirigir aquilo, de como explicar seus atos e impedir que ela se sentisse rechaçada.

Natalie ficou a tremer de repente. Retirou os braços do pescoço de Jonathan e lhe empurrou o peito.

—Natalie...

—Deixe de pronunciar meu nome dessa maneira — sussurrou ela.

Jonathan franziu o cenho. De que maneira?

Soltou-a pouco a pouco, esperando, e ela se apartou, abraçando-se, a cabeça encurvada, de maneira que a lua se refletiu em seu cabelo, arrancando uns reflexos reluzentes. Inclusive na escuridão, Jonathan pôde sentir a tensão que emanava do corpo dela. Não tinha nem idéia de se estava zangada com ele por começar o beijo ou consigo mesma por mostrar um desejo tão temerário.

Natalie fez uma larga e tremente inspiração.

—Não volte a me confundir dessa maneira nunca mais — lhe advertiu em um murmúrio colérico.

Que diabos significava isso? Só uma mulher podia dizer coisas que o deixassem tão perplexo.

—Confundi-la?

—Estou prometida a outro — explicou como se Jonathan fora idiota, destilando fúria por todos os poros da pele.

A elucidação empapou ao Jonathan de prazer. Já o entendia, e envolto na penumbra se permitiu um amplo sorriso de satisfação. Que ela manifestasse sua confusão era algo totalmente distinto a que expressasse repulsão ou medo ou a que o esbofeteasse.

Ele levantou o dedo para lhe acariciar o queixo.

—Não está prometida a ninguém — corrigiu em um rouco sussurro.

Natalie levantou a cabeça com uma sacudida e o olhou de marco em marco com olhos furiosos.

—Boa noite, Jonathan.

Recolheu-se as saias com dignidade e se afastou passando por seu lado.

Jonathan lhe deu quase vinte minutos para que se serenasse e se preparasse para deitar-se. Então, lhe assaltando uma espécie de sentimento de culpa pelo que se aproximava, chamou com os nódulos à porta do camarote duas vezes e a abriu sem esperar resposta.

Mas ela não estava na cama nem fazendo nada do que as mulheres fazem antes de deitar-se. Estava sentada no bordo da cama, absorta em seus pensamentos e totalmente vestida, embora tivesse a capa desabotoada.

Ela voltou ao ouvi-lo entrar e ficou olhando-o ausentemente em princípio, e depois com o que ele sozinho pôde descrever como crescente terror.

—Como tem feito para...?

—Tenho uma chave, recorda? —respondeu Jonathan antes que ela pudesse terminar.          

Fechou a porta e lhe jogou o fecho, encerrando aos dois na intimidade do pequeno e lotado camarote, já cheio só com a presença dela e de seus pertences íntimos, do sedutor aroma de lavanda e lilás das natas, pós e perfumes. Depois de só umas quantas horas juntos, Jonathan tinha chegado à incômoda conclusão de que tinha por diante, a missão mais difícil que jamais tinha aceitado em sua vida; e não consistia em lhes roubar as apreciadas esmeraldas aos perigosos legitimistas francesas, e sim em manter intacta a virgindade de Natalie Haislett.          

Ouviu-a levantar-se detrás dele enquanto se desabotoava os dois botões superiores da camisa.

—Eu... Eu pensava que você dormiria no camarote contíguo, Jonathan — gaguejou em voz baixa e tremente.

Ele voltou-se para ela, e esteve a ponto de ficar-se de joelhos diante a intensa súplica que havia nos olhos dela com a esperança de que ele acabasse partindo; pela turgidez de seu peito voluptuoso quando a capa aberta pôs ao descoberto o vestido extremamente entalhado que se aderia a sua figura; pelo longo e abundante cabelo, já livre dos prendedores, que lhe caía em cascata por diante em uma luxuriosa quebra de onda de suavidade.

Tão inocente e tão intocável.

Suspirou e confessou o inevitável.

—Dormirei a sua esquerda, Natalie.

—OH. —O alívio que aflorou a seu rosto foi incomensurável. — Então, por que está aqui?

Jonathan fincou as mãos nos quadris, absolutamente seguro de quanto desfrutaria com essa explicação, mas preparado para dá-la. Sem rodeios, com o rosto inexpressivo, insistiu:

—Não me referia ao camarote de nossa esquerda. Referia-me à esquerda de sua cama.

O primeiro que pensou ela foi que o que estava dizendo Jonathan carecia por completo de sentido. Então, a claridade da imagem a impactou, e pela primeira vez em sua vida, que ela pudesse recordar, esteve a ponto de sucumbir a um ataque de histeria. Seus olhos se abriram até converter-se em uns enormes pratos de incredulidade e assombro. Não era possível que ele estivesse falando a sério.

—Não pode dormir... — ela tragou saliva, incapaz sequer de dizê-lo. Ele observava sua reação atentamente, enquanto permanecia parado diante da porta, ocultando-lhe à vista com seu corpo grande e imponente, esperando para encaixar o golpe.

Falava a sério. E, entretanto, não dizia nenhuma palavra.

O pânico fez que o pulso dela galopasse.

—Não pode ficar aqui, Jonathan.

—Tenho que ficar aqui, Natalie — insistiu sem alterar-se e com grande parcimônia.

Transcorreram uns segundos de silêncio sepulcral antes que Natalie conseguisse ter a voz suficiente para sussurrar:

—Por quê?

Jonathan alargou a mão para o abajur atarraxado a mesa de noite que havia a sua direita, e subiu a intensidade da chama. Apoiou-se de costas contra a porta, cruzando os braços à altura do peito.

—Por duas razões, em realidade — respondeu pensativamente. — A primeira é que você se pôs sob meu cuidado, meu amparo...

—Amparo? — interrompeu-lhe assombrada, com a preocupação crescendo em seu ânimo por momentos. — Vai proteger-me depois de me abordar só umas horas depois de ter zarpado?

—Não a abordei Natalie; beijei-a — reivindicou com certo aborrecimento. — Há uma enorme diferencia.

Ela o olhou com irritação.

—E quem me vai proteger agora de você, senhor?

—A segunda razão —prosseguiu ele, ignorando a pergunta— é que minha reputação também importa. Tenho um assunto importante que solucionar na França que me obrigará a alternar com a elite. Se quer ir comigo, dever estar disposta a fazer-se passar por minha esposa. Ninguém pode começar a suspeitar sequer que viajo com minha querida, e essa é a única conclusão que tirará a gente, se souberem que a levo comigo.            

—Poderíamos nos fazer passar... Por primos — lhe espetou a bordo do desespero, completamente consternada pela falta de vergonha do Jonathan.

Ele negou com a cabeça.

—Não resultaria, e você sabe. Não nos parecemos nada, e a todo mundo lhe fará evidente a atração que há entre nós. Melhor obrar em conseqüência que tentar ocultá-lo. — E com um sorriso de suficiência acrescentou: — É uma provocação, um papel que temos que interpretar, e devemos começar a interpretá-lo agora...                       .

Ficou boquiaberta ao lhe ouvir, e pareceu de tudo incrível que ele falasse sobre eles como se fossem amantes, que se fizessem passar por tais diante dos estrangeiros. Era tão prático, tão descaradamente matreiro...! Tinha-o planejado tudo desde o começo, tinha-o sabido todo o tempo, e tinha permitido que se inteirasse de suas intenções quando ela já não podia fazer nada e, menos que nada, sair correndo. Aonde ia a um navio em plena noite? Sua única opção parecia ser a coberta.

—Por que esperou até agora para me contar que tínhamos que compartilhar uma...? — Fez um rápido gesto com a mão. —Uma...

Ele se inclinou para ela.

—Uma cama?

Jonathan se levou a mão à cara e se esfregou o queixo com a palma.

—Não queria que trocasse de idéia e descesse do navio — admitiu prosaicamente.

—Você... — Natalie balbuciou para ouvir a franqueza da resposta, ruborizando-se muito ligeiramente, cruzou os braços diante dela em atitude defensiva e se passou as gemas dos dedos pelo encaixe da manga. — Você...

—Eu a necessito, Natalie — disse, terminando a frase por ela uma vez mais. Depois de um instante de hesitação, corrigiu: — Necessito que se faça passar por minha esposa.

—Planejou tudo isto — lhe acusou ela com veemência.

Jonathan negou lentamente com a cabeça e entrecerrou os olhos com malícia, duas sedutoras navalhadas azul cinzento.

—Creio que foi você quem entrou em minha casa faz seis dias em busca de ajuda. Eu sozinho me aproveitei que a situação.

OH, aquele homem era um demônio! Pois bem, se queria jogar sujo, por ela perfeito. Podia interpretar qualquer papel à perfeição. Pobre dele! Talvez não soubesse que ela era uma das melhores.

—E que acontece com o Cavalheiro Negro? — perguntou ela com suspeita. —Segue pensando em nos apresentar?

Ele se encolheu de ombros.

—Isso pretendo, embora tudo se façamos segundo minhas condições e quando me convenha, tal e como combinamos antes de sair da Inglaterra.

Olharam-se fixamente aos olhos, Jonathan com uma expressão decididamente ausente e ilegível, Natalie sopesando o desafio, calculando os resultados possíveis das decisões já adotadas, decisões tomadas sem pensar no que proporcionaria a relação que havia entre eles.

Então, por fim, com um sorriso ardiloso que lhe curvou ligeiramente os lábios, Natalie se voltou com decisão e se tirou a capa, arrojando-a sobre o biombo de seda.

—Pode ficar Jonathan, mas nem um beijo mais.

—Os maridos e as algemas se beijam — replicou ele sem graça. — Me temo que talvez tenhamos que fazê-lo de vez em quando.

Ela sabia que ele voltaria para a carga com isso. Mas não tinha nem idéia de com quem a estava jogando.

—Os maridos e as algemas estranha vez se beijam em público. E posto que não vamos fazer em privado, não vejo nenhuma razão para fazê-lo absolutamente.

Natalie voltou a lhe desafiar, em uma atitude elegante, os braços nos flancos, plenamente consciente de que Jonathan também teria que resignar-se a aceitar algumas das condições dela, se é que foram meter se naquela tola representação urdida por ele.

—Também deve me dar sua palavra de que atuará como cavalheiro, se chegarmos a nos encontrar em uma situação de intimidade — insistiu ela com fortaleza.

Jonathan piscou, dando a sensação momentânea de que tivesse surpreso com tal afirmação, como se não pudesse acreditá-lo que ela acabava de dizer. Natalie o viu esforçar-se em rechaçar um logo de arrogância brincalhona, ou talvez só fossem as vontades de rir. Mas nesse momento a expressão do Jonathan se escureceu e adotou um ar de profunda reflexão.

Ele voltou a apoiar as costas na porta, observando-a, com os olhos percorrendo cada rasgo da cara, o pescoço e os seios. E com prudência e franzindo o cenho, disse:

—Por isso a você respeita, Natalie, fui conscienciosamente cavalheiresco da noite em que nos conhecemos, faz alguns anos. — Esperou. — A recorda como a recordo eu?

Ela ficou imóvel dos pés a cabeça, e a cor lhe abandonou o rosto. Em poucos segundos a atmosfera se tornou pesada e o ar se espessou vibrante com a intensidade do momento, enquanto ele seguia contemplando-a de maneira provocadora do outro lado do pequeno e repentinamente sufocante camarote. De maneira instintiva, ela se agarrou os cotovelos com as mãos, sentindo-se exposta sem remissão, mas incapaz de desviar o olhar.

Jonathan esboçou um sorriso cúmplice.

—A noite que inocentemente me pediu que me reunisse com você em um jardim à luz da lua para falar de sonhos, e que eu erroneamente tomei por um convite para beijá-la, o que fiz até que ficou sem fôlego. — Baixou a voz até convertê-la em um áspero sussurro, olhando-a aos olhos com um olhar ardente. — Eu gosto de beijá-la, Natalie. Muito. Esteve bem então, e é ainda melhor agora.

Ela se agarrou as mangas com mãos trementes, respirando fundo para evitar cambalear-se diante a intimidade, a maneira grave e significativa com que aquelas palavras fluíram da boca dele. Estava lhe dando uma oportunidade, desejoso de que ela falasse daquela noite. Mas Natalie não podia. Não, nesse momento. Provavelmente, nunca.

—Então não posso fazer outra coisa que confiar em você — murmurou ela com a boca seca, sustentando ainda o olhar.

Depois de um extenso e pertinaz silêncio, a cara de Jonathan relaxou.

—Bom, suponho que é um princípio.

Natalie se deu conta de que se havia sentido molesto por sua reação, ou possivelmente tão só confundido porque ela não desejasse falar do que tinha ocorrido entre eles fazia todos esses anos. Mas o assunto era muito familiar, muito humilhante, e ela tinha que escapar disso.

Com uma profunda inspiração para recuperar forças e passando-os dedos por seu arbusto de cabelo, ela tentou recuperar o humor.

—Terá que dormir na cadeira, Jonathan. A cama é pequena, e eu também prefiro o lado esquerdo.

A luz da mesinha piscou, agitando as sombras nas paredes escuras. Jonathan ainda não tinha afastado seu olhar da cara dela, o qual a estava pondo fartamente nervosa. Começou a mover-se, como se preparasse para aproximar-se dela, e então trocou manifestadamente de idéia, enquanto seus lábios desenhavam um sorriso desinteressado. Com absoluta tranqüilidade, levantou uma mão e reatou a tarefa de desabotoar a camisa, apartando por fim o olhar quando deu dois passos para a cama, ajoelhou-se junto a ela e tirou de debaixo desta o que parecia ser seu baú.

—Vou dormir nesta cama, Natalie — proclamou com decisão. — E se prefere o lado esquerdo, e eu prefiro o lado esquerdo, não terei mais remedeio que dormir em cima de você, o qual, acrescentaria, será difícil não estando permitido nenhum beijo absolutamente.

Ela ruborizou furiosa, incapaz de imaginar em cima dela por nenhuma razão. Molesta consigo mesma pela reação que sem dúvida ele advertiu, deu-se a volta e se ocultou atrás do biombo.

—Nesse caso serei eu quem dorme na cadeira.

Devia ser bem passada a meia-noite quando Jonathan sentiu que Natalie se metia cuidadosamente na cama junto a ele. Tinha suposto que isso acabaria por passar; fazia muito frio no camarote.

Não se moveu por medo de que ela voltasse a sair da cama. Ele gostava de dormir despido, mas, dadas todas as demais costure que lhe tinha imposto Natalie, não podia ir tão longe. Assim, ali convexo, vestido sozinho com as calças incomodamente rodeadas, não tinha havido maneira de que pudesse realmente dormir. E pelo que pôde deduzir tampouco Natalie, que se tinha passado quase duas horas tentando ficar cômoda, antes que, assumindo finalmente sua derrota, metesse-se entre os lençóis.

Ela se encolheu detrás dele tremendo, cobrindo-se até o queixo, os dedos e os tornozelos com uma camisola longa de austero algodão branco. Tentando roubar a manta ao Jonathan e, sem dúvida, lhe roubando seu calor. Ele quase se estremeceu quando sentiu seus pés, uns gélidos blocos de gelo a essas alturas, quando ela os colocou entre suas pernas. Mas, quando por fim começava a deslizar-se para o sono, viu-se obrigado a sorrir perante o gesto de comodidade de Natalie, extremamente crédulo e doce.

 

Capítulo 4

Madeleine DuMais nasceu formosa. Não no sentido clássico, certamente, porque claramente seus rasgos não eram refinados, embora sim exóticos. Possuía uma excelência no porte insólita nas classes baixas, e inclusive na classe média, mas possivelmente isso se devesse a que, no social, estava entre uma classe e a seguinte, se é que isso era possível. Sua educação era desigual e ela sabia; e lhe tirava partido.

De pé em frente do espelho de sua habitação, enquanto um rutilem sol matutino se filtrava através das cortinas de cretone, aplicou um último toque de cor, a suas bochechas e lábios, ficou um pouco do Kohl nas pálpebras e arrumou o cabelo castanho apartando o da ampla fronte.

Sabia que, dos pés à cabeça, resultava excepcionalmente atrativa à vista. Em efeito, com freqüência resultava divertido ver como os homens se desfaziam em sua presença, mas, por estranho que parecesse, não lhe preocupava muito o relacionado com suas qualidades físicas. Estava orgulhosa delas, e lhe tinham emprestado um bom serviço ao longo dos anos.

Sorriu com satisfação e deslizou as palmas das mãos por seu vestido de manhã, de seda amarelo limão, sem outro adorno que algum detalhe de encaixe branco, apertado à cintura e com uma entupida cascata sobre o embainhado para que roçasse de maneira adequada o chão ao caminhar. Sentia-se orgulhosa de suas curvas, de seu peito considerável, e de uma cintura que não mostrava nenhum sinal de ter dado a luz, e que esperava seguisse assim no futuro. Também queria que Jonathan Drake se fixasse nela, porque ele chegaria a sua casa ao cabo de dez minutos justos para a reunião que tinham acordada. E seria pontual. Os ingleses sempre o eram quando se tratava da segurança nacional de seu país.

Agradada com seu aspecto, deu-se a volta e saiu do dormitório, baixou a escada com garbo e entrou no salão onde esperaria a chegada do inglês. A cálida atmosfera da habitação sempre a animava, decorada como estava com valiosos móveis de mogno generosamente acolchoados e cobertos de cetim cor veio. As cortinas da mesma cor estavam totalmente retiradas, para que toda a peça ficasse alagada pelo sol, que se refletia com um vago resplendor sobre o delicado papel floreado da parede. Marie Camille, a única donzela do Madeleine, tinha deixado o serviço de café para duas em cima da pequena mesa redonda situada entre duas poltronas, diante da chaminé, à maturação apagada, e o café seria servido, recém feito, quando ele chegasse. Madeleine tomou assento na poltrona mais próxima à porta e esperou.

De sua mãe francesa, uma mulher de teatro, embora no melhor dos casos de discreto talento, Madeleine tinha herdado sua excepcional beleza, sua figura deliciosa, a cara ovalada e os gélidos olhos azuis. Mas de seu pai, um capitão da Marinha Britânica, tinha adquirido todo o resto: a inteligência, o sentido comum, o humor e a paixão pela integridade. Ele tinha querido casar-se com sua mãe, mas, ai! Eleonora Bilodeau, egocêntrica e vulgar onde as houvesse, tinha-o rechaçado, abandonando-o com o coração partido; e não especialmente interessada em sua vergonha, arrastou à formosa menina de cidade em cidade, de um pestilento teatro cheio de fumaça a outro, e não porque se sentisse na obrigação de fazê-lo, mas sim porque Madeleine lhe servia de pulseira.

Durante quase doze anos Madeleine suplicou que lhe permitisse partir a Inglaterra para ficar com a muito estável família de seu pai, mas sua mãe lhe tinha negado aquele sonho com crescente desprezo. Madeleine só tinha visto seu pai quatro ou cinco vezes em sua vida, mas aqueles instantes maravilhosos a tinham feito transbordar de alegria. O homem tinha querido de verdade a sua filha ilegítima. Então, no verão de 1833, Madeleine encontrou escondida em uma gaveta lateral do roupeiro de sua mãe, uma nota de sua família inglesa em que informava a ambas, em um tom muito solene, de que o pai do Madeleine tinha morrido de cólera no ano anterior, enquanto estava destinado em algum lugar das Índias ocidentais. E foi aquele mesmo desgraçado dia, enquanto sua mãe se exibia em um cenário de Colônia, médio vestida e sem um ápice de dignidade, que a devoção do Madeleine para seu país morreu. Só diante seus olhos, que era o que importava, deixou de ser francesa para sempre.

Quando cumpriu os dezesseis anos conseguiu seu primeiro emprego como corista de um abarrotado e caloroso teatro de variedades, onde os homens civilizados da manhã se convertiam de noite em animais bêbados, suarentos e lascivos que proferiam comentários grosseiros enquanto lançava moedas ao cenário com a esperança de intercambiar favores. Esse foi o único ingresso que ela pôde conseguir utilizando seus encantos naturais, mas nem uma vez em quatro anos de bailarina se permitiu vender seus favores sexuais. Por cima de todo o resto, tinha conservado intacto o respeito por si mesmo, tal e como sempre tinha feito, e seu pai tinha esperado que fizesse, negando-se a cair na desgraça pessoal, como sua mãe.

Aos vinte anos, com bastante dinheiro economizado e uma satisfação que não havia sentido antes nem sentiria depois, Madeleine comunicou com muita tranqüilidade seus planos de abandonar sua anterior existência como faxineira de sua já gorda e velha mãe, deu as costas à França para sempre. Ao princípio, a atriz se assustou, depois foi às nuvens, gritando obscenidades a sua filha enquanto esta a abandonava para sempre com os ombros erguidos e o queixo alto. Isso tinha ocorrido fazia oito anos, e Madeleine não havia a tornado a ver nem a preocupar-se sequer de se a mulher seguia viva.

Primeiro foi para a Inglaterra, onde se apresentou a sua refinada família de classe média, que a aceitou incondicionalmente, embora com certa calada ressalva, mas ela não tinha esperado nada mais; depois de tudo, era meio francesa e filha ilegítima de uma atriz. Entretanto, tinham-na tratado com um respeito que não tinha conhecido jamais e que lhe encantava, embora por essa época soubesse que jamais levaria a vida de uma dama inglesa. Com o tempo, tinha aprendido o idioma de sua família bastante bem, mas jamais pôde perder todo seu marcado acento francês. Jamais poderia ser uma deles. Aquele sonho tinha morrido com a maturidade. Mas com esta chegou o íntimo descobrimento de que possivelmente podia oferecer algo bastante mais valioso à sociedade britânica, a sua herança britânica. Suas habilidades podiam ser utilizadas para ajudar às pessoas que queria e prejudicar a aquela outra que tinha chegado a odiar.

Em conseqüência, aos vinte e um anos, entrou tão alegre no Ministério de Interior britânico e se apresentou tal qual era. Queria converter-se em informante. Naturalmente, como recordava a essas alturas com humor, os funcionários responsáveis a tinham jogado do edifício entre gargalhadas. «Por Deus bendito! Mas se for você francesa... e mulher!», tinham-lhe solto ao uníssono, escandalizados. Mas não se desanimou. É que podia haver um disfarce melhor?

Mais decidida que nunca, e depois de tentar captar a atenção das autoridades outras duas vezes e de não obter mais resposta que algum completo no melhor dos casos, Madeleine trocou de enfoque. Recolheu seus escassos pertences e voltou para Paris, onde se infiltrou por sua conta nos círculos do governo, utilizando para isso sua inteligência, sua beleza e seus cada vez melhores dotes interpretativos; bastante melhores, deu-se conta, que as da mulher que a tinha parido. Depois de tudo, tinha vivido seus primeiros vinte anos com uma companhia teatral, e tinha sido uma boa discípula.

Várias vezes durante os seguintes três anos, Madeleine descobriu segredos que enviou, a sua vez, para sir Riley Liddle na Grã-Bretanha; nada ruinoso, nem sequer escandaloso, só pequenas coisas para ajudar à causa britânica na Europa. E sempre que o fazia, começava aqueles retalhos de informação com a frase: «Uma afetuosa saudação da francesa». Nunca recebeu resposta alguma, mas soube que seus descobrimentos detetivescos eram tidos em conta, porque a informação que passava começava a usar-se, inclusive de maneiras sutis. Aquilo lhe proporcionou a satisfação que necessitava durante um tempo, até que eles se foram acostumando a que Madeleine fizesse o que faziam os homens ingleses por regra, e ela sabia que eles saberiam a tempo. Ao final, depois de estabelecer-se no seio da elite francesa, de abrir-se caminho na alta sociedade com encanto e sagacidade, lhe tinha dado a inestimável oportunidade de ganhar o respeito de seus superiores britânicos. Em julho de 1843 se inteirou por acaso de que dois prisioneiros políticos franceses muito proeminentes foram ser transferidos, sem demora e diretamente, do tribunal a lúgubre prisão de Newgate, e que havia um plano em marcha para liberá-los no percurso, mediante a força que fosse mister.

Em efeito, o dia daquele traslado, e graças à acordada inteligência da francesa, abortou-se uma pequena revolta quando um pequeno grupo de interessados e atônitos franceses fortemente armados foram feitos prisioneiros sem nenhum incidente. Quando Madeleine se inteirou da notícia da vitória, soube que estava dentro.

Quatro dias depois, em 2 de agosto de 1843, Madeleine Bilodeau, antiga corista e filha de uma atriz (que muitos pensavam era ainda pior), converteu-se em espião do governo britânico. Ficaram em contato com ela de maneira bastante informal durante um passeio matutino pela avenida Do Friedland, nas cercanias de sua casa de Paris, e ao cabo de vinte e quatro horas tinha sido enviada a toda pressa para Marselha, com todas suas posses mundanas atrás, para converter-se no Madeleine DuMais, enriquecida viúva do mítico Georges DuMais, comerciante em chás de renome mundial desaparecido no mar. Instalaram-na no impressionante porto meridional, em uma preciosa moradia urbana, para que pudesse estar a serviço da Coroa nos temas relacionados com a ameaça sempre crescente do contrabando. Durante os últimos quatro anos se ganhou a veneração da alta sociedade e tinha sido aceita em todos os círculos sociais nem mais nem menos que pelo que aparentava ser, sendo de grande utilidade a seu país de adoção, onde aqueles que importavam vinculavam seu nome a uma espécie de honra sofisticada.

Madeleine endireitou e se alisou a saia. O surdo rumor da voz de um homem procedente do vestíbulo fez que sua mente deixasse de vagar pelo passado, enquanto olhava o relógio do suporte da chaminé. Jonathan Drake tinha chegado, três minutos depois das dez, e ela estava preparada para recebê-lo.

O inglês entrou quando Marie Camille abriu a porta do salão, e uma vez mais Madeleine se sentiu sobressaltada por seu aspecto. Só o tinha visto uma vez antes, faria coisa de um ano, em uma cerimônia de ornamento próximo de Cannes, e no momento de ser apresentados, ela tirou o chapéu soltando um risonho tolo motivada pela áspera e comedida descrição que seus superiores lhe tinham feito de Drake. Haviam-no descrito como «um tipo do mais normal, galhardo no melhor dos casos; de cabelo negro e tudo isso».

Mas Jonathan Drake era formoso, se é que uma podia utilizar essa palavra para descrever a um homem. Não no sentido da elegância, em realidade, embora vestisse de maneira impecável. Mais com um estilo tosco e descaradamente masculino.

Até que sorriu como o fez nesse instante. Então, «formoso» era o mais apropriado.

—Madame DuMais — Jonathan foi o primeiro em falar, ao mesmo tempo em que agarrava a mão estendida de Madeleine e levava o dorso aos lábios. —Encontramos de novo. Tem um aspecto encantador. É você como a brisa da manhã.

Madeleine sentiu que ruborizava algo que quase nunca lhe ocorria diante de outros. Mas ele se tomou seu tempo para observar sutilmente sua figura, que era exatamente o que a francesa tinha esperado que fizesse quando se tomou seu tempo para polir-se. E como podia não fixar-se? Era um homem depois de tudo, e isso é o que tinha esperado ela. A reputação do Jonathan o precedia.

—Monsieur Drake. É um prazer. Por favor, tome assento. — Madeleine assinalou a poltrona que tinha em frente voltou-se para Marie Camille, que esperava pacientemente junto à porta, e lhe ordenou que trouxesse o café imediatamente.

Voltou a centrar sua atenção em Drake, que já estava sentado comodamente em frente dela. Parecia encontrar-se a seu amplo vestido com um terno de amanhã cinza pomba que acentuava a cor de seus chamativos olhos. A camisa branca e o lenço de seda cinza claro eram da melhor seda, e seu cabelo negro como a noite se tinha despenteado um pouco ao tirar o chapéu, que sem dúvida tinha deixado no cabide da porta principal. Jonathan se passou os dedos pelas pontas para as pentear para trás, e Madeleine não pôde por menos que cravar o olhar no movimento enquanto falava.

—Posso acreditar que sua viagem transcorreu sem incidentes? — perguntou, com mais cortesia que curiosidade.

Jonathan deixou cair os braços com rapidez e moveu seu corpanzil na poltrona, cruzando as mãos no regaço.

—Aqui estou de uma peça.

Madeleine arqueou as sobrancelhas fugazmente, mas posto que Jonathan não dissesse nada mais, limitou-se a acrescentar:

—Mas sem dúvida, não lhe notam os efeitos de uma noite em vela.

Jonathan tornou a assentir com a cabeça face ao comentário, olhando à mulher com franqueza, enquanto Marie Camille retornava trazendo uma cafeteira a China com incrustações de ouro e marfim em cima de uma bandeja de prata. Dado que o jogo de café já tinha sido disposto com antecedência, a donzela não teve mais que servir um par de taças até o bordo, deixar a cafeteira na mesa e partir de novo com discrição, fechando a porta atrás dela.

Madeleine serviu leite quente e açúcar; ele se levou a taça aos lábios.

—E como vai tudo por casa? —perguntou ela despreocupadamente, removendo o café com gesto afetado.

Ele se encolheu de ombros e lhe deu um sorvo ao café.

—Bem, penso. Exceto pelo assunto que me traz para o sul da França em pleno verão.

Madeleine apartou o olhar e baixou as pestanas para observar o líquido marrom que lhe tingia as gemas dos dedos, golpeando ligeiramente a colherzinha sobre o lateral da taça, um tanto consternada porque ele passasse com tanta rapidez ao objeto de sua reunião.

—Acredito que quererá que lhe dê já os detalhes — afirmou em voz baixa.

—Como gosto, senhora — respondeu ele com cordialidade.

Madeleine tornou a levantar a vista para lhe olhar aos olhos e lhe deu um sorvo ao café. Jonathan a observava com atenção, e essa foi á oportunidade de Madeleine para trocar de tema.

Com muita delicadeza, sinal de seus muitos talentos, insinuou:

—Tenho a esperança, monsieur Drake, de que durante sua estadia na França cheguemos a ser algo mais que meros conhecidos... — Colocou a taça e o pires sobre a mesa. — Assim que nada me agradaria mais se me chamasse Madeleine.

Ela era perfeitamente consciente de que Jonathan poderia sentir-se confundido diante semelhante convite, e de fato isso era o que parecia ter ocorrido. Ele piscou rapidamente duas ou três vezes, sorriu de um modo absolutamente encantador, enquanto deixava também a taça e o prato sobre a mesa, e se recostou com total indiferença para observá-la.

—Sinto-me muito honrado, Madeleine — admitiu de maneira eloqüente. — E você deveria me chamar Jonathan. Trabalharemos juntos, assim penso que a formalidade poderia resultar pesada.

Ela mostrou um sorriso delicioso, quase segura de que ele estava correspondendo ao seu interesse, embora estivesse sendo tão sutil como ela. Era inglês, e em conseqüência um pouco mais formal que o francês típico. Depois de tudo, possivelmente não estivesse perdendo seu tato e tão só precisasse ser mais direta.

Lenta, insinuante, inclinou-se para ele, e os olhos azuis do Madeleine faiscaram com os pensamentos íntimos.

—Estarei encantada, Jonathan. De fato, confiava em que possivelmente pudéssemos encontrar tempo para... nos relaxar juntos. Quando o trabalho tenha terminado, é obvio. —Madeleine subiu e baixou os dedos sensualmente pelo cabelo, que lhe enroscava sobre o peito direito em uma grosa e brilhante trança. — Estou segura de que desfrutaria da companhia de uma mulher que conhece... Bem a zona e como entreter a um homem todo o tempo. Estou igualmente segura de que eu desfrutaria de seus encantos.

Jonathan ficou olhando-a sem rodeios durante alguns segundos. Depois, com a mesma rapidez com que tinha baixado a vista até seus peitos, moveu-se de novo na poltrona, incômodo, e desviou o olhar para a janela.

A verdade é que Madeleine tinha esperado que ele respondesse imediatamente de uma maneira positiva. Era um homem ao que gostava das mulheres, e ela sabia, como saberia qualquer mulher ardilosa, que a encontrava particularmente atrativa. Mas nesse momento, enquanto se recostava de novo na poltrona para contemplar a figura silenciosa do inglês, começou a cair na conta de que, embora ele pudesse ter admirado fugazmente sua beleza, seus pensamentos tinham estado em outra parte do momento em que tinha entrado na habitação. Drake parecia... preocupado?

Por fim, Jonathan voltou sua atenção para ela e sorriu com decisão, o olhar atento enquanto juntava as mãos, os cotovelos nos braços da poltrona e as gemas dos dedos em ligeiro contato formando um triângulo diante de seu rosto meditabundo.

—Minha querida Madeleine — começou com determinação—, se tivesse recebido um convite tão generoso de uma mulher tão bela faz sozinho umas semanas, me teria encontrado aceitando o prazer de sua encantadora companhia sem reservas. —Pigarreou e baixou a vista para observar ao grosso e elaborado tapete. — Entretanto, durante estes últimos dias ocorreram várias coisas que fariam que tal aceitação resultasse... Incômoda.

—Sério? — resmungou Madeleine, completamente surpreendida e sem saber se devia sentir-se abatida ou adulada. Jamais em sua vida tinha sido rechaçada com tanta elegância.

Jonathan respirou fundo e levantou a vista para olhá-la fixamente aos olhos uma vez mais.

—Não estou sozinho na França...

Os olhos do Madeleine se abriram desmesuradamente.

OH...

Ele voltou a jogar uma rápida olhada à janela, conforme parecia com impaciência, e Madeleine se perguntou fugazmente se a mulher estaria esperando lá fora. E tinha que ser uma mulher, decidiu. O Cavalheiro Negro sempre trabalhava sozinho; Jonathan Drake nunca viajava acompanhado. Também sabia que nenhum homem na flor da vida rechaçaria uma oferta tão evidente de carinho feminino, se sua única complicação fora que viajasse com outro homem.

Suspirando com resignação, Madeleine alargou a mão para sua taça e a levou aos lábios com cuidado.

—Deve confiar nela sem reservas.

Pela primeira vez desde sua chegada, Jonathan pareceu sobressaltar-se pelas palavras do Madeleine.

Ela mostrou um sorriso ardiloso.

—Sabe ela quem é você?

Jonathan vacilou.

—Não exatamente.

—Mmm... — Madeleine fez uma pausa para dar outro sorvo ao café. — É a razão de que você esteja aqui?

Ele franziu os lábios e negou com a cabeça.

—Não.

—Entendo.

Jonathan soltou um ruidoso suspirou e juntou os dedos.

Madeleine fez um grande esforço para evitar rir.

—Talvez chegue inclusive a conhecê-la — sugeriu com sincero interesse.

Lhe dedicou uma sorrisinho de cumplicidade.

—Disso estou absolutamente convencido.

Ao ouvir isso Madeleine riu, voltando a colocar a taça sobre a mesa.

—Então estarei encantada de conhecê-la.

Ela se levantou com elegância e cruzou a estadia até um pequeno armário de mogno situado ao lado da janela.

—Acredito que, posto que ela seja quão única mantém sua atenção, Jonathan, deveríamos ir ao grão.

Abriu a porta de cristal e tirou várias folhas de papel do interior de uma caixa de música situada dentro.

—As jóias se guardam na caixa forte do despacho de Henri Lemire, conde de Arlés. —Madeleine se deu a volta e retornou para ele com passo lento, mas decidido, estudando atentamente suas notas. — Em seu imóvel da costa, a uns dezenove quilômetros ao oeste da cidade. Tem quatro filhos (três meninos e uma menina, a maior) e uma esposa ingênua, mas encantadora, com que se casou em segundas núpcias faz três anos e que lhe tem o dobro da idade.

Jonathan alargou a mão para a taça de café, esvaziou o conteúdo de dois goles e levantou quando ela se deteve seu lado. Contemplou a cara da mulher, o cabelo negro reverberando ao sol, os olhos brilhantes e acordados, a pele branca e com um ligeiro aroma de musgo. Madeleine suspirou, consternada. Que lástima não poder desfrutá-lo!

Depois de lhe entregar os documentos, ela seguiu com o assunto que se levavam entre mãos.

—Informei-me sobre ele e sua família tudo o que pude durante as últimas semanas. Tem quarenta e oito anos, é inteligente e mantém velhas relações, embora se saiba que cometeu enganos. É respeitado, e em geral goza da simpatia dos de sua geração, e quer a seus filhos, em especial a sua filha. Adora a sua mulher, embora prefira mantê-la em casa enquanto ele atende outros assuntos que julga mais importantes, incluída, se for certo o rumor que corre, alguma amante ocasional. É um legitimista furioso, embora não alardeia disso. Despreza ao Luis Felipe; pensa que o rei é no fundo um boneco de pano, um homem incapaz de controlar as pessoas. Quer que Enrique volte para trono por razões evidentes, mas não consegui determinar até onde é capaz de chegar em seu empenho nem se está planejando alguma ação imediata ou nenhuma.            

Deu uns ligeiros toques sobre o papel com uma unha perfeitamente cuidada.   

—Incluí um breve relatório sobre o conde de Arlés, o que pude encontrar da história da família, bem como um plano bastante fidedigno dos jardins e da casa. Estive dentro duas vezes. Também encontrará um convite para um baile em comemoração ao décimo oitavo aniversário de sua filha a semana que vem. Não creio que tente vender as esmeraldas antes de então. Não penso que esteja preparado. E — disse, baixando a voz— corre o rumor de que a filha possa luzi-los para a ocasião.

Jonathan levantou a vista para ela bruscamente.

—Sério?

—É sozinho um rumor — voltou a dizer—, mas digno de considerar.

—É obvio.

Ela o olhou folhear atentamente a informação.

—Sua identidade fictícia é relativamente singela — prosseguiu Madeleine. —Jonathan Drake, um inglês refinado que compra imóveis na França para enriquecidos aristocratas europeus. O conde de Arlés tem uma preciosa casa de vinte e duas habitações nos subúrbios de Paris que tenta vender. Também encontrará aí a informação a esse respeito.

—Necessita dinheiro? —perguntou Jonathan pensativamente com o cenho franzido.

Madeleine ficou a jogar distraidamente com o encaixe de seu pescoço.

—Não acredito. O mais provável é que sua nova esposa pretenda dedicar seu tempo a vadiar na costa mediterrânea. Adora isto.

—Mmm... —Jonathan esperou, pensando. — E como consegui o convite?

—Através de mim. Vimo-nos rapidamente uma ou duas vezes nos últimos anos. Você encontrou um comprador para a propriedade que meu defunto marido tinha no São Rafael, recorda?

—Ah, sim! — Jonathan dobrou os papéis e os meteu no bolso da levita. — Necessitaria outro convite, se minha companheira de viagem me acompanha como minha esposa?

Madeleine ficou ligeiramente desconcertada. Cruzou os braços sobre o peito e o olhou com receio.

—Não. Em realidade pode que fora melhor se levasse uma esposa. — Sacudiu a cabeça à medida que foi caindo na conta do plano de Jonathan. — Se pretende utilizá-la sem que saiba quem é você, tem que ser excepcionalmente atrativa, ou simpática, para que você se arrisque. Acredito que conta com essas vazas como manobra de distração, equivoco-me?

Jonathan sorriu abertamente em resposta.

—É inteligente?

—O suficiente para ser um problema.

Madeleine mordeu suavemente lábio inferior.

—Se for tão inteligente, cedo ou tarde acabará descobrindo seu segredo, Jonathan.

Foi uma advertência feita com uma boa dose de regozijo.

Rindo-se entre dentes, Jonathan se confiou:

—Estou desejando que chegue esse momento com um prazer que lhe resultaria incompreensível. — Agarrou-lhe os dedos na palma da mão, preparado para despedir-se. — Estará na festa?

—Sim, é obvio — respondeu ela em voz baixa.

—Então, poderá me dar seu parecer quando a conhecer. — Levando a mão de Madeleine aos lábios, beijou-lhe o dorso sem deixar de olhá-la aos olhos. — Foi todo um prazer, Madeleine.

De novo, e pela segunda vez em muitos anos, ela sentiu que lhe ardiam as bochechas.

—Até o baile, madame DuMais.

E dizendo estas palavras, soltou-a e se dirigiu tranqüilamente para a porta. Madeleine o seguiu até a entrada, enquanto Jonathan se detinha para recolher o chapéu do cabide, e logo saiu atrás dele no alpendre branco com persiana, banhado por um sol radiante.        

Jonathan se deteve de repente e voltou para ela com expressão pensativa.

—Quanto ao convite que recebi esta manhã foram consideradas conscienciosamente — revelou em voz baixa. — E é obvio, nenhum foi tomada à ligeira. Sinto-me muito adulado. Quão único lamento é não poder os aceitar todos.

Madeleine sorriu abertamente, alargou a mão para lhe agarrar a sua e a apertou com ternura.

—Segredos de amigos, Jonathan.

Com um sorriso, Drake saudou com a cabeça uma só vez, depois percorreu o caminho de tijolo e atravessou a concorrida rua.

 

Capítulo 5

Natalie estava sentada na estreita habitação do hotel em uma desvencilhada poltrona de opaco veludo cor damasco, tamborilando com os dedos sobre o braço do assento com impaciência. Tinham transcorrido três horas desde sua volta, um tanto precipitado porque tinha um pouquinho de medo a que ele se deu conta de que o estava seguindo, e ela queria parecer indiferente e aborrecida, em lugar de curiosa e, sim, embora se sentisse resistente a admiti-lo, inclusive irritada pelo que tinha visto. Durante a espera, tinha alternado as voltas pela habitação e a poltrona, abanando-se para evitar derreter-se com aquele mormaço, escutando o tráfico do meio-dia além da janela aberta, sem apartar o olhar nem um instante da porta.

Até esse momento, sua viagem tinha sido rotineiro, embora não era capaz de encontrar as palavras para descrever sua primeira impressão de Marselha. Encantadora, matizada, única... Tudo a descrevia. Tinha estado na França três ou quatro vezes nos últimos anos, mas nunca no sul do país, e em muitos aspectos esta cidade portuária meridional, com seu tranqüilo encanto e sua estranha mescla de bulevares buliçosos e estreitas e solitárias ruas escalonadas, era distinto a qualquer outro lugar que ela conhecesse.

Assim que chegaram, Jonathan se tinha dirigido a um pequeno hotel não longe do porto, e ela o tinha seguido obediente sem fazer nenhum comentário quando, com desânimo, seu olhar  pousou na habitação que lhes tinham atribuído, na confiança de que não permaneceriam nela muito tempo. Era uma habitação velha e puída, e o mesmo hotel alojava a mais estranha variedade de gente, embora soubesse que, em parte, sua valoração se devia a ter vivido toda sua vida resguardada do mundo, exceção feita das aulas de piano, as viagens à costureira, os eventos e os sermões de sua mãe.

O tempo passado a bordo tinha transcorrido sem incidentes depois do primeiro dia, enquanto Jonathan se mostrava já silencioso e meditabundo, já falador e amistoso. Embora no fundo tivesse parecido distraído, inclusive inquieto, e lhe tinha agradado encantada em seu desejo de manter o silêncio entre ambos. Em realidade, trazia-lhe sem cuidado o mau humor do Jonathan, mas se viu obrigada há refletir um pouco a respeito de quais seriam as causas possíveis de preocupação de um cavalheiro folgado.

Em realidade, tinha que admitir que tampouco lhe importasse dormir com ele... Se é que era assim como terei que chamá-lo, e pensava que era assim como alguém teria que chamá-lo. De fato, tinha encontrado a presença do Jonathan reconfortante, e seu corpo extremamente protetor, ao despertar aquela primeira manhã e descobri-lo em sua posição adormecido, aconchegado contra suas costas, com os braços rodeando-a e atraindo-a para ele, a cara entre seu cabelo e a respiração em sua nuca. Não tinha tentado beijá-la, nem sequer a tocara de maneira inadequada; e posto que tivesse sido um perfeito cavalheiro, em lugar, de apartar-se, se aconchegou ainda mais sob as mantas e contra ele, posto que, depois de tudo, estava-a protegendo — ele havia dito que era seu dever, — e se supunha que ela tinha que consentir aquela parte dele inconfundivelmente masculina. De todos os modos, Jonathan parecia um tanto imune a seus encantos desde sua conversação da primeira noite no camarote do navio.      

Mas nesse momento levavam em Marselha quase dois dias, e; era o turno de Natalie de sentir-se inquieta. Estava preparada para mais excitação, mais aventura. Era verdade que encontrava certo prazer em observar às pessoas, mas já estava bastante versada na cultura, costumes e história da França, e estava ali com um propósito e tinha uns planos que levar a cabo. Queria mais ação. Por fim, fazia só umas poucas horas, tinha conseguido o que queria.

Depois de um ligeiro café da manhã com pastéis e café (que já gostava mais que o chá), Jonathan lhe informou inesperadamente de que tinha que assistir a uma entrevista iminente, a razão, conforme parecia, de sua viagem a França. Essa foi a primeira vez que Natalie tinha ouvido falar de seus planos, os que ela pensava explicavam as razões da viagem de Jonathan para aquele porto do sul. Bem cuidadoso, ele tinha sido um pouco matreiro quanto a suas intenções. Mas isso não era assunto dela, repetia-se sem cessar Natalie.

Não obstante, houve algo nos escuros olhos de Jonathan, na sutil evasiva durante o singelo café da manhã, que despertou a curiosidade dela. Ela não tinha mencionado ao Cavalheiro Negro desde a primeira noite que passaram juntos, embora estivesse segura de que Jonathan sabia que cada vez estava mais ansiosa por encontrar-se por fim cara a cara com a lenda. Ela aceitava as condições do Jonathan, mas tampouco queria esbanjar seu tempo na França. Com seu estranho comportamento dessa manhã, se é que lhe podia chamar estranho, Natalie se viu invadida pela entusiasta crença de que ele talvez tivesse intenção de encontrar-se com o ladrão esse dia.

Assim, deixando a um lado todo bom julgamento, tinha fingido que lhe doía a cabeça, tinha-lhe comunicado seu desejo de ficar descansando e depois o tinha seguido quando saiu do hotel às nove e meia. Mas Jonathan não se reuniu com o ladrão, e sim com uma mulher, e uma de extraordinária beleza, além disso, embora Natalie só tivesse alcançado a ver fugazmente a elegante figura do outro lado da rua, quando a dama tinha saído ao alpendre dianteiro entre um alvoroço de saias, uma figura esbelta, cheia de graça e cabelo brilhante coberta de seda e encaixes.

A reação inicial de Natalie foi de surpresa; não se tinha esperado que se reunisse com uma mulher, em casa desta e em pleno dia. E para que? Então se viu invadida de idéias e sentimentos que não foi capaz de descrever com precisão; uma intrincado confusão de aflição, aborrecimento e algo ao que não pôde pôr nome. Não era uma ignorante rematada. A mulher era seu amante, isso era evidente, porque esse homem as tinha a montões. O que tanto a perturbava era que ele sentisse a necessidade de reunir-se com uma delas nesse momento, nessa viagem, quando em realidade deveria ter coisas mais importantes nas que ocupar seu tempo.            

Natalie suspirou, fazendo tamborilar os dedos ainda com mais força sobre o desvencilhado braço da poltrona, e recostou a cabeça no respaldo para olhar fixamente a pintura que se descascava do teto, sentindo-se incrivelmente molesta porque desfrutava enormemente da companhia de um homem com uma reputação tão nefasta. Quase sorriu ao perguntar-se rapidamente se queria estar com ele porque o gostava como pessoa ou porque sua mãe ficaria absolutamente consternada pela falta total de julgamento de sua filha.           

O ruído de uma chave na fechadura fez que se erguesse imediatamente e ficasse alerta. Jonathan entrou, tranqüilo e a gosto em seu terno entalhado sem uma dobra nem ruga no tecido. Natalie teve problemas para conservar a lucidez quando, com muita acuidade, caiu na conta de que era natural que seu traje não tivesse nenhuma ruga, posto que durante meio manhã não o tivesse tido posto.

Depois de fechar a porta atrás dele, Jonathan arrojou o chapéu sobre a cama pequena e estreita e se voltou por fim para ela, olhando-a de cima abaixo enquanto seguia sentada na cadeira, demorando o olhar em todas as curvas que podia detectar sob a seda cor lavanda. Em opinião de Natalie, aquele homem carecia de decência por completo.     

—Vejo que se encontra melhor — observou ele com lentidão.       

Ela se sentiu um pouco envergonhada, encontrando-se pior de repente. Tinha calor e estava suarento, e uns quantos cachos soltos lhe pegavam à cara e ao pescoço; por força tinha que lhe apresentar um aspecto verdadeiramente espantoso.

—Sim, estou muito melhor, obrigado — respondeu com um sorriso forçado. —Me sinto de maravilha. —Agitou o leque de marfim diante de sua cara com uma mão, enquanto que com a outra secou a suarenta bochecha, perguntando-se como Jonathan podia ter um aspecto tão viçoso e sereno com um calor tão sufocante. Talvez a brisa marinha que ele acabava de abandonar não pudesse encontrar a maneira de entrar no hotel. Natalie deveria ter ido bisbilhotar nas bancas dos vendedores ambulantes, em lugar de encerrar-se na habitação a esperá-lo. Sem dúvida, teria utilizado o tempo de forma mais construtiva.

A expressão do Jonathan adotou um ar pensativo enquanto permanecia de pé diante da porta.

—Fez algo enquanto estive fora?

Ela mordeu o lábio para evitar soltar alguma mentira incrível. Se lhe mentisse, ele saberia imediatamente.

—Fui dar um passeio. Fazia muito calor.

—Mmm...

Natalie desviou o olhar para o leque, com o que começou a dar-se golpezinhos no regaço distraidamente.

—E onde esteve, Jonathan?

Depois de um silêncio prolongado, ela elevou as pestanas apenas o suficiente para vê-lo. Seu coração acelerou quando se encontrou com o franco olhar de Jonathan.

—Esta manhã tive uma reunião de trabalho, Natalie.

O engano fez que ela começasse a jogar fumaça pelas orelhas.

—Desejo de coração que lhe resultasse absolutamente proveitosa — replicou ela com veemência.

Para ouvir isso, Jonathan começou a aproximar-se dela lentamente, enquanto uma das comissuras de sua boca se curvava para cima.

—Alegra-me dizer que foi muito proveitosa. — Deteve-se diante dela, com as mãos nos quadris debaixo da levita, que agora levava retirada por detrás dos braços. —E seu passeio?

Natalie piscou.

—Meu passeio?

—Não se faça a afetada comigo, querida Natalie.

Moveu-se inquieta na cadeira, apenas capaz já de olhá-lo à cara, olhando em troca com hostilidade os botões de marfim de sua camisa.

—Foi um passeio encantador, embora como já houvesse dito, fazia muito calor.

—Talvez caminhasse muito depressa — sugeriu ele com um tom agradável, alargando a mão para o leque dela, que lhe arrancou rapidamente da mão e que logo o atirou sobre a cama, situada a sua esquerda. — É difícil caminhar devagar quando a gente tenta seguir a alguém.

Surpreendida, Natalie abriu os olhos como pratos. Então, ele a agarrou pelo braço nu e a fez levantar-se, sujeitando-a tão próxima a ele que quase se tocaram. Esquadrinhou-lhe o rosto, mas sem raiva, quase com um ar divertido.

—Por que me seguiu? — perguntou ele com evidente estranheza.

Sua respiração roçou a pele acalorada dela enquanto lhe sustentava o olhar, e ela se fartou do jogo.            

—Por que sentiu a necessidade de visitar sua amante às dez da manhã, ao segundo dia de nossa estadia na cidade? Seus impulsos devem ser incontroláveis, Jonathan.

Natalie teus problemas para definir a expressão do Jonathan. Ao princípio pareceu ficar estupefato por suas palavras, ou possivelmente só por sua ousadia. Depois, sua boca retorceu-se para cima, e baixando a voz, disse tranquilamente em um sussurro:        

—Estou controlando meus impulsos à perfeição, Natalie. — Intensificando a pressão sobre seu braço, atraiu-a para ele até que o traje de Natalie se franziu entre eles, e seus seios lhe roçaram o peito. — A mulher que viu não é minha amante.

Natalie sorriu com sarcasmo, mas não tentou apartar-se.

—Não sou idiota, Jonathan.

—Nunca pensei que o fora — aceitou ele com rapidez—, mas sim ingênua.

O fogo iluminou os olhos dela.

—Não sou tão ingênua para não saber o que acontece entre um homem e seu amante. E você parece fazê-lo mais do necessário.

Jonathan teve que esforçar-se ao máximo para não mover um músculo da cara. Era incrivelmente adorável, ali sentada, naquela diminuta e calorosa habitação de hotel, esperando durante horas a que ele voltasse, ciumenta sem dar-se conta sequer de que o estava. Saber-se capaz de ler nela com tanta claridade fez que as vísceras do Jonathan ardessem de pura satisfação. Sempre teria essa vantagem, e ambos sabiam.

Natalie seguiu lhe sustentando o olhar de maneira desafiante, com a contrariedade lhe enrugando a fronte, a pele quente e perolada de suor a causa do calor e a umidade, com um aspecto ridiculamente inadequado com aquele traje do verão, confeccionado pensando exclusivamente no clima da Inglaterra. Tinha o mesmo atrativo que uma sedutora com muita roupa que, em uma sauna, provocasse-lhe com um olhar calculador que dissesse: «me dispa, se  atrever». Com toda sua inocência e incapacidade para saber até que ponto o provocava fisicamente, tinha-o estado deixando louco de desejo desde que abandonaram a Inglaterra, sobre tudo na cama, quando se aconchegava contra ele com sua camisola quase transparente, e ele não podia fazer nada senão conter-se.

Os olhos do Jonathan se entrecerraram diabolicamente enquanto seguia apertando-a contra ele.

—O que acredita que faço mais do necessário?

Ela jamais teria esperado aquela pergunta, e Jonathan soube que a tinha confundido quando observou a sombra de dúvida no rosto dela.

Nervosa, levantou as palmas para os braços do Jonathan para apartá-lo.

—Isso é irrelevante, e me nego a falar de seus problemas... Íntimos, quando não são meu assunto.

Desfrutando plenamente da situação, Jonathan se negou a soltá-la, desejoso de ouvir os intentos de Natalie de abandonar a desagradável conversação a que ela tinha dado começo.

—Creio que é relevante — disse ele por fim, com um exagerado suspiro. —Me diga, querida Natalie, sabe tudo o que ocorre intimamente entre um homem e uma mulher ou só retalhos e coisas soltas?

Ela se retorceu, voltando sua atenção para a porta para evitar o penetrante olhar do Jonathan.

—Não vou falar disso.

—Foi você quem tirou o tema — replicou ele com prazer.

Inquieta, Natalie se espremeu a moleira para discorrer uma resposta adequada, ou ao menos algum meio de dar por resolvido o assunto. Ao final, recompôs a expressão e tornou a olhá-lo nos olhos.

—Tenho uma idéia excelente do que ocorre intimamente entre um homem e uma mulher. Agora, se fizer o favor de me soltar Jonathan. Tenho muita fome e eu adoraria comer algo.

Não a teria soltado nesse momento nem por todo o ouro do mundo.

—Uma idéia excelente? — disse ele, quando Natalie não acrescentou nada mais, prosseguiu com o desafio. —Recorda quanto tempo estive em casa dessa mulher?

Os olhos dela brilharam intensamente.

—Lembra que era formosa, e que não era precisamente o Cavalheiro Negro, a única pessoa com a que deveria haver-se reunido hoje. Pago-lhe para que nos apresente. Talvez pudesse tratar de recordar isso.

O impulso de beijá-la se converteu de repente em algo entristecedor.

—Responda a minha pergunta — insistiu ele, pelo contrário.

Ela vacilou, suspirou, e então, proclamou:

—Ao menos dez minutos.

Ele se inclinou para aproximar-se muito a ela e sussurrar:

—Os encontros íntimos revistam durar alguma coisa mais que dez minutos.

Ela sorriu triunfalmente.

—Mas não, disso estou segura, para alguém de sua experiência, Jonathan.

Jonathan soltou uma sonora gargalhada e a apertou contra ele, lhe rodeando a cintura com os dois braços, desfrutando da sensação de esmagar contra seu peito os seios suaves e perfeitamente formados dela.

—Quanto tempo demoraria em tirar e voltar a pôr todas estas capas e capas de roupa?

Ela olhou-o boquiaberta, ficando muda por uma vez.

Saboreando a doce vitória, Jonathan sussurrou:

—Levar-lhe-ia exatamente todo esse tempo.

Esclarecido o extremo, soltou-a.

Indignada, Natalie soube que ele ganhara no momento, porque o assunto lhe resultava muito perturbador e estranho para seguir discutindo. Observou-o dirigir-se até a pequena cômoda de cerejeira lascada e descolorida, abriu a gaveta superiora e tirou uma camisa. Ao dar-se conta de que tinha intenção de trocar-se, deu-lhe as costas, pensando com rapidez a maneira de passar a um tema mais apropriado de conversação sem que ele se precavesse de que o fazia de maneira deliberada, assim, quando finalmente Jonathan o fez por ela, sentiu-se agradecida.

—Vamos daqui — disse detrás dela.

Ela cruzou os braços à altura do peito.

—Aonde vamos?

Ouviu o rangido da roupa enquanto imaginava tirando-lhe e refreou o impulso de olhar às escondidas. Em que pese a todos seus defeitos, e fazendo caso omisso de sua virtuosa educação, considerava que o peito despido de Jonathan era uma das maravilhas da natureza.

—Vou levá-la a algum lugar mais agradável e fresco — respondeu ele. —Aí é onde estive estas três últimas horas, se por acaso o estava perguntando. Procurando um alojamento onde você estivesse mais cômoda.

Nesse momento, ela sentiu uma pontada de culpabilidade. Presa de um crescente acanhamento balbuciou:

—Espero que não esteja pensando em que nos alojemos em casa da francesa.           

Ele riu entre dentes quando Natalie lhe ouviu sentar-se na cama.

—Seu nome é Madeleine DuMais, e penso que a gostará; e não, não ficaremos em sua casa.

«Gostará de» implicava que foram se conhecer, e Natalie já não pôde conter sua curiosidade por mais tempo. Apartando-os cachos pegajosos da bochecha, e com toda a indiferença da que foi capaz, perguntou:

—Tenho que supor que a senhorita DuMais conhece o Cavalheiro Negro, e que essa foi a razão de sua visita?

Ao não lhe responder imediatamente, Natalie se permitiu dar a volta para ele para lhe ver ficar concentrado nos sapatos e assimilar seu impressionante aspecto, transformado em informal com umas calças marrom escura e uma camisa de seda branca parecida com a que levava o primeiro dia depois de zarpar. Sem dúvida, não levava muita variedade de roupa.

—Jonathan? — insistiu, cansada de esperar respostas.

Ele a olhou de esguelha, e a sensação de que estava zangado ou de que talvez ocultasse algo renasceu em Natalie.  

Ao fim, Jonathan passou os dedos de uma mão pelo cabelo, fincou as palmas nos joelhos e se impulsionou para levantar-se. Com as mãos no quadril, olhou-a sem rodeios.

—A viúva senhora DuMais está tratando de consertar uma reunião de trabalho entre o conde de Arlés e eu para o final desta semana.

Ela piscou, surpreendida.

—Uma reunião de trabalho entre você e um conde francês?

—Sim.

—Consertada por uma jovem e encantadora viúva — afirmou mais que perguntou ela, pronunciando cada palavra com precisão.

Jonathan estendeu as palmas das mãos.

—Exato.

Aquilo lhe pareceu tão absolutamente ridículo que Natalie sentiu vontades de aplaudir. Contendo o impulso, limitou-se a levantar o queixo com cumplicidade e a tamborilar com os dedos na manga de seu vestido. E com ar acusador e certa dose de sarcasmo, disse:

—E suponho Jonathan, que posto que seu negócio consista em comprar e vender coisas, sua intenção é comprar alguma inestimável antiguidade a esse homem. — Seus olhos se iluminaram de maneira espetacular. —Vá! Possivelmente uma nova arma para sua parede.

Jonathan a observou um ou dois segundos com cara inexpressiva. Ato seguido sacudiu a cabeça lenta e desinteressadamente com assombro.

—Como o adivinhou?

—Que como o...? —ela deixou de falar bruscamente e o olhou boquiaberto com crescente incredulidade. — Está aqui para comprar uma arma ao conde de Arlés?

Ele levantou as sobrancelhas com inocência.

—Uma espada, em realidade.

—Uma espada — repetiu ela cansativamente, já com as mãos apoiadas a ambos os lados da cintura. — Faz toda esta viaje até a França para comprar uma espada para sua parede.

—Sim, em efeito.

—Do conde de Arlés.

—Sim.

—E a encantadora senhora DuMais o arruma tudo.

Jonathan se encolheu de ombros.

—Creio que não deixamos nenhum cabo solto.

—Penso que eu gostaria de ver essa sua espada — exigiu ela com suspeita.

Ele sorriu ironicamente.

—Assim que chegue o momento oportuno, Natalie. Deixarei que lhe jogue uma boa olhada.

Inclusive nesse momento se mostrava arrogante. A ela não lhe ocorreu nada que lhe dizer, bem lhe estivesse mentindo descaradamente, bem tomando o cabelo ou pondo desculpas para ocultar seu romance com a encantadora senhora DuMais. Natalie achava muito incompreensível que qualquer homem, inclusive ele, um cavalheiro com muito tempo e dinheiro em suas mãos, viajasse ao estrangeiro simplesmente para comprar uma espada a fim de pendurá-la em uma parede. Mas se Jonathan estava inventando uma história incrível, ela jamais se daria conta, porque era incapaz de lhe ler os pensamentos, e isso era o que na verdade a enfurecia. Ele sempre parecia poder adivinhar o que ela estava pensando.

Jonathan voltou para a cama e alargou a mão para agarrar a levita.

—Estamos convidados a um baile em seu imóvel na sábado — prosseguiu com indiferença, dirigindo-se para o pequeno armário roupeiro. —Dou por sentado que tem algum vestido adequado escondido em alguma parte entre os montões e montões de coisas que trouxe.

Era uma afirmação, não uma pergunta, e ela fez caso omisso. Sua incapacidade para viajar com pouca bagagem era um assunto delicado entre eles.

—E antecipando sua pergunta — continuou ele, nesse momento ajoelhado diante de seu único baú — enviei uma mensagem ao Cavalheiro Negro.

—E espera até agora para me dizer isso - espetou-lhe ela.

Jonathan não fez conta.

—Não respondeu, mas corre o rumor de que também projeta assistir à festa.

—Por quê?

—Como?

—Que por que vai assistir a essa recepção privada? —esclareceu ela exasperada.

Ele levantou os ombros de forma apenas perceptível, mas não a olhou.

—Deveria supor que tem um bom motivo, embora a verdade é que não tenho nem idéia.

—Sem dúvida para roubar a apreciada espada do conde — ela sugeriu com sarcasmo.

Jonathan esboçou um sorrisinho de suficiência.

—Possivelmente leve a você em seu lugar, minha doce Natalie.

Suas alegres palavras não foram escutadas. As possibilidades se amontoavam na cabeça dela, o coração lhe pulsava com força diante as expectativas, e de repente, a senhora DuMais e o conde e as espadas e França lhe importaram um cominho. Faltavam sozinho uns dias para o encontro de sua vida.

Jonathan aproximou e se deteve diante dela, olhando-a fixamente à cara, e seus maravilhosos olhos adquiriram um ar pensativo. Então, de maneira de tudo inesperada, levantou uma mão até a bochecha dela, sobressaltando-a momentaneamente ao sentir o tato de sua pele quente na sua.

—Reunir-se com ele é extremamente importante para você — disse ele em voz baixa e considerada.

Ela respirou fundo, mas não se apartou.

—Sim, é-o.

Jonathan guardou silêncio durante um bom momento, estudando-a enquanto lhe acariciava o queixo com o polegar.

—Gostará de Madeleine, Natalie — insistiu com prudência. —É uma mulher alentadora e experimentada, e estas qualidades fazem-na interessante. — Desceu a voz até convertê-la em um sussurro. —Mas a inocência e a paixão que sente você por tudo o que a vida tem que oferecer a faz bastante mais formosa que o que ela possa chegar a ser nunca.

Natalie ficou sem fôlego ante o olhar de sincera revelação que havia nos assombrosos olhos cinza azulados do Jonathan. Mas antes que ela tivesse a oportunidade de apartar-se, ou de entender com exatidão o que ele havia dito, Jonathan deixou cair seu braço e se dirigiu para a porta a grandes pernadas.

—Recolha suas coisas — acrescentou ele sem olhar atrás. —Vou abaixo a procurar um meio de transporte o bastante grande para levar seu incrível vestuário.        

E dizendo isto, saiu, deixando-a uma vez mais com a mesma sensação formigante em seu interior, aquela cansativa sensação de impotência e confusão de que Jonathan Drake tinha um dom especial para pôr ao descoberto seus pensamentos.

 

Capítulo 6

Todo aquele assunto do Cavalheiro Negro estava começando a lhe chatear. Durante anos tinha interpretado o papel à perfeição, quando não com gozo. Ele tinha inventado o personagem e, sim, sua parte mais puramente egocêntrica se orgulhava da assombrosa popularidade que tinha conseguido em toda a Europa durante os últimos seis anos. Entretanto, o que o tinha feito agradável era o reduzido número de pessoas que sabiam que Jonathan Drake, segundo filho de um conde virilhas normal e corrente, fora a lenda.

Mas, pela primeira vez, sua fama lhe estava ocasionando problemas. Era evidente para a Natalie que se converteu em alguém quase sobre-humano, ao menos para ela. Dada sua obsessão pelo mito, mostrou-se distante, quando não impermeável, à presença do Jonathan desde que abandonaram Grã-Bretanha. Ela estava profundamente afetada por seus beijos, e por seu tato, coisas ambas, que ele tinha controlado a requerimento dela. Mas, além disso, Natalie não parecia absolutamente impressionada com ele; com o Jonathan Drake, o homem. Quando pensava nisso com crescente desagrado, chegava à desagradável conclusão de que fracassar miseravelmente em seduzir a uma mulher era algo que não lhe tinha acontecido em toda sua vida.

Durante os últimos três dias a irritação que isso lhe causava tinha estado bulindo no mais profundo de sua consciência. Tinha a estranha idéia de tentar agradá-la, a ela, uma mulher com a que não se estava deitando, fazendo que se sentisse cômoda e levando-a a ver os lugares interessantes da localidade para passar o tempo. Tinha gasto uma pequena fortuna em encontrar um alojamento em um escarpado da costa mediterrânea, com uma espetacular vista do oceano azul marinho e uma brisa constante para que estivesse fresca. Que a moradia fora até certo ponto íntima e estivesse situada a menos de um quilômetro da propriedade do conde do Arlés obrava em proveito do Jonathan, embora só visão dos olhos do Natalie brilhando de alegria ao entrar pela primeira vez na acolhedora casa de uma planta recém decorada produziu ao Drake uma enorme satisfação. Durante três dias Natalie tinha estado deslumbrada com a beleza circundante... E se tinha comportado com uma naturalidade absoluta com o homem que se esforçava em chamar sua atenção. Para seu chateio, Natalie não lhe ignorava exatamente, só parecia estar absolutamente consumida por um homem que não existia. E isso o que significava? Que estava ciumento de si mesmo? A coisa não deixava de ter sua graça.

Mas o que lhe picava a curiosidade até um extremo exagerado era que Natalie não atuasse absolutamente como uma mulher apaixonada, e ele conhecia muito bem a expressão de uma mulher apaixonada. Natalie não sonhava com o Cavalheiro Negro, centrava-se no homem como em um mistério, o qual carecia de toda lógica. Jonathan podia compreender a passiva consideração para um companheiro de viagem masculina se ela estivesse apaixonada de outro, embora fora um mito, mas cada vez lhe resultava mais evidente que esse não era o caso de Natalie. Tinha arriscado sua reputação, que o era tudo para uma dama inglesa, para viajar até a França para encontrar-se com um homem ao que não conhecia nem adorava. Então, estava-lhe mentindo a respeito de suas pretensões matrimoniais com o ladrão? E o que passava com a reação do Natalie o dia que ele se reuniu com a Madeleine? À maturação Jonathan teve a absoluta certeza de que estava ciumenta, mas nesse momento estava começando a acreditar que tão só se zangou com ele por lhe fazer perder o tempo não lhe apresentando ao Cavalheiro Negro mais depressa. Toda aquela situação o preocupava porque não a entendia.

A essas alturas tinha que admitir: que estava começando a inquietar-se por tratar de ganhar o afeto de Natalie, embora, de fato, consegui-lo seria complicado. Sabia que, talvez, poderia seduzi-la, mas a risco de sua própria liberdade. Até não fazia muito tinha considerado o matrimônio como algo bastante remoto em um futuro longínquo, no melhor dos casos. Tinha toda a companhia feminina quando e como quisesse, e jamais se havia sentido interessado por atar-se a uma dama para o resto de sua, esperava, larga vida, por mais encantadora e formosa que ela pudesse ser. Mas à maturação, e por razões que não acabavam de ficar claras, tinha começado a considerá-lo a sério, sabendo que se escolhia sucumbir a aquele estado de constrangimento por satisfazer sua necessidade de acabar com sua crescente solidão podia escolher entre as inumeráveis mulheres que nesse momento estavam apaixonadas por ele. Se a levava a cama ao Natalie, teria que casar-se com ela, e esta era a única mulher que tinha conhecido que o desejava fisicamente, mas que não o queria por sua forma de ser como pessoa. E isso o irritava e confundia tanto que nem sequer sabia como digeri-lo. Era certo que talvez fora tão arrogante como o que mais ao dar por certo que poderia escolher à mulher que ele quisesse, sobretudo com sua fortuna, esmerada educação e elevada posição social. Mas também gozava do suficiente orgulho sincero para dar-se conta de que não quereria casar-se com alguém que não desfrutasse com ele, alguém a quem o fora indiferente sua personalidade, com independência de quão apaixonada pudesse chegar a ser entre seus braços.

Uma parte dele queria render-se, dizer a Natalie quem era ele, e devolvê-la em navio a seus pais para que pudesse esquecer toda aquela tolice. Mas não era capaz, em parte porque sua curiosidade sobre as intenções de Natalie era cada vez maior, e em parte porque simplesmente adorava estar com ela. Encontrava-a divertida e inteligente, cálida e reconfortante na cama e respeitosa com sua individualidade; era um sopro de ar fresco.

Portanto nessa manhã, depois de dias de incessante meditação, chegou a algumas conclusões. Era melhor ladrão que espião, mas podia ser tão embusteiro como ela. Descobriria os segredos de Natalie. Aonde lhes levaria isso no pessoal era algo que não podia adivinhar, mas a pressionaria sexualmente até que estivesse preparada, se é que chegava a está-lo alguma vez, e não a levaria a cama até que não tivesse a plena certeza de que podia confiar nela. Desejava-a terrivelmente, com um desespero crescente cada vez que Natalie passava por seu lado pavoneando-se, cheirando a sais de banho e flores, ou na cama, quando lhe colocava os pés entre as pernas com tanta doçura e apertava seu traseiro contra a rígida ereção do Jonathan, sem logo compreender ou não entendendo absolutamente o que estava fazendo. Ao final, se não era cuidadoso, Natalie poderia dar-se conta do poder que tinha sobre ele e utilizá-lo. As mulheres sempre o faziam, e Jonathan não podia permitir que isso ocorresse jamais. Ele precisava que ela o quisesse que o desejasse pelo homem que era que lhe suplicasse que lhe fizesse o amor. Mas como, começava a temer Jonathan, poderia deixar sem satisfazer sua maior fantasia. Entretanto, tinha que esforçar-se ao máximo.

Com uma percepção clara do menos qual era seu sítio em todo aquele assunto, tinha planejado um íntimo jantar campestre para eles dois ao anoitecer sobre o escarpado da costa — em realidade, em uma baía—, já dentro da propriedade do conde. Jonathan estava o bastante bem escondido para que ninguém dos da casa o descobrisse, mas o bastante perto para observar o edifício de acima e estudar sua estrutura do exterior, que parecia ater-se com precisão à descrição de Madeleine. Tinha encarregado um jantar excelente a um preço extravagante, consistente em vinho branco, torradas com queijo de cabra, mousse de linguado, chuletas de vitela em molho de cogumelos, laranjas frescas e uma surpresa que ainda tinha que lhe dar ao Natalie: morango coberto de chocolate. Embora Natalie não fizesse nada mais por ele enquanto estivessem na França, sim que acabaria levando-o a asilo de indigentes.

Neste momento estava sentada em frente do Jonathan, sobre uma manta, vestida com uma saia azul lavanda claro e uma blusa de musselina branca em cujos ombros refletia o resplandecente pôr-do-sol. Natalie tinha acabado por reunir o valor para mesclar-se um pouco com os aldeãos, e para adaptar-se ao caloroso verão em lugar de lutar contra ele, renunciando aos opressores espartilhos e às capas de tecido em benefício de um aspecto singelo e quase campestre. E tinha soltado o cabelo das suspensórias e ameaçadoras tranças que estava acostumado a enrolar ao redor das orelhas e a cabeça, de maneira que os dourados cachos acobreados caía soltos e livres por detrás dela, sujeitos sem complicação na nuca com uma singela cinta. Era um aspecto que ao Jonathan gostava enormemente ver nela, só superado, disso estava seguro, por sua figura nua retorcendo-se debaixo dele.

Jonathan trocou de posição, estirou as pernas por completo, cruzando um tornozelo sobre o outro, e bebeu de sua taça enquanto tentava concentrar-se na conversação. Tinham terminado de comer, e Natalie fazia o próprio com seu único copo de vinho, e levava dez minutos falando sem interrupção. Nem que o fora a vida nisso Jonathan seria capaz de recordar nenhuma só palavra do dito pelo Natalie, embora, decidiu que a eleição de tema que ela tinha feito — uma recente viagem a Brighton para um recital de poesia de um dos melhores poetas da Inglaterra— era absolutamente entediante; uma conversação de salão para a que não havia lugar em uma noite do verão tão esplêndida à borda do mar. Finalmente, ela se interrompeu, sorrindo-lhe, e Jonathan aproveitou a oportunidade para trocar de tema.

—Estou tendo problemas, Natalie — tirou colação com um ar intencionado de seriedade.

Ela arqueou as sobrancelhas com delicadeza.

—Problemas com o que?

Ele a olhou de marco em marco.

—Problemas para me acreditar sua história de que quer conhecer o Cavalheiro Negro.

Advertiu que os olhos do Natalie se abriam de maneira apenas perceptível e que suas bochechas empalideciam, e aqueles leves sinais de surpresa e preocupação pelo comentário lhe disseram muito. Estava ocultando algo, e ele se comportou como um parvo por não ser mais ardiloso desde o começo.

Desviando o olhar para a brilhante água de sua esquerda, molesto por sua cegueira interior, acrescentou com ousadia:

—Estive-me fixando, carinho, e é você muito calculadora. Não está apaixonada por ele, não tem nem idéia de quem é, e, entretanto, deixa tudo o que conhece para vir à França com um completo estranho a fim de conhecê-lo. —Olhou-a de soslaio. —Por quê?

—Você não é um completo estranho.

Disse as palavras com aspereza e cautela, e Jonathan a ponto esteve de felicitá-la por seu aceitável intento de evasiva. Mas aquelas palavras também ocultavam um significado. Pôde dar-se conta disso enquanto ela o observava com expressão cautelosa. Jonathan sentiu um repentino desejo de afundar mais.

Sorrindo, desafiou-a:

—Não somos estranhos porque temos um passado?

Aquilo, a negativa do Natalie a falar de seu breve encontro de fazia anos no jardim, também o irritava. Ela acabaria falando daquela noite, do insólito quando não instrutivo encontro entre eles, porque ele a obrigaria. Mas no momento se contentava esperando, procurando, em seu lugar, as respostas a uma situação mais imediata.

—Imagina que está apaixonada pelo Cavalheiro Negro, Natalie? — perguntou-lhe com mais brutalidade que a desejada.

Ela ficou a jogar com o suave tecido entre as gemas de seus dedos, guardando silêncio durante tanto tempo que a paciência do Jonathan começou a fraquejar. Ao final, através da brisa marinha, ela sussurrou:

—Apaixonou-se alguma vez, Jonathan?

Aquilo o pilhou completamente despreparado, tal e como ela sabia que ocorreria. Natalie voltou a levantar a vista, lhe olhando aos olhos sem rodeios. O estava perguntando com sinceridade, e ele se relaxou um pouco.

—Sim — admitiu sorrindo timidamente. —Se chamava senhorita Featherstone, e foi minha tutora durante dois anos. Estive loucamente apaixonado por ela durante sete meses completos, até que partiu a Brunswick, pouco antes que eu cumprisse os treze anos. Foi á primeira mulher que me rompeu o coração.

Natalie sorriu.

—A primeira?

—A única — se apressou ele a corrigir. —E não imagino que possa voltar a ocorrer.

Jonathan apertou os lábios, não por ira, a não ser para evitar soltar uma gargalhada.

—Por idade e experiência, Jonathan? Ou porque se crê absolutamente irresistível?

Ele se encolheu ligeiramente de ombros em um gesto de inocência.

—Porque entendo às mulheres.

—Vamos a sério?

Ela inclinou a cabeça, olhando-o com ironia, e Jonathan soube que ela estava a ponto de lhe perguntar quantos corações ele tinha quebrado, o qual, agora que o pensava, não eram nem com muito tantos como sugeria sua ridícula reputação.

—Assim alguma vez esteve apaixonado por alguma de suas muitas amantes?

Aquilo não era absolutamente o que ele esperava, e nesse momento se sentiu incômodo. Levou-se a taça de vinho aos lábios e esvaziou o conteúdo, e ato seguido começou a colocar a baixela na cesta do jantar.

—Por que é tão curiosa?

Ela se tornou para diante e recolheu as pernas sob a saia, abraçando-as joelhos.

—Sua vida e seus namoricos me interessam.

Jonathan duvidou completamente. Já estava começando acreditar que ela encontrava insípido, um aborrecido e pomposo comerciante de coisas tolas e inúteis. Natalie estava sendo deliberadamente matreira, embora Jonathan não fora capaz de entender com que fim.

—Em realidade, tive muito poucas amantes, e nunca mais de uma cada vez — se defendeu por fim, enquanto fechava a tampa da cesta e a tirava de em meio dos dois com um empurrão, ficando a um lado.

Ela o olhou com cepticismo, mas posto que, sua explicação era algo que possivelmente não poderia demonstrar. Jonathan não fez caso e seguiu adiante.

—Desfruto da companhia das mulheres, admito-o, mas tive bom cuidado de não me apaixonar por nenhuma delas. Assim, não, não acredito que tenha querido realmente a nenhuma, ao menos não como meu irmão parece amar a sua esposa ou meu pai parecia amar a minha mãe. Mas o que tem que ver meu passado com você e o Cavalheiro Negro?

—Se não sabe o que é amar — respondeu ela imediatamente—, como vai poder entender meu desejo de conhecer esse homem?

Ao Jonathan lhe esclareceu tudo.

—Está, dizendo que o ama de uma maneira que eu não compreenderia?

Ela dedicou-lhe um amplo e encantador sorriso.

—Exato. As mulheres revistam apaixonar-se por umas maneiras que os homens não compreendem.

Isso era absurdo, e a desconfiança do Jonathan se fez absoluta. Todo aquele vago falatório do Natalie sobre o amor era a forma que tinha de esconder seus motivos reais. Não lhe cabia a menor duvida.

Com a mão que tinha livre Jonathan tirou do bolso lateral da cesta um pequeno pote que continha quatro morangos cobertos de chocolate. Tirou um com supremo cuidado e a tendeu ao Natalie.

Surpreendida, esta deu um grito afogado de terminante prazer. O chocolate encontrava sempre uma maneira de triunfar na hora de agradar e deleitar a uma mulher que estava vedada aos homens, refletiu Jonathan. A maior parte daquilo ás vezes resultava desanimador, mas, de vez em quando, surgia uma ocasião em que se podia utilizar tal conhecimento como meio de manipulação. Como nesse preciso instante.

Natalie colocou o morango no oco da mão, deslizando a outra palma pela bochecha para apartar o cabelo que o vento agitava. Então, deu uma pequena dentada à fruta e cravou timidamente o olhar no Jonathan.

—Está tentando me seduzir, Jonathan?

Ele a ponto esteve de tornar-se a rir, tentando imaginar em vão qual poderia ser a idéia que tinha ela da sedução... Ou a que conduzia esta.

—Não — respondeu ele com soltura. Voltou a se recostar um pouco. —Só quero lhe agradar, Natalie.

Ela suspirou e consumiu o resto do morango a uma velocidade recorde, depois do qual se lambeu o chocolate da ponta dos dedos... Um gesto que Jonathan encontrou especialmente sensual.

—Você eu gosto muito — ela admitiu com acanhamento.

O corpo do Jonathan entrou em erupção, ao ouvir aquelas palavras tão inocentemente expressadas, e com aquela inquietação veio à mente a embriagadora imagem de lamber chocolate dos peitos do Natalie. Sentiu-se como um menino ao que lhe tivessem agradável um brinquedo novo.

—Muito?

Ela encolheu os ombros e evitou olhar para ele.

—Foi generoso e cortês, e respeitoso comigo e com minha intimidade. E me trouxe amavelmente a França sem discutir, para que conheça o homem de meus sonhos.

A expressão do Jonathan se desvaneceu. As imagens sexuais se esfumaram. Mas com a consternação chegou á esperança... E, de novo, o receio. Ela não tinha estado sonhando, a não ser planejando. Sua explicação era uma mentira flagrante.

—Tenho outro morango para você, se responder a meu seguinte pergunta.        

Ela sorriu maliciosamente.          

—O que é que gostaria de saber?

—Quero saber exatamente a razão de que esteja tão interessada em um ladrão mulherengo — perguntou com serenidade. —E quero a verdade. Não mais bate-papo sobre o amor e o matrimônio, porque não me acredito isso nem por um segundo.

Ela hesitou, piscou rapidamente, ensimesmando-se e voltando a rodear o corpo com os braços por comodidade. Deu a sensação de que transcorressem vários minutos sem que se dissesse uma palavra. E Jonathan esperou, negando-se a retroceder, olhando fixa e descaradamente os brilhantes olhos do Natalie, indecisos e calculadores.          

E por fim, com um suspiro que ultrapassou o som do chapinho das ondas, Natalie baixou o olhar e deu começo a uma revelação sincera.          

—Vim à França para contratar ao Cavalheiro Negro.

—Para contratá-lo? —repetiu Jonathan, desconcertado.

Nesse momento foi Natalie a que se sentiu absolutamente molesta.

—Seus serviços — esclareceu ela com voz rouca. —Necessito sua ajuda.         

Jonathan ficou completamente pasmado. Ao princípio não esteve seguro de havê-la ouvido bem. Mas depois de uns segundos de reflexão, a arriscada aventura empreendida por uma ardilosa, mas bem educada donzela inglesa começou a ter sentido. Isso não implicava que estivesse desesperadamente apaixonada de um mito; as implicações eram muito reais e bastante mais profundas. Nesse momento, Jonathan soube que jamais em toda sua vida se havia sentido tão idiota em relação a algo tão lógico.    

—Mas, por favor, não me peça que o discuta com você — continuou Natalie com rapidez, desviando o olhar para a água—. É... É muito pessoal.        

Ao Jonathan custou encontrar a voz, ou possivelmente tão só a resposta adequada a uma revelação tão surpreendente. Mas em algum lugar de sua mente já estava desfrutando-se das possibilidades que se abriam para ele... Para eles. Quão divertido poderia resultar tudo aquilo!

Tentando com muita dificuldade ocultar a alegria que lhe causava o giro dos acontecimentos, Jonathan pigarreou e se incorporou um pouco sobre a manta.

—Para sermos justos, Natalie, acredito que preciso entendê-lo. —Jonathan aproveitou a oportunidade para fazer que se sentisse culpado—. Você me mentiu desde o começo (em tudo), e eu confiei de bom grau em você. Conte-me algo.

Ela inclinou a cabeça.

—Não posso.

Ele pressionou em busca de detalhes.

—Tem que ver com você?

—Não — foi rápida a resposta do Natalie.

—Com alguém que lhe importa?

Ela se levou a palma da mão à fronte em um gesto de frustração.

—Com alguém a quem quero muito. Mas, por favor, não me faça mais perguntas, Jonathan. Só posso contar-lhe a ele.

Aquilo incomodou ao Jonathan, embora não esteve seguro da razão.

—Está aqui para ajudar a um homem de que está apaixonada?

Natalie levantou com brutalidade, mas lhe agarrou pelos pulsos antes sequer de que pudesse pensar em fugir.

—Me responda a isso, Natalie — exigiu em voz baixa.

Uma repentina rajada de ar agitou a ligeira saia do Natalie contra suas pernas e a inflou por detrás; de mau humor, ela tentou mantê-la em seu sítio com um tapa.

—Se por acaso lhe interessa, lhe direi que não estou apaixonada por ninguém.

—Nunca conheci a uma mulher que me confunda tanto como você — ele admitiu, aproveitando-se ao máximo da maravilhosa exibição de suas curvas, dos seios até os tornozelos, perfilados nesse momento diante sua vista. Jonathan sentiu um calor selvagem e familiar ao considerar fugazmente lhe acariciar a perna, envolta naquele suave tecido. —Explique-se, e me absterei de lhe fazer mais pergunta pessoais.

—Não posso — sussurrou com ferocidade. Uns segundos depois, ela suavizou seu tom. —Ao menos, não no momento.

Ele respirou fundo, calculando as opções que tinha. Natalie não o diria, e isso o chateava, por que... Por quê? Porque ou não confiava nele, ou tinha algo que esconder. Jonathan sabia que o desesperado intento do Natalie por contratar ao Cavalheiro Negro não poderia ter nada que ver com nenhum delicado assunto feminino, porque, tratasse-se do que se tratasse o mito também era um homem, e todo mundo sabia. Mas o mais importante era que se tratava de um ladrão, o qual, em si mesmo, significava que, com quase absoluta segurança, Natalie o queria para que roubasse algo por ela. Por nada do mundo Jonathan era capaz de imaginar do que poderia tratar-se... Um pouco tão comprometedor ou horrível, um pouco tão pessoal, que era a palavra que ela tinha utilizado, ou inestimável, que ela o arriscasse tudo por sua causa. Ou pela pessoa que queria.

Tinha que refletir sobre esta última. Sabia que ela não tinha irmãos, e se era capaz de acreditar em sua insistência a respeito de que não estava apaixonada por nenhum homem, isso só podia significar que se tratava de sua mãe ou de seu pai. Ele não acreditava que ninguém pudesse meter-se em tantos problemas, atacar essa classe de perseguição, desesperada por um primo ou qualquer outro parente longínquo, e nem sequer, provavelmente, por uma amiga muito íntima. O único consolo que ficava supôs que ela acabasse finalmente por contar-lhe quando se inteirasse de quem era ele realmente. A menos, é obvio que Natalie ficasse tão absolutamente consternada e se enfurecesse tanto com sua mentira que se negasse a lhe falar por sempre jamais. Mas não podia acreditar que isso fora possível.

Jonathan lhe atirou com suavidade dos pulsos, até que ela consentiu em sentar-se a seu lado sobre a manta. Ele então a soltou e se inclinou para diante, os cotovelos apoiados nos joelhos flexionados, juntas as pontas dos dedos por diante dele, enquanto cravava o olhar na imensidão azul do mar.

—Por que me mentiu?

Ela também pousou o olhar na água.

—Por que você crê nisto Jonathan? Qual cavalheiro normal acreditaria de uma dama de minha posição? Que precisava casar-se desesperadamente ou que necessitava com desespero que algo fora roubado? Que fantasiava com um homem atrativo que rodeasse com seus braços, lhe sussurrando apaixonadas palavras de amor, ou que precisava manipular e contratar habilmente os serviços de um ladrão para que ajudasse a um ser amado angustiado?

—Ambos os soão igual de românticos — disse ele com prudência.

Ela voltou á cara para ele.

—Não lhe conheço absolutamente e acredito que isto é absurdo. Se lhe tivesse contado minhas verdadeiras motivações, me teria jogado de sua casa entre gargalhadas (qualquer cavalheiro o teria feito), pode inclusive que me tivesse ameaçado lhe contando a meu pai minha absoluta falta de decoro. Tenho quase vinte e três anos; uma temporada mais, e sem dúvida se considerará que me fiquei para vestir Santos. Em nosso mundo não há nada pior que isso, e você o acreditou, por que pensa como qualquer outro homem. Uma inocente confissão de fantasias românticas em seu reino de pensamentos limitados foi o que me tirou a passagem a França.

Jonathan não tinha ouvido jamais em sua vida nada tão ridículo e ao mesmo tempo tão lógico. Entretanto, tinha que admirar a sagacidade de Natalie. O que dizia era a pura e triste verdade. Não obstante, nem por um momento acreditou que alguém tão reconfortante e fisicamente encantada como Natalie Haislett tivesse problemas para encontrar um marido, com independência da idade, a menos, é obvio, que sua honra estivesse em suspeita. Seu dote tinha que ser aceitável, quando não substancioso.            

Jonathan a contemplou, sentada de novo perto dele sem medo nem desconfiança.

—Pensa no matrimônio, Natalie, ou preferiria evitar o tema por completo?         

Aquilo á pilhou um pouco por surpresa, talvez porque não tivesse em realidade muitas alternativas a respeito. Se não escolhia logo a um marido, sem dúvida seu pai a forçaria a casar-se com alguém conveniente.

—Penso no matrimônio — respondeu ela em voz baixa, depois de um momento de reflexão—. Mas não com um cavalheiro idiota nem reservado que não me permita ser quem sou. Antes preferiria ser uma solteirona que me casar com alguém só pelo temor a não encontrar jamais um marido. —O ar era ainda bastante quente, face ao qual teve um calafrio e se agarrou os cotovelos com as mãos. —Tampouco lhe menti. Tudo o que lhe disse no navio é verdade, Jonathan. Levo anos estudando ao Cavalheiro Negro e o encontro fascinante. —De maneira quase inaudível, admitiu—: Se ele me encontra atrativa, espero que tome em conta.

Jonathan juntou as sobrancelhas.          

—Que a tenha em conta... para casar-se?        

Ela baixou a vista para a manta, contemplando atentamente o suave tecido escocês.  

—Que me tenha em conta como companheira, amiga e esposa.   

Jonathan não soube muito bem se acreditava suas cautelosas explicações. Na sociedade britânica uma esposa estranha vez era; a amiga de seu marido, e a maioria da gente nem sequer lhe dava importância ao feito. Era conveniente ou inconveniente, só uma circunstância no trajeto vital de um. O que ela confessava querer do ladrão era algo extraordinário.

A expressão do Jonathan se tornou séria.

—Assim veio à França para contratar seus serviços e... A apelar a sua natureza masculina com a esperança de uma proposição matrimonial?

—Sim. Não obstante, espero lhe pagar para que me ajude com mi... situação, que é o mais urgente neste momento. —Natalie se removeu, dando a sensação de sentir-se totalmente envergonhada. —E não espero nada em troca, se ele não está interessado em mim como mulher.

Em qualquer outro momento, e com qualquer outra pessoa, a conversação teria resultado ridícula, e Jonathan se teria irritado diante de tanto descaramento. Mas era tal o ardor e a determinação que havia na expressão e na voz de Natalie que não pôde por menos que sentir um crescente e íntimo afeto, que compreender os riscos e os sonhos não satisfeitos, os desejos e os prazeres inalcançáveis. Natalie Haislett, a romântica inocente, punha astutamente seu futuro e reputação nas mãos dele, e em lugar de sentir-se indignado pelo engano, toda a aventura o encheu de uma insólita mescla de excitação e ternura.

Um silêncio íntimo e reconfortante se elevou entre eles. Não havia ninguém perto, nada se ouvia que não fossem as ondas ao bater contra o escarpado e o ocasional grasnido de alguma gaivota. O sol por fim se colocou sob a água, e o horizonte refulgia com tons de rosa, corais e chamativos azuis.

Jonathan ficou olhando de marco em marco, já de maneira prolongada, observando como o delicado ar marinho levantava umas rebeldes mechas de cabelo do Natalie esquentado pelo sol; tomando nota mental de suas deliciosas formas, o nariz ligeiramente arrebitado, a cútis imaculada e suave, povoadas pelas pestanas frisadas que formavam escuras meias luas sob suas sobrancelhas, e as maçãs do rosto altas. Sua boca, generosa e vermelha, estava perfeitamente esculpida e era tão deliciosamente incitante como um morango amadurecido no arbusto. Tinha um queixo muito marcado, embora feminino, e se estreitavam com suavidade para um pescoço comprido e elegante onde ele pôde distinguir o rítmico batimento do coração do pulso. Até esse momento não tinha estudado os rasgos do Natalie de maneira individual, que considerados por separado eram bastante normais. Mas em conjunto, a cara possuía um estranho e delicioso caráter, ao que, disso não coube nenhuma dúvida ao Jonathan, nem o melhor pintor do mundo poderia sequer começar a lhe fazer justiça jamais.        

—Pensou alguma vez no matrimônio, Jonathan?

As palavras cortaram o silêncio e penetraram nos pensamentos do Jonathan, e a forma tremente em que foram sortes o desconcertou um pouco.

—Sim. Ao menos, nos últimos tempos — ele respondeu sem dissimulação.

Ela fez uma larga e lenta inspiração e baixou a vista para suas mãos, nesse momento cruzadas no regaço.

—Renunciaria a seus amantes por uma esposa?      

Jonathan não tinha nem idéia de aonde se dirigiam os pensamentos de Natalie, mas o repentino giro da conversação o fez sorrir. Ao igual à tímida curiosidade dela.

Alargou a mão para o tecido do vestido de Natalie e a acariciou com os dedos.

—Sinceramente, não pensei no matrimônio nem em todas as mudanças vitais que comporta com tanto detalhes. Mas confio — disse baixando a voz até convertê-la em um sussurro íntimo— em que minha esposa esteja tão desejosa de me satisfazer em todos os aspectos que não necessite nenhuma.    

—Mas não pode dizer com segurança que renunciaria a elas — insistiu Natalie, e o rubor se estendeu lentamente por suas bochechas uma vez mais.         

Ele franziu o cenho.           

—Não posso dizer com segurança que tenha pensado muito nisso.         

—Entendo.   

Ao Jonathan não lhe ocorreu nada que dizer.

E seguiu outro silêncio até que ela murmurou:

—Parece-me, Jonathan, que uma mulher o encontrará agradável em tantos aspectos que fará tudo o que possa para conservá-lo e lhe fazer feliz. —E com intrepidez, acrescentou: —E acredito que ela se manterá fiel às necessidades de você, se você se mantiver fiel a seus votos.

Olhou-a fixamente e sorriu burlonamente com os olhos entrecerrados.

—Encontra-me atrativo, Natalie?

Ela lhe devolveu o olhar com uma intensa franqueza.

—Não estamos falando de mim, mas sim de você. Estou lhe aconselhando como uma mulher a um amigo.

—Ah...! —Ele se acomodou sobre a manta, inclinando-se para ela o suficiente para distinguir as escassas e tênues peças de seu nariz. —Então pensa que as possíveis algemas me encontrarão atrativo?

Ela levantou as sobrancelhas quase de maneira imperceptível.

—Não é isso o que lhes ocorre habitualmente às mulheres?

Para ouvir isso, Jonathan sorriu abertamente. Natalie o estava passando bem, voltava a ficar relaxado a seu lado. Com uma sensação verdadeiramente desconhecida, Jonathan encontrou o momento de um sublime como fazia tempo que não tinha experiente nenhum outro.

Sem lhe dar maior importância, levantou a mão e lhe tocou o cabelo ligeiramente, só com as gemas dos dedos, fazendo que lhe caísse sobre o braço esquerdo. O sorriso do Natalie se desvaneceu, mas não se voltou nem se apartou.

—Quero que me encontre atrativo — confessou em voz baixa, lhe passeando o olhar pela cara.

Ela se ergueu em um intento frustrado, de manter a superficialidade da conversação.

—Encontro-lhe excepcionalmente atrativo, Jonathan, mas isso quase não importa. Devo permanecer fiel as minhas convicções. Nunca serei seu amante, assim que nada...

—Desejo beijá-la - a interrompeu com suavidade.

Ela abriu os olhos como pratos: pela surpresa ou pelo medo, disso não esteve seguro Jonathan. Mas não disse que não; de fato, não disse nada.

—Apenas um beijo, Natalie.

—Mas somos amigos — insistiu ela com voz tremente e turvada.  

Ao Jonathan achou muito estranho a paixão do comentário.

—Sim, creio que o somos, e não pretendo danificar isso.

Estendeu a mão para diante e lhe tocou o lábio inferior com o polegar, e o fato de que ela não se apartasse com rechaço ou aborrecimento enviou de repente ao Jonathan um arrebatamento de ânimo e de desejo que o atravessou de médio ao meio.

—Jamais serei sua querida — repetiu ela, já com a determinação quebrada.     

—Nunca a tomarei como amante — lhe prometeu com um sussurro profundo. Então, transbordante de um anseio indescritível, inclinou a cabeça para ela e aproximou a boca a seus lábios.            

Ela fechou os olhos, mantendo o corpo imóvel. De todos os enganos que tinha cometido em sua vida esse talvez fora o maior. Mas, apesar das mil vozes de advertência que gritava em seu interior foi incapaz de apartar-se. Não havia realmente nada mau em um pequeno beijo, e ele ao menos tinha tido a decência de pedi-lo antes de dar-lhe. Jonathan, incontestavelmente, era tão atrativo e sedutor que: ela tinha problemas para dizer que não. E era inquestionável que o desejava. Sempre o tinha feito, e esperava, contra toda esperança, que ele não descobrir-se isso por aquele simples beijo de amigos. Mas, deixando todo o resto a um lado, Natalie queria sentir, e sentir nesse momento; queria ser beijada pelo homem mais atrativo fisicamente que tinha conhecido jamais. Junto ao mar, em uma terra exótica, sob o tom do pôr-do-sol púrpura e dourado. Que maravilhoso e excitante!

Apertando os lábios contra os de Natalie, Jonathan a rodeou com uma mão e, com a outra em sua nuca, á atraiu um pouco mais para ele. Começou então um lento e suave movimento com a boca, e ela se relaxou enquanto o ansiado prazer começava a aumentar. A essas alturas já estava acostumada, e já não a possuía o medo de antigamente. Estavam completamente sozinhos, e ela se entregou á desfrutar o momento. Confiando nele.

Jonathan começou a lhe acariciar o cabelo com os dedos, mas não interrompeu o beijo. Antes bem, intensificou-o um pouco, jogando delicadamente com a língua contra os lábios fechados de Natalie, atrás e adiante, até que ela terminou por abri-los ligeiramente. Natalie teve que admitir que nesse momento estivesse correspondendo ao beijo, o qual resultou evidente pelo pequeno e rouco suspiro de apreciação do Jonathan. Aquilo a agradou, e por instinto mais que por conhecimento, sentados um junto ao outro, ela com as mãos no regaço ainda, voltou-se para ele e inclinou o corpo de maneira apenas perceptível, apoiando-se no do Jonathan.

Em poucos segundos, lhe tirou o laço dos cabelos, e várias mechas, agitados pela brisa, roçaram a nuca do Natalie e a cara do Jonathan. Ele entrelaçou os dedos na juba de Natalie, cavou-lhe as mãos na cabeça e a imobilizou enquanto a beijava com mais paixão. Seguia sem ser possessivo nem exigente, comportando-se com notável cavalheirismo em seu empenho, e com esse pensamento Natalie deixou de preocupar-se e se abandonou, já com a respiração agitada e o pulso acelerado ante as expectativas. Levantou então a mão para sentir a dureza do peito do Jonathan através da suave camisa de linho, lhe roçando apenas com uns dedos hesitantes.

Ele reagiu imediatamente, levantou a mão que tinha livre e a fechou sobre os nódulos para sujeitá-la com firmeza contra ele. Jonathan começou a ofegar, com o coração lhe pulsando com força sob a palma dela, que demorou sozinho um instante de puro prazer em lhe afetar até esse extremo.

Ela abriu a boca um pouco mais para ele, e a língua do Jonathan lhe roçou os lábios, lhe enviando por todo o corpo umas descargas repentinas. Natalie reagiu dando um coice, mas Jonathan, prevendo-o, sujeitou-a contra ele, lhe impedindo que se apartasse.

Ela sentiu a tensão que os rodeava como algo físico; o aroma do ar úmido e salubre, o ruído das ondas ao golpear nas rochas de abaixo, ressonando na baía como um trovão longínquo. Nesse momento percebeu o calor do corpo duro do Jonathan contra o seu, entristecedor, mas reconfortante, familiar embora estranhamente novo e excitante. Estava-a tratando deliciosamente, como se fora uma boneca de porcelana da China entre suas mãos, e com uma dor repentina ardente, ela desejou mais. Aquilo era sozinho um beijo, mas maravilhoso e perfeito.

Foi então quando ela alargou as mãos para ele, deslizando-lhe pelo peito e os ombros até que se aferrou seu pescoço. A sua vez, Jonathan a rodeou com os braços de bom grau, trazendo-a ainda mais perto, quase já em um abraço pleno Natalie abriu a boca completamente, e a ponta da língua do Jonathan golpeou a sua por puro acidente. Em qualquer outro momento, com qualquer outro, aquilo podia ter resultado repugnante a Natalie. Nesse momento, adorou que lhe façam cócegas a pontada que sentiu em seu interior, e gemeu de maneira involuntária por puro prazer.

Jonathan grunhiu, e o fez de novo, esta vez com intenção, e Natalie recordou ligeiramente que ele tinha feito isso antes em um momento de entrega apaixonada. Mas não podia pensar naqueles instantes. Já não.

Com um movimento lento, mas intencionado, Jonathan empurrou de costas contra a manta, a boca ainda obstinada a do Natalie, movendo a língua de uma forma lenta e maravilhosa ao invadi-la intimamente. Apoiou o corpo junto ao dela, com as mãos no cabelo de Natalie, mas não deixou de beijá-la, mas sim continuou até que ela começou a inquietar-se.

Natalie não o compreendia. Em um último rapto de lucidez lhe gritou que parasse que já era suficiente. Mas não o era. E seu lado puramente físico desejava seguir eternamente.          

Então, como se compreendesse a dor melhor que ela e com a maior doçura, lhe colocou a mão sobre o peito, Natalie não advertiu o leve contato ao princípio, até que o polegar do Jonathan começou a mover-se sobre seu mamilo, e a carícia lhe provocou uma deliciosa pontada de prazer no mais profundo de seu ser. Ela ofegou nos lábios do Jonathan, mas este se negou a lhe soltar a boca. Beijava-a já sem restrições, quase sem piedade, enquanto movia a mão para agarrar a cintura se por acaso ela decidia escapar. Mas Natalie não podia fazer isso. Ainda não.

Esquecidas já as conseqüências inevitáveis do que estavam fazendo, Natalie acabou por render-se. Rodeou-lhe com os braços e o atraiu para ela, lhe pondo os dedos no cabelo abundante e sedoso; e o peito largo do Jonathan lhe roçou os seios quando ele dobrou as pernas sobre as suas com suavidade.

Jonathan voltou a grunhir, revivendo com energia enquanto ela reagia à magnífica tortura que crescia em seu interior. Desejava-a com uma paixão incrível, e sabê-lo insuflou uma espécie de força vaga na Natalie que se negou a renunciar. Aquilo era o que havia estando desejando durante anos. Jonathan lhe soltou a boca por fim e seguiu beijando-a pela bochecha, o queixo e o pescoço, lhe deixando um rastro de beijos. Ela se inclinou para trás de maneira instintiva para lhe permitir o acesso, com um torvelinho de confusão e prazer girando em sua cabeça, os olhos fechados com força e as mãos lhe sujeitando a cabeça contra ela, sentindo um repentino e desesperado temor a que ele não pudesse deter-se. Natalie se retorceu e choramingou fracamente quando a mão do Jonathan voltou a encontrar seu seio, esta vez com coação, e começou a massagear-lhe suavemente sobre a blusa, jogando espertamente com o polegar e o índice até que o mamilo se endureceu pelo tato.

Jonathan se estremeceu, e sua respiração se tornou rápida e ofegante, entretanto Natalie se aferrou a ele com um desenfreio que não teria podido imaginar nela sozinho uns instantes antes. Ser tocada daquela maneira era excitante e a abocava a um prolongado abandono.

Só foi vagamente consciente quando lhe levantou a blusa para colocar a mão debaixo e começou a mover lentamente a palma pelo fino corpete, lhe acariciando a cintura com delicadeza e sensualidade. Natalie levantou instintivamente o corpo para ele com as mãos já em seus ombros, enquanto Jonathan, sem prévio aviso, colocou a cara entre seus seios, ainda sobre a blusa, mas de tal modo que fez com que Natalie sentisse em seu ventre uma poderosa descarga de fogo abrasador.           

Pronunciou o nome do Jonathan entre ofegos, e ele lançou um grunhido do mais fundo de seu peito enquanto lhe acariciava os mamilos através só de duas transparentes capas de tecido, acima e atrás, com a bochecha, o queixo e os lábios Lhe acariciou a cara com uma mão, com o polegar na boca de Natalie, e com a outra encontrou o ápice disposto de seu mamilo rodeando-o uma e outra vez com os dedos.        

De repente, estava beijando-a de novo, plena e avidamente, sem rodeios, e ela respondeu ansiosa pela necessidade insatisfeita, retorcendo-se baixo enquanto lhe esfregava o pênis com a perna com um abandono desenfreado.

Mas ele não a soltou. Aferrou-se a ela, boca contra boca, assumo contra peito, com os quadris começando a golpear lentamente as de Natalie quando suas próprias e urgentes necessidades afloraram. Passou-lhe a língua pelos lábios, e com a mão livre começou a descer pela perna de Natalie, lhe roçando o contorno com as gemas de maneira deliberada.      

Ela choramingou brandamente, retorcendo-se com uma temeridade galopante que não podia compreender, enquanto refreava a cara do Jonathan entre suas mãos.    

—Meu deus! —sussurrou-lhe ele na boca.       

Ela se aferrou com mais força, desesperada por sentir, por saber, por pôr fim a tanto desejo.

E como se lhe respondesse, Natalie sentiu as mãos Jonathan em sua coxa.      

—Jonathan...           

—Sei.

Atirou dele com frenesi, levantando os quadris para encontrar sua dureza, os olhos fechados com força, o coração lhe golpeando no peito, o sangue lhe correndo com força pelas veias, lhe pulsando nos ouvidos, afogando qualquer som.

Nesse momento, ela sentiu o primeiro contato, realizado com muita timidez, da mão do Jonathan entre suas pernas, só uma fina parte de linho entre a pele quente dele e a parte mais íntima dela. Ao princípio, não esteve segura disso, porque ele não fez nenhum movimento. Mas de repente não houve nenhuma dúvida. As intenções do Jonathan eram claras, e ela arqueou as costas ao sentir a imediata e aguda sensação. Mas Jonathan a beijou com tanta intensidade, com tanta plenitude, que ela perdeu o controle, incapaz de ver o final ao que levava a ação. Colocou-lhe a mão esquerda na testa, com os dedos agitando-se entre seu cabelo, e com a outra começou a acariciá-la, doce, mas conhecedor, sem lhe apartar o tecido da roupa, a não ser deixando que a tampasse, movendo-se ritmicamente em cima, primeiro com um dedo, logo com outro e ao final com todos.

Natalie perdeu o fôlego. Não podia pensar; só sentir. Não podia reagir. Estava-lhe fazendo algo muito íntimo, entretanto, era incapaz de articular um pensamento ou de protestar, porque desejava que ele seguisse assim por cima de tudo. Aferrou-se a seus ombros com as mãos rígidas, desesperada pela necessidade, movendo já os quadris contra os dedos ritmicamente à medida que ele aumentava a velocidade.

Jonathan lhe liberou a boca, baixou os lábios até seu pescoço e seguiu movendo-se da cara até o cabelo. Sua respiração se fez áspera quando lhe aconteceu a língua pela orelha e lhe acariciou o lóbulo, jogando com ele, chupando-o. Natalie moveu as pernas com desenfreio, já descontrolado o corpo, totalmente alheia a tudo o que não fora as carícias que lhe prodigalizava em seu centro. Gemeu e se entregou febrilmente, e Jonathan prosseguiu de maneira implacável, em silêncio, pousando pequenos beijos em suas bochechas, em seu queixo, em seu pescoço, acariciando-a, levando-a aos limites da terra.

De repente, ela se aferrou a ele com todas suas forças. Abriu os olhos, e Jonathan levantou a cabeça para olhá-la fixamente. E foi então quando ocorreu. Com uma incrível intensidade, ela explodiu por dentro, gritando de assombro, de alegria em um final perfeito para uma voracidade deslumbrante.

Jonathan tragou saliva com muita dificuldade, respirando com violência enquanto seguia controlando-se, e olhou fixamente a cara de perplexidade de Natalie, ruborizada e formosa, quando alcançou o clímax em suas mãos. Tinha ocorrido tão depressa que não tinha tido tempo de pensar no curso dos acontecimentos, até que se viu apanhado em uma rajada impetuosa que tinha levado a Natalie mais à frente do limite. Mas isso não importava. Tinha que ocorrer - provavelmente estivesse escrito—, e lutar contra isso era inútil.

Natalie se estremeceu e fechou os olhos, apartando-se dele. Jonathan lhe acariciou a testa com o polegar e lhe pôs a cabeça no peito, o coração lhe rugindo ainda enquanto escutava o pulso rápido e compassado de Natalie, o corpo lhe ardendo com um desejo que, sabia instintivamente desde o começo, não poderem satisfazer. Ainda não tinha retirado os dedos de entre as pernas de Natalie e podia sentir sua umidade pegando-se ao fino linho, quente e suculenta, convidando-o a entrar e a satisfazer sua ânsia. Sentia uma incrível necessidade de tocá-la ali. Só um dedo envolto pela úmida e quente suavidade para lhe permitir agüentar até a próxima vez. Mas isso não ocorreria então. Soube sem dúvida que isso não ocorreria nesse momento.

Com uma resignação angustiante, levantou a mão, baixou-lhe a saia para tampá-la decentemente lhe rodeou a cintura com um braço para abraçá-la. Jonathan aspirou profundamente o aroma da pele e o cabelo de Natalie, desfrutando da exuberância de seu peito e de seu sinuoso quadril. Abriu os olhos com resolução, constringindo, recuperando o domínio de seus sentidos uma vez mais, enquanto cravava o olhar na água, já reluzente no anoitecer que estendia seu manto.

Natalie estava tombada sem mover-se meio debaixo dele e o único que se ouvia dela era sua respiração compassada, Jonathan não disse nada, não fez nada, limitou-se a seguir abraçando-a e permitir que ela recuperasse a têmpera à medida que fora aceitando lentamente tudo o que acabava de ocorrer.

Ao final, ela soltou um repentino suspiro, e no silêncio da noite perguntou:

—Por quê?

Foi uma pergunta cheia de dor, e Jonathan soube a que se referia. Não por que nesse momento, não por que a mim, não por que você. A não ser: «por que nós?».

—Não sei — ele murmurou depois de um instante de quietude, sussurrando sinceramente sua resposta—. Às vezes, é... Assim.

Ela se revolveu furiosa, para sair de debaixo dele, ficando rapidamente a quatro patas e recuperando o equilíbrio para poder levantar-se. Ele se aferrou a ela durante um segundo, e logo a soltou, seguindo seu exemplo, não muito seguro da reação dela, até que se deteve seu lado, e ela voltou á cara para ele completamente. Sem prévio aviso, ela começou a tremer de ira; sua cara, tão pálida como vulnerável, refletiu o apagado resplendor dos últimos vestígios de luz.

—Talvez faça este tipo de coisas com as mulheres a todas as horas, mas dá a casualidade de que isto não vai comigo — disse, furiosa, com os punhos fechados com força aos flancos.

Jonathan piscou e sentiu que ficava lívido ao compreender por fim.

—Isto não é o que pretendia...

—Deixe-o já!

Natalie cobriu a cara com as mãos, e lhe agarrou pelos pulsos e atirou dela para ele com a mesma rapidez. Ela se debateu, mas não a soltou.

—Isto não é o que pretendia — repetiu apaziguadoramente. Esperou, e finalmente ela deixou de lutar, sacudindo a cabeça com os olhos fortemente fechados. —Natalie, olhe-me.

Ela não fez conta.

—Me olhe — tornou a dizer com urgência.

Ela se relaxou a contra gosto e elevou a vista para olhá-lo com uns olhos enormes, vibrantes e furiosos, claros como o cristal.

Jonathan fez uma larga e lenta inspiração, embora seguisse segurando-a com força pelos pulsos diante o temor de que saísse correndo.

—O que ocorreu entre nós agora mesmo jamais me tinha ocorrido antes.

Ela o olhou boquiaberta consternada.

—É um maldito mentiroso. Esteve com tantas...

—Não assim — lhe interrompeu com doçura.

—Mas não é sempre o mesmo? —espetou-lhe com sarcasmo. —Uma mulher ou outra...

—Não — afirmou ele com contundência, e sentiu que lhe encolhia o coração porque se precaveu imediatamente de que ela não veria o homem além dos rumores, que não aceitaria a verdade como ele poderia explicá-la. Não lhe acreditava, assim, o que podia dizer? Que nenhuma vez tinha estado com uma mulher tão arrebatadora, encantadora e maravilhosamente cúmplice, tão apetecível de contemplar e a quem resultasse tão emocionante satisfazer? Que alguma vez antes tinha dado sem receber em troca, como tinha feito essa noite? Qualquer afirmação em sua defesa pareceria arrogante e insincera, e só acabaria por lhe recordar a Natalie todo aquilo que ele desejava sinceramente que ela ignorasse. Em conseqüência, ao final não disse nada mais; o qual, sem dúvida alguma, não fez mais que piorar as coisas.

—Mentiu-me — ela gemeu lastimosa, debatendo-se com tanta força para soltar-se que ele não pôde por menos que permitir-lhe. Ela deu-lhe as costas e se afastou uns quantos passos, abraçando-se e com a cabeça encurvada. —Não queria um beijo, queria-o tudo.

—De verdade, Natalie que não o tinha planejado, só aconteceu — admitiu em voz baixa, sabendo imediatamente que era inútil falar.

Ela soltou um risinho cáustico.

—Como ocorreu às inúmeras outras, estou segura.

Jonathan apertou a mandíbula.

—Isso é injusto.

—Injusto? —Ela girou sobre seus talões. —E o que acontece comigo? Não tinha estado nunca com um homem, Jonathan.

Disse as palavras como se tivessem que ser uma revelação assombrosa para ele. Mas o fato de que isso lhe importasse tanto o paralisou realmente.

—Sei – ele murmurou.

Ela o esquadrinhou abertamente durante um bom momento, depois desviou o olhar para a costa e voltou a abraçar-se protetoramente.

—Meu deus! Isto é horrível — sussurrou com voz tremente.

Jonathan se esfregou o pescoço e fincou as mãos nos quadris. Sabia que a confusão e a vergonha guiavam as palavras dela, não obstante o qual sentiu um indicio de irritação.

—Nada do que fizemos é horrível — começou ele com lentidão. —Nunca é horrível. É um ato perfeitamente natural que ocorreu sem que nos déssemos conta, porque entre nós há uma paixão que é inegável e, conforme acredito estranha. Nunca senti esta classe de desejo por ninguém, exceto por você, Natalie. E começou faz anos, quando me beijou no jardim, um doce ato de inocência que nunca pude tirar da cabeça.

Ela retesou grandemente, fechando-se em si mesma, e isso esporeou a cólera de Jonathan.

—Eu tampouco o entendo — prosseguiu com gravidade—, mas não vai se resolver sozinho. Você também o sente, e cada dia que passemos juntos, isto se irá fazendo mais forte. Uma parte de mim deseja enviá-la a fazer as malas, porque a situação me põe condenadamente nervoso. Mas não me posso obrigar a fazê-lo, porque, em alguma parte dentro de mim, creio que está ocorrendo algo maravilhoso, e por um lado eu gostaria de ver aonde conduz.

Ela permaneceu em silêncio sem mover-se, olhando o mar escurecido de marco em marco. Então, sacudiu a cabeça lentamente.

—Mas o que acontece com ele? — perguntou com uma sombra de desespero. —E se isto estragar tudo o que vim a procurar aqui?          

A primeira reação do Jonathan foi perguntar: «O que acontece com quem?». Então, uma rajada de vento cortou o silêncio com a frieza da noite marinha. Ela teve um calafrio, voltou á cara para ele uma vez mais e se esfregou os braços com as mãos, enquanto os agarrava em busca de calor e fortaleza. E ele soube.         .

Jonathan se sentiu pela primeira vez como se tivesse sido esbofeteado fisicamente por seus atos, e as cruéis palavras dela lhe feriram com mais força do que a que ela poderia produzir com a palma da mão. Não tinha manifestado nenhuma reação antes os sentimentos profundamente íntimos que acabava de despir em sua presença. Seus pensamentos estavam centrados em um sonho, em uma realidade fictícia que girava em sua cabeça, em algum lugar além de qualquer compreensão. Uma esperança que ela acariciaria por cima de tudo demais, até que se inteirasse de que não existia.

Jonathan ficou rígido, mas não de cólera. Era impotência o que sentia frustração, derrota, e uma compreensão para uma mulher maior que a que jamais tivesse experimentado com antecedência. Acabava de lhe fazer o amor, ao menos parcial mente, e com qualquer outra se teria dado a volta e afastado depois de um comentário tão demolidor. Entretanto, nesse momento, ao reagir daquela maneira, sabia que estava mais furioso consigo mesmo: por aproveitar-se, por perder o controle e por dar tão onde era evidente que não se desejava.

—Estou seguro que o infausto Cavalheiro Negro á encontrará inocente e encantadora e todo o resto que ele tenha desejado alguma vez — afirmou com voz sombria e acre. —Nada está arruinado. Sua virtude segue intacta. Ninguém sabe o que ocorreu aqui esta noite, exceto você e eu, e eu nunca o direi a ninguém.

A cara dela se relaxou, e seus olhos se converteram em dois surpreendidos lagos circulares, talvez porque já tinha compreendido até que ponto o tinha ferido. Mas ele se negou a responder a seus pensamentos. Pelo contrário, deu-se a volta, levantou a manta e recolheu rapidamente todas as coisas. Abandonaram a praia em plena penumbra sem que entre eles se cruzasse uma palavra mais.

 

Capítulo 7

Natalie estava sentada diante da penteadeira de vime da pequena casa de uma planta em que estavam alojados, estudando atentamente a imagem que lhe devolvia o espelho. Seu aspecto, supunha, era bastante decente para um baile. A esposa do dono da casa a tinha ajudado a ficar o espartilho, mas tinha tido que pentear-se só pela primeira vez em sua vida, o qual, em si, revelou-se como uma autêntica aventura. Por duas vezes tinha arrojado sua escova de cabo de madrepérola, desesperada com suas intenções de dispor os rebeldes cachos no alto da cabeça em um penteado que ao menos se assemelhasse a uma touca elegante. Até esse momento, nunca se tinha preocupado realmente por seu aspecto formal; simplesmente o dava por descontado quando as donzelas terminavam. Essa noite, entretanto, sua mente e sua imagem eram um autêntico caos, e seus nervosos dedos não faziam mais que piorar as coisas.

Ao final se levantou com um refinamento forçado, valorando a eleição do vestido, um de brilhante seda avermelhada sobre um merinaque completo. Só tinha levado dois vestidos de baile com ela, assim sua eleição se reduziu ao mínimo. A decisão de levar aquele tinha mais que ver com o clima que com qualquer outra razão, porque era bastante ligeiro como vestido de noite. O apertado talhe subia e adiantava o busto. As mangas eram curtas e abalonadas, sem ombreiras, e realçadas por um cós de veludo bege com o passar do pescoço, com um encaixe a jogo que acentuava a larga saia franzida na cintura. Como enfeite levava sozinhos uns camafeus do mais singelo: dois lhe pendurando das orelhas, um em uma cadeia de ouro ao redor do pescoço e um anel na mão direita. O vestido e as jóias entoavam com a cor de seu cabelo e de sua tez, algo assim como castanho avermelhado e marfim que geralmente não favorecia a uma dama.

Nesse momento estava sendo da mais vaidosa, considerou com um sorriso. Mas as primeiras impressões eram as que valiam, e o Cavalheiro Negro a veria pela primeira vez essa noite. Queria impressioná-lo, e teve que admitir que estivesse deslumbrante.

Deu-se a volta, juntando com força as mãos trementes, e se dirigiu para a janela aberta para sentar-se com graça em uma das cadeiras de vime que olhavam ao Mediterrâneo. Sua habitação era preciosa; a vista, extraordinária, sobre tudo nesse momento, com um pôr-do-sol dourado que brilhava através de umas cortinas de gaze verde mar. No instante em que Jonathan a conduziu ao interior da casa á adorou.

Os móveis estavam pintados de branco, como as paredes, adornadas com numerosas pinturas de artistas locais. Muitas eram cálidas e coloristas marinhas, e outras tinham como tema as cidades dos arredores e as casas caiadas típicas da Marselha. A habitação em si era pequena, mas encantava por sua simplicidade. A cama, coberta por um etéreo cobertor azul brilhante, estava colocada junto à parede em frente. Junto a ela se achava a penteadeira e a banqueta, ao lado do qual se levantava um biombo de gaze rosa madrepérola para vestir-se com discrição. Os únicos outros móveis eram duas poltronas e uma mesa pequena de vime situada diante da janela, que se abria completamente para permitir que a brisa marinha refrescasse sem cessar a habitação. Era o lugar mais cômodo e cheio de cor no que tivesse estado jamais, e valorava cada instante que passava ali, olhando de marco em marco o mar aberto, sabedora de que não demoraria em retornar à cinza e sombria a Inglaterra.

Ele não o havia dito nunca, mas ela estava segura de que Jonathan não se alojava em lugares tão formosos quando viajava sozinho. Isto só significava que tinha procurado a casa por ela. À medida que ia o conhecendo melhor, encontrava que era um dos indivíduos mais amáveis que jamais tivesse conhecido. E não amável só no modo em que um cavalheiro poderia tratar a uma dama conhecida, mas sim de uma maneira mais sutil e pessoal, como se realmente tentasse adivinhar o que a ela poderia gostar e quais eram suas idéias e pensamentos.

Os últimos quatro dias tinham resultado intermináveis. Natalie tentou dizer-se que devia ter que esperar com muita paciência para conhecer o legendário larápio, depois de inteirar-se de que ele assistiria ao baile. Mas sendo realistas, sabia que era pelo que tinham acontecido quatro dias desde seu encontro íntimo com o Jonathan na praia. A lembrança de tal fato ocupava por completo seus pensamentos sem descanso, provocando que se ruborizasse e morresse de vergonha, sobretudo quando ele entrava na habitação ou simplesmente a olhava. Natalie sabia instintivamente que cada vez que estava juntos, Jonathan se lembrava de sua reação ao tocá-la, uma reação imperdoável, na opinião dela.

Mas ele não havia tornado a falar daquela noite em nenhum momento. De fato, não tinha falado muito a respeito de nada. Tinha permanecido quase em silencio durante quatro dias, lhe falando só quando pensava que era necessário, ocupando-se de suas coisas quando a deixava na casa a cada manhã e ia a cavalo à cidade. Ou isso dizia. O certo é que ela não tinha nenhum motivo para suspeitar. Inclusive a tinha levado com ele em duas ocasiões. De maneira nenhuma tinha se mostrado grosseiro ou matreiro; era sozinho que tinha posto sua atenção em outra parte, e Natalie não estava segura de como reagir a essa repentina impassibilidade. Estava bastante segura de que a circunstância não tinha nada que ver com a senhora Du Mais, embora tal pensamento não pudesse ser descartado. Quão único desejava é que não lhe importasse muito, se é que finalmente se tratava disso.

Por uma parte Natalie se dava conta de que a indiferença dele era causada pelo que lhe havia dito depois do jantar íntimo ao pôr-do-sol, em que tinha perdido o controle de seus nervos por completo. Aquela noite tinha intuído os sentimentos do Jonathan e não lhe tinha passado despercebida a sombria expressão de seu rosto. Tinha sido totalmente sincero com ela; Natalie sabia. E se ela analisava sinceramente seus próprios sentimentos, sabia que ele tinha estado mais que acertado no concernente a crescente atração mútua. Mas, por cima de tudo, por cima de qualquer outra coisa que lhe importasse em sua vida, negava-se a converter-se em uma das inumeráveis conquista de Drake. Se se entregava a ele na medida em que fora, seria a única que sairia perdendo, e perderia tudo: sua auto-estima; sua virgindade, que era algo que realmente queria entregar a seu futuro marido; e quase com absoluta segurança, seu coração. Esteve consumindo-se durante dois anos, por diferentes e complexas razões, por conhecer Cavalheiro Negro, e tinha que seguir concentrada nisso. Esforçou-se muito e chegado muito longe para que Jonathan e os confusos sentimentos que sentia para ele arruinassem essa noite.

Essa mesma noite... E estava preparada.

Levantou-se com os nervos de ponta e deu dois passos para a janela, advertindo com irritação que face às boas notas obtidas em amabilidade, era evidente que Jonathan tinha esquecido que essa era a noite mais importante de sua vida. Jogou uma olhada ao relógio de prata da penteadeira, retorcendo-as mãos. Eram quase as sete, e ele ainda não havia tornado de suas correrias pela cidade. Ela não era capaz de imaginar o que esse homem fazia com seu tempo.

Jonathan entrou na casa nesse preciso instante, como um ator ao qual lhe tivessem dado o pé. Natalie girou sobre seus talões para voltar-se para ele. Drake segurava uma bolsa de tecido em um braço, e ela deu por certo que continha roupa para o baile que teria comprado na cidade, posto que claramente Jonathan não tivesse levado consigo nada apropriado para uma celebração do tipo em seu pequeno e único baú. Situou-se frente a ele, adotando uma atitude de impaciência, com os braços junto aos flancos e o queixo levantado, enquanto o observava fechar a porta.            

Ao final, lhe lançou um olhar, como tinha feito milhares de vezes, mas nessa ocasião ficou olhando de marco em marco o que via. O pulso dela acelerou, o rubor alagou suas bochechas, e foi então que ela se precaveu de que também se vestiu para ele. Foi um pensamento perturbador, mas lhe sustentou o olhar com um indicio de sorriso nos lábios.    

—Está você encantadora.            

As palavras eram as que ela queria ouvir, mas o tom no que foram ditas foi tão pouco entusiasta, tão anódino, que não ficou claro se lhe estava fazendo um elogio no que realmente acreditava ou se limitava a dizer exatamente o que qualquer dama esperaria ouvir de um verdadeiro cavalheiro.         

—Obrigado — balbuciou ela, juntado as mãos com força para deter seu tremor.

Jonathan passeou o olhar pela figura dela, dos cachos da cabeça até o encaixe da saia, detendo-se só brevemente no busto e a cintura, ambos acentuados pelo vestido. Após o que se dirigiu a grandes pernadas até o biombo para trocar-se.

—Há algumas costure das que temos que falar, Natalie — disse sem rodeios, desabotoando-a camisa com uma mão enquanto se introduzia detrás da magra barreira. —Em primeiro lugar, é pelo que diz respeito ao Cavalheiro Negro, o apresentarei se o vejo e se não resultar inconveniente.         

Ela sentiu que a ansiedade fazia um nó no seu estômago.  

—Serei muito discreta, Jonathan. Não tem que preocupar-se.

—Estou seguro de que o será, mas o encontro terá lugar sob minhas condições — insistiu. —A identidade desse homem deve ser protegida. Se estiver ali, falarei com ele, e se ele sentir-se seguro procurará a maneira de apresentar-lhe.

Natalie absteve-se de discutir, dando-se conta de que as intenções do Jonathan eram sua única esperança.

—A segunda questão de importância é a espada — prosseguiu ele rapidamente, enquanto tirava o conteúdo da bolsa fazendo ranger a roupa. —Não posso permitir que dela fale ao conde.

Como é que isso era tão importante?

—Por quê? — A expressão dela perdeu seu brilho quando compreendeu. —Ele não sabe que vai lhe vender, não é isso, Jonathan?

—Ainda, não.

Como sobreviviam os homens no mundo dos negócios era algo que lhe escapava.

—É obvio. — Natalie aceitou a ridicularia. —Não direi nada da espada.

Tragou saliva com dificuldade, sentindo que a vergonha retornava de novo, enquanto brincava nervosamente com o anel entre os dedos. Nesse momento se fez patente a descomunal farsa que estavam a ponto de interpretar.

—Estamos casados há dois anos — continuou Jonathan sem solução de continuidade. —Tivemos um noivado normal de seis meses e vivemos na mesma Londres durante a parte do ano que não estamos viajando pelo estrangeiro. Movemo-nos em círculos sociais de primeira, temos muito dinheiro, embora não somos excessivamente ricos, e ainda não temos filhos. Não é necessário adornar o resto de sua identidade. O conde acredita que estou aqui por meu interesse em comprar sua propriedade de Paris.

—E toda esta montagem é por uma espada? —perguntou ela com incredulidade.

—É uma espada muito bonita — foi á vaga resposta de Jonathan.

Natalie fez uma pausa para pensar.

—Foi este o acerto que fez a senhora DuMais para você?

Jonathan guardou silêncio durante um instante, deixando cair os sapatos ao chão com um baque.

—Em parte, sim — ele admitiu. —Ela também sabe que não estamos casados de verdade. É a única em que pode confiar esta noite.

—É obvio.

Jonathan passou por cima o comentário um tanto insidioso dela e, transcorridos uns poucos segundos, saiu de atrás do biombo atando o lenço de seda com dedos peritos. Seu aspecto deixou sem fôlego a Natalie.

Estava magnífico, e isso fez que certas lembranças de antigamente se amontoassem na cabeça dela. De outro baile. Só que nesta ocasião o aspecto do Jonathan era mais sofisticado, mais maduro no porte, mais atrativo, se é que isso era possível.

A roupa era cara e perfeita no corte, o qual explicava em parte no que tinha investido seu tempo os últimos quatro dias. Uma camisa de seda cor nata lhe cobria o largo peito, brilhava em cima um colete verde esmeralda e uma levita; as calças, a jogo, eram de lã do verão em cor verde oliva escura. Era uma combinação chamativa, embora não era a que Natalie teria esperado que escolhesse Jonathan. Entretanto, as cores faziam que seus olhos, nesse momento fixo nos dela, parecessem de um azul incrivelmente intenso, e que seu cabelo negro e brilhante assemelhasse-se ao ônix negro, gentil.

—Natalie?

Ela levou uma mão ao pescoço.

—Maravilhoso! — sussurrou Natalie.     

Pela primeira vez em dias captou um pouco parecido a um sorriso nos lábios do Jonathan.

—Me visto para te agradar, minha querida esposa. Sempre gostou muito que me vista em tons de verde.

Natalie não estava muito segura de se estava sendo sarcástico ou ficando à altura das circunstâncias com um mais que acreditável estréia interpretativa. Decidiu assumir que era este último lhe seguindo a corrente, ao tempo que alargava a mão para as luvas e o leque que estavam em cima da mesa de vime.

—É certo isso? Que bem aprendeste meus gostos durante estes dois últimos anos, Jonathan.

Ele se alisou a levita.

—É óbvio, senhora Drake. Como deve fazer qualquer marido — disse, lhe oferecendo o braço. —O carro de aluguel nos espera no alto do caminho. Está preparada?

Natalie titubeou e seu desconforto aumentou enquanto considerava suas seguintes palavras. Por desgraça, tinham que dizer antes que ela e Jonathan partissem para tentar pôr em prática uma mascarada tão decisiva.

Aferrando-se ao camafeu que levava no pescoço, perguntou com certa reticência:

—Estamos apaixonados?

Ele a olhou fixamente sem compreender, baixou o braço e enrugou o sobrecenho lentamente.

—Como?

Natalie sentiu-se repentinamente acalorada, embora seguisse olhando-o desapaixonadamente.

—Como casal de casados. Estamos apaixonados?

Aquilo o desconcertou. Jonathan não soube o que dizer nem tampouco se tornava a rir ou discutir ou questionar a prudência dela. Entre os preparativos realizados durante o planejamento, Jonathan tinha analisado as circunstâncias nas que se beijariam: quando, como, por que e diante de quem, mas nenhuma só vez tinha pensado no amor entre eles.

Pela primeira vez desde que conhecesse o impressionante Jonathan Drake, Natalie soube que tinha a vantagem ao alcance da mão. Foi um momento delicioso de triunfo, e logo que pôde evitar um sorriso zombador.

—Por favor, Jonathan. Tenho que saber como interpretar a obra — respondeu com toda a inocência que pôde. —Alguns casais de casados se amam. Somos uns dos poucos afortunados, ou preferiria que nos evitássemos durante a noite?

Foi o turno da incerteza para o Jonathan, enquanto seguia observando-a com os olhos entrecerrados.

—Não tinha pensado nisso.

—Sim, já sei — afirmou ela imediatamente. Natalie se deu conta de que o rubor resplandecia em seu rosto por causa da confusão, mas seguiu adiante com a esperança de aparentar aborrecimento por um diálogo tedioso que já deveria ter tido lugar entre eles fazia dias. —Como homem que é, pode que não tenha pensado nisso, como certamente não o fará nenhum dos homens presentes no baile. Mas as mulheres se darão conta e reagirão em consonância. —Pigarreou de maneira deliberada. —Devo me mostrar ciumenta ou simplesmente indiferente quando dançar e paquere com as demais?

Jonathan torceu a boca em um meio sorriso de arrogância.

—De verdade pensaste nisto?

Em um abrir e fechar de olhos a vantagem estava uma vez mais em mãos do Jonathan. Nesse momento, quando ele a olhou fixamente com certo ar de diversão, ao Natalie lhe arderam as bochechas.

—Qualquer mulher em minha posição o faria, Jonathan.

—Entendo. — Ele descendeu momentaneamente o olhar até o busto dela, e logo voltou a levantar para sua cara. —E é o que pensa?

Natalie moveu-se com inquietação ante a contemplação desavergonhada de Jonathan, não tendo esperado a pergunta em nenhum momento e sem saber como responder. Queria provocá-lo, proclamando o pouco que lhe importava sua preferência pela relação mais plausível de distanciamento conjugal. Então, lhe ocorreu que o desconcerto do Jonathan tinha sido major ao lhe haver obrigado a centrar-se no amor, e imediatamente esse foi o papel que quis interpretar.

—Creio que deveríamos — declarou com confiança.

As sobrancelhas do Jonathan se levantaram quase de maneira imperceptível.

—nos mostrar apaixonados?

Ela se encolheu de ombros.

—Acredito que, em nossas circunstâncias, resulta mais realista.

—Isso crê? — Nesse momento estava de pé muito perto dela, e sua voz era profunda e tranqüila. —Como corresponde a dois membros bem educados da alta burguesia britânica?

Dito assim soava absurdo. Ele sabia tão bem quanto ela que em tais circunstâncias o amor raramente era um fator que motivasse uma união matrimonial.

Ela apertou o leque contra sua saia.

—Estamos na França, Jonathan. Os franceses são pessoas apaixonadas e não lhe darão nenhuma importância. Acredito também que isso poderia proporcionar alguma vantagem com o conde.

—Sério? E como?

Os olhos dela cintilaram de inspiração.

—Ao fazer acreditável nossa história por um lado. Não posso dizer ao conde que o verão passado estivemos em Viena, se trinta minutos antes disser que estivemos em Nápoles.

—Uma idéia razoável — ele admitiu.

—Também poderia te fazer mais respeitável a seus olhos, mais estável e digno de confiança, se tiver uma esposa afetuosa a seu lado. — Natalie se ergueu. —Mas é óbvio, é só uma hipótese.

—É obvio. — Jonathan lhe retirou um fio do pescoço de veludo. Depois de um prolongado instante de reflexão, perguntou com cautela: — E crie que poderá interpretar essa parte adequadamente, Natalie?

Jonathan estava começando a zangar-se com ela por aquele interminável interrogatório em uma conversação que, pelo que lhe concernia não conduzia a nenhuma parte. Natalie lhe esquadrinhou o rosto, dos encantadores olhos emolduradas por umas pestanas negras e entupidas até a pele impecável e raspada do firme e escultural queixo. O homem desprendia um constante e embriagador aroma de acusada masculinidade, tão exuberante e potente que possivelmente nenhuma mulher poderia resistir. Jonathan também sabia, o qual tendia a fazer com que ela se enfurecesse quando pensava nisso. Mas nesse preciso instante, na pequena casa que compartilhavam sozinhos eles dois, sentiu um repentino ataque de ciúmes para todas as mulheres da vida do Jonathan até esse momento. Não se tratava de uma desaprovação geral de sua fama de libertino como antes, mas sim de um sentimento distinto. Um muito profundo, totalmente privado, vulnerável e possivelmente um pouco aterrador. Ser consciente disto fez que ela se enfurecesse pela inconsistência e complicação de seus sentimentos.

Usando de toda sua coragem Natalie colocou uma mão na bochecha dele. Então, fria e calculadamente, e antes que pudesse trocar de idéia, levantou a cara e lhe roçou os lábios com a boca. O contato a emocionou mais que o que tinha pensado que a afetaria, e desatou umas quebras de onda tanto de desassossego como de júbilo que lhe percorreram as costas. Jonathan não se moveu, mas aquilo não foi, nem muito menos, o que ele esperava; ela soube de maneira instintiva e pelo fato de que ele não reagisse imediatamente.

Acariciou-lhe o queixo com um etéreo gesto do polegar, depois do qual lhe aconteceu a língua uma vez, muito lentamente, pela parte interior do lábio superior. Jonathan respirou fundo, e feito aquilo, Natalie se apartou com um sorriso radiante de satisfação e sentindo uma repentina e maravilhosa sensação de poder.

—Se isto for o que quer para a representação, Jonathan, posso mostrar um enorme e intenso amor por ti. Sou uma atriz magnífica.

Durante vários segundos extensos e silenciosos Jonathan se limitou a olhá-la fixamente. Logo seus olhos se endureceram até adquirir a tonalidade azul do gelo.

—Estou desejando ver sua atuação no cenário, Natalie — disse em voz baixa. —Esta noite será esclarecedora para os dois.

Ela piscou e deu um passo atrás, absolutamente confundida pelo desdém com que foram ditas as palavras. Tinha esperado uma réplica provocadora ou um leve rechaço, como correspondia à natureza afável dele. Mas, tal e como se precaveu nesse momento, ele tinha se afastado após o jantar na praia, e pela primeira vez após, Natalie caiu em conta de que isso não lhe agradava absolutamente.

—O amor é assim, senhora Drake — disse ele sem alterar-se, interrompendo os pensamentos afligidos dela. Então a agarrou com força por um cotovelo e a conduziu através da porta para dirigir-se à carruagem que os esperava.

 

Capítulo 8

Jonathan estava preocupado. Ou possivelmente o que lhe ocorria não era mais que puro nervosismo. Tinha ido a França a fazer um trabalho, um grande trabalho, e essa noite estaria tudo em jogo... Salvo que estava tendo problemas para manter a concentração, e sabia por experiência quão crucial isso poderia resultar para o êxito. Quando tinha devotado levar a Natalie consigo — o qual, se o pensava com honradez, tinha sido uma terminante estupidez que era melhor passar por cima— não tinha considerado que poderia ocorrer tal coisa. Todos os trabalhos que tinha feito com antecedência tinham sido executados sem complicações obrigadas a que os tinha planejado uma e outra vez meticulosamente. As mulheres eram sozinhas meras distrações para que o ajudassem, se o necessitava, na execução definitiva.

Mas pela primeira vez, que ele pudesse recordar, uma mulher ocupava mais espaço em sua mente que o assunto que se levava entre mãos, e, sentindo-se irritado consigo mesmo, deu-se conta de que isto só podia estragar um esforço de incomensurável custo para a segurança nacional da França e Inglaterra. Assim que de importância era. Já tinha cometido seu primeiro engano ao antepor sua insólita preocupação pela Natalie às esmeraldas. Os que lhe pagavam por seus serviços não se sentiriam muito agradados se chegassem, ou seja, o, e era surpreendente que não tivesse cansado na conta até essa noite.

Percorreram a curta distância até o imóvel do conde virtualmente em silêncio. Jonathan olhava pelo guichê do carro com expressão ausente, consciente da inquietação dela, que se removia de excitação nas almofadas, com o formoso vestido inchando-se sobre as pernas e os pés enquanto se alisava a saia, quando não estava esfregando as mãos ou dando-se leves toques com o leque no regaço. Jonathan não precisava olhá-la para ter plena consciência de sua presença. Tanto lhe afetava.

Ela o confundia mais cada dia, algo que ao Jonathan resultava totalmente perturbador. Perturbador para sua mente racional, e ainda mais embaraçosamente perturbador para seu ego. Também eram crescentes suas suspeitas a respeito dela, e não estava seguro da razão. Ao longo de sua experiência, encontrou-se com mulheres descaradas e comunicativas, ou com virtuosas e doces, mas sempre previsíveis. Não era assim com a Natalie. À medida que passavam os dias em sua presença, descobria que cada vez tinha mais de calculadora e insincera, mais de ardilosa, e mais da atriz que ela proclamava ser. Era de uma astúcia incomparável, embora em realidade não tivesse feito nada que aparentemente justificasse semelhantes sentimentos nele. Por sua parte, era mais intuição que informação. Parecia que ela fora a que mandasse isso só, e Jonathan era incapaz de mostrar uma absoluta indiferença diante da vaga idéia que estava o usando. Isso lhe punha muito furioso.

Sua cólera tinha aumentado desde o encontro de ambos na praia, e ia dirigida principalmente fazia si mesmo por baixar a guarda. De repente, sentiu como se todas as mulheres das que se aproveitou levemente ao longo dos anos, mulheres que se apaixonaram por ele porque as tinha seduzido com seu bom humor e seus cuidados, assim como pela entrega mostrada para suas necessidades, tanto inocentes como íntimas. Não tinha obtido nada dela fazia quatro dias, e tinha sido mais sincero com ela que com qualquer mulher que pudesse recordar, entretanto, ela, de uma maneira muito peculiar, tinha-o desdenhado. Tal e como via pensar nisso nesse momento, a reação física de Natalie para ele tinha sido entristecedora. Nenhuma mulher tinha sucumbido jamais a seus encantos com tanta facilidade e rapidez e com tanta paixão desinibida. Embora racionalmente, não parecia estar interessada, e quanto mais se esforçava ele, mais indiferença ela mostrava a seus esforços.

Mas, à medida que passavam os dias, havia uma coisa que ia ficando cada vez mais clara. Deixando a um lado suas suspeitas a respeito das motivações dela, não era mais que uma dama inglesa encantada e preciosa, embora matreira. Mas, fora o que fosse o que lhe ocultasse fora qual fosse á razão que tivesse para ter ido à França, não podia ser complicado. Em conseqüência, apoiado nesta idéia Jonathan tinha tomado á seguinte e muito racional decisão: arrebatar-lhe-ia a virgindade nessa viagem quando desejasse fazê-lo, ela desfrutaria tanto como ele, e se casaria com ela assim que chegassem á Inglaterra, o qual teve que admitir já, era uma união que desejava quase exclusivamente porque ela não consentiria absolutamente. Fazia só uns dias tinha jurado não casar-se com ela nem com ninguém que não o quisesse como indivíduo, mas as recentes ações de Natalie lhe tinham feito trocar de idéia. E que era o matrimônio, em resumidas contas? Só um contrato entre famílias para legitimar aos herdeiros, em realidade. Cedo ou tarde teria que escolher a alguém, e a idéia de possuir a Natalie dentro e fora da cama lhe fez sorrir na penumbra. Todas as idéias dela de permanecer alheia aos sentimentos de Jonathan falhariam no final, porque ele a possuiria sexualmente, e lhe pertenceria durante o resto de suas vidas. Sairia vitorioso, e não via á hora de informar tudo isto a ela. Natalie aduziria que não o queria ou que seu pai jamais consentiria nas bodas. Então lhe recordaria com calma que era a filha de um barão, que o amor era irrelevante. E que ele era rico, solteiro e filho de um conde admirado por toda a sociedade. Seu pai consentiria de mil amores, e ela não teria mais remedeio que aceitá-lo. Jonathan desfrutaria desse momento a não demorar muito. Seria uma vitória como nenhuma outra.

Mas primeiro tinha que terminar um trabalho.

Chegaram à casa da costa do conde com um crepúsculo que se atrasava, mas o imóvel já estava iluminado de maneira espetacular, tanto por fora como por dentro. A casa, de duas plantas, estava construída em pedra cinza polida lavrada para formar delicados arcos e pronunciados salientes de estilos contrapostos. Erigia-se a escassa distância do bordo dos escarpados, e estava rodeada por um jardim grande e imaculado com diferentes árvores, arbustos e flores. Para chegar à porta principal os convidados da festa tinham que atravessá-lo seguindo um sinuoso caminho de tijolo, e Jonathan percebeu imediatamente o acre e penetrante aroma de madressilva e rosas que flutuava no tranqüilo ar noturno, e os insetos voadores que zumbiam em círculo ao redor das lanternas de pé que fraquejavam o caminho.

Natalie deteve-se muito perto dele quando Jonathan entregou seu convite ao lacaio. Ato seguido lhe colocou uma mão nas costas e a conduziu ao interior do vestíbulo.

O interior tinha uma distribuição típica, e Jonathan o tinha estudado bem. A planta baixa constava de um salão diurno que se abria justo à direita, seguido de uma sala de música e outras estadias diferentes destinadas à atividade social, todas as quais conduziam à cozinha; e por último a zona destinada aos criados, com a escada que conduzia para o segundo andar situada na parte posterior da casa. À esquerda estava o esplêndido salão de baile, onde passariam a maior parte da noite, depois do qual se abria, por esta ordem, o salão das damas, a sala de fumantes e o comilão. À frente, imponente, elevava-se a ampla escadaria de carvalho negro que conduzia ao segundo andar: os dormitórios da família à direita e várias habitações de convidados à esquerda, seguidos da biblioteca familiar e, para finalizar, o estúdio do conde, situado ao final do corredor.

Detrás da sexta porta da esquerda, na esquina do lado ocidental, com uma vista grandiosa do sol de poente e o pitoresco mediterrâneo, aguardavam as esmeraldas. Estavam metidas em uma caixa forte de mais ou menos de fácil acesso oculta em cima do suporte da chaminé, depois de um pequeno óleo romanticamente frívolo de Fragonard. A noite estava começando, e Jonathan se relaxou ao pensar no plano, que é obvio era muito bom. Isso era o que fazia, e o fazia melhor que ninguém, e em algumas horas as inestimáveis esmeraldas que uma vez pertenceram à imperatriz da Áustria voltariam para o território britânico, aonde pertenciam. Além disto, Natalie não ia demorar muito em levar a maior surpresa de sua vida. Sim, em efeito, ia ser uma noite inesquecível.

Agarrando-a pelo cotovelo, conduziu para o salão de baile sem perder detalhe do ambiente e caráter dos outros convidados enquanto os seguia na fila de apresentação. O olhar de Natalie se movia já como uma flecha de um homem ao seguinte, calculando, estimando a idade, o porte, o tipo e as similitudes de cada um com o aspecto que os rumores atribuíam ao Cavalheiro Negro. Jonathan observou-a, sentindo-se poderoso e travesso e com uma estranha sensação de prazer ante a frustração que a aguardava.

Instantes depois, enquanto se aproximavam do conde e a que era sua esposa desde fazia três anos, Jonathan se inclinou para ela e quebrou o silêncio.

—Aqui vamos minha querida esposa — lhe sussurrou ao ouvido. Sentiu que ficava tensa, embora não esteve seguro de que se devia às implicações de suas palavras ou à consciência de que começava a farsa. De maneira espontânea, esfregou-lhe o cotovelo; com o polegar para tranqüilizá-la.          

—Monsieur e madame Drake — anunciou o homem situado à direita do conde. —O inglês — resmungou o sujeito no último momento, embora omitisse deliberadamente acrescentar: «que compra propriedades», que teria sido uma indelicadeza durante uma apresentação, mas que, sem dúvida, ficou subentendido por todas as partes.

—Monsieur Drake — trovejou o conde com um marcado acento britânico. —Que alegria que se uma a nós na festa de minha filha Annette-Elise. Confio em que possamos falar longo e extenso de suas viagens e de sua estadia em nosso país. Madame DuMais o tem na mais alta estima.

Jonathan reparou em seguida no aspecto do conde. De estatura medeia, mostrava uma calvície incipiente na parte superior da cabeça, enquanto que de sua ampla frente se ia retirando uma abundante mata de cabelo robusto de mais insólito das cores: nem de tudo castanho nem completamente cinza e, entretanto, tampouco exatamente uma mescla de cabelo escuro e grisalho. O queixo, provavelmente anguloso e marcado na juventude, era carnudo, circunstância que o homem tentava esconder com umas largas e povoadas costeletas. Tinha umas bochechas coradas, e um nariz rosado, como se fora muito aficionado ao vinho. A boca, ampla e delineada e em certa maneira inadequada para seu rosto, era branda e cheia de humor, o que contrastava por completo com o resto de seu porte, em especial os olhos. Estes estavam emoldurados por umas sobrancelhas castanhas escuras e povoados, e os limpos círculos, que surpreendiam por sua cor quase negra afundada e ardilosa, destilavam inteligência.

O homem, que tinha uma compleição grossa, embora não completamente obesa, era aberto de mente e abusava dos prazeres da vida, embora provavelmente agradasse ao belo sexo ao não carecer de atrativos para sua idade. Sem dúvida que, com independência de seus encantos físicos, assim o encontrariam as mulheres, se é que aquela grande mansão era indicativa de sua riqueza. Essa noite ia vestida com um fraque, perfeitamente talhado, de um delicado tecido azul escuro, sobre um colete de seda azul e branco, calças escuras e um lenço de seda negro sobre um pescoço de pico. Absolutamente adequado para a ocasião, embora que conservador, embora seus vínculos políticos assim o indicassem.

Jonathan sorriu e fez uma reverência quase imperceptível, embora seus olhos, encantadoramente reluzentes, não perderam de vista os do francês nem um instante.

—Comte d’Arlés, obrigado por seu amável convite. Eu adoraria ter tempo esta noite para falar.

—Com muito gosto — replicou o aludido imediatamente. E voltando-se, acrescentou com orgulho: — Minha esposa, a condessa de Arlés.

O olhar do Jonathan se moveu para a esquerda do cavalheiro, onde sua esposa, Claudine, uma mulher muito magra com uma cor de pele anormalmente laranja, esperava, em uma posição pouco natural, embelezada com um vestido de tafetá rosa claro cortado por laços brancos que contribuía que aparentasse mais dos vinte e seis anos que tinha. Era uma mulher bonita, embora pouco feminina, e seu cabelo loiro, nesse momento amontoado no alto da cabeça, oferecia um aspecto esvaído por causa das muitas horas de sol; o que, sem dúvida, explicava também as profundas rugas que mostrava já seu rosto. Tinha uns olhos castanhos e implacavelmente perspicazes, embora não muito inteligentes e confiáveis, que nesse momento cravou no Jonathan, e uns lábios que formavam uma linha rosa.

Com seu sorriso mais encantador, Jonathan lhe agarrou ligeiramente os dedos enluvados e os levou aos lábios.

—Encantado, senhora.     

—Monsieur Drake — disse ela cerimoniosamente.    

O conde já tinha desviado o olhar para Natalie com evidente satisfação, e Jonathan aproveitou a ocasião.

—Me permita que os apresente a minha esposa.

—Querida senhora — a saudou o conde melifluamente enquanto seus olhos lhe percorriam o pescoço e o busto quase de maneira indecente. —Encantadora criatura. Seu marido é um homem muito afortunado, se me permite dizê-lo. Bem-vinda a França e a meu lar.         

O homem não só tinha amantes ocasionais, mas sim era um coquete descarado, vislumbrou Jonathan, algo que obviamente não provocava o entusiasmo de sua esposa se terá que fazer caso da firmeza daqueles lábios sempre intolerantes quando dirigiu a Natalie um duro olhar de valoração. Madeleine tinha se esquecido de introduzir aquilo na equação, mas podia resultar útil. Jonathan observou com ar divertido como Natalie também se dava conta e revivia de forma deslumbrante.

 —Sou eu a que está encantada, senhor — respondeu Natalie com um sorriso de cortesia, enquanto se agachava em uma discreta reverência. —O meu marido e nos honra e alegra participar desta ocasião festiva.

—De verdade, senhora? —O sorriso do conde se intensificou, ainda sem soltar a mão de Natalie. —Talvez possamos compartilhar um ou dois bailes mais tarde, não lhe parece? —Lançou um repentino olhar para o Jonathan, como se acabasse de lembrar de que estava ali. —Com sua permissão, é óbvio, monsieur Drake.

Jonathan assentiu com a cabeça uma vez.

—E de sua encantadora esposa, não?

Esperou a que Henri ou Claudine falassem, mas foi Natalie a que tomou a iniciativa com uma aguda observação do que se tinha que dizer nesse momento.

—E que casa mais formosa tem, madame Lemire. Tem um gosto delicioso.

—Obrigado — respondeu Claudine com tensão.

Natalie prosseguiu, jogando um olhar para o vestíbulo e o salão de baile.

—Está maravilhosamente decorado, embora soubesse assim que atravessei seu jardim, tão viçoso e bem atendido.

Claudine lhe dedicou um sorriso crispado.

—Sua casa da Inglaterra é muito pequena para ter um jardim, madame Drake?

Aquilo foi um insulto direto arrojado sem nenhuma inteligência nem sutileza, e Jonathan se perguntou se era produto do mero ciúme ou de seu desprezo para o inglês em seu conjunto.

Natalie saiu do passo abrindo ostensivamente os olhos com ar inocente.

—Bom, na Inglaterra temos uns jardins preciosos, é óbvio, mas sem os doces aromas que fazem florescer o sol, o calor diário e a brisa do mar. E posso acrescentar que sua permanente exposição ao sol conferiu a sua pele um brilho do mais saudável, madame Lemire, e não como nós, que estamos pálidos por sua falta.

Natalie lhe tocou a bochecha, e seus olhos se entrecerraram com um olhar malicioso quando se inclinou para a francesa, fingindo que lhe sussurrava como se fossem velhas amigas que estivessem falando de seus amados maridos em presença destes.

—Pode que algum dia consiga convencer a meu querido Jonathan de que compre uma casa na costa, ou talvez possa convencê-lo você esta noite com seus encantos. Como deve desfrutar disto! E estou segura de que o seguirá fazendo durante muitos, muitos anos. Como a invejo!

Natalie esteve perfeita e encantadora, e Jonathan teve que reprimir uma gargalhada.

Claudine piscou rapidamente, não muito segura se tinha sido adulada por uma mulher formosa ou era vítima do engano de uma mais ardilosa que ela. Henri se limitou a assistir ao intercâmbio de palavras sem emprestar atenção, sugerindo que uma conversação entre mulheres, fora qual fosse o tema, carecia de importância, quando não beirava diretamente a ridicularia. Algo que, chegado o caso, também podia utilizar-se.

—Somos muito felizes aqui — afirmou a francesa cada vez mais segura de si mesmo. —Esta noite estamos muito ocupados, mas possivelmente possa nos visitar ao longo da semana para ver durante o dia a casa e o jardim, madame Drake.

Aquilo era um rechaço manifesto, e Natalie respondeu em conseqüência.

—Isso seria fantástico, e estarei encantada. — voltou-se para Jonathan e lhe agarrou o braço. —Mas agora, vamos querido. Estamos entorpecendo a fila.

—Sim, claro — conveio Jonathan, despedindo-se de seus anfitriões com uma saudação de cabeça.

De ali seguiram a fila, apresentando-se com acalmo aos parentes e demais notáveis da localidade. Ao Jonathan, pareceu-lhe interessante, embora não inesperado, encontrar-se com vários membros da velha nobreza de lugares tão afastados como Anjou ou Bretanha — cujas famílias tinham origens que se remontavam a muito antes dos dias pré-revolucionários e cujas vinculações políticas eram análogas às do conde— em um baile de celebração do décimo oitavo aniversário da filha deste. Estavam cozendo muitas coisas entre bastidores que, se sir Guy estava certo, não faziam a não ser antecipar outra revolução, e nesse momento Jonathan teve o convencimento de que aquela festa era a tela de um planejamento estratégico. Estavam se preparando para vender as esmeraldas. O triunfo de umas mentes arrogantes que teria uma vida muito curta. Estava seguro disso.

Por fim, entraram tranqüilamente no salão de baile propriamente dito, já cheio de gente que dançava e conversava entre música e gargalhadas. Homens com cartolas vestidos de cerimônia e damas com delicados vestidos de seda, tafetá, veludo e encaixes de todas as cores formavam pequenos grupos nos que se discutiam vivamente os assuntos políticos e sociais, mantinham-se conversações corriqueiras ou se fofocava. Os lacaios, vestidos com librés escarlates, transportavam fumegantes bandejas de comida às mesas do bufê, e o aroma que desprendiam impregnava o ambiente junto com a fragrância embriagadora dos perfumes e o aroma dos milhares de velas acesas. Quatro esplêndidas aranhas de cristal penduravam em fileira sobre as cabeças dos assistentes. Duas das quatro paredes apareciam cobertas com enormes quadros e tapeçarias, e nas outras dois se abriam uns largos vitrôs dourados que discorriam do chão ao teto, todos esplendidamente adornados com cortinas de veludo vermelho, retiradas por cordões e borlas douradas, e rematados no alto por uns querubins também dourados que observavam aos presentes com um respeito manifesto.

Na aparência, uma festa caseira como qualquer outra.

Jonathan conduziu Natalie em silencio através da multidão até uma das mesas do refrigério e entregou uma taça de champanha.

—Esteve maravilhosa — lhe disse em tom elogioso.

Ela o observou com atenção e deu um sorvo a sua bebida.

—O conde é ardiloso e atrativo a sua maneira, mas ela é uma grosseira e sente uns ciúmes desnecessários de seu marido. É uma simples que carece de tato.

Jonathan sorriu com cinismo, advertindo o tom rosáceo das bochechas dela e a irritação que brilhava em seus olhos.

—Muito observadora, mas possivelmente sim que tenha razões para estar ciumenta — ele sugeriu. —Você eclipsa sua beleza dos pés a cabeça e ela sabe.

Natalie soltou um bufo, fazendo caso omisso de seu comentário enquanto começava a procurar entre a multidão alguma cara que se parecesse com a do ladrão. Isso esporeou irracionalmente a cólera de Jonathan.

—E como a maior parte dos membros da nobreza — acrescentou ele— tem amante, e estou seguro de que ela sabe. Provavelmente, tenha uma na atualidade. Pode que mais de uma.         

Jonathan não tinha nem idéia do que lhe moveu a dizer aquilo, só lhe pareceu que era o comentário perfeito para atrair sua atenção. E também funcionou, porque ela voltou a olhá-lo rapidamente à cara com as sobrancelhas levantadas em um ligeiro cenho de desaprovação.

—Talvez lhe possa resultar surpreendente, Jonathan, mas não todos os cavalheiros de bom berço têm aventuras adúlteras. Sem dúvida são muitos os que o consideram um direito inerente a sua classe e se aproveitam de sua riqueza e oportunidades, alardeando de seus amantes para que todos os admirem. — Fez uma larga inspiração e levantou o queixo com teimosia. —Mas há outros, e embora sejam escassos em número, que são homens fantásticos, que possuem um profundo critério moral e um autocontrole inflexível, e que amam o suficiente a suas algemas e famílias para manterem-se fiéis.

Jonathan se levou a taça aos lábios, sentindo curiosidade a respeito de como e onde ela tinha conseguido tal informação, mas negando-se a perguntar por que isso era precisamente o que ela queria. Assim, em seu lugar, e baixando a voz, respondeu com sinceridade:

—Realmente é uma apaixonada pelo tema, não é assim, minha vida?

As bochechas de Natalie arderam com uma tonalidade de rosa mais intensa, mas se limitou a olhá-lo fixamente sem paixão, desprezando o adendo amoroso de Jonathan fosse por eleição, fosse porque estava a colocado em faíscas. Ele confiou em que fora isto último.

—Talvez seja algo do que deveria tomar nota, Jonathan — lhe advertiu com certa ironia. —Que positivamente trágico seria para mim me inteirar de que sua futura algema lhe atravessava o coração com a imponente espada do conde, como conseqüência de sua falta de contenção. Conhecendo sua particular reputação, sugiro-lhe que reconsidere a compra. — A conjetura fez que Natalie sorrisse abertamente. —Embora agora que o penso, se a mulher com a que se case resulta ser ciumenta e combativa, terá uma ampla variedade de armas onde escolher entre as que já penduram da parede de seu estúdio. Eu em seu lugar as venderia todas.

Jonathan sentiu o impulso de atraí-la entre seus braços e beijá-la até deixá-la sem sentido, de abraçá-la com força e desfrutar da sensação de seus seios contra seu peito, de lhe percorrer o cabelo com os dedos e que fossem ao diabo todos os presentes. Entretanto, conteve-se lhe dando outro longo trago ao champanha sem que seu olhar titubeasse nem um instante.

—Agrada-me ouvir quanto se preocupa com meu bem-estar, Natalie. Mas observando que tenho muito apreço pela minha vida, além de minha ampla e muito valioso coleção de armas, creio que preferiria renunciar a perseguir as damas. Em especial — acrescentou em um sussurro, inclinando-se para ela para que pudesse lhe ouvir, — se me casar com alguma tão atrativa e desafiante como você, céu. O bem da verdade seguro que faria que não deixasse de temer pela minha vida, se rompesse meus votos.

Natalie o olhou de marco em marco com um alarme moderado em seus grandes olhos, enquanto considerava uma união permanente e inapelável entre ambos, possivelmente pela primeira vez.    

—Embora, por outro lado, tampouco isso deveria me preocupar — prosseguiu com brutalidade, levantando a palma da mão livre para aproximar-lhe ao queixo e o acariciar o polegar. —Me teria tão esgotado no leito conjugal que nunca contaria com a energia suficiente para ir procurar em qualquer outro sítio um prazer que, de todos os modos, talvez não se pudesse comparar com o que obteria de você.

Ela já o olhava boquiaberta absolutamente assombrada e sem palavras. Nada produzia maior prazer a Jonathan que provocar ao Natalie Haislett até emudecer a de indignação, de modo que sorriu de orelha a orelha sabendo que ela também entendia isso, e que reconhecê-lo a enfurecia.

Antes que Natalie pudesse contra-atacar com uma resposta, lhe tirou a taça de champanha da mão, deixou-a junto à sua vazia em uma mesa auxiliar e a agarrou por braço.

—Estou vendo a Madeleine. Chegou o momento das apresentações.

A Natalie estava acostumada a lhe encantar as festas, fossem do tipo que fossem. Quando tinha cinco anos, lhe tinha permitido espiar pela primeira vez uma às escondidas, uma festa que sua mãe tinha qualificado de pequena reunião e que, em realidade, tinha terminado por congregar a mais de noventa pessoas. O brilho, as risadas e a música, a cor das levita e das saias, as intermináveis mesas com comida e os rios de champanha a tinham intimidado. Duas vezes mais durante sua infância tinha alcançado a ver aquele fascinante encanto, até que em 1842 chegou á temporada de sua apresentação e lhe permitiu por fim assistir a uma. Aquilo ocorreu no verão do baile de disfarces no que tinha conhecido ao Jonathan Drake.    

Fazia muito tempo que morria de vergonha cada vez que recordava aquele baile. E aquele primeiro beijo. E até que ponto aquele pequeno acontecimento tinha posto sua vida de patas para o ar!

Essa noite, ele era seu acompanhante. Atrativo, sofisticado e suave como a seda, deixava-a estupefata por sua habilidade para encantar, coagir e mentir sem problemas e à perfeição. Ao Natalie arderam as bochechas por ouvir o insinuante comentário do Jonathan, mas, apesar de tentá-lo, não foi capaz de discorrer uma resposta adequada a tão pouco presunçoso comentário. E ridículo. Assim se limitou a manter a boca fechada, mantendo-se a seu lado como uma cadelinha fraldiqueira.

Ele a conduziu com rapidez para o limite da pista de baile, onde um grupo de damas conversava animadamente como loucas; dessa maneira tão entusiasta dos franceses, quando sem dúvida falavam de como ia vestida a mulher do conde, que parecia uma menina a ponto de participar do desfile de Páscoa. Os ingleses também falariam de sua falta de gosto, mas, ao menos, seriam sóbrios e discretos sobre o tema.

Então, os olhos de Natalie pousaram em Madeleine DuMais. Reconheceu imediatamente a espantosa mulher, alta, elegante, com o cabelo castanho dividido em dois e recolhido bem alto no cocuruto daí cair em cascata pelo pescoço em suaves cachos. Tinha posto um brilhante e moderno vestido de cetim de um chamativo arroxeado azulado, com uns casulos de rosas de intenso amarelo no sutiã e no bordo da saia, e tudo acentuado com uns volantes de encaixe negro que lhe cobriam o pronunciado decote em pico, o que ressaltava a exuberância do peito e a estreiteza da cintura. Em uma mão sustentava um leque dourado e negro meio aberto; um xale completamente negro e longo lhe caía sobre o outro quadril. Falava com as mulheres que tinha ao lado com fluidez e graça, e destacava por cima delas. Era a classe de mulher que Natalie via capaz de cativar a um país inteiro, das do tipo que são recordadas através dos tempos, porque os homens apaixonados por ela sonhariam matando para possuí-la e escreveriam poesias e histórias de batalhas por defender a honra da dama. Assim de tão formosa que era.

Jonathan se aproximou de seu lado, e Madeleine voltou-se com o prazer brilhando em sua cara e enchendo seus atrevidos olhos azuis quando o reconheceu.          

—Monsieur Drake, quanto me agrada que tenha podido assistir a esta velada — disse a mulher com um sorriso resplandecente, olhando-o fixamente sem dissimulação e apartando-se das demais damas, que seguiram com sua conversação sem reparar nisso.

Jonathan lhe agarrou os largos dedos entre os seus, fez uma reverência e os beijou.

—Madame DuMais vê-la é sempre um prazer. — deu-se a volta. —Eu gostaria de lhe apresentar a minha esposa, Natalie.

De pé muito erguida ao lado do Jonathan, apertando o leque entre seu punho, Natalie se sentiu repentinamente feia e pequena, e aquele instante de desconforto que demorou a francesa em pousar por fim seu olhar sobre ela lhe desejou muito que se dilatavam horas.            

—Madame Drake. Ao fim nos apresentam — disse, dirigindo-se a ela com um marcado acento inglês. —Seu marido me falou tão bem de você que já sinto como se a conhecesse, embora para ser sincera — acrescentou, e olhou a Natalie de cima abaixo—, mostrou-se um tanto parco nos elogios, como por outro lado lhes está acostumado a ocorrer aos maridos. É você preciosa! —Madeleine lançou um olhar ao Jonathan, sacudindo a cabeça com fingida indignação. —Meu defunto marido era exatamente igual. Um pobre homem que me descrevia diante outros como «alta e de cabelos escuros». Nada mais. É uma pena que nos esforcemos tanto com nosso aspecto (trajes e perfumes caros e anos praticando as melhores maneiras), para que ninguém se fixe realmente em nós, salvo as demais mulheres.          

Natalie sorriu abertamente, e a mulher gostou imediatamente sem saber realmente por que. De perto, detectou uns sutis rastros de maquiagem na cara da mulher: os lábios mais vermelhos que o natural, um toque do Kohl que lhe perfilava as pálpebras para ressaltar os olhos, e ruge para lhe ruborizar as bochechas. A voz de sua mãe retumbou de repente entre seus pensamentos pelo resto complacentes: «Uma verdadeira dama não se pinta a cara. “Aquilo ressalta com o que Deus a benzeu sozinho com um leve beliscão nas bochechas ou uma ligeira dentada nos lábios para conseguir um poquito de cor». Não, sua mãe não sentiria afeto por aquela mulher absolutamente, e a Natalie gostava, sobretudo por isso.

Recuperada a confiança em si mesmo, relaxou-se.

—Em efeito, Madame DuMais, entendo-a perfeitamente. Vestidos de todas as cores e feituras para cada celebração se alinham em meu guarda-roupa, entretanto, meu querido Jonathan não duvida em me descrever para você como «baixa e um pouco pálida, embora de boa família». —Natalie deu uns golpezinhos com o leque contra a palma de sua mão livre. —É tão próprio dos ingleses, tão próprio dos homens...

Jonathan parecia divertido, com as mãos entrelaçadas às costas e a boca torcida em um meio sorriso.

—Suponho que esqueci mencionar o mais valioso de sua beleza, querida — respondeu, continuando com a conversação, embora a olhando fixamente aos olhos. —Umas curvas deliciosas, o cabelo da cor de um pôr-do-sol, olhos como brilhantes e um sorriso capaz de iluminar uma habitação. —Franziu a boca e o sobrecenho. —Mas, como é natural, digo a todo mundo que é de boa família. Por que outra razão se casaria um?

Natalie avermelhou ante a contundência da afirmação e a descarada contemplação da qual era objeto, mas seus olhos cintilaram de prazer quando respondeu de maneira dramática:

—Bom, deixando a um lado o bom berço, eu me casei contigo pelo dinheiro, Jonathan.

O aludido fez uma pronunciada reverência, e Madeleine jogou a cabeça para trás rindo com discrição.

—Meu deus! Quanta sinceridade há entre os dois. E minha querida Natalie... Posso chamá-la Natalie? E você me chame Madeleine. Casei-me com meu defunto marido pela mesma razão, e posso afirmar que pude desfrutar de cada minuto desde sua morte.

Natalie afogou uma risadinha enquanto observava ao Jonathan, que pareceu cativado pela conversação.

—Tomarei isso como um bom conselho, Madeleine — observou Natalie com alegria. —Talvez chegue a ser igual de afortunada.

—Espero que sim. —Sorrindo, Madeleine agarrou-a pelo braço. —Bom, estou segura de que a seu marido adoraria dar uma volta pela sala de fumantes ou fazer o que quiser que façam os homens nas reuniões como esta. —Olhou ao Jonathan. —Se não lhe importar, monsieur Drake, levar-me-ei a sua esposa e a apresentarei a uma ou dois amigas. Estou segura de que ambas temos muitas coisas das que falar.

—Não duvido — respondeu ele com secura. —Mas, por favor, não lhe faça trocar de idéia a respeito do muito que me adora.

Madeleine lhe dedicou um sorriso sarcástico de orelha á orelha.

—Isso é impossível de conseguir, estou segura.

Natalie deu uns passos inquieta, e pela primeira vez alcançou a ver, em realidade foi uma impressão, algo mais entre a Madeleine e Jonathan. Nada insinuante, nem sequer algo que sugerisse intimidade, a não ser uma espécie de... Cumplicidade. Como se soubessem um segredo que ela ignorasse.

—E bem Natalie?

Aludida-a se desfez do incômodo pensamento sacudindo a cabeça e tornou olhar ao Jonathan na cara.

Este entrecerrou as pálpebras quando a olhou aos olhos.

—Dançaremos mais tarde.

Foi uma afirmação singela e inócua, entretanto, o olhar do Jonathan, intenso e cheio de significado, como se fossem as únicas pessoas da sala, inquietou-a.

Natalie assentiu com a cabeça de maneira quase imperceptível. Então, Madeleine atirou dela agarrando-a pelo cotovelo, e Jonathan girou sobre seus talões e desapareceu entre na multidão.

Durante vinte minutos a francesa a apresentou a vários conhecidos, a maioria dos quais aceitaram sua presença ali com indiferença, quando não com frieza. Natalie se mostrou toda gentil e atenta que lhe permitiram as circunstâncias, refletindo com o rosto e suas maneiras uma atenção natural por tudo o que lhe rodeava, embora por dentro a apreensão a consumia. Queria seguir ao Jonathan, não intercambiar cumpridos com a elite francesa. Queria observá-lo das sombras quando se encontrasse com o Cavalheiro Negro, ver o legendário sujeito pela primeira vez sem que se desse conta. Saber que o larápio poderia já estar no baile, que poderia ter já falado com Jonathan, que inclusive poderia ser que soubesse já de sua presença quase a punha fora de si.

—Por que não falamos um momento? — sugeriu Madeleine, conduzindo-a para um grupo de poltronas de respaldo reto, vazios em sua maioria, situados no outro extremo do salão de baile.

—Sim, eu gostaria disso — respondeu Natalie com ar ausente, jogando uma olhada à multidão, porque o tempo parecia arrastar-se enquanto sua inquietação aumentava de maneira incessante.

Depois de sentar-se com graça sob um grande retrato cheio de encanto de um menino ajoelhado em um radiante jardim de rosas, e tomar o tempo necessário para alisar a saia a fim de evitar as rugas e que se enredassem as pregas, Madeleine lhe perguntou diretamente:

—O que lhe traz para a França, Natalie?

A pergunta pilhou-a de surpresa, obrigando-a a concentrar-se de novo sua atenção na mulher que tinha a seu lado, em lugar de assim que cavalheiro de cabelo escuro que caía em seu campo visual e que coincidia com a vaga descrição do Cavalheiro Negro.

—Desculpe?

Madeleine abriu o leque e começou a agitar ligeiramente o ar diante seu rosto.

—Perguntava-lhe o que lhe traz à França, posto que conheça perfeitamente sua relação com Jonathan.

O primeiro pensamento de Natalie foi que não se deu conta de que seu falso marido e aquela mulher se chamassem pelo nome. Mas seguro que o fariam. Em realidade pareciam ser mais que meros conhecidos e, depois de tudo, tinham passado algum tempo a sós na casa da mulher falando de seus acordos comerciais, o qual, em conjunto, seguia lhe parecendo suspeito.

Natalie se endireitou um pouco no assento, com as mãos devidamente colocada sobre o regaço, zangada porque o comentário deixou-a incomodada.

—Jonathan aceitou me apresentar a um amigo.

Madeleine levantou as sobrancelhas.

—Sério?

O singelo comentário implicava incredulidade, ou com pouca desconfiança. O ambiente começava a ficar desagradavelmente quente pelo crescente número de pessoas que enchiam o salão de baile, e Natalie também levantou seu leque aberto, agitando-o sem cessar diante dela.

—Posso ser franco com você, Madeleine? — Natalie perguntou depois de um momento de silêncio.            

A francesa respirou fundo e se recostou com cuidado sobre um dos amaciados braços aveludados da poltrona, olhando-a com ar calculado.   

—Espero que o seja. Por favor, me acredite se lhe disser que também posso ser sua amiga, Natalie.            

De novo, uma simples afirmação que não dizia muito, entretanto, Natalie percebeu a honestidade da mulher e sua própria necessidade de confiar. Moveu-se no assento, inclinando-se para aproximar-se e, baixando a voz, disse:       

—Ouviu falar do larápio inglês conhecido como o Cavalheiro Negro?      

O único sinal evidente de que Madeleine fizesse caso de suas palavras foi uma inapreciável pausa no movimento do leque. Logo murmurou:  

—Sim.          

Natalie se armou de valor.           

—Acredito que está aqui, em Marselha, e que Jonathan o conhece pessoalmente. Paguei-lhe para que nos apresente.

Um vibrante estalo de gargalhadas partiu de um pequeno grupo de damas à esquerda de ambas. Entretanto, a concentração de Madeleine permaneceu petrificada sobre a Natalie, e só uma piscada de regozijo e perplexidade do mais leve alterou suas facções.

—Pergunto-me como pensa levar a cabo essa apresentação — disse Madeleine com muita lentidão.

Natalie considerou que era bastante inusitado dizer algo assim, quando o que esperava ela eram perguntas.

—Não... Não estou segura — gaguejou, erguendo. —Se supõe que tem que estar esta noite no baile.

Nesse momento a francesa parecia encantada, deixou cair o leque em seu regaço e se incorporou no assento.

—De verdade? E por que razão, segundo você?

Essa idéia só tinha ocorrido a Natalie uma vez antes desse momento, na calorosa habitação do hotel do mole, e inclusive então, Jonathan não tinha estado muito comunicativo no concernente ao motivo que se supunha ao ladrão para que assistisse aquela festa em concreto. Ela tinha dado por certo que estava relacionado com a espada que Jonathan pretendia comprar, mas nesse momento isso lhe pareceu muito rocambolesco. O Cavalheiro Negro era um perito da intriga e o engano que trabalhava pelo bem dos governos e dos desfavorecidos. Para que quereria uma espada? E como poderia roubá-la diante de quinhentas pessoas e largar-se diante dos ardilosos e observadores narizes do conde? Não poderia, não o faria, e então Natalie sentiu que sua confiança remetia à medida que crescia sua confusão. Se o ladrão aparecia, seria por outro motivo, por algo que ela não tinha considerado ainda.

—Não posso imaginar que assistisse a um baile em honra da filha do conde de Arlés porque seja amigo ou conhecido da família — terminou aceitando. Isso parece muito incrível. A lógica sugere então que estaria aqui por negócios, mais exatamente para roubar algo. E se fizer uma viagem tão longa até o sul da França para roubar, o objeto de seu interesse tem que ser de grande valor. —Suspirou e sacudiu a cabeça—. Mas isto é sozinha uma mera hipótese de minha parte. A verdade é que não sei.      

Madeleine não pareceu advertir a perplexidade dela. De fato, todo seu semblante brilhava com uma fascinação moderada.

—O único que me ocorre que seja o bastante pequeno para que um ladrão possa roubá-lo em um baile seria... Bom... Os documentos que o conde poderia guardar em algum lugar de sua casa ou, mais provavelmente, as valiosas jóias de alguma dama. Algo que se possa esconder em um bolso... Talvez um broche de diamantes ou possivelmente um anel de rubis.

Natalie franziu o sobrecenho.

—Mas por que vir até a França para roubar um broche? Isso o pode fazer em Grã-Bretanha.

Madeleine franziu seus exuberantes lábios vermelhos e enrugou a fronte ao considerar prudentemente:

—A menos que esse broche concreto tenha um valor incalculável de outro tipo.

Sem pretender parecer terrivelmente ignorante, Natalie perguntou:

—E que valor poderiam ter umas jóias mais à frente de que tenham no comércio?                  

A francesa começou a abanar-se de novo.

—Bom, imagine, por exemplo, que pudesse trocar-se por importantes documentos que talvez fossem de utilidade para o governo britânico.

—Trocar um broche francês roubado por uns documentos franceses... —pensou em voz alta.    

—Ou talvez o Cavalheiro Negro esteja aqui para apoderar-se de umas jóias que tivessem sido roubadas inicialmente a um britânico — propôs em seu lugar Madeleine.     

Natalie refletiu sobre aquilo e teve que aceitar que era o que mais tinha sentido de tudo, dada a afeição do sujeito a devolver os objetos que roubava.

Com os olhos faiscantes, Madeleine se inclinou de novo para aproximar-se muito.

—Todo bom ladrão tem que ter uma razão que anime seus atos — concluiu em um sussurro. —E o Cavalheiro Negro especialmente é conhecido por roubar objetos só pelo dinheiro. Se Jonathan esperar que esteja aqui esta noite, creio que o Cavalheiro Negro estará observando às damas que levem jóias de grande valor. Já verá se ao final está acabará resultando uma noite cheia de incidentes e diversão.

Natalie desviou o olhar para os convidados uma vez mais, observando às damas, que alternavam vestidas com seus melhores adereços, aos cavalheiros que conversavam ociosamente ao redor das mesas do bufê, aos casais que riam, sussurravam e bailavam uma preciosa valsa vienense, interpretado com perícia por uma orquestra de vinte instrumentos. Quase todas as mulheres que podia ver levavam diamantes ou safiras ou algo igual de valioso, exibidos para a geral admiração. O objetivo podia ser qualquer delas, o que demonstrava que a conjetura do Madeleine era correta.

—Posso lhe perguntar como é que veio até Marselha para conhecê-lo?

Natalie tornou a olhar aos olhos ao Madeleine como uma exalação.

A francesa sorriu com perspicácia, apartando um escuro cacho da têmpora com um elegante movimento do dorso da mão.

—É uma decisão um tanto ousada, não lhe parece?

Pela primeira vez essa noite Natalie considerou a possibilidade de mentir. Suas motivações eram muito pessoais, inclusive vergonhosas, e confiar em qualquer um poderia ser realmente arriscado, por muitas e complexas razões. Tampouco podia admitir diante de qualquer um que de tanto em tanto se deixava levar por deslumbrantes sensações que se via entre os braços do Ladrão da Europa. Aquilo era sozinho uma bobagem, embora provavelmente acreditável dada á habitual natureza romântica das damas solteiras de sua idade. Entretanto, por mais que estivesse desfrutando da companhia daquela mulher, e embora tivesse que dizer algo, seu dever era divulgar o menos que pudesse.

Com expressão ausente tocou o camafeu que levava no pescoço, esfregando-o entre os dedos.

—Estou muito interessada nele profissionalmente. Necessito que me ajude a encontrar algo da maior importância e... De cunho pessoal.

Madeleine ficou olhando com atenção durante vários silenciosos segundos.

—OH, entendo...

 A inquietação fez presa de novo na Natalie, que começou a sentir um desagradável calor. Não era por aí por onde queria que discorresse a conversação, e confiou que Madeleine não fora tão descortês para escavar mais em seus pensamentos e projetos privados. Decidiu não permitir-lhe trocando o assunto da conversação ela mesma.

—Assim, me diga como arrumou a compra da valiosa espada do conde Arlés para o Jonathan, e dou por certo que é valiosa?

A expressão do Madeleine não experimentou nenhuma mudança. Estudou por um longo momento a Natalie sem nenhum recato, com uma expressão neutra, mas com uns olhos vigorosamente alerta. Então, apartou-se o xale do braço com cuidado e o deixou pendurando em seu regaço.

—Sim, é muito valiosa — reconheceu—, o qual, creio, é a única razão de que Jonathan faça uma viagem tão comprida desde seu país para adquiri-la. Chegaram-me rumores de seu interesse na transação porque meu defunto algemo era comerciante e conhecia vários homens relevantes da zona de Paris. O conde vive ali durante parte do ano. Mas não perguntei ao Jonathan os motivos que tinha para comprá-la, e a verdade é que ignoro os detalhes. Limitei-me a consertar a entrevista.

Natalie sorriu.

—Parece um pouco ridículo, mas para ser justo, o homem tem a afeição de colecionar armas, tão modernas como antigas.

Madeleine voltou a estudá-la com atitude crítica.

—Pensei que devia as colecionar.

Natalie sentiu que o calor lhe subia pelas bochechas, e decidiu que o melhor era esclarecer coisas.

—Claro que eu sozinho estive em sua casa uma vez, em seu estúdio, mas tinha uma parede coberta de espadas e pistolas e outras munições diversas. Imagino que devem valer uma pequena fortuna.

Madeleine se abrandou e a honrou com um sorriso cúmplice.

—Sério? Embora julgue que colecionar é uma diversão habitual em um cavalheiro, não é assim?

Natalie fechou o leque e o colocou no regaço.

—Sem dúvida o é para ele — admitiu, e um indicio de regozijo tingiu o tom de sua voz. —E é uma coleção de envergadura, pela que, conforme sei sente um grande orgulho. Simplesmente, encontraria mais impressionante que um cavalheiro tão agudo e apaixonado como Jonathan usasse melhor seu tempo em causas mais valiosas ou notáveis, talvez administrando assuntos de governo ou problemas sociais. Antes ao contrário, parece passar grande parte de sua vida perseguindo frívolos objetivos de desfrute pessoal, viajando pelo mundo quando lhe dá vontade e gastando seu dinheiro em tesouros insignificantes. —Sacudiu a cabeça—. Muito tempo... Jogando.

Com certa surpresa, lhe ocorreu então que jamais tinha pensado nele com tanto detalhe anteriormente, considerando as virtudes de sua personalidade sem nenhum conhecimento das circunstâncias infantis que pudessem havê-lo moldado e que o tinham convertido no homem que era agora. E acabava de descrever quase ao detalhe ao tipo de homem pouco convencional, do que lhe tinha falado ao Jonathan no navio, com o que queria casar-se; um homem sem ataduras com a rígida sociedade e suas opressivas convenções, mas livre e aventureiro e cheio de desejos de experimentar a alegria e a excitação da vida. Não sem irritação, também se deu conta de que ele teria reparado em sua gafe em tal momento.

—Gosta-lhe, não é certo? — perguntou-lhe Madeleine em voz baixa, com um olhar intenso, cheia de intuição.

—Sim, eu gosto de — admitiu Natalie com um suspiro, desabando-se um pouco em seu espartilho. —É encantador e muito considerado, como estou segura de que já sabe. Mas nossa relação é estritamente a de uns amigos ocasionais. Nada mais.

—É óbvio — admitiu Madeleine como convinha ao caso, deixando cair ligeiramente o queixo.

A voz de Natalie retesou quando acrescentou:

—Todas as mulheres parecem dar-se conta de sua atrativa personalidade. Elas o adoram, e ele sabe. Isso lhe cai de maravilha, o qual não é uma de suas melhores qualidades. Mas, como é natural, isso não é meu assunto.

Madeleine riu interiormente, estudando-a durante um ou dois segundos com a cabeça inclinada. Em seguida alargou a mão para Natalie e a apertou com doçura.

—Eu não o julgaria com tanta severidade, Natalie. Esse homem é mais profundo e tem mais devoções que as que você provavelmente perceba.

Natalie perguntou-se durante um instante como era possível que a francesa soubesse isso. Entretanto, antes que pudesse fazer nenhum comentário, o rosto do Madeleine se tornou inexpressivo, enquanto seu olhar se dirigia para um grupo de damas que se aproximavam tranqüilamente em sua direção.

—Vá querida. Madame Vachon e a pesada de sua filha Helene. — Suspirou, agarrou o leque e o xale, e se levantou com elegância. — Helene não sabe fazer outra coisa que falar do colorido de Paris e de como se casou com alguém de condição social superior a todas nós, um financista me acredito de sangue nobre, falecido de forma inesperada durante a lua de mel, e que lhe deixou uma fortuna. Penso que devo as abordar primeiro e as cumprimentar.

Natalie aproveitou a oportunidade que Madeleine lhe brindava, levantando-se também e agitando de novo seu leque aberto com a intenção de manter afastada a inquietação de sua voz.

—Creio que darei um pequeno passeio, então. Possivelmente me dê uma volta pelo vestíbulo, onde o ambiente não está tão carregado.

—Boa idéia — conveio Madeleine. —E talvez seja o momento de que procure o Jonathan. A filha do conde descerá de um momento a outro. —Madeleine avançou um passo, deteve-se e retornou. —Não permaneça cega a suas admiráveis qualidades como homem, Natalie. — A repreendeu em voz baixa. —Tudo o que deseja tem aqui, ao alcance da mão, embora possa que seu maior desejo não esteja metido no pacote que escolheria abrir em primeiro lugar.

A atrevida afirmação confundiu Natalie, deixando-a, coisa estranha nela, perplexa e sem resposta. Uma vez mais, teve a sensação de que a senhora DuMais sabia algo que ela ignorava, de que aquela e Jonathan guardavam um segredo atrás de outro de pessoas e acontecimentos de mais profundo significado. Mas era um pensamento perturbador tão vago que não podia fazer nada a respeito, e menos que nada traduzi-lo a palavras.

Madeleine voltou a sorrir como se lhe lesse a mente.

—Recorde, pode confiar em mim sempre, sobre o que seja. Busque-me depois, e falaremos mais. — Dizendo isto, agarrou a saia de seu formoso vestido, girou sobre seus talões com suavidade e se afastou.

Jonathan demorou quase quinze minutos em iludir os grupos de pessoas, para chegar ao vestíbulo e subir as escadas. É óbvio, se alguém lhe perguntasse, diria que estava procurando a sua esposa ou que tinha ouvido que o conde tinha uma coleção de arte privada excepcional em seu estúdio e que acreditava que vários conhecidos tinham mencionado que subiriam a ver de um momento a outro. Quando fora informado ato seguido de que estava em um engano, faria insistência em seus escassos conhecimentos de francês, e que talvez não tivesse entendido bem. Se o pilhavam, seu encanto o faria sair do apuro. Se de algo podia pensar Jonathan era de ser um mestre do engano.

Mas não o pilharam, e ninguém o viu uma vez se escapuliu do vestíbulo e subiu a escada, e em realidade falava francês bastante melhor do que qualquer um teria imaginado jamais. Era um mestre em seu ofício, mas o que o convertia em fabuloso era que nunca se mostrava pomposo. Era o bastante humilde — ou bastante inteligente possivelmente fora uma definição mais exata— para se dar conta de que não podia permitir o luxo da arrogância sob nenhuma circunstância. Cada vez que abandonava sua terra para fazer um trabalho, previa as diferentes maneiras de que pudessem desmascará-lo, de que alguém se inteirasse de suas intenções e descobrisse sua identidade. Sabia que sem prudência e sem uma mente em estado de alerta, pronta para adotar uma mudança de ação imediata em todo momento, poderia acabar no cárcere ou, ainda mais provavelmente, morto. Nenhuma das duas era alternativa que gostasse de contemplar.

Percorreu o corredor em silêncio. A iluminação era escassa, embora não insólita para uma casa particular a essas horas da noite. Como era natural, nem a família nem os criados consideravam necessário iluminar intensamente uma zona que não seria, nem deveria ser transitada por nenhum dos convidados à festa.

Os sapatos de Jonathan faziam um ruído surdo por cima do amaciado tapete escuro, mas o folguedo que ascendia do salão de baile amortecia qualquer eco que suas grandes pernadas pudessem fazer. Annette-Elise e suas donzelas estavam na mesma planta, embora no outro extremo da casa, preparando-se para uma aparição que demoraria menos de vinte minutos em produzir-se, mas a maior preocupação dele era a de dar-se de cara com algum criado. Como em todas as grandes mansões, estavam por toda parte, já nas sombras e esquinas, já nas habitações pelo resto abandonadas. Eram iguais aos móveis, como algumas pessoas sem consideração tendiam a tratá-los, com uma função, porém carentes de pensamentos e sentimentos. Jonathan tinha o suficiente sentido comum e os considerava uma ameaça tão considerável como o próprio Henri Lemire.

Tinha que dar-se pressa. Estava começando a sentir um anseia quase antinatural de estar de volta no salão ao lado da Natalie. Se não voltasse logo, esta começaria a suspeitar, e confiava que Madeleine pudesse mantê-la entretida sozinha até que a natureza maliciosa da Natalie tomasse a mando e se pusesse a sair em sua busca.

Por fim chegou à porta do estúdio. Deteve-se e, com a orelha apertada contra o painel, dispôs-se a escutar qualquer som procedente do outro lado. Nada.

Colocou a mão na maçaneta, girou-a até que se produziu um estalo e abriu a porta.

A habitação estava às escuras. O resplendor da lua que adentrava através das janelas posto que iluminasse a estadia, mas acender um abajur era muito arriscado. Teria que fazê-lo sem luz, decidiu, e fechou a porta atrás dele.

Conhecia bem a distribuição. A mesa à direita, duas cadeiras colocadas de frente, a chaminé apagada na parede oeste, a caixa forte em cima do suporte. Esperou sozinho um segundo para que seus olhos se acostumassem à penumbra, e sem demora começou a atravessar a provas a habitação, o ouvido atento e a acordada mente, não fora a ser que tivesse que improvisar uma mentira.

Finalmente, parou-se diante da caixa forte, com o Fragonard já fora de sua posição pendente na parede. Alargou a mão e tocou o frio metal. A caixa forte estava aberta e vazia. Annette-Elise levaria as esmeraldas essa noite, tal e como os rumores tinham prognosticado.

Meteu os dedos com agilidade no bolso do peito e tirou uma pequena bolsa de veludo. Continuando, introduziu-a cuidadosamente no interior da caixa, de maneira que ficasse à vista e fora descoberta facilmente.

Sorriu abertamente na penumbra.

Seus planos estavam começando a realizar-se.

 

Capítulo 9

Henri Lemire entrou silenciosamente em sua biblioteca privada do segundo andar, o copo na mão, cheio até o bordo de um uísque excelente, e fechou a porta atrás dele. Faltavam menos de vinte minutos para a estréia do Annette-Elise e ele teria que estar presente. Teria que tomar as decisões ali e nesse momento com toda rapidez, porque o tempo apressava, e essa provavelmente seria a única oportunidade que teria essa noite.

Alain Sirois, visconde do Lyon, já tinha entrado e tinha encaixado seu volumoso corpo em uma das duas poltronas de pele marrom. Tinha chegado  sozinho a noite anterior, já era tarde, portanto que aquela era a primeira oportunidade que tinham de falar em privado, e por desgraça teria que ser a toda pressa. Michel Faille também se reuniria com eles de um momento a outro, e por fim ficariam mãos à obra para salvar a França.

Alain começou a tagarelar sobre o molesto que estava com sua esposa, uma detestável mulher com vozeirão, obesa e horrível. Henri se apoiou contra uma das estantes, sorrindo e assentindo atentamente com a cabeça quando era necessário e lhe dando sorvos a seu uísque, enquanto seus pensamentos vagavam por roteiros muito mais prazenteiros, como os grandes peitos de madame Quinet esfregando-se contra seu tronco durante o baile que lhe tinha prometido para mais tarde, ou por temas sérios, como o muito valioso colar de esmeraldas que seria cuidadosamente desmontado e vendido ao dia seguinte a meio-dia. Alain, com seu cabelo branco e espaçado, seu nariz largo e estreito e uns olhos escuros como os de um corvo, era quase tão molesto de olhar como de escutar. Mas tinha uns contatos excelentes em Paris e era extremamente útil para a causa, assim Henri o tratava como se fora um velho amigo da família, o qual, é óbvio, não era assim. Entretanto, deixando a um lado qualquer outra consideração, Alain se opunha ao Luis Felipe, e isso era o que lhes unia.

Para alívio de Henri, Alain guardou silêncio quando a porta se abriu pela segunda vez, e Michel Faille, visconde do Rouen, entrou a seguir. Em um homem de extraordinária estatura, pois media quase dois metros, e magro de constituição, embora se movesse com muita estupidez para alguém que levava mais de cinqüenta anos com semelhante corpo. Tinha uma personalidade dura e ardilosa, freqüentemente, cruel e grosseira com os inferiores, mas seus rasgos eram como os de uma pomba: tez branca, cabelo grisalho, uma pele anormalmente suave como a de uma mulher e uns olhos castanhos de pálpebras cansadas. Seu atrativo lhe tinha sido de utilidade ao longo dos anos, porque pilhava as pessoas despreparadas. Alguém o trataria como a um Cavalheiro agradável e delicado, para descobrir que podia ser genial e quase malvado de pensamento e obra. Henri o admirava realmente por isso.

—Uma festa encantadora, Henri — observou Michel com sarcasmo, dirigindo-se tranqüilamente até a única poltrona vazia da habitação. Sentou-se com estupidez e plantou seus enormes pés sobre o tapete de felpa Aubusson, o que provocou que de forma natural seus joelhos ficassem por cima da altura dos braços da poltrona. —Penso que aqui podemos falar sem disfarces.

Foi uma afirmação, não uma pergunta, e Henri a ignorou.

—A venda está fixada para amanhã ao meio dia — começou o anfitrião após dar um bom trago em sua taça. — Irei à cidade ao redor das dez, e deveria estar aqui de volta por volta da uma ou as duas, com o dinheiro na mão. Dividiremo-lo a partes iguais amanhã de noite, depois do qual, retornarão a seus lares. A cerimônia de Paris terá lugar daqui a duas semanas. Nossa graciosa majestade tem previsto assistir, ao menos no momento, e nós iremos com esse...

—Henri, não há tempo suficiente — cortou Alain com um grunhido, tentando em vão encaixar seu enorme corpo na poltrona.

—Pois claro que há tempo suficiente — lhe espetou Michel com irritação. —Não seja idiota. Há milhares de homens mortos de fome perambulando pelas ruas de Paris. Qualquer deles o faria amanhã em troca de um preço. Contratar em seu lugar a um profissional é melhorar o assunto, e isto é um negócio, Alain. Temos que ser diligentes e cuidadosos, mas atuar com rapidez. —Moveu seu ágil olhar feminino para Henri, trocando sua atenção por volta de um assunto mais premente. —Onde estão as jóias agora?

Henri fez uma larga e tranqüila inspiração com a intenção de ganhar tempo para pensar, enquanto começava a dar a voltas em frente à estante que cobria a parede do chão até o teto e que estava repleta de volumes de literatura, poesia e história perfeitamente colocadas. Não lhes ia gostar do mais mínimo sua resposta, mas aquela era sua casa, sua amada filha e, por direito próprio, suas esmeraldas. Ele foi quem ideou o plano e o que pagou para que fossem roubadas em primeira instância. Qualquer objeção por parte de seus companheiros seria, no melhor dos casos, discutível.

—Annette-Elise as está luzindo enquanto falamos...

—Como? — Michel esteve a ponto de levantar-se de um salto da poltrona, e sua expressão natural de certa debilidade de caráter se converteu em raiva controlada.

Henri voltou á cabeça rapidamente.

—Silêncio Michel! — sussurrou Henri com veemência, e o rosto se contraiu. —Nos pode ouvir algum criado ou acaso qualquer que ande pelos corredores.

Alain ficou vermelho e começou a suar com profusão. Resmungou algo e se meteu a mão no bolso para tirar um lenço, que utilizou para secar a cara com mãos trementes. Michel sentou-se, olhando, rígido, a seu anfitrião, e levantou um braço desajeitado para apoiar o cotovelo no braço da poltrona, com a finalidade frustrado de encontrar uma postura cômoda.

Henri lhes concedeu um ou dois segundos para que se tranqüilizassem e terminou seu uísque com três grandes tragos.

—As esmeraldas estão seguras — insistiu. — Estiveram encerradas sob chave em minha caixa forte pessoal durante semanas até faz trinta minutos, quando as grampeei ao pescoço de minha filha pessoalmente. —Seus olhos brilharam e se abriram enquanto enfrentava aos dois homens com lógica. —Quem pensa vocês que as vai roubar aqui? Mmm... Em uma festa com quinhentos convidados? Que idéia mais ridícula! A metade das mulheres convidadas exibe umas jóias muito valiosas...

—Não como essas — cortou Alain uma vez mais, quase sem voz.

Henri colocou seu copo vazio em uma prateleira e se inclinou para eles, a ponto de perder a paciência enquanto forçava a voz para falar em um sussurro.

—São umas jóias deliciosas, feitas para ser luzidas por rainhas e imperatrizes. Nada mais adequado que quem as use por última vez seja minha formosa e inocente filha no dia de sua estréia.

—Bastardo arrogante — balbuciou Michel entre seus lábios suaves como o veludo, com os dentes apertados.

Henri esboçou um sorriso de jactância.

—Pode que o seja. Mas esta noite seguem sendo minhas esmeraldas, cavalheiros. Fui eu quem assumiu os riscos, não nenhum dos dois, e sem dúvida, nenhum dos outros que só mostram uma morna disposição a aceitar nossa política para proteger a um rei legítimo. —Dando-se impulsiono para incorporar-se, alisou a levita e lhes lançou uma clara advertência com um grunhido. —Amanhã serão vendidas para que a nobreza francesa legítima, que esperou décadas para reclamar o trono para o herdeiro do Luis, possa recuperar também o poder e a posição que se merece e que lhes foram entregues faz séculos pela Igreja e o próprio Deus. Esta noite é um prelúdio. Amanhã começa tudo.

Era uma afirmação atrevida, extremamente exagerada, cheia de incertezas, e todos sabiam. Entretanto, teve seu efeito dramático, porque os três homens, durante um momento de quietude, olharam-se uns aos outros, sopesando decisões, o custo para as reputações e as contas bancárias, o prazer de alcançar o objetivo e a vitória que desativaria as graves situações que poderiam surgir se estivessem equivocados, se fossem descobertos. Mas tinham estado planejando aquilo durante muito tempo para tornar-se atrás. E nenhum reconheceria que queria fazê-lo.

Uma débil música e umas risadas amortecidas se filtraram pelas pranchas do chão, procedentes do salão de baile. Então, Alain tragou saliva com dificuldade e prosseguiu com o essencial.

—Fica pouco tempo. Se formos montar guarda quando sua filha faça a estréia levando as muito valiosos jóias, deveria nos contar rapidamente o de Paris, Henri...

 

Natalie subiu as escadas até o patamar do segundo andar, arrumando a ampla saia para evitar tropeçar. Quase todo mundo estava no salão de baile; só algum ou outro convidado permanecia no vestíbulo, a maioria a caminho do corredor que conduzia à sala de fumantes e aos salões. Ninguém pareceu reparar nela, e se o fizeram pensariam que não era mais que uma mulher que se perdeu, como era freqüente, ou à busca de um marido ligeiro de cascos ou que possivelmente ela mesma pretendia reunir-se com um amante para beijar-se apaixonadamente na obscuridade. Tudo isso era muito freqüente nas festas.

Sua intenção era encontrar ao Jonathan, que claramente estava imerso em alguma ou outra ventura, provavelmente procurando as antiguidades pessoais do conde, que com toda segurança o francês conservaria em seu estúdio ou em sua biblioteca pessoal. Ou possivelmente, pensou, pondo todas suas esperanças nisso, até estivesse falando nesse momento com o Cavalheiro Negro. Essas eram as duas coisas que melhor podiam explicar seu desaparecimento, além de que andasse encalacrado com alguma mulher nas sombras, e isso era algo que ela se negava a considerar absolutamente, até sabendo das inclinações pessoais do Jonathan. Não o podia imaginar desperdiçando a noite na sala de fumantes, discutindo de política e de caça com outros homens. Não era seu estilo. Mais provável seria que estivesse dançando ou seduzindo às damas que estavam tão desatendidas por seus maridos. Esse era Jonathan, mas Natalie sabia que à maturação não se achava no salão de baile, nem nas demais habitações do primeiro andar, onde já tinha jogado uma rápida olhada.

Deteve-se no alto das escadas e lhe assaltou a dúvida.

Teria que tomar uma decisão — direita ou esquerda—, e tão boa era a uma como a outra. Viu então a uma menina magra de cabelo castanho, embelezada com uma elegante uniforme engomado cor cinza, avental e touca brancos, entrar no patamar da quase invisível escada de serviço levando umas camisas de cavalheiro que apertava contra o corpo com uma mão, e girar para o corredor setentrional, onde desapareceu ao dobrar a esquina.         

A donzela se dirigia às habitações privadas da família, deduziu Natalie, o que significava que possivelmente a biblioteca estivesse à esquerda. Não necessariamente, mas era uma hipótese aceitável.      

Natalie dobrou a esquina, arriscando-se a lançar um último olhar para trás e pelas escadas para assegurar-se de que ninguém a seguia, e pôs-se a andar descaradamente nas pontas dos pés pelo deserto corredor, sentindo-se um pouco culpado por violar aquele espaço privado. Entretanto, em sua cabeça, sua desculpa lhe pareceu legítima.

Ouviu de repente umas vozes sonoras e graves, embora bastante amortecidas pelas grosas paredes cobertas de painéis de madeira para sossegar as palavras. Deteve-se no centro do corredor, tentando escutar sozinho o tempo suficiente para decidir se a voz do Jonathan era alguma daquelas, mas então a intriga a dominou e pegou a orelha à porta.

 

Envolto em uma escuridão absoluta, Jonathan também ouviu as vozes procedentes da biblioteca do conde situadas na habitação que confinava com a parede da caixa forte.

Aquilo lhe pegou de surpresa, porque tudo estava em silêncio até que começou o ruído surdo de conversação. Esperou vários segundos, tentando distinguir as palavras e as frases ou se a conversação era de grande importância, mas, de onde estava não podia entender nada primitivo. De todos os modos, se não podia inteirar-se de algo escutando às escondidas, não havia razão para arriscar-se a ser descoberto no estúdio às escuras do conde. Se o pilhavam, melhor que fora no corredor.

Em quatro pernadas se situou de novo junto à porta. Então, ouviu um rangido... Um tamborilar e uma voz que se elevava.

Era possível que estivessem saindo, e assim fosse, agüentaria no estúdio até que se foram. Com um pouco de sorte se dirigiriam ao salão de baile e não na direção em que se encontrava, mas tinha que estar preparado para a contingência de ser descoberto.

Tranqüilamente, com sua rápida mente posta em guarda enquanto arranjava uma desculpa verossímil que explicasse sua presença ali, quando em realidade não havia nenhuma, alargou a mão para a maçaneta, abriu a porta só um pouco e espiou pelo corredor. O que viu o assustou e inquietou por igual.

Natali estava ali, balançando os quadris sob seu vestido longo de baile enquanto se afastava rapidamente para o patamar principal. No preciso instante em que dobrava a esquina, o conde saía da biblioteca seguido por dois homens, um de estatura média e o outro incrivelmente alto e desajeitado. Todos eram nobres franceses; todos, com o interesse comum de derrocar ao rei que nesse momento reinava na França.

Que diabos estava fazendo Natalie ali? Escutando... Ou buscando a ele? Era possível que ela soubesse algo de francês, porque era um idioma que se acostumava à maioria das damas inglesas, mas era improvável que o falasse com fluidez ou teria utilizado algumas palavras em sua presença desde que estavam na França. O mais arrepiante de tudo, deu-se conta Jonathan nesse instante, era a circunstância de que o próprio conde poderia havê-la visto nas sombras ou dobrando a esquina. Nesse caso, os conhecimentos que ela pudesse ter do idioma era algo irrelevante. Se um conde francês muito rico e poderoso tivesse estado falando de questões concernentes à segurança nacional — e pelo que todos diziam, era disso precisamente do que tinham estado falando—, teria que pensar que ela sabia algo e se veria obrigado a tomar medidas.

Jonathan conteve a respiração, imóvel, a porta aberta só uma fresta da largura de seu olho, quando o conde olhou em sua direção. Então, os três homens se deram a volta a toda pressa e se afastaram a grandes pernadas em direção ao salão de baile.

Jonathan esperou quase cinco minutos, que transcorreram com uma lentidão incomensurável. Mas não podia correr o risco de que algum dos franceses advertisse que os seguia. Ao final, o tempo apressava e teve que mover-se.

Abriu a porta com suavidade e saiu ao deserto corredor. A toda pressa, e sem ver uma alma, caminhou até o patamar central baixou as escadas e entrou no salão de baile. O nível de ruído tinha aumentado à medida que a zona se foi lotando de gente. Demorou outros cinco minutos em encontrar a Natalie, que estava com a Madeleine perto de dos grandes vitrôs, nesse momento aberto para refrescar a habitação com uma brisa mais imaginada que real, de perfil enquanto se abanava e escutava a uma enorme e suarenta mulher de bochechas rosadas, que ria a gargalhadas de um comentário que acabava de fazer.

Então, Natalie se voltou lentamente para ele, como se sentisse sua presença mais que adverti-la, e um sorriso quase imperceptível lhe separou os lábios quando olhou aos olhos.

Jonathan se sentiu ridiculamente adolescente quando lhe acelerou o pulso e lhe secou a boca só por contemplar a formosa cara dela ao adoçar-se exclusivamente para ele. Não apreciou nem medo nem inquietação em seu olhar, somente uma calidez complacente e um montão de perguntas que ela ansiava fazer. Fora o que fosse o que tivesse ouvido, de ter ouvido algo, na biblioteca privada do conde, ou não a concernia o suficiente... Ou o ocultava à perfeição.

Com as mãos atrás nas costas, Jonathan serpenteou entre a multidão até chegar às damas, que deixaram de falar com aproximação dele.

—Acompanha-me a dar um passeio pelo jardim, Natalie?

Madeleine o olhou.

—OH, sim, vá — insistiu por sua parte.

—Mas a filha do conde está a ponto de aparecer. Seria uma grosseria — argumentou Natalie sem convicção.

Jonathan se inclinou para ela e baixou a voz.

—Que melhor ocasião poderia haver? Todo mundo estará aqui.

Jonathan observou como titubeava, passeando o olhar pela multidão, sopesando a possibilidade de dar alguma notícia que possivelmente não pudesse divulgar em presença das outras. Madeleine havia tornado a concentrar sua atenção na enorme mulher, e as duas conversavam de novo, esta vez em francês, o qual significava que já tinham assumido sua iminente ausência. Ele a agarrou por um braço, e, sem dizer nada mais, conduziu-a pelo cotovelo até o vestíbulo, fê-la atravessar as portas principais e saíram ao jardim.

Não estavam sozinhos, no momento. Outros três ou quatro casais passeavam tranqüilamente pelo caminho de tijolo que serpenteava através do parque, a maioria do braço, falando em voz baixa e rindo docemente. A fragrância das flores e da grama recém talhada enchia o tranqüilo ar noturno. As luzes dos faróis iluminavam o caminho em uns apagados tons amarelos; a música e as conversações do salão de baile se filtravam através dos vitrôs parcialmente abertos, para mesclar-se com o zumbido dos insetos noturnos e o som bastante longínquo do mar.

A cálida e serena atmosfera os envolveu aos dois quando Jonathan entrelaçou seu braço com o dela, atraindo-a para ele sem que ela oferecesse resistência. Natalie não tinha falado desde que tinham saído ao jardim, mas não se mostrava pressionada nem molesta e, de fato, parecia encontrasse bastante cômoda a sós com ele naquela atmosfera um tanto íntima.

—Diverte-se? —perguntou-lhe ele cortesmente.

—Não está mau. Isto é precioso. — Ela o olhou de esguelha. —E você?

Jonathan a olhou à cara, metade escurecida, metade iluminada pela luz dourada que a casa jogava detrás deles. Natalie estava sorrindo, embora o estivesse brocando com o olhar em busca de uma elucidação.

—Suponho. Sobretudo eu gosto que esteja aqui comigo.

Aquela era a maneira de falar do Jonathan —contida e seria— que a desconcertava. O sorriso dela se desvaneceu um pouco, e voltou á cabeça, de maneira que ficou de frente para o jardim de novo. Caminharam em silêncio uns quantos passos mais, até que ele localizou um banco de ferro forjado próximo da esquina sudeste e a conduziu até ali.

—Jonathan...

—Tenho algo que lhe perguntar Natalie — a interrompeu pensativamente.

Ela titubeou, permitiu tomar assento alisando a saia uma vez mais, enquanto ele permanecia ligeiramente a seu lado com os braços cruzados por diante do peito.

—Por favor — lhe agradeceu ela com um gesto da mão.

Jonathan sabia que estava ansiosa por se aprofundar nos assuntos que a inquietavam, mas estava contendo deliberadamente sua mordacidade, não fora a ser que ele decidisse esquecer-se da muito importante reunião que a tinha levado a França. Jonathan percebeu outra quebra de onda de poderoso recato que a envolvia em esse momento, enquanto olhava fixamente para sua cara, iluminada fracamente pela dourada luz dos faróis.

Inclinando a cabeça, perguntou-lhe com prudência:

—Que tal fala o francês?

A pergunta a surpreendeu, como Jonathan sabia que ocorreria, e sua expressão de perplexidade era o que ele queria ver. Natalie não tinha nem idéia de aonde se dirigia a conversação.

Ela se moveu um pouco no assento, retorcendo o leque no regaço.

—Essa é uma pergunta bastante esquisita.

Jonathan baixou a vista ao caminho de tijolo, esfregando os sapatos de sola de pele contra os paralelepípedos.

—Não é uma pergunta embaraçosa, nem sequer insólita, Natalie.

Ela esperou vários segundos, transcorridos os quais suspirou e se relaxou contra o encosto do banco.

—Falo o francês com fluidez, embora não sou capaz de imaginar por que teria que lhe importar isso.

Não lhe assombrou a resposta, entretanto, em alguma parte de sua mente começou a fazer caso de uma advertência, no momento difuso. Olhando-a aos olhos uma vez mais, continuou:

—E aprendeu o idioma de uma tutora maníaca?

Dedicou-lhe um sorriso inexpressivo.

—Foi uma imposição materna. Insistiu em que não perdesse minha herança, se por acaso me servia de algo.

Ele arqueou as sobrancelhas.

—Perder sua herança?

A expressão dela se tornou séria, e se abraçou agarrando os cotovelos, o que provocou que seus peitos se juntassem em umas ondulações suaves como a porcelana. Jonathan tentou não olhá-los enquanto se concentrava em sua cara.

Ao final, ela sussurrou:

—Meu avô materno era o conde de Bourges.

O ar se aquietou em torno deles, enquanto Jonathan ficava repentinamente absorto por causa de suas palavras. A olhou abertamente durante vários segundos, mas ela seguiu sem adverti-lo.

—Em realidade, era um conde rico e respeitado antes da Revolução de noventa e dois. Perdeu tudo uma noite, depois de que os camponeses arrasassem seu solar. Graças a um golpe da providência, pôde subornar a um carcereiro com um pouco de ouro que tinha escondido em sua pessoa, e dois dias antes que fora enviado a Paris para ser julgado e condenado, com toda segurança, a morte, com a ajuda do bispo de Blois e vários clérigos da linha dura conseguiu embarcar-se rumo à Inglaterra, como fizeram alguns outros poucos nobres franceses com sorte. Anos mais depois, após juntar uma pequena fortuna dedicando-se ao comércio, casou-se com minha avó e teve três filhas e um filho. Minha mãe foi a mais nova.

A revelação dela fez que as idéias se amontoassem na cabeça de Jonathan. Nesse momento, as possibilidades eram inumeráveis.

—E por que não me disse isso?

—Meu deus, Jonathan! Faz que pareça que me guardasse os segredos de maneira deliberada. — Natalie se tornou para diante no assento, deixando cair os braços enquanto voltava a agarrar o leque. Com expressão ausente começou a dar golpezinhos com ele no regaço. —A verdade é que não é a classe de informação que alguém vai propagando entre a gente educada.

Não podia discutir-lhe ter parte de sangue francês não era necessariamente mau. Por outro lado, que não fora totalmente inglesa ou o que os avós e os parentes longínquos fossem católicos não era algo que contribuía para fazer umas boas bodas. Embora carentes de importância, tais imprevistos podiam ter sua influência em alguns círculos sociais, embora não fora mais que pela fofoca. Não era algo que deixasse em muito bom lugar a visão que os ingleses tingiam dos franceses, a promiscuidade sexual e a cultura. Ao pensar nesse momento nisso, Jonathan pensou que era mais que aconselhável evitar comentar que se tinha um conde francês por avô a qualquer que não fossem os familiares ou os amigos íntimos.

Apoiou-se contra a luz.

—Por que não falou o idioma desde que está aqui?

Então, ela sorriu com uma alegria extravagante.

—Não parece mais lógico que finja ignorância nas conversações?

A confusão contraiu a fronte de Jonathan, e Natalie se inclinou tanto para ele que sua cara ficou quase à altura da cintura do Jonathan.

—Lembra-se de quando fomos às compras na quinta-feira, naquela pequena loja de modas próximo dos moles?

Ele soltou uma risada.

—Recorda o chapéu marrom insultantemente caro que comprou para acrescentar a seu escasso vestuário.

Ela ignorou o sarcástico comentário, embora entrecerrasse os olhos com uma indignação fingida.

—Era de seda cor chocolate e muito atual, mas essa não é a questão. Comprei o chapéu, embora não o necessitava...

—Está de brincadeira — lhe interrompeu ele com absoluta seriedade.

—Não o entende — insistiu ela com paciência, tornando-se um pouco para trás no assento. —Eu queria a sombrinha rosa. Entretanto, quando estava considerando se me comprava isso, a vendedora começou a lhes comentar em francês a outras duas damas francesas o pouco gosto que tinham as inglesas, que sempre queriam coisas de cor rosa sem ter em conta que a cor de sua pele está acostumada ter um aspecto cadavérico. — Natalie fez um violento movimento de indignação com o pulso. — Depois, passaram a comentar que as inglesas jamais parecem vestir-se com a elegância e o atrevimento das damas francesas. Não podia permitir que aquilo ficasse sem resposta.

—É obvio que não — respondeu ele em conseqüência.

Ela o observou com atenção, sem ter como saber de ciência certa se devia tomar o repentino sorriso de regozijo do Jonathan como um ato de condescendência para a mentalidade feminina e suas trivialidades, ou de desfrute pelo ridículo do apuro. Como Jonathan guardou silêncio, deixou-o passar.

—Em qualquer caso, começaram a falar do chapéu: que era a última moda em cor e desenho, que sensacional, que se vinha de Paris... Quando ouvi isso, agarrei-o. As outras mulheres o queriam, mas já o tinha na mão...

—Assim comprou algo que não necessitava.

Ela respirou fundo, o que fez que seus peitos se sobressaíssem por completo, e se ergueu desafiante.

—Sim, mas elas se viram obrigadas a pensar-se duas vezes o de minha falta de gosto.

—Não as vai a ver nunca mais — replicou ele de maneira insossa.

—Isso é irrelevante.

Jonathan ficou olhando fixamente a expressão de petulância dela durante um longo instante de silêncio, depois do qual se esfregou os olhos com os dedos. Mulheres. Nunca as entenderia.

—Essa é então a razão de que não fale em francês desde que está aqui? —perguntou ele, tentando retomar o assunto.

Ela se encolheu de ombros.

—Penso que se precisasse perguntar por uma direção recorreria a ele.

Jonathan baixou a voz.

—Mas fazê-la ignorante lhe permite escutar conversações que de outra maneira seriam privadas.

O sorriso dela se desvaneceu de repente.

—Não o faço com nenhuma malícia. Só me concede uma pequena vantagem quando outros falam de mim sem consideração (como já têm feito uma ou duas vezes esta noite), porque não são conscientes de que sei o que estão dizendo.

Jonathan fez uma pausa enquanto seu olhar escorregava pelo sob muro do jardim em direção ao mar aberto, completamente negro salvo por uma larga e brilhante franja de luz de lua. Jonathan julgou que o que lhe incomodava não era que alguém escutasse às escondidas, posto que tivesse estado fazendo o mesmo desde sua chegada a França. O que lhe preocupava, entretanto, era saber que o avô dela era um nobre francês despojado de seus privilégios. E o que isso significava? Provavelmente, nada absolutamente. Ela estava no certo ao dizer que muitos nobres tinham fugido a Inglaterra durante a Revolução, dos quais uns poucos se asseguraram o futuro, como tinha feito seu avô, enquanto que a maioria tinha esperado que a alta burguesia ou o governo britânicos os mantiveram.

Mas um pouco mais perturbador foi tomando forma em sua mente. Poderia ser que ela guardasse alguma lealdade à causa dos legitimistas, a daqueles que pretendiam depor ao que era à maturação rei da França e substituí-lo pela linha de sucessão de antigamente, a da época em que seu avô tinha tido poder? Parecia farto exagerado, embora não tão impossível para ignorá-lo, sobretudo depois das considerações às que se entregaram ao início da noite, relativas que as motivações de Natalie eram bastante mais profundas do que admitia, assim como a sensação que tinha ele estava sendo utilizando sutilmente ou lhe ocultava algo. Em honra à verdade, Natalie tinha uma vida relativamente desafogada e fácil na Inglaterra e não lhe tinha contado suas conexões francesas a ninguém, assim por que teria que lhe importar quem era o rei da França? Também era mulher. E as mulheres não estavam acostumadas interessar-se pelos assuntos políticos, porque sem dúvida não era um objetivo feminino e estava mal visto pela alta sociedade no geral. Por outro lado, Madeleine era mulher, e acreditava na reparação dos equívocos políticas, e trabalhava para o governo precisamente porque era mulher e, em conseqüência, não despertava nenhuma suspeita. Natalie, em que pese a sua juventude e ingenuidade, poderia pensar o mesmo perfeitamente. Sem dúvida, era bastante inteligente.

Mas seu maior motivo de inquietação era o seguinte: estava lhe ocultando suas verdadeiras motivações, não tinha nenhum motivo para lhe contar de seu antepassado, embora, para começar, inteirar-se de que seu avô foi outrora o conde do Bourges a Jonathan ansiava muito uma casualidade considerável, tanto com relação ao momento como ao motivo que o tinha levado a ele a França. Isso também explicaria convincentemente o que, sem nenhuma reação ou preocupação por sua parte, ela tivesse escutado de forma clandestina aos nobres franceses enquanto planejavam desfazer-se da pessoa reinava nesse momento. Ou talvez não tinha ouvido nada de interessante em uma conversação sobre jogos, caça ou qualquer outra afeição própria de cavalheiros. Isto era algo absolutamente possível, entretanto, parecia improvável, se admitia que tivesse pleno conhecimento de quem exatamente estava detrás da porta fechada da biblioteca. Mas, por cima de tudo, Jonathan tinha que admitir que saber que nesse momento ela poderia ser consciente de que ia se produzir uma revolta política o preocupava.

—No que pensa?

As palavras, murmuradas com aspereza pela Natalie invadiram os pensamentos do Jonathan. Voltou-se para ela e estudou sua cara, que reluzia tenuemente por efeito da luz, e o olhar genuinamente inquisitivo que expressavam seus olhos.

Dedicou-lhe uma meio sorriso e arrancou uma folha da buganvília que pendurava da grade branca que havia a sua direita.

—O Cavalheiro Negro está aqui esta noite, Natalie.  

Observou como ela abria os olhos com incredulidade e assombro iniciais para depois, quase de maneira foto instantânea, entrecerrou-os com uma piscada de excitação.

—Falou com ele? — perguntou-lhe apressadamente.

Jonathan olhou a folha que tinha entre os dedos.

—Sim.

Natalie se adiantou no banco, aferrando-se ao assento de ferro com as mãos.

—E...?

Jonathan titubeou transbordante de satisfação, fazendo-a esperar, desfrutando do momento no que valia. Então, deixou cair á folha, alargou a mão para agarrar o leque do regaço dela, arrojando-o ato seguido sobre o banco ao lado dela, e a agarrou ligeiramente de um braço para ajudá-la a levantar-se, o que Natalie fez sem pensar.

—Antes que entremos nisso, há algo que tenho que saber — disse, com suficiente ambigüidade para provocar um débil cenho de dúvida nela.

Um clamor repentino, seguido de aplausos e um alvoroço estalou no salão de baile. Annette-Elise fazia sua aparição, sem dúvida com as esmeraldas lhe adornando o pescoço, e ambos confiaram em ser os únicos em perder a estréia.

Jonathan olhou ao redor. Estavam sozinhos, e a ocasião era perfeita.

—Venha comigo, Natalie. — Aquilo não foi tanto uma pergunta como uma imposição, e ela não teve realmente eleição. Natalie não tinha a mente posta nele nem em que estivessem sozinhos em um jardim ao claro de lua, senão na aventura que se morava. Uma vantagem considerável para o Jonathan, que, como era de esperar, utilizaria.

—Está-me ocultando algo, Jonathan?

Isso fez que ele se parasse em seco.

Natalie o olhou fixamente aos olhos, concentrada.

—Sobre o Cavalheiro Negro, refiro-me. — Negou com a cabeça a modo de elucidação, apertando os lábios—. Sei que existe. As provas são concludentes. Mas também é um homem e tem que ter uma vida mais à frente do latrocínio. Como o conheceu? Por que está aqui?

Sem hesitações, jogando mão da experiência, Jonathan começou a caminhar de novo lentamente, o braço entrelaçado com o dela, enrugando o cenho em seu esforço por recordar, exatamente como devia fazê-lo.

—Conheci-o faz quatro anos, durante uma partida de cartas entre Cavalheiros em Bruxelas. Ele estava jogando de pena, perdendo todas as mãos, apostando mais do que provavelmente devia ter, e eu o ajudei com um pequeno empréstimo, entre ingleses, claro, antes que pudessem o acusar de fazer armadilhas ou de apostar o que não tinha. Aquele incidente deu começo a uma amizade que há durando até hoje. Temos uma idade parecida, e os dois possuímos a mesma classe de... Espírito errante.

Jonathan se precaveu de que a expressão dela trocava. Estava se arriscando, aproveitando-se das circunstâncias de que ela não tinha nem a mais remota idéia do que ocorria durante uma partida de cartas, mas naquela penumbra não podia estar seguro de se estava horrorizada ou fascinada. Talvez só obviamente cética. Prosseguiu antes que Natalie pudesse lhe fazer alguma pergunta mais e lhe interromper.

—Quanto à razão de sua presença aqui esta noite, ignoro-a. Não o perguntei. Mas está aqui, e penso que por alguma muito boa razão. — Por puro regozijo, inclinou-se para ela e acrescentou: — Fiz uma vaga descrição de você; disse-lhe que necessitava que a ajudasse, nada mais. E como é natural, deseja conhecê-la; é provável que já tenha posto seus olhos em você.     

A essas alturas a confusão, presidia os pensamentos dela. Com um ligeiro cenho avaliou as coincidências, e a suspeita começou a crescer. O engano não duraria muito mais; ela tinha encaixado muitas peças. Mas ele não se podia permitir uma cena entre eles nesse momento; não, quando o ato final teria lugar no salão de baile em menos de uma hora. Tinha que mantê-la na ignorância ao menos uma noite mais.

Em silêncio, conduziu-a até a esquina mais afastada do jardim, onde a escuridão prevalecia à medida que a luz das luzes se desvanecia, onde a grama se estendia para dar passo aos recortados escarpados e ao mar aberto. Permaneceram em silêncio um ou dois segundos, ele estudando o que podia ver da cara de Natalie, ela olhando-o fixamente aos olhos escuros.

—Jonathan...

Tocou-lhe os lábios com as gemas dos dedos para que se calasse e sentiu o coice de surpresa dela. Mas não as apartou. Antes bem, acariciou a suave e exuberante linha, desfrutando de do calor comovedor que isso lhe provocava em seu interior, desejando de repente que ela as beijasse movimento por sua própria necessidade. Mas em seu lugar, Natalie levantou a mão e lhe agarrou pelo pulso, lhe apartando a mão.

—Acredito que deveríamos voltar para salão de baile.

Tentou parecer dura, mas o tremor em sua voz mostrou bem às claras a batalha que estava perdendo em seu interior.

—Isto traz velhas lembranças, não é verdade? — insistiu ele, baixando o tom de sua voz. —De uma longínqua noite, de outro jardim à luz da lua, do aroma das flores em plena floração. Do doce som de sua voz nas sombras, do desejo que vi em seus formosos olhos quando me olhava, do tato de seu...

—Jonathan, por favor, não faça isto — lhe suplicou com uma suavidade cheia de ansiedade. Natalie retrocedeu, baixando a cabeça e passando a palma da mão pela fronte com irritação.

—Por quê? — A pergunta foi quase inaudível, entretanto, Jonathan soube que ela a tinha ouvido. —Por que não quer falar daquela noite?

—Estou aqui por um motivo, e este não tem nada que ver conosco — insistiu ela com ansiedade. —Não estou aqui para estar com você.

Aquilo feriu profundamente a Jonathan, mas não a soltou.

—Está comigo, Natalie.

Ela elevou a cabeça de repente e o olhou ferozmente com uns olhos ardentes.

—Só durante pouco tempo, e só porque tenho que estar...

—Quer estar.

—Isso não é verdade — insistiu ela, com a mandíbula apertada e o corpo em tensão. —E não entendo como pode seguir pensando assim, quando lhe deixei absolutamente claro que não o desejo.

Ele sorriu e negou lentamente com a cabeça.

—Aqui não há nada que pensar, e nunca o houve. Vamos acabar juntos.

Foi uma afirmação de fato realizada tão profundamente, com tanta intimidade e de um modo tão cortante que ela não pôde rebatê-la. Seguiu olhando-o fixamente aos olhos durante um instante, irradiando insegurança e raiva e inclusive um inexplicável respeito pela confiança em si mesmo de Jonathan.

—Não vale á pena lutar, meu amorzinho — insistiu ele com doçura. Levantou a mão e lhe colocou a palma no peito, lhe roçando com o pulso a parte superior dos seios, sentindo o rápido pulsar de seu coração sob a pele quente. Ela não se moveu.           

—Não serei sua amante, Jonathan — revelou com voz pastosa em um sussurro cheio de ardor. — Não posso sê-lo. Jamais rebaixarei tanto minha moral e minha auto-estima para me converter em outra de suas conquistas.     

Jonathan fez uma larga e profunda inspiração, permitindo-se admitir abertamente que isso já sabia.            

—Não tem por que. Você é a verdadeira conquista, Natalie.

Aquilo a fez titubear, piscando de incredulidade, e a irrupção da confusão fez que distendesse a expressão e fraquejasse.

Jonathan se tranqüilizou por completo, ao entender-se a se mesmo por fim e a incrível força que havia entre eles e que tinha estado ali da noite que se conheceram.        

—Não passa nada — lhe sussurrou enquanto lhe passava o polegar pelo pescoço em umas suaves carícias. —Todo irá bem.

—Rodeou-a com os dois braços e a atraiu para ele, baixando a boca até a sua para roçar-lhe com um suave e quente beijo. Ela não respondeu ao princípio, mas Jonathan insistiu, deslizando a língua pela greta de seus lábios fechados, até que Natalie abriu a boca.

Ela pôs as mãos contra o peito em uma atitude defensiva o que lhe permitiu tocá-lo. Jonathan saboreou a sensação, saboreando-a de acordo, língua contra língua, escutando como a agitação da respiração dela se compassava à sua, enquanto as ondas rompiam contra as rochas na distância, enquanto a música do salão de baile se convertia no eco de outra época.

Pouco a pouco ela começou a lhe corresponder o beijo com uma entrega cada vez maior, sabedora como ele de que era inútil qualquer resistência. Jonathan lhe subiu então os dedos pelas costas e os relaxou entre os cachos de cabelo da nuca, sentindo sua suavidade, impressionado pelo aroma de lavanda da pele de Natalie. Ela era mais que uma fantasia, era real, não imaginada, enquanto o desejava com um vigor e um encanto que nem sequer ela era consciente. Isso era o que a fazia mais formosa que todas aquelas que se desvaneciam gradualmente da memória de Jonathan. Era uma magnífica jóia que reluzia em um deserto solitário de sonhos insatisfeitos. Ao final, ele o tinha entendido, embora ela não.

Natalie gemeu de maneira deliciosa, apenas o bastante alto para que ele ouvisse. Mas assim que o ouviu, soube instintivamente que ela estava se deixando levar no momento. Em sua necessidade envolvente, ele não pôde esperar mais tempo para acariciá-la como tinha ansiado fazer, aparentemente desde fazia anos. Baixou a mão, roçando as gemas dos dedos pelo pescoço e o peito de veludo para lhe passar os nódulos levemente por cima dos seios, pela pele quente e sensível que ansiava sua atenção quando ela se apertou contra ele. A mão de Jonathan se fechou por completo sobre ela, lhe massageando suavemente o sutiã com a palma e os dedos, enquanto que com o polegar lhe acariciou um mamilo até que notou que se endurecia para ele através do fino tecido. Aquilo era uma tortura: a espera, o desejo ardente, a visão inicial do êxtase que estava por chegar. Para os dois.

Natalie ofegou na boca do Jonathan, mas não se apartou. Desejava-o, mais a cada segundo que acontecia. E isso é o que ele precisava saber. Natalie desejava a ele, não a um mito, por mais que ela pudesse negá-lo, e a consumação seria finalmente dos dois. Jonathan soube com a mesma certeza com que sabia que o outono segue o verão. O dia que lhe entregou sua sexualidade na praia não foi uma casualidade nem um ardor momentâneo nenhuma perda de controle. A força que havia entre eles estava ali, naquele longínquo jardim, e sempre formaria parte deles. Já não havia maneira de parar aquilo nem possibilidade de que voltassem para as vidas independentes que conheciam. O destino havia os tornado a unir, por segunda e definitiva vez, e ela acabaria por aceitá-lo.

Pouco a pouco, com mais relutância da que ele fora capaz de recordar haver sentido alguma vez, subiu as mãos e as cavou nas bochechas dela, separou os lábios e apoiou a fronte na dela. Natalie começou a tremer de desejo, não de frio, e Jonathan respirou profundamente para controlar a ansiedade de sua própria urgência.

Manteve-se obstinado a ela deste jeito durante vários minutos, até que ela se tranqüilizou, sentindo a respiração dela nas bochechas, sua palmas ainda quentes contra o peito.

—Necessito-a, Natalie.     

Ela negou com pequenos e violentos movimentos de cabeça, mas ele perseverou.      —Quero que minha pele toque a sua, senti-la nua, tombada a meu lado, fazê-la minha, só minha, e observá-la quando a paixão explodir em seu interior, como o outro dia na praia.

—Não...        

Ele fechou ainda mais as mãos sobre a cara dela, temendo que se soltasse de um puxão e saísse correndo.

—Isto já não é um jogo. Já não. Não aqui. Isto é real, Natalie, você e eu também. Posso senti-lo quando a toco, quando a abraço, quando a miro aos olhos. — Lentamente e com ferocidade, sussurrou: — Acabará acontecendo.

Nunca a tinha visto chorar antes, mas nesse momento pôde sentir a umidade em suas bochechas, provocada, estava seguro, pela frustração, a raiva e a confusão. Limpou-lhe as lágrimas com os polegares, mas não a soltou. Ainda não.

—Por que se empenha em combater isto? — perguntou-lhe com aspereza. — Por que não permite que seja o que é?

—Porque não posso Jonathan — respondeu ela com a respiração entrecortada. — Não com você. Esta é minha decisão, e não o quero desta maneira. É meu amigo, não o homem ao que me entregarei em corpo e alma.

Em qualquer outro momento de sua vida, Jonathan se haveria sentido ofendido ou desanimado por uma afirmação tão apaixonada que pretendia ser um frio rechaço. Mas sabia que ela estava mentindo, embora ainda não o tinha reconhecido a si mesmo. Suas palavras de rechaço também o fizeram sorrir em seu interior quando pensou realmente nelas. Ela insistia em considerá-lo um amigo, até depois de que ele se aproveitou de seus sentimentos na praia, até depois de que nesse momento estivesse forçando suas emoções. A amizade entre os sexos era, no melhor dos casos, incomum, entretanto, já estava começado a ficar claro que essa era a maneira que tinha Natalie de enfrentar em seu foro interno ao violento e inefável carinho que sentia por ele, um apego que crescia por momentos. E esse apego, decidiu enquanto reconhecia um primeiro vislumbre verdadeiro de alívio, seria a vantagem que necessitaria quando ela finalmente descobrisse quem era ele.

Beijou-a com ternura na fronte e se apartou um pouco, olhando-a fixamente à cara, que ainda repousava entre suas mãos, embora parcialmente oculta pelas sombras.

—Talvez troque de opinião a respeito dos homens e a atração depois de que conheça o Cavalheiro Negro.

Natalie respirou fundo e abriu os olhos, conseguindo recuperar algo do controle sobre si mesmo quando ele se apartou um pouco, relaxou-se e desviou a conversação deles.

Jonathan sorriu abertamente, tentado rebaixar a tensão.

—Em qualquer caso demoraria horas em lhe tirar toda essa roupa para me aproveitar de você. É impossível que o faça aqui, quando a diversão está a ponto de começar e ainda não dançamos.

Nem com toda a compaixão e fortaleza, inteligência e compreensão que albergava em seu interior era capaz Natalie de entender os estados de ânimo do Jonathan, nem seus sentimentos — se é que tinha algum além da luxúria, — nem suas razões para estar ali e fazer o que fazia, nem por que falava com aquela paixão desenfreada, quando ela não era mais que outra mulher que passava umas poucas semanas em sua companhia. Cada dia transcorrido, Natalie descobria que Jonathan era mais atrativo à vista, mais afetuoso e amável que no dia anterior, mas também cada vez mais lhe exasperem e ousadamente masculino, beijando-a com descaramento até depois de que ela tivesse insistido em que não o fizesse, acariciando-a como se levassem anos sendo amigos íntimos. Tirava o melhor dela em cada ocasião, e no mais profundo de seu ser, em alguma parte, como em um murmúrio quase inconsciente, sabia que Jonathan estava ganhando o jogo que lhe estava jogando seu bom julgamento e a seu corpo, a seu coração e a sua alma. Queria ser dura, desejava lhe fazer compreender quais eram seus sentimentos para ele e seu passado e que fazia muito tempo que se imaginou sobre o caminho que seguiria. Simplesmente, ele não entrava nos planos de sua vida.

Sabia que estava ruborizando enquanto a olhava de marco em marco, embora a penumbra escondesse bem sua confusão. Limpou as bochechas com a palma da mão, furiosa consigo mesma por reagir tão licenciosamente cada vez que ele a tocava, mas ainda mais por sucumbir às lágrimas e, que ele se deu conta. Odiava às mulheres choronas que choramingavam diante os homens por qualquer catástrofe insignificante, real ou imaginária, e até esse momento realmente não havia chorando jamais diante de ninguém. Não a favorecia absolutamente, e sabia. Entretanto, Jonathan fazia que aflorassem suas paixões sem nenhuma dificuldade, embora as lágrimas não tivessem provocado seu aborrecimento, o que Natalie pensou era bom.

Lutando para impedir que lhe fizesse um nó na garganta, apartou-se um pouco dele e cruzou os braços diante dela.

—Nos vai apresentar já?

Transcorreram vários segundos, e Jonathan não disse nada, limitou-se a observá-la com intensidade, como se se esforçasse em sufocar um torvelinho de emoções dentro dele. Então, e sem que mediasse o mais mínimo roce físico, ela sentiu como a envolvia sua ternura.

—Amanhã. Esta noite é muito arriscado para ele, e em qualquer caso, deveria passá-la comigo.

Ela abriu a boca para protestar, mas as palavras não saíram. Ouviu risadas ao longe, e o som dos violinos, as trombas e os oboés que chegavam através das janelas parcialmente abertas, e cheirou a madressilva que banhava o quente ar noturno. A realidade havia tornado, e ela não tinha cedido. Estava ao mando, ou o estaria de novo quando por fim conhecesse ladrão. Nesse ponto a máscara de Jonathan tocaria a seu fim, e sua vida começaria a dar um novo giro, bastante mais excitante e desafiante que não incluía a ele. Embora Natalie acabasse por admitir que resultasse um tanto doloroso, mas as decisões corretas na maturidade freqüentemente foram acompanhadas da dor.

—Tenho que vê-lo, Jonathan, e não posso esperar muito mais.

—Sei. — Ele se voltou para a casa e lhe ofereceu um braço. — Dança comigo?

Natalie hesitou por um instante, mas de novo a longínqua luz da luz se refletiu no sorriso de convicção do Jonathan, inclusive de fôlego e honestidade, e nesses momentos não pôde senão confiar nele.

Alisando-as saias, recuperada a serenidade uma vez mais ao ter perdido o momento sua seriedade, aceito seu braço, caminharam até o banco para recolher o leque dela e, um ao lado do outro, percorreram com garbo o caminho do jardim e voltaram a entrar na casa.

 

Capítulo 10

O salão de baile tinha passado de caloroso e viciado a ardente e opressivo, mas Natalie apenas o advertiu. Abriu o leque, agitando-o mecanicamente, e estudou aos cavalheiros convidados com renovado interesse. Jonathan caminhava a seu lado, impassível como sempre, ou ao menos não tão descaradamente suarento como outros. Mas nesse momento muitos dos presentes se dirigiam de novo ao exterior, e as janelas já tinham sido abertas completamente, assim, depois de tudo, talvez diminuísse o calor.

Natalie viu então a Annette-Elise no centro da pista de baile dançando uma valsa com seu pai, e os pensamentos começaram a amontoar-se na cabeça. Deteve-se e ficou olhando fixamente, o que obrigou ao Jonathan a fazer o mesmo. Este desviou o olhar para o lugar no qual Natalie mantinha fixo o seu e se inclinou para lhe sussurrar ao ouvido.

—Deslumbrante, não é verdade?

Ela soube que estava referindo ao colar. A seus dezoito anos, Annette-Elise só podia ser descrita como uma mulher de moderado encanto. Levava o cabelo castanho claro recolhido no alto da cabeça e tentava esconder sua tez corada sob uns cachos que lhe caíam pela cara. Era grossa de constituição, embora não gorda, quase... carente de formas, sem peito nem cintura, como se dissesse, e, por desgraça, sua falta de experiência a tinha levado a tentar chamar a atenção por volta de um e o outro com o corte do vestido. Era evidente que a eleição da roupa para a ocasião tinha sido feita sob a supervisão da madrasta, porque a moça usava um vestido de cetim verde menta do menos favorecedor, ao que contribuíam com sanha uns enormes laços verde esmeralda e metros e metros de encaixe branco repartidos por toda a extensão da saia. Mas tudo relacionado com seu aspecto passava na prática inadvertido assim que jogava uma simples olhada ao colar.

A peça era esplêndida — impressionante—, e Natalie não pôde por menos que ficar olhando fixamente. Tinha um desenho marcadamente anguloso, não era suave nem arredondado, como estava acostumado a ser o habitual. A grosa cadeia de ouro não mediria mais de trinta e cinco centímetros de comprimento, não obstante o qual aparecia coberta em toda sua extensão por uma dúzia de esmeraldas, separadas algo mais do meio centímetro umas de outras e esculpidas em grandes cortes, cada um de mais de três centímetros quadrados. Mas o que fazia ao colar tão incomparável era que as esmeraldas não penduravam em círculo, sujeitas ao colar de ouro por sua parte superior. Um joalheiro perito tinha investido uma quantidade enorme de tempo em secionar todos as esmeralda à perfeição e nas unir logo depois de maneira individual no lugar exato, já fora nas esquinas, nos lados ou em qualquer outro sítio da parte superior ou da inferior, acrescentando ouro quando se feito necessário, de maneira que cada pedra pendurava completamente direita em ângulo reto em relação às demais e ao chão quando luzia. As esmeraldas por si só valiam provavelmente uma fortuna. Mas o valor do colar, intacto como estava nesse momento, era sem dúvida alguma incalculável, e Natalie não tinha visto coisa igual em sua vida.

—A isso é ao que ele veio aqui — sussurrou ela com crescente assombro. Levantou a vista para o Jonathan, que a observava uma vez mais com certo regozijo. Sem que mediasse resposta alguma, ele a conduziu então para a pista de baile, lhe dando tempo só para que segurasse o leque contra a suave lã da manga de seu levita e se levantasse as saias com a outra mão quando ele a agarrou na sua.

O contato a impressionou quando começaram a mover-se ritmicamente ao compasso da música, não porque Jonathan se pegasse mais do adequado, mas sim porque a lembrança da valsa que tinham dançado fazia anos era o mais intenso de quantos tinha. Possivelmente ele recordasse os beijos e as carícias ao detalhe, mas ela se lembrava do baile, dos olhos do Jonathan, arrebatadoramante brilhantes, lhe brocando os sua de uma cara e uma sensibilidade ocultas atrásda uma máscara de cetim negro. Durante cinco anos tinha pensado freqüentemente naquela noite, às vezes fantasiosamente, em ocasiões com um tremendo desgosto, mas sempre com uma minuciosidade como se tivesse acontecido no dia anterior.

—No que está pensando?

As palavras do Jonathan interromperam o curso de seus pensamentos, e Natalie se surpreendeu piscando rapidamente para voltar para a realidade.

—Que quero estar presente quando ele as roube.

Jonathan riu em voz baixa, embora seu olhar não vacilasse nem um instante, e a rodeou com mais força pela cintura para aproximar-lhe fazendo-a girar com perícia pela pista.

—Acredita que é isso o que ele procura esta noite?

—Você não?

—Acho que é uma teoria tão razoável como qualquer outra — admitiu-o.

Natalie moveu o polegar acima e a baixo pela mão de Jonathan, enquanto lhe apertava a sua.

—Mas também acho que há algo mais — revelou-lhe ela com um pingo de excitação. —Creio que a razão de que esteja aqui é política.

O comentário captou toda a atenção do Jonathan.

—Sério? E por que crê nisto?

Ela levantou os ombros de maneira insignificante.

—O Cavalheiro Negro não é famoso por roubar coisas por dinheiro, e se isso fosse tudo o que quisesse, poderia roubar-lhe sem problemas aos ingleses. Madeleine e eu tivemos uma conversação a respeito ao princípio da noite, e chegamos à conclusão de que se o Cavalheiro Negro fizer ato de presença, roubará umas jóias que valham algo mais que seu mero valor de produzir riqueza. — inclinou-se para aproximar-se muito à cara do Jonathan e sussurrou: — Penso que estas esmeraldas são muito valiosos, e provavelmente roubadas, e talvez tenham algum valor político, seja para o governo francês ou para o inglês.

Jonathan a olhou fixamente aos olhos durante uns instantes. Sua expressão não trocou nem um momento enquanto calculava se os pensamentos que acaba de expressar Natalie eram fruto do conhecimento ou da conjetura, ao tempo que a saia do vestido dela lhe abraçava as pernas, e os pés de ambos riscavam figuras sobre a pista de madeira num rítmico estalido que seguia o aumento gradual da música e o murmúrio das conversações que os rodeavam.

Ao final, em voz baixa, mas firme, ele perguntou com prudência:

—Madeleine lhe disse isso?

Que não acreditasse capaz de deduzi-lo por si mesmo a irritou imediatamente. Ela se retirou um pouco, sentindo que o rubor lhe subia pelas bochechas.

—Falamos disso extenso e tendido momento, e chegamos juntas a essa conclusão.

—Ah, entendo.

Foi um reconhecimento fácil que não revelava nada. Estava acalmando-a, e isso não gostava do mais mínimo. É obvio que o roubo das jóias também podia ter algo que ver com a conversação que tinha ouvido por azar na planta acima, na biblioteca, fazia menos de uma hora, mas não parecia muito provável de que assim fosse, e não o ia comentar ao Jonathan. Os franceses sempre estavam pensando na maneira de destronar ao rei do momento, e a maior parte das vezes não passava de ser mero palavrório jactanciosa e carente de praticamente provocada pelo excesso de bebida, sobretudo em uma reunião social como aquela. O que tinha ouvido era interessante de anotar, mas não gravar, e dizer a ele como se fosse algo importante o mais provável é que a fizesse parecer tola. Entretanto, negou-se a deixar que o assunto se acabasse naquele ponto.

—Ocorre uma idéia melhor a você para que ele esteja aqui, Jonathan, querido? — perguntou-lhe, piscando. Ato seguido abriu os olhos como pratos, fingindo uma inocência exagerada. —Talvez vá detrás de meus camafeus! — sussurrou-lhe com um grito afogado de surpresa. —Confio em que protegerá meus pertences como um marido devoto, se me abordasse em um dos escuros corredores do conde Arlés com a intenção de apoderar-se de minhas jóias.

Os olhos do Jonathan brilharam com uma espécie de consideração cheia de admiração pela resposta dela, e esteve a ponto de soltar uma gargalhada, esforçando-se ao máximo por tentar manter uma expressão neutra, o que Natalie advertiu sem muita dificuldade.

A valsa terminou, mas começou outro imediatamente; ele não a soltou e seguiu dançando com ela sem cessar, como se não inteirou absolutamente a mudança de música.

—Os camafeus são jóias semipreciosas no melhor dos casos, Natalie, e depois valem o tempo do Cavalheiro Negro. — Jonathan inclinou a cabeça ligeiramente, e percorreu a fundo cada centímetro de seu rosto com o olhar. —Pode que depois de olhá-la bem, prefira tê-la a você.

Ela lhe lançou um sorriso um tanto zombadora.

—E protegerá você a sua apreciada esposa de seus ardorosos avanços?

—OH, com minha vida, Natalie querida — confessou imediatamente.

Embora Natalie soubesse que nesse momento Jonathan estava sendo sarcástico com ela, as palavras se fundiram em seu interior, satisfazendo algo que não pôde precisar com exatidão.

Ele trocou de assunto bruscamente.

—De que mais falaram você e Madeleine?

Talvez fora simples intuição, mas ela estava segura de ter detectado na pergunta um pingo de... inquietação? Rotundamente, merecia a pena que seguisse o jogo até o final.

—Falamos de você, Jonathan — ela revelou com doçura.

—Isso fizeram?

Ela sabia que estava mais que intrigado, embora nada disposto a admiti-lo ou a mendigar respostas.

—A verdade é que a Madeleine parece lhe gostar, como ocorre aparentemente com todas as mulheres. —Lançou um rápido olhar para o teto dourado, enrugando a fronte como se tentasse recordar. —As duas decidimos que é você encantador e rápido de mente, seguro de si mesmo e agradável à vista.

Os olhos dela voltaram a pousar na cara dele, que estava sorrindo abertamente; se era devido a que esses eram uns rasgos positivos ou porque simplesmente adorava estar em boca das mulheres foi algo que não ficou claro. Mas se negou a ficar aí.

—Também lhe disse que pensava que você era um pouco alegre e frívolo demais com sua fortuna, com essa sua afeição em perambular pelo mundo a seu livre-arbítrio sem mais objetivo que o de conseguir uns quantos cacarecos corriqueiros e a oportunidade de jogar. Por sua parte, Madeleine o defendeu, insistindo em que é você mais profundo do que eu presumo.

—E o sou — ele recalcou com um repentino ar de gravidade, e seu sorriso se desvaneceu o suficiente para sugerir que já não ia ser tão brincalhão com ela.

Uma quebra de onda sufocante de incerteza envolveu a Natalie. Não eram exatamente ciúmes o que sentia, senão algo assim como um ligeiro ressentimento pelo fato de que a francesa pudesse ter mais intimidade com ele que ela. E que tivesse tal sentimento a fez arder de raiva.

—Pergunto-me como sabe ela isso, Jonathan — comentou em tom cortante.

—Porque tem os olhos abertos, Natalie — lhe respondeu ele sem rodeios.

Em certo sentido aquilo foi o mais cortante que alguém lhe havia dito em muito tempo, e ele soube também que ela assim o tinha tomado. Ela pôde vê-lo no olhar penetrante do Jonathan nesse momento, em suas sobrancelhas juntas, na dureza de seu queixo e em seus lábios apertados, já não muito sorridentes, desafiando-a a responder com um irônico sorriso de suficiência apenas perceptível.

—Talvez gostasse de comer algo — disse ele como um fato consumado, soltando-a quando a segunda valsa chegou ao fim.

Antes que ela pudesse responder, agarrou-a pelo braço e a conduziu através da multidão para uma das mesas do refrigério. Madeleine estava ali, alta e elegante em seu precioso vestido, conversando agradavelmente com um cavalheiro de meia idade. Não muito longe de Madeleine, também junto à mesa do bufê, estava Annette-Elise comendo empolgadamente bombons com os dedos, sua madrasta e seu pai ao lado, e os três rodeados por quatro ou cinco conhecidos da classe acomodada no lugar, ou falando das esmeraldas ou possivelmente as guardando. As roubar assim, levando-lhe do pescoço da dama e diante de centenas de pessoas seria uma façanha incrível. Pela primeira vez, Natalie sentiu um indício de dúvida a respeito das habilidades do Cavalheiro Negro.

Madeleine voltou-se para eles quando se aproximaram.

—Que tal foi o passeio? —perguntou com verdadeiro interesse.

—Encantador — respondeu Natalie desapaixonadamente.

—Mas muito curto, é obvio — acrescentou Jonathan sem hesitações, apertando-a com mais força pelo braço. —Sós como estávamos, acredito que a minha esposa teria gostado... Seguir ali.

A Natalie pareceu incrível que dissesse aquilo. As bochechas começaram a lhe arder de novo, e abriu o leque, procurando de maneira se desesperada que o ar se movesse, incapaz de olhá-lo. Não precisou fazê-lo quando sentiu o olhar ardente do Jonathan em sua bochecha.

—É um cenário muito romântico para os amantes — sugeriu Madeleine com um leve sorriso na boca. Então, abandonando estrategicamente o tema, voltou-se para o cavalheiro que estava a seu lado. — Monsieur e madame Drake, me permitam que os apresente a monsieur Jacques Fecteau, um velho conhecido de meu defunto algemo, Georges. É um joalheiro de Paris que veio a Marselha por assuntos de negócios. Não lhe tinha visto desde fazia... —Olhou ao francês. —Quanto...? Cinco anos?

—Como pouco — ratificou o homem alegremente em um inglês excelente. —Mas agora voltamos a nos encontrar. Que coincidência, não?

Natalie lhe ofereceu a mão. O homem era da mesma estatura aproximada de Madeleine, corpulento, mas vestido com prudência com uma levita e uma calça cinza, camisa branca e lenço de seda negro. Apresentava umas grossas costeletas e um cabelo engomado da cor da casca molhada. Tinha uma boca grande e jovial e seus olhos se diminuíam com alegria quando sorria. Quando lhe agarrou os dedos entre a palma da mão e lhe beijou levemente os nódulos, concentrou toda sua atenção em Natalie.

—Madame Drake. É um prazer.

—Monsieur Fecteau.

O homem levantou a vista para o Jonathan.

—E monsieur Drake, madame DuMais me falou de você e de seu interesse em comprar propriedades na Europa. Desfrutam de sua estadia em Marselha?

—OH, pois claro, monsieur Fecteau. E você?

Natalie interpretou bem seu papel enquanto intercambiavam os cumpridos de rigor, inteirando-se de que o homem tinha viajado amplamente pelo estrangeiro durante vários anos aprendendo seu ofício, o qual explicava seu bom domínio do inglês. Mas, embora pese todos seus esforços, encontrou dificuldade centrar-se na conversação, a qual, em geral, se mostrou muito farta e forçadamente mundana, embora Madeleine e Jonathan se mostrasse especialmente interessados. Durante mais de cinco minutos Jonathan permaneceu erguido a seu lado, com as mãos às costas, absorto nas explicações de monsieur Fecteau a respeito do que ele descreveu como uma atroz viagem ao sul na semana anterior: um pouco relacionado com a perda de uma roda de sua carruagem e posterior afundamento em um aterro enlameado, o que tinha-o obrigado a ele e a duas damas a esperar durante horas sob um calor asfixiante antes de poder seguir viagem, assim como o desvanecimento de uma delas, o que ocasionou a seguir que o chofer tivesse que reanimá-la com um pouco de água fria de um arroio próximo.

Era a dissertação mais extemporânea e sem sentido de que Natalie tivesse tomado parte jamais, e não sabia muito bem por que. Simplesmente lhe parecia superficial. E artificiosa. Deveriam ter estado dançando, alternando com outros convidados, bebendo champanha, desfrutando do folguedo e, entretanto, tanto Jonathan como Madeleine não paravam de assentir com a cabeça e de fazer comentários conseqüentes, de pé ao lado da mesa da comida, escutando com atenção a um parisiense que discursava sobre as diferenças do calor seco do norte da França e o calor úmido do sul.

E então, aconteceu. Madeleine ficou sutilmente ao lado de Natalie para aproximar-se da bandeja dos doces e do pão de nozes, inclinando-se com tanta cautela detrás de Annette-Elise, que nesse momento comia a seu lado, que Jacques Fecteau deixou de falar com metade da frase e ficou olhando de marco em marco e com a boca aberta as esmeraldas, para então completamente em sua linha de visão e só a uns centímetros de distância.

—Por Deus bendito, que peça mais maravilhosa! — balbuciou sobressaltado, trocando já a sua língua nativa.

Fez-se silêncio em torno deles quando Fecteau se moveu para aproximar-se, absorto de repente no trabalho de joalheria do colar, o brilho das gemas e o brilho do ouro.

Natalie percebeu uma imediata mudança na atmosfera. A música, o baile e a festa continuavam em torno deles, mas ninguém na vizinhança o advertiu. Jonathan seguia detrás dela, calado e atento. À esquerda de Natalie, a meio metro de distância, estava um homem muito alto com uns rasgos insolitamente delicados. Michel Faille, visconde... de algo, Natalie não foi capaz de recordá-lo, seguido de Alain Sirois, visconde de Lyon. Madeleine os tinha apresentado ao princípio da velada. O conde de Arlés estava entre o Alain e Claudine, sua esposa, que tinha uma mão apoiada no bordo da mesa do bufê. E todos estavam rodeando a Annette-Elise e suas muito valiosos esmeraldas.

Fecteau seguiu aproximando-se, concentrado nas jóias e alheio a tudo o resto.

—Assombroso — sussurrou o joalheiro. —Um trabalho excelente.

Henri se ergueu, e sorriu com jactância.

—Uma herança familiar. Sentimo-nos tremendamente orgulhosos de que nossa filha luza as esmeraldas nesta ocasião com tanta elegância.

—É obvio — balbuciou Fecteau.

Os olhos de Henri se entrecerrou.

—Creio que não nos apresentaram monsieur...?

—Fecteau — terminou Madeleine pelo aludido com uma voz e uns maneiras acalmados e encantadores. —É um velho conhecido de meu defunto marido, conde e joalheiro de Paris. Chegou ontem mesmo a Marselha com grande surpresa para mim, e lhe pedi que me acompanhasse esta noite. —Alargou a mão e tocou o braço de Henri enquanto seus olhos cintilavam com uma discreta familiaridade. —Confio em que não se importe que em certa maneira antes tenhamos evitado as apresentações.

Henri, avermelhado e inquieto, pareceu não saber o que responder, entretanto se mostrou absolutamente encantado de que uma mulher tão atrativa lhe aproximasse com tanta naturalidade.

Claudine esclareceu a garganta, voltando bruscamente para tema.          

—É você um perito em jóias de grande valor monsieur Fecteau?

—Bom, levo no negócio mais de vinte anos — respondeu o homem com garbo, fazendo caso omisso do deixe de dúvida contido nas palavras e na falta de tato de Claudine. Então, o joalheiro voltou a olhar o colar com uns olhos que eram uns redondos lagos de assombro. —Minha especialidade são as falsificações, a bijuteria, e jamais vi algo que supere isto.

Alguém soltou um grito afogado, e Fecteau, sem adverti-lo, olhou a Henri diretamente pela primeira vez, sorrindo com segurança.

—Um trabalho magnífico. Terá pagado uma grande valor, não é assim?

O primeiro impulso de Natalie foi aplaudir diante a resposta, pertinente e cheia de tato, algo que provavelmente Claudine e sua simplicidade não entenderiam sem mediar uma explicação. Então, Natalie sentiu uma inconfundível mudança na atmosfera. A tensão que os rodeava se converteu em algo tangível, ardente e opressivo sem uma razão evidente, embora inconfundível inclusive para aqueles alheios a seu significado.

Natalie ficou imóvel, com o coração lhe pulsando de repente com força, e o momento adquiriu uma irrealidade como ela jamais tinha experiente. Durante uns segundos, ninguém disse nada. Então, Annette-Elise ficou pálida enquanto levantava os dedos para seu pescoço.

—Papai?

Henri piscou rapidamente e pareceu recuperar-se.

—Está em um engano, monsieur Fecteau. Não tem você nenhuma experiência. Asseguro-lhe que estas esmeraldas são autênticas.

A orquestra deixou de tocar nesse instante, convertendo as pequenas discussões sobre música no salão de baile em um zumbido.

O joalheiro pareceu desconcertado.

—Não... Não sabe quanto o sinto. — molhou-se os lábios com a língua e abriu os olhos como pratos, confundido. —Supus que sabia.

—Que sabia? — bramou Michel Faille, e sua ampla boca se estilizou quando os músculos de seu pescoço se esticaram contra o colarinho da camisa. —O que sabemos é que essas esmeraldas são muito valiosos, e que uma vez pertenceram à rainha da França. O que não sabemos é quem é você exatamente, e qual é seu propósito ao propagar uma informação falsa em relação com umas jóias das que não sabe nada.

Sua voz foi aumentando com cada palavra, e Natalie deu conta de que a reação do joalheiro foi sentir-se cada vez mais ofendido. Nesse ponto, outros convidados da festa que estavam nas imediações se calaram e começaram a emprestar atenção ao intercâmbio de palavras.

Fecteau levantou o queixo de maneira quase imperceptível, respirou fundo e olhou Henri com convicção.

—Rogo-lhe que me perdoe conde, mas conheço meu ofício. Fui joalheiro profissional durante mais de duas décadas, eu mesmo fabriquei falsificações de originais tanto para a classe média como para a aristocracia, e conheço uma falsificação assim que a vejo. —Com uma voz profunda e solene, proclamou: — E este colar é uma falsificação.

Natalie sentiu que Jonathan agarrava sua mão, lhe entrelaçando os dedos com os seus e apertando-lhe suavemente, e lhe secou a boca.

Henri empalideceu.

—É impossível — disse com voz áspera. —Estiveram guardadas em minha caixa forte durante semanas.

Uma calma opressiva se estendeu pela sala. Fecteau colocou às costas com decisão.

—Então, conde Arlés, se acreditar que estas esmeraldas são autênticas, peço-lhe que considere que sua caixa forte foi forçada e que foi habilmente enganado. Não tem mais que raspar com uma faca ou qualquer instrumento afiado o ouro, e o arrancará. Quanto a essas coisas verdes não são mais que vidro.

Alain começou a suar, e sua fronte se perolou de suor; Michel avermelhou de ira; Annette-Elise se aferrou as esmeraldas, e sua tez corada estava tão branca como os lírios de um cemitério. Durante uns segundos, ninguém fez nada, e então, Claudine disse entre dentes:

—A caixa, Henri, vá comprovar a caixa forte.

Fazer aquilo era inútil, posto que as jóias, se Fecteau estava certo, já teriam sido roubadas. Mas o conde deu a volta, dirigiu-se a toda pressa para a porta e saiu ao vestíbulo.

Todo mundo começou a falar com mesmo tempo; o ruído sucedeu em um repico, e o calor se fez opressivo. Natalie permaneceu em silêncio desfrutando do estranho momento de emoção e tensão, sabendo que o Cavalheiro Negro estava ali, provavelmente observando. Jonathan lhe acariciou os nódulos com o polegar, e ela levantou a vista com cautela para tomar nota de sua ligeira expressão de curiosidade. Ele não tinha que conhecer bem o idioma para entender o que estava ocorrendo ou a atrocidade de tudo isso.

Madeleine começou um desenfreado e animado bate-papo entre o joalheiro, Claudine e os outros dois homens, e Natalie sentiu que Jonathan jogava dela com absoluta naturalidade para que fizesse ao lado um ou dois passos.

—Tem-no feito ele — disse ela em voz baixa.

—Com seu estilo habitual — lhe respondeu Jonathan em um sussurro. —Mas isto não acabou ainda.

Ao cabo de uns segundos Henri entrou na sala, e todos se voltaram; o silêncio caiu de novo sobre a multidão ao presenciar sua expressão de assombro. Parecia doente quando se dirigiu de novo aos tropicões à mesa do bufê, a pele de um cinza pálido, os olhos exagerados pelo terror e a fronte perolada de gotas de suor, que lhe escorregavam até o queixo.

—O que é isto? — perguntou com voz áspera e entrecortada, mostrando uma bolsa de veludo negro com mãos trementes. — O que é isto!

O silêncio tornou-se ensurdecedor. O movimento se deteve. Fecteau alargou a mão com prudência para a bolsa com um semblante de terminante e consciente pessimismo. Com dedos ágeis pinçou no interior e tirou cuidadosamente o conteúdo.

—OH, Meu deus! — sussurrou alguém.

Depositada cuidadosamente na palma de sua mão estava uma réplica do colar, embora feita de pedras negras e um metal barato e só da metade de seu tamanho. Era uma brincadeira lhe desmoralizante, um tributo à brincadeira.

Ao Fecteau lhe puseram os cabelos de ponta.

—Isto é prata pobre, conde Arlés, e as pedras são de ônix negro. É uma pedra semipreciosa. Bastante correntes, embora sejam umas boas peças e provavelmente valham mais que as falsas esmeraldas. —Deu-lhe a volta nas mãos. —Pouco freqüente, a verdade. Normalmente serve para fazer, bom... Camafeus de ônix.

Pela primeira vez em toda a noite uma rajada de ar marinho soprou através dos vitrôs abertos, recrudescendo a comoção coletiva com a fria realidade. Então, um ruído surdo começou a correr de novo entre a multidão, de indignação entre aqueles que estavam confabulados, de confusão e incerteza cochichada entre os que seguiam sem saber nada.

De repente, Henri começou a enfurecer-se, vermelho como o grão, os punhos apertados aos flancos, os olhos chorosos por uma fúria que não podia começar a se localizar, a noz subindo e baixando convulsivamente enquanto tragava saliva, incapaz de falar.

Michel agarrou ao Fecteau pelo pescoço com um olhar de ódio nos olhos, lívido, mas com as bochechas vermelhas e brilhantes.

—Roubou você?

—Monsieur Faille! — disse Madeleine em um grito afogado, ficando entre os dois homens.

Michel não fez conta.

—Que coincidência que você esteja aqui esta noite...

—Cale-se, Michel! — espetou-lhe Alain, arrojando o homem alto com mãos trementes até conseguir liberar o joalheiro. —Os insultos injustificados só causarão maiores problemas e atrairão olhares indesejados.

Fecteau parecia consternado quando retrocedeu, aferrando ainda o colar de ônix com os dedos de uma mão, enquanto se alisava a levita com a outra.

—Não roubei nada — insistiu, com a voz quebrada pelos nervos. —Não sou capaz de imaginar como eu ou qualquer outro poderia ter roubado semelhante colar do pescoço de sua filha durante este baile. E se o tivesse roubado antes de hoje, asseguro-lhe, monsieur, que não estaria aqui agora. Isso era lógico e todo mundo sabia. Alain voltou sua corpulenta figura para Madeleine e seu acompanhante.

—Não deixa dúvida de que tem toda a razão, monsieur Fecteau. Aceite nossas mais sinceras desculpas.

Com isso, a animação se fez ensurdecedor, e Annette-Elise começou a chorar, ainda aferrando os cristais sem valor. Então, Henri agarrou o colar, atirando com força dele uma vez. O broche rompeu-se facilmente, e as pedras caíram do pescoço de sua filha a suas mãos.

—Registrar-nos-ão — disse Natalie em tom sombrio.

Muito lentamente, Jonathan sussurrou:

—Não, não o farão. Não podem.

Ela o olhou à cara com expressão interrogante.

—Registrar a qualquer aqui esta noite arruinaria seu prestígio social, e não podem chamar as autoridades, quando foram eles os que roubaram o primeiro colar. —E com uma afirmação vagamente jactanciosa, acrescentou em um sussurro: — perderam as esmeraldas e sabem.

Ela o observou, enquanto Jonathan seguia olhando fixamente ao conde com dureza e perspicácia, sem dar-se conta de que uma mecha de cabelos negros lhe caía sobre a fronte. Mas foi a certeza que transmitiram sua voz e sua atitude e a expressão de sua boca, não exatamente um sorriso, senão apenas uma linha ascendente, um gesto de absoluta satisfação, de triunfo insosso, mas, definitivo... O que fez que as dúvidas assaltassem a Natalie. Era como se Jonathan acabasse de ganhar o prêmio de um jogo de azar desafiante e altamente temerário.

Como se tivesse roubado o colar ele mesmo.

Natalie ficou completamente imóvel, paralisada, ao mesmo tempo em que um indício de compreensão começava a formar-se em seu interior. Em algum lugar a muita distância ouviu que a música se reatava interpretada com estupidez. Henri e vários homens abandonaram rapidamente o salão de baile; Madeleine falava em sussurros com o Fecteau, entretanto, nesse momento, os pensamentos de Natalie iam além deles, a outro lugar, a outro momento então muito longínquo.

«... É moreno, sofisticado, encantador, inteligente, atrativo, e faz boas ações para ajudar às pessoas. “Também corre o rumor de que tem os olhos azuis...»

Um calafrio, gélido e entorpecedor, percorreu-a, e começou a tremer.

«E o Cavalheiro Negro está em Marselha?», tinha-lhe perguntado a Jonathan.

«Está-lo-á quando chegarmos ali. »

—OH, não... — sussurrou Natalie.

Jonathan a olhou, e seus olhos vibrantes procuraram os dela quando se deu conta da expressão dela.

«É lhe apaixone, e viaja... vive para a aventura. “Sei que isto parece estranho, mas acredito que também me busca.»

Além de qualquer dúvida, tão contundente como um murro no estômago, apareceu ali, diante dela. Todas as perguntas e crenças, toda a esperança em seu futuro morreu rapidamente em seu coração, todos seus sonhos feitos pedacinhos por um golpe incrível de certeza. Por que não o tinha visto antes? Como podia não havê-lo sabido? Porque inclusive a idéia era algo que não podia ter imaginado jamais; um pesadelo feito realidade que jamais poderia aceitar.

—Natalie?

Estava paralisada, vibrando por dentro, lhe olhando fixamente a seus maravilhosos olhos, sob um ligeiro cenho de curiosidade. De repente, ela teve uma poderosa sensação de cólera e esmaguem vergonha pelas coisas que lhe tinha crédulo, pela humilhação demolidora de sentir-se enganada reiteradamente, de ser utilizada.

Ele seguia lhe segurando a mão, e o tato nesse momento se fez tão abrasador como o azeite fervendo sobre a pele. Mas com uma aguda intuição quase foto instantânea de que o futuro proporcionava não se largou de um puxão. Uma quebra de onda torrencial de lógica a alagou, impedindo que cometesse um ato imediato e irracional. As respostas estavam ali, diante ela, adquirindo claridade e sentido enquanto começava a encaixar as peças, mas faltava a prova. Fora saber fruto de sua acuidade, por um instinto irresistível, a questão é que sua mente tomou as rédeas nesse momento, e para bem ou para mau, fez que se detivesse.

Não podia permitir que Jonathan soubesse. Não ali, no baile, diante de centenas de pessoas. Ele a tinha tomado por idiota, e o odiava por isso. Mas tinha roubado as esmeraldas por um motivo, e Natalie sentia agora uma profunda curiosidade por saber qual era, onde estavam as jóias e como o tinha feito, e por cima de tudo, pela razão de que a tivesse levado com ele nessa viagem. Se enfrentar a Jonathan nesse momento, provocaria uma situação embaraçosa para ambos, mas, por cima disso, seria ele quem ganharia. E ela não podia permitir que o fizesse.

Jonathan não podia ganhar.

Tranqüilizando-se, com a mente trabalhando de maneira frenética e entrecerrando as pálpebras com um amplo sorriso de intenções ocultas, sussurrou:

—Só estou um pouco... impressionada.

Jonathan tornou a lhe acariciar os dedos com um polegar, e ela reprimiu o impulso de esbofeteá-lo com todas suas forças. Em seu lugar, apertou-lhe a mão com ternura.

—Acredito que agora tomaria uma taça de champanha.

Jonathan a olhou fixamente aos olhos uns instantes.

—Gostaria de ir-se?

Natalie baixou o olhar para esquadrinhar á multidão. Dois ou três casais se precipitaram para a pista de baile em uma descarada tentativa de ignorar os desagradáveis momentos, enquanto a seda e o cetim voltavam uma vez mais a agitar-se entre frufrus ao ritmo de uma música interpretada com muita intensidade; pequenos grupos de pessoas sussurravam pelos rincões ou diante das mesas de refrigério, comendo ou bebendo; outros mais aproveitavam para sair com discrição.

Com resolução e um caloroso sorriso de excitação que não sentia, Natalie voltou a olhar os encantados e enganosos olhos de Jonathan e deu início a melhor interpretação de sua vida.

—Agora não — disse ela com elegância. —Eu gostaria... ver no que acaba tudo isto.

Aquilo apaziguou ao Jonathan, que pareceu relaxar-se.

—Então, seja o champanha. — Soltou-lhe a mão por fim, e levantou a sua para cavar-lhe no queixo. —E por que não nos divertir enquanto possamos? Diria que me deve ao menos um baile mais antes que a entregue ao ladrão.

Ela o odiou por aquilo, por sua desenvoltura, por seu irresistível encanto, pelas cuidados que lhe emprestava e o insaciável desejo que havia entre eles, e que ele tinha utilizado com tanta perícia em benefício próprio. E o que havia dito Madeleine? «Pergunto-me como planeja Jonathan abordar esta apresentação?» Ele lhe havia dito que seria no dia seguinte, e isso lhe dava tempo. Tempo para pensar em algo que pusesse a vantagem em suas mãos. Pensaria em alguma coisa. Tinha que fazê-lo. Então, teria o controle da situação e ganharia.

Vá se ganharia.

 

Capítulo 11

Natalie demorou quase dez minutos contemplando fixamente o baú de Jonathan antes de decidir que tinha chegado o momento de abri-lo e examinar seu conteúdo. Como era natural, registrar os efeitos pessoais de Jonathan seria algo do mais vergonhoso, mas não tinha alternativa. Era a única maneira de ter a certeza absoluta. Ele acabava de sair para ir comprar um almoço frio a um dos povos próximos, deixando-a com a promessa de que falariam quando retornasse. Tal conversação versaria, sem dúvida alguma, sobre as esmeraldas e o Cavalheiro Negro, e ela queria estar preparada. Embora primeiro tivesse que encontrar as jóias, pelos meios que fosse, e estava mais que segura de que Jonathan não as levava com ele quando saiu. Se as tivesse levado no bolso provavelmente teria notado, e de todas as maneiras ela era incapaz de imaginá-lo as vendendo, o qual teria sido a única razão para arriscar-se às levar com ele. Isso significava que ainda estavam ali. E o único lugar onde poderiam estar era em alguma parte entre seus pertences pessoais.

Tinham retornado do baile pouco depois das duas da madrugada. A festa tinha continuado em certa medida depois que se descobriu a falsificação das esmeraldas, embora o ambiente tivesse decaído bastante. A maioria dos convidados se foram logo, mas ela e Jonathan ficaram pela insistência dela, dançando, alternando com outros convidados, até ser quase os últimos a partir. O conde Arlés não havia tornado a aparecer depois do fiasco com o Fecteau, mas Claudine tinha posto tudo de sua parte para manter viva a festa pela Annette-Elise. Em realidade, era tudo o que podia fazer, e Natalie sentiu lástima pelas duas. Não se podia dizer que o baile tivesse sido um sucesso, mas, e ao desfecho final, tampouco tinha acabado embaraçosamente.

Entretanto, Natalie sentia-se extraordinariamente orgulhosa de si mesmo. Sua atuação tinha sido magnífica, porque tinha obtido que Jonathan ignorasse ao fato de que ela tivesse descoberto de repente sua identidade. Isso dava a ela poder, algo que lhe resultaria de grande proveito nos dias vindouros. Durante as últimas nove horas ela não tinha feito outra coisa mais que ser presa de uma permanente inquietação interna, dormir pouco e esconder suas intenções o melhor que pôde, incluído o desejo quase de matá-lo, embora em seu lugar decidisse não perder a calma. Às seis da manhã, deitada junto à figura despreocupada e profundamente dormida de Jonathan, lhe tinha ocorrido. Nesse momento já tinha um plano, e uma maneira de utilizar ele tal e como ele tinha utilizado a ela no mesmo instante em que tinha entrado em sua casa da cidade.

Assim, com decisão, e antes que pudesse trocar de idéia, ajoelhou-se por fim junto ao fechado baú de metal, alisou a saia morada em torno dela, fez saltar os fechos de latão e levantou a tampa.  

Esperava-se que o conteúdo a surpreendesse, esteve em um engano. Jamais tinha feito algo tão atrevido em sua vida, é óbvio, como tampouco tinha bisbilhotado tão intimamente entre a roupa interior de um homem. Mas sua primeira impressão ao levantar a tampa foi a de assombro, pelo supremo cuidado com que tudo estava dobrado e colocado no interior. Das camisas até os sapatos, tudo estava perfeitamente ordenado. Por estranho que parecesse, nunca tinha esperado semelhante coisa do Jonathan. Por um lado, parecia ter uma personalidade farto caprichosa, entretanto, sua maneira de vestir e seu estilo eram mais de acordo com os gostos elegantes e reservados de um cavalheiro, o qual teve que recordar-se, era em realidade.

Com cuidado, começando pelo lado esquerdo do baú, levantou as camisas, uma a uma, e foi colocando no chão a seu lado. Detrás vieram as calças, três pares, que também tirou com cuidado. Baixo estes, no fundo, havia dois pares de sapatos. Nenhuma esmeralda, embora colocasse os dedos com cautela nos sapatos para assegurar-se de que não estivessem dentro.

Depois passou para o lado direito do baú. Tinha evitado propósito começar por esse lado porque se deu conta de que havia mais efeitos pessoais — o pente, a navalha de barbear, a escova de dente e os pós e a roupa interior— que não eram assunto dela. Mas, não obstante, para chegar ao fundo do baú, tinha que registrá-lo tudo.

Com mãos ansiosas foi tirando os objetos de penteadeira e os colocou a seu lado. Continuando, e aumentando o ritmo, começou a levantar os objetos interiores dobrados, sentindo que seu desconforto ia a aumentando cada vez que tocava uma, mas recordando o fim que a animava. Necessitava as esmeraldas e tinha que dar-se pressa.

Então, por fim, quando as dúvidas começavam a impregnar em seu ânimo, descobriu o objeto de seu registro. Uma bolsa de veludo negro, exatamente igual à que tinha contido o colar de ônix, descansava de maneira visível entre os dois últimos objetos.

O primeiro pensamento que a assaltou foi que ele as tinha deixado em um lugar tão visível porque sabia que ela as buscaria. Mas, depois de só uns segundos de reflexão, deu-se conta de que tal conjetura era errônea. Jonathan não sabia ainda que ela tivesse descoberto sua identidade. Parecia um pouco parvo por sua parte não ter escondido as jóias em um bolso secreto ou em uns sapatos, mas o certo é que não tinha tempo para especular a respeito de suas táticas como ladrão. O único que lhe ocupava a mente era imaginar alegremente a expressão de desconcerto de Jonathan, que ia ser testemunha quando se enfrentasse a ele.

O coração lhe pulsou com força quando pegou a bolsa, não sem certa surpresa ao comprovar que era mais ligeira do que esperava. Com um arrebatamento de euforia, abriu-a a toda pressa para contemplar seu conteúdo.

O brilho e o resplendor das pedras verdes e do ouro a deixaram sem respiração. O colar era ainda mais esplêndido, não exatamente uma jóia feminina que embelezasse a uma mulher lhe rodeando o pescoço, mas sim bem uma original obra de arte para ser mostrada sobre a pele cálida, enquanto todo o resto se desvaneceria detrás de seu esplendor.

Deixou cair á bolsa no chão sem dar-se conta e passou lentamente o polegar pelas esmeraldas, frite embora radiantes, as deixando escorregar entre os dedos, enquanto um sorriso de suprema satisfação foi curvando pouco a pouco os lábios. O muito valioso colar roubado estava nesse momento em suas mãos. Todas as dúvidas se desvaneceram. Tinha o poder por fim, e o utilizaria. Ia ganhar.

Olhou rapidamente por cima do ombro para o relógio da cômoda. Era quase meio-dia. Jonathan retornaria em qualquer momento.

Sujeitando um cacho rebelde detrás da orelha, guardou as esmeraldas em seu protetor pacote de veludo, deixou a bolsa em seu regaço e colocou à perfeição todos os pertences de Jonathan no baú, depois do qual fechou a tampa.

Ato seguido, com rapidez e determinação recém adquirida, consciente só de maneira vaga até que ponto foram trocar as coisas entre eles, foi até seu baú, situado perto do roupeiro. Abriu a tampa com rapidez e afundou o braço bem no fundo, até que sua mão encontrou uma de suas botas altas de pele negra. Tirou-a de debaixo dos sapatos e outros objetos, sentou-se comodamente no chão e começou a trabalhar.

Uma das melhores anedotas que sua mãe lhe tinha contado jamais a respeito de seu avô fazia referência não só a sua fuga, senão do engenho que tinha demonstrado em sua execução. O homem jamais teria saído com vida se não tivesse subornado ao carcereiro. E nunca teria podido fazer tal coisa se não tivesse escondido várias moedas de ouro baixo às solas de seus sapatos, as quais tinha deixado ocas com esse fim concreto. Quando os camponeses o registraram, não lhe encontraram nada em cima, mas não lhes ocorreu procurar atentamente em seu calçado. Nem tampouco ocorreria ao Jonathan, porque ela tinha seguido o conselho de sua mãe e, ao longo dos anos, tinha esvaziado vários sapatos para poder esconder dinheiro neles se, estando de viagem, alguma vez a necessidade assim o exigia. Seria uma tolice, como diriam muitos, mas o havê-lo feito ia servir por fim nesse momento a seus propósitos. Esconderia as esmeraldas em sua bota, onde estariam seguras e ninguém as descobriria.

Depois de tentar fazer alavanca várias vezes e da frustrante quebra de uma unha, a sola inferior de pele do alto salto acabou por soltar-se. Sua idéia inicial era a de ocultar tanto as esmeraldas como a bolsa dentro, a fim de manter as jóias bem protegidas, mas logo lhe fez evidente que não havia suficiente espaço para tudo, e só entrariam as jóias. Mas com muita dificuldade.

Depois de tirar uma vez mais o colar de seu pacote de veludo, protegeu-o com a maior delicadeza possível dentro do salto e, fazendo uma pressão considerável com a mão, conseguiu encaixar a pele superior o suficiente para assegurar o conteúdo. Com um amplo sorriso de satisfação consigo pelo obtido, deu-lhe a volta à bota nas mãos. Advertir que a sola de pele não encaixava de tudo na madeira exigiria um exame minucioso, e a quem lhe ia ocorrer olhar? O esconderijo era perfeito.

Ela colocou a bota dentro do baú, colocando-a debaixo de vários pares de sapatos só por segurança, e fechou a tampa. Foi então quando ouviu as pisadas do Jonathan no caminho de pedra.

Levantou-se com rapidez, agarrando com força a bolsa vazia, e se dirigiu correndo ao outro lado da habitação, onde sentou em uma das poltronas de vime no preciso instante em que ele entrava.

Jonathan se deteve para olhá-la fixamente, com a boca torcida em um meio sorriso, a cabeça ligeiramente inclinada e, de maneira intuitiva — ou pela respiração nervosa dela ou talvez só pela tensão do ambiente—, percebeu que algo estava diferente, que algo tinha trocado. Nada mais entrar na habitação, com a cesta da comida na mão, e depois de fechar a porta atrás dele, a expressão desapareceu.

—Encontrei umas galinhas assadas a bom preço — disse Jonathan em tom agradável, enquanto se dirigia à mesa situada junto dela e depositava a cesta por cima. Olhou à cara dela com uns olhos que se entrecerram com um insignificante indício de suspeita. —Ocorreu algo enquanto estive fora?

O coração dela começou a pulsar rapidamente. Como sempre, ele a afligia com sua presença, ali diante ela, vestido de novo sem cerimônias com uma camisa de linho cor nata e umas calças marrom escuro, o cabelo alvoroçado por seu passeio sob a brisa e a pele bronzeada embora pese o escasso tempo passado na costa mediterrânea. Mas o momento do enfrentamento tinha chegado, e ela se negou a permitir que Jonathan pensasse que estava em situação vantajosa só pela sua evidente confusão, da que ele estava acostumado a ser claramente consciente.

Assim, com fortaleza, e escolhendo o momento da revelação com perícia, sempre segundo ela, agarrou uma mão de Jonathan, voltou á palma para cima e colocou ali a bolsa de veludo.

—Encontrei seu colar, Jonathan — confessou em um sussurro sensual.

Ouviu-o conter a respiração, uma inspiração curta e seca, mas Jonathan lhe sustentou o olhar e não moveu a mão. A insegurança que Natalie percebeu nele nesse momento a encheu de confiança em si mesmo e de uma satisfação extrema.

Com um suave movimento, ela levou uma mão à nuca e tirou a cinta que segurava o cabelo, deixando que seus espessos cachos caíssem livremente, depois do qual tirou os sapatos com dois chutes. Uma ação bastante imprópria a uma dama em metade do dia, mas queria parecer cômoda e segura de si mesmo para a conversação que se morava. Removeu-se na poltrona, levantou as pernas e os pés sob o vestido para apoiá-los no assento, e sorriu triunfalmente, esperando.

Ao final, Jonathan jogou uma olhada à bolsa, passando os dedos pelo veludo.

—O que acredita que sabe Natalie? — perguntou ele em voz baixa.

Ela cruzou os braços com indiferença por diante do ventre.

—Sei que tenho as esmeraldas.

Durante uns instantes de insuportável silêncio, Jonathan não fez nada. Levantou então os olhos para olhá-la fixamente uma vez mais, mas em lugar da ansiedade ou a raiva que ela esperava ver em sua expressão, Jonathan sorriu, e em seus olhos brilhou uma espécie de diversão orgulhosa. Aquilo a turvou de forma tão inesperada que fraquejou algo que, Natalie esteve segura, ele tinha advertido.

—Registrou meu baú?

Nesse momento, ela se retorceu na poltrona, incorporando-se um pouco quando a calidez a alagou.

—Como, se não, ia ter as?

Jonathan arqueou as sobrancelhas.

—Como, se não, é obvio.

Ele arrojou a bolsa sobre a mesa e se deixou cair pesadamente na poltrona contigua a dela, cruzando as mãos com educação sobre o regaço e olhando-a com o que ela sozinho pôde descrever como uma maneira prazenteiramente calculadora.

—Confio em que não me tenha roubado a navalha de barbear.

Natalie esteve a ponto de soltar uma gargalhada, contendo-se com dificuldade.

—Pensei-o durante um instante, Jonathan, mas então recordei quão peludo é.

Jonathan riu ao ouvir isso. Com muita suavidade. Observando-a.

—E deixou em seu sítio todos... meus objetos pessoais?

As bochechas dela arderam, e o nervosismo fez que levasse uma mão à cabeça e passasse os dedos pelo cabelo. Aquilo foi um engano, porque os olhos do Jonathan seguiram o movimento com grande familiaridade.

—Acho que nos estamos desviando da questão, Jonathan — insistiu ela com dureza.            

—Mmm... A questão. —Ele se relaxou um pouco contra o respaldo de vime, golpeando ligeiramente os polegares entre si. —O que é que quer saber?

—Madeleine é espiã? — perguntou Natalie sem rodeios, em um tom de voz monótono.

—Sim — respondeu ele sem evasivas. —Serve ao governo britânico com esse fim, e foi selecionada deliberadamente como meu contato em Marselha para este trabalho. É muito boa no que faz, e extremamente leal à causa britânica.

Ela piscou, surpreendida por sua rápida e sincera resposta.

—Trabalha você para o governo?

Jonathan franziu a boca, e a concentração sulcou a fronte com rugas.

—Não exatamente. Trabalho para três indivíduos: sir Guy Phillips, lorde Nigel Hughes de Cranbook e, de forma mais direta, para o Christian St. James, conde de Eastleigh. Os três são meus amigos, embora sir Guy é meu contato oficial, e, como Cavalheiro Negro, estou sob suas ordens. Nós (os quatro) somos os únicos que sabemos a relação deles com meu trabalho. Se alguma vez me pilharem ou me detêm, jamais poderão ver-se implicados exceto se confessar, e isso não ocorrerá. Não estou metido em política, exatamente; trabalho com independência deles, embora tenha vários membros das altas esferas governamentais que sabem quem sou. Sir Guy é um deles e quem organiza meus contatos por toda a Europa... a fim de conseguir ajuda, se o necessitar.

Ela o olhou de marco em marco, perplexa.

—Não me posso acreditar que me esteja contando tudo isto tão facilmente.

Ele respirou fundo, escrutinando o rosto dela intensamente.

—Confio em você, Natalie.

Nunca quatro singelas palavras a tinham abrandado de forma tão absoluta. Mas não foi sozinho o que havia dito, senão o significado que se escondia detrás, e a ternura contida em sua voz profunda e em seus olhos.

—Então, por que o faz? — continuou ela em voz baixa.

Jonathan refletiu durante um instante.

—Luto por reparar os equívocos, mas há algo mais. Em muitos dos trabalhos que faço, penso que meu trabalho é, em boa medida, uma maneira... de arrumar as coisas. Coisas que não podem ser arrumadas de outro modo. Ponho ao descoberto o comércio ilegal ou a pessoas que são tão inteligentes que, do contrário, não poderiam ser pilhadas cometendo ações ilegais ou pouco honestas... tanto pessoais como políticas. Às vezes me ocupo de assuntos de Estado, embora os que estão no governo, além de uns poucos escolhidos, ignoram por completo minha implicação em... bom... em lhes tender uma armadilha aos criminosos políticos para que sejam descobertos e detidos, ou em localizar o paradeiro do dinheiro procedente da extorsão ou do roubo de armas. Não sou tecnicamente um espião; não me treinei formalmente para nada. Mas bem trabalho por minha conta, aprendendo sobre a marcha. Proporciona-me uma informação detalhada sobre uma situação concreta, e como o faço é minha coisa. De vez em quando necessito ajuda e a recebo de maneira incondicional, como no caso de Madeleine. A maior parte das vezes trabalho sozinho, e a maioria do trabalho que faço consiste simplesmente em roubar algo, de maneira que afete ao desenlace de uma situação mais ampla. Quando termino o trabalho, me paga, e me paga muito bem.

—Por sir Guy.

—Sim, e por meus outros dois benfeitores. Me paga com recursos privados, não com dinheiro procedente do tesouro público. — Jonathan fez uma pausa, e seus olhos foram obscurecendo enquanto cravavam nos dela. Então, inclinando-se para diante, com os cotovelos nos joelhos, e as mãos cruzadas diante dele, baixou a voz até convertê-la em um profundo sussurro.

—Inventei-me o Cavalheiro Negro faz seis anos, Natalie, e embora meu trabalho me tem feito rico, minha atividade como ladrão só procura melhorar a sociedade e minha satisfação pessoal. Não é pelo dinheiro. Cada um desses lucros é o que me converte no homem que sou, e inclusive se não me pagassem jamais, não acredito que pudesse deixá-lo de tudo. Desfruto com o que faço e confio em seguir fazendo-o, no grau que seja durante o resto de minha vida. —E com adicional cautela, acrescentou: — Acredita que pode aceitá-lo?

Natalie não soube o que dizer, nem o que queria concretamente dela com uma pergunta tão direta. A voz e os maneiras do Jonathan eram de uma profunda gravidade, e a olhou fixamente aos olhos, esperando uma resposta. E então, ela compreendeu.

Uma forte rajada de vento frio procedente do mar soprou através da janela aberta detrás dele, fazendo que as cortinas se inchassem a seu redor em um resplendor verde mar que contrastava com seu cabelo. Mas Jonathan não pareceu adverti-lo, concentrado como estava sozinho nela e na importância de sua resposta.

Com toda a sinceridade da que era capaz, sabendo o muito que aquilo importava ao Jonathan, Natalie murmurou:

—Se me está pedindo que guarde silêncio a respeito disto e de sua identidade, Jonathan, é obvio que o farei. Juro-lhe que jamais direi uma palavra. —Então, torceu de propósito a boca em um sorriso de cumplicidade, tentando levantar o ânimo e voltar para assunto mais iminente. —Além disso, agora não poderia desmascará-lo embora quisesse. Tenho meus próprios assuntos.

Ele a olhou fixamente, calculando as motivações dela, lhe esquadrinhando o rosto em busca de respostas que ele ainda não podia detectar, ou possivelmente tão só sopesando o desafio que se morada. Então, sentou-se lentamente, colocando os cotovelos sobre os braços da poltrona, o queixo apoiado na ponta dos dedos, estudando-a.

—Parece que também tem minhas esmeraldas.

Com os olhos brilhantes, ela conteve uma risadinha triunfal.

—Sim, tenho-as. E antes que conceba alguma idéia sobre me roubar isso deixe que lhe garanta que nunca as encontrará.

Ele baixou os olhos descaradamente, primeiro a seus peitos, depois a seus quadris e pernas, perfilado tudo por uma singela blusa branca e uma saia sem baleias.

—Desconfio que não me conceda o prazer de registrar seus pertences pessoais.

Nunca um homem a tinha feito sentir tão absolutamente incômoda com um olhar e uma singela frase como fazia Jonathan, e fazia continuamente. A vergonha retornou, mas ela ignorou o sentimento como desprezava os comentários descarados dele. Dobrou os joelhos, apoiando a planta dos pés na almofada e se rodeou as pernas com os braços a modo de amparo.

—Quando as roubou? — perguntou Natalie com uma aspereza um tanto excessiva.

Jonathan a olhou nos olhos.

—Na sexta-feira.

—Na sexta-feira?

—Em realidade, talvez fora na quinta-feira pela manhã — corrigiu com um encolhimento de ombros. — Enquanto você dormia, em qualquer caso.

Natalie negou com a cabeça a causa do assombro.

—Deixou-me aqui sozinha, em plena noite, entrou em casa do conde Arlés, mais tarde em seu estúdio privado, arrebentou-lhe a caixa forte, roubou as esmeraldas e depois retornou aqui e se meteu de novo na cama?

—Essa é... Uma descrição bastante precisa dos acontecimentos.

Ela não soube se se escandalizava pelo atrevimento ou sentia-se orgulhosa do lucro, mas sem dúvida cada vez se sentia mais intrigada.

—E como o fez?     

—Sem fazer ruído.

A pesar dele, Natalie sorriu abertamente, mordendo o lábio para evitar rir.

Jonathan estirou as pernas tranqüilamente e cruzou os pés.

—Embora não lhe arrebentei a caixa forte, tão só a abri. E não roubei as esmeraldas, mas sim lhe dava o cambalacho.

—Pelas falsas.

—Sim.

—E como diabos aprendeu a abrir uma caixa forte que não viu antes?

—Com a prática.

—Está sendo evasivo.

Jonathan arqueou as sobrancelhas com inocência.

—Estou sendo sincero.

Ela apoiou o queixo nos joelhos.

—E se desperto e descubro que se foi?

Aquilo fez rir ao Jonathan.

—Seria capaz de dormir durante uma carreira de quadrigas, Natalie.

O comentário a surpreendeu e fez que se sentisse tão ofendida pela energia da réplica como estranhamente reconfortada porque ele tivesse emprestado atenção realmente a sua forma de dormir.

Ela seguiu avançando sem responder:

—Por que se incomodou em ir ao baile então, se já as tinha em seu poder?

Ele a desafiou maliciosamente.

—E por que você acredita?

Natalie não deveria ter perguntado aquilo. Ele sabia que ela conhecia a resposta. Jonathan estava à corrente do muito que ela tinha estudado ao ladrão e de quanto o admirava e desejava formar parte de sua vida. Foi desconcertante, mortificante, quando ela pensou em tudo o que lhe tinha contado, em tudo o que lhe tinha crédulo. Mas o que evitou que tanta mortificação a desanimasse ou a empurrasse a fugir dele foi sua determinação a igualar o marcador.

—Porque é seu estilo — disse ela de maneira desapaixonada, embora baixando a vista para observar o fino e sedoso tecido da camisa dele. —O Cavalheiro Negro não é um ladrão convencional. Faz as coisas para chamar a atenção, querendo formar parte da ação e que lhe distinga de outros por seu estilo. — Natalie olhou novamente a encantada, atrativa e arrogante cara de Jonathan. — Com toda franqueza, Jonathan, surpreende-me que não deixasse um cartão de visita.

—Não preciso fazê-lo. Os rumores se estenderão sozinhos.

O comentário dela tinha a pretensão de ser um insulto sutil, mas ele não pareceu tomar caso.

—Sua atitude em neste assunto resulta bastante pretensiosa — disse ela com brutalidade.

Ele negou com a cabeça lentamente.

—Nem é pretensioso nem idiota que alguém trabalhe como melhor sabe. Pelo contrário, é algo que terá que fazer com inteligência e muito cuidado.

Ela esboçou um sorrisinho de indignação.

—Pois ficar próximo a cena do crime para acabar sendo suspeito não parece á melhor maneira de proceder nem a mais prudente.

Jonathan pôs uma cara de autêntica surpresa.

—E por que teriam que suspeitar de mim?

—É você inglês — disse ela com exasperação.

—Com uma identidade falsa impossível de descobrir.

Natalie se ergueu.

—Preparada pela Madeleine...

—Que nunca foi, nem é nem ou será jamais minha amante.

A atrevida declaração a pilhou absolutamente despreparada. Não vinha a conto; sem dúvida era uma explicação que Natalie não tinha pedido. Jonathan tinha pensado nisso, e por razões particulares, tinha-o recalcado por sua conta e risco com a firme intenção de deixar-lhe absolutamente claro. O que ela não acabava de entender era a razão de que se incomodasse em fazê-lo.

Irritada, passou-se as mãos pelo cabelo.

—Isso me traz sem cuidado.

—Me parece que lhe importa muito.

Foi á ligeireza da afirmação, unida a austeridade da voz, que fez que ela se desconcertasse. Mas Jonathan não estava sendo totalmente descuidado na eleição das palavras. Estava-as calibrando, algo que ela percebia na determinação de sua expressão e de seus olhos, que estavam fixos nos dela novamente.

Com a voz vibrando pela intensidade da cólera, ela sussurrou:

—Odeio-lhe, Jonathan. Desprezo-o profundamente.

Ele sorriu ironicamente.

—Não me acredito. Se me odiasse tanto, já me teria matado. Ou abandonado.

—É tão arrogante...!

—Não, sou positivo — matizou-o.

—Toma-me por idiota.

—Você não é idiota, Natalie. É uma das mulheres mais inteligentes que conheci.

Ela apenas ouviu, ocupada em golpear os braços da poltrona com os punhos fechados, negando-se a ceder.

—Você me mentiu, humilhou-me...

—Tinha um trabalho que fazer.

—Me podia haver isso dito — disse com ferocidade.

Jonathan suspirou e se esfregou o queixo com os dedos.

—Se o tivesse feito, ou não teria acreditado ou não estaria agora comigo aqui. Eu não gostava de nenhuma das duas possibilidades. —Ele deixou cair os braços e baixou a voz. — Eu gosto de olhá-la, Natalie, falar com você todos os dias, de senti-la entre meus braços. — Hesitou uns segundos e sussurrou com aspereza. — Eu gosto da idéia de tê-la a meu lado.

Natalie teve realmente que pôr em ordem e conter deliberadamente suas emoções, procurando não expor sua confusão ao atento olhar de Jonathan. Desejava lhe odiar de maneira apaixonada; desejava inclinar-se para ele e beijá-lo nos lábios com toda a suavidade e desejou que fosse capaz. Queria vingar-se dele; mas em sua confusão sentimental, também se deu conta de que o queria para algo mais. Para olhá-lo, para falar, para sentir. Para estar a seu lado.

Sem prévio aviso, Jonathan alargou uma mão e agarrou-lhe os dedos dos pés, que lhe sobressaíam por debaixo do vestido. Os acariciou com ternura, o que fez que o corpo dela vibrasse com uma maravilhosa sacudida. Jonathan sabia à perfeição que ela não o odiava, apesar, inclusive, de tudo o que ele tinha feito, mas Natalie não estava disposta que ele se separasse da importante conversa sobre as esmeraldas com tanta facilidade. Provavelmente poderia seduzi-la nesse mesmo instante; e provavelmente ele também sabia. Isso a enfureceu. Tinha que voltar para assunto de seu ataque.

Ela apartou os pés com brutalidade e se levantou, dirigiu-se à janela e apoiou as palmas no parapeito, olhando fixamente o céu azul claro sem nuvens.

—Fecteau também estava comprometido, não é verdade?

—É óbvio — ele reconheceu em voz baixa. — O conde Arlés, ou mais exatamente, alguém que trabalhava para ele, roubou o colar do duque de Newark faz vários meses, Natalie. É uma jóia de um valor incalculável que uma vez pertenceu a Maria Teresa da Áustria, e que ele e outros membros da aristocracia francesa acreditam que deveria ter ido parar à filha daquela ao casar-se com seu rei. Os ingleses a compraram legalmente (o qual, até onde sei, está perfeitamente documentado), mas neste país há uns quantos que por razões egoístas queriam que o colar retornasse a sua terra. Eles nos roubaram isso; e eu o tornei a roubar. —Pigarreou. —E agora parece que você me roubou isso.

Foi uma afirmação direta. Jonathan queria que ela se explicasse, mas não estava disposto a perguntar abertamente, ou possivelmente a bisbilhotar no que ele começava a perceber como um assunto muito privado.

Na habitação fez um silêncio absoluto, e o desassossego que reinou no ambiente só se viu alterado pelo som do bater das ondas nos longínquos escarpados e o canto de um pássaro. O delicioso aroma da comida fez que estomago dela cantasse, mas não estava de humor para comer. Estava muito inquieta, ao que contribuía o olhar de Jonathan cravada em suas costas, e que ela percebia, e a mera idéia de que estava a ponto de lhe revelar o verdadeiro motivo que a tinha levado a França lhe estava pondo os nervos de ponta.

Por fim, deu-se a volta para olhá-lo diretamente à cara. Ele seguiu observando-a, com prudência, sentado comodamente na poltrona de vime, com o queixo na palma da mão e uma perna cruzada sobre a outra, esperando.

—Devolver-lhe-ei o colar, Jonathan.

—Em nenhum momento o duvidei, Natalie — respondeu ele quase imediatamente.

Ela sentiu a pele quente e a boca seca, e cruzou as mãos diante dela, retorcendo-lhe com força ante o que se morava. Era o momento da verdade.

—S... suponho que recordará que lhe mencionei que necessitava a ajuda do Cavalheiro Negro.

—Sim, parece-me recordá-lo.

O tom de indiferença e a falta de expressão no rosto de Jonathan provocaram que ela resultasse espantosamente difícil ir ao grão. Tampouco a ajudava muito que não lhe fizesse perguntas nem mostrasse o menor espiono de curiosidade.

—Necessitava que roubasse algo para mim — revelou com voz tremente.

A expressão do Jonathan não se alterou em nenhum momento.

—Acredito que se refere a que quer que eu roube algo para você.

Natalie notou que avermelhava até a raiz do cabelo, mas seguiu olhando-o fixamente aos olhos.

—Sim, isso mesmo.

Jonathan esperou espectador, com as sobrancelhas arqueadas.

—Me vai dizer do que se trata?

—Roubá-lo-á?

Ele a olhou com estranheza.

—Como posso responder se não sei do que se trata?

Aquilo era de uma lógica que lhe esmaguem, entretanto, era a parte mais difícil de tudo. Durante meses ela tinha pensado na maneira em que revelaria ao Cavalheiro Negro, um homem que ela presumia seria imparcial, alheio à questão, racional, e a quem lhe preocuparia o pagamento. Jamais tinha considerado nem remotamente que fosse ver-se comprometido um amigo, e menos um para quem seus sentimentos abrangiam todo o espectro possível e, face ao qual, resultavam tão difíceis de definir.

—É de uma importância transcendental para mim, Jonathan — confiou ela fracamente—, e tremendamente pessoal.

—Isso deduzi ou não teria arriscado tanto.

Suas palavras foram de uma sinceridade absoluta, e a afetaram, porque ela sabia o que significavam. Ela agarrou os cotovelos por diante dela, esfregando-lhe com as gemas dos dedos.

—A situação poderia ter umas conseqüências sociais da maior gravidade.

A expressão de preocupação e a gravidade no tom dela despertou as simpatias do Jonathan.

—Diga-me o de uma vez, Natalie — pressionou com suavidade. —Não poderei ajudá-la, se não saber do que está falando.

O momento tinha chegado, e ela não tinha nem idéia de por onde começar. Com o pulso lhe pulsando rapidamente, olhou-o diretamente aos olhos.

—Minha mãe não foi sempre... sincera com meu pai.

—Sério? — disse ele sem compreender. Ao cabo de uns segundos, acrescentou: — Penso que isso é bastante freqüente em muitos matrimônios.

Ela moveu-se inquieta, trocando seu peso de um pé a outro, apoiando-se no batente em busca de sustento, abraçando-se.

—Não o entende.

Jonathan abriu muito os olhos, mas não disse nada.

Presa de uma profunda vergonha, Natalie sussurrou por fim:

—Refiro-me a ser fiel..., a respeitar o leito conjugal. Minha mãe esteve vendo com outro.

Ali de pé, a um metro de distância do homem de seus sonhos, enquanto lhe revelava segredos familiares de natureza íntima, ela não recordou haver-se sentido tão desconcertada em muitos anos. Mas Jonathan não parecia impressionado; sua expressão permaneceu imperturbável.

—Entendo — murmurou ele por fim.

Ela olhou para a parede, e seu olhar deslizou pelos quadros, grandes e pequenos, cada um deles uma obra de arte, até que acabou detendo-se em um preciosa aquarela grafite em tons verde mar e marrom escuro.          

—Não estou segura de quando começou este deslize — prosseguiu ela, — mas sei positivamente que teve lugar faz vários anos e que durou uns quantos meses. Me... parece-me que foi uma aventura amorosa.

—Talvez sua informação seja inexata — disse ele em voz, muito baixa após um instante de reflexão, — ou possivelmente não fora mais que uma paquera inocente, exagerado pelos rumores.

Ela sabia que Jonathan tentava ser delicado com seus sentimentos; como desejava que ele tivesse razão!

—Não é inexata, Jonathan — lhe corrigiu, voltou-se para ele. —Nem foi sozinho uma paquera inocente. Se não estivesse tão absolutamente segura a respeito, jamais teria vindo à França para contratá-lo.

O vime rangeu embaixo dele quando Jonathan fincou as mãos nos joelhos e se levantou da poltrona dando-se impulsiono. Mas não se aproximou dela. Em seu lugar, cruzou os braços por diante do peito e se ergueu, observando-a atentamente.

—Me contratar para que?

Ela respirou fundo e levantou o queixo com obstinação.

—O homem objeto de seu indecoroso carinho foi Paul Simard, um parisiense oficial da Guarda Nacional. Minha mãe o conheceu durante um destacado acontecimento social, em uma de suas muitas visitas ao continente, e apaixonaram-se um do outro. E ao final... Ataram-se.

Ela não soube descrever de outra maneira, e possivelmente ele estivesse rindo por dentro. Mas não podia permitir-se pensar nisso. O momento da verdade tinha chegado, e já não tinha nada que perder.

—Como já lhe disse, o assunto prosseguiu durante algum tempo, depois do qual minha mãe voltou para Grã-Bretanha... E junto a meu pai, que de nada sabia. Mas o problema, Jonathan, é que o assunto não acabou aí. Se assim fosse não haveria provas. Contra o que cabia esperar, houve-as.

Nesse momento Jonathan pareceu confundido.

—Houve o que?

—Provas.

—Provas de... ?

 Ela apertou a boca com irritação.

—Provas... —Ela fez um violento gesto com a mão. —Provas da relação, do romance. De que minha mãe era a querida complacente do francês.

Ele a olhou fixamente com dureza.

—Natalie, o que está tratando de me dizer?

Ela deixou cair ás mãos junto aos flancos, esforçando-se por tranqüilizar-se.

—Paul Simard morreu faz três anos na cidade de Paris. Apenas dois meses mais tarde minha mãe começou a receber petições de dinheiro. Parece ser que ela e seu amante francês... mantiveram correspondência durante algum tempo, depois de que ela retornou a Grã-Bretanha, e agora o filho de Paul Simard, Robert, tem em seu poder as cartas de amor e a está chantageando sob a ameaça das fazer públicas. O conteúdo das cartas não deixa lugar a dúvidas quanto à natureza da relação. Minha mãe está acontecendo um inferno, enquanto paga quando pode, sem saber o que fazer a seguir e temerosa de enfrentar-se a meu pai. Jonathan acredito que sabe que se alguém chegar a ler essas cartas ou o comportamento indecente de minha mãe chega para ouvidos da alta sociedade, sua reputação acabaria arruinada, minha família se veria envolta em um escândalo e seria demolidor para meu pai.

Deu um passo para ele, baixando a voz até convertê-la em um sussurro veemente.

—Necessito que me acompanhe a Paris, encontre a Robert Simard e lhe roube as cartas de minha mãe. Seis no total. Quando o obtiver, devolver-lhe-ei as esmeraldas.

Jonathan ficou olhando boquiaberto, presa de uma incredulidade absoluta. De ter estado com qualquer outra mulher, haver-se-ia dobrado de dar risada por ouvir semelhante ordem. No que se converteu sua vida para que nesse momento se encontrasse em uma situação tão ridícula, metido naquela farsa de proporções incríveis? Era o ladrão mais famoso da Europa. Sua inteligência, seu estilo incomparável e seus êxitos se converteram em uma lenda. Por suas mãos haviam, passado muito valiosos objetos exóticos, tinha passado de contrabando de um país a outro diamantes valorados em milhares de libras esterlinas e tinha ajudado a emendar injustiças sociais, e açoitado e encontrado a criminosos políticos; inclusive era o responsável indireto de evitar a queda de governos. Entretanto, ali estava ela, de pé em frente a ele em uma elegante pose, o cabelo brilhante tépido pelo sol caindo pelos ombros, o delicioso corpo cheio de curvas rígido pela determinação, lhe exigindo que a levasse a Paris para roubar... umas cartas de amor? Tinha-a subestimado. De entrada era matreira, com uma cara e uma figura preciosas e, quase com total segurança, uma mente doente. Também estava falando totalmente a sério, e Jonathan se encontrou em apuro.

Mas era Natalie, e não era irrisória sua petição, o que lhe dava no que pensar. Jonathan era incapaz de recordar uma ocasião em sua vida em que tivesse pousado seu olhar em algo tão incrivelmente doce como aquela mulher inocente que revelava a infidelidade de sua mãe a um homem de que se conhecia sua fama de mulherengo. Ela tinha as bochechas vermelhas como o grão por uma vergonha que nem sequer podia verbalizar, e o olhar vibrante pelo medo enquanto tentava expressar o ato de má conduta sexual em palavras como «se ataram». Tinha umas maneiras maravilhosas e uma boa vontade que não acreditava ter visto jamais em outra mulher, uma inclinação à bondade e à fidelidade ao matrimônio que estranha vez se davam. E tudo isso o induziu a adotar um comportamento que não acabou de compreender. De repente, entraram-lhe vontades de alargar uma mão para ela e atraí-la contra seu corpo duro para reconfortá-la, para extrair a suavidade e a doçura de seus lábios em uma ansiosa busca da paixão. Sentiu umas vontades enormes de senti-la.

—No que está pensando, Jonathan? — murmurou ela com um muito ligeiro indício de temor.

Durante uns instantes olhou-a nos olhos em silêncio. Então, Jonathan sorriu fracamente, reconhecendo a derrota, e se passou os dedos pelo cabelo.

—Que em realidade não quero ir a Paris.

Ela enfureceu-se, fechou os punhos nos flancos, e seu olhar cintilou com uma fúria explosiva.

—Estava segura de que o faria pelas esmeraldas — ela aduziu, — mas também estava preparada para a contingência de que considerasse que minha situação era uma tolice ou que carecia de importância...

—Não creio que seja uma tolice nem que careça de importância — a interrompeu com sinceridade. —Acredito que não é mais que outra forma de chantagem.

Aquilo a deteve durante vários segundos. Depois, voltou a entrecerrar as pálpebras com calma, sua boca torceu em um sorriso de triunfo supremo, e começou a aproximar-se dele.

—Se me leva a Paris, dar-lhe-ei algo mais, Jonathan.

Ela não o tinha interpretado bem. Ele não havia dito exatamente que não iria. Mas nesse momento a curiosidade picou ao Jonathan, o que a sua vez, impeliu a não revelar suas intenções.

—Mais?— atiçou-a.

Ela estava em frente dele, com seus seios roçando quase o peito do Jonathan, e sua expressão irradiava perspicácia enquanto considerava seus objetivos.

—Se me levar a Paris e recupera as cartas de minha mãe — lhe insinuou com prudência— lhe darei algo que lhe pode resultar de utilidade. Algo que quer. Um pouco valioso para você e seus... Convicções.

Não foi sua atitude, e sim o insólito de que utilizasse aquelas palavras que aturdiu a Jonathan.

—O que poderia ter que fosse mais valioso para mim que o inestimável colar de esmeraldas?

Ela franziu o cenho de maneira quase imperceptível; se por especulação ou por confusão, foi algo que não ficou claro ao Jonathan. Então, o rosto dela adquiriu uma expressão de gravidade.

—Penso que é sua coisa descobri-lo — disse com um sussurro do mais sensual. — Mas não lhe decepcionarei, Jonathan.

Possivelmente fosse seu tom de absoluta certeza, talvez só as expectativas que flutuavam no ar, a previsão de coisas que estavam por chegar, mas com um arrebatamento selvagem e indescritível de ansiedade física, Jonathan ao fim a entendeu, e se atreveu a imaginar as possibilidades. Nesse momento soube, e isso o impressionou sobremaneira.

—Tão importantes são essas cartas para você?

—Significam-no tudo para mim— respondeu ela com resolução.

O olhar do Jonathan se deslizou por cada um dos rasgos da cara dela, das largas e espessas pestanas e as sobrancelhas elevadas, até os lábios perfeitos e a linha suavemente delineada do rosto ao queixo, passando pela fronte, as têmporas e as proeminentes maçãs do rosto. Então, estendeu a mão e lhe tocou o cabelo, acariciando as sedosas mechas com os dedos, maravilhando-se pela suavidade e a textura, e desejou senti-lo contra suas bochechas, seu pescoço e seu peito. Fazê-la sua com o consentimento dela, aconchegar-se em seu corpo cálido, abraçá-la contra ele no ardor do êxtase significaria tudo para ele. E ela também sabia.

—E como posso confiar em que cumpra o trato até o final? — perguntou ele em voz baixa e áspera.

O olhar dela fundiu-se com o seu.

—Porque disse que confia em mim, e lhe acredito.

O que lhe tinha cativado era a inteligência dela, precaveu-se nesse momento, a rapidez que tinha para encarregar-se dos problemas e seu jogo por experimentar a aventura da vida.

Com um débil sorriso, Jonathan deixou cair os braços aos flancos.

—Talvez não possa aceitar isso, Natalie. Possivelmente deveria me limitar a registrá-la para encontrar as esmeraldas.

Ela sabia que a estava provocado, entretanto, aquilo não era o que tinha esperado que dissesse. Apartou-se um pouco dele, indecisa.

—Nunca as encontrará em meus baús...

—Não o duvido — lhe cortou ele com simpatia. — Em qualquer caso, demoraria semanas em registrá-los.

Enrijecendo-se, desprezou o comentário, ela afirmou:

—E como é natural, nem lhe terá passado pela mente registrar minha pessoa. Em conseqüência, creio Jonathan, que não tem eleição.

Divertiu-lhe a absoluta confiança em si mesmo de Natalie. Mas não fez nenhum comentário em voz alta. O olhar que lhe lançou levava implícita sua absoluta determinação a registrá-la de verdade, lenta e acariciadoramente, desfrutando da cada segundo com um prazer indescritível.

—Levá-la-ei a Paris — sussurrou Jonathan de forma cômica, — e uma vez ali, dar-me-á todas as coisas valiosas que me prometeu.

Aquilo foi uma exigência, e ela compreendeu seu significado com uma ligeira hesitação enquanto sentia o alívio alagando-a de pés a cabeça e sustentava o olhar implacável de Jonathan que transmitia com tanta expressividade quais eram seus desejos.

—Aceito suas condições, Jonathan — disse com um repentino arrebatamento de entusiasmo. — Partiremos esta tarde...

—Não, partiremos amanhã.

Aquilo a deixou perplexa.

—Por quê?

Ao Jonathan não passou despercebida a atitude desafiante dela, o sutil enrijecimento de seus seios e quadris. Ela entregar-lhe-ia tudo em Paris, mas ainda não estava preparado para renunciar à inocência nem ao tempo a sós naquela íntima moradia da costa mediterrânea.

—Porque sigo sendo o chefe, Natalie, com independência do poder que tenha sobre mim. Não o esqueça.

Lançou-lhe um olhar de ódio, a ponto de lhe replicar com contundência. Mas Jonathan não lhe fez nenhum caso, separou-se dela por fim e se dirigiu de novo a grandes pernadas para a mesa onde o almoço, provavelmente frio esperava-os.

—Comamos. Estou faminto.

Natalie, sem dizer nenhuma palavra mais e jogando fumaça pelas as orelhas, dirigiu-se com garbo ao lado do Jonathan e se sentou.

 

Capítulo 12

Natalie passou a escova pelo cabelo pela última vez, deixou-a na penteadeira e levantou-se. Atendo o cinturão da bata, a fechou pelo pescoço com os dedos e voltou por fim para a cama.

Jonathan já estava deitado sob a colcha, de barriga para baixo, com a cabeça enterrada no travesseiro e os braços por debaixo deste, provavelmente dormido, que era como ela gostava que estivesse quando finalmente ia repousar seu corpo ao lado dele. A habitação estava às escuras, salvo pela luz que desprendia um pequeno castiçal colocado junto à cama e o potente reflexo da lua enche sobre a longínqua água, que brilhava através das janelas.

Tinham passado juntos seu último dia em Marselha, relaxando-se na praia, falando de coisas corriqueiras assim como de algumas das aventuras de Jonathan como Cavalheiro Negro sobre as que ela havia sentido sempre uma particular curiosidade. Ela tinha rido com o relato de várias de suas histórias, tinha desfrutado de sua companhia com um respeito e uma admiração crescentes por muitas de suas façanhas, muitas das quais ela achou muito incríveis, e à maturação se sentiu encantada de não ter partido para Paris imediatamente. Excetuando seu aborrecimento inicial, quando tinha enfrentado a ele em relação com sua identidade, assim que o engano e os segredos deram passagem à sinceridade entre eles, o dia resultou bom... perfeito.

Ela dirigiu para a beirada da cama, tirou-se a bata, que deixou aos pés do leito, baixou a luz e se meteu lentamente sob os lençóis. Apenas tinha lugar suficiente para os dois, o que lhe tinha obrigado a esforçar-se ao máximo todas as noites para não tocar nele em nenhuma parte. Mesmo assim, na maioria mais das vezes, despertou-se em algum momento para encontrar-se que tinha posto os pés nas pernas ou o braço sobre o peito nu, embora, a Deus obrigado, Jonathan parecia não haver-se precavido da circunstância ou que, em qualquer caso, esta lhe trazia sem cuidado. Dormia sem nenhum traje noturno além de umas velhas calças, algo que ela achou muito estranho, embora em realidade não fosse assunto seu. É obvio, ela sempre ia decentemente tampada.

Jonathan se revolveu e ficou de flanco, voltando-se para ela. Natalie tombou de costas, com os braços cruzados com cuidados sobre o ventre, sabendo de maneira intuitiva que, depois de tudo, ele não estava dormindo, e sim a observando à luz da lua.

—Como faz com seu cachorro? — sussurrou ela, olhando fixamente o teto através da penumbra.

—O que? — respondeu ele com voz baixa e áspera.

—Seu cão — repetiu ela. — Quando realiza as rápidas escapadas como Cavalheiro Negro como que faz com ele?

Jonathan respirou fundo e moveu o corpo para ficar a vontade.

—Apenas me ausento da cidade durante uns poucos dias, assim minha ama de chaves e meu mordomo cuidam dele. Se for ao estrangeiro, como nesta viagem, concedo-lhes umas férias pagas à ama de chaves e ao mordomo e levo o cachorro para o imóvel que meu irmão tem próximo de Bournemouth.

Ela girou á cabeça para olhar o que podia ver da cara dele.

—Leva o cachorro até a costa?

Jonathan esboçou um débil sorriso nas sombras.

—Sempre. —E timidamente, acrescentou: — Quero a meu cachorro.

Isso a fez sorrir, algo que ela esteve segura que ele podia distinguir, porque o claro de lua lhe iluminava intensamente o rosto.

—Por que o chamou Espinho?

—Porque é um espinho que tenho cravado.

—Mas, entretanto, gosta-lhe o suficiente para levar-lhe a quase cento e sessenta quilômetros de casa, quando já tem empregados domésticos que poderiam alimentá-lo e tirá-lo a passear.

—Não é o mesmo — respondeu ele em voz baixa. —Vivian e Simon também o querem; e a seus filhos adoram jogar com o cachorro. E isso também me dá a oportunidade de visitá-los.

Ela fez uma pausa momentânea, e quando caiu na conta das implicações, sua voz se tornou séria.

—Vivian e Simon sabem quem é você.

Foi uma afirmação fruto de uma repentina conclusão, e Jonathan riu um pouco em voz baixa.

—É obvio que sabem. Eu gosto que meu irmão saiba onde estou e o que estou fazendo. Confio nele e em sua esposa. Embora, excetuando aqueles com que trabalho, e agora você, são os únicos que sabem. E nunca o dirão a ninguém.

Aquilo a enfureceu por completo. Viviam era a que lhe tinha sugerido que primeiro falasse com o Jonathan, a que lhe tinha crédulo que Jonathan conhecia o Cavalheiro Negro. Vivian também estava a par das teimosias dela, tanto com o mito como com o homem, entretanto a tinha enviado a uma aventura desesperada e incerta com pleno conhecimento da vergonha que poderia acabar lhe causando.

Apertou os lábios, enquanto retornava os olhos uma vez mais para o teto escurecido.

—Matá-la-ei por me mentir e me remeter a você desta maneira.

Jonathan suspirou.

—Acredito que ela sabia o que estava fazendo.

Aquelas palavras sussurradas tinham tido a intenção de tranqüilizar, mas, pelo contrário, a mente dela sucumbiu à idéia mais devastadora de todas.

—Vivian lhe falou de mim?

Jonathan guardou silêncio durante um instante, um instante tão largo, de fato, que ela voltou-se para ele. Jonathan a observava pensativamente, embora inclusive isso foi mais uma percepção que uma evidência, porque a expressão de sua cara, a só uns centímetros de distância da dela, era apenas distinguível.

Ao final, Jonathan se incorporou um pouco, apoiando o cotovelo no travesseiro, com o queixo e a bochecha na palma da mão direita e a mão esquerda apoiada no lençol junto ao ombro dela.

—Fiz algumas averiguações a seu respeito durante estes últimos anos, Natalie. Foi por isto que cheguei ao conhecimento de seus ocasionais pretendentes. —Começou a esfregar as gemas dos dedos contra o lençol. —Mas, em realidade, Vivian não me contou muito sobre você, e não, antes que você me pedisse isso, não sabia que ela a tinha remetido a mim.

Seu reconhecimento fez que ela sorrisse abertamente com algo mais que um ligeiro alívio e com certa satisfação por inteirar-se de que tinha perguntado de verdade por ela.

—Então, segui-la-ei considerando minha amiga — disse ela um tanto arteiramente. Como elucidação, acrescentou: — E tampouco me cortejou ninguém. Jamais havia sentido o mais mínimo interesse por nenhum dos estirados conhecidos masculinos que vão a meu salão.

—Exceto por mim — replicou ele com voz profunda.

—Você nunca foi a meu salão — recordou-a, com expressão inocente.

Jonathan sabia que ela estava esquivando do tema e voltou a sorrir.

—Não, e creio que também seria exato dizer que sou algo mais que um conhecido.

—Claramente não somos mais que conhecidos, Jonathan — lhe corrigiu, pousando o olhar no teto.

Ele aproximou-se tanto que durante um segundo ela pensou que poderia atrever-se a beijá-la na têmpora. Com os lábios quase lhe roçando a orelha, Jonathan sussurrou: — Os conhecidos de sexo diferente nunca dormem juntos, Natalie.

A sua cara cálida roçou a de Natalie; ela pôde notar o aroma de sua pele e, por mais que confiava em que fosse um cavalheiro, o nervosismo aflorou livremente.

—Mas isto se deve por completo ao azar... a um acordo comercial, por dizê-lo de algum jeito.

—Eu não o chamaria nem azar nem negócio — respondeu ele. — O chamaria destino.

Jonathan deixou que a afirmação flutuasse no silencioso ar noturno. E ao final, quando Natalie soube que ele não acrescentaria nada mais até que ela o fizesse —ou retornasse a olhá-lo— inclinou a cabeça de maneira quase imperceptível, só o suficiente para olhá-lo fixamente aos olhos, que a penumbra mantinha muito ocultos para ser lidos.

Não obstante, ela argüiu com valentia:

—Isto nada tem que ver com o destino. Estou aqui por necessidade. Nem pelo mais remoto estive interessada em você jamais, exceção feita de suas habilidades como ladrão. Deixando a um lado seu atrativo, em seu corpo não há nem o menor indício de instinto conjugal.

—Muitas mulheres pensariam o contrário — ele replicou com uma formalidade fingida.

—Justo o que estou dizendo, querido Jonathan.

Aquilo divertiu Jonathan. Mais que vê-lo, ela pôde senti-lo, embora ele não discutiu. Observou-a, com a cara a centímetros da dela e os dedos roçando o braço dela através do leve algodão, enquanto se moviam para cima e para baixo pelo lençol.

—Entretanto, se queria casar-se com um ladrão — insistiu ele voz baixa. — A bom seguro, não esperaria encontrar nada caseiro nele. Ou é que tudo foi uma história inventada em minha honra?

Disse as palavras... como se escapassem de sua boca, entretanto, ela soube pela seriedade da entonação que o estava perguntando de verdade. Entretanto, ela não podia falar disso nem desvelar o longe que tinha chegado em suas fantasias.

—Tem razão — ela admitiu com doçura. —Menti.

Ele esperou um instante, e então a agarrou por braço com a mão e o apertou com suavidade.

—E o faz terrivelmente mal.

O pulso dela começou a pulsar rapidamente, tanto pelo íntimo contato como pela implicação das palavras de Jonathan. Sabia que ela estava mentindo nesse momento, e que suas intenções originais eram exatamente as que tinha confessado. Mas, ai! Jonathan fez um alarde de cavalheirismo ao não tratar de agravar a vergonha dela, embora, por instinto, e possivelmente porque ela estava começando a conhecê-lo tão bem, Natalie se precaveu do muito que Jonathan desejava que o admitisse e lhe explicasse seus sentimentos mais íntimos.

Entretanto, não podia. Por duas vezes em sua vida tinha sido humilhada por causa da sinceridade de suas revelações para com Jonathan Drake, e com isso era mais que suficiente. Já havia muita intimidade entre eles, ali deitada junto a ele na cama, sentindo seu calor, cheirando o salubre ar marinho misturado com o sedutor aroma de masculinidade dele. Ela trocou de assunto sem alterar-se.

—Foi você que doou centenas de libras ao lar para garotas desencaminhadas de lady Julia Beverly, não foi assim, Jonathan?

Percebeu a surpresa que tinha causado a Jonathan com a mudança de tema, e possivelmente inclusive sua consternação porque ela já não queria falar sobre eles. Ele guardou silêncio durante vários segundos, limitando-se a seguir olhando-a fixamente sob o claro da lua enquanto lhe acariciava um braço com aparente distração. Mas aquilo era algo que ela ansiava saber; era um dos maiores mistérios de Londres, e em seu momento provocou substanciosas fofocas que correram por toda a cidade. A maioria deles davam por certo que o ato tinha sido instigado pelo Cavalheiro Negro, embora fosse um daqueles incidentes que não tinham conduzido diretamente a ele.

Ao final, Jonathan respirou fundo e assentiu com a cabeça em sinal de reconhecimento.

—Foi coisa de uns dois anos — começou dizendo pensativamente. — Me pediu que investigasse o roubo de um antigo relógio de bolso com incrustações de diamantes, cujo desaparecimento foi denunciada por sir Charles Kendall. Este afirmou que o tinham roubado em seu clube, durante uma partida de cartas entre vários membros da aristocracia em que as apostas tinham sido elevadas. Vi-me envolto porque a descrição do relógio coincidia com outro roubado nove anos antes ao senhor Herold Coma, um advogado e colecionador de antiguidades de grande valor, que morreu em um incêndio antes que se pudesse encontrar o relógio e lhe restituir.

»O certo é que o trabalho me levou semanas, um dos mais compridos que realizei, porque tive que me arriscar a entrar na casa de todos os homens que tinham participado da partida de cartas. Mas minha investigação acabou dando seus frutos quando encontrei o relógio na gaveta do guarda-roupa de Walter Pembroke, um almirante da Marinha aposentado que tinha trabalhado em excesso durante a partida, onde todos tinham estado apostando forte e muito bêbados para adverti-lo. Ao final, resultou que se tratava, é óbvio, do relógio do senhor Coma, porque tinha suas iniciais gravadas com grande delicadeza no interior, e dado que estava morto e que não tinha família a quem poder lhe devolver o relógio, decidi destiná-lo a uma boa causa. Tecnicamente, e posto que ninguém tivesse legítimo direito sobre a jóia, pertencia-me.

Intrigada, e esquecidas às intimidades, ela ficou de flanco, voltando-se por completo para ele, obrigando a Jonathan lhe soltar o braço. Natalie apoiou o cotovelo no travesseiro como ele, com a palma da mão na bochecha, e baixou a voz até convertê-la em um sussurro.

—E não poderia ser que sir Charles o comprasse à pessoa que o roubou ao senhor Coma e se considerasse legítimo proprietário?

Jonathan fez um leve movimento de negação com a cabeça, e as comissuras de sua boca descenderam em um leve franzido.

—Isso mesmo me expus no momento, antes de me inteirar que sir Charles tinha ido ao despacho do advogado em busca de conselho apenas duas semanas antes que se denunciasse o desaparecimento do relógio. O relógio foi roubado mais tarde, um dia que sir Charles tinha consertado convenientemente uma entrevista. Tal coisa está documentada. Como é natural, o senhor Coma não suspeitou dele, mas com os anos aprendi que as classes altas não sabem de maneiras quando se trata das inclinações mais desprezíveis da natureza humana.

Fascinada, ela dedicou uns segundos a pensar nisso.

—E por que escolheu a causa de lady Julia?

Sem hesitações, Jonathan respondeu:

—Porque sir Charles, um personagem de escassa decência, tinha o repugnante costume de arrojar ocasionalmente às garotas de seu serviço a tão desafortunada condição, as despedindo depois sem nenhuma referência que lhes permitisse ganhar a vida, o que dava com elas na rua. Pareceu-me adequado que o sujeito ajudasse a manter a outras que possivelmente tinham cansado em desgraça de maneira similar, assim enviei o relógio lady Julia, sugerindo-lhe que o vendesse discretamente se necessitava recursos para seu lar. Deste modo o fez um mês mais tarde, e eu envie uma carta anônima sir Charles lhe informando com detalhe de qual tinha sido o destino de seu relógio.

Presa de excitação, ela estava deslumbrada.

—E quem pagou a você, então? Sem dúvida, não seus benfeitores. Não tinham nenhum motivo.

Jonathan fez um imperceptível gesto de indiferença com o ombro.

—Não cobrei por esse trabalho.

Ela piscou.

—Arriscou-se a ser descoberto e possivelmente detido por nada?

Ele inclinou-se para ela e sussurrou:

—De vez em quando, Natalie, faço meu trabalho só porque me parece que está bem.

Tinha sido um ato piedoso, um serviço altruísta para os menos afortunados, precaveu-se ela, não um engano que alardear, como quando tinha roubado as esmeraldas, e ela não pôde menos que lhe sorrir com o olhar.

—Que nobre que é você, Jonathan — disse, tocando-lhe o cabelo.

—Posso sê-lo às vezes.

—Ao menos poderia ter feito que lhe reconhecesse o mérito — acrescentou ela em voz muito baixa.

—Não tenho nada que demonstrar a ninguém — admitiu-o com delicadeza.

Natalie o olhou fixamente à cara, que estava a escassos centímetros da sua, sentindo seu calor e a satisfação que os envolvia, a serena sensação de amizade que havia entre eles. Ela desejou levantar uma mão e lhe apartar o cabelo da fronte com os dedos, lhe tocar a barba do queixo, o pêlo do peito nu. Teve que jogar mão de todos seus recursos para conter-se. Mas de repente, ali deitada, tão perto fisicamente um do outro, naquela íntima conexão com ele, lhe ocorreu que não lhe faria a pergunta mais pessoal de todas.

—Por que faz isto, Jonathan? O que o fez decidir converter-se em um ladrão, inventar uma personalidade fictícia... Tão incrível?

Jonathan estendeu uma mão brincando com os laços da cinta que penduravam do pescoço da camisola dela e começou a enroscar-se em um nos dedos. Não falou imediatamente, o que incitou Natalie a insistir na busca de detalhes, enquanto adiantava o pé direito o suficiente para lhe roçar a tíbia com os dedos.

—Não direi uma palavra — ela sussurrou.

Jonathan fez uma pequena e contida exalação.

—Não é nenhum secreto. Nunca havia dito a ninguém.

Ela seguiu lhe acariciando a perna sem responder nada, esperando que ele não decidisse deixar de confiar nela nesse momento.

Ao final, Jonathan deixou cair o braço que lhe segurava a cabeça e instalou o corpo comodamente ao lado dela, apoiando a bochecha no travesseiro uma vez mais e olhando-a diretamente.

—Você é filha única — começou—, e mulher, assim pode que não o entenda. Mas sou o segundo filho de um conde.

Ela apoiou a cabeça junto a ele, colocando as mãos sob o travesseiro com um sorriso.

—Já sei isso, Jonathan. Ainda não me impressionou.

Ele devolveu o sorriso.

—Não se tome minha afirmação à ligeira, Natalie. Pense no que significa. Somos só os dois, Simon e eu, aos que nos separam dezenove meses. Meu pai esteve encantado com que sua esposa lhe desse dois filhos, mas provavelmente me teria ido melhor se tivesse sido uma menina...

Ela interrompeu em um tom zombador:

—Vindo de alguém que não terá que sê-lo jamais, isso é uma tolice — lhe repreendeu. — Você tem alternativas, e todo mundo ao seu dispor; o que se espera de mim é que me case e tenha filhos e que me submeta aos caprichos de meu marido.

Ele acariciou uma bochecha com ternura com o dorso dos dedos.

—Não o entende. Falo estritamente da atenção que os pais emprestam a suas filhas. Sim, sou homem, e posso tomar minhas próprias decisões, ir aos sítios e fazer as coisas que me agradem. Sei que a sociedade me permite coisas que estão vedadas às mulheres. — esclareceu-se voz. — E é óbvio, eu gosto das mulheres muito para querer ser uma alguma vez. Sinto-me muito agradecido por ter nascido varão.

Ela ficou um pouco tensa ao ouvir o comentário, mas ele não pareceu adverti-lo, seguindo antes que ela pudesse fazer algum comentário e retornando a alargar a mão para os laços que lhe mantinham a camisola fechada no pescoço.

—Estou falando de mim como indivíduo, Natalie — explicou com voz apagada. — Meus pais nos queriam tanto ao Simon como a mim da mesma maneira, nada terei que objetar a esse respeito. Mas meu irmão foi educado para ser o conde; eu fui ao caso de chegasse a sê-lo. Supunha-se que meu irmão tinha que ser educado; em meu caso, supunha-se que o fosse menos, porque realmente não importava, toda vez que não dirigiria as propriedades da família. Meu irmão foi preparado para ser importante; permitiu-me fazer o que me desse vontade a maior parte do tempo. Meu irmão era o sério, que fazia frente a suas responsabilidades com eficiência, e a uma idade temprana; eu era muito mais sociável e brincalhão por natureza, e se me... Consentiu mais, por dizê-lo de algum jeito.

—Diria que há muitos nobres que desejariam ser os segundos — ela sugeriu. — E nessa condição teriam todas as possibilidades e eleições a seu alcance, e a pressão do êxito não recairia com tanta força sobre seus ombros.

—Eu suponho que há eles. — E pode que, se tivesse vários irmãos e irmãs, não me sentisse desse modo.

Ela franziu o cenho.

—Senti-se de que maneira, exatamente?

Jonathan fez uma pausa, e sua fronte enrugou ao recordar e concentrar-se em pensamentos ocultos.

—Quando tinha quatorze anos, surpreendi uma conversação privada entre meus pais. Estavam falando de mim, sobre minha natureza despreocupada e minha pouca afeição aos estudos. —Com hesitação, acrescentou: — Minha mãe mencionou que emprestava muita atenção às garotas e à diversão.

—Isso não parece ter trocado — disse ela sem nenhuma expressão.

Jonathan sorriu fracamente, mas desprezou o comentário, acomodando a cabeça e o corpo para podê-los aproximar dela ainda mais; tanto que ela pôde sentir de fato o calor que desprendia sua pele e o suave fôlego de Jonathan nas bochechas quando falou.

—Falaram seriamente de me enviar longe — revelou com dureza, — de me enviar ao estrangeiro... a um colégio de meninos de Viena. Minha mãe se mostrou contraria, mas, ela e eu estávamos muito unidos, então isto não foi uma surpresa. Meu pai tinha a sensação de que eu carecia do refinamento de um menino de boa família e de que um ambiente estrito pensava que isto me poderia inculcar uma boa conduta moral, era o que necessitava para corrigir minha inclinação ao que ele considerava um comportamento irresponsável. Embora, ao final, graças à determinação de minha mãe e à adoração que meu pai lhe professava, me permitiu seguir na Grã-Bretanha. Por isso sei, nunca mais tornaram a falar do assunto. Jamais me falaram de sua conversação, e nunca souberam que eu soube que tinha tido lugar. —Baixou a voz até convertê-la em um sussurro anti-social. — A idéia de ser enviado longe não me surpreendeu, a verdade é que nem sequer me inquietou muito. Mas o que trocou minha vida foi á conversação em si que mantiveram aquele dia, Natalie, e jamais o esquecerei. Minha mãe, entre lágrimas, disse: «Sempre pensei que Jonathan seria o inteligente». Ao que meu pai respondeu: «Não é inteligente, é retorcido. É um menino mau criado que não passará de ser um caveira da alta sociedade e que acumulará dívidas às que terá que fazer frente Simon. “Simon será nosso orgulho; Jonathan, quem arruinará nossa reputação».

Natalie sentiu-se invadida por uma poderosa quebra de onda de compaixão e simpatia que a percorreu de pés a cabeça, enquanto considerava até que ponto uma conversação, inclusive bem-intencionada, podia desconsolar a um menino, se este a ouvia por acidente. Não havia ninguém no mundo que compreendesse melhor a sensação de não estar à altura dos ideais estabelecidos, de ser subestimada e pouco valorada.

—Sei o que é não satisfazer suficientemente as expectativas paternas, Jonathan — lhe disse ela tranquilamente, em um sussurro suave como a seda.

Jonathan lhe cravou o olhar quando respondeu com paixão:

—Sei. Você é a primeira pessoa a que revelo isto, Natalie, e o tenho feito porque é quão única o compreenderia.

Natalie sentiu-se atraída para ele por esta simples afirmação, dita com absoluta sinceridade e com uma profunda emoção, com uma absoluta confiança. Estava deitada a seu lado, os dois juntos em uma pequena e quente cama de uma casa preciosa à beira mar em uma terra encantada, e, nesse momento, para ela, eram as duas únicas pessoas do planeta.

—Então, por que decidiu fazer-se ladrão? — perguntou lhe olhando aos olhos. — Não significa isso que ganharam seus pais?

Ele pôs a mão sobre a camisola, a palma sobre o peito, embora justo debaixo do pescoço, e pela primeira vez, a descarada ação não a incomodou absolutamente. A ela pareceu algo maravilhosamente natural.

—Pense nisso, Natalie — sugeriu-o com voz suave e profunda. — Ganhamos todos.

Foi nesse momento quando ela compreendeu tudo. Jonathan vivia a vida que se esperava dele e de sua posição, uma vida livre de preocupações, mas com a estabilidade inerente a um trabalho honrado, enquanto que seu engenho e lucros incríveis como fantástico ladrão ficavam ocultos sob a aparente frivolidade e alegria tão habituais da alta sociedade. Por cima de tudo, converteu-se no homem que queria ser, com a integridade que seus pais jamais tinham alcançado a vislumbrar.

—Mas eles têm mortos anos, Jonathan — argumentou ela com prudência. — Nunca lhe conheceram como o Cavalheiro Negro. Jamais conhecerão seus êxitos.

Ele sorriu novamente.

—Saberei eu.

Ela lhe devolveu um amplo sorriso.

—E Simon.

—E Simon — conveio ele.

O silêncio cresceu em torno deles, a calma alagou a habitação, nenhum dos dois se moveu. Jonathan a via melhor que ela a ele, precaveu-se aquilo com um leve reconhecimento da vantagem que isto lhe dava. Por detrás dele, a lua enche projetava seu brilho nos vividos olhos dela, tão cheios de expressividade, em sua cara e no cabelo brilhante que lhe caía em ondas sobre os ombros e os peitos. Desde que ela se colocou sigilosamente na cama, tinha querido tocá-la, rodeá-la com seus braços e atraí-la para ele, mas como sempre, dado que sabia qual seria a reação dela, reprimiu seu desejo. Assim, como era natural, foi uma completa surpresa que ela levantasse a mão e lhe tocasse cautelosamente a cara, cavando-lhe no queixo e lhe acariciando a bochecha com a palma enquanto estudava o que podia distinguir de suas facções na penumbra.

Jonathan a observou sem dizer uma palavra, paralisado pelo temor que ela se detivesse. Era a primeira vez que o tocava a propósito, e o fez com uma ternura que fluía desde ela como um resplendor e que os envolvia a ambos com força, e Jonathan não quis que aquilo terminasse.

—Não lhe causa pena tudo isto agora, que seus pais não chegassem, a saber, alguma vez no que se converteu? — perguntou ela em um profundo sussurro.

—Não, a verdade é que não — respondeu ao fim Jonathan, cedendo à proximidade. — Acredito que lhes teria agradado, se o tivessem sabido. Sinto-me contente com a maneira em que se desenvolveu minha vida, e desfruto com o que faço. O único fastidioso do assunto é que é uma ocupação muito solitária. Natalie, oxalá a tivesse a meu lado para me fazer companhia em cada uma de minhas empresas.

Ao princípio Natalie não soube como tomar-se aquilo.

Apartou a mão da cara do Jonathan enquanto seus olhos se convertiam em uns redondos lagos de incerteza com um ligeiro rastro de prudência. Depois sua boca se dilatou em um sorriso.

—Seria um problema.

—Mas um problema sinistramente divertido — brincou ele.

—Acabaria aborrecendo-se de mim, Jonathan.

Ele soltou uma risadinha.

—Não posso imaginar me aborrecendo de você, Natalie.

—Essa é uma afirmação especialmente estranha vindo de um cavalheiro conhecido por sua natureza bagunceira — lhe reprovou com ligeireza. — E em algum momento nos pilhariam. Não poderia mentir a meus pais sobre meu paradeiro em cada ocasião.

—Poderia casar-se comigo, e assim a levaria comigo a todas as partes.

Sugeriu isto com muita soltura, em um tom jovial que lhe surpreendeu. Mas Natalie se inquietou. Jonathan pôde sentir sob as gemas de seus dedos que os batimentos do coração do coração dela aumentavam sem cessar e ouvir a respiração nervosa e superficial que escapava de seus lábios.

Olhou-a fixamente, inseguro. Então, ela foi-se pondo notoriamente séria, e no lapso de uns segundos a atmosfera entre eles se converteu em um estado de acusado estatizo.

—Jamais me casarei com alguém como você, Jonathan — afirmou ela com profunda e afligida convicção. —É um homem maravilhoso, encantador e acredito que muito inteligente. Mas vi o que a infidelidade pode fazer a um matrimônio. Experimentei-o, e jamais me porei em situação de... Não, se posso escolher. Se chegar a me casar, será com alguém que se entregue para mim, e não creio que alguém que esteve com tantas mulheres possa entregar-se a uma para toda a vida.

Pela primeira vez em sua vida, Jonathan sentiu o peso entristecedor do arrependimento e o horripilante indício um pouco parecido ao pânico tomando forma lentamente na boca de seu estômago. Uma determinação real e concentrada adornava os rasgos dela, e aquilo incomodou a Jonathan mais do que acreditava possível.

—Mas queria casar-se com o Cavalheiro Negro — insistiu ele, aparentando mais tranqüilidade que sentia. — E os rumores lhe atribuíam múltiplos romances.

Ela entrecerrou os olhos; sua boca se transmutou em uma linha sombria.

—Era sozinho isso, Jonathan, rumores, o qual, infelizmente para mim, resultou ser verdade.

Aquilo o irritou um pouco.

—Então, quanto é muito, Natalie? Três? Quinze? Ou é que espera casar-se com alguém virgem?   

Ela não soube nem remotamente como responder a isso, enquanto seus conflitos internos afloravam à vista de Jonathan, iluminando sua expressão.

—Acredito que a maioria das damas são bastante afortunadas para casar-se com homens virgens — respondeu Natalie com energia.

Jonathan negou lentamente com a cabeça.

—E eu acredito que a maioria das mulheres são ingênuas ou ignorantes.

Aquilo a enfureceu, e durante um momento Jonathan teve a certeza de que ela abandonaria a cama. Mas não o fez; Natalie lhe sustentou o olhar e não pareceu advertir que ele seguia lhe mantendo a palma da mão na base de seu pescoço.

Então, a expressão dela relaxou, baixou as sobrancelhas pouco a pouco e se rendeu.

—Possivelmente os homens também o sejam — sussurrou quase de forma inaudível.

Tal admissão o enterneceu. Sabia o que ela tinha querido dizer e se precaveu imediatamente de quão difícil devia ser para alguém que jamais tinha experimentado os prazeres de quarto ter que entendê-lo e depois lutar com tudo relacionado com isso. Ainda tinha que desfrutar do melhor da questão, embora já tivesse sido testemunha de primeira mão do mais feio do tema: uma traição.

—Por que arriscou sua reputação, todo seu futuro, para ajudar a sua mãe, quando ela foi a causa do ressentimento que anima em você?

Ela voltou a abrir os olhos para olhá-lo, e suas sobrancelhas se juntaram delicadamente em uma confusão evidente.

—Não vim à França por ela, Jonathan — confessou em voz baixa e sombria. —Fica muito pouco afeto no coração por volta de uma mulher que me esteve chateando durante vinte e dois anos me pregando a virtude e que com tanta presteza condena o comportamento imoral de qualquer dama, quando ela mesma mentiu de maneira mais dolorosa imaginável. —Sacudiu a cabeça com repugnância. —Não iria nem a Rochester por ela. Mas iria a qualquer rincão do mundo por economizar a meu pai a vergonha do adultério de minha mãe.

Por fim, tudo se esclareceu para o Jonathan. Já compreendia as motivações dela.

—Sabe seu pai?

—O do romance?

Ele assentiu com a cabeça de maneira quase imperceptível.

Natalie se acurou mais contra o travesseiro, amassando-se na colcha.

—Sabe. Ele a segue querendo, o qual me faz inimaginável. —Sua expressão se escureceu. — Ficou desconsolado quando se inteirou da verdade, Jonathan, quando minha mãe admitiu que amasse aquele francês. Em toda minha vida nunca tinha visto meu pai assim. Ela lhe partiu o coração. Durante muito tempo a tensão em casa se fez insustentável, e é agora quando as coisas começam a assentar-se e a recuperar a normalidade de antigamente. Mas seu matrimônio nunca voltará a ser o mesmo. Ela o arruinou. Só confio em que você seja capaz de conseguir essas cartas antes que a alta sociedade se inteire do deslize de minha mãe. Não acredito que meu pai sobrevivesse à humilhação.

Jonathan lhe acariciou o pescoço com o polegar, sentindo os fortes batimentos do coração de seu pulso, desfrutando de seu calor e suavidade nas gemas dos dedos. O claro de lua arrancava brilhos perolados à branca pele de Natalie e fazia que seu cabelo brilhasse como a prata. Jonathan o tocou com a mão livre, entrelaçando-o entre seus dedos ao tempo que lhe esparramava pelo peito e o lençol.

—A gente não pode predizer as desigualdades do amor e o matrimônio, Natalie. —A ela não convenceu tal asserção, e Jonathan lhe lançou um sorriso tranqüilizador para explicar-lhe: - O que quero dizer é que é impossível saber como reagirá um indivíduo diante as situações da vida. Não se pode julgar a uma pessoa por seu passado.

Ela ficou tensa.

—Meu pai não tinha nenhum passado...

—Que você saiba — a interrompeu. — E é provável que sua mãe, tampouco. Eu aposto o que seja a que chegou virgem a sua noite de núpcias, entretanto, isso não impediu que fora infiel.

Aquilo a fez sentir incomoda, e ele, se por acaso servia de algo, sentiu certo gosto triunfal.

Então, ela respirou muito fundo, com resolução, e na penumbra cravou o olhar nos olhos dele.

—Jamais me casarei com um homem que possivelmente me faça mal. Compartilhar a intimidade com diferentes mulheres antes do matrimônio só faria a um homem mais propenso a dar-se conta do que perde quando a lua de mel se acabe.

—Isso não sabe — argumentou ele com seriedade.

—Não se trata de que saiba se for verdade ou não, Jonathan, mas sim de que, simplesmente, não correrei o risco — respondeu com renovada convicção. — Não me casarei com um homem que não me ame como meu pai ama a minha mãe. Ele sabe qual é sua cor preferida, seu vinho favorito, suas flores prediletas... Pode lhe encarregar a comida até o último detalhe, porque sabe exatamente o que gosta ela. Conhece seus estados de ânimo, suas alegrias e seus temores, e a adora pelas coisas boas que tem e apesar das más.

Inclinando-se para ele, ela agarrou com firmeza o travesseiro com uma excitação luminosa que já não podia conter.

—Quero que o amor seja divertido, excitante e novo; um pouco compartilhado... Um segredo romântico entre os dois. Quero que meu marido saiba que odeio bordar e montar a cavalo e a fofoca entre as damas; que adoro o chocolate e os dias chuvosos e escuros, e as comédias do Shakespeare, e a emoção e o brilho da cidade de noite; que minha cor favorita é o azul escuro brilhante; que sempre quis ir à ópera a Melam e que sonho ir algum dia á a China.

O entusiasmo desapareceu de sua cara como por cura enquanto negava com a cabeça com pequenos movimentos de desdém.

—Geoffrey Blythe não sabe essas coisas sobre mim. Sabe que sou de boa família e que possuo uma dote decente, a qual serviria provavelmente para pagar qualquer futura dívida que contraíra, se é que não a perdia antes. A coisa é ainda pior, pois nunca se preocupou por saber quais são meus interesses nem meus desejos. O único que lhe importa, assim como a todos outros cavalheiros que me visitam, é que sou de bom berço e que parirei uns filhos sãs. Entretanto, minha mãe me casaria com qualquer deles amanhã mesmo. Se não me quiserem pelo que sou, o que é que impedirá que qualquer deles acabe aborrecendo-se de mim e do leito conjugal e se vá a outro? Minha mãe não sabe que a meu pai adora o outono no campo, que adora dar largos passeios pelo bosque e que lê poesia quando está preocupado. Ela não o ama, e eu não me casarei por menos disso.

A paixão dela o encantou; sua doçura o estremeceu. Jonathan não conseguiu que lhe saísse á voz diante semelhante revelação de penas e saudades e inclusive de raiva ante as indignidades da vida. Olhou-a fixamente aos olhos grandes e formosos, sentiu seu calor junto a ele e de novo o apressaram as ânsias de agarrá-la entre seus braços e consolá-la completamente.

Compreendeu as razões que aninhavam depois das conclusões dela, entretanto, quis sacudi-la até que acreditasse nele, na sinceridade de seu passado, na natureza de seus desejos e nas saudades de seu coração. Mas nesse preciso instante, mais que qualquer outra coisa que tivesse podido desejar nunca, o que queria é que Natalie confiasse nele.

Por instinto mais que por cálculo, Jonathan começou a lhe acariciar descaradamente o pescoço com movimentos suaves e tênues. Natalie não reagiu na aparência ao gesto e se limitou a seguir olhando-o fixamente com uma calma calculada. Ele sabia que ela estava pensando no que lhe acabava de dizer, tentando calcular sua reação e esperando que lhe respondesse.

—Sabe — sussurrou ele com muita lentidão, sem apartar os olhos dela nem um instante— com que desespero desejo lhe fazer amor? Não a seu corpo, Natalie a não ser a você. Sabe o difícil que resulta aguardar algo tão maravilhoso?

A determinação dela fraquejou ao ouvir essas palavras, ou possivelmente fora só a confiança em si mesmo, e seus olhos traíram o primeiro raio autêntico de dúvida, de emoções desatadas e de vontade confundida.

E por causa dessa pequena dúvida por parte dela, que Jonathan interpretou como uma resposta positiva, e a causa do ímpeto de sua própria necessidade selvagem, agarrou os laços com os dedos e atirou deles docemente até que se soltaram, abrindo a parte superior da camisola dela.

A respiração dela se fez superficial, mas se sentiu cativada... Pelo atrevimento de Jonathan, por suas próprias ânsias interiores que, com o transcurso dos dias, cada vez lhe faziam mais difíceis de conter.

Com uma reverência carregada de prudência, unida a um nervosismo totalmente desconhecido para ele, Jonathan colocou a palma da mão diretamente sobre a pele entre os peitos de Natalie, demorando sozinho uns segundos em regozijar-se da cálida suavidade que sentia sob a mão e os dedos. Então, antes que ela pudesse protestar ou mover-se, deslizou a mão para um lado e lhe cobriu por completo o peito nu.

Natalie tomou ar com força ao sentir o contato, mas, além disso, permaneceu imóvel, concentrada e com o olhar fundido na cara de Jonathan; não por medo, a não ser com uma sensação crescente de assombro.

Ao final, ela tragou a saliva com dificuldade, com os olhos brilhantes pelas lágrimas antes de fechá-los definitivamente, e com serenidade, agarrou o pulso de Jonathan e o tirou de debaixo da camisola. Mas o melhor de tudo foi que não lhe soltou. Aferrou-se a seu braço e o sustentou com força contra seu peito, entre os seios, como se fora um objeto valioso que ela não queria perder.

Jonathan permaneceu imóvel a seu lado, observando-a durante um extenso momento enquanto Natalie sucumbia ao sono, sentindo o rítmico pulso de seu coração contra a mão.

 

Capítulo 13

Jonathan cruzou as portas principais de Sorbone e saiu ao sol resplandecente da tarde. Baixou os degraus lentamente, passando ao lado dos estudantes embelezados quase com uniformidade com calças azul escura e levita negras, e se dirigiu para as ruas cheias de operários sem qualificar, de aspirante a artistas e de cavalheiros vestidos com calças de quadros escoceses e coletes primorosamente bordados que passeavam ociosos pelos bulevares com elegante despreocupação.            

O clima político em toda a Europa estava cada vez mais revolto. Tanto em seu próprio país como no continente havia graves problemas econômicos. E mesmo Paris era um amontoado de descontentamentos onde não se parava de falar de revolução e de reforma tanto nas reuniões públicas como privadas de legitimistas, radicais e republicanos; entre os camponeses e os artesãos; e é óbvio, entre os cidadãos da classe média. A tensão seguia crescendo na cidade, e essa foi á única razão para que Jonathan tivesse procurado alojamento fora da urbe, para considerável irritação de Natalie, uma mulher que adorava a excitação urbana em todo momento.

Sua primeira parada tinha sido nas dependências da Guarda Nacional francesa, onde tinha obtido escassa informação a respeito do Paul Simard e sua família. A Guarda tinha seus próprios problemas, descuidada como tinha sido pelo Luis Felipe durante já sete anos completos. Luis Felipe era o rei dos franceses — o Rei dos Cidadãos, — não o rei da França, e como pessoa detestava o conflito, até o ponto de minguar a aqueles que teriam que proteger seu trono se o descontentamento acabava em verdadeira rebelião. Jonathan ignorava se isto era bom ou mau; realmente não tinha uma opinião a respeito, mas se dava conta de que tanto empenho em conseguir a paz a qualquer preço podia escavar o poder de um homem em um país que se deleitava em manifestações e reformas. Luis Felipe tinha aliados em Grã-Bretanha, é óbvio, e entre eles à rainha Vitória, a quem gostava do francês, em geral, sempre que se pudesse esquecer o escândalo suscitado sozinho um ano antes pela insistência do Luis Felipe em casar a seu filho com a irmã da rainha da Espanha, quando Vitória o tinha recebido uma vez em Windsor e o honrado com a Ordem da Liga. Nesse momento, havia novos escândalos de natureza doméstica relacionados com a ineficácia eleitoral francesa e a corrupção do ministro da Guerra do Luis Felipe.

A situação se encaminhava para um desenlace negativo. Podia-se sentir no ar. O povo francês, em quase todos seus estratos sociais, estava inquieto, a oposição estava começando a organizar-se e cada um dos grupos propunha sua própria causa mediante irados discursos pronunciados em banquetes organizados a tal fim pelos distintos grupos políticos. Sir Guy tinha estado em certo. O monarca que reinava nesse momento estava perdendo a batalha, e em opinião de Jonathan seria sozinho questão de tempo antes que a agitação civil se convertesse em violência e Luis Felipe abandonasse o trono a caminho do exílio ou assassinado por personagens influentes, como era o caso de Henri Lemire.

Jonathan se deteve em uma concorrida esquina, vestido com a mesma séria indumentária que levava o dia de sua reunião com a Madeleine, e que resultava algo incômoda para o calor de meados de julho. A sorte os tinha acompanhado em uma viagem sem incidentes até a capital, já que a última semana se manteve nublada e anormalmente fresca para estar em pleno verão, e o sol tinha feito sua primeira aparição em dias fazia só duas horas.

Jonathan observou o movimento da rua da cidade durante uns minutos, sem emprestar atenção apenas ao tráfico congestionado de pessoas, aos gritos e ao ruído do tráfico, ao aroma dos corpos sem assear e do esterco dos cavalos, que se mesclavam com os das carretas dos vendedores ambulantes, transbordantes de frangos e cordeiros assados, pães cozidos e flores recém cortadas. 

Jonathan teve que admitir que à maturação se encontrasse em um bom atoleiro; nem tanto pelo que se inteirou nos trinta minutos que tinha permanecido na universidade, que já era bastante preocupante em si mesmo, mas sim por sua consciência. Três dias de investigações em Paris lhe tinham contribuído poucas notícias a respeito de Robert Simard. Tinha começado pela Guarda Nacional com a esperança de obter informação sobre o pai do sujeito, em tanto que antigo oficial do corpo, mas não tinha conseguido quase nada, exceto seu filho, Robert, tinha sido outrora professor de literatura em Sorbone. Em conseqüência, essa tarde se transladou até ali com grandes esperança assim que pôde consertar uma entrevista com o reitor, mas suas esperanças se feito pedacinhos quando se inteirou de que Robert Simard levava vivendo felizmente na Suíça como professor reputado, marido abnegado e muito amante pai de seis filhos desde fazia cinco anos. Aquilo, portanto, só podia significar uma de duas coisas: ou que Natalie estava equivocada a respeito das cartas de amor — de onde ou de quem procediam— ou que lhe tinha mentido.

Afundou as mãos nos bolsos, deu-se a volta e começou a andar pela rua lentamente; para o sul, acreditou, mas o certo é que não estava emprestando atenção. Teria que alugar um meio de transporte para retornar à estalagem em que se alojavam, e esta se achava a vários quilômetros nos subúrbios da cidade, mas primeiro queria pensar.

Os últimos dias com Natalie tinham sido difíceis para ele. Seus sentimentos para ela eram confusos e, se os considerava com honestidade, começavam a ser muito profundos. Entretanto, não tinha nenhuma segurança sobre o que motivava a situação nem que repercussões teria tudo isso para seu futuro. A atração mútua só parecia intensificar-se por momentos, e não estava muito seguro de que não fora a sufocar-se com uma simples relação sexual. Quase tinha chegado à conclusão de que acabariam sendo amantes, e deste modo sabia que, em seu foro interno, Natalie também era consciente disso, com independência de que decidisse ou não reconhecê-lo.

Entretanto, o que lhe fazia mais mal era saber com que firmeza se opunha ela a pensar sequer em casar-se com ele. Aquilo era algo que tinha que ver com suas convicções, e para sua crescente preocupação, estava começando a pensar que inclusive se a seduzia, do qual estava quase convencido de poder fazer, ela seguiria sem consentir converter-se em sua esposa. Ele poderia forçar o assunto, mas provavelmente isso só ocasionaria um distanciamento irreparável entre eles, e a partir daí Natalie jamais aprenderia a confiar nele nem a amá-lo como homem. Gostava, o passava bem com ele, desejava-o apaixonadamente, mas isso era todo o longe que ela permitia que chegassem seus sentimentos. Nesse momento, Jonathan tinha que admitir que adorasse tremendamente que se apaixonasse por ele e dava por certo que tal sentimento se devia ao fato que Natalie era á primeira mulher que conhecia que se resistiu tão conscientemente em fazê-lo. Se ela o amava, e o reconhecia a si mesmo, provavelmente cederia e se casaria com ele, que era o desenlace ansiado por Jonathan. Mas ele não sabia como combater a teimosia de Natalie e seu firme convencimento de que ele acabaria lhe causando danos. Ela não confiava em seus sentimentos, e Jonathan não tinha nem idéia do que fazer a respeito.

Grunhiu com desconforto, detendo-se de improviso, o qual quase provocou que uma bojuda mulher que levava um menino em cada mão se chocasse com ele, embora Jonathan apenas se desse conta da circunstância enquanto se esfregava os olhos com as gemas dos dedos, completamente absorto em seus pensamentos.                      

Teria sido muito singelo, se Robert Simard seguisse vivendo em Paris e tivesse estado chantageando á mãe dela, tal e como esta tinha deduzido. As cartas em si teriam sido fáceis de roubar. Entretanto, o que mais incomodava do assunto a Jonathan era a idéia de que ela pudesse ter inventado toda a história. Mas com que fim? Para obrigá-lo a levá-la a Paris? Embora ela tivesse vínculos políticos e o desejo de ver tombado ao monarca, por que ia precisar estar ali, em meio da agitação, para presenciá-lo em direto? Por que teria que recorrer às mentiras e à chantagem, quando ele não demoraria em descobrir que a história do adultério de sua mãe era mentira? Natalie não era tola, e a mera idéia de que fora a meter-se em semelhantes complicações ao Jonathan parecia muito rocambolesca, quando não ridícula.

Não; depois de um instante de meticulosa reflexão, Jonathan chegou ao convencimento de que lhe tinha contado a verdade tal e como ela acreditava. E tampouco se inventou a tenra exteriorização emocional que tanto o tinha impressionado a última noite que passaram em Marselha. A ela causava uma profunda tristeza todo o assunto, disso estava seguro, e inclusive sem seu intento de engano e chantagem, ele a teria ajudado. O colar que nesse momento Natalie mantinha oculto no fundo de um baú carecia de importância para ele. Era a inocência dela, seu respeito e admiração, e sua alma o que ele valorava.            

Assim, de pé em meio a uma concorrida calçada do centro de Paris, com o sol de última hora da tarde ocultando-se por detrás dos altos edifícios, e os sons e aromas dos cavalos que sacolejavam e dos buliçosos transeuntes enchendo o ar, Jonathan se sentiu abatido, só e impotente e sem saber muito bem o que fazer a seguir. Sobretudo, precaveu-se, o que lhe consumia era o desconcertante pensamento de que logo teria que informar a Natalie que tinha falhado. Aí era onde sua consciência o golpeava com toda sua força.

Não tinha nem idéia do que lhe dizer. Robert Simard era um professor casado que vivia na Suíça, levava uma vida decente e tirava adiante uma família. As possibilidades de que fosse o chantagista eram remotas. O homem teria muito pouco que ganhar, e sim muito que perder, se era descoberto ou detido. Isso implicava que outra pessoa tinha as cartas, ou dizia as ter, e estava utilizando o nome do Robert Simard justo porque sabia que o francês estava vivendo tranqüilamente em outro país. Tal situação parecia muito mais lógica. A única maneira de que Jonathan pudesse obter mais informação seria falando com a mãe de Natalie, e essa era uma idéia que o aterrorizava por completo. Também era possível que tudo estivesse sendo realizado desde Grã-Bretanha, que alguém a quem a mãe dela não conhecia se inteirou do romance — e da correspondência subseqüente— e ele ou ela a estivesse chantageando da comodidade de seu pitoresco salão inglês. Mas, uma vez mais, havia muitas perguntas, insuficientes pistas e nada que ele pudesse fazer em Paris sem ter mais detalhes.

Paralisado, Jonathan ficou olhando a rua fixamente com expressão ausente. Natalie o estava aguardando, esperançada com que seu dia na cidade se revelasse produtivo, e quando se inteirasse de que Jonathan não tinha as cartas em seu poder seria presa do abatimento. Embora o que mais o desassossegava era que quando ela se inteirasse de que não tinha nada para lhe dar, enfurecer-se-ia por sua incompetência, considerá-lo-ia um mentiroso, ou pior ainda, um idiota, faria suas malas e voltaria para Grã-Bretanha sem ele. Jonathan tinha suficiente amor próprio para dar-se conta de que não correria esse risco. Na França, ela estava essencialmente a seu cargo; dependia dele. Em Grã-Bretanha, se não era sua esposa, podia negar-se em redondo a vê-lo, e isso seria o fim de tudo.

Sua única outra opção, e é óbvio a deliciosa e gratificante, consistia em enganá-la e depois a privar de sua virgindade, tal e como lhe tinha devotado em Marselha. Mas Jonathan, inclusive deixando em mau lugar a seu ocasionalmente pouco honesto passado, jamais tinha sido tão malvado para tirar a inocência a uma mulher com uma mentira descarada. Agora se enfrentava a uma tremenda decisão moral, uma prova de sua personalidade como homem. Sim, casar-se-ia com ela. A reputação de Natalie de manteria intacta. Essa não era a questão. Mas seria capaz de enganá-la tão descaradamente para que ela se entregasse a ele de bom grau em troca de uma falsidade? Não sabia, mas pensou que não podia. Entretanto, a alternativa era perdê-la.    

Jonathan deu meia volta e retornou sobre seus passos. Uma rajada de vento fez voar os periódicos velhos e as folhas da rua contra suas pernas. Fazia-se tarde. Natalie estaria esperando, e ele teria que tomar sua decisão no caminho de volta à estala.

 

Capítulo 14

Natalie odiava qualquer tipo de espera. A fazia sentir nervosa e agitada, e quando o que tinha que esperar era algo tão importante como as cartas de amor que impediriam que seu pai tivesse que sucumbir a toda uma vida abafada e compaixão perante á sociedade, assim que podia permanecer quieta em seu assento. Jonathan lhe havia dito taxativamente que não continuaria com um assunto tão delicado se ela insistia em acompanhá-lo à cidade, e ela tinha aceitado porque, expostas assim as coisas não tinha eleição. Mas nesse momento, enquanto permanecia sentada em um banco de ferro forjado acolchoado no luxuoso roseiral situada a costas do albergue da Cascata, sentiu que seu chateio aumentava. Já tinha anoitecido, e Jonathan não tinha retornado ainda com notícias. Era o homem mais desesperador que tinha conhecido, e quando não sentia o desesperado impulsiono de lhe rodear o pescoço com os braços e beijá-lo com desespero, desejava estrangulá-lo. Como nesse momento.

Recostando-se por completo contra a branda almofada amarela, ela fechou os olhos, ficou as mãos no regaço, entrelaçou os dedos e tentou pensar em outra coisa.

Não tinha nem idéia de por que os donos tinham posto esse nome: albergue da Cascata. Não havia nenhuma nas cercanias. Embora fosse um sítio absolutamente encantador para alojar-se, em pleno campo, bastante isolado em um vale e rodeado de uns exuberantes e cuidados jardins que continham, sobretudo rosas, mas também outras espécies aparentemente exóticas, flores e plantas que ela não tinha visto nunca. Não estavam tão longe da cidade, mas ninguém o diria ao despertar com o canto dos pássaros e o aroma das rosas úmidas, que entravam pelas janelas abertas empurrados pela brisa.            

A estalagem de duas plantas só tinha seis dormitórios, situados ao lado da cozinha, um comilão e um salão central, que estava decorado em diversos tons de verdes. O quarto deles, que dava ao jardim de rosas pela parte de atrás, estava decorado com um gosto delicadamente feminino adornado com detalhes cor ameixa, azul esverdeado claro e amarelos bolo, e albergava sozinho uma cama pequena e confortável, duas poltronas de leitura, uma mesinha de noite e uma chaminé. Já estavam ali há três dias, e embora ela o achasse aprazível e encantador, começava a aborrecer-se. Jonathan tinha deduzido isto bastante logo, e essa manhã tinha mencionado que tentaria confiscar as cartas neste mesmo dia, se podia encontrar a Robert Simard. Então, por fim, poderiam passar a outra coisa. Mas a que?

A idéia de voltar para casa a deprimia. Durante as últimas semanas tinha estado levando uma espécie de existência de conto de fadas. Adorava a França, suas gente e sua cultura relaxada. E estar ali com uma companhia tão prazenteira fazia que tudo fora mais delicioso ainda. Essa era a parte triste, na realidade. A aventura tinha sido emocionante, mas se tivesse ido com qualquer outro que não fosse Jonathan nem de longe teria resultado desse modo. Voltar para casa com a missão cumprida, sabendo que os dias transcorreriam sem a presença do Jonathan, alagou-a de um insólito sentimento de arrependimento e de uma agitação sem igual.

Cada vez era mais profundo o afeto que sentia por ele. Deu-se conta disso nesse momento, embora não tinha nem a mais ligeira idéia do que fazer a respeito..., além de afastar-se dele, o qual carecia de todo pragmatismo enquanto seguissem no continente. Se se deixava levar por seus sentimentos, ao final estes só lhe causariam dor. Jonathan era um sedutor da alta sociedade, um homem que paquerava sem olhares e que tomava amantes a seu desejo. Jamais poderia ser fiel a uma mulher, e essa seria a única maneira em que ela o teria. Tinha tentado esclarecê-lo em Marselha, expor suas convicções de maneira razoável e sem fingimentos. Ela se negava a ser sua amante, e sem dúvida assim o havia dito, embora, como era natural, e atendo-se a sua reputação e personalidade, Jonathan a havia tocado imediatamente em uma parte íntima do corpo, fazendo aflorar toda a ânsia que ela levava dentro à vista do ego dele. Ele a desejava fisicamente, e inclusive nesse momento, estremecendo interiormente ante a idéia de prazeres desconhecidos, Natalie deu conta de que também o desejava, e isso era o que tinha que combater. Já estava perdendo seu coração para ele — o qual a enfurecia terrivelmente consigo mesma— e com isso era suficiente. Ela tinha superado por fim os sonhos de romantismo. Mas se entregava seu corpo a Jonathan, perderia uma parte de si para sempre.

Ela tirou os sapatos, recolheu os pés para meter-lhes debaixo do vestido, e abraçou os joelhos contra o peito em um intento de afastar os pensamentos indecentes de sua cabeça. Deu-se um longo banho essa tarde... A falta de algo melhor que fazer a verdade. Decidiu que, posto que seguissem no campo, vestir-se-ia de maneira informal, ficando uma singela blusa de seda branca e uma saia de musselina rosa sem armação. Também tinha decidido esquecer-se das tranças e os laços, e em seu lugar deixou o cabelo solto para que se secasse a suave e ligeira brisa noturna. Sua mãe teria morrido de susto se tivesse tido a mais remota idéia de onde se encontrava ela nesse instante, o que tinha posto — ou o que não levava, como no caso do espartilho e as médias—, e que seus rebeldes cachos lhe penduravam soltos pelas costas e ao ar livre, onde qualquer um podia vê-la. As damas britânicas que seguiam a moda levavam várias capas de laços que as cobriam quase dos pés à cabeça, inclusive para os passeios informais pelo parque os dias mais calorosos do verão. Aquilo era uma estupidez e desnecessário, na opinião dela, embora, suas opiniões nunca sortiam o mais mínimo efeito sobre sua mãe. Ela o chamaria libertinagem; Natalie o chamava liberdade.

Com um sorriso de satisfação, voltou á cara para o que ficava do pôr-do-sol. Ali podia fazer o que quisesse muito, e sentiu uma profunda alegria ao pensar que Jonathan, ao contrário que de tantíssimos cavalheiros, isso não lhe importava. Embora fosse um homem refinado, não era estirado absolutamente; embora fosse correto, gostava de jogar; embora se preocupasse com a segurança dela, não obstante lhe permitia uma liberdade relativa para fazer o que quisesse. Era encantador, excitante e inteligente, e um dos melhores amigos que jamais tinha tido, que a aceitava tal qual era e que não punha condições. Desejava de todo coração que ele quisesse seguir sendo seu amigo durante os anos vindouros.

É obvio que seria triste abandonar a reconfortante presença diária de Jonathan, e Natalie teve que admitir que, contra seu costume, tinha sentimentos encontrados a respeito de como seguiria sendo sua relação uma vez que ele se casasse, do qual, curiosamente, Jonathan parecia repentinamente desejoso. Também tinha algum problema ao imaginá-lo beijando a outra mulher com a mesma intensidade com que beijava a ela, embora procurasse não pensar nisso. Adorava os beijos dele, e tinha que reconhecer que aqueles momentos de intimidade seriam o que mais sentiria falta.

Ela suspirou e abriu os olhos gradualmente ao intenso desdobramento floral de todas as cores e a uns arrebatadores olhos cinza azulados que a olhavam fixamente a só um metro de distância.

Piscou um pouco assustada ao ver a atrativa figura de Jonathan sobressaindo sobre ela com as mãos nos quadris e a expressão inescrutável. Imediatamente sucumbiu à vergonha, como se ele estivesse misturando-se em seus pensamentos mais íntimos. Sabendo que era testemunha do rubor de suas bochechas, mas tentando fazer caso omisso, Natalie olhou diretamente aos olhos, sorrindo.

—Não lhe ouvi.

Jonathan arqueou as sobrancelhas.

—Isso é evidente.

Ao não acrescentar nada mais, ela perguntou com prudência:

—Leva muito tempo aqui?

—No que estava pensando exatamente?

A pergunta direta á assustou um pouco, mas se negou a deixar que ele desse conta. E dado que não queria que Jonathan soubesse que quase não estava pensando em nada que não fosse ele, que era exatamente o que ele estava pensando, Natalie aproveitou as circunstâncias.

—Estava pensando em você, Jonathan — admitiu-a, com os olhos grandes e a expressão radiante de exagerada inocência. —Estava pensando em quão agradável foi o tempo que passamos juntos na França, no romântico que é, sobretudo na hora de escolher o alojamento, e em quanto sentirei falta dos tenros beijos entre nós quando voltarmos a Grã-Bretanha. —Fez uma pausa e tornou a sorrir com maldade. — E em outras coisas.

A resposta confundiu totalmente ao Jonathan. Não sabia se lhe acreditava, algo que, é óbvio, era o que ela queria. Limitou-se a observá-la durante uns segundos, refletindo a respeito da verdade que escondiam suas palavras.

—Outras coisas? Que mais poderia haver?

Ela fez um imperceptível encolhimento de ombros.

—Trivialidades.

—Ah...! —Jonathan se aproximou do banco com uma grande pernada para ouvir a evasiva, deu-se a volta e se deixou cair ao lado dela, ocultando o que ficava de sol com sua corpulência, enquanto se inclinava para diante com os pés separados, os cotovelos nos joelhos e as mãos agarradas diante dele.

—Estava pensando realmente em me beijar?

Era uma pergunta jactanciosa, que ocultava um verdadeiro desejo de saber, e Natalie não pôde por menos que alegrar-se em seu foro interno.

—É óbvio, Jonathan — respondeu ela com cortesia. —Beija você de maravilha. Por outro lado, qualquer um pode melhorar em quase tudo com a pratica, e sei que você possui muita.

Jonathan desviou o olhar para as rosas, sacudindo a cabeça em uma fraca amostra de derrota enquanto seus lábios sorriam. Ela percebeu a diversão marcada no rosto dele, embora ele tentasse ocultá-lo.

—Tenho que supor, então, querida Natalie, que você tem quebrado a norma. Foi maravilhosa desde o primeiro beijo.

Tinha que dizê-lo e prender o pavio! Ela tinha conseguido ter o controle com seus comentários, lhe obrigando a supor quais eram seus pensamentos e intenções, mas como sempre ocorria, ele sabia exatamente o que tinha que dizer para recuperar a vantagem.

Ela se ergueu um pouco e trocou de tema.

—Vejamos... O que fiz hoje? Ah, sim, dava-me um longo banho, escutei ao dono da hospedaria arreganhar a voz em favor dos meninos do povo por arrancar os morangos da horta e observei às abelhas polinizar as flores, assim como outras coisas igual de emocionantes. Fez você algo igual de excitante enquanto trabalhava na grande cidade sem mim?

Jonathan lhe lançou um rápido olhar, possivelmente para ver se estava zangada de verdade; depois, baixou a vista ao caminho de cascalho e começou a tamborilar os dedos entre si com as mãos sobre seu regaço.

—Estou seguro de que seu dia foi bastante mais relaxante que o meu.

—Levo já uma semana relaxada.

—Isto também é mais seguro...

—Do que me está protegendo, Jonathan? Dos ladrões de carteira? — disse ofegando sarcasticamente, e se agarrou o pescoço com a mão. — Meu Deus! E se apanhasse a um em flagrante? Não saberia o que fazer com um ladrão, se lhe jogasse a luva.

Jonathan apertou os lábios para evitar soltar uma gargalhada, ou possivelmente só tentou conter-se de soltar uma grosseria. Entretanto, antes sequer de que pudesse tentá-lo, Natalie saltou ao assunto de maior importância.

—E já que falamos de ladrões, foi capaz de roubar as indecentes cartas de amor de minha mãe?

Jonathan ficou um pouco tenso, respirou fundo e vacilou o justo para que ela intuir o pior.

—Não encontrou ao Robert Simard, não é assim? — perguntou ela, quase suplicando que a tranqüilizasse lhe dizendo o contrário.

Jonathan seguiu olhando fixamente o chão.

—Sei onde está.

Ela não teve nem idéia do que significava aquilo, e não esteve segura de se devia sentir-se aliviada ou preocupada. Ele não se estava comportando absolutamente como um ladrão profissional que tivesse concluído uma frutífera jornada de trabalho.

—Mas não tem as cartas — afirmou ela com lentidão.

Depois de vários segundos de silêncio, Jonathan começou a arrastar o pé direito adiante e atrás pelo cascalho.

—Robert Simard vive na Suíça — lhe revelou em voz baixa— com sua mulher e sua família, e assim foi durante os últimos cinco anos. É altamente improvável que esteja envolto.

Foi necessário um bom momento para que suas palavras penetrassem na mente dela, para que esta recolhesse a informação e a reunisse em um pensamento coerente. Ela esquadrinhou a abundante mata de cabelo brilhante que caía na fronte de Jonathan, a sombra escura da barba no queixo, enquanto a noite começava a lhe sumir a cara nas sombras. Sentiu o calor que desprendiam de seu ombro e sua perna, tão próximas a ela, e em um instante de absurdo, perguntou-se a razão de que se fixasse nessas coisas, quando sua vida parecia dar voltas sem controle.

—É um reputado professor de literatura, Natalie — prosseguiu ele em um tom apagado. — Entre os estudantes, uma esposa e seis filhos não vejo a maneira de que tirasse tempo para chantagear a sua mãe, até no caso de que queria fazê-lo. Também me inteirei que seus iguais o consideram um homem de moral irrepreensível e que ganha bem á vida. Não necessita o dinheiro, e não me imagino metendo-se em tantos problemas por vingança. Se o pilhassem e fosse detido, perderia tudo o que aprecia.

Ela sentiu que a boca secava. Seu pulso acelerou. Jamais tinha imaginado que pudesse tratar-se de outra pessoa.

—Não o entendo — disse entre dentes. — Minha mãe está absolutamente segura de que é ele.

Jonathan se voltou e a olhou diretamente com o cenho franzido.

—E o que a faz pensar isso?

Ela negou fracamente com a cabeça.

—Não... Não estou segura. Sei que ele a detestava e que a considerava a causadora de tudo, ao seduzir a seu pai, que também estava casado.

—É provável isso?

—Talvez sim. — Natalie fechou os olhos e passou a palma da mão pela fronte, sentindo que um rubor ardente lhe subia de novo pelas bochechas, e nesse momento, enquanto revelava os segredos íntimos da família, resultou-lhe difícil olhar a Jonathan. — Recebeu três anônimos, três cartas ameaçadoras por correio lhe exigindo dinheiro, e assim é como esteve pagando. Por correio. nega-se a denunciá-lo às autoridades, pelas implicações sociais, como é evidente, mas suspeito que também porque pôde ser infiel antes (com alguém em Grã-Bretanha), e não quer que isso chegue, ou seja, se.

Depois de um segundo ou dois de silêncio, Natalie abriu os olhos uma vez mais. Jonathan a contemplava com atenção, pensativo.

—E seu pai conhece a relação entre ela e o francês, mas ignora que alguém a está chantageando sob a ameaça de tirar à luz as explícitas cartas de amor que lhe escreveu?

—Sim. Exato.

Jonathan esperou.

—Ele conhece a existência das cartas que sua mãe escreveu a Paul Simard?

—Sim— disse ela muito baixinho. — Sua existência surgiu durante uma conversação.

—Uma conversação?

Aquilo fez com que ela sentir-se incômoda e se afundou um pouco mais no banco.

—Entre eles. Uma... Discussão acalorada.

—Entendo... —Depois de uma breve pausa, Jonathan perguntou com prudência: — Estava em casa seu pai em algumas das ocasiões em que chegou o correio?

Ela franziu o cenho.

—Não sei. Por quê?

A brisa trocou de direção, levantando o cabelo dela por diante da cara, e sem pensar-lhe Jonathan elevou a mão e o separou da bochecha, contemplando-a em silêncio e observando atentamente suas feições. Ele estava juntando as peças de um quebra-cabeças particular, mas não lhe era deixado saber a Natalie. Estava sendo prudente... muito.

—No que está pensando, Jonathan? — perguntou ela com amabilidade.

Ele duvidou antes de responder, claramente sopesando a decisão de revelar sua opinião sobre o assunto, mas ela negou-se a retroceder.

Finalmente, Jonathan baixou a voz até convertê-la em um profundo sussurro.

—É evidente que as cartas existem, mas não sei quem está ameaçando a sua mãe, Natalie, nem onde está exatamente essa pessoa. Estou disposto às roubar por você, mas necessito mais informação. E necessito mais tempo.

—Em que outro lugar pode procurar? — murmurou ela sombriamente. —Por onde começaria?

Jonathan entrecerrou os olhos enquanto tentava mostrar um sorriso reconfortante.

—Não sei ainda. Mas pode que tenha que permanecer na França mais tempo do previsto.

Jamais em dois anos Natalie havia pensando que o Cavalheiro Negro pudesse fracassar. Era o melhor, uma lenda em cujo nome foram unidos notáveis êxitos. Fazia só uns instantes tinha desfrutado da sorte de estar na França com ele, cheia de esperança. Nesse momento, debatia-se sob o peso esmagador de uma derrota iminente.

—Meus pais voltarão logo para Grã-Bretanha, Jonathan.

A expressão de tranqüilidade do Jonathan cedeu seu posto à preocupação.

—Quando?  

—Dentro de três semanas — respondeu ela, passando a mão acima e abaixo pela perna. —Isso não nos deixa muito, tempo para estar juntos.

Jonathan suspirou e recostou completamente contra a almofada com os joelhos separados e as mãos cruzadas no regaço.          

—Não — admitiu, voltando o olhar uma vez mais para as rosas. —Mas talvez seja suficiente.

Ela se perguntou como podia saber isso, mas posto que não dissesse nada mais, ela não insistiu em conhecer outros detalhes. Era evidente que Jonathan estava pensando nas maneiras de poder ajudá-la e não tinha falado das esmeraldas em toda a conversação, nem tampouco do presente de agradecimento prometido por ela. Sentia um autêntico compromisso para ela, e isso era tudo que ela podia lhe pedir. E Natalie o valorou muitíssimo, porque nesse momento não tinha a ninguém mais no mundo. 

De repente, sentada a sós com ele em um esplêndido jardim florido, com o apaziguador som do sussurro das folhas e o aroma das rosas flutuando no iminente crepúsculo, o tempo se deteve quando uma leve claridade a envolveu. Jonathan sempre havia justificado com ela, inclusive nesse momento, quando provavelmente se sentisse envergonhado por sua falta de êxito e sem saber o que dizer. E desde seu próprio sentimento de compaixão, com o coração transbordante de ternura, ela reconheceu a profundidade de suas emoções; não com angustia nem cólera pelo aparente fracasso de Jonathan, a não ser com uma florescente lealdade exclusiva para ele.

Natalie deixou cair os joelhos a um lado, as apoiando junto à coxa de Jonathan, alargou as mãos para lhe agarrar o braço, o rodeou com elas e o atraiu para o peito. Encolhendo mais os pés sob o vestido e aconchegando-se junto a ele, apoiou-lhe a cabeça no ombro.

—Encontrá-las-á para mim — sussurrou ela apaixonadamente, olhando as rosas com fixidez. — Acredito em você, Jonathan. É meu melhor amigo.

Jonathan jamais havia se sentido tão profundamente comovido. Um violento e repentino arrebatamento sentimental fez um nó na sua garganta e não pôde responder incapaz de falar. Nunca teria esperado semelhante reação por parte dela, uma resignação tão doce a suas palavras e uma fé semelhante em sua experiência e habilidades; tanta fé nele. Sentiu então uma quebra de onda imediata de culpabilidade por ter exagerado a verdade egoisticamente só para mantê-la a seu lado o maior tempo possível, e de aborrecimento consigo mesmo por esbanjar o tempo na cidade, quando podia ter estado ali, e por não acreditá-la.

Um silêncio mágico os envolveu, e Jonathan desfrutou do momento, com a cabeça dela em seu ombro, e seu corpo, quente e suave, tão perto do dele. O sol se ocultou por fim depois das colinas do oeste, e as janelas da estalagem se iluminaram com abajures, fazendo que por todo o jardim se estendesse uma cor dourada.

Baixou a cabeça o suficiente para sentir o cabelo de Natalie na bochecha, e fechou os olhos à suavidade que lhe acariciava a cara, roçando-lhe atrás e adiante com os lábios, aspirando ao aroma que desprendia sem desejar outra coisa que seguir sentado ali com ela durante horas, saboreando aquela extraordinária cercania.

E então, muito lentamente, começou tudo. Ela voltou para ele, e com um tato delicado, quase hesitante, apertou os lábios contra a bochecha do Jonathan. Manteve-os ali durante uns segundos antes de baixá-los até o queixo e, pouco a pouco, os subir até a têmpora. Não eram beijos exatamente, só umas suaves carícias de sua cálida boca contra a pele do Jonathan.

Um fogo estalou de repente dentro dele; na aparência, não se moveu, quase incapaz de respirar. Manteve-se imóvel, desfrutando da sensação que lhe provocava o contato das pernas de Natalie contra sua coxa, dos exuberantes peitos contra seu braço, da doçura que lhe prodigalizava às mãos enche nesse preciso instante. No momento seria suficiente, se ela voltasse para trás. Mas não o fez. Levantou o braço que tinha livre e lhe colocou a palma na garganta, lhe percorrendo o queixo com o polegar enquanto brincava com outros dedos com o cabelo de sua nuca.

Entretanto, Jonathan não fez nada, esperando o afeto que ela desvelava por fim, embora confiando de maneira desesperada em que não o fizesse. Ela não o havia tocado jamais anteriormente, tinha negado sempre a força da atração que havia entre eles, tão evidente para ele inclusive a noite que se conheceram fazia já cinco largos anos. Então, por fim, como se tivesse aceitado gradualmente uma luta interna que já não podia evitar, Natalie deixou de mover os lábios e os dedos e levantou a cabeça para lhe olhar aos olhos.

O coração do Jonathan começou a pulsar com força. O resplendor procedente da estalagem arrojava sozinho uma tênue luz sobre os rasgos dela, mas, inclusive nas sombras do anoitecer, lhe leu os pensamentos, compreendeu sua ansiedade por ter uma experiência que não tinha conhecido nunca, foi testemunha da emoção que transpassou em seus olhos e lhe abrasavam os seus.

Jonathan sempre consideraria aquele como um dos momentos de ternura mais capitalistas de sua vida. Olhou-lhe fixamente aos olhos, expressando sozinho um débil rastro de temor, sendo muito mais perceptível o irresistível assombro do descobrimento de algo, algo novo e maravilhoso.

Natalie levou cuidadosamente os dedos até os lábios de Jonathan, roçando-os com lentidão, sem mover o olhar nem um instante, enquanto tentava avaliar a reação de seu companheiro frente aquele contato. E a partir daí, Jonathan já não pôde conter-se mais. Beijou-lhe os dedos com delicadeza; primeiro um, depois outro, mais tarde todos, um a um, enquanto subia a mão à cara dela, lhe colocando a palma na bochecha e acariciando com o polegar.

Permaneceram assim, apanhados no tempo, até que, finalmente, com voz entrecortada e profunda Jonathan sussurrou seu nome, e ela se entregou, fechando os olhos e voltando a cabeça o suficiente para lhe beijar a palma e esfregar a bochecha contra sua mão.

O coração do Jonathan se derreteu de assombro; seu corpo fraquejou de incredulidade ante a mudança experimentada nela, e que ele jamais tinha previsto.

Com os olhos fechados, ela voltou a levantar a cara, lhe depositando uns beijos diminutos na bochecha e na mandíbula, no queixo e nos lábios.

Ele respondeu por fim com a mesma moeda ao largar o braço dela que ficava livre e, voltando-se ligeiramente, lhe cavar as mãos na cara, depois do qual respondeu com seus próprios beijos, lhe roçando as bochechas, a fronte e as pestanas com os lábios. Ele colocou as palmas das mãos nos ombros, acariciando-o com os dedos através do tecido da leve camisa.

Jonathan se deu conta de aonde o levaria ela só em seu foro interno, mas não se podia permitir acreditar que o levaria ali essa noite. Ainda não. Os sonhos se convertiam em algo doloroso quando se esperavam durante muito tempo e não se satisfaziam nunca. Queria o que lhe daria, mas só a guiaria, nunca a empurraria a isso.

Embora, às vezes, o melhor dos sonhos se convertia em uma realidade impressionante, como nesse momento, quando, finalmente, depois só a mais fugaz das hesitações, ela se equilibrou para diante com um suspiro de rendição e colocou a boca diretamente na sua.

Jonathan soube que essa era a entrega irrevogável que Natalie fazia de sua inocência. Talvez não fosse consciente ainda de que essa noite perderia o que seria seu maior obséquio, mas ele sim que soube e, em troca, dar-lhe-ia tanto ou mais. Dar-lhe-ia tudo o que ele era.

Assumindo o mando, rodeou-a com seus braços, atraiu-a contra ele e amoldou os lábios aos dela, desfrutando de sua suavidade, sua ternura, na calidez da brisa e no aroma das flores que flutuava no tranqüilo crepúsculo. Ela devolveu o beijo com plenitude, apertando os seios contra seu peito, movendo a boca ao ritmo da dele, abrindo-a se por acaso decidia invadi-la. E Jonathan o fez, e saboreou aquela doçura, ofegando, cada vez mais ansioso, com uma mão estendida pelas costas dela e a outra em seu cabelo.

Ela se agarrou a ele com mais força ainda, e sua necessidade aflorou à superfície, rendendo-se à paixão com um imperceptível choramingo que escapou de sua boca quando a língua dele começou a brincar com seu lábio superior. Natalie correu os dedos pelo cabelo dele, martirizou os lábios dele com os seus urgentemente e começou a esfregar a coxa contra a dele sem dar-se conta.

Mas não foi até que se prendeu a dele e lhe cruzou a perna por cima com a sua em um intento de pegar-se mais, que Jonathan soube que como prelúdio já era suficiente. Seguiam no roseiral, detrás de uma estalagem cheia de gente, e em uns instantes, estariam absortos o um no outro e se esqueceriam de tudo.

Ficou quieto a contra gosto, cavou ambas as mãos nas bochechas dela e lhe apartou a boca da sua com doçura. Retrocedeu o suficiente para contemplar a formosa cara colorada dela, nesse momento com os olhos fechados e os lábios separados, úmidos pelo contato com os seus. Respirava depressa e entrecortadamente, e ao cabo de uns segundos abriu os olhos para olhá-lo.

Natalie sabia. Ele o viu em seu olhar.

Jonathan logo que conseguiu esboçar um sorriso, passou-lhe o polegar lentamente pelo lábio inferior e lhe sussurrou com voz áspera:

—Vêem comigo.

Natalie piscou, vacilou um instante e assentiu com a cabeça.

Ele retirou as mãos de seu rosto, agarrou-a da mão e se levantou, ajudando-a a incorporar-se a seu lado. Ela agarrou rapidamente seus sapatos e os pôs, e dando a volta, Jonathan a conduziu pelo estreito caminho de cascalho para a parte posterior da estalagem.

Nenhum dos dois falou quando ela o seguiu através das portas trilhos abertos. A grandes pernadas, Jonathan passou com decisão junto ao salão, já animado com os hóspedes que compartilhavam umas peças enquanto esperavam o jantar, e começou a subir a escada central de carvalho. No patamar virou à esquerda e se dirigiu à habitação que ambos compartilhavam a última daquela planta. Ainda obstinada a ele com a mão esquerda, lhe entregou a chave que havia tido guardada em um dos bolsos da saia, e Jonathan abriu a porta com rapidez e entrou na habitação às escuras sem perda de tempo. Natalie o seguiu com a mesma rapidez, antes que Jonathan voltasse para fechar a porta com fecho para passar a noite. Em silêncio, quase na mais absoluta escuridão, lhe soltou a mão e deu três passos até a mesinha de noite, onde acendeu o pequeno candelabro situado por cima. Feito isso, girou sobre seus talões para dar a volta para ela, observando-a por fim com uma segurança penetrante.

Natalie estava de pé, indecisa, embora sem medo, e ainda o bastante excitada para querer retomá-lo onde o tinham deixado; ele podia vê-lo no brilho de suas bochechas, em seus lábios cheios e rosáceos e em seus olhos frágeis. Tirou rapidamente a levita e o colete e os jogou sobre uma poltrona próxima, levou a mão ao pescoço e desfez o nó do lenço de seda, deixando-o cair sobre a mesa que tinha detrás.

—Vamos... A seguir nos beijando mais, Jonathan?

Natalie irradiava certo nervosismo, mas disse aquilo com uma voz sussurrando em transbordante desejo, e Jonathan teve que jogar mão de toda sua força de vontade para não atraí-la contra seu peito de um puxão, deixá-la sem fôlego com um beijo demolidor, apertar-lhe com violência contra sua dolorosa ereção e obrigá-la a sentir — ou seja — o que lhe estava fazendo. Mas a inexperiência dela o fez refletir, enquanto considerava quão lenta ia discorrer a noite para eles.

Em voz baixa, com os olhos cravados nos dela, começou por afirmar o evidente à ingênua mulher que estava a ponto de seduzir.

—Vou te fazer o amor, Natalie.

O ruído surdo das risadas estrondosas se filtrava pelas pranchas do chão procedente do comilão, mas não fez nada para dissipar a atmosfera pesada do ar que flutuava entre eles. Tinha chegado o final, tinha deixado claras suas intenções e, ao cabo só de uns segundos de assimilar as palavras dele, Natalie levou a mão à garganta e disse com voz entrecortada.

—Acredito que preferiria que só me beijasse.

Sua tímida doçura derreteu a Jonathan. Ela combatia a paixão devido a sua elevada educação, mas ele não demorou em advertir que não tinha discutido o que estava a ponto de acontecer, não tinha protestado pelo que se morava. Sabia o que ia ocorrer, também o tinha aceitado; e a consciência disto fez que o sangue de Jonathan corresse com força pelas veias.

—Beijar forma parte de fazer amor — disse ele com absoluta seriedade, levando-os dedos aos botões dos punhos, — e tenho intenção de fazê-lo muito.

—O beijar? — perguntou ela, esperançada.

Ele sorriu olhando-a aos olhos.

—Tudo.

Ela se abraçou e lançou um olhar à cama, amaciada, sedosa e coberta com um edredom bordado com narcisos amarelo claro e rosas moradas... Do mais incitante.

—Não acredito que seja uma boa idéia, Jonathan.

Natalie estava perdendo o valor, ou possivelmente só estava começando a ser consciente das complicações imediatas que surgiriam de seus atos, mas Jonathan não estava disposto a permitir que nada interferisse no prazer que ambos estavam a ponto de experimentar. Estavam preparados o um para o outro, e esse era o momento.

Deu um passo para ela e estendeu a mão para agarrar a que ela seguia mantendo na base da garganta. Ela voltou a levantar o olhar quando ele a levou aos lábios e lhe beijou delicadamente os nódulos.

—Preciso-te — disse ele com voz tênue, o olhar fixo nos cativantes olhos verdes transbordantes de inquietação.

—Danificar-me-á para meu marido — insistiu ela com uma determinação que se desvanecia.

Os lábios do Jonathan se retraíram com certo regozijo.

—Um argumento legítimo, embora em seu caso o duvide sinceramente.

Aquilo a confundiu tanto como a sobressaltou. Tragou saliva e tentou negá-lo.

—Isso não é certo.

—É romântico e afastado — sussurrou ele com decisão, dando a volta à mão dela e lhe acariciando acima w abaixo o pulso com os lábios. — É perfeito.

Ela teve um calafrio, e o observou durante um instante, hipnotizada. Então, negou com a cabeça de maneira quase imperceptível; foi sua última tentativa de salvar-se. Com voz trêmula, insistiu: — Não serei seu amante, Jonathan.

Aquilo o deixou estupefato.

—Por Deus, Natalie! Por que te empenha em seguir pensando isso, em seguir dizendo-o? —Deixou-lhe cair á mão e lhe cavou as suas nas bochechas com brutalidade, levantando a cara até deixá-la a poucos centímetros da dele. — É que não te dá conta do que acontece entre nós? Não fica nenhuma barreira, exceto a física. Já é minha amante. Já o é.

Natalie piscou com rapidez, perplexa pela intensidade da afirmação. Então, lhe encheram os olhos de lágrimas, e os fechou para ocultá-los ao fixo olhar de Jonathan.

Ele vacilou. Mas estava seguro de que ela estava disposta, de que transbordava de desejo por tudo o que ele podia lhe dar. Inclinou-se para diante e apoiou a fronte na dela.

—Quero que forme parte de mim, Natalie. Quero que o que sentimos o um pelo outro seja real, algo que experimentemos e compartilhemos, e não só algo vagamente sentido.

Ela voltou a negar com a cabeça, enquanto as lágrimas lhe corriam pelas bochechas e os polegares dele as pegou.

—Supõe-se que não tem que ser assim— sussurrou ela.

Jonathan lhe tocou a fronte com os lábios, e a ponte do nariz e as pestanas salubre. E consciente do que ela já tinha aceitado, sussurrou-lhe contra a têmpora:

—Sempre se tem suposto que tinha que ser assim.

Suas palavras, tão brandamente demolidoras e cheias de significado, tranqüilizaram-na. E ao final, enquanto Jonathan lhe percorria a cara com a boca para acariciá-la uma vez mais, ela transigiu com um delicado suspiro de angústia.

—Já não posso resistir mais a ti...

O mundo se abriu para o Jonathan, e com uma quebra de onda de satisfação sublime, limpou-lhe as lágrimas das bochechas com beijos cheios de ternura, passou-lhe os dedos pelo cabelo para lhe agarrar a cabeça melhor e uniu sua boca com a dela para começar o ato que trocaria o curso de suas vidas.

Sinceramente conquistada ao fim, rendeu-se a ele. Incapaz de combater aquela força entregou-se de boa vontade à consumação de algo que tinha começado fazia quase cinco anos em um jardim de flores. Então só sabia de desejos inocentes e sonhos românticos; nesse momento compreendeu o que era o ardente e feroz desejo entre um homem e uma mulher que não podia ser satisfeito com o rechaço ou as boas intenções, ao igual a soube que esse mesmo desejo ia conduzir a um lugar novo e excitante, a um lugar exótico cujo descobrimento estaria cheio de satisfação.

Jonathan começou com lentidão, lhe beijando os lábios com delicadeza, parando a uns centímetros de distância, lhe tocando só o cabelo com as mãos. Ela se permitiu responder, desfrutar do momento em si, tentando separar de sua cabeça as conseqüências de suas próximas ações. Colocou-lhe as palmas das mãos sobre a camisa; não para mantê-lo á distância, mas sim porque sentiu de repente o impulso incontrolável de tocá-lo.

Jonathan suspirou pesadamente ao sentir seu tato e intensificou o beijo enquanto começava a mover a boca ritmicamente com a dela. Natalie apenas era consciente do que a rodeava da débil luz do abajur que resplandecia sobre eles e da embriagadora fragrância das flores que entrava pelas janelas abertas; da gente do piso de baixo e do mundo exterior. Sua vida estava ali, nessa habitação; tinha chegado á ocasião de ambos. Tudo se desvaneceu, exceto Jonathan.

Com uma ansiedade que ia diluindo, rodeou o pescoço de Jonathan com os braços e o atraiu para ela, saboreando-o e lhe devolvendo o beijo com uma deliciosa tensão que não fazia mais que aumentar. Sem nenhuma intenção por sua parte, seus sentimentos despertaram, reagindo como o tinham feito o dia que se beijaram á borda do Mediterrâneo; aparentemente, fazia anos, embora o recordasse como se tivesse sido no dia anterior.

Jonathan respondeu abraçando-a completamente, baixando seus braços fortes para lhe rodear a cintura e pegar-lhe contra o peito enquanto os beijos foram fazendo mais e mais exigentes. Incitou-a para que abrisse os lábios, lhe passando a língua por eles até que se separaram o suficiente para poder lhe explorar a boca a fundo. Ela lhe permitiu o passo, desfrutando da sensação com um abandono incessante, brincando com a língua dele com a sua tal e como lhe estava ensinando a fazer.

Jonathan gemeu com aspereza, quase de maneira inaudível, e isso a animou. Ele era um perito naquilo, ela não, e em algum lugar de seu foro interno ela temia decepcioná-lo. Não estava do todo segura do que tinha que fazer a seguir.

Então, como se lhe lesse os pensamentos, sem apartar a boca da dela, Jonathan começou a lhe acariciar as costas, acima e abaixo, com a palma de uma mão, enquanto que com a outra começou a fazer o próprio com a cara e a lhe massagear o pescoço e um ombro com delicadeza.

Ela relaxou o corpo contra o dele, desfrutando da sensação de sua figura grande e musculosa contra seu corpo menor. Adorava sua dureza, o aroma de sua pele e de seu cabelo, a força que possuía, tanto interior como exterior.

Jonathan prosseguiu à medida que sua boca se tornava mais exigente, e sua respiração se fazia mais superficial. Natalie soube com satisfação que ela o excitava sem tentá-lo sequer. Como ele a ela. Jamais tinha sido tão atrevida com um homem, nunca tinha estado tão próximo de entregar tudo, mas, de repente, invadiu-a uma espécie de desespero pelo ter tudo: por tocar, por agarrar, por obter prazer. Passou-lhe os dedos pelo cabelo, atraindo-o ainda com mais força contra ela, tomando a iniciativa por fim ao lhe deslizar a língua em sua boca, com timidez ao princípio, depois com assombro, quando ele grunhiu e reviveu com fogo.

Jonathan interrompeu o beijo com rapidez, retrocedendo para olhar à cara.

Ali quietos, um junto ao outro, o tempo se deteve, os dois ofegantes, olhares fundidos com uma recém adquirida consciência dos desejos, as necessidades e os sentimentos. A expressão de Jonathan resplandecia intensamente de desejo e de promessas, e Natalie que ele estava vendo o mesmo nela. Então, Jonathan deixou cair ás mãos até fincá-las nos seios e começou a massagear-lhe docemente sobre a blusa.

Ela inspirou com força assim que a tocou, embora fosse incapaz de mover-se ao sucumbir de novo ao fogo que a consumia por dentro. Ele a observou com atenção em busca de sua reação, enquanto lhe roçava o mamilo atrás e adiante com o polegar até endurecer-lhe e convertê-lo em um delicado ponto de deliciosa sensação, encantando-a, fazendo-a fraquejar. Logo, adiantou a outra mão para fazer mais do mesmo, olhando-a fixamente aos olhos, lhe acariciando ambos os peitos e seus mamilos, fazendo-a ofegar, obrigando-a a que se aferrasse a sua camisa.

—Jonathan...

Foi uma súplica árdua e rouca, e Jonathan o entendeu. Baixou a cabeça até o pescoço dela e percorreu a carne com a boca, tentando distraí-la com a língua enquanto alargava as mãos até suas costas para lhe desabotoar os botões da blusa.

E a distraiu à perfeição. Natalie voltou a rodear o pescoço dele com os braços e lhe pôs os dedos no cabelo, pegando-se mais a ele, beijando-o na cara, sentindo seus lábios contra a orelha e seu peito contra os seios com um maravilhoso comichão. Só foi ligeiramente consciente de que lhe tinha aberto a blusa e nesse momento se dedicava aos botões da saia. Seguia absorta nele, em seus beijos, na absoluta consciência de si mesmo.

Então, por fim, ele retrocedeu o suficiente para lhe tirar a blusa pela cabeça. Mas antes que a compreensão dos atos do Jonathan tivesse oportunidade de penetrar em sua cabeça, ele voltou a lhe buscar os lábios uma vez mais, apanhando-lhe com os seus, queimando-os com um calor intenso que ele não podia conter. Em poucos segundos, a saia escorregou também até o chão, e ela ficou diante dele vestida só com a fina camiseta de linho.

Jonathan a invadiu com a língua, procurando a sua já sem nenhuma delicadeza, a não ser com uma força espectador que aniquilou os últimos pensamentos de indecência com uma necessidade quente e desvanecedora. Jonathan lhe colocou uma mão no cabelo, lhe sujeitando a cabeça contra ele, e com a outra lhe agarrou um peito. O contato se fez premente quando lhe roçou o mamilo adiante e atrás e em pequenos círculos até convertê-lo em um pináculo contra sua palma e seus dedos.

Apenas vestida com a camisa fina, era a primeira vez que ela permanecia tão pouco tampada diante de um homem, entretanto não lhe preocupou, incapaz de pensar em seu mundo além daquelas quatro paredes, daquele homem, daquela sensação de despertar à vida com tanta veemência. Qualquer resto de incerteza se evaporou com uma impaciência indescritível por experimentar os prazeres desconhecidos que ele prometia com sua boca e suas mãos. Aferrou-se aos ombros dele com os dedos, sentindo o abrasador calor do corpo sob a camisa, só ligeiramente consciente de que ele a estava empurrando para trás até a borda da cama.

Jonathan apartou com rapidez a boca da dela, e ela abriu os olhos para lhe olhar à cara. Estava-a olhando fixamente, com as pálpebras entrecerradas sobre uns olhos frágeis, o cabelo alvoroçado e caído sobre a fronte, com a respiração igual de rápida e entrecortada que a sua. Uma febre cativante de paixão ofegante irradiou do mais profundo dele para envolvê-la quase com violência; um desejo grandioso que ela soube sozinho se devia a ela, e que acabou por impregná-la.

Com uma urgência renovada e um instinto que ela não acabou de compreender, levantou, trementes, as mãos até a camisa do Jonathan e começou a desabotoar rapidamente todos os botões, de cima abaixo, olhando fixamente a intensa profundidade azul cinzenta do ânsia física nos olhos do Jonathan.       

Ele começou a ajudá-la de baixo, até que suas mãos se encontraram no centro de seu peito. Agarrou-lhe os dedos, os levou momentaneamente aos lábios antes de soltá-los e se tirou a camisa. Sem apartar o olhar de seus olhos nem um segundo, colocou-lhe as palmas das mãos nos ombros e a empurrou até fazê-la cair brandamente sobre o edredom. Então, em cima dela, observando-a, começou a desabotoá-los botões da calça com pressa.

Natalie fechou os olhos por um renovado rastro de vergonha quando se deu conta do que Jonathan estava fazendo, e os detalhes do que ia ocorrer logo nessa habitação, naquela cama, entre os braços dele, amontoaram-se em sua mente. Segundos mais tarde, ouviu ruído de roupas e sentiu como ele se deitava a seu lado, sem tocá-la de tudo, embora sentindo o calor do corpo dele ao penetrar no seus dos tornozelos aos ombros, e soube que ele estava completamente nu.

Jonathan meteu á mão no cabelo dela, percorreu-lhe a têmpora com a boca movendo a de maneira quase imperceptível, e a Natalie lhe desbocou o coração no peito pela consciência de que estava a ponto de entregar-se inmoralmente a um homem que não era seu marido, pelo nervosismo, mas, por cima de tudo, pelo anseia e o desespero de sentir e ser tocada.

—Me olhe, Natalie — lhe insistiu com uma voz cheia de ternura.

A intimidade entre eles provocou um calafrio, e levantou as pestanas de novo, negando-se a olhar para baixo, embora sentindo os cachos do peito nu de Jonathan quando ele se inclinou sobre seu ombro.

Olhou-a fixamente aos olhos, movendo acima e abaixo as gemas dos dedos sobre a pele de seu braço em uma delicada carícia.

—Entende o que está a ponto de ocorrer?

Ela assentiu com a cabeça, querendo encolher-se por causa da repentina vergonha. Mas ele devia ter previsto tal reação, porque, arrastando as gemas dos dedos até o ombro dela, deslizou-as sobre a camiseta de novo e as baixou até o peito e o mamilo, voltando a avivar com perícia o fogo que a consumia nas vísceras.

—Alguém lhe contou isso? — perguntou ele mais diretamente, concentrado.

Ela se aferrou ao edredom com as palmas de ambas as mãos.

—S... sim — conseguiu dizer com voz entrecortada.

Aquilo pareceu tranqüilizá-lo. Sua expressão se relaxou, e baixou os lábios até a garganta dela, que beijou fugazmente antes de lhe acariciar a orelha, lhe agarrando o lóbulo com a boca e chupando-lhe Ela fechou os olhos ao sentir a magia de seus lábios e sua língua e suas mãos. Jonathan lhe acariciou os peitos com a palma com uma exigência crescente, e ela se sentiu preparada para mais de imediato, enquanto a necessidade aumentava com cada uma daquelas atrevidas carícias.

Ela voltou a alargar as mãos para ele, pôr-lhe os dedos no cabelo e o atraiu para ela, ansiosa pela união dos corpos, os sentimentos e as almas. Jonathan moveu a cabeça para lhe pousar uns beijos diminutos no pescoço e no peito, lhe percorrendo os ombros com a ponta da língua e lhe acariciando a parte superior do braço com a boca. E por fim, como em resposta a uma promessa silenciosa, colocou-lhe as mãos muito lentamente entre as pernas, sobre a única barreira que ficava para o lugar de seu desejo.

Um prazer penetrante a sacudiu de pés a cabeça. Natalie ofegou por causa da paixão descoberta, pela subterrânea tensão erótica e lhe vigorizem quando aflorou à superfície com um estalo. Ele a massageou ali, sobre o fino linho, duas vezes, três, com a mesma intimidade que empregou aquele dia maravilhoso na praia. Ela se rendeu, suplicando mais com seu corpo enquanto empurrava os quadris contra as mãos do Jonathan. E, finalmente, aceitando a incitação, apartou a mão, incorporou-se um pouco e lhe tirou a camiseta da carne nua com um movimento rápido e perito.

Jonathan respirou entrecortadamente. Ela fechou os olhos com força ao ver seu olhar febril, temerosa de olhar o tocá-lo—, sabendo que a estava olhando fixamente de cima. Durante um instante interminável, lhe esquadrinhou a figura nua, percorreu-lhe muito lentamente a perna com os dedos, do tornozelo até o quadril. Ao final, voltou a ficar à altura dela e começou uma vez mais a lhe acariciar os braços, o pescoço e os peitos nus, lhe roçando apenas com as palmas das mãos, fazendo que lhe arrepiasse o pêlo ali onde jogava com os montes e os vales que caíam dentro do alcance de sua mão. Roçou-lhe o mamilo com os dedos, e o pescoço, a bochecha e o queixo com os lábios, beijando-a com ternura e apoiando por fim a boca em sua têmpora.

—É perfeita para mim — lhe sussurrou ao ouvido.

Ela se perdeu no momento. Jonathan o estava fazendo perfeito para ela, ensinando-a, amando-a com seu corpo. Então, ele baixou a cabeça e aproximou a boca a seus peitos.

Ela arqueou as costas e a ponto esteve de gritar quando ele começou a lhe lamber, chupar e a beijar um mamilo, excitando-lhe com os lábios e a língua, roçando-o com os dentes. Colocou-lhe a mão sobre o outro e acariciou a carne nua, fazendo girar as gemas dos dedos pela suave pele, lhe apertando levemente o mamilo até endurecê-lo, e Natalie acreditou que ia morrer. Pôs-lhe as mãos na cabeça, enredou-lhe os dedos no cabelo e levantou o corpo contra ele, ofegando e choramingando enquanto ele lambia e chupava e a excitava com tanta perícia.

Jonathan soltou um grunhido, revivendo pelo entusiasmo mostrado por ela, e levantou a cabeça o suficiente para lhe deixar um caminho de beijos maravilhosos do peito até o pescoço, fazendo deslizar a língua pela garganta até o queixo. Inclinou-se mais sobre ela, e os cachos emaranhados de seu peito musculoso brincaram com o mamilo dela, e pela primeira vez, esta sentiu aquela parte do Jonathan que ele pretendia introduzir em seu corpo esfregando-se contra seu quadril; dura e quente, o que fez que ela voltasse para a realidade horrorizada.

Como se de repente fora consciente de onde estava pondo Natalie seus pensamentos, Jonathan reagiu apoderando-se de sua boca com um beijo profundo e penetrante, e sua língua lhe atravessou os lábios como uma flecha procurando desesperadamente a sua, agarrando-a e sugando-a com obrigação assim que a encontrou. Natalie gemeu, esfregando as pernas atrás e adiante contra o edredom, as palmas sobre a pele enquanto as baixava da nuca até os ombros dele, a mente vazia de tudo exceto de Jonathan, que lhe acariciava o corpo com dedos peritos, que a beijava até fazê-la subir a alturas imprudentes, que estava preparado para fazê-la parte dele. Nesse momento era tudo para ela. Era seu passado e seu futuro, era a profundidade de seu coração.

Então, sentiu que Jonathan deslocava a mão desde seu peito até sua cintura com um tênue roce que a fez estremecer-se de pés a cabeça. Roçou-lhe a pele do quadril, o ventre, que acariciou com pequenos movimentos circulares, beijando-a na boca com crescente ânsia e a respiração entrecortada, até que finalmente colocou audazmente a mão sobre os suaves cachos da entre pernas.

Ofegou contra a boca do Jonathan, mas ele não lhe soltou os lábios. Prosseguiu com o beijo, lhe colocando a mão que tinha livre sobre a fronte, com o polegar sobre a sobrancelha, sujeitando-a com firmeza. Então, em solução de continuidade, colocou-lhe os dedos entre as coxas.

Natalie se aferrou a seus ombros com as mãos rígidas. Doía-lhe a garganta, e seu corpo implorou um descanso da tortura. Jonathan esperou sozinho uns segundos antes de começar a acariciá-la com sensualidade, movendo os dedos com cuidado ao princípio, mais e mais intimamente a seguir, até que Natalie sentiu um calor crescente e uma maravilhosa tensão que se fortalecia no centro de seu ventre.            

O tato de Jonathan a inflamou. Sua febre interior aumentou quando Jonathan apartou os lábios de sua boca e começou a trilhar um caminho de beijos até voltar de novo a seus seios, encontrando um ápice ofegante com o que brincou com a língua, sugou e esfregou com a barba de sua bochecha, atravessando-a com um fogo agudo. Continuou a tortura com os dedos, e ela começou a levantar de maneira instintiva os quadris contra as mãos dele ao compasso do ritmo sempre crescente que ele impunha, com as palmas em seus ombros e os polegares lhe apertando a clavícula, enquanto ele aumentava a intensidade e o ritmo da carícia, fazendo que o fogo interior dela chegasse ao ponto de explosão.  

Natalie voltou á cabeça para um lado, pronunciando entre gemidos o nome de Jonathan, enquanto ele martirizava seu seio com a boca, e suas mãos se ocupavam de fazer sua magia, fazendo-a sua ali até fazê-la alcançar quase o ponto do êxtase máximo. E justo quando ela pensou que o alcançaria, Jonathan tornou lento suas ações, e cessou todo movimento, obrigando-a a ofegar como protesto, enquanto lhe cravava as unhas nos ombros.

—Por favor... — ela suplicou com o que em sua mente foi um grito, mas só um sussurro entre seus lábios.

—Em seguida, meu doce amor — lhe prometeu ele, respirando agudamente. Desceu por seu estômago beijando-a em linha reta, parando-se para lhe riscar um desenho no umbigo com a ponta da língua. Então, por fim, levantou seu grande corpo, cruzou as pernas sobre as dela e se centrou entre suas pernas.

Em algum profundo lugar de sua mente, Natalie soube que quase tinham chegado, compreendeu o que estava fazendo Jonathan e ansiou o ter dentro dela nesse instante com um desejo veemente jamais sentido. De forma inconsciente, arqueou os quadris para tocá-lo, e Jonathan reagiu com uma pequena sacudida de seu corpo e um assobio que saiu entre seus dentes apertados. Esperou por cima dela, com os braços a ambos os lados dos ombros dela para apoiar-se e, ao final, ela abriu os olhos para olhá-lo.

Jamais esperou presenciar tal profundidade de sentimentos nele, e, entretanto, seus brilhantes olhos a mostraram com claridade. Jonathan apertou a mandíbula lutando por controlar-se, com o suor perolando a fronte, e os músculos do pescoço, do peito e os braços destacando-se como cordas fortes e formosas enquanto sobressaía por cima dela. Alargou a mão para o pulso dela, agarrou-lhe a mão que lhe apoiava no ombro e a levou aos lábios para lhe beijar a palma com doçura.

E revelou suas paixões ao inocente coração de Natalie em um surdo sussurro.

—Esperei este momento contigo durante anos, Natalie.

Ela começou a tremer pela doçura de suas palavras, o grave significado que encerravam e a ferocidade de seu olhar.

Segundos mais tarde, Jonathan ficou a palma da mão dela no peito, colocando-a no centro e sujeitando-a ali onde ela pudesse sentir o rápido pulsar de seu coração. Depois, recuperou o equilíbrio, cavou as mãos na cara de Natalie e lentamente começou a pressionar sua ereção contra sua fenda.

Ela se esticou imediatamente, e sentiu aquilo, e ele deixou de mover-se para lhe dar tempo. Jonathan a beijou nas bochechas, nas pestanas, nas comissuras da boca.

—Me vai doer — conseguiu sussurrar ela.

Jonathan respirou fundo.

—Não durante muito tempo.

Ela assentiu fracamente, voltando á cabeça o suficiente para lhe beijar no canto da mão, esfregando-se ali a bochecha, percebendo o débil aroma almiscarado de seu entre pernas —de sua excitação— nos dedos do Jonathan, enquanto lhe acariciavam a cara.

—Natalie...   

Sua voz pareceu afligida, intensa, enquanto lhe percorria os lábios com o polegar. Ela se concentrou nos olhos do Jonathan, tão próximos aos seus, e por fim se rendeu à força que havia entre eles, lhe mostrando seus sentimentos com sua expressão indulgente, lhe demonstrando exatamente o que ela sabia que ele queria ver desde fazia tanto tempo, o que sempre tinha esperado que estivesse ali.

—Sei Jonathan — disse ela apaixonadamente.

Aquilo o sobressaltou; ela o notou na dilatação de seus olhos e o ouviu na rápida rajada de ar que saiu de seus lábios. Cheio pela compreensão, sussurrou com voz entrecortada:

—Me rodeie com as pernas.

Natalie as levantou e as desceu pelos laterais das coxas dele e logo o rodeou com força, lhe colocando a mão livre na nuca e lhe acariciando os cachos do peito com a outra.

Jonathan se colocou pela segunda vez no quente e escorregadio centro de Natalie, e a olhou fixamente aos olhos para alcançar a calidez de sua alma.

—Juro-te, minha querida Natalie, que jamais machucarei seu coração por me dar tudo o que é.

As lágrimas a dominaram, e dizendo aquilo, lhe cobriu a boca com a sua, esticou o corpo e se afundou profundamente nela.

Natalie sentiu meio segundo de pressão. Logo, uma dor aguda se apoderou dela começando em suas vísceras, provocando que se arqueasse contra enquanto lhe cravava as unhas na pele. Jonathan a aferrou com força, com as mãos lhe sujeitando com firmeza a cara, a boca sobre a dela, impedindo que saísse o grito de seus lábios. Não moveu o corpo absolutamente, mas sim permaneceu completamente imóvel, revestido dela.

Natalie tentou respirar fundo, concentrar-se na doçura da boca de Jonathan e no calor da figura dura e masculina que cobria a sua. Ao cabo de uns segundos a dor começou a remeter, e, uma vez mais, ela adquiriu consciência de seu entorno, do suave edredom que tinha debaixo, do aroma das rosas no ar, do corpo quente de Jonathan unido intimamente ao dela, do tato e o aroma familiares de sua pele.

Uma lágrima lhe escorregou pela têmpora, e ele a limpou com o polegar. Logo, quando Jonathan sentiu que ela ia relaxando gradualmente, começou a intensificar o beijo de novo, lhe massageando o couro cabeludo com os dedos, lhe apartando os lábios com a boca e um renascido entusiasmo por invadir.

Natalie lhe acariciou o pescoço e o peito com os dedos, lhe devolvendo finalmente o beijo movendo a boca ao ritmo da sua. Depois de uns instantes, a respiração de Jonathan fez-se superficial novamente, e com muita lentidão tentou sair dela.

Natalie fez um gesto de dor, ficando rígida embaixo dele.

Jonathan ficou imóvel ante a reação dela.

—Me diga se doer — lhe sussurrou na boca.

Ela assentiu com a cabeça, e Jonathan esperou tenso pelas vontades de mover-se e com os rasgos contraídos. Alargou a mão até o peito de Natalie, baixando-lhe por um ombro até que lhe cobriu o ofegante montículo com a palma, fazendo girar a mão em cima e lhe martirizando o mamilo com os dedos.

Ela sucumbiu ao tato, e seu corpo voltou a reviver quando o desejo despertou de novo. Passou-lhe a língua pelos lábios, saboreando a sensação de senti-lo dentro dela, enquanto, utilizando as mãos e a boca, Jonathan conseguiu levar seu corpo até um delicioso pináculo de maravilhosa satisfação. Dando-se conta da necessidade dela, sentindo sua reação, tentou sair dela brandamente uma vez mais. E como a vez anterior, outra aguda espetada de dor a fez encolher-se.

—Jonathan...

Voltou a deter-se, e ela se deu conta, possivelmente solo fracamente, do incrivelmente difícil que era para ele fazer aquilo. Jonathan respirava com dificuldade, tinha os músculos tensos, o corpo quente. Apertou-lhe o peito com uma mão, acariciou-lhe a bochecha com os dedos da outra, beijou-a na boca com uma determinação ansiosa. Era tão doce, generoso e paciente que Natalie desejou de maneira se desesperada agradá-lo.

E começou a lhe acariciar o pescoço e os ombros, lhe passando os dedos pelos cachos do peito, lhe acariciando as pernas com as plantas e os dedos dos pés. Devolveu-lhe o beijo com plenitude, brincando com a língua sobre seu lábio superior e lhe abrindo a boca. Ao final, a força da paixão de ambos fez que ela sentisse sua própria e instintiva necessidade de mover-se.   

Girou os quadris debaixo de Jonathan, que soltou um surdo gemido gutural, reagindo com tanto entusiasmo como ela. Lentamente, ele saiu dela e voltou a entrar uma vez, e esta voltou a ficar rígida pela tensão.

Natalie sentiu a primeira sombra real de impotência. Jonathan também o notou, porque apartou a boca e baixou a fronte para apoiá-la na dela.

—Te mova — disse com voz rouca.

Natalie umedeceu os lábios, duvidando se o tinha ouvido corretamente e tentado assimilar com coerência o que lhe estava dizendo. Jonathan lhe massageou então um mamilo entre o índice e o polegar, avivando o fogo, e de maneira instintiva ela voltou a levantar os quadris contra ele.

—Sim — sussurrou ele. —Te mova da maneira que te faça sentir bem.

—Funcionará assim? — perguntou ela com certo hesitação.

Ele a beijou levemente nas sobrancelhas, nas bochechas e na têmpora.

—Perfeitamente.

A insegurança fez que ela se detivesse, e então Jonathan iniciou um caminho de delicados beijos baixando da garganta até o peito; suaves toques de seus quentes lábios na pele quente. Incorporou-se ligeiramente, esfregou-lhe um mamilo de um lado a outro com os lábios e com a língua traçou pequenos círculos ao redor, e a sensação da impotência dela desapareceu.

Natalie soltou um pequeno suspiro de desejo selvagem, os olhos fechados, a cabeça inclinada para trás, e apoiou as palmas das mãos nos ombros de Jonathan. E sem nenhuma pretensão de perfeição, empurrou os quadris contra o corpo dele; primeiro uma vez, logo outra, com a suficiente suavidade para não provocar nenhum movimento por parte de Jonathan. Ele não emitiu nenhum som, mas seus músculos se flexionaram sob os dedos dela, e ela soube que o estava alterando inclusive nada mais que com aquela pequena ação.

Jonathan voltou a pegar seus lábios a um mamilo de Natalie para, uma vez mais, saboreá-lo, sugá-lo e brincar com ele, e ao mesmo tempo lhe acariciou o outro com a mão livre, até que por fim o instinto dela impôs. Abriu os joelhos, impulsionou-se para o Jonathan e, pouco a pouco, começou a mover os quadris contra os dele.

Ao princípio Natalie sentiu certa pressão, mas ele não se moveu, e ela foi pegando o ritmo à medida que a dor que sentia entre as pernas ia diminuindo.

No ínterim, Jonathan prosseguiu lhe martirizando os peitos com a mão e a boca, roçando, acariciando, contendo seu impulso para continuar até o ponto gélido de satisfação com uma força torrencial.

Natalie lhe pôs os dedos na bochecha, e a barba de um dia de Jonathan lhe produziu um maravilhoso comichão na pele, e começou a mover os quadris mais depressa, impulsionando-se com mais força contra ele, sem abrir os olhos e imaginando dentro dela, fazendo-a sua para levá-la a um cume maravilhoso de plenitude.

Foi então quando ao Jonathan lhe escapou um leve grunhido que a agradou, porque ela soube que o estava fazendo bem. Retirou-lhe a boca do seio, beijando a no pescoço e o peito enquanto se incorporava para olhá-la à cara uma vez mais, lhe roçando o braço com as gemas dos dedos antes de passar-lhe pelo cabelo para cavar-lhe na cabeça.

O coração dela pulsou com força; seu pulso se acelerou ao mover-se mais depressa e com maior ímpeto, balançando já o corpo contra o do Jonathan com um ardor crescente.

—Natalie...

Ela abriu os olhos extasiada pelo desejo. Jonathan a observou, absorto em suas ações, ofegante e, entretanto, deixando que fosse ela a única que se movesse. O momento era delicioso, sensual e enriquecedor e ia ganhando em esplendor por momentos. E ele sabia.

—Sonhei com isto durante anos.

Ela se balançou contra ele, gemendo. Jonathan lhe agarrou a mão, a levou aos lábios e lhe roçou todos os dedos com eles.

—Sonhei com esta noite — revelou com uma voz premente de necessidade. — Sonhei te fazendo o amor, te elevando a um lugar no que nunca estiveste te contemplando enquanto o descobre comigo.

Ela sussurrou seu nome com um atordoamento produto do assombro. Jonathan lhe passou a língua pelo dedo do meio, o meteu na boca e o chupou.

E aquilo a levou a limite. Natalie chamou aos gritos enquanto ardia em um fogo de êxtase, em um clímax glorioso que Jonathan fez perfeito, que fez perfeito com ele, como na primeira vez juntos, só que imensamente mais formoso, porque nesta ocasião a levava com ele.

Jonathan se inclinou para beijá-la na boca, esticando o corpo enquanto os espasmos internos dela atiravam dele, balançando-se contra ele e sujeitando-o com mais força entre as coxas.

—Meu deus, Natalie, como sonhei com isto! — disse com um sussurro rouco, os lábios pegos aos dela, lhe sujeitando a cabeça com suas fortes mãos. — Sonhei e sonhou...

Ele se rendeu nesse instante e se deixou ir. Com um grunhido do mais profundo de seu peito, levantou a cabeça de repente e impulsionou os quadris contra os dela, esmagando-lhe fazendo girar os seu contrário ela enquanto se adaptava seu ritmo, com os olhos fortemente fechados e os dedos lhe agarrando do cabelo com força.

Natalie o observou enquanto obtinha prazer dentro dela, fascinada, sentindo a força de Jonathan irradiando-se por todo seu corpo, e o sujeitou com firmeza contra ela, enquanto ele se estremecia violentamente pela força da ejaculação.

Jonathan diminuiu por fim seu esforço e voltou a descender sobre ela, o coração palpitando com ímpeto junto ao dela e a respiração agitada e errática. Enterrou a cabeça em seu pescoço, aspirando com força, lhe acariciando a pele com beijos ternos, enquanto ela ia diminuindo pouco a pouco o movimento de seus quadris, até que ficou completamente imóvel.

Permaneceram tombados juntos durante uns minutos, enquanto o pulso dela recuperava a normalidade e ela retornava lentamente para a realidade, a tira de consciência do lugar no que estavam e o que tinham feito. Natalie se moveu um pouco, e ele o sentiu, deslocando o corpo para lhe tirar peso de cima.

Ela seguiu absolutamente imóvel, com as palmas das mãos nas costas dele. Ele não parecia querer sair dela imediatamente, assim Natalie lhe permitiu que a acariciasse, reconfortada pela proximidade. Ao final, sentiu-o mover-se para a esquerda e sair dela pouco a pouco. Jonathan ficou de flanco e se incorporou apenas para alargar a mão por detrás deles e baixar o edredom.

—Jonathan...

—Chist... — Tocou-lhe os lábios com as gemas dos dedos. — Dorme comigo, Natalie. Deixa que te abrace.         

Obedeceu sem discutir, em parte porque era incapaz de pensar em nada agradável que lhe dizer, mas, sobretudo porque se deu conta de que estava dando tempo para assimilar tudo o que tinha acontecido. Jonathan alargou a mão para diminuir a luz do candelabro, depois do qual levantou o corpo e atirou o edredom para que ficassem deitados diretamente sobre o lençol. Depois, rodeou-a pela cintura, atraiu-a para ele e os cobriu aos dois, lhe rodeando o corpo com os braços, aferrando-se a ela, com a cara no cabelo dela e a respiração em sua bochecha.

—Tudo trocou Jonathan — sussurrou ela.

Ele suspirou e se aconchegou junto a ela.

—Sim, sim que o tem feito.

Ela guardou silêncio depois disso, escutando o leve rumor de vozes procedente do piso abaixo até que se desvaneceram quando os hóspedes se retiraram a suas habitações. Jonathan não se moveu em nenhum momento, e ao cabo de um momento sua respiração se estabilizou e se fez regular, e Natalie soube que se ficou dormido.        

Ela se deu a volta brandamente, procurando não despertá-lo. O nono fugiu quando ficou olhando com ar ausente as janelas abertas, ouvindo o sussurro das folhas no exterior, sentindo a fria brisa noturna nos braços nus e nas bochechas.

Converteu-se exatamente no que ela desprezava de sua mãe. Tinha sucumbido a seus desejos e lhe tinha entregado tudo ao Jonathan. Entretanto, nada era culpa dele. Tinha sido ela a que lhe tinha suplicado que a levasse a França; ela, a que tinha dormido na mesma cama com ele, quando deveria haver-se oposto tenazmente; ela, a que se penteou de maneira tão indecente. Mas, por cima de tudo isso, tinha sido ela a que tinha começado naquele jardim com os beijos que tinham conduzido ao final de sua inocência. Aquilo era culpa dela, porque era incapaz de controlar seus desejos e ele era sua debilidade.

Contendo as lágrimas, sentou-se com cuidado, levantou-se e atravessou o frio chão até os baús. Sentiu que um líquido lhe corria por entre as coxas, e se sentiu invadida por um repentino e feroz arrebatamento de vergonha. Jonathan era um homem, e suas paixões o guiavam. Mas ela era uma dama de esmerada educação. Supunha-se que a educação recebida tinha que protegê-la do desenfreio sexual e, entretanto, só a fazia sentir culpada quando seguia seus instintos carnais. Tinha desejado ao Jonathan com desespero, e seguia desejando-o, entretanto, jamais seria seu amante.

Sem fazer ruído, levantou a tampa de um de seus baús, colocou a mão para procurar sua camisola e o pôs. Posto que não tivesse nenhum outro sitio ao que ir ao momento, voltou para junto de Jonathan e ficou observando sua cara logo iluminada por um feixe do claro de lua.

Encontrava-o formoso, como sempre o tinha sido para ela. Era o centro de todos seus sonhos e, entretanto, nunca poderia ser dele, porque jamais poderia confiar nele de coração. Com independência do que houvesse dito movido pelo ardor da paixão, sabia que acabaria aborrecendo-se dela com o tempo. Iria atrás de outra, e a abandonaria, deixando-a com a dor... O ciúmes e quão feridas nunca cicatrizariam.

Voltou-se a colocar entre os lençóis cuidadosamente para evitar tocá-lo, enquanto se separava dele para ficar olhando fixamente a parede na penumbra. Nas poucas semanas que tinha passado com o Jonathan na França, tinha chorado mais que nos últimos cinco anos. Nesse momento, fechou os olhos e permitiu que as lágrimas se deslizassem silenciosamente por sua cara uma vez mais e molhassem o travesseiro.

 

Capítulo 15

Natalie abriu os olhos a um raio de sol que incidia diretamente em seu rosto. Piscou e entrecerrou os olhos ante a invasão, sem ter ciência certa onde estava. Então, as lembranças se amontoaram em sua cabeça enquanto reconhecia a dor que sentia entre as coxas. Girou a cabeça para a esquerda e descobriu que Jonathan a olhava fixamente apoiado sobre um braço, com a bochecha na palma da mão.

—Eu adoro seu cabelo — disse ele pensativo, entrelaçando os dedos em seu cabelo, que caía em cascata por tudo o travesseiro.

Ela soltou um leve grunhido, apartando os olhos de o descarado olhar de Jonathan para interessar-se imediatamente nos diminutos casulos de rosa cor arroxeado pintados no teto.

—Deveria haver me recolhido isso.

Jonathan deslizou lentamente o polegar pelo nascimento do cabelo na fronte até a têmpora.

—Prefiro-o solto.

—Se me tivesse recolhido isso, ontem à noite não teria ocorrido nada indecente — esclareceu ela com uma leve sacudida de cabeça.

Jonathan curvou os lábios com certo regozijo.

—O que fizemos ontem à noite aconteceria igualmente mesmo que fosse calva Natalie.

Ela se sentiu um pouco envergonhada, e o esquadrinhou através das pestanas enquanto juntava as mãos no ventre e cruzava os dedos. O olhar de Jonathan passeou por sua camisola como se acabasse de perguntar a razão de que ela o tivesse posto; então, inclinou-se sobre ela e lhe acariciou as bochechas movendo os lábios atrás e adiante.

—Está bem? —perguntou-lhe ele.

Natalie assentiu levemente com a cabeça.

Ao não acrescentar nada mais, ele insistiu em busca de detalhes.

—No que pensa?

Sua voz sugeria preocupação pelos sentimentos dela, mas ela não podia permitir-se nos pensar dele. Antes bem, tornou a fixar o olhar no teto e disse com secura:

—Que nos perdemos o jantar, que todo mundo nos ouviu porque deixamos ás janelas abertas e que requereu muito mais esforço que o que me disse que devia esperar.

Ele a agarrou pelo queixo e lhe voltou á cabeça para que não tivesse mais remedeio que olhá-lo em seus risonhos olhos.

—Você foi o jantar mais saboroso de toda minha existência. E alguém ouviu algo, simplesmente pensará que estávamos fazendo o que fazem os casais casados, e a próxima vez farei eu a maior parte do trabalho.

Natalie sentiu que ardiam as suas bochechas enquanto se ruborizava até a raiz do cabelo, e tentou sentar-se.

Jonathan lhe rodeou a cintura para prendê-la contra a cama.

—E quem te disse o que tinha que esperar?

—Jonathan...

—Quem?

Com um nó na garganta, ela respondeu:

—Amy.

Jonathan franziu o cenho ao tempo que fazia uma careta.

—Amy? Sua impagável, matreira e mentirosa donzela lhe informou dos sucessos íntimos que têm lugar entre um homem e uma mulher?

—Sim.

—Terei que lhe dar as obrigado por tudo o que tem feito por nós.

Aquilo a acalmou, embora para Jonathan não ficasse muito clara a razão de que assim fosse.

—Não tem que lhe dar as obrigado por nada — replicou ela sem paixão. — O único que me disse foi que não teria que fazer nada, salvo esperar a que meu marido terminasse, e que isso nunca duraria mais de dez minutos.

Aquilo sim que divertiu a Jonathan consideravelmente.

—Prometo-te, que pelo que a nós respeita, sempre durará mais de dez minutos.

Natalie sustentou audazmente seu o olhar. Ele insistia na hipótese de que voltariam a fazer aquilo de novo, e se lhe permitia que continuasse com isso, começaria a acreditar ela também.

Negou com a cabeça com decisão e apertou os lábios ante a iminente discussão.

—Não faremos isto novamente, Jonathan.

Ele não discutiu absolutamente; em seu lugar, sugeriu suavemente:

—Entendo que, quando te descreveu as atividades do leito conjugal, Amy não te disse que ocorre mais de uma vez, Natalie.

Ela ficou rígida, e Jonathan a abraçou com mais força.

—Isto não é um leito conjugal.

Ele a olhou fixamente durante um instante inclinou-se e lhe roçou a bochecha com os lábios, deslizando-lhe pela pele com umas carícias delicadas e sensuais.

—Suponho que no sentido estritamente legal, não.

—Não estamos casados — insistiu ela.

—Legalmente, não.

A Natalie entraram vontades de dizer: «Que objetivo é», mas o peito largo e quente dele se apertava contra seu braço, o intenso aroma masculino lhe embriagava os sentidos, a boca em sua pele fazia cócegas, e tudo aquilo só podia desembocar em problemas.

—Jonathan, se comporte, ou não tornará a ver as esmeraldas.

Tentou ser severo em sua ameaça, mas não foi assim exatamente como lhe saiu... mas sim, mas, bem como uma brincadeira, embora produzisse o efeito desejado.

Jonathan levantou a cabeça à contra gosto.

—Ah...! As esmeraldas. — Com grande exagero, ele se deixou cair de costas sobre a cama. — Me tinha esquecido as esmeraldas.

Natalie se zangou com fingido desgosto.

—Isso parece bastante idiota para um ladrão de sua categoria.      

—Cativaste-me, Natalie — admitiu com um suspiro, lhe devolvendo a brincadeira enquanto olhava fixamente o teto. — Perdi a noção do tempo e do decoro por completo.

Natalie não soube se tornava a rir ou golpeá-lo. Em seu lugar, começou a brincar com o edredom, baixando-o até a cintura porque estava começando a ter calor.

—Conforme parece, também perdeste o instinto de propriedade.

Retornou o olhar, de repente, para seu rosto cara com o semblante muito sério.

—Sei perfeitamente o que estive fazendo ontem à noite.

Ela baixou a voz, tentando voltar imediatamente para tema.

—Então espero que as lembranças do que ocorreu sejam suficientes para aplacar seu desejo e possa por fim arrumar o assunto de encontrar as cartas de minha mãe para mim. Essa é, de fato, a razão de que estejamos aqui.

Ele a olhou boquiaberto, aparentemente desconcertado. Então, negou com a cabeça lentamente.

—Natalie, desejo-te tão desesperadamente que neste preciso instante estou dolorido. E a única razão para que não faça farrapos dessa estúpida camisola e te possua de novo, é a dor que ocasionaria. E imagino que já está bastante dolorida.  

Natalie ouvia o cantar dos pássaros na distância, até ela chegava o aroma das flores e a persistente fragrância da chuva da última noite, e, entretanto, tudo desapareceu de repente de sua mente, exceto a sufocante humilhação do descarado comportamento que tinha mostrado para ele a noite anterior. Deu a volta bruscamente para sentar-se, e nesse momento ele a soltou sem perguntar.

Ela tirou rigidamente as pernas por cima da borda da cama e ficou olhando fixamente a parede que tinha em frente.

—Fica pouco tempo, Jonathan. Necessito que encontre as cartas de minha mãe para que possamos voltar para Grã-Bretanha.

A tensão empapou a atmosfera, e durante uns segundos Jonathan guardou silêncio. Então, ela ouviu o rangido dos lençóis detrás dela quando ele moveu o corpo para olhá-la à costas.

—Tentei-o desde o começo.

A sinceridade de sua voz á tranqüilizou um pouco, e ela baixou o olhar para suas mãos, que mantinha cruzadas sobre o regaço.

—Sei que o tem feito. — Respirou fundo para reunir valor, porque estava a ponto de lhe demonstrar sua confiança. —As esmeraldas estão em um de meus baús.

—Sério? —disse ele com notável exagero.

Natalie fechou os olhos, sorrindo para si. Pois claro que devia sabê-lo. Onde, se não, foram estar? Poderia ser, inclusive, que as tivesse encontrado depois de registrar suas coisas, provavelmente enquanto ela dormia, pois assim, conforme parecia, era como funcionava sua mente retorcida. Depois de tudo era um ladrão, experiente no engano e no achado, e sua estupidez por isto a zangou. Mas o que a reconfortou foi cair na conta de repente de que a tinha levado a Paris sem ter realmente que fazê-lo. Tinha-o feito por ela, e ela devia o resto do que lhe tinha prometido.

—O conde Arlés e outros vão oferecer um banquete amanhã de noite para arrecadar recursos rapidamente para sua causa — lhe revelou pausadamente sem olhá-lo. —Luis Felipe volta das férias no domingo, e planejam derrocá-lo enquanto é escoltado pela cidade.

A cama rangeu quando Jonathan sentou detrás dela.

—O que há dito?    

O tom de sua voz descendeu de maneira tão dramática que ela virou-se para ele tentando  não olhar seu corpo meio nu quando a savana caiu até a cintura do Jonathan

—Que o conde Arlés vai oferecer...

—Já ouvi a parte do banquete.

Não foi a violenta exclamação de Jonathan, e sim seu penetrante olhar o que a pôs nervosa.

—Vários deles estão planejando derrocar ao rei Luis Felipe — repetiu ela. —No domingo. Pensei dadas suas relações com os que ocupam o governo, que a informação lhe resultaria interessante.  

—Interessante? — interrompeu-a. — O que encontro interessante é que me ocultasse isso, Natalie.

A raiva que Jonathan expressou em seu semblante e em suas maneiras a pegou de surpresa. Esquadrinhou-a de maneira dura e calculadora, e a rápida irritação que se apoderou dela a fez enrugar o sobrecenho.

—Não lhe ocultei nada. É uma simples fofoca que ouvi casualmente no baile de Marselha.

—Uns nobres franceses se reúnem em segredo para falam do assassinato de seu rei, e considera que é uma simples fofoca?

Ela se levantou e girou ficando de frente para ele, sobressaltada pela antipatia que expressava a voz dele.

—Por que demônios pensa que se trataria de uma tentativa de assassinato?

Jonathan tirou imediatamente a colcha de cima do corpo, e Natalie girou sobre seus talões com a mesma rapidez para evitar olhá-lo.        

—O que acha que significa «derrocar», Natalie, que vão os tirar da carruagem?

Teria soltado uma gargalhada diante da ocorrência se não fosse pela frieza com que foi feita a pergunta. Abraçou-se a si mesmo, esfregando as palmas das mãos contra as mangas de algodão, e ficou olhando fixamente o papel floreado da parede enquanto ouvia o som da roupa do Jonathan quando ele começou a vestir-se a toda pressa.

—Estávamos em uma festa, Jonathan — raciocinou ela, exasperada. —O vinho corria á solta, e a gente dizia todo tipo de coisas naquelas condições. Pensei que era uma bravata entre cavalheiros que tinham bebido mais do que deviam.

—Entretanto, não o ouviu no salão de baile enquanto todo mundo ria, bebia e dançava, não é assim? — replicou ele de modo brusco e desagradável. — Esses homens estavam encerrados em uma reunião privada quando o falaram.

Ela franziu o cenho.

—Como sabe isso?

—Porque vi você, Natalie. Vi quando se afastava do estúdio privado do conde.

—Estava me espionando?

Jonathan passou por cima da pergunta para acrescentar com franqueza:

—Pergunto-me onde estão postas exatamente suas lealdades.

Ela soltou um grito afogado ao ouvir semelhante audácia, pela iniqüidade de Jonathan ao pensar em qualquer implicação por parte dela, assim Natalie girou em redondo para lhe plantar cara. A roupa quase cobria por completo a Jonathan, enquanto movia rapidamente os dedos pelos botões da camisa.

—Dizer isso é uma crueldade, Jonathan, e absolutamente ridículo.

Ele desprezou o comentário, alargando a mão para pegar o lenço de seda.

—Não sabia — insistiu ela. —A verdade é que nem sequer pensei nisso. Meu passado não tem nada que ver com isto. Os franceses sempre estão pensando numa maneira de destronar ao monarca que ocupa o trono no momento, e a maior parte das vezes não passa de uma tolice.

Ele lançou um olhar, interrompendo-a justo para que ela soubesse que sabia que ela acabava de dizer algo do mais lógico. Então se voltou para o roupeiro, tirou os sapatos que combinavam com seu traje e sentou na borda da cama para colocá-los. Entretanto, não respondeu, o qual, por sua vez, não fez mais que avivar a cólera dela.

—Estava completamente disposta a contar-lhe isso Jonathan, quando me desse ás cartas de minha mãe. Isso deveria ter sido ontem.

Sabia que seu comentário mordaz provocaria uma resposta. Jonathan girou á cabeça com tanta rapidez que sacudiu todo seu corpo com o movimento. Olhou-a boquiaberto durante um milésimo de segundo, lhe fazendo sentir que possivelmente o golpe tinha sido muito brutal. Então, Jonathan meneio a cabeça com incredulidade.

—Esta informação era o presente que me prometeu em troca das cartas?

Ela se ergueu indecisa, deixando cair os braços aos flancos.

—Pois claro. — Natalie vacilou, e sua fronte se enrugou com a dúvida. — Que outra coisa eu poderia lhe dar aqui? Meu leque de manga de marfim? Sei que não queria meus camafeus.

Ele a olhou com tanta intensidade, ali sentado com uma incrível imobilidade, que ela pensou durante um momento que tinha deixado de respirar. Então fosse pelo contínuo silêncio de Jonathan, pela sagacidade que destilava seu olhar — ela não esteve segura, — o certo é que a claridade a alagou com um sentimento de puro rechaço e uma comoção que nem sequer foi capaz de começar a descrever.

—Você... Pensou que me entregaria a ti? — balbuciou, e sua voz lhe pareceu muito insignificante e estranha.

Jonathan não fez nada durante uns segundos, limitando-se a observá-la com uma incerteza que acentuava seus rasgos. E então ela soube.     

A fúria se apoderou dela. Fechou os punhos aos flancos, seu corpo ficou rígido, e as lágrimas que se negou a derramar lhe arderam nos olhos.

—Pensou que entregaria minha virgindade em troca das cartas?

O repentino descobrimento fez que Jonathan se sentisse manifestadamente incômodo. Limpou-se a fronte torpemente com a palma da mão e se levantou para ficar em frente a ela.

—Natalie...

—Como pôde pensar isso de mim, Jonathan? Como pôde acreditar que faria semelhante coisa?

Jonathan fincou as mãos nos quadris, paralisado.

—Não sei — respondeu ele com dureza. — Sozinho... Pareceu-me lógico.

—Lógico? — O rosto dela contraiu com uma profunda dor. — Pensou que me entregaria a ti em pagamento?

—Diabo! Não foi assim como o considerei — afirmou ele, dando um passo para ela.

Ela sussurrou glacialmente:

—Pois claro, deveu pensar que tinha as mesmas virtudes que minha mãe.

Aquilo deteve em seco seus movimentos. Jonathan ficou tenso, e seus olhos relampejaram com um brilho sombrio ao olhá-la nos olhos.

—Sabia que era virgem Natalie — disse em voz muito baixa. — Mas também sabia igual a você, que acabaríamos fazendo o amor. Seu desejo por mim não era nenhum segredo. Era visível.

—Que homem mais arrogante é — espetou-lhe. — Queria que me ajudasse. Pensei que fosse meu amigo.

Jonathan entrecerrou os olhos.

—Amizade à parte, a atração sexual que há entre nós não poderia ser negada nunca. Começou no instante em que entrou em minha casa da cidade.

Ela reprimiu o impulso de esbofeteá-lo por isso; por sua desfaçatez, por conhecer até as últimas curvas de sua mente e por utilizar sua experiência contra sua inocência com uma finalidade puramente egoísta.

—Então é minha culpa — admitiu-a com sarcasmo, cravando as unhas nas palmas das mãos. — Deveria me haver prevenido contra seus avanços. Por desgraça, não conheço ninguém que saiba mais sobre a atração sexual que você, Jonathan.

Os olhos do Jonathan se abriram o suficiente para que ela soubesse que o tinha ferido com isso. Mas a fúria ia impregnando-a em ondas, e negou-se a deter-se ali. Por fim começava a ver claras as motivações de Jonathan.

Ela tragou saliva quando as lágrimas que já não podia controlar lhe arrasaram os olhos.

—Suponho que o seguinte que me confessará é que tudo o que me disse ontem à noite estava ensaiado. Ou possivelmente recorreu simplesmente a frases que já tinha utilizado antes? Estou segura de que sabe o que dizer exatamente a uma mulher no momento oportuno.

Deu-se conta imediatamente de que tinha ido muito longe. A princípio ele somente tinha parecido assombrado por sua veemência. Nesse momento uma intensa dor atravessou o olhar dele, e ela soube que o tinha ferido no mais fundo. Também impressionou a ela, que fraquejou, mas se negou rotundamente a retroceder.

Depois de uns instantes de silêncio insuportável, no que se olharam fixamente um ao outro desde ambas as esquinas da cama, a expressão do Jonathan se suavizou até converter-se em uma pena inefável que não foi capaz de ocultar, e, lentamente, baixou o olhar.

Separou-se dela, deu três passos até a poltrona, onde agarrou sua levita, e se dirigiu à porta. Quando agarrou o trinco, deu meia volta para olhá-la nos olhos.       

—Vais ter que pensar isto você sozinha, Natalie — lhe advertiu com voz clara e sombria. — Não posso obrigar-lhe para que confie em mim e não posso trocar meu passado. Se não conseguir aceitá-lo tal qual é, você sozinha estragará tudo o que há entre nós, e não teremos nenhuma oportunidade.

Abriu a porta e jogou um olhar para o tapete que tinha sob os pés.

—Vou à cidade a descobrir o que puder sobre o banquete de amanhã de noite.

Sem esperar nenhuma resposta, Jonathan saiu ao corredor e fechou a porta atrás dele.

 

Capítulo 16

Natalie sentou resignadamente em uma poltrona de respaldo alto estofada em veludo rosa na suíte privada do terceiro andar do hotel do Monceau. Tinha chegado sozinho uns minutos antes, depois de um dia frustrante de investigar por sua conta, de ir sozinha daqui para ali por Paris, com toda a bagagem nas costas, em sua tentativa de encontrar a Madeleine DuMais.

Inteirou-se do paradeiro de Madeleine de uma maneira nada insólita, embora isso lhe supusesses ir de um hotel elegante a outro até que o conseguiu. A francesa estava em Paris porque tinha acompanhado em secreto ao senhor Fecteau à capital, a fim de pôr fim a seu assunto com o governo britânico em relação ás esmeraldas. Isto era quanto tinha sabido Natalie antes de ir ao norte ela mesma. Mas não foi até aquela manhã, depois do fiasco com Jonathan, que tinha considerado a idéia de procurá-la.   

Seu primeiro desejo depois da terrível discussão entre ambos tinha sido abandonar a França imediatamente. Depois de fazer seus baús a toda pressa assim que Jonathan partiu, tinha fugido da angústia que sentia entre as quatro paredes de sua preciosa habitação do albergue da Cascata. Dirigiu-se à cidade com a firme intenção de pegar o primeiro trem que a levasse a Calais, e uma vez ali reservar uma passagem para Dover. Poderia ter estado em casa ao cabo de três dias, se tudo ia bem. Entretanto, algo a conteve. A princípio pensou que se tratava do mero arrependimento pelas palavras que tinha dirigido a Jonathan nessa manhã. Mas depois de tentar encontrar um meio de transporte até a cidade, e de passar a metade do dia e de gastar uma enorme soma em conseguir transportar sua bagagem à cidade, deu-se conta de que permanecia na França devido a seus confusos sentimentos para ele; para o homem que a tinha mentido, humilhado, enganado e ajudado em proveito próprio; que lhe tinha feito o amor com tanta perfeição e tinha conduzido a descomunal bagagem dela por toda a França porque ela o tinha pedido.

Sim, admitia que tivesse reconsiderado o de voltar correndo para casa, era exclusivamente pelos desconfortos que lhe tinha causado a Jonathan durante semanas, sem que ele se queixasse nenhuma só vez a sério. Tinha sido uma moléstia para ele ao o apartar de seu trabalho, ao distraí-lo com sua presença e exigências e ao lhe roubar as esmeraldas, as quais seguiam ainda em poder dela. E assim exatamente era como tinha sido sua relação com Jonathan sempre: confusa, divertida e ridícula. Antes de atirar tudo pela amurada, se é que já não o tinha perdido tudo, necessitava o conselho de uma mulher experimentada, e assim era como tinha acabado finalmente na suíte do hotel de Madeleine sete exaustivas horas depois de decidir encontrá-la.

Tinha sido recebida na porta por uma donzela alta de cara insossa e cabelo e olhos escuros, embelezada com um vestido cinza engomado, avental branco e touca. Perguntou-lhe seu nome, e ao cabo só de um instante a fez passar ao salão para que esperasse a sua senhora.

Natalie estava sentada em uma peça que, em realidade, era mais que um salão, decorada com gosto em tons de rosas; contra o que poderia esperar-se, nada grosseiro. Os objetos decorativos eram escassos, porque a peça era um tanto pequena, e continha sozinha duas poltronas estofadas em veludo situados em frente de um sofá do mesmo tecido e de uma mesa de chá de mogno localizada entre eles. À esquerda, detrás dela, havia uma parede com janelas, abertas à maturação para permitir a entrada de qualquer brisa que tivesse a bem penetrar e que ofereciam uma esplêndida vista do exuberante parque do outro lado da rua. O papel da parede, de brocado rosa com umas diminutas flores de veludo de uma variedade desconhecida, cobria as outras três paredes, do tapete de felpa até o teto. Três óleos de paisagens parisiense adornavam as altas paredes, e colocadas em extremos opostos havia uma grande chaminé com um suporte de mogno esculpida e a porta que conduzia ao dormitório.

O ambiente poderia ter sido sem dúvida recarregado, refletiu Natalie, sentada com as costas reta e abanando-se para combater o persistente calor. Mas, é obvio, não o era. A suíte era sofisticada e feminina, absolutamente parisiense, e sem dúvida, encaixava com a Madeleine.

—Valha-me Deus, Natalie, que surpresa vê-la!

Natalie se voltou para a voz doce e etérea da francesa, que procedia da porta que conduzia ao dormitório, onde devia ter estado fazendo a sesta. Como sempre, o aspecto do Madeleine DuMais era espantoso. Elegante e alta, quando atravessou com garbo o tapete rosa para ela sua cara risonha e formosa transbordava de perguntas, e a larga saia franzida na cintura de seu vestido diurno de seda fluía com delicadeza ao redor de suas pernas como se fora uma parte natural de seu corpo.

Natalie sentiu repentinamente pequena e incômoda, metida em seu modesto traje de viagem de musselina verde menta. A umidade do cabelo favorecia que uns cachos rebeldes pegassem às bochechas, e o espartilho esmagava as costelas enquanto tentava sentar-se corretamente. Como era natural, nunca abandonaria nem sequer seu dormitório sem colocar um espartilho, embora, ao pensá-lo nesse momento, sua mente lhe recordou com obstinação que não o tinha posto na presença de Jonathan. Nesse preciso instante o que menos precisava era distrair-se.

—Espero que me perdoe esta intromissão, Madeleine — disse com cortesia, abanando-se ligeiramente a cara. — Mas estava em Paris, e pensei que podia visitá-la. Que tal está você?

Madeleine arqueou ligeiramente as sobrancelhas ao ouvir a pergunta. Transportou sua ágil figura ao sofá em frente á Natalie e sentou com um movimento rápido e fluido.

—Perfeitamente, obrigado, exceto claro está, pelo calor. — alisou-se a saia, estirando o bordo para que se formasse redemoinhos ao redor de suas pernas, e girou o corpo para colocar-se de flanco com o olhar à frente, cruzando as mãos no regaço.

—Espero que você também se encontre bem.

—OH, sim, muito bem, obrigado — respondeu Natalie com educação. — Esteve fazendo muito calor, mas os torós que tivemos os últimos dias foram uma diversão encantadora. Prefiro, sem dúvida, o afresco da Inglaterra ao calor do sul da França, embora o clima de Paris fosse bastante benigno. Nunca chove a gosto de todos.

—Não, é obvio que não — conveio amavelmente Madeleine. — Entretanto, durante os meses do inverno, prefiro o calor de Marselha.

Natalie sorriu.

—Mas acredito que é natural que alguém prefira a comodidade de seu lar, com independência do clima...

—Natalie, onde está Jonathan?

Natalie piscou frente á franqueza da pergunta, apertando o cabo do leque quando o deteve no ar. Madeleine sabia muito bem que não estava ali para intercambiar cumpridos, e nesse momento insistia em conhecer o objeto de sua visita.

Natalie vacilou umedecendo os lábios.

—Não estou segura de onde está. Não o viu? — morria de medo de que Jonathan estivesse ali, descansando com a Madeleine, mas desterrou rapidamente aquele pensamento de sua mente. A verdade é que não lhe parecia provável.

Madeleine respirou fundo e se recostou tranqüilamente sobre a fofa almofada.

—Não o vi desde que nos partimos de Marselha, e ele não me disse que viriam a Paris. —Baixou a voz. — O está procurando ou fugindo dele? 

Natalie esteve a ponto de soltar uma gargalhada. Não tinha considerado que os acontecimentos dos dois últimos dias a pusessem tão nervosa.

Em realidade... Estava pensando em abandonar a França sem que ele soubesse. Meus baús estão abaixo, na zeladoria, mas primeiro queria visitá-la.

—Entendo. Vai tudo bem?

Natalie sentiu que se ruborizava e o compensou abanando-se de novo.

—Tivemos... uma pequena discussão.

Madeleine inclinou a cabeça ligeiramente.

—Sério?

Natalie não foi capaz de pensar em nada que acrescentar e começou a inquietar-se. Voltou sua atenção à janela, olhando sem ver a frondosa e verde trepadeira que pendurava de uma grade branca.

—Comeu algo hoje, Natalie?

Seu olhar voltou como um raio para a francesa.

—Comido?

Madeleine a esquadrinhou durante um instante, depois se inclinou para diante e fez soar um sino de prata apoiado sobre a mesa de chá. A donzela apareceu imediatamente, e Madeleine lhe encarregou em francês:

—Enjoe-Camille, faça que o chefe do hotel prepare um almoço frio, algo fresco de beber e... —Lançou um olhar a Natalie. — Pede também um pouco de chocolate.

 —Madame... — Enjoe-Camille fez uma reverência, deu-se a volta e saiu do salão.     

Natalie baixou o leque até seu regaço sem deixar de mover-se, enquanto tentava erguer o corpo para que o espartilho não lhe cravasse tanto nos peitos. Madeleine se arrumou a saia, abriu completamente as mãos e apoiou as palmas na almofada do sofá.    

—Talvez gostasse de me contar o ocorrido.

Natalie não estava preparada precisamente para ser minuciosa com os deta