Translate to English Translate to Spanish Translate to French Translate to German Translate to Italian Translate to Russian Translate to Chinese Translate to Japanese

  

 

Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


ENQUANTO O MEU AMOR DORME / Mary Higgins Clark
ENQUANTO O MEU AMOR DORME / Mary Higgins Clark

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

ENQUANTO O MEU AMOR DORME

 

Subiu a rodovia cuidadosamente até ao Parque Morrison. Os cinquenta e dois quilómetros da viagem de Manhattan até ao Município de Rockland tinham sido um pesadelo. Apesar de serem seis horas não havia ainda amanhecido. O nevão, que começara durante a noite, tornara-se cada vez mais intenso e a neve batia agora ininterrupta no pára-brisas. Lá em cima, as nuvens pesadas e cinzentas pareciam balões enormes prestes a rebentar. A previsão falhara por milímetros ao anunciar que a precipitação diminuiria depois da meia-noite. Mais uma vez, o homem do tempo estava enganado.

 

Encontrava-se agora perto da entrada do parque e, devido à tempestade, não era provável que fosse encontrar alguém a passear ou a correr. Quinze quilómetros antes encontrara uma patrulha, mas o carro ultrapassara-o a toda a velocidade, com as luzes no máximo, provavelmente a caminho do local de algum acidente. Não havia motivo para a polícia desconfiar do conteúdo da sua carrinha: não poderiam suspeitar que, sob um monte de malas, encafuado num espaço mínimo junto do pneu sobresselente, seguia um saco de plástico contendo o cadáver de uma conhecida escritora de 61 de idade.

 

Deixou a rodovia e atravessou a escassa distância que o separava do parque de estacionamento. Tal como esperara, este encontrava-se quase vazio. Viam-se muito poucos carros e os que ali se encontravam estavam cobertos de neve. Alguns malucos ali acampados, calculou ele. Só teria de evitar encontrá-los.

 

Saiu do carro e olhou atentamente à sua volta. Ninguém. A neve continuava a amontoar-se no solo. Cobriria as marcas deixadas, taparia qualquer pista que pudesse conduzir ao local onde resolvera largá-la. Com um pouco de sorte, quando ela fosse descoberta, pouco restaria para ver.

 

Começou por se dirigir sozinho até ao local escolhido. Tinha o ouvido apurado e esforçava-o ao máximo, de forma a tentar distinguir por entre o soprar do vento e o estalar dos ramos já muito carregados. Seguiu por um caminho escarpado. No fim deste, e numa encosta em declive, a derrocada de rochas pesadas acamara ali um monte de pedras. Pouca gente se dava ao trabalho de a trepar. Ficava fora do percurso dos cavaleiros o picadeiro não queria que as donas de casa dos subúrbios, suas principais clientes, partissem o pescoço ali.

 

Um ano antes, sentira-se suficientemente curioso para trepar até ali e sentara-se num penedo arredondado. A mão escorregara-lhe e foi então que sentiu a abertura na pedra. Não se tratava da entrada de uma caverna, mas sim de uma abertura natural. Já nessa altura lhe ocorrera que encontrara um esconderijo ideal.

 

Era desgastante subir até ali, pois a neve transformava-se em gelo, mas escorregando e tropeçando, lá conseguiu chegar. O buraco continuava ali, mais pequeno do que pensara, mas poderia forçar o corpo lá para dentro. O passo seguinte seria o pior. Ao regressar ao carro teria de ter o máximo cuidado para não ser observado. Conseguira estacionar num sítio, onde quem quer que entrasse no parque, não poderia ver o que ele tirava da carrinha e, de qualquer forma, um saco de plástico nada tinha de suspeito.

 

Enquanto viva, Ethel fora demasiado magra. Mas ao pegar no corpo enfiado no plástico, concluiu que aquela roupa cara escondia uma estrutura óssea muito pesada. Tentou suportar o peso do saco com os ombros, mas perversa na morte, tal como em vida, Ethel deveria ter iniciado o rigor mortis e o seu corpo recusava-se a assumir formas mais fáceis de transportar. Por fim, ora arrastandoa, ora pegando-lhe, conseguiu levar o saco até à encosta e aí o excesso de adrenalina deu-lhe forças para a içar através das pedras soltas e alcançou a abertura.

 

Inicialmente, tinha pensado deixá-la dentro do saco, mas, no último instante, mudou de ideias. A maldita medicina legal estava demasiado avançada.

 

Conseguiam encontrar provas em tudo; na fibra das roupas, nos tapetes, em cabelos, em coisas que o olho humano não conseguia detectar.

 

Insensível ao frio, ao vento cortante que lhe fustigava a cabeça e aos flocos de neve que lhe gelavam a face e o queixo, colocou o saco no interior da abertura e começou a rasgá-lo. Mas este não cedia. Folha dupla, pensou desanimado, pensando nos anúncios. Violentamente, começou a puxá-lo e sorriu quando este cedeu, deixando a descoberto o corpo de Ethel.

 

O fato branco de lã estava manchado de sangue. A gola da blusa enfiara-se no buraco gotejante do pescoço. Tinha um olho meio aberto que, à luz da madrugada, parecia mais meditativo que morto. Aboca, que durante a vida de Ethel nunca tivera descanso, estava franzida como que pronta para iniciar uma das suas habituais frases intermináveis. A última que proferira acabara por lhe ser fatal, pensou ele com lúgubre satisfação.

 

Mesmo usando luvas, odiava ter de lhe tocar. Encontrava-se morta havia quase catorze horas. Pareceu-lhe que exalava já um odor doce, ainda que fraco. Subitamente enojado, empurrou o corpo para baixo e começou a empilhar pedras por cima dele. A abertura era mais funda do que parecia e as pedras tapavam-na satisfatoriamente. Nenhum passeante ocasional conseguiria retirá-las.

 

O trabalho estava terminado. A neve tapara já as suas pegadas. Dez minutos depois de ter partido, teriam desaparecido quaisquer marcas suas ou do carro.

 

Amarrotou o saco rasgado numa bola e apressou-se a regressar ao carro. Agora, sentia-se ansioso por sair dali, por se afastar daquela última hipótese de ser apanhado. Já perto do parque de estacionamento deteve-se. Os mesmos carros continuavam nos mesmos sítios. Não se via qualquer marca recente no chão.

 

Cinco minutos depois encontrava-se de volta à rodovia e o saco sujo e amarrotado seguia debaixo do pneu sobresselente. O restante espaço era agora mais que suficiente para as malas e para a bolsa dela.

 

A rodovia encontrava-se coberta de gelo e o trânsito em direcção à cidade começava já a ser intenso. Não tardaria a regressar a Nova Iorque, a regressar à sanidade e ao mundo real. Fez uma última paragem num lago, que recordava não ser muito afastado da estrada e que estava demasiado poluído para a pesca. Era o lugar ideal para se livrar da bagagem e da bolsa de Ethel. As quatro peças eram pesadas, o lago era fundo e ele sabia que depressa estariam presas na montanha de lixo que repousava no fundo. Havia até quem se livrasse ali dos carros velhos.

 

Atirou a bagagem de Ethel o mais longe que foi capaz e ficou a vê-las desaparecer nas águas turvas. Agora só lhe faltava desfazer-se do saco ensanguentado. Decidiu deitá-lo num contentor de lixo, à entrada da rodovia de West Side. Ali passaria despercebido por entre a montanha de lixo que pela manhã seria recolhido.

 

Demorou três horas a regressar à cidade. A condução tornara-se perigosa e esforçava-se por não se aproximar muito dos outros carros. A última coisa de que precisava agora era de um pára-lamas amolgado. Dali a alguns meses ninguém teria qualquer motivo para supor que naquele dia saíra da cidade.

 

Tudo correu de acordo com os seus planos. Deteve-se por instantes à entrada da Nona Avenida e livrou-se do saco.

 

Às oito horas estava a devolver o carro à garagem da Décima Avenida. Ali, os carros eram alugados mediante pronto pagamento e não existia qualquer registo.

 

Às dez horas já se encontrava em casa, refrescado pelo duche, envergando roupa lavada e bebendo o seu bourbon simples, tentando acalmar o súbito ataque de nervos que o gelara. Em pensamento, reviu todos os minutos passados, quando se encontrava no apartamento de Ethel enfrentando o sarcasmo, as ameaças e o ridículo.

 

Ela então percebera. Vira-lhe na mão o punhal antigo e com o terror espalhado no rosto, começara a recuar.

 

Sentira-se exultante ao cortar aquela garganta, ao vê-la tropeçar enquanto recuava, atravessando o arco até à cozinha e aí cair no ladrilho de cerâmica que cobria o chão.

 

Ainda se admirava por se ter conseguido manter tão calmo. Trancou a porta de modo a que esta não abrisse ainda que, por algum golpe de azar, o superintendente ou algum amigo com chave resolvesse aparecer por ali. Todos sabiam como Ethel era excêntrica. Se alguém com chave encontrasse a porta trancada concluiria que esta não queria ser incomodada.

 

Depois despira-a, deixando-lhe apenas a roupa interior e calçou as luvas. Ethel planeara ausentar-se para escrever um livro. Se conseguisse tirá-la dali, as pessoas pensariam que ela já partira. Ninguém estranharia a sua ausência durante semanas, até mesmo meses.

 

Agora, sorvendo um golo de bourbon, recordou como seleccionara a roupa do armário, como lhe despira o roupão ensopado de sangue, lhe calçara os collants, lhe enfiara a blusa e o casaco, lhe apertara a saia e, depois de lhe tirar as jóias, lhe enfiara os sapatos nos pés.

 

Estremeceu ao relembrar como tivera de a segurar para que o sangue escorresse pela blusa e pelo casaco. Mas fora necessário. Quando a encontrassem, se a encontrassem, teriam de pensar que fora ali que ela morrera. Não se esquecera de cortar as etiquetas que teriam permitido uma identificação imediata. Dentro do armário encontrara um saco de plástico enorme que, provavelmente, servira para cobrir um vestido comprido vindo da lavandaria. Enfiou-a lá dentro, limpou as manchas de sangue espalhadas no tapete oriental, lavou o mosaico da cozinha com Clorox, enfiou nas malas algumas roupas e acessórios, tudo isto numa luta frenética contra o tempo.

 

Tornou a encher o copo com bourbon lembrando-se do momento em que o telefone tocara. O atendedor disparara e ouviu-se a voz de Ethel dizendo: «Deixe a sua mensagem. Eu ligar-lhe-ei quando, e se, me apetecer.» Isto provocou-lhe um arrepio nervoso. A pessoa do outro lado desligou e ele desligou o atendedor. Não queria um registo de uma data de pessoas ao telefone que mais tarde se viessem a recordar de que não tinham tido resposta.

 

Ethel ocupava o rés-do-chão de um edifício de tijolo de quatro andares. A entrada da sua casa ficava à esquerda da rampa que conduzia à entrada principal. Na verdade, a porta encontrava-se protegida da vista de quem quer que passasse pela rua. O único momento mais vulnerável seria o de atravessar os doze degraus, desde a porta até à rua.

 

Dentro de casa sentira-se relativamente seguro. O pior viera quando abrira a porta, depois de encafuar o corpo embrulhado de Ethel e a bagagem debaixo da cama. O ar era gelado e húmido e era óbvio que a neve não tardaria a cair. O vento soprava cortante no caminho até ao apartamento. Fechou imediatamente a porta. Passavam poucos minutos das seis. As ruas estavam repletas de gente que regressava do trabalho. Esperou cerca de duas horas e então saiu sorrateiramente, deu duas voltas à chave e dirigiu-se à garagem que alugava carros baratos. Guiou de regresso ao apartamento de Ethel. A sorte estava do seu lado, conseguiu estacionar quase em frente ao edifício. Estava escuro e a rua deserta.

 

Conseguiu transportar a bagagem em duas vezes, mas a terceira viagem era a pior. Levantou a gola, tapou a cabeça com um velho boné, que encontrara no chão da carrinha e saiu do apartamento, carregando o saco que continha o corpo de Ethel. No momento em que fechou a mala da carrinha teve a primeira sensação de que conseguiria safar-se.

 

Fora o inferno, ter de voltar ao apartamento, para se certificar que não ficara nenhuma mancha de sangue e que não havia sinais da sua presença ali. Sentia um impulso muito forte, que o tentava a levá-la até ao parque nacional e aí desfazer-se do corpo, mas estava consciente de que isso seria uma loucura. A polícia poderia descobrir que alguém tentara entrar no parque durante a noite. Em vez disso, estacionou o carro na rua, seis quarteirões mais à frente, cumpriu a sua rotina e às cinco da manhã misturou-se com os trabalhadores, que já de madrugada, saíam para os seus empregos.

 

«Agora está tudo bem», afirmou de si para si. Estava safo!

 

E foi apenas quando engolia a última gota de bourbon que percebeu que cometera um erro medonho e soube, precisamente, quem seria apessoa em condições de o detectar.

 

Neeve Kearny.

 

O rádio disparou às seis e meia. Neeve esticou a mão direita, tentando alcançar um botão que calasse a voz alegre do locutor, mas deteve-se, quando o conteúdo do seu discurso lhe penetrou na consciência. A cidade acordou coberta por oito polegadas de neve. Não guiem a não ser que seja absolutamente necessário. Está suspenso o estacionamento alternativo nas bermas das ruas. As escolas irão encerrar e segundo a previsão meteorológica a neve deverá continuar a cair até ao fim da tarde.

 

«Óptimo», pensou Neeve, recostando-se e cobrindo-se. Detestava perder a sua corrida matinal. Depois pestanejou, pensando nos arranjos que teriam de ficar prontos naquele dia. Duas das costureiras moravam em Nova Jérsia e não poderiam deslocar-se. O que significava que teria de chegar cedo à loja, para ver como poderia arranjar-se só com Betty. Betty vivia entre as Ruas 82 e a 2 e caminharia os seis quarteirões até à loja, por muito mau que o tempo se apresentasse.

 

Detestando o momento de abandonar o aconchego da cama, atirou os cobertores para trás e apressou-se a atravessar o quarto para tirar de dentro do armário o robe turco que Myles, seu pai, afirmava tratar-se de uma relíquia das Cruzadas.

 

«Se alguma daquelas mulheres que dá aquele dinheiro todo pelas tuas roupas, te visse com este trapo, passava a comprar no Klein’s.»

 

«O Klein’s fechou há vinte anos e, de qualquer forma, se me vissem com este trapo, pensariam que se trata de uma excentricidade», respondia ela. «Ajudaria até a alimentar a mística.»

 

Atou o cinto, sentindo, como de costume, pena por não ter herdado da mãe a cintura fina, em vez do corpo ossudo e de ombros largos dos seus antepassados celtas, com uma data de sardas enfeitando-lhe o nariz direito. A boca generosa e os dentes fortes herdara-as de Myles Kearny.

 

Seis anos antes, quando acabara a faculdade e convencera Myles que não tencionava mudar-se dali, este insistira para que ela redecorasse o quarto. Vasculhando o Sotheby’s e o Christie’s conseguira um conjunto eclético, constituído por uma cama de ferro, um armário antigo, uma cómoda de Bombain, uma cadeira vitoriana e um tapete persa antigo que brilhava como o casaco de Joseph. As almofadas e a colcha estavam cobertas por uma profusão de folhos de um branco imaculado; a cadeira almofadada estava forrada de veludo turquesa, do mesmo tom da barra que orlava o tapete; as paredes igualmente brancas eram um óptimo pano de fundo para os bonitos quadros e gravuras que herdara da família de sua mãe. A Women’s Wear Daily fotografara-a uma vez no seu quarto, afirmando tratar-se de um aposento alegre e elegante, com o toque inconfundível de Neeve Kearny.

 

Neeve enfiou os pés nos chinelos alcochoados que Myles chamava de botinas e puxou o estore. Concluiu que o meteorologista não precisava de ser um génio para afirmar que se tratava de um forte nevão. A vista que alcançava do seu quarto, no edifício Aschwab, entre a Rua 74 e a via de Riverside, estendia-se directamente por sobre o Hudson, mas agora mal conseguia avistar os edifícios do outro lado do rio, em Nova Jérsia. A rodovia Henry Hudson estava coberta de neve e repleta de tráfego que avançava cautelosamente. Os infelizes trabalhadores haviam já começado a sua viagem para a cidade.

 

Myles encontrava-se na cozinha e a cafeteira estava ao lume. Neeve beijouo no rosto, contendo-se para não comentar o seu aparente cansaço. Aquilo significava que, mais uma vez, não tinha dormido em condições. Se ao menos ele cedesse e ocasionalmente tomasse um comprimido para dormir, pensou ela.

 

Como está a Lenda? perguntou ela. Desde que no ano anterior se reformara, os jornais referiam-se-lhe constantemente como «o legendário comissário da Polícia de Nova Iorque». Ele odiava o nome.

 

Myles ignorou a pergunta, olhou para ela e fingiu-se espantado.

 

Não me digas que ainda não estás pronta para ires correr para Central Park? exclamou O que é um pedacito de neve para a destemida Neeve?

 

Durante anos tinham corrido juntos. Agora, que ele já não o podia fazer, preocupavam-no aquelas corridas matinais tão solitárias. Mas, também, Neeve suspeitava que a preocupação por ela nunca o abandonava.

 

Retirou o sumo de laranja do frigorífico. Sem dizer nada encheu um copo alto para ele e um mais pequeno para si, e começou a fazer torradas. Myles costumava apreciar pequenos-almoços consistentes, mas agora o presunto e os ovos estavam proibidos. Tal como o queijo, os bifes e como ele dizia «a maior parte da comida que nos faz desejar a hora da refeição». O grave ataque cardíaco restringira-lhe a alimentação ao mesmo tempo que acabava com a sua carreira.

 

Sentaram-se num silêncio camarada, partilhando, num acordo mútuo, os cadernos do Times. Mas, quando Neeve ergueu os olhos, verificou que Myles não estava a ler. Olhava para o jornal sem o ver. A torrada e o sumo continuavam intactos na sua frente. Apenas o café dava indícios de ter sido provado. Neeve poisou o segundo caderno do jornal.

 

Pronto declarou. Vamos ao que interessa. Estás deprimido? Por amor de Deus, espero que não te tenhas dedicado ao papel do sofredor silencioso.

 

Não, eu estou bem respondeu Myles.Ou, pelo menos, se te estás a referir às dores no peito, não tenho nenhuma. Atirou o jornal para o chão e pegou no café, concluindo: Nicky Sepetti sai hoje da prisão.

 

Neeve sobressaltou-se.

 

Mas eu pensei que no ano passado lhe tinham recusado a liberdade condicional.

 

No ano passado foi a quarta vez que ele a pediu. Cumpriu até ao último dia a sua sentença, com a redução por bom comportamento. Esta noite estará de volta a Nova Iorque. Um ódio de gelo endurecera o rosto de Myles.

 

Papá, vai dar uma olhadela no espelho. Continua assim e não tardarás a ter outro ataque observou Neeve, consciente de que as mãos lhe tremiam. Agarrou-se à mesa, esperando que Myles não o tivesse notado e concluísse que ela estava assustada. Não me interessa que Seppetti tenha feito ou não aquela ameaça quando foi condenado. Passaste anos a tentar relacioná-lo com o... A voz de Neeve embargou-se, mas depois continuou:E nunca conseguiste a mínima prova que o incriminasse. E, por amor de Deus, não te atrevas a começar com essas preocupações comigo só por que ele está de novo em liberdade!

 

O seu pai fora o delegado público que conseguira apanhar o cabeça da família da mafia, Nicky Sepetti. Ao ser sentenciado perguntaram a Nicky se tinham alguma coisa a dizer. Este apontara então para Myles:

 

«Ouvi dizer que devido ao bom trabalho que fizeste comigo te vão promover a comissário da Polícia. Parabéns! Muito bonito aquele artigo no Post acerca da tua família. Toma bem conta da tua mulher e da tua filha. Eles podem vir a precisar de alguma protecção.»

 

Duas semanas depois, Myles tomou posse como comissário da Polícia. Passado um mês foi encontrado em Central Park o corpo da sua jovem esposa, mãe de Neeve, Renata Rossetti Kearny, de 34 anos de idade, com a garganta cortada. O criminoso nunca foi encontrado.

 

Neeve não se opôs a que Myles chamasse um táxi para a levar até à loja.

 

Não podes ir a pé com toda esta neve argumentara ele.

 

Não se trata da neve e ambos o sabemos retorquiu Neeve. Ao despedir-se passou-lhe os braços pelos ombros e abraçou-o. Myles, a única preocupação que devemos ter é a tua saúde. Nicky Seppetti não vai querer regressar à prisão. Aposto que se ele souber alguma oração, está neste momento a dizê-la, para que nada me aconteça durante muitos e muitos anos. És o único em toda a cidade de Nova Iorque que continuava convencido de que não foi um tarado qualquer que atacou a mãe e a matou, por ela não lhe entregar a carteira. Provavelmente, ela começou a gritar-lhe em italiano e ele entrou em pânico. Por isso, por favor, esquece Nicky Seppetti e deixa que a justiça divina condene aquele que nos tirou a mãe. Está bem? Prometes?

 

A anuência dele só em parte sossegou Neeve.

 

Agora põe-te a andar daqui para fora! exclamou ele. O taxímetro já está a trabalhar e o meu jogo deve estar a começar.

 

Os limpa-neves tinham feito aquilo que Myles consideraria uma promessa não cumprida de limpar a neve acumulada na Avenida West End. O carro avançava e derrapava pelas ruas escorregadias. Virou na transversal oeste-leste que atravessava o parque na Rua 81, e Neeve deu por si a desejar um inútil «se ao menos...». Se ao menos o assassino da mãe tivesse sido apanhado, talvez o tempo sarasse a ferida de Myles tal como sarara a dela. Assim, a ferida nele continuava bem aberta e sempre a sangrar. Culpava-se constantemente por, de uma forma ou de outra, ter abandonado Renata. Durante todos aqueles anos se martirizara por não ter levado a sério a ameaça. Não suportava pensar que os imensos recursos do Departamento da Polícia da cidade de Nova Iorque, que detinha sob o seu comando, se tinham provado inúteis na identificação do criminoso que executara, disto estava ele certo, a ordem de Sepetti. Continuava a ser esta a grande frustração da sua vida ser incapaz de encontrar o assassino e fazer Sepetti pagar pela morte de Renata.

 

Neeve estremeceu. Estava frio no interior do carro. O condutor devia estar a observá-la pelo retrovisor, pois observou:

 

Lamento, minha senhora, mas o aquecimento não funciona muito bem.

 

Não faz mal.

 

Neeve virou a cabeça para evitar qualquer tentativa de continuar a conversa. Os «se ao menos...» não paravam de a atormentar. Se ao menos o assassino tivesse sido apanhado e condenado anos atrás, talvez Myles tivesse recomeçado uma vida nova. Aos 68 anos ainda era um homem muito atraente e durante aqueles anos muitas mulheres tinham olhado com simpatia o comissário de ombros largos, cabelo precocemente embranquecido, olhos de um azul profundo e de sorriso inesperadamente afectuoso.

 

Estava tão mergulhada nos seus pensamentos que nem deu pelo carro parar à porta da loja. «A loja de Neeve.» O nome encontrava-se escrito em letras floreadas no toldo marfim e azul. As montras viradas para a Avenida Madison e para a Rua 84 estavam enfeitadas com flocos de neve, que conferiam um aspecto arrepiante aos vestidos leves e primaveris de seda que os manequins envergavam languidamente. Fora sua a ideia de encomendar guarda-chuvas parecidos com guarda-sóis. Gabardinas alegres, confeccionadas num dos tons do estampado do vestido, envolviam os ombros dos manequins. Neeve afirmara, brincalhona, que se tratava da sua linha «não-se-torne-cinzenta-com-a-chuva», mas a verdade é que se tornara um verdadeiro sucesso.

 

Trabalha aqui? perguntou o motorista, enquanto lhe cobrava. Parece uma loja muito cara.

 

Neeve assentiu evasivamente, enquanto pensava: «Tudo isto me pertence, meu amigo.»

 

Era algo que ainda hoje a emocionava. Seis anos antes, a loja ali existente, abrira falência. Fora um velho amigo de seu pai, o famoso costureiro Anthony della Salva que a convencera a ficar com ela.

 

Pois então és muito nova afirmara ele, com aquele forte sotaque italiano, que já fazia parte da sua personalidade, tanto melhor. Conheces o mundo da moda desde o teu primeiro emprego. E, para mais, tu possuis o instinto necessário. Eu empresto-te o dinheiro para poderes começar, e, se não resultar, posso sempre negociar o trespasse. Mas vai dar tudo certo. Tens tudo o que é preciso para seres bem sucedida. Além disso, estou a precisar de uma loja para vender a minha roupa.

 

Esta era a última coisa que Sal precisava naquele momento, e ambos o sabiam, mas Neeve sentiu-se grata.

 

Myles fora radicalmente contra ela aceitar o empréstimo de Sal, mas Neeve delirara com aquela oportunidade. Para além dos olhos e do cabelo, herdara de Renata um apurado instinto para a moda.

 

No ano anterior, acabara de saldar a sua dívida para com Sal e insistira em fazê-lo com juros iguais aos cobrados por qualquer instituição de crédito.

 

Não ficou surpreendida por encontrar Betty a trabalhar na sala de costura. Esta tinha a cabeça debruçada sobre o seu trabalho, e uma constante preocupação sulcara-lhe na testa um conjunto de rugas permanentes. As mãoss esguias e enrugadas seguravam a agulha com a perícia de um cirurgião. Estava a alinhavar a bainha difícil de uma blusa. O cabelo, espalhafatosamente pintado de cor de cobre, acentuava o tom transparente da pele do rosto. Neeve detestava pensar que ela já passara dos setenta. Não queria ter de enfrentar o dia em que ela resolvesse reformar-se.

 

Pensei que era melhor dar um avanço a isto declarou Betty. Hoje temos uma data de entregas para fazer.

 

Neeve descalçou as luvas e desapertou o cachecol.

 

E eu não sei? E Ethel Lambston insiste em ter tudo pronto esta tarde.

 

Eu sei. Tenho as coisas dela prontas para arranjar mal acabe isto aqui. Não vale a pena ter de ouvir o falatório dela se não encontrar todos os trapos prontos.

 

Deviam ser todos tão bons clientes como ela observou Neeve calmamente.

 

Betty concordou:

 

Suponho que sim. E a propósito, ainda bem que conseguiu convencer a Sr.a Yates a levar este fato. O outro que ela experimentou fazia-a parecer uma vaca no pasto.

 

Também custava mais mil e quinhentos dólares, mas eu não podia deixá-la ir com aquilo. Mais cedo ou mais tarde ela acabava por se olhar bem no espelho. O top de lantejoulas é suficiente. Ela só precisa de uma saia levemente rodada.

 

Foi surpreendente o número de clientes que enfrentou a neve e os passeios escorregadios para chegar até à loja. Duas das balconistas não tinham conseguido passar, de forma que Neeve esteve todo o dia na sala de atendimento ao público. Aquela era a parte do negócio que mais apreciava, mas no último ano obrigara-se a atender apenas algumas clientes especiais.

 

Ao meio-dia dirigiu-se ao seu gabinete, nas traseiras da loja, para comer uma sanduíche e beber um café, e telefonou para casa.

 

Myles parecia mais recomposto.

 

Podia ter ganho catorze mil dólares e uma carrinha Champion na Roda da Fortuna informou ele. Ganhava tanto que até trazia aquele dálmata de gesso, de seiscentos dólares, que eles têm a lata de chamar prémio.

 

Bom, não há dúvida que pareces muito melhor comentou Neeve.

 

Estive a falar com os rapazes. Têm agentes muito bons a seguir as pegadas de Seppetti. Dizem que ele está muito doente e não lhe resta muita força para lutar declarou Myles com satisfação.

 

E, provavelmente, também te lembraram que estão convencidos que ele nada teve a ver com a morte da mãe comentou ela, e sem esperar pela resposta concluiu:Está uma noite óptima para pasta. Há imenso molho no congelador. Tira-o, okay?

 

Neeve desligou, sentindo-se mais aliviada. Engoliu o último pedaço da sanduíche de peru, bebeu o resto do café e regressou à sala do público. Três das seis salas de prova, estavam ocupadas. Com olhar experiente verificou todos os pormenores da loja.

 

A entrada pela Avenida Madison fazia-se pela secção dos acessórios. Neeve sabia que uma das razões do seu sucesso se devia ao facto de ter ali disponíveis jóias, carteiras, sapatos, chapéus e lenços, evitando assim que uma cliente que comprasse ali o seu vestido, tivesse de percorrer uma data de lojas para adquirir os acessórios. O interior da loja estava decorado em tons de marfim, com tonalidades róseas nas cadeiras estofadas e nos sofás. As roupas desportivas e as peças soltas encontravam-se confortavelmente arrumadas em compartimentos, dois degraus acima dos expositores. À excepção dos manequins da montra, impecavelmente vestidos, não se avistava qualquer outra peça de roupa. Qualquer cliente que ali entrasse seria convidada a sentar-se, enquanto a vendedora se encarregaria de trazer fatos, vestidos ou conjuntos para serem seleccionados.

 

Fora Sal quem aconselhara Neeve a adoptar essa solução.

 

«De outra forma não escaparás à americanização da tua roupa pendurada nos cabides. Começa com exclusivos e mantém-te com exclusivos», aconselhara ele, e como de costume provara ter razão.

 

O marfim e o rosa foram os tons escolhidos por Neeve.

 

«Quando uma mulher olha para o espelho não deve ter, como pano de fundo, algo que não combine com o que eu lhe tento vender», argumentara ela, dirigindo-se ao decorador de interiores, que tentava convencê-la a optar por enormes manchas coloridas.

 

À medida que a tarde avançava, os clientes iam diminuindo. Às três horas Betty saiu do quarto de costura.

 

O material Lambston está pronto anunciou a Neeve.

 

Neeve verificou então, pessoalmente, a encomenda de Ethel Lambston. Tudo roupas de Primavera. Ethel era uma escritora sexagenária, independente, e que possuía um best-seller no seu currículo.

 

«Eu escrevo sobre tudo o que existe debaixo do sol», confidenciara, ofegante, a Neeve, no dia em que a loja fora inaugurada. «Opto sempre por uma perspectiva fresca e original, por um olhar crítico. Sou uma mulher que olha para as coisas como se nunca as tivesse visto ou, pelo menos, de um ângulo diferente. Escrevo sobre sexo, sobre qualquer tipo de relação, sobre os animais, sobre as creches, sobre as organizações, sobre o Estado, sobre o voluntariado e partidos políticos...» Por esta altura já estava sem fôlego, piscava os olhos azul-marinho e tinha o cabelo loiro e branco a cair-lhe para o rosto. «O problema é que trabalho tanto, não tenho um minuto para cuidar de mim. Se compro um vestido preto acabo por o usar com uns sapatos castanhos. Ora, aqui há de tudo. Que bela ideia! Ponha-me a condizer.»

 

Nos últimos seis anos, Ethel tornara-se uma cliente preciosa. Insistia para que fosse Neeve a escolher todos os trapos que comprava, assim como os respectivos acessórios e pedia-lhe que escrevesse uma lista do que deveria usar e com o quê. Morava no résdochão de um edifício no lado oeste da Rua 82 West, e Neeve, ocasionalmente, passava por lá para ajudar Ethel a decidir quais as roupas que deveria conservar para os anos seguintes e quais deveria pôr de lado.

 

A última vez que Neeve verificara o guarda roupa de Ethel fora três semanas antes. No dia seguinte, Ethel aparecera para adquirir roupas novas.

 

«Já estou quase a acabar aquele artigo sobre a moda que tem a tua entrevista», anunciara a Neeve. «Há muita gente que vai ficar danada comigo quando ele for publicado, mas eu vou adorar. Dei-te imensa publicidade gratuita.»

 

Ao seleccionarem a roupa divergiram apenas na escolha de um fato. Neeve pô-lo de lado.

 

«Não quero vender-lhe este. É um Gordon Steuber. Recuso-me a trabalhar com o material dele. Já o devia ter devolvido. Não suporto aquele homem!»

 

Ethel soltara uma gargalhada.

 

«Espera até leres o que eu escrevi a respeito dele. Crucifiquei-o. Mas quero esse fato. As roupas dele ficam-me bem.»

 

Agora, à medida que Neeve protegia as peças com sacos resistentes, sentiu os lábios franzirem-se ao ver o fato Steuber. Seis semanas antes, a mulher-a-dias da loja pedira-lhe para receber uma amiga em apuros. A amiga, uma mexicana, contara a Neeve que trabalhava numa loja de costura clandestina, na Bronx sul, que pertencia a Gordon Steuber.

 

«Não temos cartões verdes e ele ameaça sempre denunciar-nos. Na semana passada adoeci. Despediu-me a mim e à minha filha e não nos quer pagar o que nos deve.»

 

A jovem não aparentava mais de vinte e poucos anos.

 

«A sua filha!», exclamou Neeve. «Que idade tem ela?»

 

«14 anos.»

 

Neeve cancelou a encomenda que fizera a Gordon Steuber e mandou-lhe uma cópia do poema de Elizabeth Browning que contribuiu para alterar a lei do trabalho infantil em Inglaterra. Sublinhara a estância: «Mas as jovens tenras crianças, oh, meus irmãos, essas choram amargamente.»

 

Depois, alguém do escritório de Steuber passara a informação à Women’s Wear Daily. Os editores publicaram o poema na primeira página, ao lado da carta furiosa que Neeve escrevera a Steuber e apelava a todos os retalhistas que boicotassem qualquer fabricante que violasse a lei.

 

Anthony delle Salva mostrara-se preocupado.

 

«Neeve, consta que Steuber tinha muito mais a esconder que a simples exploração de trabalhadores. Graças ao que fizeste, os federais andam a meter o nariz nas suas declarações fiscais.»

 

«Magnífico!», retorquira Neeve. «Se também nisso ele foi ladrão, espero que o apanhem.»

 

Bom, concluiu ao pendurar o fato de Steuber na cruzeta, esta será a última peça dele a sair da minha loja. Sentia-se ansiosa por ler o artigo de Ethel. Sabia que não devia tardar em sair na Contemporary Women, a revista onde Ethel mantinha uma colaboração regular.

 

Porfim, Neeve começou a fazer a lista para Ethel; saia de seda azul para usar com a blusa de seda branca e com os acessórios da caixa A; conjunto rosa e cinzento, sapatos cinzentos, bolsa a condizer e acessórios da caixa B; vestido de cocktail negro... Ao todo somavam oito conjuntos. Com os acessórios, ficava tudo à volta de sete mil dólares. Ethel gastava essa quantia três ou quatro vezes por ano. Confidenciara-lhe um dia que estava divorciada havia vinte e dois anos, tendo recebido uma grande quantia que investira com sucesso.

 

«E recebo dele uma pensão vitalícia de algumas centenas», rira-se ela. «Na altura em que nos separámos, ele estava muito bem. Chegou a dizer ao advogado que qualquer que fosse a quantia necessária para se ver livre de mim era bem aplicada. No tribunal, chegou a afirmar que, se eu voltasse a casar, o tipo teria de ser surdo como uma porta. Talvez eu lhe tivesse dado uma chance se não fosse esta piadinha. Ele voltou a casar e tem agora três filhas, e desde que a Avenida Columbus ficou na moda ele tem passado dificuldades. De vez em quando telefona-me e pede-me para o libertar, mas eu respondo-lhe que ainda não encontrei ninguém tão surdo como uma porta.»

 

Nesse momento, Neeve esteve muito perto de sentir ódio por Ethel. Mas então esta acrescentara com amargura:

 

«Sempre quis ter uma família. Separámo-nos tinha eu trinta e sete anos, e durante os cinco anos de casados nunca me deu um filho.»

 

Neeve preocupara-se em ler os artigos de Ethel e depressa percebeu que, apesar da aparente tagarelice e das atitudes desmioladas, era na verdade uma excelente escritora. Fosse qual fosse o assunto abordado, era óbvio que efectuara uma pesquisa exaustiva sobre esse assunto. Com a ajuda da recepcionista, Neeve colocou as etiquetas nos sacos protectores. Os acessórios e os sapatos seguiam em caixas separadas e também estas tinham colados os cartões rosa e branco, com o nome «A Loja de Neeve» gravados a um canto. Por fim, com um suspiro de alívio, Neeve discou o número de casa de Ethel.

 

Não obteve resposta e verificou que Ethel deixara a máquina desligada, pelo que concluiu que a escritora não tardaria a passar pela loja, ofegante e^com um táxi à espera.

 

Às quatro já não havia clientes na loja e Neeve mandou embora o pessoal. «Maldita Ethel!», deu por si a resmungar. Também lhe apetecia ir para casa. A neve continuava a cair e àquela hora já não conseguiria arranjar um táxi que a levasse. «E agora?», perguntava-se. Então, teve uma ideia; esperaria até às seis e meia, hora a que normalmente a loja fechava, e depois entregaria pessoalmente a Ethel a sua roupa, de caminho para casa. Poderia até deixá-la com o porteiro e assim, se Ethel quisesse viajar, teria o seu guarda-roupa pronto.

 

O telefonista da companhia de táxis mostrou-se relutante em atender à sua chamada.

 

Estamos a mandar todos os carros recolher, minha senhora. As estradas estão um problema. Mas dê-me o seu nome e número de telefone.

 

Ao ouvir o nome, o tom de voz do homem imediatamente se modificou.

 

Neeve Kearny? Por que não me disse que era a filha do comissário? Pode ficar descansada, que a levamos a casa.

 

O táxi chegou faltavam vinte minutos para as sete. Atravessaram as ruas, agora quase intransitáveis, e o condutor não ficou muito satisfeito por ter de fazer aquele desvio.

 

Minha senhora, não posso estar à espera que descarregue isso tudo.

 

No apartamento de Ethel não obteve resposta e foi em vão que tocou à campainha do porteiro. Havia mais quatro apartamentos no edifício, mas não fazia ideia de quem seriam os seus ocupantes e não podia arriscar-se a deixar as roupas em mãos de desconhecidos. Por fim, rasgou uma folha da sua agenda e escreveu um recado que enfiou por debaixo da porta:

 

Tenho as suas roupas prontas. Telefone-me quando chegar.

 

Escreveu o número de telefone de casa e assinou. Depois, lutando para equilibrar os sacos e as caixas, regressou ao táxi.

 

No interior do apartamento de Ethel Lambston, uma mão estendeu-se para o bilhete que Neeve enfiara debaixo da porta. Depois de o ler, alguém o poisou, e recomeçou a busca metódica às notas de cem que Ethel regularmente escondia sob os tapetes, ou entre as almofadas do sofá. Tratava-se do dinheiro a que ela alegremente se referia como o fruto da pensão vitalícia de Seam us.

 

Myles Kearny não conseguia deixar de sentir uma preocupação crescente. A sua avó costumava ter um sexto sentido.

 

«Tenho o pressentimento», costumava anunciar, «de que vamos ter problemas.»

 

Myles lembrava-se perfeitamente de quando tinha dez anos e a sua avó recebera a fotografia de um primo irlandês. Ouvira-a gritar: «Tem a morte escrita nos olhos!» Duas horas depois o telefone tocara. O primo tinha morrido num acidente.

 

Dezassete anos atrás, Myles ignorara a ameaça de Nicky Sepetti. A mafia tinha o seu código próprio e nunca tinha perseguido as viúvas ou as crianças dos seus inimigos. E, então, Renata fora assassinada. Às três horas da tarde, ao passar em Central Park para ir buscar Neeve à Academia do Sagrado Coração, fora assassinada. Era um dia de Novembro frio e ventoso. O parque encontrava-se deserto. Não ficara nenhuma testemunha para dizer quem esperava por Renata e a obrigara a desviar-se do seu caminho até à zona traseira do museu.

 

Ele encontrava-se no seu escritório, quando o director do Sagrado Coração lhe telefonou, passavam trinta minutos das quatro. A Sr.a Kearny não aparecera para levar Neeve. Já tinham telefonado para casa, mas ninguém atendia. Tinha acontecido alguma coisa? Ao desligar o telefone, Myles sentia-se esmagado pela certeza de que algo terrível acontecera a Renata. Dez minutos depois a polícia efectuava uma busca em Central Park. I ajá a meio caminho, quando recebeu a comunicação de que o corpo fora encontrado.

 

Ao chegar ao parque um cordão de polícias afastava os curiosos e os sensacionalistas. A imprensa já lá estava. Lembrava-se como os flashes o tinham cegado, enquanto se dirigia para o local onde jazia o corpo dela. Herb Schwartz, o seu adjunto, já ali se encontrava.

 

«Não olhes para ela agora, Myles», rogara-lhe.

 

Repelira o braço de Herb, ajoelhara no solo gelado e afastara o lenço com que a tinham tapado. Parecia adormecida. O rosto continuava lindo no seu repouso final, sem aquela expressão de terror que tantas vezes vira estampada no rosto das vítimas de assassínio. Tinha os olhos fechados. Tê-los-ia ela fechado no derradeiro momento, ou teria sido Herb? No início pareceu-lhe que ela trazia um lenço vermelho. Ilusão. Apesar de ser um profissional experiente na observação de vítimas, sentiu que naquele momento o seu profissionalismo o abandonava. Recusava-se a concluir que alguém cortara a garganta da sua esposa até à veia jugular, rasgando-lhe o pescoço. A gola do casaco branco que ela usava, tornara-se carmesim devido ao sangue. O capuz escorregara-lhe e o rosto aparecia emoldurado pela massa de cabelo negro e liso. O vermelho das calças de esqui; o vermelho do sangue; o casaco branco e a neve endurecida onde estava estendida mesmo morta, parecia ter saído de uma revista de moda.

 

Queria apertá-la contra si, enchê-la de vida, mas sabia que não podia mexer-lhe. Contentou-se em beijar-lhe as faces, os olhos e os lábios. A mão roçou-lhe o pescoço, ficando manchada de sangue e ele pensou: «O sangue nos juntou, o sangue nos separa agora.»

 

Tinha 21 anos e fazia a recruta na Polícia, no dia de Pearl Harbour. Na manhã seguinte alistava-se no exército. Três anos depois encontrava-se com o 59 Exército de Mark Clark, na frente de batalha, em Itália. Avançavam de cidade em cidade. Em Pontici entrara numa igreja aparentemente vazia. No momento seguinte ouvia uma explosão e o sangue jorrara-lhe da testa. Olhou em volta e viu um soldado alemão acocorado junto ao altar, perto da sacristia. Ainda conseguiu alvejá-lo antes de desmaiar.

 

Veio a si, sentindo o contacto de uma pequena mão que o abanava.

 

«Venha comigo», murmurou-lhe uma voz ao ouvido, num inglês com forte sotaque.

 

Mal conseguia pensar devido às ondas de dor que lhe avassalavam a cabeça. Sentia os olhos cobertos de sangue seco. Cá fora estava escuro como breu. Os sons do tiroteio chegavam-lhe distantes, vindos da esquerda. A garota, pois percebera que se tratava de uma criança, conduzia-o através dos becos desertos. Lembrava-se de se ter perguntado para onde iria ela conduzi-lo, e por que razão se encontrava ali sozinha. Ouviu o som das suas botas de combate subindo uns degraus de pedra, o ranger de um portão ferrugento e o som de uma conversa sussurrada da criança explicando-se rapidamente. Agora falava em italiano. Não entendia o que ela dizia. Depois, sentira um braço a segurá-lo e a sensação de que alguém o deitara. Desmaiava e acordava, consciente de umas mãos suaves lavando-lhe e ligando-lhe a cabeça. A sua primeira recordação nítida era a do médico militar examinando-o.

 

«Não sabe a sorte que teve!», dissera-lhe. «Eles ontem fizeram-nos recuar e os que não conseguiram safar-se, não tiveram a sua sorte.»

 

Terminada a guerra, Myles aproveitara as garantias concedidas aos membros das Forças Armadas e ingressara na universidade. A escola de Fordham Rose Hill distava apenas alguns quilómetros do sítio onde crescera, na Bronx. O pai, capitão da Polícia, mostrara-se céptico.

 

«Só conseguimos que concluísses o liceu», comentara. «Não que te faltasse cabeça para mais, mas nunca foste muito de enfiar o nariz nos livros.»

 

Quatro anos mais tarde, depois de se ter graduado com distinção, Myles mudou-se para a Faculdade de Direito. O pai ficara deliciado, no entanto, avisara-o:

 

«Mesmo lá dentro, continuas a ser um polícia. Não te esqueças disso depois de tirares todos esses cursos.»

 

A faculdade de Direito; o departamento do promotor de Justiça; a prática privada. Fora aí que descobriu ser fácil a um bom advogado safar um réu culpado. Não tinha estômago para o fazer. Delirou então com a hipótese de se tornar ele próprio procurador público.

 

Estavam em 1958 e tinha 37 anos. Durante todo aquele tempo saíra com imensas raparigas e vira-as casar umas atrás das outras. Mas sempre que, em alguma ocasião, se sentia tentado a fazê-lo também, uma voz sussurrava-lhe ao ouvido: «Há melhor que isto. Dá tempo ao tempo.»

 

E a vontade de voltar para a Itália era cada vez maior.

 

«Ser alvo de balas não é a melhor maneira de fazer turismo na Europa», concluíra a mãe, quando um dia ao jantar lhe falou no seu desejo. «Por que não procuras aquela família que te acolheu em Pontiac? Duvido que na altura estivesses em condições de lhes agradecer convenientemente.»

 

Ainda hoje se sentia grato por aquela sugestão, pois quando lhes batera à porta, foi Renata quem veio abrir. Ela tinha nessa altura vinte e três anos e não dez. Era alta e esguia, de tal forma que a diferença de altura entre os dois era pouca. Renata que, inacreditavelmente, lhe dissera:

 

«Eu sei quem tu és. Fui eu que te trouxe para casa naquela noite.»

 

«Como é possível que te lembres?!», perguntou ele.

 

«O meu pai tirou-nos uma fotografia antes de te levarem. Guardei-a sempre na minha cómoda.»

 

Três semanas depois estavam casados. Os onze anos que se seguiram tinham sido os mais felizes da sua vida.

 

Myles aproximou-se da janela e olhou para fora. Tecnicamente, a Primavera já tinha começado na semana anterior, mas alguém se esquecera de avisar a mãe natureza. Esforçou-se por não pensar o quanto Renata apreciava caminhar sobre a neve.

 

Levantou a chávena de café, o prato da salada e colocou-os na máquina de lavar-louça. «Se todo o atum do mundo subitamente desaparecesse, que comeriam todos aqueles que faziam dieta?», perguntou-se. Talvez voltassem a comer aqueles bons e suculentos hamburgers. Só de pensar nisso sentia água a crescer-lhe na boca. Foi então que se lembrou de descongelar o molho para a pasta.

 

Às seis horas começou a preparar o jantar. Do frigorífico retirou os ingredientes para a salada e com as mãos experientes partiu a alface, pisou a cebolinha, cortou os pimentos verdes em lâminas finas. Inconscientemente sorriu, lembrando-se como pensara que uma salada se resumia à junção de tomate, alface e maionese. A sua mãe fora uma mulher maravilhosa, mas nunca tivera grande vocação para a cozinha. Cozinhava sempre a carne até que todos os germes morressem, de modo que a carne de porco e o bife ficavam sempre suficientemente secos e rijos para serem serrados em vez de cortados.

 

Fora Renata quem o sensibilizara para as delícias do paladar mais subtil, apresentando-lhe as alegrias da pasta, a delicadeza do salmão, as saladas picantes com um toque de alho. Neeve herdara o talento culinário da mãe, mas Myles admitia intimamente que, com o tempo, aprendera a fazer na perfeição «uma salada bestial».

 

Às sete menos dez começou a preocupar-se realmente com a demora de Neeve. Provavelmente, não haveria muitos táxis disponíveis. «Meu Deus, não deixeis que ela atravesse o parque numa noite destas!» Tentou telefonar para a loja, mas não obteve resposta. Na altura em que ela entrou em casa, carregada de roupa e equilibrando as caixas, estava pronto para ligar para a esquadra e pedir a uma brigada para revistar o parque à procura dela. Mordeu os lábios para não o admitir.

 

De forma que, ao ajudá-la com as caixas, conseguiu aparentar surpresa:

 

Estamos de novo no Natal? perguntou. Para Neeve, da Neeve, com amor? Gastaste os lucros de hoje contigo?

 

Não sejas tão espertinho, Mylesretorquiu Neeve, cansada. Digo-te que Ethel Lambston pode ser uma boa cliente, mas é igualmente uma grandessíssima chata. E enquanto deixava cair as caixas em cima do sofá contou-lhe a sua tentativa frustrada de entregar a roupa nova de Ethel.

 

Myles parecia assustado.

 

Ethel Lambston! Não é aquela chata que trouxeste para a festa do Natal?

 

Essa toda.

 

Obedecendo a um impulso, Neeve convidara Ethel para a festa de Natal anual que ela e Myles organizavam no seu apartamento. Depois de encostar o bispo Stanton à parede e de explicar por que razão a Igreja Católica deixara de ser importante no século xx, Ethel percebeu que Myles era viúvo e a partir daí nunca mais o largou.

 

Nem que tenhas de acampar à porta dessa mulher nos próximos dois anosavisou MylesNão a deixes tornar a pôr os pés dentro desta casa.

 

Danny Adler achava que não valia a pena partir o pescoço nas entregas que fazia, em troca do ordenado mínimo mais gorjetas, que recebia na loja da Rua 85 Este de Lexington. Só que Denny tinha um problema; encontrava-se em liberdade condicional. O agente que se encarregava dele, Mike Toohey, era um porco que disfrutava da autoridade que o estado de Nova Iorque lhe tinha conferido sobre a sua pessoa. Denny sabia que, se não tivesse um emprego, não poderia gastar um tostão, sem que Toohey lhe viesse perguntar de onde lhe vinham os rendimentos. Assim, arranjara um emprego e odiava cada minuto que lá passava.

 

Alugara um quarto sombrio, num antro infestado, entre a 1 Avenida e a Rua 105. O que o oficial ignorava, era que a maior parte do tempo livre de Denny, era passado a mendigar pelas ruas. Quase todos os dias mudava de disfarce ou de lugar. Umas vezes vestia-se de mendigo, usava roupas imundas, sapatilhas esfarrapadas e sujava o rosto e o cabelo, aninhava-se contra a parede de um edifício segurando um cartão onde se lia:Ajudem-me! Tenho fome!

 

Era um dos melhores golpes.

 

Outras vezes envergava fardas desbotadas, punha uma peruca grisalha, uns óculos escuros, pegava numa bengala e pendurava outro letreiro no casaco: Veterano sem lar. O boné poisado a seus pés rapidamente se enchia de moedas.

 

Era assim que Denny conseguia uma grande quantidade de trocos. Nada que se comparasse à emoção de planear um golpe verdadeiro, mas desta forma mantinha-se ocupado. Apenas uma ou duas vezes sucumbira à necessidade de abater alguém. Mas os chuis não ligavam quando um bêbedo ou um vagabundo aparecia espancado ou apunhalado, de maneira que não corria grandes riscos.

 

O período de liberdade condicional terminaria dali a três meses. Nessa altura, poderia desaparecer e decidir onde centrar a sua acção. Até o agente andava mais descontraído. No sábado de manhã, Toohey telefonou-lhe para a loja. Denny podia imaginá-lo pendurado em cima da secretária do seu gabinete miserável.

 

Estive a falar com o teu patrão, Denny. Ele disse que és um dos melhores funcionários.

 

Obrigado, senhor.

 

Se Denny estivesse frente à secretária de Toohey, teria torcido as mãos numa atitude de gratidão e nervosismo. Os olhos ficariam húmidos e sem expressão e nos lábios estreitos desenhar-se-ia um sorriso ansioso. Em vez disso, murmurou uma obscenidade para o telefone.

 

Denny, ficas dispensado de te apresentares na segunda-feira. Tenho uma agenda muito sobrecarregada e em ti, eu sei que posso confiar. Vemo-nos na próxima semana.

 

Sim, senhor respondeu Denny, desligando o telefone. Um sorriso, que mais parecia uma careta, acentuou os vincos sob os ossos do rosto salientes. Metade dos seus trinta e sete anos de vida passara-os sob custódia, a partir do seu primeiro assalto, tinha então doze. Ficara-lhe gravado na pele o tom pálido e cinzento adquirido na prisão.

 

Olhou à sua volta para as mesas e cadeiras de ferro da geladaria, enjoativamente bonitas, para o balcão de formica branca, para os anúncios do almoço do dia, para os clientes habituais, bem vestidos e mergulhados na leitura dos seus jornais, enquanto comiam a sua francesinha ou os flocos de cereais. Tinha já decidido o que gostaria de fazer àquilo tudo, quando foi interrompido nas suas reflexões por um grito do gerente:

 

Ei, Adler, vê se te mexes! Estas encomendas não têm pés.

 

Sim, senhor.

 

Aqueles «sim, senhor» tinham os dias contados, pensava Denny ao mesmo tempo que pegava no casaco e nas caixas de cartão.

 

Ao regressar à loja, o gerente acabava de atender o telefone. Olhou para Denny com a sua habitual expressão azeda.

 

Eu disse-te que não queria chamadas pessoais durante o expediente. E, dizendo isto, atirou o auscultador a Denny.

 

A única pessoa que lhe telefonava para ali era Mike Toohey. Denny resmungou o seu nome e ouviu um roufenho:

 

Olá, Denny.

 

Imediatamente reconheceu aquela voz. O Grande Charles Santino. Dez anos antes, Denny partilhara uma cela em Attica com o Grande Charley e, de tempos a tempos, fizera-lhe uns trabalhinhos. Sabia que Charley estava ligado a alguns bandos importantes.

 

Denny ignorou a expressão do gerente, que parecia dizer-lhe «despacha-te lá com isso». No balcão restavam apenas dois clientes. As mesas estavam vazias. Tinha a agradável certeza de que, fosse qual fosse o assunto de Charley, seria interessante. Automaticamente, virou-se para a parede e, rodeando o bocal com a mão, respondeu:

 

Sim?

 

Amanhã. Às onze. No Parque Bryant, atrás da biblioteca. Aguarda um Chevy negro, de 84.

 

Denny nem se apercebeu que sorria abertamente, quando o clique lhe indicou que a ligação fora cortada.

 

Durante o fim-de-semana a neve manteve-se, e Seamus Lambston vagueou sozinho pelo apartamento onde morava com a família, entre a Rua 71 e a Avenida West End. Na sexta-feira à tarde telefonara ao seu empregado:

 

Estou doente. Diz ao Matty para se desenrascar até segunda-feira. Dormiu a noite de sexta um sono pesado, próprio do desgaste emocional, mas no sábado ao acordar sentia um pavor intenso.

 

Ruth partira na terça-feira para Boston e só regressaria no domingo. Jeannie, a filha mais nova, era caloira na Universidade de Massachussetts. O cheque que Seamus passara, para pagar o primeiro semestre fora devolvido. Ruth conseguira então um empréstimo de emergência no escritório e apressara-se a ir repor o dinheiro. Depois da chamada desgostosa de Jeannie, seguira-se uma discussão que devia ter sido ouvida nos cinco quarteirões mais próximos.

 

Caramba, Ruth, eu faço o que posso gritava ele. O negócio vai mal. Com três filhas na universidade será que a culpa é minha se estamos a ver o fundo à panela? Pensas que o dinheiro me nasce?

 

Enfrentaram-se assustados, exaustos, desesperados. Ele sentira-se envergonhado pelo desprezo com que ela o olhara. Sabia que não tinha envelhecido da melhor forma. Contava 62 anos. A figura outrora alta, fora-se moldando às noitadas e aos bancos de bar. Agora, a barriga estava cada vez mais saliente, o cabelo espesso e cor de areia tornara-se cada vez mais fraco e de um amarelo-sujo, e os óculos que usava para ler, salientavam-lhe o rosto balofo.

 

Por vezes, via-se ao espelho e recordava o dia do seu casamento com Ruth. Ambos elegantes nos seus fatos, ambos perto dos quarenta, ambos casando-se pela segunda vez, felizes, desejando-se avidamente. O bar ia lindamente e embora o tivesse hipotecado estava certo de poder recuperar em dois anos. A personalidade calma e ordenada de Ruth parecera-lhe divina, após uma vida a dois com Ethel.

 

«A minha paz merece qualquer quantia que eu tenha de gastar», afirmara ao advogado quando este discordara da pensão vitalícia.

 

Fora uma alegria quando Marcy nasceu. Inesperadamente, dois anos depois, nascia Linda. E fora um choque quando Jeannie apareceu, tinham eles quarenta e cinco anos.

 

O corpo esguio de Ruth tornara-se grosseiro e à medida que a renda do bar dobrara e triplicara e os antigos clientes se mudavam, o rosto dela, outrora sereno, transfigurava-se devido à constante preocupação. Ela queria dar tanto às filhas! Tantas coisas que eles não podiam dar.

 

Por vezes ele perguntava:

 

«Que mal há em dar-lhes um lar feliz e seguro, em vez de uma data de porcarias?!»

 

Aqueles últimos anos, com as despesas da universidade, tinham sido alucinantes. O dinheiro não chegava. E os mil dólares mensais que enviava a Ethel, até que esta se casasse ou morresse, tinham-se tornado um cavalo de batalha para Ruth, que constantemente o massacrava.

 

«Por amor de Deus, volta ao tribunal», rogava ela. «Diz ao juiz que não podes suportar a educação das tuas filhas e que aquela parasita tem ganho uma fortuna. Ela não precisa do teu dinheiro. Ela tem mais do que precisa.»

 

Na semana anterior fora a pior briga de sempre. Ruth lera no Post que Ethel acabara de assinar um contrato para um livro, pelo qual recebera meio milhão de dólares. Seguia-se uma citação da própria Ethel, que afirmava que o dito livro seria «uma bomba de dinamite lançada no mundo da alta costura».

 

Para Ruth fora a gota de água. Isso e o cheque devolvido.

 

«Vais falar com aquela... aquela...», Ruth nunca praguejava, mas a palavra omitida ficara bem expressa. «Vais dizer-lhe que eu vou contar à imprensa a maneira como ela te tem sugado. Doze mil dólares por ano durante vinte anos!» A voz de Ruth esganiçara-se ao pronunciar cada sílaba. «Eu quero deixar de trabalhar. Tenho 62 anos. Da próxima serão os casamentos. E nós vamos para a cova com a corda à volta do pescoço. Vais dizer-lhe que ela será famosa, sim senhora. Não achas que qualquer editor condenará uma escritora feminista que faz chantagem com o ex-marido?»

 

«Não é chantagem. É uma pensão», tentara explicar-lhe. «Mas está bem. Eu vou falar com ela.»

 

Ruth deveria regressar no domingo ao fim da tarde. No domingo de manhã, Seamus libertou-se daquela letargia e começou a limpar o apartamento. Dois anos atrás tinham dispensado a mulher-a-dias, que, uma vez por semana, fazia a limpeza. Agora dividiam as tarefas e Ruth nunca parava de se lamuriar:

 

«Era mesmo disto que eu precisava depois de uma semana arrasante na

7 Avenida. Passar o fim-de-semana agarrada a um aspirador!»

 

Finalmente, na semana anterior, desatara a chorar.

 

«Sinto-me tão cansada!»

 

Às quatro da tarde, o apartamento encontrava-se limpo. Precisava de ser pintado. O linóleo da cozinha já estava velho e gasto. O prédio passara a propriedade horizontal, mas eles não tinham podido comprar a casa. Vinte anos de trabalho e nada tinham conseguido a não ser uma data de contas para pagar.

 

Seamus colocou queijo e vinho na mesa da sala de estar. A mobília estava gasta e feia, mas à luz macia do entardecer não parecia tão velha. Dali a três anos, Jeannie acabaria o curso. Marcy estava no último ano. Linda no penúltimo.

 

«Estás a desejar que a tua vida passe depressa», pensou ele.

 

Quanto mais se aproximava a hora de Ruth chegar, mais as mãos lhe tremiam. Notar-lhe-ia ela a diferença?

 

Ruth chegou eram cinco e um quarto.

 

O trânsito está terrível! anunciou ela com voz queixosa.

 

Entregaste o cheque e explicaste o que aconteceu? perguntou ele, tentando ignorar o tom de voz «vamos resolver tudo agora».

 

Claro que sim. E deixa-me dizer-te que o tesoureiro ficou chocado quando lhe falei na pensão que pagas a Ethel Lambston todos os meses. Tiveram lá a Ethel a fazer um seminário sobre o direito da mulher a salários iguais.

 

Ruth aceitou o copo de vinho que ele lhe estendeu e sorveu um grande golo.

 

Sentiu um choque ao perceber que, de algumaforma, ela adquirira o hábito de Ethel, em lamber os lábios depois de proferir uma frase zangada. Seria verdade que, afinal, acabamos sempre por casar com o mesmo tipo de pessoas? Este pensamento quase o fez soltar uma gargalhada histérica.

 

Bem, vamos ao que interessa. Foste vê-la? atacou ela.

 

Uma grande calma apoderou-se de Seamus. A recordação da cena final.

 

Sim, fui.

 

E...

 

Ele escolheu as palavras cuidadosamente.

 

Tinhas razão. Ela não quer que venha a saber-se que tem recebido uma pensão minha durante estes anos todos. Vai deixar-nos em paz.

 

Ruth poisou o copo de vinho com o rosto transfigurado.

 

Não acredito. Como conseguiste convencê-la?

 

O riso trocista e escarninho de Ethel em resposta às suas ameaças e súplicas. A onda de fúria que o assolara, o olhar dela aterrorizado... A última ameaça... «Oh Deus...»

 

Agora sempre que Ethel comprar as suas preciosas roupas a Neeve Kearny e comer nos melhores restaurantes, não será com o teu dinheiro!

 

O riso triunfante de Ruth zumbia-lhe nos ouvidos, enquanto as palavras dela lhe penetravam no consciente. Seamus poisou o copo de vinho.

 

Como sabes isso? perguntou calmamente à mulher.

 

No sábado de manhã já não nevava e as ruas encontravam-se mais desimpedidas. Neeve levou novamente a roupa de Ethel para a loja. Betty apressou-se a vir em seu auxílio.

 

Não me diga que ela não gostou de nada?!

 

Como posso eu saber? respondeu Neeve. Nem sombra dela no apartamento. Sinceramente, Betty, quando penso na maneira como trabalhámos, apetece-me pendurar-lhe ao pescoço estes trapos todos.

 

Foi um dia movimentado. Tinham publicado um anúncio no Times mostrando os vestidos estampados e as gabardinas e a resposta fora entusiástica. Os olhos de Neeve brilhavam ao ver as empregadas preenchendo os talões de vendas. De novo abençoou Sal por a ter entusiasmado, seis anos antes.

 

Eram duas horas quando Eugenia, uma ex-modelo negra que se tornara o seu braço direito, lhe lembrou que nem sequer parara para almoçar.

 

Tenho um iogurte no frigorífico ofereceu.

 

Neeve acabara de ajudar uma das suas clientes especiais a escolher um fato de quatro mil dólares para o casamento da filha. Dirigiu-lhe um sorriso breve e respondeu:

 

Sabes que odeio iogurte. Manda-me vir uma sanduíche de atum e uma coca-cola diet, okay?

 

Dez minutos depois, ao receber a entrega no escritório, percebeu que estava esfomeada.

 

A melhor salada de atum de toda a cidade, Denny comentou para o homem da entrega.

 

Se a senhora o diz, Miss Kearny...

 

A face pálida dele iluminou-se num sorriso sedutor.

 

Enquanto comia, Neeve discou o número de Ethel. De novo não obteve resposta. Durante a tarde a recepcionista continuou a tentar encontrá-la. Ao fim da tarde, Neeve comentou para Betty:

 

Vou levar outra vez isto tudo para casa. A verdade, é que não estou para estragar o meu domingo e ter de voltar cá, só porque Ethel decidiu que tem um avião para apanhar e precisa de tudo em dez minutos.

 

Conhecendo-a como conheço, ela obrigaria o avião a voltar para trás, caso o perdesse comentou Betty.

 

Ambas se riram e então Betty acrescentou:

 

Sabe como são aqueles pressentimentos estranhos que às vezes sentimos, Neeve? Juro que estou impressionada. Chata como é, a verdade é que Ethel nunca antes nos fez isto.

 

No sábado à noite, Neeve e Myles foram ao Metropolitan ouvir Pavarotti.

 

Devias sair com alguém afirmou Myles quando o empregado do Ginger Man lhes entregou as ementas para a ceia, depois do espectáculo.

 

Neeve olhou-o e respondeu:

 

Olha lá, Myles, eu saio imenso, tu bem sabes. Quando me aparecer alguém especial eu vou dar conta, tal como tu e a mãe também deram. Agora, por que não me pedes um scrampi de camarão?

 

Ao domingo, normalmente, Myles assistia à missa da manhã. Neeve gostava de dormir até tarde e, por isso, preferia a Missa Pontifica na catedral. Quando se levantou, ficou espantada por encontrar Myles na cozinha de roupão.

 

Renegaste o culto? perguntou ela.

 

Não. Hoje, pensei em ir contigo respondeu ele, tentando parecer casual.

 

Terá isso alguma coisa a ver com a saída de Nicky Seppeti da prisão? perguntou Neeve com um suspiro. Nem te incomodes a responder.

 

Depois da missa resolveram comer qualquer coisa no Café dês Artistes e depois assistiriam a um filme num cinema ali perto.

 

De regresso a casa, Neeve marcou de novo o número de Ethel Lambston, deixando o telefone tocar meia dúzia de vezes. Por fim, encolheu os ombros e desafiou Myles para o concurso semanal ao puzzle do Times.

 

O que se chama um dia amoroso e sem contratempos comentou Neeve, inclinando-se sobre a cadeira de Myles para lhe beijar a cabeça, após o noticiário das onze. Lendo-lhe no rosto os pensamentos, apressou-se a acrescentar: Não digas nada.

 

Myles mordeu os lábios. Sabia que ela tinha razão. Estivera prestes a pedir-lhe:

 

Mesmo que amanhã esteja bom tempo, gostava que não saísses sozinha.

 

O tocar insistente do telefone de Ethel Lambston não passou despercebido.

 

Douglas Brown, o sobrinho de Ethel, de 28 anos de idade, mudara-se para ali na sexta-feira à tarde. Ainda hesitou em correr aquele risco, mas sabia que poderia provar não ter outra alternativa, depois de ser expulso do seu aluguer ilegal.

 

Eu só precisava de um sítio para dormir até encontrar um novo piso.

 

Seria esta a sua desculpa.

 

Calculou que seria melhor não atender o telefone. O toque persistente irritava-o, mas não queria denunciar a sua presença ali. E Ethel não quereria que ele atendesse o telefone.

 

Não é da tua conta quem me telefonadissera-lhe uma vez. Aos outros deveria dizer o mesmo.

 

Estava certo de ter tomado a decisão correcta em não atender a campainha da porta na noite de sexta. O recado que deslizara por debaixo da porta até ao sofá dizia respeito à encomenda de roupa de Ethel.

 

Dong sorriu desagradavelmente. Devia ser aquela a tarefa que Ethel lhe reservara.

 

No domingo de manhã, Denny Adler esperava, impaciente, sentindo o vento cortante e frio. Precisamente às onze horas viu um Chevy negro aproximar-se. Em passos largos apressou-se a sair do abrigo que o parque lhe proporcionava e avançou para a estrada. O carro encostou, e Denny, abrindo a porta lateral, deslizou para dentro.

 

Ainda não tinha fechado a porta, já o carro retomara o andamento.

 

Ao longo dos anos que se seguiram a Attica, Big Charley engordara e tornara-se grisalho. A barriga salientava-se entre as dobras do tronco. Denny disse-lhe «olá» sem esperar uma resposta. Big Charley baixou a cabeça.

 

O carro avançou lentamente pela Rodovia Henry Hudson e atravessou a Ponte George Washington. Charley virou então pela Palisade Interstate. Denny constatou que, enquanto que em Nova Iorque a neve estava mole e suja, a que ali rodeava a rodovia continuava branca. «Nova Jérsia, o jardim do estado», pensou com ironia.

 

Passada a saída três, chegaram a um miradouro dedicado àqueles que, segundo Denny, não encontravam mais nada para fazer a não ser olhar para Nova Iorque e para a paisagem do outro lado do Hudson. Denny não ficou surpreendido quando Charley encostou no parque de estacionamento deserto. Já ali tinham tratado de outros negócios.

 

Charles desligou a ignição e recostou-se no assento gemendo, devido ao esforço de se esticar. Puxou de um saco de papel contendo duas latas de cerveja e pousouo no meio dos dois.

 

É a tua marca. Denny ficou satisfeito.

 

Simpático teres-te lembrado, Charley. E abriu a lata de Coors.

 

Charley sorveu um grande golo da sua lata antes de continuar.

 

Eu nunca me esqueço de nada. E retirando um sobrescrito do bolso interior acrescentou:Dez mil e outro tanto quando o trabalho estiver feito.

 

Denny aceitou o sobrescrito e acariciou-o sensualmente.

 

Quem é?

 

Já lhe levaste o almoço algumas vezes. Ela mora no edifício Schwab, um edifício grande na 14.-, entre o West End e o Riverside Drive. Normalmente, vai e vem a pé durante a semana. Costuma cortar em Central Park. Tira-lhe a carteira e despeja-lha. Esvazias-lhe o porta-moedas e despejas-lhe a mala para que pareça um assalto. Se não conseguires apanhá-la no parque, podes fazê-lo mesmo na zona das confecções. Ela vai lá todas as semanas à tarde. São ruas cheias de gente. Camiões estacionados em duas filas. Passa-lhe ao lado e empurra-a para debaixo de um camião. Vai com calma. Tem de parecer um acidente ou um assalto. Segue-a, mas veste um daqueles teus disfarces. A voz de Big Charley era grossa e gutural como se os anéis de gordura à volta do pescoço lhe apertassem as cordas vocais.

 

Para Charley fora um discurso muito longo. Bebeu outro trago de cerveja.

 

Denny começava a sentir-se pouco à vontade.

 

Quem é?

 

Neeve Kearny.

 

Denny empurrou o sobrescrito na direcção de Charley como se este lhe queimasse as pontas dos dedos.

 

A filha do comissário da Polícia? Estás doido?

 

A filha do ex-comissário.

 

Denny sentia o suor escorrer-lhe pela testa.

 

Kearny esteve no activo durante dezasseis anos. Não há nenhum chui nesta cidade que hesite em arriscar a vida por ele. Quando a mulher dele morreu nem o mais miserável dos ladrões deixaram em paz. Nem penses nisso!

 

A mudança na expressão de Big Charley foi quase imperceptível, mas a voz continuava gutural e monocórdica.

 

Denny, já te tinha dito que eu nunca esqueço. Lembras-te daquelas noites em Attica quando te gabavas dos teus trabalhinhos e contavas como os fazias? Só preciso de fazer um telefonemazinho anónimo para os chuis e nunca mais poderás gabar-te, nem sequer de que entregaste uma sanduíche. Não me obrigues a tornar-me um defensor da lei, Denny.

 

Denny ponderou e lembrando-se do que dissera, amaldiçoou a sua grande língua. Pegou novamente no sobrescrito e pensou em Neeve Kearny. Havia quase um ano que fazia entregas na loja dela. No início era a recepcionista que ficava com o embrulho, mas, ultimamente, já subia directamente ao gabinete dela. E mesmo quando Neeve se encontrava ao telefone nunca deixava de lhe acenar e sorrir, um sorriso verdadeiro, não um daqueles esgares snobs de lábios franzidos, que a maioria dos seus clientes lhe dirigia. E dizia-lhe sempre que estava tudo delicioso.

 

E não havia dúvida de que era uma mulher muito bonita.

 

Denny afastou aquela onda de sentimentalismo. Era um trabalho que tinha de fazer. Charley não o entregaria à polícia e ambos o sabiam. Ficara a saber de mais sobre o contrato e isso tornava-o perigoso. Recusar, significava não conseguir sequer voltar a passar a ponte George Washington.

 

Embolsou o dinheiro.

 

Assim está melhor comentou Charley. Qual é o teu horário na loja?

 

Das nove às seis. Folgo às segundas.

 

Ela sai para o trabalho entre as oito e meia e as nove. Começa a rondar-lhe o apartamento. A loja fecha às seis e meia. Lembra-te que não deves agir precipitadamente. Não podem ficar a pensar que se tratou de um golpe deliberado.

 

Big Charley pôs o carro a trabalhar e regressaram a Nova Iorque. De novo retomou o seu mutismo habitual, quebrado apenas pela sua respiração arfante. Denny sentia-se incontrolavelmente curioso. Quando Charley virou em West Side e entrou na Rua 57, Denny perguntou:

 

Charley, fazes ideia de quem encomendou este trabalho? Ela não parece capaz de se atravessar no caminho de alguém. Seppeti foi libertado. Parece que continua com boa memória.

 

Sentiu o olhar zangado que o outro lhe dirigiu. A voz gutural tornou-se clara e as palavras caíram como pedras:

 

Estás a tornar-te descuidado, Denny. Não sei quem a quer despachar. O gajo que me contactou não sabe. O que o contactou a ele, não sabe. É assim que tudo funciona e ninguém faz perguntas. És um vadio sem eira nem beira, Denny, e há coisas que não são da tua conta. Agora, pira-te!

 

O carro parou abruptamente na esquina da Avenida 80 com a Rua 57. Denny abriu a porta hesitante:

 

Charley, desculpa balbuciou. Foi só porque...

 

O vento entrava pela porta aberta e fustigava o interior do carro.

 

Cala-te e vê lá se o trabalho fica bem feito!

 

Um segundo depois, Denny já só via a traseira do Chevy de Charley afastando-se pela Rua 57. Caminhando em direcção ao Circle Columbus, parou para comprar um cachorro e uma coca. Acabou de comer e limpou a boca com as costas das mãos. Começava a sentir-se mais calmo. Com os dedos, acariciou o sobrescrito volumoso no bolso interior do casaco.

 

«O melhor é começar a merecer o que ganho», comentou para si. Pondo-se a caminho da Broadway, tentou localizar a Rua 74 e a Avenida West End.

 

Ao chegar ao Edifício Schwab, vagueou casualmente pelo quarteirão, descobrindo a outra entrada virada para Riverside. Ela nunca a utilizaria. A que dava para a Avenida West End era muito mais conveniente.

 

Satisfeito, atravessou a rua e encostou-se ao edifício directamente oposto ao Edifício Schwab, decidindo que se tratava de um posto de vigia óptimo. A seu lado, uma porta abriu-se e um grupo de residentes saiu. Não queria ser notado, de forma que avançou casualmente, pensando que o seu disfarce de bêbedo fá-lo-ia passar despercebido quando seguisse Neeve Kearny.

 

Às duas e trinta, ao atravessar a cidade em direcção à zona leste, deparou com uma fila de pessoas esperando a sua vez de comprar bilhetes para o cinema. Abriu os olhos estreitos. A meio da fila.encontrava-se Neeve Kearny, ao lado de um homem de cabelos brancos, cujo rosto Denny imediatamente reconheceu. Era o pai dela. Enterrou a cabeça entre os ombros e afastou-se apressado. «E nem sequer tentara encontrá-la!», pensou Denny. «Afinal, vai ser um golpe de caras!»

 

Na segunda-feira de manhã, encontrava-se Neeve no átrio transportando mais uma vez a roupa de Ethel, quando Tse-Tse, uma actriz de 23 anos, emergiu ofegante do elevador. O cabelo loiro encaracolado já fora um PhyllisDiller. Amaquilhagem nos olhos era de tom púrpura violento. A pequena e bonita boca delineava-se num arco de boneca. Tse-Tse, nascida Mary Margaret MacBride, «adivinha em homenagem a quem?», como explicara a Neeve, não tinha dificuldade em arranjar papéis em produções da Broadway de qualidade muito duvidosa, a maior parte das quais não se aguentavam em cima mais de uma semana.

 

Neeve fora vê-la por diversas vezes e ficara espantada com a representação de Tse-Tse; movia um ombro, torcia um lábio, mudava de pose e tornava-se literalmente uma outra pessoa. Possuía um excelente ouvido para sotaques e a sua voz moldava-se desde o tom agudo de uma Butterfly McQueen, ao tom grave e enrolado de Laureen Bacall. Partilhava o seu estúdio, no Edifício Schwab, com outra aspirante a actriz. Para reforçar os magros recursos da sua família, dedicava-se aos trabalhos mais bizarros, embora ultimamente tivesse trocado o lugar de garçonete e de passeadora de cães, pelo de mulher-a-dias.

 

«Cinquenta notas em quatro horas e não tens de andar a reboque de um miserável escava-poços», explicara ela a Neeve.

 

Esta aconselhara-a então a Ethel Lambston e sabia que Tse-Tse lhe dava algumas horas por mês. Assim, olhava-a agora como uma mensageira caída do céu. Quando o táxi chegou, estava ela a expor-lhe o seu dilema.

 

Devo ir para lá amanhãinformou Tse-Tse ainda ofegante. Meu Deus, Neeve, aquele sítio quase que me leva a retomar os meus passeios com aqueles escavadores. Ainda que me esfalfe para deixar tudo a brilhar, quando lá volto está tudo revirado.

 

Eu sei como é concordou Neeve. Olha, se Ethel não for buscar isto hoje, amanhã de manhã levo-te de táxi e arrumo-lhe tudo no armário. Tens a chave, não tens?

 

Ela deu-me uma. Então fico à espera que me digas alguma coisa. Adeus!

 

Atirando-lhe um beijo, Tse-Tse desceu a rua a correr lembrando um flamengo, com o cabelo doirado frisado, a maquilhagem extravagante, o casaco de lã púrpura, as meias vermelhas e as sapatilhas amarelas.


Na loja, Betty ajudou Neeve a pendurar, mais uma vez, as roupas de Ethel nos cabides reservados às encomendas, na sala de costura.

 

Isto ultrapassa tudo o que Ethel fez até hoje comentou ela calmamente, acentuando ainda mais as rugas da testa ao franzi-la, preocupada. Será que ela sofreu algum acidente? Talvez devêssemos participar o desaparecimento.

 

Neeve empilhou as caixas dos acessórios junto aos cabides.

 

Posso pedir a Myles para verificar os registos de acidentes sugeriu. Mas não vejo motivo para a dar como desaparecida.

 

Betty sorriu inesperadamente.

 

Talvez ela tenha encontrado finalmente um namorado, decidido partir para qualquer sítio, e disfrutar de um fim-de-semana paradisíaco.

 

Neeve olhou através da porta aberta para a sala de atendimento ao público. Aparecera a primeira cliente e a empregada nova mostrava-lhe vestidos absolutamente inadequados à sua figura. Neeve mordeu o lábio. Sabia que herdara o temperamento um pouco selvagem de Renata e precisava de se controlar.

 

Para bem de Ethel espero que seja essa a explicação respondeu, e, então, com um sorriso, dirigiu-se à cliente e à vendedora. Marian, e se me trouxesses o vestido verde de chiffon Della Rosa? sugeriu à rapariga.

 

Foi uma manhã muito movimentada. A recepcionista continuava a tentar o número de Ethel e da última vez que informou não obter resposta, Neeve reflectiu que se Ethel encontrara um homem e acabara por fugir com ele, ninguém ficaria mais feliz que o seu ex-marido, que depois de vinte e dois anos continuava a enviar-lhe os cheques mensais.

 

Como a segunda-feira era o seu dia de folga, Denny planeara passá-lo na peugada de Neeve Kearny, mas na noite de domingo recebeu uma chamada no telefone público instalado no átrio da casa, onde alugara um quarto.

 

Tratava-se do gerente da loja ordenando-lhe que comparecesse no trabalho no dia seguinte, pois o contabilista fora despedido.

 

Dei uma vista de olhos aos livros e o filho da mãe andava a meter as unhas no dinheiro. Preciso de ti na loja.

 

Denny praguejou baixinho, mas reconheceu que seria estupidez recusar-se a ir.

 

Lá estarei prometeu solenemente.

 

Ao desligar, pensou em Neeve Kearny e no sorriso que esta lhe dirigira na véspera, quando lhe entregara o almoço. Relembrou a maneira como o cabelo cor de carvão lhe emoldurava o rosto, evocou as linhas do peito que a camisola moderna salientava. Big Charley dissera-lhe que todas as tardes de segunda-feira ela se dirigia à 7.a Avenida. Isto significava que não valia a pena tentar apanhá-la ao sair do trabalho. Talvez até fosse bom. Fizera planos para sair com a empregada do bar, do outro lado da rua, e não queria faltar.

 

Ao atravessar o átrio, que tresandava a urina, de regresso ao quarto, pensou: «Não voltarás a ver outra segundafeira amanhecer, Neeve Kearny!»

 

Sem dúvida que ela era bonita, mas ao fim de uma semana no cemitério, deixaria de o ser.

 

Neeve costumava passar as tardes de segunda-feira na 1.a Avenida. Adorava o movimento estranho daquele quarteirão de confecções, os passeios agitados, os camiões de descarga parados em filas duplas, ocupando as ruas estreitas, os mandaretes conduzindo cabides cheios de roupa através do trânsito, aquela sensação de que toda a gente corria apressada, sem ter tempo a perder.

 

Viera ali pela primeira vez com Renata, tinha oito anos. Apesar das objecções divertidas de Myles, Renata arranjara emprego em part-time numa loja de roupa da Rua 73, a dois quarteirões do apartamento. Não tardou que o dono já velhote, a convencesse a fazer as compras para a loja. Neeve conseguia lembrar-se de Renata, abanando a cabeça negativamente, quando algum estilista ambicioso lhe tentava impor uma opinião acerca de um fato qualquer.

 

«Quando uma mulher se sentar com esse vestido, vai ficar com ele à volta do pescoço», comentara Renata. Sempre que se zangava o sotaque italiano imediatamente se acentuava: «Uma mulher que se olhe no espelho para ver se tem alguma malha caída deve esquecer o que traz vestido. As roupas devem acentar-lhe como uma segunda pele.» E Renata pronunciaria «peli».

 

Mas possuía também o instinto para reconhecer novos talentos. Neeve guardava ainda um alfinete de peito que um estilista lhe oferecera. Renata fora a primeira a comprar-lhe as suas roupas.

 

«A tua mamã deu-me a minha primeira oportunidade», contava Jacob Gold a Neeve. «Uma senhora maravilhosa e que percebia de roupa. Tal como tu.»

 

E, dito por ele, tratava-se de um grande elogio.

 

Naquele dia; à medida que Neeve abria caminho através da 7.a Avenida, percebeu que se sentia vagamente deprimida. Sentia uma dor aguda penetrar-lhe na mente, como se aí tivesse um dente inflamado. Resmungou para si própria que não tardaria em transformar-se numa daquelas irlandesas supersticiosas, sempre cheias de pressentimentos, vendo perigos espreitando-a em todas as esquinas.


Na secção desportiva do Artless encomendou casacos de linho com calções a condizer.

 

Gosto deste tom pastel murmurou. Mas precisarão de algo explosivo.

 

Que tal estas blusas?

 

E o empregado com o talão de encomenda na mão apontou para um cabide cheio de blusas de nylon claro, com botões brancos.

 

Servem para um blusão mais colegial.

 

Neeve vagueou pelos mostruários e então descobriu uma t-shirt de seda colorida.

 

Era mesmo isto que eu queria! exclamou, e, agarrando em diversas peças, de padrões e cores diferentes, colocou-as ao lado dos conjuntos. Esta com a cor de pêssego, aquela com a cor de malva. Agora já temos alguma coisa.

 

No Victor Costa escolheu chiffons românticos de decote em barco que, pendurados nos cabides, se agitavam esvoaçantes. E de novo pensou em Renata. Renata vestindo um Victor^ Costa de veludo negro, pronta para uma festa de fim de ano com Myles. À volta do pescoço trazia o seu presente de Natal, um colar de pérolas com um pequeno fecho de diamantes.

 

«Pareces uma princesa, mamã», dissera-lhe Neeve.

 

Aquele momento ficara-lhe gravado na memória. Sentira-se tão orgulhosa dos dois. Myles direito e elegante com o cabelo já prematuramente grisalho; Renata, tão esbelta, com o cabelo apanhado atrás.

 

Na passagem do ano seguinte tinham recebido alguns convidados no apartamento. O padre Devin Stanton, agora bispo, o tio Sal, que naquela altura ainda lutava para se impor como estilista; Herb Schwartz, o comissário-adjunto de Myles, e a esposa. Renata fora assassinada sete semanas antes.

 

Neeve percebeu que o empregado esperava pacientemente que ela se decidisse.

 

Estou para aqui a sonhar acordada desculpou-se ela. Um bocadinho fora de horas, não é?

 

Terminou a encomenda, visitou as três casas que ainda lhe faltavam e caía já a noite quando se dirigiu para a visita habitual ao tio Sal.

 

Os expositores de Anthony della Salva espalhavam-se agora por todo o quarteirão. A sua linha desportiva localizava-se na Rua 73, oeste. Os acessórios na parte oeste da Rua 35; as representações na 6.a Avenida, mas Neeve sabia que o encontraria no escritório principal da Rua 36. Fora aí que começara, num acanhado buraco de duas salas. Agora, ocupava três andares sumptuosamente equipados. Anthony della Salva, nascido Salvatore Esposito, na Bronx, era um estilista ao nível de um Bill Blass, de um Calvin Klein ou de um Oscar de la Renta.

 

Para grande contrariedade de Neeve, ao atravessar a Rua 37 deu de caras com Gordon Steuber. Este vinha meticulosamente vestido, com um casaco de casimira castanho-amarelado, sobre um pulôver escocês bege, umas calças desportivas castanhas e calçava uns mocassins Gucci. Tinha o cabelo encaracolado, castanho; era esguio, o rosto era correcto de feições, os ombros largos e a cintura estreita. Gordon Steuber facilmente teria vencido como modelo. Em vez disso, já perto dos quarenta, não passava de um negociante astuto, com uma habilidade excepcional para contratar jovens estilistas desconhecidos e para os explorar, até que estes conseguissem sobreviver sem ele.

 

Graças a esses estilistas a sua linha feminina era excitante e provocadora. Já ganhava bastante sem ter de recorrer à exploração de trabalhadores clandestinos, pensou Neeve, enquanto o olhava com frieza. E se, como Sal afirmara, se debatia agora com problemas fiscais, tanto melhor.

 

Passaram um pelo outro sem se falar, mas Neeve sentiu que dele se emanava um sentimento de ódio. Pensou que já ouvira dizer que algumas pessoas eram capazes de emitir um fluido. «Não quero experimentar o conteúdo desse fluido», pensou, enquanto se apressava em direcção ao escritório de Sal.

 

A recepcionista viu Neeve e imediatamente ligou ao escritório. Um instante depois Anthony della Salva entrou saltitante pela porta. O seu rosto querubínico resplandecia quando correu a abraçá-la.

 

Neeve sorriu ao reparar no fato de Sal. Ele era o melhor promotor da sua linha masculina de Primavera. Trazia uma versão de um conjunto de safari, que consistia numa mistura de um fato à pára-quedista com um Jungle Jim no seu melhor.

 

Adoro. No próximo mês não se verá outra coisa no East Hampton aprovou ela, beijando-o.

 

Já lá chegou, querida. Já quase chegou à cidade de lova. Isso assusta-me um pouco. Tenho de me livrar disto. Vem. Vamos sair daqui.

 

De caminho para o gabinete deteve-se para saudar dois clientes de fora.

 

Já estão atendidos? A Susan está a atender-vos bem? Óptimo. Susan, mostre-lhes os trajes de passeio. Garanto-vos que esses até saem das lojas sozinhos.

 

Tio Sal, quer ir atendê-los pessoalmente? perguntou Neeve, enquanto cortavam caminho pelos expositores.

 

Claro que não. Vão passar duas horas com Susan e acabam por comprar três ou quatro conjuntos dos mais baratos. Com um suspiro de alívio fechou a porta do gabinete privado. Foi um dia de doidos! Onde vão eles arranjar o dinheiro? Voltei a subir os preços. São exorbitantes, mas esta gente continua a esgadanhar-se para fazer as suas encomendas.

 

Esboçou um sorriso beatífico. O rosto redondo, com o tempo, tornara-se balofo e, agora, os olhos enrugados, quase desapareciam sob as pálpebras pesadas. Ele, Myles e o bispo tinham crescido no mesmo bairro da Bronx, tinham jogado pólo juntos, e todos frequentaram a Escola Christopher Columbus. Custava a crer que também ele contava 68 anos.

 

Em cima da secretária espalhava-se um monte de amostras.

 

Queres acreditar que temos uma encomenda para escolher o interior de um modelo Mercedes para crianças de três anos de idade? Quando eu tinha três anos, tinha um carrinho vermelho em segunda mão e uma das rodas estava sempre a cair. Sempre que isso acontecia o meu pai batia-me por eu não cuidar dos meus brinquedos.

 

Tio Sal, quem me dera ter aqui um gravador. Faria uma fortuna a chantageá-lo.

 

És demasiado honesta para isso. Senta-te. Toma um café. É fresco.

 

Sei que está muito ocupado, Tio Sal. Não me demoro mais de cinco minutos respondeu Neeve desapertando o casaco.

 

E se deixasses de me chamar tio? Estou velho de mais para essas coisas. Sal olhou-a, apreciador. Estás com bom aspecto. Como vão os negócios?

 

Óptimos.

 

E Myles? Soube que Nicky Seppeti foi solto. Suponho que isso o arrasou.

 

Preocupou-se muito na sexta-feira, bastante durante o fim-de-semana, agora não sei.

 

Convida-me para jantar esta semana. Há um mês que não o vejo.

 

Está convidado prometeu Neeve, observando Sal servir o café do tabuleiro ao lado da secretária. Olhou em volta. Adoro esta sala.

 

A parede por detrás da secretária representava um mural inspirado no recife do Pacífico, a criação que tornara Sal famoso.

 

Sal contava frequentemente como surgira a sua inspiração para aquela linha.

 

«Estava eu no Aquário de Chicago. Foi em 1972. A moda nesse ano era uma droga. A mini-saia já enjoava, mas todos tinham medo de experimentar coisas novas. Os estilistas mais conhecidos apresentavam fatos de corte masculino, bermudas, fatos finos sem forro, cores pálidas, cores escuras, blusas franzidas à colegial. Nada que conseguisse levar uma mulher a exclamar: É aquilo que eu quero! Vagueava eu pelo aquário e resolvi subir ao andar da exposição do recife Pacífico. Neeve, era como andar debaixo de água. Os tanques iam do chão até ao tecto e encontravam-se cheios de peixes exóticos, plantas, árvores e corais. As cores daquilo tudo... Parecia um quadro de Miguel Angelo. Os padrões e o desenho... dúzias e dúzias, todos eles únicos. A prata mesclada de azul; o coral e o vermelho entrelaçando-se. Os peixes amarelos e brilhantes como a luz do sol, cheios de sinais negros. E o fluxo e a graça do movimento. Então, pensei: se conseguisse fazer isto nafábrica! E ali mesmo comecei a desenhar. Sabia que era o máximo. Nesse ano ganhei o Prémio Cot. Revolucionei a indústria da alta costura. As vendas foram fantásticas. Choveram as representações para a produção em massa e os acessórios. E tudo, porque fui suficientemente esperto para copiar a mãe natureza.»

 

Agora, seguindo-lhe o olhar, comentou:

 

Que desenho. Magnífico. Alegre. Elegante. Gracioso. Continua a ser a melhor coisa que fiz até hoje. Não digas isto a ninguém, mas nunca me consegui suplantar. Na próxima semana deixo-te dar uma vista de olhos pela minha linha de Outono. A segunda melhor coisa da minha carreira. Sensacional. E como vai isso de amores?

 

Não vai.

 

E que é feito daquele tipo que levaste para jantar há dois meses? Estava doido por ti.

 

Só o facto de não se lembrar do nome dele diz tudo. Continua a amontoar dinheiro em Wall Street. Comprou agora um Cessna e uma propriedade horizontal em Vail. Esqueça. Tinha tanta personalidade como um pateta alegre. Passo a vida a dizer a Myles e também lho digo a si: quando o homem certo aparecer eu vou saber.

 

Não esperes demasiado tempo, Neeve. Cresceste à sombra do conto de fadas que foi o romance entre o teu pai e a tua mãe. Sal engoliu o resto do café de uma só vez. Para a maioria não é assim que acontece.

 

Neeve sentiu-se divertida ao reparar que Sal, sempre que se encontrava com os amigos mais íntimos, ou prestes a fazer um discurso, largava o leve sotaque italiano e assumia a sua maneira arrevesada de falar.

 

Sal continuou:

 

Nós conhecemo-nos. Ficamos interessados. Depois o interesse aumenta e gradualmente algo acontece. Não há magia. Talvez apenas amizade. Acomodamo-nos. Podemos não gostar de ópera, mas vamos à ópera. Podemos odiar o exercício físico, mas começamos a jogar ténis e a correr. E, então, o amor aparece. É assim com 90 por cento das pessoas, Neeve. Acredita que é verdade.

 

Foi assim que aconteceu consigo? perguntou Neeve, com doçura.

 

Quatro vezes lamentou-se Sal. Não fiques triste. Sou um optimista.

 

Neeve acabou o café e ergueu-se, sentindo-se mais animada. Acho que também o sou, mas esta conversa ajudou-me a reconhecê-lo. Que tal o jantar para quinta-feira?

 

Óptimo. E lembra-te que eu não estou de dieta como o Myles e não me venhas dizer que deveria estar.

 

Despedindo-se com um beijo, Neeve deixou-o no gabinete e atravessou a sala de exposições. Com olho experiente observou a roupa exposta nos manequins. Nada de brilhante, nada de especial. Uma escolha subtil da cor, linhas leves, inovadoras, sem serem atrevidas. Venderá bem. Sentiu-se curiosa em relação à linha de Outono de Sal. Seria tão boa como ele dizia?

 

Regressou à loja a tempo de acordar com o decorador a montra seguinte. Às seis e trinta fechou a loja e executou a já habitual tarefa de carregar as roupas de Ethel Lambston até casa. Continuava sem qualquer notícia deIa e o telefone continuava a tocar sem qualquer resposta. Bem, pelo menos agora tinha uma solução em vista. Na manhã seguinte iria com Tse-Tse até ao apartamento de Ethel e aí livrar-se-ia dos embrulhos.

 

Este pensamento fê-la recordar uma passagem do pungente poema de Eugene Field, o Pequeno Menino Triste^: «Este beijou-os e ali os poisou.»

 

Ao abraçar com força os sacos escorregadios, que continham as roupas de Ethel, Neeve lembrou-se que o «Pequeno Menino Triste» nunca mais voltara a ver os seus lindos brinquedos.

 

The Little Boy Blue, no original. (N. da T.)

 

Na manhã seguinte encontrou-se com Tse-Tse no átrio, às oito e meia em ponto. Esta trazia o cabelo preso em duas tranças que enrolara e prendera acima das orelhas. Uma capa de veludo negro pendia-lhe solta dos ombros até aos tornozelos, tapando o uniforme negro e um avental branco.

 

Consegui o papel de uma criada de dentro, numa nova peça explicou ela, enquanto ajudava Neeve com algumas caixas. Pensei que podia ir ensaiando. Se Ethel lá estiver vai fartar-se de rir com o meu fato. O sotaque sueco de Tse-Tse era excelente.

 

O vigoroso toque na campainha não produziu qualquer resposta no apartamento de Ethel. Tse-Tse vasculhou a bolsa, procurando a chave. Abriu a porta e deu passagem a Neeve, que deixou cair a roupa no sofá, suspirando, aliviada.

 

Afinal sempre há um Deus... começou a dizer e então calou-se.

 

Na porta do vestíbulo que conduzia ao quarto e à casa de banho, encontrava-se um jovem de porte atlético. Era óbvio que fora interrompido enquanto se vestia, pois segurava a gravata numa mão e a camisa não se encontrava completamente abotoada. Os olhos verdes-pálidos estavam encrustados num rosto que, com outra expressão, talvez fosse atraente, mas que se franzia de aborrecimento. O cabelo ainda por pentear, tombava-lhe para a testa numa massa de caracóis. A surpresa de Neeve perante a presença dele, foi substituída pela percepção imediata que o cabelo emaranhado, se devia a um tratamento de volume. Atrás de si, ouviu Tse-Tse reter a respiração.

 

Quem é você?perguntou Neeve.E por que não atendeu à porta?

 

Suponho que a primeira pergunta deveria ser eu a fazê-la. o tom da resposta era sarcástica. E eu abro a porta quando entendo que devo fazê-lo.

 

Foi então que Tse-Tse interrompeu:

 

É o sobrinho de Miss Lambston declarou ela. Já vi o seu retrato. O sotaque sueco desaparecera. Você é Douglas Brown.

 

Eu sei quem sou. Importam-se agora de me dizerem quem são vocês? O tom dele continuava sarcástico e trocista. Neeve sentia-se a perder a paciência.

 

Sou Neeve Kearny respondeu e esta é Tse-Tse. Ela limpa a casa a Miss Lambston. Importa-se de me dizer onde está ela? Disse-me que precisava destas roupas para sexta-feira e desde então tenho andado com elas de um lado para o outro.

 

Com que então é Neeve Kearny! O sorriso tornara-se agora insolente. Os sapatos número três combinam com o fato bege. Use a bolsa número três com as jóias de caixa A. Faz isso a toda a gente?

 

Neeve endireitou o queixo.

 

Miss Lambston é uma óptima cliente e uma mulher muito ocupada. E eu... sou também uma mulher muito ocupada. Ela está cá, ou caso não esteja, quando volta?

 

Douglas Brown encolheu os ombros. Algo da anterior animosidade desaparecera.

 

Não faço ideia do paradeiro dela. Minha tia pediu-me para vir ter com ela aqui, na tarde de sexta-feira, pois tinha um trabalho para mim.

 

Na tarde de sexta? perguntou Neeve.

 

Sim. Quando eu cheguei não havia sinal dela. Como tenho chave entrei. Ela não voltou. Fiz a cama no sofá e fiquei por aqui. Acabei de perder o meu aluguer e por isso não estava com pressa.

 

Havia qualquer coisa demasiado pronta naquela explicação. Neeve olhou em volta. No sofá onde pousara as roupas, via-se a um canto uma almofada e um cobertor dobrado. Na frente do sofá uma pilha de papéis espalhava-se pelo chão. Sempre que ali estivera, os sofás encontravam-se tão cheios de papéis, dossiers e revistas que fora impossível vislumbrar o tecido do estofo. Em cima da mesa de jantar amontoavam-se recortes de jornais. Como o apartamento se encontrava ao nível da rua, as janelas estavam protegidas com grades e até estas eram utilizadas como suporte para as pilhas de dossiers. Do lado oposto da sala via-se a cozinha. Como de costume, os armários estavam atulhados. Ao acaso, pela parede, pendiam algumas fotografias de Ethel, descuidadamente emolduradas, recortadas de jornais e revistas. Ethel recebendo o prémio Anual da Revista da Sociedade Americana de Jornalistas e Autores. Este devera-se a um artigo contundente acerca das residências sociais e dos prédios devolutos. Ethel lado a lado com Lyndon e Lady Bird Johnson, pois colaborara na sua campanha de 1964. Ethel no estrado do Waldorf com o presidente da Câmara, na noite em que a Contemporary Women a homenageara.

 

Neeve foi assaltada por um pensamento.

 

Eu estive aqui na sexta à noite declarou. A que horas é que cá chegou?

 

Cheguei às três. Eu nunca atendo o telefone. Ethel não gosta que alguém o faça quando cá não está.

 

É verdade confirmou Tse-Tse. Com a surpresa esquecera-se do sotaque sueco, mas retomara^-o. Sim, sim, é verdade.

 

Douglas Brown passou a gravata pelo pescoço.

 

Tenho de ir trabalhar. Deixe as roupas de Ethel, Miss Kearny. E virando-se para Tse-Tse observou: Se conseguir limpar esta trapalhada toda vai ser óptimo. Eu junto as minhas coisas para o caso de Ethel resolver honrar-nos com a sua presença.

 

Agora parecia ansioso por se ir embora. Voltou-se e regressou ao quarto de banho.

 

Só um minuto pediu Neeve, e aguardou até ele voltar para trás. Disse que chegou cá por volta das três horas de sexta-feira. Então estava cá quando eu cá vim para entregar as roupas. Não se importa de me explicar por que não me abriu a porta nessa noite? Poderia ser Ethel que se esquecera da chave, não é verdade?

 

A que horas cá esteve?

 

Por volta das sete.

 

Saí para ir buscar comida. Lamento muito.E desapareceu no interior do quarto, fechando a porta.

 

Neeve e Tse-Tse olharam uma para a outra. Tse-Tse encolheu os ombros e comentou numa voz cantante:

 

O melhor é eu deitar mãos à obra. Yumpin, Yimminy, poderia limpar Estocolmo mais depressa do que esta casa com todo este lixo espalhado por aqui. E depois já sem sotaque perguntou: Será que aconteceu alguma coisa a Ethel?

 

Já pensei pedir a Myles para ver no registo de acidentesrespondeu Neeve. Embora me pareça que o amoroso sobrinho não esteja muito preocupado. Quando ele sair penduro isto no armário de Ethel.

 

Um minuto depois, Douglas Brown emergiu do quarto. Vestia um fato azul-escuro e trazia no braço uma gabardina. Penteara o cabelo ondulado e espesso. Quase parecia atraente. Ficou surpreendido e pouco satisfeito por ver que Neeve ainda ali estava.

 

Pensei que estava com pressa comentou.Ou resolveu ajudar na limpeza?

 

Os lábios de Neeve franziram-se, ameaçadores.

 

Estou a pensar pendurar estas roupas no armário da sua tia, de maneira a que ela as possa usar quando precisar e depois tenciono ir embora. Entregou-lhe um cartão e acrescentou:Telefone-me, se souber alguma coisa dela. Pelo menos eu, estou a ficar preocupada.

 

Douglas Brown olhou para o cartão e depois guardou-o no bolso.

 

Não vejo razão para isso. Desde que vive em Nova Iorque que ela já fez a cena do desaparecimento pelo menos umas três vezes e normalmente arranjava maneira de me pôr a secar nalgum restaurante ou aqui. Começo a pensar que, realmente, ela não é boa da cabeça.

 

Tenciona cá ficar até ela regressar?

 

Não vejo que isso seja da sua conta, Miss Kearny, mas, provavelmente, sim.

 

Existe algum sítio para onde eu lhe possa falar durante as horas de | serviço? perguntou Neeve, sentindo que começava a perder a calma.

 

Infelizmente, no Edifício da Cosmic Oil não mandam fazer cartões aos recepcionistas. Já vê, tal como a minha querida tia, eu sou escritor. Infelizmente, ao contrário dela, ainda não fui reconhecido pelo mundo editorial, de forma que mantenho a alma pegada ao corpo, sentando-me numa secretária, no átrio da Cosmic Oil, confirmando e marcando entrevistas. Não é um emprego compatível com um grande cérebro, mas também não é verdade que Herman Melville trabalhou como escriturário na ilha Ellis?

 

Considera-se um Herman Melville?perguntou Neeve, sem esconder o sarcasmo.

 

Não. Eu escrevo um tipo de coisas diferente. O meu último livro chama-se A Vida Espiritual de Hugh Hefner. Até agora ainda nenhum editor percebeu o humor que o tema encerra.

 

E dito isto saiu. Neeve e Tse-Tse entreolharam-se.

 

Que palerma declarou Tse-Tse. E pensar que é o único parente vivo da pobre Ethel.

 

Neeve rebuscou a sua memória.

 

Acho que ela nunca me falou dele.

 

Há duas semanas, quando eu cá estava, ela falou com ele ao telefone e muito aborrecida. Ethel espalha dinheiro pelo apartamento e pensou que lhe faltava algum. Quase que o acusou de a ter roubado.

 

O apartamento cheio de pó e de lixo fez que Neeve, de repente, se sentisse com falta de ar. Desejou sair dali.

 

Vamos lá arrumar as roupas.

 

Se Douglas Brown dormira no sofá a primeira noite, era óbvio que a partir daí resolvera ocupar a cama de Ethel. Na mesinha-de-cabeceira via-se um cinzeiro cheio de beatas e Ethel não fumava. A mobília branca era, tal como tudo o resto, cara, mas perdida na confusão. No toucador misturavam-se os frascos de perfume, uma escova de prata já gasta, um espelho e um pente. Na moldura larga e doirada do espelho viam-se alguns recados presos. Fatos de homem, calças, casacos desportivos amontoavam-se em cima de uma cadeira de damasco. No chão, uma mala de homem aparecia meio coberta.

 

Pelo menos não se atreveu a mexer no armário de Ethel observou Neeve.

 

A parede posterior do espaçoso quarto de cama era ocupada, a todo o comprimento, por um armário trabalhado. Quatro anos antes, quando Ethel lhe pedira pela primeira vez que desse uma vista de olhos ao seu guarda roupa, Neeve comentara que não admirava que ela não conseguisse combinar as roupas. Precisava de mais espaço. Três semanas depois, Ethel convidara Neeve a lá voltar, conduzira-a ao quarto e, orgulhosa, exibira a sua nova aquisição; um guarda-fatos que lhe custara dez mil dólares. Tinha cabides pequenos para blusas, cabides mais altos para vestidos compridos e encontrava-se dividido, de forma a separar os casacos, os fatos e os vestidos de passeio. Havia prateleiras para camisolas, para as bolsas e para os sapatos; um suporte de jóias com extensões em bronze, na forma de ramos de árvores, para pendurar colares e pulseiras, e um par de mãos de gesso macabramente reais, erguidas numa oração, com os dedos separados.

 

Ethel comentara:

 

«Não parece que vão mesmo estrangular?», perguntara, alegremente. «São para guardar os anéis. Eu disse ao homem da loja que guardava tudo em caixas, mas ele convenceu-me a trazer isto de qualquer maneira.»

 

Contrastando com o resto do apartamento, o armário encontrava-se meticulosamente arrumado. As roupas impecavelmente penduradas nos cabides, os fechos corridos até cima, os casacos abotoados.

 

Desde que começou a vesti-la, que as pessoas não deixaram de falar mais nissso e ela adora observou Tse-Tse.

 

No interior das portas, Ethel fixara as listas que Neeve lhe fizera, nas quais mencionava os acessórios a utilizar com cada conjunto.

 

Ainda no mês passado passei revista a tudo murmurou Neeve. Tivemos de arranjar espaço para a roupa nova. Pousou as roupas na cama e começou a retirar os sacos de plástico. Bem, farei como se ela aqui estivesse. Arrumo tudo no sítio e colo aqui a lista.

 

À medida que pendurava a roupa ia verificando o conteúdo do armário. Ali estava o casaco de zibelina, a jaqueta de marta, o casaco de casimira vermelha, o Burberry, a capa espinhada, o casaco branco com gola de carneira, o casaco de couro cintado. Seguiam-se os fatos; o Donna Karans, o Beenes...

 

E Neeve parou com os dois cabides na mão.

 

Espera aí! exclamou, espreitando para a prateleira superior. Conhecia o conjunto de malas Vuitton de Ethel, constituído por quatro peças forradas a tapeçaria. Havia um saco com bolsas e fechos, uma mala enorme rolante, outra grande e uma média. Faltava o saco, a mala rolante e uma das outras.

 

Boa querida Ethel! exclamou Neeve, pendurando os fatos novos. Foi mesmo embora. Falta o conjunto bege com gola de vison afirmou, enquanto vasculhava os outros cabides. O fato de lã branco, o fato tricotado verde, o estampado preto e branco... Vejam só, fez as malas e pôs-se a andar. Juro que estou capaz de lhe morder! explodiu, afastando o cabelo da testa. Olha só continuou, apontando para os cabides vazios e para a lista da porta. Levou roupa para se embonecar. Suponho que como o tempo estava tão mau, concluiu que não iria precisar das roupas de Primavera. Pois bem, onde quer que ela esteja, espero que a temperatura suba até aos noventa graus. Che noiosa spera che numore di caldo.

 

Calma, Neeve aconselhou Tse-Tse. Sempre que te afundas em considerações em italiano, é sinal que estás furiosa. Neeve encolheu os ombros. Que vá pró inferno. Eu mando a conta ao contabilista. Pelo menos esse tem os parafusos todos. Não se esquece de pagar a tempo e horas olhou para Tse-Tse e perguntou. E tu? Contavas receber hoje?

 

Tse-Tse abanou a cabeça.

 

Da última vez ela pagou-me adiantado. Não há problema.

 

De regresso à loja, Neeve relatou a Betty o que se passara.

 

Devia cobrar-lhe também o táxi e a deslocação afirmou Betty. Aquela mulher é de mais!!!

 

À tarde, quando Neeve falou com Myles, contou-lhe o que acontecera.

 

E eu que estava quase a pedir-te para verificares os registos de acidentes comentou.

 

Ouve lá, se um comboio deparasse com essa mulher no meio do caminho não hesitaria em sair dos carris só para não a encontrar respondeu Myles.

 

Mas, por qualquer razão, o aborrecimento de Neeve foi dando lugar a uma sensação vaga mas persistente de que havia algo de errado na súbita partida de Ethel. E aquela sensação manteve-se até à hora de fechar a loja e enquanto se dirigia para o cocktail da Women’s Wear Daily, no S. Regis. No meio da multidão impecavelmente vestida, descobriu Toni Mendell, a elegante editora-chefe do Contemporary Women. Apressou-se a ir ter com ela.

 

Não sabe quanto tempo a Ethel estará fora? conseguiu perguntar-lhe através de todo aquele barulho. Estou admirada por ela não ter vindo respondeu Toni. Ela disse que vinha, mas nós sabemos como ela é.

 

Quando sai o artigo dela sobre o mundo da alta costura?

 

Ela entregou-o na quinta-feira de manhã. Tive de o mandar ao departamento jurídico para ter a certeza de que não seremos processados. Fizeram-nos cortar algumas coisas, mas mesmo assim está estupendo. Ouviste falar no grande contrato que ela assinou com a Givvons e Marks?

 

Não.

 

Um empregado ofereceu-lhes canapés de salmão fumado e Neeve serviu-se de um. Toni abanou a cabeça desalentada.

 

Agora que as cinturas estreitas estão outra vez na moda, nem uma azeitona me posso permitir. Toni vestia tamanho seis. De qualquer forma, o artigo é sobre as linhas inovadoras dos últimos cinquenta anos e sobre os costureiros que as criaram. Sejamos francas, o assunto está mais do que batido, mas sabes como é a Ethel. Consegue tornar as bisbilhotices engraçadas. Depois, há duas semanas atrás, tornou-se terrivelmente misteriosa. Acho que no dia seguinte entrou pelo escritório de Jack Campbell dentro e convenceu-o a firmar-lhe um contrato para um livro sobre moda mediante um avanço de seis mil. Agora, provavelmente, escondeu-se algures para o escrever.

 

Querida, estás divina! exclamou uma voz por detrás de Neeve. O sorriso de Toni exibiu por completo a sua dentadura de dentes irrepreensivelmente iguais.

 

Carmen, já te deixei uma dúzia de recados. Por onde tens andado metida?

 

Neeve começara a afastar-se, mas Toni deteve-a.

 

Neeve, Jack Campbell acabou de entrar. É aquele fulano alto, de fato cinzento. Talvez ele saiba onde podes contactar Ethel. Quando Neeve conseguiu atravessar a sala, Jack Campbell encontrava-se rodeado. Ela, aguardou, enquanto ele recebia felicitações de toda a gente. Pelo que ouviu, concluiu que ele acabara de ser nomeado presidente editorial da Giwons e Marks, que comprara um apartamento na Rua 52 Este, e que estava certo de que iria adorar viver em Nova Iorque.

 

Calculou que ele não teria mais de trinta e tal anos, o que o tornava ainda muito novo para aquele cargo. O cabelo era curto e castanho-escuro. Pareceu-lhe que se ele o deixasse crescer ficaria encaracolado. O corpo possuía a linha ágil de um atleta, a cara era magra e os olhos do mesmo tom escuro do cabelo. O sorriso parecia sincero e originava pequenas covinhas nos cantos dos olhos. Apreciou a forma como ele inclinou a cabeça para ouvir um editor mais velho e a maneira como, em seguida, se voltou para outro, sem qualquer brusquidão.

 

Tem o dom inato, pensou Neeve, o tipo de dom inerente a todos os políticos, mas não a um homem de negócios.

 

Era possível observá-lo sem ser notada. Havia qualquer coisa em Campbell que lhe era familiar. O quê? Tinha a impressão de já o conhecer. Mas de onde?

 

Um empregado passou e Neeve aceitou outro copo de vinho. Era o seu segundo e último, mas, pelo menos, enquanto bebia mantinha-se ocupada.

 

Chama-se Neeve, não é?

 

Durante os momentos em que Neeve lhe voltara as costas Jack Campbell aproximara-se. Apresentou-se.

 

Em Chicago, há seis anos. Você vinha de esquiar e eu ia numa viagem de negócios. Começámos a conversar cinco minutos antes de o avião aterrar. Vinha toda entusiasmada com a inauguração de uma loja de roupa. Que tal correu o negócio?

 

Muito bem respondeu Neeve, recordando-se vagamente da conversa. Saíra correndo do avião para apanhar o voo de ligação. Negócios. Era isso mesmo.

 

E você começava a trabalhar para uma nova editora, não era?

 

Sim.;

 

É óbvio que se deu bem.

 

Jack, estão aqui umas pessoas que eu te quero apresentar disse o editor-chefe, puxando-o pela manga.

 

Não quero retê-loapressou-se Neeve a afirmar. Mas queriafazer-lhe uma pergunta. Ouvi dizer que Ethel Lambston está a escrever um livro para si. Sabe onde posso encontrá-la?

 

Tenho o telefone de casa dela. Serve?

 

Obrigada, mas esse também eu tenho respondeu Neeve e, esboçando um gesto de modéstia, acrescentou: Não quero estar a prendê-lo mais.

 

Voltou-se, atravessou a multidão, subitamente consciente do barulho das conversas, e percebeu que tivera um dia muito longo.

 

Na frente do St. Regis agrupava-se o habitual número de pessoas à espera de um táxi disponível. Neeve encolheu os ombros e encaminhou-se para a 5.a Avenida, seguindo para a parte alta da cidade. Estava uma noite bastante agradável. Talvez cortasse pelo parque. E o passeio até casa aclarar-lhe-ia as ideias. Contudo, já perto da entrada sul de Central Park, um táxi depositou um cliente mesmo na sua frente e, depois de uma curta hesitação, segurou a porta e entrou. A ideia de ter de caminhar mais um quilómetro de saltos altos, afigurava-se-lhe agora muito desagradável.

 

Já não pôde ver a expressão frustrada de Denny, que esperara pacientemente à porta do St. Regis e a seguira através da 5.a Avenida. Quando a vira encaminhar-se para o parque pensou que chegara a sua grande oportunidade.

 

Eram duas da manhã quando Neeve acordou de um sono agitado. Sonhara que se encontrava frente ao guarda-roupa de Ethel a fazer uma lista.

 

Espero que onde quer que ela esteja derreta de calor!

 

Era isso! Os casacos de zibelina! O casaco curto! A capa! O burberry! O casacão! Encontravam-se todos no armário. Ethel entregara o seu artigo na quinta-feira. Ninguém a vira na sexta. Em ambos os dias estivera vento e um frio terrível. Na sexta tinha havido aquela tempestade de neve. Mas todos os casacos de Inverno de Ethel continuavam pendurados nos seus cabides.

 

Nicky Sepetti estremeceu dentro do casaco tricotado que sua mulher lhe fizera no ano em que entrara para a prisão. Nos ombros ainda lhe caía bem, mas o resto estava-lhe bastante largo. Na prisão perdera quinze quilos.

 

De casa até ao passeio da praia era apenas um quarteirão. Depois de abanar impaciente a cabeça em resposta ao aviso da mulher: «Nicky, leva o cachecol, já não te lembras como o vento do mar é cortante?», abriu a porta da rua e fechoua atrás de si. O ar carregado de sal encheulhe as narinas e ele respirou-o satisfeito. Quando era garoto e vivia em Brooklyn, a mãe costumava levá-lo de autocarro até à praia de Rockway. Trinta anos antes comprara a casa de Belle Harbour para a Marie e os garotos passarem o Verão. Ela mudara-se para ali de vez, depois de ele entrar na prisão.

 

Dezassete anos cumpridos na sexta-feira. A primeira vez que respirara fundo fora dos muros da prisão, sentira o peito atingido por ondas de dor.

 

«Evite apanhar frio», fora o conselho do médico.

 

Marie cozinhara um grande jantar, fizera um cartaz de boas-vindas, mas ele sentira-se tão exausto que a meio da refeição tivera de se deitar. Depois atendera o telefonema dos filhos; Nick Junior e Tessa.

 

«Papá, nós amamos-te», garantiram eles.

 

Não permitira que eles o visitassem na prisão. Quando entrara, Tessa estava no primeiro ano da faculdade. Agora tinha 35 anos, dois filhos e morava no Arizona. O marido chamava-lhe Theresa. Nick Junior mudara o nome para Damaniano, o nome de solteira de Marie. Nicholas Damaniano, C. P. A. em Connecticut.

 

«Não venham cá agora», avisara Nicky. «Esperem até que a imprensa nos largue a porta.»

 

Ele e Marie tinham passado o fim-de-semana em casa, dois estranhos em silêncio, enquanto cá fora as câmaras de televisão esperavam que ele saísse.

 

Mas naquela manhã tinham partido. Deixara de ser notícia. Passara a ser insignificante. Um insignificante ex-presidiário doente. Nicky inspirou o ar salgado e sentiu os pulmões absorverem-no.

 

Um tipo careca envergando um fato de treino extravagante, que corria na sua direcção, parou e disse-lhe:

 

Prazer em vê-lo, Mr Sepetti. Está com óptimo aspecto.

 

Nicky sentiu-se irritado. Não precisava que lhe dissessem aquilo. Ele sabia o aspecto que tinha. Depois do duche, meia hora antes, observara-se atenta e minuciosamente ao espelho da porta da casa de banho. O cabelo desaparecera por completo no topo da cabeça, embora de lado se mantivesse espesso. Quando começara a cumprir a pena ele era negro raiado de prata; sal e pimenta, como comentava frequentemente o seu barbeiro. Agora o que dele restava era de um cinzento-desmaiado, ou, se quisessem, de um branco-sujo. O resto do exame não conseguiu animá-lo. Os olhos saídos, que tanto o aborreciam já no tempo em que ainda era jovem e bem-parecido, lembravam agora dois berlindes ali colados. No rosto, a antiga cicatriz contrastava com o tom pálido da pele. A perda de peso também não o tinha melhorado, emprestava-lhe um ar flácido como uma almofada que perdesse metade das penas. Um homem perto dos sessenta. Tinha quarenta e dois quando entrara na prisão.

 

Sim, estou muito bem respondeu. Obrigado.

 

1 Certified Public Accontant. (N. da T.)

 

Sabia que o tipo que lhe bloqueava a passagem e se lhe dirigia com um sorriso nervoso, exibindo uns dentes enormes, vivia duas ou três casas mais acima, mas não conseguia lembrar-se do nome.

 

De qualquer forma ainda bem que está de volta. Agora o sorriso era forçado. Está um dia óptimo, não é verdade? Um pouco frio, mas já se sente a Primavera.

 

«Se eu quiser saber o boletim meteorológico ligo o rádio», pensou Nicky, erguendo a mão numa saudação.

 

Sim, sim murmurou, e avançou apressado até ao passeio marginal.

 

O vento transformara o mar numa massa revolta de espuma. Nicky inclinou-se no parapeito, lembrando-se do tempo em que era miúdo e adorava montar nas ondas. A mãe repetia-lhe constantemente: «Não vás para tão longe. Qualquer dia ainda te afogas, vais ver!»

 

Indolente, virou-se e encaminhou-se para a praia da Rua 98. Iria até ao quebra-ondas e então regressaria. Os tipos vinham buscá-lo. Primeiro iriam ao clube e depois teriam um almoço para comemorar, na Rua Mulberry. Um sinal de respeito por ele, mas Nicky não se iludia. Dezassete anos era muito tempo para estar longe. Tinham-se metido em coisas que ele nunca autorizaria. Dizia-se que ele estava doente. Naqueles anos tinham terminado com tudo o que ele começara. Ele tinha de se afastar. Ou então...

 

Joey fora sentenciado juntamente com ele. O mesmo tempo de pena. Mas Joey ao fim de seis anos saíra. Joey era agora o chefe.

 

Myles Kearny. Podia agradecer a Myles Kearny aqueles onze anos mais.

 

Nicky baixou a cabeça contra o vento. Ainda lhe custava engolir aquelas pastilhas amargas. Os garotos bem podiam afirmar que o amavam, mas a verdade é que se sentiam envergonhados. Quando Marie os visitava, diziam aos amigos que ela era viúva.

 

Tessa. Deus, como ela o adorava quando era miúda. Talvez tivesse agido mal ao proibi-la de o visitar durante tantos anos. Marie ia lá regularmente. Cá fora e em Connecticut, Marie chamava-se Mrs. Damiano. Ele queria conhecer os filhos de Tessa, mas o marido era de opinião que deveriam esperar mais uns tempos.

 

Marie. Nicky podia sentir-lhe o ressentimento por tantos anos de espera. Era mais do que ressentimento. Ela esforçara-se tanto para parecer contente com o seu regresso. Mas os olhos mantinham-se frios e velados. Ele podia ler-lhe os pensamentos: «Por aquilo que fizeste, Nicky, mesmo os nossos amigos nos olham de lado.»

 

Marie tinha 54 anos, mas parecia dez anos mais velha. Trabalhava na secção do pessoal do hospital. Não precisava do emprego, mas quando o arranjara, explicara-lhe:

 

«Não aguento mais estar em casa a olhar para quatro paredes.»

 

Marie. Nick Junior, não, Nicholas. Tessa, não Theresa. Teria algum deles sinceramente lamentado se ele tivesse sucumbido ao ataque na prisão? Talvez se tivesse saído seis anos depois de ser condenado, não fosse tarde de mais. Tarde para tudo. Anos que devia a Myles Kearny. E ainda lá estaria se tivessem por onde lhe pegar.

 

Nicky passou a Rua 98 até que percebeu que não vira ainda a estrutura de madeira que constituía o quebra-ondas e admirou-se ao constatar que este fora demolido. Deu meia volta e iniciou o caminho de volta, enfiando ” as mãos frias nos bolsos, fincando os ombros contra o vento. Sentia o gosto da bílis na boca, sobrepondo-se ao gosto fresco e salgado da maresia nos lábios.

 

Ao regressar a casa, um carro esperava-o, com Louie ao volante. Louie, o único a quem podia voltar as costas. Louie, o único que não esquecia os favores.

 

Quando estiver pronto, Don Sepetti disse Louie. É bom poder voltar a dizer-lhe isto. E Louie era sincero.

 

Nicky captou o brilho solene de resignação nos olhos de Marie, quando entrou em casa para trocar de casaco e vestir o do fato.

 

Recordou-se dos tempos de liceu, quando tivera de escrever uma pequena história. Escolheu como tema a vida de um tipo que desapareceu e cuja mulher, dando-o como morto, se instalara confortavelmente na vida como viúva. Marie instalara-se confortavelmente na vida sem ele.

 

O melhor era encarar a verdade. Ela não o queria de volta. Os filhos ficariam muito aliviados se ele desaparecesse como Jimmy Hoffe. Ou talvez ainda preferissem uma morte natural, calma, uma morte que mais tarde não tivessem que explicar aos filhos. Se ao menos soubessem como estavam perto de o conseguir.

 

Queres que te deixe o jantar para quando voltares?perguntou Marie. Quer dizer, eu tenho de estar no turno do meio-dia às nove. Queres que te deixe alguma coisa no frigorífico?

 

Esquece.

 

Seguiu o caminho pela rodovia do Fort Hamilton. Em silêncio, atravessaram o túnel Brooklyn-Battery até à parte baixa de Manhatan. No clube nada mudara. O mesmo exterior deteriorado. Lá dentro encontraram a mesa de jogo pronta para o jogo seguinte, as cadeiras agrupadas, a máquina enorme de café já embaciada, o telefone público que todos sabiam estar sob escuta.

 

A única diferença residia na atitude da família. Oh, claro que o rodearam e o saudaram sorridentes, com sorrisos falsos de boas-vindas. Mas ele sabia.

 

Sentiu-se satisfeito quando chegou a hora de seguir para a Rua Mulberry. Mario, o dono do restaurante, pelo menos parecia sinceramente contente por o ver. A sala privada estava pronta para eles. As pastas e as entradas eram os seus pratos preferidos nos tempos de liberdade. Nicky descontraiu-se, sentindo alguma da antiga força percorrer-lhe o corpo. Esperou até a sobremesa ser servida, connoli com rico café negro expresso, antes de olhar um a um os rostos dos dez homens aprumados como soldados de chumbo. Baixou a cabeça, concentrando-se primeiro nos da direita, depois nos da esquerda. Duas caras novas. A primeira parecia okay. A outra foi-lhe apresentada como pertencendo a Carmen Machado.

 

Nicky observou-o cuidadosamente. Cerca de trinta anos, cabelo e sobrancelhas espessas e negras, nariz largo e apesar de magricela tinha um ar duro. Andava por ali havia três ou quatro anos. Quando Alfie o conheceu, encontrava-se preso por arrombamento de automóveis, segundo o que constava. Nicky desconfiou dele intuitivamente. Teria de perguntar a Joey o que realmente sabiam sobre ele.

 

Os olhos poisaram-se em Joey. Joey que saíra seis anos depois e assumira a chefia, enquanto ele, Nicky, continuava encarcerado. O rosto redondo de Joey exibia um esgar que pretendia ser um sorriso. Mas Joey parecia o gato que tinha engolido o canário.

 

Nicky percebeu que tinha o peito a arder. Subitamente, o almoço pesava-lhe no estômago.

 

Okay, então conta lá o que se passa. ordenou a Joey.

 

Joey continuava a sorrir.

 

Com todo o respeito, devo dizer-te que tenho óptimas notícias. Todos sabemos o que sentes pelo filho da mãe do Kearny. Espera até ouvires isto; arranjaram um contrato para abater afilha dele. E não fomos nós, foi Steuber que resolveu tratar dela. É como se nos oferecessem um presente.

 

Nicky deu um salto e bateu com o punho na mesa, martelando o carvalho maciço, num ímpeto de fúria.

 

Seus estúpidos canalhas!gritou.Seus canalhas estúpidos e nojentos. Têm de o cancelar. Ao olhar de relance o rosto de Carmen Machado teve a súbita certeza de estar a olhar para o rosto de um polícia. Têm de o cancelar. Digo-vos que têm de o cancelar, entenderam?

 

O rosto de Joey, que inicialmente mostrara medo, reflectia agora pena e preocupação.

 

Nicky, tu sabes que isso é impossível. Ninguém pode anular um contrato. É tarde de mais.

 

Quinze minutos depois, ao lado de um Louie silencioso e concentrado na condução, Nicky estava de regresso a casa em Belle Harbour. Sentia o peito invadido por ondas de dor. A nitroglicerina que derretia debaixo da língua era inútil. Quando a garota Kearny fosse abatida, a polícia não descansaria enquanto não o fizesse pagar pelo crime, e Joey bem o sabia.

 

Amargamente, percebeu que fora tolo em denunciar Machado.

 

«Não há hipótese nenhuma daquele tipo ter pertencido à família Palin da Florida», afirmara a Joey. «Foste suficientemente tolo e não verificaste, não foi? Seu imbecil, sempre que abres a boca estás a mostrar os dentes a um polícia.»

 

Na manhã de terça-feira, Seamus acordou, depois de quatro horas de sono perturbadas por sonhos inquietantes. Fechara o estabelecimento às 2 h. 30m, lera o jornal e silenciosamente trepara para a cama tentando não incomodar Ruth.

 

Quando as garotas eram pequenas conseguira dormir até tarde, ir para o bar ao meio-dia, vir a casa jantar com a família e depois regressar até à hora de fechar. Mas nos últimos anos, à medida que o negócio declinava num ritmo igual e implacável, e a renda dobrava e redobrava, ele fora dispensando os barman e os restantes empregados. Agora, contava apenas com um serviço de sanduíches. Era ele quem fazia as compras; ia para lá às oito, oito e meia e, depois de um jantar apressado, lá ficava até à hora de fechar. E mesmo assim, mal conseguia sobreviver.

 

Acara de Ethel assombrava-lhe o sono. A maneira como os olhos saíam quando se zangava. Aquele sorriso sardónico que ele lhe apagara do rosto.

 

Ao chegar a casa dela na tarde de quinta-feira exibira uma fotografia das pequenas.

 

«Ethel», implorara ele, «olha para elas. Elas precisam do dinheiro que eu te dou. Dá-me uma oportunidade.»

 

Ela pegara no retrato e estudara-o cuidadosamente.

 

«Deviam de ser minhas», comentou, devolvendo-lhe o retrato.

 

Agora sentia o estômago revolver-se de apreensão. O prazo da entrega da pensão vencia no dia cinco. Amanhã. Atrever-se-ia a não passar o cheque?

 

Eram sete e trinta, Ruth encontrava-se já a pé, pois ouvia o barulho do chuveiro. Saiu da cama e dirigiu-se à sala que ao mesmo tempo servia de escritório. Os raios do sol da manhã entravam, espalhando um brilho penetrante. Sentou-se na secretária de tampo corrediço que pertencia à família havia três gerações.

 

Ruth odiava-a. Desejava poder substituir toda a mobília velha e pesada por peças modernas e de cores mais leves.

 

«Durante estes anos nunca comprei sequer uma cadeira», gostava ela de lhe lembrar. «Deste a Ethel toda a mobília boa quando a deixaste, e eu tive de me contentar com a tralha da tua mãe. A única mobília nova que tive foram os berços e as camas das garotas e nada do que realmente gostaria de ter comprado.» Seamus adiou a decisão agoniante sobre se passaria ou não o cheque a Ethel, começando por preencher os restantes pagamentos mensais; o do gás; da electricidade; o da renda e o do telefone. Seis meses antes tinham desistido da TV por cabo, pois assim poupavam vinte e dois dólares por mês.

 

Da cozinha chegou-lhe o ruído da cafeteira a ser colocada no fogão. Alguns minutos depois Ruth entrava no escritório com um pequeno tabuleiro, contendo um copo de sumo de laranja e uma chávena de café fumegante. Vinha sorridente e, por instantes, lembroulhe a bonita e calma mulher com quem casara, três meses após o divórcio. Ruth não era muito dada a manifestações carinhosas, mas ao poisar o tabuleiro na secretária, inclinou-se e beijou-o na cabeça.

 

Ver-te passar os cheques do mês faz que realmente eu acredite declarou ela. Não há mais dinheiro para Ethel. Oh, Deus, Seamus, podemos finalmente começar a respirar. Esta noite vamos comemorar. Arranja alguém para te substituir. Há muitos meses que não jantamos fora.

 

Seamus sentia os músculos do estômago cada vez mais contraídos. O cheiro forte do café provocou-lhe náuseas.

 

Querida, só espero que ela não mude de ideias balbuciou ele. Quero dizer, eu não tenho nenhuma garantia por escrito. Não achas que seria melhor mandar na mesma o cheque e esperar que ela o devolva? Sinceramente, parece-me melhor, porque depois já teremos uma prova legal, quer dizer, a prova da concordância dela.

 

A voz transformou-se num sopro ao sentir uma picada ofendida atingi-lo na cabeça sobre o ombro esquerdo. Olhou para cima e pestanejou perante o olhar noutra pessoa.

 

Então, no rosto de Ruth, apareceram duas rosetas vermelhas e a anterior expressão desapareceu, enquanto os olhos se enchiam de lágrimas.

 

Seamus, desculpa, eu explodi afirmou numa voz entrecortada. Mordeu o lábio e endireitando os ombros continuou.Mas mais cheques, não. Deixa que ela volte com a palavra atrás. Prefiro matá-la a deixar que lhe dês mais um centavo.

 

Na quarta-feira de manhã, Neeve expôs a Myles a sua preocupação com Ethel. De testa enrugada, barrava uma torrada com queijo fundido, enquanto lhe transmitia as suspeitas que a tinham mantido acordada metade da noite.

 

Ethel é desmiolada o suficiente para se pôr a andar sem as roupas novas, mas marcara um encontro com o sobrinho para sexta-feira.

 

Ou pelo menos ele assim o diz interrompeu Myles.

 

Exactamente. Sei que na quinta ela entregou o artigo que andava a escrever. Ora, na quinta, esteve um dia gelado e ao fim da tarde começou a nevar. Sexta foi um dia de Inverno.

 

Parece-me que te dedicaste à meteorologia comentou Myles.

 

Vá lá, Myles. Acho que aqui há algo de errado. Todos os casacos de Ethel se encontravam pendurados no armário.

 

Neeve, aquela mulher há-de viver para sempre. Posso até imaginar Deus e o Diabo discutindo: «Fica com ela. Ela pertence-te.»E Myles sorriu satisfeito com a sua piada.

 

Neeve dirigiu-lhe uma careta desesperada por ele não a levar a sério, mas grata pelo tom zombeteiro. A janela da cozinha encontrava-se entreaberta deixando entrar a brisa do Hudson, um cheirinho salgado que conseguia atenuar o ar rarefeito pelos escapes de milhares de veículos que percorriam a Rodovia Henry Hudson. A neve derretera da mesma forma abrupta com que caíra. A Primavera já se sentia e talvez isso contribuísse para a boa disposição de Myles. Ou haveria mais qualquer coisa?

 

Neeve ergueu-se, aproximou-se do fogão, pegou na cafeteira e voltou a encher as duas chávenas.

 

Estás muito bem disposto hoje comentou. Quererá isso dizer que deixaste de te preocupar com Nicky Sepetti?

 

Digamos antes que falei com Herb e fiquei satisfeito por saber que Nicky não lava os dentes sem que um dos nossos lhe examine as cáries.

 

Estou a perceber. Neeve sabia ser inútil tentar saber mais qualquer coisa. Bem, desde que deixes de andar sempre à minha volta. Olhou para o relógio e afirmou: Tenho de ir embora. Uma vez perto da porta hesitou e declarou:Myles, eu conheço o guarda-roupa de Ethel como a palma da minha mão. Ela desapareceu de quinta para sexta, quando fazia um frio danado e não levou casaco. Como explicas isso?

 

Myles, que começara a ler o Times, pousou-o, paciente.

 

Vamos jogar ao faz de conta sugeriu.Vamos imaginar que Ethel viu um casaco numa qualquer outra montra e decidiu que era aquele que desejara possuir durante muito tempo.

 

O jogo do faz de conta começara tinha ela quatro anos. Um dia resolvera servir-se de uma lata da bebida proibida. Apanhada na porta do frigorífico quando bebia, deliciada, a última gota, dera de caras com Myles, que a olhava consternado.

 

«Tenho uma ideia, papá», apressara-se ela a dizer. «Vamos jogar ao faz de conta. Faz de conta que a coca é sumo de maçã.»

 

Neeve sentiu-se pateta.

 

Deve ser por isso que tu és polícia e eu tenho uma loja de roupa.

 

Depois de tomar o duche e de vestir o casaco de casemira castanho-claro, de mangas tufadas e punhos revirados, a saia de lã negra levemente franzida, deu conta que havia um lapso no raciocínio de Myles. Havia muito que a coca deixara de ser sumo de maçã e naquele instante apostava tudo o que tinha em como Ethel não adquiriria nenhum casaco fosse onde fosse.

 

Na manhã de quarta-feira, Douglas Brown acordou cedo e começou a apreciar o seu domínio sobre o apartamento de Ethel. Fora uma surpresa agradável regressar a casa na noite anterior e encontrar tudo limpo e o mais arrumado possível, dadas as pilhas de papéis que Ethel espalhava por todo o lado. Encontrou refeições congeladas, escolheu lasanha e bebericou uma cerveja fresca enquanto aquecia o jantar. A TV de Ethel pertencia a uma nova série de quarenta polegadas, e, com um tabuleiro na frente dele, sentou-se na sala e ligou-a.

 

Agora, enfiado na luxúria dos lençóis de seda, observava o conteúdo do quarto. A sua mala continuava em cima da cadeira, os fatos nas cruzetas pendurados nas costas desta. «Que se lixe!» Era arriscado ocupar o tão precioso guarda-fato, mas não havia motivo para que não ocupasse o outro.

 

O armário na sua frente era, claramente, um depósito de coisas velhas. Conseguiu dar um jeito aos álbuns de fotografias, aos catálogos e às pilhas de revistas, de forma a pendurar os fatos no cabide.

 

Enquanto o café fervia, tomou um duche, apreciando os azulejos brancos e brilhantes e a arrumação dos frascos de perfume e de cremes de Ethel, perfeitamente alinhados na prateleira de vidro, à direita da porta. Até as toalhas se encontravam dobradas no armário. Isto fê-lo estremecer. O dinheiro. Teria a garota sueca que fazia a limpeza encontrado o dinheiro de Ethel?

 

Este pensamento fez Doug saltar da banheira, esfregar vigorosamente o corpo esguio, e enrolando uma toalha em volta da cintura apressou-se a ir até à sala. Deixara uma nota de cem sob a carpete, perto da cadeira de braços. Continuava ali. Ou a garota sueca era honesta ou não tinha dado por ela.

 

«Ethel é tão palerma!», concluiu. Quando recebia o cheque mensal do ex-marido trocava-o em notas de cem.

 

«O dinheiro para as minhas extravagâncias», dizia ela a Doug. Era com aquele dinheiro que o levava a jantar a restaurantes luxuosos. «Eles estão a comer feijão e nós aqui deliciamo-nos com caviar», dissera ela. «Às vezes gasto-o, outras vezes deixo-o acumular-se. Outras vezes mando o que sobra ao meu contabilista para roupa. Restaurantes e roupas. É isso que o estúpido verme me tem proporcionado ao longo destes anos.»

 

Doug rira-se com ela e, tocando os copos, fizeram um brinde ao verme Seamus. Mas nessa noite, percebera que Ethel não contava o dinheiro que escondia, de forma que não daria pela falta de uma ou duas notas de cem. E, assim, nos últimos dois anos ele servira-se à vontade. Por vezes, ela suspeitava, mas se lhe dizia alguma coisa ele mostrava-se indignado e ela imediatamente recuava.

 

«Se começar a anotar onde gasta o dinheiro, talvez descubra para onde ele foi», gritava-lhe ele.

 

«Desculpa, Doug», retratara-se ela. «Tu sabes como eu sou. Faço sempre uma tempestade num copo de água.»

 

Doug recordara-se desta conversa quando, na sexta, ela lhe dissera que precisava dele para um recado, mas que não deveria esperar qualquer recompensa.

 

«Segui o teu conselho», dissera-lhe. «E comecei a apontar aquilo que gasto.»

 

Ele apressara-se a aparecer, seguro de que a conseguiria convencer de que se cortasse com ele ficaria sem ninguém a quem dar ordens.

 

Quando o café ficou pronto, Doug serviu-se duma chávena, regressou ao quarto e vestiu-se. Enquanto fazia o nó da gravata estudou-se ao espelho. Estava com muito bom aspecto. As massagens que iniciara com o dinheiro de Ethel tinham-lhe limpo a pele. Encontrara também um barbeiro em condições.

 

Os dois fatos que comprara ultimamente caíamlhe como devia ser. A nova recepcionista da Cosmic fartava-se de lhe fazer olhinhos e ele fora-lhe dizendo que só fazia aquele trabalho miserável porque estava a escrever uma peça. Ela conhecia Ethel de nome.

 

«E tu também és escritor!», exclamara ela de respiração suspensa.

 

Não se importaria nada de trazer Linda até ali, mas tinha de ser cuidadoso, pelo menos por enquanto.

 

Serviu-se de uma segunda chávena e passou uma revista metódica aos papéis de Ethel, guardados na secretária. Deparou com uma cartolina volumosa, dobrada, com a marca de importante. Ao passar-lhe os olhos ficou lívido. Aquela velha tonta tinha acções importantes. Tinha bens na Florida! Tinha uma apólice no valor de um milhão de dólares.

 

Na última prega encontrou uma cópia do testamento. Não queria acreditar no que lia!

 

Tudo. Tudo o que Ethel possuía lhe era deixado a ele. E o tudo era bastante.

 

Chegara atrasado ao trabalho, mas isso já não importava. Voltou a pendurar a roupa nas costas da cadeira, fez a cama com todo o cuidado, livrou-se do cinzeiro, dobrou uma manta, dois lençóis e uma almofada e colocou-os num canto do sofá, de forma a sugerir que fora ali que dormira e escreveu um bilhete.

 

Querida tia Ethel, calculo que tenha partido numa das suas viagens repentinas. Como sabia que não se ia importar, dormi no seu sofá, até ter a minha nova casa pronta. Espero que se tenha divertido. O seu sobrinho querido, Doug.

 

«E isto estabelece a natureza da nossa relação», pensou ele, enquanto saudava a fotografia de Ethel colada na porta do apartamento.

 

Às três horas da tarde de quarta-feira, Neeve deixou uma mensagem no gravador do telefone de Tse-Tse. Uma hora depois esta telefonava-lhe.

 

Neeve, cheguei agora mesmo de um ensaio. Acho que a peça é óptima! exclamou ela, excitada. Eu só tenho de passar o peru e dizer «Ya», mas nunca se sabe. Joseph Kapp pode muito bem estar entre o público.

 

Ainda serás uma estrela! garantiu Neeve, convicta. Mal posso esperar pelo dia em que direi: «Eu conhecia-a quando...» Tse-Tse, tenho de voltar ao apartamento de Ethel. Ainda tens a chave?

 

Ninguém sabe dela?perguntou TseTsé, perdendo o entusiasmo. Neeve passa-se alguma coisa estranha. Aquele sobrinho chanfrado tem dormido na cama dela e tem fumado no quarto dela. Das duas uma: ou ele não espera que ela regresse, ou não se importa de ser corrido a pontapé.

 

Neeve ergueu-se. Subitamente, sentiu-se abafada atrás da secretária e as amostras de fatos, bolsas, jóias e sapatos pareciam-lhe terrivelmente insignificantes. Trazia um fato de duas peças desenhado por um dos seus mais recentes estilistas. Tratava-se de um conjunto de lã cinza-claro e um cinto prateado descaído para as ancas. A saia em tulipa, mal lhe tapava os joelhos e à volta do pescoço atara um lenço de seda em tons de cinzento, prateado e cor de pêssego. Duas clientes encomendaram o conjunto assim que a viram com ele vestido.

 

Tse-Tse continuou ela, seria possível voltares ao apartamento de Ethel amanhã de manhã? Se ela lá estiver, óptimo, admites que estavas preocupada com ela. Se o sobrinho ainda andar por ali, dizes-lhe que Ethel queria que fizesses mais umas horas para limpar os armários da cozinha ou qualquer coisa assim.

 

Claro concordou Tse-Tse. Vou adorar. Não te esqueças que estou habituada às produções baratas, sem salário, só pelo prestígio. Mas deixa-me dizer-te, Neeve, que Ethel não se preocupa mesmo nada com o estado dos armários.

 

Se ela aparecer e não te pagar, eu pago declarou Neeve. Eu quero ir contigo. Sei que ela tem uma agenda na secretária. Só quero ter uma ideia do tipo de encontros que ela teria marcado antes de desaparecer.

 

Combinaram encontrar-se no átrio às oito e meia da manhã seguinte. À hora de fechar, Neeve trancou a porta virada para a Avenida Madison. Regressou ao escritório para se dedicar calmamente às tarefas que ainda tinha para fazer. Às sete telefonou para a residência do cardeal, na Avenida Madison, e pediu para lhe ligarem ao bispo Devin Stanton.

 

Recebi o teu recado disse-lhe ele, tenho muito gosto em aparecer amanhã à noite para jantar, Neeve. Sal também vai? Bom. Hoje em dia os três mosqueteiros da Bronx já não se encontram como deviam. Desde o Natal que não vejo Sal. Teria, por acaso, tornado a casar?

 

Antes de se despedirem, o bispo lembrou a Neeve que o seu prato favorito continuava a ser pasta a pesto.

 

A única pessoa capaz de a fazer melhor que tu era a tua mãe, que Deus a tenha concluiu ele, com doçura.

 

Normalmente, Devin Stanton não citaria o nome de Renata numa conversa telefónica casual. Neeve ficou desconfiada que ele andara a falar com Myles acerca da libertação de Nicky Sepetti. No entanto, não teve hipótese de o encostar à parede, obrigando-o a reconhecer a verdade, pois ele desligara.

 

«Terás o teu pesto, tio Dev», pensou ela, «mas terás também uma mosca a zumbir-te aos ouvidos. Não vou admitir que Myles ande na minha sombra o resto da vida.»

 

Mesmo antes de sair, ligou para o apartamento de Sal. Como de costume, este expandia o seu bom humor.

 

Claro que não me esqueci da noite de amanhã. Que vamos comer? Eu levo o vinho. O teu pai tem a mania, mas de vinhos não entende nada.

 

Ainda rindo, Neeve pousou o telefone, desligou as luzes e saiu. O tempo caprichoso de Abril tornara-se de novo ameno, mas mesmo assim sentia uma vontade enorme de caminhar.

 

Para agradar a Myles, não corria quase há uma semana e sentia o corpo rígido.

 

Atravessou, apressada, a Avenida Madison e decidiu cortar pelo Parque na Rua 79. Tentava sempre evitar as traseiras do museu, onde Renata fora encontrada.

 

Na Avenida Madison era ainda intenso o movimento de carros desportivos, na 5.a Avenida, os táxis, as limusinas e os brilhantes carros desportivos passavam a grande velocidade, mas o lado ocidental, que fazia fronteira com o parque, encontrava-se quase deserto.

 

Erguendo a cabeça enquanto se aproximava da Rua 79, Neeve recusava-se a sentir medo.

 

Preparava-se para virar para o parque quando um carro-patrulha encostou ao lado.

 

Miss Kearny saudou o sargento sorridente, abrindo o vidro. Como tem passado o comissário?

 

Neeve reconheceu-o imediatamente como um antigo motorista de Myles. Aproximou-se para falar com ele.

 

Alguns passos mais atrás, Denny parou abruptamente. Trazia um sobretudo comprido e discreto, com a gola levantada e cobrira a cabeça com um carapuço de lã. Tinha o rosto quase tapado. Mesmo assim, ao sentir os olhos do polícia, sentado ao lado do condutor do carro-patrulha, pousados nele, assustou-se. Os chuis tinham boa memória para caras e reconheciam qualquer pessoa, mesmo que só tivessem uma visão breve e de relance de um perfil. Denny sabia que assim era. Assim, obrigou-se a avançar ignorando Neeve, ignorando os polícias, embora continuasse a sentir os olhos pousados nele. Mesmo na sua frente, reparou na paragem de autocarros e vendo que um se aproximava, juntou-se à fila de pessoas que aguardavam e entrou. Ao pagar o bilhete sentia o suor a escorrer-lhe pela testa. Mais um segundo e o chui tê-lo-ia reconhecido.

 

Denny sentou-se. Este trabalho valia muito mais do que iria receber. Quando Neeve Kearny fosse abatida, quatro mil chuis de Nova Iorque iniciariam a caçada ao homem.

 

Enquanto entrava no parque, Neeve perguntava-se se a presença do sargento Collins naquele sítio, não passaria de coincidência. Ou, especulava ela, caminhando apressada pelo passeio, teria Myles arranjado mais um dos melhores de Nova Iorque para lhe servir de anjo da guarda?

 

Viam-se bastantes desportistas, alguns de bicicleta, outros a pé e um trágico número de pessoas sem casa, preparando-se para passar a noite debaixo de uma camada de jornais ou de cobertores velhos. Podiam até morrer ali, que ninguém daria por isso, pensava Neeve, enquanto as suas botas italianas percorriam, em silêncio, o caminho. Aborrecida, deu por si a olhar para trás, por cima do ombro. Quando era adolescente dirigia-se à biblioteca e procurava as fotografias do corpo de sua mãe nos jornais. Agora, à medida que avançava cada vez mais depressa, teve a sensação sinistra de estar de novo a vê-las. Só que desta vez era a sua cara e não a de Renata, que ocupava a primeira página do Daily Mirror, sob o título: «Assassinada.»

 

Kitty Conway inscrevera-se nas aulas de equitação no Parque Morrison apenas por uma razão: precisava de ocupar o tempo. Tratava-se de uma bonita mulher, de 58 anos, de cabelo loiro-avermelhado. Os olhos cinzentos eram realçados pelas linhas correctas do rosto. Já passara o tempo em que aqueles olhos pareciam dançar permanentemente, com um brilho divertido e endiabrado. Ao passar os cinquenta protestara para Michael:

 

«Por que é que me sinto com vinte e dois anos?»

 

«Porque tens vinte e dois anos.»

 

Havia quase três anos que Michael desaparecera. Enquanto Kitty trepava, ligeira, para cima da égua castanha, pensou nas coisas a que se dedicara naqueles últimos três anos. Arranjara uma licença imobiliária e tornara-se uma óptima vendedora; redecorara a casa em Ridgewood, Nova Jérsia, que ela e Michael tinham adquirido um ano antes de ele morrer. Mantinha uma participação activa nos Voluntários para a Alfabetização. Oferecia um dia por mês ao Museu. Fizera duas viagens ao Japão, onde Mike Junior, o seu único filho, oficial de carreira, se estabelecera, e deliciara-se com o convívio que tivera com a sua nora, meio japonesa. Recomeçara igualmente com as aulas de piano, mas sem grande entusiasmo. Duas vezes por mês, conduzia pessoas deficientes às consultas médicas e, por último, decidira também inscrever-^se nas aulas de equitação.

 

Contudo, apesar de todas as coisas que fazia, apesar de todos os amigos com quem convivia, nunca conseguira perder aquela sensação de solidão. Até agora, enquanto corajosamente se reunia aos outros alunos e seguia atrás do instrutor, observava com tristeza a aura que envolvia as árvores, o tom avermelhado que anunciava a Primavera.

 

«Oh, Michael!», suspirou. «Espero que isto me passe. Eu tenho-me esforçado.»

 

Que tal vai isso, Kitty? berrou-lhe o instrutor.

 

Óptimo respondeu, igualmente com um berro.

 

Se quer continuar bem, mantenha a rédea curta. Mostre-lhe quem manda. E ponha os calcanhares para baixo.

 

Tá percebido.

 

«Vai pró Inferno!», pensou Kitty. «Esta maldita égua é a pior de todas. Eu devia ter ficado com o Charley, mas claro que tinhas de o guardar para a nova aluna, tão sexy!»

 

O trilho seguia por uma encosta acentuada e o seu cavalo parava a todo o momento para comer erva. Um a um, os membros do grupo foram-lhe passando à frente. Kitty não queria perder-se deles.

 

Vá lá, maldita!murmurou, fincando os calcanhares contra o flanco do cavalo.

 

Então, com um movimento súbito e violento, a égua atirou a cabeça para trás e empinou-se. Espantada, Kitty puxou as rédeas ao mesmo tempo que o animal enfiava por um caminho lateral. Kitty lutava freneticamente, tentando não se inclinar para a frente. «Se tiverem problemas deixem-se ficar sentados!» Sentia as pedras soltas sob os cascos. O galope macio e irregular transformou-se num galope desenfreado, colina abaixo, correndo pelo caminho acidentado. Meu Deus, se o cavalo caísse, ela ficaria esmagada! Tentou soltar as botas de forma a manter apenas a ponta nos estribos, esperando não ficar presa se caísse. Atrás de si, ouvia o instrutor gritar:

 

Não puxe as rédeas!

 

Sentia o cavalo tropeçar numa pedra, que cedera sob o casco, inclinar-se para a frente, para logo de seguida recuperar o equilíbrio. Um pedaço de plástico negro esvoaçou e atingiu Kitty no rosto. Esta olhou para baixo e na sua mente penetrou uma imagem, que imediatamente se desvaneceu; a imagem de uma mão emoldurada por um punho azul.

 

O cavalo atingiu o fundo da encosta rochosa e, ganhando freio nos dentes, galopou desenfreado em direcção ao estábulo. Kitty conseguiu segurar-se até ao último instante, sendo cuspida da sela, apenas quando a égua parou abruptamente junto da gamela da água. Ao embater no solo, Kitty sentiu estalar todos os ossos do corpo, mas conseguiu levantar-se, abanar os braços e as pernas, mover a cabeça de um lado para o outro. Graças a Deus, não devia ter nada partido, nem nenhum ferimento grave.

 

O instrutor apareceu a galope.

 

Eu avisei-a para manter a rédea curta. Tinha de ser você a comandar. Sente-se bem?

 

Nunca me senti melhor respondeu Kitty, dirigindo-se para o carro. Tornaremos a encontrar-nos no próximo milénio.

 

Meia hora mais tarde, confortavelmente reclinada na sua banheira jacuzzi, apreciando o banho quente e perfumado, desatou a rir. «Pois bem, decididamente para amazona não tenho jeito. No que me diz respeito, rompi com o desporto real. A partir de agora, limitar-me-ei a correr, como faz qualquer ser humano sensato.» Mentalmente, reviveu a assustadora esperiência. «Não demorara mais de dois minutos», pensou. O pior fora quando aquele maldito cavalo tropeçara... A imagem do plástico batendo-lhe no rosto. E depois a impressão de que vira uma mão a sair de uma manga. «Que ridículo!» Mas, afinal, vira-a ou não?

 

Fechou os olhos, gozando a água tonificante e relaxante, o perfume e a carícia do banho de espuma.

 

«Esquece!», ordenou a si mesma.

 

A noite fria e ventosa exigia que o aquecimento se mantivesse ligado no apartamento. Mesmo assim, Seamus sentia-se gelado até à alma. Depois de mexer e revolver o hamburger e as batatas fritas no prato, desistiu de fingir que comia. Estava consciente dos olhos de Ruth cravados nele.

 

Então, fizeste-o? perguntou ela finalmente.

 

Não.

 

E por que não?

 

Porque talvez seja melhor deixá-lo seguir.

 

Eu disse-te para lhe escreveres qualquer coisa, agradecendo-lhe, visto que precisas desse dinheiro e ela não. O tom de voz de Ruth começava a subir. Diz-lhe que nestes últimos vinte e dois anos lhe deste cerca de um quilo de milhão de dólares, sem contar com a indemnização, e que é obsceno esperar mais de um casamento que não durou seis anos. Dá-lhe os parabéns pelo contrato que ela assinou para o livro, e diz-lhe que ficas muito contente por ela não precisar do dinheiro, já que as tuas filhas precisam. Depois assinas a carta e deixa-la na caixa do correio. Nós guardaremos uma cópia. Se ela protestar, o mundo inteiro ficará a saber a gananciosa que ela é. E quero ver depois qual é a universidade que lhe dará mais algum título honorífico, se ela não mantiver a palavra.

 

Ethel não se incomoda com as ameaças murmurou Seamus. Já devolveu uma carta dessas.^ Ela consegue fazer que esta pensão pareça uma vitória do feminismo. É um erro.

 

Ruth empurrou o prato para o lado.

 

Escreve.

 

Possuíam uma Xerox já velha no escritório, e à terceira tentativa conseguiram uma cópia nítida da carta. Ruth entregou o casaco a Seamus.

 

Agora, põe-te a caminho e mete-lhe a carta na caixa do correio. Seamus preferiu percorrer a pé os nove quarteirões. Levava a cabeça curvada pela infelicidade, afundara as mãos nos bolsos, segurando, com a ponta dos dedos, os dois sobrescritos que ali guardara. Um continha o cheque. Retirara-o do fundo do livro de cheques sem Ruth saber.

 

A carta seguia no outro sobrescrito. Qual deles iria ele enfiar na caixa do correio de Ethel? Podia visualizar a reacção dela, tão bem como se a tivesse ali na sua frente. Com igual clareza conseguia ver o que Ruth lhe faria caso entregasse o cheque.

 

Transpôs a esquina da Avenida West End com a Rua 82. Havia ainda muita gente na rua; jovens casais fazendo compras a caminho de casa, transportando nos braços mercearias; pessoas de meia-idade, bem vestidas, à procura de táxis, dirigindo-se aos restaurantes caros ou aos teatros, miseráveis aninhados contra os edifícios de pedra.

 

Seamus tremia quando alcançou o prédio de Ethel. As caixas do correio encontravam-se no vestíbulo interior, para lá da porta fechada, no topo das escadas. Sempre que entregava o cheque à última da hora, tocava a campainha do porteiro e este deixava-o enfiar o cheque no correio de Ethel. Naquele dia, isso não seria necessário. Uma garota, que ele reconheceu como um dos moradores do quarto andar, passou por ele a correr, dirigindo-se à escada. Impulsivamente, segurou-a por um braço. Ela voltou-se, assustada. Era uma garota magra, de rosto comprido e feições vincadas.

 

Teria cerca de catorze anos. Nada parecida com as suas filhas, pensou ele, que, de alguma forma, haviam herdado genes, que as tinham transformado em raparigas bonitas, simpáticas, amorosamente sorridentes. Sentiu um momento de remorso profundo ao tirar um dos sobrescritos.

 

Não te importas que eu entre contigo no átrio? Tenho de meter isto no correio de Miss Ethel.

 

A expressão assustada da rapariga desapareceu.

 

Oh, claro. Eu conheço-o. É o ex-marido dela. Devemos estar no dia

  1. Ela costuma dizer que é nesta altura que recebe o seu resgate.

 

E a garota riu-se, exibindo algumas falhas entre os dentes.

 

Em silêncio, Seamus procurou no bolso o outro sobrescrito e esperou que ela abrisse a porta. De novo se sentiu apoderado de uma onda assassina. Com que então ele era alvo de troça de todo o prédio! As caixas do correio ficavam imediatamente a seguir à porta. A de Ethel encontrava-se quase cheia. Continuava sem saber o que fazer. Deveria deixar o cheque ou a carta? A garota aguardava junto à porta, observando-o.

 

Chegou mesmo a tempo comentou ela. Ethel contou à minha mãe que, no dia em que se atrasasse com o cheque, iria responder a tribunal.

 

Seamus sentiu-se invadido pelo pânico. Tinha de deixar o cheque. Agarrou no sobrescrito e tentou enfiá-lo na abertura estreita da caixa.

 

Quando chegou a casa respondeu afirmativamente à pergunta feroz e zangada de Ruth. Naquele momento, não conseguiria suportar a explosão que provocaria, mal confessasse ter deixado o cheque. Quando ela saiu da sala, Seamus pendurou o casaco e retirou o segundo sobrescrito. Abriu-o. Estava vazio.

 

Deixou-se cair numa cadeira, todo a tremer, com o gosto da bilis subindo-lhe pela garganta. Enfiou a cabeça entre as mãos. Mais uma vez conseguira estragar tudo.

 

Colocara a carta e o cheque no mesmo sobrescrito e, agora, encontravam-se ambos no interior da caixa do correio de Ethel.

 

Nicky Sepetti passou a manhã de quarta-feira na cama. O ardor no peito era ainda maior que na noite anterior. Marie entrava e saía no quarto. Trouxera-lhe um tabuleiro com sumo de laranja, café, e pão italiano fresco, generosamente barrado com compota. Fartara-se de lhe pedir que a deixasse chamar um médico.

 

Louie chegou ao meio-dia, pouco depois de Marie sair para o trabalho.

 

Com todo o respeito, Don Nicky, está com aspecto de muito doente declarou ele.

 

Nicky mandou-o para o rés-do-chão ver televisão. Quando estivesse pronto para ir a Nova Iorque chamá-lo-ia.

 

Louie murmurou:

 

Tinha razão quanto a Carmen Machado. Já o apanharam acrescentou Louie, sorrindo e piscando-lhe o olho.

 

Era quase noite quando Nicky se levantou e se começou a vestir. O melhor era ir até à Rua Mulberry e não deixar que alguém percebesse o estado em que estava. Ao agarrar no casaco, sentiu a pele encharcada de suor. Segurou-se à cabeceira da cama, sentou-se, alargou a gravata, desapertou o colarinho e deitou-se. Nas horas seguintes, a dor no peito ia e vinha como se se tratasse de uma onda gigantesca. Debaixo da língua sentia a boca a arder por causa das pastilhas de nitroglicerina, que não parava de engolir. Não lhe aliviavam a dor. Apenas serviam para aumentar a dor de cabeça aguda, que habitualmente sentia, quando elas derretiam.

 

Alguns rostos apareceram-lhe na mente. O rosto de sua mãe:

 

«Nicky, não andes com esses tipos. Nicky, tu és um bom rapaz. Não te metas em sarilhos.»

 

Prestara provas ao bando, executando todo o tipo de trabalhos. Nunca se metera com mulheres. E aquela estúpida ameaça em tribunal. Tessa. Bem gostaria de a ver uma vez mais. Nicky Junior. Não, Nicholas. Theresa e Nicholas. Ficariam contentes se ele se findasse na cama, como um cavalheiro.

 

Sentiu ao longe uma porta abrir e fechar. Marie deveria estar de volta. Depois a campainha tocara, insistente e autoritária. Ouviu a voz zangada de Marie:

 

Não sei se ele está. Que querem dele?

 

«Estou em casa», pensou Nicky. «Sim. Estou em casa.» A porta do quarto abriu-se de par em par. Através dos olhos velados leu o choque no rosto de Marie, ouviu o seu berro:

 

Chamem o médico.

 

Os outros eram polícias. Não precisavam de vir fardados. Mesmo moribundo conseguia cheirá-los. O tipo desmascarado, aquele que tinham apanhado. Claro que os chuis tinham de vir logo ter com ele.

 

Marie chamou num murmúrio.

 

Ela inclinou-se, aproximou o ouvido da boca dele, acariciando-lhe a testa.

 

Nicky chorou ela.

 

Sobre a sepultura da... da minha... mãe... Eu... não... mandei... matar a mulher... do Kearny.

 

Queria acrescentar que tentara tudo para anular o contrato sobre a filha dele, mas tudo o que conseguiu foi chamar «Mama», antes de uma derradeira dor cega e alucinante lhe inundar o peito, e os olhos perderam a visão. A cabeça caiu na almofada, enquanto a respiração agonizante ecoava por toda a casa, até que, abruptamente, tudo acabou.

 

A quantas pessoas teria a linguaruda da Ethel contado que ele andava a servir-se do dinheiro que ela espalhava no apartamento? Esta dúvida não deixava de inquietar Doug, naquela manhã de quarta-feira, desde que ocupara o seu lugar, atrás da secretária, no átrio do Edifício da Cosmic Oil. Como um autómato, ia verificando entrevistas, entregava os cartões plastificados aos visitantes, recolhia-os à saída. Por diversas vezes, Linda, a recepcionista do 1.o andar, passara por ali, tentando meter conversa. Naquela manhã, foi um pouco frio com ela, facto que a deixou intrigada. Que diria ela se soubesse a quantia que ele iria herdar? Onde teria Ethel arranjado aquilo tudo?

 

Só havia uma possibilidade. Ethel contara-lhe que arrancara os olhos da cara a Seamus, quando ele pedira o divórcio. Para além da avultada pensão, conseguira uma quantia razoável e provavelmente fora suficientemente esperta para a investir. Depois, aquele livro que ela escrevera, cinco ou seis anos atrás, vendera-se muito bem. Ethel, embora parecesse desmiolada, sempre tivera os pés assentes na terra. E era essa certeza que mantinha Doug pouco à vontade e apreensivo. Ela sabia que ele lhe tirava dinheiro. A quantas pessoas teria contado?

 

Depois de se debater com esta questão até ao meio-dia, tomou uma decisão. Na sua conta deveria ter à volta de quatrocentos dólares. Foi com impaciência que esperou na interminável bicha do banco e levantou o dinheiro em notas de cem. Iria escondê-las nos sítios que Ethel utilizava com menos frequência como esconderijos. Assim, se alguém procurasse o dinheiro, ele estaria ali.

 

Um pouco mais tranquilo, parou para comer um cachorro quente e regressou ao trabalho.

 

Às seis e trinta, quando Doug dobrava a esquina da Broadway para a Rua 80, viu Seamus descendo apressado as escadas do prédio de Ethel. Dificilmente conteve uma gargalhada. Claro! Estavam no dia 5 e Seamus, o lorpa, ali estava, mesmo a tempo de entregar a pensão. Que triste figura fazia com aquele casaco desbotado! E isto fez Doug lembrar com amargura, que ainda levaria algum tempo até que ele próprio pudesse voltar a comprar roupa nova. A partir daquele dia, ele teria de ter muito, muito cuidado.

 

Todos os dias recolhia o correio, utilizando para isso a chave que Ethel guardava numa caixa, em cima da secretária. Ali estava o sobrescrito de Seamus, com um canto de fora. A maior parte da correspondência não interessava. As contas de Ethel seguiam directamente para o contabilista. Passou os olhos pelos sobrescritos e depois pousouos sobre a secretária. Todos, excepto o sobrescrito sem selo, que continha a pensão de Seamus. Nem sequer estava bem fechado. Havia uma carta juntamente com o cheque assinado.

 

Seria fácil abri-la e voltar a fechá-la. Com a mão, seguroua numa das pontas e com todo o cuidado, para não rasgar, Doug abriu o sobrescrito. O cheque caiu imediatamente. Caramba, a caligrafia dele era digna de análise.

 

Se os traços pareciam as estradas de um mapa, era no floreado oblíquo que se salientava a caligrafia de Seamus.

 

Doug pousou o cheque e abriu a carta. Leu-a, voltou a lê-la, e ficou de boca aberta pelo espanto. «Que raio!» Cuidadosamente, voltou a enfiar a carta e o cheque no sobrescrito, lambeu a parte aderente e pressionoua com firmeza. A imagem de Seamus com as mãos firmemente enfiadas nos bolsos, quase correndo ao atravessar a rua, provocou um arrepio gelado em Doug. Seamus andava a tramar alguma. Qual seria o jogo dele ao escrever uma carta, onde afirmava que Ethel concordara em suspender a pensão, e depois incluir o cheque?

 

No dia de São Nunca iria ela concordar com isso, pensou Doug. Sentiu-se de novo arrepiado. E se a carta era destinada a ele e não a Ethel?

 

Ao chegar a casa, Neeve sentiu-se radiante ao constatar que Myles se dedicara às compras de mercearia.

 

Até ao Zabar’s foste! exclamou ela feliz. Eu que vinha a pensar se conseguiria sair da loja mais cedo amanhã. Agora, já posso adiantar qualquer coisa esta noite.

 

Ela avisara-o de que iria despachar alguns papéis no escritório depois da hora de encerramento. Em silêncio, evocou uma oração de agradecimento por ele não perguntar como e por onde viera.

 

Myles preparara uma pequena perna de carneiro, cozera feijão-verde fresco e fizera uma salada de tomate e cebola com molho de vinagre. Pusera a pequena mesa do escritório e abrira uma garrafa de Borgonha. Neeve apressou-se a trocar de roupa e enfiou umas calças e uma camisola. Com um grande suspiro de alívio sentou-se na cadeira e serviu-se de vinho.

 

Foste muito amável, commish elogiou ela.

 

Bom, como amanhã à noite terás de alimentar os três idosos mosqueteiros da Bronx, calculei que um bom serviço merece ser recompensado respondeu Myles, começando a assar o carneiro.

 

Neeve observava-o em silêncio. Estava com umas cores óptimas. Os olhos já não tinham aquela expressão grave e doentia.

 

Detesto ter de o dizer, mas a verdade é que estás com um aspecto muito saudável comentou ela.

 

Sinto-me óptimo retorquiu Myles, colocando alguns pedaços perfeitamente passados no prato de Neeve.Espero não ter abusado do alho.

 

Neeve deu a primeira dentada e exclamou:

 

Está óptimo. Tens de estar muito bem para conseguires cozinhar assim.

 

Myles sorveu um golo de Borgonha.

 

Um bom vinho, se me é permitido gabá-lo. Tinha os olhos embaciados.

 

O médico avisara Neeve acerca da depressão.

 

«O ataque cardíaco, o ter deixado de trabalhar, a operação...»

 

«A constante preocupação comigo», acrescentara Neeve.

 

«Preocupa-se contigo porque não consegue perdoar-se por não se ter preocupado com a tua mãe.»

 

«E como posso eu ajudá-lo?»

 

«Mantendo Nicky Sepetti na cadeia. Se isso não for possível, na Primavera obriga-o a dedicar-se a qualquer coisa. Neste momento, Neeve, ele tem os nervos em franja. Sem ti, ele estaria perdido, mas ao mesmo tempo odeia-se por depender tanto de ti emocionalmente. Ele é um tipo orgulhoso. E já agora deixa de o tratar como um bebé.»

 

Isto passara-se seis meses antes. Agora já estavam na Primavera. Neeve tinha a certeza de que tentara tratá-lo como antigamente. Costumavam ter discussões acesas de muitas coisas, desde o empréstimo que Neeve aceitara de Sal, às mais diversas questões políticas.

 

«Em noventa anos és a primeira a votar nos Republicanos», explodira Myles uma vez.

 

«Não é tão grave como perder a fé.»

 

«Mas anda lá perto.»

 

E, agora, que estavam a voltar ao normal, vinha a preocupação por causa de Nicky Sepetti, pensou ela, e aquilo poderia durar para sempre.

 

Abanando a cabeça inconscientemente, olhou em volta, constatando mais uma vez que o escritório era o seu compartimento preferido. O tapete oriental, já gasto, era em tons de vermelho e azul; o sofá de couro e o conjunto de cadeiras elegantes e convidativas, as paredes cobertas de fotografias de Myles recebendo inúmeras medalhas e condecorações. Myles com o presidente do Município, com o governador, até mesmo com o presidente Republicano. As janelas abriam-se para o Hudson e os reposteiros, atados de lado, da época vitoriana, eram carmesim e de um azul-forte e quente, lançando reflexos nos candeeiros de cristal pegados à parede; eram os mesmos que Renata pendurara. Entre os candeeiros estavam as fotografias de Renata. Aquela primeira que o pai dela tirara, quando tinha dez anos e salvara Myles, onde ela o olhava com adoração, enquanto ele deitado, repousava a cabeça ligada na almofada. Renata com Neeve ainda bebé, com Neeve já criança. Renata, Neeve e Myles com máscaras de mergulhador no Maui. Essa fora tirada um ano antes de Renata morrer.

 

Myles quis saber qual seria a ementa para o jantar do dia seguinte.

 

Como não sabia o que querias, resolvi comprar de tudo declarou ele.

 

Sal avisou-me logo que não queria da tua dieta. O bispo quer pesto. Myles resmungou:

 

Ainda me lembro quando Sal pensava que uma sanduíche de pão comprido era uma coisa de luxo e quando a mãe de Devin o mandava à loja comprar dez tostões de pastéis de peixe e uma lata àespaghetti Heinz.

 

Neeve tomou o café na cozinha, enquanto adiantava os preparativos para o jantar. Os livros de culinária de Renata estavam guardados na prateleira, por cima do lava-loiças. Pegou no seu favorito, uma velha relíquia de família, que continha receitas do norte de Itália,

 

Depois da morte de Renata, Myles arranjara a Neeve um professor particular, para lhe dar aulas de conversação. No Verão, passava sempre um mês em Veneza com os avós e o primeiro ano da universidade fizera-o em Perugia. Durante anos evitara aqueles livros, sem coragem para enfrentar as anotações escritas na caligrafia redonda e desenhada de Renata. «Mais pimenta. Bater apenas vinte minutos. Deixar o óleo ferver.»

 

Podia ouvir Renata, cantando sozinha, enquanto cozinhava, deixando-a a ela mexer, misturar ou medir qualquer coisa, para depois explodir:

 

«Cara, ou isto é um erro de impressão, ou o chefe estava com os copos. Quem iria pôr tanto óleo nesta massa? Seria melhor beber o mar Morto.»

 

Por vezes, Renata traçava esboços rápidos de Neeve, ocupando as margens com miniaturas lindamente desenhadas. Neeve vestida de princesa, sentada a uma mesa, Neeve debruçada sobre uma malga misturadora, Neeve usando um vestido Gibson, desenformando biscoitos. Dúzias de desenhos, cada um contendo a recordação de uma perda irreparável. Ainda agora Neeve não se atrevia a pousar os olhos neles. As memórias eram demasiado dolorosas. De repente, sentiu os olhos molhados.

 

Eu sempre lhe disse para se matricular num curso de pintura comentou Myles.

 

Neeve nem percebera que ele se viera colocar atrás de si.

 

A mãe gostava do que fazia.

 

Vender roupas a mulheres enfastiadas. Neeve mordeu o lábio.

 

Suponho que é isso que dizes de mim. Myles respondeu reconciliador:

 

Oh, Neeve, desculpa. Admito que fui-longe de mais.

 

Mas foste sincero. Agora sai da minha cozinha. Deliberadamente, foi batendo com a louça enquanto pesava, cortava,

 

temperava e batia. «Admite-o. Myles é o maior macho chauvinista do mundo.» Se Renata tivesse seguido pintura, transformando-se numa medíocre pintora de aguarelas, ele teria considerado isso como um passatempo próprio para uma senhora. Ele simplesmente não conseguia entender, que ajudar outras mulheres a escolher fatos adequados, significava para elas uma grande ajuda nas suas vidas social e profissional.

 

«Eu já escrevi para a Vogue, para a Town and Country, paraoNew York Times e sabe Deus para quem mais», pensava Neeve. «Mas isso para ele não quer dizer nada. É como se roubasse as pessoas por vender roupa cara.»

 

Lembrou-se, então, como Myles se aborrecera quando, durante a festa de Natal, fora dar com Ethel Lambston na cozinha, vasculhando os livros de culinária de Renata.

 

«Interessa-se por culinária?», perguntara-lhe, friamente.

 

Naturalmente que Ethel não percebeu o aborrecimento de Myles.

 

«De maneira nenhuma», respondera-lhe ela jovialmente. «Eu sei italiano e por acaso reparei nos livros. Quests desegni sono stupendi.»

 

Ethel estivera a ver os livros que continham os esboços. Myles tirou-lhos da mão.

 

«A minha mulher era italiana. Eu não falo a língua.»

 

Foi nesse momento que Ethel percebeu que Myles era viúvo, descomprometido, e nunca mais o largou durante a noite.

 

Finalmente, estava tudo pronto, Neeve colocou os pratos no frigorífico, arrumou tudo e pôs a mesa na sala de jantar. Propositadamente, ignorou Myles que via televisão no escritório. Quando acabou de empilhar as travessas no lava-louças, começavam as notícias das onze horas.

 

Myles estendeu-lhe um balão com brande.

 

A tua mãe também costumava bater com a loiça quando se zangava comigo.

 

O sorriso de Myles era infantil. Era a sua maneira de pedir desculpa.

 

Neeve aceitou o brande.

 

Pena é que não tos atirasse à cabeça.

 

Riram-se juntos e o telefone tocou. Myles foi atender. O seu «Está?» bem-disposto foi imediatamente seguido por uma série de perguntas rápidas e concisas. Neeve viu a boca comprimir-se-lhe.

 

Ao pousar o auscultador, disse inexpressivamente:

 

Era Herb Schwartz. Um dos nossos tinha conseguido penetrar no círculo mais próximo de Nicky Sepetti. Acabaram de o encontrar num caixote de lixo. Ainda vivo, e com uma pequena hipótese de sobreviver.

 

Neeve escutava, sentindo a boca cada vez mais seca. O rosto de Myles estava desfigurado, mas não conseguia interpretar aquilo que lia nele.

 

Chama-se Tony Vitale continuou Myles. Tem 31 anos. Lá, era conhecido como Carmen Machado. Alvejaram-no quatro vezes. Deveria estar morto. Por sorte, conseguiu aguentar-se. Havia uma coisa que ele nos queria dizer.

 

Que era?

 

Herb estava lá na sala das urgências. Tony disse: «Não há contrato, Nicky-Neeve Kearny». E Myles tapou a cara com a mão como se quisesse esconder o que nele transparecia.

 

Neeve olhou espantada para o rosto angustiado.

 

Não acreditavas realmente que houvesse algum?!

 

Oh.sim.Myles ergueu a voz.Oh, sim. E agora pela primeira vez em dezassete anos vou poder dormir à noite. Pousou-lhe a mão nos ombros e continuou: Neeve, eles foram lá para interrogar Nicky. Os nossos. Chegaram mesmo a tempo de o ver morrer. O sacana do filho da mãe teve um ataque cardíaco. Está morto, Neeve, Nicky Sepetti está morto.

 

Rodeou-a com os braços. Neeve podia sentir-lhe o bater do coração.

 

Então, deixa que a morte dele te liberte, papá implorou ela Inconscientemente, afagou-lhe o rosto com a palma das mãos, lembrando-se depois que aquela era a carícia favorita de Renata. Deliberadamente, imitou a pronúncia da mãe:

 

Caro Milo, agora faz aquilo que te digo...

 

Conseguiram ambos esboçar um sorriso trémulo e Myles afirmou - Vou tentar. Prometo que vou.

 

O agente incoberto Anthony Vitale, conhecido na organização criminosa Sepetti, como Carmen Machado, encontrava-se na unidade de cuidados intensivos do Hospital de S. Vincent. As balas, alojadas nos pulmões tinham-lhe desfeito as costelas protectoras da caixa toráxica e desfaceládo o ombro esquerdo. Continuava vivo milagrosamente. Tinha o corpo cheio de tubos que transportavam antibióticos e glucose através das veias. Uma máquina encarregava-se de respirar por ele. De tempos a tempos tinha alguns momentos de lucidez e podia ler a tristeza no rosto dos seus pais. Queria poder assegurar-lhes. «Eu sou duro, eu vou conseguir.»

 

Se ao menos conseguisse falar! Teria conseguido dizer alguma coisa quando o encontraram? Tentara contar-lhes sobre o contrato mas não tinha saído como ele queria. Nicky Sepetti e o seu bando não tinham feito nenhum contrato para abater Neeve Kearny. Alguém o fizera. Tony sabia que fora alvejado na terça à noite. Há quanto tempo estaria no hospital? Vagamente foi-se lembrando de fragmentos da conversa de Nicky sobre o contrato. Não se pode anular o contrato. O ex-comissário não tardará a fazer outro funeral

 

Tony tentou levantar-se. Tinha de os avisar.

 

Calma murmurou uma voz suave.

 

Sentiu uma picada no braço e alguns instantes depois caía num sono calmo sem sonhos.

 

Na manhã de quinta-feira, às oito horas, Neeve e Tse-Tse encontravam-se dentro de um táxi do outro lado da rua da casa de Ethel Lambston. Na terça-feira, o sobrinho saíra para o trabalho às oito e vinte. Naquele dia, queriam evitá-lo. O motorista lamentava-se:

 

Não é aqui à espera que vou enriquecer.

 

Mas imediatamente se acalmou, perante a promessa de uma gorjeta de dez dólares.

 

Eram oito e quinze quando Tse-Tse descobriu Doug.

 

Ali.

 

Neeve observou-o, enquanto ele fechava a porta do apartamento, olhava em volta e se punha a caminho da Broadway. A manhã estava fria e ele vestia um casaco canelado com cinto.

 

Aquilo é um Burberry autêntico comentou Neeve. Para recepcionista deve ganhar muito bem.

 

Surpreendentemente, encontraram o apartamento arrumado. Num dos cantos do sofá encontravam-se os lençóis dobrados debaixo de uma almofada, visivelmente amarrotada, provando que alguém a usara para dormir. Não havia sinais de cinzeiros sujos, mas Neeve teve a certeza de detectar um ténue cheiro a cigarro no ar.

 

Ele fumou, mas não quer que alguém dê por isso comentou. Por que será?

 

O quarto de cama estava impecavelmente limpo, a cama feita e a mala de Doug continuava na cadeira. Por cima desta viam-se os cabides contendo fatos, calças e blusões. O recado para Ethel encontrava-se no toucador.

 

Quem anda a enganar quem? perguntou Tse-Tse. Que o teria levado a escrever aquilo e a desocupar o quarto?

 

Neeve sabia que TseTsé tinha um olho excelente para captar pormenores.

 

Está bem concedeu ela. Comecemos pelo bilhete. Alguma vez ele lhe deixou algum?

 

Tse-Tse trazia o seu fato de criada sueca. Abanou vigorosamente o rolo de tranças e respondeu:

 

Nunca.

 

Neeve dirigiu-se ao armário e abriu a porta. Cabide por cabide examinou o guarda-roupa de Ethel verificando se faltava algum dos casacos.

 

Encontravam-se todos ali pendurados; o de metal; o de casemira; o casacão, o Burberry...

 

O de couro, a capa... E perante o espanto de Tse-Tse, explicou-lhe o que procurava.

 

Tse-Tse reforçou a sua desconfiança.

 

Ethel sempre me disse que deixou de comprar à toa, desde que Neeve se encarregou da roupa dela. Tens razão. Ela não tem mais nenhum casaco.

 

Neeve fechou a porta do armário.

 

Não me agrada nada andar por aqui a meter o nariz, mas sou obrigada a isso. Ethel trazia sempre uma agenda na carteira, mas tenho a certeza que ela possuía um diário.

 

Tem sim confirmou Tse-Tse. Está na secretária dela.

 

O livro de apontamentos encontrava-se ao lado da pilha de cartas. Neeve abriu-o. Tratava-se de uma agenda com uma página para cada dia do mês, incluindo o Dezembro do ano anterior. Folheou até encontrar a página do dia 31 de Março. Numa letra redonda Ethel escrevera: «Mandar Dougà loja de Neeve buscar a roupa», e assinalara três horas com um círculo. Ao lado acrescentara: «Doug no apartamento.»

 

Tse-Tse espreitava por cima do ombro de Neeve.

 

Então ele não mentiu sobre isso comentou.

 

O sol da manhã começava a entrar radioso, inundando o aposento. Subitamente desapareceu por detrás de uma nuvem. Tse-Tse estremeceu e exclamou:

 

Valha-me Deus, Neeve, esta casa começa a mexer comigo.

 

Sem lhe responder, Neeve passou os olhos pelo mês de Abril. Havia alguns apontamentos assinalados cocktails e almoços. Todas as páginas tinham um traço por cima dos compromissos assinalados. No dia 1 de Abril, Ethel escrevera: «Fazer as pesquisas; escrever livro.»

 

Ela cancelou tudo. Realmente, tencionava afastar-se, ou pelo menos, fechar-se nalgum sítio para escrever murmurou Neeve.

 

Então, pode ser que tenha antecipado a partida?sugeriu Tse-Tse.

 

É possível.

 

Neeve virou então para as páginas anteriores. A última semana de Março estava preenchida com nomes de costureiros famosos; Nina Cochran Gordon Steuber; Victor Costa; Ronald Altera; ReginaMavis; Anthony della Salva, Kara Potter...

 

Não é possível que ela tenha estado com esta gente toda!exclamou Neeve. Acho que deve ter sido para lhes telefonar e confirmar as declarações, antes de entregar o artigo.

 

Apontou para uma chamada feita na quinta-feira, 30 de Março. Cabeçalho para o artigo da Woman Contemporary.

 

Rapidamente, verificou os três primeiros meses do ano, notando que à margem dos apontamentos, Ethel registara as pessoas com táxis e gorjetas, juntamente com referências e almoços, jantares e encontros! «Boa entrevista, mas fica aborrecida se tem de esperar. Carlos é o novo chefe do Le Cygne... Não usar a Valet Limo; os carros cheiram a desinfectante...»

 

As notas eram desconexas, soltas, os números apareciam frequentemente riscados e corrigidos. Para mais, Ethel era obviamente uma simplória. Triângulos, corações, espirais e desenhos cobriam o que restava de cada folha.

 

Impulsivamente, Neeve procurou o dia 22 de Dezembro, o dia em que ela e Nyles tinham oferecido a festa de Natal. Era óbvio que Ethel a considerara um acontecimento importante. Em letras maiúsculas escrevera o nome e a morada de Neeve e sublinhara-os. Espirais e floreados ilustravam o comentário de Ethel: «O pai de Neeve é viúvo e fascinante.» Na margem da folha via-se uma imitação grosseira do esboço que Renata fizera no livro de culinária.

 

Myles ganharia uma úlcera se visse isto comentou Neeve. Tive de a convencer que ele continua demasiado desgostoso para retomar uma vida social normal. Ela queria convidá-lo para um jantar a dois, na noite de fim de ano. Pensei que ele tinha uma apoplexia.

 

Voltou à última semana de Março e começou a copiar os nomes que Ethel ali escrevera.

 

Pelo menos já é um começo disse.

 

Saltaram-lhe dois nomes à vista; Toni Mendell, a editora do Contemporary Woman. O cocktail não fora o lugar indicado para lhe perguntar se Ethel não teria comentado nada acerca de uma possível viagem. O outro era Jack Campbell. Era óbvio que o contrato do livro fora importantíssimo para Ethel. Talvez ela lhe tivesse dito alguma coisa, sem que Campbell prestasse atenção.

 

Neeve pousou a agenda e fechou a tampa da secretária.

 

É melhor ir embora.

 

Voltou a atar o lenço vermelho e azul à volta do pescoço. Tinha a gola do casaco levantada e trazia o volumoso cabelo negro preso atrás.

 

Estás óptima comentou Tse-Tse. Ainda esta manhã ouvi, no elevador, o tipo do 11-C perguntar quem eras.

 

Algum príncipe Valente, espero eu? Tse-Tse riu-se.

 

Algures entre os quarenta e a morte. Uma peruca de má qualidade. Parece uma pena negra num campo de algodão.

 

Então, podes ficar com ele. Pronto, se Ethel aparecer, ou o simpático do sobrinho vier para casa mais cedo, já sabes o que dizes. Limpa os armários da cozinha e lava os vidros da prateleira de cima. Faz que pareça que tens estado muito ocupada, mas abre bem os olhos recomendou Neeve, olhando para o correio.Dá uma vista de olhos a isto. Talvez Ethel tenha recebido alguma carta que a fizesse mudar de ideias. Deus, como me sinto abelhuda. Mas é necessário. Ambas sabemos que se passa algo de estranho.

 

De qualquer forma, não podemos andar aqui a entrar e sair indefinidamente.

 

Enquanto se encaminhava para a porta, Neeve olhou em volta.

 

Tu, realmente, consegues fazer que isto pareça habitável elogiou ela. De certa forma, lembra-me Ethel. Normalmente, o que se vê primeiro é a camada superficial que nos ilude. Ethel age sempre de uma forma tão tonta, que nos esquecemos que na verdade ela é uma pessoa muito esperta.

 

Uma grande quantidade de fotografias encontravam-se coladas na porta. Com a mão na maçaneta, Neeve observou-as atentamente. Na maioria, Ethel parecia ter sido apanhada a meio de uma frase, com a boca ligeiramente aberta, os olhos cheios de energia, os músculos do rosto em visível movimento.

 

Uma das fotografias chamou a atenção de Neeve. A expressão era tranquila, a boca estática e os olhos tristes. Que é que Ethel lhe confidenciara uma vez? «Eu nasci no dia de S. Valentim. Fácil de lembrar, não é? Mas sabes há quantos anos ninguém me manda um cartão ou se dá ao trabalho de me telefonar? Acabo sempre sozinha a cantar o Feliz Aniversário.»

 

Neeve anotara mentalmente que não podia esquecer-se de enviar a Ethel flores e um convite para almoçar no dia de S. Valentim, mas essa semana passara-a em Vail, a esquiar. «Desculpe, Ethel», pensou. «Lamento imenso.»

 

Teve então a inquietante sensação de que aqueles olhos nunca a perdoariam.

 

Depois da operação a que se submetera, Myles adquiriu o hábito de dar longos passeios durante a tarde. O que Neeve ignorava era que, nos últimos quatro meses, visitara habitualmente um psiquiatra da Rua 75, Este.

 

«Você está com uma depressão», dissera-lhe o cardiologista. «Muita gente sofre do mesmo depois de uma operação deste tipo. Faz parte da recuperação. Mas suponho que a sua tem uma origem diferente.» E assim convenceu Myles a tentar uma primeira consulta com o Dr. Adam Felton.

 

Tornara-se parte da rotina das quintas-feiras, às duas horas. Detestara a ideia de se deitar no sofá e em vez disso sentava-se na cadeira de couro. Adam Felton não se adequava à imagem que Myles fazia de um psiquiatra. Quarentão, tinha o cabelo cortado à escovinha, usava uns óculos algo libertinos e o seu corpo era esguio e anguloso. À terceira ou quarta consulta, conquistara a confiança de Myles, que deixou de se sentir como quem exibe a alma completamente nua. Em vez disso, tinha a sensação de que quando falava com Felton se encontrava de regresso ao seu gabinete da esquadra, expondo aos seus homens os diferentes ângulos de uma investigação.

 

«Engraçado», pensava agora, enquanto observava Felton girar um lápis entre os dedos.

 

«Nunca me ocorreu desabafar com Dev.» Mas aquilo também não era assunto para confessionário.

 

Pensei que aos psiquiatras não era permitido ter tiques nervosos comentou secamente.

 

Adam Felton riu-se, dando outra volta ao lápis.

 

Tenho todo o direito de estar nervoso, já que estou a deixar de fumar. Hoje parece muito seguro de si próprio.

 

O comentário foi feito no mesmo tom que se utiliza para falar a um conhecido numa qualquer festa ou cocktail.

 

Myles contou-lhe, então, como Nicky Sepetti morrera e perante as perguntas penetrantes de Felton, exclamou:

 

Nós já falámos sobre isso, vivi dezassete anos de angústia, sentindo que algo aconteceria a Neeve mal Sepetti fosse libertado. Abandonei Renata. Quantas malditas vezes tenho de lho dizer? Eu não levei a sério as ameaças de Nicky. Ele era um assassino. Ainda não saíra há três dias da prisão e um dos nossos foi abatido. Provavelmente, Nicky desmascarou-o. Sempre afirmou ser capaz de cheirar um polícia.

 

E agora sente que a sua filha está segura?

 

Agora sei que ela está segura. O nosso agente ainda conseguiu dizer que não havia nenhum contrato sobre ela. Isso deve ter sido discutido. Eu sei que nenhum dos outros se atreveria. De qualquer forma, iam afastar Nicky. Ficarão felizes por irem ao seu enterro.

 

Adam Felton começou de novo a brincar com o lápis, hesitou e, finalmente, lançou-o para o caixote do lixo.

 

Acabou de afirmar que a morte de Sepetti o libertou do medo que o perseguiu durante dezassete anos. Que quer isso dizer? Até que ponto isso vai modificar a sua vida?

 

Quarenta minutos depois, Myles saiu do consultório e retomou o seu passeio. Avançava num passo quase tão vivo como o de outrora, sentia que fisicamente se encontrava praticamente recuperado. Agora que não tinha de se preocupar com Neeve, arranjaria um emprego. Não dissera a Neeve, mas a sua disponibilidade já tinha sido sondada no sentido de aceitar chefiar o Departamento Presidencial de Combate à Droga, sediado em Washington. Isso significaria que teria de passar muito tempo naquela cidade, teria mesmo de arranjar casa lá. Mas iria ser bom para Neeve ficar entregue a si própria. Deixaria de passar tanto tempo em casa e começaria a relacionar-se com gente nova. Antes de ele adoecer, ela passava os fins-de-semana de Verão em Hamptons e ia a Vail com mais frequência para praticar esqui. No ano anterior tivera de a obrigar a sair e foi por poucos dias. Queria vê-la casada. Ele não viveria eternamente. Agora, graças à oportuna morte de Nicky, poderia partir para Washington sem qualquer preocupação.

 

Myles ainda se lembrava da dor alucinante que sentira quando sofreu o ataque cardíaco. Era como se um rolo compressor cheio de picos lhe estivesse a comprimir o peito.

 

«Espero que tenhas sentido o mesmo, seu canalha!», pensou, para de seguida ver o rosto de sua mãe olhando-o muito séria.

 

«Não desejes aos outros o que não queres que te desejem a ti. Assim como deres, assim receberás.»

 

Atravessou a Avenida Lexington e passou pelo restaurante Belle Vita. O ténue e delicioso aroma da comida italiana invadiulhe as narinas e lembrou-lhe com prazer o jantar que Neeve prepararia naquela noite. Seria bom reunir-se novamente com Dev e Sal. Deus, como parecia tão distante o tempo em que eram crianças e viviam na Avenida Tenbroeck. A maneira como hoje as pessoas desprezavam a Bronx! Fora um sítio óptimo para viver. Havia apenas sete casas num quarteirão e abundavam os matos espessos com bétulas e carvalhos... Tinham feito três casas em cima das árvores. O quintal onde os pais de Sal trabalharam, estava agora transformado na Estrada Industrial Williamsbridge. Os campos onde ele, Sal e Devin passeavam de trenó, estavam agora ocupados pelo Centro Médico Einstein. Continuava a haver óptimas áreas residenciais. Na Avenida Park, Myles desviou-se de um pequeno monte de neve derretida. Recordou-se do dia em que Sal perdera o controlo do seu trenó e passara por cima do braço de Myles, partindo-o em três sítios. Sal desatara a chorar: «O meu pai mata-me!»

 

Dev acabara por assumir a culpa toda e o pai dele veio pedir desculpa.

 

«Ele não queria fazer mal, mas é tão desastrado.»

 

Devin Stanton, Sua Eminência, o bispo. Dizia-se que o Vaticano tinha os olhos postos em Dev para uma vaga na Arquidiocese, e isso significaria um chapéu de cardeal.

 

Ao chegar à 5.a Avenida, Myles olhou para a direita e deparou com o telhado da estrutura maciça branca, que constituía o Museu de Arte Metropolitan. Sempre quisera ver melhor o Templo de Dendur. Impulsivamente, transpôs os seis quarteirões até lá e passou a hora seguinte absorvido pelos despojos de uma civilização perdida.

 

Foi então que, ao consultar o relógio e decidir que eram mais do que horas de regressar a casa, para preparar as bebidas, admitiu o verdadeiro motivo que o levara ao museu: voltar a ver o local onde Renata morrera. «Tens de esquecer tudo», ordenou para si mesmo com raiva. Mas à saída não conseguiu controlar-se e deu a volta pelas traseiras do museu, até ao local onde o corpo fora encontrado. Era uma peregrinação que fazia de quatro, ou de cinco em cinco meses.

 

O tom avermelhado que orlava as árvores em Central Park eram a primeira promessa do verde, que em breve ali se instalaria. Havia bastante gente no parque. Pessoas a correr, amas empurrando os carrinhos de bebé, jovens mães com crianças de três anos transbordantes de energia, vagabundos, homens e mulheres pateticamente aninhados nos bancos. O movimento era constante e passavam carruagens puxadas por cavalos.

 

Myles parou na clarreira onde jazera Renata. «Engraçado», pensou ele, «ela está sepultada no Cemitério Gate of Heaven1, mas para mim é como se o corpo dela aqui continuasse.»

 

Ficou ali de pé, cabeça baixa, mãos nos bolsos do seu casaco de camurça. Se tudo tivesse acontecido num dia como aquele, haveria gente no parque. Alguém teria visto alguma coisa. Ocorreu-lhe a estância de um poema de Tennyson:

 

Querida é a recordação dos beijos depois da morte... Profunda como o primeiro amor e feroz em toda a mágoa. Oh, Morte em Vida, os dias que não o serão jamais...2

 

Mas hoje, pela primeira vez naquele sítio, Myles sentiu que começava a curar-se.

 

«Não graças a mim, mas, pelo menos, a nossa filha está em segurança, caríssima mia», murmurou ele. «E espero que quando Nicky Sepetti se sentar perante o Juízo Final, tu lhe indiques o caminho para o Inferno.»

 

Então, Myles voltou-se e atravessou o parque com desembaraço. As últimas palavras de Adam Felton ainda lhe ecoavam nos ouvidos.

 

«Tudo bem. Já não precisa de se preocupar com Nicky Sepetti. Há dezassete anos viveu uma experiência muito trágica. A questão agora é se se sente realmente pronto a seguir a sua vida.»

 

Myles repetiu num murmúrio a resposta que dera a Adam de uma forma determinada: «Sim.»

 

Quando Neeve chegou à loja, vinda da casa de Ethel, a maior parte do pessoal já se encontrava no seu posto. Para além de Eugenia, a sua assistente, empregava ainda sete vendedoras e três costureiras.

 

Eugenia estava a preparar os manequins das montras.

 

Ainda bem que os conjuntos estão de novo na moda declarou ela, enquanto ajustava com perícia a jaqueta do conjunto cor de canela. Que bolsa ponho?

 

Neeve recuou.

 

Mostra-as outra vez. Acho que fica melhor a pequena. A outra tem âmbar a mais.

 

1 Porta do Céu. (N. da T.)

2 No original: Dear as remember’d kisses after death I Deep as first love, and wild with toll regret I Oh, Death in Life, the Days that are no more. (N. da T.)

 

Quando Eugenia deixara de ser modelo, foi com alegria que do número quatro passou a vestir o núnero doze, mas possuía ainda os movimentos graciosos que a tinham tornado a grande favorita de muitos costureiros. Pendurou a bolsa no braço do manequim.

 

Como sempre, tem razãoafirmou alegremente.Hoje vai ser um dia movimentado. Posso senti-lo na pele.

 

Espero que tenhas razão respondeu Neeve, tentando mostrar-se descontraída, mas sem o conseguir.

 

Neeve, e Ethel Lamston, ainda não apareceu?

 

Nem sombra dela. Neeve olhou em volta. Olha, eu vou para o escritório fazer alguns telefonemas. A não ser que seja absolutamente necessário não digas que cá estou. Hoje não quero ser incomodada por vendedores.

 

Ligou em primeiro lugar para Toni Mendell da Contemporary Woman. Toni encontrava-se num seminário destinado aos editores de revistas, que duraria todo o dia. Tentou Jack Campbell. Este encontrava-se numa reunião, por isso, Neeve deixou recado para que ele lhe ligasse assim que fosse possível.

 

É bastante urgente disse à secretária.

 

Percorreu a lista dos estilistas que contavam da lista de Ethel. Os três primeiros que contactou não tinham visto Ethel na semana anterior. Ela limitara-se a telefonar-lhes, a confirmar as citações que lhes iria atribuir. A estilista de roupa desportiva, Elke Pearson, deu voz à irritação que Neeve detectara na voz de todos os outros:

 

Por que razão eu deixei que aquela mulher me entrevistasse, é algo que nunca irei descobrir. Fartou-se de me bombardear com perguntas. Até fiquei atordoada. Praticamente, tive de a expulsar, e tenho a impressão de que nem sequer vou gostar do maldito artigo que ela escreveu.

 

Anthony della Salva era o nome seguinte. Neeve não se preocupou por não o conseguir encontrar. Poderia falar com ele no jantar daquela noite. Gordon Steuber. Ethel confidenciara-lhe que o crucificava no seu artigo. Mas quando o teria visto pela última vez? Com alguma relutância, resolveu discar o número do escritório de Steuber e imediatamente lhe fizeram a ligação.

 

Steuber não perdeu tempo com conversa fiada.

 

Que quer? perguntou com rudeza.

 

Ela podia imaginá-lo, reclinado na cadeira de couro trabalhado, decorada com pregos de latão. Respondeu-lhe num tom igualmente frio:

 

Pediram-me para tentar localizar Ethel Lambston. É bastante urgente... E, obedecendo a um impulso, acrescentou: Sei, pela agenda dela, que se encontrou consigo na semana passada. Ela deu-lhe alguma indicação do sítio para onde ia? ]

 

O silêncio durou longos segundos. «Está a decidir o que há-de responder», concluiu Neeve.

 

Quando Steuber, por fim, falou, fê-lo num tom pausado e inexpressivo:

 

Ethel Lambston. Tentou entrevistar-me há algumas semanas para um artigo que estava a escrever. Eu não a recebi. Não tenho tempo para perder com pessoas intrometidas. Na semana passada, telefonou para cá, mas eu não atendi a chamada.

 

E Neeve ouviu o clique do telefone.

 

Estava pronta a discar o número seguinte quando o telefone tocou. Era Jack Campbell. Parecia preocupado.

 

A minha secretária disse-me que era urgente. Há algum problema, Neeve?

 

Subitamente, sentiu-se ridícula se tentasse explicar-lhe pelo telefone que se sentia preocupada com Ethel Lambston, só porque esta não fora buscar as roupas novas. Por isso, respondeu:

 

Eu sei que deve estar terrivelmente ocupado, mas haverá alguma hipótese de me receber durante meia hora o mais depressa possível?

 

Tenho de almoçar com um dos meus autores declarou ele. Que tal às três, no meu escritório?

 

A Givvons e Marks ocupava os últimos seis andares do edifício da esquina sueste, entre a Avenida Park e a Rua 41.O escritório privado de Jack Campbell ocupava um canto enorme do 47.o andar e possuía umas vistas estonteantes sobre Manhattan. A secretária de grandes dimensões era laçada de negro e as prateleiras que cobriam a parede atrás encontravam-se cheias de manuscritos.

 

À volta de uma pequena mesa de vidro agrupavam-se um sofá de couro e cadeiras a condizer. Neeve ficou surpreendida ao ver que não havia nada de pessoal naquela sala.

 

Foi como se Jack Campbel lhe tivesse lido os pensamentos, pois nesse momento afirmou:

 

O meu apartamento ainda não está pronto, de forma que tenho ficado na Hampshire House. Tudo o que tenho ainda está empacotado, e é por isso que esta sala parece a sala de espera de um dentista.

 

O casaco do fato encontrava-se pendurado nas costas da cadeira. Vestia uma camisola escocesa em tons de verde e castanho.

 

«Ficam-lhe bem», pensou Neeve «as cores do Outono.»

 

O rosto era demasiado magro e as feições demasiado irregulares para ser um rosto perfeito, mas era indubitavelmente atraente na sua calma e vigor. Os olhos tornavam-se calorosamente bem-humorados quando sorria, e Neeve deu por si a pensar que fora uma boa ideia ter vestido um dos seus conjuntos de Primavera; um vestido turquesa de lã, e uma jaqueta a condizer.

 

Aceita um café? ofereceu Jack. Eu bebo demasiado, mas ainda vou tomar outro.

 

Neeve lembrou-se, então, que não almoçara e sentiu que a cabeça lhe começara a doer ligeiramente.

 

Aceito, sim. Simples, por favor.

 

Enquanto esperavam, ela elogiou-lhe a paisagem.

 

Não se sente, pelo menos, o rei de Nova Iorque?

 

No mês que aqui passei, tive de fazer um esforço para me concentrar no trabalhoconfessou ele. Tornei-me um potencial habitante de Nova Iorque aos dez anos. Já lá vão vinte e seis, e levei todo este tempo a chegar à Big Apple1.

 

Quando o café chegou, sentaram-se à volta da mesa de vidro. Jack reclinou-se no sofá, enquanto Neeve ocupava a borda de uma das cadeiras. Ela sabia que ele devia ter atrasado alguns compromissos para a receber com tanta rapidez. Inspirou fundo e contou-lhe o que se passava com Ethel.

 

O meu pai acha que eu sou maluca declarou ela. Mas tenho um estranho pressentimento que alguma coisa lhe aconteceu. Será que ela não lhe deu uma indicação qualquer de que tencionava partir sozinha para qualquer lado? Ouvi dizer que ela está a escrever um livro para vocês, e que este deve sair no Outono.

 

Jack Campbell escutava-a com a mesma postura atenta que ela lhe admirara na noite do cocktail.

 

Não deve, não.

 

Neeve abriu os olhos, espantada.

 

Então, como...

 

Campbell sorveu as últimas gotas de café da sua chávena.

 

Eu conheci a Ethel há dois anos na ABA2, quando ela fez o lançamento do primeiro livro para a Giwons e Marks, aquele sobre as mulheres da política. Era bastante bom. Engraçado e bisbilhoteiro. Vendeu-se muito bem. Por isso, quando ela quis falar comigo, eu mostrei-me interessado. Começou por me dar uma panorâmica geral do artigo que estava a escrever e disse-me que descobrira uma história capaz de abalar o mundo da alta costura, como uma bomba, e se eu estaria interessado, caso ela escrevesse um livro acerca do assunto. Em caso afirmativo, com que tipo de adiantamento poderia ela contar.

 

Claro que eu lhe respondi que teria de saber mais qualquer coisa sobre o assunto, mas baseando-me no sucesso do último livro, se este fosse tão explosivo quanto ela afirmava, nós estaríamos interessados e ela poderia esperar um adiantamento de meio milhão. Na semana passada, li na página seis do Post, que ela assinara um contrato comigo no valor de meio milhão de dólares e que o livro estaria nas bancas pelo Outono. A partir daí,

 

1 Nome que se costuma dar à cidade de Nova Iorque. (N. da T.)

2 American Booksellers Association.

 

o telefone não tem parado de tocar. Todos querem uma oportunidade de ganhar com isto. Telefonei ao agente de Ethel mas ela nada lhe disse sobre o assunto. Tentei telefonar-lhe, mas não obtive resposta. Não confirmei, nem desmenti a notícia. Ela é uma verdadeira perita em conseguir publicidade, mas se realmente escrever o livro e este for bom, qualquer adiantamento, por mim, estará bem.

 

E não faz a mínima ideia do que ela considerava ser a bomba capaz de arrasar a indústria da alta costura?

 

Nem uma pista.

 

Neeve suspirou e ergueu-se.

 

Já lhe roubei muito tempo. Suponho que devo ficar mais descansada. Seria típico de Ethel entusiasmar-se de tal forma com este projecto que resolvesse enfiar-se num buraco qualquer. O melhor é eu preocupar-me com o meu negócio. Neeve estendeu-lhe a mão e agradeceu-lhe. Muito obrigada.

 

Jack reteve-lhe a mão. O seu sorriso era pronto e caloroso.

 

Tem sempre que se retirar de uma forma tão apressada? perguntou ele. Há seis anos saiu do avião como uma flecha. Na outra noite quando me virei já tinha desaparecido.

 

Neeve libertou a mão e respondeu:

 

Ocasionalmente, abrando um pouco e vou correr, mas agora tenho de me apressar e ir tratar dos meus negócios. Ele acompanhou-a até à porta.

 

Ouvi dizer que a Loja de Neeve é uma das mais modernas de Nova Iorque. Será que posso ir visitá-la?

 

Claro, e nem sequer é obrigado a comprar seja o que for...

 

A minha mãe mora no Nebrasca e gosta de roupas bonitas. Enquanto descia no elevador, Neeve perguntava-se se não teria sido

 

aquela a forma de Jack Campbell lhe dizer que não havia nenhuma mulher na sua vida. Deu por si a cantarolar docemente e saiu para a tarde de Abril agora mais amena. Resolveu chamar um táxi.

 

Quando chegou à loja tinha um recado de Tse-Tse para lhe telefonar para o apartamento de Ethel assim que pudesse.

 

Tse-Tse atendeu ao primeiro toque.

 

Neeve, graças a Deus que telefonou. Quero sair daqui pra fora o mais depressa possível, antes que o palerma do sobrinho volte para casa. Neeve, passa-se algo de muito estranho. Ethel costuma esconder notas de cem dólares por toda a casa. Foi assim que me pagou adiantado da última vez. Na terça-feira, quando lá estive, vi uma nota debaixo da carpete. Esta manhã encontrei uma no armário das pratas, outras três escondidas na mobília. Neeve, tenho a certeza absoluta que não estavam cá na terça-feira.

 

Seamus saiu do bar às quatro e meia. Alheio à confusão de pessoas, foi abrindo caminho pelo passeio movimentado da Avenida Columbus. Tinha de voltar a casa de Ethel e não queria que Ruth soubesse. Desde que na noite anterior descobrira que metera a carta e o cheque no mesmo sobrescrito, que se sentia como um animal encurralado, lutando desesperado, tentando encontrar uma saída.

 

Só havia uma esperança. Não enfiara completamente o sobrescrito na caixa. Lembrava-se de ter reparado que uma das pontas ficara de fora. Talvez ainda estivesse a tempo de o reaver. Era uma hipótese num milhão. O bom senso dizia-lhe que se o carteiro trouxera mais correio o mais natural era que tivesse empurrado o sobrescrito. Mas a possibilidade de não o ter feito existia, oferecendo-lhe a única esperança possível.

 

Virou para o quarteirão de Ethel, observando atentamente os transeuntes, esperando não encontrar nenhum dos rostos familiares da vizinhança. Ao chegar ao prédio, o sentimento de extrema infelicidade transformou-se em desespero. Nem sequer podia tirar a carta, sem denunciar a sua presença. Precisava de uma chave para entrar no vestíbulo, onde se encontravam as caixas do correio. Na noite anterior, aquela garota antipática abrira-lhe a porta. Agora teria de tocar para o superintendente e este, com certeza, que não o deixaria mexer na correspondência de Ethel.

 

Ficou ali, na frente do prédio. O apartamento de Ethel ficava à esquerda do átrio. Havia doze degraus até à porta. Enquanto ali estava, sem saber o que fazer, a janela do quarto andar abriu-se e uma mulher debruçou-se nela. Por cima do ombro conseguiu ver a cara da miúda com quem falara na noite anterior.

 

Ela não apareceu ainda esta semana berrou-lhe uma voz estridente. E ouça lá, na quinta-feira, estive quase para chamar a polícia por causa da berraria que você fez...

 

Seamus deu meia volta e desatou a correr. Respirava com dificuldade enquanto corria sem ver nada pela Avenida West End. Só parou quando se encontrou em segurança dentro da sua casa, depois de trancar a porta. Foi então que se apercebeu do bater do coração, do barulho arquejante da luta por oxigénio. Para sua aflição, ouviu passos no corredor, vindos do quarto. Ruth já estava em casa. Rapidamente, limpou o rosto com a mão, tentando recompor-se.

 

Ruth não deu sinal de ter notado a sua agitação. Trazia o fato castanho de Seamus pendurado no braço.

 

Ia levar isto para limpar informou ela. Podes ter a bondade de me explicar, por que razão, em nome de Deus, andas com uma nota de cem no bolso?

 

Jack Campbell ficou no escritório mais duas horas depois de Neeve ter saído. Mas o manuscrito que lhe fora entregue com a nota entusiástica de um agente em quem ele confiava, não conseguia prender-lhe a atenção.

 

Após várias tentativas para se concentrar no enredo, acabou por o afastar com uma irritação que lhe era rara e apenas dirigida para si próprio. Não era justo julgar o trabalho de alguém quando noventa por cento do nosso pensamento se encontra preocupado com outra coisa.

 

Neeve Kearny. Engraçado, como seis anos antes experimentara um certo arrependimento por não ter conseguido o número dela. Chegara mesmo a procurá-lo na lista de Manhattan, quando alguns meses depois se deslocou a Nova Iorque. Havia páginas e páginas de Kearnys. Nenhuma Neeve. Ela mencionara uma loja de roupa. Voltou a ver em Kearny. Nada.

 

Por fim, encolhera os ombros e concluíra que ela deveria viver com o namorado. Esqueceu o assunto. Mas por alguma razão não a conseguira esquecer completamente. Na festa, quando ela se aproximara, reconheceu-a imediatamente. Já não era aquela garota de vinte e um anos que vestia um fato de esqui. Transformara-se numa jovem sofisticada e elegantemente vestida. Mas o cabelo negro como carvão, a pele branca e leitosa, os enormes olhos castanhos, as sardas que lhe enfeitavam o nariz, tudo isso se mantinha igual. Agora, Jack perguntava-se se ela teria algum compromisso sério. Se não tivesse...

 

Eram seis horas, quando a sua assistente enfiou a cabeça pela porta.

 

Por mim, chega anunciou. Não se importa que eu lhe diga, que ficará arruinado se continuar a trabalhar?

 

Jack guardou o manuscrito que não lera e levantou-se.

 

Já me vou embora disse. Só uma pergunta, Ginny. Que sabe acerca de Neeve Kearny?

 

Enquanto se dirigia para a parte alta da cidade, para o apartamento que alugara, a sul de Central Park, matutava na resposta que recebera. Neeve Kearny possuía uma botique sensacional e famosa. Era lá que Ginny comprava os seus fatos para as ocasiões especiais. Neeve era querida e respeitada por todos. Alguns meses antes tinha provocado um escândalo, ao desmascarar um costureiro que explorava mão-de-obra infantil em ateliers ilegais. Neeve sabia ser uma lutadora.

 

Perguntou também acerca de Ethel Lambston. Ginny rolara os olhos.

 

Não me faça falar.

 

Jack ficou no apartamento o tempo suficiente para concluir que não lhe apetecia arranjar o seu jantar. Assim, decidiu que pasta no Nichola’s era o que lhe convinha.

 

O restaurante ficava na Rua 84, entre Lexington e a 3.a.

 

Fora uma boa escolha. Como sempre, havia bicha de espera, mas ao fim de uma bebida no bar, o seu empregado favorito, Lou, bateu-lhe no ombro e anunciou:

 

Tudo pronto, Mr. Campbell.

 

Jack descontraiu-se com meia garrafa de Valpolicella, encomendou uma salada de agriões e endívias, e uma linguine com frutti de maré. Por fim, pedia café expresso e a conta.

 

Saiu do restaurante e encolheu os ombros. Soubera desde o início que iria passar pela Avenida Madison para ver a Loja de Neeve. Alguns minutos depois, com a brisa fresca a lembrar-lhe que ainda estavam em Abril, e que no princípio a Primavera podia ser caprichosa, encontrou-se frente à montra elegantemente decorada. Gostou do que viu. Os vestidos levemente estampados, delicadamente femininos e com os guarda-chuvas a condizer: as poses seguras dos manequins; o toque quase arrogante das cabeças. De alguma forma, tinha a certeza de que Neeve marcara a sua personalidade naquela combinação de doçura e força.

 

Enquanto observava atentamente a montra, teve consciência da falta de clareza, no relato que fizera a Neeve, da sua conversa com Ethel.

 

«Há intriga, há emoção, há universalidade no mundo da alta costura», dissera-lhe Ethel naquela sua maneira ofegante de falar. «É disso que trata o meu artigo. Mas suponha que lhe posso dar muito mais do que isso. Uma bomba. Puro dinamite.»

 

Ele estava atrasado para um encontro. Tentara despachá-la.

 

«Mande-me alguns tópicos.»

 

A recusa insistente, persistente de Ethel em se retirar.

 

«Quanto vale um escândalo capaz de arrasar todo o quarteirão?»

 

A sua resposta meio a brincar:

 

«Se for assim tão sensacional, meio milhão.»

 

Jack olhava os manequins que seguravam os guarda-chuvas. O seu olhar subiu até ao toldo marfim e azul, que exibia em letras floreadas A LOJA DE NEEVE. No dia seguinte, poderia telefonar a Neeve e contar-lhe com precisão as palavras de Ethel.

 

Enquanto saía da Avenida Madison, sentiu de novo que tinha de se livrar daquela angústia vaga e indefinida. Chegou à conclusão de que, afinal, o que procurava era uma desculpa. Por que não se se limitava a convidá-la para sair?

 

Foi então que descobriu a causa da sua ansiedade. Definitivamente, não queria ficar a saber que Neeve estava comprometida com alguém.

 

Na quinta-feira, Kitty Conway passou um dia muito agitado. Das nove da manhã até ao meio-dia esteve atarefada, conduzindo idosos às consultas médicas. Durante a tarde, trabalhou como voluntária nas pequenas lojas do Garden State Museum.

 

Estas ocupações davam-lhe a sensação de que, pelo menos, fazia algo de útil.

 

Há muito tempo, quando frequentara a universidade, estudara Antropologia, com a vaga esperança de um dia se tornar uma segunda Margaret Mead. Depois conhecera Mike. Agora, enquanto ajudava uma jovem de dezasseis anos a escolher uma imitação de um colar egípcio, pensou que, talvez no Verão, se pudesse inscrever numa expedição arqueológica.

 

O futuro era sombrio. Enquanto conduzia de regresso a casa, enfrentando a noite de Abril, Kitty percebeu que começava a impacientar-se com ela própria. Era tempo de recomeçar a viver. Virou para a Avenida Lincoln e sorriu ao avistar a casa encavalitada no alto da curva do Grand View Circle. Tratava-se de uma casa de estilo colonial, branca e com estores negros.

 

Uma vez lá dentro, percorreu os compartimentos do rés-do-chão, acendendo as luzes, dirigindo-se ao escritório onde ligou a lareira a gás. Quando Michael era vivo, conseguia sempre arranjar um bom fogo reconfortante, empilhando as cavacas de uma maneira especial, alimentando o lume regularmente, de forma que a sala era invadida pelo aroma da nogueira em chamas. Por muito que tentasse, Kitty nunca conseguira acender convenientemente a lareira, e depois de se desculpar perante a memória de Michael, mandara instalar uma a gás.

 

Subiu até ao quarto principal que redecorara em tons de alperce e verde-claro, num padrão copiado de uma tapeçaria do museu.

 

Despiu o fato de duas peças, de lã cinzenta, pensando na possibilidade de tomar um duche, vestir um pijama confortável e o robe. «Isso é um mau hábito», disse para si própria. «São apenas seis horas.»

 

Assim, tirou o fato de treino azul do armário e procurou as sapatilhas.

 

A partir de agora estou da volta à corrida afirmou.

 

Seguiu o caminho habitual. De Grand View à Avenida Lincoln, uma milha até à cidade, deu a volta na central de autocarros e regressou a casa.

 

Sentindo-se agradavelmente virtuosa, colocou o fato de treino e a roupa interior no cesto do quarto de banho, tomou um duche, enfiou o tão desejado pijama e estudou-se ao espelho. Sempre fora magra e conseguira manter uma linha razoável. As rugas à volta dos olhos não eram muito vincadas. O cabelo parecia natural. A esteticista do instituto de beleza conseguira o seu tom arruivado.

 

Não estás mal afirmou Kitty para o reflexo, mas não te iludas. Daqui a dois anos terás 60.

 

Estava na hora do noticiário das sete e, consequentemente, era hora de tomar o seu xerez. Kitty atravessou o quarto até ao hall e viu então que deixara a luz do quarto de banho acesa. «Não desperdiçar o que não é necessário e de qualquer forma devemos poupar energia.» Voltou para trás e procurou o comutador da luz na parede do quarto de banho. Os dedos imobilizaram-se. A manga do fato de treino azul baloiçava fora do cesto. O medo, tal como uma lâmina de aço gelado, comprimia-lhe a garganta. Kitty sentiu a boca seca e os pêlos do pescoço em pé. Ontem, quando o cavalo tropeçou, aquela manga devia ter uma mão. O pedaço de plástico batendo-lhe na cara. Aquela visão fugaz de um pano azul e de uma mão. Ela não estava doida. Vira realmente aquela mão.

 

Kitty não se lembrou mais do noticiário das sete. Sentou-se frente à lareira, aninhando-se no sofá, bebericando o xerez. Mas nem o fogo, nem a bebida conseguiam vencer o frio que lhe invadira o corpo. Deveria chamar a polícia? E se estivesse enganada? Faria figura de parva.

 

«Não me enganei», afirmava a si própria. «Mas vou esperar até amanhã. Volto ao parque e desço aquela encosta. Foi uma mão que eu vi, mas a pessoa a quem pertence, já não precisa de ajuda.»

 

Não disseste que o sobrinho vive no apartamento? perguntou Myles enquanto enchia o balde de gelo. Então, é porque tirou algum dinheiro emprestado e agora devolveu-o. Já tem acontecido.

 

Mais uma vez, a explicação razoável de Myles adequava-se às circunstâncias que rodeavam o desaparecimento de Ethel; o caso dos casacos e agora as notas de cem.

 

Neeve sentiu-se novamente ridícula.

 

Ainda bem que não contara a Myles a sua visita a Jack Campbell. Ao chegar a casa mudara de roupa e vestia agora umas calças de seda azul com uma blusa de manga comprida a condizer. Estava à espera que Myles comentasse: «Muito original para mexer o guisado.»

 

Mas, em vez disso, o olhar dele enterneceu-se quando a viu entrar na cozinha e afirmou:

 

A tua mãe sempre ficou lindíssima de azul. À medida que o tempo passa, ficas cada vez mais parecida com ela.

 

Neeve agarrou no livro de receitas de Renata. Ia servir fatias finas de presunto com melão, pasta compesto, solha estufada com camarão, uma mistura de legumes novos e uma salada de endívias. Seguia-se um pastel e queijo.

 

Folheou o livro e encontrou a página dos desenhos. Mais uma vez evitou olhá-los e concentrou-se nas instruções de Renata acerca do tempo de fervura da solha.

 

Concluindo que tudo estava bem encaminhado, dirigiu-se ao frigorífico e tirou um frasco de caviar. Myles observava-a enquanto Neeve distribuía pequenas tostas num tabuleiro.

 

Nunca consegui gostar dessa coisa declarou ele. Eu sei que é muito vulgar da minha parte.

 

Dificilmente te chamaria vulgar comentou Neeve, espalhando caviar numa tosta partida. Mas não sabes o que perdes.

 

Olhou para Myles. Este vestia um casaco, umas calças cinzentas, uma camisa azul-clara e a bonita gravata azul e vermelha que ela lhe oferecera no Natal. Um tipo bem-parecido, pensou ela, e o melhor, é que ninguém diria que esteve tão doente. Resolveu dizer-lho.

 

Myles aproximou-se e delicadamente enfiou uma tosta na boca.

 

Continuo a não gostar declarou, e depois acrescentou:Sinto-me muito bem mesmo, e a inactividade está a dar-me cabo dos nervos. Fui convidado para assumir a chefia do Departamento de Combate à Droga em Washington. Teria de passar lá a maior parte do tempo. Que achas? Neeve susteve a respiração e atirou-lhe os braços à volta do pescoço.

 

Isso é maravilhoso! Aceita. Tu és a pessoa indicada para esse trabalho.

 

A cantarolar, Neeve levou o tabuleiro para a sala, juntamente com um prato de queijo Brie. Agora, se ao menos Ethel Lambston fosse encontrada... Estava entretida a calcular quanto tempo levaria Jack Campbell a telefonar-lhe, quando soou a campainha da porta. Os dois convidados chegavam juntos.

 

O bispo Devin Stanton era um dos poucos prelados, que mesmo na vida particular, parecia mais à vontade com o colar romano que com uma roupa desportiva. O cabelo cor de cobre, agora menos vivo, estava raiado de branco. Por detrás dos óculos de aros de prata, espreitavam uns olhos azuis suaves, que irradiavam bondade e inteligência. O seu corpo alto e magro movia-se com grande vivacidade. Neeve tivera sempre a inquietante sensação de que ele lhe lia os pensamentos, ao mesmo tempo que a reconfortava a certeza de que ele apreciava o que lia. Beijou-o ternamente.

 

Uma vez mais, Anthony della Salva fazia brilhar uma das suas criações. Trazia um fato de seda italiana. As linhas elegantes disfarçavam na perfeição o excesso de peso, que começava já a desfigurar-lhe o seu, já de si, corpo arredondado. Neeve recordou-lhe que Myles comentara uma vez que Sal parecia um gato bem alimentado. Era uma descrição que se adaptara perfeitamente à figura dele. O cabelo negro mantinha-se brilhante, sem uma branca, e competia com o verniz dos sapatos Gucci. Era instintivo em Neeve calcular o preço das roupas. Segundo a sua estimativa, o fato de Sal custaria no retalho, à volta de quinze mil dólares.

 

Como sempre, Sal vinha eufórico.

 

Dev, Myles, Neeve, as minhas três pessoas preferidas, sem contar com a minha presente namorada, mas certamente contando com as minhas ex-mulheres. Dev, achas que a Igreja Mãe me receberá de volta quando eu ficar velho?

 

Do filho pródigo espera-se um regresso de arrependimento e de expiação comentou Dev secamente.

 

Myles riu-se e passou um braço pelos ombros dos dois amigos.

 

Meu Deus, como é bom estar com vocês os dois. Sinto-me como se estivesse de volta à Bronx. Continuas a beber vodka Absolut ou descobriste alguma coisa mais moderna?

 

A noite começou da mesma forma habitual, agradavelmente confortável, que se tornara já uma rotina. Debateram a hipótese de um segundo martini. O bispo encolheu os ombros e disse:

 

Por que não? Há tanto tempo que não estamos juntos.

 

É melhor eu parar aqui disse Myles, enquanto Sal respondia um simples: «Claro que aceito.»


E a conversa derivou para a actualidade política: conseguiria o prefeito ser eleito de novo? Daí passaram para os problemas da Igreja; não se pode educar um filho, numa escola paroquial, por menos de mil e seiscentos dólares por ano. Meu Deus, lembram-se quando andávamos na S. Francisco Xavier e os nossos pais pagavam um dólar por mês? O pároco mantinha a escola com jogos de bingo.

 

Seguiram-se as queixas de Sal sobre as importações do estrangeiro:

 

Claro que deveríamos usar a marca nacional, mas a roupa feita na Coreia e em Hong-Kong sai-nos a um terço. Se nós próprios não comprarmos alguma, acabamos por perder dinheiro. Se o fazemos, chamam-nos traidores.

 

Era a vez de Myles afirmar secamente:

 

Eu continuo a afirmar que ninguém consegue calcular a quantidade de dinheiro que os bandos põem a circular na 7.9 Avenida.

 

Inevitavelmente, chegaram à morte de Nicky Sepetti.

 

Foi fácil de mais para ele, morrer assim na cama comentou Sal, já sem a sua expressão jovial. Depois do que ele fez à tua linda menina.

 

Neeve observou a boca de Myles comprimir-se, aborrecido. Há muito tempo atrás, Sal ouvira Myles troçar de Renata e chamá-la«a minhalinda menina» e, para grande aborrecimento de Myles, resolvera adoptar esse tratamento. «Como vai a linda menina? costumava ele saudar Renata. Neeve ainda se lembrava do momento em que Sal, no velório de Renata, se ajoelhara junto do caixão e com os olhos cheios de lágrimas levantara-se, abraçara Myles e lhe dissera: «Tenta pensar que a tua linda menina está a dormir.»

 

Myles respondera-lhe simplesmente:

 

«Ela não está a dormir, está morta. E, por favor, Sal, não voltes a chamá-la assim. Esse era o meu nome para ela.»

 

E até aquela noite, nunca mais o fizera. Houve um momento de silêncio embaraçante, e, então, Sal, sorvendo o resto do martini, levantou-se.

 

Volto jáafirmou, e atravessou o corredor em direcção ao quarto de banho.

 

Devin suspirou.

 

Ele pode ser um grande costureiro, mas não consegue esconder a sua falta de cortesia.

 

Foi igualmente ele que me ajudou recordou-lhes Neeve. Senão, fosse Sal, a esta hora o mais certo era eu estar como assistente de compras no Bloomingdale’s.

 

Depois reparou na expressão de Myles e avisou:

 

E não me venhas dizer que era melhor para mim.

 

Nunca me passaria pela cabeça uma coisa dessas.

 

Ao servir o jantar, Neeve acendeu as velas e desligou o candeeiro. A sala ficou suavemente iluminada. Cada prato foi considerado excelente. Myles e o bispo repetiram segunda vez, Sal repetiu terceira.

 

Pois esqueçamos a dieta. Esta é a melhor cozinha de Manhattan. À sobremesa, a conversa inevitavelmente recaiu sobre Renata.

 

Esta é uma das receitas dela disse-lhes Neeve. Especialmente preparada para vocês os dois. Na verdade, comecei agora a dedicar-me aos livros dela e até é engraçado.

 

Myles falou-lhes da possibilidade de vir a chefiar o Departamento de Combate à Droga.

 

Pode ser que eu te vá fazer companhia para a zona de Washington afirmou Devin com um sorriso, e depois acrescentou: Sem ser oficialmente.

 

Sal insistiu em ajudar Neeve a levantar a mesa e ofereceu-se para fazer o café. Enquanto se atarefava à volta da máquina, Neeve retirou do aparador as chávenas de café, lindíssimas, que pertenciam à família Rosseti havia muitas gerações.

 

O som de um baque e de um grito de dor fê-los correr para a cozinha. A máquina do café estava virada, espalhara o café no balcão e ensopara o livro da cozinha de Renata.

 

Sal enfiara a mão visivelmente vermelha debaixo da água fria.Tinha o rosto lívido.

 

Apega dessa maldita cafeteira saiudisse, tentando aparentar indiferença. Myles, tenho a impressão de que tentaste vingar-te de mim, por eu te ter partido o braço quando éramos miúdos.

 

Era evidente que a queimadura era profunda e dolorosa.

 

Neeve procurou as folhas de eucalipto que Myles tinha guardadas para qualquer emergência com queimaduras. Enxugou cuidadosamente a mão de Sal e cobriu-a com as folhas, ligando-a em seguida com um pano de linho macio. O bispo endireitara a máquina e começara a limpar o café espalhado. Myles tentava secar o livro. Neeve reparou na expressão do seu olhar, fixo nos desenhos de Renata, agora completamente encharcados e manchados.

 

Sal também reparou. Retirou a mão que Neeve estava a tratar e exclamou:

 

Myles, por amor de Deus, perdoa-me!

 

Myles inclinou o livro por cima do lava-loiça, escorreu as gotas de café que ainda restavam e, cobrindo-o com uma toalha, pousou-o cuidadosamente em cima do frigorífico.

 

Que raio tenho eu de te perdoar? Neeve, nunca tinha visto essa maldita cafeteira cá em casa. Quando a compraste?

 

Neeve começara a preparar outro café, na cafeteira antiga.

 

Foi um presente respondeu com relutância. Ethel Lambston mandou-ta pelo Natal, depois da festa.

 

Devin Stanton olhou-os espantado, enquanto Myles, Neeve e Sal desatavam às gargalhadas.

 

Eu explico-lhe quando nos sentarmos, Vossa Eminência declarou Neeve. Meu Deus, em tudo o que faço, até mesmo durante um jantar, não consigo livrar-me de Ethel.

 

Enquanto bebiam café e Sambuco, Neeve contou-lhes o desaparecimento de Ethel. Myles comentou

 

Desde que ela se mantenha longe da minha vista

 

Tentando não exteriorizar a dor, que rapidamente alastrara por toda a mão ferida, Sal serviu-se de um segundo Sambuco e afirmou:

 

Não há um único costureiro em toda a Avenida que ela não tenha massacrado por causa desse artigo. Para responder à tua pergunta, Neeve, a verdade é que ela me telefonou na semana passada e insistiu para falar comigo. Eu encontrava-me a meio de uma reunião. Fez-me algumas perguntas do género: «É verdade que você foi considerado o maior gazeteiro da Escola Cristopher Columbus?»

 

Neeve olhou-o espantada.

 

Está a brincar!

 

Não estou nada a brincar. Tenho a impressão de que o artigo de Ethel se destina a arrasar aquelas patranhas, que nós costureiros inventamos, e que os nossos relações públicas são pagos para divulgarem por aí, acerca das nossas vidas. Isso até poderá resultar como artigo. Mas dizerem que vale meio milhão de dólares em livro, isso ultrapassa-me.

 

Neeve sentiu-se tentada a revelar que, na verdade, Ethel não recebera dinheiro nenhum, mas mordeu a língua. Era óbvio que Jack Campbell não desejava tornar isso público.

 

A propósito acrescentou Sal, diz-se por aí, que graças à denúncia que tu fizeste das lojas ilegais de Steuber, se começa a descobrir muito lixo. Neeve, mantém-te afastada desse tipo.

 

Que queres dizer com isso? perguntou Myles de imediato.

 

Neeve nada contara a Myles acerca do rumor de que, graças a ela, Gordon Steuber poderia vir a ser processado. Fez sinal a Sal com a cabeça e acrescentou:

 

Trata-se de um costureiro a quem deixei de comprar, devido à forma como ele conduz os negócios. E, virando-se para Sal, acrescentou: Continuo a dizer que há qualquer coisa de errado no desaparecimento de Ethel. Sabe que ela só compra roupa na minha loja e nenhum dos casacos dela saiu do guarda-fatos.

 

Sal encolheu os ombros.

 

Neeve, para ser franco, acho que Ethel é tão desmiolada, que, provavelmente, saiu sem casaco e nem deu por isso. Espera e verás como ela aparece trazendo qualquer coisa que comprou no J. C. Penney, em saldo.

 

Myles riu-se e Neeve abanou a cabeça.

 

Que grande ajuda!

 

Antes de saírem da mesa, Devin Stanton pronunciou uma oração de Graças.

 

Agradecemos-Te, Senhor, a nossa boa amizade, esta refeição deliciosa, esta jovem maravilhosa que nos preparou o jantar e pedimos-Te que abençoes a memória de Renata, a quem nós amámos tanto.

 

Obrigado, Dev murmurou Myles tocando-lhe na mão. Depois, rindo-se acrescentou: E se ela aqui estivesse, Sal, já te teria mandado limpar toda a porcaria que fizeste na cozinha.

 

Quando o bispo e Sal partiram, Neeve e Myles encheram a máquina da louça e lavaram as panelas, partilhando um silêncio amigável. Neeve pegou na cafeteira defeituosa.

 

O melhor é guardar isto antes que mais alguém se magoe comentou.

 

Não. Deixa ficar disse-lhe Myles. Parece ter sido cara e eu posso arranjá-la, quando estiver a assistir ao Jeopardy.

 

Jeopardy. Neeve teve a sensação de que a palavra ficara suspensa no ar. Abanando a cabeça, impaciente com aquele pensamento, desligou a luz da cozinha e deu um beijo de despedida a Myles. Olhou em volta para se certificar de que tudo estava em ordem. Aluz da sala iluminava tenuemente o escritório e Neeve estremeceu ao ver que incidia nas páginas manchadas do livro de Renata, que Myles colocara em cima da sua secretária.

 

Na manhã de sexta-feira, Ruth Lambston saiu de casa deixando Seamus ainda a barbear-se. Não se despediu dele. A recordação da expressão de raiva que lhe vira no rosto, quando o confrontara, com a nota de cem que encontrara no bolso, ficou-lhe gravada na memória. Naqueles últimos anos, o cheque da pensão mensal acabara com qualquer sentimento que pudesse ter por ele, e agora só lhe restava o ressentimento. Mas acabara de descobrir uma emoção nova. O medo. Dele? Por ele? Ruth não sabia.

 

Ganhava vinte e seis mil dólares por ano como secretária. Descontando os impostos, a contribuição para a Segurança Social, as despesas com os transportes, com o vestuário e com a alimentação, Ruth calculou que três dias do seu vencimento líquido duma semana, se destinavam ao pagamento da pensão de Ethel.

 

«Trabalho que nem uma escrava para aquela sanguessuga», costumava ela atirar à cara de Seamus.

 

Normalmente, este tentava acalmá-la, mas na noite anterior tivera uma explosão de fúria. Levantara o punho cerrado e, por momentos, ela vacilara, com a certeza que ele a iria agredir. Acabou por pegar na nota de cem e rasgou-a ao meio.

 

«Queres saber onde a arranjei?», berrara-lhe. «Foi aquela cabra que ma deu. Quando lhe pedi para me libertar da pensão ela respondeu-me que teria todo o gosto em ajudar-me. Andara demasiado ocupada para ir comer fora, de maneira que lhe sobrou isso do mês anterior.»

 

«Então, ela não te disse para não mandares mais cheques?», gritara Ruth.

 

A fúria transformou-se em ódio quando Seamus respondeu:

 

«Talvez eu a tenha convencido que qualquer ser humano tem um limite para tudo. E talvez seja altura de, também tu, te convenceres do mesmo.»

 

Aquela resposta deixara Ruth num estado de agitação tal, que a sua respiração se tornou ruidosa e difícil.

 

«Não te atrevas a ameaçar-me!», gritara, e com horror viu que Seamus desatara a chorar.

 

Entre soluços, contou-lhe que colocara o cheque juntamente com a carta, e falou-lhe do modo como a garota, que lhe abrira a porta, falara acerca do seu resgate.

 

«Todo o prédio se ri de mim.»

 

Ruth passara a noite toda acordada, deitada no quarto de uma das filhas, sentindo um desprezo tão grande por Seamus, que não suportava sequer a sua presença. Pela manhã, percebeu que o desprezo era algo que também sentia por ela própria. «Aquela mulher conseguiu transformar-me num farrapo», concluiu. «Isto tem de acabar!»

 

Agora a sua boca transformara-se numa linha determinada e dura, e em vez de virar na Broadway para a estação do metro, caminhou direita à Avenida West End. A brisa da manhã estava fria e cortante, mas os sapatos rasteiros que calçara permitiam-lhe avançar rapidamente.

 

Ia enfrentar Ethel. Devia tê-lo feito há muitos anos atrás. Lera artigos dela em número suficiente para saber que Ethel se considerava uma feminista. Mas agora que assinara um contrato fabuloso para um livro, tornara-se vulnerável. A página seis do Post adoraria publicar que ela extorquia mil dólares mensais a um homem, com três filhas na universidade. Ruth permitiu-se um sorriso sombrio. Se Ethel não abdicasse dos seus direitos à pensão, Ruth encostá-la-ia à parede. Primeiro o Post, depois o Tribunal.

 

Tivera de recorrer à chefe do pessoal da sua empresa para arranjar um empréstimo de emergência, que cobrisse o cheque devolvido, e ela mostrara-se chocada ao saber da pensão que pagavam a Ethel.

 

«Tenho uma amiga que é uma óptima advogada matrimonial», dissera-lhe. «Ela pode permitir-se a um trabalho por uma boa causa e adoraria um caso como este. Da maneira como eu o vejo, não se pode anular um acordo de divórcio, mas já é mais que tempo de alguém enfrentar a lei. Se se conseguir um escândalo público, tudo é possível.»

 

Ruth hesitara.

 

«Não quero envergonhar as garotas. E seria admitir que o bar mal dá para manter as portas abertas. Tenho de pensar no assunto.»

 

Ao atravessar a Rua 73, Ruth decidiu: «Ou a Ethel desiste da pensão, ou eu vou falar com essa advogada.»

 

Uma mulher ainda nova apareceu na sua frente, empurrando um carrinho de bebé, e Ruth teve de se desviar para lhe dar passagem, embatendo num homem de rosto magro, quase tapado pela capa que o envolvia e com um sobretudo que cheirava a vinho azedo. Torcendo o nariz enojada, protegeu a carteira e afastou-se para a beira do passeio.

 

As ruas estavam tão apinhadas de gente, pensou ela. Garotos correndo com os livros da escola, idosos desviando-se do passeio habitual e dirigindo-se ao quiosque dos jornais, pessoas a caminho dos empregos tentando arranjar táxis.

 

Ruth nunca se esquecera da casa que quase tinham comprado em Westchester, vinte anos antes. Na altura custava trinta e cinco mil dólares, e agora deveria valer dez vezes mais. Quando o banco soube da pensão vitalícia não aprovara o empréstimo.

 

Na Rua 82, virou para o quarteirão de Ethel. Endireitando os ombros, Ruth ajustou os óculos sem aros, inconscientemente preparando-se, como um lutador prestes a entrar no ringue. Seamus dissera-lhe que Ethel ocupava o apartamento do rés-do-chão, com entrada própria. O nome escrito por cima da campainha confirmou que assim era.

 

Do interior, chegava-lhe o som de um rádio a tocar. Com o indicador pressionou com firmeza o botão da campainha. Mas não obteve resposta, nem sequer ao segundo toque. Ruth não se deixou convencer. A terceira vez que premiu o botão, fê-lo ininterruptamente.

 

O som alto da campainha ouviu-se durante um minuto até que foi recompensada por um estalido da fechadura a abrir-se.

 

Aporta abriu-se e apareceu-lhe um homem novo, com o cabelo em desalinho e a camisa ainda por apertar.

 

Que raio quer você? perguntou ele, e fazendo um esforço notório para se acalmar, acrescentou: Desculpe. É amiga da tia Ethel?

 

Sim. E preciso de falar com ela respondeu Ruth, avançando, e obrigando o homem a deixá-la entrar ou a bloquear-lhe a passagem.

 

Ele recuou e ela encontrou-se na sala. Rapidamente, olhou à sua volta, Seamus referia-se sempre à desordem da casa de Ethel, mas aquela sala encontrava-se impecável. Havia muitos papéis por ali, mas encontravam-se todos bem empilhados. A mobília antiga era bonita. Seamus descrevera-lhe as peças que comprara a Ethel.

 

«E eu a viver com uns monos atafulhados», pensou ela.

 

Chamo-me Douglas Brown apresentou-se Doug, sentindo-se apreensivo. Havia qualquer coisa naquela mulher, na forma como ela avaliava o que a rodeava, que o punha nervoso. Sou o sobrinho de Ethel. Tinha algum encontro marcado com ela?

 

Não. Mas insisto em vê-la imediatamente respondeu, e apresentou-se: Sou a mulher de Seamus Lambston e estou aqui para levar o último cheque que ele lhe enviou. A partir de agora, não haverá mais pagamentos.

 

Via-se uma pilha de cartas em cima da secretária. Quase no cimo descobriu um sobrescrito branco, orlado de castanho. Pertencia ao conjunto que as miúdas tinham oferecido a Seamus pelo aniversário.

 

Vou levar isto informou ela.

 

E antes que Doug a pudesse impedir, o sobrescrito encontrava-se nas suas mãos. Abriu-o e retirou o seu conteúdo. Passou-lhe os olhos e guardando o cheque, voltou a meter a carta.

 

Enquanto Doug Brown a olhava, demasiado espantado para protestar, procurou na bolsa e tirou os pedaços da nota que Seamus rasgara.

 

Calculo que ela não está? perguntou.

 

Descaramento não lhe falta resmungou ele. Podia mandá-la prender por isto.

 

Se fosse a si, não tentaria aconselhou-o Ruth. Aqui tem acrescentou, metendo-lhe os pedaços da nota na mão. Diga àquela parasita para colar isto e ir jantar pela última vez à custa do meu marido. Diga-lhe que não tornará a ver um centavo nosso e que, se tentar alguma coisa, vai arrepender-se para o resto da vida.

 

Ruth não deu qualquer hipótese a Doug de responder. Dirigiu-se até ao sítio onde as fotografias de Ethel estavam expostas e observou-as.

 

Farta-se de defender as causas mais vagas e imprecisas e farta-se de receber prémios, no entanto, não pára de cavar a sepultura da única pessoa que tentou tratá-la como um ser humano, como uma mulher de verdade. E virando-se para Doug, Ruth acrescentou: Considero-a desprezível. E sei o que ela pensa de si. Farta-se de comer em restaurantes de luxo com o dinheiro que eu, o meu marido e as minhas filhas vos damos, e não contente com isso, você ainda rouba essa mulher. Ethel contou ao meu marido tudo a seu respeito. Só posso acrescentar que são bem dignos um do outro.

 

Ela foi-se embora. Doug deixou-se cair no sofá. A quem mais teria a linguaruda da Ethel contado, que ele se governava com a sua pensão de divórcio?

 

Ao sair para o passeio, Ruth foi interceptada por uma mulher que se encontrava parada nos degraus do prédio. Aparentava quarenta e poucos anos, e Ruth reparou que trazia o cabelo loiro propositadamente desalinhado e que a camisola e as calças justas eram modernas. No seu rosto lia-se uma curiosidade incontida

 

Desculpe incomodá-la disse-lhe a mulher. Eu sou Georgette Wells, vizinha de Ethel, e estou muito preocupada com ela.

 

Uma adolescente magricela, entretanto, abrira a porta, descera a escada e colocara-se ao lado de Wells. Olhou Ruth atentamente, depois de perceber que esta se encontrava junto da porta da casa de Ethel.

 

É amiga de Mrs. Lambston? perguntou.

 

Ruth tinha a certeza de que esta era a miúda que troçara de Seamus. Sentiu uma intensa repulsa, misturada com um medo gelado e penetrante que lhe comprimia os músculos do estômago. Por que estaria a mulher preocupada com Ethel? Pensou na fúria homicida que lera no rosto de Seamus, quando ele lhe contara a forma como Ethel lhe enfiou a nota no bolso. Quantas vezes, ao longo dos anos, ouvira Seamus dizer que bastava Ethel entrar num compartimento para este ficar como se tivesse sido atingido por uma bomba atómica?! Era óbvio que, ultimamente, Ethel não estivera no apartamento.

 

Sim respondeu ela, tentando parecer amigável. Fiquei surpreendida por não a encontrar em casa, mas há algum motivo para se sentir preocupada?

 

Dana, vai para a escola ordenou a mãe. Vais chegar outra vez atrasada.

 

Dana protestou:

 

Eu quero ouvir.

 

Está bem, está bem acedeu Wells com impaciência; e virando-se para Ruth continuou: Têm-se passado coisas muito estranhas. Na semana passada Ethel recebeu a visita do ex-marido. Normalmente, ele só aparece no dia 5 de cada mês, quando não envia a pensão pelo correio. De forma que, quando o vi aparecer na última quintafeira, pensei que se passava alguma coisa de anormal. Quero dizer, se só estávamos a trinta, por que razão lhe iria ele pagar mais cedo? Pois deixe-me dizer-lhe que a briga entre os dois foi mesmo séria. Podia ouvi-los gritar como se estivéssemos na mesma sala.

 

Ruth tentou manter a voz firme.

 

E que diziam eles?

 

Bem, eu ouvi os berros, mas não percebia o que eles diziam. Preparava-me para vir cá abaixo, para o caso de Ethel precisar de mim...

 

«O que tu querias era ouvir melhor», pensou Ruth.

 

...Mas aí o meu telefone começou a tocar. Era a minha mãe a falar de Cleveland, para me falar do divórcio da minha irmã. Durante uma hora nem sequer parou para respirar. Nessa altura já a briga terminara. Telefonei a Ethel. Ela é realmente engraçada quando se põe a falar do ex-marido. Imita-o na perfeição, sabia? Mas ela não atendeu e eu pensei que ela tivesse saído. Sabe como é a Ethel, sempre a correr de um lado para o outro. Mas, normalmente, avisa-me quando se ausenta por mais de dois dias e desta vez não me disse nada. E o sobrinho está lá a morar, o que é outra coisa muito estranha.Georgette Wells friccionou os braços. Está frio, não está? Este tempo anda maluco. Calculo que são os efeitos das lacas em spray a destruírem o ozono. De qualquer forma continuou, enquanto Ruth a olhava espantada e Dana se mantinha suspensa em cada palavra, tenho o pressentimento de que alguma coisa aconteceu a Ethel e que aquele palerma do ex-marido teve alguma coisa a ver com isso.

 

E não te esqueças, mamã interrompeu Dana, que ele voltou cá na quarta-feira e agiu como se estivesse assustado com alguma coisa.

 

Ia agora falar nisso. Foi na quarta-feira que o viste. Era dia cinco o que quer dizer que, provavelmente, veio trazer o cheque. E, então, ontem eu vio aqui. Agora, por que razão é que ele voltou? E ninguém tornou a ver Ethel. Eu acho que ele deve ter feito alguma, mas esqueceu-se de qualquer coisa que o incrimina e agora está preocupado. E Georgette Wells dirigiu a Ruth um sorriso triunfante ao terminar a sua história. Como amiga de Ethel, ajude-me a decidir pediu-lhe ela. Devo chamar a polícia e contar-lhes que estou convencida que a minha vizinha foi assassinada?

 

Na manhã de sexta-feira, Kitty Convvay recebeu uma chamada do hospital. Um dos voluntários de serviço no hospital, adoecera. Poderia ela substituí-lo?

 

A tarde já ia avançada, quando conseguiu regressar a casa, vestir o fato de treino, calçar as sapatilhas e meter-se no carro em direcção ao Parque Morrison. As sombras adensavam-se cada vez mais, e a meio do caminho ainda pensou em esperar até ao dia seguinte, mas acabou por seguir resolutamente em frente. O sol que brilhara naqueles últimos dias secara o asfalto do parque de estacionamento e os caminhos que daí partiam, mas as zonas mais protegidas pelo mato continuavam húmidas sob os seus pés.

 

Kitty aproximou-se da zona dos estábulos, tentando localizar o trilho por onde o cavalo fugira, quarenta e oito horas antes. Contrariada, concluiu que não fazia a menor ideia do caminho que deveria seguir.

 

Isto é o que se chama não ter o mínimo de sentido de orientação murmurou Kitty, sentindo um ramo bater-lhe no rosto. Lembrou-se então de Mike, que lhe fazia sempre um esboço dos caminhos e das encruzilhadas a seguir, quando ela tinha de guiar sozinha por estradas que não conhecia.

 

Depois de quarenta minutos de esforços vãos, tinha as sapatilhas encharcadas e enlameadas e sentia as pernas a doer. Parou para descansar numa clareira, onde normalmente o grupo da escola de equitação parava, para se reagrupar. Não havia ninguém por ali, nem se ouvia qualquer cavalo galopando pelos caminhos. O Sol desaparecera quase por completo.

 

«Devo estar doida», pensou ela. «Que faço sozinha neste sítio? Volto cá amanhã.»

 

Levantou-se e iniciou o caminho de regresso.

 

«Espera aí, foi mais ou menos por aqui. Virámos à direita e subimos a encosta. Foi aqui que aquela maldita égua resolveu pôr-se a andar.»

 

Sabia que estava no caminho certo. A excitação e o medo faziam que o seu coração batesse furiosamente. Durante toda a noite não conseguira dormir com os pensamentos que a assaltavam. Vira aquela mão... deveria chamar a polícia... Ridículo. Era tudo fruto da sua imaginação. Iria fazer figura de parva. Deveria ter feito uma chamada anónima e assim ficava de fora. Não. E se realmente ela estava certa e eles conseguiam localizar a chamada? Por fim, decidiu-se pelo seu plano original. Ir ver ela própria.

 

Levou vinte minutos a fazer o percurso que o cavalo fizera em cinco.

 

«Foi aqui que o estúpido animal começou a comer as ervas», recordou-se ela. «Eu puxei as rédeas e ela virou e desatou a galopar por aqui abaixo.» E ali estava a descida escarpada coberta de pedras soltas. A escuridão era quase total quando Kitty iniciou a descida. As pedras soltavam-se sob o contacto das sapatilhas, chegando mesmo a desequilibrá-la ao ponto de cair e esfolar a mão.

 

«Era só o que me faltava», pensou ela.

 

Apesar do frio intenso, sentia a testa coberta de suor. Limpouo com a mão suja de terra. Da manga azul não havia qualquer sinal.

 

A meio do caminho avistou uma pedra grande e resolveu parar para descansar.

 

«Estava doida!», concluiu. «Ainda bem que não chamei a polícia, senão tinha feito figura de parva.»

 

Assim que normalizasse a respiração, regressaria a casa e tomaria um bom banho quente.

 

Não entendo como há gente que gosta de alpinismo! exclamou em voz alta.

 

Assim que se sentiu mais calma, limpou as mãos ao fato de treino verde-claro e fincou a mão direita na borda da pedra, apoiando-se nela para se levantar. Sentiu qualquer coisa a tocar-lhe.

 

Kitty olhou então. Quis gritar, mas não conseguiu. Soltou um gemido baixo de terror e incredulidade. Os seus dedos tocavam outros dedos, perfeitamente manicurados com verniz vermelho-vivo, erguidos pelas pedras que à sua volta tinham deslizado, emoldurados pela manga azul, que lhe ficara gravada no subconsciente, enquanto um pedaço de plástico negro, tal como uma mortalha, envolvia aquele punho magro e inerte.

 

Denny Adler, envergando o disfarce de bêbedo, instalou-se junto à parede do prédio, directamente em frente do Edifício Schwab. Eram sete horas da manhã de sexta-feira. O frio e o vento continuavam intensos, de forma que era pouco provável que Neeve Kearny fosse a pé até à loja. No entanto, Denny aprendera há muito tempo a ser paciente, sempre que preparava a execução de um trabalho. Big Charley dissera-lhe que, normalmente, Kearny saía muito cedo, entre as sete e meia e as oito horas.

 

Às oito e um quarto o êxodo começou. Miúdos eram recolhidos por um autocarro, que os transportaria a um daqueles colégios particulares tão em moda.

 

«Eu também andei num colégio particular», pensou Denny, «o Reformatório Brownsville em Nova Jérsia.»

 

Via-se agora osyuppies a sair, todos eles usando casacos idênticos. «Casacos, não,Burberrys», corrigiu Denny, que isso fique bem claro. Depois os executivos, já de meia-idade, homens e mulheres, todos de aspecto próspero e lustroso. Do lugar que escolhera, Denny podia observá-los à vontade.

 

Às nove menos vinte, Denny concluiu que não tinha chegado ainda a sua oportunidade. Não podia arriscar-se a que o gerente da loja se zangasse com ele. Com o seu cadastro, estava certo que seria dos primeiros a ser interrogado, mal terminasse o seu trabalhinho, mas contava que até o responsável pela liberdade condicional o defenderia.

 

«Um dos meus melhores homens», diria Toochey. «Nem uma só vez chegou tarde ao trabalho. Este está limpo.»

 

Relutante, Denny levantou-se, esfregou as mãos e olhou para baixo. Vestia um sobretudo enorme e imundo que tresandava a vinho azedo. Na cabeça, o boné, com orelheiras, quase lhe tapava a cara, e calçava umas sapatilhas abertas dos lados. O que ninguém sabia era que debaixo do casaco, Denny vinha impecavelmente vestido com as roupas que habitualmente vestia no trabalho; um blusão de algodão debotado e calças de ganga a condizer. Trazia um saco de compras, onde guardara as sapatilhas que usava diariamente, uma esponja molhada e uma toalha. O bolso do sobretudo escondia uma navalha de ponta em mola.

 

Tencionava seguir até à estação de metro da Rua 72, na Broadway, dirigir-se ao fundo da plataforma, enfiar o casaco e o boné no saco, trocar as sapatilhas imundas pelas outras e limpar as mãos e a cara.

 

Se ao menos Kearny, na noite anterior, não tivesse apanhado aquele táxi! Iria jurar que ela tencionava seguir a pé para casa. Teria sido a sua grande oportunidade de a apanhar no parque.

 

A certeza de que não seria difícil apanhá-la, ajudava-o a ser paciente. Se não fosse naquela manhã, talvez à noite, talvez no dia seguinte. E com esta certeza, Denny pôs-se a caminho. Avançava cautelosamente mantendo o passo irregular, balanceando o saco, como se não tivesse consciência de que o transportava. As poucas pessoas que se incomodavam a reparar nele, imediatamente se afastavam, manifestando nojo ou pena.

 

Ao atravessar a Rua 72 e o West End, colidiu com uma velhota, que avançava de cabeça baixa e com a carteira firmemente agarrada debaixo do braço. A boca era pequena e malvada. Teria sido engraçado dar-lhe um encontrão e tirar-lhe a carteira, pensou Denny, repelindo de imediato esta ideia. Afastou-se apressado, virou na Rua 72 e dirigiu-se para a estação de metro.

 

Alguns minutos depois saía, de mãos e rosto lavados, o cabelo alinhado, o blusão convenientemente apertado até cima, carregando o saco que continha o casaco, o boné, a esponja e a toalha, atados numa trouxa.

 

Às dez e trinta encontrava-se no escritório de Neeve, entregando-lhe o café.

 

Olá, Denny saudou ela quando ele entrou. Hoje adormeci, e agora mal me aguento. E não me importo com o que os outros digam. A verdade é que este café bate aos pontos as outras mistelas que para aqui fazem.

 

Todos nós nos atrasamos de vez em quando, Miss Kearny respondeu Denny, retirando do saco o recipiente do café e abrindo-lho, solícito.

 

Na sextafeira de manhã, Neeve acordou e ficou espantada ao verificar que faltava um quarto para as nove.

 

«Meu Deus», pensou, atirando para trás os cobertores e saltando da cama. «Não há nada como ficar metade da noite a pé com os rapazes da Bronx.»

 

Vestiu o roupão e dirigiu-se à cozinha. Myles tinha o café pronto, o sumo servido e o pão doce inglês, pronto para torrar.

 

Devias ter-me chamado, Commish censurou ela.

 

A indústria da moda não abrirá falência se tiver de esperar por ti meia hora respondeu ele, absorvido na leitura do Daily News.

 

Neeve inclinou-se por cima do ombro dele e perguntou:

 

Alguma coisa em especial?

 

A primeira página está por conta da vida e da obra de Nicky Sepetti. Vai ser enterrado amanhã. Depois de uma Missa Solene, na St. Camilla, será escoltado até à sua futura morada no cemitério Calvary.

 

Estavas à espera que o arrastassem pela rua, até ele ficar desfeito? Não, esperava que o cremassem e me dessem o prazer de lhe empurrar o caixão para dentro do forno crematório.

 

Oh, Myles, cala-te! pediu Neeve, tentando mudar de assunto. Ontem à noite foi divertido, não foi?

 

Se foi. Pergunto-me como estará a mão de Sal. Aposto que quando chegou, não se sentiu com disposição para fazer amor com a nona namorada. Ouviste-o dizer que está a pensar casar outra vez?

 

Neeve bebeu o sumo de laranja, com um complexo vitamínico.

 

Estás a brincar. E quem é a felizarda?

 

Não me parece que felizarda seja o termo apropriado comentou Myles.Não há dúvida que ele já teve uma grande variedade. Solteiro até conseguir ser famoso, para depois correr todo o tipo de mulheres; desde o modelo de lingerie, à bailarina, passando por uma dama da alta sociedade e depois aquela maníaca do desporto. Muda-se de Westchester para Nova Jérsia; depois para Connecticut, passa para Sheden’s Landing e acaba por as deixar a todas confortavelmente instaladas nas suas casas modernas. Deus sabe quanto lhe custará isso por ano!

 

Será que algum dia acaba por assentar? perguntou Neeve.

 

Quem sabe? Por muito dinheiro que ganhe, Sal Esposito nunca deixará de ser um garoto inseguro, tentando provar o que vale.

 

Neeve enfiou uma fatia de pão na torradeira.

 

E que mais perdi eu enquanto me atarefava à volta do fogão?

 

Dev foi nomeado para o Vaticano. Isto fica só entre nós. Confidenciou-mo quando Sal foi mijar. Desculpa, a tua mãe nunca me permitiria dizer isto... Quando Sal foi lá dentro lavar as mãos.

 

Eu ouvi-o falar em Baltimore. Então, trata-se da arquidiocese de lá?

 

Parece que sim.

 

É isso que pode dar-lhe o chapéu vermelho?

 

É possível.

 

Devo reconhecer que os rapazes da Bronx venceram na vida. Deve ter sido qualquer coisa no ar que respiravam.

 

A torradeira disparou. Neeve barrou a fatia com manteiga, espalhou uma generosa camada de compota por cima e deu-lhe uma dentada. Apesar de ser óbvio que o dia iria continuar nublado, a cozinha mantinha-se alegre, com os seus armários de madeira pintados de branco, o ladrilho no chão em tons de azul, branco e verde. As toalhas individuais, colocadas na estreita mesa de madeira, eram quadrados de linho verde, cor de menta, com guardanapos a condizer. As chávenas, os pires, os pratos, o jarro e o pote de nata eram legados da infância de Myles e eram um exemplo do tradicional padrão inglês, de salgueiro azul. Neeve não concebia o iniciar do dia sem aquela porcelana tão familiar.

 

Observou Myles cuidadosamente. Não havia dúvidas de que, cada vez mais, se parecia com o que fora anteriormente... E não se devia apenas a Nicky Sepetti; devia-se, sim, à perspectiva de começar a trabalhar, à certeza de que iria ser útil. Sabia o quanto Myles deplorava o tráfico de droga e a ruína que esta provocava. E quem sabe? Talvez em Washington encontrasse alguém. Deveria casar outra vez. Deus sabe que continuava a ser bem-parecido. Resolveu dizer-lho.

 

Já ontem me disseste o mesmo respondeu-lhe Myles. Começo a pensar que o melhor é oferecer-me para posar nas páginas centrais da Play girl. Achas que me aceitam?

 

Se o fizeres, vais ver a bicha enorme de garotas à espera de uma oportunidade para te seduzir! respondeu Neeve, pegando no café e regressando ao quarto, depois de decidir que eram mais do que horas de se pôr a andar para o trabalho.

 

Quando acabou de se barbear, Seamus percebeu que Ruth já tinha saído. Por um momento hesitou, depois arrastou-se pelo corredor até ao quarto, aí desapertou o robe de turco castanho que as filhas lhe tinham oferecido pelo Natal e deitou-se na cama. A sensação de fadiga era tal, que só com muito esforço conseguia manter os olhos abertos. Tudo o que desejava era poder voltar a deitar-se, tapar a cabeça com os cobertores e dormir, dormir, dormir.

 

Durante aqueles anos, apesar de todos os problemas que tinham enfrentado, nunca Ruth deixara de dormir com ele. Por vezes passavam-se semanas, até meses, em que não se tocavam, demasiado tensos por causa dos problemas financeiros. Mas mesmo assim, como que por acordo mútuo nunca expresso, deitavam-se sempre juntos, ambos presos pela tradicional certeza de que o lugar da mulher era ao lado do marido, na cama.

 

Seamus olhou em volta, tentando ver as coisas através dos olhos de Ruth. A mobília do quarto era a mesma que a sua mãe comprara quando ele tinha dez anos. Não era antiga. Era apenas velha, a imitar mogno envernizado, o espelho absurdamente vergado nos suportes por cima da cómoda. Ainda se lembrava de como a sua mãe o polia com deleite, debruçando-se sobre ele, pois tudo aquilo, a cama, a cómoda e o toucador representavam uma conquista, o realizar da grande ambição de possuir uma casa confortável. Ruth costumava recortar fotografias de fiHouse Beautiful sempre que encontrava o tipo de quarto que gostaria de ter. Mobílias modernas. Tons pastel. Um ar airoso e leve.

 

As preocupações e a falta de dinheiro tinham-lhe apagado o brilho e a esperança do rosto; tornara-se demasiado dura com as filhas. Seamus recordava-se de quando ela gritara com Marcy:

 

«Que queres dizer com esse... rasguei o meu vestido? Eu tive de poupar muito para to comprar!»

 

Tudo por causa de Ethel.

 

Seamus tapou a cara com as mãos. Não conseguia deixar de pensar na chamada que fizera. Estava num beco sem saída. Havia um filme qualquer que se chamava assim; Beco sem Saída.

 

Na noite anterior quase agredira Ruth. A recordação dos últimos minutos com Ethel, o momento exacto em que se descontrolara, quando...

 

Deitou-se novamente na almofada. Qual o sentido em continuar a ir ao bar, em tentar manter as aparências?

 

Dera um passo que nunca pensara ser possível. Era tarde de mais para recuar. Ele sabia que assim era. E não iria servir de nada. Também sabia isso. Fechou os olhos.

 

Não deu conta de ter dormitado, mas, subitamente, sentiu que Ruth estava ali. Sentada na beira da cama. No seu rosto já não se via sinal de cólera. Exprimia medo, quase pânico, como se se encontrasse frente a um pelotão de fuzilamento.

 

Seamus começou ela, tens de me contar tudo. Que é que lhe fizeste?

 

Na sexta-feira de manhã, Gordon Steuber chegou ao escritório, na Rua 37 West, eram dez horas. Subiu no elevador com três homens formalmente vestidos, que imediatamente reconheceu, como auditores federais que regressavam para fiscalizar os seus livros.

 

Assim que os empregados viram o sulco que lhe unia as sobrancelhas, passaram palavra, avisando os outros do perigo.

 

Atravessou a sala de exposição, ignorando empregados e clientes, passou apressado pela secretária sem responder à tímida saudação que May lhe dirigiu:

 

Bom dia, senhor.

 

Entrou no gabinete e bateu a porta atrás de si.

 

Sentou-se na secretária e reclinou-se na cadeira de couro marroquino trabalhado, que sempre suscitara comentários de admiração, e o vinco na testa transformou-se num franzido preocupado.

 

Olhou em volta, sorvendo a atmosfera que criara para si próprio; as cadeiras e o sofá de couro trabalhado; os quadros que lhe tinham custado uma fortuna; as esculturas que, segundo o seu consultor de arte, eram verdadeiras peças de museu...

 

Graças a Neeve Kearny corria agora o sério risco de passar mais tempo no tribunal do que ali, no seu gabinete.

 

Ou na prisão», concluiu Steuber, «se não fosse cauteloso.»

 

Levantou-se e aproximou-se da janela. A Rua 37. O movimento frenético dos vendedores. Era algo que se mantinha inalterável. Recordou-se de quando, ainda garoto, saía directamente da escola para vir ajudar o pai que era peleiro. Peles baratas. Do tipo que fazia que as criações de I. J. Fox parecessem martas. De dois em dois anos, o pai declarava falência, com a precisão de um cronómetro. Ao completar quinze anos, Gordon concluiu que não estava disposto a passar o resto da sua vida com o nariz enfiado em peles de coelho, convencendo lorpas que eram bonitas, e que ficavam muito bem com aquelas peles de animal tinhoso.

 

Os forros. Já o tinha percebido mesmo antes de ter barba. A única constante. Quer se vendesse um blusão, um casaco comprido, uma estola ou uma capa, todos tinham de ter forros.

 

Esta simples constatação, juntamente com um empréstimo relutante que conseguira do pai, tornaram-se a base das Empresas Steuber. Os garotos que contratava, mal saíam do FIT, ou da Escola de Rhode Island, tinham talento e imaginação, e os seus padrões inovadores tinham sucesso.

 

«Mas isso não nos torna um vencedor, num relógio que exige fama.» Foi, então, que começou a procurar jovens que soubessem desenhar e criar roupa. Alimentava o sonho de se tornar num novo Chanel.

 

Mais uma vez fora bem sucedido. Colocava os seus fatos nas melhores lojas, mas era apenas um, entre muitos outros, lutando para se manter nas listas dos mais procurados pelo público.

 

Steuber procurou um cigarro. Em cima da secretária encontrava-se um isqueiro dourado, com as suas iniciais engastadas em rubis. Depois de acender o cigarro, segurouo por um instante, virando-o e revirando-o entre os dedos. Tudo o que os federais tiveram de fazer, foi somar o custo do recheio daquela sala, incluindo o isqueiro, e agora só descansariam quando descobrissem o suficiente para o acusar de fuga ao fisco.

 

«A culpa é dos malditos sindicatos», desabafou. «São eles que nos impedem de ganhar o que devíamos.»

 

Toda a gente sabia isso. Sempre que Steuber via o anúncio do ILGWU1, apetecia-lhe destruir a televisão. Eles só pensavam em ganhar mais dinheiro. «Parem com as importações. Contratem-nos!»

 

Três anos antes, resolvera fazer o que todos os outros faziam. Contratar para os seus ateliers trabalhadores ilegais sem cartão verde. Por que não? As mexicanas eram boas costureiras.

 

Fora então que descobrira onde realmente se podia ganhar dinheiro. Estava pronto a acabar com os ateliers de costura, quando Neeve Kearny o denunciara. Depois a chanfrada da Ethel Lambston que não se calava.

 

1 International Ladies’ Garment Worker’s Union. (N. da T.)

 

Ainda podia ver aquela vaca, entrando por ali dentro, na noite de quarta-feira. May ainda se encontrava a trabalhar, senão ali mesmo...

 

Expulsara-a do gabinete. Chegara mesmo a pegar-lhe pelos ombros e a empurrá-la através da sala de exposição até à porta principal. Empurrara-a com tanta força que ela acabara por bater contra a parede do elevador. Mesmo assim, não a calou, pois ao fechar a porta ouviu-a berrar: «Caso ainda não tenha percebido, eles vão apanhá-lo, e não é só por causa dos trabalhadores ilegais. Há também a fuga aos impostos. E isto é o princípio. Eu sei de onde tem vindo o dinheiro.»

 

Nessa altura, Gordon percebeu que não podia deixar que ela metesse o nariz nos seus negócios. Tinha de a calar.

 

Ouviu-se a campainha do telefone, suave e ritmada. Aborrecido, Gordon atendeu. Que se passa, May? A voz da secretária ouviu-se, pesarosa:

 

Eu sei que o senhor não quer ser incomodado, mas estão aqui uns / agentes do Ministério Público e insistem em vê-lo. Manda-os entrar. Steuber alisou o casaco do fato de seda italiana bege, limpou com o lenço os diamantes em forma de quadrado que lhe serviam de botões de punho e instalou-se na cadeira por detrás da secretária. Quando os três agentes entraram e as suas maneiras indicaram que se encontravam ali em serviço, Steuber pensou pela décima vez, naquela última hora, que tudo aquilo se devia ao escândalo que Neeve Kearny armara à volta das suas costureiras ilegais.

 

Às onze horas de manhã de sexta-feira, Jack Campbell terminava a reunião com o pessoal e agarrava novamente no manuscrito que na noite anterior se sentira incapaz de ler. Desta vez, obrigou-se a concentrar nas aventuras picantes de uma psiquiatra famosa, de 33 anos de idade, que se apaixona por um cliente, um galã de cinema em declínio. Partem os dois para St. Martin e aí passam umas férias clandestinas. O galã, graças à sua longa e luxuriosa experiência com mulheres, consegue destruir as barreiras que a psiquiatra erguera à volta da sua feminilidade. Por sua vez, após três semanas de sexo ininterrupto, feito à luz das estrelas, ela consegue devolver-lhe a autoconfiança.

 

Assim, ele regressa a Los Angeles e aceita o papel de avô numa comédia, enquanto ela volta para os seus doentes, com a certeza de que um dia conseguiria encontrar o homem ideal para partilhar o seu dia a dia. O livro termina no momento em que ela manda entrar um novo paciente, um elegante corretor, de 38 anos, que lhe diz: «Sou demasiado rico, tenho demasiado medo, sinto-me perdido. «Oh, meu Deus!», pensou Jack ao passar os olhos pelas últimas folhas.

 

Afastou o manuscrito e nesse momento Ginny entrou no gabinete, trazendo na mão uma pilha de cartas. Perguntou-lhe:

 

Então, que tal é?

 

Medonho, mas venderá bem. Engraçado, durante todas aquelas cenas no jardim, não conseguia deixar de pensar nas dentadinhas amorosas dos mosquitos. Será isto um sinal de que estou a ficar velho?

 

Ginny sorriu.

 

Duvido. Sabe que tem um compromisso para o almoço?

 

Eu tomei nota. Jack ergueu-se e espreguiçou-se. Ginny olhou-o, aprovadora.

 

Já deu conta que todas as editoras mais novas andam histéricas por sua causa? Passam a vida a perguntar-me se realmente não está comprometido.

 

Diga-lhe que a Ginny e eu somos um só.

 

Quem me dera. Talvez se eu tivesse menos vinte anos... O sorriso de Jack desapareceu e perguntou:

 

Ginny, lembrei-me de uma coisa. Quanto tempo falta para a publicação do Contemporary Woman?

 

Não sei bem. Porquê?

 

Estava a pensar se seria possível arranjar uma cópia do artigo de Ethel Lambston, aquele sobre o mundo de alta costura. Eu sei que, normalmente, Toni não deve mostrar nenhum artigo antes de este ser publicado, mas veja se o consegue, okay?

 

Claro.

 

Uma hora depois, quando Jack saía para o almoço, Ginny chamou-o.

 

O artigo sai no número da próxima semana. Toni garantiu-me que, por especial favor, o vai mandar. Prometeu enviar também uma fotocópia dos apontamentos de Ethel.

 

Muito simpático da parte dela.

 

Ela própria o sugeriudeclarou Ginny. Explicou que, geralmente, os advogados têm de cortar as partes mais polémicas dos artigos de Ethel, Toni mostrou-se igualmente apreensiva com o desaparecimento de Ethel e afirmou que como nós íamos publicar o livro dela, não se sentia a quebrar nenhum segredo profissional. Já no elevador, a caminho do restaurante, Jack reconheceu que se sentia muito ansioso por dar uma vista de olhos a esses apontamentos de Ethel, considerados demasiado polémicos para serem publicados.

 

Nem Seamus nem Ruth foram trabalhar na sexta-feira. Sentados no apartamento, olhavam um para o outro como dois condenados, afundando-se em areia movediça, impotentes para evitar o inevitável. Ao meio-dia Ruth preparou café e umas tostas de queijo. Insistira bastante para que Seamus se levantasse da cama e se vestisse.

 

Come! ordenoulhe, e conta-me outra vez o que aconteceu.

 

Enquanto o ouvia, imaginava o que iria acontecer à vida das filhas. Todas as esperanças nelas depositadas! A faculdade que tantos sacrifícios custara. As aulas de dança e canto, as roupas cuidadosamente escolhidas nos saldos. De que serviria tudo isso se o pai acabasse na prisão?

 

Mais uma vez, Seamus papagueou a sua história. O rosto redondo reluzia devido ao suor e pousara as mãos grossas e desesperadas no colo. Recordou como implorava a Ethel que o libertasse do pagamento da pensão e como ela troçara dele.

 

«Talvez sim, talvez não», respondera ela. Depois procurara entre as almofadas do sofá. «Deixa ver se encontro alguma nota que o meu sobrinho se tenha esquecido de roubar», explicou-lhe, rindo, e ao encontrar uma nota de cem, enfiara-lha no bolso, comentando que naquele mês tivera pouco tempo disponível para ir comer fora.

 

E eu bati-lhe continuou Seamus no mesmo tom monocórdico. Nem dei conta de que o iafazer. A cabeça dela tombou para o lado e ela caiu para trás. Não sabia se a iria matar. Ela levantou-se, assustada. Eu aviseia de que se me pedisse mais um tostão que fosse a mataria. Ela percebeu que eu falava a sério e prometeu: «Está bem. Acabou-se a pensão.»

 

Seamus engoliu o resto do café. Encontravam-se na sala. O dia nascera frio e cinzento e assim continuaria até ao anoitecer. Frio e cinzento, um dia igual ao da quinta-feira anterior, quando fora a casa de Ethel. No dia seguinte rebentara a tempestade. Também agora ela acabaria por eclodir. Tinha a certeza de que assim seria.

 

E depois saíste? insistiu Ruth. Seamus hesitou e por fim respondeu:

 

Depois saí.

 

Ficava a sensação de algo inacabado. Ruth olhou em volta para a pesada mobília de carvalho, que durante vinte anos desprezara, detestando o gasto e esteriotipado estilo oriental que fora obrigada a suportar, durante tantos anos, e percebeu que Seamus não lhe contara tudo. Baixou os olhos para as suas mãos. Demasiado pequenas. Quadradas, dedos grosseiros. As três filhas possuíam dedos longos e bem feitos. De quem os teriam herdado? De Seamus? Talvez. Os retratos da família dela exibiam apenas pessoas pequenas, quadradas, mas igualmente fortes. E Seamus era fraco. Um homem fraco e assustado que atingira um estado de saturação. Até que ponto chegara o desespero?

 

Não me contaste tudo declarou ela. Eu quero saber. Eu tenho de saber. É a única maneira de te poder ajudar.

 

Com a cabeça enterrada entre as mãos, Seamus contou-lhe o resto.

 

Oh, meu Deus! gritou Ruth. Oh, meu Deus!

 

À uma hora, Denny voltou à loja de Neeve, mas desta vez trazia um saco de cartão contendo duas sanduíches de atum e café. Como de costume, a recepcionista fez-lhe sinal para que seguisse até ao gabinete de Neeve. Esta encontrava-se entretida a conversar com a sua assistente, uma rapariga negra muito atraente. Denny resolveu não dar hipótese a que uma delas o mandasse sair e abrindo o saco, começou a retirar os embrulhos, perguntando:

 

É aqui que vão comer?

 

Denny, tu estragas-nos com mimos. Isto quase parece o serviço de quarto de um hotel respondeu-lhe Neeve.

 

Denny sentiu-se gelado ao perceber o erro que cometera. Tinha-se tornado demasiado visível. Mas queria poder escutar qualquer plano que ela tivesse. Como recompensa, ouviu Neeve dizer para Eugenia:

 

Na segunda-feira só lá para o fim da tarde poderei ir até à 1.a Avenida. Mrs. Potter vem cá por volta da uma e meia e insiste que quer a minha ajuda para escolher um vestido.

 

Pelo menos, ficaremos com a renda paga durante os próximos três meses respondeu Eugenia.

 

Denny desdobrou os guardanapos. Ao fim da tarde de segunda-feira. Era bom ficar informado.

 

Estudou o pequeno gabinete com toda a atenção. Não tinha janelas. Se houvesse uma janela virada para o exterior poderia enfiar-lhe um tiro nas costas. Mas Charley prevenira-o de que não poderia parecer premeditado. Pousou os olhos em Neeve. Era realmente bonita. Verdadeiramente charmosa. Com tanta bruxa que havia lá por fora, era uma pena ser aquela a morrer. Murmurou uma despedida e saiu acompanhado pelas palavras de agradecimento das duas. A recepcionista pagou-lhe, acrescentando a gorjeta habitualmente generosa. Mas, à razão de duas notas por entrega, levaria muito tempo até conseguir a soma de vinte mil, pensou Denny, abrindo a pesada porta de vidro e saindo para a rua.

 

Enquanto debicava a sua sanduíche, Neeve discou o número de Toni Mendell, na Contemporary Woman. Ao ouvir o pedido de Neeve, Toni exclamou:

 

É boa, mas, afinal, que se passa? A secretária de Jack Campbell telefonou-me a pedir a mesma coisa. Eu também lhe disse que estou a começar a ficar preocupada com Ethel. Vou ser franca, Neeve, deixei que Jack lesse uma cópia dos apontamentos de Ethel por ele ser o editor dela. Esses apontamentos não tos posso dar, mas deixo-te ler o artigo. E cortando as tentativas de agradecimento de Neeve, concluiu: Mas, por amor de Deus, não andes por aí a mostrá-lo. Mesmo sem algumas partes, vai haver muita gente nesse mundo dos trapos a sentir-se verdadeiramente infeliz.

 

Uma hora mais tarde, Neeve e Eugenia encontravam-se debruçadas sobre uma cópia do artigo. O título era: «Os mestres e as fraudes-mestras da alta costura.» Até para Ethel, tratava-se de um título sarcasticamente cáustico.

 

Começava por destacar três nomes e três criações, que considerava os mais importantes dos últimos cinquenta anos; o new look, de Christian Dior, de 1947; a mini-saia de Mary, criada no início dos anos 60 e a linha Recife do Pacífico, de Anthony della Salva, de 1973.

 

Acerca de Dior, Ethel escrevera:

 

Em 1947, a moda encontrava-se em crise, não tendo ainda recuperado da onda militarista provocada pela guerra. As saias eram justas, os ombros largos e os botões de latão. Dior, um jovem e tímido estilista decidiu que era tempo de esquecer a guerra e considerou as saias estreitas e curtas, sinónimo de racionamento. Revelando o génio que realmente possuía, teve a coragem de afirmar, perante um mundo incrédulo, que o vestido do futuro, para usar no dia a dia, estender-se-ia até oito centímetros pelo chão.

 

Não foi nada fácil impor-se. Uma californiana tropeçou na longa saia ao sair de um autocarro e ajudou a atiçar a revolta nacional contra o new look. Mas Dior não deitou fora as armas, nem as tesouras, e época após época, continuou a apresentar roupas lindas e graciosas: drapeados sob os decotes; abdómens modelados com pregas soltas, evoluindo para uma saia leve. E a suaprevisão de então provou-se certa com o recente fracasso da mini-saia. Talvez um dia todos os costureiros aprendam que a mística é um elemento essencial na alta costura.

 

No início dos anos 60 os tempos eram de mudança e não podemos atribuir as culpas apenas ao Vietname ou ao Vaticano II. A onda de mudança respirava-se no ar e foi então que entrou em cena uma jovem arrojada estilista inglesa. Mary Quant era uma jovem que não queria crescer nunca, que não queria nunca ser obrigada a vestir roupas de adulto. Surge, então, a mini-saia, as meias coloridas, as botas altas. Espalha-se a certeza de que um jovem não deve nunca, por qualquer motivo, parecer um adulto. Quando pediram a Mary Quant que explicasse qual o fundamento daquela moda e a razão da sua existência, ela, logicamente, respondeu: «O sexo.»

 

Em 1972, a mini-saia estava ultrapassada. As mulheres, cansadas de serem manipuladas pelo juro das bainhas, desistiram da luta e optaram pela linha masculina.

 

Aparece Anthony della Salva e a linha Recife do Pacífico. della Salva nasceu, não num palácio numa das sete colinas de Roma, como o seu relações públicas nos quis fazer crer, mas com o nome de Sal Esposito, numa quinta da estrada de Williambridge, na Bronx. O seu apurado sentido da cor, foi certamente desenvolvido na época em que ajudava o pai a carregar os frutos e legumes, no camião que utilizavam para vender os seus produtos pela vizinhança. A mãe, Angelina, e não condessa Angelina, era conhecida pelo seu pregão: «Deus abençoe a tua mamã. Deus abençoe o teu papá. Comprem as belas uvas!»

 

Sal foi um aluno medíocre na Escola Cristopher Columbus (situada na Bronx, não em Itália), e medianamente talentoso no liceu. Não passava de um entre muitos, mas, assim quis o destino, revelou-se um dos escolhidos.

 

Foi o criador de uma linha que o levou até ao topo: a linha Recife do Pacífico, a sua melhor e única ideia original.

 

E que ideia! della Salva, de um golpe só, revolucionou com magnificência a alta costura. Qualquer pessoa que tenha assistido à primeira exibição dos modelos em 1972, ainda se lembrará do impacte causado pelas roupas graciosas que pareciam flutuar: a túnica com o pano, soltando-se do ombro, os vestidos de passeio, em lã, cortados de uma forma que envolvia o corpo e o moldava; as mangas plissadas em tons brilhantes, mudando de tom conforme a luz. E as cores! Copiou as cores da vida marítima dos trópicos; as árvores de coral, as plantas, as criaturas aquáticas; a natureza imprimida nos seus padrões, originando as suas linhas exóticas, umas brilhantes e atrevidas, outras fundindo-se no azul e na prata. O criador da linha Recife do Pacífico merece todas as honras que a alta costura possa conceder.

 

Ao ler estas linhas Neeve riu-se, indecisa.

 

Sal vai adorar a parte que descreve o Recife do Pacífico declarou. Mas quanto ao resto, não sei o que pensar. Ele tem mentido tanto que quase se convenceu que nasceu em Roma e que a mãe era na verdade uma condessa. Por outro lado, pelo que ele disse ontem, já espera qualquer coisa deste género. Hoje em dia está na moda salientar as dificuldades enfrentadas pelos pais. O mais certo é que procure o barco que transportou os pais até à ilha de Ellis e mande fazer uma miniatura.

 

Depois de descrever os gigantes tal como os via, Ethel continuava, afirmando que os costureiros mais em voga não sabiam distinguir entre um botão e uma casa, e que contratavam gente nova e talentosa para desenhar e executar as suas roupas, acusando muitos deles de optarem pela solução mais fácil, ao tentarem de tempos a tempos impor-se no mundo da moda, nem que para isso fosse preciso vestir mulheres mais idosas, como se fossem bailarinas de can-can.

 

Depois, troçava de todos os «carneiros» que se sujeitavam a apagar três ou quatro mil dólares por um fato que pouco mais tinha que alguns centímetros de tecido.

 

Gordon Steuber era o alvo seguinte de Ethel:

 

O incêndio na Companhia Triangle Shirtwaist, em 1911, alertou a opinião pública para as horríveis condições de trabalho dos operários das indústrias de confecções. Graças à Internacional Ladies Garment Workers Union, a ILGWU, esta indústria modificou-se, e hoje permite a qualquer profissional talentoso obter lucros razoáveis. Mas alguns industriais descobriram uma forma de aumentar os lucros à custa dos menos favorecidos.

 

Montam as suas oficinas na Bronx sul ou em Long Island, e contratam imigrantes ilegais, a maior parte ainda crianças, que aí trabalham por salários miseráveis, e, porque não possuem cartões verdes, não se atrevem a protestar. O rei destes industriais é Gordon Steuber. Tenho muito, muito mais para vos contar sobre Steuber num próximo artigo, mas, para já, não se esqueçam, amigos, que sempre que vestirem um fato assinado por ele, devem dedicar um pensamento à criança que o coseu. O mais certo é que esta não ganhe sequer para comer decentemente.

 

O artigo terminava com uma série de elogios a Neeve e à loja. Aquela que despoletara a investigação sobre Steuber e que banira as roupas dele da sua loja.

 

Neeve passou os olhos pelo resto do texto que lhe era dedicado e depois pousou os papéis.

 

Ela arrasa todos os costureiros mais conhecidos. Talvez se tenha assustado e tenha resolvido afastar-se até que os ânimos acalmem.

 

Gordon Steuber não pode levantar-lhe um processo, a ela ou à revista? perguntou Eugenia.

 

A verdade é sempre a melhor defesa. É óbvio que eles têm todas as provas de que precisam. O que realmente me mata, é que, apesar de tudo o que aqui escreveu, Ethel comprou um fato dele na última vez que cá esteve, aquele que nos esquecemos de devolver.

 

O telefone tocou e alguns momentos depois a recepcionista chamava-a pelo intercomunicador:

 

É o Sr. Campbell para si, Neeve. Eugenia ergueu os olhos.

 

Devia ir ver a sua cara ao espelho.

 

Juntou o que restava das sanduíches, os papéis e os recipientes do café e deitou tudo no caixote do lixo.

 

Neeve esperou até a porta se fechar e só então levantou o auscultador. Tentou imprimir um tom casual à voz, ao anunciar:

 

Neeve Kearny.

 

Desgostosa, deu conta de que lhe faltava o ar. Jack foi directo ao assunto.

 

Neeve, pode jantar comigo esta noite? E sem esperar pela resposta, continuou: Tinha pensado dizer-lhe que tenho os apontamentos de Ethel e que poderíamos encontrar-nos para os lermos, mas a verdade é que gostaria muito de a tornar a ver.

 

Neeve sentiu-se envergonhada por sentir que o seu coração batia desenfreado. Combinaram encontrar-se às sete horas no Carlyle.

 

O resto da tarde tornou-se, inesperadamente, bastante movimentada. Às quatro horas, Neeve desceu até à sala do público e ajudou a atender as clientes. Eram todas caras novas. Uma rapariga, que não podia ter mais de 19 anos, comprou um vestido de noite por cento e quarenta dólares e um de cocktail por novecentos. Insistira bastante para que fosse Neeve a atendê-la.

 

«Sabe», confidenciou-lhe, «uma das minhas amigas trabalha na Contemporary Woman e leu um artigo que vai sair na próxima semana, que diz que o seu dedo mindinho tem mais classe que a maioria dos costureiros da 5.a Avenida e que nunca engana os clientes. Quando contei à minha mãe, ela mandou-me cá vir.»

 

Duas outras clientes contaram a mesma história. Alguém conhecia alguém que lhes falara do artigo. Foi com alguma satisfação que, às seis e trinta, Neeve colocou na porta o letreiro ENCERRADO.

 

Começo a convencer-me de que, a partir de agora, devemos conter-nos e não poderemos amaldiçoar a coitada da Ethel declarou. Ela conseguiu aumentar mais as vendas que um anúncio publicitário em todas as páginas do WWB.

 

À saída do emprego, no caminho para casa, Doug Brown parou na mercearia local. Eram então seis e trinta, e ao enfiar a chave na porta ouviu a campainha insistente do telefone.

 

Primeiro resolveu ignorá-la, tal como fizera durante toda a semana. Mas quando viu que não desistiam, sentiu-se hesitante. Era certo que Ethel não gostava que atendessem o telefone, mas, depois de uma semana de ausência, era lógico que ela deveria tentar contactá-lo.

 

Pousou o saco das compras na cozinha. O som ríspido da campainha continuava a ouvir-se. Por fim, levantou o auscultador.

 

Está...

 

A voz do outro lado soou gutural e abafada.

 

Quero falar com Ethel Lambston.

 

Ela não está. Eu sou o sobrinho. Quer deixar algum recado?

 

Pode crer que quero. Diga a Ethel que o ex-marido deve uma data de dinheiro a quem não devia e não pode pagar o que deve enquanto lhe pagar a ela. Se ela não deixar Seamus em paz vai aprender uma grande lição. Diga-lhe que é muito difícil escrever, quando se tem os dedos partidos.

 

Ouviu-se um clique e a linha ficou muda.

 

Doug deixou cair o auscultador no gancho e afundou-se no sofá. O suor escorria-lhe pela testa e pelos braços. Entrelaçou os dedos para impedir que as mãos lhe tremessem. Que deveria fazer? O telefonema teria sido a sério ou seria algum truque? Não podia ignorá-lo. Não queria chamar a polícia, pois poderiam desatar a fazer-lhe perguntas.

 

Neeve Kearny. Fora ela que se mostrara preocupada com a ausência de Ethel. Tinha de lhe falar neste telefonema. Faria o papel do parente apreensivo procurando conselho. Desta forma, quer se tratasse ou não de uma brincadeira, ele ficaria de fora.

 

Eugenia guardava no cofre as bonitas peças de joalharia quando o telefone tocou. Pegou no aparelho e atendeu.

 

É para si, Neeve. Alguém que parece terrivelmente preocupado. Myles teria tido outro enfarte? Neeve correu para o telefone.

 

Sim?

 

Mas era Douglas Brown, o sobrinho de Ethel, e, desta vez, sem qualquer vestígio da insolência ou do sarcasmo habituais na sua voz.

 

Miss Kearny, faz alguma ideia do paradeiro da minha tia? Acabei agora de chegar a casa e encontrei o telefone a tocar. Era alguém a pedir-me para avisar Ethel, que Seamus, o ex-marido, deve uma data de dinheiro e não pode pagar enquanto lhe der a pensão. Se ela não o libertar desse compromisso eles ameaçam dar-lhe uma lição. O tipo disse que ela iria ter muita dificuldade em escrever com os dedos partidos. Douglas Brown parecia prestes a chorar. Miss Kearny, temos de avisar Ethel!

 

Ao desligar, Doug teve a certeza de que tomara a decisão certa. A conselho da filha do ex-comissário da polícia, iria agora ligar para a esquadra e participar a ameaça. Aos olhos dos chuis, ele surgiria como um amigo da família Kearny.

 

Estendia a mão para o telefone, quando este começou a tocar. Desta vez atendeu sem hesitar.

 

Era a polícia que lhe telefonava.

 

Myles Kearny tentava sair às sextas-feiras, tanto quanto possível. Lupe, a mulher-a-dias da casa há muitos anos, passava ali o dia inteiro lavando, polindo, aspirando e esfregando.

 

Quando Lupe chegou, com o correio na mão, Myles retirou-se para a sala. Uma das cartas vinha de Washington e insistia para que ele aceitasse a chefia do Departamento de Combate à Droga.

 

Myles podia sentir a antiga sensação da adrenalina misturando-se-lhe no sangue. Tinha 68 anos. Não era tão velho como isso. E ia meter as mãos numa tarefa bastante necessária! Neeve. Enchera-a de ilusões acerca do amor à primeira vista, pensou, mas para a maioria das pessoas não é assim que acontece. «Quando eu não estiver aqui, ela terá de enfrentar a realidade.»

 

Reclinou-se na cadeira da secretária. A velha e confortável cadeira de couro que ocupara no seu gabinete durante os dezasseis anos que fora comissário de polícia.

 

«Mesmo feita à minha medida», concluiu ele. «Se for para Washington tenho de a levar.»

 

O barulho do aspirador já chegava ao corredor.

 

«Não quero passar o resto do dia a ouvir isto», decidiu ele.

 

Impulsivamente, ligou o seu antigo número, o número do gabinete do comissário, identificou-se perante a secretária de Herb Schawtz e um instante depois falava com ele.

 

Myles, que andas tu a tramar?

 

A primeira pergunta sou eu que a faço protestou Myles. Como está Tony Vitale?

 

Podia imaginar Herb, do outro lado do fio, com a sua pequena estatura, de débil constituição, mas uns olhos que reflectiam um intelecto arguto e penetrante, capaz de avaliar as mais diversas situações. E, acima de tudo, era um amigo do peito.

 

Não temos ainda garantia nenhuma. Foi abandonado para morrer e acredita que ninguém iria duvidar disso. Mas o rapaz é extraordinário. Apesar de todos os prognósticos, os médicos estão convencidos que ele se safa. Vou lá vê-lo mais tarde. Queres vir?

 

Combinaram encontrar-se para o almoço.

 

Enquanto comiam umas sanduíches de peru num bar perto do hospital de S. Vicente, Herb pôs Myles a par das disposições tomadas para o funeral de Nicky Sepetti.

 

Temos tudo sob controlo, o FBI também e o mesmo se pode dizer do Ministério Público. Mas não sei, Myles, tenho a impressão que com ou sem os últimos sacramentos, Nicky estava arrumado. Dezassete anos é muito tempo para estar afastado. O mundo inteiro mudou. Nos velhos tempos nunca o bando se teria envolvido em tráfico de droga. Agora estão metidos nisso até ao pescoço. O mundo de Nicky já não existe. Se ele tivesse vivido, seriam eles a eliminá-lo.

 

Depois do almoço dirigiram-se à Unidade de Cuidados Intensivos do hospital. O agente sob disfarce, Anthony Vitale, encontrava-se coberto de ligaduras. Continuava a receber líquidos através das veias e tanto a pressão sanguínea como o ritmo cardíaco eram registados através de uma máquina. Os pais aguardavam na sala de espera.

 

De hora a hora deixam-nos entrar e vê-lo durante alguns minutos informou o pai. Ele vai conseguir.

 

E a sua voz exprimia uma segurança calma.

 

Um bom polícia nunca morre à primeira afirmou Myles, apertando-lhe a mão.

 

Então a mãe de Tony interrompeu-os.

 

Comissário proferiu, voltando-se para Myles. Este que começara a indicar-lhe Herb, deteve-se perante o movimento de recusa que Herb lhe dirigiu. Comissário, eu acho que Tony tem tentado dizer-nos qualquer coisa.

 

Ele já nos disse o que nós queríamos saber. Que Nicky Sepetti não contratou ninguém para matar a minha filha.

 

Rosa Vitale abanou a cabeça.

 

Comissário, eu tenho acompanhado Tony hora a hora, nestes últimos dois dias. Não é só isso. Há mais qualquer coisa que ele nos quer transmitir.

 

Havia um agente de guarda a Tony e Herb Schartz aproximando-se do jovem detective, que se encontrava na sala da enfermagem da unidade, ordenou-lhe:

 

Abre bem os ouvidos.

 

Myles e Herb desceram juntos no elevador. Myles franziu o sobrolho.

 

Se há uma coisa em que eu acredito é no instinto maternal.

 

E recordou o dia já longínquo, quando a sua mãe lhe sugerira que procurasse a família que o acolhera durante a guerra.

 

Tony deve ter ouvido muita coisa naquela noite. Eles devem ter posto Nicky em dia, em relação ao que têm feito. Depois acrescentou:Por falar nisso, Herb, Neeve não me larga por causa de uma escritora que desapareceu. Diz aos homens que se mantenham alerta, está bem? Tem cerca de sessenta anos, à volta de um metro e sessenta, bem vestida, cabelo pintado de loiro-prateado e pesa aí uns sessenta quilos. Chama-se Ethel Lambston. O mais certo é andar aí atrás de algum infeliz para o entrevistar, mas...

 

O elevador parou e saíram ambos para o átrio. Schwartz puxou do bloco de notas.

 

Eu conheci a Lambston na Gracie Mansion. Parece que ela apoiou a campanha do presidente da Câmara e agora ele chama-a lá muitas vezes. Um bocado cabeça no ar, não é?

 

É essa mesmo. Riram-se ambos.

 

E por que razão é que Neeve está preocupada?

 

Porque jura que Ethel Lambston saiu de casa na quinta ou na sexta-feira sem levar nenhum casaco de Inverno. Ela comprou a roupa toda na loja de Neeve.

 

Talvez tenha ido até à Florida ou até às Caraíbas e não quisesse ir carregada sugeriu Herb.

 

Essa é uma das muitas explicações possíveis que eu já sugeri a Neeve, mas ela insiste que no guarda-fatos de Ethel só faltam roupas de Inverno, e nisso Neeve não se enganaria.

 

Herb franziu a testa.

 

Talvez Neeve tenha razão. Dá-me outra vez a descrição.

 

Myles estava de volta ao sossego de casa, casa esta que brilhava de limpeza. O telefonema de Neeve às seis e trinta deixou-o confuso e ao mesmo tempo satisfeito.

 

Vais jantar fora? Óptimo. Espero que ele seja interessante.

 

Neeve contou-lhe, então, a chamada que recebera do sobrinho de Ethel.

 

Disseste-lhe para participar à polícia? Era a única coisa a fazer. Talvez ela se tenha assustado e tenha fugido. Hoje contei a Herb o que se passa com ela. Vou, agora, contar-lhe isto.

 

Myles preparou o seu jantar; fruta, bolachas e um copo de Perrier. Enquanto comia e se tentava concentrar na leitura da Times, deu por si arrependido por não ter dado mais atenção à certeza de Neeve, de que algo de errado se passava com Ethel Lambston.

 

Serviu-se do segundo Perrier e descobriu a razão da sua inquietação. A chamada ameaçadora que o sobrinho alegara ter recebido não deixava de soar a falso.

 

Neeve e Jack Campbell ocuparam a mesa da parte mais alta na sala de jantar do Carlyle. Obedecendo a um impulso, Neeve trocara o vestido que usara na loja, por outro estampado e levemente colorido. Jack encomendou as bebidas; para ele um vodka-martini com azeitonas e para Neeve uma taça de champanhe.

 

Neeve, você lembra-me a canção: Uma Rapariga Bonita é como Uma Linda Melodia declarou ele. Será que hoje em dia se tornou ridículo chamar alguém de rapariga bonita? Preferiria ser chamada de jovem encantadora?

 

Prefiro o nome da canção.

 

Esse não é um dos vestidos que os manequins exibem nas suas montras?

 

É muito observador. Quando é que os viu?

 

A noite passada. E não foi nenhum acaso. Estava morto de curiosidade. E Jack Campbell não parecia nada embaraçado por admitir aquele facto.

 

Neeve observou-o com atenção. Naquela noite vestia um fato azulescuro, com uma risca branca muito leve. Inconscientemente aprovou a escolha do conjunto, a gravata Hermes a condizer perfeitamente com o tom de azul, a camisa de fantasia, os botões de punho de ouro liso.

 

Estou aprovado? perguntou ele. Neeve sorriu.

 

Poucos homens conseguem escolher uma gravata que fique realmente bem com o fato que vestem. Há anos que escolho as gravatas do meu pai.

 

O empregado serviu as bebidas. Jack esperou que ele se afastasse para perguntar:

 

Quero que me conte tudo a seu respeito, a começar pelo nome. De onde vem o nome Neeve?

 

É um nome celta. Na verdade escreve-se N-I-A-M-H e pronuncia-se Neeve. Há muito que desisti de explicar isso, de forma que, quando abri a loja, utilizei a escrita fonética. Não calcula o tempo que poupei, para já não falar nas vezes em que me iriam chamar Nim-ah.

 

E quem foi a primeira Neeve?

 

Uma deusa. Alguns dizem que a tradução exacta do nome é Estrela da Manhã. Há uma lenda de que eu gosto muito, acerca dela, e que conta que um dia a deusa veio à Terra para escolher um homem. Foram felizes durante muito tempo até que ele desejou visitar de novo a Terra. Era sabido que mal cá pusesse os pés assumiria a sua verdadeira idade. Pode imaginar o que aconteceu. Ele saltou do cavalo e a pobre Niamh deixou-o transformado num monte de ossos e regressou aos Céus.

 

É isso que você faz aos seus pretendentes?

 

Riram-se ambos. Pareceu a Neeve que era por mútuo acordo que odiavam a conversa sobre Ethel.

 

Quando contara a Eugenia o telefonema do sobrinho, esta concluíra que se tratava de um bom sinal.

 

«Se Ethel recebeu um telefonema desses, eu acho que o mais certo é ela ter-se escondido até as coisas acalmarem. Não disse ao sobrinho para ligar para a polícia? O seu pai está ao corrente de tudo? Então, não pode fazer mais nada. Aposto que a boa e velha Ethel se enfiou nalgumas termas.»

 

Neeve queria acreditar que assim era, de forma que resolveu afastar Ethel do pensamento. Bebeu um golo de champanhe e sorriu para Jack, sentado do outro lado da mesa.

 

Enquanto comiam umaremoulade de aipo falaram da juventude. O pai de Jack era pediatra e este crescera num subúrbio de Omaha. Tinha uma irmã mais velha que ainda vivia perto dos pais.

 

Tina tem cinco filhos. As noites no Nebrasca são muito frias. Durante o liceu ocupara as férias de Verão trabalhando numa livraria

 

e sentira-se fascinado pelo mundo editorial.

 

Assim, saí do nordeste e mudei-me para Chicago, onde vendia textos universitários. É um trabalho que põe à prova a nossa masculinidade. Parte do trabalho consiste em averiguar se há algum professor entre aqueles a quem tentamos impingir os nossos livros que se tenha dedicado a escrever algum. Apareceume uma professora que não me largava com a sua autobiografia. Finalmente desabafei: «Minha senhora, sejamos honestos.

 

A senhora teve uma vida terrivelmente enfadonha.» Ela foi queixar-se ao meu patrão.

 

E ele despediu-o? perguntou Neeve.

 

Não. Promoveu-me a editor.

 

Neeve olhou em volta, apreciando o ambiente suave e elegante, a porcelana delicada, a prata sóbria, as toalhas de damasco, os arranjos florais, o murmúrio agradável das vozes das outras mesas. Sentiu-se incrivelmente feliz. Já servida de costeletas de carneiro falou-lhe da sua vida.

 

O meu pai fartou-se da barafustar para que eu fosse para fora, para a universidade, mas eu não quis sair de casa. Fui para o Mount S. Vincent e fiz um semestre em Inglaterra, em Oxford. Depois andei um ano na Universidade de Perugia. No Verão e ao fim das aulas trabalhava em lojas de roupa. Sempre soube o que queria. O meu divertimento preferido era assistir a passagens de modelos. O tio Sal sempre foi fantástico comigo. Depois de a minha mãe morrer, sempre que apresentava uma nova colecção mandava-me um carro para eu também ir.

 

Que faz agora nos tempos livres? perguntou Jack.

 

A pergunta soou demasiado casual. Neeve sorriu, percebendo a razão da pergunta.

 

Durante quatro ou cinco anos alugava, durante o Verão, uma parte de uma casa em Hamptons respondeu ela. Era óptimo. No ano passado desisti devido ao estado de saúde de Myles. No Inverno faço esqui em Vail, pelo menos durante duas semanas. Estive lá em Fevereiro.

 

E com quem vai?

 

A minha melhor amiga, Julie, vai sempre comigo. Os outros, variam. Desta vez ele foi directamente ao assunto.

 

E quanto a homens? Neeve riu-se,

 

Parece Myles. Tenho a certeza de que não descansará enquanto não fizer o papel de feliz pai da noiva. Claro que já tive alguns homens. Durante a faculdade estive comprometida com um.

 

Que aconteceu?

 

Ele foi para Harvard, tirar um M.B.A.1 e eu envolvi-me na abertura da loja. Embrenhámo-nos em mundos diferentes. Chamava-se Jeff. Depois apareceu Richard. Era uma óptima pessoa, mas arranjou emprego em Wisconsin e eu soube, então, que não seria capaz de abandonar a Big Apple2, de forma que tive de concluir que não era um amor verdadeiro. Neeve riu-se.O mais perto que estive do casamento foihá dois anos, com Gene. Rompemos durante uma festa de caridade a bordo do Intrepis.

 

No barco?

 

1 Master of Business Administration. (N. da T.)

2 Designação dada a Nova Iorque. (N. da T.)

 

Ah, ah. Está ancorado no Hudson, na 56 Oeste. Bem, a festa realizou-se no fim-de-semana do Dia do Trabalho; fato de gala, montes de gente. Aposto que consigo nomear noventa por cento dos habituais convidados. Gene e eu acabámos por nos perder no meio da multidão. Claro que não me preocupei. Calculei que mais cedo ou mais tarde acabaríamos por nos ver. Mas quando o descobri, ele estava furioso. Achava que eu devia ter tentado procurá-lo com mais convicção. Descobri então uma faceta nele com a qual nunca poderia viver. Neeve encolheu os ombros.A verdade é que nunca encontrei ninguém à minha medida.

 

Até agora corrigiu Jack, sorrindo. Começo a pensar que realmente se trata da legendária Neeve, aquela que deixa ficar os pretendentes para trás e continua a cavalgar. Não se pode dizer que tenha mostrado muita curiosidade a meu respeito, mas, mesmo assim, eu vou contar-lhe. Também eu sou um bom esquiador. As últimas férias de Natal passeias em Arosa. Estou a pensar arranjar um sítio onde possa guardar um barco. Talvez me possa levar a Hamptons. Tal como Neeve, estive várias vezes à beira do noivado. Há quatro anos cheguei mesmo a ficar noivo.

 

É a minha vez de perguntar o que aconteceu replicou Neeve. Jack encolheu os ombros.

 

Assim que ela se viu de anel no dedo, tornou-se numa jovem muito possessiva e eu percebi que não tardaria a faltar-me o ar. Sou um adepto incondicional da definição de casamento de Kahil Gibran.

 

Qualquer coisa sobre a necessidade dos pilares que seguram o tempo se manterem afastados? perguntou Neeve.

 

Foi recompensada por um olhar respeitoso e divertido de Jack.

 

É isso mesmo.

 

Acabaram de comer as framboesas e beberam o café, e só então falaram de Ethel. Neeve contou-lhe o telefonema do sobrinho e a possibilidade de Ethel se ter escondido em algum sítio.

 

O meu pai mantém-se em contacto com o seu antigo departamento e vai pedir-lhes que verifiquem quem tem andado a fazer esses telefonemas ameaçadores. E, sinceramente, tenho de admitir que Ethel faz mal em não libertar o pobre coitado. É revoltante que receba ainda o dinheiro dele passados tantos anos. Ela precisa tanto dessa pensão como de um buraco na cabeça.

 

Jack tirou a cópia do artigo do bolso e Neeve explicou-lhe que já o lera.

 

Considera isto escandaloso? perguntou-lhe Jack.

 

Não. Considero-o engraçado e impertinente, talvez até sarcástico. Lê-se bem e talvez seja injurioso. Mas não há nada aí escrito que não seja do conhecimento de qualquer pessoa ligada à moda. Não tenho a certeza de qual será a reacção do tio Sal, mas conhecendo-o como conheço, aposto que vai conseguir dar a volta ao texto, de tal forma, que o facto de a mãe ter vendido fruta passará a ser um trunfo a seu favor. Gordon Steuber já me preocupa mais. Tenho a sensação de que ele se pode tornar perigoso. Os outros estilistas que Ethel atacou? Todos sabem que à excepção de um ou dois, nenhum dos costureiros mais na moda sabe desenhar. Limitam-se a gozar a emoção de um trabalho arriscado.

 

Jack assentiu.

 

Apergunta seguinte é: acha que há alguma coisa neste artigo capaz de originar um livro explosivo?

 

Não. Nem mesmo Ethel conseguiria uma coisa dessas.

 

Tenho uma compilação de todas as notas do artigo. Ainda não tive tempo de as ler concluiu Jack, pedindo a conta.

 

Denny aguardava do outro lado da rua do Carlyle. Era umahipótese remota e Denny sabia-o. Seguira Neeve ao longo da Avenida Madison até ao hotel, mas não tivera qualquer oportunidade de se aproximar, havia muita gente. Tipos importantes regressando a casa ao fim do trabalho. Mesmo que conseguisse atingi-la, o risco de ser imediatamente agarrado era enorme. A única esperança que lhe restava era que Neeve saisse sozinha e se dirigisse a pé até à estação do metro mais próxima, ou que resolvesse mesmo caminhar até casa. Mas quando ela saiu, vinha acompanhada por um tipo e os dois meteram-se num táxi.

 

O rosto de Denny ficou visivelmente desfigurado pela frustração e isto apesar das camadas de lixo que lhe cobriam a cara e lhe permitiam misturar-se com os vadios da zona. Se aquele tempo continuasse, ela andaria sempre de táxi. Tinha de ir trabalhar no fim-de-semana. Não podia arriscar-se a chamar a atenção para o seu comportamento no emprego. Isso significava que só poderia rondar-lhe a casa de manhã cedo, para o caso de ela voltar à loja, ou saísse para correr, e só poderia voltar depois das seis horas.

 

Restava-lhe a segunda-feira, no bairro das confecções. Denny sentia que seria lá que tudo acabaria. Enfiou-se numa porta, tirou o sobretudo roto, limpou a cara e as mãos com uma toalha húmida, enfiou tudo no saco e dirigiu-se para um bar na 3.a Avenida. Estava morto por um uísque misturado com cerveja.

 

Eram dez horas quando o táxi encostou no passeio, frente ao Edifício Schwab.

 

O meu pai deve estar a tomar a sua bebida da noite disse Neeve para Jack. Não quer uma?

 

Dez minutos depois, encontravam-se no escritório bebendo brande. Neeve percebeu que havia algo de errado, pois a expressão de Myles mantinha-se apreensiva, mesmo durante a conversa com Jack. Sentia que ele tinha algo a dizer-lhe e que não o queria fazer naquele momento.

 

Jack contava a Myles como conhecera Neeve no avião.

 

Ela desapareceu tão depressa que nem consegui pedir-lhe o número. Disse-me agora que, mesmo assim, acabou por perder a ligação.

 

E eu que o diga confirmou Myles. Esperei por ela no aeroporto durante quatro horas.

 

Devo reconhecer que me senti deliciado quando durante o cocktail a vi aproximar-se de mim para me perguntar pela Ethel Lambston. Pelo que Neeve me contou, deduzo que Ethel não é uma das suas companhias preferidas, Mr. Kearny.

 

Neeve susteve a respiração ao ver a mudança que se operou no semblante de Myles.

 

Jack começou ele, ainda um dia aprenderei a respeitar a intuição de Neeve. E virando-se para a filha explicou: Herb ligou há pouco. Encontraram um corpo no Parque Morrison, no distrito de Rockland. Corresponde à descrição de Ethel. Levaram lá o sobrinho e ele identificou-a.

 

Que lhe aconteceu? perguntou Neeve, num murmúrio.

 

Cortaram-lhe a garganta. Neeve fechou os olhos.

 

Eu sabia que havia qualquer coisa de errado. Eu sabia.

 

E tinha razão. Parece que já têm um suspeito. Quando a vizinha de cima viu o carro da polícia, correu pela escada abaixo. Segundo ela, Ethel e o ex-marido tiveram uma briga colossal na tarde da passada quinta-feira. Aparentemente, ninguém tornou a ver Ethel desde então. Na sexta-feira, ela já não compareceu aos encontros que marcara contigo e com o sobrinho. Myles engoliu o resto do brande e levantou-se para se servir novamente.Normalmente, nunca bebo um segundo brande. Amanhã de manhã, os tipos dos Homicídios querem falar contigo. E o promotor público do distrito de Rockland pediu se podias ir até lá identificar as roupas que Ethel vestia. Parece que têm a certeza de que o corpo foi removido depois de morto. Eu contei a Herb a tua preocupação por não faltar nenhum dos casacos dela, quando sabias que ela só comprava na tua loja. As etiquetas das roupas foram cortadas. Querem saber se as roupas que ela trazia eram mesmo dela. Maldição, Neeve! exclamou Myles. Não me agrada nada ver-te como testemunha de um assassínio.

 

Jack Campbell pegou no copo para se servir de novo e declarou calmamente:

 

A mim também não!

 

Durante a noite o vento mudara e as nuvens baixas tinham-se afastado para o Atlântico. Assim, o sábado amanheceu exibindo um sol dourado e radioso. No entanto, ainda se sentia no ar uma ameaça de frio e o meteorologista da CBS previa que as nuvens voltariam, podendo mesmo haver queda de neve durante a tarde.

 

Neeve saltou da cama. Tinha combinado ir correr com Jack às sete e meia.

 

Tirou o seu fato de treino Reeboks e atou o cabelo num rabo de cavalo. Encontrou Myles na cozinha. Este, quando a viu, franziu o sobrolho.

 

Não me agrada nada que vás correr a esta hora... sozinha.

 

Não vou sozinha. Myles levantou os olhos.

 

Estou a perceber. Isso é que é andar depressa, não é? Eu gosto dele, Neeve.

 

Ela serviu-se de sumo de laranja.

 

Vá, não te ponhas agora a deitar foguetes. Também gostavas do corretor.

 

Eu não disse que gostava dele. Eu só disse que ele parecia respeitável, é diferente. E abandonando o tom de troça, acrescentou: Neeve, tenho estado a pensar. É mais lógico que vás a Rockland antes de falares com os nossos agentes de cá. Assim, poderás confirmar se as roupas que Ethel usava eram da tua loja. E, partindo desse princípio, acabarás por ter de ir ao armário dela e ver concretamente o que lá falta. Parece que o assassino foi o ex-marido, mas não podemos ter a certeza.

 

Ouviu-se o som da campainha. Neeve ligou o intercomunicador. Era Jack.

 

Desço jádisse ela.A que horas queres ir a Rockland?perguntou ela a Myles. Eu ainda quero ir trabalhar.

 

Pode ser a meio da tarde. E perante a surpresa dela, explicou: O canal 2 vai transmitir em directo o funeral de Sepetti. Eu quero assistir na primeira fila.

 

Denny retomara o seu posto eram sete horas. Às sete e vinte e nove viu um fulano alto entrar no Edifício Schwab. Alguns minutos depois, Neeve Kearny saiu com ele. Começaram a correr em direcção ao parque. Denny praguejou em silêncio. Se ao menos ela fosse sozinha. No caminho para ali, cortara pelo parque e este encontrava-se quase deserto. Poderia tê-la morto em qualquer sítio. Apalpou a pistola que guardava no bolso. Na noite anterior, ao regressar ao quarto, encontrara Big Charley, que o esperava dentro do carro estacionado do outro lado do passeio. Charley abrira a janela e entregara-lhe um saco de papel castanho. Denny pegara-lhe, e com os dedos identificara os contornos de uma pistola. «A Kearny está a levantar grandes problemas», disse-lhe Big Charley. «Já não interessa se parece um acidente ou não. Mata-a assim que puderes.»

 

Sentiu-se tentado a segui-los até ao parque e aí alvejar os dois. Mas Big Charley poderia não gostar.

 

Denny afastou-se na direcção oposta. Agora, vestia uma camisola larga que lhe chegava quase aos joelhos, umas calças de caqui amarrotadas, sandálias de couro e um boné de pala que já fora amarelo-vivo. Por debaixo do boné, trazia uma cabeleira grisalha e colara algumas madeixas à testa. Parecia um drogado meio louco. O outro disfarce era de bêbedo. Desta forma, ninguém se iria lembrar que vira sempre o mesmo homem a rondar o edifício de Neeve Kearny.

 

Enquanto Denny se livrava do disfarce no metro da Rua 72, pensou para consigo: «Eu devia era cobrar ao Big Charley por todas estas trocas de roupa.»

 

Neeve e Jack cortaram para o parque na Rua 79, correram para leste e depois cortaram para norte. À medida que se aproximava do Museu Metropolitan, Neeve, instintivamente, tentou virar para Oeste. Não queria passar pelo lugar onde a mãe morrera. Mas perante o olhar admirado de Jack, desculpou-se:

 

Perdão, iremos por onde quiseres.

 

Determinada a olhar em frente, não resistiu e virou-se para a zona de árvores agora nuas e imóveis. Recordou-se do dia em que a mãe não aparecera na escola para a levar. A superiora, a irmã Maria, conduzira-a para o seu gabinete e sugerira-lhe que começasse os trabalhos de casa. Eram quase cinco horas quando Myles apareceu para a levar. Nessa altura, já ela sabia que algo acontecera. A mãe nunca se atrasava.

 

No momento em que levantara os olhos e deparara com Myles, na sua frente, de olhos vermelhos, exprimindo um misto de dor e piedade, ela adivinhara. Estendera-lhe os braços e perguntara: «A mãe morreu?»

 

«Pobre garotinha», murmurara Myles, levantando-a e apertando-a contra o peito. «Pobre garotinha!»

 

Neeve sentiu os olhos cheios de lágrimas. Acelerou o passo, passou a clareira silenciosa, correu pela zona do museu dedicada à arte egípcia. Estava quase no limite das forças quando resolveu abrandar.

 

Jack acompanhara-lhe o passo e agora segurava-a pelo braço. Neeve contou-lhe o que acontecera a Renata.

 

Deixaram o parque na Rua 79, depois de cortarem para sudoeste, e seguiam agora num passo rápido.

 

Os escassos quarteirões que os separavam do Edifício Schwab percorreram-no lado a lado, de dedos entrelaçados.

 

Ao ligar o rádio, às sete horas da manhã de sábado, Ruth ouviu a notícia da morte de Ethel. Tomara um comprimido para dormir à meia-noite, e nas horas seguintes mergulhara num sono pesado e artificial, vagamente assombrado por pesadelos difusos: Seamus a ser preso. Seamus a ser julgado. Aquela demoníaca Ethel testemunhando contra ele. Anos atrás, Ruth trabalhara num escritório de advogados e tinha uma ideia bem clara do tipo de acusações que poderiam imputar a Seamus.

 

Agora, à medida que ouvia o locutor e baixava a chávena com dedos trémulos, percebia que poderia acrescentar mais uma às restantes acusações: assassínio.

 

Arrastou a cadeira da mesa e correu para o quarto. Seamus acabara de acordar. Abanando a cabeça, passou a mão pela cara, um gesto diário que sempre a irritara.

 

Tu mataste-a! berrou-lhe.Como posso eu ajudar-te, se não me dizes a verdade?

 

De que estás tu a falar?

 

Ruth aumentou o volume do rádio. O locutor descrevia agora como e onde Ethel fora encontrada.

 

Há anos que levas as garotas ao Parque Morrison a fazer piqueniques acusou ela. Conheces aquele lugar como a palma da tua mão. Agora, diz-me a verdade. Foste tu que a mataste?

 

Uma hora mais tarde, paralisado pelo terror, Seamus conseguiu arrastar-se até ao bar. O corpo de Ethel fora encontrado. Sabia que a polícia viria procurá-lo.

 

Na véspera, Brien, o empregado do turno do dia, trabalhara os dois turnos e para mostrar o seu desagrado deixara tudo sujo e desarrumado. O garoto vietnamita que tratava da cozinha já se encontrava a trabalhar. Pelo menos esse era cumpridor.

 

Tem a certeza que fez bem em vir, Mr. Lambston? perguntou ele. Está com cara de quem continua doente.

 

Seamus recordou as recomendações que Ruth lhe fizera:

 

«Diz que estás com gripe. Tu nunca faltas ao trabalho. Eles têm de acreditar que ontem estiveste realmente doente, e que durante o fim-de-semana também. Eles têm de se convencer que não saíste durante todo o fim-de-semana. Falaste com alguém? Alguém te viu? Aquela vizinha de certeza que lhes vai contar que lá estiveste na semana passada.»

 

Os malditos micróbios não me largam respondeu ele.Ontem foi mau, mas durante o fim-de-semana foi terrível.

 

Ruth ligou-lhe eram dez horas. Infantilmente- ouviu-a, repetindo palavra por palavra o que ela lhe dizia.

 

Às onze horas abriu o bar ao público. Ao meio-dia, os velhos clientes que ainda se mantinham fiéis começaram a chegar. Seamus trovejou um deles com um sorriso jovial no rosto. Más notícias sobre a pobre Ethel, mas, pelo menos, livraste-te daquela pensão vitalícia. Hoje as bebidas são por conta da casa?

 

Às duas horas, pouco depois de terminar o razoavelmente concorrido serviço de almoço, dois homens entraram no bar. Um devia andar pelos cinquenta anos, de constituição forte e rosto rosado, pouco lhe faltava para trazer um letreiro na testa a anunciar que era da polícia. O companheiro pertencia ao tipo hispano, era magro e devia andar na casa dos vinte. Identificaram-se como sendo os detectives O’Brien e Gomez da 20.a Esquadra.

 

Mr. Lambston começou O’Brien calmamente, já teve conhecimento de que a sua ex-esposa, Ethel Lambston foi encontrada no Parque Morrison e que foi vítima de homicídio?

 

Seamus fincou os dedos na beira do balcão com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos. Confirmou com um gesto, incapaz de falar.

 

Não se importa de passar pela esquadra?pediu o detective O’Brien aclarando a voz. Gostaríamos de lhe fazer algumas perguntas.

 

Assim que Seamus saiu para o bar, Ruth discou o número de casa de Ethel Lambston. O telefone foi levantado, mas ninguém respondeu. Por fim, ela pediu:

 

Queria falar com o sobrinho de Ethel Lambston, Douglas Brown. Daqui fala Ruth Lambston.

 

Que quer?

 

Era a voz do sobrinho. Ruth reconheceu-a de imediato.

 

Tenho de falar consigo. Vou já para aí.

 

Dez minutos depois, um táxi deixava-a à porta do edifício de Ethel. Enquanto saía e estendia o dinheiro ao motorista, olhou para cima. Uma cortina agitou-se no quarto andar. A vizinha de cima não perdia pitada.

 

Douglas Brown aguardava-a. Abriu-lhe a porta e recuou de forma a dar-lhe passagem para o interior da casa. Tudo continuava arrumado na sua desordem, embora Ruth reparasse que uma fina camada de pó cobria, agora, a pequena mesa. As casas em Nova Iorque precisavam de ser limpas todos os dias.

 

Sem acreditar no que estava a pensar, numa altura daquelas, manteve-se de pé frente a Douglas, avaliando o roupão caro e o pijama de seda que este deixava entrever. Douglas tinha os olhos inchados como se tivesse bebido. As suas feições uniformes quase seriam atraentes se dotadas de mais firmeza. Assim, recordavam a Ruth as esculturas que as crianças gravavam na areia e que desapareciam consoante o vento e a maré.

 

Que quer? perguntou ele.

 

Não vou perder tempo, nem o seu, nem o meu, dizendo o quanto lamento a morte de Ethel. Quero a carta que Seamus lhe escreveu e quero que ponha isto no seu lugar. E estendeu-lhe a mão. O sobrescrito não estava fechado. Douglas abriu-o. Continha o cheque referente à pensão e estava datado de 5 de Abril.

 

Que é que você está a tramar?

 

Não estou a tramar nada. Estou a fazer uma simples troca. Devolva-me a carta que Seamus escreveu a Ethel. E vamos deixar bem claro, que o motivo que trouxe Seamus a esta casa, na quarta-feira passada, foi entregar a pensão a Ethel. Como ela não estava, ele voltou na quinta-feira, pois não conseguiu enfiar o sobrescrito no correio. Ele sabia que ela recorreria ao tribunal se ele falhasse.

 

E por que faria eu uma coisa dessas?

 

Porque no ano passado, Seamus perguntou a Ethel a quem ia ela deixar o dinheiro. Ela respondeu que não tinha alternativa; você era o único parente. Mas, na semana passada, Ethel contou a Seamus que você a roubava e, por isso, pensava modificar o testamento. É esta a razão.

 

Ruth viu a cara de Douglas tornar-se lívida.

 

Está a mentir.

 

Estou? perguntou Ruth. Estou, sim, a dar-lhe uma oportunidade. Dê a Seamus também uma. Nós ficaremos de boca fechada quanto aos seus roubos e você cala a sua acerca da carta.

 

Douglas sentiu uma admiração enorme por aquela mulher determinada, que ali estava na sua frente, carteira debaixo do braço, usando um casaco para todas as estações, sapatos fortes e uns óculos sem aros que salientavam os olhos azul-claros e a boca fina e dura. Sabia que ela não estava a mentir.

 

Levantou os olhos para o tecto.

 

Parece-me que se esqueceu da abelhuda lá de cima. Passa a vida a dizer, a quem quer ouvir, que Seamus e Ethel tiveram uma briga enorme na véspera de ela desaparecer.

 

Eu falei com a mulher. Não tem a mínima prova do que afirma. Diz que ouviu vozes altas. Seamus fala alto por natureza. Ethel não abria a boca se não para guinchar.

 

Parece ter pensado em tudo comentou Doug. Vou buscar a carta. E dirigiu-se para o quarto.

 

Ruth avançou em silêncio até à secretária. Ao lado da pilha de cartas podia ver a ponta do punhal de cabo vermelho e dourado que Seamus descrevera. Um instante depois, tinha-o dentro da bolsa. Fora imaginação sua ou sentira-o pegajoso?

 

Quando Douglas Brown reapareceu, trazendo a carta de Seamus, Ruth passou-lhe os olhos e depois enfiou-a na bolsa exterior da carteira. Antes de sair, estendeu-lhe a mão.

 

Lamento muito a morte de sua tia, Mr. Brown. Seamus pediu-me que lhe transmitisse o seu pesar. Apesar de todos os desentendimentos entre eles, houve uma época em que se amaram, e é esse o tempo que ele recordará.

 

Por outras palavras rematou Douglas com frieza, quando apolícia me perguntar, será este o motivo da sua visita.

 

É isso mesmo confirmou Ruth. Entre nós, a verdade é que se você não mantiver a sua palavra, diremos à polícia que a sua tia tencionava deserdá-lo.

 

Ruth regressou a casa e dedicou-se às limpezas, quase com um fervor religioso. Esfregou paredes, tirou as cortinas e pô-las de molho na banheira.

 

O aspirador, com vinte anos, percorreu novamente o seu caminho quase inutilmente, através da alcatifa já gasta.

 

Enquanto trabalhava, Ruth não se livrava da obsessão que tinha de se desembaraçar do punhal.

 

Pôs de parte os lugares mais óbvios que lhe ocorriam. O incinerador?E se a polícia analisava os detritos do prédio? Não queria enfiá-lo num caixote da rua. Correria o risco de ser vista, caso a polícia tivesse alguém a segui-la.

 

Às dez horas telefonou a Seamus e ensaiou com ele as respostas que este deveria dar quando fosse interrogado.

 

Não podia adiar por mais tempo. Tinha de decidir o que fazer com o punhal. Tirou-o da carteira e passou-o por água a ferver, esfregando-o depois com um pano. Mesmo assim, parecia-lhe pegajoso. Pegajoso com o sangue de Ethel.

 

Não sentia piedade por Ethel. Tudo o que lhe interessava era preservar um futuro sem mácula às filhas.

 

Olhou com asco para o punhal. Agora parecia novo. Tratava-se de umadaquelas maluquices indianas, de lâmina afiada, com o cabo trabalhado e decorado, num padrão confuso de vermelho e dourado. Provavelmente, fora caro.

 

Parecia novo.

 

Claro. Era simples. Era fácil. Sabia exactamente onde o esconder.

 

Ao meio-dia, Ruth dirigiu-se ao Prahm and Singh, uma loja de artigos indianos na 6.8 Avenida. Passou de montra em montra, parou nos balcões, espreitou em todos os cestos. Por fim, encontrou o que procurava. Um cesto enorme que continha facas para cartas. Os cabos eram uma imitação barata do embutido no punhal de Ethel. Ao acaso pegou num. Parecia-lhe encontrar certas semelhanças com o qae trazia na carteira.

 

Tirou o punhal de Ethel e deixou-o cair no cesto, cobrindo-o com os restantes, de forma a ficar completamente tapado.

 

Posso ajudá-la? perguntou uma empregada.

 

Oh... sim... eu... isto é... Eu queria ver algumas bandejas. Na secção 3. Eu acompanho-a.

 

À uma hora, Ruth estava de volta a casa, arranjara uma chávena de chá e esperava que o ritmo do coração se normalizasse. Ninguém o descobriria ali. Nunca, nunca...

 

Depois de Neeve sair para a loja, Myles tomou uma segunda chávena de café, matutando no facto de Jack Campbell os acompanhar a Rockland. Instintivamente, gostara dele e a custo admitia que, durante anos, pressionara Neeve para não se iludir com o mito do amor à primeira vista.

 

«Meu Deus», pensou, «será possível que afinal isso possa acontecer duas vezes?» Às dez e um quarto instalou-se na sua cadeira de couro e assistiu à transmissão pela televisão do pomposo cortejo fúnebre de Nicky Sepetti, que abria com uma fila de carros carregados com flores, alguns deles transportando arranjos caríssimos, em direcção à Igreja de St. Camila. Seguiam-se as limusinas alugadas, onde viajavam os enlutados, e os que fingiam estar de luto. Myles sabia que o FBI, o gabinete do procurador público e o departamento da Polícia estavam também presentes, anotando as matrículas dos carros particulares, fotografando os presentes na igreja.

 

A viúva vinha acompanhada por um homem robusto de quarenta anos e por uma mulher, um pouco mais nova, envolta numa capa negra que lhe ocultava parte do rosto.

 

Os três usavam óculos escuros. «O filho e a filha não querem ser reconhecidos», concluiu Myles. Sabia que ambos se tinham desligado do resto da quadrilha. Os garotos eram espertos.

 

A transmissão prosseguia agora no interior da igreja. Myles baixou o som e, mantendo um olho atento no ecrã, pegou no telefone. Herb encontrava-se no seu gabinete.

 

Já leste o News e o Post? perguntou Herb. Não há dúvida que deram grande destaque ao assassinato de Ethel Lambston.

 

Eu li.

 

Continuamos na pista do ex-marido. Esperemos para ver onde chegamos depois da busca ao apartamento dela. A briga que a vizinha ouviu na última quinta-feira pode bem ter acabado em assassínio. Por outro lado, ele pode tê-la assustado, fazendo-a sair da cidade, para depois a seguir. Myles, ensinaste-me que todos os criminosos deixam o seu cartão de visita. Havemos de encontrar o deste.

 

Combinaram o encontro de Neeve com os agentes dos Homicídios da 20.a Esquadra para a tarde de domingo, em casa de Ethel.

 

Liga-me, caso descubras alguma coisa de interessante em Rockland pediu Herb. O presidente da Câmara tem pressa de ver o caso resolvido.

 

E que há de novo nos desejos do presidente?perguntou Myles, secamente. Depois telefono-te, Herb.

 

Myles aumentou de novo o volume do receptor. O padre abençoara os restos mortais de Nicky Sepetti. A urna foi transportada para fora da igreja, enquanto o coro cantava: «Nada temas; Eu acompanhar-te-ei para sempre.»

 

«Tu a mim acompanhaste-me durante dezassete anos, seu filho da mãe!», pensou ele, enquanto os carregadores dobravam o pano do fétero e içavam o pesado caixão de mogno até aos ombros. «Talvez quando te vir a apodrecer debaixo da terra me livre de ti.»

 

A viúva chegava agora aos degraus da igreja. Subitamente, voltou-se e afastando-se dos filhos dirigiu-se ao comentador de televisão mais próximo. Enquanto o seu rosto ocupava todo o ecrã, exprimindo cansaço e resignação, ela declarou:

 

Quero fazer uma declaração. Muita gente condenava a natureza dos negócios do meu marido. Mas ele pagou por isso na prisão. Acabou por lá passar mais anos do que devia, por um crime que não cometeu. No seu leito de morte, Nicky jurou que nada teve a ver com o assassínio da mulher do comissário da polícia Kearny. Pensem dele o que quiserem, mas não o julguem responsável por um crime que não cometeu.

 

Seguiram-se uma série de perguntas que ela deixou sem resposta, afastou-se e reuniu-se aos filhos. Myles desligou o receptor.

 

«Mentiroso até ao fim!»

 

Mas enquanto punha a gravata e com gestos seguros e rápidos lhe fazia o nó, percebeu que, pela primeira vez, em tantos anos, uma pequena dúvida germinava na sua mente.

 

Assim que o corpo de Ethel Lambston fora encontrado, Gordon Steuber agiu imediatamente. Ordenou que se fechasse a sua última oficina ilegal, em Long Island, e que avisassem os trabalhadores das consequências, caso resolvessem colaborar com a polícia. Depois telefonou para a Coreia, para cancelar o embarque da remessa que esperava de uma das suas fábricas aí situadas. Ao ser informado de que a mercadoria se encontrava já no aeroporto, pronta a ser carregada, atirou com o telefone contra a parede, num gesto de fúria e desespero.

 

Depois obrigou-se a raciocinar com toda a frieza. Que provas teria Ethel? Até que ponto as suas ameaças não passavam de bluff? E como po«« deria ele desembaraçar-se do artigo dela?

 

Embora fosse sábado, May Evans, a sua secretária, tinha vindo ao escritório para terminar um trabalho com o ficheiro. May tinha por marido um bêbedo e o seu filho adolescente andava sempre metido em sarilhos. Pelo menos, meia dúzia de vezes, fora Steuber quem o livrara da prisão. Podia contar com a lealdade dela. Pediu a May que viesse até ao seu gabinete.

 

De novo senhor de si, observou-a atentamente, notando a pele que começava a enrugar-se, o olhar baixo e ansioso, as maneiras nervosas e subservientes.

 

May começou ele, já ouviu, com certeza, falar na morte trágica de Ethel Lambston?!

 

May confirmou.

 

May, Ethel veio cá há dez dias atrás?

 

A secretária olhou-o, aguardando um esclarecimento.

 

Bem, houve uma noite em que eu fiquei aqui até mais tarde.

 

Já todos tinham saído, excepto o senhor. Tenho a impressão de que vi Ethel entrar e de o senhor a ter posto fora pouco depois. Estou enganada? Gordon sorriu.

 

Ethel não veio cá, May. Ela concordou.

 

Já entendi declarou. E a chamada que ela lhe fez na semana passada, atendeu-a? Quer dizer, eu tinha a impressão de que lhe passei a chamada e que o senhor ficou tão zangado que lhe desligou o telefone.

 

Eu nunca atendi nenhuma chamada dela corrigiu Gordon, pegando na mão coberta de veias azuis e apertando-lha suavemente. Se bem me lembro, recusei-me a falar com ela, recusei-me a vê-la e não fazia a mínima ideia de que ela me mencionava naquele artigo que escreveu.

 

May retirou a mão e afastou-se da secretária. Tinha o cabelo castanho-claro colado à volta do rosto.

 

Eu entendo, senhor declarou numa voz sumida.

 

Bom, feche a porta quando sair.

 

Tal como Myles, Anthony della Salva acompanhou a transmissão das cerimónias fúnebres de Nicky Sepetti. Sal ocupava uma cobertura, no lado sul do parque, de um edifício de apartamentos de luxo, reconstruído por Donald Trump a pensar nos ricos.

 

A casa, completamente decorada, pelo decorador de interiores mais em voga, sob o tema Recife do Pacífico, tinha uma vista estonteante sobre Central Park.

 

Desde que se divorciara da sua última esposa, que Sal se decidira por Manhattan estava farto do aborrecimento da casa de Westchester, da de Connecticut, da de Island e da de Palisades. Adorava poder sair a qualquer hora da noite e encontrar um bom restaurante aberto. Gostava das noites de estreia nos teatros, das festas chiques e de ser reconhecido pelas pessoas que ele considerava interessantes.

 

Acabara por concluir que os subúrbios eram bons para os palermas.

 

Sal vestia uma das suas últimas criações; umas calças de pele de corça escura, a condizer com um casaco Eisenhower. Os punhos e a gola verde-escuros, davam-lhe um toque desportivo. Os críticos não o tinham poupado, quando apresentara as duas últimas colecções mais importantes, mas elogiaram-lhe, sem reservas, a linha masculina. Claro que a verdadeira consagração naquele mundo, estava reservada aos costureiros que conseguiam impor e revolucionar a linha feminina. Ainda assim, apesar de tudo quanto se dizia das suas colecções, ainda se lhe referiam como o mestre da alta costura do século xx, o criador da linha Recife do Pacífico.

 

Sal evocou o dia, dois meses antes, em que Ethel lhe aparecera no escritório. Recordou a sua boca num constante e nervoso movimento; aquele hábito de falar tão depressa. Ouvi-la era como ter de seguir a fita de um teleimpressor. Apontara para o mural que representava o Recife do Pacífico e comentara:

 

«Aquilo é genial.»

 

«Até mesmo uma jornalista maldosa como você é obrigada a reconhecê-lo, Ethel», respondera ele, e ambos se riram.

 

«Vá, lá», pedira ela, «dê o braço a torcer e deixe-se dessa treta da mansão em Roma. Vocês ainda não perceberam que a nobreza decaída está fora de moda! Estamos na era do rei dos Hamburgers, do homem que veio do nada. Estou a fazer-lhe um favor quando escrevo que afinal as suas origens estão na Bronx.»

 

«Há muita gente na 1.a Avenida com muito mais a esconder de que uma infância passada na Bronx, Ethel. Eu não me envergonho disso.» Sal observava a urna de Nicky Sepetti a ser transportada pelos degraus da Igreja de St. Camila.

 

«Já chega», pensou ele, e estava prestes a desligar o aparelho, quando a viúva pegou no microfone e declarou que Nicky Sepetti nada tinha a ver com o assassínio de Renata.

 

Por alguns instantes, Sal ficou sentado com as mãos unidas. Tinha a certeza de que Myles não perdera a transmissão. Calculou como ele se devia estar a sentir e decidiu telefonar-lhe. Sentiu-se aliviado ao ouvir o tom prático de Myles, ao responder:

 

Sim, eu assisti ao espectáculo.

 

Suponho que ele esperava que pelo menos os filhos acreditassem nisso sugeriu Sal. Casaram os dois muito bem, e não devem querer que os filhos venham a saber que Nicky possui um número nos ficheiros da polícia..

 

É o mais certo concordou Myles. Embora para te dizer a verdade, eu pense que uma confissão antes de morrer para salvar a alma fosse mais o estilo de Nicky. A voz tremeu-lhe e apressou-se a concluir.

 

Bem, tenho de ir. Neeve não tarda aí. Vai ter a desagradável tarefa de identificar a roupa de Ethel e de verificar se esta saiu ou não da sua loja. Espero bem que não declarou Sal. Neeve não precisa desse tipo de publicidade. Diz-lhe que se não tiver cuidado, as pessoas começarão por aí a dizer que não querem ser encontradas mortas usando a roupa dela. E isso será o suficiente para acabar com toda a fama da Loja de Neeve.

 

Às três horas, Jack Campbell encontrava-se à porta do apartamento

163, do Edifício Schwab.

 

Ao regressar da loja, Neeve trocara o fato azul Adele Simpson, por uma camisola comprida às riscas vermelhas e pretas e vestira calças. O vistoso conjunto era realçado pelos brincos que ela mesma desenhara para o efeito e que representavam pequenas máscaras de comédia e tragédia, nas mesmas cores.

 

Sua Excelência, o tabuleiro das damascomentou Myles secamente, enquanto apertava a mão a Jack.

 

Neeve encolheu os ombros.

 

Myles, sabes uma coisa? Eu não me esqueci do que vou fazer. Tenho a certeza de que Ethel ficaria contente se soubesse que vesti um fato novo para ir identificar a roupa que ela usava quando morreu. Não podes calcular o prazer que um fato bonito lhe provocava.

 

Na sala entravam os últimos raios de sol. O homem do tempo acertara em cheio. As nuvens acumulavam-se sobre o rio Hudson. Jack olhou em volta apreciando os poucos pormenores que lhe haviam escapado na noite anterior.

 

O bonito quadro representando as colinas da Toscana pendurado na parede à esquerda da lareira. A fotografia emoldurada de uma criança ao colo de uma jovem mulher, de cabelo escuro e de rosto estonteantemente bonito. Tinha a certeza de que se tratava da mãe de Neeve. Perguntou-se como seria perder a mulher amada vitimada por assassínio inexplicável.

 

Reparou que Neeve e Myles se olhavam exactamente com a mesma expressão.

 

A semelhança era tão grande que lhe apeteceu sorrir. Pensou que aquele tipo de conversa só dizia respeito aos dois e não tencionava meter-se. Dirigiu-se até à janela, onde um livro que obviamente sofrera algum acidente, se encontrava exposto ao sol.

 

Myles fizera café e servia-o em elegantes chávenas de porcelana.

 

Neeve, deixa que te diga uma coisa declarou ele. A tua amiga nunca mais poderá gastar dinheiro em roupas extravagantes. Neste preciso momento encontra-se com o fato com que nasceu, estendida numa mesa da morgue, com uma etiqueta pendurada no dedo do pé.

 

Foi assim que a mãe acabou? perguntou Neeve numa voz baixa e furiosa.

 

Depois, com um soluço, correu para ele e passoulhe os braços à volta do pescoço.

 

Oh, Myles, perdoa-me. Foi a coisa mais baixa e estúpida que eu poderia ter dito.

 

Myles imobilizara-se, a cafeteira na mão. Passaram alguns segundos.

 

Sim respondeu, por fim. Foi exactamente assim que a tua mãe acabou. E foi uma coisa horrível, para ambos, dizê-lo.

 

Virou-se para Jack e continuou:

 

Desculpe este pequeno desentendimento doméstico. A minha filha, abençoada ou amaldiçoadamente, resulta de uma combinação de um temperamento romano, com uma cabeça dura irlandesa. Pela parte que me toca, nunca percebi por que razão as mulheres fazem tanto barulho por causa da roupa. Aminha mãe, que Deus guarde a sua alma, comprava tudo no Alexander’s, na Rua Fordham. No dia a dia, usava batas e ao domingo, para ir à missa, ou a algum banquete no Clube da Polícia, punha um vestido estampado, também comprado no Alexander’s. Neeve e eu, tal como a mãe dela antes de morrer, temos conversas muito interessantes acerca deste assunto.

 

Já tinha reparado nisso comentou Jack, servindo-se de uma chávena do tabuleiro que Myles lhe estendia. Fico contente por encontrar alguém que bebe tanto café como eu acrescentou.

 

Um uísque ou um copo de vinho cairiam talvez melhor explicou Myles. Mas deixaremos isso para depois. Tenho uma garrafa de um Borgonha excelente que nos dará o devido aconchego na hora exacta, apesar de todos os conselhos do médico. Dirigiu-se até à estante onde se encontrava a garrafeira e retirou uma garrafa. Antigamente, não distinguia um vinho do outro confessou a Jack. O pai da minha mulher tinha uma óptima adega e por isso Renata cresceu numa casa de apreciadores. Depois ensinou-me. Ensinou-me muitas coisas que eu ignorava. Apontou para o livro pousado no peitoril da janela. Aquilo era dela. Ficou tudo manchado numa destas noites. Haverá alguma forma de o recuperar?

 

Jack pegou no livro.

 

Foi uma pena afirmou. Estes desenhos deviam ser muito bonitos. Não tem por aí uma lente de aumento?

 

Não sei onde, mas tenho.

 

Neeve vasculhou a secretária de Myles e descobriu uma. Ela e Myles observavam Jack, enquanto este estudava as páginas manchadas e sujas.

 

A verdade é que os desenhos não ficaram esborratados disse, por fim.Vamos fazer o seguinte; eu vou falar com alguns empregados e tentarei descobrir um bom encadernador devolveu a lente a Myles. E, a propósito, não sei se será boa ideia deixá-lo aqui ao sol.

 

Myles pegou no livro e na lente e poisou-os em cima da secretária.

 

Agradeço-lhe tudo o que possa fazer. Agora é melhor irmos.

 

Seguiam os três no banco dianteiro do Lincoln Town Car que Myles possuía há seis anos. Jack Campbell, com ar casual, passou o braço sob o encosto do banco. Neeve tentava abstrair-se da presença dele, evitando encostar-se ao corpo dele, sempre que o carro curvava na rampa, que conduzia à Rodovia Hudson e à Ponte George Washington.

 

Jack tocou-lhe no ombro.

 

Descontrai-te declarou. Eu não mordo!

 

O gabinete do promotor público, em Rockland, era um exemplo típico dos muitos gabinetes públicos espalhados pelo país. Cheio de gente; mobília desconfortável; processos empilhados nos armários e nas secretárias, salas abafadas e demasiado aquecidas, alternando com outras, de janelas escancaradas, demasiado frias e desagradáveis devido ao vento gelado que por elas entravam.

 

Dois detectives da brigada de Homicídios esperavam-nos. Neeve reparou que algo se modificara na expressão do pai, assim que entraram no edifício.

 

A linha do queixo endureceu, o passo tornou-se mais firme, os olhos adquiriram um tom azul-brilhante.

 

Está no seu elemento murmurou ela para Jack. Não sei como ele se tem aguentado sem trabalhar neste último ano.

 

O delegado público gostaria de falar consigo, senhor...

 

Era óbvio que os agentes sabiam que estavam na presença do mais antigo e respeitado comissário da polícia de Nova Iorque.

 

A delegada, Myra Bradley, era uma mulher jovem e atraente, que não deveria ter mais de trinta e seis ou trinta e sete anos. Neeve leu o espanto na cara de Myles.

 

«Meu Deus, és mesmo chauvinista», pensou ela. «Devias saber que Myra Bradley foi eleita o ano passado, mas preferiste ignorar essa verdade.»

 

Neeve e Jack foram apresentados. Myra convidou-os a sentar e foi directa ao assunto.

 

Como sabem começou, temos um problema de jurisdição. Sabemos que o corpo foi removido, mas não sabemos de onde. Ela pode ter sido assassinada a meia dúzia de metros do local onde foi encontrada, e nesse caso ficaria sob a nossa alçada. Apontou para o processo pousado em cima da secretária e continuou: De acordo com o médico legista, a morte foi causada por um golpe na veia jugular, violentamente desferido por um objecto afiado que lhe esfacelou a traqueia. É provável que ela tenha tentado resistir. Tinha um joelho negro e um corte no rosto. Devo acrescentar que foi um milagre os animais não a terem descoberto. Talvez isso se deva ao facto de ela ter sido tapada com pedras. Alguém tentou evitar que o corpo fosse descoberto. O corpo ali escondido demonstra um plano cuidadosamente elaborado.

 

Que quer dizer que procura alguém que conhecesse bem a zona concluiu Myles.

 

Exactamente. Não há possibilidade de fixar ahora da morte, mas por aquilo que o sobrinho nos contou, sabemos que ela não compareceu ao encontro marcado para sexta-feira. Há oito dias, portanto. O corpo encontrava-se em perfeito estado de conservação, e se tivermos em conta o tempo, concluímos que a onda de frio começou precisamente há nove dias e, assim, se Ethel Lambston morreu na quinta ou na sexta-feira e foi escondida pouco tempo depois, estaria justificado o estado de conservação do corpo.

 

Neeve sentara-se à direita da secretária e Jack ocupava a cadeira a seu lado. Ela estremeceu e ele passou-lhe o braço pelas costas da cadeira.

 

«Se ao menos me tivesse lembrado do aniversário dela...»

 

Tentou afastar este pensamento e concentrar-se no que Bradley dizia:

 

...Ethel Lambston poderia facilmente ter passado despercebida durante meses e, nessa altura, a identificação teria sido extremamente difícil. Alguém tentou evitar que ela fosse encontrada. Alguém tentou evitar a sua identificação. Não trazia nenhuma jóia; não havia nenhuma bolsa ou carteira nas redondezas.Bradley virou-se para Neeve e perguntou-lhe: As roupas que vende trazem sempre etiquetas?

 

Claro que sim.

 

As etiquetas da roupa de Ethel foram cortadas. Myra ergueu-se. Agora, se não se importa, Miss Kearny, talvez pudesse dar uma vista de olhos à roupa?

 

Entraram numa sala contígua. Um dos agentes entrou trazendo alguns sacos de plástico que continham roupas amarrotadas e manchadas. Neeve observava-o, enquanto os sacos eram despejados. Um deles continha roupa interior; soutien e cuecas ambos enfeitados com um laço. O soutien estava manchado de sangue e os collants tinham um enorme rasgão do lado da perna direita. Os sapatos de pele azul e macia eram de meio salto e estavam presos um ao outro por um elástico. Neeve pensou nos suportes para sapatos que Ethel exibira com tanto orgulho quando adquirira a obra de arte onde arrumava a roupa.

 

O segundo casaco continha um fato de três peças; um conjunto de Inverno em lã branca com gola e punhos azuis, e uma blusa às riscas azuis e brancas. Todas as peças mostravam manchas de sangue e estavam cobertas de pó. Neeve sentiu a mão de Myles pousar-se no seu ombro. Resolutamente, estudou a roupa. Havia algo de errado, algo que ultrapassava o fim macabro daquelas peças e da pessoa que as usara.

 

Ouviu a delegada perguntar-lhe:

 

Este é algum dos fatos desaparecidos do armário de Ethel Lambston?

 

É sim.

 

E vendeu-lhe estas roupas?

 

Sim, mais ou menos na altura das férias. Neeve olhou para Myles. Foi este o fato que ela levou à festa, lembras-te?

 

Não.

 

Neeve falava devagar. Tinha a sensação de recuar no tempo e de se encontrar em casa, preparada para a festa de Natal que anualmente ofereciam. Ethel aparecera particularmente elegante. O fato branco e azul ficava bem com o azul dos olhos e com o cabelo louro-prateado. Muita gente a elogiara. Depois, claro, Ethel colara-se a Myles enchendo-lhe os ouvidos e este passara o resto da festa a tentar livrar-se dela.

 

Havia qualquer coisa de errado naquelas recordações. Que seria? Ela comprara a roupa juntamente com outros conjuntos, em meados de Dezembro. Era um Renardo autêntico. E a Renardo era uma das subsidiárias de Gordon Steuber Têxtil. Que seria que a intrigava tanto?

 

Não conseguia obter resposta.

 

Ela trazia algum casaco?

 

Não.

 

A delegada fez sinal aos agentes e estes começaram a dobrar a roupa e a arrumá-la de novo nos sacos de plástico.

 

O comissário Schwartz contou-me que a razão da sua preocupação com Ethel, tinha a ver com o facto de todos os casacos de Inverno dela continuarem no armário. Mas não é verdade que seria simples ela comprar um casaco noutra loja?

 

Neeve levantou a cabeça. Parecia-lhe que a casa cheirava levemente a desinfectante. Não ia fazer figura de parva e teimar que Ethel nunca comprava roupa a não ser na sua loja.

 

Estou pronta a fazer um inventário do guarda-roupa de Ethel declarou ela. Tenho todos os recibos das vendas no arquivo. Posso dizer-lhe precisamente o que lá falta.

 

Gostaria de uma descrição o mais pormenorizadamente possível. Ela costumava usar alguma jóia com este fato?

 

Sim. Um alfinete em ouro e diamante e brincos a condizer. Uma pulseira larga de ouro. E ela usava, sempre, vários anéis de diamantes.

 

Não tinha nenhuma jóia, quando foi encontrada. Talvez se trate de um simples caso de roubo.

 

Ao saírem da sala, Jack pegoulhe no braço.

 

Sentes-te bem?

 

Neeve confirmou com a cabeça.

 

Há qualquer coisa de errado que me escapa.

 

Um dos detectives ouviu-a, estendeu-lhe um cartão e pediu:

 

Telefone seja a que horas for.

 

Dirigiram-se para a porta de saída. Myles seguia na frente conversando com a delegada. A sua cabeça prateada erguia-se bastante acima da dela, de cabelo grosso e negro, curtado curto. No ano anterior, aquele sobretudo de casimira pendia-lhe solto nos ombros. Depois da operação tornara-se pálido e abatera muito, mas agora os ombros enchiam-no completamente. O passo era firme e seguro. Tratava-se de uma situação que ele dominava perfeitamente. O trabalho policial era a sua razão de viver. Neeve deu por si desejando ardentemente que nada o impedisse de aceitar o cargo em Washington.

 

«Desde que tenha trabalho durará até aos cem», pensou ela. Havia uma frase que dizia: «Se queres ser feliz por um ano, ganha a lotaria. Se queres ser feliz toda a vida, ama o teu trabalho.»

 

E fora o amor ao trabalho a única coisa que mantivera Myles depois da morte de Renata.

 

E agora Ethel Lambston também morrera.

 

Lá dentro, os agentes estariam a dobrar as roupas que tinham servido de mortalha, roupas essas que Neeve voltaria a ver quando fosse o julgamento. A última vez que tinham sido usadas.

 

Myles estava certo. Fora uma tolice vir até ali com aquele fato, com aqueles brincos idiotas, brilhando suavemente naquela obscuridade. Neeve sentiu-se satisfeita por não ter tirado a capa negra com capuz, que lhe cobria o conjunto berrante. Uma mulher morrera. Não fora uma mulher fácil, nem popular. Mas era uma mulher inteligente e corajosa, que chamava as coisas pelos seus nomes. Uma mulher que queria parecer bem, mas que não tinha nem o tempo, nem o instinto necessários para se desembaraçar sozinha no mundo da roupa.

 

Roupa. Era isso. Havia qualquer coisa no conjunto que ela trazia.

 

Neeve estremeceu e Jack Campbell percebendo-o, deu-lhe o braço.

 

Gostavas muito dela, não gostavas? perguntou ele.

 

Mais do que julgava.

 

O som dos passos ecoava no comprido corredor de mármore. O piso estava velho e gasto e as fendas que cobriam a pedra lembravam veias rasgadas na carne.

 

A veia jugular de Ethel. O pescoço dela era muito magro. Mas não tivera rugas. Ao chegar aos sessenta, a maioria das mulheres está condenada a suportar a marca do tempo. E esta aparece primeiro no pescoço. Neeve lembrava-se que Renata costumava responder isso mesmo, quando algum vendedor lhe tentava impingir fatos mais decotados, destinados a mulheres de meia-idade.

 

Encontravam-se agora na porta da sede do município. Myles e a delegada tinham acordado num trabalho conjunto entre Manhattan e Rockland, na investigação daquele caso.

 

Eu não tinha nada que abrir a boca comentou Myles. Mas é sempre muito difícil lembrar-me de que já não tenho qualquer poder de decisão dentro da esquadra. Tendo tomado uma decisão, Neeve rezou para não parecer muito ridícula.

 

Gostaria... Myles, Jack e a delegada aguardavam que ela continuasse. Gostaria de saber se seria possível falarmos com a mulher que encontrou o corpo de Ethel. Não sei porquê, mas sinto que tenho de falar com ela. E tendo terminado, engoliu em seco. Sentiu os olhos deles interrogadores.

 

Mrs. Conway fez um depoimento bastante pormenorizado declarou Myra Bradley, lentamente. Se quiser, pode lê-lo.

 

Eu gostava mesmo de falar com ela. «Eles que não me perguntem porquê», rogava Neeve em pensamento. Sinto que tenho de falar com ela.

 

É à minha filha que se deve a identificação de Ethel Lambston interrompeu Myles. E se ela insiste em falar com uma testemunha, acho que tem o direito de o fazer.

 

A porta já se encontrava aberta e Myra Bradley estremeceu ao contacto com o vento frio de Abril.

 

Parece que estamos em Março comentou. Ouçam, por mim não vejo qualquer inconveniente. Podemos telefonar a Mrs. Conway e veremos se ela está em casa. Estou convencida de que ela nos disse tudo o que sabia, mas pode ser que surja algum facto novo. Aguardem um minuto.

 

Alguns instantes depois, estava de volta.

 

Mrs. Conway está em casa e prontificou-se a recebê-los. Aqui têm a morada. Sorriu para Myles com uma cumplicidade profissional e acrescentou:Se por acaso chegarem à conclusão que ela conhece a identidade do assassino, dê-nos uma apitadela, sim?

 

Kitty Conway acendera um bom fogo na lareira da biblioteca e dos troncos brilhantes saíam espirais de uma chama azulada.

 

Digam-me se estiver demasiado quentepediu ela, apologética. Mas acontece que desde que toquei na mão daquela pobre mulher, não consegui deixar de ter frio. Envergonhada, calou-se, mas pareceu-lhe que os três pares de olhos que a fixavam exprimiam total compreensão.

 

Gostou do ar deles. Neeve Kearny era mais que bonita; era interessante e magnético o seu rosto de ossos salientes e a pele branca e leitosa acentuava o castanho intenso dos seus olhos. No entanto, lia-se nela uma certa apreensão e tinha as pupilas algo dilatadas. Era óbvio que o homem mais novo, Jack Campbell, estava preocupado com ela. Quando a ajudara a tirar a capa exclamara:

 

«Neeve, continuas a tremer!»

 

Kitty sentiu uma certa nostalgia. Jack Campbell lembrava-lhe o filho; cerca de um metro e oitenta de altura; os ombros largos; o corpo forte e bem constituído; a expressão inteligente. Sentia um grande desgosto por Mike Junior viver do outro lado do mundo.

 

Kitty identificara de imediato Myles Kearny, depois do telefonema da delegada. Durante muitos anos aquele nome aparecera regularmente nos jornais. Por vezes encontrava-o, quando ela e Mike resolviam ir comer ao Neary’s Pub, na Rua 57, leste. Recentemente, lera a história do seu afastamento, em consequência do ataque cardíaco. Agora, estava com bom aspecto. Tratava-se de um irlandês muito bem-parecido.

 

Naquele instante, Kitty congratulou-se por ter trocado as calças de ganga e a velha camisola comprida, por uma blusa de seda e pelas calças a condizer. Quando eles recusaram uma bebida insistiu em fazer um chá.

 

Está a precisar de qualquer coisa bem quentinha afirmara para Neeve, e, recusando o auxílio que lhe foi oferecido, desapareceu no corredor, em direcção à cozinha.

 

Myles sentara-se numa cadeira de braços e encosto alto, forrada com um estampado em tons de vermelho e laranja-escuro. Neeve e Jack tinham-se instalado, lado a lado, num sofá de veludo, seccionado, colocado em meia lua à volta da lareira. Myles olhou em volta, aprovador. Aquilo era confortável. Havia pouca gente com miolos suficientes para comprar cadeiras e sofás que permitissem a um homem alto reclinar a cabeça. Levantou-se e examinou as fotografias familiares. O habitual testemunho de uma vida. O jovem casal. O tempo não estragara a elegância de Kitty Conway. Ela, o marido e o filho pequeno. Uma montagem das várias fases do crescimento do garoto. Na última fotografia via-se Kitty, o filho, a esposa oriental e uma garota pequena. Myra Bradley dissera-lhe que a mulher que encontrara Ethel Lambston era viúva.

 

Ouviram-se os passos de Kitty no corredor e, imediatamente, Myles se voltou para a estante de livros. Uma secção chamou-lhe a atenção. Tratava-se de uma colecção dedicada à Antropologia e os livros aparentavam um certo uso. Começou a folheá-los.

 

Kitty poisou o tabuleiro numa mesa redonda junto do sofá, serviu o chá e ofereceu biscoitos.

 

Hoje de manhã fiz uma montanha deles. Suponho que para tentar esquecer o dia de ontem desculpou-se e aproximou-se de Myles.

 

Quem é o antropologista da família? perguntou ele. Ela sorriu.

 

É puro amadorismo. Senti-me seduzida na faculdade, quando ouvi um professor afirmar que, para saber o futuro, é preciso conhecer o passado.

 

Aí está uma coisa que eu me fartava de dizer aos meus subordinados declarou Myles.

 

Ele está a utilizar todo o seu charme murmurou Neeve para Jack. Aqui está uma coisa muito pouco habitual. Enquanto bebiam o chá, Kitty contou-lhes a história do cavalo galopando desenfreado pela encosta, do plástico que lhe batera no rosto e da imagem que lhe penetrara no subconsciente, de uma mão saindo de uma manga azul. Depois explicou-lhes como a manga do fato de treino, saindo do cesto da roupa a obrigara a regressar ao parque e investigar.

 

Neeve ouvia-a com toda a atenção, com a cabeça inclinada para o lado, como se tivesse receio de deixar escapar alguma palavra. Continuava a sentir aquela sensação inexplicável de que algo lhe escapava, qualquer coisa que se encontrava ali mesmo, esperando apenas ser agarrada.

 

Foi então que soube o que era.

 

Mrs. Conway, pode descrever-me exactamente o que viu quando encontrou o corpo?

 

Neeve?

 

Myles abanava a cabeça. Escolhera cuidadosamente cada pergunta e não queria ser interrompida.

 

Myles, desculpa, mas é terrivelmente importante. Fale-me da mão de Ethel. Diga-me o que viu.

 

Kitty fechou os olhos.

 

Parecia a mão de um manequim. Estava tão branca que as unhas vermelhas pareciam muito garridas. O punho do casaco era azul, chegava-lhe até ao pulso e tinha um bocado de plástico preto agarrado. A blusa era azul e branca, mas mal se via sob o casaco. Estava muito amarrotada. Devia estar doida, mas quase a alisei.

 

Neeve soltou um profundo suspiro. Inclinou a cabeça para a frente e massajou a testa com as mãos.

 

Era isso que me intrigava. Aquela blusa.

 

Que tem a blusa? perguntou Myles.

 

É que...

 

Neeve mordeu o lábio. Sabia que mais uma vez iria parecer que perdera o juízo. A blusa que Ethel trazia fazia parte de um conjunto de três peças. Mas quando Ethel a comprara, Neeve dissera-lhe que a blusa não era muito indicada para o fato e vendera-lhe outra, toda branca, sem o exagero das riscas azuis. Vira Ethel com aquele fato em duas ocasiões e em ambas ela vestira-o com a blusa branca.

 

«Por que iria agora vestir a blusa das riscas?»

 

Que é, Neeve? insistiu Myles.

 

Provavelmente, não quer dizer nada, só que fiquei surpreendida por ela vestir aquela blusa com aquele fato. Não ficava bem.

 

Neeve, não disseste à polícia que reconhecias o conjunto e não chegaste mesmo a dizer o nome do costureiro?

 

Sim. Gordon Steuber. Era um fato feito numa das suas oficinas.

 

Desculpa, mas não estou a perceber! exclamou Myles, tentando dominar a irritação que sentia.

 

Pois eu acho que percebo afirmou Kitty, enchendo a chávena de Neeve com chá fumegante. Beba isto ordenou, está com muito má cara. E olhando directamente para Myles explicou: Se não me engano, o que Neeve quer dizer é que Ethel Lambston não teria vestido voluntariamente o conjunto que trazia.

 

Eu sei que ela não o vestiria daquela maneira confirmou Neeve, enfrentando o olhar incrédulo de Myles. É evidente que o corpo dela foi removido. Há alguma maneira de saber se o corpo foi vestido depois de morto?

 

Douglas Brown sabia que a Brigada de Homicídios deveria arranjar um mandato de busca para revistar a casa de Ethel. Mesmo assim, foi um choque quando viu chegar os quatro agentes. Ficou a vê-los, enquanto estes espalhavam um pó sobre as superfícies polidas, aspiravam os tapetes, o chão e a mobília, para depois selarem cuidadosamente os sacos onde guardavam o pó, os fios e as partículas que minuciosamente reuniam depois de um exame pormenorizado ao tapete oriental colocado ao lado da secretária.

 

A visão do corpo de Ethel na morgue afectara profundamente o estômago de Doug, lembrando-lhe a indescritível e única viagem de barco que fizera e o violento enjoo que então sentira. Ela encontrava-se coberta com un lençol que lhe emoldurava o rosto como uma touca de freira. Pelo menos, não tivera de lhe ver a garganta. Para evitar pensar nisso, concentrara-se na mancha negra e amarelada marcada na face. Apressara-se a confirmar com um gesto e correra para o lavatório.

 

Passara a noite na cama de Ethel, acordado, tentando decidir o que fazer. Podia denunciar Seamus à polícia e contar-lhes como ele estava desesperado por causa da pensão do divórcio. Mas a mulher, Ruth, pagar-lhe-ia da mesma moeda. Sentiu um suor frio inundar-lhe a testa ao perceber como fora estúpido em ter levantado do banco aquele dinheiro em notas de cem. Se a polícia descobrisse...

 

Antes de a polícia chegar, agonizara sem saber se devia, ou não, recolher as notas que escondera pela casa. Se não encontrassem nenhuma, quem poderia dizer que Ethel não gastara o dinheiro todo?

 

Acabaria por aparecer alguém. Aquela garota maluca que viera fazer limpeza poderia ter reparado nelas. Por fim, Douglas decidiu não fazer absolutamente nada. Deixaria os chuis encontrar as notas e, se Seamus ou a mulher o tentassem acusar chamá-los-ia de mentirosos.

 

Ligeiramente confortado com esta decisão, Douglas pensou no futuro. Aquele apartamento agora pertencia-lhe. O dinheiro de Ethel era seu. Teria de se livrar daquelas roupas patetas e dos acessórios. A veste com A. B veste com B. talvez empacotasse tudo e mandasse aquilo para o lixo. Esta hipótese fê-lo sorrir. Não devia desperdiçar nada. Não deveria deitar fora o que custara tantas notas a Ethel. Procuraria uma boa loja em segunda mão e venderia tudo.

 

Na manhã de sábado, quando se vestira, escolhera deliberadamente umas calças azul-escuras e uma camisa discreta de manga comprida. Queria deixar transparecer uma dor resignada. A falta de descanso originara-lhe uns círculos escuros à volta dos olhos. Mas isso agora não lhe servia de nada.

 

Os detectives encontravam-se agora na secretária de Ethel. Viu-os abrir a pasta que continha a indicação de PAPÉIS IMPORTANTES. O testamento. Ainda não se decidira se deveria, ou não, admitir a sua existência. O agente leu-o e depois olhou-o.

 

Já tinha lido isto? perguntou-lhe, inexpressivo. Naquele preciso momento, Douglas tomou a sua decisão.

 

Não. Esses papéis pertenciam à minha tia.

 

Ela nunca comentou consigo os termos do testamento? Douglas conseguiu esboçar um sorriso pesaroso.

 

Ela brincava imenso com isso. Dizia que se pudesse, me deixava a sua pensão de divórcio e eu ficaria garantido para o resto da vida.

 

Então não sabia que ela lhe deixou uma quantia considerável? Douglas esboçou um gesto que englobava o apartamento.

 

Nunca pensei que a tia Ethel pudesse ter uma soma considerável. Ela comprou esta casa em propriedade horizontal. Deve ter-lhe custado bastante. Ela vivia bem com o que escrevia, mas também não chegava para enriquecer.

 

Então, ela devia ser muito brincalhona.

 

O agente estendeu-lhe o testamento, com a mão enluvada, segurando o papel por uma ponta. Perante o olhar aterrado de Doug, o detective chamou o perito das impressões digitais.

 

Vamos verificar isto.

 

Cinco minutos depois, Douglas, com as mãos tremendo de nervosismo pousadas no colo, confirmou e depois negou conhecer a existência das notas de cem que os agentes encontraram escondidas no apartamento. Tentando distraí-los daquele assunto, explicou-lhes que, até à noite anterior, não atendera nenhuma chamada.

 

E porquê?

 

O detective O’Brien era o oficial de serviço. A pergunta cortou o ar como uma lâmina.

 

A Ethel era engraçada. Uma vez, quando cá estive de visita, atendi o telefone e ela quase me arrancou a cabeça. Disse-me que não era da minha conta saber quem lhe telefonava. Mas depois, ontem, achei que talvez ela quisesse entrar em contacto comigo, de maneira que comecei a atender.

 

E ela não podia ligar-lhe para o emprego?

 

Nem pensei nisso.

 

E logo a primeira chamada que atendeu era uma ameaça. E que coincidência... tê-la recebido no preciso momento em que o corpo dela foi encontrado. Abruptamente, O’Brien mudou de assunto. Mr. Brown, tenciona ficar neste apartamento?

 

Sim.

 

Amanhã voltaremos com Miss NeeveLambston. Ela vem verificar as peças que faltam no armário de Mrs. Lambston. Pode ser que precisemos de voltar a conversar consigo. Por isso, não saia de casa.

 

E não se tratava de um pedido. Era uma afirmação pura e simples.

 

Por algum motivo, o facto do interrogatório ter terminado não aliviou Doug. Imediatamente, viu os seus receios justificados, pois O’Brien acrescentou:

 

É impossível que seja necessário deslocar-se à esquadra. Nós depois avisamo-lo.

 

Quando saíram, levaram os sacos de plástico onde tinham guardado o conteúdo do aspirador, o testamento de Ethel, a agenda, e o pequeno tapete oriental. Ao mesmo tempo que fechava a porta, Douglas ouviu um deles dizer:

 

Por muito que tentem, nunca conseguem limpar completamente o sangue dos tapetes.

 

Tony Vitale continuava na Unidade de Cuidados Intensivos do Hospital de St. Vincent. O seu estado mantinha-se crítico. No entanto, o cirurgião continuava a animar os pais:

 

Ele é novo, forte, e acreditamos que vai conseguir.

 

Os ferimentos causados pelas balas na cabeça, no ombro, no peito e nas pernas estavam cobertos por ligaduras, nas veias continuava a entrar o líquido intravenoso, os monitores electrónicos registavam qualquer oscilação verificada no seu corpo. Com as narinas tapadas pelos tubos de plástico, Tony Vitale passava de um estado de coma profundo, para uns breves instantes de lucidez, onde recordava os últimos momentos. Os olhos de Nicky Sepetti fixos nele. Percebera que Nicky suspeitara de que ele era um espião.

 

Deveria ter regressado à esquadra em vez de parar para telefonar. Devia ter percebido que fora descoberto.

 

Tony mergulhou nas trevas.

 

Quando voltou a si, ouviu o médico dizer:

 

Todos os dias as melhoras são visíveis.

 

Todos os dias? Há quanto tempo estaria ali? Tentou falar, mas não saiu nenhum som.

 

Nicky berrara e batera com o punho na mesa exigindo-lhes que anulassem o contrato.

 

Joey respondera-lhe que isso era impossível.

 

Então Nicky exigira saber quem era o responsável por ele.

 

«...Alguém que começou a ver-se apertado», respondera Joey. «Arruinaram-lhe o negócio. Agora tem os Federais à perna.»

 

E proferira um nome.

 

Antes de perder a consciência, Tony recordou-se do nome.

 

Gordon Steuber.

 

Seamus encontrava-se na 20.a Esquadra da Rua 82, oeste, e esperava. Tinha o rosto redondo pálido e coberto de suor. Tentou recordar os conselhos de Ruth, tentou pensar no que ela queria que ele dissesse.

 

Era tudo muito vago.

 

A sala onde se encontrava era austera. A mesa de reuniões tinha o tampo cheio de queimaduras de cigarro e as cadeiras eram de madeira. Aquela onde se sentara, mal dava para se encostar. Uma janela sombria abria-se para uma rua lateral. Lá fora o trânsito estava infernal; carros, táxis e autocarros apitando furiosamente. À volta do edifício estavam estacionados os carros-patrulha.

 

Quanto tempo iriam retê-lo ali?

 

Passou outra meia hora até que dois agentes entraram. Vinham acompanhados por uma estenógrafa que ocupou uma cadeira atrás da dele. Seamus voltou-se e viu-a instalar-se com a máquina de estenografar no colo.

 

O detective mais velho chamava-se O’Brien. Ele e o companheiro Steve Gomez já se tinham identificado no bar.

 

Embora Seamus já esperasse que lhe lessem os direitos, não deixou de se sentir chocado quando viu O’Brien entregar-lhe uma cópia e pedir-lhe para a ler. Acenou afirmativamente quando lhe perguntaram se entendera aquilo que lera. Sim, entendera. E desejava ele a presença do seu advogado? Não. Estava consciente que em qualquer altura poderia recusar-se a responder às perguntas que lhe iriam ser colocadas? Sim. E sabia, igualmente, que tudo o que dissesse poderia vir a ser utilizado contra ele?

 

Seamus murmurou:

 

Sim.

 

Aatitude de O’Brien modificou-se. Subitamente, ficou mais simpático. O seu tom era agora amigável.

 

Mr. Lambston, é meu dever informá-lo de que o senhor é considerado um possível suspeito do assassínio da sua ex-mulher Ethel Lambston.

 

Ethel estava morta. Não haveria mais cheques. Não haveria mais privações para ele, para Ruth ou para as filhas. Ou estariam as privações agora a começar? Conseguia ver as mãos dela, de garras afiadas para ele, o olhar que lhe dirigira quando caíra para trás, a forma como ele lutara e empunhara a faca da correspondência. Sentia o sangue húmido dela na palma das suas mãos.

 

O que estava aquele detective a dizer, com aquele ar amigável e casual?

 

Mr. Lambston, o senhor teve uma briga com a sua ex-mulher. Ela fê-lo perder a cabeça. A pensão que lhe pagava, tinha-o arruinado. Por vezes, as coisas tornam-se muito difíceis para nós e perdemos as estribeiras. Foi isso que aconteceu?

 

Estaria ele doido? Sentiu o ódio daquele momento, o gosto da bílis que lhe invadira a boca, a maneira como cerrara os punhos e os usara para calar aquela boca trocista e maldosa.

 

Seamus deitou a cabeça sobre a mesa e desatou a chorar, soluçando convulsivamente.

 

Quero um advogado declarou ele.

 

Duas horas depois, Robert Lane, um advogado de 50 anos que Ruth, à beira da histeria, conseguira localizar, apareceu.

 

Estão dispostos a apresentar alguma acusação formal contra o meu cliente? perguntou ele.

 

O detective O’Brien olhou-o com azedume:

 

Não, não estamos. Ainda não.

 

Então, Mr. Lambston pode sair? O’Brien suspirou.

 

Pode, sim.

 

Seamus estava convencido de que o iam prender. Sem acreditar no que ouvia, apoiou as palmas das mãos na mesa e levantou-se da cadeira. Sentiu a mão de Robert Lane pousada no ombro a guiá-lo para fora da sala. Ouviu Lane dizer:

 

Quero uma cópia de todas as declarações feitas pelo meu cliente

 

Tê-la-á.

 

O detective Gomez esperou que a porta se fechasse e, então, voltando-se para o companheiro, afirmou:

 

Adorava ter metido aquele tipo na cadeia. O’Brien sorriu sombria e suavemente.

 

Paciência. Temos de aguardar os relatórios do laboratório. Temos de verificar os movimentos de Lambston na quinta e sexta-feira. Mas se quiseres, podes apostar que conseguiremos levá-lo perante o júri de instrução antes de ele poder gozar o dinheiro da pensão do divórcio.

 

Quando Neeve, Myles e Jack regressaram ao apartamento, esperava-os uma mensagem no atendedor de chamadas, pedindo a Myles para ligar para o gabinete do comissário Schwartz.

 

Herb Schwartz vive em Forest Hills, onde noventa por cento dos oficiais da polícia fixam a sua residência explicou Myles a Jack, enquanto se dirigia para o telefone. E se o Herb não está em casa numa tarde de sábado, é porque algo de importante aconteceu.

 

A conversa foi curta. Myles desligou e explicou:

 

Parece que estão na pista certa. No momento em que começaram a interrogar o ex-marido, ele desatou a chorar e pediu um advogado. Agora, é só uma questão de tempo até reunirem as provas suficientes para o acusarem.

 

O que queres dizer é que ele não confessoucorrigiu Neeve. Não é verdade? Enquanto falava, Neeve ia acendendo os candeeiros e a sala ficou suave e acolhedoramente iluminada. «Luz e conforto. Sentiria essa necessidade devido àquele recente confronto com a realidade cruel da morte?» Não conseguia afastar aquela sensação de que algo maligno a espreitava. Assim que vira a roupa de Ethel pousada em cima da mesa, a palavra mortalha não lhe saía do pensamento. Lembrava-se agora, que nesse momento, pensara na roupa que envergaria quando morresse. Intuição? Superstição irlandesa? A sensação de que alguém lhe passara sobre a sepultura?

 

Jack Campbell tinha os olhos postos nela.

 

«Ele sabe», pensou ela. «Ele sente que se passa mais qualquer coisa para além das roupas.» Myles argumentara que se a blusa que Ethel usava com o fato estivesse na lavandaria, automaticamente ela escolheria a que inicialmente pertencera ao conjunto.

 

As explicações de Myles eram tão plausíveis! Myles acercara-se dela e apoiara-lhe as mãos nos ombros.

 

Neeve, não ouviste uma única palavra do que eu disse. Fizeste-me uma pergunta e eu respondi-te. Que se passa contigo?

 

Não sei respondeu ela, tentando sorrir. Olha, foi uma tarde terrível. Acho que já merecemos uma bebida.

 

Myles perscrutou-lhe o rosto.

 

Acho que devemos beber qualquer coisa bem forte e, depois, eu e Jack vamos levar-te a jantar fora. E, olhando para Jack, acrescentou:Isto, claro, se não tiver qualquer compromisso.

 

O único compromisso que tenho neste momento é arranjar as tais bebidas, se me permitem.

 

O scotch teve em Neeve o mesmo efeito que o chá de Kitty Conway; libertou-a temporariamente daquela sensação de que estava a ser engolida por uma maré negra. Myles repetiu o que o comissário lhe dissera:

 

Os homens dos homicídios estão convencidos que Seamus Lambston estava prestes a declarar-se culpado.

 

Eles ainda querem que eu vá verificar o armário de Ethel?

 

Neeve não sabia se desejava, ou não, ser dispensada daquela tarefa.

 

Acho que sim. De qualquer modo, não me parece que faça grande diferença, se Ethel planeava partir, e, por isso, fez a mala, ou se ele a matou, e depois tentou convenceras pessoas de que ela partira numa das suas viagens habituais. Mesmo assim, o melhor é não deixar qualquer pista por seguir.

 

Mas se assim fosse, ele teria de continuar a mandar-lhe a pensão durante sete anos. Eu lembro-me de Ethel contar que se ele se atrasasse com o cheque, o contabilista tinha ordens para lhe telefonar, ameaçando-o com um processo. Se o corpo de Ethel não fosse encontrado, não o deixariam em paz e ele teria de pagar a pensão, pelo menos, durante sete anos, até que ela fosse considerada legalmente como morta.

 

Myles encolheu os ombros.

 

Neeve, a percentagem de homicídios resultantes de violência doméstica é enorme. E nem sempre os assassinos são espertos. Agem sob impulso. Atingem o limite. Depois tentam apagar as pistas que deixaram. Já te tenho dito, vezes sem conta, que um assassino deixa sempre o seu cartão de visita.

 

Se isso é verdade, Commish, gostaria de saber qual o cartão de visita que o assassino de Ethel deixou.

 

Eu digo-te qual me parece que é; aquela negra no queixo de Ethel. Tu não leste o relatório da autópsia, eu li. E acontece que, no passado, Seamus Lambston foi um pugilista bastante credenciado. Por isso, com confissão ou sem ela, eu começaria por investigar aquele que tem experiência de pugilismo.

 

Falou a lenda. E estás redondamente enganado.

 

Jack Campbell sentou-se no sofá de couro, bebendo o seu ChivasRegal, e, pela segunda vez naquele dia, decidiu manter-se fora da discussão entre aqueles dois. Ouvi-los, era como assistir a um jogo de ténis entre dois adversários bem preparados. Quase sorriu. No entanto, ao olhar para Neeve, sentiu-se de novo preocupado. Ela continuava muito pálida e o cabelo negro de carvão, acentuava ainda mais a brancura da sua pele macia. Já vira aqueles olhos cor de xerez brilharem risonhos, mas, naquela noite, percebeu que havia uma tristeza neles que nada tinha a ver com a morte de Ethel Lambston. «Seja o que for que começou com Ethel, ainda não terminou», pensou Jack, «e diz respeito a Neeve.»

 

Impaciente, abanou a cabeça. Estava a deixar-se influenciar pelos seus antepassados escoceses, que diziam possuir um sexto sentido. Pedira para acompanhar Neeve e o pai ao gabinete do delegado público de Rockland, pela simples razão de, assim, poder passar o dia com Neeve. De manhã, depois de a deixar em casa, tomara um duche e dirigira-se à Biblioteca de Mid-Manhattan. Aí, pudera ver os microfilmes, onde se encontravam arquivados os jornais de há dezassete anos atrás, cujos cabeçalhos bradavam: Mulher do comissário da polícia assassinada em Central Park. Absorvera os pormenores, observara as fotografias do cortejo fúnebre, saindo da Catedral de S. Patrick. Neeve tinha, então, dez anos, vestia um casaco escuro, na cabeça trazia um chapéu em forma de boné e a sua mãozita mal se via, enfiada na mão enorme de Myles. Tinha os olhos cheios de lágrimas. O rosto de Myles parecia de granito. Cordões e cordões de polícias estendiam-se ao longo da 7.8 Avenida. Os editoriais atribuíam ao recém-condenado gangster Nicky Sepetti a responsabilidade do crime.

 

Nicky Sepetti fora enterrado naquela manhã. Isso deveria ter contribuído para que Neeve e o pai revivessem a tragédia da morte de Renata. Os jornais que lera estavam cheios de especulações acerca da possibilidade de Nicky Sepetti ter ordenado igualmente o assassínio de Neeve. Naquela manhã, ela contara-lhe como o pai receava a libertação de Nicky, e como acreditava que a morte dele libertara Myles daquela obcessão.

 

«Então, porque estou eu preocupado contigo, Neeve?», perguntou a si próprio.

 

Descobriu a resposta com tanta clareza como se alguém lhe tivesse respondido em voz alta. «Porque a amo. Porque tenho andado à procura dela desde o primeiro instante em que a vi. Desde aquele dia em que ela saiu a correr, deixando-me plantado no avião.»

 

Jack apercebeu-se que os copos estavam vazios. Levantou-se e pegou no copo de Neeve, dizendo-lhe:

 

Acho que hoje não estás em condições de voar sozinha. Enquanto bebiam a segunda dose, assistiram ao noticiário. Passaram vários excertos do funeral de Nicky Sepetti, incluindo a declaração convicta da viúva.

 

Que achas disto? perguntou Neeve a Myles numa voz sumida.

 

O que penso não é descritível respondeu Myles, desligando o aparelho.

 

Foram jantar ao Neary’s Place na Rua 57, leste. Jimmy Neary era um irlandês de olhos risonhos e sorriso cordial, e imediatamente correu a recebê-los.

 

Comissário! Que bom tornar a vê-lo!

 

Conduziu-os a uma mesa de canto, que Jimmy reservava para os seus clientes especiais.

 

Apresentaram-no a Jack e logo lhe foi mostrar as fotografias penduradas na parede.

 

Ali está ele.A fotografia do antigo governador Carey ocupava um sítio na parede, onde não poderia passar despercebida. Aqui só ponho o melhor que existe em Nova Iorque garantiu ele a Jack. Veja onde está o comissário. E apontou para uma fotografia de Myles, directamente oposta à do governador.

 

Passaram uma noite muito agradável. O Neary’s era uma espécie de local de encontro de políticos e do clero. Muita gente parava na mesa deles para saudar Myles.

 

É bom tornar a vê-lo, comissário. Parece estar em forma.

 

Ele adora isto! comentou Neeve para Jack, em voz baixa.Odiou ter sido obrigado a afastar-se disto tudo no ano passado, por causa da doença. Suponho que agora está pronto a enfrentar o mundo outra vez.

 

O senador Moyniban aproximou-se.

 

Myles, tenho pedido a Deus que o convença a aceitar o cargo no Departamento de Combate à Droga declarou ele. Nós precisamos de si. Temos de acabar com esta escumalha, e você é o homem indicado para o fazer.

 

Quando o senador se afastou, Neeve olhou-o.

 

Com que então tinham-te sondado. Da maneira como a coisa já vai... Myles estudava a ementa. Margaret, a sua empregada favorita, aproximara-se.

 

Como está o camarão à creoula, Margaret?

 

Soberbo. Myles suspirou.

 

Eu sabia que assim seria. Mas tendo em conta a minha dieta, traz-me um linguado grelhado, por favor.

 

Fizeram os restantes pedidos e enquanto saboreavam o vinho, Myles explicou:

 

Teria de passar muito tempo em Washington. Teria mesmo de arranjar lá uma casa. Acho que nunca te deixaria aqui sozinha, Neeve, se Nicky Sepetti continuasse solto pelas ruas. Mas, agora, sinto-me descansado. Os homens dele odiaram-no por causa da morte da tua mãe. Nós não os deixámos em paz até que conseguimos metê-los quase todos na prisão.

 

Então, não acredita na história da viúva? perguntou Jack.

 

Para nós, que crescemos com a convicção de que uma confissão às portas da morte, nos poderá conduzir ao céu, é difícil acreditar que um moribundo se atreva a fazer uma confissão falsa. Mas, no caso de Nicky, mantenho a minha primeira afirmação. Tratou-se de um presente de despedida para a família. É óbvio que eles acreditaram. E agora falemos de outra coisa, que já tivemos um dia suficientemente triste. Jack, você já está em Nova Iorque há tempo suficiente para nos dizer se acha que o presidente vai ser reeleito.

 

Ao terminarem o café, Jimmy Neary aproximou-se da mesa.

 

Comissário, sabia que o corpo daquela mulher Lambston foi encontrado por uma cliente cá de casa? Kitty Conway. Ela costumava cá vir com o marido. É uma verdadeira senhora.

 

Conhecemo-la hoje informou Myles.

 

Se a tornar a ver, dê-lhe os meus cumprimentos e diga-lhe para não andar tão afastada.

 

Talvez faça melhor que issodeclarou Myles, casualmente.Talvez a traga cá.

 

O táxi fez a sua primeira paragem no apartamento de Jack. Ao despedir-se este pediu:

 

Olhem, eu sei que vou parecer intrometido, mas vêem algum inconveniente em eu, amanhã, ir convosco a casa de Ethel?

 

Myles franziu o sobrolho.

 

Nenhum, se prometer manter-se na sombra e ficar de boca fechada.

 

Myles! Jack sorriu.

 

O teu pai tem toda a razão, Neeve. Eu aceito as condições.

 

O táxi encostou frente ao Edifício Schwab e o porteiro veio abrir a porta a Neeve. Ela saiu, enquanto Myles esperava que o motorista lhe fizesse o troco. O porteiro recuou e retomou o seu lugar no átrio. A noite tornara-se muito clara, o céu estava coberto de estrelas. Neeve afastou-se do carro e, levantando a cabeça, admirou o firmamento.

 

Do outro lado da rua, Denny Adler acocorara-se contra o prédio, com uma garrafa de vinho ao lado e a cabeça tombada no peito. Através dos olhos semicerrados assistiu à saída de Neeve do táxi. Inspirou fundo. Dali apanhava-a num ângulo óptimo e poderia desaparecer rapidamente. Procurou no bolso do casaco imundo que vestira naquela noite.

 

Agora.

 

O dedo tocou no gatilho. Estava pronto a tirar a pistola, quando a porta à sua direita se abriu. Apareceu uma mulher idosa, segurando uma trela, que o pequeno cão puxava, saltitante. O cão aproximou-se de Denny.

 

Não tenha medo da Honey Bee. Ela é muito meiguinha declarou a mulher.

 

A raiva apoderou-se de Denny, ao ver que Myles Kearny saíra do táxi e caminhava, agora, atrás de Neeve, dirigindo-se à entrada do prédio. Com os dedos procurou o pescoço do cão, mas conseguiu controlar-se a tempo, desviando a mão para o pavimento da rua.

 

AHoney Bee adora ser acariciada!exclamou a velhota.Até mesmo por desconhecidos. E, deixando cair uma moeda no colo de Denny, acrescentou: Aqui tem uma ajudinha.

 

No domingo de manhã, o detective O’Brien telefonou e pediu para falar com Neeve.

 

Para que querem falar com ela? perguntou Myles com rudeza. Queremos falar com a mulher que fez a limpeza na casa de Ethel Lambston na semana passada, senhor. A sua filha tem o número dela, não tem?

 

Oh! Myles não percebia bem a razão do seu alívio. É fácil. Eu vou chamar Neeve.

 

Cinco minutos depois, Tse-Tse telefonava.

 

Neeve, vou testemunhar!exclamou ela, excitada. Mas será que posso recebê-los aí no apartamento à uma e meia? Nunca fui interrogada pela polícia. Acho que ficaria mais descansada se vocês estivessem presentes. E, baixando a voz, perguntou: Neeve, será que eles pensam que fui eu que a matei?

 

Neeve sorriu para o aparelho.

 

Claro que não, Tse-Tse. O pai e eu vamos à missa do meiodia em S. Paul. À uma e meia está óptimo.

 

Contolhes acerca do sobrinho ganancioso que lhe roubava o dinheiro e depois o voltou a pôr lá, e sobre as ameaças que Ethel lhe fez, de o deserdar?

 

Neeve sentiu um choque.

 

Tse-Tse! Nunca me disseste que Ethel andava zangada com o sobrinho! Nunca me disseste que ela o ameaçou deserdar. Claro que tens de falar nisso.

 

Quando pousou o auscultador, Myles aguardava de testa enrugada.

 

Que foi isso?

 

Neeve contou-lhe e Myles soltou um assobio surdo.

 

Quando TseTsé chegou, trazia o cabelo apanhado atrás A maquilhagem mal se notava, se não fosse pelas pestanas postiças. Trazia um vestido antiquado e sapatos de salto raso.

 

Este é o fato que usei para fazer o papel da governanta acusada de envenenar o patrão confidenciou ela.

 

Pouco depois, chegavam os detectives O’Brien e Gomez.

 

Ao vê-los cumprimentar Myles, Neeve pensou:

 

«Ninguém diria que ele já não é o número um da esquadra. Os homens estão praticamente de joelhos.»

 

Depois apresentou-lhes TseTsè e o detective olhoua, surpreendido.

 

Douglas Brown tinha-nos dito que a mulher da limpeza era sueca. Os olhos ainda mais se lhe arregalaram ao ouvir Tse-Tse explicar-lhe

 

que assumia personalidades diferentes, consoante o papel que na altura representava.

 

Tenho andado a fazer de criada sueca concluiu ela. E até mandei um convite pessoal a Joseph Papp para o espectáculo da noite passada. Era a noite de encerramento. O meu astrólogo garantira-me que Saturno se encontrava sob a influência de Capricórnio e que isso determinaria o meu sucesso profissional. Eu tinha a certeza que ele iria aparecer

 

abanou a cabeça com tristeza. A verdade é que não apareceu ninguém.

 

Gomez tossiu vigorosamente. O’Brien engoliu um sorriso.

 

Lamento muito. Agora, Tse-Tse, se é que lhe posso chamar assim?

 

E começou o interrogatório.

 

A conversa depressa se animou, quando Neeve explicou por que motivo resolvera ir com Tse-Tse ao apartamento de Ethel e por que decidira verificar os casacos no armário e consultar a agenda diária de Ethel. Tse-Tse contoulhes como Ethel telefonara ao sobrinho, furiosa, por causa do dinheiro, e como ele o devolvera na semana anterior.

 

Eram duas e trinta quando O’Brien fechou o bloco de notas.

 

Ambas prestaram uma ajuda preciosa. Tse-Tse, importa-se de acompanhar Miss Kearny à casa de Ethel Lambston? Você conhece bem a casa. Gostaria de saber se lá falta alguma coisa. Se não se importam, apareçam daqui a uma hora. Antes, ainda quero ter uma conversinha com Douglas Brown.

 

Myles sentara-se na sua cadeira de couro com a testa franzida.

 

Então, agora, temos também um sobrinho ganancioso? declarou. Neeve sorriu, trocista.

 

E onde lhe parece que está o cartão de visita, Commish?

 

Às três e trinta, Myles, Jack, Neeve e Tse-Tse entraram no apartamento de Ethel. Douglas Brown encontrava-se sentado no sofá e torcia, nervoso, as mãos pousadas no colo. Quando levantou os olhos, a sua expressão era hostil. O seu rosto solene e bem-parecido estava coberto de suor. Na sua frente encontravam-se os detectives O’Brien e Gomez de blocos abertos. Os tampos das mesas e da secretária estavam cobertos de pó.

 

Tse-Tse murmurou para Neeve:

 

Quando saí daqui, isto estava impecável. Neeve murmurou-lhe uma explicação acerca do pó que os peritos sempre espalhavam, quando procuravam impressões digitais, e, depois, virando-se calmamente para Douglas Brown, acrescentou:

 

Lamento sinceramente o que aconteceu à sua tia. Eu gostava muito dela.

 

Então, devia ser a única respondeu Douglas, levantando-se. Olhe, qualquer pessoa que conhecesse Ethel, pode confirmar o quanto ela sabia ser irritante e autoritária. Pronto, ela pagou-me uma data de jantares. Muitas das noites deixei de estar com os meus amigos, só porque ela queria companhia. Depois, ela encafuava por aí uma série de notas de cem e acabava por se esquecer onde as escondia e resolvia dizer que eu lhas tirava. Quando as encontrava, acabava por me pedir desculpa. E era isso que acontecia.Olhou para Tse-Tse. E que raio está você a fazer de pé? Fez alguma promessa? Se quiser fazer alguma coisa de útil, bem que pode pegar no aspirador e limpar esta porcaria toda.

 

Eu trabalhava para Miss Lambstonretorquiu Tse-Tse com dignidade. E ela está morta. Olhou para o detective O’Brien e perguntou: Que quer que faça?

 

Gostaria que Miss Kearny apontasse as peças que faltam no armário e gostaria que você desse uma vista de olhos por aí, a ver se falta alguma coisa.

 

Myles murmurou para Jack:

 

Por que não vai com Neeve? Talvez possa ajudá-la a tirar algumas notas. Sentara-se na cadeira perto da secretária. Dali, conseguia ver nitidamente o conjunto de fotografias que Ethel emoldurara. Alguns minutos depois levantou-se para as examinar melhor e teve uma surpresa ao deparar com uma montagem, que mostrava Ethel, na última convenção republicana, no estrado lado a lado com a família do presidente: Ethel abraçando o presidente da Câmara na Gracie Mansion; Ethel recebendo o prémio anual para o melhor artigo de revista concedido pela Sociedade de Jornalistas e Autores Americanos.

 

«É óbvio que algo me escapou naquela mulher», concluiu Myles. «E eu que a julgava uma cabeça-de-vento.»

 

O livro que Ethel se propusera a escrever. Havia uma enorme quantidade de dinheiro ilegítimo a circular na indústria das confecções. Teria Ethel descoberto alguma coisa? Myles decidiu que teria de perguntar a Herb Schwartz se havia alguma investigação em curso no comércio dos trapos.

 

A cama estava impecavelmente feita e o quarto arrumado. No entanto, tudo tinha o mesmo aspecto sujo do resto da casa. Até o armário parecia diferente. Era visível que todos os fatos tinham sido tirados, examinados e repostos perfeitamente ao acaso.

 

Óptimo declarou Neeve para Jack. Agora, vai ser muito mais difícil.

 

Jack vestia uma elegante camisola branca irlandesa, tricotada à mão, e umas calças de veludo canelado azul. Quando chegara ao Edifício Schwab, fora Myles que lhe abrira a porta e, ao vê-lo, franzira a testa e exclamara:

 

«Vocês os dois vão parecer a Flossie e o Freddie Bobbsey.»

 

Afastara-se para o lado, para lhe dar passagem, e Jack deu de caras com Neeve, que trazia igualmente uma camisola branca irlandesa, feita à mão, e umas calças de veludo azul. Riram-se os dois e rapidamente Neeve trocou a camisola por um casaco azul e branco.

 

A coincidência reavivara a angústia de Neeve, perante a perspectiva de remexer nas coisas de Ethel. Agora, a angústia desaparecera face ao modo descuidado como o armário fora remexido, aquele armário tão precioso para Ethel.

 

Mais difícil, mas não impossível respondeu Jack, calmamente. Diz-me por onde começar.

 

Neeve entregou-lhe o dossier que continha os talões das vendas feitas a Ethel.

 

Comecemos pela última venda.

 

Retirou as roupas que Ethel nunca chegara a vestir, pousouas em cima da cama, voltou ao armário e começou a ditar a Jack as peças que ainda ali se encontravam. Depressa se tornou evidente que toda a roupa que ali faltava era de Inverno.

 

De modo que fica eliminada a hipótese de ela planear seguir para as Caraíbas, e, por essa razão, não levar nenhum casaco murmurou Neeve, dirigindo-se mais a si própria que a Jack. Mas talvez Myles tenha razão. Não vejo a blusa branca que condizia com o fato que ela trazia quando foi encontrada. Talvez esteja na lavandaria. Espera aí...

 

De súbito calou-se e estendeu o braço para a parte mais recuada do guarda-roupa. De lá, retirou um cabide que alguém encafuara entre duas camisolas. Dele pendia uma blusa branca, com gola de renda e mangas enfeitadas com um bordado.

 

Era isto que eu procurava!exclamou Neeve, triunfante.Por que razão Ethel não a vestiu? E mesmo que tenha decidido vestir a blusa que inicialmente pertencia ao conjunto? Por que não meteu, também, esta na mala?

 

Sentaram-se ambos na poltrona, enquanto Neeve copiava as notas que Jack tirara, até obter uma lista precisa da roupa que faltava no armário de Ethel. Jack aguardava em silêncio, entretido em observar o que o rodeava. Tudo encardido, talvez devido à busca que a polícia efectuara. A mobília era de boa qualidade. A colcha e as almofadas decorativas deviam ter sido caras. Mas faltava-lhe personalidade. Não havia nenhum toque pessoal, nenhuma fotografia emoldurada, nenhuma quinquilharia especial. Os poucos quadros pendurados na parede eram perfeitamente vulgares, dando a sensação que ali estavam apenas para preencher um espaço vazio. Aquele quarto nada tinha de íntimo. Jack percebeu que começava a sentir uma enorme piedade por Ethel. A ideia que fizera dela era tão diferente. Lembrava-lhe, constantemente, uma bola de ténis que ia e vinha, de um lado para o outro do campo, sem que ninguém tivesse que a mandar, num movimento frenético e ininterrupto. Mas a mulher que dormira naquele quarto, devia sentir-se pateticamente só.

 

Regressaram à sala, a tempo de ver Tse-Tse rebuscando a pilha de cartas de Ethel.

 

Não está cá declarou ela.

 

O quê? perguntou O’Brien imediatamente.

 

Ethel tinha um punhal antigo que usava para abrir as cartas. Era um daqueles artigos indianos, com cabo esquisito em tons de vermelho e dourado.

 

Neeve pensou que o detective O’Brien parecia agora um cão de caça que acabara de farejar um rasto novo.

 

Lembra-se quando foi a última vez que viu esse punhal, Tse-Tse? perguntou.

 

Sim. Estava aí em ambos os dias que eu cá estive a fazer a limpeza. Na terça e na quinta-feira.

 

O’Brien olhou para Douglas Brown.

 

O punhal não estava cá ontem, quando cá viemos. Faz alguma ideia do sítio onde estará?

 

Douglas engoliu em seco. Tentou aparentar uma profunda concentração. O punhal encontrava-se na secretária na manhã de sexta-feira. Ninguém ali entrara a não ser Ruth Lambston. Ruth Lambston ameaçara-o de contar à polícia que Ethel tencionava deserdá-lo. Mas ele já lhes explicara que Ethel acabava sempre por encontrar o dinheiro que dizia terem-lhe roubado. Fora uma saída brilhante. Mas, e agora, deveria falar-lhes de Ruth ou responder simplesmente que não sabia?

 

O’Brien repetia a pergunta, desta vez num tom insistente. Douglas decidiu que era altura de desviar as atenções da polícia da sua pessoa.

 

Na tarde de sexta-feira, Ruth Lambston esteve aqui. Veio buscar a carta que Seamus cá deixara para Ethel. Ameaçou contar-vos como Ethel andava zangada comigo se eu denunciasse Seamus. Douglas fez uma pausa e então acrescentou submisso. Esse punhal estava ali quando ela chegou. Quando eu fui ao quarto, ela estava parada ao lado da secretária. A partir daí nunca mais o vi. O melhor é perguntarem-lhe a ela, por que razão decidiu roubá-lo.

 

Ruth atendeu o telefonema histérico de Seamus, no sábado à tarde, e conseguiu apanhar em casa a directora do pessoal lá da empresa. Foi esta que lhe arranjou o advogado, Robert Lane, e o mandou para a esquadra da polícia.

 

Quando Lane regressou com Seamus a casa, Ruth teve a certeza de que o marido se encontrava à beira de um colapso cardíaco e imediatamente o tentou levar às urgências do hospital, o que Seamus recusou com toda a veemência. No entanto, acedeu em ir para a cama. Destroçado e abatido, dirigiu-se para o quarto com os olhos ainda vermelhos e inchados de lágrimas.

 

Lane esperou por Ruth na sala.

 

Eu não sou um advogado criminal informou ele com rudeza. E o seu marido vai precisar de um. E dos bons.

 

Ruth concordou.

 

Por aquilo que ele me contou no táxi, acho melhor que ele se declare inocente ou, o melhor, é tentar atenuar a acusação, alegando insanidade mental temporária. Ruth sentiu-se gelar.

 

Ele admitiu que a matou?

 

Não. Confessou que lhe bateu, que ela pegou no punhal que usava para abrir a correspondência, que ele lho tirou e que, nessa luta, ela cortou a face. Contou-me também que pagou a um figurante qualquer, que costuma frequentar o bar dele, para lhe fazer umas ameaças pelo telefone.

 

Ruth franziu o lábio e confirmou.

 

Contou-me o mesmo na noite passada. Lane encolheu os ombros.

 

O seu marido não aguentará um interrogatório mais agressivo. O meu conselho é que ele deve jogar limpo e tentar um acordo com a acusação. Acredita que foi ele que a matou?

 

Sim.

 

Lane levantou-se.

 

Como já disse, não sou um advogado criminal, mas vou indagar e tentarei arranjar-lhe um. Lamento muito.

 

Ruth ficou ali sentada, horas a fio, num desespero profundo e silencioso. Às dez horas ouviu o noticiário e o locutor anunciou que o ex-marido de Ethel Lambston tinha sido submetido a um interrogatório pela polícia, acerca da morte dela. Correu a desligar o aparelho.

 

Os acontecimentos da semana anterior passavam e repassavam-lhe na mente, como uma gravação que se repete constantemente. Dez dias antes, o telefonema choroso de Jeanine:

 

«Mamã, sinto-me tão humilhada. O cheque não tem cobertura. O tesoureiro mandou-me chamar...»

 

Fora assim que tudo começara. Ruth recordou a forma como gritara e insultara Seamus. «Levei-o ao limite do desespero», pensou ela.

 

«Um acordo com a acusação. Que significaria isso, afinal? Homicídio involuntário? Quantos anos apanharia? Quinze? Vinte? Mas ele enterrara o corpo! Dera-se ao trabalho de esconder o crime. Onde fora ele arranjar a calma necessária para isso?

 

»Calmo? Seamus? Seamus de punhal na mão olhando a mulher a quem acabara de cortar a garganta? Impossível.»

 

Outra recordação se sobrepôs na mente de Ruth. Um episódio que se tornara uma brincadeira de família, nos tempos em que ainda eram capazes de rir. Seamus entrara na sala de partos quando Marcy nascera e ao deparar com o sangue desmaiara e caíra no chão inanimado.

 

«Eles ficaram mais preocupados com o teu pai que comigo ou contigo», costumava dizer Ruth a Marcy. «Foi a primeira e a última vez que deixei o teu pai entrar numa sala de partos. Acho que ficava muito melhor a servir as suas bebidas no bar, em vez de andar a atrapalhar a vida ao médico.»

 

Seamus, vendo o sangue jorrar da garganta de Ethel, enfiando o corpo dela num saco de plástico, tirando-a à socapa do apartamento. Ruth pensou no noticiário que anunciara que as etiquetas da roupa de Ethel ttinham sido cortadas. «Seamus com sangue-frio necessário para fazer tudo aquilo e ainda conseguir levá-la até ao parque e aí escondê-la? Era absolutamente impossível», concluiu Ruth.

 

«Mas se ele não matou Ethel, se a deixou viva, tal como afirma, então, ao roubar e esconder o punhal, ela poderia ter destruído a única pista capaz de incriminar outra pessoa.»

 

Era uma hipótese demasiado esmagadora para conseguir encará-la. Extenuada, Ruth levantou-se e dirigiu-se para o quarto. Seamus respirava pesadamente, mas ainda assim mexeu-se na cama.

 

Ruth, fica comigo.

 

Quando ela se enfiou na cama, Seamus passou os braços à volta dela e adormeceu, com a cabeça encostada ao ombro dela.

 

Eram três horas e Ruth continuava sem saber o que fazer. Então, como que em resposta a uma prece, veio-lhe à ideia a quantidade de vezes que encontrara o antigo comissário da polícia Kearny, no supermercado, depois que ele se reformara. Ele sorria-lhe sempre de uma forma amigável e dava-lhe os bons-dias. Uma vez, o saco dela rebentara com as compras todas lá dentro e ele parara para a ajudar. Gostara dele instintivamente, ainda que sempre que o via, se lembrasse que uma grande parte do dinheiro da pensão ia parar à loja da filha.

 

Os Kearny moravam no Edifício Schwab, na Rua 74. No dia seguinte, ela e Seamus iriam tentar falar com o comissário. Ele saberia dizer-lhes o que deveriam fazer. Ela podia confiar nele. Por fim Ruth acabou por adormecer pensando:

 

«Afinal, tenho de confiar em alguém.»

 

Pela primeira vez em muitos anos, conseguiu passar uma manhã de domingo a dormir. Quando olhou para o relógio, viu que passavam quinze minutos do meio-dia. A luz brilhante do sol, entrava no quarto através das frestas dos estores. Olhou para Seamus. Assim adormecido, perdera por completo aquela expressão ansiosa e aterrorizada que tanto a irritava.

 

As suas feições mantinham os traços de um homem bem-parecido. «As garotas saem ao pai», pensou Ruth, «na beleza e no espírito.» Nos primeiros tempos, Seamus foi espirituoso e confiante. Depois começara a derrocada. A rendadobar aumentara astronomicamente, a vizinhança sofisticara-se e os antigos clientes iam desaparecendo um a um. E todos os meses o cheque para pagar a pensão.

 

Ruth deslizou para fora da cama e dirigiu-se à cómoda. O sol realçava implacavelmente todas as falhas e manchas da madeira. Tentou abrir a gaveta sem fazer barulho, mas esta encravou e chiou penosamente. Seamus virou-se na cama.

 

Ruth. Ainda não acordara completamente.

 

Deixa-te estar disse-lhe ela com doçura. Eu chamo-te quando o pequeno-almoço estiver pronto.

 

Ruth acabava de tirar o presunto do grelhador, quando o telefone tocou. Eram as filhas. Tinham ouvido a notícia acerca de Ethel. Marcy, a mais velha, exclamou:

 

Mamã, nós temos muita pena dela, mas agora o papá vai ficar livre daquela pensão, não vai?

 

Ruth tentou responder animada.

 

É o que parece, não é? Ainda não nos habituámos à ideia. Depois chamou Seamus e ele veio ao telefone.

 

Ruth calculava o quanto lhe custava aquele esforço, quando o ouviu dizer:

 

É terrível sentirmos satisfação com a morte de alguém, mas não é nada terrível sentirmos alegria por nos livrarmos de um fardo tão pesado. Agora, conta-me lá, como têm passado as irmãs Dolly? Aposto que não dão descanso aos rapazes!?

 

Ruth preparara sumo de laranja fresco, presunto, ovos mexidos, torradas e café. Esperou até Seamus acabar de comer e serviu-lhe a segunda chávena de café. Depois, sentou-se na frente dele, do outro lado da pesada mesa de carvalho, que lhes fora legada por uma velha tia solteirona e começou:

 

Temos de conversar. Apoiou os cotovelos na mesa e, com as mãos entrelaçadas sob o queixo, viu a sua imagem reflectida no espelho do aparador. Notou o quanto parecia desleixada. A bata que vestira era velha e o cabelo, outrora de um castanho sedoso, tornara-se ralo e baço. Os óculos redondos davam-lhe ao rosto um ar mesquinho. Afastou aqueles pensamentos como insignificantes e continuou: Quando me disseste que tinhas batido em Ethel e que ela se ferira com o punhal, que pagaste a um homem para a ameaçar, eu acreditei que tinhas ido mais além. Acreditei que a tinhas morto.

 

Seamus continuava de olhos fixos na chávena do café.

 

«Como se ali estivessem todos os segredos do mundo», pensou Ruth.

 

De imediato, ele endireitou-se e olhou-a nos olhos. Parecia que aquela noite bem dormida, a conversa com as filhas e o pequeno-almoço revigorante o tinham fortalecido.

 

Eu não matei Ethel declarou. Só a assustei. Inferno! Também eu fiquei assustado. Nunca pensei em bater-lhe, mas se calhar foi um impulso inconsciente. Ela cortou-se porque pegou no punhal. Eu tirei-lho e mandei-o para cima da secretária. Mas ela estava assustada, sim. Foi quando me disse: «Está bem. Está bem. Podes ficar com a tua malditapensão!»

 

Isso foi na quinta-feira à tarde recapitulou Ruth.

 

Na quinta-feira às duas da tarde. Tu sabes como tudo fica calmo a essa hora. Lembras-te do estado em que ficaste quando o cheque foi devolvido. Resolvi-me e saí do bar à uma e meia. Ficou lá o Den. Ele pode confirmar.

 

E, depois, voltaste ao bar?

 

Sim, tinha de voltar. Depois vim para casa e embebedei-me. E durante o fim-de-semana continuei bêbedo.

 

Encontraste alguém? Não saíste para comprar o jornal? Seamus sorriu lugubremente.

 

Não estava em condições de ler fosse o que fosse. Esperou pela reacção dela e foi então que Ruth viu a esperança renascer-lhe no rosto.

 

Tu acreditas em mim! exclamou num tom surpreso e humilde.

 

Ontem não acreditava. Na sexta-feira não acreditei respondeu Ruth. Mas agora acredito. És uma data de coisas, mas também há uma data de coisas que tu não és. Sei que nunca pegarias numa faca ou num punhal para lhe cortares a garganta.

 

Não há dúvida que não tiveste muita sorte comigo declarou Seamus, serenamente.

 

O tom de Ruth tornou-se brusco.

 

Podia ter arranjado pior. Agora temos de ser práticos. Eu não gosto daquele advogado e ele mesmo admitiu que precisavas de alguém melhor. Quero experimentar uma coisa. Pela última vez, jura pela tua vida que não mataste Ethel.

 

Juro pela minha vida. E após uma breve hesitação acrescentou:

 

Juro pela vida das minhas três filhas.

 

Precisamos de ajuda. Precisamos muito de ajuda. Ontem à noite assisti ao noticiário. Falaram de ti. Disseram que tinhas sido interrogado. Eles estão ansiosos por conseguir arranjar provas que te incriminem. Precisamos de dizer toda a verdade a alguém que nos possa aconselhar ou arranjar-nos o advogado certo.

 

Passou a tarde toda argumentando, debatendo, persuadindo, tentando chamar Seamus à razão, até que, por fim, este concordou. Eram 4h. 30m., quando vestiram os casacos, o de Ruth velho e gasto, o de Seamus com o botão do meio quase a cair. Atravessaram a pé os três quarteirões que os separavam do Edifício Schwab. Quase não trocaram palavra. Apesar do dia estar inexplicavelmente agreste, as pessoas aproveitavam a luz do sol. As crianças corriam segurando balões e os pais seguiam-nas aparentando cansaço. Seamus sorriu.

 

Lembras-te quando levávamos as garotas ao zoo, nas tardes de domingo? Foi bom terem-no aberto de novo.

 

No Edifício Schwab o porteiro informou-os que o comissário e Miss Kearny tinham saído. Hesitante, Ruth perguntou se poderiam esperar. Durante meia hora ficaram sentados, lado a lado, no sofá do átrio, e Ruth começava a duvidar da sensatez daquela decisão. Estava prestes a sugerir que o melhor seria irem embora, quando o porteiro abriu a porta principal deixando passar um grupo de quatro pessoas: os Kearny e dois desconhecidos.

 

Antes que perdesse a coragem, Ruth apressou-se a avançar ao encontro deles.

 

Myles, devias ter falado com eles.

 

Encontravam-se na cozinha. Jack preparava a salada. Neeve descongelava a pasta que sobrara do jantar de quinta-feira e Myles preparava dois martinis, muito secos, para ele e para Jack.

 

Neeve, de maneira alguma poderia permitir que eles me confessassem qualquer coisa. Já assim, tu és testemunha neste caso. Se algum deles confessasse que matou Ethel em legítima defesa, teria de participar.

 

Tenho a certeza que não era nada disso que eles te queriam dizer.

 

Mesmo assim, podes ter a certeza que tanto Ruth como Seamus Lambston vão ter de enfrentar um interrogatório cerrado na esquadra. Não te esqueças que se aquele trapaceiro do sobrinho estiver a dizer a verdade, Ruth Lambston roubou aquele punhal. E aposto que não foi para o guardar como recordação. Fiz aquilo que podia. Telefonei a Pete Kennedy. Ele é um óptimo advogado criminal e amanhã de manhã vai recebê-los.

 

E será que eles podem pagar a um bom advogado?

 

Se Seamus estiver inocente, Pete demonstrará aos nossos homens que estão na pista errada. Se ele é culpado, qualquer quantia que Peter cobrar será bem empregue para conseguir a redução de pena de assassínio premeditado, para assassínio involuntário.

 

Neeve ficou com a sensação que Jack desviou, intencionalmente, a conversa do caso de Ethel, pela maneira como interrogou Myles acerca de alguns dos seus casos mais famosos, um assunto que nunca cansava Myles. Mas foi apenas, quando levantaram amesa, que Neeve deu conta que Jack conhecia a fundo aqueles casos que naturalmente não tinham tido cobertura na imprensa do Midwest.

 

Estiveste a vasculhar os jornais antigos acusou ela.

 

Pois estive. Ei, deixaficar essas panelas. Eu lavo-as, senão estragas as unhas.

 

«É impossível que tenha acontecido tanta coisa numa só semana», reflectiu Neeve. Era como se Jack sempre tivesse andado por ali. «Afinal, que estaria a acontecer?»

 

Ela bem sabia o que estava a acontecer. Depois, sentiu uma dor que a gelou. Moisés olhando para Terra Prometida, sabendo que nunca lá entraria.

 

Por que se sentiria assim? Por que sentia que algo a estava a enredar? Por que razão, ao olhar a fotografia de Ethel, lhe parecera descobrir nela qualquer coisa dissimulada, como se Ethel lhe dissesse: «Espera até veres como é.»

 

«Como é o quê?», perguntou-se Neeve.

 

«A morte.»

 

O noticiário das nove revelou mais pormenores sobre o caso de Ethel. Alguém conseguira desenterrar-lhe o passado. Os meios de comunicação social estavam com falta de notícias frescas e parecia que o caso de Ethel estava destinado a preencher aquele vazio.

 

O programa acabara, quando o telefone tocou.

 

Era Kitty Conway.

 

A sua voz límpida, quase musical, chegou até Neeve com um acento de preocupação.

 

Neeve, desculpe incomodá-la, mas cheguei agora a casa e quando pendurei o casaco, percebi que o seu pai se esqueceu do chapéu no meu armário. Como amanhã ao fim da tarde tenho de ir à cidade, talvez lho possa deixar em qualquer sítio.

 

Neeve estava atónita.

 

Espere um minuto. Eu vou chamá-lo. E entregando o telefone a Myles, perguntoulhe num murmúrio: Que andas a tramar?

 

Oh, é a bonita Kitty Conway. Myles parecia deliciado. Estava a ver que nunca mais encontrava o maldito chapéu. Ao desligar o telefone, olhou para Neeve timidamente. Ela vem cá amanhã, às seis horas. Depois vamos jantar fora. Queres vir?

 

De maneira nenhuma. A não ser que precises de um pau-de-cabeleira. E além disso, tenho de ir para a 1.a Avenida. Já à porta, Jack disse-lhe:

 

Diz-me se estou a ser uma praga, mas se achares que não, que tal irmos jantar amanhã?

 

Sabes muito bem que não és praga nenhuma. Por mim está óptimo, se não te importares de esperar até que eu telefone. Não sei a que horas o poderei fazer. Normalmente, a minha última paragem é no escritório do tio Sal, de maneira que telefono de lá.

 

Não me importo absolutamente nada. Só mais uma coisa, Neeve. Tem cuidado. Tu és uma testemunha importante no caso de Ethel. Quando vi aqueles Lambstons e o ar da mulher, senti-me preocupado. Neeve, eles estão desesperados. Culpado ou inocente ele quer acabar com isto. A vontade de falar ao teu pai tanto pode ter sido espontânea como algo muito calculado. A verdade é que os assassinos não hesitam em matar segunda vez, se lhes aparecer alguém pelo caminho.

 

Como a segunda-feira era o dia de folga de Denny, a sua ausência não seria notada, contudo, convinha-lhe arranjar alguém que lhe servisse de álibi e que testemunhasse que ele passara o dia na cama.

 

Acho que estou com gripe balbuciou ele para a desinteressada empregada encarregada do átrio da casa onde alugara o quarto.

 

Na noite anterior, Big Charley telefonara-lhe e ameaçara-o:

 

Ou acabas já com ela ou arranjaremos quem o faça.

 

Denny sabia o que aquilo queria dizer. Não lhe deixariam qualquer hipótese de vir a usar o que sabia sobre o contrato para negociar com a polícia. Além disso, queria a outra metade do dinheiro.

 

Elaborou cuidadosamente o seu plano. Dirigiu-se à farmácia da esquina e, interrompendo-se para tossir, foi pedindo ao farmacêutico que lhe indicasse um remédio. De volta a casa, fez questão em falar com a velha estúpida que ocupava o quarto duas portas à frente do seu e que sempre tentava meter conversa. Cinco minutos depois, saía do quarto dela, trazendo uma chávena de chá, cujo o aroma o deixou nauseado.

 

Isto cura qualquer doença garantiu ela. Daqui a bocado passo por aí para ver como se sente.

 

Talvez me possa arranj ar mais um pouco, à hora do almoço pediu-lhe Denny.

 

Dirigiu-se ao quarto de banho, que servia os ocupantes do segundo e terceiros andares e queixou-se de cãibras ao velho bêbedo que esperava pacientemente a sua vez. O velho recusou-se a deixá-lo passar à frente. De volta ao quarto, Denny embrulhou cuidadosamente todas as roupas imundas que utilizara para seguir Neeve. Nunca se sabia quando aparecia um porteiro intrometido com olhos mais atentos, capaz de descrever o homem que rondara o Edifício Schwab, ou aquela maluca do cão. Essa vira-o de perto. Denny não tinha qualquer dúvida que uma vez morta a filha do comissário, os polícias não deixariam nada por investigar.

 

Livrar-se-ia das roupas numa lixeira ali perto. Isso era fácil. Mais difícil seria seguir Neeve desde a loja até à 1.a Avenida. Mas já arranjara maneira de o fazer. Tinha um fato de treino novo que ninguém ali tinha ainda visto. Tinha também uma peruca à punk e uns óculos espaciais. Com aquele disfarce, iria parecer mais um daqueles moços de recados, que corriam a cidade, atropelando toda a gente com as suas bicicletas.

 

Arranjaria um sobrescrito grande e esperaria que Neeve Kearny saísse. Provavelmente, ela apanharia um táxi até à zona das confecções. Ele contava segui-la noutro táxi e contaria ao motorista que a sua bicicleta fora roubada e que a sua cliente precisava daqueles papéis com urgência.

 

Ouvira pessoalmente Neeve Kearny dizer que tinha um compromisso à uma e meia com uma daquelas tipas cheias de massa e prontas a gastar uma fortuna em roupa.

 

Deixando uma margem para qualquer eventualidade, antes da uma e meia ocuparia o seu posto do outro lado da rua.

 

Não teria qualquer importância se o homem do táxi somasse dois mais dois, depois de Neeve Kearny ser morta. Iriam à procura de um tipo de cabelo à punk.

 

Tendo tudo programado, Denny enfiou a roupa velha debaixo da cama.

 

«Que espelunca!», pensou, olhando à sua volta; o quarto pequeníssimo, cheio de baratas, cheirava muito mal.

 

Tinha uma cómoda pouco maior que um caixote. Mas assim que executasse o trabalho e recebesse os restantes dez mil, era só esperar que acabasse o período de liberdade condicional e então punha-se a andar. «Caramba, e sem demora.»

 

O resto da manhã, Denny passou-o em frequentes idas e vindas à casa de banho, lamentando-se para quem o quisesse ouvir. Ao meio-dia a velha idiota bateu-lhe à porta e entregou-lhe outra chávena de chá e um pão bolorento.

 

Fez mais algumas viagens ao quarto de banho, demorando-se lá dentro, onde tentava evitar os terríveis odores, mantendo os outros à espera, até os ouvir protestar.

 

À uma menos um quarto saiu e disse para o velho ébrio:

 

Acho que estou melhor. Vou tentar dormir um pouco.

 

O seu quarto ficava no segundo andar e dava para uma viela. O telhado inclinado apresentava aí uma saliência, que se projectava sobre os andares inferiores.

 

Minutos depois, vestia o fato de treino, ajustava a peruca e os óculos e, atirando o saco de roupa para a viela, começou a descida.

 

Livrou-se das roupas numa lixeira infestada de ratos, nas traseiras de um edifício da Rua 108, apanhou o metro na Lexington e Rua 86 e arranjou um sobrescrito grande de manilha e um lápis numa lojeca; escreveu na face do sobrescrito: Urgente, e tomou o seu posto de vigia frente à loja de Neeve.

 

Às dez horas da manhã, de segunda-feira, um avião de carga oriundo da Coreia, com o número de voo 771, estava pronto a aterrar no aeroporto Kennedy. Os camiões da Empresa Gordon Steuber aguardavam para carregar os caixotes contendo roupa desportiva, rumo aos armazéns de Long Island, os tais que não constavam dos registos da companhia.

 

Mas havia mais alguém esperando pelo desembarque, alguns agentes da polícia, preparados para interceptar uma das maiores operações de droga dos últimos dez anos.

 

Uma ideia diabólica!comentara um, para o companheiro, enquanto aguardavam na pista do aeroporto disfarçados de mecânicos.

 

Já vi esconderam-na em mobílias, em bonecas, em coleiras de cão, em fraldas de bebé, mas dentro de roupas, é a primeira vez!

 

O avião descreveu meia volta, aterrou, e veio parar na frente do hangar. Num instante, o campo encontrava-se repleto de agentes policiais.

 

Dez minutos depois, era aberto o primeiro caixote e as bainhas de um elegante casaco de linho rasgadas. As mãos do chefe da brigada encheram-se de heroína pura, que saía de um pequeno saco de plástico.

 

Cristo! exclamou ele sem respiração. Só este saco deve valer dois milhões. Mandem alguém trazer Steuber.

 

Às nove e quarenta, os agentes federais entravam pelo gabinete de Gordon Steuber, depois de terem afastado com firmeza a secretária, que lhes tentara barrar o caminho. Steuber ouviu impassível o agente ler-lhe os direitos e, sem mostrar qualquer emoção, deixou que lhe rodeassem os pulsos com as algemas. Por dentro, sentia uma fúria desmedida, um ódio assassino e o seu alvo era Neeve Kearny.

 

À saída parou e dirigiu-se à secretária chorosa:

 

Mary disse-lhe, é melhor anular os meus compromissos. Não se esqueça de o fazer.

 

A expressão dos olhos dela dissera-lhe que a sua mensagem fora atendida. Ela nada diria acerca da visita de Ethel Lambston na noite de quarta-feira e ficou a saber que ela já conhecia as outras actividades dele.

 

Douglas Brown não dormiu descansado na noite de domingo. Enquanto se virava e revirava por entre os lençóis macios de Ethel, sonhava com ela, um sonho angustiante, no qual Ethel erguia um copo de D. Perignon a S. Domenico e saudava:

 

À saúde de Seamus, o lorpa!

 

Sonhos que lhe mostravam Ethel dizendo-lhe furiosa:

 

Quanto resolveste levar desta vez? Sonhos em que era levado pela polícia.

 

Às dez da manhã de segunda-feira recebeu o telefonema do Departamento de Medicina Legal, do distrito de Rockland. Como parente mais próximo, queriam saber quais as disposições que pretendia tomar em relação aos restos mortais de Ethel Lambston. Doug tentou mostrar-se interessado:

 

A minha tia sempre manifestou o desejo de ser cremada. Pode dizer-me o que devo fazer?

 

Na verdade, Ethel dissera-lhe uma vez qualquer coisa acerca de gostar de ser sepultada junto dos pais em Oaio, mas sairia muito mais barato enviar para lá uma urna em vez de um caixão.

 

Deram-lhe o nome de uma agência funerária. A mulher que o atendeu, mostrou-se cordial e solícita, e perguntou quem se encarregaria dos encargos financeiros. Doug prometeu voltar a ligar e telefonou ao contabilista de Ethel. Este estivera fora durante o fim-de-semana e acabara de saber as tristes notícias.

 

Eu servi de testemunha ao testamento de Ethel declarou ele. Tenho uma cópia do original. Ela gostava muito de si.

 

E eu dela.

 

Doug desligou. Era difícil habituar-se à ideia de que agora era um homem rico. Pelo menos, segundo o seu conceito de riqueza.

 

«Se ao menos tudo corresse bem», pensou ele.

 

Instintivamente, aguardava a chegada da polícia, mas, mesmo assim, o bater firme na porta, e o convite para se dirigir até à esquadra, para ser interrogado, deixou-o apreensivo.

 

Uma vez lá, ficou espantado quando lhe leram os direitos.

 

Devem estar a brincar.

 

Nós nunca facilitamos explicou o agente Gomez, tentando acalmá-lo. Lembre-se, Doug, que não é obrigado a responder. Pode chamar o seu advogado. Ou, se quiser, em qualquer altura, pode recusar-se a responder.

 

Doug pensou no dinheiro de Ethel, na casa, na rapariga que lá na empresa lhe fazia olhinhos, na possibilidade de se despedir e de se livrar do seu^chefe. Optou por esperar.

 

À primeira pergunta que o detective O’Brien lhe atirou, sentiu-se encurralado.

 

Na última quinta-feira foi até ao banco e levantou quatrocentos dólares em notas de cem. Não adianta negar isso, Doug, nós confirmámos. Foi esse dinheiro que encontrámos escondido no apartamento, não foi, Doug? Agora, diga-nos, por que motivo o escondeu lá, se nos garantiu que a sua tia acabava sempre por encontrar o dinheiro que dizia ter sido roubado por si?

 

Myles dormiu da meia-noite às cinco e meia. Ao acordar, sabia que era inútil tentar adormecer de novo. Nada lhe custava tanto como manter-se na cama, tentando voltar para os braços do Morfeu. Assim, resolveu levantar-se, procurou o roupão e dirigiu-se à cozinha.

 

Enquanto bebia uma chávena de café descafeinado, acabado de fazer, analisou passo a passo os acontecimentos da semana. O alívio que inicialmente sentira com a morte de Nicky Sepetti começara a desvanecer-se. Porquê?

 

Olhou a cozinha arrumada e limpa. Na noite anterior, apreciara silenciosamente o modo como Jack Campbell ajudara Neeve na limpeza. Jack sabia mexer-se na cozinha. Myles sorriu, pensando no seu pai. Um tipo notável, ele. «Era assim que a minha mãe se referia ao meu pai.» Mas Deus sabe que nunca ele levantou um prato da mesa, tratou de uma criança ou pegou num aspirador. Os maridos de hoje são diferentes. Para melhor.

 

«Que tipo de marido fora ele para Renata?»

 

Segundo o critério da maioria das pessoas fora um bom marido.

 

Eu amava-a declarou Myles numa voz murmurada. Eu orgulhava-me dela. Dívertíamo-nos juntos. Mas pergunto-me se algum dia a levei a sério, sem ser no seu papel de mãe e esposa!?

 

Na noite anterior, ou teria sido na outra?, dissera a Jack, que Renata lhe ensinara mui to acerca de vinhos. «Nessa época, eu preocupava-me em limar certas arestas», pensou Myles, recordando-se que antes de conhecer Renata, decidira dedicar-se a um programa de auto-aperfeiçoamento. Bilhetes para o Carnegie hall. Bilhetes para o Met. Visitas periódicas ao Museu de Arte.

 

Fora Renata quem conseguira transformar aquelas obrigações penosas em expedições excitantes e reveladoras. Renata que, quando chegava a casa, vinda da ópera, trauteava a música na sua voz forte e clara de soprano.

 

«Milo, caro, serás o único irlandês do mundo completamente duro de ouvido?», troçava ela.

 

«Os onze maravilhosos anos que vivemos juntos foram apenas o despertar de tudo aquilo que poderíamos ter sido um para o outro.»

 

Myles levantou-se e serviu-se de uma segunda chávena de café. Por que se sentia tão angustiado? Que estaria a incomodá-lo? Havia qualquer coisa. Qualquer coisa.

 

«Oh, Renata», implorou ele. «Não sei porquê, mas sinto-me preocupado com Neeve. Fiz o que pude durante estes dezassete anos. Mas ela também é tua filha. Estará ela em perigo?»

 

O segundo café animou-o e começava agora a sentir-se ligeiramente ridículo. Quando Neeve entrou na cozinha bocejando, já recuperara o suficiente para comentar:

 

O teu editor percebe de lavagens de louça.

 

Neeve sorriu, inclinou-se e beijou-lhe o topo da cabeça. Depois respondeu:

 

Tal como a tua bonita Kitty Conway. Tens a minha bênção, Commish. Já era mais que tempo de começares a olhar para outras mulheres. Além disso, os anos não perdoam. E teve de se esquivar à palmada que Myles lhe tentou dar.

 

Neeve escolheu um Chanel cinzento e rosa-pálido com botões dourados para levar para o trabalho.

 

Calçou uns sapatos de pele cinzentos e escolheu uma carteira a condizer. Apanhou o cabelo atrás.

 

Myles manifestou a sua aprovação.

 

Gosto desse género de fato. Muito mais que daquela palhaçada que vestiste no sábado. Devo dizer que herdaste o bom gosto da tua mãe.

 

Abençoemos a aprovação de Sir Hubert. Já na porta, Neeve hesitou. Commish, será que não poderias fazer-me a vontade e perguntar ao médico legista, se há alguma hipótese de Ethel ter sido vestida depois de morta?

 

Não tinha pensado nisso.

 

Está bem. Mas, Myles, ouve-me desta vez e não me interrompas. A última pessoa que admite ter visto Ethel ainda viva é o ex-marido Seam us. Sabemos que isso se passou na tarde de quinta-feira. Será que não lhe poderiam perguntar que roupa ela trazia vestida? Aposta que ele responde que ela usava um cafetã de lã fina, que vestia para andar em casa. Não o encontrei no armário, e Ethel nunca o levava quando viajava. Myles, não me olhes assim. Eu sei do que estou a falar. A questão é esta: suponhamos que Seamus, ou alguém matou Ethel e ela trazia o cafetã vestido. Depois teve de a mudar de roupa.

 

Neeve abriu a porta e Myles percebeu que ela aguardava uma réplica trocista. Manteve um tom sério ao animá-la:

 

O que significa que...

 

Significa que, se as roupas de Ethel foram vestidas depois de ela morrer, é impossível que tenha sido o marido. Viste a maneira como ele e a mulher vinham vestidos. Percebem tanto de roupa como eu de naves espaciais. Por outro lado, existe um canalha chamado Gordon Steuber que, instintivamente, escolheria a roupa que desenhara, combinando-a da mesma forma.

 

E antes de fechar a porta, Neeve acrescentou:

 

Como estás sempre a falar do cartão de visita que o assassino deixa ficar...

 

Peter Kennedy era advogado e frequentemente lhe perguntavam se possuía algum parentesco com os Kennedy. Na verdade, havia uma forte semelhança entre ele e o falecido presidente. Era um homem de cerca de cinquenta anos de idade, de cabelo mais negro que cinzento, o rosto era quadrangular e tinha um corpo magro e esguio. No início da carreira fora assistente do procurador e estabelecera uma sólida relação de amizade com Myles Kearny. Depois do telefonema urgente de Myles, Peter cancelara a entrevista que tinha para as onze e concordou em receber Ruth e Seamus Lambston, no seu escritório da baixa.

 

Agora ouvia-os incrédulo e estudava-lhes os rostos tensos e fatigados. De tempos a tempos, interrompia-os, para fazer algumas perguntas.

 

Quer dizer, Mr. Lambston, que o senhor esmurrou a sua ex-esposa com tal violência, que ela caiu para trás e depois de um salto apanhou o punhal com que costumava abrir as cartas e que foi durante a luta que travaram pela posse do punhal que ela se feriu na face.

 

Seamus confirmou.

 

Ethel percebeu que eu estive muito perto de a matar.

 

Muito perto.

 

Muito perto repetiu Seamus numa voz baixa e envergonhada. Quero dizer, durante um segundo teria ficado contente se aquele murro a tivesse morto. Durante vinte anos ela fez da minha vida um inferno. Foi então que ela se levantou e eu percebi o que poderia ter acontecido. Mas ela ficou assustada e disse-me para esquecer a pensão do divórcio.

 

E depois?

 

Saí. Fui ao bar. Depois voltei para casa e embebedei-me. E continuei a beber. Eu conhecia Ethel muito bem. Seria típico dela apresentar uma queixa de agressão contra mim. Já me tentara processar por três vezes por me atrasar com o cheque riu-se com azedume. Uma delas foi no dia em que Jeannie nasceu.

 

Pete continuou o interrogatório e concluiu que Seamus ficara assustado com a hipótese de Ethel o processar. Claro que quando ela se refizesse, exigiria de novo a pensão. Depois, sentira-se tolo por ter dito a Ruth que Ethel acedera em acabar com os pagamentos, e ficara aterrorizado por Ruth lhe exigir que escrevesse a Ethel. Foi então que, inadvertidamente, deixou ficar o cheque e a carta, regressando lá depois para tentar recuperá-los.

 

Seamus torcia as mãos pousadas no colo. Tudo o que dizia soava-lhe aos ouvidos como uma série de tolices. E era isso mesmo. E havia mais. As ameaças. Mas ainda não conseguira falar nisso.

 

Você não falou, nem viu a sua ex-esposa, Ethel Lambston depois da tarde de quinta-feira, dia 30 de Março?

 

Não.

 

«Ele não me contou tudo», pensou Peter. «Mas para começar já chega.» Observou-o, enquanto Seamus se recostava no sofá de couro castanho. Começava a descontrair-se. Em breve estaria suficientemente à vontade para pôr o jogo todo na mesa. Peter voltou-se para Ruth Lambston, rigidamente sentada ao lado do marido, cujos olhos expressavam fadiga. Peter percebeu que ela estava assustada com as revelações do marido.

 

Será possível processar Seamus por agressão a Ethel, ou seja lá o que for? perguntou ela.

 

Ethel Lambston já cá não está para o fazer respondeu Peter. Tecnicamente a polícia poderia fazê-lo. Mrs. Lambston, considero-me um razoável avaliador de caracteres. Foi a senhora que convenceu o seu marido a dirigir-se ao comissário. Depois corrigiu. Ao antigo comissário Kearny. Acho que fez muito bem em pensar que precisavam de ajuda. Mas eu só posso ajudá-los se me disserem a verdade toda. Há qualquer coisa que me estão a esconder. E acho que preciso de saber o que é.

 

Com os olhos do marido e daquele advogado de ar imponente, postos nela, Ruth confessou:

 

Tenho a impressão que deitei fora a arma do crime.

 

Uma hora depois saíam, tendo Seamus concordado em submeter-se ao detector de mentiras. Peter Kennedy já não se sentia tão confiante no seu instinto. Já à saída, Seamus acabara por admitir que contratara um marginal que frequentava o seu bar para ameaçar Ethel pelo telefone. «Ou ele é muito estúpido e está assustado, ou está a representar um grande papel», concluiu Peter, anotando mentalmente que teria de dizer a Myles Kearny que nem todos os clientes que ele lhe mandava eram bons de roer.

 

A notícia da prisão de Gordon Steuber caiu como uma bomba gigante, espalhando-se na zona das confecções. As linhas do telefone estavam constantemente interrompidas.

 

Não, não é por causa das lojas clandestinas. Isso toda a gente tem. São drogas. Depois surgia a grande questão. Porquê? Ele ganha milhões. Está bem que apanhou um apertão por causa das lojas ilegais, teve os federais à perna por causa da fuga aos impostos, mas uma boa equipa de advogados conseguiria arrastar isso durante anos. Mas droga!!

 

Uma hora depois já circulavam as piadas.

 

Não deixes que Neeve Kearny te tome de ponta, senão em vez de relógio de pulso passarás a usar algemas.

 

Anthony della Salva encontrava-se rodeado pelos seus atarefados colaboradores e ultimava os preparativos para a apresentação da sua linha de Outono, que se realizaria na semana seguinte. Tratava-se de uma colecção notavelmente satisfatória.

 

O rapaz novo que contratara, acabado de sair do Instituto Tecnológico de Confecções, provara ser um génio.

 

És um segundo Anthony della Salvaafirmara ele, para Roget, condescendente. E este era o maior elogio que lhe podia conceder.

 

Roget, de rosto magro, cabelo escorredio e corpo franzino, murmurou entre dentes:

 

Ou um futuro Mainbocher.

 

Contudo, retribuiu o sorriso a Sal. Tinha a certeza que no prazo de dois anos poderia estabelecer-se por conta própria. Lutara com unhas e dentes com Sal para conseguir introduziramostras da linha Recife do Pacífico como acessórios daquela colecção; lenços de pescoço e de bolso; cintos confeccionados em tons brilhantes e exóticos, formando padrões intricados, que lembravam a magia e o mistério do mundo subaquático.

 

Não quero respondera simplesmente Sal.

 

Continuava a ser a melhor coisa que fez até hoje. É a sua imagem de marca.

 

Quando a colecção ficou pronta, Sal admitiu que Roget tinha razão. Eram três e meia quando Sal soube das notícias acerca de Gordon Steuber. E as piadas. Imediatamente, telefonou a Myles.

 

Sabias que isto ia acontecer?

 

Não respondeu Myles, agastado. Não tenho de estar informado de tudo o que se passa na esquadra.

 

O tom preocupado de Sal reavivara aquela sensação de que algo de terrível estava para acontecer, que o perseguira todo o dia.

 

Então, devias informar-te retorquiu Sal. Ouve, Myles, todos sabemos que Steuber tem amigos marginais. Uma coisa é Neeve ter denunciado a existência daquelas lojas ilegais e dos trabalhadores sem visto, outra coisa completamente diferente é ela ter sido a causa indirecta de uma apreensão de droga no valor de cem milhões de dólares.

 

Cem milhões? Não conhecia esse número.

 

Então liga o rádio. A minha secretária acabou de ouvir. A questão é esta: talvez seja melhor pensares em contratar um guarda-costas para Neeve. Olha por ela. Eu sei que ela é tua filha, mas exijo o direito de me poder preocupar.

 

Claro que te deves preocupar. Vou falar com os homens lá de baixo e pensar nisso. Tentei telefonar a Neeve, mas ela já tinha saído para a 7.a Avenida. Hoje é dia de compras. Ela vai aí ver-te?

 

Normalmente, acaba por passar por aqui. E ela sabe que eu quero que ela veja a minha colecção. Vai adorar.

 

Diz-lhe para me telefonar assim que aí chegar. Diz-lhe que fico à espera da chamada dela.

 

Eu digo-lhe.

 

Myles começava a despedir-se, quando, de repente, se lembrou:

 

Como vai a tua mão?

 

Está melhor. É para aprender a não ser tão desastrado. O pior é que me sinto muito mal por te ter estragado o livro.

 

Deixa-te disso. Já secou. Além disso, Neeve tem um novo namorado que é editor. Ele vai levá-lo para o restaurar.

 

Nem penses nisso. Isso é comigo. Eu mando alguém aí buscá-lo. Myles riu-se.

 

Sal, tu podes ser um bom costureiro, mas acho que Jack Campbell é o tipo indicado para tratar disto.

 

Myles, insisto...

 

Adeus, Sal.

 

Às duas horas, Ruth e Seamus regressaram ao escritório de Peter Kennedy, para o teste no polígrafo. Peter explicara-lhes:

 

Se aceitarem que o polígrafo da polícia seja utilizado, caso cheguem a ir a tribunal, estou convencido que eles aceitarão não o processar por agressão ou por ocultação de provas.

 

Ruth e Seamus tinham passado aquelas duas horas almoçando numa pequena cafetaria da baixa. Nenhum deles dera mais que duas dentadas na sanduíche que a empregada lhes servira. Ambos pediram mais chá. Seamus quebrou o silêncio.

 

Que achaste deste advogado? Ruth evitou olhá-lo.

 

Não me parece que ele tenha acreditado em nós ergueu a cabeça e olhou-o directamente nos olhos. Mas se estás a dizer a verdade, tomámos a decisão certa.

 

O teste lembrou a Ruth o último electrocardiograma que fizera. A diferença estava em que aqueles fios destinavam-se a medir outro tipo de impulsos. O técnico do polígrafo foi cordialmente impessoal. Perguntou a Ruth a idade, onde trabalhava e coisas sobre a família. Ao falar das filhas sentiu-se mais descontraída e a sua voz exprimia orgulho.

 

Marcy... Linda... Jeannie...

 

Depois vieram as perguntas sobre a sua ida à casa de Ethel, como rasgara o cheque, tirara o punhal trazendo-o para casa, como o lavara e o escondera depois, no cesto da loja de artigos indianos na 6.8 Avenida. Quando tudo terminou, Peter Kennedy pediu-lhe que regressasse à sala de espera e mandou entrar Seamus. Nos quarenta e cinco minutos que se seguiram ficou ali sentada, imobilizada pela apreensão.

 

«Perdemos o controlo sobre as nossas vidas», pensou. «Compete agora a outras pessoas decidirem se seremos julgados e presos.»

 

A sala de espera era imponente, com o seu sofá de couro decorado com pregos dourados.

 

«Deve ter custado pelo menos uns seiscentos ou setecentos dólares.»

 

A poltrona a condizer, a mesa redonda de mogno contendo revistas, ou excelentes quadros modernos que decoravam as paredes apaineladas, tudo isto ia Ruth observando ao mesmo tempo que notava o olhar curioso que a secretária lhe dirigia.

 

«Que veria aquela mulher tão elegante e bem vestida?», perguntou-se Ruth. «Uma mulher simples, com um vestido de lã igualmente simples, sapatos práticos e o cabelo que começava a ficar desalinhado. Provavelmente, está a pensar que não teremos dinheiro para pagar tudo isto e tem razão.»

 

Aporta do corredor que conduzia ao gabinete privado de Peter Kennedy abriu-se e este apareceu com uma expressão calorosa e sorridente.

 

Por que não entra, Mrs. Lambston? Correu tudo muito bem. Quando o técnico saiu, Kennedy pôs as cartas na mesa.

 

Normalmente, eu não faria isto de ânimo leve. Mas uma vez que vocês temem que a imprensa continue a referirse a Seamus como culpado e que isso vá afectar as vossas filhas, proponho que contactemos a brigada que investiga este caso. Exijo que vos façam o teste do polígrafo imediatamente, de forma a aliviar esta onda de suspeita que vocês consideram intolerável. Mas aviso-vos: para que eles concordem com o teste, teremos de admitir que, se chegarmos a tribunal, eles apresentem os resultados do teste. Estou convencido de que eles vão entrar neste acordo. Acho que também os consigo convencer a desistirem de qualquer outra acusação.

 

Seamus engoliu em seco. Tinha o rosto brilhante como se uma camada de suor estivesse colada à pele da face.

 

Vamos a isso concordou. Kennedy levantou-se.

 

São três horas. Pode ser que ainda cheguemos a um acordo hoje. Não se importam de esperar lá fora, enquanto eu vejo o que posso fazer? Meia hora depois estava de volta.

 

Conseguimos o acordo. Vamos?

 

A segunda-feira era normalmente considerado um dia fraco para o negócio, mas Neeve comentou para Eugenia:

 

Nós não servimos de exemplo.

 

Desde que abrira a porta, às nove e meia da manhã, que a loja mantivera um movimento constante. Myles falara-lhe na preocupação que Sal manifestara acerca da má publicidade que a morte de Ethel poderia trazer à loja.

 

Mas, ao fim de trabalhar sem descanso até ao meio-dia, Neeve teve de concluir secamente:

 

Aparentemente, há muita gente que não se importaria de ser encontrada morta vestindo um fato da Loja de Neeve. Depois pediu:Telefona a encomendar uma sanduíche, está bem?

 

Quando a encomenda foi entregue no seu escritório, ela levantou os olhos e franziu a testa.

 

Oh, estava à espera de Denny. Ele não se despediu, pois não?

 

O rapaz das entregas, um rufia de 19 anos, atirou o embrulho para cima da secretária.

 

Está de folga à segunda.

 

Quando a porta se fechou atrás dele, Neeve afirmou secamente:

 

Com este não há serviço de quarto. E, cuidadosamente, retirou a tampa do recipiente fumegante.

 

Alguns minutos depois, Jack telefonava-lhe:

 

Estás bem?

 

Neeve sorriu para o aparelho.

 

Claro que estou bem. Na verdade, estou até mais que bem, estou rica. Tem sido uma manhã muito proveitosa.

 

Então, o melhor é começares a pensar em sustentar-me. Vou a caminho de um almoço com um agente que não vai ficar nada satisfeito com a oferta que lhe vou fazer. E abandonando o tom brincalhão acrescentou: Neeve, toma nota deste número. É o número do Four Seasons. Se precisares de mim nas próximas duas horas estarei lá.

 

Estou condenada a atacar uma sanduíche de atum. Traz-me um saquinho de restos.

 

Neeve, estou a falar a sério. A voz de Neeve tornou-se grave.

 

Jack, eu estou óptima. Guarda algum apetite para o jantar. Provavelmente, não te poderei telefonar antes das seis e meia ou sete horas.

 

Eugenia olhava-a com ar crítico, quando Neeve desligou o telefone.

 

O editor outra vez, presumo eu. Neeve desembrulhou a sanduíche.

 

Ah, ahconfirmou; e quando dava a primeira dentada o telefone tocou novamente.

 

Era o detective Gomez.

 

Miss Kearny, tenho estado a estudar as fotografias tiradas à falecida Ethel Lambston. Soube que teve um forte palpite que ela foi vestida depois de morta.

 

Sim.

 

Neeve sentiu a garganta contraída e pôs de lado a sanduíche.

 

Sabia que Eugenia a olhava espantada e sentiu que a cor lhe tinha fugido do rosto.

 

Partindo desse princípio, mandei ampliar bastante as fotografias. Os testes ainda não estão terminados e nós sabemos que o corpo foi deslocado depois de morto. Vai ser muito difícil ter a certeza se foi ou não vestida depois de morta, mas diga-me uma coisa, teria Ethel Lambston saído de casa com uma malha caída na meia?

 

Neeve recordou-se que reparara na larga malha caída quando identificara as roupas de Ethel.

 

Nunca.

 

Foi o que eu pensei concordou Gomez. O relatório da autópsia refere algumas partículas de nylon presas na unha do pé. A malha caiu, quando a meia estava a ser vestida. Isso significa que se Ethel Lambston se vestiu, sairia de casa usando um fato assinado e levaria umas meias defeituosas. Gostaria de conversar consigo acerca deste assunto. Vai ficar por aí?

 

Neeve desligou o telefone e pensou no que dissera a Myles pela manhã. Na sua opinião, Seamus Lambston, totalmente ignorante no que dizia respeito a roupa, nunca vestiria o corpo assassinado da exmulher daquela forma. E ainda lhe dissera mais. Que Gordon Steuber faria aquela escolha intuitivamente.

 

Ouviu-se um toque na porta e a recepcionista entrou a correr.

 

Neeve murmurou, Mrs. Poth já chegou. Sabia que Gordon Steuber foi preso?

 

Sem saber como, Neeve manteve-se calma e de sorriso atencioso, ajudou a cliente abastada a seleccionar três vestidos de noite Adolfo, cujo preço ia desde os quatrocentos dólares aos seiscentos; dois fatos DonnaKaran, um de cento e cinquenta dólares e o outro de duzentos e vinte; sapatos e carteiras a condizer. Mrs. Poth era uma mulher fina e espampanante, de sessenta e tal anos, e não mostrou qualquer interesse pelas jóias que Neeve lhe aconselhava para os fatos.

 

São amorosas, mas eu prefiro as minhas autênticas. Por fim, já afirmava:Estas são mais interessantes.E aceitou todas as sugestões de Neeve.

 

Finalmente, conduziu-a até à limusina estacionada mesmo em frente à porta. A Avenida Madison estava movimentada, repleta de compradores e de gente a passear. Parecia que todas tinham resolvido aproveitar o sol que ainda brilhava e esqueciam a temperatura inesperadamente baixa.

 

Ao virar-se para voltar à loja, Neeve reparou no homem de fato de treino cinzento, encostado à parede do prédio em frente, do outro lado da rua. O rosto pareceu-lhe familiar, mas imediatamente esqueceu aquela estranha sensação e apressou-se a entrar na loja, seguindo para o escritório. Uma vez aí, retocou a pintura dos lábios e pegou no livro de encomendas.

 

Olha pela loja recomendou a Eugenia. Eu não volto cá, por isso fecha tudo, por favor.

 

Sorrindo abertamente, parou para trocar algumas palavras com alguns clientes mais antigos e dirigiu-se para a porta principal. A recepcionista já lhe tinha arranjado um táxi.

 

Neeve entrou no carro e nem reparou que o homem de cabelo maluco à punk e de fato de treino cinzento correra para um táxi parado no outro lado da rua.

 

Doug respondeu vezes sem conta às mesmas perguntas que lhe iam fazendo de maneiras diferentes: as horas a que chegara a casa de Ethel; a razão que o levara a mudar-se para lá; a chamada ameaçadora, ordenando a Ethel que libertasse Seamus; o facto de ele se ter instalado no apartamento na sexta-feira, 31, mas só atender o telefone uma semana depois e precisamente tratar-se de uma ameaça. Porquê?

 

Repetidamente lhe disseram que era livre de sair. Tinha o direito de chamar o advogado; poderia recusar-se a responder. A isso afirmava sempre o mesmo:

 

Não preciso de nenhum advogado, não tenho nada a esconder.

 

Explicou-lhes que não atendera o telefone porque tinha medo que fosse Ethel e que o mandasse embora.

 

Eu sabia que ela tencionava ausentar-se por um mês. Precisava de um sítio para ficar.

 

Por que fizera ele um levantamento no banco de notas de cem e as escondera pela casa?

 

Pronto, é verdade que levei emprestadas algumas das notas que Ethel espalhava pela casa, mas depois devolvi-as.

 

Ele afirmara que desconhecia o conteúdo do testamento de Ethel, mas tinham encontrado as impressões digitais dele no documento. Doug começava a sentir pânico.

 

Comecei a pensar que havia algo de errado e resolvi verificar a agenda de Ethel. Vi que ela cancelara todos os compromissos que tinha marcado de sexta-feira em diante. Isso tranquilizou-me. Mas depois a vizinha veio contar-me que o chalado do ex-marido tivera uma briga com ela e que cá voltara quando eu estava a trabalhar. Depois apareceu a mulher dele que quase me arrombou a porta e rasgou o cheque da pensão de Ethel. Comecei a convencer-me que se passava realmente alguma coisa.

 

E, então concluiu o detective O’Brien, sarcástico, decidiu começar a atender o telefone e a primeira chamada que atende é precisamente uma ameaça à saúde da sua tia. E a segunda, vem do gabinete do promotor público, de Rock Island, informando-o que o corpo dela fora encontrado.

 

Doug sentia o suor escorrer nas axilas. Mexeu-se inquieto tentando encontrar uma posição mais confortável naquela cadeira de madeira dura e direita. Do outro lado da mesa, os dois detectives estudavam-no. O’Brien com aquela cara rude e balofa, Gomez de cabelo escuro, brilhante e queixo de esquilo.

 

Começo a estar farto disto declarou Doug. O rosto de O’Brien endureceu.

 

Então, vá dar uma volta, Dougie. Mas já que foi tão prestável, diga-me mais uma coisa. O tapete em frente à secretária da sua tia estava manchado de sangue. Alguém fez um óptimo trabalho ao limpá-lo. Doug, antes de arranjar este emprego, não é verdade que trabalhou no departamento de limpeza a alcatifas e mobílias do Sears?

 

O pânico provocou uma acção imediata em Doug. Deu um salto atirando a cadeira para trás, com tal violência, que esta caiu.

 

Vão-se lixar! berrou ao mesmo tempo que corria para aporta da sala.

 

Denny calculara o risco quando resolveu apanhar um táxi, assim que Neeve entrou no dela. Mas os motoristas eram curiosos. Era mais sensato apanhar um carro, fingir que estava sem fôlego e dizer:

 

Um patife qualquer roubou-me a bicicleta. Siga aquele táxi, sim? Se não entrego este sobrescrito àquela mulher, a minha cabeça vai rolar.

 

O motorista era vietnamita. Acenou indiferente, e habilmente ultrapassou um autocarro, subiu a Avenida Madison, cortando na Rua 85. Denny aninhou-se num canto com a cabeça baixa. Não queria que o motorista o pudesse ver com clareza, através do espelho retrovisor. A única vez que o condutor abriu a boca foi para comentar:

 

Imbecis. Até a mãe deles eram capazes de roubar.

 

«Este chino fala muito bem inglês», pensou Denny com azedume. Entre a 1.a Avenida e a Rua 36 o táxi da frente conseguiu passar o semáforo e eles perderam-no.

 

Lamento muito desculpou-se o motorista.

 

Denny calculou que Neeve deveria sair no quarteirão seguinte, pois o carro não conseguiria avançar com todo aquele trânsito.

 

Pois bem, eles que me despeçam. Pelo menos tentei.

 

Pagou ao motorista e começou a subir em direcção à parte alta da cidade. Olhando de lado, viu que o carro arrancara de novo, seguindo para a 1.a Avenida. Rapidamente, Denny mudou de direcção e correu pela Rua 36, em direcção à 7.a Avenida.

 

Como de costume, as ruas adjacentes àquela avenida exibiam uma actividade intensa, característica daquela zona. Os camiões, à espera de serem descarregados, paravam em filas duplas ao longo da estrada, provocando um engarrafamento de trânsito. Os mensageiros passavam nos seus skates, abrindo caminho por entre os peões; os mandaretes, indiferentes tanto aos peões, como aos veículos, empurravam pesados expositores carregados de roupa. Os condutores apitavam. Homens e mulheres, elegantemente vestidos, movimentavam-se com rapidez, falavam excitadamente, perfeitamente indiferentes às pessoas e ao trânsito que os rodeava.

 

«O lugar ideal para um golpe», concluiu Denny, satisfeito. A meio do quarteirão, viu um táxi encostar perto da esquina e Neeve Kearny saiu do carro. Antes de Denny se conseguir aproximar, ela entrou no edifício em frente. Denny postou-se do outro lado da rua, esperando, escondido por um dos enormes camiões ali parados.

 

«Em vez de teres escolhido essas roupas tão elegantes, era melhor que tivesses encomendado a tua mortalha, Neeve Kearny», murmurou para si próprio.

 

Jim Greene, de 30 anos de idade, fora recentemente promovido a detective. A sua capacidade em avaliar situações e instintivamente, optar pela atitude certa, recomendara-o aos olhos dos seus superiores, no Departamento da Polícia.

 

Agora fora-lhe confiada a aborrecida, mas importante tarefa de guardar a cama do hospital onde o agente Tony Vitale se encontrava. Não era um trabalho que alguém lhe invejasse. Se Tony estivesse num quarto particular, Jim poderia restringir a sua vigia à porta deste. Mas na unidade de cuidados intensivos era obrigado a ficar sentado no cubículo reservado às enfermeiras. Aí, durante o seu turno de oito horas, era constantemente confrontado com a fragilidade dos fios que prendem o ser humano à vida; e assim que um dos monitores, de repente, disparava um alarme, o pessoal do hospital corria, a tentar travar a morte.

 

Jim era magro e mal atingia a altura média, o que lhe permitia não ser um estorvo dentro daquela área reduzida. Após quatro dias de vigília, as enfermeiras deixaram de o tratar como um intruso. E todas pareciam preocupar-se particularmente com aquele polícia jovem e duro que lutava pela vida.

 

Jim sabia a coragem necessária para se trabalhar sob disfarce, partilhando a mesa com assassinos impiedosos, saber que a qualquer momento se pode ser desmascarado. Ele estava a par da possibilidade de Nicky Sepetti ter mandado matar Neeve Kearny e do alívio que todos sentiram, quando Tony conseguira dizer: «Nicky... não mandou... matar Neeve Kearny...»

 

Jim estava de serviço, quando o comissário da polícia e Myles Kearny visitaram o doente e tivera a oportunidade de apertar a mão a Myles, a Lenda. Kearny trabalhara para aquele título. Depois de a esposa ter morrido daquela forma, ele devia sofrer horrores, sem saber se Sepetti condenara igualmente a filha.

 

O comissário informou-o que a mãe de Tony estava convencida que ele queria dizer alguma coisa. As enfermeiras tinham instruções para chamar Jim assim que Tony mostrasse vontade de falar.

 

E isso aconteceu às quatro horas da tarde de segunda-feira. Os pais de Vitale tinham acabado de sair, com o cansaço espalhado no rosto, atenuado pelo brilho da esperança.

 

Ultrapassando todas as previsões, Tony encontrava-se agora livre de perigo. A enfermeira entrou para verificar se tudo estava em ordem. Através do vidro, Jim observava-a, e, então, vendo que ela lhe acenava, avançou rapidamente.

 

Gota a gota, a glucose penetrava no braço de Tony e o oxigénio era-lhe administrado através dos tubos que lhe tapavam as narinas. Os lábios de Tony mexiam-se. Murmurou uma palavra.

 

Está a dizer o nome dele afirmou a enfermeira para Jim.

 

Jim abanou a cabeça. Baixando-se, aproximou o ouvido dos lábios de Tony e ouviu:

 

Kearny... e depois um fraco. Nee... Pegou na mão de Vitale.

 

Tony, eu sou polícia. Acabaste de dizer o nome de Neeve Kearny, não foi? Aperta a minha mão se foi isso.

 

Foi recompensado por uma leve pressão na palma da sua mão.

 

Tonycontinuou, quando entraste aqui tentaste falar de um contrato. É acerca disso que queres falar?

 

Está a perturbar o doente protestou a enfermeira. Jim olhou-a por um instante.

 

Ele é polícia. Um bom polícia. Ficará muito melhor depois de dizer o que tem a dizer.

 

Repetiu a pergunta ao ouvido de Vitale.

 

De novo sentiu uma leve pressão na palma da mão.

 

Está bem. Queres dizer-nos qualquer coisa sobre Neeve Kearny e um contrato. Jim reviu em pensamento as palavras que sabia que Tony pronunciara ao entrar no hospital. Tony, tu disseste que Nicky... não fez nenhum contrato. Talvez isso fosse apenas uma parte do que querias dizer. E Jim teve, então, um pensamento que o gelou. Tony, estás a tentar dizer que Sepetti não arranjou nenhum contrato, mas que outra pessoa o fez?

 

Passou um breve instante e então sentiu a sua mão a ser agarrada convulsivamente.

 

Tony rogou Jim, tenta. Eu estou a olhar para os teus lábios. Se sabes quem foi, tenta dizer-mo.

 

Era como se a pergunta daquele polícia ecoasse através de um túnel. Tony Vitale sentia um profundo alívio por ter conseguido transmitir aquele aviso. Agora podia ver nitidamente Joey dizendo a Nicky que fora Steuber quem o ordenara. Faltava-lhe a voz, mas era capaz de mexer os lábios lentamente, colocando-os de maneira a formar a sílaba «Stu-e» e, depois, soltando o som «ber».

 

Jim observava-o atentamente.

 

Acho que é qualquer coisa como Tru... A enfermeira interrompeu-o.

 

Cá para mim foi Stuber.

 

Com um esforço final, antes de mergulhar num sono profundo e necessário, o detective à paisana Tony Vitale apertou a mão de Jim e conseguiu confirmar com a cabeça.

 

Depois de Doug Brown ter saído da sala de interrogatórios, os agentes Gomez e O’Brien debateram os factos daquele caso, tal como eram conhecidos. Concordaram que Douglas Brown era um crápula; que a sua história era muito duvidosa; que o mais provável era ele roubar a tia; que a história que contava para não atender o telefone era uma patranha; que devia ter entrado em pânico quando começara com aquela história das ameaças a Ethel, precisamente na altura em que o corpo dela era encontrado.

 

O’Brien recostou-se na cadeira e tentou apoiar os pés em cima da mesa. Aquela era, como ele dizia, a posição de reflexão, que costumava adoptar na sua secretária. Mas aquela mesa era alta de mais para ser confortável e, aborrecido, deixou os pés escorregar para o chão, resmungando contra o maldito mobiliário. Então continuou:

 

Aquela Ethel Lambston tinha sorte com as pessoas. O ex-marido é um palerma, o sobrinho um ladrão. Mas dos dois pulhas eu diria que foi o ex-marido que acabou com ela.

 

Gomez observou o companheiro cautelosamente. Já formara algumas ideias sobre o assunto e desejava transmiti-las gradualmente. Quando começou a falar, foi como se de repente lhe tivesse ocorrido aquele pensamento:

 

Vamos imaginar que ela foi morta em casa. O’Brien resmungou uma anuência.

 

Gomez continuou:

 

Se tu e Miss Kearny tiverem razão, alguém teve de mudar a roupa a Ethel, alguém cortou as etiquetas, alguém, provavelmente, teve de destruir as malas e a bolsa.

 

De olhos semicerrados, mas atentos, O’Brien concordou.

 

A questão é esta... Gomez sabia que chegara a hora de revelar a sua teoria. Por que iria Seamus esconder o corpo? Foi pura sorte ter sido descoberto tão depressa. Ele teria de continuar a enviar a pensão para o contabilista dela. Ou por que razão iria o sobrinho esconder o corpo e evitar que ela fosse identificada? Se Ethel apodrecesse naquele buraco, ele teria de esperar sete anos para receber a herança e, mesmo então, teria de enfrentar uma data de preceitos legais e de despesas. Se um dos dois o fizesse, quereria que o corpo fosse encontrado, certo?

 

O’Brien ergueu a mão.

 

Não acredites que aquela gente tenha miolos. Só temos que continuar a apertar com eles, pô-los nervosos e, mais tarde ou mais cedo, um deles dirá: «Eu não o fiz de propósito.» Eu continuo a apostar no marido. Queres cinco notas contra o sobrinho?

 

Gomez foi salvo de fazer a sua escolha pela campainha do telefone. O comissário da polícia queria ver imediatamente os dois detectives no seu escritório.

 

Já no carro-patrulha, a caminho da baixa, tanto O’Brien como Gomez tentaram relembrar todas as diligências efectuadas naquele caso. O comissário andava em cima deles. Teriam feito alguma asneira? Eram quatro e um quarto, quando entraram no gabinete.

 

O comissário Herbert Schwartz escutava enquanto o debate prosseguia. O detective O’Brien opunha-se firmemente à concessão de imunidade, ainda que limitada, a Seamus Lambston.

 

Senhor argumentava para Herb numa voz diferente, tenho quase a certeza que foi o ex-marido. Deixe-os andar. Dê-me três dias e eu resolvo o caso.

 

Herb estava quase a decidir-se em favor dele, quando a sua secretária entrou no gabinete. Apressado, ele desculpou-se e saiu para a sala anexa. Cinco minutos depois, estava de volta.

 

Acabei agora de saber declarou, calmamente, que Gordon Steuber pode ter feito um contrato para abater Neeve Kearny. Vamos interrogá-lo imediatamente. Neeve denunciou-lhe as lojas ilegais e foi isso que despoletou toda a investigação que culminou com a apreensão da droga, por isso faz sentido. Mas Ethel Lambston pode igualmente ter descoberto as actividades dele. Portanto, agora temos uma hipótese muito forte de ver Steuber envolvido na morte de Ethel Lambston. Eu quero que o marido seja acusado ou ilibado deste assassínio. Vamos fazer o tal acordo com o advogado. E façam-lhe o teste do polígrafo ainda hoje.

 

Mas...

 

Perante a expressão do comissário, O’Brien não terminou a frase.

 

Uma hora depois, em duas salas separadas, Gordon Steuber, que ainda não conseguira os dez milhões de dólares para a fiança, e Seamus Lambston eram interrogados. O advogado de Steuber atarefava-se a seu lado, enquanto o detective O’Brien disparava as perguntas.

 

Sabe de algum contrato feito à cabeça de Neeve Kearny? Gordon Steuber, impecável, apesar das horas passadas na prisão, tentando digerir a gravidade da sua situação, soltou uma gargalhada.

 

Devem estar a brincar. Mas não deixa de ser uma ideia maravilhosa.

 

Na sala ao lado, Seamus, sob imunidade limitada, depois de contar a sua história, era ligado ao aparelho do polígrafo pela segunda vez naquele dia. Seamus repetia para si próprio que aquele era igual ao outro e que ele passara no primeiro. Mas não era a mesma coisa. As caras duras e hostis dos agentes, a pequena sala claustrofóbica, a certeza de que eles o olhavam como culpado, aterrorizaram-no. As palavras de encorajamento do advogado não ajudaram. Ele sabia que fora um disparate ter aceite fazer aquele teste.

 

Seamus mal conseguiu responder às questões mais simples. Ao chegar ao último encontro com Ethel, sentiu-se como se estivesse de novo na frente dela, olhando-lhe o rosto trocista, sabendo que ela se deliciava com a sua pobreza, sabendo que ela nunca o libertaria. A raiva começou a crescer dentro dele, tal como naquela tarde. As perguntas tornavam-se casuais.

 

Você agrediu Ethel Lambston. O seu punho atingindo-a no queixo. A cabeça a cair para trás.

 

Sim, sim.

 

Ela pegou no punhal de abrir as cartas e tentou atacá-lo.

 

O ódio na cara dela. Não. Era necessário. Ela sabia que o tinha na mão. Gritara-lhe: «Eu meto-te na prisão, seu gorila.»

 

Ela alcançara o punhal e ameaçara-o. Ele torceu-lhe a mão e ela feriu-se no rosto. Foi então que ela leu nos olhos dele o que ele sentia, e declarou: «Está bem, está bem, acabou-se a pensão.»

 

Depois:

 

Foi você que matou a sua ex-mulher Ethel Lambston? Seamus fechou os olhos.

 

Não, não. Peter Kennedy não precisou que o detective O’Brien lhe confirmasse o que ele já pressentira. Perdera o jogo.

 

Seamus falhara o teste do detector de mentiras.

 

Herb Schwartz escutava, de rosto impassível e olhar cansado, pela segunda vez naquele dia, os detectives O’Brien e Gomez.

 

Durante aquela hora, Herb agonizara, sem saber se deveria ou não dizer a Myles que suspeitavam que Steuber ordenara a morte de Neeve. Sabia que isso poderia ser o suficiente para desencadear novo ataque cardíaco.

 

Se realmente Steuber ordenara a morte dela, seria tarde de mais para o impedir? Herb sentiu o estômago contrair-se ao perceber a resposta mais evidente. Sim, se Steuber iniciara o processo, este teria passado por seis ou sete intermediários antes de o negócio ficar ultimado. O homem contratado nunca viria a saber quem lhe pagava. E podiam recorrer até a alguém de fora, que mal executasse o seu trabalho, desapareceria num instante.

 

«Neeve Kearny. Meu Deus!», pensou Herb. «Não posso deixar que isso aconteça.» Quando Renata foi assassinada, ele tinha 34 anos e era comissário-adjunto. Até morrer nunca esqueceria a expressão de Myles ao ajoelhar-se ao lado do corpo da mulher.

 

E agora a filha?

 

A teoria que poderia ligar Steuber à morte de Ethel já não parecia válida. O ex-marido falhara o detector de mentiras e O’Brien não escondia que o considerava o assassino. Herb pediu a O’Brien que expusesse novamente as suas razões.

 

O dia fora longo. Irritado, O’Brien encolheu os ombros e depois, perante o olhar de aço que o comissário lhe dirigiu, obedeceu com deferência. Falou como se se encontrasse no banco das testemunhas a prestar declarações contra Seamus Lambston.

 

Ele está falido. Desesperado. Teve uma briga monumental com a mulher por causa de um cheque devolvido. Foi visitar Ethel. A vizinha, quatro andares acima, consegue ouvi-los discutir. Ele não pôs os pés no bar durante o fim-de-semana. Ninguém o viu. Conhece o Parque Morrison como a palma das mãos, pois costumava ir para lá com as filhas aos domingos à tarde. Dois dias depois escreve uma carta a Ethel, agradecendo tê-lo libertado do pagamento da pensão e nela incluiu o cheque que não devia ter mandado. Volta lá para o recuperar. Admite ter ferido e agredido Ethel. Provavelmente, confessou tudo à mulher, pois ela acaba por roubar a arma do crime e livra-se dela.

 

Já a encontraram? interrompeu Schwartz.

 

Os nossos homens andam agora à procura dela. E, senhor, a última, é que falhou no teste do polígrafo.

 

E passou naquele que fez no escritório do advogado retorquiu Gomez. Sem olhar para o companheiro, Gomez decidiu que era altura de dizer o que pensava. Senhor, falei com Miss Kearny. Ela tem a certeza que havia qualquer coisa de errado no fato que Ethel usava. A autópsia mostra que a vítima rasgou a meia ao calçá-la. Quando os collants passaram pelo pé direito, a unha apanhou uma malha e rompeu-a na frente. Miss Kearny está convencida de que Ethel Lambston nunca sairia de casa com a meia assim. Eu respeito a opinião dela. Uma mulher tão preocupada em andar na moda, não sairia de casa assim vestida, quando em dez segundos poderia calçar outras meias.

 

Têm aí o relatório da autópsia e as fotografias do corpo? perguntou Schwartz.

 

Sim, senhor.

 

Quando lhe entregaram o sobrescrito, Herb estudou as fotografias com pormenor clínico. A primeira mostrava a mão saída do buraco, depois o corpo já removido da caverna, dobrado pelo rigor mortis, transformado numa bola dupla de carne apodrecida. Seguiam-se pormenores do queixo púrpura, negro e azul, e do golpe ensanguentado da face.

 

Herb virou para outra. Esta focava apenas a zona entre o queixo de Ethel e o fim do pescoço. O golpe horrível e rasgado fez Herb estremecer. Ainda que se encontrasse ao serviço da polícia havia muitos anos, a observação terrível da crueldade humana para com o seu semelhante, continuava a incomodá-lo.

 

Mas havia qualquer coisa mais.

 

Herb fincou os dedos convulsivamente, agarrando a fotografia. Aforma como a garganta fora cortada. Aquele golpe longo e a linha direita desde a base da garganta à orelha esquerda. Ele já vira um golpe igual àquele. Pegou no telefone.

 

O choque que sentiu não perturbou o tom de voz do comissário Schwartz ao pedir calmamente que lhe trouxessem uma determinada pasta do arquivo.

 

Neeve não tardou a dar conta que não estava nada concentrada nas compras que tinha de fazer. Fez a primeira paragem no Gardener Separates. Os calções e camisolas com jaquetas soltas contrastantes formavam conjuntos divertidos e tinham um bom corte. Podia imaginar a montra principal da sua loja com aquelas peças, evocando uma cena na praia, lá para meados de Junho. Mas depois de tomar essa decisão sentiu-se incapaz de se concentrar no resto da colecção e sentindo que o tempo escasseava marcou nova entrevista para a segunda-feira seguinte. Apressou-se a afastar-se daquele empregado ansioso e insistente que lhe rogava: «Por favor, veja os nossos fatos de banho. São o máximo. Vai adorar.»

 

Quando se viu no passeio, Neeve hesitou. «Dava tudo para ir para casa», pensou. «Preciso de ficar sossegada.»

 

Percebeu que a cabeça lhe começava a doer e sentia como que uma faixa a toda a volta da cabeça que a comprimia.

 

«Eu nunca tenho dores de cabeça», admirou-se ela enquanto se mantinha indecisa à porta do prédio.

 

Não podia ir para casa. Mesmo antes de entrar no carro, Mrs. Poth pedira-lhe para lhe arranjar um vestido branco e simples, que servisse para um pequeno casamento em família.

 

«Nada de complicado», explicara ela. «A minha filha já rompeu dois noivados. O padre até já marca a data dos casamentos a lápis. Mas pode acontecer que desta vez o faça.»

 

Neeve tencionava procurar o vestido em várias casas. Começou por virar à direita, mas depois parou. Talvez na outra loja arranjasse melhor. Ao mudar de direcção olhou directamente para o outro lado da rua. Um homem de fato de treino cinzento, com um grande sobrescrito debaixo do braço, óculos escuros e penteado à punk, corria na sua direcção através do trânsito engarrafado. Por instantes, os seus olhares cruzaram-se e Neeve sentiu uma sensação de alarme dentro de si. Acentuou-se a pressão à volta da cabeça. Um camião avançou e tapou o mensageiro. Subitamente, Neeve irritou-se consigo própria e em passo apressado começou a descer o quarteirão.

 

Eram quatro e meia. A luz do Sol escondera-se por detrás de pesadas e escuras nuvens. Neeve deu por si a rezar para que na loja seguinte conseguisse encontrar um vestido como queria.

 

«Depois», decidiu, «desisto do resto e vou visitar o tio Sal.»

 

Desistira de explicar a Myles que a blusa que Ethel trazia era importante. Mas Sal entenderia.

 

Depois do almoço, Jack Campbell dirigiu-se directamente para a reunião editorial que o ocupou até às quatro e meia. Uma vez de regresso ao gabinete, tentou concentrar-se na pilha de correspondência que Genny lhe separara, mas depressa verificou que era impossível. Não conseguia afastar aquela sensação de que algo de terrivelmente errado lhe tinha escapado. Que seria? Ginny, parada na soleira da porta que separava o cubículo onde trabalhava do gabinete de Jack, observava-o, pensativa.

 

Passado um mês de Jack ter assumido a presidência da Giwons and Marks, ela já se afeiçoara completamente a ele e rendera-lhe a sua admiração. Depois de vinte anos ao serviço do predecessor dele, Ginny sentira um certo receio de não conseguir adaptar-se à mudança, ou que Jack preferisse substituí-la.

 

Mas nada disso acontecera. Agora, ao observá-lo, interiormente apreciando o fato escuro de bom gosto, verificou, divertida, que ele alargara o nó da gravata e desapertara o colarinho, e, no entanto, parecia profundamente preocupado.

 

Apoiara o queixo nas mãos entrelaçadas e olhava para a parede, de testa enrugada. «Teria a reunião de editores corrido mal?», perguntou-se. Sabia que havia ainda muita gente desejosa de ver Jack crucificado naquele cargo de chefia.

 

Bateu na porta aberta. Jack olhou-a, fazendo um esforço para regressar à realidade.

 

A meditação é assim tão profunda? perguntou ela, descontraída. Se é, acho que o correio pode esperar.

 

Jack tentou sorrir.

 

Não. É este assunto da Ethel Lambston. Há qualquer coisa que não me sai da cabeça e tenho virado os miolos do avesso para tentar descobrir o que é.

 

Ginny sentou-se na ponta de uma cadeira, na frente de Jack.

 

Talvez eu possa ajudar. Recordemos o dia em que Ethel cá veio. Só cá esteve uns dois minutos, e como a porta estava aberta, eu ouvi tudo. Ela gabou-se de conhecer um escândalo capaz de arrasar o mundo da alta costura, mas não especificou absolutamente nada. Ela queria falar de dinheiro e você adiantou-lhe um número. Acho que não me escapou nada.

 

Jack suspirou.

 

Parece que não. Mas já lhe digo o que vou fazer. Traga-me a pasta que Toni mandou. Talvez descubra alguma coisa nos apontamentos de Ethel.

 

Às cinco e meia, quando Genny espreitou pela porta, para se despedir, Jack acenou-lhe, distraído. Continuava mergulhado nas volumosas anotações de Ethel. Para cada costureiro mencionado no artigo, ela organizara ficheiros paralelos, contendo informações biográficas e dúzias de fotocópias de artigos extraídos de jornais e revistas, tais como o Times, o W, a Women’s Wear Daily, a Vogue e a Harper’s Bazar.

 

Era óbvio que fizera uma pesquisa meticulosa. As entrevistas aos costureiros continham diversas anotações. Verificar estes números; nunca ganhou este prémio; tentar perguntar à governadora se é verdade que ela lhe fazia os vestidos para as bonecas...

 

Havia dezenas de rascunhos do artigo de Ethel, com cortes ou com acréscimos em cada versão.

 

Jack passou os olhos pelo resto do material, quando deparou com o nome de Gordon Steuber. Steuber. Ethel vestia um fato assinado por ele quando foi encontrada. Neeve insistira tanto no facto da blusa, que embora pertencendo inicialmente ao conjunto, nunca seria escolhida por Ethel de uma forma espontânea ou voluntária. Examinou com atenção e minúcia o material de Gordon Steuber e ficou alarmado ao ver com que frequência o nome dele vinha mencionado nos jornais a propósito da investigação a que estava a ser sujeito. No artigo, Ethel elogiara Neeve por ter denunciado Steuber. Um dos rascunhos não só mencionava as lojas ilegais e a fuga ao fisco, como continha a frase: Steuber começou no negócio do pai, casacos de pele. Não há memória, no mundo da alta costura, de alguém que conseguisse ganhar tanto dinheiro, no espaço de dois anos, como o «vivaço» Mr. Steuber.

 

Ethel sublinhara a palavra vivaço e escrevera a anotação cortar. Ginny contara a Jack que Steuber fora preso por tráfico de droga. Teria Ethel descoberto semanas antes, que Steuber traficava heroína nos forros e bainhas da roupa que importava?

 

«Isso faz sentido», concluiu Jack. «Ajusta-se perfeitamente à afirmação de Neeve, acerca das roupas que Ethel trazia. Ajusta-se àquilo que Ethel considerava um grande escândalo.»

 

Jack hesitou sem saber se deveria telefonar a Myles, para depois decidir mostrar primeiro a Neeve o que descobrira.

 

Neeve. Seria realmente possível só a ter conhecido há seis dias? Não, seis anos. Desde o primeiro dia em que se encontraram no avião que ele a esperava. Olhou para o telefone. A urgência que sentia em encontrar-se com ela era irreprimível. Nem sequer a chegara a abraçar, e agora os seus braços ardiam de desejo de o fazer. Ela prometera-lhe telefonar da loja do tio Sal, assim que estivesse despachada.

 

Sal, Anthony della Salva, o famoso costureiro. A pilha de papéis, desenhos e artigos que se seguiam eram-lhe dedicados. Olhando de relance para o telefone e desejando ardentemente que Neeve telefonasse naquele momento, Jack foi desfolhando o processo dedicado a Anthony della Salva. Havia imensas ilustrações da colecção Recife do Pacífico. «Já percebo por que razão as pessoas ficaram tão entusiasmadas», concluiu Jack. «E não entendo nada de moda.»

 

Os vestidos e os fatos pareciam flutuar para fora das fotografias. Leu os comentários dos jornalistas da especialidade.

 

«Túnicas elegantes com panos soltos caindo a partir dos ombros como asas... Mangas diáfanas de finíssimo chiffon... Vestidos de passeio simples, feitos em lã, elegantes e subtilmente realçando as formas do corpo...» E os críticos tornavam-se líricos no elogio às cores utilizadas.

 

Anthony della Salva visitou o Aquário de Chicago no início de

1972 e aí encontrou a sua inspiração, na beleza marinha, do Recife do Pacífico, ali em exposição.

 

Durante horas caminhou pelas salas estudando o reino subaquático, onde as criaturas marinhas, magnificamente coloridas, se encontram rodeadas por uma vegetação perfeita de claustros de coral e centenas de conchas de cores requintadas. Aplicou essas mesmas cores nos padrões, numa imitação da natureza. Estudou o movimento dos seres marinhos e conseguiu captá-lo com a sua tesoura, e reproduzir a graça de movimentos que lhes é característica.

 

«Senhoras, escondam no fundo do armário esses fatos de corte masculino, esses vestidos de noite de mangas direitas e saias rodadas. Este é o ano dedicado à vossa beleza. Obrigado, Anthony della Salva.»

 

«Suponho que ele é mesmo bom», reflectiu Jack, reunindo o processo della Salva. Aquela sensação que o incomodava! Que seria? Lera o rascunho final do artigo. Agora tinha diante de si uma versão anterior do artigo. Encontrava-se profusamente anotado: Aquário de Chicago, verificar a data em que ele o visitou. Ethel anexara uma das imagens da colecção Recife do Pacífico no topo do rascunho. Ao lado esboçara um desenho.

 

Jack sentiu a boca secar.

 

Ela vira aquele desenho recentemente! Ela vira-o nas páginas manchadas do livro de cozinha de Renata Kearny.

 

E o Aquário, verificar a data. Claro! Com horror cada vez maior, verificou que tudo se encaixava. Mas tinha de ter a certeza. Eram quase seis horas, o que significava que em Chicago seriam quase cinco. Rapidamente, discou o número das informações da zona de Chicago.

 

Às cinco menos um, hora de Chicago, o número que discara obteve resposta.

 

Por favor, telefone ao director amanhã de manhã ordenou-lhe uma voz impaciente.

 

Diga-lhe o meu nome. Ele conhece-me. Tenho de falar imediatamente com ele e deixe-me dizer-lhe uma coisa, minha senhora, se venho a saber que ele está aí, pode dizer adeus ao seu emprego.

 

Vou fazer a ligação, senhor.

 

Um instante depois ouviu uma voz surpreendida perguntar:

 

Jack! Passa-se alguma coisa?

 

Jack fez a pergunta e reparou que tinha as mãos húmidas.

 

«Neeve», pensava, «Neeve, tem cuidado.» Olhou para o artigo de Ethel e viu que onde ele escrevera: «Nós te saudamos, Anthony della Salva, por teres criado a linha Recife do Pacífico», por cima do nome de della Salva emendara criador da linha Recife do Pacífico.

 

A resposta do director do Aquário de Chicago não deixou de o aterrorizar, ao ouvir a confirmação:

 

Tens toda a razão. E sabes o mais engraçado? És a segunda pessoa que me telefona em duas semanas a perguntar o mesmo.

 

Sabes quem foi a outra? perguntou Jack, antecipando a resposta.

 

Claro que sei. Foi uma escritora. Edith... não, Ethel. Ethel Lambston.

 

Inesperadamente, Myles teve um dia muito agitado. Às dez horas o telefone tocou. Estaria ele disponível ao meio-dia para conversar acerca do cargo que lhe fora oferecido em Washington? Concordou em almoçar no Oak Room do Plaza. Ao fim da manhã, dirigiu-se ao Clube Athletic para umas massagens e para nadar um pouco, e, intimamente, regozijou-se ao ouvir o massagista comentar: «Comissário Kearny, o seu corpo está de novo em forma.»

 

Myles sabia que a pele tinha perdido aquele tom baço e pálido. Mas não era só a aparência. Sentia-se feliz.

 

«Posso ter 68 anos», pensou enquanto fazia o nó da gravata no vestiário. «Mas não há dúvida que estou conservado.

 

»Pelo menos eu acho que estou conservado», decidiu, desanimado, enquanto esperava pelo elevador. «Mas uma mulher pode não pensar o mesmo. Ou, mais precisamente», admitiu, enquanto saía para a parte sul de Central Park, em direcção à 5.a Avenida e ao Plaza, «Kitty Conway pode não achar o mesmo.»

 

O almoço com o representante do presidente tinha um objectivo. Myles tinha de dar uma resposta definitiva. Aceitava ou não a chefia do Departamento Antidroga? Myles prometeu dar uma resposta nas quarenta e oito horas seguintes.

 

Esperamos que a resposta seja afirmativadisse-lhe o adjunto. O senador Moynihan pensa que assim será.

 

Myles sorriu.

 

Nunca falei com Pat Moynihan.

 

Foi ao regressar ao apartamento que sentiu que aquela sensação de bem-estar desaparecera.

 

Deixara a janela da sala aberta. Quando entrou, um pombo voou para dentro da sala, deu uma volta, pousou no parapeito e novamente voou para o Hudson.

 

Um pombo dentro de casa é sinal de morte.

 

As palavras da mãe martelavam-lhe os ouvidos.

 

«Que superstição tão idiota», zangou-se Myles. Mas não conseguia livrar-se daquela angústia persistente. Percebeu que queria falar com Neeve. Rapidamente, discou o número da loja.

 

Foi Eugenia quem atendeu.

 

Comissário, ela acabou de sair para a 1.a Avenida. Se quiser, posso tentar localizá-la.

 

Não, não é nada importante respondeu Myles. Mas se ela telefonar, diz-lhe para me ligar.

 

Acabara de pousar o auscultador quando o telefone tocou. Era Sal, afirmando que também ele estava preocupado com Neeve.

 

Na meia hora que se seguiu, Myles pensou em telefonar a Herb Schwartz. Mas para quê? A verdade é que Neeve nem sequer era testemunha no caso de Steuber. Mas fora ela que o apontara e provocara a investigação em curso. Myles admitiu que a apreensão de cem milhões de dólares em droga, era razão suficiente para levar Steuber e os seus cúmplices a exigirem vingança.

 

«Talvez eu consiga convencer Neeve a mudar-se para Washington comigo», pensou Myles, rejeitando imediatamente a ideia como ridícula. Neeve tinha a sua vida organizada em Nova Iorque, o seu negócio. Agora, se era verdade que conhecia alguma coisa acerca do ser humano, ela tinha Jack Campbell.

 

«O melhor é esquecer Washington», concluiu Myles, caminhando pela sala. «Tenho de ficar aqui a vigiá-la. Quer ela queira, quer não vou arranjar-lhe um guarda-costas.»

 

Esperava Kitty Conway por volta das seis. Às cinco e um quarto dirigiu-se ao quarto, despiu-se, tomou um duche no quarto de banho privado e, cuidadosamente, escolheu o fato, a camisa e a gravata para levar ao jantar. Às seis menos vinte estava pronto.

 

Havia muito tempo que descobrira que o trabalho manual tinha nele um efeito calmante, quando se defrontava com problemas difíceis. Por isso decidiu que os vinte minutos que dispunha seriam dedicados a tentar consertar o cabo que se soltara da cafeteira.

 

Deu conta que olhava outra vez para o espelho com ansiedade. Tinha o cabelo completamente branco, mas mantinha-se abundante. Não havia tonturas na família. E que diferença fazia, afinal? Que razão levaria uma mulher bonita e dez anos mais nova, a interessar-se por um antigo comissário de polícia com um coração defeituoso.

 

Evitando continuar a pensar nisso, Myles olhou para o quarto, para a cama de painéis, para o armário, para a cómoda com espelho, tudo peças antigas, oferecidas como prenda de casamento pela família de Renata.

 

Ao olhar para a cama, recordou Renata, encostada às almofadas, com Neeve, ainda bebé, ao peito.

 

«Cara, cara mia», murmurava ela, roçando os lábios na testa da filha.

 

Myles agarrou-se à cama, ao recordar o aviso de Sal.

 

«Toma conta de Neeve.»

 

«Deus do céu, Nicky Sepetti dissera: Toma conta da tua mulher e da tua filha.

 

»Já chega», cortou Myles para si próprio, saindo do quarto em direcção à cozinha. «Estás a ficar um velhote medroso com medo até da própria sombra.»

 

Uma vez na cozinha, descobriu entre tachos e panelas, a cafeteira que escaldara a mão de Sal. Tirou-a, trouxe-a para a sala, pousou-a em cima da secretária, foi buscar o estojo das ferramentas e instalou-se, preparado para assumir o papel, que Neeve, trocista, chamava, de Sr. Arranja-Tudo.

 

Um segundo mais tarde, verificava que o cabo não estava solto devido a algum parafuso mal apertado.

 

Então, em voz baixa, exclamou:

 

Isto é absolutamente inacreditável!

 

Tentou recordar-se precisamente do que acontecera na noite em que Sal se queimara.

 

Na manhã de segundafeira, Kitty Conway acordou com uma sensação de euforia que já não sentia há muito tempo. Recusando, determinada, a tentação de voltar a adormecer, vestiu o fato de treino e correu através de Ridgewood das sete às oito horas.

 

As árvores que orlavam as largas avenidas exibiam um tom avermelhado que anunciava a chegada da Primavera. Ainda na semana anterior, ao passar ali, ao reparar nos botões que rebentavam nas árvores, pensara em Mike e lembrara-se da instância de um poema:

 

Que pode a Primavera fazer; a não ser renovar; a minha saudade de ti?

 

Ainda na semana anterior, olhara com nostalgia uma jovem esposa e um garoto que acenavam ao jovem marido, enquanto este retirava o carro da alameda e se afastava. Parecia-lhe que fora ontem que segurava Michael no colo e acenava um adeus a Mike.

 

«Ontem... ou trinta anos antes?!»

 

Hoje sorria distraída ao passar pelos vizinhos, de regresso a casa. Tinha de estar no museu ao meio-dia. Às quatro voltaria a casa, mesmo a tempo de se arranjar e partir para Nova Iorque. Pensou em ir ao cabeleireiro, mas acabou por decidir que em casa conseguiria melhor resultado.

 

«Myles Kearny.»

 

Kitty procurou no bolso a chave de casa, entrou e suspirou profundamente. Fazia bem correr, mas... oh, Deus, não havia dúvidas que a fazia sentir-se com cinquenta e oito anos.

 

Obedecendo a um impulso, abriu o armário do vestíbulo e olhou para o objecto que Myles deixara esquecido. Assim que o descobrira, soube que se tratava de um pretexto para a tornar a ver. Pensou no capítulo do The Good Earth, onde o marido deixara o cachimbo, como sinal que tencionava regressar aos aposentos da mulher naquela noite. Kitty sorriu, fez uma vénia ao chapéu, e dirigiu-se para o chuveiro.

 

O dia passou num instante. Às quatro e meia encontrava-se indecisa entre dois fatos; um de lã negra, de corte simples e decote quadrado, que realçava a sua figura esbelta; o outro um fato de duas peças, estampado em verde e azul, que condizia com o seu cabelo ruivo.

 

«Vai aquele», decidiu ela, pegando no estampado.

 

Eram seis e cinco, quando o porteiro a anunciou e a informou do número do apartamento de Myles. Passados dois minutos, Kitty saía do elevador, encontrando Myles à sua espera no corredor.

 

Percebeu imediatamente que algo de errado se passava, pois Myles saudou-a, distraído. E, no entanto, instintivamente, soube que aquela frieza não lhe era dirigida.

 

Myles pousou-lhe a mão no braço e atravessaram juntos o átrio até ao apartamento. Lá dentro, ele tirou-lhe o casaco e pousou-o distraído sobre uma cadeira do vestíbulo.

 

Kitty declarou ele, tenha paciência comigo. Há algo que eu tenho de descobrir. É muito importante.

 

Dirigiram-se para a sala. Kitty olhava em volta, apreciando aquela sala confortável e acolhedora, reveladora de bom gosto.

 

Não se preocupe comigo respondeu ela. Continue com o que estava a fazer.

 

Myles regressou à secretária.

 

A questão dizia ele, pensando em voz alta é que esta pega não está solta. Foi forçada. Ora, era a primeira vez que Neeve usava esta cafeteira, de maneira que pode ser que ela já tenha vindo assim, da forma como as coisas hoje são feitas... Mas, por amor de Deus, se assim fosse, ela não veria que o cabo estava preso por um fio?

 

Kitty sabia que Myles não estava à espera de resposta. Andou pela sala, admirando em silêncio os quadros harmoniosos e as fotografias da família emolduradas. Inconscientemente, sorriu perante os três mergulhadores. Através das máscaras era quase impossível ver-lhes o rosto, mas tratava-se indubitavelmente de Myles, da mulher e Neeve, então com sete ou oito anos. Ela, Mike e Michael também costumavam mergulhar no Havai.

 

Kitty olhou para Myles, este segurava a pega de uma cafeteira com atento cuidado. Aproximou-se, ficando atrás dele. O seu olhar recaiu no livro de cozinha ali aberto.

 

As páginas estavam manchadas de café, mas os desenhos tornavam-se mais acentuados do que esbatidos por aquela descoloração. Kitty inclinou-se e examinou-os mais de perto, pegando em seguida na lente de aumento pousada ao lado do livro. Tornou a observar os desenhos, concentrando-se num deles.

 

Que bonito declarou ela. Claro que esta é Neeve. Deve ter sido a primeira criança a usar a linha Recife do Pacífico. Que importante!

 

Sentiu uma mão apertando-lhe o pulso.

 

Que é que disseste? berrou-lhe Myles. Que é que disseste?

 

Neeve entrou no Estrazy’s, a primeira loja que visitava em busca do vestido branco, e encontrou a sala de exposição cheia de gente. Gente do Sacks, do Bonwit’s, do Bergdorf e de outras pequenas lojas como a sua, que ali estavam para comprar. Rapidamente, percebeu que só se falava em Gordon Steuber.

 

Sabes, Neeve confidenciou-lhe o gerente do Sacks, estamos atulhados com roupa desportiva dele. As pessoas são engraçadas. Ficarias espantada com a quantidade de pessoas que rejeitaram o Gucci, ou o Nippon, depois de eles terem sido condenados por evasão fiscal. Uma das minhas melhores clientes afirmou-me que não contribuiria para o aumento de crimes de ganância.

 

A vendedora murmurou-lhe que a sua melhor amiga, secretária de Steuber, andava histérica.

 

Steuber foi bom para ela confidenciou. Mas agora meteu-se nesta enrascada e a minha amiga receia também ela ser incriminada. Que deve ela fazer?

 

Dizer a verdade declarou Neeve. E, por favor, avisa-a que qualquer sentimento de lealdade para com Steuber é descabido. Gordon Steuber não merece.

 

A vendedora conseguiu encontrar três vestidos brancos.

 

Neeve teve a certeza que um deles serviria perfeitamente para a filha de Mrs. Poth.

 

Encomendou-o e levou os outros dois à consignação.

 

Eram seis e cinco, quando chegou ao edifício de Sal. As ruas estavam agora mais sossegadas. Entre as cinco e as cinco e meia, a agitação daquele quarteirão cessava, quase de repente. Entrou no átrio e ficou surpreendida por não ver o porteiro no seu posto. «Provavelmente, foi ao quarto de banho», concluiu ela, dirigindo-se aos elevadores. Como de costume, apenas um deles se encontrava a funcionar. A porta começava a fechar-se, quando Neeve ouviu o som de passos avançando no chão de mármore e, instantes antes de a porta se fechar completamente, teve a visão nítida de um fato de treino cinzento e de um cabelo àpunk. O olhar dela cruzou-se com o do homem.

 

«Aquele mandarete!» Num momento de perfeita lucidez, Neeve recordou-se de o ter visto quando acompanhara Mrs. Poth ao carro e ao sair do Islip Separates.

 

Sentiu aboca seca, carregou no botão do décimo segundo andar, depois nos botões dos restantes pisos. No décimo segundo saiu pelo corredor até ao escritório de Sal.

 

Aporta da sala de exposições encontrava-se aberta. Neeve entrou e fechou-a atrás de si. A sala estava deserta.

 

Sal! chamou à beira do pânico. Tio Sal. Ele apareceu, aflito, do interior do seu gabinete.

 

Neeve, que se passa?

 

Sal, acho que vem alguém a seguir-me!exclamou, agarrando-lhe um braço. Por favor, tranca a porta.

 

Sal olhou-a, espantado.

 

Neeve, tens a certeza?

 

Tenho. Vi-o umas três ou quatro vezes.

 

Aqueles olhos escuros e encovados, a pele baça! Neeve sentiu a cor fugir-lhe do rosto.

 

Sal murmurou. Eu sei quem ele é. Trabalha numa cafetaria.

 

E por que iria ele seguir-te?

 

Não sei. Neeve olhou-o, aterrorizada. A não ser que Myles tivesse razão. Será possível que Nicky Sepetti me tenha mandado matar?

 

Sal abriu a porta exterior. Dali ouvia-se o som do elevador a descer. Neeve começou ele, estarás disposta a experimentar uma coisa? Sem saber o que esperar, Neeve concordou.

 

Vou deixar a porta aberta. Tu e eu continuamos a conversar. Se vier alguém atrás de ti, o melhor é que não desconfie. E queres que eu fique aqui para ele me ver?

 

Claro que não. Vai para trás daquele manequim. Eu escondo-me atrás da porta. Se alguém entrar eu mando-lhe uma cacetada. Temos de o deter e descobrir quem o mandou.

 

Fixaram os olhos no indicador. O elevador chegara ao átrio. Começou a subir.

 

Sal correu ao gabinete, abriu a gaveta da secretária e tirou um revólver. Voltou apressado.

 

Tirei uma licença, depois de ter sido assaltado há alguns anos atrás murmurou ele. Neeve, vai para trás do manequim.

 

Como se de um sonho se tratasse, Neeve obedeceu. As luzes da sala eram cada vez mais difusas, mas mesmo assim conseguiu perceber que os manequins exibiam a última colecção de Sal. As cores escuras de Outono; cor de terra, azul-escuro, castanho-madeira e preto liso. Os bolsos, os lenços e os cintos enfeitados com as cores brilhantes da colecção Recife Pacífico. Corais vermelhos, dourados, verde-água, esmeralda, prateados e azuis combinados numa versão microscópica dos padrões delicados que Sal descobrira há tanto tempo no Aquário. Acessórios e adornos com a assinatura da sua já clássica e importante criação.

 

Olhou com espanto para o lenço que lhe roçava o rosto. Aquele padrão. Os desenhos. «Mama, estás a fazer o meu retrato? Mama, não é isso que eu tenho vestido...» «Oh, bambola mia, é só uma ideia do que podia ficar tão bonito.»

 

Desenhos... os desenhos de Renata, feitos três meses antes de ela morrer, um ano antes de Anthony della Salva revolucionar o mundo da moda com a Linha Recife do Pacífico. Ainda na semana anterior, Sal tentara destruir um livro por causa daqueles desenhos.

 

Neeve, diz qualquer coisa o sussurro de Sal ecoou na sala como uma ordem urgente.

 

A porta encontrava-se entreaberta. No corredor exterior, Neeve ouviu o elevador parar.

 

Estava a pensar declarou ela, tentando manter um tom normal que adoro a maneira como incorporou o Recife do Pacífico na colecção de Outono.

 

Aporta do elevador abriu-se. Ouvia-se o som fraco de passos avançando pelo corredor.

 

A voz de Sal soou possante.

 

Deixei-os todos ir embora. Têm feito o impossível para terminar tudo a tempo da apresentação da colecção. Acho que isto é o melhor que fiz de há muitos anos para cá.

 

Dirigiu-lhe um sorriso reconfortante do seu posto, atrás da porta aberta. A luz ténue projectava a sua sombra na parede oposta, naquela parede decorada com um mural do Recife do Pacífico.

 

Neeve olhou para a parede e tocou no lenço do manequim. Tentou responder, mas não lhe saiu nenhuma palavra.

 

A porta abriu-se lentamente. Viu o contorno de uma mão e o cano da pistola. Cautelosamente, Denny entrou na sala, procurando-os. Enquanto Neeve observava todos os movimentos, Sal, silencioso, saiu de trás da porta e levantou a pistola.

 

Denny chamou, docemente.

 

Denny virou-se e Sal disparou. A bala penetrou no meio da testa de Denny, que deixou cair a pistola antes de ele próprio cair sem soltar qualquer som.

 

Petrificada, Neeve viu Sal tirar um lenço do bolso, baixar-se e pegar na pistola de Denny.

 

Mataste-o!exclamouNeeve.Mataste-o a sangue-frio. Não eras obrigado a matá-lo. Nem lhe deste nenhuma hipótese.

 

Ele ia matar-te respondeu Sal, pousando a sua pistola na secretária da recepcionista. Eu só estava a proteger-te.

 

Tu sabias que ele vinha acusou Neeve. Tu sabias o nome dele. Foste tu que planeaste isto tudo.

 

A expressão jovial e amigável que Sal exibia permanentemente desaparecera. Tinha as faces balofas brilhantes e cobertas de suor. Os olhos, que antes pareciam sorridentes, estavam transformados em duas linhas estreitas que desapareciam por entre as pregas de carne. Amão ainda com a pele empolada e vermelha, erguera a pistola e apontava-a agora na direcção dela. O casaco estava salpicado de sangue de Denny e a seus pés, a poça de sangue, era cada vez maior.

 

Claro que fui eu confirmou ele. Diz-se por aí que Steuber mandou matar-te. O que ninguém sabe, é que fui eu que iniciei o boato e que fui eu que arranjei o contrato. Direi a Myles que consegui o assassino, mas que cheguei tarde de mais para te salvar. Não te preocupes, Neeve, eu consolo-o. Sempre fui capaz de o fazer.

 

Neeve mantinha-se ali, imóvel, incapaz de se mexer, mas já não pelo medo.

 

Foi a minha mãe que criou o Recife do Pacífico declarou ela. Tu roubaste-lho, não foi? E Ethel veio a saber. Foste tu que a mataste. Foste tu que a vestiste. Tu e não o Steuber. Tu saberias que blusa pertencia àquele fato.

 

Sal começou a rir, soltando uma gargalhada impiedosa que lhe fazia estremecer o corpo.

 

Neeve começou ele, tu és muito mais esperta que o teu pai. Por isso, é que eu tenho de me livrar de ti. Tu descobriste que havia qualquer coisa errada quando Ethel não apareceu. Foste tu que chamaste a atenção para o facto de todos os casacos estarem no armário. Eu logo vi que o farias. Quando vi o desenho do Recife do Pacífico naquele livro de cozinha, percebi que tinha de me livrar de ti o mais depressa possível, mesmo que para isso tivesse de queimar a mão. Mais tarde ou mais cedo, tu darias pela semelhança. Myles nunca reconheceria o desenho. Ethel descobriu que a minha história de me ter inspirado no Recife do Pacífico no Aquário de Chicago era falsa. Eu disse-lhe que podia explicar-lhe tudo e que iria a casa dela. Não há dúvida de que ela era esperta. Disse-me que sabia que eu tinha mentido e por que razão o fizera, por ter roubado aquele desenho. E que conseguia prová-lo.

 

Ethel viu o livro de cozinha declarou Neeve, entorpecida. Até copiou um dos desenhos para o livro de apontamentos.

 

Sal sorriu.

 

Então, foi assim que ela fez a ligação? Não viveu tempo suficiente para me contar. Se tivéssemos tempo, mostrava-te o álbum que a tua mãe me deu. A colecção inteira está ali.

 

Aquele não era o tio Sal. Aquele não era o amigo de infância de Myles. Aquele era um estranho que a odiava, odiava Myles.

 

O teu pai e Dev tratavam-me sempre como se eu fosse uma boa anedota, desde o tempo em que éramos crianças. Riam-se de mim E atua mãe, cheia de classe, linda, sentindo a moda como só é capaz quem nasce com esse dom, desperdiçando todo aquele talento num palerma como o teu pai, que não distingue uma bata de um vestido de rainha. Renata sempre me olhou por cima do ombro. Sabia que eu não tinha o dom. Mas quando precisou de ajuda e de conselhos acerca dos seus desenhos, veio ter comigo.

 

»Neeve, tu ainda não entendeste o mais engraçado. Serás a última a sabê-lo e não viverás para o divulgar. Neeve, sua pateta, eu não me limitei a roubar a colecção Recife do Pacífico à tua mãe. Cortei-lhe o pescoço para o conseguir.

 

Foi Salmurmurou Myles. Ele arrancou o cabo da cafeteira. Ele tentou arruinar os desenhos. E Neeve deve estar com ele neste momento.

 

Onde? perguntou Kitty, agarrando-lhe o braço.

 

No escritório. Rua 36.

 

O meu carro está à porta. Tenho telefone no carro.

 

Myles concordou e correu para a porta, pelo corredor. Passou um minuto terrível até o elevador chegar. Parou duas vezes para recolher mais pessoas antes de chegar ao rés-do-chão. Segurando Kitty pela mão, atravessou o átrio a correr e, sem prestarem atenção ao trânsito, atravessaram a rua.

 

Eu guio declarou Myles, e descrevendo uma volta completa virou o carro com um chiar de pneus, seguindo pela Avenida West End, desejoso por encontrar um carro-patrulha que o seguisse.

 

Tal como sempre lhe acontecia, quando enfrentava uma crise, sentia-se frio como uma pedra. A sua mente tornava-se uma entidade separada, avaliando a melhor forma de actuar. Ditou a Kitty o número que ela deveria discar. Em silêncio, ela obedeceu, entregando-lhe o auscultador.

 

Gabinete do comissário de polícia.

 

Daqui é Myles Kearny. Ligue-me ao comissário. Furiosamente, Myles avançava através do intenso trânsito nocturno,

 

ignorando os sinais vermelhos, deixando para trás uma série de condutores furiosos.

 

Estavam em Columbus Circus.

 

Ouviu a voz de Herb.

 

Myles, tenho tentado contactar-te. Steuber arranjou um contrato para matar Neeve. Temos de a manter protegida. E, Myles, estou convencido que existe uma ligação entre o assassínio de Ethel Lambston e a morte de Renata. O golpe em forma em V que vitimou Ethel... é precisamente igual ao que matou Renata.

 

Renata de garganta cortada. Renata jazendo tão serena no parque. Sem sinal de luta. Renata que não fora assaltada, antes encontrara um homem em quem confiara, o amigo de infância do seu marido.

 

Oh, Jesus, pensou Myles, Oh, Jesus.

 

Herb, Neeve está no escritório de Anthony della Salva. Rua 36, Oeste, n,9 25,12° andar. Herb, manda para lá os teus homens. Sal é um assassino!

 

Entre as Ruas 56 e 54, a faixa da direita da 1.a Avenida estava a ser reparada. Mas os trabalhadores já tinham saído. Determinado, Myles avançou por entre as máquinas, sobre o alcatrão ainda quente. Passaram a Rua 38, 37...

 

«Neeve, Neeve. Neeve. Faz que eu chegue a tempo», orava Myles. «Não me tires a minha filha.»

 

Jack pousou o telefone digerindo ainda o que acabara de ouvir. O seu amigo, director do Aquário de Chicago, acabara de confirmar as suas suspeitas. O novo museu abrira dezoito anos antes, mas o expositor magnífico do último andar, aquele que originava a sensação estonteante de caminharmos no fundo do Recife do Pacífico só ficara pronto havia dezasseis anos. Nem toda a gente sabia que, devido a um problema com os tanques, o piso do Pacífico só abrira ao público quase dois anos depois do resto do Aquário ter sido inaugurado. Claro que era algo que o director não fazia questão em divulgar. Jack sabia, porque costumava visitar o museu com frequência, sempre que ia para noroeste.

 

Anthony della Salva atribuíra a sua inspiração para a linha Recife do Pacífico a uma visita que efectuara ao Aquário de Chicago dezassete anos antes. «Impossível. Então por que mentira ele?»

 

Jack olhou de novo as volumosas anotações de Ethel; as entrevistas e artigos sobre Sal que juntara; os pontos de interrogação desenhados sobre as repetidas descrições de Sal acerca da sua experiência ao olhar a exposição do Recife do Pacífico no Aquário; a cópia do desenho do livro de culinária. Ethel captara a discrepância e investigara. Agora estava morta.

 

Jack pensou na insistente afirmação de Neeve de que havia algo de anormal na maneira como Ethel estava vestida. Pensou na frase de Myles: «O assassino deixa sempre o seu cartão de visita.»

 

Gordon Steuber não seria o único capaz de cometer o erro de vestir a vítima com as roupas que lhe pareciam apropriadas.

 

Anthony della Salva poderia cometer o mesmo erro.

 

O gabinete de Jack estava silencioso, sentia-se o silêncio próprio de uma sala que, estando habitualmente cheia de movimento e actividade de pessoas, de secretárias e de campainhas de telefone, é subitamente esvaziada.

 

Jack pegou na agenda dos telefones. Anthony della Salva possuía seis moradas diferentes. Freneticamente, tentou o primeiro. O segundo e o terceiro possuíam atendedor automático. A hora do expediente é das oito e meia às cinco. Por favor, deixe a sua mensagem.

 

Tentou o apartamento no Edifício Schwab. Após seis toques, desistiu. Como último recurso ligou para a loja. «Alguém atenda, por favor», rogou ele.

 

Loja de Neeve.

 

Tenho de contactar Neeve Kearny. Fala Jack Campbell, um amigo. A voz de Eugenie tornou-se amigável.

 

Você é o editor... Jack interrompeu-a.

 

Ela está com della Salva. Onde?

 

No escritório principal. Rua 36, Oeste, n° 25. Passa-se alguma coisa?

 

Sem responder, Jack desligou o telefone.

 

O seu escritório situava-se no parque na Rua 41. Correu pelos corredores desertos, conseguiu apanhar um elevador que estava prestes a fechar as portas e apanhou um táxi que passava por ali. Atirou vinte dólares ao motorista e berrou a morada. Passavam dezoito minutos das seis.

 

«Teria sido assim com a mãe?», perguntou-se Neeve. «Terá ela olhado para ele e assistido à transformação da cara dele? Teria sentido o que se aproximava?»

 

Neeve sabia que ia morrer. Toda a semana sentira que o tempo lhe fugia. Agora, que não tinha qualquer esperança, parecia-lhe vital conhecer as respostas a todas as perguntas.

 

Sal aproximou-se dela. Distava agora escassos centímetros. Atrás dele, junto à porta, jazia o corpo morto de Denny, o rapaz das entregas, que se apressava a abrir o recipiente do café. Pelo canto do olho, Neeve podia vero sangue que lhe escorria da ferida na cabeça; o enorme sobrescrito que trazia debaixo do braço estava ensopado em sangue, o penteado à punk, que não passava de uma peruca, cobria-lhe, piedosamente, parte do rosto.

 

Parecia que passara uma eternidade desde que Denny entrara ali. Quanto tempo teria passado? Um minuto? Menos de um minuto. O edifício estava deserto, mas era possível que alguém tivesse ouvido o tiro. Alguém que resolvesse investigar... O porteiro deveria estar lá em baixo... Sal não tinha tempo a perder e ambos o sabiam.

 

Neeve ouviu um zumbido fraco e distante. Um elevador movimentava-se. Podia vir alguém a caminho. Conseguiria ela adiar o momento em que Sal premiria o gatilho?

 

Tio Sal começou ela, calmamente, diga-me só uma coisa. Era assim tão necessário matar a minha mãe? Não podia ter trabalhado juntamente com ela? Não há nenhum costureiro no mercado que não vá buscar as ideias a outras pessoas. --

 

Quando vejo o génio, não o partilho, Neeve respondeu, simplesmente, Sal.

 

O barulho do elevador chegando àquele piso. Vinha alguém a caminho. Para evitar que Sal ouvisse o barulho dos passos, Neeve gritou:

 

Mataste a minha mãe, porque és ganancioso! E ainda nos vieste consolar e chorar connosco. Junto ao caixão dela disseste aMyles: «Tentapensar que a tua linda menina está adormecida.»

 

Cala-te! ordenou Sal, estendendo a mão.

 

O cano de pistola brilhava junto ao rosto de Neeve. Ela voltou-se e deparou com Myles na soleira da porta.

 

Myles, foge que ele mata-te! gritou ela. Sal voltou-se de um salto.

 

Myles não se mexeu. A sua voz soou autoritária ao ordenar:

 

Dá-me essa arma, Sal. Está tudo acabado.

 

Sal apontava agora a pistola para os dois. Tinha os olhos faiscantes de medo e de ódio, e recuou à medida que Myles ia avançando.

 

Não te aproximes mais gritou. Eu atiro.

 

Não atiras não, Sal, respondeu Myles, numa voz perfeitamente calma, sem qualquer traço de medo ou de dúvida. Mataste a minha mulher. Mataste Ethel Lambston. Mais uns instantes e terias morto a minha filha. Mas Herb e a polícia não tardam a chegar. Eles sabem tudo a teu respeito. Desta não te conseguirás safar. Por isso, dáme a pistola.

 

As palavras que proferiu a seguir foram medidas e ditas com uma força e desprezo impressionantes. Fez uma pausa antes de acrescentar: