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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


ENCONTRO DE MULHERES / Laura Levine
ENCONTRO DE MULHERES / Laura Levine

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

ENCONTRO DE MULHERES

 

O que é mais doloroso do que mamografia? Mais torturante que depilação na virilha? Mais humilhante que um pedaço de espinafre preso nos dentes da frente?

Comprar um maiô, é claro.

Não há nada pior. Nem mesmo tratamento de canal. (A não ser que seja um tratamento de canal quando se está usan­do um maiô e com um pedaço de espinafre preso nos dentes da frente.)

E era o que eu estava fazendo quando me envolvi pela primeira vez com o que, mais tarde, se tornou conhecido como o Crime TPM: experimentando um maiô. Por algum motivo ridículo eu decidira começar a praticar hidroginástica. Na verdade, por dois motivos ridículos: as minhas coxas. Diante dos meus olhos horrorizados, elas estavam rapida­mente se transformando em hotéis de lazer para a celulite.

Portanto decidi que iria entrar numa academia e que, depois de umas poucas semanas chapinhando em volta da piscina, eu teria as coxas tonificadas e lisinhas dos meus so­nhos. Mas antes de ficar tonificada e lisinha havia apenas um pequeno obstáculo em meu caminho: precisava comprar o já mencionado maiô.

Eu sabia que seria ruim. Na última vez em que saí para comprar um maiô voltei para casa e passei a noite chorando nos ombros do meu bom amigo José Cuervo — sim, a tequila. Porém nunca imaginei que seria tão ruim assim.

Para começar, cometi o erro de ir a uma loja de roupas com desconto chamada Galpão da Pechincha. Meu talão de cheques estava passando por uma fase particularmente anê­mica na ocasião e eu ouvira falar sobre os ótimos preços da loja.

O que eu não ouvira, contudo, é que não havia prova­dores fechados no Galpão da Pechincha. É verdade. Todas as clientes, para minha consternação, tinham de experimen­tar as roupas num único provador comunitário, diante de uma medonha fileira de espelhos e sob o brilho impiedoso das luzes fluorescentes, onde cada saliência da celulite pare­cia uma cratera do Grand Canyon.

Já é bem desagradável ser forçada a ver as imperfeições do seu corpo num provador fechado, mas tê-las expostas num salão repleto de mulheres... eu ainda estremeço com a lem­brança.

Para tornar tudo pior havia o fato de que eu estava ro­deada de coisinhas jovens e magras que deslizavam suas barrigas "tanquinho" em modelitos de tamanho trinta e qua­tro e trinta e seis. Certa vez li que sessenta por cento das mu­lheres americanas usam tamanho quarenta e quatro ou maior. Estes sessenta por cento certamente não fazem compras no Galpão da Pechincha. Mas eu não deveria ter ficado surpre­sa. Afinal, estamos em Los Angeles, a capital mundial da lipoaspiração, onde é praticamente ilegal usar tamanho qua­renta e quatro ou maior.

Agarrei um punhado de maiôs, ignorando os biquínis e os microfios-dentais em favor de modelos mais matronais, com bojos reforçados e lycra ultra-resistente, suficiente para conter até um rebanho de gado.

Espremi meu corpo no interior de um horrendo maiô depois do outro, perguntando-me o que teria dado em mim quando tive aquela idéia insana de praticar hidroginástica. Experimentei maiôs listrados e florais, tanquínis e saiotes, blousons e sarongues. Não importava qual fosse o estilo, o resultado final era sempre o mesmo: eu parecia um lixo.

Um dos maiôs prometia tirar centímetros daquela feia flacidez da minha cintura. E de fato tirou. O problema foi que ele empurrou toda aquela feia flacidez para os meus quadris, que já têm toda a flacidez de que precisam, muito obrigada.

Eu acabara de provar o último dos modelos, um tanquíni listrado que me deixou parecida com uma prisionei­ra grávida, quando subitamente ouvi alguém gemendo com desânimo.

Ergui os olhos e vi uma mulher gordinha, de trinta e tantos anos, lutando para entrar num conjunto de short de lycra modelo ciclista e top combinando. Finalmente. Alguém com quadris, coxas e barriga de verdade. Uma integrante daqueles sessenta por cento!

Ela examinou-se no espelho e suspirou, as faces afogueadas pelo esforço de se espremer em toda aquela lycra.

Meu Deus — ela suspirou. — Estou parecendo um boneco de massinha com decote.

Nem me diga — falei. — Eu pareço um boneco de massinha com decote e retenção de líquido.

Ah, é? — ela retrucou. — Pois eu pareço um boneco de massinha com decote e retendo líquidos num dia de cabe­lo ruim.

Ela passou os dedos por entre os cabelos curtos e espe­tados e fez uma careta.

Você acredita que este é o tamanho grande? — per­guntou, dando um puxão no short. — Em quem isso fica grande? Na Barbie?

Bem, para mim chega. — Eu me contorci para fora do tanquíni e comecei a me vestir. — Vou dar o fora daqui.

Há muito eu já desistira da minha idéia maluca de hidroginástica. Não. Teria de escolher algo bem menos humilhante. Como caminhada. E o primeiro lugar para onde pre tendia caminhar era a sorveteria Ben & Jerry, para uma restauradora dose de sorvete com pedacinhos de chocolate.

Vou afogar minhas mágoas num sorvete — falei.

Ótima idéia — disse a minha companheira de sofrimento. — Importa-se se eu for com você?

Será um prazer.

E assim, dez minutos depois, estávamos sentadas fren­te a frente na sorveteria com nossas casquinhas de sorvete de chocolate com pedacinhos.

—      Meu nome é Pam, a propósito — disse a minha companheira, lambendo um fio de sorvete que escorrera no seu punho. — Pam Kenton.

Era agradável estar com alguém que comia com tanto gosto. Kandi, a minha melhor amiga, tem o apetite de um mosquito e normalmente me lança olhares desaprovadores quando peço qualquer coisa mais calórica do que um talo de salsão. Eu sei que é somente porque ela se importa comigo e deseja que eu seja uma das magras integrantes daqueles qua­renta por cento, mas, ainda assim, é algo que acaba se tor­nando bastante irritante.

Na verdade — disse Pam —, meu sobrenome não é Kenton. É Koskovolis. Kenton é meu nome artístico. Eu sou atriz. E claro que você sabe o que isso significa aqui nesta cidade.

Garçonete?

Exatamente — ela assentiu. — E você?

Sou escritora.

É mesmo? — Os olhos dela se arregalaram. As pes­soas sempre ficam impressionadas quando lhes digo que sou escritora. — O que você escreve?

Ah, folhetos industriais. Currículos. Esse tipo de coisa.

É aí que, geralmente, elas deixam de ficar impressiona­das. Muita gente acha que folhetos industriais e currículos são um tédio.

Mas Pam endireitou-se na cadeira, interessada.

Você escreve currículos? Eu bem que estou precisan­do de ajuda com o meu. Já estou ficando cansada de traba­lhar como garçonete. Quero um emprego no qual eu possa me sentar de vez em quando.

Eu ficaria feliz se pudesse ajudá-la com seu currículo — ofereci.

Uma linha de preocupação surgiu em sua testa.

—      Não posso lhe pagar muito.

—      Ora, não se preocupe com isso. Não vou cobrar. Intimamente, eu me dei um cutucão. O que havia de

errado comigo? Por que eu estava sempre trabalhando de graça? Se eu começasse a cobrar das pessoas, talvez não pre­cisasse mais fazer compras em lugares como o Galpão da Pechincha. Ah, tudo bem. Pam parecia ser uma excelente pessoa e não era como se eu tivesse tanto trabalho assim, a ponto de ela me atrapalhar. Na verdade, a minha agenda de trabalho encontrava-se assustadoramente inconstante.

É muita gentileza sua — disse Pam. — E que tal se eu lhe preparar um jantar como pagamento?

Parece ótimo. Para quando você quer marcar?

Logo que você puder.

Que tal amanhã à noite?

Ah, amanhã eu não posso — ela disse. — É a noite da TPM.

Noite da TPM?

Somos um grupo de amigas que se reúne uma vez por semana para fofocar e reclamar, regadas a guacamole e margaritas. Nós nos intitulamos de o Clube TPM.

Parece divertido.

Ei, espere. Tenho uma ótima idéia. Por que você não vai comigo? Estamos com poucos membros no momento e acho que você seria uma tremenda aquisição para o clube. Podemos jantar no meu apartamento, primeiro, enquanto trabalhamos no meu currículo, e depois iremos para a reu­nião do clube. O que acha?

Tem certeza de que as outras não vão se incomodar?

Tenho. Elas vão adorá-la, pode acreditar. E realmen­te vale a pena. Você tem a chance de compartilhar os seus pensamentos mais íntimos com mulheres que pensam como a gente, num ambiente amigável e acolhedor. Além disso — ela acrescentou com um sorriso —, temos guacamole e margaritas grátis.

É claro — eu disse, sempre incapaz de recusar uma margarita grátis. — Por que não?

Em breve eu descobriria por que não, mas esta é uma outra história. Fique por aqui, pois vou lhe contar.

 

Creio que se poderia dizer que toda a confusão do TPM foi por culpa de Kandi. Se ela não tivesse inventado de ficar noi­va eu jamais teria me associado ao clube, para começar.

Sim, depois de anos namorando alguns dos mais desengonçados sapos do planeta, a minha melhor amiga e constante companheira de jantares, Kandi Tobolowski, fez o impensável e finalmente encontrou um príncipe. E numa auto-escola, dentre tantos lugares. Eles trocaram um olhar durante uma aula sobre contornos proibidos e, quando che­garam ao capítulo de mudança de pista, Kandi sabia que havia encontrado o homem dos seus sonhos.

No passado, os homens dos sonhos de Kandi tinham invariavelmente se transformado em pesadelos. No ano pas­sado, por exemplo, ela estava loucamente apaixonada por um artista performático, um sujeito cuja apresentação con­sistia em se deitar, no palco, numa banheira cheia de choco­late derretido, espargindo-se chantilly em spray. Tudo ia às mil maravilhas, até que ela apareceu de surpresa no aparta­mento dele certa noite e apanhou-o na cama com outra mu­lher, um vibrador e um pote de cerejas ao maraschino.

Mas dessa vez parecia que ela realmente acertara num vencedor. O seu noivo, Steve, era um verdadeiro encanto, um advogado que prestava serviços gratuitos aos pobres. No que se referia aos advogados, era um peixinho vermelho no meio das piranhas.

Eu deveria estar feliz por Kandi. E estava. Mesmo. Só que não podia deixar de me sentir um tantinho abandonada. Raramente nos encontrávamos para jantar e, quando isso acontecia, Steve quase sempre ia conosco. No final da noite eu praticamente sentia os dois se acariciando debaixo da mesa, colocando-me numa posição evidente de "segura-vela". E foi por este motivo que fiquei contente e agradave-mente surpresa na manhã daquele dia, quando Kandi ligou e convidou-me para jantar, apenas nós duas. Seria bom, pen­sei, ter a companhia dela toda para mim, para variar.

Voltando para casa encontrei a minha gata, Prozac, dor­mindo no sofá, exatamente na mesma posição em que eu a havia deixado seis horas atrás. Às vezes acho que aquela gata foi uma estátua numa vida anterior. — Olá, docinho, cheguei!

A minha queridinha pulou do sofá e veio correndo ao meu encontro, esfregando-se em meus tornozelos com vi­brantes ronronares de amor.

Tudo bem, não foi nada disso que ela fez. Ela entreabriu um olho, bocejou, um bocejo do tamanho do Grand Canyon, depois girou para o lado e voltou a dormir.

Mas a dona de uma gata pode sonhar, não pode? Aquela altura eu já estava me arrependendo da casqui­nha de sorvete de chocolate que havia devorado na Ben & Jerry. (Está bem, duas casquinhas.) Então fui para o banhei­ro e troquei a minha calça jeans por uma calça larga com elás­tico na cintura. Estava emitindo um suspiro de alívio quan­do o telefone tocou.

Uma voz firme e máscula soou na linha.

—Andrew Ferguson falando, do Banco Union National.

Ah, droga. Minha conta não podia estar sem fundos novamente, podia? Mas como, se eu depositara um cheque na semana anterior? Ou teria sido há duas semanas? Era impossível que eu tivesse gasto todo o dinheiro. E, mesmo se tivesse, era muito atrevimento do banco ligar para a minha casa, invadindo a minha privacidade. Já não era suficiente­mente ruim que me cobrassem por encargos e serviços toda vez que eu piscava um olho? Não me importo de admitir que fiquei um bocado furiosa.

Escute aqui, sr. Ferguson. Faz parte da sua política ligar para a casa das pessoas desse jeito?

Acho que eu poderia ter lhe enviado um e-mail, mas queria entrar em contato com a senhora o mais breve possível.

Se a minha conta está sem fundos, eu lhe asseguro que o problema será resolvido imediatamente. Não preciso que liguem do banco para me lembrar.

A senhora não está entendendo...

Quando tenho um monte de dinheiro na conta não vejo ninguém ligando para me agradecer, certo?

Houve uma pausa na ligação.

Srta. Austen, eu não estou ligando para falar sobre a sua conta bancária.

Não?

Não. Estou ligando sobre o anúncio que a senhora respondeu, publicado no L.A. Times. Procurando alguém para redigir o jornal interno do banco.

Eu havia respondido àquele anúncio semanas atrás e me esquecera completamente. Lá estava o sujeito me ligan­do sobre um trabalho remunerado e a primeira coisa que fiz foi gritar com ele. Isso sim é que foi uma primeira impressão desastrosa. Eu não ficaria surpresa se ele desligasse naquele mesmo instante. Porém, milagrosamente, ele não desligou.

Então, a senhora acha que pode vir até aqui para uma entrevista? — o sr. Ferguson perguntou.

É claro.

Na quarta-feira, às dez da manhã? Na nossa agência no centro da cidade?

Certamente! Estarei lá. E me desculpe por este mal entendido da conta bancária.

Está tudo bem. Mas vou me certificar de que alguém ligue lhe agradecer, na próxima vez em que a senhora tiver um monte de dinheiro em nosso banco.

Desliguei o telefone e gemi. Como fui idiota. Nem po­dia acreditar que ele ainda queria que eu fizesse a entrevista. Mas, pelo menos, ele parecia ter senso de humor.

—      Adivinhe, minha bonequinha? — falei, cocando Prozac atrás das orelhas. — A mamãe tem uma entrevista de trabalho. Não é maravilhoso?

Tanto faz. Agora coce as minhas costas.

Sempre a sua serva obediente, cocei as costas de Prozac e depois passei a hora seguinte no computador, fazendo al­gumas pesquisas sobre o Banco Union National. Depois do meu início muito pouco auspicioso, eu queria estar o mais bem-informada possível para a entrevista. Trabalhei nisso incansavelmente, com apenas uma pequena pausa para um rápido jogo de paciência — está bem, cinco jogos de paciên­cia —, até ouvir os doces sons de Prozac uivando pelo jantar.

Levantei-me e fui para o armário da cozinha, de onde tirei uma lata de ração dietética para gatos, que a veterinária havia recomendado em nossa última consulta. Já havia al­guns dias que eu estava ensaiando para iniciar a dieta de Prozac, mas sempre adiava, temendo a batalha que estaria a minha espera. Afinal, aquela era uma gata acostumada a hambúrgueres tamanho "Jumbo" e frango frito. Extra crocante, por favor.

Como eu havia prometido à veterinária que iria pelo menos tentar, decidi que esse seria um momento tão bom quanto qualquer outro. Abri a lata e despejei o conteúdo na vasilha de Prozac.

—      Aqui está, docinho. Um de-li-ci-oso jantar feito de tripas de hadoque.

Ela cheirou a comida apenas uma vez e me lançou um olhar indignado.

Você deve estar brincando. Certamente não espera que eu coma esta porcaria?

—      Você ouviu o que a veterinária disse na semana pas­sada, quando fomos à consulta e todos na sala de espera acha­ram que você estava grávida. Lembra-se? Ela disse que você precisa emagrecer.

Eu ainda acho que ela estava falando de você, não de mim. Prozac deu um pulo para cima do balcão e começou a ba­ter a patinha no armário onde guardo as latas de ração de atum.

—      Esqueça, Prozac. Você não vai ganhar nada dessa comida calórica.

Carreguei-a para fora do balcão e deixei-a diante da va­silha de comida.

—      Você quer ficar magrinha, não quer? Não se tiver de comer essa gororoba.

A veterinária havia me avisado que não seria fácil. Eu só precisaria agir com firmeza. Mais cedo ou mais tarde Prozac acabaria cedendo.

Segui para o quarto a fim de me arrumar para o jantar com Kandi. Prozac seguia cada passo que eu dava, enroscando-se nos meus tornozelos e o tempo todo emitindo ge­midos e miados de lamento. Fiz o possível para ignorá-la enquanto vestia uma calça jeans, uma camisa de seda e um blazer Ann Taylor. Mas não foi fácil porque, naquela altura, Prozac estava uivando como uma desesperada.

—      Jaine? O que está acontecendo aí?

Era o meu vizinho Lance, gritando do seu apartamen­to. Graças às paredes finas como papel e a sua audição agu­çada como a do Super-Homem, Lance sabe um bocado sobre tudo o que acontece na minha vida. Mas é claro que ele po­deria ser até Helen Keller e ainda assim escutar a balbúrdia de Prozac.

Ah, é Prozac. Ela está furiosa comigo porque a colo­quei numa dieta.

Bem, diminua um pouco o volume, está bem? Al­guém aqui está tentando fazer sexo.

Me desculpe, Lance. Eu não tinha idéia de que você estava acompanhado.

Quem disse que estou acompanhado?

Ups. Um pouco mais de informação do que eu precisava.

—      Divirta-se — falei em voz baixa.

Então carreguei Prozac para a sala e deixei-a no sofá, onde ela me encarou com um olhar de órfã faminta.

—      Tente entender, Pro. Estou fazendo isso para o seu próprio bem.

Abaixei-me para beijá-la, mas ela se afastou.

—      Agora eu vou sair para jantar com Kandi — eu disse enquanto pegava as chaves do carro. — Estarei de volta às nove. Coma o seu hadoque.

Tudo bem, vá embora e me deixe. Vá comer um belo jantar enquanto fico aqui com aquela nojenta gororoba de hadoque. Você, entre tantas pessoas, tem mesmo muita coragem de me obrigar a fazer dieta! Você, que justamente na noite passada devorou um pote inteiro de sorvete com calda de chocolate. E não pense que não sei sobre a casquinha de sorvete da Ben & Jerry de hoje.

Ok, o que Prozac realmente disse foi miau., mas eu sabia o que ela estava pensando.

Corri porta afora antes que ela mencionasse a fatia de pizza de cogumelos e anchovas que eu havia comido no café da manhã.

—      Então, o que acha? Rosas ou violetas para o buquê de noiva?

Eu estava sentada diante de Kandi no Paços Tacos, nos­so restaurante mexicano preferido, engolindo barcaças de chips e guacamole enquanto Kandi mal mordiscava a beira­da de um picles de cenoura.

Nos velhos tempos ela estaria me falando sobre algum plano temerário para conhecer rapazes. Naquela época, eu odiava tais planos. Mas agora, olhando para trás, eu ansiava por uma das suas idéias malucas, pelos bons e velhos dias em que éramos duas garotas solteiras em Lalaland

Armando acha que eu deveria escolher violetas, mas não tenho certeza.

Armando? Quem é Armando?

Eu não lhe contei? — Kandi abandonou seu pedaço de cenoura e continuou: — Contratei um promotor de even­tos, especialista em casamentos. Ando tão ocupada com Beanie que não tenho tido tempo para me dedicar aos detalhes.

Kandi, para aqueles entre vocês que têm a sorte de nunca ter assistido ao programa dela, é redatora do Beanie & a Barata, um desenho animado que descreve a arrebatadora saga de Beanie, um cozinheiro de lanchonete, e Fred, a sua barata de estimação.

Se Armando acha que você deve ficar com as viole­tas por que não aceita o conselho dele? É para isso que está lhe pagando.

Acho que você tem razão — Kandi comentou pensativa. — Apesar de que, ultimamente, tenho pensado que um buquê de frésias ficaria mais bonito.

Pobre Armando. Algo me dizia que ele estava merecen­do cada centavo dos seus honorários.

—Armando é incrivelmente criativo, tem as idéias mais fabulosas. Ele acha que deveríamos nos casar na praia, ao pôr-do-sol, com champanhe e violinistas ciganos.

—      Na praia ao pôr-do-sol, hein?

Eu já sentia o meu cabelo encrespando. Algo com que Kandi, com seus invejáveis cabelos lisos e castanhos, jamais teria de se preocupar.

—      Mas estive pensando... — ela falou, tomando um gole meditativo da sua margarita. — Talvez margaritas e uma ban­da mariachi ficassem melhor.

E assim foi por todo o jantar. Kandi flutuando numa nuvem de planos para o casamento, choramingando interminavelmente sobre os convites, as flores, os músicos, o ves­tido de noiva. E, claro, a parte mais importante do casamen­to: o noivo. Eu ouvi como Steve era um anjo, gentil, bondoso e carinhoso. Ouvi como, ao contrário de alguns homens, ele não saiu gritando pela noite adentro diante da idéia de pla­nejar a cerimônia juntamente com a noiva. Ao que parecia, ele se comportava como um perfeito companheiro no decor­rer de todo o processo. Na verdade, era onde ele estava na­quela noite que me surpreendeu: com Armando, escolhen­do o smoking.

—É sério, Jaine, ele não se importa nem um pouco quan­do começo a falar sobre a festa de casamento.

Fiquei contente por ele não se importar. Tudo o que eu podia fazer era me impedir de cochilar em cima dos meus feijões fritos.

—      Ah, a propósito — disse Kandi —, eu quase me es­queci do motivo porque queria vê-la. Encomendei os vesti­dos das damas de honra mais lindos do mundo!

Ela pegou a bolsa e tirou uma fotografia que havia arrancado de uma revista.

—      Olhe só! — exclamou ao me entregar a foto. — Armando e eu decidimos optar pelo estilo tradicional. Não é divino?

Ai meu Deus! Bebi um gole desesperado da minha margarita. Aquilo era o pesadelo das damas de honra. Mangas enormes e bufantes. Cintura minúscula e marcada. E uma saia rodada perfeita para aumentar os quadris. Tudo isso num nauseante tom de cor-de-rosa.

Kandi sorriu ansiosamente.

—      É o look "Cinderela".

Exatamente o que eu sempre quis parecer: Cinderela à base de esteróides.

—      Então, o que acha? Não é incrível?

Horrível seria uma descrição melhor, mas consegui es­boçar um sorriso amarelo e assenti, concordando. Mas o fato é que Kandi nem sequer reparou no meu sorriso amarelo pois, naquele instante, Steve apareceu em nossa mesa. Eu pude ver mais uma vez porque Kandi se apaixonara por ele. Steve era, sem sombra de dúvida, uma gracinha. Os cabelos lisos tipo Hugh Grant, olhos cor de chocolate, um sorriso de derreter corações e um bumbum perfeito.

Os olhos de Kandi iluminaram-se de amor.

Olá, querido — ela disse quando ele inclinou-se para beijá-la. — O que está fazendo aqui?

Armando e eu terminamos cedo, por isso pensei em me juntar a vocês.

Isso é ótimo. Não concorda, Jaine?

Pela segunda vez em menos de dois minutos colei um sorriso amarelo no rosto.

—      Sim, é perfeito.

Steve pegou uma cadeira e, antes mesmo que eu percebesse, ele e Kandi estavam de mãos dadas por cima dos flans de sobremesa e, sem dúvida, brincando com os pés por baixo da mesa. Mais uma vez fui rebaixada à posição de "segu­ra-vela".

Kandi olhou para Steve, apalermada.

Jaine adorou o vestido de dama de honra. Não é, amiga?

É verdade.

E então eu fiz a única coisa que poderia fazer em tais circunstâncias: comi o meu flan até o último restinho. — E os deles também, se você quer saber.

 

Esgueirei-me para dentro do meu apartamento como uma adúltera e corri para o banheiro a fim de escovar os den­tes antes que Prozac sentisse o cheiro de chimichangas no meu hálito. Eu esperava convencê-la de que havia comido um filé de peixe de baixas calorias no jantar.

Mas Prozac não estava querendo nenhuma conversa comigo. Ela fitou-me com os olhos estreitados e se desvenci­lhou dos meus braços quando tentei pegá-la no colo. Fui ve­rificar a sua vasilha. Ela nem tocara no jantar.

—      Prozac, meu bem, você precisa comer alguma coisa. Vou comer quando você me der alguma coisa que não pareça lixo reciclado.

Eu tinha de admitir que a aparência da ração era bem revoltante.

—      Está bem. Vou espalhar uns biscoitinhos por cima.

Peguei a lata de biscoitos para gatos e espalhei um ge­neroso punhado por cima da comida dietética. Qualquer ten­tativa para dar uma aparência melhor àquela "coisa".

Prozac cheirou a vasilha com desprezo.

Eu-preferia que você me desse baconzitos, foi o que achei que ela estava querendo dizer.

Baconzitos são os petiscos preferidos de Prozac, juntamente com anchovas de pizza e Chicken McNuggets.

—      Você não pode comer baconzitos — falei. — Não fa­zem bem para a sua saúde. Venha comer. Você adora seus biscoitinhos.

Me chame quando tiver alguma coisa que valha a pena comer

—      Pois muito bem, você é quem sabe — gritei enquan­to ela se afastava. — Não vou enfraquecer. Para sua informa­ção, existem gatinhos famintos na Ásia que adorariam co­mer um prato de tripas de hadoque no jantar!

Normalmente Prozac se enrosca ao meu lado quando assisto à tevê na cama, arrotando vapores de peixe no meu rosto. Mas naquela noite ela permaneceu sozinha e indife­rente no sofá da sala.

Calculei que mais cedo ou mais tarde ela acabaria aparecendo. Três horas depois, ainda não havia sinal dela. Apaguei a luz, mas o sono não vinha. Tentei ficar assistindo os longos e soporíferos comerciais. Desperdício de tempo, eles falharam em me deixar mesmo que remotamente sonolenta. Parecia que eu estava prestes a enfrentar uma noite insone. Eu sentia falta do corpo quente e felpudo de Prozac perto de mim. Tentei abraçar um travesseiro, mas tudo o que conse­gui foram penas no meu nariz. Aquilo não daria certo.

—      Prozac, docinho — chamei. — Venha para a cama. Nada.

Fui até onde ela estava dormindo, como um marido desprezado, no sofá da sala. Peguei-a no colo, mas ela não quis saber. Num instante estava no chão, olhando para mim.

—      Prozac, volte para a cama. Por favor. Mamãe precisa dormir.

Você devia ter pensado nisso quando me deu aquela gororoba de hadoque.

Então ela pulou de volta no sofá e enrolou-se como uma bola cheia de raiva.

E assim, com um suspiro desanimado, eu me arrastei até a cozinha, onde passei a preparar uma vasilha cheia de ração de atum. Com baconzitos por cima.

Ela poderia começar a dieta na manhã seguinte.

 

MENSAGEM RECEBIDA

Para: Jausten

De: Adorofazercompras

Assunto: O mais irritante da América

 

Jaine, querida...

Você precisa sentar para ler isso. Não vai acreditar em que o seu pai está aprontando agora.

Um homem absolutamente gentil acabou de se mudar para Tampa Vistas. 0 nome dele é Jim Sternmuller, um pastor de igreja aposentado, de Minnesota. É simplesmente o homem mais educado e bondoso que se pode conhecer e, além de tudo, viúvo. Todas as senhoras solteiras e viúvas têm feito fila para levar seus quitutes na casa dele.

Mas, por algum motivo insano, o seu pai está convencido de que viu o reverendo Sternmuller no programa "Os Mais Procurados da América"! Ele afirma que o reverendo é o "Estrangulador Hugo Boss", um louco que anda por aí estrangulando mulheres com gravatas Hugo Boss. Você já ouviu alguma coisa mais ridícula do que isso? Em primeiro lugar, o reverendo Sternmuller nem mesmo usa gravatas. Normalmente ele usa camisas pólo de muito bom gosto, do tipo que eu gostaria que seu pai usasse, mas seu pai diz que as suas velhas e esfarrapadas cami­setas são boas o bastante para ele.

E, agora, o seu pai está determinado a "desmascarar" o reverendo Sternmuller e entregá-lo à justiça!

Onde o seu pai arruma estas idéias malucas eu jamais saberei. De maneira alguma o Reverendo Sternmuller é um dos "Mais Procurados da América". Mas o seu pai, sem dúvida, é um dos "Mais Irritantes da América".

Sua atormentada

Mamãe.

 

Para: Jausten

De: Papai

Assunto: O Faro sabe[/b]

 

Olá, doçurinha!

Sua mãe já lhe contou a grande novidade? Temos um assassino morando aqui em Tampa Vistas, um sujeito que se faz passar por um pastor aposentado. Mas eu o reconheci no instante em que o vi. Ele é o "Estran­gulador Hugo Boss". Mata suas vítimas com uma gravata de grife.

Sua mãe acha que estou louco, mas eu sei o que vi, e eu vi o reverendo Sternmuller no programa "Os Mais Procurados da América". Além disso, eu tenho faro para essas coisas. Posso cheirar um mau caráter a quilômetros de distância.

Sua mãe afirma que só porque ele não usa gravatas Hugo Boss não pode ser o "Estrangulador Hugo Boss". Bem, é claro que ele não vai usar as gravatas em público. Provavelmente as guarda escondidas em algum lugar da casa.

Acredite em mim, docinho. 0 "Faro" sabe das coisas!

Com amor,

Papai.

 

Para: Jausten

De: Adorofazercompras

Assunto: P.S.

 

P.S. Fiquei tão irritada com seu pai que encomendei um frasco com 360 cápsulas da vitamina "Menos-Stress" no Canal de Compras, apenas trinta e sete dólares, mais taxas de entrega. E, aproveitando o ensejo, escolhi também um adorável conjunto de calça capri e blusa, da marca Calvin Kleinman. Com uma linda estampa de copinhos de martíni. É perfeito para o clima de Los Angeles. Quer que eu encomende um para você também?

Amor e beijos,

Mamãe.

 

Para: Adorofazercompras

De: Jausten

 

Obrigada, mamãe, mas acho que vou recusar o Calvin Kleinman. Quando se trata de martínis, prefiro os meus ao vivo.

E tente não se preocupar com papai. Esta história com o reverendo Sternmuller provavelmente é mais uma das suas "manias" do momento. Aposto que ele até já se esqueceu de tudo isso.

 

Para: Jausten

De:Papai

 

Acabei de ligar para o programa "Os Mais Procurados da América" e lhes dei a pista do reverendo Sternmuller, mas quem sabe quanto tempo irá demorar até que tomem alguma providência?

Neste meio tempo, ele poderia atacar novamente aqui em Tampa Vistas. Portanto, acho que cabe ao seu pai detê-lo!

Deseje-me sorte, docinho. O "Faro" não descansará enquanto não entregar o "Estrangulador Hugo Boss" à justiça!

 

Para: Adorofazercompras

De: Jausten[

 

Querida mamãe,

Pensando bem, acho melhor você pedir urgência na entrega daquelas cápsulas de "Menos-Stress".

 

Na noite seguinte dirigi para o apartamento de Pam Kenton, minha cabeça ainda girando por causa dos e-mails dos meus pais.

Dá para acreditar no meu pai e em sua convicção malu­ca de que o novo vizinho seria um dos "Mais Procurados da América"? Mas eu não deveria ficar surpresa. A imaginação do meu pai sempre andou em alta velocidade. Afinal, ele jura ter visto, certa vez, a Madre Teresa comprando calcinhas fio-dental na Victoria’s Secret.

Ainda haverá muita encrenca pela frente, não tenho dúvidas. O meu pai atrai encrencas como cashmere branco atrai manchas de vinho. Eu só podia agradecer a minha sorte de estar a quase cinco mil quilômetros de distância da órbita dele.

Parei diante do endereço que Pam havia me dado, um antigo e grandioso prédio de apartamentos em estilo espa­nhol, no coração de Hollywood. Construído por volta de 1920, tinha varandas, balaustradas e uma autêntica cobertura de telhas espanholas.

Infelizmente o interior do prédio era muito menos impressionante do que o exterior. Quem quer que fosse o proprietário dele certamente não estava gastando um tostão sequer em manutenção.

Subi pela escadaria de lajotas lascadas até o apartamen­to de Pam. Os corredores cheiravam a repolho rançoso. Eu só esperava que aquilo não fizesse parte do jantar que Pam me prometera em troca da minha ajuda com o seu currículo.

Toquei a campainha e Pam abriu a porta usando um conjunto de moletom e tênis Reebok, claramente uma aluna graduada na Escola de Vestuário Jaine Austen.

Olá — ela me cumprimentou sorrindo. — É muita gentileza sua vir até aqui para me ajudar com o meu currículo.

Ora, não é nada — eu disse, ainda me cutucando por não lhe cobrar.

Falei a todas do Clube TPM que irei levá-la à reunião de hoje. Elas mal podem esperar para conhecê-la. Agora, entre que vou lhe mostrar o apartamento.

Ela levou-me para uma sala enorme, com teto alto e portas francesas que davam para a varanda.

Aqui é a sala de estar — explicou. — E o quarto. E o escritório. E sala de tevê. E a biblioteca.

Ah, é um apartamento tipo estúdio.

Isso mesmo. Venha ver o quarto.

Pam guiou-me até o canto da sala e ali, por trás de um biombo vitoriano, havia uma antiga cama com a cabeceira de latão, coberta com o que parecia ser uma colcha de reta­lhos feita à mão e uma enorme variedade de almofadas colo­ridas. Eu adorei a maneira como ela havia misturado os esti­los vitoriano e americano, salpicando por cima de tudo os mais diversos objetos encontrados em mercados de pulga e feiras de garagem. O apartamento inteiro era assim, uma mistura eclética de móveis, a maioria dos quais, eu suspei­tei, ela havia escolhido em lojas de segunda-mão.

Eu admiro as pessoas que conseguem juntar estilos diferentes e obter um resultado agradável. Quando elas fazem isso é "eclético". Quando eu faço, é bagunça.

Seu apartamento é fantástico — elogiei, admirando tudo.

Mas, espere — ela falou. — O tour ainda não termi­nou. Você ainda não viu a Parede da Fama de Pam Kenton.

Eu a segui por entre os móveis da sala.

Voilà! — ela disse, abrindo a porta do banheiro anti­quado, com os azulejos originais terrivelmente rachados e peças que tinham sido instaladas na época em que Fatty Arbuckle ainda usava fraldas.

Sem dúvida tem muita personalidade — falei.

Eu preferia um pouco de pressão na água, mas creio que tenho de me contentar com "personalidade".

E onde está a Parede da Fama?

Aqui — ela disse, apontando para uma parede co­berta de fotografias emolduradas. — Aqui estou eu, em to­dos os meus triunfos teatrais.

Cheguei mais perto a fim de ter uma visão melhor.

Aqui estou no papel de Stella na peça Um Bonde Chamado Desejo.

Puxa, que maravilha! O espetáculo foi na Broadway?

Não, fora da Broadway. A cerca de cinco mil quilômetros longe da Broadway, no Teatro Comunitário de West Corvina. Ah, e aqui estou no papel de Hedda Gabler. E nesta foto eu sou Felix Unger, na peça Um Estranho Casal encenada no meu colégio.

Você fez o papel de Felix Unger?

Era um colégio só de garotas. Fico bem de bigode, não acha? É bom saber disso, para quando a menopausa che­gar. Ah, e eis aqui o meu preferido, entre todos... eu interpre­tando uma berinjela num comercial de sopa de legumes.

Muito bom, mesmo.

É triste dizer, mas este foi o ponto alto da minha carreira. O comercial foi exibido em rede nacional e ganhei um bom dinheiro com isso. Mas, tudo bem—ela suspirou, guiando-me de volta para a sala. — Já chega de falar dos meus anos no show business. Está na hora de encarar a realidade e trabalhar no meu currículo. Gostaria de tomar um pouco de vinho?

Eu balancei a cabeça em negativa

Acho que não devo. Preciso estar com a mente bem desperta.

Você está absolutamente certa. Então, o que vai que­rer? Tinto ou branco?

Tinto.

Ótimo.

Pam apressou-se até o "bar", uma mesinha de ferro tipo "bistrô" onde havia um empoeirado garrafão de gim e duas garrafas de vinho com tampa de rosca.

—      Quer cheirar a rolha? — ela perguntou, entregando-me a tampa de rosca.

Eu ri enquanto ela nos servia o vinho. Nós nos acomodamos no espaçoso sofá revestido de chintz e começamos a trabalhar no currículo.

Então, que tipo de experiência você tem? — pergun­tei, tomando notas num caderninho.

Bem, há o trabalho como garçonete. Mas não posso usar isso.

É claro que pode.

Ela ficou em dúvida.

Trabalho de garçonete não parece muito importante.

—      Não, mas "Especialista em Serviços de Restaurante" parece.

Pam assentiu, feliz.

Sim, é verdade.

O que mais? — perguntei.

Trabalhei algum tempo como arquivista temporária.

"Engenheira Organizacional" — anotei. — O que mais?

Quando criança, eu vendia biscoitos com o grupo de meninas escoteiras.

"Especialista em arrecadação de fundos". Aquela altura ela já estava se animando.

Puxa, você é boa mesmo nesse negócio.

Pam me relatou os detalhes do seu histórico profissio­nal e eu lhe disse que concluiria o currículo até o final da semana.

—      Você não quer mesmo que eu lhe pague? — ela perguntou.

Sim! Diga que sim! Você quer ganhar algum dinheiro! Mas, como uma idiota, respondi:

Esqueça isso. Não é nada. Esse tipo de coisa eu faço até de olhos fechados.

Você é um amor. — Um sorriso de gratidão enfeitava o rosto dela. — Agora, deixe-me preparar o nosso jantar.

Pam se levantou e foi para a cozinha minúscula, meio oculta por trás de uma cortina de contas.

—      Sempre tem comida demais nas reuniões do clube — ela disse —, por isso providenciei apenas um lanche leve. — Saiu da cozinha trazendo dois sacos do Burger King. — E isso significa apenas uma porção de batatas fritas para nós duas.

Então, sorrindo, ela arrumou os hambúrgueres, bata­tas fritas e refrigerantes em cima de uma banqueta baixa que usava como mesinha.

Espero que não se importe de comer sanduíches. Eu não sou muito de cozinhar.

Nem eu — falei. — Eu só uso o forno para esquentar as minhas meias.

É mesmo? Eu uso o meu para secar os jornais.

Era óbvio que nenhuma de nós jamais representaria qualquer ameaça a Emeril.

—      Além disso — falei, espremendo o sachê de ketchup no meu hambúrguer —, eu adoro esses sanduíches.

E não era mentira. Passei a devorar o meu com todo gosto. E não estava sozinha nisso. Pam acompanhou-me nesta empreitada, mordida a mordida.

Quando finalmente paramos para respirar, conversamos um pouco. Eu falei sobre a minha vida como escritora, e ela me contou sobre a sua vida como atriz. E, acredite, eu saí ganhando. Não sei como os atores conseguem lidar com a rejei­ção. Você acredita que certa vez ela foi recusada para o papel de um cadáver porque não parecia suficientemente morta?

Pam perguntou sobre a minha vida amorosa e, depois de uma boa gargalhada, expliquei que atualmente ela se en­contrava na lista das espécies com risco de extinção. Contei sobre o meu desastroso casamento com "O Bolha". E assim que eu chamo o meu ex-marido. Ele parecia ser perfeitamente divino quando o conheci. Nem um defeito à vista. Nem uma pista do homem que, depois de algum tempo, passou a palitar os dentes com clipes e assistir futebol enquanto fazíamos sexo.

Ela balançou a cabeça, solidária.

Eu sei como você se sente. O meu casamento tam­bém foi um fracasso.

É mesmo? O que houve de errado?

Tudo. Nós brigávamos o tempo todo, implicávamos um com o outro, gritávamos, atirávamos abajures um no outro. E isso foi só na lua-de-mel.

Ela enfiou a última batata frita na boca e olhou no relógio.

—      É melhor nos apressarmos ou vamos chegar atrasa­das na reunião. Hora de lavar a louça! — Pam pegou um cesto de lixo e jogamos as nossas embalagens e guardanapos de papel. — Tudo pronto! — exclamou enquanto limpa­va as mãos na calça de moletom.

Evidentemente ela era também uma aluna graduada na Escola de Prendas Domésticas de Jaine Austen.

Pam foi dirigindo o seu maltratado Nissan Sentra pela Sunset até Brentwood.

—      Então, conte-me mais sobre este clube — eu pedi enquanto passávamos pelas mansões trilhardárias da Sunset Boulevard.

—      Bem, já faz um ano que nos reunimos. Quase todas as integrantes se conheceram no Racquet Clube de Los Angeles.

—      É aquela academia "chique" no oeste da cidade? Pam fez que sim com um gesto de cabeça.

Eu havia acabado de receber o pagamento pelo comercial da sopa de legumes e estava me sentindo "a maior". Então me inscrevi na academia, num impulso.

O lugar não é muito esnobe?

Algumas pessoas são, mas as garotas do TPM são realmente ótimas. Nós nos conectamos imediatamente.

Fale-me sobre elas.

Vejamos... Primeiro, há Rochelle. Ela é a anfitriã das reuniões, todas as semanas.

Todas as semanas? Ela não se incomoda?

De jeito nenhum. Ela faz questão disso, pois adora receber. Acho que ela memorizou todos os livros escritos por Martha Stewart. Rochelle é capaz de cozinhar qualquer coi­sa. Se pudesse fazer a sua própria água, ela faria. Enfeita os copos de margaritas com guarda-chuvinhas coloridos e co­loca bandeirinhas do México nas empanadas que ela mesma prepara.

Bandeirinhas do México?

Eu sei, é difícil de acreditar. Mas devo dizer que ela faz a melhor guacamole que já comi em toda a minha vida. Ela diz que o seu ingrediente secreto é um tantinho de suco de laranja. Seja o que for, é fantástico.

Quer dizer que Rochelle é a líder do grupo?

Ah, não! Longe disso. E é o mais engraçado, no que se refere à Rochelle. Por mais que adore receber as pessoas, ela é muito retraída. Ela se limita a ficar andando de um lado para outro, servindo margaritas, certificando-se de que to­dos estão comendo. Tem a tendência de sumir no ambiente, mas é uma pessoa muito doce e gentil. Sempre solidária quando uma de nós tem algum problema. Com seu jeito tímido, acho que ela é quem mantém o grupo unido.

E quanto às outras integrantes do clube?

Como eu disse, são todas ótimas. — Então ela fran­ziu a testa. — Exceto por Marybeth, talvez.

Quem é Marybeth?

É uma decoradora de interiores. Muito bem-sucedida.

O que há de errado com ela?

Você descobrirá por si mesma, muito em breve — ela disse, entrando numa rua arborizada. — Aqui estamos.

Estacionou diante de uma magnífica casa em estilo colo­nial, cintilando branca como pasta de dente sob a luz da lua. Eu assobiei baixinho.

—      Bela casa.

—É o orgulho de Rochelle. Ela está sempre redecorando. Acho que não existe nem um cômodo que ainda esteja como era no original. Minha teoria é de que a casa é um substituto para os filhos que ela não teve.

Ah?

Rochelle e o marido não puderam ter filhos, então ela despeja toda a sua energia maternal sobre a casa.

Muito interessante.

Pode me chamar de dra. Freud. É uma pena que eu não consiga curar as minhas próprias neuroses. — Pam des­ligou o motor e virou-se para mim com um sorriso. — Acho que está na hora de atacarmos aquelas margaritas.

Então eu encolhi a barriga, afofei os cabelos e me encaminhei para a minha primeira reunião do Clube TPM.

 

Rochelle Meyers podia ser obcecada com a casa, mas certa­mente não se preocupava muito com a própria aparência. Ela nos recebeu na porta usando calça jeans baggy] e uma ca­misa jeans larga demais, com um pano de prato pendurado no ombro. Os cabelos castanhos e finos precisavam desesperadamente de um bom corte e não pude deixar de perceber a barriguinha saliente por baixo da camisa jeans.

—      Olá. — Ela sorriu timidamente e seu rosto rubori­zou. — Você deve ser Jaine. Eu sou Rochelle. Vamos entrar.

Ela nos levou a um vestíbulo do tamanho da minha sala de jantar.

—      Por que vocês não se acomodam na sala? Eu ainda preciso cuidar de algumas coisinhas na cozinha.

E, com isso, ela afastou-se apressada pelo corredor.

—      Rochelle está sempre cuidando de alguma coisa na cozinha — Pam comentou enquanto me conduzia até uma imensa sala de estar bege-e-branca, decorada com muito bom gosto, com uma enorme lareira de pedras e dois sofás do tamanho de locomotivas.

Uma senhora esguia e de cabelos grisalhos, na faixa dos sessenta, estava sentada num dos sofás e estendia a mão para uma vasilha de cristal cheia até a borda de gordas macadâmias. Eu olhei as macadâmias avidamente. Mal podia espe­rar para pegar algumas delas.

Sim, eu sei, eu tinha acabado de comer um hambúrguer com batatas fritas. O que posso dizer? Eu não tenho jeito, mesmo.

Olá, Doris — Pam cumprimentou a senhora grisa­lha. — Quero que conheça a minha amiga Jaine. Jaine, esta é Doris Jenkins.

Bem-vinda ao hospício — Doris sorriu.

Como Pam e Rochelle, ela usava pouca maquiagem, sem fazer qualquer tentativa de encobrir as rugas, que davam ao seu rosto uma confortável expressão de estabilidade.

Eu afundei no sofá e me servi de um punhado de macadâmias.

Jaine é escritora — disse Pam. — Ela está me ajudan­do a redigir o meu currículo.

Uma escritora? É mesmo? Estou impressionada. Para mim, escrever é tão doloroso quanto arrancar um dente.

Para mim também — eu disse. — Mas isso não me detém. Então — juntei, enquanto comia mais uma macadâmia —, Pam me contou que vocês todas se conheceram no Racquet Clube de Los Angeles.

Sim, é verdade — Doris concordou. — Eu me lembro muito bem. Eu havia acabado de perder oitenta e cinco qui­los de gordura nociva.

É mesmo?

É. Eu me divorciei.

Era uma piada velha, mas ela riu com gosto. Gargalhou, na verdade. Uma gargalhada alta, rouca e prazerosa.

—      Foi o dia mais feliz da minha vida, quando me livrei daquele traste.

Naquele instante um rapaz extremamente atraente, de vinte e tantos anos, entrou flanando na sala, carregando uma bandeja com copos de margarita. Eu pisquei, surpresa. O que um homem estaria fazendo ali?

—      Você deve ser Jaine Austen — ele falou enquanto colocava a bandeja sobre a mesa de centro. — Eu adoro os seus livros.

Normalmente eu gemo com desânimo quando as pes­soas me dizem isso, mas desta vez me apanhei sorrindo. Havia algo naquele rapaz que me cativava. Mas não de uma maneira sexual. Os meus aguçados poderes de dedução me diziam que ele era gay. Ainda mais quando ele disse:

Eu sou Colin Lambert, o gay de estimação do clube.

Como conheceu as outras integrantes? — perguntei. — Você também freqüenta a academia?

Ah, não. Eu sou o servo sob contrato de Marybeth. Bem, tecnicamente sou o designer assistente. Mas parece trabalho escravo, principalmente quando ela me liga às três da madrugada e me pede para "dar um pulinho" até a casa dela com algumas amostras de tecido. O que, aliás, foi o que ela fez na noite passada. Sem brincadeira. Às três da madrugada.

Ele atirou-se no sofá com um suspiro.

Preciso de uma bebida — disse, pegando um copo de margarita.

Eu também, amor! — ressoou uma voz alta, enrouquecida. — Eu também!

Olhei para cima e vi uma loira alta com um cabelo enor­me, lábios enormes e peitos enormes para combinar. Ela pa­recia estar na faixa dos trinta, mas ali era Los Angeles, a capi­tal mundial da cirurgia plástica. Pelo que eu sabia, ela poderia estar vivendo de aposentadoria. A mulher entrou pela sala numa nuvem de perfume caro.

—      Me desculpem o atraso. Liquidação de sapatos na Ferragamo. Tantos saltos-agulha, tão pouco tempo...

Ela pegou uma margarita, jogou o guarda-chuvinha para o lado e praticamente aspirou a bebida num só gole.

—      Jaine — disse Pam —, esta é Ashley, a nossa sócia viciada em compras.

—      Prazer em conhecê-la, querida. — Ashley tirou os sa­ patos e sorriu. — Pam disse que você é gente como a gente.

Eu esbocei o que esperava ser um sorriso de gente-como-a-gente.

Onde está Rochelle? — ela perguntou, olhando em volta da sala.

Na cozinha — disse Pam. — Como sempre.

Rochelle! — Ashley gritou. — Traga o seu bumbum já para cá! Você não pode ficar na cozinha a noite inteira!

Segundos depois Rochelle entrou na sala apressada, trazendo uma tigela de guacamole com a aparência mais deli­ciosa que eu já tinha visto, ornamentada com gigantescos pedaços de abacate. Entre as macadâmias e o abacate, parecia que eu acabara de morrer e fora para o paraíso das calorias.

—Espero que não esteja apimentada demais — Rochelle falou, a testa franzida de preocupação.

—      Nunca está apimentada demais, Rochelle — disse Colin. — Está sempre maravilhosa.

Ela deixou a vasilha na mesa de centro e todos nós a atacamos, pegando bocados com nossos chips como se fôs­semos abutres.

Está divina — eu disse. E estava mesmo.

Tem certeza de que não está muito apimentada?

Não, não está nada apimentada.

Então tem pouca pimenta?

Rochelle, está deliciosa! — disse Pam. — Agora sen­te-se, pegue uma margarita e pare de ficar obcecada.

Espere. Preciso buscar as empanadas.

Antes que eu me desse conta ela já estava voltando da cozinha com um prato enorme, cheio de empanadas feitas em casa, crocantes e assadas à perfeição. Cada uma delas exibia uma bandeirinha do México.

—      Espero que a massa não esteja muito pesada — Rochelle falou, franzindo a testa.

— Rochelle! — Pam obrigou-a a sentar no sofá e entregou-lhe um copo de margarita. — Beba — ordenou. Rochelle tomou um gole. — Agora relaxe e se embriague conosco. — Alguém me passe as empanadas! — disse Doris. — Vamos atacar. — Não vamos esperar Marybeth? — Rochelle perguntou. — Não seja boba — disse Colin. — Isso pode demorar a vida inteira. Você sabe como ela gosta de fazer uma entrada triunfal. — Ele voltou-se para mim, explicando: — Marybeth sempre espera até ter certeza de que todos chegaram e então irrompe com alguma "notícia deliciosa". — É assim que ela fala? Notícia deliciosa? — Infelizmente, sim. — Pam girou os olhos para o alto. — Marybeth é a pessoa mais incansavelmente animada que já conheci. — É mesmo — Colin afirmou. — Como Shirley Temple tomando estimulantes. — É verdade — Ashley concordou, pegando outra margarita. — Eu acho que ela toma antidepressivos na veia. — Ela está sempre nos dando sermões, sobre como devemos ver o lado positivo das coisas — disse Pam. — Se ela me disser mais uma vez para olhar o lado positivo, vou enfiar-lhe a minha bandeirinha mexicana vocês sabem onde. — Ora, vocês são terríveis — Rochelle aparteou. — Não lhes dê ouvidos, Jaine. Marybeth é uma pessoa maravilhosa. Ela tem me ajudado a redecorar o banheiro principal nos últimos seis meses e descobri que é muito divertido trabalharmos juntas. Todos na sala gemeram. — Está bem, talvez ela exagere um pouco às vezes mas, basicamente, é uma pessoa interessada e atenciosa. — Sim, ela é muito atenciosa — disse Colin. — E é por isso que ligou para o meu celular no meio do casamento do meu primo para pedir que eu lhe levasse um cappucino. — Shh — Doris cochichou. —Acho que a ouvi chegando.

E, por certo, logo a campainha tocou. — Ela sempre toca a campainha — Pam revelou —, mesmo sabendo que a porta está aberta. Ela precisa anunciar sua chegada. — Pode entrar — Rochelle gritou. Uma súbita tensão preencheu o ar. E então Marybeth Olson irrompeu na sala. Ela não era nada do que eu estava esperando. Já vi a minha quota de programas com decoradoras no Canal Casa & Jardim, todos elas esguias, sofisticadas e magras até os ossos. Mas Marybeth parecia alguém que acabara de sair de uma fazenda leiteira. Fresca e saudável, os cabelos loiros muito claros e os mais admiráveis olhos verdes que já vi, tão verdes quanto o par de brincos de esmeraldas falsas da mi¬nha mãe. A única maquiagem em seu rosto era um leve ba¬tom vermelho-cintilante. E, embora não fosse nem um pou¬quinho gorda, estava longe de ser aquele tipo palito que eu havia imaginado. Quando Pam nos apresentou ela tomou a minha mão e cumprimentou-me calorosamente. — Fico tão feliz por você ter se juntado a nós, Judy. — Na verdade, é Jaine. — Desculpe — ela disse, enviando-me um sorriso radioso. — Eu sempre confundo os nomes com J. Então ela espremeu-se no sofá entre Doris e Colin, obrigando Colin a se mover até a beirada do assento. — Pegue uma margarita, Marybeth — disse Rochelle. — E coma um pouco de guacamole. — Ela se levantou e passou a vasilha de guacamole para Marybeth. Marybeth lançou outro sorriso fulminante para Rochelle. — Parece deliciosa. — Espero que não esteja muito apimentada. — Não está muito apimentada! — todos gritaram ao mesmo tempo. — Muito bem, senhoras e senhor — Doris falou, batendo o guarda-chuvinha de coquetel contra o copo de margarita. — A reunião semanal do honorável Clube TPM está declarada aberta. Alguma novidade? Sem perda de tempo Marybeth foi a primeira a falar. — Eu tenho uma notícia deliciosa! Pam me deu um cutucão na costela. — Um dia desses, só por diversão, decidi comprar um bilhete de loteria, e vocês nem imaginam o que aconteceu! — Você ganhou? — Pam piscou, incrédula.

— Sim! — Marybeth remexeu na bolsa e fisgou um bi¬lhete de loteria. — Não é maravilhoso? — Beijou o bilhete com os lábios cintilantes. — Mas não é grande coisa. Apenas cinqüenta mil. Apenas cinqüenta mil? — Os ricos ficam mais ricos — Pam murmurou por entre os dentes. Aquela quantia talvez não fosse grande coisa para Marybeth, mas compraria um bocado de hambúrgueres para alguém como eu. — Isso é ótimo! — Rochelle exclamou, encantada. Os outros murmuraram palavras de congratulações com uma evidente falta de entusiasmo. — Alguém mais tem uma notícia deliciosa? — Doris perguntou. — Na verdade, eu tenho boas notícias — disse Pam. — Jaine, aqui presente, concordou em redigir um currículo para mim. — A saúde de Jaine! — Ashley bebeu um generoso gole da sua margarita. Algo me dizia que ela teria brindado até mesmo a Hitler, se achasse que assim conseguiria mais um gole. — Esta é a boa notícia — Pam continuou. — A má notícia é que fui rejeitada para outro papel nesta semana. A diretora de elenco me deixou esperando durante três horas e depois nem se deu ao trabalho de fazer o teste comigo. Ela disse que já havia escolhido outra pessoa. Não teria sido tão ruim, só que eles tomaram a decisão duas horas antes e nin¬guém me avisou. Ela me fez ficar sentada, ali, a tarde inteira para nada. E nem mesmo pediu desculpas. Os integrantes do clube TPM encheram-se de justificada indignação. — Que pessoa horrível! — Colin indignou-se. Bem, não foi exatamente isso que ele disse. Ele falou aquela palavrinha de cinco letras que rima com "queda". Aqueles entre vocês que pensaram em "cerda", erraram. — Um brinde àquela diretora de elenco de (pi-pi-pi)! — Ashley ergueu o copo em mais um brinde. — Que ela pegue uma herpes! Todos erguemos os copos e bebemos àquele brinde sincero. — Então, quem mais tem novidades? — Ashley perguntou olhando a sua volta. — Bem — Doris falou, respirando fundo —, eu tive um encontro neste fim de semana. Por meio de um serviço de namoros por vídeo. — Conte tudo — Colin pediu.

- Foi um pesadelo. O sujeito escreveu em seu perfil que tinha 62 anos. E tenho certeza de que ele tinha 62 anos... vinte anos atrás. Só sei que ele tinha pelo menos 80 quando o conheci, neste sábado. Que encontro. Passei a noite inteira lhe dando tapas. — Para manter as mãos dele longe de você? — Não, para mantê-lo acordado. — E você acha que isso é ruim? — Colin falou. — Lembram-se daquele sujeito para quem dei o número do meu telefone na loja Williams Sonoma? Aquele que achei parecido com Kyan do Queer Eye? Pois bem, ele ligou. — Mas isso é ótimo — disse Rochelle. — Nem tanto. Acontece que ele é um vendedor de seguros. Comprei um seguro de vida no valor de 25.000 dóla¬res antes de descobrir que ele é casado e tem três filhos. — Um brinde ao vendedor de seguros — disse Ashley. — Que ele pegue a herpes da diretora de elenco! Todos nós bebemos a isso também. Pam estava certa quanto ao clube. Eu estava me divertindo imensamente. Só esperava poder passar por aquela noite sem ter de falar sobre mim. Por mais amigável que o grupo parecia ser, eu ainda não me sentia totalmente à vontade para desabafar meus problemas diante de todos eles. Mas aparentemente eu iria ficar sob os holofotes, no fim das contas. Porque naquele mesmo instante percebi que Marybeth me encarava com uma expressão avaliadora. — E quanto a você, Julie? O que está acontecendo na sua vida? — O meu nome é Jaine, na verdade. — Ah, puxa! Desculpe. Eu sou péssima para lembrar nomes. É de surpreender que ainda me restem alguns clientes. — Eu também me surpreendo — ouvi Colin murmurar. Marybeth lançou-me um sorriso que pretendia ser simpático e disparou: — Vá em frente. Conte-nos como vai a sua vida. Algum namorado? Por que eu tinha a impressão de que ela já sabia toda a verdade a meu respeito, que eu era apenas mais uma garota sem namorado em Los Angeles, cujo último encontro era uma lembrança distante e, aliás, bem desagradável? — Bem, para ser sincera eu estou namorando um ator. Ele até que é famoso. Eu não deveria estar me gabando para vocês mas, que mal há nisso? As iniciais dele são Denzel Washington. Ok, não foi isso que eu disse. Limitei-me a sorrir e fiz um comentário ligeiro sobre o fato de que a paisagem da minha vida social assemelhava-se a uma devastação nuclear, e os outros voltaram a atenção para Rochelle. — Então, Rochelle — Doris perguntou. — Como estão as coisas com Marty? Rochelle levantou-se num pulo e encaminhou-se para a cozinha. — Quem quer mais empanadas? — Rochelle — Doris comandou. — Volte aqui. Rochelle tornou a sentar no sofá, suspirando. Marybeth inclinou-se e tomou-lhe a mão. — Vamos lá, querida — ela disse. — Você pode nos contar tudo. É para isso que estamos aqui. Rochelle fitou-a com gratidão e depois respirou fundo. — As coisas com Marty não vão muito bem. Ele quase não conversa comigo. Chega tarde em casa todas as noites e diz que estava trabalhando. É isso que eu não entendo. Que dentista trabalha até meia-noite? Ela balançou a cabeça com um ar infeliz e baixou os olhos para as unhas que, eu pude ver, estavam roídas até a pele. — Quando ele chega em casa, a primeira coisa que faz é ir tomar banho. Eu vi no programa da Oprah, outro dia, que este é um sinal de que seu marido está tendo um caso. — Ela ergueu a cabeça. — O que vocês acham? — perguntou, os olhos arregalados de preocupação.—Vocês acham que Marty está tendo um caso? Ninguém falou nada. Ninguém teve coragem de dizer o que todos estavam pensando, que, é claro, Marty estava tendo um caso e ela deveria acordar para a vida e conseguir o nome de um bom advogado especialista em divórcios. — É difícil dizer, Rochelle — Pam finalmente conseguiu opinar.

Homens... — Ashley manteve os olhos fixos no seu copo de margarita. — Que bando de idiotas. Pelo menos de pois que apanhei o meu marido me traindo com a nossa vi­zinha de dezessete anos, ele teve a consideração de morrer e me deixar uma batelada de dinheiro. Ela levantou o copo num brinde.

Ao meu marido, Roger. E se houver herpes no infer­no, espero que ele pegue.

Tim-tim — Pam brindou, e todos erguemos nossos copos.

Marybeth balançou a cabeça com desaprovação.

Vocês são terríveis. Um bando de Marias-Negativas. Para sua informação, existem muitos homens bons por aí. Na verdade, acabei de encontrar não apenas um, mas dois deles.

Imagino que você vá nos contar tudo sobre isso — Pam suspirou com desânimo.

Marybeth estendeu a mão para a vasilha de macadâmias que eu já havia praticamente demolido.

—      Passe as macadâmias, sim, June?

Receio que eu já tenha comido quase todas — falei ao lhe passar a vasilha.

Não tem problema — Rochelle falou, levantando-se no mesmo instante. — Tenho mais na cozinha.

—Não se incomode, querida — disse Marybeth. — Ain­da sobraram algumas. — Ênfase no algumas.

Àquela altura eu já estava firmemente entrincheirada na turma anti-Marybeth.

Marybeth examinou as macadâmias cuidadosamente.

Não tem nenhum amendoim aqui, não é, Rochelle?

Meu Deus, é claro que não! Nenhum amendoim, só macadâmias. Você sabe que eu jamais serviria amendoins.

Lancei um olhar intrigado para Pam.

—      Marybeth é alérgica a amendoins — ela explicou.

         Satisfeita por não haver nenhum ofensivo amendoim na tigela, Marybeth colocou uma macadâmia na boca e nos fez esperar enquanto mastigava e engolia, antes de começar a falar sobre os seus dois bons homens.

O primeiro era um decorador que ela conhecera duran­te uma recente viagem a Nova York.

Rene é um verdadeiro gênio — ela borbulhou. — E vocês nunca irão adivinhar o que ele irá fazer!

Tem razão, Marybeth — disse Pam. — Nós nunca adivinharemos. Então por que não nos diz?

Ele vai se mudar para Los Angeles e será o meu só­cio! Não é uma notícia maravilhosa?

Todos concordaram, com evidente ausência de entusias­mo, que era uma notícia maravilhosa. Todos exceto Colin, que nem mesmo se deu ao trabalho de colar um sorriso falso no rosto. Ao contrário, sua expressão era de pura raiva.

—      E, agora, a melhor notícia de todas! — Marybeth anunciou, iluminando-se.

Que introdução triunfal. Fiquei surpresa por ela não ter trazido uma fanfarra.

Eu conheci um homem especial!

Isso é fantástico — Rochelle incentivou, com um sor­riso sincero no rosto, o único sorriso sincero naquela sala. — Quando aconteceu?

Ah, nós temos nos encontrado há alguns meses.

E você não nos disse nada?

Eu não queria dar chance para o azar. Quis ter certe­za de que era sério mesmo. — Marybeth sorria, encantada. — E é. Nós vamos nos casar.

Todos murmuraram seus parabéns, exceto Colin, que continuava com a expressão fria de raiva. Se Marybeth repa­rou, não fez qualquer comentário.

—      Nós estamos tão apaixonados — ela desabafou, me­losa. — Tão loucamente apaixonados.

—      Conte-nos sobre ele — Rochelle pediu. Marybeth apenas sorriu recatadamente.

—      Não, ainda não. Vou guardar para a próxima semana. Ashley suspirou exasperada.

Isso é bem você, Marybeth, nos manter na expectati­va durante uma semana.

Ora, querida, não seja assim tão apressadinha — Marybeth falou, apertando os lábios cintilantes num biquinho perfeito.

Argh. Colin tinha razão. Ela era mesmo Shirley Temple à base de estimulantes.

Com licença, acho que vou vomitar.

Logo depois do anúncio de Marybeth as últimas margaritas foram engolidas e a reunião deu-se por encerrada. Pam começou a tirar os pratos da mesinha de centro e os outros passaram a ajudá-la.

Vocês não precisam fazer isso — Rochelle protestou. — Posso limpar tudo sozinha.

Nós sabemos que você pode — disse Pam —, mas não vai.

Eu ajudei um pouco na cozinha e depois pedi licença para ir ao banheiro.

Estava seguindo pelo corredor na direção do banheiro quando vi Colin na sala de jantar, falando no telefone celu­lar. Xereta que sou, parei para escutar.

—      Eu queria matar aquela cadela — eu o ouvi sussur­rar. — Ela havia me prometido a sociedade.

Então, isso explicava porque ele ficara com tanta raiva.

Era engraçado, pensei enquanto cheirava o sabonete francês no lavabo, que, com exceção de Rochelle, não havia nem sequer uma pessoa no Clube TPM que estivesse feliz por Marybeth.

Para alguém que pregava as maravilhas do pensamen­to positivo ela certamente conseguira espalhar um bocado de energia negativa.

 

Depois de agradecer Rochelle e lhe assegurar mais uma vez que a guacamole não estava apimentada demais, segui­mos para os nossos carros. Era uma variedade impressio­nante. Doris tinha um Audi; Colin, um BMW; Ashley tinha um Jaguar e, Marybeth, um Porsche. Verdade que o BMW de Colin tinha no mínimo uns dez anos, mas era um BMW. Evi­dentemente Pam e eu éramos as únicas integrantes de baixa-renda do clube.

Colin despediu-se brevemente e entrou no carro.

Tchauzinho, Colin! — Marybeth acenou.

Tchauzinho uma droga — ele murmurou. Só que não usou a palavra droga.

O que há de errado com ele? — Marybeth perguntou com os olhos arregalados de inocência, enquanto ele se afas­tava. — Ah, tudo bem. O que quer que seja, ele vai superar. Ele sempre supera.

Então ela entrou no seu Porsche prata, acenou para to­das nós com dois dedinhos e saiu em disparada.

Fiquei olhando perplexa enquanto ela corria pela rua abaixo, "cantando" os pneus, queimando borracha. Eu já vira motoristas mais cuidadosos em Indianápolis. Certamente ela não conseguia descontos no seguro por ser boa motorista.

Aquela mulher é um acidente esperando por aconte­cer — Pam falou, balançando a cabeça. — Me admira que ela ainda não tenha acabado numa vala qualquer.

Sabe em que eu não consigo acreditar? — disse Do­ris. — Não consigo acreditar que ela tenha trazido aquele sujeito de Nova York para ser sócio da sua empresa. Depois de todos estes anos prometendo a Colin que ele seria o sócio.

—      Assim é Marybeth. — Ashley encolheu os ombros. Doris suspirou concordando e as duas entraram em seus respectivos carros.

Depois que elas partiram, Pam virou-se para mim e sorriu.

Adivinhe? Nós conversamos enquanto você estava no banheiro e queremos que você faça parte do clube!

É mesmo?

Então, o que acha?

Eu tenho de admitir que fiquei lisonjeada. A última vez que me convidaram para fazer parte de alguma coisa foi no Clube das Meias-Calças da Loja Macy's. — Compre dez pa­res e ganhe o décimo primeiro. — E, agora que Kandi estava me abandonando pelo altar, eu estava definitivamente à pro­cura de novas amigas. Sem mencionar as margaritas grátis. E daí que Marybeth era uma chata? As outras eram muito divertidas.

E assim, num impulso do qual me arrependeria profundamente, eu disse sim.

 

É claro que, na ocasião, eu não tinha a mínima idéia de toda a porcaria que acabaria batendo no meu ventilador. Minha maior preocupação, no momento, era a entrevista no Banco Union National. Já se passara uma eternidade desde a últi­ma vez em que eu trabalhara para uma grande corporação. A minha última entrevista de emprego havia sido com um grupo bem menos importante — a Empresa de Mudanças e Guarda-Móveis Big Al, para um serviço "moleza": redigir o anúncio da empresa para as Páginas Amarelas.

Enquanto eu subia pelo elevador do prédio do Banco Union National no dia seguinte, borboletas revoavam ale­gremente no meu estômago. Desci no andar da administra­ção e me vi num lugar que mais parecia um clube inglês ex­clusivo para cavalheiros: piso de madeira reluzente salpicado de tapetes persas, enormes poltronas de couro e — no centro de tudo isso — uma aristocrática recepcionista de cabelos grisalhos, com um nariz adunco e maçãs-do-rosto tão cor­tantes que poderiam até abrir envelopes.

Aproximei-me da sua mesa, uma imaculada escrivani­nha de cerejeira com absolutamente nada em cima, exceto um telefone e um vaso com rosas perfeitas. Limpei a gargan­ta e disse a ela que estava ali para uma entrevista com Andrew Ferguson, marcada para as dez horas. Ela me olhou de cima a baixo, dando-me uma examinada geral como se fosse a rainha Elizabeth inspecionando um dos seus cachorros à procura de pulgas. Fiquei contente por estar usando o meu terninho Prada.

Sim, eu, a Jaine Austen do Galpão da Pechincha, atualmente sou proprietária de um terninho Prada, lembrança de um assassinato em que estive envolvida no ano passado, e sobre o qual você pode ler no "Sapatos de Arrasar", disponí­vel em todas as boas livrarias.

Se me permitem dizer, eu estava muito elegante. Ainda bem que a rainha Elizabeth não podia ver que, por baixo do casaquinho Prada, a minha calça Prada estava desabotoada na cintura.

A rainha assentiu brevemente e, num sotaque britânico que desconfiei que ela aprendera assistindo aos antigos fil­mes de Greer Garson, disse:

— Sente-se, por favor. O sr. Ferguson irá atendê-la num instante.

Eu me sentei conforme fora instruída, lembrando-me de, sob nenhuma circunstância, permitir que meu casaco se abrisse e revelasse o botão aberto na cintura.

Todas as vezes em que pensava naquele botão na cintu­ra eu tinha vontade de esganar Prozac. Era por culpa dela que a minha barriga estava pendendo num rolo repugnante. Eu havia planejado usar uma nova meia-calça que prometia controlar o volume da barriga com um modelador de cintu­ra. Eu a deixara em cima da cama naquela manhã, antes de entrar no chuveiro, mas quando saí ela havia desaparecido.

Prozac escondera a meia-calça, claro. Eu soube disso no instante em que vi o sorrisinho satisfeito em seu rosto en­quanto me observava procurar a meia-calça perdida. Eu de­cidira colocá-la de volta na dieta naquela manhã e, evi­dentemente, ela resolvera se vingar.

Procurei em baixo da cama e atrás das almofadas do sofá, dois dos seus lugares favoritos para esconder as coisas. Nenhum sinal da meia-calça. Provavelmente ela a enterrara na caixinha de areia onde fazia as necessidades. Ela fez isso certa vez com o meu sutiã, quando ficou brava por eu ter atrasado o seu jantar. Eu não consegui enfrentar a visão de uma meia-calça de vinte dólares enterrada sob cocô de gato, então peguei um par de meias, acabei de me vestir e corri para a minha entrevista com Andrew Ferguson.

Chequei as horas. Dez e quinze. A rainha Elizabeth olha­va para o espaço, evitando meu olhar, determinada a não se engajar num bate-papo frívolo com tipos como eu.

Eu deveria ter aproveitado o tempo para rever a minha pesquisa sobre o Union National, mas estava ocupada de­mais irritando-me com o rolo de gordura que pressionava a cintura da minha calça, e que não estaria ali se eu estivesse usando a meia-calça controladora de volume e modeladora de cintura.

—      Srta. Austen?

Olhei para cima e todos os pensamentos sobre a minha flacidez voaram pela janela.

Parado a minha frente estava um "gato" da mais eleva­da magnitude. Alto e esguio, com a aparência juvenil pela qual eu tenho uma especial fraqueza. Nada de sujeitos grandalhões e megamusculosos para mim. Eu prefiro a va­riedade sensível, artística e pendendo para o lado mais ma­gro. Imagino que deva ser algo do tipo "opostos que se atraem". De qualquer forma, o que quer que fosse que me atraísse, aquele homem tinha, e muito.

—      Eu sou Andrew Ferguson — ele disse, estendendo a mão. — Muito prazer em conhecê-la.

Não sei quanto tempo fiquei parada ali olhando o pomo de Adão dele antes de me dar conta de que deveria estar apertando-lhe a mão. Mas finalmente acordei e murmurei algo excepcionalmente inteligente, como:

—      Humm... Igualmente

Eu o segui para dentro do escritório, fascinada pela maneira como os seus cabelos castanho-claros enrolavam-se na dobrinha da sua nuca.

Santo Deus. Eu sentira aquele tipo de atração por ape­nas três homens na minha vida. O primeiro acabou revelando-se um mentiroso sociopata. O outro era um estudante num seminário e o terceiro acabou se transformando no "O Bo­lha", o sujeito que realmente usou sandálias de borracha no nosso casamento. Portanto você pode ver que não tenho lem­branças muito agradáveis, no que se refere aos homens que fizeram o meu ponto-G cantarolar. E foi por isso que decidi, naquele momento, refrear todos e quaisquer sentimentos lascivos que eu tivesse por Andrew Ferguson.

Não foi fácil, mas quase consegui ignorar o seu sorriso de canto da boca e prestar atenção enquanto ele me falava sobre o trabalho de editora free-lance do jornal interno men­sal do banco.

Você poderia escrever os perfis dos funcionários. Sabe, coisas do tipo funcionário-do-mês. Os gerentes das agências lhe passariam as notícias sobre promoções e outras coisas. E gostaríamos que você fizesse a cobertura de todos os eventos que o banco patrocina. O que acha? Parece algo em que você estaria interessada?

Isso depende. Você é casado?

Ok, é claro que não foi isso que eu disse. O que eu dis­se foi:

Sim, parece ótimo.

O salário é de quarenta mil por ano.

Quarenta mil dólares por ano? Para fazer um jornalzinho que provavelmente não me tomaria mais do que uma sema­na por mês? Uau. Eu tinha morrido e estava no paraíso dos holerites!

Bem, nem tanto, lembrei a mim mesma. Eu ainda não conseguira o emprego. Longe disso, aliás.

Então — Andrew falou, pousando a palma das mãos na mesa, esperando que o show começasse. — Vamos dar uma olhada nas amostras dos seus textos, está bem?

Felizmente eu já fizera alguns trabalhos como jorna­lista [i]free-lance[/i] no passado. Assuntos de interesse humano, clubes de jardinagem. Hidroginástica para idosos na Asso­ciação Cristã de Moços. A Olimpíada Anual de Frisbee para Cães em Santa Mônica. Não era exatamente Woodward e Bernstein. Mas o jornalzinho [i]Conversa-Fiada[/i] do Union Na­tional não era exatamente o Washington Post, portanto eu es­perava ter uma chance de conquistar aqueles quarenta mil dólares.

Aja com confiança, disse a mim mesma enquanto abria a minha pasta de textos. Você tem trabalhos muito bons aqui. Tan­to quanto sabe, talvez ele fique fascinado com o seu texto sobre octogenários se exercitando em piscinas.

Mas quando abri a minha pasta o desastre se instalou. Alguma coisa pulou para fora, além do meu livro de amos­tras. Alguma coisa bege, molenga e de tamanho GG. Ai, meu Deus! Era a meia-calça modeladora de cintura! Caída, toda arreganhada, no meio do risca-rabisca Mark Cross de Andrew Ferguson! Com a parte de baixo de algodão olhando direto para ele.

Então fora ali que Prozac a escondera!

Aquele só podia ser um dos dez momentos mais humilhantes da minha vida. Nós dois ficamos parados ali pelo que pareceu uma eternidade, olhando aquela maldita "coi­sa". Eu queria falar, me desculpar, mas estava paralisada de vergonha.

Finalmente Andrew rompeu o silêncio. Ele sorriu e disse:

—      Você tem algum modelo do tipo "arrastão"? Agarrei a meia-calça e tornei a guardá-la dentro da pas­ta, transformando-me imediatamente de muda para tagarela.

Ah, meu Deus, isso é tão constrangedor. Tudo por culpa de Prozac...

Prozac? Você está em tratamento com remédios?

Não, Prozac é a minha gata. Ela está furiosa porque voltei para casa com o hálito cheirando a chimichangs e colo­quei-a numa dieta e queria que ela comesse a ração saudável de tripas de hadoque mas acabei cedendo e lhe dei o atum que ela tanto gosta mas hoje cedo eu a obriguei a voltar para a dieta e...

Eu atropelava as palavras como uma idiota e não con­seguia me conter. Ah, tudo bem. Que importância tinha isso? Aqueles quarenta mil "já eram". Eu me despedira daquele emprego no instante em que os olhos de Andrew Ferguson tinham se encontrado com o forro de algodão da minha meia-calça.

O restante da entrevista flutuou num borrão mortificante. Eu via os lábios de Andrew se movendo mas mal ouvi uma palavra do que ele falava. Alguma coisa sobre me ligar caso estivessem interessados. Finalmente ele se despediu com um aperto de mão e eu fui aos tropeços, passando pela rai­nha Elizabeth, desde o elevador até o estacionamento.

Dirigi para casa ardendo de vergonha. Por mais que tentasse, não conseguia apagar a imagem de Andrew esboçan­do aquele seu sorriso de canto de lábios e me perguntando se eu tinha alguma coisa no modelo "arrastão".

Quando cheguei em casa encontrei Prozac cochilando no sofá, sem nem uma preocupação sequer na vida.

—      Sua patifezinha! — exclamei sacudindo a meia-calça no focinho dela. — Você deve ter achado isso muito engraça­do, não é?

Razoavelmente divertido.

Ela começou a lamber os genitais, obviamente muito orgulhosa de si mesma.

—      Pois bem, talvez você tenha achado graça nisso, mas eu não achei. Vou lhe mostrar o quanto estou zangada. Absolutamente furiosa. É sério, Pro. Estou falando sério. Estou muito zangada.

Fui para a cozinha pisando duro e comecei a jogar na lata de lixo toda a ração dietética da vasilha dela.

—      Você quer ser gorda? Pois seja gorda! Veja se eu me importo! Coma uma pizza. Um sorvete. Quem sabe com um pouco de calda de chocolate?

Ela ficou parada na porta da cozinha, os olhos arregala­dos, enquanto eu atirava latas de comida de gato por todo lado.

Há uma coisa engraçada em Prozac. Ela sabe quando passou dos limites. Sempre que vê que estou realmente zan­gada, ela se transforma naquela gatinha fofa e adorável dos meus sonhos, pulando no meu colo, roçando o pequeno focinho rosado no meu queixo, ronronando de felicidade por ouvir o mero som da minha voz.

E foi tudo isso que ela passou a fazer. Subitamente ela era a Miss Simpatia. Mas eu não iria cair nesta armadilha novamente. Fiquei fria. Indiferente. Não iria perdoá-la. Não importava o quanto ela arregalava os olhos, o quanto ronronava, eu me mantive impassível aos seus encantos.

Eu estava impiedosa.

Na verdade, naquela noite, quando ela pulou na cama comigo e deitou de costas pedindo uma coçadinha na barri­ga, eu a fiz esperar por trinta segundos inteiros.

 

A semana seguinte foi relativamente tranqüila. Não recebi notícias dos meus pais na Flórida e presumi que "nenhuma notícia é boa notícia". Apesar de que, com meu pai, esta era sempre uma presunção arriscada. No "front" doméstico o trabalho era praticamente nulo. Minha única fonte de renda era um folheto que estava redigindo para um dos meus clientes regulares, a Companhia de Toldos Ackerman (Sempre a Melhor Sombra). É desnecessário dizer que não ouvi nem uma palavra de Andrew Ferguson, não depois do episódio da meia-calça. Ah, tudo bem. Quem sabe, se eu fizesse tudo direitinho, conseguiria desencavar um trabalho com alguma das integrantes do Clube TPM. Já que não poderia redigir o Conversa-Fiada do Union National, talvez criasse o jornalzinho Notícias Deliciosas para Marybeth. O único verdadeiro lampejo de excitação da semana aconteceu, por incrível que pareça, no Lar de Repouso Shalom. Uma vez por semana eu dou aulas ali, num curso de redação chamado Escrevendo As Lembranças da Sua Vida. Na verdade, não há muito o que ensinar. O que mais faço é ouvir. A cada semana os meus idosos alunos chegam à aula trazendo suas lembranças redigidas em papel pautado. Algumas são bem escritas. Outras são rígidas e desajeitadas. Mas todas são escritas com o coração e eu considero um privilégio escutá-las. Existe, porém, uma mosca na sopa do Shalom: Abe Existe, Existe, porém, uma mosca na sopa do Shalom: Abe Goldman, o único homem do grupo. Ele é o tipo de aluno que é o terror de todo professor: barulhento, tagarela e opinioso. Pior de tudo, o velhote tem uma paixonite por mim e está sempre me lançando seus sorrisos de dentadura e me convidando para passeios ao luar no estacionamento. Na noite seguinte à reunião do TPM, fui para o Shalom e o sr. Goldman, como de costume, correu para sentar ao meu lado na ponta da mesa da sala de recreação. — Olá, docinho! — ele sorriu. — Veja só o que eu trouxe para você! Ele enfiou a mão no bolso da calça e tirou um lenço não muito limpo.

Exatamente o que eu queria. Meleca seca. — Ora, onde diabos está aquele negócio? — ele disse, tornando a remexer nos enormes bolsos. — Ah, aqui está. Ele retirou um potinho de pudim todo amassado. — Guardei para você a semana inteira. É de chocolate. Eu sei o quanto você adora chocolate. É verdade, sou uma chocólatra confirmada, mas até mesmo eu, a mulher que quase deu o nome de Mallomar à sua gata, fiquei vagamente nauseada com a idéia de comer um pudim de chocolate que havia dividido espaço com o lenço sujo do sr. Goldman durante uma semana. — Eu lhe trouxe uma colher, também — ele disse, extraindo do bolso uma colher de plástico infestada de germes. — Obrigada — falei engolindo em seco, quando ele empurrou-a para mim. —Então, docinho — ele perguntou —, o que acha? Quer ser o meu par na noite do Mambo Mania? A cada dois meses o Shalom realizava um evento a que chamavam de Mambo Mania. Este consistia principalmente de senhoras idosas dançando umas com as outras — algumas delas com seus andadores —, ao som de Steve & Eydie cantando Besame Mucho. O sr. Goldman sempre me convidava para ser seu par neste acontecimento de gala, mas eu sempre recusava. — Sinto muito, sr. Goldman, mas o senhor sabe que eu não danço. — E quem se importa? Nós podemos simplesmente sair escondidos para o estacionamento e dar uns "amassos". Está brincando? Prefiro mil vezes comer este pudim nojento. Ignorando seu sorrisinho malicioso, colei no rosto a minha expressão de professora animada e perguntei: — Muito bem, classe. Quem quer ler primeiro? A mão do sr. Goldman levantou-se no mesmo instante. Ele sempre queria ser o primeiro a ler uma das suas intermináveis redações sobre a incessante saga da sua vida como vendedor de tapetes.

Olhei em volta da sala, desesperada por outra voluntária. Enviei um olhar de encorajamento para a sra. Petcher, uma senhora rechonchuda como um pompom, com seios do tamanho de almofadas. Mas a sra. Pechter limitou-se a sorrir candidamente e enfiou uma bala de caramelo na boca. Sorri para a sra. Rubin, que parecia um passarinho, mas ela rapidamente desviou o olhar para o próprio colo. As minhas senhorinhas sempre ficam tímidas no início das aulas. Demoram algum tempo para se aquecer. Eu sorri para a sra. Zahler e para a sra. Greenberg, mas elas também mantiveram os bicos fechados. Finalmente vi que não podia mais ignorar a mão agita¬da do sr. Goldman. — Vá em frente, sr. Goldman — suspirei. E ele foi em frente, à toda. Prolongando-se interminavelmente sobre a época em que havia vendido a Henry Kissinger carpetes de largura máxima para cobrir quatro cômodos. Pálpebras começaram a se fechar enquanto o sr. Goldman divagava acerca do astuto conselho sobre política externa que ele havia dado ao seu amigo "Hank". Algumas das senhoras já estavam cochilando. E, ah, como eu as invejava. Eu, sendo a professora, tinha de me obrigar a manter as pálpebras bem abertas. Inevitavelmente, como sempre acontecia durante uma das extensas leituras do sr. Goldman, minha mente começou a vagar. Pensei na desastrosa entrevista no Banco Union National. Que vergonha. Teria sido tão bom conseguir aquele emprego. Que folga bem-vinda seria dos anúncios para os Toldos Ackerman e para os Mestres do Encanamento. E, depois, é claro, havia Andrew Fergunson. Que homem... Lembrei-me do sorriso de canto e da maneira como os cabelos dele se encaracolavam na dobra da nuca. Imaginei como seria passar os dedos entre aqueles cachinhos. E, antes de perceber, já estava perdida em devaneios sobre eu e Andrew numa banheira quente, bebendo champanhe e trocando reminiscências sobre o nosso primeiro encontro.

Sabe, ele me dizia enquanto eu passava os dedos pelos seus cachinhos, bastou que eu olhasse uma única vez para aquela meia-calça redutora de cintura com o forro de algodão para saber, naquele instante, que você teria de ser minha... Ah, puxa, nada disso. Simplesmente não daria certo. Ninguém, em seu juízo perfeito, se sentiria atraído pela minha meia-calça extra-resistente. Eu precisava aprimorar as minhas habilidades na criação de fantasias, se quisesse ter algum tipo de vida sexual. Foi então que me dei conta de que o sr. Goldman havia parado de falar. Provavelmente ele acabara de ler a redação e eu nem percebera. Olhei para ele, esperando vê-lo exultante de orgulho, da maneira como sempre ficava ao terminar a leitura. Mas, não, ele estava apenas parado ali, olhando para a porta, os olhos arregalados e a boca entreaberta. Segui o olhar dele, e a minha boca também abriu um pouco. Ali, na soleira da porta, postava-se uma showgirl de Las Vegas de oitenta e tantos anos. Ok, tecnicamente ela não estava vestida como uma vedete. Não estava usando lantejoulas, nem fio-dental ou plumas nos cabelos. Mas usava calça capri justa, sapatos de salto-agulha e uma blusa de lycra colada, que revelava um decote do tamanho do San Andreas. Seus olhos estavam pintados com uma cintilante sombra azul-turquesa, os dedos repletos de enormes anéis de zircônia e o cabelo vermelho-acobreado estava preso no alto da cabeça num imenso coque à prova de furacão. Eu apenas adivinhei que ela estivesse em algum lugar na faixa dos oitenta, porque esta era a média de idade dos residentes do Shalom, mas era difícil saber com certeza, debaixo de toda aquela espessa camada de maquiagem. — Olá! — ela disse, exibindo as gengivas. — Eu sou Goldie. Goldie Marcus. Todos nós ficamos ali sentados, olhando para ela. Até mesmo o sr. Goldman estava sem palavras.

— Eu me mudei para cá hoje. Vim de Paramus, em Nova Jersey. O meu filho me levou para jantar fora, por isso ainda não tive chance de conhecer todo mundo. De qualquer forma, fiquei sabendo sobre este curso de redação e resolvi fazer parte do grupo. Finalmente consegui engatar a primeira nas minhas cordas vocais. — É claro, sra. Marcus. Pode se sentar. — Aqui! — o sr. Goldman gritou. — Sente aqui! Perto de mim! Ele praticamente derrubou a pobre sra. Rubin para fora da cadeira quando puxou uma cadeira vazia para o seu lado. Goldie Marcus atravessou a sala rebolando em seus saltos altos e enviou um sorriso sedutor ao sr. Goldman. — Quer um pudim? E, com isso, o sr. Goldman agarrou o potinho de pudim que me dera um pouco antes e deslizou-o pela mesa até ela. — É de chocolate. O atrevimento daquele velhote! Dando a ela o meu pudim de chocolate. Sim, eu sei que disse que era nojento, mas era de chocolate, afinal de contas. E eu poderia muito bem desinfetar a tampinha quando chegasse em casa. — Obrigada, benzinho. Seria minha imaginação ou realmente vi Goldie dar uma piscadela para ele? — O prazer é meu, prezada senhora — ele disse, quase fazendo uma mesura. — O prazer é meu! — Bem-vinda a nossa aula de redação de memórias, sra. Marcus — eu disse. — Por favor, me chame de Goldie. — Pessoal, vamos dar as boas-vindas a Goldie. As outras senhoras trocaram olhares de desaprovação e murmuraram cumprimentos mornos. — Muito bem, Goldie. A cada semana nós tentamos trazer uma redação para ser lida na aula. Não precisa ser longa demais — eu disse, lançando um olhar significativo ao sr. Goldman. — Apenas uma ou duas páginas. —Ah, eu já sei de tudo sobre as redações. A sra. Maitland me deu todas as informações. — A sra. Maitland era a santa-administradora do Shalom. — Eu participei de muitas aulas de redação em Paramus. — Isso é maravilhoso — o sr. Goldman trovejou, olhando com idolatria na direção do decote dela. — Participar das aulas é maravilhoso!

Goldie lhe enviou mais um sorriso, seguido de outra piscadela. A sra. Pechter viu a piscadela e fungou com desprezo. A sra. Rubin, que era como o Robin para o Batman da sra. Pechter, fungou também, só que não tão alto quanto a sua mais determinada amiga. — Na verdade — Goldie anunciou —, eu trouxe algo para ler esta noite. — Ela remexeu dentro da bolsa e extraiu uma folha de papel. — Tirei nota A com isso, na minha última aula de redação. — Nota A! — o sr. Goldman exclamou. — O que acham disso, hein? Um A! — Você só deve ler as redações que escreveu para esta aula – a sra. . Pechter intercedeu. — Não é verdade, Jaine? — Bem, sim — falei —, é verdade. Mas desde que Goldie já trouxe a redação, acho que ela pode ler. No que dependesse de mim, qualquer coisa que tirasse o sr. Goldman de cena estaria mais do que bom. — Mas Abe ainda não terminou a leitura—a sra. Pechter protestou. Aquela era a primeira vez na história das nossas aulas que alguém pedia que o sr. Goldman continuasse lendo. — Ah, eu já falei demais — disse o sr. Goldman. — Está na hora de dar a chance para outra pessoa. O sr. Goldman dando uma chance a outra pessoa? Avisem a mídia! — Pode ler, Goldie — ele insistiu. Ela desdobrou a folha de papel, que obviamente estivera na sua bolsa durante décadas, apenas esperando para ser retirada, e começou: — As Coisas Que Eu Gosto, por Goldie Marcus. Era uma cópia descarada da música cantada por Julie Andrew no filme A Noviça Rebelde. Só que em vez de flocos de neve e bigodes em gatinhos, Goldie preferia pedras preciosas, batons cintilantes e arenque com creme de leite azedo, ainda melhor se acompanhado de picles de pepino. A cada uma das As Coisas que Eu Gosto o sr. Goldman explodia com aprovação. — Eu também! Eu adoro isso! As outras senhoras na classe trocavam olhares e gira¬vam os olhos para o alto. Goldie concluiu a leitura sob um silêncio hostil. Normalmente as senhoras aplaudiam as redações umas das outras demonstrando um apoio fraternal, mas não naquela noite.

O silêncio finalmente foi rompido pelo sr. Goldman, que levantou-se e gritou, aplaudindo: — Maravilhoso! Maravilhoso! Uma redação fantástica. Nem Jackie Collins teria feito melhor! — Muito bem, Goldie — eu consegui mentir. — Porém, na próxima vez, talvez seja melhor escrever sobre algo que realmente tenha acontecido com você. É isso que tentamos fazer num curso de redação de memórias. Agora, quem quer ser a próxima? A sra. Pechter ergueu a mão. — Eu tenho uma redação — ela disse. — E não uma lista. E passou a ler sobre a A Personalidade Mais Marcante em Minha Vida. É triste dizer, mas eu me esqueci completamente de qual foi a personalidade mais marcante na vida da sra. Pechter. Eu não estava me concentrando. Ninguém estava. Não com Goldie Marcus naquela sala. Todos os olhares se dirigiam a ela, ali sentada, abanando o magnífico decote com a sua lista de As Coisas Que Eu Gosto. Finalmente a última redação foi lida e a aula terminou. As senhoras juntaram suas almofadas de apoio das costas e seguiram para a porta, lançando olhares velados para Goldie. Ela, por sua vez, guardou o pudim de chocolate na imensa bolsa com estampa de oncinha e sorriu alegremente quando o sr. Goldman se ofereceu para lhe mostrar "tudo" no Shalom. A última coisa que eu o ouvi dizer, enquanto saíam juntos, foi: — Me diga, docinho. Você gosta de dançar o mambo? Dirigi de volta para casa atordoada pelos efeitos do Furacão Goldie. Perguntei-me se a minha classe algum dia voltaria a ser a mesma. Ah, bem. Talvez, com Goldie por ali, o sr. Goldman finalmente aprendesse a ter boas-maneiras. Imaginei os dois juntos, saindo para passeios ao luar no estacionamento. E se eles se casassem? Então Goldie ficaria sendo Goldie Goldman. Foi com estas divagações esvoaçando em minha mente que subi na cama e liguei a tevê. Fiquei trocando de canais a esmo, passando por seriados antigos, comerciais de facas e corpos suados no canal de filmes eróticos.

E foi somente quando cliquei por acaso no Animal Channel que todos os pensamentos sobre Goldie e o sr. Goldman desapareceram na noite. Estava sendo exibido um documentário sobre obesidade em gatos. Eu fiquei vendo os pobres animais obesos lu¬tando para respirar. Um veterinário alertou sobre os perigos de oferecer alimentos de humanos para os gatos. Eu ofeguei quando mostraram o fígado deteriorado de um gato que era mantido numa dieta regular de Chicken McNuggets, um dos lanchinhos preferidos de Prozac. Finalmente foi mostrada uma cena de cortar o coração, de uma senhora chorando junto ao túmulo do seu gatinho de estimação. "Se ao menos eu tivesse colocado Taffy numa dieta..." , ela soluçava. Assisti ao programa tanto quanto pude suportar, de¬pois mudei de canal, para um antigo episódio de I Love Lucy. Mas nem mesmo Lucy foi capaz de aliviar o pânico que, naquela altura, já estava me dominando. Se eu gostava mesmo de Prozac, simplesmente teria de voltar a lhe dar a ração dietética. Peguei-a de onde ela estava, esparramada no meu pei¬to, e aconcheguei-a nos braços. — Você precisa voltar para a dieta, querida. É para o seu próprio bem. Você quer acabar como a pobre Taffy? Ela se desvencilhou dos meus braços e me lançou um olhar funesto. Ora, não acredite em tudo o que você vê na televisão. E, com isso, pulou para fora da cama e foi direto para o sofá da sala. Ao que parecia, eu iria dormir sozinha. Mas não me importei. Desta vez eu iria bancar a "durona". Seria como viver num inferno, mas eu enfrentaria. O que eu não sabia então era que, no que se referia a problemas a ser enfrentados adiante, a dieta de Prozac era apenas a ponta do iceberg.

 

MENSAGEM RECEBIDA Para: Jausten De: Adorofazercompras Assunto: Completamente maluco!

Só o que posso dizer é: ainda bem que encomendei aquelas cápsulas de Menos-Stress. Eu as tenho engolido como se fossem Tic-Tacs. O seu pai ficou completamente maluco. Ontem, durante uma partida de bocha na sede do clube, ele teve a coragem de arrancar um fio de cabelo da cabeça do reverendo Sternmuller! Ele fingiu ter visto uma abelha na cabeça dele e que estava afastando-a mas, mais tarde, me contou que havia arrancado o fio de cabelo de propósito, para conse¬guir uma amostra de DNA. Ele enviou o cabelo para o FBI esta manhã. E, como se isso não fosse o bastante, hoje nós estávamos almoçando no Mimi's, um charmoso restaurante na cidade, e quem estava ali senão o reverendo Sternmuller, almoçando com Greta Gustafson, que se atirava desavergonhadamente em cima do pobre homem. Eu juro, na últi¬ma semana Greta tem feito mais jantares do que o Swanson's. De qualquer forma, no minuto em que eles saíram do restaurante o seu pai correu para a mesa deles e pegou o garfo que o reverendo Sternmuller havia usado! "0 que diabos você está fazendo com este garfo?", eu perguntei quando ele voltou com aquela maldita coisa enrolada num guardanapo. "Vou mandar para o FBI tirar as impressões digitais", ele disse. Então ele guardou o garfo no bolso, juntamente com vários pãezinhos. Já é suficientemente constrangedor essa mania que ele tem de levar pãezinhos de lembrança de todos os restaurantes da Flórida, mas levar um garfo também... Bem, eu queria morrer de vergonha. E isso foi só o começo. Depois que terminamos o nosso almoço — o seu pai insistiu em pedir o cheeseburguer com bacon, embora o dr. May já tenha lhe dito um milhão de vezes para cuidar do colesterol — estávamos indo para a porta quando o gerente do restaurante parou o seu pai e o acusou de roubar o garfo. Bem, tecnicamente, acho que era isso mesmo que ele estava fazendo.

O gerente e seu pai começaram uma briga feia e, no fim das contas, Kevin, era o nome do gerente, disse que não nos deixaria sair dali até que o seu pai pagasse dez dólares pelo garfo. Àquela altura o restaurante inteiro já estava nos olhando e seu pai ameaçou denunciar Kevin ao programa Os Mais Procurados da América, mas Kevin apenas riu, e eu estava tão humilhada que lhe dei os dez dólares e arrastei o seu pai para fora sem nem mesmo pegar uma das pastilhas de chocolate com menta, que eu tanto gosto. Enfim, estou tão furiosa que seria capaz de subir pelas paredes. Mamãe.

Para: Jausten De: Papai Olá, doçura. Estou fazendo grandes progressos no caso do Estrangulador Hugo Boss. Além disso, comi um cheeseburguer fantástico no almoço de hoje. Com amor,

Papai

 

Às sete horas da manhã seguinte eu estava no supermerca­do, comprando ração dietética para gatos. Às sete e meia Prozac estava sacudindo o seu bumbum no ar enquanto se afastava dela.

Eu havia espalhado uns poucos biscoitinhos de gato por cima da ração de miúdos de cordeiro light a fim de atraí-la. Prozac comeu os biscoitinhos, tomando todo cuidado para não ingerir qualquer migalha do repugnante cordeiro, de­pois começou a miar pedindo mais biscoitos.

— Sinto muito, Pro — eu disse, a voz firme e determi­nada. — Desta vez eu não vou ceder.

Ela continuou uivando enquanto preparei o meu café instantâneo. Então, para minha surpresa, ela parou. Normalmente, quando quer alguma coisa, Prozac pode continuar se esganiçando durante horas sem fim. Mas creio que desta vez ela entendeu que eu estava mesmo falando sério, que não iria sucumbir aos seus apelos. Eu realmente precisava come­çar a ser mais rígida com Prozac e estabelecer a minha auto­ridade. Se ficasse com muita fome, ela acabaria desistindo e comeria a ração dietética. Era simples assim.

Então, foi com uma sensação de dever cumprido que enfiei uma torrada doce na torradeira, para comer com o café. Prozac emitiu um miado indignado.

Você acha isso justo? Você pode comer as suas torradas doces com geléia e eu tenho que me contentar com cordeiro light?

Foi quando ela saiu pisando duro na direção da sala, regalando-me com a vista panorâmica do seu bumbum.

Engoli a minha torrada com geléia de pé e encostada na pia da cozinha, a salvo da linha de visão de Prozac, e depois fui para o meu escritório, também conhecido como a mesa da sala de jantar, a fim de verificar os e-mails.

Dá para acreditar no meu pai? Roubando um garfo para conseguir as impressões digitais do reverendo Sternmuller? E arrancando um fio do cabelo dele para fazer um exame de DNA? Ainda bem que ele não tentou retirar uma amostra de sangue.

Mas eu não podia ficar ali sentada o dia inteiro me preocupando com papai. Esta era a função da minha mãe.

Passei a hora seguinte burilando o folheto da Toldos Ackerman — Com Ackerman você está sempre na sombra! —, depois me arrumei e saí para resolver alguns assuntos. Esta­va me encaminhando para o meu carro quando trombei com o meu vizinho Lance.

—      Olá, Jaine. Como vão as coisas? — ele disse, os seus espessos cachos loiros cintilando sob o sol.

Lance é vendedor na seção de sapatos de grife da loja Neiman Marcus e está sempre vestido a caráter. Ele deu um peteleco num fio invisível em seu terno Ermenegildo Zegna. Não, Ermenegildo Zegna não é, como eu pensava antes, uma rara doença de pele. E uma grife famosa, e uma das preferi­das de Lance.

Ouvi a gritaria de Prozac hoje cedo — ele disse. — Ela ainda está de dieta?

Sim, mais definitivamente do que nunca.

Ela já perdeu algum peso?

Bem, ainda não. Está relutando um pouco. Vai ser uma batalha de vontades entre ela e eu, mas acredite, eu vencerei.

- Nada de pessoal, querida, mas estou apostando na gata.

Então ele me acenou um tchauzinho e foi para o seu Mini Cooper.

Pois bem, ele que se dane. Tomara que seus cachos encrespem com a umidade. Sério, foi muito irritante a maneira como ele simplesmente concluiu que eu seria incapaz de fa­zer a minha própria gata seguir uma dieta. Bem, eu iria lhe mostrar. Em pouco tempo Prozac estaria esbelta o bastante para lamber as suas partes íntimas numa passarela de Milão.

Entrei no meu Corolla e estava dirigindo para a lavan­deria com uma pilha de calças compridas e blusas de seda no banco traseiro quando passei diante de uma loja da Le­gião da Boa-Vontade, que vende artigos de segunda-mão. Num impulso, decidi parar. Às vezes encontro coisas bem bacanas nas lojas de roupas usadas.

Entrei no estacionamento e estava saindo do carro quan­do vi uma pessoa conhecida vindo na minha direção. Era Ashley, a integrante de seios fartos e entornadora de margaritas do Clube TPM.

Subitamente eu me senti envergonhada. Não queria que ela soubesse que eu tinha o hábito de fazer compras na loja da Legião da Boa-Vontade. Mas percebi que estava sendo ridícula. Lembrei-me de como Ashley se mostrara divertida na reunião do clube, tão simples e prática. Nem um tantinho esnobe. Ela não iria fazer pouco de mim se soubesse que eu comprava as minhas roupas ali. Ora, muita gente acha "chi­que" comprar na Legião da Boa-Vontade. Porém, por algum motivo irracional, eu estava envergonhada. Talvez fosse por causa do Jaguar prata de Ashley reluzindo no estacionamen­to, ou dos múltiplos quilates de brilhantes que enfeitavam suas orelhas.

Abaixei-me dentro do carro, fingindo procurar alguma coisa e esperando que ela não me reconhecesse, mas foi tar­de demais.

— Jaine? É você?

Endireitei o corpo e sorri.

—      Ah, olá, Ashley.

Ela apressou-se na minha direção, os seios amplos balançando a cada passo que dava.

Jaine, querida. Nós estamos tão contentes por você ter se juntado ao clube.

Eu também estou.

Você vai à reunião de hoje à noite, não é? — ela perguntou animada.

Sim, é claro.

Ela olhou de relance para o banco traseiro do meu carro e viu a pilha de roupas que iriam para a lavanderia.

Você veio fazer uma doação?

Ahnn... sim — falei.

E então, para meu horror, me dei conta de que estava abrindo a porta do carro e pegando as minhas roupas.

O que diabos eu estava fazendo? Eu estava maluca? Por que não podia simplesmente dizer a ela que estava ali para fazer compras? Ah, tudo bem. Eu entraria na loja com as rou­pas, esperaria até que ela fosse embora e depois guardaria tudo de novo no carro.

Mas não era para ser assim.

—      Eu acabei de deixar uma porção de calças compridas que "encolheram" dentro do meu armário — Ashley disse, rindo. — Venha. Vou lhe fazer companhia enquanto você deixa a sua doação, e assim poderemos fofocar um pouco.

E então ela me acompanhou até a entrada da loja tagarelando sem parar, numa conversa que parecia flutuar para dentro e para fora da minha consciência.

—      Dá para acreditar em Rochelle, enfeitando as empanadas com aquelas bandeirinhas do México? Ela até parece Martha Stewart incorporando o Viva Zapatal... Marybeth e eu éramos grandes amigas na faculdade, mas ela às vezes exagera com as suas notícias deliciosas... Doris... que mulher sábia.

Espero ter metade da disposição dela, quando chegar àquela idade. E Colin... por que os mais bonitos sempre são gays?

Ela continuou falando, falando e, antes mesmo que eu percebesse, estava entregando a minha roupa que iria para a lavandeira a um sujeito da Legião da Boa-Vontade numa ca­deira de rodas.

—      Não se esqueça de pegar o recibo — Ashley falou. — Para desconto no imposto de renda, você sabe.

É, claro. Primeiro você precisa ter alguma renda, antes de se preocupar com descontos nos impostos.

Peguei meu recibo e fiquei olhando com amargura en­quanto as minhas blusas de seda Ann Taylor eram jogadas por cima de um velho aparelho de videocassete que alguém havia doado.

—      Agora vamos, querida — disse Ashley, segurando meu braço e me envolvendo na fragrância intoxicante do seu perfume Vera Wang. — Você já fez a sua boa ação do dia.

Voltamos aos nossos respectivos carros e, finalmente, ela entrou no seu Jaguar.

—      Vejo você à noite — ela disse, acenando.

Eu também acenei, distraidamente, e fiquei esperando até que ela saísse do estacionamento. No instante em que o carro sumiu, corri de volta para a loja.

O sujeito na cadeira de rodas, cujo crachá informava ser o Carlos, ergueu os olhos para mim.

Pois não?

Me desculpe, mas quero que você devolva as minhas roupas.

Os olhos de Carlos se arregalaram com incredulidade.

—      Você quer pegar a sua doação de volta? — pergun­tou. O tom de voz dele estava um pouquinho mais elevado do que eu gostaria.

Vários outros funcionários da loja se juntaram em tor­no de nós.

O que está acontecendo? — um deles perguntou.

Ora, ela quer pegar de volta a doação que acabou de fazer!

Você não está entendendo... — eu interrompi. — Não era realmente uma doação. Eu ia levar estas roupas para a lavanderia.

Carlos balançou a cabeça, enojado.

—      Vá em frente — ele disse apontando para minhas roupas que continuavam em cima do aparelho de videocas­sete. — Pode pegá-las.

Senti os olhares maléficos as minhas costas enquanto recolhia as roupas.

Por que não aproveita e leva também o aparelho de vídeo? — Carlos resmungou.

E gente como ela que destrói a reputação das instituições de caridade — disse o outro.

Eu disparei para fora, me sentindo como uma barata num restaurante cinco-estrelas. Ao que parecia, eu não iria fazer compras naquela loja da Legião da Boa-Vontade em momento algum do próximo milênio.

Terminei meus afazeres na rua e voltei para casa, certa de que àquela altura Prozac já teria desistido e comido a sua ração dietética. Bem, eu quase acertei. Ela havia comido. Mas não a ração dietética. Eu a encontrei esparramada no balcão da cozinha, como uma alcoólatra depois de uma noite de far­ra. De alguma forma ela conseguira arrancar a tampa da embalagem dos biscoitinhos para gatos e devorara todos eles, até a última migalha.

Ela olhou para mim com um sorrisinho que, eu podia jurar, era de puro escárnio.

Um ponto para a gata fofinha.

 

Quando Pam e eu chegamos na reunião do Clube TPM na­quela noite, eu soube no mesmo instante que algo estava er­rado com Rochelle. Havia uma expressão desvairada em seus olhos, que não estivera ali na semana anterior. Os cabelos lisos tinham adquirido vida própria e se espetavam louca­mente para todos os lados em seu rabo-de-cavalo. Ela usava uma camiseta que parecia refletir o seu estado de espírito: "Estou Sem Estrogênio e Tenho Uma Arma", eram as palavras estampadas em seu peito.

Naquela noite, em vez de exibir o pano de prato pendu­rado no ombro, ela nos recebeu na porta brandindo uma margarita.

—      Olá, todo mundo! — ela exclamou, espirrando um generoso jato de tequila em nossa direção.

Pam e eu havíamos jantado ao ar livre no Jack in the Box, onde tivemos a sorte de conseguir uma mesa ao lado de um excêntrico sujeito que lia um livro de Kafka enquanto bebia uísque ordinário com um canudinho.

Fomos para a reunião no meu Corolla e, agora, estáva­mos paradas no vestíbulo da casa de Rochelle, tentando não chegar perto demais dos vapores da tequila que ela emanava.

—      Vamos entrando, meninas — ela convidou. Só que "meninas" saiu como "meninash", sua pronúncia prejudi­cada pela viagem até o País das Margaritas

—      Você está bem, Rochelle? — Pam perguntou.

—      Estou ótima! — ela respondeu com uma risada áspe­ra. — Nunca estive melhor.

Rochelle foi para a sala, quase tropeçando num porta-guarda-chuvas.

Ups! — ela exclamou, apoiando-se no corrimão da escada. — Por que vocês duas não sobem para ver o meu novo banheiro?

Está pronto, finalmente? — Pam perguntou.

Sim. — Os olhos de Rochelle estreitaram-se com rai­va. — A minha querida amiga Marybeth concluiu os deta­lhes finais hoje mesmo.

Eu não precisaria ser uma cientista espacial para perceber o sarcasmo que transbordou nas palavras "querida amiga".

—      Droga! — ela resmungou, cheirando o ar. — As empanadas. Acho que queimaram.

Foi cambaleando para a cozinha, e Pam e eu trocamos um olhar intrigado.

O que será que ela tem? — Pam perguntou.

Acho que pelo menos meia garrafa de tequila na "cuca"— arrisquei.

Pam balançou a cabeça, confusa, depois encolheu os ombros.

—      Bem, vamos subir. Vamos ver o tal banheiro de designer.

Fomos para o andar de cima até o banheiro do casal, que era uma sinfonia em tons de pêssego e sálvia, com pias individuais para o casal, balcões de mármore, uma imensa ducha com quatrilhões de jatos e uma banheira grande o su­ficiente para a prática de natação. Havia até mesmo um cô­modo separado para o vaso sanitário. Ou, como é chamado em Brentwood, o "toalete".

Encontramos Colin inclinado por cima do "toalete", instalando um rolo de papel higiênico.

—      Vocês acreditam que tive de ir a cinco supermerca­dos diferentes antes de encontrar este papel higiênico? — ele resmungou. — Marybeth insistiu que a cor tinha de com­binar exatamente com as toalhas. Pelo amor de Deus, as toa­lhas estão num cômodo completamente separado!

Ele se levantou, os dentes cerrados com raiva.

—      Algum dia eu ainda mato aquela megera.

—      E olá para você também — Pam desconversou. Ele sorriu no mesmo instante.

Olá, garotas. Desculpem a choradeira. Mas o que posso dizer? É um verdadeiro inferno trabalhar para aquela mulher. Mas preciso encarar as coisas pelo lado bom, não é? Pelo menos ela me paga pouco. Então, o que acham? — ele perguntou, fazendo um gesto que mostrava todo o banheiro.

É lindo — elogiei.

Vejam este armário para lençóis e toalhas. — Colin abriu um closet que ocupava uma parede inteira.

Pam assobiou baixinho.

Os ricos não apenas ficam mais ricos, mas também conseguem mais espaço para os armários.

Bem, eu vou descer — Colin avisou. — Depois da minha Grande Caçada ao Papel Higiênico, preciso de uma margarita.

Por falar em margaritas, o que deu em Rochelle? — Pam perguntou. — Ela já está "alta", e raramente bebe.

Não sei. Ela estava bem durante a tarde, quando Marybeth e eu viemos aqui. Sendo a anfitriã compulsiva de sempre, correndo por aí perguntando aos encanadores se po­dia lhes trazer mais um pouco de limonada. Mas quando eu voltei, meia hora atrás, ela estava assim, trançando as pernas.

Talvez ela tenha finalmente sucumbido ao estresse de tantas reformas — sugeri.

Quem sabe? — disse Colin. — Eu só sei que preciso de uma margarita. Vocês me acompanham?

Não — Pam manifestou-se. — Quero ficar aqui um pouco para xeretar no armário de remédios.

O de Rochelle é uma chatice — Colin falou. — Mas dêem uma olhada no de Marty.

Com um aceno rápido ele foi na direção da escadaria, e Pam começou a remexer nos armários do banheiro.

—      Pam, você acha que devíamos estar fazendo isso?

—      É claro que não devíamos. Por isso é tão divertido. Colin tinha razão. Nada havia de excitante no armário de remédios de Rochelle. Apenas os habituais e rotineiros analgésicos e antigripais. Mas quando Pam abriu o armário de Marty, seus olhos se arregalaram.

—      Olhe só para isso — ela exclamou retirando um fras­co. — Viagra!

Eu me lembrei do que Rochelle dissera sobre o marido, que estava frio e distante e chegando em casa tarde da noite. Uma voz cínica ressoou na porta.

—      Seja com quem for que ele esteja usando isso, certamente não é com Rochelle.

Nós duas nos viramos e deparamos com Doris, a inte­grante mais velha do clube.

Que constrangedor. Era óbvio que ela nos apanhara xeretando no armário.

Humm... Tem alguma coisa presa no meu dente — gaguejei —, e estávamos procurando um fio dental.

Ora, por favor — disse Doris, descartando a minha mentira. — Todo mundo gosta de bisbilhotar nos armários alheios. Faz parte da natureza humana.

Ela examinou-se no espelho por cima das pias.

—      A iluminação é excelente. Não aparento nem um dia a mais do que cinqüenta e nove anos.

Então ela sentou na beirada da imensa banheira.

—      Pobre Rochelle — suspirou. — Tenho certeza de que Marty a está traindo. Pelo menos ela pode se consolar com um bom banho de banheira. — Olhou em volta do cômodo com aprovação. — Que palácio! Eu gostaria de ter pias assim, separadas, quando era casada. Vocês nem acreditam nas porcarias nojentas que o meu marido costumava deixar na pia.

         Eu acredito — falei, recordando-me do hábito ado­rável do Bolha de deixar as lascas das unhas dos pés em nossa pia.

         Sim, é mesmo um banheiro e tanto — Doris falou. — Se as coisas saírem mal no divórcio, ela até pode alugar isso aqui como um apartamento.

Você acha mesmo que eles se acabarão se divorcian­do? — perguntei.

Se ela tiver sorte. Bem — disse Doris, levantando-se da banheira —, acho melhor descer e ajudar Rochelle na co­zinha. A pobrezinha está "prá lá de Bagdá".

Acho que também vou — falei.

Nós iremos num instante — Pam falou, segurando-me pelo cotovelo. — Jaine precisa fazer xixi, primeiro.

 

Está bem — disse Doris. — Encontro vocês lá embaixo. Quando ela saiu eu me virei para Pam, intrigada.

O que foi isso? Eu não preciso fazer xixi.

—      Eu sei. Mas queria dar uma espiada no quarto deles. Ver se tem algum espelho no teto, por cima da cama.

         Pam! Você é terrível. — Então eu sorri. — E este é um

dos motivos porque gosto tanto de você.

Saímos do banheiro na ponta dos pés e estávamos se­guindo pelo corredor, à procura do quarto do casal, quando ouvimos passos subindo a escada.

—      Uhu! Pam! Jaine! Vocês estão aí?

Era Ashley. Nós corremos de volta para o banheiro.

—      Sim, Ashley — Pam gritou. — Acabamos de ver o "Taj Mahal". É fabuloso.

Ashley apareceu no alto da escadaria, vestida para ar­rasar com um conjunto de cashmere que devia ter custado mais caro do que o meu carro.

—      Olá, querida — ela disse, dirigindo-se a mim. — Encontrei um par de sapatos absolutamente maravilhosos na Saks, depois que nos vimos hoje à tarde. E você, o que fez? Alguma coisa bem divertida, espero.

Claro, se você achar que escrever sobre toldos é algo divertido.

Fiquei trabalhando em casa — falei.

Deixe-me ver o tal banheiro paradisíaco — disse Ashley, marchando para o banheiro com seus sapatos de 500 dólares. — Santo Deus! — ela exclamou. — Isto é, acho que nem Ele tem um banheiro tão grandioso!

Frustradas pelo aparecimento de Ashley, Pam e eu abandonamos nosso plano de xeretar no quarto de Rochelle e a seguimos para o andar de baixo até a cozinha, a fim de ver se Rochelle precisava de ajuda.

Encontramos Colin servindo margaritas com o copo do liqüidificador e Doris encostada na pia, raspando os fundos das empanadas de Rochelle que tinham se queimado até for­mar uma crosta negra. Rochelle estava sentada numa ban­queta junto ao balcão, bebericando sua margarita e fitando as empanadas com um olhar enevoado.

—      Ah, que se dane. — Ela se levantou do banquinho, tirou as empanadas das mãos de Doris e jogou-as numa tra­vessa de servir sem o menor cuidado. — E daí que elas estão um pouco queimadas? Assim ficam mais crocantes.

Eu pisquei, perplexa. Seria aquela a mesma perfeccio­nista que eu havia visto correndo pela casa como um bonequinho de corda na semana anterior?

—Tome—Rochelle entregou a travessa à Doris. —Pode levar para a sala.

E as bandeirinhas mexicanas? — Doris perguntou.

Quem se importa com bandeirinhas? — Rochelle fa­lou, bebendo mais um gole da margarita. — Afinal, elas sem­pre foram ridículas, não é mesmo?

Subitamente seus olhos se encheram de lágrimas.

—      Eu sou uma mulher ridícula. Sempre fui. Então ela cambaleou na direção da sala.

Todos nós trocamos olhares alarmados e corremos atrás dela.

Rochelle, meu bem — Ashley falou, enlaçando-a pe­los ombros —, o que aconteceu?

Nada. Nada mesmo. Está tudo certo e maravilhoso como sempre — ela disse, fazendo um gesto amplo com os braços que quase derrubou um abajur que estava ali perto.

Ashley levou-a para se sentar no sofá. O restante de nós se acomodou em volta dela, todos constrangidos. Ninguém disse uma palavra. Ficamos apenas sentados ali, tão tran­qüilos e relaxados quanto um bando de pacientes à espera de um tratamento de canal.

Olhei de relance na mesa de centro e vi que, naquele dia, não havia nada de petiscos e aperitivos elaborados. Nada de macadâmias, nem [i]pretzels[/i]. Nenhum tipo de [i]chips[/i], com ou sem sal. Somente as empanadas torradas.

Foi naquele instante que a campainha tocou.

—      Ah... — Rochelle resmungou. — Deve ser a minha estimada amiga Marybeth.

Mais uma vez, nada havia de "estima" na maneira como ela se referiu a Marybeth.

—      Pode entrar! — ela gritou.

Segundos depois Marybeth entrou carregando um vaso com exóticas flores de seda, as faces rosadas de excitação.

Rochelle, querida, veja só o que eu encontrei para o seu banheiro. Não vão ficar simplesmente lindas em cima do balcão?

Simplesmente lindas — Rochelle ecoou, no mesmo tom cantarolado.

Marybeth lançou-lhe um rápido olhar. Era evidente que havia algo de errado, mas ela preferiu ignorar. Em vez disso, colou um luminoso sorriso no rosto.

Vou levá-lo para cima. Quer vir comigo, para ver como fica?

Não — Rochelle respondeu. — Não quero ver como fica.

Tudo bem — Marybeth falou, o sorriso ainda firme no lugar. — Então eu dou uma corridinha até lá e faço isso sozinha.

O silêncio se tornou ainda mais desconfortável quando Marybeth subiu pela escada.

Finalmente foi Rochelle quem o rompeu.

Droga! — ela disse. — Eu me esqueci da guacamole.

Eu vou buscar! — Todos nós dissemos ao mesmo tempo, nos levantando, ansiosos por sair dali por alguns minutos.

Não — Rochelle ordenou, com uma autoridade pou­co característica. — Fiquem aí sentados. Eu vou.

Ela se levantou com esforço das profundezas do sofá e encaminhou-se para a cozinha.

No instante em que ela desapareceu, todos começamos a cochichar.

O que diabos está acontecendo? — disse Ashley.

Talvez ela esteja menstruada — falei, embora sem muita convicção.

Ora, faça-me o favor — Pam interveio. — Ninguém fica tão mal assim quando está menstruada.

Ela está furiosa com Marybeth por algum motivo — Doris falou.

Sim, é verdade — Colin concordou. — Não é maravilhoso? Espero que ela lhe dê uma surra daquelas.

Talvez não tenha gostado do banheiro — sugeri.

De jeito nenhum — disse Pam. — Rochelle adora tudo o que Marybeth faz. Se Marybeth lhe dissesse que cocô é bo­nito, Rochelle compraria e mandaria emoldurar.

—      A antiga Rochelle — Colin corrigiu. — Alguma coisa mudou.

Rochelle voltou da cozinha trazendo a guacamole na tigela de aço inox que havia usado para prepará-la. Nem se dera ao trabalho de transferi-la para seu elegante prato de servir.

—      Podem atacar, meninas — ela disse, pisando nos chips que havia derrubado no tapete. — Desculpem por ela ter fi­cado assim, meio marrom, mas é que ficou guardada na ge­ladeira desde às quatro horas da tarde. Ah, tudo bem. Co­mam assim mesmo.

E, com isso, ela afundou novamente no sofá e voltou a sugar a margarita.

Com aquele clima tenso, ninguém parecia ter apetite.

Ninguém, exceto eu.

Ataquei a guacamole com vontade. Mas esta não che­gava nem aos pés daquela que Rochelle servira na semana anterior. Não apenas tinha uma cor marrom por cima, mas também faltavam os gigantescos pedaços de abacate. Pare­cia que ficara tempo demais no liqüidificador, tendo se trans­formado em algo mais semelhante a uma sopa de ervilhas do que guacamole. E deixou também um gosto estranho, gorduroso, na boca.

Entre a guacamole marrom e gordurosa e as empanadas queimadas, fiquei contente por ter ido com Pam a lan­chonete. Só me arrependia de não ter pedido uma porção extra de queijo no meu sanduíche. Eu estava estendendo a mão para pegar um punhado de chips quando Marybeth re­tornou à sala.

—      As flores ficaram fantásticas! — Ela sorriu para Rochelle. — O toque final perfeito.

Rochelle permaneceu em silêncio, os ombros contraí­dos, passando o dedo pela borda do seu copo.

Àquela altura a tensão na sala era tão densa que podia ser cortada com uma faca. Marybeth, porém, ainda fingindo que tudo estava às mil maravilhas, empoleirou-se ao lado de Rochelle e anunciou:

—      Adivinhem uma coisa, garotas! Eu tenho uma novi­dade deliciosa!

Rochelle ergueu os olhos do seu copo de margarita.

Enfie a sua novidade deliciosa naquele lugar. O sorriso de Marybeth sumiu no mesmo instante.

O quê?

—      Você me ouviu muito bem — disse Rochelle. — Enfie a sua novidade deliciosa naquele lugar. Todos nós estamos fartos desse seu humor radiante.

Marybeth não podia mais fingir que estava tudo bem.

Rochelle, o que deu em você?

Não, a pergunta é: o que deu em você, Marybeth? Ou, melhor dizendo, para [i]quem[/i] você deu?

Um leve rubor tingiu as faces de Marybeth.

—      Prestem atenção, todas vocês — Rochelle falou, bebendo um gole vigoroso daquela que devia ser a sua quarta margarita. — Eu tenho uma novidade. Uma grande notícia, aliás. Eu estava certa a respeito de Marty Ele está tendo um caso. Eu encontrei isso aqui na gaveta de cuecas dele, ao lado de um pacote de camisinhas.

Rochelle tirou uma fotografia do bolso da calça de moletom e jogou-a sobre a mesinha de centro.

Ashley, que estava sentada mais perto dela, pegou a foto e ofegou.

—      Santo Deus! — ela exclamou, e passou-a adiante. Era uma fotografia colorida de Marybeth, escarrapachada numa cama de motel e usando nada além de um sorriso e uma calcinha com abertura na parte de baixo.

Agora, qualquer ser humano decente teria tido a consideração de se mostrar envergonhado. Mas não Marybeth.

Ela limitou-se a ficar parada ali, com aquele sorriso irritante ainda no rosto.

—      É verdade — ela disse, empinando o queixo com um ar de desafio. — Marty e eu estamos apaixonados. Temos nos encontrado há meses. Soubemos que fomos feitos um para o outro desde o dia em que nossos olhos se encontra­ram por cima do porta-toalhas aquecido. Pobre Rochelle — tentou pousar a mão no joelho de Rochelle, num gesto de consolo, mas Rochelle a afastou. — Encare a realidade, que­rida. O seu casamento estava acabado muito antes de eu apa­recer. Se não fosse comigo, teria sido com outra pessoa.

Marybeth estendeu o braço na direção da vasilha de guacamole.

—      Tente ver as coisas pelo lado positivo, Rochelle — ela prosseguiu. — Não é o fim do mundo. É o início de toda uma nova fase. Lembre-se: hoje é o primeiro dia do resto da sua vida!

Se ela proferisse mais um clichê, Strunk e White se levantariam das suas tumbas e a esganariam.

—      Alguém pode me passar os chips? — ela pipilou.

Todos nós a encaramos, atônitos, quando, sem um fia­po sequer de remorso, ela se serviu de uma generosa porção de guacamole no chips.

—      Rochelle, meu bem, provavelmente esta é a melhor coisa que já aconteceu em sua vida.

Rochelle a fitava com os olhos vítreos.

Caia morta — ela disse, a voz dura de ódio.

Eu sei que você não está falando de coração. Logo irá me perdoar. Você ainda vai dançar no meu casamento, espe­re para ver.

Marybeth enfiou o salgadinho na boca e mastigou alegremente por um segundo. Então, subitamente, suas faces frescas e rosadas adquiriram o mais tenebroso tom de cinza.

Antes mesmo que percebêssemos, ela estava no chão, contorcendo-se de dor.

—Amendoins — ela ofegou. — Alguém pôs amendoins na guaca...

Mas ela jamais teve chance de concluir o pensamento. Porque, então, estava morta.

Ninguém iria dançar em seu casamento.

 

Ficamos todos parados ali, congelados, olhando para Marybeth que, pela primeira vez, não tinha nada de positivo a dizer. Então Rochelle começou a gritar a plenos pulmões. A Rochelle irada e ressentida havia desaparecido, a antiga Rochelle es­tava de volta e completamente apavorada.

—      Ah, meu Deus! — ela gritou. — Alguém sabe fazer respiração boca-a-boca?

Doris ajoelhou-se e sentiu o pulso de Marybeth.

—      É tarde demais para isso. Ela se foi.

Neste ponto todos nos juntamos à histeria de Rochelle e começamos gritar e falar coisas desconexas.

Alguém que mantivera a cabeça fria, certamente não fui eu, ligou para a polícia e, minutos depois, ouvimos o ruí­do agudo das sirenes lá fora. Logo a casa estava enxameando de policiais. Eles nos levaram para a sala de jantar, e ali ficamos, enquanto vasculhavam tudo, tirando fotos e reco­lhendo evidências.

De onde eu estava vi um dos policiais pegar a foto pornográfica de Marybeth na mesinha de centro. Ele cutucou um dos seus colegas e lhe mostrou a fotografia. Que ironia, eu pensei. Não muito tempo atrás Marybeth estava posando nua para Marty numa cama de motel. Agora, estava posan­do morta para uma turma de policiais, num tapete que pro­vavelmente ela mesma escolhera.

O detetive encarregado do caso, tenente Luke Clemmons, era um sujeito magro, com óculos de aros de metal e um topetinho que se projetava no cabelo muito mal cortado. Pa­recia mais um vendedor de enciclopédias do que um homem que ganhava a vida investigando corpos mortos.

Ele guiou a soluçante Rochelle de volta para a sala e a fez sentar numa poltrona, a uma respeitável distância do ca­dáver. Então retirou um caderninho do bolso e passou a fa­zer perguntas.

Eu me esforcei para ouvir fragmentos da conversa entre eles: Alergia mortal a amendoins... Ela estava bem antes de comer a guacamole... na gaveta de roupas de baixo do meu marido, junto com um pacote de preservativo. Depois de fornecer estas pou­cas informações, ela recomeçou a chorar compulsivamente.

Logo depois disso, eu vi um policial se aproximar do detetive.

—      Desculpe interromper, tenente — eu o ouvi dizer —, mas veja o que encontramos no lixo.

Com as mãos cobertas pelas luvas descartáveis, ele estendeu uma garrafa de óleo de amendoim para que o deteti­ve inspecionasse.

Então fora isso que provocara a morte de Marybeth. Não tinham sido amendoins, mas óleo de amendoim.

Enquanto os paramédicos entravam trazendo uma maca e um invólucro de plástico para o corpo, uma empertigada policial, com o cabelo loiro preso num rabo-de-cavalo, irrom­peu na sala de jantar e anotou nossos nomes e números de telefone. Ela disse que poderíamos ir, mas que em breve se­ríamos chamados para interrogatório.

Nós nos dirigimos para o vestíbulo e consegui ouvir Rochelle dizendo ao detetive magricelo:

—      Eu juro, tenente, não coloquei óleo de amendoim na guacamole. O senhor precisa acreditar em mim!

Mas eu vi a maneira como ele a encarava, a maneira como checava a sua camiseta com a mensagem [i]Estou Sem Estrogênio e Tenho uma Arma[/i] estampada. Ao menos por enquanto, Rochelle tinha o rótulo de principal suspeita colado na testa.

O senhor precisa me dar licença, agora — ela disse passando os dedos por entre os cabelos já desgrenhados. — Eu realmente preciso limpar a cozinha. Está uma bagunça.

Este não é o momento de se preocupar com a cozi­nha, senhora — o detetive falou com delicadeza.

Isso era certo. Aquele era o momento, se eu não estava enganada, de Rochelle ligar para o seu advogado.

Doris decidiu ficar para fazer companhia a Rochelle até que o canalha do marido dela aparecesse.

—      Eu bem que gostaria de dar uma boa surra nele — Doris falou. — Pena que a minha artrite não permite.

O restante do grupo foi para fora, onde senti o delicioso ar fresco da noite bater em meu rosto. A última coisa que ouvi enquanto saía pela porta foi um dos policiais dizendo:

—      Elas se denominam de "Clube TPM". Sem dúvida uma delas estava com os hormônios desequilibrados esta noite.

Ashley, Colin, Pam e eu seguimos pela calçada até os nossos carros.

—      O que vocês acham disso? — Colin perguntou. — Depois de todos estes anos enfeitando empanadas com bandeirinhas, Rochelle finalmente pirou. — Balançou a cabeça, incrédulo. — Quanto vocês querem apostar que ela vai ser presa? Afinal, Marybeth estava transando com o marido dela. É um motivo perfeito para assassinato.

Mas Rochelle não era a única que tinha um motivo, pen­sei. Eu não ouvira Colin dizer que queria "matar aquela me­gera", por ela não ter lhe dado a sociedade que ele achava que merecia?

—      E tão difícil acreditar — Ashley comentou. — A pequena e tímida Rochelle...

—      Sim — disse Colin —, mas você viu como ela estava com raiva esta noite. Era como se fosse outra pessoa.

—      Você tem razão - Ashley ecoou. - Outra pessoa... Com suspiros profundos nós trocamos boas-noites, en­tramos em nossos carros e partimos em direções diferentes.

Eu simplesmente não consigo imaginar Rochelle como assassina - falei para Pam, enquanto seguíamos de volta para Holywood no meu Corolla.

Eu sei. Mas, como disse Colin, ela estava com muita raiva esta noite.

Sim, mas você viu como ela ficou horrorizada quan­do se deu conta de que Marybeth estava morta.

Você acha que é possível ela ter matado Marybeth num acesso de fúria, e depois ter recuperado a razão quando percebeu o que havia feito?

Imagino que seja possível — concedi. — Mas não acredito nisso.

Mas se não foi ela — disse Pam —, quem foi?

 

Qualquer pessoa que tenha tido acesso à guacamole depois que Rochelle a preparou. Ela disse que estava pronta desde às quatro da tarde. E Marybeth foi morta por volta das nove. Isso dá um espaço de cinco horas para alguém se esgueirar até a cozinha e acrescentar o óleo de amendoim.

Ai-meu-Deus! — Pam esganiçou.

Pisei imediatamente no freio e desviei para o acosta­mento da rodovia.

O que aconteceu?

Acabei de pensar numa coisa — disse Pam. — Se não foi Rochelle, então só pode ter sido uma outra pessoa do clube!

É um pensamento interessante — falei, retornando para o tráfego. — Não o bastante para provocar um acidente com o meu carro, mas interessante.

Pam continuou falando, sem perceber o meu sarcasmo.

Veja bem, todo mundo ficou andando por ali, subin­do e descendo a escada, entrando e saindo do banheiro. Qual­quer um poderia ter entrado na cozinha quando Rochelle não estivesse lá.

É verdade — eu disse. — Qualquer pessoa poderia ter feito isso. Afinal, ninguém gostava muito de Marybeth.

Mas não o suficiente para matá-la — Pam falou, balançando a cabeça com incredulidade.

Não tenho tanta certeza disso.

Contei a ela a conversa raivosa de Colin no celular, que eu entreouvira na minha primeira reunião do clube.

—      Ele estava realmente furioso com Marybeth, por tê-lo rejeitado naquela sociedade. E como se isso não bastasse, Colin já estava na casa de Rochelle meia hora antes de todas as outras chegarem. Ele disse que havia ido levar o papel higiênico. Mas quanto tempo alguém demora para trocar um rolo de papel higiênico? Teria sido bem fácil para ele descer e "batizar" a guacamole.

Seguimos em silêncio por algum tempo. Eu estava per­dida em pensamentos, imaginando Colin entrando na cozi­nha pé-ante-pé, com um rolo de papel higiênico cor de pês­sego numa das mãos e uma garrafa de óleo de amendoim na outra, quando Pam emitiu outro grito lancinante.

Mais uma vez, pisei com força no freio, desencadeando uma furiosa saraivada de buzinas dos veículos atrás de mim.

O que foi, agora?

Desculpe, Jaine. Mas é que subitamente me ocorreu: e se a polícia achar que fui eu, ou você, que cometemos o crime? — Ela mordeu o lábio com uma expressão de deses­pero. — Droga. A última coisa de que preciso no meu novo currículo é "suspeita de assassinato".

Não se preocupe — tranquilizei-a enquanto retoma­va a velocidade. — Nós estávamos juntas o tempo todo. Nós duas sabemos que nem chegamos perto daquela guacamole Posso jurar que isso é verdade sobre uma pilha de bíblias.

Pam recostou-se com um suspiro de alívio. Mas isso não durou muito tempo. Segundos depois, ela emitiu outro gri­tinho de pânico.

E agora, o que é? — Desta vez, continuei dirigindo.

E se os policiais acharem que estamos mentindo para dar um álibi uma à outra?

Agora foi a minha vez de entrar em pânico. Pam tinha razão. A polícia poderia pensar que estávamos mancomuna­das. Se por algum motivo Rochelle acabasse sendo descarta­da, eu poderia ser uma suspeita num caso de assassinato.

Com a sorte que eu tinha, havia entrado no Clube TPM uma semana antes de um crime acontecer.

O que serve para provar que não existem margaritas grátis.

 

Na manhã seguinte, o assassinato de Marybeth era a grande sensação em todos os noticiários. Obviamente algum policial linguarudo havia deixado a história vazar para a imprensa.

A manchete do L.A Times era a menos escandalosa:

 

           DECORADORA DE INTERIORES

           ASSASSINADA EM BRENTWOOD

 

Mas o pessoal dos noticiários de tevê estava ganhando o dia. O Crime TPM, era como a maioria deles estava chaman­do o episódio, com frases como Assassino da Guacamole e Hormônios Homicidas atiradas aqui e ali a fim de provocar risadinhas.

Felizmente os nomes das integrantes do clube não fo­ram mencionados. Fomos descritas apenas como um "gru­po de ricas socialites do Westside".

— O que acha disso, Pro? — falei para Prozac, que se escarrapachava no sofá lambendo suas partes íntimas. — Aposto que você não sabia que mora com uma rica socialite do Westside.

Prozac nem se deu ao trabalho de olhar para cima. Ela me deixara no "gelo" desde cedo, quando tentei lhe servir uma ração de fígado de baixa caloria no café da manhã. Olhara para aquilo como se eu tivesse acabado de deixar um monte de excremento no chão e começou a gemer como uma deses­perada. Mas eu fiquei firme. E, com o passar do tempo, ela desistiu e saiu com passos duros na direção da sala.

Por uma vez que fosse, eu iria mostrar a ela quem man­dava ali. É verdade que acabei indo comer o meu desjejum no banheiro, empoleirada na beirada da banheira, temendo os olhares mortais que receberia se ela me visse comendo um bagel transbordando de manteiga. Mas o ponto principal é que não voltei atrás e nem lhe dei a ração de atum pela qual ela tanto ansiava.

Eu estava voltando para a cozinha na ponta dos pés, a fim de pegar mais um [i]bagel,[/i] quando o telefone tocou. Atendi cautelosa, receando que talvez um repórter mais empreen­dedor tivesse conseguido me encontrar e quisesse uma de­claração sobre o assassinato.

Srta. Austen? — uma voz desconhecida soou na li­nha. Era um repórter, sem dúvida.

Quem deseja falar? — perguntei, baixando o tom da minha voz uma oitava, pretendendo dizer a ele que havia discado o número errado.

É Andrew Ferguson, do Banco Union National. Pos­so falar com a srta. Austen, por favor?

Droga. Por que eu fui engrossar a voz? Agora ele acha­va que eu era um homem. Provavelmente pensou que eu era casada. Ou que morava com um homem... ou, então, com uma mulher bastante masculinizada. Não que eu me impor­tasse com o que ele estivesse pensando. Depois do meu ca­samento com O Bolha, eu havia renunciado aos homens para sempre, ou pelo menos até o dia em que inventassem um homem que se lembrasse de baixar a tampa do vaso sanitá­rio. Ainda assim, por algum motivo inexplicável, eu não que­ria que Andrew pensasse que eu fosse comprometida.

—      Certo — eu disse, a voz ainda grossa. — Vou chamá-la. Esperei alguns segundos, depois voltei à linha com a minha voz normal.

—      Olá, sr. Ferguson. — Então falei mais alto, como se me dirigisse a outra pessoa: — Obrigada, senhor, por ter consertado o vazamento! - Voltei ao telefone. - Desculpe. O encanador estava aqui, consertando um vazamento. Foi ele quem atendeu o telefone. O encanador.

—      É mesmo? — Andrew perguntou, intrigado. — Você sempre deixa o encanador atender seu telefone?

_ Ah, nós somos bons amigos. Na verdade, nos conhe­cemos há anos. Eu não permitiria que qualquer outra pessoa chegasse perto da minha tubulação.

—      Ele é seu amigo e você o chama de "senhor"?

—      Não, este é o apelido dele: Senhor. Senhor, o encana­dor. Um sujeito fabuloso.

Será que alguém pode fazer o favor de me mandar calar a boca?

—      Bem, o motivo porque estou ligando - disse Andrew —, é que eu gostaria que você voltasse aqui para uma outra entrevista.

Ele queria que eu voltasse! Apesar da meia-calça com fundo de algodão em cima da mesa dele!

Eu gostaria de mostrar os seus textos para a diretoria financeira. Será que pode passar por aqui, mais ou menos às onze horas?

É claro que sim!

Peça à recepcionista para encaminhá-la ao escritório de Sam Weinstock.

Depois de lhe agradecer profusamente, desliguei e dei pulinhos de alegria.

_ Adivinhe, Pro? Ele quer que eu volte para outra entrevista! Mesmo depois daquele seu truque indecente com a minha meia-calça! Viu só, sua diabinha danada?

Eu a peguei no colo e pespeguei um grande beijo úmi­do em seu focinho.

Então ela se desvencilhou dos meus braços e saltou novamente no sofá

— Faça como quiser. Veja se eu me importo. Você pode ficar emburrada o quanto quiser, mas não vai estragar a mi­nha festa.

Com isso, saí pisando duro na direção do banheiro, onde limpei os farelos de bagel da banheira e abri as torneiras para enchê-la.

Fiquei de molho na banheira por uns bons vinte minu­tos, mergulhada até o pescoço na espuma perfumada de morango, sonhando com o que faria se conseguisse o em­prego no Union National e embolsasse quarenta mil por ano. Compraria um carro novo, isso era certo. Talvez até desse uma entrada num apartamento. Faria um upgrade no meu computador e me daria de presente um novo corte de cabe­los, que magicamente iria me transformar numa beleza in­crível, o que faria com que Andrew Ferguson me achasse irresistível e, em pouco tempo, nós dois estaríamos trocan­do olhares ardentes por cima de uma máquina Xerox.

Foi bem no meio de uma fantasia proibida para meno­res que envolvia Andrew e eu em nossa lua-de-mel no Taiti, que me lembrei do assassinato de Marybeth. E assim, sem mais nem menos, a fantasia se dissipou. Pelo amor de Deus, pensei, eles jamais iriam me contratar se descobrissem que eu era uma suspeita de assassinato. Os bancos tendem a ser um tantinho rígidos com coisas deste tipo.

Icei-me para fora da banheira, profundamente depri­mida. Mas então, enquanto secava os cabelos, comecei a olhar as coisas pelo lado positivo. Afinal, lembrei a mim mesma, ninguém na imprensa havia mencionado o meu nome. Andrew e o sr. Weinstock não tinham como saber que eu estava envolvida no assassinato do TPM. E, tecnicamente, eu não era suspeita. A polícia não havia me acusado de nada. Tudo o que disseram é que queriam me interrogar. E, talvez, isso nem fosse necessário. Tanto quanto eu sabia, já haviam detido a assassina de Marybeth e eu nunca mais ouviria fa­lar neste assunto.

Foi naquele momento, exatamente quando estava me espremendo dentro da meia-calça e me sentindo novamente esperançosa, que o telefone tocou. Corri para atender e, quem mais poderia ser? Da polícia, é claro. Queriam que eu pas­sasse na delegacia para um interrogatório, naquela mesma tarde.

Tudo bem, grande coisa, disse a mim mesma quando desliguei. Só porque eles queriam me fazer algumas perguntas isso não me transformava numa suspeita de assassinato. Eu era apenas uma testemunha. Obriguei-me a continuar anima­da enquanto acabava de me vestir e me maquiava. Finalmente fiquei pronta para a entrevista. Banho tomado, cabelos se­cos, pernas depiladas e vestida com o meu Prada.

Examinei-me no espelho. Nada mal. Nada mal mesmo.

Verifiquei minha pasta à procura quaisquer presentes indesejados de Prozac. Digamos, uma chumaço de cabelos, um Tampax ou alguma deliciosa eau de xixi de gato. Emiti um suspiro de alívio ao ver que nada estava fora do lugar. Então peguei as chaves do carro e fui para a porta.

— Não vai me desejar boa-sorte? — perguntei para Prozac, que continuava escarrapachada no sofá. — Isso sig­nificaria muito para mim. Sabe o quanto eu amo você.

Não dou a mínima, foi o que os olhos dela me disseram.

E, com isso, ela girou no sofá com o bumbum para cima, mostrando-me exatamente o que eu poderia fazer com o meu amor.

Quando cheguei no Banco Union National, rainha Elizabeth, a recepcionista, cumprimentou-me com um sorri­so gelado e indicou-me um corredor revestido com um carpete fofo, na direção do escritório de Sam Weinstock.

Agora, eu não sei o que vocês pensam quando ouvem um nome como este, Sam Weinstock. Eu imaginava um su­jeito baixo, gorducho, com mais cabelo nas orelhas do que na cabeça

Bem, eu imaginei errado.

Para começar, Sam era o apelido de Samantha. E, longe de ser baixa, gorda e careca, Sam era alta, esguia e impossivelmente linda. Seus traços finamente esculpidos pareciam ter saído de um anúncio da Clinique. O cabelo cor de cobre brilhante era dividido no meio, uma franja perfeitamente cortada emoldurando-lhe o rosto. Nem sequer um único fio de cabelo naquela cabeça espetacular se atrevia a sair para fora do lugar.

Ela e Andrew estavam rindo de alguma coisa quando espiei pela porta entreaberta. Era um risada íntima, particu­lar. Alguma coisa na maneira como eles se olhavam me dizia que eram algo mais do que simples colegas de trabalho.

Jaine! — Andrew exclamou ao me ver, pulando de onde estivera confortavelmente recostado no sofá de Sam. — Pode entrar — juntou, com um gesto. Seus cabelos, não pude deixar de reparar, ainda estavam encaracolados da­quele jeito extremamente sedutor na dobrinha da nuca. — Quero que conheça a nossa diretora financeira, Samantha Weinstock.

Todos me chamam de Sam — a maravilha de cabelos avermelhados falou.

Ela se levantou para me cumprimentar, os ossos dos quadris se projetando na sua elegante saia estilo "lápis". Eu me senti uma lancha, em comparação.

Olá — falei, sem dúvida deixando-a aturdida com a minha capacidade de iniciar uma conversa inteligente.

Prazer em conhecê-la—ela disse, dando-me um aper­to de mão. Para uma coisinha tão delicada, seu aperto de mão foi surpreendentemente forte.

Sam examinou-me de cima a baixo, captando meus ca­chos descuidados e a minha maquiagem de drogaria. Sob seu olhar definhante, meu terninho Prada subitamente fi­cou parecendo um dos aventais de Ethel Mertz.

Obviamente decidindo que eu não significava nenhum perigo de competição pelo afeto de Andrew, ela se permitiu um leve sorriso.

Sente-se, e vamos dar uma olhada nos seus textos.

Acho que você vai ficar muito impressionada com o que Jaine irá lhe mostrar — Andrew falou, piscando para mim. — Eu sei que fiquei.

Seria minha imaginação ou ele acabara de fazer uma alusão disfarçada a minha meia-calça?

Ela escreve muito bem — ele acrescentou.

Deixe-me julgar por mim mesma — disse Sam, com um risinho contido. Era para soar como brincadeira, mas to­dos nós sabíamos que ela não estava brincando.

Abri a minha pasta para pegar os textos. Apesar de tê-la examinado em casa, eu ainda estava nervosa. Prozac po­deria ter enfiado ali alguma coisa, sem que eu percebesse? Respirei fundo e retirei meu livro de amostras, fazendo uma pequena prece de agradecimento quando nenhum cocô seco de gato caiu rolando na mesa de Sam.

Ela examinou as minhas amostras lentamente, sem di­zer uma palavra sequer, virando as páginas com o entusias­mo de um agente funerário.

Finalmente, quando eu já estava convencida de que ela me mandaria dar o fora, Sam fechou o livro e disse:

—      Bom trabalho. Muito bom, mesmo.

Ela gostou! Gostou de verdade! Isso significava que iria me oferecer o emprego?

—      Eu gostaria de saber um pouco mais sobre o seu histórico profissional — ela disse. — Fale um pouco sobre você, Jaine.

Ela cruzou os braços no peito e recostou na cadeira, esperando para ser impressionada.

—      Bem, eu iniciei uma carreira como prostituta, mas as coisas estavam difíceis então tive de começar a escrever.

Ok, não foi isso que eu disse. Na verdade, eu não disse nada. Porque naquele instante a secretária de Sam, uma ou­tra idosa aristocrata, abriu a porta e lembrou a Sam que ela e Andrew estavam atrasados para a reserva que haviam feito no restaurante.

Droga — Sam olhou no relógio. — Você sabe como o [i]Simon‘s[/i] costuma ficar lotado. Se não chegarmos na hora po­demos perder a nossa mesa. Por que você não vem conosco, Jaine, e continuamos a entrevista durante o almoço?

Tudo bem — eu disse.

Eu já ouvira falar sobre o Simon 's. Era a nova churrasca­ria da moda, o destino preferido de executivos que debitam o almoço na conta da empresa, onde os filés altos custam o mesmo preço de um carro compacto.

E eu mal podia esperar para me envolver inteira num destes filés. Ao ponto. Acompanhado de uma montanha de batatas fritas. Eu já estava salivando.

Fomos no carro de Andrew, um BMW preto conversí­vel. Até então, eu sempre achei que sujeitos que dirigiam BMWs eram idiotas arrogantes mas, subitamente, os BMWs não me pareceram mais tão pretensiosos assim. Eu tinha cer­teza de que Andrew o havia comprado pensando no exce­lente desempenho do motor alemão, e que nem estava pen­sando em usar aquele carro como um fútil símbolo de status. Pensando bem, eu não havia lido em algum lugar que o Consumer Reports elogiara o BMW?

Sam e Andrew foram na frente, enquanto eu me espre­mia no minúsculo assento traseiro, meus joelhos cutucando desconfortavelmente o meu peito.

Como muitos proprietários de conversíveis, Andrew havia baixado a capota a fim de aproveitar ao máximo a revigorante umidade poluída da costa. Conforme o BMW disparava ao longo das ruas, o vento transformava a minha cabeleira normalmente ingovernável num verdadeiro emaranhado. É desnecessário dizer que os cabelos de Sam permaneceram intactos. Eles não se atreveriam a desmanchar. Ela saiu do carro com a aparência tão perfeita como a que tinha quando entrara.

Eu, por outro lado, saí exibindo uma semelhança es­pantosa com a Noiva do Frankenstein. Tive um relance da minha imagem no vidro da porta do restaurante e ofeguei de susto. Parecia que o meu cabelo tinha sido penteado com um batedor de ovos.

Assim que entramos no restaurante, pedi licença e cor­ri para o banheiro. Tentei de tudo para domar um pouco os meus cachos, mas foi inútil. Finalmente desisti e voltei para a mesa. Ah, tudo bem. Pelo menos havia um filé ao ponto me esperando no fim do arco-íris.

Juntei-me a Sam e Andrew, que estavam sentados lado a lado no sofá de couro de um reservado. Se estivessem mais perto, ela estaria sentada no colo dele. Perguntei-me se eles, como Kandi e Steve, logo começariam a trocar carícias com os pés embaixo da mesa.

Deslizei pelo assento na frente deles, ruborizando quan­do a minha calça produziu um barulho rangente do tecido contra o couro.

Os filés aqui são excelentes — Andrew falou. — Você precisa experimentar.

Ora, Andy — disse Sam —, Jaine não vai pedir o filé. Não se ela pretende manter esse corpinho de menina.

Epa, se eu não estivesse "ligada", poderia jurar que aquilo era uma indireta. E eu estava"ligada" e aquilo foi uma indireta.

—      Vocês homens têm sorte. Podem comer à vontade e nada acontece. Nós não somos assim, não é, Gorducha?

Ok, na verdade ela não me chamou de Gorducha, mas depois daquela cutucada sobre o corpinho de menina, eu sabia que era isso que Sam estava pensando.

Quando o garçom apareceu, Andrew pediu um filé mignon ao ponto com batatas fritas. Com todo o meu coração e a minha alma eu queria dizer: "O mesmo para mim." Mas não podia, não quando Sam praticamente me ordenara a não comer o filé. Assim, pedi o mesmo que ela, uma salada mista.

—      Então — ela disse depois que o garçom se afastou —, fale-nos sobre você, Jaine.

Eu atirei-me ao meu discurso-padrão, contando como havia trabalhado durante anos como copywitter de publici­dade antes de passar a escrever por contra própria, como freelance. Falei também sobre como gostava dos desafios apre­sentados pelos meus diversos clientes e sobre a satisfação que resulta de um trabalho bem-feito, o tempo todo tentando não usar demais as palavras Mestres do Encanamento.

Finalmente, quando terminei o meu sapateado, nosso almoço foi servido. O filé de Andrew crepitava em seu prato, com um pedaço de manteiga derretendo por cima. As bata­tas fritas bem grossas eram douradas e cintilavam com os cristais de sal. Precisei de toda a minha força de vontade para me impedir de estender a mão e pegar uma delas.

Baixei os olhos para a minha salada mista e maldisse o dia em que Deus criou o alface.

Não tenho a menor idéia sobre o que conversamos du­rante o almoço. Eu estava ocupada demais observando Andrew demolir o seu filé, pedaço a suculento pedaço. Ah, meu Deus, aquilo foi uma tortura! Num determinado mo­mento, uma gotinha de ketchup da batata frita pingou no queixo dele. Eu juro, quase me inclinei por cima da mesa e dei uma lambida.

Então, de repente, percebi que Andrew estava falando comigo.

Desculpe? — falei.

- Você tem certeza de que comeu o suficiente? — ele perguntou, olhando para o meu prato

Eu segui o seu olhar e vi, admirada, que havia limpado o prato. De alguma forma, eu conseguira engolir até o últi­mo fiapo de alface da minha salada.

—Ah, sim, estou satisfeita — falei, enquanto o meu estômago roncava de fome. — Não conseguiria comer mais nada.

—      É claro — ele disse, assentindo com gravidade. Seria minha imaginação, ou eu teria visto um sorrisi­nho furtivo nos cantos da sua boca?

Depois de algum tempo, mal tendo tocado em metade da salada, Sam proclamou-se satisfeita.

Não vamos pedir sobremesa, não é? — ela perguntou.

Vamos, sim! — foram as palavras que eu desejaria ter coragem suficiente para proferir. Mas, em vez disso, ba­lancei a cabeça em negativa enquanto Sam chamava o gar­çom para pedir a conta.

Então, Jaine — ela disse, virando-se para mim. — Você gostaria de ser a editora do informativo Conversa Fiada do Union National?

Seria uma "pegadinha"? Se eu respondesse sim, ela iria dizer: [i]Ah! Te peguei! É brincadeirinha!?

Sim, eu gostaria muito — arrisquei.

Muito bem, então — ela falou, com um sorriso rígi­do , o emprego é seu.

Meus parabéns! — Andrew exclamou sorrindo. — Bem-vinda à bordo. Quando você pode começar?

Quando vocês quiserem.

Ótimo. Ligo para você amanhã e marcamos uma reu­nião com os gerentes das agências.

Sam pagou a conta e nos dirigimos para o estaciona­mento. Eu estava praticamente andando nas nuvens. Esque­cida da minha horrível salada mista, o único verde que eu via agora era o dos cheques vindo na minha direção.

Nós três ficamos parados no estacionamento, conver­sando amenidades enquanto esperávamos o manobrista trazer o carro de Andrew. Então, com o canto dos olhos, vi Sam deslizar a mão para dentro do bolso da calça de Andrew. Foi um gesto sutil, mas tive a nítida impressão de que ela queria que eu visse, como uma gata marcando seu território.

Quando percebeu que havia algo mais no seu bolso do que apenas uns trocados, Andrew ruborizou e enviou à Sam um tímido sorriso.

Era evidente que Sam Weinstock estava vivenciando as minhas fantasias de banheira.

Peguei o meu Corolla no estacionamento do banco e segui para casa, faminta. Não havia comida suficiente na­quela salada nem para manter vivo um coelho anoréxico.

Quase tive vontade de voltar para o restaurante e pedir um filé. Mas me lembrei de que ainda não estava com o che­que de pagamento nas minhas mãozinhas aflitas, portanto, em vez disso, parei na primeira lanchonete por onde passei, um bastião da haute cuísine chamado Barraca de Tacos do Tommy.

Pedi um burrito de carne e um refrigerante, e pratica­mente pulei por cima do balcão para prepará-lo, tamanha era a minha fome.

Enquanto esperava pelo que me pareceu uma agoni­zante eternidade até que o sujeito atrás do balcão me trou­xesse a comida, minha mente continuava retornando à ima­gem de Sam deslizando a mão para dentro do bolso de Andrew. Eu sei que deveria estar dando pulos de alegria por causa do novo emprego, mas só podia pensar em Sam senta­da com Andrew na minha casa de praia em Malibu, na minha banheira de água quente, comendo os meus morangos mer­gulhados em chocolate.

Finalmente o meu burrito chegou e enterrei os dentes nele como a mulher faminta que era.

Nem mesmo me dei ao trabalho de sentar numa das mesas ao ar livre da barraca de Tommy. Fiquei de pé ali mesmo na calçada, devorando o burrito à velocidade da luz.

Então lá estava eu, a boca completamente cheia, a gor­dura do burrito escorrendo pelo meu queixo, quando por acaso olhei de relance para os carros parados no semáforo. Subitamente o burrito se transformou em cimento na minha boca. Ali, parado no sinal em seu BMW preto conversível, olhando com incredulidade enquanto eu me empanturrava, estava Andrew Ferguson.

Então o sinal ficou verde e ele partiu em disparada.

São em momentos como este que a gente precisa enca­rar as coisas pelo lado positivo. Isto é, algum dia, quando eu tiver uns oitenta anos e estiver participando de um curso de redação de memórias, pelo menos terei algo sobre o que es­crever, quando a professora pedir uma redação sobre o meu momento mais humilhante.

 

Uma hora mais tarde eu estava sentada diante do tenente Luke Clemmons, tentando não ficar olhando demais para o seu topete e no jeito como este se projetava para o alto da cabeça, como um ponto de interrogação cabeludo.

Finalmente consegui desviar meus olhos para a mesa dele. Era imaculada. Nem um sinal de bagunça, em parte alguma. Os papéis na caixinha de entrada estavam empilha­dos com precisão, como se tivessem acabado de sair do pa­cote. O grampeador fora posicionado num alinhamento per­feito com o porta-clipes, o apontador de lápis e uma caneca cheia de lápis recém-apontados.

Era óbvio que o bom tenente sofria um tantinho de trans­torno obsessivo-compulsivo.

Obrigado por ter vindo, srta. Austen — ele disse, movendo o grampeador um milímetro para a direita. — Quero lhe fazer apenas algumas perguntas.

É claro.

Não precisa ficar nervosa.

Na verdade, eu não estava me sentindo nem um pou­quinho nervosa. Ainda estava ocupada demais sentindo-me humilhada com aquele terrível episódio do burrito e Andrew Ferguson.

Eu quis falar com você primeiro — ele disse —, antes de interrogar os outros integrantes do clube.

É mesmo? — falei, me envaidecendo.

Certamente ele ficara sabendo sobre todos os crimes que eu ajudara a polícia a solucionar — crimes sobre os quais você pode ler em This Pen for Hire, Last Writes, Killer Blonde e Shoes to Die For (Sapatos Lindos de Morrer), todos disponí­veis nas melhores livrarias. Desculpem o desavergonhado intervalo comercial mas, se eu não fizer a minha propagan­da, quem vai fazer?

—      Ah, então o senhor já ouviu falar de mim? Ele piscou, confuso.

Não, creio que não. Por que eu teria ouvido falar so­bre você?

Ajudei a polícia em várias investigações criminais.

Você é detetive particular? De acordo com as minhas anotações, você é escritora.

Sim, mas sou detetive nas horas vagas.

Você tem uma licença para isso?

—      Bem, não. Na verdade, não. Ele franziu a testa.

—Você não pode trabalhar como detetive particular sem uma licença.

Agora eu estava nervosa.

É tudo muito informal — gaguejei. — Isto é, não se trata realmente de um trabalho. Eu apenas ajudo as pessoas.

É bom mesmo que não seja um trabalho remunera­do — ele disse, ajeitando o já perfeito alinhamento entre o grampeador, o apontador de lápis e a caneca com os lápis. — Seria uma violação do código 286297B.

Eu juro — falei, o suor já começando a se formar na minha testa —, não é um trabalho remunerado.

Certo, tudo bem — ele disse, contrariado. — Agora, vamos direto ao assunto que nos interessa.

O senhor se importa se eu lhe fizer uma pergunta primeiro, tenente?

O que é? — Havia mais do que simplesmente uma nota de impaciência na voz dele.

Eu só estava pensando. Se o senhor nunca ouviu falar a meu respeito, por que quis me interrogar antes dos outros?

Porque o seu sobrenome começa com A. E eu sempre conduzo os meus interrogatórios em ordem alfabética.

Uau! Aquele sujeito provavelmente arrumava as meias de acordo com as cores.

—      E agora, podemos começar? — Ele tirou um gravador da gaveta e ligou-o. — Certifique-se de falar num tom alto e claro.

Eu me senti como se estivesse de volta à sexta série, na aula de Oratória da sra. Martin.

Então ele pegou um dos seus caderninhos e um dos lá­pis na caneca.

O senhor vai me gravar e tomar notas também? Ele assentiu rigidamente.

É melhor prevenir do que remediar.

Rápido. Alguém mande este sujeito para o Chatos Anô­nimos.

Pois bem — ele disse, apontando um lápis cuja pon­ta já estava afiada —, você conhecia bem a falecida?

Não. Eu a conheci há apenas duas semanas, quando me juntei ao clube.

Você gostava dela?

Para ser absolutamente sincera, não.

Por que não?

Porque ela era uma esnobe, nojenta e egoísta.

Na verdade, não foi assim que a descrevi. Calculei que deveria ser um pouco mais discreta. O que eu disse foi:

—      Ela parecia ser uma pessoa um pouco auto-centrada e insensível.

Ele assentiu, tomando notas enquanto eu falava. Apos­to que colocava os pingos em cada um dos seus malditos is.

—      Acho que ninguém no clube gostava realmente de Marybeth — falei. — Exceto Rochelle. Até descobrir que seu marido e Marybeth estavam tendo um caso. Então, é claro, ela ficou furiosa. Mas, sério, tenente, eu não acredito que Rochelle seria capaz de cometer assassinato.

Clemmons ergueu os olhos do caderninho.

—      Por que não deixa que nós nos preocupemos com isso, srta. Austen? — ele perguntou, enfiando o lápis nova­mente no apontador.

Pelo amor de Deus, ele não escrevera nem por trinta segundos, o lápis não precisaria ser apontado de novo.

—      Você pode pensar em qualquer outra pessoa do clu­be que talvez tivesse um motivo para matar Marybeth?

Eu hesitei diante da idéia de colocar Colin em dificul­dades com a polícia, mas senti que não tinha outra alternati­va. Contei ao tenente como Colin ficara irritado ao saber que Marybeth não iria lhe dar a sociedade.

—      Ele disse que queria matá-la. É difícil acreditar que estivesse realmente falando a sério. Mas ele esteve na casa de Rochelle por cerca de meia hora, antes que o restante do grupo chegasse. Não posso evitar de pensar que ele teve tem­po de sobra para se esgueirar até a cozinha num momento em que Rochelle não estava por perto e acrescentar o óleo de amendoim à guacamole.

Mais uma vez Clemmons enviou-me um olhar pene­trante por cima do caderninho.

Como está sabendo sobre o óleo de amendoim?

Eu vi quando um dos policiais lhe mostrou a garrafa. E tirei as minhas conclusões.

Clemmons fez um muxoxo de desprezo. Era evidente que não gostava de me ver tirando as minhas conclusões.

—      E quanto as outras? Você viu uma delas entrando sozinha na cozinha naquela noite?

—      Não, nós estávamos todas andando por ali, admi­rando o banheiro novo de Rochelle. Seria difícil saber com certeza quem foi aonde. Imagino que qualquer uma delas poderia ter entrado na cozinha sem ser vista. Com exceção de Pam Kenton, é claro. Ela e eu ficamos juntas a noite toda.

Clemmons sorriu, um sorriso que transbordava cinismo.

—      É mesmo? Que conveniente, para vocês duas. Droga. Pam estava certa. Ele pensava que estávamos dando cobertura uma à outra.

Eu posso lhe assegurar, tenente, nenhuma de nós sequer chegou perto daquela guacamole.

Certo — ele disse, fechando o caderninho com um estalo. — Obrigado pelo seu tempo, srta. Austen. Tenho tudo o que precisava saber. Por enquanto, pelo menos. Por favor, avise-nos se estiver planejando sair da cidade.

Epa. Eu não gostei do jeito que aquilo soou.

—      Pode se retirar.

Eu me levantei para sair. Teria dado qualquer coisa em troca da chance de estender a mão e desmanchar a pilha de papéis na caixinha de entrada, mas você sabe como eu sou covarde. Em vez disso, usei a minha bolsa para empurrar o grampeador alguns centímetros para fora do lugar.

Não foi muito, mas fez com que eu me sentisse melhor.

Eu não estava muito animada com a minha aula no Shalom aquela noite. Tinha certeza de que o Crime do TPM seria o assunto principal. Muitas das minhas alunas são fa­náticas por notícias. Afinal, são senhoras aposentadas, com muitas horas a preencher entre os bagels e o bingo, e a maio­ria delas passa o tempo assistindo aos noticiários da tevê em seus quartos, a todo volume. Eu já esperava encontrá-las ta­garelando sobre a dramática morte de Marybeth provocada pela guacamole.

Mas nem precisava ter me preocupado. Quando che­guei no salão de recreação do Shalom, ninguém estava fa­lando sobre o assassinato. Todas estavam se dedicando a um tópico de conversa bem mais "quente".

—Eu achava que ele era um idiota antes — a sra. Pechter estava dizendo —, mas agora está pior do que nunca. As outras assentiram gravemente, concordando.

Bancando o tolo daquele jeito — a sra. Rubin pipilou.

A mulher dele provavelmente está rolando na tum­ba — a sra. Zahler opinou.

Eu não precisaria ser uma cientista espacial para desco­brir sobre quem elas estavam falando. Só podia ser o sr. Goldman. Havia poucos homens morando no Shalom. E ne­nhum, eu calculava, capaz de provocar tamanha ira.

Era estranho, pensei, que o sr. Goldman ainda não ti­vesse chegado. Ele sempre estava na classe quando eu apa­recia, sempre na cadeira ao lado da minha, esperando por mim com um bolinho mofado, uma flor murcha ou uma ou­tra exótica oferenda de amor. Mas naquela noite não estava em parte alguma da sala. E nem tampouco a nossa recém-chegada de Paramus, Nova Jersey, a bombástica Goldie Marcus.

Boa noite, senhoras — eu falei, acomodando-me em minha cadeira.

Olá, Jaine, querida — a sra. Pechter falou, liderando um coro de "olás".

Aquela pobre falecida esposa dele — a sra. Zahler retomou o assunto, assim que acabaram de me cumprimen­tar. — Vocês podem imaginar como devia ser estar casada com um idiota como Abe?

As outras balançaram as cabeças. Não, isso estava além das suas imaginações. E da minha também, se você quer saber.

Jaine, você não vai acreditar no que aconteceu — dis­se a sra. Pechter desencadeando uma nova rodada de cabe­ças balançando.

É repulsivo — a sra. Greenberg falou.

Me dá vontade de vomitar — disse a sra. Fine.

O que foi? — perguntei. — O que aconteceu?

Porém, antes que qualquer uma delas pudesse me res­ponder, descobri por mim mesma. Porque naquele exato ins­tante o sr. Goldman entrou na sala de braço dado com Goldie Marcus. Goldie não havia mudado nada desde a última vez em que eu a vira. Ainda era a "pistoleira" octogenária usan­do calça comprida justa com estampa de oncinha e um suéter de angorá pink, o cabelo cor-de-laranja enrolado no alto da cabeça como uma colméia.

Mas o sr. Goldman... santo Deus! Eu não conseguia acre­ditar nos meus próprios olhos. Nem sinal do velho cardigan sujo de molho e da calça larga. Esta noite ele usava um blazer xadrez amarelo vivo e preto, tão discreto quanto um táxi de Nova York, com calça preta e mocassins brancos. Parecia um cafetão à base de medicamentos para pressão alta. Mas isso não era tudo. Ele havia tingido de preto os seus três últimos fios de cabelo e, como a pièce de résistance, estava deixando crescer um bigode. É claro que, depois de uma semana, era apenas uma penugem. Mas esta também fora tingida de pre­to. Então parecia que havia uma mancha de carvão por cima dos lábios dele.

Uma onda de desaprovação perpassou a sala enquanto ele e Goldie se encaminhavam para as duas cadeiras ao lado da minha.

Agora, eu achei que ele estava ridículo. E as senhoras todas achavam que ele estava ridículo. Mas era evidente que Goldie não compartilhava da nossa opinião. Ela atravessou a sala rebolando, com o braço enganchado no dele, enviando-lhe sorrisos sensuais e convidativos enquanto andava.

O sr. Goldman puxou uma cadeira para ela com um flo­reio. E isso vindo de um homem conhecido por empurrar mulheres em andadores para chegar primeiro na fila das panquecas do brunch de domingo.

— Olhe só para ele — ouvi a sra. Pechter murmurar. — Don Juan em pessoa.

As outras senhoras deram risadinhas. O sr. Goldman as encarou, depois virou-se para a sua amada e sorriu.

Quer um beijinho, amor?

É claro que sim, Abie.

E, com isso, o sr. Goldman tirou do bolso um docinho de coco e o desembrulhou. Depois enfiou o doce na boca aber­ta de Goldie.

Ecal — A sra. Pechter girou os olhos com nojo.

Não ligue para a Pechter — o sr. Goldman disse a Goldie. — Ela não tem educação.

Veja só quem está falando — retrucou a sra. Pechter.

—      É você quem usa a dentadura para marcar as páginas dos livros.

—      Eu só fiz isso uma vez! — o sr. Goldman protestou. —  Ou duas.

Muito bem, pessoal — interrompi, talvez por pres­sentir a escalada das hostilidades. — Quem quer ler pri­meiro?

Eu! — Goldie falou, levantando a mão imediatamen­te, os anéis de zircônia cintilando.

Pois pode começar, Goldie. — Esbocei o que espera­va ser um sorriso de encorajamento.

Ela pegou a bolsa com estampa de oncinha e tirou uma folha de papel.

Isso foi escrito especialmente para esta aula. — Ela estava radiante de orgulho.

Muito bem — assenti.

Goldie limpou a garganta e começou a ler:

—      As Coisas Que Eu Gosto, Parte II, por Goldie Marcus. Obviamente o meu pedido para que ela escrevesse sobre suas experiências pessoais havia caído em ouvidos moucos.

—      Que título fantástico! — o sr. Goldman aplaudiu

—      Não é exatamente uma redação de memórias — fa­ lei —, mas vá em frente.

E, assim, Goldie nos falou mais sobre as suas coisas fa­voritas, algumas das quais eram sombra de olhos azul-turquesa e longos cttios postiços e homens com cabelos escuros e bigodes sensuais.

Ahá! Então foi daí que vieram o cabelo tingido e o bigo­de do sr. Goldman.

Quando Goldie terminou de plagiar a música da Noviça Rebelde, o sr. Goldman explodiu em aplausos.

—      Bravo! Bravo! Merece um A com louvor, não é, Jaine? Os dois olharam para mim, ansiosos por um elogio.

Estava muito bom, sra. Marcus. Mas eu realmente gostaria que a senhora tentasse escrever sobre alguma lem­brança, algo que aconteceu em sua vida. E isso que fazemos na aula de redação de memórias.

É claro — a sra. Pechter resmungou. — Devemos es­crever sobre as nossas lembranças, não sobre bigodes.

—      Tudo bem — eu disse. — Quem será a próxima? Várias senhoras levantaram as mãos mas, antes que eu pudesse chamar uma delas, o sr. Goldman disse:

—      Sou eu — e já estava de pé, lendo. — Uma Garota de Paramus, por Abe Goldman — começou, lançando uma pis­cadela para a sua bem-amada.

Houve um dia uma garota vinda de Paramus

Ela era linda, encantadora e glamourosa

Desde a primeira vez em que a vi

Só pude adorá-la

E é por isso que o meu coração é tão amoroso

 

Ele fez uma reverência profunda e se sentou.

—      Oh, Abie, é ma-ra-vi-lho-so! — foi a calorosa avalia­ção de Goldie dos talentos do sr. Goldman.

Felizmente ela foi a única a elogiar

 

Pelo amor de Deus, Abe — a sra. Pechter falou com desprezo —, não estamos numa aula de poesia.

Isso não foi um poema — ele retrucou com o mesmo desdém. — Foi uma ode de louvor.

Bela porcaria. Mas não é disso que se trata o nosso curso. Certo, Jaine?

Na verdade, a sra. Pechter tem razão. De agora em diante, eu quero apenas redações de memórias. E leia so­mente quando eu o chamar, sr. Goldman.

E não é só isso — a sra. Rubin pipilou —, a sua poesia não tem rimas.

O sr. Goldman conseguiu tirar os olhos de cima de Goldie e voltou-os para a sra. Rubin.

—      Como assim, não tem rimas?

A sra. Rubin encolheu-se um pouco sob o olhar dele, mas manteve-se firme.

—      Paramus não rima com glamourosa — ela afirmou convicta.

—      E claro que rima. Paramus, glamouroso, amoroso... As outras gemeram.

Pois eu tenho duas palavras para você — disse a sra. Pechter. — Im-Possível.

Está bem, classe — falei, começando a me sentir, como quase sempre acontece no Shalom, como um juiz numa par­tida de futebol —, quem quer ler em seguida?

Passei o restante da aula ouvindo redações adequadas. Sobre viagens ao Havaí, parentes queridos e, escrita pela sra. Fine, O Dia em que a Minha Nora Incendiou a Cozinha. Nem Pergunte. Mas, para falar a verdade, eu mal escutava. Sim­plesmente não conseguia desviar os olhos dos dois pombi-nhos apaixonados. Por mais que tentasse evitar, os meus olhos continuavam voltando para o sr. Goldman, com seu ridículo bigodinho, desembrulhando beijinhos para a sua glamourosa garota de Paramus.

Quando voltei para casa, encontrei cinco recados na minha secretária eletrônica, todos do jornal L.A Times, que­rendo me entrevistar para uma reportagem que estavam fa­zendo. Apertei o botão de "apagar" e releguei os recados ao esquecimento. De maneira alguma eu iria falar com a im­prensa.

Depois fui para a cozinha para pegar uma maçã, está bem, um sorvete. Estava prestes a abrir o freezer quando bai­xei os olhos para a tigela de Prozac e ofeguei, surpresa. A minha queridinha havia comido toda a ração de fígado UghÜ Tudinho, até o último pedaço!

Corri para a saleta de jantar, onde a encontrei dormin­do em cima do teclado do computador.

— Ah, Prozac, meu bem — murmurei, tomando-a nos braços. — Estou tão orgulhosa de você.

Ela ficou tão feliz em me ouvir que parou de bocejar e começou a ronronar.

Viram só? Eu sabia que se a tratasse com firmeza ela acabaria cedendo. E todos diziam que era ela quem manda­va em mim. E o que vão dizer agora, hein? Eu sou muito mais forte do que as pessoas me julgam.

Então peguei o meu sorvete e fui na ponta dos pés até o banheiro, esperando que Prozac não escutasse o barulho do plástico quando eu abrisse a embalagem.

 

MENSAGEM RECEBIDA

Para: Jausten

De: Adorofazercompras

Assunto: Nem posso sair de casa

 

Ah, meu Deus! Eu nem posso mais sair de casa. Você sabe como as notícias voam aqui em Tampa Vistas e todo mundo, todo mundo mes­mo, já está falando sobre como o seu pai roubou um garfo do restau­rante Mimi's.

Como se isso não bastasse, no outro dia o seu pai saiu e comprou um aparelho de escuta para espionar o pobre reverendo Sternmuller! Uma bugiganga chamada de "Mestre-Espião". Ele pagou setenta dólares por aquela porcaria, que nada mais é do que um fone de ouvido que alugam nos cinemas para pessoas que têm problemas de audição.

Eu disse a ele que se usasse o aparelho em público eu nunca mais lhe dirigiria a palavra, mas isso o deteve? Nããão. Ele marchou direto para a sede do clube com o "Mestre-Espião" na cabeça e instalou-se numa mesa perto de onde o reverendo Sternmuller estava sentado. Fingiu que o "Mestre-Espião" era um fone de ouvido comum e que estava ape­nas escutando música no seu walkman. Mas, na verdade, estava entreouvindo desavergonhadamente a conversa do reverendo. Embora eu talvez jamais entenda por que ele esperava ouvir o reverendo Sternmuller confessar que é o Estrangulador Hugo Boss enquanto jo­gava cartas com Greta Gustafson e Emmy Parson.

No fim das contas, tudo o que ele ouviu foi estática, e foi bem-feito.

Agradeço aos céus pelas minhas cápsulas de "Menos Stress". Não sei o que faria sem elas, embora eu tenha de admitir que elas parecem ser bem mais eficazes quando as tomo com um copinho de licor.

Sua amada, Mamãe.

P.S.: A propósito, o reverendo Sternmuller e Greta Gustafson estão se dando muito bem. Dizem por aí que um casamento pode sair a qual­quer momento.

 

Para: Jausten

De: Papai

Assunto: Sob Vigilância

 

Hoje eu mantive o reverendo Sternmuller, vulgo 0 Estrangulador Hugo Boss, sob intensa vigilância, usando um sofisticado aparelho de escuta. Mas infelizmente não tive muita sorte. 0 Estrangulador prova­velmente utiliza algum aparelho bloqueador ainda mais sofisticado, que criou uma parede de estática por toda a sua volta.

Mas não se preocupe, doçura. Eu vou apanhá-lo, mais cedo ou mais tarde. Espere só.

Seu perseverante, Papai.

 

Para: Jausten

De: Adorofazercompras

Assunto: Bingo

 

Hoje é a noite do Bingo na sede do clube. Detesto perder toda a animação, na semana passada eu ganhei doze dólares!, mas tenho cer­teza de que as fofocas sobre seu pai estarão correndo soltas.

Acho que serei obrigada a ficar em casa. Mas, se eu não for, não terei nada para fazer e vou ficar ainda mais irritada. E, além disso, por que deveria permitir que o comportamento idiota do seu pai me impeça de desfrutar de uma noite perfeitamente adorável?

Não, pensando bem, eu vou! Só preciso engolir mais uma cápsula de "Menos-Stress", com um tantinho de licor. Isso fará com que eu me sinta bem melhor.

 

Para: Jausten

De: Papai

 

Sua mãe acabou de sair para o Bingo. Eu disse a ela que ficaria em casa porque estava com dor de cabeça. E ela acreditou!

Que oportunidade perfeita para estender a minha teia e apanhar o Estrangulador Hugo Boss numa armadilha. Sim, doçura, chegou a hora de O Faro entrar em ação!

 

Eu estremeci depois de ler os meus e-mails, na manhã se­guinte. Só Deus sabia que esquemas o "Faro" estaria plane­jando. Sério, às vezes eu acho que o meu pai deveria ser proi­bido de sair de casa sem uma coleira.

No que se referia à paz doméstica, Prozac continuava sendo a pequena Vigilante do Peso e comendo as suas ra­ções de fígado e cordeiro dietéticas com todo prazer.

— Ah, minha queridinha — eu me derreti ao vê-la es­vaziando a vasilha. — Tenho tanto orgulho de você!

Pensei em comemorar a minha vitória naquela batalha de vontades com um belo prato de ovos com bacon e pãezi-nhos quentes com manteiga derretendo, mas acabei desis­tindo da idéia. Em primeiro lugar, achei que Prozac não iria gostar de me ver empanturrando-me com ovos e bacon en­quanto era obrigada a engolir a gororoba de fígado light. E, em segundo lugar, eu não tinha bacon. Nem ovos. Nem pãe-zinhos quentes. E, aliás, nem manteiga. Um rápido exame na minha geladeira constatou a presença de apenas um pe­daço de queijo suíço mofado e um pote de azeitonas.

Então me contentei com uma xícara de café instantâneo e sentei para ler o jornal matinal.

Dei apenas uma olhada na primeira página e ofeguei, perplexa. Ali, sorrindo para mim sob a manchete VITIMA DO CRIME DO TPM, havia uma fotografia de Marybeth Olson, tirada na época em que ela estava viva, bem de saúde e enlouquecendo todo mundo.

Mas foi o que estava em baixo da foto de Marybeth que fez o meu coração disparar. Expostas logo abaixo do irritan­te título NA CENA DO CRIME, estavam as fotos dos seis in­tegrantes remanescentes do Clube TPM: Pam, Doris, Ashley, Rochelle, Colin e, sim, esta que vos fala, Jaine Austen.

Lá estava eu, afixada na primeira página do L.A Times, uma suspeita de assassinato. E o que era ainda mais aterrori-zante, eles tinham usado a fotografia da minha carteira de motorista. Aquela em que pareço uma figurante do filme A Volta dos Mortos-Vivos. Se ao menos eu tivesse retornado a ligação do jornal na noite anterior, talvez tivessem publica­do uma foto mais decente.

Fiquei olhando aquela fotografia horrorosa e gemi. Eu parecia a modelo de um cartaz de informações sobre esqui­zofrenia. Se um júri tivesse de condenar um de nós baseado apenas na aparência, eu estaria cumprindo pena no xadrez antes do fim da tarde.

Naquela altura, eu já me encontrava num avançado es­tado de pânico. E se a polícia achasse que eu era a assassina? E se me prendessem? E, pior de tudo, e se os meus pais vis­sem o jornal? Eles viriam para cá no primeiro vôo, mudando-se para o meu apartamento, enfeitando as minhas caixas de lenços de papel com toalhinhas de crochê e me obrigando a usar o aparelho de dentes durante a noite!

E, de repente, eu não conseguia mais respirar. Tremo­res. Eu estava hiperventilando. Tinha de me obrigar a ficar calma. Disse a mim mesma para respirar fundo, devagar, mas não conseguia aspirar o ar.

O que era mesmo que se devia fazer quando se estava com falta de ar? Respirar num saco de papel! Isso mesmo. Corri em volta do apartamento, procurando um saco de pa­pel, mas só consegui encontrar uma sacola da Bloomingdales. E era assim que eu estava, tentando respirar dentro de uma sacola média de compras da Bloomingdales, quando o telefo­ne tocou.

E se fossem os meus pais? Por um segundo, pensei em deixar que a secretária eletrônica atendesse. Mas, depois, calculei que não seria possível que eles tivessem visto o jor­nal, não tão cedo. E, além disso, eu poderia pedir a quem quer que fosse para chamar a ambulância para que me des­sem um pouco de oxigênio.

Graças ao céus era Kandi. Eu comecei a respirar nova­mente ao ouvir o som da sua voz.

Olá, querida — ela disse. — Acabei de ver o jornal. É terrível.

Eu sei.

Não acredito que eles usaram aquela sua fotografia horrorosa. Você devia escrever uma carta de protesto ao editor.

Kandi, acho que você está perdendo o foco da ques­tão mais importante, aqui. Eu sou suspeita em um caso de assassinato.

Ora, bobinha. Você jamais poderia matar alguém. To­dos que a conhecem sabem que pessoa meiga e gentil você é.

Infelizmente — eu salientei —, a polícia ainda não me conhece muito bem.

E eu nunca soube que você sofria de TPM — Kandi prosseguiu, indiferente aos meus temores. — Por que não me contou?

Mas na verdade eu não...

Eu poderia ter marcado uma consulta para você com a minha ginecologista, a dra. Sobol. Todas as celebridades são pacientes dela. Ela é conhecida como a Especialista em Hormônios das Estrelas.

 

Kandi, eu não tenho TPM. O Clube TPM é um grupo de apoio para mulheres. Eu só tive o azar de me juntar a elas duas semanas antes do crime.

Pobrezinha. Parece que hoje não é o nosso dia, não é? Você nem imagina o que aconteceu comigo esta manhã. Des­cobrimos que o ator que faz o papel de Ernie, a Centopéia, caiu do beliche do filho enquanto estava fazendo sexo com a babá. Enfim, ele quebrou uma vértebra e vai ficar imobiliza­do durante um mês, e agora teremos de tirá-lo dos próximos dez episódios. Vou ficar presa aqui até meia-noite, tenho cer­teza. E hoje é o dia em que Steve e eu deveríamos nos encon­trar com Armando e escolher a banda que irá tocar no casa­mento. Ah, tudo bem. Eles terão de escolher sem mim. — Ela finalmente parou para respirar. — Mas não acredito que estou aqui me queixando dos meus probleminhas bobos, enquanto você passa por uma situação tão difícil. Sinceramente, eu também não acreditava.

—      Jaine, querida, se você precisar de um advogado, não se preocupe. Eu pago. E se quiser ficar no meu apartamento, pode ir agora mesmo. Eu vou segurar a sua mão e preparar chocolate quente com marshmallows, do jeito que você gosta.

Estão vendo? Justamente quando a gente pensa que Kandi é a mulher mais auto-centrada do universo, ela muda tudo e lhe oferece seu coração e seus marshmallows. É por isso que somos melhores amigas há tantos anos.

—      Obrigada, Kandi — falei, fingindo coragem. — Mas vou ficar bem.

No instante em que desliguei, o telefone tocou nova­mente. Estremeci.

E se, desta vez, forem os meus pais? E se a rede de fofo­cas ficou sabendo da reportagem e eles ouviram falar sobre o assassinato?

Hesitando, peguei o telefone.

Mas não eram os meus pais. Era pior. Muito pior. Era Andrew Ferguson.

—      Acabei de ler o jornal — ele disse solenemente. Meu coração quase parou de bater, eu sabia o que viria em seguida.

—      Sam e eu conversamos a respeito e receio que, en­ quanto o seu nome estiver ligado a um assassinato, não po­deremos contratá-la.

Eu entendo — consegui dizer.

Eu sinto muito, Jaine, de verdade. Eu também sentia.

Desliguei o telefone e me atirei no sofá. De onde estava, em cima do teclado do computador, Prozac pressentiu o quan­to eu estava infeliz e correu para ficar ao meu lado. Ok, tecni­camente ela não correu para o meu lado. Tecnicamente, ela começou a lamber suas partes íntimas, mas eu sabia que es­tava preocupada comigo.

— Ah, Prozac — eu gemi —, isso tudo é péssimo. Não apenas eu havia perdido o emprego, mas Andrew Ferguson também havia visto a minha fotografia da carteira de motorista. Isso, depois do Caso da Meia-Calça Com For­ro de Algodão Virado Para Cima e do Episódio da Boca Cheia de Burrito. Era tudo terrível demais para se contemplar.

Minutos mais tarde o telefone tornou a tocar. Eu atendi distraída, certa de que eram os meus pais. Ah, tudo bem. Quem se importava se eles se mudassem para o meu apartamento e me obrigassem a usar o aparelho de dentes pelo resto da minha vida? Eu havia perdido completamente a vontade de viver. Mas era Andrew outra vez.

— Escute, Jaine. Pensei melhor e decidi manter o cargo em aberto pelas próximas semanas, caso a polícia efetue uma prisão e o crime seja solucionado.

Finalmente um raio de sol. Talvez, no fim das contas, a minha vida não fosse assim tão ruim.

Eu agradeci profusamente e assegurei a ele que todo aquele problema estaria resolvido em breve. Quando desli­guei, estava me sentindo muito melhor. Certamente a polí­cia encontraria o assassino em poucas semanas.

Mas, só para o caso de isso não acontecer, eu pretendia encontrá-lo por conta própria.

 

Sim, eu decidi que iria descobrir quem matou Marybeth. E iniciaria a minha investigação imediatamente. A primeira coisa de que precisava era uma relação dos endereços e nú­meros de telefone dos integrantes do clube. Portanto, peguei o telefone e liguei para Pam.

—      Dá para acreditar no atrevimento do Times de publi­car as nossas fotos daquele jeito? - ela foi logo falando as­ sim que ouviu a minha voz. - Talvez eu nunca mais consiga um emprego no shoivbiz. Não que eu esteja trabalhando, no momento. Mas é o princípio que conta.

Pelo menos você estava bem na foto que publicaram.

Era uma pose que fazia parte da promoção da peça Hedda Gabler. Ainda bem que eles não puseram a minha foto como Felix Unger.

Nós duas rimos, sem muita vontade.

O que vamos fazer, Jaine? Toda esta publicidade é simplesmente péssima.

Tente não se preocupar. Assim que a polícia encon­trar o assassino nós estaremos livres da pressão.

Mas e se não encontrarem o assassino? E se demorar uma eternidade? Estas coisas podem se arrastar durante meses, anos até.

Na verdade, é por isso que estou ligando.

Contei a ela sobre a minha carreira de detetive nas ho­ras vagas e como pretendia investigar assassinato.

Uau! — Pam exclamou. — Eu jamais imaginaria você sendo uma detetive. Não faz o seu tipo.

Eu sei que pareço uma covarde molenga, e sou mes­mo, mas de alguma forma as endorfinas se aceleram quan­do me envolvo numa investigação.

É mesmo? Bem, eu sou covarde de nascença. Mas se houver alguma coisa que eu possa fazer para ajudar...

Na verdade, há, sim. Será que você me enviaria por fax os endereços e números de telefone de todos os integran­tes do clube?

E claro que sim. Precisa de mais alguma coisa?

Por enquanto não. A não ser que, por acaso, você saiba quem é o assassino.

Não, não sei — ela suspirou. — Se quer saber a mi­nha opinião, a única pessoa do Clube TPM capaz de cometer um assassinato era Marybeth.

Eu tive de concordar com ela.

—      Boa sorte, Jaine — Pam disse. — Vou ficar com os dedos cruzados. Me ligue se precisar de mim para vigiar al­guém, ou algo assim. Pode ser divertido.

Eu lhe assegurei que ligaria se precisasse de companhia numa vigilância e, minutos mais tarde, ela me mandou os endereços por fax.

Então, depois de tomar um banho rápido, eu me vesti e saí para dar início à caça ao assassino.

Estava a meio caminho, na direção do meu Corolla, quando ouvi Lance me chamando. Ele saiu correndo do seu apartamento, usando short e camiseta, nem um grama de gordura visível em parte alguma, exceto no requeijão espa­lhado no bagel que ele estava mordendo. Enfiado sob seu bra­ço havia um exemplar do L.A Times.

—      Pobrezinha. Eu vi a reportagem no jornal. — Ele ba­lançou a cabeça com uma expressão de desalento. — Foto de passaporte?

—      Não. Carteira de motorista.

—      Você deveria exigir uma retratação.

—      Acho que eles não fazem retratações de fotos, Lance.

—      E uma pena — ele falou, lambendo o requeijão do dedo. —A polícia não acredita mesmo que você tenha algo a ver com este crime, não é?

—      Espero que não.

—      Você não contou a eles sobre todos os assassinatos que ajudou a solucionar?

—      Eu mencionei ao tenente encarregado do caso, mas parece que ele não ficou muito impressionado.

Lance engoliu o último pedaço do bagel e passou o bra­ço pelos meus ombros.

—      Tenho certeza de que vai ficar tudo bem, querida Embora eu possa imaginar como deve ser difícil para você enfrentar tudo isso, com este seu problema de TPM.

Será que ninguém mais lia o que estava escrito debaixo das manchetes?

Eu não tenho TPM - falei, afastando-me dele com irritação. — Este é apenas o nome do clube. Trata-se de um grupo de apoio, na verdade.

Para alguém que não tem TPM, você até que está bem nervosinha. Mas eu entendo - ele continuou, dando-me uma palmadinha no braço. - Você está sofrendo muita pressão. Se precisar de alguma coisa, é só me avisar.

Obrigada, Lance.

A propósito, talvez este não seja o melhor momento para lhe pedir, mas será que você conseguiria me arrumar um encontro com Colin? Ele parece ser uma gracinha.

Lance baixou os olhos para a foto de Colin no jornal Para sorte de Colin, o jornal publicara uma foto sua bastante decente, onde ele realmente se assemelhava a um integrante da espécie humana.

Eu pisquei, incrédula

Lance, este sujeito é suspeito num caso de assassina­to. Ele poderia ser o assassino.

Vou correr o risco.

Você é maluco.

Ora, vamos lá. Me dê o número do telefone dele.

Tudo bem — suspirei. — Mas não venha me culpar se alguma coisa lhe acontecer.

Me despedi dele com um aceno e entrei no meu carro. Eu decidira iniciar a minha investigação por onde toda aquela confusão começara. Na casa de Rochelle. Por mais imprová­vel que parecesse, talvez Rochelle fosse a assassina. Afinal, havia sido ela quem preparara a guacamole. E ela era a única com o motivo mais forte. Ela não dissera a Marybeth, com todas as letras, para cair morta? Talvez a tímida ratinha ti­vesse "pirado" de uma vez e envenenado a mulher que lhe roubara o marido. Não teria sido a única.

Sim, a minha primeira parada seria na casa de Rochelle Meyers, para uma conversinha. Na verdade, seria a minha segunda parada. A primeira seria no Restaurante Junior's, para comer uns ovos com bacon e pãezinhos quentes com manteiga derretendo.

Diversas vans estavam estacionadas na frente da casa de Rochelle, quando cheguei. Dirigi diretamente por entre elas até a entrada da garagem da casa, abaixada no meu as­sento, esperando que os repórteres não me reconhecessem.

Não tive tanta sorte.

—      Olhem! — uma vencedora de concurso de beleza vestindo um Armani gritou. — É uma das suspeitas!

Droga. Se eu estivesse igual à foto da minha carteira de motorista, então a coisa estava mesmo brava. Talvez deves­se começar a usar o Hidratante Anti-Idade Milagre que mi­nha mãe me enviara, comprado no Canal de Compras.

—      E a escritora! — Ouvi outro repórter gritar. — Como é o nome dela? Charlotte Bronte?

Disparei para fora do carro, ignorando suas perguntas. Quando toquei a campainha, uma voz masculina e muito irritada berrou:

—      Vá embora! Não estamos falando com repórteres! Presumi que fosse Marty Meyers, o marido mentiroso traidor filho-da-mãe de Rochelle.

—      Não sou repórter. Faço parte do Clube TPM. Jaine Austen.

—      Deixe-a entrar, Marty — ouvi Rochelle dizer. O mentiroso traidor filho-da-mãe abriu a porta.

Eu tenho de admitir que fiquei muito surpresa. Espera­va ver um untuoso dentista de Beverly Hills saído direto dos estúdios do Extreme Makeover, com têmporas grisalhas e mocassins Gucci com fivelas. Mas Marty era um ursinho de pelúcia, fofo e grandalhão, com o farto cabelo cortado no es­tilo escovinha e generosos pneuzinhos pendendo por cima da cintura da calça caqui. Em vez de um conquistador per-suasivo, ele mais parecia o tipo de sujeito que compra peças de encanamento em lojas de materiais de construção.

E esta não era a única surpresa que me aguardava. Eu pisquei, um tanto desconcertada, ao ver que o braço dele enlaçava carinhosamente os ombros de Rochelle. Mais um ponto para o sr. Ripley: Rochelle sorria para ele radiante, como uma adolescente com seu primeiro amor. Para alguém que era a principal suspeita num caso de assassinato, ela parecia admiravelmente bem-disposta.

— Jaine, vamos entrar — ela disse, sorrindo calorosa­mente. — Gostaria de comer alguma coisa? Marty e eu aca­bamos de tomar o café da manhã. Eu fiz panquecas com ge­léia e pãezinhos doces.

Ahn? Se O Bolha tivesse feito comigo o que Marty fez com ela, eu estaria lhe servindo torradas com inseticida.

Não, obrigada — gaguejei. — Eu acabei de comer.

Tem certeza? Os pãezinhos estão excelentes, não é, querido?

Querido? Ela o estava chamando de querido?

—      Estão excelentes, Ro — Marty falou, fitando-a com uma paixão escancarada.

O que diabos estava acontecendo ali? Eles tinham pas­sado de um casal à beira do divórcio para pombinhos apai­xonados em menos de quarenta e oito horas.

Rochelle deve ter percebido a minha confusão, pois disse:

—      Ah, Jaine, não é maravilhoso? Marty e eu estamos juntos novamente. Venha para a saleta de estar e nós lhe con­taremos tudo.

Assim, seguimos para a saleta, um cômodo aconche­gante com painéis de madeira, um enorme aparelho de tevê e móveis de couro, sem dúvida escolhidos pela recentemen­te falecida Marybeth.

—      Nós não ficamos muito à vontade na sala de estar — Rochelle falou —, depois do que aconteceu. Definitivamen­te terei de mudar toda a mobília. Mas uma coisa é certa: des­ta vez não vou contratar nenhum decorador.

Rochelle e Marty sentaram juntinhos num sofá de cou­ro cor de vinho. Eu me acomodei diante deles, numa poltro­na do mesmo estilo. Marty passou o braço em torno dela, e Rochelle aconchegou-se mais contra o marido. Ele acariciou-lhe o ombro. Ela pousou a mão em seu joelho. Se aquilo conti­nuasse nesse ritmo, a qualquer minuto os dois estariam se agarrando.

Eu não consegui mais me conter.

Se vocês não se importarem com a pergunta... o que aconteceu?

Marty não ia me deixar — Rochelle respondeu. — Marybeth estava mentindo

Eu fui um louco por me envolver com Marybeth — Marty admitiu, balançando a cabeça. — Não sei o que houve comigo. Crise da meia-idade, imagino. — Ele encolheu os ombros, envergonhado. — Depois de alguns meses, me dei conta do erro que havia cometido e do quanto ainda amava Rochelle. Ela é uma mulher muito melhor do que Marybeth jamais sequer sonharia em ser. Falei para Marybeth que tudo estava acabado entre nós, mas ela não se conformou com isso. Foi então que ela colocou aquela fotografia na minha gaveta.

Ela deve tê-la deixado ali enquanto estava trabalhan­do no meu banheiro — disse Rochelle. — Ela queria que eu a encontrasse. Queria destruir o nosso casamento.

Ah, meu Deus, Rochelle... — Marty cobriu o rosto com as mãos. — Eu fui tão cruel com você. Eu me odeio por isso.

Então, subitamente, ele começou a chorar. Aquele enor­me imbecil soluçava como uma criança. Rochelle entregou-lhe um lencinho de renda que tirou do bolso. Parecia um selo nas mãos dele. Ele assoou o nariz com um ruído vibrante.

Será que algum dia você poderá me perdoar? — ele soluçou.

É claro que sim — ela afirmou, afagando-lhe o cabelo escovinha.

Eu não sei se seria tão rápida em perdoar um homem que tivesse me traído com a decoradora, mas era evidente que Rochelle tinha uma alma bem mais nobre do que a mi­nha. E sou forçada a admitir que, apesar da minha determi­nação em odiar aquele sujeito, descobri que estava emocio­nada com as suas lágrimas.

Tudo isso é tão constrangedor — ele falou, dando uma assoada final no lencinho de Rochelle.

De maneira nenhuma — eu aparteei. — É bom ver um homem que assume as suas emoções.

Acho melhor ir embora — ele falou. — Detesto ter de deixá-la sozinha com aqueles abutres lá fora, Rochelle, mas o molar do sr. Nevin está com um abcesso e ele está sentindo muita dor.

Não tem problema — Rochelle assegurou. — Vou ficar bem. Jaine me fará companhia.

—      Não vou demorar muito — ele prometeu. Então Marty inclinou-se e beijou-a na testa.

Foi um prazer conhecê-la, Jaine — ele falou, voltan-do-se para mim e sorrindo timidamente. — Me desculpe pelo desabafo.

Não há nada o que desculpar.

Marty andou pesadamente na direção da porta e, de­pois que ele saiu, Rochelle virou-se para mim.

Tem certeza de que não quer um pãozinho doce? Eles estão bem macios e fresquinhos.

Não, mesmo. Obrigada.

Mas você me conhece. Dois minutos depois eu estava sentada na ensolarada cozinha provençal, toda azul e ama­rela, tomando café e devorando um pãozinho quente, reche­ado de canela e coberto com uma grossa camada de açúcar. Eu tinha morrido e estava no Paraíso do Pão Doce.

Parece até ironia—Rochelle falou enquanto me obser­vava engolir o pãozinho. — Agora que o nosso casamento entrou novamente nos trilhos, provavelmente acabarei indo para a cadeia. — Pela primeira vez, desde que eu entrei pela porta, ela mostrou-se preocupada. — Sei que a polícia acre­dita que fui eu. As únicas impressões digitais naquela garra­fa de óleo de amendoim eram as minhas.

Isso não quer dizer nada. Quem quer que tenha "ba­tizado" a guacamole provavelmente usou um pano de pra­to, ou até uma luva de cozinha.

Eu sei, mas a polícia ainda acha que fui eu quem matou Marybeth. — Rochelle balançou a cabeça e suspirou.

— O tenente Clemmons me aconselhou a contratar um advo­gado. Marty já está em contato com alguém. Ele disse que é o melhor da cidade.

Eu esperava mesmo que fosse. Algo me dizia que Rochelle iria precisar de um advogado realmente muito bom.

Você precisa acreditar em mim, Jaine — ela disse. — Eu não matei Marybeth. Jamais poderia ter feito algo assim.

Eu acredito em você — falei.

E acreditava. Não havia dúvidas em minha mente. Rochelle simplesmente não tinha nada de assassina. É engra­çado. Eu começara a investigar o caso a fim de conseguir aquele emprego no Union National. Mas agora, sentada ali com Rochelle, senti uma súbita necessidade de protegê-la.

Aliás — prossegui, lambendo o último restinho de cobertura de açúcar dos meus dedos —, é por isso que estou aqui. Estou investigando o assassinato.

Mas não estou entendendo. Pensei que você fosse escritora.

Sim, eu sou, mas trabalho como investigadora nas horas vagas.

Isso é tão maravilhoso — ela suspirou, enfiando uma mecha de cabelo espetado de volta no rabo-de-cavalo. — To­das vocês têm carreiras tão interessantes e eu só fico aqui em casa, cozinhando e assando coisas.

—Você precisa parar de se diminuir desse jeito, Rochelle. Você é uma mulher extremamente talentosa. Eu jamais sa­beria fazer metade do que você faz.

Você está sendo muito gentil — ela falou, ruborizan­do de prazer. - Estou falando sério.

Claramente desacostumada a receber elogios, ela se le­vantou e foi até a cafeteira.

—      Deixe-me lhe servir mais um café. E pegue mais um pãozinho.

         Não, não consigo comer mais nada.

Ok, eu conseguia. E comi. E estava delicioso.

Enfim — falei —, eu calculei que, enquanto o assas­sino de Marybeth estiver à solta, todos nós estamos sob uma nuvem de suspeita. Por isso decidi dar uma "mãozinha" à polícia, quer eles queiram ou não.

Isso é o mais terrível de tudo, em toda essa história — Rochelle falou. — Pensar que uma das minhas amigas poderia ser uma assassina.

Você reparou se alguma das integrantes do clube en­trou na cozinha sozinha na noite do crime, qualquer uma que pudesse ter adulterado a guacamole?

Não. Mas você viu como eu estava naquela noite. Quando vocês chegaram, eu já havia bebido umas três mar-garitas. Eu estava bem alterada. Aquele foi um dia terrível. Primeiro os encanadores vieram para instalar alguns aces­sórios de última hora e acabaram furando um cano, que le­vou horas para ser consertado. E então, um pouco mais tar­de, o inspetor de obras apareceu e disse que não poderia nos dar o alvará... tinha algo a ver com uma junta de vedação. E depois, é claro, eu encontrei aquela foto horrível de Marybeth.

Rochelle estremeceu com a lembrança.

Foi aí que comecei a beber as margaritas. Na hora em que vocês chegaram eu estava realmente bem "alta".

E quanto a Colin? Ele chegou antes de todas as ou­tras. Você acha que ele poderia ter entrado na cozinha en­quanto você não estava por lá?

Ela bebeu um gole de café, pensativa.

—      E difícil me lembrar. Pensei que ele tivesse ido direto para o banheiro no andar de cima e não tivesse descido no­vamente até que você e Pam chegaram. Mas posso estar en­ganada. Eu estava tão zonza. Um elefante poderia estar dan­çando a polka no meu microondas e eu nem perceberia.

Então isso era possível. Colin poderia ter se esgueirado pela escada e acrescentado o óleo de amendoim à guacamole.

Mas, claro, havia outro homem sobre quem eu teria de perguntar: o ursinho de pelúcia.

—      Escute — falei —, isso é terrivelmente desagradável, mas e quanto a Marty?

Os olhos dela se arregalaram, chocados.

O que está querendo dizer?

O caso dele com Marybeth tinha azedado. Ele queria romper com ela, mas Marybeth estava criando dificuldades. Você tem certeza de que ele não entrou em casa sem ser nota­do, em algum momento depois das quatro da tarde, e adul­terou a guacamole?

Tenho, sim — Rochelle afirmou, assentindo com fir­meza. — Marty não poderia ter feito isso. Ele estava em La­guna, naquela tarde.

O que ele estava fazendo em Laguna?

Há uma galeria de arte lá, que nós adoramos. Ele foi comprar alguns quadros para o escritório. Na verdade, logo depois que encontrei a foto de Marybeth, eu liguei para o consultório dele. Queria uma explicação, mas a recepcionis­ta me disse que ele fora para Laguna. Achei que ela estivesse mentindo, que ele estava com Marybeth. Mas ele estava mes­mo em Laguna. Ontem eu liguei para a galeria e verifiquei. E a polícia também fez isso. Marty está fora de suspeita.

Francamente, eu fiquei aliviada com o fato de Marty ter um álibi. Apesar de ter se comportado de maneira abominá­vel em relação a Rochelle, ele não parecia ser um homem perverso. Imaginá-lo como assassino era o mesmo que ten­tar visualizar um urso panda com uma metralhadora.

Mas Colin Lambert, o assistente ressentido... quanto a ele eu não tinha tanta certeza.

 

Apareci no apartamento de Colin sem avisar. Ele abriu a porta usando camiseta e bermuda. Outro homem com as coxas mais magras do que as minhas.

Jaine — ele disse, intrigado ao me ver. — O que está fazendo aqui?

Bem, eu...

Não precisa dizer. Você veio porque queria um om­bro amigo onde chorar. Eu vi a sua foto no jornal. Você deve­ria processá-los.

Na verdade, não é por isso que vim. Estou investi­gando o assassinato de Marybeth.

Ahn?

Seria minha imaginação, ou de repente surgiu uma ex­pressão cautelosa nos olhos dele?

Eu trabalho como detetive particular nas horas va­gas — expliquei.

É mesmo? — ele perguntou, fazendo-me entrar. — Tipo As Panteras?

Passei os olhos pela sala de Colin e reprimi um gritinho de susto. Como eu poderia descrevê-la? Qual seria a única palavra capaz de resumir tudo aquilo? Ou, como diriam os franceses, le mot juste?

Depois de uma análise cuidadosa e várias consultas ao dicionário, eis aqui ao que consegui chegar: Ecaaal

A sala de Colin era uma combinação atordoante de pa­redes verde-limão, vasos com palmeiras, tapetes com estam­pa de zebra e almofadas de cetim bordadas. Uma mescla de Tarzan com Elton John.

Chocante, não é? — ele perguntou. Sim. Tanto quanto uma enxaqueca.

Diga olá para Max.

Colin encaminhou-se para uma das palmeiras, onde eu vi um papagaio amarelo-vivo empoleirado nos galhos. Colin estendeu o dedo e Max saltou à bordo.

—      Max, querido — ele falou com o papagaio num tom meloso —, diga olá para Jaine. Diga Olá, Jaine.

O papagaio olhou para mim com uma expressão indi­ferente e fez cocô no tapete de pele de zebra.

—      Que droga, Max. Quantas vezes eu já lhe disse? Fa­zer cocô na gaiola, não no tapete!

Ele guardou o pássaro numa gaiola de ferro trabalha­do, cujo fundo estava forrado com velhas fotos de publicida­de de Marybeth.

—      Vá em frente. Faça cocô na moça bonita — ele ins­truiu o papagaio. — Sei que isso é horrível — juntou, voltando-se para mim —, fazer Max defecar em cima da falecida. Eu sou mesmo infame, não sou?

E então ele me lançou um sorriso que sem dúvida já derretera muitos corações em West Hollywood.

Então, Jaine — ele disse —, em que posso ajudá-la?

Você se importa se eu lhe fizer algumas perguntas?

De maneira nenhuma. Sente-se.

Colin indicou um sofá de veludo pink que parecia ter passado seus primeiros anos de formação num bordel de Nova Orleans.

—      Eu gostaria de lhe oferecer alguma coisa para comer, mas só tenho uns saquinhos de molho shoyo. Não sou muito de cozinhar. Mas sei fazer um ótimo café. Aceita?

Eu acabara de tomar três xícaras na casa de Rochelle, mais uma xícara no Restaurante Júnior's e uma de café ins­tantâneo em casa. Se ingerisse mais um pouco de café seria capaz de me balançar nos galhos da palmeira. Por outro lado, se Colin saísse da sala eu teria a chance de bisbilhotar por ali.

É claro — falei. — Eu adoraria tomar um café.

Não vou demorar — ele disse, indo para a cozinha.

No instante em que ele saiu eu fui direto para uma anti­ga escrivaninha de tampa móvel, que ficava no canto da sala. A mesa estava repleta de contas não pagas e desenhos de cômodos desvairadamente coloridos. Eu pude entender por­que Marybeth havia relutado em dar a sociedade a Colin. Não achava que houvesse muitos clientes, exceto os donos de ca­sas de massagem do Hollywood Boulevard, que quisessem as suas salas decoradas com couro preto e renda vermelha.

Espiei rapidamente nas gavetas, mas nada havia de muito interessante. Até que descobri uma gavetinha minús­cula sob a tampa móvel. Um compartimento secreto, se é que eu já havia visto um. Eu a abri e, quando o fiz, um alar­me agudo preencheu a sala.

Droga. A gaveta tinha um alarme! Olhei dentro dela e nada vi, a não ser algumas amostras de tecido. Por que dia­bos Colin teria instalado um alarme para proteger as suas amostras?

Colin veio da cozinha com passinhos apressados, tra­zendo duas fumegantes canecas de café, nem um pouco per­turbado com a barulheira reinante.

—      Ah, Max — ele disse. — Cale a boca.

E então eu me dei conta de que a fonte de todo aquele barulho não era um alarme, era o papagaio.

—      Me desculpe por isso — Colin falou. — Max apren­deu a imitar o som dos alarmes dos carros da vizinhança. Isso me deixa louco

—      Eu estava admirando os seus projetos — eu disse, fechando a gaveta com o quadril. — São ótimos.

—      Eu sei. Dá para acreditar que Marybeth tivesse pre­ferido contratar aquele sujeito de Nova York, em vez de mim?

Ele se aproximou da escrivaninha e entregou-me a ca­neca de café.

—      Eu gosto muito deste — falou, apontando um dos desenhos.

—      Sim — balbuciei. — Que bela cozinha.

—      Não é uma cozinha — ele rebateu, franzindo a testa. — É um banheiro.

Ah? Isso aqui não é um microondas?

Não, é o armário de remédios.

l/ps. As coisas não estavam correndo tão bem quanto eu esperava.

—      Bem — falei —, se você não se incomoda de responder algumas perguntas...

Eu me esgueirei de volta para o sofá e sentei. Colin sentou a minha frente, numa banqueta forrada de pele de zebra.

Vá em frente. Pode perguntar.

Na verdade, Rochelle acha que os policiais já a iden­tificaram como sendo a assassina de Marybeth.

Não posso dizer que os culpo por isso. Ela estava bem "doidinha" naquela noite.

Mas, só para constar, será que você viu alguém entrar na cozinha, alguém que pudesse ter mexido na guacamole?

Não — ele disse. — Somente Rochelle. Mas eu não estava prestando muita atenção. Imagino que qualquer ou­tra pessoa poderia ter entrado ali sem ser percebida.

Você sabe se qualquer outra integrante do clube ti­nha algum ressentimento em relação a Marybeth?

Ele balançou a cabeça.

—      Ninguém gostava muito dela, mas ninguém a odia­va tanto a ponto de matá-la.

Não tenho tanta certeza disso — falei.

Por quê? O que está querendo dizer?

Aquilo não seria fácil, mas eu respirei fundo e fui em frente.

—      Escute, Colin. Eu ouvi você falando no telefone na noite em que Marybeth anunciou que iria trazer aquele su­jeito de Nova York para ser sócio na empresa. Se me lembro corretamente, você disse eu queria matar aquela cadela. Exata­mente a mesma coisa que disse para mim e Pam, na noite do crime.

Colin girou os olhos para o alto.

—      Pelo amor de Deus, se eu ganhasse um dólar cada vez que disse que queria matar Marybeth, poderia me apo­sentar amanhã mesmo. Você é escritora. Será que nunca ou­ viu falar na expressão "figura de linguagem"?

Ele se levantou e começou a andar de um lado para ou­tro em seu tapete de zebra.

—      Eu admito que fiquei furioso quando ela anunciou que havia contratado aquele decorador de Nova York. Du­rante anos Marybeth prometera que me daria a sociedade na empresa, enquanto eu trabalhava como um escravo, pe­ gando suas roupas na lavanderia e correndo para buscar os seus cappucinos. Então, de repente, ela mudou tudo e me "ferrou". Sim, é claro que fiquei com muita raiva. Mas eu não a matei.

E eu tenho de admitir que, parado ali com a sua camise­ta com estampa de Desperate Housewifes, Colin certamente não parecia ser um assassino.

—      Você está falando com uma pessoa que certa vez li­bertou as lagostas de um tanque de lagostas num restauran­te chinês. Eu simplesmente não sou do tipo que mata.

No instante em que eu tentava imaginar Colin libertan­do lagostas num restaurante chinês, o celular dele tocou.

—      Sim? — ele disse, abrindo-o com um rápido movi­mento. — Sim, aqui é Colin Lambert... É mesmo? — Os olhos dele se iluminaram. — Esta tarde? Ora, sim. Sim, é claro que posso.

Ele desligou e deu um pulinho de alegria.

—      Ai, meu Deus! Era o advogado de Marybeth. Aquela mulher maravilhosa me incluiu em seu testamento! Eu vou participar da leitura esta tarde! Max, queridinho — ele vi­rou-se para o papagaio —, pode empacotar os seus alpistes, pois você vai se mudar para a gaiola mais luxuosa que en­contrarmos!

Colin atirou-se ao meu lado no sofá e abraçou uma al-mofada, eufórico.

—      Talvez todos estes anos carregandor cappucinos não foram totalmente desperdiçados.

Então ele viu a expressão no meu rosto e ficou imóvel.

—      Droga — disse, obviamente lendo os meus pensa­ mentos. — Acho que isso significa que eu tinha um motivo para matá-la, não é?

Eu fiz que sim.

—      Mas eu nem imaginava que Marybeth pretendia me deixar alguma coisa. Sinceramente. Aquela era uma mulher que costumava me dar chocolates comprados no supermer­cado como presentes de Natal. Quem poderia sonhar que ela iria se lembrar de mim em seu testamento?

Ele olhou para mim com um ar de súplica.

—      Eu juro que não sabia, Jaine.

E eu acreditei nele. Colin parecera genuinamente sur­preso com o telefonema do advogado de Marybeth.

Eu agradeci pelo tempo que ele me dispensou e levan­tei-me do sofá, começando a acreditar que, no fim das con­tas, ele devia ser mesmo inocente. Porém, enquanto me en­caminhava para a porta, olhei por acaso na estante de livros e vi algo que o colocou imediatamente de volta na minha lista de suspeitos. Ali, espremido entre um exemplar da Architectural Digest e um livro sobre decoração de Christopher Lowell, havia um livro de culinária. E não era apenas um livro qualquer de receitas.

O título daquele fino volume era Cozinhando com Amen­doins.

Eu havia pensado em passar pela casa de Doris em se­guida, a fim de interrogar a integrante mais idosa do Clube TPM. Mas quando entrei no carro e chequei a minha secretá­ria eletrônica, encontrei um recado urgente de Nick Angelides, o presidente da empresa Mestres do Encanamento, pedindo que eu lhe escrevesse um discurso divertido para que ele apresentasse na reunião da Associação dos Encanadores de Los Angeles naquela noite.

Por mais que eu quisesse continuar a minha investiga­ção, havia em casa uma coleção significativa de contas a pa­gar. Portanto, voltei para o meu apartamento e passei o resto da tarde escrevendo piadas de banheiro para Phil.

Depois de enviar por fax o discurso para Phil, e tam­bém a minha conta, corri até o McDonalds para um rápido hambúrguer com queijo e batata frita, que comi no carro, es­tacionado diante do meu prédio. Eu ainda me sentia cons­trangida em comer alimentos calóricos na frente de Prozac, que continuava com sua dieta tão restrita.

Engoli o último restinho do refrigerante e enfiei na boca uma pastilha de hortelã, para que Prozac não sentisse o chei­ro do hambúrguer no meu hálito.

—      Olá, querida. Estou em casa — falei quando entrei pela porta.

Eu a peguei de onde ela estava, escarrapachada no sofá por cima de um dos meus suéteres de cashmere. Ela ainda não parecia ter perdido peso algum. Mas estava na dieta ha­via apenas uns poucos dias. Em breve eu estaria percebendo a diferença.

—      Como vai o meu anjinho?

Ela me cheirou, desconfiada.

E o cheiro de hambúrguer com queijo que estou sentindo por baixo desta balinha de hortelã?

Eu juro, esta gata foi uma agente da CIA numa vida anterior.

—      Tudo bem — admiti. — Eu comi um hambúrguer. Mas foi só isso. Sem batata frita. De verdade.

Ela lançou-me um olhar penetrante.

—      Ok, comi batata frita também. Tenho vergonha de mim mesma. Eu não tenho absolutamente nenhuma força de vontade.

Coce as minhas costas pelas próximas três horas e talvez eu a perdoe.

Passei o restante da noite assistindo à tevê na cama, com Prozac deitada sobre a minha barriga enquanto eu lhe coca­va as costas. Finalmente dei o dia por encerrado e apaguei a luz. Mas o sono não chegou facilmente. Meus pensamentos continuavam voltando para Colin, e eu me perguntava o que um sujeito que não cozinhava estaria fazendo com um livro de receitas com amendoins.

Planejando a receita para um assassinato, talvez?

 

Prozac continuava a me surpreender. Na manhã seguinte ela limpou o prato de iscas de salmão dietético sem sequer um "piozinho". Eu até já esperava que, a qualquer momento, acabaria me levantando da cama para encontrá-la pratican­do aeróbica.

—      Estou tão orgulhosa de você, xuxuzinha — falei, me ajoelhando e afagando-a atrás das orelhas.

Por favor, não me chame de "xuxuzinha". "Prozac" já é um nome bem ruim.

Ela me lançou um sopro de hálito de peixe e saiu rebo­lando até o seu lugar preferido, no sofá da sala.

Eu fui para a geladeira a fim de ver o que conseguiria juntar para o café da manhã, esperando, em vão, encontrar alguma coisa aproveitável. Mas tudo o que vi foram o mes­mo queijo suíço mofado e o vidro de azeitonas que estavam ali na última vez em que olhei. Eu precisava sair para com­prar comida.

Estava exatamente seguindo para o quarto para me ves­tir quando alguém bateu na porta.

Era Lance.

—      Eu vim lhe trazer o desjejum — ele disse, erguendo um pacote do Restaurante Júnior's. — Café e bolinhos de milho. Lambuzados de manteiga.

Prozac, que estivera cochilando no sofá, sentou-se ime­diatamente interessada. Comida sempre provocava este efei­to nela.

Ela pulou para fora do sofá e se aproximou trotando, o focinho aspirando o ar inquisitivamente. Estou sentindo cheiro áe bacon?

—      São apenas bolinhos de milho — falei. — Você não gosta de bolinhos de milho.

Ela não pareceu convencida. Talvez eu goste, talvez não.

Escute, Lance, você se incomodaria muito se fôsse­mos comer no banheiro?

Ahn?

Eu sei que parece tolice, mas agora que Prozac está fazendo dieta eu me sinto culpada se como qualquer coisa que tenha mais de cinco calorias na frente dela. Ela tem esse jeito de me olhar que me faz lembrar das crianças famintas dos anúncios de "Salvem as Crianças" da tevê.

Você é maluca. Sabe disso, não é?

Faça isso por mim, está bem?

Com um suspiro exasperado, ele me seguiu até o ba­nheiro, onde comemos os nossos bolinhos empoleirados na beirada da banheira.

Está vendo? — falei. — Comer aqui não é tão ruim.

Sim, e é muito útil se a gente precisar do fio dental.

Você não está orgulhoso de mim? — perguntei, en­quanto passava uma bela camada de geléia de morango em meu bolinho. — Prozac está se mantendo na dieta e comen­do toda a ração light. E você achava que eu não conseguiria tratá-la com firmeza.

—Se você é tão firme, por que está comendo no banheiro?

Isso é um mero detalhe. O fato é que, na batalha de vontades, eu finalmente obtive uma vitória sobre Prozac.

Pois bem, meus parabéns — Lance concedeu, baten­do com a torrada no meu copo de café. — Um brinde a Jaine, a Conquistadora. Embora eu seja forçado a dizer que Prozac não parece estar mais magra.

—      Isso é porque faz pouco tempo que ela começou a ingerir alimentos saudáveis. Tenho certeza de que muito em breve estaremos notando a diferença no seu peso.

Lance bebeu um gole de café e foi direto ao verdadeiro motivo da sua visita.

Então, você falou de mim para Colin?

Acredite em mim, Lance. Você não vai gostar dele. Ele tem um apartamento pintado de verde-limão, um papa­gaio que pensa que é um alarme de carro e possíveis tendên­cias homicidas.

E tem também um rosto lindo de morrer. Eu vou me arriscar. Apenas me apresente a ele, está bem?

—      Não sei, Lance. Não me sinto bem com isso. Ele pegou o saquinho de bolinhos.

Se você não me apresentar a ele não ganha mais nem um bolinho.

Pelo amor de Deus, se você acha que eu sacrificaria a sua segurança por mero bolinho de milho...

Cheio de manteiga e geléia de morango — ele me fez lembrar.

Está bem, está bem — falei, arrancando o saquinho das mãos dele. — Eu apresento.

Um bolinho e meio depois, ok, dois bolinhos, eu estava acompanhando Lance até a porta quando o telefone tocou. Era, por incrível que pareça, Colin.

—      Eu fui assistir a leitura do testamento de Marybeth, ontem — ele disse. — Vamos almoçar juntos e eu lhe conto tudo.

Eu pude ouvir Max ao fundo, fazendo a sua ensurdece­dora imitação de alarme de carro.

Que tal no Earth Café? — sugeri. — À uma hora?

Ótimo. Nos encontramos lá.

Era Colin? — Lance perguntou depois que desliguei.

—      Como você sabia?

—      Escutei um papagaio imitando um alarme no fundo. Eu não fiquei surpresa com o fato de ele ter ouvido Max.

Lance conseguia ouvir secadores de cabelo funcionando em Ponoma.

Sim, era Colin.

E você vai falar com ele sobre mim?

Relutante, concordei em bancar o cupido e Lance saiu para se arrumar para o trabalho.

Eu ainda não conseguia acreditar que ele quisesse mes­mo conhecer Colin. Lance é o tipo de pessoa que demora uma semana antes de comprar uma torradeira, analisando todos os prós e contras, e lá estava ele, pronto para se atirar de cabeça num relacionamento com um assassino em poten­cial, sem nem mesmo pensar duas vezes.

Primeiro o meu pai, e agora Lance. Os homens são im­possíveis, n 'est-ce pas?

Mas eu não tinha tempo de fazer ponderações sobre a natureza desmiolada do macho Homo sapiens, não enquan­to houvesse um assassino à solta.

Liguei para Doris, mas ela não estava em casa. Ashley, contudo, atendeu no primeiro toque. Eu lhe expliquei que estava investigando a morte de Marybeth e perguntei se po­deria ir à casa dela para conversar.

Eu estava exatamente saindo para ir ao Brentwood Day Spa — ela disse. — Por que não nos encontramos lá? Vou fazer um tratamento corporal com algas. Você poderia fazer, também.

Tratamento corporal com algas?

É maravilhoso, querida. Os seus poros nem irão sa­ber o que os atingiu.

Agora, eu nasci em Hermosa Beach, portanto conheço tudo sobre algas. É um negócio marrom e grudento. A últi­ma coisa que eu queria era fazer um "tratamento corporal" com elas. Mas precisava solucionar um crime. E, se para isso tivesse de me transformar em sanduíche de algas, que assim fosse.

Uma hora depois eu estava deitada nua numa mesa de massagem enquanto uma ninfa chamada Aloe, não estou brincando; faltou só isso para eu perguntar se o segundo nome dela era Vera, lambuzava o meu corpo com uma meleca mar­rom e mal-cheirosa.

Eu sei que o cheiro é horrível — disse Ashley, que estava sendo lambuzada na mesa ao lado da minha —, mas esse negócio produz maravilhas.

Sim — Aloe entusiasmou-se —, as algas são antioxidantes naturais. Elas sugam todas as impurezas dos seus poros e dissolvem a celulite, apesar de que, com toda essa sua celulite, não creio que as algas serão suficientemente poderosas. Talvez seja necessário usar dinamite.

Ok, ela não fez este último comentário sobre dinamitar a minha celulite. Mas eu vi a expressão em seu rosto quando aplicou as algas nas minhas coxas. Era nisso que ela estava pensando.

- Você não se sente ótima? — Ashley suspirou. Ah, sim. Como um caranguejo na maré alta.

Ótima — repeti, sem muita convicção.

No início eu havia me sentido envergonhada por estar nua na frente de Ashley. Mas fiquei mais animada ao ver que, sem as suas roupas de grife, Ashley também acumula­va os seus quilinhos extras naquela temida área quadris/ coxas. Nada como a gordura alheia para melhorar a sua pró­pria imagem corporal.

Uma vez que estávamos cobertas dos pés a cabeça com aquela lama marinha, Aloe e sua companheira massagista nos deixaram a sós em nossa sala reservada.

—      Estaremos de volta em meia-hora — Aloe pipilou —, assim que vocês tiverem absorvido toda a alga.

Pensei que elas nunca mais iriam sair daqui—Ashley falou, no instante em que ficamos sozinhas. — Agora, me conte tudo sobre a sua investigação. Eu acho maravilhoso o fato de você estar tentando ajudar Rochelle. E fiquei tão im­pressionada ao saber que você é detetive particular.

Somente nas horas vagas.

Parece tão excitante. Exceto pelos sapatos. — Ashley franziu a testa, transformando as algas ali aplicadas em mi­núsculas ondulações de lama. — Imagino que você tenha de usar sapatos baixos e confortáveis em seu trabalho, não é?

Geralmente, sim.

Que pena. Sempre há alguma coisa para atrapalhar, não é mesmo?

Eu gostava de Ashley, mas estava começando a pensar que ela era apenas um tantinho fútil.

Então, como posso ajudá-la? — ela perguntou. — O que você queria saber?

Para começar, você viu alguém entrando desacom­panhado na cozinha, na noite do crime?

Não. — Os olhos azuis de Ashley adquiriram uma expressão tristonha por trás da meleca em seu rosto. — Infe­lizmente, a única pessoa que vi foi Rochelle.

E quanto a Colin? Ele chegou na casa antes de todas nós. Você acha que ele poderia ter cometido o crime?

Ela esperou um segundo antes de responder.

—      Eu não quis dizer nada à polícia mas, para falar a verdade, se eu tivesse de adivinhar qual dentre nós seria o assassino, escolheria Colin. Ele ficou furioso quando desco­briu que Marybeth não lhe daria a sociedade. E ele tem um mau gênio. Lembro-me de que Marybeth me contou que certa vez ele ficou tão frustrado por causa de um projeto no qual estavam trabalhando, que deu um soco tão forte na parede de gesso que abriu um buraco.

Muito interessante, pensei, arquivando aquela peque­na informação para uso futuro.

Depois de meia-hora marinando em algas, Ashley e eu recebemos um banho de esguicho e um polimento final com uma camada de hidratante.

—      Feito com puras algas — Aloe me informou, erguen­do o pote de hidratante orgulhosamente.

Maravilha. Eu sempre quis ficar com o cheiro de fundo de aquário.

Mas, na verdade, o cheiro não era tão ruim. Apenas um odor levemente almiscarado. E tenho de confessar que quan­do Ashley e eu fomos para o vestiário, eu me sentia realmen­te muito bem. Relaxada e revigorada ao mesmo tempo. Tal­vez aquela terapia com algas servisse para alguma coisa, no fim das contas.

O que eu não entendo — Ashley falou, vestindo uma calça de malha pink que devia ter custado mais do que o meu vestido de noiva —, é por que alguém iria querer matar Marybeth. Claro, ela dava nos nervos de todo mundo, mas debaixo de tudo aquilo havia uma pessoa maravilhosa.

É mesmo?

De alguma forma, achei difícil acreditar naquilo. Ashley sorriu levemente.

—      Bem, talvez ela não fosse tão maravilhosa. Não no final. Mas eu me lembro de quando a conheci, ainda na fa­culdade. Ela era muito diferente, então. Muito meiga e sim­ples. Sabe aquela encenação dela, agindo como se fosse a senhorita Raio de Sol e enlouquecendo todo mundo? Na épo­ca da facilidade não era uma encenação. Ela era uma pessoa genuinamente feliz, radiante.

Ashley sorriu com a lembrança.

—      Com o passar dos anos Marybeth acabou se tornan­do uma "chata de galochas", mas eu nunca deixei de gostar dela.

Rapidamente ela pegou o seu secador de cabelos im­portado da Inglaterra e começou a escovar os cabelos. Mas não antes de eu ter visto as lágrimas encherem os seus olhos.

Bem, avisem a imprensa. Havia alguém que realmente gostava de Marybeth.

Ou que, pelo menos, queria me convencer disso.

Ashley me deu um abraço de despedida no estaciona­mento do Brentwood Day Spa, envolvendo-me numa nuvem de seios fartos e perfume caro.

—      Boa sorte, querida — ela disse. — Espero que você consiga apanhar o assassino de Marybeth. Só rezo para que tudo isso não passe de um terrível acidente, que quem quer que tenha feito pensou estar acrescentando suco de limão ou qualquer outra coisa à guacamole. Mas isso não é muito pro­vável, é?

Eu balancei a cabeça em negativa.

—      Uma pena — ela suspirou.

Então entrou em seu Jaguar e partiu em disparada, sem dúvida para praticar um pouco mais o seu esporte preferi­do: as compras.

Já que eu estava em Brentwood, pensei que poderia aproveitar e dar uma passadinha na casa de Doris. Verifi­quei o endereço e vi que ela morava perto dali, na Darlington Avenue.

A Darlington era uma rua arborizada, com prédios de dois andares e sobrados nos dois lados. Foi difícil encontrar um lugar para estacionar, mas consegui espremer o meu Corolla entre duas enormes vans e caminhei por meio quar­teirão até o prédio de Doris, em estilo Nova Inglaterra. Subi a escada até a sua pequena varanda, enfeitada com vasos de impatiens cor-de-rosa, e toquei a campainha.

Ela abriu a porta usando jeans e camisa de brim. Os ca­belos grisalhos cintilavam sob o sol da manhã.

Jaine! — ela exclamou, agitada. — O que está fazen­do aqui?

Bem, eu gostaria de conversar com você sobre o as­sassinato de Marybeth.

Ahn? — Ela ficou parada ali, sem absolutamente ne­nhuma menção de me convidar para entrar.

Importa-se se eu entrar por alguns minutos?

Eu praticamente via as engrenagens girando em seu cérebro enquanto Doris pensava numa desculpa para me des­pachar.

—      Não vou demorar — prometi. Relutante, ela me deu passagem.

—      Por que não vamos para a cozinha? — ela convidou, pegando-me pelo braço e me guiando direto para os fundos do apartamento. — Posso esquentar um café.

Aloe me avisara para não ingerir café ou bebidas alcoó­licas por pelo menos vinte e quatro horas, período em que deveria limpar o meu organismo com chás de ervas, espe­cialmente aqueles feitos com capim-limão, cascara sagrada ou raiz de sassafrás.

É, até parece. Um dos grandes princípios em minha vida é jamais beber mato.

—      É claro — falei. — Um café seria ótimo.

Doris me fez sentar em sua minúscula cozinha branca-e-pinho, enquanto agitava-se de um lado para outro, me­xendo numa cafeteira.

Pam me contou que você está investigando o caso — ela disse. — Mas é difícil imaginá-la como uma detetive "durona".

É o que todo mundo diz. Imagino que eu seja mais do tipo "molenga".

Ela me lançou um olhar vazio. Não havia o menor sinal daquela Doris animada e brincalhona que eu conhecera no Clube TPM. Esta mulher que pegava as xícaras no armário estava mais para uma Doris de Stepford.

—      O que você quer saber? — ela perguntou.

—      Será que você pode pensar em qualquer outra pes­soa, que não seja Rochelle, que tivesse um motivo para ma­tar Marybeth?

—      Não, para ser sincera, não. A não ser por Colin, tal­vez. Isto é, ela o rejeitou como sócio da empresa, não foi?

Doris entregou-me a xícara e fingiu um sorriso tenso.

Sabe, Jaine, eu já contei à polícia tudo o que sei, o que não é muito.

Se você não se importa — falei, retribuindo o seu sor­riso falso —, eu agradeceria muito se repetisse tudo para mim.

Ela sentou a minha frente e começou a mexer o café.

—      Você reparou se alguém entrou a sós na cozinha, na­quela noite? — perguntei. — Qualquer pessoa que pudesse ter acrescentado o óleo de amendoim à guacamole?

Doris não respondeu de imediato, limitando-se a olhar para a xícara e mexer o café com tanta força que achei que acabaria quebrando a borda de louça.

Finalmente ela ergueu os olhos.

—      Eu não falei nada sobre isso para a polícia porque a minha memória já não é mais como costumava ser, mas num determinado momento, quando você e Pam estavam no an­dar de cima, eu deixei Rochelle e Colin na cozinha e fui para a sala, levar os guardanapos de papel. Depois de algum tem­po, lembro-me de que Rochelle entrou na sala e foi até o bar, onde acrescentou mais tequila a sua margarita.

Eu não precisava ser uma cientista espacial para enten­der o que ela estava tentando me dizer.

O que significa que Colin ficou sozinho na cozinha — falei.

Se me lembro corretamente. Mas não tenho certeza absoluta. Ultimamente, a minha vida é como uma grande fase de aposentadoria. É por isso que não contei nada à polí­cia. E se eu estiver errada?

Era impressionante como Doris estava diferente ali, em sua cozinha. Na casa de Rochelle ela irradiava confiança. Ali, sob a clara luz do dia, ela era uma mulher atarantada, que demonstrava cada um dos seus sessenta e tantos anos.

Bebemos nossos cafés, conversando vagamente sobre o crime.

—Ainda é tão difícil acreditar que Marybeth esteja morta — ela disse. — Toda aquela energia, toda aquela irritante ati­tude positiva. Ela parecia ser tão... indestrutível. A propósi­to — acrescentou —, meus pêsames a você.

Para mim? Eu mal a conhecia.

Não por Marybeth. Mas por causa daquela sua foto que publicaram no jornal. Vai ser difícil para você superar aquilo.

Ela me lançou um sorriso. Então, afinal, a Doris Brinca-lhona não havia desaparecido.

Aquela altura já tínhamos terminado o café, portanto eu agradeci o tempo que ela me dispensou e ela guiou-me até a porta da frente. Quando passamos pela sala, não resisti à tentação de dar uma espiada. Eu achara estranha a manei­ra como ela havia me empurrado direto para a cozinha quan­do cheguei. Fiquei imaginando se o restante da casa seria uma bagunça. Ou, talvez, se ela teria uma pilha de vídeos pornográficos sobre a mesinha de centro.

Mas, não, era uma sala arrumada com muito bom gos­to, e até normal demais. Sofá padrão, poltronas, lareira. E um enorme piano no canto. Mas, então, avistei algo que me chamou a atenção. Ali, pendurado acima da lareira, havia um retrato de Doris e um homem sentados juntos, de mãos dadas. Obviamente era um casal. Um casal apaixonado.

Parei no mesmo instante.

—      É você naquele retrato, não é? — perguntei.

Ela assentiu, ruborizando.

Eu me aproximei do quadro e vi que Doris e seu com­panheiro estavam usando alianças. Só podia ser o marido dela. Mas Doris não dissera que havia tido um divórcio tu­multuado? Eu não conhecia muitas mulheres divorciadas que exibiam os retratos dos ex-maridos em cima das suas larei­ras. Em placas de tiro ao alvo, talvez, mas não por cima de lareiras.

Aquele é o seu marido?

Sim — ela suspirou. — Somos Glen e eu. Eu espera­va que você não visse o retrato.

Atravessei a sala na direção do piano e vi dezenas de fotografias de Doris e o marido. Fotos de casamento. De via­gens. De festas. E não havia dúvidas quanto as suas expres­sões apaixonadas.

Balancei a cabeça, confusa.

Eu não entendo. Pensei que você odiasse o sujeito.

Eu não o odeio. Pelo contrário, eu o amava muito. Ele morreu há quase um ano. E doloroso demais falar sobre isso. — Seus olhos nublaram-se de lágrimas. — Então eu pre­firo mentir e dizer às pessoas que sou divorciada. Assim fica mais fácil.

Ela pegou uma das fotografias de cima do piano. Era uma foto pequena, que eu nem percebera, e a entregou para mim. Nela, Doris sentava-se ao lado do marido, mas agora ele esta­va numa cadeira de rodas, parecendo pálido e emaciado.

—      Dois anos atrás Glen sofreu um terrível acidente de carro. Isso o deixou incapacitado e causou ferimentos inter­nos que, com o tempo, acabaram por tirar-lhe a vida. Foi uma morte lenta e sofrida. Eu não a desejaria nem ao meu pior inimigo.

Agora as lágrimas corriam pelo seu rosto.

—      Está vendo? — ela disse, enxugando-as com as cos­tas da mão. — Agora você sabe porque não consigo falar so­bre isso.

Então este era o motivo de ela se comportar de maneira tão estranha, e porque ficara tão agitada ao me ver. Doris não queria que eu descobrisse a verdade sobre o seu marido.

Eu me senti como uma idiota por tê-la feito chorar da­quela maneira.

—      Me desculpe — falei. — Juro que tive intenção de aborrecê-la.

—      Vou sobreviver — ela sentenciou sorrindo levemente. Nós nos despedimos e eu fui para o meu carro.

É engraçado como a gente nunca sabe o que acontece na vida das pessoas. Eu jamais imaginaria que Doris vivesse com um segredo tão doloroso.

Neste meio tempo, entretanto, ela havia atirado uma informação bastante valiosa no meu colo: o saboroso deta­lhe sobre Colin ter ficado sozinho na cozinha de Rochelle na noite do crime. Isso, juntamente com o livro de receitas Cozi­nhando com Amendoins que eu vira no apartamento dele, o catapultava direto para o primeiro lugar na minha lista de Principais Suspeitos.

Enquanto eu dirigia até o Earth Café a fim de encontrá-lo, não pude evitar de me sentir um tantinho apreensiva.

Pelo tanto quanto eu sabia, havia marcado um almoço com um assassino.

 

O Earth Café é um bistrô de comida natural em Beverly Hills, razoavelmente caro e bastante conhecido pelas saladas e san­duíches de baixas calorias. O tipo de lugar onde as pessoas magras vão para se entupir de brotos de feijão.

Ahn?, provavelmente você está se perguntando. O que Jaine Austen, uma garota que engole Big Macs como se fossem boli­nhas de goma, está fazendo num restaurante de comida saudável?

Bem, você tem razão. Normalmente comida saudável e eu combinamos tanto quanto pizza e aveia. Mas decidi se­guir o brilhante exemplo de Prozac e ficar de olho nas mi­nhas calorias. Se Prozac conseguiu concentrar força de von­tade suficiente para se manter na dieta, não havia motivo para que eu não pudesse fazer o mesmo, certo? Afinal, eu estava pelo menos cem pontos à frente dela na tabela de QI. Bem, uns vinte cinco, talvez.

Colin estava me esperando numa mesa de ferro fundi­do, no encantador pátio externo do restaurante. Ele usava calça caqui e uma camisa branca com listrinhas azuis-bebê, o cabelo loiro-escuro cortado bem curto e espetado.

Será que alguém com uma aparência tão bonita e sau­dável poderia ser mesmo um assassino? É claro que poderia. Eu não ficaria surpresa se nove entre dez loucos assassinos se parecessem com modelos de comerciais da Gap.

Depois de trocarmos cumprimentos, entramos no café e fizemos nossos pedidos ao atendente atrás do balcão. Você ficará surpreso ao saber que eu não pedi um hambúrguer nem o fettucini Alfredo. Em vez disso, pedi um sanduíche de peru em pão integral, sem maionese.

Colin pediu o sanduíche de rosbife grande, com maio­nese extra e uma salada de batatas. A vida não é justa, não é? O sujeito tinha a cintura da largura do meu tornozelo e esta­va pedindo maionese extra e salada de batatas.

Nossos sanduíches vieram com um acompanhamento de chips de batata doce orgânica. Mais uma vez, você sentirá orgulho ao saber que eu dei os meus a Colin. Afinal, 120 ca­lorias ainda eram 120 calorias, orgânicas ou não.

Então, como foram as coisas na leitura do testamen­to? — perguntei quando começamos a comer.

Um desastre — Colin respondeu. — O patrimônio de Marybeth foi avaliado em quase dois milhões de dólares e tudo o que ela deixou para mim foi um armoire vagabundo.

Como você sabe que não é valioso?

Eu estava com ela quando o comprou. Custou cin­qüenta dólares num leilão.

Que pena, Colin — falei.

Porém — ele salientou —, pelo menos isso significa que eu não tinha um motivo para matá-la.

Eu não estava tão certa disso. Ele poderia ter acrescen­tado o óleo de amendoim à guacamole num momento de raiva, como vingança por anos de abusos no trabalho.

E quem vai ficar com o dinheiro dela? — perguntei.

A maior parte ela deixou para os parentes. Deixou um pequeno legado para a empregada doméstica e Ashley recebeu dez mil. A única pessoa que não precisava de di­nheiro ganhou dez mil. Esta é a confirmação de que os ricos sempre ficam mais ricos.

Ele balançou a cabeça, inconformado.

—      Ela poderia ao menos ter me deixado o Porsche — falou fazendo beicinho —, considerando-se todas as vezes em que levei o carro dela para lavar. Ou uma porcentagem daquele dinheiro que ganhou na loteria. Afinal, fui eu que tive de correr na pior hora do rush para comprar o maldito bilhete para ela, juntamente com o seu frapuccino diário e o bolinho de chocolate.

Ele deu uma mordida indiferente em seu chip de batata doce.

Ainda não consigo acreditar que ela ganhou aquele dinheiro - acrescentou. - Algumas pessoas têm mesmo toda a sorte do mundo.

Colin, ela está morta. Creio que seja mais seguro afir­mar que ela nao tinha toda a sorte do mundo.

Colin estava tão ocupado choramingando por causa da herança que mal tocou no sanduíche. Eu, por outro lado, havia devorado o meu em tempo recorde. Pensei em pedir de volta os meus chips de batata doce, mas me contive a tem­po. Eu já havia comido bastante, disse a mim mesma. Mais do que o suficiente. Eu e meus quadris não precisávamos de nenhum chips de batata doce. E ponto final.

Além disso, eu tinha de parar de pensar em comida e retomar o meu interrogatório. Não seria fácil, mas eu iria con­frontar Colin.

Respirei fundo e fui em frente.

Colin, eu estive conversando com Doris

Ahn?

Um fio de maionese escorreu para fora do sanduíche dele. Ah, meu Deus. Maionese não é uma coisa divina? Per­guntei-me se ele iria reparar se eu estendesse a mão e pegas­se a gota de maionese com o dedo. É claro que ele iria repa­rar! Eu estava maluca? Tinha de parar com aquela besteira e me concentrar no assassinato.

—      Enfim—eu continuei, obrigando-me a não ficar olhan­do para a maionese —, Doris disse que estava certa de ter visto você sozinho na cozinha de Rochelle na noite do crime

Claro, Doris não dissera nada disso. Ela não tinha certe­za de tê-lo visto, mas não seria eu quem lhe diria. A expressão de Colin se anuviou.

—      E daí? E se eu estivesse mesmo? Nem cheguei perto daquela guacamole.

Na mosca. O meu blefe funcionou. Ele ficara sozinho na cozinha. Tentei me mostrar inflexível.

Colin, eu vi o livro de receitas no seu apartamento.

Que livro de receitas? — Ele parecia sinceramente intrigado. — Eu não sei cozinhar.

—      Cozinhando com Amendoins. Ele riu.

—      Ah, isso. Foi um presente de brincadeira, do meu ex- namorado. Ele sabia o quanto Marybeth me deixava furioso e me deu o livro de presente, só para me provocar. É sério. Você acha que eu andava por aí sonhando com pratos feitos com amendoim para envenenar Marybeth?

Ele riu outra vez, tão inocente quanto um coroinha. Foi então que eu ouvi alguém chamar o meu nome.

—      Jaine! Jaine Austen!

Ergui os olhos e avistei Lance vindo em nossa direção, vestido nos trinques com o seu melhor terno Armani de três peças.

—      Que surpresa, encontrar você aqui — ele disse, fa­zendo a pior atuação que já vi desde o filme Ataque dos Toma­tes Assassinos.

Era óbvio que ele me escutara combinando o almoço naquela manhã e decidira tomar as minhas obrigações de cupido em suas próprias mãos.

—      Você não vai nos apresentar? — ele perguntou, ignorando-me completamente e sorrindo para Colin.

—      É claro — resmunguei. — Lance, Colin. Colin, Lance.

         Os olhares de ambos se colaram no mesmo instante e, no que se referia a minha presença ali, eu até poderia ser um broto de feijão no meu sanduíche de peru

Antes que eu percebesse Lance já estava puxando uma cadeira para a nossa mesa, e logo ele e Colin conversavam sobre uma reapresentação de Gipsy que estava sendo anun­ciada para breve.

Fiz algumas fracassadas tentativas de participar da con­versa, mas eu havia me transformado na Mulher Invisível. Qualquer conversa sobre o assassinato, pude perceber, esta­va fora de questão.

Murmurei uma desculpa sobre um compromisso urgen­te, peguei de volta o meu saquinho de chips de batata doce e dei o fora.

Comi os chips no meu carro enquanto verificava os re­cados no telefone. Nick, do Mestres do Encanamento, havia ligado para me dizer que o discurso fora um sucesso, e Kandi ligara para avisar que os vestidos das damas de honra ti­nham chegado. Ela me deu o endereço de uma loja especiali­zada em noivas em Beverly Hills e disse-me para correr até lá o mais breve possível para fazer as provas. A última coisa que eu queria era me espremer dentro daquele horrível fes­tival de frufrus cuja foto Kandi havia me mostrado. Porém, mais cedo ou mais tarde, era o que eu teria de fazer. Desde que eu já estava em Beverly Hills, achei melhor acabar logo com aquilo.

Assim, depois de lamber os últimos resquícios dos chips de batata doce orgânica dos meus dedos, liguei o Corolla e segui para o Salão de Noivas de Amy Lee.

Amy Lee era uma formidável asiática de quarenta e tantos anos. Num contraste gritante com todos os diáfanos vestidos de noiva que a cercavam, ela usava um terninho simples, mas impecável. Os cabelos negros e lisos eram cor­tados na altura do queixo, com uma ousada mecha branca na frente.

Eu disse a ela que estava ali para provar o vestido do casamento de Kandi. Ela me olhou de cima a baixo, com ex­pressão avaliadora.

— A srta. Tobolowsky disse que talvez você represen­tasse um desafio, e vejo que ela não estava exagerando. Acho que vou ter de enfiá-la dentro daquele vestido com um pé-de-cabra.

Ok, na verdade ela não fez este comentário sobre o pé-de-cabra. Ela limitou-se a assentir e foi buscar o vestido.

Eu esperava que o vestido não fosse tão feio quanto era na fotografia que Kandi me mostrara. Esperei em vão. Ao vivo e a cores as mangas bufantes eram ainda mais bufantes, a cintura marcada era como um torniquete e a saia rodada abria-se como as asas de um avião.

De alguma forma, Amy conseguiu fechar o zíper.

—      Isso acontece o tempo todo — ela disse. — A noiva fica tão apaixonada pelo vestido que não se dá conta de que o modelo talvez não favoreça as suas damas de honra.

Amy convocou uma costureira nos fundos da loja, uma asiática mais idosa que emitiu uma torrente de exclamações inconformadas enquanto alfinetava o vestido para alterações.

Finalmente aquela tortura terminou e voltei para as minhas próprias roupas.

—      Quanto lhe devo? — perguntei a Amy. Estremeci ao pensar que ainda teria de pagar para ficar

horrorosa daquele jeito.

—      A srta. Tobolowsky vai cuidar de tudo — ela disse.

Ah, mas eu não posso permitir que ela faça isso. Está fora de cogitação. Quanto lhe devo? — repeti, pegando o meu cartão de crédito.

Setecentos dólares.

Setecentos dólares??? Pensando bem, talvez fosse me­lhor deixar que Kandi cuidasse de tudo. Afinal, ela tinha di­nheiro, e eu não. Além disso, mesmo se eu quisesse, não creio que os meus bons amigos do MasterCard permitiriam que a compra fosse realizada. Eu já estava perigosamente próxi­ma do meu limite de crédito. Um débito de 700 dólares me faria passar do limite em, pelo menos, uns 699 dólares.

Portanto eu apenas sorri levemente e guardei o cartão.

Achei mesmo que você faria isso — Amy falou, com um sorriso conhecedor. — O vestido estará pronto amanhã.

Ótimo. Mal posso esperar.

Srta. Austen, permita-me lhe dizer o que digo às mi­nhas outras clientes. Sei que está infeliz com o vestido, mas pense no quanto a noiva ficará linda, em comparação com você. Encare as coisas desta maneira. Usar o vestido será o seu presente para ela.

Sinceramente — eu disse —, eu preferia lhe dar um faqueiro.

Quando cheguei em casa, atirei-me no sofá ao lado de Prozac, que dedicava-se com afinco a lamber as suas intimi-dades.

—      Ah, Pro — eu gemi. — Deveria existir uma lei proi­bindo as mangas bufantes.

Prozac ergueu os olhos dos seus genitais e aspirou o ar. Estou sentindo o cheiro de batatas chips no seu hálito?

—      Sim — eu disse, com o máximo de dignidade que consegui juntar —, mas acontece que foram chips de batata doce orgânica. Quase nenhuma caloria.

Ahá.

Era impressão minha, ou ela estava mesmo sorrindo com ironia?

—      Só porque você tem se mantido na dieta por uns pou­cos dias não quer dizer que se transformou na "gata maravi­lha". Grande coisa. Eu já fiz dietas que duraram semanas.

Ela me encarou.

—      Ok, alguns dias, então

Ela continuou me olhando.

—      Ok, uns minutos.

Naquela altura os olhos dela estavam praticamente per­furando a minha testa.

—      Tudo bem, então eu sou um fracasso total quando se trata de fazer dieta. Agora pare de olhar para mim desse jei­to, está bem?

Com o que eu podia jurar ter sido um outro sorrisinho sarcástico, ela voltou à tarefa de lamber as partes íntimas.

Um dia desses eu ainda vou arrumar um cachorro enor­me, babão e que não seja crítico.

Neste meio tempo, entretanto, eu tinha peixes maiores a pescar.

Fechei os olhos para me concentrar no assassinato de Marybeth mas, de repente, só consegui pensar em peixe fri­to. Sim, um belo prato de camarões fritos não seria ótimo, agora? Eu poderia dar uma corrida até o supermercado e comprar um daqueles pratos prontos, de camarões à milanesa com batatas fritas. E molho tártaro extra. Humm...

O que havia de errado comigo? Eu tinha de me concen­trar. Obriguei-me a rever todo o caso. Eu entrevistara tcdos os integrantes do clube e não chegara a praticamente parte alguma. A única coisa que descobrira era que Colin havia ficado sozinho na cozinha de Rochelle e que possuía um li­vro de receitas com amendoins. Não eram exatamente evi­dências suficientes para condená-lo.

Esperava que os policiais estivessem fazendo mais pro­gresso do que eu neste caso.

Eu precisava pensar com mais afinco e tentar encontrar quaisquer outras teorias. Portanto, fiz o que sempre faço quando tenho de funcionar com a minha total capacidade mental. Preparei um café bem forte, peguei um bloco de ano­tações, apontei uma porção de lápis... e passei a tarde inteira assistindo à televisão.

O que posso dizer? Eu precisava me distrair um pouco. Você sabe como é. Às vezes, quando a gente está enlouque­cendo atrás da solução de um problema, a resposta chega quando nos afastamos dele.

Eu estava no meio de um programa altamente educati­vo sobre mulheres grávidas que traem seus amantes casa­dos quando o telefone tocou.

—      Olá, detetive! — Era Pam. — Como vai indo com o Caso da Temível Decoradora?

Contei a ela o pouco que havia descoberto até o mo­mento, incluindo a admissão de Colin de que estivera sozi­nho na cozinha na noite do crime.

—      Você acha que Colin é o assassino? — ela perguntou. —Até agora ele é o suspeito mais promissor. O que você acha?

Detesto dizer, pois eu gosto muito dele. Mas sempre achei que Colin tem... como diria... uma certa fraqueza mo­ral. Como daquela vez em que almoçamos juntos e, depois que terminamos, eu o vi roubar a gorjeta da garçonete.

Está brincando.

—      Não, é verdade. Eu nunca me esqueci disso. Mais um voto para Colin.

Foi uma pena Marybeth não ter lhe deixado uma bela herança — eu suspirei. — Isso teria dado a ele um motivo bem mais forte para assassinato.

  1. Ter sido rejeitado no trabalho não é exatamente o motivo mais premente do mundo. Se fosse, acho que hoje eu já estaria no corredor da morte.

Tudo o que ela deixou para ele foi um armoire. E o que ele realmente queria era o Porsche.

Pelo menos ela não estará mais correndo por aí com aquele carro — disse Pam. — E engraçado, se você me pedis­se para adivinhar como Marybeth iria morrer, eu poderia apostar que seria naquele carro. Marybeth era um acide prestes a acontecer. Mas, espere — ela disse, interrompen-do-se por um segundo, — e se Colin estiver mentindo? Tal­vez Marybeth tenha lhe deixado uma herança em dinheiro, no fim das contas, e ele não quis lhe contar.

Seria uma mentira bem tola, não acha? Afinal, eu poderia descobrir a verdade facilmente através de Ashley, ou do advogado de Marybeth.

Você tem razão, é claro. É por isso que você é detetive e eu não.

Passamos mais alguns minutos conversando, Pam me informando de todos os detalhes de um teste que fizera para o comercial de uma lanchonete.

—      Graças a Deus eles queriam uma pessoa de aparên­cia comum — ela disse. — É claro que em Hollywood "co­mum" significa bonitinha em vez de absolutamente maravi­lhosa, mas eu fui assim mesmo e parece que o diretor de elenco gostou de mim. Por isso, fique com os dedos cruza­dos. Dos pés, também.

Depois de lhe prometer que cruzaria todos os meus de­dos, eu desliguei e olhei no relógio. Eram apenas cinco da tarde, mas eu estava faminta. Decidi que iria jantar cedo. Certa vez eu li que jantar cedo era a técnica de dieta favorita das celebridades. Nunca jante depois das seis, dizia o artigo, e os quilos irão praticamente voar para longe do seu corpo.

Sim, eu iria ao supermercado e compraria os ingredien­tes para uma saudável salada. Apenas folhas verdes, talvez um pedaço de frango cozido, um pouco de molho e alguns legumes. Que ótima idéia. Eu já estava até me sentindo mais

magra.

Peguei as chaves do carro e dirigi até o mercado, onde fui direto para a seção de verduras. Não passei pelo corredor dos biscoitos e nem cheguei perto da padaria. É verdade que me aproximei perigosamente da seção de sorvetes, mas fui forte. Caminhei resolutamente através de todas estas tentações. E quando cheguei ao balcão de saladas, me mantive forte e escolhi apenas os ingredientes de baixas calorias. Você ficará feliz em saber que eu disse não aos croutons, aos mo­lhos cremosos e aos gigantescos pedaços de queijo que me chamavam pelo nome.

Depois de juntar mais verduras do que eu havia comi­do nos últimos cinco anos, corri para o caixa mais próximo, sentindo um grande orgulho de mim mesma. Lembrei-me daquele almoço com Sam e Andrew e de como a idéia de comer uma salada me parecera pouco atraente, então. Ago­ra, parecia ser a única coisa sensata a comer.

Talvez eu finalmente tivesse chegado a um estágio da minha vida em que a dieta se tornaria algo fácil de se fazer. De fato, provavelmente eu atingira um nível de maturidade necessário para iniciar uma dieta saudável e permanecer nela.

Paguei a minha conta e saí, mal lançando um olhar na direção dos pacotes de uvas passas cobertas de chocolate que estavam pendurados no balcão do caixa.

Ao que parecia, Prozac não era a única da família a ter força de vontade.

De volta para casa, despejei uma lata de ração dietética de linguado na vasilha de Prozac. Ela começou a comer dan­do mordidinhas delicadas, como uma supermodelo jantan­do com o namorado.

Ao invés de devorar a minha comida encostada na pia da cozinha, como normalmente faço, decidi degustar o meu jantar dietético com estilo, uma outra dica de dieta que eu me lembrava de ter lido. Coma os alimentos lentamente, na mesa da sala de jantar bem-arrumada. Você irá ingerir menos e se senti­rá mais satisfeita.

Assim, depois de retirar uma pilha de contas não pa­gas, coloquei um lindo jogo americano na mesa da sala de jantar, me servi de uma taça bem pequena de chardonnay e arrumei a salada num festivo prato de Natal que minha mãe havia comprado para mim no Canal de Compras.

Depois inseri um CD de Tony Bennet no meu aparelho de som e me sentei para comer. Ou, melhor dizendo, para jantar.

Peguei a primeira garfada, mastigando devagar, deli-ciando-me com todos os sabores naturais das verduras e le­gumes. Como era maravilhoso, disse a mim mesma, comer alimentos que não estavam encharcados de ketchup e sal.

Saboreei cada mínimo bocado daquela refeição. Ok, sa­boreei os três primeiros bocados. Depois disso, não pude mais me conter. Eu estava esfomeada. Atirei-me àquelas verduras como se fosse o Pernalonga num canteiro de cenouras. Antes mesmo de perceber, eu havia comido cada última migalha da salada e estava limpando o molho do prato com o dedo.

Àquela altura Prozac já havia terminado de comer a maior parte da sua ração e voltara ao sofá, dando uma "ge­ral" em seus genitais após o jantar.

Espiei a ração de linguado na vasilha dela com olhos famintos. Na verdade, não parecia tão ruim assim. E eu sem­pre tivera curiosidade em saber qual seria o gosto da comida

de gato.

Não precisa se enojar. É claro que não comi a ração. Que tipo de pessoa desesperada você pensa que eu sou? Eu ja­mais desceria tão baixo, pelo amor de Deus! Além disso, Prozac estava olhando e eu sabia que ela me jogaria aquilo na cara pelo resto da vida.

Fui até onde ela estava, no sofá, parecendo absoluta­mente satisfeita.

—      Como você faz isso, Pro? Como consegue se manter nessa sua maldita dieta?

Ela olhou para mim e bocejou.

Nada de mais. Para um corpinho delgado, basta fechar a boca.

—      Você está começando a me dar nos nervos... Sabe dis­so, não é?

Fui para o quarto a fim de me distrair um pouco vendo televisão. Mas, como seria de se esperar, havia comida em toda parte. Lucy estava comendo um enorme prato de espaguete na mesa ao lado da de Bill Holden, Emeril estava ensinando a preparar mariscos que boiavam num lago de manteiga com alho, e todas as emissoras pareciam estar transmitindo o mesmo comercial, que mostrava o frango à parmegiana de um restaurante italiano.

Eu não pude mais suportar. Peguei meu suéter e segui para a porta.

—      Vou caminhar um pouco — avisei a Prozac.

Você não me engana. Eu sei que vai comprar sorvete.

—      Pois está redondamente enganada — insisti.

E ela estava mesmo. Não fui comprar sorvete. De ma­neira alguma.

Fui buscar os pacotinhos de uvas passas cobertas de chocolate no caixa do supermercado.

Estava sentada no carro, devorando as uvas passas, quando minha mente vagou de volta para a conversa que eu tivera com Pam.

Subitamente tive a sensação de que ela dissera algo im­portante, que havia me dado uma dica valiosa. Mas, por mais que tentasse, eu não conseguia identificar o que seria. O que ela dissera, exatamente? Apenas que Marybeth era uma pés­sima motorista e que Colin havia roubado a gorjeta de uma garçonete no restaurante.

Claro, a esta altura provavelmente você já entendeu tudo. Mas eu não entendi. Não naquele momento, de qual­quer forma.

Voltei para casa e corri para o banheiro para escovar os dentes, temendo que Prozac sentise o cheiro de chocolate no meu hálito.

E foi então que a "ficha caiu", quando eu estava escovan­do os dentes. Algo que Pam dissera surgiu borbulhando em minha consciência: Marybeth era um acidente prestes a acontecer.

Corri para o telefone, com a boca ainda cheia de pasta de dentes.

Pam — falei quando ela atendeu, — sou eu, Jaine.

Você está bem? Sua voz está esquisita.

E só pasta de dentes na boca. Escute, preciso lhe per­guntar uma coisa. Eu sei que Marybeth era uma péssima motorista, mas ela já havia se envolvido em um acidente, alguma vez?

Não sei. Não tenho certeza.

Tente se lembrar.

Bem, agora que você mencionou, lembro-me de que quando comecei a participar do Clube TPM, Ashley sempre levava Marybeth às reuniões em seu carro. Você acha que é possível que a carteira de habilitação de Marybeth estivesse suspensa?

—      Sim — falei. — Acho que é bem possível. Desliguei o telefone e corri para o computador, onde

procurei os arquivos do jornal L.A Times. Como era mesmo o nome do marido de Doris? Glen. Isso. Glen Jenkins.

Digitei o nome dele. Segundos depois surgiu na tela uma reportagem sobre um terrível acidente de carro na estrada para San Diego. Trânsito bloqueado durante três horas. Vá­rias pessoas feridas, uma delas gravemente, um tal sr. Glen Jenkins.

A motorista do veículo que provocara o acidente: Marybeth Olson.

Pronto. Marybeth era a pessoa que colocara Glen Jenkins numa cadeira de rodas.

Eu assobiei baixinho. Parecia que Doris acabara de rou­bar a liderança de Colin na minha lista de principais sus­peitos.

 

Quando Doris atendeu a porta no dia seguinte, ela já sabia que a festa acabara. Tinha no rosto a mesma expressão que O Bolha tivera quando eu o flagrei assistindo futebol vestido com a minha camisola da Victoria's Secret. Porém, ao contrário de O Bolha, Doris não parecia nem um pouco constrangida.

—      Olá, Jaine — ela disse, fitando-me com seus firmes olhos acinzentados.

Eu lhe entreguei a cópia que fizera da reportagem do Times.

Quer me falar sobre isso? — perguntei.

E claro. — Fria como um pepino. — Entre.

Desta vez ela não me arrastou para a cozinha. Levou-me direto para a sala de estar. Nós nos sentamos frente a frente, em idênticos sofás de chenille, sob o retrato de Doris e Glen de mãos dadas em dias mais felizes.

—      Então você sabe a verdade — ela disse. — Engraça­do, mas é até um alívio. Tem sido um inferno guardar tudo isso comigo, por tanto tempo.

Ela colocou os pés em cima da mesinha de centro e fi­quei supresa ao ver que estava usando pantufas cor-de-rosa, no formato de coelhinhos. A sensata Doris usando pantufas de coelhinho? Creio que nunca se sabe o que as pessoas irão usar na intimidade dos seus lares, uma lição que eu já deve­ria ter aprendido depois daquele episódio de O Bolha com a minha camisola.

Ela olhou de relance para a reportagem do Times e sua expressão ficou mais dura.

—      Aquela vagabunda escapou do acidente sem nem mesmo um arranhão. E o pobre Glen nunca mais pôde an­dar. Jamais recebemos sequer uma palavra dela, nenhuma desculpa, nem um buquê de flores. Nem mesmo uma porca­ria de cartão desejando rápido restabelecimento. Durante dois anos eu vi o meu marido morrer aos poucos, dia após dia, tudo por causa de Marybeth.

Ela pegou a folha de papel e a amassou numa bola.

—      Depois da morte de Glen, eu contratei um investiga­dor particular para encontrá-la. Então me inscrevi na acade­mia que ela freqüentava e fiz amizade com as amigas dela. Com o tempo, elas acabaram me convidando para fazer par­te do Clube TPM. Eu não estava planejando matá-la. Não no início, pelo menos. No início, eu só queria ver que tipo de pessoa era ela, capaz de dar as costas a uma tragédia como aquela sem pensar duas vezes. Pensei que, depois de conhe­cê-la, descobriria que talvez não fosse tão má, saberia algo a respeito dela que pudesse explicar seus atos.

Doris balançou a cabeça, afastando tal idéia.

—      Mas eu a odiei no instante em que a conheci. Ela era tudo o que eu temia que fosse, e ainda pior. Então eu soube que teria de matá-la.

Ai, meu Deus. Ela estava confessando. Ali e naquele momento. O caso estava encerrado. Tudo o que eu precisava fazer era convencê-la a assinar uma confissão por escrito e poderia começar a trabalhar no Union National com o ado­rável Andrew Ferguson!

—      Eu pretendia drenar o óleo de freio do Porsche de Marybeth. Fazer com que ela morresse num acidente de car­ro. Seria uma justiça poética.

Ela sorriu com amargura.

Se algum dia eu fosse escrever minhas memórias, já sa­bia qual seria o título daquele capítulo: A Assassina Usava Pantufas de Coelhinho!

Mas, cada vez que eu tentava fazer isso — Doris pros­seguiu, — perdia a coragem. Não é fácil drenar o óleo de freio de um carro sem atrair atenção.

Então você decidiu envenená-la com óleo de amen­doim? — interrompi.

Não — ela disse. — Então eu tive sorte. Uma outra pessoa a matou para mim. — Ela sacudiu alegremente os coelhinhos. — Tudo fica bem quando acaba bem, não é?

Quer dizer que você não colocou o óleo de amen­doim na guacamole?

Não — ela disse, os olhos cintilando como aço. — Não fui eu.

Com isso, ela pegou a bolinha de papel com a reporta­gem do Times e atirou-a na lareira.

Nada de confissão. Eu agradeci Doris por ter me recebi­do e a deixei sozinha com suas lembranças de Glen.

Enquanto caminhava na direção do meu carro, não pude evitar de pensar: se Doris foi tão convincente ao mentir so­bre o seu divórcio, quem poderia dizer que não estivesse mentindo sobre o assassinato?

Talvez ela não tivesse mudado de idéia quanto a matar Marybeth.

Talvez tivesse mudado apenas a sua arma do crime.

Agora eu tinha dois suspeitos com motivos, mas nem um fiapo de prova de que qualquer um deles tivesse adulte­rado a guacamole. As únicas impressões digitais na maldita garrafa de óleo de amendoim pertenciam a Rochelle.

Sentindo-me frustrada por minha falta de evidências, decidi dirigir até a praia a fim de desanuviar a cabeça. Era um dia nublado, frio e cinzento, perfeito para caminhar e pensar, sem nenhuma tevê para me distrair.

Segui para Malibu e estacionei na Coast Highway, de­pois desci aos tropeços por uma íngreme trilha de pedregu-lhos até a praia.

Quase não havia ninguém por ali. Somente umas pou­cas pessoas passeando com seus cães e alguns esforçados atletas, lançando para o alto pedaços de areia molhada en­quanto corriam. Tirei os sapatos e fui andando ao longo da praia, a areia rangendo entre os meus dedos. Era ótimo sen­tir o ar frio e úmido batendo em meu rosto. Verdade que o meu cabelo estava encrespando como se fosse um bombril, mas não me importei. Valia a pena.

Caminhei pela praia, os pensamentos revolvendo-se em minha mente. Após quarenta e cinco minutos de profunda meditação, cheguei a uma importante conclusão: cocô de cachorro não cheira tão mal na praia quanto na cidade.

O que posso dizer? A minha mente divagava.

Irritada comigo mesma por ter desperdiçado quarenta e cinco minutos, voltei para o meu Corolla.

Liguei o carro e estava prestes a retornar ao tráfego da Coast Highway quando, de repente, ouvi uma explosão en­surdecedora. Agora, eu já assisti uma quantidade de filmes de ação suficiente para reconhecer um tiro quando o escuto. Alguém estava atirando em mim!

Com um esforço hercúleo consegui manter a calma e manobrei o Corolla, retornando a segurança do fluxo de veí­culos da rodovia.

É, claro. Você já me conhece. Na verdade, entrei imedia­tamente num avançado estado de pânico e por pouco não bati em um Mercedes que vinha em alta velocidade. A en­cantadora dondoca atrás do volante fez cintilar uma impres­sionante quantidade de diamantes quando me mostrou o dedo num gesto obsceno.

Pisei no acelerador, tentando mais uma vez entrar na rodovia, quando outro tiro ressoou no ar. Por que diabos ninguém parava para me socorrer? Eu só podia rezar para que um daqueles covardes que passavam voando pela rodovia tivesse a idéia de chamar a polícia.

Subitamente o meu carro começou a sacudir de manei­ra errática. Droga. O atirador havia acertado os meus pneus. Eu não iria a lugar algum. Estava ali encalhada, sozinha no acostamento de uma rodovia, à mercê de um assassino em potencial.

Abaixei-me no assento e espiei pelas janelas, à procura do atirador. Mas tudo o que vi foram os atletas correndo na praia. Então olhei pelo espelho retrovisor e emiti um grito aterrorizado. Um bandido de olhos arregalados encarava-me de volta. Ai, meu Deus, como ele havia entrado no carro? O que queria de mim? Será que o assassino de Marybeth havia contratado alguém para me matar?

Com o coração disparado, dei outra espiada no retrovi­sor. Estranho, o bandido se parecia um pouco comigo. Olhei novamente. Ah, pelo amor de Deus, era eu. Meu cabelo ha­via encrespado completamente com a umidade, dando-me aquela aparência de paciente de sanatório que acabou de enfiar o dedo na tomada.

Quando meu coração finalmente parou de pular, tornei a espiar lá fora. Ainda não havia sinal algum de quaisquer bandidos armados. Mas eu não iria me arriscar. Nada neste mundo me faria sair de dentro do carro. Peguei o celular e liguei para o 911.

Cinco minutos depois um carro de patrulha parou ao lado do meu.

Dois policiais de Malibu, tão bronzeados que poderiam passar por salva-vidas, saíram da viatura. Um deles se apro­ximou da minha janela, enquanto o outro foi examinar os pneus.

— Alguém tentou me matar! — eu gemi para o policial na minha janela. — Atiraram nos pneus!

Ninguém atirou nos seus pneus — disse o outro, ajo-elhando-se perto da roda dianteira.

O quê?

Venha até aqui e veja por si mesma.

De alguma forma consegui puxar as minhas mãos que se agarravam ao volante e fui até a frente do carro.

—      Parece que você passou por cima de uma caixa de pregos.

De fato, os pneus dianteiros estavam cravados com de­zenas de pregos, grandes e grossos.

—      Meu Deus, o barulho foi como o de tiros — eu disse, fazendo um lembrete mental de nunca mais tirar conclusões apressadas baseada apenas em efeitos sonoros de filmes.

O policial que encontrou os pregos balançou a cabeça, indignado.

Que tipo de idiota joga pregos na rodovia?

Provavelmente é a garotada — disse o outro. — Es­ses garotos acham que isso é divertido.

Talvez fossem garotos, pensei. Mas talvez não. Talvez fosse alguém que quisesse me intimidar e fazer com que eu parasse com a investigação.

Não, eu apostaria um pote de sorvete que a pessoa que jogou aqueles pregos no caminho do meu carro era a mesma que matara Marybeth.

Felizmente eu tinha no meu porta-luvas um livreto de instruções chamado Como Trocar um Pneu, um dos muitos presentes úteis que minha mãe me enviara com a ajuda do Canal de Compras. E foi uma leitura muito interessante, en­quanto eu esperava o sujeito do auto-socorro trocar o pneu. Afinal, você não achava mesmo que eu, Jaine Austen, uma mulher que tem dificuldade em trocar a lâmpada de um aba­jur, iria trocar o pneu do carro sozinha, não é?

Quando o mecânico terminou o serviço e foi embora, meu batimento cardíaco finalmente retornou ao normal e as minhas mãos tinham parado de tremer o suficiente para que eu pudesse dirigir.

Antes de ligar o carro, examinei-me novamente no es­pelho retrovisor. Nossa! O meu cabelo estava um desastre. Eu parecia uma mistura da Pequena Órfã com Albert Einstein.

Peguei a bolsa e procurei a escova de cabelos, a fim de domar um pouco aquela juba. Mas a escova que tirei não era a minha. A minha escova de cabelos é de plástico e custou menos de três dólares numa liquidação. A que eu segurava tinha fios especiais, num daqueles caros modelos britânicos. E então eu a reconheci. Era a escova de Ashley, a mesma que ela estava usando no Brentwood Day Spa. Provavelmente eu a guardara por engano, quando saímos do vestiário.

Desde que já estava em Malibu, decidi passar pela casa de Ashley e devolver a escova. Se o assassino realmente esti­vesse tentando me impedir de investigar, não iria conseguir. Talvez eu seja uma molenga chorona, mas ninguém pode me acusar de não ser uma molenga chorona destemida.

Sim, eu iria até a casa de Ashley. Seria uma oportunida­de perfeita de lhe fazer mais algumas perguntas. Talvez, ago­ra, ela se lembrasse de ter visto alguma coisa incriminadora.

Caso contrário, talvez ela me convidasse para almoçar num restaurante caro. Eu bem que estava precisando.

Segui pela rodovia sinuosa até a casa de Ashley — cor­reção: palácio — em Malibu. Era uma imensa propriedade em estilo Mediterrâneo, ornamentada com elaborados arcos e varandas, tipo Toscana-à-beira-mar.

O jardim me deixou intrigada. Todas as plantas esta­vam crescidas demais e o gramado parecia não ter sido po­dado havia semanas. Talvez aquela fosse a última moda em

paisagismo: o look Terreno Abandonado. Ou talvez simples­mente Ashley estivesse sem jardineiros no momento.

Toquei a campainha, mas ninguém veio atender a por­ta. Depois de mais ou menos um minuto, toquei novamente. Ainda nenhuma resposta. Isso me deixou surpresa, pois eu vi o Jaguar de Ashley estacionado na entrada da garagem. Ela devia estar em casa. Apertei o botão mais uma vez.

Quem diabos está aí? — ela finalmente gritou.

Sou eu, Jaine. Jaine Austen.

Ouvi o som de passos se aproximando. Ashley abriu a porta, usando um diáfano cáftan de seda e segurando um copo com o que parecia ser gim.

—      Jaine! — Ela olhou para mim com uma expressão as­sustada. — O que está fazendo aqui?

Não era exatamente a recepção calorosa e amigável que eu estava esperando.

Esbocei um leve sorriso e tirei a escova de cabelos de dentro da bolsa.

—      Peguei a sua escova por engano, no outro dia, e como estava aqui perto resolvi vir devolvê-la.

Ela não fez qualquer menção de me convidar para entrar. Primeiro Doris, agora Ashley. Era evidente que estas duas não gostavam muito de visitas-supresa.

Na verdade — falei —, eu gostaria de lhe fazer mais algumas perguntas sobre o assassinato.

Ah... — Ela bebeu um gole do gim, ainda bloquean­do a passagem da porta.

Será que posso entrar?

Ah... tudo bem — ela suspirou.

Deu um passo para o lado com um sorriso forçado e me guiou através de um vestíbulo vazio até a sala.

Eu esperava encontrar uma sala saída direto das revis­tas de decoração, como a Archüectural Digest. Em vez disso, aquela parecia perfeita para ser publicada em algo do tipo Residências Abandonadas. Havia enormes espaços desbotados nas paredes, onde os quadros estiveram pendurados. E mar­cas nos tapetes, onde antes houvera mobília.

—      Desculpe a bagunça — Ashley falou com um gesto, fazendo flutuar a manga do cáftan. — É o dia de folga da arrumadeira.

Pois mais parecia ser o mês de folga da arrumadeira. As grossas camadas de poeira eram como veludo cobrindo os poucos móveis que ainda restavam na sala.

Quer beber alguma coisa? — ela perguntou. — Es­tou tomando um "martinizinho".

Não, obrigada.

Sente-se — ela disse, atirando-se no sofá. — Eu sei que esta sala está horrível — juntou, bebendo mais um gole do martinizinho. — Mas mandei trocar o estofamento da maior parte dos móveis.

É, claro, pensei enquanto olhava os espaços vazios nas paredes. Desde quando se troca estofamento de quadros? Ela deve ter percebido o meu ceticismo.

Ah, para o inferno com isso! Não estou enganando ninguém, não é? — Ashley engoliu de uma vez o que resta­va da bebida. — Estou quebrada, querida. Falida. Mal consi­go juntar uns trocados para comprar essa porcaria de gim.

Mas, eu não entendo. O spa, no outro dia... Aquilo deve ter custado uma fortuna.

Vales-presente. Eu estava guardando para uma oca­sião especial. Quando você ligou e disse que queria vir até aqui, foi a primeira coisa que consegui pensar para impedi-la de ver tudo isso.

Lamento por você ter usado os seus vales-presente por minha causa.

Pois não precisa lamentar. Eu me diverti muito. Você não?

Sim, é claro que sim.

E era verdade. Eu realmente tinha me divertido. Aliás, aquelas mulheres do Clube TPM eram algumas das suspei­tas de assassinato mais divertidas que eu já conhecera.

Lembra-se daquele dia em que nos encontramos na loja da Legião da Boa Vontade? — ela perguntou. — Eu não estava entregando doações. Estava fazendo compras. Quan­do vi você chegando, joguei no lixo tudo o que havia com­prado e fingi ter acabado de fazer uma doação.

É mesmo? — falei, tentando ao máximo não parecer alguém que havia recolhido a roupa a ser levada para a la­vanderia de dentro da caixa de doações.

         É — ela disse. — Atualmente só faço compras na Boa Vontade. Meus tempos de Ferragamo há muito se foram.

Mas todo mundo pensa que você é...

Milionária? Não mesmo. Não tenho onde cair mor­ta. Quando o desgraçado do meu marido morreu, só me dei­xou dívidas. Graças a Deus a casa estava paga, do contrário eu já teria vendido o meu Jaguar. — Ela fez um gesto indi­cando a sala. — Nos últimos dois anos eu tenho vivido com o que ganho com as vendas dos móveis e pinturas.

Por que Ashley não fazia como o resto da humanidade e arrumava um emprego?

—      Você tentou procurar um trabalho? — perguntei.

—      É mais fácil falar do que fazer. Experimente competir no mercado de trabalho com essa garotada que acabou de sair das universidades. Além disso, não existe exatamente uma fartura de empregos para alguém com um diploma de História da Arte. É claro que eu gostaria de trabalhar num museu como o Getty, mas as únicas pessoas interessadas em me contratar são os amigáveis gerentes do Taco Bell. As ve­zes eu trabalho à noite numa empresa de telemarketing. É um lugar horrível, um verdadeiro inferno, mas pelo menos eu sei que ali não vou encontrar ninguém que conheço. A única coisa que ainda me resta é o meu orgulho.

Ashley levou o copo aos lábios e então se deu conta de que estava vazio.

—      Tem certeza de que não quer um martini? Balancei a cabeça em negativa.

—      Sorte sua. Esse negócio é péssimo. Você sabe que está com problemas quando só pode comprar gim importado da Guatemala.

Ashley ajoelhou-se no chão e começou a procurar algu­ma coisa debaixo do sofá.

—      Ahá! — Retirou uma garrafa de gim vagabundo e encheu o copo, lambendo as gotas que pingaram na mão.

Que belo orgulho.

—      Eu não vou contar a ninguém — prometi —, mas não creio que as pessoas iriam pensar menos de você se soubes­sem a verdade.

—      Talvez não. Mas eu penso menos de mim. Ela engoliu o gim e arrotou baixinho.

—      Ups! — Cobriu a boca e deu uma risadinha. — Excusez-moi.

Alguém já estava ficando bem embriagada.

Eu sei que é loucura continuar com esse fingimento — ela disse. — Mas não consigo suportar a idéia de as pes­soas saberem o quanto afundei.

Você nunca disse a ninguém? Nem mesmo para Marybeth? Vocês não eram grandes amigas?

Ela deu uma boa risada ao ouvir aquilo.

—      Sim, eu contei para Marybeth. E você sabe o que ela fez? Ofereceu-se para me emprestar algum dinheiro. Com juros um por cento menores do que os dos bancos. Estas foram as suas palavras exatas. Lá estava eu, no fundo do poço, e Marybeth falava comigo como se fosse um maldito banco de empréstimos. Eu queria esganar aquela merdinha.

As veias em seu pescoço latejaram de raiva.

Então aquelas lágrimas no spa tinham sido apenas uma encenação. Agora que estava "pra lá de Bagdá", os verda­deiros sentimentos de Ashley em relação a Marybeth vinham à tona.

Colin me disse que ela lhe deixou uma herança em dinheiro — falei. — Isso deve valer para alguma coisa.

Dez mil. Bela porcaria. Marybeth sabia o quanto eu estava sofrendo. Deixou milhões de dólares para os paren­tes que não via há anos, e eu fiquei com dez mil. Isso mal dá para pagar o rapaz que limpa a piscina. Mas, quase me es­queci. Eu não tenho mais um rapaz que limpa a piscina.

Ela riu com amargura.

—      Quer ouvir uma coisa engraçada? Quando estávamos na faculdade, era eu quem fazia mais sucesso, aquela que to­dos diziam que chegaria em algum lugar, e não Marybeth. Ela não era nada. Quase não conseguiu se formar. E você deve­ ria tê-la visto, naquela época, antes da plástica no nariz e dos cabeleireiros de quinhentos dólares. Você nem olharia para ela duas vezes.

Ashley baixou os olhos para o corpo vazio.

—      Mas, então, tudo mudou. Marybeth foi aquela que saiu e conquistou o mundo. E eu? Só conquistei um marido rico. Que, depois, não era mais tão rico assim.

Ela encarou-me, os olhos duros e amargurados. A mu­lher divertida e animada que eu conhecera no Clube TPM havia desaparecido. Debaixo daquele exterior de mulher-feliz-e-bem-resolvida, Ashley guardava muita raiva e mágoa.

Eu queria dizer a ela que não era tarde demais, que ain­da poderia conquistar algo em sua vida, que só precisava parar de beber e, mais cedo ou mais tarde, acabaria encon­trando um emprego decente e, talvez, até um sujeito decen­te. Eu queria dizer tudo isso mas não tive chance, porque naquele instante a campainha tocou.

—      Atenda para mim, sim, querida? — ela pediu. — Es­tou com dor de cabeça.

Eu a deixei deitada no sofá, abraçando a garrafa de gim, e fui atender a porta.

Um sujeito grandalhão, segurando uma prancheta, es­tava parado na soleira. Atrás dele eu pude ver um caminhão-guincho com o logo Transportes Confiança estampado na por­ta.

Você é Ashley Morgan? — ele perguntou, consultan­do o papel na prancheta.

Não, infelizmente ela não está passando bem.

Estou aqui para levar o Jaguar. Ela pode facilitar as coisas e me entregar as chaves, ou eu e Jimmy teremos de guinchá-lo.

Sinto muito, amigo, mas não vou lhe dar chave algu­ma. — Ashley cambaleou até o vestíbulo, aninhando a gar­rafa de gim. — Você terá de fazer valer o seu salário.

O sr. Confiança encolheu os ombros.

—      Por mim tudo bem, madame. Eu ganho por hora. Ele foi para o caminhão e pegou um pé-de-cabra.

—      Vá para o inferno! — Ashley gritou quando ele lhe deu as costas.

Então engoliu o restante do gim e bateu a porta com força.

—      O meu lindo Jaguar — ela gemeu. — Não tenho co­ragem de olhar.

E enquanto o sr. Confiança rebocava o carro de Ashley eu a levei para o quarto no andar de cima, outro cômodo vazio exceto pelo abajur e o colchão no chão. Eu a fiz se dei­tar com uma toalha fria na testa e depois desci, a tempo de ver o Jaguar prata sendo guinchado.

Pela primeira vez reparei que as letras da placa do carro formavam a palavra RICA.

Não mais, pensei. Não mais.

Somente quando cheguei em casa eu me dei conta das implicações do que acabara de ver.

Ashley precisava desesperadamente de dinheiro. Tal­vez soubesse que Marybeth pretendia lhe deixar uma he­rança e simplesmente presumiu que fosse uma bela quantia. Talvez ela estivesse se cansando de beber gim vagabundo e de trabalhar à noite numa empresa de telemarketing.

E talvez, impulsionada pela raiva, inveja e muito gim, ela decidira ir atrás da herança com uma ajudazinha do óleo de amendoim.

 

MENSAGEM RECEBIDA

TAMPA TRIBUNE

RESIDENTE DE TAMPA VISTAS CORRE DESPIDO PELAS RUAS DA CO­MUNIDADE DE APOSENTADOS

 

"O morador de Tampa Vistas, Hank Austen, foi detido na noite de ontem correndo pelas ruas do condomínio completamente nu, com um enorme cão da raça rottweiller em seu encalço.

Testemunhas afirmam que o animal pertence ao reverendo James Sternmuller, cuja casa Austen foi visto invadindo naquela noite.

0 sr. Austen permaneceu detido por várias horas antes de ser libera­do sob a custódia da esposa.

0 reverendo Sternmuller concordou em não prestar queixa. "0 po­bre sujeito precisa de ajuda", ele disse. "De preferência numa institui­ção psiquiátrica".

 

Para: Jausten

De: Adorofazercompras

Assunto: Seu pai, o ex-presidiário

 

Olá, querida

Andei me sentindo infeliz demais para lhe escrever, mas agora ima­gino que você precise saber: o seu pai é um ex-presidiário!

É verdade. Ele foi preso ontem à noite e colocado atrás das grades durante três horas inteiras. E eu tive de ir até a delegacia para pagar a fiança. Francamente, fiquei tão brava e irritada que quase o deixei lá.

Você não vai acreditar, mas o seu pai invadiu a casa do reverendo Sternmuller para procurar gravatas Hugo Boss!

Ele quebrou o vidro da porta dos fundos e invadiu a casa enquanto o reverendo Sternmuller estava jogando bingo na sede do clube. Então se esgueirou para o quarto no andar de cima e revistou todas as gavetas e armários. Naturalmente, não encontrou nenhuma gravata Hugo Boss. Na verdade, quando olhou no armário, encontrou uma caixa cheia de bíblias! Sem mencionar uma foto do reverendo com Billy Graham. Um assassino e tanto, hein?

E depois, enquanto estava xeretando por ali, seu pai viu que havia uma banheira de hidromassagem no banheiro do reverendo Sternmuller. Seu pai anda querendo há tempos uma banheira destas. Então, não satisfeito em apenas forçar a entrada e invadir a casa, ele decidiu to­mar um banho na banheira do reverendo!

"0 que deu em você para fazer uma coisa tão idiota?", eu pergun­tei a ele quando voltávamos para casa, saindo da delegacia. Ele me disse que calculou que o reverendo Sternmuller ficaria no jogo de bingo durante horas. E, no fim das contas, ele estava certo. E tomou o banho, sem sequer se dar ao trabalho de lavar a banheira quando terminou!

E então, fica cada vez pior, ele decidiu que estava com fome, então enrolou uma toalha do reverendo na cintura e desceu para a cozinha, para fazer uma "boquinha". É claro que havia muita coisa ali para comer, pois Greta Gustafson anda cozinhando como uma louca desde o dia em que o reverendo se mudou para cá. 0 seu pai encontrou uma bela coxa de peru e simplesmente se serviu, sem pensar duas vezes.

E portanto lá estava ele, roubando comida de um pastor aposenta­do, quando foi para a sala e tropeçou num tapete de pele de urso.

Só que não era um tapete de pele de urso, mas sim o cão rotweiller do reverendo, Brutus, que por acaso é surdo. Brutus deu apenas uma olhada naquele estranho que estava dentro da casa e entrou em ação. Antes que seu pai percebesse, o cachorro arrancou com os dentes a toalha que estava enrolada na cintura. Seu pai disparou porta afora com Brutus em seu encalço.

E foi assim que os policiais o encontraram, correndo pelas ruas de Tampa Vistas completamente nu!

É claro que seu pai fez tamanha algazarra para invadir a casa do reverendo que pelo menos cinco testemunhas o viram entrando. E foi por isso que os policiais o levaram para a delegacia. 0 pior de tudo é que a história toda foi publicada no Tampa Tribune e agora, além de

sermos motivo de piadinhas do pessoal de Tampa Vistas, somos tam­bém motivo de risos de toda a Costa do Golfo.

Ah, meu Deus! Acho que nem vou tomar as cápsulas de Menos-Stress esta noite e vou direto para o licor.

Beijos,

Mamãe.

 

Para: Jausten

De: Papai

Assunto: Pequeno contratempo

 

Imagino que sua mãe já tenha lhe contado sobre o pequeno contratem­po na casa do reverendo Sternmuller. Não entendo como pude me enga­nar tanto a respeito deste sujeito. Mas creio que todo mundo pode cometer um erro de vez em quando. A sua mãe está me obrigando a escrever uma carta com um pedido formal de desculpas.

Com amor, Papai.

P.S : Um conselho: fique longe dos tapetes de pele de urso, principal­mente se estiverem roncando.

 

Para: Jausten

De: Adorofazercompras

Assunto: Tudo fica bem quando acaba bem

 

Sabe, querida, estive pensando em tudo e cheguei à conclusão de que, afinal, as coisas não estão tão más assim. Talvez esta travessura humilhante possa servir como lição ao seu pai e ensiná-lo a cuidar da própria vida. Sim, quanto mais eu penso, mais fico convencida de que tudo irá melhorar daqui para a frente.

E, falando em melhorar, adivinhe? O reverendo Sternmuller pediu Greta Gustafson em casamento! Não é maravilhoso?

Acho que por enquanto é só, querida. Preciso ir ao mercado. Por algum estranho motivo, todo o licor que tínhamos em casa acabou.

 

— A Lesma Susie está grávida!

Kandi me ligou na manhã seguinte com as mais recen­tes novidades do estúdio de Beanie & A Barata. Quando o telefone tocou eu estava sentada na beirada da banheira, ten­tando não pensar sobre o meu pai correndo nu pelas ruas de Tampa Vistas e prestes a dar uma mordida num apetitoso pão doce recheado de queijo que eu comprara para o café da manhã. Relutante, abandonei o pão doce e corri para aten­der o telefone na sala.

Dá para acreditar? — Kandi gemeu. — Ela entrou em trabalho de parto ontem à noite e foi levada às pressas para o hospital.

E mesmo? Eu pensei que lesmas punham ovos.

Não estou falando da personagem. É a atriz. Agora teremos de tirá-la do roteiro. Justamente quando acabamos de escrever a saída de Ernie, a Centopéia, do roteiro da se­mana passada.

Ofereci as minhas mais sinceras condolências.

Estou tão irritada. Steve e eu deveríamos nos encon­trar com Armando e escolher o bolo de casamento esta tar­de. Agora Steve terá de ir sem mim. Você sabe como essa história toda do bolo é importante, não é?

Está mais ou menos no mesmo nível da proliferação nuclear.

É sério, Jaine. Fizeram uma pesquisa e descobriram que a coisa de que as pessoas mais se lembram num casa­mento é o bolo.

Engraçado, eu sempre achei que fosse o bar.

Enfim, eu precisava falar com você, querida, desde que você é uma especialista em sobremesas.

Eu não sabia se me sentia lisonjeada ou ofendida com aquele comentário.

Então, o que acha? Chocolate meio-amargo com co­bertura de glacê branco, ou bolo branco com recheio de fram-boesa? — ela perguntou.

Kandi, quando se trata de uma escolha entre choco­late e qualquer outra coisa, a resposta é sempre chocolate.

Mas o de framboesa é tão bonito...

Só mesmo uma pessoa magra para escolher comida pela beleza. Não sei quanto a você, mas eu comeria até um cami­nhão de lixo se fosse feito de chocolate.

Kandi continuou tagarelando por mais algum tempo sobre os prós e contras do chocolate versus framboesa. Toda esta conversa sobre bolo de casamento estava aguçando o meu apetite. Eu ficava visualizando o meu pão doce, rechea­do de queijo branco e com a cobertura de açúcar, esperando por mim na beirada da banheira.

Finalmente consegui sair do telefone. E já ia sair corren­do para o banheiro quando ele tocou outra vez. Droga. Por que o telefone sempre toca quando a gente tem um pão doce esperando na banheira?

Era Ashley.

—Ah, Jaine. Estou tão envergonhada pela maneira como me comportei ontem. Não posso acreditar nas coisas horrí­veis que eu disse sobre Marybeth. Não sei o que deu em mim. Talvez eu tenha um certo ressentimento em relação a ela mas, no fundo, eu realmente a amava.

Eu não estava engolindo nem uma daquelas palavras. Eu havia visto a expressão dela quando me dissera que Marybeth se oferecera para lhe emprestar dinheiro a um por cento a menos que as taxas dos bancos. Ashley amava Marybeth tanto quanto amava aquele sujeito que havia guin-chado o seu Jaguar.

—Na verdade, foi uma grande consideração de Marybeth ter me deixado uma quantia em dinheiro no seu testamento — Ashley prosseguiu. — E claro que eu nem imaginava que iria herdar qualquer coisa. Foi uma surpresa maravilhosa.

Traduzindo: Se você estiver pensando em tentar me acusar deste crime, esqueça. Eu não tinha motivo.

Eu ainda não estava engolindo. Ela sabia que iria her­dar alguma coisa, isso era certo. Só não sabia quanto. Seria bem próprio de Marybeth deixar Ashley esperançosa e di­zer que pretendia lhe deixar uma herança, apenas para de­sapontá-la depois de morta.

Fingi acreditar em toda aquela conversa de Ashley e emiti muitos murmúrios de "entendo". De que adiantaria desafiá-la? Eu não tinha provas de que ela soubesse do testa­mento. Absolutamente nenhuma prova.

Tendo cumprido sua missão, Ashley despediu-se ale­gremente e desligou, sem dúvida para dar início a uma nova garrafa de gim.

Eu, por minha vez, tinha um pão doce a demolir. Mas não havia dado dois passos na direção do banheiro quando ouvi Lance bater na porta.

—      Jaine! Me deixe entrar!

Lancei um último olhar desejoso para o banheiro e fui abrir a porta.

Não é maravilhoso? — Lance exclamou, irrompen­do para dentro da sala. — Eu sempre soube que Colin era inocente!

Sobre o que está falando?

—      As notícias. Você não viu o noticiário na tevê? Acaba­ ram de acusar Rochelle Meyers pelo assassinato de Marybeth Olson.

Droga.

Corri para o quarto e liguei a televisão. E, de fato, esta­vam transmitindo uma reportagem sobre Rochelle sendo le­vada para a delegacia, com Marty ao seu lado. Marty a segu­rava pelo braço, mas não conseguia protegê-la dos repórteres que gritavam. Pobre Rochelle. Parecia um coelhinho apanha­do numa armadilha.

Mas Lance não dava a mínima para as desventuras de Rochelle.

—      Desde o primeiro instante em que vi Colin — ele desembestou a falar —, eu soube que ele não era um assassi­ no. Ninguém com cílios como os dele seria capaz de cometer um crime. E, por acaso, eu sou excelente quando se trata de julgar o caráter das pessoas.

É, claro. Isso vindo de alguém que certa vez namorou um neurocirurgião durante três meses, antes de descobrir que o sujeito era procurado em três Estados por passar che­ques sem fundos e fingir-se de freira.

Sentei na beirada da cama enquanto o repórter falava monotonamente sobre como Rochelle, uma rica dona de casa de Brentwood e fundadora do Clube TPM, sem dúvida seria liberada sob fiança.

Tudo aquilo era uma loucura. Rochelle não poderia ter matado Marybeth por dois motivos. Primeiro: não era o jeito dela. Segundo: se pretendia envenenar Marybeth, então por que fazer isso diante de uma porção de testemunhas, com uma guacamole que todos sabiam que ela havia preparado?

— E, adivinhe! — Lance estava dizendo. — Colin e eu marcamos um encontro. Para jantar. Naquele novo restau­rante japonês no fim da rua. Ouvi dizer que o sushi é um ótimo afrodisíaco e, além disso, tem poucas calorias.

O repórter da tevê começou a apresentar um painel de fotogênicos especialistas legais, que passaram a discutir o destino de Rochelle. Desliguei a televisão, enojada. Eu preci­sava ligar para o tenente Clemmons e relatar o que descobri­ra sobre de Doris e Ashley — e Colin, também. Eu não me importava que os seus cílios fossem tão espessos e lindos; no que me dizia respeito, ele ainda era um suspeito viável.

Tenho de correr — Lance falou. — Só passei para lhe dar a boa notícia. Ah, e obrigado pelo pão doce.

O quê?

Ergui os olhos e o vi parado na porta do quarto, masti­gando o meu pão doce.

Lance! Eu ia comer isso!

Desculpe, Jaine. Eu o vi na sua banheira e não pude resistir.

Ele enfiou na boca o último pedacinho.

Era o meu café da manhã — gemi.

Eu lhe trago alguma coisa de casa. Que tal um deli­cioso bolo de arroz? Apenas 30 calorias.

—      Parece extremamente tentador, mas não, obrigada. A primeira coisa que fiz quando Lance saiu foi ligar para

o tenente Clemmons. Ok, a primeira coisa que fiz foi xingar Lance por ter comido o meu pão doce, mas logo depois disso eu liguei para Clemmons. Não fiquei surpresa quando ele não atendeu o telefone. Provavelmente estava ocupado com a prisão de Rochelle. Deixei um recado urgente para que ele me ligasse o mais breve possível.

Aquela altura eu estava esfomeada. Estava pensando seriamente em aceitar a oferta de Lance e ir buscar o bolo de arroz, quando o telefone tocou. Eu atendi no mesmo instante.

Tenente Clemmons?

Não. Andrew Ferguson.

Fico até envergonhada de dizer que, ao ouvir o som da voz dele, todos os pensamentos sobre o assassinato voaram para longe do meu cérebro volúvel.

 

Acabei de ouvir as notícias sobre a prisão de Rochelle Meyers. O que significa que você não está mais sob suspeita. Creio que, agora, não haverá mais qualquer problema em lhe oferecer o emprego.

É mesmo?

Meu coração ficou leve.

—      Sim, o emprego é praticamente seu. Exceto por umas poucas formalidades, é claro.

Meu coração ficou pesado. Cuidado com as formalidades.

E por isso que estou ligando — ele disse. — Teremos uma reunião com os gerentes esta manhã e pensei que você poderia passar por aqui para conhecê-los.

Quer dizer que todos eles terão de gostar de mim, antes de eu ser contratada?

Não, de maneira nenhuma — Andrew assegurou. — A decisão final cabe a mim e Sam. Só precisamos saber como você interage com os outros gerentes. Sei que está um pouco em cima, mas será que você poderia estar aqui em uma hora?

Sim, é claro!

Não se preocupe, Jaine. Tenho certeza de que não haverá problema algum.

Puxa, ele não era um amor?

Desliguei e me virei para Prozac, que estava cochilando em cima do teclado do computador.

—      Ah, Prozac, querida! O emprego é praticamente meu! Corri até ela e a peguei no colo.

Engraçado, ela parecia estar bem pesada. Seria minha imaginação ou ela havia mesmo engordado? Mas como, com toda aquela ração de baixas calorias que estava comendo?

Ah, tudo bem. Evidentemente ela era como eu. Já fiz muitas dietas nas quais passava fome durante uma semana, ok, um dia, e depois subia na balança apenas para descobrir que havia engordado dois quilos. Talvez ela precisasse de algum tempo até que o seu metabolismo se ajustasse

Mas eu não tinha tempo de pensar em Prozac. Precisa­va me arrumar para o meu novo emprego no Banco Union National, uma prestigiada instituição financeira com bens avaliados em mais de doze bilhões de dólares. Mas, é claro, no que me dizia respeito, o bem mais valioso do banco era Andrew Ferguson.

Levei uma eternidade para decidir o que iria vestir. Ex­perimentei uma roupa depois da outra até que a minha cama ficasse parecida com o provador comunitário do Galpão da Pechincha. Finalmente decidi usar um terninho preto clássi­co Ann Taylor. É verdade que eu havia comprado o terninho em algum momento durante o governo McKinley, mas os clássicos nunca saem de moda e, com uma camisa de seda e um par de sapatos de salto alto que eu comprara por metade do preço na Nordstrom, consegui atingir a aparência de edi­tora executiva que estava procurando.

A parte ruim é que eu havia demorado tanto experi­mentando as roupas que não tive tempo para comer alguma coisa, e por isso, quando finalmente cheguei ao banco, esta­va faminta.

Andrew, Sam e cerca de sete gerentes de agências ban­cárias já estavam reunidos em torno de uma mesa de reu­niões quando a rainha Elizabeth, a recepcionista, me fez en­trar na sala.

Sam estava deslumbrante com um terninho de grife que fez o meu Ann Taylor parecer uma roupa tirada das antigas séries de tevê que são reprisadas à tarde. Andrew também estava tremendamente deslumbrante, com o cabelo ainda se enrolando daquele jeito sedutor na base da nuca.

Sam levantou-se do seu lugar na ponta da mesa e me apresentou aos gerentes, cujos nomes e rostos passaram por mim como um borrão. Havia uns dois homens caucasianos, um asiático, uma mulher afro-americana e uma latina. To dos muito corporativos. Todos muito bem vestidos e aboto-ados. Ainda bem que nenhum deles jamais me veria usando os meus costumeiros moletons com elástico na cintura.

Gostaria de lhes apresentar Jaine Austen—disse Sam, exibindo-me para a turma.

Nenhum parentesco com a escritora—falei, com uma fraca risadinha.

Jaine talvez assuma o cargo de editora do nosso jor­nal Conversa Fiada.

Talvez assuma? Não gostei de como aquilo soou.

—      Não quer se sentar, Jaine?

Havia apenas uma cadeira vazia na outra ponta da mesa. Eu me sentei ao lado da gerente latina, que me lançou um sorriso acolhedor.

—      Sirva-se de café — Andrew falou, indicando uma garrafa térmica sobre a mesa. — Nós tínhamos alguns bagels, mas receio que já acabaram.

—      Tudo bem — menti. — Não estou com fome. Olhei para a minha vizinha latina e vi os remanescentes

de um bagel com queijo cremoso num pratinho de papel, perto do seu braço. Eu seria capaz de matar por aquele bagel. Mas algo me disse que o ato de agarrar e abocanhar aquele bagel poderia dissipar a impressão sofisticada que eu pretendia transmitir. Com um suspiro, me servi de um pouco de café, que enchi de açúcar, esperando que isso me fizesse sobrevi­ver à reunião sem desmaiar.

Tentei parecer interessada e alerta enquanto os outros se prolongavam em monótonos discursos sobre projeções, porcentagens e outras questões matemáticas que sempre me esforcei muito para evitar de aprender na escola. Mas a mi­nha atenção continuava se dispersando. Quando eu não es­tava olhando desejosamente para as migalhas de bagel da minha vizinha, estava olhando desejosamente para Andrew Ferguson.

Eu estava no meio de um delicioso devaneio que envol­via eu, Andrew e um barril de queijo cremoso quando, subi­tamente, percebi que Sam estava falando comigo.

—      ...então pensei que você poderia nos dizer quais são as suas idéias para o Conversa Fiada.

Sobre o que diabos ela estaria falando? Eu ainda nem tivera a chance de ver o tal jornalzinho!

Mas, Sam — Andrew falou, ecoando os meus pensa­mentos —, Jaine ainda não viu o Conversa Fiada.

Aqui está — ela disse, fazendo deslizar um exemplar do jornal interno através da mesa. — Ela pode ver agora. Você não se importa de nos apresentar as suas idéias, não é, Jaine? Eu gostaria de saber como você pensa.

Não havia dúvida quanto à expressão de desafio nos olhos dela. Será que estava me sabotando? Pensei se ela teria me visto olhando para Andrew.

—      Não — eu disse, com um sorrisinho amarelo. — Eu não me importo.

Passei rapidamente os olhos pelo jornal, um exemplar magrinho de apenas quatro páginas com as rotineiras notí­cias sobre contratações, aposentadorias e promoções. Não era exatamente um material digno de um Pulitzer.

—      Então — disse Sam, cruzando os braços no peito. — O que você faria com o nosso Conversa Fiada, Jaine?

Quanta generosidade. Ela me dera treze segundos in­teiros para pensar no assunto.

—      Bem — comecei, calçando as minhas sapatilhas e me preparando para dançar —, que tal uma coluna intitulada, digamos, "Conversa Entre Nós"? A cada mês um funcioná­rio poderia relatar uma experiência que teve com os clientes. Aposto que há muitas histórias interessantes que os seus funcionários podem contar. E poderia fornecer um bom to­ que de interesse humano. Talvez a pessoa cuja história for escolhida pudesse ganhar um jantar grátis num bom restaurante. Desta forma, os funcionários talvez tentassem intera­gir melhor com seus clientes, esperando obter uma boa his­tória para ser publicada no boletim mensal.

—      Excelente, Jaine! — Andrew exclamou sorrindo. Fiquei feliz ao ver que vários gerentes estavam assentindo com aprovação.

—      Humm... — Sam murmurou, com uma evidente au­ sência de entusiasmo.

Por que eu tinha a impressão de que ela estivera espe­rando que eu caísse de cara?

Mais alguma idéia? — Sam perguntou. Ela devia estar brincando.

Bem, não — admiti. — Não neste exato momento.

—      Neste caso, se você nos der licença, eu gostaria de dis­ cutir alguns assuntos em particular com os nossos gerentes.

Subitamente eu me senti como uma candidata a grêmio estudantil prestes a ser recusada.

—      E melhor levar para casa um exemplar do Conversa — ela ordenou —, para que possa pensar em outras idéias.

Peguei o meu jornalzinho, murmurei alguma coisa so­bre como havia sido um prazer conhecer a todos e fui para a porta, esperando que meu bumbum não parecesse grande demais quando eu fizesse a minha retirada.

Naquela altura já era quase meio-dia e eu estava fraca de fome. Não havia comido nada a manhã inteira. Mas antes de pensar em comer, eu precisava muito fazer xixi. Devo ter despejado para dentro pelo menos três xícaras grandes do café do Union National naquela reunião, sem mencionar o que eu havia tomado em casa.

Disparei pelo corredor na direção do banheiro e entrei num dos reservados. Fiquei contente por não haver ninguém ali que pudesse me ouvir. Acredite, eu parecia uma cachoeira.

Que alívio. Agora eu seguiria para o McDonalds mais próximo, o mais rápido que o meu Corolla pudesse me levar, e pretendia me esbaldar com um super hambúrguer com batata frita.

Eu acabara de abrir a porta do reservado quando olhei para cima e, para minha surpresa, vi um homem entrando no banheiro. Santo Deus. O que um homem estava fazendo ali? Então olhei para além das pias e vi uma fileira de mictórios. Anão ser que tivessem começado a instalar chuveirinhos nos banheiros femininos, eu havia entrado no banheiro mas­culino por engano!

Eu poderia jurar que a figurinha azul que vi na porta do banheiro era uma mulher. Mas, com a pressa que estava, pro­vavelmente me enganei.

Rapidamente, voltei para dentro do reservado.

Ok, não há motivo para pânico, disse a mim mesma. Só precisaria esperar que o sujeito terminasse e depois sairia dali. Então esperei. E esperei. E esperei mais um pouco. Eu não fui a única a fazer uma imitação de cachoeira naquele dia. Finalmente ele terminou. Mas, então, justamente quan­do ele estava lavando as mãos, outro homem entrou no ba­nheiro.

Os dois começaram a conversar sobre algum jogo de futebol idiota, uma conversa que durou doze minutos. Eu sei porque cronometrei. Finalmente eles começaram a sair mas, enquanto isso, mais dois sujeitos entraram. E assim foi. Durante uma hora e dezessete minutos eu fiquei sentada naquele maldito cubículo, com as pernas erguidas e os joe­lhos encostando no queixo, para que meus sapatos de salto alto não ficassem visíveis por baixo da porta.

Quanto menos eu disser sobre tudo o que ouvi, e chei­rei, durante aquela uma hora e dezessete minutos, melhor. Certa vez eu li que os homens têm o sentido do olfato menos desenvolvido do que as mulheres. Agora eu sei porque. Auto-preservação.

A parte boa foi que, pelo menos, eu perdi o apetite.

Homens entravam e saíam, numa procissão constante de sujeitos que obviamente tinham ingerido porções cavala-res de feijão no almoço.

À certa altura dois dos gerentes que participaram da reu­nião entraram juntos, e eu os ouvi falando a meu respeito.

O que achou da maneira como Sam a pegou de em­boscada? — disse um deles. — Deixando-a em evidência daquele jeito.

Sim, mas ela se saiu bem. Aquela idéia sobre a "Con­versa Entre Nós" foi muito boa.

Eu quase gritei "Obrigada!", mas consegui me conter.

Finalmente o banheiro ficou vazio. Finalmente eu esta­va sozinha. Destranquei o meu reservado e saí em dispara­da na direção da liberdade.

Abri a porta do banheiro com um empurrão e dei de encontro com um sujeito que estava prestes a entrar.

Droga. Justamente quando eu tinha certeza de que o caminho estava livre.

Olhei para cima e quase desmaiei.

Eu não havia trombado com qualquer um. O homem a quem quase derrubei era Andrew Ferguson.

Droga!

—      Jaine! — Os seus lindos olhos castanho-claros esta­ vam arregalados de surpresa. — O que está fazendo aqui?

Quebrando o recorde mundial de tempo sentada num vaso sanitário.

—      Na verdade — gaguejei —, eu não percebi que este era o banheiro masculino. Pensei que a figurinha azul na porta estivesse usando um vestido, mas acho que me enganei.

Nós dois olhamos para a figurinha azul na porta. Não. Nada de vestido.

—      Talvez você possa escrever sobre isso no "Conversa Entre Nós" — ele disse com um largo sorriso.

Era evidente que ele estava achando tudo aquilo muito divertido.

Eu, por outro lado, estava rezando desesperadamente para que um buraco se abrisse no chão e me engolisse. Tudo era humilhante demais. Eu precisava tentar resgatar quais­quer resquícios de orgulho que ainda me restavam e sair dali com o máximo de dignidade possível.

— Sim, seria bem engraçado, não é? — falei.

Então me afastei, cabeça erguida, ombros eretos e, como só fui descobrir minutos depois, no elevador, com um peda­ço de papel higiênico grudado no salto do meu sapato.

 

O crime TPM estava de volta às manchetes no dia seguinte: ESPOSA DESESPERADA ACUSADA DE HOMICÍDIO FOI LIBE­RADA SOB FIANÇA DE UM MILHÃO DE DÓLARES.

Sob a manchete do L.A Times estava a foto de Rochelle protegendo o rosto das câmeras com a bolsa. Eu reconheci o espetado rabo-de-cavalo projetando-se por trás dos Gs da bolsa Gucci. Pobre Rochelle. Que prisão mais injusta.

Liguei novamente para o tenente Clemmons. Mais uma vez, fui atendida pela secretária eletrônica. Bati o telefone com frustração e tornei a ligar para o número central da dele­gacia, dizendo ao sargento de plantão que eu precisava falar urgentemente com o tenente Clemmons, que era uma ques­tão de vida ou morte.

Poucos segundos depois o tenente Clemmons atendeu.

—      O que diabos você está querendo?

Ok, na verdade as suas palavras exatas foram:

—      Em que posso ajudá-la?

Respirei fundo e lhe contei tudo o que descobrira, como Marybeth havia sido indiretamente responsável pela mor­te de Glen Jenkins, como Ashley estava precisando deses­peradamente do dinheiro que receberia com a herança de Marybeth, e como Colin estava de posse de um certo livro de receitas chamado Cozinhando com Amendoins.

Dizer que ele não ficou impressionado seria pouco. Eu podia praticamente ouvi-lo roncar no outro lado da linha.

—Agradeço as suas informações — ele disse depois que terminei. — Mas creio que temos um caso bastante sólido contra a sra. Meyers.

— Mas e quanto as minhas teorias? O senhor nem mes­mo irá considerá-las?

—Fique tranqüila, nós daremos as suas teorias destram­belhadas toda a atenção que merecem.

Ok, ele não usou a palavra "destrambelhadas", mas bem que poderia. Eu percebi na voz dele.

Desliguei o telefone e suspirei. Clemmons já fechara aquele caso, deixando-o mais apertado do que um lifting de Beverly Hills. E não estava disposto a ouvir instruções de uma detetive amadora que usava meias-calças com reforço na cintura. Eu só esperava que Rochelle tivesse um advoga­do muito bom.

Eu estava sentada no sofá, me sentindo impotente e desesperançada e me perguntando quantas calorias haveria nas sete azeitonas que eu havia comido no café da manhã, quando Pam ligou.

Acabei de ouvir as notícias sobre Rochelle — ela dis­se. — Isso é loucura. Ela não matou ninguém. A coitada tem medo até de desligar na cara dos vendedores de telemarke-ting, pelo amor de Deus.

Pois diga isso à polícia. A mim eles não estão dando ouvidos.

Não há nada que possamos fazer?

Nada, exceto criar um plano de fuga da prisão caso ela seja condenada.

Creio que Pam percebeu o tom amargurado em minha voz.

Não se sinta mal por isso, Jaine. Você fez o possível.

E, acho que sim — suspirei.

—Até me sinto culpada por falar nisso quando Rochelle está passando por tantas dificuldades — ela disse —, mas eu precisava lhe contar a boa notícia.

Ótimo — falei. — Me conte tudo. Bem que estou pre­cisando de boas notícias.

Sabe aquele teste sobre o qual lhe falei? Eu consegui o trabalho!

Isso é maravilhoso.

E um comercial da Rede de Lanchonetes Bucko's. Eu faço o papel do pacotinho de ketchup. Acho que eles ficaram impressionados com a minha atuação no papel de berinjela, naquele comercial de sopa. Enfim, o salário é ótimo e posso comer de graça quantos hambúrgueres eu quiser.

Meus parabéns! Precisamos comemorar.

É por isso que estou ligando. Quer almoçar comigo na sexta-feira? Por minha conta.

Estamos combinadas!

Eu fiquei contente por Pam ter conseguido o emprego dos seus sonhos. Porque, ao que parecia, eu não iria conse­guir o meu. Não depois daquele constrangedor episódio do banheiro masculino. O papel higiênico grudado no meu sa­pato provavelmente foi a última pá de cal na sepultura do meu emprego. Eu ficaria supresa se voltasse a ter notícias de Andrew Ferguson algum dia.

Recebi, entretanto, ainda naquela manhã, o telefonema de um dos meus clientes regulares, Seymour Fiedler, da em­presa Telhados Fiedler, pedindo que eu escrevesse um novo folheto de vendas. Seymour Fiedler, um homem baixinho e gorducho, estava a anos luz de distância do delicioso e des­lumbrante Andrew, mas aceitei a encomenda no mesmo ins­tante, grata pela distração e pelo pagamento.

Arranquei Prozac de cima do teclado do computador e atirei-me ao trabalho, descrevendo as alegrias das reformas de telhado. Mas não conseguia me concentrar. Continuava pensando no tenente Clemmons e na maneira como ele ha­via me descartado. Eu tinha vontade de arrancar aquele topetinho da cabeça dele, um fio de cada vez.

Finalmente, depois de ficar olhando para o mesmo pa­rágrafo sobre a Garantia Fiedler de Não-Vazamento durante vinte e cinco minutos, eu desisti e fui para a casa de Rochelle.

Se os policiais não me levavam a sério, talvez o advoga­do de Rochelle o fizesse.

Passei através do "corredor polonês" formado pelas vans das emissoras de tevê na frente da casa de Rochelle e toquei a campainha.

—      Vá embora! — uma voz feminina gritou lá dentro. — Não estamos falando com a imprensa.

Pobres Marty e Rochelle. Aquilo estava se transforman­do na trilha sonora dos dois.

—      Rochelle? É você? — Não parecia a voz dela. — Sou eu, Jaine Austen.

Uma senhora de feições agradáveis, de cerca de setenta anos, abriu a porta.

—      Rápido — ela disse, puxando-me para o vestíbulo. — Entre antes que aqueles abutres tirem a nossa foto.

Quando eu estava segura no interior da casa, ela sorriu com uma expressão de desculpa.

—      Sinto muito por tê-la empurrado desse jeito, mas es­ tes jornalistas aí fora estão impossíveis.

Ela limpou as mãos na calça de moletom, deixando um leve traço de farinha. Devia estar ocupada cozinhando, quan­do cheguei. Eu sentia o aroma celestial de chocolate quente no ar.

—      Eu sou Adele, mãe de Rochelle.

Eu já desconfiava que seria a mãe de Rochelle, antes mesmo de ela se apresentar. A semelhança era impressio­nante. O mesmo cabelo espetado. O mesmo sorriso acolhe-dor. O mesmo pano de prato por cima do ombro.

—      Rochelle me contou tudo a seu respeito. Ela disse que você está investigando o caso para ajudá-la.

—      Sim, é verdade.

—É muita bondade sua, querida. Obviamente você é uma pessoa interessada no bem-estar dos outros. E muito mais bo­nita do que naquela fotografia horrível que saiu no jornal.

Meu Deus. Será que eu nunca iria me livrar daquela foto?

—      Rochelle está dormindo, agora — ela disse, olhando para o andar de cima e franzindo a testa, preocupada. — Se­dativos. O médico os prescreveu para que ela possa descan­sar um pouco. Tudo isso tem sido um pesadelo.

Eu imagino — falei, assentindo com solidariedade. — Mas acontece que eu descobri algumas coisas que talvez ajudem no caso de Rochelle e esperava poder lhe fazer um relato dos meus progressos. Estou certa de que o advogado dela ficaria interessado no que tenho a dizer.

Tenho certeza que sim, querida.

         Por acaso a senhora sabe o nome dele?

—      Acho que é Fitzgerald. Ou Fitzhugh. É Fitz-alguma coisa. Ou talvez seja 0'Connor. Ah, meu Deus! Toda essa história de assassinato está me deixando confusa. É melhor você falar com Marty.

Boa idéia.

Ele está no consultório. O pobre homem terá de fazer muitos tratamentos de canal para pagar todas as contas do

advogado.

Ela me deu o endereço do consultório de Marty e eu me

encaminhei para a porta.

—      Espere — ela disse. — Antes de ir, você não gostaria de vir comigo até a cozinha e comer alguns brownies? Acabei

de tirar do forno.

Eu aspirei novamente aquele aroma celestial.

—      Com nozes e manteiga de amendoim — ela acres­ centou, tentadora.

Aposto que você acha que eu disse sim, não é?

Ah, gente de pouca fé. Pois orgulhe-se em saber que nao perdi um tempo precioso comendo brownies mega-calóncos na cozinha de Rochelle.

Não, senhor. Eu os comi no carro, a caminho do consul­tório de Marty.

Era a hora do almoço quando cheguei no prédio de con­sultórios médicos em Westwood.

Era um daqueles edifícios elegantes, com segurança no saguão e uma farmácia tão cara que você praticamente pre­cisaria de um fiador para comprar um tubo de pasta de den­tes. Subi no elevador com uma enfermeira invejavelmente magra que carregava uma embalagem contendo um potinho de iogurte de pêssego e uma garrafinha de água mineral Por que eu não posso comer um almoço tãofrugal como este?, me perguntei, limpando os farelos de brownie com nozes do meu suéter.

Abri a porta que dava para o consultório do dr. Martin Meyers. O local estava deserto, exceto por uma recepcionis­ta loira e peituda, que jogava furiosamente o conteúdo da sua escrivaninha dentro de uma caixa de papelão. O unifor­me branco de enfermeira estava quase explodindo nas cos­turas, e o cabelo descolorido era torturado num alto pentea­do tipo Barbarella.

Aproximei-me da moça com cautela. Ela parecia alta­mente combustível.

—      Humm... Com licença. Eu gostaria de saber se é pos­ sível falar com o dr. Meyers sobre um assunto particular.

Ela me olhou de cima a baixo.

—      Sinto muito, meu bem. Você não faz o tipo dele. Ema­ greça uns vinte quilos, coloque uma prótese nos seios e pin­ te o cabelo de loiro e daí, talvez, tenha uma chance com ele.

Espiei disfarçadamente os seios monumentais da garo­ta e imaginei se ela teria seguido o seu próprio conselho quan­to à prótese.

Não é este tipo de assunto pessoal — falei. — Só pre­ciso falar com ele. Ele está aqui?

Não — ela disse, arrancando o telefone da tomada e jogando-o na caixa. — Aquele canalha mentiroso e traidor não está aqui.

Nada como uma funcionária feliz para oferecer uma impressão favorável ao público.

Você sabe quando ele volta?

Não sei, e não me importo.

Fiquei observando perplexa enquanto ela desmontava o computador e guardava todos os componentes na caixa. Não quero ser muito detalhista mas, em alguns círculos, aqui­lo poderia ser considerado um roubo.

—      Eu dei a ele os melhores anos da minha vida — ela disse, enfiando o teclado na grande caixa de papelão.— E o que ganhei com isso? — Encarou-me, os olhos repletos de rimei fuzilando de raiva. — Nada! Foi isso que ganhei!

Ela pegou um rádio Bose e atirou por cima do teclado.

—      Ele jurou que iria largar a esposa e se casar comigo. E o tempo todo estava me traindo. Primeiro com aquela vaga­ bunda decoradora. E acabei de descobrir que ele também estava transando com aquela garota de Laguna.

Pegou um vaso Waterford cheio de orquídeas, esvaziou a água por cima de um computador que estava ali perto e acrescentou o vaso a sua pilhagem.

Laguna? Minha mente começou a disparar. Rochelle não dissera alguma coisa sobre Marty ter estado em Laguna no dia do crime?

—      Que garota em Laguna? — perguntei.

—      Uma vagabunda que trabalha numa galeria. Espere um pouco. Rochelle dissera que Marty estava

comprando pinturas numa galeria de arte no dia do assassi­nato, e que a vendedora confirmara o seu álibi. Mas se Marty estava tendo um caso com a vendedora, ela poderia estar mentindo para protegê-lo.

E se Marty não estivesse em Laguna naquele dia? E se ele tivesse voltado para casa e adulterado a guacamole para se ver livre de uma amante inconveniente?

Por acaso você sabe o nome desta galeria? — per­guntei depressa.

E claro que sei. Encontrei o cartão de visita da vaga­bunda no porta-luvas do carro de Marty... juntamente com uma calcinha de renda fio-dental.

Será que você pode me dar?

Meu bem, acho que ela não vai servir em você.

Não a calcinha, o cartão.

Fique à vontade — ela disse, apontando para o cesto de lixo. — Está por aí, em algum lugar.

Passei os cinco minutos seguintes remexendo no lixo da enfermeira Medusa. O que foi uma experiência razoavel­mente nauseante, considerando-se que ela tinha o desagra­dável hábito de jogar a goma de mascar usada no cesto.

Finalmente encontrei o que queria.

 

         GALERIA MONTAGUE

         LAGUNA AVENUE, 444

         LAGUNA BEACH, CALIFÓRNIA

         CISSY MCDONALD ASS DE VENDAS

 

Aquele "ass" poderia significar que Cissy seria uma assistente ou uma associada de vendas. O restante da pala­vra estava coberto por um pedaço de chiclete de tutti-fruti.

Anotei o endereço da galeria e segui para a porta, bem a tempo de ver a minha viçosa amiguinha sair de uma sala que devia ser o escritório de Marty, carregando uma tevê de tela plana embaixo do braço.

 

A primeira coisa que se via em Cissy McDonald era o cabelo.

Era daquele tipo deslumbrante de comercial de shampoo, uma cascata loira e sedosa caindo quase até a cintura. Claro, se você fosse homem, a primeira coisa que iria ver seria o decote dela. Era espetacular, também. Assim como as per­nas intermináveis e a cinturinha de dar inveja.

E, como se para confirmar que a vida não é justa, a afor­tunada jovem fora também abençoada com enormes olhos azuis, um narizinho arrebitado e, conforme descobri depois, um adorável par de covinhas que surgiam quando ela sor­ria. Era fácil perceber porqu gesto indicando uma parede com aquarelas em tons pastel. — Não são lindas?

Você não precisava ser uma cientista espacial para per­ceber que Cissy não era nenhuma cientista espacial. Eu pra­ticamente via os coraçõezinhos pingando os seus is enquan­to ela falava.

Você é Cissy McDonald? — perguntei.

Sim, sou eu — ela disse, um tom de cautela se es-gueirando na voz.

Detetive Austen — falei, com a minha expressão mais oficial. — D.P.L.A.

Mostrei rapidamente a minha carteira de motorista, ten­do o cuidado de cobrir as palavras Licença de Habilitação da Califórnia com o polegar. Você ficaria admirado ao saber com que freqüência as pessoas caem neste truque. Principalmen­te pessoas com covinhas e cabelos loiros até a cintura.

Os olhos azuis se arregalaram de medo.

O que você quer? — ela engoliu em seco.

O dr. Meyers confessou tudo.

Ele confessou?

Ela levou os dedos aos lábios e começou a roer as unhas. Fiquei contente de ver que seus dedos eram curtos e gros­sos, as unhas roídas até a pele. Finalmente. Um defeito. Ha­via alguma justiça no mundo, no fim das contas.

Estou aqui para registrar sua nova declaração. O rosto dela empalideceu debaixo do bronzeado.

Ah, meu Deus. Eu vou ser presa por perjúrio?

Se disser a verdade agora, não.

Remexi dentro da minha bolsa e tirei um caderninho que sempre deixava ali para anotar as idéias de última hora para os meus folhetos do Mestres do Encanamento.

—      Vamos começar desde o início — falei, fingindo to­ mar notas. — Vocês dois estavam tendo um caso, certo?

Ela assentiu, ruborizando.

Conheci o dr. Meyers há mais ou menos um mês, quan­do ele e a esposa passaram as férias aqui em Laguna. Ele com­prou um quadro muito caro e me disse que eu tinha dentes lindos. Enfim, nós temos nos encontrado desde então.

Ele não estava realmente aqui no dia do assassinato, estava?

Não. — Ela balançou a cabeça, mordendo as unhas. — Marty estava em Los Angeles. Mas ficou com medo de que a polícia pudesse ligá-lo ao crime se soubesse que ele estava na cidade. Por isso concordamos em fingir que ele estava aqui comigo durante toda a tarde.

O dr. Meyers lhe disse que esteve na casa dele na­quela tarde?

Não. — Cissy parecia chocada. — Ele disse isso à polícia? — ela perguntou.

Vamos nos concentrar no que ele lhe disse, srta. McDonald.

Bem, ele me contou que esteve com Marybeth na­quela tarde. Ele queria romper com ela, mas Marybeth esta­va criando dificuldades. Disse que se ele não se divorciasse de Rochelle e se casasse com ela, iria arruinar a vida dele. Ela havia começado a mandar cartas com ameaças para o con­sultório dele. Dizia que iria contar para todo mundo que ele abusava sexualmente das pacientes, enquanto elas estavam sob efeito da anestesia. Uma mentira horrível, cruel!

Eu não tinha tanta certeza disso. Depois do que desco­brira a respeito de Marty, não era difícil imaginá-lo se apro­veitando de uma paciente inconsciente.

Então ele lhe contou que esteve com Marybeth na­quele dia? — perguntei.

Sim. Ele disse que finalmente conseguira convencê-la a aceitar o fato de que não estava mais apaixonado por ela e que iria se casar comigo.

O dr. Meyers lhe disse que vai se casar com você?

—      Assim que se divorciar da esposa.

E você foi estúpida o suficiente para acreditar? Naquele instante o telefone tocou. Cissy me lançou um olhar de desculpas.

Importa-se se eu atender, detetive? O proprietário da galeria fica furioso se eu não atendo o telefone.

Vá em frente.

Ela correu para o telefone, os cabelos balançando em ondas sedosas enquanto o fazia.

—      Galeria Montague — ela atendou, a voz esganiçada. — Ah, Marty! Estou tão contente por você ter ligado! — O alívio inundou-lhe a voz. — A polícia está aqui, me fazendo perguntas.

Epa. Aquela era a minha deixa para dar o fora.

Sim, uma detetive da polícia está aqui, agora mes­mo. Como é mesmo o seu nome, senhora...?

Humm. Krupke. Detetive Krupke.

Ok, então eu entrei em pânico e dei a ela o nome de um personagem do filme O outro lado da história. Grande coisa. Não me diga que você nunca entrou em pânico sob pressão.

Espere um pouco — ela disse. Uma lâmpadazinha acendeu-se em cima daquela fabulosa cabeleira loira. — Não foi este nome que você me deu antes.

E porque estou trabalhando disfarçada. Bem, preci­so correr, se não quiser pegar o trânsito da hora do rush.

E antes que ela pudesse dizer detetive Kupker, eu já es­tava de volta ao meu carro e seguindo para a via expressa.

No fim das contas, acabei pegando o trânsito da hora do rush. Segui pelas fileiras de carro centímetro a centíme­tro, num ritmo agonizante. Os pedestres iam mais rápido do que eu.

O lado bom, no entanto, é que tive bastante tempo para pensar em tudo o que descobrira naquele dia. Estava claro que Meyers era mesmo o canalha rematado que todos pen­sávamos que fosse desde que ficamos sabendo do seu caso com Marybeth. Dá para acreditar no atrevimento daquele sujeito? Traía Rochelle com a enfermeira Medusa. Depois, traía a enfermeira com Marybeth. E depois traía todas as três com Cissy. Ele merecia uma medalha de ouro em adultério.

Que idiota eu havia sido, quando acreditara naquela sua interpretação digna de um Oscar como o marido dedicado.

E eu não era a única idiota. Pobre Cissy. Realmente acre­ditava que Marty iria se casar com ela. Marty não tinha in­tenção alguma de se casar com Cissy, com a enfermeira Me­dusa ou, aliás, com qualquer outra pessoa. Para que pagar pensão alimentícia a Rochelle se poderia ter todo sexo que desejasse nas suas escapadas? E se Rochelle fosse presa pelo assassinato de Marybeth, então ele não precisaria mais ficar se escondendo. Seriam casos ininterruptos entre os dias de visita à cadeia.

Só Deus sabia o que ele dissera à polícia. Talvez lhes dissera que Rochelle era mentalmente instável, uma doida pronta para explodir. Talvez nem tivesse dito com todas as palavras, mas simplesmente insinuara, fornecendo um ou dois indícios sutis de que Rochelle seria emocionalmente frá­gil, que estava à beira de um ataque de nervos. Enquanto fingia protegê-la, ele poderia estar plantando as sementes de suspeita nas mentes dos investigadores. E quem saberia mais sobre o estado mental de Rochelle do que o marido?

Além disso, eu não acreditava nem por um segundo que ele havia rompido com Marybeth no dia do crime. Se isso fosse verdade, por que ela havia se gabado, na frente de todos os integrantes do Clube TPM, que iria se casar com ele?

Aposto que ele nem sequer tentou vê-la naquele dia. Em vez disso, decidiu livrar-se dela de uma vez por todas, antes que Marybeth tivesse a chance de espalhar aqueles desagradáveis rumores sobre o abuso sexual das pacientes.

Marty Meyers não estivera em Laguna Beach no dia do assassinato. E tampouco estivera no apartamento de Marybeth. Se a minha suposição fosse correta, na verdade ele estivera em sua própria casa, na cozinha, acrescentando óleo de amendoim à guacamole preparada pela esposa.

Era uma excelente teoria. Pena que eu não tinha evi­dência alguma para fundamentá-la. Se ao menos pudesse provar que Marybeth o estava chantageando, a polícia teria de considerá-lo seriamente como um suspeito do crime.

Quando finalmente consegui sair da via expressa eu estava exausta, emocional e fisicamente. O que mais queria era ir para casa e afundar na banheira, até ficar mole como macarrão de sopa.

Porém, havia uma pequena tarefa a realizar, primeiro.

Eu precisava entrar no consultório de Marty e procurar as cartas de chantagem de Marybeth.

 

— Em que posso ajudá-la, senhorita?

O guarda noturno do prédio de consultórios ergueu os olhos do artigo que estava lendo no National Enquirer — o resultado de um esforço do jornalismo investigativo chama­do Eu Sou o Fruto do Amor entre Conãoleeza Rice e Barney Frank.

O segurança era um sujeito magro, com um pomo-de-adão saliente, cujo nome o crachá dizia ser "Chester".

—      Olá, Chester — eu disse, colando no rosto o meu sorri­ so mais animadinho. — Eu sou a nova recepcionista do dr. Meyers. É o meu primeiro dia e já estou trabalhando até tarde.

Ele encolheu os ombros com fingida impotência, um trabalhador explorado para outro.

Creio que consegui passar a imagem de uma recepcio­nista de consultório dentário já queimando óleo, pois ele apontou para um livro enorme sobre o balcão de mármore e disse:

—      É só assinar a entrada.

Certo — falei, rabiscando um nome fictício na página. Ele virou o livro e verificou o que eu escrevera.

Mildred Pierce?

Eu realmente precisava começar a pensar em nomes fal­sos mais originais. Para minha sorte, Chester não era fã dos filmes antigos de Joan Crawford.

—      Muito prazer, Millie — ele disse. — Pode subir.

Segui na direção do elevador mas parei de repente e dei um tapinha na testa, esperando parecer alguém que acabara de se lembrar que havia esquecido a chave do escritório.

Droga — falei. — Eu sou mesmo uma boba. Esqueci a minha chave. — Ofereci a ele um sorriso desamparado. — Será que você se incomodaria muito em subir comigo e abrir a porta?

Tudo bem, Mill — ele suspirou, arrancando-se das aventuras amorosas de Condoleeza e Barney.

Subimos juntos no elevador, Chester sacudindo as cha­ves no ritmo da música ambiente. No lado de fora do consul­tório de Marty, ele tirou do bolso uma chave-mestra e des­trancou a porta.

Não se esqueça de apagar as luzes quando sair — disse, acendendo-as.

É claro — eu disse. — E muito obrigada.

Pensei que ele iria correr de volta para Barney e Condo­leeza. Mas, não. Ele ficou parado ali, me observando. Então eu fui direto para o balcão da recepcionista, como se real­mente tivesse algum trabalho importante a fazer. Alguém limpara os rastros do furacão Medusa e o local estava arru­mado, embora um tanto desfalcado de aparelhos eletrôni­cos. Eu me sentei diante de uma das escrivaninhas e peguei um bloco e uma caneta.

Obrigada, mais uma vez — disse a Chester, lançan-do-lhe outro sorriso.

Por nada — ele assentiu e finalmente se afastou, sa­cudindo as chaves.

No instante em que ele saiu eu fui direto para o escritó­rio de Marty, que encontrei no final de um corredor acarpe-tado. A sala era decorada com elegantes móveis de teca, tudo muito "Consultório-Dinamarquês-Moderno".

Mas eu não estava ali para admirar o décor; tinha muito trabalho pela frente. Corri para a escrivaninha de Marty, que estava notavelmente livre de quaisquer porta-retratos, e co­mecei a vasculhar nas gavetas.

Encontrei a costumeira variedade de clipes e post-its, juntamente com uma caixa de canetas com a inscrição Dr. Martin Meyers, Cirurgião Dentista. Escondidos sob a caixa de canetas havia alguns cartões enviados por Cissy. O tipo de cartões com capas engraçadinhas e por dentro inscrições di­zendo Você é o meu gatinho. Eu estava certa a respeito dela. Cissy realmente pingava os is com coraçõezinhos.

A última gaveta no lado direito guardava uma lista te­lefônica de Beverly Hills, uma caixa de anticoncepcionais e camisinhas suficientes para estocar uma farmácia. Marty podia ser um canalha mentiroso e traidor, mas pelo menos praticava sexo seguro.

Suspirei, desapontada. Até agora havia fartas evidên­cias de adultério, mas nenhuma de chantagem.

Em seguida chequei o armário de Marty, mas tudo o que ele guardava ali eram uma garrafa de uísque e uns dois livros técnicos. Revirei os bolsos dos aventais de Marty, pen­durados num outro armário, mas saí de mãos vazias.

Infelizmente não encontrei as cartas com ameaças de chantagem, mas o que de fato encontrei foram diversas fo­tos, bastante explícitas, da enfermeira Medusa estendida na cadeira do consultório, completamente nua.

Justamente quando eu estava fazendo um lembrete mental para nunca mais sentar numa cadeira de dentista sem desinfetá-la antes, ouvi...

— O que você está fazendo aqui?

Olhei para cima e vi Marty assomando-se na soleira da porta.

Eu estivera tão entretida com as aventuras da enfermeira Medusa que nem o ouvira chegar. Aquele maldito carpete no corredor. Obviamente havia abafado os passos dele.

Na última vez em que eu vira Marty, ele era um fofo ursinho de pelúcia. Agora, com os ombros largos, pescoço curto e olhos estreitados com raiva, ele mais parecia um urso feroz prestes a atacar. Senti a palma das minhas mãos fica-rem úmidas de suor.

- Chester me ligou para dizer que a "nova recepcio­nista estava aqui - ele rosnou. - Faz parte das regras de segurança do prédio. Os guardas noturnos sempre devem avisar quando alguém aparece sem ter uma chave

O corpo troncudo dele lançava uma sombra ameaçado­ra na sala. Eu queria correr, mas estava congelada no lugar

- Logo imaginei que fosse você - ele disse. – Cissy me fez uma descrição de “Detetive Krupe “ e... que coincidencia   ela era igualzinha a você, Jaine. Ou será que devo chamá-la de Mildred?

Finalmente consegui me levantar, os joelhos tremendo enquanto o fazia.

-        Vou repetir - ele disse, cerrando a mandíbula com raiva. — O que diabos você está fazendo aqui?

Então, de repente, eu pensei na pobre Rochelle, descar­tada como se fosse um lenço de papel usado e fiquei furiosa apesar do meu pavor.

—      Só estou tentando salvar o pescoço de Rochelle - falei.

- Pois é melhor pensar em salvar o seu próprio pesco­ço, meu bem.

E, acredite, não havia afeição naquele "meu bem"

Aquela altura ele estava a apenas alguns centímetros de distancia. Antes que ele pudesse se aproximar mais eu fiz o que deveria ter feito logo de início. Peguei um pesado volume do Abcessos dentários Avançados e joguei-o na direção

Marty inclinou-se para o lado para se desviar. Eu apro­veitei o momento e passei por ele correndo o mais rápido que as minhas pernas conseguiam me carregar, o que, é tris­te dizer, não foi rápido o bastante. Em algum ponto entre o escritório e a área de recepção, Marty agarrou-me pelo braço e me prendeu com toda força. Uma dor aguda perpassou até o meu ombro.

Olhei de relance para o consultório atrás dele e vi o mo­tor com a broca cintilando sob a luz da lua. Subitamente tudo o que eu conseguia pensar era no filme Marathon Man, no qual Dustin Hoffman é torturado pelo cruel dentista nazista interpretado por Laurence Olivier.

Minha raiva havia desaparecido; eu estava de volta à sensação de terror. Precisava fazer alguma coisa bem depres­sa, antes que ele me amarrasse à cadeira e eu começasse a implorar por piedade.

—Acho bom você saber—menti —, que contei aos meus amigos tudo sobre você... sobre os seus casos, sobre a chan­tagem de Marybeth e sobre como você andou abusando se­xualmente das suas pacientes.

O rosto corado empalideceu, e não pude deixar de re­parar que ele não tentou me contradizer. Não houve nenhum ultrajado "Sobre o que você está falando?".

Sim, ele estivera abusando daquelas pacientes, isso era certo.

—      E não é só isso — prossegui —, eu escrevi tudo e guar­dei o relatório no meu cofre. Se algo me acontecer, deixei ins­truções para que os meus amigos entreguem esta informa­ção para a polícia.

Minha mentira funcionou. Subitamente os ombros de Marty caíram e ele relaxou a pressão no meu braço. Naquele exato instante houve uma batida na porta e Chester entrou.

—      Está tudo bem, dr. Meyers? Marty fingiu um sorriso, tenso.

Tudo bem — falou com os dentes cerrados. — Tudo ótimo.

Então acho que já posso ir embora, dr. Meyers — eu disse. — A agenda com as consultas de amanhã está na sua mesa.

Ele assentiu vagamente e eu fui para a porta com Chester - Quer um conselho, Millie? - Chester falou, enquan­to desaamos juntos no elevador. - Cuidado com o d. MeveTs As garotas por aqui o chamam de D, Mãozinhas. - Ele pis cou com um ar de conspiração. - Porque ele não consegue manter as mãos longe das moças, se você me entende    

- Eu entendo, Chestew. – falei. Acredite, eu entendo muito bem.

 

Baixei os olhos para o meu braço, onde uma mancha arroxeada já aparecia

 

Eu estava exausta quando finalmente cheguei em casa naquela no*. Arrastei-me para dentro do apartamento e encontrei Prozac refastelada no sofá, no meio da centés ma soneca do dia. Meu Deus, como eu a invejava

Ela olhou para mim e bocejou. Eu havia esperado en­contra-la faminta. Afinal, o seu jantar estava bastante atrasado. Porém, ela mordicou a ração de fígdo light como se fosse Scarlett O Hara comendo um churrasco em Tzvelve Oaks Talvez o estômago dela estivesse encolhendo. O meu, contudo, estava grande como sempre. Sentei na beirada da banheira e praticamente aspirei o moo shoo de carne de porco que havia comprado no caminho.       

Eu estava cansada demais para tomar aquele banho que havia prometido a mim mesma. Apenas escovei os dentes embora fosse difícil chegar perto até mesmo de uma escova de dentes, depois de tudo pelo que eu acabara de passar, e me arrastei para a cama.      

Eu tinha certeza de que havia assustado Marty com a minha ameaça sobre o documento guardado no cofre

Mas, para não correr riscos, adormeci com a minha feroz gata de guarda enrolada em um braço e uma lata de spray de pimenta embaixo do outro.

 

Não havia mais dúvidas em minha mente quando acordei na manhã seguinte: Marty era o assassino.

Ele havia se cansado de Marybeth, da mesma forma que se cansara da enfermeira Medusa e de Rochelle. E quando Marybeth decidiu "engrossar" e chantageá-lo, Marty deci­diu "engrossar" mais ainda e matá-la.

Liguei para o tenente Clemmons e deixei um recado a este respeito, contando a ele como Marybeth estivera chanta-geando Marty e que Cissy havia mentido para dar um álibi a ele. É claro que Cissy certamente iria negar o que me dissera na galeria. Se ao menos eu tivesse pensado em levar comigo um gravador... E sem aquelas cartas de chantagem, Clemmons jamais acreditaria em mim. Eu até podia imaginá-lo girando os olhos para cima enquanto escutava o meu recado.

Quanto ao meu plano original, relatar tudo ao advoga­do de Rochelle, estava fora de questão. Eu duvidava sincera­mente que o advogado de Rochelle estivesse interessado em entregar à polícia o sujeito que lhe pagava as contas.

Todo aquele caso era extremamente frustrante. Rochelle estava prestes a ser julgada por um crime que não cometera. E eu estava simplesmente sentada ali, com as mãos atadas.

Então eu fiz o que sempre faço quando me deparo com um obstáculo aparentemente intransponível.

Calcei os meus tênis e saí para uma vigorosa corrida, clareando o meu cérebro e me fortalecendo com as endorfi-nas produzidas pelo exercício.

Ok, na verdade eu não fui correr. Saí para comprar pão doce com canela. A única coisa que ficou fortalecida foi a celulite nos meus quadris.

Passei o resto do dia tentando trabalhar no folheto do Telhados Fiedler porém, mais uma vez, tive dificuldade em me concentra, Não conseguia afastar a sensação de que Marty estava querendo me pegar. Continuei dizendo a mim mesma que o havia assustado com a ameaça sobre a tal carta guardada no meu cofre. Não que eu realmente tivesse um cofre. A miinha idéia de um cofre em casa era uma meia velha com uma nota de 20 dólares enfiada na ponta

Mas, como eu disse, fiquei agitada o dia inteiro. Antes de entrar no carro para ir ao Shalom aquela noite, verifiquei os pneus para ver se havia algum prego. Até abri o capo, procurando alguma bomba que pudesse ter sido co­locada no motor. Não que eu soubesse como seria uma bom­ba, mas calculei que se visse dinamite amarrada em algum lugar por ali, não seria um bom sinal

No trajeto até a casa de repouso, o meu coração dava um pulo a cada buzina que eu ouvia e a cada veiculo que me ultrapassava. E meus olhos estavam constantemente verifi­cando o espelho retrovisor, para me certificar de que nin­guém me seguia.      

Mas felizmente não houve quaisquer surpresas apavorantes pelo caminho.

Não, a grande surpresa mesmo estava à minha espera no Shalom.

Goldie havia desaparecido. Sumido. Levada pelo vento Nao havia sinal da namorada do sr. Goldman, a glamourosa garota de Paramus, quando cheguei à classe naquela noite.

O sr Goldman estava sentado à mesa, escarapachado na cadeira, imerso num silêncio pouco característico. Qualquer que fosse o produto que ele estivera usando para tingir o cabelo já havia desbotado, e o pobre arremedo de bigode também não existia mais. O vistoso Romeu com o berrante paletó xadrez desaparecera e em seu lugar estava o velhinho de sempre, com a calça larga de veludo e o cardigã manchado.

A sra. Pechter e as outras senhoras tagarelavam entre si quando me sentei à ponta da mesa. Seria minha imaginação ou elas estavam mesmo mais alegres?

Onde está Goldie? — perguntei, olhando em volta da sala.

Ela se mudou! — a sra. Greenberg anunciou. — Para uma casa de repouso em Las Vegas!

O Shalom era sossegado demais para ela — a sra. Rubin completou.

Ouvi dizer que ela se mudou para lá — disse a sra. Pechter, lançando um sorrisinho de escárnio para o sr. Goldman — a fim de ficar mais perto do antigo namorado.

Ela enfiou uma bala de caramelo na boca, triunfante.

Nos velhos tempos o sr. Goldman teria apanhado a isca. Ele teria negado terminantemente os rumores sobre o na­morado e insistiria que Goldie se mudara para Las Vegas por causa do clima, ou da saúde, ou para estar mais próxima de um neto querido. Ele teria inventado alguma coisa.

Mas, nesta noite, ele ficou apenas sentado ali, olhando para as manchas em suas mãos. Eu quase podia ouvi-lo ran­ger os dentes a cada estocada daqueles punhais verbais.

Normalmente a minha solidariedade era dirigida às se­nhoras, mas agora a minha lealdade foi para o outro lado. As garotas estavam sendo impiedosas com ele. Ficavam tagare­lando sobre o suposto namorado de Goldie, desfrutando cada minuto da infelicidade do sr. Goldman. Pela primeira vez, meu coração estava com ele.

—      Muito bem — eu disse, ansiosa em colocar um basta à tortura do pobre homem —, quem quer ler primeiro?

Pela primeira vez na história daquele curso o sr. Goldman não levantou a mão. Ficou ali sentado em silêncio a noite inteira, apenas uma sombra do homem irritante e bombásti­co que sempre fora. Não tinha nenhuma história a contar sobre a sua vida como vendedor de tapetes, nenhum comen­tário incendiário sobre as outras redações.

As senhoras estavam pairando em toda a sua glória, lendo as suas recordações de casamentos, netos e parentes há muito falecidos, seguras por saber que não seriam inter­rompidas pela mão do sr. Goldman agitando-se no ar.

A noite passou sem incidentes, sem nenhuma das costu­meiras discussões inspiradas pelas "tiradas" do sr. Goldman. Finalmente a última redação foi lida e as senhoras começa­ram a sair da sala de recreação.

—      Boa noite, querida — a sra. Pechter falou a caminho da porta. — Preciso voltar correndo para o meu quarto, pois há um filme que não quero perder. — Ela praticamente gri­tou o nome do filme, para provocar o sr. Goldman. — É o Viva Las Vegas.

Então ela e a sra. Rubin começaram a rir como adoles­centes e saíram apressadas da sala.

Pobre sr. Goldman. Ele continuava sentado ali, olhan­do para as mãos, que agora estavam tremendo.

—      Sinto muito — eu disse, sentando ao lado dele. — Eu sei o quanto o senhor gostava dela.

Ele encarou-me com os olhinhos tristes e encolheu os ombros estreitos.

É a história da minha vida. Talvez seja difícil para você acreditar, Jaine, mas eu nunca tive muito sucesso com as mulheres.

É mesmo? — Tentei parecer surpresa.

É verdade — ele suspirou. — Muitas mulheres não gostam de mim. Nem mesmo a minha esposa gostava muito de mim. Sabe o que a irmã dela me disse, no dia do enterro? Que ela havia morrido por autodefesa.

— Tenho certeza de que isso não é verdade — falei. — Estou certa de que a sua esposa morreu de uma doença ver­dadeira. — Dei uma palmadinha na mão dele. — Vamos Ia, anime-se. Goldie não é a única mulher no mundo. Por que o senhor não tenta com uma das outras senhoras aqui do Shalom?  ,

—      Acredite, eu já tentei. Todas elas me recusaram. Até mesmo aquela chata da Pechter.

Eu pisquei, surpresa. Era difícil imaginar o sr. Goldman passando uma "cantada" na formidável sra. Pechter.

—      Vamos encarar de frente, Jaine, na verdade eu não sou uma pessoa digna de amor.

E com isso, ele começou a chorar. Tentou fingir que era apenas uma tosse, mas eu vi as lágrimas correndo pelo seu

rosto.

Por favor, sr. Goldman. O senhor não deve ficar as­sim. Tenho certeza de que existe alguém que ficaria muito feliz com a sua companhia.

E quanto a você? - ele disse, fungando. - Você nun­ca quis sair comigo.

É porque tenho idade para ser sua neta.

—      E daí? Nós não precisamos ser namorados. Poderia ser platônico. Acredite, a luz da varanda de cima está acesa, mas o fogo da fornalha no porão há muito se apagou. - Ele fitou-me com os olhos avermelhados. - Então, o que acha?

Ele parecia tão triste e vulnerável que acho que perdi temporariamente os meus poderes de raciocínio lógico. Por­que, quando me dei conta, eu estava dizendo:

         Está bem, vou sair com o senhor.

No instante em que as palavras saíram da minha boca, o antigo sr. Goldman retornou à vida.

— Ótimo, docinho. Então temos um encontro!

Eu já estava começando a me arrepender da decisão

—      Prepare os seus quadris! — ele disse, enxugando as lágrimas com a manga do cardigã manchado de sopa. — Nós vamos ao Mambo Mania!

Como dizem no Shalom: "Ai..."

—      Ah-, Prozac, você não acredita no que acabei de fazer. Deixei as chaves na mesa da sala de jantar e fui para cozinha.

—      Eu concordei em sair para dançar com o sr. Goldman — falei em voz alta enquanto me servia de uma taça de chardonnay. — Será que fiquei maluca?

Voltei para a sala a fim de lhe contar tudo, mas Prozac não estava escarrapachada no seu costumeiro lugar no sofá.

Provavelmente estava no quarto, pensei, amassando o meu travesseiro.

—      Dá para acreditar? — eu disse, seguindo pelo corre­ dor. — Mambo Mania? Com o sr. Goldman? Acho que fiquei mesmo maluca. Isso é o mesmo que sair para um encontro com um duende.

Mas, quando cheguei ao quarto, não havia sinal de Prozac.

Um pequeno nó de medo começou a se formar em meu estômago.

Disse a mim mesma para ficar calma. Talvez ela esti­vesse escondida embaixo da cama. Porém, eu sabia que não. Prozac não é uma gatinha brincalhona. Ela nunca se escon­de. Olhei embaixo da cama e, depois, do sofá. Procurei na cozinha e no banheiro. E em todos os armários do aparta­mento. Ela não estava em parte alguma.

Naquela altura, é claro, eu já estava enlouquecida de pavor.

Não havia dúvida: Prozac desaparecera. E eu sabia quem a tinha levado: Marty. Durante todo o dia eu ficara com aquela sensação de que ele iria tentar alguma coisa. E estava certa. Incapaz de agir contra mim por causa da ameaça da carta no cofre, ele decidira me intimidar raptando a minha gata.

Chequei o apartamento à procura de sinais de arrom-bamento. Todas as janelas estavam trancadas, exatamente como eu as deixara. E então me lembrei. A janela do banhei­ro. Eu sempre a deixava aberta. Não há muita ventilação no meu banheiro da década de 40 e se não abro a janela os fun­gos se instalam. Eu havia percorrido o apartamento naquela tarde, fechando as janelas, mas não me incomodara com aque­la do banheiro. Era uma janela pequena e eu sempre achei que ninguém conseguiria passar por ela.

Mas, obviamente, eu havia me enganado. De alguma forma, Marty conseguira espremer o corpo troncudo atra­vés do estreito batente.

Que idiota eu havia sido. Por que diabos não fechei a droga da janela? A vida de Prozac não valia uns poucos fun­gos no banheiro?

Com o coração aos saltos, corri para o telefone e, pela segunda vez em menos de uma semana, liguei para o 911.

—      Quero denunciar um seqüestro! — esganicei, ten­tando não pensar no que Marty poderia estar fazendo à minha adorada gatinha com aqueles horríveis instrumentos dentários.

Uma simpática atendente disse-me para ficar calma e anotou o meu nome e endereço.

Que idade tem a vítima? — ela perguntou.

Ela tem sete anos.

Peso e altura?

Uns trinta centímetros de altura e mais ou menos oito quilos, mas ela está de dieta e tenho certeza de que logo começará a perder peso.

Espere um pouco, minha senhora. A sua garotinha tem sete anos e pesa apenas oito quilos e mede trinta centí­metros?

—      Ela não é minha garotinha. É a minha gata. Alguém roubou a minha gata!

—      Esta é uma linha de emergência, senhora. — A voz simpática subitamente soou bem menos simpática. — A se­nhora precisa ligar para o serviço de apreensão de animais.

—      Não, você não está entendendo. Esta é uma questão de vida ou morte. A minha gata foi raptada por um assassi­no. A vida dela está em perigo.

—      Sinto muito, senhora, nós não lidamos com gatos.

—      Mas alguém levou Prozac!

Não há nada que eu possa fazer quanto a isso, tam­bém. A senhora terá de ligar para o seu médico e pedir uma nova receita para a sua medicação.

Não é nada disso. O nome da minha gata é Prozac.

E o nome do meu gato é Sr. Fluffy, mas receio que eu não possa ajudá-la, senhora.

Subitamente eu fiquei furiosa. De que adiantava pagar tantos impostos se o serviço público não podia fazer uma coisa tão simples por mim e me ajudar a encontrar a minha gata raptada?

Eu exijo falar com o seu supervisor — gritei.

Um momento, por favor — ela falou rapidamente e deixou-me esperando na linha.

Naquele instante ouvi alguém bater na porta. Um renovado fluxo de medo subiu pelo meu estômago. Provavelmente era Marty. Ele havia feito Prozac em pe­dacinhos e agora voltara para acabar comigo!

Em que posso ajudá-la, senhora? — Uma voz mas­culina soou no telefone.

Tem um homem batendo na minha porta — sussur­rei. — E ele está aqui para me matar.

Desculpe, mas não entendo. Pensei que a sua gata tivesse sido raptada.

As batidas ficaram mais fortes.

—      Sim, ela foi. E agora o homem que a levou está aqui, para me matar!

Então, de repente, escutei:

—      Jaine, abra a porta. Sou eu, Lance.

Uma onda de alívio invadiu todo o meu corpo.

—      Espere um momento — falei ao atendente, e corri para a porta.

De fato, era Lance. E ali, enroscada nos braços dele, es­tava Prozac.

Prozac! — gritei, pegando-a no colo. — Onde você estava?

Colin e eu fomos jantar naquele novo restaurante ja­ponês no fim da rua e a encontramos nos fundos, comendo os restos na lata de lixo.

O quê?

Olhei para Prozac, incrédula. Ela encarou-me sonolen-ta e bocejou.

É isso mesmo. E o chef da cozinha disse que ela este­ve por ali comendo durante a semana inteira.

Prozac, como pôde fazer isso? Fingindo estar firme na dieta, agindo como se fosse a toda poderosa Senhorita Força de Vontade e o tempo todo saindo escondida pela ja­nela do banheiro para se empanturrar de sushü

Na verdade, ela estava comendo tempura frito, quan­do a encontramos.

Prozac lambeu os beiços. Humm...

Ora, sua danadinha...

Detesto interromper este feliz reencontro — disse Lance, — mas Colin está me esperando. E, além disso, você não estava falando com alguém no telefone?

Segui o olhar dele até o aparelho, que continuava fora do gancho.

Ai, meu Deus! Eu havia me esquecido completamente da ligação!

Naquela altura, começamos a ouvir sirenes vindo pela rua. O atendente do 911, acreditando no que eu dissera sobre estar prestes a ser assassinada, havia enviado a polícia.

Dez minutos depois, com o rosto ardendo de vergonha pelos intermináveis pedidos de desculpa, arrastei-me de volta para o apartamento, tranquei a janela do banheiro e me servi de mais uma taça de vinho. Depois virei para Prozac, que já estava escarrapachada no sofá da sala.

— Muito bem, mocinha, você me enganou com a dieta, quase me matou de susto e me humilhou na frente da polí­cia. O que tem a dizer sobre isso, hein?

Ela girou no sofá e ronronou lânguidamente.

Tem algum baconzito por aí?

 

MENSAGEM RECEBIDA

TAMPA TRIBUNE

FALSO "REVERENDO" DESMASCARADO

 

O legendário traficante de drogas Jimmy "0 Rato" Stakowsky foi detido hoje pelas autoridades locais por posse de narcótico e apropria­ção indébita de fundos.

Quando a polícia invadiu a residência de Stakowsky no condomínio de aposentados Tampa Vistas, onde ele estivera se passando pelo "reve­rendo James Sternmuller", encontrou heroína escondida numa caixa de falsas bíblias que estava guardada no armário do seu quarto. A polícia também encontrou um cheque no valor de 50.000 dólares emitido pela sra. Greta Gustafson, que estivera sob a errônea impressão de que Stakowski pretendia se casar com ela. Além do tráfico de drogas, Stakowski possui uma longa história de fraudes contra senhoras idosas.

As autoridades foram alertadas sobre a presença de Stakowski/ Sternmuller graças aos vigilantes esforços de Hank Austen, residente de Tampa Vistas, que enviou impressões digitais e amostras de DNA do criminoso ao FBI.

 

Para: Jausten

De: Adorofazercompras

Assunto: É incrível!

 

Isso não é incrível? Parece que, no fim das contas, o seu pai estava certo a respeito do reverendo Sternmuller, isto é, Jimmy "0 Rato" Stakowski. E verdade que ele nunca matou ninguém. Mas é um crimi­noso. Imagine só. Escondendo heroína nas Bíblias! Santo Deus. Quando penso em toda a comida que Greta Gustafson preparou para aquele homem horrível!

É desnecessário dizer que, desde que a notícia se espalhou, o seu pai tem se comportado como se fosse o dono da verdade, me lembrando o tempo todo de que ele estava certo e eu estava errada. Está tão cheio de si e metido a sabichão. Está impossível viver com ele!

Só estou contando os minutos até que toda a poeira abaixe e as coisas voltem ao normal.

Sua esfrangalhada

Mamãe.

PS: Aquela fotografia que seu pai viu de "Billy Granam" não era Billy Granam, mas sim o bookmaker de Jimmy "0 Rato".

 

Para: Jausten

De: Papai

Assunto: Adivinhe quem eu vi?

 

Olá, doçura.

Você leu o artigo do Tribimel Viu como eu, praticamente sozinho, entreguei Jimmy "0 Rato" Stakowski à justiça? Eu sabia que o sujeito era um falsário no instante em que o vi. Como eu disse o tempo todo: o Faro sabe!

E, por falar em o Faro, adivinhe quem eu vi no supermercado, aper­tando melões na seção de frutas? Elvis! É verdade que o cabelo estava tingido de loiro e ele perdeu uma tonelada de peso, mas tenho certeza de que era ele. Era mesmo. Elvis está vivo!

Saia agora e avise a imprensa!

 

Para: Adorofazercompras

De: Jausten

 

Olá, mamãe.

Acho bom você fazer um estoque de licor.

Com amor, Jaine.

 

Naquele momento seria difícil determinar quem tinha o ca­ráter mais "patife, baixo e dissimulado": Prozac ou o "reve­rendo" James Sternmuller.

Então o meu pai estava certo ao desconfiar de Sternmuller. Quem poderia imaginar que ele era mesmo um criminoso e traficante de drogas? Pobre mamãe. Meu pai fi­caria entoando o refrão "Eu não disse?" durante meses. Es­tremeci ao pensar nele à caça de Elvis na seção de frutas do supermercado.

Quanto a Prozac, consegui ficar zangada com ela num total de dez minutos. Então ela lançou mão da sua famosa manobra de roçar-nos-meus-tornozelos-me-olhando-com-os-grandes-olhos-verdes, e eu derreti como sempre faço.

— Está bem, você venceu — eu disse a ela quando vol­tei do McDonalds no dia seguinte, trazendo pãezinhos e ovos para o café da manhã. — Chega de dieta.

Eu sabia que no devido tempo você enxergaria as coisas pelo meu ponto de vista.

Ok, então eu era um pilar de gelatina, uma mulher que se permitia receber ordens da sua gata de oito quilos como se fosse uma serva medieval. Mas, na verdade, era a única coisa sensata a fazer. Mais um dia de dieta e ela acabaria na lista dos mais procurados dos Vigilantes do Peso.

E, francamente, eu estava adorando a idéia de não pre­cisar mais comer empoleirada na banheira. Como era bom tomar o meu café da manhã de maneira civilizada, encosta­da no balcão da cozinha e atirando pedacinhos de pão para Prozac, enquanto ela miava aos meus pés.

Conforme a luz do sol penetrava pela janela da minha cozinha, eu me sentia envergonhada por ter feito aquela li­gação alucinada para o 911. Não havia dúvidas de que eu enlouquecera um pouco. Seria impossível que Marty conse­guisse se espremer pela janela do banheiro.

Ainda assim, nem toda a luz do sol do mundo poderia eliminar completamente os meus temores. Marty podia não ter entrado no meu apartamento na noite anterior, mas isso não significava que eu estivesse livre dele.

Prozac e eu acabamos de devorar os pãezinhos e está­vamos lambendo nossos dedos, bem, eu estava lambendo os dedos; Prozac estava se concentrando em suas partes ínti­mas, quando o telefone tocou.

Era Andrew Ferguson. Ao ouvir a sua voz aveludada, todos os pensamentos sobre Marty e o assassinato se esvaí­ram da minha mente.

Boas notícias, Jaine! — ele anunciou. — Você conse­guiu o emprego. Agora é a nova editora do Conversa Fiada do Union National!

Isso é maravilhoso!

Será que pode começar ainda esta noite?

E claro. Na sua casa ou na minha?

Ok, o que eu realmente disse foi: "Sem dúvida".

—      Esta noite nós temos o jantar anual dos gerentes no Hotel Stratford, e gostaríamos que você fizesse a cobertura para o Conversa Fiada. Acha que poderá ir?

O Papa é católico? O céu é azul? As células de gordura são atraídas para os meus quadris como formigas num pi-quenique num sábado à tarde?

Sim, é claro! — respondi.

Ótimo. Às seis horas no Hotel Stratford. Traje formal.

Depois de agradecer profusamente eu desliguei, peguei Prozac no colo e fiquei dançando pelo apartamento, cantan­do We 're in the Money. Isto é, até que as palavras "traje for­mal" finalmente se registraram em meu cérebro. A última vez em que fui convidada para uma festa que exigia traje formal havia sido na minha formatura do colégio, e eu duvi­dava seriamente que conseguiria entrar no meu vestido de formatura, mesmo se ainda o tivesse, e eu não o tinha.

E assim, mais rápido do que você conseguiria dizer "car­tão de crédito", eu já estava na loja Nordstrom gastando um dinheiro que não possuía num fabuloso vestido preto de cre-pe de chine, com sensuais aberturas nas laterais e alças finas e bordadas. Com suas linhas clássicas e corte perfeito, eu qua­se parecia magra. E verdade que a compra provocou um ata­que cardíaco na minha conta bancária, mas eu daria um jeito nisso assim que recebesse o primeiro salário do banco.

Talvez, quando Andrew me visse com o vestido, se es­queceria de todos os constrangedores incidentes das duas últimas semanas: a meia-calça na escrivaninha dele, a mi­nha boca cheia de burrito, e o terrível incidente no banheiro masculino. Talvez ele desse apenas uma olhada para mim e visse a elegante e sofisticada escritora/editora dos seus sonhos.

Desci para o andar de cosméticos para comprar um novo blush. Estava parada no balcão, experimentando algo cha­mado de "Brincadeira de Ameixa" e perdida em fantasias de estar dançando de rosto colado com Andrew no salão do Hotel Stratford, quando subitamente os meus devaneios fo­ram interrompidos. Eu estaria alucinando ou realmente vira o rosto de Marty atrás de mim, refletido no espelho de ma­quiagem? Girei rapidamente para trás e vi um homem ro­busto correndo para fora da loja. Corri atrás dele, mas quan­do cheguei na entrada que dava para o shopping, ele havia desaparecido.

Depois da noite anterior, eu já não sabia mais o que pen­sar. A minha imaginação estaria se acelerando novamente? Aquele seria apenas um sujeito qualquer, passeando no shopping no horário de almoço?

Ou Marty estava mesmo me seguindo?

Eu estava tão perturbada quando voltei para o carro que quase me esqueci de que era sexta-feira, o dia marcado para almoçar com Pam. Foi um milagre eu não ter me envolvido num acidente a caminho do restaurante; os meus olhos fica­ram praticamente colados no espelho retrovisor durante todo o trajeto. Mas, ao que parecia, ninguém estava me seguindo. Ninguém que eu pudesse ver, pelo menos.

O restaurante Farm House é um conhecido ponto de encontro de artistas em Santa Mônica, que fica repleto de integrantes do showbiz na hora do almoço. Havia dois sa­lões: o pátio interno, um paraíso ensolarado e verdejante onde ficavam os ricos e famosos. E o Outro Salão, onde ficavam os simples mortais. Não me leve a mal. O Outro Salão é muito bonito; na verdade, é muito melhor do que o pátio classe "A" num dia quente, quando o sol que penetra pelas vidraças dei­xa o local parecido demais com uma sauna para o meu gosto. E, além disso, é muitíssimo mais elegante e agradável do que o meu destino habitual de almoço, o Chez Burguer King.

Pam já estava sentada no Outro Salão quando eu che­guei, com uma garrafa de champanhe no gelo ao seu lado.

Eu pedi uma champanhe — ela disse, dando-me um abraço caloroso. — Para comemorar o meu debut teatral como um pacote de ketchup falante. Meu Deus, nem consigo me lembrar de quando foi a última vez que bebi um champanhe que não tivesse tampa de rosca.

Meus parabéns, Pam — eu disse, forçando um sorriso.

Ei, alguma coisa está errada — ela disse. — Já perce­bi. O que aconteceu?

Contei tudo a ela, incluindo o meu pequeno tête-à-tête com Marty no seu consultório e como eu achava que ele de­via estar me seguindo.

—      Ah, meu Deus — disse Pam, quando terminei. Ser­ viu-me uma taça de champanhe. — Beba um pouco. Você está precisando.

Ela estava certa. Tomei um gole generoso do vinho com bolhinhas.

—      Você acha mesmo que Marty matou Marybeth? — ela perguntou, arregalando os olhos.

Tenho certeza. Se ao menos eu pudesse destruir o álibi dele e provar que ele não estava em Laguna...

Jaine, isso é loucura. Você precisa parar com essa in­vestigação. Se estiver certa a respeito de Marty, pode acabar se machucando. Eu quero que você procure a polícia. Agora mesmo. E conte tudo o que me contou.

Já tentei fazer isso. Mas o tenente Clemmons não ouviu uma palavra do que eu disse.

 

Então passe por cima dele. Procure outra pessoa. Você pode estar correndo um sério risco.

Não se preocupe. Estou quase certa de que o assus­tei. Inventei uma história sobre ter um documento no meu cofre, dizendo que ele seria o responsável se alguma coisa acontecesse comigo. Acho que serviu para intimidá-lo.

—      E foi por isso que ele a seguiu até a Nordstrom? Nisso ela tinha razão.

—      Talvez não fosse ele — falei, sem muita convicção. — Talvez fosse outro sujeito corpulento como ele.

Pam me lançou um olhar de dúvida.

Espere um pouco — falei. — Por que eu não faço real­mente o que eu disse? Por que não escrevo uma declaração e a entrego a você? Se algo me acontecer, você mostra à polícia.

Tudo bem — ela disse, enquanto eu pegava uma ca­neta na bolsa e começava a escrever num guardanapo de papel. — Mas você tem de me prometer que irá procurar os investigadores o mais depressa possível, antes que algo lhe aconteça.

Prometo — eu disse, entregando-lhe o meu docu­mento escrito às pressas. Só esperava que aceitassem guar-danapos de papel como evidências legais num julgamento por homicídio.

É bom mesmo. Porque se você não for à polícia, eu irei. Eu chamo a polícia, o prefeito, até o governador, se pre­cisar. Eu sou boa nessas coisas — Pam acrescentou, mergu­lhando um pedaço de pão de azeitona no molho pesto. — Certa vez fiz o papel de advogada de defesa num comercial de desodorante.

Obrigada, Pam. Eu agradeço muito mesmo.

—      Você precisa experimentar este pesto. Está delicioso. Eu experimentei. E estava.

E impressionante o que um molho pesto acompanhado de muito champanhe é capaz de fazer para animar uma pes­soa. Eu já estava me sentindo mais calma.

Só quero que você saiba que, não importa o que acon­teça, eu estou do seu lado — disse Pam. — Cem por cento do seu lado. Pode contar comigo. Ups! — falou, deixando o pão de lado e se levantando. — Preciso ir andando.

Onde você vai?

—Acabei de ver um diretor de elenco no salão do pátio, de quem preciso "puxar o saco". Desculpe, querida, mas volto daqui a pouco. E então estarei ao seu lado cem por cento.

Pam saiu apressada em busca do seu diretor de elenco.

Eu recostei na cadeira num adorável torpor de champa­nhe e examinei o cardápio, tentando decidir entre bolo de chocolate e brownie à Ia mode para a sobremesa.

Então, subitamente, o telefone celular de alguém come­çou a tocar. Balancei a cabeça, aborrecida. Por que as pessoas não desligavam os celulares em lugares públicos, para que

os outros pudessem ter um pouco de paz e silêncio? Olhei em volta para ver de onde vinha o barulho e percebi que era da nossa mesa. Não poderia ser o meu telefone, pois eu o deixara no carro. Só podia ser o de Pam.

Avistei a enorme bolsa de couro pendurada no encosto da cadeira dela e, sem dúvida, o telefone estava tocando no interior das suas profundezas. Eu me levantei para pegar a bolsa mas, com a pressa, virei-a de lado, fazendo com que todo o seu conteúdo se espalhasse no piso de madeira rústi­ca do Farm House. Mais que depressa eu me ajoelhei e peguei o celular mas, quem quer que fosse, já havia desligado.

Com um sorriso de desculpas aos meus vizinhos de mesa, que já me encaravam com indisfarçável desdém, co­mecei a recolher os pertences de Pam. Santo Deus, ela carre­gava mais suprimentos naquela bolsa do que um sherpa do Nepal. Parecia que um mercado de pulgas fora armado na­quele chão. Freneticamente, passei a recolher seus Tampax, canhotos de entradas de cinema, uma lista de supermerca­do, um bilhete de loteria, um cardápio de restaurante chi­nês, um donut comido pela metade, uma garrafinha de Snapple dietético, uma chave inglesa e um livro de biblioteca que deveria ter sido devolvido em algum momento do ano de 1987. Exatamente quando eu estava estendendo a mão para a mesa ao lado a fim de alcançar um tubo de pastilhas de hortelã que havia rolado, Pam retornou.

O que está fazendo aí no chão?

O seu celular estava tocando e quando fui pegar a sua bolsa para atender, derrubei tudo.

Joguei o tubo de pastilhas de volta na bolsa, juntamen­te com uma tesourinha de unha.

—      Você já ouviu dizer que "menos é mais"? — perguntei. Uma loira bonitinha veio me entregar uma embalagem

de biscoitos que caíra sob a mesa dela. Eu a passei para Pam, junto com a bolsa e o celular, e tornamos a nos sentar à mesa.

Meu celular! — ela disse. Seus olhos iluminaram-se de excitação. — Esta é a resposta!

Ótimo — falei, bebendo um gole de champanhe. — E qual é a pergunta?

Eu sei de uma testemunha que pode provar que Marty estava na cidade no dia do crime.

Quem? — Agora foi a minha vez de ficar excitada.

Eu! — ela sorriu. — Sou mesmo uma idiota por não ter me lembrado antes. Mas eu comprei este celular na tarde do crime. Comprei na Best Buy, em Westwood.

Até agora não parecia haver nada que incriminasse Marty.

E...?

E há um Supermercado Ralphs bem ao lado. Quan­do eu estava saindo da Best Buy vi Marty saindo do Ralphs.

Tem certeza de que era ele?

Absoluta. Mas ele não me viu e eu não o cumprimen­tei. Eu estava com pressa e não queria parar para conversar.

Então ele não poderia ter estado em Laguna naquela tarde.

Não. Ele estava aqui na cidade. Deve ter sido por volta das três horas. E ele estava saindo do supermercado.

—      Talvez com uma garrafa de óleo de amendoim. Pam assentiu com firmeza.

—      Ele teve tempo suficiente de esgueirar-se de volta para casa e acrescentar o óleo de amendoim à guacamole, enquanto Rochelle estava ocupada com os encanadores e o inspetor de obras.

Maravilha. Agora eu tinha uma testemunha que poderia provar que Marty Meyers estava na cidade no dia do crime.

—      Será que você poderia ligar para a polícia e contar o que acabou de me dizer? — perguntei.

—      Assim que eu chegar em casa — ela me assegurou. Passamos o resto da tarde comemorando os nossos no­vos empregos com um almoço obscenamente engordativo e outra garrafa de champanhe. Contei a ela sobre a festa de gala no Stratford naquela noite, e ela me falou sobre todas as coisas que pretendia comprar com seus futuros cheques de pagamento.

Prolongamos as nossas sobremesas de bolo de chocola­te e brownie à Ia mode durante horas. Quando finalmente saí­mos do restaurante, os garçons estavam arrumando as me­sas para o jantar.

Dirigi para casa me sentindo uma mulher feliz, cheia de champanhe, chocolate e, mais importante, esperança.

Ok, o chocolate foi o mais importante, mas a esperança veio logo em segundo lugar.

Quando cheguei em casa, tinha menos de uma hora para me arrumar para a festa do Union National. Se eu corresse, daria tempo de tomar um rápido banho de banheira.

Retirei o meu glamouroso vestido novo da sacola de plástico e ofeguei, abalada. Depois de passar a tarde no por­ta-malas do carro ele ficara terrivelmente amassado.

Ah, tudo bem. Sem problema. Se eu deixasse o vestido no banheiro o vapor do banho iria desamassá-lo.

Enchi a banheira com água quente, acrescentando o meu óleo favorito com perfume de morango. Então pendurei o vestido no trilho da cortina do chuveiro e corri para me des­pir no quarto.

Fui tirando minhas roupas com o descuidado abando­no de uma personagem do Girls Gone Wild. Parecia que só então eu começava a entender que havia conseguido o em­prego no Union National. Em breve eu estaria trazendo para casa quarenta mil por ano! Depois de muito tempo eu seria capaz de tirar a minha conta bancária da UTI!

E verdade que eu não conseguira livrar Rochelle da acu­sação do assassinato de Marybeth, mas o caso demoraria meses até ir a julgamento. Eu teria bastante tempo para provar a culpa de Marty. O testemunho de Pam certamente aju­daria. E, enquanto isso, eu tinha um emprego maravilhoso e um patrão ainda mais maravilhoso a minha espera.

Sim, eu estava com um humor definitivamente mais alegre quando voltei ao banheiro. Um humor que durou exa­tamente dois segundos. Porque a primeira coisa que vi quan­do abri a porta foi Prozac, empoleirada na pia, esticando a pata na direção do meu vestido novo.

E então, diante dos meus olhos horrorizados, eu vi as finas alças bordadas escorregando pelo cabide. Antes que eu pudesse alcançá-lo, o vestido afundou dentro da banheira cheia de água quente e óleo perfumado de morango.

Eu retirei a massa informe e ensopada de dentro da ba­nheira e gemi:

— Prozac! O que você fez? Ela sacudiu a cauda orgulhosamente. Acabei de nos salvar do terrível monstro negro do planeta Nordstrom!

Ok, eu não precisava entrar em pânico. Bastava esque­cer o banho e ir passar o vestido até secá-lo.

Corri para pegar a tábua e o ferro de passar roupa no armário de vassouras. O meu ferro de passar era um modelo compacto, todo enferrujado, um estimado presente de ani­versário de casamento que ganhei de O Bolha. A última vez em que eu o utilizei havia sido para passar a blusa que usei na finalização do nosso divórcio. Armei a tábua de passar e entreguei-me à tarefa. Mas logo vi que seria inútil. O vestido estava ensopado demais. Eu levaria horas para secá-lo com aquele ferro vagabundo. E o único pedaço que consegui se­car enrugou miseravelmente sob o calor.

Ah, quem eu estava tentando enganar? Não haveria chance de usar o meu vestido novo e sexy naquela noite. Nem naquela noite, nem nunca mais. Mesmo se eu conseguisse secá-lo, certamente ele iria encolher para a metade do tama­nho, depois de toda aquela água quente.

E assim, com o coração pesado, voltei ao quarto para procurar uma roupa que fosse adequada para usar num even­to formal. Mas tudo o que encontrei no meu armário foram as camisetas tamanho-único e as calças com elástico na cin­tura. O que não deveria me surpreender. Afinal, a minha idéia de evento formal era o Festival de Frutos do Mar do Restau­rante Sizzler.

Então eu o vi. No fundo do armário. O meu vestido de dama de honra estilo Cinderela-com-Esteróides. Eu fora buscá-lo alguns dias antes no Salão de Noivas de Amy Lee e o enfirara dentro do armário, esperando que talvez as traças o devorassem. Porém nem mesmo as traças quiseram che­gar perto dele. Era tão feio quanto eu me lembrava. As mes­mas mangas bufantes, a mesma saia rodada, a mesma hor­renda cor de rosa-chiclete.

De maneira alguma eu usaria aquela monstruosidade. Simplesmente não conseguiria.

Não. Eu iria vestir o meu terninho Prada, o mesmo que usara nas entrevistas no Banco. Não era um traje formal, mas teria de servir. Afinal, eu disse a mim mesma, era Prada. Ti­nha estilo. Tinha classe. E... ai, meu Deus!... tinha uma man­cha de gordura do tamanho de Nova Jersey na gola do casaquinho! Quando aquilo acontecera? Então me lembrei. Só podia ter sido quando eu comera o maldito burrito de­pois do meu almoço com Andrew e Sam.

Eu teria prorrompido em lágrimas, mas não havia tem­po para isso. Eu havia desperdiçado minutos preciosos pas­sando o vestido e já eram quase seis horas! Não havia como escapar. Só me restava usar o desgraçado do vestido de dama de honra. Vesti um antigo sutiã sem alças que sobrara da minha lua-de-mel e a meia-calça modeladora de cintura.

Então respirei fundo e vesti a roupa. Ou, pelo menos, tentei. O zíper simplesmente se recusava a fechar. Ou o ves­tido encolhera no meu armário ou eu havia engordado de pois da última prova. Por que diabos Pam e eu tínhamos de pedir o bolo de chocolate e o brownie à Ia moáe no almoço? Não poderíamos ter dividido apenas uma sobremesa, como fazem todas as mulheres normais?

Depois de muito gemer e praguejar, finalmente conse­gui me espremer dentro da roupa. Eu me sentia como uma salsicha prestes a explodir para fora da pele.

Como eu iria sobreviver àquela tortura? Só podia rezar para que desse tudo certo. Se eu não respirasse, nem risse, nem comesse nada além de um talo de salsão, talvez conse­guisse atravessar aquela noite.

Olhei no relógio. Seis e cinco! Eu deveria estar no hotel cinco minutos atrás! Amarrei os meus cachos com uma fita de veludo, esperando que a confusão resultante pudesse passar por um sofisticado penteado do tipo "desleixado". Não havia tempo para maquiagem. Eu teria de fazer isso no carro.

Peguei a minha bolsa e estava a meio caminho da porta quando me dei conta de que estava sem sapatos. Droga. Corri de volta para o armário e calcei um par de tênis. Para o infer­no com isso. Ninguém conseguiria vê-los sob aquelas monta­nhas de chiffon. O restante do meu corpo já estava em profun­do sofrimento; ao menos os meus pés ficariam confortáveis.

Então saí para a festa em meu vestido de baile de Cin-derela. Pena que a minha Fada Madrinha havia tirado a noi­te de folga.

 

O trânsito estava um pesadelo. O trânsito é sempre um pe­sadelo em Los Angeles. Dinossauros provavelmente ficaram parados na Via Expressa de Santa Mônica na era Mesozóica. O que significava que eu tinha tempo de sobra para fazer a maquiagem. Diabos, eu tinha tempo de sobra para fazer a maquiagem do elenco inteiro do Fantasma da Ópera.

É desnecessário dizer que o meu bom humor foi para o espaço.

Eu parecia gorda e desleixada e me sentia ainda mais gorda e desleixada. O que é pior, havia perdido toda a con­fiança na minha capacidade de ajudar Rochelle a sair da­quela enrascada com o assassinato. O que me fizera pensar que a polícia iria me levar a sério? Subitamente, eu nem ti­nha tanta certeza de que Marty era o assassino. Todos os fa­tos apontavam para ele, mas algo ali me incomodava. Eu tinha a estranha sensação de que deixara passar uma dica importante naquele dia, mas não conseguia identificar o que seria.

Quando finalmente saí da via expressa já estava qua­renta e cinco minutos atrasada. Nada como começar a mi­nha primeira tarefa com o pé direito. Eu estava pensando seriamente em dar a volta e retornar para casa. Mas já havia chegado até lá, portanto era melhor ir em frente.

Dei uma espiada no espelho retrovisor e suspirei. Ne­nhum milagre acontecera durante o trajeto. Eu ainda parecia um lixo. Peguei um lenço de papel e limpei o excesso de batom.

Não é estranho como as pequenas coisas às vezes são tão importantes? Se eu não tivesse tirado o excesso de batom jamais teria descoberto a verdade.

Porque, quando baixei os olhos para o lenço de papel, aquela pequena e elusiva pista que estivera boiando em meu cérebro irrompeu borbulhando para a superfície. Finalmen­te eu soube o que tanto estava me perturbando — o bilhete de loteria que havia encontrado na bolsa de Pam durante o almoço daquela tarde. Na ocasião, eu havia reparado na man­cha vermelha no bilhete e pensei que fosse a geléia do ãonut que também estava na bolsa. Mas agora, olhando para o meu lenço de papel, me dei conta de que não era uma mancha de geléia que eu vira no bilhete — mas sim uma mancha de batom. Lembrei-me da primeira reunião do Clube TPM, quan­do Marybeth exibiu o bilhete de loteria vencedor e deu-lhe um beijo. Ela havia deixado a marca do seu batom cintilante no papel. A mesma mancha que eu vira no bilhete que esta­va na bolsa de Pam.

O que, pensei, Pam estaria fazendo com o bilhete de Marybeth De repente eu me senti zonza e nauseada. Um pensa­mento terrível me atingiu. Seria possível que Pam tivesse matado Marybeth por causa dos 50.000 dólares da loteria? Talvez não existisse comercial algum da Rede de Lanchone­tes Bucko. Talvez o dinheiro caído do céu que ela estava pres­tes a receber viesse do estado da Califórnia. Talvez Pam ti­vesse roubado o bilhete e depois matou Marybeth, antes que ela descobrisse o que acontecera.

Parei na frente do Hotel Stratford e deixei o carro com o manobrista.

— A senhora vai ao casamento de Chang-Germanetti? — ele perguntou, olhando para o meu horrível vestido de dama de honra.

Não, vou à festa do Union National.

É mesmo? Vai com isso à festa do Union National? Modelito assustador, hein?

Ok, na verdade não foi isso que ele disse. Ele limitou-se a encolher os ombros e resmungou:

—      Terraço da cobertura.

Corri para dentro e atravessei o saguão do hotel antigo e venerável, com seus magníficos frisos originais e imensos lustres de cristal.

Poderia ser, mesmo?, pensei enquanto esperava o eleva­dor. Seria Pam, a minha nova segunda-melhor-amiga, realmente uma assassina?

Mas isso era impossível. Pam estivera ao meu lado o tempo todo, na noite do crime. Ela não saíra de perto de mim nem por um momento. Ela não havia ficado sozinha na cozi­nha de Rochelle naquela noite.

Mas e se Pam tivesse ido para lá mais cedo, naquele mesmo dia? Talvez fosse Pam, e não Marty, que conseguira se esgueirar para dentro da casa na tarde do assassinato. Rochelle dissera que as únicas pessoas que estiveram lá na­quele dia foram os encanadores e o inspetor de obras. Será que um deles poderia ser Pam, usando um disfarce?

Afinal, ela era uma atriz. Tinha acesso a todo tipo de maquiagem. E Pam era uma mulher robusta. Com uma bar­ba ou um bigode falsos poderia facilmente passar por um homem. Ela não interpretara um homem bastante convicente todos aqueles anos atrás, na peça The Odd Couple?

Sim, Pam poderia ter sido um dos homens que entra­ram na casa de Rochelle naquele dia. E Rochelle, distraída como estava, jamais a teria reconhecido. Mas ela não pode­ria ser um dos encanadores. Certamente os outros teriam reparado num sujeito estranho entre eles. Mas, e quanto ao inspetor de obras? E se Pam fosse o inspetor?

Quando o elevador chegou, estava vazio. As únicas pes­soas que entraram comigo foram um casal de idosos e um garçom empurrando um carrinho de serviço de quarto. Não fiquei surpresa ao ver tudo tão deserto. Os funcionários do Union National proavelmente já haviam chegado horas atrás.

O elevador, como todo o restante do hotel, era uma relí­quia de antigas eras, uma cabine espaçosa com as paredes revestidas de mogno e detalhes de latão reluzente. Pressio­namos os botões para os nossos respectivos andares e o ele­vador começou a subir lentamente. Naquele ritmo iria demo­rar uma eternidade para chegar à cobertura, mas eu já estava tão atrasada para a festa que nada mais me importava.

Então, subitamente, me lembrei de algo que Pam disse­ra no almoço. Ela dissera que Marty provavelmente acres­centara o óleo de amendoim à guacamole enquanto Rochelk estava ocupada com o inspetor de obras. Mas como Pam sabia sobre a visita do inspetor? Eu nunca mencionei isso a ela.

Não, Pam sabia da visita do inspetor de obras porque ela era o inspetor de obras. Enquanto estava no andar de cima "inspecionando" o banheiro reformado com Rochelle, pode­ria facilmente ter inventado uma desculpa para verificar al­guma coisa no andar de baixo e ter corrido até a cozinha, onde acrescentou a dose fatal de óleo de amendoim à guacamole. Ah, meu Deus. Pam era mesmo a assassina. O grande problema com este caso o tempo todo, era que todos os integrantes do Clube TPM pareciam ser tão bons, agradáveis e gentis. Ninguém parecia ser capaz de assassi­nato. Eu sabia que um deles deveria estar representando. Só que nunca imaginei que poderia ser exatamente a atriz.

O elevador parou no quarto andar e o casal de idosos saiu. As portas se fecharam e fiquei sozinha com o garçom. Era estranho ele estar no elevador social. Normalmente os funcionários não tinham de usar o elevador de serviço? Pela

primeira vez eu reparei no paletó dele, e um arrepio de medo percorreu a minha espinha. Se aquele era o Hotel Stratford, por que havia um emblema do Hotel Plaza na lapela? Aque­le cabelo preto, tão pouco natural, seria de fato uma peruca? E seria a minha imaginação ou um dos lados do bigode dele realmente estava mais inclinado para baixo do que o outro? Então baixei os olhos para as mãos do sujeito e vi que ele estava usando algo que os garçons de hotel raramente usam: esmalte nas unhas.

Pam! — exclamei, antes de conseguir me conter.

Sim, sou eu.

Havia um brilho insano nos olhos dela, que fez o meu sangue congelar. Todos os traços da garota amigável que eu conhecera no Galpão da Pechincha haviam desaparecido.

—      Foi uma pena você ter derrubado a minha bolsa hoje no almoço — ela disse. — Depois de ter visto o bilhete de loteria, era só uma questão de tempo até que você começas­se a juntar as peças. Então eu aluguei esta fantasia e arris­quei uma chance de ficar sozinha com você no elevador. Pa­rece que tive sorte, não é?

E, com isso, ela retirou a tampa de metal que cobria um dos pratos do carrinho, para revelar uma faca de açougueiro.

Ai, Santo Deus! Era grande o suficiente para destripar uma baleia.

Frenética, eu me atirei para o painel de controle a fim de apertar o botão de alarme mas, antes que eu pudesse alcan­çá-lo, Pam agarrou o meu rabo-de-cavalo e me empurrou para trás, prendendo-me contra a parede. Eu gemi de dor.

Ela era mais forte do que eu. Bem mais forte.

—      Não faça nenhuma loucura — eu disse, segurando a minha cabeça que latejava. — O elevador pode parar a qual­quer momento. E se alguém vir você?

—      Ninguém irá me ver. O que talvez vejam é um gar­çom enlouquecido. — Ela pegou a faca e eu senti uma ondade bile subir pela minha garganta. — Quando encontrarem o seu corpo, irão pensar que foi um homem que a matou. Talvez até Marty. Não se esqueça, eu tenho aquele papel que você assinou esta tarde, culpando-o pelo seu assassinato.

Praguejei contra mim mesma por ter escrito aquela maldita declaração. Graças à minha estupidez, Pam iria se safar do crime, dos dois crimes. Mas eu não podia simples­mente ficar parada ali e deixar que ela me abrisse como se fosse uma chef de cozinha japonesa. Precisava mantê-la fa­lando e, de alguma forma, arrancar aquele horrível facão das mãos dela.

O que eu não entendo — falei — é por que você teve de matar Marybeth. Não podia apenas ter roubado o bilhete?

Ela me viu tirando o bilhete da sua bolsa. Aquela va­gabunda tinha olhos até nas costas. Ela ameaçou contar para todo mundo. Você pode imaginar uma coisa dessas? Dizer a todos que eu era uma ladra?

Contive o meu impulso de afirmar que ela era exata­mente isso.

Então eu me fingi de arrependida, chorei e implorei para que ela não contasse nada a ninguém. Marybeth disse que não contaria, mas eu sabia que, mais cedo ou mais tarde, ela acabaria dando com a língua nos dentes. E, até lá, iria me torturar com a ameaça de me expor em todas as oportunida­des que tivesse. Marybeth gostava disso. E, além do mais, eu queria aqueles cinqüenta mil. Talvez você não se incomo­de de fazer compras no Galpão da Pechincha, mas eu estou farta disso. Então, como pode ver — ela juntou, a faca pronta para o ataque —, eu não tive escolha. Da mesma forma que não tenho escolha agora. O que é realmente uma pena. Eu tentei avisá-la, você sabe.

Com aqueles pregos nos pneus do meu carro?

Eu tinha certeza de que aquilo iria amedrontá-la e faria com que você desistisse do caso. Mas você é tão persis tente. E agora eu tenho de matá-la. Que pena. Eu gosto de você, Jaine. Nós poderíamos ter sido amigas.

- Será que ainda não podemos ser amigas? Eu não vou contar a ninguém, prometo. Marybeth merecia morrer. Você estava fazendo um favor ao mundo. E tenho certeza de que os advogados de Rochelle conseguirão um veredito de ino­cente. Vamos esquecer toda essa história tola de assassmato e tomar um sorvete lá no Ben & Jerry.

— Você não acha mesmo que eu vou cair nessa, acha? Não na verdade eu não achava, mas isso me dera tem­po para me aproximar da tampa de metal que ela havia joga­do no chão. Agora eu a segurei com as duas mãos e girei-a com toda força, derrubando a faca das mãos dela.

Enquanto eu me atirava para pegar a faca, Pam atirou-se sobre mim, agarrando-me pela cauda do meu vestido de dama de honra. Escutei o barulho das costuras, ]á assim pertinho de explodirem, quando se desmancharam. Então, quando eu estava prestes a pegar a faca, senti uma dor lancinante nas pernas no instante em que Pam me atacou com o carrinho e me derrubou sentada no chão.

Antes que eu percebesse ela já estava por cima de mim, procurando desesperadamente a faca que havia desapareci­do, oculta em algum lugar sob as montanhas de chiffon do meu vestido. Pelo menos aquela roupa horrorosa estava ser­vindo para alguma coisa. Passamos o que pareceram ser sé­culos mas provavelmente foram segundos, apalpando e agarrando uma a outra, o meu vestido agora quase comple­tamente arrancado do meu corpo.

Àquela altura eu já estava gritando a plenos pulmões. Onde diabos estavam todas as pessoas daquele hotel? Será que ninguém conseguia me ouvir?

Então, para meu horror, vi Pam retirar a faca de baixo de uma pilha de chiffon.

— Sinto muito, Jaine — Pam falou, empunhando-a. — E, a propósito, mais uma vez obrigada pelo currículo.

Então, no exato instante em que ela se preparava para enfiar o facão no meu peito, as portas do elevador se abriram e nós estávamos no terraço da cobertura, cercadas por uma multidão de boquiabertos funcionários do Union National. Graças a Deus. Alguém havia me escutado.

Quando dei por mim uma dupla de guardas de segu­rança estava retirando Pam do elevador e carregando-a para longe. E então o superdelicioso Andrew Ferguson surgiu em meio à multidão e ajoelhou-se ao meu lado.

—      Já ouvi falar sobre serviço de quarto ruim — ele dis­se —, mas isso já é demais. Você está bem?

Se eu estava bem?? Claro que eu não estava bem!! Esta­va caída ali, na frente de metade dos funcionários do Union National, praticamente nua e com a minha meia-calça reten-tora de cintura aparecendo, isso sem mencionar os tênis!

—      Sim — consegui murmurar. — Tudo bem.

Ele baixou os olhos para a cintura de elástico da meia-calça e sussurrou:

—      Sabe, desde a primeira vez que eu vi esta meia-calça na minha escrivaninha, estive pensando em como você fica­ ria com ela. Ou sem ela.

Então ele sorriu, um sorriso que me fez ruborizar até a ponta dos meus tênis.

O que posso dizer? Ao que parecia, a minha Fada Ma­drinha estava de plantão naquela noite, no fim das contas.

 

É desnecessário dizer que os policiais liberaram Rochelle e prenderam Pam. O advogado dela está tendo um trabalho danado para explicar a fantasia de "inspetor de obras" que os detetives encontraram no seu apartamento.

Depois de tudo o que aconteceu não foi surpresa o fato de o Clube TPM encerrar suas atividades. Porém, não faz muito tempo, nós nos encontramos para um almoço e nos colocamos a par das novidades em nossas vidas.

Talvez você fique feliz em saber que Doris está noiva de um viúvo que conheceu durante os encontros de um grupo de apoio chamado "Como Sobreviver à Perda de um Amor".

Ashley já não está mais fingindo ser rica e parece muito mais em paz consigo mesma. Alugou a casa para uma em­presa de produção de filmes e conseguiu o emprego de con­sultora de compras na Saks. A última notícia que tive era que estava namorando um sujeito de lingerie. Não, não é um tra­vesti, mas sim um gerente de compras da seção de lingerie no escritório de Nova York.

Colin tem um emprego maravilhoso como assistente particular de uma das mais "quentes" donas de bufê de Los Angeles. E você nem vai acreditar quem é esta proprietária de bufê. Rochelle! Sim, ela se divorciou daquele canalha do Marty e abriu seu próprio negócio, fazendo o que faz de melhor: cozinhar.

Depois que ela serviu as refeições para as equipes de filmagem na casa de Ashley, a notícia se espalhou e agora Rochelle prepara empanadas e margaritas para toda a tur­ma da classe "A" de Hollywood. Se há algo que ela se recusa a preparar, no entanto, é guacamole. Se o cliente insistir, ela sai para comprar em outro lugar.

Marty Meyers está morando com a sua amante mais recente — não a pobre Cissy, mas sim uma modelete de dezenove anos que ele contratou para substituir a enfermei­ra Medusa. Pam estava mentindo quando disse que o viu no dia do crime. Na hora em que Pam afirmou tê-lo visto sain­do do Supermercado Ralphs, na verdade ele estava no con­sultório, "testando" a modelete.

Colin e Lance tiveram uma paixão alucinada durante meses, até que Lance permitiu que Colin redecorasse a sua sala de estar. Eu o avisei para não fazer isso, mas ele me ou­viu? Nããão. Tiveram uma briga feia por causa do caixão fu­nerário que Colin queria usar como mesa de centro e, a par­tir daí, as coisas foram murchando.

Más notícias sobre Kandi. Ela está solteira outra vez. Steve a deixou. Parece que ele se apaixonou por Armando, o especialista em planejamento de casamentos. Eu calculo que eles tenham começado a se dar bem no decorrer de todas aquelas noites em que Kandi ficou trabalhando até mais tar­de. No início ela ficou devastada, mas você conhece Kandi. Um mês depois já estava se inscrevendo num curso de Kickboxing para solteiros.

Quanto a mim, passei seis semanas com a perna enges­sada. Não por causa do encontro com Pam no elevador, mas por ter tropeçado num dos dois pés esquerdos do sr. Goldman durante o baile do Mambo Mania. Digamos apenas que aque­la foi a última vez que dancei com um homem que usa as suas dentaduras como castanholas.

Meu emprego fabuloso no Union National? Foi lindo enquanto durou, e durou duas semanas inteiras. Sim, duas semanas depois que comecei a editar o Conversa Fiada o Union National foi comprado por um conglomerado alemão. Uma das primeiras coisas que fizeram foi economizar quarenta mil dólares por ano despedindo a editora e fechando o jornal interno.

A segunda coisa que fizeram foi transferir Andrew Ferguson para Stuttgart, na Alemanha. A um quadrilhão de quilômetros de distância. Dá para acreditar? Nem mesmo tive a chance de sair com ele. Quando o médico finalmente tirou o gesso da minha perna, Andrew já dera o aufwieãersein, levado pelo vento. Ele ligou antes de partir e prometeu man­ter contato. Eu aviso se ele cumprir a promessa.

Bem, preciso ir andando. Prozac está miando, pedindo o jantar.

Até a próxima.

A propósito, finalmente consegui fazer com que Prozac pare de comer baconzitos. Eu a convenci de que, com todos aqueles ingredientes químicos e artificiais, eles fazem muito mal para a saúde.

Agora ela só quer comer bacon de verdade.

 

                                                                                Laura Levine  

 

                      

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