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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


ENTREGUE / Christina Dodd
ENTREGUE / Christina Dodd

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblio VT

 

 

 

 

Inglaterra, 1839.

A recém-fundada e Distinta Academia de instrutoras é uma iniciativa valente, obra de três jovens damas de boa família, belas e arruinadas. A primeira cliente da Academia contrata a uma das fundadoras, lady Charlotte Dalrumple, para ensinar a seus desajeitados netos as regras da boa sociedade.

Mas quando é apresentada à família, Charlotte se dá conta que o pai, que se foi da Inglaterra aos quinze anos para viver entre os beduínos, também necessita instrução. De aparência agradável, o visconde Wynter Ruskin cedeu aos requerimentos de sua mãe porque abriga seus próprios planos em relação a jovem: necessita esposa e Charlotte cumpre os requisitos à perfeição. E enquanto Wynter a introduz na arte da sedução, Charlotte ensina ao obstinado visconde coisas sobre as mulheres e seu próprio coração que não tinha nem ideia.

 

 

 

 

Lady Charlotte Dalrumple, a senhorita Pamela Lockhart e a senhorita Hannah Setterington.

Estão fartas de se esforçar uma e outra vez para que as despeçam sem mais.

Convidam-lhes a visitar

A Distinta Academia de Instrutoras.

Nascida da determinação de se fazer com as renda de suas próprias vidas oferecendo-lhes as melhores instrutoras, damas de companhia e instrutoras para atender qualquer necessidade.

A serviço da alta sociedade desde 1 de março de 1840.

Ontem

 

Adorna, a viscondessa Ruskin, leu uma vez mais as recarregadas letras do cartão de convite que tinha na mão. Depois levantou a vista para observar a alta casa de pedra calcária que se elevava frente a ela. Sob a luz do sol de março londrino, com o céu encoberto, tinha um aspecto bastante respeitável, embora ligeiramente maltratado. Aquela vizinhança passara da moda quando Adorna era jovem, uns trinta anos atrás, entretanto muitas das melhores famílias da Inglaterra seguiam vivendo naquela mesma rua. Pensar nisso contribuiu com certa dose de esperança.

Colocou o cartão entre as páginas do livro de mão que levava consigo, subiu os degraus que conduziam até a porta e apertou o timbre. Em pouco tempo, a porta se abriu.

Atrás da porta apareceu um mordomo, um autêntico mordomo da velha escola, com peruca polvilhada e calças com joelheiras. A olhou de cima abaixo de uma só vez, com um exaustivo olhar. Depois do repasse executou uma reverência tão ostentosa que sua bandagem rangeu, e com um marcado acento de classe alta, mais evidente inclusive que o da jovem rainha Vitória, disse:

—No que posso ajudá-la, senhora?

—Sou a viscondessa Ruskin.

Soube imediatamente, pela expressão de seu rosto, que o mordomo reconhecera seu nome, embora não esclarecia se devia a sua riqueza, a suas conexões ou à fama que a precedia. Tampouco importava saber o certo. A Adorna fazia muito tempo que aceitara seu papel social: ser a mulher mais formosa da Inglaterra.

O mordomo deu um passo atrás para lhe permitir entrar e disse:

—Senhora Ruskin, na Distinta Academia das Instrutoras da senhorita Setterington nos sentimos muito honrados com sua presença.

Ao transpassar a porta, brindou ao mordomo com o sorriso de admiração que dedicava a todos os homens que cruzavam sua frente, sem importar seu status social ou sua idade.

—Qual é seu nome?

Uma escura vermelhidão tingiu suas faces e sua testa, mas sua expressão não variou um ápice.

—Meu nome é Cusheon, senhora.

—Cusheon. Que nome tão encantador. Os lábios do velho mordomo se curvaram muito ligeiramente.

—Obrigado, senhora.

—Vejo que sorri. Sabia que poderia fazê-lo. - Adorna desfrutava enrolando aos tipos mais estirados. - Cusheon, vim para falar com as proprietárias deste estabelecimento.

Estalou os dedos e imediatamente apareceu um criado jovem para se encarregar do chapéu e do casaco da mulher. Ela roçou o queixo dele com o polegar.

—Recorda muito a meu filho quando tinha sua idade - disse ela. - Parece como se tivesse se melado de farinha.

—Estava ajudando ao cozinheiro com o pão - disse o moço.

—Wynter também estava acostumado a fazê-lo - afirmou a mulher e, a contra gosto, deixou o jovem partir. Nos últimos tempos, mudaram muitas coisas em sua vida. Mudanças para o bem, para falar a verdade. Não poderia ser de outro modo.

—A senhorita Hannah Setterington está atendendo a uma condessa - disse Cusheon - mas, se me permitir, irei comprovar se já finalizou a visita.

—Obrigado. Isso estaria muito bem.

Enquanto o mordomo percorria o vestíbulo com andar majestoso, ela se dedicou a lançar uma olhada a seu redor. Apesar de que as mesas estavam um pouco passadas de moda, ali brilhava e cheirava a cera recém-polida.

Era impressionante. Tudo estava muito bem cuidado. O qual a relaxou um tanto.

O mordomo se deteve em frente a uma enorme porta dupla e chamou. Depois de receber a permissão do interior, entrou. Voltou a sair em uns segundos.

—A senhorita Hannah Setterington e a condessa já puseram fim a seu encontro. Se quiser me acompanhar, senhora.

Quando se aproximavam do escritório, uma mulher velha, encurvada, muito abrigada para combater o frio do mês de março, saiu ao vestíbulo agarrada ao braço de uma mulher bastante alta. Com voz aguda, a condessa disse:

—Senhorita Setterington, desfrutei enormemente de sua companhia. Asseguro que você pode seguir contando com meu patrocínio.

Aquela mulher era a senhorita Setterington? Surpreendida, Adorna estudou a jovem embelezada com vestido negro.

Não esperava que a proprietária do negócio fosse uma mulher tão jovem, embora sua facilidade no trato evidenciava que a senhorita Setterington tinha uma ampla experiência em tratar com gente mal-humorada e altiva se assim fosse.

De fato, bateu na mão enluvada que repousava em seu braço ao mesmo tempo que a passava para Cusheon.

—Obrigado, senhora. Nós adoramos estar a seu serviço. - Com um sorriso e uma leve inclinação, se voltou para Adorna. - E, é obvio, estaremos encantados de servi-la também, senhora. Passemos ao escritório, se não se importar...

Adorna jogou uma última olhada à velha condessa enquanto se afastava coxeando e depois seguiu à senhorita Setterington ao interior de uma ordenada biblioteca.

O fogo ardia na lareira, os tapetes Aubusson estavam bem confeccionados e limpos e dezenas de livros encadernados em couro cobriam as estantes.

—Acreditava conhecer todos os membros da nobreza na Inglaterra - disse Adorna, - mas não recordo já ter visto esta condessa.

—Lady Temperly viaja muito - respondeu a senhorita Setterington. - Por isso tem dificuldades para encontrar companhia. Muitas jovens não querem sair da Inglaterra.

—Lady Temperly. - O nome lhe resultava familiar. - Não, não acredito ter tido o prazer de conhecê-la. - Embora Adorna acreditava ter escutado alguma fofoca a respeito de sua pessoa não fazia muito. Entretanto, não dispunha agora de tempo suficiente para se preocupar pela velha lady Temperly. Seus próprios problemas a apressavam.

A senhorita Setterington lhe indicou que tomasse assento frente a uma delicada escrivaninha de nogueira, e Adorna se sentou. Aquela escrivaninha também parecia fora de moda, embora estivesse bem sortida e ordenada, com seu tinteiro, seu abridor de cartas e seu punhado de plumas. Todo tipo de fichas se empilhavam sobre a escrivaninha. Enquanto a senhorita Setterington a rodeava para se sentar, Adorna inclinou a cabeça para ler as notas. "Marquesa Winokur", leu em uma das fichas. "Baronesa Rand", em outra. Saber que não era a primeira a fazer uso dos serviços da Distinta Academia de Instrutoras a reconfortou.

—Dou por obvio que posso confiar em sua discrição, senhorita Setterington.

A senhorita Setterington se sentou em uma elegante cadeira e estendeu a mão para pegar uma das fichas em branco.

—Certamente, senhora.

—Necessito uma instrutora. - Quando a senhorita Setterington se dispunha a responder. Adorna elevou uma mão. - Não uma instrutora qualquer.

Encontro-me em uma situação bastante incomum, e a mulher que contrate deve dispor de uma sólida moral e uma determinação inquebrável.

—Lady Charlotte Dalrumple responde a essa demanda - replicou sua interlocutora imediatamente.

Adorna estudou à senhorita Setterington e se perguntou se estava zombando dela.

—Você duvida de minhas palavras, senhora, porque respondi sem sequer pensar, prosseguiu a senhorita Setterington, mas se tivesse que escolher unicamente duas frases para definir lady Charlotte Dalrumple teria escolhido exatamente as que você disse.

Suponho que você terá ouvido falar dela devido ao êxito conseguido por seus alunos. Nos nove anos que leva exercendo como instrutora, se encarregou de seis alunos incorrigíveis e os preparou à perfeição para sua apresentação em sociedade.

Sem dúvida você deve ter ouvido falar do jovem lorde Marchant, conhecido por seu caráter dissipado e por ter se negado a se inclinar ante a rainha...

—Sim, claro! - Adorna escutara comentários a respeito e, pela primeira vez em duas semanas, sentiu crescer a esperança em seu peito. - Foi lady Charlotte Dalrumple a que se encarregou dele?

Dona Afetada, acredito que era assim como chamava a sua instrutora.

—O resto de suas referências são igualmente impecáveis - disse a senhorita Setterington após afundar uma pluma no tinteiro e escrever "Viscondessa Ruskin" em uma das fichas. - A senhorita Adler foi uma de suas alunas, e também lady Cromble.

O breve indício de esperança de Adorna se esfumou.

—Lady Charlotte prepara jovens adolescentes para sua apresentação em sociedade. Mas... em meu caso... não se trata de adolescentes.

—Ela já não deseja se dedicar exclusivamente a preparar adolescentes.

—Por quê?

—Está no andar de cima. A chamaremos para conversar com ela e assim poderá perguntar-lhe. Pegou a campainha que tinha sobre a escrivaninha e a fez soar.

Cusheon não demorou em aparecer, e lhe pediu duas coisas: que chamasse lady Dalrumple e que trouxesse o chá.

Quando se foi, Adorna sorriu com uma estranha mescla de encanto e curiosidade insalubre.

—Enquanto esperamos, senhorita Setterington, você poderia me falar de como vocês puseram em marcha a Distinta Academia de Instrutoras.

Adorna percebeu que a senhorita Setterington tentou de um modo sutil mascarar uma involuntária expressão de... alarme?... ficando em pé.

—Eu adoraria, mas possivelmente deveríamos nos pôr mais cômodas enquanto esperamos o chá.

Adorna escolheu uma das poltronas que havia junto à lareira, e a senhorita Setterington preparou a pequena mesinha entre as duas.

—Aqui estaremos mais cômodas - disse se sentando na poltrona do lado oposto ao de Adorna. - Nós a chamamos a Escola de Instrutoras.

—Cruzou as mãos sobre seu colo e sorriu com tal satisfação que Adorna pensou que certamente interpretara mal seu anterior sobressalto. - Se trata de um projeto criado entre lady Charlotte Dalrumple, a senhorita Pamela Lockhart e eu mesma.

Adorna assinalou para a escrivaninha, com todas as pastas em cima.

—Vocês têm um bom número de clientes para ser um negócio novo.

—Sim, entre todas reunimos muitos anos de experiência.

Adorna piscou. A senhorita Setterington não respondera realmente a seu comentário.

A senhorita Setterington, de fato, prosseguiu em sua linha:

—Ofereceremos instrutoras, acompanhantes para pessoas idosas e para bailes, assim como professoras de piano e de costura. À medida que vamos crescendo, formaremos a nossas próprias professoras.

Breve, quando alguém necessite alguma dessas coisas, pensará automaticamente na Escola de Instrutoras.

A ideia parecia tão novidadeira, e entretanto tão lógica, que Adorna se maravilhou que a ninguém tivesse ocorrido antes.

—Semelhante iniciativa parece uma difícil empreitada para três senhoritas. Não pensaram na possibilidade que um homem lhes desse uma mão?

O sorriso desapareceu do rosto da senhorita Setterington.

—Nenhuma das três está casada, e já sabe o muito que às pessoas gostam dos mexericos.

Adorna fora o alvo de inumeráveis fofocas ao longo de toda sua vida.

—Já pude assegurá-lo.

—Temo que uma influência masculina desse tipo não seria bem interpretada. - A senhorita Setterington disse para concluir com o assunto: - Não, teremos êxito por nossa própria conta.

—Você me recorda muito a minha tia Jane. É uma artista famosa e se nega a se dobrar ante as fofocas das pessoas cegas.

A senhorita Setterington arrumou o vestido.

—Então, talvez nós lhe demos excessiva importância a algo que não a tem.

—OH, não. Sua iniciativa já foi interpretada mal. Minhas amigas disseram coisas muito pouco amáveis quando receberam seu cartão.

A senhorita Setterington cravou em Adorna seus brilhantes olhos castanhos.

—Pouco amáveis?

Adorna passou a mão pelo queixo para tentar recordar com precisão.

—Insensato, incrível e absurdo, disseram. - tirou as luvas já pensando no chá. - Mas minhas amigas foram educadas para ser um punhado de velhas mal-encaradas.

A senhorita Setterington fez rodar os olhos.

—E o são?

—As ouvindo falar agora, a ninguém não ocorreria pensar que, em seu dia, também sujavam os vestidos ou que passavam a noite dançando a valsa. - Adorna sorriu ao recordar as escandalosas noites de suas festas de apresentação.

—Para falar a verdade, se não estivesse tão desesperada, faria o que me correspondia fazer e teria aceitado a recomendação de minhas amigas na hora de escolher uma instrutora.

—Nos alegramos que não o fizesse - assegurou a senhorita Setterington.

Adorna também se alegrava. Não ficara iludida com respeito a que suas amigas, por próximas que fossem, pudessem manter em segredo aquela delicada situação.

A senhorita Setterington a arrancou de seus pensamentos.

—O chá já está aqui, e o traz a própria lady Charlotte.

Lady Charlotte Dalrumple. Adorna mal pôde acreditar o que estava vendo ao observar aquela jovem entrar no escritório conduzindo a pesada bandeja de prata.

A senhorita Setterington tinha descrito lady Charlotte como alguém de uma sólida moral e uma determinação inquebrável.

Não parecia o bastante corpulenta para conter em seu interior ambas as virtudes. Além disso, era muito jovem, sem dúvida não devia ter mais de vinte e dois anos, e muito delicada, de busto curvilíneo e uma fina cintura que um homem poderia ter abrangido facilmente entre as duas mãos. Seu rosto era doce, não havia melhor definição para ele, e seus lábios eram muito carnudos e sugestivos. Seu cabelo tinha uma tonalidade acobreada que parecia refletir à perfeição o brilho do fogo entre suas mechas, e o levava dividido pela metade e o mantinha afastado de seu rosto o recolhendo em uma rede para cabelo negra que atenuava seu fulgor. Mas não importava o muito que lady Charlotte se esforçasse em atenuar o vibrante colorido natural de suas faces, a covinha que se formava em seu queixo eliminava qualquer tentativa por transmitir severidade.

Só após deixar sobre a mesa a bandeja, sortida com pequenos pastéis e toda uma variedade de biscoitinhos, e se voltar para olhar Adorna com seus frios olhos verdes, a viscondessa Ruskin entendeu por que a senhorita Setterington a recomendara.

Lady Charlotte era uma mulher fria, afastada de qualquer afeto ou necessidade humana, e levaria a cabo seus deveres sem fraquejar, nem ante as adulações nem ante a exigência de explicações.

Sim. Assim era justamente como teria que se comportar.

—Lady Ruskin, é um prazer conhecê-la.

A sua era uma voz suave e perfeitamente modulada, e sua cortesia, assim o apreciou Adorna, era um preciso exemplo do que devia ser a cortesia. Permaneceu em pé, esperando que Adorna lhe desse permissão para se sentar.

E Adorna, ao estudá-la naquela posição, descobriu em seu interior o secreto desejo de deixar que lady Charlotte ficasse naquela posição indefinidamente.

Não o fez, mas sim estendeu sua mão para poder roçar a pele daquela mulher e comprovar se a frigidez que transmitia também alcançara a sua própria carne.

O apertão de mãos de lady Charlotte foi firme e quente, e quando Adorna alargou o contato com sua mão mais do que o necessário não perdeu a compostura.

Não devia perdê-la com facilidade, suspeitou Adorna.

—Sente-se, lady Charlotte. Tomemos o chá.

Lady Charlotte se sentou, mas com tal rigidez em sua postura, que Adorna se inclinou por pensar que suas costas jamais deviam ter repousado no respaldo de uma cadeira.

Enquanto a senhorita Setterington servia o chá, Adorna disse:

—A senhorita Setterington me disse que você tem nove anos de experiência, mas parece muito jovem para ter trabalhado tantos anos.

—Comecei minha carreira aos dezessete anos. A senhorita Setterington dispõe de uma ficha com minhas referências se por acaso deseja as comprovar.

Assim, lady Charlotte estava com vinte e seis anos. Era mais velha do que parecia. Jovem e formosa, mas também forte e resolvida. Sim, sem dúvida teria que sê-lo. Adorna disse:

—Me disseram que você é a famosa Dona Afetada que prepara os jovens para sua apresentação em sociedade. Assim não pude evitar me perguntar se entraria dentro de seus planos se encarregar de meus netos. Robbie tem dez anos e Leila seis.

Dado que prefere trabalhar com adolescentes...

—Dez e seis. Robbie e Leila. Que nomes tão encantadores. - Lady Charlotte sorriu, e pela primeira vez Adorna apreciou um pouco de suavidade em seu gesto. Imediatamente, o frio voltou a pousar sobre lady Charlotte.

—Para responder a sua pergunta, direi que estou cansada de meu indefinido estilo de vida. Sou uma mulher organizada e disciplinada. Quero um estilo de vida organizado e disciplinado.

Por que teria que passar minha vida indo de um lugar a outro, ensinando a meninos e garotas jovens as complexidades do baile, as maneiras na mesa, os mesentérios do cortejo e a tocar o piano, só para que meu incrível êxito seja recompensado com uma demissão quando já não me necessitarem?

Não estou dizendo que seus netos não vão aprender essas habilidades, senhora, mas sim começarei a trabalhar com eles antes e que terei assim a oportunidade de lhes ensinar outras coisas também. A ler, geografia, línguas...

Mas o menino terá um tutor, suponho.

—Ainda não. - Adorna aceitou a xícara de chá e se decidiu a confessar o menor de seus problemas: - Meus netos viveram muito tempo no estrangeiro.

—No estrangeiro? - repetiu lady Charlotte arqueando as sobrancelhas.

Adorna fez caso omisso de sua pergunta.

—Temo que são... como selvagens.

À senhorita Setterington surpreendeu aquele comentário tão pouco usual para uma avó. Mas lady Charlotte disse:

—Sem dúvida devem sê-lo. A falta de uma adequada influência inglesa deve ter obrado em seu contrário. Nesse caso o mais velho, suponho que o menino é o pior dos dois.

—Para falar a verdade, não. Leila é... - Adorna pensou naquela Bárbara mocinha mas lhe faltaram as palavras.

Lady Charlotte assentiu.

—São muitas as exigências que uma menina de classe deve cumprir, entretanto suas liberdades são muito mais escassas. Provavelmente seja uma amostra de rebeldia.

Seus comentários assombravam Adorna, o que lhe levou a entender como lady Charlotte conseguira domesticar e educar aos jovenzinhos mais conflitivos.

—Rebeldia. Sim. E também ira, acredito, por ter tido que sair de sua casa.

—Há algo que gostava de fazer em sua casa e que também pudesse fazer aqui para ajudá-la a se adaptar?

—Montava a cavalo, ao que parecia muito bem, mas como os homens, e não nos permitirá que a sentemos nos arreios ao estilo amazona sem separar as pernas. Diz que é uma posição estúpida para montar.

Charlotte mordeu o lábio.

—E o que me diz do moço? Há algo que goste de fazer?

—Gosta de lançar facas. - Adorna alisou a saia. - Contra o papel pintado que me fiz trazer da França.

—Por quê? - perguntou a senhorita Setterington com ar de estranheza.

—Porque as rosas pintadas nele lhe parecem um bom alvo.

Para contribuir ainda mais a consolidar seu papel, Charlotte não se alterou.

—Então, é bom lançando facas.

—Excelente - assinalou Adorna desolada. - Como sua instrutora, lady Charlotte, você teria que os fazer entender o modo em que nos comportamos, os ajudar a se adaptarem, os ensinar bons costumes e, como você disse, a ler e geografia, e

—Adorna tomou ar - terá que fazê-lo rápido.

Lady Charlotte tomou um gole de chá, com o dedo mindinho formando um ângulo perfeito.

—Com que rapidez exatamente?

—Antes que acabe a estação vou ser a anfitriã da família real Seremínia durante sua visita oficial a Inglaterra, e virão os meninos da família. Por isso meus netos terão que estar presentes.

A xícara da senhorita Setterington tilintou ao deixá-la sobre a mesa.

—Isso são três meses.

—Assim é. - Lady Charlotte também deixou sua xícara, mas não tilintou. - Vamos ver se o entendi, lady Ruskin.

Se ensino a seus netos a se comportarem como ingleses civilizados em três meses, você tem planejado que exerça como instrutora de Leila até sua festa de apresentação.

—Exato.

—Isso são dez anos.

—Assim é, mas esses três primeiros meses porão a prova, de maneira irrevogável, sua paciência.

No rosto de lady Charlotte apareceu o rastro de um leve sorriso.

—Com o devido respeito, lady Ruskin, acredito que sou capaz de lutar com dois meninos pequenos.

Adorna acreditou que era o momento de lhe contar o resto da história. Precisava fazê-lo. Embora, para falar a verdade, lady Charlotte toparia com o problema bem cedo, e Adorna a necessitava.

Por outro lado, o presunçoso sorriso de lady Charlotte fez que Adorna resistisse a lhe contar.

Adorna sabia como evitar seus sentimentos de culpa, e o fez lhe oferecendo um salário deslumbrante.

Nesse assunto, a senhorita Setterington demonstrou seu bom fazer lhe comentando a necessidade de um adiantamento que deixou Adorna sem fôlego.

—Isso garante sua total discrição? - perguntou Adorna.

—Isso garante tudo.

Adorna ficou em pé e as outras duas mulheres seguiram seu exemplo.

—Lady Charlotte, enviarei uma carruagem às onze. Nos dirigiremos a Surrey, por isso chegaremos ali a última hora da tarde.

Adorna não podia acreditar que fosse possível, mas lady Charlotte se estirou ainda mais.

A única coisa que disse foi:

—Estou desejando empreender a viagem. - E fez uma reverência quando Adorna saiu.

Charlotte e Hannah permaneceram em silêncio enquanto escutavam os passos de lady Ruskin se afastarem pelo vestíbulo. Esperaram que Cusheon lhe entregasse o casaco e a acompanhasse à porta.

Inclusive após vê-la sair, seguiram juntas, para se assegurar que realmente se foi. E então...

Hannah lançou uma exclamação. Passou os braços em torno das costas de Charlotte e começou a dar voltas dançando pela sala, arrastada pela euforia.

Charlotte ria, de um modo rouco e incomum nela, e deixava que Hannah revoasse a seu redor.

Ouviram a correria de uns pés ao fundo da casa, e apareceu lady Temperly. Apesar que a tal lady Temperly seguia luzindo o mesmo pesado vestido, levava o véu na mão, e seu rosto era o de uma moça e bonita.

—Conseguimos?

—Temos. Temos! - espetou Hannah.

—Contratou Charlotte? Vai pagar o estipulado?

—Sim, Pamela, me contratou e vai pagar. - Charlotte ainda sorria. - Cem libras! Hannah nem sequer piscou ao dizer-lhe.

A senhorita Pamela Lockhart lançou o véu para o ar e se uniu ao baile.

Sempre correto, Cusheon entrou na sala e, quando elas se detiveram, disse:

—Se as senhoras estiverem preparadas, me alegraria servir as bebidas para realizar um brinde de celebração.

—Sim, OH, obrigado, Cusheon. - Os olhos castanhos de Hannah cintilaram enquanto o velho mordomo escolhia a garrafa de conhaque, a abria e servia uma taça a cada uma das mulheres. - Por favor, sirva uma para você.

Não poderíamos ter obtido isto sem sua ajuda.

Cusheon elevou as sobrancelhas, mas obedeceu.

—Obrigado, senhora, mas já sabe que Cook e eu confiamos plenamente no êxito de sua iniciativa. Na nossa idade seria difícil encontrar outro trabalho.

—Teremos êxito. Sei - disse Pamela.

—Eu também sei, senhora. - Cusheon elevou a taça em direção a ela e depois bebeu um gole. Imitaram ao mordomo e elevaram as taças.

—Pela autêntica lady Temperly - disse Hannah. - Que Deus benza sua alma generosa.

—Por ela. - Charlotte deu um pequeno gole e fez uma careta. - Odeio o conhaque.

—Beba assim mesmo - Hannah a ameaçou. - Faz fluir o sangue.

Pamela riu ante a veemência de Hannah.

—Isso é um conto das esposas velhas, e você nem é velha nem se casou.

Agora foi Hannah a que compôs uma careta. O olhar de Charlotte se fez mais sério ao jogar uma olhada ao enganoso traje de Pamela, recolheu o véu e, o sustentando entre os dedos, perguntou:

—Acredita que era necessário todo este artifício?

Das três amigas, Charlotte era a que sempre se empenhava em ser absolutamente sincera. Hannah e Pamela se olharam, então iniciaram a tarefa, uma vez mais, de convencer Charlotte que haviam feito o correto.

Começou Pamela:

—Já convimos que sim. Simplesmente oferecemos uma ilusão de êxito para que as primeiras clientes não se sintam incômodas.

—Começamos um novo negócio, e se não tivermos êxito perderemos esta casa. - Hannah fez um gesto para assinalar ao redor. - Lady Temperly me deixou isso, mas não temos dinheiro. Quer que a venda para conseguir recursos?

—Não, mas...

—Demos um empurrãozinho a nossa boa sorte. - Hannah passou o braço por cima dos ombros de Charlotte e caminhou com ela até a lareira. - Nesta casa poderemos preparar e acolher a outras mulheres que o necessitem.

Como proprietárias da Distinta Academia de Instrutoras, podemos repassar nossos conhecimentos e atrair às pessoas da alta sociedade para que nos paguem o alojamento de nossas estudantes.

Charlotte se sentou em uma das poltronas.

—Mas não somos quem dizemos que somos.

—Claro que somos. Você é lady Charlotte Dalrumple, também conhecida como Dona Afetada por sua mestria na hora de ensinar aos adolescentes como se comportar. Ela é a senhorita Hannah Setterington, acompanhante da viajante lady Temperly até sua morte, fará coisa de um mês. - Pamela adotou uma pose distinta. - E eu sou a senhorita Pamela Lockhart... ou o serei assim que tire estas roupas.

Charlotte seguia sem parecer muito convencida.

—Charlotte, tenho dez anos de experiência em trato com meninos - disse Pamela com sinceridade. - Hannah era realmente a acompanhante de lady Temperly. Estamos qualificadas para levar a cabo nosso plano.

—Assim que estejamos todas empregadas e consigamos um pouco de dinheiro poderemos ajudar a outras mulheres que, como nós, não tenham aonde ir quando finalizam seus contratos. - Hannah sabia que essa era a explicação adequada para Charlotte.

Para falar a verdade, para todas. - Por algo assim, vale a pena a pequena mentira que montamos para lady Ruskin.

—Sim. - Charlotte deu de ombros. - Quando o negócio esteja estabelecido, todos sairemos ganhando.

—Assim é. Estou segura que suas objeções se devem a que... - Hannah deixou a frase pela metade.

Mas Pamela queria que acabasse o que precisava dizer.

—A que?

Charlotte, depois de beber um gole de conhaque, disse:

—A que meu novo trabalho é em Surrey.

—OH, não. - Pamela se deixou cair na banqueta. - De todos os lugares da Inglaterra tinha que ser Surrey!

—Não tem importância - disse Charlotte, embora todas sabiam que não era assim. - Como sempre, cumprirei com meu dever, e o farei bem.

 

O ar frio golpeava o rosto de Charlotte enquanto a carruagem aberta percorria a estrada, assim pôde inalar os aromas de North Downs em Surrey.

Surrey cheirava a roseiras que se enredavam em uma velha grade, a risadas e a conforto, a cavalgar sobre seu pônei no inverno, nas tardes do verão lendo sobre um ramo de sua nogueira preferida. Cheirava a seu lar.

Charlotte esperava não voltar a cheirar os aromas de Surrey nunca mais.

—Esta é sua primeira viagem a North Downs, senhora? Charlotte se voltou para sua nova chefe e levou uma pontada, só uma mínima pontada, de inveja. Ninguém comentara com ela, mas sabia que os homens deviam seguir disputando aquela viúva, lady Ruskin.

Um moderno chapéu coroava seu cabelo loiro, sua voz se fazia mais grave ou mais leve de um modo harmônico e sua compleição não invejava em nada a das mulheres mais jovens.

Seus grandes olhos azuis destilavam ingenuidade, e resultara ser a mais amável das companhias durante as duas horas que durava o trajeto de Londres.

Por isso para Charlotte resultava difícil acreditar que aquela mulher tivesse dois netos que necessitassem de uma instrutora.

Sem nenhuma pretensão de se opor ao destino - considerava que se opor ao destino era uma total perda de tempo - se perguntou que deus teria guiado Adorna a recém-fundada escola de instrutoras com uma proposta de trabalho na medida para Charlotte.

—Cresci não muito longe daqui, senhora - disse com muita calma. .

—Então você deve ser parente dos Dalrumple de Porterbridge Hall.

A curiosidade resultava inevitável, bem sabia Charlotte, daí que sentisse o amargo sabor da verdade em sua língua.

—O conde de Porterbridge é meu tio. Lady Ruskin assentiu.

—Já supus que devia ser você "essa" lady Charlotte Dalrumple. - Agarrou entre suas próprias mãos a mão enluvada de Charlotte e a apertou. - Seu pai, que Deus o tenha em sua glória, foi o anterior conde.

Meu marido o conheceu e dizia dele que era um verdadeiro cavalheiro.

Ouvir falar de seu pai, e ainda naqueles termos tão amáveis, comoveu Charlotte de um modo que quase não pôde ocultar.

—É muito agradável retornar depois de tantos anos. - Nove anos, para ser exatos, do desastroso e decisivo dia em que Charlotte fez dezessete anos.

—Sim, Surrey é agradável, e está muito perto de Londres. Ruskin e eu compramos a casa pouco depois que nascesse nosso filho, para que crescesse no clima são do campo. Austinpark Manor é um lugar tranquilo.

Enquanto falavam, apareceu uma carruagem após a curva. O chofer conseguiu evitar o choque, fazendo que lady Ruskin se inclinasse para um lado e que Charlotte fosse cair em cima dela.

A bagagem de Charlotte, presa na parte traseira, balançou perigosamente para fora, e sua maleta golpeou sua coxa. A carruagem seguiu a toda pressa.

Ao passar a seu lado, Charlotte escutou através do guichê aberto a forte e enraivecida voz de uma mulher. Skeets fez que os cavalos se detivessem sobre a erva a um lado da estrada e se voltou para lady Ruskin.

—Peço perdão, senhora. Sofreram algum dano?

Charlotte também resmungou alguma recriminação enquanto se separava de lady Ruskin e das franjas de seu xale.

—Não precisa se desculpar, estamos bem. - A voz melodiosa de lady Ruskin se voltou rouca, depois fez um gesto a Skeets para que prosseguisse a marcha. Ao mesmo tempo que a carruagem voltava a pegar o caminho da estrada, disse:

—Algumas pessoas têm mais dinheiro que senso comum. Embora, para falar a verdade, lady Charlotte, este tipo de incidentes não são frequentes neste particular.

—Se lhe parecer bem, lady Ruskin, preferiria não utilizar meu título. Me chame Charlotte em particular, e senhorita Dalrumple diante dos meninos.

O olhar de lady Ruskin se fez mais cálido e voltou a pegar a mão enluvada de Charlotte entre as suas.

—Obrigado, querida. Pode me chamar Adorna, assim é como me chama todo mundo.

Não era isso o que Charlotte esperava, embora suspeitasse que quando se estava perto de lady Ruskin as coisas aconteciam segundo seu próprio ritmo.

—Senhora, apesar de apreciar muito seu oferecimento e da amabilidade que evidencia, semelhante liberdade poderia ser interpretada mal como uma falta de respeito por minha parte, ou inclusive uma insolência.

—Que seja em particular, então.

—Mas não diante dos meninos...

—Não diante dos meninos, embora tema que nunca cheguem a entender as complexidades da sociedade inglesa. - Adorna suspirou, fazendo subir e descer seu generoso busto.

Seu longo vestido de brocado verde primavera se apegava a sua estreita cintura e suas crinolinas[1] se estendiam para os lados, embaçando o simples vestido cinza de Charlotte.

—A questão é que se criaram no Bahar.

—O Bahar - repetiu Charlotte assombrada. Aquele país estava a leste do Egito e ao sul da Turquia, o qual a levou a evocar imagens de camelos percorrendo as dunas do deserto, beduínos e noites árabes.

Não podia imaginar que meninos ingleses pudessem ser criados em semelhante lugar, e pela primeira vez entendeu o uso que Adorna outorgava à palavra "selvagens" para definir a seus netos.

—Como chegaram ali? E como é que agora voltaram?

—Melhor, deveria perguntar por que meu filho Wynter foi ali.

Parecia tão triste que Charlotte desejou poder reconfortá-la. Então Adorna perdera seu filho. Que tragédia. Reparou então naquele nome tão pouco usual.

—Wynter?

Um retrato mental foi a sua mente, um retrato que não voltara a rememorar desde que se foi de Porter-bridge Hall. O jovem Wynter em um baile campestre, alto e loiro, tão bonito que as garotas desmaiavam ao vê-lo.

A tia Piper proclamara com desdém: "crê que é uma espécie de jovem Byron loiro".

Ao recordar isso, Charlotte pensou que não andava muito desencaminhada, pois aquele cabelo loiro sobre sua testa, suas longuíssimas pestanas e suas sobrancelhas o faziam se destacar entre a multidão de repugnantes adolescentes que o rodeavam, e seus olhos castanhos desprendiam ferocidade e melancolia em partes iguais. Charlotte, que naquela época tinha doze anos, se apaixonou perdidamente dele, mas como era dois anos mais velho que ela, nem sequer foi consciente de sua existência.

Não voltou a vê-lo nunca mais.

—Wynter... é seu filho? - perguntou Charlotte. Adorna parecia encantada com a pergunta.

—O conheceu?

—Acredito que o vi em uma ocasião, sim. Mas acredito que ele...

—Partiu. Assim é. A morte de seu pai o afetou muito. O visconde Ruskin, como já saberá, era uns quantos anos mais velho que eu.

Charlotte recordava vagamente os comentários a respeito. O visconde Ruskin foi uma anomalia para os negócios, um desses aristocratas desprezíveis.

Mas sendo velho, fizera um grande favor ao rei e à coroa, e este por sua vez, assumindo que o velho não teria filhos, lhe conferiu um título.

Um título que o visconde Ruskin não demorou para passar a seu filho casando com a formosa, jovem e aristocrática Adorna.

O visconde Ruskin tinha noventa anos quando morreu, e seu casamento foi um perpétuo escândalo... Embora Ruskin e Adorna viviam em tal abundância que ninguém se atrevia a rechaçá-los.

—Apesar que meu marido viveu uma vida plena e feliz, nos deixou um dia depois que Wynter cumprisse os quinze anos. Wynter se zangou tanto por sua perda... brigou com alguns moços depois do funeral.

Charlotte também recordava ter ouvido algo a respeito. Seu primo Orford, uma das criaturas mais insofríveis que conhecera em sua vida, retornou a casa ensanguentado mas sorridente, e se alegrou quando Wynter desapareceu.

Adorna olhou pelo guichê da carruagem para o exterior.

—No dia seguinte, Wynter partiu.

Charlotte só podia ver nesse momento a aba de seu chapéu, mas acreditou apreciar à perfeição o sentimento de perda que destilava o tom de sua voz.

—Foi em busca de aventura. - Adorna sacudiu a cabeça e o chapéu se agitou ao recordar a ingenuidade de seu filho. - Certamente, encontrou aventuras. Depois de evitá-lo em várias ocasiões, foi vendido como escravo ao chefe de uma humilde caravana.

Charlotte não soube se ria ou chorava nesses momentos. Aquele formoso e jovem Adônis fora escravo? Mal prestou atenção à carruagem que passou a seu lado.

—Deus do céu, senhora, e o que lhe aconteceu depois?

—Me chame Adorna - a corrigiu com ar ausente.

—Não sei. Stewart, o filho do primo de meu marido, seguiu seus passos até a Arábia, mas depois ele perdeu sua pista. Passaram anos sem que soubéssemos uma só palavra dele, mas eu sabia que não tinha morrido.

Outra carruagem passou junto a dela, mas Charlotte não prestou atenção a ela. Adorna elevou uma sobrancelha em um gesto de preocupação.

Voltou seus grandes olhos azuis para Charlotte.

—A tia Jane diz que sou uma romântica, mas eu sei que quando alguém que amas morre, pode sentir como se corre a cortina entre este mundo e o do além. Embora suponha que você, Charlotte, estará de acordo com minha tia.

—Não. Não, não estou de acordo com ela.

—Os pais de Charlotte morreram não muito longe de onde se encontravam nesse instante, e durante uns segundos voltou a se sentir como uma confundida menina de onze anos, se escondendo sob a cama em Porterbridge Hall, piscando ante cada brilho de luz.

—Não esperava gostar de você. - Adorna colocou uma de suas mãos sobre o ombro de Charlotte. - Temia que fosse muito estirada e arrogante, mas sob sua aparência é uma pessoa bastante sensível, não é?

Apesar de ter sido uma jovenzinha sensível, Charlotte não considerava a si mesma uma mulher sensível.

—Acredito que "sensata" seria uma palavra mais adequada.

Adorna sorriu e assentiu, mas antes que pudesse voltar a falar, Charlotte viu um sinal no caminho, por cima do ombro de Adorna, que reconheceu imediatamente: o cruzamento de caminhos que delimitava Westford Village.

Westford Village: Charlotte desejara que a casa de Adorna estivesse além de North Downs, longe de Porterbridge Hall, do tio Shelby, da tia Piper e de seus primos. O destino, entretanto, conspirara em seu contrário.

E se... O que passaria quando a aristocracia local descobrisse que lady Charlotte Dalrumple voltara... Ah, seria como soltar um gato em um pombal.

Adorna jogou uma olhada ao exterior e viu o pôster. Disse a Charlotte:

—Austinpark Manor está justo atrás, assim não terá que se preocupar: estará totalmente separada da civilização.

—Não teria me ocorrido pensar algo semelhante.

Adorna esboçou um sorriso, o tipo de sorriso que teria seduzido à maioria dos homens e que produziu em Charlotte a incômoda sensação de ser transparente.

—É obvio que não, querida. Você é o tipo de mulher que entende que a frivolidade é algo desnecessário.

—Eu... É certo. - De tudo certo, mais pelo modo de falar. Adorna fez que uma simples virtude soasse... tediosa. - Mas senhora... Adorna... tem que me dizer o que aconteceu com seu filho, como é que seus netos voltaram com você.

Sua perda deve ter afundado aos meninos.

Adorna negou com a cabeça.

—São eles os que afundam a outros. Eles não se sentiram afundados.

Os meninos não se sentiram afundados pela morte de seu pai? O velho romantismo de Charlotte, durante tanto tempo esquecido, voltou a sair à superfície. Talvez fossem órfãos há muito tempo, talvez estiveram vagando pelo deserto...

Justo diante delas, uma carruagem se enfiou na estrada obrigando o chofer a puxar as rédeas. A outra carruagem passou ao lado deles a toda velocidade.

Charlotte reconheceu o brasão que aparecia na carruagem - jamais na vida poderia tê-lo esquecido! - e empalideceu.

Adorna inclinou a cabeça para ver quem ia montado naquela carruagem.

—Que estranho! Eram lorde e lady Howard.

Charlotte conseguiu resmungar:

—Assim é.

Adorna deu palmada sobre sua mão.

—É obvio. Recordo. Que terrível para você. Mas vinham de Austinpark Manor, e parecia como se ela o fosse golpear com seu chapéu! Não deveria haver ninguém na casa exceto...

—Abriu muito os olhos com uma careta de terror, e um nó se formou na garganta. - Me diga que ele não convidou a ninguém enquanto estive fora.

—Quem?

—Não pode ter se atrevido. Deixei bem claro que...

—O que?

Adorna se inclinou para frente e disse com urgência:

—Depressa, Skeets!

A carruagem girou entre os dois pilares que indicavam o portão e entrou em um caminho campestre. Skeets obedeceu a sua senhora e esporeou aos cavalos, deixando atrás o enorme e bonito portão do imóvel. O cascalho rangia sob as rodas.

Adorna se agarrou a um lado da carruagem com a mão coberta por uma luva branca e se esforçou em olhar para frente. Charlotte não dispunha de uma parte chave da informação, e nem sequer podia imaginar de que se tratava.

Passaram junto a uma magnífica fileira de árvores que franqueava o caminho. Pôde apreciar na distância os brilhos azulados de um lago, um pavilhão de mármore, e um jardim gradeado infestado de flores douradas, cor lavanda e rosadas.

E, finalmente, ao fazer a curva, viu a antiga construção de tijolo e pedra: Austinpark Manon. A casa se adaptava perfeitamente ao redor, cravada na terra e subindo para o céu como se se tratasse de uma celebração da elegância humana.

O estilo clássico estava muito em voga um século antes, quando foi construída. Charlotte se perguntou que nobre família a teria erguido, para logo perdê-la, e por que. Outra carruagem se aproximou delas, e Adorna não pôde evitar exclamar:

—Esses são o senhor Mordem e sua esposa, e já sabe o muito que respeita os ditames sociais! OH, espero que ele não tenha jogado tudo a perder.

A casa desapareceu por trás de um grupo de árvores, e quando a carruagem aberta passou a curva, a casa voltou a aparecer à frente.

Havia um homem no pórtico.

Inclusive desde essa distância, Charlotte conseguiu ver que era um homem alto e de ombros largos, um monumento à força masculina. Ou possivelmente era mais apropriado dizer que se tratava de um insulto à civilização inglesa?

À medida que se aproximavam, percebeu que suas mãos eram enormes e que, fechadas em punhos, as tinha apoiadas nos quadris.

Seus ombros eram realmente largos, e os músculos de seu peito mal ficavam dissimulados sob a camisa branca e o sóbrio casaco negro.

Suas calças não ocultavam sua força, ao contrário, a enfatizavam com um corte que se ajustava a suas pernas fazendo que as costuras se ressentissem e os botões parecessem a ponto de estalar.

Dava a impressão de ser um homem com uma missão, embora Charlotte não tivesse ideia de qual podia ser. Sem dúvida devia se tratar do novo marido de Adorna, apesar que ela não havia dito nada a respeito, ou talvez de um parente.

Possivelmente fosse Stewart, o primo longínquo de que Adorna falara.

Em qualquer caso, Charlotte não pôde afastar o olhar do cabelo daquele homenzarrão.

Era bastante comprido, e o vento o balançava... Era loiro. Do mesmo tom loiro que Adorna.

Quando a carruagem se deteve, o homem sorriu. Avançou para elas. E Charlotte viu o que não pôde ver até então. Seu escasso disfarce de homem refinado não era de todo completo.

Estava descalço.

Não era o adequado, mas Charlotte teve que perguntar:

—Quem?

—Meu filho. - Adorna a olhou enquanto esperava que Skeets colocasse o degrau para poder descer da carruagem. - Meu filho Wynter, que voltou da tumba para me importunar.

 

—Acreditei que morrera - exclamou Charlotte. Jamais falava sem pensar, e semelhante deslize teria que tê-la advertido do impacto que Wynter podia causar em sua vida. Mas se esqueceu inocentemente disso assim que Adorna desceu da carruagem.

Sob o atento olhar de Charlotte, Adorna subiu os degraus e abraçou seu filho Wynter.

—Querido menino, o que esteve fazendo?

Ele se inclinou ligeiramente para poder beijar a sua mãe na face. Com um acento estrangeiro muito leve, tão leve que Charlotte teve que se esforçar em detectar, disse:

—Simplesmente disse aos homens que iam ter que manter em rédea curta a suas mulheres.

O encantamento que Charlotte tinha sofrido na carruagem se dissipou sem que ela o notasse.

—Wynter, como pôde dizer algo assim estando presente a senhora Mordem? Se comporta sempre por cima de qualquer recriminação, e isso que os Mordem são tão ricos e estão tão bem situados que poderia atuar como quisessem.

Ele refletiu durante uns segundos.

—De fato, foi lady Howard a que mais se ofendeu. É uma víbora capaz de flertar comigo diante de seu próprio marido.

Charlotte fingiu não ter escutado suas palavras.

—Aqui as mulheres não estão confinadas - disse sua mãe. - Flertar não é um delito.

—E te parece adequado? - perguntou seu filho. Adorna inclinou a cabeça enquanto refletia a respeito dos mesentérios da sociedade inglesa e como fazer seu filho os entender.

—Não se uma das partes está casada, mas...

—O que "mas" lhe pode pôr a isso? Se não for o adequado, é uma incorreção, - se voltou para Charlotte enquanto ela agarrava sua maleta e descia da carruagem com a ajuda de Skeets. - O que opina você?

Charlotte opinava que qualquer homem que estivesse descalço, que usasse o cabelo comprido como uma mulher e que não soubesse fechar a camisa até em cima não superaria sequer nem um julgamento prévio.

Mas suas boas maneiras não lhe permitiam expressar algo assim. Em vez disso, cruzou as mãos.

—Não se trata de como entendo eu ou como entende você esses modos de comportamento. O que importa é o trato hospitalar dos convidados.

—Sim. No deserto, se não tratar com hospitalidade a um convidado, a areia e o sol acabam branqueando seus ossos. - Perdeu o olhar no horizonte, como se estivesse observando as onduladas dunas e o radiante sol do deserto.

Mas então, alguém a suas costas pigarreou e sua atenção retornou ao presente. Se separou do degrau superior do pórtico e permitiu a Charlotte subir. Sem inflexão alguma na voz, disse:

—Falando de convidados, mãe, tem um. Adorna olhou ao cavalheiro que esperava na porta. Levou os dedos da mão à garganta e disse:

—Lorde Bucknell. Querido lorde Bucknell, que grande surpresa! Sempre agradável, com certeza, mas não tinha nem ideia... e eu estava fora! Mas já terá... conhecido meu filho...

—Em sua voz se apreciou uma nota de consternação, embora em seus lábios se desenhou um sorriso. Se encaminhou para lorde Bucknell com os braços à frente.

Lorde Bucknell se expôs à luz do sol. Era um homem arrumado e bonito, de uns cinquenta anos de idade. Seu cabelo estava começando a ficar grisalho, seu porte era distinto e segurou as mãos de Adorna como se não pudesse resistir a essa tentação.

—Sim, já conheci a seu filho. Foi uma grande surpresa, depois de todos estes anos. Mas você deve estar muito contente, lady Ruskin. Sei que sua ausência lhe causava uma angústia inescapável.

—Certo. - Deixou escapar uma gargalhada de ar juvenil. - Mas já havia dito que não estava morto.

—Me disse isso, é certo. - Seu sorriso solene contrastava com a calidez de Adorna. Mas talvez se devia a que o contrariava que o próprio Wynter o estivesse observando.

Charlotte deu um passo para a varanda e, como se se tratasse de um cuidadoso grande depredador, Wynter voltou a centrar sua atenção nela.

Ela permaneceu imóvel enquanto ele se aproximava e a rodeava riscando um círculo, a examinando com a evidente curiosidade com a que teria examinado a um animal no zoológico.

Ela não se rebaixou a fazer o mesmo, mas tampouco afastou a vista para não parecer covarde. Nada intimidava Charlotte; quanto antes Wynter entendesse, antes acabariam com a possibilidade de algum tipo de confrontação.

Realmente crescera durante sua estadia longe da Inglaterra; era uns trinta centímetros mais alto que ela. Sua compleição ocupava toda a panorâmica de Charlotte, mas ela não se arredou.

Wynter bem poderia ter sido uma demonstração de geometria, devido a todos os ângulos que desenhava seu rosto.Sua testa era um atraente retângulo, suas faces se sobressaíam nascendo de sua mandíbula, seu nariz era reto e formava um triângulo perfeito.

Uma longa cicatriz partia do extremo de um de seus olhos e percorria sua face direita. Seus olhos castanhos, conforme apreciou Charlotte, não destacavam com a cor de sua pele. O sol do Bahar tinha torrado sua pele e clareado o cabelo.

Mantinha aquelas pestanas inusualmente longas, assim como suas marcadas sobrancelhas, mas se desprendera do ar byroniano de seus movimentos.

Enfrentava ao mundo com tal franqueza e ávido interesse, que alguém com menos perspicácia poderia ter desconfiado de sua atitude.

—Mãe, esta mulher cumpre todos nossos requisitos? Perguntou diretamente a Adorna, atuando como se Charlotte fosse surda ou invisível.

Com certeza, os nobres costumavam falar desse modo em presença de seus criados, mas as instrutoras estavam localizadas em um território a meio caminho entre os criados e os aristocratas. Ao que parecia, Wynter esquecera esse tipo de sutilezas.

Charlotte poderia ter se ofendido - de fato, se sentira ofendida, - mas a curiosidade por escutar a resposta foi maior.

—Mãe? - repetiu Wynter.

—Hum? - Adorna tinha ainda suas mãos entre as de lorde Bucknell e mal prestara atenção à cena que estava se desenvolvendo na varanda. - Sim, é perfeita.

—É muito jovem e muito bonita. - Os anos que passou no deserto conseguiram que Wynter se desfizesse de qualquer tipo de convencionalismo.

Charlotte apertou com mais força a alça de sua maleta e sua voz adquiriu um matiz agudo.

—Nem a juventude nem a beleza são um obstáculo para a eficiência.

—Não? Já veremos.

Suas faces se tingiram. E sem razão aparente, se sentiu segura. Sempre que iniciara um trabalho, alguém a questionara. Mas que esse homem, esse homem inculto duvidasse dela de um modo tão evidente... ah, a fez apertar os dentes com força.

Adorna procedeu a apresentá-los a toda pressa.

—Senhorita Dalrumple, apresento meu filho, Wynter, visconde Ruskin. Wynter, esta é lady Charlotte Dulrumple, a instrutora... ou, melhor dizendo, a perita em bom comportamento.

Lorde Bucknell tossiu, e Charlotte o interpretou corretamente como um gesto de censura. Mas não prestou verdadeira atenção a ele. Wynter, lorde Ruskin, era o centro de seus pensamentos.

Disposta a atuar como se os comentários pessoais, as conversações cruzadas e os exames insolentes fossem normais, Charlotte disse com cortesia:

—É todo um prazer lhe conhecer, senhor.

Lorde Wynter a olhou de um modo estúpido.

—O que teria que fazer eu agora? - perguntou sem se dirigir a ninguém em concreto.

Como se se tratasse de um ato reflexo, Charlotte deixou a maleta no chão, a seu lado.

—Se incline e repita: "Todo um prazer conhecê-la, senhorita Dalrumple".

—Mas você tem um título nobiliário.

—Só porque meu pai foi conde. Além disso, utilizar em excesso o título para falar com alguém se considera tosco. Inclusive os acompanhantes de Sua Majestade a rainha Vitória a chamam "senhora".

—Já entendo, - se inclinou com uma reverência de cortesia. - Algo assim?

—Exatamente assim.

—E deveria dizer... - Pegou a mão e se inclinou, depois olhou aos olhos. - Todo um prazer conhecê-la, senhorita Dalrumple.

Nesse mesmo instante, Charlotte compreendeu que estava brincando com ela. Sabia à perfeição o que era que precisava fazer.

Ela não gostou nada de Wynter. Não gostou absolutamente, mas não se diferenciava muito de outros pais com os que precisou lutar; depois desse encontro inicial não voltava a vê-los.

Entretanto, ele a olhava como se merecesse toda sua atenção. O anterior olhar analítico se transformou agora na busca de um conhecimento mais íntimo.

E quando pegou sua mão e a passou pela face, Charlotte disse a si mesma que sabia exatamente a que se devia.

Sua incipiente barba fez que o algodão da luva se enganchasse. Foi consciente de abrir em excesso os olhos. Olhou a Adorna e a lorde Bucknell, mas estavam concentrados em sua própria conversação.

Assim puxou a mão, e quando Wynter a soltou, Charlotte disse:

—Me permitiria, senhor, realizar uma crítica sobre sua conduta?

Ele ergueu as costas sem afastar a vista.

—É obvio.

—Acredito que poderia assinalar a razão pela qual lady Howard flertou com você. O gesto de levar a mão à face não é habitual na sociedade inglesa. Possivelmente ela o interpretou como um ato de interesse para sua pessoa.

Talvez devesse prescindir de gestos como este até que tenha recuperado o sentido dos costumes.

Ele colocou a mão a suas costas e elevou os ombros.

—Para falar a verdade, acredito que meu sentido dos costumes goza de muito boa saúde.

Agora foi ela a que o olhou diretamente, vendo como deviam lhe ver outros: um homem do mundo, forte, experiente e fanfarrão.

—Mas suas maneiras não são próprias da Inglaterra.

—Acaso acredita que os ingleses são os inventores das boas maneiras?

—Sem dúvida. Em sua situação, tendo estado fora do país durante tantos anos, se mostrar como a comparação dos costumes ingleses resultaria toda uma vantagem a nível social.

Wynter se pôs a rir, uma generosa amostra de surpresa.

—Você é encantadora, uma verdadeira delícia. Sem você, minha vida poderia chegar a ser tão fria e estéril como as noites do deserto nas que sopra o harmattan[2] com seu triste gemido sem fim.

Charlotte desejou lhe responder, indicar de algum modo que aquela incontrolável cascata de palavras eram muito inadequadas.

Mas então ele elevou a cabeça e o cabelo lhe caiu para trás. Charlotte viu o brinco que pendurava do lóbulo de uma de suas orelhas.

Nada poderia tê-la contrariado mais.

Um brinco. Em sua orelha. Tão só as mulheres de classe baixa ou as ciganas usavam aros, e ele não era nem uma coisa nem outra. Mas o ouro cintilou com a luz do sol.

—Entrem - disse Adorna com tom alegre agarrada ao braço de lorde Bucknell. - Charlotte e eu viajamos durante horas, assim vamos tomar o chá.

Wynter se colocou atrás de Charlotte a caminho da porta. Pôde escutar o roce de seus pés nus sobre a fria pedra sem poder se livrar do assombro que ocupava sua mente. Foram os beduínos os que obrigaram Wynter a usar um brinco?

O teriam torturado, teriam negado a água, o teriam prendido a um camelo? Nenhum homem inglês teria aceitado levar aquele brinco sem ter sido submetido a medidas extremas.

Lorde Bucknell e Adorna já tinham entrado no sombreado interior da casa quando Wynter rodeou Charlotte e voltou a se inclinar ante ela.

Ao se erguer, ela viu de novo o brinco e se disse que talvez o tivessem obrigado a colocá-lo mas agora estava de volta a Inglaterra.

Não tinha por que usá-lo.

Antes que Charlotte pusesse o pé no longo corredor dentro da casa, Wynter posou sua mão no braço da instrutora e, quando se deteve, se aproximou. Seu acento era mais notável ao falar em voz baixa.

—Lady... senhorita... Charlotte. - Parecia confundido, mas então sorriu com satisfação e um estranho matiz de sedução.

—Lady senhorita Charlotte, para ser justo tenho que lhe informar... que não levei a mão de lady Howard à face porque não estava interessado na sensação de seu roce sobre minha pele.

Sem ter em conta a Escola de Instrutoras, nem o civismo, nem o respeito que merecia um homem que estava por cima dela socialmente, jogou mão de toda sua arrogância e o olhou diretamente compondo um gesto impudico de brincadeira.

—Para ser justo, lorde Ruskin, tenho que lhe informar... que não estou interessada na sensação de seu roce sobre minha pele, e se acreditar que parte de meus deveres incluem sofrer semelhante roce, me diga isso agora mesmo e pedirei a Skeets que me leve de volta a Londres imediatamente.

 

Por todas as dunas do deserto, lady senhorita Charlotte Dalrumple era toda uma ferinha! Wynter desfrutara notando a fria pontada de seu olhar e aquela pose de indignação. Lady senhorita Charlotte - como o divertia chamá-la desse modo!

—Estava passando com nota alta todas as provas.

—Senhor? - ela espetou, sem dar um passo atrás, apesar que ele se colocou diante dela.

Muito devagar, Wynter se afastou e se mostrou solícito com ela.

—Tudo será como deseja, Oh a mais brilhante de todas as estrelas.

Lorde Bucknell pigarreou - algo que tinha feito com bastante frequência desde sua chegada - e, quando Wynter o olhou, afastou a vista com tal confusão que bem poderia ter parecido que interrompera uma prolongada sessão amorosa.

Lorde Bucknell desaprovava a atitude de Wynter. Mas Wynter estava em sua casa. Ali não era ele o que podia ser submetido a julgamento.

Com o ar impassível que aprendera do Sheik Barakah, Wynter inclinou a cabeça para lorde Bucknell e fez um gesto a Charlotte para que passasse.

Ela hesitou ao perceber o risco que supunha aceitar sua oferta de amparo e sustento. Mas com suas roupas apertadas e seu hipócrita decoro, esse suposto cavalheiro inglês tentava mascarar seus mais básicos e primitivos impulsos.

Impulsos que levavam a um homem a acolher sob seu amparo a uma mulher que não pedira semelhante amparo.

Dado que Charlotte fora educada, e inclusive acreditava com convicção naquele estranho grau de civilização, não prestou a suficiente atenção ao que lhe diziam seus instintos. Deu um passo à frente e entrou na casa.

Aquele ponto de ingenuidade fez com que Wynter gargalhasse, e Charlotte se voltou para ele. Seus olhares se cruzaram.

Abriu um pouco mais os olhos acendendo ligeiramente aquele suave e frio rosto.

Então Adorna disse:

—Venha, Charlotte.

Com total deliberação, Charlotte afastou o olhar e voltou a se refugiar na segurança artificial que lhe proporcionava sua querida cultura.

Se acabasse sendo a instrutora de seus filhos, admitiu Wynter a contra gosto, estaria a salvo. Pouco importava que ao olhar seus lábios apertados e seu corpo constrangido pelo vestuário desejasse abrir tanto sua boca como seu vestido.

Fazia muito tempo que não estava com uma mulher, mas não podia imaginar por que o atraía seu cenho franzido ou seu espartilho.

Convivera tanto tempo com o fatalismo próprio dos beduínos para aceitar a atração que sentia, mas sabia com a certeza própria dos ingleses que só um canalha tentaria conquistar aquela mulher.

Falando de canalhas... Quando Adorna apresentou Charlotte a lorde Bucknell, a reverência deste foi rápida e superficial.

O comportamento de Bucknell tinha assombrado Wynter. Desde sua chegada, fazia já umas horas, se mostrou correto... até jogar o olho em Charlotte.

Wynter precisava admitir que talvez não entendesse por completo as complexidades da estrutura social inglesa, mas sua mãe não teria tratado uma instrutora com semelhante confiança se dito comportamento não fosse aceitável.

Mesmo assim, Charlotte parecia imperturbável, pois já havia passado por situações parecidas e as considerava pouco dignas de atenção.

—Lady Ruskin, você tem uma casa preciosa - disse enquanto examinava o amplo salão com todos seus metros quadrados de polido chão de madeira, os janelões que davam ao terraço e os jardins, os retratos, as estantes e os tapetes.

—Austinpark Manor já estava assim quando eu cheguei, troquei muito poucas coisas. Não se pode melhorar a perfeição.

—Adorna apontou em direção a um grupo de cadeiras que rodeavam as mesas que estavam junto a uma das lareiras, em que ardia um agradável fogo, sobre a que as criadas deixaram pasteizinhos e bolachas.

—Tomaremos o chá aqui. Apesar do sol, os desconfortos do inverno ainda se deixam notar.

Depois de lançar um discreto olhar a lorde Bucknell, que estava nesse momento examinando alguns dos volumes das estantes, Charlotte disse:

—Isso seria encantador, lady Ruskin, mas eu gostaria de conhecer os meninos.

—Sem dúvida vai conhecê-los. - Deixou escapar um muito leve suspiro. - Mas insisto em que primeiro recupere as forças.

O sorriso de Wynter se esfumou. Seu filho Robbie entendia sua permanência na Inglaterra como uma aventura fascinante, mas Leila não deixava de suplicar por voltar para casa.

Queria voltar para o Bahar, e isso que Wynter voltara para a Inglaterra precisamente por ela.

Leila não entendia. Como poderia entendê-lo? Ela somente entendia a selvagem liberdade que supunha ser a filha pequena; poder montar e adestrar cavalos, viajar com as caravanas e dar ordens aos mirrados meninos nativos.

Mas aqueles meninos mirrados se converteriam em homens e Leila... Leila não demoraria para se converter em mulher. Apesar de se opor às restrições da sociedade inglesa, só precisava olhar para Leila para saber que fizera o correto.

Uns quantos criados estavam baixando a bagagem da carruagem, e Charlotte exclamou de repente:

—Esperem! Necessito essa mala!

Wynter observou com muito interesse como Charlotte recuperava sua maleta de mão de um dos moços. Era bastante pesada e estava volumosa pelos lados. De novo, se aproximou dela e a estudou.

Ela deixou a maleta apoiada na parede e permitiu à criada que a ajudasse a tirar o casaco. Aquela mulher parecia tudo o que a mãe de Wynter esperara encontrar: fria, impessoal e imperturbável.

Lhe custava imaginar, entretanto, que uma mulher como ela pudesse se relacionar com o volátil caráter de sua filha Leila. Se Charlotte não fosse capaz de lutar com Leila, seu trabalho não serviria para nada.

Charlotte desenredou a fita que tinha atada sob o queixo e tirou o chapéu; a Wynter fascinaram seus movimentos. O fascinou como não o tinha fascinado nada desde muitos anos.

—Meu Deus - espetou. - Por que não me disse que você era ruiva?

Charlotte ficou gelada e elevou os braços. Entre o dedo indicador e o polegar, Wynter sustentou a mecha de cabelo que escapara de seu coque e lhe caía sobre a testa.

—Jamais vira algo parecido. Um homem poderia esquentar as mãos com seu fogo.

Foi consciente então do som gutural que sua mãe fez. Uma risada sufocada.

Quando Wynter se voltou para olhá-la. Adorna se encaminhou a sua cadeira, mas antes levou a mão à boca e os olhos evidenciaram seu assombro. Outra vez se saltou uma das estranhas normas inglesas.

Charlotte entregou o chapéu à criada, depois agarrou o pulso de Wynter e o afastou.

—De fato, senhor, não se considera de bom tom realizar comentários tão evidentes sobre os atributos físicos de outra pessoa.

—Mas que sentido tem que uma mulher mostre seus encantos se um homem não pode admirá-los?

—Eu não estou mostrando meus encantos! Meu cabelo é... - Respirou fundo. - Podem se apreciar os atributos de uma mulher, mas de um modo mais... relaxado.

Os dedos tremeram levemente ao agarrar a mão de Wynter. Apesar que suas faces avermelharam, dando um pouco de cor a seu pálido rosto, o tom de sua voz seguia inalterável.

Charlotte dispunha de uma formidável armadura, e ele se perguntou por que a necessitava.

—Então poderia dizer: a cor de seu cabelo me parece encantadora.

—Isso está melhor, sim, mas nos desembrulharemos melhor em nossos papéis de senhor e empregada se não me dedica elogio algum.

—Mas isso não tem graça nenhuma.

Lhe soltou o pulso.

—Para se adaptar às normas sociais, às vezes é necessário fazer certas coisas que não nos resultam agradáveis.

Wynter franziu o cenho.

—Isso recordo.

Ela alisou o vestido e fixou a vista em suas mãos.

—Não acredito que dedicasse esse tipo de comentários às damas do deserto.

—Não recordo ter visto nenhuma dama no deserto. Só às meninas se permite correr por aí sem levar o rosto coberto.

Que curioso. O olhou então diretamente com seus olhos verdes como os campos na primavera.

—Quer dizer que realmente encerram às mulheres nos haréns?

Suas amigas já fizeram esse tipo de perguntas, mas sempre em um tom mais gritão e depreciativo. A Charlotte fascinava o tema, até tal ponto que se livrou durante uns segundos de sua máscara de frieza.

—As esposas dos homens enriquecidos que vivem na cidade sim estão no harém - explicou. - Eu estava com os beduínos, os nômades do deserto. Nossas mulheres iam conosco, mas levavam a cabeça coberta.

—Suas mulheres... - Charlotte vacilou. - Esposas? Precisavam levar a cabeça coberta?

—Minha esposa - enfatizou o singular - levava a cabeça coberta, e também o rosto, em geral. Mas eu também. A areia e o sol não dão trégua.

—É obvio. - Charlotte apertou seus carnudos lábios ao mesmo tempo que assimilava os detalhes.

Ele também assimilou os detalhes. Possivelmente sob a decorosa atitude de Charlotte se escondia uma alma aventureira.

—Venham e sentem-se aqui, queridos - disse Adorna. Charlotte se surpreendeu com suas palavras, o qual a levou a se sentir culpada ao notar também que todos a olhavam.

—Rogo que me desculpe, senhor. Não tenho nenhum direito a lhe perguntar.

—Se trata de outra dessas regras que tenho que aprender? Os ingleses que querem chegar a conhecer algo não têm que fazer perguntas?

—Não! Não, não é isso o que queria dizer. Me refiro a que você queria tomar o chá e este não é o momento nem o lugar apropriado para semelhante interrogatório.

—Então seguiremos mais tarde. - se afastou antes que ela pudesse responder, e foi se sentar em uma enorme poltrona.

Adorna se sentara em frente à bandeja dourada com o chá e, como se se tratasse de um cão preso, Bucknell atendeu a sua chamada. Charlotte ainda estava contrariada.

—Charlotte - Adorna lhe fez um gesto para que se sentasse no sofá, a seu lado, - se importaria de me ajudar, por favor?

Quando a jovem se aproximou dela, Adorna serviu o chá.

—Só leite, não é, lorde Bucknell? - Passou a xícara para Charlotte, que a entregou a Bucknell. - Com açúcar para você, Wynter.

Charlotte entregou sua xícara a Wynter sem o olhar aos olhos.

—Enquanto te sirvo, Charlotte, pode passar a Wynter as bolachas ? Quando era menino, meu filho adorava essas bolachas.

Wynter aceitou o prato e se contentou com duas bolachas, resistindo com esforço a tentação de comer todas diretamente do prato. Algo assim teria horrorizado Charlotte.

Talvez a tivesse horrorizado tanto que teria deixado cair a máscara de frieza que cobria seu rosto permitindo que surgisse uma indignação verdadeira.

Ao mesmo tempo que imaginava o muito que o atraía essa opção, também recordou os fundamentos básicos do bom tom social inglês.

—Um sanduiche, lorde Bucknell? - Quando Bucknell rechaçou seu oferecimento, Adorna disse: - Um pouco de torta de cominho?

Bucknell aceitou um pedaço.

Adorna encheu um prato com sanduiches, torta e bolo de passas e o entregou a Charlotte.

—As damas são muito delicadas para experimentar algo tão vulgar como a fome, mas Charlotte e eu estamos famintas.

Wynter riu com vontade e inclusive Charlotte sorriu ligeiramente enquanto tirava as luvas e se dispunha a comer.

Bucknell, entretanto, assentiu.

—Tem razão. Tem razão. As mulheres inglesas não são como suas selvagens, já sabe a que me refiro, amigo. Wynter ainda sorria quando perguntou:

—De que selvagens me fala? Selvagens como minha esposa?

Bucknell reagiu imediatamente; olhou para Wynter com algo que, se não era terror, parecia muito.

—Foi uma estupidez por minha parte, senhor. Rogo que me desculpe. - Bucknell manteve o equilíbrio da xícara e do pires sobre seu joelho e olhou para Adorna.

—Me surpreendeu muito encontrar Wynter aqui, lady Ruskin. Admito que não estou muito posto em assuntos de fofoca, mas não ouvi rumor algum sobre sua volta.

Wynter interveio.

—Retornei recentemente mais ou menos quinze dias e não senti a necessidade de iniciar rumor algum.

—Não, é obvio que não. - Bucknell olhou para Wynter e seu engolado acento se fez, se isso era possível, ainda mais engolado. - Mas, habitualmente, as notícias se estendem como a pólvora ao longo e largo da Inglaterra.

—Mãe acredita que tudo será muito mais simples se meus filhos aprenderem os fundamentos básicos do civismo inglês antes de serem apresentados em público, e também decidiu que o melhor seria que ninguém estivesse à par de minha presença.

—Olhou com graça para Adorna. - Ou... quase ninguém. Juro, senhora, que quando estive no povoado Howard me reconheceu e ele mesmo se convidou.

—Howard habitualmente não dispõe de dinheiro - acrescentou Bucknell. - Se não fosse pelas ridícu... isto é, únicas opiniões do jovem Wynter, Howard e seus parentes se instalariam aqui até que os tivessem jogado pela força.

Wynter fingiu não ter se dado conta da rabugice de Bucknell.

—Espero que durante sua estadia em Londres não a acompanhassem, querida - disse Bucknell a Adorna, mas aquele comentário estava dedicado claramente a Wynter.

—Não - respondeu Adorna. - Graças à ajuda do primo Stewart, Wynter pôde tomar as rédeas.

—Você não deveria ter se visto envolta em assuntos tão plebeus. - Encorajado pelo aparente bom aspecto de Wynter, Bucknell acrescentou: - lady Ruskin é uma flor delicada.

Wynter mal pôde conter sua impaciência.

—Se isso for o que acha, você não a conhece absolutamente.

Bucknell se tornou para trás, um velho cavalheiro insultado por um jovenzinho.

Nesse momento, proveniente do andar superior, escutaram o sapateio de uns sapatos sobre o chão de madeira e uma chamada distante:

—Papai! - O grito de Leila ecoou na longa escada que levava ao vestíbulo. - Paaaapáááá.

Wynter imaginou que ela estava deslizando pelo corrimão.

—Não faça isso. - Robbie gritava tão forte como Leila, mas imaginar a reprimenda fazia aceitável o elevado volume de suas vozes. - Vai se colocar em prooobleeemaaas!

Se escutou o atenuado golpear das botas da menina ao cair e, com um gesto, a filha de Wynter apareceu depois da esquina se apresentando no grande salão. Era magra, um punhado de ossos unidos por um pouco de pele.

Também era alta, muito mais do que costumavam ser as meninas de sua idade. Tinha o cabelo escuro, como devia ser o de sua mãe, recolhido em uma trança, e sua pele mostrava um formoso tom oliváceo.

Apesar que parecia uma menina recatada a simples vista, seus olhos eram vivazes e travessos, grandes, escuros e brilhantes enquanto ria bobamente sem deixar de se mover.

E, sem dúvida, o pó que cobria seu vestido não estava aí a uma hora atrás.

Wynter lhe estendeu os braços.

—Venha aqui, fantasia de diabo.

Se lançou a seus braços no mesmo instante em que apareceu seu irmão na porta.

—Tentei detê-la! - Alto e largo de ombros, com a mesma cor de cabelo que sua irmã, seu aspecto já dava mostra do atraente homem no que ia se converter; o tom de sua voz, entretanto, era irregular quando apontou a sua irmã, aconchegada contra o colo de Wynter. - Esteve no desvão e a tornou a armar.

—Deixa de contos - o reprovou Wynter fazendo um gesto para que se aproximasse. O moço se aproximou e se acomodou sobre os joelhos de seu pai para abraçá-lo também.

Então, tanto ele como sua família de inadaptados olharam aos presentes, aqueles representantes da afetada sociedade inglesa.

Adorna olhou a seu filho e a seus netos com uma mescla de desespero e amor. Bucknell, como era de prever, não pôde dissimular sua antipatia. E Charlotte... Ah, lady senhorita Charlotte.

Pela primeira vez desde que a conhecia, seus olhos verdes não pareciam tão frios. Olhou aos filhos de Wynter com... podia se dizer que os estava avaliando?

Wynter pediu a Leila e a Robbie que prestassem atenção nela.

—Esta dama é a instrutora que sua avó lhes prometera. Seu nome é lady senhorita Charlotte, é muito esperta e, como podem ver, muito formosa. Ela os ensinará.

Um sorriso se desenhou na boca de Charlotte ao olhar para Leila, depois assentiu em direção a Robbie com um toque de camaradagem.

—Estou encantada de lhes conhecer. Sempre é um prazer fazer novos amigos.

Wynter voltou a lhes dar um empurrãozinho e os dois meninos murmuraram:

—Encantados de conhecê-la, lady senhorita Charlotte. - Mas nem ficaram em pé nem fizeram reverência alguma.

Adorna tinha a intenção de repreendê-los, mas antes que pudesse fazê-lo, Charlotte disse:

—Robbie, se importaria de me dar minha maleta? Tenho que tirar os presentes que lhes trouxe.

Ah, a palavra mágica! Robbie ficou em pé de um salto, ansioso por obter seu presente, e foi em busca da maleta que Charlotte deixara apoiada contra a parede.

Leila voltou para se aconchegar entre os braços de seu pai. Nos últimos meses conhecera a muita gente, havia passado por um montão de novas experiências e, finalmente, se viu atacada pelo acanhamento. E as rabietas.

E os pesadelos, mas Charlotte não precisava sabê-lo ainda.

Charlotte não deu importância às reservas de Leila. Em vez disso, quando Robbie lhe entregou a maleta, ela deu palmadas no sofá para que se sentasse a seu lado.

Depois que a obedecesse, a instrutora abriu a maleta e tirou um pedaço de madeira de um cavalo de uns quarenta centímetros de altura.

Um perito artesão lhe dera forma, e o animal parecia estar em movimento, com os cascos elevados, com as crinas e a cauda ao vento devido à velocidade.

Quando Charlotte deixou a madeira no chão, a seus pés, Wynter sentiu que Leila se inclinava para o cavalo.

—Este é o presente de Leila - disse Charlotte.

Charlotte era esperta.

Voltou a introduzir a mão na maleta e tirou dele algo parecido a um fino cabo de marfim de uns cinco centímetros.

Wynter soube imediatamente de que se tratava. Charlotte era muito esperta. Perigosamente esperta. Wynter se disse que não podia esquecer esse detalhe.

Quando Charlotte estendeu o objeto a Robbie, Adorna deixou escapar um leve gemido e apoiou a cabeça em suas mãos. Robbie franziu o cenho e aceitou aquela coisa das mãos de Charlotte.

Só lhe custou um minuto descobrir o mistério daquele presente.

—Olhe, papai! - Estendeu a lâmina da navalha de bolso. - Posso levá-la comigo e lançá-la... - se deteve um segundo e olhou com afetação para sua avó. - Mas não dentro de casa.

—Então, teremos que praticar fora, não te parece? - disse a instrutora. - O faremos durante nossos passeios. Esperava que pudesse me ensinar o modo adequado de lançá-la, e também esperava que Leila me ensinasse a montar a cavalo.

—Se voltou para a menina. Leila não afastara ainda a vista do cavalo de madeira. - Leila, sua avó me disse que montava muito bem a cavalo.

Leila olhou com esperteza para Charlotte.

—Sim. Mas não quero montar ao estilo amazona.

—OH, vá, carinho. - Charlotte pegou o cavalo. - Não estava à par que não sabia montar ao estilo amazona.

—Sim que sei! - Leila se levantou do colo de Wynter com uma careta de indignação. - Mas não quero fazê-lo.

Robbie nem sequer levantou a vista, pois não deixava de estender e recolher a lâmina da navalha.

—Como sabe? Nem sequer tentou.

Antes que Leila pudesse responder, Charlotte ficou em pé.

—As garotas podem fazer qualquer coisa, Robbie. Leila, venha e pegue o cavalo.

Leila caminhou até ali e pegou a madeira a apertando contra seu peito.

—É muito bonito - disse com um pouco de temor. - Obrigado, lady senhorita Charlotte.

—As garotas também têm melhores maneiras que os meninos - recalcou a instrutora. Robbie captou a indireta.

—Obrigado, lady senhorita Charlotte.

—Dou as boas-vindas aos dois. Robbie, se importaria de me levar a maleta? Com sua permissão, lady Ruskin, eu gostaria que estes dois pequeninos me mostrassem onde está meu dormitório.

Charlotte pegou Robbie por sua mão livre e também Leila, e quando saíam do enorme salão, Wynter escutou Charlotte dizer:

—Sabia que é muito mais difícil cavalgar como uma amazona que como o fazem os homens?

Wynter ficou em pé e caminhou até a porta, saiu do salão e, com as mãos apoiadas nos quadris, observou a seus filhos e a instrutora. Charlotte levava Robbie e Leila com tal facilidade, que os meninos nem sequer sabiam que os estavam levando.

Aquela mulher sabia o que fazia. Sim, sabia à perfeição...

 

Pouco depois, Charlotte negou com a cabeça ao ver a menina embelezada com um de seus chapéus, um par de compridas luvas e um espartilho.

—Me esforço por ter um aspecto muito pulcro[3], mas esse é o aspecto que tenho?

Leila sorriu, absolutamente impressionada pela recriminação de Charlotte, e colocou os óculos da instrutora. Seus olhos pareciam muito maiores atrás da curvatura das lentes, e piscou quando o mundo se inclinou de repente.

—O que é isto? - Robbie tirou de sua maleta uma longa caixa que continha a preciosa regra de cálculo de Charlotte.

—Traga-o aqui e o mostrarei.

Leila caminhava teatralmente de um lado a outro do dormitório de Charlotte, com os braços estirados e levantando muito os pés.

Robbie entregou a instrutora a caixa de couro.

—Sabe somar e subtrair?

—Sim, senhora. - O acento de Robbie era muito mais marcado que o de seu pai, mas falava a língua da rainha sem cometer incorreções. - E multiplicar e dividir também.

Charlotte elevou as sobrancelhas.

—Muito bem. Não sei que tipo de educação formal você recebeu. Quem os ensinou?

—Meu pai. Papai é... era o encarregado dos negócios em nossa tribo, e diz que temos que aprender todo tipo de maneiras de comercializar se quer ganhar o respeito de outros.

Charlotte baixou a vista para suas mãos e tirou a regra de cálculo de sua caixa.

—Seu pai é um homem sábio. - Manipulou as peças móveis sobre a madeira polida. - Vocês gostarão de saber que quando souberem dirigir a regra de cálculo, conhecerão um modo de fazer cálculos matemáticos sem utilizar lápis nem papel.

Robbie franziu o cenho.

—OH, eu nunca utilizo lápis nem papel. Faço-o mentalmente, como papai.

Charlotte o olhou.

—Com números grandes também? Como... seiscentos e trinta e dois por quatro mil quatrocentos e dezoito ?

—Dois milhões setecentos e noventa e dois mil cento e setenta e seis - disse Robbie imediatamente.

—Não, não pode tê-lo calculado mentalmente. Verá, a resposta é... - Charlotte realizou os cálculos com a regra. - Dois milhões setecentos e noventa e dois mil cento e setenta e seis. - Voltou a olhar ao menino. - Como o fez?

—Papai me ensinou.

—Seu pai o ensinou? - Aniquilada, Charlotte se perguntou se a falta de civilização havia tirado à luz as habilidades inatas de lorde Ruskin.

—Grande talento compartilham os dois! - Sentiu o desejo de lhe fazer mais perguntas, mas Leila se chocou contra a pia e a bacia e a jarra de porcelana caíram ao duro chão de madeira. A jarra se partiu em duas.

A água da bacia se estendeu pelo chão. Leila gemeu.

—Vá desastre - disse seu amado irmão. Charlotte ficou em pé e foi até onde a menina se encontrava sentada esfregando a tíbia.

—Se molhou? - Retirou os óculos do nariz da menina e os meteu no bolso.

—Sim, e me machuquei.

—Nada grave. Toma um lenço, seque a água. Sabe multiplicar como seu irmão?

—Não. - Leila agarrou o lenço a contra gosto e se dispôs a secar o chão. - Não sei multiplicar por mais de cem por mil.

—Estou muito impressionada. - Charlotte se ajoelhou junto à menina e passou um trapo de modo mais eficiente. - Seu pai os ensinou a ler?

—Eu sei ler - disse Robbie.

—Não sabe. - O acento de Leila também era mais forte que o de seu pai, mas sua voz aguda e clara podia ser educada. - Você reconhece algumas palavras de vez em quando.

—Sei mais que você.

—Eu sei ler, o que passa é que não quero fazê-lo.

Charlotte ajeitou a pia e deixou em cima os pedaços quebrados de porcelana.

—É obvio que não. Mas eu também sei ler e tenho um livro que você poderia gostar.

—Não se tiver que lê-lo - disse Leila com ar truculento.

—Não, eu o lerei para você - afirmou Charlotte preparando sua armadilha sem dificuldade.

Ficou em pé e foi em busca de sua mala. A maioria das coisas que levava dentro estavam agora espalhadas pelo chão. As roupas que havia trazido caso os criados não ordenassem corretamente seus baús - até que lhes dessem as indicações corretas, os criados não sabiam como ajudar às instrutoras, - seu quadro-negro, sua secretária portátil com os papéis e as plumas e uns poucos livros muito bem selecionados.

Pegou um deles, encadernado em couro verde, e jogou uma olhada ao redor do ensolarado quarto; tinha vista para o este.

O melhor lugar para os três sentarem era o banco sob a janela. A janela dava ao jardim, e o assento estava estofado com o mesmo luxuoso tecido com o qual estavam confeccionadas as cortinas e a colcha.

As almofadas que havia em cima eram de um tom creme que destacava em relação ao do assento.

—Venham, meninos. - Charlotte os levou até o banco da janela e se sentou entre Robbie e Leila. Enquanto os meninos tentavam se apropriar do maior número possível de almofadas, ela apenas se fixou nos detalhes de seu dormitório.

O quarto não se encontrava na ala infantil, em que habitualmente se localizavam os dormitórios das instrutoras, a babá e os meninos. O dormitório de Charlotte estava no segundo andar, mobiliado com muita elegância.

O papel pintado das paredes era de um tom verde pálido com franjas douradas. Dois amplos tapetes Aubusson se estendiam a ambos os lados da cama, para que quando Charlotte se levantasse pelas manhãs seus pés não tocassem o frio chão.

Duas poltronas e uma mesinha foram dispostas para formar uma pequena zona em que se poderia sentar em frente à lareira; outro luxo do qual Charlotte não desfrutara desde que se foi da casa de seu tio.

Charlotte não entendia o motivo daqueles detalhes. Por alguma razão, sentia como se a estivessem subornando de algum modo.

Mas por quê? Não podia imaginar que provação o futuro relacionado com os meninos teria que enfrentar. Pareciam avançados em matemática, não liam bem, não estavam bem educados, eram rebeldes e muito inteligentes... Tudo isso se podia corrigir.

—Que livro é? - perguntou Leila.

—É novo. Eu o tenho lido, mas me disseram que as histórias que conta terão continuação. - Charlotte passou a mão sobre a coberta de seu novo e mais prezado livro. - Seu título é Noites árabes.

—Do que trata? - Robbie levava consigo a regra de cálculo e parecia manipulá-la com bastante destreza.

Charlotte supunha que se o deixasse, não demoraria para controlar um instrumento que lhe levara muito tempo dominar.

A única coisa que esperava é que não tivesse aprendido álgebra e geometria, ou teria que espremer o cérebro para poder ficar na dianteira daquele moço.

Abriu o livro e disse:

—Trata sobre uma dama muito inteligente e as histórias que contava.

—Mamãe sempre nos contava histórias - disse Robbie. - Leila não se recorda de mamãe. Era muito pequena quando morreu.

Charlotte não tinha claro se era ou não adequado perguntar a um menino, mas não pôde evitar que lhe apressasse a curiosidade.

—Que idade tinha?

—Ela tinha três anos. Eu sete. - Seus lábios tremeram durante uns segundos, depois acrescentou: - Eu lembro dela.

—Então, segue viva em seu coração - disse Charlotte com amabilidade.

—O que quer dizer? - perguntou Leila.

—Quer dizer que sigo vendo-a quando fecho os olhos. - Robbie parecia impaciente, mas Charlotte suspeitava que a impaciência era fingida. - Mamãe era baixa e gordinha, e sempre me sorria.

—E me sorria? - perguntou a menina.

—A você também.

—Eu gostava. - A voz de Leila tinha um tom de triunfo. - Onde está sua mamãe, lady senhorita Charlotte?

Charlotte hesitou sobre corrigir os meninos a respeito de como deviam chamá-la. Não estava bem, com certeza, mas tinha certo encanto que a chamassem assim e, além disso, contradizer ao pai dos meninos talvez não fosse o mais indicado.

—Minha mãe também morreu. - Prevendo a seguinte pergunta, disse: - E meu pai. Mas morreram quando tinha onze anos, assim tive sorte. Pude desfrutar deles mais tempo que vocês de sua mãe.

—Que sorte - conveio Leila.

Charlotte abriu o livro pela página branca do título.

—E agora, lemos?

—Realmente, não sou bom em matemática. - Wynter estava observando o grosso livro de contas que seu primo Stewart havia aberto frente a ele, depois jogou uma olhada ao grupo de cavalheiros vestidos de negro que estavam sentados a ambos os lados da longa mesa nas escrivaninhas da Naval Ruskin em Londres.

—Se importaria de me explicar isso?

Com a extremidade do olho viu Stewart passar os dedos pela gola do pescoço. O senhor Hodges ficou tão vermelho que Wynter temia que fosse sofrer uma apoplexia. O senhor Read enrolou os papéis que estava em frente a ele.

Sir Drakely aparou os bigodes para dissimular sua risada tola. E o senhor Shilbottie não pôde evitar um ataque repentino de tosse.

Wynter abriu muito os olhos e elevou o olhar para Stewart.

—Há algum problema?

Tão só uma semana depois, Stewart faria cinquenta e sete anos, e seu rosto evidenciava sua idade à perfeição. Era um homem alto e magro, mas estava começando a se encurvar.

Seu cabelo castanho era agora mais escasso, e a ponta de seu nariz caía por cima dos finos lábios. Apesar da idade, as lembranças do passado de seu primo diferiam pouco da imagem do presente.

Stewart tinha nascido velho. Seus amáveis olhos, entretanto, demonstravam exasperação quando respondeu:

—Nenhum absolutamente, primo. Mas... seria um pouco difícil te dar uma aula de aritmética agora. Se tivesse me dito isso antes.

Wynter observou à equipe de diretores e se fez de tolo deliberadamente.

—Mas sim podem me falar dos benefícios. Isso é a única coisa que me preocupa. E podem me pôr ao dia do funcionamento da empresa. Depois de tudo, não é esse seu encargo?

Drakely observou os brancos nódulos de Stewart e decidiu que alguém tinha que passar a ação.

—Sim, sim, é obvio que esse é nosso encargo. Mas sua mãe deveria ter se interessado um pouco mais no funcionamento da companhia e também você... E, é obvio, seu pai!

Wynter perguntou:

—OH. Ele dominava a matemática?

Agora Drakely parecia ter perdido todo seu impulso.

—Ele era... Lorde Ruskin era...

Shilbottie, um cavalheiro de uns sessenta anos e uma cara que parecia de lã molhada, decidiu tomar a substituição.

—De sobra era conhecido que lorde Ruskin podia dar uma olhada a uma fileira de números e fazer os cálculos necessários em um abrir e fechar de olhos. Porque sua senhoria conduzia a companhia com mão mestra.

Quando entrei para trabalhar aqui como moço conduzindo carvão, faz cinquenta e dois anos, sabia os nomes e a ocupação precisa de todos seus empregados, e foi o primeiro em reconhecer meu potencial e me dar uma oportunidade.

Seu pai era um santo, moço.

—Um santo. - Wynter guardava diáfanas lembranças a respeito de suas visitas ao escritório com seu sábio e malvado pai, e sabia que custaria Deus e ajuda outorgar santidade a seu pai, e que ao fazê-lo mais de um se desiludiria.

—Nunca ouvi semelhante qualificativo associado a meu pai. Mas se ele tivesse fiscalizado a companhia durante estes anos, as coisas teriam sido diferentes.

—Seguro. - Hodges deu palmadas em seu ventre, que crescia generosamente sob o colete de seda. - Eu entrei para trabalhar pouco depois que lady Ruskin tomasse as rédeas. Que tempos aqueles.

Era uma mulher encantadora e estava destroçada por causa da perda de seu marido e seu filho... Você não estava morto, é obvio, mas ela sofria igualmente.

Todos os presentes ali olharam para Wynter.

Ele os olhou com inapetência se perguntando qual dos ardorosos pretendentes de sua mãe teria se aproveitado dela e a teria extorquido.

Hodges prosseguiu com sua história.

—Havia um par de descarados na empresa naquela época, homens que não teriam hesitado em se aproveitar de uma mulher tão formosa, mas sua mãe os ridicularizou. - Brandiu um dedo .

—Não é uma cabeça de vento... né... não é a frágil florzinha que parece ser. Aqueles canalhas não suspeitaram nada até que ela os denunciou!

O senhor Hodges parecia claramente apaixonado por Adorna, e pelos carinhosos sorrisos de outros, soube que sua mãe tinha conquistado a todos.

Deu as graças a Deus pela habilidade de Adorna para atordoar as mentes dos homens com seus encantos; foi isso precisamente o que salvou a fortuna da família quando, sendo um moço inconsciente, se largou em busca de aventuras.

Entretanto, não pôde evitar se perguntar se aqueles homens não se dariam conta que ele não era tão estúpido como estava aparentando ser. Acaso acreditavam realmente que sua estadia na Arábia havia minguado sua inteligência?

Ao que parecia, todos os ingleses acreditavam que alguém precisava ter estudado em Oxford, se vestir de negro e transmitir esse particular ar britânico para entender o funcionamento dos negócios.

Os negócios, Wynter poderia lhes ter dito, funcionam exatamente do mesmo modo em todo o mundo.

Não disse nada. Permitiria a eles descobrir a verdade quando chegasse o momento.

—Minha mãe, para falar a verdade, é uma jóia radiante de cor e graça nas terras baldias do deserto inglês.

Os trajados homens de negócios se removeram incômodos em suas cadeiras, e Wynter mal pôde conter o sorriso. Os ingleses eram tão prosaicos ao falar;

Assim que alguém falava com um ligeiro tom poético, todos ficavam a soprar como cavalos castrados a ponto de ser marcados a fogo.

A poesia era uma ferramenta útil.

Também resultava surpreendente para um homem que não encontrava nada digno de menção na sociedade britânica.

—Mas, com certeza, o que lady Ruskin deseja é poder confiar completamente em meu julgamento e me animou a que tome as rédeas sem me pôr de sobreaviso de nada. - Wynter ficou em pé. Outros o imitaram. - Eu confio em vocês do mesmo modo, cavalheiros.

Por isso, para lhes facilitar as coisas, levarei estes livros a meu escritório, embora dentro de meia hora tenha um encontro com um velho amigo. Realmente não poderei examiná-los minuciosamente.

—Com toda intenção, colocou o cabelo atrás das orelhas para mostrar seu brinco e, deixando aos presentes sumidos no silêncio, saiu da sala.

Mal tinha percorrido uns poucos metros de corredor quando, a suas costas, escutou o estalo mal contido das gargalhadas.

Ao que parecia, os ingleses não só acreditavam que havia minguado sua inteligência mas também sua capacidade auditiva. Entrou no luxuoso escritório que ocuparam seu pai e sua mãe antes dele e fechou a porta.

Deixou o livro de contas sobre a escrivaninha, se sentou e começou a folheá-lo, realizando os cálculos mentalmente... tal como seu pai o ensinou.

 

"Queridas Hannah e Pamela:

Lady Ruskin me honrou com o privilégio de lhes enviar uma carta, queridas amigas e confidentes, assim que escrevo para lhes relatar os acontecimentos das últimas três semanas.

Em primeiro lugar, me permitam que as tranquilize.

Não tive contato algum com nenhum dos habitantes de Porterbridge Hall, e inclusive evitei ir à igreja de Wesford Village com o pretexto de esperar eu também até que os meninos estejam preparados para ser apresentados em sociedade.

Semelhante desculpa por minha parte, como é óbvio, não deixa de ser uma tremenda amostra de covardia.

Quão único posso dizer em minha defesa é que pensar em encontrar a alguém da família, com algum de seus depreciativos rostos, me põe os cabelos em pé, e meu castigo é que o medo de me encontrar com um de meus primos ou minha tia ou, Deus não o permita, meu tio, paira sobre mim como uma nuvem ameaçadora.

Vocês são as únicas com as que posso falar deste assunto. Para falar a verdade, me resulta difícil inclusive respirar o ar de Surrey.

Sei que não deveria ser assim, mas aqui e agora não posso evitar me rebelar contra a solidão e a falta de esperança ante o que, no passado, não pude a não ser me render.

Mas lhes asseguro que tudo irá bem e que não têm do que se preocupar. A situação quando cheguei a Austinpark Manor era tal e como lady Ruskin nos contara.

Os meninos desfrutavam de uma liberdade imprópria para sua idade, idade que supera em muito a época em que na Inglaterra os meninos começam a ir à escola, e tenho que lhes explicar inclusive as mais insignificantes situações.

Por exemplo: tive que explicar a Robbie e a Leila que o modo mais adequado de se sentar em uma cadeira não era se deitar no chão e colocar os pés em cima do assento. Leila dizia que essa era a melhor posição para aprender.

Queridas amigas! Não quero que achem que a menina se mostra impertinente. Estes meninos não são absolutamente impertinentes.

De fato, parecem tão predispostos a uma amabilidade inata para os outros que suporta que sua cortesia seja automática, e sua curiosidade e bom humor convertem o ensinar em um prazer.

Entretanto, no que ao uso do garfo se refere, ou ao fazer reverências, e mais concretamente em relação às sutilezas da conversação, não dão pé com bola.

Resulta curioso que as matérias que, ao longo dos anos, menos tratei - matemática, ciências, linguagem ou geografia - agora possa as ensinar com tanta facilidade, e entretanto na matéria pela que sou famosa ainda não tive êxito.

Mas me estou indo pelos ramos. Expliquei aos meninos que se deitavam no chão olhando para o teto não poderiam ver o mapa ou a fita de papel com a grafia das letras ou o quadro-negro onde conjugo os verbos franceses e latinos.

Robbie conveio em que tinha razão, pois os pés o impediam de ver o quadro-negro, assim agora os meninos se sentam corretamente em suas cadeiras. Sim, queridas, é toda uma provocação, mas estou desfrutando disso.

Desde que cheguei, e para minha tranquilidade, o pai dos meninos passou a maior parte do tempo em Londres junto a lady Ruskin. Ah, não sabiam que o pai estava vivo? Embora talvez fui eu quão única o deu por sentado. É um homem do mundo.

O ponho ao dia do trabalho uma vez à semana, mas a ele parece interessar mais examinar a mim. É muito atento com Robbbie e Leila, toma o café da manhã com eles sempre que está aqui.

Apesar que me satisfaz que o pai aceite o desenvolvimento dos meninos, ao mesmo tempo me decepciona um pouco que os meninos se comportem pior após passar um momento com ele. Lorde Ruskin, como poderão supor, é um consumado bárbaro..."

 

Charlotte acabou a última história de Noites árabes, fechou o livro e se recostou na poltrona.

—Gostaram tanto como as outras?

Conhecia de sobra a resposta. Os filhos de Wynter estavam sentados a seus pés, contemplando o mundo como um lugar de diversão e expectativas, onde tudo era possível, inclusive os tapetes voadores e as cavernas mágicas abarrotadas de tesouros.

Embora Charlotte soubesse que estava cometendo um erro, de vez em quando compartilhava com eles sua ilusão.

Ficou em pé e colocou o livro na maleta.

—Hoje está um lindo dia, e seria bom que comêssemos ao ar livre. - Alisou o colarinho branco e os punhos que adornavam seu vestido azul e, tal como esperava, os meninos a imitaram: se puseram em pé e arrumaram a roupa.

Robbie mostrava um aspecto limpo e polido com calças negras e sua pequena jaqueta, mas Leila... Charlotte evitou deixar escapar um suspiro. Quando Leila gostava de algum vestido não o tirava nunca.

Sua saia rosa arrastava pelo chão, e Charlotte franziu o cenho ao perceber uma mancha que decorava sua manga direita. Mas a menina alisou a saia e voltou a arrumar o cacho de cabelo que escapara.

Quando Leila acabou de fazê-lo, a instrutora estendeu uma mão a cada um dos meninos para levá-los com ela.

—Enquanto damos um passeio após a ceia, gostaria que vocês me falassem de El Bahar.

Se convertera em um costume. Todos os dias davam um passeio. Robbie praticava com sua navalha. Leila perseguia as mariposas e se rebolava na erva. E as crianças compartilhavam com ela as histórias de sua estadia no deserto.

Desfrutavam recordando a terra que deixaram para trás, pois em certo sentido era como ensinar a professora.

A Charlotte fascinava imaginar as onduladas dunas do deserto, os camelos cuspindo e o cheiro de esterco, os ossos clareados pelo sol, a repentina visão de um oásis e o se dar conta depois que se tratava de uma visão.

—Comer ao ar livre pode fazer parte das celebrações matutinas - disse a eles enquanto desciam as escadas e atravessavam o pátio. - Quando se come ao ar livre, contudo, se tem que recordar que as regras de civilidade seguem sendo as mesmas.

Leila suspirou sonoramente.

—Não tenho vontade de falar de boas maneiras. São uma estupidez.

—As boas maneiras são a diferença entre as pessoas cultas e as provincianas - sentenciou Charlotte.

—Acreditava que era a cultura que os diferenciava - disse Robbie.

Uma profunda gargalhada ressoou às costas dos três.

—Acho que tem razão, lady senhorita Charlotte. - Wynter estava apoiado no marco da porta que dava para a longa galeria.

—Papai! - Leila se lançou aos braços de seu pai. Ele a abraçou e a beijou no alto da cabeça, depois passou um braço ao redor dos ombros de Robbie e o apertou contra si. Sorria de maneira ostensiva.

Charlotte apreciara anteriormente umas pequenas rugas junto às sobrancelhas dele. Estava descalço, com a camisa aberta, sem colarinho nem jaleco.

Parecia como se tivesse penteado os cabelos com os dedos, apareciam com perfeição a cicatriz do queixo e seu brinco...

Exótico. Tinha um aspecto exótico. Essa era a verdadeira razão de que Charlotte evitasse tomar o café da manhã com Wynter e seus filhos. Para ela, tudo o que rodeava aquele homem era exótico, inesquecível e desejável.

Baixou o olhar de imediato.

—Que alegria vê-lo, senhor.

—Mas nem sequer olha para ele - Leila a corrigiu, ainda entre os braços de seu pai.

—Se trata de uma frase de cortesia. - Charlotte pensou que se tratava de uma explicação razoável, porém teria que ter pensado duas vezes. Aqueles meninos eram literais; ao menos, no que se referia a língua inglesa.

—Para que dizer algo que não é verdade? - Robbie perguntou.

—Sim, lady senhorita Charlotte, para que? - Wynter fez eco.

Sabia que ele estava zombando dela. Dela e de tudo que fosse nobre, honorável e inglês. Levantou a cabeça e, o olhando aos olhos, disse:

—A cortesia faz mais fácil as situações que, de outro modo, poderiam ser mal interpretadas, ferindo os sentimentos ou inclusive dando margem a derramamento de sangue.

Não posso acreditar que, inclusive nas distantes terras de el Bahar, não tivessem presente a cortesia.

—Como vem sendo costume, lady senhorita Charlotte, você tem razão. As regras de cortesia são muito importantes em El Bahar, especialmente essa cortesia que eu tanto sinto falta na Inglaterra.

—A que se refere? - perguntou a instrutora.

—Tolerância. - Antes que ela pudesse compor uma réplica, ele sorriu aos meninos. - Carne de minha carne, o que a professora tem planejado para vocês?

—Ceia no terraço. - Leila pegou a cabeça de seu pai entre as mãos e o obrigou a olhar para Charlotte. - Papai, por favor, diga que comerá com a gente.

Wynter abrangeu a face de Robbie com a palma de sua mão.

—Rezei para que me pedissem isso. Sua instrutora dará sua aprovação?

Como se pudesse rechaçar à pessoa que pagava seu salário...

Mas não era justo. Ele fizera o adequado. Lhe pedira permissão para poder comer com eles, e eram muito poucos os que consideravam a instrutora de seus filhos gente o bastante para ter em conta sua opinião.

Talvez Wynter tivesse mostrado mais cortesia que a maioria dos homens em sua posição social. Apesar de sua estranha e repentina aparição.

Mas o mero fato de pensar em comer a seu lado... produzia arrepios nela.

Wynter parecia ter tudo. Seguro de si mesmo e credor de um encanto ante o que qualquer mulher cairia rendida.

Não é que ele tivesse demonstrado um excessivo interesse por ela desde o ocorrido no primeiro dia, mas aquela ocasião se apresentava claramente como uma prova.

O desconforto que supunha para ela se encontrar em Surrey a fazia se sentir constantemente alerta, daí a irritação que sentia para ele.

Como nesse momento, quando lhe sorriu de um modo enigmático.

—O que opina lady senhorita Charlotte?

—Irei dizer aos criados que preparem outro serviço, - se encaminhou à cozinha, pisando com força, com calma, de um modo profissional, como uma mulher inalterável.

Quando passou junto à biblioteca ouviu quando Adorna a chamava.

—Lady Ruskin... Adorna... Como me alegra vê-la de volta de Londres.

Adorna estava se desprendendo de suas roupas de viagem, e seu sorriso parecia mais fresco que nunca.

—É um prazer estar de volta. Em Londres não há mais que mexericos, guisado e festas. - Agarrou Charlotte pelo braço e se foi com ela para a cozinha. - É um lugar horrível. Sente falta da cidade?

—Absolutamente - respondeu Charlotte.

—Porque se necessitar mais tempo para você, só tem que dizer. Estou à par de que nem sequer tirou seu meio-dia de descanso.

Um leve toque de pânico invadiu Charlotte.

—Os primeiros meses são vitais para o sentido de segurança dos meninos, são os alicerces de sua confiança em mim. Não posso me permitir frivolidades.

—Não acredito que meio-dia por semana...

—Não há lugar algum ao que gostaria de ir - disse Charlotte a modo de conclusão. Adorna assentiu muito devagar.

—Entendo.

Que má sorte, foi provavelmente o que pensou.

—Aprecio muito seu interesse por Robbie e Leila - prosseguiu Adorna. - Os estou submetendo a uma dura prova, admito, e entendo que a transição vai ser dura para eles.

Seu pai e eu vamos passar muito tempo em Londres até que esclareçamos contas de nossos negócios, e eu... eu estou pensando na possibilidade de empreender uma relação licenciosa com lorde Bucknell.

Charlotte piscou, se perguntando se ouvira bem.

—Uma... relação?

—Com lorde Bucknell. - A áspera voz de Adorna parecia tão plácida como se estivesse falando do tempo atmosférico. - Nunca tive nenhuma relação desse tipo, assim é uma proposição que tenho que considerar atentamente.

Ao que parecia, esperava algum tipo de comentário por parte de Charlotte, então a instrutora disse:

—Já... claro, imagino que não deve empreender uma relação leviana.

Se enfiaram no corredor que levava até a cozinha, e um dos criados apareceu pela porta com uma bandeja de prata nas mãos carregada de guardanapos. Alto, jovem e desajeitado, se deteve assim que as viu e fez uma reverência.

Charlotte jamais fizera tanta ilusão ao ver alguém.

—Harris! - Adorna apontou para a bandeja. - Onde vai com todos esses guardanapos?

—Os meninos vão jantar fora, no terraço, senhora, e se conheço os meninos, e os conheço, algum deles verterá o leite.

—Sem dúvida tem razão - afirmou Charlotte. - Muito detalhista por sua parte ter pensado nisso.

—Meu filho vai comer com os meninos e a senhorita Dalrumple, assim terá que acrescentar um serviço a mais - disse Adorna.

Harris deu a volta disposto a retornar à cozinha.

—Me encarregarei disso, senhora.

Levada por um impulso desconhecido, Charlotte disse:

—Não lhe custaria acrescentar dois serviços em lugar de somente um.

Harris se deteve.

Adorna levou imediatamente a palma da mão à testa.

—Eu adoraria comer com vocês, mas meu filho e eu acabamos de chegar de Londres e estou fatigada.

Charlotte replicou:

—Peça que levem uma bandeja com o jantar a seu quarto, então.

—Isso estaria muito bem - conveio Adorna.

Harris assentiu e se encaminhou para a cozinha de novo.

Com tom pensativo, Adorna disse a instrutora:

—Charlotte, não é tão ingênua como me fez acreditar em um princípio.

Charlotte não fingiu desconhecer a que se referia.

—Me perdoe, Adorna. Não posso imaginar o que me impulsionou a falar assim.

—O espírito da travessura, com certeza. É algo que terá que ter em conta quando se passa tanto tempo com meninos.

Enquanto caminhavam de retorno ao terraço, uma criada diminuiu o passo para as adiantar com uma bandeja carregada com o serviço de mesa. Fez uma reverência em direção a Adorna. Depois passou de lado a outra criada, embora a um ritmo mais digno, mantendo a bandeja em alto e em equilíbrio para não cair ao chão a comida que continha. Também fez uma reverência e depois girou em direção às escadas a caminho do dormitório de Adorna.

Adorna assentiu para as garotas, mas prosseguiu seu discurso sem variar um ápice o tom.

—A relação da que te falava, entretanto, é uma atividade totalmente adulta.

Os volteios de sua conversação provocaram que Charlotte piscasse um par de vezes para se localizar.

—Nunca passou por algo assim? - perguntou Adorna.

—A que se refere...?

—Uma relação sentimental - esclareceu Adorna com paciência.

Charlotte, a quem a conversação fazia se sentir incômoda, se perguntou se Adorna a estava testando ou se, talvez, estava se deixando levar por algum tipo de estranha fantasia.

—Não, senhora.

Adorna franziu o cenho ao alcançar o hall que levava, por um lado, às escadas e, por outro, o terraço.

—Não gosta dele.

—Lady Ruskin, não entra dentro de minha competência aprovar ou desaprovar suas ações.

—Está voltando a utilizar o título para falar comigo. Então não gosta dele.

—Senhora. Adorna. Para falar a verdade, eu não me atreveria a...

Adorna elevou uma mão.

—Está bem. Irei a meu solitário dormitório dar conta de minha solitária janta, - se voltou e se afastou dali.

Charlotte, sem saber o que poderia ter ofendido Adorna, saiu correndo atrás dela.

—Por favor, senhora, não pretendia...

Adorna se deteve e pegou a mão da instrutora.

—Querida, minha intenção era realizar uma saída dramática de cena. Mas perde toda a graça se sai correndo atrás de mim.

—Eu... Sim, claro. Como não.

—Por outra parte, sabe muito bem que o fato de comer a sós é um porre. - Lhe deu uma palmada na mão. - A sério, estou cansada. Vá ao terraço. A verei esta noite.

—Esta noite?

Fez um gesto com a mão enquanto se afastava, e disse algo que gelou o sangue de Charlotte:

—Acredito que é o momento que saiba qual é a verdadeira razão pela que a trouxe aqui, não te parece?

 

Ao entrar no terraço, Charlotte viu Wynter, sozinho, apoiado contra a balaustrada e a observando.

—É certo que esteve falando com minha mãe.

Ainda contrariada pelo encontro com Adorna, olhou para aquele homem banhado na dourada luz do sol e se perguntou se podia lhe ler os pensamentos.

—Como sabe?

Wynter sorriu. E, por todos os Santos, grande sorriso! Elevou o queixo, sua boca se fez mais larga, os ângulos de seu rosto se converteram em suaves curvas, por isso Charlotte não teve dúvida alguma: estava desfrutando.

Os meninos rodavam sobre a erva. Deveria tê-los repreendido por seus gritos e a brutalidade de seus jogos, mas o sorriso de seu pai a distraiu.

Wynter se separou do corrimão e caminhou para a pequena mesa quadrada de ferro, servida com quatro pratos, e afastou uma cadeira para a instrutora.

—Minha mãe está acostumada provocar em outros certo grau de surpresa. - Enquanto ela se sentava, Wynter lhe disse ao ouvido: - E você tem um aspecto estupendo.

Seu fôlego acariciou ligeiramente o pescoço dela, e suas palavras pareciam tão sinceras que, durante um segundo, Charlotte teve que se esforçar para manter a compostura.

Retornar a Surrey, agora o deixava claro, estava resultando ser uma prova muito maior do que havia suposto. Mas era uma mulher forte e escrupulosa, e sabia que os princípios morais acabariam impondo sua lei.

Alguém teria que dizer isso a Wynter. Seguia a suas costas, inclinado para frente com as mãos em ambos os lados do respaldo de sua cadeira, quase roçando seus ombros, a rodeando com seu aroma; Charlotte podia ver seu perfil.

Não podia assegurar se a estava olhando diretamente, pois não via seus olhos, mas sentia seu olhar sobre a pele e soube, simplesmente soube, que ainda sorria. De fato, ria. Dela.

Um homem seguro de si mesmo, bonito... e odioso.

Sim, os princípios morais prevaleceriam, e seria ela quem o deixaria bem claro. E mais, desfrutaria lhe dizendo. Ao se voltar para ele não lhe surpreendeu topar com sua cara a escassos centímetros de distância.

Ela não se retirou, tampouco nada em seu semblante indicou que estivesse impressionada - ou seja, ofendida, - se limitou a aceitar sua proximidade.

—Senhor, sou a instrutora. Estou aqui para educar seus filhos. Espero que me entenda quando digo que não estou interessada nem em seus sorrisos nem em seu brinco nem em seus constantes flertes. - Depois de dizer isto, fechou a boca.

Se atreveu a dizer algo assim ao homem que lhe pagava? Deus bendito. Era algo inaceitável. O sorriso de Wynter se fez mais visível.

—Sabe o que mais eu gosto de você, lady senhorita Charlotte? Que sempre diz a verdade. É uma qualidade muito pouco frequente entre os ingleses.

Respondeu de forma automática:

—Os cavalheiros ingleses sempre dizem a verdade.

Ele não pôde evitar soltar uma gargalhada, um contagioso estalo que penetrou no mais profundo de seu ser fazendo que seus olhos brilhassem.

—Você é tão fresca como o rocio da manhã sobre a erva da primavera, tão deliciosa como uma ducha depois de uma longa seca. Mas você não é tão tola para acreditar no que acaba de dizer.

O olhou, apanhada por seu leve acento.

—Não. Não sou.

Ele colocou as mãos justo por debaixo de suas omoplatas.

—Poderia me dizer quando um homem diz a verdade?

—Me orgulho de ter a habilidade de descobrir se um homem, ou uma mulher ou um menino, está mentindo para mim. - Queria... necessitava, respirar fundo...

Mas ele a estava tocando, estava olhando diretamente aos olhos dela, e não queria que pensasse que era das que cedia ante uma necessidade física. Ante qualquer necessidade física. Muito devagar, com muita cautela, acabou se acalmando.

—As possibilidades, quando se conhecem bem certas reações involuntárias dos mentirosos, evidenciam as falsidades. - As últimas três palavras surgiram à fervura.

Ele a observou com atenção.

—Ou seja, que sabe quando um homem diz a verdade - concluiu.

Se permitiu suspirar, esperando que ele pensasse que se tratava de uma amostra de sua exasperação.

—Sim, sei.

—Então saberá que não minto quando digo que você é maravilhosa.

Não só lhe faltava ar nos pulmões, o resto de suas funções vitais cessaram de repente. Foi uma quebra total sob sua cálida e insistente mão, seus insistentes e castanhos olhos, e seu cegador, hipnótico e insistente sorriso.

Estava tão perto e tão... perto.

—Lady senhorita Charlotte?

—Sim. OH. Sim, senhor, e você acredita que eu... - pigarreou. - Ou seja, se acredita que eu... né...

—Maravilhosa - repetiu como se não fosse nada.

—Sim. Maravilhosa. - se inclinou para frente, disposta a escapar do roce de suas mãos. Em vão. Suas mãos a seguiram, como uma entidade cálida contra suas rígidas costas. Mediu sobre a toalha.

Seus dedos toparam com um dos guardanapos de linho; algo para ter entretidas suas mãos. Com muito cuidado, agarrou a bandeja de prata e a estendeu sobre seu colo.

—Bem, se isso for o que acha, jamais me atreveria a dizer que você... pudesse dizer algo que não fosse certo.

—Ah. - Lentamente, deslizou as mãos para seus ombros. Os agarrou com uma amável pressão que, sem dúvida, tinha um toque mais amistoso que de capricho, e de novo Charlotte experimentou aquela mortal e traiçoeira falta de fôlego.

—Você é muito comedida.

Da grama, Leila gritou:

—Papai! Papai, é hora de jantar? Aquele bárbaro, elegante e ameaçador, ficou em pé e olhou por cima da balaustrada.

—Já é a hora. - E elevando um pouco mais a voz, acrescentou: - Venha antes que meu estômago ache que vão cortar minha garganta.

Charlotte fixou o olhar, sem ver realmente, na toalha, os quatro serviços, as taças e o saleiro de prata. De algum modo, Wynter tinha se interposto entre seu olhar e o resto das coisas, como se tivesse estado olhando diretamente ao sol muito tempo sem se proteger. Os meninos subiram os degraus sem deixar de rir, com o fôlego entrecortado. Ela voltou a vista para eles, mas mesmo assim não viu outra coisa que a imagem do pai sobreposta aos traços de Robbie ou no marcado queixo de Leila.

Se sentaram em seus correspondentes lugares, a ambos os lados da instrutora, e a olharam com ar culpado. Harris apareceu então conduzindo com uma bacia de água e uma toalha pendurada no ombro e se acocorou junto à Leila.

—Vamos lavar um pouco essas mãos antes de jantar, de acordo, senhores?

Culpa. É obvio. Se sujaram.

Charlotte baixou a vista para seu colo e viu o guardanapo, enrugado como se o tivesse retorcido. Por que teriam os meninos que se sentir culpados quando sua instrutora havia pego o guardanapo antes que todos se sentassem para comer?

Havia saltado as normas de comportamento civilizado! Algo sem precedente. E tudo tinha sido - lançou uma olhada para Wynter, que ainda sorria enquanto era assistido por Harris - por culpa dele.

Respirou fundo pela primeira vez desde que chegara ao terraço, e o ar em seus pulmões fez crescer sua indignação.

Wynter a ouviu respirar sonoramente, olhou para onde se encontrava, e sem deixar de secar as mãos de seu filho Robbie, disse:

—Lady senhorita Charlotte, falta-lhe o fôlego. Você deveria afrouxar um pouco seu espartilho.

Harris deixou escapar uma leve gargalhada e ficou vermelho como um tomate.

Charlotte olhou diretamente para aquele homem com o mais frio de seus olhares.

Harris recolheu a bacia, fez uma reverência, depois outra e se foi do terraço a toda pressa.

Os bons costumes demorariam para arraigar.

Wynter se sentou em frente a ela.

—Lady senhorita Charlotte, por que usa espartilho? - perguntou Robbie.

Charlotte se debateu entre seu desejo de responder qualquer pergunta dos meninos e as boas maneiras.

—O espartilho é um objeto de baixo muito adequado para as mulheres, mas não é o tema adequado para uma conversação à mesa.

—Por que não? - perguntou Leila. Wynter apoiou os cotovelos sobre a mesa, colocou o queixo entre as mãos e a olhou.

—Sim, lady senhorita Charlotte, por que não?

Charlotte pôde ver como os criados permaneciam imóveis atrás da porta, esperando para servir a comida, mas não lhes fez sinal algum para que se aproximassem. Ainda não.

—A roupa interior, tanto a masculina como a feminina, não é um tema adequado para discutir com alguém do sexo oposto em nenhuma ocasião, e, se adiantou a previsível pergunta de Leila, com membros do mesmo sexo só em momentos de extrema privacidade.

Leila fez uma careta para Robbie.

—Ja, ja. Vai falar de espartilhos a mim e a você não.

—Não é justo!

—Já está bem.

Os meninos calaram o tempo justo para que ela fizesse soar a campainha que mantinha junto ao cotovelo.

—Não se preocupe, filho - disse Wynter. - Seu pai terá o privilégio de te falar desse instrumento de tortura feminino.

Charlotte sentiu desejos de replicar, mas manteve a língua em seu lugar ao ver que se aproximava um criado soterrado sob o peso de uma sopeira grande. Que difícil foi manter a calma enquanto a criada trazia uma bandeja de pães-doces torrados e outra com rações individuais de manteiga. As deixou sobre a mesa, fez um par de reverências e se afastou a toda pressa, desejosa de retornar à cozinha, onde Harris, Charlotte estava segura disso, estaria contando a todo mundo a história de seu espartilho.

Ao levantar a tampa da sopeira uma baforada de vapor se estendeu entre os comensais e Wynter inalou de forma audível.

—Sopa de rabo de boi. Adoro a sopa de rabo de boi.

Os meninos o imitaram, inalando sonoramente e dando a razão a seu pai.

Charlotte não quis repreendê-los. Pensou que dizer a seu empregador que era um mau exemplo para os meninos não era o mais adequado precisamente depois de repreendê-lo por ter mencionado sua... roupa interior.

Serviu a sopa nas terrinas, um caldo claro com macarrão e um toque de xerez.

—Senhor, por que não serve os pães-doces e os passa aos meninos?

—Só pensava lhes servir um. - Com os dedos, pegou um pão-doce para cada um dos meninos e o deixou no prato do pão.

Mas isso não foi tudo. Também pretendia servir a Charlotte com os dedos, mas ela elevou uma mão para se negar.

—Obrigado, senhor, mas se me passa o prato eu mesma me servirei.

—OH, OH. Papai, fez que lady senhorita Charlotte se zangue - disse Leila.

—Não. Lady senhorita Charlotte é muito educada para se incomodar por essas coisas.

Leila começou a golpear a perna da mesa com o pé até que Charlotte colocou a mão sobre a perna dela e sacudiu a cabeça ligeiramente. Estendeu a mão para manusear a colher.

Ensinara aos meninos a que se fixassem nela, assim também pegaram suas respectivas colheres. A elevou e a introduziu no caldo. Os meninos a imitaram.

Seu pai disse:

—Eu gosto de partir os pães-doces e colocá-los na sopa para que se empapem.

Os meninos deixaram de olhar a sua instrutora e olharam a seu pai com os olhos muito abertos enquanto este passava das palavras à ação.

—Nós podemos fazer isso? - perguntou Robbie.

—É obvio! - respondeu Wynter. - Não temos por que ser formais se estivermos em família.

A estava provocando de propósito? Ou simplesmente estava expressando o que pensava? A Charlotte não importaram seus motivos.

A única coisa que estava claro era que estava flertando com ela, que a incomodara, e que agora estava pondo travas ao hercúleo trabalho educativo que estava levando a cabo com seus filhos.

Não sabia o que mais a incomodava, mas precisava pôr fim a aquela situação.

Com o mais estilizado de seus acentos de classe alta, disse:

—Me vejo na obrigação, senhor, de me mostrar em desacordo. As maneiras familiares também têm sua razão de ser, mas só quando a pessoa que as emprega está em disposição de exercer os bons costumes quando é necessário.

Robbie e Leila ainda não estão capacitados para isso, então até que não tenham dúvida alguma com respeito ao uso do garfo, sempre nos comportaremos de maneira formal.

Wynter se reclinou e passou um braço por trás do respaldo de sua cadeira.

—Você põe muito ênfase nas boas maneiras, lady senhorita Charlotte.

Ver como se ajeitava aumentou sua irritação.

—A ênfase que ponho nisso não é maior nem menor que o que lhe dedica qualquer outro membro da aristocracia inglesa.

Como se se tratasse de dois espectadores de uma partida de tênis, os meninos voltavam a cabeça de um lado a outro.

—A aristocracia leva muito a sério a si mesma.

—Pois é o mundo ao que pertencem Robbie e Leila. - Charlotte se inclinou para frente e golpeou brandamente sobre a mesa com um dedo.

—É um mundo que não conhece o perdão, senhor, um mundo que, de fato, já vai olhar mal aos meninos devido a seu pouco ortodoxo passado.

Seu iguais se fixarão e zombarão de qualquer comportamento inapropriado, e sei por experiência, senhor. Seus iguais podem ser muito cruéis.

Agora foi Wynter o que se inclinou para frente com os olhos reluzentes.

—Não permitirei que ninguém zombe deles!

—E como conseguirá? Batendo em outros meninos da idade de seus filhos? Irrompendo na penteadeira de alguma moça e a proibindo rir?

—Papai, eu não gosto dos ingleses. Podemos voltar para casa?

A voz tremula de Leila fez que Charlotte recuperasse a compostura. Não importava quão furiosa estivesse, não tinha direito a transpassar seus medos a aqueles inocentes meninos. Apesar de sua própria experiência.

Pegou a mão de Leila e a reteve entre as suas.

—Carinho, você vai ser tão especial que as demais garotas quererão ser como você.

Leila sorveu pelo nariz e tentou compor um sorriso.

Mas Robbie tinha o cenho franzido do mesmo modo que seu pai, e Wynter...

Wynter estava sentado com os braços cruzados em frente ao peito, olhando-a.

—Tudo isto é culpa dela.

Com muita prudência, Charlotte deixou a mão de Leila sobre a mesa e a palmeou.

—Talvez não tenha sido muito inteligente por minha parte, mas você...

—Eu sou razoável. Sou lógico. - Seu acento era agora mais forte que o fora até esse momento. - E sou um homem.

Charlotte se obrigou a respirar fundo para não elevar a voz.

—Segundo minha experiência, ser homem ou mulher tem muito pouco a ver com a lógica ou a razão.

—Sua experiência! Você não esteve em nenhuma parte.

Que cruel por sua parte menosprezá-la por algo assim! Pelos infortúnios que converteram sua vida em uma monótona e constante obrigação.

—Tem razão, senhor. Me inclino ante sua sabedoria. Nos diga, em que se diferenciam os homens e as mulheres de outros países dos homens e das mulheres da Inglaterra?

Supôs que comporia algum discurso sem sentido a respeito de que as mulheres em outros países conheciam o lugar que ocupavam na sociedade, mas em lugar disso espetou:

—Você é uma insolente, lady senhorita Charlotte.

Estava equivocado, passou da raia e estava incomodando aos meninos. E se supunha que ela, a vulgar instrutora, precisava se inclinar ante ele. Faria, é obvio.

Sempre o fazia, mas sentia crescer em seu interior um fogo que tingiu suas faces, e soube que todo seu corpo denotava sua fúria. Com um tom de voz que pretendia ser completamente razoável, disse:

—Fui contratada para ensinar a estes meninos, e você entorpece meu trabalho. A menos que possamos alcançar um acordo...

—Não vou chegar a nenhum acordo - disse simples e sinceramente.

—Ah. - Sem pensar duas vezes, jogou a cadeira para trás e deixou o guardanapo sobre a mesa.

—Então não existe razão alguma para que fique aqui. Deixarei que comam tranquilos. Espero que tenha sorte na hora de encontrar uma instrutora que cumpra exatamente com o que requeira dela.

E com um movimento que lady Ruskin teria admirado, ficou em pé, se voltou sobre seus calcanhares e se afastou.

 

Charlotte se dirigiu para as escadas antes de se deter, com a mão já colocada sobre o lavrado poste do corrimão. Como ia explicar o acontecido a Hannah e a Pamela?

Perdera os nervos, o senso comum, sua equanimidade... e tudo por culpa de um homem e... e... suas más maneiras.

Não era seu encanto precisamente o que a comovera.

Embora isso não tivesse importância alguma. Como tampouco importavam suas provocações. Ela nunca antes fizera semelhante espetáculo. E além disso diante dos meninos!

Se Dona Afetada se deixava levar por suas emoções, teria que desculpar aos meninos se acreditavam que podiam fazer o mesmo.

Mas não podiam. Passara as noites em vela preocupada com como integrar com êxito a aqueles meninos na sociedade inglesa. Agora já não estaria ali para guiá-los e, por outra parte, dera um mau exemplo para eles.

Traíra a confiança que os meninos depositaram nela.

E mais, como pudera esquecer com tal rapidez o muito que necessitava esse trabalho? Jogou por terra sua imaculada reputação. Mentiu para Adorna ao garantir a ela que teria êxito em seu trabalho. Teriam que devolver as cem libras que Adorna já entregara à Escola de Instrutoras, e isso punha obviamente em perigo o negócio.

Com uma mão, palmeou várias vezes no poste do corrimão até que as bordas se cravaram. A outra mão usou para tirar o lenço da manga e enxugar as lágrimas.

Odiava fazer tolices fosse qual fosse a causa, mas fazê-lo por um homem! Ah, sem dúvida essa era a maior das humilhações.

A porta do terraço se fechou com tanta força que os vidros tremeram. Charlotte guardou imediatamente seu lenço na manga de novo. Escutou o ligeiro sapateio de uns passos apressados. Leila. Ou Robbie.

Pensar em que os meninos a pudessem ver daquela forma a levou a subir as escadas com a esperança de parecer, até certo ponto, digna. Não queria que ninguém a visse chorar.

Mas Leila a chamou:

—Lady senhorita Charlotte, volte! Tem que ver isto!

Charlotte não se voltou, mas sim falou por cima de seu ombro.

—Não posso, Leila. Tenho que fazer as malas. Leila não parecia muito capacitada para a sutileza e, com certeza, nesse momento não captou a necessidade de sê-lo. Correu escada acima e agarrou Charlotte pela mão.

—Tem que vir! Agora!

Charlotte jogou uma olhada à menina pendurada em seu braço. A esperança e a ansiedade se mesclavam em seu pequeno rosto, e Charlotte sentiu um estremecimento no interior de seu peito. Não queria abandonar Leila.

Leila era como uma folha que precisasse cuidado e formação para chegar um dia a ser a peça central do jardim, E Charlotte sabia que não haveria em sua vida outra instrutora com a sensibilidade adequada para compreender as necessidades daquela menina.

Baixou alguns degraus. Mas não podia se render à coerção de Wynter. Se deteve.

—Vamos! - Leila apertava sua mão com força e, para ser uma menina, sua força não era pouca coisa. Charlotte a seguiu sem deixar de refletir. Na realidade não queria ir, mas poderia agora enfrentar Wynter? Sob a luz do sol descobriria que chorara.

A porta refulgiu em frente a ela, observou o ensolarado terraço através do vitral. Sem dúvida Leila apreciou a nova onda de apreensão que a invadiu, porque disse nervosa:

—Olhe!

De acordo. Charlotte olhou e depois elevou o queixo com ar desafiante.

Ali estava, sentado com o guardanapo sobre o colo, queixo elevado também, com os braços cruzados em frente ao peito, a olhando diretamente. Com impaciência, como se fosse ela a que tivesse cometido uma falta, perguntou-lhe:

—E bem, lady senhorita Dalrumple? Vai sair correndo ou vai ficar aqui para nos ensinar?

Se sentiu irritada e ficou à defensiva, ofendida até a medula. Mas então reparou no que Wynter acabava de dizer.

"Nos ensinar." Na primeira pessoa do plural. Com aquela simples palavra estava dando a entender que desejava que o instrui-se, e já não lhe importou se ele estava ou não fingindo que tudo fora culpa dela; qualquer insulto se veria amplamente recompensado pelo fato de poder dominar a aquele homem.

E, com certeza, manteria seu emprego, cumpriria as expectativas de Adorna, manteria na flutuação a economia da Escola de Instrutoras e ajudaria aos meninos. Isso era o que realmente importava.

—O que opina lady senhorita Charlotte? - perguntou Leila em voz baixa.

Com aspecto sério, Robbie segurava o respaldo da cadeira em que tinha estado sentada. Passou a mão pelo cabelo de Leila e depois se sentou com um sorriso nos lábios.

—Obrigado, Robbie.

Os criados, que até esse instante haviam permanecido invisíveis, apareceram de repente, e após sua indicação levaram a sopa e trouxeram uma bandeja de rosbife acompanhada de cogumelos, uma cesta com rolinhos de massa com aroma de levedura ainda quentes e uma terrina com pudim de aveia. Como se nada tivesse passado, desapareceram com maior rapidez nesta ocasião; se fosse possível a eles, os criados sempre desapareciam quando seus senhores não estavam de bom humor.

E Wynter não estava. Obviamente, e isto não supunha surpresa alguma, tocava a Charlotte se comportar como o fazem os adultos.

Com o tom de voz mais civilizado que foi capaz, disse:

—Senhor, dado que não sabíamos que você ia jantar conosco, esta comida é muito simples, pensada para a fácil digestão dos meninos e os inconvenientes da baixela de prata.

—Eu gosto da comida simples. - As palavras de Wynter soaram um tanto mal-humoradas. Leila perguntou quase entre dentes:

—Papai, segue zangado?

Olhou a sua filha e percebeu as lágrimas que banhavam seus olhos. Com um notável esforço por sua parte, mudou de atitude.

—Absolutamente! A única coisa que queria dizer a lady senhorita Charlotte é que sou um homem simples que sentia falta da simples comida inglesa.

Charlotte lhe sorriu, embora ele apenas se limitou a apertar os lábios.

—É obvio, senhor. Já sabia. Ele também sorriu forçadamente.

—Se não se importar, lady senhorita Charlotte, poderia me passar o rosbife, por favor?

A tensão foi se relaxando à medida que iam enchendo os pratos, e os meninos se esforçaram para que nem os garfos nem as facas roçassem a porcelana. Não tiveram muito êxito; os muitos anos que passaram comendo com os dedos trabalhavam contra.

Embora, em qualquer caso, já o faziam melhor que no dia anterior, e pela primeira vez estavam tentando a sério... porque seu pai também o estava fazendo. A cooperação de Wynter era tudo o que Charlotte necessitava. Tudo o que sempre necessitara.

Quando os quatro já haviam começado a comer, Charlotte decidiu que devia avançar um passo mais com as questões de etiqueta relativas aos meninos, e a Wynter.

—A estas alturas da refeição, está permitido realizar algum comentário pessoal, dizer algo sobre a gente mesmo de um modo que outros possam responder. - Considerou a questão imparcialmente e acrescentou: - Você poderia começar, Leila.

Leila franziu o cenho. Mas não demorou para limpar sua testa. Com um tom tão refinado como o da própria Adorna, disse:

—A babá diz que meu traseiro arde porque devo ter me sentado sobre uma urtiga.

Charlotte foi incapaz de responder por que um repentino e inadequado desejo de se pôr a rir quase a fez se engasgar.

Robbie não hesitou em aproveitar a ocasião. Talvez porque não viu nada mau no comentário de Leila, ou talvez porque sentiu curiosidade.

—Arde tanto como a areia?

—OH, muitíssimo mais. - Leila fez rodar seus olhos e arranhou a parte afetada de sua anatomia. - A terra pode lhe tirar isso.

Charlotte não riu. Não podia fazê-lo. Mas, durante um segundo, cruzou o olhar com Wynter e se produziu um instante de entendimento entre adultos.

Sem dificuldade alguma, Wynter tomou a substituição da conversação.

—Isso é muito interessante, Leila. Eu não voltei a me sentar sobre uma urtiga desde que era jovem. No Bahar não há urtigas, lady senhorita Charlotte. A terra é tão árida que nem sequer cresce esse tipo de planta.

Com tão só um leve tremor em sua voz, Charlotte replicou:

—Que fascinante, lorde Ruskin. Você deve de ter visto climas e vegetações muito variados em suas viagens.

—Assim é. Meninos, contaram a sua instrutora quando cruzaram o Mediterrâneo?

Não teve que dizer nada mais a seus acordados filhos.

Entre bocado e bocado, não deixaram de falar sobre as coisas que viram em sua viagem de volta a casa, o que mais os impressionara da campina inglesa e sobre o muito que mudara suas vidas nos últimos meses.

Então Robbie, com uma maturidade imprópria de um menino de dez anos, se voltou para Charlotte.

—Mas só estamos falando de nós. O que diz você, lady senhorita Charlotte? Por que não está casada?

Como a conversação e o domesticado comportamento de Wynter tinham conseguido relaxá-la, Charlotte voltou a olhar ao pai dos meninos esperando encontrar um pouco de compreensão.

Entretanto, ver que a estudava com total concentração a levou a pensar que ele também queria saber a resposta, o qual a contrariou.

—Se tivesse me casado, não poderia ter sido sua instrutora - disse. - Teria sido algo imperdoável não ter a oportunidade de lhes conhecer. E agora, passamos às sobremesas?

Fez um gesto aos criados e estes levaram os pratos vazios para trazer um vistoso bolo de damasco, framboesa e geleia de laranja.

Leila não pôde evitar um suspiro de admiração e aproximou um pouco mais o guardanapo ao peito.

—Posso comer toda a framboesa?

—Não - respondeu Robbie. - Eu também quero uma parte.

—Dado que seu pai é nosso convidado, possivelmente o mais adequado seria perguntar a ele o que prefere - sugeriu Charlotte.

A expressão no rosto dos meninos passou do horror à esperança, e Charlotte manteve suspensa a faca em cima do bolo esperando que Wynter tomasse uma decisão salomônica[4].

—Todos comeremos um pouco de tudo - decretou o pai.

Charlotte deu começo ao tortuoso processo de dividir a muito desejada framboesa.

Leila disse:

—Talvez lady senhorita Charlotte não tenha encontrado o homem que cuide dela.

A mão de Charlotte tremeu e uma pequena porção de bolo saiu disparada.

—Como mamãe? - Robbie coçou a cabeça, mas depois do olhar de admoestação de Charlotte baixou a mão. Disse a Charlotte de um puxão:

—Quando o pai de minha mãe morreu, não tinha a seu lado homem algum que cuidasse dela. Se não casasse com papai, ela e sua mãe teriam passado fome.

—Isso é muito melodramático, Robbie. - Charlotte passou o bolo a Wynter.

—Não, não é. É certo! - disse Robbie. - Uma mulher sem um homem não vale nada.

Charlotte olhou ao menino de um modo que foi aperfeiçoando com os anos graças a seu trato com moços insolentes.

Robbie captou imediatamente que se equivocou.

—Não quero dizer que você não valha nada, lady senhorita Charlotte, mas em outros países como o Bahar, uma mulher não pode... não... - Olhou a seu pai em busca de ajuda.

Wynter teve piedade dele.

—No Bahar uma mulher não pode falar por si mesma quando os homens se reúnem para falar, assim se não estiver casada nem tem um pai ou um irmão ou algum outro familiar masculino, não está capacitada para levar a cabo os entendimentos que lhe proporcionem um marido e segurança econômica.

Os pensamentos de Charlotte se centraram automaticamente em suas próprias circunstâncias, e nas de Hannah e Pamela. Acreditavam que na Inglaterra não as valorizava, mas...

—Isso é muito cruel! Realmente passam fome?

—Não sempre - respondeu Wynter. - Às vezes alguém tem piedade dessas mulheres e se encarrega delas.

Como fizera Wynter. Charlotte o olhou com algo parecido a empatia. Não lhe parecera até então um homem muito capacitado para a compaixão, mas se casara com uma mulher para salvar a vida dela! Sem lugar a dúvidas, era algo admirável.

—Dara necessitava um homem. - Wynter se concentrou em seu pedaço de bolo. - Eu necessitava uma mulher para que cozinhasse para mim. Foi um intercâmbio justo.

A admiração de Charlotte desapareceu como por cura.

Leila se levantou da cadeira e se inclinou sobre a mesa.

—Tenho uma ideia! - espetou.

—Uma senhorita fala em voz baixa, com suavidade e refinamento - começou a dizer Charlotte.

Mas Leila não prestou atenção a ela, e inclusive elevou um pouco mais a voz.

—Podemos ter uma nova mamãe. Que papai se case com lady senhorita Charlotte!

 

—Coloca o sofá aqui, em ângulo com a lareira. - Adorna estava de pé, com as mãos apoiadas na cintura, se dirigindo aos criados. - Minha poltrona ponha aqui, e os candelabros sobre as mesinhas a ambos os lados do sofá para que possa ver bem.

Ao alcançar a venerável idade de quarenta anos começara a lhe falhar a vista e descobriu que uma boa iluminação a ajudava a discernir esses pequenos sinais que evidenciam o desconforto ou o bem-estar das visitas.

Ela levava em conta esses sinais em todas as situações de sua vida.

Franziu o cenho ao pensar em lorde Bucknell. Esse homem demonstrara ser uma provocação pouco menos que incômodo: sempre estava ali, mas se mostrava insensível aos esforços de Adorna. Mas ela era muito boa nesse jogo.

Não nascera o homem que pudesse resistir durante muito tempo.

—Deixa uma garrafa de conhaque e uma de ratafiá[5] sobre a mesinha da direita. - Deu seu visto bom às cintilantes garrafas de cristal com seus líquidos dourados, depois elevou uma taça vazia manchada com o rastro de um dedo.

Sem mediar palavra, a entregou à senhorita Symes, quem, por sua vez, a passou a um dos criados.

—Isto é inaceitável no salão de minha senhora!

O criado em questão partiu dali com a taça apertada contra o peito.

Adorna só teve problemas em sua vida quando não prestara atenção a seus instintos. Agora estava metida em um apuro no referente às questões familiares, mas como tia Jane costumava lhe dizer, não há descanso para os malvados.

Ela estava acostumada a aplicar o refrão a seu marido, o tio Ransom, mas ele invariavelmente replicava: "Então, você deve ser muito má, meu amor".

O criado retornou com outra taça, que a senhorita Symes inspecionou, e um prato com biscoitinhos de amêndoa que teriam provocado que Wynter ficasse suscetível. Em Charlotte, algo tão simples como a comida não provocava semelhantes reações.

A maioria das reações dos homens estavam controladas pelo estômago, a vaidade ou seus órgãos sexuais. As mulheres, entretanto, eram mais sutis e se deixavam levar menos pelos impulsos físicos.

De fato, por isso Adorna podia supor, Charlotte jamais se deixaria levar pelo físico. Então, Adorna sabia que ia ter que lançar mão do licor e seus insidiosos efeitos.

Por outra parte, as rígidas crenças de Charlotte dificilmente poderiam resistir a uma provocação como a que ia propor a ela.

A senhorita Symes cruzou as mãos sobre seu volumoso ventre.

—Deseja algo mais, senhora?

Adorna lançou uma última olhada à composição.

—Não, isso é tudo. - Sorriu a todos seus criados. - Fizeram um estupendo trabalho.

Como era de esperar, todos os criados avermelharam, incluído o velho Sanderford, que servira ao marido de Adorna desde muito antes que ela chegasse. A senhorita Symes lhe correspondeu com o sorriso próprio de uma tirana condescendente.

—OH, suponho que Wynter quererá uma xícara desse café que tanto gosta. - Adorna esboçou uma careta. Não podia entender por que Wynter nunca se deixava tentar por uma ocasional taça de licor.

Ao que parecia, nem o vinho nem os licores interessam para ele.

—Traz o café assim que chegue.

—Como deseja, senhora - respondeu a senhorita Symes.

Os criados saíram da sala deixando Adorna sozinha. Se sentou, abriu um livro e o colocou sobre seu colo, esperando a que chegassem os dois protagonistas para fazê-los dançar ao som de sua música.

Com qualquer outra pessoa não teria problema algum; podia convencer a qualquer um para que fizesse virtualmente algo sem que chegasse sequer saber que foi manipulado.

Mas Wynter era seu filho, e tinha a perspicácia de seu pai e a clarividência de sua mãe, e teria que ir com pés de chumbo ou poria tudo a perder.

E depois do que acontecera essa mesma tarde, Charlotte também se cuidaria muito de se aproximar de Wynter. A senhorita Symes explicara a Adorna o que acontecera na hora do chá.

O que foi que Leila gritou? "Podemos ter uma nova mamãe. Que papai se case com lady senhorita Charlotte!"

Adorna não pôde reprimir uma gargalhada. Vá, essa menina e sua absoluta franqueza... Expressava seus desejos em voz alta como se o volume de sua voz pudesse convertê-los em realidade! Obviamente, semelhante união não tinha pé nem cabeça.

Obter que Wynter fosse aceito pela alta sociedade inglesa supunha uma difícil provocação, mas se casar com uma mulher tocada pela infâmia... Não, Adorna não permitiria.

Graças a Deus, Charlotte parecia ter se horrorizado com a ideia.

Sim, Leila dificultara sem saber o trabalho de Adorna, e agora teria que dedicar um esforço suplementar a seu plano. O verão não demoraria para chegar.

Primeiro apareceu Charlotte, chamou brandamente à porta e entrou após realizar uma leve inclinação. Seu vestido era o adequado para estar à altura da honra que supunha tomar um refresco com a senhora da casa.

Seu vestido azul escuro parecia renovado graças ao judicioso uso da esponja e da prancha.

Colocara nos simples punhos e no pescoço umas rendas engomadas, muito caras embora um pouco passadas de moda, e seu camafeu de ônix pendurava visivelmente do pescoço.

Realmente era pouco menos que uma vergonha que as circunstâncias tivessem expulsado Charlotte do lugar que lhe correspondia na vida. Com seu aspecto, sua graça natural e suas impecáveis maneiras, teria obtido um bom casamento.

Adorna sorriu para si mesma. Para falar a verdade, só com o aspecto já teria lhe valido. Seu caráter reservado teria comportado semelhante provocação para os homens que a maioria deles não teriam podido evitar a tentação.

—Sente-se, querida. - Adorna assinalou para o sofá. - Quer tomar algo enquanto esperamos que meu filho chegue?

—Não há por que esperar, mãe. Aqui estou.

Charlotte se voltou para ele, e não pôde evitar uma careta ao ver que Wynter ia vestido com as roupas próprias do deserto.

Adorna já o vira vestido assim com antecedência, e segundo sua sincera opinião, aquelas roupas pareciam lençóis enrugados atados à altura da cintura com três cordões dourados e uma bandagem cor escarlate; símbolos, conforme seu filho dissera, de sua fila dentro da tribo. Entretanto, não podia negar que seu traje parecia mais cômodo que a rígida vestimenta inglesa. Nem tampouco podia dizer que Wynter não tivesse direito a se vestir como quisesse em sua própria casa.

E mais, aquelas roupas destacavam seus largos ombros e permitiam ver insinuantes retalhos de suas coxas e seus pés nus. Insinuantes porque Adorna suspeitava que estava completamente nu sob aqueles tecidos.

Acaso Charlotte abrigaria a mesma suspeita? Wynter se deteve, apoiou os punhos em seus quadris e olhou friamente para a instrutora, a desafiando para que realizasse algum comentário.

—Ocorre algo, lady senhorita Charlotte?

Charlotte se agarrou a seu vestido, como fazia sempre quando lhe custava manter o controle.

—Absolutamente, senhor. Me limitava a admirar seu vestuário. Ouvira falar dele, obviamente, mas nunca o vira. É um cafetã, não é?

Wynter levou a ponta dos dedos aos lábios e com sua profunda voz de marcado acento, disse:

—Como sempre, você se mostra tão sábia como o chefe da tribo.

Durante um breve instante, deu a impressão que aquela frase pegara Charlotte com a guarda baixa. Não demorou para recompor o gesto.

—Você é muito amável, senhor.

Adorna sufocou uma gargalhada. A maioria das mulheres teriam desejado dar um bom chute no traseiro de Wynter. Charlotte deu por obvio que se tratava de um elogio. E talvez fosse assim, mas... não.

Não, Wynter não podia estar exagerando sua inépcia dessa maneira. O que pretendia ganhar com semelhante tática?

Charlotte se aproximou do sofá e se sentou.

Wynter se dirigiu à bandeja com os licores.

—O que quer tomar, mãe?

Aquela pergunta rompeu a calma, e Adorna, com grande perícia, ocupou os segundos de silencio com um punhado de frases sem tom nem som.

—Quero um conhaque. Embora, com certeza, as damas nunca bebem conhaque, ou ao menos não em público, mas a viagem de hoje foi muito longa, e Wynter esteve trabalhando duro. Não é assim, Wynter?

Eu, por minha parte, dediquei muito esforço a descobrir que tipo de rumores se estiveram contando em sociedade a respeito de sua volta. Como pode supor, Charlotte, desde que vieram de visita, as esposas de seus amigos não pararam.

Não tiveram reparos em pôr em marcha todo tipo de mexerico a respeito da suprema ignorância de Wynter. Grande língua a dessas mulheres! Então um conhaque resultará reconfortante. Você gostaria de um pouco também, Charlotte?

Charlotte hesitou entre escolher o que resultava adequado para uma dama e fazer que Adorna não se sentisse incômoda por sua alcoólica escolha. Optou por se deixar levar.

—Um conhaque, por favor.

No rosto de Wynter se desenhou um visível sorriso enquanto servia um bom jorro de líquido dourado em duas taças e as entregava a ambas as damas. Depois disso se sentou no sofá, no extremo oposto ao de Charlotte.

Havia espaço suficiente entre os dois para que se sentasse outra pessoa, mas Wynter ocupou todo o espaço que pôde.

Abriu as pernas, colocou um braço sobre o respaldo fazendo que as pontas de seus dedos roçassem o ombro de Charlotte, e voltou o rosto para olhá-la atentamente sem nenhuma dificuldade.

Charlotte, por sua parte, o olhou com a extremidade do olho enquanto dava um gole a seu conhaque... e tossia.

—O álcool é mortífero, não lhe parece, lady senhorita Charlotte? - bramou Wynter. - Entretanto, aos cavalheiros ingleses não importa ingeri-lo na menor oportunidade.

Charlotte deu outro gole, mais longo nesta ocasião, e Adorna percebeu que ambos adotaram uma posição combativa, lutando entre si em silencio com os queixos elevados e uma atitude seca.

—Wynter, em seguida lhe trarão seu café - se interpôs Adorna com celeridade. - Devem estar se perguntando por que lhes pedi que me acompanhassem esta noite.

Essa frase captou a atenção dos dois. Voltaram sua vista para ela a olhando com atitude vigilante.

—Confesso que quando a contratei, Charlotte, não expus totalmente minhas verdadeiras intenções. É certo que os meninos precisam aprender boas maneiras, mas com eles teríamos encontrado o tempo necessário.

—Depois de dar um único gole, Adorna deixou a taça sobre a mesinha ao lado. - Como estou segura que já teria apreciado, é Wynter o que tem que enfrentar a assuntos sociais todos os dias, e é ele o que necessita que ensinem.

Wynter entendeu tudo de repente. Então esse era o plano de sua mãe... Sabia que andava dando voltas a algo, mas isso... Sentiu que a ira se apoderava dele.

Dado o evidente pasmo de Charlotte, Wynter deduziu que tampouco sabia nada das intenções de sua mãe. De fato, o olhou como se ele fosse um tigre escondido disposto a saltar sobre sua presa.

Ele, por sua parte, se permitiu o prazer de atemorizá-la um pouco mais lhe devolvendo um olhar carregado de ira.

Ela afastou a vista, seu gesto foi involuntário, mas quando falou sua voz parecia totalmente acalmada. Deu outro gole ao conhaque e disse:

—Entendo que você esteja preocupada com a conduta de lorde Ruskin, mas temo que não estou preparada para esse trabalho. Por que não contrata um tutor para ele?

Ao ver que Charlotte aceitava de pronto a ideia que necessitava instrução, Wynter se zangou ainda mais.

—Acaso pode imaginar a um homem aceitando de bom grau a tutela de outro homem? - replicou Adorna. - Jamais funcionaria.

—Funciona com os meninos - arguiu Charlotte.

—Mas Wynter é um homem. Já viu como responde ante qualquer mínima sugestão de lorde Bucknell!

Bucknell. Wynter soprou. Amaneirado, pomposo e estúpido.

—Vê? - Adorna fez um gesto para assinalar a seu filho. - Os cavalheiros não sopram.

Wynter voltou a soprar.

—Há muitos lugares plenamente masculinos nos que eu nunca estive: os clubes, as corridas, inclusive os salões para depois do jantar. - Charlotte tragava agora o conhaque com maior lentidão, e não demorou para aparecer um pingo de cor em suas faces.

—Como poderia ter êxito com sua instrução?

Sua mãe a estava convencendo, pensou Wynter, podia se apreciar no tom de sua voz. Como o fazia sentir isso a ele? O agradaria que Charlotte lhe dissesse como precisava se comportar e o que precisava fazer ou não fazer?

Essa mesma tarde teve que tragar todo seu orgulho para fazê-la retornar ao terraço, se não fosse pelas entristecidas caras de seus filhos não o teria feito absolutamente.

—Passou tempo o suficiente com ele, Charlotte, para saber que suas maneiras não são o principal problema. - Adorna deve ter apreciado algo parecido à incredulidade no gesto de Charlotte, por isso acrescentou:

—OH, sem dúvida há umas quantas coisas que poderia fazer com mais correção. Mas cresceu na Inglaterra. Recorda o básico.

—Se assim for - Charlotte se voltou para olhar para ele, - sua incansável rabugice não seria a não ser a rabieta própria de um menino que pretende chamar a atenção e o que necessitaria então, mais que uma instrutora, seria algo mais de disciplina.

—Ou possivelmente - interveio Wynter falando com os dentes apertados - o que precisaria seria que alguém me explicasse de uma vez por todas a razão pela qual a sociedade inglesa exija que a pessoa se comporte de um modo estirado e estúpido.

Adorna os interrompeu antes que começassem a se insultar abertamente.

—Charlotte, carinho! Deve entender que são as sutilezas o que ele não consegue captar. Como vestir...

—De forma incômoda - cortou Wynter.

—O que dizer e quando dizer. É muito...

—Sincero - interrompeu de novo Wynter.

—... direto em suas apreciações sobre o que não gosta. - Adorna olhou fixamente a seu filho.

—Justo agora estou começando a progredir com os meninos. Lhes dedicar menos tempo poderia supor um dano irreparável - disse Charlotte com firmeza.

Ah, Charlotte. Se tão sequer soubesse o irresistível que resultava a Wynter!

A covinha de seu queixo e aquelas faces tão redondinhas pareciam as próprias de uma mulher de caráter terno, mas seu frio olhar e sua indisputável independência a afastavam muito de semelhante definição.

Entretanto, quando falava de seus filhos, não podia ocultar a verdade. Para Charlotte, os meninos não supunham uma pesada obrigação, mas sim um tesouro que teria que aprender a apreciar.

Acaso podia imaginar o atraente que resultava a Wynter sua amabilidade?

Não, não podia, pois se fosse assim teria oculto no mais profundo de seu ser tal característica para que ninguém pudesse descobri-la.

Isso era o que devia ter feito em seus anteriores trabalhos, ou não teria o valor de confrontar o que agora a ocupava.

—O mantive afastado dos entretenimentos por medo ao que pudesse dizer, mas não poderei retê-lo por mais tempo! Os mexericos já começaram a circular e, a menos que tomemos as rédeas do assunto imediatamente, o dano não demorará para ser irreparável.

Mas que maior dano poderia fazer que dizer a uma jovem que estava flertando com ele que deveria retornar junto a seu pai para que a educasse corretamente? Ou que indicar o absurdo de um comentário?

Ou que escarnecer de um cavalheiro por ajudar muito na cozinha? - Adorna estremeceu.

Wynter dedicou a aquelas duas escandalizadas damas um olhar tranquilo e inocente. A coisa estava começando a ficar divertida. Enquanto enfrentava às provas de um antigo desfalque na empresa, Wynter podia se defender na comicidade.

A quantidade de dinheiro subtraído, conforme pôde descobrir, não chegava a pôr em perigo a prosperidade da naval Ruskin. Mesmo assim, até que não encontrasse o culpado não descansaria tranquilo.

E sua mãe estava no certo. Poderia aprender de Charlotte sem se sentir ofendido, porque era uma mulher com muito tato, sabia ensinar com seriedade as particularidades da sociedade inglesa; e, sobretudo, pela covinha em seu queixo.

—Agora vou todos os dias à cidade. As lições teriam que ter lugar uma vez que os meninos estivessem deitados.

Adorna lhe dedicou um olhar de aprovação - como não ia fazer isso, era o que ela previra, - mas se dirigiu a Charlotte.

—Isso soa a uma duplicação de seus deveres, e de certo modo assim é, mas lhe daremos outro meio-dia livre e aumentaremos seu salário.

Charlotte empalideceu. Baixou a vista para que ninguém pudesse entrever seus pensamentos enquanto se debatia com a tentação. O dinheiro era muito importante para uma mulher que pretendia levar uma vida independente. Wynter sabia à perfeição.

Com sua voz grave e persuasiva Adorna disse:

—Charlotte, querida, se fui à Escola de Instrutoras foi encontrar a alguém como você para Wynter. Pelo fato da família ser dedicada ao comércio, a alta sociedade sempre nos tem a prova.

Como isso irritava Wynter! O constante aviso que a pessoa que trabalhava era menos valorizada que aquela que não dava pau à água, que as antigas linhagens eram sagradas, merecesse ou não.

Se os beduínos tivessem pensado assim, ele não teria chegado a ser mais que um punhado de ossos enterrado na areia;

Mas sabia que não podia se esperar de um aristocrata inglês nenhuma décima parte da inteligência de um homem do deserto. Homens que se fazem credores de seu lugar social graças a suas habilidades, sua força e sua vontade de sobreviver.

Adorna respirou fundo e depois prosseguiu:

—Se ele segue mantendo sua atitude, nem sequer minhas excelentes conexões o poderão salvar do ostracismo, e isso hipotecaria o futuro dos meninos.

—Não é justo - murmurou Charlotte. Se referia ao fato de usar aos meninos como fator de persuasão, mas Adorna fingiu não entender.

—Não é justo, mas é certo. E não terá que lhe ensinar eternamente. Só até a recepção seremínia.

Charlotte passou um dedo pela borda da taça. Wynter não pôde deixar de apreciar aqueles gráceis dedos. Finos e alongados, com um simples anel de ouro no indicador. Presente de um amante, talvez? Wynter expressou em voz alta seus pensamentos.

—Como conseguiu esse anel, lady senhorita Charlotte?

Inclusive sua mãe se surpreendeu com aquela inesperada pergunta.

—Wynter, não mude de tema.

—Não, não passa nada. É o anel de casamento de minha mãe. - Charlotte passou um dedo sobre o anel. - Não o roubei, se era isso o que estava querendo dar a entender.

Aniquilado, Wynter respondeu:

—Não! Você não é dessas.

—Se seriamente acha - disse Charlotte, - possivelmente de agora em diante poderia tentar evitar formular as perguntas pessoais em tom acusatório.

Ele assentiu com gravidade.

—Tem razão, lady senhorita Charlotte.

Adorna riu bobamente encantada com a situação.

—Veem? Sei que isto funcionará. OH, por favor, Charlotte, se não importar a você meu sobrenome, pense por favor na reputação da Inglaterra. Temos que poder lhe apresentar à delegação seremínia o melhor de nosso país!

—Duvido que a delegação seremínia compreenda melhor que Wynter as complexidades da sociedade inglesa. - Mas Charlotte, claramente, estava fraquejando.

Adorna acrescentou um último detalhe crucial para deixar Charlotte com a boca aberta.

—A rainha Vitória será nossa convidada durante a estadia das seremínia.

Charlotte repicou com os dedos sobre seu colo.

—Sua Majestade? Aqui? - Olhou para Wynter com evidente consternação. Observou seus pés nus, as pernas se marcando sob seu cafetã, sua postura sobre o sofá. - Com ele?

Com grande solenidade, ele fez uma reverência... e moveu os dedos dos pés.

—Estou seguro que impressionarei à rainha com minha franqueza, porque estou seguro que é uma mulher inteligente e forte.

—Não - exclamou Charlotte. - Sua Majestade não ficará impressionada. De acordo Adorna, tentarei, mas só a última hora da tarde, e... e desejo que meu salário seja o dobro durante esses meses.

—O dobro? - A Adorna, sempre calculadora, aquela petição pegou de surpresa. Mas Wynter não demorou para assentir.

—Que assim seja. - Adorna lhe dedicou o mais brilhante de seus sorrisos.

Charlotte apurou sua taça e ficou em pé. Se inclinou ligeiramente à direita e Wynter estendeu sua mão para que não perdesse o equilíbrio. Ela a separou de si.

—Se isso for tudo, vou me retirar a meu quarto.

—É tudo - confirmou Adorna.

Se movendo com a imensa dignidade dos que costumam beber mais da conta, Charlotte saiu da sala, com a taça ainda na mão. Mãe e filho a observaram partir.

—Vá. Por Deus - comentou Adorna quando a instrutora desapareceu. - Ao que parece, Charlotte não tolera muito bem o conhaque.

—Isso parece. - Wynter se inclinou para sua ardilosa mãe. - Talvez, em um futuro, tenhamos que limitar seu consumo.

—Sim... - Adorna pegou sua própria taça e deu um pequeno gole. - A menos que tenhamos que convencê-la de alguma outra coisa.

—Alguém teria que se assegurar que chegue sã e salva a seu dormitório.

Adorna pegou a campainha.

—Chamarei à senhorita Symes.

Seu filho a deteve com um gesto.

—Deixe que eu me ocupe deste assunto. Quero deixar claro com Dona Afetada quais serão suas obrigações com respeito a mim.

Adorna lhe sorriu de maneira lisonjeadora.

—Wynter, não está zangado comigo por esta pequena argúcia, não é?

—Mãe, você não deixa nunca de levar a cabo pequenas argúcias. Esta, para falar a verdade, me surpreendeu. - Mas Wynter era o filho de Adorna.

Aceitaria sem dúvida o estratagema de sua mãe porque manteria oculto seu próprio plano; difícil missão, levando em conta a destacada intuição de Adorna. Mas ele dispunha de algo que a maioria da gente carecia.

Possuía experiência na hora de enganar Adorna. Se tratava de uma habilidade que se viu obrigado a desenvolver durante sua infância.

—Cooperarei, mas ela tem que ter claro qual é seu lugar.

Pôde apreciar como crescia no interior de Adorna um visível broto de ira, pois cravou nele seus profundos olhos azuis.

—Esse é o tipo de afirmação que faz necessária a intervenção da instrutora.

—Não entendo por que. - Se pôs em pé e realizou uma reverência. - Tenho que apanhar a minha nova professora. Boa noite, mãe.

 

Wynter se desprendeu de sua indolência assim que saiu pela porta do salão. Sabia onde se encontrava o dormitório de Charlotte; essa mesma tarde se ocupou de descobri-lo.

Se se apressasse, poderia alcançá-la na galeria dos retratos, que era o bastante longa e estava na penumbra, o lugar mais adequado para levar a cabo sua estratégia.

Ao ver um retalho de seu vestido à frente dele no corredor, diminuiu a marcha e teve muito cuidado para que seus pés descalços não fizessem ruído algum.

Não precisava alcançá-la ainda. A galeria começava justo ao dobrar a esquina.

Nunca antes conhecera uma mulher capaz de prescindir de sua própria vida devido a seus princípios. Nunca conhecera uma mulher tão entregue a aquilo que acreditava justo. Nunca conhecera uma mulher tão incômoda como um grão no traseiro.

Nunca conhecera uma mulher a que desejasse daquele modo.

Pôde vê-la se mover entre as luzes e as sombras quando passava junto a algum dos candelabros de parede com passo firme. Transmitia serenidade, embora sob sua fachada de mulher severa se escondia uma mulher passional.

Ela ainda não sabia. Não captara a tensão que crescia entre eles como uma névoa de inverno, e isso era o que mais intrigava Wynter. Uma mulher de sua idade não podia ter permanecido imaculada... ou sim?

Charlotte dobrou a esquina para encarar a galeria dos retratos, e Wynter de novo acelerou o passo.

Jamais pensava em Charlotte sem se perguntar que aspecto teria sem aqueles vestidos azuis ou cinzas que tanto a favoreciam.

Também teria que se desfazer das anáguas, e do espartilho que se empenhava em levar apesar que ele mesmo lhe assegurara que não o necessitava.

Quanto tempo ele levaria para percorrer suas costas, deitá-la sobre as almofadas, liberar seus seios e beijar seu ventre até alcançar o tesouro que se escondia entre suas pernas?

Que tática teria que empregar para suavizar sua confusão, para fazê-la esquecer suas estritas maneiras e sua constante rigidez? Ela se oporia? Tentaria dissuadi-lo? Talvez se zangasse?

Sim. Charlotte tentaria opor o comportamento civilizado às tendências primitivas. Depois de tudo, ele mesmo o tentara durante sua permanência no deserto.

Mas não teve êxito. A domesticação jamais poderia se impor aos instintos selvagens.

Rodeou a esquina e entrou na galeria dos retratos. Apesar que a porta do outro extremo estava justo em frente, a única coisa que pôde ver foi o perfil da mesma através das sombras e na distância.

Sabia, entretanto, que a porta estava ali; não a trocaram desde que era menino. Havia umas quantas cadeiras ao redor de um par de mesas. Do outro lado das portas fechadas se encontravam pequenos cômodos para convidados das que mal se fazia uso.

As paredes da extensa galeria ficavam fora da vista devido à escassa luz das velas. Em um dos lados, se estendiam amplos janelões cobertos agora por trabalhadas cortinas de veludo.

No outro, havia retratos de homens montados a cavalo, damas com seus filhos, e paisagens estrangeiras e familiares que cobriam a parede de cima abaixo. Havia inclusive um retrato infantil de Wynter com seu cão spaniel.

As pessoas sensíveis, provavelmente teriam se sentido incômodas ao se verem submetidas ao escrutínio de tantos olhos.

Charlotte não parecia se afetar de forma alguma.

Até que Wynter se aproximou dela. Então, de algum modo, sentiu sua presença e voltou a cara para ele, com as mãos suspensas disposta a se defender.

Wynter se deteve de repente, cuidando de não se aproximar dela muito depressa. Não queria assustá-la... ainda.

—Lady senhorita Charlotte - disse . - Vinha seguindo-a.

Ela levou a palma da mão ao peito como se pretendesse desse modo frear o ritmo de seu coração. Wynter quis pensar que sua confusão se devia ao fato de vê-lo, mas compreendeu que, possivelmente, a assustara.

Quase sem fôlego e com aspecto aturdido, perguntou:

—Senhor, no que posso ajudar?

Se tivesse dito o que pensava, ela teria se escandalizado.

—Pensei que estaria bem falar sobre nossos planos de trabalho sem a presença restritiva de minha mãe.

—Nossos planos? - A voz de Charlotte possuía certo tom de alarme.

—Onde deveríamos nos encontrar, quanto tempo teríamos que passar juntos, até que hora estaríamos... - Ao enfrentar seus aterrorizados olhos, Wynter não teve mais opção que abrandar . - Me refiro às lições sobre maneiras inglesas que terá que me dar.

—OH! - Lançou uma olhada aos retratos que penduravam da parede como se pudessem lhe falar indicando o que era que devia dizer. - Já sabia que se referia a isso.

Wynter estendeu o braço e lhe disse:

—Gostaria de um passeio?

Obviamente, não gostava de jeito nenhum segurar o braço dele, mas que outra coisa podia fazer? Se mostrar desagradável e dizer "não"?

Wynter descobrira essa mesma tarde que manipular Charlotte tão só requeria um pouco de sutilidade e a judiciosa aplicação da cortesia.

Charlotte deu um passo adiante, o suficiente para posar sua mão sem luva sobre a manga de Wynter.

—Sua mão é tão leve como uma mariposa. - Colocou sua mão sobre a da instrutora. - E igual a uma mariposa, você é tímida e desconhece a inestimável beleza de sua feminilidade.

—Antes inclusive que pudesse assimilar o elogio, se pôs a andar pela galeria. - Eu gostaria que nos encontrássemos no antigo quarto dos meninos. Sabe onde está?

—Humm - pigarreou com delicadeza e, de novo como uma mariposa, seus dedos se agitaram sob a mão de Wynter. - No terceiro andar?

—No segundo. Era meu quarto de jogos quando era menino. Trocaram os móveis, que me parecem muito mais de meu gosto que as sobrecarregadas habitações da sociedade moderna.

As cadeiras, os sofás e as mesas... suficiente é se um homem não rompe a tíbia contra alguma dessas coisas! Tapeçarias e tecidos em todas as cores imagináveis! E tudo coberto com paninhos. - Se voltou para olhar Charlotte de soslaio.

Com a vista baixa e o cabelo recolhido, poderia ter se tratado da perfeita dama. À exceção de que estava rindo.

Ele aproveitou a circunstância.

—Ah. Vejo que você está de acordo comigo!

—Eu prefiro um estilo mais simples ao que agora está na moda. - O fato de que admitisse algum detalhe sobre suas preferências indicou a Wynter que seguia sob os efeitos do conhaque.

—Mas evitou realizar qualquer tipo de crítica ao gosto de ninguém em público.

Quase lhe pareceu vergonhoso se aproveitar de sua embriaguez. Quase.

—Eu tampouco. Só compartilharia esse tipo de pensamentos com alguém como você, pois sei que somos compatíveis.

De novo se sentiu contrariada e reagiu de um modo um tanto excessivo ante a sugestão de algum tipo de afinidade entre eles. Sim, bom. Era muito consciente de sua presença e se sentia incapaz de esconder seu desconforto.

Como ele era muito consciente da presença de Charlotte, e captar seu aroma e o mero fato de tê-la ali diante fez que crescesse uma dor penetrante em seu baixo ventre. Porque fazia muito tempo que não estava com uma mulher, sim.

Mas também porque se tratava de Charlotte. - "Compatível" não seria talvez a palavra adequada? - perguntou Wynter com fingida inocência. - O que pretendia dizer é que você e eu pensamos do mesmo modo em certa maneira.

—A palavra é correta. - Conveio. - Mas não sei por que deveria estar de acordo com algo assim.

—Pois é certo! - protestou. - Você acredita que a educação de meus filhos é o trabalho mais importante para fazer na casa.

—Totalmente.

—Eu também. - Os retratos foram ficando atrás lentamente à medida que avançavam pela galeria. - Essa foi a única razão para que eu pedisse que você ficasse depois de me humilhar esta tarde. Ela puxou a mão.

—Você não me pediu que ficasse e eu tampouco o humilhei.

—Tenho que dizer que as lições terão lugar depois de um longo dia em Londres e uma incômoda viagem até aqui.

—Minha jornada também é longa.

—Prometi lhe pagar muito dinheiro, e isso tendo em conta que já recebe um salário e refeição desde que está sob meu cuidado.

Charlotte se deteve e deu um puxão o bastante forte para liberar sua mão da de Wynter definitivamente.

—Eu não estou sob seu cuidado. Sou uma mulher independente.

Ele também se deteve, e se voltou para encará-la.

—E não me pus a gritar quando minha filha me pediu que me casasse com você.

Não estava seguro, levando em conta da escassa luz, mas teria dito que a instrutora se ruborizou.

—Isso não foi minha culpa!

—Você não lhe pediu que intercedesse em seu favor?

—Peço desculpas, senhor. - Deixou as mãos frente a seu colo e o olhou com ar suplicante. - O asseguro que não o fiz!

Ele deu um longo passo para se aproximar dela. Roçou sua saia com as pernas. Era muito alto e tinha um aspecto certamente imponente.

—Está segura que não lhe disse nada?

—Se estou segura? É obvio que estou. - Depois dessas palavras percorreu sua anatomia com o olhar, calibrando sua altura, sua largura, seu exótico vestuário e sua expressão severa. Tragou saliva. - Como poderia ter esquecido um comentário semelhante?

Ele inclinou ligeiramente o rosto.

—Isso me entristece.

—Co - como diz?

Agora já conseguira que ela prestasse toda sua atenção.

—Estando ante o berço de minha filha, um dos anciões da tribo a elevou nos braços e se pôs a rir. Profetizou que Leila seria sábia e forte, dotada nos assuntos do coração, e que traria sorte a sua família e honra a seu marido.

Esperava que Leila tivesse ouvido o que seu coração só podia sonhar.

—Está brincando?

—Acaso não é certo? - se aproximou um pouco mais de Charlotte.

Ela deu um passo atrás para a parede.

—Eu nunca... Ela nunca... Semelhante pensamento jamais me cruzou pela mente. - E acrescentou com celeridade: - Nem pelo coração.

—Mas agora pensará nisso.

—Será melhor que não o faça.

—Pois eu gostaria que sim o fizesse.

Não quis perguntar. Poderia ter se voltado e partido dali. Mas tinha a parede a suas costas, Wynter em frente a ela e bebera o bastante para duvidar de sua habilidade para escapar, embora não o bastante para não compreender à perfeição o perigo real ao que estava enfrentando.

—Por quê? - realizou a pergunta com voz dúbia.

Com as manhas próprias de um ator, as engenhou para parecer surpreso.

—Porque não acredito que você concordasse em ser minha amante!

Seus temores não diminuíram nem um pouco, tampouco se sentiu adulada, mas agora Wynter sabia que ela o tinha presente de um modo físico. Charlotte abriu muito os olhos, aniquilada, e o olhou fixamente sem piscar, como se pudesse descobrir com isso a chave que a ajudasse a sair daquela desagradável situação. As aletas de seu nariz tremeram ao captar seu aroma; ele sabia que seu aroma tinha um toque masculino e limpo, pois se banhava cada dia, e também algo do que careciam os cavalheiros ingleses.

Cuidou muito de manter um tom de voz hipnótico, pois se sabia capaz de dizer qualquer coisa se o dizia entre sussurros.

—Eu não... Jamais sonharia... fazer algo tão... impróprio - disse vacilante.

—Exato - espetou Wynter. - Me alegra que esteja de acordo comigo. Assim pensará em todas estas questões.

—Não. Eu... Não. - Estendeu a mão para um lado e tocou uma das cadeiras a utilizando como guia enquanto tentava escapulir.

—Lady senhorita Charlotte, antes que parta... - Estendeu a mão para ela com a palma para cima.

Ela olhou a mão e depois o olhou aos olhos. Uma vez mais se livrou da máscara de estrangeiro e se permitiu a liberdade de pedir. E mais, ela entendeu sua petição, e temeu os resultados se se negava a ela.

Com evidente desconforto, lhe deu a mão. Ele a apanhou entre seus dedos e a apertou, sentindo a calidez, a delicadeza e a pura feminilidade de sua fina pele.

Estava acostumado a mulheres com calos nas mãos atrás de todo um longo dia de trabalho, mulheres que trabalhavam junto a seus maridos para sobreviver no deserto. Admirava a essas mulheres.

Acreditava que as mulheres inglesas sairiam ganhando com semelhante dose de realidade, e não entendia em nenhum caso por que um homem poderia se interessar por uma mulher incapaz de fazer nada.

Mas com a mão de Charlotte entre as suas, o que desejou foi que mantivesse para sempre aquela suavidade. Desejava liberar Charlotte de sua luta diária pela sobrevivência.

Desejava lhe proporcionar o tipo de vida que merecia levar; uma vida simples e marcada pelo prazer. Muito, muito prazer.

Ela estava mudando sua maneira de pensar, e isso ele não gostava de jeito nenhum. Aprendera algo no deserto. Às vezes o destino podia manter a pessoa em alerta. Podia combater aquela atração. Mas então não poderia ter Charlotte. E já o apanhara.

No que pensava Charlotte enquanto olhava as próprias mãos? Desejava que ele cuidasse dela? Imaginava acaso como seria a vida estando casada com ele?

Ou era uma dessas mulheres apanhadas em um redemoinho de confusão?

Pouco importava. Fazia o que pensara. Agora ela pensaria nele de outra maneira.

Levou a mão até os lábios e a beijou lentamente, de um modo terno. Com muito cuidado, passou a ponta de seus dedos sobre o ponto no qual beijara e depois afrouxou um pouco o aperto.

Ela olhou sua mão como se, quando ela decidisse abrir os dedos, aquele beijo fosse sair voando. Elevou a vista e o olhou desconcertada, e ao apreciar seu sorriso ela pareceu recuperar o entendimento.

Se afastou, talvez um pouco mais rápido do que teria sido habitual nela. Talvez um pouco menos tranquila.

Mas lhe agradou comprovar que escondia sua mão no interior do vestido. Ele sabia por que. Seguia mantendo seu beijo.

 

Charlotte ainda sofria uma ligeira dor de cabeça na tarde seguinte enquanto caminhava para o velho quarto de jogo dos meninos.

Em futuras ocasiões, Adorna teria que beber sozinha o conhaque, pois estava convencida que não estaria realizando esse trajeto para se encontrar com Wynter se tivesse mantido sua opinião com respeito a sua senhora.

Tutora de um homem adulto! E de um homem como Wynter, para ser exata. O que Charlotte ia poder fazer com ele? O trabalho consistia em maior medida convertê-lo em um homem civilizado que em ensiná-lo quando precisava levar luvas.

Precisava aprender a usar sapatos, por exemplo. Se forçou a separar de sua mente a imagem de seus pés descalços.

E a não perseguir mulheres jovens por corredores às escuras. E, sem dúvida alguma, a não realizar comentários pessoais sobre o fato de converter uma mulher em sua amante. Ou em sua esposa.

Sua esposa! Charlotte evitou soprar como Wynter o fez na noite anterior. Leila podia se defender em sua ignorância infantil quando realizou aquele comentário sobre a possibilidade de uma relação entre seu pai e a instrutora.

A única desculpa de Wynter era a lascívia.

OH, sim. Custara um pouco a compreender, mas Charlotte acabou desentranhando o detestável plano de Wynter. Aquele homem não andava procurando se casar com ninguém.

O que desejava era o mesmo que desejavam todos os homens de uma mulher medianamente atraente que estivesse vivendo sob seu próprio teto.

Pois bem, não ia conseguir nada de lady Charlotte Dalrumple. Demonstrara sobradamente que ela não se vendia ao melhor lance. Uma história vergonhosa da que Wynter, ao que parecia, não estava à par.

Uma história vergonhosa? Negou para si mesma com a cabeça. Ela não tinha nenhuma intenção de que Wynter conhecesse sua história.

Ele era um homem tão tosco que não poderia evitar lhe fazer perguntas, e ela sempre evitava por qualquer meio falar daquele doloroso episódio.

Tosco. Sim. Lady Ruskin não compreendia em toda sua extensão o que separava um verdadeiro cavalheiro de um limpador de lareiras. Se tratava do comportamento.

E o comportamento de Wynter era nefasto. Atuava como se, dispondo de um batalhão de homens, pudesse conquistar o mundo.

Semelhante arrogância incomodaria aos homens ingleses que não tiveram experiências nos selvagens oceanos ou nos dourados desertos ou não tivessem tratado com ferozes guerreiros.

Se deteve durante um segundo, se inclinou apoiando uma mão na parede e se esforçou por eliminar qualquer matiz romântico das aventuras de Wynter. Ao que parecia ela havia lido muitos livros de aventuras aos meninos.

E a visão de Wynter com seu caftã, para falar a verdade, inflamara sua imaginação. Aquele traje era do mais impróprio. Livre de amarras, sem as constrições próprias das nações mais desenvolvidas.

Quando viu pela primeira vez o caftã ficou atônita, incapaz de realizar um só pensamento coerente. Depois da surpresa inicial, sua mente entrou em marcha.

Como se sentiria ela se não levasse espartilho, sentindo unicamente o roce do tecido sobre seu corpo?

Daí a se deixar levar pelos pensamentos pecaminosos havia um passo, porque a seguinte especulação se referiria à possibilidade que Wynter não usasse roupa íntima.

E quando olhou para Wynter, pensou... Bom, não importa o que pensasse. Semelhante visão só podia se justificar devido à ingestão de um licor de alta graduação.

Não, não voltaria a provar o conhaque.

Elevou os ombros e prosseguiu o caminho para o velho quarto de jogo dos meninos onde precisava se encontrar com Wynter.

Bateu na porta ligeiramente e, como não obteve resposta, colocou a cabeça. A ampla e ventilada sala estava vazia e em penumbra, excetuando a ilha de luz que supunha o fogo da lareira.

As chamas rangiam na lareira e havia um par de velas sobre uma mesa longa e baixa. Estava coberta por uma toalha branca, a seu redor estava espalhado montões de almofadas formando coloridas pilhas e perto também havia mantas de lã dobradas.

Sob tudo isso descansava um tapete de tons dourados, verdes e avermelhados com um complicado desenho.

Mas não viu ali homem algum a esperando disposto a desafiá-la com sua insolência, então perguntou:

—Lorde Ruskin?

Por trás de uma porta meio fechada na parede em frente, chegou uma voz:

—Bem-vinda, lady senhorita Charlotte. - Pronunciou seu nome com um tom quente, destacando cada sílaba com seu leve acento. - Entre em minha humilde morada e honre-a com sua deliciosa presença.

O tom de sua voz fez Charlotte esquecer que ela era uma simples instrutora e ele o visconde para quem trabalhava.

Sua feminilidade e a admiração que Wynter sentia por ela passou a ocupar o primeiro plano de seus pensamentos, e o fato de saber quão perigoso isso era nada fez a não ser contribuir ao momento um maior atrativo.

Aquele homem podia seduzi-la se ela não ia com pés de chumbo.

—Senhor, se, tal como suspeito, este é um quarto particular, não resulta nada adequado que eu esteja a sós com você aqui.

—Meu quarto particular? Se é o quarto velho de jogo dos meninos! - Seu assombro parecia genuíno. - Estarei preparado em um minuto. Fique cômoda.

—Hum. - Não acreditava nele, mas ela já havia dito o que precisava dizer: deixara claro que não era tola e que não sentia nenhum desejo de estar a sós com ele.

Agora bem, como podia ficar cômoda em um quarto em que não havia cadeiras? Se limitou a dar voltas ao redor da mesa, que chegava à altura de seus joelhos, e a examinar uma bandeja que continha rodelas de pão, um pequeno queijo de bola e uma terrina com uvas de cor púrpura. Não havia cobertos, apreciou, nem lugar no que se sentar, e se perguntou com desconforto se resultaria que o que suspeitara em relação às intenções de Wynter era certo.

Podia notar o aroma primaveril da fruta. Se inclinou para frente e inalou, apreciando o aroma que subia da bandeja, sobre o que acabava impondo o aroma do pão.

O som da voz de Wynter a levou a se endireitar rapidamente com um gesto de desagrado.

—Por favor, lady senhorita Charlotte, coma algo.

Estava na porta, a luz brilhava a suas costas, e, para alívio de Charlotte, ia vestido como um cavalheiro; embora estivesse descalço.

—Não, obrigado, senhor. Já jantei.

—Pegue algo! Eu não posso comer tantas uvas sozinho ou me darão gases.

Quase perdeu o fôlego tentando se sobrepor ao horror que lhe causou semelhante comentário; embora também poderia ter se posto a rir. Sob a influência de Wynter, mal podia distinguir a diferença entre ambas as coisas.

Esperou uns segundos e depois arrancou uma uva e a meteu na boca. Era doce, maravilhosamente fresca, e cheia de sementes, e no tempo que ela demorou para se desfazer discretamente delas ele se fez dono da situação.

Entrou no quarto como se se tratasse de uma força da natureza. Estava vestido numa jaqueta negra, umas calças negras e uma camisa branca. Qualquer um poderia vê-lo, ignorando os pés descalços, como um nobre qualquer.

Mas usava a camisa aberta no pescoço, deixando à vista um ligeiro arbusto de pelo encaracolado, as tensas coxas se marcavam nas calças e, além disso, Charlotte não pôde ignorar seus pés descalços. Simplesmente, não pôde.

Se colocou em um círculo de luz e adotou sua postura habitual: os pés separados, os punhos apoiados na cintura e o queixo elevado formando um ângulo de corte imperioso.

—Então, comecemos.

Jogou as sementes na lareira de qualquer maneira e recompôs seu aspecto.

—De fato, já começamos. Eu gostaria de dizer que, embora não desejasse me encarregar da tarefa que entranha polir suas maneiras sociais, o farei o melhor que possa...

—Sim, sim, já sei. Você é uma mulher que sempre dá tudo de si no trabalho. Não há discussão possível a respeito desse tema. Por onde começamos?

A incomodou que Wynter interrompesse seu discurso de boas-vindas que tanto custara a preparar, entretanto manteve a compostura. .

—Para falar a verdade, deveríamos começar por sua tendência a falar de questões pessoais.

Elevou a cabeça.

—Questões pessoais? Acaso não deveria conversar com meus filhos?

—Não, questões pessoais como falar do próprio corpo. Não deve falar do... funcionamento interno de nossos órgãos, ao menos não em público. - Esperou que ele acabasse captando seu eufemismo.

A luz iluminava a cara de Wynter.

—Ah! Não devo falar de meus gases.

—Definitivamente, não. Tampouco se fala de enfermidades nem de desconfortos físicos.

—Mas todas essas educadas damas e cavalheiros me perguntarão como me encontro. Ela ignorou a leve deixa sarcástica.

—Se trata de uma pergunta retórica. Quando alguém pergunta como está você, a resposta correta é "Estou bem, obrigado, e você?".

—Isso explica por que a maioria das senhoras deixaram de me perguntar sobre minha saúde. - Caminhou até a mesa baixa e se sentou sobre uma enorme almofada.

O coração dela deu um tombo. Era justo o que havia suposto. Estava lhe mostrando suas bárbaras maneiras, talvez para zombar dela ou talvez a modo de protesto contra sua tutoria.

Sem dúvida, não se devia a que ele pensasse que para uma mulher resultava atraente ver um homem sentado no chão.

—E posso eu perguntar pela saúde das damas? - perguntou.

—Só de maneira muito geral. - se colocou em frente a ele, de costas ao fogo da lareira e com as pernas cruzadas despreocupadamente à altura dos tornozelos.

Wynter parecia se encontrar muito a gosto sobre a almofada, não parecia ter vontades de chatear.

Possivelmente, Charlotte teve que admitir, não fosse mais que um homem que pretendesse relaxar depois de um duro dia de trabalho atrás de uma escrivaninha.

Wynter mordeu o lábio superior.

—Recentemente, lady Scott deu a luz e eu lhe perguntei por seu novo filho.

—Isso é de tudo aceitável.

—E sobre o parto.

Charlotte fechou os olhos durante uns segundos.

—As mulheres mal falam entre si desse tipo de assuntos, então muito menos o farão com um homem.

Wynter assentiu.

—Em Bahar as mulheres sim falam desses assuntos, são os homens os que não dizem nada.

Por fim! Um ponto de acordo, embora não fosse grande coisa.

—Vê, inclusive em Bahar se aplicam as mesmas regras.

—Mas me interessava sabê-lo! - protestou como uma criança pequena.

—Seus interesses não devem ir além das normas e do protocolo.

—Em Bahar, os interesses de um homem estão por cima de qualquer outra coisa.

Porque os tratam como se fossem crianças.

—Você poderia perceber que já não está em Bahar e que aqui há umas normas de protocolo que terá que respeitar. - Tal como ela fizera, Wynter cheirou o aroma do pão e das uvas. Ao perceber que ela se afastou do círculo de luz, disse:

—Peço permissão para comer, lady senhorita Charlotte, porque ainda não jantei.

—É obvio, senhor. É tarde. Tem que estar faminto.

—Tão faminto como um camelo em busca das tâmaras de uma palmeira, - se deu conta da expressão da instrutora e reconsiderou seu modo de falar. - Sim, estou faminto. - Fez um gesto para a mesa. - Me faça a honra de me acompanhar.

Você está muito magra, embora a exuberância de seus seios faz pensar em um oásis com abundantes tâmaras e doces libações.

Ficou aniquilada... Totalmente aniquilada.

—Você não deve dizer semelhantes coisas!

—Só a você, lady senhorita Charlotte. A maioria das mulheres não são tão magras. Mas se não quiser comer, sente-se pelo menos.

Charlotte não estava acostumada a vacilar, mas não podia explicar a Wynter que seus seios não eram um tema adequado de conversação. Seus seios, ou os seios de qualquer outra mulher...

Embora não podia evitar pensar que ele, de algum modo, sabia perfeitamente que ela poderia lhe reprovar a respeito. Não parecia, em qualquer caso, ter lhe dado importância.

Mais adiante, quando deixassem de falar das partes de seu corpo, encontraria o modo de lhe dizer que não poderia mencionar temas tão íntimos.

—Sente-se, por favor - espetou. - Não posso aprender se se coloca por cima de mim.

Obviamente, ele pensava nela de um modo sexual. Embora ainda não estava claro qual foi seu propósito na noite anterior na galeria dos retratos. Charlotte, pelo resto, não possuía experiência na difícil arte de entender aos homens.

—Vou procurar uma cadeira...

—Seguiria estando por cima de mim. A fiz vir aqui porque estou cansado e aqui podíamos estar sozinhos. Será que uma mulher inglesa não pode se sentir cômoda se sentando em uma almofada?

—Dificilmente - ela respondeu com certa ironia, porque não sabia como explicar a Wynter o problema que supunha a uma mulher com três anáguas tentar se sentar no chão.

Colocou várias almofadas uma em cima da outra e se voltou para um lado para esconder o irreprimível sorriso que aflorou em seu rosto.

Wynter, em muitos sentidos, era um homem que ainda não fora poluído pela hipocrisia social, e se perguntou como reagiriam ante suas observações as sofisticadas damas e os cavalheiros ingleses.

Quase teria pago por poder ser testemunha da reação de lady Scott quando Wynter lhe perguntou a respeito de seu parto. Mas o tempo trabalhava contra Wynter, e agora ela já tinha sob controle a expressão de seu rosto.

Comprovou que Wynter franzia o cenho ao olhar abaixo de seu vestido, mas não soube exatamente por que.

—Tem que tirar os sapatos.

—Tirar os...? - Teve que se conter para não chamá-lo bárbaro. - Não, não tirarei os sapatos!

—Mas você me diz o que é que tenho que fazer em todo momento.

—Isso não inclui...

—Lady senhorita Charlotte, este é meu santuário. Eu trouxe este tapete e estas almofadas de Bahar a modo de preciosa lembrança do tempo que passei ali.

Não há maneira alguma que possa repô-los, e temo que algum dia estarão tão gastos que terei que jogá-los, e já não ficaria nada de meu formoso lar no deserto.

Seu suave tom de voz era, ao mesmo tempo, lírico e afirmativo. Não pôde evitar pensar que Wynter a estava manipulando e, entretanto... sabia que ele amara profundamente O Bahar e supunha que, em certa medida, ele sentia falta de lá.

Se somente se tratasse disso, sem dúvida teria direito a lhe pedir que fizesse todo o possível por manter viva sua lembrança.

Mas pedir que tirasse os sapatos... Olhou diretamente aos olhos dele durante um longo minuto, pois desejava comprovar se se tratava de uma brincadeira.

Não o era.

—Bem, senhor - espaçou as palavras com toda intenção, - quando me sentar tirarei os sapatos.

—Você me honra com sua cortesia, como sempre.

Talvez Wynter se alegrasse em segredo daquela vitória, mas ocultou sua reação muito bem porque ela não pôde perceber nem tão só uma cintilação em seu olhar, por isso Charlotte pensou que talvez estivesse passando da raia ao pensar que ele tentava zombar dela a todo momento. Deixou estacionada essa questão durante um momento.

Apreciou então o forte e torrado aroma do café e percebeu do pote de cerâmica que havia junto ao fogo.

—Me servirá uma xícara desse café?

Wynter se deteve na metade do ato de cortar um pedaço de queijo.

—Me acompanhará tomando café, então?

—Se lhe parecer bem. - Aproximou um pouco mais à mesa a pilha de almofadas de veludo sobre a que pensava se sentar, depois pegou o pote de café e duas xícaras.

Demorou uns segundos em poder compor suas roupagens para se sentar com certa graça, mas as almofadas, uma vez se sentou nelas, afundaram mais do que esperava. Estava sentada quase ao mesmo nível do chão, com Wynter ao outro lado da mesa.

Não justamente em frente - estava mais como em um extremo enquanto ela escolhera o próprio centro, - a não ser a um metro de distância. Charlotte não sabia como colocar as pernas. Devia estirá-las?

Apoiar os pés no chão e elevar os joelhos os mantendo juntos? Finalmente decidiu que o vestido lhe oferecia uma boa camuflagem e que se sentaria tal como o fizera Wynter: com as pernas cruzadas e os joelhos abertos.

Quando finalmente se sentou, comprovou que ele a observava com o que parecia autêntica fascinação. Disse em voz baixa:

—Você converte qualquer simples ato em toda uma representação.

Soou quase como uma adulação, como se soubesse exatamente como se sentar, como se localizar no chão com tanto relaxamento como ele.

Mas Charlotte não se sentava no chão desde os doze anos, e não esquecera a liberdade que era rolar pelo chão, ou se sentar a escutar como sua mãe lhe contava um conto, ou simplesmente se deitar para olhar o teto e se deixar levar pelas fantasias.

—E seus sapatos? - inquiriu Wynter.

A instrutora se inclinou para frente e deixando ver tão só um mínimo retalho de suas meias desfez os laços que uniam os sapatos a seus tornozelos e os tirou.

Ele observou como deixava o sapato negro junto às almofadas, levou uma mão ao peito, sobre o coração, e disse:

—Agradeço enormemente, lady senhorita Charlotte.

Apanhada entre o desconforto que lhe supunha estar com ele e o prazer que sentiu ao posar os pés descalços no chão, não pôde fazer outra coisa mais que sorrir ligeiramente. Com mão firme, Charlotte serviu o café nas xícaras e passou uma a Wynter.

—Espero que as coisas tenham ido bem hoje em Londres.

Ele acabou de cortar o pedaço de queijo com uma navalha parecida com a que ela presenteara Robbie, embora neste caso a lâmina era mais longa e curvada; o fio cintilou à luz das chamas.

—Londres se estende sobre uma terra antiga, uma terra que marca sua história e sua realeza. Os palácios e as Igrejas se elevam com esplendor, cada uma delas diferente às demais, e cada uma delas orgulhosa do lugar que ocupa na cidade.

Os moles e as casas humildes mostram sinais de putrefação e cheiram mal, uma deterioração que demonstra o engano que subjaz. - Pegou o pedaço de queijo, o examinou contra a luz e disse: - Londres é uma cidade que fala das pessoas que a habita.

No que dissera havia poesia e uma considerável dose de verdade, dois pecados que os membros da alta sociedade não estariam dispostos a perdoar. Odiava ter que o fazer saber, mas...

Quando ela se mostrou dúbia, ele gargalhou.

—É obvio. Esquecera. Só se pode falar de aparências, só há espaço para a conversação vácua sem comentário profundo algum. A resposta correta é: "As coisas me foram bem hoje, lady senhorita Charlotte. E a você que tal lhe foi o dia?".

—Muito bem, obrigado - começou a dizer, mas não pôde deixar de lado suas observações. - Senhor, a conversação é uma arte, uma arte que permite que as pessoas se conheçam e, mediante um lento baile de palavras, nasça uma relação entre eles, se houver sorte, até se converter em amigos. Sem dúvida, não há necessidade alguma de despir a alma ante qualquer desconhecido, a menos que deseje que seus mais apreciados segredos corram de boca em boca sem nenhum tipo de reparo.

Wynter se deteve antes de cortar um pedaço de pão com as mãos, e Charlotte supôs que ia realizar algum comentário sobre sua inteligente e sincera apreciação. Entretanto, se limitou a dizer:

—Como sempre, suas palavras demonstram sabedoria. Me agrada ouvir que sua jornada foi bem. Por amabilidade, poderia me pôr à par dos progressos de meus filhos ?

Lhe sorriu, segura que ao menos essa conversação poderia se desenvolver sem embaraço algum.

—É uma maravilha ensinar a seus filhos, senhor. Ambos estão muito avançados em matemática para sua idade, e sua capacidade para os idiomas é pouco menos que surpreendente.

Aprendem com rapidez em ciências, elocução, caligrafia e desenho, e Robbie, por sua parte, está progredindo muito em leitura.

Wynter esboçou um sorriso como teria feito qualquer pai ao ouvir semelhantes comentários sobre seus filhos, mas de repente ficou sério.

—E Leila? Não progride em leitura?

A contra gosto, Charlotte negou com a cabeça.

—Leila não lerá.

—Quer dizer que não pode aprender? - Quero dizer que não vai tentar. - Charlotte aborrecia ter que comentar seus fracassos, mas, se pretendia ser justa, sabia que estava na obrigação de fazê-lo.

—A culpa é minha, senhor. Não tenho tanta experiência no trato com meninos como outras instrutoras, e não sei lhe dizer por que Leila cruza os braços e se nega a aprender, ou como enrolá-la para que queira fazê-lo.

Disse a ela que quando puder ler, todo um mundo novo se abrirá ante ela.

—Gosta de ouvir você ler. - Wynter deu uma dentada no pão e depois deu um gole no café.

—Sim, os meninos e eu desfrutamos muito com a leitura de Noites árabes. Eu disse a Leila que quando puder ler, não terá que esperar até que eu leia para conhecer novas histórias. Pode ler para si mesma. Mas se mostra inflexível.

Os olhos de Wynter brilharam como dando a entender que sabia algo que ela desconhecia.

—De que se trata, senhor? Há algo sobre Leila que deveria saber?

Ele sorriu e negou com a cabeça.

—Leila aprenderá a ler quando chegar o momento.

Ainda preocupada, Charlotte elevou uma sobrancelha e ele se inclinou para o outro lado da mesa. Surpreendida, a instrutora se afastou. Com a mão ainda estirada, ele a olhou de forma reprovadora até que ela voltou para sua posição original.

Wynter relaxou as rugas que se formaram na testa de Charlotte passando o polegar por ela.

—Não tem por que se preocupar. Antes que você chegasse, supunha que uma instrutora curvaria os meninos com restrições e normas, bateria em suas mãos quando não se comportassem bem e os menosprezaria por vir de onde vinham.

Talvez você acredite que não me dei conta, Charlotte, mas a observei quando está com meus filhos e ouvi todas as adulações que eles lhe dedicam, e agradeço a você por guiá-los nesta estranha viagem com tanta habilidade e carinho.

Permitiu a ele roçar a testa e as têmporas porque supôs que ele não sabia que semelhante amostra de afeto resultava muito violenta.

Deixou também que suas palavras engrandecessem seu orgulho por que... Bom, não lhe vinham nada mal umas poucas adulações.

No passado, sua competência se deu sempre por suposta. Agora que ela acreditava que sua competência fraquejara justo com aqueles aos que mais desejava ajudar, Wynter lhe outorgava a confiança necessária.

O silêncio invadiu o velho quarto de jogos. As chamas rangiam consumindo os troncos de madeira. A noite ia ganhando terreno do outro lado das janelas sem cortinas, e também avançava sobre o chão, brincando com os desenhos do tapete.

A luz das velas riscou um círculo ao redor daquelas duas figuras que se olhavam com grande intensidade nesse momento.

As pontas dos dedos de Wynter deslizaram pela face da instrutora, passaram por cima de seu nariz e roçaram brandamente as pestanas como se aquele suave contato produzisse nele um grande prazer.

A fascinou comprovar que tinha rugosas calosidades nos dedos, fazendo que seu roce fosse, ao mesmo tempo, áspero e tranquilizador.

Então retirou a mão e voltou a se sentar como o fizera até então. Charlotte pôde recuperar o fôlego. Provocara nela uma reação completamente incomum, por isso não lhe custaria pensar que Wynter era um daqueles feiticeiros das Noites árabes.

Entretanto, lady Charlotte Dalrumple não acreditava em feiticeiros.

—Você não provou o café - disse Wynter. - Provavelmente o prefira com açúcar.

—Não, eu não tomo... Não necessito açúcar. - Wynter parecia um pouco decepcionado, então a instrutora levou a xícara aos lábios e bebeu.

O Encontrou muito mal. Tostado e amargo, não tinha nada a ver com seu estupendo aroma. Apertou os dentes e tragou, evitando com muita dificuldade um estremecimento.

A intensa concentração que mostrava o pai dos meninos se transformou em diversão.

—Lady senhorita Charlotte, você não gosta do café. Não teria sido adequado mentir.

E mais tendo em conta quão mau ela fingia.

—O certo é que... não.

—E tampouco gosta do conhaque.

—Pode estar seguro disso.

—Amanhã a noite pedirei que lhe preparem chá. E agora, lady senhorita Charlotte, tenho que perguntar se é permissível que leve a velha maleta de meu pai com o escudo familiar.

Parece estar em moda hoje em dia, mas notei que quando estou em Londres as pessoas a olham com receio.

Enquanto Charlotte dava aula a Wynter, em outra zona da casa a mais nova das criadas se dirigia a seu dormitório no terceiro andar.

Em geral Frances sempre ia dormir quando o faziam as demais, e normalmente era a governanta a que levava o candelabro que iluminava o corredor para que todas as criadas pudessem ver.

Mas Trev James, o menino mais bonito que ela já conhecera, pedira a ela que se encontrasse com ele no estábulo, e agora precisava atravessar o corredor às escuras para chegar a seu escuro quarto.

Podia apreciar os contornos do corredor, mas por estranho que parecesse, não podia ver outra coisa.

Era uma impressionável mocinha de quinze anos e por sua cabeça passaram todo tipo de imagens terroríficas. Ouvira contar algumas histórias.

Sabia que as velhas mansões estavam lotadas de monstros e fantasmas, e aquela casa tinha mais anos que sua avó, e sua avó ainda recordava a loucura do rei Jorge. Não o que precedeu à rainha Vitória, a não ser inclusive o Jorge anterior a esse.

Uma das pranchas do chão rangeu quando Frances a pisou. Deu um salto, agarrou seu avental e jurou e perjurou que jamais voltaria a se ver com Trev por muito que o desejasse, por muito doce que fosse seu sorriso.

Saberia Deus que crimes se teriam cometido ali, ou que fantasmas percorreriam aqueles corredores em busca de vingança. Sem lugar a dúvidas não era o lugar apropriado para uma jovem criada recém saída de casa de sua avó.

Durante as últimas noites, além disso, assim que se deitava na cama começava a ouvir ruídos provenientes do andar superior. Sons estranhos, como se alguém arrastasse os pés.

Em uma ocasião ouvira inclusive um golpe, como se algo tivesse golpeado o chão. Algo que poderia ter sido metálico, umas correntes forjadas no inferno arrastadas por um condenado...

Com as costas apoiada na parede foi avançando pouco a pouco contando as portas à medida que ia deixando atrás. Seu dormitório era o último da direita, justo antes que o corredor dobrasse para o acesso ao desvão.

Frances esteve no desvão. O primeiro dia bom da primavera, a senhorita Symes formou um batalhão de criadas e criados para limpar o pó acumulado durante os seis meses anteriores.

A sala grande do desvão não estava nada mal, possuía janelões que deixavam entrar a luz, mas as menores surgiam em qualquer canto, e algumas eram pouco maiores que um armário.

Frances sentiu calafrios ante a ideia de que pudessem deixá-la ali encerrada a sós.

Agora teria gostado que seu dormitório estivesse mais perto do da senhorita Symes. Não havia fantasma - ou camundongo, chegado o caso - capaz de arrancar do sono a aquela formidável governanta.

Só faltava uma porta agora, Frances quase conseguira seu objetivo, mas então escutou um longo e agudo chiado, como as dobradiças oxidadas de uma porta.

Seu sangue gelou, mal entrava ar a seus pulmões, desejava ter se equivocado, ter ouvido algo que na realidade não existia.

Mas não foi assim: um pouco mais adiante viu o resplandecer de uma tênue luz além da volta que dava o corredor, quase como se alguém, ou algo, tivesse aberto a porta do desvão.

Ouviu um muito ligeiro roce e depois um pesado suspiro ao tempo que soou de novo o chiado de dobradiças. Tal como disse ao resto das surpreendidas criadas na manhã seguinte, os cabelos se puseram como ganchos.

Retrocedeu um passo, depois outro, com o olhar fixo no escuro quadrado onde o corredor girava. A mancha de luz foi crescendo, e Frances pôde escutar o som dos pés se arrastando pelo chão.

Alguém devia estar lhe fazendo uma brincadeira. Ou se tratava de alguém que esteve se ocultando no desvão para evitar o incansável olhar vigilante da senhorita Symes. Ou...

Alguém dobrou a esquina. Alguém baixinho com uma camisola branca e uma vela na mão que mantinha perto de sua horrível cara.

Frances lançou um grito com todas suas forças. Voltou a gritar, depois disso deu a volta e se pôs a correr pelo corredor enquanto as portas se abriam a sua passagem e a fantasmal figura se ocultava.

 

Para refrescar sua memória sobre as lições da última hora da tarde, Charlotte abriu seu caderno com as regras para o perfeito cavalheiro.

—Ah, sim. - se afundou na pilha de almofadas que colocara em frente à lareira, tentando desse modo estar o mais cômoda possível sem se afastar da formalidade enquanto Wynter a observava ajeitado sobre o tapete. —Esta noite falaremos da correta conduta de um cavalheiro na cidade.

Wynter deixou escapar um grunhido, colocou um travesseiro sob a axila e repousou a cabeça sobre a mão. Ela descansou os pés, cobertos por meias, no tapete.

—Um cavalheiro sempre caminha entre uma dama e a rua, pois desse modo a protege de se topar com um cavalo disparado.

—E se você não gosta da dama em questão?

Charlotte manteve a vista fixa em seu caderno fingindo não ser consciente do perto que estava o pé nu de Wynter de seu próprio pé escondido sob a saia. Teria decidido finalmente a se aproveitar da situação?

Não ia poder fazê-lo, em qualquer caso. Ela não o permitiria. Mas era algo que teria que ter em conta. Durante a semana anterior, mal dera a impressão de escutar o que lhe dizia, e muito menos de desejá-la. Comia, se estirava em qualquer parte, avivava o fogo ou recolocava as velas. Charlotte não tinha motivo de queixa alguma, e além disso, quando lhe perguntava a respeito de seus deveres como cavalheiro inglês, ele sempre respondia com total correção. As suspicacias[6] que ele mesmo criara na galeria de retratos pareciam ter se esfumado, dando lugar a... bom, certa monotonia.

Mas essa noite tudo era diferente. A observava sem fazer nada, se aproximou dela sob o pretexto da comodidade. Por outra parte, parecia ter vontade de discutir.

—Não entendo sua pergunta, senhor?

—Você disse, lady senhorita Charlotte, que deveria interpor meu corpo entre uma dama e um possível cavalo disparado, mas semelhante comportamento entranha um perigo.

Suponho que a dama teria que ser alguém especial para mim se for arriscar minha vida por ela.

Charlotte não teria sabido dizer por que, mas pensou que aquele comentário indicava de algum modo o interesse que sentia por ela. Possivelmente se devia a que a atitude de Wynter provocava nela uma rebelião similar.

Essa noite, quando de tanto em tanto Charlotte se permitia lançar um olhar a seu aluno, a piscada das velas lhe mostrou um homem corpulento.

Essa noite, não vestia jaqueta, tirou as meias, abriu os punhos e o pescoço... por isso levava postos unicamente a camisa e as calças. E, obviamente, a roupa de baixo. Sem lugar a dúvidas.

—Um verdadeiro cavalheiro arriscaria sua vida por uma dama.

—Quantos autênticos cavalheiros há neste país, lady senhorita Charlotte?

Finalmente se decidiu a elevar a cabeça, não podia evitar olhá-lo diretamente aos olhos durante mais tempo. Precisava olhar a aquele detestável homem e deixar de pensar se vestia ou não roupa de baixo.

—Um verdadeiro cavalheiro não pensaria sequer em sua própria segurança, demonstraria sua coragem e sua integridade inclusive embora isso o levasse a morte.

—Eu pensaria nisso duas vezes, - coçou o pescoço. - Talvez o que faria seria empurrar a um lado à dama em lugar de me interpor na carreira de um cavalo disparado.

Se deu conta nesse preciso instante que estava zombando dela. Estava se limitando a argumentar para fazer patente o absurdo daquele ideal. De acordo. Certamente estava no certo.

Certamente não havia um só cavalheiro em toda a Inglaterra capaz de arriscar sua vida para cumprir com aquele modelo de cavalheirismo, mas Charlotte não estava disposta a admitir isso.

Com a intenção de retomar o controle, passou as folhas do caderno e apontou com o dedo um ponto concreto.

—A afastar de um empurrão também é aceitável. A outra razão pela qual um cavalheiro caminha entre a rua e uma dama é que é mais fácil se manter limpo se a pessoa caminhar um tanto afastado dos edifícios.

—Sim, em sua Londres as criadas lançam água suja das janelas superiores quando menos se espera isso. - Se deitou de costas olhando ao teto com as mãos cruzadas sobre o ventre. - Deveria um cavalheiro se interpor também entre uma dama e a água suja?

Nesse instante não teria se importado que uma criada jogasse em Wynter um balde de água suja pela cabeça, por isso abraçou a caderneta contra seu peito e se dispôs a ficar em pé.

—Temo que hoje não é uma boa noite para lições sociais, senhor. Talvez devêssemos pospor a aula até manhã à noite.

Wynter rodou para um lado e bateu com a mão aberta sobre o tapete.

—Não! Tem que ser esta noite!

Ela deu um salto. Durante uns segundos, e em parte obrigado à luz da lareira, Wynter mostrou um aspecto feroz, selvagem, não como o indolente pachá que ela tinha suposto, mas sim como o guerreiro do deserto que, às vezes, se atreveu a imaginar.

Dada a conduta de lady Ruskin, Charlotte dera por obvio que nem tudo ia bem na cidade, mas o que não podia saber era se se devia a uma questão social ou financeira.

Se se tratava de algo relacionado com seus negócios, Charlotte não podia fazer nada a respeito. Mas no referente ao social... Com uma delicadeza da que não podia a não ser estar orgulhosa, perguntou:

—Há alguma questão de etiqueta em que possa lhe ajudar?

—Etiqueta. Será que não há espaço nesta fastidiosa sociedade para algo mais que a etiqueta? As damas dizem que não estou à par das questões de etiqueta, mas eu digo que são elas as que não têm nem ideia do que é a boa educação.

Ao que parecia, Charlotte encontrara a fonte de sua confusão.

—O que fazem essas damas?

—Vão dispersando rumores por toda Londres, falsos rumores, que me qualificam como um rufião.

Charlotte se sentiu ofendida por seu tutelado.

—Mas isso é mentira, senhor! Talvez você não saiba atender todos os requisitos da etiqueta, mas você não é um rufião! - Ou talvez sim. Mas só um pouco.

—Lady Howard e a senhora Morant têm muito má fé.

—Asseguro que muito em breve seu comportamento em sociedade será a inveja de todas as damas de má fé de Londres.

—Etiqueta! Inclusive você! Não pensa em outra coisa? Todas as noites falam sobre mim - tocou o peito com o dedo indicador. - O que devo dizer e como devo dizê-lo. Até onde tenho que por o chapéu e quando tenho que tira-lo.

Quando tenho que fazer as chamadas da manhã e o que devo vestir em cada ocasião. Por todas as dunas do deserto, está me colocando mais normas na cabeça que estrelas há no céu do deserto!

—Esse era o desejo de lady Ruskin.

—Respeito a minha mãe. De fato, a adoro. Mas seus desejos são coisa dela. Assim... agora vamos falar de você.

—Temo, senhor, que não vai ser assim. Eu sou uma instrutora, não estou aqui para entreter a ninguém.

Você já me deu seu visto positivo como professora e acompanhante de seus filhos, e como também disse, sou mais que capaz de o ajudar a melhorar seu comportamento social. Isso é tudo o que você necessita saber de mim.

Wynter se recostou com aspecto aniquilado.

—Não quer me contar nada sobre você?

—Não quero, não - disse com firmeza.

—Mas as mulheres sempre gostam de falar de si mesmas.

Nada no mundo a irritava mais que esse tipo de generalizações que costumavam realizar os homens; uma tendência que demonstravam inclusive os mais civilizados.

—Não sei com que tipo de mulheres você se relacionou, senhor, mas a maioria das mulheres não tem sequer a oportunidade de falar devido às intermináveis e pomposas conversações dos homens.

—Eu não gosto nada desse tipo de generalizações que fazem as mulheres sobre os homens.

Ele lhe teria lido a mente?

Wynter inquiriu:

—Contei eu algo sobre minha pessoa?

—Muito pouco - admitiu a contra gosto.

—Mas isso é precisamente o que você quer. Você gosta de me ver como a um bárbaro estúpido e descuidado. - Com a mão livre brincava com as franjas da almofada e não separava dela seu olhar. - É mais fácil que tentar saber quem sou realmente.

—Asseguro que isso não é certo.

—Vou dizer isso agora mesmo - se sentou com as costas reta, e quando ela se dispôs a interrompê-lo, a apontou com um dedo. - E você escutará.

Charlotte não tinha nenhuma intenção de escutar. Não queria aumentar seu nível de intimidade, não justo agora que descartara, por ridícula, a ideia da sedução.

—Temos muito caminho pela frente, senhor. - Mostrou a ele as páginas que abrangia entre os dedos polegares e indicador. - E muito pouco tempo até a recepção seremínia.

Se não gosta de falar dos temas relacionados com a vida na cidade, possivelmente poderíamos falar tudo relacionado com a caça e os cavalos. Suponho que será mais de seu agrado.

Ignorou o que Charlotte dizia com a régia atitude de um dos sheiks das Noites árabes.

—Você já ouviu as fofocas relativas a minha fuga para Bahar?

—Entendi que se foi depois da morte de seu pai.

—Não sente um pouco de curiosidade por minha história? - Por seu tom de voz, parecia lhe agradar a conversação. - Não tem por que se sentir envergonhada, lady senhorita Charlotte. Eu também sinto curiosidade por você.

Semelhante grau de familiaridade se converteria em um obstáculo quando tivesse que lhe dar aula. Inclinou a cabeça e leu a primeira frase:

—"Um cavalheiro em uma caçada".

—Não quer falar de você. De acordo. Quando meu pai morreu, eu estava com quinze anos, e sua morte me doeu muito.

Charlotte seguiu com a sua:

—"Um cavalheiro tem que escolher cavalos resistente e rápidos, e treiná-lo para que salte com ele como se de um só ser se tratasse".

—Meu pai sempre foi mais velho que os pais de outros, mas jamais ficava doente. Eu acreditava que era indestrutível.

Charlotte perdeu o ponto pelo que ia lendo. Ou mais certo, as palavras que apareciam ante seus olhos deixaram de ter sentido.

—É o que está acostumado a se pensar em relação aos próprios pais.

—Então seu pai também está cantando com os anjinhos? - Ela negou com a cabeça, e ele realizou a seguinte pergunta lógica: - E sua mãe?

—A caça - disse a instrutora com desespero.

—Entendo. Ambos estão já sentados à direita do Senhor.

Wynter falou com grande amabilidade, por isso quase sem se dar conta admitiu:

—Ambos faleceram.

—Mas não de tudo. - A benzeu com um beatífico sorriso.

Charlotte não confiava nele quando punha aquela expressão de ingênuo, e esperou tensa para voltar a lhe dizer que não contaria sua história a ele.

—Já se disse em uma ocasião, lady senhorita Charlotte, você teria que se desprender do espartilho.

A pegara de surpresa, o que a obrigou a baixar a vista. As barbatanas estavam cravando nas costelas, mas não deixou entrever o menor sinal de dor.

—Me fez caso para tirar os sapatos. Mas se olhe agora - a admoestou. - Toda rígida em cima dessas confortáveis almofadas. Se tirasse o espartilho, talvez poderia sorrir e não dar a impressão que tem o estomago revolto...

A instrutora fechou os olhos com desagrado.

—Lamento que meu semblante o desagrade, senhor, mas como sua instrutora, tenho que lhe dizer que evite utilizar a palavra "espartilho".

—Sim, sim. Já me disse isso.

—Nem tampouco "estômago revolto".

Ele assentiu.

—Tampouco posso falar de meus gases.

—Isso.

—E seu semblante me parece muito agradável.

Ela não deixou escapar a ocasião.

—E por favor, não fale de um modo tão distendido com sua instrutora sobre seu aspecto. - Golpeou sua caderneta com as pontas dos dedos e acrescentou com sobriedade. - Ou sobre qualquer parte do corpo que possa lhe chamar a atenção.

De fato, embora pareça adequado realizar um elogio dedicado a uma dama, só se deve fazer de um modo geral. Jamais terá que mencionar detalhes específicos.

—Em público. Sei. Na privacidade de meu lar posso fazer o que desejar.

—Acreditava que nos encontrávamos aqui pelo caráter neutro da estadia - replicou Charlotte.

—"Neutro" - murmurou Wynter. - É uma estranha palavra para definir nossa relação.

Essa frase a deteve. Não queria discutir com ele, nem tampouco desejava desentranhar os significados ocultos que escondiam seu estranho comportamento.

—Temos um mesmo propósito, assim não acredito que sejamos inimigos.

—Não sei o que somos, lady senhorita Charlotte. Suspeito que não demoraremos para descobrir.

 

—Entretanto, você sente curiosidade por meu passado - disse Wynter.

Ela não sentia curiosidade alguma, e que demônios desejara dizer com "Não sei o que somos... Suspeito que não demoraremos para descobrir"?

Wynter rodeou seus joelhos com os braços e olhou para a escura janela para rememorar seu passado.

—Depois do funeral de meu pai, fui a Londres em um carro correio. No Támesis estava amarrado um cargueiro procedente de Marsella, e eu me acreditei Jasão em busca do velocino de ouro. - Apoiou a cabeça entre suas mãos e se pôs a rir.

—Me arrolei como grumete. Passei a primeira semana jogando o estômago pela amurada, primeiro no Atlântico e depois no Mediterrâneo. Esfreguei os chãos de coberta até que me cortaram as palmas das mãos.

E sabe uma coisa, jamais até então comera pão com carunchos.

O som que se formou na garganta de Charlotte se devia, a partes iguais, à compaixão e a náusea.

—Sim, asqueroso! E o fato que o resto dos marinheiros fossem franceses, incultos e rudes, fazia que tudo fosse pior. Me chamavam maricas e me faziam sentir horrível. Quando iniciei minha aventura não imaginei que sofreria semelhantes humilhações.

Naqueles dias, eu tinha o miolo embebido de grandes histórias, embora dizia a mim mesmo que não era tolo. Não demorei para me dar conta que levara uma vida de privilégios.

—Wynter deixou a um lado a ilusão com que descrevera seus primeiros anos de juventude. Recuperou a sobriedade para dizer: - Pior ainda, falhara em meu primeiro exame como cavalheiro.

Charlotte, sem ser sequer de tudo consciente, não pôde evitar perguntar:

—A que se refere?

—Me limitei a pensar em mim mesmo justo no momento em que minha mãe mais me necessitava.

Charlotte sentiu o impulso de cobrir as orelhas com as mãos. Se continuasse nessa linha amarga e crítica para consigo mesmo, inclusive ela poderia chegar a gostar dele!

—Apesar de ser um menino sabia à perfeição que fugir não devolveria meu pai. E mais, o que estava fazendo era decepcionar ao homem que admirara. Me servi de sua morte para fazer o que eu queria. Desejava ir em busca de aventuras.

"Volta a se converter em um bárbaro", quis exigir Charlotte. "Volta a se mostrar rude e descortês. Deixa de se mostrar atrativamente cândido para que possa retomar o papel de instrutora sem interesse algum por seu senhor."

E menos ainda o tipo de interesse que estava experimentando.

—Imaginei que viveria uma odisseia, mas o que experimentei foi uma catástrofe. Decidi que ia voltar para a Inglaterra assim que o navio atracasse no porto. - Fez uma careta. - E o teria feito, mas...

Wynter ficou em silêncio e ela teve que o repreender.

—Mas o que?

—Apareceram os piratas. - Seus escuros olhos adotaram um toque dramático. - Apareceram na metade da noite e abordaram o navio. Me obrigaram a lhes ajudar a roubar o que havia no cargueiro e depois me levaram com eles. Era um moço bastante bonito.

—Sim, recordo - murmurou a instrutora. Aquelas palavras entre dentes chamaram a atenção de Wynter.

—Chegamos a nos conhecer?

Charlotte esteve a ponto de trair esse passado que não desejava compartilhar com ninguém.

—Vi seu retrato na galeria.

—Ah..., claro.

Não deu a impressão de acreditar nela, então ela acrescentou:

—Por favor, senhor, prossiga. O que ocorreu com os piratas?

—Os piratas. Pensaram me vender no mercado da Alexandria. Atrapalhei o plano quando peguei uma faca e me cortei a face.

Charlotte observou fascinada como mostrava as marcas da cicatriz na face.

—Eu não teria a coragem para fazê-lo.

—Você? Sim, lady senhorita Charlotte. Você teria demonstrado toda sua coragem. - Ficou de joelhos e se inclinou para ela a olhando com intensidade. - Você teria feito o que considerasse necessário para salvar sua honra, sei.

Ela não estava tão segura.

—Estamos falando de você, senhor. O que lhe ocorreu?

—Os piratas se vingaram de mim. - Ficou em pé e elevou um punho. - Evitara que eles conseguisse uma boa quantidade de dinheiro, então me venderam a um beduíno como... cuidador de camelos.

Baixou o punho e falou com tanta graça que ela não teve mais remédio que sorrir.

—Meu trabalho consistia em cuidar de cinco cheirosos e desagradáveis camelos. Grande decepção para um rico rapazote inglês em busca de aventuras. O velho Barakah e eu, junto com os camelos, começamos a atravessar o deserto. No segundo dia, escapei.

Ela se inclinou para Wynter para não perder nenhuma palavra.

—Senhor, tenho lido que o deserto é um lugar inóspito.

Negou com a cabeça para se livrar da insensatez juvenil e disse:

—E tem lido bem, lady senhorita Charlotte. O calor durante o dia... é inimaginável.

O sol golpeia com força, o suor seca em suas sobrancelhas antes que chegue a se formar, o vento arrasta a areia sem descanso, cada duna é idêntica a seguinte e a que acaba de deixar atrás.

—Colocou a mão a modo de viseira e fingiu olhar a seu redor. - Pensei que saberia como retornar ao porto, mas me perdi, me perdi sem esperança alguma, e então... - Parecia ter ficado sem fôlego e se deitou de barriga para baixo sobre o tapete.

—Mas Charlotte, levo muito tempo falando de mim, e você mesma me ensinou que isso não forma parte de um comportamento cavalheiresco.

—Não seja tolo. Não pode parar agora!

Assim que aquelas palavras saíram de sua boca soube que ele estava zombando dela. Também soube que não se importava. Precisava conhecer o final da história.

Wynter apoiou o queixo sobre seus punhos fechados e olhou a instrutora.

—Charlotte, tem algum parente que pudesse cuidar de você?

Charlotte. A estava chamando Charlotte. A estava chamando por seu nome, sem atender a fórmula alguma que indicasse respeito. Algo assim podia se entender como um sinal de intimidade ou de insolência. Nenhuma das duas coisas resultava aceitável.

Apertou com força o caderno com a mão e observou os nódulos pálidos por causa do esforço. Suas reservas desapareceram.

—A quem importa se tiver família. Por favor, senhor, o que lhe ocorreu no deserto?

—Não tem família em nenhuma parte?

—Amigos. Bons amigos.

—Nada de amantes?

OH, seu tom de voz proclamava inocência, mas ela conhecia suas verdadeiras intenções. Wynter era tão inocente como a serpente do Jardim do Éden. Inclusive reptava pelo chão como uma serpente. Agarrou o livro e os sapatos e ficou em pé.

Caminhou de onde esteve sentada até a porta. Se afastou assim do calor do fogo, do aroma a cera de abelhas e engano, dos pensamentos retorcidos e da indolência que representava Wynter, lorde Ruskin.

Quando alcançou a soleira da porta, Wynter disse:

—Quase estava morto quando os beduínos me encontraram.

Charlotte deslizou seus pés cobertos com as meias sobre o chão de madeira.

—De fato, o muito venerado Barakah nunca me abandonou - disse Wynter. - Se limitou a me seguir em minha fuga pelo deserto até que cheguei a compreender que não poderia escapar por minha conta. Depois veio me buscar.

Charlotte não podia voltar atrás. Comprovara que todas as suspeitas que abrigara sobre lorde Ruskin eram certas.

—Essa noite me atou à cela do camelo e me disse que fizera um favor a mim, pois o deserto não deixava escapar ileso a ninguém.

Não se fazia ilusões com respeito a Wynter. Se não o escutasse agora, nunca mais voltaria a lhe contar aquela história. Não tinha nenhum reparo em fazer as coisas a seu modo.

Ela não era assim. Repensou durante uns segundos e a curiosidade pôde de novo com ela.

—O que aconteceu depois, senhor?

—Comecei a fazer parte do acampamento beduíno. Sabe algo sobre os beduínos, lady senhorita Charlotte?

A mutreta de Wynter para tentar ganhar a confiança de Charlotte não dera resultado, assim voltou para o trato formal utilizando o título.

Ele também parecia sentir uma ligeira curiosidade, como se fosse algo normal manter uma conversação com uma mulher que estava de pé sob o marco de uma porta lhe dando as costas.

—Os meninos me contaram algumas coisas sobre sua vida ali - respondeu.

—Então saberá que os beduínos são viajantes orgulhosos e valorosos guerreiros. Viajam de caravana percorrendo rotas que atravessam o deserto do Saara, levando bens de um porto a outro; assim é como conseguem o dinheiro.

—Não dava a impressão que o incomodasse a atitude da instrutora. - Um bom dinheiro, para falar a verdade, o que faz que outras pessoas cobicem suas rotas e sua riqueza.

Barakah era o chefe da tribo, um velho de ar principesco dotado de um instinto especial para encontrar o caminho depois de tormentas de areia que apagavam qualquer tipo de marca.

Também possuía instinto para aplacar aos escravos rebeldes e convertê-los em homens de proveito.

Charlotte apoiou o ombro no marco da porta e pouco a pouco se voltou para olhar de frente a Wynter. Acreditou que se apoiar na parede seria o melhor, pois obviamente carecia nesse momento de toda força moral.

Ele nem sequer a olhou. Havia amontoado todas as almofadas - à exceção das que ela utilizara, que seguiam esperando se por acaso decidia voltar a se sentar - e se ajeitou em cima delas.

Se colocou olhando para o fogo, e a única coisa que ela podia ver dele era o alto de sua cabeça.

Resultava divertido, mas ela ainda tinha presente que estava se rendendo. Centímetro a centímetro, a contra gosto, estava cedendo terreno. Deslizou para frente e deixou a caderneta e os sapatos na beira do tapete.

—Quando atravessamos a rota por completo com a caravana, eu já tinha um bom punhado de marcas de chicotadas nas costas, sabia como selar um camelo lento e me convertera no maior dos devotos filhos do velho.

—Filho? - exclamou a instrutora.

—Salvei a vida dele. Me recorde, Charlotte, que mostre a você o sinal que me deixou a navalhada que ia destinada a ele.

Charlotte se rendeu de forma incondicional. Rodeou a pilha de almofadas e se ajoelhou em frente a Wynter como uma concubina que desejasse receber algum favor de seu senhor.

—O feriram?

—Quase acabaram comigo. Mas quando me recuperei... já me convertera em um homem. - A luz do fogo brincava com seu rosto, destacando o matiz dourado e sedoso de seu cabelo, suavizando o moreno de sua pele.

Com movimentos fluídos e harmoniosos, se sentou e tirou a camisa por cima da cabeça.

Charlotte viu assim o tom escuro de sua pele e o pelo loiro que se estendia por todo seu torso até a cintura de suas calças. Cobria tudo à exceção de uma zona justo em cima do coração. Ali estava a pálida cicatriz.

Wynter não exagerara um ápice para fazer que sua história resultasse mais dramática ou para parecer mais valente.

A faca realizara um corte profundo e longo, e ela não pôde evitar cobrir a cicatriz com a mão, atraída pela prova de sua dor como se não importasse absolutamente a arrogância que antes apreciara nele.

A prudência que conservara ao longo de toda sua vida se desvaneceu. Charlotte quis retirar a mão, mas ele a agarrou pelo pulso e a aproximou de seu peito. Sentiu a pele cálida sob seus dedos. A cicatriz era suave embora também rígida.

Depois disso... lhe soltou o pulso.

Se inclinou para ele, o estava tocando, porque precisava fazê-lo. O pelo de seu peito era igualmente brilhante e suave que o cabelo de sua cabeça. Era extremamente encaracolado e convidava a enredar os dedos nele.

Sob o pelo, seus marcados músculos evidenciavam toda sua força.

Seu peito se elevava e descia brandamente ao ritmo da respiração enquanto a mão de Charlotte subia para sua clavícula, depois rodeou sua garganta tudo o que suas pequenas mãos puderam dar de si.

Entre o pescoço e seu rosto a pele se fazia mais áspera devido à incipiente barba. Fascinada pela sensação de rugosidade, passou a ponta dos dedos sobre seu queixo e, com muito cuidado, roçou seus lábios de um extremo a outro.

No interior de Charlotte começou a crescer um torvelinho.

Consciente durante uns segundos de seu arroubo, tentou afastar a mão, mas ele a agarrou de novo e a apertou contra seu peito. Charlotte nem sequer se deu conta que Wynter a rodeara com seu outro braço - o tinha ali há muitos momentos?.

—A única coisa que soube foi que a agarrara pela cintura e que a atraiu para ele até as almofadas.

Notou seu corpo forte, muito nu para se sentir cômoda, um corpo estranho que ela jamais vira ou tocara com antecedência. Jamais até então fora tão consciente de seu baixo status social. Estavam apertados peito contra peito.

Estava com o rosto de Wynter justo frente ao seu, mas não se atrevia a elevar o olhar. Não possuía coragem suficiente.

Tentou desesperadamente encontrar uma solução, decifrar o que era que precisava fazer. Como se liberar do abraço. Mas, sobre tudo, onde encontrar as forças necessárias para querer se liberar do abraço.

—Charlotte. - O fôlego de sua voz acariciou seu rosto, e lhe roçou o queixo com os dedos. - Me olhe.

A covardia não era precisamente um de seus defeitos. Elevou o olhar.

Em seus olhos castanhos encontrou um brilho de admiração e algo... mais. Algo perigoso. Algo que nunca antes vira, mas que reconheceu imediatamente.

Medo... Devia se tratar de medo... Um medo que ela sentiu crescer no mais profundo de seu ser. Pensou em o empurrar, mas antes que pudesse levar a cabo sua ideia, notou como os lábios de Wynter posavam sobre os seus.

Em um momento de loucura, roçou-lhe os lábios com os dedos. Sentiu o mesmo formigamento nos dedos que havia sentido antes, embora não era nada comparado com a sedosa sensação que lhe provocava o beijo.

Seco, quente, amável, firme, um encontro e uma declaração.

Wynter estava com os olhos fechados, então ela também os fechou. Se concentrou no modo em que ele inclinava a cabeça. A tensão dos músculos de seu corpo. O poder de seus ombros vibrando sob suas mãos.

Justo no instante em que começava a se familiarizar com essas sensações, algo mudou. Wynter deslizou a mão por suas costas e a apertou contra si. Levou a mão para seu cabelo e, aos poucos, começou a ouvir o ligeiro tinido de algo que caía no chão.

Se tratava das forquilhas para o cabelo, conforme pôde supor. Deu um puxão enquanto tentava lhe tirar uma delas, não muito forte mas sim o bastante para a afastar das tumultuosas sensações que invadiam todo seu corpo.

Abriu os olhos e agarrou a mão dele.

—Au!

—Sinto muito - ele respondeu antes inclusive de escutar sua exclamação. Esfregou brandamente o lugar onde produzira o dano desenhando lentos círculos. - Sinto. Sou muito torpe. Charlotte... - se inclinou em busca de outro beijo.

Mas ela cobriu a boca com a mão.

Ele se apertou com força contra ela. E depois, por alguma estranha razão... começou a lamber a palma de sua mão.

Ela afastou a mão de repente e a esfregou contra uma das almofadas; embora a sensação de sua língua, suave e úmida, seguisse ali.

Jamais esteve tão perto de um homem. Jamais vira um homem desde essa posição. Fazia tão só umas poucas semanas, ela considerava Wynter um selvagem. Inclusive essa mesma noite, se mostrou dominante e dogmático.

Mas não beijava como um homem dominante. Não havia tentado forçá-la ou arrastá-la. Tinha-a beijado como se o encontro de seus lábios fosse a um só tempo a viagem e o destino final.

—Charlotte. Outra vez. - Inclinou seu rosto para o dela.

Incapaz de controlar sua vontade, respondeu a sua petição. Os lábios de Wynter posaram sobre os seus com facilidade, a fazendo sentir como se estivesse em casa graças a sua calidez, a textura de sua pele... e seu sabor.

Sabor. Wynter havia entreaberto os lábios, só um pouco, o bastante para que... Bom, ela também entreabriu os seus. Sem saber por que.

Não sabia que arranque de loucura a levara a sair ao encontro dele, que tipo de curiosidade a levara a empreender o caminho da dissipação.

Talvez fosse a atração que sentia pelo exótico, uma atração que sempre temera, o que a levara a provar o sabor de Wynter como se se tratasse de um prato de comida, preparado para que ela desfrutasse dele.

Um prato delicioso. Suave, quente, sensual, vivo, com sabor a café e de uvas... e de Wynter. Voltou a fechar os olhos e notou seu fôlego na boca. Desejava gemer de prazer. Depois quis gemer porque ele roçou seus dentes com a língua.

Foi estranho. Realmente estranho.

—Charlotte. - Falou sem se afastar dela, como se não pudesse resistir sequer a ideia de fazê-lo, roçando os lábios. - Me beije.

—Já o faço. - Talvez se não inclinasse a cabeça, impedindo a possibilidade de um momento de prudência, poderia se manter por cima dele, apoiando as mãos na musculatura de seus ombros nus.

—Mais. - Sua voz soou gutural, exigente, mas ao mesmo tempo seguiu lhe acariciando o cabelo e as costas com doçura e carinho.

Mais? Pelo que ela sabia, ou melhor, pelo que podia supor, estava convencida de saber o que ele desejava. Ignorou por completo o instante de lucidez e sentido comum e, guiada por sua enfebrecida mente, se inclinou para ele.

Muito devagar, deslizou sua língua dentro da boca de Wynter.

Ele grunhiu como se lhe estivesse cravando um alfinete no coração. A abraçou com mais força, e o prazer que sentiu entre seus braços a levou a se abrir como uma rosa sob a carícia do sol da primavera.

Passou os braços atrás do pescoço dele e enredou os dedos em seu cabelo... ao mesmo tempo que abria as pernas ao contato com suas poderosas coxas.

Horas depois ficaria vermelha como um tomate ao pensar nesse impulso aventureiro, mas nesse momento lhe pareceu a única coisa que poderia fazer.

Seu coração pulsava com um ritmo compassado e forte, seu sangue fluía empurrado pelo sentido do desfrute e sua língua se enroscava na de Wynter como se não fizessem outra coisa que dançar uma valsa.

Se nisso consistia a tentação, então não havia dúvida de por que tantas mulheres caíam submetidas sob seu influxo. Gostava de beijar. Adorava ter a um homem tão perto, se deixar seduzir.

Adorava o tato de suas mãos, uma acariciando seu rosto, outra apertada com força contra suas costas.

Wynter elevou um pouco o joelho e pressionou entre as pernas de Charlotte. O tecido de sua saia rangeu e a instrutora ficou sem fôlego. Sentiu uma leve vertigem, se colocou em cima dele e inclinou o rosto para baixo...

Compreendeu então que ele a enganara. Cada roce, cada carícia mostrava força sob controle, mas seus olhos castanhos ardiam de desejo e as faces tinham adquirido um tom vermelho. Ele a desejava. A desejava com todas suas forças.

Pôde senti-lo à perfeição. Um homem que a desejava tanto como para se deitar com ela pelo chão.

Retomou a prudência durante uns segundos. Não se tratava de nada especial. Não se tratava de um momento mágico. Os homens tentaram seduzir sempre às instrutoras. Se liberou de seu abraço e rodou se afastando das almofadas.

—Charlotte. - A agarrou pelo braço. Ela ficou em pé e se afastou.

—Não! Não, senhor. - O coque que segurava seu cabelo se desfizera. - Isto era o que temia. E vejo que estava certa.

—Estava certa? - Engatinhou por cima das almofadas e a olhou com os olhos entrecerrados. - O que era que temia?

—Não devíamos ter começado a nos tratar com tanta familiaridade. Você insistiu em me contar sua vida, e insistiu em que lhe falasse da minha.

Ele se levantou pela metade.

—Acreditei que em sua vida havia muito mais do pouco que me mostrava, lady senhorita Charlotte.

—Não! - Deu um passo atrás esfregando a testa com a palma da mão. - Não há nada mais que você tenha que saber, e não deveríamos nos ter permitido estar sozinhos precisamente para não nos deixar levar.

—Quase posso prometer que voltarei a me deixar levar, como você diz.

—Jamais. Direi a lady Ruskin - disse Charlotte com voz tremula - que já não posso seguir sendo sua instrutora.

Ele não disse nada durante um bom momento. Nesse tempo, ela se obrigou a não levar a mão aos olhos nem a olhar para Wynter.

Ele tampouco a estava olhando. Voltou a se recostar nas almofadas e observava o fogo da lareira como se as chamas pudessem lhe dar uma resposta.

—Não tem por que incomodar a minha mãe com isso. Estou de acordo com você. Talvez o melhor seria que deixássemos de interpretar os papéis de instrutora e aluno.

O que ele queria dizer? OH, céus. Acaso sugeria que a estava despedindo? O olhou diretamente e tentou transformar suas dúvidas em uma pergunta, mas a coragem a abandonara. Se estava despedida, já se inteiraria amanhã.

Depois de um último e sério olhar, saiu do quarto.

Wynter finalmente ficou em pé, se desentorpeceu e disse a si mesmo que o sentido moral dos beduínos não era tão estrito. Cinco anos sem provar uma mulher era muito tempo, e semelhante abstinência estava começando a afetar a sua natureza...

Em especial agora que decidira quem seria sua próxima esposa.

Charlotte. Lady senhorita Charlotte. Uma virgem de educação excelente com uma impecável reputação. Uma mulher sem família que a separasse de seu seio devido a conflitivas lealdades.

Seria sua esposa e a mãe de seus filhos, e poderia se dedicar por completo a sua própria felicidade. Tal como precisavam ser as coisas.

Sorriu enquanto recolhia os pertences de Charlotte: o caderno e os sapatos que com tanto cuidado tirava cada noite. Os devolveria quando ela estivesse disposta a seguir lhe ensinando.

Por desgraça, na Inglaterra uma mulher podia rechaçar a um homem. Um desagradável direito, segundo sua opinião, especialmente agora que seu instinto matrimonial se impôs sobre seu instinto caçador.

Com a intenção de se dirigir a seu dormitório, calçou de novo as botas de montar e baixou as escadas.

Para conseguir sua primeira esposa não teve que cortejá-la do modo que requeriam as mulheres inglesas; de fato, sua primeira esposa deixara tudo bem claro quando entrou em sua tenda e ficou a dormir a seus pés.

Foi um ato muito valente, pois ele poderia tê-la rechaçado. Se fosse assim, a teriam considerado uma puta e a teriam expulso da tribo. Mas Dara sabia perfeitamente o que estava fazendo. Se casou com ela. Teve filhos com ela.

E também se encarregou de sua moribunda mãe. Enquanto Wynter descia as escadas, um dos criados o adiantou e correu para a porta traseira para abri-la.

Uma vez no terraço, Wynter encheu os pulmões com o ar fresco e escuro da noite. Barakah sempre dizia dele que possuía olhos de falcão, e era certo.

Quando entrou nos estábulos, pôde sentir e ver tudo o que havia a seu redor, sem deixar de sentir a firmeza de seus passos ao caminhar. Era uma boa noite para montar a cavalo... e se deixar apanhar pelas lembranças.

Nunca esteve apaixonado por sua esposa. Além disso Barakah lhe havia dito que o amor era uma ilusão ocidental. Um homem de verdade não precisava amar a uma mulher.

Um homem vivia com sua mulher, permitia que ela desse prazer a ele e, em troca, dava prazer a ela, comia o que sua mulher lhe preparava e a escutava quando o admoestava.

Mas um homem de verdade encontrava o companheirismo entre seus cães, seus cavalos e os outros homens.

Wynter tinha acabado compreendendo a verdade dessa afirmação, mas quando Dara morreu sentiu falta de coração. Perdeu não só a uma esposa e a uma boa cozinheira, também a uma esforçada companheira e a uma boa mãe.

E mais, perdeu aquilo que o ancorava à tribo.

A noite estava estrelada. Os estábulos estavam iluminados por um único abajur, e quando Wynter entrou saudou o moço do estábulo.

—Outra vez aqui, senhor? - perguntou Fletcher.

—Sim. - Wynter se aproximou de seu cavalo e permitiu que o cheirasse, depois entrou em sua cocheira e acariciou a aquele poderoso animal.

Teve que deixar seu cavalo favorito em Bahar, e embora o cavalo junto ao qual estava agora era, de certo modo, tão forte e nobre como aquele, Wynter seguia tendo saudades de Jabir; como sentia falta de seus amigos, assim como o modo de vida livre e vigoroso que fizera dele um homem.

No leito de morte, sua esposa lhe disse que quando Barakah morresse teria que partir. E estava certa. Nos seguintes quatro anos, Barakah foi se debilitando, e uma noite entrou no deserto e aceitou nobremente a chegada da morte.

O novo líder, jovem, intolerante e nativo da tribo, considerava Wynter como uma ameaça. Entretanto, conhecendo as provas às que teriam que enfrentar seus filhos em caso de retornar a Inglaterra, preferiu ficar.

Tirou Mead de sua cocheira, recolheu as bridas que Fletcher lhe entregou e as colocou na boca. Agarrando as rédeas com uma mão, subiu ao lombo do animal.

—Você tem muito boa mão com as bestas, senhor. - Como sempre, Fletcher mantinha o cigarro sem acender entre os dentes. - Nunca vi nada parecido.

Wynter não era tão tolo para interpretar mal a adulação de Fletcher. Aquele bom homem esteve a cargo dos estábulos desde antes que Wynter pudesse recordar e valorizava muito sua opinião.

E mais, Wynter sabia que tinha razão. Possuía muito boa mão com os cavalos - e com os camelos, embora duvidava poder encontrar um uso a essa habilidade na Inglaterra - e dava graças a Deus por essa afinidade que possuía para com as nobres criaturas.

—Meus filhos também a têm.

—Sim, sei. - Fletcher assentiu e depois voltou para o trabalho. - Hoje faz muito boa noite para montar, senhor.

Wynter tirou Mead fora do estábulo e percorreram o cercado, cuidando de evitar o lugar onde estavam encerradas as éguas. Mead era um semental muito luxurioso. Wynter disse a si mesmo que esse detalhe o aparentava com seu cavalo.

Stewart enviou uma carta ao Bahar explicando a Wynter os problemas financeiros de sua mãe. Wynter demorou um tempo em se recuperar de seu assombro.

Ainda hoje lhe custava entender como sua mãe, a pessoa mais ardilosa que jamais conhecera, chegara a cair em semelhante engano. Em qualquer caso, nesse mesmo momento pôs em marcha seus planos para a volta.

Embora não partisse imediatamente. O novo líder lhe exigia coisas que ele nunca podia cumprir. Quando a caravana chegou ao porto de Wajh, aquela pequena família empreendeu um novo caminho.

A volta a Inglaterra suportou muitas mais dificuldades das que Wynter pode prever. Tudo foram problemas exceto aquela mulher, Charlotte. Um homem jamais poderia ter imaginado a uma mulher como ela: virtuosa, com muito que ensinar e benta com uma covinha no queixo, um nariz arrebitado e um corpo que fazia chorar se alguém o contemplava durante muito tempo.

Wynter vira corpos melhores sob os véus das bailarinas árabes, mas o corpo de Charlotte não estava nada mal. Parecia ter sido esculpido em carne.

Uma mulher como ela não iria dormir aos pés de sua cama. A instrutora mal conhecia as habilidades das mulheres orientais criadas com leite materno.

Por isso lhe surpreendeu a paixão que brotara de seu peito, isso a assustou e não foi capaz de aceitar o fogo que surgiu entre os dois.

Wynter teria que começar breve a cortejá-la. Não é que lhe fizesse muita graça. Embora poderia fazê-lo, com certeza. Como às éguas, as mulheres davam tudo se sabia lhes oferecer o estímulo adequado.

Mas que maravilha era quando uma mulher aceitava cumprir os desejos de um homem sem ter que passar tão árduo processo!

Antes de empreender a marcha com Mead, se voltou e jogou uma olhada à casa com a intenção de comprovar se na janela de Charlotte brilhava uma vela acesa, esperando encontrar nesse gesto um sinal que lhe indicasse que Charlotte sentia o mesmo desconforto físico que ele nesses momentos.

A maioria das janelas dos pisos superiores estavam cobertas por cortinas. Não pôde ver nenhum mínimo sinal daquela difícil mulher ruiva, apesar do muito que desejava vê-la, inclusive desde essa distância.

Mas viu algumas velas no terceiro andar,a dos criados da casa, e inclusive em cima...

Abriu muito os olhos.

Uma luz se transladava lentamente de um lado a outro no desvão.

Era muito perigoso ter uma vela acesa ali acima, e não havia razão alguma para que a houvesse. Se tinham tantos criados que não podiam acomodá-los no terceiro andar, a solução era se livrar de algum deles.

Isso foi o que pensou em dizer à governanta na manhã seguinte.

Essa noite precisava se livrar do desejo que o apressava, e o que queria era cavalgar.

 

Wynter levava a sua mãe segura pelo braço quando entraram na concorrida recepção oferecida por lady Howard.

—Sendo estritos, não deveria estar aqui, posto que não o convidaram pessoalmente. - Adorna tamborilou com a ponta dos dedos em seu braço ao pensar nisso.

—Lady senhorita Charlotte não o passaria. - Depois de algo mais de uma semana de aulas noturnas, sabia muitas coisas mais dela. Muitíssimas mais. Sabia que o fôlego de Charlotte era doce, e seu corpo firme e generoso.

Sabia que sentia desejo por ele, e também que não alcançava a compreender quão perigoso esse desejo podia chegar a ser ou até onde poderia levá-la. Sabia que quando a tocava...

—Charlotte é uma boa garota, mas não deixa de ser uma instrutora. E uma instrutora sem uma boa reputação é uma instrutora sem emprego. - Adorna sorriu de modo indistinto a enorme multidão que se concentrava no salão dos Howard.

O sonoro rumor das conversações ocupava aquela longa e larga câmara, e o aroma da cera das velas se mesclava com o das diferentes colônias e perfumes. Muitos olhares de reconhecimento se dirigiram para onde se encontrava Adorna... e também Wynter.

—Para falar a verdade, não pensei apresenta-lo em sociedade de novo até depois da recepção seremínia, mas se esta aparição desmonta o que levou lady Howard a soltar todas essas intrigas sobre seu caráter selvagem, valerá a pena tê-lo feito.

Precisávamos dar a eles oportunidade de que o enfrentassem cara a cara, uma oportunidade para que comprovem com seus próprios olhos se estavam certos ou não seus fétidos mexericos.

Wynter compreendeu que apesar dos esforços de sua mãe, se comportando como uma tigresa defendendo a seu filhote, ele não insultava o que outros denominavam seu caráter selvagem.

—E se não sair bem?

—Então isso significaria que já não sou influente.

—E o é?

Ela se voltou surpreendida para seu filho.

—Não, mas considerei a ideia de chamar à tia Jane e ao tio Ransom. Por desgraça, o tio Ransom levou tia Jane a Itália para ver obras de arte.

Wynter recordou alguns comentários ouvidos no passado.

—Acreditava que da última vez que tio Ransom levou tia Jane a Itália para ver obras de arte, ela havia voltado muito impressionada.

—Isso foi há muito tempo, e tia Jane me disse que se devia principalmente ao fato de ter contemplado o David de Michelangelo. - Adorna entrecerrou ligeiramente o olhar. - Tem que ser uma estátua muito impressionante.

—Isso ouvi dizer.

Adorna encomendou aos poderes de semelhante estatua e depois deu de ombros.

—Os teria vexado ter que retornar a Inglaterra, mas por você o teriam feito.

Wynter rememorou a figura de tio Ransom, e entre as lembranças que recuperou havia momentos agradáveis e temíveis em partes iguais.

E pelo que respeitava à tia Jane, apesar de suas distraídas maneiras de amante da arte, quando se zangava conseguia convocar todas as forças do inferno.

—Eu não gostaria de estar na pele de lady Howard se tivesse que enfrentar a eles estando zangados.

—Teria estado bem que viessem embora só fosse ver sua reação - murmurou Adorna com prazer.

Wynter compreendeu nesse instante que sua mãe adorava tudo aquilo: os mesentérios sociais, os jogos, as constantes provocações que apresentavam a sua supremacia. Adorna sobrevoava qualquer tipo de escândalo com a ligeireza própria de uma fada.

Ele, entretanto, se parecia mais ao tio Ransom. Poderia ter voltado nesse mesmo instante para Austinpark Manor, já fosse para pegar a seus filhos nos braços, montar a cavalo ou receber outra lição por parte de Charlotte.

Lição que, para falar a verdade, pouco teria a ver com suas queridas questões de etiqueta.

Dia após dia, ia a Londres, visitava os diferentes clubes, os salões onde se discutiam os preços, os teatros.

Fosse onde fosse se encontrava com algum dos diretores da empresa, e fosse onde fosse Wynter precisava interpretar seu papel se deixando levar por uma indolência e uma estupidez à altura das melhores interpretações teatrais.

Sorria bobamente a Shilbottie, aplaudia o ombro de Hodges, saudava com um gesto a sir Drakely ou tomava uma taça com Read.

E quando já fizera suficientes perguntas absurdas para os convencer de sua idiotice, ia a escrivaninha e examinava o trabalho de todos esses homens.

Ainda não descobrira ao bastardo que, em sua ausência, esteve roubando dinheiro da empresa.

Mas agora era ainda pior que antes. Agora os livros de contas mostravam um ocasional e inexplicável aumento dos ganhos. Entendia que alguém queria levar dinheiro impunemente, mas por que alguém quereria se dedicar a dar dinheiro à empresa?

Se tratava acaso de uma manobra para confundir a qualquer possível auditor? Ou evidenciava o temor que provocara sua volta?

Sua mãe insistira que ele confiasse em seu primo Stewart. Stewart era a pessoa que mais estava mais a par dos negócios da família; depois de tudo, fora ele o que lhe enviara a carta que forçou sua volta a Inglaterra.

Era ele o que relatara a confusão que reinava nas contas e o que suplicara que voltasse para casa.

Mas, segundo o ponto de vista de Wynter, o primo Stewart era de todos o que mais motivos tinha para se sentir receoso com sua intrusão. Wynter não confiava em ninguém.

Abandonara Adorna depois da morte de seu pai e a deixara a cargo dos negócios da família, assim agora era ele o que precisava resolver o problema; por isso urdira uma armadilha e esperava que o culpado caísse nela.

Também preparara uma armadilha para apanhar Charlotte. Passou muitas horas a aperfeiçoando, mas a única coisa que conseguiu foi um simples beijo.

Sim, mas havia valido a pena o esforço, porque naquele beijo saboreou o desejo, as dúvidas e os sonhos daquela imaculada donzela. Duvidava que lady senhorita Charlotte entendesse de todo o muito que sua vida ia mudar... para o bem.

—Wynter, quero que conheça lady Smithwick - disse Adorna. - Recorda como jogava com seus filhos em Fairchild Manor?

Recordava como a turma mais estridente e ruidosa que jamais conheceu.

—Lady Smithwick. - Wynter tomou a mão, se inclinou compondo uma reverência, e roçou os dedos com os lábios, sem se esquecer de lhe oferecer o melhor de seus sorrisos.

Lady Smithwick estava com mais ou menos a idade de sua mãe, mas o tempo não a tratou tão bem.

O creme suavizara as linhas de seu rosto, e não deixava de rir bobamente. Era o que estava fazendo nesse mesmo instante, e estava vermelha como um tomate, como uma mocinha.

—Adorna, não me disse que o pequeno Wynter crescera tanto para se converter neste formoso fantasia de diabo.

Adorna deu um toque no braço de lady Smithwick com o leque.

—Mas é certo que ouviu os rumores.

Lady Smithwick abriu muito seus grandes olhos azuis.

—Bom... sim. Mas acaso sugere que são certos?

—Que meu filho se converteu em um bárbaro? - Adorna riu ligeiramente. - O tipo de bárbaro capaz de romper o coração de uma dama sem sequer se propor a isso.

Wynter sabia, sem que ninguém tivesse necessidade de lhe dizer que precisava jogar segundo as regras que ia marcando sua mãe. Assim, inclinou a cabeça com fingido ar juvenil e dedicou a lady Smithwick um sedutor olhar.

Lady Smithwick levou uma mão ao peito e a colocou sobre o coração.

—Sim. Já vejo. Podem esperar um segundo? - disse sem afastar o olhar dos olhos de Wynter. - Minha filha é adorável. E jovem. Toda uma donzela. Vou trazê-la para que os conheça. - Apontou para seus pés e acrescentou: - Fiquem aqui. Não vão.

Adorna a observou escapulir entre a multidão e, ignorando suas instruções, levou a seu filho ao outro extremo da câmara.

—Martha, como me alegro de te ver. Leva um chapéu divino. Lady Declan, me permita dizer que por esse ar de savoir fair[7] que desprende estou segura que acaba de retornar do continente. OH, lorde Andrew, desde que se foi você cresceu muito!

—Piscou com paquera para aquele jovem. - Que bonito está você. Venham um segundo, vou lhes apresentar meu filho. É tão estupendo voltar a tê-lo em casa. Deu-lhe de ver o mundo, já sabem a que me refiro. Ele...

—Sua voz tremeu, mas não demorou para voltar . - Agora tem centenas de histórias a contar. Wynter, por que não nos contas alguma delas?

Wynter descobriu a causa do desassossego de sua mãe: Bucknell apareceu entre a multidão, olhou para Adorna e franziu o cenho.

O que acontecia com esse homem? Se estava apaixonado por Adorna, por que não se lançava? Sua mãe deixara bem clara suas intenções.

—Nos conte uma de suas histórias... - Adorna o puxou levemente para que se colocasse a sua altura e então lhe disse ao ouvido: - os mantenha entretidos até que lady Howard chegue.

Necessitamos que estanque as feridas que causaram em sua reputação todos seus destrutivos rumores.

Se afastou dali como se esse fosse o sinal para dar começo à história de Wynter.

Wynter, por sua parte, sorriu e assentiu. Também queria que lady Howard chegasse, embora por uma razão bem diferente.

Jogou uma olhada ao publico que o rodeava: interessadas mulheres e homens cansados. Soube imediatamente que poderia os manter entretidos durante um momento. Com toda a intenção de dar pé a uma mentira de enormes proporções, disse:

—Minhas aventuras não são nada do outro mundo, e o certo é que bem poderiam passar com paradas. Salvar um navio inglês do ataque desumano de uns piratas não me parece nada muito destacável.

—Lorde Ruskin, apresento minha filha, a senhorita Fairchild.

Lady Smithwick retornou de braço dados com a moça loira mais formosa que Wynter jamais vira. Era deliciosa, e estava lhe dedicando um amplo sorriso... que o deixou gelado.

Só o interessava realmente uma mulher, e estava em sua casa cuidando de seus filhos.

—Vai nos contar então sua história? - perguntou a senhorita Fairchild.

—Só porque você me pede isso. - Wynter a olhou com intensidade, e quando ela baixou as pálpebras se perguntou se todas as mulheres inglesas possuíam a mesma capacidade para se sentir dignas de adoração.

—Os piratas da costa Bárbara são fortes e não têm nenhum tipo de escrúpulos, especialmente Abdul Andre Kateb. Ninguém diz seu nome sem mostrar o devido respeito a menos que não se importe ver sua própria cabeça separada do corpo.

—Lady Declan ficou com a boca aberta, e Wynter se inclinou para ela.

—Ah, temia isso. Esta história não é a mais adequada para um salão como este.

—Não, não - protestou lady Declan, consciente de ser o centro de mais de um olhar. - Só me senti momentaneamente afligida. Por favor, prossiga.

—Como você queira, senhora. - Estendeu a mão a ela. - Mas só se tomar a precaução de se sentar primeiro. Um ânimo tão delicado poderia sofrer um desmaio.

Todas as mulheres presentes descobriram de repente que também possuíam um ânimo delicado e decidiram se sentar antes que Wynter retomasse a história.

—A primeira coisa que vi dos piratas foi sua bandeira negra com as bordas vermelhas: os símbolos da morte e do sangue. Vieram para nós como um martelo, investiram em nós e nos abordaram antes que pudéssemos nos dar conta.

O capitão, o mais corpulento cavalheiro inglês que jamais tenha sulcado os oceanos, nos animou a lutar por nossa honra e a honra de nosso país, e todos os moços que ali estávamos confrontamos nosso dever com coragem.

Vocês teriam se sentido orgulhosos dos jovens britânicos se tivessem podido nos ver, senhoras - exclamou Wynter para as mulheres presentes.

Encantadas, as mulheres sorriram com deleite. Lady Smithwick perguntou:

—Você também lutou?

—Eu era muito jovem e não tinha experiência alguma, assim, apesar de meu desejo de combater, o capitão me ordenou que permanecesse a seu lado.

—OH - disse lady Declan um pouco decepcionada.

—Mas nossos moços combateram com tal bravura que o próprio Abdul Andre Kateb teve que sair de seu camarote, onde mantinha confinada a várias escravas que o serviam...

Bucknell deu um passo adiante e se separou da multidão para dizer:

—Você tinha razão, não é uma história adequada para este salão. - O matiz sardônico de seu olhar deixou claro que ele, quando menos, não estava acreditando numa só palavra daquele conto.

Wynter colocou a palma de sua mão sobre o peito e realizou uma reverência.

—Peço-lhes desculpas, damas e cavalheiros. Às vezes me deixo levar.

—É certo que às vezes o faz. - Adorna sorriu para Bucknell com o mais inocente e ingênuo de seus sorrisos. - De vez em quando não está mal se deixar levar.

—Não estou absolutamente de acordo - inquiriu Bucknell.

Wynter desejava ser testemunha de uma briga entre sua mãe e seu possível amante, mas deixara a seu público em brasas, assim retomou o relato.

—Abdul Andre Kateb apareceu na ponte de mando, nu de cintura para acima, feio e ruim até a medula.

—E você pôde pensar algo assim só vendo-o, não é? - perguntou Bucknell.

—Sim, claro que pôde - respondeu Adorna.

Lady Smithwick se voltou para os dois opositores.

—Chist!

Se calaram, mas Wynter viu que cruzavam um par de olhares.

—O resto dos marinheiros estavam enfrascado na batalha, lutando por suas vidas, e aquele malvado pirata abriu caminho entre eles com sua cimitarra. - Wynter fez um par de gestos com o braço como demonstração. - Ia direto para nosso ferido capitão.

—Estava ferido? - perguntou lady Declan.

—Ferido, sim. O disparo de um pirata covarde muito assustado para enfrentar a ele cara a cara o feriu.

—Tenho contatos no Almirantado - indicou Bucknell. - Vou recomendar a esse capitão para que o condecorem.

—Era um navio mercante - esclareceu Adorna caminhando para ele até já se encontrar muito perto. - Você já sabia, senhor.

—O que sei, senhora, é que você... - Bucknell fechou a boca e olhou ao redor. Todos o estavam olhando. Agarrou a Adorna pelo braço e lhe disse em voz baixa. - Falemos em algum outro lugar.

Quando saíram do salão, duas mulheres cochicharam. Wynter elevou a voz para voltar a captar a atenção de seu público.

—Eu era um moço imberbe, não aprendera a lutar, mas soube o que fazer nesse preciso momento. Peguei o sabre de um marinheiro morto e avancei para Abdul Andre Kateb.

Virtualmente sem fôlego, lady Smithwick perguntou:

—Assim foi como se fez essa cicatriz?

—Esta cicatriz? - Wynter percorreu a cicatriz de seu rosto com a ponta do dedo indicador e disse com fúria: - Sim. Sim, e também a que cruza meu peito mas que entenderão que não mostre aqui e agora.

—Dado o interessado olhar da jovem senhorita Fairhild, bem poderia ter despido seu torso, ou qualquer outra parte de sua anatomia, para que ela a inspecionasse.

Mas ao olhar por cima das cabeças dos que ali se congregaram para o escutar, viu lady Howard avançando entre a multidão, assim se apressou a pôr fim a seu inquietante relato para fazê-lo coincidir justo com sua chegada.

Esperava que ao ver os rostos fascinados das damas e dos cavalheiros que o rodeavam, encantados pelo imaginativo conto que lhes contara com sua profunda voz, a alma de lady Howard lhe caísse aos pés.

Mas ela se limitou a se estabelecer frente a ele sem preâmbulo algum.

Não era uma mulher estúpida, Wynter tinha que admitir. Aquela mulher sabia que só dispunha de uns poucos segundos para remediar o desastre que ela mesma esboçara.

—Lorde Ruskin, você é um fantasia de diabo, não sabíamos que ia aceitar o convite de Howard. Deixe que o leve até ele.

—É obvio. Estarei encantado de voltar a saudar um velho amigo. - Para voltar a dizer a seu marido que mantivesse com rédeas curtas a sua esposa. Se inclinou ante seu público. - Se me desculparem...

As damas, tanto as jovens como as mais velhas, murmuraram para evidenciar seu desgosto, e lady Smithwick exclamou:

—Não se esqueça de que tem que voltar aqui, lorde Ruskin!

—O mesmo digo. - Pegando a mão dela voltou a beijá-la. - E isso serve também para sua adorável filha.

Lady Howard passou a mão por seu braço enquanto lady Smithwick deixava escapar um suspiro. Levava postos umas luvas de renda sem dedos.

Seu vestido tinha um generoso decote e deixava os braços descoberto, atributos que uma dama só podia mostrar à noite.

Mas aquela mulher demonstrara sobradamente que não era o que se diz uma dama, mas ao contrário, uma mulher amoral com um voraz apetite e um malvado engenho. Wynter a desprezava.

Ela sabia. Mas lhe importava bem pouco. Depois desse dia, ele já estava encaminhado a se converter no Byron de sua época, e a anfitriã da festa se deu perfeita conta disso. Enquanto o conduzia através do salão e do corredor, disse:

—Relatei a algumas pessoas decentes o acontecido durante nossa curta visita a Austinpark Manon. - Falou com certo deixe teatral, para que pudesse ouvi-la qualquer dos que passavam a seu redor. - E agora todo mundo arde em desejos de lhe conhecer.

Wynter inclinou a cabeça para aproximá-la ao ouvido daquela mulher e respondeu:

—Quis me apresentar em sociedade o antes possível, mas antes tive que receber algumas lições de cortesia.

—Lições? Sério? Lições com uma autêntica professora? - Sorriu bobamente convencida de que talvez pudesse extrair dali material para novas fofocas. - Seguro que terá ido muito bem.

—Darei seu nome a você. Você, lady Howard, sem dúvida poderia se aproveitar da experiência de minha instrutora.

Abriu muito a boca, depois a fechou ao se dar conta que estava zombando dela. Não esperava que o selvagem fosse engenhoso. Com voz grave, respondeu:

—Oh, sim, me dê seu endereço. Escreverei uma carta de queixa a ela.

Ele sorriu com escárnio.

Mas não levara em conta a fenomenal memória de lady Howard.

—Espere. Ouvi falar que lady Ruskin foi a essa vergonhosa Escola de Instrutoras e contratou a Dona Espigada para educar seus netos. Então não era para seus netos, não é? Era para você!

Lançou a cabeça para trás para que pudesse apreciar todo seu longo pescoço e se lançou a rir. Girou com rapidez para a sala de jogos de cartas, infestada de fumaça de charuto, e se encaminhou para a mesa na que lorde Howard estava jogando.

E perdendo, segundo podia apreciar devido a mísera pilha de moedas que ficavam em frente a ele.

—Howard - espetou sua esposa. Após piscar um par de vezes, Howard levantou a cabeça.

—Olha quem está aqui. Teu velho amigo Ruskin.

Howard olhou para Wynter com olhos avermelhados pela fumaça.

—Ruskin? Que demônios está fazendo aqui?

Wynter se deu conta que ela o disse quase em tom zombeteiro, mas não era dele que ela estava zombando.

Lady Howard roçou com uma unha a orelha de seu marido.

—E sabe quem é a professora deste forte, grande e bonito rapaz?

Muitos jogadores se detiveram para escutar a conversação, e muitos sorrisos maliciosos afloraram ao serem testemunhas da humilhação que Howard sofrera nas mãos de sua mulher. Então Howard resolveu interferir.

—Lady Howard, neste momento o mais adequado seria optar pela discrição.

Ela dedicou a ele um olhar carregado de veneno. Ele sustentou o olhar sem hesitar. E acabou vencendo, pela vontade.

—Sua instrutora é... - se inclinou para Howard e lhe sussurrou o nome de Charlotte ao ouvido.

Howard baixou a vista e a fixou no centro da mesa, onde repousavam as cartas. Recolheu as cartas, as embaralhou e com o exagerado cuidado de um bêbado, as repartiu.

—E o que? - perguntou. Mas suas mãos tremiam. Lady Howard compôs um sorriso brilhante, graças ao qual puderam se ver todos seus dentes. Depois revolveu o cabelo de seu marido com um falso toque de simpatia.

—Não esqueça de ir ver as meninas pela manhã. Suas férias já quase acabaram. Voltam para a escola na segunda-feira.

Howard a ignorou. Agarrou de novo Wynter pelo braço e o levou de volta ao corredor.

—Do que se trata todo o assunto? - perguntou.

Ela abriu a boca com a intenção de explicar a ele mas ao olhá-lo aos olhos mudou de opinião.

—Não tem importância. Poderia se dizer que é uma velha história. Pessoalmente tenho que lhe dizer que você me fez muito feliz hoje.

Se houver algo melhor que saber que está você sendo tutelado por lady Charlotte Dalrumple, é saber que essa altiva mocinha voltou para NorthDowns.

Atraído pela possibilidade de conhecer detalhes do passado de Charlotte, a mente de Wynter se pôs a trabalhar.

—Que voltou para o North Downs?

—As pessoas do campo tem muita memória. - Cravou-lhe as unhas e se inclinou para ele, apertando seu busto contra o braço de Wynter. - Me diga, como reagiu o conde de Porterbridge quando viu essa ingrata jovenzinha depois de todos estes anos?

Totalmente alerta agora, Wynter acompanhou lady Howard para a sala vazia mais próxima.

—Tal e como você supõe que o fez.

—Voltou as costas a ela? - Negou com a cabeça. - Não acredito, não é o que se diz um homem sutil. A esbofeteou? Ficou a gritar?

—Não acredito que o comportamento de lady Charlotte merecesse algo assim.

—Você está de brincadeira. - Jogou uma olhada à biblioteca vazia . - E bem, não acredito que tenha me trazido aqui porque você deseja ler. E não acredito que tenha intenção de me seduzir. Você é muito... nobre... para isso.

Então o que anda procurando é que lhe conte todos os suculentos detalhes relativos a sua querida lady Charlotte. - Passou uma unha pela face dele . - E o que você me dará em troca?

Wynter se dispôs a incidir no ponto fraco de sua adversária.

—Você está apostando muito forte - respondeu segurando o pulso dela.

Ela apertou os lábios e contraiu as faces.

—E bem?

—Você me proporcionará toda a informação que ando procurando, senhora, e eu, em troca, não contarei a ninguém sobre as notas promissórias que debito.

—Você? Você não tem nenhuma de minhas notas promissórias!

—Mas vou tê-las. - Entrecerrou os olhos como um guerreiro. - A comprarei por um preço justo e serei eu o que lhes ponha preço. Me conte tudo a respeito da senhorita Dalrumple, agora mesmo.

 

—Me explique outra vez por que não pode se casar com papai.

Charlotte baixou a vista, olhou o sincero rosto de Leila e conteve um suspiro. Uma suave chuva primaveril levava molhando toda a manhã os vidros da sala em que se encontravam dando aula.

A mestra e seus alunos não puderam sair para dar seu habitual passeio e Robbie e Leila pareciam duas casas de jogo clandestino encerrados.

—Os nobres não se casam com as instrutoras de seus filhos - respondeu Charlotte.

—Mas você é lady senhorita Charlotte. Você também é nobre, não?

—Sim, mas sou pobre. Os homens ricos não se casam com mulheres pobres.

—Mas para que quereria um homem rico se casar com uma mulher rica? - interveio Robbie. - Um homem rico não necessita mais dinheiro.

Os meninos não entendiam as desigualdades que entranhava a lei matrimonial inglesa, e quanto mais Charlotte se esforçava por esclarecer a eles mais ilógico parecia... inclusive para ela mesma.

—As pessoas se casam com pessoas parecidas. Igual a... os pássaros se casam com pássaros e os cavalos com cavalos.

—Os cavalos não se casam, se emparelham - disse Leila com desdém. Suas palavras entranhavam uma reflexão, e olhou para Charlotte de forma interrogativa.

OH, não. Que os meninos soubessem o que era o emparelhamento já não tinha nenhuma graça, mas ter que lutar com as retorcidas maquinações mentais de Leila era algo que estava além das forças de Charlotte.

Mal podia aguentar sequer a lembrança dela e... Wynter... duas noite atrás... sós e se beijando.

Se beijando. Grande loucura. Se beijando docemente, com carinho, roçando os lábios, seus corpos entrelaçados...

Recordá-lo deveria tê-la incomodado e inclusive humilhado, mas a noite anterior, quando estava sozinha na cama, não foi a humilhação o que a manteve acordada.

Foi o comichão que sentia na boca do estômago, a tentação de tocar partes de seu próprio corpo que ignorara durante anos. Deveria ter passado o dia angustiada, se perguntando se Wynter lhe comunicaria sua demissão assim que chegasse de Londres.

Em lugar disso, não deixou de sorrir bobamente sem motivo algum, permitindo que os meninos tomassem certas liberdades impróprias.

Colocou seus melhores sapatos, dado que os que estava acostumada a usar os deixara no velho quarto de jogos dos meninos, e não deixou de pensar no amor, o casamento e todos esses assuntos inefáveis sobre os que lady Charlotte Dalrumple acreditava não ter direito a pensar.

Disciplina. Necessitava disciplina. Os chefes não se casavam com suas instrutoras, e menos ainda homens como lorde Ruskin, que possuía um título nobiliário, era rico e muito bonito.

A lady Ruskin, precisamente, o que mais preocupava era que seu filho pudesse dar um passo em falso que destruísse sua reputação.

Charlotte também se preocupava. Mas agora Charlotte sabia que suas aventuras no estrangeiro acrescentavam um toque romântico e escandaloso a sua reputação.

Pensar nesse detalhe, combinado com o modo em que olhava às mulheres, esquentava seu sangue e disparava seu coração a fazendo imaginar longas noites infestadas de lentos e delicados beijos.

—Lady senhorita Charlotte, por que você se pôs vermelha como um tomate? - perguntou Robbie.

Disciplina. Necessitava disciplina e algo com o que distrair seus pensamentos para liberá-la da vermelhidão de suas faces.

—Estão progredindo tanto em seus estudos que pensei que merecemos uma celebração. Talvez pudéssemos ler uma das histórias de Noites Árabes. Vocês gostariam?

Robbie estava radiante.

Leila bocejou.

Surpreendida, Charlotte perguntou:

—Você não quer escutar uma história, Leila?

—Sim! - exclamou a menina.

—Uma dama sempre fala com o tom de voz adequado. - Charlotte a repreendera pela mesma questão em tantas ocasiões que a recriminação saiu de sua boca sem olhar sequer a Leila. A menina estava com olheiras e seu rosto evidenciava cansaço.

Charlotte colocou uma mão sobre sua testa. - Não dormiu bem esta noite?

—Não. Sim. - Leila colocou o calcanhar na junta de duas das polidas pranchas de madeira do chão. - Não sei.

Tinha aspecto ruim mas não estava febril. Como se não fosse com ela, Charlotte perguntou:

—Não estará assustada pelo fantasma?

Leila compôs um gesto que... Charlotte não soube como descrever. Atemorizada astúcia, na falta de qualificativo melhor.

—Há um fantasma em Austinpark Manor ?

Imediatamente arrependida, tentou solucionar a questão o melhor possível, tentando tirar sua importância.

—Uma das tolas criadas da cozinha diz que viu algo perto do desvão.

—Sério? Um fantasma de verdade? Ouvira dizer algo, mas pensava que eram bobagens. Que fanfarrão! - Robbie se aproximou. - Arrasta uma corrente? Leva uma cabeça cortada na mão? Choraminga e vai por aí sangrando?

—Robbie! - Charlotte estava contrariada. - Nada disso. Onde ouviu todas essas barbaridades?

O entusiasmo de Robbie não variou um ápice.

—Todo mundo diz que os fantasmas são assim.

—Todo mundo? Se refere a seu novo companheiro da vicaría? - perguntou Charlotte.

Robbie topara com o filho do vigário fazia uma semana enquanto passeava pelas terras da casa, depois disso os meninos aproveitaram qualquer mínima oportunidade para estar juntos.

Alfred parecia um menino decente, e seu pai era um exemplo perfeito de obediência e decência.

Embora nem sempre se mostrou de todo quão amável deveria... mas bom, depois de tudo era o vigário, um homem, e tinha uma família que manter. Então, Charlotte deu o visto positivo ao novo amigo de Robbie.

Mas para Leila o assunto resultara algo menos agradável, pois ao que parecia os meninos falavam de coisas que não contavam a ela.

—Alfred me disse que viram luzes no desvão. Uuuh! - Robbie passou o dedo pelas costas de sua irmã.

Leila lhe deu um murro.

Charlotte pegou o menino pelo pescoço da camisa antes que esse se vingasse. E a Leila disse com severidade:

—A violência jamais soluciona disputa alguma.

—Ele começou.

—Não.

—São muito afortunados de ter um ao outro.

—Charlotte olhou aos dois meninos atentamente, seus rostos vermelhos e irritados, e não pôde evitar pensar o muito que ela teria gostado de ter um irmão ou irmã, e em como isso teria evitado grande parte da solidão que teve que sofrer.

—Nenhum menino ou menina da Inglaterra viveu a vida que vocês compartilharam em Bahar. Quando explicarem suas aventuras a alguém o mais provável é que não obtenham mais que vulgares mostras de curiosidade.

Mas, aconteça o que acontecer, ambos conhecem outra pessoa que sim sabe como é viver no deserto. Esse vínculo os une. Não danifiquem esse laço com estúpidas disputas.

Os meninos a olharam. Durante um momento, sentiu um comichão de triunfo.

Então Robbie golpeou brandamente as costelas de Leila com o cotovelo.

—Alfred diz que o fantasma gosta de assustar às meninas pequenas.

Charlotte não demorou em compreender que não entenderam nenhuma só palavra do que acabava de lhes dizer. Não ia se render por isso, mas teria que escolher com mais precisão suas batalhas, e nesse momento o tema adequado era o fantasma.

—Ao que parece, alguém por aqui tem muita imaginação - disse a instrutora como se sua desaprovação pudesse sossegar os rumores. - Os fantasmas não existem, mas se existissem não teriam a coragem suficiente para percorrer a casa de seu pai.

—E menos ainda com a avó vivendo aqui - declarou Leila. - Ela assustaria ao fantasma!

Os dois meninos se puseram a rir.

—Já é suficiente - disse Charlotte com firmeza, e as risadas cessaram imediatamente. Charlotte não sabia o que fazer em relação à falta de respeito que os meninos mostravam para sua avó.

Adorna não tinha nem ideia do que fazer com seus recém adquiridos netos, e tampouco parecia disposta a mudar de atitude. Em grande medida os tratava como se fossem estranhas curiosidades às que teria que examinar desde certa distância.

Até que lady Ruskin se decidisse a formar parte de suas vidas, seguiria sendo objeto de escárnio e diversão para aqueles ofendidos meninos.

—Pegue as velas, Robbie - Charlotte ordenou.

O fogo ardia na lareira e ela deixou que se sentassem em frente durante um momento para que se esquentassem. Uma hora de descanso iria muito bem.

O tapete se estendia de onde estavam sentados até o fogo. Um enorme e precioso tapete que supunha toda uma... tentação.

Charlotte fixou o olhar na grossa lã que cobria o chão e imaginou Wynter tal como o via cada noite no velho quarto de jogos dos meninos. Rodando em cima das almofadas, sorrindo, bonito e indecoroso.

Às vezes, quando o via tão relaxado e satisfeito, recordava a época em que, antes da morte de seus pais, ela tinha a confiança suficiente para fazer tudo o que vinha em mente sem temer represália alguma.

Isso foi a muitos anos, e entretanto seguia recordando.

—Lady senhorita Charlotte, o que está fazendo? - perguntou Robbie.

Charlotte abandonou suas fantasias e se deu conta que Leila e Robbie a estavam olhando fixamente.

—Estava pensando que hoje deveríamos nos deitar de barriga para cima para ler. - Inclusive sua audácia a surpreendeu, mas ao olhar para a Leila não pensou o mesmo. A menina estava obviamente cansada; se deitavam possivelmente dormiria.

—Sim! - Robbie se atirou sobre o tapete, com os pés para a lareira. Leila imitou seu irmão, se sentando a seu lado. Robbie empurrou sua irmã para um lado e acrescentou: - Sente aqui lady senhorita Charlotte.

Leila também o empurrou.

—Deixe lugar para ela - replicou.

—Meninos. - Foi somente uma palavra, mas ambos reconheceram o tom de voz. Se separaram sem pigarrear, deixando espaço suficiente para Charlotte. Assim que se sentou no chão, seu secretos pensamentos voltaram a lhe assaltar.

Depois de tudo, pensou, despediram instrutoras por menos do que ela fizera. Mas Adorna e Wynter passaram a noite anterior em Londres, e ninguém esperava que percorressem o caminho de casa na metade da noite e sob um aguaceiro.

Assim podia relaxar, estava a salvo. Essa noite não veria Wynter.

Se deitou deixando escapar um suspiro, e após apoiar as costas no tapete esperou uns segundos com a intenção de se liberar da sensação de estupidez que a sobressaltava.

Depois de tudo, escolher se deitar no chão não era o mesmo que se ver obrigada a se deitar... para depois ser enfeitiçada a base de beijos.

Não, não era o mesmo, mas igualmente se sentia estúpida. Estava deitada no chão, o fogo lhe esquentava os pés, e podia se entreter observando os antigos artesanatos e a decoração do teto. Um sorriso lhe escapou.

Robbie a golpeou brandamente com o cotovelo.

—Leia, lady senhorita Charlotte.

—Sim. - Abriu o livro pelo ponto onde o deixaram na vez anterior.

Robbie estava convexo com uma de suas pernas dobradas pelo joelho e a outra perna colocada em cima da primeira, e ia seguindo o ritmo da leitura com o pé sem se dar conta. Leila se aconchegou a seu lado, apoiando a face sobre o braço de Charlotte.

A história se desenvolvia em uma terra longínqua e, como sempre, Charlotte não demorou para se deixar levar por uma aventura em que um ladrão de cabelo comprido descobria um tesouro escondido e salvava à formosa donzela protagonista.

A sala ficou em silêncio quando deixou de ler. Se voltou primeiro para Robbie e sorriu. O menino lhe correspondeu com outro sorriso, embora guiado por algum motivo infantil que ela não soube desentranhar.

Depois se voltou para Leila e a viu docemente dormida a seu lado. Com um terno sorriso, separou de sua testa uma mecha de cabelo. Se retirou ligeiramente e estendeu o braço em busca de uma almofada para se sentar erguida.

Então, do fundo da sala, alguém começou a aplaudir lenta e deliberadamente. Ela sabia de sobra de quem se tratava antes de se voltar, mas como se se tratasse de um viajante que se detém para observar um acidente, teve que olhar.

Wynter, com um aspecto mais ameaçador que nunca, estava sentado em uma cadeira entre as sombras no fundo da sala.

—Muito entretido, lady senhorita Charlotte. Desfrutei muito com sua leitura.

O amante que entrevera no velho quarto de jogos dos meninos desaparecera. Em seu olhar havia agora um toque sardônico, e ela não demorou para se precaver que aquela forma de aplaudir não pretendia adular a não ser intimidar.

A beijara uma vez. Possivelmente estava aborrecido e decidira se entreter comprovando se podia seduzi-la. Lhe mostrara sua debilidade e agora ele a julgava inclusive com maior dureza.

Pior ainda, pegaram a Dona Afetada se comportando de maneira imprópria. Sua reputação se foi ao ralo, e tudo por um absurdo beijo.

Ia despedi-la, e isso lhe permitiria ir conservando um pouco de dignidade; poderia seguir cumprindo com seu dever.

—Não fale tão alto, senhor. Poderia despertar Leila. - Segurou Robbie quando se pôs a correr atrás de seu pai e lhe disse: - Devagar, como um cavalheiro, por favor.

Enquanto Robbie, que também estava aponto de dormir, saudava seu pai, ela ficou em pé com toda a graça que pôde levando em conta que não estava acostumada a se sentar no chão.

Pegou uma das almofadas e as colocou sob a cabeça de Leila, depois cobriu à menina com parte do tapete. Fazendo ornamento de uma equanimidade que não sentia, disse:

—Não esperávamos que retornasse hoje, senhor. Cavalgou sob a tormenta?

Uma pergunta absurda, sem lugar a dúvidas, mas depois de um rápido olhar para Wynter viu que vestia roupa seca. Devia ter se trocado antes, pois o cabelo sim estava úmido e, como esperava, estava descalço.

Se não como poderia ter entrado na sala sem fazer ruído algum?

—Precisava vir - disse. - Não podia esperar para lhe relatar meu triunfo.

—A que triunfo se refere, senhor? - perguntou ela com cautela.

—Ontem fui à festa que ofereciam lorde e lady Howard, e limpei minha reputação a base de boas maneiras. - Sorriu. - E graças a meus encantos pessoais.

—Maravilhoso, senhor. - Apertou suas úmidas mãos e lhe dedicou um olhar de aprovação que dirigiu a algum ponto inconcreto entre o queixo e o ombro esquerdo. - Sabia que poderia fazê-lo.

—Devo tudo a você, lady senhorita Charlotte. - Passou um braço ao redor de Robbie e o fez se voltar para que a encarasse. - Veja, Robbie, se obedecer a sua instrutora não demorará para se converter em um verdadeiro cavalheiro inglês.

Robbie se meneou sob o abraço de seu pai sem captar os subentendidos.

—Não é tão difícil chegar a ser um verdadeiro cavalheiro inglês. Só terá que respeitar um bom punhado de regras absurdas.

Wynter revolveu o cabelo de seu filho.

—Está fazendo bem, lady senhorita Charlotte?

—Para falar a verdade, muito bem. - alisou o vestido. - Seus filhos são muito brilhantes e têm facilidade para aprender. Inclusive Leila admitiu que aprenderá a montar ao estilo amazona, se eu a ensinar a fazê-lo.

Wynter entrecerrou os olhos.

—Terei que vê-la montar, Charlotte, antes de permitir que você adestre minha filha.

"Terei que vê-la montar." Wynter falava do futuro. Não ia despedi-la. Possivelmente não a menosprezasse de tudo. Charlotte suspirou aliviada... mas sem que ninguém pudesse apreciá-lo.

Wynter fez um gesto com o que pretendia se livrar de sua gratidão.

—Dado que o comportamento dos meninos melhorou tanto, acredito que é o momento que o demonstrem em público. Ah, você não parece estar de acordo, lady senhorita Charlotte, mas acredito que... não, estou convencido que os vizinhos devem ter começado a se perguntar por que não vamos à igreja de Westford. - Wynter não tirava o olho de cima da instrutora. - Amanhã é domingo. Que melhor lugar que a igreja, onde todo mundo parece predisposto à caridade, para comprovar nossas habilidades?

 

No domingo pela manhã, assim que Wynter, Charlotte e os meninos entraram no interior da antiga igreja de pedra, os membros da congregação voltaram as cabeças para os recém chegados e os observaram como o fariam com uma manada de lobos a um pequeno e perdido rebanho de ovelhas. Wynter quase esfregou as mãos devido à espera. Estava convencido que nesse dia ia aprender muito sobre a esquiva lady Charlotte e os motivos que a levaram a lhe mentir a respeito de seu passado.

Sim, mais de um teria dito que não mentira a ele, mas Wynter falara de sua própria vida, de suas viagens e de suas indiscrições juvenis.

E o que ela contara em troca? Nada. Nada mais além de um silêncio que confundira Wynter. Acreditava que não possuía família, e entretanto sua família residia a menos de cinco quilômetros de Austinpark Manor.

De fato, a igreja Norman, com seu capitel quadrado, se encontrava nas terras herdadas pelo conde de Porterbribge... o tio de Charlotte.

Wynter dedicou um amplo sorriso à mulher desdentada que o estava olhando com absoluta severidade. Seu encanto, ao que parecia, não a comoveu. Ela não afastou o olhar, com as luvas negras penduradas do colo e o chapéu negro fixado no cabelo grisalho.

—Um lugar muito amistoso - sussurrou ao ouvido de Charlotte.

Ela ignorou seu comentário. Obviamente. Jamais poderia ter se mostrado mais formal do que o estava fazendo nesse momento, com o queixo elevado e as costas retas, inclusive sob o peso de suas sufocantes anáguas engomadas e o vestido cinza de lã.

Wynter jamais teria chegado a suspeitar a escura sombra que ofuscara a vida de Charlotte... entretanto, no interior daquela igreja todos estavam à par do ocorrido.

Alguns bancos possuíam nomes de famílias. Todos os presentes estavam com o aspecto de se sentar no mesmo lugar todos os domingos, como se os assentos só se adaptassem a seus corpos. Flutuava no ar certa sensação de rechaço.

Inclusive os Santos das vidraças observavam Charlotte enquanto percorria o corredor.

Os meninos também se deram conta. Leila apertava com força a mão de seu pai. Robbie se aproximou de Charlotte e a segurou pelo braço, como se pretendesse se proteger de um possível dano. Os meninos podiam confiar em seus instintos.

Wynter estava orgulhoso deles.

Não é que fosse tão ingênuo para acreditar ponto por ponto tudo o que lhe contara a embusteira de lady Howard. Aproveitando a mínima oportunidade, recorrera a sua mãe e lhe fizera algumas perguntas.

Embora isso tivesse sido um engano, pois ao perguntar a sua manipuladora mãe não pôde deixar de se perguntar que outras questões teria "esquecido" de lhe dizer.

Dedicara tanto esforço a ocultar suas verdadeiras intenções ante Adorna que não lhe ocorrera pensar nisso até esse momento, mas... o que era que Adorna tentava ocultar dele? Porque não tinha dúvida alguma que tentava lhe ocultar algum segredo.

Wynter e o pequeno grupo que o seguia percorreram o corredor central até chegar ao primeiro banco. À esquerda, conforme recordou Wynter, se sentava o visconde Ruskin e sua família.

E à direita, da alvorada da humanidade, ou ao menos desde os tempos do Guillerme o Conquistador, se sentava o conde de Porterbridge.

Porterbridge estava sentado agora em um extremo do banco. Sua esposa e oito de seus quatorze filhos estavam dispostos a seu lado. Wynter viu seu perfil.

O conde olhava para frente, totalmente imóvel, com a vista fixa no púlpito, com o cenho franzido como se mentalmente pudesse obter que saísse o vigário para dar o sermão. Transmitia impaciência, embora não importância, abundância, mas não cultura.

Tinha posto pomada tanto no cabelo embranquecido como nas sobrancelhas, mas um avermelhado corte ao barbear deixara sua face feito um farrapo.

Sua jaqueta fora confeccionada em Londres, mas nada podia obter que seus ombros fossem mais largos nem que sua volumosa pança permanecesse debaixo de seu colete.

Para falar a verdade, parecia o retrato arquetípico de um mesquinho e inseguro tirano que ocupasse um lugar no mundo que estivesse por cima de suas limitadas possibilidades.

Talvez não se desse conta por si mesmo da presença de Wynter e seus acompanhantes, mas como se se tratasse de uma cauda, o silêncio os seguia ao caminhar.

Todo mundo escutou lady Porterbridge exclamar:

—Céu santo!

Wynter supôs que lady Porterbridge era uma dessas mulheres que desfrutam dos escândalos como meio para dar um pouco de interesse a suas vidas. Patético.

Lorde Porterbridge voltou a cabeça lentamente, cuidando de não estragar o amido do pescoço de sua camisa ou enrugar o nó de seu laço negro de cetim. Olhou para Wynter mas não o reconheceu.

Depois olhou para Charlotte, e a cor de seu rosto passou de pálido a escarlate em questão de segundos. Golpeou com suas botas as lajes de pedra do chão.

Wynter jogou uma olhada ao pálido e impassível rosto de Charlotte e se deu conta de seu engano. Não possuía motivo algum para jogar aquela mulher aos lobos.

Fizeram muito dano a ela, e o principal culpado era o homem que nesse momento elevou a mão para apontá-la com o dedo demonstrando toda sua raiva. .

—Você!

A relação entre Charlotte e seu tio não era muito civilizada por assim dizer, e tampouco era muito civilizado o que Wynter sentia por Charlotte. A protegeria.

Mas ela não deu um só passo atrás, nem segurou o braço de Wynter, nem deu mostra alguma de necessitar ajuda ou refúgio.

Aquela mulher era incrível.

Ficou onde estava, tremendo mas acalmada, e observou como seu tio se voltava sobre o banco como um barril rio abaixo. Wynter se colocou entre eles com um suave movimento, e como se Porterbridge se dirigisse a ele, disse:

—Sim, senhor, sou eu. Também me alegra lhe ver, e me surpreende que se recorde de mim depois de todos estes anos.

—Porterbridge ficou em pé, e Wynter pensou que se ele não fosse tão alto, aquele velho provavelmente teria se jogado contra ele, em caso de poder fazê-lo.

Porterbridge não mostrou nem um ápice de respeito ou cortesia ao jovem. Bramou:

—Quem demo...?

—Sou Ruskín, senhor. - Wynter se apressou a agarrar a mão de Porterbridge e lhe deu um apertão. - Seu vizinho de Austinpark Manor. Retornei do Bahar. Mas como temos muito do que falar, será melhor que conversemos depois do serviço.

Olhe, aí entra o homem de Deus. - O vigário, que não tinha nenhuma intenção de presenciar uma cena em sua igreja, acelerou o passo para o púlpito. - Temos que nos sentar para servir de exemplo à congregação.

—Os membros desta estavam com a cabeça voltada para contemplar o espetáculo que estava se desenvolvendo ante seus ávidos olhares.

Porterbridge avermelhou inclusive um pouco mais, e exclamou com voz grave:

—Senhor, há aqui uma pessoa que sim vai servir de exemplo!

Wynter replicou marcando com toda intenção seu acento:

—Sim, conheço minhas deficiências, senhor, mas sou inglês e desafiarei a qualquer um que afirme o contrário! - Sorriu. - Você escolha as armas para o duelo.

Pela primeira vez, Porterbridge olhou realmente para Wynter, e o que viu deixou claro que Wynter era tão insultante como perigoso.

—Não me referia a você, senhor!

—Eu não gostaria de ter que lhe ofender. - Wynter o olhou por cima. - Nem por mim nem por meus filhos nem por minha instrutora. E pelo que sei de sua reputação, senhor, você não seria tão lerdo... É correta a palavra, senhorita Dalrumple?

A suas costas, Charlotte disse com muita calma:

—É correta, embora pouco amável.

—... o bastante lerdo para me desafiar.

O olhar de Porterbridge passou várias vezes de Wynter a sua sobrinha enquanto trocava alarmantemente de cor. Desejava humilhá-la com todas suas forças.

Entretanto, o desejo de intimidar Charlotte não podia competir com o medo que lhe produzia esse estrangeiro desconhecido que afirmava ser seu vizinho; temia que o esmagasse como um camelo esmagaria a um escorpião.

Tenso, corroído pelo rancor, Porterbridge assentiu para Wynter e se dispôs a retornar a seu assento.

Mas não antes que Charlotte lhe dedicasse uma leve reverencia e dissesse:

—Bom dia, tio.

Ficou arroxeado de ira e se voltou pela metade para ela, mas Wynter a pegou pelo cotovelo e a levou até o banco. O vigário deu início a seu sermão: a volta do filho pródigo.

Leila jamais se sentira tão mal em toda sua vida. Odiava aquele lugar e tudo o que tinha ali. Aquela igreja com toda aquela gente que a olhava sem deixar de cochichar.

Austinpark Manor com todas suas estúpidas regras e os criados que tratavam a ela, a seu irmão e a seu pai como estrangeiros diante de seus próprios narizes, como se fossem surdos.

Inglaterra por completo lhe parecia um país absurdo, com seus verdes pastos e sua chuva incessante. Sentia frio inclusive embutida nas anáguas, no vestido de veludo e no casaco. E ouvira uma senhora dizer que estava muito magra.

E sua avó a odiava.

Atrás de uma das colunas, Leila deu uma olhada às pessoas que se congregaram na igreja. Todos usavam estúpidos chapéus e estúpidos vestidos e esses estúpidos sapatos ingleses que tanto doíam nos pés.

Sorriam uns aos outros como se se apreciassem muito, mas ouvira duas mulheres conversarem e lhe deu a impressão que não gostavam de ninguém.

Disseram coisas muito desagradáveis em voz baixa, embora com palavras muito educadas, tal como lady senhorita Charlotte pretendia que ela falasse, e isso fazia que as coisas que contavam fossem inclusive mais desagradáveis.

E esse homem... odiava a lady senhorita Charlotte. Era um homem odioso e com uma pança enorme, e Leila acreditou que ia bater na sua instrutora na porta da igreja. Agora a observava de uma prudente distancia porque sentia medo de seu pai.

As vozes das mulheres disseram que era gracioso. Disseram daquele homem que era mediano e que adoravam observar como evitara enfrentar a seu pai.

Mas então se perguntaram por que as velhas amigas de lady senhorita Charlotte lhe dirigiam a palavra. Se acaso não sabiam que se comportou mal e que merecia que a rechaçassem.

Também se perguntaram por que lançara mão de lorde Ruskin para interpretar aquela patética atuação.

(Leila acreditava que era seu pai o que ia conduzindo lady senhorita Charlotte de um lado para outro. Isso tampouco lhe parecia bem, mas não gostava que aquelas mulheres falassem naquele tom.)

Charlotte finalmente teria recuperado a prudência e teria decidido agarrar ao primeiro homem que pusesse no alvo? Em qualquer caso, segundo aquelas mulheres, Charlotte estava estirando mais o braço que a manga.

(Leila pensou que as mangas do vestido ficavam muito bem a sua instrutora), e que lorde Ruskin era muito para ela. Era muito bom partido, e ela não o merecia.

Leila não entendeu nada do que diziam, mas o que sim entendeu é que cada vez se sentia mais triste e que a ninguém parecia importar.

Quando propôs a lady senhorita Charlotte que se casasse com seu pai, imaginara uma cena em que ela se sentava entre seu pai e a instrutora e ambos lhe liam contos, a beijavam, a abraçavam e falavam com ela.

Em lugar disso, seu pai e lady senhorita Charlotte só estavam pendentes um do outro! Seu pai olhava lady senhorita Charlotte sem dissimulação alguma. Lady senhorita Charlotte, por sua parte, fazia de conta que não o olhava.

Mas, em qualquer caso, não deixavam de se interessar no outro. Isso não estava bem. Não era esse o modo em que se supunha que deveriam passar as coisas.

Leila escutou as expressões de júbilo dos meninos enquanto jogavam não muito longe de onde se encontrava. Seus lábios começaram a tremer e os olhos encheram de lágrimas.

Robbie, apesar de ser seu irmão, tampouco se preocupava se por acaso estava triste ou não. Brincava de correr pelo jardim da igreja junto a Alfred, seu estúpido novo amigo que a tinha chamado menina estúpida e que não queria deixá-la jogar com eles.

Ninguém a queria, e seu único desejo era voltar para casa. Para casa. Para o Bahar.

O senhor e a senhora Burton se dirigiram para Charlotte salteando os atoleiros do jardim da igreja, e ela se preparou para receber qualquer tipo de saudação da parte dos que foram os melhores amigos de seus pais.

Mas a senhora Burton estendeu os braços para Charlotte.

—Querida, quanto tempo faz que voltou?

Charlotte deu um passo para ela e lhe correspondeu no abraço, embora de forma um tanto dúbia.

—Faz umas semanas, senhora.

—Não vai abraçar ao velho Burt? - perguntou o senhor Burton.

—É obvio. - Ao abraçá-lo, uma estranha sensação de irrealidade a assaltou. Durante anos teve pesadelos sobre o dia de sua volta.

E, entretanto, o senhor e a senhora Burton a abraçavam em frente a toda aquela fofoqueira congregação e ninguém mais, à exceção de duas velhas amigas, se aproximava para saudá-la.

—Se nos tivesse escrito, Charlotte... - A senhora Burton franziu o cenho e lhe falou como sempre o fazia anos atrás, e depois colocou direito o chapéu de Charlotte como se ainda fosse uma menina. - Oxalá me tivesse escrito.

Mas os Burton não lhe ofereceram sua ajuda quando foi necessário. Ninguém o fez. Naquele tempo, quando não era mais que uma jovem doída e furiosa, acreditou que todos a tinham abandonado.

Agora, pela primeira vez em muitos anos, lhe ocorreu pensar que as coisas se desenvolveram com tal rapidez que cabia a possibilidade que a surpresa paralisara aos presentes.

Possivelmente inclusive tivessem estado contra o que fez, mas mesmo assim poderiam tê-la ajudado. Ou inclusive poderiam ter esperado para lhe perguntar diretamente e conhecer sua versão dos fatos.

Ao olhar as afligidas expressões do senhor e da senhora Burton, compreendeu que talvez se equivocou ao pensar que estava completamente sozinha.

—Sinto muito, senhora - disse Charlotte. - A partir de agora, tentarei fazer as coisas melhor.

—A partir de agora, estará aqui e poderei falar com você. Então é a instrutora dos filhos deste jovem? - Com seu habitual sorriso, a senhora Burton beliscou Wynter na face. - Estou segura que não me recorda, jovem Ruskin.

Wynter capturou sua mão e lhe dedicou uma reverência.

—É obvio que lembro, senhora. Como esquecer de uma dama que brilha como a luz do sol ao amanhecer entre as dunas do deserto?

A mulher deixou escapar uma gargalhada e as cabeças de muitos dos presentes se voltaram esquecendo as interessantes conversações nas que estavam sumidos.

—Ah, jovem Ruskin, como mudou. Antes sempre foi por aí envolto de um ar melodramático.

Wynter jogou o cabelo para trás para que algum dos poucos raios de sol que penetravam entre as nuvens fizesse cintilar o brinco que usava em sua orelha. Charlotte apreciou que Wynter marcou mais seu acento ao falar, lhe dando um tom mais.. romântico.

—Agora sou tão só um homem... Como o denominam vocês? Escandaloso.

—Deus do céu! - exclamou o bem barbeado e impecavelmente vestido senhor Burton após soltar uma gargalhada ao ver o brilho do aro de ouro. - Com essa juba e esse brinco em sua orelha, resulta difícil saber se você é um homem ou uma mulher.

Wynter estendeu a mão ao velho cavalheiro.

—Asseguro que as mulheres sim sabem.

O senhor Burton lhe deu um bom apertão e olhou para Charlotte com um toque de astúcia.

—Já o vejo.

Charlotte, apesar de sua atitude contida, não pôde evitar se sentir muito incômoda.

—Senhor, não se referia a mim!

O senhor e a senhora Burton gargalharam.

Wynter colocou a palma de sua mão na parte baixa das costas de Charlotte, como se quisesse dar a entender que era seu proprietário. Ela se separou dele e sorriu como se se tratasse de uma vítima.

Dava a impressão que ele pudesse se jogar em cima dela a qualquer momento!

A lembrança do beijo que se deram no velho quarto de jogo dos meninos começou a fazer das suas na mente de Charlotte.

Precisava deixar de pensar no beijo e se centrar na gratidão que sentia para Wynter, por como se comportou quando topou com seu tio, sua tia e seus primos no interior da igreja.

Nunca ninguém cuidara dela com a suficiente intensidade para fazer frente ao conde de Porterbridge. Seu tio era uma pessoa muito pusilânime para se enfrentar a ele.

Deu uma olhada a seu tio, rodeado nesse momento por seu grupo de presunçosos amigos. Seu tio jamais esquecia uma ofensa. Precisava enfrentar a ele agora mesmo.

Se enchendo de toda coragem, agarrou um extremo de sua saia e caminhou para seu tio. Lhe deu as costas.

Charlotte se deteve, sua coragem se esfumou, ao mesmo tempo que o grupo de homens que rodeavam ao conde de Porterbridge se abriu entre cochichos.

A suas costas, Wynter balbuciou uma desculpa e passou a seu lado. Charlotte o agarrou pela manga e exclamou:

—Não!

Ele a olhou com seus olhos castanhos brilhantes de fúria.

—Não - repetiu. - Piorará as coisas.

—Tem razão, jovem - acrescentou o senhor Burton. - O caráter desse mesquinho intransigente piora com o passar do tempo. Não tem sentido que você o adule com sua ira.

Wynter baixou a vista e olhou para Charlotte.

—Te fez mal.

—Não. Na realidade, não. Foi muito pouco amável. Nada mais. - Para sua própria surpresa, tinha razão. O desprezo de seu tio a incomodava, mas não lhe fizera mal.

—Burtie está no certo. O rancor de antigamente segue alimentando ao velho. - A senhora Burton deu palmadas nas costas de Wynter e depois, com muita habilidade, mudou de tema. - Charlotte, quais são os meninos dos que se ocupa?

—Ali há um. - Apontou para Robbie, que estava jogando com Alfred e outros meninos. Mas em seu primeiro repasse do jardim não pôde encontrar Leila.

Alarmada, escrutinou com mais detalhe e encontrou à menina sozinha, apoiada em uma das colunas do pórtico da igreja. - Leila está ali.

—Que meninos tão preciosos! - exclamou a senhora Burton.

—Sim, são. - Sem afastar o olhar de Leila, Charlotte aceitou com ar ausente o elogio sem sequer se dar conta do sorriso que Wynter intercambiou com o casal Burton.

A senhora Burton aproximou sua face da de Charlotte.

—Agora o drama se acabou, as pessoas estão partindo e nós também temos que ir. A cozinheira fica uma fúria se chegarmos tarde para comer. Mas, querida, me encantou te ver. Quando tiver seu meio-dia de descanso, venha nos visitar.

Como sempre, a senhora Burton havia posto muita colônia e usava um horroroso chapéu com rosas de cetim. Sua paixão pelo aroma de rosas, pelas bolsas de mão em forma de rosa e pelos jardins com roseiras sempre fizera Charlotte rir quando era uma moça.

Agora a nostalgia lhe provocou um nó na garganta e não pôde fazer outra coisa que assentir.

Quando o senhor e a senhora Burton partiram, Charlotte voltou a olhar para Leila, e de novo a encontrou sozinha, observando seu irmão jogar com seu novo amigo.

—Se me perdoar, senhor, vou procurar Leila.

Leila se ergueu ao ver Charlotte se aproximar, e o esperançado aspecto de seu rosto fez que o coração de Charlotte se encolhesse. Leila se sentia abandonada, e Charlotte entendia esse sentimento à perfeição. Se acocorou junto à menina.

—Vamos logo para casa? - perguntou Leila.

—Assim é. Esta tarde, talvez poderíamos ler outra das histórias de Noites Árabes.

Leila se aconchegou ao lado de Charlotte.

—Sim, por favor. Eu gostaria de ler uma história que falasse de meu lar.

"OH, querida."

—Agora seu lar está aqui.

—Não. - Leila apoiou a cabeça contra o ombro de Charlotte como se desejasse encontrar refúgio. - Meu lar está onde está a magia.

Lar. Magia.

Quando em sua vida Charlotte sentira algo semelhante?

Mas ela ia fazer tudo o que estivesse em sua mão pelos meninos. Beijou Leila na testa e decidiu que ia encontrar algo que ajudasse Leila a encontrar magia na Inglaterra.

—Venha então. - Ficou em pé e pegou a mão de Leila. - Vamos.

Magia. Estava começando a senti-la outra vez... e a aterrorizava.

 

No caminho de volta, dando pulos dentro da carruagem, o medo de Charlotte se esfumou. Embora cada vez que olhava para Wynter, sentado em frente a ela, o pânico voltava a fazer ato de aparição inclusive com maior intensidade.

Realmente não chegava a entendê-lo. Ele não fizera nada mágico.

De fato, manteve Leila em seu colo enquanto explicava aos meninos os mesentérios do serviço religioso anglicano, e qualquer que os tivesse observado pela primeira vez não teria duvidado em qualificar aquele homem como um estupendo pai de família.

Sim, beijara Charlotte. Alguém inclusive poderia ter dito que levava algum tempo cortejando-a. Mas em nenhum momento se mostrou como um selvagem, fossem quais fossem suas maneiras dentro de casa.

Seu caráter bárbaro, para falar a verdade, consistia unicamente em sua tendência a caminhar descalço e ao fato que usava um brinco na orelha.

Entretanto, os raciocínios lógicos de Charlotte serviam bem pouco. Queria - precisava - se afastar dele, pois apreciara em Wynter a intenção de descobrir seus segredos, e de aplicar sua magia nela.

Quando a carruagem começou a subir o caminho que levava até a porta de Austinpark Manor, Charlotte disse:

—Os Burton me fizeram pensar em um detalhe: não tirei nenhum de meus meio dias livres. Dado que me encontrei com eles e que foram muito amáveis comigo, possivelmente deveria lhes fazer uma visita o mais breve possível.

—Agora? - perguntou Robbie. O criado abriu a porta e o menino saltou da carruagem. - Mas se acaba de vê-los - disse a voz em grito como se uma grande distancia os separasse.

—Prometeu ler para mim - disse Leila.

Charlotte deu palmadas na mão da menina, mas o fez com tanta celeridade que aquele gesto evidenciou seu estado de nervos.

—Prometi-lhe isso. E o farei assim que volte esta tarde. Sua babá, Grania, pode cuidar de você. Podem jantar e, se a terra estiver bastante seca, dar um passeio.

O modo em que falara deveria ter impedido qualquer objeção, mas Wynter ainda não dissera uma palavra. Suas reservas reverberavam contra a tapeçaria de pele granada e descia pelos guichês de vidro como se se tratasse de gelo.

Se ao menos Charlotte estivesse acostumada a conversar... mas ela se aborrecia ao conversar como o faziam a maioria das mulheres.

Tinha tão pouca prática que inclusive Leila a observava com os olhos muito abertos enquanto Wynter segurava a sua filha nos braços e a passava ao criado que esperava em terra.

Beliscou Leila no queixo e sorriu até que lhe correspondeu com outro sorriso, depois fez um gesto ao criado para que se afastasse. Fechou a porta.

Charlotte se fixou em que deixara a mão na porta, o qual a fez sentir horror e, para seu escárnio, excitação em partes iguais.

O interior da carruagem era luxuoso, mas era muito pequeno para acolher uma mulher nervosa e um homem corpulento disposto a obter respostas.

Embora, muito possivelmente, ela estava interpretando mal suas intenções. Com toda probabilidade estava se mostrando, uma vez mais, superprotetor.

—Senhor, não é necessário que me acompanhe até a casa dos Burton. Posso perfeitamente ir sozinha.

Wynter se recostou em seu assento, cruzou os braços em frente ao peito e a olhou inquisitivamente.

—Ainda não me deu as explicações que mereço.

—Não lhe devo explicação alguma. - No exterior, escutou o murmúrio longínquo das vozes dos criados tentando decifrar aquele estranho comportamento.

Olhou para o exterior e os viu reunidos nos degraus da entrada, observando a carruagem e fazendo gestos. - Você também vai a alguma parte? - perguntou esperançada.

Ele a ignorou como se nem sequer tivesse chegado a falar.

—O conde de Porterbridge é o patriarca de sua família.

O chofer se afastou do grupo de criados, chegou até a carruagem e bateu na porta dubitativamente.

—Meu senhor? Onde deseja que o leve?

—A nenhuma parte. Saia.

—Isso não esteve bem. - A recriminação não foi um comentário automático, a não ser uma tentativa de equilibrar a balança de poder e, de passagem, mudar de tema.

—Skeets? - perguntou Wynter.

Skeets respondeu do outro lado da porta.

—Sim, meu senhor?

—Saia, por favor.

Charlotte não pôde ver a cara dele, mas imaginou à perfeição o gesto de confusão de Skeets antes de responder:

—Como você desejar, senhor.

Nem sequer teve que expor a ele, estava segura que o chofer já ia a caminho da cozinha para mexericar.

—Abra a porta - pediu brandamente a Wynter. - O que vão pensar os criados?

Resultava óbvio que a Wynter importava bem pouco o que pensassem, e não tinha intenção alguma de seguir a vontade de Charlotte. Falaria com ela do que lhe viesse em vontade, e não a deixaria escapar até que se sentisse satisfeito.

—Você, lady senhorita Charlotte, é uma das Dalrumple de Porterbridge Hall.

Não havia empatia nem afeto algum em suas palavras. As recentes chuvas e o céu encapotado provocavam que a temperatura fosse bem baixa.

Entretanto, apareceram sobre o lábio superior de Charlotte umas diminutas gotas de suor e ela rebuscou torpemente em sua bolsa tentando encontrar um lenço.

—Se responder a suas perguntas me deixará partir? - Wynter não prestou atenção a sua proposta. Pelo contrário, intensificou seu desejo de respostas entrecerrando os olhos. Qualquer um poderia pensar que estava zangado com ela.

—As mulheres sempre têm que estar protegidas - disse, - e entretanto seu tio lhe permite ir de casa em casa sem estar comprometida com ninguém, se convertendo em presa fácil para qualquer homem que deseje possuí-la.

Cabia a possibilidade de que se mostrasse ainda um pouco mais soberbo? Não contava sua vontade, a retinha e além disso insinuava que estava indefesa...

Acaso estava querendo lhe dar a entender que era uma mulher fadada a perder? Esse era o resultado de ter se deixado beijar por ele. Dignidade. Graça. Equanimidade.

Charlotte precisava recorrer à disciplina, e a situação em que se encontrava nesse momento era a prova mais flagrante disso.

—Não sou uma presa fácil, senhor, e não acredito que haja um só cavalheiro na Inglaterra que ouse imaginar que o sou.

—Assim você sabe se cuidar sozinha...

—Com certeza! - enxugou o lábio superior.

—Pois esse é o direito e o dever de seu tio. Você tem vinte e seis anos. Não está casada nem comprometida. Você é uma mulher desgraçada.

—Não o sou!

Wynter respirou fundo.

—Está bem. Inclusive em Bahar sempre havia alguém que não cumpria com seus deveres.

Charlotte recostou as costas muito devagar no assento. Agora Wynter não parecia zangado.

Dava a impressão de estar refletindo, e embora talvez fosse preferível lhe ver mostrar suas emoções, possivelmente essa interrupção pusesse ponto final ao interrogatório.

Se lhe seguia a corrente, com toda probabilidade não teria que escutar mais insultos. Com tom sereno, disse:

—Estou convencida disso.

—Mas eu conheço meus deveres. E a partir de agora assumo a responsabilidade de me encarregar de você.

Charlotte se inclinou para frente como se movimentada por uma mola.

—Você? Se encarregar de mim? Não o permito absolutamente!

—Não necessito sua permissão. - se inclinou também para frente, embora muito devagar, até que seus joelhos se roçaram e seus rostos ficaram a escassos centímetros de distância; ele a olhava fixamente. - Você é minha empregada.

—Isso não lhe dá direito...

—Às vezes um homem não pode esperar para ter direito. Às vezes tem que fazer as coisas sem mais.

Charlotte se sentiu presa da frustração, e quase começou a gritar.

Mas sabia que os criados andavam perto, e se gritava Leila não demoraria para se inteirar, e como poderia convencer à menina que mantivesse o tom adequado de voz ao falar se sua professora não o fazia?

Então, adotou um tom de voz amável, modulou sua voz e lhe deu um toque tão frio que quase pôde ver como as palavras caíam ao chão devido ao peso do gelo que as lastrava.

—Seu problema, senhor, é que diz coisas sem se dar conta de quão inapropriadas resultam.

Wynter repensou durante uns segundos, mantendo inexpressivo seu formoso rosto.

—Assim é. E, para falar a verdade, não me importa que assim seja.

Era muito mais alto que ela, fazia ornamento da confiança na própria pessoa que entranhavam a beleza, o dinheiro e a masculinidade, em um mundo regido por homens.

De novo sentiu que o ar lhe faltava, e notou como uma gota de suor descia por suas costas.

—Então, estou equivocado? Acaso na Inglaterra um homem não tem o dever de cuidar das mulheres de sua família?

Como a chateou essa pergunta!

—Os homens tem que se ocupar de suas filhas, mas não é necessário que se encarreguem de suas sobrinhas ou tias. Isso suporia uma enorme carga.

—Para um homem pobre, sem dúvida. Sei que as garotas que trabalham em nossa casa ajudam com seus salários à sobrevivência de suas famílias. Mas seu tio é um homem rico.

—"Rico" é um termo comparativo. As posses de meu pai estavam vinculadas à herança masculina...

—Seu pai era o filho mais velho e foi conde antes que fosse o atual conde de Porterbridge.

Agora a estava incomodando. Estava à par da história, mas mesmo assim respondeu cortesmente.

—Sim, por isso sou lady Charlotte.

—O dinheiro e as terras passaram às mãos de seu tio. Sigo sem entender por que você diz que seu tio não é uma pessoa rica.

—Sim, é uma pessoa enriquecida, mas... mas tem muitos filhos.

—Ah. - Wynter assentiu. - É um homem muito potente.

Ela replicou imediatamente.

—Por que se um casamento tem muitos filhos se diz que o marido é muito potente, mas se não os houver se diz que a mulher é estéril? - Depois de dizê-lo, aniquilada, fechou os olhos. Que espécie de loucura a levava a proclamar sem mais o que pensava?

E por que, Santo céu, Wynter dava por feito que, já que dera mau exemplo, podia discutir com ela temas como a fertilidade? Abriu os olhos e o olhou fixamente. - Foi muito impróprio de mim.

Por favor, entenda que você não deveria falar nunca de ... de...

—Fazer meninos? - disse tentando ajudá-la.

—Fecundidade - replicou ela com firmeza. - Quando estiver em sociedade, nunca deverá se referir sob nenhum conceito à fecundidade de um homem ou uma mulher.

—Lady senhorita Charlotte, não sei o que vou fazer com sua tutela.

Estava zombando dela?

Antes que pudesse lhe fazer alguma pergunta, a Wynter veio uma ideia à cabeça.

—Me repreende por querer me responsabilizar de você. Diz você que é capaz de cuidar de si mesma, sem necessidade do conselho de um homem. Se conhecesse sua história, talvez estivesse de acordo com você.

De repente ela entendeu tudo.

—Está me tratando como a um refém! - Agarrou o trinco da portinhola.

Ele a agarrou pelo braço. Não apertou forte, não lhe fez mal. Embora tampouco tinha intenção de deixá-la ir.

—Lady senhorita Charlotte, a única coisa que desejo é saber por que você está tão sozinha.

Deveria ter reconhecido a expressão de seu rosto imediatamente; o vira vezes suficiente para fazê-lo.

Desde que chegou de Londres na tarde anterior, Wynter a esteve acossando, não com más intenções a não ser guiado simplesmente por uma vulgar curiosidade.

Alguém em Londres teria lhe contado tudo.

—Com certeza já sabe o que deseja saber.

—Não o suficiente, lady senhorita Charlotte. - A olhou com um toque de ira. - Nunca soube o suficiente sobre você.

Ou seja que queria conhecer os detalhes. E que diferença entranhava isso? Queria saber. E ela certamente contaria tudo. Talvez desse modo lhe permitiria seguir levando a cabo seu trabalho.

Se livrou da mão de Wynter e apoiou as costas no respaldo do assento, cruzou os braços sobre o colo e ficou séria.

—O que deseja saber? Tudo? Ou só os detalhes relativos a minha ignominiosa fuga de Porterbridge Hall?

Ele se inclinou para frente como se temesse que Charlotte voltasse a se fechar em si mesma.

—Acredito que tudo.

Charlotte baixou a vista a suas mãos e, com ar ausente, estudou suas unhas.

—Fui filha única, e muito mimada. Tinha babá, criada, instrutora e um montão de brinquedos só para mim. Brincava de correr pelos corredores de Porterbridge Hall. As terras da propriedade estavam aí para que eu as cavalgasse com meu pônei.

—Sua infância e juventude foram realmente uma época dourada, e o único modo em que podia falar disso era mantendo um tom aborrecido e cinza, se mantendo a distância das lembranças jogando mão de uma férrea determinação.

Porque quando se deixava levar pelas lembranças...

—Um raio matou papai e mamãe quando eu estava com onze anos.

Wynter tentou pegar a mão dela, mas ela a afastou.

—Você deseja saber. E agora saberá. Mas não me toque.

Não gostou de seu tom de voz, para Charlotte ficou evidente. Franziu o cenho com gravidade e a pele ao redor da cicatriz empalideceu.

Mas, tal como supôs, ele não ia fazer nada que pusesse em perigo sua confissão, não até que tivesse contado todos os suculentos detalhes.

O olhou fixamente aos olhos até que ele assentiu e voltou a se recostar no assento. Então, prosseguiu:

—A terra deixou de ser minha. A casa deixou de ser minha. Meu tio e sua família se instalaram nela, e eram muitos.

Disseram que já não necessitava babá, que já não era uma menina, e instalaram aos meninos e seus berços onde eu jogava com minhas bonecas. Os mais velhos invadiram meu quarto de jogos.

Meu tio disse que não precisava comprar brinquedos porque eu possuía muitos. Minha criada e minha instrutora partiram. Meu tio não queria lhes pagar mais por cuidar de todos seus filhos do que cobravam por cuidar só de mim.

Tive que compartilhar dormitório com duas de minhas primas. Uma delas molhava a cama pelas noites. Além disso, brigavam. Não tinha um só lugar onde pudesse estar sozinha, e ninguém se preocupava comigo.

—As últimas palavras pareceram um tanto autoindulgentes, por isso acrescentou: - por que o fariam? Nem sequer se preocupavam uns com os outros.

Wynter tirou as luvas e as deixou a um lado.

—O que você fez?

—O que fiz?

—Fazia manhas de criança? Exigia que lhe devolvessem os brinquedos?

—Não. Claro que não. Estava tão confundida... Quando olho para trás penso "pobre menina". Estava desconcertada. Estava a ponto de me converter em mulher e ninguém... - Fechou a boca de repente.

Não queria lhe oferecer uma visão muito nítida da garota problemática que fora. Wynter desfrutaria muito com uma declaração tão dolorosa. Todos desfrutariam, como o fizeram todos aqueles que desejaram conhecer os detalhes depois do escândalo.

—Você estava assustada.

O suave tom de sua voz e seu amável olhar não a ia confundir. Estava sendo submetida a um brutal interrogatório.

—Tudo me assustava - conveio secamente. - A família por completo me incomodava. Gritavam, iam dando saltos de um lado para outro, se batiam e brigavam. Não entendia absolutamente esse tipo de comportamento. Não sabia como me comportar.

—E agora o entende?

—Vivi com diferentes famílias. Algumas são felizes e outras não. Algumas são ruidosas e outras não. E tem as que tentam que alguns de seus membros se sintam mal... como a de meu tio. Sigo sem entender, mas sei que era assim.

—Acredito que minha família é feliz - disse Wynter com ar reflexivo. - Ao menos a minha mãe é feliz que estejamos em casa, e os meninos serão felizes quando se adaptarem. Você não acredita, lady senhorita Charlotte?

—Acredito que seus filhos são encantadores.

—Não quer saber se eu sou feliz?

Charlotte sorriu, embora mal curvou os lábios.

—Você deveria ser, senhor. Deveria se sentir em êxtase.

Não o agradou o tom sarcástico e, ao responder, seu acento resultou mais evidente.

—Ainda... não.

Charlotte curvou os dedos dos pés dentro dos sapatos, e a contra gosto mordeu a língua, dizendo a si mesma que era mais inteligente manter a boca fechada, pois ele não deixava de ser um bárbaro.

—Tentei me fazer invisível. Fazia tudo o que meu tio ou minha tia me ordenavam, mas os outros meninos estavam acostumados a me colocar em problemas na menor oportunidade. Então meu tio me gritava, e eu odiava que me gritassem.

O problema é que se parece muito a meu pai. Embora meu pai fosse meu pai. Meu pai amava a minha mãe e me amava. Se o atual conde de Porterbridge ama a alguém o guarda para si. Tem o caráter de uma má dor de dente.

Deixou de falar e Wynter se deu conta de repente que não tinha intenção alguma de lhe contar o resto da história. Se sentiu aniquilado. Ele era muito empático e perspicaz, e estava falando com ele, sua alma gêmea, o homem que ia se casar com ela.

Charlotte ainda não sabia, mas saberia quando pudesse confiar nele.

Mesmo assim, não o reprovava. Sabia que lhe fizeram dano. Todos os detalhes de seu comedido comportamento o advertiram que se tratava de uma mulher maltratada uma e outra vez até o ponto de ter chegado a desconfiar de qualquer palavra amável.

—Sua história é pior do que pensava.

—Sério? - perguntou sem excessivo interesse. Não havia lugar a dúvidas que estava zangada com ele, pois era uma ciumenta guardiã de sua privacidade.

Mas quando compreendeu que lhe afetara o que contara, e que a apoiava, suavizou um pouco sua postura.

—Isso deve confirmar uma vez mais que meu plano é o adequado.

—A que plano se refere?

—Temos que nos casar. - Aquela afirmação deixou Charlotte sem palavras, o qual agradou a Wynter. Permaneceu imóvel e com os olhos muito abertos. Wynter lhe deu uns segundos para que se recuperasse.

—Você é uma mulher muito apta. Sua formação é deliciosa, você é bonita e excepcionalmente bem educada. - Se deteve, mas ela não sorriu. - E você necessita um marido.

Ela não proferiu exclamação alguma, nem agradeceu, nem se lançou a seus braços arrastada por um arrebatamento de prazer.

Talvez não tivesse entendido em toda sua complexidade a proposta que acabava de lhe fazer, ou talvez pensasse que ele era indiferente, ou não lhe importava de jeito nenhum a atração que sentia por ele. Assim tentou esclarecer as coisas.

—Também sentimos desejo um pelo outro. Nossa relação no leito matrimonial será muito satisfatória.

Charlotte finalmente respondeu. O sangue pintou suas faces e baixou a cabeça como um camelo disposto a receber sua carga.

—Senhor... - Falou muito devagar, com a intenção de remarcar o que queria dizer. - Não necessito de um marido.

Ele deixou escapar uma gargalhada.

—Não seja absurda.

A aba de seu chapéu começou a tremer, e o tremor se transmitiu a seus braços e os dedos de suas mãos.

Alarmado, Wynter tentou agarrar suas duas mãos para acalmá-la.

Com um enraivecido movimento pior que qualquer dos que já vira em Leila, Charlotte afastou suas mãos. Marcando as sílabas ao falar, disse:

—Já ouvi esse discurso antes. - Tomou ar. - Já me disseram antes que era muito apta, que possuía uma educação deliciosa, que era virtuosa e que, portanto, merecia o privilégio de me casar com um bom partido apesar de ser pobre, tendo assim a oportunidade de expressar minha gratidão e minha absoluta devoção pelo homem em questão até o fim de meus dias.

Suas palavras levaram Wynter a compreender que não se expressou corretamente.

—Espero que...

—Me importa bem pouco o que você espere. - Nem elevou a voz nem falou de um modo violento, embora seguia tremendo como se as emoções surgissem de seu interior como a lava de um vulcão.

—Quando estava com dezessete anos, era uma jovenzinha obediente que fazia tudo o que ordenavam, embora isso significasse não ser outra coisa que o receptáculo vazio que um homem pudesse chamar esposa. Mas alterei meu destino.

—Seu olhar era puro gelo. - Não pode me enganar, senhor. Sei que sabe tudo. Quem quer que lhe tenha contado minha história não deixou no tinteiro a melhor parte.

Wynter tentou manifestar sua mais sincera empatia para, desse modo, acalmá-la um pouco.

—Sua história por completo me parece trágica.

Ela considerou sua empatia como um insulto.

—A parte a que me refiro não o é. - Deixou de tremer. - Esta parte é um triunfo, por que... eu... parti. Deixei a casa de meu tio levando só uma bolsa e um bilhete de transporte público para Londres.

Wynter fez uma careta de dor. Pensar em Charlotte aos dezessete anos, sozinha, montada em um carro a caminho da cidade, era uma imagem que o aterrorizava.

Apesar de saber que sua história acabava bem - ou acabaria, sempre e quando aceitasse sua proposição, - desejava protegê-la do medo e da solidão que sofrera. Assim se cifrava a influência que ela exercia nele.

—Fui a casa de uma conhecida - disse, - uma plebeia que desejava acima de qualquer outra coisa que seu filho entrasse para formar parte da alta sociedade. Me contratou.

Me contratou pelo mesmo motivo pelo qual sou a mulher adequada com a que contrair casamento. Quando soube de minha história de rebelião, seu filho estava já bem encaminhado para a aceitação social e me permitiu acabar o trabalho.

O nó que Wynter sentia na boca do estômago se afrouxou um pouco.

—Foi amável com você?

—Era uma mulher desprezível que me pagou menos do que o combinado aludindo ao escândalo de meu passado.

Desejara que Charlotte lhe contasse sua história, que compartilhasse com ele o trauma de suas experiências passadas para poder lhe demonstrar sua tolerância.

Entretanto, por alguma razão que ainda não podia entender, ela não estava respondendo com a relaxação própria de sua onipresente cautela.

Quando Barákah lhe falou das mulheres já o advertira disso. Disse-lhe que às vezes as mulheres não chegam a entender que os interesses de seus maridos se centram basicamente em seu próprio coração.

Wynter nunca experimentara pessoalmente algo assim, portanto o tomara como uma espécie de mito. Agora teve que se desculpar mentalmente com Barákah, que sem dúvida devia estar sentado à direita de Alá e rindo nesse momento da ingenuidade de Wynter.

—Me aflige que sua situação não fosse naquele tempo a ideal, e ainda me aflige que sua situação a siga fazendo infeliz.

—Não sou infeliz - respondeu com frieza. Ele ignorou sua resposta.

—Mas eu sou um homem. Você é uma mulher, e tem que confiar em mim se lhe disser que sei o que mais lhe convém.

Charlotte começou a tremer outra vez.

—Você se casará comigo. Isso é o mais adequado.

—Não passarei pelo altar embora isso signifique segurança e aprovação por parte da sociedade que antigamente me rechaçou. - Sua veemência resultava mais chamativa precisamente por sua contenção. - Levo nove anos sozinha, senhor.

E só estarei até o dia em que morra.

Ele estudou com atenção seu rosto.

—Está me rechaçando?

—Não o estou rechaçando, senhor, estou fazendo patente minha indiferença.

Wynter permitiu que ela colocasse a mão no pomo da portinhola e que a abrisse. Tinham colocado o degrau sob a mesma e ela o utilizou para descer ao mesmo tempo que um criado se aproximava para ajudá-la.

Winter a esperou descer ao chão antes de lhe dizer:

—Apesar de sua indignação e sua... né indiferença, lady senhorita Charlotte, estou convencido que você esta apaixonada por mim.

Ela se voltou para ele, mas ele não pôde lhe ver os olhos por debaixo da aba do chapéu.

—Temo, lorde Ruskin, que você não sabe o que é o amor.

 

O amar. Charlotte desceu da carruagem e se encaminhou para os limites da propriedade. Para o carvalho que havia no prado. Ou para a cerca do jardim formal.

Ou para o jardim americano, embora o Atlântico representasse certa provocação para uma mulher de sua estatura.

Sim, deveria ter se dirigido ao quarto de jogos, ir em busca dos meninos e se comportar-tal como precisava fazer uma instrutora, fingindo que nada aconteceu.

De fato, não aconteceu nada.

Se preparou mentalmente para que Wynter a decepcionasse. Agora o estava. Sua fascinação por ele passou à história. Começaria a se comportar como se aquele leve interlúdio entre ambos jamais tivesse acontecido.

O amar. Como se ela pudesse amar a um homem como ele. Um homem que abandonara sua mãe, seu país e seus costumes. Quem se acreditava que era, uma espécie de pacha, um ser superior que não tivesse por que respeitar as mais elementares normas éticas?

Ela não poderia amar um homem como ele. Caminhava, sem se dar conta, balançando os braços e colocando um pé atrás do outro com excessiva firmeza. Se a natureza pudesse captar seu estado de ânimo, aqueles movimentos teriam feito a terra tremer.

Por todos os Santos, por que contara ao Wynter sua vida com todos os detalhes e com semelhante paixão? Sabia perfeitamente como precisava contar sua história: com um tom seco, como se o passado já não lhe doesse mais e não a preocupasse absolutamente viver longe do lugar onde crescera.

Fingindo indiferença ao menos poderia ter salvado seu orgulho. Mas agora já não ficava nem isso. E Wynter acreditava que estava apaixonada por ele!

Quando rechaçou a primeira proposta que lhe fizeram, ao menos seu pretendente não a acusou de estar apaixonada por ele. De fato, a teria surpreendido e inclusive teria se ofendido ante semelhante emoção.

E isso que ela jamais poderia ter se apaixonado por ele. Inclusive embora a tivesse cortejado, ela era naquela época o bastante inteligente para saber que aquele cortejo estava motivado unicamente por um evidente sentido do oportunismo.

O amar. O infeliz de Wynter acreditava que estava apaixonada por ele. Provavelmente tinha proposto casamento com a intenção de saltar a cerimônia e passar diretamente à consumação sexual.

Mas Charlotte não era uma ingênua qualquer. Não, era o bastante velha e o bastante chicoteada para não cair em semelhante artimanha.

—Senhorita Dalrumple? - o moço de estábulo a chamou ao passar junto aos estábulos. Se deteve contra sua vontade.

—Sim, Fletcher?

—Tenho que falar com você.

Ela não queria falar com ele.

Não queria falar com ninguém, e muito menos com alguém do gênero masculino, mas Fletcher era um homem de poucas palavras e poucas perguntas, assim quando ele falava com alguém era porque tinha alguma razão de peso para fazê-lo.

—Posso ajudar em algo? - perguntou a instrutora.

—Sou eu o quem deseja ajudá-la. - O moço do estábulo assinalou para a cerca que rodeava os estábulos com seu cachimbo apagado. - Sabia que a menina esteve montando a uma das éguas jovens?

—A que menina se refere? - Charlotte estava aniquilada. - Não se referirá a... lady Leila?

—A própria.

—Isso não... não pode ser. - Charlotte caminhou para o prado. A égua da que falava não era um pônei, a não ser um animal de quase dois metros de altura com o caráter fogoso de uma égua jovem. - Quando?

Fletcher levava muitos anos trabalhando ali e sabia que Charlotte não estava expressando autêntica incredulidade a não ser simples consternação. Com a calma própria com a que falava com os cavalos, disse:

—Sabia que alguém esteve montando Bethia. Encontrei provas. Mas não sabia de quem se tratava. Um dos moços me disse que vira um pequeno duende revoando daqui para lá com as asas desdobradas.

—Grande insensatez! - Leila não era um pequeno duende, e durante uns segundos Charlotte se deixou levar pelo mau humor. Talvez o moço do estábulo estivesse equivocado.

—Assim é. Nem os duendes nem os fantasmas montam a cavalo, que eu saiba. Então me mantive alerta. - Fletcher levou o cachimbo à boca e chupou como se estivesse aceso.

—Está seguro que era Leila?

—Uma menina magra, de metro vinte de altura, bem formada e com uma longa cabeleira. Sim, era ela.

Charlotte colocou sua mão sobre o peito; seu coração pulsava a toda velocidade. E se Leila tivesse sofrido um acidente enquanto montava e ninguém tivesse sabido onde se encontrava?

O mero fato de pensar na menina deitada no chão, indefesa, inconsciente ou chorando de dor, a fez se apoiar contra a cerca branca.

Fletcher não afastou os olhos dela enquanto se recuperava.

—Monta depois do jantar, quando você deixa os meninos a cargo da babá. Grania merece uma boa reprimenda.

—Suponho que sim. - Charlotte entrecerrou os olhos e olhou fixamente o moço do estábulo. - Com certeza, você deteve Leila, não foi?

Fletcher soprou.

—Não. Me neguei a deter aquela garotinha, montava sem cela nem rédeas. Jamais vira uma menina montar desse modo, senhora. Jamais vira uma pirralha montar em um cavalo como esse. Vê-la foi um presente e toda uma inspiração para este velho.

—Golpeou a cerca com o cachimbo. - O que acontece é que acreditei que você precisava saber disso.

—Sim - disse Charlotte com um fio de voz. - Obrigado. se esqueceu do passeio e se encaminhou de retorno à casa. Precisava falar com Leila imediatamente. Precisava fazê-la entender o perigo que corria montando a cavalo.

Charlotte colocou a mão sobre sua testa. Era culpa dela. Charlotte não cumprira o que prometeu no primeiro dia, quando chegou e lhe disse que a ensinaria a montar ao estilo amazona.

Não teve em conta o amor que aquela menina sentia pelos cavalos, e Leila se limitou a tomar as rédeas do assunto.

E mais, Charlotte esteve bastante despistada ultimamente, se deixando levar por todo tipo de pensamentos românticos.

Pouco importava que dar aula aos meninos durante o dia e a Wynter durante a noite a obrigasse a dormir menos horas do que as aconselháveis.

Pagavam a ela, e pagavam bem, para que cumprisse com ambos os deveres até a recepção seremínia. Entendia à perfeição que Leila queria chamar a atenção. A pobre menina sentia falta de seu lar e tentava recuperar de algum modo a vida que deixara atrás.

Charlotte entendia, e também entendia sua postura. Todo o resto na vida de Charlotte não era mais que fumaça e distração.

Assim que entrou na casa, Charlotte se dirigiu ao quarto de jogos. Encontrou Robbie limpando suas botas manchadas de lama sobre o chão.

—Alto, Robbie - disse de forma mecânica. - Leva essas botas abaixo para que algum dos criados limpe isso.

Leila tinha entre seus braços o cavalo de madeira que Charlotte presenteara e o olhava como se nesse preciso instante estivesse rememorando um de seus rodeios noturnos.

Não viu Grania por nenhuma parte. Cabeças iam rolar.

Apanhada entre o desejo de abraçar Leila e o desejo de repreendê-la, Charlotte se acocorou a seu lado antes de decidir o que fazer. Leila a olhou interrogativamente, e Charlotte perguntou:

—Carinho, podemos falar um momentinho?

—Está metida em uma confusão - murmurou seu irmão. Charlotte o ignorou tentando que Leila se sentisse o mais cômoda possível.

—Nos sentamos no banco?

Leila se sentou justo no lugar onde se encontrava, sobre o duro chão.

Ao que parece, seguia incômoda com Charlotte.

—Bom, este lugar também está bem. - Charlotte se sentou junto à Leila, sem parar para pensar no incômodo que lhe resultava o espartilho, e passou o braço em Leila por cima dos ombros. - Eu gostaria de montar a cavalo com você.

Leila lhe dedicou um de seus escrutinadores e *suspicazes olhares de olhos escuros.

—Por quê?

—Disse que você gostava de montar a cavalo e quero te ensinar.

Leila contemplou seu cavalo de madeira e depois a sua séria instrutora.

—Não necessito que me ensinem, já sei montar.

Robbie deslizou pelo chão até chegar a seu lado.

—Vai ensinar te a montar ao estilo inglês, tola.

—Não é tola - Charlotte o repreendeu. Mas ato seguido, se dando conta de que fora um pouco brusca, tocou o braço de Robbie. - É tão inteligente que qualquer um se dá conta imediatamente que é sua irmã.

Robbie não soube como interpretar aquelas palavras e demorou um momento em decidir se eram uma adulação ou um insulto. Satisfeita de fazê-lo calar durante uns segundos, Charlotte disse com tom persuasivo:

—Quando aprender a montar ao estilo amazona, Leila, poderemos montar juntas.

Leila deu de ombros.

Ao comprovar o desinteresse da menina, Charlotte veio um pouco abaixo. Falhara com Leila e já não a interessava montar com sua instrutora.

—Todas as manhãs.

Leila entrecerrou os olhos.

—Quando seu pai estiver em casa poderia montar com ele.

—Papai não monta ao estilo amazona - replicou Leila.

—Mas poderia fazê-lo se quisesse - disse Robbie. Agradecida por aquela inesperada ajuda, Charlotte acrescentou:

—Não sei se poderia fazê-lo ou não. Os meninos sempre montam ao estilo fácil.

Leila encolheu os joelhos e se abraçou a eles.

—Posso me pôr de pé?

—Agora? - Surpreendida, Charlotte lançou uma olhada ao quarto de jogos.

—Não, sobre o cavalo!

Charlotte empalideceu.

—Para que quereria fazer algo assim?

—Sempre o fazemos - disse Robbie entusiasmado. - Nos pomos de pé, e também a um lado, e praticamos o tiro entre as patas do cavalo.

—Robbie estava fanfarronando e, durante uns segundos, Charlotte recordou tanto a seu pai que teve que piscar para tirar a imagem da cabeça. - Tenho muito boa pontaria.

—Eu também - exclamou Leila.

—Uma dama sempre tem que falar com o tom... - Charlotte deixou a frase pela metade. Como ia dizer a uma menina que não elevasse a voz quando esteve se preparando para lutar no deserto?

—Armas? Disparavam com armas de fogo? Devido a seu malicioso sorriso, resultava óbvio que Robbie percebia a consternação de Charlotte, daí que pretendesse desfrutar o máximo possível do assunto.

—Papai sabe disparar com arco e flechas, mas não me ensinou.

Charlotte não podia - ou não queria - compreender o que os meninos estavam dizendo.

—Seu pai os deixava disparar armas de fogo enquanto cavalgavam ao lado do cavalo?

Leila olhou para Robbie e Charlotte foi testemunha da comunicação silenciosa que se produziu entre eles.

—Papai nos fazia praticar com o rifle antes de nos deixar montar com ele. - Leila fez uma pausa dramática. - Temia que feríssemos os cavalos.

Charlotte ficou em pé e começou a andar pelo quarto.

—Isso é pior do que pensava.

Os meninos se puseram a rir. Ela os olhou com severidade.

—Estão zombando de mim?

—Não, lady senhorita Charlotte - responderam ao uníssono.

—Terei que falar com seu pai. - Sabia que ia ter que falar com ele de qualquer modo. Precisava lhe informar sobre seu fracasso com a educação da menina e sobre suas escapadas aos estábulos.

Mas agora... agora Precisava encontrar o modo de rodear sua garganta com as mãos, o mais amavelmente possível, e lhe perguntar o que esteve fazendo com seus filhos, ensinando a meninos tão pequenos a disparar e a montar como ciganos.

Esperava não ter que vê-lo até que tivesse passado um tempo prudencial da pequena cena na carruagem, mas não era tão pusilânime para atrasar o que precisava fazer por medo de perder a compostura.

—Aonde vai? - perguntou Robbie.

—Vou falar com a senhorita Symes para que lhes envie uma babá que entenda quais são seus deveres.

Leila franziu o cenho. Charlotte se acocorou junto à menina.

—Leila, quero que me dê sua palavra que não montará a cavalo sozinha.

—Eu disse que a pegariam - disse Robbie. Leila deu de ombros.

—Leila, por favor. - Charlotte passou a mão pelo cabelo da menina e depois acariciou o queixo dela. - Te amo, e me preocuparia que voltasse a montar a cavalo sem estar acompanhada.

—Não me passou nada. - Leila permitiu que Charlotte elevasse seu queixo. - De verdade me ama?

Charlotte observou fixamente aquele pequeno rosto.

—Muito.

OH, Deus, o fizera. Quebrara a primeira regra de uma instrutora. Chegara a amar a seus tutelados como se fossem seus próprios filhos. Mas como chegara a algo assim? Sem se dar conta, aqueles pequeninos já conseguiram abrir caminho até seu coração.

Se Wynter fosse um pouco mais perspicaz, se realmente desejasse alterar Charlotte, teria que tê-la acusado de amar a seus filhos. Não era Wynter o que tinha seu coração em um punho até inclusive criar ansiedade. Eram seus filhos, é obvio.

Abriu os braços e os manteve assim durante um momento... esperando.

Leila foi a primeira em se lançar aos braços de Charlotte, e se agarrou a ela como se se tratasse de uma planta trepadeira.

—Eu também a amo, lady senhorita Charlotte.

Robbie foi o seguinte, e a abraçou com tanta força que inclusive lhe fez mal.

—A amo muito, lady senhorita Charlotte.

Os meninos ofereceram suas faces e ela as beijou e os abraçou com força e também aceitou seus sonoros beijos. Se separou de seu abraço com lágrimas de ternura nos olhos e com a dolorosa esperança de não ter atuado mal declarando seus sentimentos.

Depois de tudo, a uma instrutora podia se substituir com extrema facilidade, sobretudo se fazia zangar à pessoa que as contratara.

Mas lady Ruskin lhe prometera mantê-la em seu posto durante os anos que durasse a formação dos meninos, e Charlotte não hesitaria em recordar isso a ela. Charlotte ia lutar por aqueles meninos.

Leila tocou com a ponta do dedo as lágrimas que desciam pela face de Charlotte.

—Você não é feliz?

—Sou muito feliz. Mais feliz do que fui em muitos anos. - Charlotte sorriu para eles e ficou em pé. - Alegram meu coração.

—Vai ver papai? - perguntou Robbie.

—É obvio. - Não lhe resultaria difícil, pois não estava apaixonada por ele. - Assim que encontre sua babá.

 

Assim que escolheu uma nova babá e repreendeu Grania, Charlotte encarou o corredor que levava ao velho quarto de jogo dos meninos.

Não é que a iludisse precisamente a ideia de ver Wynter, mas para fazê-la fraquejar era necessário algo mais que uma proposta de casamento ou a infundada acusação que estava apaixonada por ele.

Sua consternação não foi mais que um instintivo mecanismo de defesa ante outra insensível e indesejada proposta.

A porta estava aberta. Do corredor, Charlotte jogou uma olhada ao interior da sala ao mesmo tempo que arrumava o vestido e estirava as costas. Dignidade. Graça. Equanimidade. Essas eram as chaves para tratar com Wynter.

E mais, esses eram os três pilares básicos de seu caráter por completo.

Deu um passo para o interior e não demorou para descobrir que o quarto estava vazio. A radiante luz do sol que entrava pela janela ricocheteava contra o chão de madeira e as velhas tapeçarias.

O tapete, as almofadas e a mesa se amontoavam frente à lareira apagada. Charlotte disse a si mesma que as sombras da noite e a luz do fogo outorgavam a aquela sala muito sóbria uma atmosfera misteriosa.

A magia que experimentara ali não foi mais que um truque de nigromancia[8].

—Lorde Ruskin? - perguntou em direção à porta entreaberta que havia ao fundo do quarto.

Não respondeu ninguém, o qual a aliviou. Se não conseguia encontrá-lo, não teria que o enfrentar justo nesse momento a uma cena que bem poderia resultar bastante desagradável.

Ou para ser exato, enfrentar à continuação de uma cena que já fora desagradável.

Afastou de sua mente os pensamentos incômodos. Dignidade, graça e equanimidade, disse a si mesma. Só precisava recordar essas qualidades para que o transtorno mental de Wynter não a incomodasse.

—Lady senhorita Charlotte? - Sua voz a fez se deter. Estava sob o marco da porta, e vestia seu costumeiro vestuário: calças, camisa sem gola... e ia descalço. Também estava ornamentado nesse momento da mais execrável e encantada de suas expressões.

—Não a esperava tão cedo.

Inclusive sem chegar a saber a que se referia exatamente, seus pelos se arrepiaram.

—Me esperava? Por que motivo me esperava?

Ele deixou escapar uma gargalhada indulgente.

—Já mudou de opinião? Vai aceitar minha proposição e será minha adorada esposa até o fim de nossos dias?

Dignidade? Graça? Possivelmente. Mas lhe falhou a equanimidade. Queria gritar a ele, desejava saber por que acreditava que ela era uma pessoa tão rasteira para necessitar a um homem como ele.

—Não.

—Ah, então tem alguma outra desculpa.

—Suponho que poderia chamá-lo desculpa, senhor, se você acredita que o fato de que sua filha monte a cavalo só não tem importância.

O sorriso de suficiência desapareceu do rosto de Wynter. Franziu o cenho. Charlotte observou, com evidente satisfação, que seu rosto acabava de se converter no de um homem ofendido. Bem. Um dos dois estava sempre alterado quando estavam juntos.

Agora tocava o turno a ele.

Wynter se fez a um lado e fez um gesto para que ela passasse.

—Passe. Vamos.

Ela caminhou para ele, aniquilada pela falta de tato com a que recebera as notícias e, ao mesmo tempo, encantada pelo fato de o ter feito perder a compostura e o obrigar a descer ao nível do resto dos mortais.

Ao passar a seu lado, ele colocou a palma da mão na parte baixa de suas costas e a empurrou ligeiramente para frente.

Ao contrário do quarto dos jogos, aquele quarto era pequeno, menor inclusive que seu dormitório, e não demorou a compreender que devia ter sido a sala atribuída à babá de Wynter durante sua infância.

Os típicos adornos que ele tanto detestava foram retirados, mas um grande tapete cobria a maior parte do chão, confeccionado em cor ouro, esmeralda e vermelho brilhante. Havia umas quantas mesinhas baixas, algumas cobertas com pilhas de papéis.

Tal como ele preferia, abundavam as almofadas em tons avermelhados e verdes. Sob as janelas havia um colchão de plumas colocado diretamente sobre o chão sob um mosquiteiro que pendurava do teto.

Suspeitara, mas agora estava completamente segura: se tratava do dormitório de Wynter.

Ele fechou a porta assim que ela entrou. Se voltou para ele como se impulsionada por uma mola, mas ele apontou para o nariz com a ponta de seu dedo.

—Não se queixe, lady senhorita Charlotte. Se você está disposta a me dar más notícias, terá que assumir as consequências.

Ela não era o tipo de mulher que se arredava quando a ameaçavam. Pelo contrário, entrecerrou os olhos e dedicou a ele uma daquelas olhadas que acovardavam aos adolescentes.

—A que consequências se refere, senhor?

—Terá que me explicar por que permitiu a Leila montar a cavalo sem supervisão!

Seus joelhos falharam. Com a intenção que ele não apreciasse sua fraqueza se sentou de maneira aparentemente fortuita sobre uma pilha de almofadas.

—Ninguém lhe deu permissão, senhor. Ao não cumprir mi... minha promessa de a ensinar a montar ao estilo amazona, quis fazer as coisas a sua maneira. Escapou ao estábulo e montou sem selar o cavalo nem lhe pôr rédeas.

—Esqueceu imediatamente o inapropriado de sua própria situação ao voltar a imaginar Leila, sozinha, sobre uma égua com tanta força que muitos homens não seriam capazes de dominá-la. Se tivesse sofrido um acidente...

—Deus do céu, e montada como um "afreet". - Olhou para Charlotte. - Como um demônio - esclareceu. Ele também se sentou no chão.

—A ensinei a montar como o faz as pessoas do deserto, e apesar de que me orgulha sua coragem, os truques que utilizam que montar sozinha se converta no pesadelo de qualquer pai.

Depois de ter ouvido falar com os meninos de suas arriscadas proezas, quase temera que Wynter se mofasse de suas preocupações, mas ao que parece também o assaltavam os mesmos pesadelos em relação à menina.

Se sentiu estranhamente reconfortada, e inclusive tentou consolá-lo.

—Não se fez mal algum, e pedi a ela que não volte a montar até que eu possa acompanhá-la. Mas não quero voltar a ofendê-la e pensei começar a ensiná-la a montar ao estilo amazona amanhã.

Ele se acocorou e colocou uma mão sobre sua testa.

—Não livrei a minha filha de se casar com um fedorento "caca" de camelo para que um cavalo inglês a mate.

—Assumo a responsabilidade, senhor. Teria que ter me assegurado que a babá estava com eles todo o tempo... - se deteve, completamente atônita. - O que quer dizer com que a livrou que se casar com... o que suponho que era um homem?

—Hamal Siham. - Pronunciou aquelas duas palavras com tanto asco que Charlotte inclusive se retirou um pouco para trás. - O filho de cadela que se converteu no líder da tribo depois da morte de Barakah, meu reverenciado pai beduíno.

Hamal era pouco mais que um excremento de coelho. Se derrubava em sua própria estupidez, e se eu não tivesse levado a bom porto às pessoas da tribo, sem dúvida teriam perecido afogados pela areia.

—O tal Hamal Siham... era mais jovem que você?

Wynter cruzou os braços sobre seu colo.

—Muito mais jovem.

O fato de ter sido a instrutora de moços imaturos durante um bom punhado de anos a tinha levado a adquirir certa experiência sobre o modo em que funcionavam seus cérebros.

—Você o humilhou.

O acento de Wynter se fez mais marcado, e o tom sarcástico de sua voz voltou a fazer ato de presença.

—Qual é a educada maneira que você, Dona Afetada, teria me proposto para que dissesse a aquele incompetente que quase matara a uma centena de meus mais queridos amigos?

—Nenhuma, senhor. Teria sido inútil.

Wynter baixou a voz até convertê-la em pouco menos que um sussurro.

—Está zombando de mim?

Ela respondeu com a mesma tranquilidade e com uma elevada dose de tato, pois estava convencida que Wynter estava a ponto de transpassar a linha da selvageria.

—Não, senhor. É impossível adestrar a um jovem ao que se entregou um poder excessivo e inadequado. Sempre falará com imerecida autoridade e se acreditará invencível, e pobre daquele que ouse se rebelar.

Wynter a observava com cautela.

—Você salvou a sua gente. O odiava por isso... e mesmo assim quis se casar com Leila? - Pronunciou aquela pergunta com um nó na garganta.

—Aquela escória humana se atreveu a me pedir a mão de minha filha como sinal de boa vontade, para que se casasse com ele assim que tivesse lugar sua primeira menstruação.

A consternação ante o que estava escutando superou em muito o desconforto que sentia assim como sua sóbria formalidade, pois lhe disse:

—OH, Wynter.

Imediatamente, desejou que ele não percebesse a familiaridade, e rogou para que não voltasse a mencionar a menstruação, pois não tinha o ânimo para discutir dessas questões com ele.

Ao que parecia, ele não deu importância ao fato que o chamasse por seu nome.

—Naquela época, já possuía duas esposas.

Semelhante confissão a deixou sem fala.

—Sabia que precisava retornar a meu lar. Minha mãe me necessitava. Teria que ter voltado antes, mas pensei que para os meninos seria melhor crescer ao ar livre, sem se verem submetidos a tortuosas restrições.

Mas Hamal me obrigou a escolher... pelo bem de Leila. - Wynter olhou para um ponto inconcreto por cima do ombro de Charlotte e falou como se o fizesse para si mesmo. - Jamais teria submetido minha filha a semelhante cultura.

Para mim, para Robbie, a vida no deserto oferecia uma liberdade limitada. Mas para Leila, inclusive montar ao estilo amazona é uma opção mais aceitável.

Charlotte não sabia até então as verdadeiras razões de sua volta, não pôde imaginar o sacrifício que realizara por sua filha. Mesmo assim, não queria insistir no tema; não tinha nenhuma necessidade de admirar sua pretensiosa vaidade.

—Espero que consiga fazer Leila entender que montar ao estilo amazona é a opção mais aceitável.

Wynter voltou a se centrar no presente e lhe dedicou um olhar que evidenciava mordacidade.

—Isso não vai ser possível. Leila é uma menina sensível. Ela entende, e com muito tino, que montar ao estilo amazona é um método ineficaz e desequilibrado de montar a cavalo.

Discutir sobre essa questão teria resultado inútil. Em vez disso, Charlotte centrou sua atenção no óbvio.

—Talvez seja assim, mas é o único modo em que se permite uma mulher montar a cavalo na Inglaterra.

Quase pôde apreciar como preparava algum tipo de adulação.

—Não posso acreditar que uma mulher sensível como você se submeta a semelhante tortura.

As mulheres teriam que se esforçar por conseguir essa cota de liberdade e cavalgar como Deus nos deu a possibilidade de fazê-lo: com uma perna a cada lado do cavalo.

Charlotte se negou a discutir com ele.

—Talvez, senhor, mas esse dia ainda não chegou, e além disso eu não pertenço a esse grupo de mulheres. Recorde a discussão que mantivemos esta manhã: sou uma mulher desgraçada e marginalizada.

Como o seria sua filha se a vissem cavalgar como um homem.

—Recordou a conversação com a menina e não demorou para acrescentar: - E tampouco tem que ficar de pé no lombo de seu cavalo! Isso seria muito aventuroso.

—Ora! - Agarrou as abas de sua camisa e as abriu. - Você não tem coragem.

Estava sozinha no dormitório de um homem... que estava se despindo. Poderia ter dito que tinha muito mais coragem, ou que era muito mais insensata, pelo que ele acreditava.

Os ombros de Wynter se balançavam ao caminhar, suas costelas se marcavam ligeiramente no torso, e o pelo dourado descia por seu ventre até se ocultar sob a cintura da calça.

Charlotte notou que tinha a boca seca, e de repente o quarto lhe pareceu minúsculo. Colocou os pés debaixo de seu corpo e se dispôs a ficar em pé.

—O deixarei para que leve a cabo suas abluções, senhor.

—Abluções? - A olhou irritado, aparentemente ignorante de sua semi-nudez. - Inclusive eu, um consumado bárbaro segundo sua opinião, sei à perfeição que não é absolutamente aceitável se lavar na presença de ninguém. - Se inclinou para ela.

—Mas quando me casar poderei me lavar diante de você.

Ela se retirou para trás e o olhou confundida. Mas imediatamente compreendeu o que acontecia.

—Temo que me interpretou mal, senhor. Abluções não é... - Ele a observou com ansiosa espera, e Charlotte se sentiu ainda mais confundida. Estava zombando dela? Teve um dia muito difícil para ter que lutar com assuntos íntimos.

—Então estamos de acordo. Amanhã começarei a ensinar Leila a montar.

A careta de Wynter tanto podia manifestar decepção como desacordo.

—Eu não disse que estávamos de acordo. Confio em você para a educação de minha filha, mas não para que a ensine a montar. Amanhã, em primeiro lugar, comprovarei suas habilidades sobre o cavalo.

Ela não tinha intenção alguma de lhe seguir a corrente. Desde que partira de Porterbridge Manor só montara de vez em quando, e aborrecia a ideia de que Wynter tivesse que julgar se era ou não competente.

Embora entendesse que seu receio estava justificado e que, por outra parte, não restava outra opção mais que aceitar. Ficou em pé com todo o gracejo de que pôde lançar levando em conta o desequilíbrio que sentia.

—E agora o deixo com seus... Agora vou deixá-lo.

Ele também ficou em pé e agarrou as calças com as mãos.

—Não. - Charlotte elevou a mão como se pretendesse se proteger dele. - Não o faça enquanto eu esteja no quarto!

Dado o modo em que ele sorriu, ela apagou mentalmente qualquer rastro de ingenuidade que tivesse podido atribuir a Wynter. A agarrou pelo pulso e disse:

—Você é muito tímida, lady senhorita Charlotte.

—Sou uma mulher formal. - Tentou liberar seu pulso.

—Alto. Se machucará. - Levou a mão da instrutora para seu peito e apoiou a palma sobre os bicos do mamilo masculinos.

—Por que os homens culpam sempre às mulheres quando resistem a ser forçadas?

—É a natureza dos homens.

O fato de que o admitisse com tanta tranquilidade a surpreendeu, mas não a levou a entender de um modo diferente suas ações. Ele manteve a mão da instrutora apoiada em seu peito e começou a riscar pequenos círculos com ela.

Ela, por sua parte, conteve o fôlego e não deixou de o olhar aos olhos. Wynter sorriu em um princípio, mas o movimento não cessava e o sorriso acabou desaparecendo para ser substituído por uma expressão espectadora.

Entrecerrou os olhos, alargou as janelas do nariz e separou ligeiramente os lábios.

Ela sentiu o roce do pelo do peito e os bicos do mamilo, suaves e relaxados em um princípio, se endureceram sob o estímulo. Ao notá-lo, ao ser consciente por completo das sensações físicas, se deu conta que já não podia seguir o olhando ao rosto.

Ela também notou a reação de seu próprio corpo. Não podia entender. Não gostou absolutamente. Mas seus mamilos também se endureceram e começaram a roçar contra a regata, apontando para Wynter como se pretendessem chamar a atenção.

Vestia todas as roupas adequadas para proteger sua intimidade. Mesmo assim teve a desagradável percepção que ele sabia o que lhe estava passando, e também a desagradável percepção do prazer.

Os truques do nigromante não eram tão insubstanciais, depois de tudo.

Podia escutar sua respiração, um roce áspero rompendo o silêncio.

Com sua mão livre, Wynter cobriu um dos seios de Charlotte sem chegar a tocá-lo. O calor que irradiava se fazia notar igualmente. Moveu o polegar. Ela aguentou a respiração.

Mas não o roçou, se limitou a desenhar um círculo com o polegar, e ela fez uma ideia bastante clara de como seria sentir seu roce. Uma ideia. Mas desejava senti-lo de verdade.

Precisava pôr fim aquela loucura antes de ir muito longe.

—Lorde Ruskin, seu comportamento não é absolutamente aceitável.

—Pois não me importou de forma alguma que me tocasse.

Charlotte entrecerrou os olhos com decisão.

—Talvez sim teria importado se o tivesse feito voluntariamente.

Soltou-lhe a mão.

—Faça-o voluntariamente.

Sentiu o forte impulso de esbofeteá-lo. Ele foi consciente desse impulso. E bem sabia Deus que o merecera. Mas inclusive apesar de saber que poderia fazê-lo não pôde convencer a si mesma.

Disse a si mesma que levava toda sua vida se guiando por princípios cívicos para se permitir semelhante arrebato de violência. Não se incomodou em analisar outro tipo de motivações.

—Charlotte? - Seu acento era agora sedutor e suave como a seda. Deixou cair sua própria mão, a que manteve no seio, para um lado. - Você segue me tocando.

A mão de Charlotte seguia no peito de Wynter. A retirou de repente e a recolheu com sua outra mão. Queria elevar a vista, mas não se atrevia a olhá-lo diretamente. Aquele homem era uma besta odiosa e despótica.

Se pôs a andar a caminho de seu dormitório mas ele fez uso imediato de sua desvantagem.

Provavelmente ria com malícia, mas sua voz soou totalmente respeitosa, quase indiferente, quando perguntou:

—A que hora você quer montar a cavalo? "A que hora você quer montar a cavalo?" Por seu tom parecia como se nada de tudo aquilo tivesse acontecido.

—Marquei encontro com a professora de desenho amanhã pela manhã. - Teve que se deter e pigarrear. - Às onze seria uma boa hora. Parece bem para você?

—Estupendamente.

Tanto a cena que acabava de viver, como a que protagonizara essa mesma manhã precisavam ter sido fruto de uma ilusão. Pois se não fosse assim, como podia uma pessoa passar da paixão incipiente a mais pura indiferença em questão de segundos?

Talvez Wynter sim estivesse capacitado para fazê-lo. Possivelmente quando a pessoa possuía uma vasta experiência, a volta à vida normal resultava menos discordante.

Ela, em qualquer caso, seguia sem poder olhar aos olhos dele, pois não havia modo de ocultar seu desconcerto.

—Quero que saiba que falei com lady Ruskin antes de contratar a essa moça - disse.

—Que moça?

—A professora de desenho. Desenhar não é meu forte, então disse que teríamos que contratar a alguém com mais experiência no assunto.

Eu não gostaria que pensasse que sou incompetente pelo fato de não ser boa em desenho ou de ter certas dificuldades para ensinar Leila a ler.

—É obvio que não. - O comentário parecia ter lhe divertido.

O qual fez que fosse mais simples superar a inércia e elevar a cabeça. Além disso, tinha algo que dizer e ia dizer agora.

—Por outra parte, eu gostaria de responder à acusação que verteu sobre mim esta manhã na carruagem. - O olhou diretamente aos olhos e manteve o olhar. O olhar de Charlotte possuía um toque de ferocidade e de descaramento.

Se orgulhou de sua própria inteligência, apesar de saber que conseguira escapar somente porque ele o permitira. Se lhe dissesse... Mas não ia permitir que a intimidasse. O assunto era muito importante.

—E bem? - Wynter a animou a falar.

Acaso esperava uma declaração de fidelidade eterna? Aquele homem exsudava certeza, e isso lhe deu forças para dizer:

—Não estou apaixonada por você, mas sim amo de todo coração a seus filhos.

Wynter abriu muito os olhos. Depois moveu as mãos fazendo gestos que davam a entender sua absoluta surpresa.

—Eu adoro ouvir que você ama a meus filhos. De fato, para mim é um ponto essencial na relação com a que terá minha esposa.

Como podia o tiro ter lhe saído pela culatra desse modo?

—O que trato de lhe dizer, senhor, é que rechaço sua oferta, se pode denominar assim.

—Sei. - Assentiu. - Sei.

Pela segunda vez em um mesmo dia, se voltou e se afastou dele.

—Lady senhorita Charlotte, acredito que tenho algo que deseja.

Se voltou em um arrebatamento de fúria... e viu como ele estendia seus sapatos. Os agarrou de um golpe e partiu, disposta a evitar aquele homem na medida do possível a partir desse mesmo instante.

 

Wynter sabia que Charlotte teria evitado vê-lo se pudesse fazer isso, mas para ele se converteu em uma espécie de missão o fato de tê-la perto.

Nos estábulos, insistiu em ajudá-la a montar na sela, e enquanto deixava que apoiasse uma das botas em suas mãos, não afastou a vista da mulher que afirmava amar a seus filhos... e da que Wynter dizia que estava apaixonada por ele.

—Você tem uma maneira muito natural de sentar - Wynter disse a ela.

—Assim é - corroborou Fletcher golpeando o cachimbo contra a cerca. - Embora tema que está um pouco destreinada.

Charlotte avermelhou, e Wynter insinuou um sorriso. Segundo o que sabia dela, Charlotte era uma sabichona e odiava admitir que não era perita em alguma matéria.

Adorava esse detalhe de seu caráter; para falar a verdade, eram muitos os detalhes de seu caráter que adorava. Parecia totalmente preparada para o casamento, apesar que ela se empenhava em dizer que não queria se casar.

Teria que aprender a confiar nele; Wynter tinha muito claro o que era o melhor para ela. Fletcher elevou a vista ao céu.

—Bom dia para montar, senhor. O sol ameaça arder no céu, secará bem o prado.

Wynter também estudou o céu.

—Um bom dia - concordou. Charlotte não afastara a vista dele, o controlava com tanto afinco porque, conforme supunha Wynter, devia temer que suas mãos subissem pela bota até penetrar debaixo da saia. Assim Wynter lhe perguntou:

—Você não acha que faz muito bom dia, lady senhorita Charlotte?

—O que eu acredito é que será melhor que nos apressemos, lorde Ruskin, ou a aula de desenho terá acabado antes que estejamos de volta.

—Esse é um detalhe importante - acrescentou Wynter.

Charlotte não pôde dar um tom mais austero a sua voz ao dizer:

—Os meninos precisam seguir um horário estrito durante o dia, senhor.

—Estou totalmente de acordo - assinalou. A instrutora baixou a vista até fixá-la na mão que repousava em sua bota e esporeou o cavalo para que iniciasse a marcha.

Com um malicioso sorriso, Wynter se afastou para trás.

—Percorreremos o caminho principal, depois cortaremos pelas sebes a caminho do prado - disse.

Ela elevou a mão para indicar que o tinha ouvido e começou a percorrer o caminho.

—O que opina, Fletcher? - perguntou Wynter.

—Acredito que como você não tenha cuidado, senhor, você vai passar todo o tempo montando a essa potra - respondeu Fletcher.

Wynter deu palmadas no ombro do moço do estábulo.

—Esse era meu plano. - Montou a toda pressa sobre Mead e se pôs a galopar atrás de Charlotte.

Fletcher observou como Wynter se afastava e disse com a voz em grito:

—Tem muito boa mão com os cavalos, senhor, mas não tem nem ideia de mulheres. Quando o tiverem chutado o traseiro umas quantas vezes, estou seguro que você será um pouco mais humilde.

Em outra ocasião, Wynter teria rido ante o comentário de Fletcher, mas essa manhã se sentia invencível. Brilhava o sol, o ar era fresco e limpo e montava um cavalo brioso selado e com as rédeas em seu lugar.

Era o dia perfeito para confrontar a caça da mais precavida das presas.

Poderia ter alcançado Charlotte em um instante, mas preferiu manter um pouco a distância para observá-la sobre o cavalo. Sua falta de prática resultava evidente, mas mantinha bem o ritmo do galope e ia ganhando confiança à medida que avançava.

Mantinha as costas retas e agarrava as rédeas corretamente, controlando seus arreios sem necessidade de fazer uso da vara.

Era uma mulher forte, apesar de sua delicada aparência, e o velho vestido cinza de montar que vestia reafirmava sua figura mais do que Wynter teria desejado.

Ela se deteve no final do caminho para esperá-lo. Sem o olhar diretamente, perguntou com frieza:

—Tudo bem?

—Muito bem - respondeu.

Não se referia precisamente a sua forma de montar, e ao se precaver da expressão de Charlotte soube que ela também se deu conta do duplo sentido.

—Acredito que montar a cavalo é a coisa mais divertida que se pode fazer com a roupa posta - disse Wynter.

Charlotte lhe dedicou então um olhar que poderia ter derretido a qualquer homem sensível.

—Talvez fosse mais apropriado dizer que é a coisa mais divertida que se pode fazer com os sapatos postos.

Wynter riu sonoramente ante aquela amostra de indignação formal e girou para a direita para se enfiar no caminho que levava a Westford Village e dali a Londres. Ela o seguiu, se esforçando para cavalgar ao seu lado. Isso também fez Wynter rir.

Ela não tinha intenção de falar com ele, disso estava convencido. Mas se negava a cavalgar atrás dele, inclusive apesar que isso lhe desse a oportunidade de evitar sua odiosa companhia.

Ah, grande mulher!

Uma carruagem se aproximou e tiveram que ficar a um lado para deixá-la passar. Wynter franziu o cenho quando viu o brasão e Charlotte deixou escapar um suspiro de chateio.

O carro os deixou atrás... e se deteve.

Maldição. Que demônios Howard fazia ali? Vinha lhe pedir dinheiro emprestado? Ou saldar as notas promissórias de sua esposa?

Acaso teria trazido a bruxa de sua mulher consigo? Os comentários que ela fizera sobre Charlotte estavam marcados por um toque de rancor. Se devia a algo pessoal ou só à crueldade própria de uma mulher que desfrutava com as desgraças alheias?

A porta da carruagem se abriu e a cabeça de Howard apareceu.

—Ruskin - espetou. - Resulta muito curioso te encontrar aqui!

Wynter cavalgou muito devagar para onde se encontrava o homem que, tempo atrás, fora seu amigo e que agora desejava bem longe.

—Sim, curioso. Justo aqui, nos limites de minhas terras.

Howard deixou escapar uma gargalhada.

—Supus que cabia a possibilidade de te ver. Levo meus filhos de volta ao colégio.

—Você? - Wynter não conhecia o suficiente a aquele homem, mas lhe pareceu impróprio de Howard que se esforçasse por algo que não ia lhe comportar beneficio algum.

Entretanto, não demorou para ver as caras dos meninos apertados contra o vidro da portinhola, e Howard assentiu com o vigor necessário para limpar a menor das dúvidas.

—Sim, estudam no colégio Burinton, em Hampshire. - Captou o olhar de Charlotte e, o dirigindo a instrutora, disse calorosamente: - Grande sorte, Charlotte!

"Charlotte?" A chamava Charlotte, nem senhorita Dalrumple nem lady Charlotte?

—Senhor. - O tom de voz de Charlotte foi mais frio que o de Howard, mas ele não pareceu captar a diferença.

—Fazia anos que não a via - disse Howard.

—Nove anos, senhor.

Howard vestia uma camisa com gola engomada e laço de seda, uma jaqueta também de seda combinando, colete e calças negras e umas botas reluzentes. Um traje muito formal para uma viagem.

Howard repassou Charlotte com o olhar sem discrição alguma.

—Tem bom aspecto.

—Me encontro bem.

Intercambiaram aquelas frases de certa distância, pois Charlotte não se moveu do lugar. Apesar de não entender sempre os mesentérios da cortesia, Wynter supôs que o comportamento de Charlotte não respondia nesses instantes à boa educação.

Por que se comportava de um modo tão rude com lorde Howard?

Howard estava nervoso, como se não soubesse exatamente o que precisava fazer a seguir. Então uma das meninas disse de maneira bem audível:

—Pai, falta pouco?

Howard sorriu para o interior da carruagem, e em Wynter pareceu um sorriso genuinamente carinhoso.

—Não, carinho, mas não demoraremos para chegar. - Voltou a olhar para o exterior e perguntou: - Você gostaria de conhecer minhas filhas, Charlotte?

A instrutora jamais teria transladado sua hostilidade aos meninos. Fez que o cavalo avançasse para a carruagem.

—Isso seria estupendo, senhor.

—Absolutamente estupendo - disse Wynter entre dentes.

Howard não prestou atenção em Wynter. Só tinha olhos para Charlotte, e para as meninas que, atrás do guichê aberto, saudaram educadamente a Charlotte.

—Estas são minhas filhas. Lady Mary - disse Howard. - E lady Emily.

Wynter já não teve dúvida alguma que Howard estava encantado com suas filhas. O curioso foi que ao olhar para Charlotte apreciou a mesma sensação, embora com sutis diferenças.

Wynter não conseguia entender qual era a conexão entre a instrutora de seus filhos - sua futura esposa! - e aquele patético e fanfarrão apostador. Mas sabia que não gostaria absolutamente quando a descobrisse.

E Charlotte... tomou as mãos estendidas das duas meninas e lhes deu um suave apertão, se dirigindo a elas com amabilidade. Conversou com elas durante um momento, mas seu sorriso era tremulo e Wynter acreditou apreciar que os olhos dela umedecera.

—Suas filhas são encantadoras - Wynter disse a Howard.

Howard não podia afastar o olhar da cativante imagem que compunham Charlotte e as meninas.

—Não acredita que se parecem comigo, não é?

Wynter não sentia nenhuma vontade de responder, mas a educação que estava recebendo por parte de Charlotte surtia seus próprios efeitos. Ou talvez se devesse a que Wynter apreciou a dor que subjazia sob o elegante e formal aspecto exterior de Howard.

—Suas filhas devem estar cansadas. Necessitam um descanso. As leve a casa para que tomem um refresco. Minha filha e meu filho estão em aula agora. Seguro que os agradará que os interrompam.

—Todo um detalhe por sua parte, Ruskin.

A Wynter não o fez sentir nada bem, pois nem sequer gostava de receber Howard em Austinpark Manor de novo.

—Está bem. E agora, vamos.

—Sim, pai, por favor. Eu quero ir - choramingou a menor das meninas. Não podia ter mais de seis anos, e não havia modo de negar a sua petição.

Howard compôs uma careta.

—Suponho que podemos fazê-lo - disse a Charlotte. - Retornarão logo à casa?

—Não - disse Wynter. - Vamos, Charlotte.

Charlotte não se opôs, nem o repreendeu por sua rudeza. Em vez disso, assentiu com ar submisso e se despediu das meninas.

Howard, por sua parte, parecia surpreso. Olhou para Wynter, depois para Charlotte, e outra vez para Wynter. Wynter assentiu significativamente para ele e Howard se desinflou como uma bota de vinho.

Wynter e Charlotte o deixaram ali, apoiado na portinhola, observando como se afastavam.

Inclusive aquela atitude fez que ao Wynter desse dor de cotovelo. O alegrou virar a curva que tomava o caminho e ficar fora de sua vista.

Reconheceu a tensão que imperara no ambiente, soube que tinha pouco a ver com a antipatia e muito com a amargura de um romance fracassado.

Notou como a ira crescia em seu interior. Queria agarrar Charlotte pelo braço e lhe fazer umas quantas perguntas, exigir uma explicação, a obrigar a admitir... algo. Que fora a professora de Howard, por exemplo, e que se beijaram.

Mas não podia ser, Howard era mais velho que Charlotte, e Charlotte havia dito que não se viram há nove anos. Talvez tivesse mentido ou fora inexata com as datas.

Talvez tivesse se encontrado com Howard em sua casa e este a forçara a abraçá-lo. Ou talvez em algum lugar, em algum momento, ele passara um bom momento com ela.

Enfurecido por semelhantes pensamentos, Wynter olhou para Charlotte.

Montava de um modo monótono, centrada no trabalho de controlar o cavalo sentada com as costas erguidas ao estilo amazona.

Pálida e ausente como parecia estar, Wynter compreendeu que se outro veículo tivesse se deles aproximado pelo caminho, provavelmente a teria jogado ao chão antes de se dar conta de sua presença.

Não podia se tratar de um simples flerte. O encontro com Howard deixara Charlotte fora de combate.

Por todos os Santos, sem dúvida mantiveram uma relação!

Wynter sentiu desejos de elevar a cabeça e rugir como um tigre ferido. Uma relação? Sua futura esposa manteve uma relação com alguém?

Isso era impensável. Ela não era sequer consciente de sua presença.

Passara horas, dias, se assegurando que se desse conta de cada um dos movimentos que levava a cabo sempre que estava perto dela, mas Charlotte nem sequer se deu conta de quão iracundo se sentia nesse momento.

A instrutora seguiu cavalgando de maneira mecânica, com os lábios muito apertados e o cenho ligeiramente franzido, como se estivesse sofrendo um enorme e inexprimível dor.

E ele... em lugar de enviá-la a casa, desejava rodeá-la com seus braços e consolá-la. Queria fazer esquecer a esse desgraçado do Howard. O que acontecera a ela com ele?

Esteve apaixonada por Howard? Cavalgaram sem falar enquanto cruzavam as sebes.

A partir dali se estendiam as terras de Wynter, um enorme prado com árvores e um regato, por isso Wynter deixou escapar um suspiro de alívio quando as sebes ficaram as suas costas bloqueando a visão da estrada.

Não, Wynter disse a si mesmo. Não, ela não podia ter estado apaixonada por um homem como Howard. Howard era um cabeça de vento, um fraco mental... e estava casado!

Ela era uma dama, uma mulher que jamais se esquecia do que era correto e do que não o era.

Ao mesmo tempo que observava Charlotte, Wynter esporeou Mead para que se dirigisse a pequena colina sobre a qual reinava um único carvalho. Ao chegar ao topo, Wynter se deteve e desmontou sob o ausente olhar da instrutora.

Atou as rédeas de Mead e as do cavalo de Charlotte em dois ramos baixos, depois estendeu a mão.

—Já pode descer, lady senhorita Charlotte.

Obedeceu e se deixou cair em seus braços com extrema suavidade. Entre seus braços não a sentiu nem ensimesmada nem apaixonada por outro homem nem ferida de desamor. Ao contrário, lhe parecia justamente a mulher com a qual pensara se casar.

Ele, lorde Ruskin, nascido no seio do casamento formado por Adorna e Henry, adotado pelas pessoas do deserto, guerreiro entregue e destro com os cavalos, não podia se casar com uma mulher obcecada com a lembrança de outro homem.

Se fosse assim, não poderia ser sua alma gêmea.

Mesmo assim, Wynter desejava se casar com ela. Queria cuidar dela... Possivelmente o ar úmido da Inglaterra abrandara seu cérebro.

—Senhor, o que está fazendo? - Sua voz soou amortecida contra o peito de Wynter.

Ele baixou a vista, mas só pôde ver seu chapéu, um artefato de enormes proporções.

—A levo nos braços. - Mas a deixou imediatamente no chão e lhe permitiu se afastar dele. - Durante toda minha vida, quando quis encontrar quietude para minha alma, vim a este lugar. Olhe. - Fez um amplo gesto para abranger a panorâmica.

—Sim. - Subiu até o ponto mais alto e olhou a seu redor. - É formoso. Mas dizer que encontrou aqui quietude durante toda sua vida... Durante um bom número de anos você não esteve aqui.

Seu rosto voltou a adquirir um pouco de cor quando o ar acariciou suas faces.

Wynter cruzou os braços frente a seu peito e disse:

—Sempre retornava aqui mentalmente. Sempre o tinha presente em meus pensamentos. As colinas se ondulam brandamente como dunas do deserto de um verde primaveril.

Estes pastos estão cheios de vida e a erva cresce mais verde que em nenhum outro lugar, se oferecendo as ovelhas, gado e cavalos com igual generosidade.

Casas e estábulos dedilham a terra, os caminhos serpenteiam formando lentos meandros, e em todas as partes pode escutar o murmúrio da vida.

Aquelas palavras ecoaram nela e a levaram a dizer:

—Eu também o via em minha mente. Durante todos esses anos de exílio... Fechava os olhos e podia ver a terra que sempre amei, e quando estava sozinha, a saudade me fazia chorar.

Wynter se deu conta que Charlotte estava olhando além dos limites de sua propriedade para as terras do conde de Porterbridge. Olhava para o lugar no qual crescera.

Ambos viveram exilados, mas ele desfrutara da liberdade. Ela, entretanto, vivera encerrada em uma prisão. Uma prisão que teria sufocado os sentimentos e o caráter inclusive dos homens mais duros.

Esse devia ser o motivo pelo qual manteve uma relação com Howard. Talvez Wynter pudesse desculpá-la por não ter podido resistir a ele...

As desculpas que se dava por ela o estavam impacientando, por isso lhe deu as costas. A beleza da instrutora nublava seu habitual senso comum. Embora não todo mundo podia captar sua beleza. Era uma mulher de curta estatura. Era ruiva.

Possuía umas quantas sardas, que a alguns homens desagradavam profundamente, mas que ele entendia como um atributo enriquecedor. Mas não podia se negar que havia algo nela que teria chamado a atenção de qualquer homem.

Só terei que me fixar no efeito que causara no pobre e babão Howard. Seu atrativo era tão indefinível, segundo a opinião de Wynter, como seu ar de inocência.

Voltou a olha-la no rosto. Entrecerrou os olhos e observou sua figura recortada a contraluz sobre o céu, com seu véu balançado pelo suave vento. Como ia estar equivocado a respeito de sua inocência?

—Me conte - lhe exigiu com voz cortante.

Não ia se fazer de tola com ele, e Wynter se perguntou se começara a ser consciente outra vez de sua presença. Em qualquer caso, Charlotte parecia a ponto de explodir.

Melhor que fosse consciente de sua presença.

—Lorde Howard era o homem com quem meu tio queria que me casasse.

—Não. - Sua negação foi instintiva, fruto da confusão. - Howard? Estava apaixonada por ele?

Charlotte o olhou fixamente, com seu rosto enganosamente doce emoldurado pelo amplo chapéu.

—Do que está falando? Jamais estive apaixonada por lorde Howard. Se tivesse estado, teria me casado com ele.

—Mas esteve apaixonada por ele. Na estrada, ele a olhava com desejo. Foi você muito fria com ele, mas ficou evidente que o encontrar foi doloroso. Devia se tratar de amor ou... - Fechou a boca a tempo.

Ela se pôs a rir. Não estava acostumado a fazê-lo frequentemente, e sua risada não foi absolutamente inocente nem descuidada. Era a risada de uma mulher zombando de um homem estúpido. Ele.

—Não me casei com Howard porque acreditava que era tolo, débil e insípido, embora ele se acreditava um bom partido porque possuía um título e ia receber uma substanciosa herança. Também supus que não demoraria para esbanjar essa herança.

E pelo que ouvi dizer, parece que eu estava certa.

—Sim, tem razão.

—Não aceitou bem meu rechaço. Depois de me negar a sua proposta, me beijou. Em público. Na frente de todo mundo. - Charlotte parecia desgostada. - Acreditou que se me marcasse como se fosse uma de suas posses eu mudaria de opinião.

Não o fiz, mas alguns dos que nos viram começaram a me tratar como uma mulher caída em desgraça.

—Mas você não o é.

—Não o era até que um beijinho de nada fez que fosse.

Wynter relaxou, obviamente aliviado graças a sua confissão, embora seguia confundido.

—Então você se veio abaixo. - Dor. Isso era. A tristeza voltou a aflorar nas linhas de seu rosto.

—Não me vim abaixo por culpa de lorde Howard. Se deveu a... - Voltou a vista para longe para tentar dissimular as lágrimas que alagavam seus olhos. - Hoje vi o caminho que poderia ter escolhido. Me casar com ele teria sido... aceitável.

As mulheres sofreram castigos piores ao longo dos tempos. Depois de tudo, ele nunca teria me pego, e passei por coisas muito piores desde que o rechacei, das que ele poderia ter me feito passar. Se tivesse me casado com ele, eu teria...

—Tragou saliva. - Sempre acreditei que seria uma boa mãe.

O alívio que Wynter sentiu em seu interior cresceu mais e mais. Filhos! Queria ter filhos!

É obvio. Todas as mulheres queriam ter filhos.

Ele era um homem capacitado para os ter. Lhe daria filhos. Seria todo um prazer.

Se aproximou de Charlotte e a abraçou. Ela se mostrou impassível, não lutou por se liberar mas tampouco o correspondeu. Se supunha que as mulheres eram instintivas, mas Charlotte nem sequer sabia como aceitar um pouco de consolo para sua alma.

Se forçou a não lhe ordenar nada. Em lugar disso, a apertou com mais força e acariciou suas costas de cima abaixo.

Ela permaneceu rígida durante um bom momento. Pouco a pouco foi relaxando.

Ele seguiu esfregando suas costas.

Ela se recostou nele.

O chapéu de Charlotte roçava seu queixo. Ele grunhiu e elevou o queixo.

—Temos que fazer desaparecer este trambolho.

Começou a desenredar as fitas mas aos poucos se distraiu. Seus olhos o distraíram, grandes, verdes, com aquelas escuras e úmidas pestanas. Seus suaves lábios, ligeiramente separados.

A covinha de seu queixo e o modo em que o olhava como se desejasse que a beijasse.

De todos os secretos desejos que guardava para si em seu interior, aquele era o que Wynter mais facilmente podia satisfazer. A atraiu para si e apoiou seus lábios nos de Charlotte.

Só foi um roce, mas foi tão doce como o primeiro raio de luz entre as dunas do deserto.

Ela moveu os lábios.

Respondia. E era uma doce resposta. O sangue começou a correr a toda pressa por suas veias. Se inclinou para aprofundar aquele beijo... e para se livrar do chapéu.

Deslizou até sua nuca. Ela se queixou devido a que a fita apertava sua garganta. Ambos agarraram o chapéu. Wynter agarrou as fitas. E ao ver que o romantismo do momento se esfumava, se puseram a rir.

Estendeu o chapéu a instrutora e disse:

—Vamos. Retornemos e vejamos se já partiu o homem com o qual não quis se casar.

—Sim, você deve retornar para passar um momento com seu amigo, senhor. - Atou a fita do chapéu sob seu queixo. - Mas eu sou a instrutora. Meu dever é ir dar aula.

Enquanto Wynter a ajudava a se sentar na cadeira, pensou: "Não por muito tempo, Charlotte. Bem logo, seu dever será dormir em minha cama".

 

—Minha mãe voltou.

A observação de Wynter devolveu Charlotte à realidade. Era certo. Adorna estava no terraço rodeada de caixas e pressurosos criados.

—Meus queridos - disse Adorna quando se aproximaram. - Que dia tão maravilhoso para estar ao ar livre!

Charlotte trabalhara ao serviço de outras pessoas o tempo suficiente para detectar um matiz de dúvida na voz daquela mulher.

A Adorna não agradava precisamente a ideia de ver seu filho acompanhado da instrutora, e pelo modo em que os observava, resultou óbvio que detectara a mudança que se produziu em sua relação.

Charlotte olhou Wynter para comprovar se ele também detectara a desaprovação de sua mãe. Quão único apreciou foi o prazer do filho ao voltar a ver sua mãe.

Talvez não percebesse do tom interrogativo que escondiam suas palavras. De sobra era conhecida a tendência dos homens a passar por cima as mais evidentes evidencias. Ou talvez se devia a que não se importava absolutamente.

Charlotte voltou a olhá-lo. Ele também a olhou nesse instante e lhe dedicou um cálido sorriso.

Não, a aquele homem importava bem pouco o que pensasse sua mãe. Não o importava o que pensasse ninguém.

Tinha proposto casamento a ela, lady Charlotte Dalrumple, sem ter em conta que, ao fazê-lo, estava rompendo todas as regras, e isso que não teria nenhum problema—de fato, era o que se esperava dele - em encontrar uma mulher rica e apropriada com a que se casar.

Os criados se apressaram a se encarregar dos cavalos.

—Sim, lady Ruskin, um formoso dia para montar a cavalo, disse Charlotte. - Lorde Ruskin desejava se assegurar de minhas habilidades antes de começar a ensinar Leila a montar ao estilo amazona. Conseguiu descer do cavalo antes que Wynter a ajudasse.

Subiu os degraus que levavam ao terraço. - Acredito que o que viu o tem satisfeito e que me permitirá instruir sua preciosa filha.

Ofendido aparentemente por sua independência, Wynter caminhou atrás dela a escassa distância.

Ela o ignorou e se deteve ao lado de Adorna.

—Senhor, poderemos começar as aulas amanhã?

Ele a olhou após se colocar do outro lado de sua mãe.

—É obvio. E eu as acompanharei.

—Meu querido, e como irá fazer isso? As pessoas não deixaram de perguntar por você desde que partiu da cidade. - Adorna apoiou a mão no antebraço de Charlotte.

—Suas lições estão dando resultado, Charlotte. Foi tão encantador, que toda Londres deseja conhecê-lo, especialmente as damas. Recebi tantos convites que não sei o que vamos fazer.

Não era de admirar que ninguém o dissesse, Charlotte sabia que Adorna andava buscando a esposa perfeita para Wynter. Se Adorna tivesse sabido o muito que ela aprovava suas intenções...

—Então, terá que ir a Londres amanhã.

—Não me importam essas pessoas nem o que queiram de mim, mãe. - Wynter respondeu com um tom mal contido. - Irei porque tenho assuntos de negócios que atender.

Charlotte aproveitou o momento para escapulir, murmurando:

—Se me perdoarem, tenho que ir com os meninos.

Charlotte caminhava devagar dentro da casa para permitir a seus olhos se ajustarem à luz. Escutou então como a chamavam por seu nome.

—Charlotte! - Lorde Howard se apressou a detê-la.

Durante o agradável trajeto de volta do prado tinha esquecido a possibilidade de que ele talvez seguisse ali. Pensou que oxalá tivesse entrado a toda pressa para ter evitado assim o que, muito provavelmente, ia ser um encontro desagradável.

—Senhor, ainda segue aqui. Espero que tenham podido tomar um refresco.

—Sim, obrigado, mas eu gostaria...

Maldita cortesia. O interrompeu.

—Suas filhas comeram algo? As levou com os filhos de lorde Ruskin?

—Sim, obrigado, estão acima, jogando, e eu estava esperando que...

—Então vou ter que ir com eles. Os meninos requerem supervisão constante, senhor, e tenho que me encarregar deles, pois nesta casa sou a instrutora - explicou.

—Comigo tudo seria diferente. - A olhou com seus tristes olhos muito abertos; em sua voz havia um matiz de súplica. - Eu poderia te fazer feliz.

Ela deu um passo atrás, como se pretendesse desse modo separar de si a implícita insinuação de que queria fazê-la sua amante.

No passado estava acostumado a se mostrar tão autoritário, alardeava tanto de seu título nobiliário e do bom partido que era que a incomodava sua mera presença.

Agora a bebida corrompera seu atrativo, algum tipo de escuro mistério jogara por terra sua arrogância e não podia sentir outra coisa que lástima por ele.

—Obrigado, mas estou muito satisfeita com meu atual trabalho.

Ele não cessou:

—Suponho. A contratarei. Como instrutora, me refiro. Para minhas filhas.

Quase desejou que seguisse se comportando como um fanfarrão. Teria sido melhor que ser testemunha de seu abatimento.

Tão desastroso era seu casamento que precisava se insinuar a Charlotte quando fazia nove anos jurou, montando uma horrorosa cena, que não voltaria a lhe dirigir a palavra?

—Terei presente sua oferta no caso de mudar minha situação. - Acelerou o passo a caminho das escadas, se sabendo observada por ele e desejando se afastar do homem ao que culpava de todos seus males.

Tão só teve que estar a sós com ele cara a cara para saber que não era certo.

A determinação de seu tio por casá-la sem oferecer dote e a teimosa resistência de Charlotte em cumprir seus desejos se combinaram para dar lugar ao desastre que marcou seu passado.

Uma vez fora da vista de Howard ela relaxou, e compreendeu que nem sequer uma cena tão inquietante como aquela podia perturbá-la. Era curioso, todo o pesar que sentira nos últimos dias por culpa de Wynter se transformou em calma.

Acaso o efeito que Wynter causava agora nela era um efeito tranquilizador? Se limitou a abraçá-la, sem intenção alguma de procurar outra coisa, somente... a abraçara.

Durante um momento deixara de lado toda sua arrogância e sua intratável determinação e se limitou a ser... amável. Muito amável. Inclusive o beijo foi amável, e se seu chapéu não tivesse caído para trás...

Bom, esse detalhe importava bem pouco, pensou com firmeza. Ela, na realidade, não correspondera a seu beijo, assim seguia sendo inocente.

Assim que abriu a porta foi recebida por um grito de Leila e por um olhar suplicante de Robbie, que parecia agradecer por ter vindo o resgatar daquela invasão feminina.

Charlotte relaxou. Sua vida retomara o curso normal.

Lorde Howard não passaria imediatamente para procurar a suas filhas, assim poderia falar com a professora de desenho e organizar umas leituras para os meninos.

Esperava que a presença de lady Mary e lady Emily incitasse Leila a presumir de suas habilidades, mas embora Charlotte teria jurado que Leila entendia perfeitamente as letras e as palavras, a menina permaneceu muda.

Charlotte decidiu escrever a Pamela para lhe expor suas dúvidas. Pamela trabalhara com meninos frequentemente, por isso talvez pudesse lhe dar algum conselho sobre o ensino da leitura.

Charlotte foi em busca de seu exemplar de Noites Árabes. Para sua surpresa, o livro não estava na bolsa, a não ser no chão, a um lado.

—Fui descuidada - disse sacudindo a capa de couro. - Não deveria deixar os livros no chão. Isso sabem todos, não é?

—Sim, lady senhorita Charlotte - disse Leila. - Vai nos ler uma história?

Charlotte ajeitou as mechas de cabelo que se soltaram da trança de Leila.

—Você gostaria?

—Eu gostaria mais que qualquer outra coisa.

—Nós gostaremos do livro? - perguntou a jovem e magra lady Mary.

—Vocês gostarão sim - respondeu Leila.

Leila poderia ser uma boa instrutora, pensou Charlotte surpreendida. Dizia a qualquer um justo o que queria escutar como se se tratasse de fatos consumados. Charlotte abriu o livro e deixou que os meninos se sentassem a seu redor.

Robbie permaneceu a certa distância, o bastante perto para escutar o conto, mas o bastante longe para evitar a contaminação das meninas. Leila se aproximou muito a sua instrutora, como não podia ser de outro modo, e lady Mary e lady Emily a imitaram.

Charlotte ia observando enquanto lia. Apesar de que lady Mary era um tanto chorona e lady Emily parecia cansada do mundo, no fundo eram boas meninas, desejosas de agradar.

O coração de Charlotte doeu ao olhar para elas, mas ela não podia dar o que necessitavam: uma mãe que se interessasse por elas. Sim, preferia sua atual situação a qualquer das ofertas que pudesse lhe fazer os lorde Howard a sua volta.

A porta da sala se abriu e a senhorita Symes colocou a cabeça. Charlotte supôs que devia buscar às filhas de lorde Howard, mas a governanta tinha outra coisa em mente.

Olhou a instrutora com o cenho franzido e falou tão baixinho que mal moveu os lábios.

—Senhorita Dalrumple! Lady Ruskin requer sua presença na galeria. Imediatamente.

Surpreendida pelo tom de voz da governanta, Charlotte ficou em pé.

—Tem algo a ver com os meninos?

A senhorita Symes soprou.

—Não é a mim a quem corresponde dizê-lo.

—Não posso deixar sozinhos aos meninos - replicou Charlotte.

—A nova babá está a caminho, e lady Ruskin não gosta que a façam esperar.

Algo ocorrera. O coração de Charlotte deu um salto... Wynter teria falado a sua mãe da proposta que lhe fizera? Algo assim tinha que ser.

Charlotte poderia sem dúvida tranquilizar Adorna com respeito a essa questão. Ela não se casaria jamais com um homem tão arrogante como Wynter; não importava que lhe tivesse acariciado as costas.

Mas se a despedisse... arruinaria a frágil reputação de sua pequena aventura empresarial.

—Aqui está a babá - disse a senhorita Symes a deixando entrar. - Vamos, senhorita Dalrumple.

Charlotte percorreu o corredor e desceu as escadas com a senhorita Symes colada a seus calcanhares. Ao chegar abaixo, Charlotte hesitou.

—Onde está...?

—No salão grande - respondeu a senhorita Symes. Naquele lugar, pensou Charlotte, não poderia ter lugar uma conversação particular entre as duas. Suas suspeitas se viram confirmadas quando, ao se aproximar, escutou o murmúrio de umas quantas vozes.

—Adiante - indicou a senhorita Symes, fria como o gelo. - A estão esperando.

—Quem? - perguntou Charlotte. A senhorita Symes soprou.

—Já verá.

A primeira pessoa que Charlotte viu ao entrar naquela sala foi seu tio, o conde de Porterbridge, sentado e com aspecto de regozijo. Sua tia também estava sentada, como o vigário e sua esposa, meia dúzia dos sicofantes[9] de seu tio e seu primo Orford.

Em meio do grupo se encontrava Adorna, mordendo o lábio inferior e olhando a todos com evidente repugnância.

De repente, Charlotte se converteu no centro de todos os olhares.

O olhar que Adorna lhe dedicou destilava culpa e alívio em partes iguais.

"O que ocorrera?"

—Charlotte, querida. - O habitual encanto de Adorna parecia ter se esfumado sem remissão.

—Sempre soube que acabaria mau, Charlotte - espetou a tia Piper.

Adorna se voltou para ela e exclamou:

—Silêncio, Piper! Não tolerarei que a acossem.

O rosto da tia Piper adquiriu uma desagradável tonalidade rosada mas se adveio às ordens de sua anfitriã.

Satisfeita de poder manter sob controle a aquela matilha, Adorna prosseguiu:

—Charlotte, querida, estas boas pessoas vieram para me contar algo que me preocupou seriamente.

Lhe contar algo. De acordo, havia toda uma lista de indiscrições. Ocorreram muitas coisas, e todas ligadas a Wynter. Sua escandalosa conversação na galeria dos retratos.

Seu beijo no velho quarto de jogo dos meninos. Seus escandalosos roces no dormitório de Wynter...

—A viram no alto da colina se beijando com o Wynter...

Charlotte empalideceu.

—Quando?

—Isso se passou mais de uma vez? - bramou Orford.

Seu tio elevou a mão e golpeou ligeiramente junto à orelha.

Adorna levou a ponta dos dedos à têmpora.

—Hoje, Charlotte, querida.

"Hoje?" Com todos os apaixonados momentos que compartilharam ela e Wynter, vinham agora a criticá-la por aquele casto beijo?

—É certo? - perguntou Adorna. Charlotte estava completamente confundida e foi incapaz de responder.

—O vigário e sua esposa foram testemunhas desse sórdido incidente. - A voz de Porterbridge possuía um matiz jovial. - Duvida de sua palavra?

Nesse instante, Charlotte compreendeu as sérias repercussões que iam ter para ela aqueles indiscretos contatos com Wynter. Qualquer tipo de intimidade entre uma instrutora e um cavalheiro eram de todo inaceitáveis.

Qualquer tipo de intimidade, sem importar seu grau de ingenuidade. Ela teria sido a primeira em assegurar isso... dois meses atrás.

Agora a única coisa que podia fazer era dar graças a Deus por que ninguém foi testemunha dos ardentes momentos que Wynter e ela compartilharam.

Não restava mais remédio que manter a compostura, enxugar os olhos, não atender à vergonha e admitir:

—Sim, é certo. Wynter me beijou esta manhã.

O murmúrio que seguiu a sua confissão recordou a Charlotte o que se produziu quando se negou a se casar com lorde Howard, embora agora era pior, dado que como Wynter tinha reputação de bárbaro todo o assunto adquiriria maiores dimensões.

Até os ouvidos de Charlotte chegava o chiar da voz de tia Piper. O vigário estava soltando um discurso a respeito de algo indecifrável para ela. Adorna tentava se fazer ouvir por cima da confusão geral.

Charlotte olhou desafiante a seu tio aos olhos, mas nesta ocasião não havia escapatória possível. Ninguém voltaria a contratá-la. Teria que encontrar outro trabalho, ou mudar de nome, ou partir do país.

O clamor foi descrevendo um crescendo até que todos se detiveram ao escutar o ruído proveniente do outro lado da porta. Todos os presentes se voltaram.

Ali estava Wynter. Howard estava atrás dele, entre as sombras.

—Alguém vai ter que me contar o que está acontecendo aqui. Você! - Wynter apontou para a tia Piper. - Me diga por que está em minha casa e por que fala com esse horrível tom de voz.

À tia Piper adorava ser o centro da atenção, mas não necessariamente porque assim o quisesse um homem com maus modos marcado por influências estrangeiras.

—Se trata de... né... sua instrutora.

—Lady senhorita Charlotte?

—Né..., sim. Né..., lady Charlotte. A senhorita Dalrumple.

Charlotte era humana, depois de tudo; desfrutava observando como fraquejavam as forças de tia Piper submetida à perseguição de Wynter.

—A... né... viram... né...

Orford não pôde aguentar por mais tempo a gagueira de sua mãe.

—Por todos os Santos, mamãe, se é quase um maldito estrangeiro. Ela - disse apontando para Charlotte - tornou a demonstrar que não tem princípios pois a viram o beijando esta manhã.

Lorde Howard pigarreou e olhou para Charlotte, com os olhos muito abertos e tão acusadores como os de um marido traído.

Wynter entrou no salão e caminhou até se situar em frente ao primo de Charlotte.

—Recordo de você. Você foi o menino que me disse, no dia de seu funeral, que meu pai era um camponês e eu um bastardo. - Wynter fechou o punho e golpeou Orford na cara com ele. As mulheres gritaram.

Wynter o agarrou pelas lapelas antes que caísse ao chão. Isso foi por meu pai. - Voltou a lhe golpear. - E isto por lady Charlotte. - O soltou e Orford caiu ao chão, choramingando, para depois tentar ficar em pé.

—Se levantar terei que voltar a lhe bater - Wynter o advertiu.

Orford se deixou cair fingindo uma oportuna falta de consciência.

Wynter olhou a seu redor.

—E agora que alguém me explique isso tudo, pois sigo sem entender.

Olhou aos presentes inquisitivamente. Adorna disse:

—A reputação de uma instrutora tem que ser imaculada. Viram Charlotte o beijando esta manhã. Não é a primeira vez que a beijam sem que isso suporte o benefício do casamento, e dado que sua reputação já está bastante maltratada, terá que despedi-la.

Wynter olhou para Charlotte.

Ela assentiu.

—Temo que é certo, senhor. Nosso comportamento foi inaceitável e não há modo de desculpá-lo.

Wynter franziu o cenho, aniquilado.

—Sigo sem entender. Mãe, me explique isso. Na Inglaterra, um beijo ao ar livre arruinaria a reputação de lady senhorita Charlotte?

Adorna retorceu as mãos.

—Assim é.

—E, entretanto resulta aceitável que esteja sozinha, a noite, em meu dormitório, enquanto estou me despindo?

 

—Não podia guardar esse comentário para você, não é? - Avermelhada de ira, Charlotte se pôs a correr pelo corredor deixando atrás às surpreendidas mulheres e seus cochichos.

—Você precisava lhes dizer que estava em seu dormitório enquanto você se despia.

Wynter saiu atrás dela para a escada.

—Não teria que ter dito que estava me despindo?

Depois de subir o primeiro degrau, se voltou e se agarrou ao corrimão para não o golpear.

—Não teria que ter dito nada. Antes que você chegasse, eu temia ter que partir da Inglaterra para encontrar trabalho. Agora temo que não o encontrarei em todo o continente.

—Não precisa encontrar outro trabalho. Já disse que pode ser minha esposa.

O olhou fixamente aos olhos desde sua elevada posição.

—Não quero ser sua esposa.

—Quando anunciar minha proposição, todos os presentes no salão ficarão impressionados por minha galanteria.

—E seu sentido de caridade. - A ira desapareceu deixando espaço a uma gelada sensação de mortificação. - À exceção, claro está, de sua mãe, que será de todas a mais horrorizada.

—Exagera. - Dedicou a ela um de seus sedutores sorrisos. - A vi mais horrorizada em outras ocasiões. De repente, uma suspeita ganhou força em sua mente.

—Sua estupidez é fingida, está guiada pela mesma suposta inocência que a leva a fazer perguntas tolas apesar de conhecer de sobra as respostas e a cometer enganos sociais sabendo perfeitamente como teria que ter se comportado.

—Ah. - Estendeu os braços. - Às vezes um homem aprende muitas coisas permitindo que outros acreditem que é imbecil e inepto.

Ao ver confirmada suas suspeitas, a indignação tomou conta dela.

—Parece-lhe divertido?

Seu sedutor sorriso se esfumou.

—Que minha futura esposa não queira se casar comigo? Não, não me diverte de forma alguma.

Não tinha intenção alguma de arruinar sua vida, lady senhorita Charlotte, mas em lugar de me deixar que diga a essas pessoas que vou ter a honra de convertê-la em minha esposa, você me diz que vai partir do país. Que opção restava?

—Entendia perfeitamente o que estava fazendo.

—Admito, penso como um homem do deserto, mas, como dizem os ingleses, não sou precisamente um pardal.

—Não. Eu sou o pardal. - passou a mão pela testa úmida tentando combater a sensação de sufoco que a apressava. Não acreditara realmente que Wynter queria se casar com ela.

—Por quê? Por que quer se casar comigo? Não tenho dinheiro. Não sou formosa. Levo tanto tempo solteira que quase perdi a última oportunidade de deixar de sê-lo. Por que eu?

—Pela paixão que sentimos um pelo outro - disse.

—Todos os homens e as mulheres podem sentir paixão em um dado momento!

Ele gargalhou abertamente.

—Aí é onde se nota sua ignorância. A paixão que nós sentimos é algo bem estranho, e se lhe acrescentamos que você está apaixonada por mim, poderia se converter na melhor das esposas possíveis.

Quando falava desse modo, deixando bem às claras que a tratava como um objeto, uma de suas posses, lhe custava muito respirar com normalidade.

—Eu não estou apaixonada por você.

—Não. A quem você ama é a meus filhos. - Voltou a gargalhar.

A fazia se sentir tão frustrada... Controlava sempre todas as situações, e aquelas que não podia controlar as utilizava em seu favor.

Não chegara a passar por sua cabeça que o que ela desejasse podia ser importante; acreditava em si mesmo de um modo intratável. Charlotte precisava fazer algo, dizer algo que alterasse aquela execrável confiança em si mesmo.

Não lhe importaria fazer qualquer tipo de acusação, por amalucada que fosse, se com isso pudesse apagar aquele sorriso de sua cara e lhe fazer provar um pouco de seu próprio remédio.

—Você me acossou. Me beijou sem pedir permissão. Você é - disse apontando com seu dedo trêmulo - o que deve estar apaixonado por mim.

Ficou sério e entrecerrou os olhos como se pretendesse estudá-la com atenção.

—Charlotte.

Ela soube imediatamente que suas forças iam fraquejar. O amável tom de sua voz e o modo em que ele acariciou sua cara o deixaram bem claro.

—Poderia lhe contar uma mentira, Charlotte, mas não seria a maneira adequada de iniciar uma relação, e você é inteligente. Muito em breve entenderá a verdade. E será então quando se sentirá realmente ferida.

—Passou a mão pela nuca dela e a atraiu para si. - Há um detalhe que a gente do deserto entende muito bem, mas que aqui, na Inglaterra, não parecem ter tão claro.

Está relacionado com o romantismo e o amor autêntico entre homens e mulheres, e deve dizer que é algo sem sentido.

—Isso é o que você acredita? - perguntou incrédula. Várias pessoas haviam saído do salão e os observavam. Sua tia. O vigário. Lorde Howard.

Charlotte deveria ter se sentido fatal, mas não era assim. Surgira algo de seu interior, algo ao que não podia dar nome.

—Você acredita que os homens e as mulheres não se apaixonam?

—As mulheres sim. Nisso as mulheres são muito boas. - Massageou com seus dedos a tensa zona que se estendia entre o pescoço e os ombros. - Um homem de verdade sabe se ocupar de sua mulher.

—Se ocupar de sua mulher. - Esse algo se fez maior, asfixiando o pouco senso comum que ficava.

—Se ocupa com total dedicação. - Sua voz destilava sinceridade e boa vontade. - Barakah, meu pai do deserto, me explicou isso muito bem. Uma mulher ama a seu homem. Sua vida se desenvolve ao redor do sol que é seu homem.

Mas um homem, como o sol, não ama a sua mulher. Brilha para sua mulher, esquenta a sua mulher, protege a sua mulher, mas o sol não ama como o faz uma mulher.

—Assim para não passar frio e me sentir iluminada tenho que me casar com você.

Wynter lhe apertou ligeiramente os ombros; parecia encantado.

—Por fim entendeu!

Charlotte faria qualquer coisa, teria pago qualquer preço, por poder contradizê-lo. Mas vivera em muitas casas diferentes; muitas. Observara a muitos casamentos. Apreciara a indiferença dos maridos e a desilusão das mulheres.

—Acaso acredita que não sei que um homem não pode amar uma mulher? Que você não só não me ama, mas sim não poderia me amar?

—Você disse...

—Sei o que disse. É como as fibras de uma fantasia melancólica arrastadas pelo vento. - O que crescia em seu interior era agora maior que nunca, e arrastava consigo todo o cinismo e a amargura que se esforçou em ocultar durante anos.

O acento de Wynter se fez mais grave.

—Não o entendo.

—É obvio que não. Não tem por que entender. Você é o sol e eu não sou mais que uma partícula de pó flutuando a seu redor.

—Isso não é o que eu disse.

—Lamento se interpretei mal sua maravilhosa explicação, lorde Sol. - Tragou saliva e tentou que não se apreciasse em sua voz o tremor do desespero. - Mas ainda lamento mais tê-la interpretado muito bem.

—Seu tom está se fazendo intolerável. - A agarrou pelos ombros e a olhou fixamente aos olhos. - Explique-se.

—Para que isso resultasse de utilidade, lorde Sol, teria você que descer a meu nível. Descer ao nível de uma mulher sem linhagem.

Uma mulher que não tem possibilidade alguma de escolher seu próprio marido, que se vê forçada a se casar devido a ridículas circunstâncias e da que se espera que ame um menino presunçoso e malcriado como você.

Wynter não respondeu ao insulto. Talvez tivesse ficado afligido por aquela corrente de palavras. Inclusive o surpreendera seu discurso.

—E mais. Jamais haverá amor entre você e eu. A paixão que sente por mim não está instalada em seu coração a não ser em um órgão muito diferente.

Uma vez satisfeito esse órgão, eu não teria função alguma em sua vida, exceto ser a mãe de seus filhos e, possivelmente, a anfitriã de suas festas.

Não viria para me buscar ao finalizar o dia. Se supõe que teria que passar mal durante suas viagens de negócios, mas não teria que o envenenar com excessivas emoções a sua volta.

E, com certeza, não teríamos que incomodar à sociedade inglesa nos mostrando afeto de qualquer maneira. Ou Deus me perdoe, conversando de algum tema que fosse além das verduras que comêssemos ou das queixas sobre os gastos da casa.

Sim, senhor, sem dúvida eu, como qualquer outra mulher, não pensaria duas vezes em aceitar o privilégio de se casar com uma criatura como você.

Wynter piscou um par de vezes.

—Está louca.

—Louca ou zangada?

—Não sei.

—Eu tampouco. - Não podia ficar ali, o olhando, por mais tempo. Wynter admitira que sabia o que estava fazendo ao lhe pedir que se casasse com ele, que sabia que a incomodaria quando lhe falasse dos temas afetivos sem disfarces.

Os espectadores seguiam escutando aquela apaixonada discussão, boquiabertos, mas o pior de tudo era que Charlotte começou a sentir dor em seu interior, uma dor que corria por seu sangue.

Por quê? Teria que ter estado preparada para semelhante decepção. Jamais deveria ter abrigado esperança alguma.

Não. Nada de esperanças. De todas as ilusões que não podia se permitir uma instrutora, esse tipo de esperanças eram as mais brilhantes e tentadoras, mas mesmo assim eram um sonho impossível que jamais devia se permitir.

Ao que parece, o coração de Charlotte esquecera essa verdade inalterável.

—A história se repete. - Afastou as mãos de Wynter de seus ombros e subiu uns quantos degraus com um arrebatamento de dignidade.

Wynter a agarrou pela saia.

—Que história? A história de quem?

Charlotte se deteve.

—Minha história. Tenho que me casar ou me converterei em uma pária. Mas a você também se repete. Pretende se casar com uma mulher que não tenha direito a lhe exigir nada porque você a salvou.

Pouco importa que tenha sido você, em primeiro lugar, que arruinou sua vida. A salvou apesar que poderia ter deixado que se afogasse, por isso todos o admirarão. Você pode dar um tapinha no ombro por ser tão generoso.

—Ela observou a mão com a que agarrara sua saia. - OH, vá, já o está fazendo! Ah, estupendo, que sorte a sua, não ter que voltar a pensar nunca mais em sua mulher nem em sua felicidade.

O privilégio de ser sua esposa e saber se protegida por seus dourados raios já deve ser suficiente recompensa.

Os que estavam no salão foram perdendo o medo e se aproximaram pouco a pouco para não perder nenhuma palavra. Charlotte viu sua tia apoiada na parede, como se as palavras de sua sobrinha supusessem um peso excessivo para ela.

Seu tio, completamente ofuscado, repartia seus olhares entre sua esposa e Charlotte. Adorna cobriu sua boca com uma mão. Howard estava vermelho como um tomate e estava com o cenho franzido.

Com uma mínima parte de seu cérebro, Charlotte era consciente de que estava protagonizando uma dessas cenas que passavam aos infaustos anais da fofoca na Inglaterra. Importava bem pouco a ela.

Certa faceta de seu caráter, uma parte de si mesma habitualmente oculta sob chave, parecia ter tomado o controle da situação.

—Acredito que esbanjei os últimos nove anos de minha vida. Tudo teria me ido melhor se tivesse aceitado a proposição de casamento de lorde Howard!

Comprovou imediatamente que tocara na tecla adequada.

Wynter subiu os degraus para se colocar a sua altura. Seu cabelo e o brinco de sua orelha pareciam brilhar com um estranho fulgor provocado talvez pela ira.

—Você não acredita no que acaba de dizer.

—Sim que acredito. - Charlotte saboreou a gratificação que entranhava aquela dramática representação, interpretada com ardor para um público entregue, e então se deixou levar.

Ao menos isso foi o que disse a si mesma minutos depois, porque não encontrou outra explicação para o que disse justo então. Com uma voz que se impôs ao murmúrio geral, proclamou:

—Escute bem o que vou lhe dizer, lorde Ruskin: vou me apresentar em frente ao altar a seu lado e lerei meus votos ante o vigário, mas jamais compartilharemos o leito.

A ira que Wynter experimentara até então foi pouco a pouco se diluindo. Não reagiu ante sua provocação. Não disse uma só palavra nem se apreciou gesto algum em seu rosto.

Sua passividade levou a que Charlotte aumentasse um grau seu histerismo.

—Me entendeu? Me casarei com você, mas jamais me converterei em sua esposa no sentido literal da palavra.

Ele permaneceu impassível.

Entretanto, seu lábio superior tremeu ligeiramente.

Muitos anos atrás, os pais de Charlotte a levaram a Londres para ver uma exposição de animais selvagens.

O leão não se moveu nem um milímetro enquanto ela o observava, e entretanto transmitia desse modo toda sua força, sua capacidade como caçador para acabar com a presa que ousasse se interpor em seu caminho.

Era o mesmo que apreciava agora em Wynter. Ela se transformara no piquenique campestre da grande besta.

Demorou muito em se dar conta do que acabava de fazer. Muito tarde desejou não ter pronunciado aquelas palavras.

Dona Afetada perdera por completo os papéis. Subiu um degrau, logo outro, mas não tirou o olho de Wynter.

Se ouviram murmúrios no corredor, as caras dos presentes se voltaram para ver Charlotte partir ante os narizes do pétreo Wynter.

Quando acreditava que estava a salvo de suas pancadas, Charlotte se atreveu a lhe dar as costas. Não tinha a intenção de perder o tempo se mostrando digna, se afastou a toda velocidade empurrada por um terror mal disfarçado.

Não ouviu os passos de Wynter, ao que parece não a seguia. Do alto das escadas olhou para se certificar que permanecia onde o deixara, a olhando.

Se apressou por chegar ao quarto de jogos, mas mudou de opinião e se encaminhou diretamente a seu dormitório.

Não ouviu ruído algum a suas costas, mas estava segura que, de algum modo, no momento menos pensado, sentiria o puxão de sua mão a agarrando e...

A agarrou pelo braço e a fez se voltar de repente, a empurrando contra a parede. Colocou as mãos a ambos os lados da cabeça de Charlotte.

—Tem até a noite de bodas para se resignar à ideia de que será minha.

Sua agressiva autoconfiança e seu impressionante tamanho enfureciam e assustavam Charlotte em partes iguais. Ela tentou se manter à altura de sua afronta elevando o queixo e o olhando com intensidade.

—O que vai fazer, me violar?

—Não. - Inclinou a cabeça e a deixou tão perto da de Charlotte que seu fôlego acariciou seu rosto. Ao falar, sua voz foi quase um ronrono. - Lady senhorita Charlotte, não preciso violá-la.

Talvez tenha esquecido, mas a beijei, e sei que sob esse absurdo espartilho e as rígidas normas segundo as quais orienta sua vida, pulsa uma mulher por cujas veias corre sangue vermelho.

Notei como se abrandavam seus lábios ao contato com os meus, como os abria pouco a pouco. Demonstrou tanta paixão como eu, e o que me pergunto é a quantos homens teve que beijar para ter adquirido tal grau de experiência.

A tirava de prumo. Por lhe recordar o que fizera, por falar de um momento que ela teria guardado como um tesouro... de não ter sido pelo acontecido depois.

—Se excetuarmos Howard, jamais beijei a homem algum.

—Ahhh. - Posou a mão em uma das faces de Charlotte. - Um pulso em mãos dos homens.

A pegou em uma confissão que não deveria ter realizado? É obvio que não. Era um homem rude, óbvio, absolutamente sutil; ou ao menos isso era o que sempre pensara dele. Passou a cabeça por debaixo do braço de Wynter.

Aquele movimento só a levou a topar com uma mesinha redonda onde repousava um delicado vaso de porcelana de vibrantes tons azuis.

Wynter se deslocou com fingida indiferença, a encerrando entre a parede e a mesa para que não pudesse sair para o corredor.

—Cuidado, lady senhorita Charlotte. Não acredito que lhe fizesse muita graça romper alguma das apreciadas porcelanas de minha mãe. - Estendeu o braço e roçou a garganta dela com a ponta dos dedos.

Isso faria sair correndo a nossos convidados, pois não acredito que gostassem de observar nossos ritos de emparelhamento. E você não quer que isso ocorra, não é?

Wynter cheirava a couro e a cavalos, e isso levou Charlotte a rememorar o terno beijo que se deram na colina. O que estava vivendo nesse momento não podia se parecer menos ao que experimentara essa mesma manhã. Ela voltou a cabeça.

—Não, não quero, mas mal tenho controle algum sobre o que quero. - Charlotte notou a amargura em seu próprio tom de voz, e também a autocompaixão, e pensou, embora só de passagem, que merecia que a mimassem um pouco.

Ele, com certeza, nem sequer reparou em suas vãs emoções, mas sim seguiu a olhando ao rosto.

—Estarei encantado de lhe dar tudo o que queira... em nossa noite de bodas. - Sorriu, como um bárbaro, como um leão disposto a se lançar sobre sua presa. - Quando estivermos na igreja nos dando o sim, arderá em desejos de que lhe dê o que necessita.

Provarei todos os cantos de seu corpo, a beijarei com ardor e paixão, a acariciarei até que seus mamilos fiquem duros como pedras e você goteje umidade entre as pernas.

Maldito fosse! Como podia uma mulher manter a equanimidade ante tal amostra de vulgaridade? Pior até, escutar semelhante réstia de palavras sussurradas provocou que seus mamilos endurecessem como pedra e que o meio de suas pernas gotejasse umidade.

Reuniu toda a força de vontade que ficava para olhá-lo aos olhos e dizer com firmeza:

—Este é o tipo de conversação inadequada que sempre o adverti que tem que evitar.

—De fato, lady senhorita Charlotte, não acredito que tenha abordado esta questão em suas aulas. - Franziu o cenho como fingindo refletir, e pressionou com os dedos o ponto da garganta de Charlotte onde se podia notar seu pulso com mais força. -

Não. Não. Me advertiu que não realizasse comentários muito específicos, que não dissesse exatamente o que pensava ou que não criticasse o modo de vida inglês, mas nunca me disse que não podia fazer amor a uma mulher com minhas palavras.

O que podia dizer? O que podia se opor a suas palavras? Poderia acaso, com seu fio de voz, se enfrascar em uma discussão profunda sobre essa questão em concreto? Tudo o que foi capaz de dizer foi:

—Pois o digo agora.

—Me dirá muitas coisas antes de nossa noite de bodas, lady senhorita Charlotte, e eu não a escutarei. Dirá que não, depois dirá que talvez e acabará me suplicando, mas suas palavras serão como o fôlego de uma mulher contra o fogo.

Seus joelhos falharam. O disse com tanta intensidade, com um tom de voz tão sério... Só aos criados era permitido cair em tais arrebatamentos de sensualidade favelada. Mas quando ele falava, suas palavras não eram faveladas.

Ao contrário eram... eram... muito excitantes.

—Sabe como os beduínos denominam às covinhas como a que você tem? - Baixou a mão até posar os dedos na ponta de seu queixo. - As chamam beijos de anjo, e dizem que quem tem uma delas está bento com uma vida longa e feliz. Veremos se tinham razão.

—Você não...

A beijou. Não foi um beijo suave, desejado por ambos, como o da manhã; mas tudo mudara muito após. Agora sabia que sua proposição de casamento ia a sério. Agora ela aceitara se casar com ele.

Agora ele já não era cruel, mas sim aprimorava sua total determinação, pois não permitiu a ela se negar. A abraçou e passou uma das mãos pelo seu cabelo.

Fechou os olhos enquanto a beijava, se concentrando como um gourmet saboreando um champanha antigo. Charlotte se sentiu rodeada por seu aroma.

Os braços de Wynter eram familiares, igual a seu aroma, mas agora a situação era muito diferente a como fora nas ocasiões anteriores.

Wynter apanhou com os dentes o lábio inferior de Charlotte, e quando ela deixou escapar um gemido, ele entrou em sua boca com a língua. A encheu com seu sabor, aprofundou, a atraiu para si, apesar que a única coisa que ela desejava era sair correndo.

Estava muito desesperada para tentar escapar, assim que a única coisa que lhe ocorreu foi cravar as unhas nos braços dele.

—Não me faça mal - murmurou ele entre seus lábios. Oxalá pudesse, pensou ela. Wynter era maior e mais forte.

Muito mais mal faria... se pudesse. Mas, além disso, não sentia predisposição alguma para a violência. Nem sequer podia manter sua ira durante muito tempo.

Não sentia nenhuma vontade de batalhar, entretanto dia após dia Wynter vertia algo mais de confusão em sua tranquila existência. Maldito fosse! Apertou os punhos e o golpeou nos flancos.

Wynter respondeu a atraindo para seu corpo. Igual a um ferreiro que moldasse aço vermelho vivo, seu calor a apanhou.

Tinha uma mão em seu cabelo, a estava beijando, com a outra mão rodeava sua cintura, sua força a dominava, e seu corpo não sabia se incidia na tensão ou acabava relaxando... para traí-la.

Incômoda e cativada a um só tempo, começou a chorar. Os beijos de Wynter se fizeram mais leves, menos imperiosos e mais sedutores.

Pouco a pouco, deixou de apertá-la, de empurrá-la contra a parede, elevou uma mão para acariciar seu queixo e, finalmente, afastou sua boca.

Para sua vergonha, seus lábios pareciam ter se enganchado aos de Wynter. Não se atreveu a abrir os olhos. Não podia suportar a ideia de olhá-lo.

—Não vou te envergonhar, carinho. A tratarei com ternura e cuidado e desfrutará de todas as honras que supõe ser minha esposa. Mas não vai me rechaçar.

Com os olhos fechados, se voltou para partir. Golpeou contra a mesinha. O vaso cambaleou e acabou se estrelando contra o chão.

Abriu os olhos, horrorizada, e viu os pedaços espalhados sobre o chão de madeira. Aí estava o resultado de sua vida. Pânico incontrolável, movimentos inarmônicos e o passo em falso definitivo a nível social.

Sua vida era como esses pedaços do vaso espalhados pelo chão, e tudo se devia a Wynter.

Ao escutar sua voz, suave e profunda, pensou que poderia se tratar do próprio Lúcifer.

—Charlotte, querida menina...

Como se uma simples expressão de carinho pudesse recompor o vaso! Ou sua vida.

Saiu correndo pelo corredor a caminho da privacidade de seu dormitório.

 

Queridas Pamela e Hannah:

Não me ocorre maneira alguma de lhes anunciar isto com um pouco de dignidade ou graça. Devido a certas circunstâncias que aconteceram hoje mesmo, e lhes assegurando de antemão minha total inocência, digo que me vejo forçada a contrair casamento.

Lorde Ruskin é meu prometido, e embora em muitos sentidos é um homem digno, é também uma pessoa exasperante e não vejo a possibilidade de amor em nosso futuro.

A precipitação de todo o assunto é quase obscena, pois a boda está prevista para a manhã da segunda feira depois que se leiam as admoestações. Possivelmente poderia se ter evitado se a recepção seremínia não fosse justo um mês após o enlace.

Como podem imaginar, sinto muitas saudades, queridas amigas. Não só pelas razões que vocês já conhecem, mas também porque desafiei lorde Ruskin da maneira mais ridícula possível e temo que quererá aproveitar qualquer mínima oportunidade.....

 

Nunca antes Charlotte teve que pensar duas vezes antes de cruzar a longa e sombria galeria infestada de retratos de homens e mulheres mortos há muito tempo.

Essa noite, tão só vinte e quatro horas após a horrorosa cena nas escadas, Charlotte estava nervosa.

Ao menos para si mesma era capaz de admitir a verdade. Wynter a punha nervosa, a observando implacável desde seu retrato pendurado na parede. Até então não prestara atenção alguma ao quadro do jovem Wynter e seu cão spaniel.

Agora não podia afastar o olhar dele enquanto se apressava para seu dormitório proveniente dos aposentos de Adorna.

Apesar de levar todo o dia em Londres, Charlotte sentia a presença de Wynter, a acossando.

Passou muitas vezes por aquela galeria, mas nunca antes se perguntou o que se escondia atrás de todas aquelas portas. Essa noite, estava convencida que algo se escondia atrás delas para sair a seu encontro. De fato, uma estava aberta...

Diminuiu o passo à medida que se aproximava da porta.

A escuridão dentro daquela sala era absoluta, pois a leve luz da vela que pendurava da parede justo ao lado da porta não alcançava a iluminar seu interior, e nem sequer entrecerrando os olhos pôde ver o que havia dentro.

Mas ela não era uma mulher assustadiça. Podia muito bem imaginar uma dúzia de razões pelas quais aquela porta estava aberta. Provavelmente as criadas estiveram limpando. Ou talvez os meninos a deixaram aberta enquanto brincavam.

Ou...

—Lady senhorita Charlotte.

Gritou.

Charlotte jamais gritava.

Mas a voz de Wynter, que lhe chegou de uma cadeira sumida na escuridão justo diante dela, gelou seu sangue. Levou uma mão ao peito.

—O que está fazendo aí, aqui, agora?

Ficou em pé, acomodando seus cento e noventa centímetros de altura em posição vertical com a mesma facilidade que a serpente do Jardim do Éden. Charlotte balbuciou:

—Acreditei que você estava em Londres.

—E estava. - A agarrou pelo pulso. - Acaso acreditava que ia te deixar sozinha durante mais de um dia?

Ela esperava que assim fosse. De fato, aproveitara sua ausência para tentar recuperar o equilíbrio pessoal. Obviamente não esteve fora o tempo suficiente; suspeitava, além disso, que talvez não importasse o tempo que passasse fora.

Talvez não voltasse a recuperar o equilíbrio nunca mais.

OH, malditos pensamentos! Por que se sentia assim, tão perdida?

A figura de Wynter foi se perfilando enquanto se aproximava, um varão dourado exsudando determinação.

Ela optou por não deixar de tagarelar.

—Senhor, não está bem que estejamos sozinhos antes das bodas.

—Para você nem sequer seria adequado que o estivéssemos depois. - Parecia divertido, embora a tênue luz não a deixou entrever sorriso algum em seu rosto. - Ou o esquecera?

—Não.

—Mudou de opinião? Serei bem-vindo em seu leito?

Não havia modo algum que ela vencesse aquela luta, ele deixava muito claro. Wynter voltou a atraí-la para si, como se sua proximidade fosse antídoto suficiente para qualquer de suas objeções. Charlotte jogou a cabeça para trás para o olhar no rosto.

Era muito mais alto e forte que ela.

O contraste entre o poder de Wynter e o dela era abismal; e inclusive mais abismal era o peso da lei. Quando Wynter fosse seu marido podia fazer com seu corpo aquilo que lhe desse vontade. Poderia lhe bater ou trancá-la.

Embora não o faria; isso também ele deixava claro. Mas sem dúvida faria uso de seus direitos conjugais, e se ela ousava se queixar ou se lamentar por seu destino, os homens que escreveram as leis dariam de ombros e lhe dariam as costas.

E mais, centenas de mulheres menos afortunadas até em seus casamentos se levantariam contra ela e a obrigariam a se submeter. Não tinha escolha. Ele acabaria possuindo-a.

Se se retratava da condição que havia posto para seu casamento, talvez ele a deixasse tranquila até a infeliz noite de bodas.

Mas não podia fazê-lo. Quando pensava na possibilidade de entregar livremente seu corpo a ele... Não podia fazê-lo. Já fosse inútil ou não, precisava lutar com ele, pois se não fosse assim perderia algo substancial a sua própria pessoa.

Inclusive sabendo que ele não entenderia, disse:

—Se houvesse amor entre os dois, nos entregaríamos fisicamente um ao outro. Mas não há amor, não é? Você me disse que não havia. Então me nego a lhe dar nada. Nada.

Apertou seus braços ao redor de Charlotte, e ela pôde sentir a frustração de Wynter.

—Como se atreve a me desafiar? Poderia te esmagar entre minhas mãos se o desejasse e mesmo assim eleva o queixo e me diz que não.

—Se pensasse que pode me esmagar, senhor, obedeceria por medo a sua brutalidade. Mas sabendo que me deseja, suponho que me quererá sã e salva.

Ele sorriu, embora foi pouco mais que o desenho de uma leve curva em seus lábios.

—Nisso tem razão, minha luz da manhã, meu anjo do desejo. - Dado o rápido e com a suavidade que a fez dar voltas pelo quarto qualquer poderia ter pensado que estavam dançando uma valsa. Wynter fechou a porta com o pé.

O ar no interior era frio, e a escuridão os rodeava como se se tratasse de um ente vivo.

Não lhe dava medo a escuridão. Só os tolos ou os fracos de espírito temiam a noite, mas ela não sabia o que havia dentro daquele quarto. Não podia se mover por sua conta, dependia de Wynter, e nisso, precisamente, consistia sua estratégia.

O guerreiro ao que desafiara executava seus movimentos espreitantes com a mesma segurança que se estivesse combatendo no deserto.

Ao que parecia, Wynter via melhor que ela naquelas circunstâncias, pois se sentou em... algo... e a puxou até colocá-la entre suas pernas.

Mais pela forma que devido a que acreditasse que não era adequado, Charlotte se queixou;

—Não me sinto cômoda aqui, a sós, senhor.

Ele apoiou as mãos em sua cintura.

—Não é o fato de que estejamos a sós o que a incomoda, carinho, minha princesa. - A atraiu para si. - É o fato que dependa de mim.

Poderia ter dito que se tratava de algo mais. Compartilhar com ele a calidez do quarto, sua proximidade e as sombras da noite lhe contribuía um curioso sentido de segurança, como se tivessem encontrado um canto no que se afastar de seu dia a dia onde, fizessem o que fizessem, só concerniria a eles .

Charlotte se deu conta nesse instante que estava cansada de todos os anos que passou exposta ao olhar de outros. Aquela sala solitária satisfazia uma compulsão pessoal da que nem sequer conhecia sua existência.

Como nela era habitual, tinha posto seu prático vestido de instrutora cor azul escuro com gola branca abotoada até a garganta.

Quando ele a obrigou a se inclinar sobre seu braço, seu fôlego lhe roçou o pescoço justo por debaixo da orelha; aquilo fez que sentisse um arrepio.

Resistia a Wynter, não lutando fisicamente, a não ser mediante sua passividade e sua falta de cooperação.

—Onde estamos?

—É um quarto para convidados. - Deslizou uma mão até um de seus seios. Não o tocou, mas sim o rodeou como um falcão rodearia sua presa antes de acabar com ela. - As criadas a estiveram limpando, a deixando pronta para os convidados das bodas.

Ela apreciou o aroma da cera de abelhas e do sabão. Também sentiu o aroma de Wynter, a amido, a limpo e a malícia.

—A cama tem lençóis limpos de linho esperando para que nos entreguemos a nossos mais íntimos desejos - acrescentou.

Todos e cada um dos músculos do corpo de Charlotte se esticaram de medo.

—Me disse que tinha tempo até a noite de bodas.

Ele deixou escapar uma gargalhada, e ela notou seu fôlego quente contra a face.

—Assim é. Mas vai me suplicar que a possua agora mesmo.

Ela lançou mão de todo seu desprezo.

—Duvido.

Wynter colocou a boca sobre sua orelha e disse em um sussurro:

—Fará.

Posou a mão sobre o seio. Encontrou imediatamente o mamilo e o massageou brandamente.

Ela tentou ficar em pé.

Procurou algo na escuridão sobre o que fixar o olhar, algo que a ajudasse a se distrair do rítmico movimento de seus dedos. Mas estava muito escuro!

E ele era tão insistente, a acariciando como se tivesse todo o direito para fazê-la se sentir desventurada. Embora "desventurada" talvez não era a palavra adequada. Possivelmente a palavra adequada era "perturbada". Inquieta. Desesperada.

Trocou de postura para equilibrar o peso de seu corpo, tentando se afastar dele.

Ele a deteve antes que pudesse fazer qualquer outro movimento.

—Já está tratando de escapar? Ah, lady senhorita Charlotte, mal começamos.

Charlotte reuniu suas forças para que sua voz soasse digna, mas o que disse soou insuportavelmente afetado.

—Eu gostaria que deixasse de me tocar aí.

—Como quiser, OH minha mais sedutora sereia. - Deslizou a mão para o pescoço do vestido. Manipulou o broche que o mantinha fechado.

Ela relaxou e sorriu bobamente. Como se Wynter pudesse abrir aquele broche com uma só mão! Nem sequer ela era capaz de abri-lo com uma mão, e tinha anos de experiência...

O pescoço se abriu. O broche saiu disparado.

Que truque utilizara?

Tentou agarrar o broche mas o ouviu cair ao chão.

—É meu!

—Eu não gosto dos elementos de decoração restritivos. - Afastou as lapelas de seu pescoço.

Agora ia levar mais a sério sua destreza, por isso o agarrou pela mão, mas ele desabotoou os botões de marfim à velocidade própria do mais acostumado libertino.

—Detenha! - disse Charlotte.

—Como quiser, OH proprietária de meu destino.

Wynter a obedeceu, mas só para desabotoar seu corpete quase até a cintura. O empurrou pelos ombros, mas ele a apertou com as pernas para mantê-la em seu lugar.

O ar acariciou sua pele quando ele abriu a roupa.

Lhe lançou um golpe a um lado da cabeça, ou do que ela acreditou que era sua cabeça... De algo, em definitivo, perto de seu seio. Supôs bem, pois o que golpeara era seu crânio.

Ele grunhiu.

Charlotte fez uma careta e esfregou os nódulos.

Ele colocou as mãos a ambos os flancos do corpo de Charlotte e a deitou.

Ela tratou de se agarrar a algo, pois não sabia onde ia cair, mas ele a posou brandamente sobre uma superfície branda. Um sofá. Ela estendeu o braço. Parecia um sofá sem respaldo.

O extremo sobre o qual repousava sua cabeça estava ligeiramente inclinado para cima. Uma chaise longue.

Ele se inclinou sobre Charlotte, uma figura invisível que entranhava uma ameaça e uma paixão impossíveis de suportar.

—Charlotte - sussurrou ao mesmo tempo que deslizava um braço sob sua cabeça. Onde deixara a outra mão, era todo um mistério. Quando tentou se afastar dele descobriu que Wynter a imobilizara colocando o joelho sobre a saia.

Mas também se sentiu apanhada por outra coisa, algo mais intangível... Mas de que se tratava? Desejo? Expectativas?

Quão único sabia era que a novidade que supunha estar tão perto de um homem a impulsionava a explorar as inapropriadas sensações que aquela situação provocava em seu corpo.

Se pudesse chegar a se sentir segura com ele... Se estivesse segura que quando transpassasse seu limite ele fosse capaz de se deter... Mas não. Esse homem sempre quereria ir mais longe, mais depressa. Esse era o momento de recordar isso.

Precisava manter a cabeça fria e não escutar os cantos de sereia da sedução que supunha seu marcado acento ao pronunciar seu nome ou se negar a sentir como seus longos dedos percorriam sua pele até o limite de sua regata.

—Charlotte. - Sua voz soava mais perto, muito mais perto.

Abraçou a si mesma para ignorar o beijo que acabava de lhe dar na boca.

Também lhe beijou o seio nu.

—Não. - O agarrou pelo cabelo e puxou com força. - Besta! - Ele rodeou seu mamilo com os lábios e chupou, introduzindo a ponta em sua boca e o lambendo com a língua.

Sentiu como se seus seios atuassem por conta própria. Agarrou a cabeça de Wynter com as mãos. Arqueou as costas. Durante um segundo maravilhoso, foi incapaz de pensar. A sensação e o instinto se aliaram para lhe proporcionar uma onda de prazer.

Ato seguido retornou a consciência. Manteve a cabeça de Wynter apertada contra a sua. Se esfregou contra sua boca como uma mulher de vida dissoluta. Gemeu... Estava gemendo, o som ricocheteava contra as escuras paredes daquele quarto.

Em seu interior, o desejo que sentia por Wynter entranhava uma pontada de dor.

Saber que Wynter se referia a isso quando lhe disse que acabaria suplicando. Planejara aprofundar em sua intimidade até fazê-la perder a cabeça e com ela seu orgulho. Não ia permitir isso.

Mas após enroscar os dedos no suave cabelo de Wynter foi consciente do muito que a excitara.

—Já está bom, Wynter. - Disse a ele com um tom de voz muito forte... para se tratar de uma mulher que estava sofrendo as agonias de uma revelação. - demonstrou claramente o que dizia, tenho que aceitar.

Sentiu o fôlego de Wynter sobre seu seio úmido. Estava rindo.

Ela, por sua parte, estava com os mamilos arrepiados e suas pernas fraquejavam.

—Mal acabo de começar a demonstrar, Charlotte. - Quando dizia seu nome parecia estar nomeando a jóia mais preciosa de todo o universo. - Há muito mais coisas que você desconhece.

—Sim as conheço. Não sou uma ignorante. - Wynter massageou o couro cabeludo dela com os dedos, lhe fazendo ver com esse simples gesto a magnitude da mentira que acabava de esgrimir.

Nunca lhe haviam dito que um homem podia dar prazer a uma mulher tocando seu cabelo ou sua cabeça. Como se fosse uma gata, suas carícias a relaxaram. - O que acontece é que não tenho experiência prática.

Wynter não respondeu a aquela afirmação com o ponto de ironia que merecia, pelo contrário, disse:

—É a mais brilhante das estrelas fugazes que já cruzaram o aveludado firmamento. - Elevou o joelho, liberando sua saia, e a colocou do outro lado de seu corpo. - Só vou te apanhar e te manter aí.

—Se colocou escarranchado sobre ela, ameaçador como se fosse Zeus o que se dispusesse a seduzi-la em segredo. A percorreu brandamente com os lábios nas faces, nos lábios, nas pálpebras, provocando sensações novas para seus sentidos famintos.

Charlotte permaneceu imóvel. Permitiu que fizesse efeito o feitiço que desdobravam suas delicadas carícias. Manteve os olhos fechados. Respirava profundamente, se concentrando no roce de sua pele.

Daí que o seguinte passo de sua tática a pegasse despreparada. De algum modo, uma de suas mãos conseguiu penetrar sob sua saia.

A passou sob o joelho, subiu e colocou o braço sobre a coxa para chegar a seu objetivo: roçar com os dedos o mais íntimo... de seus objetos.

Tentou se sentar, para o dissuadir, mas o torso de Wynter a impediu, além disso voltava a ter apanhada sua saia com os joelhos.

—Chist - sussurrou Wynter enquanto entrava em sua roupa de baixo. - Não se mova.

—Que não me mova? - perguntou quase sem se dar conta também em um sussurro, embora se converteu em um sussurro furioso ao ver que não podia fechar as pernas. Isto é inaceitável! Não pode... colocar a mão onde te dê vontade.

—Só quero a você. - Seu roce era tão sutil como o foram os lábios sobre seu rosto.

Mas estava brincando com o pelo que cobria suas partes secretas! Voltou a tentar dissuadi-lo, mas sua voz falhou.

—Isto não é correto nem aceitável.

—Mas é gratificante?

—Quase parecia sentir... curiosidade, como se não fosse consciente de que a fizera se arrepiar, de que encolhera os dedos dos pés e de que, nas profundidades de seu ser, seu útero estremecia como se desejasse um vínculo mais profundo.

Charlotte tragou saliva.

—Por favor, Wynter.

Abriu sua intimidade com os dedos. Deslizou o polegar acima e abaixo até encontrar um ponto de umidade que Charlotte não podia controlar.

—Meu Deus...

Pôde escutar seu sorriso e sentiu desejos de o esbofetear. Embora não poderia fazê-lo, porque mal podia recordar como elevar os braços.

Wynter inclinou a cabeça e, justo atrás de sua orelha, disse:

—Lady senhorita Charlotte, já viu que posso te dar prazer. - Roçou com o polegar aquele ponto tão sensível. Quando o fazia, Charlotte sentia uma dolorosa rigidez em todo o corpo.

—Pensa em todo o prazer que posso te fazer sentir quando colocar a boca onde agora tenho o dedo - disse baixando o dedo lentamente - e ao beijar cada centímetro - prosseguiu penetrando-a - e a acariciar com a língua.

Tentou não escutar suas palavras, tentou afogar o gemido que subia por sua garganta, mas seus roce, combinado com suas palavras, a impediram. Sentia uma profunda necessidade interior.

Wynter colocava e tirava o polegar com toda intenção, e com cada novo movimento entrava um pouco mais.

Charlotte se agarrou ao extremo do sofá como se um grande tremor a fosse jogar ao chão, mas quanto mais ela movia as pernas, mais forte ele a prendia com seu peso.

—Pensa - ele sussurrou - no muito que vamos desfrutar em nossa noite de bodas, quando a roupa não nos incomodar, quando estivermos nus como Adão e Eva. Você me abraçará. Eu me colocarei entre suas pernas. Entrarei dentro de você muito devagar.

—Com seu polegar ia representando o que indicavam suas palavras - e você...

Pressionou com força sua mão justo ali onde ela mais o necessitava.

Não entendia o que estava ocorrendo com ela... na metade inferior de seu corpo... E, além disso, parecia como se arrastasse o resto de sua anatomia. Suas mãos acabaram posando nos ombros de Wynter. Agarrou com todas as suas forças e gritou:

—Wynter! - Todas suas energias se concentraram no ponto exato onde se encontrava o dedo de Wynter... Não, mais dentro ainda... Deus, tão dentro... Os espasmos foram aumentando, esporeados por seu roce, sua voz, seu peso.

E quando as contrações finalmente se detiveram, e ela descansou sobre o sofá, ele afastou uma mecha da sua testa e disse:

—Vou fazer isto com você uma e outra vez, até que se renda e aceite que está apaixonada por mim.

Não soube de onde lhe saíram as forças, pois sem dúvida não as tinha para levantar a cabeça ou sequer se ruborizar. Mas de algum lugar saíram para sussurrar:

—Não.

Ele deixou escapar uma gargalhada, um suave e erótico som de assentimento.

—Muito bem, pequena flor de oásis. Luta comigo. Luta comigo com todas suas forças. Isso fará que a vitória seja mais doce.

—Charlotte, comprei um presente para você.

Charlotte elevou a vista de sua xícara de chá e viu Wynter sob o marco que dava caminho à galeria. Usava seu traje de viagem e, por uma vez, ia calçado. Trazia sob o braço uma caixa plana de madeira envernizada que parecia adequada para joias.

As mulheres que vieram de visita, quatorze no total, murmuraram apressadas pela curiosidade.

De maneira instintiva, Charlotte levou a mão à larga fita que levava ao redor do pescoço. Cobria um dos chupões que Wynter lhe fizera na noite anterior.

A marca roxa dava a impressão de ter que doer, mas ela não saberia dizer em que momento se produziu. Ou mais certo não saberia dizer como se produziu. Centrara toda sua atenção em tentar o dissuadir que alcançasse sua mais secreta intimidade.

Por isso usava essa fita e supôs que, apesar de seus jogos de mãos, Wynter não a tiraria, pois a poria em um apuro diante de suas convidadas.

Adorna estava sentada em uma confortável poltrona, e sua relaxação e indolência davam a entender a total confiança que depositava nas habilidades de Charlotte como anfitriã.

—Querido menino, me perguntava por que teria ido a Londres de forma tão precipitada. Foi comprar uma jóia a sua prometida. - Se dirigiu a Charlotte, que estava sentada sozinha por trás da mesinha de chá, e lhe disse: - Forma um casal perfeito.

Não poderia me sentir mais afortunada.

O dizia a sério, e Charlotte sabia. Na semana transcorrida desde que anunciaram o compromisso, as relutâncias de Adorna se dissiparam por completo... se é que alguma vez as teve realmente.

Graças a Deus, contara com a ajuda de Adorna, pois sem ela Charlotte não poderia resistir todas aquelas festas e preparativos.

—Podemos ver o que lhe traz? - perguntou Adorna. É obvio que podiam vê-lo. Charlotte deveria ter suposto que as joias seriam o seguinte passo, tendo em conta as habilidades de seu prometido.

Wynter estava convertendo seu compromisso em todo um espetáculo. Queria que o fato de tomar posse de Charlotte se convertesse em um ato totalmente inequívoco.

Charlotte deixou o bule na bandeja e sorriu para agradar a seu público, embora mal curvou os lábios.

—Que detalhe por sua parte, senhor. Ardo em desejos de saber de que se trata.

Esperava incomodá-lo com semelhantes comentários. Mas em lugar disso, Wynter sorriu, e foi um sorriso sincero que jogou por terra suas brincadeiras.

—Assim é justamente como eu gosto de vê-la, lady senhorita Charlotte.

Alguém soprou. A senhora Burton sufocou uma gargalhada.

Wynter elevou a mesinha de chá e a deixou a um lado, depois se ajoelhou tão perto de Charlotte que seus joelhos se tocaram.

Inclusive ajoelhado era mais alto que ela, e por cima de seu ombro pôde ver todas aquelas mulheres boquiabertas, desejosas de saber o que ia passar a seguir.

Charlotte, entretanto, temia que Wynter montasse uma de suas cenas. Todos os dias e todas as noites, em qualquer lugar que estivesse, fosse o que fosse o que estivesse fazendo, ali Wynter aparecia.

Se estava acompanhada, colocava uma mão nas suas costas ou beijava na mão apaixonadamente. Apesar de todos seus esforços, ele sempre parecia capacitado para encontrá-la quando estava sozinha, e então deixava fluir sua corrente amorosa.

A abraçava e percorria livremente seu corpo com os lábios e de vez em quando, só de vez em quando, a levava ao êxtase a fazendo sentir aquelas sensações tão pouco moderadas.

Mas não importava o que ele fazia ou a frequência com a que o fazia - ou o nível de resposta que ela mostrava, - Charlotte se mantinha firme e não lhe declarara seu amor.

Supunha que Wynter devia se sentir um tanto frustrado. Desejava que a desilusão o estivesse afetando. Não demoraria para ser assim.

Wynter sustentou a caixa nas mãos e abriu o fechamento. Tons amarelos ambarinos e brilhantes dourados cintilaram à luz.

Quando Charlotte centrou a vista viu um colar e um bracelete de ouro com incrustações de âmbar, também uns brincos do mesmo estilo e um anel que parecia muito grande para uma mão como a sua.

De fato, tudo parecia muito grande para ela, pois o estilo era muito rude, quase medieval em sua feitura artesanal, e entretanto... cada peça tinha algo mágico. Sem poder evitar, Charlotte estendeu a mão e com o dedo tocou uma das pedras do colar.

A superfície era suave como a seda, e em seu interior parecia brilhar um fogo vermelho.

—Sim - disse Wynter com voz baixa, para que só ela o ouvisse. - Pensei que você gostaria.

Escolhi cada pedra pensando sempre nas chamas de seu cabelo, e insisti em que o engaste fosse como você: gentil e bem trabalhado, totalmente único... e com um toque selvagem, Charlotte. Porque você é selvagem.

Encantada pelo tom profundo e grave de sua voz, elevou os olhos para olhá-lo.

Que tola! Ele manteve o olhar, a retendo ao mesmo tempo que se inclinava para ela.

Sem se dar conta, a caixa escorregou de seu colo.

Wynter entreabriu os lábios e inclinou a cabeça. Ia beija-la, ante suas vizinhas e um punhado de fofoqueiras londrinas... e ela ia permitir que ele o fizesse.

Seu futuro marido teve êxito em um de seus estratagemas: adestrara o corpo de Charlotte para que experimentasse desejo só em lhe ver.

Ela fechou os olhos assim que a boca de Wynter posou sobre a sua.

Para as damas que os estavam observando talvez lhes pareceu um beijo inocente, mas Wynter introduziu sua língua na boca de Charlotte, a obrigando a separar também os lábios, se deslizando em seu interior e a enchendo com seu sabor.

Com grande atrevimento, a empurrou contra sua cadeira até que repousou a cabeça sobre o respaldo, provocando que uma corrente de ilícitas paixões percorresse suas veias.

Seus mamilos - seus mamilos, seguia sem poder acreditar que não tivesse pensado nessa palavra em toda sua vida - se arrepiaram de tal modo que lhe resultou doloroso, e elevou as mãos de seu colo para o agarrar pelas lapelas da jaqueta.

Ele enredou seus inquietos dedos em seu cabelo, desfazendo o trabalhoso penteado, mas ela já não pensava em outra coisa que no prazer que suas carícias proporcionavam a ela.

Quando finalmente se retirou, Charlotte abriu os olhos e recuperou a consciência pouco a pouco.

As mulheres ali presentes não ousaram respirar para não romper o silêncio da cena. Embora nenhum som poderia ter provocado que Charlotte deixasse de olhá-lo.

De olhar para Wynter, com os olhos brilhantes de desejo, com seus lábios úmidos por sua saliva, suaves e avermelhados, criados para beijar, com seus longos dedos trêmulos enquanto os separava de seu rosto.

Talvez a tivesse beijado daquele modo com a intenção de evidenciar uma vez mais que era dele, mas resultava evidente que sentia tanta paixão como ela própria.

Charlotte sabia que não demoraria para se sentir incômoda por aquela pequena cena, mas justo nesse momento... justo nesse momento sentiu desejos de se retirar com ele a algum canto afastado e permitir que ele a tocasse naquele ponto que ele já havia tocado em mais de uma ocasião.

Seu plano para conquistá-la ao que parecia estava funcionando.

Charlotte lhe soltou as lapelas da jaqueta e voltou a colocar as mãos sobre o colo.

—Eu adoraria que deixasse solto seu maravilhoso cabelo para mim. - Roçou distraidamente uma das mechas frisadas que penduravam agora sobre seus ombros. - Tem a cor do fogo e a textura da seda.

Sonho com nossa noite de bodas, quando puder estendê-lo sobre os travesseiros e afundar meu rosto em sua fragrância. - Se inclinou e recolheu a caixa com as joias que caíra ao chão.

Colocou o bracelete ao redor do pulso dela, acompanhando o movimento com um beijo nesse mesmo ponto.

Tentou tirar os brincos das mãos dele, mas imediatamente ficou bem claro que Wynter desejava enfeita-la ele mesmo e ela se negou a lutar com ele por medo a perder sua dignidade.

Os beijos que dedicou a suas orelhas apenas roçaram a pele, mas igualmente provocaram que um calafrio percorresse suas costas.

Passou as mãos por debaixo de seu cabelo para fechar a corrente ao redor de sua garganta. Depois, com um movimento tão suave como os do amante que ela imaginava em suas fantasias, a beijou no pescoço.

Seu pulso acelerou e mal pôde conter um gemido enquanto sua boca deslizava para baixo, justo até o limite do pescoço de seu vestido. Teria se detido se não tivesse topado com ele?

As pálpebras de Wynter pareciam pesar quando estendeu a mão em busca da última peça. O anel. O deslizou sobre seus nódulos para acabar o hospedando na base de seu dedo. A pedra de âmbar transmitia uma evidente mensagem. Era a mulher de Wynter.

Uma de suas propriedades. Muito tarde para afastar sua mão da de quem ia ser seu marido. Ele levou sua mão até os lábios e a beijou.

Primeiro beijou o anel, depois a ponta de seus dedos, depois a palma, e todos seus beijos pareciam diferentes e especiais.

Aqueles beijos respondiam à provocação que lhe havia exposto, e deviam dizer sem palavras que acabaria enrolando-a e que a faria sua quisesse ela ou não.

A fez fechar os dedos ao redor de seu último beijo, a obrigando a manter a mão fechada para que mantivesse intacta aquela etérea posse.

—Guarda este beijo para os momentos da noite nos que estou sozinho em meu dormitório e você está sozinha em seu leito virginal.

O coloca então onde deseje e imagina como se sentirão meus lábios quando por fim a possa ter entre meus braços e a amar mais à frente do prazer.

Elegante e apaixonado, ficou em pé, ainda sustentando sua mão. Como se não pudesse resistir ao impulso de fazê-lo, ainda a beijou uma vez mais nos dedos antes de soltá-la. Se voltou para as damas e lhes dedicou uma reverência.

Já na porta, se inclinou para Charlotte e, de algum modo, transmitiu com aquele simples ato um toque de devoção, de paixão e de austero desejo.

Justo antes de partir, a última coisa que viu, Charlotte sabia muito bem, foi como as faces da sua prometida avermelhavam.

Crack! Uma dúzia de leques se abriram ao uníssono e começaram a se mover ante os acalorados rostos de suas proprietárias.

—Que curioso. - Adorna passou um lenço pela testa. - Faz calor aqui, não é?

Charlotte deitou na cama e colocou um travesseiro sob sua cabeça, desejando poder evitar qualquer lembrança relativa a Wynter para conciliar o sono e não sonhar com ele, suas repentinas aparições ou suas inesperadas torturas.

Torturas que a faziam gritar sem poder evitar. Ela que sempre esteve orgulhosa de não dizer palavras malsoantes nem de falar sem pensar.

Sem dúvida ele riria de que ela tivesse se sentido orgulhosa por esse tipo de coisas, e lhe diria que os ruidinhos que fazia durante seus escarcéus sexuais não eram palavras, a não ser tão só sons que expressavam sensações internas.

Bom, esse era precisamente o problema, ou não? Ela não queria mostrar a ele suas sensações internas. Acaso uma mulher não precisava proteger sua intimidade inclusive mentalmente?

Ao que parecia, não, pois essa noite não teve maneira de afastar Wynter de seus pensamentos.

Um ruído no balcão fez com que se erguesse de repente na cama. O tamborilar de metal contra a madeira. Pôde ver, no chão do balcão, um gancho de ferro de quatro ganchos preso a uma corda que pendurava sobre o corrimão.

Wynter. Wynter planejara subir pelo exterior e invadir seu quarto.

Seu pulso acelerou como lhe ocorria sempre quando notava sua presença. Deus bendito, tinha a intenção de possuí-la ali, justo nesse momento? Ou se trataria de outra de suas longas séries de carícias?

Fechou as coxas tentando refrear a umidade que começou a surgir devido a seus pensamentos.

Tal como ele desejava, Charlotte estava se convertendo em uma viciada em seus roce, e para quando chegassem as bodas, ela estaria em condições de suplicar para que a possuísse.

Mas nesse momento, ia suplicar a ele que a deixasse tranquila.

O gancho de ferro se arrastou lentamente pelo chão, estirado pela corda, até que subiu pelo corrimão e se enganchou nele. Wynter puxou de novo, com força, para assegurá-lo, e com um rangido da madeira, o gancho de ferro saiu voando.

Durante um segundo de horrorizada fascinação, Charlotte observou aquele lugar vazio onde antes ficara fixado o gancho de ferro. Em pouco tempo escutou um golpe seco, seguido de uma cascata de lascas e uma única expressão malsoante.

Voltou a se deitar na cama, desejando que Wynter não tivesse se machucado muito.

Charlotte dormiu como não o fizera em muito tempo.

 

—Já disse, senhora, eu também acreditei que se tratava de um ataque de histeria da menina, até que ouvi ruídos e vi a forma fantasmal de cor branca percorrendo o corredor se dirigindo para mim. - A senhorita Symes puxou as franjas de seu xale de lã.

Adorna entendeu que o que ela estava dizendo era um mau sinal, pois a senhorita Symes era a mulher mais pragmática que conhecera em sua vida.

—Querida Symes, não duvido de você, simplesmente disse que resulta do mais inconveniente que haja um espectro rondando pela casa enquanto levamos a cabo os preparativos das bodas.

Me tomou muito convencer à costureira para que ficasse, está aterrada, e só fez a metade do vestido de Charlotte! Não está comendo muito bem ultimamente e a costureira teve que ajustar um pouco na cintura.

—Adorna não pôde evitar que sua voz tivesse um toque de ofensa. Estava sentada atrás da escrivaninha, em seus aposentos, fazendo uma lista das tarefas imprescindíveis a levar a cabo e comprovando todas aquelas que já foram completadas.

Inundada como estava na montanha de trâmites que suportava obter que Wynter e Charlotte se casassem antes da recepção seremínia, ter que confrontar essa nova situação parecia ridículo.

—Nunca antes tivemos um fantasma em casa. Você não pode fazer que desapareça?

—Estou fazendo tudo o que posso, senhora.

Começamos a fazer vigia, mas os homens dormem ou estão assustados, por isso não podemos confiar neles. Além disso, as criadas nos abandonam e o trabalho se acumula, e estamos a menos de uma semana das bodas...

—Sei, querida Symes, e você esteve trabalhando com verdadeiro afinco. - Adorna pegou a mão da senhorita Symes e a palmeou. - Deixe que reflita um pouco a respeito deste problema.

Estou convencida que se o tentasse, poderia encontrar alguém especializado em exorcismos.

—OH, minha senhora!

—O que?

—Isso me parece um pouco... extremado.

—Não sei por que. Senão, como poderia alguém se livrar de um fantasma? Se não acabarmos com ele, teremos que sofrer com isso. - A Adorna ocorreu uma coisa. - Talvez esse fantasma seja um pouco rude, como Wynter. Talvez necessite uma instrutora.

—Uma instrutora para fantasmas? - repetiu a senhorita Symes com um fio de voz.

—Ou um bom bate-papo. - Adorna assentiu, satisfeita com a solução que lhe ocorrera. - Isso é! Deixe que eu me ocupe do fantasma. Conversarei com ele. Mas agora não, querida Symes. Estou ocupada.

A governanta fez uma reverência e se foi, deixando que Adorna voltasse para o trabalho. Um trabalho que, para falar a verdade, adorava. Precisava organizar duas festas consecutivas! Umas bodas e uma recepção real.

Não poderia ter lhe ocorrido nada mais divertido.

—Mãe! - disse Wynter da porta, - há algo que tenho que dizer.

—Querido, é precisamente o homem com o que queria falar. Já enviamos os convites. Convidamos a todo mundo, carinho, assim terá que me prometer que se comportará como é devido. Sabe como fazer bem as coisas quando se propõe isso.

O tio Ransom e a tia Jane voltaram da Itália, grande coincidência! E estarão aqui para a cerimônia. O cozinheiro já tem o menu preparado. Os meninos estão tão nervosos pelas festas...

—Adorna deixou de falar, comprovou os assuntos de sua lista e olhou a seu filho enquanto este se aproximava coxeando à lareira. Durante uns segundos se perguntou se Charlotte provocara que seus órgãos masculinos se elevassem.

Ato seguido percebeu que enfaixara um de seus pés nus.

—Por que caminha desse modo?

—Não é nada, mãe. - Wynter franziu o cenho como se a pergunta o tivesse intimidado. - Estará curado para o dia das bodas.

Adorna apoiou as costas no respaldo da cadeira.

—Finalmente Charlotte conseguiu encontrar uma fenda em sua infalibilidade?

—Charlotte não tem nada a ver com isto.

—Não minta, querido. Já a uns quantos dias, para você tudo tem a ver com Charlotte. - Com muita prudência, Adorna introduziu a pluma no tinteiro. - Ou acaso não é assim?

—Se ao menos admitisse que está apaixonada por mim - espetou. Com um tom mais comedido, acrescentou: - Se admitisse que está apaixonada por mim, sem dúvida seria mais feliz.

Adorna estava encantada! Não planejara absolutamente que seu filho se casasse com Charlotte, mas agora que se tratava de algo inevitável se dava conta de quão acertado seria aquele enlace. Iria muito bem juntos!

Ou melhor, iria bem quando limassem algumas pequenas diferenças.

Wynter se sentia tão frustrado que estava confessando a sua mãe, algo que não voltara a fazer desde que cumpriu os onze anos, quando aquela mocinha, Prunella, deu um murro no nariz dele e o fez sangrar.

E Charlotte. Por muito que elevasse o queixo não podia enganar Adorna; sob a suposta resignação que mostrava se escondia toda sua determinação e sua ânsia de rebelião. Bom, não podia ser de outro modo.

Só teria que recordar como jogara por terra os planos de seu tio para ela. Wynter possuía um caráter mais forte que o conde de Porterbridge, e Adorna adorava ser testemunha daquela luta de titãs.

—Charlotte é uma moça sensível. Se o amar a fizesse feliz, estou convencida de que o admitiria. Inclusive embora não fosse certo.

—Mas está apaixonada por mim. - Se colocou em frente à lareira com os braços cruzados e as pernas separadas como um marinheiro. - Como ela poderia não estar apaixonada por um homem de minha honorável e elevada natureza?

Adorna se pôs a rir. Sua risada era uma versão feminina da de Wynter, e quando deixou de rir olhou a seu filho e ao ver que parecia aborrecido, disse:

—Wynter, meu querido! Se isso fosse certo, todas as mulheres da Inglaterra se apaixonariam por você. - Levantou uma mão antes que pudesse responder. - E isso não é assim. Asseguro isso. Sei bastante de amores.

Mas Adorna não podia esperar rir de seu filho sem receber seu castigo.

—Não entendo, mãe, por que se considera uma perita nisso que você chama amor. Não parece estar exultante agora que lorde Bucknell deixou de visita-la.

Adorna sentiu imediatamente em seu interior a pontada que provocou seu comentário. Não queria aceitar ainda o fato que deixara de vê-la. Mas precisava confrontar os fatos: ele não desejava aceitar suas condições e ela não desejava aceitar as dele. O céu se acabou. Inclusive Wynter, ocupado como estava em seus próprios assuntos, percebeu.

—O que diz não tem nenhum sentido - respondeu ela com firmeza. - Eu adoro que tenha encontrado algo que o satisfaça mais no que empregar seu tempo. - Mas piscou várias vezes para evitar que as lágrimas corressem por suas faces.

Não ia enganar Wynter com facilidade.

—Convidamos lorde Bucknell à bodas?

—É obvio, carinho. - Tentou sorrir com sua exuberância habitual. - Somos amigos.

—Foram mais que amigos.

Quando ela perdera o controle da conversação? E mais, desde quando Wynter atendia a algo que não fossem os negócios ou os cavalos?

—Lorde Bucknell não tem a joie de vivre [10]de seu pai.

—Isso, mãe, não é mais que uma pequena diferença entre ambos.

—Não, não o é. Todo homem tem seu atrativo; ao menos, seu pai o tinha. Bucknell é muito sóbrio. - Antes que Wynter pudesse replicar de novo, acrescentou: - É incrivelmente sério.

Mas não se separava de mim e... bom, pela primeira vez desde a morte de seu pai, me senti atraída por um homem.

—Encontrou então um modo de mudar o assunto e voltar a centrar a conversação nele, como devia ser. - Às vezes a qualquer um gostaria de se sentir atraído por alguém mais brilhante, mas as coisas nunca funcionam assim, não te parece?

Lorde Bucknell e eu, Charlotte e você. Pessoas totalmente diferentes.

—Meu pai do deserto me disse que os homens e as mulheres são totalmente diferentes.

Grandes crenças ele trouxe do Bahar! Não invejava o trabalho que de agora em diante Charlotte teria que levar a cabo com ele.

—Não, não o são, querido. Todos sentimos a mesma dor, desfrutamos com as mesmas coisas, queremos de todo coração. Às vezes desejamos coisas diferentes, como você, que deseja Charlotte apesar que o que ela deseja é amor.

—Deixou que a frase causasse um efeito. Voltou a se centrar no trabalho que estava sobre a escrivaninha e disse: - estive pensando.

Ele reconheceu sua jogada. Estava acostumado a fazê-lo desde que era um menino. Queria mudar de tema, mas a ele ocorreu uma boa ideia.

—Pensar sempre é uma atividade perigosa, mãe. No que esteve pensando?

—Me refiro ao desfalque. Não foi grande coisa, depois de tudo.

Seu comentário, e especialmente o tom persuasivo e coloquial com que o disse, o surpreendeu.

—Não foi grande coisa?

—Quero dizer que quem o fez não levou muito dinheiro, tolo. Fosse quem fosse não pegou uma grande quantidade. - Pegou a pluma e a afundou no tinteiro. - Ou sim?

Aonde queria ir parar?

—Não sei o que dizer. Cada vez que reviso os livros de contas, a quantidade muda. O estelionatário parece preocupado, pois está devolvendo o dinheiro.

—Sim, claro, é obvio que está preocupado. - Fez uma marca na página que estava à frente. - Não há uma só pessoa em nossa empresa que não tenha bom coração, e se pegou o dinheiro estou segura que teve uma boa razão para isso.

Simplesmente tomou emprestado e agora o está devolvendo.

Wynter observou o cabelo loiro que cobria a nuca de sua mãe.

—E se quiser voltar a tomá-lo emprestado, o permitiríamos fazê-lo? Mãe, o que está dizendo?

—Que fosse o que fosse quem o fez, sem dúvida está profundamente arrependido.

Wynter adorava sua mãe, mas sua mente sempre foi um mistério para aqueles que a rodeavam; exceto para seu pai, embora inclusive às vezes ele precisava sacudir a cabeça e sorrir. Mas isto era muito!

—Mãe, não se trata de um menino que não conhece o que está bem ou o que está mau e leva um brinquedo que não é dele. Estamos falando de um homem que roubou dinheiro, seu dinheiro, e que tem que ser castigado.

—Isso soa muito duro. - Suspirou.

—Não há desculpa alguma para esse tipo de comportamento.

—OH, Wynter, como é. - Sua risada fluiu como um regato espumante. - Sempre há alguma desculpa. Já tem algum suspeito?

—Agora mesmo, tenho muitos.

—OH. - Inclinou a cabeça sobre a escrivaninha e sua pluma se moveu acima e abaixo enquanto escrevia. - Aos quais se refere ?

—Hodges, por exemplo. Assegura que a adora, e está muito claro que não o agrada que eu tenha voltado nem que tenha tomado as rédeas da empresa. Shibottie proclama sua total fidelidade a papai, algo que poderia resultar suspeito dado o desfalque.

Os outros não parecem dispor de inteligência suficiente para riscar semelhante plano.

Adorna deixou de escrever.

—Então, Stewart não se encontra entre seus suspeitos.

Wynter odiava ter que dizer isso mas não podia ocultar esse detalhe a Adorna.

—Stewart é meu principal suspeito. Fiz certas armadilhas para ele, e pelas dunas do deserto, estou seguro que o apanharei.

Adorna se voltou para trás para olhá-lo no rosto. Segurou com tanta força o respaldo da cadeira que seus nódulos ficaram brancos.

—Stewart? Meu querido Stewart? Como pode acreditá-lo capaz? Ele sempre foi meu principal apoio.

—Exato. - Wynter assentiu. - Tinha acesso ilimitado aos recursos.

—É seu primo.

—É um ladrão.

—Ladrão - repetiu Adorna em um sussurro. - Que palavra tão fria, Wynter.

—Roubar é uma arte que requer frieza.

—Bem. - Adorna afastou uma mecha de cabelo que caíra sobre sua testa. - Me mantenha informada de tudo o que descubra.

Ele era mais preparado do que acreditava.

—Para que possa avisá-lo, mãe? Não, isso não parece um movimento muito inteligente.

—Mas Wynter... - interpelou Adorna.

—Mas nada. - Apanhar o estelionatário se converteu em sua missão, e ia chegar até o final. Enquanto coxeava a caminho da porta, não pôde evitar sorrir ao pensar na dor que sentia no pé.

—Espera! Wynter, o que veio me dizer?

Wynter deveria saber que ela faria desaparecer qualquer senso comum de sua cabeça.

—Antes das bodas teremos que arrumar os corrimões de todos os balcões. A madeira está podre.

A manhã das bodas amanheceu clara e radiante, demonstrando a Charlotte que o que ia se converter em seu marido era capaz de dominar inclusive o tempo atmosférico.

Ao longo das últimas três semanas, Charlotte se vira acossada por novas e velhas emoções, e agora estava metida em uma banheira com água quente e aromática, observando como descia a luz do sol pela parede e o chão.

Estava como atordoada, resignada a aceitar seu destino. Ia se casar com Wynter. Estaria à altura de sua caridade. E o permitiria entrar nos cantos mais secretos de seu corpo...

Com brio, agarrou a manopla e a pastilha de sabão que Adorna lhe dera.

Em teoria, o inteligente em seu caso seria permitir a seu marido desfrutar de seu corpo enquanto ela se mostrava indiferente. Mas, em realidade, tinha muito pouco controle sobre seu corpo ou suas reações.

Sua intenção era se manter inalterável apesar de suas carícias. Levá-lo a prática já era outro cantar.

—Charlotte, querida, não se entretenha - disse Adorna do outro lado do biombo. - O vestido está aqui, mas seu penteado nos levará um pouco de tempo.

Wynter queria que o deixasse solto, é obvio, mas eu disse que ele perderia o prazer de te tirar as forquilhas à noite. Ou, ao menos, eu pensei que seria um prazer, a menos que ditas ficar colocada aí e...

—Charlotte notou como Adorna fechava a boca de repente.

Jane, a tia de Wynter, aproveitou para participar da conversação.

—A costureira acabou os últimos arremates do vestido ontem à noite. Cada costura no lugar exato, e além disso o cetim branco vai muito bem às cores de Charlotte. Reparou nisso, querida Adorna?

Charlotte sorriu para si. A tia Jane chegara no dia anterior, mas já impressionara Charlotte com sua inteligência e seu engenho. Tanto ela como a mãe de Wynter a impressionaram por sua amabilidade; ante a ausência das mulheres de sua própria família, elas ocuparam seu papel nessa importante manhã.

Adorna respondeu com um toque de altivez.

—Jane, como não ia me dar conta.

Charlotte sorriu ainda mais. O vestido era simples porque Charlotte insistira muito nisso. Um vestido infestado de ornamentos, como o que Adorna queria, teria escurecido uma mulher da estatura de Charlotte.

—A fileira de botões nas costas me parece deliciosa - disse Jane, - mas temo que resultarão bastante incômodos ao se sentar.

—OH, duvido que Wynter queira se demorar no almoço - murmurou Adorna. - Já sabe quão impaciente é.

Charlotte deixou cair na água a pastilha de sabão.

Atrás do biombo se fez o silêncio.

Então, tia Jane disse:

—Que formosas mangas. Dão ao vestido um toque medieval, e reconheço o véu.

—Já passou por duas bodas - acrescentou Adorna. Ambas o puseram, e Charlotte se sentiu comovida e muito honrada quando o ofereceram.

—As joias não lhe parecem encantadas? Teria que ter estado presente quando Wynter as entregou! - Adorna riu e depois deixou escapar um gritinho como se lhe tivessem dado uma cotovelada.

Jane disse:

—A cor do âmbar me recorda a... - Baixou a voz. Charlotte deixou de procurar o sabão e tentou decifrar o que dizia. A que lhe recordava aquela cor? Vira alguma marca no vestido? Acaso as traças teriam...?

Wynter apareceu por um extremo do biombo.

O sangue de Charlotte gelou.

Estava vestido como um cavalheiro inglês qualquer, com um formal traje negro feito à medida que rodeava os ombros e ficava entalhado na cintura. Mas estava descalço... e entrou no quarto de Charlotte. Enquanto estava se banhando.

E a olhava com olhos que destilavam paixão.

Adorna foi a primeira em dizer algo.

—Wynter, saia daqui imediatamente. Traz má sorte ver a noiva antes da cerimônia!

—Adorna, querida. - Jane parecia ter problemas para manter a respiração. - Não está tendo em conta a verdadeira importância de suas ações.

Charlotte apertou o sabão contra seu peito e se inundou um pouco mais na água.

—Saia! - sussurrou frente a seu impudico e impertinente prometido.

Ele se inclinou para frente e a observou desde aquela privilegiada posição, de cima abaixo.

Tentou cobrir com o sabão todas as suas partes íntimas, mas não demorou para compreender quão inúteis estavam resultando seus esforços.

—Saia - repetiu e colocou a cabeça na água até que lhe cobriu os lábios.

Ele se ajoelhou junto à banheira e colocou um dedo na água.

Charlotte viu aparecer o indignado rosto de Jane por um dos extremos do biombo se inclinando para seu sobrinho. A mão d