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ESCONDIDA - P. 2
ESCONDIDA - P. 2

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

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ESCONDIDA - Parte III

 

Series & Trilogias Literarias

 

 

 

 

 

 

15 Vovó Redbird

Sylvia saudou o sol com alegria e gratidão, com o coração tão leve como ela não sentia havia anos – mais leve até do que na manhã anterior, quando ela encontrara Aurox e escolhera o amor e o perdão em vez da ira e do ódio.

A sua filha estava morta e, apesar da certeza de que ela iria sentir a sua perda pelo resto da vida, Sylvia sabia que Linda estava finalmente livre do solo infértil em que a sua vida havia se transformado. Agora ela descansava em paz no Mundo do Além com Nyx, feliz e sem dor. Essa constatação fez a velha mulher sorrir.

Sentada na sua mesa de artesanato na sala de trabalho de sua casa, ela cantarolava uma antiga canção de ninar Cherokee enquanto analisava as diversas ervas, pedras, cristais e linhas, escolhendo um ramo de erva-doce longo e macio para enrolar junto com um feixe de lavanda seca. Neste amanhecer, ela iria cantar para o sol enquanto a fumaça purificadora da erva-doce e o aroma relaxante da lavanda se misturavam e a banhavam junto com a luz do sol. Enquanto fabricava o bastão de defumação, Sylvia deixou de refletir sobre a sua filha biológica e passou a pensar em Zoey, a sua filha do espírito.

– Ah, u-we-tsi-a-ge-ya, sinto tanto a sua falta – ela disse em voz baixa. – Vou ligar para você hoje depois do pôr do sol. Vai ser bom ouvir a sua voz – a sua neta era jovem, mas havia recebido dons especiais de sua Deusa e, mesmo que isso significasse que Zoey tinha responsabilidades incomuns para carregar, também significava que ela tinha o talento de se superar para enfrentar os desafios que vinham com essas responsabilidades adicionais.

E isso fez com que a mente de Sylvia se voltasse para Aurox, o garoto que também era uma besta.

– Ou ele é uma besta que também é um garoto? – enquanto suas mãos trabalhavam, a velha mulher balançou a cabeça. – Não, eu vou esperar o melhor dele. Eu o chamei de tsu-ka-nv-s-di-na. Touro, em vez de besta. Eu o encontrei, olhei nos seus olhos e o vi chorando de arrependimento e solidão. Ele tinha um espírito, uma alma e, portanto, uma escolha. Vou acreditar que Aurox vai escolher a Luz, mesmo que as Trevas habitem o seu interior. Nenhum de nós é inteiramente bom. Ou mau – Sylvia fechou os olhos, inalando o aroma doce das ervas. – Grande Mãe Terra, fortaleça o bem dentro daquele garoto e permita que o tsu-ka-nv-s-di-na seja domado.

Sylvia começou a cantarolar de novo enquanto terminava de fabricar o bastão de defumação. Foi só quando completou o trançado de erva-doce e lavanda que ela percebeu que a cantiga que cantarolava havia se transformado em outra bem diferente: Song for a Woman who was Brave in War. Apesar de ainda estar sentada, Sylvia começou a bater os pés e a subir e descer o tom de voz para acompanhar o ritmo forte.

Quando se deu conta do que estava fazendo, Sylvia ficou completamente imóvel. Ela olhou para as suas mãos. Entremeada dentro da trança de erva-doce e lavanda, havia uma linha azul que estava amarrada e presa com nós a turquesas brutas. Em um choque de claridade, Sylvia compreendeu.

– Um Feixe da Deusa – Sylvia falou as palavras com reverência. – Obrigada, Mãe Terra, por este aviso. O meu espírito escuta você, e o meu corpo obedece – devagar, solenemente, a velha mulher se levantou. Ela caminhou até o seu quarto e tirou a camisola. Abrindo o armário encostado nas paredes rústicas de pinho, Sylvia pegou a sua relíquia mais sagrada: o manto e a saia que ela havia feito assim que descobriu que estava grávida de Linda. A pele de cervo estava velha e ficava um pouco folgada no seu corpo magro, mas ainda era lisa e macia. O verde que Sylvia tinha passado tanto tempo misturando pigmentos para fazer, e que depois usou para tingir as peças, ainda permanecia com o mesmo tom de musgo, mesmo depois de três décadas. Nenhuma das contas e conchas haviam se soltado.

Enquanto Sylvia fazia uma trança longa e grossa em seu cabelo prateado, ela começou a cantar em voz alta Song for a Woman who was Brave in War.

Ela colocou brincos de prata e turquesa.

A sua voz ficava mais alta e mais baixa, acompanhando a batida dos seus pés descalços, enquanto ela pendurava colares de turquesa em volta do pescoço, colocando um em cima do outro, para sentir o seu peso familiar e seguro.

Sylvia envolveu seus pulsos finos com braceletes de turquesa e pulseiras menores de prata e turquesa – sempre turquesa –, até os dois antebraços estarem quase completamente preenchidos, do pulso ao cotovelo.

Só então Sylvia pegou seu bastão de defumação e uma caixa de fósforos longos e saiu do seu quarto.

Ela deixou que o seu espírito guiasse os seus pés descalços. O espírito dela não a levou para o riacho borbulhante que corria atrás da sua casa, onde ela normalmente saudava o amanhecer. Em vez disso, Sylvia se viu no meio da sua ampla varanda frontal. Continuando a seguir os seus instintos, ela acendeu o bastão de defumação. Com graça e movimentos hábeis pela prática, Sylvia começou a girar em volta de si mesma junto com os aromas de erva-doce e lavanda. Quando ela foi engolfada pela fumaça dos pés à cabeça, ainda cantando a canção de guerra das Sábias Cherokee, Neferet saiu de um poço de Trevas, materializando-se diante dela.

Neferet

A voz de Sylvia Redbird soava como o barulho de giz arranhando um quadro-negro.

– De acordo com o seu sistema de crenças, é falta de educação não saudar um convidado – Neferet levantou a voz para poder ser ouvida mais alto do que a canção horrível daquela velha.

– Você não é convidada. Você não recebeu nenhum convite para vir à minha casa. Isso faz de você uma intrusa. De acordo com as minhas crenças, eu a estou saudando adequadamente.

Neferet sorriu. A velha havia parado de cantar, mas ainda estava batendo seus pés descalços em um ritmo repetitivo.

– Essa canção é quase tão irritante quanto essa fumaça. Você realmente pensa que esse fedor a protege?

– Eu penso muitas coisas, Tsi Sgili – Sylvia disse, ainda agitando a grossa varinha de ervas em volta de si mesma, enquanto dançava sem sair do lugar. – Neste momento, estou pensando que você quebrou a promessa que fez para mim quando minha u-we-tsi-a-ge-ya entrou no seu mundo. Eu a censuro por isso.

Neferet estava quase achando graça na insolência daquela velha.

– Eu não fiz nenhuma promessa a você.

– Você fez. Você prometeu ser a mentora e protetora de Zoey. E então você quebrou essa promessa. Você tem uma dívida comigo por essa promessa quebrada.

– Velha, eu sou uma imortal. Não estou presa às mesmas regras que você – Neferet zombou.

– Você pode ter se tornado imortal. Isso não muda as leis da Mãe Terra.

– Talvez não, mas muda o modo como elas são aplicadas – Neferet afirmou.

– Essa promessa quebrada é apenas uma das dívidas que você tem comigo, bruxa – Sylvia disse.

– Eu sou uma deusa, não uma bruxa! – Neferet sentiu a sua raiva aumentar. Ela começou a se aproximar da varanda devagar. As gavinhas de Trevas deslizaram junto com ela, apesar de Neferet sentir a sua hesitação quando tufos de fumaça branca flutuaram para baixo, parecendo se dissolver em volta delas.

Sylvia continuava dançando e agitando o bastão ao seu redor.

– A segunda dívida que você tem comigo é maior do que uma promessa quebrada. Você tem uma dívida de vida comigo. Você matou a minha filha.

– Eu sacrifiquei a sua filha por um bem maior. Não devo nada a você!

A velha mulher não prestou atenção nela. Em vez disso, ela fez uma pausa em sua dança para se inclinar e colocar as ervas fumegantes aos seus pés. Então ela levantou o rosto e ergueu os braços, como se estivesse abraçando o céu.

– Grande Mãe Terra, ouça-me. Eu sou Sylvia Redbird, Sábia Cherokee e Ghigua da minha tribo, aquela da Morada da Noite. Eu imploro misericórdia. A Tsi Sgili, Neferet, que já foi Grande Sacerdotisa de Nyx, cometeu perjúrio. Ela tem uma dívida comigo por uma promessa quebrada. Ela também é a assassina de minha filha. Ela tem uma dívida de vida comigo. Eu invoco a sua ajuda, Mãe Terra, e proclamo que essas duas dívidas devem ser quitadas. O pagamento que eu solicito é proteção.

Ignorando as gavinhas de Trevas que estavam se acovardando em volta dela, Neferet se aproximou de Sylvia, subindo os degraus para a varanda enquanto dizia:

– Você está completamente enganada, velha. Eu sou a única deusa que a está ouvindo. Eu sou a imortal para quem você devia estar implorando proteção.

Neferet entrou na varanda cheia de fumaça quando Sylvia falou novamente. A voz da velha mulher havia mudado. Quando invocou aquela a quem chamava de Grande Mãe, a voz dela estava poderosa, mais baixa e suave. Os seus braços não estavam mais abertos. O seu rosto suplicante não estava mais levantado para o céu. Em vez disso, os seus olhos escuros encontraram o olhar de Neferet sem se abalar.

– Você não é nenhuma deusa. Você é uma garotinha ferida, com o espírito maldoso. Tenho pena de você. O que aconteceu com você? Quem a feriu, filha?

A raiva de Neferet era tão intensa que ela sentia que ia explodir. Sem se lembrar dos filamentos de Trevas, ela atacou Sylvia, querendo ferir, cortar e dilacerar aquela velha horrorosa com suas próprias mãos.

Com um movimento tão rápido que contrariava a sua idade, Sylvia colocou os braços na frente do seu rosto defensivamente, e recebeu a explosão de ódio de Neferet.

A dor fulminou o corpo da Tsi Sgili, irradiando-se das suas mãos. Neferet berrou e se esquivou para trás, olhando para as marcas sangrentas que ficaram em seus pulsos, queimadas com a forma exata das pedras azuis dos braceletes que envolviam os braços murchos da velha.

– Você se atreve a me atacar! A atacar uma deusa!

– Eu não ataquei ninguém. Eu só me defendi com as pedras de proteção com que a Grande Mãe me presenteou. – Sem deixar de olhar para ela, e mantendo levantados os seus braços envolvidos em turquesa e prata, a velha mulher começou a cantar de novo.

Neferet sentia vontade de despedaçá-la. Mas, enquanto se aproximava mais da Cherokee, ela podia sentir a onda de calor que se irradiava das pedras azuis das quais ela estava coberta. Era como se elas pulsassem com um fogo equivalente à sua própria fúria.

Ela precisava do touro branco! As Trevas geladas dele iriam extinguir as chamas da velha. Talvez a energia estranha que ela ostentava o surpreendesse e ele emprestasse novamente a Neferet o seu poder encantador.

Controlando a sua raiva, Neferet deu um passo para trás, saindo do anel de fumaça e calor que engolfava Sylvia. Ela analisou a velha mulher, observou a sua dança, escutou a sua canção. Antiga. Ancestral. Tudo em relação a Sylvia Redbird dizia que ela e o poder da terra que ela portava já estavam ali havia muito tempo.

O touro branco também era ancestral.

Aquela índia não iria surpreendê-lo.

– Eu mesma vou lidar com você – ainda sustentando o olhar de Sylvia Redbird, Neferet levantou suas mãos e, sem a menor hesitação, usou suas unhas afiadas para abrir as feridas feitas pelas turquesas protetoras da velha. O seu sangue fluiu livremente, respingando na varanda. Neferet sacudiu as mãos, borrifando gotas escarlates através da nuvem de fumaça, tingindo a velha com pontos vermelhos brilhantes, que eram um contraste forte e gritante com os tons de verde e azul que ela usava. Então Neferet virou as palmas da mão para cima, deixando que o sangue se empoçasse ali. – Venham, meus filhos das Trevas, bebam! – ela disse, e as gavinhas hesitaram no começo, mas tomaram coragem depois de provar o sangue de Neferet.

Neferet observou a índia arregalar os olhos e viu a sombra do medo dentro deles. Sylvia não deixou de olhá-la intensamente, mas a sua canção ficou vacilante. Sua voz começou a soar velha... fraca... trêmula.

– Agora, meus filhos! Vocês provaram o meu sangue e Sylvia Redbird foi ungida por ele. Aprisionem-na! Tragam-me a velha! – a voz de Neferet se transformou e ganhou ritmo. Sombriamente, ela espelhou a canção de guerra de Sylvia.

“Vocês não precisam matar

Vocês só precisam saciar a minha raiva.

Vocês já beberam o bastante.

Agora criem uma jaula para mim.

Vou transformar o velho em novo.

Vocês terão um banquete de juventude, vigor e força.

Ajam com precisão para mim.

E acabem com a canção dessa velha mulher!”

As gavinhas obedeceram Neferet. Elas evitaram as turquesas da velha e se enrolaram em volta dos seus pés descalços e sem ornamentos, interrompendo a sua dança cadenciada. Como o chão de uma jaula, Trevas se formaram a partir dos seus pés, espalhando-se e subindo por todos os lados, aprisionando Sylvia. Finalmente, a canção dela foi silenciada e substituída por um grito agonizante quando ela foi levantada e as Trevas seguiram a sua mestra, movendo-se através das sombras e das névoas e carregando a terrível jaula e a sua prisioneira.

Aurox

Aurox esperou até que o sol estivesse alto no céu do inverno antes de escalar o buraco de novo. A manhã estava acinzentada e cheia de nuvens, mas com o passar interminável das horas o sol do inverno tinha finalmente aparecido através da névoa e das sombras. Ao meio-dia, quando o sol estava em seu ponto mais alto no céu, Aurox emergiu.

Ele não permitiu que aquela sensação de urgência que formigava em sua pele o deixasse imprudente. Aurox usou os músculos salientes dos seus braços para segurar firme nas raízes e ficar pendurado na beira do buraco, com a cabeça parcialmente para fora. Ele usou todos os seus sentidos paranormais para olhar em volta. Eu preciso fugir sem ser visto, era o principal pensamento em sua mente.

A escola não estava tão silenciosa como havia ficado no dia anterior. Trabalhadores humanos estavam ocupados consertando a parte danificada do estábulo. Aurox não viu nenhum vampiro, mas o cowboy humano, Travis, parecia estar em toda parte. Sim, as mãos e os antebraços dele ainda estavam enfaixados com gaze branca, mas a voz dele era tão forte que atravessou os jardins da escola e chegou até Aurox. Lenobia não apareceu no sol do meio-dia, mas ela não precisava. Travis estava lá por ela, e não simplesmente para lidar com os trabalhadores. O cowboy interagia livremente com os cavalos. Aurox observou Travis mudando a grande Percherão e a égua negra de Lenobia de um cercado temporário para outro.

Ele não apenas trabalha para Lenobia. Ela confia nele. Essa percepção surpreendeu Aurox. Se uma Grande Sacerdotisa pode confiar tanto em um humano nesse período de estresse e tumulto, talvez exista uma chance de que Zoey possa...

Não. Ele não ia se deixar iludir com uma fantasia dessas. Aurox havia escutado o que ele era. Zoey também tinha escutado. Todo mundo havia escutado! Ele fora criado pelas Trevas através do sangue vital da mãe de Zoey. Ele estava fora do alcance da confiança ou do perdão dela.

Só há uma única pessoa neste mundo que confia em mim... só uma pessoa que me perdoou. É para ela que eu tenho que ir.

Aurox ficou pendurado ali, espiando através das raízes e dos pedaços de casca de árvore, esperando... observando... Finalmente, os humanos começaram a se afastar do estábulo, conversando sobre como eles estavam felizes por poderem ir a pé até o Queenies e comerem um sanduíche Ultimate Egg no almoço. E eles estavam rindo. Amigos sempre riem.

Aurox desejava muito compartilhar risadas com amigos.

Quando eles estavam de costas para Aurox e as suas vozes desapareceram, ele puxou o próprio corpo para fora do buraco e, feito um macaco, escalou a árvore caída até o ponto em que ela encostava no muro da escola, saltando por cima dele.

Aurox queria sair dali em disparada, queria despertar a besta, rasgar o solo e correr com todo o seu poder sobrenatural. Em vez disso, ele se forçou a caminhar. Ele tirou a terra, as folhas e a grama da sua roupa. Ele passou os dedos pelo seu cabelo emaranhado, tirando o acúmulo de lama e sangue e tentando penteá-lo para ficar com alguma aparência de normalidade.

O normal era bom. O normal não era notado. O normal não era aprisionado.

O carro estava exatamente no mesmo lugar em que ele o havia deixado no dia anterior. A chave ainda estava na ignição. As mãos de Aurox tremeram apenas um pouco quando o motor começou a funcionar e ele saiu do estacionamento dos fundos da Utica Square, rumando para o sudeste, em busca de refúgio.

O percurso até lá pareceu rápido. Aurox ficou feliz com isso. Quando o carro fez o retorno para entrar na pista que levava até a casa de Vovó Redbird, ele abaixou os vidros das janelas. Apesar de o dia estar frio, ele queria inalar o aroma de lavanda e com isso aceitar a sensação de calma que aquele perfume oferecia. Assim como ele havia aceitado o refúgio que Vovó Redbird oferecera.

Quando Aurox estacionou na frente da sua ampla varanda frontal, tudo mudou. No começo ele não entendeu, não conseguiu processar aquilo. O cheiro o atingiu, mas ele lutou contra a compreensão que inalou simultaneamente.

– Vovó? Vovó Redbird? – Aurox chamou quando saiu do carro e correu pela lateral da pequena casa de campo. Ele esperava encontrá-la perto do riacho cristalino; ela pertencia àquele lugar. Ela deveria estar cantarolando uma canção alegre. Cheia de paz. Segura. A salvo.

Mas ela não estava lá.

Uma premonição terrível tomou conta dele. Aurox se lembrou do cheiro fétido que havia chegado até ele misturado ao aroma de lavanda quando ele estacionou diante da casa de Vovó.

Aurox correu.

– Vovó! Onde está você? – ele gritou enquanto rodeava a casa, com seus pés deslizando no cascalho que pavimentava o pequeno espaço de estacionamento na frente da casa.

Aurox segurou no corrimão da varanda e subiu os seis degraus em dois passos largos, parando no meio do amplo deque de madeira, na frente da porta fechada de Vovó. Aurox empurrou a porta para abri-la e correu para dentro.

– Vovó! Sou eu, Aurox, o seu tsu-ka-nv-s-di-na. Eu voltei!

Nada. Ela não estava ali. Aquilo parecia errado, muito errado.

Aurox refez os seus passos, voltando para o meio da varanda. O cheiro era mais forte ali.

Trevas. Medo. Ódio. Dor. Aurox podia captar todas essas emoções e mais algumas no sangue salpicado na varanda. Enquanto ele estava parado ali, respirando pesadamente, absorvendo a terrível compreensão da violência e da destruição, a fumaça veio até ele. Ela se levantou em redemoinho ao redor dos seus pés calçados com mocassins de couro, levando até ele fragmentos de informação. Uma canção antiga estava impregnada na névoa cinza que se ergueu em volta dele como uma pluma. Dentro dela, Aurox podia escutar os ecos da voz corajosa de uma mulher.

Aurox fechou os olhos e inspirou profundamente. Por favor, ele suplicou silenciosamente, deixe-me saber o que aconteceu aqui.

Sensações como o ódio e a ira o assaltaram. Essas sensações eram familiares, fáceis de entender.

– Neferet – ele murmurou. – Você esteve aqui. Eu sinto o seu cheiro. Eu sinto você. – Mas depois dessas emoções familiares, vieram aquelas que o fizeram cair de joelhos.

Aurox sentiu a coragem de Sylvia Redbird. Ele reconheceu a sua sabedoria e a sua determinação, e depois finalmente o seu medo. Ele se ajoelhou.

– Ah, Deusa, não! – Aurox gritou para o céu. – Este é o sangue de Neferet, derramado por Vovó Redbird. Neferet a matou como ela fez com sua filha? Onde está o corpo de Vovó?

Não houve nenhuma resposta, exceto o suspiro do vento e as grasnadas irritantes de um enorme corvo que se empoleirou no parapeito da varanda.

– Rephaim! É você? – Aurox passou a mão pelo seu cabelo sujo enquanto o corvo o encarava, inclinando a cabeça para um lado e depois para o outro. – Eu queria que a Deusa tirasse o touro de dentro de mim e me transformasse em um pássaro. Se ela fizesse isso, eu subiria ao céu e voaria para sempre.

O corvo deu uma grasnada para ele e então abriu suas asas e saiu voando, deixando Aurox completamente sozinho.

Dividido em partes iguais, Aurox queria chorar de desespero e frustração ou despertar a besta dentro dele e atacar alguém, qualquer um, para descarregar a raiva e o medo.

O garoto que era também uma besta escolheu não fazer nenhuma das duas coisas. Em vez disso, Aurox não fez nada – nada mesmo, exceto pensar. Aurox ficou sentado na varanda de Vovó por bastante tempo e, em meio aos resíduos de sangue, fumaça, medo e coragem, raciocinou para chegar à verdade.

Se Neferet tivesse matado Vovó Redbird, o corpo dela estaria aqui. Ela não tem nenhum motivo para esconder os seus malfeitos. Os seus crimes já foram descobertos. Thanatos cuidou disso. Então, o que será que Neferet quer mais do que a morte e a destruição?

A resposta era tão simples quanto horrível.

Neferet quer criar o caos, e um modo muito fácil de fazer isso é provocar dor em Zoey Redbird. Assim que esse pensamento chegou até Aurox, ele soube que era verdade. Vovó era única entre os mortais... ela era uma líder com muitos dons... amada por muitos. E poderosa. Vovó era poderosa.

Sylvia Redbird seria um sacrifício mais perfeito do que a sua filha tinha sido.

– Não! – a mente de Aurox afugentou aquele pensamento terrível.

Também era verdade que, capturando a amada avó de Zoey, Neferet tinha certeza de que a novata iria atrás dela com todo o seu impressionante poder. Ao fazer isso, ela também iria fragmentar a comunidade dos vampiros e espalhar o seu caos localmente.

– Seja para usá-la como sacrifício ou como refém, se Neferet mantiver Vovó Redbird presa, e Zoey tentar salvá-la, Neferet pode conseguir o que ela mais quer: caos e vingança. Bem, então alguém precisa salvar Vovó.

Aurox tomou a sua decisão rapidamente, apesar de saber que isso poderia muito bem significar o seu fim. O caminho de volta para Tulsa pareceu demorar muito mais tempo do que o normal. Aurox teve bastante tempo para pensar. Ele pensou em Neferet e no seu insensível desprezo pela vida. Ele pensou em Dragon Lankford e em como ele tinha lutado e superado a solidão e o desespero que haviam tentado dominar a sua vida. Aurox pensou na coragem daqueles que se levantaram contra um inimigo tão grande, e apenas a lembrança do touro branco lhe causou calafrios. E Aurox pensou em Zoey Redbird.

Foi só bem depois do pôr do sol que Aurox chegou em Tulsa. Ele não pegou o caminho do obscuro estacionamento dos fundos da Utica Square. Em vez disso, Aurox passou pelas lojas fechadas do centro de compras, rumando para leste na Twenty-first Street. Ele virou à esquerda no farol da Utica Street e depois à esquerda de novo no próximo quarteirão, entrando pelo portão da frente da Morada da Noite e estacionando não muito longe do ônibus amarelo vazio.

Aurox respirou fundo. Fique calmo. Controle a besta. Eu posso fazer isso. Eu preciso fazer isso. Então ele saiu do carro.

Aurox havia pensado bastante no caminho da casa vazia de Vovó Redbird até ali, mas na verdade ele não havia planejados os detalhes do que deveria fazer quando chegasse à Morada da Noite. Então, deixando que os seus instintos o guiassem, simplesmente começou a andar pelo campus.

Obviamente, era a hora do almoço. Os cheiros que vinham do refeitório no prédio principal fizeram sua boca salivar, e ele se deu conta de que não havia comido nada o dia todo. Automaticamente, os seus pés o levaram até o centro do campus, seguindo a comida.

Assim que ele pisou na calçada do lado de fora da entrada do refeitório, a grande porta de madeira se abriu e um grupo de novatos saiu, conversando e rindo com vozes tranquilas e familiares.

Zoey o viu antes de todo mundo. Ele percebeu isso porque ela arregalou os olhos de surpresa. Ela balançou a cabeça e estava começando a abrir a boca, como se fosse gritar algo para ele, quando a voz de Stark cruzou o espaço entre eles como uma flecha.

– Zoey, volte para dentro! Darius, Rephaim, venham comigo. Vamos pegá-lo!


16 Zoey

– Eu preciso falar com Zoey! – Aurox gritou, então Stark deu um soco direto na sua boca e ele ficou ocupado demais cuspindo sangue e caindo de joelhos para gritar qualquer outra coisa.

– Stark! Caramba! Pare com isso! – tentei agarrar o braço do meu guerreiro.

– Eu já disse, volte para dentro! – Stark berrou comigo enquanto se soltava de mim como se eu fosse uma formiga. Ele e Darius tinham derrubado Aurox para fora da calçada e o atirado no jardim da escola, perto dos carvalhos, onde as sombras eram mais escuras.

Eles vão acabar com ele!

– Ele não está lutando com você, Stark. Ele não está machucando ninguém – eu corri atrás de Darius e Stark, odiando o som abafado de dor que Aurox estava fazendo enquanto eles o arrastavam pelo gramado. Eu tentei argumentar com ele, mas Stark definitivamente não estava me ouvindo. Darius nem olhou para mim.

Então eu senti a mão de Stevie Rae no meu pulso.

– Z., deixe os garotos lidarem com isso.

– Não, mas ele vai...

– Ele não vai a lugar nenhum – Stark o chutou e Aurox saiu rolando em meio às sombras de um carvalho grande. – Mesmo se ele se transformar naquela criatura – Stark soava tão perigoso quanto aparentava. Ele havia pegado o arco que estava pendurado nas suas costas e tinha engatado nele uma flecha, apontando diretamente para Aurox.

– Eu não quero me transformar. Estou tentando não me transformar – Aurox estava ajoelhado, contorcendo-se. Ele estava com a cabeça abaixada e sangue escorria da sua boca, pingando na sua roupa. – Se você não vai me deixar falar com Zoey, chame Thanatos.

– Faça isso – Darius falou para Rephaim. – Traga Kalona também – Rephaim saiu correndo enquanto Darius caminhou na direção de Aurox.

Aurox levantou a cabeça. Os seus olhos estavam brilhando e percebi que o seu rosto estava corado. Ele começou a se levantar, mas Darius o empurrou para trás, derrubando-o no chão novamente. Então o guerreiro pegou no seu casaco uma faca fina e com aparência perigosa e pisou em cima dele.

O rosto de Aurox estava pressionado contra o chão e eu ouvi um gemido terrível escapar dele.

– Se você se transformar, eu mato você – Stark falou devagar e claramente.

– Estou me esforçando para não me transformar! – as palavras soaram estranhas, como se elas tivessem saído à força da garganta de Aurox. Então ele virou a cabeça, e pude ver que o seu rosto estava totalmente contorcido e que os seus olhos estavam incandescentes. A pele dele estava se repuxando e ondulando como se dúzias de insetos estivessem se movendo por baixo da superfície, dentro do corpo dele.

Aquilo era nojento e fez meu estômago se revirar. Essa coisa não pode ser o meu Heath. A pedra da vidência estava errada. Coloquei a mão em cima da pedra e a pressionei contra o meu peito. Nada. Ela não estava nem morna. Eu estava errada. Tudo não passou de mais uma confusão minha. Eu mal podia pensar em meio à onda de tristeza que sentia.

– Esforce-se mais! – Aphrodite falou, e eu estava olhando surpresa para ela e me perguntando aonde diabos ela estava indo quando ela passou marchando por mim em direção a Aurox.

– Aphrodite, afaste-se! Ele pode... – Darius começou, mas Aphrodite o interrompeu.

– Ele não vai fazer merda nenhuma. O Garoto do Arco vai disparar uma flecha no rabo dele. E você vai rasgá-lo ao meio, da zona genital até o pescoço. Eu não poderia estar mais segura, mesmo se eu estivesse dando aulas para criancinhas. Bem, eu estaria totalmente enojada com os fedelhos em volta de mim, mas você entendeu o que eu quis dizer.

– Aphrodite, o que você está fazendo? – encontrei minha voz de novo.

Ela apontou uma unha benfeita para Aurox.

– Desde que você não ataque ninguém, não há nada aqui para você combater. Então controle essa merda que está rolando dentro de você. Agora! – ela deu uma olhada por sobre o ombro para mim. – Cheguem mais perto. A gente não precisa que essa maldita escola inteira fique olhando para nós com cara de idiota, como se estivesse vendo os destroços de um acidente de trem – o olhar dela envolveu os meus amigos que haviam cerrado fileiras e estavam chegando apressados atrás de mim: Damien, Shaunee e Shaylin. A presença deles junto à de Stevie Rae começou a me acalmar e me ajudou a pensar, enquanto ela continuava: – Ok, Shaylin diz que ele tem a cor da luz da lua, o que me faz pensar em Nyx. E isso me fez chegar à conclusão de que qualquer um que me faz pensar em Nyx, mesmo alguém tão nojento como essa coisa garoto-touro, deve ter a permissão de falar. Só isso. Ponto final.

– Sim, sinto muito. – Shaylin se aproximou mais de mim e disse em voz baixa: – Eu sei que não é isso o que todo mundo quer ouvir, mas com certeza eu vejo a luz da lua prateada quando olho para ele.

– Era isso o que eu queria ouvir – a voz de Aurox estava mais normal. A pele dele tinha parado de fazer aquela coisa nojenta, tipo insetos ondulando dentro do corpo dele. A sua boca ainda estava sangrando, e a lateral do seu rosto tinha uma marca vermelha de escorregão, da hora em que ele havia atingido a calçada quando Stark o socou, mas ele parecia um garoto normal de novo, e não algo saído de Resident Evil.

– Não se atreva a se mexer – Stark rosnou entre dentes. – Aphrodite, pelo menos uma vez escute Darius e afaste-se. Você não lembra no que ele se transforma?

– Ele matou Dragon. Ele pode matar você – Darius disse.

– Eu não queria matá-lo! Eu tentei não fazer isso – o olhar de Aurox encontrou o meu. – Zoey, conte a eles. Conte que eu tentei parar o que estava acontecendo. Mas eu não sei o que aconteceu depois. Você acredita em mim. Eu sei que você acredita. Vovó Redbird disse que você me protegeria.

Stark deu um passo na direção de Aurox.

– Não fale na avó de Zoey!

– É por isso que eu estou aqui! Zoey, a sua avó está em perigo.

Eu senti como se Aurox tivesse me dado um soco na boca do estômago. Stark estava pisando na nuca de Aurox, pressionando o seu pescoço contra o chão e gritando algo sobre Vovó. Darius também estava gritando. Damien tinha começado a berrar. O rosto de Aurox começou a se contorcer de novo, e de repente Kalona estava lá. Ele pegou Stark com uma mão e Darius com a outra e os atirou para longe. Com as asas totalmente abertas, ele parou diante de Aurox, de punhos cerrados e com a aparência de um Hulk imortal. Não havia dúvidas de que ele ia reduzir Aurox a nada.

– Não o mate! – eu berrei desesperada. – Ele sabe alguma coisa sobre Vovó!

– Guerreiro, abaixe a guarda! – Thanatos não levantou a voz, mas o poder da sua ordem ondulou pela pele de Kalona. Ele se contraiu como um cavalo tentando repelir uma mosca, mas abaixou seus punhos. A Grande Sacerdotisa da Morte voltou para mim o seu olhar escuro e intenso. – Chame o espírito. Fortaleça o bem dentro de Aurox. Ajude-o a não se transformar.

Inspirei tremulamente e fechei os olhos para não olhar para a coisa que era Aurox... a coisa que eu tinha pensado que era Heath... a coisa que podia ter ferido Vovó.

– Espírito, venha para mim – sussurrei. – Se existe o bem dentro de Aurox, fortaleça-o. Ajude-o a permanecer um garoto – senti o elemento com o qual eu considerava ter a afinidade mais próxima se agitar ao meu redor e ouvi Aurox ofegar quando o espírito se moveu até ele. E então, apenas por um instante, senti a minha pedra da vidência esquentar.

Abri os olhos e a pedra da vidência ficou fria. Aurox estava sentado no chão, apoiado em um grande carvalho, sangrando e cheio de hematomas, mas totalmente um garoto de novo. Darius e Stark haviam se levantado e estavam de caras fechadas, voltando para o nosso grupo. Kalona parecia nervoso, mas tinha se afastado um pouco.

– Stevie Rae, invoque a terra. Aprofunde as sombras embaixo dessa árvore. Damien, chame o ar. Faça a brisa soprar forte o bastante para abafar as nossas palavras. Os nossos novatos não precisam testemunhar mais violência e caos. O que acontece aqui deve permanecer como assunto privado – Thanatos ordenou.

Stevie Rae e Damien obedeceram a Grande Sacerdotisa, e logo depois parecia que o nosso grupo estava em uma pequena bolha com aroma de carvalho, enquanto o vento chicoteava à nossa volta, levando nossas palavras para bem longe.

Thanatos assentiu em aprovação aos dois. Então ela se voltou para Aurox.

– Agora, o que você sabe sobre Sylvia Redbird? – Thanatos disparou a pergunta para ele.

– Neferet a levou.

– Ah, Deusa! – eu cambaleei e Stark me segurou antes que eu caísse. – Ela está morta?

– E-eu não sei. Espero que não – Aurox respondeu com seriedade.

– Você não sabe? Você espera que ela não esteja morta? – Stevie Rae soou superirritada. – De novo, você fez uma coisa, mas tentou não fazer?

– Não! Eu não tive nada a ver com isso.

– Então como você sabe o que aconteceu? – consegui falar, apesar de a minha voz estar trêmula e eu me sentir como se fosse vomitar.

– Eu voltei para a casa de Vovó Redbird e ela tinha desaparecido. Havia sangue na sua varanda. Era o sangue de Neferet. Eu sei. Eu conheço o cheiro do sangue dela.

– Tinha sangue da Vovó lá também? – eu perguntei.

– Não – ele balançou a cabeça. – Mas vestígios do seu poder permaneciam na fumaça e na terra, como se ela tivesse se preparado para a batalha.

– Você disse que voltou para a casa de Sylvia. Por quê? – Thanatos quis saber.

Aurox passou a mão na boca para limpar um pouco do sangue. A mão dele estava trêmula. Na verdade, parecia que ele ia explodir em lágrimas.

– Ela me encontrou ontem de manhã, depois daquela noite terrível. Ela me perdoou. Ela disse que acreditava em mim, e então me ofereceu refúgio. Ela conversou comigo, como se eu fosse normal. Como se eu não fosse um monstro. Ela me chamou de tsu-ka-nv-s-di-na – Aurox encontrou o meu olhar.

– Touro – eu disse, lembrando-me de palavras decoradas nas minhas lições de infância. – Essa palavra quer dizer “touro” em Cherokee.

– Sim, foi o que Vovó me explicou. Ela me ofereceu refúgio, desde que eu não machucasse mais ninguém, mas eu fui embora – ele balançou a cabeça. – Eu não deveria ter ido! Eu devia ter ficado lá e a protegido, mas eu não sabia que ela estava em perigo.

– Eu não estou acusando você. Não desta vez – Thanatos afirmou. – Você disse que foi embora ontem e que hoje voltou para lá?

Aurox assentiu.

– Fui embora porque precisava descobrir quem eu era... o que eu era. Então vim até aqui e me escondi embaixo da árvore despedaçada – ele olhou humildemente para Thanatos. – Ouvi o que você disse na pira funerária de Dragon sobre o que eu era. Não consegui suportar aquilo. Só pensei que eu tinha que voltar para a casa de Vovó Redbird, e que ela iria me ajudar a descobrir um jeito de desfazer o que foi feito para me criar.

– Foi a morte da filha dela que fez você, Receptáculo – Kalona falou com sua voz fria. – Você espera que a gente acredite que a mulher cuja filha foi morta para criá-lo lhe ofereceu refúgio?

– É inacreditável. Eu sei – os olhos com uma cor estranha de Aurox encontraram os meus novamente. – Eu não entendo como Vovó pode ser tão gentil, tão misericordiosa, mas ela é. Ela até me deu cookies de chocolate e lavanda com leite – ele apontou para os seus sapatos, que eu reconheci como os mocassins costurados à mão que Vovó gostava de fazer como presente de Natal.

– Nenhum humano é tão misericordioso. Até uma deusa acharia difícil perdoar alguém como você – a voz fria e sem vida de Kalona declarou.

– A Deusa me perdoou – Rephaim disse brandamente. – E eu fiz coisas piores do que Aurox.

– Vovó chamou Aurox de touro. Ela faz mesmo cookies de chocolate e lavanda – afirmei. – E esses sapatos são os mocassins que ela costura à mão.

– O que significa que você esteve na casa dela e que ela falou com você – Stark deduziu. – Mas isso não significa que você não fez algo terrível com ela e depois roubou as suas coisas.

– Se isso é verdade, então por que ele viria até aqui? – eu me ouvi dizer.

– Ótima observação – Thanatos concordou. Então ela se voltou para Shaylin. – Filha, veja as cores dele.

– Já vi. Foi por isso que Aphrodite fez com que Darius e Stark parassem de espancá-lo – Shaylin contou.

– A aura dele é feita da luz da lua – Aphrodite continuou a explicação. – Foi por isso que eu intervi e apertei o botão pause na testosterona deles.

– Explique melhor, Profetisa – Thanatos ordenou.

– Se ele tem a cor da luz da lua, então tenho que acreditar que, de algum modo, ele está ligado a Nyx, já que a lua é o seu símbolo principal – Aphrodite disse.

– Bem pensado – Thanatos falou e então analisou Aurox. – Mesmo antes de Zoey fortalecer o seu espírito, você estava controlando a metamorfose que tentava transformá-lo.

– Eu não estava controlando muito bem – ele admitiu.

– Mas percebi que você estava tentando – o olhar dela se voltou para mim. – Será que a sua avó o perdoaria, mesmo depois de ver no que ele pode se transformar?

Respondi sem hesitar.

– Sim. Vovó é a pessoa mais bondosa que já conheci. Ela é a nossa Sábia, nossa Ghigua – cheguei mais perto de Aurox. – Onde ela está? Para onde Neferet a levou?

– Eu não sei. Só sei que Neferet lutou com ela. Vovó Redbird tirou sangue dela, e agora as duas desapareceram. Sinto muito, Zo.

– Nunca, nunca mais me chame assim de novo – afirmei.

Percebi que Stark franziu os olhos e estava olhando para ele como se Aurox fosse uma mosca e ele quisesse arrancar as suas asas.

– Você não é Heath Luck – Stark acrescentou. Ele manteve a voz baixa, mas estava óbvio que ele estava pronto para explodir.

Aurox balançou a cabeça, totalmente confuso.

– Eu sou Aurox. Não conheço esse Heath Luck.

– É claro que não – Stark rebateu. – Então, como Zoey disse, nunca mais a chame de Zo de novo. Você não merece nem limpar os sapatos do cara que costumava chamá-la assim.

– Heath Luck tem algo a ver com Vovó Redbird? – Aurox perguntou.

– Não! – eu cortei logo a resposta irritadinha que Stark estava se preparando para dar. – E a gente realmente precisa se concentrar em encontrar Vovó.

– Eu sei para onde Neferet pode ter levado Sylvia Redbird – Kalona falou. Todos nós olhamos cheios de expectativa para ele. – Ela tem uma cobertura no Mayo Hotel. A varanda inteira é dela. As paredes são de mármore maciço e não deixam escapar nenhum som. Lá ela tem toda a privacidade que a riqueza dela pode comprar. Ela pode ter levado Sylvia Redbird para lá.

– Como ela poderia ter feito isso? – perguntei, apesar de querer muito acreditar que, para encontrar Vovó, bastaria seguir Neferet até a sua cobertura. – Vovó não teria simplesmente entrado andando junto com ela e, apesar de parecer que o prefeito e a Câmara dos Vereadores estão lambendo os pés dela, os funcionários do Mayo não iam ignorar de jeito nenhum o fato de ela entrar arrastando uma senhora idosa pelo lobby.

– Você já viu Neferet se movendo silenciosamente, de modo invisível. Aposto que você mesma pode aparecer e desaparecer facilmente, Zoey Redbird – Thanatos sugeriu.

– Bem, sim, eu posso. Mais ou menos. Mas acho que eu não consigo fazer com que outra pessoa fique invisível.

– Neferet consegue – Aurox declarou solenemente. – Isso e muito mais. A sua Deusa deu poder a ela. O touro branco deu ainda mais poder. E o poder que Neferet não recebeu, ela rouba através da dor, da morte e dos seus truques. Ela está totalmente cheia de poder.

– Seria um erro subestimar Neferet – Thanatos concordou.

– Então a gente tem que ir até a sua cobertura e fazer com que ela solte Vovó – eu afirmei.

– Espere aí – Stark disse. – Como podemos saber se ele não está inventando tudo isso para fazer a gente ir atrás de Neferet?

– Eu não sou uma criatura de Neferet! – Aurox gritou.

– Há duas noites, você era. Dragon Lankford está morto por causa disso – Stark disparou de volta para ele.

– Stark pode ter razão – Stevie Rae observou. – Tente ligar para a sua avó.

Satisfeita por ter algo que eu podia fazer, peguei meu telefone e digitei o número de Vovó. Enquanto chamava, Thanatos falou:

– Se ela não atender, tente soar normal. Deixe uma mensagem sobre o evento aberto ao público. Se Neferet a levou, pode ser que ela tenha acesso ao telefone de Sylvia também.

Concordei e senti um aperto no estômago quando ela não atendeu e a voz familiar de Vovó disse que ela não podia falar no momento, mas que ligaria de volta em breve. Respirei fundo e depois do bip tentei soar o mais normal possível.

– Oi, Vovó, desculpe ligar tão tarde. Ainda bem que você deixou o seu telefone no modo silencioso, assim eu não acordei você – minha voz começou a ficar trêmula, mas, antes que eu desabasse e explodisse em lágrimas, o braço forte de Stark pousou sobre os meus ombros. Eu me recostei nele e falei rapidamente, esperando que eu parecesse animada, e não histérica. – Não sei se você assistiu ao telejornal, mas Thanatos anunciou que nós vamos fazer um grande evento aberto ao público e uma feira de empregos, convidando basicamente Tulsa inteira. Também vai ser um evento beneficente para os Street Cats e um jeito de fazer com que Neferet pareça tão louca quanto ela é, e que a gente pareça, bem, normal – acrescentei, pensando “toma essa, sua bruxa detestável!”. – Enfim, vai ser neste próximo sábado, e Thanatos me pediu para perguntar se você pode nos ajudar a coordenar o evento com a irmã Mary Angela. Eu falei que achava que você toparia sem problemas, então me ligue assim que puder que eu conto mais detalhes, ok? Eu amo você, Vovó. Amo muito, muito mesmo! Tchau.

Stark pegou o telefone da minha mão e apertou o botão de desligar. Então ele me abraçou quando eu finalmente explodi em lágrimas. Enquanto eu estava tremendo e fungando, senti outra mão tocar as minhas costas e reconheci a presença calma da terra. Então outra mão me tocou, e o ar roçou suavemente a minha pele. Mais uma mão se juntou às outras, e o fogo me aqueceu. O espírito, que já estava presente, acomodou-se dentro de mim, sossegando as minhas lágrimas e permitindo que eu me afastasse um pouco de Stark e sorrisse trêmula para os meus amigos.

– Obrigada, pessoal. Estou melhor agora.

– Bem, você vai ficar melhor depois de assoar o nariz – Stark brincou comigo enquanto me entregava uma bola de lenços de papel que ele tirou do bolso.

– Você está horrível, Z. Certeza – Aphrodite disse. Ela estava balançando a cabeça, mas ela também estava ali, ombro a ombro com os meus amigos, mostrando solidariedade e apoio.

– Eu não estou mentindo – Aurox se levantou e atraiu a minha atenção. Ele estava encarando Thanatos. Darius e Kalona haviam se posicionado de modo protetor entre ele e a Grande Sacerdotisa. Aurox virou a cabeça e os seus olhos encontraram os meus. Fiquei chocada por ver lágrimas dentro deles. Ele parecia quase tão devastado quanto eu me sentia. Então ele se voltou para a Grande Sacerdotisa e implorou: – Acorrente-me. Prenda-me. Eu vou aceitar qualquer punição que você me der, mas, por favor, pelo bem de Sylvia Redbird, acredite em mim. Eu não estou aliado a Neferet. Eu a desprezo. Eu odeio o fato de ela ter me criado por meio da morte e da dor. Para me controlar, ela tem que fazer as Trevas tomarem posse do meu corpo e despertarem a criatura dentro de mim. Grande Sacerdotisa, você sabe que é verdade.

– Pelas evidências que nós descobrimos, parece que é verdade – Thanatos falou.

– Então me escute. Eu dou a minha palavra que Neferet levou a avó de Zoey.

– Você só tem essa chance – eu me afastei um pouco do meu círculo de amigos e me dirigi a Aurox. – Se você estiver mentindo para nós, se Vovó estiver ferida e você tiver qualquer coisa a ver com isso, vou usar todos os cinco elementos e todos os meus poderes concedidos pela Deusa para destruir você, não importa o que você seja. Não importa quem você seja. Eu dou a minha palavra.

– Aceito – ele disse, abaixando a cabeça para mim.

– Está resolvido – Thanatos afirmou. – Todos os seres com espíritos têm escolha. Espero que você esteja fazendo a escolha certa, Aurox.

– Eu estou – ele respondeu.

– Sim, nós temos a sua palavra – Thanatos o lembrou, e então ela se voltou para nós. – Precisamos entrar na cobertura de Neferet.

– Eu posso ir – Aurox se ofereceu.

– Não! – Stark, Darius, Kalona e eu gritamos juntos.

– Eu posso entrar na maldita cobertura dela – Aphrodite falou. – Aquela vaca pensa que eu sou tão vaca quanto ela e, apesar de isso poder ser meia verdade em certo sentido, Neferet mede a lealdade de todo mundo pela sua própria lealdade, que é inexistente. Ela sempre quis me usar e ela não pode ouvir os meus pensamentos. Eu posso entrar.

– Neferet pode deixá-la entrar, mas nunca vai permitir que você veja se ela mantém Vovó Redbird presa – Aurox argumentou.

– O que ele diz é verdade. Ela iria esconder de Aphrodite a presença de sua prisioneira – Thanatos concordou.

– Mas não de mim – Aurox continuou. – Ela nunca ia pensar que isso seria necessário. Neferet vai estar furiosa comigo por eu ter falhado em impedir o ritual de revelação, mas ela vai permitir que eu entre, pelo menos por tempo o suficiente para descobrir se Vovó Redbird está lá.

– Ou por tempo o suficiente para manipulá-lo – Darius replicou.

– E para despertar essa coisa que dorme dentro de você – Stark acrescentou.

– Aurox, você não pode controlar a besta. Não se Neferet fizer um sacrifício para despertá-la – Thanatos afirmou.

– Pode ser que tenha sido por isso que ela capturou a avó de Zoey – Darius disse, dando um olhar de desculpas na minha direção. – Talvez ela precise de um sacrifício maior do que o gato de um guerreiro para recuperar o controle sobre Aurox.

– Não! Eu, não... – Aurox falou de modo entrecortado, os seus ombros desabaram e ele colocou o rosto entre as mãos.

Eu só conseguia balançar minha cabeça de um lado para o outro sem parar. Stark pegou minha mão e a apertou com força.

– Nós não vamos deixar isso acontecer. A gente vai trazer Vovó de volta.

– Mas como? – minhas palavras saíram em meio aos meus soluços.

– Eu vou – Kalona me encarou enquanto falava. – Eu não vou apenas entrar na casa de Neferet. Se ela está mantendo Sylvia Redbird prisioneira, eu vou encontrá-la e resgatá-la. As Trevas não podem se esconder de mim; nós nos conhecemos há muito tempo. Neferet se acha invulnerável porque se tornou imortal, mas ela tem só a experiência de uma criança comparada aos meus inúmeros séculos de poder e conhecimento. Eu não posso matá-la, mas posso tirar uma senhora idosa da casa dela.

– Bem, talvez. Se ela deixar você entrar pela porta da frente – Stark observou. – Pelo que reparei na última vez em que a vi, parece que ela não gosta muito de você.

– Neferet me detesta, mas isso não muda o fato de que ela me deseja.

– É mesmo? Não é o que parece para todo mundo. A fila andou para Neferet – Stark continuou. – O touro branco é o Consorte dela.

Kalona sorriu sarcasticamente para Stark.

– Você é jovem e sabe muito pouco sobre as mulheres.

Senti Stark se eriçar, então rapidamente limpei meus olhos e meu nariz e me recompus.

– Você vai ter que fazer com que ela pense que você está nos traindo, que o seu Juramento a Thanatos foi uma fraude – eu disse.

– Neferet não sabe que eu fiz Juramento a Thanatos.

– Hum, acho que pode ser que ela saiba – Shaunee insinuou.

Olhei surpresa para ela.

– Não estou falando isso para ser maldosa, e realmente não quero entrar em detalhes, então peço que vocês apenas acreditem em mim. Mas posso dizer, quase com certeza, que tudo que Erin sabe sobre nós, Dallas também sabe – Shaunee contou.

– Afe, que droga! – Stevie Rae exclamou.

– Dallas conversa com Neferet – Rephaim se manifestou.

– Ahn? – eu tinha praticamente esquecido que Rephaim estava ali.

Então eu me senti superculpada quando ele deu de ombros e explicou:

– Eu não costumo falar muito, então as pessoas me ignoram e eu acabo escutando coisas.

– Eu não ignoro você – Stevie Rae ficou na ponta dos pés e deu um beijo na bochecha dele.

Ele sorriu para ela.

– Não, você não. Mas Dallas me ignora. Ele estava perto de mim quando o telefone dele tocou no intervalo das aulas hoje. Duas vezes. As duas ligações eram de Neferet.

– E eu tenho quase noventa e nove por cento de certeza de que Erin contaria a Dallas tudo que ele quiser saber sobre nós – Shaunee reafirmou.

– Erin permaneceu aqui na Morada da Noite quando vocês voltaram para a estação ontem – Thanatos lembrou.

Encontrei o olhar de Shaylin.

– Conte a ela – eu pedi.

A novata não hesitou.

– As cores de Erin estão diferentes do que eram antes. Percebi isso uns dias atrás.

– Ela está mudando – Aphrodite explicou. – Shaylin e eu acreditamos nisso. Foi por isso que aconselhamos Zoey a deixar Erin ficar quando ela disse a Zoey que queria permanecer aqui.

– Então eu concordo com Shaunee. É muito provável que Neferet saiba tudo que Erin sabe – Thanatos disse.

– Pois eu acho o seguinte – Aphrodite começou. – Acho que todos nós precisamos ficar de boca fechada sobre o que está rolando com Vovó Redbird, Aurox e os nossos assuntos em geral. Quem não é parte deste grupo aqui não vai saber merda nenhuma. Erin é apenas uma garota, mas, se ela souber de alguma coisa, pode definitivamente nos ferrar.

– Profetisa, parece que há uma lição para ser ouvida no que você está dizendo – Thanatos falou, e o resto de nós concordou.

Olhei para Kalona. Incluí-lo no nosso grupo era realmente muito esquisito, mas eu não sabia dizer se isso significava que a gente devia ou não confiar nele.

Ecoando estranhamente os meus pensamentos, Thanatos perguntou a Kalona:

– Você ainda acredita que ela vai confiar em você?

– Neferet? Confiar em mim? Nunca. Mas ela realmente me deseja, mesmo que seja apenas o meu poder imortal que ela cobiça. E, como Aphrodite disse, ela mede a profundidade da lealdade de todo mundo pela sua própria – Kalona respondeu.

– Neferet só é leal a ela mesma – Rephaim observou.

– Exato – Kalona concordou.

– Bem, vamos esperar que você não seja assim tão raso – Stark acrescentou, soando como se ele acreditasse no contrário.

Eu apenas fiquei parada ali, olhando para Kalona, lembrando que ele já tinha sido um assassino mentiroso e manipulador, e pensando: É isso aí que vai salvar a minha avó?

Eu estava piscando com força para tentar segurar lágrimas assustadas quando Rephaim sussurrou o meu nome. Eu me virei para ele. Ele sorriu e falou três palavras, só fazendo o movimento da boca, sem emitir som: “As pessoas mudam”.


17 Shaylin

– Aqui. Agora – Aphrodite mexeu o dedo, chamando Shaylin para que ela a seguisse. Ela saiu rebolando, cortando caminho pelo gramado e tomando a direção dos dormitórios dos novatos.

Shaylin suspirou, controlou a sua irritação e seguiu aquela loira metida. Quando ela a alcançou, Aphrodite foi logo dizendo:

– Ok, você precisa fazer um reconhecimento de área.

– Ok, você precisa melhorar as suas maneiras – Shaylin afirmou.

Aphrodite parou e franziu seus olhos azuis.

Shaylin falou rapidamente, antes que Aphrodite pudesse dizer algo maldoso e engraçadinho:

– Você deveria saber que agir assim não é nada atraente e provoca pé de galinha.

– Aposto que você andou conversando com Damien, não é?

– Talvez – Shaylin respondeu vagamente, não querendo colocar Damien em apuros. Mas, sim, realmente ela andava conversando com ele. Na verdade, ela tinha começado a gostar mesmo de Damien, assim como de Stevie Rae e de Zoey. Já Aphrodite, bem, ela era outra história. – Aphrodite, falando sério, parece que você e eu vamos ter que trabalhar juntas, ou seja lá como for que você queira chamar essa coisa de Profetisa. Então, se você fosse pelo menos educada comigo, isso tornaria a nossa vida mais fácil.

– Não, isso tornaria a sua vida mais fácil. A minha não ia mudar em nada.

Shaylin balançou a cabeça.

– É mesmo? Por que você não discute essa sua atitude com Nyx? Nós temos Trevas poderosas para enfrentar. A mãe de Zoey acabou de ser assassinada e agora a avó dela está correndo um grave perigo. Corrija-me se eu estiver errada, mas Zoey não é sua amiga?

Aphrodite franziu os olhos novamente, mas ela só disse uma palavra:

– Sim.

– Então que tal você fazer tudo o que estiver ao seu alcance para ajudá-la?

– Já estou fazendo, sua vaca – Aphrodite respondeu rispidamente.

– Como você pode ter tanta certeza? Você já pensou no simples fato de que talvez, se você for menos detestável, pode ter acesso a mais dons como Profetisa?

Os olhos de Aphrodite se normalizaram. Devagar. Ela até pareceu um pouco surpresa.

– Não. Nunca pensei nisso.

Shaylin levantou as mãos para o alto de frustração.

– Caramba, você foi criada por lobos?

– Mais ou menos por aí – Aphrodite falou. – Mas eles têm dinheiro.

– Incrível – Shaylin murmurou. Então ela começou de novo. – Ok, o que eu sei é o seguinte. Quando eu li a sua aura e fui maldosa sobre a luz trêmula que vi dentro de você, isso bagunçou a minha cabeça. Quando olhei para você de novo depois disso, era como se todas as suas cores estivessem misturadas.

– O que, obviamente, significa que você me viu ficando irritada.

– Não, porque as cores de todo mundo pareceram misturadas e indistintas até eu pedir desculpas a você. Espere, apague isso. Na realidade, a minha Visão Verdadeira ficou confusa até eu pedir desculpas a você sinceramente.

– Hum. Isso é quase interessante.

– Você não está captando nada do que eu estou falando, está?

– Assim como o que qualquer um fala – Aphrodite disse. – Então, vamos voltar para o reconhecimento de área.

– Ok. Tudo bem. O que você quer que eu faça?

– Encontre Erin. E Dallas. Se eu estiver certa, e para a sua informação eu quase sempre estou, você vai encontrá-los juntos.

– E isso seria ruim, certo?

– Você tem problemas mentais?

– Não vou nem responder a isso – Shaylin falou.

– Ótimo. A gente não tem tempo para “ligar os pontinhos”. Vai amanhecer em algumas horas. O ônibus vai voltar para a estação e Kalona vai para o covil nojento de Neferet.

– Sim, Kalona está esperando amanhecer para que ela fique enfraquecida pelo sol, apesar de ser totalmente óbvio que parece que não vai funcionar essa ideia de ele ficar esperando até que ela se enfraqueça pelo sol – Shaylin pareceu avoada, olhando para o céu.

– De que diabos você está falando, retardada?

Shaylin apontou para cima.

– Nuvens de chuva. Um monte. Eu realmente queria que o céu clareasse. Essas nuvens cobrem o sol e o seu efeito enfraquecedor. Agora, quem é a retardada aqui?

– Não me chame de retardada – Aphrodite disse.

– Bom, então também não me chame assim.

– Vou pensar nisso. Vamos voltar ao ponto inicial: antes de a gente ir para a estação e de Kalona decolar, quero que você dê uma conferida nas cores de Dallas e Erin. Qualquer informação adicional que você possa nos dar sobre Erin, principalmente se ela é uma traidora, uma bandida malandrona (parafraseando Shaunee); seria ótimo. Tenho um pressentimento em relação a eles, e não é nada fofinho e carinhoso.

– Sim, tudo bem, mas eu não tenho a menor ideia de onde eles podem estar. Você tem? Esse é um dos seus dons? – Shaylin perguntou.

– Deusa, você tem problemas mentais. Não, eu não tenho um GPS dentro da minha cabeça. Mas eu tenho um cérebro dentro dela. Ele me diz que, se Erin e Dallas estão se pegando, faz sentido começar a procurá-los no quarto de Erin, o quarto que ela não divide mais com Shaunee.

– Ah, sim. Isso faz sentido – Shaylin hesitou. – Mas eu não sei qual é o quarto dela.

– Terceiro andar, quarto trinta e seis. Quando elas compartilhavam o cérebro, diziam que esse número representava a medida do peito delas. Eu dizia que era a soma do QI das duas.

– É claro que você dizia isso – Shaylin comentou.

– Veja só, você me entendeu! – Aphrodite falou com falso entusiasmo. – Encontro com você no ônibus. Logo. – Ela começou a se afastar, então fez uma pausa e acrescentou: – Por favor.

Shaylin fez cara de espanto.

Aphrodite revirou os olhos e abriu a boca, obviamente se preparando para dizer algo detestável. Então ela parou, olhou para cima por alguns momentos e depois se virou para Shaylin.

– Parece que os seus desejos estão sendo atendidos. As nuvens de chuva estão clareando – então Aphrodite atirou o cabelo para trás e saiu andando.

Shaylin balançou a cabeça.

– Que garota mais sem noção – ela resmungou para si mesma enquanto caminhava até o dormitório das garotas. – Nyx, eu não a conheço muito bem, e não quero que você pense que estou sendo rude ou blasfemando nem nada parecido, mas Aphrodite como sua Profetisa? Por quê?

– Ninguém sabe, e acho que nem mesmo Aphrodite.

Shaylin deu um pulo de surpresa quando Erik Night saiu das sombras de um carvalho próximo.

– Erik! O que você está fazendo aqui? – Shaylin colocou a mão na garganta. Ela achou que Erik podia ver como o seu coração estava batendo forte pela pulsação no seu pescoço, e não apenas porque ele a havia assustado. Sempre que ela o encontrava, era a mesma coisa: a sua absoluta beleza morena e alta era uma óbvia distração. Mas então ela olhava as cores dele, e elas não eram nem um pouco atraentes. Shaylin achava que ele era como uma daquelas maravilhosas peças pintadas em cerâmica que você gostaria de usar para colocar uma salada ou qualquer outra coisa, mas, quando você virava a peça, via uma etiqueta dizendo cuidado: não use para servir comida .

– Desculpe. Eu não queria assustar você. Eu estou aqui enrolando um pouco – o sorriso dele era como uma lâmpada de milhões de watts. Shaylin conseguia entender por que quase cem por cento das novatas eram apaixonadas por ele. O problema é que ela conseguia ver mais do que como ele era maravilhoso.

– Eu não quis interromper você. Vou deixar você voltar para a sua enrolação. Até mais.

– Ei – ele tocou o braço dela, apenas por um instante quando ela passou por ele, persuadindo-a a parar. – Pensei que nós éramos amigos.

Shaylin o analisou. Quando Erik a Marcara, as cores dele eram formadas na maior parte por um verde-ervilha hesitante, que obscurecia flashes brilhantes que podiam ser dourados como os raios de sol, mas eram muito fugazes para ela ter certeza. Fora isso, ele era só meio nebuloso e aguado. Nos últimos dias, ela não havia prestado muita atenção nas cores dele. Então, quando ela se concentrou, ficou surpresa de ver que, apesar daquele verde ainda estar lá, ele tinha ficado mais claro e agora não trazia à sua mente ervilhas polpudas. Em vez disso, aquela cor lembrava turquesa, como uma bela espuma do mar verde-turquesa. E em toda a volta do verde-azulado, a mistura nebulosa de cinza havia se levantado, revelando um bege compacto, como a areia de uma praia linda e intocada. Sentindo-se meio como se ela tivesse caído em uma água profunda, Shaylin tentou não parecer nervosa e falou sem pensar:

– Sim, nós somos amigos, mas só isso.

– Eu não pedi nada além disso, pedi?

Shaylin encontrou os olhos dele. Eles eram brilhantes e azuis, e estavam passando tempo demais olhando para baixo na direção dos peitos dela. É claro que dizer “é óbvio que você quer ter uma amizade colorida” soaria como algo que Aphrodite diria. Então, em vez disso, ela escolheu uma resposta mais gentil.

– Não, você não pediu mais nada.

Ele sorriu de novo.

– Então, nós podemos ser amigos?

Era difícil não sorrir de volta para ele, e na verdade ela não conseguia pensar em nenhuma razão para não fazer isso. Então Shaylin abriu o sorriso e assentiu.

– Sim, amigos.

– Ótimo! Que tal eu acompanhá-la para onde você está indo? Eu posso enrolar tão bem ao seu lado quanto posso enrolar sozinho.

– Você está enrolando para fazer o quê? – Shaylin evitou a pergunta de para onde ela estava indo e começou a andar vagamente na direção geral dos dormitórios. Devagar.

– Planejamento de aulas – ele suspirou. – Eu realmente detesto escrever isso. Você sabe, eu nunca quis ser professor.

– É, todo mundo sabe disso. Você era destinado a ser uma estrela de cinema – Shaylin disse. Ela falou de um jeito inconsequente. Ela não quis ser condescendente nem sarcástica, mas a dor nos olhos azuis dele mostrou que provavelmente ela tinha soado das duas formas.

– É – ele repetiu laconicamente, desviando o olhar dela e enfiando as mãos nos bolsos da sua calça jeans. – Todo mundo sabe disso.

– Ei, mas essa coisa de Rastreador é apenas uma pequena lombada no caminho até Hollywood, certo? Quantos anos você tem, vinte e um?

– Dezenove. Acabei de completar a Transformação há poucos meses. Por quê? Eu pareço velho?

Shaylin riu.

– Vinte e um anos não é velho.

– É sim, se você acrescentar mais quatro anos, e eu acabei de começar um trabalho de quatro anos como Rastreador.

– Ser Rastreador significa que você tem que ficar na Morada da Noite de Tulsa?

– Você está tentando se livrar de mim? – ele falou mais ou menos brincando.

– Não, é claro que não – ela garantiu. – O que eu quis saber é: você não pode se transferir para a Costa Oeste e continuar sendo Rastreador lá? Deve haver uma Morada da Noite mais próxima de Hollywood do que esta aqui. – Enquanto eles conversavam, Shaylin percebeu que Erik não estava soando como um garoto mimado e irritadiço. Ele só parecia cansado, frustrado e talvez até um pouco deprimido.

– Já estudei essa possibilidade. O que eu descobri foi estranho e um pouco assustador – ele fez uma pausa e olhou de lado para ela. – Bem, provavelmente é mais assustador para os garotos que estão sendo Rastreados do que para mim.

– Sei do que você está falando. Mas não foi tão assustador. Na verdade, você foi até meio engraçado – ela lembrou.

Erik franziu a testa.

– Eu devia ser poderoso, confiante e um pouco amedrontador.

– Então você quer ser assustador?

Aquilo fez Erik rir.

– Não, não exatamente. E na verdade o ato de Marcar não é a parte assustadora de que eu estava falando, ou pelo menos não deveria ser. O que definitivamente não é normal é que há alguma coisa no meu sangue que me mantém preso a este lugar. Sim, eu posso viajar, mas só se for por causa de um chamado do meu sangue para Marcar algum garoto que pertence a esta Morada da Noite.

– Então você é tipo um GPS.

– Acho que sim – Erik não pareceu animado com isso. – Ei, mas chega de falar de mim. Para onde você está indo?

Shaylin engoliu em seco e falou a primeira mentira que lhe veio à cabeça.

– Para o dormitório. Aphrodite me pediu para pegar umas coisas dela no seu quarto.

– Ela pediu falando por favor, você poderia fazer isso? Ou ela ordenou, dizendo: “Pegue as minhas coisas, senão eu amarro as suas mãos e empurro você dentro de uma panela fervente, como se você fosse uma lagosta, para o chef da minha mãe cozinhar!”?

Shaylin riu.

– As suas habilidades de atuação foram ao mesmo tempo ótimas e péssimas na minha opinião, porque você soou exatamente igual à Aphrodite.

Ele encolheu os ombros.

– Vou tentar não fazer isso de novo.

– Mas, respondendo à sua pergunta, foi mais como o segundo exemplo do que como o primeiro.

– Ah, que surpresa. Bom, então vou acompanhá-la até o dormitório, ok?

Shaylin encontrou os olhos dele. Que mal poderia haver nisso?

– Ok – ela respondeu.

Erik

– Acho que eu concordo com você sobre essa coisa de planejamento de aulas. Deve ser superenfadonho ter que pensar no que você vai ensinar, escrever, submeter à aprovação e depois finalmente ensinar. Parece um trabalho exagerado – Shaylin opinou.

– Exatamente – Eric disse laconicamente. – A gente vai trabalhar com Shakespeare. Eu amo as peças, mas era muito mais legal quando eu só tinha que atuar, e não agir como um maldito robô para o Conselho da escola. Sim, fazer planejamento de aulas é totalmente enfadonho, é um saco escrever.

Ele tinha que ficar lembrando a si mesmo para parar de olhar para os peitos de Shaylin. Ok, ele podia dizer em sua defesa que ela estava usando uma camiseta branca transparente, que deixava bem óbvio que ela estava com um sutiã rosa e sexy por baixo. E esse sutiã tinha lacinhos pretos na parte do meio e nas alças.

– E com que peça você vai trabalhar na aula sobre Shakespeare? – ela perguntou.

Olhe para o rosto dela e concentre-se!

– Aula sobre Shakespeare?

Ela olhou para Erik como se ele fosse um idiota – e ele tinha que concordar com ela, porque, quando se forçou a não olhar para aqueles peitos com sutiã rosa, ele ficou distraído com as suas grossas mechas de cabelo comprido e escuro, que ondulavam e pareciam macias feito seda, se ele pelo menos pudesse...

– Ah, sim, a aula sobre Shakespeare. Com certeza, vamos fazer uma comédia. Já há muita tragédia no mundo de hoje.

– Qual?

Ela parecia sinceramente interessada, então ele admitiu:

– Estou dividido. A minha favorita é A Megera Domada, mas, quando penso nela e principalmente no discurso final de Catarina, isso não combina com o sistema matriarcal da Morada da Noite, e a última coisa que eu preciso é irritar Thanatos. Então, estou pensando em fazer Como lhe Aprouver. Rosalinda é uma das heroínas mais fortes do Bardo. E acho que essa peça não vai me causar nenhuma encrenca com a administração.

– Mas isso não significa se curvar?

– Provavelmente, mas ser professor não é tão fácil como se pensa. Há um monte de coisas chatas que acontecem nos bastidores, isso sem contar a batalha contra as Trevas que parece ser tipo interminável e o fato irritante de que os professores continuam sendo mortos e de que cada vez mais novatos estão sendo Marcados, então a nossa equipe é pequena.

Houve um silêncio longo e desconfortável, então Shaylin disse:

– Sim, realmente deve ter sido inconveniente para você que professores tenham sido decapitados, estripados ou furados por chifres. Isso sem falar em todos os novatos vermelhos para quem você tem que dar aulas, porque nós não morremos de verdade. Ainda.

Erik franziu a testa. Ele não havia tido a intenção de dizer aquilo dessa forma.

– Acho que me expressei mal – ele falou.

– E eu acho que preciso me lembrar que ervilhas não se transformam em uma linda espuma do mar turquesa e numa praia intocada.

– O que isso quer dizer? – Erik perguntou. Shaylin era realmente uma gata, mas às vezes ela bagunçava a sua cabeça e o deixava confuso.

– Significa que eu precisava de um banho de realidade. Obrigada por me dar um – Shaylin apertou o passo, e Erik ainda estava tentando decifrar o comentário sobre ervilhas e espuma turquesa quando eles saíram do gramado de inverno do jardim da escola e passaram para a calçada que cercava o dormitório das garotas.

– Hum, de nada? – Erik falou enquanto eles se aproximavam dos amplos degraus de cimento que levavam à varanda frontal do dormitório.

Shaylin ainda estava um pouco à frente dele, então ela chegou ao primeiro degrau antes dele. Ao subir no degrau, ficou quase da mesma altura dele, o que era estranho, já que ela era bem baixinha.

– Não, você não precisa falar “de nada” para mim – ela suspirou. – Eu não estava agradecendo a você. Eu só estava lembrando algo a mim mesma.

– O quê? – ele perguntou, honestamente interessado.

Ela suspirou de novo.

– Eu estava me lembrando do fato de que aquilo que o olho pode ver não é a coisa mais importante sobre uma pessoa. Na verdade, o mais importante é o que está escondido do lado de dentro.

– Mas, com você por perto, nada está escondido de fato, certo?

– Certo – ela falou em voz baixa.

– Eu realmente não tive a intenção de dizer aquilo antes. Eu só estava descarregando o que eu sinto. Você sabe, as garotas fazem isso o tempo todo – Erik disse.

– Erik, você não vai melhorar as coisas sendo misógino.

– Misógino... isso é uma coisa ruim, certo? Ou é algo legal, como ginecologista?

– Erik, acho que é melhor você tentar não falar mais nada – Shaylin soou irritada, mas Erik percebeu que ela estava se esforçando para não rir. Até que finalmente uma risadinha escapou dos seus lindos lábios rosados. – Ginecologista? Você realmente acabou de falar isso?

– Sim, e tenho orgulho disso – Erik fez o seu melhor sotaque de homem de Oklahoma. – Eu realmente adoraria ter uma carreira que só trata daquelas partes femininas.

– Ok, para mim chega – ela disse, ainda rindo. – Tenho que ir antes que...

Shaylin foi para trás e tropeçou no próximo degrau. Ela ia cair bem em cima do seu traseiro lindo e redondo, mas Erik foi mais rápido do que a gravidade e, quase como um super-herói, ele a pegou pela cintura, evitando que ela se machucasse.

E então ali estavam eles. Ela estava um degrau acima, e ele estava com os braços em volta da cintura dela. Quando ela estava caindo e ele a pegou, os braços dela automaticamente agarraram os ombros dele. Então o corpo dela estava pressionado tão forte contra o dele que Erik podia sentir os lacinhos pretos daquele sutiã rosa.

– Cuidado – ele falou baixinho, suavemente, como se ela fosse um passarinho assustado. – Eu não quero que nada de mal aconteça a você.

– O-obrigada. Eu quase caí.

Ela olhou para ele, e Erik ficou absorto admirando os grandes olhos castanhos dela. Shaylin tinha um perfume incrível, como na noite em que ele a Marcara: doce, como pêssegos e morangos misturados. Ele nunca quis tanto uma coisa quanto beijá-la agora. Só uma vez. Apenas por um segundo. Ele se inclinou. Parecia que ela estava levantando os lábios para ele. Erik se inclinou mais, puxando-a para mais perto.

Foi então que ela deu um soco no peito dele .

– Você estava tentando me beijar agora? Sério? – Shaylin balançou a cabeça e o empurrou, fazendo com que ele saísse do degrau em que estava.

Erik cambaleou para trás. Ele estava tentando descobrir exatamente o que tinha dado errado quando escutou uma risada sarcástica. Sentindo-se uma merda, ele levantou os olhos e viu Erin e Dallas no alto da escada do dormitório, perto da ampla porta de entrada.

– Caramba, isso é que são sinais ambíguos – Dallas comentou. – Primeiro ela está toda na sua, depois ela empurra você. Isso não é certo.

– É, quando uma garota diz sim ela deveria querer dizer sim mesmo, e não “ei, acho que vou te provocar e depois te rejeitar” – Erin colocou aspas no ar com os dedos.

– Vocês não sabem do que estão falando – Shaylin colocou uma mão no quadril e levantou o queixo, mas o seu rosto estava vermelho. Erik a achou uma graça, mas nem um pouco ameaçadora.

Dallas colocou a mão em volta da cintura de Erin, e ela se encostou nele enquanto os dois desciam a escada em direção a Erik, rindo de Shaylin o caminho inteiro.

– Ei, cara – Dallas deu uma gargalhada. – Não se preocupe. Minha sereia e eu vamos contar para todo mundo como essa daí só gosta de provocar. – Apesar de Erik tentar interrompê-lo, Dallas continuou falando: – Não, você não precisa me agradecer. Apenas considere isso como um favor de um vampiro para outro.

Erik olhou para Shaylin. O rosto dela tinha perdido a cor vermelha e estava branco. Ele até considerou deixar que Dallas fizesse o que estava dizendo, mas só por um segundo. Seria mais fácil rir e sair andando com Dallas e Erin. Isso até poderia fazer com que ele se sentisse tão bem quanto se sentia quando ele era o novato mais gostoso da escola – quando ele podia ter qualquer garota que quisesse. Então ele se deu conta do que estava pensando e sentiu um enjoo no estômago.

– Não – Erik encontrou o olhar de Dallas. – Shaylin estava certa, vocês não sabem do que estão falando. O que vocês viram foi só eu tentando fazer algo idiota. Shaylin não provocou nada.

– Ah, fala sério. Você é Erik Night – a voz de Dallas ainda era toda amigável, mas o seu olhar havia se endurecido.

– Sim, eu sou. E estou dizendo que você está errado. Shaylin não me provocou. Eu estava sendo um cuzão. Se vocês forem falar dela, é isso o que devem dizer.

– Você espera que as pessoas acreditem que uma esquisitinha como ela dispensou você? – Erin nem tentou disfarçar o veneno na sua voz.

E eu que sonhava em ser o recheio de um sanduíche de gêmeas. Deusa, eu sou um idiota.

– O que eu espero é que vocês digam a verdade ou calem a boca – Erik afirmou.

– Bem, isso não foi nem um pouco divertido – Shaylin desceu os degraus rapidamente. Quando passou por Erik, ela fez uma pausa. – Mudei de ideia sobre pegar coisas no dormitório. Aphrodite pode resolver os assuntos dela sozinha – então ela olhou para Erin. – Acho que isso significa que você não vai pegar o ônibus para a estação de novo hoje.

– Nunca mais vou pegar aquele ônibus, mas você pode ir andando. Ele combina mais com você mesmo.

– Conte a eles, sereia – Dallas falou, enquanto passava a mão na bunda de Erin. – A água precisa ser livre para ir aonde quiser.

– É, e já está na hora de a gente ir. Estou entediada – Erin disse.

– Sei como resolver isso! – Dallas mordeu o pescoço dela.

O gritinho de Erin se transformou em uma gargalhada.

– E eu não vou ficar dizendo sim, não, sim, não. Só vou dizer sim, sim! – Erin olhou com desprezo para Shaylin, pegou a mão de Dallas e os dois foram embora, rindo sarcasticamente.

Erik ficou olhando os dois se afastarem.

– Desde quando os dois estão juntos?

– Desde logo depois que Erin e Shaunee se separaram – Shaylin contou. – E a coisa é mesmo tão feia quanto Shaunee falou que poderia ser.

Erik arregalou os olhos.

– Você não veio até aqui para pegar as coisas de Aphrodite, veio?

– Não.

A compreensão o atingiu em cheio.

– Ah, que merda! Erin mudou de lado, não foi? E isso significa que Dallas e a sua turma vão saber tudo o que o grupo de Zoey sabe.

– Parece que sim. Eu vou contar para Z. e Stevie Rae que Erin e Dallas realmente estão juntos – Shaylin hesitou. E então acrescentou: – Obrigada por me defender. Sei que isso não foi fácil para você.

– Você realmente acha que eu sou um idiota, não acha?

Shaylin não respondeu logo de cara. Em vez disso, ela o analisou, como se compreendesse como a sua resposta seria importante para ele. Finalmente, ela disse:

– Acho que você tem potencial para ser mais verde-turquesa do que verde cor de ervilha.

– E isso é bom?

Ela sorriu.

– É ainda melhor do que ser um ginecologista misógino.

Ele deu uma gargalhada.

– Ok, ótimo. Ei, posso acompanhá-la até o ônibus?

– Não, desta vez não. Mas peça para me acompanhar outra hora. E, só para registrar, quando eu digo não quero dizer não, e quando digo sim quero dizer sim.

– Eu já sabia que você era assim – ele falou.

– Ótimo, então da próxima vez você pode esperar que eu diga sim para me beijar. Até mais, Erik.

Enquanto Shaylin se afastava, o sorriso de Erik foi ficando cada vez maior. Não era o seu sorriso de cem watts – aquele era um sorriso de ator, aparentando felicidade. Este sorriso era melhor, era o sorriso de quem se sentia feliz. E, pela primeira vez em muito tempo, Erik Night percebeu que sentir era muito melhor que atuar...


18 Kalona

– As nuvens do céu clarearam. Acho que isso é um bom presságio – Kalona se dirigiu à Grande Sacerdotisa da Morte, que estava parada diante do ônibus, cheio de novatos e vampiros, que ainda não havia partido para a estação.

– Sim, é verdade. Agora a gente realmente tem que voltar para a estação – Stevie Rae disse. – Mas todos nós desejamos boa sorte a você. Eu só sei que, se Neferet está mesmo com Vovó Redbird, você é o cara certo para trazê-la de volta! – ela deu aquele seu sorriso inocente e alegre para ele, e o seu filho deu um aceno feliz, indicando que concordava com ela. Então as portas do ônibus se fecharam e Darius deu a partida e foi embora.

Zoey não disse nada antes de partir. Absolutamente nada. Ela havia apenas se sentado no ônibus enquanto todo mundo conversava, organizava os seus livros de escola e terminava de entrar no veículo. Mas ele pôde sentir os olhos dela o observando. Ele sentiu a desconfiança que havia neles. Ele também sentiu a sua esperança. Eu represento a única chance que ela tem de trazer a avó dela de volta com vida, Kalona pensou enquanto o ônibus desaparecia na Utica Street. Ela podia ao menos ter me desejado boa sorte.

– Nyx, eu peço que você proteja o meu guerreiro, Kalona.

Ouvir o nome da Deusa alarmou Kalona e fez com que ele se concentrasse de novo em Thanatos. A Grande Sacerdotisa estava parada diante dele, com os braços levantados e o rosto voltado para o céu do pré-amanhecer.

– Ele escolheu se comprometer a seguir o seu caminho através de mim, sua fiel Grande Sacerdotisa. Ele é minha espada, meu escudo, meu protetor. E como eu recebi o controle sobre esta Morada da Noite, Kalona também se tornou o protetor desta escola.

A voz de Thanatos estava cheia de poder e, quando ela roçou pela pele de Kalona, ele estremeceu. Ela está invocando Nyx! E a Deusa está respondendo! Ele ficou escutando ansiosamente enquanto ela continuava.

– Portanto, eu suplico a sua ajuda, benevolente Deusa da Noite. Peço que o fortaleça se ele for enfraquecido pelas Trevas e suas armadilhas. Permita que a escolha dele se ilumine e, como a luz da lua através da escuridão de um nevoeiro, deixe que o propósito dele rompa as sombras daquilo que possa turvar o seu discernimento e distraí-lo do seu objetivo. Não deixe que ele seja presa das Trevas, já que a escolha dele é pela Luz.

Kalona fechou suas mãos em punho para que Thanatos não visse como elas haviam começado a tremer.

Nyx não apareceu, mas a presença dela ali, à escuta, era tangível. Ele podia sentir a doce bondade que agitou o ar no rastro da Deusa. Sempre havia sido assim. Para onde quer que Nyx voltasse a sua atenção imortal, para lá seguiam magia, Luz, poder, sorrisos, alegria e amor. Sempre o amor.

Kalona abaixou a cabeça. Como eu sinto falta dela!

– Kalona, vá com a bênção de Nyx!

O turbilhão de energia que se seguiu à invocação de Thanatos banhou os dois. Kalona levantou os olhos e viu que a Grande Sacerdotisa estava sorrindo em júbilo para ele.

– Nyx a ouviu – ele falou, satisfeito por a sua voz não soar tão trêmula quanto ele se sentia.

– De fato, ela me ouviu – Thanatos disse. – E isso com certeza é um bom presságio.

– Eu não vou desapontar nem você nem a Deusa – Kalona afirmou, então ele deu uma corrida curta e se lançou ao céu. Não desta vez; eu não vou desapontá-la desta vez, ele pensou.

Kalona fez um voo direto e preciso. A varanda do edifício Mayo era ampla e alta. Ele desceu do céu cor de ameixa e aterrissou facilmente na sua superfície de pedra fria. Ele dobrou suas asas de corvo atrás de suas costas nuas. Sim, ele tinha vindo até ela com o peito nu. Ela o preferia dessa forma.

– Deusa, o seu Consorte voltou! – Kalona chamou, grato por alguém ter quebrado o vidro da porta da cobertura. Isso evitava que ele tivesse que quebrar a porta desajeitadamente para abri-la se Neferet não o recebesse como ele esperava.

– Não estou vendo nenhum Consorte, só um fracasso alado – a voz dela veio das sombras atrás dele no canto mais distante da varanda, num local bem afastado da entrada para a sua cobertura.

Ele se virou devagar para encará-la, dando tempo para que ela absorvesse a visão do seu peito nu e das suas asas poderosas. Neferet era uma criatura luxuriosa. Neferet desejava ardentemente os homens. Porém, mais do que o prazer físico que ela obtia com o corpo dos homens, Neferet ansiava por exercer domínio sobre os homens. O touro branco podia dar poder a ela, mas um touro não era um homem.

– Durante os éons da minha existência, de fato eu fracassei em algumas coisas. Cometi muitos erros. O maior deles foi sair do seu lado, Deusa – Kalona falou sinceramente, apesar de a Deusa em sua mente não ser Neferet.

– Então agora você me chama de Deusa e vem rastejando de volta para mim.

Kalona deu dois passos firmes na direção dela, deixando suas asas se agitarem.

– Eu pareço estar rastejando?

Neferet inclinou a cabeça. Ela não saiu das sombras e tudo o que ele podia ver dela eram seus olhos cor de esmeralda e o brilho flamejante do seu cabelo provocado pelo sol que começava a se levantar atrás dela.

– Não – ela respondeu, soando entediada. – Você parece estar batendo as asas.

Kalona abriu suas asas e seus braços. Os seus olhos cor de âmbar encontraram o olhar verde e frio dela, e ele concentrou o seu poder nela. Neferet era imortal havia pouco tempo. Ela ainda deveria ser suscetível ao seu encanto.

– Olhe de novo, Deusa. Mire o seu Consorte.

– Estou vendo você. Mas você não é tão jovem quanto eu me lembrava.

– Parece que você não sabe com quem está falando! – ele tentou controlar o seu temperamento, mas ela havia despertado a sua raiva. Ele havia esquecido como detestava o sarcasmo frio dela.

– Não sei? – Neferet saiu deslizando do canto escuro. – Foi você quem veio atrás de mim. Você realmente acreditou que eu ia recebê-lo de bom grado?

O sol havia se levantado acima do horizonte distante e, quando ela se aproximou, Kalona finalmente conseguiu vê-la por inteiro. Neferet havia continuado a se transformar. Ela ainda estava bonita, mas havia perdido qualquer traço mortal, delicado e humano. Era como se ela fosse uma estátua benfeita que tivesse recebido o sopro da vida, mas sem uma consciência, sem uma alma. Ela sempre fora fria, mas antes Neferet mantinha a habilidade de fingir gentileza e amor. Não mais. Kalona se perguntou se ele era o único que podia ver tão claramente que ela estava se tornando um canal direto para o mal.

– Eu não acreditava, mas tinha esperança, apesar de eu ter escutado rumores de que o meu lugar ao seu lado havia sido usurpado – ele esperava que ela confundisse o abalo na sua voz com ciúmes.

Neferet deu um sorriso de réptil.

– Sim, eu encontrei algo maior do que um pássaro, mas tenho que admitir que o seu ciúme é divertido.

Engolindo a bílis que subiu na sua garganta ao pensar em tocá-la, Kalona encurtou a distância entre eles. Ele colocou suas asas para a frente, para que a fria maciez de suas penas acariciasse a pele dela.

– Eu sou algo maior do que um pássaro.

– Por que eu deveria aceitá-lo de volta? – a voz de Neferet soou sem emoção, mas Kalona sentiu que a pele dela estremeceu de expectativa sob o seu toque.

– Porque você é uma Deusa e merece um Consorte imortal – ele se aproximou ainda mais, sabendo que ela podia sentir o poder gelado da sua imortalidade abençoada pela lua.

– Eu já tenho um Consorte imortal – Neferet afirmou.

– Não um Consorte que pode fazer isto – Kalona a envolveu com suas asas. Devagar, ele se ajoelhou diante dela, com seus lábios a apenas alguns centímetros da sua carne trêmula de desejo. – Eu vou servir a você.

– Como? – a voz dela não deixou transparecer nenhum sentimento, mas ela levantou a mão para acariciar a parte interna da asa dele.

Kalona fechou a mente para qualquer coisa exceto sensações, e então gemeu de prazer.

Ela continuou a acariciá-lo.

– Como? – Neferet repetiu a pergunta e acrescentou: – Ainda mais agora que você serve a outra mestra.

Kalona esperava que ela soubesse do seu Juramento a Thanatos e já tinha uma resposta pronta.

– A única mestra a quem eu posso servir de verdade é uma Deusa e, se a minha Deusa me perdoar, eu farei qualquer coisa que ela me peça – Kalona tinha pensado que o seu jogo de palavras seria divertido. Neferet iria acreditar que ele falava sobre ela, e na verdade ele poderia estar falando sobre qualquer divindade feminina. Mas, no momento em que ele disse aquelas palavras, a verdade da afirmação de Kalona ondulou através de seu corpo, fazendo com que ele arfasse e cambaleasse para trás, afastando-se da criatura que estava diante dele. Os joguinhos que ele estava jogando consigo mesmo havia éons terminaram com aquela sentença. Eu fui criado para servir apenas a uma única Deusa. Neferet incorporava o oposto de tudo o que Nyx representava. De costas para Neferet, Kalona afundou o rosto em suas mãos. Como eu já pude pensar que ela ou qualquer outra mulher poderia suplantar o lugar de Nyx no meu coração? Eu passei séculos como uma concha quebrada de mim mesmo, tentando preencher o que estava faltando dentro de mim com violência, luxúria e poder. Não deu certo! Nada funcionou!

Ele sentiu as mãos dela em seus ombros. Elas eram macias, quentes e pareciam irradiar bondade. Com muita gentileza, ela fez com que ele se virasse, persuadindo Kalona a encará-la. Quando ele levantou a cabeça, o seu corpo ficou imóvel. Neferet não o havia seguido. Ela não tinha se movido. Ela nunca poderia tê-lo tocado. Neferet nunca o tocaria com tanta benevolência.

Mas Nyx sim.

Kalona sentiu o seu rosto molhado. Distraidamente, ele enxugou as lágrimas.

– Hummm... – Neferet estava batucando o queixo com uma unha longa e afiada, analisando-o do outro lado da varanda, sem demonstrar nenhum sinal de ter visto Nyx se manifestar diante dele.

Será que ele havia imaginado que a sua Deusa estivera ali? Não! Eu me lembro do seu toque... do seu afeto... da sua bondade. Nyx tinha estado ali. Kalona se forçou a acreditar nisso.

– Kalona, eu não posso dizer que não fiquei tocada com a sua súplica. Parece que você finalmente aprendeu a falar com uma Deusa de verdade. Talvez eu perdoe a sua traição e permita que você me ame novamente. Com uma condição.

– Faço qualquer coisa – Kalona falou as palavras para a sua Deusa invisível, esperando que ela ainda estivesse presente, escutando.

– Desta vez você tem que me trazer Zoey Redbird. Apesar de que eu não a quero morta, pelo menos não ainda. Eu resolvi que atormentá-la vai ser muito mais divertido – Neferet caminhou devagar até Kalona e arranhou o peito dele com suas unhas, rasgando a pele dele e desenhando linhas finas e escarlates. Neferet virou a mão para cima para que o sangue dele escorresse pelo dedo dela e caísse na sua palma. Ela deixou que o sangue se empoçasse na sua mão e depois se inclinou para a frente, lambendo o seu peito e fechando as feridas. Sorrindo, Neferet continuou andando e passou por ele. – Eu tinha esquecido como o seu gosto era delicioso. Siga-me e vamos ver se o resto de você ainda é tão agradável também.

Sentindo-se totalmente entorpecido, Kalona não saiu do lugar. Com o vestígio do toque de Nyx, ele havia se esquecido de Sylvia Redbird. Ele não queria mais nada exceto a sua Deusa.

Eu não posso suportar o toque de Neferet. Eu não posso nunca mais, nem fingindo, abrir a mim mesmo para uma perversão como ela.

Foi a grasnada de um corvo que fez com que ele recuperasse a concentração. Ele olhou para trás. O sol havia se levantado completamente, destacando a silhueta do pássaro empoleirado no parapeito da varanda de pedra. Ele o olhava com olhos cheios de consciência.

Rephaim? Kalona se sacudiu mentalmente. Eu jurei não desapontar Thanatos e Nyx, e também não vou desapontar o meu filho. Ainda que eu não consiga suportar o toque dessa versão distorcida da minha Deusa.

Kalona não conseguia se mexer. Ele estava confuso. A sua mente era um campo de batalha; os seus pensamentos, inimigos de si mesmos.

– O que há de errado com você? – Neferet estava parada do lado de dentro, perto da porta de vidro estilhaçado da sua cobertura. Ela tinha franzido os olhos com desconfiança. A palma da mão dela ainda estava voltada para cima, segurando o sangue dele. – Venham, alimentem-se. Pode ser que eu precise que vocês mostrem a Kalona o quanto eu mudei. Eu não tolero mais desobediência.

Kalona observou as gavinhas de Trevas deslizarem feito cobras vindas de um canto da sala. Elas engolfaram a mão de Neferet, parecendo sorvê-la bem como o seu sangue. Kalona sabia que as gavinhas deviam estar provocando dor nela. Elas pulsavam e se contorciam enquanto se alimentavam, mas Neferet as acariciava com a outra mão, quase amavelmente.

Kalona desviou os olhos. Neferet o enojava.

Então ele escutou um gemido. No começo ele pensou que o som vinha de Neferet, mas quando ele olhou na sua direção ela ainda estava sorrindo e acariciando os filamentos de Trevas. Ele ouviu o gemido novamente. Kalona olhou para dentro da sala. Neferet não havia deixado nenhuma luz acesa. As amplas janelas que iam do chão ao teto eram vitrais espessos e, apesar de a cobertura ficar no topo daquele edifício alto, eles deixavam entrar pouca luz. Neferet havia deixado acesas apenas algumas grossas velas brancas. As suas chamas trêmulas serviam como a única iluminação de fato do apartamento. Kalona espiou para dentro, mas não viu nada exceto sombras e Trevas.

Uma gavinha estremeceu em um canto particularmente escuro do aposento principal, abrindo uma brecha nas sombras retintas. Algo dentro do escuro se agitou. Houve um rápido lampejo prateado, refletindo momentaneamente a luz das velas. Kalona piscou algumas vezes, sem saber se podia confiar na sua visão. O imortal focou o olhar na escuridão e aquilo tomou forma. Parecia um casulo pendurado no teto. Kalona balançou a cabeça, sem compreender. Um flash prateado dentro do escuro brilhou novamente, e Kalona viu algo mais refletindo luz dentro daquela forma feito um casulo. Olhos – os olhos abertos de um humano. As peças do quebra-cabeças se juntaram quando Kalona viu aqueles olhos.

O imortal alado entrou no aposento.

Sylvia Redbird se agitou e, com uma voz trêmula e sussurrante, murmurou “não aguento mais... não aguento mais...”, enquanto as gavinhas se formavam de novo, enrolando-se em volta dela, cortando a sua pele. O seu sangue gotejava na poça que já havia se formado abaixo da sua jaula. Estranhamente, as famintas gavinhas de Trevas não se alimentavam do banquete à sua espera. Enquanto Kalona observava, Sylvia mexeu seu corpo novamente, desta vez pressionando seus braços contra a jaula. Quando os seus antebraços, adornados por braceletes de prata com turquesas, entraram em contato com uma gavinha, o filamento vivo estremeceu e se retraiu rapidamente, deixando escapar uma fumaça preta e murchando, enquanto outra gavinha deslizava para ocupar o seu lugar.

– Ah, vejo que você encontrou o meu novo animal de estimação.

Kalona se forçou a desviar os olhos de Sylvia Redbird. As gavinhas de Trevas já haviam se alimentado, mas ainda estavam enroladas em volta do braço e da mão de Neferet, imitando grotescamente os braceletes protetores de Sylvia.

– É claro que você reconhece a avó de Zoey Redbird. É uma pena que ela estava preparada para mim quando eu fui até a sua casa. Ela teve tempo de reunir o poder da terra de seus ancestrais em um feitiço protetor – Neferet suspirou, claramente irritada. – Tem algo a ver com a turquesa e a prata. Estão funcionando como um empecilho para alcançá-la, mas os meus adoráveis filhotes de Trevas estão produzindo algum dano.

– No mínimo, a velha mulher vai sangrar até a morte – Kalona afirmou.

– Tenho certeza de que vai, no final das contas. É uma pena que o sangue dela não sirva para nada. Simplesmente não dá para bebê-lo. Mas não importa. Vou esperar ela se esvair.

– Você pretende matá-la?

– Eu pretendia sacrificá-la, mas como você pode ver isso se mostrou mais difícil do que eu havia previsto. Mas não importa. Eu sou uma Deusa. Eu me adapto facilmente às mudanças. Talvez eu a mantenha viva e a transforme em meu animal de estimação. Isso iria sem dúvida torturar a sua neta – Neferet deu de ombros. – Matá-la ou usá-la, tanto faz. Vai dar tudo no mesmo. Afinal de contas, ela não é nada além de uma concha mortal.

– Pensei que a criatura Aurox fosse o seu animal de estimação – Kalona se esforçou para parecer apenas vagamente interessado. – Por que você iria abandonar uma criatura tão poderosa e trocá-la por uma mulher velha?

– Eu não abandonei Aurox. Aquela criatura-touro é imperfeita e não foi tão útil quanto eu esperava. Mais ou menos como você, meu amor perdido – ela acariciou uma gavinha pulsante. – Mas você já sabia disso, não? Você agora é o Mestre da Espada da Morada da Noite no lugar de Dragon Lankford. Certamente você sabe como o seu antecessor foi morto.

– Claro que sim. Aurox o matou – Kalona começou a andar devagar na direção da jaula de Sylvia. – E só ocupei o lugar de Dragon para que eu possa conquistar a confiança de Thanatos e do Conselho Supremo.

– Por que você iria querer fazer isso?

– Por nós, é claro. O Conselho Supremo a baniu por unanimidade. Você não pode mais causar o caos entre eles, então pensei em fazer isso no seu lugar. Thanatos está começando a confiar em mim. O Conselho Supremo confia nela. Eu já comecei a espalhar a discórdia para a Morte.

– Interessante – Neferet disse. – Quanta consideração da sua parte, especialmente porque no nosso último encontro nós nos despedimos como inimigos declarados.

– Eu errei em deixá-la assim tão bruscamente. Só percebi como estava errado quando descobri que você havia tomado outro como seu Consorte. Eu não gosto de sentir ciúmes – Kalona deu alguns passos enquanto falava com ela. Ele esperava aparentar frustração com o questionamento dela. Na verdade, ele se certificou de que os seus passos continuavam o levando para cada vez mais perto da jaula de Sylvia.

– E eu não gosto de ser traída. Mesmo assim, aqui estamos nós.

– Eu não estou traindo você – Kalona falou honestamente. Ele não estava traindo Neferet. Ele não devia a ela absolutamente nenhuma lealdade.

– Ah, eu acho que você está fazendo muito mais do que me trair. Eu acredito que você traiu também a sua própria natureza.

As palavras dela fizeram com que ele interrompesse os seus passos.

– O que você está dizendo não faz sentido.

– Como vai o seu filho, Rephaim?

– Rephaim? O que ele tem a ver com nós dois? – Kalona sentiu o primeiro fiapo de preocupação com a menção ao nome de seu filho.

– Eu observei você. Eu vi o seu sofrimento pela perda do seu filho. Você se importa com ele – Neferet cuspiu as palavras, como se elas tivessem um gosto horrível. Ela deu um passo na direção de Kalona. Ele deu um passo para trás.

– Rephaim está há muito tempo ao meu lado. Ele faz tudo que eu mando há séculos. Eu senti falta da presença dele como eu sentiria de qualquer servo dedicado.

– Eu acho que você está mentindo.

Ele forçou uma risada.

– Assim você prova que imortalidade não equivale a infalibilidade.

– Diga-me que você não permitiu que sentimentos o enfraquecessem. Diga-me que você não decidiu correr feito um cachorrinho atrás de uma Deusa que já o rejeitou.

– Meus sentimentos não me enfraquecem. É você quem está torturando uma velha para atormentar uma garota.

– Você se atreve a falar de Zoey Redbird para mim? Você, que sabe quanta dor ela já me causou! – Neferet estava respirando pesadamente. As gavinhas de Trevas que deslizavam em volta dela se contorceram de agitação.

– Dor que Zoey causou a você? – Kalona balançou a cabeça, incrédulo. – Você deixou caos e dor por onde passou. Zoey não hostilizou você, foi você quem a atacou primeiro. Eu sei. Você me usou para feri-la.

– Eu sabia que você estava mentindo. Eu sempre soube que você a amava, a sua doce e especial A-yazinha reencarnada.

– Eu não a amo! – Kalona quase deixou escapar a verdade: Eu sempre amei e sempre vou amar Nyx! Um gemido atrás dele fez com que ele escolhesse melhor as palavras. – Mas eu também não a odeio. Você não pode considerar a ideia de que pode encontrar mais satisfação em fragmentar o Conselho Supremo e em comandar aqueles vampiros que escolherem um caminho mais ancestral no seu castelo em Capri? Os seus vampiros vermelhos em particular iriam venerá-la e ficariam ansiosos em trazer de volta o antigo modo de vida dos vampiros. Eu vou ajudá-la nesse caminho, serei o seu Consorte e obedecerei aos seus comandos – Kalona falou com uma voz calma e racional. Ele também deu mais um passo para trás. Para mais longe de Neferet. Para mais perto de Sylvia Redbird.

– Você quer que eu vá embora de Tulsa?

– Por que não? O que há aqui? Gelo no inverno, calor no verão e humanos religiosos e de mente estreita. Acho que nós dois ficamos grandes demais para Tulsa.

– Você fez uma excelente observação – as gavinhas de Trevas, ainda inchadas pelo sangue de Kalona, aquietaram-se quando Neferet pareceu considerar a proposta dele. – É claro que você teria que fazer um Juramento de sangue para me servir.

– É claro – Kalona mentiu.

– Ótimo. Talvez eu o tenha julgado mal. Eu tenho as criaturas perfeitas que vão me ajudar a fazer um feitiço assim – ela acariciou ternamente as gavinhas que pareciam cobras. – Elas podem misturar o meu sangue com o seu, unindo-nos para sempre?

Kalona tensionou os seus músculos, preparando-se para correr os poucos passos que agora o separavam de Sylvia Redbird. Ele iria comandar os filamentos de Trevas que a prendiam, e então voaria com ela para a liberdade enquanto Neferet estava cortando a sua própria pele e conjurando um feitiço de magia negra que nunca seria realizado.

– Como quiser, Deusa.

Neferet estava começando a sorrir com seus lábios vermelhos e carnudos quando o corvo grasnou. Neferet franziu os olhos e voltou sua atenção para o pássaro, ainda empoleirado no parapeito, um alvo fácil no sol da manhã. Ela apontou um dedo longo para o pássaro e ordenou:

“Com o sangue imortal do qual vocês se alimentaram,

Matem agora o pássaro Rephaim!”

As gavinhas que estavam enroladas no seu corpo se soltaram e dispararam como flechas negras na direção do corvo.

Kalona não hesitou. Ele se atirou entre o corvo e a morte, absorvendo a explosão destinada ao seu filho.

A força do impacto o levantou do chão da cobertura e fez com que ele fosse arremessado para a varanda, atirando-o contra o parapeito de pedra. Enquanto a dor explodia no seu peito, Kalona gritou para o pássaro imóvel:

– Rephaim, voe!

Ele teve pouco tempo para se sentir aliviado quando o corvo obedeceu à sua ordem. Neferet avançou, com gavinhas de Trevas deslizando no seu rastro. Kalona se levantou. Ele ignorou a dor terrível em seu peito, abrindo seus braços e suas asas.

– Traidor! Mentiroso! Ladrão! – Neferet berrou para ele. Ela também abriu seus braços, com os dedos bem esticados. Ela penteou o ar com as mãos, agrupando os filamentos que se multiplicavam ao redor dela.

– Você pensa em me combater usando as Trevas? Você não se lembra de que tentou fazer isso há pouco tempo e eu ordenei que elas se afastassem? Você é tão tola quanto louca, Neferet – Kalona disse.

Neferet respondeu com as palavras cantaroladas de um feitiço:

“Vocês sabem do que eu preciso!

Façam esse imortal sangrar!

E então vocês podem se alimentar sem parar!”

Ela atirou as gavinhas nele. Kalona colocou suas mãos na frente do corpo e falou diretamente para aqueles servos das Trevas as mesmas palavras que havia usado semanas atrás, quando Neferet se atrevera pela primeira vez a desafiá-lo, quando ele estava inteiro, ileso e livre do confinamento sufocante da terra.

– Parem! Eu sou aliado das Trevas há muito tempo. Obedeçam ao meu comando. Esta batalha não é sua. Fora daqui!

O choque o atingiu ao mesmo tempo em que as gavinhas cortaram o seu corpo. As gavinhas não me obedeceram! Em vez disso, elas rasgaram a sua carne, alimentando-se como sanguessugas tóxicas. O imortal arrancou uma das criaturas pulsantes do seu peito e a atirou no chão da varanda. Ali ela se despedaçou para em seguida se recompor em dezenas de aberrações de dentes afiados.

Neferet deu uma gargalhada enlouquecida.

– Parece que só um de nós dois é aliado das Trevas, e esse alguém não é você, meu amor perdido!

Kalona se contorcia e lutava, arrancando aquelas criaturas do seu corpo, quando tudo ficou totalmente claro. Ele percebeu que Neferet estava certa. As gavinhas não obedeciam mais às suas ordens porque ele realmente havia escolhido outro caminho. Kalona não barganhava mais com as Trevas.


19 Kalona

Tudo voltou rapidamente para ele, como um amigo perdido que se reencontra depois de algum tempo. Kalona havia sido o guerreiro escolhido de Nyx. Ele passara séculos combatendo Trevas mais ferozes do que essas.

Sim, as gavinhas se multiplicavam quando se despedaçavam, mas se ele quebrasse os seus pescoços elas não conseguiam se regenerar imediatamente. Elas eram apenas servas inferiores.

Kalona ria enquanto se desviava, atacava e lutava. Era tão bom fazer de novo aquilo para o qual ele fora criado! No meio da batalha, ele viu Neferet observando a cena silenciosamente.

– Você pensa em me derrotar com essas marionetes? Por séculos eu combati coisas assim no Mundo do Além. Você deveria saber que eu posso combatê-las por mais alguns séculos.

– Ah, tenho certeza de que você pode, traidor. Mas ela não pode – Neferet apontou seu dedo longo para Sylvia Redbird, que ainda estava presa e sofrendo dentro da jaula de Trevas.

“Com o sangue de Kalona como alimento,

Obedeçam-me, sejam leais e precisas.

A turquesa não vai mais salvar a vida dela,

E o poder dele vai ser a minha faca vingadora!”

As gavinhas obedeceram Neferet instantaneamente. Elas pararam de sugá-lo e, inchadas com o seu sangue imortal, aglomeraram-se em Sylvia Redbird feito um enxame de abelhas. Ela gritou e levantou os braços, tentando bloquear aquele ataque furioso. As pedras que ela usava ainda freavam obviamente as gavinhas, mas não o suficiente. Através do poder roubado do sangue imortal de Kalona, várias gavinhas conseguiram resistir à proteção das turquesas. Elas cortavam a carne da velha mulher e, depois de se enfraquecerem e de soltarem fumaça, deslizavam de volta para ele para se alimentar. Kalona lutava com elas novamente, mas, a cada duas que ele detia, outras duas rompiam as suas defesas, cortavam a sua carne e bebiam o seu sangue. Com forças renovadas, elas voltavam a atacar Sylvia.

Sylvia Redbird começou a cantar. Kalona não entendia aquelas palavras, mas ele percebeu o objetivo dela claramente. Ela estava cantando a sua canção de morte.

– Sim, Kalona. Por favor, fique e combata as Trevas. Você só serve para alimentar as torturadoras da avó de Zoey Redbird. Uma hora elas vão conseguir romper a barreira de proteção dela, mas com a sua ajuda o fim dela acontecerá mais rápido. Ou, talvez depois que a proteção da turquesa seja quebrada, eu decida não matá-la. Talvez eu fique com ela e a transforme em meu animal de estimação de verdade. Por quanto tempo você acha que a sanidade de uma velha vai resistir aos tormentos das Trevas?

Kalona sabia que Neferet estava certa. Ele não poderia salvá-la – ele não poderia ordenar que as Trevas se afastassem dela. Em vez disso, as Trevas iriam usar o poder do seu sangue para torturá-la.

– Vá embora! Deixe-me aqui! – Sylvia fez uma pausa na sua canção para gritar essas palavras para Kalona.

Ele sabia que ela estava certa, mas, se ele deixasse aquela velha mulher ali, teria que voltar para a Morada da Noite derrotado por Neferet. Mas eu não tenho escolha! Se ele permanecesse e combatesse as Trevas, tudo o que restaria de Sylvia Redbird seria a sua casca mortal. Neferet não conseguiria controlar a sua ira. Quando as turquesas não protegessem mais a velha mulher, Neferet a destruiria. Para ser vitorioso, Kalona tinha que se retirar e depois voltar outro dia para lutar, apesar de isso ferir o seu orgulho. O imortal abriu suas asas poderosas e se lançou da varanda, deixando as gavinhas de Trevas, Neferet e Sylvia Redbird para trás.

Kalona sabia para onde tinha que ir. Ele voou alto e rápido, e então desceu com uma velocidade sobrenatural, aterrissando no meio do campus da Morada da Noite, bem na frente da estátua em tamanho natural de Nyx. Kalona se ajoelhou e então fez o que ele ainda não havia se permitido até aquele momento: levantou os olhos para o retrato em mármore da sua Deusa perdida.

Não, ele se corrigiu silenciosamente. Fui eu que me perdi, não Nyx.

A imagem de Nyx que os escultores haviam decidido reproduzir era, de fato, adorável. A Deusa estava nua. Seus braços estavam erguidos, envolvendo a lua crescente com as mãos. Seus olhos de mármore olhavam ao longe. Ele parecia bela, impetuosa, grandiosa e poderosa. Kalona daria qualquer coisa para que ela simplesmente o tocasse de novo.

– Por quê? – ele perguntou para a estátua. – Por que você aceitou o meu Juramento e permitiu que eu trilhasse o seu caminho de novo se isso me custou o domínio sobre as Trevas? Agora eu tive que permitir que Neferet me derrotasse. Eu tive que deixar para trás uma velha presa e torturada. Eu fracassei! Por que me aceitar de volta, para deixar que eu fracasse?

– Liberdade de escolha – a voz de Thanatos trazia o poder da autoridade. – Você sabe melhor do que eu o que isso significa.

– Sim – Kalona continuou a olhar para a estátua enquanto falava. – Isso significa que Nyx não nos detém quando cometemos erros, mesmo que isso custe caro para nós e para aqueles à nossa volta.

– Por ser imortal pode ser que você não tenha percebido isto, mas a vida é uma lição – ela afirmou.

– Então eu vou estar para sempre em uma sala de aula – Kalona respondeu amargamente.

– Ou você pode olhar para isso como uma chance eterna de evoluir – Thanatos argumentou.

– Evoluir em que sentido? – ele se levantou e encarou a sua Grande Sacerdotisa. – Você não me escutou? Eu fracassei. Sylvia Redbird continua aprisionada pelas Trevas que Neferet domina.

– Primeiro você me perguntou em que sentido poderia evoluir. A minha resposta é: escolha. Definitivamente, você é um guerreiro. Mas que tipo de guerreiro é uma escolha sua. Dragon Lankford era um guerreiro. Ele quase escolheu se tornar amargo e duro, quebrar um Juramento e ser um traidor. Tudo porque o amor dele estava fora do seu alcance. Você pode fazer o mesmo.

– Você sabe – Kalona disse.

– Que você ama Nyx? Sim, eu sei – Thanatos falou. – Eu também sei que ela está fora do seu alcance, quer você admita ou não.

Kalona mordeu os lábios. Ele queria gritar o seu êxtase, contar a Thanatos que ele achava que a Deusa o havia tocado, que talvez ela não estivesse fora de seu alcance. Mas ele se lembrou de como a porta do templo da Deusa tinha se solidificado sob a sua mão, bloqueando a sua entrada. A certeza dele se esvaneceu.

– Eu admito – ele afirmou de modo lacônico.

– Ótimo. Em relação à sua segunda pergunta: sim, eu o escutei. Você não conseguiu resgatar Sylvia Redbird porque não comanda mais as Trevas.

– Sim.

Thanatos voltou o seu olhar para as marcas de cortes que cobriam o corpo dele. Elas estavam se curando, mas ainda sangravam.

– Você combateu as Trevas.

– Sim.

– Então você não fracassou. Você cumpriu o seu Juramento.

– E ao cumpri-lo, eu não consegui fazer o que me foi pedido – ele disse. – É um paradoxo desconcertante.

– De fato, é – Thanatos concordou.

– E agora? Não podemos permitir que Neferet torture aquela velha mulher. Ela planeja controlar Zoey através de sua avó. Zoey seria uma aliada poderosa para as Trevas, mesmo se ela for usada contra a sua vontade.

Thanatos balançou a cabeça com tristeza.

– Guerreiro, tudo o que você disse é verdade, mas você deixou de lado o ponto principal.

– Qual é o ponto principal?

– Não podemos permitir que Neferet torture uma velha mulher porque isso é desumano. Se você compreendesse isso, Nyx não seria tão inalcançável.

– Eu compreendo! – alguém mais disse.

Kalona e Thanatos se viraram ao mesmo tempo para olhar para Aurox. Ele estava sentado nos degraus de pedra do Templo de Nyx, em silêncio e observando a cena sem ser notado por nenhum dos dois.

– Por que ele não está sendo vigiado? Ou pelo menos preso em uma sala? – Kalona perguntou.

– Eu não preciso de ninguém me vigiando nem de uma prisão assim como você! Eu escolhi vir até aqui... e me afastar das Trevas... do mesmo modo que você! – Aurox gritou para Kalona. – E se eu tivesse ido até a casa de Vovó Redbird mais cedo, ou não tivesse saído de lá, eu não teria deixado que Neferet a levasse! Eu teria lutado mais por ela!

Kalona deu passos firmes em direção a ele, agarrou-o pelo cangote da sua blusa e atirou-o no chão aos pés da estátua.

– Você não conseguiu nem impedir a si mesmo de matar Dragon. Você atacou Rephaim. Você não pode combater as Trevas, sua criatura tola. Não importam as suas palavras de bravura e os seus propósitos tão nobres, você foi feito com Trevas!

– E apesar disso ninguém precisa me dizer que a vida de uma velha mulher é importante, não apenas porque a sua neta pode ser usada! – Aurox contra-atacou.

Kalona estendeu o braço para pegá-lo e sacudi-lo pelo cangote novamente, mas Thanatos interveio.

– Não, o garoto está sendo sincero. Ele realmente se importa com Sylvia.

– Ele também é uma criação das Trevas!

Thanatos arregalou os olhos.

– Sim, com certeza ele é. E isso, guerreiro, pode muito bem vir a ser a salvação de Sylvia Redbird – a Grande Sacerdotisa começou a se afastar rapidamente, deixando Kalona e Aurox olhando para ela. – Bem, o que vocês estão esperando? Venham comigo! – ela chamou sem fazer nenhuma pausa.

Kalona e Aurox trocaram um olhar confuso e então fizeram o que a sua Grande Sacerdotisa havia ordenado.

Zoey

Eu não conseguia dormir. Eu não parava de pensar em Vovó. Tentei não ficar imaginando tudo o que Neferet podia estar fazendo com ela, mas na minha mente volta e meia eu via Vovó sendo ferida – ou coisa pior.

Neferet podia ter matado Vovó.

– Pare de pensar nisso! – Stark havia me dito com firmeza quando nós ficamos abraçados de conchinha na cama. – Você não sabe o que aconteceu e se ficar pensando nisso vai ficar louca!

– Eu sei. Eu sei. Mas não consigo evitar. Stark, eu não posso perdê-la. Vovó não! – afundei meu rosto no peito dele e o abracei forte.

Ele tentou me tranquilizar, e por um tempo eu encontrei conforto no seu toque. Eu me concentrei no seu amor e na sua força. Ele era o meu Guardião, o meu guerreiro e o meu namorado. Ele era o meu chão.

Então o sol nasceu e ele pegou no sono, deixando-me sozinha com os meus pensamentos. Nem a máquina de ronronar de Nala conseguiu fazer a minha mente desligar. Sério, tudo o que eu queria era me encolher num canto e chorar no pelo macio e laranja da minha gata.

Mas isso não iria trazer Vovó de volta.

Eu sabia que a minha ansiedade iria acabar acordando Stark, e enquanto o sol estava alto isso não era nada bom, então beijei o focinho de Nala e saí do quarto de fininho. Meus pés me levaram automaticamente até a cozinha, onde eu apanhei uma lata de refrigerante marrom e um saco de Doritos sabor queijo nacho. Sentei na mesa por um tempo, querendo que alguém acordasse e conversasse comigo. Mas ninguém apareceu. Não os censurei por isso. A gente tinha acordado cedo no dia anterior, e todo mundo estava estressado. Eles precisavam dormir. Que inferno, eu também precisava dormir.

Em vez disso, fiquei olhando para o meu telefone, bebi refrigerante e comi um saco de salgadinhos.

E também chorei.

Se Neferet estava com Vovó, a culpa era minha. Era eu quem tinha sido Marcada e quem havia feito com que uma bomba explodisse na minha família humana.

– Eu não devia ter mantido contato com ninguém – dei um pequeno soluço. – Se eu tivesse me afastado da minha família, Neferet não saberia nada sobre minha mãe nem sobre minha avó. Elas estariam seguras... vivas... – Limpei os restos de Doritos que estavam na minha calça jeans e usei um papel toalha para assoar o nariz. – Eu trouxe toda essa coisa de vampiros para a minha família – coloquei o rosto no papel toalha e chorei feito uma criancinha de dois anos. – É assim que eu me sinto: uma maldita criancinha. Impotente! Idiota! Inútil! – chorei de soluçar. – Nyx! Onde você está? Por favor, ajude-me. Eu preciso tanto de você!

Então cresça, filha. Seja uma mulher, uma Grande Sacerdotisa, e não uma criança.

A voz dela preencheu a minha mente. Levantei a cabeça, piscando com força e limpando o muco do meu rosto. As paredes de terra do túnel estavam incandescentes. Bem na minha frente, uma imagem começou a emergir. Como se eu estivesse olhando para uma piscina de água negra, algo começou a se formar e a se erguer das cavidades da parede. Era a figura de uma mulher! Em circunstâncias normais, eu a descreveria como gorda. Ela estava nua e tinha peitos enormes, quadris largos e macios e coxas grossas. O seu cabelo flutuava ao seu redor, tão espesso e escuro quanto o seu corpo.

Ela era absolutamente linda – cada quilo e cada curva dela, o que me fez repensar totalmente o meu conceito de “gorda”.

Ela abriu os olhos, e eu vi que eles eram cristais de ametista, gentis, afetuosos e cor de violeta.

– Nyx!

Sim, u-we-tsi-a-ge-ya, esse é um dos meus nomes. Mas os seus ancestrais me chamariam de Mãe Terra.

– Você também é a Deusa de minha avó!

Ela sorriu e foi difícil continuar olhando diretamente na sua direção, pois ela era tão incrivelmente adorável!

Eu realmente conheço Sylvia Redbird.

– Você pode ajudá-la? Acho que neste momento ela está correndo um sério perigo! – juntei as mãos em prece.

A sua avó me conhece bem. Ela pode se esconder no poder da minha terra, assim como muitos dos meus filhos podem, se eles escolhem trilhar o meu caminho.

– Obrigada! Obrigada! Você vai me contar onde ela está e depois vai me ajudar a salvá-la?

Você tem recursos para isso, Zoey Redbird.

– Eu não entendo! Por favor, pelo bem de Vovó, ajude-me! – implorei para a Deusa.

Ela sorriu de novo, e desta vez me cegou ainda mais.

Mas eu já expliquei quando você suplicou pela primeira vez. Se você quer salvar a sua avó e, no final das contas, o seu povo, você vai ter que crescer. Ser uma mulher, uma Grande Sacerdotisa, e não uma criança.

– Mas eu quero ser, apenas não sei como. Você poderia me ensinar, por favor? – mordi o lábio para evitar chorar de novo.

Como ser a mulher que você está destinada a ser é algo que ninguém pode lhe ensinar. Você precisa encontrar o caminho por si mesma. Mas saiba de uma coisa: uma criança senta, chora e se esvai em depressão e pena de si mesma. Uma Grande Sacerdotisa age. Qual caminho você vai escolher, Zoey Redbird?

– O caminho certo! Eu quero escolher o caminho certo. Mas eu preciso da sua ajuda!

Como sempre, você tem. Nunca tomo de volta nada que eu concedo. Abençoada seja, minha preciosa u-we-tsi-a-ge-ya...

E a Deusa afundou na parede do túnel, desaparecendo em uma poeira que brilhava como os cristais de ametista que haviam sido os seus olhos.

Fiquei sentada ali, olhando para a parede e pensando no que a Deusa tinha dito. Percebi que o que eu sentia era principalmente vergonha. Basicamente, a Grande Mãe Terra havia acabado de me falar para parar de choramingar. Enxuguei meu rosto de novo. Suguei o último gole de refrigerante.

Então tomei minha decisão. Em voz alta.

– Hora de crescer. Hora de parar de chorar. Hora de fazer alguma coisa. E isso significa que, se eu não estou dormindo, a minha horda de nerds também não está, com sol ou não.

Voltei pelo mesmo caminho no túnel, teclando números de telefone enquanto eu andava.

– O que está acontecendo, Z.? – Stevie Rae atendeu no terceiro toque e soou meio grogue.

– Vista-se, pegue uma vela verde e me encontre no porão – eu disse e desliguei. Aphrodite era a próxima.

– Alguém deveria estar morto – foi o seu modo de dizer “alô”.

– Eu vou cuidar para que esse alguém não seja a Vovó. Acorde Darius. Encontrem-me no porão.

– Por favor, diga-me que eu posso ligar para Shaunee e para a Rainha Damien e acordá-los também – ela pediu.

– Com certeza. Diga para eles trazerem as suas velas do círculo. Ah, e avise Shaunee para ela trazer a vela azul de Erin. Você vai representar a água.

– Tenho uma ideia melhor, mas isso não é nenhuma novidade. Enfim, daqui a pouco a gente se vê.

Nessa hora eu já tinha chegado ao meu quarto. Eu não hesitei. Grandes Sacerdotisas não são bebês hesitantes. Elas agem. Então, eu agi.

– Stark, acorde – sacudi o ombro dele.

Ele piscou com um ar sonolento, olhando para mim com o cabelo bagunçado e fofo.

– O que há de errado? Você está bem?

– O que há de errado é que nós não vamos dormir até termos um plano para salvar Vovó.

Ele se sentou, desalojando Nala do seu quadril e fazendo com que ela resmungasse aqueles barulhos de gata velha e mal-humorada.

– Mas Kalona foi resgatar Vovó.

– Você confiaria em Kalona para cuidar de Nala?

Stark esfregou os olhos.

– Não, provavelmente não. Por que você quer que Kalona cuide de Nala?

– Eu não quero. Só estou mostrando como eu tenho razão: não quero que seja nele que eu tenha que confiar para salvar a minha avó.

– Ok, e agora?

– Agora a gente vai fazer um círculo – fui até a mesinha ao lado da nossa cama e peguei um isqueiro e a vela grossa roxa que ficava ali, com aquele cheirinho de lavanda e da minha infância. Respirei fundo. Então falei para Stark: – Encontre-me no porão.

Andei rapidamente. Eu não queria esperar ninguém, nem Stark. Eu precisava de algum tempo comigo mesma para me concentrar no espírito, para extrair força do elemento do qual eu era mais próxima. Eu tinha que ser corajosa, forte e inteligente, e na verdade eu não era todas essas coisas – ou pelo menos não ao mesmo tempo. Lembrei que uma vez eu havia perguntado para Vovó como ela conseguia ser tão inteligente. Nessa ocasião, ela riu e me contou que se cercava de pessoas inteligentes, e que nunca tinha deixado de estar disposta a escutar e a aprender.

– Ok – falei enquanto subia a escada de metal que ligava os túneis abaixo da estação à entrada do porão. – Eu tenho amigos inteligentes. Eu sei escutar. E, pelo menos na teoria, posso aprender. É isso o que eu vou fazer.

Andei até o que parecia o centro do porão e então me sentei de pernas cruzadas, colocando a vela no chão de cimento frio. Segurando o isqueiro, fechei os olhos e inspirei profundamente três vezes para me centrar. Com os olhos ainda fechados, eu disse:

– Espírito, você é o meu coração. Você me preenche e me dá força. Eu peço, por favor, venha para mim, espírito! – então abri os olhos e acendi a vela roxa.

A chama ficou prateada. Senti o elemento me invadir e de repente todo o turbilhão de confusão que havia tomado conta da minha mente e da minha alma desde que Aurox disse que Vovó havia desaparecido se dissipou. Eu me senti fortalecida pelo espírito enquanto ele passava rapidamente por mim e ao meu redor, enquanto a chama prateada da vela roxa dançava aparentemente como uma resposta vívida. Eu assenti.

– Ok, agora eu vou começar a agir. Primeiro passo: descobrir que diabo está acontecendo – peguei o telefone no meu bolso e liguei para Thanatos. Seria inteligente da minha parte esperar embaixo da terra até o sol se pôr para ter a ajuda dos meus vampiros vermelhos, mas isso não significava que eu tinha que ir para a cama sem reclamar como uma criança que vai correndo para casa antes do toque de recolher.

O telefone dela estava chamando quando Kalona empurrou o portão enferrujado e Thanatos entrou a passos largos no porão, seguida pelo guerreiro alado e por Aurox.

Apertei o botão para finalizar a ligação e me levantei. Eu estava abrindo a boca para perguntar a Thanatos que diabo ela estava fazendo ali e por que havia trazido Aurox quando a minha mente alcançou a minha visão. Kalona estava coberto de cortes rosados e manchas de sangue. Parecia que alguém havia batido nele com um chicote afiado.

– E Vovó? Onde ela está?

Kalona parou na minha frente. Os olhos âmbar dele encontraram os meus. Enquanto ele ficava parado ali, vários cortes rosados se abriram e começaram a sangrar. O corpo dele é vulnerável aqui embaixo da terra, eu me lembrei. É mais difícil para ele se curar aqui. Mas eu não reconheci que ele havia entrado na terra de boa vontade, apesar de ser óbvio que ele estava ferido. Ele era um guerreiro. A sua função sob Juramento era proteger.

– Onde ela está? – eu repeti.

– Na cobertura de Neferet. A Tsi Sgili a aprisionou usando as gavinhas de Trevas – ele contou.

– Por que você não a tirou de lá? – tive vontade de levantar meus punhos e bater no peito dele, abrindo mais as suas feridas e fazendo com que ele sofresse tanto quanto eu estava sofrendo; tanto quanto Vovó estava sofrendo. Mas eu não fiz isso. Apenas o feri com o meu olhar e com minhas palavras. – Você disse que, se Neferet estivesse com ela, você a resgataria. E que as Trevas eram suas melhores amigas havia séculos! Por que você não conseguiu resgatá-la?

– As subalternas das Trevas não obedecem mais a Kalona. Ele escolheu sinceramente voltar a trilhar o caminho de Nyx, portanto ele não é mais aliado do mal – Thanatos explicou.

– Ah, que merda incrível. Isso é que é habilidade de timing, Kalona – Aphrodite comentou. Ela, Darius e Stark haviam subido a escada e estavam sendo seguidos por Shaunee, Damien e, fiquei surpresa ao ver, Shaylin.

– Então por que você fugiu? Por que diabos você não lutou com as gavinhas, derrotou-as e pegou Vovó Redbird? – Stark perguntou. – Supostamente, proteger Nyx contra as Trevas era o seu emprego de tempo integral antes de você ferrar com tudo. Você esqueceu como fazer isso?

Kalona andou em volta de Stark.

– Parece que eu fugi de uma batalha?

Stark não hesitou.

– Sim, você está aqui. Vovó não está. Você fugiu!

Kalona rosnou e deu um passo na direção de Stark. Darius tirou uma faca da sua manga e Stark pegou o seu arco onipresente. Totalmente irritada, eu entrei no meio deles.

– Isso não está ajudando em nada, Kalona! Conte-me por que Vovó ainda está com Neferet – eu falei.

– Eu poderia ter lutado com aquelas marionetes de Trevas por dias. No fim eu acabaria ganhando delas. Não iria me custar quase nada, exceto sangue e dor. Mas o comando não era para que elas lutassem comigo. Elas receberam a ordem de se alimentar do meu sangue para se fortalecer, de modo que elas pudessem romper o poder da terra com o qual Sylvia Redbird se protegeu.

– Vá em frente. Conte-me tudo – eu soei forte, mas tive que colocar minha mão na boca para evitar chorar. Eu não vou chorar!

– Turquesa e prata: o poder da terra. Isso a protege, mas, com o meu sangue alimentando as gavinhas, elas estavam conseguindo começar a atravessar essa barreira. Se eu tivesse ficado e continuasse a lutar com elas, eu venceria, mas Sylvia Redbird teria morrido.

– Nós precisamos de uma criatura feita de Trevas para romper a jaula de Trevas que aprisiona a sua avó – Thanatos afirmou.

– A criatura sou eu – Aurox deu um passo à frente.

– Ah, que merda! Nós estamos totalmente fodidos! – Aphrodite exclamou.

Infelizmente, eu tive que concordar com ela.


20 Zoey

– Eu posso fazer isso. Fui criado pelas Trevas, sou feito de Trevas – Aurox afirmou. – As gavinhas não vão se alimentar de mim, seria como se elas comessem a si mesmas. Eu posso até ser capaz de controlá-las. Se elas não obedecerem às minhas ordens, então eu acabo com elas e resgato Sylvia Redbird. Zoey, eu me importo muito com Vovó. Eu posso salvá-la. Eu sei.

– Você não consegue controlar essa merda dentro de você! – Stark gritou. – É claro que Neferet vai deixar você entrar na cobertura dela. Você está de brincadeira, por que ela não faria isso? Ela tem bastante sangue de Vovó. Ela simplesmente vai usar um pouco desse sangue para alimentar as Trevas e controlar você. De novo!

– As gavinhas não podem se alimentar do sangue de Sylvia Redbird – Kalona revelou. – Neferet admitiu isso, e eu próprio fui testemunha. Imagino que o sangue dela seja protegido pela mesma magia da terra que defende o seu corpo.

– Mas você ainda pode ser controlado, certo? – Damien se aproximou de Aurox. Sua voz era racional e eu sabia que ele estava consultando mentalmente todos os arquivos de Biologia que ele tinha no seu cérebro enorme. – Você é um Receptáculo criado pelas Trevas. Então a besta dentro de você, que é basicamente uma criatura feita com o mal do touro branco, transforma-se sem necessariamente um sacrifício. Nós vimos isso acontecendo mais cedo quando Stark e Darius bateram em você.

– A besta se alimenta de violência, ódio, luxúria e dor. Isso é verdade – Aurox disse.

– Mas você tem algum controle sobre isso. Você não chegou a se transformar de fato hoje mais cedo – Thanatos lembrou.

– Eu tento não me transformar. Eu tento controlar isso.

– Bem, você tem alguma ideia de como fez para controlar isso até agora? – Stevie Rae perguntou, juntando-se a nós.

– Não – Aurox soou infeliz.

– E é por isso que estamos aqui. Precisamos ensinar Aurox a controlar essa transformação, pelo menos por tempo suficiente para que ele rompa a jaula de Trevas que prende Sylvia Redbird, pegue-a e a arremesse pela varanda do covil de Neferet.

– Arremessar Vovó pela varanda? – gritei assustada, mas não havia muito que eu pudesse fazer em relação a isso. Senti que a minha cabeça queria explodir.

– Eu vou pairar ali em cima, apanhá-la e voar com ela até um lugar seguro – Kalona explicou.

– E quanto tempo nós temos para descobrir como não apertar o botão de Aurox e resgatar Vovó? – Aphrodite quis saber.

– Acho que ela não sobrevive mais uma noite – Kalona respondeu.

– Bem, então vamos ao trabalho – olhei para Aurox. – Você realmente se importa com a minha avó?

– Sim. Muito. Eu dou a minha vida para salvá-la se for preciso.

– Pode ser que seja preciso – eu falei. Então olhei para Stark, Darius e Kalona. – Parece que vocês precisam começar a provocar muita dor em Aurox, com bastante violência. Agora.

Os guerreiros olharam para Thanatos.

– Eu concordo com Zoey. Provoquem dor em Aurox.

Aurox

– Acho que vou gostar disso – Stark disse, deixando o seu arco e as suas flechas de lado e estalando as juntas dos dedos.

– Eu também – Kalona falou, enquanto cercava Aurox. – Estou devendo uns golpes em você em nome do meu filho.

– E eu, em nome de Dragon – Darius tirou da cintura uma faca pequena e de aparência bem perigosa.

– Vocês não devem matá-lo – a voz de Zoey soou fria, sem emoção.

Aquela ausência de emoção assustou Aurox mais do que qualquer um dos guerreiros.

– Aposto que ele é bem difícil de matar – Aphrodite comentou, cruzando os braços e piscando para Darius. – Então, vá em frente e divirta-se com suas facas, bonitão.

– A besta se alimenta do ódio. Fiquem sérios, com raiva – Thanatos comandou os guerreiros, e eles ficaram em silêncio e se aproximaram mais dele.

Aurox sentiu imediatamente a mudança na energia deles. Antes os três obviamente desconfiavam e não gostavam dele, mas não estavam com raiva. Agora a tensão se irradiava dos guerreiros, crescendo em intensidade. A besta dentro dele se agitou na expectativa.

Aurox cerrou os dentes e enrijeceu o seu corpo. Não, eu não vou perder o controle. Sou tsu-ka-nv-s-di-na, não uma besta. Eu vou domar o touro!

Kalona atacou primeiro. Com um movimento de velocidade sobrenatural, ele girou e deu um tapa na cara de Aurox com as costas da mão, fazendo com que ele caísse de joelhos. Antes que ele conseguisse se levantar, Darius o golpeou rapidamente. Ele sentiu uma dor eletrizante em cima do ombro, e então sentiu o calor do sangue que começou a sair do corte fino e superficial. Em seguida, Stark deu um soco no seu estômago.

Aurox se curvou sobre si mesmo. Os guerreiros estavam nervosos. O cheiro do seu sangue produziu efeitos nos dois vampiros. Ele podia sentir a violência dentro deles aumentando, especialmente em Stark. Trevas... eu posso senti-las. Stark já conheceu o mal, apesar de ter escolhido outro caminho. Aurox conseguiu se levantar e assumiu uma postura defensiva, bem na hora em que Kalona deu outro golpe doloroso no outro lado do seu rosto. Aurox virou a cabeça, acompanhando o golpe, e levantou o braço para deter o punho de Stark.

Enquanto ele se movia, bloqueando os golpes, a criatura dentro dele estremecia, tentando se libertar da força de vontade de Aurox. Apesar de a sua pele se contorcer e de ele sentir os seus ossos começarem aquela terrível transformação de garoto em uma besta com chifres, Aurox ainda permanecia ele mesmo. Ele ainda tinha o controle.

– Você tem que reagir e lutar com eles! – Zoey gritou para ele.

Aurox conteve outro golpe de Stark.

– Eu não posso! – ele berrou. – Se lutar, eu me transformo.

– Então para que você serve? – Aphrodite atirou as mãos para cima de frustração. – Neferet não vai deixar você entrar lá, dizer para as Trevas desaparecerem e sair andando de mãos dadas com Vovó.

– Elas estão certas – Thanatos disse. – Você tem que contra-atacar. E tem que controlar a besta enquanto luta.

Aurox assentiu. Sentindo um pavor terrível, ele se abaixou, desviando-se da faca na mão de Darius, e se levantou, dando um soco embaixo do queixo do guerreiro.

Aurox sentiu a dor e a raiva explodirem dentro de Darius. A besta também sentiu. As emoções ondularam pelo seu corpo, enchendo a criatura de poder. Aurox tentou parar aquilo, tentou controlá-la. Mas quando ele girou e chutou Stark, atingindo o estômago do guerreiro e fazendo com que ele perdesse o fôlego, sentiu os seus pés começarem a se solidificar e a se transformar em cascos.

– Pense na luz da lua! – a novata da Visão Verdadeira gritou para ele. – Você tem essa luz dentro de você, tente encontrá-la.

Ele pensou na luz da lua e em lavandas, em prata, em turquesas e na terra ao seu redor.

Kalona atacou de novo – outro tapa dolorido com as costas da mão. Desta vez, Aurox agarrou o seu pulso e, usando a sua própria força sobrenatural, atirou o imortal para longe.

A besta rugiu.

– Ele está perdendo o controle! – Aphrodite exclamou.

– Voltem para os túneis! – Stark gritou. – Eu não sei por quanto tempo vamos conseguir controlá-lo.

– É melhor que vocês consigam controlá-lo, pois não vamos a lugar nenhum! Aurox, aguente firme! – Zoey berrou.

– Estou tentando! – Aurox foi para trás, afastando-se dos três guerreiros, que estavam ofegantes, mas não estavam atacando de novo. – Eu posso controlar!

– Se você não controlar e machucar qualquer um aqui, eu vou destruí-lo – Kalona disse com voz calma. Ele não gritou. Ele não mudou de postura. Mas Aurox sentiu a verdade da sua afirmação. O imortal pode conseguir me destruir. Esse pensamento fez a besta retroceder, liberando um pouco da sua raiva.

Aurox ficou firme.

– Eu tenho controle!

– Estou contando com isso – Zoey falou. – Guerreiros, abaixem a guarda um segundo. Eu tive uma ideia – eles concordaram, mas continua­ram a vigiar Aurox com cuidado. Zoey continuou: – Damien, Shaunee, Stevie Rae, assumam as suas posições. Formem um círculo em volta de Aurox. Os três se espalharam pelo porão. – Aphrodite, pegue a vela de Erin e fique no lugar da água.

– Tenho uma ideia melhor – Aphrodite estendeu uma vela azul para a novata da Visão Verdadeira. – Vá para o oeste e pense em coisas molhadas.

– Água? Eu? – a garota pegou a vela, mas balançou a cabeça, parecendo confusa.

Aphrodite tirou do bolso um pequeno objeto prateado portátil e o abriu. Aurox viu a luz dançar sobre a sua superfície espelhada. Ela o levantou na altura do rosto da garota.

– Leia a sua própria aura.

A novata suspirou e olhou para o espelho. Então ela levantou as sobrancelhas e os seus olhos pareceram dobrar de tamanho.

– Que incrível! Uau! Eu nunca tinha pensado em ler a minha própria aura. Eu sou de vários tons de azul!

Aphrodite fechou o espelho e o guardou de volta no bolso, parecendo presunçosa.

– Sim, exatamente como eu imaginava. Agora, vá para o oeste.

Sorrindo, a novata assumiu o seu lugar no círculo.

– Isso foi sábio, Profetisa – Thanatos comentou.

– Eu tenho os meus momentos – Aphrodite disse. Então ela se dirigiu a Zoey, que estava vendo a cena com olhos arregalados junto com os outros novatos: – De nada.

– Ok, bem, vamos ver se eu consigo ser assim tão sábia – Zoey falou.

– Como posso ajudar? – Thanatos se ofereceu.

– Trace o círculo. Desta vez, eu não quero ser mais nada além do espírito – Zoey respondeu rapidamente.

– De acordo – Thanatos afirmou.

– Aurox, você está se segurando aí? – Zoey perguntou a ele.

Ele ainda estava ofegante, e a besta espreitava logo abaixo da superfície da sua pele, mas, como os guerreiros haviam parado de atacá-lo, Aurox tinha recuperado mais controle de novo.

– Sim. Por enquanto.

– Certo, então a gente vai fazer o seguinte – enquanto falava, Zoey caminhou na direção dele. – Thanatos, trace o círculo. Nós vamos manifestar os nossos elementos e mantê-los aqui, preparados. Guerreiros, depois que os cinco elementos estiverem presentes, ataquem Aurox – ela havia parado a apenas alguns passos de Aurox e dos três guerreiros. – Aurox, quero que você contra-ataque e faça o melhor que pode para controlar a besta, mas quando você começar a perder o controle, porque todos nós estamos vendo que você não consegue deter o que está acontecendo com você, vai ser a nossa vez de tentar ajudá-lo.

– Como? – ele perguntou a ela.

– Já fiz um pouco disso antes. Eu enviei o espírito para fortalecê-lo. Imagine essa força multiplicada por cinco – ela explicou. – Você disse que a besta se alimenta de violência, raiva e dor, certo?

– Certo – ele assentiu.

– Bem, apesar de os elementos não serem nem bons nem maus, a sensação que eles fazem nós cinco sentirmos é definitivamente boa. Então, eu pensei que, se nós cinco canalizarmos não apenas os nossos elementos para você, mas o modo como eles fazem a gente se sentir bem, então talvez você possa se agarrar nisso e extrair poder positivo suficiente para deter a besta.

– Aurox, se isso funcionar – Thanatos se juntou a Zoey no centro do círculo –, vai ser uma prova de que você é mais do que as Trevas com as quais você foi feito.

– Então isso vai funcionar porque eu não sou Trevas. Não posso ser – ele falou com firmeza.

– Prove – Stark disse.

– Vou provar – Aurox respondeu. Então ele encontrou o olhar de Zoey. – Estou pronto.

– Então vamos começar com o ar – Thanatos pegou o isqueiro que Zoey lhe ofereceu e caminhou até Damien. Falando com simplicidade, Thanatos fez a invocação. – Ar, você é o primeiro dos elementos, e eu o chamo para este círculo – depois de acender a vela amarela de Damien, ela foi até Shaunee, invocando o fogo da mesma forma. Quando ficou diante da novata da Visão Verdadeira, ela se alongou mais: – Água, você é sempre mutável, está sempre se adaptando. Muitas vezes, você tem sido chamada para este círculo e se manifestado através de sua novata, Erin Bates. Mas essa novata, como a água, mudou e se adaptou a outro ambiente. Esta nova filha de Nyx se coloca aqui no círculo, aberta e ansiosa para aceitar os seus dons. Como Grande Sacerdotisa, eu a convido para este círculo. Venha, água, e mostre para Shaylin que ela é abençoada!

Aurox observou Thanatos acender a vela azul da novata, e então ela ficou ofegante de prazer.

– Eu posso sentir! A água está aqui ao meu redor!

Thanatos sorriu.

– E por esse dom, nós agradecemos Nyx profundamente – a Grande Sacerdotisa foi até Stevie Rae, invocou a terra e acendeu a vela verde. Aurox podia sentir o cheiro de grama e de terra. Ele respirou fundo, lembrando-se da manhã em que havia despertado ouvindo Vovó Redbird cantar.

Eu preciso fazer isso. Ela acreditou em mim e eu não vou abandoná-la.

Então Thanatos parou na frente de Zoey.

– Espírito, você é o último elemento a se juntar ao círculo. Você abre e fecha a nossa união. Eu o chamo aqui, saudando-o efusivamente. Merry meet! Venha, espírito!

Quando ela encostou o isqueiro na vela roxa, houve um som chiado e a vela de Zoey se acendeu com uma chama prateada. A labareda ardeu intensamente e cresceu, transformando-se de repente em um fio incandescente que conectava todos em volta do círculo. Aurox sentiu o poder agitar o ar ao seu redor. Ele respirou fundo e se preparou.

– Vamos começar – Zoey disse. – Guerreiros, provoquem dor nele!

Desta vez, Stark atacou primeiro. Aurox achou que estava preparado, mas o vampiro o surpreendeu. Em vez de socá-lo, Stark chutou as suas pernas, derrubando-o. Ele bateu com força no chão. Aurox estava tentando se recompor e levantar quando Kalona lhe deu um chute no estômago, ao mesmo tempo que Darius cortava o seu outro ombro com a lâmina da faca.

Aurox reagiu automaticamente. Ele agarrou as pernas do imortal e então se contorceu, quando se virou e atacou Darius nas costas com a sua mão, que já estava se transformando em um casco fendido. Os dois guerreiros grunhiram de dor, e aquela dor se acendeu dentro de Aurox como um fósforo na palha seca. A besta explodiu para a superfície. Ele rugiu e arremeteu contra Stark.

– Está na hora! – Thanatos exclamou.

– Ordenem que os seus elementos preencham Aurox! Mostrem a ele como é sentir a alegria do ar, do fogo, da água, da terra e do espírito! – Zoey gritou.

Aurox mal podia ouvir Zoey. Ele virou a cabeça na direção dela. A chama prateada que ela estava segurando na sua frente atraiu a atenção da besta. Ele rugiu, querendo desviar de curso, querendo atacar a chama.

– Cuidado com ele, Z.! – Stark gritou. – Venha cá, sua aberração! Não se atreva a olhar para ela! – o guerreiro empurrou Aurox com o ombro, forçando-o para trás. Aurox fingiu cambalear, mas na verdade se desviou para a direita e com o punho esquerdo, que agora era um casco completamente formado, acertou Star na boca do estômago, fazendo com que ele se curvasse. Aurox estava abaixando a cabeça, preparando-se para furar o guerreiro com seus chifres, quando os elementos o atingiram.

Desta vez ele cambaleou sem fingimento. Ele sentiu o espírito primeiro. Sentiu profundamente no seu interior. Algo despertou. Algo que era o oposto da besta de Trevas que compartilhava o corpo com ele. A alegria ganhou vida. Era uma sensação estranhamente familiar, que fez Aurox virar a cabeça, automaticamente buscando e encontrando Zoey. Os olhos deles se encontraram. Ela estava chorando. Em uma das mãos, ela estava segurando a vela com chama prateada. Sua outra mão estava pressionada contra o peito.

– Não chore, Zo. Você vai ficar cheia de catarro – ele se ouviu dizer com uma voz humana, perfeitamente normal.

Uma rajada forte de ar o engolfou e ele ficou ofegante – e riu. Parecia um minitornado. O fogo veio em uma onda quente, que a água em seguida resfriou. A terra foi como um campo perfumado de lavandas, calmante e fortalecedor.

Aurox riu. Ele virou a cabeça para baixo, olhando para o que havia alguns instantes eram cascos fendidos e mortais. Agora ele tinha mãos e pés de novo!

– Não dê a volta olímpica da vitória ainda. Isso não significa merda nenhuma se você não pode lutar – Stark deu um soco nele. Com força. Jorrou sangue do seu nariz, junto com muita dor.

Aurox gemeu e revidou o soco, que pegou Stark na lateral do queixo.

– Eu posso lutar! – ele gritou. Stark caiu.

A besta estremeceu dentro dele, mas Aurox pensou nos elementos e a presença deles o fortaleceu. Ele sentiu a criatura se encolher e se acovardar.

Aurox estava sorrindo quando Darius o atacou. Aurox se desviou do golpe, batendo com tanta força no pulso do guerreiro que ele soltou a faca, que saiu deslizando no chão do porão. Aurox ainda estava sorrindo quando passou uma rasteira nas pernas de Darius, fazendo o guerreiro cair de costas.

Kalona não foi tão fácil. A velocidade dele era sobrenatural e, agora que Aurox não tinha os reflexos da besta, ele só conseguia bloquear um terço dos seus golpes. Mas isso não importava. Aurox ainda estava lutando, e ainda era humano, e era isso o que realmente importava.

– Ok, já chega! – a ordem de Thanatos veio quando Stark e Darius se juntaram a Kalona e eles estavam cercando Aurox. Os guerreiros pararam, apesar de Aurox achar que eles obedeceram à Grande Sacerdotisa com relutância. – Espírito, terra, água, fogo e ar, agradeço a cada um por sua presença poderosa. Vocês podem partir agora e até a próxima. Merry meet, merry part e merry meet again! – Thanatos fechou o círculo. Como se fossem uma só, as chamas de todas as velas arderam intensamente e depois se apagaram.

– Hum, deu certo – Zoey falou quebrando o silêncio.

Aurox limpou o sangue do seu nariz e da sua boca com a própria blusa. Sem pensar no que estava fazendo, ele seguiu as suas pernas e correu em direção a Zoey. Então os seus braços a levantaram e o seu corpo girou com ela sem parar, enquanto sua voz gritava:

– Você conseguiu! Deu certo!

Uma gargalhada escapou dela, mas assim que ele colocou Zoey no chão ela se afastou dele, indo ficar ao lado de Stark.

– Não fui só eu. Fomos todos nós – ela pegou a mão de Stark e, ignorando Aurox, sorriu para todos os outros. – Vocês foram incríveis.

– Ok, tudo bem, o círculo funcionou – Stark observou. – Mas como isso vai se traduzir em ajudar a tirar Vovó da cobertura de Neferet? Ela não vai deixar você traçar um círculo lá em cima.

– Bom, eu não tinha pensado tão à frente assim – Zoey disse.

– Vocês precisam ver Aurox para fortalecê-lo com os elementos? – Kalona perguntou.

– Na verdade, não – Zoey respondeu. – É mais difícil, e eu não sei por quanto tempo nós conseguiremos fazer isso, mas não precisamos ver alguém para enviar os nossos elementos até essa pessoa.

– Acho que um feitiço de proteção é a resposta – Thanatos falou devagar, raciocinando em voz alta. – Cerquem o edifício Mayo. Eu vou abrir o círculo e fazer o feitiço, amarrando-o com sal. Zoey, se o espírito estiver no centro do círculo, no coração do edifício, o círculo pode se manter.

– O lobby do edifício Mayo é grande. Há um bar e um restaurante ali – Aphrodite lembrou. – A comida é muito boa, e eles inclusive têm uma carta de champanhe decente. E é um lugar escuro e romântico.

– E por que eu me importaria com isso? – Zoey perguntou.

– Porque você e eu podemos sentar ali, em uma mesinha de canto. Eu posso tomar um bom champanhe. Você pode fingir que está lendo um livro enorme e enfadonho, enquanto acende uma versão menor e menos óbvia dessa vela roxa e dispara todos os elementos para o menino-touro.

– Onde nós vamos ficar? – Stark quis saber, parecendo não estar nem um pouco feliz com a ideia.

– Do lado de fora, cuidado da horda nerd para que nenhum louco da rua esbarre, por exemplo, na Rainha Damien e faça com que ele dê um gritinho, derrube a vela e ferre com tudo – Aphrodite explicou.

– Eu não vou derrubar a minha vela – Damien afirmou.

– E se for alguém muito, muito fedido e você achar que ele tem piolho? – Aphrodite provocou.

– Eca – Damien encolheu os ombros.

– Eu avisei – Aphrodite concluiu.

– Aurox, você consegue fazer isso? – Zoey perguntou.

Ele encontrou os olhos dela sem hesitar.

– Sim. Eu consigo. Eu vou fazer. Desde que os elementos consigam fortalecer a mim – Aurox fez uma pausa e não conseguiu evitar um sorriso de pura alegria. – A mim! Eu sou mais do que uma besta. Eu sou mais do que Trevas – ele se voltou para Thanatos. – Você disse que eu tinha uma escolha. Eu escolho a Luz e o caminho da Deusa.

Thanatos retribuiu o sorriso dele.

– Sim, meu filho. Sim, eu acredito nisso. E também acredito que a Deusa o escutou.

– Bem, ele definitivamente está falando alto o bastante para a Deusa escutar – Stevie Rae sorriu para ele também.

Mas Zoey não estava sorrindo. Ela havia se virado para Kalona.

– Você pode mesmo pegar Vovó? Isso parece ridículo e superassustador. Quero dizer, Aurox vai arremessá-la do alto do edifício Mayo.

Kalona abriu suas asas. Elas envolveram o grupo e roçaram o teto do porão. As feridas do imortal haviam se aberto durante a luta, e o sangue corria livremente pelo seu corpo. Aurox pensou que ele parecia um deus vingador.

– Eu vou pegá-la e, quando estiver comigo, Sylvia Redbird vai estar completamente segura.

Zoey assentiu.

– Eu conto com isso. Ok, então esse é o nosso plano.


21 Zoey

Esperar até o anoitecer foi um inferno. Eu sentia a minha cabeça latejar e o meu estômago doer por ter que ficar de boca fechada enquanto os outros novatos da estação acordavam aos poucos, passavam sonolentos arrastando os pés pelos túneis, sem a menor pressa, e comiam cereal, falando sobre escola, lição de casa e outras coisas que não tinham nada a ver com salvar a Vovó.

E, claro, acrescente a isso o fato de que Aurox estava encolhido numa torre da estação, escondido, esperando até a gente voltar para pegá-lo um pouco antes de começar todo aquele plano de traçar o círculo e salvar a Vovó. Afinal, como Aphrodite tinha dito: “Não podemos deixar ninguém vê-lo. Se Neferet ouvir só uma palavrinha de que o menino-touro mostrou a cara de novo na Morada da Noite e que nós não acabamos totalmente com ele, bem, então podem pintar um alvo gigante nele e considerar que Vovó está ferrada”.

Então, sim, eu estava com uma dor de cabeça enorme e com um episódio sério de síndrome do intestino irritável.

– Tome um refrigerante marrom – Stark disse, deslizando uma cadeira para perto de onde eu estava sentada em uma das mesas da cozinha.

– Já tomei – eu falei.

– Tome outro. – Ele se inclinou na minha direção, beijou a minha bochecha e sussurrou: – Você está batendo o seu pé feito louca, e os outros estão olhando na sua direção como se você fosse explodir.

– Eu acho que vou explodir mesmo – esfreguei o meu nariz nele, como pretexto para sussurrar de volta.

– Vai um pouco de Count Chocula aí, Z.? – Stevie Rae perguntou com uma alegria forçada.

– Não estou com fo... – comecei, mas Aphrodite me cortou.

– Ela vai adorar comer um pouco sim. O café da manhã é a refeição mais importante do dia.

– Você nunca come nada no café da manhã – eu lembrei, franzindo a testa para ela.

Aphrodite levantou a sua taça de champanhe que estava pela metade e me brindou ironicamente.

– Eu prefiro beber no meu café da manhã, e faço isso todo dia. Suco de laranja é alimento para o cérebro.

– E champanhe é um matador de células do cérebro – Shaylin comentou, com a boca cheia de Lucky Charms.

– Gosto de pensar nisso como o modo que a Deusa tem de nivelar o campo de jogo. Pensem por um instante como eu seria ridiculamente mais inteligente do que todos vocês se eu não bebesse tanto.

– Acho que a sua lógica é falha – Damien afirmou.

– E eu acho que tem uma falha no seu cabelo. Será que estou vendo aquela careca masculina precoce clássica aí?

Damien arfou.

Eu suspirei.

– Não seja tão maldosinha – Stevie Rae falou para Aphrodite, enquanto me entregava uma cumbuca de cereal.

– Aproveitando, a cintura dessa calça jeans Roper horrorosa e caipira que você está usando está tão alta que não passaria num teste de bafômetro – Aphrodite fez graça com Stevie Rae, enquanto enchia a sua taça de Mimosa.

– Acho que Stevie Rae está ótima – Shaylin comentou.

– É claro que você acha. E amanhã provavelmente você vai usar dois sapatos diferentes, porque esse é o tipo de gosto refinado para moda que você tem.

Tentei comer enquanto meus amigos se alfinetavam. Stark continua­ va perto de mim, com a sua mão em cima da minha coxa – de vez em quando, ele me dava um apertãozinho reconfortante.

Minha mente não conseguia sossegar. Ok, eu entendia por que nós tínhamos que esperar até o pôr do sol para ir até o edifício Mayo. Das cinco personificações dos elementos do nosso círculo, duas iriam explodir em chamas se a gente saísse à luz do sol. Isso sem contar Stark, que também iria ficar torrado. Eu também sabia que a gente tinha que ir para a escola assistir à primeira aula, que seria dada por Thanatos. Ela iria nos dividir em grupos e passar diferentes deveres, todos relacionados com a preparação da escola para o evento aberto ao público no sábado. Convenientemente, as tarefas que ela iria atribuir aos que iam resgatar Vovó seriam fora do campus. Portanto, Erin, Dallas e ninguém mais que pudesse entrar em contato com Neferet de propósito ou acidentalmente não iriam ter a menor ideia do que estávamos preparando, nem mesmo de que a gente sabia que Vovó estava desaparecida.

Mas a espera era difícil, principalmente porque os garotos que não faziam parte do nosso plano não sabiam de nada do que estava acontecendo e estavam enrolando, levando séculos para se preparar para entrar no ônibus.

Aurox estava encolhido em uma torre no alto do prédio da estação. Vovó estava presa em uma jaula criada pelas Trevas. Era difícil fingir que não estava acontecendo nada. Eu queria ficar andando de um lado para o outro. Eu queria gritar. Que inferno, eu queria poder bater em algo. Ou em alguém. Bem, com certeza em Neferet. Mas pelo menos eu não queria explodir em lágrimas, e achei que isso era um bom sinal.

Quando o meu cereal e a minha paciência estavam quase acabando, Kramisha entrou na cozinha feito fogos de artifício. Bem, talvez fosse apenas a roupa dela que se parecesse com fogos de artifício, com a sua saia amarela colada na bunda, seu suéter roxo ostentando no peito o símbolo prateado de quinto-formanda da carruagem de ouro de Nyx puxando um rastro de estrelas, além dos seus sapatos de salto wedge de couro envernizado vermelho e brilhante, que combinavam exatamente com a cor da sua peruca curta escarlate.

– O ônibus está esperando! E por mais que Darius seja legal, ele não precisa ficar sentado lá fora imaginando por que todo mundo está demorando tanto – ela fez um movimento com as mãos para enxotar os novatos. – Vão logo, rápido!

Tive vontade de beijá-la. Então ela me fuzilou com seus olhos escuros e disse:

– Tenho algo para você.

Meu estômago se contraiu quando ela enfiou a mão na sua bolsa Louis Vuitton gigante e pegou o seu caderno roxo.

– Eu não consigo nem dizer o quanto eu detesto poesia – Aphrodite falou.

– Não me venha com essa sua atitude – Kramisha rebateu. – Você já teve alguma visão hoje?

– Não. Hoje estou às voltas com Mimosas em vez de visões, mas obrigada por perguntar – Aphrodite respondeu.

– Parece que eu estou tendo que fazer o seu trabalho, Profetisa, então você não deveria detestar a minha poesia – Kramisha também fez um movimento para enxotar Aphrodite dali. – Vá embora. Eu disse que isto aqui é para Zoey.

– Ótimo. Algumas pessoas dizem “foda-se a yoga”. Eu digo “foda-se a linguagem figurada”. E não, eu não quis dizer isso no sentido figurado – Aphrodite atirou o cabelo para trás e saiu andando.

– Você precisa que eu fique? – Stevie Rae perguntou.

Levantei as sobrancelhas fazendo um ar de interrogação para Kramisha.

– Não – ela afirmou. Então ela olhou para Damien, Shaylin e Stark. – Vocês também podem ir.

– Ei, não sei se estou de acordo com isso – Stark falou.

– Você tem que estar. Estou sentindo uma vibe forte de conversar a sós com Z., e estou seguindo isso – Kramisha cruzou os braços e bateu o pé no chão olhando para Stark, ainda segurando o que eu já estava começando a pensar em chamar de O Bloco Roxo da Danação.

– Vá na frente – eu pedi. – O instinto de Kramisha costuma acertar bem mais do que errar.

– “Bem mais” quer dizer sempre – Kramisha soou superimpaciente.

– Ok, mas não estou gostando disso. Eu te espero no ônibus – Stark me beijou, franziu os olhos para Kramisha e saiu.

Kramisha balançou a cabeça.

– Eu tenho quatro palavras para esse garoto: con-tro-la-dor.

– Ele só está tentando me manter segura, só isso – opinei.

Kramisha bufou.

– É, foi exatamente o que disse o segundo marido da minha tia, antes de dar um tapa na cara dela que a fez sair voando pela sala, só porque ela olhou torto para ele.

– Stark não vai me bater, Kramisha!

– Estou só avisando. Enfim, isto aqui é para você. Só para você. Não sei por que eu estou com uma intuição forte de que você tem que ouvir isto aqui, pensar a respeito e manter isto só para você, mas eu estou. Você é a Grande Sacerdotisa e tal, então você pode fazer o que quiser. Mas eu tenho que ser honesta e contar todos os detalhes da magia para você.

– Ok, sim, eu entendi. Então, deixe-me ler isso – estendi a mão para pegar o caderno.

– Não – Kramisha me surpreendeu. – Não sei por que, mas isto aqui é uma coisa que tem que ser lida em voz alta. Você só tem que escutar – quando ela começou a ler, a sua voz mudou. Não ficou mais alta, mas havia um poder no modo como Kramisha falava, no modo como ela pronunciava as palavras, que fazia com que aquilo fosse mais um cântico do que simplesmente um poema rimado.

“Espelho ancestral

Espelho mágico

Tons de cinza

Escondido

Proibido

Dentro, fora

Rompa a névoa

Toque de magia

Invoque as fadas

Revele o passado

O feitiço está feito

Eu salvo o dia!”

Ela terminou, e o aposento ficou totalmente silencioso.

– Bem, isso é alguma merda estranha – Kramisha disse, soando como ela mesma de novo. – Isso significa alguma coisa para você?

– Eu não sei. Pareceu algo poderoso, como se fosse mais do que um poema – respondi. – Eu gostei da parte que diz que você vai salvar o dia.

– Não foi dirigido a mim, Z. É para você. Eu nem sei muito bem o que ele é, porque não se parece com nenhum dos meus outros poemas. Parece mais um feitiço do que uma profecia.

– Um feitiço? – olhei ao nosso redor. Estava tudo igual. Nada havia acontecido. – Você tem certeza?

– Não, eu não tenho. Leve isto – ela arrancou a página do caderno e a entregou para mim. – Eu sei que tem alguma coisa rolando com você e com o seu círculo. Sei que você me contaria se pudesse – ela ergueu a mão para cortar a minha tentativa de explicação. – Eu não preciso de nenhuma explicação. Você é a minha Grande Sacerdotisa. Confio em você. Eu só precisava dar o poema a você e dizer que vai precisar dele. Quando você precisar, fale em voz alta como eu fiz. Há poder nessas palavras.

Peguei o poema, dobrei a folha cuidadosamente e a coloquei no bolso da frente da minha calça jeans.

– Obrigada, Kramisha. Espero que em breve eu possa contar a você como isso significa muito para mim.

– Você vai. Como eu disse, acredito em você, Z. Agora é a sua vez de acreditar em si mesma.

– É, seu sei. É isso que me assusta – eu admiti.

Kramisha me puxou e me deu um abraço apertado e caloroso.

– Z., se isso não a assustasse, eu diria que você não tem nenhum juízo mesmo. Apenas seja forte e se lembre: Nyx não é idiota, e foi ela que escolheu você para lidar com toda essa merda estressante, e não o contrário.

– Isso realmente me faz sentir um pouco melhor – falei.

– Bem, eu não sou nenhum Dr. Phil , mas sou inteligente – ela brincou.

– E os seus sapatos são mais bonitos do que os dele – tentei soar pelo menos um pouco normal.

– Sim, eles me lembram dos sapatinhos de rubi da Dorothy, só que os meus são wedge porque eu sou mais ligada em moda do que ela.

O comentário dela foi apropriado porque eu me sentia como se estivesse seguindo a estrada de tijolos amarelos ao encontro de uns macacos alados assustadores, o que supostamente transformava Aurox em Glinda, a Bruxa Boa do Norte. E eu? Tenho certeza de que eu seria o Leão Covarde...

Pensei que estava preparada para encontrar com Erin. Mas eu estava totalmente errada. Eu esperava que ela estivesse distante e fria; ela estava fazendo esse papel nos últimos dias. Eu inclusive já sabia do seu caso com Dallas – Shaylin tinha nos contado que viu Erin e Dallas juntos e que analisou as cores superturvas e imundas deles na noite anterior. E Shaunee havia admitido que viu os dois se pegando (apesar de se recusar a nos contar o que ela chamava de detalhes sórdidos). Mesmo assim, eu não esperava que Erin fosse tão descarada. Mas, quando chegamos para a primeira aula, ali estava ela, sentada grudada em Dallas, no fundo da classe com os outros novatos vermelhos detestáveis.

– Ah, não, que inferno – Aphrodite resmungou quando a risada sarcástica de Erin, na linha “ai, meu Deus, eu sou tão sexy”, ressoou à nossa volta.

– Não deem nenhuma atenção a ela – Shaunee sussurrou enquanto caminhava ao nosso lado, pois todo mundo ficou olhando com cara de tacho para Erin, sem acreditar como ela tinha se afundado tanto na sarjeta. Ok, todos nós ficamos olhando com cara de tacho, menos Shaunee. Ela não olhou nem de relance para a sua ex-gêmea. Ela apenas entrou na sala de cabeça erguida, como se não estivesse ouvindo as risadinhas imaturas de Erin nem sentindo os olhares nojentos disparados na sua direção.

– Shaunee está certa – abaixei a voz para que só o meu grupo pudesse me ouvir. – Erin é como uma dessas crianças malcriadas que querem qualquer tipo de atenção, positiva ou negativa. Ignorem Erin e os outros.

Assim nós fizemos. Sentei na primeira fileira, com Stevie Rae, Rephaim e Shaunee de um lado, e Aphrodite, Shaylin e Damien do outro.

O assento vazio de Aurox saltou aos meus olhos. O que será que ele está fazendo agora? O que está passando na sua cabeça enquanto ele se prepara para enfrentar Neferet e salvar Vovó? Será que ele vai amarelar? Provavelmente ele nem vai estar esperando na estação quando a gente voltar para buscá-lo. Provavelmente ele vai estar, tipo, na metade do caminho para o Brasil...

A voz de Shaylin cortou o meu surto mental.

– Olhem lá – ela havia se inclinado sobre Aphrodite para sussurrar para mim. Com a cabeça, ela indicou ligeiramente uma garota à esquerda do nosso grupo.

Surpresa, reconheci Nicole. Ela estava sozinha, sentada mais na frente da classe, totalmente separada de Dallas e do seu grupo.

– Cores? – Aphrodite a questionou em voz baixa.

– O vermelho quase desapareceu – Shaylin respondeu de modo que eu ouvisse também. – E o marrom de tempestade de areia está ficando dourado. É realmente bonito.

– Hum – eu falei.

– Estranho – Aphrodite comentou.

– Totalmente estranho – Stevie Rae sussurrou do meu lado. – E eu ainda não gosto dela.

Eu estava pensando em algo sábio para dizer quando Thanatos entrou na sala.

– Merry meet! – ela saudou a todos.

– Merry meet! – nós a saudamos de volta.

Thanatos não perdeu tempo, e eu fiquei supergrata por isso, pois estava seriamente cansada de perder tempo.

– Não posso pedir que vocês entreguem a sua lição de casa, como eu faria se esta fosse uma escola comum. Não vou fingir que vocês não perderam a sua líder, Neferet, e que as suas vidas não foram dilaceradas.

Damien digitou rapidamente no seu iPad e o levantou para que a gente pudesse ler: dilaceradas = despedaçadas.

– Eu quero saber quem foi o responsável pelo incêndio no estábulo – a pergunta de Erin, vinda do fundo da classe, surpreendeu mais gente do que apenas a mim. Escutei sussurros em toda parte. O rosto de Shaunee ficou pálido, e até Thanatos levou mais do que o tempo normal de hesitação de um professor para responder.

– Parece que foi um acidente infeliz – Thanatos afirmou.

– Bem, eu não conheço algum acidente que seja feliz – a voz de Dallas foi sarcástica.

– Você não conhece nenhum acidente que seja feliz, certo? – Thanatos o corrigiu tranquilamente.

– Você não é um acidente? Lembro que você me contou que o seu pai e a sua mãe disseram que eles só foram até Dallas para passar o fim de semana, não para fazer um bebê – Stevie Rae gritou para o fundo da sala na direção dele.

Um monte de garotos começou a rir. Thanatos falou mais alto do que as risadas.

– Às vezes, as melhores coisas nascem de momentos acidentais e desesperadores. Você não concorda comigo, Dallas?

Ele resmungou algo que ninguém conseguiu entender. Escutei a voz ofegante de Erin, tipo Marilyn Monroe, sussurrar para Dallas antes que ele falasse qualquer coisa:

– Então, basicamente ninguém vai pagar por tocar fogo no estábulo?

– Eu não toquei fogo no estábulo – Nicole não estava se dirigindo a eles. Ela estava olhando para Thanatos e soando como se as duas estivessem sozinhas na sala. – Já falei isso para Lenobia. Eu estava lá. Estava ventando muito e o lampião caiu. Tudo aconteceu muito rápido. Eu estava indo até a selaria para guardar as escovas e outras coisas que estava usando para tratar de uma das éguas. Eu vi tudo acontecer. Teve uma rajada forte de vento, que derrubou o lampião bem no meio de um monte de fardos de feno, e eles se acenderam feito fogos de artifício – então Nicole se virou e terminou de falar olhando diretamente para Dallas. – Foi um acidente. Ponto final.

– Bom, ainda bem que você é tão confiável, ou as pessoas poderiam pensar que você está mentindo – a voz de Dallas soou como um insulto.

– Sim, de fato – Thanatos cortou o sarcasmo dele. – E a nossa Mestra dos Cavalos concorda com o testemunho de Nicole. Estamos todos muitos satisfeitos que ninguém tenha morrido por causa desse acidente.

– Mas o celeiro está uma bagunça – eu disse para preencher aquele silêncio desconfortável, fazendo o melhor que eu podia para nos trazer de volta para alguma aparência de normalidade. – Então, isso significa que as nossas aulas de Estudos Equestres estão canceladas?

– Não, de jeito nenhum – Thanatos se virou para mim com um olhar de gratidão. – Continuem com o seu calendário de aulas normalmente. Mas quem tiver aula de Estudos Equestres pode ser colocado para limpar o estábulo e retirar os destroços, em vez de cavalgar – então ela tocou a testa como se tivesse acabado de se lembrar de algo. – Exceto aqueles que eu preciso que me ajudem a preparar o evento aberto ao público no sábado.

Damien levantou a mão.

– Sim, Damien, qual é a sua pergunta? – Thanatos quis saber.

– Não é bem uma pergunta. Só quero me oferecer como voluntário para ajudar como eu puder.

Thanatos sorriu.

– Aprecio muito o seu gesto.

– Você está falando em estudo do meio? – a voz de Erin soava tão estranha vinda do fundo da sala.

– Acho que parte do que eu preciso pode ser considerada como estudo do meio, já que vou precisar que vocês saiam do campus. Erin, você está se candidatando a voluntária?

– Se isso significa perder aula, então você tem mais voluntários além de Erin – Dallas disse.

Eu não podia nem dar aquele olhar oblíquo para Stevie Rae e Aphrodite, mas com o canto do olho tive certeza de que vi Stevie Rae cruzando os dedos.

– Dallas, a sua ajuda pode ser útil. Hoje eu passei muitas horas do dia procurando na internet eventos beneficentes em Tulsa. Parece que um dos eventos para arrecadar fundos mais bem-sucedidos se chama Uma Noite de Vinho e Rosas. Ele ajuda o Tulsa Garden Center. Parece que a instituição pendura uma infinidade de luzes em volta do seu jardim de rosas e então promove um jantar com degustação de vinhos após o anoitecer. Isso, meu jovem e interessante vampiro vermelho, é perfeito para você.

– Perfeito? Eu não gosto muito de vinho – ele protestou.

Escutei Aphrodite bufando, mas continuei olhando para a frente, tentando nem respirar. Eu sabia o que Thanatos estava armando e queria muito que desse certo.

– Não, você me entendeu mal – Thanatos explicou. – Eu simplesmente quero reproduzir o padrão de iluminação deles no nosso evento aberto ao público. Dallas, imagine como o nosso campus vai ficar adorável se cordões de lâmpadas elétricas forem amarrados em volta dos nossos antigos carvalhos.

– Um monte de eletricidade seria ótimo. Já faz tempo que eu digo que esta escola precisa se atualizar em termos de eletricidade. Não estamos, tipo, em 1960. Precisamos de luzes de verdade aqui. Nossos olhos conseguem lidar com isso – Dallas soou metido, como sempre.

– Bem, eu concordo com você, pelo menos temporariamente – Thanatos sorriu para ele. Novamente, eu fiquei maravilhada com a sua impressionante capacidade de atuação. Então ela voltou sua atenção para Erin. – Como parece que você trabalha bem em parceria com Dallas, posso contar com você para ajudar a cuidar da decoração do nosso evento? Nós precisamos de uma iluminação requintada, mas também precisamos de mesas cobertas com belas toalhas de linho, espalhadas por todo o jardim central. Você pode assumir a responsabilidade de coordenar isso com os humanos locais, junto com a experiência em eletricidade de Dallas, para que tudo isso seja feito?

– Eu nasci para fazer decorações e compras. Dê o cartão ouro da escola para mim e estou dentro – Erin afirmou.

– Você vai ter um orçamento generoso – Thanatos garantiu a ela. – Principalmente porque o nosso evento já é daqui a alguns dias. O tempo é crucial.

– Se eu tiver dinheiro, sou ótima em cumprir prazos – Erin pareceu que tinha entrado totalmente no jogo de Thanatos.

Seguindo o roteiro, Aphrodite levantou a mão na hora certa.

– Ahn, hello! – ela soou entediada e maldosa. Ainda mais do que o normal.

– Você quer fazer uma pergunta, Aphrodite? – Thanatos se dirigiu a ela.

– Quero fazer uma observação inteligente. Se você vai escolher um responsável por organizar tudo para um evento beneficente, deveria procurar uma especialista: moi 4 . Eu cresci no meio do que a classe média chama tão barbaramente de planejamento de eventos.

Thanatos sorriu e respondeu em um tom condescendente:

– Tenho certeza de que você é uma especialista nisso, mas Erin e Dallas já se candidataram. Mas eu tenho outra tarefa para você. Gostaria que você desse uma saída rápida do campus para convidar os seus pais para o evento aberto ao público. Pelos comentários que li na imprensa ontem, suponho que posso contar com o apoio deles.

– Sim, que seja. Eu falo com eles – Aphrodite estava fazendo um trabalho incrível representando o seu papel. Ela parecia totalmente irritada por Thanatos não ter substituído Erin por ela, que era exatamente o que nós queríamos. Se Erin e Dallas acreditassem que estavam fazendo algo importante e que nós estávamos aborrecidos ou deixados de lado, eles ficariam convencidos. Eles ficariam insuportáveis. Eles ficariam totalmente distraídos e não contariam nada para Neferet, apenas que Thanatos estava dependendo deles e dando um monte de responsabilidade a eles. O primeiro passo definitivamente estava indo de acordo com o Plano.

Damien levantou a mão com ímpeto. Quando Thanatos o chamou, as palavras dele praticamente jorraram efusivamente:

– Será que eu poderia ir com Aphrodite? Sempre quis ver como a política da cidade funciona por dentro.

– Eca – Aphrodite bufou.

– Sim, você pode ir – Thanatos permitiu.

Foi a minha vez de levantar a mão. Eu tinha me preparado para isso, mas mesmo assim foi difícil manter a voz calma.

– Ahn, eu liguei para Vovó para falar sobre a ideia de ela vender os seus produtos de lavanda no evento, mas ela ainda não atendeu às minhas ligações.

– Você deixou um recado para a sua avó? – Thanatos perguntou.

– Sim, deixei – dei um longo suspiro. – E imagino que não é uma grande surpresa o fato de ela ter deixado o telefone desligado, já que a gente acabou de fazer o ritual de revelação sobre a minha mãe e tal – nessa hora não havia problema de a minha voz ficar trêmula, e fiquei muito feliz com isso, pois estava sendo bem difícil me controlar. – Então, você quer que eu vá até a sua fazenda para falar com ela?

– Bem, talvez amanhã ou depois – Thanatos fez um gesto com a mão, indicando que isso não era urgente. – Mas acho que agora isso não é necessário. Hoje eu preciso que você vá comigo até os Street Cats. Gostaria muito de ser apresentada à líder da organização, irmã Mary Angela. Nós já sabemos que a sua avó irá nos apoiar, então ajudar a coordenar o evento com os Street Cats é um uso melhor do seu tempo, Zoey.

– Ok, eu posso fazer isso – respondi.

– Posso ir com vocês até os Street Cats? – Shaylin falou sem levantar a mão. – Eu realmente adoraria que um gato me escolhesse.

Thanatos sorriu.

– É claro, jovem novata – ela voltou o seu olhar aguçado para Stevie Rae. – Grande Sacerdotisa, preciso que você fale com a sua mãe. Você mencionou os cookies dela durante a nossa entrevista na televisão. Bem, acredito que vamos precisar dos cookies de mais de uma mãe para saciar o apetite de Tulsa no próximo sábado.

– Posso pedir para a minha mãe envolver as mães da Associação de Pais e Mestres. Elas cozinham feito loucas para o clube de apoio aos estudantes Henrietta Hen.

– Então vou contar com você para organizar os nossos petiscos – Thanatos afirmou. – Então, vamos recapitular. Aqueles a quem eu nomeei líderes, Dallas, Erin, Aphrodite, Zoey e Stevie Rae: escolham os novatos mais próximos a vocês e deleguem tarefas a eles. Dallas, você me parece um guerreiro legítimo, então pode proteger o seu próprio grupo. Zoey, Aphrodite e Stevie Rae, vocês podem incluir os seus guerreiros nas suas saídas do campus se acharem necessário. Vou confiar no seu bom senso. Fiquem em segurança e sejam discretas, ou seja, cubram as suas Marcas e não usem nenhuma peça do uniforme da escola. Não precisamos de nenhuma tensão adicional entre vampiros e humanos nem queremos chamar mais atenção do público. Além disso, vocês não precisam vir para a aula entre hoje e segunda. Aqueles a quem eu nomeei líderes devem vir até esta sala para me manter atualizada e, claro, pedir ajuda se for preciso. Hoje eu vou com Aphrodite encontrar o prefeito, mas depois vou voltar para a Morada da Noite e permanecer no campus, disponível como sempre. Não vamos esperar até que o sino indique que vocês podem ir. Vocês, meus estudantes especiais, não precisam seguir as regras tão ao pé da letra. Eu sei que vocês têm os valores da escola nos seus corações. Então, vão em frente com suas tarefas. Merry meet, merry part e merry meet again.

Desse modo, Thanatos simplesmente se livrou de Dallas, Erin e do seu grupo de bisbilhoteiros e espiões. Eles acreditavam sem a menor dúvida que Thanatos era uma Grande Sacerdotisa ingênua que eles podiam manipular, e que eles estavam recebendo um monte de responsabilidades para o evento aberto ao público na escola, o qual eu tinha certeza de que eles iriam tentar estragar totalmente junto com Neferet.

Nós, por outro lado, iríamos salvar Vovó e chutar o traseiro de Neferet sem que ela desconfiasse. Então a gente teria tempo para consertar qualquer confusão que Dallas, Erin e a sua gangue pudessem ter aprontado para o nosso evento. Ou pelo menos esse era o nosso Plano.


22 Aurox

Ter que ficar esperando na torre do prédio da estação foi uma chance para Aurox relaxar. Era estranho, mas, desde que ele havia recebido a responsabilidade de salvar Vovó Redbird, o caos e o tumulto em sua mente tinham se acalmado. Ele estava no caminho certo, e sabia disso. E quando os elementos o alcançaram e o fortaleceram tanto que a vontade dele controlou a besta, Aurox se encheu de júbilo.

– Eu sou mais do que uma concha moldada pelas Trevas – as suas palavras ecoaram contra as paredes de pedra da torre, e Aurox sorriu. Ele queria poder gritá-las do alto do edifício Mayo. – Eu vou gritar – ele prometeu a si mesmo em voz alta. – Quando Vovó Redbird estiver livre e segura, vou gritar que escolhi a Luz em vez das Trevas – ele se sentiu bem só de dizer isso, apesar de ser o único a ouvir.

A menos que a Deusa esteja ouvindo...

Aurox levantou os olhos para a noite. O céu estava limpo e, apesar de a estação ficar bem no centro da cidade, um monte de estrelas estava visível, além de uma lasca brilhante de lua.

– A lua crescente. O seu símbolo – Aurox falou para a lua. – Nyx, se você está me ouvindo, eu quero agradecê-la. Você deve ter alguma coisa a ver com o fato de eu poder escolher ser mais do que aquilo que me criou. As Trevas não teriam me dado essa escolha, só pode ter sido você. Portanto, obrigado. E eu também ficarei muito grato se você puder fortalecer Vovó Redbird. Ajude-a a aguentar firme até eu chegar lá para resgatá-la. – Sentindo-se confiante e feliz, Aurox se recostou na parede arredondada da torre de pedra, fechou os olhos e, com um sorriso ainda no rosto, caiu em um sono profundo.

Aurox não costumava sonhar. Raramente ele se lembrava de alguma coisa do tempo que passava dormindo. Então aquele sonho em que ele estava pescando foi incomum desde o começo.

Aurox nunca tinha pescado, mas o cais em que ele estava sentado parecia muito familiar. O lago plácido era de um azul-topázio e estava dentro de um lindo bosque com árvores aparentemente ancestrais. Ele nunca tinha segurado uma vara de pesca antes, mas aquela vara parecia se encaixar naturalmente em suas mãos. Aurox enrolou a linha e depois a arremessou. A boia caiu no lago fazendo um barulho reconfortante. Ele suspirou e olhou preguiçosamente para a superfície espelhada da água – e sentiu um choque perturbador.

O rosto de Aurox não estava olhando de volta para ele, mas, sim, o rosto de outro garoto. Ele tinha um cabelo bagunçado cor de areia, e os seus olhos azuis estavam arregalados com a surpresa que Aurox estava sentindo.

Ele levantou a mão e tocou o seu rosto.

– Este não sou eu – ele falou para o reflexo incorreto e sentiu uma onda de choque de novo. A voz era sua, mas ela estava dentro do corpo errado! – É um sonho. Simplesmente uma imagem da minha mente adormecida – Aurox só precisava acordar. Mas ele não conseguia parar de olhar para o garoto.

Então o reflexo abriu a boca e começou a falar palavras sobre as quais Aurox não tinha nenhum controle.

– Ei, se liga. Você só pegou a minha escolha e a minha bondade emprestadas. Elas não são suas.

O pavor tomou conta de Aurox. O garoto em seu corpo estava dizendo a verdade. No reflexo, Aurox se viu balançando a cabeça de um lado para o outro sem parar, negando o que o seu coração afirmava.

– Não, eu escolhi a Luz em vez das Trevas. Eu fiz essa escolha!

– Pense melhor, cara. Eu fiz a escolha, você só pegou carona. Então você não pode se dar ao luxo de relaxar, principalmente quando vai resgatar a avó de Zo.

– Zo – Aurox franziu a testa. – Eu não devo chamá-la dessa forma.

– Ah, não diga, Sherlock. Isso é porque eu costumava chamá-la de Zo. Só estou avisando para você ficar ligado. Não fique tão convencido. As coisas não vão ser tão fáceis assim para você. Estou fazendo o melhor que eu posso, mas vai chegar a hora em que você vai ter que assumir a responsabilidade.

Então um peixe puxou a linha de Aurox, fazendo a água se ondular, turvando a sua superfície espelhada e fragmentando o sonho.

Aurox abriu os olhos. Ele ficou ofegante e se sentou rapidamente. O seu coração estava batendo tão forte que Aurox sentiu a besta dentro dele se agitar. Ele se levantou e começou a andar de um lado para o outro para aplacar a sua ansiedade.

Ele levantou os olhos para o céu. O crescente prateado havia se movido. Aurox olhou para o relógio que Stark tinha emprestado para ele. Já eram quase 22 h. Thanatos iria estar de volta para buscá-lo a qualquer momento. Ele precisava se recompor e descer até a frente do velho edifício da estação. Ele precisava reencontrar a sua confiança e se preparar para confrontar Neferet e as Trevas.

Aurox subiu a escada de metal enferrujada e então saltou de cima da torre para o telhado da estação. De lá, correu até alcançar a escadaria lateral. Ele estaria esperando quando Thanatos o chamasse. Ela estava contando com ele. Zoey estava contando com ele. Todos estavam contando com ele.

Ele iria provar que eles estavam certos em confiar a ele a vida de Vovó Redbird.

– Foi só um sonho. Nada mais do que isso – Aurox falou para o vazio da noite. A sua voz o reconfortou, mas o seu coração doía porque uma dúvida assustadora havia se infiltrado dentro dele.

Zoey

– Lá está ele, esperando embaixo da parte mais escura da entrada da estação, exatamente onde Thanatos disse para ele ficar – apontei para a entrada da estação abandonada com aparência de Gotham City. Aurox estava nas sombras, mas o seu cabelo superloiro e os seus olhos cor de pedra da lua não deixavam que ele ficasse exatamente camuflado.

Stark se aproximou mais dele e Thanatos abriu a porta traseira do carro, um dos muitos SUVs da escola, fazendo um gesto para que ele entrasse.

– Não está todo mundo aqui – Aurox disse depois de fechar a porta e olhar ao redor dentro do veículo.

– Ahn, é claro que não – respondi, pensando que ele parecia muito nervoso. – Thanatos fingiu que nos dividiu para cumprirmos diferentes missões, para que Neferet não escute nada que a deixe desconfiada, lembra?

– Ah, sim. Sim. – Ele fez uma pausa e então acrescentou: – Merry meet, Thanatos.

– Merry meet, Aurox. Não se preocupe. O resto do nosso grupo vai se juntar a nós perto do edifício Mayo.

– Você está bem? Parece que você está meio pálido – Shaylin falou do banco de trás.

Estiquei o pescoço para olhar para ele.

– Pálido como? A aura dele está mudando?

– Não, a aura dele está igual. Eu quis dizer pálido mesmo. O rosto dele está branco – Shaylin observou.

– Eu estou bem – Aurox disse com firmeza. – Apenas ansioso para terminar de fazer o que tem que ser feito.

– Assim como nós – Thanatos afirmou. – Acalme-se e deixe essa tensão para a batalha.

Aurox assentiu e ficou em silêncio. Eu mordi o lábio e fiquei pensando em Vovó e olhando para fora da janela. Felizmente, o edifício Mayo não ficava longe da estação. Stark saiu da Fifth Street e estacionou nos fundos do edifício Oneok Plaza, que ficava em frente ao Mayo. Outro SUV escuro já estava lá. Darius, Aphrodite, Shaunee e Damien desceram do carro. Shaunee e Damien estavam segurando as velas dos seus elementos. Aphrodite estava dando uma mão para Darius e, na outra mão, ela tinha um livro de Geometria supergrosso.

– Geometria? Sério? Essa era a melhor escolha para a nossa falsa sessão de estudos? – percebi que eu estava falando coisas bobas sem pensar, mas realmente detestava Geometria.

– Falsa é a palavra-chave. A gente não vai estudar de verdade. A gente só vai fingir que está estudando, retardada.

– Sim, ok, tudo bem – eu falei. – Eu sei que a gente não vai estudar de verdade. Eu só estou muito nervosa e preocupada com Vovó.

– O que é totalmente compreensível – Damien me abraçou. – É por isso que estamos aqui. A gente vai resgatá-la – ele olhou para Aurox. – Você está pronto?

Aurox assentiu. Eu achei que ele não parecia estar pronto, mas provavelmente eu também não parecia pronta, então tentei não julgá-lo. Shaylin e eu estávamos pegando as nossas velas dos elementos nas nossas bolsas quando Kalona, silencioso como a própria noite, desceu do céu.

– Alguma novidade na escola? – Thanatos perguntou para o imortal alado.

– Dallas e Erin fragmentaram o grupo dos novatos vermelhos. Eles semeiam a discórdia, mesmo dentro da sua própria espécie. Vamos ter que lidar com eles quando isto aqui acabar.

– De acordo – Thanatos afirmou. – Mas o nosso plano funcionou.

– Sim. Eles estão tão ocupados exibindo para os outros estudantes a responsabilidade que você deu a eles que não estão preocupados com o que Zoey, você e qualquer um de nós estamos fazendo – Kalona contou.

– Erin está cometendo um grande erro – Shaunee falou em voz baixa.

– Estou feliz que ela está errando sozinha, sem você – Damien disse.

– Todos nós estamos felizes por isso – concordei.

Então o meu Fusca estacionou, e Stevie Rae e Rephaim saíram do carro.

– Desculpem pelo atraso – ela chegou apressada com a sua vela verde. – Erin e Dallas estavam em um carro atrás de mim, então tive que fingir que estava indo para o clube Henrietta Hen. Afe, eu estava com medo de que eles me seguissem o caminho todo, até que saíram da estrada e percebi que só estavam indo para a loja de iluminação Garbes. – Ela fez uma pausa e olhou para mim. – Você está bem, Z? Você está parecendo um cervo assustado na frente do carro, iluminado pelos faróis.

Pisquei e percebi que eu a estava encarando.

– É que é tão estranho ver você sem as suas tatuagens.

Stevie Rae levantou a mão e tocou a testa, tomando cuidado para não borrar a maquiagem pesada que cobria a sua bela Marca de vampira.

– É, para mim também é. Todos vocês estão estranhos.

– Mas assim chamamos menos atenção, e é isso o que importa hoje à noite – Stark afirmou.

Eu entendia e concordava que todos nós tínhamos que ser discretos – que inferno, até Kalona estava usando um casaco de couro comprido que, no escuro, realmente escondia a maior parte das suas asas gigantes. Mas isso não mudava o fato de que, sem as nossas Marcas, nós parecíamos estranhos, comuns e ordinários. Ordinários demais. E hoje nós precisávamos ser poderosos, confiantes e extra ordinários. Tentei me concentrar no lado positivo e acreditar que todos nós ficaríamos bem, mas a verdade era que o meu estômago estava doendo e eu estava me esforçando para não chorar.

Não. Eu não vou chorar. Garotinhas fracas choram. Líderes agem. Para o bem de Vovó, se não pelo meu próprio bem, eu vou agir.

– Ei, a sua Marca está dentro de você. Ela nunca pode ser coberta, perdida ou esquecida – Stark falou para mim, obviamente sentindo a minha tensão.

– Obrigada por me lembrar disso – respondi, tocando com carinho o seu rosto temporariamente sem tatuagens.

– Vamos todos nos lembrar disso. O nosso poder não reside nos ornamentos da nossa espécie, mas dentro de cada um de nós, através das nossas escolhas e dos dons concedidos pela nossa Deusa – Thanatos afirmou. – Portanto, nós devemos começar. O primeiro passo nesta noite é a abertura do nosso círculo e a realização de um feitiço de proteção. Quando eu colocar o feitiço em andamento, o nosso círculo vai ser encoberto. Desde que o círculo não se rompa, vocês cinco estarão seguros. Os olhos humanos não serão capazes de vê-los. As mãos humanas não poderão fazer mal a vocês. Mas, antes e depois do feitiço, todos vocês estarão vulneráveis.

Os pelinhos do meu braço estavam se arrepiando e eu tinha que respirar fundo para não surtar totalmente. Continuei olhando de relance para Aurox. Ele quase não tinha falado nada desde que nós o havíamos buscado. Na minha mente, imaginei a Deusa como da última vez em que eu a vira: voluptuosa, sábia e forte. Rezei em silêncio. Por favor, Deusa, faça com que ele esteja preparado para isso!

– Shaunee, a frente do edifício Mayo é voltada para o sul. Apesar de estarmos no inverno, há mesas tipo bistrô ao ar livre perto da entrada. É lá que você vai se posicionar com a sua vela. Darius, você vai com Shaunee. Proteja-a – Thanatos os orientou.

– Sim, Grande Sacerdotisa – Darius respondeu solenemente. – Eu também estarei perto o bastante para proteger Aphrodite e Zoey, se for preciso.

– As mesas fazem parte do restaurante. Elas ainda estão lá por causa dos fumantes – Aphrodite explicou. Ela enfiou a mão na bolsa, vasculhou o seu interior e depois jogou um maço de cigarros para Shaunee.

– Você fuma? – parecia uma pergunta idiota, mas, depois de tudo o que passamos juntas, fiquei chocada de pensar que Aphrodite podia ser fumante.

– Que inferno, claro que não. Você não sabe que cigarro causa rugas? Hello, não quero ficar com a pele esturricada aos trinta anos. Eu sei sobre as mesas para fumantes porque já estive no restaurante do edifício Mayo antes, então eu vim preparada – Aphrodite olhou para Shaunee. – Enquanto Zoey e eu fingimos estudar, você pode fingir que fuma e que Darius é o seu namorado. Atenção, fingir é uma palavra importante aqui. Lembre-se que eu vou estar logo atrás da janela, de onde posso ver tudo, e que vou matar você se o fingimento for muito convincente. Ah, peça a sopa de chili branco. Essa você não precisa fingir que vai comer. É boa.

– Obrigada – Shaunee agradeceu. – E apesar de você ser mais do que detestável, obrigada pelo empréstimo do seu guerreiro.

– Não precisa agradecer nem tocar mais nesse assunto. Sério. Jamais.

– Damien – Thanatos continuou, ignorando Aphrodite, assim como todos nós –, um beco acompanha a parede leste do edifício Mayo. É mal iluminado e é lá que eles acondicionam o lixo. Você pode se posicionar ali. Stark, você acompanha Damien. Se alguém tentar mexer com ele antes de o círculo estar traçado e de o feitiço de proteção ser feito, você deve usar todas as suas habilidades de controle da mente para afastar essa pessoa.

Stark assentiu.

– Entendido. Não vou deixar ninguém mexer com Damien. Assim como Darius não vai deixar ninguém mexer com a minha Z.

– Você tem a minha palavra de que não vou mesmo – Darius afirmou.

Apertei a mão de Stark. Eu sabia que ele odiava se separar de mim, mas, assim como eu, ele entendia o motivo. O círculo tinha que ser protegido, e o ar de Damien era o primeiro elemento a ser chamado, então ele ficaria ali, segurando uma vela, parado num beco frio e escuro, esperando que Thanatos desse toda a volta no quarteirão e fizesse o feitiço de proteção. Damien ia ficar muito mais vulnerável do que eu, num restaurante bacana, fingindo estudar Geometria.

– Stevie Rae, o beco de Damien acaba no caminho de entrada dos funcionários, bem atrás do edifício, num trecho da Fourth Street.

Stevie Rae assentiu para Thanatos.

– Lá é o meu norte. Rephaim e eu estaremos lá.

Thanatos se voltou para Shaylin.

– A Cheyenne Street é a rua do lado oeste do edifício Mayo. Não há nenhum local adequado para você se esconder. É simplesmente uma calçada entre um prédio e uma rua. A água é o terceiro elemento a ser chamado. Não vou mentir. Você vai ficar sozinha até que a terra e o fogo completem o círculo.

– Não, ela não vai estar sozinha – eu disse rapidamente, satisfeita com as palavras que a minha intuição estava me levando a falar. – Nyx vai estar com ela. Ela já concedeu dons incríveis a Shaylin: a Visão Verdadeira, uma afinidade com a água e a capacidade de poder mental que todos os novatos vermelhos têm.

– É verdade, Shaylin – Stevie Rae acrescentou. – Você não foi Marcada há muito tempo, então não teve muito tempo para praticar porque, bem, nós decidimos que não é muito legal ficar mexendo na cabeça de pessoas comuns, mas você pode fazer isso. Se alguém tentar perturbá-la, apenas olhe para essa pessoa. Faça com que ela olhe nos seus olhos e depois diga o que você quer que ela faça, pensando seriamente nisso.

Shaylin assentiu. Ela não parecia nem um pouco nervosa. Ela parecia firme feito uma rocha.

– Eu vou pensar: “Vá embora, deixe-me em paz, esqueça que você me viu!”. Está bom assim?

– Sim, está ótimo – Stevie Rae sorriu. – Viu só, é moleza.

– Eu também vou cuidar de você – Kalona disse.

– Não! Shaylin pode cuidar de si mesma. Todos nós podemos. Você não deve tirar os olhos do alto do edifício Mayo e da varanda da cobertura de Neferet. No mesmo segundo em que você avistar Vovó, voe imediatamente até ela e a salve. Esse é o seu único trabalho hoje – eu afirmei.

– Isso não é verdade, jovem Sacerdotisa – Thanatos me corrigiu. – Kalona é o meu guerreiro, e como tal ele tem a responsabilidade de proteger os nossos novatos, além de proteger a mim – ela caminhou na direção de Kalona. – Encubra-me enquanto eu traço o círculo e faço o feitiço. Cuide dos nossos. Certifique-se de que o palco esteja montado para o que nós pretendemos realizar nesta noite – o olhar de Thanatos passou por mim e então se fixou em Aurox, que estava parado na beirada do nosso grupo. – Até que o círculo seja traçado, você não deve entrar no covil de Neferet.

– Eu vou esperar até sentir a presença dos elementos – Aurox afirmou.

– Lembre-se, Aurox, sem a força dos elementos, você não tem meios de controlar a besta, e ela vai emergir quando Neferet perceber que você foi até lá para salvar a prisioneira dela – Thanatos o advertiu.

– Vou me lembrar disso – ele falou.

– E eu vou me certificar de que o seu círculo seja traçado – Kalona disse. – Do céu, vou zelar por todos vocês – o imortal alado virou o seu olhar âmbar e frio para Aurox. – Você sabe que eu não posso ajudá-lo. Você vai ter que lutar sozinho para escapar do covil de Neferet.

Senti uma pequena onda de surpresa. Eu estava tão concentrada em tirar Vovó a salvo de lá que nem pensei no que ia acontecer a Aurox depois de tudo.

– Espere, você não pode carregar os dois para fora de lá? – perguntei a Kalona.

– Em segurança? Não. Há alguns limites para a minha força imortal – Kalona respondeu. – Aurox, se eu derrubar você do céu, você morre?

Kalona falou sobre cair do céu para Aurox de um jeito tão natural e bizarro, como se ele estivesse perguntando se ele preferia queijo suíço com presunto ou com peito de peru.

Aurox fez um movimento impaciente com o ombro.

– Acho que isso depende do fato de a besta dentro de mim ter se manifestado ou não. A besta é muito mais difícil de ser destruída do que eu.

– Quando Vovó estiver segura, nós vamos retirar os nossos elementos – agora eu estava soando tão estranhamente calma quanto os dois. – Aurox, deixe a besta assumir o controle o suficiente para que você consiga lutar para sair de lá.

– Você acredita que isso é possível? – Thanatos perguntou a ele.

– Talvez. Acho que isso vai depender muito de Neferet. E-eu não pensei em sair de lá, só em entrar – Aurox respondeu.

– Eu concordo com Zoey. Use a besta. Neferet já precisou de um sacrifício para controlá-la antes. Ela vai precisar disso de novo, mas nessa hora nós já teremos levado o sacrifício dela embora – Thanatos afirmou. – Eu posso mantê-lo em segurança. Quando você voltar a si novamente, vá até a Morada da Noite.

O rosto de Aurox pareceu se iluminar.

– Para ficar? Eu vou poder frequentar a escola?

– Essa é uma pergunta muito séria para que eu possa responder sozinha. O Conselho Supremo deve decidir o seu destino – Thanatos disse.

Prendi a respiração, esperando Aurox pular fora, esperando ele perceber que basicamente estava em uma missão suicida, esperando que ele nos mandasse para o inferno e fosse embora.

Mas ele não fez nada disso. Em vez disso, ele encontrou os meus olhos e falou:

– Eu tenho uma pergunta para você.

– Sim, qual é?

– O que significa “pegar carona” em alguém?

Acho que eu não teria ficado tão surpresa se Aurox tivesse se agachado e dado à luz uma ninhada de gatinhos. Por um segundo, eu não consegui nem pensar numa resposta. Até que soltei sem pensar:

– Significa que você não conquistou o que você recebeu, mas que outra pessoa conquistou, então você está pegando carona nela e ganhando crédito dessa forma.

O rosto de Aurox era uma máscara sem emoção. Ele respirou fundo e soltou o ar devagar. Todos nós estávamos olhando para Aurox, mas ele não disse nada. Apenas ficou parado ali, respirando fundo e parecendo quase uma estátua.

– Ok, então, você está pegando carona em quem? – a voz de Stark cortou o silêncio.

Aurox virou os seus olhos de pedra da lua para o meu guerreiro.

– Em ninguém. Em ninguém mesmo, e hoje eu vou provar isso – então o olhar dele encontrou o meu novamente. – Quando eu sentir a presença dos elementos, vou até Neferet. Quando Vovó estiver livre, façam como você disse. Retirem os elementos. Então fujam. Não quero correr o risco de ferir nenhum de vocês, e não posso ter certeza de que terei algum controle sobre a besta. Digam a Vovó que eu falei que a segurança dela é mais importante do que a minha. – Ele passou os olhos pelo nosso grupo enquanto disse: – Merry meet, merry part e merry meet again – Aurox se afastou de nós, atravessou a Fifth Street apressadamente e entrou no edifício Mayo pela porta da frente.

– Esta noite vai ser péssima para ele – Stark murmurou.

– Hello, você pegou leve – Aphrodite o corrigiu. – Esta vida é péssima para ele.


23 Neferet

– Então, velha, o que você acha que há no seu sangue que o torna tão rançoso que os meus filhos não conseguem se alimentar dele?

Sylvia Redbird virou a cabeça devagar. Os olhos dela eram pontos brilhantes dentro da jaula de Trevas.

– Os seus fantoches não podem se alimentar de mim porque eu tive tempo para me preparar para você.

A voz da velha estava rouca, mas a força que ainda permanecia nela surpreendeu Neferet quase tanto quanto a irritou.

– Está certo. Oh, você é tão especial e amada pela sua Deusa. Mas espere um pouco – Neferet simulou sarcasticamente estar chocada. – Se você é mesmo tão especial e amada, por que está aqui, sendo torturada pelos meus filhos? Por que a sua Deusa não a salva?

– Você diz que eu sou especial. Eu não me chamaria assim, Tsi Sgili. Se você tivesse me perguntado, eu diria apenas que sou valorizada pela Grande Mãe Terra. Nem mais, nem menos.

– Se é assim que a sua Grande Mãe Terra trata uma filha valiosa que está gritando por ajuda, então sugiro que você pense em mudar de deusa – Neferet deu um gole no seu vinho misturado com sangue. Ela não sabia muito bem por que tinha a necessidade de provocar a velha mulher. A dor e a morte iminente dela deveriam ser suficientes para satisfazer a imortal, mas não eram. Neferet odiava o fato de Sylvia não gritar. Ela não implorava. Desde que Kalona havia esca pado, Sylvia parara de gemer de dor. Agora, se não estava em silêncio, a velha estava cantando.

Neferet detestava aquela maldita canção.

– Eu não pedi ajuda para a Grande Mãe Terra. Só pedi a sua bênção, e isso ela me concedeu em abundância.

– A sua bênção! Você está dentro de uma jaula de Trevas que a está matando devagar e dolorosamente. Quem você pensa que é, uma santa católica? Será que eu devo crucificar você de cabeça para baixo e cortar a sua cabeça fora? – Neferet riu da própria piada, mas até mesmo para ela o som da sua risada foi falso. Eu preciso de adulação e veneração! Como eu posso reinar como uma Deusa sem devotos?

– Você matou os professores.

Sylvia não tinha feito uma pergunta, mas Neferet quis respondê-la.

– É claro que sim.

– Por quê?

– Para criar o caos entre humanos e vampiros, é claro.

– Mas como isso beneficia você?

– O caos incendeia as pessoas, os vampiros, a sociedade. O vencedor que emerge dessas cinzas controla o mundo. Eu serei essa vencedora – sentindo-se arrogante e cheia de poder, Neferet sorriu.

– Mas você já tinha poder. Você era a Grande Sacerdotisa da Morada da Noite. Você era amada por sua Deusa. Por que deixar tudo isso para trás?

Neferet franziu os olhos para Sylvia.

– Poder não significa controle. Quanto poder tem a sua Grande Mãe Terra se ela não pode fazer algo tão simples como controlar se eu tiro a sua vida ou não? Eu aprendi há muito tempo que o controle é o verdadeiro poder.

Sylvia balançou a cabeça, finalmente parecendo tão exausta quanto deveria.

– Você não pode controlar ninguém de verdade, exceto a si mesma, Tsi Sgili. Pode parecer que as coisas sejam de outro modo, mas todos nós fazemos as nossas próprias escolhas.

– É mesmo? Então vamos testar essa teoria. Imagino que você prefira viver – Neferet fez uma pausa, esperando ansiosamente pela resposta de Sylvia.

– Eu prefiro – as palavras de Sylvia saíram em um sussurro.

– Bem, acho que eu posso controlar se você vai viver ou morrer. Agora, vamos ver quem tem mais poder – Neferet levantou o pulso. Com um movimento rápido e habitual, ela abriu a veia que pulsava perto da superfície da pele com uma unha afiada. – Já cansei dessa conversa – quando o seu sangue começou a fluir, Neferet mudou o tom de voz e começou a cantarolar:

“Venham, meus filhos, provem a minha raiva

Usem o meu poder para fechar a sua jaula!”

Suas gavinhas fiéis deslizaram até ela, alimentando-se avidamente no seu pulso. Com forças renovadas, elas voltaram para Sylvia. A velha mulher levantou os braços defensivamente, mas vários braceletes se quebraram. Através das barras de sua jaula, peças de turquesa e prata caíram em cima da poça de sangue cada vez maior.

Quando a velha mulher tentou começar a cantar a sua canção de novo, as palavras dela foram cortadas por gavinhas pulsantes que se enrolaram na pele desprotegida dos seus braços.

Sylvia Redbird arfou de dor. Neferet gargalhou.

Kalona

Os humanos não olham para cima. Isso era uma coisa que não havia mudado com o passar dos séculos. O homem tinha conquistado o céu, mas, a menos que houvesse um pôr do sol radiante ou uma lua cheia e cintilante para admirar, os humanos raramente levantavam os olhos acima de suas cabeças. Kalona não entendia o motivo, mas ficava satisfeito com isso. Ele deu a volta por cima do edifício Mayo, avistando Damien, Stevie Rae, Shaylin e Shaunee. Então ele voltou para o edifício Oneok Plaza, aterrissando ao lado de Thanatos.

– Os quatro estão a postos.

Thanatos assentiu.

– Ótimo. Zoey já entrou. É hora de começar – ela colocou a mão dentro de seu volumoso manto de veludo e pegou um saco grande e escuro e uma caixa de fósforos longos.

Kalona apontou para o saco.

– Sal para amarrar o feitiço?

– Sim, é um prédio grande. Preciso de muito sal.

O imortal assentiu, pensando que ele havia começado a apreciar o senso de humor de Thanatos.

– Vamos torcer para ter um pouco de sorte nesse saco também.

– Sorte? Não sabia que imortais acreditavam nisso.

– Nós vamos resgatar uma humana, não uma imortal. Os humanos cruzam os dedos e desejam boa sorte uns aos outros. Só estou seguindo o exemplo – ele disse. – Além do mais, eu acredito que devemos usar toda a ajuda que conseguirmos. Se isso significa contar com um pouco de sorte, eu aceito.

– Eu também – Thanatos estendeu a mão para ele. – Não importa o que aconteça hoje, eu sei que você vai manter o seu Juramento a mim e, através de mim, a Nyx. Abençoado seja, Kalona.

Ele segurou o antebraço dela e abaixou a cabeça para Thanatos respeitosamente.

– Merry meet, merry part e merry meet again, Grande Sacerdotisa.

Kalona subiu ao céu enquanto Thanatos atravessava a Fifth Street e entrava no beco escuro, onde Damien estava esperando, vigiado por Stark. Empoleirado em um dos pilares de pedra da parede do edifício que ficava voltada para o leste, Kalona observou a cena do alto. Ele ficou surpreso por a voz de Thanatos chegar tão claramente até ele – e então a sua surpresa se transformou em vigilância. O poder no feitiço da Grande Sacerdotisa era palpável, e, se ele podia ouvi-la, um humano também poderia.

“Venha, ar, para este círculo da noite, eu o invoco

Proteja, defenda, esteja presente... Escute atentamente.”

Thanatos riscou o fósforo e a vela amarela ganhou vida, iluminando o rosto sério de Damien. Stark estava parado na frente dele, de arco e flechas em punho. Kalona ficou pairando acima deles, enquanto a Grande Sacerdotisa voltava pelo mesmo caminho, caminhando rapidamente para fora do beco em direção à frente do edifício Mayo. Com a mão escondida em seu manto, Thanatos ia derramando um rastro de sal. As luzes decorativas da entrada do saguão se refletiram nos minúsculos cristais, e de cima parecia que ela estava deixando um caminho de diamantes atrás dela.

Thanatos caminhou até a pequena mesa redonda na qual Darius e Shaunee estavam sentados. A jovem novata havia colocado a sua bolsa enorme na frente, de modo a bloquear a sua vela vermelha da visão dos transeuntes.

“Venha, fogo, para este círculo da noite, eu suplico

Seja vigilante e forte para fazer o que é preciso.”

Antes que Thanatos riscasse o fósforo, ele se acendeu e virou uma labareda, iluminando a vela vermelha com um som alto e crepitante de fogo intenso.

Kalona franziu o cenho. Era bom que os elementos estivessem se manifestando, mas ele preferia que eles fizessem menos barulho.

Com o sal a seguindo, Thanatos deu a volta rapidamente no edifício, chegando até a calçada da Cheyenne Street. Havia pilares na lateral do prédio, como na face do edifício que dava para o beco. Foi ali que Kalona se empoleirou, olhando para baixo na direção da pequena novata sentada de pernas cruzadas no meio de uma cerca viva. Shaylin havia se escondido tão bem que Thanatos quase passou reto por ela. Kalona assentiu em aprovação à garota.

– Jovem, mas esperta. Nyx não se enganou em conceder dons a ela – ele murmurou.

“Venha, água, para este círculo da noite, eu peço

Flua, purifique, preencha, dê poder: essa é a sua tarefa.”

A vela azul não ganhou vida em uma explosão de fogo como a vela de Shaunee, mas ela se acendeu normalmente, e Kalona sentiu o cheiro frio de chuvas de primavera chegando até ele.

Ele subiu ao céu novamente, seguindo a Grande Sacerdotisa.

Stevie Rae estava esperando com Rephaim nos fundos do edifício. Thanatos teve que descer uma escadaria escura e íngreme e caminhar entre vans que esperavam para fazer entregas. Kalona pairou no ar, observando atentamente. Rephaim protege a sua Stevie Rae, e eu protejo o meu filho. Mas parecia que tanta vigilância não era necessária. A noite estava silenciosa como a própria morte quando Thanatos parou na frente de Stevie Rae.

“Venha, terra, para este círculo da noite, eu imploro

Apoie, seja o chão que sustenta e que dá confiança ao nosso grupo.”

A vela verde crepitou e se acendeu. Na sua luz trêmula, Kalona viu de relance o rosto de Rephaim. O garoto parecia calmo e seguro, como se acreditasse que não havia nenhuma possibilidade de o saldo final da noite não ser positivo.

Kalona queria ter a fé de seu filho.

Ele voou mais para cima, mantendo Thanatos à vista enquanto a Grande Sacerdotisa terminava o círculo ao redor do edifício Mayo, cortando caminho pelo beco e passando rapidamente em silêncio por Damien e Stark. A trilha de sal que envolvia o prédio ficou completa. Quando ela chegou na frente do edifício novamente, Thanatos fez apenas uma pausa para olhar para cima. Kalona encontrou o olhar dela e voou para o topo do Oneok Plaza, empoleirando-se ali. Daquele ponto avantajado, ele observou a Grande Sacerdotisa entrando no edifício Mayo. Ela desapareceu por alguns instantes, e então ele viu o seu manto escuro quando ela se juntou a Zoey e Aphrodite na mesa perto da ampla janela do restaurante.

Kalona não conseguiu ouvir as palavras de Thanatos, mas ele sussurrou para si mesmo a conclusão da invocação dos elementos.

“Venha, espírito, para este círculo da noite, eu clamo

Conceda seus dons, preencha-nos, em seu poder nós confiamos.”

Zoey tinha levado uma pequena vela roxa em seu bolso até o restaurante. Ela e Aphrodite haviam conversado sobre esconder a vela atrás do livro que elas estavam usando como acessório. A visão de Kalona não era boa o suficiente para ver a luz da vela, mas ele teve certeza de que o círculo estava traçado e de que o feitiço de proteção tinha sido realizado. Ele sentiu a onda de poder dos elementos o invadir. Ela formigou pela sua pele como uma faísca elétrica.

Não! O imortal alado quis gritar para a noite. Se eu posso sentir o feitiço, Neferet também pode! Com um temor horrível, Kalona observou o espaço que separava o topo do seu prédio da varanda na cobertura de Neferet. Ele não podia ver nada através dos grossos parapeitos de pedra. Será que ele deveria sobrevoar o covil de Neferet e correr o risco de ser visto? O que será que está acontecendo?

– Apresse-se, garoto. Suba na cobertura enquanto Neferet está distraída, para que ela não saiba que eles fizeram um círculo lá embaixo e para que ela descarregue a sua vingança apenas em cima de você. Eu vou cuidar para que todos escapem. Pegue Sylvia antes que a Tsi Sgili o mate! – Essa era a verdade que ninguém tinha falado. Kalona sabia disso, e ele acreditava que Aurox também sabia. Não haveria escapatória para Aurox. Neferet iria matar o seu Receptáculo traidor naquela noite.

Kalona sentiu o calor e soube que Erebus tinha se materializado antes que ele falasse. Mas ele não se virou. Ele não desviou o olhar da varanda de Neferet.

– Pronto para aceitar a minha ajuda, irmão?

– Por que eu precisaria da sua ajuda? Eu sempre fui o melhor guerreiro – Kalona respondeu.

– Talvez o melhor guerreiro, mas não o melhor Consorte.

– Esse título é seu, não meu – Kalona se recusou a morder a isca. – Volte para a sua Deusa. Eu não tenho tempo nem paciência para discutir com você hoje.

– As Trevas não podem se alimentar de nós dois – a voz de Erebus não tinha emoção. – Se eu voar até lá com você, nós podemos libertar a velha senhora e levá-la de volta para as pessoas que ela ama. Neferet não pode nos deter.

Kalona se virou um pouco, de modo que ele podia olhar para o seu irmão e continuar vigiando a varanda ao mesmo tempo.

– Por que você faria isso?

– Para conseguir o que eu quero, é claro – Erebus afirmou.

– E o que é?

– Que você vá embora da Morada da Noite; de qualquer Morada da Noite. Os vampiros não são o seu povo. Vá viver a sua eternidade em qualquer outro lugar e deixe os nossos filhos para a Noite e o seu Sol.

– Eu fiz um Juramento de ser o guerreiro da Morte e não vou quebrá-lo.

– Você já quebrou um Juramento antes. Que diferença faz quebrar mais uma vez?

– Eu nunca mais vou quebrar nenhum Juramento! – a raiva de Kalona fez o ar em volta deles se agitar com o poder frio da luz da lua. Uma névoa se levantou do corpo abençoado pelo sol de seu irmão, quando aquele poder fluiu por sobre o calor das suas asas douradas.

Erebus sacudiu as asas e afastou a neblina, que se evaporou.

– Como sempre, você está pensando só em si mesmo – ele olhou com desprezo para Kalona.

Kalona balançou a cabeça de desgosto.

– O que Nyx diria se escutasse você negociando a vida de uma velha mulher?

Erebus bufou.

– Você vem falar para mim sobre a vida de uma velha mulher? Quantas mulheres, jovens e velhas, você destruiu durante todos esses éons, desde que você foi banido?

– Nyx não sabe que você está aqui – Kalona deu as costas para o seu irmão. – Eu fui banido. Eu quebrei um Juramento. E mesmo assim eu sou inteligente o bastante para saber que, se a sua Deusa descobrir, ela vai desprezar o que você está fazendo.

– Minha Deusa despreza você!

Kalona não o viu partir. A ausência do seu calor e da sua malícia era a prova de que Erebus havia retornado para o reino do Mundo do Além.

Silenciosamente, Kalona continuou a observar o espaço até a varanda. Não muito tempo depois, Thanatos se juntou a ele na sua vigília.

– O círculo está traçado. O feitiço está feito. Agora nós só podemos esperar – Thanatos disse.

– E assistir – Kalona concordou, acrescentando mentalmente: e imaginar.

Aurox

Ele sentiu o feitiço de proteção sendo feito e sabia o que significava. Sem hesitar, Aurox entrou apressado no elevador e apertou o botão para subir até a cobertura.

– Rápido! Por favor, vá rápido! – ele gritou para as portas fechadas. Está devagar demais! Eu já precisava estar lá agora! Se eu senti o feitiço, ela pode senti-lo também!

Aurox queria esmurrar as paredes daquela caixa de metal lenta. Ele sentiu a frustração, quente e espessa, tomar conta dele. A besta se agitou.

Aurox congelou. Apavorado, ele diminuiu o ritmo da sua respiração. Controle a besta... controle a besta... Ele ficou repetindo mentalmente sem parar. Foi quando o elevador finalmente alcançou o andar da cobertura e as portas se abriram devagar que os elementos o encontraram. Com uma onda de energia, eles o encheram de força e calma, apagando o calor da besta.

Ele soltou um logo suspiro de alívio e, com confiança renovada, pisou no mármore lustroso do hall de entrada. Havia um cheiro forte do sangue de Neferet no ar. Por um momento, Aurox não compreendeu. Será que Vovó Redbird havia conseguido ferir a Sacerdotisa?

Então ele escutou uma risada e o barulho familiar que as gavinhas de Trevas faziam ao se alimentar. Ele também ouviu o terrível gemido de dor de uma mulher. Furtivamente, Aurox extraiu coragem da presença dos elementos e entrou rapidamente e em silêncio na sala de estar da cobertura.

Aurox pensou que estava preparado para o que iria ver. Ele sabia que Neferet havia aprisionado Vovó em uma jaula de Trevas. Ele sabia que ela estaria assustada e machucada. Mas a cena era muito pior do que ele tinha imaginado. Ele deu só uma rápida olhada para Vovó, encontrando os olhos cheios de dor dela apenas por um instante. Foi em Neferet que ele concentrou a sua atenção.

Ela parecia nem saber que ele estava ali. Ela estava se espreguiçando em um grande móvel modular que tinha a forma de um semicírculo. Seus braços estavam abertos, com as palmas voltadas para cima, e ela estava rindo. As gavinhas de Trevas estavam em toda a volta dela, agitando-se por cima das almofadas e debatendo-se umas contra as outras, ávidas por alcançar os pulsos feridos de Neferet e se alimentar. Quando uma se soltava da pele dela, outra tomava o seu lugar. Aurox observou quando uma gavinha inchada deslizou para a jaula que prendia Vovó, onde ela se juntou a outras da sua espécie que não paravam de cortar a pele da velha mulher com as mesmas marcas de chicote afiado das quais Kalona havia se curado recentemente. Aurox sabia que Vovó não teria tanta sorte.

Ele andou decididamente até Neferet e se ajoelhou diante dela.

– Sacerdotisa! Eu voltei para você!

A cabeça dela estava virada preguiçosamente para trás. Ao som da voz dele, Neferet a levantou. Ela franziu a sobrancelha, como se estivesse sendo difícil conseguir focá-lo, até que arregalou os olhos ao reconhecê-lo. Apesar de a posição do seu corpo passar a falsa impressão de letargia, em um movimento rápido Neferet agarrou uma gavinha que tinha acabado de se alimentar e a atirou em Aurox. A criatura parecida com uma cobra o atingiu no meio do peito, rasgando a sua blusa e abrindo a sua pele.

– Você demorou! – Neferet gritou para ele.

Aurox não recuou.

– Perdão, Sacerdotisa! Eu fiquei confuso. Não consegui encontrar o caminho de volta até você – Aurox deu a desculpa que ele achou mais provável de Neferet acreditar.

Neferet endireitou as costas e se sentou, afastando as gavinhas dos seus pulsos e falando suavemente com elas, como se aqueles filamentos de Trevas fossem filhos amados.

– Você ignorou a minha ordem. Eu tive que fazer um sacrifício para reassumir o controle da besta, e mesmo assim você fracassou – ela atirou outra gavinha nele, que deixou a marca de uma linha vermelha no bíceps de Aurox.

A dor se multiplicou. A besta sentiu e começou a se agitar. Aurox fechou os olhos e imaginou o círculo incandescente em volta dele com o seu brilho protetor.

Com relutância, a besta se acalmou.

Fortalecido, Aurox abriu os olhos e suplicou para Neferet:

– Eu não ignorei a sua ordem! Foi o círculo que foi traçado e a invocação da Morte que me fizeram fracassar. Sacerdotisa, eu não posso descrever o afluxo de Luz e poder que Thanatos fez surgir. Isso afetou a besta. Eu não consegui fazer com que ela emergisse!

– Mas eu consegui, e mesmo depois disso você fracassou em destruir Rephaim e romper o círculo – Neferet atirou outra gavinha nele. Esta não apenas o feriu. Ela se enroscou no pescoço dele e começou a se alimentar dali.

Mesmo assim, Aurox não se retraiu. Porém, dentro dele, a besta rugiu, mas o som foi abafado por uma onda fria de água e soprado para longe com uma poderosa rajada de vento.

– Isso foi culpa de Dragon Lankford. Ele estava protegendo Rephaim – Aurox respondeu, mantendo o corpo totalmente imóvel, enquanto as Trevas continuavam a se alimentar dele.

Neferet balançou a cabeça, irritada.

– Dragon não deveria estar lá. Eu pensei que a morte de Anastasia havia acabado com ele. Infelizmente, eu estava errada – ela suspirou. – Eu ainda não entendo por que você não matou Rephaim depois que Dragon morreu.

– Foi como eu disse, Sacerdotisa. O feitiço fez algo terrível a mim. Eu não era eu mesmo. Não consegui controlar a besta. Depois que ela perfurou o Mestre da Espada, não consegui forçá-la a continuar e a matar Rephaim. Ela saiu correndo, e eu não consegui detê-la. Foi só hoje que finalmente eu recuperei os sentidos. No mesmo instante em que voltei a mim, vim atrás de você novamente.

Neferet franziu a testa.

– Como se você tivesse algum sentido que pudesse recuperar. Imagino que eu deveria esperar mesmo esse tipo de coisa. Sacrifício imperfeito, Receptáculo estragado – ela resmungou mais para si mesma do que para Aurox. – Bem, tudo não acabou tão mal assim – ela voltou a se dirigir a ele. – Você colocou um fim na vida honrada e irritante de Dragon Lankford. Você não impediu o ritual de revelação, e por causa disso eu fui banida pelo Conselho Supremo dos Vampiros, mas resolvi não me importar muito com isso. Afinal, eu posso brincar com os humanos locais e o meu pequeno grupo de vampiros – ela se inclinou para a frente, oferecendo a Aurox sua mão manchada de sangue. – Portanto, você está perdoado.

Aurox pegou a mão dela e inclinou a cabeça.

– Obrigado, Sacerdotisa.

A gavinha que estava se alimentando no seu pescoço se soltou e caiu na mão de Neferet, enrolando-se no seu braço e aninhando-se perto do seu peito.

– Na verdade, a sua volta me deu uma ideia. Dragon Lankford estava quase completamente acabado com a morte de sua companheira. Permitir que alguém tenha tanto controle sobre as suas emoções é mesmo uma coisa patética e fraca. Mas não importa. Dragon era maduro e sábio, e mesmo assim a morte de Anastasia quase o destruiu. Zoey Redbird não é madura nem sábia. Quando Kalona matou aquele humano dela tão estupidamente, ela se despedaçou e eu quase me livrei dela – Neferet colocou seu dedo lambuzado de sangue em seu lábio vermelho, pensativamente. Ela desviou o olhar de Aurox e se voltou para o canto da sala em que Sylvia Redbird estava pendurada em uma jaula cada vez mais apertada. – Sylvia, você pode imaginar como a sua pobre e doce u-we-tsi-a-ge-ya vai ficar devastada quando você morrer?

A voz de Vovó Redbird estava fraca e com traços de dor, mas ela respondeu sem hesitar:

– Zoey é mais forte do que você pensa. Você subestima o amor. Acho que porque você nunca se permitiu saber o que é isso.

– Eu nunca permiti que isso me controlasse como se eu fosse uma idiota! – os olhos de Neferet faiscaram de ódio.

Aurox queria implorar para Vovó: Não a enfrente, fique em silêncio até que eu liberte você!

Mas Vovó não ficou em silêncio.

– Aceitar o amor não faz de você uma idiota. O amor a torna humana, e isso é exatamente o que você não é, Tsi Sgili. Você só glorifica a sua vitória sobre a humanidade porque se tornou uma coisa podre, impossível de ser amada.

Aurox percebeu que as palavras de Sylvia afetaram profundamente Neferet. A Tsi Sgili se levantou e, com um sorriso de réptil, ela ordenou:

– Receptáculo, invoque a besta e mate Sylvia Redbird!


24 Aurox

Apesar de Aurox precisar que ela desse essa ordem para que ele pudesse se aproximar de Vovó Redbird o bastante para salvá-la, aquelas palavras fizeram o estômago dele se contrair e o seu coração disparar. Ele se levantou e começou a caminhar na direção da jaula feita de gavinhas de Trevas.

– Apenas quebre o pescoço dela. Não danifique o seu corpo ainda mais do que o estrago que os meus filhos já fizeram. Quero me certificar de que Zoey possa identificá-la.

– Sim, Sacerdotisa – Aurox disse sem mostrar emoção.

Ele não olhou para a terrível poça de sangue coagulado e turquesas quebradas que havia se formado, manchando o carpete abaixo da jaula. O olhar dele e o de Vovó Redbird se encontraram. Aurox tentou dizer a ela com aquele único olhar que ela não precisava ter medo, que ele nunca iria machucá-la. Sem emitir som, ele movimentou a boca para falar duas palavras para ela: corra e varanda.

Vovó continuou olhando para ele. Ela assentiu e disse:

– Eu vou sentir falta do nascer do sol, das lavandas e da minha u-we-tsi-a-ge-ya, mas a morte não me aterroriza.

A jaula estava quase ao alcance de Aurox. Ele sabia o que precisava fazer. As gavinhas iriam se abrir para ele. Vovó iria correr. Ele iria persegui-la, mantendo o seu corpo entre o dela e os filhotes deslizantes de Neferet, pegando-a lá fora, na varanda. Então ele iria segurá-la, até que Kalona a levasse para um local seguro.

Então os elementos iriam abandoná-lo e a besta teria que lutar pela sua própria liberdade. Aurox tinha pouca esperança de conseguir, mas ele se agarrava ao pensamento de que libertar Vovó Redbird já era uma vitória por si só. Aurox levantou as mãos para romper os filamentos de Trevas.

– Por que você não invocou a besta? – a voz de Neferet estava a centímetros dele.

Vovó Redbird se encolheu para trás, olhando por sobre o ombro dele.

Aurox se virou. Neferet estava ali, pairando sobre um ninho de gavinhas deslizantes. Ele não podia ver os pés dela. Dos joelhos para baixo, parecia que ela havia se transformado em uma parte dos filhos de Trevas que havia tanto tempo ela alimentava.

Então ele sentiu medo. Esse medo provocou calafrios em Aurox como um vento de inverno. Mas, dentro dele, o fogo enviou uma onda de calor e ele reencontrou a sua voz.

– Sacerdotisa, a besta não responde aos meus comandos como fazia antes do ritual de revelação. Mas eu não preciso dela para quebrar o pescoço de uma velha mulher.

– Mas eu realmente gosto de bestas. Vou ajudar você a fazê-la emergir – rápida como o bote de uma cobra, Neferet deu um tapa em Aurox.

A besta estremeceu, mas a terra suavizou a dor lancinante, permitindo que Aurox controlasse a criatura mais uma vez.

Neferet levantou a sobrancelha.

– Isso não é interessante? Eu não sinto o menor sinal da presença da criatura – o seu ninho de Trevas a levou para ainda mais perto de Aurox. Ele podia sentir o seu bafo, que tinha um cheiro rançoso, como se ela tivesse comido carne podre. Ele se forçou a não se mover quando ela se inclinou sobre ele, colocando os seus braços em volta de Aurox, como se ele fosse seu amante. – Mas você sabe o que eu sinto?

Aurox não conseguiu falar. Ele só conseguiu balançar a cabeça.

– Eu vou dizer a você – ela passou a sua unha afiada pelo rosto dele. O sangue brotou e as gavinhas em volta dela estremeceram na expectativa.
– Eu sinto traição – ela deu outro tapa nele, desta vez usando a sua mão como uma garra e tirando mais sangue do seu rosto. – Você é um Receptáculo, criado como um presente para mim. Você é meu e tem que obedecer às minhas ordens. A besta é minha e eu posso invocá-la – Neferet o atacou novamente, extraindo mais sangue.

A besta se agitou, mas o espírito fortaleceu Aurox, permitindo que ele mantivesse o controle.

– Espírito? Como o espírito pode estar presente dentro de você? – Neferet cresceu sobre ele, e sua fúria fez com que as gavinhas se multiplicassem e se expandissem. – Ataque-o! – a Tsi Sgili atirou um filamento de Trevas nele. Desta vez, Aurox levantou o braço para bloquear o impacto. A gavinha fez um corte profundo em todo o seu antebraço. A besta estremeceu, alimentando-se da dor de Aurox.

Instantaneamente, os outros quatro elementos se uniram ao espírito que o acalmava, e a água o suavizou, o ar o resfriou, a terra o apoiou e o fogo o fortaleceu.

A ira de Neferet era terrível.

– Os elementos estão com você! Onde estão aquela vaca da Zoey e o seu círculo?

– Longe de você, bruxa! – Aurox gritou, e então ele se virou e rasgou a jaula de Trevas, abrindo-a. Pegando Vovó Redbird em seus braços, Aurox correu.

“Ataquem! Machuquem! Provoquem uma dor insuportável em Aurox, essa é a minha ordem!”

As gavinhas pegaram Aurox pelos tornozelos, ferindo-o profundamente e fazendo com que ele tropeçasse. Ele derrubou Vovó Redbird. A velha mulher gritou:

– Aurox!

Ele tentou responder, dizendo para ela correr para a varanda, onde a liberdade a esperava, mas Neferet foi mais rápida, terminando o feitiço num piscar de olhos.

“Besta feita de Trevas, apareça! Obedeça à minha ordem!”

Aurox foi engolfado pelas gavinhas de Trevas. Elas não apenas o cortaram. Elas pressionaram os seus corpos contra ele. A pele dele ondulou e começou a absorver aquelas terríveis criaturas parecidas com cobras. A dor ardia por baixo de sua pele. Acompanhando cada batida do seu coração disparado, as Trevas pulsavam através do corpo de Aurox, combatendo os elementos até que eles desaparecessem, despertando a besta.

Vovó Redbird estava chorando e estendendo o braço na direção de Aurox. A dor dentro dele era insuportável, e com um tremor terrível o seu corpo começou a se transformar.

– Não! Vá! – Aurox conseguiu gritar. A voz dele havia mudado. Era incrivelmente poderosa e completamente inumana.

A besta emergiu, nascida da dor, do ódio e do desespero.

A velha mulher se levantou e começou a mancar na direção da porta quebrada da varanda.

– Mate-a! Agora! – Neferet ordenou.

Dentro da parte da mente que ainda era sua, Aurox gritou quando a besta rugiu e obedeceu.

Zoey

Balancei a cabeça para Aphrodite quando ela pediu a sua terceira taça de champanhe.

– Como você consegue beber?

– Usando a minha identidade falsa que diz que eu sou Anastasia Beaverhousen e tenho vinte e um anos.

Revirei os olhos.

– Ok, o meu nome falso na verdade é Kitina Maria Bartovick – ela disse.

– Ah, como se esse nome não fosse tão obviamente falso – revirei os olhos de novo.

– Tanto faz. Funciona.

– Você não respondeu à minha pergunta sobre as centenas de taças de champanhe.

– Não respondi mesmo, e você perdeu o senso de humor – ela deu um gole naquele líquido rosado e borbulhante. – Enfim, de repente você ficou com a aparência péssima. O que está rolando?

Esfreguei a testa. Minha mão estava trêmula. Meu estômago estava me matando.

Aphrodite se inclinou para mais perto de mim, fingindo estar interessada no livro de Geometria aberto em cima da mesa, e sussurrou:

– Se você começar a tossir sangue e morrer, você vai ferrar totalmente o nosso Plano.

– Eu não estou morrendo. Eu só... – perdi a fala quando fui preenchida por uma onda de energia. – Ah, não!

– O que foi?

– O espírito. O elemento está de volta – falei enquanto digitava o número de Thanatos no meu telefone. Através da janela enorme da frente do restaurante, eu vi o ombro de Shaunee dar um solavanco, como se alguma coisa tivesse acabado de bater com força dentro dela também, e juro que o ar em volta dela soltou faíscas de fogo. Ela se virou. Os nossos olhos se encontraram. Ela pegou a sua vela vermelha.

Thanatos atendeu no primeiro toque.

– Kalona pegou Vovó? – perguntei.

– Não. Não há nenhum sinal dela. Zoey, você não pode... – ela ainda estava falando quando eu desliguei o telefone e peguei a pequena vela roxa.

– Ela não está a salvo? – Aphrodite perguntou.

– Não – eu me levantei. – Eu vou subir lá agora – sem esperar para ver se ela concordava comigo, saí correndo do restaurante, atravessei o lobby e cheguei ao elevador. Shaunee e Darius me encontraram lá. Ela estava segurando a sua vela. A chama dela estava brilhando bem mais forte do que a da minha pequena vela roxa, mas as duas velas ainda estavam acesas.

– O fogo voltou – Shaunee disse.

Apertei o botão do elevador com a seta apontada para cima.

– Eu sei. Vovó ainda está lá em cima.

Stark entrou correndo no lobby, com Damien logo atrás dele. Ele também ainda estava segurando a sua vela acesa.

– O ar retornou! O fogo e o espírito também?

Eu assenti e então encarei Stark.

– Vovó não saiu. Eu vou subir lá agora.

– Não sem mim – Stark afirmou.

– Ou sem mim – o rosto de Stevie Rae estava corado e ela estava cuidando da sua vela acesa.

Shaylin parecia assustada e confusa quando entrou apressada no lobby, protegendo com a mão a chama da sua vela azul.

– Aconteceu alguma coisa. A água voltou e Thanatos não fechou o círculo. Achei melhor entrar aqui.

– Você fez bem – respondi. – Ok, olhem só – as portas do elevador se abriram e eu entrei. – Aurox perdeu o controle. Provavelmente porque Neferet fez algo terrível. Eu e Stark vamos subir lá para ter certeza de que essa coisa terrível não vai acabar matando a Vovó. Vocês ficam aqui. Não deixem as suas velas se apagarem. Mantenham o círculo aberto.

– Claro que não, que inferno – Shaunee falou, entrando decidida no elevador. – Se você vai, o fogo também vai.

– Todos nós vamos – Stevie Rae afirmou.

– Foda-se, eu também vou – Aphrodite disse.

E foi assim. Eu e meus amigos nos apertamos dentro do elevador. Apertei o botão para subir até a cobertura.

– Vocês sabem que vai estar rolando uma merda incrivelmente foda quando essas portas se abrirem – Aphrodite nos alertou.

– Fique dentro do círculo e perto de Zoey – Darius a orientou. Ele tinha uma faca em cada mão.

Stark engatou uma flecha no seu arco. Coloquei a mão que não estava segurando a vela em seu ombro.

– Não mate Aurox a menos que você tenha que fazer isso.

– Zoey, não é Aurox que vamos encontrar. Vai ser a besta. Lembre-se disso – ele respondeu.

Eu concordei.

– Vou me lembrar. E lembre que eu amo você.

– Sempre – ele falou.

As portas se abriram e vimos um hall deserto. Como se a gente fosse um só, saímos juntos do elevador, segurando as nossas velas acesas e mantendo o nosso círculo aberto.

O cheiro de sangue me atingiu. Misturado na terrível sedução daquele aroma, havia o perfume de lavanda e algo que não consegui identificar. Algo que me lembrava dos rochedos que rodeavam a fazenda de Vovó.

– Turquesa – Stevie Rae afirmou. – Eu posso senti-la.

Então escutei Vovó chamar o nome de Aurox, e logo depois um grito seguido de um terrível rugido, e então a voz inconfundível de Neferet ordenando:

– Mate-a! Agora!

Entrei correndo na cobertura.

– Ar, fogo, água, terra, espírito! Detenham a besta!

Houve um flash ofuscante quando Aurox, totalmente transformado naquela criatura horrível que repousava embaixo da sua pele, arremeteu contra Vovó. O poder dos elementos o envolveu e o segurou, chiando de energia. A besta rugiu de ódio, cuspindo sangue e saliva daquela boca terrível, enquanto ele rodeava Vovó.

– U-we-tsi-a-ge-ya!

– Vá para a varanda! – eu berrei. Havia uma porta de vidro estilhaçado apenas alguns metros atrás de Vovó, e através dela eu podia ver a varanda iluminada pelas estrelas na qual Kalona, com as asas abertas, estava pousando.

– Não! Desta vez não! – de repente Neferet estava ali, diante do meu grupo. – Fechem a porta! – Neferet ordenou e uma teia preta se formou sobre a porta quebrada, bloqueando a saída de Vovó. Então ela se virou para nós. – Desta vez vocês estão na minha casa, e eu não convidei nenhum novato ou vampiro vermelho para entrar!

– Ah, não! – Stevie Rae gritou quando ela, Shaylin e Stark foram levantados do chão e arremessados contra as portas fechadas do elevador com tanta força que Shaylin berrou. Ela e Stevie Rae derrubaram as suas velas. O círculo estava rompido.

– Zoey! – Stark exclamou, soando como se ele estivesse em agonia enquanto o seu corpo continuava se chocando contra as portas de metal fechadas do elevador.

– Faça isso parar! – Shaylin implorou.

Eu entendi o que tinha acontecido. Regras diferentes se aplicavam aos vampiros vermelhos. O sol os queimava. Eles conseguiam controlar a mente dos humanos. E eles não podiam entrar em uma casa sem serem convidados.

Aphrodite conhecia muito bem essas regras. Ela correu até o elevador e apertou o botão. Quando as portas se abriram, os três foram jogados para dentro. Stark se levantou primeiro.

– Traga o meu arco para mim! – ele gritou para Rephaim.

– Não. Eu prefiro que você fique sem o seu arco – Neferet disse. Ela mexeu a mão e algo escuro e pegajoso derrubou Rephaim. – Mas eu quero que vocês três assistam – ela estalou os dedos e gavinhas parecidas com teias de aranha se formaram em volta das portas do elevador, mantendo-as abertas. Então ela se voltou para mim. – Que ótimo que você veio se juntar à sua avó. Vamos nos divertir, não? Receptáculo, mate a velha!

A ordem de Neferet foi como um chicote sobre a besta. Ele rugiu e se debateu contra a prisão dos elementos.

E os elementos começaram a ceder.

Eu soltei a minha vela e levantei as mãos. Damien pegou a minha mão direita. Shaunee agarrou a minha mão esquerda.

– Espírito, segure-o! – eu berrei.

– Ar, bata nele! – Damien gritou.

– Fogo, acabe com ele! – Shaunee acrescentou.

A bolha de energia em volta da besta pulsou e por um momento achei que ela fosse aguentar. Então Neferet falou de novo.

“Meus filhos que estão aí dentro, feitos das divinas Trevas,

Venham para a superfície e consumem a minha vingança!”

A pele da besta estremeceu e se contraiu e, enquanto ela rugia, criaturas negras e medonhas foram cuspidas da sua boca. Elas se chocaram contra a bolha de poder elemental. Eu senti uma exaustão, como se eu tivesse recebido um soco no estômago. Shaunee gritou. Escutei Damien ofegar de dor. Os dois ainda estavam agarrando as minhas mãos.

– Espírito, continue firme!

– Ar, mantenha o controle!

– Fogo, aguente aí!

Nós três tentamos, mas eu sabia que estávamos perdidos. As criaturas de Trevas eram muitas. Elas eram poderosas demais. Um círculo quebrado não conseguiria detê-las.

– Zoey! Vá embora! – Vovó estava encolhida no chão diante da teia de Trevas que havia impedido a sua fuga para a varanda. Eu podia ver Kalona do outro lado, combatendo as Trevas furiosamente. Ele estava arrancando, cortando e ferindo as gavinhas. Ele estava avançando, mas eu sabia que não rápido o bastante.

– Vovó, venha para cá!

– Eu não consigo, u-we-tsi-a-ge-ya. Estou muito fraca.

– Tente! Você tem que tentar! – Stevie Rae gritou do elevador.

Vovó começou a se arrastar na nossa direção.

Neferet deu uma gargalhada.

– Isto é tão divertido! Nunca imaginei que eu iria acabar com todos vocês de uma só vez. Vou até me livrar de Kalona. O Conselho Supremo vai ficar furioso quando souber que ele ficou louco e me atacou e que, quando vocês vieram tentar me salvar, ele matou todos vocês – ela estava sentada no grande sofá arredondado, com as pernas cruzadas e com a mão no joelho, de um modo bem afetado. O seu longo vestido negro cobria os seus pés, mas havia algo errado. Neferet não estava se movendo, mas o tecido do seu vestido não parava quieto. Eu estremeci. Era como se ela estivesse coberta de insetos.

– Ninguém vai acreditar nisso. Thanatos está aqui. Ela é nossa testemunha – eu afirmei.

– Vai ser tão triste contar que Kalona atacou a sua Grande Sacerdotisa antes de mim – ela disse.

– Você não vai escapar assim! – eu berrei para ela.

Ela riu de novo e fez um gesto com o dedo, chamando as criaturas que haviam saído do corpo da besta. Elas pressionaram a bolha com uma energia renovada.

Shaunee cambaleou e a mão dela escapou da minha. O poder elemental que continha a besta diminuiu.

– Sinto muito, Zoey. Eu não consigo mais – Damien soltou a minha mão e caiu de joelhos, passando mal.

A bolha estremeceu.

Senti um puxão violento dentro de mim e soube que logo eu iria perder o espírito também e que a besta ficaria livre.

– Cresça, Zoey. Desta vez você não vai salvar o dia – Neferet falou.

Stark estava gritando atrás de mim. Darius e Rephaim estavam lado a lado na frente do elevador aberto, combatendo os filamentos de Trevas que continuavam tentando entrar.

Mas tudo aquilo pareceu muito distante para mim, pois as últimas palavras de Neferet ficaram ecoando dentro da minha mente sem parar. Eu salvo o dia... eu salvo o dia... eu salvo o dia...

Então eu me lembrei. Não é um poema! É um feitiço!

Senti o espírito sair de mim com um solavanco e dei um passo para a frente. Peguei o pedaço de papel roxo dobrado no bolso da minha calça jeans, e a minha pedra da vidência se inflamou com o calor.

Eu não tinha tempo para me questionar. Eu só tinha tempo para agir. Puxei a corrente que prendia a pedra em volta do meu pescoço e a segurei diante de mim como um escudo. Então, com uma voz amplificada pela dor e pelo poder, eu recitei:

“Espelho ancestral

Espelho mágico

Tons de cinza

Escondido

Proibido

Dentro, fora

Rompa a névoa

Toque de magia

Invoque as fadas

Revele o passado

O feitiço está feito

Eu salvo o dia!”

Olhei através da pedra da vidência e o mundo se transformou completamente. Eu não estava mais segurando uma pedra com a forma de uma pastilha Life Savers. Diante de mim, ela se expandiu e ficou com uma superfície redonda e brilhante. Eu não entendi o que era aquilo até que vi o reflexo da sala reluzindo sombriamente em sua superfície.

– Você acha que pode me combater com um espelho? – Neferet perguntou.

Eu não hesitei. Eu já sabia a resposta.

– Sim – eu disse com firmeza. – É exatamente isso o que eu vou fazer – segurando o espelho com as duas mãos, eu o virei para que ele capturasse a imagem de Neferet.

Ela havia se levantado do sofá. O espelho pegou o reflexo enquanto ela deslizava na minha direção. Ela estava rindo cruelmente e olhando com desprezo para o espelho quando toda a sua linguagem corporal mudou. Neferet começou a balançar a cabeça de um lado para o outro. Sua boca se abriu e ela gemeu, encolhendo-se para trás, como se estivesse se protegendo de um golpe invisível. Surpresa com a mudança de postura dela, estiquei o pescoço e olhei para o reflexo.

No espelho, havia a imagem de uma Neferet que eu não conhecia. Ela era jovem, parecia ter mais ou menos a minha idade. Ela também era bonita, extremamente bonita, apesar de o seu longo vestido verde estar rasgado, deixando claro que alguém havia batido nela. Muito. O rosto dela estava perfeito, não tinha sido tocado. Mas parecia que haviam marcas de mordidas no seu peito. Os pulsos dela estavam inchados e com hematomas escuros. Mas o mais horrível de tudo era o sangue que cobria a parte interna das suas coxas e escorria pelas suas pernas.

– Não! De novo não! Não quero ver isso nunca mais! – Neferet cobriu o rosto com as mãos, soluçando de desespero. Enquanto a Tsi Sgili chorava arrasada, as gavinhas de Trevas começaram a se dissolver.

– Espírito! – eu chamei o meu elemento, o único que ainda continha a besta em um círculo de poder cada vez mais fraco. – Solte-o – então eu andei para a frente, mantendo o espelho apontado para Neferet. – Aurox! – o meu grito fez a besta desviar os olhos do lugar em que a Vovó havia caído e olhar para mim. – As Trevas não controlam você. Volte para nós. Você consegue! – eu disse. Ele balançou a sua cabeça disforme. Continuei andando na direção dele. Ele começou a me rodear. Continuei olhando nos seus olhos cor de lua. – Espírito! Não o prenda, ajude-o!

Senti quando o elemento entrou na besta. Ele cambaleou, caiu de joelhos e rugiu.

– Lute! Você é mais do que uma criatura feita de Trevas! – atirei as palavras nele.

Ele levantou a cabeça e senti uma onda de esperança. A sua pele estava tremendo e se contraindo. Ele estava se transformando!

– Zoey, cuidado! – Stark gritou.

Desviei os olhos de Aurox a tempo de ver Neferet se aproximando de mim. Ela ainda estava olhando fixamente para o espelho. Lágrimas de sangue escorriam dos seus olhos. Ela havia cortado a sua própria carne com as suas mãos feito garras. Ela levantou aquelas mãos ensopadas de sangue e mortais.

– Sua vaquinha! Não vou deixar que você traga tudo isso de volta para mim! Maldita seja Nyx! Eu mesma vou matá-la! – Neferet correu na minha direção.

Aurox a atingiu violentamente. Ele ainda era uma besta, e a ponta branca e comprida de um chifre espetou Neferet bem no meio do peito. A força do impulso levou ambos para a frente, e eles atravessaram juntos o resto da teia que Kalona estava combatendo. O imortal alado se desviou quando aquele ser metade besta metade garoto passou pela varanda carregando Neferet, que gritava e se debatia. Levou menos do que um piscar de olhos até os dois chegarem à borda da varanda. O poder sobrenatural do corpo da besta despedaçou o parapeito de pedra e os dois despencaram da cobertura.


25 Zoey

Soltei o espelho e corri para a varanda.

– Kalona! Salve Aurox! – o imortal já estava a caminho antes de eu terminar de falar.

Com as asas abertas, ele saltou sobre o parapeito quebrado e desapareceu. Corri atrás dele, parando na beirada da varanda. Olhando para baixo, vi Kalona agarrar o tornozelo de Aurox apenas uns instantes antes de o garoto, que já estava completamente humano de novo, bater no chão.

Neferet não teve tanta sorte. Eu pude vê-la. Ela tinha batido em uma ponta do edifício e havia caído girando, aterrissando no meio da Fifth Street. Daquela altura, ela parecia uma boneca quebrada. O seu pescoço estava torcido. Os seus braços e pernas estavam todos virados para o lado errado. A cabeça dela era uma poça escura de sangue.

Thanatos se juntou a mim, colocando um braço forte em volta do meu ombro, como se ela estivesse com medo de eu cair atrás de Neferet. Então de repente todo mundo estava ali ao meu lado. Stark me pegou dos braços de Thanatos e me segurou, enquanto eu tremia e continua­va a olhar para baixo, na direção do corpo de Neferet. Kalona pousou na varanda com Aurox. Aphrodite estava ajudando Vovó a se apoiar. Ela deslizou a sua mão para dentro da minha.

– Minha u-we-tsi-a-ge-ya, pare de olhar para essa cena terrível – ela disse.

Mesmo assim eu não desviei os olhos. Então eu vi quando o corpo de Neferet começou a sofrer convulsões. Eu assisti a tudo. Seus braços e pernas se agitaram. O seu cabelo se levantou. Suas costas se arquearam. E então a Tsi Sgili pareceu se dissolver. De dentro das dobras das suas roupas ensopadas de sangue, milhares de aranhas negras explodiram, correndo para a sarjeta e desaparecendo na escuridão.

Só então eu desviei o meu olhar e encarei Thanatos.

– Ela não está morta.

A Grande Sacerdotisa da Morte me respondeu, apesar de eu não ter formulado minha frase como uma pergunta.

– Eu não sei – Thanatos parecia pálida e abalada. – Eu nunca vi nem nunca imaginei algo como o que acabamos de testemunhar.

Eu me senti muito calma por dentro. Eu não estava cansada. Eu não estava chorando. Eu não estava irritada. Eu estava apenas calma, muito calma.

– Acho que é melhor nos prepararmos. O meu instinto me diz que Neferet vai vir atrás de nós novamente – eu afirmei.

– Sim, Sacerdotisa. Eu concordo – Thanatos disse.

Coloquei o meu braço em volta da cintura de Vovó, deixando ela se recostar em mim.

– Você precisa ir para o hospital – eu falei gentilmente para ela.

– Não, minha u-we-tsi-a-ge-ya. Eu só preciso ir para casa.

Olhei dentro dos seus olhos bondosos.

– Eu entendo completamente, Vovó. Stark e eu vamos levar você para casa.

– Primeiro você precisa fazer uma coisa – Stark disse.

– Ela pode te beijar e dizer que te ama mais tarde. Vamos sair daqui. Aquela coisa das aranhas foi a cereja nesta merda de bolo que foi esta noite. Preciso de um banho e de um Xanax – Aphrodite opinou.

Eu não disse nada. Eu estava sentindo uma energia estranha em Stark.

– Espere aqui. Todo mundo precisa ver isto – ele apertou minha mão e então entrou na cobertura. Um segundo depois ele voltou, trazendo a minha pedra da vidência em sua corrente quebrada.

Ela estava com a forma de uma pastilha Life Savers de novo e parecia não ter sofrido nenhum dano. Eu já imaginava o que ele queria, então quando ele a entregou para mim, eu a segurei cuidadosamente, como se ela fosse uma bomba explosiva (e era). Eu já estava guardando a pedra dentro do bolso da minha calça jeans quando Stark me deteve.

– Não, não guarde a pedra. Levante-a. Aponte-a para Aurox. Recite o feitiço de novo.

– Ahn? – de repente, eu não soava mais tão madura, centrada e brilhante.

– Para mim? – Aurox falou e todo mundo se virou para olhá-lo. Bem, o garoto estava péssimo. As roupas dele estavam todas rasgadas e o seu rosto e as suas mãos estavam machucados e ensanguentados. – Por que para mim?

– Porque quando você espetou Neferet eu vi o seu reflexo naquele espelho mágico. Todo mundo tem que ver o que eu vi – Stark afirmou. – Faça o feitiço de novo, Zoey.

– Eu nem sei se vai funcionar de novo. É aquela coisa de magia antiga. É estranho e totalmente imprevisível – eu argumentei.

– Recite o feitiço, u-we-tsi-a-ge-ya – Vovó pediu.

– Eu não tenho...

Stark me entregou o papel roxo amassado.

– Sim, você tem.

– Bem, ok então – levantei a pedra da vidência e a apontei para Aurox. Mesmo antes de eu começar a ler o papel, comecei a sentir o calor que se irradiava dele.

“Espelho ancestral

Espelho mágico

Tons de cinza

Escondido

Proibido

Dentro, fora

Rompa a névoa

Toque de magia

Invoque as fadas

Revele o passado

O feitiço está feito

Eu salvo o dia!”

A minha voz não soou tão poderosa como da primeira vez, mas as palavras saíram fortes e claras e, no final do feitiço, a pedra da vidência se transformou de novo, expandindo-se e virando um círculo refletor apontado direto para Aurox.

– Que merda. É verdade – Aphrodite comentou. – Essa é a coisa mais estranha que eu já vi, e olha que eu já vi muita coisa estranha por aí.

Vovó foi mancando até Aurox. Ela tocou o rosto dele. Ele estava olhando para o espelho com lágrimas nos olhos. Então ele olhou para ela.

– Eu sabia que estava certa em acreditar em você, tsu-ka-nv-s-di-na – Vovó disse a ele. – Obrigada por me salvar, meu filho – ela se inclinou para a frente e deu um beijo doce, como um beijo de mãe, na bochecha dele.

– Você precisa olhar no espelho, Z. – Stark afirmou.

– Não, eu não preciso – eu me sentia estranhamente entorpecida. – Eu sei muito bem como Heath é.

Aurox estava olhando de novo para o espelho.

– Então esse aí é Heath?

– Sim – Stark respondeu com um suspiro. – Esse é Heath. O que significa que de algum modo você é meu amigo.

Aurox ainda estava olhando para o seu reflexo quando a expressão dele mudou. Ele sorriu e disse:

– Bom te ver de novo.

Alguma coisa na voz dele me fez estremecer.

Então Aurox olhou dentro dos meus olhos.

– E você? – ele me perguntou. – O que Heath era para você?

Um monte de respostas passou rapidamente pela minha mente: ele era um problema... um pé no saco... meu amante... meu Consorte... meu chão... meu eterno namorado.

– Heath era a minha humanidade – foi o que saiu da minha boca. – E agora parece que ele se tornou a sua humanidade.

Soltei o espelho. Antes que ele caísse no chão e quebrasse, ele fez um pequeno barulho e virou a pedra da vidência de novo. Desta vez eu a enfiei mesmo no bolso.

Vovó se aproximou de mim e eu coloquei o meu braço em volta da cintura dela novamente. Stark pegou a minha mão, levantou-a e beijou a minha palma.

– Não se preocupe – ele falou baixinho. – Não importa o que aconteça, a gente tem amor. Sempre o amor.

 

 

                                                   P.C. Cast & Kristin Cast         

 

 

 

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