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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


ENTRE SEUS BRAÇOS / Christina Dodd
ENTRE SEUS BRAÇOS / Christina Dodd

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblio VT

 

 

 

Enid MacLean vive por fim uma vida tranquila quando recebe a notícia de que uma explosão feriu ao marido que pensava, aliviada, nunca voltar a ver. Embora não goste, aceita o dever de cuidar dele mas, exceto por seus inconfundíveis olhos verdes, o homem ao que tem que devolver a saúde não é nem longe o que ela recorda...

E ele não recorda nada. Do abismo de sua amnésia, estende a mão à mulher que acredita sua esposa, a põe a prova com ardentes palavras e uma paixão asfixiante às que ela não pode resistir. E enquanto Enid rende seu coração a este dolorosamente familiar estranho se pergunta como pôde seu marido se converter neste homem altamente sedutor... e que segredos guardará em sua memória perdida...

 

 

 

 

Londres, 1843

— Por favor, senhora MacLean, você quer nos falar de seu casamento?

Com a boca cheia de bolo, Enid contemplou o círculo de rostos femininos que a rodeavam no salão de lady Halifax, todos eles radiantes de felicidade, e à moça loira e de cara arredondada em cuja honra se reuniram. A jovem formulara a pergunta. A jovem que em menos de quinze dias se converteria na tímida noiva do mordomo de lady Halifax. Enid tragou saliva e respirou fundo.

— Minhas bodas? OH, não queiram saber nada de minhas bodas!

— Pois claro que queremos!

Respondeu um animado coro, um coro formado pelas criadas do andar superior de lady Halifax, as criadas do andar inferior e as criadas da cozinha, todas elas moças com a cabeça cheia de sonhos de amor que eram como folhado[1].

Enid, à amadurecida idade de vinte e seis anos, tinha pelo menos cinco mais que todas elas, e as ultrapassava cinco séculos em cinismo.

— Seu casamento foi tão maravilhoso como vai ser o meu? — perguntou Kay, ao mesmo tempo em que levava as mãos ao peito. Com as flores e as fitas no cabelo, a moça estava resplandecente, rodeada pelos presentes de suas amigas e brilhando com a luz do amor.

Então, Enid tentou com todas suas forças desviar a conversação.

— Nada poderia ser tão maravilhoso como vai ser seu casamento, essa renda que lady Halifax me pediu que te desse como presente de casamento será um precioso colarinho de seu vestido nupcial.

— É claro que sim. — Kay deu uns tapinhas a elegante renda costurada a máquina que Enid lhe dera. — Lady Halifax é uma grande senhora, e deve você transmitir a ela meu agradecimento. Diga-me, senhora MacLean, seu vestido tinha renda?

O problema, tal como o via Enid, baseava-se em que era uma mulher misteriosa.

Bom, na realidade não. Estava a três anos vivendo na casa londrina como enfermeira e dama de companhia de lady Halifax. No princípio fizera pouco mais que dar a bengala a lady Halifax e se assegurar que tivesse um lenço limpo. Mas com o transcurso do tempo, à medida que a devastadora enfermidade debilitava à senhora, Enid se convertera em sua boca e seus ouvidos na mansão. Informara lady Halifax das atividades domésticas e irradiara as instruções desta aos criados. Mas nunca, jamais, fazia a ninguém confidências sobre seu passado.

Sabia que a especulação se estendera. Devido ao acento de classe alta de Enid, sua educação e suas maneiras, as donzelas acreditavam que era uma dama que ficara pobre e optara por trabalhar para se manter. E ela não fez nada para dissuadi-las dessa ideia.

Agora a apanharam com seu oferecimento de chá e bolo, sua grande esperança e suas fabulosas imaginações.

— Por favor, senhora MacLean — rogou Sarah, a criada do salão superior.

— Por favor... — disse Shirley, uma adolescente recém-chegada do campo, que, ao aplaudir, derrubou seu prato de bolo sobre o colo e o tapete.

Todas se levantaram como acionadas por uma mola, mas Enid sossegou as horrorizadas exclamações e ajudou a limpar o desastre.

— Não importa, querida. Vê? Não aconteceu nada. — E com ânimo de distrair à chorosa Shirley, acrescentou: — Deixa de chorar para que possa escutar os detalhes de meu casamento.

Shirley cobriu a cara com o lenço e sorveu pelo nariz.

— Sim.

— Ande, nos conte — insistiu Kay.

Enid jamais poderia confessar a verdade, então devia lhes dizer uma mentira.

— Se casou em uma grande igreja? — quis saber Ardelia, feúcha, gordinha e morena, enquanto recolhia os últimos miolos do bolo os pressionando com o polegar.

Enid colocou o garfo no prato e deixou tudo na mesinha de canto que estava a seu lado. Decidira que, se ia dizer uma mentira, muito bem poderia ser colossal.

— Um bispo em uma catedral me casou.

— Uma catedral? - Os olhos castanhos de Sarah se abriram como pratos.

— Me casei numa formosa e ensolarada manhã de junho, com um ramo de rosas silvestres no braço e acompanhada por todos os meus amigos.

— Vestia de branco, como a rainha Vitória? — Ardelia estremeceu de emoção.

— Não, de branco não.

As donzelas balbuciaram, decepcionadas.

— Sua Majestade ainda não havia se casado, e esse não era então o estilo de moda. Mas usava uma blusa azul de algodão, muito elegante— com o trançado mais barato, — uma esplêndida saia, luvas de renda negras — emprestadas pela esposa do vigário — e um chapéu de veludo azul com véu negro - que Stephen lhe dera; Deus sabia onde o conseguira, e era de esperar que tivesse sido por meios legais. Transportada por seu entusiasmo, Enid acrescentou: — E as botas negras estavam tão lustrosas que podia ver minha cara refletida nelas.

— Com seus olhos azuis e o cabelo negro, devia ter um aspecto esplendido, senhora MacLean - a adulou Glória, uma moça insossa que admirava Enid de uma maneira extravagante. — Como ia penteada?

Enid tocou o frouxo coque recolhido em uma rede para cabelo negra na base do pescoço.

— É tão liso que nunca posso fazer muito mais que isto.

Com os longos olhos cheios de inocência, Ardelia perguntou:

— Por que não pediu a sua donzela que a penteasse?

Empenhada em contar o melhor relato, o mais espetacular que as garotas já tivessem escutado, Enid lhes disse:

— Não tinha donzela.

As moças trocaram olhares de compreensão.

— Minha família teve alguns reversos... — Enid enxugou os olhos perfeitamente secos.

Senhor, aquelas garotas acreditariam em tudo!

— Ah. — Sarah adorava uma boa representação teatral mais que a ninguém, e sabia qual deveria ser o final daquela história: sua família perdeu sua fortuna, mas seu Stephen a resgatou.

O amor jamais resgatava a ninguém. Enid poderia ter tido a amabilidade de lhes dizer a verdade e desiludir às garotas, mas sabia que não lhe dariam crédito. Os jovens nunca o faziam. Ela mesma não o fizera.

— Seu cabelo está muito bem assim, senhora MacLean — lhe disse Shirley.

— Obrigado.

Ardelia se inclinou para frente, os olhos brilhantes.

— Seu pai a acompanhou ao altar?

— Não, meu pai tinha morrido. — "As palavras Que se apodreça" cruzaram por sua mente. — Mas só necessitava a meu Stephen.

— Seu marido era um cavalheiro alto e arrumado? — A simples menção desta imagem fez que o amplo peito de Dana se agitasse.

— Tinha uma espessa cabeleira dourada, tão brilhante que quase superava ao sol, e a pele fina e pálida. — Enid olhou pela janela o jardim urbano de lady Halifax, mas as flores de verão lhe passaram despercebidas enquanto tratava de recordar como Stephen MacLean a olhou aquele dia, nove anos atrás. A memória lhe evocou um retrato deslustrado pelo tempo, mas essa resposta nunca convenceria a umas jovens que queriam acreditar no amor eterno. — Seus olhos... jamais esquecerei a cor de seus olhos...

Isso, pelo menos, era certo. Tinha os olhos de um verde intenso, quase como o mar em um dia tormentoso, e com umas franjas douradas que pareciam raios.

— Raios verde mar — disse Ardelia em um tom de temor reverencial.

— Mas não tinha nem um ápice de vaidade. — Stephen foi o homem mais vaidoso que Enid já conhecera, mas em seu conto de fadas se converteu em um príncipe. — Ria alegremente e dizia que a nenhum homem as orelhas sobressaíam tanto como as suas. — Demonstrou como eram colocando as mãos abertas aos lados da cabeça. — Podia ser diferente, mas tinha um ar de aventura e entusiasmo que nunca fraquejava.

— Era um aventureiro? — inquiriu Shirley com a voz entrecortada.

— É claro que sim. Era filho de uma família nobre, injustamente despossuído por seu malvado primo, então percorreu os caminhos da Inglaterra ajudando aos anciões e fazendo justiça aos pobres.

— Como Robin Hood — disse Sarah.

— Precisamente. Enid estava exagerando em seu relato.

— Se apaixonou perdidamente como meu Roger? - perguntou Kay.

— Assim é. Assim que nos conhecemos, afirmou que eu era a mulher que andava procurando. — Isso, infelizmente, era certo. Enid não compreendeu o motivo subjacente dessa afirmação. — Me propôs que nos casássemos aquela mesma noite, mas eu estava decidida a ser judiciosa e me neguei durante quinze dias. — Riu de sua temeridade, — só tinha dezessete anos. Duas semanas era muito tempo.

— Eu também tenho dezessete! — exclamou Kay. — E parece que falta uma eternidade para que me case com meu Roger.

— O tempo passará — prometeu Enid.

Kay fez uma careta.

— Você fala como minha mãe, senhora MacLean.

As palavras de Kay cravaram a bolha de Enid, e desejou que a terra a tragasse. Vinte e seis anos de idade e aquela garota a comparava com sua mãe? Como era possível que Enid tivesse passado com tal rapidez da juvenil indiscrição à sabedoria da idade amadurecida? Como se tornara parecida com a mãe de alguém quando jamais teve uma criatura nos braços e... e por culpa de Stephen nunca a teria?

Esforçava-se por não pensar nunca nisso, mas ali estava, olhando furiosa ao grupo de moças que pouco a pouco se endireitavam nas cadeiras e olhavam os pés.

— É... você está bem, senhora MacLean? — perguntou Kay timidamente.

Enid se levantou e se aproximou da janela para ocultar sua expressão.

— Estou perdida em minhas lembranças — lhes disse.

Isto era muito certo, e uma lástima.

Sarah rompeu o breve e alarmante momento de silêncio:

— Se não for inconveniente que o pergunte, senhora MacLean, o que ocorreu a seu marido?

Enid titubeou, desviou a cabeça e pensou na maneira de concluir o relato. Finalmente, com uma delicada modéstia, replicou:

— Montava um dia em seu cavalo e... e...

— Ia ao resgate de alguma pobre anciã?

Kay se voltou furiosa para Ardelia.

— Chist...!

— Isso. — Enid sorriu, revestida de uma coragem trágica. — Agora se foi para sempre de meu lado.

Dana deu uma ligeira cotovelada as costelas de Shirley.

— Você disse que era como uma dessas heroínas trágicas que você tanto gosta.

Suas mentiras condenariam Enid ao inferno. Sabia. Mas, com inferno ou sem ele, não pôde resistir a uma última afirmação.

— Não passa um só dia sem que pense nele nenhuma noite em que não deseje ver seu rosto uma vez mais. — De frente às donzelas, adotou uma pose dramática, agarrando a borda dourada das cortinas que pendiam a cada lado dela.

— Daria tudo por vê-lo uma vez mais.

Emocionada as donzelas suspiraram ao uníssono.

A voz trêmula de lady Halifax lhes chegou da soleira.

— Enid, querida, o senhor Kinman chegou para satisfazer seu maior desejo.

Surpreendida! Dedicada a escandalosos jogos teatrais, e por lady Halifax, uma mulher para a quem Enid professava uma grande admiração.

Havia mais de uma rota para ir ao inferno.

Enid se apressou a abandonar sua afetada pose. Lady Halifax, que sofria dores e estava confinada a uma cadeira de rodas, a observava com olhos afligidos e incrédulos.

Atrás dela se encontrava um desconhecido de aspecto solícito, vestido com apropriados objetos de tweed marrom. Seu semblante avermelhado, de boxeador, tinha também uma expressão solene.

Enid sentiu que o temor apertava sua garganta. O que dissera lady Halifax? "Seu maior desejo..."

Um sussurro de preocupação se estendeu entre as donzelas.

Enid fez uma reverência e perguntou:

— O que quer dizer, senhora?

— Senhor Kinman — lady Halifax fez um gesto ao cavalheiro, — você quer explicar a situação à senhora MacLean?

— É certo. — O senhor Kinman deu um passo à frente, dando voltas a seu chapéu cogumelo com os dedos roliços. — Foi encontrado o seu marido, Stephen... vivo.

 

Vestida com seus resistentes e escuros objetos de viagem, Enid deixou a mala no chão do hall de lady Halifax. Depois de dar um golpe suave na porta, entrou no penumbroso quarto. A nova enfermeira se levantou de sua cadeira ao lado da cama e se aproximou.

— A senhora Halifax está descansando — informou em voz baixa, — mas se nega a dormir até tê-la visto.

Depois de dar a Enid uma ligeira palmada no ombro, expressando assim sua solidariedade, a enfermeira saiu do quarto e fechou a porta atrás dela. Enquanto Enid esperava que seus olhos se adaptassem à escuridão, aspirou os aromas familiares da lavanda, o xarope para a tosse, a velhice e a coragem forjada pelo sofrimento.

Então, com um frufrú de anáguas, tomou assento ao lado da cama.

Lady Halifax jazia de barriga para cima, o cobertor subido até o queixo e preso ali por uns dedos semelhantes a garras. Seus olhos escuros cintilavam.

— Um... marido, Enid? Por que não me disse?

Certamente, lady Halifax era uma pessoa que ia direto ao fundo do assunto.

Enid colocou um travesseiro sob os ossudos ombros da anciã para lhe facilitar a trabalhosa respiração.

— Um casamento fracassado não é algo do que alguém possa se pavonear, e uma mulher incapaz de conservar a seu marido é, no melhor dos casos, objeto de lástima.

— Lástima? Você? — lady Halifax se pôs a rir até que teve um acesso de tosse, e então descansou até que pôde completar seu pensamento. — Sobreviveu e prosperou. Não há nada nisso que inspire lástima.

Enid ordenou a mesinha de noite enquanto refletia sobre estas palavras. Dava-se conta que, ali onde outras mulheres teriam se dado por vencidas, ela saíra vitoriosa. Era uma pessoa independente. Certamente, também perdera pelo caminho uma parte considerável da moça que foi. Era cínica, sarcástica. Nunca se abandonava à faceta mais suave de sua natureza, nem sequer sabia se a faceta mais suave seguia existindo.

Mas existia, é obvio, e a prova estava estendida ante seus olhos. Lady Halifax, fraca e de língua afiada, de mau gênio no melhor dos casos, inspirava um afeto profundo.

— Não quero abandoná-la, senhora — disse Enid em voz baixa.

— Mas deve fazê-lo, querida. — Lady Halifax deslizou um dedo trêmulo. — À margem do que tenha feito, esse Stephen é seu marido. Necessita que o cuide amorosamente.

— Amor... — Enid revestiu à palavra de desprezo.

— Devia lhe amar quando se casou com ele.

— Era amor, algo que se cura facilmente. Nada mata ao amor tanto como ter que escutar as lamentações de um homem porque o mundo o trata mal, dizendo não ter a culpa de quanto lhe ocorre, que tudo se deve à má sorte e ao fato que o senhor do clã MacLean não gosta dele. — Sem se dar conta, Enid se pôs a falar com acento escocês. — E ele é um MacLean, por Deus, mas um MacLean da ilha de Mull.

Lady Halifax ficou boquiaberta, e fez um esforço para se endireitar se apoiando no cotovelo.

— Você... casou-se com um desses MacLean? Conheço-os. De quando ia caçar na Escócia.

Enid agasalhou bem as pernas de lady Halifax com as mantas.

— São tão diferentes e orgulhosos como Stephen me disse?

— Pelo menos são orgulhosos. Sobreviveram seguindo a parte do governo inglês, mas quando se veem cara a cara com um de nós, parece como se lhes tivessem posto diante uma terrina de creme polvilhada de percevejos. Apostaria que seu casamento zangou ao senhor.

— E muito. O homem me escreveu uma carta muito mordaz, em que me informava que uma órfã ambiciosa como eu jamais participaria da vida ou da fortuna do clã MacLean.

— Enid apertou os punhos ao recordar essa velha humilhação. — Como se me importasse formar parte dessa família.

— Eu teria pensado que uma órfã quereria pertencer a uma família.

Lady Halifax tinha razão, certamente. Enid sonhara na reunião com a mãe, a tia e os primos de Stephen, na vida que levaria no castelo MacLean, em conhecer um clã estabelecido naquelas terras desde séculos atrás, e imaginar que ela também formava parte dessa tradição. Sacudiu a cabeça e não quis admitir nada.

Inquieta, lady Halifax moveu a cabeça nos travesseiros.

— Essa enfermeira nova não sabe o que está fazendo. Já sabe que eu não gosto de ter postas as forquilhas quando durmo. Solte-me o cabelo.

Enid fez o que sua senhora pedia, e então passou uma escova pelas pontas do cabelo e trançou as longas mechas cinza.

Lady Halifax suspirou aliviada enquanto voltava a se acomodar.

— Trabalha com esforço, Enid. Não cheira tão mal como a última garota que tive e não me fatiga frequentemente se queixando por nada.

Isso era um autêntico elogio nos lábios de lady Halifax.

— Entretanto, é econômica. Economiza até o último tostão. Veste sobriamente, sem indício de rendas. — Lady Halifax a olhou com curiosidade, os olhos entrecerrados sob as agrestes sobrancelhas cinza. — Para que economiza?

Enid olhou a lady Halifax pela extremidade do olho e pensou: "por que não?".

— Quero terra.

— Terra? Como... um imóvel? Quer se casar com um homem rico? — Lady Halifax estalou a língua com uma expressão de incredulidade. — É uma garota inteligente, mas não tem nem o aspecto nem a idade para isso.

— Ora! O que faria eu com dois maridos? Quero terra. Um ou dois acres, isso é tudo, mas tem que ser um terreno apropriado. Um pouco de restinga, um pouco de montanha, com chão fértil e sol.

— O que vai fazer com esse terreno?

— Ter vizinhos aos que visitar de vez em quando. Ir a uma igreja do povoado, levantada ha quinhentos anos, e escutar ao mesmo vigário durante o resto de minha vida. Cultivar ervas, fazer unguentos, poções, vendê-los e não trabalhar nunca mais por conta alheia. Ter um lar.

Um calafrio supersticioso percorreu as costas de Enid enquanto expressava seu desejo mais profundo. Era tanto como desejar uma estrela? Quando expressava em voz alta seu sonho mais querido, chamava a atenção das fúrias... ou estas já a descobriram quando tropeçou com seu marido?

— Seria mais inteligente casar com um homem rico — afirmou lady Halifax.

— Já estou casada. — Enid não desejara a morte de MacLean, pois sua amargura não chegava a tal extremo, mas se atrevera a sonhar que algum dia seria livre. — Se enviuvasse, não vejo nenhuma razão para repetir a experiência matrimonial.

— As garotas de hoje não têm sentido do decoro. — Lady Halifax franziu os lábios como se chupasse um limão, e as rugas do lábio superior pareceram ravinas na pele. — Fazer unguentos. Grande bobagem.

— Não é tão uma tolice. Seria proprietária de meu destino. — O peito de Enid se esticou enquanto considerava a realidade. — Temo que quando descobrir o verdadeiro alcance das dívidas de MacLean me encontrarei de novo na pobreza.

— Se preocupa por nada. Será recompensada por haver feito o correto, se não aqui, pelo menos no céu.

Enid ouvira essas promessas anos atrás, aos membros das instituições de beneficência que a aconselhavam a aceitar seu destino com resignação, algo que ela rechaçava tão vigorosamente então como agora.

— Sou uma pobre e infeliz criatura mortal que quer ir ao céu, mas ainda não, e, certamente, não morrendo de fome.

Lady Halifax se arriscou a dar uma breve palmada na mão de Enid.

— Prometo que isso não acontecerá. Conseguirá essa terra que deseja.

Enid se imaginou caminhando por seu jardim, umas tesouras na mão enluvada e um cesto no braço.

— Sim, conseguirei. Só confio em que MacLean...

— É inútil que se preocupe disso agora. — Lady Halifax se moveu inquieta nos travesseiros. - Muito em breve descobrirá a verdade.

Enid viu as sombras sob os olhos de lady Halifax e alisou o cobertor em um vão esforço por contribuir com comodidade por meio do esmero.

— Não quero abandonar a casa Halifax, senhora.

Enid se deu conta de que sua voz tremia, e compreendeu também que chegara a ter um vínculo afetivo não só com a mansão, mas também com sua proprietária.

— Sim, bom, se requer energia.

Lady Halifax não admitia a piedade, nem para Enid nem para si mesmo.

Entretanto, seu afeto mútuo se cimentou em noites de insônia e dias de sofrimento, e já eram muito poucos os que ficavam a lady Halifax. Provavelmente Enid não voltaria a ver à anciã viva, e ambas sabiam. Esse era o inferno que amedrontava Enid. A dor da separação, a angústia do ingrato dever.

Enid piscou para conter as lágrimas. Lady Halifax não lhe agradeceria que se mostrasse muito sensível.

— Deixei um pote de creme de romeiro para você. Peça a sua nova dama de companhia que esfregue suas costas com ela cada noite, e que lhe dê a volta frequentemente. — Tomou a mão da anciã e estampou um beijo de despedida nos descarnados nódulos. — Que Deus lhe conceda paz, senhora.

— Não seja tão chorona e sentimental, MacLean. Isso não resulta atraente.

Lady Halifax voltou a cabeça, mas Enid teve tempo de ver as sombras sob seus olhos.

Rapidamente, antes que Enid pudesse permitir que as dúvidas a detivessem, se apressou a sair do quarto e deixou lady Halifax sozinha.

 

Uma negra porta de ferro forjado com a letra T, com vistosos arabescos e gravada no metal, se achava na entrada do inferno. O carro do inferno tinha boas balestras, assentos acolchoados e estofos de veludo e cortinas combinando que, devido à insistência do senhor Kinman, permaneceram fechadas durante a maior parte da viagem. Só agora, enquanto esperavam ao porteiro, o senhor Kinman permitiu que Enid desse uma olhada no exterior.

O inferno se parecia muito a Suffolk. As flores de verão brilhavam nas colinas ondulantes, e a estrada que se estendia ante eles produzia uma sensação de isolamento rural. Suffolk, o mesmo que o inferno, tinha a reputação de ser um lugar remoto, pois os pântanos ao norte e o bosque de Epping ao sul apresentavam obstáculos ao caminho das vias férreas, e as estradas eram escassas. Se Enid tivesse capacidade de se surpreender - e naquele momento não se acreditava capaz de experimentar nenhuma emoção que fosse - teria se maravilhado ao descobrir que era difícil se aproximar do inferno. No fim das contas, sempre ouvira dizer que todos os caminhos conduziam ali.

Quando o porteiro se aproximou da carruagem, o senhor Kinman baixou o guichê.

— Saudações, Harry. — Sua voz evidenciava débeis restos de um acento do leste de Londres. — Trago sua esposa.

Para Enid essas palavras soaram sinistras, quase como se ela fosse um pacote, envolta cuidadosamente em papel marrom e atada com cordão.

Harry subiu ao estribo do lacaio e examinou o interior. Era bonito, jovem, o rosto de feições duras. Examinou os cantos do veículo, mas no chão não havia mais que dois pares de pés, e a bolsa de Enid, por isso fez um gesto de assentimento e, com um acento educado, disse:

— Muito bem. Vão diretamente ao jardim.

Seu olhar se deteve em Enid, em seu arrumado vestido de viagem marrom, o chapéu de palha e as luvas de pelica de cor canela.

O senhor Kinman também olhava com fixidez para Enid.

A mescla de cautela e esperança que mostravam aqueles homens incomodava Enid; não é que de todos os modos não se sentisse incomodada ante a perspectiva de ver Stephen uma vez mais.

Harry saltou ao chão.

— Adiante — disse ao chofer.

— Que porteiro tão raro — comentou Enid, desejosa de conversar sobre algo enquanto avançavam através de um pequeno pinheiral e subiam uma colina.

— Harry é um bom homem. Você pode confiar nele. — O rosto carnudo do senhor Kinman transparecia sinceridade. — Todos aos que a apresente serão homens de boa fé, mas, por favor, senhora MacLean, não confie em desconhecidos.

— Com quantos desconhecidos me encontrarei? — inquiriu Enid.

Parecia como se ao senhor Kinman apertassem seu colarinho branco engomado, pois passou um dedo descrevendo um semicírculo por seu interior.

— Com nenhum, senhora. Não deveria se encontrar com nenhum.

Exceto MacLean, e ele era o mais desconhecido de todos. Enid temia que, como um trem descarrilado, a atropelasse uma vez mais, a esmagasse e a deixasse se retorcendo na destruição de sua vida antes de avançar para outra aventura, outra conquista.

A ideia de ver de novo MacLean apertava suas vísceras, e, combinado com o movimento oscilante do carro, a fazia desejar que a viagem terminasse quanto antes.

Ao passar ante uma colina coroada por um castelo em ruínas coberto de hera e madressilva, o senhor Kinman disse com veemência:

— A casa familiar Blythe é um lugar encantador, próximo à costa e à beira do rio Blythe.

— Teria jurado que era a Lacuna Estigia — respondeu ela.

O senhor Kinman franziu a testa larga enquanto tratava de compreender a enigmática referência mitológica de Enid à lacuna infernal.

— Não, senhora, não sei por que pensa tal coisa. É o rio Blythe. O imóvel é a casa familiar Blythe. Seu anfitrião é o senhor Throckmorton, um cavalheiro rico e leal súdito de Sua Majestade.

— Ele me dará então os detalhes da lesão que meu marido sofreu?

— Sim, senhora.

As perguntas e os comentários de Enid faziam que o senhor Kinman se sentisse francamente incômodo, e em qualquer outro momento, em quaisquer outras circunstâncias, teria piedade dele. Mas não ali, não naquele momento. Abandonara a uma moribunda para ir ao imóvel e ver Stephen MacLean. Seria melhor que não se tratasse de uma das armações do MacLean, pois do contrário ela se encarregaria pessoalmente que ele resultasse lesado.

— O senhor Throckmorton ordenou que facilitasse a você tudo que deseje, — seguiu dizendo o senhor Kinman. — Nós, todos os que servimos ao senhor Throckmorton, faremos tudo o que esteja em nossas mãos para atender suas necessidades. Encarregaremos-nos que sua estadia aqui seja pelo menos passível.

Passível? Ela voltou a cabeça e olhou pelo guichê. Não, aquela obrigação não seria passível. O engano marital de sua juventude a perseguiria sempre.

O caminho serpenteava através de pequenos bosques e formosos jardins, e em uma ocasião Enid teve um vislumbre da mansão, alta e gloriosa à luz de um entardecer de verão. Entretanto, seguiram avançando até um jardim próximo. Ali a carruagem se deteve e um cavalheiro desceu da pracinha. Alto, moreno e ossudo, estava revestido de autoridade como se fosse uma segunda pele.

— O senhor Throckmorton é pessoa de confiança— informou o senhor Kinman enquanto o lacaio abria a portinhola da carruagem.

Mas Enid não se moveu. Não estava precisamente desejosa de acelerar aquele momento. Não quando o senhor Kinman a empurrava por trás e o senhor Throckmorton, que avançava para lhe estender a mão, parecia tão sombrio como a morte.

Entretanto, ela não tinha escolha e, com um suspiro e um calafrio, desceu do carro.

A musculatura de suas coxas doíam. Desde que saíram de Londres, pregara os saltos no chão, em uma vã e compulsiva tentativa de deter o avanço para seu destino.

— É um prazer conhecê-la, senhora MacLean. — O senhor Throckmorton fez uma reverência formal, e seus olhos cinza pareceram avaliá-la. Então se dirigiu ao senhor Kinman: — Fique na carruagem.

Voltaremos logo, e a acompanhará à quinta.

O senhor Kinman fez um gesto como de soldado que saúda um superior, e ato seguido surpreendeu Enid ao lhe fazer uma saudação similar.

O senhor Throckmorton a conduziu ao jardim, onde umas margaridas de viva cor amarela se balançavam junto aos atalhos de altos arbustos de lavanda floresciam contra as paredes cobertas de hera.

— Kinman gosta de você, e isso é bom; é um homem perspicaz, com bom olho para julgar, e, ao me inteirar que seu marido e você estão separados, hesitava em me pôr em contato com você.

— Como soube que estamos separados? Como me encontrou? MacLean é amigo dele?

— Seu marido? Sim, amigo e colega. — Indicou um banco sob uma pracinha. — Quer sentar?

— Passei muito tempo sentada. — Era evidente que o senhor Throckmorton sabia muito a respeito de MacLean. Em consequência, sabia coisas a respeito dela, e isso não gostava. Descobrira que o anonimato é muito melhor que a notoriedade. — Com sua permissão, preferiria estar de pé.

— Como você desejar. — Segurou o braço dela e a conduziu pelo pequeno círculo que formava o caminho no interior do jardim. — Imagino que a notícia da lesão sofrida por MacLean a perturbou.

— É a pior noticia possível. — Porque a fizera abandonar lady Halifax. — Me diga, senhor Throckmorton, quanto tempo você acredita que estarei aqui? Deixei a uma querida paciente em uma situação muito crítica e queria retornar a seu lado o antes possível.

O senhor Throckmorton arqueou altivamente uma sobrancelha.

— A Distinta Academia de Instrutoras lhe proporcionou outra enfermeira, não é certo?

— Lady Halifax está se deteriorando muito, e sei o que necessita, como pensa. — Seu coração se encolhia ao pensar na anciã que com tanta coragem a despedira. — Eu gostaria de estar com ela.

O senhor Throckmorton a observou atentamente, e então emitiu seu julgamento crítico:

— Você é uma boa enfermeira.

— Assim é.

— Pois bem, seu marido necessita de uma enfermeira neste momento.

A saia de Enid girou sobre as corolas das flores que se balançavam, e tal era seu estado de ânimo que de boa vontade as teria pisoteado. Pobres flores, ser umas substitutas daquele descarado do Stephen MacLean!

— O que MacLean fez? — inquiriu mordazmente. — Entrou em um dormitório alheio e recebeu um tiro de um marido irado? Apostar que podia tocar a seus cavalos pelo caminho de pedágio e derrubar o carro? Se embebedar e ser trapaceado por seus velhos amigos?

A amargura que aparecia em suas palavras não surpreendeu ao senhor Throckmorton. Pelo contrario, respondeu como se sua censura fosse o mais natural do mundo.

— Uma explosão o afetou.

Enid pensou que deveria se envergonhar de suas acusações, mas não era assim. Não eram acusações irracionais, não quando se tratava de Stephen MacLean.

— Uma explosão. Acaso estava brincando com bombas?

— Foi uma bomba. Encontrava-se na Crimea. Em um lugar inadequado e um momento inoportuno. Um agente russo causou a explosão. O companheiro de MacLean morreu.

— Um agente russo? — se interrompeu e, com os olhos muito abertos, transbordantes de compreensão, olhou fixamente ao senhor Throckmorton. Não era de estranhar que tivesse aquele ar de autoridade! Na realidade, nunca conhecera a ninguém como ele, porque, depois de se separar de MacLean, procurou assiduamente a quietude na vida. Mas os jornais sensacionalistas e a imprensa em geral estimularam sua imaginação com relatos de espiões tanto em casa como no estrangeiro. E agora se encontrava precisamente com um de tais homens. Então passou por sua mente. — MacLean estava espionando?

O senhor Throckmorton se sobressaltou e pigarreou, como se a acuidade de Enid o desgostasse.

— Não, quem espionava era o outro homem... mas não posso lhe dizer mais.

A breve esperança de Enid veio abaixo.

— Era muito formoso confiar em que MacLean tivesse realizado um honorável serviço ao governo de Sua Majestade. Entretanto, teria pensado que uma atividade tão arriscada atrairia a meu marido.

— Ele foi um transeunte inocente - assegurou o senhor Throckmorton. — Seja como for, agora necessita a você.

— Você não compreende. Meu marido não desejaria que eu viesse cuidar dele. Não quer me ver nunca mais. — Enid exaltou lentamente antes de acrescentar: — Nem eu a ele.

— Sim, compreendemos, mas MacLean não está em condições de se negar. — O senhor Throckmorton se deteve e pegou a mão enluvada de Enid entre as suas. — Seu marido está morrendo, senhora MacLean.

 

— Está morrendo? — repetiu Enid, e cobriu a boca com a mão.

Resultava curioso, mas apesar de todas as descrições do senhor Throckmorton, não passou por sua cabeça a ideia de um MacLean agonizante. Aquele homem, que tinha tanta energia como a negligência de um menino, nunca caminhava, mas sim corria; nunca falava, mas sim gritava; nunca sorria, mas sim era presa de uma risada histérica. Para ele, a morte seria a aventura definitiva. Às vezes ela pensava que MacLean só desejara abraçar a morte em um dramático e final coup de théâtre[2].

— O acidente ocorreu faz um mês. — O senhor Throckmorton a conduziu ao assento que ela desdenhara pouco antes, e ela se sentou maquinalmente.

— O que ocorreu a ele? Perdeu algum membro? Por que... está morrendo?

— Os fragmentos de vidro o cortaram na cara e no peito, e tem uma perna quebrada. Disseram-me que o osso lhe sobressaía da pele.

Ela estremeceu. As fraturas múltiplas costumavam matar a uma pessoa.

— Como pôde retornar a Inglaterra?

— Viajou de navio, uma travessia terrível por mares enfurecidos. Recuperava o sentido pelo menos uma vez ao dia, mas agora... está tão fraco que esses momentos são menos frequentes. — O senhor Throckmorton a olhava sem pestanejar. — A menos que possamos alimentá-lo, não há esperança. Não pedimos a você que se ocupe da tarefa mais dura. Há uma enfermeira, e o doutor vem diariamente.

— Então por que me fizeram vir?

— Confiamos em que o som de sua doce voz possa fazê-lo voltar a si.

— Da borda da morte? As possibilidades que isso aconteça são escassas. Digo a verdade. Ele não sente nenhum carinho pelo som de minha voz.

Mas Enid estava liderando uma batalha perdida, e sabia.

— Me nego a abandonar a esperança. Todos quantos o conhecemos nos negamos a abandonar a esperança.

— É obvio. — Ela compreendia esse sentimento. Fora abençoada, ou amaldiçoada, segundo como se olhasse, com uma alma em que, apesar de suas penalidades, florescia uma eterna esperança. Por muito que repreendesse a si mesma, por muito frequentemente que exigisse a si mesma bom senso, sempre acreditava em uma vida melhor... amanhã. Seu vigário de Londres lhe dissera que sua fé era inquebrável, mas ela se dizia que o que tinha era uma insensatez insondável. — Mas se, como temo, não posso ajudá-lo...

— Se você não pode lhe ajudar e ele está condenado a uma morte que não merece... se tal for o caso, a família desejará que se transporte o cadáver a Escócia. E você, como sua esposa, o acompanhará, é obvio.

As coisas estavam cada vez pior. Enid elevou a voz, em um raivoso tom de desafio.

— Lady Halifax me necessita. E... e o clã MacLean não quer saber nada de mim.

— Stephen MacLean poderia ter deixado a você uma herança.

A insinuação a cobiça a impulsionou e fez que Enid ficasse lívida. Ficando em pé, olhou de frente ao senhor Throckmorton.

— Estive casada com o Stephen MacLean, e asseguro que o mais provável é que tenha me deixado um montão de dívidas.

O senhor Throckmorton reconheceu essa possibilidade, pois replicou:

— A família MacLean é rica. Poderiam estar dispostos a ajudá-la.

— E aceitaria qualquer ajuda, senhor Throckmorton, porque mantive a meu marido durante os três meses que durou nosso casamento. Não seria mais que um pagamento de atrasados. Mas não procuro a ajuda dos MacLean. Depois do casamento, o Senhor deixou claro na carta que me escreveu: meu marido carecia de fortuna própria, e Kiernan MacLean preferiria apodrecer antes de manter a uma pessoa tão oportunista como eu.

Pela primeira vez durante a conversação, o senhor Throckmorton pareceu confuso.

— Estou seguro que o Senhor não queria dizer...

— Queria dizer exatamente o que disse. Não, senhor Throckmorton, sou uma mulher só sem nada que se interponha entre mim e a fome mais que meu duro trabalho, e não vou incomodar a seus parentes escoceses.

O senhor Throckmorton se levantou e, completamente erguido, inclinou a cabeça para olhá-la com fixidez. Devolveu-lhe o olhar.

— Se a discussão tiver terminado, senhor Throckmorton, queria comprovar como se encontra meu paciente. Quanto antes recuperar a saúde, antes poderei partir.

O homem abandonou sua rigidez e observou:

— Você não se intimida facilmente, senhora MacLean.

— Não — replicou ela, e se encaminhou para a entrada do jardim.

O senhor Kinman caminhava ao lado da carruagem, corpulento como um urso e arrastando os pés; suas roupas deviam ser pequenas, incômodas e restritivas. Sua cara se iluminou ao ver Enid, e se apressou a lhe ajudar a subir à carruagem.

— Eu disse que o senhor Throckmorton explicaria tudo — disse com orgulho.

— Certamente o fez — replicou Enid enquanto se acomodava no interior.

O veículo se inclinou quando o volumoso senhor Kinman tomou assento.

— Você acredita que poderá ajudar MacLean?

— Primeiro terei que examiná-lo — respondeu Enid zangada e incômoda sem deixar de olhar para frente.

— Senhora MacLean! — O senhor Throckmorton saiu correndo do jardim e se aproximou da portinhola aberta da carruagem. — Me permita lhe assegurar... você está realizando um serviço para o governo de Sua Majestade, e lhe será retribuído. À margem do legado de seu marido, você não estará na miséria quando tiver finalizado seus serviços.

O senhor Kinman pareceu surpreso de que se falasse de dinheiro, mas Enid se sentiu profundamente aliviada.

— Muito obrigado, senhor Throckmorton. É bom saber disso.

— Enquanto esteja aqui, se necessitar algo, o que seja, peça a Kinman.

— Farei o que você me peça com supremo gosto — replicou o senhor Kinman em tom áspero.

— Instalamos MacLean em uma das quintas com que conta o imóvel. Vou me casar em primeiro de setembro. — No rosto do senhor Throckmorton apareceu um sorriso breve e sincero, mas a seriedade voltou imediatamente para seu semblante. — A quinta é mais tranquila e mais apropriada para a recuperação de um doente que a casa principal, com seu constante ir e vir de comerciantes.

"A quinta é mais fácil de defender", pensou Enid. E recordou que, no trem que a trouxera de Londres, dois guardiães permaneceram no exterior de seu compartimento.

Tanto o senhor Throckmorton como o senhor Kinman estavam preocupados com algo... ou por alguém.

Mentiram para ela? Corria algum tipo de perigo?

Mas Enid não formulou essas perguntas. Encontrava-se entre homens, e os melhores homens acreditavam que teriam que proteger a uma mulher das verdades desagradáveis, enquanto que os piores estavam convencidos que, se contassem um segredo às mulheres, estas não poderiam resistir à fofoca. Parecia que o senhor Throckmorton e o senhor Kinman formavam parte dos homens melhores, e se mentiram uma vez, voltariam a fazê-lo.

Então, se limitou a dizer:

— Não se preocupe, senhor Throckmorton. Protegerei-me... e protegerei também a meu paciente.

A carruagem chegou a uma encantadora casa de pedra rodeada por uma cerca de estacas brancas e coberta de rosas trepadeiras. O senhor Kinman aproximou mais o rosto ao guichê e explorou a zona.

— Convertemos o sótão em um quarto de doente. Enviaram-nos o melhor médico de Londres para que cuide de MacLean, mas não acredito...

A carruagem se deteve com uma leve sacudida. Antes que o senhor Kinman pudesse terminar sua frase, Enid se levantou, e antes que os lacaios pudessem descer, ela mesma abriu a portinhola. Agora que compreendia a extensão das lesões que MacLean sofrera, ansiava comprovar por si mesma a que tipo de horrenda situação enfrentava.

Observou que os lacaios se apressavam a descer o estribo, e o senhor Kinman a segurou por trás enquanto ela descia. Os criados estavam ao lado da entrada, e fizeram reverências quando ela passou. Enid inclinou a cabeça, mas não se deteve. Agora só lhe importava o ferido.

Cruzou a soleira e entrou em uma sala grande e brilhantemente iluminada. Junto à lareira havia uma mesa com bancos, e sobre as chamas uma pequena panela borbulhava e emitia vapor. Em um dos cantos havia uma cama. Entretanto, nada do que havia ali interessava Enid, que se concentrou na escada de madeira que partia do centro da sala, uma escada reta e longa que dava acesso a penumbrosa abertura no teto. Pôs o pé no primeiro degrau, pensando aonde ia conduzir aquela escada. De retorno a Stephen MacLean e o transtorno de ser sua esposa... ou sua viúva.

À medida que subia, a atmosfera ia ficando imóvel e sufocante, impregnada de aromas de enfermidade. Chegou ao sótão. As cortinas das janelas estavam corridas e só permitiam a entrada da luz pelos finos interstícios. Quando seus olhos se adaptaram à penumbra, viu a cama e a figura imóvel que jazia nela. As pranchas do chão rangeram quando avançou devagar para MacLean.

Como o senhor Throckmorton dissera, a cara e o peito do ferido estavam envoltos em bandagens, e o cobertor cobria o resto de seu corpo. Estava tão imóvel, tão silencioso, que nem sequer se notava o movimento de seu peito ao respirar. Cheia de temor, Enid se inclinou por cima dele e o tocou no braço. Ainda estava quente. Ainda vivia.

— MacLean — disse.

Não houve resposta. A pele estava muito quente, os músculos sob a mão de Enid pareciam inertes. A morte pairava muito perto, e, em um acesso de fúria, Enid se dirigiu à janela, separou a cortina e abriu o marco corrediço. O ar fresco e a luz do sol penetraram na sala.

— Ei! — grasnou uma voz feminina.

Enid se voltou para a criada que se levantava de seu assento no canto, e que passou inadvertida.

— Não pode fazer isso! — exclamou a corpulenta mulher, os olhos carregados de sono. — O doutor...

— É um néscio se tiver ordenado isto — concluiu Enid. Ouviu o ruído surdo de umas botas, e ao cabo de um instante apareceu o senhor Kinman. — Vá abrir essa outra janela. Não é possível reanimar a um homem se não souber que o sol está brilhando!

O senhor Kinman ficou boquiaberto, mas reagiu em seguida.

— Não sei se deveria...

— Faça o que lhe digo, senhor Kinman!

O homem obedeceu.

Enid retornou ao lado de MacLean e retirou as pesadas roupas de cama.

— Tem febre! — protestou a criada.

— Isso é evidente. Quem não a teria, envolto como uma múmia egípcia?

— Olhe, senhorita, não sei quem é você, mas lhe digo...

— Sou sua esposa. — Enid pronunciou estas palavras espaçadas, as convertendo em uma ameaça.

A mulher pareceu se acovardar, mas então recuperou a confiança em si mesma e avançou para Enid.

— Você é sua esposa? Pois está aqui para falar com ele, não para dizer a quem sabe mais que você como têm que fazer seu trabalho.

O aroma que despendia fez Enid dar um passo atrás.

— Senhor Kinman, por favor, destitua a esta senhora. Cheira a genebra, dorme em seu posto, e este quarto está sujo e desorganizado.

O senhor Kinman fez uma inclinação de cabeça e pegou a mulher pelo braço.

— Você não pode me destituir. Trabalho para o doutor Bridges! — gritou a criada enquanto seguia ao Senhor Kinman. — Vai se inteirar de você, já verá!

Enid não prestou atenção aos protestos que se desvaneciam escada abaixo. Inclinou-se sobre seu marido e o examinou. A testa e um lado da cara estavam enfaixados, mas não importava; jamais o teria reconhecido. Tinha o nariz quebrado, e o inchaço desfigurava toda a parte visível de suas feições. O sangue gotejava através das ataduras de linho ao redor do peito, e à medida que Enid foi retirando as roupas de cama, viu que as bandagens se estendiam ao estômago e por baixo dos calções curtos que vestia. A perna... a perna estava entalada e elevada sobre uns travesseiros, e o corpo inteiro fedia a suor e enfermidade.

No que estiveram pensando para lhe tratar como a um caminhante caído no atalho da vida? Se aquilo era o melhor que podia fazer o governo de Sua Majestade, então o governo de Sua Majestade estava cheio de filisteus e enganadores. Dirigiu-se à escada e gritou:

— Senhor Kinman!

— Senhora? — O homem pareceu atônito ante sua ferocidade.

—Quero água quente imediatamente!

— Sim, senhora. — Se aproximou do pé da escada e elevou a vista, olhando à dama que estava no alto com algo parecido ao temor reverencial. — O senhor Throckmorton vem para aqui, senhora.

— Muito bem. Tenho que dizer umas quantas coisas ao senhor Throckmorton. — Certamente que ia dizer.

Enquanto retirava a primeira das ataduras, praticou as palavras que diria: "Se você quiser salvar a vida de um homem, não contrate a uma enfermeira que é uma mulher suja e desalinhada, nem recorra a um médico que é um caipira, um incompetente que não se preocupa...".

Céu santo. Suas mãos se moveram com mais lentidão ao revelar o rosto de MacLean. Jamais o teria reconhecido. Era evidente que a explosão se produziu no lado direito, pois a face fora cortada por uma dúzia de fragmentos. Cada um dos profundos cortes foi cuidadosamente costurado, mas o inchaço e o hematoma desfiguravam a face. Perdera o lóbulo da orelha, e se tinha alguma lesão na mandíbula, estava oculta sob a barba espessa. A febre abrira sulcos profundos em seus lábios carnudos.

Inclinou-se mais para seu rosto e o olhou de novo.

— MacLean?

O tocou com as pontas dos dedos. Aquele calor não se devia somente à febre, mas sim evidenciava sua vontade de viver. Se pudesse se mover, agarraria a vida com ambas as mãos e a seguraria com todas as suas forças.

Enid teria que fazê-lo por ele.

Mas não gostava do aspecto que apresentavam as feridas.

— Senhor Kinman! — chamou.

— Senhora?

O homem subira em silêncio a escada e inclusive agora avançava para ela nas pontas dos pés, com toalhas ao redor do braço, lhe estendendo a bacia como se temesse aproximá-la mais.

— Deixe-a sobre a mesinha de noite.

Ele obedeceu.

Enid tirou as bandagens do pescoço, do peito e dos braços de MacLean. Alguns se aderiam, e ela olhou a seu redor.

— Trapos limpos — disse. — Toalhas.

O senhor Kinman lhe deu o que pedia, e então se afastou quanto pôde sem abandonar a sala.

Enid empapou o trapo em água quente, limpou o rosto imóvel de MacLean e procurou nele algum resto do homem que foi. Sob o inchaço descobriu as longas maçãs do rosto, a testa e a mandíbula angulosa que davam a seu marido tanta atitude. Mas o nariz, que estava destroçado, parecia maior e mais afiado do que ela recordava. O passar do tempo, os efeitos da explosão e suas próprias lembranças a traíam.

— O que tem feito, MacLean? — murmurou.

Deixou cair ao chão as bandagens cobertas de manchas vermelhas, que foram formando um montão cada vez maior.

— Senhor Kinman, necessito um balde para jogar tudo isto, e quando tiver terminado de lhe lavar, necessitarei ajuda para trocar os lençóis.

O senhor Kinman emitiu um estranho som, e o olhou.

Com uma fascinação horrorizada, o homem contemplava as terríveis feridas que ela pôs a descoberto. A cor desapareceu de suas faces, pôs os olhos em branco, como os de um cavalo sem domar, e caiu ao chão com um ruído surdo.

Lástima. Poderia ter sido de ajuda a Enid, mas agora esta não tinha tempo para se preocupar por ele. O senhor Kinman voltaria em si por seus próprios meios, enquanto que o paciente jazia imóvel sob as mãos de sua esposa.

— Seu amigo não serve para nada, sabia? — perguntou a MacLean como se estivessem conversando. — É um homem agradável, e provavelmente um bom lutador, mas caiu como uma bola. Diverte-me. E a você? — Escrutinou MacLean em busca de qualquer sinal que suas palavras tivessem chegado até ele.

Não houve nenhuma.

— Essa explosão causou um dano assombroso. — Empurrou brandamente as costelas. — É possível que tenha algumas costelas fraturadas, mas não há nenhuma quebrada e que esteja ferroando tecidos.

Foi lhe lavando por partes, secando cada uma com cuidado e cobrindo-a com a manta.

Cada vez que o tocava, a sensação de contato entre ambos se expandia. Quando estava são e eram marido e mulher, ela nunca experimentou algo assim. Talvez a tragédia o tivesse alterado, ou possivelmente os anos o fizeram maturar, impregnaram sua essência até tal ponto que ela os discernia. Talvez fosse ela a que mudou, se abrandou, estava disposta a perdoar. Ou possivelmente percebia que a morte pairava por cima deles como um grande corvo negro, disposto a arrebatá-lo antes que os dois pudessem escrever novos capítulos de sua história.

Enid ouviu o ruído de homens que se moviam abaixo, uma saudação e então o som de passos na escada. Atrás dela, o senhor Kinman se movia e gemia, um homem tão volumoso que se assustava ao ver sangue. Mas agora só uma coisa era importante, dar a MacLean uma oportunidade de viver.

— MacLean — repetiu seu nome, pensando que sem dúvida o ferido responderia a essa palavra mais que a quaisquer outras. — Um fragmento de vidro poderia ter te deixado sem um olho, mas nesse aspecto também teve sorte, E a fratura da perna é tremenda. — Enquanto o som de uns pés embainhados em botas se aproximava, iniciou a operação cruelmente dolorosa de tirar a bandagem da extremidade. — Mas de algum jeito se livrou de qualquer infecção. Voltará a caminhar. Assim me diga, MacLean, por que ainda está dormindo?

— Está dormindo, jovem senhora, devido ao golpe que sofreu na cabeça. — Um cavalheiro de grande bigode estava no alto da escada, vestido de tweed marrom e emitindo um aroma de tabaco.

Um cavalheiro com ares de suficiência e, a julgar por sua expressão, com tendência ao desdém e a uma altivez injustificada. — Sou o doutor Bridges, e exijo saber o que você acredita que está fazendo!

O senhor Throckmorton estava atrás dele, na penumbra, e apesar de ter permitido que o doutor Bridges tomasse a iniciativa, Enid fez caso omisso do médico e se dirigiu somente a ele.

— Estou lavando MacLean, senhor Throckmorton. Estava sujo. — Jogou o trapo na bacia. — Senhor Kinman, seria tão amável de atirar esta água e trazer mais, limpa e quente?

O senhor Kinman voltou a se queixar, e então avançou engatinhando para ela e elevou as mãos. Enid lhe deu a bacia e advertiu:

— Não a derrame!

— Não o farei — sussurrou o senhor Kinman.

Levantou-se cambaleando e foi para a escada.

O doutor Bridges estava tão indignado pelo descaso que a dama lhe dirigia que as pontas do exuberante bigode tremiam.

— Olhe, jovem, sou um médico experiente, graduado por Oxford, e o que você está fazendo é um engano.

— Talvez seja, mas o que você faz o está matando.

Disse em voz baixa, porque, se não se contivesse, teria começado a gritar de novo, e isso poderia incomodar ao paciente.

Contemplou as feições inertes de MacLean.

Embora fosse possível que se gritasse de novo, isso serviria para despertá-lo.

— Inclusive um doente merece que o lavem e descansar em lençóis limpos - comentou.

— Essas ataduras eram a única coisa que mantinham o inchaço a raia. - O doutor Bridges fez um gesto para MacLean. - Olhe para ele! Agora que as tirou, está inchando como um sapo.

Assim era, em efeito, e Enid sentiu que seu coração encolhia. Oxalá tivesse tido tempo para terminar o exame de MacLean antes de enfrentar a aquele homem que era seu adversário e seu juiz.

— Aplicarei gelo para manter o inchaço controlado. Senhor Throckmorton, você poderia me encontrar gelo?

— Certamente.

O senhor Throckmorton foi à escada, chamou abaixo, deu a ordem e retornou ao lado de Enid e do doutor, observando a ambos com uma austera resolução.

Quando o senhor Kinman retornou, parecia um pouco menos indisposto e muito mais interessado na conversação. Deixou a bacia no suporte e ofereceu trapos limpos e uma pequena toalha atada pelos extremos que continha gelo. Quando Enid pegou o material, fez um rápido gesto com a cabeça para ele, o dispensando.

Tampouco o senhor Kinman gostava do médico. Deu um passo atrás, até ficar ao lado do senhor Throckmorton.

Enid colocou a toalha sobre o nariz e os olhos de MacLean, pondo cuidado para não obstruir sua via respiratória. Umedeceu o trapo e esfregou a coxa do ferido. Via claramente a cicatriz no lugar onde o osso se sobressaíra da pele; entretanto, a solda foi perfeita. Se o ferido sobrevivia, voltaria a caminhar, e ela reconheceu que era um milagre.

— Ar fresco... enquanto o está lavando! — Como um espectador em uma partida de tênis, os olhos do doutor Bridges foram de uma janela à outra. — O frio o matará.

Enid voltou a ser presa da indignação.

— Este quarto era como um mausoléu, não o quarto de um doente. Como MacLean vai saber quando tem que despertar se o tem encerrado em uma prisão?

— Despertar? Você acredita que vai despertar? Mal podemos conseguir que trague água, e eu gostaria de saber, senhora, como você vai melhorar seu estado! — O bigode do ofendido doutor tremeu. — Ela tirou a bandagem da perna. Espero que não a tenha arruinado também.

Enquanto secava brandamente a perna com uma toalha, Enid considerou a situação. O Senhor Throckmorton não tinha nenhum motivo para confiar em sua habilidade, enquanto que o doutor Bridges estava em posse de um título outorgado pela faculdade de medicina mais prestigiosa da Inglaterra. Mas ela precisava ficar com MacLean. Ele necessitava dela para sobreviver. Ainda mais, o homem inconsciente e gasto estendido na cama a comovia e a fazia sentir no mais fundo o desejo de lhe ajudar. Enid não sabia por que; para ela deveria ser tão só um paciente como qualquer outro.

De fato, se MacLean vivesse, ela seguiria atada a ele, e que se morresse enquanto cuidava dele, seria livre. Entretanto, havia algo nele que lhe produzia uma estranha atração, inclusive estando inconsciente exsudava uma aura de fortaleza, de poder, de fascinação irresistível. Então, ela faria tudo, suplicaria, lutaria, inclusive apaziguaria ao doutor, com tal de ter a oportunidade de fazer que MacLean voltasse para a vida. Nenhuma outra coisa era aceitável.

Por isso, embora a reconciliação lhe atravessasse na garganta, Enid ofereceu um ramo de oliveira.

— Você fez um trabalho excelente com a perna, doutor Bridges, — por assombroso que parecesse, fizera. — Uma fratura difícil. Felicito-lhe.

Fez-se um profundo silêncio na sala, e ela elevou a vista do que estava fazendo.

— Um médico árabe recompôs o osso — revelou o senhor Throckmorton.

O doutor Bridges girou sobre seus calcanhares para enfrentar ao cavalheiro.

— Vai morrer de todas as maneiras! Que mais dá que a fratura esteja bem resolvida?

A expressão do senhor Throckmorton se imobilizou. Seus olhos se tornaram tão frios que a temperatura da sala desceu de uma maneira perceptível.

— Você quer dizer que esteve tratando sem atenção a meu amigo porque acredita que não é possível salvá-lo?

O doutor Bridges não era um homem intuitivo, porque respondeu:

— Fiz o que pude por ele, mas jamais vi umas feridas tão terríveis. Claro que não tem salvação.

O senhor Throckmorton estalou os dedos e então se aproximou de Enid e permaneceu a seu lado. O senhor Kinman, sem fazer caso dos protestos do doutor, o pegou pelo braço e o levou escada abaixo.

— Pedi que lhe atendesse o melhor possível — disse o senhor Throckmorton, com uma gélida raiva em seu tom. — E o que é que consegui?

A ansiedade que atendia a garganta de Enid relaxou, e com prudência, em um tom indicador de que não desejava se erigir em juiz, replicou:

— O doutor Gerritson, o mestre que me ensinou, estava acostumado a dizer que o problema surge quando os médicos acreditam em sua própria infalibilidade.

— Seu doutor Gerritson parece um homem inteligente. Como é que se adestrou para trabalhar como enfermeira?

— Depois que MacLean me abandonou, tive que pagar suas dívidas. Então ajudava ao médico do povoado e presenciava todo tipo de lesões e enfermidades. Não desmaiava ao ver o sangue... vi muitas coisas no orfanato para sentir repugnância por nada, depois que o ajudou a compor a clavícula do cavalariço, me ofereceu um posto de trabalho em seu consultório. Sua esposa dizia que era muito velho para trabalhar tanto. Tinha razão. O doutor morreu ao cabo de três anos, e aqui me tem.

O senhor Throckmorton observou em silêncio enquanto ela lavava as feridas de MacLean.

— Você será capaz de salvá-lo?

— Não sei — respondeu ela. O estado do paciente era muito crítico. — Nem sequer sei se poderei conseguir que sobreviva esta noite. Mas tentarei.

Não lhe fez nenhuma recriminação.

— O que posso fazer para ajudá-la? — perguntou.

"Oxalá todos os homens fossem tão ardilosos!", pensou Enid.

— Necessito uma criada, uma mulher robusta, forte e sensata que me ajude a movê-lo, lhe dar água e alimentar se chegar a recuperar o sentido.

— Enviarei à senhora Brown. É nossa babá, e a mulher mais judiciosa que já conheci.

— Eu não gosto absolutamente da ideia de privar a seus filhos de sua babá.

— Minha filha e minha sobrinha, e asseguro que minha prometida estará encantada de ficar com as meninas. — O sorriso de senhor Throckmorton se curvava para cima em uma comissura da boca e para baixo a outra, e isso o fazia parecer um homem que não sabia se estava encantado ou privado de algo. - Minha prometida foi previamente a governanta da casa, você compreende?

Enid não compreendia, mas tampouco lhe importava. Enquanto o senhor Throckmorton satisfizesse suas necessidades, ele e sua prometida podiam fazer o que lhes desse vontade.

— Se a senhora Brown for a pessoa mais apropriada disponível, a aceitarei com muito prazer. Quero que as donzelas limpem o quarto, de modo que possa pôr certa ordem nos unguentos, os panos e... — Mostrou o montão de objetos a seu redor. Enfrentada a uma tarefa tão delicada, necessitava higiene e organização, pois do contrário seu metódico espírito se rebelaria. — Donzelas. Em seguida. E necessito ervas.

— Meu jardineiro a atenderá.

Ela assentiu, satisfeita, e voltou a se inclinar sobre MacLean.

— Queria lhe pedir que, enquanto esteja aqui, permaneça dentro da quinta, a menos que um de meus homens a acompanhe.

O olhou severamente. Mais precauções.

— Na verdade, não acredito que deseje ir a nenhuma parte enquanto MacLean esteja se recuperando.

— Acredito que será necessário um passeio pelo jardim todos os dias. — O senhor Throckmorton tirou a jaqueta e a arregaçou. — Posto que a senhora Brown ainda não está disponível, eu a ajudarei a trocar os lençóis.

Enquanto trabalhavam, deslizando os lençóis sujos por baixo de MacLean, colocando os novos, movendo o paciente de um lado a outro com o maior cuidado; o sol do entardecer penetrou pela janela e empreendeu uma lenta ascensão cama acima, até que chegou ao rosto de MacLean e descansou sobre as marcadas feições.

E dando um suspiro longo e áspero, MacLean abriu os olhos.

Aqueles olhos inconfundíveis, nos que se mesclava o verde e o dourado.

 

Cada vez que MacLean despertava, a via, brilhante como uma vela na escuridão. No princípio machucava seus olhos, tal era o brilho que irradiava de seu interior, mas a olhava tanto como lhe era possível antes de deslizar uma vez mais no vazio.

Mais adiante ouviu uma voz feminina que lhe falava, e soube que era ela. Enchia sua mente com imagens de árvores coalhadas de flores rosadas, de gente bruscas e alegres, de canções entoadas na véspera do sábado. Cada imagem desaparecia logo que ele tentava agarrá-la, e qualquer esforço lhe causava dor. Dor na perna, no peito, na cara. Estava cansado de lutar contra a dor, por isso procurava refúgio no vazio.

Então brigava com ele, o chamava, e a lembrança daquele rosto radiante o fazia voltar a si. Cada vez que abria os olhos, ela estava ali.

Sempre se precipitava sobre ele, o elevava, o enchia de todo tipo de líquidos, e essa imprecisão o turvava vagamente. Seu corpo não ansiava nada, mas sua mente exigia vê-la, e se ser alimentado era o preço que teria que pagar, pagaria.

Ele sempre cumpria com suas obrigações.

Em geral, voltava a si quando a luz do sol penetrava no quarto, mas uma vez ouviu o estrépito dos trovões e abriu os olhos na noite, ela também estava formosa então, a chama mais brilhante em uma sala cheia de velas. Movia-se com tal elegância quando se inclinava sobre ele, a bata rosa com rendas ligeiramente atada, o cabelo recolhido em uma trança de ébano. A própria pele lhe brilhava como primoroso veludo pálido, com um trêmulo resplendor rosado nas faces, um rosa mais intenso no carnudo lábio inferior, uma leve pátina dourada no V que a bata formava no peito. Cada relâmpago iluminava algo mais dela: as delicadas conchas de suas orelhas, seus dedos movidos por uma compaixão divina.

Aquela noite, pela primeira vez, ele descobriu que queria que o levantasse e lhe desse água ou caldo ou algo que ela quisesse, pois se sustentava sua cabeça contra seu seio, os braços dela a seu redor, poderia morrer feliz.

MacLean franziu o cenho.

Morrer? Não ia morrer.

Isso estava totalmente descartado.

— Que formosa manhã, senhorita, depois da tormenta de ontem à noite. — A senhora Brown entrou apressadamente no quarto ensolarado, o avental branco alisado sobre o vestido de algodão pardo, a bandeja com o café da manhã de Enid nas mãos. — Os velhos que estão nas nuvens fizeram um grande trabalho ontem à noite, jogando boliches.

Com os braços elevados, Enid, que esteve ante o pequeno espelho pendurado da parede, se voltou para a mulher que lhe dera uma ajuda inestimável durante a última e sombria quinzena.

— Estive acordada.

Não podia esperar para compartilhar as notícias... embora não todas. Certas coisas devia manter em segredo.

A senhora Brown deixou a bandeja sobre a mesa ao lado da janela e se aproximou de Enid para ajudá-la a recolher o cabelo. A escura e abundante cascata, que se estendia por baixo dos quadris de Enid, se ondulava como se tivesse vida própria, mas a senhora Brown não criara dezenove filhos por nada. A alta e robusta mulher lhe trançou as mechas com suas robustas mãos, até que os olhos de Enid se inclinaram e a dor a fez se elevar nas pontas dos pés. Mas não se queixou; a novidade e a alegria de receber uns cuidados maternais excediam em muito ao desconforto.

Enquanto a senhora Brown colocava a rede para cabelo e a assegurava com agulhas, perguntou:

— A tormenta a incomodou, senhorita? — Seu largo rosto estava sério, enquanto fazia um gesto para MacLean, silencioso e insensível na cama.

Enid sorriu, animada.

— Despertei a meia-noite, e ele tinha os olhos abertos.

— Ah, então, é certo?

A senhora Brown recebeu a informação com uma serenidade característica, mas Enid percebeu em seus amáveis olhos a satisfação que experimentava. O inquebrável bom senso e a atitude jovial da mulher sustentaram Enid quando, se não fosse por ela, o esgotamento e o desalento a teriam feito verter lágrimas.

A senhora Brown também cuidava de Enid, a fazia passear, enviava às donzelas de um lado a outro para que trouxessem a roupa de cama, fizessem a limpeza e engomassem os vestidos de Enid.

— Isso é uma boa notícia, — disse a senhora Brown. Pegou Enid pelos ombros e a encaminhou à mesa onde estava a bandeja do café da manhã. — Nunca despertou sem que você lhe falasse antes.

— Uma notícia muito boa, diria eu. — Enid olhou a figura imóvel no leito enquanto tomava assento.

— Sua carta está aqui — lhe indicou a senhora Brown.

Enid pegou a branca folha de papel e rompeu o selo. Leu as primeiras linhas. Lady Halifax afirmava se encontrar bem e, de fato, estava o bastante bem para fazer umas ásperas observações a respeito de sua nova enfermeira, o imóvel e o estado do mundo em geral. As cartas semanais mantinham a raia a má consciência de Enid, e o engenho da anciã sempre a fazia rir. Deixou a carta sobre a mesa.

— Escreverei a ela esta tarde. — Sacudiu o guardanapo e disse: — Acredito que MacLean está melhorando.

Estava melhorando, em efeito, pois quando ela terminara de lhe dar o caldo e se inclinou para agasalhá-lo, ele deslizou a mão no interior da bata e lhe tocou o seio! Não de um modo vacilante nem com agitação, a não ser com a suave confiança de um conquistador.

Ela retrocedeu de um salto e sufocou um grito, e, como se o esforço o tivesse extenuado, a mão de MacLean caiu a seu lado e fechou os olhos.

Enid se manteve bem separada da cama, segurando as bordas da bata e dizendo em um tom indignado:

— Isso está errado, senhor!

Como se ele pudesse ouvi-la. Como se tivesse consciência de seus atos.

E onde MacLean aprendera a fazer uma coisa assim? Comportou-se como um louco na vida, e isso também incluía o leito conjugal; normalmente, em seu frenesi e pressa, a deixara atrasada.

— Sem dúvida está melhorando, senhorita. Reage a você, a sua voz. — A senhora Brown retirou a cadeira e elevou as tampas dos recipientes. — A seu contato.

— Acredito que tem razão. Um acesso de alegria animou Enid. Teve êxito. MacLean a tocara. Com toda segurança MacLean ia viver.

— Tome o café da manhã. Esther enviou o primeiro pêssego da temporada para você.

Esther, a cozinheira, enviava a Enid os melhores frutos do pomar e as comidas mais deliciosas três vezes ao dia. Às vezes um prato de bolachas quentes ou um pedaço de empanada fria chegavam entre as refeições. Milford, o jardineiro, trazia as ervas que Enid requeresse para seus remédios, e cada dia havia no quarto do doente um buquê de flores. O senhor Kinman se apresentava com frequência para comprovar como seguia Enid, embora nunca ficasse o tempo suficiente para observar qualquer ritual no quarto do doente, e os outros três cavalheiros que protegiam a quinta eram indiferentes e amáveis.

Mas Enid se concentrava em seu paciente. Inclusive agora, enquanto comia empanado recheado de porco e batata e bebia cidra, seu olhar posava em MacLean. Este estava acostumado a recuperar a consciência uma vez ao dia, normalmente ao entardecer, quando a luz do sol batia em sua cara. A olhava com fixidez, mas nunca dizia nada. Tomava o caldo e a água que lhe dava, mas nunca elevava um dedo para ajudar. Era como se seu corpo exigisse atenção e ele respondesse, mas sua mente nunca saísse à superfície a fim de realizar as funções necessárias para a continuidade da existência.

O senhor Throckmorton estava francamente desalentado.

Mas MacLean estava ali. Enid sabia que estava. Percebia vida nele, um espírito, forte e decidido. Todos os dias se dirigia a aquele espírito, contava a história de sua vida, lia o jornal, comentava o tempo que fazia, dava sua opinião sobre a política. No princípio, a senhora Brown tinha atuado como se Enid estivesse um pouco louca, mas logo, pouco a pouco, a volumosa mulher de cabelo cinza e rosto suave se convenceu que ele a ouvia. Quando Enid saía para dar seu passeio cotidiano, a senhora Brown conversava com ele sobre os acontecimentos do imóvel e do povoado.

— Mas gosta mais de escutar a você, senhorita — dizia com frequência a Enid. — Dou conta.

A mulher foi então à cama e pôs uma mão na testa do doente.

— Não tem febre. — Franziu o cenho ao ver que tinha a palma cheia de óleo. — Ardo em desejos de lhe lavar o cabelo, lavar de verdade em uma bacia. Está tão sujo que mal se distingue de que cor é.

— Era de um loiro bastante avermelhado.

A senhora Brown o olhou com os olhos entrecerrados.

— Debaixo de todo esse óleo me parece assim como castanho avermelhado.

— Suponho que se obscureceu com a idade. — Uma lembrança foi a sua mente, e soltou uma risada. — Sempre acreditava que estava perdendo o cabelo. Olhava os fios presos na escova e se queixava a gritos.

— Pois parece que estava equivocado.

— Quando despertar e possa se mover, o banharemos. — Enid roçou a pele rosada do pêssego com os dedos e aspirou o doce aroma da fruta amadurecida. — Suponho que gostará disso.

— Os homens são umas criaturas estranhas. Tive um filho que passou um mês sem trocar a roupa de baixo, e logo protestou quando a queimei.

A senhora Brown falou em um tom lento, moderado, como uma guia que encabeçasse uma excursão pelas peculiaridades masculinas.

O que acabava de ouvir fez que Enid enrugasse o nariz.

— MacLean estará tão fraco que não poderá opor resistência.

— Suponho que estará tão fraco que mal poderá elevar a cabeça. — A senhora Brown pegou um braço do doente e ficou a lhe massagear os músculos flácidos. — Vão lhe pôr em forma — lhe disse ao adormecido. — Um homem forte como você que está de cama a quase dois meses. Deve estar mortalmente aborrecido consigo mesmo.

Suas grandes mãos passaram ao ombro e percorreram as cicatrizes do peito. Então moveram e estiraram o braço. O exercitavam duas vezes ao dia, a fim de acautelar no possível e inevitável atrofia muscular.

Enid o observava pensativamente. Inclusive agora ao cabo de várias semanas de serviço, mal podia reconhecê-lo como seu marido. O inchaço da cara retrocedera graças a constante aplicação de gelo. As cicatrizes do peito e do ombro direito passaram do vermelho à rosa e, em ocasiões, uma lasca de vidro abria caminho até a superfície. Todos os cortes desapareceram, e lhe movia a perna com cautela mas com maior confiança a cada dia que passava.

Mas seus traços, destroçados pela explosão, mudaram até o ponto de que eram quase irreconhecíveis. Só a curva da face e as orelhas, sempre grandes e muito protuberantes, eram as mesmas. E os olhos, é obvio. Ela poderia identificar aqueles olhos em qualquer parte, de um verde tão pálido como a erva primaveril, intercalado de raios de sol dourados. Foram seus olhos a primeira coisa no qual ela se fixou nove anos atrás, e rezava diariamente para que os abrisse e voltasse a olhá-la de novo, a reconhecendo.

— Se sentiria muito melhor se despertasse e comesse, senhor. — A senhora Brown lhe deu brandamente a volta e, quando esteve de barriga para baixo, esfregou suas costas. — Um homem como você necessita batata e carne, não essas minúsculas taças de caldo para menino de teta que o fazemos tomar.

— Senhora Brown! — Enid se engasgou com o pêssego. — Não gostaria que o chamassem menino de teta, asseguro.

— Então deveria despertar e me dizer isso.

— Sim, deveria. — Ainda comendo a fruta fresca, Enid se aproximou da cama. Ele tinha a cabeça voltada para o lado sobre o travesseiro, a face afundada no limpo tecido branco. — Acredito que poderia nos dizer muitas coisas se despertasse. — Passou o pêssego sob o nariz dele. — Cheira isto, MacLean. Não cheira como as manhãs do verão no pomar? Não recorda o que é recolher um balde de pêssegos, notar o pelo que se desliza pelas costas, se reúne nas dobras do pescoço e te arde? Não deseja estar aí fora, estendido na erva, comendo um pêssego recém arrancado da árvore e contemplando o sol que se filtra através das folhas enquanto uma brisa leve o acaricia nas faces?

As mãos da senhora Brown se moviam lentamente ao longo das costas do doente enquanto Enid lhe falava.

Entusiasmada pela imagem que tinha criado, Enid se ajoelhou ao lado da cama e lhe falou em voz baixa, com insistência, ao ouvido.

— É tudo tão formoso aí fora... Um verão como não houve outro igual nem voltará a haver, e o está desperdiçando neste quarto. — Afastou-lhe o cabelo da cara, o penteando para trás, desejando com todas suas forças que ele abrisse os olhos e falasse. Esforçou-se muito por lhe devolver a saúde para deixá-lo adoecer naquele estado de inconsciência. Por debaixo da superfície sua mente se movia, e ela ansiava se comunicar com ele, descobrir se sua aura de poder e honra era uma verdadeira representação de seu ser... ou se ela a costurou com fragmentos de desejos e fios de solidão. Tentou lhe persuadir com a voz, as palavras e o contato. — Poderíamos rir juntos, como tolos preguiçosos que somos, e nos contar anedotas sobre outros verões mais esplêndidos que este, mas saberíamos que estávamos mentindo, porque esta é a melhor época do mundo. O sol é nosso, o céu é azul, os aromas são exuberantes e há uma infinidade de fruta amadurecida que pende das árvores e todo tipo de flores. Volta para mim, MacLean, e o levarei ali.

Então ele abriu os olhos e disse:

— De acordo, pode me levar ali, mas primeiro me diga... quem é?

 

A mulher o olhava com fixidez, seus assombrosos olhos azuis sem piscar, os lábios rosados algo abertos, como se estivesse surpreendida. Inalou longa e lentamente, e em um tom moderado respondeu:

— Quem... sou... eu?

Se ela fosse um homem, teria lhe quebrado seu nariz por essa idiotice, mas as mulheres eram sua fraqueza, todas as mulheres, e aquela jovem era atraente. Tão atraente, na realidade, que o surpreendia não recordar seu nome. A vira antes, e não desejava mais que tocá-la, mas se contentou olhando-a tão só por que... por que... por que não recordava dela? Fez um esforço de memória. Sua excelente memória, que nunca falhou até então. Por que não recordava dela?

O que lhe fizera aquela mulher?

A voz de MacLean era áspera, carregada de suspeita, quando perguntou:

— Quem é? Recordo de você, radiante, o cabelo caído sobre os ombros, mas... não posso recordar... seu nome.

— Louvado seja Deus, está acordado! — exclamou outra mulher atrás dele.

Tentou se voltar para ver quem estava ali, a suas costas desprotegidas.

A dor invadiu suas articulações, os músculos, a perna. Lançando uma virulenta maldição, se deixou cair na cama. A mulher que estava ajoelhada a seu lado ficou em pé e o agarrou pelos ombros. A outra mulher também o agarrou.

— Cãibras musculares, senhor, não é surpreendente em seu estado — lhe disse.

As mulheres, fossem quem fosse, não o deixaram quieto até que o tiveram colocado de barriga para cima. A perna, o centro daquela dor lacerante, resistia a se mover até que a segunda mulher a levantou e a pôs sobre um travesseiro. Então o doente caiu para trás, ofegante.

A outra mulher era mais velha, gordinha e de olhos vivos, segundo todos os indícios uma típica aldeã inglesa. Não representava nenhuma ameaça. Agora não. Olhou a seu redor. Ao outro lado das janelas abertas oscilavam as copas das árvores, o teto estava inclinado e com as vigas visíveis... assim, se encontrava em um sótão. Com que objetivo?

O que lhe ocorria? Onde estava?

Quem era?

Estava entrando em pânico. Um pânico que dominou em seguida, enquanto permitia que o furor aumentasse, porque desconhecia a resposta à pergunta mais básica de todas. Mas obteria essa resposta. E imediatamente.

Olhou de novo à moça. Devolveu-lhe o olhar, os olhos muito abertos e brilhantes. A conhecia, sim, mas lhe era impossível recordar seu nome. Recordava ter ouvido sua voz suave lhe contando as anedotas da jornada. Recordava ter visto sua cara em forma de coração inclinada sobre ele quando despertava. Recordava como seus olhos se iluminavam quando sorria, como suas tenras mãos lhe alisavam os lençóis, como seu cabelo espesso e escuro caía ao redor de seus ombros e acariciava sua face. Recordava a deliciosa curva de seu seio aparecendo da bata.

Mas não recordava ter se intimado com ela na cama e, por que outra razão a veria vestida com um objeto tão íntimo? O que estava ocorrendo? O que recordava?

Nada. Absolutamente nada.

Tratou de se levantar por que seu corpo não se movia? e perguntou: — Quem diabos sou?

A mulher soltou uma exclamação e deslizou um braço sob sua cabeça.

— Como vê, prezado senhor, não está em condições de brigar — disse a outra mulher, a suas costas, e o agarrou pelos ombros. — Quero me sentar.

Dificilmente se poderia expressar a irritação que sentia por sua fraqueza. Um espaço em branco foi crescendo em sua mente até enchê-la por completo. Por muito que tentasse, por muito que procurasse lembranças, não encontrava nada.

Assumiu o comando como o fazia sempre, dando ordens naquele tom cortante que obtinha uns resultados instantâneos. Mas como sabia isso?

— Vão me dizer agora mesmo quem sou e o que estou fazendo aqui. — Se não respondiam, iriam pagar caro... mas como? Quem era ele?

— Tranquilamente, mais devagar.

A mulher de cara suarenta, a que tinha aqueles extraordinários olhos azuis e os seios vivazes, se inclinou sobre ele enquanto MacLean manobrava na cama, tratando de encontrar uma postura cômoda.

— Esteve muito doente — lhe disse.

— Isso já deduzi, boba.

Ofendida, lançando um breve bufo, a mulher se apressou a se erguer. Mas ele não era propenso a ter tato.

— Estou na cama, é de dia, e não me deito de dia a menos que esteja doente. Tenho muitas coisas a fazer.

Mas que fazia?

A outra mulher, a do cabelo cinza e semblante maternal - ele também a reconhecia, mas por quê? aproximou-se. Olhou aos olhos e, em um tom de voz que devia ter aperfeiçoado no transcurso de inumeráveis sermões, disse-lhe:

— Você tinha um aspecto de inquietação inclusive quando estava inconsciente, Agora me escute, jovem. Sou a senhora Brown e vou em busca do senhor. Ele explicará tudo, mas enquanto isso esta jovem dama cuidará de você. Não faça nenhuma estupidez. Não tente se levantar, porque não será capaz de fazê-lo. Seja obediente e faça exatamente o que esta amável senhora lhe diga.

— Por que deveria fazê-lo? — replicou ele, como um menino mal-humorado.

— Porque foi ela quem o fez voltar da beira da morte, e eu sou quem limpou seu traseiro.

MacLean a olhou fixamente.

Ela sustentou o olhar.

Sabia que era um guerreiro, e um guerreiro reconhece quando foi derrotado. Assentiu a contra gosto e, arrastando as solas de couro de seus sapatos, a mulher mais velha saiu da sala.

A mulher mais jovem se pôs a rir, com uma mão sobre os olhos.

— O que é tão divertido? — perguntou ele em tom brusco, como se não soubesse.

Ela ergueu a cabeça.

— Nos preocupava tanto que nunca despertasse... e agora que o fez, é mais inculto do que já foi algum dia.

Duas coisas chamaram a atenção de MacLean. Chamou-lhe inculto, de modo que o conhecia, e tinha os olhos úmidos. Ria, mas também chorou. Resultava curioso que uma rapariga atuasse assim. Mas aquele dia todo parecia curioso. Seu corpo, que normalmente respondia a seus desejos, estremecia de dor. A cara lhe doía ao falar, e a perna... o que fez à perna para que lhe doesse de um modo tão atroz? Mal podia levantar a mão, e quando o fez, ficou olhando-a fixamente. Esquelética, jogada a perder. A precariedade de sua condição física era cada vez mais evidente, e o enfurecia. O enfurecia quase tanto como o vasto espaço em branco que continha sua cabeça. Olhou a jovem e viu que o estava olhando com uma expressão séria.

— Não tenho muita vontade de esperar a esse senhor do que me falou — lhe disse. — Você sabe quem sou. Diga-me.

Ela o disse sem a menor vacilação.

— É Stephen MacLean da ilha de Mull. — Se interrompeu, à espera enquanto ele saboreava o nome na língua.

— Stephen MacLean. — Essas eram sílabas familiares? Eram os sons uma compilação de sua pessoa? Sacudiu a cabeça. — Não o conheço. — Pronunciou estas últimas palavras em dialeto escocês.

Ela soltou uma risada, mas o som era um regozijo estremecido de emoção.

— Não há dúvida de que esteve doente, pois do contrário não te ocorreria falar em escocês. Antes só sentia desprezo pela Escócia.

— O melhor lugar do mundo — disse ele, e franziu o cenho. Não recordava ter dito jamais essas palavras, mas as pronunciou com um ardor involuntário. — Quem é?

Enid o olhou fixamente, como se sopesasse sua fortaleza.

Como se atrevia ela considerar sequer que tinha direito a tomar decisões a respeito de seu bem-estar? Ele, que era o... quem era ele? Ele falou espaçando as palavras, como uma lenta e mesurada ameaça.

— Vai me dizer em seguida quem é.

Ela levantou garbosamente a formosa cabeça, um sorriso desdenhoso nos lábios.

— Sou sua esposa — disse.

Sem desviar o olhar dela, MacLean fez caso omisso da dor e pouco a pouco se ergueu sobre os cotovelos.

— Mentirosa.

Enid arqueou as sobrancelhas e abriu ligeiramente a boca. O olhou com fixidez, e então jogou a cabeça atrás e deu rédea solta à risada.

Se pudesse se levantar, ele a teria estrangulado.

Mas Enid deixou de rir quase imediatamente.

— Olhe, imaginei esta cena muitas vezes, mas nunca imaginei que essa seria sua resposta. — Se aproximou mais a ele com passo lento e precavido e perguntou: — Por que acredita que sou uma embusteira?

— Não recordo de você.

— Mas afirma que não recorda absolutamente nada.

Aquela mulher, aquela fêmea, aquela embusteira não acreditava em sua asseveração de que perdera a memória. Ninguém duvidava jamais de sua palavra, por que... não sabia por que, mas estava seguro que era um modelo de honestidade e integridade. Era...

Pálido de irritação, perguntou a ela:

— Se atreve... atreve-se a duvidar de mim?

— Assim estamos igualados.

O olhar de MacLean a percorreu da cabeça aos pés. Ela usava um vestido de algodão verde escuro, um tom quase militar por sua severidade, e fechado até o pescoço. A cintura era fina, e se as anáguas ocultavam a curva dos quadris... bom, perdeu a memória mas não a imaginação, e agora a utilizou. Uma mulher de bom aspecto. Um pouco magra, mas era evidente que havia feito de tudo desde sua infância para chegar a ter semelhante figura.

Se sua avaliação incomodou Enid, esta não mostrou indício algum de que assim fosse. Tampouco revelou um entusiasmo sem inibições ou um interesse pícaro. Permaneceu com as mãos enlaçadas na cintura, o olhando com um sereno interesse, à espera de seu veredicto.

Sua esposa? Não era provável. Se fosse sua esposa, ao olhá-la assim, com uma atenção francamente carnal, não poderia por menos que reagir com um sorriso e um bater das negras pestanas.

Afundou-se de novo nos travesseiros. Casado. Não. Não com aquela mulher.

— Não é minha esposa —lhe disse sem o menor escrúpulo.—Nenhum homem se esqueceria de ter feito amor com você.

Ela não se ruborizou nem fez nenhum movimento, e quando falou, sua voz continha todo o frio do vento que sopra do mar do Norte.

— Pois parece que você esqueceu.

De modo que estavam desforrados... e incomodados mutuamente.

Por que ela mentiu? Por que ele estava ali? Uma leve inquietação se insinuou por sua espinha dorsal enquanto, uma vez mais, tentava recordar... recordar o que? Algo mau, algo perigoso. Seu instinto o advertia desse perigo, e ele sempre confiava em seu instinto.

— Como se chama? — perguntou a ela.

— Enid MacLean.

— Enid... — Bonito nome. Gostava, embora não estava seguro que não lhe tivesse mentido também nesse aspecto. — Onde estou?

— Em Suffolk, na Inglaterra.

Respondia-lhe de boa vontade.

— O que me ocorreu?

— Estava de visita na Crimea.

— Sem você? — perguntou ele no tom mais neutro de que era capaz, e observou um momento de vacilação na mulher.

— Sim — disse ela depois da breve pausa. — Houve uma explosão. Resultou ferido, o outro homem morreu.

A península da Crimea. Não recordava essa viagem, embora sabia bem que Crimea era uma extensão de terra e areia que se internava no mar Negro.

Por que recordava isso?

Uma explosão. Tratou de se endireitar e examinar seu corpo, mas seus fracos esforços anteriores tinham esgotado suas forças, e essa constatação o enfureceu ainda mais.

— Tenho todos os membros intactos? — quis saber.

— Sim.

Não acreditava. Moveu os dedos dos pés. Moveu braços e pernas, sem deixar de sentir dor.

— Dê a volta, se tiver recato — pediu à mulher.

O obedeceu, mas quando teve terminado de se apalpar, depois de encontrar que as partes importantes seguiam realmente ali, observou que um intenso rubor invadia o pescoço da jovem.

— Não posso acreditar que esteja sobressaltada, moça. Aqui me tem sem mais que umas calças cortadas pelos joelhos, e certamente há muitas correntes de ar nesta sala.

— Assim nos resultava mais fácil cuidar de suas feridas - se defendeu ela com rigidez.

— Já pode se voltar.

Ela se voltou com cautela, e quando viu que ele tinha as mãos sobre o cobertor da cama, o olhou de novo.

— Se fosse na verdade minha esposa, deveria se alegrar que ainda possuo os meios para te dar prazer.

— Se fosse um marido como é devido, me alegraria.

— Se pudesse me levantar desta cama, não me diria isso à cara.

— Não me conhece absolutamente.

Sentia-se algum afeto por ele, se tinha um ápice de carinho, o ocultava atrás de uns traços inexpressivos, disciplinando a si mesma como um sargento militar encarregado da intendência.

Uma prova mais de que não era sua esposa.

— Quando teve lugar a explosão?

— Faz seis, quase sete semanas.

Ele soltou um bufido.

— Vamos, senhorita, não espera que eu acredite nisso. Em seis semanas já teria morrido.

— Deveria estar morto.

Não parecia uma mulher enganosa, mas ele conhecera antes embusteiras... onde? E a suspeita o acossava por que... por quê? O que o fazia observá-la de uma maneira tão cínica, quando tudo nela refletia sinceridade?

— Quererá beber algo, não é? Foi rapidamente à mesa onde estava a jarra e verteu água em uma tigela.

— Sim, obrigado. —- Seu estômago retumbava, e compreendeu que as exigências de seu corpo dominaram às da mente. — E comer! — Astutamente, inquiriu — estive na prisão? Passei fome?

— Em certo modo, sim. — Se aproximou de seu lado, apoiou o quadril na cama e deslizou o braço por trás de seus ombros para levantá-lo. Ele tentou pegar a tigela, mas ela a manteve fora de seu alcance.

— Cairá de suas mãos.

— Uma tigela?

— O que você acha?

Ele pensou que gostaria de se apertar contra seu seio. Parecia que já o fizera antes. Reconheceu o leve perfume de gardênia que saia dela. Intimidade... uma intimidade familiar.

Deixou que aproximasse a tigela de seus lábios e bebeu com avidez, o sabor antigo em sua pureza. Era possível que estivesse equivocado? Que tivesse se esquecido de quando fazia amor com ela, que fosse realmente sua esposa?

Não, Por Deus, não poderia ter se esquecido de uma coisa assim.

— O senhor Throckmorton fez que lhe trouxessem água de um manancial de Yorkshire — lhe disse. — De vez em quando recuperava a consciência, o suficiente para nos deixar te dar água e caldo, mas não falava e não parecia nos ouvir. — Suas mãos tremeram, e a tigela tilintou contra os dentes de MacLean. — Recorda agora? As lembranças voltaram?

Ele ofegou enquanto bebia a água... inclusive uma atividade tão mínima o extenuava.

— Não. — Fez um esforço para lhe agarrar o pulso e mantê-la ali. — Quem é o senhor Throckmorton?

— É o dono da casa familiar Blythe, a pessoa que a senhora Brown foi procurar. É... seu amigo? Havia outra pergunta por baixo daquela: "Recorda dele?". MacLean respondeu fazendo um gesto negativo com a cabeça.

— O senhor Throckmorton é o proprietário deste imóvel em que se está recuperando. — Se afastou antes de acrescentar — deixe que vá te buscar algo de comer. Encaminhou-se à escada, o deixando indignado porque escapou dele com tão pouco esforço, desolado pela perda do contato com ela e ressentido por depender até tal ponto de uma mulher, embora fosse uma mulher que afirmava ser sua esposa.

— O que quer dizer com isso de que sou inculto?

Ela se voltou para olhar a ele e sacudiu a cabeça, como se estivesse confusa.

— O que?

— Disse que era tão inculto como sempre.

— Ah. — Enid jogou uma olhada à escada, como se desejasse desaparecer, e então deu um lento passo para ele. — Você e eu estamos separados.

— Tolices — replicou ele sem pensar. — Jamais me separaria de minha esposa.

— De novo me chama mentirosa. Como eu disse... um inculto. — Com um movimento de impaciência, se dirigiu à escada e chamou a alguém que estava abaixo. — Necessito uma tigela de caldo. Não demore!

Enquanto retornava a seu lado, viu a chama que ardia nela com tal brilhantismo que lhe provocou uma lembrança. A noite. Os relâmpagos. O peso de seu seio na mão. A intensa sensação de propriedade, de que esse gesto era correto.

De acordo. Era possível. Talvez fosse sua esposa. Uma esposa que seria como uma Jezabel embusteira, mas se casou com ela era porque antes a domesticou. Voltaria a domesticá-la.

— Venha aqui — disse em voz baixa mas em um tom imperioso.

Se sua ordem a impressionou, ela o ocultou bem. Com as mãos nos quadris, perguntou:

— O que quer?

Ele não acreditava que pudesse manipulá-la facilmente, mas sua fraqueza o impedia de ir atrás dela, por isso devia tentá-lo.

— Teme a mim. Uma jovem forte como você, e me teme.

— Não é certo!

— Então venha aqui. Não é como se não pudesse partir quando quiser.

— OH, Por Deus... — Enid se ajoelhou ao lado da cama, adotando a mesma posição em que estava quando ele despertou. — Que deseja?

Ah, era uma moça sem nenhuma experiência da astúcia masculina. Uma jovem com a que ele poderia jogar como com uma isca prateada em um anzol. Voltou-se de lado e pegou sua cara nas mãos.

Ela retrocedeu.

— Quero te beijar — ele disse.

— Por quê? Não sou sua mulher. Sou uma embusteira.

— Que sarcástica é! — Acariciou-lhe a curva do pescoço. — E diz que também eu sou um embusteiro, que lembro e não o admito. Grande par de suspeitos somos você e eu. Mas o certo é que não recordo nada. Nem meu nome nem minha casa nem por que sofro nem como aconteceu. Então estou procurando uma lembrança e, se for minha esposa, então é a chave. A única coisa aqui em Suffolk, na Inglaterra, que me parece familiar. Por isso me conceda o beijo que te peço, porque preciso saber quem sou, e estou muito fraco para te reter.

O sentimento de culpa lhe concedeu o que a força não podia lhe dar. Ela mordeu o lábio e então suspirou com uma petulância extravagante, fechou os olhos e franziu os lábios.

Ele riu baixinho e lhe inclinou a cabeça. Ah, o contato da tenra boca feminina com a sua! Não importava que ela não quisesse ou que estivesse exasperada. Da mesma maneira que ele sabia onde estava situada a Crimea, que era um guerreiro e escocês, e que tinha motivos para suspeitar de suas circunstâncias, também sabia como suavizar com beijos a uma mulher relutante.

Beijou Enid uma e outra vez, uns beijos breves, leves, rápidos, nas comissuras da boca, no lábio inferior, inclusive na ponta do nariz. Sua encantadora careta de desdém foi se dissipando à medida que tratava de conservar a serenidade, de compreender a estratégia de MacLean. Foi então quando a boca deste se amoldou com precisão à sua. Explorou os contornos de seus lábios, sua textura felpuda aquela doce depressão no alto, a largura que fazia maquinar a um homem deleites eróticos. Enquanto isso, ela retinha o fôlego uma e outra vez, como se a surpreendesse cada um dos avanços de MacLean. Por um momento ele pensou em separar e lhe perguntar durante quanto tempo estiveram separados. Então chegou à conclusão de que isso era uma loucura e deslizou os dedos entre a cabeleira feminina para lhe segurar a cabeça.

Ela observou em seguida que a aprisionara. Tentou se retirar, mas ele não estava tão fraco como ela teria gostado. Pelo menos quando tinha uma boa e justificada razão para empregar sua força. A reteve, a persuadiu, a coagiu... e o beijo se fez mais profundo. A boca de Enid se abriu sob a dele, e o estremeceu com sua doce umidade, o sabor de especiarias e o calor estupendo. Ela retirou a língua, por isso ele foi procurá-la, pequenas incursões nas profundidades de sua boca, em busca de seus segredos, que foi achando um após o outro, e lhe mostrando quão bem podia usar esses segredos contra ela. Enid reagiu com vacilação no começo, e então, à medida que se acostumava a ele e a sua perversidade, elevou as mãos e lhe rodeou com elas a cara tal como ele rodeara a sua.

Uma mulher o deixava cativo. Uma mulher que afirmava ser sua esposa e, embora não fosse, não demoraria para se agitar debaixo dele, embargada de gozo.

Não havia no mundo maior prazer que o de persuadir a uma mulher relutante.

MacLean desejou rir quando seu corpo - enfermo, ferido, fraco - experimentou um acesso de vitalidade. Mal podia elevar a cabeça, a perna lhe ardia e, pelo que ele sabia, esteve à beira da morte. Mas seu membro viril, valente, agressivo, não muito judicioso, ainda erguia sua impudica cabeça e exigia que o mimassem. Ah, que grande coisa era ser homem, estar vivo naquele dia ensolarado... Estar beijando a aquela jovem ossuda que lhe dava semelhante incentivo para ficar bem. Mas não agora. Algo que tentasse agora terminaria em um desmoronamento ignominioso. Além disso...

Se retirando pouco a pouco, pôs fim ao beijo. Beijou-lhe o pulso, alisou o cabelo, o afastando da cara, e aguardou que ela abrisse os olhos. As pálpebras caídas e a expressão aturdida alimentavam seu orgulho masculino, e por um instante quase voltou para a perseguição. Mas carecia da força necessária, e por isso lhe disse:

— Temos companhia, querida.

 

Com um grito afogado Enid se apressou a levantar e cobriu com as mãos as ardentes faces.

O senhor Throckmorton, o senhor Kinman, a senhora Brown, Sally, uma das donzelas da cozinha que tão frequentemente trazia a refeição. Aquele porteiro de rosto duro que estava na entrada do imóvel... como se chamava? Harry. E um desconhecido a que nunca vira até então. Todos em fileira os olhando fixamente, como se nunca tivessem visto um homem beijar a uma mulher.

O senhor Kinman estava boquiaberto.

Quanto tempo estavam ali... e por que ela não os ouvira subir a escada?

Como se não soubesse.

Porque esteve experimentando o beijo mais delicioso, mais exótico, mais erótico que lhe deram em vários anos.

De acordo: que jamais lhe deram.

Inclusive agora suas mãos tremiam, tinha a respiração entrecortada e o calor de seu rosto não se devia tão só à vergonha. MacLean a fez arder, e se estivessem a sós, se ele estivesse em condições físicas, ela teria... e bem olhado, até que ponto precisava estar são um homem para atuar entre os lençóis? Lady Halifax afirmava que os homens eram capazes de todo tipo de comportamentos licenciosos independente de sua idade, sua inteligência e seu vigor.

Enid saudou os presentes com uma inclinação de cabeça e gaguejou:

— Se... senhor Throckmorton! Desculpe-me. Sinto muito. Não os vi.

— Não precisa se desculpar — murmurou a senhora Brown.

— Não, por favor, senhora MacLean, nos desculpe você. — O senhor Throckmorton demonstrou sua discrição ao inclinar a cabeça e, sem tão só uma furtiva piscada, acrescentou: — interrompemos insensatamente uma reunião aguardada durante longo tempo.

"Não, não é certo — queria dizer Enid. — Não estive esperando MacLean absolutamente."

Não via nenhuma maneira elegante de sair daquele apuro, e quando ouviu o som de uma risada indulgente da cama, a suas costas, quis se voltar para MacLean e lhe dar uma bofetada. Talvez se esqueceu das numerosas habilidades pugilísticas que ela aprendeu no orfanato... bom, certamente esqueceu, se era certo que não recordava nada, mas com gosto ela refrescaria sua memória.

— MacLean. — O senhor Throckmorton se aproximou da cama. Pegou delicadamente a mão enfraquecida do convalescente e a estreitou. — Estávamos preocupados.

MacLean não parecia agradado que um homem tão importante abandonasse todos seus assuntos para atendê-lo. Olhava com frieza ao senhor Throckmorton, o medindo com a vista antes de lhe outorgar sua confiança.

MacLean tinha um... descaramento... mas isso Enid já descobrira antes.

O senhor Kinman se aproximou então arrastando os pés, um homenzarrão que parecia um menino muito crescido, e olhou para MacLean com um sorriso nos lábios.

— Já era hora que despertasse — disse.

Possivelmente MacLean não o recordava, mas tal era o encanto sem malícia do senhor Kinman, que MacLean lhe devolveu o sorriso.

— Preguiçoso como um cão velho e covarde, assim sou eu.

O senhor Kinman lhe deu um golpezinho cauteloso no ombro.

— Assim é você — disse com voz ressonante e afogada pela emoção.

Enid sentiu um nó no estômago ao constatar a importância de MacLean para aqueles homens. Durante as últimas semanas ela se concentrou em MacLean de corpo e alma. Doente, inconsciente, ferido como esteve, fora dela. Agora estava acordado, falava, ele escutava, olhava a todos os outros. Ela foi degradada ao papel de cuidadora, o que na realidade era, certamente. Enid preferia esse papel.

"Pelo menos não beija aos outros", pensou, e em seguida sua mesma tolice a fez ruborizar.

— Que tal se encontra? — o senhor Throckmorton perguntou a MacLean.

— Como se tivessem me espancado e condenado a passar fome. — MacLean apontou para a donzela. —É comida o que há nessa bandeja?

— Sim, senhor. — A senhora Brown correu para ele, seguida por Sally. — Me deixe lhe pôr outro travesseiro debaixo dos ombros e lhe daremos um caldinho.

— Caldo! Não quero caldo, quero comida de verdade.

Despertara em toda extensão da palavra.

— A senhora MacLean é quem tem a última palavra quanto ao que convém a seu estado. — A senhora Brown se voltou cortesmente para Enid. — O que diz você a isso, senhora MacLean?

— Mm... — Enid fez um esforço mental para desentender de suas emoções e voltar para a vida prática. —Olhe, agora lhe daremos o caldo, e quando nos certificarmos que te sente bem, começaremos com mantimentos leves.

O doente gemeu.

— Eu gosto muito dos pêssegos.

— Amanhã — ela prometeu, mas sem o olhar.

Não podia olhar para ele. Presumido, cheio de si. Quando aprendeu a beijar daquela maneira? E com quem? E por que agora ela tinha ciúmes de alguma mulher sem rosto quando durante oito anos tudo o que pedira ao destino era que MacLean permanecesse longe, o mais longe possível dela?

Dispôs-se a ajudar à senhora Brown, que ia erguer ao doente na cama, mas se viu suplantada pelo senhor Throckmorton e o senhor Kinman, que ajudou à senhora Brown sem esforço. Enid observou enquanto a mulher pegava a tigela de caldo da bandeja, e chegou à conclusão de que não a necessitavam e se alegrou disso.

— Sou Throckmorton — se apresentou, — e este é Kinman, meu braço direito. Ali, junto à porta, está Harry, encarregado do portão, e esse homem de braços cruzados é Jackson. O contratei como seu camareiro, para que cuide de você e de seus objetos de vestir, o barbeie e banhe como deseja.

Um camareiro? Enid olhou para Jackson, que se aproximou da cama e saudou com uma inclinação de cabeça. Era um homem de estatura e idade medianas, o cabelo castanho, ligeiramente espadaúdo, com óculos de aros dourado e as costeletas mais impressionantes que ela jamais vira. Poderia ter sido inofensivo, salvo por seu ar de superioridade, que tantos camareiros consideravam uma parte imprescindível de sua natureza.

Um camareiro. Os deveres de Enid desapareciam com rapidez.

A jovem se encaminhou à escada, onde estava Harry.

— MacLean despertou - disse sem necessidade.

— Assim é. — Harry não desviava o olhar da cama. — Se recuperará?

— É muito cedo para saber — replicou ela, vacilante. — Mas sim. Acredito que sim. Se a pura força de vontade pode obter tal coisa, se recuperará.

— A força de vontade. — Harry parecia cético. — Tanto significa isso?

— É tudo. Cuidei de muitos pacientes, e é sua vontade o que os mantém com vida além de sua hora. A força de vontade é o que os conduz à recuperação. Ou a falta de vontade é o que os leva a um final prematuro.

— De todos os homens que conheci, MacLean é o que sempre teve mais integridade.

Integridade? Stephen MacLean tinha integridade?

— Nunca o teria reconhecido. — Harry a olhou com seus notáveis olhos grandes e castanhos. — E você?

Enid se deu conta que não gostava de Harry, nem gostava nem confiava nele de forma alguma. Aquele homem a olhava com uma intensidade exagerada. Vestia-se de escuro, era muito alto e tinha a rigidez enroscada de um cabo de aço. Sua estatura, sua força, tudo que o deveria ter convertido em um bom guarda-costas, exsudava em troca uma leve baforada de ameaça.

Mas não o conhecia. Certamente, o senhor Kinman confiava nele e, o que era mais importante, o senhor Throckmorton.

E ela... ela sofrera ultimamente muitas mudanças em sua vida. Dormira muito pouco e se preocupou em excesso. Deveria recordar... demonstrou ser um juiz muito deficiente da personalidade. Casou-se com Stephen MacLean.

— MacLean mudou muito — se limitou a dizer.

— Enid! — gritou o doente em tom irritado. — Venha aqui, Enid. Sabe que estou muito fraco para sustentar essa tigela.

O obedeceu, mas que confessasse tal fraqueza lhe pareceu muito suspeito. Aproximou-se. Os visitantes que rodeavam a cama se afastaram. Como se fosse um potentado oriental, se recostou nos travesseiros. Com que facilidade passou do estado de coma a dominar uma sala cheia de gente! E estava tratando de estender a ela esse domínio.

Enid avançou mais devagar. Ardia em desejos de lhe desafiar.

Ele a olhou com o cenho franzido, ordenou que o atendesse com o olhar.

Quem acreditava que era?

Seu marido.

Mas não. Ele sabia que a jovem mentira a ele. Dissera que não acreditava que estivessem casados. Era seu marido, Stephen MacLean, bêbado, jogador, velhaco, provavelmente cometera perjúrio ao afirmar que não recordava nada. Stephen MacLean foi sempre o tipo de homem que preferiria dizer uma mentira quando a verdade viria ao caso. Mas havia algo nele - a breve exibição de pânico, a fúria irracional - que inclinava Enid a pensar que, pelo menos nessa questão, dizia a verdade.

Enid pegou a tigela que a senhora Brown estendia e se sentou a seu lado na cama. Colocou o braço por trás de sua cabeça e aproximou a tigela de seus lábios. Engoliu o caldo com a mesma avidez com que bebera a água, e deu a tigela à senhora Brown para que voltasse a enchê-la.

Ergueu a vista para olhá-la, e então a deslizou para o restante das pessoas.

— Bom, querida moça, vai me dar uns leves golpes para que arrote?

Os homens riram, aliviados da tensão criada ao ver um dos seus alimentado como um bebê.

As mulheres trocaram olhadas exasperadas.

Enid pegou a tigela e a sustentou para que MacLean tomasse. Nesta ocasião ele o fez mais lentamente e com muito mais cautela. O observou como tinha feito nas últimas semanas, confiando em que lhe sentaria bem, rogando para que desta vez, quando dormisse, voltasse a despertar. Agora estava acordado, e ela não podia deixar de vigiá-lo. Não era saudável para um homem ser o centro da existência dos que o rodeavam, levando em conta que os homens já tinham umas ideias exageradas sobre sua importância.

O senhor Throckmorton olhou a seus homens.

— Embora já sabem, devo insistir na importância do silêncio. Terão que evitar que no exterior se conheça a recuperação de MacLean. A data de meu casamento se aproxima, e a casa Blythe estará cheia de convidados. Um só engano poderia pôr sua vida em perigo.

Todos os semblantes tinham um aspecto sério. Todas as cabeças assentiram. Todas exceto a de MacLean, quem olhava ao senhor Throckmorton com um cínico interesse.

Tampouco Enid assentiu, e uma vez mais se perguntou o motivo que estendessem semelhante rede protetora sobre a pessoa de seu marido.

— Falarei a sós com MacLean - disse o senhor Throckmorton.

Sally foi a primeira a sair, fazendo uma reverência, e a senhora Brown a seguiu. Jackson voltou a inclinar a cabeça e então desceu a escada. O senhor Kinman se encaminhou à porta e se deteve ao lado de Harry, quem permanecia imóvel, os olhos castanhos fixos em MacLean e logo em Enid, aquele seu olhar sério e intenso.

A maneira em que os olhava fez que Enid se sentisse incômoda. Deu-se conta que a cabeça de MacLean repousava em seu braço dobrado, e que esse gesto devia parecer protetor e... carinhoso.

Tentou retirar o braço.

MacLean pegou sua mão e a sustentou com firmeza.

Ela poderia ter se liberado, porque os músculos atrofiados do convalescente careciam de força. Mas pelo pouco que sabia daquele MacLean, não cederia sem lutar primeiro. Uma luta que careceria de dignidade.

O senhor Kinman pôs a mão sobre o ombro de Harry.

— Vamos, homem, temos que beber para celebrar, e logo voltar ao trabalho. Há muito que fazer nas semanas que faltam para o casamento.

Depois de um último e circunspeto olhar, o porteiro desceu a escada.

Enid tentou se mover para deixar a tigela na mesa e partir, mas MacLean lhe deu um ligeiro apertão nos dedos e desafiou o senhor Throckmorton com seu tom.

— Você não, você é minha mulher.

— Agora sou sua mulher? — zombou Enid. — Que mudança em tão só uma hora.

— Claro que você é sua esposa — disse o senhor Throckmorton, — e deveria ficar.

MacLean esfregou a face contra a mão da jovem.

— Aí tem. Uma autoridade o opinou. Somos marido e mulher.

Enid queria lhe dar uma réplica engenhosa, mas ficou em segundo plano enquanto os dois homens se olhavam receosamente, como se medindo. Sua concentração, a sensação de poder que emanava de cada um deles, assombraram Enid. É obvio, o senhor Throckmorton possuía esse infatigável ar de autoridade, mas também MacLean parecia o ter, e isso era toda uma novidade para ela.

— Então aqui vai ter um casamento — disse MacLean. — Quem se casa?

— Eu. — O senhor Throckmorton se dirigiu à abertura no chão, fechou a porta que dava acesso à escada e a sala de baixo.

— Senhora MacLean, queria que você fechasse a porta sempre que estiver a sós com seu marido.

— Por quê? — perguntaram os dois ao uníssono.

— Com a ocasião de meu casamento virá aqui um grande número de forasteiros, e me sentiria muito mais tranquilo se soubesse que não os têm descoberto.

Semelhante resposta não era absolutamente uma resposta, mas antes que Enid o pudesse interrogar mais, MacLean interveio.

— O felicito por suas núpcias iminentes. Não posso imaginar que tipo de mulher seria tão tola que se uniria a um filho de puta taciturno como você.

MacLean pareceu surpreso de seu engraçado e amigável comentário.

— Espera até que a veja — replicou o senhor Throckmorton. — Celeste é formosa, é encantadora. É muito inteligente para seu próprio bem. Então sim que se perguntará no que está pensando.

— É rico?

O senhor Throckmorton assentiu.

— E se encontra ela em similar circunstância?

— É mais pobre que um camundongo de igreja, mas me ama por mim mesmo.

Nem um indício de sarcasmo coloriu seu tom; o senhor Throckmorton era um homem feliz e não lhe importava quem soubesse.

As comissuras da boca de MacLean se inclinaram para baixo.

— Seriamente acredita nisso?

Enid interveio então, consternada.

— Como pode ser tão grosseiro, MacLean? — o repreendeu.

MacLean pegou a mão, que descansava em seu ombro, e a beijou.

— Temo que sou um tipo grosseiro.

Mas o senhor Throckmorton não parecia ofendido pela insolência de MacLean. Apoiou os punhos no colchão e se inclinou sobre o doente.

— Embora não acreditasse, não me importaria. Se tivesse que suborná-la para que se casasse comigo, faria. Faria tudo para ter Celeste.

— Então é um tolo — disse MacLean.

O senhor Throckmorton sorriu.

— Mentiu... sem dúvida como uma salvaguarda. Ainda conserva a memória.

Enid ficou à expectativa, ofegante. Recordava, em efeito, MacLean?

— Não. — MacLean olhou o outro aos olhos. — Não recordo nada.

A esperança se desvaneceu uma vez mais, e Enid exalou um suspiro.

Fez-se o silêncio no quarto. Não um silêncio como o que os tinha envolvido na última quinzena, a não ser um silêncio reflexivo. Um silêncio precavido.

Enid observava aos dois homens, se perguntando como o senhor Throckmorton reagiria à decepção e vendo que MacLean aguardava, na aparência relaxado.

O dono da casa se endireitou.

— É um homem suspeito — comentou. — Sempre foi. Essa é uma das qualidades que atraíram primeiro minha atenção.

— Ainda o sou, embora não posso te dizer por que. — MacLean elevou os olhos para olhar Enid. — Sobretudo quando tomei a uma mulher tão fraca por esposa.

O olhar do senhor Throckmorton se deslocou de um ao outro.

— É obvio, ela me diz que estávamos separados.

— Eu... sim, em efeito, estavam.

O senhor Throckmorton se afastou uns passos.

— Talvez essa seja a razão de seu cinismo.

MacLean fechou um momento os olhos, como se a excitação o tivesse fatigado.

Em um tom tão evasivo que chegava à secura, o senhor Throckmorton replicou:

— Tive que trazer aqui à senhora MacLean com a esperança de que reviveria para ela.

— E assim foi. Foi sua doce voz o que me guiou de retorno à consciência. — O fino rosto de MacLean se enrugou ao sorrir à mulher, um sorriso cortante como uma faca. — Mas não me devolveu a memória.

O senhor Throckmorton retornou ao pé da cama e agarrou o corrimão.

— Vou te dizer a verdade, MacLean. Não posso eliminar a suspeita de que recorda tudo, mas temo que posso ter te traído. Não obstante, se tivesse algo a ver com a explosão, agora estaria morto.

Encontra-se em minhas terras; não teria sido nenhum problema acabar com sua vida.

— Posso ter uma informação que precisa - disse MacLean sem rodeios.

— Assim é.

A tensão que havia entre eles inquietou Enid.

— Acreditamos... — disse o senhor Throckmorton — confiamos em que tem certo conhecimento de quem pôs a bomba, matou a nosso homem e o feriu. Se não tivesse querido que essa informação se soubesse, poderia ter feito que o matassem. E agora que sabe isto, devo te perguntar de novo... é certo que não recorda nada?

Enid reteve o fôlego.

— Nada — sussurrou o doente, como se estivesse triste, e fechou as pálpebras. — Não recordo nada.

— Muito bem — disse o senhor Throckmorton. — Acredito em você. Não tenho alternativa.

— Onde...? — MacLean pareceu se esforçar por permanecer acordado. — Onde estão minhas coisas?

Enid se sobressaltou.

— Suas coisas?

— Devo ter alguns pertences. Se pudesse ver, tocar e cheirar os objetos de meu passado, talvez pudesse recordar...

— Saiu da explosão tão só com a saia escocesa[3] e a bolsa.

— Minha bolsa. Quero minha bolsa. — Com tanta rapidez como MacLean despertou, desabou agora sobre os travesseiros.

Presa do pânico, Enid se inclinou sobre seu rosto. Aplicou os dedos no pulso do pescoço e comprovou que os batimentos do coração eram fortes. Aliviada, respondeu à pergunta tácita do senhor Throckmorton.

— Está bem, só exausto.

— Voltará a despertar?

— Quando se trata da saúde humana, não se pode afirmar nada de um modo terminante... mas sim, acredito que sim.

O dono da casa suspirou. Encaminhou-se à janela e contemplou o jardim.

— Quanto durará esta perda de memória?

— Não sei. Careço de experiência nos enigmas da mente. — Deixou a tigela sobre a bandeja e observou que seu marido tremia. — Ouvi pacientes dizer que não recordavam nada, mas sempre me pareceu uma tolice, uma história forjada pela culpa ou a loucura.

O senhor Throckmorton se voltou para ela.

— MacLean não tem nenhum motivo para se sentir culpado — disse em um tom de irritação.

— Confio em que não.

Em qualquer caso, não teria nenhuma razão recente.

— E não está louco.

— Céus, não! — Enid sacudiu a cabeça com um pouco mais de calma. — Não, não o está.

— De acordo, — o senhor Throckmorton pegou suas mãos. — O alimente, faça que se sinta melhor. Quando seu corpo esteja são, sua mente; também sanará.

— Isso espero — replicou ela, embora gostava mais daquele marido debilitado que o fisicamente íntegro que teve antes. — Assim acredito.

— Enviarei à senhora Brown. — O senhor Throckmorton se encaminhou a porta e a abriu. — Fecha isto atrás de mim e só abra a quem conhece.

Enid o olhou com fixidez, e então se apressou a obedecer. O grosso ferrolho deslizou em seu lugar com um estalo. O atoleiro em que Enid se encontrava era mais profundo e mais perigoso a cada momento que passava, e temia que a engolisse. Temia inclusive mais, em face às seguranças que o senhor Throckmorton lhe dera, MacLean poderia correr perigo, e ela conhecia a si mesma muito bem. Enquanto estivesse indefeso, ela faria o que fosse, inclusive arriscar sua vida, por lhe salvar.

Disse a si mesma que com toda segurança faria o mesmo por qualquer paciente. Claro que sim; não havia nada em MacLean e aquele beijo que pudesse eliminar o remorso de oito anos de pobreza e dívidas.

— Qual é sua impressão de Throckmorton?

Ao ouvir o som áspero da voz de MacLean, o coração de Enid se acelerou. Voltou-se para ele e viu como se esforçava por manter os olhos abertos, como sua pele tinha se descolorido até adquirir a tonalidade do pergaminho, como permanecia acordado só graças ao exercício da vontade.

— Precisa dormir — disse. — Não está em condições de fazer estes esforços.

— O que pensa de Throckmorton?

Fraco como um cordeiro novo, teimoso como uma mula MacLean não deixaria de lhe perguntar até que desse sua opinião, assim que o fez.

— Eu gosto.

MacLean soltou uma risada entrecortada.

— Mas está dizendo a verdade?

— Sim. Quero dizer que assim acredito. Não me deu nenhum motivo para pensar de outra maneira. — Se aproximou ao lado de MacLean, elevou sua cabeça e lhe deu outro gole de água. — Tem razão. Poderia ter feito que o matassem a qualquer momento.

— Se tiver descoberto uma informação que ele quer, e a informação existe somente dentro de minha mente, então Throckmorton desejará me manter com vida até que lhe dê essa informação.

Quando a tiver, poderá me matar.

— Certo. — Ela não pensou nisso. — Nunca me destaquei por minha lógica.

— Para isso me tem. — MacLean fechou as pálpebras e sua voz se fez indistinta. — Talvez Throckmorton não seja um aliado. Muito bem poderia ser meu verdugo.

— Então é certo que não o recorda.

Ele sacudiu a cabeça, sorridente.

Entretanto, Enid começava a compreender o labirinto de desconfiança e ceticismo pelo que os dois erravam.

— Mas trabalho para o senhor Throckmorton, e não recorda que sou sua esposa.

— Não tem uma lógica tão má, depois de tudo. — Lhe dirigiu aquele sorriso cruel, cortante. — Você também poderia ser meu verdugo. — suas pálpebras fecharam. — E não posso fazer absolutamente nada a respeito. — Adormeceu.

Ela permaneceu ali, o olhando. O inchaço da cara baixara, deixando a áspera estrutura óssea sem o acolchoado de carne sã que a suavizaria. A pele tinha cortes e cicatrizes, o fino nariz se tornou farpado por causa da fratura, tinha uma barba espessa, loira e castanho avermelhado com alguns fios cinza. Seus lábios... no princípio da estadia de Enid na casa os tinha gretados por causa da febre. Ela lhes aplicou unguento e lhes devolveu a suavidade, embora estivessem pálidos. Não ia chegar tão longe como imaginar outro beijo, mas a forma daqueles lábios, sua textura aveludada, a maneira em que podiam lhe roçar o pescoço, o seio, o... bem, sua textura aveludada procurou prazer.

Ainda não reconhecia Stephen MacLean, mas com o passar dos dias, concentrada exclusivamente no homem que jazia na cama, as velhas lembranças se desvaneceram. Nunca voltaria a se parecer ao homem com quem se casou, mas talvez isso fosse bom, pois ele dava todos os indícios de querer... coisas que ela não estava preparada para lhe dar.

A beijou. Mais importante ainda, ela devolveu o beijo. O êxito daquele beijo se devia a que MacLean a pegou despreparada. Sim, era isso. A pegou de surpresa, e sua resposta foi mais uma reação aos anos de abstinência que uma autêntica paixão. Precisava recordar quem era ele, o que fez, a ela e também a outras pessoas. A Stephen MacLean nunca interessou dizer a verdade ou permitir a outros que retivessem o que era dele. Brigaram por isso, e em muitas ocasiões ele zombou dela, lhe disse que era uma órfã que não compreendia a maneira de viver de quem era melhor que ela.

Quando aquele homem recuperasse a memória, voltaria a ter sua irresponsável personalidade anterior. Ela sabia. Nenhum homem mudava como MacLean o fez. Ela precisava recordar isso por que... porque se seguisse sendo o homem que foi durante aquela breve hora, poderia se apaixonar por ele.

Já sofreu uma vez por causa do amor, e as consequências quase a fizeram se ajoelhar. A ideia de voltar a cair na mesma armadilha a assustava como não lhe ocorrera em oito longos anos. Fixou o olhar no homem inconsciente, separou os dedos entrelaçados com os dele e se separou da cama.

Acossado em seu sonho por terrores, ele estremeceu e exalou um gemido. Abriu os olhos e olhou freneticamente a seu redor. Ao ver Enid, suspirou.

— Fica comigo.

Ela percebeu a corrente subterrânea de desespero em sua voz. Não queria sentir lástima dele. Não queria fazer promessas.

MacLean tentou se erguer sobre os cotovelos.

— Fica — insistiu.

— Estarei aqui quando despertar.

Ele estendeu a mão.

Incapaz de resistir, ela voltou.

MacLean agarrou seus dedos.

Sem dúvida não havia nenhum mal em lhe prometer algo tão simples.

— Não partirei.

Tranquilizado por essa segurança, ele dormiu. Desta vez dormiu seriamente, mas inclusive em seu torpor se agarrava a ela.

Enid exalou um suspiro e com o pé aproximou a cadeira de respaldo reto para se sentar.

— Quero que entenda uma coisa — disse ao homem dormido. — Não te prometo que irei ficar para sempre.

 

MacLean abriu os olhos na sala iluminada pela luz das velas. Imediatamente soube onde se encontrava. Em um sótão em Suffolk, seu corpo esmigalhado por uma explosão, a mente vazia e imóvel e a mulher que dizia ser sua esposa perto dele como um espírito inquieto.

— O que acontece, mulher? — ele perguntou bruscamente.

Enid se ergueu, as costas doloridas pela má postura, e deu um longo e lento passo para ele.

— Dormiu muito, dez horas desde esta manhã. Temíamos que não voltasse a despertar.

— Não terá essa sorte outra vez. — Doía-lhe a perna e o traseiro, e apalpou a seu redor em busca de outro travesseiro para colocar sob os ombros. Enid se apressou a lhe ajudar.

— É um homem mais agradável quando está inconsciente.

A aldeã que viu antes, a senhora Brown, estava ao pé da cama, e deu a opinião que ninguém pediu.

— Isso acontece com a maioria dos homens, e também aos bebês.

O sorriso de Enid foi tão repentino como a faísca produzida pela pederneira.

— Suponho que é uma lição que devemos aprender.

Embora ele quisesse beliscá-la por sua insolência, o encantava tanto a covinha de seu queixo, o timbre de sua voz, o brilho de seus dentes que não podia fazer mais que olhá-la fixamente. Era certo, quando ela era feliz tudo que a rodeava fazia eco de seu júbilo. Não lhe sorriu até então. Nenhuma só vez. Nunca.

Não era possível que a tivesse esquecido.

Maldição! Seu nome, seu lar, seus pais, seus familiares. O que aquela explosão fez a ele? Esqueceu-se de tudo. Afligido por um lúcido desespero, levou-se as mãos à testa.

Enid as afastou brandamente e olhou aos olhos.

— Dói a cabeça?

Não o olhava com um interesse romântico; examinava suas pupilas, tratando de ver se eram normais. Sua esposa. Ela afirmara que era sua esposa, mas como se transformou sua esposa naquela mulher de frios olhos azuis e voz firme? Dizia que estavam separados. Acaso não tinha ela doces lembranças do tempo em que viveram juntos?

A senhora Brown lhe ofereceu uma tigela fumegante, com um forte aroma de salsinha e carne.

A boca de MacLean se encheu de água, e estendeu a mão.

Enid segurou a tigela para maior segurança.

Ele engoliu o líquido com tal rapidez que lhe queimou a língua. O caldo estava salgado e suculento.

— Dói sua cabeça? — Enid voltou a perguntar.

Ele olhou à senhora Brown. A mulher estava do outro lado do quarto, dobrando roupa branca na mesa, muito afastada para ouvi-lo, por isso ele admitiu em voz baixa:

— Mais que uma dor de cabeça. Não sei quem sou.

Então amaldiçoou a si mesmo por mostrar a Enid sua fraqueza. As mulheres desprezavam a um homem fraco.

Mas Enid não reagiu com desprezo, e lhe respondeu também em voz baixa.

— Cuidarei de você até que saiba quem é.

Ainda vestia o vestido verde escuro, um pouco mais enrugado que antes, arregaçado até os cotovelos. A luz das velas a acariciava, mas tinha olheiras de fadiga e da rede para cabelo que lhe continha o cabelo escapavam mechas dispersas. Pegou a sua mão.

— E depois também.

— Se me quiser. — Seu tom deixou claro que duvidava.

De novo uma lembrança deslizou fora da espessa névoa que envolvia sua mente. Enid inclinada por cima dele, a bata jogada sobre os ombros, a luz dourada das velas resplandecia nas curvas superiores de seus seios.

Por que ele não podia recordar o que aconteceu depois? Só esse farrapo de cor bastava para despertar o seu membro viril, e ele necessitava recordar tudo a respeito dela, necessitava mais que recordar todo o resto de sua vida.

Queria lhe beijar os dedos, deslizar um braço ao redor de sua cintura, levá-la a algum lugar privado e lhe fazer o amor até que aquela tensa expressão de inquietação e domínio de si mesmo declinasse para converter-se em tenra paixão.

Ele queria fazer tudo isso, mas contemplava suas mãos entrelaçadas e a diferença entre as suas e as dela lhe estremecia. Enid tinha uns dedos fortes, as unhas curtas, a pele rosada e sã. As mãos de MacLean eram esqueléticas, pelancudas, as mãos de um inválido. Carecia da força necessária para possuí-la, mas o mais importante era que nenhuma mulher o aceitaria em semelhante estado.

Um pensamento cruzou por sua mente e o pânico escapou bruscamente de entre os barrotes de sua prisão.

— Que idade tenho?

— Me deixe pensar. — Ela enrugou a testa e contou com os dedos. — Tem trinta e cinco anos.

Ele se sentiu aliviado.

— Então não sou velho.

— Absolutamente.

— Tão teimoso como o demônio — manifestou a senhora Brown.

Sorriu-lhe.

— Reconhece a seu senhor?

A mulher seguiu com sua tarefa, de modo algum ofendida.

— Ah, que malicioso é você, senhor MacLean.

Enid lhe levou um espelho de mão.

No princípio as cicatrizes o impressionaram.

— Pareço o monstro de Frankenstein.

Não lhe respondeu.

— Leu Frankenstein?

— Sim.

— Quem o escreveu?

— Mary Shelley. — Ele compreendia agora Enid, e lhe disse: — Desconheço por que sei esse dado, mas o certo é que sei. Posso citar versículos da Bíblia as centenas, e recitar todo o solilóquio de Hamlet. — Fez um gesto imponente e acrescentou: — "Ser ou não ser, eis a questão; se é mais nobre sofrer no ânimo os tiros e flechadas da insultante Fortuna, ou se erguer em armas contra muitas agitações...".

— "E se enfrentando com elas" — o interrompeu Enid. — Acredito em você quando diz que recorda Hamlet.

— Posso te dizer como apanhar um coelho— prosseguiu ele — e tratá-lo para o assado, e como fazer pelo menos uma dúzia de nós. Mas não recordo quem sou, e isso é o que quero saber.

— De acordo.

Ele não acreditava que ela tivesse aceito sua explicação, e lhe exigiu em silêncio que o fizesse.

— De acordo! — Enid abriu os braços, as mãos estendidas. — Não compreendo como isto funciona, admito. Concederá-me que tenha momentos de dúvida.

— Pode duvidar do que queira, mas não de mim. Aqui sou o único homem que está te dizendo a verdade.

— Como sabe isso?

— Por instinto. — Que ela interpretasse esta resposta como melhor lhe parecesse.

Ergueu de novo o espelho e tocou ligeiramente as cicatrizes com as pontas dos dedos. Aquilo explicava por que notava a face rígida e dolorida quando falava. Alargou os olhos, flexionou a mandíbula, inclinou a cabeça. O homem refletido no espelho fazia também os movimentos, mas não o reconhecia. Aquela justaposição de linhas muito marcadas, cicatrizes pálidas e barba escura parecia totalmente alheio a ele.

Não obstante, Enid não parecia encontrar nada fora do comum em seus traços.

— Se reconhece?

— Absolutamente.

— Você é um homem na flor da vida — comentou a senhora Brown enquanto ia de um lado a outro da sala, recolhendo as roupas de cama.

— Se tiver que limpar um traseiro, se alegra que seja o meu, não é certo? — brincou ele.

Enid sufocou um grito.

— MacLean!

Mas a senhora Brown soltou uma gargalhada.

— Estou ficando velha, senhor, mas tenho boa vista e o que vejo nessas ocasiões é do mais agradável.

— Senhora Brown!

Enid parecia inclusive mais escandalizada pela criada que pelo próprio MacLean.

O senhor MacLean e a senhora Brown trocaram sorrisos.

Deu o espelho a Enid.

— Por um momento me perguntei se esbanjara a vida dormindo.

— Seria mais apropriado de você que a tivesse esbanjado no jogo.

Ele franziu o cenho. Não a compreendia.

— Eu não jogo.

— É um vício que tem.

Tampouco compreendia esta última afirmação. Sabia que existiam as cartas, sabia de homens que passavam dias e noites em salas cheias de fumaça apostando seus pagamentos a um só arremesso de jogo de dados, mas ele não era assim. Levava a mal a insinuação de que ele era um fracote como... o pensamento se esfumou quase com a mesma rapidez com que surgira. Como quem? Alguém cujo rosto via, cheio de agitação até resultar grosseiro enquanto apostava tudo por uma ilusão.

A emoção de MacLean remeteu antes que tivesse oportunidade de desenvolver a cena. Os rostos desfilavam por sua mente em um contexto que não se diferenciava do de um sonho, e até que pudesse resgatar as lembranças das profundidades se veria impossibilitado de entendê-los.

Impossibilitado... estava impossibilitado, por todos os diabos! Estendeu a tigela.

— Quero mais caldo — pediu, — e desta vez que contenha verdadeiro alimento.

Ela imitou sua voz profunda.

— Por favor, Enid, poderia me dar um pouco mais de caldo?

— Se não lhe rogar isso, seguirá me matando de fome?

— Não quero que me rogue, só quero que me trate com um mínimo de cortesia. Mas me esqueci! — Estalou os dedos. — Não mostra ter maneiras a menos que o esforço o beneficie.

O mau era que ele se inclinava a acreditar que Enid estava certa. Dar ordens lhe parecia correto, o mesmo que revelar impaciência. Palavras como "por favor" e "obrigado" lhe pareciam estranhas, alheias a seu vocabulário.

— Por favor, Enid — disse em um tom de absoluta irritação. — Quer me dar um pouco mais de caldo?

Ela pegou a tigela.

— Será um prazer para mim te dar mais caldo.

— E desta vez acrescente algum alimento sólido.

A chama que era Enid ardia vibrante e incansável, mas contida por sua força de vontade, e seu sorriso refletia altivez. Jogou garbosamente a cabeça atrás e de novo umas mechas frisadas e errantes se sobressaíram da rede para cabelo e lhe caíram sobre os ombros. A saia lhe rangia enquanto descia a escada.

Ele a olhou até que a última mecha de cabelo desapareceu de sua vista.

— Aonde vai? — perguntou à senhora Brown.

— Abaixo temos um fogão com alguém sempre preparado para cozinhar, se por acaso você deseja algo. — Se aproximou ao lado da cama, os braços cheios de roupa branca, o semblante simples, amável, enrugado pelo sorriso. — O senhor Throckmorton se incomodou muito por você.

— Não me cabe dúvida. Também há guardiães abaixo?

— Noite e dia. Muitos incômodos, certamente.

— Considera que sou digno de que se incomode tanto.

— Mas que arrogante chega a ser você. — O olhou até que teve a sensação que podia ver através de sua pele. — Não está morto de medo, senhor?

Ele estremeceu, e o movimento lhe produziu uma sensação dolorosa em todo o corpo.

— O que quer dizer?

— Todo mundo se pergunta se você está fingindo com isso de que não recorda nada. Sei que não é assim, porque nesse caso não gritaria e se mostraria desagradável para ocultar seu terror.

— Não estou apavorado.

Não estava!

— Claro que não. Criei a uma dúzia de filhos, e algo sei dos homens. — Deixou um amontoamento de toalhas sobre a mesa que estava ao lado da cama. — Para seu banho dessa manhã.

— Não vou me banhar.

— Já falamos sobre isso, a senhora MacLean e eu, e vamos lava-lo com uma esponja, tal como nós o fazemos a cada dois dias.

— Um caralho que farão isso.

Negava-se a mostrar a ninguém seu corpo branco e enfraquecido, e certamente não o mostraria a uma mulher que certa vez o lisonjeara por sua força e sua masculinidade. Lisonjeara-lhe o suficiente para se casar com ele, se a acreditava.

O sorriso da senhora Brown se alargou.

— Vê? Aí o tem. Está tão apavorado que salta por qualquer coisinha.

— Não é nenhuma coisinha —replicou ele com os dentes apertados.

— A questão é que tenho um grande afeto à senhora MacLean. Observei como o fazia voltar da beira da morte, lhe falar quando me parecia louca por fazer tal coisa, a vi dar a volta a seu corpinho inerte para que não lhe saíssem úlceras de decúbito, quando é uma mulher frágil que não deveria levantar nem sequer sua xícara de chá. — A senhora Brown apoiou as mãos em seus largos quadris. — Agora compreendo que você é um homem com seus temores, como compreendo que é um homem acostumado a mandar, mas quando ouço como é tão desagradável com a senhora MacLean, penso que deveria explicar a ela quão assustado está, para ela não se ofender.

Ele olhava com fixidez à mulher, e via a robustez sob a amabilidade. O ameaçava de contar a Enid que, por debaixo de suas maneiras ásperas, havia um menino assustado. Enid seria amável com ele, certamente, mas ele sabia que a capa de sua cortesia ocultaria a condescendência que todas as mulheres sentem pelos homens fracos.

Mas ele não era débil. Não o assustava a grande brecha aberta em sua mente nem tampouco a possibilidade de não voltar a encontrar jamais a si mesmo. Isso não era certo... mas não importava.

A senhora Brown diria que o era e o rechaço de MacLean chegaria a ouvidos surdos.

— É obvio, só sou uma criada, e o que devo fazer é manter a boca fechada. — O rosto da senhora Brown perdeu por completo sua amabilidade e brilhou com uma determinação demoníaca.

— E não diria nem um pio se você tivesse a consideração de ser um pouco mais cortês com nossa querida senhora MacLean.

Um trato. A senhora Brown lhe estava oferecendo um trato! E viu uma maneira de aumentar a aposta.

— Você me liberará de tomar o banho.

— É que cheira.

— As mulheres são muito suscetíveis a respeito da limpeza.

— Não tomou um banho de verdade pelo menos em sete semanas. As vacas do estábulo se queixaram do fedor.

— Não vou permitir que ela me banhe — replicou ele com uma enunciação lenta e precisa.

— Ah, então põe obstáculos a que seja ela. —A mulher assentiu. — Não quer que o banhe. Bom, posso arrumar isso.

A senhora Brown se separou da cama antes que ele pudesse dizer algo mais, e então MacLean ouviu os passos de Enid na escada. Quando entrou na sala, a criada estava no outro extremo, limpando a mesa.

Enid sustentava uma tigela e, sob o braço, um pacote envolto em papel marrom. Aproximou-se dele e lhe ofereceu a tigela. Ele a olhou como se fosse uma beberagem com poderes sobrenaturais.

— Basta de caldo.

— Espessado com papa — assegurou Enid.

Excelente! Naqueles momentos, umas papa eram para ele como o maná celestial.

Enid deixou que ele segurasse a tigela, equilibrando-a como se fosse um menino que poderia se sujar. E ele admitiu que tal coisa seria possível, pois suas mãos tremiam de fraqueza e queria engolir tudo de uma vez.

Ela não permitia. Depois de cada gole lhe retirava a tigela e lhe dava água.

Seu estômago se encheu com rapidez, Não podia acreditar que meia tigela de caldo e umas papas leves bastassem para satisfazê-lo.

Enid o compreendeu sem dizer uma só palavra. A senhora Brown permanecia ao fundo, os observando com uma inquietação que desmentia sua brutalidade anterior. Enid lhe deu a tigela.

— Não leve isso muito longe.

— Logo quererá mais — disse a senhora Brown ao paciente. — Seu estômago encolheu, e essas papas são mais do que tomou em várias semanas.

Ele voltou a olhar as mãos. Estendeu os braços para frente, logo a um lado e finalmente atrás até uni-los. Os músculos tremiam por causa do esforço, mas seria possível adestrá-los para que se rendessem de novo a sua vontade. Em troca, do outro aspecto de sua situação não sabia nada, não tinha a menor ideia de como evoluiria sua mente.

— As minhas lembranças voltarão?

— Quando tiver recuperado as forças— assegurou Enid.

— É isso o que diz o doutor?

— Despedi o doutor.

— Então sabe do que está falando.

— Não.

Ele ficou olhando fixamente. Precisava ser uma mulher muito audaz para acreditar que estava melhor informada que um profissional da medicina.

Entretanto, ele conheceu alguns médicos - embora não recordasse detalhes concretos de nenhum deles - e foram uns tolos, e arrogantes além disso. Preferia pôr sua vida nas esbeltas mãos de Enid que nas daqueles idiotas.

— De acordo — se limitou a dizer.

Enid se tranquilizou, e ele se deu conta que esteve esperando que destrambelhasse contra ela. A jovem lhe estendeu o pacote.

— O senhor Throckmorton envia isto.

Enid teve que cortar a corda que o atava, mas quando abriu o pacote de papel marrom, ele não reconheceu os restos chamuscados do kilt escocês. As cores dos quadros eram vermelhas, um verde tão escuro que era quase negro e um fio amarelo. A pele da bolsa estava queimada e o fechamento de couro tão deteriorado que era impossível abri-lo, mas aquela era sua bolsa, embora ele não sabia por que tinha essa certeza.

Enid pegou as toalhas da mesa que estava junto à cama e as sacudiu ante sua cara.

— Vamos te banhar.

Ele dirigiu um olhar à senhora Brown, a qual assentiu. MacLean envolveu os restos de seu passado com o papel marrom e deixou o pacote na mesinha de noite.

— Não vou me despir diante de você, moça.

Ela arqueou as sobrancelhas.

— Não vejo nenhum motivo que justifique essa atitude.

— Não é nenhum folguedo, e não vai me banhar.

— Não sou nenhum folguedo? Pelo menos sei quando tenho mau cheiro.

MacLean se sentia sujo, e desde que a senhora Brown o mencionou, notava que despedia certo aroma, mas não estava disposto a admitir.

— É um bom aroma varonil.

— Se os homens cheirarem como algo tirado de um montão de lixo — Enid se apressou a replicar. — Talvez não cheire a você mesmo, mas, me diga a verdade — seu tom tinha um toque persuasivo, — não nota sua pele áspera?

Não ia permitir que uma moça o dirigisse como se fosse um pedaço de carne. E muito menos se a mulher era Enid, quem já se mostrou capaz de lhe provocar um ofegante estímulo tão só com um beijo. Enid, que dizia ser sua esposa, de quem suspeitava que mentia enquanto confiava que lhe dissesse a verdade para que algum dia tivesse direito de se deitar com ela.

— Uma ligeira lavagem não servirá de nada — disse astutamente. — Se for me pôr em uma situação perigosa, então me banhe seriamente em uma banheira.

— Não podemos. Não está em condições de caminhar. Emagreceu, mas de todos os modos pesa muito para que nós o erguemos, e para ir até a banheira teríamos que te levar nos braços.

— Pois pede aos homens que me levem. Esse Kinman e o tal Harry, e Jackson, o camareiro que o senhor Throckmorton contratou para mim.

— Te mover assim faria mal, seria prejudicial para a perna.

Mas ela já estava cedendo, o qual indicava a MacLean quão mau realmente devia cheirar.

— A senhora Brown pode fiscalizá-los — propôs, — lhes dizer que façam o que ela lhes diga.

Enid titubeava; era evidente que se sentia tentada.

— O senhor tem razão, senhorita Enid — interveio a senhora Brown, aproveitando a circunstância que ele a tinha renomado. — Podemos usar a banheira que o senhor Throckmorton tem em seu dormitório, tão grande que o senhor MacLean quase pode se estirar nela. As donzelas porão água para ferver, os homens a subirão e eu me ocuparei de que o senhor MacLean não sofra o menor dano.

— Bom... — Enid mordeu o lábio e olhou com fixidez ao convalescente.

— O faremos amanhã, aproveitando o calor da primeira hora da tarde. — A senhora Brown pegou as toalhas que Enid sustentava.

— Não se fala mais. — Tudo saiu tal como ele se propôs, e sorriu para Enid, seguro de que ela se alegrava da decisão que ele tomara. — Tudo arrumado.

Não lhe devolveu o sorriso. O olhando aos olhos, perguntou:

— Por que a senhora Brown? Por que não eu?

MacLean trocou um olhar exasperado com a senhora Brown.

— Porque não me assustará com nada... — respondeu a senhora Brown.

— Pelo amor de Deus! Não é como se eu... — Enid mordeu o lábio.

— Não é como se você... o que?

"Não era como se não o tivesse visto nu antes."

Ele quase podia ouvir suas palavras carregadas de condescendência, mas ela não terminou a frase e ele detectou um leve rubor em suas faces. Era provável que Enid tivesse visto seus atributos viris durante seu casamento, mas disso fazia anos. E também era possível que os tivesse visto enquanto ele estava inconsciente, mas inclusive uma moça tão estrita como Enid devia se dar conta que haveria uma enorme diferença, e dava a "enorme" um sentido literal, entre ambas as circunstâncias.

— Nem sequer pode sustentar uma tigela. Quem vai sustentar sua cunha para que faça suas necessidades? — perguntou ela com tal presunção que ele sentiu desejo de estrangulá-la.

— Mijarei no chão — replicou ele bruscamente.

Rindo entre dentes, a senhora Brown interrompeu a discussão.

— Só tem que gritar, senhor, e alguém irá em sua ajuda.

Enid deixou de olhar para MacLean para dirigir um olhar furioso à senhora Brown. Esta a encaixou de bom humor, e quando ele já se acreditava vitorioso, Enid se vingou.

Tocou com o cotovelo à senhora Brown, como se ele não estivesse presente.

— Como não vamos banhá-lo, faremos que se exercite.

MacLean, que começou a relaxar, se irritou de novo.

— Dá a impressão que sou um cavalo— replicou. — O que quer dizer isso de que vai me exercitar?

Pegou sua mão e fez girar o primeiro pulso a um lado e logo ao outro.

A senhora Brown fez o mesmo com a outra mão.

Ele não podia separar as mãos que lhe agarraram, e sabia que tentar seria uma besteira. Compreendeu que lhe faziam aquilo para que seus membros não atrofiassem; inclusive apreciava os cuidados que prodigalizaram a um homem inconsciente. Mas como detestava aquela fraqueza! Ser empurrado, sacudido, movido daqui para lá, ser incapaz de se mover por si mesmo?

Como um espectador, observou às mulheres que elevavam seus braços por cima da cabeça com um ritmo lento. Os músculos estirados lhe doíam. Sua impotência atendia suas vísceras, e embora as duas mulheres faziam o esforço por ele, faltava-lhe o fôlego.

— Lhe demos um pouco de água — disse Enid.

— Sim, lhe demos — replicou ele com sarcasmo.

Elas o olharam como se as surpreendesse o ouvir falar, e ele se jurou que aquilo não voltaria a ocorrer. A partir do dia seguinte, ele mesmo faria os exercícios e iria até o limite de sua resistência. Deixaria de se preocupar pelo estado de sua mente e se concentraria no funcionamento de seu corpo até que cada articulação e cada músculo se movesse com a força e a destreza do aço bem lubrificado.

Aceitou a água com semblante carrancudo, bebeu e observou como as duas mulheres exercitavam a parte inferior de seu corpo. Depois de lhe pôr o lençol sobre os quadris e elevar suas pernas, primeiro moveram seu tornozelo acima e abaixo e logo dobraram sua perna, levando o joelho para o estômago. Enid sustentava a perna fraturada, movia-a com lentidão e perseverança, mas a dor era tão intensa que ele entrecerrava os olhos e o suor se deslizava por seu corpo.

— Poderei me apoiar nessa perna? — perguntou quando elas terminaram.

— Claro que sim! — A pergunta pareceu surpreender Enid. — A menos que haja algum dano que não está à vista, poderá se apoiar nela e caminhar.

Ele enxugou o suor da testa com a toalha que lhe oferecia, e observou como o limpavam com panos umedecidos e o secavam por partes. Também queria pôr obstáculos a essa operação, mas salvo a perna fraturada, que lhe doía seriamente, seus músculos experimentavam uma fadiga prazerosa, e descobriu que era agradável a atenção que recebia.

— Farei que cumpra sua promessa, moça.

— Sim, faça-o. — Enid alisou o cobertor em cima dele. — Faça-o.

 

Enid estava sozinha, sentada na cadeira de balanço, escutando os rangidos das pranchas do chão enquanto se balançava e fingindo ler um exemplar muito manuseado da abadia de Northanger. O sol do entardecer esquentava o sótão, a brisa penetrava pelas janelas abertas e, pela primeira vez em um mês e meio - não, em oito anos - dispunha de tempo livre e não sabia no que empregá-lo.

Seu olhar posou na cama onde MacLean estava deitado. O banho o extenuou, mas não o prejudicou. O senhor Throckmorton ordenou o procedimento, e tudo saiu de acordo com o planejado. A senhora Brown se ocupou da supervisão. Harry, o senhor Kinman e Jackson o levaram a banheira. MacLean permaneceu submerso na água quente enquanto um exército de criados retiravam as roupas de sua cama, esfregavam o chão e inclusive trocavam o colchão por um novo cheio de plumas.

Agora, enquanto a luz do dia acariciava as pranchas polidas e permanecia um longo momento na sala, iluminando todos os cantos, e a senhora Brown se foi de visita, o sótão já não cheirava como um quarto de doente e MacLean estava perdido no sono dos inocentes.

Fizeram tudo sem a ajuda de Enid. Esta não interviera em nada. Passeara pelo jardim, gozara do sol, aspirara o perfume das flores... de vez em quando olhava para a janela e retorcia as mãos, esperando que a chamassem...

Quão estranho era se sentir traída pelo fato de que o homem ao que cuidou durante um mês e meio se recuperou o suficiente para poder prescindir dela durante uma hora.

Tinha muito melhor aspecto. Suas faces já se encheram e os olhos não estavam afundados nas órbitas. O cabelo loiro avermelhado brilhava, recém lavado, e as feridas da cara se curaram, deixando umas cicatrizes pálidas. Jackson recortara a barba até reduzi-la ao mínimo, e agora podia ver a protuberante e quadrada mandíbula que dava a seu rosto a determinação de um bulldog. As maçãs do rosto se revelaram muito altas e o pobre nariz quebrado tinha um avultamento que lhe dava o aspecto de um valentão desumano. Talvez quando o barbeassem e cortassem o cabelo se pareceria com Stephen MacLean, e então deixaria de ser para ela um desconhecido que fazia seu coração pulsar com mais força.

Sorriu enquanto olhava as mãos. Em qualquer caso, ele fazia seu coração pulsar com mais força quando estava dormindo. Ao despertar, seguia sendo um bruto arrogante e desagradável.

Pensou que devia sentir a confusão que experimenta uma mãe quando seu doce e feliz bebê dá seus primeiros passos e diz sua primeira palavra... e essa palavra é: Não!

Um gemido procedente da cama a fez erguer a cabeça.

MacLean se estirou com lentidão e cuidado, ao mesmo tempo em que a olhava.

— Que sorriso tão inquietante—- lhe disse.

Ela apertou o livro entre suas mãos. Quando MacLean estava acordado, o sangue corria tumultuoso por suas veias, doía-lhe respirar e temia as coisas ferinas que lhe diria. Temia-as... e as esperava, porque algo nela, algum subtraio de desenfreio que acreditava esmagado pela vida muito tempo atrás, gozava de seus intercâmbios. Replicava-lhe com todo seu engenho. Nunca mais ele voltaria a tratá-la com uma desconsiderada insensibilidade. Não existia entre eles a relação de um inválido e sua enfermeira, nem tampouco a da esposa ofendida e o ousado canalha. Eram MacLean e Enid, adversários que compartilhavam um objetivo: o retorno da saúde e a memória de MacLean.

Quando ele recordasse... então tudo mudaria.

Deixou de se estirar, mas seguia olhando-a com fixidez, a observando enquanto ela se balançava na cadeira de balanço para frente e para trás com uns movimentos lentos e suaves. Não queria se balançar mais rápido porque ele a punha nervosa; embora a matassem manteria um ar sereno.

— Durante quanto tempo estivemos casados? — ele quis saber.

Enid ficou imóvel. A cadeira de balanço se deteve. Apoiou os pés no chão e se perguntou se a mente de MacLean, que levava tanto tempo em branco, cessava alguma vez em sua insaciável exigência de informação.

— Nove anos.

— Infidelidade?

— Não acredito — entrecerrou os olhos para o olhar, — embora esteja segura que você cometeu muitas depois.

— Me referia a você! — exclamou ele.

— Ah. — Enid perdeu por completo a equanimidade e começou a se balançar com rapidez, a serenidade desvanecida. — Não, claro que não. Como se me importassem tanto suas aventuras que queria me desforrar te enganando.

Estas palavras feriram seu orgulho masculino, ela pôde vê-lo na maneira em que esticou a boca. Não lhe importava. Enid opinava que ele tinha muito orgulho masculino, e sem nenhum motivo.

Mas ela sabia. Compartilhou o leito com ele, e a experiência não era nada do que se gabar. O perito beijo que lhe deu no dia anterior poderia alterar essa percepção, e seria melhor que ela, que seu corpo, tivesse presente o que aconteceu na última vez que cedeu aos rogos daquele homem. Acabou casada e no começo de um longo caminho, solitário e assediado pela pobreza.

Não obstante, a maneira em que MacLean a observara na noite anterior, não dormira em seguida, como ela acreditou que faria, mas sim permaneceu acordado, observando-a, enquanto ela ia e vinha pela sala, se asseando antes de deitar. Quando desapareceu atrás do biombo para colocar a camisa de dormir, não deixou de ser consciente nem um só momento de que ele escutava cada um de seus movimentos e o sussurro de suas anáguas. Despiu-se com cautela, vestindo primeiro a camisa de dormir antes de tirar as roupas íntimas, a fim de mostrar seu corpo o menos possível. Como se ele pudesse vê-la!

Depois de vestir a bata, emergiu descalça do biombo e se deslocou sem o olhar para ver se ele seguia observando-a, embora estava segura que assim era. Apagou todas as velas menos uma, que deixaria arder se por acaso ele despertasse em plena noite e a necessitasse. E não lhe ocultava que assim teria suficiente luz para que, se ele desejasse, a olhasse quando tirasse a bata e se deitasse. A observou, naturalmente. Nunca duvidou disso.

Recordou-se de uma coisa que a fez levantar.

— Posso te trazer algo de comer?

— Sim. — Ao que parece sua réplica do dia anterior surtira efeito, porque ele acrescentou: — Por favor.

— Muito bem. — Enid deixou o livro na cadeira de balanço e tratou de cercar uma conversação cortês. — Me alegro que tenha apetite.

— Por quê? — se voltou para ela na cama e perguntou em um tom zombador: — Se sou tão indiferente para você, que mais dá que viva ou morra?

Acabou a conversação cortês.

— Quanto mais coma e beba, mais se afastará de você o espectro da morte, e apesar de que é um exímio descarado, isso me satisfaz. Fiz um enorme esforço para te devolver à vida e não aceitarei nada que não seja sua recuperação total. — Pensou que aí tinha ele um motivo de reflexão. - Em seguida volto.

Demorou muito pouco tempo em realizar a tarefa, e embora não gostara de estar ausente enquanto banhavam MacLean, agora lhe arrebentava voltar para seu lado. Por que aquele homem precisava ser tão desagradável? Se seriamente não recordava seu casamento, não tinha nada que objetar. Mas por que precisava interrogá-la e então desconfiar com tal descaramento do que ela dizia? Acreditava-se melhor pessoa do que era e, em consequência, acusava a ela de ser pior do que era. Isso era injusto, e enquanto Enid subia a escada com uma terrina de guisado e uma concha de sopa, quadrou os ombros e endireitou as costas.

Ele nem sequer esperou que ela chegasse à sala para começar.

— Estamos separados — lhe disse.

— Sim.

Deixou a bandeja sobre a mesa e pegou uma das tigelas que a senhora Brown lhe dera.

— Vive em minha casa?

— Não.

— Às mulheres gostam de falar, nunca se calam — disse em um tom cheio de irritação. — Por que não fala?

Ela golpeou o recipiente com a concha de sopa, tão forte que o rompeu.

— Me fale, mulher. Onde esteve? O que tem feito?

Com mais paciência da que seria razoável esperar de qualquer mulher tão maltratada, pegou outra tigela e a encheu.

— Vivi na Inglaterra.

— Sozinha?

Ela se deteve, a tigela na mão, e lhe dirigiu um olhar furioso.

— Está me acusando de ter tido um amante?

O olhar de MacLean posou em seus lábios, e sorriu.

— Não, provavelmente não.

O que queria dizer com isso, e por que sorria?

— Durante quanto tempo viveu na Inglaterra?

— Toda a vida.

— Não pode ter mais de vinte e cinco anos.

— Vinte e seis.

— Que idade tinha quando nos casamos?

— Dezessete.

— Era uma menina!

— Isso é uma desculpa. — Utilizou seu sorriso como um aguilhão. — Em geral digo a mim mesma que sou uma néscia.

— Vivemos juntos menos de um ano?

— Muito bem — replicou ela, como se o felicitasse. — Face à perda de memória, ainda pode fazer contas. Vivemos três meses juntos.

Apesar da rudeza de Enid, ele teve a desfaçatez de se mostrar satisfeito de si mesmo.

— Vê? Agora está me falando.

Com a tigela fumegante de guisado na mão, ela pensou em derramá-la no meio das pernas. Mas não ia fazer isso só porque não seria justo; não faria tal coisa quando ele não podia ficar em pé para verter água fria na cueca. Mas quando pudesse se levantar...

Ele nem sequer se deu conta do perigo que corria nem de que estava pondo a prova o domínio de si mesma que tinha Enid.

— Poderiam ser piores as coisas. Isto demonstra que a aliança entre ingleses e escoceses é impossível. — Então, como um asno, zurrou a mesma canção. — Não acredito que estejamos casados. Sou muito preparado para ter me casado com uma mulher que não é escocesa.

Que asno, que homem tão estúpido.

— Se o senhor Throckmorton faz parte de uma conspiração para te fazer uma armadilha, por que tentaria te enganar apresentando uma esposa que o desagrada de uma maneira tão evidente?

— Não me desagrada. — Teve o descaramento de deslizar a mão pelo braço de Enid, para tranquiliza-la. — A única coisa que ocorre é que é uma mulher difícil e de língua mordaz.

— Enquanto que você é a voz da sabedoria e da cortesia. — Escapou de seu contato. — Não tínhamos nenhum motivo para acreditar que, ao despertar, teria ficado sem suas lembranças.

— Não há nada pior que uma mulher com lógica - concedeu ele.

— A menos que seja um homem que não tem nem um pingo.

MacLean não acusou o golpe. Claro que não. Como vai admitir um homem que uma mulher é mais esperta que ele? Jamais!

Fingindo que ela nem sequer falara, disse-lhe em um tom imperioso:

— Bom, vou comer.

— Suas maneiras voltaram a se desintegrar.

— Por favor, senhora, posso comer mais? — Olhou-a enquanto ela elevava a colher e lhe sugeriu astutamente: — um pouco de cordeiro não viria mau, ou um pouco de couve e um caneco de vinho.

— Hoje o caldo contém purê de cenoura e batatas. — Deu-lhe colheradas até que ele pegou a tigela e ficou a comer sem ajuda. — Se tolerar isto, amanhã poderá comer um pouco de carne picada.

Ao terminar limpou a boca com o guardanapo que ela estendia.

— Que seja hoje, mais tarde.

— Talvez — disse ela, e encheu de novo a tigela.

MacLean comeu até se saciar, e então suspirou e deixou a tigela sobre a mesinha de noite.

— Quando poderei comer um pêssego? — perguntou. — Quando durmo sonho com pêssegos, e tenho uma vontade enorme de saborear sua carne doce e tenra.

E embora ele a olhava à cara, ela teria jurado que ele estava falando de algo completamente diferente.

— O caminho mais rápido para chegar ao coração de um homem é através de seu estômago — comentou então MacLean com um sorriso.

— O caminho mais rápido para chegar ao coração de um homem é através do peito. — Enid se inclinou, se aproximando mais a ele, e se por acaso ele não entendera, esclareceu: — Com uma adaga.

— Harpia.

— Não o esqueça nunca.

Ele a reconhecera como uma força com a que era preciso contar, e isso emocionou Enid. Os olhos verdes e dourados de MacLean se travaram com os seus. E se encontrou presa em uma resistência implacável para ver qual dos dois desviava primeiro a vista.

Ao princípio o olhou resolutamente, segura de que aquele enfrentamento era uma escaramuça sem importância que, uma vez mais, demonstraria a MacLean que ela não se deixava intimidar.

O silêncio entre eles foi se intensificando, e Enid compreendeu que o seu era mais que um enfrentamento de vontades. MacLean a olhava como se ela fosse um bocado e ele um faminto... e o que era pior, ela sabia que, em efeito, estava faminto, de comida, de amor... não, de amor não. De fornicação. Oito anos atrás, MacLean queria adoração e obediência, não amor.

Já que Enid sabia tais coisas, por que queria avançar no vazio de seu silêncio, lhe tocar a mandíbula coberta pela curta e escura barba e saborear seus lábios? Por que imaginava o que sentiria ao apoiar os seios em seu peito para se abandonar aos beijos longos, lentos e profundos e notar as carícias das mãos masculinas em sua pele?

Abriu a boca enquanto sua respiração acelerava, embriagada pela iminência do contato. Um calor delicioso invadia sua pele. A tensão que experimentara sem cessar desde que ele despertou ia aumentando e percorria suas terminações nervosas, se instalando em sua matriz como uma carga que respirava e se movia e exigia atenção.

Teria desviado a vista... se pudesse. Concederia de bom grado a vitória a ele em sua pequena batalha se tão só pudesse evitar aquela... aquela o que? Aquela humilhação? Aquela armadilha? Aquele prazer?

— Senhora MacLean? — Uma vibrante voz feminina desconhecida a chamava de baixo.

O feitiço se rompeu. Enid piscou. Suas mãos descansavam sobre o colchão, estava se inclinando para ele... jogou a cabeça para trás com brutalidade.

— Bonjour madame! Você está aí?

Enid olhou a seu redor, perplexa pelo abrupto retorno à realidade, agradecida que alguém, uma mulher, uma desconhecida, a tivesse resgatado.

— Sim, aqui estou — respondeu, e se encaminhou à escada.

Mas MacLean pegou sua mão, disposto a não soltá-la até que o olhasse.

Contemplou-a sem sorrir.

— Salva — sussurrou. — Mas não por muito tempo.

 

Enid fingiu que não lhe entendia, mas a MacLean não importou. Era evidente que o entendia. Sabia que quase acontecera. A paixão entre eles pulsava e ardia como sangue fresco e um novo fogo.

Com sensual lentidão, deslizou um dedo por seu braço e o deteve no pulso.

Ela liberou a mão de um puxão e se dirigiu à escada, onde se ouvia um som de pegadas.

Uma cabeça surgiu da abertura, uma mulher bonita e sorridente, revestida de alegria como se fosse um objeto, uma dessas mulheres que fazem felizes a quantos as rodeiam. Ao ver Enid, perguntou-lhe:

— Madame MacLean?

Quando a mulher entrou na sala, Enid viu que era miúda e bonita, e inclusive sem necessidade de apresentações soube que era a mulher com a que Throckmorton ia se casar. Nenhuma outra mulher teria conseguido que aquele velho e sério filho de cadela se casasse com ela sem ter fortuna nem título algum.

MacLean piscou. Que revelação! Certamente, conhecera antes Throckmorton e fora seu amigo, pois do contrário MacLean não refletiria nele com o alegre regozijo com que um homem preso pensa em outro.

Preso... dirigiu um olhar a Enid. Casado. Com ela. Talvez não quisesse pensar que se casaria com uma inglesa, mas ela tinha razão. Se Throckmorton desejava lhe enganar teria apresentado uma bela donzela com mel nos lábios, não aquela harpia.

A espera se mesclou com a amargura de saber que não fizera feliz a sua companheira. Não recordava, mas Enid era sua esposa, e acumularia novas lembranças com ela. Devia planejar a maneira de seduzi-la, e isso seria algo a esperar com ilusão.

Celeste usava o cabelo de cor dourada como o mel recolhido em um daqueles complicados estilos que irritavam a qualquer homem judicioso, com tranças aqui e lá que lhe cobriam as orelhas e a parte superior da cabeça, e passadores com brilhantes que se sobressaíam e cintilavam de tal maneira que MacLean quis lhe dizer que apagassem as velas.

Como uma moça tola, Enid levou as mãos à rede para cabelo negra, em uma vã tentativa de endireitar a magnífica e rebelde cabeleira.

— Não o faça — lhe disse Celeste, com um leve acento francês. — Espere! — Avançou a grandes passos, a saia de vivida cor rosa batendo as asas e com um buquê de flores escorado nos braços. — Me permita.

— Extraiu as forquilhas do cabelo de Enid e lhe tirou a rede para cabelo negra.

A frisada cabeleira se derramou sobre os ombros de Enid em total desordem, e ergueu as mãos para retê-lo. Com os braços levantados e uma expressão de assombro, até tal ponto que parecia uma mulher surpreendida no ato de se arrumar que MacLean quase gemeu de desejo. Dobrando um joelho, ocultou seu cardo florido sob o lençol em forma de tenda e observou com um deleite de olheiro enquanto Celeste afastava as mãos de Enid e a penteava com os dedos. A cabeleira da jovem chegava à cintura. Ele teve vislumbres a noite anterior à luz da vela, e agora queria acariciar cada fio, lhe beijar os lábios, a cobrir de...

— Olhe isto! — exclamou Celeste. — Que sorte tem você. Meu cabelo é liso e fino, mas o seu... o seu é magnífico! — se voltou para MacLean e disse: — Não adora seu cabelo, monsieur?

"Hoje. Ontem à noite. Amanhã, estendido sobre o travesseiro absolutamente em desordem." Mas se limitou a dizer:

— É esplêndido.

Enid o olhou surpreendida, e a paixão que ele escondia com o joelho dobrado deve ter se transmitido a sua voz, porque ela ficou vermelha como o grão e pegou bruscamente a ridícula rede para cabelo.

— É claro que sim! — exclamou Celeste, rindo, transbordante de encanto. — Madame MacLean, não me apresentei, e você está se perguntando quem sou. Meu nome é Celeste Milford. Vou casar me com o senhor Throckmorton.

A alegria de Celeste era contagiosa. MacLean sorriu, e inclusive Enid, empenhada em introduzir sua cabeleira naquela armadilha capilar, riu entre dentes.

— Sei — replicou.

— Ele disse?

Celeste deu uns ligeiros saltos que expressavam seu júbilo.

— Nos disse — respondeu Enid.

Celeste enlaçou as mãos nos joelhos e riu.

—Não é maravilhoso que me ame?

— Eu diria que a ama porque você é maravilhosa — replicou Enid.

As duas mulheres se olharam, e uma faísca de amizade saltou entre elas, pois se puseram a rir e se abraçaram.

Essa imagem fez que fosse à mente de MacLean a lembrança de sua irmã e suas tolas amigas, que sempre riam sem motivo algum e falavam quando não tinham nada a dizer. Podia vê-las agora... agarrou os lençóis à medida que a cena se perfilava em sua mente. Sua irmã, erguida sobre uma rocha na borda do mar e agitando os braços como um pássaro enquanto o vento fazia ondear sua cabeleira loira avermelhada...

— Throckmorton me pediu que não os incomode porque vocês estão ocupados e não quer que me intrometa — tagarelava Celeste.

MacLean ergueu os olhos. Recordou algo. Sim, realmente recordou algo, mas as mulheres não perceberam isso.

— Isso significa que deseja que me ocupe de meus próprios assuntos. Assim trouxe um buquê de flores que meu pai cortou, a fim de conhecê-la. — Celeste estendeu as flores a Enid. — Gosta?

E MacLean tampouco lhes diria que um retalho dourado de seu passado acabava de emergir das profundezas de sua mente. Ainda não. Não o faria até que soubesse o que significava, se era só um tesouro que lhe concedera ou o começo de um filão cada vez mais longo.

Enid aceitou as flores um tanto murchas com tal entusiasmo que pareceu como se nunca até então tivessem lhe dado um presente floral.

— Também tenho uma carta para você. — Celeste colocou a mão em um bolso e estendeu a Enid uma folha dobrada e selada.

Enid a olhou e, como se contivesse uma mensagem preciosa que não podia ser compartilhada, a guardou no bolso.

— Muito obrigado! A estava esperando.

— De quem é? — perguntou MacLean. — Quem escreve para você?

— Uma velha amiga. — Se voltou para Celeste. — Não tenho nenhum vaso, então encheremos uma terrina de água.

— Isso será perfeito —replicou Celeste.

A carta. Enid evitava a carta, e aquela folha de papel contribuía com um vínculo com a vida passada da jovem. O único do qual MacLean não sabia nada.

— Não vai ler a carta?

Como se estivesse sobressaltada, Enid o olhou com o cenho franzido.

— Temos companhia.

MacLean não insistiu, mas não se esqueceria.

Celeste verteu a água da jarra em uma terrina. Enid colocou as flores na água, e MacLean viu que sua séria e suscetível mulher ria entre dentes ao ver que caíam pelos lados.

Então Celeste as cortou e arrumou, e Enid recebeu instruções com viva atenção e sem o menor indício de beligerância. MacLean nunca imaginou aquela transformação da enfermeira carregada de responsabilidades em uma moça livre de cuidados.

— Necessita de algo, MacLean? — perguntou-lhe.

A ele não teria ocorrido interrompê-las, não quando tinha uma janela de acesso à conduta de Enid com alguém a quem ela podia considerar uma amiga.

— Acredito que vou dormir um pouco.

— Não devemos fazer ruído — murmurou Celeste enquanto se encaminhava nas pontas dos pés para as cadeiras que estavam perto da janela e fazia um gesto a Enid para que se sentasse. — Chis, chis.

Por sorte para MacLean, tinha um ouvido de caçador.

— Você é da Distinta Academia de Instrutoras — disse Celeste.

— Sim, lady Bucknell me encontrou meu último emprego.

A pura curiosidade fez que MacLean não resistisse a intervir.

— Distinta Academia de Instrutoras? O que é isso?

— Acreditava que estava dormindo. — A julgar por seu tom, Enid sabia muito bem que ele se propôs a escutá-las.

— Ainda não — replicou ele, pensando que fazia uma imitação razoável da inocência.

— A chamamos Distinta Academia de Instrutoras— lhe explicou Celeste. — É a instituição que lady Bucknell dirige, que encontra emprego a muitas jovens. — Então, como se carecesse de importância, se voltou para Enid: — Eu também pertenço à Distinta Academia de Instrutoras. Lady Bucknell me ensinou a ser instrutora, logo me enviou a França e então retornei aqui porque Throckmorton necessitava de uma instrutora e eu queria me casar com seu irmão.

Confuso, MacLean lhe perguntou:

— Então você se casa com o irmão de Throckmorton?

— Não, casa com o senhor Throckmorton. — Enid sacudiu a cabeça, como se ele fosse duro de moleira.

Entretanto, MacLean sabia muito bem que acabava de ouvir celeste dizer que voltara para a casa familiar Blythe para se casar com o irmão de Throckmorton.

Como se comunicavam as mulheres de semelhante maneira, pelo amor de Deus?

— Quando retornou da França? — inquiriu Enid.

— Faz poucos meses, mas Throckmorton me cortejou, embora na realidade não desejava fazê-lo, mas agora mudou de ideia e deseja se casar o antes possível. Sua mãe, a querida lady Philberta, não queria que estivéssemos juntos na casa, pois a preocupa que tenhamos um filho muito cedo. Poderia lhe dizer que vamos tê-lo, mas isso estragaria a surpresa.

— OH! — Enid ficou em pé de um salto e abraçou a Celeste. — Que boa notícia! Quando?

— Bem feito, Throckmorton! — MacLean sorriu.

Quem teria pensado que aquele homem esquivaria as regras até o ponto de se meter na cama daquela garota?

— Estou segura que nossos demais meninos demorarão nove meses a nascer, mas este não vai demorar mais de sete — informou Celeste, e duas covinhas apareceram em suas faces. — Não dirão a Throckmorton, não é?

Surpreso, MacLean se ergueu se apoiando no cotovelo.

— Não disse ao pai?

Celeste se ruborizou.

— Vá dormir!

— De acordo, mas deve você dizer a ele imediatamente. Já nos disse isso, e ele não sabe.

As duas mulheres trocaram olhares, e deram de ombros ao uníssono.

— Uma mulher gosta de dar primeiro este tipo de notícias a outra mulher — explicou Enid. — Os homens não entendem.

Ele massageou a testa com as pontas dos dedos.

— Claro que o entendemos. Vai ter um filho. É um fato natural.

— Isso é o que os homens não entendem, — Celeste sacudiu a cabeça com uma expressão triste. — Dizem que é uma função natural. Nem sequer acreditam que têm algo a ver com isso.

— Nós... algo a ver com isso? Sim, claro que temos a ver — balbuciou MacLean. — Eu gostaria de ver vocês fazendo isso sozinhas!

Enid tocou o sutiã, como se seu coração lhe falasse.

— Os filhos são um milagre de Deus.

Celeste se mostrou de acordo e, ao mesmo tempo, fez caso omisso de MacLean.

— Exato. Então minha querida lady Philberta me fez voltar em seguida para Paris, onde compramos meu enxoval. — Esta saia é o estilo mais moderno. Não gosta?

— É preciosa, — Enid tocou o tecido. — Espumilla[4], acredito.

Como uma mulher sabia isso?, se perguntou MacLean. Olhavam a outra mulher, embelezada com um vestido que não parecia diferente aos que usavam as demais, e diziam que a cor era pavão ou espuma ou creme ou qualquer outra substância que era um objeto, não uma cor. Podiam distinguir o material, a malha, se a dama usava calcinhas com babados e o número de costureiras que tinham costurado o objeto. Tudo por um vestido!

Agora bem, se pudessem falar dos cavalos com o mesmo conhecimento de causa, isso sim que valeria a pena.

— As mangas e o sutiã são de veludo. Não sei se eu gosto de um tecido assim para um vestido de dia, mas a costureira insistiu em que era chique e Throckmorton gosta da sensação ao tato quando... — Celeste fechou a boca e olhou para MacLean.

Ele fechou os olhos e fingiu dormir.

— Tenho pouca experiência com os homens, mas Throckmorton é muito viril — revelou Celeste, baixando a voz. — Sempre muito apaixonado. Seu marido também é assim?

Ah, ele ardia em desejos de ouvir a resposta de Enid!

— Sempre o interessaram mais as cartas e os jogos de dados.

Enid não se incomodou em sussurrar, e ele teria apostado que ela sabia que estava acordado.

— Me surpreende. Throckmorton tem em grande estima a seu marido, e não aprova o jogo nem a vida desordenada. — Celeste pareceu decepcionada, mas em seguida se animou.

— Agora que o senhor MacLean se esqueceu de tudo, talvez recordará como se faz amor.

— Talvez — disse Enid em tom dúbio. — Mas não falemos dele. Você dizia que também é da Distinta Academia de Instrutoras.

— Sim, e sabe a quem encontrei aqui, na casa familiar Blythe? Às fundadoras da Distinta Academia de Instrutoras!

Enid sufocou um grito.

— Seriamente? São autênticas lendas. Que aspecto têm? O que lhe disseram?

— São jovens, são bonitas, são inteligentes, naturalmente...

MacLean, sonolento, escutava o bate-papo com um ouvido. Estava limpo, acabava de ter um vislumbre da mente de sua esposa e recordara a sua irmã. Foi um bom dia. O dia seguinte seria melhor. No dia seguinte se inteiraria do conteúdo daquela carta e recordaria tudo a respeito de si mesmo, de sua família... e de sua esposa. Sua difícil, complexa e atraente esposa.

 

MacLean despertou em plena noite. Uma só vela, colocada perto do chão, iluminava a sala, alargando as sombras. Enid jazia na cama que estava junto à parede, a trança sobre o travesseiro, uma mão pálida aberta e um pouco curvada. Roncava com um relaxamento absoluto.

Ele sorriu. Roncava... com suavidade, certamente, mas roncava. Que agradável era saber que sua perfeita esposa possuía pelo menos uma vulnerabilidade humana.

Por outro lado, lhe caía muito mal a despertar de um sono tão profundo, mas tinha muita sede. Mediu com o olhar a distância entre sua cama e a mesa sobre a que se encontrava a jarra. Não mais de cinco passos. Exceto por alguns achaques e dores e a persistente debilidade da perna, se sentia são. Só cinco passos. Sem dúvida poderia percorrê-los e servir um copo de água.

Sim, poderia fazê-lo.

Se levantou... a condenada perna não resistiu e caiu ao chão com um ruído surdo que reverberou através das pranchas e cada osso e músculo de seu corpo. A mesinha de noite caiu com ele. As toalhas voaram. A bacia de porcelana se rompeu em pedaços que se espalhavam por toda parte.

Ainda se moviam os fragmentos quando Enid apareceu a seu lado.

— Estou bem, estou bem! — exclamou MacLean, furioso, sobressaltado, dolorido.

Enid lhe fez caso omisso.

— Se machucou? Quebrou algo?

Seu orgulho. Nada importante.

— A bacia — disse bruscamente.

— Me refiro a você — replicou ela com irritação.

— Estou bem — repetiu ele. — Recolhe os fragmentos.

Dois homens apareceram no alto da escada, pistola na mão.

MacLean reagiu de uma maneira instintiva: agarrou Enid e a jogou no chão.

Ela gritou como uma galinha assustada.

Os homens examinaram o quarto, e MacLean compreendeu que eram seus guarda-costas. Soltou Enid e lhe permitiu se sentar.

— O que está fazendo? Ficou louco? — Ela olhou aos homens que embainhavam suas pistolas. — OH. — Adotou o papel de cuidadora. — Não se preocupe. São Harry e Sandeman. Não lhe farão mal.

MacLean queria lhe dizer que não gostava que o tranquilizasse como a um menino que despertou de um pesadelo, sobretudo diante dos homens, mas ela pôs um braço ao redor dos ombros para o ajudar enquanto ele se esforçava por se sentar, e os braços femininos eram um lugar de primeira classe onde permanecer.

O sustentando como se fosse um menino que, ao tropeçar, abrira uma brecha na cabeça, Enid se dirigiu aos homens armados.

— Vocês! Harry, Sandeman! Me ajudem a deitá-lo de novo.

MacLean tinha a força suficiente para afastá-la.

— Se calce primeiro. Vai se cortar com a porcelana quebrada.

— Nós o levaremos, senhorita.

MacLean reconheceu ao homem que falou. Harry.

— Faça o que MacLean lhe diz e calce os sapatos - disse Harry.

— Quero ajudar...

MacLean observou que os dois homens olhavam fixamente o teto. Olhou para Enid.

Céu santo, salvo pela longa e transparente camisa de dormir de verão, estava quase nua.

Olhou-a porque não podia evitar. E gozou porque um homem teria que estar morto para não gozar. Então lhe disse em voz baixa e pronunciando lentamente:

— Vá vestir uma bata.

Ela baixou a vista para se olhar.

— Homens! — exclamou, em um tom que expressava a repugnância absoluta que sentia por uns seres que, em um momento de crise como aquela, pensavam na nudez de uma mulher.

MacLean poderia ter dito a ela que os homens eram capazes de pensar na nudez de uma mulher durante a mais atroz das torturas, durante uma audiência com a rainha, inclusive sob os raios de uma tormenta. Mas às vezes um excesso de conhecimento era mau para uma mulher.

Se afastou exagerando os movimentos do corpo, os homens olhando ainda a outra parte, e assim que se foi, Harry se ajoelhou ao lado de MacLean.

— Quebrou algo?

— Não.

— Sangue?

— Não.

— Muito bem, então.

Os dois homens elevaram MacLean e, com um mínimo de dificuldade, o deitaram de novo.

MacLean gemeu enquanto assimilava os diversos incômodos e dores que acrescentara as que já possuía, mas não se fez um dano permanente, e observou a seu guarda-costas. Harry esteve no quarto aquele primeiro dia em que MacLean abriu os olhos, e embora embainhara sua arma, o ferido não esqueceria facilmente que, com a pistola na mão, parecia totalmente à vontade.

— Sempre estão abaixo? — perguntou.

— Há alguém a todo momento. — Olhou detrás dele. — Aqui está.

Enid tinha vestido a bata de algodão rosa e os sapatos rapidamente, e Harry e seu amigo se fizeram a um lado. A mulher se inclinou sobre MacLean, cheia de preocupação. A trança lhe caía sobre o ombro, e ele notou o aroma de flores e brisas primaveris que era fruto de seu passeio.

— Você caiu da cama?

— Não, tentei me levantar para beber água.

— Não seja tolo. Cair da cama não é nada embaraçoso... — Enid sacudiu a cabeça, como se tivesse compreendido por fim a frase de MacLean. De algum jeito se deu conta que lhe dizia a verdade, e ali, ante os olhos do ferido, a cuidadora se transformou em uma esposa indignada. Apertou o cinto da bata e lhe perguntou: — Está me dizendo que, quando só faz dois dias que se alimenta e com suas lesões, acreditou que poderia caminhar até a mesa?

— Não podiam ser mais de três passos. — Subtraiu dois de seu cálculo inicial.

— Está a dois meses sem caminhar! Tem a perna quebrada! — Soltou um bufido de irritação. — Será que não tem senso comum?

— Não! — gritou ele. — Não o tenho! Só sou um estúpido que não compreende de onde vêm os bebês, recorda?

Se fez um silêncio opressivo na sala. Os homens armados, depois de trocar um olhar, posaram a vista no chão.

Enid olhou fixamente para MacLean e logo aos homens. Voltou a lhe olhar e se pôs a rir. Ele exalou um suspiro de alívio. Detectava uma nota de histeria no júbilo de Enid, mas a histeria era melhor que a alternativa... pensou que ela voltaria a lhe quebrar a perna.

Enid cobriu a testa com a mão.

— Pensou que poderia ir por você só em busca de água? — Se aproximou da janela e voltou a rir.

— Para que usam armas, moços? — perguntou MacLean com naturalidade.

— Alguém tratou de lhe matar na Crimea, e isso preocupa ao governo de Sua Majestade — respondeu Harry.

— Só três passos! — exclamou Enid.

MacLean mantinha uma calma notável.

— Acaso o governo de Sua Majestade espera uma repetição do atentado na Inglaterra?

— Talvez. — Harry tocou com o cotovelo a seu companheiro, e os dois retrocederam para a escada.

— Não sabe de onde vêm os bebês. — O júbilo de Enid demorava para se extinguir.

Não duraria muito mais. Uma lástima, porque MacLean pensava que a seguir viriam as recriminações. Se permitiu olhar para a janela.

Ela estava sentada no parapeito, com os braços cruzados e o olhando. Embora ele não recordava ter estado casado, algo sabia da maneira em que se devia tratar a uma mulher.

— Sinto muito — disse. — Essa queda foi estúpida, e eu tive a culpa.

Ela acariciou a trança. MacLean voltou a tentar.

— Fez que me sentisse bem com tanta rapidez, que tive um excesso de confiança.

Ela suspirou, ficou em pé e foi para a mesa onde estava a jarra.

— Por favor, posso beber água? — ele pediu.

Ela se voltou para MacLean com tal rapidez que quase queimou as pranchas do chão.

— Não é tão difícil pedir: "Por favor, Enid, me dê água". "Água, Enid, água." Inclusive: "Se levante, mulher, e me traga água". Talvez eu não goste de suas maneiras quando se leva como um bárbaro ofensivo, mas nunca te nego nada, não é certo? Me diga, não é certo?

Este novo acesso de furor pegou MacLean despreparado, e ao lhe responder o fez em seu tom mais tranquilizador.

— É tudo que um homem pode desejar de uma esposa.

— Não, não sou. Sempre fez todo o possível para que soubesse disso. Mas sou uma enfermeira estupenda. — Se aproximou com passo gracioso e estendeu o copo de água. — Aqui tem.

Ele tomou um gole, e quando reparou na severidade com que o olhava, se apressou a tomar o resto.

— Se machucou? — perguntou ela em um tom mais razoável.

— Um machucado — admitiu ele. — Nada importante.

Ela pegou o copo e voltou a enchê-lo.

— Tem fome?

— Posso comer pão? Por favor.

Ela devia ter previsto seu pedido, pois ergueu a toalha que cobria uma fogaça de pão sobre a mesa, arrancou um pequeno pedaço e o ofereceu.

MacLean contemplou a casca dourada.

— Não acreditava que foste permitir comer pão. Me disse que só podia tomar caldo e verduras.

Ela tentou lhe tirar o pedaço de pão, e ele o pôs fora de seu alcance.

— Mas comerei isso.

— Pouco a pouco — ela o aconselhou, e então se ajoelhou para recolher os restos da bacia quebrada. Um incômodo formigamento percorreu a espinha dorsal de MacLean. Não gostava de vê-la de joelhos, recolhendo o desastre que ele causara. O fazia se sentir... incômodo.

— Chama uma criada para que o faça.

— Estão dormindo — replicou ela, a cabeça inclinada enquanto recolhia os fragmentos. Era evidente que fazia de bom grado aquela tarefa. — Além disso... fiz coisas piores.

O pão tinha sabor de levedura, era suculento e tão delicioso que ele desejava meter todo o pedaço na boca. A curiosidade o deteve. Queria fazer algumas perguntas a Enid.

— Coisas como o emprego de instrutora?

— Nunca fui instrutora.

— Mas disse que trabalhou para a Distinta Academia de Instrutoras.

— Não, disse que lady Bucknell me encontrou meu último emprego. — Jogou os fragmentos maiores da bacia ao balde do lixo e foi ao canto em busca da vassoura. — Sou enfermeira.

Ele era um homem orgulhoso. Sabia que era. E não obstante permitira que sua esposa se separasse dele? E aquela mulher se viu obrigada a realizar um duro trabalho entre desconhecidos para ganhar a vida? De enfermeira? As enfermeiras eram pouco melhores que as prostitutas.

Enid deve ter lido sua mente, porque deixou de varrer e lhe perguntou:

— Teria preferido que um homem me mantivesse?

— Não.

MacLean olhou para Enid. Esbelta, erguida, de olhar claro. Parecia como se nenhum homem jamais a tivesse tocado. Certamente, não dava a impressão de ter passado anos entre a sujeira dos quartos de doentes. Ele não acreditava que tivesse trabalhado de enfermeira. Não acreditava que ele tivesse permitido semelhante coisa.

Não obstante... não obstante ela exsudava desdém, ressentimento, desconfiança... e tudo isso causado por ele. Sem dúvida nenhuma mulher poderia fingir semelhante intensidade de suas emoções.

— Cuidava de... gente. De quem?

— De pessoas doentes.

Enid sabia o que ele estava perguntando, e zombava dele lhe dando muito pouca informação.

— Homens?

— Sim.

MacLean quis lhe gritar. Em vez de fazer isso, pediu em um tom suplicante:

— Me fale, Enid.

Apoiada na vassoura, ela exalou um suspiro e cedeu.

— Deixei de me ocupar dos cavalheiros. Até os mais anciões retrocediam da beira da morte para me oferecer a posição de sua querida.

MacLean se irritou. Notou a raiva escondida em suas vísceras, mas era uma raiva pelas circunstâncias que se interpunham entre eles, por sua perda de memória, pelo ressentimento para ele contra o que não podia fazer nada. Não queria escutar, e ao mesmo tempo precisava compreender.

— Como se fez... enfermeira?

— Havia um doutor no povoado onde vivemos algum tempo.

— Onde você e eu vivemos?

— Sim. — Ela varreu sob a cama, sob a mesinha de noite, procurando fragmentos de porcelana em todos os cantos.

— Um povoado da Escócia?

— Não, em Little Bidewell, ao norte dos York.

— Por que eu vivia na Inglaterra?

— Provavelmente o jogaram da Escócia. — Enid reuniu os fragmentos na pá. — Vamos encontrar lascas neste chão durante meses.

— Enid.

Em silêncio, ele pediu que contasse tudo.

— Você não vai gostar disso — advertiu ela, e pareceu que a jovem lamentava ter que dizer. — Foi um aventureiro, um jogador. Sempre foi de um lado a outro. Vivíamos em alguma parte umas duas semanas, e então estragava a acolhida que nos dispensaram ao ganhar do chefe de polícia jogando às cartas ou apostar com o hospedeiro e ficar com sua melhor baixela de prata. E então nos púnhamos de novo em caminho.

— Não posso acreditar tal coisa.

Se Enid dizia a verdade, era o tipo de homem que ele desprezava. E entretanto... entretanto, não podia deixar de acreditar nela. Não sabia nada de si mesmo. Não recordava nada de seu passado. E mais ainda, nos últimos dias, submetido a seus cuidados e entre contínuas discrepâncias, adquirira uma crescente confiança nela.

Enid irradiava um brilho como o da chama mais clara de uma vela. Cumpria com seu dever sem a menor queixa: recolheu os fragmentos da bacia e deixou a vassoura e a pá em seu lugar; dava-lhe de comer a qualquer hora, respondia com engenho e suas réplicas sérias eram como as ondas que rompiam no mar do Norte. O fazia pensar, o fazia sentir, o fazia querer. Ele desejava esquentar as mãos em seu corpo, estreitá-la contra si até que o enchesse de sua luz... e ele a enchesse de si mesmo.

— Posto que você despertou — disse ela, — pensei que sofrera uma mudança.

Precisava haver uma razão para que ela desdenhasse de um modo tão inflexível ao homem que ele foi antes. Não podia estar tão equivocado.

Ao olhá-la, via uma mulher bonita vestida com uma desgastada bata rosa, bela por sua inteligência e a força de sua personalidade. O tipo de mulher que examinaria uma situação determinada, decidiria como era e se ateria a sua opinião à margem do toscamente equivocada que estivesse. Isso devia explicar a discrepância entre o homem que ele era e o que recordava. Via sua relação com os olhos de uma juventude inflexível, e o que recordava não podia ser a verdade.

Sim, isso tinha que ser. Quando recuperasse a memória, descobriria que seu casamento fora uma série de enganos juvenis, que no caso dela o tempo alterou os fatos e que com a maturidade de sua idade atual poderiam corrigir os antigos enganos.

As seguintes palavras que ela disse o fizeram abandonar abruptamente suas reflexões e atendê-la.

— Mantenho a esperança de que nos anos que estivemos separados tenha se reconciliado com sua família. Sempre disse que seus parentes eram importantes para você, mas desafiá-los era o que guiava todas as suas ações.

— Estava renhido com minha família? — Teria jurado que era o mais entregue a sua família de todos os homens. Provavelmente ela se equivocava também nesse aspecto.

— Por isso se casou comigo. Eu não era a noiva que os MacLean teriam escolhido. — Sua boca se curvou em um sorriso amargo. — Seu primo, o senhor do clã MacLean, se opunha por completo a nosso casamento.

— Tinha um primo. — A lembrança da moça sobre a rocha cruzou por sua mente uma vez mais, e ele perguntou astutamente. — Alguém mais? Mãe, pai, irmã?

— Tinha a sua mãe, mas não mostrava o menor interesse por ela. Só falava de Kiernan. Kiernan era seco como um pau. Kiernan se acreditava muito inteligente. Contava maravilhas de Kiernan. Morria de inveja de Kiernan.

— Kiernan. — Ele se ergueu lentamente. O nome lhe soava. — O recordo.

Ela correu a seu lado, a voz vibrante de esperança.

— Seriamente?

— Não, quero dizer... lembro o nome, ou pelo menos não me resulta desconhecido.

Tentou. Pôs todo seu empenho, se esforçando por avivar a memória, mas o que havia atrás do nome o evitava. Como todas as pessoas e todo o resto, Kiernan se abatia fora do alcance nas brumas de sua mente.

Extenuado pelo esforço, se deixou cair sobre os travesseiros.

— Não está aqui.

Ela franziu a testa.

— Quer que o informemos que está vivo? Estou segura que sua família deve estar preocupada.

— Não tenho a impressão de que o estejam. — Talvez fosse cruel descartar assim ao clã que lhe dera a vida, mas não enfrentaria a uns desconhecidos aos que não recordava nem trataria de justificar uma existência entregue à dissipação... se realmente tal era a vida que levou. — Bom, me fale desse doutor, que ensinou sua profissão.

— O doutor Gerritson era um homem de setenta e tantos anos, e viveu em Little Bidewell toda sua vida, curando a todo ser doente que podia, tanto humano como animal. Fiquei com ele. O ajudei a tratar de seus pacientes e aprendi tudo o que podia me ensinar.

Segurando-a pelo extremo da trança, MacLean a atraiu mais perto da cama.

— O que fez após?

— Cuidei de anciões, sobretudo, e de pessoas muito doentes.

Ele introduziu os dedos entre os fios da trança, e se maravilhou de quão sedosa era sua textura.

— Durante os três últimos anos vivi com lady Halifax como sua enfermeira e dama de companhia.

Então, Enid esteve vivendo com uma mulher.

— É uma anciã decrépita?

— Eu diria que não. É uma pessoa desagradável, queixosa, exigente e difícil. Mas também é inteligente, perspicaz, justa e a melhor das mulheres. Tenho uma grande admiração por ela.

— Ela enviou a carta que recebeu?

— Em efeito.

MacLean se tranquilizou pelo menos em um aspecto.

— Mas está muito doente. Já não pode escrever, mas dita a sua nova enfermeira. — Enid olhou as mãos entrelaçadas. — A deixei para vir a seu lado.

Sua voz carecia de expressão, mas o que melhor manifestava era seu obstinado ressentimento. Ele apertou a trança dela.

— Preferiu cuidar de uma anciã que de mim — lhe disse. — Escolheu limpar a um doente e sustentar a mão de um moribundo que viver comigo. Por muito escandalosa que fosse minha moral, como pôde me deixar para levar semelhante existência?

— Me interpreta mal. Não fui eu quem o deixei. — Se separou dele e liberou seu cabelo de um puxão. — Você me abandonou.

 

— Você sabe o que é se remoer, senhora? — A senhora Brown o observava da cadeira de balanço enquanto MacLean se erguia se apoiando na barra situada em cima de sua cama pela décima segunda vez aquela manhã. — Estar se exercitando dia e noite e desenvolvendo esses músculos como se, por não fazê-lo, fosse acontecer algo mau.

— Suponho que quer ser capaz de se levantar e caminhar de novo. — Enid dobrou as toalhas, as preparando para o banho de MacLean. Há três semanas, se banhava diariamente... depois dos exercícios. — Desde aquela noite em que caiu, tomou a firme resolução de chegar a se manter em pé.

A senhora Brown olhou para Enid de soslaio.

— Cedo ou tarde você vai ter que o deixar tentar, sabe, não é?

— Sei. — Enid sopesou as toalhas que tinha na mão. — Essa fratura múltipla me preocupa. Nunca cuidei de uma coisa assim, mas o velho doutor Gerritson sim, e dizia que ao paciente teria que dar um tiro, como a um cavalo, para lhe economizar sofrimentos. Não quero que MacLean morra.

— Não depois de todo o trabalho que tivemos para que chegasse até aqui. — A senhora Brown enfiou a agulha com fio prateado de seda para costurar um frágil pedaço de renda em umas anáguas de menina. — Mas se ia morrer, já o teria feito, e conhecendo o homem e a determinação que tem, não teríamos podido fazer nada para evitá-lo.

— Você tem razão. Estou de acordo.

Mas isso não tranquilizou Enid. De noite, quando jazia insone, imaginava o pior: MacLean caía ao chão preso de atrozes dores, sua perna inchava por causa de um coágulo de sangue, sua mente voltava a ficar ausente. Tudo isso eram conjeturas absurdas; ela sabia, mas em seus sonhos perseguia infrutuoso fantasmas de infortúnio.

Sem fazer o menor caso às mulheres, MacLean elevava os pesos que o senhor Throckmorton lhe proporcionara. A seguir exercitaria as pernas, as levantaria e flexionaria, como se a fratura múltipla nunca tivesse existido. Ia reconstruir seu corpo de uma maneira implacável, como se tivesse um encontro com o destino... e talvez assim fosse.

— Tem melhor aspecto — comentou a senhora Brown. — Está engordando que dá gosto.

Não era exatamente que estivesse engordando. À medida que os pesos de ferro se elevavam uma e outra vez por cima da cabeça de MacLean, os músculos de seus ombros e braços se contraíam e relaxavam.

— Claro, é lógico que com o que come agora esteja se enchendo — acrescentou a senhora Brown.

Uns músculos longos, lisos e tensos se desenvolveram sobre a robusta ossatura, e o convalescente passou de ser um esqueleto a um deus grego que vivia e respirava. E Enid esteve sozinha muito tempo se comparava a Stephen MacLean com o Apolo por qualquer motivo que não fosse o da libertinagem.

— Deveria vestir uma camisa — disse Enid, inquieta.

A senhora Brown olhou para MacLean.

— Por quê? Uma mulher de minha idade não tem frequentemente ocasião de dar a seus olhos um prazer semelhante.

— Senhora Brown! — exclamou Enid, escandalizada pela sincera apreciação da mulher mais velha, pois as mulheres de sua idade não deveriam olhar aos homens.

— Alguém teria que estar cega ou morta para não apreciar a beleza deste homem. — A senhora Brown riu entre dentes. —Mas suponho que por essa razão você quer lhe vestir. Mal se dirige a você, assim suponho que não compartilha sua cama.

— Isso não é seu assunto — disse Enid com arrogância.

— Então é que não — concluiu a senhora Brown. — Já me parecia. Seria muito mais fácil estar com vocês dois se dançassem o minueto na hora de se deitar.

Enid não necessitava uma confidente nem uma assessora. Era perfeitamente capaz de organizar sua vida sem a ajuda de ninguém.

Naturalmente, teria gostado de falar com alguém do verdadeiro problema de MacLean e ver se ele poderia perdoá-la algum dia. Pois foi ela a iniciadora daquele frenesi de desenvolvimento muscular. Lhe disse quem era, e ele não gostara de se inteirar que jogava, enganava e passava a vida indo de um lugar a outro. Lhe enfurecera a relação de suas faltas. E quando lhe disse que foi ele quem a abandonou, a tachou de farsante, de impostora, de hipócrita.

Se compadecia daquele homem. Era evidente que suas revelações o desconcertaram. Por isso permitira que a insultasse sem dizer uma só palavra, e o que conseguira em troca? Ele mal se dignava olhá-la. Depois disso não mantiveram uma verdadeira conversação. Não houve ocasião de ver se ela tolerava de novo uma de suas manhas de criança.

Pior ainda, ele se exercitava para alcançar uma perfeita forma física, a fim de poder se mover, averiguar a verdade e, quando soubesse, enfrentar a Enid. Ela sabia que, assim que lhe pedisse para se levantar, e face aos temores de que a perna fraturada não o sustentasse, ela o permitiria. Que ele já não tivesse tratado de se levantar era surpreendente.

Mas não podia confiar na senhora Brown. Certo que esta não necessitava um convite para comentar a tensa situação na sala onde jazia o doente. Ao que parecia, a mulher mais velha considerava Enid como uma filha, e amontoava sabedoria sobre a cabeça da jovem, tanto se Enid a aceitava de bom grado como se não.

— Não quero aprender.

— Então é uma tola. Todas as mulheres têm que saber tratar a seu homem. Do contrário, como vai conseguir que o muito bobo faça o que você deseja?

— Não quero que faça nada — replicou Enid, com a sensação que estava gritando ao vento.

E a senhora Brown parecia presa de uma contida exasperação.

— Tem que romper esse hábito de dizer falsidades, senhora MacLean. Isso é mau para o espírito. Não sei o que disse ao senhor MacLean para que ele tivesse semelhante arranque de fúria, mas...

— Eu disse que foi um esbanjador de proporções olímpicas.

— Aí tem. Vê? Não tem que lhe dizer essas coisinhas. Se lhe dissesse que era um príncipe entre os homens, talvez representaria esse papel. Em troca, você se deixa levar pelo rancor e protesto por cada pequena dificuldade...

A cabeça de Enid doía, e a sustentou entre as mãos.

— Você diz que não deveria dizer falsidades. Por que deveria então afirmar que era um príncipe entre os homens?

— Dizer uma falsidade a seu marido não é realmente uma falsidade, mas sim se trata mais de forçar a verdade. O senhor a perdoará se o faz porque busca a felicidade de seu marido.

— Não me importa que seja feliz ou não.

— O que vai! É seu marido. Você não tem alternativa. O casamento é para sempre, e será melhor que se adapte e se conforme, como fazem todas as mulheres casadas.

Enid nunca ouvira a senhora Brown falar com tanta franqueza.

— Foi isso o que você fez? Se conformar?

— Sim, querida. O homem com o que me casei não estava a minha altura, como acontece a todas as mulheres. — A senhora Brown terminou de costurar as anáguas e fez um gesto de assentimento, como se estivesse satisfeita. — Se hoje já não for me necessitar, senhora, irei aos aposentos dos meninos para cuidar da senhorita Penélope e da senhorita Kiki. Quando só falta um mês para as bodas, estão transbordantes de entusiasmo.

— Já imagino.

Enid desfrutara escutando os detalhes dos preparativos cada vez que Celeste a visitava, coisa que fazia pelo menos um par de vezes à semana, sempre com flores, algum objeto de penteadeira e, em ocasiões, um livro. Enid teria estado agradecida à mulher por sua consideração se não fosse porque MacLean falava com Celeste, brincava com ela. E Enid estava cansada de permanecer à margem, cansada de sentir inveja de uma amiga, da inquieta e vagamente culpada sensação cada vez que via MacLean totalmente concentrado em recuperar as forças.

Em uma palavra, estava farta.

— Vá se ocupar dos meninos — disse à senhora Brown. — Eu atenderei MacLean.

— Parece um pouco cansada — observou a senhora Brown, mas nada turvava a placidez daquela mulher. — Não seja muito brusca com ele, você só tem a perder.

Enid teria posto objeções a essa última afirmação, mas embora pensava que poderia vencer MacLean e seu estúpido ressentimento, sabia que jamais sairia vitoriosa se enfrentava a uma mulher tão prática como a senhora Brown. Enid enlaçou as mãos e baixou a cabeça, com uma fingida docilidade.

— Lerei o jornal de Londres para ele.

— Isso ele gosta. — A senhora Brown dobrou as anáguas e as guardou no cesto de costura. — Assim o tempo passa com rapidez enquanto se exercita.

— Como você sabe? — perguntou Enid.

— Ele me disse isso. — A senhora Brown se dispôs a descer a escada. — Deveria lhe falar alguma vez, querida. Em realidade é um homem muito simpático.

Simpático? MacLean era mais ou menos tão simpático como um conquistador romano saqueando uma aldeia. E no espaço de uma manhã, Enid o comparou com um deus grego e um conquistador romano. Logo seria um cavalheiro medieval, e ele não tinha nada de cavalheiresco. Nada absolutamente.

Ao lhe olhar descobriu que ele a estava olhando ao mesmo tempo em que se voltava para um lado e outro e apoiava o cotovelo no joelho oposto, uma e outra vez. Tinha aquela expressão no semblante, como se queria abrir sua cabeça e examinar seu conteúdo.

Vá, aquilo era interessante. MacLean decidira de repente que podia se interessar por ela. Não o surpreenderia descobrir seus pensamentos?

Enid pegou o Sunday News of the World, que o senhor Throckmorton lhe enviava todas as semanas, e se aproximou ao lado da cama.

— Quer que leia o jornal para você?

Ele assentiu, como sempre fazia, pois exercitava a mente tanto como o corpo. Escutava as notícias, pedia explicações e, em ocasiões, contribuía um comentário que demonstrava que recordava... algo. Entretanto, insistia em que não recuperava a memória, e ela não tinha razão para duvidar dele. Ao fim e ao cabo, se recordasse, saberia quem era e quem foi, e Enid lhe pediria desculpas por ter duvidado dele.

Satisfeita ao descobrir que seu senso de humor não a abandonara, ela sorriu.

Colocou a cadeira ao lado da cama, se sentou, abriu o jornal e leu um artigo sobre o SS Great Britain, o primeiro grande vapor com casco de ferro e propulsado por hélice, que seria lançado em 19 de julho.

— Não poderá cruzar o Atlântico — resmungou ele.

Ela leu que estavam elevando a estátua de lorde Nelson ao alto da coluna levantada no Trafalgar Square.

— Já era hora — disse ele, e flexionou o torso para diante e atrás, uma e outra vez, até que o estômago de Enid doía tão só de vê-lo.

Estava lendo um artigo cujo autor atacava o príncipe Albert por ser estrangeiro, quando MacLean a interrompeu sem cerimônias.

— E sua família? Quem são?

Aí ficava isso. Uma pergunta pessoal exposta no tom mais abrupto. Ela deixou o jornal sobre o colo.

— É a primeira vez em três semanas que me pergunta algo pessoal, e quer se informar a respeito de minha família? Não me diz "Sinto ter sido um velhaco" ou "Me senti muito só sem sua amável conversação", mas sim me pergunta por minha família.

Ele não se deixou impressionar, arqueou uma sobrancelha e elevou o peso mais pesado.

— Bom, quem são?

É obvio, foi direto à essência do assunto. Queria saber por que razão o ogro que estava à frente de seu clã considerou Enid uma noiva inapropriada. Pois bem, ela podia responder facilmente a essa pergunta.

— Não tenho família.

— Todo mundo tem família.

— Os bastardos não.

Este último chamou a atenção do convalescente. Deixou de elevar os pesos e lhe dirigiu um olhar crítico. O que importava que ele soubesse? Quando recuperasse a memória, jogaria em sua cara o fato de que era filha ilegítima. Sempre o fez.

— Nem mãe nem pai?

Seu peito nu se elevava e descia, uma bomba potente que insuflava ar a seus pulmões.

O olhou, viu os músculos que se ondulavam sob a pele, a capa de encaracolado pelo avermelhado que lhe cobria os peitorais, e imaginou o aspecto que teria quando tivesse recuperado toda sua força.

— Não... pelo menos uns pais dos que valha a pena falar. — Precisava se concentrar na conversa em vez de opinar. — Minha mãe morreu durante o parto. Meu pai me pagou o ensino na escola de senhoritas da senhora Palmer até que cumpri os quatorze.

— Então tem pai. Quem é?

— Era, MacLean. Foi o honorável conde de Binghamton.

— Por suas veias corre sangue inglês nobre. — Seu acento escocês se fez mais marcado. — Sangue dos estúpidos, vãos e inúteis conquistadores aristocráticos.

— Sou inglesa de pura cepa e estou orgulhosa de sê-lo — replicou ela com veemência. — Nunca poderá fazer nada para trocar essa circunstância, mas ninguém é menos nobre que uma menina educada entre quem são melhores que ela.

— Suas companheiras de classe eram melhores que você?

— Acreditavam sê-lo. — Viu mentalmente os longos corredores da escola da senhora Palmer, cheios de meninas insípidas e espinhentas com má dentadura, todas elas depreciativas para aquela senhorita Enid que não tinha sobrenome. — Filhas legítimas de condes e barões, filhas legítimas de clérigos e cavalheiros, filhas legítimas de ricos e arrivistas mercadores. Aos olhos da sociedade, todas são melhores que eu.

— Então, se foi à escola da senhora Palmer, era uma organização excelente e prestigiosa?

— Acredito que tinha essa reputação.

— Isso explica muitas coisas de você. — Olhou para Enid como se pudesse retirar as capas de equanimidade e ver a menina trêmula escondida debaixo. — Fala com um acento de classe alta britânica, conhece os clássicos, faz ponto de agulha e te ouvi falar em francês com a senhorita Celeste. Muito impressionante.

Ela não apreciou o catálogo de suas virtudes recitado por um rude e bárbaro esbanjador cuja única habilidade verdadeira eram os jogos de jogo de dados, tão melhor se jogava no chão de um estábulo. Altivamente, e Enid tinha aprendido a altivez de quem era melhores que ela, replicou:

— Não se esqueça de meu conhecimento do piano-forte e minha habilidade para dançar a valsa.

Lhe dirigiu um olhar penetrante.

— Além disso, tem um ágil engenho... suponho que o desenvolveria para se defender das outras garotas e de seus sarcasmos. O conde de Binghamton te possibilitaria se mover em círculos superiores.

Sem dúvida estará agradecida a ele.

— Agradecida...

Enid pronunciou a palavra em um tom sarcástico. Em sua infância lhe disseram frequentemente que deveria estar agradecida a seu pai por mantê-la, mas gratidão não era o que sentia, mas sim experimentava mais uma profunda impaciência ante o fato de que julgassem generoso e até honorável a um homem incapaz de manter suas calças grampeadas. Certamente, não deixou estipulado que quando ele morresse Enid tivesse suas necessidades cobertas, e procurou que nunca o visse.

— Não está agradecida, não é? Não é estúpida, senhora MacLean.

— OH, por favor, senhor MacLean. Semelhante adulação fará esta pobre garota perder a cabeça.

Lhe sorriu, um súbito brilho de regozijo indissimulado.

Enid reteve o fôlego. MacLean não lhe sorrira no transcurso de três semanas, e a mudança de um ressentimento a um encanto sem reservas quase a assustou. Se atuava sempre assim, ela poderia esquecer todas as ofensas e, como uma donzela incauta, se apaixonar por ele como se nunca o tivesse amado antes.

Por sorte para ela, MacLean não podia manter o encanto durante muito tempo.

— Você disse que esteve na escola da senhora Palmer até os quatorze anos — lhe disse. — O que ocorreu então?

— Binghamton morreu. Me expulsaram da escola e me enviaram ao Lar de Órfãos Indigentes. — Um centro que fazia parecer os corredores cheios de esnobes da senhora Palmer os passadiços do céu. — A esposa e os filhos legítimos de Sua Senhoria não se preocuparam de seguir mantendo a benevolência do defunto.

Ele deixou os pesos sobre a mesa ao lado da cama.

— Isso deve ter sido um golpe duro — lhe disse brandamente.

— Passar de uma escola onde o mestre de dança ia as terças-feiras e o chá se servia às três em ponto a um centro cheio de meninos sujos que padeciam todo tipo de enfermidades, onde roubar era a única maneira de ter o suficiente para comer e o diretor me batia cada vez que falava em inglês refinado? — Um tenso sorriso apareceu nos lábios de Enid. — Sim, foi duro.

Para alívio de Enid, MacLean não mostrou nem surpresa nem simpatia.

— Como sobreviveu?

— A esposa do diretor viu uma maneira de conseguir dinheiro, e quando cumpri os dezesseis me vendeu como governanta à esposa do vigário. Essa mulher tinha pretensões de linhagem; queria que seus filhos aprendessem a falar com um acento de bom tom, como ela dizia. — Enid sorriu com um regozijo mais autêntico. - Durante minha estadia ali compreendi que não tinha vocação docente.

— Então me conheceu.

— Provavelmente seria melhor que ambos esquecêssemos como nos conhecemos. — Enid dobrou o jornal e se dispôs a levantar.

Nunca contou a ninguém sua história, mal permitiu a si mesma recordá-la, mas, liberadas do dique da reserva, as palavras saíram em desordem. Não obstante, o orgulho impediu Enid lhe contar a continuação. Conhecera MacLean, e nenhuma moça, antes ou depois dela, fora tão estúpida. Tão crédula. Sentia desejos de chorar pela moça que foi, e não queria contar a ninguém a história de seu casamento... nem sequer ao homem com quem se casou.

— Diz que a abandonei. — MacLean se inclinou para frente e lhe agarrou o pulso, detendo sua fuga antes que pudesse iniciá-la. — Me conte essas circunstâncias.

— Seria melhor que também as esquecêssemos.

— Eu as esqueci. Esqueci tudo, mas você está tão ofendida por essas circunstâncias que nunca as esquecerá. — Agarrava o pulso dela sem apertar mas ela não tinha chance de escapar. — Então me conte para que os dois saibamos.

— Não— sussurrou ela, o olhando aos olhos. — Não quero fazê-lo. — Não se referia a sua conversação a não ser ao fato que ele a atraía inexoravelmente para si. — Não, MacLean.

— O que? — Ele rodeou sua cintura com o braço e a ergueu até pô-la em cima de seu corpo. — Não o que?

Estava suado, e sua pele era pegajosa ao tato. Cheirava como um operário. E mesmo assim ela deslizou os braços no travesseiro ao lado de sua cabeça e inclinou a cara para a dele.

— Por que faz isto? É algum tipo de vingança porque te disse a verdade a respeito de si mesmo?

— É minha mulher, minha outra metade. Se me vingo de você, prejudico a mim mesmo.

O fôlego de MacLean sussurrava sobre a pele de Enid. Sua voz era baixa e profunda. Sua proximidade vibrava através dela, seduzindo-a, e se sentia uma tola por querer lhe beijar como ele a beijou umas semanas atrás.

— O casamento é um voto até que a morte nos separe — ele seguiu dizendo. — Não posso te matar, por muito que em ocasiões deseje fazê-lo.

Ela tentou se separar, mas se encontrou com a jaula dos braços masculinos e replicou fracamente:

— Eu o desejo mais que tão só em ocasiões.

Ele a agarrou com mais força.

— Não podemos nos liberar um do outro, por isso aprenderemos a conviver.

Ela compreendeu.

— Esteve falando com a senhora Brown.

— Tenho-o feito. E você também.

— Sim — admitiu Enid sem entusiasmo.

— Tem razão, sei. — Afastou o cabelo que cobria o rosto de Enid. — E você também sabe.

— Não quero estar junto a você.

Enid preservava com teimosia uns poucos centímetros de espaço entre seus corpos.

— Vou dizer à senhora Brown que disse isso.

— Não fará tal coisa!

— Não o farei se me der um beijo. — Estava rindo dela. — Um beijo, Enid. Já sabe o que quero.

Ela sabia, o patife estava certo, e sem poder resistir a sua insistência inclinou a cabeça, os lábios entreabertos enquanto fechava os olhos. Ele inclinou a boca, ao encontro da sua, de modo que a saboreou em seguida. Enid gozou do calor e da umidade íntimas. O prazer reverberou em sua mente, seu coração, seu baixo ventre. Deslizou profundamente a língua, e ele a lambeu com suavidade. A estimulou com as mãos, que percorriam suas costas acima e abaixo, e a sensação era tão agradável... e tão má. Como a tentação. Como o pecado. Como o prazer.

Aqueles poucos centímetros de distância entre eles que ela preservou com tanto cuidado desapareceram, e se apertou contra ele. A sensação de outro corpo humano tão perto do seu a fez gemer fracamente. Jamais experimentou uma excitação como aquela, que a fazia dobrar os dedos dos pés; queria devorá-lo, bebê-lo absorvê-lo em seu organismo. Teve que reter o fôlego, mas não suportava a ideia que ele se afastasse - como se pudesse ou quisesse fazê-lo! - e por isso segurou a cabeça dele enquanto elevava a sua... e teve um vislumbre de seu sorriso de triunfo.

O muito asno. O asno exímio. Se atrevia a se mostrar... a se mostrar seguro de si mesmo. Como se a paixão de Enid fosse... fosse uma rendição. Como se pudesse dominá-la quando não era mais que um vagabundo, um aventureiro e um sedutor de mulheres.

E como podia ela ter esquecido isso?

Se liberou bruscamente e foi para a escada.

Em meio dos degraus se encontrou com o senhor Kinman, que subia naquele momento. O homem lhe sorriu amavelmente, como sempre que a via. Estendeu uma folha de papel branco selada.

— Trago-lhe uma carta de lady Halifax, senhora MacLean.

Ela arrebatou a missiva e lhe fez uma reverência.

— Obrigado, é bom saber que pelo menos resta um cavalheiro no mundo.

E se apressou a descer, sem olhar para trás.

 

Com as mãos nos quadris, Kinman ficou olhando à mulher que desaparecia escada abaixo.

— O que lhe ocorre? — inquiriu no tom perplexo de homem que felizmente carece de ataduras conjugais.

— É preciso que pergunte? — MacLean se ergueu e se voltou, de modo que seus pés penduraram fora da cama. — É mulher.

Kinman olhou para MacLean, e seu largo rosto se escureceu lentamente.

— Não se trata disso, e você sabe. Tornou a irritá-la.

— Tratava de fazê-la muito feliz. — MacLean refletiu com amarga irracionalidade em todas as mulheres e de sua esposa em particular. — Não sabe o que é bom para ela.

Kinman deu uns passos apressados, pegou uma bengala que estava atrás da mesinha de noite e a ofereceu.

— Não sei o que acontece com você, MacLean. Tem uma bela esposa que lhe cuida... como se fosse digno de que o salvassem e o que faz? A afugenta como se a perseguissem os sabujos.

Se movendo com muita lentidão, MacLean apoiou os pés no chão e se incorporou.

— Não demoraremos para chegar a um acordo — afirmou.

Estava decidido que fosse assim. Durante as três últimas semanas, a maltratou por lhe dizer o que ela considerava a verdade. Enid tolerou seu mau humor, cuidando dele apesar do ressentimento que lhe mostrava.

Certamente, lhe respondeu de um modo inteligente cada vez que lhe grunhia em vez de falar, e em ocasiões MacLean se absteve com muita dificuldade de soltar uma gargalhada quando ela fazia algum comentário rápido e engenhoso.

A mão de Kinman se abatia próxima ao braço de MacLean enquanto este dava os primeiros passos, mas finalmente se separou dele.

— Não necessitará a bengala durante muito mais tempo — lhe disse.

— A verdade é que nem tão só a necessito agora.

Sentia um formigamento nos pés, seus quadris doíam e lhe pulsava a perna fraturada, mas tinha em conta que permaneceu naquela cama sem se mover durante dois meses, tudo funcionava notavelmente bem. Pendurou a bengala no braço e empreendeu a rotina cotidiana que estabelecera aproveitando os momentos em que ela estava dando seu passeio.

Enid... agora sabia por que, em um passado remoto que não recordava, se casou com ela.

Por muito que se empenhasse no contrário, gostava. Apesar de sua corrompida herança inglesa, se a conhecesse hoje trataria de conquistá-la com todas suas forças. Conhecia os detalhes de seu corpo. Cada noite aguardava que saísse daquele biombo embainhada na camisa de dormir transparente e com a andrajosa bata rosa, e embora não recordava a nenhuma outra mulher, sabia que ansiava esse vislumbre de sua forma feminina mais que o prazer que pudesse lhe dar qualquer outra.

Enid o agarrara pela virilha.

Faria todo o possível para que não soubesse, pois se chegava a conhecer a facilidade com que poderia lhe manipular, seria ela quem seguraria as rédeas de seu casamento. Enid já tendia a ser dominante quando, como mulher que era, deveria ser submissa de modo que ele tivesse a frigideira pelo cabo. Quando voltassem a ter uma proximidade tão íntima, e esse momento não demoraria para chegar, ele a enrolaria e seduziria, e faria que seu casamento, à margem do que foi no passado, fosse exemplar.

Kinman empurrou a banheira do canto onde estava.

— Quer fazer à senhora MacLean feliz? Diga a ela que pode caminhar.

— Ainda não. — Durante as últimas semanas aumentou a sensação de perigo que sentia MacLean. O desastre se abatia sobre o horizonte, não sabia por que nem como, mas devia estar preparado, e ainda não recuperara a plenitude de suas forças. Não queria que as pessoas soubessem o que era capaz de fazer. Precisava ter a seu lado o elemento da surpresa. — Onde está Throckmorton? — perguntou, pois o dono da casa acudia diariamente para conversar e lhe informar de qualquer acontecimento, e também, MacLean se dava conta disso, para comprovar se recuperou a memória.

— Está a caminho — respondeu Kinman. — Acreditava que já estaria aqui, mas começaram a chegar os convidados das bodas. Hoje foi um dia muito atarefado para ele.

— Já? — MacLean percorreu a sala de um lado a outro, contando as vezes que o fazia. — Falta um mês para as bodas.

Kinman deu de ombros.

— Estes aristocratas não têm nada mais a fazer que visitar as grandes casas familiares, e a hospitalidade de Throckmorton não pode ficar em interdição.

Quando MacLean deu tantas voltas como no dia anterior, acrescentou outras dez.

— Serve um bom brandy?

— O melhor.

MacLean indicou a escada com um gesto da cabeça, e Kinman desceu. Quando subiu de novo disse:

— Não há mouros na costa.

Agarrando a bengala, MacLean desceu e subiu a escada uma e outra vez até que seus músculos enrijeceram. As coxas, sobretudo, ardiam por causa do esforço, mas não abandonou até ter superado seu recorde anterior. Então voltou a passear pelo sótão de um lado a outro, exigindo-se sempre um esforço mais. Só quando caminhou tanto que temia que Enid retornasse, se deixou cair em uma poltrona para descansar.

— Está preparado para o banho? — perguntou Kinman.

MacLean assentiu, aspirando fundo, satisfeito de sua melhoria ao mesmo tempo que amaldiçoava sua fraqueza. Precisava estar preparado. Não sabia para que era premente que estivesse preparado.

— Então pedirei que subam a água.

Kinman apareceu à janela e fez um gesto com a mão, e quase imediatamente MacLean ouviu o som de atividade na sala de baixo. A aquela hora do dia a água estava sempre fervendo no caldeirão. Se ouviram vozes masculinas, e então o primeiro de uma longa série de lacaios subiu estrepitosamente a escada; conduziam pesados baldes de água alternativamente quente e fria. Duas criadas, Sally e Jennifer, eliminaram o pó e varreram, retiraram as roupas de cama, puseram lençóis limpos e levaram os objetos interiores sujos. Jackson lhe trouxe uma muda e uma camisa branca engomada, sem colarinho nem punhos, e umas calças engomadas e cortadas pelos joelhos.

MacLean sorriu enquanto o camareiro expressava a opinião que lhe mereciam as calças sacudindo a cabeça com uma expressão desdenhosa, Jackson era realmente um tipo estirado, um tolo inglês com ombros curvados. MacLean o teria despedido com o desdém que merecia se não fosse pelo fato de que era um gênio com a navalha de barbear. Face às cicatrizes que cobriam as faces e o pescoço de MacLean, Jackson sabia lhe barbear limpamente sem fazer jamais um arranhão, e MacLean se negava a arriscar sua pele tão só porque o pequeno verme se desse umas presunções que estavam fora de lugar.

MacLean esfregou o queixo. A barba de um dia lhe roçou a mão, o qual era de tudo inconveniente. A pele de Enid tinha a suave cor e a delicadeza de um pêssego, que fazia pensar nas delícias interiores, e ele não correria o risco de machucá-la quando a beijasse de novo, como se propunha fazer... e logo.

Com um movimento rápido do pulso, Jackson pôs uma toalha sobre a mesa ao lado da bacia e depositou a navalha, a taça e o pincel. Deu uma palmada e assinalou a um dos lacaios.

— Necessito água quente!

O lacaio verteu água de seu balde, derramando um pouco sobre a mesa. Jackson exalou um longo e cansado suspiro e secou a água derramada. Então, com a eficácia que caracterizava todos seus movimentos, barbeou MacLean.

Throckmorton chegou em meio do caos organizado, saudou os homens chamando a cada um por seu nome. Quando a banheira esteve cheia, os lacaios se foram e Jackson recolheu suas coisas e também partiu.

O senhor da casa comentou:

— Não é frequente encontrar um camareiro que faz o trabalho tão bem como ele afirma.

— É muito bom. — MacLean esfregou o cetim da face sem cicatrizes. — Mas não tem muito senso de humor.

Kinman fez uma careta de repugnância.

— E se barbeia tão bem, por que não barbeia a si mesmo? Parece como se larvas se arrastassem por sua cara.

Throckmorton se pôs a rir.

— Enquanto faça seu trabalho, pode ter o aspecto que deseje. Deu seu passeio, MacLean?

— E um bom passeio — disse Kinman. — Já não necessita de minha ajuda.

— Segue com ele, por favor — lhe pediu Throckmorton. — Não desejo enfrentar à senhora MacLean se cair.

— Se caio e faço mal a mim mesmo, ponha fim a meus sofrimentos em seguida, pois se a senhora MacLean se inteira, me torturará até a morte.

MacLean começou a se despir. Throckmorton e Kinman lhe deram as costas e olharam pela janela. Quando MacLean se inundou na banheira, Throckmorton disse:

— É possível que tenhamos que te transladar.

MacLean já previra essa possibilidade.

— Devido aos convidados do casamento?

A água quente lhe aliviava a dor dos músculos. Teria gostado de permanecer imóvel um bom momento, mas se ensaboou imediatamente. Sempre temia que Enid retornasse antes do tempo, o surpreendesse ainda na banheira e se perguntasse por que demorava tanto tempo em se banhar.

—Quanto mais gente saiba que está aqui, menos poderei garantir sua segurança. — Throckmorton se balançou para frente e para trás sobre os calcanhares, as mãos enlaçadas as costas. — Com sua permissão, fiz os acertos necessários para que volte para a Escócia.

MacLean soltou o pedaço de sabão, que caiu à água com um chapinho.

— Escócia?

— Confio em que a volta a casa o fará recuperar a memória.

— Claro. — MacLean procurou o pedaço de sabão do fundo da banheira. — Embora não me receberão com os braços abertos se for o perdido que Enid afirma que sou.

Throckmorton deixou de se balançar. Durante o longo e profundo silêncio que seguiu, MacLean viu que Kinman e Throckmorton trocavam olhares.

— Eu não diria de você que é um perdido — disse.

— Ultimamente não — acrescentou Throckmorton.

Se mostravam precavidos. Conspiradores. Estiveram mentindo para ele.

— O que diria que sou?

— Um cavalheiro que se reformou — Throckmorton disse com firmeza.

Aquilo não podia ser mais interessante.

— Precisava me reformar?

Throckmorton e Kinman voltaram a trocar olhares.

— É hora de que me contem isso tudo— disse MacLean antes que Throckmorton pudesse falar.

— Ainda não — replicou o dono da casa com um suspiro.

Esta atitude enfureceu MacLean.

— Ainda não? Estão me ocultando informação por capricho?

— Não é por capricho. É mais por sua própria segurança.

— É muito difícil aceitar isso. — Mas se MacLean aprendeu algo nas últimas semanas, era que não podia forçar Throckmorton nem o convencer com adulações. — Quando me dirá toda a verdade?

— Na Escócia. Kinman irá com você. Ele te dirá toda a verdade.

MacLean terminou de se banhar com o vigor da raiva que experimentava.

— Mentir a um homem que perdeu a memória é uma jogada repugnante.

— Confiávamos em que a estas alturas o assunto já estaria resolvido— disse Throckmorton. — Que já recordaria.

— Confiavam — murmurou MacLean, enquanto se levantava e saía da banheira.

Depois daquele único e emocionante momento em que recordou a sua irmã, não voltou a se produzir nenhum outro movimento em seu cérebro. Todos seus esforços por recordar foram em vão. Toda sua frustração fora inútil. A única coisa que sabia com segurança era a natureza de seu caráter... e Enid afirmava que essa lembrança era defeituosa. De modo que não tinha nada.

Enquanto atava a toalha ao redor da cintura, perguntou:

— Minha esposa também mente para mim?

— A senhora MacLean é tal como se mostra — assegurou Throckmorton.

De modo que a mulher de doce rosto e língua azeda tampouco lhe mentiu. Esta admissão fez que se extinguisse parte da ira que MacLean sentia, quase toda ela, na realidade.

MacLean procedeu a se secar e se vestir.

— Então Enid não é uma empregada sua?

— Quer dizer se é uma atriz que representa um papel? Absolutamente.

— Muito bem. Estou vestido. — MacLean aguardou até que os dois homens se voltassem para ele. Então, cruzando os braços, disse-lhes: —De momento, faremos isto a sua maneira. Mas quero certas garantias. Quero ter certo controle da situação. Quero dispor de certas coisas. Espero que agora me consigam isso.

 

Enid retornava à quinta quando ao dobrar a esquina se encontrou com Celeste, que caminhava devagar pelo atalho, de braços dados com um casal elegante e já velhos. Celeste pareceu horrorizada.

E Enid estava horrorizada... Não esquecera as advertências que lhe fizeram quando chegou, como tampouco que MacLean poderia correr perigo, mas em todos seus passeios nunca encontrou com um desconhecido, e chegou a se sentir muito segura em seu entorno. Deveria ter sido mais prudente. Inclinou cortesmente a cabeça e se fez a um lado, confiando em que seu traje simples a faria passar por uma criada, ou uma das de mais categoria, e que os aristocratas não se fixariam nela.

Mas os aristocratas sempre faziam o contrário. A alta e robusta dama vestida de reluzente shantung de cor lavanda, da sombrinha com rendas até a prega da ampla saia, e as papadas lhe tremiam enquanto examinava Enid através do monóculo.

— Quem é esta jovem, Celeste?

— É... uma de minhas amigas da Distinta Academia de Instrutoras — respondeu Celeste. Enid sentiu desejos de aplaudir a Celeste por sua rapidez de reflexos. Em rigor, não era uma mentira, mas sim uma patranha que as levaria por mau caminho.

— Não querem ver os crisântemos, senhores? — disse Celeste, apontando a abundância de flores douradas e alaranjadas que brilhavam no caminho do serpenteante atalho.

— Primeiro nos apresente a esta encantadora jovem. — O ancião deu uns passos cambaleantes, escrutinou o rosto de Enid e até lhe deu um ligeiro beliscão na face.

Quando lady Halifax lhe disse que não havia maior tolo como um velho tolo, poderia ter se referido concretamente a aquele homem. Alto e magro, tocado com a cartola mais alta que Enid já vira, o cavalheiro lhe sorria e movia as sobrancelhas como se ela fosse uma senhorita inexperiente que não conhecesse nada melhor que paquerar com um lorde. E diante de sua esposa!

Enid desejava lhe dar um soco. Mas isso seria fatal.

— A apresentar. Sim, claro, a apresentar que estupidez a minha. — Celeste sorriu como a mais tola das garotas. — Às vezes me escapa a cortesia mais elementar. Isso se deve a que sou a filha do jardineiro. Sim, devo lhes apresentar.

E Enid recordou que seu sobrenome a trairia.

Celeste aspirou fundo.

— Lorde e lady Featherstonebaugh, os apresento a...

Com o tom vivo e prático de uma mulher que não está acostumada aos rituais corteses, Enid disse:

— É um prazer lhes conhecer, senhores. Sou Enid Seywell.

Lady Featherstonebaugh franziu o cenho, pensativa, e então se animou.

— Seywell? É o sobrenome do conde de Binghamton.

Enid se sobressaltou. Céu santo, aquelas pessoas conheciam seu pai!

— Você está aparentada com o conde de Binghamton? — inquiriu lorde Featherstonebaugh.

— É possível. — Enid manteve a voz firme e o olhar sereno, mas não pôde dominar o rubor que lhe cobria o peito, o pescoço e as pontas das orelhas.

Lady Featherstonebaugh elevou o monóculo, examinou Enid da cabeça aos pés e se atrasou nas faces vermelhas.

— Lembro de um escândalo que teve lugar faz anos, quando morreu Binghamton. Algo a respeito de uma filha bastarda.

— Sim. — Lorde Featherstonebaugh pronunciou a palavra com um chiado acentuado pela dentadura postiça. — Recordo. Sua família descobriu que esteve mantendo à moça, e não lhes fez nenhuma graça.

Celeste retorcia as mãos.

— Lady Binghamton era tão miserável que podia apertar um guiné até que o ouro se fundisse. — Se voltando ao lorde idoso, a dama inquiriu: — Não se chamava Enid a menina, querido?

— Acredito que sim. — Lorde Featherstonebaugh olhou fixamente para Enid. — Por são Jorge, acredito que deste no prego, querida. Tem os olhos de Binghamton.

"Não é certo", pensou Enid, mas manteve a boca fechada. Não queria que a reconhecessem, não queria que aquele casal de idosos mexericasse a respeito dela em seus próprios narizes. E que Celeste descobrisse seu passado dessa maneira! A vergonha envolvia suas vísceras, e não se atrevia a olhar para Celeste. Não podia fazer nada, pois o escândalo proporcionava uma tela atrás da qual MacLean podia se esconder.

— É como ver o velho divertido revivido — disse lorde Featherstonebaugh. — Nos diga, querida, é você a filha de Binghamton?

Pela segurança de MacLean, Enid podia sacrificar sua dignidade. Pelo menos, assim supunha.

Mas ele estaria ainda mais em dívida com ela.

— Sou — respondeu.

Enid ouvira dizer que os casais que estão casados há muitos anos frequentemente começam a se parecer. Era evidente que lorde e lady Featherstonebaugh estavam casados há muito tempo, porque seus rostos se tornaram máscaras idênticas de júbilo. Piscavam ao mesmo ritmo e se olhavam no mesmo momento.

— Senhorita Seywell, estaria encantado de acompanhá-la para jantar— disse lorde Featherstonebaugh.

— Preciso retornar à Distinta Academia de Instrutoras— mentiu Enid com naturalidade.

A dama se endireitou e disse em um tom severo:

— Estou segura que isso é desnecessário. Pode ficar um dia mais.

Enid não deixava de sorrir.

— Não posso. Sinto muito.

— É uma moça que trabalha e deve partir. — Celeste ficou ao lado de Enid e a puxou pelo braço. — Me decepciona tanto perder a minha amiga antes do casamento, mas o dever a chama!

— OH. — Lady Featherstonebaugh trocou a posição da sombrinha. — Que decepcionante. Me iludia ter um amistoso bate-papo com você, senhorita Seywell.

— E a mim também — disse ele.

Para Enid parecia um velho cavalheiro desonroso, mas fez uma reverência antes de se voltar.

— Sigam adiante, senhores. Em seguida estarei com vocês.

As duas jovens se voltaram e avançaram com a maior rapidez possível na direção contraria, mantendo um silêncio absoluto até que estiveram bem afastadas do casal idoso.

— Não deveria ter saído. — Enid mordeu o lábio e se disse que não deveria se preocupar por MacLean, aquele tipo imperioso pelo que ela precisava passar tão maus momentos.

— Não é sua culpa — replicou Celeste.

— Não me dava conta que havia visitantes no imóvel, e não podia permanecer nessa casa um minuto mais.

Porque Enid estaria beijando MacLean, e uma mulher precisava estar louca para o beijar.

— Nem sequer é minha culpa, embora esteja segura que Garrick não o verá assim.

— Quem? Ah, se refere ao senhor Throckmorton. MacLean é sem dúvida alguma o pior dos velhacos. - E pensou que ela estava louca de atar.

— Garrick me acusa de atrair problemas, como se o fizesse de propósito! — Os olhos de Celeste cintilaram. — Não sou a senhorita com a cabeça cheia de vento que ele poderia desejar.

— É obvio que não! Nem eu sou uma mulher a quem alguém se limita a acariciar e fazer caso omisso. — Por muito atraentes que fossem as carícias.

— Não nos apreciam. — Celeste se deteve bruscamente junto a um banco, diante de um salgueiro de enorme tronco, olhou para Enid e, em um tom transbordante de afeto, acrescentou. — Todos os problemas começam com um homem.

Enid estava cansada de atuar como uma mulher adulta. Queria se comportar como uma fera. Como MacLean.

— Os homens são todos iguais — sentenciou mal-humorada.

Celeste deu uns leves golpes no lábio e particularizou:

— Oxalá isso fosse certo, mas cada um deles resulta exasperante a sua própria maneira.

— Vou deixar de ser uma professora de maneiras gratuita para MacLean. Que descubra por si mesmo como deve se comportar na sociedade civilizada sem que eu esteja envolvida.

Em qualquer caso, Enid não queria se envolver em nenhuma mais das escapadas de MacLean. Ele já estava bem. Era hora de o abandonar. Isso seria justo, o abandonar como ele a abandonou em seu dia, e retornar quando a necessitasse.

Meteu a mão no bolso e tocou a carta de lady Halifax. Naquelas missivas semanais a velha dama parecia tão robusta e valente como sempre, mas Enid sabia a verdade. A morte pairava muito perto, e nenhuma das animadas cartas com que lhe respondia eram o mesmo que estar pessoalmente ao lado da querida e arisca idosa.

Mas resistia a imaginar a cena quando comunicasse a MacLean que partia, por isso prescindiu de seus próprios problemas e por um momento considerou os de Celeste.

— O senhor Throckmorton a adora. Estou segura que esse é o motivo de que seja irracional.

Celeste se deixou cair no banco.

— Quer dizer que os homens necessitam de uma desculpa para ser irracionais?

Enid sorriu e tomou assento ao lado de sua amiga.

A irritação de Celeste remeteu.

— Os Featherstonebaugh são velhos amigos da família, uns idosos amáveis...

— Não reparei nisso — replicou Enid, com a frieza do orgulho ferido.

— Não, com você não foram amáveis, e sinto muito. — Celeste olhou a um e outro lado. — E se tiver que ser justa, não me caem tão bem como outros membros da família Throckmorton. A verdade é que os Throckmorton desculpam a má conduta dos Featherstonebaugh dizendo que são os fofoqueiros mais terríveis de toda a Inglaterra, mas eu aguentei o mais robusto de sua fofoca, e é bastante fastidioso.

— Nem tampouco é desculpável. — Enid tratou de abordar o tema com delicadeza. — Devo te agradecer que não tenha me rechaçado. Sei que não é nada agradável descobrir que alguém com quem foi amável é filha ilegítima, mas...

A ira abrilhantou os olhos de Celeste.

— Não diga nenhuma palavra mais ou me sentirei ofendida. Não escolho a minhas amigas por quem são seus pais, nem você tampouco, pois do contrário não seria tão generosa comigo, a filha de um jardineiro.

— Para mim não tem a menor importância...

— Para mim tampouco. — Celeste ficou em pé e sacudiu a saia. — De modo que assunto concluído. É minha amiga, temos uma afinidade e acredito que partirá logo, mas quando sua aventura terminar me visitará. Me promete isso?

— Prometo.

Celeste tocou o ombro de Enid.

— Agora devo ir em busca de lorde e lady Featherstonebaugh e desviar as perguntas que me façam sobre você, então tenho que dizer a Garrick que a viram e escutar suas queixas. — Fez uma careta, sacudiu uma mão e se afastou.

As palavras de Celeste chegaram ao mais profundo do coração de Enid e a fizeram recordar a carta que tinha no bolso. Ao tirá-la, contemplou o familiar e nobre selo dos Halifax, e então a volteou e viu uma caligrafia desconhecida. Lady Halifax ditara a carta a outra de suas criadas. Cuidadosamente Enid rompeu o selo e desdobrou a folha.

Leu a primeira linha. Voltou a lê-la. Então leu com rapidez o resto. Se dobrou até que a cabeça lhe tocou os joelhos e chorou.

 

MacLean reconheceu o som das pegadas de Enid, e nem sequer aguardou a que a cabeça da jovem aparecesse no alto da escada.

— Onde diabos estiveste? — perguntou-lhe bruscamente.

Enid se fez a um lado para deixar passar a Sally, que desapareceu escada abaixo.

— No inferno, é obvio.

A luz das velas era insuficiente, mas ela parecia incólume, mas como, assim como a frieza de seu tom e sua réplica, enfureceu a um homem que mostrara uma notável paciência depois do que sem dúvida foi uma briga sem importância. Golpeou o montão de travesseiros que lhe ajudavam a manter-se erguido.

— Há-me feito esperar — lhe acusou.

— Para que? Aqui sempre há alguém a sua disposição se necessitar de algo.

— Foi uma espécie de mesquinha vingança porque tentei te beijar?

Lhe dirigiu um olhar furioso, e então, com um gesto ostentoso, fechou a porta com tal rudeza que tremeu o chão.

— Não.

E esta negativa enfureceu ainda mais ao MacLean.

— Porque sua atitude é infantil. É minha esposa, e se quero te beijar, posso fazê-lo.

Ela correu o ferrolho com o pé, e então, com uma enunciação lenta e precisa, disse-lhe:

— Não pode se não está em condições de me apanhar.

MacLean se elevou apoiando-se nos cotovelos.

— Seu descaramento é excessivo, quando ainda não faz seis horas tinha a língua em minha boca.

— Não queria te beijar. Só foi uma amostra de cortesia!

Ele se pôs a rir.

— Veem aqui e mostre-me quão cortês pode ser.

— Te apodreça primeiro!

A jovem se aproximou da mesa onde estava a bacia, lavou as mãos e procurou uma toalha a seu redor. Ao não encontrar uma em seguida, secou-se com a saia.

Ele a olhava fixamente. Enid secou as mãos com a saia. Aquela mulher de hábitos tão delicados que lhe arreganhava por beber água diretamente da jarra secou as mãos com a saia. Algo muito estranho estava ocorrendo.

MacLean moderou seu tom.

— Não é razoável. Foi só um beijo.

Ela estalou os dedos e desviou a cara.

— Não foi nada.

Afastava-o de si, e sem nenhum motivo aparente. Ele ardia em desejos de levantar-se, aproximar-se a ela, tomá-la pelos ombros e sacudi-la. Mas Enid já estava tremendo. Só era um leve tremor dos dedos, e imediatamente meteu as mãos nos bolsos para que ele não percebesse.

— Se não foi nada, por que atuava então como se exigisse meus direitos conjugais?

— Não está o bastante recuperado para exigir nada, e muito menos direitos conjugais.

Ele poderia ter retirado o lençol para lhe mostrar a prova de seu engano, mas ou as sombras faziam das suas com suas feições ou esteve chorando. Tinha os olhos avermelhados, o nariz úmido e torcido.

Sim, chorou. Diabos. Ela entrou na sala de mau humor. Ele podia pensar em uma explicação fácil, mas um homem não vivia com uma mulher tão intimamente como ele viveu com a Enid sem saber um pouco dela, e teve a regra dez dias atrás. assim, o que lhe acontecia agora?

Ela deu a volta.

— Não tenho vontades de discutir contigo.

MacLean a pôs a prova.

— Isso é uma mudança.

Enid não mordeu o anzol.

— Vou deitar me.

Por que a beijara? Ele se manteve em silêncio, à expectativa, enquanto ela tirava a rede e as forquilhas do cabelo e as deixava sobre a mesa.

O cabelo encaracolado e escuro se esparramou ao redor de seus ombros. Jogou-o atrás com um movimento da cabeça, passou-se os dedos pelo couro cabeludo e então levou as mãos à cabeça e fechou os olhos, como se retivesse a razão com as mãos. Ao abrir os olhos viu a maneira em que ele a estava observando, e no tom de uma mulher levada ao limite da paciência lhe disse:

— Sabe? Não queria vir à mansão Blythe e cuidar de ti. Tinha um posto na casa de lady Halifax. Tinha uma responsabilidade para aquela dama. E a abandonei para vir aqui e cuidar de meu marido. Esse marido que é um velhaco, um inútil que não serve para nada, e que me abandonou faz nove anos. Há algo irônico, se parar para examinar, mas não vou fazê-lo. — Tirou os alfinetes do colarinho. — Não vou fazê-lo.

Tirou também os alfinetes dos punhos, e os atirou sobre a mesa, em cima das forquilhas. Ela, que até então nunca se desabotoou um só botão diante dele, despiu-se sem pensar nas consequências.

Depois de descalçar-se, sentou-se ao lado da mesa.

— Não vais recolher os sapatos? — inquiriu ele.

— Por quê? Estarão aqui pela manhã. — Fez a um lado o montão de roupa. — Não é como se você tivesse que recolhê-los.

Aquela mulher sempre estava arrumando a sala, dobrando as toalhas e as guardando quando ao cabo de cinco minutos precisava as desdobrar para limpar algo. "Um lugar para cada coisa e cada coisa em seu lugar", dizia sempre.

— Quando podia andar, jamais recolhia nada.

É cruel. Aquela mulher que lhe cuidava meigamente se mostrava cruel. Lhe teria perguntado o que lhe ocorreu... mas ela subiu a saia até os joelhos.

Ao MacLean lhe secou a boca.

— Sabe o que foi? Um jogador ambulante. — Disse as palavras em um tom de mordaz desdém. — Foi bonito, elegante. Recitava poesia pronunciando-as à escocesa, atraía-me com a promessa de aventura, e eu era tão débil mental que sortiu efeito.

Ele teria se sentido ofendido e furioso de não ser por um vislumbre das brancas calcinhas de Enid, as lisas e brilhantes panturrilhas embainhadas nas meias e a liga colocada perto do joelho.

— Tinha um posto de instrutora, e fugi contigo para nos casar. — Desatou as ligas e tirou as meias, que também deixou cair ao chão.

Quando ficou em pé e sacudiu a saia, ele deixou escapar um suspiro entrecortado. O coração lhe pulsava acelerado e com força, e aspirava grandes baforadas de ar.

— Isso aconteceu faz muito tempo, Enid. Não pode seguir zangada... não é...?

Lhe dirigiu um olhar letal, os extraordinários olhos azuis cheios de escárnio, e então foi à cômoda, tirou uma de suas singelas camisas de dormir brancas e a apertou contra seu peito.

— Meu posto em casa da senhora Halifax foi o segundo trabalho que deixei por ti, mas só porque ela me disse que devia fazê-lo. Aprendi a lição quando abandonei minhas responsabilidades como instrutora e recebi o que merecia. Abandonou-me. Já está, tornei a dizê-lo. Abandonou-me, a mim.

Estava-lhe provocando. Aquela mulherzinha de tornozelos esbeltos e cabeleira negra e agreste lhe estava cravando como se ele fosse um urso ao que acossar!

— Por quê? — perguntou ele com a fronte enrugada.

Poderia lhe haver perguntado por que o provocava, mas não lhe daria a resposta.

— A que te refere?

— Por que te abandonei?

Lhe respondeu fazendo uma torpe e zombadora imitação de seu acento escocês.

— "Porque é uma âncora ao redor de meu pescoço, querida."

Interessante.

— E era isso certo? Era uma âncora ao redor de meu pescoço?

— Certamente. Queria me estabelecer, estar casada e viver em um lar autêntico com um jardim e uma cerca. Ter filhos. Ser normal.

Lhe gostaria de fazer todo isso com ela, começando pelo que se requeria para ter filhos.

— Você queria ser irresponsável, temerário e imaturo — seguiu dizendo a jovem.

Mas ele teria que chegar primeiro ao fundo do desconcertante e ilógico temperamento daquela mulher. Estavam a sós, a porta fechada com ferrolho, a sala iluminada pela luz oscilante das velas, e uma brisa cálida que conduzia os aromas do verão entrava pelas janelas abertas. Era uma noite adequada para fazer confissões.

— Assim no Little Bidewell, quando te teve jogado o cavalo, roubou-o e fugiu como um ladrão, coisa que foi, abandonou-me e tive que pagar suas dívidas.

Ele dirigiu a vista à jarra de água que estava sobre a mesa ao lado da cama.

— Por favor, posso tomar um gole de água?

Enid se aproximou.

— Isso foi jogo sujo, Stephen MacLean, e nunca te perdoei. Sabe o perto que estive do asilo de pobres? — Verteu água no copo, derramando-a em parte. — Todos aqueles anos de vergonha, sabendo que a meu marido importava tão pouco me deixar em uma situação desesperada, e nunca perguntou sequer por meu bem-estar. Finalmente consigo um posto de trabalho em uma casa cuja senhora me necessita, necessita-me seriamente... e tenho que deixá-la para me ocupar de ti. Não posso... — tremeu-lhe a voz, — não posso acreditar que me deixasse convencer por lady Halifax para vir aqui quando ela estava tão... — Aproximou-se. Ele tomou a mão de Enid e a atraiu para si. — ... tão doente e próxima à morte...

Embora Enid se mantivesse com os pés bem firmes no chão, MacLean a puxou com força e a fez sentar-se na cama. Então lhe tirou o copo da mão e o deixou sobre a mesa. O quadril de Enid tocava o seu. Não lhe olhava. Sua voz era quase inaudível quando acrescentou:

— E agora não voltarei a vê-la jamais.

Como era possível que ele tivesse interpretado mal os sinais? Enid se debatia não contra uma paixão fora de lugar a não ser contra a culpa e o pesar. Lady Halifax morrera, e sua orgulhosa e desafiante esposa se desmoronava ante seus olhos.

— Veem aqui, carinho. — Rodeando-a com os braços, atraiu-a a seu lado de modo que a cabeça feminina descansou sobre seu ombro. — Chist...! — Beijou-a na fronte, separou-lhe o cabelo da cara. — Não tem nada do que te arrepender, querida. Ela te enviou aqui para que fizesse o que estava bem, e o fez, e agora as duas demonstraram suas resoluções.

— Mas ela morreu — sussurrou Enid, e lhe quebrou a voz.

Os ombros lhe agitaram, e as lágrimas que contivera brotaram como uma corrente. Apertou a boca contra a pele nua do MacLean para afogar os soluços. Ele a ergueu, fez-lhe adotar uma postura mais cômoda, apoiar nele todo seu corpo.

— Deus cuidará dela. Me deixe cuidar de ti.

A jovem ainda tinha a camisa de dormir nos braços, agarrando-a como se o suave e desgastado algodão pudesse lhe dar consolo em um mundo desolado.

MacLean a tirou de um puxão e lhe enxugou as faces com a borda. Então a pôs no nariz.

— Lhe assoe — lhe ordenou.

Ela pareceu horrorizada, e os soluços interromperam quase cada uma de suas palavras.

— Não... vou ... me soar o nariz... com mi... camisa de dormir.

Se ela não estivesse vivendo uma tragédia, MacLean poderia ter rido.

— Então segue sendo a Enid de sempre — lhe disse com ironia.

Ela se ergueu, retirou uma toalha do amontoamento que estava sobre a mesa ao lado da cama e, inclinando a cabeça, soluçou nela. Não compreendia. Nem sequer agora compreendia. Ele voltou a tomá-la em seus braços e pôs a face contra seu peito.

— Não importa quantas vezes te separe, seguirei aqui para te abraçar.

Ela não podia conter os soluços.

— Está... morta. Fria... só na tumba. Morrer... vi o que é.

Claro que o vira, pois se dedicara a cuidar dos doentes. Mas ele não pensara em como lhe afetaria. Os dedos de Enid lhe aferraram os braços, e se contorsionou como se os soluços lhe fizessem mal.

— Morrer é tão... tão solitário.

Ele se sentia profundamente de causar pena. Passou uma perna por cima da sua, para lhe procurar consolo envolvendo-a com seu corpo, e deslizou as mãos acima e abaixo de suas costas.

— Eu queria... queria lhe sustentar... a mão... quando ela... chegasse ao fim.

MacLean acariciou ao Enid, murmurou-lhe ao ouvido fragmentárias expressões de fôlego, e se maravilhou de quão profundo era seu afeto para aquela pessoa a que servira. E pensou que ela devia estar no certo, que ele devia ser um porco egoísta, pois do contrário não estaria abraçando-a enquanto ela soluçava, desejando consolá-la e, ao mesmo tempo, desejando sua ardente entrega.

Por Cristo que lhe adoraria com todo o ardor e a paixão de seu ser. MacLean se encarregaria de que assim fosse. Mas de momento ocultava suas intenções com murmúrios consoladores e carícias longas e lentas.

— Agora... não posso... ajudá-la. Agora... não posso fazer... nada. — Elevou a voz e lhe golpeou uma só vez, em pleno peito.

Ele reteve o fôlego. A dama destrambelhava contra o destino, fazia responsável ao MacLean e tinha o punho duro.

— Quero retroceder no tempo. Quero estar com ela. — Moveu a cabeça de um lado a outro sobre o peito masculino. — Arruma-o... Arruma-o!

— Farei-o. — O cabelo do Enid ficou aceso da barba que lhe cobria o queixo, e o leve aroma de gardênias e ar livre se elevou dos fios. — O arrumarei tudo.

Por fim os soluços remeteram. enxugou os olhos com uma toalha, esfregou-lhe com os dedos o lugar onde lhe golpeou e deixou que se emaranhassem com o sedoso pelo peitoral. Estava muito turvada. Não sabia o que estava fazendo, não percebia como afetaria a ele seu mais breve contato. Pela primeira vez ele estreitava o corpo de uma Enid aquiescente. Seu próprio corpo lhe exigia consolá-la de uma maneira física. Era o bastante sensato para lhe fazer caso omisso; seu pênis dirigia a outros órgãos, e seu pênis nunca lhe dava bons conselhos. Mediante um esforço de concentração, conservou um mínimo de bom julgamento.

— Mostre-me a carta.

Ela se ergueu, tirou do bolso a folha enrugada e a sustentou um momento como se não pudesse soltá-la. A estendeu lentamente.

— Tem-na escrito o advogado de lady Halifax. Oxalá pudesse ler uma das que me escrevia ela. Engenhosa e ... — voltou a lhe tremer a voz — e mordaz. — Voltou a apoiar a cabeça em seu ombro.

Como se ali se encontrasse a sua casa. Ele teve que fazer um esforço para não elevar o punho em sinal de vitória. Tomou uma toalha, empapou-a na água da bacia e umedeceu as ardentes faces de Enid.

— Sente-se melhor?

Ela assentiu, tomou a toalha e a aplicou aos olhos inchados.

MacLean examinou a carta em silêncio, e então voltou a dobrá-la e a deu a ela.

— Devia te querer muito. Deixou-te uma herança.

Enid clareou a garganta e guardou de novo a carta no bolso.

— Estou segura de que deixou uma herança a todos seus criados.

Não deveria rebaixar-se tão facilmente.

— Você não foi sua criada. Foi sua companheira.

— Imagino que deixou um presente a todos que estavam a seu serviço.

— Depois do que fez por mim, se fosse morrer hoje quereria te legar o mundo. Conheço você, Enid MacLean, e deu a lady Halifax o melhor de si mesma. — Pegou a toalha, voltou a molhá-la e esfregou brandamente a testa da jovem. — Seu legado para você não é simbólico, a não ser uma mensagem pessoal de afeto.

— Isso espero. Eu gostaria de ter sua escova com o reverso de prata. Lembro... — outra vez sua voz tremeu, e fez uma pausa até superar o acesso de emoção, — lembro que escovava o cabelo dela de noite antes que dormisse. Me dizia que isso a fazia dormir melhor.

Sua mão seguiu a elevação de músculo que formavam os peitorais masculinos. Distraidamente, ele estava seguro.

— Então talvez terá a escova com o reverso de prata.

Lhe rodeou os mamilos com as pontas dos dedos.

Tanto se o fez distraída como se não, era preciso que se detivesse. Agarrou a mão dela e a separou de seu peito.

— Me parte o coração quando chora. Oxalá pudesse fazer que tudo fosse melhor para você. — Aspirou fundo. — Mas sou um homem. Sou seu marido. Quero te consolar à maneira clássica, me compreende? — Com o polegar lhe ergueu a cara até que esteve à altura da dele.

Os sinais de aflição estavam se desvanecendo, eliminadas pelo pano frio e úmido, e aquela luz interior que fez MacLean voltar da morte brilhava em seus magníficos olhos azuis e através de sua cútis aveludada. A luz o atraiu. Queria esquentar as mãos nela, absorvê-la em seu ser, e a tensão da disciplina que ele mesmo se impunha dotava de aspereza a sua voz.

— Se me tocar assim a consolarei como um marido consola a sua esposa, e logo não aceitarei que me acuse de ter me aproveitado de sua aflição.

O olhou fixamente e franziu o cenho com uma expressão de furor contido.

Muito bem. Enid estava tomando séria nota de suas boas intenções. Talvez lhe seriam reconhecidas, pois bem sabia Deus que não obtinha nenhuma satisfação do rechaço.

Com voz vacilante, ela disse:

— Me sinto cansada de me sentir zangada, e de morder a língua quando você... quando me repreende.

Ele arqueou as sobrancelhas.

— Mordeu a língua?

— Estou cansada de fazer o que é correto, de estar sozinha, de suportar... uma cama fria.

Tudo no corpo ingovernável de MacLean estava em expectativa.

— Estou cansada de desejar... desejar...

Agora ela não podia se deter!

— O que?

O separou de um empurrão, se levantou da cama e lhe deu as costas, esfregando os braços acima e abaixo. MacLean soltou uma maldição silenciosa. Se ela queria lhe fazer pagar por seu mau caráter, estava fazendo maravilha. Desejava gritar com ela, mas os ombros encurvados e a cabeça encurvada da jovem o detiveram. Durante todas aquelas semanas foi forte como uma torre. Uma Enid frágil, era uma nova experiência que afetava seu coração tanto como o corpo.

— Não vá. Não vou me jogar sobre você.

— Eu... sei. Não se trata disso. — se voltou e o contemplou, a cabeça inclinada. — Estava recordando... o muito que o amei uma vez.

Foi ele realmente um homem tão espantoso?

Ou acaso ela ia lhe amar de novo?

— Não fique aí. — Ergueu as roupas de cama com um gesto tentador. — Pode voltar para meus braços.

Ela se aproximou cautelosamente ao leito, pegou a mão e entrelaçou os dedos com os seus. MacLean esfregou a palma dela com o polegar e notou as durezas produzidas pelo duro trabalho.

— Deixei tudo por você, porque é meu marido. Tive todos os deveres e nenhum dos privilégios. Nem seu apoio econômico nem seu afeto, nem sequer sua presença. — Ergueu o queixo. — Então, só por esta noite, vamos fazer as coisas a minha maneira.

O coração de MacLean pulsou com força. A atraiu para si.

Ela se sentou na cama a seu lado.

— Tudo o que quero é a você.

 

— Quer dizer como marido e mulher? — MacLean apertou brandamente a mão dela. — Nus em uma cama?

— Nós dois.

Durante os dias em que Enid cuidou de MacLean, chegou a saber por sua maneira de sorrir, pelo vigor de seus beijos, pela ondulação de seus músculos, que aquele homem poderia lhe proporcionar prazer.

— Não pensa as coisas com uma mínima clareza.

— Se equivoca. Penso com muita clareza. — Agora que a amargura e o pesar ficaram para trás, estava totalmente absorta nele, no duro plano de seus músculos sob ela, no aroma de sua pele, um aroma de sabão com essência de hortelã. —Estou pensando em que se encontra muito fraco para fazer nada mais que estar aqui deitado enquanto eu procuro obter prazer com você.

— Se isso for uma ameaça, a verdade é que não me causa temor.

— Pois deveria causar. As cicatrizes do peito lhe separavam o pelo em nítidas linhas, mas as feridas se curaram bem e ganhou peso de um modo surpreendente. Os exercícios que realizava diariamente o dotaram de duros músculos e tendões. Ela deslizou a palma pelo pelo encaracolado loiro avermelhado que lhe crescia sobre os peitorais, do centro do esterno, e desaparecia sob o lençol.

— Porque tenho intenção de te fazer sofrer.

Talvez se tratasse tão só de que Enid levava tanto tempo sem tocar a outro ser humano que desejava prolongar a doce sensação que a embargava. Talvez fosse uma mulher perversa que tratava de agarrar ao voo qualquer oportunidade de prazer.

Rodeou com as pontas dos dedos os mamilos masculinos.

Talvez o necessitasse.

— Deveríamos ser judiciosos — observou ele, mas sua voz se fez mais fraca quando ela desceu da cama.

As cortinas corridas das janelas inchavam, se movendo com a leve brisa, mas a noite envolvia a quinta. Enid desabotoou o primeiro botão do colarinho.

— A quem importa? — replicou ela. Já não. Experimentou muita aflição, e agora queria saborear a vida. — Quero algo mais que deveres e responsabilidades. O que tem isso de mau?

— Está muito perturbada — disse ele com a voz enrouquecida.

— Basta de insípidos murmúrios. Não é o momento de aperfeiçoar a moral.

Ele a desejava. Fazia semanas que ela sabia, e não só porque a beijara. As olhada que lhe dirigia eram ardentes. O irritava que ela risse com o senhor Kinman ou com Harry. Detestava cada vez mais que o atendesse como se fosse um inválido.

O desejava. Não queria, mas desde o dia em que o viu inconsciente, desde o momento em que ele abriu aqueles extraordinários olhos verdes e dourados, desejou seu contato, seu corpo, sua aprovação. Vestia a roupa de baixo mais simples, mas pela maneira em que ele a olhava poderia ter brilhante seda e rendas. Os músculos se esticaram no pescoço de MacLean e fechou os punhos. Abriu a boca com pasmo ao vê-la se desprender da roupa com uma refinada despreocupação que não teria igualado qualquer dia no que regesse a prudência.

Ela gozava ao ver seu assombro.

— Além disso — disse, — estamos casados. Recorda?

— Não. Não recordo.

— Asseguro isso.

— Acredito. Aceito tudo o que me diz. — Os olhos dele ardiam, mas o tom de sua voz era frio. — É a razão de que siga aqui. Sem você já teria partido em busca de respostas.

Ela jogou o vestido ao chão e se inclinou para deslizar as mãos por seus ombros, com um longo e lento movimento.

— Não pensou seriamente em partir?

— Não sei quem sou. —- Agarrou-lhe os pulsos e os levou, um após outro, aos lábios. — Não sei o que fiz. Não sei quem me busca. — Beijou-lhe os pulsos, com beijos lentos, quentes e úmidos que fizeram a jovem fechar os olhos para saborear o prazer. — Um homem como eu necessita respostas. Mas você me retém aqui com seus sorrisos breves e luminosos, com sua língua mordaz e sincera, o rebolado de seus quadris e sua constante atenção.

Acreditava acaso que o estava enrolando de propósito?

— Não tentei te seduzir — disse em voz baixa.

— Isso já sei. — Esfregou sua pele úmida com o polegar.

O que queria dizer, então?

— Só quero que melhore.

—Estou melhor. — Passou a língua pelo polegar dela e então mordiscou a ponta. — Lhe demonstrarei isso.

Quando ele a tocava assim, ela mal podia respirar. Quando a olhava como se fosse um bocado delicioso e ele um lobo faminto, se sentia confusa e queria fugir. Mas mais ainda desejava ficar e alimentar o apetite daquele homem... e o seu próprio.

Lhe dando as costas, tirou os calções. Quando levou as mãos à costas para desatar as anáguas, os dedos de MacLean afastaram os seus. Ela olhou para trás. Ele tinha meio corpo fora da cama, uma expressão resolvida no semblante, a larga e formosa boca séria. Iniciou à tarefa com os olhos entrecerrados, a atraiu mais para si e a liberou com eficácia das anáguas.

— Abandonou suas débeis tentativas de ser sensato? — Emitiu uma risada leve, com a efervescência borbulhante em suas veias.

— A sensatez me abandona quando você está presente.

Acariciou sua camisa e agarrou a barra da branca camisa de cambraia.

Enid se voltou para ele, apoiou um joelho na cama e lhe pôs as mãos nos ombros.

— Eu me encarrego disto. Fica quieto e faz o que te diga.

Seus olhos posaram com avidez nos seios que, liberado do espartilho, empurravam a camisa. Ela suspeitou que quase podia vê-los através do fino tecido; sabia que seus mamilos se puseram em posição de firmes e que ele o via. Aspirou longa e lentamente; o estava provocando cada vez mais.

— Me deixe que te desate o espartilho — sussurrou ele, enquanto seus lábios formavam cada palavra com uma encantadora precisão.

Enid observou os movimentos e soube que ele queria saltar sobre ela. Mas, por uma vez em sua vida, ela conservou o domínio de si mesma. MacLean ia fazer o que ela queria, porque se não o fazia ela se iria ao outro lado do quarto e ele não poderia segui-la. Era implacável. Era insensível. Se vingava ao mesmo tempo que exigia uma promessa de êxtase, e estava gozando da situação.

— Me desate o espartilho — pediu ela.

Ele pôs mãos à obra, umas mãos algo trêmulas, mas desatou as fitas e, com longos e lentos movimentos, começou a liberá-la do que era quase o último de seus objetos. Debaixo do espartilho estava a camisa, e debaixo desta o corpo nu de Enid. Ela sabia, MacLean sabia, e ele ansiava tanto vê-la que essa certeza produziu na jovem uma sensação de triunfo que lhe coloriu a pele. Toda a pele.

E assim, para se mostrar tal qual era, desatou a fita no colarinho da camisa.

O objeto lhe caiu sobre um ombro.

A emoção embargou MacLean.

Ela deslizou a mão ao longo da clavícula e sob o folgado objeto. Sem desviar o olhar da cara de MacLean, retirou a camisa braço abaixo. A fita tropeçou com o mamilo e se deteve somente um instante, e então o seio ficou livre.

MacLean emitiu um gemido que alimentou a alma faminta de prazer de Enid.

Ela ergueu os dedos braço acima até chegar ao mamilo ereto, e o tocou com a unha enquanto ele a olhava sem pestanejar, extasiado por aquela visão.

— Não vai terminar com o espartilho? — perguntou-lhe.

MacLean puxou a fita com tanta força que rasgou a malha ao redor da casa. Ela deveria ter-se alterado, porque não tinha outro espartilho, mas riu. A velocidade e a força que ele empregou para tirar seu espartilho jogou do lado da camisa que cobria seu outro seio e lhe descobriu a metade do ventre. O ajudou a passar a camisa pelos quadris, e enquanto finalizava a operação ele se adiantou e, puxando o objeto braço abaixo, o tirou de todo.

Enid estava nua, e ele tinha pressa... tudo se desenvolvia tal como ela recordava que foi no passado. Mas antes que pudesse se decepcionar, ele se deteve. A agarrando pelos flancos, a olhou e, em um tom que refletia uma veneração absoluta, disse:

— Meu Deus, que formosa é.

O que podia dizer a isso uma moça?

— Obrigado.

Se sentia formosa. Ele fazia que se sentisse formosa.

As crescidas mechas do cabelo loiro avermelhado de MacLean brilhavam contra o fundo branco do travesseiro. Seus olhos tinham uma suave inclinação, com uma pálpebra mais caída que a outra, um dos resultados da explosão. As cicatrizes da cara estavam desaparecendo, mas aquelas linhas, junto com a mandíbula proeminente, emprestavam a seu rosto uma dureza que nunca teve antes. Apesar de que não podia andar, seu corpo musculoso dava uma sensação de força contida. Era como se ela se despisse ante um pirata, um rei de ladrões, um desconhecido, e a impressão de perigo latente a fez vacilar e, vergonhosamente, vibrar de excitação.

Uma tolice, certamente. Ele não era nenhum desconhecido. Estavam casados. Talvez o tempo tivesse melhorado o caráter daquele homem, mas ela conhecia Stephen MacLean. Era um ator, e embora o envolvia um ar de bravia ameaça, em realidade não era mais que um ladrão de pouca fé e um jogador inveterado. O estava utilizando e isso estava bem. MacLean se achava em dívida com ela.

Com uma oscilação dos quadris, ela se liberou da camisa.

O olhar de MacLean percorreu sua curvatura.

— Tão formosa — disse com a voz rouca.

Enid sentia um comichão na pele, e agarrou o pulso masculino quando ele estava a ponto de afundar os dedos no arbusto de pelo entre suas coxas.

— Ainda não — disse.

Enid pensou que ele poderia pôr objeções a aquele freio, inclusive poderia se liberar e tratar de agarrá-la. Mas MacLean tinha um sorriso enviesado nos lábios, e se adveio a aguardar até que o soltou. Então, sem chegar a tocá-la, seguiu com a mão a forma de seu quadril.

Ela tragou saliva.

Aquela pantomima lenta e sensual saciava sua fome, mas deixava intacta sua sede ao mesmo tempo. Ele deslizou a palma pelo ventre feminino, mas, uma vez mais, sem chegar a tocá-lo, e redesenhou a rotundez dos seios. Ela retinha o fôlego uma e outra vez, quando o contato parecia iminente e se iniciava a sensação. Cada movimento era como uma promessa sem cumprir, e ela, que só desejou promessas, agora ansiava que se cumprissem.

Enid oscilou para frente, mas a mão de MacLean escapuliu, subiu até quase lhe acariciar a clavícula, até quase lhe tocar o pescoço, e então tomou entre dois dedos uma das tranças e curvou o extremo ao redor de um mamilo, lhe dando um ar escrupuloso devido à ocultação.

Ah, mas ela também sabia lhe perseguir. Agarrou o lençol e o retirou, o submetendo à tortura, que ela compartilhava, de revelar pouco a pouco o corpo reconstruído com tanto esforço. Os ombros e braços apresentavam uma musculatura imponente, que exsudava potência viril. Por debaixo, as costelas ainda se sobressaíam mais do que teria gostado, mas o exercício constante cobrira com uma capa de músculo as elevações antes muito definidas, e sua figura, em conjunto, era digna de se ver.

A distância entre a clavícula e a cintura era considerável, e o lugar onde o corpo desaparecia sob o cinto das calças puídas e cortadas pelos joelhos era muito provocador. Ela havia visto muitas vezes seu torso; fora impossível não vê-lo enquanto ele erguia os pesos e torturava o próprio corpo. Mas nunca vira o que ocultavam as calças.

E queria ver.

Ele riu entre dentes.

— Sente curiosidade, carinho? Há respostas pendentes.

MacLean não levava a sério o domínio de Enid. Parecia acreditar que podia governá-la com sorrisos encantadores e exalando desejo. Era um jogo ao que um casal podia se entregar. Ela pôs a mão sobre o vulto em suas calças.

Ele deixou de sorrir.

A magnitude do que havia ali debaixo a deixou pasmada. Sua mão não podia abranger a longitude daquilo... e isso por que tentava. Estirou a ponta do dedo mais comprido para a base e o pulso para a ponta, e compreendeu que esquecera mais coisas de MacLean das que recordava. Retirou a mão e lhe dirigiu um olhar furioso.

— Se dá conta que faz oito anos que não faço isto?

— Diabos, mulher. — Se equilibrou sobre ela, rodeou sua cintura e a estendeu sobre ele. —A julgar pelo que lembro, é possível que eu não o tenha feito!

Ela riu de sua veemência, e então o impacto do peito nu de MacLean contra o seu a deixou sem respiração. A agarrando pela nuca, aproximou os lábios aos seus. Ela acudiu avidamente a seu encontro. Uniram as bocas, se saborearam mutuamente, consumiram o um ao outro. Os seios nus contra o peito masculino pareciam perversos e gloriosos, e ela se movia para frente e para trás, o suficiente para que o pelo encaracolado lhe roçasse os mamilos.

MacLean retirou seus lábios.

— Mulher — disse. Só isso, mas se movia com ela como se a proximidade também o deleitasse. Deslizou os dedos entre seu cabelo e seguiu dizendo: — quis te amar desde a primeira vez que a vi. Quero te mimar, ver se sua cara quando se entrega ao amor se é suave e cálida... e está disposta a seguir gozando. — Massageou o couro cabeludo com lentos movimentos circulares, e ergueu a cabeça dela para olhá-la aos olhos.

— É a razão de que não tenha morrido, sabia?

— Não — sussurrou ela.

Enquanto lhe percorria as costelas com as palmas das mãos, desejava que ele deixasse de falar. Entretanto, se deleitava com suas adulações. Não parecia escandalizado pela conduta licenciosa de Enid. Ao contrário, a estimulava a seguir adiante. Não parecia sentir repulsa a não ser estar orgulhoso de si mesmo. Orgulhoso dela. E esse orgulho se mostrava na tumescência que pressionava o abdômen da jovem.

Agora ele a descrevia como se ela fosse um anjo.

— Me conte — incitou.

— Cada vez que abria os olhos, estava ali, me dando de comer, me falando, me banhando...

— Estava tão magro... — Beijou-lhe o pulso. — E agora está tão forte...

— Às vezes, de noite, vestia essa espantosa bata rosa...

A indignação de Enid a fez sair de seu suave ninho de satisfação, e tratou de se endireitar.

— Minha bata não tem nada de mau!

— ... e quando se inclinava, podia ver seus seios por debaixo do colarinho. — Contemplou os seios e acariciou um com a maior ternura. — Seus seios arrancaram a um homem das garras da morte.

Ela riu, uma risada tola, mas ele parecia falar tão a sério e o dia foi tão atroz e esta... esta ocasião era diferente, um sonho que encaixava em sua fantasia de amor perdido muito tempo atrás.

Enid acreditou que, ao se casar, esbanjou para sempre essa fantasia, mas aquela noite, só por um momento, aquele homem era o príncipe com o que sempre sonhou. Lhe daria satisfação, e lhe devolveria o favor.

— Espera para ver o que meu corpo é capaz de atrair.

Debaixo dela, o membro retido pelas calças se flexionou.

Lhe beijou no ombro e seus lábios se atrasaram em uma das cicatrizes que tinha ali.

— Dói?

— Não, melhorou com seu beijo.

— OH! — ela gostou dessa resposta. — E aqui? — Beijou uma cicatriz do peito.

— Também a melhorou.

— E aqui? — se atrasou no mamilo, rodeando-o com a língua.

— Poderia levantar os mortos — disse ele ardentemente.

Ela foi lhe percorrendo o torso com seus beijos, procurando cada cicatriz e cada costela, acariciando uma atrás da outra até que as considerava bem servidas, e por fim chegou à cintura. Colocou os dedos entre a calça e a pele e ergueu a vista.

Ele a olhava fixamente com o rosto imóvel, assolado pela necessidade.

— Tenho a sensação de que te esperei toda a vida.

Enid aplicou os lábios no vulto sob as calças e aspirou o aroma de sabão, de pele limpa, de MacLean. Era seu marido. Queria lhe fazer feliz, e sê-lo também ela... e sabia como. Desabotoou as calças dele e introduziu os dedos. O ventre masculino se ondulava sob suas carícias; encontrou em seguida o membro duro, e o explorou com ternura.

Ela se esquecera de muitas coisas; a cabeça firme e suave, a vara marmórea. Seu tamanho, seu calor, a maneira em que os quadris de MacLean se moviam enquanto o acariciava.

As calças baixaram um pouco; ele as estava tirando.

— Temos toda a noite pela frente - ela o repreendeu.

— Não ficam mais de cinco minutos antes que o desejo me faça expirar.

Quando as calças estiveram mais baixas, Enid tomou o membro na boca. Sabia bem, que gosto teria um animal macho e limpo, e quando o sugou e fez girar a língua, o sabor se voltou um pingo salgado.

Ele estava perto, muito perto...

MacLean se ergueu e a atraiu até que ficou sentada sobre ele, nas coxas, as nádegas apoiadas em seus calcanhares. As calças caíram ao chão. Ela pensou que a deitaria na cama e a investiria, e se preparou para aguentar o desconforto. Mas ele a elevou e a estendeu em cima de seu corpo com os seios tocando seu peito. A olhou fixamente à cara, com os olhos ardentes de exigência e desejo.

Notou que a glande a tocava, procurando a entrada. Se agarrou a seus ombros; seu corpo se abrandou, se umedeceu com o desejo.

— Me ajude, Enid. — A agarrou pelos quadris. — Não posso fazer tudo eu sozinho. Tem que colaborar.

Ela caiu então na conta... e se sentiu turvada.

Queria lhe guiar, o levar ao mais íntimo de seu ser.

Era uma mulher experimentada. Uma esposa. A esposa de MacLean. Entretanto, não esteve com um homem em oito anos. MacLean estava tão colado a ela que notava sua respiração nos lábios e via aumentarem suas pupilas enquanto a olhava e aguardava que se decidisse... faria isso?

—Tem que me ajudar — insistiu ele com um fio de voz. — Não posso fazê-lo sem você. Estaria perdido... sem você.

O que era mais importante... ficaria com ele? Pois era isso o que ele estava pedindo.

Cessou a precipitação para a euforia. Os traços imóveis de MacLean poderiam ter estado esvaziados em aço; suas cicatrizes, o nariz quebrado, a rude mandíbula refletiam a um guerreiro, um homem dotado de uma força selvagem que se retinha.

Só seus olhos tinham vida. Aqueles olhos sem par, uma mescla de verde e ouro, e lhe ordenavam que o aceitasse, que decidisse livremente se unir a ele.

— Necessito que me aceite - disse, - que fique comigo... para sempre.

O silêncio no sótão aumentou até adquirir umas proporções imensas. Ela ansiava correr, se esconder, não ter que efetuar jamais aquela escolha. Pois quando o fizesse seria sua esposa, não só por aquela noite, a não ser para sempre. Tal era o preço que pagava pela dissipação daqueles momentos; se se negava, ele não insistiria. Tinha um caráter o bastante forte para fazer isso... mas reataria o ataque outro dia. Mais tarde ou mais cedo, ele se imporia.

Enid tragou saliva. Sentia que se avivavam todos seus temores.

Ninguém jamais a amou. Não de uma maneira eterna. E ela podia amar, amou, muitas vezes, e se vira a um lado do caminho e sozinha. Mas MacLean era seu marido. Mudara. Era um homem diferente. Parecia honorável. E ao fim e ao cabo, se se equivocava com ele não importaria, porque não o amava. Pela manhã, como todas as manhãs, seguiriam unidos pelas promessas que fizeram nove anos atrás, mas não o amaria.

Aquela noite Enid poderia correr o risco porque não se permitiria amar. Não voltaria a se deixar embargar pela angústia e pela aflição. Estaria sempre livre da emboscada do amor. Lentamente, ela deslizou a mão entre os dois e colocou seu pênis exatamente no lugar correto. Se adaptou e empurrou para baixo.

Ele sorriu, com um sorriso leve, duro, breve.

Então demonstrou quão profunda era sua duplicidade. Deslizou as mãos ao redor das coxas do Enid, a abriu mais, empurrando para cima com os quadris. E a penetrou. Centímetro a centímetro foi entrando nela. Enid fazia caretas, sempre a beira do desconforto, decidida a não se encetar em um inútil combate enquanto tratasse de se liberar. Oito anos era muito tempo, ela fora muito jovem, seu corpo se recuperou dos antigos assaltos de MacLean e voltou a se fechar.

Mas ele seguiu entrando, inexorável, a dilatando de tal maneira que ela soube que jamais experimentaria prazer. Exatamente como no passado. Ia ficar insatisfeita. Tratou de ocultar sua decepção, mas ele viu o apuro em que se achava. Observava tudo. Era muito perceptivo, e ela lamentava, assim fechou os olhos e voltou a cabeça. E ele deslizou uma mão entre eles. Utilizou dois dedos para que a adaptação fosse melhor. Tocou-a, e esse contato foi o mais tênue retalho de voluptuosidade. Ela reteve o fôlego. Flexionou as coxas e se ergueu ligeiramente. Aquilo fora... agradável. O dedo de MacLean voltou a tocá-la.

Tudo nela se flexionou.

Abriu os olhos e o olhou fixamente com a esperança e a paixão brotando ao uníssono.

— Está melhor assim, carinho? — Embora sua voz fosse áspera, exercia uma sedução aveludada. — O notei dentro de você. Se agarrava a mim, e já é tão... estreita.

Ela se ergueu pela metade, mas voltou a se colocar na posição anterior.

— É como uma luva de veludo a meu redor que me acaricia. Me sinto... arrebatado.

Tudo encaixava de um modo um pouco mais cômodo.

Ela se ergueu.

— Vou te possuir. Vai saber, constantemente que é minha. Vai me querer dentro de você toda a noite.

Ao ouvir esta advertência proferida em voz rouca, os joelhos de Enid cederam. Se deixou cair sobre ele até que a penetração foi total.

Então se moveram juntos. Com violência, sem moderação, um choque de corpos. Ele se deixou cair sobre os travesseiros. Ela se inclinou para frente em cima dele e apoiou as mãos em seus ombros. Ele a guiou com as mãos sob suas coxas. Os músculos de Enid doíam enquanto se movia com ele. MacLean movia velozmente os quadris debaixo dela. A enchia. A olhava a cara, forçava o ritmo, exigia em silencio com seu furor voluptuoso que chegasse ao paroxismo em cima dele. Mas ela não ia permitir que a dominasse. Não o permitiria ao fazer amor. Enid decidiu se entregar a ele. Era sua enfermeira, sua esposa. O obrigaria a lhe mostrar sua excitação.

Se movia ao ritmo de MacLean, mas olhava a sua vez. Deslizou as mãos pelo ventre masculino. Se inclinou para trás, pôs as mãos nas coxas dele e exibiu com orgulho os seios.

A disciplina o abandonou. Tinha os olhos entrecerrados, a cabeça jogada para trás, a respiração entrecortada, o pescoço tenso pela fúria da paixão. Ela deveria ter experimentado uma sensação de triunfo, mas ao vê-lo debaixo de seu corpo, se contorcendo, preso de um prazer que desejava a liberação, dobrou e redobrou sua própria paixão. Gemia a cada movimento.

Saber que encontrara semelhante deleite violento... esse era o verdadeiro afrodisíaco.

O mundo inteiro estava encapsulado em uma cama de lençóis enrugados, um montão de travesseiros e um MacLean avermelhado e eufórico, cativo entre as pernas de Enid. Se moveram juntos, cada vez com mais rapidez, e ela não pôde seguir se contendo. Seu corpo, já esquentado pela paixão, alcançou o orgasmo. Jogou a cabeça para trás. No mais profundo de seu ser os músculos se convulsionaram, e quis... procurou... OH, Deus... encontrou.

Enid gritou de prazer.

Ele se dominava, seguia com o movimento, agora leve, contido. Então, quando ela chegou ao topo, ele prescindiu de sua reserva. Investiu nela, a levando a outro orgasmo, e outro e, ao mesmo tempo, verteu nela sua semente, um poderoso, viril, majestoso acoplamento. Os batimentos do coração de Enid se normalizaram gradualmente. A letargia ocupou o lugar da paixão, e se estendeu em cima dele, a cabeça em seu peito, as coxas trêmulas ao redor de seus quadris. O ar de sua respiração acelerada esquentava seus pulmões. Enid se perguntou por um instante se alguém os teria ouvido no quarto de baixo, e decidiu que não ia se preocupar por isso. No dia seguinte, talvez.

Então pensaria em coisas como...

Como o fato de que MacLean daria por sentado que prometeu coisas que nunca ia lhe dar.

Esse pensamento fez que seus músculos se esticassem. A letargia desapareceu e ela fingiu que se retirava com naturalidade. Se podia se levantar e ir a sua cama... Como se pudesse o abandonar sem que ele se desse conta.

MacLean a agarrou com firmeza, a impedindo de se mover.

— Muito cedo, está presa do pânico — ele disse.

Como sabia?

— Mas isso não deve ser. Agora é minha, e eu me ocuparei de tudo. — Deslizou os dedos pelas costas de Enid, pegou a beira das roupas de cama e cobriu aos dois. — Cuidarei de você.

Ela fechou com força os olhos e fingiu que dormia.

 

De madrugada, uns golpes na porta e os gritos dos homens a fizeram sair das profundidades do sono: — Fogo! Saiam, Por Deus! A quinta está em chamas!

 

MacLean. Enid se levantou com dificuldade da cama. Precisava tirar MacLean da quinta, e não sabia como. Não podia levá-lo nos braços, não podia arrastá-lo... talvez os guardiães que estavam abaixo...

Mas MacLean já estava em pé e avançava para ela, com a bata rosa de Enid na mão.

Ela lançou um grito e tratou de lhe deter.

— Chist...! Estou bem. — Introduziu-lhe um braço na manga. — Se apresse. Temos que sair daqui.

Era um milagre. Outro milagre, tão grande como o que se produziu quando abriu os olhos e falou. Podia andar!

E o fogo ia lhe matar...e a ela também.

Os golpes na porta continuavam.

— Despertem! Despertem! Fogo!

Fogo. Céu santo. Fogo. A fumaça penetrava pelas fendas das pranchas do chão. Uma estranha luz iluminava o lado oeste do quarto. MacLean já vestira as calças. Se ajoelhou aos pés de Enid e a ajudou a calçar um de seus sapatos, enquanto ela colocava o braço na outra manga e atava o cinto.

— Não se preocupe por mim — disse ela com a voz enrouquecida. — Segue adiante!

MacLean se movia sem nenhum sinal de angústia, como se não visse motivo algum para se apressar, como se enfrentasse todos os dias a uma crise, como se nunca tivesse deixado de caminhar. Ela queria lhe gritar que se apressasse, que tomasse cuidado. O espreitavam todo tipo de perigos. Poderia cair. A perna fraturada poderia voltar a quebrar.

O fogo poderia acabar com ele.

Enid calçou o outro sapato enquanto ele tentava abrir o fecho da porta no chão. Afastou bruscamente a mão e a sacudiu como se tivesse se queimado. Lhe lançou uma toalha. Ele envolveu os dedos com o tecido, abriu o fecho e puxou a porta. Quem quer que estivesse debaixo empurrava ao mesmo momento. A porta se abriu para trás e se chocou com o chão. Uma fumaça penetrou no quarto. Enid ouviu o fragor das chamas que consumiam as paredes de madeira no interior da quinta.

Cobrindo a cara com uma toalha, Harry subiu a escada e fechou a porta do quarto atrás dele.

— Abaixo a saída está bloqueada. Temos que sair pela janela.

— MacLean não pode sair pela janela — protestou Enid, e tossiu por causa da fumaça que envolvia sua cara. — A perna...

Mas os homens não a escutavam. Puseram mãos à obra, e tiraram uma corda de uma bolsa que MacLean tinha guardado debaixo da cama. Em um abrir e fechar de olhos, Enid se encontrou a ponto de se meter entre as espessas roseiras que cresciam ao lado da quinta. Umas mãos a agarraram de baixo, a afastando das sarças.

Os homens lançaram a MacLean gritos de incentivo quando começou a descer. Ela também queria gritar, mas não podia. O terror fechava sua garganta. Temia muito por ele. Então MacLean chegou a seu lado e a puxou pelo braço. Foram até a cerca de estacas.

— Fique aqui até que venha te buscar — disse, e foi ajudar Harry, que descia pela corda, e se assegurar que não ficava ninguém mais no interior da casa.

Com que recursos contava? Queria organizar uma operação de resgate? Esteve doente. Enid chorou de novo, ela que nunca o fazia. Os muros de pedra da quinta brilhavam com uma luz difusa por causa do calor que irradiava o interior do edifício. Lady Halifax morrera. Enid, como uma tola, tinha consumado seu casamento, permitindo que MacLean assumisse todo tipo de coisas errôneas. Agora um incêndio devorava tudo enquanto ele ia de um lado a outro como um homem capaz de empreender resgates, de embarcar em aventuras... a abandonando uma vez mais.

Os soluços estremeciam seus membros. Quando ela se permitiu pensar na recuperação de MacLean, imaginou que o conduziria, lenta e cuidadosamente, para o pleno uso da capacidade de se deslocar.

Mas ele não a necessitava. Já não era seu paciente. Tudo mudou.

O que ela ia fazer?

Alguém a agarrou ligeiramente pelo braço e cruzou com ela a cancela, se afastando da crescente multidão que gritava e apontava as chamas que surgiam do telhado.

— Senhora MacLean? Se encontra bem?

Era o senhor Throckmorton, com o rosto iluminado pela luz misteriosa e oscilante. Não usava gravata nem colarinho na camisa, e tinha o cabelo totalmente desordenado, mas seu tom era tranquilizador e seu olhar inquieto.

Ela aspirou ar. Trêmula.

— Estou bem.

— Você está chorando. — Estendeu seu lenço. — Por que chora?

Ah, como se ela fosse lhe dizer isso!

— Tudo está controlado. — O dono da casa lhe deu uns tapinhas no ombro. — Todo mundo se encontra a salvo, e isso é o que realmente importa. E sei que você perdeu todas as suas posses, mas prometo que as substituiremos na medida de nossas possibilidades.

Suas coisas! Nem sequer pensou... seus objetos, as cartas de lady Halifax, o xale de renda no que trabalhou minuciosamente durante mais de quatro anos... seus soluços se intensificaram. O telhado da quinta veio abaixo com estrondo, e os homens se disseminaram em todas as direções. Enid esqueceu seu pesar e olhou com frenesi a seu redor, tratando de localizar MacLean.

Com o rosto sujo de fuligem e cheirando a fumaça, ele apareceu a seu lado e a tomou em seus braços. Enid se apertou contra ele e soluçou.

Aquilo ia caminho de se converter em um hábito, ao que ela não deveria ceder, mas estava fatigada e tudo era horrível.

— Se machucou? — ele perguntou.

Ela fez um gesto negativo com a cabeça.

— Está um pouco preocupada com seus pertences —disse o senhor Throckmorton.

MacLean a rodeou com os braços e a balançou.

— Não se preocupe por suas coisas. O importante é que estamos a salvo.

Cheia de furor contra ele, contra o senhor Throckmorton, contra o estúpido mundo, o afastou.

— Não estou... preocupada... por minhas... posses! — exclamou elevando de tal maneira a voz que os cães ladraram. Não se importou. — Como pode me considerar tão... tola para me preocupar com minhas... coisas?

O senhor Kinman se reuniu com eles, Harry também estava ali, e os quatro tinham no semblante a expressão claramente incômoda dos homens obrigados a ser testemunhas das emoções femininas.

— É somente... o incêndio e... te ver andar e... — se conteve antes de mencionar que ela e MacLean passaram a noite fornicando como coelhos.

Mas desejava fazê-lo.

MacLean também se deu conta disso, pois voltou a rodeá-la com os braços e fez que apoiasse a cabeça em seu peito.

— Sinto muito. Throckmorton e eu estávamos equivocados a respeito de você.

— As cartas de lady Halifax — replicou ela, emitindo um último soluço.

MacLean lhe acariciou o cabelo e teve o bom senso de não lhe responder.

Ela deslizou os dedos pelo peito nu de seu marido e sorveu pelo nariz.

— Por que nunca usa camisa, MacLean? Estou cansada de te umedecer com minhas lágrimas.

— Está zangada — comentou Harry.

— Absolutamente — murmurou ela.

— A próxima vez que tenha um incêndio em plena noite — disse MacLean em um tom de regozijo, — a resgataremos, mas sem despertá-la.

Enid soube que os homens assentiam, e sentiu desejos de esbofetear a todos. Primeiro a MacLean, logo ao senhor Throckmorton, para seguir com o senhor Kinman e terminar com Harry... e então de novo a MacLean.

Eles não a compreendiam.

— Todos os homens justificaram o que estavam fazendo no momento em que se produziu a catástrofe — explicou o senhor Kinman.

Por cima da cabeça de Enid, MacLean falou no tom cortante e imperioso que normalmente reservava para ela.

— Bom, Throckmorton, qual foi a causa do incêndio?

— Averiguaremos — respondeu o dono da casa.

— A verdade é que isto me parece bastante suspeito — acrescentou Harry.

Um longo silencio seguiu a este comentário. Enid elevou a cabeça e viu que tanto MacLean como o senhor Kinman e o senhor Throckmorton olhavam severamente para Harry. Os olhos de Harry brilhavam à luz das chamas moribundas, e moveu o polegar, apontando para Enid.

— Ela não é estúpida, sabem?

— Acredita que alguém causou o incêndio?

Harry meteu um dedo em uma orelha e o sacudiu. Ela havia voltado a elevar a voz.

— Acredito que alguém foi descuidado, e quem quer que seja, o melhor será afastá-lo deste encargo — disse o senhor Throckmorton com firmeza. — Não tem nada de que se preocupar, senhora MacLean.

Não acreditou nele. Já fazia algum tempo que não dava crédito às seguranças que lhe dava a respeito dela e de MacLean. Talvez um assassino acabasse o que a bomba tinha iniciado. Um assassino prenderia fogo, apanharia a um inválido e este morreria entre as chamas.

Harry tinha razão. Ela não era estúpida. No futuro estaria de olho atento.

O senhor Throckmorton lhe falou em tom suave.

— A levaremos a casa principal. Ali as mulheres poderão lhe cuidar. — Então se dirigiu a MacLean. — Pedi que tragam uma carruagem.

— Muito bem. — MacLean pigarreou e baixou a voz, por isso só o ouviu dizer: — Não acredito que possa caminhar tanto.

Estas palavras a fizeram se sentir culpada. Pelo amor de Deus, esteve pensando nela mesma e suas cartas, enquanto MacLean se levantou pela primeira vez em vários meses e caminhava! E, é obvio, como era um homem tão teimoso como um asno, não queria admitir a fadiga diante de outros homens. Com o cenho franzido, Enid olhou para Harry e o senhor Kinman, o qual se apressou a retroceder, e então puxou o braço de MacLean.

— Conseguiremos objetos de vestir e tudo que necessite para a viagem.

A viagem?

Mas MacLean deu a entender que compreendera.

— Então fixou a data da partida?

— O antes possível. Não acredito nas coincidências, e isto... — O senhor Throckmorton se interrompeu, e quando ouviu que alguém o chamava pareceu aliviado.

— Pode ir sozinho até o banco? Não está longe. — MacLean fez um gesto de assentimento e o dono do imóvel se apressou a partir.

O banco de pedra estava a uns passos. Enid se alegrou de que MacLean se apoiasse por completo nela. Sua viagem? Faria uma viagem! Soltando seu braço, deu-lhe um empurrão.

Ele perdeu o equilíbrio e caiu sobre o banco.

— Tome cuidado, Enid. A perna...

Ela conseguiu manter um tom razoável.

— Sua viagem? Aonde vai?

— A Escócia.

— A Escócia...

Lá ia ele, a abandonando, e ninguém lhe havia dito uma só palavra.

Claro, por que teriam que fazê-lo? Ela não era mais que sua enfermeira.

Não era mais que sua esposa.

— Throckmorton confia em que, quando me encontrar em minha terra, recuperarei a memória — acrescentou MacLean.

— Lástima que se incendiou a casa, não é? — replicou ela em tom sarcástico. — se não fosse pelo fogo, poderia ter se largado sem ter que enfrentar a mim.

Ele fez uma boa imitação de um homem sobressaltado e ofendido.

— Me interpretou mal, Enid.

Seu tom sério, de comiseração, lhe produziu náuseas.

— Como o interpretei mal? Absolutamente. Volta a me abandonar. Pode expô-lo nos termos mais suaves, mas o certo é que volta a me abandonar! — colocou os punhos nos quadris, um gesto que lhe dava o aspecto de uma lavadeira, mas tudo era melhor que ceder à tentação de o golpear. — Fez o que quis comigo, e agora larga a casa...

— Não, carinho, escuta...

— Sei que não sou a esposa que queria. Sei que não sou nenhuma maravilha na cama, mas isso talvez se deva a que não tive suficiente prática, e de quem é a culpa?

Ele olhou às pessoas que, a seu redor, contemplava as chamas moribundas.

— Cala.

Ela elevou a voz.

— Não vou me calar! E o que têm de mau meus métodos, não é? Certamente esta noite parecia satisfeito!

— Estava. Entendeu mal, Enid!

— O que entendi mal? Que vai me deixar aqui sem uma posição com a que me manter, vai me jogar de novo à pobreza, me abandonar...?

— Pelo amor de Deus, mulher, fecha o bico de uma vez! - gritou ele.

Ela se calou, cruzou os braços sobre o peito e o olhou furiosa.

MacLean a olhou de cima abaixo, e então lhe estendeu a mão.

— Me ajude a me levantar.

Ela não queria fazê-lo. Não queria descruzar os braços nem lhe dar a mão. Suspeitava que lhe faria alguma jogada. Suspeitava que tentaria convencê-la e ela teria que voltar a lhe empurrar.

Mas quando ele começou a se levantar com dificuldade, Enid estendeu a mão.

— Aqui tem.

Pegou a mão, se levantou e a abraçou com o mesmo movimento.

— Vai vir comigo.

Ela reteve o fôlego.

— OH.

MacLean apoiou a face no alto de sua cabeça.

— Não iria a nenhuma parte sem você. Nem agora nem nunca.

— OH — repetiu ela, se sentindo vagamente tola.

Se perguntou quantas pessoas teriam ouvido sua diatribe. Se perguntou se isso lhe importaria pela manhã.

— Throckmorton e eu falamos disso hoje enquanto estava ausente. Ontem à noite não tive tempo de lhe dizer isso. —Baixou a voz e disse em um quente sussurro: — Já sabe por que.

Sim, ela sabia por que. Ali em pé, rodeada por seus braços, o corpo alagado de sensações, sabia muito bem.

— Assim por fim vou a Escócia para conhecer sua família.

Se perguntou que recebimento lhe dariam, se Kiernan MacLean a desdenharia. Se Stephen MacLean recuperaria a memória e ela estaria uma vez mais sozinha. MacLean elevou seu queixo e os sulcos entre suas sobrancelhas desapareceram.

— Não se preocupe. Me ocuparei de tudo. Cuidarei de você.

Ela olhou a cara de feições fortes e expressão tenaz, decidida, e pela primeira vez compreendeu que poderiam ter êxito como marido e mulher. Inclusive quando MacLean recuperasse a memória, não poderia retornar à imaturidade e o egoísmo. Era impossível que um caráter sofresse uma regressão tão profunda, e aquele novo MacLean era tudo que ela sonhou. Não, era mais do que sempre se permitiu sonhar.

— Parece tão aturdida e está tão... bonita, — Sorriu-lhe com todo o sinuoso encanto que permitia sua cara lesada. — Estava pensando... ali deitado, quando você tinha o controle de tudo, pensava que era uma autêntica gigante, e em realidade é muito miúda, acreditei que era mais alta.

— Sim, bom, eu acreditei que era...

Se sentiu um pouco consternada. Mais baixo, acreditou que ele era mais baixo. Seu marido, Stephen MacLean, media não menos de um metro e oitenta. Aquele homem, aquele marido, era pelo menos oito centímetros mais alto.

— Acreditava que era... o que? — Seguia sorrindo para ela com seu semblante de desconhecido.

Ela procurou com desespero uma explicação.

Se esqueceu de sua estatura tanto como de sua cara.

Não, não se esquecera. Uma mulher sempre recorda os momentos em que olhou a seu marido durante a cerimônia de casamento, e a parte superior de sua cabeça chegara ao queixo de Stephen.

Ele crescera.

Era impossível. Stephen tinha vinte e seis anos quando se casou com ela.

Só ficava uma explicação.

— O que acontece? — MacLean a agarrou pelos ombros. — O que acontece, Enid? Parece como se estivesse a ponto de desmaiar.

Aquele homem não era Stephen.

Aquele homem não era seu marido.

 

— Posso lhe ajudar em algo antes que parta, senhora MacLean?

Enid olhou a seu redor, contemplou o pandemônio controlado naquela sala separada do centro da casa, as donzelas que dobravam objetos de vestir e os colocavam nos baús, à senhora Brown, com amontoamentos de roupa branca nos braços, e Harry, que estava ao lado da porta, de braços cruzados, o epítome do receio beligerante. Então Enid olhou ao senhor Throckmorton.

Queria lhe gritar: "Sim, me diga por que você fez isto".

Respirava com dificuldade, e tentava aspirar fundo para não sofrer uma vertigem. Cada vez que pensava no tremendo engano, se fazia um nó no estômago, suas mãos tremiam e temia ser presa de um acesso de histeria. Porque o homem que cuidou durante dois meses, o homem pelo qual ela mudou toda sua vida... o homem ao qual tinha entregue seu corpo... não era seu marido.

Entretanto, aqueles olhos eram os do Stephen. Nisso não podia se equivocar.

Mas sua cara... não era somente que estivesse desfigurada pela explosão, mas sim era outra cara. Era... tinha que ser... Kiernan MacLean, o senhor do clã MacLean.

Kiernan MacLean, quem quando ela contraiu casamento com Stephen, escreveu tão cruelmente para rechaçá-la. Não estava segura de que o senhor Throckmorton soubesse. O aspecto de MacLean enganou Enid, de modo que talvez... enfim, não sabia. Não sabia se deveria dizer ao senhor Throckmorton.

Não sabia se sua confissão causaria mais problemas e aumentaria o perigo.

— Não compreendo — se limitou a dizer. — Por que razão vamos a Escócia hoje mesmo?

O sol mal tinha aparecido sobre o horizonte, mas se dedicavam a fazer a bagagem desde sua chegada à casa principal.

—São nossas precauções normais em uma situação como esta — assegurou o senhor Throckmorton. — O governo de Sua Majestade não releva o assassinato ou a tentativa de assassinato de seus súditos por parte de uma potência estrangeira.

Talvez fosse assim, mas dada a extensão cada vez maior do império, a Enid resultava difícil acreditar que o governo de Sua Majestade se esforçasse tanto por cada assassinato individual.

— Não poderíamos esperar pelo menos até que MacLean se recupere da comoção do incêndio?

O senhor Throckmorton tomou assento na poltrona, frente a ela.

— MacLean parece se encontrar perfeitamente bem.

Isso era certo. O convalescente tinha boa cor, sua expressão era animada. Pedira que lhe cortassem o cabelo, e as mechas loira avermelhada que ela deslizara entre seus dedos a noite anterior foram reduzidos a uma longitude mais própria de um cavalheiro. Era evidente que a inatividade no quarto do doente o cansara e que empreendia com satisfação a partida. Não obstante, em ocasiões olhava para Enid, a examinava como se estivesse preocupado por ela.

Tinha seus motivos, pois ela esteve a um triz de desmaiar diante da quinta em chamas, e ele não parecia saber por que. Na realidade, o exonerava de fingir, pois MacLean acreditava seriamente que era seu marido.

Mas não era. Não era.

— Você é quem me preocupa — disse o senhor Throckmorton. — Perdoe que lhe diga isto, mas está pálida e tem olheiras. Preparamos um quarto para você. Por que não trata de dormir um pouco?

— Não poderia dormir.

Se tentasse, veria os olhos verdes e dourados de MacLean ante ela e saberia... saberia que cometera fornicação.

MacLean a surpreendeu o olhando, e ali mesmo, diante de todos, lhe enviou um beijo soprando a mão. Um gesto tolo, romântico. Ela sentia desejos de se esconder, pois quando ele descobrisse a verdade, ficaria furioso.

Céu santo, fornicou com Kiernan MacLean.

— Não se preocupe com os objetos perdidos. — O senhor Kiernan parecia tratar de tranquiliza-la em todos os aspectos. — Celeste está se ocupando da bagagem, e sei que alguns dos vestidos são de seu próprio enxoval.

— Não deveria tê-lo feito. — Enid alisou a saia do traje de viagem de tweed verde que Celeste insistira em lhe dar de presente. Duas costureiras trabalhavam como umas loucas em uma variedade de vestidos, roupas que Enid nunca teria imaginado usar, as alterando para as adaptar a sua altura superior. — Nunca poderei lhe pagar.

O senhor Throckmorton pareceu sentido.

— Por favor, senhora MacLean. O fogo que destruiu seus pertences é minha responsabilidade. Prometo que encarregarei novos vestidos para ela. — Olhou para Celeste, que estava falando com as costureiras. Minha prometida é generosa e inteligente, e não deve tratar de se opor a ela neste ou qualquer outro assunto se não quiser que se zangue e lhe dê um tiro. — Se voltou para Enid, com uma expressão sardônica na boca. — Tenho as cicatrizes que o demonstram.

À margem do que lhe dissesse, por muito que todo mundo tentasse fazer Enid sentir que aquela agitação da partida era natural e estupenda, estava aniquilada pela precipitação dos acontecimentos. Oxalá pudesse deter um momento, pensar, raciocinar e decidir que curso de ação seria o correto. Mas o senhor Throckmorton queria que partissem dali. Alguém tratou de matar MacLean.

Pensou que deveria se despedir dele e deixar que partisse sozinho, mas se fizesse tal coisa perderia todo direito a saber qual fora a sorte daquele homem. E talvez, só talvez, ela estava atuando como uma camuflagem para ele. Depois de tudo, parecia ser uma esposa totalmente entregue a seu marido. A Stephen MacLean.

Ah!, por que mentir a si mesma? Estava totalmente entregue a ele.

Só que... muito assustada pelo que poderia acontecer se alguém atentasse de novo contra ele. E consternada ao imaginar justificada cólera de MacLean quando descobrissem que tinha jazido com a desprezada esposa de seu primo.

Seu primo, que morrera.

Stephen MacLean era - tinha que ser - o homem que morrera na explosão. Agora ela era viúva, livre de fazer o que desejasse. Exceto... que não era, porque estava a ponto de partir para a Escócia. Queria cobrir a cara e chorar de desolação e confusão, mas jurou a si mesma que não voltaria a chorar.

Precisava fazer uma só pergunta. Uma pergunta cuja resposta necessitava com desespero.

— Senhor Throckmorton — disse em um tom penosamente cortês. — Isso de ir... à ilha de Mull me produz uma sensação estranha, você sabe? É como se eu não tivesse nada a ver com esse lugar.

O senhor Throckmorton percebeu sua confusão e a olhou atentamente.

— Senhora MacLean, compreende por que queria que MacLean recordasse, por si mesmo, quem é e os acontecimentos que conduziram a este acidente?

— Eu... sim, suponho que sim. Você quer que recorde sem ajuda de ninguém.

— Exatamente. Temo que se lhe dissermos o que tem que pensar, nossa influência viciará suas lembranças.

Enid soube que aquele homem lhe estava fazendo uma súplica e uma advertência. "Não diga a MacLean nada de seu passado...", mas o que podia lhe dizer ela exceto que não era o homem que disseram que era?

Que ela não era a esposa que ele acreditava? Não gostava dessa conversação, e chegaria o momento, mais cedo ou mais tarde, em que ele recordaria. Se não recordava antes que chegassem à ilha de Mull, ela enfrentaria a uma situação muito incômoda. Enfrentaria a sua família, e eles saberiam a verdade. Mais importante ainda era que poderia se ver com... Entrelaçou as mãos e apertou os dedos até que lhe fizeram marcas.

— Me fale dos MacLean. Quem são? A que se dedicam?

Throckmorton lhe respondeu sem vacilar.

— São uma ampla família com um imóvel imenso e multidão de primos e servidores.

Enid expôs com delicadeza a pergunta que resolveria sua dúvida.

— A mãe de Stephen MacLean está viva?

— Vive, em efeito. Tenho entendido que é uma bela mulher que adora a seu filho e acredita que não pode fazer nada errado. — O rosto de Throckmorton permaneceu impassível. — Se chama lady Catriona MacLean.

— Lady Catriona MacLean. — Enid memorizou o nome. — Mas sei que o pai de MacLean está morto. — Olhou para MacLean enquanto falava.

Seus olhares se cruzaram, e aquele homem corpulento e peludo que acreditava que seus seios o devolveram à vida, que a beijara até levá-la ao êxtase e a fizera dele, sorriu para ela.

Ela desviou o olhar.

— E o que me diz de... de sua tia?

— Você deve se referir a lady Bess Hamilton. A vi uma vez, faz anos. É uma mulher completamente excêntrica. Usa turbantes e fuma charutos. Quando a conheci me pareceu encantada — Throckmorton sorriu.

— Em troca, seu filho não me parece isso.

O coração de Enid começou a pulsar com força, e pela primeira vez, sabendo o que sabia, pronunciou seu nome.

— Seu filho é Kiernan MacLean, o atual chefe do clã?

— Sim, tem também uma filha, a irmã de Kiernan. Se chama Caitlin.

Um ligeiro suor cobriu a testa de Enid, e se inclinou para frente.

— E o senhor do clã? Está... está casado?

Throckmorton se voltou para trás em seu assento e a olhou, Quando falou, fez lentamente, arrastando as palavras.

— Não. Não, é um mulherengo. Nunca se casou.

Ela exalou o longo suspiro que reprimira.

— Bem. Isso está muito bem.

 

A carruagem puxada por quatro cavalos estava disposta. Carregaram os baús. MacLean se deteve nos longos degraus, aspirou fundo e experimentou o familiar aguilhão do entusiasmo. Então se pôs a rir. Não recordava por que o aguilhão era familiar, mas adorava. Se sentia muito bem, dono uma vez mais de seu destino. Moldaria os acontecimentos como desejasse, logo resolveriam todos os mistérios, recuperaria a memória e as águas transbordadas voltariam para seu leito.

Então viu Enid, vestida com traje de viagem de grossa lã cor verde garrafa, chapéu, uma saia negra de fio de lã, jaqueta de veludo verde garrafa e um esplêndido lenço de seda vermelho tijolo. Sua expressão era serena, tinha um ar de competência e se notava a preocupação contida por ele. Antes do incêndio, esteve aturdida, ardente, fora uma esposa cheia de prazer. Agora lhe sorria com uma amabilidade impessoal, atuava como o tipo de mulher que permitiria que a contratassem em lugar de emprestar seus serviços impulsionada tão só pela bondade de seu coração.

Inclusive lhe perguntou se se sentia casado.

— Agora sim — respondera ele, a olhando com uma exagerada expressão de luxúria.

Ela não riu.

O certo é que Enid não refletira nenhuma emoção sincera, mas ele percebia os sinais da tensão. Tinha pendurada no braço uma formosa capa de lã verde combinando, e com as bordas de pele, e segurava a pequena bolsa com tal força que MacLean teria apostado que debaixo das luvas de pele negra tinha os nódulos brancos.

Enid. A noite anterior respondera por completo a suas expectativas. Entregou-se lascivamente, fora generosa com suas carícias e tão ardente que ele quase se derreteu de prazer. Certamente, pôs objeções a sua exigência de que não se separasse dele, e inclusive depois não se mostrou convencida de que sua união fosse correta.

Mas ele estava tão convencido que bastava pelos dois. Embora soubesse a certo nível que ela não era a mulher mais deslumbrante da terra, quando a olhava via a perfeição encarnada. Era sua mulher, e ele superaria suas dúvidas. Só desejava que, quando o olhasse, evidenciasse um pouco de afeto. A aflição que via em seus olhos azuis o turvava. Era quase como se estivesse lhe dizendo adeus.

E o certo era que não deixava de olhá-la porque temia que, de um momento a outro, empreendesse a fuga.

Throckmorton se aproximou.

— Preparado?

MacLean soltou uma risada.

— Faz tempo que estou.

— As coisas que você pediu estão à mão, distribuídas em diversos lugares, tal como queria. — Sem deixar de lhe observar com uma expressão séria, acrescentou: — Atua com receio e cautela, como fez sempre.

Está seguro que não recorda nada?

— Não, não recordo, mas é certo que esta atitude me parece natural. E ontem à noite minha cautela nos salvou a vida, a de minha mulher e a minha.

Throckmorton baixou a voz.

— Sally desapareceu— informou.

— Sally? — MacLean recordou a jovem que o atendeu e que parecia tão desejosa de agradar. — A donzela?

— Ontem à noite foi à quinta para falar com o vigia. Harry a encontrou inconsciente, e os carvões da lareira estavam disseminados pelas pranchas do chão.

MacLean expressou seu pensamento em voz alta.

— Alguém lhe pagou. Alguém queria que me eliminassem.

— Se soubessem que podia caminhar, a ação teria sido mais direta.

— Não é de estranhar que tenha tanta pressa para que partamos daqui.

Throckmorton meteu as mãos nos bolsos e golpeou com o pé o degrau.

— O acompanharia se não estivesse a ponto de casar — lhe disse.

— Certamente, precisa estar presente na cerimônia. — MacLean passou a palma da mão pelas cicatrizes da face. — Não tem ideia de quem está atrás de mim?

O dono da casa voltou a baixar a voz.

— Ainda não, mas vai partir nesta carruagem à vista de qualquer um que possa estar observando. Dentro de umas horas se deterão em uma estalagem para a mudança dos cavalos. Ficarão ali enquanto outro casal sobe à carruagem para reatar a viagem. Você...

— E Enid.

Throckmorton assentiu.

— Você e Enid ficarão para trás, e então subirão a um trem particular que os levará a Edimburgo. Uma vez ali, subirão a outra carruagem e partirão com direção a Oban, de onde um transportador os levará a Mull. Nossos homens os acompanharão na viagem. Não posso prometer que não acontecerá nada, como é evidente, depois de ontem à noite, não posso prometer tal coisa, mas os dotei com o maior amparo possível.

— Minha família sabe que estamos a caminho?

— Ninguém deve saber.

— De modo que adiantaremos às dificuldades.

— A retirada é nossa primeira linha de defesa.

A necessidade de saber fez que MacLean adotasse uma atitude beligerante.

— Já é hora que me diga a verdade.

Throckmorton titubeou, como se estivesse tentado.

— Já conhece a maior parte da verdade. Sabe o que te ocorreu, que alguém quis que morresse. Temo que se lhe dissesse tudo isso antes que o recorde por si mesmo, suas lembranças seriam confusas.

E necessitamos dessas lembranças. Quem quer que te montou essa armadilha e matou a outro é uma pessoa muito nervosa, e se pudéssemos descobrir seu nome...

— Lhe direi isso assim que saiba, mas não me faz nenhuma graça que não me dê toda a informação.

— Se lhe dissesse isso agora, empreenderia a gritos comigo, e não podemos nos permitir uma cena dessas proporções. — Throckmorton lhe estendeu a mão. — Confia em mim um pouco mais. O que sei não pode te prejudicar.

MacLean lhe estreitou a mão estendida. Nenhum outro homem dos que havia ali merecia uma confiança absoluta. Nem Harry, vestido de negro e perigoso, nem Kinman, um tipo de olhar penetrante que ocultava sua inteligência atrás de sua aparência de homem inepto, nem Jackson, o camareiro arrogante que dirigia com tal perícia a navalha de barbear. Alguém tratava de lhe matar e, com ele, a sua esposa.

— Então está partindo, senhor? — perguntou a senhora Brown, que estava atrás dele, nos degraus.

— Assim é. — MacLean olhou à mulher cujo bom senso tanto chegara a apreciar. — Sentirá minha falta?

— De você e da senhora MacLean. — A mulher o olhou de cima abaixo com satisfação. — Sabia que nos ocultava algo, senhor. Sabia que caminhava pelo quarto.

— E como você soube isso?

— Porque lhe saíram calos nos pés.

— Não há maneira de enganar à senhora Brown — disse Throckmorton, sorridente. — Criou a muitos filhos.

— Isso é o que me disse. — MacLean pegou a mão dela e a beijou, e então acrescentou com malícia: - Lhe agradeço, senhora Brown, por ter limpado meu traseiro.

A mulher levou uma mão ao cabelo, ruborizada, e se pôs a rir.

Enid os olhava como se desejasse se reunir com eles. Lhe fez um gesto tentador com a mão, mas ela fingiu que não viu. A senhora Brown o olhou com o cenho franzido.

— Senhor MacLean, acredito ter dito que tomasse cuidado com seu casamento.

— E o tenho.

— Então, por que ela está irritada?

— Por que você acredita que tenho a culpa de sua conduta? — replicou ele em um tom irascível.

— Porque você é homem e sempre tem a culpa — disse cortante a senhora Brown.

Throckmorton lhe deu um empurrãozinho com o cotovelo.

— Não poderá ganhar nunca da senhora Brown. Não sei por que tenta.

Uma voz familiar, com um ligeiro acento, o chamou do alto da escada.

Throckmorton voltou a cabeça e, ao ver Celeste, sorriu de uma maneira tão carinhosa e tola que MacLean esteve a ponto de rir. A jovem tinha a aquele homem no bolso.

Sorridente e agitando uma mão, Celeste passou apressadamente pelo lado dos homens, com a energia de um dínamo, e foi ao encontro de Enid. Agarrou a mão de sua amiga e lhe disse:

— Oxalá não precisasse ir.

— OH! — Enid a beijou na face. — Tampouco eu queria partir. Quanto sentirei sua falta!

MacLean olhava às mulheres, desejoso que fossem amigas, mas sentia ciúmes do sorriso que iluminou o rosto de Enid ao ver celeste. Nunca o olhou daquela maneira, e, desde a noite anterior, ela atuava como se estivesse disposta a lhe ferir.

— E eu a você. Deve me prometer que virá de visita — Celeste baixou a voz, mas MacLean a ouviu — aconteça o que acontecer.

— Não sei se quererá minha companhia quando descobrir...

Enid se interrompeu. Olhou para MacLean e, ao ver que ele a estava olhando fixamente, seu rosto adquiriu uma tonalidade escarlate.

Não o olhou furiosa, não fez nenhum comentário. Se limitou a se voltar, como se a presença de MacLean a humilhasse. Ele sentia desejos de lhe gritar, de lhe dizer que não se sentisse envergonhada pelo que fizeram. Queria falar com ela, explicar que eram marido e mulher e que estariam juntos para sempre.

Desejava beijá-la até que Enid relaxasse apoiada nele. Por cima de tudo, queria irritá-la com sua ironia até que a esposa de ágil língua lhe replicasse com engenho e ele tivesse a segurança absoluta que lhe pertencia.

— Tudo está preparado — disse Throckmorton, lhe dando uma palmada nas costas. — É hora de partir.

 

O estrépito das rodas metálicas na via despertou Enid, e notou o estalo continuado do trem. Ainda era de dia quando por fim cedeu ao sono no compartimento especialmente construído que era como um minúsculo dormitório. Agora, no candelabro da parede ardia uma só vela. Quando Enid separou as cortinas de veludo para olhar ao exterior, não viu mais que a negra noite, sem uma só estrela nem um vislumbre da lua. Deviam estar cruzando uma região desolada, ela, MacLean e outros. Supunha que eram as terras do norte, ou talvez inclusive tivessem cruzado o limite com a Escócia. Ela não sabia quanto tempo levava viajar até tão longe.

Era a primeira vez que viajava de trem.

Se ergueu na cama, piscando. Alguém a agasalhou com uma manta leve, supôs que Kiernan MacLean. Se perguntou aonde teria ido ele e então se amaldiçoou por sua curiosidade. Estava a seu lado quando ela dormiu; não a deixou nem um momento desde que partiram da casa familiar Blythe, conversou com ela, acariciou seu cabelo, atuou de tal modo como um marido amoroso, que ela sentiu desejos de chorar ou gritar ou se agarrar a ele e rogar que lhe dissesse que tudo ia sair bem. Não o fez. Manteve um aspecto de serenidade, mas temia que não o enganava absolutamente.

Enid desceu do beliche e realizou pausadamente suas abluções.

Não podia importunar MacLean. Certamente, não podia fazer o amor com ele de novo. Não era seu marido. Não podia tratá-lo como se fosse.

Embora - se olhou no espelhinho pendurado sobre a mesa do canto - atuava como um marido. Desatara o lenço de seda de lã vermelha que ela levava no pescoço e afrouxara os botões da jaqueta de veludo verde, a abrira, despindo seu colarinho até o V que formavam os seios. Talvez o fez para que ela se sentisse cômoda, mas sabia que ele se deleitou na visão de sua pele nua e em seu direito de despi-la.

Sorveu pelo nariz, sacudiu a saia, calçou as robustas botas negras de viagem e adquiriu de novo um aspecto de respeitabilidade. Pelo menos ele não tentara fazer amor com ela. Ela não poderia lhe permitir tal coisa. Era certo que já deram uma dentada à maçã, mas agora ela conhecia os fatos. Distinguia o bem do mal.

Se agarrando a sua moral em tempos difíceis, quando abandoná-la teria feito a vida muito mais fácil. Nunca poderia fazer de novo amor com MacLean, e a irritava se sentir doída por isso.

Quase desejava poder dizer a ele, mas o senhor Throckmorton lhe dera umas instruções muito precisas, e Enid temia que aquele homem estivesse certo. Talvez se dificultassem a MacLean a recuperação de suas lembranças, ele nunca descobriria a verdade que espreitava sob a superfície de sua mente.

Ouviu o murmúrio de vozes masculinas no compartimento anexo ao dormitório. Abriu a porta e apareceu com cautela.

MacLean estava sentado, as pernas apoiadas no assento da frente, falando com Harry.

Harry adotara uma postura similar, e entretanto, apesar de seu aparente repouso, os dois homens davam uma impressão de estar à espreita que contrastava com suas posturas. Ambos vestiam de negro e marrom, umas cores monótonas que lhes davam um aspecto de empresários de pompas fúnebres. Jaquetas negras, calças negras, botas negras que não foram lustradas até lhes tirar brilho mas sim tinham uma tonalidade apagada, como se o couro tivesse sido desgastado de propósito. Os coletes eram de cor marrom escura e as gravatas combinavam.

Havia uma mesinha entre eles com um candelabro fixo que tinha cinco velas, uma garrafa de vinho aberta e dois copos cheios pela metade. Enfrascados na conversação, não repararam nela. Enid voltou com cautela ao beliche, se sentou e contemplou o chão. Ainda não compreendia como MacLean fizera para passar com semelhante rapidez de ser um inválido a um homem de ação.

Quanto mais fácil seria tratar com ele se seguisse preso na cama.

O que ia fazer ela nos dias seguintes, enquanto os homens de Throckmorton os levassem de um lado a outro e MacLean estivesse cada vez mais perto de seu lar? O nó que sentia no estômago se esticou ainda mais. Considerava a si mesma uma mulher que raciocinava bem e tinha lógica, com um excesso de etiqueta e um toque de saudável instinto de conservação, mas se estava deixando levar pelos acontecimentos porque não sabia que outra coisa fazer.

Certamente, não existia nenhum precedente com o qual se orientar. Ele não tinha necessidade de pensar que ela mentira. Ou teve um tremendo engano, ou lhes mentiram a ambos, e MacLean só teria que escutar suas explicações antes de derrubar sobre ela seu desprezo.

Enid não merecia o desprezo e não o aceitaria.

— Despertarei. —A voz de MacLean lhe chegou do outro lado da porta. Em um tom humorístico, e como resposta a um comentário que o outro murmurou, disse: — Não, obrigado, Harry, posso me ocupar eu sozinho de minha esposa.

Enid se levantou com tal rapidez que as botas que chegavam até seus tornozelos produziram um ruído surdo ao golpear o chão.

Ele abriu a porta e ficou olhando à mulher que estava frente a ele com o queixo elevado.

— Ouviu isso, não foi? — Dirigiu-lhe um olhar muito afetuoso. — Está tão bonita como sempre. —Antes de que Enid pudesse replicar, ele seguiu dizendo: — dentro de pouco mais de uma hora chegaremos a Edimburgo.

Teremos que descer do trem a toda pressa.

Ela poderia ter se mostrado surpreendida, mas já eram tantas as surpresas recebidas que nada poderia pegá-la despreparada.

— Estou preparada.

Ele estendeu seu longo braço e a atraiu para si.

— É assim eu gosto, é uma garota resolvida.

Harry riu alegremente a suas costas.

Harry. Seguia sem gostar daquele homem, embora sem mais motivos que o fato de que emitia julgamentos quando não deveria fazê-lo e utilizava a cautela como se fosse um escudo. Então, como ela sabia que sua hostilidade carecia de lógica, sorriu placidamente para ele enquanto se liberava do abraço de MacLean.

— Se formos seguir viajando, cavalheiros, espero que os dois durmam.

Harry fez uma inclinação de cabeça.

— Sim, senhora. Sou um soldado e durmo quando tenho um momento para fazê-lo.

— E eu. Dormi com você até uma hora atrás. — MacLean passou um dedo pelo seu lábio inferior. — Estava extenuada. Se sente melhor agora?

Tudo em MacLean refletia preocupação: sua voz, profunda e vibrante, seus olhos, cheios e vibrantes, a maneira em que a tocava como se fosse preciosa para ele.

E por isso ela voltou a retroceder.

— Estou melhor — disse. — Só quero me assegurar de que minhas coisas estão...

O trem se deteve em seco de repente e Enid caiu sobre MacLean. Ele cambaleou para trás, levando-a com ele. Harry saltou por cima dos assentos. Os freios chiaram, os revestimentos de madeira do vagão rangeram, os vidros se quebraram e duas das velas caíram ao chão e se apagaram. O silêncio que se fez então aterrou Enid. Dois vagões mais adiante a locomotiva soprava lentamente, mas não chegava som algum dos vagões, onde se encontravam os restantes homens do senhor Throckmorton.

Harry foi o primeiro a recuperar o fôlego e soltou uma maldição, com virulência e sem ter em conta a delicada sensibilidade de Enid; isso satisfazia uma profunda necessidade que ela sentia, por isso esteve agradecida a ele. MacLean acabava de se levantar de seu leito de doente, e agora foi jogado com violência ao chão.

— Está bem, MacLean?

— Não pesa tão pouco como parece — grunhiu ele, e a pôs a um lado.

Ela tentou mantê-lo imóvel.

— Que tal os joelhos? E a perna? Está sangrando?

Ele se levantou, a agarrou pelos ombros e, a imobilizando, a olhou aos olhos.

— Estou bem. E você?

— Eu? Claro que estou bem. Mas você...

— Não sou um inválido. — Disse em um tom tão cortante e seu aspecto era tão imponente que ela se tranquilizou.

Mas o observou com atenção enquanto ele se levantava sem ajuda e lhe estendia uma mão.

— Eu também estou bem, obrigado por perguntar — disse Harry, enquanto o ajudava a se levantar.

— Está sangrando? — perguntou MacLean.

— Um pouco. — Harry tocou o couro cabeludo, e ao retirar os dedos estavam manchados de vermelho. — Torci um pé.

— Mau assunto. — MacLean olhou para os vagões dianteiros. — Eu não gosto disto.

— A mim tampouco. — Harry avançou mancando para a frente do vagão. — Irei ver o que ocorreu.

MacLean permaneceu à espera até que Harry abriu a portinhola e voltou a fechá-la, e então entrou em ação. Vestiu o casaco e estendeu a Enid a capa e o chapéu.

Assustada pela carrancuda expressão de MacLean, ela colocou os objetos sem titubear.

— As luvas? — inquiriu ele.

— As tenho aqui.

Não sabia a que se propunha fazer ele, mas quando o viu tirar de debaixo da cama uma bolsa marrom longa de tecido atapetado teve uma sensação de náusea.

— Pode levar isto? — perguntou.

A bolsa pesava tanto que esticava seus braços, mas ele não aguardou sua resposta. Tirou outra bolsa similar, maior, que esteve debaixo da mesa. Extraiu algo de seu interior (ela teria jurado que tinha uma faca na mão) e então pendurou a bolsa no ombro.

— Me olhe — disse.

Ela obedeceu e teve a sensação de que sua boca secava.

— Isto é uma emboscada. Vamos sair daqui, e rogue a Deus que não seja muito tarde.

Ela assentiu.

— Vou à porta traseira. Necessito que apague estas velas e venha comigo. Pode fazê-lo?

— Claro que posso.

"E, naturalmente, estou morta de medo", poderia ter acrescentado, mas do que teria servido? Calculou a distância entre ela e a porta e então apagou as velas. Em uma escuridão absoluta, avançou entre os escombros até chegar ao lado de MacLean, enquanto os fragmentos de vidro rangiam sob suas botas.

Como se pudesse vê-la, ele encontrou sua mão e a agarrou. Então a empurrou contra a parede.

— Fique aqui — lhe sussurrou, e abriu a porta.

O ar fresco acariciou o rosto de Enid. Não muito longe dali estavam os homens, cujos gritos chegavam a seus ouvidos. Mas no lugar onde se encontravam não se ouvia nenhum movimento.

— Muito bem. — MacLean saltou à via sem fazer ruído algum. — Salta, Enid, estou aqui — lhe disse.

O obedeceu sem vacilar. MacLean a pegou nos braços e a separou das vias.

Os gritos se intensificaram, e se ouviu um disparo.

Enid se sobressaltou e se agarrou a ele.

Sem um instante de hesitação, MacLean a afastou rapidamente do trem e sumiram na escuridão.

 

Quando o sol iluminou por fim o triste dia, estavam subindo por uma costa solitária em um bom ritmo, mas Enid se sentia a ponto de desfalecer.

MacLean o observou, certamente. Naquela excursão pelo campo às escuras demonstrou uma e outra vez que se fixava em tudo. Conseguira evitar as casas de campo que apareciam de vez em quando em seu caminho. Conduziu Enid sem pausa ao redor de penhascos e por acidentados atalhos. E quando lhe comentou que devia estar muito cansado e necessitava um descanso, procurou uma rocha atrás da que se ocultar de modo que ela tivesse intimidade para fazer suas necessidades.

Não achava engraçado que ele a compreendesse tão bem.

E no fim das contas, por que ele não necessitava descansar? Percorreram uma grande distancia a passo vivo e ele seguia adiante sem parar, enquanto que ela...

— Faremos uma parada aqui. — MacLean deixou sua bengala junto a um montão de pedras brutas. — Descansa e eu vigiarei o terreno, verei aonde vamos, verei se nos seguem.

Ela deixou cair sua bolsa e o olhou furiosa, com a respiração entrecortada.

— Esteve... doente. Por que... não está... esgotado?

— Estou um pouco cansado, moça. — Seu acento escocês foi se tornando mais marcado à medida que entravam no campo. — Mas você também está indo bem.

— Estou... ofegando! — Se apoiando em uma rocha, Enid levou uma mão ao flanco.

— As mulheres inglesas não fazem exercício como deveriam. Ar fresco, isso é o que faz falta, e bons passeios ao sol.

Ela jogou a cabeça para trás.

— É um burro.

— Se pode me insultar, é por que se sente bastante bem — observou ele. — Toma.

Ofereceu-lhe uma pele de água que encheu em um arroio pelo menos dez anos atrás e a meio caminho de distância.

— Obrigado — disse ela, mas se limitou a olhar fixamente a pele. — Me doem tanto os braços de levar essa bolsa... que não posso levantá-los. O que contém, pedras?

Ele sacudiu a cabeça, desenroscou o plugue da pele e a ofereceu para que bebesse. Enid tragou a água com avidez e, quando terminou, deslizou para baixo pela lisa superfície da rocha. A umidade que havia ali a esfriava até os ossos, mas tinha os pés no alto e as pernas estendidas, e não precisava mover um só de seus doloridos músculos.

— Uma faca — disse ele.

Ela olhou para MacLean, que permanecia em pé ante ela.

— O que?

— Uma faca, bolachas de navio, queijo, carne seca, mantas, ataduras, unguento, cordas.

— Me deu a bolsa pesada!

Ela sabia que isso era uma tolice, mas não sentia nenhuma necessidade de ser razoável.

— Eu levo o mesmo mas em mais quantidade. Trouxe meu kilt escocês e a bolsa. Apesar de chamuscadas como estão, não podia abandoná-las. — Tirou o capote, dobrou-o e o meteu em sua bolsa. — Também te trouxe um pente.

Se ele esperava que o elogiasse, não deveria dizer essas coisas a uma mulher cujas coxas tremiam de fadiga. Em tom de queixa, escolheu o detalhe mais tolo para se queixar.

— Não necessitamos de duas facas.

Ele não poderia ter-se revelado mais paciente.

— Uma é para usar, a outra para troca. Há um longo trecho até Escócia, e a comida não durará eternamente.

— Não podemos fazer uma parada e comprar algo? Trouxe todas essas coisas mas nada de dinheiro?

— Algo há também, mas com um pouco de sorte não encontraremos a ninguém. Se o fizermos, não mostraremos o dinheiro e o economizaremos se por acaso surge uma emergência.

Ela desejava gemer, mas não tinha fôlego para isso. Observou MacLean que subia ao alto da colina e se deitava sobre as rochas para examinar o terreno em todas as direções. O vento afastava o cabelo loiro avermelhado do familiar rosto do desconhecido. Olhava com os olhos entrecerrados a direção por onde vieram, e logo a que iam seguir. Suas roupas se mesclavam com a paisagem (claro, isso explicava a monotonia do negro e do marrom), mas ela ainda podia ver seus largos ombros e o estreito quadril. E suas pernas... Enid fez uma careta de irritação; as pernas daquele homem eram musculosas. Como foi tão tola de atribuir semelhantes coxas e panturrilhas aos exercícios que fez na cama? Caminhou, isso era evidente. Não era de estranhar que todo mundo insistisse em que ela tirasse longas pausas de suas pesadas tarefas.

Os homens.

O que estava ela fazendo ali? A noite anterior, não, na outra noite, fizeram amor tão apaixonadamente como jamais dois amantes fizeram. Ela se maravilhou de sua força, a assombrou sua habilidade, descobriu seu corpo como se nunca o tivesse experimentado até então.

Porque nunca esteve antes com ele. Porque agora, depois de oito anos de solidão e inumeráveis oferecimentos de muitos homens dissolutos, ela se convertera sem se propor em uma mulher lasciva. As coisas nunca poderiam voltar para a situação anterior; enfermeira e paciente, esposa abandonada e marido do que sua mulher se separou. Por isso ela tomou a resolução de se manter serena, forte, capaz de resistir a tormenta que via se abater no horizonte.

O problema persistia em que seguia pensando que de algum jeito seria possível evitar a tormenta.

"Se ele não recuperasse jamais a memória, ela poderia lhe deixar acreditar indefinidamente que estavam casados."

Mas sua família sabia a verdade e o diriam.

"Se não fosse por sua família, ela poderia manter a mentira."

Embora bem visto, por quê? Não o amava.

Mas tinha... sentimentos... para ele, e sabia que, quando ele descobrisse a verdade, se enfureceria com ela, ou pior ainda, a olharia fixamente com aqueles olhos verdes frios como o gelo. Entretanto, ela não era covarde. O que a preocupava era a mente de MacLean, cujo cérebro já sofrera muitas comoções, e ela temia as consequências de uma verdade tão abrupta e terrível...

Sim que era covarde, e com uma moral escassa, além disso, pois ainda desejava a aquele homem. Talvez se só lhe desse um vislumbre da verdade, esse vislumbre poderia desencadear todas as suas lembranças. Sim, talvez um só vislumbre...

Só que... precisava permanecer tranquila. Se acabaram as réplicas engraçadas e as brincadeiras.

MacLean saltou das rochas e aterrissou aos pés de Enid.

— Não há ninguém a um nem a outro lado do vale. Enquanto estes valentões não tenham cães, os despistamos. Se levante.

— O que? Por quê?

— Está sentada no chão frio. Vamos estender uma manta para que não pegue friagem.

Ela queria protestar, lhe dizer que não valia a pena o incômodo de se levantar, mas ele tinha aquela sua expressão no rosto, a expressão que dizia: "Sei o que te convém".

Por isso se levantou com fadiga, deixou que MacLean estendesse uma manta e se deixou cair nela.

— Quanto caminhamos?

— Vinte quilômetros, pelo menos. Agora não estamos longe das vias do trem.

— O que?

— Caminhamos em círculo, voltando um pouco atrás para que perdessem nossa pista. — Se deitou de barriga para cima aos pés de Enid. — Vai preparar algo para tomar o café da manhã?

— Claro. — Ela puxou a pesada bolsa que estava a seu lado e tirou pão e queijo. — O homem explora e a mulher faz o verdadeiro trabalho.

A serenidade teria que esperar outra ocasião, um dia menos rodeado de perigo.

Ele se deitou de lado e apoiou a cabeça com a mão.

— A exploração é uma dura tarefa. Requer anos de adestramento e perícia. Não esqueça tampouco que fui na frente, abrindo um caminho através da escuridão e do frio.

A noite anterior, apesar dos círculos e dos retrocessos, ele levou a dianteira com tal segurança que era como se pudesse ver naquela escuridão de masmorra. Ela foi incapaz de distinguir nada, cada passo foi uma aventura, e teve que confiar em que não a faria se chocar com uma árvore ou cair em uma ravina.

E acreditara nele, certamente. As façanhas de MacLean a deixaram impressionada, mas agora dava menos importância.

— Pois trocaria a posição agora mesmo— lhe disse.

Ele pegou a bolsa.

— De acordo.

Ela agarrou com força a correia e o olhou furiosa.

De algum jeito, o equilíbrio entre eles mudou. Ela passou a seu território, o do caçador e a presa. Jamais poderia sobreviver ali, mas MacLean se revestiu de autoridade como se fosse uma armadura, e enquanto que antes a salvação de sua vida dependera dela, agora a vida de Enid dependia dele.

— Eu me poria à frente, mas não com a dor nas pernas que tenho.

Ele sorriu, soltou a bolsa e não lhe disse que ela não tinha a mais remota ideia da direção que deviam tomar.

— Além disso, lá no imóvel Blythe me enganou, não me disse que podia andar...

Ele arqueou as sobrancelhas mas não negou, o muito patife.

— ... Mas suponho que agora está cansado?

— Estou — ele se limitou a admitir.

— Deveria te dar tão só o pedaço menor de pão como castigo. E pensar em quão angustiada estava quando deu o primeiro passo! Mas cuidei de você durante muito tempo para comprometer meu trabalho.

Partiu o pão, pôs um pedaço sobre um guardanapo e o empurrou para ele.

— É certo, pôs um grande empenho em cuidar de meu corpo, e lhe agradeço isso. — Sorriu de um modo tão luxurioso que ela soube que não se referia a sua habilidade de enfermeira.

Ela pegou a faca e a desembainhou. Enid deslizou um dedo pela afiada folha e sorriu por sua vez. Se tivesse podido conter o rubor, teria sido a perfeita ameaça.

— Me dê isso, moça, antes que lhe entre a tentação de usá-lo incorretamente.

MacLean se ergueu e pegou a faca e o queijo.

Enid admitiu que ele dirigia a faca com habilidade, pois as fatias que depositou sobre seu pão eram finas e uniformes, tal como ela gostava. E como não podia evitar se preocupar por cada minúcia, se preocupava que ele a tivesse observado enquanto comia e recordasse de suas preferências. Um homem considerado faria isso por sua esposa.

Ah, que o céu a salvasse dos homens considerados! Pegou os primeiros bocados do pão com sabor de nozes e o áspero queijo.

— Quem nos segue? — se apressou a perguntar.

— Não posso recordar, moça, mas tudo parece indicar que se trata de pessoas que querem me ver morto.

Enid rebuscou na bolsa e encontrou umas frutas secas. Não só maçãs, a não ser frutas mais exóticas. As mostrou a seu companheiro.

— Olhe. Isto é estupendo!

— Vejo que sua amiga Celeste se ocupou do assunto. — MacLean sorriu ao ver a satisfação sem inibições da jovem. — Quando os homens fazem a bagagem, não pomos coisas tão deliciosas.

— Querida Celeste.

Ela mordeu o damasco e o sabor ácido e doce da fruta a fez estremecer de prazer.

MacLean agarrou sua mão, a aproximou da boca e pegou com os dentes a outra metade da fruta.

Se alimentavam mutuamente, algo do mais primitivo, do mais sedutor. E a maneira em que ele a olhava, como se se propunha a se inclinar para frente e beijá-la... aqueles beijos profundos, fabulosos, que conduziam ao pecado e ao pesar. Ela tratou de retirar a mão e ele acompanhou o movimento, pressionou a jovem contra a rocha, com uma mão em seu ombro, e desceu de súbito a cabeça para lhe cobrir os lábios com os seus.

O beijo era o que ela temia. Uma isca descarada, porque ele não ia forçar sua submissão, o muito canalha. Roçava-lhe os lábios com os seus, docemente, com rapidez, uns passos suaves que a faziam tremer de desejo de lhe agarrar o cabelo e retê-lo para o beijar. O contato a acalorava, apressava seu coração, a ruborizava. Ele cheirava tão bem, cheirava a segurança, a marido, a amor...

Pondo uma mão no peito dele, o afastou e aspirou fundo, trêmula.

— Olhe, este é o tipo de dificuldade que temia.

— Dificuldade? — Ele arqueou uma sobrancelha. — Chama a isto dificuldade?

— Poderia ser, se nos deixamos levar e esses velhacos nos encontram em flagrante delito...

Ele riu entre dentes.

— Com as calças baixadas e as saias erguidas, por assim dizer.

— Deveria seguir adiante sem mim.

— Não quer ir por aí com um homem perseguido? — replicou ele, lacônico e absolutamente preocupado.

— Isso não é tudo, como muito bem sabe. Eu o retenho. Se move mais rápido e mais silencioso que eu, se mescla com o campo, parece um nativo...

Ele colocou a mão na bolsa que estava ao lado de Enid, tirou uma rodela de maçã seca e a examinou.

— É que sou um nativo...

— Poderia ir a sua casa duas vezes mais rápido sem mim.

MacLean esteve um longo momento sem dizer nada, e então suspirou.

— Ah, as coisas que pensa de mim.

— As coisas que eu... o que quer dizer?

Ele ergueu a vista, e ela mudou de ideia a respeito de sua calma. Os olhos dele brilhavam, o queixo se sobressaía; estava furioso.

— Que sou o tipo de homem que abandonaria a sua esposa em meio das agrestes terras escocesas para salvar a pele. Que iria a minha casa sem você, sem saber jamais se sobreviveu ou não.

— Ergueu a mão para a impedir de falar. — Talvez antes fui esse tipo de homem. Não recordo.

Ela se sentiu afligida.

— Não, você não!

— Mas sei que agora não farei tal coisa, e pode tirar isso da mente.

— Mas e se eu... — Enid tragou saliva.

— Se você o que?

— E se te dissesse que não sou sua esposa? — respondeu ela apressadamente.

A fúria de MacLean não se manifestou a gritos. Chegou em um sussurro ameaçador.

— Então diria que faz um par de noites fez uma imitação muito boa de uma esposa. — Tomou ar a fundo. — Temos um longo caminho pela frente. É inútil que me venha com esses ardis.

Ela não podia acreditar. Se armando de coragem, lhe confessara o grande engano... e ele não acreditava!

— É minha amada esposa, e se a capturam, a torturarão até que me entregue.

Enid não pensou nisso, nem em que eles, quaisquer pessoas que fossem, dariam a suas palavras o mesmo crédito nulo que MacLean.

— Se entregaria por mim?

Enid piscou. De onde saíra isso?

— Pois o que acredita você, moça?

A olhou fixamente aos olhos, e ela reteve o fôlego. Stephen MacLean a teria abandonado sem pensar nisso duas vezes. Kiernan MacLean não só se entregaria pela mulher a que via como sua esposa, mas sim lutaria por ela... e também morreria por ela.

As diferenças entre os dois homens eram tão grandes que Enid não compreendia como podia ter se deixado enganar. Sentiu um nó no estômago ao pensar na grande honra que seria estar casada com Kiernan MacLean, e a embargou a tentação de se considerar dele. Mas se ele tinha honra, ela também.

— Por muito que aprecie o elogio que me faz, devo insistir...

Ele agitou o ar com a mão.

— Já é suficiente. Como está seu calçado?

MacLean se convertera em alguém a quem Enid não reconhecia, um guerreiro decidido a protegê-la e defender aos dois. Ela não sabia como lhe convencer da verdade.

Não queria lhe convencer.

O convenceria mais à frente. Sem dúvida naquelas circunstâncias a covardia era compreensível.

— Estão... bem.

— Não lhe saíram bolhas nos calcanhares? Não estão furadas as meias?

— São cômodas. MacLean...

— Muito bem, então. Seguiremos caminhando até meio-dia, ou até que encontremos um refúgio apropriado. A princípio viajaremos pela manhã e a noite, e logo, quando tivermos a segurança de que os despistamos, viajaremos durante todo o dia. — Pegando as mãos, a olhou suplicante aos olhos: — Confia em mim, Enid. Juntos encontraremos o caminho para casa.

 

— Abaixo, moça.

MacLean pegou Enid pela cintura, a desceu da carroça e observou que lhe sobressaíam as costelas. Nos doze dias que levavam no caminho, Enid perdeu muito peso embora ainda fosse uma mulher atraente. Tão atraente, com seus seios admiráveis e suas feições delicadas, que lhe resultara difícil manter em todo momento a disciplina.

Pendurou no ombro uma bolsa de provisões, estendeu a Enid a sua e se despediu do granjeiro lhe agradecendo e agitando a mão.

MacLean queria ter Enid entre seus braços e ouvi-la gemer como o fizera na quinta de Suffolk. Queria lhe ensinar novos prazeres e beijá-la até que os dois estivessem sem fôlego e ansiosos por chegar à culminação. Queria tudo isto, e devia se contentar tendo-a em seus braços enquanto dormiam.

Assim que chegassem a casa as coisas iam mudar. Muito em breve, se ele conseguisse.

— Seguimos adiante? — perguntou ele, segurando-a pelo braço.

Enid olhou a seu redor. Estavam em um lugar desabitado das Terras Altas escocesas: inóspitos escarpados, colinas cobertas de plantas e urze, pinheirais e dois estreitos sulcos a modo de caminho.

— Só é meio-dia— respondeu ela.— Depois de uma viagenzinha tão cômoda — dirigiu um significativo olhar a carroça que estralava, — deveríamos ser capazes de caminhar até meia-noite.

— Boa ideia. Me alegro que tenha pensado nisso.

Mas apesar de seu sarcasmo, estava preocupado por Enid, cujas queixas não eram tão incisivas como antes. Estava se debilitando. Isso explicava o motivo de que, quatro dias atrás, ele tivesse abandonado as paragens agrestes para avançar pelo caminho.

É obvio, a maior parte do que os habitantes das Terras Altas chamavam civilização provavelmente lhe parecia muito tosco a uma mulher educada na Inglaterra. Umas poucas choças apertadas à beira de um lago constituíam uma cidade, e as granjas eram escassas e estavam muito distanciadas. O primeiro dia pagaram a um jovem janota para que lhes permitisse viajar no assento elevado do lacaio de sua carruagem de estilo inglês usado, e assim percorreram muitas léguas antes que anoitecesse. No dia seguinte viajaram com a lentidão da carreta de feno que os transportava e passaram a maior parte do dia dormindo. Na noite anterior encontraram uma granja com uma horta minúscula, uns pobres campos e uma mísera choça. MacLean fez uma troca com o granjeiro para que lhes permitisse se alojar no estábulo, e com a esposa do granjeiro por dois pratos de empanada e duas jarras de cerveja. Enid comeu como se nunca tivesse provado semelhante aprimoramento, e dormiu a perna solta[5] com um teto sobre a cabeça.

E hoje o granjeiro os levou em sua carroça, a caminho do mercado.

Mas estavam se aproximando da costa ocidental e do mar. MacLean notava o aroma na atmosfera e a mudança do vento. Mais ainda, descobriu um caminho prometedor, afastado do caminho principal e à esquerda. Um atalho de cabras, como a maior parte dos atalhos que percorreram, mas, ao contrário dos outros atalhos, MacLean reconheceu aquele vagamente. Tanto o atalho como a costa pela qual subiam resultavam familiares. E pensava... suspeitava que os levaria aonde queriam ir.

Reconheceria o que se encontrava do outro lado? MacLean se separou do caminho e entrou em um pequeno bosque. Enid não o seguiu. Ele se voltou e lhe disse:

— Anda, vamos.

— Não me trate como se fosse um cão de caça!

Ele reteve o fôlego. Enid estava a ponto de sofrer um ataque de nervos feminino.

— Fiquemos em algum lugar onde haja fogo e um banho — pediu ela em um tom de desespero. — Leva dias sem ver ninguém suspeito.

Ele retornou a seu lado, pegou a mão dela e a olhou aos olhos, aqueles grandes olhos azuis bordeados de negras pestanas.

— Não, não vi a ninguém suspeito. Estou convencido que despistamos a quem quer que nos estivesse seguindo. Mas não confio em ninguém de Suffolk nem confio em ninguém a quem não conheça, porque talvez eles me conheçam e estejam dispostos a me matar. Passar a noite em uma estalagem poderia significar nosso fim, disso não há dúvida.

No estado de ânimo em que se encontrava, Enid não podia ser razoável. O lábio inferior lhe sobressaiu e ficou a tremer.

Ele a conduziu para as árvores e perguntou razoavelmente:

— Como pagaríamos o alojamento?

— Com o dinheiro que você trouxe.

Ele estava inquieto pela crescente sensação de familiaridade que experimentava naquelas paragens.

— Já gastamos muito, e esse dinheiro é para uma emergência.

— Estou cheirando mal. Isso não te parece uma emergência?

— Pois não a cheiro — assegurou ele enquanto abandonavam as árvores.

Olhou a seu redor para se assegurar que ninguém os via e apressou a jovem através dos campos.

— Isso é porque você também cheira mal. — Seu tom era duro e mal-humorado.

Ele a examinou com o cuidado de uma donzela de uma dama. A parte inferior de sua capa estava rígida, coberta de lama da altura dos joelhos para baixo. Dormiram sob uma carreta tombada, com o resultado de que o chapéu de Enid se deformou sem remédio. Enid lavava a cara todas as manhãs, mas cada vez que faziam uma parada se deixava cair ao chão poeirento, e sempre tinha a cútis suja. Seus olhos azuis conservavam seu brilho, a cor de sua pele era saudável, se fortaleceu com o exercício e inclusive estava mais bonita, mas chegou a pensar que a viagem não terminaria jamais.

Semelhante atitude podia lhe levar a se desentender de sua própria segurança, e ele não podia permitir tal coisa.

Quando chegaram ao caminho, ela exalou um dramático suspiro e apontou para trás.

— As pousadas estão nessa direção.

Ele olhou a seu redor. Conhecia aquela paragem. Não sabia por que, mas reconhecia os salientes rochosos, a costa pronunciada até o topo da elevação, a maneira em que o vento açoitava seu rosto quando coroaram o topo e iniciaram a descida pelo outro lado... e o modo em que o atalho serpenteava pela vertente de outra colina.

Se ele estava certo... se recordava corretamente... poderia encontrar um banho. Um banho e uma macia cama e um marido disposto, embora ela não desejasse este último.

— Vou te levar a um lugar que é melhor que uma estalagem — disse ele.

Embora Enid confiasse em que a guiasse, não lhe confiava seu amor. Ela não disse, mas MacLean não podia esquecer a loucura que brotou de seus lábios na primeira jornada do caminho: "Não sou sua esposa". Ela podia desejar tudo o que quisesse, mas dizer as palavras não converteria seus desejos em realidade, e ele se propunha lhe demonstrar com exatidão que estavam casados. À primeira oportunidade, dedicaria toda sua atenção a Enid. Criaria uma oportunidade, e Por Deus que descobriria por que razão ela se calava quando lhe perguntava por seu passado, por que tinha o aspecto de um coelho apanhado quando lhe falava de seu futuro.

MacLean seguia caminhando a passo vivo, sempre de olho atento, mas também apostando consigo mesmo enquanto caminhava. Do outro lado daquela crista veria uma cascata à esquerda. Uma deteriorada cerca de pedra se estendia passando pelo atalho até a linha das árvores. Um pomar de frutíferos, os ramos coalhados de verdes folhas se balançando sob a brisa no estreito vale que se abria abaixo.

Acertava sempre. Estavam se aproximando, ele sabia no mais profundo de seu ser. Logo estaria com sua família, e quando isso acontecesse... ah, quando isso acontecesse voltaria a ser um homem íntegro, com suas lembranças e uma mãe e uma irmã... saberia quem eram seus inimigos e poderia exorcizá-los.

— Ali. — Se detendo pendente abaixo, MacLean apontou algo. — Vê isso?

Ela tirou da cara a borda do chapéu.

— Há um terreno baixo.

— É melhor do que parece.

Ela estava tão fatigada que não lhe perguntou como sabia.

E era melhor que não perguntasse por que ele não tinha ideia de como sabia. Se pôs a andar na frente dela, a ajudando com uma mão sob seu cotovelo.

Giraram para tomar outro atalho, mais estreito, apenas uma franja riscada na erva que cobria a vertente. Avançaram entre um amontoamento de rochas mais altas que ele, e de repente estiveram ali, em um pequeno terreno baixo esquentado pelo sol e rodeada pelos montes.

Ele quase podia recordar que de moço ia ali correndo e visitava... a alguém. A uma pessoa idosa. Mas não, seu rosto o evitava por completo...

O rosto de uma mulher. Vivia ali solitária, com uma vaca e umas quantas galinhas. Tinha um pomar pequeno, protegida do pior do inverno por umas enormes rochas graníticas, onde cultivava ameixas e maçãs, e uma parcela de verduras. Ah, os espinafres mais deliciosos que ele jamais comera.

A mulher, quem quer que fosse, não estava ali, e os animais desapareceram com ela. Agora reinava no lugar um completo abandono. A casa de pedra parecia desabitada, as venezianas fechadas, a porta fechada por fora com aldrava, e da lareira não surgia fumaça. Não obstante, ele tinha a sensação de que ali se encontrava a salvo.

Sim, estava recordando.

Quase temia ouvir o que Enid diria sobre o lugar. Ao fim e ao cabo, ela vivera com uma grande dama em Londres e com ele na casa familiar Blythe, e a quinta em que se alojaram ali tinha dez vezes o tamanho daquela cabana.

Mas Enid exalou um suspiro de prazer.

— É uma maravilha.

— Baixou muito a fita de seda.

— Não, é uma casinha perfeita, seriamente. É... é bonita. — Elevou a cara ao sol. — Cheira a maçãs, e aqui o clima é quente. Ouço o vento que sopra no alto, mas aqui estamos protegidos.

Enquanto a olhava, ele compreendeu até que ponto suas circunstâncias mudaram. Enid era delicada e não estava acostumada aos desafios físicos, mas mostrava tanto ânimo como qualquer escocesa. Subia as costas e se queixava, descia por atalhos lamacentos e se queixava, se escondia em um terreno baixo durante um par de horas e não dizia uma só palavra.

MacLean podia confiar nela. Mais ainda, a adorava.

— Por que me olha dessa maneira? — Ela tocou a própria cara; seu sentido feminino da boa aparência lhe dava a voz de alarme: — Me queimou a pele, não foi?

Ele soltou uma risada.

— Saíram-lhe umas quantas sardas, e são encantadoras. Veem ver isto. É inesquecível.

Precedeu a Enid por um curto caminho que serpenteava entre lajes, se guiou pelo som de água em movimento e encontrou um recipiente artificial, uma bacia do tamanho justo para lavar pratos nela. Um ramal de um arroio se despenhava por uma rocha para alimentar um lago arenoso de água clara e superficial, enquanto outro ramal descia e se perdia ao redor de uma curva. MacLean experimentou uma sensação de orgulho, como se aquele lugar lhe pertencesse e fosse um segredo que só podia compartilhar com o ser mais querido.

— OH, é precioso! Está tão limpo! Poderia tomar um...

— ... banho. — Lhe desatou as fitas do chapéu e começou a lhe tirar a capa.

Ela segurou o colarinho do objeto, como se temesse suas intenções.

E devia temê-las. Ele disse antes; às mulheres impressionava a limpeza muito mais que aos homens. Não lhe teria importado esperar para se banhar até que chegassem à ilha de Mull, mas ela era diferente.

— Agora faz calor, mas as montanhas impedirão a luz de passar muito antes que o sol fique no resto do terreno, por isso será melhor que retire o pó da cabana e acenda o fogo. Se quer se banhar, se apresse.

Ela seguia o olhando com fixidez.

— Se não se importar, pode me ajudar a limpar a cabana.

Ela atirou a capa a um lado, se sentou em uma pedra e tirou as botas cobertas de barro seco. Podia ser recatada, mas acima de tudo era prática.

Ele ficou a assobiar, se aproximou do barracão e abriu a porta. Ouviu os ratos que escapuliam, seu olfato percebeu o aroma de fechado e a umidade e o leve aroma de uma vaca que outrora viveu ali. Foi às janelas, abriu as venezianas e deixou que penetrasse o ar e a luz. Havia um montão de lenha ao lado da lareira, e junto à porta um balde reluzente. A cama tinha um amontoado de cordas cobertas com lona, e ao pé havia mantas envoltas em uma capa para as liberar do pó.

MacLean olhou a seu redor. A cabana devia se encontrar nas terras de um homem importante, pois estava muito bem mantida. Aquele era o território de MacLean? Exigia o senhor do clã que aquele lugar se mantivesse em bom estado para o caminhante solitário que percorresse as colinas? Era, pois, de justiça que ele encontrasse abrigo ali durante sua viagem para o lar de sua família. MacLean tirou o capote e a jaqueta, e arregaçou as mangas. Empunhou a vassoura, eliminou a sujeira dos cantos e então varreu minuciosamente o sujo chão. Com um trapo úmido limpou a mesa e o banco.

A lareira já estava preparada e só teve que acender o fogo. Jogou as mantas ao exterior, as sacudiu, entrou de novo e as estendeu sobre a cama. Pegou o balde, mas fez uma pausa para voltar a cabeça e contemplar a sala.

Tudo estava tal como recordava. Limpo, seco, acolhedor.

Dele.

Fechou os olhos e a viu. A anciã com cara de maçã seca. E um lunar marrom escuro no queixo. "Venha quando quiser, moço. Este lugar é seu."

As lembranças voltavam para sua mente.

Retornou ao arroio sem sigilo, dando ao Enid a oportunidade de correr para se esconder atrás de uma rocha se desejasse, e, para maior vergonha, supôs que ela desejaria fazer isso. Mas quando dobrou a esquina, se deteve em seco. Ali estava ela, sentada no pequeno lago, com as pernas cruzadas, os olhos fechados, com uma expressão de prazer no semblante e... completamente nua. Seus braços eram graciosos, os mamilos floresciam brandamente.

Parecia tão fresca como um casulo enrubescido. A água clara lhe chegava à cintura, e entre as pernas fortes e musculosas sua esplêndida e rosada abertura recebia a líquida carícia. Ele deve ter emitido algum ruído abafado, porque ela abriu os olhos. Tinha dormitado. MacLean o via nas pálpebras caídas e sonolentas, na estupidez de seus movimentos ao mesmo tempo que tratava de se encarregar da situação. Não lhe importava. Deixou cair o balde e se encaminhou para ela.

Ela ficou em pé como Afrodite se elevando das ondas.

Quando se voltava para se pôr a correr, ele deu um salto e rodeou sua cintura.

— Não! — exclamou ela. — Não podemos. Não sou... não sou...

— Não me importa o que acredita. É minha.

A erguendo da água, levou-a a uma rocha plana e baixa aquecida pelo sol. Tombou-a brandamente de barriga para cima, com os quadris na borda da rocha e os pés pendurados. A posição perfeita.

Com um joelho entre as pernas dela, ele se apressou a desabotoar a braguilha.

—Planejou isto! — gritou Enid, tratando de se voltar a um lado.

— Se tivesse planejado, já teria tirado as malditas calças. — extraiu o membro, baixou as calças e imobilizou a jovem contra a rocha. — Sou eu quem poderia te acusar de planejar isto. Estava nua.

— Assim é como me banho!

Ele desejava lhe sorrir, tão molhada e indignada estava, mas não podia obter que sua boca se movesse para falar. Todo seu controle muscular se concentrava em se reter para não possuí-la imediatamente. Precisava penetrá-la. O sangue lhe corria com fúria nas veias. Precisava saber que ela compreendia que era dele.

— Não sou sua esposa.

O tom de sua voz parecia suplicante. Pôs uma mão no ombro dele e o olhou aos olhos.

Bom, era natural que olhasse aos olhos. Não se atrevia a olhar mais abaixo.

— Me escute — disse ela. — Houve um engano.

— Tem a sensação de que isto é um engano? — Pegou a cara entre as mãos e a beijou. O desejo ardia em suas vísceras. — Isto é um engano? — perguntou-lhe em um tom gutural, e deslizou os lábios ao longo de sua garganta até os seios.

Ela emitiu um gemido quando aplicou os lábios a um mamilo e o sugou.

— Não deveria...

— E isto? — Colocou os dedos no arbusto frisado entre as coxas da jovem e rapidamente deslizou o polegar pela abertura, a alargando.

Quando ele a tocou, Enid pôs os pés sobre a rocha e elevou os quadris. Dizia que não, mas o desejava tanto como ele a ela. E estava disposta. MacLean não podia esperar. Transcorrera muito tempo. Deu um passo adiante e lhe separou as pernas, se colocou em posição e a penetrou.

Apertada. Que extraordinariamente apertada era. E úmida e cálida e acolhedora. Nenhum outro homem, dissera ela. Disso não havia dúvida. A maneira em que seu corpo o retinha, o massageava, era um milagre de deleite.

A possuía. Era seu proprietário. Era dele. Ela tinha acessado aquela noite na quinta, e ele não permitiria que uma exibição de nervosismo estragasse sua união. Em toda a história do mundo nunca existiu uma adaptação mais maravilhosa entre um homem e uma mulher.

Como se acabasse de se dar conta do que estava acontecendo, Enid estremeceu e lutou para se afastar dele. Ele agarrou as coxas dela e a reteve, as pernas bem abertas, de modo que pudesse dominá-la.

— Minha — lhe disse.

— Não — sussurrou ela.

Como se atrevia a discrepar?

— Toda minha.

E então empreendeu um ritmo que com toda segurança ia deixa-la sem fôlego e levá-la ao êxtase. Empurrava com força, esfregando a pélvis contra o púbis feminino, pressionando-a com uma luxúria sem travas, elementar.

Ela reagiu como ele sabia que ia fazer. Como o exigia seu corpo. Jogou a cabeça para trás, e uns cachos do longo e negro cabelo pulverizaram pela áspera superfície da rocha. Gemeu uma e outra vez. Chegou em seguida ao ponto culminante, cada potente espasmo uma súplica, até que as contrações cederam caminho a um estremecimento e gritou de novo.

E enquanto isso ele não deixava de se mover em seu interior. Seu corpo expor exigências e, em troca, tinha o membro retido e embalado de todas as maneiras eróticas, carnais. Não podia fazê-lo durar, mas tampouco desejava. O amor sem pressas podia esperar para mais tarde; agora ela reconheceria a seu dono. Seus testículos se elevaram, tensos. Se moveu mais febrilmente.

— MacLean, céu santo. MacLean!

Como tormentas invernais procedentes do mar, os orgasmos percorreram o corpo de Enid com uma força arrasadora.

Ele se deteve, a borda da culminação, ao ver o aspecto que ela tinha com a cara para o céu, os olhos fechados, o prazer evidente em cada linha de seu tenso corpo. Então se apressou a possuí-la, a enchê-la com sua semente. A se apropriar dela como ela merecia que ele a apropriasse.

MacLean não aguardou recuperar o fôlego, nem sequer a que os últimos espasmos deixassem de estremecê-los. Se inclinou para o rosto dela.

— Me olhe — disse.

Ela pestanejou e abriu os olhos, e então em rápido e aberto desafio, voltou a fechá-los.

— Me olhe!

Ela estava muito fraca para resistir. Aqueles maravilhosos olhos azuis se abriram e o olharam cheios de afeto. Por muito que Enid desejasse que as coisas fossem diferentes, o queria.

MacLean a estreitou com força entre seus braços.

— Sou o sangue de suas veias — disse, — a medula de seus ossos. Nunca irá a nenhuma parte sem saber que estou dentro de você, te apoiando, mantendo viva. Faço parte de você. E você é parte de mim.

Estamos unidos para sempre.

— Não, não... — Mas Enid o sentia dentro dela, a alargando, a enchendo. A rodeava com seu aroma, com seu corpo. A olhava aos olhos, invadia sua mente, a mantinha cativa em seus braços. — Não diga essas coisas.

— Digo a verdade, amor. Será melhor que a aceite.

Esse era o problema. Ela queria. Ela queria acreditar que poderiam estar unidos para sempre.

Que bobagem. Pondo uma mão no peito dele o afastou brandamente.

Se surpreendeu ao ver que ele não se opunha. Ao que parecia, acreditava ter causado suficiente impacto ao possuí-la e com suas palavras.

Poderia ter estado certo... salvo que ela sabia que não era seu marido.

Quando ele se retirou, Enid se sentou na rocha.

MacLean pôs a mão sob o cotovelo dela, a ajudando a se erguer.

— Devagar. Temos todo o tempo do mundo.

Ela não queria lhe olhar. Não queria vê-lo, orgulhosamente nu e muito satisfeito de si mesmo. Assim, com uma mão trêmula jogou o cabelo atrás e olhou a seu redor. O sol poente encheu até as bordas o pequeno vale de calor e de cor. A brisa era mais penetrante e mais aromática, com o aroma dos pessegueiros do pomar. Debaixo de Enid, a rocha cinza parecia arrepiada como um alfineteiro. Em um ramo uma cotovia cantava como se assistisse a uma celebração de casamento. Isso era o que MacLean lhe causou; impulsionou seu sangue através das veias, lhe fez ver e respirar e sentir como se o fizesse pela primeira vez, fazia que cada um de seus sentidos gozassem na celebração da vida.

Deveria lhe odiar, mas não o fazia.

Deveria ter resistido, mas não o fez. Se cansou de ansiar o contato de Kiernan MacLean... estava cansada de o amar com o coração quando sua mente sabia que não deveria fazê-lo.

O amor. Ele. MacLean.

Embargada de horror e incredulidade se separou dele e se apressou a ficar em pé.

— O que te passa? — MacLean agarrou a mão dela antes de que pudesse fugir.

Tolices. Não podia lhe amar. Não era seu marido.

— Enid... Te fiz mal?

— Não... não. — Deveria ter tido em conta que estava nua. Agora só podia cambalear sob o peso de seus pensamentos. — Estou bem... só me sinto... aturdida.

— Não a assustei? — Se aproximou mais. — Precisava compreender como são as coisas entre nós.

— Como você decretou que o sejam.

"O sangue de suas veias, a medula de seus ossos, estamos unidos para sempre." A assustavam estas palavras? Sim, mas nem tanto, nem muito menos, como suas próprias meditações.

Amar Kiernan MacLean.

Algumas pessoas, a senhora Brown, por exemplo, poderiam dizer a Enid que o amava e que por isso o beijava com um desejo tão desesperado, por isso ria de suas brincadeiras e lhe doía seu desdém. O amor... OH, essa seria uma explicação fácil de por que não podia resistir a ele. Estava louca por ele.

Mas não estava.

Não podia estar. Percorrera antes esse caminho.

O que ocorria era que recebera um tipo de homem diferente em Kiernan MacLean, inclusive quando estava inconsciente. Um homem feito de aço, honra e integridade. Lutou por ele, chegou a ser inseparável dele, lhe devolveu a vida. Embora pusesse dúvidas a seu caráter inflexível, o admirou, assim como sua obstinada determinação.

Se o amasse, experimentaria algo mais que um simples amor. Se amasse Kiernan Maclean, esse amor seria autêntico.

— Por que me olha dessa maneira?

MacLean lhe separou do ombro uma mecha de cabelo, deslizou uma mão até o final de suas costas, a marcou com seu contato.

Enid não se deu conta que o olhava fixamente. Olhava os largos ombros, os fortes quadris, as coxas com seus músculos proeminentes. Examinava sua larga cara, suas feições marcadas, as cicatrizes de sua pele.

O amor sempre terminava em dor.

Mas embora isso fosse certo, ela não amava MacLean. Não se permitiria amar MacLean.

Então, o que importaria que... fizessem amor aquela noite?

— Eu somente... eu gosto de seu aspecto.

Queria fazer amor de novo. Necessitava que a intimidade afastasse à tristeza, à certeza de que logo se separariam. Desejava a paixão e o esquecimento que poderia lhe contribuir. Fazer amor com aquele homem não significaria nada. Nada.

De modo que voltaria a fazê-lo, uma e outra vez.

— Vamos ao lago. — Com um sorriso composto em partes iguais de sedução, incerteza e paixão, Enid acrescentou: — A água está quase quente e é muito... refrescante.

 

Pouco antes do pôr do sol, Enid se acocorou atrás de um cabo enrolado no úmido e solitário embarcadouro e olhou para MacLean com uma expressão de horror.

— Vamos roubar essa embarcação?

— Os pescadores terminaram sua jornada e se foram a casa. — Falava em voz baixa enquanto transferia todos os seus pertences a uma só bolsa. Corda, mantas... nada de comida. Não comeram nada desde manhã, quando saíram da cabana após terem comido a última bolacha de navio. — Agora estão todos jantando.

O estômago de Enid grunhia.

— Mas isto é roubar.

— Roubar é uma palavra forte. Vamos tomar a embarcação emprestada.

— Isso é enganoso.

— Devolverei a embarcação a seu dono com uma recompensa pelo incômodo. — MacLean meteu uma das duas facas sob a manga. — Te ocorre uma ideia melhor? Quem nos persegue sabem aonde vamos. Apostaria que estão vigiando a barca, e não vim até aqui, depois de uma viagem tão longa, para que me matem às portas de minha casa.

— Não — disse ela. Não podia suportar essa ideia.

— Seja como for, a barca só navega uma vez por semana.

Os batimentos do coração de Enid aceleraram.

— Como sabe?

Ele a olhou com uma expressão melancólica.

— Acabo de recordar.

Ela retrocedeu, levando a mão à garganta.

— Tudo?

— Tudo não. Ainda não. Mas vão chegando lembranças.

Iam chegando. Suas palavras ressoaram na mente de Enid. Não tinha necessidade de contemplar o movimento das ondas que se chocavam contra o muro da barca para sentir náuseas. O momento que esperava, o momento que temia, se aproximava. Não faltava muito para que ele soubesse a verdade.

— Estupendo — disse.

Ele seguiu enchendo a bolsa.

— Comecei a recordar, em casa da avó Aileen...

— A avó Aileen?

A olhou de novo, mas desta vez sorriu.

— Na cabana do vale.

Enid não podia pensar naquela cabana sem recordar como a tarde de esplendorosa paixão sob o sol prosseguira em um crepúsculo de amor lento, suave, que cedeu passagem a uma noite cheia de quentes abraços, de exigências sussurradas, de amor.

— Não sabia que era capaz de responder tantas vezes, mas necessitava carinho desde que a conheci, e queria te fazer feliz. Te fiz feliz? — MacLean lhe tocou a face. — Me diga Enid.

— Sim. — Ela tentou lhe sorrir, mas os lábios não deixavam de tremer. — Sempre guardarei como um tesouro o que vivemos ali.

Depois que a possuiu pela primeira vez, depois que ela quebrou a promessa que fez a si mesma e jazesse com ele, jogou pela amurada a ética e o bom senso e o ajudou a se banhar. Isso conduziu a um episódio na erva, esta vez com ele debaixo, porque ela já se arranhara com a áspera superfície da rocha.

Lhe saiu uma erupção cutânea.

Voltaram a se lavar mutuamente. Ele estendeu uma manta e os dois se deitaram nela e dormitaram ao sol.

Ambos se queimaram um pouco e receberam umas quantas picadas de mosquito.

Quando o sol desapareceu atrás da montanha e o frio fez Enid tremer, entraram na cabana. MacLean acendeu o fogo e tirou a empanada fria que comprou a noite anterior. A esposa do granjeiro não se destacava como cozinheira, pois a metade da casca estava queimada. Mas a comeram toda, e, uma vez satisfeito o apetite, fizeram a cama e exploraram outro tipo de apetite. E de noite Enid despertou para descobrir que ele a levava de novo em uma viagem erótica como a que Enid jamais imaginou.

A libertinagem a que se entregaram deveria ter lhe escandalizado.

Tão só desejava que tivesse durado mais.

Não lhe importavam os arranhões nas costas nem o bronzeado do sol que se estendia pelo lado esquerdo de seu corpo. A única coisa que lhe importava era que tinha lembranças entesouradas, lembranças de uns momentos mágicos, breves, gloriosos e separados da realidade. Ela sabia que havia prescindido da moral. Sabia que logo receberia o açoite da verdade. Mas nada do que acontecesse poderia lhe fazer esquecer aquelas breves horas na cabana da avó Aileen. Eram dela.

As entesouraria... porque MacLean estava recuperando a memória.

Rodeou sua cintura com o braço.

— Faz bom tempo para cruzar o estuário. Vento regular, o céu nublado e o fluxo está tranquilo.

Enid contemplou as águas agitadas da baía e pensou que, se aquilo era um fluxo tranquilo, confiava em não ver nunca um tormentoso.

— Acredito que poderemos atravessar o estuário a remo em umas cinco horas.

— Não pode remar durante cinco horas seguidas. Acaba de abandonar o leito de doente!

Ele não riu dessa absurda objeção, tomou tão a sério como qualquer homem que percorreu a pé toda a extensão da Escócia.

— Tomarei um descanso de vez em quando.

— Não ficam cinco horas antes que anoiteça!

— Posso encontrar a ilha na escuridão. — Deu-lhe um rápido beijo nos lábios. — Tirarei a amarra do barco, e então salta a bordo e empurra o muro para desatracar. Pode fazer isso?

A pergunta irritou a Enid.

— Pois claro que posso.

— Boa garota. — Pendurou a bolsa no ombro e voltou a lhe dar um beijo leve e rápido. — Sempre posso confiar em você.

MacLean ficou em pé, saltou por cima dos barris e das redes e aterrissou na embarcação de quatro metros e meio de comprimento. Bamboleou, mas ele, como um homem acostumado ao mar, se manteve firme com as pernas separadas. Soltou o cabo de amarração e fez um gesto a Enid.

Ela se levantou, o coração pulsando com força, mas avançou pelo embarcadouro como se estivesse de passeio.

— O que está fazendo? — perguntou ele. — Se apresse!

Ela se deteve ao lado do barco e lhe estendeu a mão.

— Se tiver que roubar uma embarcação, o farei à maneira de uma dama.

Pegou a mão e a ajudou a descer à proa.

— Está completamente louca, sabe?

— Não mais louca que um homem que não quer ir ver o pároco e lhe pedir ajuda para se transladar a sua ilha.

Não era a primeira vez que tinham essa discussão.

— Voltarei para casa por meus próprios meios. — colocou os remos nas braçadeiras.

Ela utilizou um remo sobressalente para aplicá-lo ao muro do embarcadouro e empurrar.

— Pois eu vou me ater aos cânones enquanto roubo.

— Certamente está louca. — Ele soltou uma alegre gargalhada. — Completamente louca. Como vou suportar toda uma vida a seu lado?

— Não acredito que isso vá ser um problema. — Enid se sentou, de frente a ele, enquanto MacLean dobrava as costas e movia os remos.

Um aroma de pescado impregnava a madeira. A água golpeava os lados. Pouco depois que tivessem zarpado do Oban, o estuário revelou sua verdadeira natureza e sacudiu o barco de um lado a outro. A tarde declinava, monótona, amedrontadora. O sol deslizava por debaixo do horizonte, com um resplendor rosa e violáceo contra o mar cada vez mais escuro.

Enid agarrava as amuradas e escrutinava o horizonte.

— Está obscurecendo. Está seguro que não perderemos a ilha?

Ele mostrava uma firmeza absoluta.

— A encontrarei na noite mais escura. Sou como um salmão que volta para casa para desovar. Não necessito nenhum mapa, sei onde está.

Exatamente o que ela temia.

— Se tranquilize, carinho, e deixa que os pés descansem. — Sorriu-lhe. — Estão melhor depois da massagem?

Pela manhã, antes que abandonassem a cabana, e apesar dos protestos de Enid, ele insistira em lhe massagear os pés. Ao princípio lhe fizera cócegas. Logo, à medida que relaxava, os dedos de MacLean adquiriram uma magia própria. Ela gemeu e se retorceu, e quando ele pôs fim à massagem, se desprenderam das roupas e se abraçaram.

— Muito melhor — replicou ela, recatadamente, como se não soubesse no que ele estava pensando.

MacLean sorriu uma vez mais.

Enid contemplou as ondas, o céu e então, quando ele movia os remos com tanta força como lhe era possível, o observou. Eram as últimas horas que passava com ele. Quando recordasse (e a recuperação de sua memória estava muito adiantada) se envergonharia dela e a despediria. Por isso monopolizava lembranças dele: as caretas que fazia ao empurrar os remos através da água, a ondulação dos músculos sob sua camisa, a barba de uma semana, desalinhada, a face com as cicatrizes, o cabelo loiro avermelhado revolto pela brisa.

O vento se elevou enquanto o céu se voltava de um violeta escuro antes que chegasse a mais negra das noites. Seu traseiro doía após permanecer tanto tempo sentada na incômoda tábua, tremia de frio. Não podia ver nada, nem a luz das estrelas nem o lugar onde terra e mar se encontravam. O barco cabeceava entre as ondas, levando-a para onde ela carecia de senso de direção, onde nenhuma luz podia orientá-la. O temor fechou sua garganta e mal pôde exalar um trêmulo suspiro. Não queria chegar a seu destino.

Entretanto... já não deveriam ter chegado? Teriam deixado atrás a ilha sem vê-la? Rodeando os joelhos com os braços, Enid se amassou em seu manto, aconchegada no chão do barco.

— Se cubra com meu capote.

A voz profunda de MacLean saiu da escuridão como a de Poseidon que lhe desse uma ordem.

Ela titubeou.

— Não tem frio?

Ele soltou uma risada áspera que tinha uma vibração perigosa, um tipo de risada diferente da que ela ouvira até então.

— Ponha por cima meu capote e se sente no banquinho. Permanece atenta, para ver se vê as luzes. Estamos nos aproximando.

Ela ouviu o som das ondas que rompiam na borda... ou talvez em umas rochas entre as que naufragariam. A luz significaria um porto. Enid explorou o horizonte em todas as direções, procurando com desespero qualquer sinal de terra.

Por fim apareceram umas débeis piscadas luminosas.

— Olhe — apontou. — Ali!

O chapinhar dos remos se deteve.

— O porto— disse ele com satisfação.

Os remos voltaram a se mover, com mais rapidez.

— É perigoso? — ela perguntou.

— Conheço o caminho.

Sua voz parecia diferente, mais dominante, com uma confiança absoluta.

Ah, era possível que o barco não naufragasse, mas o coração de Enid sim.

O fragor das ondas se fez mais intenso. A luminosidade foi se fragmentando, concentrada em quadrados: janelas, casas.

De repente, o barco mudou de direção.

— Está se afastando! — exclamou ela.

— Desembarcaremos no oeste. Está mais perto do castelo.

Ela fechou os olhos. Não era Poseidon quem lhe falava, nem nenhum outro Deus. Era Kiernan, o senhor dos MacLean.

O barco roçou a areia, e cabeceou quando ele deixou os remos e saltou à água para empurrá-lo até a praia. Agarrou o braço de Enid e a fez levantar.

— Vamos, moça, veem aqui e salta à agraciada terra da ilha de Mull.

Na escuridão, ela avançou entre as redes e os banquinhos.

Ele emitiu um grunhido de impaciência, a ergueu e a levou nos braços a terra.

— Não se mova daqui — disse após depositá-la na areia.

Como se ela pudesse partir. Enid ainda não via nada, embora ele parecia estar fazendo as coisas bem.

— Aonde vai?

MacLean não lhe respondeu. Já se fora.

Enid se perguntou se aquilo era alguma brincadeira cruel, se ele partiria deixando-a ali, envolta pela escuridão, até a manhã. Talvez se encontrasse em uma enseada onde subia a maré, que a levaria mar dentro, e ele riria cruelmente enquanto caminhasse para sua casa, ao encontro de sua família. Talvez...

MacLean apareceu a seu lado.

— As nuvens se afastam e a lua não demorará para subir — disse. — Ficaremos aqui sentados até que possamos empreender o caminho ao castelo.

Ela levou as mãos ao peito e confiou em que ele não tivesse ouvido seu grito abafado de terror. Não era tão estúpida para acreditar que ele queria realmente se sentar. Queria falar, e qualquer admissão de terror poria Enid em desvantagem.

— Então sente.

Enid permaneceu toscamente em pé.

Também ele ficou em pé a seu lado, e quando falou, sua voz tinha aquele timbre severo, ressoante.

— Ah, esta brisa marinha... noto os aromas de meu lar, passam por minha mente as imagens do caminho que serpenteia entre as cercas e sobe a colina para o outro lado da costa, onde está o castelo MacLean. Nasci aqui, me criei aqui, e me faz mal saber como posso tê-lo esquecido tudo.

— Devido a um tremendo golpe na cabeça — murmurou ela.

O tom de MacLean mudou, se voltou furioso.

— Não sou Stephen MacLean, e você não é minha esposa!

Ela aspirou fundo. Temia esta confrontação, mas agora que se produzia, quase notava uma sensação de alívio. Um alívio devido a que o pior passou. Ele estava zangado e a culpava, e ela podia dar rédea solta a sua ira e lhe gritar... e não pensar na solidão com a que iria ao exílio.

— Não é ele e não sou sua esposa.

— Sabe quem sou?

— É Kiernan MacLean.

— Tem razão, claro, isso sabe bem. — Enid pensou que oxalá o fogo que ele exalava ao respirar pudesse iluminar a noite. — Como se propõe explicar seu papel neste detestável engano?

Ele sofrera uma comoção, por isso Enid tratou de ser paciente.

— Quando descobri a verdade, eu falei. Eu disse que não era sua esposa.

— Quando levávamos dois meses vivendo juntos. Depois de uma noite fodendo tão bem como nunca fiz em minha vida!

Escandalizada por sua rudeza, ela balbuciou:

— É... é um bárbaro!

— Eu poderia te chamar algo pior. Está me pedindo que acredite que não reconheceu a seu marido?

Paciente? Acreditou ela que podia ser paciente? Não quando lhe falava em semelhante tom.

— Passaram nove anos desde a última vez que vi Stephen, e quando cheguei ao imóvel Blythe tinha uma barba espessa, meia cara enfaixada e, quando lhe tiramos as ataduras, a face cheia de cicatrizes.

— As ferida se curaram de todo durante o último mês.

— Não sei que aspecto tinha antes, mas suponho que sua família ficará desconcertada ao ver a mudança que sofreu. Como me ocorreu quando acreditava que era Stephen!

— Mal nos parecemos, ele e eu — replicou ele, se ajoelhando.

Enid o ouviu procurar algo... supôs que estava revolvendo o interior da bolsa.

— Uma semelhança suficiente. Os olhos eram idênticos, e durante várias semanas, te ver abrir esses formosos olhos era tudo o que importava. Quando despertou, estava acostumada a você e não pensei... bem, você o disse então que pensei que era prudente.

— Me disse que não estamos casados depois que nos atacaram no trem! — Pôs uma manta sobre os ombros dela. - Era um pouco tarde para essa confissão.

Ela se amassou no grosso tecido de lã.

— Não preciso jurar.

— Jura! — Ele elevou a voz. — Deveria me pedir que não a estrangule e deixe seu corpo abandonado na areia.

Isso não a preocupava.

— Suponho que assim fica cancelado o do sangue em minhas veias e a medula de meus ossos.

— Maldita seja, mulher, não é minha esposa!

Ela também elevou a voz.

— Não soube até depois do incêndio!

As ondas rompiam na borda, um grilo chiava na noite, e MacLean guardava silêncio.

Ela confiou em que isso significasse que estava pensando.

— Quando estava a meu lado? — inquiriu ele, com muito mais calma.

— Sim! — respondeu ela. Em efeito, estava pensando.

— Aquela noite me olhou com os olhos muito abertos e uma expressão de horror, como se te tivesse se dado conta da realidade.

— E assim foi. Mas então não podia lhe dizer isso. Estava confusa. Não sabia o que pensar. — Olhou para o lugar onde supunha que ele se encontrava. — Somente sabia que o senhor Throckmorton me pediu que o deixasse se recuperar sem te impor minhas lembranças. Pensei que talvez, se te dava um indício, recordaria, mas lhe disse que não era sua esposa, pensou que estava... não sei...

— Pensei que temia o que fizemos. É algo muito potente, este desejo entre nós, mas... quando os homens querem ser insultantes e afirmar que todas as mulheres são iguais na cama, dizem isso de que na escuridão todos os gatos são pardos. Sou eu um gato pardo indistinguível de meu primo?

Ela retorceu os dedos.

— Não. Mas passaram... nove anos, e pensei que você... que ele... praticara muito e aprendido a fundo de outras mulheres.

— Devo tomar isso como uma adulação? — replicou ele com a voz rouca.

— Não me importa se isso o adula! — exclamou ela, indignada.

Ouviu o ruído de suas pegadas ao se afastar na grossa areia da borda, e então retornou.

— Bem — disse ele em voz tão baixa que era quase inaudível.

Ao que parecia, ele a escutava quando lhe gritava. Isso era algo que Enid não devia esquecer... claro que não teria necessidade, porque não seguiriam juntos.

— Fisicamente era muito diferente — admitiu baixando mais a voz, — mas isso era algo que eu esperava. Estava... estava fodendo, como você diz, com um homem que esteve a ponto de morrer em uma explosão. Teria me surpreendido que seu corpo fosse o mesmo de antes!

— Por que não me disse isso aquela noite? A noite em que se deu conta que não era Stephen.

— Alguém acabava de atentar contra sua vida provocando um incêndio, depois de ter feito um bom trabalho, que quase o matou, com um explosivo. — Tal como MacLean havia predito, a luz ia aumentando. Enid podia ver agora seu contorno, alto e sombrio, recortado contra o céu. — Pensei que se te contava o que sabia, talvez te faria correr mais perigo. E não sabia se o próprio senhor Throckmorton se dava conta da verdade.

— Sabia — disse MacLean, sem uma sombra de dúvida.

— Suponho que sim. — Notou um sabor amargo na boca. — Ante o verdadeiramente importante, os sentimentos e o corpo de uma mulher não contam grande coisa.

— Não quando se contrapõem ao bem da Grã-Bretanha. Os homens como Throckmorton fazem o que for por fomentar a causa da Inglaterra.

— E você? — Enid atou a manta a seu redor como se fosse uma capa. — O que estava fazendo na Crimea?

— Procurava a meu reprovado primo Stephen. Como a convenceram que deveria cuidar de mim?

— Me disseram que Stephen sofrera umas horríveis lesões e que estava morrendo, então que eu...

— Foi com a esperança de herdar? — disse MacLean em tom zombador.

— Estou farta que me considere uma mercenária — replicou Enid com os dentes apertados.

— Mercenária? Você? A órfã que se casou com meu primo? Me responda a isto, Enid... lhe pagaram para cuidar de mim?

Ela viu a armadilha, mas já estava tão fatigada que não lhe importava. Ele já tomara sua decisão.

— Sim, muito.

— Pagaram o suficiente para me seduzir quando pensei em partir?

Enid reteve o fôlego. Sim que lhe importava, pois do contrário o desdém daquele homem não teria sido como uma punhalada.

— Bastardo — sussurrou.

— Se lembro corretamente, a bastarda é você.

Ela encaixou o golpe baixo. Não era a primeira vez que a chamavam bastarda, e podia superar isso. E certamente o superaria se lhe dizia que era uma puta. Inclusive esperou pela metade do tempo o ouvir dizer tal coisa.

Não esperou sangrar e morrer, não por causa dos insultos de um homem ao que ela se negava a amar. Com a voz um pouco entrecortada, perguntou:

— Devo ficar na praia e ir ao porto pela manhã? Estou segura que poderei conseguir que um pesqueiro me leve a costa.

Ele a rodeou com o braço, um movimento tão rápido que poderia ter sido o de uma serpente ao apanhar seu primeiro alimento do dia.

— Não vai se liberar disto tão facilmente, moça. Veio até aqui, e pode enfrentar aos MacLean com seus pecados patentes na cara.

 

— Assim veio correndo a meu lado, ou melhor ao lado de Stephen, não porque quisesse o dinheiro, mas sim porque me amava seriamente? o amava?

Enquanto avançavam pelo escuro bosque e o prado úmido para o castelo MacLean, Kiernan a rodeava.

Lhe deu uma cotovelada nos joelhos.

Ele fez uma careta de dor mas seguiu caminhando, ao mesmo tempo que se esforçava por dominar sua decepção. Mas descobrir que a mulher em que acreditou, a que amou e respeitou, a que acreditou ter legítimo direito não era sua esposa! Sim, recuperou suas velhas lembranças, mas também tinha outras recentes. Recordava ter vivido com Enid, falado com ela, recordava que cuidou dele, o ajudou, brincou e discutiu com ele. Sabia que era mordaz, conhecia sua esplêndida risada e sua maneira de bocejar pouco antes de dormir.

Sabia o aspecto que tinha nua.

Fora sua mulher, e queria que seguisse sendo.

Ela caminhava a seu lado, igualando não só os longos passos de MacLean mas também sua irritação.

— Fui cuidar de meu marido porque era meu dever. O senhor Kinman pareceu escandalizado que não me importasse o que lhe acontecera. A senhora Halifax insistiu em que corresse a seu lado... ao lado de Stephen... e me comportasse como uma esposa decente e humanitária. E o fiz. Fiz que retornasse da beira da morte, porco ingrato, e não o esqueça.

— Porque a pagavam!

— Poderia ter te deixado morrer e de todos os modos me teriam pago, e assim teria economizado dores de cabeça e os pés feitos como pedaço de carvão vegetal além disso.

Condenada mulher. Não se dava conta de que o ferira no mais vivo? Lhe confundira com Stephen! Com seu inútil e depravado primo Stephen. Não foi capaz de distingui-los.

— Me honra que não me matasse para receber a herança.

— A herança? Stephen nunca teve um urinol no que mijar nenhuma janela pela que jogar a urina, e quando me abandonou a única coisa que me deixou foram dívidas. Eu não tinha nenhuma razão para acreditar que desta vez seria diferente. E, certamente, sabia que de você não ia receber herança alguma, poderoso senhor do castelo. Isso o deixou perfeitamente claro na carta que me enviou durante a feliz ocasião de meu casamento.

Ele recordava essa carta. Ficou furioso com Stephen por se casar com uma mulher de classe inferior à sua. Quando sua tia Catriona se lamentou por seu pobre e crédulo filho, MacLean recordou a suscetibilidade de Stephen às adulações, e por isso imaginou Enid como uma mulher sedutora e oportunista.

— Stephen não a abandonou. Você o abandonou quando não pôde te proporcionar a boa vida que esperava do sobrinho de um lorde.

— Certamente Stephen te disse isso.

— Assim foi. — A honestidade o impulsionou a acrescentar. — Suponho que mentia para salvar a cara.

— Suponho que sim — replicou ela em tom sarcástico. — Tive um marido MacLean. Não quero outro. De modo que, por favor, não se preocupe se por acaso, depois de nossa intimidade, tenho más intenções com respeito a você.

— Disse a si mesma que não deveria negar seu interesse com tanto empenho. Em um tom mais suave, inquiriu: - Então estou certa. Stephen morreu por causa da explosão?

— Sim. — Pobre diabo. — Se livrou dele, não foi?

Ela exalou um breve suspiro.

— Jamais desejei a morte de Stephen, eu tão só queria...

— Se desembaraçar dele?

— Sim— admitiu ela. — Queria poder viver sem saber que talvez algum dia Stephen apareceria para destruir de novo minha vida. Não desejava me sentir mais envergonhada.

— Então admite que tinha motivos para se envergonhar?

— É claro que sim. Me casei humildemente.

Céu santo, aquela mulher aguilhoava seu orgulho, o coração, a mente.

— Stephen era um MacLean!

— Stephen era um canalha.

— Que caráter tão seco, como o bacalhau antes de pô-lo de molho.

— Exato, seca e fedida, mas é um tolo se acredita em qualquer das mentiras que Stephen te contou a respeito de mim.

Tudo que ela dizia era certo, mas não era isso o que ele queria. Sim, queria ser Kiernan, o senhor do clã MacLean, mas também queria ser o amante de Enid. Queria levá-la a seu castelo, tê-la a seu lado, apresentá-la a sua mãe e sua irmã, obter que sorrisse, tanto a elas como a ele. E quando a recepção tivesse finalizado, queria levá-la a seu leito e amá-la como merecia ser amada.

Em troca, a única coisa que obtinha era acidez e lamentos.

— Vamos. Não quero que cheguemos tarde, ou nos será difícil despertar a alguém.

Mais importante que essa possibilidade era a inquietação que deslizava seu frio dedo ao longo da espinha de MacLean. Ao fim e ao cabo, alguém queria que morresse. Atraiu Enid para si e reataram a marcha através do último lance de bosque.

O passo forçado deve ter aumentado a aversão da jovem, pois lhe perguntou:

— Quando Stephen te contou mentiras a respeito de seu casamento? Quando correu a casa em busca de dinheiro? Ou foi acaso na Crimea, quando o quis resgatar de sua própria temeridade?

Estas palavras puseram MacLean de sobreaviso.

— O que sabe de sua temeridade na Crimea?

— Meu casamento com MacLean durou três meses. Sabia o tipo de homem que era. Se foi a Crimea, o fez com a intenção de ganhar algum dinheiro e se divertir, e se viu envolto em algo que não podia controlar. Então lá foi você, seu querido primo, a lhe salvar de suas loucuras uma vez mais, e os dois saltaram pelos ares. Não é isso o que ocorreu?

O coração de MacLean se acelerou ao lhe ouvir falar de um modo tão irresponsável de algo que só deveria se expressar em sussurros.

— Para ser uma enfermeira sabe muito.

— Como disse Harry... não sou precisamente tola. — Respirava com dificuldade e mantinha a mão no flanco, como se tivesse uma ferida. — O que não sei é... para quem espiava Stephen? Para Grã-Bretanha ou para a Rússia?

— Me diga isso você. Era seu marido.

— Pelo menos sei que sua traição não manchou a minha família.

Que audaz era aquela mulher!

— Está me dizendo que estou manchado pelas ações de meu primo?

— Eu não estou relacionada com ele por laços de sangue.

Não era de estranhar que Kiernan desejasse tão intensamente a Enid. Não lhe importava quem era nem a posição que tinha. Não ia permitir que a pisoteasse. Defendia a si mesma. Não havia nada que ele desejasse tanto como beijá-la, mas... ergueu a cabeça e caminhou mais devagar.

— Chist...!

— Por quê? Não quer ouvir a verdade? Poderia te contar coisas de Stephen que lhe poriam os cabelos...

Ele se deteve e lhe cobriu a boca com a mão.

— Cala e não faça ruído — lhe disse ao ouvido.

Ela teve o bom senso de não resistir. MacLean afastou a mão e ela permaneceu imóvel enquanto tratava de discernir que o único som, estranho e nítido, o fez acreditar que os espreitavam.

Ele não ouviu nada. Voltou a rodeá-la com o braço e avançaram com cautela para o castelo. Ficavam menos de dois quilômetros de distância, e não permitiria que agora ocorresse nada a Enid. Elevou a cabeça e lançou o canto alongado e grave do mocho.

E obteve resposta. Não longe de onde estavam, um pouco à esquerda, fazia o esconderijo dos cervos[6]. MacLean mudou de direção, olhou de novo para o lugar de onde procedia o ruído e voltou a imitar o canto do mocho. A resposta lhe chegou uma vez mais. E a reconheceu! Era o jovem Graeme MacQuarrie. Todos os membros do clã MacQuarrie podiam ser mais pesados que o chumbo, mas eram o outro clã da ilha e ele se alegraria muito de vê-los.

Enid, esperta moça, guardava silêncio e permanecia perto de Kiernan. Era mais ruidosa que ele, mas o que podia esperar um homem de uma garota que não era escocesa, tinha os pés torturados e levava muitas anáguas?

As chamada foram se aproximando, até que Graeme saiu saltando do esconderijo dos cervos e deu uma palmada nas costas de MacLean.

— Não posso acreditar que por fim o tenha conseguido, velho cabeça de vento!

O forte acento escocês de Graeme era o som mais doce que jamais MacLean ouvira.

— E te encontrar aqui, em terras dos MacLean, quando o surrei uma e outra vez o traseiro e te disse que voltasse correndo com mamãe! — Kiernan soltou Enid e, a sua vez, deu uma palmada ao jovem.

— Como está, Graeme?

— Bem, se tivermos em conta que passei todas as frias noites esperando para te ajudar a voltar mancando a casa. O que esteve fazendo todo este tempo? Gemendo como uma donzela por sua delicada cútis?

Enid interveio então e mentiu sem o menor escrúpulo.

— Não fez nada mais que se queixar. Primeiro o incomodava o calor, logo o frio, então lhe doíam os pés, a seguir se queixava de que tinha fome.

O assombro manteve Graeme mudo.

— Sabe como pôr a prova minha paciência, mulher! — exclamou MacLean no tom que empregava para dar seu parecer com arrogância.

— Assim espero, pratiquei o bastante. — Enid se apoiou no tronco de uma árvore. — Estamos perto do castelo?

— Sim, senhorita — se apressou a responder Graeme. — Nos disseram que uma dama viria com MacLean, mas ninguém nos disse que seria tão encantadora.

Isto significava que ninguém lhe havia dito que ela beliscaria a cauda do leão dos MacLean. Com sua insolência já demonstrara o que valia e passado da posição de zero à esquerda a de uma mulher importante.

E se apoiava em uma árvore, sinal que estava debilitada pela fome.

Rodeando-a de novo com o braço, MacLean reatou o caminho para o castelo.

— Não comeu nada desde o café da manhã, que foi bem pouca coisa.

— E não gosta que falem dela como se não estivesse presente, da mesma maneira que não gosta que a levem daqui para lá como se fosse um pacote! — disse bruscamente Enid.

— Quando lhe ladra o estômago se volta um pouquinho colérica — explicou MacLean.

— Qualquer mulher que caminhou através da Escócia pode ser tão colérica como deseje. — Aquele condenado tolo do Graeme parecia respeitoso — Quer que a leve nos braços, senhorita?

— Não, não quer — respondeu MacLean.

— Ah. — O jovem retrocedeu um pouco, e MacLean teve a certeza de que sorria satisfeito. — É por aí por onde sopra o vento?

— Não! — respondeu Enid.

Graeme soltou uma gargalhada.

MacLean lhe teria dado seu castigo, mas algo mais imperativo rondava sua cabeça.

— Saiu alguém mais esta noite?

— Claro. Temos Jimmy MacGillivray no este, Rab Hardie no norte, e esse inglês, Harry. É um tipo misterioso, eu não gostaria de cruzar com ele. Não sabíamos como chegaria, mas os ingleses estavam seguros de que ia vir e lhes preocupava que o atacassem pelo caminho. — Graeme se pôs a rir, mostrando o desdém que lhe mereciam tais temores.

— Esta noite, quando atravessávamos o prado, acreditei ouvir o som que alguém faz ao martelar um fuzil — disse a Graeme.

Enid tropeçou. MacLean a sustentou e seguiram adiante.

— Pelos pregos de Cristo, MacLean! Não saiu ninguém com armas — afirmou rotundamente Graeme. — Não em uma noite com o céu nublado. Não quando é quase meia-noite!

— Quanto falta? — perguntou Enid.

— Já se veem as luzes. Ali. — MacLean se deteve na beira do bosque e mostrou o outeiro sobre o qual as torres e ameadas reluziam contra o céu noturno coberto de nuvens, é o castelo MacLean.

— É formoso — disse Enid.

MacLean sorriu. A imagem do castelo podia ser romântica, mas ele sabia que a realidade era outra.

— Espera que seja de dia antes de julgar. O castelo atravessou uns tempos difíceis.

— Você conseguiu salvar o melhor dele — comentou Graeme, quanto mais elogioso parecia mais se aproximava do fogo e da comida.

MacLean imitou de novo o canto do mocho e se deteve sob uma árvore até que se abriram as grandes portas duplas.

Sua mãe, lady Bess Hamilton, estava na soleira, com as luzes do grande vestíbulo brilhantes as suas costas. Ele a reconheceu por sua figura, que era voluptuosa mais à frente do decoro, por seu turbante e pelo charuto aceso que sustentava na mão estendida.

— Kiernan! — exclamou — Veem aqui agora mesmo!

Ah, ele tinha certos problemas com sua mãe, mas naqueles momentos a áspera voz da dama lhe parecia tão doce como o gorjeio da cotovia.

— Vamos correr — disse MacLean a Enid. — Acredita que pode fazê-lo?

— Tenho que fazê-lo, não?

A jovem se pôs a correr como uma corça.

MacLean e Graeme proferiram uma maldição a uníssono e correram atrás dela.

A alcançaram, é obvio, e então ficaram atrás, se movendo em ziguezague, a fim de confundir a qualquer pistoleiro que os vigiasse.

Três homens providos de tochas cruzaram a porta e avançaram para eles, Kinman entre eles. No instante em que MacLean estava chegando à conclusão de que só um idiota se atreveria a disparar quando havia tal número de homens, soou um disparo de fuzil. Graeme caiu ao chão.

Lançando um grito de fúria, lady Bess avançou a passo vivo pelo atalho para eles. Os homens com as tochas começaram a correr. Mais homens cruzaram a porta.

Enid tentou se deter e se ajoelhar ao lado de Graeme.

MacLean a puxou para o castelo. Enid tentava escapar.

— Necessita minha ajuda, MacLean!

— O traremos. Aí fora há um criminoso com um fuzil.

— Mas já disparou!

Ele não se incomodou em lhe explicar que podia ter mais de um homem ou mais de um fuzil. Era uma garota esperta. Sabia.

— Já a tenho. — Lady Bess, quase tão alta como seu filho, agarrou Enid com firmeza. — Vai e ajuda a Graeme.

— Não! — Kinman agarrou MacLean com idêntica firmeza. — Não podemos correr um risco com ele.

— Vai a merda! — exclamou MacLean, e retornou para o grupo de homens que rodeavam Graeme.

Enid escapou de sua mãe.

— Não vou entrar se você não o faz.

MacLean a olhou furioso.

— Fará o que te digo!

— Não te curei para que lhe acertem um tiro a cem metros de sua própria casa!

Lady Bless soltou um assobio.

— De modo que o vento sopra por aí.

— Não! — replicou Enid.

— Se levantou! —gritaram os homens que rodeavam Graeme.

MacLean viu que o jovem avançava cambaleando, e dois homens o sustentavam enquanto o ferido sorria e limpava o sangue da fronte.

MacLean cedeu por fim.

— Vamos já!

Pegou Enid pelo braço e correu com ela colina acima sem que lhe importasse o cansaço. Depois de tudo, a moça lhe pôs em ridículo ante seu amigo e sua mãe, e só na primeira hora de sua volta.

Ouvia sua mãe rir e tossir enquanto caminhava para o castelo. A mulher temia algo mais que um simples disparo. Kinman galopava a costas de MacLean, com um movimento de ziguezague, tal como MacLean e Graeme faziam para proteger Enid.

A idosa governanta, Donaldina, estava na entrada e os saudava agitando a mão.

E por razões que compreendia muito bem, MacLean pegou Enid nos braços e cruzou com ela a soleira.

 

—Me deixe no chão, MacLean. — Humilhada, Enid se debateu nos braços de MacLean enquanto cruzavam a soleira e entravam na sala de altas paredes cheia de gente que gritava. — Eu disse que me deixe no chão, MacLean!

Agora é um pouco tarde para o cavalheirismo.

Então cessou o ruído. Ela deixou de lutar e olhou às pessoas ali reunidas.

Tochas e velas iluminavam a grande sala. Havia longas mesas alinhadas nas paredes e cômodos assentos agrupados ao redor de duas enormes lareiras. Os homens estavam armados com claymores, as espadas tradicionais escocesas, e escudos. As mulheres sustentavam fuzis e chifres de pólvora. As armas lhes caíram das mãos e permaneceram silenciosos e boquiabertos ao ver seu senhor... e Enid.

O único ruído se produziu quando um dos cães, um animal de grande tamanho e longas patas, viu MacLean e, soltando um ganido, correu para ele meneando a cauda. Uma mulher miúda e desdentada com aspecto de pássaro rompeu o silêncio. Falou com o acento escocês mais forte que Enid ouvira até então.

— OH, olhem o que trouxe o senhor. Que bonita é, Meu deus, podemos ficar com ela?

Todos os presentes se deram cotoveladas e trocaram sorrisos e gestos de assentimento.

Enid queria ocultar a cabeça no ombro de MacLean, fazer algo para se livrar de tantos olhos que a olhavam com fixidez. Céu santo, reconhecia a algumas daquelas pessoas... como uma dúzia de homens de Throckmorton, o qual aumentava sua humilhação.

Em vez de fazer isso elevou o queixo.

— Pelo amor de Deus, MacLean, me deixe no chão.

A obedeceu, mas o fez lentamente. Com o braço ao redor da cintura de Enid, seu olhar percorreu aos presentes, um olhar possessivo, com um brilho ameaçador.

Era como se tivesse posto uma marca na testa dela: "Propriedade do senhor dos MacLean". Ela acreditara em sobreviver à estadia naquele lugar com um mínimo de dignidade intacta, mas MacLean o impossibilitou.

MacLean se voltou para a anciã.

— Está faminta. Quer se banhar e ir à cama. — Então se dirigiu a Enid. — Vá com a Donaldina. Ela a atenderá.

A anciã fez uma reverência.

— Sim, receberá os melhores cuidados.

— Tenho que atender a Graeme —protestou Enid, teimosa.

— Faz o que te digo — replicou MacLean. — Está desfalecendo de fome.

Isso era certo e tinha uma sensação de atordoamento e a cabeça presa de um estranho enjoo. Havia algo ali que parecia muito diferente.

— Por aqui, senhorita — disse amavelmente Donaldina.

Enid não se moveu. Algo na verdade muito diferente.

O senhor Kinman agarrou o ombro de MacLean.

— Estávamos preocupados. Meu Deus, o que ocorreu?

— Logo falaremos. No momento, descobre quem foi o autor do disparo. — MacLean se agachou para acariciar ao cão imóvel.

O senhor Kinman transbordava de impaciência, mas MacLean o ignorou sem o menor escrúpulo. Ah, essa era a diferença que Enid notara. Nunca vira MacLean atuar como senhor do clã. Parecia mais alto, mais severo, mais forte, com uma aura de autoridade que teria assustado a jovem se não resultasse tão atraente a seu caráter feminino. Santo céu, se deitou com aquele homem! E quando seus olhares se encontravam, ela não tinha dúvida alguma de que seguia desejando-a. Sem mover um só músculo, ele a chamou a seu lado, a atraiu com um escuro feitiço contra o que nada podiam os desacordos e as dificuldades. Era o senhor do clã. Ela era uma bastarda inglesa. Mas as diferenças de suas posições não importavam quando se contrapunham ao desejo que ardia entre eles.

Enid dera um primeiro passo indeciso para ele quando os gritos a fizeram sair de seu arroubo. Os homens que sustentavam Graeme cruzaram bruscamente a porta, seguidos por Jackson e um dos guardiães ingleses.

Ela desviou os olhos de MacLean.

— Graeme necessita de minha ajuda — disse.

— Não corre perigo. — A voz áspera de lady Bess soou na entrada. — A bala o roçou na cabeça, que não utiliza muito.

Este comentário provocou gargalhadas.

— Você é uma ingrata, minha senhora. — Ajudado por dois homens, Graeme se aproximou cambaleando a uma cadeira e tomou assento.

Vá... Por Deus. Os escoceses usavam saias. Como Stephen as chamou? Kilts. Na escuridão e confusão, Enid não notara. Agora desviou os olhos das pernas ossudas e peludas dos homens.

— Salvei a pele de seu filho — disse Graeme.

— Se colocando no meio! — replicou MacLean.

— Mas valia a pena salvar essa pele. — Lady Bess fez um sinal a um criado, que ofereceu a Graeme uma jarra de cerveja. — Lhe agradeço isso.

Enid piscou enquanto olhava bem à mãe de MacLean. Era alta como ele, mas aí terminava toda a semelhança. O gosto pela excentricidade poderia explicar o charuto aceso que tinha entre os dedos, mas nada podia explicar sua indumentária, os cosméticos, o aspecto indecoroso de uma mulher que devia ter... pelo menos quarenta e cinco anos.

Era evidente que desprezava tanto o espartilho como as anáguas, e usava um vestido mais apropriado à época de sua juventude que na moda atual e mais escandaloso que de bom gosto. O tecido diáfano estava recolhido sob os seios e lhe chegava reto aos pés, sem o obstáculo de nada tão decoroso como um objeto interior. Em efeito, quando lady Bess passou ante a luz, Enid distinguiu a silhueta de seus objetos, e o tecido se prendia a lugares onde não deveria fazê-lo absolutamente. Pelo menos para manter a correção.

A mulher se aproximou de seu filho.

— Depois de uma ausência tão longa e toda esta animação, dará um abraço a sua pobre e preocupada mãe?

— É obvio, senhora.

MacLean a abraçou, mas com uma ausência de afeto que a Enid pareceu abominável. Então, desviou sua atenção do desagradável bruto e foi examinar a Graeme. Um jovem criado sustentou um candelabro para lhe iluminar. Ela o agradeceu com um sorriso.

Quando Graeme abriu a boca para falar, Enid notou uma acre baforada de uísque.

— Estou bem, senhora. Não é mais que um arranhão.

— O arranhão está sangrando, e tem a roupa empapada em sangue. — Enid jogou o cabelo dele para trás e examinou a brecha aberta no couro cabeludo. — Curará melhor se lhe costurar isso.

Graeme pareceu alarmado até que MacLean se aproximou de seu outro lado.

— A deixe fazer, homem — disse. — Conseguirá que tenha bom aspecto.

— Ela faz milagres, então? — inquiriu em voz rouca um dos escoceses vestidos com saias.

Outro acesso de risadas saudou sua ocorrência.

— Não descansará até ter se convencido de que fez por você todo o possível. — MacLean permanecia junto a Enid, reforçando a autoridade da jovem. — Então fique quieto, Graeme, e aguenta o mal-estar como um homem.

Um homem vestido com o rude traje de um lenhador disse então:

— Se o aguentar como um homem, saberemos que, em efeito, esta senhora faz milagres!

Desta vez as risadas se intensificaram, mas agora Enid compreendeu o que ocorrera. Mesas e bancos estavam derrubados na sala, e alguns homens ainda tinham suas espadas na mão.

Lhes advertiram de um ataque contra seu senhor, por isso pegaram as armas e se prepararam para lutar. Mas antes que pudessem entrar em ação, lhes pediram que se retirassem. Agora todos eles, criados, cavalheiros e damas, estavam inquietos e muito excitados. Se ela necessitava alguma prova de que já não se encontrava na Inglaterra, aquele grupo de pessoas heterogêneas e compenetradas a convenceu.

— Aqui tem uma agulha e fio cirúrgico, senhora. — Donaldina se aproximara dela e lhe oferecia uma bandeja de prata que continha instrumentos de aspecto profissional. — Lady Bess está acostumada a se encarregar de costurar as feridas, mas não pensa muito na dor, então o pequeno Graeme estará agradecido a você.

— Sim, senhora, assim é - disse Graeme, obediente.

Sentada em uma cadeira maciça à cabeceira de uma longa mesa, lady Bess aspirava a fumaça de seu charuto.

— Recordarei isso a próxima vez que deva te atender, jovem Graeme.

Ele se encolheu na cadeira e pareceu tão apreensivo que Enid lhe perguntou:

— Se machuca com frequência?

— Se houver uma flecha perdida ou um pedaço de vidro onde não deveria estar, é seguro que nosso Graeme se encontrará com eles, mas esta é sua primeira bala, não é certo, moço?

— A primeira e a última — respondeu Graeme, fazendo uma careta.

— Veremos se é verdade.

MacLean pôs a mão na nuca de Enid e lhe massageou os músculos rígidos. Um pequeno gesto, mas todos o contemplaram com os olhos brilhantes.

Viram também que Enid afastava sua mão com brutalidade e que o olhava furiosa. Não queria que MacLean acreditasse que podia se congraçar com ela de uma maneira tão corriqueira. MacLean lhe sorriu com um afeto tão patente que ela ficou nas pontas dos pés e lhe sussurrou com veemência.

— Quer deixar de fazer isso?

— O que?

— De agir como se tivéssemos algum tipo de vínculo. — Olhou a seu redor.

Todos os presentes na sala os olhavam com avidez.

A MacLean não pareceu importar, e não baixou a voz.

— Mas se temos, moça. É minha amante.

Ela ouviu os sussurros que se iniciavam a seu redor, e gritou com ele:

— Me disse que sou uma bastarda mercenária que se deitou com você por seu dinheiro. Acreditava que ia esquecer isso?

MacLean pegou as mãos dela e as levou aos lábios. Beijou primeiro os dorsos, logo as palmas, e então, quando ela fechou os punhos, beijou de novo os dorsos. Olhando-a aos olhos, murmurou:

— Isso esteve mau. Quererá me perdoar?

Ela se manteve firme e lutou para liberar suas mãos.

— Não.

Lhe perdoar? Se propunha entesourar suas ofensas. Era a única defesa que tinha contra uns olhos verdes transbordantes de sentimentos e um sorriso encantador.

— Por favor, me equivoquei ao te dizer essas coisas.

— Por quê? São certas.

Ele arqueou as sobrancelhas, fingindo assombro.

— Se deitou comigo por meu dinheiro?

— Não, isso não, mas sou uma bastarda mercenária e inglesa, além disso.

— Ah, todos temos nossos defeitos. — Começou a lhe beijar os dedos um a um. — Perdoa?

Ela tinha dez dedos. Ele tinha toda a noite.

— De acordo. Perdoo!

MacLean deixou de beijá-la e permitiu que ela retirasse as mãos das dele.

— Obrigado.

Enid afastou o cabelo da testa febril e o jogou para trás. Até então nunca se ruborizou tanto.

MacLean apontou para Graeme e, em um tom respeitoso, perguntou a jovem:

— Vai costurá-lo já?

— Poderia me dar um pouco de seu uísque? — ela perguntou a Graeme.

O moço o ofereceu, sorridente.

— Sim, assim que a vi falar com Sua Senhoria, soube que era uma mulher como é devido.

— Você pode tomar o nosso— disse Donaldina. — Embora esteja acostumado a ser muito forte para os visitantes ingleses.

— Só usarei um pouco do dele.

Dito isto, Enid verteu uma boa quantidade de uísque sobre a ferida, fazendo que Graeme se levantasse uivando. Os homens voltaram a rir, e MacLean teve que pôr a mão no ombro de Graeme e empurrá-lo para que voltasse a se sentar.

— Isto é o pior de tudo — disse Enid, e começou a lhe costurar a ferida sem fazer caso dos dramalhões do moço.

MacLean se voltou para Donaldina.

— Comerá algo assim que tenha terminado.

— Sim, senhor. — Donaldina fez uma reverência. — Você comerá também um pouco de pão?

— Quando ela esteja pronta.

Seguido pelo cão, que lhe tocava a mão com o focinho na menor oportunidade, MacLean foi ao encontro dos homens reunidos. Entre um e outro ponto, Enid o olhava de esguelha. Ele sorria e estreitava mãos. Mais importante ainda era que as pessoas faziam fila para lhe dar palmadas nas costas, lhe sorrir, trocar uma palavra com ele.

— Ah, que bom lhe ter de volta — disse Donaldina, ainda ao lado de Enid, com outro pedaço de linha cirúrgica preparada. — Sentimos falta do moço. É um homem bom, ajuda quando há um problema, e em um imóvel do tamanho deste sempre há um problema em alguma parte.

Enid esteve certa quando disse a MacLean que não deveria ter acreditado no que Stephen contou dela; agora compreendia que ela não deveria ter acreditado nas afirmações de Stephen sobre seu primo.

A gente de MacLean o adorava.

E isso não era engraçado. Era muito melhor acreditar que a carta cruel que ela recebeu do primo de Stephen foi uma amostra da malevolência geral de MacLean, e não que estava dirigida concretamente a ela.

Não obstante, aquela noite, no bosque, lhe chamou bastarda. Talvez inclusive o tivesse dito a sério, posto que não era um homem cruel. Mas era certo. Ela era uma bastarda inglesa empobrecida, e os bastardos não se casavam com os nobres. Devia ter isso em mente.

— Pelo aspecto de sua cara, o senhor teve muitos contratempos desde que partiu — seguiu dizendo Donaldina. — Você também lhe costurou as feridas?

— Não, as costuraram antes que me chamassem a seu lado.

Donaldina ficou nas pontas dos pés e estirou o pescoço para ver o que Enid fazia.

— Bom, isso explica as cicatrizes. Você é... você é maravilhosa dirigindo essa agulha.

— Obrigado. — Enid terminou de costurar a ferida e deu umas palmadas no ombro de Graeme. — Bom, já está.

Graeme se levantou e fez uma inclinação de cabeça.

— Obrigado por sua amabilidade, senhorita. Se posso fazer algo por você, só tem que me chamar.

— Obrigado, Graeme — replicou ela, lhe devolvendo a reverência. — O terei em conta.

Certamente, ela tinha motivos para acreditar que necessitaria toda a ajuda que pudesse encontrar na remota ilha de MacLean.

Ao ver que Enid estava livre, lady Bess lhe disse:

— Venha e sente comigo, senhorita. Vamos falar você e eu.

Enid desejava comer, mas era uma convidada, alguém que despertara a curiosidade de todos. Então, se dirigiu à cabeceira da mesa, seguida por uma donzela que levava uma bandeja com comida, o moço provido das velas e Donaldina.

Lady Bess contemplou o desfile.

— Você tem todo um séquito.

Enid se negou a permitir que a mãe de MacLean a pusesse nervosa. Ao fim e ao cabo, piores coisas lhe aconteceram que ser interrogada pela senhora da casa familiar e os acontecimentos daquela mesma noite.

— Deixa a bandeja na mesa, por favor — disse à donzela, e se dirigiu ao moço: — O fez muito bem, obrigado.

Donaldina se sentou no banco à direita de lady Bess, algo que para Enid pareceu raro, se tratando de uma governanta. Mas posto que lady Bess não encontrava nisso nada fora do comum, a jovem se acomodou no banco à esquerda da dama.

A princípio, Enid se concentrou na comida, e descobriu que, assim que terminava uma coisa, apareciam três mais na bandeja, cada uma mais apetitosa que a anterior. Saciada por fim, teve que jogar o corpo atrás e rechaçar com um gesto da mão os novos aprimoramentos que lhe ofereciam.

Lady Bess a esteve observando com atenção.

— Você tem muito bom apetite, isso é evidente. Me alegro de ver que não é uma dessas raparigas modernas que sacrificarão uma refeição para manter a cintura fina.

— Depois da semana que passei, minha cintura é tão fina como não o será jamais — comentou Enid.

— Mmm... — Lady Bess depositou a cinza de seu charuto em um cinzeiro e sorriu. — Sim, a meu filho não importa a finura de uma cintura.

Irritada pelas injustificadas hipóteses que todo mundo parecia estar fazendo, Enid replicou:

— Para mim é indiferente o que importe a MacLean.

— Seriamente? — Lady Bess fez um gesto para ele.

MacLean parecia relaxado como nunca o vira até então. Estava entre um grupo de homens, fazendo oscilar um morango enquanto falava. Os homens soltavam gargalhadas, inclusive Jackson, a quem ela considerou um camareiro muito insípido. Ao que parecia, Escócia o animou... da mesma maneira que assustou ao senhor Kinman, que seguia a MacLean como se estivessem colados.

Quando se abriu a porta exterior entraram dois homens e se aproximaram de MacLean, sacudindo as cabeças.

— Vá, que lástima, não encontraram nada — disse lady Bess, e exalou um suspiro. — De todos os modos, é magnífico que Kiernan esteja de volta. Eu levo as rédeas bem até que os homens brigam, e então desejo golpear a cabeça de um com a de outro até que ressoem. Kiernan é capaz de escutar suas estúpidas discussões e julgar sabiamente, e os homens fazem sem falar o que ele dita.

— Também fazem o que você lhes diz, minha senhora. — Donaldina tomou um gole da taça que lhe serviram e lambeu as gengivas.

— Me temem. A MacLean respeitam. — Lady Bess se ajeitou em seu assento. — Olhe. O senhor MacQuarrie deve ter se levantado da cama para vir aqui depressa e apresentar seus respeitos a Kiernan.

— O velho bobo — disse Donaldina em um tom afetuoso. — Suponho que espera passar a noite em minha cama.

— E eu espero que o permita. — Lady Bess se voltou para Enid e apontou com o charuto ao homem que estreitava a mão de MacLean. — Vê esse idoso que parece ter algas na cabeça em vez de cabelo?

É o senhor dos MacQuarrie. Não sobreviveram às dificuldades tão bem como os MacLean, então Kiernan os ajudou com um ou dois empréstimos.

Donaldina bufou em sua tigela.

— Me dá vontade de dizer a MacLean de onde saiu o dinheiro.

— Não te ocorra fazer tal coisa, Donaldina — disse lady Bess com firmeza. — Olhe, Catriona desceu.

Donaldina se voltou a olhar enquanto a multidão ao redor de MacLean cedia o caminho a uma dama mais velha que lady Bess e vestida na moda mais elegante e moderna.

— Você acredita que terá um de seus arranques? — inquiriu Donaldina com interesse.

— Vão dar más notícias, de modo que sim. — Lady Bess se dirigiu a Enid: — Essa dama de cabelo cinza é lady Catriona MacLean, tia de Kiernan e cunhada de meu marido.

Enid a olhou atentamente. De modo que aquela era a mãe de Stephen: cara arredondada, de feições agradáveis, covinhas nas faces, nariz pequeno. Entretanto o franzido de seu cenho era perpétuo.

— Sofreu muito na vida. Seu marido morreu antes que seu filho nascesse, e este desapareceu faz mais de um ano. Todos soubemos que Stephen teve problemas quando não voltou para casa nem sequer para pedir dinheiro emprestado.

— Amém — disse Donaldina, e voltou a cobrir a cara com a tigela.

Lady Catriona se aproximou timidamente de MacLean, como se temesse que ele pudesse rechaçá-la. Sua confusão surpreendeu Enid; todo mundo respeitava MacLean, mas ninguém parecia absolutamente intimidado por ele.

Lady Bess observava a sua cunhada, sem que em sua expressão houvesse o menor rastro de afeto.

— Kiernan, que tem um sentido excessivo do dever familiar, foi em busca de Stephen.

— Eu queria saber de onde tirou esse sentido excessivo do dever familiar, minha senhora — interveio Donaldina.

— Eu disse que não íamos falar mais disso, Donaldina.

— Sim, minha senhora. — A governanta se voltou para Enid. — Mas sabemos, não é certo?

Não, Enid não sabia, mas sentia curiosidade. Sentia curiosidade por lady Bess e olhava com atenção à mãe de Stephen para ver como reagia à notícia da morte de seu filho.

Stephen se referia a sua mãe com aberto desprezo. O que pensava Catriona de seu filho?

— Kiernan esteve ausente durante mais de dez meses — disse lady Bess. — Pelas cicatrizes de sua cara, suponho que encontrou Stephen, verdade?

Enid fez um gesto de assentimento.

— Deduzo que muito tarde para lhe salvar, e Kiernan resultou ferido quando tratava de salvar do perigo a esse moço irrefletido, não é certo?

Enid assentiu de novo, o olhar fixo no drama que tinha lugar na grande sala.

Quando MacLean viu sua tia, fez um gesto para que ela se aproximasse. O abraçou com um tímido afeto, se pendurou em seu braço como se fosse hera, e lhe falou.

Lhe rodeando os ombros com um braço, ele a acompanhou a um assento: se ajoelhou a seu lado, sacudiu a cabeça e só disse umas poucas palavras antes que ela se pusesse a chorar, o separasse de um empurrão, se levantasse de um salto e fugisse da sala.

— Bom, já está. — Lady Bess aspirou a nociva fumaça de seu charuto e o exalou até que lhe envolveu a cabeça. — Não deveria dizer tal coisa, mas a morte de Stephen não é uma grande perda. Catriona consentia muito ao menino, acreditava que tudo que fazia era perfeito. E aí tem! Nunca o permitiu se converter em um homem. Não é de estranhar que se convertesse em um esbanjador e um covarde.

Que interessante era aquilo. Pelos comentários de Stephen a respeito de sua mãe, Enid deduziu o mesmo.

— Se meu filho tivesse morrido por culpa de Stephen — acrescentou lady Bess, — o teria perseguido até o inferno para lhe dar um chute no traseiro.

Enid sufocou uma risada inapropriada.

— Alguém precisava lhe dar uma patada no... no traseiro.

Lady Bess endireitou os ombros.

Donaldina se ergueu em seu assento.

As duas mulheres trocaram olhares.

Em um tom cordial que não enganava Enid, lady Bess disse:

— Sabe, querida? Sou uma velha que não ouve bem, e não recordo ter ouvido seu nome.

MacLean não havia dito seu nome, como lady Bess sabia muito bem. Mas Enid não podia retardar aquele momento terrível; devia lhe fazer frente com coragem. E assim, em uma voz clara, que chegou até além da metade da mesa, Enid respondeu:

— Sou Enid MacLean, a viúva de Stephen.

 

Todo mundo fora dormir exceto o pequeno contingente de ingleses. Kinman, Jackson e cinco dos melhores homens de Throckmorton estavam sentados ante o fogo com as pernas estiradas sobre a mesinha central, fumando charutos e aguardando sua vez para falar com MacLean.

Antes de se reunir com eles e responder a suas impaciente perguntas, Kinman conversou com sua mãe, que estava sentada à cabeceira da mesa. Um charuto fumegava no cinzeiro, a seu lado, enquanto ela baralhava cartas e os depositava em montes ordenados, se preparando para jogar solitário.

As cartas a apaixonavam sempre. Quando Kiernan era menino, lhe ensinou todo tipo de jogos que aguçaram sua habilidade aritmética e, mais adiante, aperfeiçoaram sua capacidade estratégica e sua inteligência. Sua mãe o ensinou a interpretar o que se propunha seu adversário, a maneira de ganhar com elegância e a de perder sem que lhe notasse a decepção. Utilizava diariamente tais habilidades.

Entretanto, já não jogava às cartas com ela.

A mulher começou a se levantar quando ele se aproximava; MacLean lhe pôs uma mão no ombro para que não o fizesse e se sentou em um dos bancos que estavam a seu lado.

— Ganhou seu lugar à cabeceira da mesa — disse. — Me inteirei sobre o de Torquil e Eck e sua disputa pelo cavalo de corridas de orelhas longas.

Lady Bess moveu o braço com um gesto indolente.

— Isso não foi nada. Não necessitei mais que a sabedoria salomônica para que entrassem em razão.

MacLean os conhecia. Sua mãe não exagerava.

— Os dois são teimosos — reconheceu.

— São estúpidos... mas não o são todos os homens? — zombava um pouco dele, como sempre fazia.

Sua mãe lhe dizia coisas que jamais diria a ninguém mais, e ele desejava lhe responder com outras coisas que seria melhor calar, pois a muito condenada não estava livre de pecado. Mas era sua mãe e merecia respeito; se ocupou do imóvel com uma dedicação extraordinária.

— Já sabe o que vim perguntar — disse ele.

— Por isso fiquei aqui enquanto seus cavalheiros ingleses estão tascando o freio. — Sorriu para Kinman, que tinha se voltado na cadeira para olhar a eles.

Kinman ruborizou e se voltou em seu assento.

— Onde está minha irmã? — perguntou MacLean.

A mãe esfregou o charuto no cinzeiro até apagá-lo.

— Nesta ocasião não é uma boa notícia.

— É alguma vez? — A imagem de Caitlin, de longas pernas como uma potranca, e tão selvagem como ela, cruzou pela mente de MacLean.

— Isto é o pior. — Lady Bess baixou os olhos e contemplou as cartas. —Partiu para te vingar.

MacLean confiou em não ter ouvido bem.

— Para me vingar? O que quer dizer com isso?

— Temíamos que tivesse morrido. Caitlin estava transpassada de dor, e tão enfurecida que partiu a toda pressa, decidida a seguir seus rastros e castigar seu assassino.

— Não — disse MacLean; não era que não acreditasse em sua mãe, mas sim pensar em sua irmã mais nova andando por aí em busca de problemas o adoecia. — Como acredita que vai me vingar? Não, por favor, não me diga isso. Me diga tão só que a procurou.

— Nos escreveu de Londres. Não dizia nada de sua tentativa de te vingar, e quero pensar que foi a essa grande cidade e abandonou sua amalucada ideia. — Lady Bess moveu uma carta sem olhá-la.

— Também eu quero pensar isso — replicou ele, mas não pensava nisso, e o certo era que sua mãe tampouco. Caitlin tinha uma teimosia a toda prova e a persistência de um bulldog. — O que está fazendo em Londres?

Uma nova preocupação se apoderou dele.

— O que faz para se manter?

— Ainda não está em Londres. Encontrou um posto de trabalho por meio de... — Lady Bess tirou do decote uma folha de papel muito dobrada.. — da Distinta Academia de Instrutoras.

Aquilo era um raio de esperança.

— Essa é a agência que encontrou para Enid um posto na mansão de lady Halifax. Uma agência respeitável. Não a enviariam a um lugar onde corresse perigo.

Lady Bess se inclinou para frente e agarrou o braço dele.

— Seriamente? Sabe com segurança?

Apesar da aparência indolente de sua mãe, ele se deu conta que estava muito assustada pela situação de sua filha.

— Seriamente. Tem escrito a ela?

— Enviei uma carta e recebi uma resposta cortês de uma tal lady Bucknell. Dizia que Caitlin parecia bastante judiciosa, tinha boas referências e afirmava ter vinte e cinco anos, como assim é, por isso lady Bucknell lhe buscou um emprego na região dos lagos. Dizia que escreveria a Caitlin e lhe pediria que entrasse em contato comigo, mas que ela não podia pedir à garota que voltasse para casa.

— A garota é uma mulher — disse ele.

Se inclinando por cima da mesa colocou uma rainha vermelha sobre um rei negro.

Lady Bess lhe deu uma ligeira palmada na mão.

— Não parece que esteja em perigo. Lady Bucknell a informou do paradeiro de Caitlin?

— Está na Nação Ilhoa de Rasnull. Enviei um mensageiro em sua busca quando me inteirei que estava vivo. Talvez a notícia faça que volte para casa.

— Sim. — Ele voltou a acariciar o queixo e disse em voz baixa. — E talvez fique onde está e encontre aí a felicidade.

A umidade fez brilhar os olhos de lady Bess.

— Kiernan!

Lhe disse pela primeira vez o que ambos sabiam.

— Minha senhora mãe, aqui não pode se sentir satisfeita. Por muito que tentemos protegê-la, todo mundo sussurra sobre o escândalo e ela se inteira.

— Sei. — Lady Bess riu sem humor enquanto refletia em seu próprio escândalo. — Sei.

"Mas você merece os sussurros e a calúnia."

Não o disse, porque também Caitlin merecia os sussurros e a calúnia. Foi a filha mimada do clã MacLean, e sacrificou seu bom nome gratuitamente por uma víbora, um canalha, um homem a quem ele desejou como a um irmão.

— Então, no momento, suporemos que Caitlin está bem. — Lady Bess pegou as cartas, as baralhou de novo e voltou a distribuí-las.

— Adquiriu uma grande prudência. — Parecia séria, e então lhe sorriu, zombando dele a sua velha e familiar maneira. — Um homem tão prudente como você deve reconhecer que chegou o momento de se casar.

MacLean jogou lentamente o corpo para trás.

— Você acredita?

— Me encarregar de tudo enquanto estava ausente me demonstrou que sou muito velha para a carga que representam semelhantes responsabilidades.

— Não é tão velha — replicou ele.

E não o era. Trouxe-lhe para o mundo quando ela mal tinha dezesseis anos, e não recordava época alguma em que sua mãe não lhe tivesse parecido uma mulher formosa. E também uma mulher extravagante e corpulenta com a que resultava difícil viver e que frequentemente o sobressaltava.

— Bom, você quase o é. — A mulher sacudiu a cabeça enquanto olhava as cartas e as recolheu uma vez mais. — Não há muitas mulheres que queiram se casar com um velhote como você, sobretudo um que não foi domado por uma primeira esposa.

— Pensou em alguém?

— Deixemos de jogos, filho. — Lady Bess golpeou a mesa com o baralho. — Esta noite deixou bastante claro seu interesse por Enid.

— Não a incomoda que seja a esposa de meu primo?

— A viúva de Stephen, e não há dúvida que ela não é nenhuma das coisas terríveis que ele disse que era. Mentiu para satisfazer Catriona. — O lábio de lady Bess se curvou com a careta de desprezo que sempre fazia ao se referir à tia de Kiernan. — Catriona jamais admitiria a outra mulher na vida de seu filho.

MacLean recordou como Catriona o afastou bruscamente quando ele tratou de consolá-la pela perda de seu filho. Aquela mulher adorou Stephen com um ardor fanático. O certo era que inclusive com sua morte os desonrou.

— Sei — replicou, procurando a mão de sua mãe. —- Então... você gosta de Enid?

Lady Bess lhe apertou os dedos.

— Se case com ela, me dê netos e a adorarei.

MacLean notou que a emoção começava a lhe embargar. Deveria lhe ser indiferente o que sua mãe pensasse. Deveria possuir Enid e fazê-la sua esposa... aspirou fundo. Ah, então esse era seu plano.

Devia fazer Enid sua para se casar com ela.

— Fará o que te digo? — perguntou lady Bess.

E ele queria que lady Bess gostasse de Enid. Era evidente que gostava, pois de outro modo aquela mulher que não tinha cabelos na língua teria expressado com claridade seus sentimentos.

— Verá, nestes momentos para Enid não resulto muito simpático.

— Não é que você já tenha se incomodado em fazê-lo, mas poderia cortejar à garota. — Ao mesmo tempo que se levantava, o fez se sentir ridículo com seu sorriso. — Se necessitar conselho, me peça.

— Não o farei.

—Nunca pedirá conselho a sua velha e perversa mãe. — Tocou-lhe a face. — Tão tolo é.

MacLean a contemplou enquanto ela cruzava a grande sala para seu dormitório, atraindo os olhares de todos os homens sãos ainda acordados.

Condenada mulher. Zombava dele, e em cada ocasião ele respondia com uma provocação instintiva. Sempre o provocava, sempre ria dele depois e ele sempre se sentia como o tolo que ela dizia que era. Não, um tolo não... um menino, arreganhado por sua mãe porque não vira a verdade. Mas ele conhecia a verdade a respeito dela... não era certo?

MacLean foi à lareira e se sentou em uma das cômodas poltronas. Estava cansado, tanto que cambaleava, mas percorreu com o olhar o círculo de cavalheiros ingleses e lhes disse:

— Recuperei a memória. — Ao ver a expressão de surpresa de todos eles, sorriu, mas, ao reparar em uma ausência patente, seu sorriso se transformou em um franzimento de cenho. —Primeiro me digam aonde foi Harry.

 

Enid despertou em uma cama enorme e luxuosa, em um esplêndido dormitório, vestida com a encantadora camisa de dormir de renda que Celeste lhe dera. Cobriu os olhos contra o sol da manhã e emitiu um gemido.

Na noite anterior vivera a humilhação definitiva. MacLean cruzou com ela nos braços a porta do castelo, como se fosse delicada ou fosse uma noiva.

Logo, depois de se sentar à mesa com os MacLean, teve que se apresentar à família. Pela segunda vez aquela noite se fez o silêncio, um silêncio que partiu dela e chegou ao último canto da sala. Mais ainda, as cabeças se desviaram de Enid a MacLean e voltaram para ela.

Mas precisava dizer aos MacLean. Inclusive depois daquela informação assombrosa todo mundo seguiu sendo cordial. Encheram seu copo de vinho. Contaram anedotas da juventude de Kiernan MacLean.

Umas anedotas que a fizeram rir, algo muito conveniente. Enfim. Estava exausta, e o vinho era forte. Quando o próprio MacLean disse de maneira que não admitia réplica a seus familiares, convidados e servidores que Enid estava muito fatigada, a própria lady Bess a conduziu ao andar superior, ao banho e o dormitório. Embora Enid quase dormiu em pé, recordava vagamente lady Bess lhe explicando que naquele quarto dormira Robert De Bruce[7].

Enid confiou em que seu cérebro empapado em vinho tivesse inventado essa fantasia, mas ao se erguer na cama e olhar a seu redor temeu ter ouvido corretamente. O frufrú dos lençóis era o que produzia o algodão mais fino. Os altos postes da cama, o travesseiro belamente esculpido, os painéis que cobriam as paredes até o alto do respaldo das cadeiras, tudo era esplêndido, de madeira de cerejeira polida. A colcha, as cobertas da cama, o elevado dossel e os cortinados eram de damasco verde escuro. Inclusive o alto teto, com suas nuvens e roliços querubins pintados, dava uma sensação de realeza. Enid se perguntou quando poderia abandonar aquele buraco do inferno e voltar para sua vida real.

O trinco de prata de lei se moveu com brutalidade, e Enid levou as roupas de cama ao queixo.

— Adiante — disse.

O trinco da porta matraqueou de novo. Enid supôs que era uma donzela que lhe trazia a bandeja do café da manhã, desceu da cama, tão alta que tinha uns degraus, e se dirigiu à porta, que se abriu antes que ela chegasse.

MacLean entrou dando tropeções no quarto, caiu ao chão e ficou esparramado de bruços.

Enid chiou e agarrou a nova bata de brocado cor de vinho tinto e vermelha que estava sobre a cadeira. Pondo o objeto diante dela, como um escudo, olhou com atenção para MacLean e chegou à conclusão que não se machucara, pois aterrissara sobre um tapete muito macio. Vestia a mesma roupa que usou durante toda a viagem pela Escócia, e era evidente que bebera muito.

Provavelmente lhe doía a cabeça e era sensível à luz.

Ela se aproximou das janelas e abriu os cortinados.

E também era sensível aos ruídos.

— Não é meu marido — gritou. — Sai daqui!

MacLean a surpreendeu ao se levantar e olhá-la, pensativo e com os olhos entrecerrados.

— Esta manhã tem muito melhor aspecto. — Agitou uma mão ante sua cara. — Ontem à noite estava cansada e tinha a boca contraída e rodeada de rugas.

Ela se sentiu meio insultada, meio divertida, meio desesperada... eram muitas metades, mas nunca se dera bem com a aritmética.

— Que velhaco com bico de ouro parece. Anda, saia.

"Saia porque está muito bem inclusive coberto de sujeira e com aroma de uísque."

— Quererá saber o que está ocorrendo... — deu uns leves golpes nos lábios. — Sabe que passei a noite falando com os ingleses?

Enid se voltou para ele e vestiu a bata.

Ele não pareceu reparar no soberbo aspecto que embainhou no luxuoso objeto.

— Disse a eles tudo o que recordava.

Ela se aproximou da porta, agarrou o trinco e apontou para fora.

— Fora.

— Mas foi muito interessante. Precisamente quando chegava a melhor parte, não sabia nada!

Ela deixou de apontar a saída e o olhou com fixidez.

— O que quer dizer com isso de que não sabia nada?

— Será melhor que feche a porta. — Impôs silêncio com um empenho extravagante. — Isto é segredo. Não devo dizer a ninguém.

- Pois está me dizendo isso.

— Falaria até mais. Durmo com você.

Por que alguma vez considerou aquele homem atraente? Abriu mais a porta.

— Não, nada disso. Fora.

— Não consigo recordar a explosão.

Ela titubeou. Jogou uma olhada ao corredor para se assegurar que ninguém podia lhes escutar e voltou a olhar ao homem desalinhado que lhe dizia tais coisas com toda naturalidade.

— A explosão que matou Stephen?

Ele assentiu.

— O que você recorda?

— Lembro que fui para a Inglaterra em busca de Stephen, pois suspeitava que estava com más companhias. Isso era muito próprio dele. Ali encontrei Throckmorton. Este me enviou a Crimea, onde se encontrava Stephen, e então... — MacLean sacudiu a cabeça, entristecido. — Nada, não recordo nada.

A ela não deveria importar. Não deveria se preocupar pela segurança de MacLean nem por aquela intriga, mas ela se viu envolvida e sentia curiosidade.

— Acredita então que quem tentou te matar na Crimea trata de consegui-lo agora?

— Certamente.

— Acredita que o seguiu até aqui? É uma enorme distancia.

— Por que não? Viajar de trem é fácil, e se ele pode me silenciar antes que possa lhe descobrir, estará a salvo. — MacLean se deixou cair em uma delicada cadeira com tal brutalidade que a madeira produziu um rangido.

— Harry quase me abateu.

— O que? — Ela desistiu em sua atitude e fechou de uma portada. — Quando?

— Já conhece Harry. Alto, moreno. — MacLean imitou um franzimento de cenho feroz. — Sempre sério.

— Sei o que quer dizer, e suspeitava há muito tempo que ele era o assassino.

— Não, não, não. Ele não. Chegou ontem à noite muito depois que todos os outros, e tinha um fuzil. - MacLean tossiu como se lhe ardesse a garganta.

Enid foi à mesinha de noite, verteu água em um copo. Os hábitos arraigados não desaparecem com facilidade.

— Por que Harry tinha um fuzil?

— Kinman e eu estivemos falando do tiroteio. Recorda os disparos de ontem à noite?

Ela desejava lhe sacudir para que fosse ao ponto. Mas em vez de fazer isso, estendeu o copo de água.

— Lembro os disparos.

Ele a olhou com os olhos debruados de vermelho e lhe tocou a bata.

— Que bata tão bonita. Vestiu isso para mim?

— Não. Bebe água. — Pôs bruscamente o copo na mão dele.

— Não — replicou ele, com um olhar de luxúria ridícula por seu exagero. — Para mim não usaria nada.

Ela girou sobre seus calcanhares e se dirigiu à janela.

— É uma lástima que Harry não o alcançasse.

MacLean teve a audácia de parecer doído.

— Que crueldade a sua. Se não for amável comigo, partirei.

— Me permita que te abra a porta.

— Está de brincadeira. — Se deixou cair na cadeira, —Harry esteve procurando pelas imediações até que encontrou o fuzil, e estava muito zangado. Esta bata é bonita seriamente. Faz que seu cabelo pareça... ondulante.

— Meu cabelo é ondulante — replicou ela, mas se conteve. — Por que Harry estava zangado?

— Porque é um fuzil inglês. — MacLean levou o copo aos lábios e bebeu até apurá-lo. — Roubado da coleção pessoal de Throckmorton e deixado aqui só para dispará-lo contra você.

— Contra mim?

— E também contra mim.

— Mas Harry não sabe quem foi o autor dos disparos?

— Não.

Ainda não estavam a salvo.

— Sabemos mais que antes — deduziu ela. — Sabemos que é um dos guardiões.

— Hoje se vão a casa. Todos exceto Harry, Kinman e Jackson.

— Jackson? — inquiriu ela, surpreendida. — Permite que fique o camareiro?

— Tem umas referências impecáveis de lorde e lady Featherstonebaugh, e Kinman me assegura que Jackson é de confiança. — MacLean tratou de parecer patético e simpático ao mesmo tempo: — E além disso, me barbeia muito bem.

Enid contemplou o rosto de MacLean, as cicatrizes, a sujeira, a barba descuidada. Sim, ele não quereria prescindir de Jackson por quão bem dirigia a navalha de barbear.

— Deveria lhe pedir que o barbeie agora.

MacLean agitou o copo.

—Poderia tomar um pouco mais? — Quando ela se aproximou, agarrou os dedos dela. — Está usando uma camisa de dormir de renda.

— Estava adormecida quando você chegou. — Era falso, mas não lhe importava.

— O vi antes que a cobrisse com esta feia. A camisa de dormir é bonita. — A atraiu para si.

Se ela não resistisse, ele a teria sentada em seu colo. Impulsionada pela irritação que lhe causava o fato de que ele a considerasse tão fácil, assim como o pânico, porque queria sê-lo, ela disse:

— Você não gosta, recorda? Sou a esposa mercenária de Stephen.

— Mercenária. — Ele franziu o cenho, mas não lhe soltou a mão. — Mas não como minha mãe.

— Sua mãe?

Lady Bess? Mercenária?

— Ela e eu falamos disto ontem à noite. Acredita que deveria me casar com você.

Enid não sabia o que pensar nem como reagir.

— Se equivoca. Jamais nos casaremos. Não é o bastante judicioso para me propor isso. Eu não estou tão desesperada para aceitar. Por que acredita que sua mãe é uma mercenária?

O rosto de MacLean se contraiu como se experimentasse uma pontada de dor.

— Foi uma boa mãe para mim quando era um moço. Então traiu a memória de meu pai. Por dinheiro.

Se MacLean não estivesse bebido, nunca teria falado com tanta franqueza. Mas estava bêbado, e Enid tropeçara com o motivo de que a desprezasse tanto. Titubeou, pois sabia que bisbilhotar na vida de lady Bess era algo desprezível, mas a curiosidade venceu a suas reservas.

— O que sua mãe fez?

— Não fazia dois meses que tínhamos enterrado a meu pai quando foi a Edimburgo e se relacionou com um mercador. — A repugnância vibrava em sua voz. — Era velho, absolutamente vulgar e muito rico.

A ideia de lady Bess, tão enérgica e afável, perdida nos braços de um arrivista velho e grosseiro estremeceu Enid.

— Ela explicou os motivos?

— Minha mãe nunca dava a ninguém explicações do que fazia, e certamente não as dava a um filho de quinze anos que ficou encarregado de sua chorosa irmã de onze.

— Meu Deus.

— Minha mãe e seu marido foram a Londres, e ele facilitou sua entrada na alta sociedade. As pessoas riam dela. Inclusive aqui ouvíamos como a ridicularizavam. — MacLean olhou as mãos entrelaçadas. Minha irmã e eu ficamos aqui, sentido a falta dela; eu me encarreguei do imóvel e Elizabeth cuidava da casa. Minha mãe revoava por Londres, vestida com as melhores roupas e fazendo caso omisso de suas obrigações.

Enid podia ver lady Bess revoando, mas não acreditava que aquela mulher tivesse feito caso omisso de suas obrigações.

— Então, quando mal transcorrera um ano, o velho imbecil morreu, e minha mãe voltou para casa, esperando receber uma calorosa boas-vindas. — MacLean sacudiu a cabeça, seu rancor ainda vivo. — Me deu sua recém conseguida fortuna para que a administrasse e pensou que deveria agradecer a ela. Mas não ia deixar me subornar tão facilmente.

— Muito bem feito. Assim terá que ser! — disse Enid em tom sarcástico. — Provavelmente essa é a razão de que nunca teve necessidade de dinheiro.

— Se equivoca, como de costume. — Ao que parecia se tornou o bastante sóbrio para lhe devolver o sarcasmo.— Os distúrbios de quarenta e cinco golpearam duramente a minha família.

Enid supôs que os MacLean estiveram envolvidos no inútil levantamento do século anterior.

— Os MacLean se recuperaram depois. Quando meu pai morreu não deixou nada exceto as terras e o castelo, e nos consideram os afortunados com essas posses. Necessidade de dinheiro? Claro, tinha quinze anos e estava furioso.

De repente Enid compreendeu a verdade. Uma verdade tão evidente que MacLean precisava ter sido cego para não vê-la.

Cego... ou embargado pela dor e a decepção de um jovem de quinze anos.

— Espera, espera. — Apertou-lhe os dedos para que atendesse. — Está me dizendo que sua mãe se casou com um velho decrépito por dinheiro. Está me dizendo que fez isso para se livrar de suas responsabilidades aqui, no castelo MacLean, para viver a boa vida na Inglaterra enquanto você lutava, tratando de sobreviver com uma renda miserável. Está me dizendo que, depois da morte do mercador, retornou com a fortuna te deu na palma da mão, te deu isso na íntegra, te disse que era muito preguiçosa para se ocupar dela, e agora nunca sai da ilha de Mull. É isso o que me está dizendo?

Ele endireitou os ombros e a olhou com uma gélida franqueza.

— Sim.

— E atribui suas ações ao egoísmo? — Enfurecida, sacudiu a mão até a liberar da de MacLean. — Deveria sabê-lo, ingrato, porco egoísta. Sua mãe arrumou as coisas de modo que não tivesse que se casar com alguma asquerosa herdeira para salvar seu imóvel!

MacLean entrecerrou os olhos verdes.

— Isso não é certo! — replicou ele com um grunhido.

Ela sacudiu o ar com as mãos.

— Não me fale. Se não pode se dar conta de que deveria amar a sua mãe só pelo fato de sê-lo, muito menos por ser uma boa mãe... não só está bêbado mas sim também é estúpido!

Ele ficou em pé. Parecia muito mais sóbrio.

— Ninguém mais pensa como você.

— É isso o que influi em você? O que pensem os outros? — Enid se aproximou e agitou um dedo ante sua cara. — Posso te assegurar que todo mundo sabe o que fez sua mãe. Pergunte a Donaldina o que pensa.

— Donaldina foi a babá de minha mãe — replicou ele, como se isso explicasse tudo.

— Muito bem. Pergunte aos homens. — Enid fez um amplo gesto. — Graeme se queixa dela. Pergunte a Graeme o que pensa de sua mãe.

— Ela costura a roupa dele. O menino lhe tem afeto. — Agora MacLean ia a provas, incapaz de enfrentar à verdade.

A Enid não importava. Queria justiça para lady Bess, e necessitava que MacLean admitisse a verdade por si mesmo... e por ela.

— Lady Bess gosta de todo mundo. Todos a adoram. Me trouxe pessoalmente a este quarto, e me contou uma bobagem a respeito de que Robert De Bruce dormiu aqui...

— Isso é certo.

— E chorei até dormir porque nunca tive uma mãe como a sua, e se queixa de que se vendeu para te salvar da escravidão conjugal. É um canalha ingrato. — Enid sentia desejos de fazer algo violento como ficar a pisotear o chão, mas endireitou os ombros e reteve a dignidade que lhe escapava velozmente. — Assim não me compare com sua mãe. É uma mulher maravilhosa, enquanto que eu... eu sou tão mercenária como teme.

— Enviei a alguém para que traga o barco de pesca.

— O que?

— O barco de pesca que tomamos emprestado para vir aqui.

— Muito bem. — Ele a confundia com sua retorcida conversação, e agora Enid sabia que o fazia de propósito, para aturdi-la. Não se sairia com a sua. — Já que o fiz chegar a este ponto, quero dizer... todo mundo sabe que não estamos casados, de modo que não corro nenhum perigo. Quero ir para casa.

Ele dava a impressão de estar menos embriagado, menos cansado, e cada vez, parecia mais o asno autoritário que ela conhecia.

— Não vai daqui até que eu tenha recordado tudo.

— É possível que nunca chegue a recordar tudo.

— Então passará aqui muito, muito tempo.

Ela apontou a porta.

— Saia e não volte.

Desta vez ele saiu.

 

— Você nunca pode sair sozinho.

Kinman se inclinou para a frente, as mãos enlaçadas nos joelhos, e olhou para MacLean com a maior seriedade. Seu interlocutor seguia sob os efeitos da ressaca.

— Tem razão.

O fogo crepitava na lareira, liberando na atmosfera da sala um leve aroma de pinheiro. Na grande sala ressoavam a conversação e as risadas da sobremesa. Tudo era como devia ser, pois MacLean se sentava com os três ingleses e com Graeme MacQuarrie, Jimmy MacGillivray e Rab Hardie, enquanto as mulheres estavam no outro extremo da sala, junto a sua própria lareira. Ali Donaldina tentava ensinar a Enid a fiar lã com um fuso, ao que parecia com pouco êxito, a julgar pelas risadas. Tudo se estava desenvolvendo tal como MacLean gostava, bate-papo de homens para ele, tarefas femininas para elas.

— Hoje nos despedimos da maioria de nossos homens, que voltam para casa — disse Kinman, — mas quem quer que o persegue está desesperado, e deve haver mais de um.

Embora Jackson se sentasse um pouco afastado do grupo, o incluíam na conversação. Por seu caráter e seu aspecto era quase invisível, mas agora elevou a mão.

— Posso perguntar, senhor Kinman, como você sabe disso?

— O homem em quem disparou no ataque ao trem...

Isso era uma novidade para MacLean.

— Jackson disparou em alguém?

— Um inglês, um oficial da tropa com a reputação de ferocidade no combate — respondeu Harry.

— Ao que parece, alguém mais estava em posse de sua lealdade — comentou Graeme.

Kinman se ofendeu, como se Graeme caluniasse a todos os ingleses.

Harry assentiu, tranquilo como sempre.

— Isso parece, ia no trem como um de nossos defensores. Matou ao maquinista e deteve o trem. Jackson disparou nele quando entrou no vagão.

MacLean olhou ao sombrio e suscetível Jackson com um novo respeito.

— Sabe disparar?

— Meu senhor anterior caçava pássaros em seu imóvel perto de Edimburgo, e insistiu em que aprendesse.

— Acreditava que seu senhor anterior era um amigo de Throckmorton. Lorde Featherstonebaugh, não?

Jackson fixou em MacLean seus notáveis olhos azuis.

— Trabalhei para vários cavalheiros em diferentes épocas de minha vida.

Fascinante. MacLean enviaria a alguém ao imóvel de Throckmorton para que pedisse uma investigação mais precisa do passado de seu camareiro.

Um acesso de risadas femininas o distraiu, e olhou uma vez mais ao outro lado da sala. Esteve constantemente com Enid durante meses. Não podia deixá-la em falta porque levassem um dia separados, e nem tão só um dia inteiro. Estremeceu ao recordar o momento em que entrou em seu dormitório pela manhã. Não podia acreditar que estivesse tão embriagado para procurá-la. Lhe contara todos os segredos de sua família porque, em alguma curva de sua mente, decidira que ela merecia conhecê-los.

Inclusive agora, quando tinha um completo domínio de si mesmo, embora acompanhado pela ressaca, seguia acreditando que ela era merecedora de suas confidências. Esteve com ele quase desde o começo daquela aventura.

Enid corria perigo por sua causa. Sem dúvida semelhante entrega justificava que lhe informasse dos acontecimentos cotidianos no castelo, inclusive de coisinhas que pareciam carecer de importância.

Kinman fez voltar a conversação ao tema que estavam comentando.

— Os outros homens subiram ao trem quando se deteve.

— Só vi dois — disse Jackson.

— Mas com a escuridão e a confusão era impossível contá-los — replicou Harry. — Sei que outro pelo menos entrou no vagão de MacLean, provavelmente pouco depois de que ele escapasse.

Kinman agarrou o braço de MacLean para que voltasse a prestar atenção nele.

— Assim já vê, MacLean, sabemos que alguém virá atrás de você. Alguém tentará de novo te matar. Alguém te armará uma emboscada.

Os homens se olharam uns aos outros com os olhos entrecerrados e a determinação que os soldados mostram antes da batalha.

— Conheço você, MacLean — disse Kinman com veemência. — Sei que resiste às limitações, mas deve compreender que são necessárias.

— Absolutamente necessárias —replicou MacLean.

Não podia entrar às escondidas no dormitório de Enid para conversar com ela, porque aquela manhã ela conseguira tirá-lo de lá. Naturalmente, ainda não estavam casados. Ela não conhecia ainda suas intenções, e deixara claro que não aceitaria que a cortejasse. Não tinha nenhum direito de entrar em seu dormitório, mas... queria ganhar esse direito.

Por desgraça, sua mãe estava certa. Ele não sabia cortejar uma mulher. Nunca teve necessidade disso; como senhor do lugar, eram as mulheres as que o cortejavam. Certamente, conhecia os rudimentos, a maneira de paquerar e de mentir a uma mulher. Mas nunca até então desejara a uma mulher que não o quisesse. Nunca até então isso importara tanto.

— Tem que atuar com naturalidade e, ao mesmo tempo, estar sempre em guarda.

Kinman espremeu as mãos. O corpulento cavalheiro parecia tão nervoso como sempre.

— Certamente.

Se MacLean não tivesse recuperado a memória, sem dúvida a teria deixado grávida.

Se endireitou em seu assento.

Talvez um menino já estivesse crescendo em sua matriz, em cujo caso teriam que se casar, à margem da falta de entusiasmo que ela mostrava.

Kinman já dissera antes, mas agora disse de novo.

— Não sabemos que informação você oculta nas profundidades de sua mente, mas o traidor demonstrou a importância que tem ao fazer o possível para o eliminar.

— Você tem razão — repetiu MacLean, aturdido.

Um filho... com Enid? A ideia convulsionou suas vísceras e o coração.

Kinman ficou em pé de um salto.

— Maldito seja, MacLean, não está me escutando!

MacLean olhou piscando ao aporrinhado e avermelhado Kinman.

— Ouvi tudo o que me disse!

— E até que ponto isso é verossímil? — se queixou Kinman.

Agora que MacLean recuperou a memória, recordava a Kinman. Chegaram a se conhecer bem quando MacLean foi a Inglaterra em busca de Stephen. Kinman era um homem consciencioso, amável, submisso, que podia competir com o melhor deles. Seu aspecto desarrumado ocultava uma mente aguda, e MacLean o respeitava.

Mas Kinman parecia acreditar que MacLean não tinha remédio, e Kiernan o tranquilizou de bom grado.

— Não tenho que sair sozinho — recitou. — A maioria dos guardiões ingleses se foram, mas ainda não estou a salvo. Não sabemos o que sei, mas o assassino demonstrou quão importante é esse conhecimento ao incendiar a quinta, deter o trem, me perseguir através da Escócia e disparar contra mim.

Kinman olhou os pés e os mudou de lugar.

— Talvez o persiga mais de um assassino.

— Isso é evidente. — MacLean olhou os sérios rostos que o rodeavam. — Eu diria que sou valente, mas não um estúpido. Não posso deter uma bala, e não irei brincar de correr por aí sem guarda-costas.

Estão satisfeitos?

Todos assentiram.

— Muito bem, então. — MacLean ficou em pé. — Vou falar com as damas. Venham se quiserem. O pior que fará qualquer delas é me cravar com o fuso.

Harry permaneceu em seu assento.

— E sabemos qual delas será.

MacLean lhe dirigiu um olhar furioso e cruzou a grande sala. Os homens o seguiram, não para proteger, como ele sabia bem, mas sim pela diversão de ver o senhor do clã MacLean se reunir com as damas.

Todos exceto Harry, que ficou onde estava e contemplou o fogo.

Quando MacLean cruzou a sala, as criadas se deram ligeiras cotoveladas umas nas outras e sorriram, enquanto a mãe baralhava suas muito manuseadas cartas. Ele quase se deteve para tocar o ombro dela. Enid não podia estar certa com respeito a lady Bess. Sua mãe se vestia de uma maneira lamentável. Fumava muito, bebia em excesso, jogava cartas. Não podia ter se sacrificado por ele e o imóvel.

Era impossível que ele tivesse sido tão duro de moleira para que lhe passasse por cima a abnegação daquela mulher.

— Mãe...

Ela ergueu a vista.

— Me diga, filho.

Ele olhou a seu redor e viu que todo mundo o estava olhando. Ali não podia interrogá-la.

— Nada — disse. — Não é o momento.

Chegou ante Enid e se perguntou o que deveria dizer a ela. Dificilmente podia perguntar se teve a regra. Então, contemplou sua cabeça inclinada e observou como a luz das velas piscava nas escuras ondulações de seu cabelo com penteado alto, como as mechas se deslizavam por seu esbelto pescoço, a maneira em que o vestido novo que Celeste deu a ela se atinha a suas curvas. Enid era formosa.

Ele a queria. Seu corpo e seu instinto identificavam a seu doce e perfeito casal.

A doce e perfeito casal elevou a vista e disse bruscamente:

— Vá embora ou sente. Está me tirando a luz.

 

No que Enid estava pensando quando jogou MacLean de seu dormitório?

Sabia, naturalmente. Esteve pensando em que retornaria logo ao lar... em qualquer lugar que estivesse seu lar. Certamente não era ali, no castelo MacLean, onde um inglês espreitava em cada canto, espreitado a sua vez por um escocês, e a regularidade com que os encontrava lhe parecia suspeita. Nos quatro dias transcorridos desde sua chegada começou a suspeitar que a seguiam.

Se voltou com rapidez e olhou atrás. O longo corredor do andar de cima estava sumido na penumbra, mas nada poderia justificar seu ataque de nervos. Olhou o busto de mármore em um pedestal, examinou os vãos das janelas. Não havia nada. Tudo o que podia ver do exterior era a chuva constante e torrencial e a chegada do crepúsculo violeta.

Precisava se dominar e recordar quem era. Enid MacLean, uma mulher que não demoraria para ter um trabalho monótono no que um dia seguiria ao outro sem nenhuma mudança, nenhuma emoção... nem o desejo inútil de longas noitadas na grande sala onde Kiernan MacLean se sentava, a olhando com semblante reflexivo.

Todo mundo no castelo contemplava ao absorto MacLean com evidente regozijo.

Ela evitava lhe olhar a todo custo, mas sabia sempre que ele estava ali sentado, com o traje tradicional escocês, meias de lã tecidas à mão e seguras com ligas sob os joelhos, sua preciosa bolsa, atada à cintura, e uma saia escocesa que permitia ocasionais e imponentes vislumbres de suas musculosas coxas... e mais acima.

Enid suspirou. Isso explicava por que lhe custava tanto descer a sala para jantar. Durante quatro dias encaixara aquele constante e fatigante escrutínio, e começava a derramar coisas, a se esquecer do que acabava de dizer, a ruborizar sem nenhum motivo. Aquela situação a estava afetando negativamente. Disse a si mesma que oxalá ocorresse algo. Oxalá o malvado se revelasse! Mas embora nenhum dos homens estivesse disposto a falar da situação com ela, pois não queriam transtornar sua delicada sensibilidade feminina, ela sabia que deviam estar sopesando a probabilidade de que seu criminoso partiu com os guardiães ingleses.

Quanto tempo demorariam para declarar MacLean livre de risco e a ela em condições de voltar para casa? Às vezes se perguntava se MacLean a mantinha ali pelo prazer de atormentá-la. Sabia onde estava seu dormitório, e embora ela agora passava a chave na porta, ele podia obter a chave. Estava decidida a impedir que se deitasse com ela. Mas como desejava evitar essa prova!, pois de noite seu corpo desejava o contato de MacLean. Quando dormia, sua mente errava com ele pelas colinas escocesas, e sempre encontravam uma choça em um lugar onde não soprava o vento e o sol esquentava, e faziam amor enquanto as montanhas lhes sussurravam sua aprovação. Imaginava que, desde alguma parte do castelo, MacLean lhe enviava pensamentos de desejo, e parecia como se cada noite lhe ordenasse com crescente vigor que se reunisse com ele.

Por isso imaginava que alguém a observava. Sempre confiava em que fosse MacLean.

Com as mãos enlaçadas à costas, avançou de novo pelo longo corredor com as paredes lotadas de retratos de senhores mortos muito tempo atrás, de seus cães, seus cavalos e suas esposas. O retrato do extremo a atraía em particular, a pintura em que aparecia o último senhor com sua esposa, lady Bess, seus filhos, Kiernan e Elizabeth, lady Catriona... e Stephen. Enid contemplou aos dois moços, um ao lado do outro, como se fossem amigos. Stephen era mais velho que Kiernan, tinha dezessete anos e seu primo onze, mas Kiernan já o superava em altura e largura dos ombros.

O artista inclusive captara o encanto que Stephen cultivava e a áspera impaciência de Kiernan ao se ver obrigado a permanecer quieto. Dois MacLean, criados juntos mas tão diferentes.

— Era arrumado, não era? — disse uma voz feminina entrecortada ao lado de Enid.

Enid se voltou, sobressaltada.

Embora não tivesse voltado a ver a dama desde a primeira noite, reconheceu a lady Catriona. A mulher tinha o cabelo cinza recolhido em um coque e toucado com um gorro de viúva de renda negro.

Seu rosto estava envelhecido, se vestia completamente de negro e tinha um enrugado lenço entre os dedos nervosos. Não podia ser muito mais velha que lady Bess; Enid pensou que inclusive devia ser mais jovem, mas os anos de lady Catriona se revelavam nos ombros caídos, na figura maciça e nas rugas ao redor da lânguida boca e nos olhos bordejados de vermelho.

— A alarmei? — Lady Catriona não ultrapassava em altura o queixo de Enid. — Não era meu propósito. Estava tão absorta no retrato de meu querido moço...

— Sim... estava.

Pelo menos assim ela supunha, mas lady Catriona devia ser capaz de deslizar sem fazer o menor ruído para ter pego Enid tão despreparada.

— Sou lady Catriona MacLean. —Estendeu uma mão trêmula. — Peço desculpas por não tê-la saudado antes, mas estive encerrada, chorando a morte de meu filho.

— Claro. — Enid não podia se sentir mais incômoda. Era a viúva do filho daquela mulher, mas ela não chorou sua morte. —- Lamento a perda que sofreu.

— Obrigado. — Os esvaídos olhos azuis de lady Catriona se encheram de lágrimas. — Mas é nossa perda, não é certo?

— Sim, obrigado — replicou Enid, embora lady Catriona não lhe deu exatamente o pêsames.

— Não me senti com ânimos para comer com a família. Careceram por completo dos sentimentos apropriados nestes tristes momentos.

— OH... sim. — Enid supôs que com essa observação a mulher queria dizer que ninguém mostrara pesar pela ausência de seu filho. — Mas Stephen partiu há tanto tempo atrás que estou segura de que já haviam lamentado antes sua perda.

— Não desculpe seu comportamento. São uma vergonha.

Como ela mesma o era, supôs Enid, posto que defendia à família. Por outra parte, algo matreiro no olhar de lady Catriona revelava sua desaprovação de Enid, de cujo vestido de veludo vermelho rubi não podia se dizer que fosse um traje de luto. Enid esteve a ponto de lhe dizer que tinha perdido todos seus objetos em um incêndio, mas isso não serviria de desculpa a lady Catriona. A mulher jamais tentara se relacionar com Enid depois do casamento, nunca fizera o esforço de recebê-la em sua família, nunca até então lhe devotara sua amizade. A falta de decoro não era somente de Enid.

Ao ver que a jovem não dizia nada mais, lady Catriona acrescentou:

— Conheço Kiernan desde que era um bebê, e é o pior de todos. Um fanfarrão astucioso que sempre se acreditou melhor que Stephen porque tem o título.

— Seriamente? — Enid notou uma rigidez nos lábios. — Eu não teria pensado tal coisa dele.

— Isso se deve a que Stephen nunca se queixou. Stephen sempre foi o primo mais velho, amável e considerado. — Lady Catriona pronunciou devagar o nome de seu filho, e seus olhos cintilaram ao acrescentar: — E Kiernan sempre foi um ingrato.

Enid se sentiu impulsionada a protestar.

— Kiernan foi em busca de Stephen para resgatá-lo.

Lady Catriona ergueu a cabeça e sorriu com uma cortesia imóvel e fria.

— Chama Kiernan por seu nome de batismo?

Acaso aquela conversação estava semeada de armadilhas?

— O chamei como você o tem feito. Me dirijo a ele chamando MacLean. Aqui todo mundo o chama assim.

— Ah. — Lady Catriona desviou a vista do retrato. — Bem, Kiernan não resgatou Stephen, e meu pobre coração de mãe se pergunta se fracassou de propósito.

Enid nem sequer pensou duas vezes antes de replicar bruscamente:

— Que barbaridade acaba de dizer, lady Catriona. MacLean jamais fracassaria de propósito em qualquer missão que empreendesse!

— Deveria ter sabido que estava do lado dele. Stephen nem sequer pode contar com sua própria esposa para o defender como merece. — As lágrimas se amontoavam nos olhos de lady Catriona, e as enxugou com o lenço.

— Sou a única que compreendia a meu querido filho.

Aquela mulher era uma aranha manipuladora, e Enid permitira que lady Catriona a dirigisse de uma maneira como ela jamais teria imaginado. Ansiava partir dali, mas em vez de fazê-lo perguntou cortesmente à dama:

— Teremos esta noite o prazer de sua companhia?

— Não. — Lady Catriona exalou um suspiro. — Não. Queria te conhecer, mas temo que esta profunda aflição me esgotou. Voltarei para meus aposentos. Me trarão uma bandeja de comida, embora mal pude provar um bocado.

Enid contemplou lady Catriona enquanto esta se afastava, uma alma perdida na galeria de membros do clã MacLean prodigiosamente vibrantes. Então olhou de novo o retrato de Stephen e, pela primeira vez em nove anos, sentiu lástima por ele.

 

O jantar na grande sala do castelo MacLean era uma reunião com abundância de manjares, festiva, em que estalavam as risadas, havia uma discussão de vez em quando e uma frequente paquera. Só quem ocupava a cabeceira da mesa permaneciam sossegados. Ali MacLean e Enid se sentavam em uma ilha de silêncio, um silêncio devido no qual MacLean parecia incapaz de sustentar uma conversação. Quando lhe perguntavam algo respondia com um sim ou um não. Inclusive em ocasiões podia formar frases completas. Mas, em geral, olhava para Enid como se tentasse discernir algum assunto importante que só concernisse a ele.

Uma vez retiradas as cobertas dos recipientes e servido o brandy, Enid disse a si mesma que já estava farta do ameaçador olhar de MacLean.

— Esta noite falei com lady Catriona — anunciou em voz clara.

O tinido dos talheres de prata contra a louça diminuiu. Cessou a conversação. Enid elevou a vista de seu prato e viu que todos os escoceses se voltaram para olhá-la, todos com idênticas expressões de desgosto e simpatia.

— Deus meu — se limitou a dizer lady Bess, que normalmente era tão eloquente.

Finalmente MacLean se viu obrigado a falar.

— O que te disse?

Enid alisou o guardanapo sobre seu colo.

— Queria me ver para que pudéssemos compartilhar nossa mútua aflição.

— Um bom gesto por sua parte — comentou MacLean. — Agora nos diga, o que te disse realmente?

Enid brincou de novo com o guardanapo.

— Temo que a ofendi por não ter usado um traje de luto.

— Nesse aspecto todos a ofendemos. — Lady Bess acendeu um de seus pestilentos charutos.

MacLean olhou para Enid sacudindo a cabeça com gesto solene.

— É impossível não ofender a minha tia. Se a insultou, peço perdão em seu nome.

— Não. — Agora Enid se sentia como a própria lady Catriona, manipulando MacLean para sua própria satisfação. — Me pareceu uma mulher desventurada.

Lady Bess exalou um jorro de fumaça.

— Isso ela é sempre.

— E um pouco... desequilibrada — concluiu Enid.

— Está como uma cabra, o mesmo que o resto de sua família — conveio lady Bess. — Sempre o acreditei assim.

MacLean se voltou para sua mãe.

— Come pelo menos?

— OH, por favor — Lady Bess fez uma careta. — Quando viu lady Catriona tão melancólica que não possa comer?

— Então não vou me preocupar com a possibilidade de que se consuma. — MacLean retirou a cadeira para trás e se levantou. — Vamos à lareira?

— Não. — Enid também se levantou. — Estou cansada. — E mal-humorada e deprimida, todos eles sinais seguros de que lhe chegava a regra. — Vou a meu quarto.

— A acompanharei — replicou MacLean.

— O que? — Enid olhou as pessoas reunidas, todos aqueles ouvidos dispostos a escutar a declaração notavelmente comprometedora do senhor da casa. — Por quê?

— Porque a escada é longa e está às escuras, assim como o corredor. Necessita escolta, alguém que leve sua vela.

Ela franziu carrancudamente os lábios.

— Não é decoroso que acompanhe a meu dormitório.

— Querida minha — interveio lady Bess com um sorriso plácido, — isto não é a Inglaterra, com todas suas regras caprichosas e sua severa etiqueta. De fato, aqui, na Escócia, temos uma instituição chamada handfast, em que o casal se casa por um ano e um dia e, se tiverem um filho, o casamento é vinculado.

— E se não tiverem um filho, o que faz a mulher? Declarar um fracasso e partir cabisbaixa? — As faces de Enid ardiam. Ela fora a esposa em um casamento fracassado e sabia o que era ser objeto de lástima e desdém. — Por que qualquer mulher consentiria em semelhante acerto?

— Não se trata exatamente de obter o consentimento da mulher — replicou MacLean. — O handfast é uma herança do passado remoto, quando um homem se apoderava da noiva à margem do que ela desejasse.

Para Enid não importava o tom e as palavras, e quis lhe afligir com uma frase lapidária.

— Graças a Deus que vivemos em uma época iluminada.

Ele não pareceu afligido. Inclusive o leve sorriso que apareceu em seus lábios a fez temer que talvez ele estivesse considerando a possibilidade de levar a cabo uma ação tão drástica. Mas não, nada disso.

MacLean não queria se casar com ela. Já era bastante mau que tivesse fornicado com ele, e não só uma vez... levou a palma da mão à testa. Fornicou com ele uma e outra vez quando já conhecia sua verdadeira identidade!

— Sua cabeça dói? — perguntou MacLean no tom acariciante que lhe recordava aquele dia nas montanhas escocesas, ao mesmo tempo que punha a mão no seu ombro.

Ela escapou do contato e se afastou rapidamente.

— Estou bem! —replicou com brutalidade.

MacLean lhe sorriu de novo, e por sua maneira de olhá-la, transbordante de força e domínio, Enid pensou que ele realmente esteve exercendo sua vontade para levá-la a seu dormitório.

Se voltou para lady Bess.

— Não sou escocesa e, portanto, não estou sujeita a suas leis arcaicas.

Lady Bess riu de boa vontade.

— Sim que está, querida, mas isso não se questiona.

— Não, o que se questiona é minha capacidade para levar minha vela — replicou Enid com aspereza, — e o fiz perfeitamente durante quatro noites seguidas. Posso voltar a fazê-lo esta noite.

— De todos os modos a acompanharei — disse MacLean com uma segurança inflexível.

Se lhe respondia que esteve de brincadeira, que na realidade não ia à cama, isso só teria servido para postergar o inevitável. Ao final, ele a acompanharia. Posto que conhecia sua teimosia, sabia que era inútil seguir se opondo. Mas a escoltaria somente até a porta do dormitório. Ela tomou a firme decisão de que fosse assim.

De modo que sorriu, uma careta breve e tensa, sem efusão.

— Como deseja, meu senhor — replicou, e se encaminhou à escada. Ele começou a segui-la. Enid se deteve. — Esqueceu da vela, MacLean.

Ele franziu o cenho, e Enid esperou que ele dissesse que não queria se incomodar pela condenada vela. Mas quando uma sorridente criada lhe ofereceu uma só vela acesa em uma palmatória, ele a aceitou e seguiu Enid escada acima e pelo corredor dos retratos.

— Você gosta do castelo? — perguntou MacLean.

Enid piscou e se perguntou por que importava a aquele homem o que ela pensasse.

— Sim, eu gosto muito. Aqui o peso da história resulta entristecedor.

— Cinquenta gerações de MacLean tiveram seu lar neste afloramento rochoso. O primeiro dos MacLean chegou aqui com a maré e se estabeleceu no primeiro lugar que o permitia se defender. Nunca partimos. — Como se lhe tivessem secado as palavras, MacLean deixou de falar.

Mas aquela noite dissera mais coisas que nas quatro anteriores, por isso o estimulou a seguir.

— O castelo é tão grande que nem sequer sei quantos níveis tem.

— Quatro. — MacLean pigarreou. — Quatro níveis. Uma multidão de senhores do clã foram acrescentando partes ao castelo, O edifício original era de madeira, com um fosso, pensado para lutar contra ingleses e vikings. Logo o castelo se reconstruiu em pedra, com torres ameadas das que se podia vigiar a terra e o mar.

Graças a sua estadia ali, agora Enid podia entender melhor a ilimitada arrogância dos MacLean. Ou chamá-la como o que realmente era: sua presunção.

Embora ele somente parecia prestar atenção à vela, perguntou-lhe:

— Por que sorri?

Ela não percebeu que estava sorrindo, mas não tencionava lhe provocar.

— Então os MacLean repeliram ao inimigo durante todos estes anos?

— Sim... mas as mulheres MacLean também se saíram sempre com a sua. Por isso há certas esculturas...

Mostrou uma cena de batalha esculpida em uma tábua de nogueira e pendurada no meio do corredor. Enid examinou a imagem de uma decapitação, do sangue que brotava, de inimigos arrastados sob um cavalo.

— Muito feminino — comentou.

— Que sarcástica é. De acordo. — Em um tom beligerante, disse: — O que me diz disso? Um vaso.

Um vaso chinês da dinastia Ming sobre um pedestal de mármore.

— Incrivelmente formoso.

— Nenhum varão MacLean o comprou. — MacLean apontou o vaso com um gesto da cabeça. - Alguma esposa MacLean o quis ter e seu marido não pôde se negar.

Enid conteve seu regozijo.

— Suponho que isso explica também os tapetes e as tapeçarias.

— Sim, em efeito. Os varões MacLean não apreciam a beleza, mas mimam sem cessar a suas mulheres.

— Então suponho que normalmente se casam com mulheres feias.

— O que? Não! —- A olhou fixamente. Seu olhar se suavizou. Sua voz se converteu naquele ronrono adulador que estremecia a espinha dorsal de Enid. — Não, os varões MacLean reconhecem a beleza em suas mulheres, e quando encontram a seu verdadeiro amor, não veem beleza em nenhuma outra.

O sorriso afetado de Enid desapareceu de improviso. O comentário de MacLean sobre o castelo era algo mais que a torpe tentativa de um homem de entretê-la. Estava mostrando interesse por ela. A estava cortejando.

— Parece um tanto pasmada, moça —disse ele com um sorriso satisfeito. — Está bem?

— Estou bem, obrigado — replicou ela, mas em um sussurro.

A estava cortejando.

Mas não era isso. Ela se equivocava.

Estava lhe apresentando seu lar como uma jóia em uma bandeja de prata.

Entretanto, disse de maneira terminante que era uma mercenária indigna de lhe lavar os pés. A chamou de bastarda. Perguntou se Throckmorton pagou para que se deitasse com ele.

Mas pediu desculpas. Enid esfregou a testa. Aquilo não podia estar acontecendo. Antes foi desventurada, agora se sentia presa do pânico, atemorizada, quase doente pela necessidade de se pôr a correr até que não pudesse mais. E por quê? Tudo o que devia fazer era se negar. Não havia armadilhas ocultas, ela conhecia todas. Pisara em todas.

— Sim, tem dor de cabeça— afirmou ele em um tom meloso.

— Não.

Claro que não lhe doía a cabeça. Estava bem. Era forte.

— Deixe que eu massageie suas têmporas.

— Não!

Poderia superar o pânico que apertava suas vísceras uma vez que tivesse enfrentado a verdade. Talvez a ideia de viver sob a generosidade de MacLean fosse levianamente atraente, mas se consentia em ser sua esposa, sempre saberia que ele estava decepcionado por sua escolha de uma órfã inglesa, e sempre estaria à espera que voltasse a ser a mulher ambiciosa que, conforme acreditava foi antes.

Cobiça... seu olhar percorreu os retratos, os vasos, a segurança encapsulada pela mera exibição da riqueza. MacLean tinha uma casa esplêndida, certamente. Uma família nobre. Se casava com ele, sempre estaria segura. Fez um esforço para afugentar a tentação.

Então, ela sobreviveria a aquela penosa experiência se valendo do engenho que adquirira nas difíceis circunstâncias de sua vida. Mudaria de tema. Seguiu avançando pelo corredor.

— Tenho que te perguntar algo sobre seus costumes escoceses.

— Seriamente? — Seu acento lhe sentava como uma capa bem ajustada. — Me alegra que deseje se informar sobre nossos costumes escoceses.

Por seu modo de dizer, parecia como se tivesse pedido que lhe mostrasse seus costumes, e isso não era certo. Só necessita algo com que encher o silêncio.

— Por que usa a saia escocesa e a bolsa? — perguntou apressadamente. — Stephen me disse que são coisas antiquadas.

Quando MacLean inclinou a cabeça para olhá-la, parecia mais alto e largo que nunca. Uma ilusão, certamente, pois embora seus passeios diários ao redor do castelo, acompanhado pelos ingleses e seus escoceses, provavelmente contribuíram para seu bem-estar, tinha muita idade para mudar tanto de fisionomia como de maneira de pensar.

— Depois de quarenta e cinco, os britânicos trataram de eliminar o traje tradicional, como tentaram eliminar aos próprios clãs. Se opunham sobretudo à bolsa, posto que um homem podia ocultar uma arma nela. — MacLean tocou a pele chamuscada. — A explosão destroçou a minha, mas, como pertenceu a meu pai, a levarei sempre.

— Um sentimento admirável — comentou ela com os batimentos de seu coração apaziguados.

— Aqui as lembranças se remontam a muito tempo atrás, e embora nos vimos obrigados a conviver com os ingleses, não esquecemos nossas tradições. — Seus lábios esboçaram um sorriso. — É curioso. Agora nos "permitem" vestir nossos tartãs e nossas saias, e estes objetos estão se pondo de moda entre os ingleses aos que visito. — MacLean se aproximou mais a ela. — Alguns diriam que a razão de que o escocês use saia é porque resulta mais fácil elevá-la para as garotas. Quer que eleve a minha para você?

Lhe fizera uma pergunta inofensiva e, de algum jeito, ele fez que a conversação avançasse por uns roteiros francamente escandalosos. E não é que ela não se sentisse excitada. Cruzou os braços sobre o peito.

— Estou segura que debaixo veste algum tipo de objeto interior — disse em um tom severo.

Ele franziu os lábios e fez um gesto negativo com a cabeça.

— É a tradição. Não quererá que rompa com a tradição, não é?

— Isso... é escandaloso!

E estava escandalizada de si mesma pelo número de vezes que perguntara. Depois de o olhar com repugnância, reatou seu avanço pelo corredor a grandes passo para se livrar dele quanto antes.

Foi em vão; MacLean a